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sábado, 13 de agosto de 2011

Operação Cavalo de Tróia VII

Cavalo de Tróia VII.

J.J. Benítez
Orelhas do livro

Autor de 50 livros publicados até hoje, com mais de sete milhões de exemplares vendidos, jornalista formado pela Universidade cie Navarra, que depois de ser repórter
e enviado especial para vários periódicos, se retirou para pesquisar
e escrever.

Sente-se na obrigação de semear a dúvida para que as pessoas pensem por si mesmas. Porque para ele "o mais importante que se pode fazer nesta vida é duvidar de tudo,
as certezas não conduzem a lugar algum." E este é o objetivo que persegue com os livros da série Cavalo de Tróia.


OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 1 -JERUSALÉM

Um militar norte-americano entra em contato com o autor para lhe entregar a documentação sobre um projeto
últra-secreto de 1973. A transcrição desvela que os militares
dos EUA viajaram no tempo até a Palestina para reviver os últimos dias de Jesus.

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 2 - MASSADA

Um secundo volume apaixonante que revela que Jesus de Nazaré, depois de sua morte no Gólgota, apareceu mais vezes que as relatadas pela doutrina "oficial" do Evangelho.
E relata em detalhes a última ceia com os apóstolos.

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 3 - SAIDAN

O leitor descobre um dos mistérios mais fascinantes da vida do Filho de
Deus: sua infância. Os costumes e gostos, e os retratos de Jesus abordados como nunca antes o foram. Além disso, faz uma análise minuciosa do "corpo glorioso" (o
corpo ressuscitado de Jesus) por meio dos mais sofisticados equipamentos e recursos.

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 4 - NAZARÉ

O major apresenta uma investigação sobre os "anos ocultos" de Jesus, o período dos quatorze aos vinte e seis anos que foi totalmente ignorado pelos evangelistas.
Relata sobre a vida da família do Filho do Homem, sobre seu trabalho para garantir o sustento da família, sobre como compôs o Pai-Nosso.

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 5 - CESARÉIA

Jasão, preso num subterrâneo, sem a "vara de Moisés", escapa e segue com sua missão, na Palestina do ano 30, nas pegadas de Jesus. E desvelada a verdadeira personalidade
de alguns dos personagens que rodearam Jesus. Quem poderia ter imaginado que Pôncio Pilatos era, na verdade, um louco?

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 6 - HERMON

Esta é a terceira viagem no tempo de Jasão e Iliseu, que transcorre fora do "estabelecido oficialmente". No ano de 25, Jesus se prepara para a vicia pública. Ele
confabula com seu Pai no monte Hernion, e descobre definitivamente quem é. E pede aos
viajantes no tempo que transmitam a esperança na imortalidade do homem. A
morte é apenas um sonho...

Fim da orelha

O DIÁRIO (sétima parte)

ÍNDICE

17 de setembro, segunda-feira (ano 25)

18 de setembro, terça-feira De 19 a 22 de setembro

23 de setembro, domingo

24 de setembro, segunda-feira

25 de setembro, terça-feira

26 de setembro, quarta-feira

De 27 de setembro a 10 de outubro

De 11 a 17 de outubro

18 de outubro, quinta-feira

19 de outubro, sexta-feira

De 20 a 26 de outubro

27 de outubro, sábado

De 28 de outubro a 4 de novembro

Bons livros, bons homens, inspirando para o crescimento

A Blanca, que conhece parte da verdade

RESUMO DO QUE JÁ FOI PUBLICADO

Janeiro de 1973

Em um projeto secreto, dois pilotos da USAF (Força Aérea Norte-americana) viajam no tempo, ao ano 30 de nossa era. Especificamente, à província romana da Judéia
(atual Israel). O objetivo declarado: seguir os passos de Jesus de Nazaré e comprovar, com o máximo rigor, como foram seus últimos dias. Por que foi condenado à
morte? Quem foi aquele Homem? Tratava-se de um deus, como afirmam seus seguidores?

Jasáo e Eliseu, os responsáveis pela exploração, vivem passo a passo as terríveis horas da chamada Paixão e Morte do Galileu. Jasão, em seu diário, diz clara e incisivamente:
"Os evangelistas não contaram toda a verdade". Os fatos, ao que parece, foram mal interpretados, censurados e mutilados, obedecendo a determinados interesses. Aquilo
que se conta hoje em dia sobre os últimos momentos do Mestre é uma sombra do que aconteceu de fato. Mas algo falhou na experiência, e a Operação Cavalo de Tróia
foi repetida.

Março de 1973

Os pilotos norte-americanos "viajam" de novo no tempo, voltando a Jerusalém do ano 30. Comprovam no local a realidade do sepulcro vazio e as sucessivas "presenças"
de um Jesus ressuscitado. Os cientistas ficam desconcertados:
a Ressurreição do Galileu foi inquestionável. A nave de exploração se translada para o norte, junto ao mar de Tiberíades, e Jasão, o major da USAF, assiste
a novas aparições do Ressuscitado. A ciência não sabe, não compreende o porquê do "corpo glorioso".

Jasão se aventura em Nazaré e reconstrói a infância e a juventude de Jesus. Nada é da maneira como foi contado. Jesus jamais ficou escondido. Durante anos, as dúvidas
consomem o jovem carpinteiro. Ainda não sabe quem é realmente.

Aos 26 anos, Jesus abandona Nazaré e empreende uma série de viagens "secretas" das quais os evangelistas não falam.

O major vai conhecendo e entendendo a personalidade dos muitos personagens que rodearam o Mestre. Assim é que o "Cavalo de Tróia" desmistifica e põe em seu devido
lugar protagonistas como Maria, a mãe do Galileu, Pôncio Pilatos e os discípulos. Nenhum dos mais íntimos entendeu o Mestre, muito menos sua família.

Fascinados pela figura e pelo pensamento de Jesus de Nazaré, os pilotos tomam uma decisão: acompanharão o Mestre durante sua vida pública ou de pregação, registrando
com exatidão tudo que virem e ouvirem. Para isso, devem atuar à margem do que foi estabelecido oficialmente por "Cavalo de Tróia". E, embora suas vidas se encontrem
comprometidas por um mal irreversível, conseqüência do próprio experimento, Jasão e Eliseu se arriscam num terceiro "salto" no tempo, retrocedendo ao mês de agosto
do ano 25 da nossa era. Procuram Jesus e o encontram no monte Hermon, ao norte da Galiléia. Permanecem com ele durante várias semanas e assistem a um acontecimento
transcendental na vida do Filho do Homem: no alto da montanha sagrada, Jesus "recupera" sua divindade. Agora é um Homem-Deus. Jesus de Nazaré acaba de completar
31 anos.

Nada disso foi narrado pelos evangelistas...

O DIÁRIO

(SÉTIMA PARTE)

17 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA (ANO 25)

Aquele amanhecer se apresentou esquisito; belo e incerto ao mesmo tempo. Os relógios do "berço" marcaram o nascer do sol às 5 horas, 16 minutos e 6 segundos.

Uma neblina espessa ocultava o cume principal do Hermon. Lenta, sem pressa, rolava encosta abaixo, devorando os bosques de cedros. Não tardaria muito a alcançar
também a esplanada onde se levantava o nosso acampamento. O sol laranja já se anunciava entre os grandes debruns brancos da neblina inesperada.

A tenda de peles do Mestre estava desmontada e pronta para ser transportada. E junto a ela, o saco de viagem de Jesus de Nazaré.

Eliseu também não se encontrava no acampamento. Eu supus que ambos poderiam estar na "piscina", na região das cascatas.
xxx
E digo que aquela segunda-feira, 17 de setembro do ano 25 da nossa era, se apresentava incerta porque, para estes exploradores, tudo era novo. Nada sabíamos dos
planos do Mestre. O Destino quis que o encontrássemos quatro semanas antes e que tivéssemos a felicidade de sermos testemunhas de um acontecimento do qual não há
registro e para o qual, sinceramente, não tenho explicação: o processo (?) de recuperação (?) ou materialização (?) da natureza divina. Do ponto de vista da compreensão
humana, pelo menos a partir do meu conhecimento limitado, essa mudança (?) é difícil de entender, caso seja mesmo uma mudança. Seja como for, o que contava é que
aquele Homem, a partir de agosto do ano 25, se

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transformou num ser muito especial (mais ainda). Para este que escreve, a definição mais aproximada seria "Homem-Deus", como tenho afirmado em outras páginas deste
apressado diário. Ou seja, um Homem com um poder que nada tinha a ver com a mísera natureza humana. Algo nunca visto na história do mundo.

Este era o nosso amigo, e esta, a nova missão: segui-lo dia e noite e dar testemunho de tudo que víssemos e ouvíssemos.

Apressei-me a desmontar a tenda e revistei o equipamento. Suspeitávamos que Jesus regressaria ao yam (mar de Tiberíades), embora, como digo, ignorássemos seus planos.
As notícias trazidas pelo Zebedeu pai terminavam aí: "no mês de tisri (setembro-outubro), o Mestre desceu do Hermon..." Iria se mudar para Saidan, ao velho casarão
dos Zebedeu nas margens do lago? Quais eram suas intenções? Iria se aproximar do yam pela rota costumeira? Iria se desviar para Nazaré? Quanto tempo dedicaria à
viagem de volta? Naqueles momentos, essas perguntas me mantinham relativamente preocupado. Fazia quase um mês que abandonáramos o cume do Ravid e, embora o "berço"
se encontrasse nas melhores mãos, as de Papai Noel, o computador central, a segurança da nave continuava a ser uma de nossas prioridades. Devíamos regressar o quanto
antes. No entanto, talvez o que mais nos inquietasse era a alarmante escassez do remédio que funcionava como antioxidante (dimetilglicina) e que, lembrando, tratava
de deter o mal que nos acometia, conseqüência das sucessivas inversões de massa dos swivels. Ao repassar a "farmácia" de campanha, verifiquei o que já sabia: restavam
apenas dois comprimidos. No dia seguinte, quarta-feira, o tratamento seria inexoravelmente interrompido, incentivando assim, teoricamente, a produção de óxido nitroso
(NO) que estava "devorando" nossos cérebros. Isto, em suma, como já expus na ocasião, poderia significar uma catástrofe...

Quanto às provisões, reduzidas a alguns ovos e aos recipientes que continham sal, azeite, vinagre e mel, mal considerei. A invasão das formigas arbóreas, as insaciáveis
camponotus, inutilizaram muitos dos víveres, mas, como digo, esse não era o problema principal. Nossas bolsas de borracha conservavam boa parte do dinheiro com o
qual iniciamos esta nova

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exploração (trinta denários de prata). Quando entrássemos logo mais na aldeia de Bet Jenn poderíamos adquirir tudo o que fosse necessário. "De fato - continuei pensando
- hoje é segunda-feira, um dia em que o jovem Tiglat, o fenício, deve prover o acampamento. Se o Mestre está disposto a deixar essas montanhas, como pensa resolver
o assunto dos víveres?"

O Mestre? Eliseu? Onde diabos estavam? Inspecionei o aglomerado de neblina. Prosseguia a descida, lambendo os cedros corpulentos que rodeavam o planalto pela face
norte. Em questão de minutos cobriria o acampamento, tornando muito difícil o avanço destes exploradores. Mas meus pensamentos voltaram aos antioxidantes. Os cálculos
falharam. Se Jesus de Nazaré não retornasse ao lago imediatamente, o que poderíamos fazer? A reserva dos remédios acabava, justamente, nessa segunda-feira... E os
velhos fantasmas apareceram de novo. O que aconteceria se os neurônios entrassem em colapso e provocassem um acidente cardiovascular? O que seria de nós com uma
súbita perda de memória ou de visão?

Nisso eu estava quando, de repente, meus dedos tropeçaram na pequena prancha de madeira, presente de Sitio, a dona da cruz de Qazrin, que estava no fundo do saco.
Havia quase me esquecido dela. "Eu acreditava não ter nada, mas, ao descobrir a esperança, compreendi que tinha tudo." A frase, em koiné (grego internacional), me
comoveu. E senti certa vergonha. Será que não aprendera nada naquelas quatro semanas junto ao rabi da Galiléia? Por que me preocupava? Segundo o Mestre, tudo estava
nas mãos do Pai...

Eu me sobressaltei. Não ouvi seus passos, que se aproximavam pelas minhas costas. Umas mãos pousaram docemente nos meus ombros e, quando me virei, aqueles olhos
rasgados, acolhedores, luminosos como o mel líquido, sorriram para mim. Jesus fez uma leve pressão com seus dedos grandes e finos. Eliseu, a poucos metros, contemplava
a cena com curiosidade.

- Confia - exclamou o Mestre, acariciando-me com aquela voz firme e profunda. E pegando a pequena madeira, concluiu depois de alguns segundos de leitura atenta:
- Aqui diz bem claro... Quando tens esperança, quando confias, tens tudo.

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Era impossível se acostumar. Aquele Homem, de repente, deslizava em nossas mentes, acompanhando os pensamentos. Suponho que esse poder fazia parte de sua recém-adquirida
divindade. Para falar a verdade,
nunca nos acostumamos...

- Vamos, está na hora...

E carregando sacos e tendas, o Mestre e estes exploradores partiram do mahaneh, o acampamento rústico localizado na cota 2.000, muito próxima dos cumes nevados do
Hermon; um local difícil de esquecer e ao qual teríamos a felicidade de voltar oportunamente.

O Galileu, indo na frente, tomou a trilha que serpenteava entre as árvores, e iniciou a descida até o refúgio de pedra onde a família Tiglat costumava depositar
as provisões todas as segundas e quintas. Meu irmão o seguia a curta distância, e este que escreve, como sempre, fechava a minguada expedição.

A neblina, talvez advertida pelo sol, parecia detida nos arredores do dólmen. Isso nos beneficiou, permitindo um avanço mais rápido e seguro. Um avanço? Para onde
nos dirigíamos? Nem Eliseu nem eu trocamos impressões com o Mestre. Simplesmente nos limitamos a segui-LO. Ele, em cada instante, tomou suas próprias decisões. Não
podia ser de outra forma. Segundo meu irmão, naquela manhã, enquanto acompanhava Jesus ao último banho na chamada "piscina de gesso", pouco faltou para que o interrogasse
sobre seus planos imediatos. O engenheiro, sem dúvida, fiel às normas, optou pelo silêncio. Era melhor assim.

Alcançamos o "refúgio" na cota 1.800 em questão de minutos. Jesus parecia ter pressa. Pensei que faria uma parada e esperaria a chegada de Tiglat com as provisões.
Eu me enganei. O Mestre deixou para trás o pequeno semicírculo de pedras negras que servira de depósito e prosseguiu pela trilha, rumo à aldeia de Bet Jenn. Isso,
ao menos, foi o que supus. Era provável que Jesus quisesse se despedir da amável família.

A estreita e revolta trilha de cinza vulcânica desembocou, por fim, numa clareira de tristes lembranças. Jesus se deteve e, em silêncio, contemplou a meia dúzia
de ossos e vísceras de cabras que pendiam dos galhos do zimbro corpulento. Ali, quase desencarnada, balouçava também

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a cabeça de Ot, o fiel e valente cachorro de Tiglat, decapitado por um dos bucoles (bandidos da Gaulanítis). E durante alguns segundos me lembrei da luta debaixo
do aguaceiro fortíssimo e da fuga dos bucoles.

Eliseu e eu trocamos um olhar significativo. Ninguém disse nada. Jesus reassumiu a caminhada. Meu irmão encolheu os ombros e se apressou a segui-lo. Por um momento
pensei na reaparição de "Al", o bandido da perna de pau. Mas por que me atormentava? Nós éramos simples observadores. Devíamos esperar. Só isso...

Ao chegar à altura dos restos do bandido chamado "Anãs" ("castigo"), entre o caminho e o bosque cerrado de pinheiros, o Galileu parou novamente. Sua atenção estava
centrada no fundo do caminho. Nem reparou no esqueleto de Anãs. Avançou alguns passos e voltou a parar. O que estava acontecendo? No final daquele trecho, se bem
me lembrava, chegava-se ao asherat, a formação megalítica integrada por cinco pedras cónicas de basalto negro, toscamente talhadas, que representavam outros tantos
deuses fenícios.

A inquietação se prolongou por alguns segundos. Meus dedos deslizaram instintivamente ao topo da "vara de Moisés"...

Aos poucos respirei aliviado. Pela trilha negra vimos subir o jovem Tiglat. Andava devagar, puxando as rédeas do burro alto e forte, de propriedade do Mestre. Quando
nos viu, deteve a caminhada. O sol, se erguendo acima da serra, o iluminou de frente, cegando os olhos. Suponho que precisou ter certeza da identidade daqueles três
inesperados caminhantes. Finalmente, sentando-se na margem do Aleyin, o afluente do rio que nascia nas escarpas, o jovem aguardou a nossa chegada.

O rapaz, de fato, estava conduzindo o animal até o "refúgio" de pedra. Nos dois grandes alforjes de junco, a família tinha reunido as costumeiras provisões suficientes
para três dias. E eu me fiz uma pergunta cuja resposta conhecia muito bem: como é que aquele Homem havia detectado a presença do jovem guia fenício? Nem Eliseu nem
eu o descobrimos até que ele ficasse visível.

Jesus se acomodou ao pé de um dos ídolos de pedra e nos convidou a descansar também. Tiglat, logicamente confuso, nos interrogou sobre

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xxx
o destino das provisões. Meu irmão e eu guardamos silêncio. E Jesus, ausente, continuou com a cabeça reclinada no basalto negro, oferecendo o rosto ao azul do céu
e aos fracos raios solares da manhã. Tiglat não repetiu a pergunta. Dirigiu-se ao burro e remexeu os víveres. Eliseu se distanciou alguns metros do asherat, confundindo-se
entre o cheiroso arbusto de tomilho, menta e sálvia amarela. Compreendi que desejava urinar.

E minha atenção se voltou ao Filho do Homem. O rosto, bronzeado, alto e estreito, de fronte aberta e barba partida em dois, agora um tanto descuidada pela longa
permanência no Hermon, parecia sereno, quase radiante. Tinha os olhos fechados, mostrando aquelas belas pestanas grossas. Não havia dúvida. Jesus era um Homem feliz,
pelo menos nesses instantes.

Era desconcertante. O Mestre fora se sentar ao pé da representação de Resef e Aleyin, filhos do deus fenício Baal-Ros, o senhor dos promontórios. Apesar de sua condição
de yebuday (judeu), não demonstrava se importar de forma alguma com a natureza pagã da fileira de pedras. Logo nos acostumaríamos também com essa atitude do Galileu,
sempre respeitosa e compreensiva com todos e com tudo.

Tiglat estendeu uma esteira de folhas de palmeira sobre a grama que cobria o asherat e, em silêncio, se pôs a arrumar uma série de provisões. Então lembrei que ainda
não havíamos tomado o desjejum.

Meu irmão se aproximou eufórico da improvisada mesa e foi inquirindo o rapaz. Enquanto isso, Jesus abriu os olhos e, procurando-me com o olhar, me deu uma piscada...

- Torta de semente de papoula - anunciou Tiglat, apontando para uma massa fofa de cor dourada -. Acabada de assar por minha mãe... Mel, passas, maçãs, manteiga,
ovos e casca de limão...

O doce delicioso foi rematado por uma cobertura de molho de amêndoas e ovo batido. Junto com manteiga, confeitos de romã e queijo.

Jesus deu um profundo suspiro. Prendeu os cabelos compridos e lisos cor de caramelo num rabo, como de costume, e, esfregando as mãos grandes e peludas, começou a
cortar a torta em pedaços. Por que me dera uma piscadela? Ocorria-me apenas uma explicação. Ele sabia o que eu estava pensando...

" 16

).]. BENÍTEZ

O Mestre, então, esclareceu as dúvidas do jovem fenício e, aproveitando, algumas das nossas. Sua hora estava próxima, disse, e devia voltar aos seus, preparando-se
para o momento em que revelaria o Pai. Não falou de datas. E diante do assombro de Tiglat, o Mestre lhe deu de presente o burro, a tenda de peles e quase todas as
provisões. Colocou alguns víveres em sua mochila de viagem e, depois de desejar a paz ao rapaz e aos seus, partiu do asherat com. suas típicas passadas rápidas.
Eliseu e este que escreve, tão desconcertados quanto o fenício, também nos desfizemos da tenda e, quase sem nos despedir, saímos atrás dele, correndo.

Equivocamo-nos de novo. O Mestre tinha muito claro o que e como fazer. O acontecimento nas montanhas do Hermon foi uma exceção. Nós agora não devíamos fazer a insinuação
mais ténue ou insignificante. Mesmo assim...

Eu disse que erramos nas apreciações porque, ao chegar ao cruzamento dos caminhos localizado em frente à estância, o Mestre, sempre na frente, tomou a direção de
Paneas, abandonando a trilha que se estendia até Bet Jenn, a aldeia dos Tiglat. Aquela rota, igualmente intrincada e solitária, descia entre os bosques em direção
sudoeste. Na referida encruzilhada, um poste de madeira fincado nos resíduos vulcânicos era o único sinal de vida no raio de vários quilómetros: "Paneas. Sete milhas".
Isso, mais ou menos, dependendo do Destino, significava por volta de uma hora e meia de caminhada. Olhei para o sol e deduzi que poderia ser oito da manhã. Aí terminavam
os meus cálculos. Quem poderia ir além com aquele Homem?

Eliseu se uniu a este explorador e me interrogou sobre o novo caminho. Pouco pude lhe dizer. Eu suspeitava que desembocava na rota de Damasco, bem perto da citada
cidade de Paneas ou Cesaréia de Filipe. E de repente, sem saber como começou, nos vimos enredados numa estúpida polémica. Meu irmão questionou se agimos corretamente
dando de presente a tenda de peles ao jovem fenício. Eu argumentei que foi adequado. Agora caminhávamos mais leves e, além disso, de certo modo devíamos fazer isso
mesmo. Os Tiglat foram generosos e hospitaleiros. Não houve forma de conciliar as opiniões. Meu irmão argumentou que

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o caminho até o yam era comprido e que essa tenda ainda nos seria bem útil. Este que escreve protestou e o acusou de ruim. Compreendo que me excedi. E o engenheiro
respondeu, tachando-me de perdulário, "sem consciência alguma do valor do dinheiro". Levantamos as vozes e também os insultos. Um absurdo.

E assim caminhávamos quando, ao sair de uma curva, tropeçamos com um Jesus a quem quase havíamos perdido de vista e, certamente, esquecido momentaneamente. Ele se
encontrava imóvel na metade do caminho e com a sacola de viagem depositada aos pés. Evidentemente nos esperava. Eliseu e eu emudecemos. O mais provável é que ouvira
os gritos e os impropérios. Nós nos detivemos a dois ou três metros de distância, envergonhados. Seu rosto parecia grave. Sobre a fronte luzia agora aquele lenço
branco, enrolado e amarrado por trás da cabeça, tão conhecido nas grandes caminhadas. O olhar sereno passou de um para o outro. Meu irmão acabou abaixando a cabeça
e eu, como um tolo, dei um sorriso amarelo. Então ele se inclinou, procurando algo dentro da sacola. Em seguida nos entregou algumas porções de keratia amarelenta,
as bolachas feitas com as sementes doces de haruv (alfarrobeira, figueira-do-egito), que, bem misturadas com ovos, leite e mel, lembravam o sabor do chocolate. Um
alimento típico das montanhas da Gaulanítis, tão saboroso quanto energético.

- Por que vos empenhais em saborear o amargo quando podeis desfrutar do doce?

Foram suas únicas palavras. Imediatamente aquele sorriso conhecido e irresistível amanheceu de novo no rosto bronzeado, revelando os dentes brancos e impecáveis.
Ele apenas nos abraçou com esse sorriso interminável e, dando meia volta, ergueu a sacola de viagem, reiniciando a caminhada. Nem Eliseu nem eu soubemos o que dizer.
Não era necessário. Ele tinha toda a razão.

No tempo previsto vimos Paneas, mas o Mestre, sem hesitação, passou pelo lado de fora da populosa cidade. Deixamos para trás também as obras na estrada romana e,
sem contratempos dignos de menção, entramos na estrada muito usada que corria quase paralela ao primeiro trecho

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do rio Jordão e na qual meu irmão e este que escreve vivemos momentos muito intensos. A cinza vulcânica, negra e crepitante, gemeu debaixo das sandálias, anunciando
uma nova etapa naquela magnífica e inesquecível aventura... Caminhávamos até o yam pela rota que tínhamos batizado de "das catorze pontes". Isto era tudo o que sabíamos
então.

O Galileu se distanciou novamente. Era sua maneira particular de nos dizer que desejava ficar sozinho. E Eliseu e eu nos mantivemos a meia centena de metros, sempre
por perto. Apesar do intenso trânsito de homens, caravanas e gado, num sentido e no outro, a notável estatura do Mestre (1,81 m), muito superior à média dos judeus
daquele tempo, nos permitiu segui-lo confortavelmente. Eu já me referi a isto em outras passagens deste diário, mas julgo ser oportuno lembrar que Jesus de Nazaré
era também um atraente exemplar humano, com uma constituição física invejável, mais própria de um atleta que de um artesão. Seus ombros eram largos e fortes, com
uma musculatura elástica e harmoniosamente desenvolvida. Jamais percebi um grama de gordura. As pernas, especialmente duras e musculosas, se destacavam por sua força
e agilidade. Sua capacidade torácica era tal que dificilmente conseguíamos igualá-lo nas caminhadas ou na natação, como tivemos a oportunidade de presenciar nos
cumes do Hermon. No ano 25 de nossa era, naquele que nos encontrávamos então, o Mestre, com seus 31 anos recém-completos, se encontrava em plena forma física.

E foi essa excelente forma física que me causou dúvidas. Será que ele pretendia chegar ao mar de Tiberíades nessa segunda-feira? A julgar pelas referências tomadas
na viagem de ida até o Hermon, nesses momentos, mais ou menos até as dez da manhã, podíamos estar a pouco mais de cinqüenta quilômetros do yam. Demais para um só
dia, contando com o que já foi percorrido desde o amanhecer. E concluí, acertadamente, que Jesus tomaria a sensata decisão de pernoitar ao lado da agitada "artéria".
Mas onde?

Decidi não me preocupar mais com o assunto. E os pensamentos voaram além...

Como disse, o Mestre não se havia pronunciado sobre seus pla-

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nos. Ao menos, sobre os imediatos. Isso me inquietava. Tínhamos algumas pistas, proporcionadas por Zebedeu pai, a Senhora e os discípulos, mas só se tratava de conjecturas
e lembranças, todas, obviamente, passíveis de dúvidas. O velho Zebedeu qualificou aqueles meses prévios ao período da pregação como "especialmente importantes",
ratificando o que haviam exposto Maria, a mãe do Galileu, e os íntimos a respeito do batismo de Jesus no Jordão (mês de sebat ou janeiro do ano 26) e do célebre
"milagre" (?) de Cana (fevereiro desse mesmo ano
26). Se essas opiniões estivessem certas, ainda deveriam transcorrer cerca de três meses para que o Mestre entrasse em cena, oficialmente. E afirmo, se estivessem
certas, porque às dúvidas lógicas se juntavam os resultados do estudo do Evangelho de Lucas, o único que aponta uma data que poderia estar associada (?) aos inícios
da vida pública do Filho do Homem1. O problema, muito difícil de solucionar, era que a data indicada pelo escritor sagrado (?), "décimo-quinto ano do reinado de
Tibério César", estava sujeita a diferentes interpretações por parte dos exegetas e historiadores. Para uns, esse ano 15 corresponderia ao ano 29 de nossa era, tendo
como referência a morte de Augusto, o imperador que precedeu Tibério (Augusto faleceu no dia 19 de agosto de
767 ctb Urbe Condita, ou seja, no ano 14 de nossa era). Segundo esse cálculo, Jesus teria sido batizado no Jordão no ano 29. Isso significava mais de três anos de
espera...

Para outros especialistas, o décimo-quinto ano do reinado de Tibério devia ser visto pelo cálculo sírio. Assim nos situaríamos dois anos antes (12 da nossa era).
Nessas datas, Augusto ordenou que Tibério fosse nomeado "colega imperial", iniciando assim um período de governo conjunto. Aceitando essa hipótese, o Batista teria
aparecido na região do Jordão no ano 26 ou 27 de nossa era. Quem tinha razão?

1 O capítulo III do evangelho de Lucas diz o seguinte: "No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos o governador da Judéia, Herodes o
tetrarca da Galiléia, Filipe, seu irmão, o tetrarca de Ituréia e da Traconítide, Lisânias o tetrarca de Abilena, Anás e Caifás eram os sumos sacerdotes. Nesses tempos
foi enviada no deserto a João, filho de Zacarias, a palavra de Deus. E ele percorria toda a região do rio Jordão..." (N. do M.)

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A julgar pelos erros e pelas manipulações dos evangelistas, meu coração se inclinou para a versão do Zebedeu. E não demoraríamos muito para comprovar isso...

Com o sol no zénite (hora sexta), Jesus deixou que o alcançássemos. Descemos a pouco mais de cem metros acima do nível do mar, e a temperatura no fértil vale do
Hule continuava aumentando. Agora, ao meio-dia, devia estar oscilando entre 20 e 25 graus Celsius.

Deixamos para trás a encruzilhada da pequena aldeia de Dera, e depois de comprar alguns mantimentos ricos em vitaminas E e C, especialmente recomendadas para combater
o nosso mal, procuramos uma sombra perto do caminho, numa das prósperas plantações de zayit, das centenárias oliveiras da alta Galiléia. Era o momento de repor as
forças. Eliseu, faminto, traçou os ovos crus, o trigo tostado, as cenouras, as tâmaras e as nozes. Jesus preferiu uma ração de lombo seco de cervo. Eu compartilhei
da carne, e de sobremesa, figos secos.

Achei que ele estava esquisito. Como eu poderia descrever? O Mestre parecia distante. Conversava conosco, sim, mas o seu olhar acabava se perdendo nas caravanas
e carreatas de burros que iam e vinham sem cessar pela estrada do yam. Numa ocasião, meu irmão e eu trocamos um olhar de cumplicidade. Depois, o confirmaríamos.
Alguma coisa estava acontecendo. Aquele não era o expressivo, alegre e comunicativo Jesus do monte Hermon. Foi somente uma suspeita, talvez uma intuição, que eu
expresso: era como se o súbito contato com as pessoas o tivesse transformado, quase volatilizado. Ele parecia estar temendo alguma coisa. Parecia como se o Deus
que agora o acompanhava lhe tivesse mostrado, de repente, a imensa distância existente entre ele e suas criaturas. Mas, como digo, foi só uma réstia de luz que atravessou
a minha mente. Quem sabe?

E sua atenção, no final do almoço, ficou focalizada, quase exclusivamente, nos rostos tensos dos burriqueiros, nos seus gritos, nos passos apressados dos carregadores
e na poeira negra levantada pelas caravanas, agora arrastada para leste pelo pontual maarabit, o vento procedente do Mediterrâneo. E assim permaneceu bastante tempo,
com uma certa tris-

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teza pousada em seus olhos... Nós nos sentimos impotentes. Não sabíamos o que exatamente estava acontecendo com Ele, e, além disso, pouco ou nada podíamos fazer.
Como já disse, éramos apenas observadores.

- Prossigamos - anunciou finalmente -. Deixemos que o Pai faça o seu trabalho...

Dessa vez fomos nós que, intencionalmente, ficamos ressabiados. Eliseu, de fato, percebeu e ficou me perguntando. O que estava acontecendo? A que se devia aquela
mudança singular? Deixamos de ser seus amigos? Será que fizemos alguma coisa errada? Eu lhe mostrei que, provavelmente, como acontecera no dia 9 de setembro no Hermon,
nós nada tínhamos a ver com essa atitude do Mestre. Ele tinha suas razões. Talvez chegássemos a descobrir em algum momento. E assim foi.

Seriam três da tarde (hora nona), quando, inesperadamente, Jesus se deteve. O vento intensificou-se, o que dificultou a caminhada. Espessas massas de poeira se levantavam
sobre o caminho, obrigando-nos a adivinhar a aproximação das montarias e, sobretudo, forçando-nos a náo perder de vista a túnica branca e ondulante do Galileu. O
mais provável era que, se náo tivesse parado, estes exploradores tolos náo teriam reparado no novo rumo tomado pelo Mestre. Jesus fez um gesto com a mão esquerda
e, apontando um desvio, desapareceu à direita da estrada principal. Pouco faltou, como digo, para perdê-lo...

Quando entramos na trilha, a paisagem mudou. Os jardins e as plantações de oliveiras e macieiras desapareceram e nos vimos rodeados por uma conhecida e enredada
"mata" de canas, de até cinco metros de altura, adelfas venenosas e espadanas compactas, com seus talos esbeltos procurando a luz. E no alto, sobre os penachos agitados
de plumas e as folhas finas de suf, que serviram para trançar a cesta que salvou Moisés, milhares de perigosos mosquitos zunindo, sacudidos pelo maarabit.

Logo reconheci a trilha estreita. Era o caminho que conduzia ao kan, o refúgio sinistro no qual entramos quando caminhávamos até o maciço montanhoso do Hermon. A
lembrança dos doentes que chegamos a

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ver em duas das choças me fez estremecer. O que nos reservava o Destino nesta nova visita inesperada2?

Segundo meus cálculos, nessa ocasião nos encontrávamos a cerca de seis quilómetros da pousada situada na encruzilhada de Qazrin e a vinte da costa norte do lago
ou mar de Tiberíades. Hesitei. Será que era aquele o lugar onde o Mestre se dispunha a passar a noite? Nas choças, junto com os aleijados e os dementes? Rechacei
a idéia e supus que só se tratava de uma visita. O sol descia para o oeste, mas ainda faltavam três horas para o ocaso. O lógico seria continuarmos andando, e pernoitar
talvez no albergue de Sitio, o homossexual.

Ao divisar as choças, nos detivemos. Eram sete, que se erguiam em círculo numa esplanada de cerca de cem metros de diâmetro, sobre uma cinza vulcânica negra, rodeadas
por um impenetrável bosque de arundos. Atrás do kan, não muito distante, adivinhava-se o ruído do rio Jordão, que se afastava do lago Hule. Centenas de aves aquáticas
se recortavam no céu azul, preparando-se com seu chilreies para a promissora pesca ao pôr-dosol. Algumas garças e cegonhas brancas, que pareciam aborrecidas, tinham
optado por esperar sobre os telhados de folhas de palmeira das cabanas. E dali, a três metros do solo, observavam ou espantavam com displicência as nuvens de insetos
que dominavam a clareira.

O Mestre avançou com segurança até o centro da esplanada. Estava claro que conhecia o lugar. Eliseu e este que escreve esperamos. Na metade da referida esplanada,
alguém se empenhava em acender uma fogueira. O vento forte, porém, tornava inúteis as tentativas daqueles

Os kanes, na época de Jesus, eram algo semelhante ao que hoje entendemos por albergues de passagem. A maioria tinha um caráter público, e eram subvencionados por
governantes, casta dos saduceus, e doações particulares. Estavam destinados, fundamentalmente, aos estrangeiros, embora, na realidade, fossem ocupados por judeus
e gentios, segundo a necessidade de cada um. Alguns, como aquele que ficava ao sul do lago Hule, eram muito mais que uma "estalagem", como menciona Jeremias. Nesses
refúgios, sempre distantes das cidades e aldeias, abrigavam-se os doentes que não tinham meios económicos ou que eram rechaçados pela sociedade por causa de seu
comportamento ou aspecto físico. Por essas "pousadas" serem gratuitas, muitos dos kanes acabavam se transformando em asilo de velhacos e indesejáveis. (N. do M.)

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dois personagens. À nossa esquerda, junto da parede de canas de uma das cabanas, transitava uma dezena de homens e mulheres. Outros, sentados ou deitados sobre a
cinza, dormitavam ou contemplavam o ir e vir dos primeiros. Alguns dos homens, com as túnicas arregaçadas, limpavam e cortavam peixes, jogando as vísceras em grandes
alguidares de barro.

O meu coração acelerou. Olhei para o meu irmão e este, pálido, não respondeu. Seus olhos estavam fixos no mais jovem dos indivíduos que lutavam para fazer pegar
o fogo. Era Denário, o garoto surdo-mudo que nos roubara nas proximidades do yam\ E lembrei da informação que Sitio nos dera. O jovenzinho, de oito ou nove anos
de idade, cujo verdadeiro nome era "Examinado" (designação que se dava naquele tempo aos meninos abandonados), fora recolhido no kan por Assi, o responsável e administrador
do albergue. Por causa do incidente no que chamávamos "clareira do ruivo", justamente em memória de Denário, Eliseu desenvolveu um carinho especial por ele*. Denário,
no entanto, ao alcançar a pousada de Qazrin, desapareceu de nossa vista.

O garoto, rapidamente, levantou a cabeça e percebeu a figura alta do Galileu que se aproximava. Colocou-se de pé e, alarmado, foi tocar o ombro daquele que continuava
ajoelhado. De início, coberto com um turbante branco e generoso, não o reconheci. Além do mais, era cinco anos mais novo...

O homem se levantou e, depois de alguns segundos de observação atenta, sorriu ao Mestre. Deu a volta nas pedras que formavam o fogareiro e foi ao seu encontro. Desejou-lhe
a paz e beijou-o na face, e Jesus correspondeu com a mesma saudação. Então eu soube que se tratava de Assi, o essênio. Era o único no kan que se vestia de branco
imaculado, com uma túnica que chegava até os joelhos. Brilhava no peito a insígnia de latão (a haruta) que o creditava como médico ou rofé: uma folha de palmeira.
Ele, no entanto, recusava esse título, afirmando que somente Yavé era o verdadeiro rofé. Preferia se apresentar como um modesto "auxiliador". Eu o conheci na casa
dos Zebedeu, na aldeia de Saidan, e em circunstâncias "delicadas". Mas

*acontecimento narrado em Op. Cavalo de Tróia 6 (N. do E.)

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isso foi no ano 30. Agora, cinco anos antes, não podia me reconhecer.

Aconteceu quase simultaneamente. Enquanto o Mestre e o "auxiliador" caminhavam contentes até o centro da esplanada, Denário emitiu aqueles sons guturais e, pulando
por cima do fogareiro, correu como um gamo ao nosso encontro e abraçou meu irmão pela cintura. Eliseu, surpreendido, acariciou o corpo desnutrido, quase esquelético,
do garoto e beijou seus cabelos. E o ruivo, trémulo, permaneceu assim durante mais de um minuto.

Assi e o Filho do Homem foram se posicionar ao redor das pedras, para tentar de novo acender o fogo. Pareciam velhos conhecidos. Mais tarde teríamos informação precisa
sobre a amizade entre Jesus e o egípcio, designado pela comunidade essênia de Qumran na distante Gaulanítis para atuar como médico entre os mais desfavorecidos.
Assi assumiu o kan e conheceu o Mestre em uma de suas visitas costumeiras a Nahum (Cafarnaum). Ali nasceu uma amizade sincera. Jesus visitava o kan com freqüência
e inclusive contribuía economicamente. Sempre era bem recebido. Meses mais tarde, em plena vida pública, como acredito já ter mencionado, aquele essênio doce e compassivo
e, especialmente, os doentes e dementes que moravam no kan, desempenhariam um papel importantíssimo num dos milagres do rabi da Galiléia. Mas demos um passo de cada
vez...

Jesus sussurrou alguma coisa ao essênio, e este, erguendo os olhos negros e profundos para estes exploradores imóveis, imediatamente incentivou para que nos aproximássemos.
Eliseu e o menino foram na frente juntar-se ao chefe do kan e ao Galileu. Eu respondi também às saudações de Assi e fui me sentar a uma distância prudente dos quatro.
O Mestre parecia mais animado. No entanto, o instinto me preveniu. Alguma coisa ou alguém espreitava...

Foi necessário esperar. O maarabit não cederia até o pôr-do-sol. Com aquele vento obstinado não era fácil preparar o fogo. Denário, aconchegado no colo de Eliseu,
acabou adormecendo. Jesus e Assi continuaram conversando, e este que escreve, lembrando a experiência passada no interior das cabanas, se retirou discreta e silenciosamente,
caminhando até o grupo que procedia à limpeza do peixe. Era quase certo que o Mestre desejava passar a noite naquele lugar, e movido pela intuição, eu quis explorá-lo
na medida do possível.

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De início concentrei a atenção em três grandes cestos repletos de peixes. Ainda saltitavam, afugentando as moscas e as nuvens de mosquitos. Os cortadores me observavam
com curiosidade. Várias mulheres selecionavam e faziam uma primeira lavagem. Acho que reconheci carpas, tilápias, barbos e siluros, todos eles capturados nas águas
quentes do Hule. Embora a maior parte dos "inquilinos" do kan não fosse judia, Assi, como essênio, respeitava estritamente o que a lei mosaica estabelecia sobre
animais puros e impuros3. Nesse sentido, os siluros grandes e "cilíndricos",

3 No Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), especialmente no Levítico e no Deuteronômio, Yavé fala ao povo judeu e determina quais animais podem ser comidos
(puros) e quais devem ser recusados (impuros): "...Yavé falou a Moisés e Aaráo, dizendo: Falai aos filhos de Israel e dizei-lhes: Eis os animais que comereis dentre
as bestas da terra. Comereis todo animal que tem o casco fendido, partido em duas unhas e que rumina. Dentre os que ruminam ou têm o casco fendido, não comereis
as seguintes espécies: o camelo, pois embora seja ruminante, não tem o casco fendido; ele deve ser considerado impuro. Considerai impuro o coelho, pois, embora seja
ruminante, não tem o casco fendido. Considerai impuro o porco, pois, apesar de ter o casco fendido, partido em duas unhas, náo rumina. Não comereis a carne desses
animais, nem toqueis o cadáver deles, porque são impuros. De todos os animais aquáticos, podereis comer os que têm barbatanas e escamas, e vivem na água dos mares
e rios. Mas todo aquele que náo tem barbatanas e escamas e vive nos mares ou rios, todos os animais pequenos que povoam as águas, e todos os seres vivos que nelas
se encontram, considerareis imundos. Eles são imundos; por isso, náo comereis sua carne e considereis imundo o cadáver deles. Todo ser aquático que náo tem barbatanas
e escamas será imundo para vós. Das aves, considerai imundas e náo comeis as seguintes, porque são imundas: o abutre, o gipaeto, o sofrango, o milhafre negro, as
diferentes espécies de milhafre vermelho, todas as espécies de corvo, o avestruz, a coruja, a gaivota e as diferentes espécies de gavião, o mocho, o alcatraz, o
íbis, o gráo-duque, o pelicano, o abutre branco, a cegonha e as diferentes espécies de garça, a poupa e o morcego. Todos os animais alados, que caminham sobre quatro
pés, serão imundos para vós. De todos os insetos alados, que caminham sobre quatro pés, só podeis comer aqueles que, para saltar no chão, têm as patas traseiras
mais compridas que as dianteiras. Podeis comer os seguintes: as diferentes espécies de locustídeos, gafanhotos, acridídeos e grilos. Os outros insetos de quatro
pés são imundos. Com esses animais vós vos tornareis impuros; quem tocar o cadáver deles ficará impuro até à tarde. Considerareis impuros os animais que têm casco
náo dividido e que não ruminam: quem os tocar ficará impuro também. Todos os

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sem escama, de pele mucosa e praticamente sem barbatanas, eram separados e esquecidos num enorme cesto. Assim ordenava o esquisito Yavé... As carpas, por outro lado,
azuis, verdes e rosadas, eram abertas pelo ventre e, uma vez extraídas as entranhas, depositadas em barris de pedra. Ali, outras mulheres as temperavam com especiarias
e sal grosso. Alguns dos exemplares, tipo "espelhinhos", podiam pesar até oito quilos.

Ao inspecionar as tilápias e os barbos, já preparados para serem assados ou fritos, meus olhos se detiveram uns instantes nos homens e nas mulheres, supostos "viajantes",
de passagem pelo kan, que permaneciam sentados ou deitados ao pé da cabana. Estranhei porque quase náo se moviam. Não falavam. Os olhares, vidrados, como que hipnotizados,
seguiam freneticamente os movimentos dos machados dos cortadores de peixes. Pressenti alguma coisa, mas, rechaçando a ideia, baixei os olhos, simulando interesse
por um dos exemplares capturados por Assi e sua gente no Hule. Era um bíníf, assim chamado pelos cortadores, um barbo de quase um metro de comprimento e mais de
cinco quilos de peso, parecido com as anguilas e que, dias depois, na volta ao "berço", Papai Noel identificou como Ciarias Macracantus, uma das espécies autóctonas
de Galiléia, com oito barbas, em vez das duas ou quatro que o resto dos barbos apresentam no lábio superior.

animais de quatro patas, que caminham sobre a planta dos pés, serão considerados impuros; quem tocar o cadáver deles ficará impuro até à tarde, e quem transportar
o cadáver deles deverá lavar suas roupas, e ficará impuro até à tarde. Dos animais que rastejam pela terra, considerai impuros os seguintes: a toupeira, o rato e
as diferentes espécies de lagarto, a lagartixa, o crocodilo da terra, o lagarto, o lagarto da areia e o camaleão. De todos os répteis, são esses que considerareis
impuros; quem os tocar depois de mortos ficará impuro até à tarde. E ficará impuro todo objeto de madeira, pano, couro ou estopa, e qualquer outro utensílio sobre
o qual um bicho desse cair, depois de morto. Deverá ser lavado com água e ficará impuro até à tarde; depois ficará novamente puro. Toda vasilha de barro, na qual
um desses bichos cair, deverá ser quebrada, e o seu conteúdo ficará impuro; a comida preparada com água dessa vasilha ficará impura, e também a bebida ficará impura..."
(N. do M.)
4A palavra binit, em aramaico (plural, bintot), procedia do substantivo binita (cabelo), por causa das barbinhas que pendem nos barbos; foram descritos pelos assírios
mil anos atrás (bu-nii). (N. do M.)

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O Ciarias, embora pertencente à mesma ordem e género dos barbus, se diferenciava também do resto das famílias pelo fato insólito de lançar uns "gritos" que eriçavam
os cabelos nas noites de outono.

Suponho que a minha condição de médico foi decisiva. Eu tinha prometido não me apresentar como tal naquele terceiro "salto", evitando assim os problemas nos quais
me vi envolvido nas aventuras precedentes. E eu estava disposto a manter essa decisão, mas, em vista do que tinha na minha frente, não pude ou não soube me distanciar...
Não me equivoquei. A intuição jamais trai. A verdade é que ninguém me proibiu que os examinasse. E, lentamente, fui formando uma idéia. Aquele kan era muito especial...

Ali, junto com os que preparavam o jantar, vigiada de certo modo por cozinheiras e cortadores, aguardava uma série de doentes aos quais tive acesso na minha primeira
visita ao refúgio. Assi, pouco depois, confirmaria a suspeita: tratava-se dos "menos agressivos e problemáticos"; os únicos que não exigiam uma vigilância estreita
e contínua.

Meu Deus do céu! O que era aquilo? Um dos homens, feito um novelo, com as costas apoiadas nas canas, olhava sem ver. Moscas e insetos o devoravam, mas, imóvel como
pedra, nem piscava. Passei a mão na frente dos olhos azuis e constatei o que imaginara: era cego. Os dedos, especialmente das mãos, eram extraordinariamente grandes
(os polegares chegavam a dez ou doze centímetros de comprimento). Examinei o resto dos tecidos das extremidades e deduzi que se encontrava diante de uma possível
síndrome que alterava o crescimento do esqueleto, a doença da qual sofreu Abraham Lincoln5.

Ao lado dele aparecia um menino totalmente nu, de cerca de nove ou dez anos de idade, de joelhos e com as mãos atadas nas costas. O rosto

5 A doença hoje se chama "Marfan", em memória ao pediatra francês que a descreveu em 1896. Provavelmente estávamos diante de um grande transtorno hereditário que
provocava alterações no tecido conjuntivo, anomalias cardiovasculares e deslocamento parcial do cristalino. Os investigadores suspeitam que a síndrome é originada
por alguma mutação no gene FBN1 (fibrilina). A alteração na proteína, localizada no cromossomo
15, pode ser a responsável pelo estiramento dos tecidos. A cura, por enquanto, é altamente improvável. (N. do M.)

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emaciado também era torturado por nuvens de insetos. Uma mordaça, mais suja do que o rosto do infeliz, mantinha a boca aberta. Espantei as moscas e constatei que
os lábios estavam destroçados. Quando me aproximei, ele não se moveu, limitando-se a gemer. Inspecionei os dedos das mãos e dos pés. Não restava dúvida. Faltavam
falanges completas. Talvez se tratasse de um caso de autocanibalismo, conhecido em medicina como síndrome de "Nyhan", outra doença de origem cromossomática e, como
a anterior, de solução muito difícil6. O garoto, vítima de um retardamento mental e motor, terminava devorando seus próprios lábios e dedos. Daí a necessidade de
amarrá-lo e amordaçá-lo de forma permanente.

Antes de prosseguir o exame daquelas pobres criaturas, lancei uma olhada ao grupo que permanecia no centro da esplanada. O Mestre e o resto, embora aparentemente
absortos na conversa, seguiam meus movimentos com curiosidade. Foi isso, pelo menos, que deduzi de seus olhares furtivos. Quanto às mulheres e aos cortadores, nenhum
deles se preocupou demasiado com a minha presença.

O terceiro e o quarto doentes me deixaram igualmente desarmado e com o coração apertado...

Sentado sobre a cinza vulcânica negra, um "menino-ancião" segurava nos braços um jovem (?) paralítico. Era a primeira vez que eu me deparava nas terras de Israel
com um caso de "progéria" ou um garoto com aspecto de um velho.

Fiquei de cócoras e ousei esboçar um sorriso largo. O menino possuía as principais características dessa doença: cabeça enorme, desproporcional, calva, com grossas
veias sobressalentes, ausência de sobrancelhas e pestanas, olhos saltados e pequenos, nariz em forma de bico de papagaio,

6 A chamada síndrome de "Lesch-Nyhan", descoberta nos Estados Unidos em 1964 pelos doutores Lesch e Nyhan, aparece unicamente nos homens (por estar associada ao
cromossomo X). As principais conseqüências são de ordem neurológica (atraso psicomotor e paralisia cerebral), movimentos involuntários das articulações (até alcançar
a fase de automutilação) e, certamente, o aumento de ácido úrico que acaba provocando a morte. (N. do M.)

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queixo retraído, quase inexistente, peito estreito, articulações grandes e rígidas, e numerosas manchas marrons nos braços e nas mãos. Ele respondeu com um sorriso,
mostrando uns poucos dentes, tão irregulares quanto mal distribuídos. A pele era fina, muito frágil, e os braços e as pernas, quase esqueléticos. Não creio que tinha
mais do que um metro de altura.

- Qual é a sua idade?

Ele abriu de novo a boca enorme e respondeu feliz: -Vinte...

Aquilo também era singular. Segundo minha informação, poucos síndromes de envelhecimento precoce7 atingem tanta idade.

- ... Este é o meu amigo Tamim. Eu sou Tamid.

E voltou a sorrir ante o jogo de palavras. Tamid, entre outras coisas, significava "viver cada dia". Quanto ao seu amigo, o paralítico, Tamim era sinónimo de "íntegro
ou irrepreensível". Compreendi e sorri para mim mesmo. Aquele que os "batizara" com esses apelidos era muito consciente do significado duplo: "viver cada dia" era
a única coisa que o "menino-velho" podia aspirar. A progéria traz consigo geralmente anomalias cardíacas e respiratórias, bem como lesões cerebrais ou do sistema
nervoso, que desembocam sempre numa morte precoce. Quanto aTamim, o qualificativo era "irrepreensível"..., e de pouco tempo. O jovem, outrora forte e musculoso,
só movia os olhos. Nem conseguia falar: como não ser íntegro nessas circunstâncias? Tamim fora coletor de esponjas nas águas de Chipre e da Grécia. Um dia começou
a se sentir mal. Os músculos das mãos foram falhando, a doença foi se estendendo pelos braços. Ele foi transferido para as costas da Fenícia e, dali, ao kan do Hule.
Fazia semanas que deixara de comer. Só ingeria líquidos8. Tamid, o "menino-velho", cuidava dele dia e noite.

A progéria, também conhecida hoje como síndrome de Hutchinson-Gilford, é uma patologia pouco freqüente na qual as crianças apresentam aspecto de velhos, assim como
alguns dos sinais e degenerações próprios da velhice. As possíveis causas da doença devem ser procuradas nas alterações genéticas. (N. do M.)

8A julgar pelas indicações recebidas, era possível que o jovem coletor de esponjas sofresse de uma doença de origem obscura, neuronal, que recebe o nome de "esclerose
lateral amiotrófica", um mal irreversível, por enquanto. A esperança de vida é curta. (N. do M.)

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O garoto paralítico, que parecia conservar a inteligência intacta, me observou com seus olhos negros profundos e vívidos. Eu não sabia o que fazer nem o que dizer.
E a tristeza, uma imensa tristeza, caiu sobre este impotente explorador. Eu não sabia nesses momentos, mas, sem querer, estava passando em revista os protagonistas
de um extraordinário acontecimento futuro no qual, naturalmente, Jesus de Nazaré ficou envolvido. Mas esta história chegará em seu devido tempo.

Um pouco mais adiante, deitados em padiolas de tela e fibras vegetais, impassíveis ao vento e às moscas torturantes, ficavam afastados os mais velhos do kan. A maioria,
pelo que pude avaliar, se encontrava nas fases mais avançadas de Parkinson9 e Alzheimer. Nos primeiros, o tremor já não era importante, pois as funções motoras pareciam
muito deterioradas, tornando inviável caminhar. Na realidade, nenhum deles era capaz de ficar em pé. Eles permaneciam em decúbito dorsal, com as cabeças inclinadas
sobre o tórax, as bocas abertas e negras por causa das moscas, e babando permanentemente. Alguns falavam em grande velocidade, com um fio de voz monótono e ininteligível.
Certamente, ninguém respondia.

Com os afetados pelo mal de Alzheimer acontecia algo parecido. A última fase os reduzira a simples "vegetais" incómodos, incapazes de se cuidarem por si mesmos.
E ali permaneciam durante horas, mudos e rígidos, aguardando que uma pneumonia, uma infecção urinária ou as terríveis úlceras provocadas pela postura permanente
em decúbito encurtassem sua existência desgraçada. Os cuidadores (?), agora atarefados com a preparação dos peixes, não se distinguiam precisamente pelo carinho
e a dedicação a esses infelizes.

O último dos doentes que consegui distinguir naqueles momentos foi uma mulher. Devia ter ao redor de quarenta anos. Encontrava-se sentada entre os "Parkinson". Os
esgares e os movimentos bruscos de mãos e

Parkinson é outra doença de origem cerebral (provavelmente se trata de uma alteração dos neurônios chamados dopaminérgicos pigmentados da substância negra). A disfunção
pode ser causada por transtornos do metabolismo ou por processos patológicos que alteram a neurotransmissão dopaminérgica dos gânglios basais, entre outros. (N.
do M.)

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pés me indicaram imediatamente o mal do qual padecia: muito possivelmente dança-de-sáo-vito, de Huntington, outro transtorno degenerativo e hereditário que se caracteriza
pelos movimentos rápidos e complexos, especialmente nas extremidades10.

Quando cheguei até ela, seus esgares diminuíram. E a mulher, assustada, começou a mostrar a língua em movimentos rápidos, sem parar, elevando as sobrancelhas e contraindo
os lábios e as pálpebras. Retrocedi, para evitar uma piora da demente. Mas a sorte não estava do meu lado. Ao ir para trás, tropecei com outro inquilino do kan,
e caí em cima dele. Levantei-me rapidamente e, diante do olhar atónito dos cortadores, limpadoras e deste que escreve, a mulher que tinha se ajoelhado se pôs de
pé, gritando como uma possuída.

Foi tudo vertiginoso. Agarrou os meus testículos e, berrando, exigiu que "lhe devolvesse o que era dela". Ao me sacudir, o manto que a cobria escorregou, descobrindo
uns olhos proeminentes, do tamanho de ovos, e com as córneas ensangüentadas e ulceradas. Fora de si, depois de soltar os genitais, agarrou o ventre e, puxando com
violência o cinto, reclamou "seu estômago e os intestinos".

- Me roubastes, ladroes!... Onde está o meu sangue? Onde pusestes o meu estômago e minhas entranhas?

Os olhos, com as pupilas dilatadas, incapazes de pestanejar, com uma exoftalmia (projeção anormal do globo) progressiva e aguda, me assustaram. Quando reparei no
pescoço e vi o bócio tive certeza. Aquela doente padecia de um hipertireoidismo (talvez a chamada doença de Graves) ao que se devia acrescentar um problema mental
grave que os psiquiatras denominam síndrome de Cotard, ou "delírio de negação". O sujeito, em conseqüência de uma esquizofrenia ou de uma lesão cerebral, considera
que lhe roubaram não só seus pertences materiais, como também seus órgãos. E acredita que os ladroes estão por todo lado.

10 Corea, do grego khoreia (dança). Chama-se assim porque o doente interrompe a caminhada em consequência dos movimentos involuntários, lembrando, de certo modo,
uma espécie de bailado ou dança. O mal, de caráter hereditário autossômico dominante, conduz irremediavelmente a transtornos de conduta e à demência. (N. do M.)

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A mulher, então, puxou a túnica que cobria o meu peito e, passando dos gritos aos gemidos e ao choro, perguntou sobre o seu coração:

- Onde o puseste?...

Não houve tempo para mais nada. Dois cortadores de peixe e ajudantes do "auxiliar" pularam sobre a pobre doente e a imobilizaram. Eu recuperei a "vara de Moisés"
e, envergonhado, sem saber o que fazer, me afastei do grupo.

Assi, de pé, alertado pelos gritos da demente, observava atentamente. Eliseu também e o garoto surdo-mudo se levantaram na expectativa. Só Jesus continuava sentado.
Sua cabeça estava abaixada, como se o incidente não tivesse existido.

Os cortadores fizeram um sinal e o essênio, compreendendo que tudo estava sob controle, voltou a se ajoelhar diante das pedras que compunham o fogareiro, aguardando
a minha chegada.

Minha mente, confusa diante do que acabara de ver e o que lembrava da primeira visita ao kan, procurou se estabilizar. Por que fomos parar neste inferno? O Destino
sabia... Eu tinha dado não mais de três ou quatro passos até o centro da esplanada, quando, inesperadamente, o vento cessou. O maarabit, como acho que já disse,
procedia do mar Mediterrâneo e costumava soprar entre o nisán (março-abril) e o tisri (setembro-outubro), sempre entre o meio-dia e o pôr-do-sol. Instintivamente,
me virei e verifiquei que faltava mais de uma hora para o ocaso.

Foram segundos. Tudo aconteceu muito rápido... Ao contemplar a posição do sol, uma súbita revoada das aves que descansavam no alto das cabanas me preveniu. Alguma
coisa as assustara. E várias delas, estendendo e batendo as asas brancas, se afastaram até o horizonte das canas.

Imediatamente, em meio ao silêncio provocado pela queda do vento, ouvimos um uivo dilacerante. De início fiquei desconcertado sem saber se era humano. Vinha de algum
ponto próximo ao canavial, a leste do refúgio. E as garças e as cegonhas que ainda permaneciam sobre as cabanas fugiram em direção ao sol.

O uivo, agora mais próximo, se repetiu pela segunda vez, acabando por colocar todo o kan em estado de alerta. Assi, de novo em pé, dirigiu o

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olhar a uma das cabanas próxima do caminho de acesso ao albergue. Fez um gesto a Denário e este, rápido como uma gazela, correu até o ponto do qual aparentemente
vinha o triste e prolongado lamento.

Homens e mulheres se mobilizaram e, antes que o meu irmão e eu conseguíssemos entender, se dirigiram até a cabana em questão, na entrada do kan. Eliseu não tardou
a se juntar ao grupo agitado, tentando averiguar o que estava acontecendo.

Os uivos se intensificaram e eu deduzi que o homem ou o animal se encontrava muito perto dos cuidadores e das cozinheiras que gritavam. Era esquisito. Se fosse uma
fera, por que não fugiam? Todos correram em bando ao encontro do responsável dos uivos...

Nesses momentos de agitação, não sei muito bem porque, procurei com os olhos o Mestre. Ele continuava sentado no mesmo lugar, com os braços apoiados nos joelhos.
Olhava fixamente os galhos depositados no fogareiro que tentaram inutilmente acender. Seu rosto, grave e ligeiramente pálido, me colocou em alerta mais do que os
uivos e o tumulto. O que estava acontecendo?

Os uivos então cessaram, como também a gritaria. O Mestre, então, levantou o rosto ao céu. Deu um profundo suspiro e permaneceu durante alguns segundos com os olhos
fechados. Minha mente continuava em branco, sem entender nada.

E da mesma forma súbita com a qual cessaram, os uivos voltaram, desta vez mais lúgubres e prolongados...

O grupo, como se fosse uma só pessoa, deu um passo para trás, ao mesmo tempo que erguia os punhos ameaçadores. Aquilo, o que fosse, continuava avançando. Algumas
mulheres aterrorizadas voltaram-se e fugiram dando gritos agudos.

Quando percebi, o Galileu se levantara e caminhava na direção do grupo. Não hesitei e fui atrás dele. Jesus, com passadas decididas, rodeou os cuidadores e foi se
colocar na frente dos indivíduos nervosos, ao lado do essênio e do garoto surdo-mudo. Como pude esquecer? Ali estava o responsável pelos uivos. Eliseu e eu tivemos
um encontro com ele na primeira visita ao kan. Era o jovem acorrentado, de cerca de 20 anos de

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idade, negro como carvão e "tatuado" da cabeça aos pés com pequenos círculos (na realidade, cicatrizes ou incisões na pele, provocadas por algum buril ou arma branca).
Estava nu, suado, com o rosto desfigurado pela raiva e o tornozelo esquerdo ferido e sangrando pelo contínuo esfregar do grilhão que o prendia. Uma corrente de elos
grossos, de cerca de três metros de comprimento, o prendia a uma base de uma das cabanas. O negro, alto e musculoso como o Galileu, tinha chegado ao limite permitido
pela corrente, a pouco mais de dois metros de Assi e de Denário. Arquejava violentamente, ameaçando os moradores do refúgio com um pelicano morto, que segurava acima
da cabeça. Várias vezes o lançou até o auxiliar, acompanhando os ataques com outros tantos uivos.

O desgraçado, como já disse, padecia de uma síndrome ligada à loucura que provocava ataques furiosos de ira. Nesses momentos se transformava numa besta selvagem,
sem controle algum, capaz de esmagar quem estivesse ao seu alcance. A possível doença, chamada amok ("lançar-se furiosamente à batalha", segundo interpretação malaia),
era relativamente comum entre os orientais e determinadas etnias da África central.

A cada acometida, Assi e o grupo retrocediam instintivamente. O essênio, nervoso, tentava acalmar o louco, aconselhando que largasse no chão a pesada ave com o bico
azul grande e afilado. As palavras, os gestos e a proximidade do chefe do kan tiveram o efeito contrário ao desejado. E o negro, em plena crise, cego de raiva, lançou
outro ataque. Desta vez, bruscamente estancada pelo grilhão, aquela massa de ódio e força bruta perdeu o equilíbrio e bateu contra a cinza vulcânica. O pelicano
rodou pelo chão e Assi correu para pegá-lo.

Jesus, então, se dirigiu a seu amigo o auxiliar e pediu que libertasse o negro. O rosto do Mestre continuava sério. Assi, como era de se esperar, negou veementemente,
argumentando com razão que o estado de "Aru" era perigoso para todos. Aru? Aquele, de fato era o nome, ou melhor, o sobrenome do jovem negro amok. Em aramaico significa
"olha" ou "eis aqui". Mas não entendi a razão do apelido.

E Assi prosseguiu com seus argumentos, procurando convencer Jesus de que o pedido era inadequado. Segundo o essênio, Aru estava pos-

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suído por um espírito imundo e libertá-lo seria provocar o tal demónio. Jesus não respondeu. Apoiou o joelho esquerdo na cinza e, lentamente, com ambas as mãos,
acariciou o crânio úmido e "tatuado" do demente. Ninguém respirou. A reaçào do amok podia ser fulminante e perigosa. O grupo deu outro passo para trás e, imaginando
um feroz embate, se desfez, perdendo-se pela esplanada e as choças próximas.

Assi lançou um grito, suplicando ao Mestre que se afastasse de Aru. Jesus continuou mudo. Os grandes dedos do Filho do Homem pousaram mais uma vez sobre o couro
cabeludo pelado do agitado negro. A respiração de Aru era convulsa. Continuava com a boca para baixo, não sei se inconsciente. Procurei Eliseu com o olhar. Ele continuava
atrás do garoto, tão desconcertado quanto todos. Nesses momentos não sabíamos, não podíamos saber, quais eram os pensamentos e as intenções daquele Homem. Foi depois,
muito depois, que entendemos o que realmente aconteceu naquele entardecer, no kan do lago Hule...

O Mestre olhou para o excitado auxiliar, e aqueles olhos firmes e doces ao mesmo tempo o transpassaram. Assi emudeceu. Sem trocar uma única palavra, o essênio, compreendendo
que a ordem não admitia discussão nem demora, voltou-se para Denário e por sinais lhe ordenou que fosse buscar uma pessoa. O surdo-mudo, admirado com a evidente
coragem do Galileu, obedeceu imediatamente, desaparecendo atrás das cabanas.

Eu não conseguia sair do meu assombro. Por que libertar o negro perigoso? O que é que Jesus pretendia? Eu estava muito próximo, a cerca de um metro e meio, e tentei
achar uma explicação no seu rosto ou em seus gestos. Aquilo que consegui descobrir não me serviu naqueles instantes críticos. Como já disse, eu era muito lerdo para
compreender...

O Mestre, em silêncio, dobrou também a perna direita, ajoelhandose diante do negro. Virou o corpo de Aru e o ergueu suavemente, deixando descansar as costas dele
sobre suas pernas. Imobilizou a cabeça do amok sobre o ventre, pegou a faixa de tecido que amarrava seus cabelos e a desatou.

Aru, com os olhos fechados e a respiração entrecortada, parecia ter perdido a consciência. Uma das sobrancelhas, ferida pelo impacto contra

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os dejetos vulcânicos, vertia sangue em abundância. O Mestre, então, se dirigiu de novo ao essênio e pediu água. Assi hesitou. Até que, rendido diante daquela voz
afável e decidida, virou-se para obedecê-lo.

Jesus dobrou o sudarium com o qual costumava amarrar os cabelos nas caminhadas compridas e, procurando uma região não contaminada pelo suor, tamponou a ferida da
sobrancelha, fazendo uma pressão delicada. Depois de meio minuto levantou a improvisada gaze hidrófila e observou o corte. Pelo que pude perceber, havia apenas um
corte, de pouca importância, mas impressionante. O sangue (provavelmente dos capilares), de um vermelho vinho, fluía continuamente, formando poças.

O Mestre examinou o "curativo" e seu grau de absorção e, dobrando o tecido, repetiu a operação, tentando conter a hemorragia. Foi um longo e inesquecível minuto.
Difícil de entender, sim, mas inesquecível... Um deus, ajoelhado, apoiava em seu colo um negro miserável e anónimo. A mão esquerda, firme e segura, velava sobre
a ferida, e a direita, com doçura, acariciava a bochecha suja de Aru. Os dedos passeavam devagar pela fronte e os lábios, ressecados e quase irreconhecíveis.

Observei cada gesto e tentei me insinuar entre seus sentimentos. Pobre de mim! Como ousar semelhante intento? Jesus, alheio a tudo que o rodeava, continuou estancando
a hemorragia. A cabeça, ligeiramente inclinada sobre o rapaz, começou a receber os raios alaranjados de um sol que se retirava além do Jordão, mas que, a julgar
pelo empenho em iluminar o Filho do Homem, sabia muito bem o que estava acontecendo...

Fiquei impressionado..., mais uma vez. Os cabelos, cor de caramelo, agora sobre os ombros, receberam a luz do crepúsculo e eu diria que de mais Alguém... Foi nesses
instantes, enquanto acariciava com as pontas dos dedos as pálpebras ensangüentadas e fechadas do amok, que fiquei prisioneiro de seus olhos. Não sei explicar. As
palavras, mais uma vez, são o meu inimigo...

Não foi possível desviar o olhar. Foi como se o universo inteiro o tivesse visitado. Os olhos, agora mais expressivos que nunca, mais vivos e falantes, apesar do
silêncio, ficaram úmidos. E o rosto inteiro, dourado por aquele sol cúmplice, se transfigurou. Eu vi a luz que o banhava e

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que se transformava em sua verdadeira pele. Então, uma lágrima rolou de repente e apressada se escondeu na barba desgrenhada, deixando o meu coração apertado.

Acho que empalideci. Como poderia definir isso? Era um Homem-Deus com um homem entre as mãos. Talvez fosse a misericórdia que o fez verter aquela lágrima. Nunca
soubemos, só suspeitamos. Talvez fosse uma infinita piedade que o moveu e fez descer a alma daquele ser tão especial até os níveis nos quais labutávamos. Não sei
explicar, mas o instinto me diz que foi o amor que abriu a porta para a ternura, comovendo até a última célula de Jesus de Nazaré. Ele aparecera num mundo imperfeito
e cruel, e agora tinha uma dessas criaturas imperfeitas entre as mãos. Talvez essa mistura de misericórdia, piedade, amor e ternura fizesse o milagre. Quem sabe...

Apresentaram-se ao mesmo tempo, afugentando aquelas reflexões. Assi, com a água e sua inseparável caixa de madeira na qual transportava "o necessário" para atuar
como médico ou auxiliador. E com ele, Denário e outro singular personagem que nos deixou intrigados desde o primeiro momento. Eu já o tinha visto, mas não podia
saber porque estava com a cabeça coberta por um manto negro. Uma túnica de um vermelho queimado o cobria até os pés, ocultando, inclusive as mãos. Do cinto de corda
pendia um molho daquelas chaves de ferro e madeira, grandes e pesadas, com as quais nunca nos acostumamos.

Assi exigiu a atenção de "Hasok", como era chamado, com razão, e ordenou que libertasse o pé do negro. O encapuzado continuou indeciso. Suas dúvidas eram compreensíveis.
Aru continuava inconsciente e ninguém podia saber como reagiria ao voltar a si. Mas o essênio repetiu a ordem...

- "Trevas"..., faça o que te digo.

Hassok, de fato, significa "trevas" em língua aramaica. Não fui capaz de descobrir o rosto do homem. Trevas se empenhava para mover-se com agilidade e, ao mesmo
tempo manter o rosto na escuridão do manto. Pouco depois, acabaríamos descobrindo o porquê.

Uma vez solto o grilhão, e depois de jogar a corrente ao pé da cabana, ele se manteve imóvel e vigilante, com os braços soltos sobre a túnica.

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O Mestre retirou o "curativo" e verificou com satisfação que o sangue começara a coagular. O tecido de algodão cumpriu sua função. O auxiliador forneceu a ele outro
pedaço de tecido, previamente embebido em água, e Jesus, com idêntica paciência e delicadeza, dedicou um tempo a uma minuciosa limpeza da ferida, retirando os grãos
de lava que continuavam enterrados no corte.

Denário contemplava a cena, escondido atrás de Eliseu. Nenhum dos ajudantes se atreveu a voltar. Assistiam o desenrolar dos acontecimentos do lugar no qual limpavam
e cortavam os peixes. Acredito que ninguém esperava a libertação do amok.

Assi abriu a caixa de madeira e mostrou ao Galileu alguns dos remédios que tinha de utilizar no caso com o qual se ocupavam. Indicou com o dedo três pequenos frascos
de vidro. Um continha mel. Outro, como disse, folhas de nogueira cozidas em água, e o terceiro, uma infusão de sófora, uma árvore pouco conhecida em Israel, naqueles
tempos, e cujos botões eram trazidos pelas caravanas das regiões mais orientais da Ásia11. Mais uma vez, fiquei espantado com a habilidade do essênio. Tanto o mel
quanto as folhas de nogueira eram excelentes desinfetantes. Enquanto a sófora, com um alto conteúdo em glucósido flavônico, o que poderia dizer. Ajudaria, e com
muita eficácia, na recuperação dos capilares feridos. Assi, como já disse, estudou medicina em Alexandria, recebendo uma clara influência dos seguidores de Hipócrates.
Sua veneração pelo sábio de Cós podia ser observada inclusive pela forma de executar as bandagens. Sabia quase de cor Do oficio do médico, uma das obras do notável
médico grego.

O essênio finalizou a bandagem em torno da cabeça e, nisso, Aru abriu os olhos. Trevas, atento, alertou o chefe do kan. Assi, pálido, se inclinou para trás e recolheu
rapidamente a caixa de madeira. Jesus não se moveu. O negro passou aqueles olhos verdes, enormes e surpresos ao seu redor e, ao reparar Trevas, levantou-se assustado.

Era a sófora trepadeira, uma acácia que crescia no atual Japão, de grande utilidade em farmácia. Os botões contêm até cerca de 30% de glucósido flavônico, muito
eficaz para multiplicar a resistência dos capilares nas hemorragias. (N. do M.)

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O Mestre, de joelhos, não intercedeu. Aru retrocedeu um passo e, subitamente, se deteve. Lançou uma olhada ao solo de cinza e, ao comprovar que não estava acorrentado,
se inclinou, e apalpou o tornozelo esquerdo esfolado. Assim permaneceu alguns segundos. Trevas, consciente da gravidade do momento, foi se interpor entre o amok
e o auxiliador. Era evidente que procurava defender Assi.

E de cócoras, entre a surpresa e a confusão, Aru desviou o olhar para o Galileu. Temi pelo pior. Jesus era o mais próximo. Se o louco se arrancasse, o que faríamos?
E instintivamente deslizei os dedos até a parte superior do cajado, buscando a cabeça de cobre dos ultrassons.

O Mestre não moveu um músculo. Mantinha a vista fixa na maçã verde dos olhos do corpulento rapaz. Nenhum dos dois pestanejou. E a inicial firmeza, o olhar do Filho
do Homem, como a luz que nos rodeava, foi descendo, que palavras devo utilizar?, até uma doçura que podia ser tocada. E aquele fio invisível entre o Deus e o homem
propiciou um final benéfico. Isso, ao menos, é o que deduzo agora, ao colocar por escrito aqueles dias inesquecíveis...

Aru, para a surpresa de todos, sorriu. Assi e o encapuzado, mudos, o observavam com desconfiança. O negro, no entanto, relaxou e curioso foi tocar a bandagem que
protegia a sobrancelha machucada. A crise, aparentemente, foi embora. E interpretei a calma como o período que segue os violentos ataques de fúria. O doente fica
abatido, sem forças nem para se pôr em pé e com uma amnésia demolidora que o impede de lembrar o que aconteceu. E ali mesmo, ao ser testemunha do comportamento do
amok, algo me disse que o diagnóstico não era totalmente correto. O negro "tatuado" se levantou de novo. Não parecia exausto. Totalmente ao contrário...

Nesses instantes aconteceu um detalhe que aumentou a minha confusão e, suponho, a do resto das testemunhas. Aru reparou na sua nudez e, num gesto instintivo, cobriu
seus genitais com ambas as mãos. Olhou para nós envergonhado e abaixou a cabeça. Não, aquela não era a conduta costumeira de um demente dessa natureza. Mas, então,
o que é que acontecera? E uma idéia, tão absurda quanto inquietante, me assaltou durante

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alguns segundos. "Não, disse a mim mesmo, isso não é possível... Ele mesmo havia repetido: ainda não chegou a sua hora."

O Mestre aliviou a cena incómoda. Desfez-se do manto cor vinho e, devagar, foi ao encontro de Aru. O negro, a princípio, retrocedeu. Jesus lhe mostrou a túnica de
lã e, sorridente, continuou andando. O rapaz, compreendendo, aguardou e o Galileu foi cobri-lo.

Não conseguia entender o ocorrido... E o Mestre, feliz, abraçou o jovem. Aru, mais confuso ainda, não reagiu e deixou que o Homem esquisito agisse. Pouco depois,
após aconselhar que lhe dessem de comer, o Galileu voltou ao centro do kan.

Trevas, Denário e Eliseu o seguiram. Este que escreve, intrigado, permaneceu no lugar, vigilante. Assi deve ter lido os meus pensamentos e fez a mesma coisa. E o
jovem negro, vestido com o manto de Jesus, deixou-se cair sobre a cinza, sentando-se junto à corrente.

Jesus e o resto se esforçaram e, aos poucos, vi subir um fogo nervoso e voraz. Os ajudantes e as cozinheiras iam e vinham, preparando o jantar.

Trevas não demorou a voltar. Trazia duas tigelas de madeira. Uma com um pão escuro e a segunda com um cacho carregado de uva branca. Deixou a comida diante do negro
e se afastou de novo até a fogueira.

O essênio e eu esperamos a reação do amok. Negativo. Aru não fez nada anormal. Observou os alimentos e, desviando o olhar até o auxiliador, voltou a sorrir. Foi
um sorriso limpo, sem assomo de demência e carregado de gratidão. Não era possível. Um louco não deveria se comportar dessa maneira, ao menos depois de uma crise
tão aguda...

E a idéia absurda me voltou. Será que foi curado pelo Mestre? Como já disse, isso não era possível. Não era a sua hora. Ou era?

Aru, finalmente, partiu o pão e começou a comer com avidez. Assi acariciou pensativo sua espessa barba negra e continuou estudando o demente. Acredito que estava
tão assombrado quanto este explorador. Trevas interrompeu as reflexões do chefe do kan. Mostrou-lhe uma cabaça de água e esperou instruções. Assi tomou o recipiente
e, sem perder de vista o negro faminto, depositou-o sobre a cinza entre as suas pernas. E assim

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continuou durante alguns minutos, sentado e em silêncio. Por fim abriu a caixa de madeira e tomou um dos vidrinhos.

Aru, tranqüilo, estava terminando o cacho de uva. De vez em quando parava e olhava para nós. Os olhos, insisto, aparentavam serenidade. E o auxiliador, depois de
hesitar, foi derramando o conteúdo do vidrinho na água. Ele o fez sem disfarçar. Abertamente. Pareceu-me que inclusive exagerava os movimentos. Aru, certamente,
percebeu a manobra de Assi. Fui eu, tolo como sempre, que não percebeu o alcance da operação sutil... Depois, junto ao fogo, Assi me esclareceria o porquê do gesto
e a natureza da beberagem que jogou no interior da cabaça.

Como disse, o líquido era um extrato de lúpulo, muito eficaz para acalmar a ansiedade12. Tinha, além do mais, um efeito sedativo que garantia um profundo sono reparador.
O essênio não se sentia seguro e, deixando-se levar pelo sentido comum, preferiu drogar o negro perigoso. Era uma fórmula habitual naquele lugar e com muitos daqueles
doentes. Mas havia também outra intenção nos gestos exagerados do inteligente egípcio. Aru, em sua demência, mostrava sempre alguns tiques ou sinais que anunciavam
ou pressagiavam as crises violentas. Uma dessas "manias" era uma obsessão incompreensível pela caixa de madeira do auxiliador e, especialmente, pelo seu conteúdo.
Se o louco via ou suspeitava qualquer manipulação da água ou da comida, diretamente relacionada com os "fármacos" de Assi, a negativa de ingeri-los era automática,
e se desencadeava imediatamente outro ataque de ira. Era por isso que Assi e sua gente procuravam ministrar os sedativos sem que o amok visse.

Nesta oportunidade, no entanto, tudo foi diante de seus olhos e com premeditação. E o essênio e seu ajudante, o Trevas, assistiram perplexos a reação pacífica do
rapaz. Aru não se intimidou. Terminou as uvas e, satisfeito, acompanhava com curiosidade os movimentos dos presentes.

12 A planta cultivada em sebes, valas e muros era bem conhecida pelos curandeiros daquele tempo. As flores femininas desta morácea proporcionam os frutos ricos em
tanino, trimetilamina, resina com ácido lupamárico e humuleno, entre outros, muito recomendados para a insónia e as alterações nervosas. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

Assi pediu ao demente que se aproximasse da cabaça. Esse foi outro momento de tensão, segundo o auxiliador. Trevas, com grande comedimento, ficou de cócoras diante
do negro e lhe ofereceu o recipiente. Não sei se conseguiu ver o rosto do demente. A questão é que Aru respondeu de uma forma imprevisível, nas palavras de Assi.
Tomou a tigela e bebeu até terminar a água e o lúpulo. Afastou a cabaça e esboçou um leve sorriso. De novo parece que descobri a gratidão...

Depois ele se recostou sobre a cinza e fechou os olhos. Assi expressou seus pensamento em voz alta...

- Não entendo isso...

Deixamos Aru e nos juntamos ao redor da fogueira que crepitava no centro da esplanada. Estava a ponto de anoitecer. Os relógios do módulo deviam mostrar 17h30.

Durante uns instantes observei os movimentos do chefe do kan. Aquele homem dedicado, generoso, paciente e amável se uniu ao grupo de Jesus e dos ajudantes na preparação
do jantar. Ia e vinha, fazendo de tudo. De vez em quando, espiava dissimuladamente o Mestre e, suponho, se perguntava o que acontecera com aquele negro violento
e errático. Agora, com a vantagem do tempo e da distância, é fácil chegar a conclusões. Na época (setembro do ano 25 de nossa era), não foi simples. Aquele auxiliador,
assim como o resto das pessoas com as quais Jesus de Nazaré conviveu, não podia saber quem era na realidade o Galileu. Eram amigos ou conhecidos, sim, mas insisto,
ninguém imaginava seu poder e, muito menos, sua natureza divina. Era lógico, portanto, que Assi quisesse saber porque sua voz e seu olhar eram tão persuasivos. Quem
era aquele Homem? Por que agia assim? O que é que acontecera com o negro "tatuado"? Nós também não soubemos com certeza naquela ocasião.

Eu aderi à tarefa de cuidar do jantar. O resto, com Assi liderando, resgatava as carpas cheirosas, os barbos e as tilápias da grande panela de ferro e repartia as
rações gordurosas entre os enfermos e os doentes mentais do outro extremo do kan, os quais este explorador tinha revistado. Em muitos casos, o peixe tinha de ser
cortado em bocados e levado à boca daqueles infelizes, incapazes de segurar um prato. Vários cortadores car-

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regaram algumas bandejas e se perderam no interior das choças de cana. Dessa vez eu não me mexi. Já tinha visto o suficiente...

Suficiente? E o Destino, mais uma vez, foi ao meu encontro. Enquanto cuidava do assado de um daqueles enormes bínít, ou barbos do Hule, de quase um metro de comprimento,
eu os vi se aproximarem. Formavam duas fileiras. Eram outros "inquilinos" do kan, permanentemente reclusos nas cabanas e que só pisavam a explanada para ser alimentados
ou lavados.

Os homens, não todos, vestiam modestos saq ou tangas pretas esfarrapadas. As mulheres, com as cabeças raspadas, apresentavam a mesma roupagem: túnicas que outrora
foram cor de laranja, agora ensebadas e em farrapos.

Enquanto se aproximavam da fogueira percebi alguns movimentos anormais, quase grotescos. Pouco depois, quando parei diante do fogo, comecei a compreender... Eles
andavam em ziguezague. Outros levantavam exageradamente os pés, e em seguida os abaixavam com força sobre as pranchas. Alguns, com as pernas rígidas, arrastavam-se
com passos lentos e curtos. Observei também os indivíduos que avançavam com a cabeça erguida, olhando fixamente para o céu. E entre aqueles não menos afortunados,
vários meninos e meninas, providos de bastões, e com o andar típico de "tesourada".

Um calafrio me visitou de novo... Os "possuídos", porque eram isso segundo o auxiliador, foram atados com uma corda comprida, amarrada a cada tornozelo direito,
o que anulava qualquer tentativa de fuga. Entre as duas correntes de "possessos", vi o enigmático Trevas, vigilante. Carregava nos braços uma criatura.

A um grito do encapuzado, aqueles que estavam na frente das fileiras pararam a pouca distância do fogareiro. Então, comecei a suspeitar aterrorizado...

Os supostos "possuídos" ou "endemoninhados" eram, na realidade, doentes e aleijados que manifestavam, junto com os transtornos mentais, os estigmas de sua doença.
Assim, os afetados por "paralisia cerebral" (encefalopatia estática) mostravam algumas conseqüências do problema: hemiplexia (com deformação "eqüina" da bacia, do
joelho e do pé), displexia (com joelhos e pés equinovaros) e tetraplexia espástica (com as extremi-

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J.J. BENÍTEZ

dades inferiores na posição típica "em tesouras"). Outros, com a medula lesada, apresentavam o que em medicina se chama "deambulação atáxica", ou seja, uma falta
de coordenação, especialmente nos movimentos musculares. Eram doentes aos quais, além de tudo, a "ataxia" em questão alterava os músculos do rosto e da língua, o
que provocava uma mímica marcante quando riam e quando tentavam falar. Essa situação, definitivamente, relegava-os à penosa e injusta classificação de loucos ou
possuídos pelas forças do mal.

Lembro de um daqueles infelizes com especial tristeza. Era muito alerta. Na juventude, como conseqüência possível de um tumor ou de uma hemorragia, seu cérebro ficou
afetado, o que causou um andar inseguro e chamativo. A cada passo se via na necessidade de separar as pernas, colocando os braços em cruz a fim de manter o equilíbrio
(deambulação cerebelar). Essa patologia era suficiente para negar a inteligência incontestável do indivíduo, condenando-o ao esquecimento e à miséria. Nesse caso
ocupava o primeiro posto em uma das cordas. Era um dos poucos que obedeciam ordens.

Aquele que encabeçava a segunda fileira também sofria de algum problema de origem nervosa. Ao andar, o pé, rígido, traçava um arco, evitando que os dedos colidissem
com o chão (caminhar conhecido como "do ceifado r", por parecer com o deslocamento da foice). Tanto esta quanto as outras síndromes tinham sua origem não numa possessão,
mas em alterações medulares ou cerebrais que remontavam ao nascimento ou ao período fetal13. "Endemoninhados"? Pobre gente...

Trevas ordenou que se sentassem. Primeiro o fizeram os "inteligentes". Depois, aos empurrões, os ajudantes conseguiram mais ou menos que os "possessos" se deitassem
sobre a cinza. As mulheres foram as mais recalcitrantes. E entre risos nervosos acabaram por se acomodar ao redor do fogo.

13 Muitos casos de paralisia cerebral, especialmente a chamada encefalopatia hipoxicoisquêmica, se devem a traumatismos ou complicações surgidos no parto ou durante
a gravidez. A escassez de oxigénio, por exemplo, lesa o cérebro e causa um atraso mental, dificuldades auditivas ou visuais, convulsões, hemiplexia ou tetraplexia
e deformações ortopédicas progressivas, entre outros transtornos. (N. do M.)

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Ao observá-las com mais detalhe pressenti que aquelas infelizes, também "diagnosticadas" como "possuídas", eram oligofrênicas14. Em outras palavras: seres humanos
de inteligência escassa ou, como os franceses preferem, "débeis mentais". Suas idéias e conceitos são tão pobres, sua experiência tão escassa e sua capacidade de
relação tão breve que os rendimentos intelectuais acabam sempre deficitários, para não dizer inviáveis. Ali, obviamente, ao ar livre, só se permitia a presença das
que manifestavam uma "possessão" leve ou moderada. As oligofrênicas graves ou profundas não saíam das cabanas. A incontinência dos esfíncteres, os atos impulsivos
elementares (masturbação etc.) e, em suma, a absoluta incapacidade para cuidar de si mesmas as mantinha prisioneiras nas cabanas. As débeis mentais de caráter leve
eram as menos conflitantes. Não sabiam distinguir um pássaro de uma borboleta, ou um menino de um anão, embora isso pouco importasse naquele lugar. Estavam sempre
apegadas ao concreto e ao material. Apenas tinham memória, e quando muito, Assi e os seus deviam ter cuidado com os utensílios que pegavam. Seu egoísmo era tamanho
que ficava muito difícil a devolução. As oligofrênicas "moderadas" eram mais complicadas. Desenvolviam também uma linguagem oral limitada, quase mímica, mas sua
dificuldade para compreender as normas sociais as tornava incapazes para quase tudo.

Possessão diabólica? Meu Deus do céu! Como fazê-los entender que não se tratava de espíritos imundos alojados naqueles desgraçados? Como lhes explicar que as oligofrenias
têm outra origem? Como dizer ao auxiliador que existem mais de dez causas conhecidas que podem levar a esse tipo de retardamento mental15?

14 Oligofrenia, termo cunhado por Kraepelin, procede do grego (oligos significa "pouco", e phren quer dizer "mente"). Segundo o critério psicométrico (Binet e Simon),
são considerados débeis mentais os indivíduos que não alcançam um quociente intelectual superior a 70. A Associação Psiquiátrica Americana, no entanto, estima esse
"limite" na faixa de 65-75, considerando que a inteligência não pode ser medida de forma matemática e muito menos com o auxílio exclusivo de testes. (N. do M.)

15 Entre as causas (etiologia) desse tipo de retardamento mental, segundo especialistas como Pitt e Robot, podemos estabelecer os traumatismos, tanto pré-natais
quanto

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}.}. BENÍTEZ

Eu me abstive, naturalmente. Não era aconselhável. Para Assi, e para a sociedade daquele tempo, essas mulheres eram "território" ocupado por uma legião de demónios,
todos a serviço de Yavé ou dos deuses, e todos encarregados de castigar os pecados daqueles infelizes ou de seus ancestrais. O fato de não conhecer sequer o próprio
nome - como podia fazer isso uma oligofrênica grave ou profunda? - era um "sinal" inquestionável do castigo divino. Era o que diziam. E para "dar o exemplo" ao resto
dos cidadãos sobre as conseqüências do pecado, vestiam as "endemoninhadas" com a cor laranja. Ao ver essas túnicas, todos sabiam o que esperar...

Jesus, imediatamente, parou de partir o pão e, dando a volta na fogueira, foi até uma das cordas de "endemoninhados". Um dos infelizes, não sei se por causa dos
empurrões ou por estar travado pela corda, caíra pesadamente e permanecia mudo, com o rosto enfiado nos dejetos vulcânicos.

Eliseu e eu o acompanhamos com o olhar. Acredito que o resto dos ajudantes não se deu conta da manobra decisiva do Galileu. E digo decisiva porque aquele ancião,
cego e surdo, estava se asfixiando com a cinza que cobria o kan. Pelo que pude distinguir, o homem padecia do que hoje chamamos de doença de Paget, uma enfermidade
de origem desconhecida que ataca essencialmente os ossos e os destrói de forma rápida e irregular. As pernas, muito arqueadas, pareciam de trapo. Não obedeciam às
ordens do cérebro. A superatividade osteoclástica deteriorou o esqueleto, atacando principalmente a cabeça. A doença o transformara num monstro, com

intranatais ou pós-natais (tentativas de aborto, anoxia fetal, hemorragias etc.), infecções (pré-natal: rubéola, toxoplasmose e outras doenças, ou pós-natal: meningite
e encefalite, entre outras doenças), transtornos metabólicos (hipotireoidismo, hipercalcemia idiopática, desidratação hipernatrêmica e falhas dos lipídeos, aminoácidos
e glúcideos), agentes tóxicos (envenenamentos, intoxicações maternas que podem afetar o feto, e filhos de mães diabéticas) e neoformações (neoplasias intracranianas
e facomatose, fundamentalmente). A esta etiologia é preciso acrescentar outras influências desconhecidas para a ciência e que, segundo todos os indícios, poderiam
ter raízes neurológicas. Exemplos: defeitos cerebrais congénitos, malformações múltiplas diversas, anomalias cranianas primárias, síndromes de nanismo intra-uterino,
mielomeningocele, hiperterolismo, doença de Crouzon, transtornos motores, epilepsia, leucodistrofias, ataxia de Friedreich, seqüelas de psicoses infantis e o denominado
"retardamento mental familiar cultural". (N, do M.)

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um engrossamento espetacular dos ossos do crânio. Eu jamais havia visto uma cabeça tão enorme e desproporcional...

O Mestre o ergueu e se apressou a limpar a boca e as fossas nasais. O homem respirava... Endemoninhado? Um pobre velho com uma osteíte que estava arruinando seus
ossos e que, presumivelmente, estava cego e surdo em conseqüência dessa inflamação aguda e crónica dos ossos? Era injusto, eu sei, mas devia me acostumar. Éramos
observadores. Só isso...

O Mestre, então, sentando-se junto ao ancião, pediu a Assi uma das rações de peixe. Trevas, atento, deixou o menino que carregava nos braços aos pés do essênio e
correu para cumprir os desejos do Filho do Homem. Jesus partiu a tilápia recém-assada e foi introduzindo o peixe na boca do "possuído". Uma apagada bênção foi a
forma particular de agradecer a ajuda do Galileu. Mas o ancião não obteve resposta. Jesus, sério e grave, só se preocupou em alimentá-lo.

Suponho que foi excessivo para ele. Meu irmão, desolado, escolheu se retirar. Fez um sinal para mim. Pegou a sacola de viagem e se afastou alguns metros do fogo.
Eu o vi se cobrindo com o manto e procurando se acomodar no chão de cinza. Aos poucos ouvi os roncos conhecidos...

A lua crescente se despedia já num firmamento branco e negro. Assi, tão esgotado quanto Eliseu, tomou o menino em seus braços e se dispôs a lhe dar comida. Não permiti
isso. Roguei-lhe que me entregasse a criatura. Eu faria isso. O essênio aceitou e, durante uns instantes, me contemplou com curiosidade. O comportamento daqueles
gregos de Tessalônica, silenciosos e ligados ao Galileu, não era muito normal. Eu me limitei a remover o pão de cevada que flutuava no leite. O que é que podia lhe
dizer?

E fui levar a tigela de madeira aos lábios do bebé, não acredito que tivesse mais de oito meses de idade, quando recebi o penúltimo susto daquele dia agitado. A
escuridão e a imagem do Mestre depositando o peixe na boca do homem da cabeça enorme me despistaram. O menino não reagiu à minha voz. A cabeça pendia flácida por
cima do meu antebraço. Como digo, eu me assustei. Depositei a colher no chão e tomei o pulso dele. Estava vivo, mas...

48 "

J.J. BENÍTEZ

O auxiliador, que não perdia nenhum detalhe, perguntou se além de "comerciante rico" eu era médico. A forma de tomar o pulso, no pescoço, não passou despercebida
para o egípcio perspicaz. Neguei como pude, e Assi tomou de novo o bebê e o suspendeu no ar, sustentando-o pelo peito. A criatura, nessa posição ventral, prestava
a forma característica em "U" invertido, com uma fixação deficiente dos braços e a referida flacidez da cabeça. Era como um farrapo.

- Seus pais pecaram - esclareceu o essênio -. Agora o Santo, bendito seja o seu nome, o castigou. Um espírito maligno o mantém dormindo o dia inteiro...

Guardei silêncio. O Santo, cujo nome não devia ser pronunciado, era Yavé. Quanto ao "castigo" pelo pecado dos pais!, não se tratava, certamente, de invasão de um
demônio, e sim de uma hipotonia, um grave problema neurológico que afeta o sistema nervoso periférico e que, definitivamente, provoca uma debilidade muscular. Eu
não quis entrar numa discussão que, com toda a probabilidade, não nos levaria a parte alguma. Além do mais, em todo o caso, este era um dos propósitos do Mestre:
mostrar ao povo judeu e ao resto do mundo o "novo rosto do Pai".

E tentando contemporizar me interessei pelo "demónio" que governava, como supus, o negro "tatuado". Seu comportamento esquisito, depois da crise, tinha me desconcertado.

O essênio, acirrado defensor dos anjos e demónios, assentiu com preocupação. Ele também havia notado alguma coisa singular, mas não sabia o que pensar. Na realidade,
não estava certo do tipo de demónio que morava nele. Podia ser um anjo caído, disse, ou talvez um dos filhos de Adão, "concebidos antes dos 130 anos, quando o pai
da humanidade teve, finalmente, um filho segundo sua imagem". Conforme ele falava, fui reconhecendo o quinto capítulo do Génesis.

- ... são invisíveis - prosseguiu Assi em voz baixa, como se temesse que os diabos pudessem ouvi-lo -, mas Trevas e eu temos visto suas pegadas nos pântanos. São
idênticas às pegadas dos galos, só que maiores...

Tratei de averiguar alguma coisa sobre a procedência e o perfil de Aru. Assi não sabia muito. Fazia parte de um love de escravos, trazido

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das terras da África (possivelmente dos oásis ao sul da atual Líbia) até o mercado de Damasco quando a caravana cruzou o caminho do chefe do kan. Assi, curioso,
inspecionou o "carregamento" e chamou a sua atenção o adolescente de então. Era forte, parecia sadio. Apontava para os círculos que cobriam quase todo o seu corpo
e repetia sem cessar "AruL.Aru!" ("Olha! Observa!", referindo-se às cicatrizes ou incisões que faziam a "tatuagem".) Assi nunca soube por que, mas decidiu comprá-lo.
Pagou uma "mina" (aproximadamente duzentos e quarenta denários de prata); um preço vantajoso em relação ao custo da época de um escravo judeu16. Não tardou em compreender
e se arrepender do "negócio". Ninguém lhe falou do mal que o rapaz padecia. Por isso, provavelmente o venderam por um preço tão irrisório. Desde então se passaram
cinco anos. Ao chegar ao kan, surgiram os problemas, e Aru teve de ser acorrentado. Num dos ataques de cólera feriu gravemente vários "endemoninhados" que, obviamente,
não podiam fugir para se defender.

Algum tempo depois, como mencionei em outro momento deste diário, o Destino revelaria o porquê da presença de Aru naquele albergue sinistro. Tudo efetivamente estava
"programado"...

Falamos então da manutenção do kan. Assi, compadecido pelo interesse do estrangeiro, foi aberto e disse que, apesar da vontade de Filipe, o tetrarca da Gaulanítide17,
que arcava com boa parte dos gastos (um talento e meio anual: quase vinte e dois mil denários de prata), a

16 O preço de um escravo pagão variava consideravelmente, segundo o lugar e as circunstâncias do mercado. Em Roma, por exemplo, oscilava entre cinco e cem "minas"
(uma "mina" equivalia a sessenta siclos ou duzentos e quarenta denários de prata). Em Jerusalém, o custo mínimo era de 0,25 "mina", e podia chegar a cem (ver Misná
B. Q. IV, 5). Na Judéia, o salário médio de umfelah ou camponês era de um denário por dia. (N. do M.)

17 Herodes Filipe foi um dos inumeráveis filhos de Herodes o Grande. Começou a reinar no ano 4 antes de Cristo e faleceu no ano 34 da nossa era. Governou os territórios
ao leste da Galiléia (Traconítide, Bataneia, Auranitide e Gaulanítide). Pouco teve a ver com a sangrenta família herodiana. Era um sábio, amante da natureza e, especialmente,
da geografia. Dedicou parte de sua vida para resolver o mistério do nascimento do rio Jordão. Interessou-se também por aquele "Galileu esquisito" chamado Jesus.
(N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

realidade daqueles doentes e impedidos (mais de sessenta) era bem mais penosa. Mesmo assim, ele continuaria à frente daquele desastre. Era médico e essênio, ou seja,
"duplamente humano". Eu estava, em verdade, diante de um grande homem...

O jantar terminou. O encapuzado recuperou o bebê hipotônico e com alguns gritos alertou as cordas de aleijados. Foi preciso o auxílio de vários ajudantes para colocá-las
em movimento. Aos poucos desapareceram na escuridão. Denário foi embora com eles.

Jesus voltou e, depois de alimentar a fogueira, sentou-se entre Assi e este explorador. Não falamos durante um tempo. Observei o Mestre. Continuava ausente. Seus
olhos permaneciam fixos no oscilar manso e vermelho das chamas. Depois, não sei se consumido pela tristeza, ergueu o olhar para as estrelas. Eu quis penetrar naqueles
olhos e averiguar o que estava acontecendo. Ele não deixou. Nesses momentos, como acontecera nas neves do Hermon, aquele Homem estava muito longe, em comunicação
íntima com o Pai. Era sua forma de rezar. Podia fazer isso em qualquer circunstância, sempre que desejasse ou precisasse. Eu me resignei. Se ele não aceitava o diálogo,
não seria este pobre observador que o forçaria. Devíamos ser muito sutis, quase estranhos, seguindo o Filho do Homem. Certamente nem sempre o conseguimos...

Assi, finalmente, rompeu o silêncio e dirigiu a conversa ao assunto que ficou em suspenso e pelo qual sentia especial atração: a possessão de Aru em particular e
a loucura em geral. Como já mencionei, o essênio estudou para ser rofé ou "auxiliador" nas prestigiosas academias de medicina da cidade egípcia de Alexandria, no
delta do Nilo, e nzper-ankh ou "Casa da Vida" de Assi. Daí recebeu seu nome.

Era ou se considerava aluno dos discípulos do lendário Hipócrates. Tinha lido muitas obras suas. Mencionou Da epilepsia ou enfermidade sagrada, Dos humores, Do regime
das enfermidades agudas, Ares, águas e lugares e Do oficio do médico, entre outras. Sua devoção, no entanto, era Herófilo, outro notável seguidor da medicina hipocrática.
De fato, como confessou, pertencia à chamada escola "herofilista", uma espécie de seita médico-filosófica que se extinguiu ao longo desse século I de nossa era e
à

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qual, ao que parece, pertenceram médicos tão renomados como Andréas de Caristo, perito em ervas medicinais (o primeiro que informou sobre os perigos do ópio adulterado);
Facas, médico de Cleópatra; Demóstenes de Marselha, ocultista, e Estrabáo, que fala dos "herofilistas" em sua obra A geografia. Foi de Herófilo de Calcedônia, a
quem Plínio chamou "oráculo da medicina", que aprendeu a "doutrina do pulso", e calculou que as palpitações só eram registradas no coração e nas artérias. Daí sua
surpresa ao observar que esse grego buscava um sinal de vida no pescoço do bebé. E foi de Alexandria, notavelmente influenciada pelos "herofilistas", que recebeu
novas ideias sobre a crasis ou harmonia, uma das chaves para entender as doenças, incluindo a loucura. Embora Assi fosse judeu e, como digo, pertencente ao grupo
essênio, não se prendeu ao obsessivo obscurantismo da lei mosaica a respeito da doença. E como um bom observador, duvidava daquele princípio supostamente irremovível:
pecado = castigo de Yavé = doença. Suponho que a revolução hipocrática o arrastou a um estado de dúvida saudável e permanente...

Para Assi, as doenças tinham uma tripla origem. Ele partia do pressuposto, falso, naturalmente, de um corpo humano integrado por sangue, pituíta (muco), bílis amarela
e bílis negra. Isso era tudo. Se esses elementos se encontravam em "discrasia" ou desarmonia, tanto em qualidade quanto em quantidade, aparecia o conflito. A doença,
portanto, procedia de um desequilíbrio dos humores, segundo rezava Da natureza do homem, de Hipócrates. No momento em que a pituíta ou a bílis amarga "ferviam" (!),
o indivíduo se transformava em louco. Esse processo, dizia, apresentava diferentes intensidades. Por isso havia loucos perigosos e outros muito mais calmos.

A segunda "fonte" de doenças se encontrava no vento. Para o auxiliador do lago Hule, tratava-se de mais um alimento, exatamente igual ao pão ou à bebida. Esse ar
penetrava nos vasos e nas cavidades do corpo, favorecendo o ingresso de miasmas perniciosos e, o que era pior, de todo tipo de espíritos imundos. O vento esfriava
o interior dos órgãos e provocava tremores, queimações e dores. A mais grave e comprometedora, segundo Assi, era a invasão dos seres humanos por Lilit e companhia,
um

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grupo de diabos femininos que se deslocavam justamente com o vento e que, uma vez misturados no sangue e no resto dos humores, ocasionavam paralisia de todo o tipo,
a doença sagrada (epilepsia) e acessos de fúria como o que acometia Aru.

A terceira etiologia ou causa de loucura era ainda mais confusa. O egípcio se apropriou de alguns princípios de Platão18, e os modificou segundo as idéias mosaicas.
O homem dispunha de uma alma imortal (no caso da mulher havia discussões complicadas), submetida ao corpo, localizada no interior da cabeça. Era o centro da inteligência
e dos sentimentos. Abaixo, no tórax, separada pelo pescoço, residia uma segunda alma que participava da razão e que era regada pelos influxos do coração, nódulo
de veias e fonte do sangue. Uma terceira alma, tão mortal como a anterior, estava aninhada entre o diafragma e o umbigo. Não dependia da razão; só da comida e da
bebida. Pois bem, as três almas podiam ser alteradas pelo vento ou pelo desequilíbrio dos humores. Se os espíritos maléficos se apossavam da segunda, residente no
peito, o sujeito deixava de utilizar a razão e se transformava num "possesso". Se se apoderavam da terceira, o infeliz perdia o apetite, deixava de comer e caía
num estado de prostração que desembocava geralmente na morte.

Embora eu tivesse informação a respeito, escutar dos lábios de Assi foi diferente. A realidade, mais uma vez, superava toda a ficção ou imaginação. Aru, definitivamente,
segundo o auxiliador, estava sendo escravizado por Lilit, o diabo-mulher que se introduziu furtivamente um dia em seu corpo e que invadiu a "segunda alma". E outro
tanto acontecia com o resto dos aleijados e dos dementes do kan. Todos, em maior ou menor medida, eram vítimas do "desfalecimento" das "três almas", que, por sua
vez, era conseqüência da ira de

Platão, embora não fosse médico, defendeu o princípio das "três almas". Considerava que o mundo era esférico e que os deuses o formaram com os quatro elementos básicos
(terra, água, ar e fogo). O homem foi criado com esses mesmos materiais e a divindade lhe deu de presente uma alma imortal e duas mortais. Segundo os defeitos e
as fraquezas do homem, essa criatura imortal podia ser transformada em mulher ou em animal numa segunda encarnação. As hipóteses de Platão causaram grande agitação
entre as culturas mediterrâneas de sua época e dos séculos posteriores. (N. do M.)

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Yavé, provocada, naturalmente, por seus pecados ou os pecados dos pais. Essa era a situação e, de certo modo, entendi o silêncio do Mestre. Não invejei seu trabalho
futuro como educador daquelas pessoas atrasadas e supersticiosas...

Assi percebeu o meu desalento e, otimista apesar de tudo, se apressou a enumerar alguns "remédios" com os quais contavam para controlar os espíritos imundos e, se
o Bendito ficasse aplacado, tirar da "escravidão física e moral" todos os doentes que o merecessem. Quando ele mencionou o Bendito (Yavé), olhei de soslaio para
o Galileu. Continuava absorto, com os olhos fixos no céu estrelado.

- Não é fácil - prosseguiu o essênio com sua exposição -, mas, de vez em quando, usamos pintinhos de falcão. Eles abundam no Hermon. A carne combate os "diabos"
e faz retroceder o deavón (pesar) e o kilayón (poderia ser traduzido como sensação de aniquilamento).

Deduzi que a suposta ação curativa das crias de falcão (mais do que suposta) poderia advir do fato de que os pintinhos eram alimentados com carne de serpente, o
"antídoto", segundo os médicos da época, contra as doenças mentais.

- ... Incluímos também carne de ouriço, ideal para o hipazón (esto uvamento) e para o isavón (nervosismo). Mas, como deveis saber, é a víbora que, devidamente cozida
com sal, vinagre e mel, é definitiva contra todo o tipo de sigaon (alienação, loucura).

Eu sabia alguma coisa. O Papai Noel, nosso computador central, nos informara a respeito. A carne da serpente, cozida no vinho ou no azeite e oliva, era um "remédio"
habitual, muito recomendado contra a asma, o reumatismo, a paralisia e a loucura em geral. No Talmud e na medicina grega daquele tempo se falava da tariaka, uma
espécie de "remédio de serpente", vital para as doenças degenerativas, respiratórias e mentais. Se a serpente era comida crua, macerada no mel, muito melhor...

- ... Mais escassos são o veneno e o sangue de cobra - acrescentou o auxiliador -. Não podem ser encontrados aqui, nos pântanos. Quando alguém nos traz, pagamos
um bom dinheiro. São muito eficazes contra o ivarón (cegueira espiritual), o simamón (estupor) e o sigayón (alucinação) (?).

Assi lamentou não poder praticar o que era recomendado pelos "he-

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rofilistas" para contribuir com a harmonia dos humores do corpo. Tinha razão. Aquele kan, perdido no fim do mundo, não era o lugar mais apropriado para a música,
o estudo ou a filosofia, como pretendiam os gregos.

Todos esses métodos, eu sei, eram de eficácia muito duvidosa para lutar com as síndromes mencionadas neurológicas, hereditárias etc. Mas eu tive de reconhecer uma
coisa: a entrega, o amor e a capacidade de sacrifício daquele homem eram tais que, em muitos momentos, a impotência na hora de curar era o que menos importava. Cada
vez que tive a sorte de encontrar com ele, e foram várias no terceiro "salto", aprendi muito. Assi sentia uma satisfação especial com aquele ingrato trabalho de
médico e repetia com freqüência que o juramento hipocrático19 o obrigava até a morte.

Assi insistiu. Embora não fosse um judeu ortodoxo e intransigente, confiava na Lei e em seu inspirador (Yavé). Era por isso ou acima dos remédios ou conselhos que
considerava Deus como o único rofé ou curador.

19 Os médicos educados nas escolas de Hipócrates concluíam sua graduação com um célebre "Juramento", uma bela expressão de ética para aquela época e também para
a nossa. Dizia assim: "Juro por Apoio médico, por Asclépio, Hígia e Panaceia, e coloco como testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder
e minha razão, o juramento cujo texto é o seguinte: Estimar da mesma forma que os meus pais aquele que me ensinou esta arte, viver em comunidade com ele, e se for
necessário, dividir com ele meus bens; considerar seus filhos como meus próprios irmãos, ensinar-lhes esta arte se precisarem aprendê-la, sem salário nem promessa
escrita; comunicar os preceitos, as lições e tudo o mais do ensino a meus filhos, aos do mestre que me instruiu, aos discípulos inscritos e obrigados segundo os
regulamentos da profissão, mas ninguém mais.

Aplicarei os regimentos, para o bem dos doentes, segundo minhas faculdades e o meu juízo, nunca para fazer mal a ninguém. Não darei a ninguém, por complacência,
um remédio mortal ou um conselho que o induza à sua perdição. Não darei a uma mulher um recurso abortivo. Conservarei puros a minha vida e a minha arte. Não praticarei
uma incisão num paciente de cálculos, deixarei esta operação aos praticantes. Em toda a casa para onde for, entrarei para fazer o bem aos doentes, mantendo-me
longe dos prazeres do amor com as mulheres e com os homens, livres ou escravos. Tudo o que no exercício ou fora do exercício da profissão, e no comércio da vida,
for ouvido ou visto e que não deve ser divulgado, eu o conservarei sempre como segredo. Se cumprir este juramento com fidelidade, que possa gozar de minha vida
e de minha arte com boa reputação entre os homens e para sempre; se não o fizer e o romper, que me aconteça o contrário." (N. do M.)

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Junto com as beberagens e a harmonia corporal, dava também especial importância à oração. No kan, todos os dias se escutava o "Schema Israel", umas bênçãos semelhantes
a uma espada de fio duplo, "definitiva contra os demônios noturnos". "E se o vento aumentava - acrescentou -, então era preciso recorrer aos tefilin ou filacterias,
as pequenas caixas de couro negro que amaravam no braço e na fronte e em cujo interior depositavam versículos da Bíblia. Um especialmente, o quinto do Salmo 91,
era recomendado contra Lilit e companhia: "Não temerás o terror da noite, nem a seta que de dia voa...". Hoje, muitos cristãos repetem isso durante a reza de completas
sem conhecer muito bem a origem do mesmo...

O misterioso homem com cabeça coberta pelo manto se juntou de novo à fogueira. O kan desfrutou então de um período de silêncio. Todos os doentes foram recolhidos
às choças. Trevas, em pé ao lado do auxiliador, permaneceu imóvel alguns segundos. Depois se inclinou e sussurrou alguma coisa ao essênio. Assi me observou.

Instintivamente me pus de guarda. Desviei o olhar até o meu companheiro. Eliseu continuava adormecido. Mais adiante, na escuridão entre as cabanas, adivinhei o vulto
de Aru, entregue também a um sono profundo. Por que Assi me escrutava com tanta severidade? Tentei lembrar os movimentos no refúgio, mas, exceto o incidente com
a mulher que padecia da síndrome de negação, eu não tinha consciência de ter infringido norma alguma. Ou se tratava de algo relacionado com o meu irmão?

- Trevas diz que te conhece...

A confusão se tornou mais densa. A inesperada resposta do essênio me deixou atónito.

- Não sei... - balbuciei.

A verdade é que não tinha a mais remota idéia. O manto impedia qualquer identificação... Trevas, compreendendo, foi se sentar perto dos lhamas e, lentamente, retirou
o roupão que o cobria. O fogo o iluminou e, quando o reconheci, senti um calafrio e entendi porque sempre se apresentava encapuzado... Era o indivíduo com o qual
eu tinha conversado brevemente durante nossa primeira visita ao kan. Sofria de um mal que provocava o medo e a repulsa dos que

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J.J. BENÍTEZ

o rodeavam. Era um "cara de cachorro", outro pobre doente atacado por "hipertricosis lanuginosa congénita", um hirsutismo ou abundância de cabelo duro e grosso que
enfeava o rosto e, suponho, todo o corpo. As conjuntivas avermelhadas, a falta de dentes e a fibromatosis gengival (gengivas ulceradas e inflamadas) acabavam transformando-o
num monstro repulsivo, mais próximo do mito do homem-lobo do que da triste realidade de uma síndrome de origem cromossomática. Por isso o chamavam "Hasok" ("Trevas"
em aramaico). Dificilmente dava para vê-lo à luz do dia, e muito menos com o rosto descoberto. Aquele homem sem dúvida era a mão direita de Assi. Todos o amavam
e o respeitavam. Seu coração, ignorando seu próprio problema, era amável e carinhoso. Sempre estava disposto a colaborar e a socorrer os mais fracos. No seu devido
tempo, em plena vida pública do Mestre, se transformaria em outra notável "referência" para este explorador. Uma "referência" que os evangelistas também não mencionam...

Trevas agradeceu por eu não ter desviado o olhar nem dado sinal algum de horror ou de repulsa por aquele rosto doente. Sorriu com os olhos e, imediatamente, voltou
a se cobrir, abaixando a cabeça.

Não sei porque fiz aquilo. Senti, talvez, uma raiva incontida contra aquela situação. Trevas não era um "endemoninhado" ou um louco. Por que vivia naquele lugar,
afastado de tudo e de todos? Por que Yavé permitia semelhante injustiça?

Interroguei o essênio sobre esse particular. Desta vez fui eu quem utilizou um tom severo.

- Responde primeiro minha pergunta - replicou Assi com idêntica firmeza -. O que é que buscáveis no kari! Quem sois?

Não tive oportunidade de responder. A voz profunda de Jesus se interpôs.

- Eu já te disse, querido Assi... Eles procuravam a mim.

Foi suficiente. O auxiliador aceitou e as dúvidas se dissiparam.

O Mestre, integrado novamente em nossa realidade, foi buscar uma carga de lenha. Alimentou o fogo e se sentou, deixando que o chefe do kan respondesse às minhas
questões.

" 57

- Eu te direi o que penso, Jasão. Trevas não sofre de um mal provocado pela possessão dos espíritos imundos. Suas três almas estão em perfeito estado. É algo pior
ainda...

Não consegui entender. Olhei para Jesus e me deparei com uns olhos serenos, quase cúmplices. Tive a sensação de que pediam paciência.

- ...No começo, quando veio até mim, experimentei todo tipo de remédios. O rosto de Hasok não mudou. Depois, conforme o conselho do livro dos Aforismos do grande
Hipócrates, procurei a solução usando o ferro. A doença, não obstante, resistiu.

"Experimentei usando o fogo..." Estremeci.

- ...Aí acabava o meu trabalho de auxiliador. Aquilo que o fogo não cura deve ser considerado incurável.

Eu continuava não entendendo.

- Finalmente, Trevas confessou: era um balai, um filho ilegítimo de um sacerdote20. Sua mãe, uma escrava, foi violada por um desses cães do Templo de Jerusalém...

Comecei a adivinhar. O grande "pecado" de Trevas que definitivamente provocou o seu mal foi o fato de ter sido concebido numa união não autorizada por Yavé. Essa
"mancha" era uma indignidade e, naturalmente, Deus castigava com crueldade extrema. Esse era o pensamento de Assi. Embora, como essênio, detestasse os sacerdotes
(daí o qualificativo de "cão"), compartilhava as ideias sobre a pureza de origem. O hirsutismo do halal, em suma, explicavase perfeitamente aos olhos dos judeus:
os pais pecaram (pouco importava que fora uma violação) e, conseqüentemente, o filho recebeu o castigo...

20 Como já afirmei em outra parte deste diário, a pureza da origem era uma obsessão para os judeus. A princípio, essas idéias nasciam de Yavé (Levítico 21, 7-14,
e 21, 15). Qualquer filho nascido de um casamento ou de uma união entre um sacerdote e uma mulher não reconhecida como pura era classificado de "profano" (halal
ou halalah). Além de não ter os direitos mais elementares, era tachado imediatamente de "pecador", e podia ser repudiado pela sociedade. Convém lembrar que os sacerdotes,
levitas e israelitas de direto pleno eram os únicos "não pecadores" perante Yavé. O resto, filhos ilegítimos de sacerdotes, prosélitos, escravos emancipados, bastardos,
escravos do Templo, filhos de pai desconhecido, castrados, homossexuais e hermafroditas eram lixo. (N. do M.)

5&

J.J. BENÍTEZ

- É esse o desejo do Santo, bendito seja o seu nome...

Fiquei mudo, olhando para eles. Não valia a pena discutir sobre aquele princípio injusto. Era isso que Yavé queria? O Deus dos judeus queria que a pureza na origem
fosse prioritária? Era capaz de castigar um inocente com a doença pela suposta culpa de seus pais? Que tipo de Deus era Yavé? Procurei me acalmar. A mistura de fanatismo
religioso, erro e superstição era habitual naquele tempo e entre os crentes da Tora ou Lei judaica. A situação, especialmente desde a volta do exílio da Babilônia
e a reforma de Esdras21, chegara a tais extremos que os contratos de casamento entre homens e mulheres judeus (de origem pura) só podiam ser assinados e ratificados
por sacerdotes, levitas ou por outros varões que provassem sua pureza racial, ao menos em cinco gerações. Mas havia mais coisas...

Os mais fanáticos acrescentavam à história tenebrosa da pureza na origem um elemento econômico e outro, digamos, "estético" que tornavam a vida de "pecadores" como
Trevas ou Aru ainda mais insuportáveis. Foi Yavé quem, desde o princípio, fixou as normas sobre curas. Só os

A obsessão de Yavé pela pureza racial, presente no Pentateuco, foi reforçada depois do exílio babilónico como conseqüência da mistura com os conquistadores. Depois
da vitória de Nabucodonosor sobre Judá no ano 587 antes de Cristo, as famílias judaicas que foram desterradas acabaram aceitando os persas e, segundo Esdras, ficou
ameaçada a legitimidade da origem implantada pelo Deus do Sinai. Por isso é que, seguindo as instruções do profeta (Esd. 9,1-10,44), quando voltaram da Babilónia,
os judeus puros separaram-se definitivamente daqueles que haviam se "contaminado" com os pagãos. Foi daí, fundamentalmente, que nasceu o problema racial e a prova
da legitimidade se transformou em moeda de uso legal. Para determinados judeus, os mais exigentes com a Lei, a pureza de origem era a garantia diante de Deus e a
única possibilidade de restabelecer e conservar a nação judaica. Só eles constituíam o verdadeiro Israel. Foi nessa época, inspirados provavelmente por Esdras, que
os judeus começaram a utilizar os nomes dos pais das doze tribos como designação de nomes próprios. Com o tempo, a pureza da origem se utilizou como "alavanca" para
mover influências e, definitivamente, para arrematar poder e riquezas. Somente aqueles que demonstravam essa "limpeza genealógica" tinham direito a determinados
trabalhos e privilégios. Essa pureza era exigida, inclusive, dos funcionários e de todos aqueles que faziam parte dos conselhos locais ou nacionais. Obviamente,
os "não puros" eram odiados por Yavé... (N. do M.)

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sacerdotes tinham essa faculdade. Se alguém, pecador, "endemoninhado" ou afetado por uma doença, desejava ser curado (ou seja, perdoado por Yavé), só tinha uma opção:
ir ao Templo e, mediante pagamento, entregar-se aos cuidados da casta sacerdotal. O "negócio", como é fácil imaginar, era perfeito. O problema surgia quando o "pecador",
que continuava com a doença em questão, voltava para os sacerdotes e exigia uma cura que não acontecera mediante o primeiro pagamento. O indivíduo tinha de desembolsar
pela segunda vez, uma terceira, uma quarta... O cidadão não melhorava e, finalmente, o prestígio do Templo ficava abalado. Quando acontecia isso, os sacerdotes se
empenhavam em incluir os recalcitrantes no submundo dos "impuros" (indivíduos que não podiam ser perdoados por Yavé), proibindo inclusive que se aproximassem do
recinto sagrado. Se os "pecadores" protestavam ou se mostravam irreverentes, o conselho (pequeno sinédrio) tinha a autorização para mandar para o exílio, argumentando
que "bastava a visão dos impuros para alterar o ânimo dos justos".

Não perguntei se aquele era o caso de Trevas. O que importava era que situações tão injustas conduziram à criação de guetos como o kan do Hule. Porque, em suma,
era isso mesmo: um lugar escondido entre pântanos, longe dos núcleos urbanos e das consciências dos mais religiosos.

- ... É isso que Yavé quer - murmurou Assi pela segunda vez -. Este é o desejo do Santo, bendito seja seu nome...

Ele não esperou pela resposta. Levantou-se e, depois de nos desejar a paz, foi até uma das cabanas. Hasok, Trevas, foi atrás dele. Imaginei que deviam madrugar...

Jesus, sentado com as pernas cruzadas, olhou de leve para mim. Foi como uma câimbra. Aquele olhar jamais passava desapercebido para o coração. Tínhamos ficado a
sós, com a única companhia do fogo e do silêncio. E, mais uma vez, ele facilitou as coisas...

- Acreditas que o Pai quer isso?

Olhei para ele sem entender. Ele prosseguiu com a voz comedida:

- Acreditas que o Pai condena seus filhos à doença?

60

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- O que importa, Senhor, não é que eu acredite, e sim que eles - e apontei para a escuridão das choças - entendam. Tu tens ensinado que este Pai é amor...

Guardou silêncio durante alguns instantes. Tive a sensação de que media as palavras.

Naquele tempo, como já relatei em outras ocasiões, a doença era uma conseqüência direta do pecado, inclusive por omissão. Era uma concepção exclusivamente religiosa
daquilo que hoje entendemos por doença ou patologia. Foi inventada pelos mesopotâmios22. A Bíblia está semeada por alusões a esta trágica equação: pecado = cólera
divina = castigo (doença)23.

- Aquilo que tu observas, que escutas e, sobretudo aquilo no que acabas acreditando, é muito importante. Tu és um enviado. Depois quando voltares, sê fiel. Outros
descobrirão a verdade por intermédio de ti. Tu és importante ou não?

Ele sorriu acolhedor. Jesus voltava a ser aquele do Hermon. Risonho, afável, comunicativo.

- Responde a minha pergunta: consideras que o Pai deseja o mal e a doença?

- Se eu tivesse um filho - respondi, um pouco angustiado -, nunca o castigaria com uma doença. Provavelmente - retifiquei -, não o castigaria...

22 A palavra mesopotâmica shertu significava ao mesmo tempo "pecado", "ira divina" e "castigo". Essa crença obrigava o médico a diagnosticar depois de submeter o
paciente a um interrogatório intenso e minucioso, no qual buscava basicamente a informação sobre a possível conduta "deletéria" do sujeito. Algo parecido com a confissão
dos católicos. Graças a esse "hábil interrogatório", o auxiliador estava em condições de averiguar que deus fora ofendido e por quê. No século VII antes de Cristo,
na biblioteca de Assurbanipal, já existiam documentos nos quais era estabelecido o modelo que o médico devia seguir: "O pai instigou contra o filho? O filho instigou
contra o pai? O amigo instigou contra o amigo? ...Disse sim quando devia dizer não? Utilizou balanças e pesos falsos? Tirou cercas, fronteiras ou estacas? Expulsou
de sua família um homem honrado? ...Sua boca tem sido reta e seu coração falso?..." (N. do M.)

23 Serve como exemplo o trecho do Salmo 38: "Yavé, não me corrijas na tua repulsa, em teu furor não me castigues. Tuas flechas penetraram em mim, sobre mim abateuse
tua mão; nada está ileso na minha carne, por tua ira, nada de são em meus ossos devido ao meu pecado." (N. do M.)

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E ficou flutuando na minha mente uma frase que eu não soube interpretar naqueles instantes: "quando voltares...". Por que falava no singular? Mas, perdido na conversa,
aquele "lampejo" importantíssimo se apagou e não voltei a lembrar dele..., até um tempo depois.

- Em verdade te digo, Jasáo, que estás próximo do âmago da questão. O problema é que não conheces o Pai ainda e, portanto, não sabes que as palavras "castigo" e
"pecado" não são concebíveis para Ele. Sois vós que levantastes essas calúnias contra Deus.

Ele percebeu a minha confusão e me animando com um sorriso interminável, cuidou de caminhar passo a passo.

- Comecemos pelo final. O que é pecado para ti?

- Se eu fosse religioso - expliquei -, entenderia isso como uma transgressão das leis e dos preceitos divinos.

- E quais são essas leis e normas?

Ele me surpreendeu. Sabia melhor do que eu. Ele conhecia a Tora e os 613 mandamentos revelados por Moisés (365 proibições, segundo o número de dias do ano solar,
e 248 ordens positivas que - diziam - correspondiam às partes do corpo humano). Não me deixou responder.

- Acreditas que o Pai ditou essas leis?

- Sempre achei que foi Yavé...

O olhar cortante me repreendeu.

- Não estou falando de Yavé, e sim do Pai, o Número Um, como diz teu irmão...

Ele me encurralou.

- Sabes qual é a única lei para o Pai?

- O amor. Isso sabemos por ti...

- E o profeta Amos resumiu isso num só mandamento: "Procuraime e vivereis". Isto é o que o Pai pede: procurá-lo. Essa é a única lei. Pois bem, dizei: que castigo
pode advir do descumprimento dessa lei? Acreditas que se o homem não busca Deus é um pecador?

Ele me deixou perplexo outra vez.

- Mas, querido amigo, embora seja importante, essa não é a questão principal. O problema, como dizia, é que a inteligência humana não está

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preparada para entender a natureza do Número Um. E lógico. Lembras da borboleta na ponta daquele galho?

Assenti em silêncio. O Mestre se referia à Euprepia. oertzeni, o belo lepidóptero que pousara no galho que Jesus segurava numa das inesquecíveis noites ao redor
da fogueira, no Hermon. Lembrava muito bem de suas palavras: "Dize-me, querido anjo, acreditas que esta criatura está em condições de compreender que um deus, seu
deus, a está segurando?"

- Não (disseste), a distância é grande demais... E o Mestre continuou abrindo caminho.

- ...Correto. Há uma distância tão imensa que nenhuma mente humana pode suspeitar como é o Pai. O finito (tu sabes muito bem) não abarca o infinito. Enquanto viverdes
submergidos no tempo e no espaço, não podereis intuir sequer o que existe mais além, nas regiões do espírito.

Jesus aliviou a tensão. Apontou para o firmamento negro e cintilan-

te e perguntou:

- A mente de Aru poderia captar a ordem que rege as estrelas? E, se não é assim, como aceitar que possa ofendê-las? Por que sois tão vaidosos e convencidos? Se nem
compreendeis Deus, como vos atreveis a colocá-lo no vosso nível? Como é possível que o julgueis capacitado para ser ofendido e para castigar?

Não pisquei. O Mestre foi categórico.

- ...Pecar? Achas de verdade que uma criatura finita pode molestar, injuriar ou provocar Deus? Acreditas que Deus é humano?

-Tu, sem dúvida, tens falado (e falarás) do pecado e dos pecadores...

- Eu vos disse uma vez: quando chegar a minha hora, falarei como educador. Tu, melhor que ninguém, deverias entender o que digo. Haverá momentos em que minhas palavras
deverão ser tomadas como uma aproximação da realidade. Estes - acrescentou, referindo-se aos habitantes do kan - são a conseqüência de uma época. Só conhecem uma
linguagem... Vós, por outro lado, estais mais próximos...

Eu o interrompi. O assunto do "pecado" me mantinha perplexo. Nunca fui um homem religioso e, de certo modo, a postura do Galileu me satisfazia. Mas...

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- Se o pecado não existe, ao menos como ofensa ao Pai, o que acontece com os assassinos, ladrões etc.? Não são pecadores?

O Filho do Homem esperava a pergunta. Esboçou um meio sorriso e negou com a cabeça.

- Uma coisa é tentar ofender o Pai (impossível, como tenho dito) e outra muito diferente é causar o mal a teus irmãos, os seres humanos. Quando alguém descumpre
as leis, está infringindo as normas regidas entre os homens. Não confundas este pecado com o outro...

- Mas, no final das contas, Deus castiga estes pecadores, digamos, "de segunda categoria"...

- Novo erro, querido Jasáo. O Pai é amor. Já falamos isso. Se o pecado não faz parte da consciência de Deus, e assim é, por que pensar que é um juiz que castiga?
Nem pecado nem castigo são conceitos compreensíveis para o amor. E Ele, teu Pai, é o Número Um, é o amor...

- Eu sei, com maiúsculas.

- Acreditas então que ele deseja e envia a doença? Silêncio.

- Podes admitir que uma pessoa enamorada nem consiga imaginar como ofender e castigar seu amado ou amada?

Jesus permitiu que as idéias planassem sobre o meu coração. Depois, pausadamente, foi descendo...

- O Pai (não Yavé) não faz contas. Eu já te disse: confia. Agora estais cegos, mas algum dia se fará a luz em vossas inteligências. Tudo obedece a uma ordem, inclusive
a maldade.

A palavra "ordem" se propagou solene em meu interior. Aquilo era novo para mim. Demasiado novo...

- Tu sabes muito bem, Jasão. A doença não é um castigo divino. Sua origem é outra. A doença só existe nos mundos materiais. Faz parte do processo natural. Mas como
explicar isto a estes pequeninos? Será que vós poderíeis fazer isso?

- Precisam de tempo - murmurei com tristeza.

- E vós também... Confia, querido amigo. Só se pede isso de vós: confiança. No amor não há restos.

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J.J. BENÍTEZ

- Então, Yavé... quem é?

- Melhor dizendo, quem foi?...

EspereHntrigado. O Mestre se perdeu no crepitar das chamas e permaneceu assim durante um tempo que me pareceu interminável. Eu me arrependi da pergunta. Talvez não
fosse oportuna. Finalmente, voltando para mim, explicou:

- Este é outro momento no qual minhas palavras só podem se aproximar da tua realidade. Digamos que foi um "instrumento"...

- Tu queres dizer que não era Deus?

Não respondeu. Seu olhar buscou de novo as brasas da fogueira e quem escreve acreditou "ler" no silêncio.

- Por que tanta confusão?

O Mestre voltou a negar com a cabeça. Em parte compreendi sua impotência na hora de transmitir idéias.

- Eu já te disse. Tudo obedece a uma ordem. Nada é por acaso. Aquilo que tu julgas confusão é falta de perspectiva. Acabas de ser imaginado por Ele. Acabas de aparecer
como criatura mortal. Tudo te parece confuso. És um recém-chegado. Confia e receberás a informação..., no momento adequado. Estes concebem Deus como um juiz e acreditam
que o ideal é a total submissão aos preceitos. A justiça divina (para estes) é algo lógico. No futuro, graças a mensageiros como tu, isto mudará. O mundo lembrará
minhas palavras. Reconhecerá o verdadeiro rosto deste Deus-Pai e, simplesmente, irá ao seu encontro...

- Um momento - interrompi -, estás dizendo que algum dia, no futuro, a justiça divina desaparecerá? Não é fácil conceber um Deus sem justiça...

- Agora é assim. Esta é a ordem daquilo que te falei. O amanhecer chega sempre depois da escuridão. Mas haverá uma manhã e o mundo descobrirá que o Deus justiceiro
(como Yavé) faz parte de um tempo passado. Tu és mais: dir-te-ei algo que já deverias saber...

Ele me observou divertido.

- O Pai nunca foi justo...

E o Mestre, compreendendo minha estranheza, suavizou a afirmação:

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- Assim como acontece com o conceito de pecado, sois vós homens que decidistes que Deus faz justiça...

- E não é o justo?

- O amor não precisa da justiça. Insisto: é o ser humano que se empenha em fazer Deus à sua imagem e semelhança. Eu disse em certa ocasião que a justiça divina é
tão eternamente justa que inclui inevitavelmente o perdão compreensivo. Agora, no silêncio deste lugar, te digo que minhas palavras são insuficientes. Agora, e para
ti, meu querido mensageiro, te digo que o Pai jamais precisou da justiça. Se o pecado, como a ofensa à divindade, não faz parte da consciência de Deus, de onde vem
a justiça? Compreendes o porquê das minhas palavras? Compreendes quando digo que Deus nunca foi justo?

- Permite, Senhor, que eu volte atrás. Se o Pai não precisa da justiça, o que fazemos com os maus? Quem os julga? Como e onde pagam suas atrocidades?

O Filho do Homem deu um profundo suspiro. Seus olhos, longe de repreender, me acolheram com doçura. E tentou descer até a minha realidade, mais uma vez...

- Este é um lugar especial - associei suas palavras ao kan (erro grave) -. Aqui, por desejo expresso da divindade, tudo é autorizado: o mais nobre e o mais baixo.
Mas isso, Jasão, não significa que a criação tenha escapado das mãos do Pai. Eu te disse: nada escapa do amor do Número Um. A maldade, inclusive, faz parte do jogo...

Certamente eu não prestava atenção suficiente. E, como um tonto, insisti...

- Mas quem faz justiça? Quem pede contas?

- Já falamos disso também. Depois da morte, ninguém julga. O amor nunca julga. Sê paciente e confia. Existe uma ordem que tu mal imaginas...

- Então o que devemos fazer?

Jesus respondeu com uma só palavra:

- YedaL. Dar graças!

Assim terminou aquele dia intenso.

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DE 19 A 22 DE SETEMBRO

Aquele novo dia, tão claro como o anterior, nasceu por volta de 5 horas e 16 minutos.

No início não entendi o motivo do corre-corre de Assi e de sua gente. Eles andavam de um lado para o outro. Entravam e saíam das cabanas e se interpelavam aos gritos.
Foi Eliseu quem me informou:

- Aru, o negro, desapareceu...

Minutos depois, Jesus retomava a caminhada. O essênio desculpouse com o Mestre. O jovem "tatuado" tinha desaparecido com o manto que o Galileu lhe emprestara. Era
a primeira vez que isso ocorria, se bem que, pensando melhor, era a primeira vez também que o demente amanhecia

sem as correntes...

Não me pareceu tão estranho. Eu também teria fugido daquele inferno... O Mestre não fez nenhum comentário. Despediu-se do kan e o vimos afastar-se, com suas passadas
típicas, em direção à estrada principal.

Tudo transcorreu bem, sem incidentes, até chegarmos à encruzilhada de Qazrin. Devia ser umas sete horas da manhã, mais ou menos. O Mestre seguia sozinho. E nós íamos
um pouco atrás, caminhando em silêncio. Cada um, suponho, absorvido em seus pensamentos.

Eu não podia deixar de pensar na checagem dos medicamentos que tínhamos feito bem na noite anterior. Como já disse, não tínhamos uma pastilha sequer de dimetilglicina,
o antioxidante usado para inibir o óxido nitroso que ameaçava nossas vidas.

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No acampamento do monte Hermon, misteriosamente, como sempre, ele procurou me acalmar. No entanto... Eu estava cheio de dúvidas. Não sabíamos para onde ele estava
indo, mas suspeitávamos que pretendia chegar ao yctm ou mar de Tiberíades nesse mesmo dia. Não perguntamos nada, nem Eliseu nem eu.

A caminhada tranqüila foi interrompida subitamente quando avistamos a pousada de Sitio, o homossexual de Pompéia. A uns cinqüenta metros destes exploradores, o Mestre
se deteve. Meu irmão e eu fizemos o mesmo. O que estaria acontecendo?

No mesmo instante, à nossa esquerda, junto ao muro de três metros de altura que circundava a hospedaria, distinguimos um indivíduo que corria em direção ao Filho
do Homem. Não foi preciso dizer nada. Nós, simplesmente, nos precipitamos para junto do Mestre. Porém, no meio do caminho, tive a impressão de reconhecer o rapaz.
"Não é possível", disse a mim mesmo.

O indivíduo aproximou-se de Jesus e, sem se deter, atirou-se aos pés do Galileu e abraçou-se a eles.

Eliseu e este que escreve, esbaforidos e desconcertados, diminuímos o ritmo. Quando cheguei perto de nosso amigo, vi que eu estava certo. Era o negro "tatuado"!
Nem Eliseu nem eu compreendemos nada.

O rapaz, agarrado às sandálias de Jesus, gritava e chorava desconsolado. E não parava de repetir em um péssimo aramaico:

- Aru! AruL. Olha! Olha!... Eu, teu escravo!... Eu, para ti!...

O Mestre abaixou-se e, com firmeza, sem dizer nada, obrigou o louco a se recompor. Louco? Examinei-o detidamente e ele não me pareceu doente. Apenas suplicava, entre
lágrimas, que Jesus aceitasse ser seu novo amo. Como já disse, Aru era escravo de Assi, o essênio. Um escravo pagão.

No mesmo instante, ele despiu o manto cor vinho que estava vestindo e entregou-o ao seu proprietário. Aru ficou nu. Meu olhar percorreu o corpo belo e musculoso,
e se deteve em algo que me pareceu estranho. As feridas do tornozelo esquerdo, provocadas pelo grilhão, tinham desaparecido. E aquela idéia que me assaltara no kan
do Hule veio a minha mente de novo...

O Mestre, sorridente, aceitou a entrega do manto e, como resposta, abraçou o jovem.

68

J.j. BENÍTEZ

Meu companheiro e eu nos olhamos atónitos. Será que aquele gesto significava que Jesus aceitava o negro como escravo? Rechacei a idéia. Isso era absurdo... Observei
o rosto do Filho do Homem. Continuava radiante. Os braços fortes envolviam o jovem, consolando-o. Então, nossos olhares se cruzaram e Jesus me deu uma piscada. Senti
um calafrio. Provavelmente, era a resposta à antiga suspeita de que, como eu estava dizendo, surgira nos pântanos. Foi assim que interpretei...

Nesse meio tempo, enquanto as lágrimas e lamentos de Aru iam cedendo, alguns vendedores que estavam encostados no muro negro de basalto em torno do mutatio ou albergue
foram se aproximando. Vinham cheios de curiosidade. Tinham assistido à cena e, intrigados, queriam averiguar o que estava se passando em seus domínios. Como já disse,
eles eram, em sua maioria, felah ou camponeses da aldeia de Qazrin e arredores. Todas as manhãs desciam à encruzilhada e instalavam suas tendinhas à beira da estrada
movimentada. Passavam o dia ali, oferecendo aos gritos frutas, verduras, cerveja, guisados de carne e peixe e, principalmente, os doces típicos da região: o "chocolate"
de keratia, a semente do haruv ou algarobo, grãos açucarados e ricos em cálcio. Outro dos fracos do Mestre...

Primeiro murmuraram. Depois, de forma mais ostensiva, aproximaram-se do negro e, apontando para ele, o identificaram. Então começaram os gritos, os insultos, as
maldições e os lamentos. A situação se complicou. Os demais vendedores, alertados pelos que tinham reconhecido Aru, juntaram-se ao grupo inicial, confirmando sua
identidade, o que aumentou ainda mais o vozerio e a confusão. Segundo meu cálculo, somando mulheres e crianças, os felah não eram menos do que quarenta ou cinqüenta.

Eliseu olhou para mim. Eu não sabia o que fazer. O Mestre, com o manto nas mãos, parecia tão perplexo quanto nós.

- É o ruah\ - repetiam ameaçadores. - É o diabo do kan\

De fato, ruah era um termo utilizado para designar um tipo de espírito ou demónio (provavelmente trazido da Babilónia) que se distinguia por ser particularmente
mau e feroz.

Entendi. Estávamos a uns seis quilómetros do kan dos loucos, e aquela gente, que conhecia os "inquilinos" do refugio de Assi, descobriu

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que o negro era o selvagem ruah que vivia acorrentado. E, naturalmente, todos se perguntavam como tinha escapado.

Aru, assustado, deu um passo para trás. As mulheres, aos berros, recolheram as crianças, e com suas túnicas amplas e coloridas ao vento, fugiram para a encruzilhada.
Outras foram em direção ao pátio em torno da pousada, sempre correndo e gritando por socorro.

Os homens, contagiados por aquele pânico supersticioso, imitaram as mulheres, mas apenas momentaneamente. A poucos passos, instigados por três ou quatro felah mais
audaciosos, reagiram. Voltaram a fustigar o "demónio tatuado", e avançando lentamente, aproximaram-se de nós. Os que marchavam à frente ergueram as pedras que tinham
nas mãos prestes a nos apedrejar.

Instintivamente, coloquei os dedos na parte superior da "vara de Moisés", e acariciei a cabeça do cravo de cobre que ativava o sistema de defesa dos ultrassons.
Não foi necessário. Os gritos e o avanço ameaçador da turba acabaram por despertar o assustado Aru. De um salto, desvencilhou-se do Mestre e correu como um gamo
para o pátio pavimentado. Depois de alguns segundos, desapareceu atrás da muralha que protegia a pousada. Os gritos e ameaças dos vendedores recrudesceram, e eles
saíram em debandada atrás do "demónio".

Permanecemos imóveis. Os homens passaram por nós sem sequer nos dirigir um olhar, e se dispersaram pelo pórtico. Então Jesus guardou o manto no saco de viagem e,
com seu mutismo habitual, entrou no albergue.

A reação do Galileu nos deixou desconcertados. Aquilo podia se complicar ainda mais. Eliseu foi atrás. Eu dei uma olhada ao redor e, depois de comprovar que a rua
estava deserta, segui os passos de meu companheiro.

Os vendedores agora formavam um círculo fechado no centro da esplanada. Continuavam com os punhos erguidos, vociferando e blasfemando.

Temi pelo pior. Com certeza, Aru estava sendo encurralado e acossado. O que fazer? Nada. Essas eram as normas do "Cavalo de Tróia". Não podíamos intervir. Apenas
observar...

O Mestre contornou a transtornada quadrilha defelab e, sem hesitar um instante, continuou caminhando em direção ao arco de entrada da

70

j.). BENÍTEZ

pousada propriamente dita. Parecia conhecer o lugar. Pelo menos, essa foi nossa primeira impressão.

Sem saber que decisão tomar, me deixei conduzir pelo instinto. Eliseu abriu passagem entre os camponeses e eu fiz o mesmo. A verdade é que não me agradava a idéia
de que Aru fosse apedrejado.

E o Destino, mais uma vez, zombou deste que escreve...

Entre os felah, pálido, sem saber quem ouvir, encontramos um velho conhecido: Sitio, o homossexual dono da pousada onde havíamos pernoitado no caminho para Hermon.
Vestia uma vaporosa túnica de seda azul que realçava o rosto estreito e ossudo e a cabeça totalmente descoberta. Na mão direita brilhava uma faca longa e afiada.
Do negro, nem sinal...

Os felah, todos ao mesmo tempo, exigiam a devolução do ruah. Sitio, sem entender, pedia calma. As mulheres o haviam alertado e agora, em meio àquela balbúrdia, tentava
descobrir o motivo da súbita invasão. Passaram-se alguns minutos. Finalmente, sua voz se sobrepôs ao tumulto, e ele assumiu o controle da situação. Os vendedores
cederam e um deles explicou o motivo da revolta.

- Aru? - perguntou por sua vez Sitio, sem dar crédito ao que ouvia. -Aqui? Impossível. Ele está acorrentado...

Os protestos recrudesceram. Então, resignado, Sitio deu por encerrada a discussão e autorizou que revistassem a pousada.

Foi só nesse momento, depois que todos se dispersaram, que Sitio notou a presença daqueles dois indivíduos, até então camuflados entre os felah. Reconheceu-nos de
imediato. E, atordoado - ou deveria dizer "atordoada"? -, veio logo nos cumprimentar, desculpando-se pela recepção inadequada e, principalmente, por não ter tido
tempo de se maquiar. Eliseu e eu trocamos um olhar de cumplicidade. Lembrávamos muito bem do primeiro encontro - mais que um encontro, uma "aparição" -, a peruca
loura, as castanholas, a dança grotesca com que nos recebeu naquele mesmo pátio e o espantoso vermelho escuro dos lábios. Mas, acima de tudo, Sitio era gentil e
atencioso. Disso também não havíamos nos esquecido.

Esperou que os vendedores encerrassem as buscas. Ninguém encontrou o "demónio do kan". Que fim levara esse negro enigmático? Nesse

- 71

meio tempo, enquanto osfelah andavam de um lado para o outro, Eliseu colocou-o a par do que ocorrera no kan, silenciando sabiamente sobre a presença de Jesus na
pousada.

- Assi libertou esse "endemoninhado"?

Como já havia demonstrado na primeira visita, Sitio conhecia bem os moradores da região. O essênio era um velho amigo e, como era de se esperar, não aceitou facilmente
a versão de meu irmão.

- Não pode ser... Assi sabe que esse negro é perigoso. Tem a força de dez homens e está louco. Eu jamais o deixaria livre...

- Mas foi o que aconteceu - acrescentei, confirmando as palavras de Eliseu.

Sitio compreendeu que não ganhávamos nada dizendo isso. Além do mais, o comportamento dos outros, osfelah, não era normal. E gaguejando, porque estava começando
a ficar amedrontado, perguntou quase que para si mesmo:

- Então, ele está aqui, na minha pousada? Não soubemos responder. Não tínhamos idéia.

- E de quem tu achas que foi a idéia brilhante de soltar a corrente de Aru?

- De Jesus de Nazaré - respondeu Eliseu, atento à reação do pompeano, que transpirava cada vez mais.

No primeiro encontro, tínhamos falado sobre ele, mas, até então, o Mestre era um ilustre desconhecido. Sitio não podia acreditar no que dizíamos, porém, intrigado
com nosso interesse pelo Galileu, prometeu investigar e, sobretudo, caso encontrasse com ele, fazer-lhe uma pergunta muito concreta: "És como Hillel1". Como já disse
também, o homossexual era um fervoro-

Hillel ou Hilel foi um dos jajamin, ou intérpretes da Lei mosaica, mais célebres de Israel. Nasceu na Babilónia (e por isso era chamado de "o Babilónico"). Sua família
era tão pobre que retornou a Jerusalém a pé. Durante muitos anos trabalhou como jornaleiro, recebendo um teroppaiq por dia (meio denário). Com isso alimentava sua
família e podia freqüentar as escolas ou casas de estudo. Certa vez - segundo o relato de Misná -, não dispondo do dinheiro necessário para entrar na aula, foi obrigado
a ficar ouvindo da janela. A neve e o frio quase acabaram com ele. Juntamente com

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só admirador desse sábio judeu. Boa parte das paredes do interior da pousada estava coberta de pranchas de madeira de todo tamanho, pintadas ou gravadas a fogo,
onde se liam frases, ditos e adágios particularmente profundos e sutis. Sitio, apesar de sua vida tumultuada, ainda buscava a verdade...

- Jesus de Nazaré? Sitio se recordou.

- O carpinteiro!... Vós tínheis interesse em conhecê-lo. Assentimos com um gesto.

- E quem é ele para agir de forma tão irresponsável? Continuamos em silêncio.

Sitio exigia uma explicação. Mas nós, simplesmente, não sabíamos o que dizer. Nem meu irmão nem eu tínhamos a menor idéia do que havia ocorrido. Imaginávamos que
o gesto de Jesus, ao libertar o negro, se devia à bondade daquele Homem maravilhoso. Não era só isso. Mas falarei a respeito no momento oportuno...

- Pergunta tu mesmo a ele...

Minha resposta, acompanhada de um sorriso sugestivo, iluminou o rosto descarnado de Sitio. Indicou com a faca a entrada da pousada e, arqueando as sobrancelhas,
exclamou:

- Está aqui?

Não esperou mais nada. Ignorou os felah que já iam saindo pelo pórtico do albergue. As coisas pareciam estar voltando ao notmal. E, chacoalhando as cadeiras e as
mãos despudoradamente como de costume, dirigiu-se à peça que funcionava como cozinha e refeitório.

Comecei a tremer. O que ele tinha em mente? Será que Aru estava lá dentro? Descartei essa possibilidade. Se estivesse, os vendedores o teriam encontrado.

Sammay, que também era rabino, formou uma das mais célebres duplas ou "pares" da sabedoria judaica da época. Faleceu, provavelmente, por volta do ano 20 de nossa
era. Jesus chegou a conhecê-lo em sua famosa escapada ao Templo quando tinha apenas treze anos de idade.

Hillel se destacou por sua humildade e por sua grandeza moral e intelectual. A chave da Lei ou Tora - segundo o Babilónico - estava no espírito, não nos detalhes.
(N. do M.)

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O mau cheiro e a imundície me fizeram lembrar onde estávamos. A pousada de Sitio, como já disse, não primava propriamente pelo esmero. A sala retangular, pessimamente
ventilada por duas janelinhas, conservava o fedor e a desordem de um mês atrás, quando decidimos fazer uma parada no caminho para as montanhas do Hermon. Precisei
de alguns segundos para me acostumar à penumbra. Havia uma lamparina em cada uma das duas mesas escuras e ensebadas de pinho carrasco, dispostas uma ao lado da outra
no centro da cozinha-refeitório.

Aparentemente, o lugar estava deserto. Essa foi a primeira impressão. Mas logo em seguida, enquanto a anfitriã remexia entre as vasilhas, distingui uma ténue luz
amarela de outra lamparina. Ela tremulava na escuridão quase absoluta em um dos cantos, na parede que se erguia à nossa esquerda. Eliseu e eu, sem saber que atitude
tomar, continuávamos imóveis sob o arco da entrada.

Sitio destampou um dos cinco barris que formavam o típico balcão daquelas pousadas e das tabernas em geral e encheu uma jarra com um vinho tinto espesso. Fez um
sinal indicando-nos uma das mesas. Obedecemos, e nos sentamos à que ficava mais próxima da parede onde a luzinha continuava tremulando. Eliseu me alertou:

-É ele...

E era mesmo. Quando saiu do lugar, distingui a silhueta corpulenta e familiar do Filho do Homem. Ele segurava a lamparina na mão esquerda, que subia e descia ao
longo do muro. Entendi. Jesus estava absorvido na leitura das inscrições que Sitio pendurara em três paredes. Lembro que na visita anterior consegui ler umas trinta,
a maioria em grego internacional (coiné) e aramaico. Algumas eram de Hillel. Era justamente uma dessas tabuletas que eu carregava no meu saco de viagem, presente
de Sitio. "Eu acreditava não ter nada - dizia a frase -, porém, ao descobrir a esperança, compreendi que tinha tudo."

Recusamos o vinho. Ainda era muito cedo para nós. Sítio, que ainda tremia, esvaziou o copo e ficou contemplando os movimentos pausados do carpinteiro.

- Não é possível - sussurrou -. Deve ter alguma coisa errada. Assi jamais permitira que soltassem esse possesso. Se ele matar alguém...

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Encheu o copo de novo e, sem esperar resposta, continuou falando baixinho.

- Em Roma, isso não teria acontecido... Com certeza, se eu conseguir agarrá-lo, vou devolvê-lo ao seu legítimo dono2.

Sitio provavelmente não ignorava que a Lei protegia o escravo fugido. O Deuteronômio (23, 16-18) diz claramente: "Não entregarás ao seu amo o escravo que tenha recorrido
a ti fugindo dele. Permanecerá contigo, entre os teus, no lugar que escolher em uma de tuas cidades, onde lhe pa-

2 Ainda pretendo dedicar um espaço ao doloroso fenómeno da escravidão nos tempos de Jesus, em particular aos escravos judeus, mas creio que é oportuno esclarecer,
aqui e agora, que Yavé autorizava e protegia a escravidão. Os testemunhos nos supostos livros sagrados (Êxodo 20,10e23,12, e Deuteronômio 23,16, dentre outros) são
eloqüentes. Entretanto, se a situação dos servos ou ebed israelitas era lamentável, a dos pagãos era ainda pior. Segundo as informações de que dispomos, na província
romana de Judéia, sob o mandato de Tibério, o número de escravos era estimado em quinhentos mil. Em Jerusalém, por exemplo, era rara a família que não tinha vários
ebed (chamados eufemisticamente de "servos"). Em outras regiões do Mediterrâneo, essa população de escravos era ainda maior. (No caso de Ática, na Grécia, o censo
do ano 309 antes de Cristo apontou o seguinte resultado: 21 mil homens adultos livres e quatrocentos mil escravos.) Esses infelizes, que se costumava comprar nos
mercados, eram vistos em geral como "ferramentas", sem qualquer direito, exceto os que se convertiam ao judaísmo. Varrâo pregava que "o escravo era uma coisa que
sabia falar". Para os judeus, os ebed não convertidos à sua religião só tinham direito a um dia de descanso por semana, como os animais. Nada do que eventualmente
possuíssem era seu, nem mesmo o que encontravam na rua. Não precisavam submeter-se à circuncisão contra sua vontade, mas se depois de doze meses de escravidão continuassem
pagãos, a Lei obrigava a que fossem vendidos a náo-judeus. Essa mesma Lei mosaica proibia a tortura ou a morte dos escravos, mas, ao mesmo tempo, incentivava os
amos a utilizar o castigo: "Faz trabalhar o servo - diz o Eclesiástico -, e encontrarás descanso, mas se deixas livres suas mãos, ele buscará a liberdade. Jugo e
correntes o domarão, ao mau criado torturas e inquisições..., se não obedece, enche seus pés de grilhões".

Naturalmente, o tratamento dado aos ebed dependia sempre da bondade do dono e de seu grau de reverência a Yavé. A liberdade podia vir a qualquer momento, conforme
a vontade ou os interesses do proprietário, como também o abuso. Era o caso das mulheres escravas. Quase sempre eram compradas como objetos sexuais para os homens
da casa. Se uma dessas ebed tinha um filho, este era considerado automaticamente como mais um escravo. Se o amo desejasse ou necessitasse, os escravos eram dados
de presente ou

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recer melhor; não o molestarás." Eu o adverti para isso, mas ele fugiu do assunto, argumentando que "não concordava com essa falsa lei judaica".

- Como pompeano e como cidadão romano...

Não conseguiu concluir a frase. Do fundo, com a chama amarela na mão, destacou-se a figura do Mestre. Caminhou até a mesa e, ao se aproximar de Sitio, colocou a
lamparina do lado da jarra de barro. Foram apenas dois ou três segundos. Jesus olhou fixamente para o homossexual. Era um olhar tão intenso quanto acolhedor. Sem
palavras. Sitio, com sua sensibilidade aguçadíssima, deve ter notado a força daqueles olhos. Notei que estava nervoso, piscando sem parar. Tentou dizer alguma coisa.
Impossível. Seu rosto empalideceu novamente. E Jesus, ainda olhando nos olhos do perplexo anfitrião, disse:

- Vamos..., temos de seguir viagem.

Eliseu e eu nos levantamos, dispostos a reiniciar a caminhada. Subitamente, deixando o copo sobre a mesa de pinho, Sitio ergueu-se e perguntou:

- Es como Hiller, o sábio?...

Hesitou um pouco, mas amparando-se na luz dos olhos do Galileu, concluiu o que pretendia dizer.

- ...Estes gregos garantem que és muito mais.

Nós não tínhamos dito isso, mas deixamos passar. Ele tinha razão.

O Mestre aproximou-se e colocou as mãos sobre os ombros de Sitio. O dono da pousada ficou sem reação. Aquele gesto típico e afetuoso deixou-o desarmado. Deu um sorriso
breve e, tocado pela cordialidade daquele Homem, imagino, baixou os olhos enrubescendo.

- Não, amigo, não sou como Hillel... - respondeu o Mestre com doçura.

Sacudiu levemente os ombros do homossexual, solicitando toda a atenção do ruborizado Sitio. O "homem" obedeceu prontamente e retribuiu o olhar.

utilizados como garantia. Não tinham direito a herdar, embora fizessem parte da herança familiar. Tampouco podiam testemunhar perante um juiz. Se uma mulher escrava
"náojudia" ganhava a liberdade, imediatamente era tachada de prostituta. Todo mundo sabia qual era seu destino: a rua ou os bordéis. (N. do M.)

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- Sou a esperança...

E apontando com a mão esquerda para a parede atrás de si, acrescentou:

- ...A que te falta agora...

Aconteceu de novo. Nunca me acostumei com isso. Como ele podia saber que faltava uma tabuleta de madeira naquela parede? Casualmente (?), a que falava da esperança,
e que estava guardada na minha mochila...

E desviando os olhos para este atónito explorador, deu-me uma piscada.

- Sim - balbuciou Sitio -, tens razão. Mas, dize-me, como posso recuperá-la?

- A esperança, querido amigo, sempre estará contigo. Agora está adormecida. Qualquer dia ela despertará...

- Qualquer dia? - protestou Sitio, impaciente. - Quando?

- Ainda não chegou a minha hora...

- Mas, quem és tu?

-Já te disse: sou a esperança. Quem me conhece confia...

- Quero conhecer-te melhor...

Jesus, comovido, concordou em parte com o pedido.

- Se tu desejas tanto...

Sitio incentivou o Mestre com vários movimentos afirmativos de cabeça. O magnetismo daquele Homem o havia cativado definitivamente...

- ...procura Aru. A esperança está com ele. -Aru?

- Depois, quando ouvires dizer que o Filho do Homem está entre vós, procura-me, se ainda desejares...

O albergueiro não compreendeu.

- Procura-me - insistiu o Galileu - e, juntos, despertaremos a esperança...

- O Filho do Homem? Quem és tu? Onde o encontrarei?

Jesus pegou o saco de viagem. Sorriu de novo para Sitio e, antes de se dirigir para a porta, lembrou a ele e também a nós:

- Ainda não chegou minha hora...

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E o dono da pousada permaneceu ali, desconcertado. O que ele quis dizer ao referir-se ao "negro tatuado"? Por que a esperança estava com ele? Por que não se identificou
mais claramente? Por que sugeriu a Sitio que o procurasse mais tarde, quando se tornasse conhecido por aquelas pessoas como o Filho do Homem. Não consegui responder
e decidi aguardar. Era a única coisa que podia fazer. Ele sabia...

Só uma hora depois, mais ou menos na terça (nove horas da manhã, aproximadamente), Eliseu rompeu o silêncio. Estávamos na encruzilhada de Jaraba, local onde o menino
surdo-mudo - Denário - teve a má sorte de ser derrubado por um dos asnos núbios de Azzam, o árabe que traficava o apreciado vinho de zimbro. Segundo meus cálculos,
faltavam duas horas e meia para avistarmos a superfície prateada do yam, admitindo que Jesus estivesse indo em direção ao mar de Tiberíades...

Ao passar por outro ajuntamento de vendedores, meu irmão e eu abaixamos a cabeça para que eles não nos reconhecessem. O incidente ocorrido não fazia muito tempo
naquela paragem, quando fui obrigado a deixar três camponeses inconscientes, foi bem desagradável. Se alguém se lembrasse de nós, poderíamos ter problemas de novo.
Não aconteceu nada.

E quando já estávamos deixando para trás quase todos osfelah, Eliseu, como eu disse, fez uma pergunta ao Galileu. A pergunta, tão inesperada e audaz, me deixou mudo.
Eu jamais me atreveria a tocar nesse tema. Mas Eliseu era assim, e, de algum modo, fiquei agradecido. Hoje sei mais graças a ele...

- Dize-me, Senhor, como explicar a homossexualidade em um reino tão perfeito como o do Pai?

Entre curioso e um pouco irritado, aguardei a resposta do Mestre. Jesus, porém, como se não tivesse ouvido, continuou andando, escoltado por estes dois exploradores
cheios de expectativa.

Eu compreendia as dúvidas de Eliseu. Sitio, além de pagão, era homossexual. Isto é, duplamente passível de culpa aos olhos dos ortodoxos e estritos observadores
da Lei de Moisés. Yavé os condenava sem concessões. A sodomia, abordada no Génese (corrupção em Sodoma), era motivo de suplício. A união com o varão (como confirma
o tratado Yebamot, cap. 8) era um crime que merecia ser punido com a morte.

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J.J. BENÍTEZ

E o pior é que a Lei mosaica e as tradições orais judaicas juntavam no mesmo "saco" e no mesmo conceito eunucos, afeminados, andróginos (indivíduos de dois sexos),
castrados e pessoas de sexo duvidoso. O Deuteronômio (Yavé, em última análise) proclamava claramente: "A mulher não se vestirá como homem, nem o homem se vestirá
como mulher, porque quem o faz é abominação a Yavé, teu Deus" (22.5). (Os judeus incluíram isso entre os 365 preceitos negativos que todos deviam evitar.) O desprezo
dos rigoristas era tal que chegaram a incluí-los em uma lista na qual, obviamente, ocupavam os últimos lugares (ver Tos. Meg. II, 7). Os primeiros - os mais dignos
- eram os sacerdotes, levitas e israelitas de pleno direito (nessa ordem), seguidos dos prosélitos, escravos emancipados, filhos ilegítimos de sacerdotes, escravos
do Templo, bastardos e, por último, os homossexuais, incluindo os castrados, tumtôm (indivíduos com as partes sexuais ocultas) e hermafroditas. Yavé - segundo o
Pentateuco - maldizia-os, e rechaçava inclusive aqueles cujos órgãos sexuais tinham sido esmagados ou amputados (Deuteronômio 23, l)3. Essa condição de homossexual,
andrógino etc. significa ficar marcado para sempre como "pecador". Eram suspeitos de relações sexuais "não autorizadas" e, conseqüentemente, candidatos à pena capital,
como proclamam os Livros Sibilinos. A pior situação era a dos hermafroditas4. Eles eram considerados monstros de feira e repudiados em seu duplo papel de afeminado
e mulher. Sobre eles pesava a impureza do sémen e do sangue menstrual. Eis o que diz a Misná (tratado Bikkurim) sobre isso: "Os andróginos se contaminam com o branco
[esperma], como os

3 Segundo as escolas rabínicas, os eunucos a que Yavé se refere eram os eunucos castrados pelas mãos do homem. Segundo a Bíblia, eles não podiam pertencer à comunidade
de Israel. Eram igualmente amaldiçoados. Não participavam do sinédrio nem dos tribunais de justiça. (N. do M.)

4 Hermafrodito foi um personagem mitológico, filho de Hermes e Afrodite, ou Vénus, que era dos dois sexos. A presença de um e de outro sexo, com órgãos genitais
internos e externos geralmente ambíguos, provoca estados patológicos de intersexualidade. (N. do M.)

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varões, e com o vermelho [menstruação], como as mulheres... Podem trazer as primíciais [ao Templo], mas não podem fazer a oração, já que não podem dizer: "Que tu,
Senhor, me deste." (Deuteronômio 26, 10). Segundo a Lei, "não podiam ficar sozinhos com os homens, como as mulheres, nem sozinhos com as mulheres, como os varões".
Não recebiam herança, como as mulheres. Nem estavam habilitados a depor em um tribunal ou a comer coisas santas, do mesmo modo que as fêmeas. Não eram nada.

Portanto, Jesus começava a marcar posição. Chamar de "amigo" um homossexual era um precedente que não deviríamos esquecer. Ainda estávamos no ano 25...

Nesse instante ele fez um desvio e tomou a margem esquerda do caminho. Ali, sobre a cinza, entre enormes cestos de folha de palma, um velho badawi (beduíno) aguardava
sentado. Era um vendedor de uva.

O Mestre olhou atentamente para os cachos amontoados. Havia ali as famosas uvas da alta Galiléia, particularmente das regiões de Batra e Rafid. Eram uvas de um vermelho
aveludado, chamadas de aríje, cultivadas em cepas de um metro de altura. E havia também uvas originárias da África, igualmente enormes, negras e lustrosas como o
azeviche. Distingui ainda as verdes e brancas, do tipo albilho e abehar, umas de casca fina e outras de casca grossa, dulcíssimas...

O nómade, animado com a presença daqueles possíveis compradores, espantou os bandos de vespas que zumbiam sobre os cestos, e com um forte sotaque aramaico incentivou
o cliente mais próximo - no caso Jesus
- a provar a mercadoria.

- ...As anavim (uvas) são um presente dos deuses - disse -. Além disso, clareiam a pele. Vão iluminar teu rosto...

Jesus deslizou a mão esquerda sobre uns cachos brancos com pintas pretas e, depois de vacilar um pouco, arrancou uma das uvas. Ergueu-a e olhou-a contra o sol, constatando
admirado a textura e a firmeza da polpa. Depois virou-se para trás e ofereceu-a ao engenheiro, sugerindo-lhe que a degustasse. E perguntou sorridente:

- O que estavas me dizendo?

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Eliseu, desconcertado, não respondeu. Ambos sabíamos que o Mestre tinha ouvido muito bem e que sua memória era excelente. Estava tramando alguma coisa...

- Muito doce - respondeu meu irmão finalmente. - Quanto à minha pergunta...

Vi que ele vacilava. Achei que tinha recuado. Mas não. Eliseu não era daqueles que se intimidam ou que desistem. Encarou o Mestre e prosseguiu:

- ...só queria saber tua opinião sobre a homossexualidade.

Jesus contemplou-o em silêncio. Percebi uma pitada de ironia no olhar. Nós três lembrávamos da pergunta original. O sentido não era o mesmo. Mas o Galileu logo afastou
aquela leve sombra e, colocando as mãos sobre os ombros robustos do engenheiro, respondeu em um tom que não admitia discussão:

- Filho, tu crês que o Pai comete erros?

Ato contínuo, sem esperar resposta, pagou um quadrante (um quarto de ás, níquel puro) por um cacho longo e ralo da uva que tinha oferecido a Eliseu, dividiu conosco
e retomou a marcha.

Quase não nos falamos no resto do caminho. Eu estava tentando resolver o enigma que o Filho do Homem deixou no ar. Não sei se consegui. O que ele quis dizer? O exemplo
utilizado - uma uva: dulcíssima e perfeita - foi muito didático, tanto para Eliseu como para mim. Além da beleza daquela uva engor, seu conteúdo não podia ser mais
rico e equilibrado5. Se Deus era responsável por tal perfeição - continuei pensando - como entender uma anomalia como a homossexualidade? Como explicar outros "erros"
(?) da natureza? Por que das síndromes que tínhamos acabado de presenciar no kan do Hule? Se o reino do Pai era perfeito - como disse meu irmão em sua primeira pergunta
- como explicar tanta miséria e dor?

5 Entre 12 e 30 por cento são constituídos de açúcar, ácidos orgânicos, minerais, tanino, matérias nitrogenadas, vitaminas e colorantes (localizados sobretudo na
pele). O restante é água. Seu valor nutritivo é muito elevado. (N. do M.)

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Nesse momento, a caminho doyam, me veio à mente um comentário feito pelo Galileu na noite anterior, ao ser indagado sobre os maus e sobre a justiça divina. Ele respondeu
com aquela segurança que me deixava desconcertado: "Este é um lugar especial. Aqui, por desejo expresso da divindade, tudo é permitido: do mais nobre ao mais vil.
Mas isso, Jasão, não significa que a criação tenha escapado das máos do Pai". Achei que ele estava se referindo ao kan. Agora sei que não se tratava disso. O Mestre
falava do nosso mundo. Um lugar especial? Quem sabe um planeta experimental, onde "alguém" permite e até programa a doença e o mal quimicamente puro? Jesus nunca
mentia. Se ele dizia que a Terra é um lugar especial, assim devia ser. E prometi a mim mesmo aprofundar-me nisso. Não sei porque, mas intuí que a resposta dada a
Eliseu - "Tu crês que o Pai comete erros?" - tinha uma estreita relação com aquele comentário do Mestre no kan, junto ao fogo: "Este é um lugar especial..." Se a
homossexualidade é algo "previsto" pelos céus - nem sequer pensei nas razoes - seria mais fácil entender sua possível origem genética6. Se fosse assim, por que condená-la
ou desprezá-la? "A homossexualidade não é um erro de Deus." Foi assim que interpretei as palavras de Jesus. Nós é que somos ignorantes. "Tudo obedece a uma ordem..."

6 Atualmente, a maior parte dos médicos considera a homossexualidade como uma doença psiquiátrica. Esse suposto transtorno mental (como o qualifica a Organização
Mundial de Saúde em sua nona classificação) afeta hoje 5 por cento da população, segundo os estudos de Kinsey (cerca de trezentos milhões de pessoas). Outros especialistas
estimam essa porcentagem em torno de 10 por cento. Pessoalmente, não estou muito convencido da origem psiquiátrica da homossexualidade. Há alguns anos, por razões
de meu trabalho, tive conhecimento de um projeto desenvolvido pela Marinha dos Estados Unidos que recebeu o nome secreto de "Task Force" (Força de Choque). Aproveitando
as experiências de geneticistas tão renomados como Dean Hamer (Ogene de Deus, Ed. Mercuryo, 2005), os laboratórios militares fizeram uma pesquisa para averiguar
se a homossexualidade masculina tinha um caráter hereditário. Se os resultados fossem positivos, haveria uma possibilidade de anular ou conter essa "deformação",
que tantos problemas causava - e ainda causa - a essa Força. Foram realizados testes com mil gémeos verdadeiros, e constatouse que 50 por cento dos gémeos de pais
homossexuais também eram homossexuais. Esse caráter parcialmente hereditário animou os pesquisadores. Pouco depois, localizou-se uma região nos cromossomos ("Xq
28") que poderia ser a origem do problema. Entre os voluntários, quase 90 por cento dos gémeos homossexuais apresentavam o mesmo

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Ao deixar para trás a "clareira do ruivo", Jesus apressou o passo, distanciando-se destes exploradores. Pouco depois, ao cruzar a ponte sobre o primeiro desaguadouro
do rio Jordão, seguiu direto. Só então tivemos certeza de que se dirigia para Nahum (Kefar Nahum), também conhecida como Cafarnaum pelos cristãos. As balizas ou
miliares indicavam uma distância de 3,3 milhas romanas desse povoado e duas milhas de Beth Saida Julias. Em menos de uma hora avistaríamos Nahum.

Observei o sol. Ele se aproximava do zénite. Estávamos perto da sexta (meio-dia). E me perguntei: se o Mestre parasse em Nahum, o que faríamos? E por que pararia
ali? De fato, não sabíamos nada sobre os planos imediatos do Galileu. Será que ele tinha família naquele povoado? Poderia ser um local de passagem - talvez para
pernoitar
- como ocorreu no kan de Assi? A única coisa que tínhamos certeza é que, chegando a Nahum, estaríamos a pouco mais de nove quilómetros do cume do Ravid. O "berço"
e nossas reservas de antioxidantes continuavam ali. Talvez devêssemos subir ao "porta-aviões" e verificar o estado geral da nave. Embora tudo estivesse nas máos
impecáveis do computador central, de vez em quando batia a intranqüilidade. "Se o Destino assim o quiser - me disse - hoje mesmo estaremos em nosso lar. O ocaso
será às 17 horas e 38 minutos. Há tempo suficiente para chegarmos lá em cima ainda com luz."

Porém, o Destino tinha outros planos. Não demoramos a perceber.

conjunto de cinco marcadores. Em outras palavras: eram os genes que interferiam no hipotálamo, favorecendo a homossexualidade. Os cinco marcadores (pontos do genoma
nos quais a sequência do ADN varia de um indivíduo a outro: polimorfos) - casualidade?
- foram detectados no extremo da abertura mais longa do cromossomo "X" naquela faixa "Xq 28". O número de genes envolvidos era de 101. O sistema, conhecido como
"clonagem posicionai", deixou claro que a homossexualidade é transmitida sempre pela mãe (o cromossomo "X" é herdado por via materna). Não se sabe por que, mas a
questão é que os indivíduos com essa zona cromossômica mais longa têm a tendência a produzir um maior volume de serotonina (uma vez e meia superior à que proporciona
a forma curta). Portanto, para os pesquisadores parece claro: a homossexualidade tem uma origem cromossômica. Simplesmente se herda, como a cor dos olhos, do cabelo
ou a tendência a padecer de determinadas doenças. Esse é o critério dos militares. (N. do M.)

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Nahum, como já mencionei nestas memórias apresadas, era um povoado grande; náo me atreveria a qualificá-lo de cidade. Reunia umas nove mil almas, embora a população
flutuante fosse considerável.

Meu irmão e eu nos detivemos por alguns instantes. O Mestre seguia à nossa frente, a pouca distância.

Nahum era um todo escuro, sem limites precisos, com exceção do yam ou mar de Tiberíades, que surgiu azul e ondulado no extremo sul. A pedra escura e vulcânica -
o basalto - predominava em todo aquele núcleo cosmopolita, situado em um privilegiado entroncamento de caminhos. Era como uma Jerusalém em miniatura. Embora Nahum
fosse judia, seus habitantes formavam uma intricada mistura de gentios, entre os quais se destacam fenícios, beduínos, gregos, egípcios, mesopotâmicos e até orientais,
oriundos das longínquas regiões das atuais China e índia. Para ali convergiam caravanas procedentes da Nabatéia, de Tiro, do delta do Nilo, da rota da seda e do
reino de Sabá, entre outros. Ali, em suas ruas e mercados, conviviam pacificamente credos, filosofias e esperanças. Ali se adoravam os deuses da Numídia, da Córsega,
da Grécia, do Egito, dos desertos da Líbia, da Gália, da Pérsia, das distantes terras germânicas e, naturalmente, o inflexível Yavé.

A fumaça branca das casas espalhou-se repentinamente, encobrindo a massa negra do povoado. Era o aviso. O pontual vento do oeste se lançara sobre o Kennereth, agitando
as águas do lago e dando vida às embarcações que o atravessavam. O maarabit soprava até o pôr-do-sol. Quando isso ocorria, Nahum, assim como outros povoados e aldeias
das costas do yam, ficava quase irrespirável. O pó das ruas subia, e os redemoinhos, junto com a fumaça dos fogões, deambulavam pelas esquinas, ferindo e sufocando
quem cruzasse seu caminho.

Eliseu ponderou que não devíamos perdê-lo de vista. Ele tinha razão. Se o Mestre desaparecesse, poderíamos ter problemas. E seguindo seu conselho, fomos ao seu encalço
na pequena ponte que se estendia sobre o rio Korazaín, nas imediações de Nahum. As águas terrosas corriam minguadas em conseqüência da estiagem.

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E então reparei. Eu já náo me lembrava mais. Junto à pontezinha, à nossa esquerda, surgiu o velho casarão que funcionava como "aduana". Diante da lembrança, meu
coração teve um sobressalto. Ali trabalhava Mateus, um dos íntimos de Jesus, ou melhor, que seria - no "futuro" - um de seus discípulos.

Como reagiria o Mestre? Será que ele já sabia quem iria compor esse grupo inicial de apóstolos? Depois de tudo o que tinha visto e ouvido naquelas semanas, por que
eu ainda me assombrava? Pobre ignorante! Não sabia nada sobre aquele Homem!

O edifício, tão obscuro como a reputação dos inspetores do fisco que o ocupavam, era um lugar obrigatório. Ele ficava próximo do limite dos territórios regidos por
Felipe, ao norte, de onde vínhamos, e por Herodes Antipas, seu meio-irmão, que - teoricamente - reinava na Galiléia e na Peréia. Qualquer um que cruzasse num sentido
ou no outro era inspecionado. O "pedágio" dependia da carga e do bom humor do publicano de plantão...

Fomos nos aproximando lentamente. Na fachada norte, encoberto entre as sombras de duas frondosas figueiras, Mateus (seu verdadeiro nome era Matatiahu) roncava inofensivo.
Na mesma parede, apoiados nas pedras de basalto, descansavam as lanças, os escudos vermelhos e ovalados e os temíveis gladius hispanicus (as espadas de fio duplo)
dos soldados romanos que normalmente protegiam o lugar. Não chegamos a vê-los. Talvez estivessem descansando ou dormindo no interior da "aduana". A temperatura no
yam devia estar próxima de
25 graus Celsius.

Fiquei aliviado. A presença das tropas auxiliares - geralmente samaritanos, sírios ou germânicos -, de extração social muito baixa, era quase sempre fonte de conflitos.
Eu sabia disso por experiência própria...

Esperávamos a reação do Mestre. Ele não se moveu. Durante alguns segundos ficou parado a uns dois passos do arrecadador de impostos. Eliseu e eu nem ousávamos respirar.
Só se ouviam os roncos - heróicos - e o zumbido dos insetos, apinhados sob as grandes folhas verdes das figueiras, aproveitando seu frescor.

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Mateus, como eu já disse antes, era relativamente jovem. Devia ter então (ano 25 da nossa era) uns 31 anos. A mesma idade do Mestre. E digo relativamente jovem porque
a expectativa média de vida dos varões na época não passava de 45 anos...

Recostado no muro, com a túnica de linho branco molhada de suor, Mateus às vezes reagia automaticamente ao assédio das moscas e insetos. Quando o conheci era magro,
ligeiramente encurvado e os cabelos ruivos e ondulados estavam sempre meticulosamente lavados e penteados, à altura dos ombros estreitos. Sua estatura - cerca de
l ,75 metro - e aquele perfil afilado davam uma impressão falsa. O publicano não era frágil. Ao contrário. Mateus era um judeu de grande força exterior... e interior.
Logo comprovaríamos isso...

Curioso Destino. O Mestre se depararia justamente com os dois símbolos mais abominados por seus compatriotas judeus: o invasor romano e os publicanos ou arrecadadores
da fazenda. Estes últimos eram particularmente odiados pela população. Os gabbai - como eram chamados - representavam outro dos ofícios desprezíveis, que rebaixavam
socialmente de forma inexorável (em uma das listas dos judeus ortodoxos, "Sinédrio 25", apareciam neste último posto, abaixo dos jogadores de dados, dos agiotas,
dos organizadores das brigas de galos e de apostas em geral, dos traficantes de produtos do ano sabático e dos pastores). À parte o tratamento despótico e da falta
de escrúpulos desses publicanos - nem todos agiam tão despudoradamente - o fato é que a nação israelita os via como um prolongamento de Roma, os miseráveis kittim.
Além dos impostos de natureza religiosa, os judeus tinham de pagar também os civis, com o agravante de que essas taxas enriqueciam os invasores7 e seus colaborado-

7 Há mais de duzentos anos, os povos dominados por Roma pagavam alguns impostos a sociedades ou a indivíduos romanos (geralmente cavaleiros da ordem eqüestre) que,
por sua vez, se comprometiam a pagar quantidades concretas ao tesouro público (inpublicum). Esses arrecadadores ou publicanos nomeavam seus representantes nos respectivos
países, designando-os para a missão nada agradável de arrecadar o dinheiro que eles tinham adiantado a Roma. Essa situação se prestava a todo tipo de abusos e de
subornos. Depois de descontada a quantia fixada por Roma, os publicanos estavam livres para cobrar o que quisessem ou pudessem, sempre muito acima do necessário
ao tesouro público

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rés. Os publicamos tinham fama de ladrões, mentirosos e traidores. Eram "pecadores" da pior espécie, no mesmo nível dos bastardos e pagãos. Ninguém lhes dava crédito.
Ninguém os ouvia. Viviam praticamente isolados, sem nenhuma relação de vizinhança. Se alguém simpatizasse com eles ou se sentasse à sua mesa - esse foi o caso do
Filho do Homem durante a vida pública ou de pregação - automaticamente era considerado "pecador" e, o que é pior, "traidor" da nação judaica.

Esse era, em princípio, o "cartão de apresentação" do homem que estava diante de nós...

Em uma daquelas manobras bruscas, ao espantar com uma das mãos as moscas que o martirizavam, Mateus abriu os olhos. Em um primeiro momento, ao perceber as três figuras
imóveis e silenciosas que o

correspondente. No caso da Judéia, os encargos fiscais estabelecidos pelo invasor eram intoleráveis (em torno de 50 por cento dos ganhos anuais de uma família).
Os judeus chegaram a protestar em diversas oportunidades aos respectivos imperadores (como relata Tácito no ano 17 depois de Cristo). Nesse "saco" dos impostos indiretos
entrava tudo o que o publicano podia imaginar: acesso a pontes, caminhos ou estradas, transporte de mercadorias (cada produto tinha seu preço), abertura de comércios,
venda de água, e assim por diante. Para que possamos ter uma idéia aproximada do que significava esse movimento de dinheiro, temos informações de que os territórios
de Antipas pagavam a Roma cerca de seiscentos talentos por ano; isto é, uns dois milhões e oitocentos mil denários de prata (mais ou menos três milhões de dólares).
Tudo o que ultrapassava esse valor era lucro. E os judeus, com razão, reclamavam e encorajavam todo tipo de protesto, obrigando os publicanos a contratar proteção
armada.

Além desses impostos indiretos, Roma cobrava impostos diretos: os chamados tributum soli (por terras e patrimônio) e os tributum capitis (pessoal). Para cobrar as
rendas por terras, casas etc., o Estado recorria às chamadas "toparquias" (divisões administrativas com seus respectivos "arquivos cadastrais", nos quais nem uma
pedra deixava de ser registrada. Na Galiléia, por exemplo, havia quatro: Garaba, Tarichéia, Séforis e Tiberíades). Para a execução desse segundo imposto - de "capitação"
- era imprescindível a existência de censos (um deles foi o que levou os pais terrenos de Jesus a se deslocarem de Nazaré a Belém). Os publicanos também eram responsáveis
por essa cobrança. Quando o contribuinte não tinha condições de pagar a cota, o arrecadador podia emprestar dinheiro ao cidadão, sangrando-o com juros desproporcionais.
E criava-se o paradoxo de que uma dívida pública acabava se tornando um "negócio" privado. Roma era implacável e exigia uma constante atualização das propriedades,
obrigando a avaliações permanentes e

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espreitavam, o arrecadador ficou um pouco perturbado. Piscou nervoso, enquanto os olhos azuis tentavam se acostumar à luz intensa do meio-dia. Mas, com um excelente
autocontrole, examinou-nos um a um, compreendendo que seu descanso havia terminado.

Jesus facilitou-lhe as coisas. Abriu o saco de viagem e, sem palavras, aproximou-o de seus pés. Mateus Levi não acatou as indicações do Mestre. Embora soubesse que
tinha de revistar a mochila, mantinha o olhar fixo no do Galileu. Tive a sensação de que vasculhava na memória. Talvez já o tivesse visto. Talvez o rosto de Jesus
lhe fosse familiar. Nunca cheguei a entender o porquê daquela intensa e estranha troca de olhares. Minto: no caso do Mestre, suspeitei, sim. Ele "sabia" quem era
Mateus e o que ocorreria dali a alguns meses...

retificações correspondentes dos tributos. O invasor exigia a décima parte das colheitas de cereal, assim como um quinto do vinho. Cada trabalhador tinha de pagar
uma proporção do valor das produções pessoais ou profissionais. Se o industrial, camponês, pescador ou comerciante tinha assalariados, era obrigado a reter uma parte
do salário, a título do mencionado imposto de "capitação".

A esse quadro funesto seria preciso acrescentar as taxas religiosas obrigatórias a que já me referi oportunamente, fixadas no Génese (14,20), que pressupunham que
o "dízimo de tudo pertencia ao Altíssimo". Esses impostos garantiam a manutenção do Templo em Jerusalém e, naturalmente, dos milhares de sacerdotes a serviço dele.
Os judeus maiores de doze anos pagavam meio shekel (dois denários de prata), além da contribuição exigida pelas sinagogas das respectivas cidades e povoados. Mas
esse tributo era insignificante em comparação com o chamado "dízimo". A lei estabelecia que a décima parte de toda colheita, rebanho, pesca e, de maneira geral,
qualquer produto do solo, devia ser entregue ao culto da Cidade Santa. A ambição dos sacerdotes chegava a extremos impensáveis. Dizimavam tudo o que se podia imaginar:
desde os ovos de um galinheiro até as modestas ervas usadas para cozinhar ou a lenha guardada para o inverno. E pobre daquele que ocultasse suas propriedades dos
levitas que faziam a inspeção! Um produto não dizimado era qualificado de "impuro" e, como conseqüência, seu proprietário caía na ignomínia do pecado. A partir de
15 de odor (fevereiro-março), longas caravanas de carros com os dízimos afluíam a Jerusalém de todos os cantos do país, transportando as "primícias" e tudo o que
se recolhia da produção. E os responsáveis pelo Templo esfregavam as mãos de satisfação. O sustento de todos eles - e um pouco mais - estava garantido "em nome deYavé".
(N. do M.)

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O publicano baixou os olhos e, finalmente, espiou dentro do saco de viagem do Galileu. Logo se deparou com alguma coisa que parece ter chamado sua atenção. Ergueu
os olhos e, com aquela voz melodiosa característica, Mateus perguntou a Jesus, enquanto tirava alguma coisa da mochila:

- E isto?

O Mestre encolheu os ombros e, apontando para Eliseu, comentou:

- Um presente...

Mateus não respondeu. Inspecionou o tecido úmido que envolvia as pequenas raízes da oliveira e exclamou em tom grave:

- Apressa-te... Ela pode morrer.

Então, o Filho do Homem pegou o ramo de oliveira que, de fato, ganhara de presente de aniversário de meu irmão quando completou trinta e um anos, nas montanhas do
Hermon, e sentenciou enfaticamente:

- Nada morre nas minhas mãos. Muito menos a paz...

E recordei emocionado as palavras do Mestre naquele 21 de agosto, ao receber a oliveira que nos foi entregue pelo general Curtiss: "...Um presente de outro mundo
para o Senhor de todos os mundos... Vamos plantá-lo como símbolo da paz... A paz interior: a mais difícil..."

- De todo modo - insistiu o publicano -, é melhor te apressares... O Filho do Homem guardou com carinho a muda e respondeu com

palavras que Mateus, logicamente, não compreendeu nesse momento.

- Nunca tenho pressa... Deus age, mas jamais com pressa... Quando chegar a hora, quando decidir plantar a paz nos corações, tu serás um dos primeiros a saber...

- Está bem - retrucou o arrecadador impassivelmente -, nós, os gabbai, também temos direito a um pouco de paz... Por ora, essa paz te custará um ás...

- Quanto a vós - acrescentou sem examinar nossos sacos -, dois léptons cada um já é o suficiente...

Paguei o "pedágio" e nos afastamos do casarão. Mateus voltou a se acomodar debaixo das figueiras e, aos poucos, os roncos soaram "cem por cento", forte e claro,
às nossas costas.

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E o Mestre, tomando a iniciativa, contornou a aduana, dirigindose vagarosamente para a teia de aranha formada pelos hortos e plantações que circundavam Nahum pelo
flanco oriental.

Não sei porque eu me surpreendia. Jesus de Nazaré era assim. Durante o tempo que permanecemos com Ele, nunca se perturbou com aquilo que desagradava seus patrícios.
O encontro com o publicano e com as armas do kittim não pareceu incomodá-lo. Não mudou de atitude nem deu margem a nenhum comentário a respeito. Que eu me lembre,
nunca se manifestou contra - nem a favor - do invasor de seu país ou da odiosa presença dos arrecadadores. Nesse aspecto também era categórico. Jamais misturou a
política ou os negócios com sua missão. Jamais.

Eliseu perguntou em voz baixa se eu tinha idéia de nosso destino imediato. Fiz um gesto negativo com a cabeça. A única coisa que estava clara era que o Galileu pretendia
chegar a algum ponto do povoado.

E, mostrando conhecer muito bem a região, o Mestre avançou por pequenos atalhos desviando-se das muretas de pedra negra que delimitavam as dezenas de frondosos hortos
onde se destacavam altas nogueiras, romãzeiras, amendoeiras, figueiras e espessos sicômoros. Vimos pouquíssimos yê^z/;. O intenso calor no yam não aconselhava o
trabalho ao ar livre. Imaginei que a maioria dos camponeses, do mesmo modo que Mateus, procuravam aliviar o rigor daquelas horas com um bom sono e uma sombra ainda
melhor.

Alguns responderam à saudação do Mestre, chamando-o por seu nome: "Yehosua" ou "Yesúa" ("Salve Yavé") [o Filho do Homem nunca recebeu o nome de Jesus. Essa designação
foi bem posterior8]. Era evidente que o conheciam. E lembrei das informações do velho Zebedeu, proprietário dos estaleiros onde o Galileu parece ter trabalhado durante
um tempo. Era verossímil que Jesus tivesse se alojado em Nahum nessa época. Será que era por isso que retribuíam a saudação acrescentando o "Yesúa"?

Na realidade, o nome de Jesus, pelo que se sabe, é uma "ocidentalização" da designação hebraica; mais exatamente do termo aramaico Yesúa ou Josué. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

Quando deixamos para trás o cinturão verde que rodeava a população, o vento do Mediterrâneo, suspenso até esse momento entre as plantações de fruta, invadiu os becos
que compunham aquela parte do povoado. E castigou duramente, encobrindo-nos na mistura de pó e cinza vulcânica que "pavimentava" Nahum.

Jesus continuou caminhando com absoluta segurança. A zona, no extremo oriental, era desconhecida para mim. Eu supunha que o Galileu tinha escolhido um atalho para
evitar as ruas mais movimentadas. Mas, nesse momento, percebi que estava especulando. E na medida do possível, de redemoinho em redemoinho, procurei guardar o máximo
de referências, sempre úteis quando precisávamos nos deslocar.

Nahum, tirando as ruas principais, desenhadas segundo o padrão helênico-romano (fardo maximus e decumani), isto é, em forma de cruz, e um punhado de calçadas que
interceptavam essas vias básicas verticalmente e horizontalmente, era mais um labirinto infernal, que lembrava um pouco os bairros antigos da Cidade Santa. Demoramos
um pouco, mas finalmente conseguimos nos orientar naquele pandemônio de ruelas.

Ruelas? Aquilo não passava de um emaranhado de becos estreitíssimos em que mal podiam passar duas pessoas ao mesmo tempo. As casas, todas de pedra negra - exceção
feita ao "centro" -, penetravam umas nas outras, e era impossível distinguir os limites entre as propriedades. Nunca soubemos onde começava e onde terminava a habitação
de uma família.

O maarabit golpeava os toldos que, nos dias de verão, eram criteriosamente amarrados entre um terraço e outro, o que proporcionava uma temperatura mais amena aos
transeuntes; além disso, tingia de sugestivas tonalidades alaranjadas, verdes e brancas tudo que havia no beco. Algumas mulheres, assustadas com o ímpeto do vento,
assomavam às janelas estreitas - quase frestas - para alertar as vizinhas com gritos agudos. Olhavam para nós por alguns instantes e desapareciam nas trevas, trancando
com força os reposteiros de madeira. Mais adiante, outras matronas repetiam a operação, impedindo assim o vento mortificante.

Tentei olhar o interior das casas. Impossível. A maioria das portas, largas e muito altas, estava coberta por uma espessa rede escura que im-

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pedia de ver qualquer coisa de fora para dentro. Mas de dentro para fora era possível. Em alguns pátios abertos, consegui divisar as silhuetas de seus habitantes,
quase sempre mulheres. Cozinhavam, lavavam ou cuidavam das crianças. A luta contra a fumaça dos fogões era uma batalha perdida. E a tosse e as lamentações se somavam
aos gritos das "avisadeiras", ao choro das crianças e aos latidos ameaçadores dos cães.

Jesus seguia em frente, inabalável. O terreno continuava descendo suavemente. Eu náo tinha a menor idéia para onde estávamos indo. De vez em quando, o Mestre e estes
exploradores, forçados pela aparição de um ou vários asnos, éramos obrigados a sair para os lados e nos refugiar nos vãos das portas ou no umbral dos pátios. Animais
e burriqueiros tinham preferência. Esse era o costume.

E foi numa dessas paradas obrigatórias, enquanto aguardávamos a passagem de um daqueles grandes jumentos selvagens, transportando peixe do yam, que vi uma coisa
que me chamou a atenção. Não estava muito longe. Talvez a uma centena de metros, na outra margem do rio, que deslizava preguiçosamente em direção ao lago. No início,
não imaginei o que aquela gente estava fazendo. Depois, ao notar as pequenas chamas e a fumaça que emanavam de boa parte do montículo, comecei a entender. Era o
depósito de lixo de Nahum. Cerca de vinte pessoas, todas carregando sacos e canastras, movimentavam-se lentamente na géhenne", procurando e selecionando o que outros
descartavam.

Os depósitos de lixo, em Israel, recebiam o nome Ás. géhenne ovígehenna (inferno). O mais conhecido era o que ficava a leste de Jerusalém. O vale dos filhos de Hinon
já aparece no livro segundo dos Reis (23, 10). Provavelmente, tratava-se de um nome jebuseu ou cananeu, anterior à chegada dos judeus. Embora inicialmente se tratasse
de um lugar onde se adorava o deus cananeu Molok, os israelitas, depois do exílio, adotaram-no como símbolo do inferno: um lugar escuro, subterrâneo, sempre em chamas,
onde as almas dos ímpios eram atormentadas. Era o Tofet, segundo Jeremias (7, 31), onde tudo era queimado. Para os babilónios, esses depósitos de lixo eram o reino
de Nergal, o deus do inferno. Os cristãos, posteriormente, apropriaram-se da idéia, modificando o sentido da palavra géhenne. (N. do M.)

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O Destino, como sempre, me reservara uma surpresa, diretamente relacionada com aquele grupo de infelizes. Mas espero tratar disso oportunamente...

E aos poucos fomos deixando para trás o labirinto de pedra, o cheiro das fornalhas, os gritos e os relinchos, o fedor de urina, ou as batidas ritmadas das janelas
e o zumbido do maarabit, enredado em toldos e redes.

Eu a reconheci na hora. Ao sair do bairro oriental, fomos desembocar no cardo, a rua principal de Nahum. A via, com uns seis metros de largura, cortava o povoado
de norte a sul. Eu já a havia percorrido em diferentes oportunidades. A primeira com Jonas, umfelah muito amável que me prestou um bom serviço ao me conduzir até
o estaleiro dos Zebedeu, na foz do rio Korazaín.

O fluxo de pessoas era menor. Imaginei que, com o sol a pino e o vento rebelde, náo era uma boa hora para as visitas aos comerciantes que se alinhavam dos dois lados
da calçada, sob os pórticos. Os comerciantes, irritados, pelejavam com o maarabit, protegendo os produtos com grandes telas de pano. Ainda assim, a cada rajada,
frutas, verduras, carnes, especiarias, cereais e peixe eram contaminados com novas doses de pó e cinza.

Notei uma certa alegria no rosto de Jesus. E seus olhos perscrutavam entre os passantes e curiosos. Tive a impressão de que ele esperava encontrar alguém entre os
que iam e vinham. Seguimos caminhando para o sul, em direção ao porto, e este que escreve, contagiado pelo mesmo sentimento, começou a explorar os rostos dos clientes
que inspecionavam as mercadorias ou que regateavam com os encarregados ou donos dos negócios. Mas quem ele esperava encontrar? Talvez o velho Zebedeu ou seus filhos,
Tiago e João. Se náo me falhava a memória, nessa época eles eram os únicos do círculo do Mestre que freqüentavam Nahum. Como já disse, sua casa ficava na aldeia
próxima de Saidan.

O Mestre foi diminuindo o passo, até que finalmente parou. Estávamos náo muito distantes do cais. Talvez a uma centena de metros. Eliseu e eu estávamos grudados
nele, cheios de expectativas. O que pretendia? O olhar se fixou em um muro de uns três metros de altura. Era uma construção típica de Nahum: pedra basáltica, em
forma de disco, cuida-

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ciosamente empilhada e com os vãos preenchidos com barro e cascalho. Estendia-se por cerca de vinte metros, à direita do cardo (tomarei como referência a direçáo
norte-sul que estávamos seguindo nesse momento). Aquela fachada era desnivelada em relação aos pórticos e galerias da rua, formando uma estreita e longa esplanada.
Aquele espaço, como todo o cardo, era pavimentado com grandes pranchas de basalto, desgastadas e lustrosas pelo passar do tempo e das cavalarias. Três degraus conduziam
à base do pórtico. Aquele sistema, elevando o nível das construções no cardo maximus e no decumani, era muito útil. No inverno, com as fortes chuvas, impedia que
a água inundasse as casas.

O Mestre continuava observando. Não disse nada. Parecia desfrutar da visão da porta, totalmente aberta, e das paredes que sobressaíam acima do muro. Em um primeiro
momento ou, melhor dizendo, em um primeiro exame, eu não sabia o que pensar. Talvez se tratasse de uma das conhecidas habitações judaicas, geralmente compartilhadas
por várias famílias. Dois dos habitáculos, como eu ia dizendo, elevavam-se acima do muro protetor, atingindo quatro e seis metros de altura, respectivamente. O terraço
no alto de cada uma das casas era protegido por muretas, conforme ditava a Lei. O Deuteronômio (212, 8) exigia que a varanda fosse provida do correspondente peitoril,
"para que tua casa não incorra na vingança de sangue no caso de alguém cair ali". Abaixo da proteção determinada por Yavé, distingui as vigas de sicômoro (resistentes
aos gusanos) que sustentavam o teto. (Naquela região, os telhados eram frágeis. Eram construídos com essas vigas e uma armação de bambus, paus e varas sobre a qual
se espalhava uma grossa camada de barro misturado com palha. Quando acabava o período das chuvas, os proprietários remodelavam e alisavam o telhado). Um pouco mais
abaixo, as paredes escuras eram perfuradas com quatro ou cinco janelinhas mais estreitas, e cuja função, naquele clima quente, era, sobretudo, a ventilar.

Será que estávamos diante de uma habitação judaica? Ao reparar nos umbrais de pedra do pórtico fiquei na dúvida. Ali não havia a mezuzah, o pequeno estuque metálico
de apenas dez centímetros de extensão que se cravava à direita da porta ou nos postes que serviam de umbrais e

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que, segundo a Tora, protegia a morada contra todo tipo de males e demónios10. Sempre que um judeu entrava ou saía de casa, ou de qualquer outra habitação considerada
"limpa"", ele tocava a mezuzah com reverência e levava os dedos aos lábios. A maioria achava que esse gesto era suficiente não só para garantir a proteção pessoal,
como também para ter êxito no trabalho ou nos negócios nesse dia. A superstição estava tão arraigada que homens e mulheres cuidavam permanentemente para que a área
próxima a essa mezuzah (em um raio de um cotovelo, uns quarenta e cinco centímetros) estivesse limpa e reluzente. Do contrário - diziam - a casa poderia ser invadida
por 365 demónios...

E estávamos nesse ponto quando o Mestre avançou. Nós o seguimos, mas, antes que pudéssemos reagir, uma carreta, uma daquelas redas com quatro enormes e sólidas rodas
de madeira, atravessou no nosso caminho. Por pouco não nos atropelou. O condutor, com o chicote na mão, nos amaldiçoou e, açulando as mulas, perdeu-se no cardo em
direçáo à porta tripla, ao norte. Foram apenas alguns segundos, porém...

Nunca soubemos de onde saiu aquele sujeito e como veio parar diante destes perplexos exploradores. Talvez tivesse vindo na redá, en-

10 No interior do estuque metálico era guardado um pequeno pergaminho, colado longitudinalmente, no qual se escreviam as 22 linhas conservadas no Deuteronômio (6,
4-9 e 11, 13-21): "Ouve, Israel: Yavé, nosso Deus, é o único Yavé. Amarás Yavé, teu Deus, com todo teu coração, com toda tua alma e com toda tua força. Que estas
palavras que te digo hoje permaneçam no teu coração. Tu as repetirás para teus filhos, tu as proferirás tanto se estiveres em casa como se estiveres de viagem, tanto
deitado quanto de pé; tu as atarás às tuas mãos como um sinal, e elas serão como uma insígnia entre teus olhos; tu as escreverás nos umbrais de tua casa e em tuas
portas..."

A mezuzah, assim como os filactérios, era um símbolo externo que ajudava a identificar os judeus e também suas habitações ou propriedades. Para a casta dos fariseus,
a mezuzah era uma obrigação, ditada por Yavé. Muitos daqueles que simpatizavam com esses rigoristas da Lei exteriorizavam sua postura mediante o uso do mencionado
estuque metálico nas portas. Para nós, sempre foi de grande utilidade. (N. do M.)

11 As chamadas diroth cavod ou "moradas de honra" (exclusivamente judias) eram os únicos lugares onde a mezuzah podia ser fixada. Era importante que tivessem o caráter
de habitação. Assim, por exemplo, as sinagogas, os banhos e as lojas em geral jamais deviam ostentá-la. (N. do M.)

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tre os tonéis. Essa era a única explicação mais ou menos lógica. O fato é que nos interceptou.

- Troco moedas! - gritou, ao mesmo tempo em que agitava uma bolsa de tecido diante dos olhos de Eliseu. - Necessitas de moeda romana? Talvez judia?

O sujeito, de baixa estatura, amarelado, com uma barba longa e tingida de vermelho, amarrada ao cordão, ostentava um parche de couro preto no olho esquerdo. Instintivamente,
levantei os olhos, à procura do Mestre. Ele já tinha sumido no pórtico da suposta casa judia que tinha contemplado com tanto interesse. Quis me esquivar do "cambista",
mas, habilmente, ele me segurou por uma das mangas, insistindo:

- ...Ofereço-te o dracma a vinte e cinco sestércios!

Eu nem recusei. Meus olhos continuavam fixos no pórtico. Eliseu, ao meu lado, tampouco conseguiu reagir.

- Está bem - disse o caolho -, posso te pagar quatro denários e meio pelo tetradracma.

E percebi que estávamos diante de um desses gatunos que infestavam Nahum. Um cambista oficial, autorizado pela Lei, não usaria esses termos. Naquela época, o dracma
grego tinha a mesma cotação do denário de prata romano. Um tetradracma ou stater equivalia a quatro denários ou vinte e quatro sestércios. Ali tinha mutreta, como
costumo dizer.

Enquanto tentava me safar do sujeito pegajoso com sua chamativa barba vermelha, ouvimos os primeiros gritos. Vinham do edifício onde o Filho do Homem acabara de
entrar.

Ficamos assustados. O que estaria acontecendo?

Os gritos aumentaram. Pareciam vozes de mulheres. Alguns transeuntes, também assustados, correram até o pórtico e se amontoaram na soleira.

Finalmente, consegui me livrar das garras do caolho e saltei o muro rapidamente. Suponho que Eliseu fez o mesmo. Nem me virei para confirmar. Alguma coisa me dizia
que tinha de ficar atento. Tratei de abrir passagem entre os curiosos que obstruíam o pórtico. Impossível. As pessoas, tão interessadas como eu, não me deixaram
passar. E fiquei preso ali, com uma visão parcial do que ocorria naquele pátio aberto.

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J.J. BENÍTEZ

A primeira coisa que vi foi uma mulher, abraçada fortemente ao Galileu. Estava quase que pendurada no seu pescoço. Era jovem. Atrás, ajoelhada diante de uma bacia,
as mangas arregaçadas, outra mulher contemplava a cena. Ao lado, uma criança de alguns meses, que estava nua, sentada nas pedras, olhava boquiaberta. Eu não sabia
quem eram essas pessoas, até então. Jesus e a mulher com quem estava abraçado encobriam a outra, que estava ajoelhada.

Como não percebi antes? Aqueles cabelos avermelhados... A jovem continuava gritando, e a criança, assustada, começou a chorar. Então ela se levantou e eu a reconheci.
A de túnica arregaçada correu a pegar a criança, e apertando-a contra seu peito tentou consolá-la.

- E o tektônl - exclamavam alguns dos que me aprisionavam. - É o carpinteiro!... Ele voltou!

E a Senhora, com a criança no colo, uniu-se ao abraço, repetindo:

- Yesúa!... Tu voltaste!...

A Senhora, na verdade, era Míriam ou Maria, a mãe de Jesus de Nazaré. Achei-a mais magra. Nesse mês de setembro de 25 devia estar com uns quarenta e cinco anos de
idade. Conservava parte de sua beleza. Os olhos rasgados, muito verdes, e agora umedecidos, e os cabelos pretos, desbotados, penteados com uma risca no meio e presos
na nuca, trouxeram gratas recordações.

- Diziam que havia morrido! - garantiu um dos vizinhos.

- Não - interveio um terceiro - a família afirmava que estava estudando na Alexandria!

Comecei a compreender. O Mestre estivera ausente por quase quatro anos, com duas ou três breves e esporádicas visitas aos seus. Foi o tempo das grandes viagens,
como já mencionei. Uma etapa "secreta" - a única - que jamais foi desvendada. E, de fato, correram rumores de que o tektôn (carpinteiro e ferreiro) de Nazaré estava
morto ou desaparecido. Fazia cinco meses que a Senhora o vira pela última vez.

Eu não consegui entender naquele momento, mas notei uma coisa estranha. Aquele abraço, o da Senhora, não foi tão efusivo quanto o da ruiva. Por quê? E a jovem Ruth,
alvoroçada, continuou beijando e

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abraçando seu irmão mais velho, ao mesmo tempo que gritava o nome de Jesus. O Galileu, emocionado, acariciava os cabelos avermelhados da "esquilinha" e, timidamente,
os de sua máe.

Demorei um pouco, mas acabei percebendo. A menina pendurada no pescoço de Jesus era a caçula da família, a filha póstuma de José, nascida na noite de 17 de abril
do ano 9 de nossa era. Tinha completado
16 anos há cinco meses. Estremeci ao reconhecê-la. Estava mais atraente que no ano 30. Os olhos, igualmente amendoados e verdes - herança da Senhora -, e a pele
transparente, de porcelana, levemente polvilhada por um punhado de sardas, proporcionavam-lhe uma beleza quase enigmática. Usava o clássico chaluk, a túnica até
o tornozelo. O que estava vestindo nesse momento era azul claro, brilhante, com um cordão amplo que realçava o belo busto.

O "incidente" começava se esclarecer. Tratava-se apenas do retorno de um filho. Foi o que viram ou entenderam os vizinhos e curiosos. Uma vez esclarecida a incógnita
dos gritos, deram meia volta e desapareceram. E, finalmente, Eliseu e este que escreve, pudemos entrar naquele pátio a céu aberto. Um pátio comum, típico em Nahum,
para onde convergiam as diferentes estâncias que integravam a casa. Era longo e relativamente estreito. Calculei que tinha quinze por seis metros. No fundo, alegrando
a cor negra das paredes, abria-se uma romãzeira nova carregada de frutas. Embora estivéssemos no final do verão, a copa verde e arredondada ainda tinha alguns brotos
de flores vermelhas, muito vivas. Eu diria que essa era a característica que distinguia aquela casa: as flores. Elas estavam em toda parte. Nos muros, nos terraços
e nos jardins junto às paredes. Lembro sobretudo dos lírios negros, das rosas afogueadas de Sharon (na realidade, um tipo de tulipas), das delicadas coroas de Salomão,
das voluntariosas margaridas brancas e amarelas, da tulipa da montanha cantada por Isaías, dos narcisos do mar; precursores da chuva, com as flores brancas como
a neve, e da menta, com suas variedades de hortelã-pimenta e "pimentinha", suavizando os aromas desagradáveis dos fogões.

Só ao chegar ao umbral reparamos na terceira mulher. Permanecia imóvel, à nossa direita, quase pregada a uma daquelas portas baixas e

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J.J. BENÍTEZ

incómodas. Estava grávida. Ao seu lado, agarrada à túnica marrom, uma menina de uns quatro anos, com a cabeça raspada, assistia curiosa à cena de Ruth e da Senhora
abraçando aquele homem de 1,81 m de altura. Era Esta, a esposa de Tiago, irmão do Mestre. Achei que a menina, Raquel, a filha mais velha do casal, que conheci em
Nazaré, não se parecia com seu tio. E estranhei a atitude de Esta. Parecia esquivar-se. Por que não tinha corrido ao encontro de Jesus?

O Mestre também percebeu a presença da tímida (?) cunhada e, libertando-se delicadamente do abraço da Senhora, foi em direção à grávida. Ruth não permitiu que seu
irmão mais velho a soltasse, e assim, pendurada a seu pescoço, acompanhou-o até Esta. Só ali concordou em descer do seu colo. Os pés descalços ostentavam vários
aros de um material negro e brilhante.

Jesus, sorridente, esperou uma saudação ou uma palavra de cortesia. Contudo, Esta, perturbada, só respondeu com um sorriso amarelo. Ruth salvou a situação. Com sua
natural espontaneidade, pegou a mão esquerda do recém-chegado e a colocou sobre o ventre da mulher.

- Presta atenção! - comentou a "esquilinha". -Já se mexe! Nascerá no adar\

Isso queria dizer fevereiro, mais ou menos. Portanto, Esta devia estar no quinto mês de gestação.

O Mestre, com a mão estendida sobre a túnica, aguardava impaciente. E, em pouco tempo, o assombro e outro sorriso vieram confirmar as palavras da ruivinha. O feto
tinha se mexido. E o Galileu passou da emoção ao riso.

- Está se mexendo! - gritou.

Não conseguia me acostumar. Aquela imagem de Jesus de Nazaré aguardando o chute de um bebé no ventre materno era absolutamente nova para mim... E a cena seguinte
foi igualmente desconcertante.

Depois de acariciar as bochechas da menina de cabeça raspada, o Mestre se deu conta da nossa presença e, aproximando-se de sua mãe, cochichou-lhe alguma coisa. A
Senhora pôs a criança que segurava no colo no pavimento escuro de pedra, veio até nós e, depois de nos desejar

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paz, pediu que ficássemos à vontade na casa. Estremeci. Maria não tinha me reconhecido. Nem podia. Agradecemos a hospitalidade e, sem saber muito bem o que fazer,
demos alguns passos...

Foi tudo muito rápido. A uma ordem da Senhora, Ruth e Esta a seguiram e sumiram no interior de um dos aposentos. A menina, com os olhos fixos naqueles trêsjiomens,
aos tropeções, sempre agarrada à túnica da mãe, também se perdeu na escuridão da estância.

E então Jesus, feliz, pegou no colo o menino que brincava perto da bacia, ergueu-o e perguntou:

- Quem és tu?

O bebé, que também tinha o crânio raspado (uma medida sábia contra as epidemias de piolhos que martirizavam todas as populações), observou Jesus, com seus enormes
olhos azuis.

- Tu deves ser Amos!

A voz do Galileu, terna e suave, tremeu ligeiramente. Imaginei que o nome lhe trazia lembranças longínquas. Há muito tempo, quando tinha dezoito anos, seu irmão
Amos faleceu em Nazaré aos seis anos de idade. Provavelmente, foi levado por uma epiglotite aguda. Conforme pude averiguar depois, Tiago e Esta decidiram homenagear
o infeliz Amos dando seu nome ao primeiro de seus varões.

O Filho do Homem, absorto em suas viagens, conhecia pouco seus sobrinhos. E o bebé reagiu como era de se esperar. Primeiro fez beicinho. Em seguida, apesar das tentativas
do Mestre de fazer amizade com a criatura, vieram as lágrimas. De nada serviram as palavras carinhosas. Amos, agitado no ar por aquele estranho, chorou mais ainda.
O Galileu, sem saber como agir, levantou-o um pouco mais, acima da cabeça. E aconteceu. O menino, assustado, urinou e molhou o rosto e a barba do inexperiente tio.

Tive de me segurar para não soltar uma gargalhada. Eliseu, ao contrário, não conseguiu se conter, e os risos encheram o pátio. O próprio Jesus acabou se unindo ao
deleite de meu irmão e também soltou boas risadas. Assim era aquele Homem...

Esta e Ruth retornaram em meio ao alvoroço. Foi Jesus, ainda com o menino entre as mãos, que confessou o ocorrido. E a "esquilinha" largou as

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esteiras que estava carregando e se incumbiu de Amos, enchendo a criança de mimos. Esta enfileirou as esteirinhas de esparto ao pé da romázeira e limitouse a apontar
para elas, sugerindo que nos sentássemos. Depois, sem palavras, pegou o bebê e voltou a se perder no interior de uma das estâncias.

Eliseu e eu obedecemos. E durante alguns instantes permaneci ensimesmado, acariciando com as pontas dos dedos o curioso trançado das cordas. Era como um barrote
redondo, similar ao utilizado nas cobertas dos barcos. Alguém as tinha trabalhado com grande paciência e habilidade. O desenho me pareceu familiar - três círculos
concêntricos -, mas, nesse momento, eu não entendi por quê. Naturalmente, não perguntei. Só alguns meses mais tarde descobri a identidade do artesanato das estranhas
esferas e a razão dos desenhos...

Creio que o que se segue ocorreu quase que simultaneamente. A ruivinha, com as mãos na cintura, desafiou o irmão com o olhar. E o Mestre, dando um passo para trás,
negou com a cabeça.

Eliseu, sentado à minha esquerda, se mexeu inquieto. Eu não sabia o que estava acontecendo. Meu irmão examinou a túnica e ficou apalpando o cordão.

-Já disse para tirares a roupa! - ameaçou Ruth sem contemplações. - Não vou repetir!

Jesus voltou a negar e continuou andando para trás...

Eliseu, então, pálido, ergueu-se de um salto e, sem dizer nada, continuou examinando a roupa. Pensei em algum inseto...

Foi tudo muito rápido. Ao recuar, o Galileu tropeçou na bacia em que, aparentemente, a Senhora lavava quando ele chegou em casa. E o Mestre caiu na água espumosa
estrepitosamente, provocando uma gargalhada fulminante de sua irmã.

Não sabia para onde olhar.

O engenheiro levantou as esteiras. Que diabos estava procurando? Depois, sem responder às minhas perguntas, dirigiu-se para o pórtico com a cabeça baixa. Fiquei
de pé. Eliseu caminhava lentamente, passo a passo. Parecia perscrutar cada pedra do pavimento. Foi até os jardins e o vi revolvendo entre as flores.

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tre os tonéis. Essa era a única explicação mais ou menos lógica. O fato é que nos interceptou.

- Troco moedas! - gritou, ao mesmo tempo em que agitava uma bolsa de tecido diante dos olhos de Eliseu. - Necessitas de moeda romana? Talvez judia?

O sujeito, de baixa estatura, amarelado, com uma barba longa e tingida de vermelho, amarrada ao cordão, ostentava um parche de couro preto no olho esquerdo. Instintivamente,
levantei os olhos, à procura do Mestre. Ele já tinha sumido no pórtico da suposta casa judia que tinha contemplado com tanto interesse. Quis me esquivar do "cambista",
mas, habilmente, ele me segurou por uma das mangas, insistindo:

- ...Ofereço-te o dracma a vinte e cinco sestércios!

Eu nem recusei. Meus olhos continuavam fixos no pórtico. Eliseu, ao meu lado, tampouco conseguiu reagir.

- Está bem - disse o caolho -, posso te pagar quatro denários e meio pelo tetradracma.

E percebi que estávamos diante de um desses gatunos que infestavam Nahum. Um cambista oficial, autorizado pela Lei, não usaria esses termos. Naquela época, o dracma
grego tinha a mesma cotação do denário de prata romano. Um tetradracma ou stater equivalia a quatro denários ou vinte e quatro sestércios. Ali tinha mutreta, como
costumo dizer.

Enquanto tentava me safar do sujeito pegajoso com sua chamativa barba vermelha, ouvimos os primeiros gritos. Vinham do edifício onde o Filho do Homem acabara de
entrar.

Ficamos assustados. O que estaria acontecendo? Os gritos aumentaram. Pareciam vozes de mulheres. Alguns transeuntes, também assustados, correram até o pórtico e
se amontoaram na soleira.

Finalmente, consegui me livrar das garras do caolho e saltei o muro rapidamente. Suponho que Eliseu fez o mesmo. Nem me virei para confirmar. Alguma coisa me dizia
que tinha de ficar atento. Tratei de abrir passagem entre os curiosos que obstruíam o pórtico. Impossível. As pessoas, tão interessadas como eu, não me deixaram
passar. E fiquei preso ali, com uma visão parcial do que ocorria naquele pátio aberto.

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A primeira coisa que vi foi uma mulher, abraçada fortemente ao Galileu. Estava quase que pendurada no seu pescoço. Era jovem. Atrás, ajoelhada diante de uma bacia,
as mangas arregaçadas, outra mulher contemplava a cena. Ao lado, uma criança de alguns meses, que estava nua, sentada nas pedras, olhava boquiaberta. Eu não sabia
quem eram essas pessoas, até então. Jesus e a mulher com quem estava abraçado encobriam a outra, que estava ajoelhada.

Como não percebi antes? Aqueles cabelos avermelhados... A jovem continuava gritando, e a criança, assustada, começou a chorar. Então ela se levantou e eu a reconheci.
A de túnica arregaçada correu a pegar a criança, e apertando-a contra seu peito tentou consolá-la.

- E o tektôn\ - exclamavam alguns dos que me aprisionavam. - É o carpinteiro!... Ele voltou!

E a Senhora, com a criança no colo, uniu-se ao abraço, repetindo:

- Yesúa!... Tu voltaste!...

A Senhora, na verdade, era Míriam ou Maria, a mãe de Jesus de Nazaré. Achei-a mais magra. Nesse mês de setembro de 25 devia estar com uns quarenta e cinco anos de
idade. Conservava parte de sua beleza. Os olhos rasgados, muito verdes, e agora umedecidos, e os cabelos pretos, desbotados, penteados com uma risca no meio e presos
na nuca, trouxeram gratas recordações.

- Diziam que havia morrido! - garantiu um dos vizinhos.

- Não - interveio um terceiro - a família afirmava que estava estudando na Alexandria!

Comecei a compreender. O Mestre estivera ausente por quase quatro anos, com duas ou três breves e esporádicas visitas aos seus. Foi o tempo das grandes viagens,
como já mencionei. Uma etapa "secreta" - a única - que jamais foi desvendada. E, de fato, correram rumores de que o tektôn (carpinteiro e ferreiro) de Nazaré estava
morto ou desaparecido. Fazia cinco meses que a Senhora o vira pela última vez.

Eu não consegui entender naquele momento, mas notei uma coisa estranha. Aquele abraço, o da Senhora, não foi tão efusivo quanto o da ruiva. Por quê? E a jovem Ruth,
alvoroçada, continuou beijando e

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abraçando seu irmão mais velho, ao mesmo tempo que gritava o nome de Jesus. O Galileu, emocionado, acariciava os cabelos avermelhados da "esquilinha" e, timidamente,
os de sua mãe.

Demorei um pouco, mas acabei percebendo. A menina pendurada no pescoço de Jesus era a caçula da família, a filha póstuma de José, nascida na noite de 17 de abril
do ano 9 de nossa era. Tinha completado
16 anos há cinco meses. Estremeci ao reconhecê-la. Estava mais atraente que no ano 30. Os olhos, igualmente amendoados e verdes - herança da Senhora -, e a pele
transparente, de porcelana, levemente polvilhada por um punhado de sardas, proporcionavam-lhe uma beleza quase enigmática. Usava o clássico chaluk, a túnica até
o tornozelo. O que estava vestindo nesse momento era azul claro, brilhante, com um cordão amplo que realçava o belo busto.

O "incidente" começava se esclarecer. Tratava-se apenas do retorno de um filho. Foi o que viram ou entenderam os vizinhos e curiosos. Uma vez esclarecida a incógnita
dos gritos, deram meia volta e desapareceram. E, finalmente, Eliseu e este que escreve, pudemos entrar naquele pátio a céu aberto. Um pátio comum, típico em Nahum,
para onde convergiam as diferentes estâncias que integravam a casa. Era longo e relativamente estreito. Calculei que tinha quinze por seis metros. No fundo, alegrando
a cor negra das paredes, abria-se uma romãzeira nova carregada de frutas. Embora estivéssemos no final do verão, a copa verde e arredondada ainda tinha alguns brotos
de flores vermelhas, muito vivas. Eu diria que essa era a característica que distinguia aquela casa: as flores. Elas estavam em toda parte. Nos muros, nos terraços
e nos jardins junto às paredes. Lembro sobretudo dos lírios negros, das rosas afogueadas de Sharon (na realidade, um tipo de tulipas), das delicadas coroas de Salomão,
das voluntariosas margaridas brancas e amarelas, da tulipa da montanha cantada por Isaías, dos narcisos do mar; precursores da chuva, com as flores brancas como
a neve, e da menta, com suas variedades de hortelá-pimenta e "pimentinha", suavizando os aromas desagradáveis dos fogões.

Só ao chegar ao umbral reparamos na terceira mulher. Permanecia imóvel, à nossa direita, quase pregada a uma daquelas portas baixas e

" 98 -

J.J. BENÍTEZ

incómodas. Estava grávida. Ao seu lado, agarrada à túnica marrom, uma menina de uns quatro anos, com a cabeça raspada, assistia curiosa à cena de Ruth e da Senhora
abraçando aquele homem de 1,81 m de altura. Era Esta, a esposa de Tiago, irmão do Mestre. Achei que a menina, Raquel, a filha mais velha do casal, que conheci em
Nazaré, não se parecia com seu tio. E estranhei a atitude de Esta. Parecia esquivar-se. Por que não tinha corrido ao encontro de Jesus?

O Mestre também percebeu a presença da tímida (?) cunhada e, libertando-se delicadamente do abraço da Senhora, foi em direção à grávida. Ruth não permitiu que seu
irmão mais velho a soltasse, e assim, pendurada a seu pescoço, acompanhou-o até Esta. Só ali concordou em descer do seu colo. Os pés descalços ostentavam vários
aros de um material negro e brilhante.

Jesus, sorridente, esperou uma saudação ou uma palavra de cortesia. Contudo, Esta, perturbada, só respondeu com um sorriso amarelo. Ruth salvou a situação. Com sua
natural espontaneidade, pegou a mão esquerda do recém-chegado e a colocou sobre o ventre da mulher.

- Presta atenção! - comentou a "esquilinha". - Já se mexe! Nascerá no adar\

Isso queria dizer fevereiro, mais ou menos. Portanto, Esta devia estar no quinto mês de gestação.

O Mestre, com a mão estendida sobre a túnica, aguardava impaciente. E, em pouco tempo, o assombro e outro sorriso vieram confirmar as palavras da ruivinha. O feto
tinha se mexido. E o Galileu passou da emoção ao riso.

- Está se mexendo! - gritou.

Não conseguia me acostumar. Aquela imagem de Jesus de Nazaré aguardando o chute de um bebé no ventre materno era absolutamente nova para mim... E a cena seguinte
foi igualmente desconcertante.

Depois de acariciar as bochechas da menina de cabeça raspada, o Mestre se deu conta da nossa presença e, aproximando-se de sua mãe, cochichou-lhe alguma coisa. A
Senhora pôs a criança que segurava no colo no pavimento escuro de pedra, veio até nós e, depois de nos desejar

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paz, pediu que ficássemos à vontade na casa. Estremeci. Maria não tinha me reconhecido. Nem podia. Agradecemos a hospitalidade e, sem saber muito bem o que fazer,
demos alguns passos...

Foi tudo muito rápido. A uma ordem da Senhora, Ruth e Esta a seguiram e sumiram no interior de um dos aposentos. A menina, com os olhos fixos naqueles três homens,
aos tropeções, sempre agarrada à túnica da mãe, também se perdeu na escuridão da estância.

E então Jesus, feliz, pegou no colo o menino que brincava perto da bacia, ergueu-o e perguntou:

- Quem és tu?

O bebé, que também tinha o crânio raspado (uma medida sábia contra as epidemias de piolhos que martirizavam todas as populações), observou Jesus, com seus enormes
olhos azuis.

- Tu deves ser Amos!

A voz do Galileu, terna e suave, tremeu ligeiramente. Imaginei que o nome lhe trazia lembranças longínquas. Há muito tempo, quando tinha dezoito anos, seu irmão
Amos faleceu em Nazaré aos seis anos de idade. Provavelmente, foi levado por uma epiglotite aguda. Conforme pude averiguar depois, Tiago e Esta decidiram homenagear
o infeliz Amos dando seu nome ao primeiro de seus varões.

O Filho do Homem, absorto em suas viagens, conhecia pouco seus sobrinhos. E o bebé reagiu como era de se esperar. Primeiro fez beicinho. Em seguida, apesar das tentativas
do Mestre de fazer amizade com a criatura, vieram as lágrimas. De nada serviram as palavras carinhosas. Amos, agitado no ar por aquele estranho, chorou mais ainda.
O Galileu, sem saber como agir, levantou-o um pouco mais, acima da cabeça. E aconteceu. O menino, assustado, urinou e molhou o rosto e a barba do inexperiente tio.

Tive de me segurar para não soltar uma gargalhada. Eliseu, ao contrário, não conseguiu se conter, e os risos encheram o pátio. O próprio Jesus acabou se unindo ao
deleite de meu irmão e também soltou boas risadas. Assim era aquele Homem...

Esta e Ruth retornaram em meio ao alvoroço. Foi Jesus, ainda com o menino entre as mãos, que confessou o ocorrido. E a "esquilinha" largou as

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j.). BENÍTEZ

esteiras que estava carregando e se incumbiu de Amos, enchendo a criança de mimos. Esta enfileirou as esteirinhas de esparto ao pé da romázeira e limitouse a apontar
para elas, sugerindo que nos sentássemos. Depois, sem palavras, pegou o bebê e voltou a se perder no interior de uma das estâncias.

Eliseu e eu obedecemos. E durante alguns instantes permaneci ensimesmado, acariciando com as pontas dos dedos o curioso trançado das cordas. Era como um barrote
redondo, similar ao utilizado nas cobertas dos barcos. Alguém as tinha trabalhado com grande paciência e habilidade. O desenho me pareceu familiar - três círculos
concêntricos -, mas, nesse momento, eu não entendi por quê. Naturalmente, não perguntei. Só alguns meses mais tarde descobri a identidade do artesanato das estranhas
esferas e a razão dos desenhos...

Creio que o que se segue ocorreu quase que simultaneamente. A ruivinha, com as mãos na cintura, desafiou o irmão com o olhar. E o Mestre, dando um passo para trás,
negou com a cabeça.

Eliseu, sentado à minha esquerda, se mexeu inquieto. Eu não sabia o que estava acontecendo. Meu irmão examinou a túnica e ficou apalpando o cordão.

-Já disse para tirares a roupa! - ameaçou Ruth sem contemplações.
- Não vou repetir!

Jesus voltou a negar e continuou andando para trás...

Eliseu, então, pálido, ergueu-se de um salto e, sem dizer nada, continuou examinando a roupa. Pensei em algum inseto...

Foi tudo muito rápido. Ao recuar, o Galileu tropeçou na bacia em que, aparentemente, a Senhora lavava quando ele chegou em casa. E o Mestre caiu na água espumosa
estrepitosamente, provocando uma gargalhada fulminante de sua irmã.

Não sabia para onde olhar.

O engenheiro levantou as esteiras. Que diabos estava procurando? Depois, sem responder às minhas perguntas, dirigiu-se para o pórtico com a cabeça baixa. Fiquei
de pé. Eliseu caminhava lentamente, passo a passo. Parecia perscrutar cada pedra do pavimento. Foi até os jardins e o vi revolvendo entre as flores.

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Dei uma olhada para Jesus. Ele continuava sentado num canto da bacia, ensopado e com um sorriso de orelha a orelha. Ruth correu até ele e se apressou em ajudá-lo.
Mas o Mestre, a julgar por sua tranqüilidade, só tinha levado um susto. E o deixei ali, com as longas pernas sobressaindo acima do enorme recipiente. Achei que tinha
de dar prioridade ao meu irmão. Mas o que se passava?

Encontrei-o na soleira da porta. Perguntei-lhe de novo, mas não me ouviu. Estava pálido. Abaixou-se, revistando os degraus. E, diante de minha perplexidade, voltou
a entrar no pátio, examinando o que já tinha explorado. A "esquilinha", no fundo, tinha começado a desnudar um Jesus de Nazaré totalmente submisso.

Ao retornar ao pórtico, Eliseu, resmungando palavras irreproduzíveis, passou por mim apressadamente. Foi até o meio da rua e ficou um tempo examinando as pedras
do pavimento. Os transeuntes, curiosos, aproximavam-se e por fim lhe perguntaram. Foi então que, para sanar minha dúvida e evitar um mal maior, arrastei-o para longe
do pequeno grupo e o obriguei a falar.

- A bolsa! - lamentou com um fio de voz. - Desapareceu!

E apontando para o cordão onde normalmente amarrava sua bolsa de lona com o dinheiro desculpou-se:

- Sinto muito!... Não sei o que aconteceu...

Procurei animá-lo. Aquilo fazia parte do dia-a-dia. Será que não tinha perdido? Meu irmão negou categoricamente essa possibilidade. Fiquei em dúvida. Embora Eliseu
fosse extremamente cuidadoso, ela poderia muito bem ter se soltado no caminho. Talvez isso tenha ocorrido no incidente diante da pousada de Sitio.

Continuou negando. Afirmou que estava com a bolsa ao entrar em Nahum. Lembrava bem porque, no labirinto do bairro oriental, em uma das vezes em que saímos para o
lado, para dar passagem a um jumento, ele a tinha protegido com as duas mãos. Será que perdeu no caminho até a casa onde morava a família de Jesus? Será que roubaram?

O engenheiro não desistia, e interrogou os empregados e os proprietários dos pontos de comércio mais próximos. Eles não sabiam de

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nada. E se sabiam, ninguém quis se comprometer. Consideramos a possibilidade de um roubo durante aqueles minutos em que ficamos imobilizados, quase presos, no pórtico.
Concordamos que talvez esse fosse um momento-chave. Na confusão, o ladrão, ou ladrões, podia ter aproveitado para fazer o butim. No total, eram uns quinze denários.
Sobraram dez. Dinheiro mais do que suficiente para chegar ao alto do Ravid, desde que retornássemos dentro de poucos dias. Esse era o problema. Na verdade, não sabíamos
nada sobre os planos do Mestre. Será que ele ficaria em Nahum? E, nesse caso, ficaria por quanto tempo?

O consolo é que se tivesse perdido a outra bolsa de lona, a situação ficaria muito mais comprometida. Além de uma parte do dinheiro, este que escreve, como se recordam,
costumava levar as lentes de contato - os "crótalos" -, fundamentais para a visão noturna e na aplicação de alguns dos sistemas localizados na "vara de Moisés",
em particular os defensivos.

Foi então que, refazendo o caminho até a casa, fui assaltado por aquela idéia. Contudo, preferi afastá-la e me mantive em silêncio. O que eu ganhava atormentando
meu companheiro? Mas a imagem não me saía da cabeça... eu não estava enganado. Nem Eliseu nem eu fizemos comentário algum. Voltamos a sentar debaixo da romãzeira
e ficamos esperando. Nós dois já tínhamos aprendido que não adiantava se rebelar contra o Destino...

Ruth obrigou o irmão mais velho a abaixar a cabeça e, decidida, esfregou os cabelos com um pó branco e espesso. Depois os enxaguou com a ajuda de uma gamela de madeira.
O Mestre, com as barbas revoltas coladas no tórax robusto, não resistia. Pela espuma e pela cor, deduzia-se que a jovem o estava lavando e desinfetando com natrão,
uma espécie de sabão, muito utilizado naquele tempo, que era extraído das raízes da barrilha e da salicórnia ricas em sais alcalinos. Depois de trituradas, essas
raízes eram reduzidas a cinzas e transformadas em detergente em pedra ou em pó. O carbonato de sódio era implacável com a sujeira e com os parasitas, em especial
os da incómoda família dos pediculus, os piolhos, também combatidos com o vinagre e a babosa púrpura. Quase todas as crianças tinham as cabeças raspadas e eram besuntadas
diariamente com

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esses produtos. O odor, ácido e desagradável, era sentido a distância. Para os mais rigoristas com a Lei mosaica, o natráo tinha toda uma simbologia, cantada pelo
profeta Jeremias (2, 22), insuficiente para dirimir o pecado dos infiéis. Como confirmaríamos nas visitas posteriores a Nahum, e também a outros povoados, aquele
"sabão" fabricado no Egito e na Síria era um excelente negócio.

Jesus, obediente, jogou a cabeça para trás, e a ruivinha, com suavidade e doçura, foi penteando os longos cabelos. O sol, tão atento como nós, contribuiu com sua
luz. E o Mestre, relaxado, deixou que o fizesse. Pouco depois, dirigiu-se à mesma porta pela qual as mulheres haviam entrado e saído.

Ruth, incansável, tentou remover a bacia de pedra. Não conseguiu nem mexê-la do lugar. Por causa da água e das dimensões, era pesada demais para a frágil "esquilinha".
Acho que não tinha mais que 1,60 metro de altura; mais ou menos como a Senhora.

Não perdemos tempo. Meu irmão e este que escreve, ao percebermos isso, erguemos o recipiente, prontos a transportá-lo. E Ruth, agradecida, apressou-se a nos abrir
caminho até o curral existente a alguns passos da romãzeira, na extremidade norte da propriedade. Empurrou uma portinha de madeira e entramos em um retângulo não
pavimentado, forrado de cinza basáltica, tão abundante em Nahum. Apontou para o canto esquerdo, junto a um alpendre. Algumas galinhas pretas, de pequeno porte e
com o pescoço e o peito depenados, fugiram precipitadamente, protestando pela súbita interrupção. A moça puxou uma segunda porta e mostrou o buraco onde devíamos
esvaziar a bacia. Era o chamado "quarto secreto". Um estrado, duas bacias de metal e várias esponjas, penduradas em pregos na parede, a um metro do tablado, eram
toda a mobília do banheiro da família.

Percebi que a menina estava ficando vermelha. Despejamos a água e, discretamente, a seguimos de volta ao pátio. É claro que aproveitei para fixar referências. Naquele
momento eu ainda não sabia, mas a casa em que nos encontrávamos seria de particular importância durante uma longa temporada...

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J.). BENÍTEZ

No curral, do mesmo modo que na habitação da Senhora em Nazaré, além dos animais e do mencionado "quarto secreto", armazenava-se todo tipo de utensílios, geralmente
de pouca utilidade, entre os quais distingui ferramentas, sacolas de folha de palmeira penduradas nas paredes, panos de redes e vários sacos de juta, sob o alpendre
de bambu, supostamente cheios de cereal. No canto direito, encostado à parede, reconheci o forno típico onde assavam o pão.

Ruth se desculpou e desapareceu momentaneamente. Eliseu foi se sentar nas esteiras dos três círculos, e eu, sem poder ajudá-lo, dei asas à minha curiosidade, que
é meu passatempo favorito...

Eu estava errado. O pátio a céu aberto não era de fato um retângulo, como tinha imaginado, ao observá-lo do pórtico. Ainda há pouco, quando estávamos indo para o
curral, constatei que tinha a forma de "L". Esse pátio dividia a propriedade em quatro blocos ou unidades familiares (para descrevê-lo, tomarei sempre como referência
principal o pórtico citado). À direita, erguiam-se as duas dependências. A primeira era habitada por Tiago e sua família. Era o único edifício de duas plantas. Uma
escada de pedra, ligada à fachada, permitia o acesso ao terraço. Foi na porta dessa residência que vimos pela primeira vez a grávida e sua filha, Raquel, agarrada
à túnica.

A unidade seguinte, ligada à anterior, era a casa propriamente dita da Senhora. Ela vivia com Ruth. Dispunha de outra escada externa, que conduzia igualmente ao
terraço. Foi por essa porta, sempre aberta, que vimos as mulheres entrarem e saírem, e também Jesus desaparecer coberto com o lençol e, agora, a "esquilinha". Ali,
bem defronte a essa porta, a três metros, via-se a jovem romãzeira. Era o lugar onde a família costumava se reunir quando o tempo estava bom. Ali, à sombra da árvore,
trocavam-se impressões, fazia-se o desjejum e se recebiam os amigos.

A curta distância da romãzeira, o pátio se abria em ângulo reto, formando o tal "L". Nessa mesma mão, à direita, junto à casa da Senhora e de Ruth, ficava o curral.
Era fechado por uma portinha barulhenta de tábuas que fazia esquina com o terceiro edifício, também de pedra escura, e com uns quatro metros de altura. Quando tivemos
acesso a ele, ficamos

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sabendo que ali funcionavam a cozinha e o refeitório, que se costumava utilizar no inverno quando as condições meteorológicas não permitiam ficar o tempo todo no
pátio. A sala, com dois níveis, era muito parecida com a da residência de Nazaré.

No final deste braço mais curto do "L", no muro de três metros de altura que circundava a propriedade, descobri outra porta, mais modesta que o pórtico, quase sempre
fechada, que se comunicava com o exterior. Era uma espécie de "saída de emergência", utilizada em circunstâncias muito especiais.

Em frente à cozinha "de inverno", completando o desenho, o pátio aberto, erguia-se a quarta unidade familiar: outro edifício, parecido com os anteriores, que ocupava
o lado esquerdo do pátio. Era celeiro e despensa. Ali foi aberta uma cisterna, na qual se armazenava água da chuva. O terraço dispunha de um engenhoso sistema de
coleta, projetado porTiago, o irmão do Mestre, e sobre o qual falarei, espero, no momento oportuno. Para chegar a esse terraço era preciso utilizar uma escada portátil.

A "casa das flores" - como a batizamos Eliseu e eu - tinha, portanto, quatro dependências e um curral. Todas as portas, pelo que sei, davam para o pátio. Contei
quatro (sem mencionar a do curral e as duas externas), largas e baixas, que obrigavam a pessoa a se inclinar. Cada uma tinha sua cortina, formada por uma rede embreada
que protegia o interior dos insetos e dos olhares indiscretos. Aquele tipo de pátio, em última análise, era comum em Nahum e em muitos outros povoados das margens
do yam. Era ali, à sombra das árvores, sobre as lajes de pedra escura e entre as flores, que transcorria boa parte da vida dos galileus e, naturalmente, onde viveu
também o Filho do Homem.

Jesus reapareceu no pátio. Eliseu e eu nos olhamos. Tinha trocado sua indumentária habitual por uma túnica também de linho, mas de um vermeIho-fogo, muito chamativo.
Era a primeira vez que o via vestido de uma cor que não fosse o branco. Teríamos de nos acostumar a isso também.

Segunda surpresa: trazia nas mãos o ramo de oliveira que tínhamos dado de presente a ele algumas semanas antes, no Hermon. Não disse nada. Observou o pátio e caminhou
em direção ao jardim situado perto da porta da despensa, à esquerda do pórtico. Achamos que tinha a inten-

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J.j. BENÍTEZ

cão de plantá-lo entre as flores. Examinou o buraco deixado por um dos vivíssimos círculos de anémonas coronárias encarnadas e, de fato, ajoelhou-se, disposto a
salvar o broto.

Mas logo se levantou, deixando o galho no solo cinzento do estreito jardim. E voltou para trás. Passou por estes intrigados exploradores, foi até a esquina direita
do pátio e parou em frente à porta do curral. Vacilou uns instantes, depois abriu e se perdeu no alçapão. Eliseu encolheu os ombros.

Assaltado mais uma vez por aquele pensamento em que eu "via" o responsável pelo roubo da bolsa de meu companheiro, não prestei muita atenção e fiquei esperando,
quase que mecanicamente, que o Galileu voltasse. Mas quem apareceu não foi o Mestre. Subitamente, irromperam no pátio as galinhas de "pescoço pelado". Eram dez ou
doze. Ao abrir a portinhola, Jesus não teve o cuidado de fechá-la novamente. E, aproveitando a circunstância, em poucos segundos a inquieta família se espalhou e
ficou ciscando naquele canto do pátio. Não demos maior importância ao fato...

Jesus voltou e, ao constatar a fuga das galinhas, ergueu os braços, dirigindo-se com suas largas passadas às mais próximas. Na mão esquerda agitava um almocafre,
uma pequena enxada com dois dentes curvados que se costumava utilizar na agricultura (em geral na limpeza e no replante de flores e arbustos). Evidentemente, era
a ferramenta que precisava para plantar o galho, e que ele tinha ido buscar no curral.

Atónitos, ficamos de pé.

O Mestre, correndo, abaixando-se e usando os dois braços, tentava sufocar a "rebelião", levando-as de volta até a porta de tábuas. Contudo, a sorte não parecia estar
do seu lado...

- Coco..., coco!

Quando uma das aves, protestando contra a perseguição, estava sendo levada para o curral, as outras cruzavam o seu caminho, frustrando os esforços do Galileu. E
começava tudo de novo...

Eliseu foi contagiado e uniu-se à inútil perseguição. Não só não conseguiram levar as espertas galinhas de volta ao seu recinto, como também, mais de uma vez, tropeçaram
um no outro. E foi em um desses tropeços que ambos acabaram caindo por terra. Assim terminou a perseguição.

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O alvoroço chamou a atenção das mulheres, e as três vieram para o celeiro, onde presenciaram o desastre. Foram elas que, habilmente, dominaram as intrusas e as devolveram
ao curral.

Jesus voltou ao jardim sob o olhar acusador das mulheres. Ao passar por mim, deu-me uma piscada maliciosa, e cochichou:

- As rebeliões não são o meu forte...

Pouco depois, lá estava ele atarefado em uma cuidadosa operação, plantando e molhando o eb ou broto de oliveira. O galho permaneceu ali, até que o Destino resolveu
mudá-lo de lugar.

As mulheres falaram sobre a ceia. Onde a preparariam? Ainda faltavam três horas para o crepúsculo e o vento continuava forte e incómodo. Esta achava que o fogão
no pátio não era uma boa idéia. O maarabit poderia transformar a ceia em uma tortura. Ruth concordou. O mais sensato era a cozinha de inverno. Trabalhariam ali.
E, puxando a Senhora, a ruivinha seguiu em direção ao imóvel que se erguia no fundo do pátio. A grávida, por sua vez, com a menina agarrada em sua túnica, foi em
direção oposta, para sua casa.

Eu não sabia como explicar. O mutismo de Maria, a mãe de Jesus
- a Senhora - me deixara desconcertado. No ano 30, quando a conheci, era agitadíssima. Ela comandava tudo e andava de um lado para outro cem cessar. Agora, ao contrário,
ficava em segundo plano e, na maior parte das vezes, ausente. O que estava acontecendo?

Concluída a plantação do ramo, o Mestre foi se sentar ao nosso lado, nas esteiras. Foram alguns segundos densos e intermináveis em que ninguém abriu a boca. Nós
acabaríamos nos acostumando a essas situações, aparentemente incómodas, dominadas pelo silêncio. Foi preciso algum tempo para que entendêssemos por que o Filho do
Homem amava o silêncio. Era sua cor preferida no arco-íris. "Por que falar - dizia - se o silêncio fala por nós?... O silêncio é o idioma nato do amor."

E assim permaneceu, pensativo, percorrendo os círculos de junco com a ponta do dedo indicador direito. E eu, pobre de mim, não me dei conta do significado daquele
gesto, aparentemente trivial. Três círculos concêntricos!

Eliseu, menos diplomático, rompeu o silêncio e o jogo misterioso de Jesus para fazer uma pergunta que - admito - também me deixara in-

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J.J. BENÍTEZ

trigado. De quem era aquela casa? Por que tinham se mudado de Nazaré para Cafarnaum ou Nahum?

O Mestre interrompeu o traçado sobre os círculos e nos contemplou com doçura. Compreendia perfeitamente nossa curiosidade. Jogou para trás os cabelos úmidos e deixou
que o maarabit nos envolvesse. Depois, com os olhos fechados, foi recordando...

Aconteceu há quatro anos, no mês de tébet (dezembro-janeiro). Nesse ano 21 de nossa era, em uma manhã chuvosa de domingo, Jesus deixou Nazaré. Queria conhecer o
mundo. Queria saber sobre as criaturas. Jamais voltaria à pequena aldeia, pelo menos para ficar de vez. Sua mãe e seus irmãos não conseguiam entender...

Estava prestes a iniciar a magnífica e secreta etapa das viagens pelo Mediterrâneo e pelo Oriente. Porém, o Destino, como não poderia deixar de ser, veio ao seu
encontro...

Foi no yam, no povoado vizinho de Saidan. Ali vivia uma família com quem José, seu pai terreno, sempre manteve uma relação estreita e afetuosa. Jesus sorriu e pronunciou
um nome bastante conhecido:

- Zebedeu...

O velho pescador e construtor de barcos, de fato, era sócio e amigo de José, carpinteiro de exteriores e empreiteiro de obras, falecido, como todos se recordam,
no dia 25 de setembro do ano 8, quando o Galileu tinha catorze anos de idade. O velho Zebedeu e José trabalharam e fizeram negócios juntos. Toda a família de Saidan
o conhecia e o estimava. Por isso, quando Jesus chegou ao casarão da praia, foi recebido de braços abertos. Foi nesse mês de janeiro que o Mestre iniciou sua amizade
com a família. Embora já tivesse encontrado com eles em outras ocasiões, foi nesse começo do ano 21 que ficou íntimo dos filhos do patriarca, especialmente João.

Os Zebedeu necessitavam de mão-de-obra no pequeno estaleiro existente na foz do rio Korazain e, conhecendo a habilidade de Jesus como carpinteiro e forjador, propuseram-lhe
que trabalhasse para eles.

- ...O Pai decidiu que sim - disse o Mestre, encantado diante da possibilidade de recordar.

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- O pai? - interrompeu Eliseu sem compreender. - Por que o velho Zebedeu decidiu?

O Mestre negou com um leve movimento da cabeça. Depois, erguendo o rosto para o azul do céu, ponderou:

-Teu Chefe... O "Barbudo", como o chamais...

Meu irmão, satisfeito, animou-o a prosseguir.

Jesus viveu no casarão de Saidan por treze meses. Todos gostavam dele. Especialmente as quatro filhas, irmãs de Tiago, João e Davi (que mais tarde se tornaria chefe
dos "correios").

E, por um instante, pensei: será que uma das filhas do velho Zebedeu e de Salomé se apaixonou pelo belo Galileu? Afastei a idéia estúpida, porém...

Durante esses meses, como havia prometido, Jesus enviou dinheiro para sua família em Nazaré. Só no marjesván (outubro-novembro) visitou novamente a mãe, e assistiu
ao casamento de Marta, a segunda irmã12. Depois desapareceu outra vez. A Senhora não o veria de novo nos dois anos seguintes.

O Mestre inscreveu-se no censo de Nahum. Ali pagou seus impostos. O povoado acabou se tornando "sua cidade", como afirmam Mateus e Marcos, desta vez acertadamente.
Jesus figurava simplesmente como "artesão especializado".

E no mês de março do ano seguinte (22 da nossa era), o Galileu, desde essa data "cidadão de Nahum", seguiu seu Destino. Para tristeza dos Zebedeu - especialmente
das filhas - despediu-se e partiu rumo ao sul, iniciando a primeira de suas longas e apaixonantes viagens. (Ainda me pergunto se devo incluir essa informação neste
diário. Quem sabe?...)

12 Embora as religiões não aceitem isso, o Mestre teve mais irmãos. Jesus foi o primogénito. Depois nasceram Tiago (madrugada de 2 de abril do ano 3 a.C.), Míriam
(noite de 11 de julho do ano 2 a.C.), José (manhã de quarta-feira, 16 de março do ano l de nossa era), Simão (noite de 14 de abril do ano 2), Marta (15 de setembro
do ano 3), Judá (24 de junho do ano 5), Amos (nascido na noite de domingo, 9 de janeiro do ano 7, e falecido no dia 3 de dezembro do ano 12) e Ruth (noite de quarta-feira,
17 de abril do ano 9). Os teólogos e exegetas, absurdamente preocupados com a virgindade da Senhora, consideram o termo ah (irmão) e ahot (irmã) como "parente".
No ano 4, após um áspero debate, a Igreja católica concedeulhe o título de "Mãe de Deus". (N. do M.)

" 110

J.J. BENÍTEZ

Antes de seguir caminho, o Mestre pediu um favor ao seu amigo João Zebedeu. Durante sua ausência, ele deveria enviar uma certa quantia de dinheiro à sua mãe em Nazaré.
Jesus tinha optado por receber uma pequena soma mensal - por conta do salário estabelecido -, e guardar o resto para o futuro. Agora era o momento de abrir mão desses
denários para ajudar sua gente. O Zebedeu concordou, comprometendo-se a fazer isso "e tudo o que fosse necessário". Quando João perguntou sobre o destino da viagem
e o tempo em que permaneceria longe do yam, Jesus respondeu: "Isso quem decide é meu Pai. Voltarei quando chegar o momento".

Nem é preciso dizer que o Zebedeu ficou sem entender. Também não era o momento...

Porém, como estava dizendo, cumpriu sua palavra. E com o dinheiro acumulado respeitou o pacto e fez algo mais. Durante dois anos enviou mil e duzentos denários de
prata para a Senhora, e com o resto - outros mil - aventurou-se a comprar uma casa em Nahum. Justamente aquela em que descansávamos agora. Pagou a hipoteca e procedeu
à liquidação da dívida, estendendo o título de propriedade ao nome de seu amigo, "Jesus de Nahum". Dessa forma, enquanto se encontrava ausente, o Mestre tornou-se
proprietário. Foi sua única propriedade durante toda a vida.

Como já disse, somente uma pessoa teve conhecimento dos lugares que o Galileu visitou nesses anos. Porém, o velho Zebedeu não revelou nada até a morte do Filho do
Homem...

E, no final do ano 23, ao retornar a Nahum, o Mestre teve uma dupla e grata surpresa. Primeiro, a titularidade da casa, muito próxima do cais13, e, além disso, a
presença de Tiago, seu irmão, no estaleiro dos Zebe-

Antes do início da operação "Cavalo de Tróia", tive a oportunidade de visitar as escavações arqueológicas comandadas pelos franciscanos Virgílio Corbo e Estanislao
Loffreda, do Instituto Bíblico de Jerusalém, nas atuais ruínas de Cafarnaum (Nahum). Era o ano de
1968. Pois bem, lamento náo concordar com as apreciações desses honoráveis pesquisadores. A autêntica casa de Jesus ficava um pouco mais ao sul e era menos espaçosa
que a chamada insula sacra. Segundo uma tradição cristã, Pedro dispunha de casa própria em Nahum, e sobre ela, ao que parece, foi edificada uma igreja octogonal
no século V. A suposta casa de Pedro, segundo a arqueologia, reunia um total de doze habitações. A que eu considero como a de Jesus tinha quatro quartos ou módulos,
sem contar o curral. (N, do M.)

111

deu. A pedido da família de Saidan, o segundo dos varões tinha ocupado a vaga deixada por Jesus. A moradia, como disse, era suficientemente grande para acolher várias
pessoas. Assim, generosamente, o Galileu convidou Tiago e Esta para se mudarem para a "casa das flores". E eles continuavam ali, ocupando a primeira das dependências
(a de duas alturas).

Jesus voltou a Nazaré e visitou os seus. Alguns já o imaginavam morto. Outros achavam que ele estava em terras do Egito, estudando nas prestigiadas escolas rabínicas.
Ninguém acertou.

E no mês de nisán (março-abril) do ano 24, o Mestre assistiu a um duplo casamento: o de Simáo e Judá, seus irmãos, com 22 e 19 anos, respectivamente. Apenas Ruth
continuava solteira. Era a única que vivia com Maria, a Senhora.

E o Destino bateu novamente à porta do Galileu...

Estava prestes a iniciar uma segunda viagem. Uma viagem que se prolongaria por mais um ano. Mas, antes de partir, o primogénito, prudentemente, reuniu a família
e sugeriu a possibilidade de uma mudança; a Senhora e a "esquilinha" podiam ir morar na "casa das flores", em Nahum, em companhia de Tiago. A idéia foi discutida
e acabou sendo aceita. Além disso, a situação em Nazaré, em razão das venenosas intrigas de Ismael, o saduceu14, que era o hazan ou responsável pela sinagoga, complicava-se
cada dia mais.

E, em abril desse ano de 24 de nossa era, pouco antes da partida do Filho do Homem para o leste, sua mãe a sua irmã foram para Nahum e se instalaram no edifício
contíguo ao de Tiago e Esta. Salvo raras ocasiões
- algumas de triste memória - a Senhora não retornou a Nazaré. Viveu em Nahum e, ao que parece, ali morreu, por volta do ano da crucificação de Jesus (abril de 30).
E suponho que seus restos mortais continuem ali, felizmente no anonimato. Ruth completou seu décimo sexto aniversário na nova casa, às margens do yam.

14 Há mais informações em Saidan. Cavalo de Tróia 3, Nazaré. Cavalo de Tróia 4, Cesáría. Cavalo de Tróia 5. (N. do A.)

112 "

J.J. BENÍTEZ

No ano 25, o Mestre deu por encerrada essa segunda viagem, retornando a Israel. Mas foi por pouco tempo. Depois de uma visita rápida à família, partiu novamente
e desapareceu. Nós o encontramos em agosto, na cadeia montanhosa do Hermon, ao norte. Hoje, 18 de setembro, Jesus estava retornando a Nahum, à sua casa, depois de
cinco meses de ausência. E então compreendi o alvoroço da irmãzinha. Em compensação, a atitude da Senhora, fria e distante, era inexplicável para mim. Nessa mesma
noite, durante a ceia, creio que entendi a razão do comportamento estranho da mãe...

As explicações do Galileu foram interrompidas pela chegada da bela Ruth. Ela vinha trazendo três gamelas de madeira com um refresco típico da costa do yam; a abattíab,
uma deliciosa mistura de suco de melancia, romã e um vinho negro e doce que não consegui identificar, mas que me agradou. O primeiro a receber a bebida foi este
explorador. Assim o exigiam as leis da hospitalidade.

De joelhos sobre as pedras, a jovenzinha pegou uma das rações e, em silêncio, ofereceu a mim. Como esquecer aquele olhar? Irradiava a doçura do Mestre e a beleza
e a espontaneidade da Senhora. Não sei o que aconteceu. Simplesmente, não conseguia desgrudar daqueles olhos verdes... A moça, timidamente, baixou os olhos.

Eliseu agradeceu a abattíah. Ainda bem; eu não consegui, ou não fui capaz, de articular uma só palavra... Jesus foi o último a receber o "aperitivo". Segurou a gamela
entre as mãos, e como era seu costume, ergueu-a um pouco, fazendo um brinde:

- Lehaiml

- Pela vida! - retribuiu meu companheiro.

Eu continuei mudo, como já disse, sem entender o que se passava comigo.

E Jesus, percebendo meu silêncio, repetiu o brinde, incitando-me a participar do nobre desejo.

- Pela vida! - respondi, finalmente, com a voz tolhida por aquele súbito sentimento. - Lehaim\

E meus olhos, sem que eu pudesse impedir, acompanharam a rápi-

113

da e delicada silhueta da moça. Desde então, as coisas nunca mais foram as mesmas para este perplexo explorador...

Meu irmão elogiou o bom gosto das cozinheiras, e o Mestre, sem desviar seus olhos penetrantes dos meus, esclareceu as dúvidas do engenheiro sobre os ingredientes
da abattíah.

Desta vez fui eu quem baixou os olhos sentindo-me observado. Não sei como explicar. Ele lia nos corações...

- Tu te lembras da esperança? - perguntou o Galileu, sustentando o olhar intenso -. Tu te recordas de Sitio?

Acho que respondi afirmativamente. Meu coração estava em outro lugar.

- Pois bem - respondeu Jesus, mostrando um de seus melhores sorrisos -, a tua acabou de despertar...

Agora estou entendendo suas palavras.

- Esperança? - interveio Eliseu sem entender. - Que esperança? A que tu te referes?

O Mestre permaneceu em silêncio. Em parte, imagino, pela repentina aparição no pátio de Esta com a menina, como sempre, agarrada à sua túnica. Seja como for, eu
lhe agradeci do fundo do coração...

A grávida carregava o bebê e também uma réstia de alhos e cebolas, pacientemente trançados. A mulher não tinha dado três passos ainda quando Jesus, levantando-se,
foi ao encontro dela e, sem dizer nada, ajudou-a, encarregando-se de Amos. Esta e Raquel passaram por nós e viraram à esquerda, em direção à cozinha.

A criança, profundamente adormecida, estava envolvida em um pano branco quadrado - um saco de algodão - que fazia as vezes de fralda. A julgar pelo aroma de romã
e pelos cabelos ruivos cuidadosamente penteados, ele acabara de tomar banho. Aqueles foram outros tantos momentos intensos e inesquecíveis. Jesus, segurando o bebé
entre seus braços robustos, voltou a se sentar junto a estes exploradores. Nem sequer olhou para nós. Permaneceu embevecido por um tempo, examinando as delicadas
feições da criatura. Parecia estudá-la e admirá-la.

114

E este que escreve também desfrutava da imagem respeitosamente. Se aquele Homem era um Deus, se Amos era uma de suas criaturas, eu podia me aproximar um pouco -
não muito - dos sentimentos do Mestre. Assim como ocorrera com Aru, o negro "tatuado", o olhar do Galileu emanava uma mistura de piedade, admiração e amor. Era um
Deus, com a vida nas mãos...

Lehaim.

Mas, como posso ser tão estúpido e presunçoso? Eu, uma pessoa totalmente inútil, querendo compreender os sentimentos do Mestre?

O Galileu não resistiu à tentação e, radiante, passou o dedo indicador esquerdo pelo narizinho do bebé. Amos não reagiu. E o Mestre continuou acariciando-o, resvalando
o dedo pelos lábios e pela covinha que apontava no queixo. A criança, naturalmente, acabou acordando. Abriu os imensos olhos celestes e, quando todos esperávamos
a tragédia, sorriu, mostrando seus primeiros dentes. Jesus então se precipitou sobre ojonek15 e encheu-o de beijos.

Eliseu e eu trocamos um olhar. Era a primeira vez que víamos o Filho do Homem entregue a um bebê. E os beijos, sonoros e acompanhados de muitos mimos, multiplicavam-se
entre os risos e o movimento de braços do pequeno. Foi num desses movimentos que Amos, tão entusiasmado com o tio, agarrou a barba do Galileu e puxou com força.
E Jesus, dócil, permitiu que o bebé continuasse brincando. Aquela imagem me trouxe outras recordações, não tão ternas, ocorridas durante o traslado do patibulum,
a tora transversal da cruz, da fortaleza Antonia para o Gólgota16...

O teimo jonek designava a criança que ainda mamava. O povo judeu era extremamente sensível às crianças (pelo menos às suas), a ponto de diferenciar cada etapa da
infância com uma definição respectiva. Jeled, por exemplo, servia para nomear os recém-nascidos (é o caso de Moisés no Êxodo [2, 3] e da profecia de Isaías sobre
o próprio Jesus [9, 6]). Jalde, em compensação, aplicava-se aos bebés pagãos, depreciando-os como algo impuro. Oleei era o que precisava de pão. Gamulera a palavra
que designava o desmamado (geralmente a partir dos dois anos de idade). Esse momento era celebrado com uma festa. A etapa seguinte - conhecida como taf- prolongava-se
até os quatro ou cinco anos. Depois vinha o elem (a criança já demonstrava firmeza e vontade). Por último, o naar e o bachur, que eram os adolescentes. (N. do M.)

Ampla informação em Jerusalém. Cavalo de Tróia 1. (N. do A.)

115

Esta chegou trazendo a refeição do bebê e salvou o Mestre daquela situação incómoda. Amos soltou a barba e, agitando os braços, manifestou sua alegria diante da
presença da mãe. A mãe quis pegar o bebé de volta, mas seu cunhado, com um gesto, rogou que o deixasse alimentá-lo. E assim foi.

O Mestre, paciente e amoroso, ia levando a colher de madeira à boca da criança. E, aos pouquinhos, Amos devorou a gamela com farinha torrada, leite e pão esmigalhado.
Depois, satisfeito, voltou a adormecer nos braços do Galileu, docemente embalado por aquele Homem. Um Homem extraordinário...

Devia ser a hora décima (quatro da tarde) quando, em meio aos preparativos para a ceia, as mulheres notaram da chegada de Tiago, o irmão de Jesus. Deteve-se por
alguns instantes sob o pórtico. A presença daqueles homens, desconhecidos para ele, intrigou-o. Porém, logo que reconheceu Jesus, tratou de se aproximar do grupo,
abraçando e beijando seu irmão mais velho.

Não tinha mudado praticamente nada desde que eu o "deixara" no ano 30... Alto, corpulento como o Mestre, embora não tão atlético, e com os cabelos e barba prematuramente
embranquecidos.

Após as apresentações de praxe - Jesus nos identificou como allup ou "companheiro" (um pouco mais que alliz e oheb, respectivamente "amigo de diversões" e "aliado")
- Tiago pediu licença e retirou-se para sua casa. Esta, sua mulher, seguiu-o.

Nesse momento eu náo tive certeza, mas diria que havia algo estranho na atitude de Tiago. Abraçou o Galileu e retribuiu carinhosamente os beijos nas faces, mas,
como estava dizendo, alguma coisa me desagradou. E associei esse "algo" ao rosto frio e severo da Senhora. Ambos me pareceram distantes. O que estava acontecendo
naquela casa?

Logo depois, no interior do imóvel de planta dupla, ouviram-se vozes. O casal discutia. Só captei uma frase pronunciada pelo homem...

- Por que ele voltou?

Jesus, sério, continuou descascando maçãs. Náo fez nenhum comentário. De fato, algo se passava...

116

J.J. BENÍTEZ

A Senhora, atarefada com a pitah, o prato principal, olhou para seu Filho mais de uma vez. Percebi uma certa desaprovação naqueles olhares fugazes. Era evidente
que ela o responsabilizava pela discussão entre Esta e Tiago. Mas por quê? Jesus, no entanto, não levantou os olhos das tappuah, as doces e minúsculas maçãs brancas
e vermelhas da Síria. Cortou-as e derramou sobre a sobremesa um fio de mel. Seu rosto permanecia impenetrável.

Ruth, perturbada e sem saber como aliviar a situação incómoda, sugeriu à mãe que voltassem à cozinha para acabar de trazer ao pátio os ingredientes da ceia. O vento,
afinal, estava amainando. A Senhora, inflexível, não respondeu e continuou preparando o recheio do pão pitah, um delicioso "bolo", que acabara de sair do forno,
no qual se introduzia carne e verduras, ou qualquer coisa que estivesse mais à mão. Nesse caso, as mulheres tinham cozinhado fígados de frango e uma generosa guarnição
de cebola igualmente frita. A pitah incluía ainda uma saborosa mistura de pimenta vermelha (picante), a cheirosa cúrcuma, sal e cominho. Quando provei, vi que as
hebréias tinham se esmerado ao máximo, limpando até o último resquício de bílis, evitando que o sabor amargo arruinasse todo o prato.

Foi inútil. A argúcia da ruiva, tentando impedir que a atmosfera ficasse ainda mais rarefeita, náo deu resultado. A mãe, cada vez mais aborrecida, manifestou sua
irritação no recheio az pitah. Os movimentos secos e violentos me fizeram temer o pior. Eu me lembrava muito bem do génio inflexível da Senhora... Porém, pouco a
pouco, a tensão diminuiu. Maria tinha uma personalidade difícil, mas sabia ceder...

Jesus, assim como todos os outros ali presentes, também percebeu. E suas feições se descontraíram.

Tiago e a grávida, com a menina silenciosa agarrada à mãe, não tardaram a se reincorporar ao grupo. O homem se sentou debaixo da romãzeira e Esta foi ajudar no trabalho
das mulheres, que concluíam os preparativos para a última refeição do dia. Deve ter sentido o peso dos olhares porque, refugiando-se entre as vasilhas, enrubesceu
como uma amapola. Mas ninguém perguntou nada sobre a discussão anterior.

117

E foi esse novo silêncio, alimentado pelo olhar duro de Tiago para o Mestre, que avivou a tensão mais uma vez... Jesus, ao perceber o olhar sério de seu irmão, pareceu
surpreso inicialmente. Depois entendeu e, baixando os olhos, voltou ao jogo do dedo sobre os círculos das esteiras. E assim permaneceu por um tempo. Embora ninguém
tenha feito qualquer comentário, estávamos todos atentos a ele. Ou melhor, ao seu dedo...

A Senhora foi a primeira a reagir. Parou de moer uma das especiarias - a cúrcuma - e, com a voz firme, mesclada pela tristeza, repreendeu Jesus:

- Será que tu não vais mudar nunca? E o silêncio ficou mais pesado.

Os lábios da Senhora tremeram e seu rosto empalideceu. Tiago balançou a cabeça afirmativamente, apoiando a mãe.

Eu não tinha idéia do que ela queria dizer com isso. Pelo menos

nesse momento...

O dedo do Mestre deteve-se no círculo central, e ele respondeu com a mesma firmeza, ou até mais:

- Isso está nas mãos do Pai, minha querida mãe Maria...

E antes que a mulher conseguisse replicar, o Galileu se levantou e caminhou em direção à casa da Senhora e da "esquilinha". E desapareceu atrás da rede.

-Ab-bá!- exclamou Maria, buscando a aprovação de seus filhos.
- Ele sabe que o simples fato de pronunciar o nome do Santo é uma blasfémia...

"Ab-bã", de fato, significa "pai". Era assim que Jesus chamava o Deus dos céus, seu Pai.

Nenhum dos presentes se manifestou. E a Senhora, contrariada, continuou pilando, socando com violência a branca e leitosa cúrcuma.

O coração das pessoas parou, imagino, quando Galileu apareceu à porta. O meu, com certeza... Tinha retornado com o saco de viagem na mão. Eliseu me procurou com
o olhar. O que ele pretendia? Estava pensando em deixar a casa? A situação familiar não parecia atravessar seus melhores momentos, porém...

118

Procurei localizar o sol. Não faltava muito para o ocaso. Para onde ele queria ir? Tomei uma firme decisão. Não importava para onde e tampouco a que horas. Nós o
acompanharíamos.

Ruth, trémula, agarrou-se ao braço da Senhora. E Tiago, consciente do momento delicado, refugiou-se em um de seus gestos típicos, acariciando a barba com a mão esquerda.
Todos nos enganamos. Jesus veio em direção à romãzeira e, ajoelhando-se sobre as esteiras, começou a procurar alguma coisa dentro da mochila. Ninguém respirava.
Seu rosto havia recuperado a serenidade habitual.

E, cheio de mistério, tirou dois pacotinhos, cada um envolvido em um lenço branco. Esticou o braço e depositou o primeiro nas mãos de Ruth. O segundo foi para sua
cunhada.

A ruivinha, muito esperta, passou rapidamente da incerteza à alegria. E, adivinhando as intenções do Irmão, tratou de desembrulhar o pacotinho. Quando descobriu
o que era, atirou-se ao pescoço de Jesus, beijando-o várias vezes, E deixou que os medos e tensões recentes se dissipassem com o abraço. Depois, muito feliz, mostrou
o presente: era uma caixinha de madeira, forrada de osso, com um cosmético em pó - o Kohl -, muito apreciado naquela época como embelezador dos olhos.

Não podia acreditar. O Mestre não pretendia abandonar a "casa das flores". Esse não era seu estilo. Quando é que eu aprenderia a conhecê-lo?

Esta, com o pacotinho nas mãos, interrogou Tiago com o olhar. Ele assentiu, e a mulher, muito nervosa, tratou de desembrulhá-lo. Era uma caixinha idêntica à anterior,
mas com um pó avermelhado. A grávida aproximou-o do nariz, mas não conseguiu identificá-lo.

- Extrato de múrex e algas das costas da Fenícia - esclareceu o Mestre.

O múrex era, de fato, um molusco muito apreciado, tanto pelo corante que se extraía dele, e que era usado para tingir muitos tecidos na época, quanto por sua qualidade
para a fabricação de pintura para unhas e lábios.

Esta, sempre económica nas palavras e nos gestos, limitou-se a agradecer pelo mattenah, ou presente.

E Jesus, tão feliz como seus irmãos, ou até mais, voltou a vasculhar no saco, procurando...

119 "

O outro foi para Tiago. Um cordão ou cíngulo em couro lavrado, belíssimo, com uma interessante peculiaridade: dispunha de uma espécie de "bainha" que servia para
guardar moedas. Vinha das montanhas de Ancara (atual Turquia). Mais precisamente da cidade de Ancira, um importante núcleo de comunicações da Anatólia. Essa foi
a explicação do Mestre. E eu pude constatar que a informação do velho Zebedeu sobre as grandes viagens de Jesus era correta... Tiago admirou o cinto e esboçou um
meio sorriso de agradecimento. Isso foi tudo.

O último mattenah foi para a Senhora. O Mestre, sorridente, depositou-o diante da mãe. Parecia evidente que tinha esquecido as críticas e a cara feia. E ficou esperando...
Maria resistiu. Ao contrário do filho, ela não esquecia tão facilmente. Porém, tratando-se de uma mulher, afinal de contas, acabou cedendo à curiosidade...

As mãos longas e calejadas pousaram sobre o objeto. Apalparamno. Era mais volumoso que os presentes de Ruth e Esta. O Mestre o havia protegido e ocultado com outro
lenço. A Senhora ergueu-o e verificou que era bem leve. E os olhares a interrogaram. Maria, no entanto, voltou a colocá-lo no chão e explorou os olhos do Galileu.
Foi uma das raras ocasiões, ao longo daqueles meses, em que reconheci o amor que lhe professava. O verde-erva dos olhos rasgados brilhou por alguns segundos, revelando
a verdade. Ela o amava profundamente, porém...

E aquela centelha refletiu-se no semblante do Filho do Homem. Qualquer sentimento, por mais insignificante e dissimulado que fosse, chegava a ele como a luz chega
à retina. Por alguns instantes, a felicidade esteve ao seu lado...

- Não queres abri-lo de uma vez?

O pedido da ruiva trouxe a mãe de volta à realidade, encerrando o invisível mas intenso abraço... A Senhora o abriu, e todos, admirados, elogiaram o bom gosto de
Jesus. O mattenah passou de mão em mão. Quando chegou a minha vez, examinei-o detidamente. Era uma das modas da época: um ovo de avestruz, previamente esvaziado,
que servia para guardar líquidos (especialmente unguentos e óleos perfumados). Diferentemente do barro, esse material, além de impermeável, não absorve os odores,

120

e com isso preserva a fragrância do conteúdo. Os artesãos de Cartago, de onde foi exportado para a Antioquia17, acrescentaram um gargalo de bronze, assim como uma
alça e quatro barras protetoras, também de bronze. O Mestre - segundo disse - comprou-a então na cidade de Antioquia. Nós não chegamos a vê-lo durante nossa estada
em Hermon.

Os presentes foram uma bênção. Afastaram momentaneamente o mau humor e a ceia transcorreu em uma discreta tranqüilidade.

A Senhora quase não comeu. Pelo que pude observar, limitou-se a nos servir e, sobretudo, a contemplar seu Filho. Maria, "a das pombas", refletia uma profunda tristeza.
Aquela mulher nada tinha a ver com a outra que conheci. A Senhora do ano 30 também era obstinada, mas transbordava atividade e otimismo. Agora, ao contrário, parecia
vítima de algum distúrbio emocional (exagero mórbido do estado afetivo no sentido da exaltação ou da frustração). Não estou seguro disso, mas essa foi a primeira
impressão. A Senhora apresentava um estado geral de abatimento, próximo à depressão, embora, obviamente, eu não tenha chegado a constatar os sintomas que revelassem
um episódio de depressão maior18.

Voltei a me perguntar: o que teria ocorrido?

A primeira luz surgiu quando Ruth, incansável, tentou sondar o irmão sobre as viagens e, particularmente, sobre esta última. Jesus resistiu. Como informou o patriarca
dos Zebedeu, o Mestre não desejava que aquela viagem acabasse vazando, pelo menos no momento. E esquivou-se do assédio da ruivinha respondendo com uma parte da verdade:

Antioquia (atual Antakya, ao sul da Turquia) foi fundada por Seleuco Nicátor no ano 301 antes de Cristo. Foi uma cidade-chave no comércio com a Síria e a Mesopotâmia.
Nicátor ergueu-a nos moldes de Alexandria. Após a morte e a ressurreição de Jesus, alguns dos discípulos instalaram-se ali. Foi o caso de Barnabé, de Paulo e, posteriormente,
de Pedro. Em Antioquia, os seguidores do Mestre receberiam, pela primeira vez, o título de "cristãos". Chegou a ser a terceira população do Império Romano, depois
de Roma e Alexandria. (N. do M.)

A depressão é a manifestação de uma doença psiquiátrica subjacente. Entre os sintomas mais comuns (concomitantes) estão a perda de interesse, alterações do apetite,
distúrbios gastrointestinais (prisão de ventre), perturbações do sono e da memória, diminuição da libido, sensação de inutilidade e desejos de morrer. (N. do M.)

121

- Limitei-me a estudar os homens...

- Mas por quê? - insistiu a moça sem entender. - Por que abandonar os teus para estudar os estranhos?

- Isto faz parte de minha missão. Para isso vim...

Muito atenta, a Senhora não perdeu a oportunidade e, dirigindo-se a Ruth, proclamou com sarcasmo:

- Vieste para isso?... Abandonas a família durante quase quatro anos para estudar os gentios? Quatro anos sem notícias!

Essa foi a primeira pista. Entendi. Depois, durante nossa permanência em Nahum, fui completando a informação. O que eu soube e o que deduzi foi que a família, com
exceção de Ruth e de Judá, outro dos irmãos de Jesus, não perdoou as prolongadas ausências do Mestre. Melhor dizendo, não aceitou de bom grado os longos silêncios.
Primeiro foram dois anos. Jesus não deu sinal de vida. Ninguém sabia se estava morto, se tinha sido aprisionado por bandidos ou escravizado em alguma região remota.
E a mãe se consumiu em uma dolorosa agonia. Depois foi mais um ano. E novamente a incerteza. Depois, outros cinco meses...

Tentei imaginar o suplício da Senhora, mas, sinceramente, não fui capaz. Nunca tive filhos e, portanto, é difícil sequer ter uma vaga idéia dessa sensação. E admito
que, nesse aspecto, Maria e seus filhos tinham razão. Pelo menos, a sua razão. E essa não era a primeira vez que Jesus agia assim. Aos 12 anos e meio, em uma visita
a Jerusalém, aquele jovenzinho se "esqueceu" de seus pais terrenos e ficou três dias vivendo "à sua maneira" nos pátios do Templo. O susto de Maria e José foi de
causar infarto...

"Três anos e meio de silêncio foi demais para todos. Jesus voltou, mas isso não justifica a dor que provocou na família." Essa foi a resposta de Tiago quando lhe
perguntei sobre esse particular; uma resposta compartilhada por quase todos. O Mestre, naturalmente, via as coisas de outro modo...

Apesar da gravidade desses fatos, eles não constituíam a questão de fundo que determinava a atitude da Senhora e de Tiago, entre outros. Uma atitude que acabaria
culminando em um episódio doloroso, particularmente para o Filho do Homem.

122

J.J. BENÍTEZ

A origem daquele mal-estar, das críticas e da tristeza da Senhora encontrava-se a grande profundidade, no mais remoto do pensamento da mãe de Jesus. Tudo obedecia
a uma decepção. O velho sonho de Maria praticamente se esvaíra. Não restava quase nada do que imaginara a partir da promessa do anjo. Aquele "ser de luz" que a visitou
em Nazaré no ano 8 a.C., em meados do oitavo mês, em pleno marjesván (novembro), foi muito claro: "...esta casa foi escolhida como morada terrestre deste filho do
Destino19." Jesus era a "criança da promessa", o Messias por tanto tempo esperado, o Libertador, enfim, de um povo dominado e espancado. Roma receberia seu castigo.
Foi essa a idéia que iluminou boa parte da vida da Senhora e também de sua família. Como já registrei em outro trecho deste apressado diário, a mulher fez planos.
Compartilhou a revelação com Isabel, sua prima distante, e decidiram quando e como seria a aparição em cena do Libertador e de seu lugar-tenente João, conhecido
posteriormente como o Batista. Estava tudo previsto. Seu Filho, apontado pelos céus, seria o guerreiro de que falavam as profecias. Conduziria Israel ao domínio
do mundo e ao estabelecimento definitivo do reino de Deus na Terra. Os "sinais" não deixavam dúvida. Um anjo havia anunciado. Isaías proclamara: "Um galho sairá
do tronco de Jessé (pai de Davi), e um rebento de suas raízes brotará. Repousará sobre ele o espírito de Yavé..." (capítulo 11). Ela, a Senhora, era do tron-

A mensagem exata do anjo, segundo a Senhora, foi a seguinte: "Venho por ordem daquele que é meu Mestre, ao qual deverás amar e manter. A ti, Maria, trago boas notícias,
já que te anuncio que tua concepção foi ordenada pelo céu. No devido tempo, serás mãe de um filho. Tu o chamarás Yesúa" e inaugurará o reino dos céus sobre a Terra
e entre os homens. Fala disto táo-somente a José e a Isabel, tua parente, para quem também apareci e que logo dará à luz um menino cujo nome será João. Isabel prepara
o caminho para a mensagem de libertação que teu filho proclamará com força e profunda convicção aos homens. Não duvides de minha palavra, Maria, já que esta casa
foi escolhida como morada terrestre deste filho do Destino. Tem minha bênção. O poder do Altíssimo te sustentará. O Senhor de toda a Terra estenderá sobre ti sua
proteção..."

Como se pode constatar, essa mensagem não tem nada a ver com o que foi escrito depois por Lucas, o evangelista (l, 26-39). Tudo foi manipulado... (N. do M.)

123

co de Davi. Outros garantiam que o Messias seria filho de José. Jesus era. "E se chamará "Emmanuel" ou "Yavé sidqenu" ("Yesúa" ou "Deus conosco")." Esse era seu
Filho. Assim rezava em um dos salmos apócrifos de Salomão: "Esse rei, filho de Davi, suscitado por Deus para purificar Jerusalém de pagãos, puro de todo pecado,
rico de toda sabedoria, depositário da Onipotência, quebraria o orgulho dos pecadores como louça de barro, enquanto que reuniria o povo santo e o conduziria com
justiça, paz e igualdade..."

Mas esse sonho, alimentado durante anos, começou a se desmoronar... Primeiro foram alguns acontecimentos - incompreensíveis para a Senhora - que obscureceram o "projeto
brilhante". Exemplos: com 7 anos de idade, Jesus já era um solitário que buscava a solidão do cume do Nebi, em Nazaré (curiosamente, Nebi, em aramaico, significa
"profeta"). Aos 11 anos, pediu explicações a José, seu pai, sobre o uso da mezuzah na porta da casa. Jesus o considerava uma superstição. Depois disso, a mezuzah
foi retirada. Foi por isso que não a encontramos na "casa das flores", em Nahum. Aos 12 anos e meio, ao atingir a maioridade legal e visitar Jerusalém pela primeira
vez, o menino "esqueceu" de seus deveres como filho e, sem avisar, permaneceu três dias na Cidade Santa, supostamente "perdido", segundo a Igreja Católica. Aquele
comportamento deixou seus pais assombrados. Maria, principalmente, ficou arrasada. Aos 13 anos, contra os preceitos religiosos, Jesus se negou a comer o cordeiro
da Páscoa. Entendia que aquela carnificina no Templo não tinha relação com seu Pai. Deus não queria isso. E a Senhora, mais uma vez, se sentiu decepcionada. O Messias
não era assim. Aos 14 anos, após a morte de José, o adolescente distanciou-se da mãe. Os pensamentos de Jesus sobre Deus (Ab-ba) torturavam Maria. O jovem pretendia
falar diretamente com o Santo, sem intermediários. Isso era uma blasfémia, castigada com a pena capital. As tentativas da Senhora de reconduzir o Filho estranho
e rebelde foram estéreis. E Jesus, aos olhos da família e seus conterrâneos, na pequena Nazaré, tornou-se um ewil, um atrevido e tolo. No ano 11 de nossa era, quando
contava 17 anos, Jesus tomou outra decisão que, naturalmente, esmaeceu ainda mais o velho sonho da mãe, já bastante deteriorado. Contra qualquer prognóstico, recusou
o convite dos

124

}.}. BENÍTEZ

extremistas que visitaram a aldeia de Nazaré. Ele não faria parte dos zelotes20 que lutavam contra os romanos e que ensangüentavam o país. Maria considerou isso
como uma desonra e, sobretudo, como um desafio. Se Jesus era o Messias prometido - o "Filho do Destino" -, por que se negava a participar de uma revolução nacionalista
como aquela? Ele deveria estar à frente dos judeus... E a Senhora, pela enésima vez, viu naufragar seu projeto.

A partir daí, as coisas foram de mal a pior. Jesus afastou-se definitivamente da órbita de Maria, negando-se a compartilhar planos e pensamentos. Era inútil. A Senhora
não o compreendia. E Jesus, sabiamente, preferiu o silêncio. Não havia chegado a sua hora...

Em janeiro de 21, como disse, Jesus despediu-se de sua mãe e de Nazaré. Ninguém conseguiu retê-lo. Maria ficou sem argumentos e começou a segunda parte do suplício:
as longas ausências já mencionadas. E a mulher se afundou definitivamente...

20 Como já mencionei oportunamente, os zelotes integravam uma seita que pretendia libertar seu povo do jugo romano ou de qualquer outra dependência. Só Yavé era
dono de Israel. Os zelotes, ao que parece, eram uma ramificação de outra seita, a dos fariseus ou "santos e separados", formando uma espécie de "braço armado" do
fariseísmo. Eram radicais e violentos. Hoje seriam qualificados de terroristas. No ano 6 de nossa era, eles protagonizaram uma primeira e violenta tentativa de sublevação
contra Roma. Um Galileu chamado Judas de Gamala e um fariseu de nome Saduc ou Sadoc conseguiram o que parecia impossível: arrastar milhares de judeus contra as legiões.
Obviamente, fracassaram. Desde então, os zelotes ou "zelosos" da Lei de Moisés - com o apoio de boa parte da população que os ocultava, alimentava e pagava um secreto
"imposto revolucionário" para a aquisição de equipamentos e de armas -, atuaram em guerrilhas, acossando os exércitos e funcionários romanos e cometendo todo tipo
de crimes e vilezas "em nome da causa". Isso não é novidade. Eram conhecidos também como "sicários", por causa da sica, um punhal curto e temível que escondiam debaixo
da roupa e com o qual davam cabo dos que julgavam traidores, infiéis ou colaboracionistas. O mal é que, como sempre, amparando-se em supostas traições ao povo e
ao Deus de Israel, satisfaziam suas vinganças pessoais ou as daqueles que diziam simpatizar com eles. E o homem de bem, no fim das contas, viu-se envolvido em uma
atmosfera de medo e de permanente desconfiança. Essa onda ameaçadora de levante nacionalista contra o usurpador de Israel (Roma) foi se encrespando e, com o passar
dos anos, desembocaria na grande rebelião de 70 e na destruição de Jerusalém porTito. A destruição do Templo já fora anunciada por Jesus de Nazaré durante sua vida
pública. (N. do M.)

125

Em suma, foi uma decepção total. "Jesus não podia ser convencido." Não queria falar do Messias esperado. "Esse não era seu objetivo." Só buscava a solidão e a seu
Pai dos céus. Era a única coisa que lhe importava. E a Senhora chegou a pensar que a presença do anjo tinha sido apenas um sonho. Um sonho mau...

Muitos cristãos têm uma imagem equivocada de Maria, a mãe de Jesus de Nazaré. Ela foi uma mulher esplêndida, cheia de amor e com um temperamento de ferro. Mas não
era uma mulher submissa. Não entendeu o trabalho de seu Filho, e muito menos sua mensagem. Discutiu com Ele. Brigou com o Mestre em várias oportunidades. Tentou
convencê-lo e levá-lo pelo caminho que convinha a ela: o da glória política. Foi uma desavença permanente. Só depois da morte do Mestre ela compreendeu, em parte...

Quatro anos sem notícias!... A senhora repetiu o comentário, só que desta vez soou como um pensamento em voz alta. Mais do que um pensamento, um lamento... O Filho
observou-a calmamente. A tristeza tomou conta dele novamente. E Jesus abaixou os olhos, acabando de comer sua ração de tappuah.

Ruth, habilmente, tentou mudar o rumo das coisas. Nenhum dos presentes resistiria a outra discussão.

- E falaste com o Pai nas neves do Hermon?

O Galileu agradeceu a ajuda com um sorriso breve, quase forçado.

- Não, minha querida Ruth... O Pai não está aí fora... Então, apontando para o peito robusto, esclareceu:

- ...Deus está aqui dentro: não subi o Hermon para falar com Abbã, embora também o tenha feito...

- Então, para quê?

Jesus desviou o olhar para o meu companheiro. Depois para mim. Nós entendemos. E meus olhos cruzaram de novo com os de Rudi. Desta vez, ela sustentou o olhar. E
uma chama desconhecida percorreu meu corpo...

- Era o momento de recuperar o que sempre foi meu...

A afirmação categórica do Galileu foi seguida de um silêncio significativo. Foi uma resposta clara para nós. Os outros, porém, não enten-

126

J.J. BENÍTEZ

deram. Não captaram a transcendência do que o Irmão mais velho acabara de dizer. Não podiam sequer imaginar que estavam diante de um Deus. A recuperação de sua divindade
- o grande enigma que eu nunca consegui decifrar - foi o objetivo que o impeliu a retirar-se para um dos cumes do Hermon. Nós presenciamos isso passo a passo21.

Na minha humilde opinião, o Mestre agiu corretamente. O que ele ganharia revelando a verdade a eles? Imagino que só aumentaria ainda mais a confusão.

Não era o momento. Não era sua hora...

- Mas, o que tinhas perdido? - reagiu finalmente Tiago. - Que eu saiba, nunca estiveste nesse lugar...

O Mestre deve ter lido meus pensamentos.

- Quando chegar a hora..., todos sabereis.

Assunto encerrado. E a escuridão chegou de repente, como era habitual naquele clima. Os relógios do módulo marcavam 17 horas e 38 minutos. As mulheres se apressaram
a acender as lamparinas e as depositaram no pavimento do pátio.

Era tarde. Todos madrugaríamos. Assim, depois de desejar-nos a paz, a família se retirou. Só Jesus permaneceu adiante destes exaustos exploradores. Contemplou-nos
por alguns instantes e disse:

-Agora descansai... Eu estou sempre convosco, mesmo que deixeis de ver-me. O Pai tem planos aos quais não tendes acesso agora, mas confiai.

O que ele quis dizer? Saberíamos poucos dias depois...

Ele próprio, pegando duas das lamparinas de barro, conduziu-nos até o lugar onde repousaríamos: o terraço que havia sobre a "cozinha de inverno", no extremo sudoeste
da casa. Uma escada estreita, também de pedra escura, basáltica, ligada ao muro da fachada, permitia o acesso a esse terraço. Nessa época, na temporada ainda seca
e quente, muitos vizinhos de Nahum e do yam geralmente preferiam esses lugares para dormir. Segundo minhas anotações, a temperatura noturna às margens do lago nunca
era inferior a 18 graus Celsius, pelo menos durante o verão.

21

Ampla informação em Hermon. Cavalo de Tróia 6. (N. do A.)

127

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA ?

Os convidados, naturalmente, compartilhavam esse costume. Além disso, graças à escada externa já mencionada, tinha o hóspede uma certa liberdade, pois ele podia
descer ao pátio ou abandonar a residência quando

achasse conveniente.

Os terraços eram a segunda moradia. Ali se colocavam os frutos, as cebolas e o linho para secar, e ali se lavava, se estendia a roupa, se fiava e até se rezava.
Era também um local utilizado para a tertúlia, os jogos ou o retiro. Assim proclamava o livro dos Provérbios (21, 9 e 25,
24): "Estar sentado em um canto do desvão era melhor do que estar com a mulher tinhosa em uma casa ampla". O terraço era também a "ala do pássaro" (as fontes): dali
se gritava para as casas próximas para anunciar todo tipo de notícia. Era, em suma, um segundo traçado urbano, onde todos se movimentavam com grande agilidade. As
crianças, particularmente, saltavam de um terraço a outro, seja brincando, fazendo "correio" ou transportando qualquer espécie de mercadorias. Era o que a tradição
chamava de "caminho dos telhados", utilizado para o bem e para outros assuntos menos honestos. Em geral, como já expliquei, esses terraços eram extremamente simples,
construídos com vigas calafetadas22, que se estendiam de um muro a outro e sobre as quais se depositava um arcabouço mais leve; tudo isso coberto por várias camadas
de juncos, bambus ou ramos e argila amassada. Depois das chuvas, o dono era obrigado a restaurar o piso com o auxílio de

um cilindro de pedra.

O Mestre depositou uma das lamparinas no chão do terraço. Era maior, tinha quatro mechas; era uma dessas lâmpadas comuns de barro vermelho - chamadas de "herodianas"
- cuja carga de azeite de oliva podia durar três "vigílias", isto é, quase a noite toda. Então, apontando para o firmamento ainda vazio, despediu-se dizendo:

- Confiai...

E desapareceu pela escada externa.

Os construtores selavam as gretas das vigas com estopa e uma mistura de resina e um "alcatrão" que flutuava nas águas do mar Morto. (N. do M.)

128

J.J. BENÍTEZ

Momentos depois, espremido por um Eliseu visivelmente inquieto, ajustei os "crótalos", as lentes de visão noturna e observei o cume do Ravid. Fazia um mês que tínhamos
abandonado a nave. Era natural que estivéssemos preocupados, embora soubéssemos que Papai Noel, o computador central, era o melhor "vigia".

Ele fora programado para modificar a direção do "olho do ciclope"23, no caso de uma emergência grave (uma séria avaria no "berço"), lançando no céu um gigantesco
leque luminoso. Esse seria o sinal de que algo não ia bem no que chamávamos de "porta-aviões". O cume do Ravid,
138 metros acima do nível do mar e a dez quilómetros de Nahum em linha reta, era um excelente sentinela. Enquanto permanecêssemos no yam, meu irmão e eu tínhamos
de ajustar os crótalos e inspecionar o alto do monte regularmente, no fim da tarde ou à noite. Essa era a única exigência "imposta" pelo fiel Papai Noel.

E então, perguntou Eliseu impaciente?

- Perfeito...

O engenheiro respirou aliviado. De fato, tudo parecia em ordem na "base-mãe-três". Tudo?

E um pouco mais descontraídos, aproveitamos para analisar a situação. Ambos estávamos inquietos diante daqueles problemas com os quais não contávamos ao programar
aquele apaixonante terceiro "salto"

O "olho do ciclope" era um dos sistemas de defesa da nave. Partia do ponto mais alto do "berço" e era formado basicamente por uma radiação infravermelha integrada
por milhões de lasers. O sistema funcionava graças a trinta pares de espelhos de arsenito de alumínio e gálio. Em cada centímetro quadrado foram "gravados" dois
milhões de lasers, utilizando a combinação de "poços quânticos", a "epitaxia de face molecular" e as técnicas usuais de fotolitografia. Sob o controle do Papai Noel,
o "olho" podia fazer uma varredura em toda a superfície do Ravid uma centena de vezes por segundo. O dispositivo emitia em uma longitude de onda de um micrômetro,
invisível ao olho humano. Só com os "crótalos", ou com os canais de visão noturna da nave era possível visualizar essa fantástica "cortina de luz". Quando estava
conectado, a irrupção de qualquer intruso na "popa" do "porta-aviões" rompia o circuito, alertando o computador. Qualquer ser vivo, com uma temperatura corporal
mínima, capaz de emitir IR (radiação infravermelha), era detectado imediatamente. O sistema registrava variações de temperatura de dois décimos de grau Fahrenheit.
(N. do M.)

129

no tempo. Em primeiro lugar, e mais importante, a falta de informação a curto e a médio prazo sobre a atividade do Mestre. Tínhamos indicações relativamente seguras
com relação ao possível batismo de Jesus no rio Jordão. Disseram-nos que era no mês de sebat (talvez janeiro), mas isso não era certo. E depois desse suposto batismo,
o que acontecia com o Galileu? Ele não anunciou seus planos e nós também não lhe perguntamos. Eliseu era partidário de acabar com o mistério, inquirindo-o abertamente.
Eu tinha minhas dúvidas. E argumentei que não devíamos forçar o Destino (com maiúscula). Era melhor assim. Ficaríamos atentos, obviamente, mas aguardaríamos o desenrolar
dos acontecimentos. No fundo, o fato de não

saber era excitante.

Meu irmão aceitou. No fim das contas, ele adorava surpresas... Quanto ao segundo problema, concordamos desde o primeiro instante. Achamos que era melhor deixarmos
a "casa das flores", em vista do ambiente tenso que reinava na família - uma coisa impensável durante os preparativos daquela aventura. Eles nos receberam bem, mas,
sinceramente, nós nos sentimos incômodos. E a situação podia piorar. Era mais sensato procurarmos outro alojamento. Não estávamos enganados...

Com essa decisão, demos por encerrado aquele 18 de setembro do ano 25, terça-feira. Outro dia difícil de esquecer...

Meu companheiro estava nervoso e demorou a dormir. Ele se mexia muito e virava de um lado para o outro sobre as esteiras preparadas pelas mulheres. Achei que o problema
era a dureza da "cama". Errei outra vez. O que atormentava Eliseu era outro "assunto". Mas eu só tomaria conhecimento dele algum tempo depois, quando ocorreu o que
ocorreu... E tentei ordenar e apaziguar os sentimentos. Em particular, um sentimento...

Como isso foi acontecer? Eu estava preparado para quase tudo, menos para "isso". O que fazer? Como agir? Se as coisas se precipitassem - como eu temia - será que
eu deveria contar a Eliseu? Como ele reagiria? Eu sabia muito bem que isso era terminantemente proibido. No entanto...

E tentei afastar aquele sentimento, refugiando-me na missão. Revisei os planos imediatos e também os futuros. Ou melhor, os supostamente futuros.

130

J.J. BENÍTEZ

Foi impossível. A imagem ficara gravada no meu pensamento e, o que era mais preocupante, no meu coração. Sinceramente, era mais forte do que eu.

E pelo menos uma vez na minha vida triste e solitária resolvi "confiar", como o Mestre dizia sempre. O efeito foi instantâneo.

Ao permitir que o Destino seguisse seu rumo, uma paz interior tomou conta de mim e tudo à minha volta pareceu diferente. Era a isso que se referia o Filho do Homem
quando falava de "deixar tudo nas mãos de Ab-bã"l

"Que seja feita sempre tua vontade..."

Foi uma decisão acertada. Por algum tempo, fui feliz à minha maneira. Imensamente feliz. E fascinado pela "descoberta", desfrutei daquela Nahum noturna, tão nova
e promissora...

O calor e a agitação do dia foram se aplacando aos poucos, e instalou-se uma relativa calma, perturbada apenas por alguns latidos ao longe e pelo vozerio dos carregadores
do turno da noite vindo do porto e amortecido pela distância.

De vez em quando, os cascos das cavalgaduras batendo nas pedras do cardo davam ritmo à escuridão. As arreatas, provavelmente carregando peixe fresco do yam, iam
em direção ao norte e, com elas, os gritos ininteligíveis dos condutores sempre descontentes e apressados, e as chicotadas secas e sibilantes nos maltratados jumentos.
Eram praticamente os únicos transeuntes.

Ao meu redor, em outros terraços, as lamparinas denunciavam a presença de muitas famílias. Todas buscavam o frescor das varandas. E as pequenas lamparinas amarelas
comunicavam-se umas com as outras em tom de cumplicidade, sempre por sinais, sempre oscilando. No lago, ao sul, uma dezena de embarcações flutuava na primeira desembocadura
do Jordão, muito próximo de Saidan, a aldeia dos Zebedeu. A tochas na popa e na proa visavam atrair as tilápias. Consegui distinguir uma canção. Falava de um amor
não correspondido...

Ergui os olhos e, na negritude do firmamento, as estrelas Veja e Altair leram meus pensamentos e responderam com seus clarões.

"É verdade - foi como traduzi -, a esperança acaba de despertar."

131

DE 19 A 22 DE SETEMBRO

Ao amanhecer, conforme o planejado, partimos de Nahum. Jesus, que não gostava de despedidas, estava sorridente e nos desejou paz, repetindo, mais uma vez, algo que
não soubemos interpretar adequadamente naquele momento:

- Confiai...

Em seguida deixamos a "casa das flores", sem olhar para trás, em direção ao cume do Ravid, nosso "lar". Mas meu coração relutava. Com passos firmes, animados pelo
promissor azul do céu, contornamos a costa norte do yam para atingir o nahal (rio) Zalmon, o caminho "habitual" para o alto do "porta-aviões".

Foi tudo perfeito, sem incidentes dignos de nota. Em umas duas horas, percorremos os nove quilômetros que separavam Nahum da base do promontório. E ao avistar o
que chamávamos de "zona morta", entramos na pista que levava ao povoado de Migdal, na costa oeste do yam. Antes de ingressar no módulo, tínhamos de pensar nas provisões
necessárias para aqueles dias. Em princípio, se tudo caminhasse bem, o tempo de permanência no "berço" seria mínimo. Apenas o necessário para revisar os sistemas,
descansar e nos reorganizar, embora, insisto, não soubéssemos muito bem o que o Destino nos reservava. O retorno a Nahum foi marcado para o sábado, 22. Contudo,
o Destino tinha outros planos...

Gamar, o velho beduíno, atendeu aos nossos pedidos com sua proverbial hospitalidade. Desfizemos as pegadas "até a zona morta" e,

133

depois de ter certeza de que náo estávamos sendo observados, subimos pelo trecho mais desprotegido no caminho para o alto do Ravid, aproximando-nos da macieira de
Sodoma. Dali até a "proa" do "porta-avióes" (o vértice sobre o qual repousava a nave) a distância era de aproximadamente 2.300 metros. E nos preparamos para o momento-chave:
a desativação dos cinturões de segurança que protegiam o "berço". Um deles, em particular, o gravitacional1, era vital para chegar à máquina que nos transportara
ao ano 25 e que deveria restituir-nos ao nosso "agora". Se algo falhasse, uma espécie de "vento com a força de um furacão" nos impediria a passagem. Essa era outra
de minhas obsessões. O que seria de nós se esquecêssemos a "senha"?

O cinturão gravitacional era desativado quando chegávamos ao cume do penhasco e restabelecido quando o abandonávamos, graças a uma "chave" projetada pelo engenheiro.
A conexão auditiva transmitia a chave ao computador e este - se o sinal fosse correto - agia em conseqüência. Ato contínuo,

1 Uma poderosa emissão de ondas gravitacionais (algo que os cientistas apenas intuem hoje) partia da complexa membrana externa da nave, sendo projetada à vontade
tanto em distância como em intensidade. Dessa forma, o cinturão gravitacional envolvia e protegia o "berço" como um semicírculo invisível. Nem pessoas nem objetos
tinham condições de penetrar nessa barreira.

O segundo cinturão de segurança formava uma densa IR (radiação infravermelha), já explicada anteriormente. Detectava a presença de qualquer corpo vivo e a uma distância
previamente estabelecida. O sistema se baseava na propriedade da pele humana, capaz de comportar-se como um emissor natural de IR. A alta velocidade de varredura
permitia analisar a totalidade de um corpo até cinqüenta vezes por segundo. Foi igualmente útil ao longo de toda nossa estadia nos chamados montes das Oliveiras,
das Bem-aventuranças e, por último, no Ravid.

O terceiro sistema de proteção da nave consistia na projeção de grandes hologramas, dotados de som e movimento, projetados por Eliseu ao descobrir uma colónia de
"ratazanas-toupeiras" sob nossos pés (Hatero-cephalus glaber, peritas escavadoras "de cabeça diferente e sem pêlos", da família dos batiergídeos, de aspecto horripilante).
Se alguém conseguia se aproximar da muralha romana existente a 173 metros do "berço", o computador central ativava os mencionados hologramas, provocando uma "visão"
de infarto dos "bebês-morsa" a que nos referimos ou "salsichas com dentes de areia", como também são chamados. Esse cinturão só era eficaz à noite. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

os demais cinturões de segurança, em efeito dominó, eram igualmente desativados ou ativados. A senha que abria o gravitacional era "Base-mãe-três". E a que fechava
era "Ravid" (em inglês). Se tivéssemos a infelicidade de perder a memória, como retornaríamos ao nosso verdadeiro tempo? Como "abrir" aquele muro intransponível?
Como reter a "senha secreta"?

Naturalmente, quando era assaltado por esses pensamentos, eu mesmo me recriminava pela suposição absurda contrapondo uma realidade muito mais trágica: se o mal de
que padecíamos culminasse em uma amnésia, o que importava a "senha"? O mais provável é que não soubéssemos o que era o "berço" nem onde encontrá-lo. Mesmo assim,
não sei por que, continuei envolvido naquele conflito...

Nada falhou. Eu me censurei pela perda de energia. O Destino, no entanto, estava avisando... Papai Noel desconectou os sistemas e, em trinta minutos, chegamos ao
interior do módulo. Tudo parecia em ordem. Lembrei do conselho do Mestre na manhã em que nos preparávamos para deixar o Hermon: "Confia... Se tens esperança, tens
tudo".

Era incrível. Ali estávamos, no "berço", sãos e salvos. E eu ri do meu desassossego quando naquela segunda-feira, na montanha, constatei que náo havia mais antioxidantes.
Tinha passado apenas um dia sem as necessárias doses de dimetilglicina...

Checamos os parâmetros, embora, na verdade, nem fosse preciso. O fiel Papai Noel era infinitamente melhor do que nós. Eliseu estava preocupado com o estado do combustível2
e, obviamente, com a remota probabilidade de um escapamento. Os propulsores hipergólicos (que se queimam espontaneamente ao se combinarem, sem necessidade de ignição)
foram projetados para uma conservação indefinida, desde que armazenados em local adequado e nas condições mínimas exigidas. Como já mencionei, ao aterrissar no Ravid,
a nave dispunha de pouco mais de sete toneladas de

Ao proceder a esta nova aventura, por uma precaução elementar, desconectamos as mangueiras que forneciam oxidante e combustível ao motor J 85 e aos motores auxiliares.
Um escapamento acidental do tetróxido de nitrogénio e a mistura de hidracina e dimetil-hidracina assimétrica (propulsores hipergólicos do "berço") teriam provocado
uma catástrofe, deixando-nos para sempre naquele "agora". (N. do M.)

135

combustível (sem contar a reserva). Não houve uma redução significativa no nível dos taques. Ainda tínhamos 44 por cento de nossa capacidade (vale recordar que o
vôo de regresso e a descida em Masada necessitariam de um pouco mais de seis mil e oitocentos quilos de combustível).

O engenheiro e piloto respirou aliviado. Estava tudo OK, tudo perfeito. Pelo menos essa foi a primeira impressão. Mas não...

O objetivo seguinte era a pilha atómica - o SNAP3. Tudo dependia do seu perfeito funcionamento. A resposta foi impecável. E, mais tranquilos, dedicamos aqueles dias
ao descanso, à revisão dos demais equipamentos, à atualização do meu diário e aos planos (?) imediatos. Acho que foi um descuido de minha parte. Ao retornar ao Ravid
e tentar prosseguir o registro minucioso de minhas recordações, constatei, estarrecido, que não havia mais papiros. Os últimos suportes vegetais - do tipo amphitheatrica
- foram levados ao Hermon e eu os usei todos. Foi uma chateação e, ao mesmo tempo, uma sorte. Por causa dessa imprevisão, não tive outro remédio a não ser seguir
os conselhos de meu companheiro e usar o computador central para fazer os meus registros. Foi assim que modifiquei meu procedimento. A mudança seria vital. Quem
poderia imaginar, naquele mês de setembro, que a missão terminaria como terminou?

Outro assunto que nos manteve ocupados durante boa parte daqueles quatro dias foi o laser a gás, um dos sistemas de defesa, alojado na "vara de Moisés"4. Na dura
subida do monte de Hermon, em busca do

3 SNAP: Systems for Nuclear Auxiliary Powers (Sistema de Energia Nuclear Auxiliar). Esse tipo de bateria era capaz de transformar a energia calorífica do plutônio
radiativo em corrente elétrica (50 W). Como medida de precaução, o "Cavalo de Tróia" incluiu uma bateria de espelhos metálicos - doze no total - que foram acoplados
na parte externa da nave. A radiação solar gerava até 500 W, o que era mais do que suficiente para atender às necessidades técnicas do módulo. O invento do professor
israelita Tabo foi decisivo para o nosso trabalho. (N. do M.)

4 Este laser de gás - baseado no dióxido de carbono - foi disposto na "vara de Moisés" como um sistema de defesa puramente dissuasório. Dada sua periculosidade,
só devia ser utilizado em animais ou objetos. A potência oscilava entre frações de watts e várias centenas de quilowatts. O "jorro de fogo", irradiado em IR, perfurava
o titânio a uma razão de dez centímetros por segundo, com uma potência de vinte mil watts. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

mahaneh ou acampamento onde se encontrava o Mestre, estes exploradores, em companhia do jovem Tiglat e de Ot, o curioso cachorro basenji, foram assaltados, como
todos se recordam, por um grupo de hetep ou bandidos montanheses, a mando de um certo Al5. Pois bem, depois de ter sido utilizado em quatro oportunidades, o laser
falhou na quinta, o que possibilitou que um dos ladroes alcançasse o cachorro com a espada e o decapitasse. O que teria ocorrido? Por que o laser não funcionou?
Nunca soubemos. Quando o revisamos, tudo estava em perfeitas condições. De fato, ele nunca mais nos traiu. Suponho que tenha sido o Destino, como sempre. Agora,
no fim de meus dias, depois de ter testemunhado o que testemunhei, não tenho a menor dúvida: tudo está escrito, até a coisa menor e aparentemente mais insignificante.
Talvez me decida a escrever sobre isso. Talvez...

Aconteceu ao meio-dia da sexta-feira. Estava tudo pronto para o retorno a Nahum. A partida foi programada para as 13 horas. Se tudo transcorresse sem contratempos,
entraríamos no povoado por volta das 15 (hora nona). Portanto, dispúnhamos de duas horas e meia para encontrar um primeiro alojamento. Talvez uma das pousadas...

O plano era simples. Depois de instalados, estes exploradores voltariam à "casa das flores" para se encontrarem com o Mestre. A partir daí, seríamos uma espécie
de sombra dele.

O Destino, porém, não pensava assim...

Checamos o equipamento e a indumentária. Pouca coisa mudou em relação à nossa visita anterior, na procura do Filho do Homem pelo Hermon. Decidimos levar cinqüenta
denários. Deixamos no "berço" os vinte restantes, a valiosa opala branca e a maior parte dos diamantes, providencialmente fabricados por Eliseu6. Calculamos que
era dinheiro mais

Ampla informação em Hermon. Cavalo de Tróia 6. (N. do A.)

Para a elaboração dessas falsas gemas, o engenheiro arranjou uma "câmara de deposição" em miniatura, na qual gerou várias lâminas de diamantes. Para isso, utilizou
filamentos de tungsténio, mantendo pressões inferiores à atmosférica. Ele testou também o oxiacetileno, rico em combustível. As chamas acabaram produzindo hidrocarboneto
de baixo peso molecular, assim como hidrogênio atômico, e se

137

p

do que suficiente para as duas ou três semanas em que, em princípio, deveríamos estar ausentes. Como já disse, o ideal era retornar ao Ravid a cada sete dias. Mas
nem sempre foi assim...

Tão logo puséssemos os pés em Nahum, resolvido o problema do alojamento, um dos objetivos era adquirir roupa, calçado e, sobretudo, um par de cordões ou cintos -
do tipo que era chamado de ezor - com bolsinhos internos, como aquele que Jesus havia dado ao seu irmão Tiago. Esses "cinturões", geralmente de couro, eram mais
úteis que as bolsas de lona, e evitavam as tentações. Nem Eliseu nem eu estávamos dispostos a ser roubados pela segunda vez...

Quanto aos "crótalos", fundamentais no manejo dos sistemas de defesa e em tudo o que estivesse relacionado à radiação infravermelha, também tiveram uma pequena mudança.
A partir dessa saída do "berço", deveriam ser transportados em um saquinho, igualmente impermeabilizado, que eu traria sempre pendurado no pescoço. Quem visse, imaginaria
tratar-se de um "amuleto", como tantos outros, semelhante, por exemplo, àquele que ganhei do jovem João Marcos em Jerusalém e que, certamente, permaneceu na nave
durante o resto da missão7. O risco de transportar as lentes de visão noturna na bolsa de linho, junto com o dinheiro, era muito grande.

A parte dos medicamentos não mudou. Incluí os indispensáveis antioxidantes e as pequenas ampolas de barro com os antibióticos, fármacos antiinflamatórios etc. A
cloroquina - especialmente recomendada contra a malária - era obrigatória duas vezes por semana (reforçamos a barreira quimioprofilática com uma associação de pirimetamina-dapsona
em vista das fortes suspeitas de que algumas das cepas - como era o caso da P. falciparum - haviam se tornado resistentes à cloroquina).

condensaram em diamantes. Algumas descargas de microondas fizeram o resto, possibilitando o crescimento de gemas "sintéticas". No total, vinte "diamantes". A maioria
com alguns milímetros, e três ou quatro - esplêndidos - com dois centímetros e meio. Foi a nossa salvação (N. do M.)
1 Ver Masada. Cavalo de Tróia 2. (N. do M.)

138

J.J. BENÍTEZ

Finalmente, houve uma alteração quanto à segurança pessoal. As "tatuagens" ficaram na nave8. A proteção foi bastante reduzida, mas, dado que o trabalho programado
de início consistia em acompanhar permanentemente Jesus de Nazaré, não achamos oportuno ostentá-las. Era uma questão de respeito... Mantivemos a "pele de serpente",
de extrema utilidade. Essa foi outra das chaves. E, naturalmente, o cajado de augure: a inseparável "vara de Moisés" com os dispositivos eletrônicos já mencionados
e os dois sistemas de defesa (ultrassons e laseres, gás).

Ficamos aguardando ansiosos...

Mas foi então que tudo aconteceu, por volta da hora sexta (meiodia), destruindo nossos planos. Como já se sabe: o Homem propõe...

Ainda dispúnhamos uma certa margem de tempo, e Eliseu, incapaz de permanecer inativo, foi se sentar diante do computador central, trazendo à tona um assunto desagradável.
Um mês antes - no dia 16 de agosto, para ser exato -, ao tentar entrar no diretório dos DNA, Papai Noel, para nossa surpresa, negou o acesso. Os informes elaborados
sobre as amostras do Galileu, de sua mãe, de José e do pequeno Amos, irmão de Jesus, foram inexplicavelmente classificados como confidenciais, tornando inúteis as
tentativas de abri-los. No total, se não me falha a memória, foram cinco tentativas. E meu companheiro, suspeitando de Curtiss e de seus homens, prometeu encontrar
uma "porta de saída" ou uma chave que nos permitisse recuperar a valiosa informação sobre a paternidade de José. Aquela "manobra", como já mencionei, tinha algo
de obscuro. Por que os militares tinham tanto interesse nos DNA do Mestre e de sua família?

Em mais uma tentativa, ao solicitar o CD-GMA ("acesso a material genético"), a resposta do computador foi a mesma: "O usuário não tem permissão para executar esta
ordem". E aconteceu mais uma coisa...

No mesmo instante os alarmes acústicos e luminosos dispararam, o que provocou o caos. O som do paneipanic tornou o recinto enlouquecedor. O engenheiro, pálido, permaneceu
imóvel. Eu corri para junto dele e examinei os sistemas. O que estava acontecendo?

Ampla informação sobre as tatuagens em Cesaréia. Cavalo de Tróia 5. (N. do A.)

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Durante alguns segundos fiquei sem saber para onde olhar. Os alarmes acendiam e apagavam, avisando com os apitos de que algo grave estava ocorrendo. Nunca tínhamos
vivido momentos tão difíceis e angustiantes como nesse dia. Nem mesmo quando Eliseu perdeu a consciência na aterrissagem no monte das Oliveiras...

Não tinha mãos suficientes. Quando retificava um dos sistemas, outro disparava ao lado, igualmente alucinado. Aquilo não tinha sentido. A máquina não podia falhar
em cadeia. Ou podia? E, de forma tão súbita como tinha começado, o "desastre" parou ali. Acho que não durou mais de um minuto. Quando tudo silenciou, meu companheiro
e eu - ainda mudos - fomos atraídos por uma luz solitária. Era o único alarme que continuava ativo. Corremos até ela, tentando resolver o mistério.

Era o ECS (Sistema de Controle Ambiental), responsável, dentre outras coisas, pela pressão e pela temperatura na cabine, pela pressurizaçáo das roupas e pela absorção
do dióxido de carbono. Dele dependia, sobretudo, a manutenção da temperatura adequada dos vários circuitos elétricos e eletrônicos. Algo essencial para a sobrevivência
e o bom rendimento do "berço". Se algum dos intercambiadores de calor, radiadores ou evaporizadores falhasse, o equilíbrio térmico no conjunto dos cabos podia romper-se
e provocar um curto-circuito. Isso significava, em outras palavras, um sério risco de incêndio.

Estremecemos. Ambos conhecíamos as conseqüências de um tal sinistro, tanto em terra como em vôo. E a sombra do Apoio 204 pairou sobre nossos corações9.

Foi inútil. Não conseguimos desconectá-lo. E o ECS continuou piscando, varrendo os ânimos como o pior dos maarabit. Papai Noel também

9 Embora o major não esclareça, suponho que, ao mencionar o Apoio 204, estava se referindo ao incêndio sofrido pela cápsula ocupada por Grissom, White e Chaffee,
astronautas da NASA, no dia 27 de janeiro de 1967. Nesse dia, essa cápsula espacial, situada a 60 metros de altura, no extremo de um foguete Saturno I-B, em Cabo
Canaveral, sofreu um incêndio de enormes proporções durante uma das provas. A causa do acidente pode ter sido um curto-circuito nos sistemas elétricos. Os astronautas
norte-americanos acabaram morrendo. (N. do A.)

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não soube (?) afastar a ameaça. E estava acontecendo uma coisa que não conseguíamos entender nesse momento crítico. O Sistema de Controle Ambiental estava falhando.
Isso parecia claro. Contudo, os indicadores internos de temperatura - independentes do ECS - apresentavam leituras normais. A contradição aumentou a angústia. Por
que todos os alarmes dispararam? Por que de forma simultânea? Por que foram interrompidos da mesma forma? Por que o aviso de avaria no ECS continuava, embora a temperatura
no conjunto dos cabos nave estivesse correta?

Eliseu e eu estávamos de acordo: aquilo não era normal. Algum tempo depois entendi...

Passada uma hora, sem que nenhum dos três soubesse como (Papai Noeleia. como um terceiro tripulante), o paneipanic voltou à normalidade. O ECS apagou, mas as dúvidas
permaneceram intactas, obrigandonos a uma seqüência de revisões.

A tensão era tamanha que a descida a Nahum foi adiada. Mais ainda: Eliseu colocou claramente a possibilidade de suspender a missão e regressar de imediato a Massada,
ao nosso verdadeiro "agora". Pedi calma. A situação, tal como aparecia no painel, era realmente perigosa. É justamente nessas horas que temos de agir com frieza.

E decidi esperar. Pedi um prazo de 24 horas. Se o aviso se repetisse, nós retornaríamos. O engenheiro concordou.

Foram horas terríveis, com os olhos grudados nos instrumentos e em alguns relógios idiotas. Quase não trocamos palavras. Não era necessário. Suponho que nós dois
estávamos pensando a mesma coisa. Projetos, vida e ilusões se desvanecem em menos de um segundo. Ao longo desse dia difícil achei que não voltaria a Nahum...

E o Destino continuava zombando de nós, fazendo e desfazendo.

Acho que não dormi nem uma hora. E por volta da nona do sábado,
22, encerrado o prazo, tomei a decisão de prosseguir o que estava estabelecido. As "avarias" não se repetiram.

Eliseu aceitou a ordem a contragosto. Pelo menos essa foi a minha impressão. Ele tinha razão. Nenhum de nós estava seguro do bom funcionamento do "berço". Não naquelas
circunstâncias...

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Entretanto, "algo" que não consigo explicar, "algo" belo e ao mesmo tempo insensato, me colocou na galeria dos heróis. Heróis quase à força, impelido por ele e pelo
sentimento novo...

Eram quase 16 horas. O ocaso ocorreria às 17h37. Não dispúnhamos de tempo para seguir caminho ainda com luz. Além disso, estávamos esgotados. Necessitávamos de um
mínimo de descanso e de paz interior. E, prudentemente (?), o retorno a Nahum foi adiado para o dia seguinte. Na primeira hora, se não surgissem outros inconvenientes,
deixaríamos o "porta-avióes".

Agora, revendo os fatos à distância, náo posso deixar de me surpreender. "Alguém" tinha - e tem - tudo calculado. Insisto: até o mínimo "detalhe"...

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23 DE SETEMBRO, DOMINGO

Os relógios marcaram o surgimento do sol às 5 horas, 20 minutos e
17 segundos de um suposto tempo universal.

E, absurdamente obcecado pelo hipotético problema da amnésia, mesmo diante do ceticismo de Eliseu, fui gravar a "senha" no tronco da macieira de Sodoma, na "popa"
do Ravid. Com aquelas letras à vista pensei -, a desativação do cinturão gravitacional não ofereceria qualquer dificuldade no futuro... Pobre imbecil!

"B M 3" (Base Mãe 3).

O laser a gás fez seu trabalho, e as siglas ficaram ali, perdidas no alto de um penhasco. Se alguém por acaso as descobrisse, náo saberia "traduzir" o significado.

E empreendemos a caminhada até o povoado de Nahum. Os alarmes ainda soavam na minha cabeça... Agora, mais do que nunca, tínhamos de vigiar o "leque luminoso" do
"ciclope". Ou melhor, para que ele não se projetasse no céu. Se isso ocorresse, se a avaria se repetisse, teríamos de dar adeus "Cavalo de Tróia" e, sobretudo, a
Ele.

E por falar em "casualidade", o que devo pensar sobre o ocorrido naquela manhã de domingo, tão logo pusemos os pés na rua principal de Nahum? Causalidade ou "tudo
previsto". Foi o Mestre quem disse. O pobre mortal não ofende a Deus, mesmo que essa seja sua intenção. Pois bem, talvez a palavra "causalidade" fosse a única injúria
que poderíamos

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lançar contra o Pai (ou nem isso). O que vivemos foi fruto do acaso? O eventual leitor destas memórias saberá julgar...

O fato ocorreu, como eu disse, ao entrar no cardo maximus ou principal artéria do povoado. Devia ser umas oito da manhã. Já fazia algum tempo que as pessoas andavam
às voltas com seus afazeres. Estávamos no primeiro dia da semana para os judeus, e isso era sempre muito perceptível. De um lado e de outro da rua, sob os pórticos,
os vendedores exibiam seu produto, tentando atrair os transeuntes com seus gritos. Cestos, tecidos, recipientes de barro e de vidro de todas as formas e tamanhos,
sacos de especiarias, verduras, móveis, roupas e artigos cosméticos, entre outros, dificultavam a passagem pela calçada escura. Em um e em outro sentido
- em direção ao yam ou à porta tripla, ao norte, por onde acabáramos de passar - cruzavam intermináveis reatas de jumentos, carregadas com todo tipo de fardos. E
entre os jumentos e as mulas, os indispensáveis condutores, seminus, com os bordões no alto, ameaçando e abrindo passagem entre os distraídos. Mais um dia, pensei...

E a mais ou menos uma centena de metros do cruzamento com o decumani, a segunda rua principal, à nossa direita, à medida que caminhávamos tive a impressão de reconhecer
a taberna onde eu estivera - no "passado" - com Jonas, ofelah, que foi quem me conduziu até o estaleiro dos Zebedeu.

Aquele era um bom lugar para pedir indicações sobre um primeiro alojamento. Essas tendas de bebida, onde também se serviam refeições, eram os mais destacados "centros
de informação" sobre a vida em Nahum. Ali se sabia tudo sobre todos e, se fosse necessário, inventavam. Tudo para não perder o possível cliente...

Expus minha idéia e entramos no lugar. Eu me lembrava que o dono era um tal Nabú, um sírio estabelecido no lago fazia muitos anos.

O antro, pouco iluminado por várias lâmpadas de azeite penduradas nas vigas, estava quase vazio. No centro da sala, dois indivíduos completamente bêbados cantarolavam.
Estavam meio mal acomodados em tamboretes e em uma mesa de pinho, mais escura que as paredes de pedra na frente da porta, o típico balcão, formado por uma fileira
de barris

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J.J. BENÍTEZ

bojudos. Uma prancha de madeira, tão ensebada como as outras mesas, servia de tabuleiro. Sete orifícios permitiam o acesso aos barris.

Num dos extremos da "barra", curvado e com ar aborrecido, estava Nabú, inchado como um odre de vinho, suado e sonolento, que esperava pacientemente que os clientes
pedissem outra jarra de schechar, a cerveja quente destilada com milho, uma especialidade da casa. Na parede atrás dele estavam pendurados dois grossos remos, o
único adorno, que eu já havia observado em minha visita anterior. Gravado a fogo, em grego, liase em uma das palas: "Ai do país que perde seu líder! Ai do barco
que não tem capitão!" Nada parecia ter mudado...

Quando nos viu, o taberneiro se aproximou sem vontade, com um passo cambaleante, e sem perguntar nada, encheu duas jarras de barro com o líquido amarelo e espumante
de um dos recipientes.

Foi meu amigo quem perguntou por algum alojamento próximo, se possível no cardo. Nabú nos olhou de cima a baixo, e compreendendo o que queríamos, apontou para os
que cantavam, e disse com voz de trovão:

- Sobre isso é melhor perguntar ao Kuteo...

Kuteo era um apelido com que se designavam os samaritanos. Os judeus o empregavam como um insulto, assim como a própria palavra: "samaritano" ou samareís (habitantes
de Samaria, uma das regiões de Israel). Kut ou Kuta, na Pérsia, era a região da qual os samaritanos procediam inicialmente. Ao que parece, eram colonos que chegaram
no século VIII a.C. E aí que nasce o ódio dos judeus ortodoxos, que não os consideravam de origem pura. As alusões de Moisés no Deuteronômio (32, 21) - quando fala
em "não povo" e da "gente insensata" -, e as do Eclesiástico (50,
27), todas supostamente dirigidas aos samaritanos, acabaram por envenenar as relações. Kuteos e judeus se odiavam.

Qual dos dois era o kuteo? Estávamos quase desistindo. O estado dos indivíduos não parecia dos melhores para que pudessem dar qualquer tipo de informação. Mas Eliseu
foi até a mesa. Eu permaneci junto ao balcão e, por mera curiosidade, peguei uma das jarras e cheirei a suposta cerveja quente. E digo bem: suposta schechar... Examinei
mais uma vez e, ao verificar o conteúdo, empalideci. Nabú sorriu maldosamente e me deu

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uma piscada em tom de cumplicidade. Obviamente, as jarras continuaram ali, com a "especialidade" da casa: cerveja de milho e urina...

Os bêbados, ao perceberem o forasteiro, interromperam a monótona e insuportável cantilena, oferecendo as jarras e convidando meu amigo a unir-se ao coro. Um deles,
ao se levantar, oscilou e foi cair nos braços do engenheiro. Acudi em seu auxílio e o sentamos de novo como pudemos, deixando que o beberráo dormisse sobre a mesa.

Nesse momento, Eliseu chamou-me a atenção, apontando para o segundo sujeito. O tipo, turvado pela cerveja - ou o que fosse -, não nos reconheceu. Nós, ao contrário,
não tardamos a identificá-lo... e a compreender.

Bastardo!

A ira de Eliseu era justificada, porém em voz baixa, procurando não chamar a atenção do taberneiro. Pedi que ficasse calmo. Tínhamos de agir com eficácia e discrição.
Dei uma olhada para Nabú. Ele seguia nossos movimentos, passo a passo, do mesmo lugar onde o havia deixado.

Conversei rapidamente com o bêbado. Disse chamar-se exatamente como o sírio identificou-o - Kuteo - e ser originário de Siquém ou Sichem, ao norte da Samaria. Não
tive dúvida. Tratava-se do tal "cambista" que veio ao nosso encontro quando íamos entrando na casa de Jesus. A barba longa, pintada de vermelho-sangue, a estatura
baixa e o semblante magro e amarelo-esverdeado eram inconfundíveis. Mas o que tinha acontecido com o tapa-olho de couro preto que cobria o olho esquerdo? Talvez
fosse outra artimanha para enganar os incautos. Aquele pilantra era tão caolho como nós...

E Eliseu, esquecendo minha recomendação, agarrou a bolsa pendurada no pescoço do samaritano e arrancou-a sem qualquer cerimónia.

Bastardo!

De fato, o tal Kuteo estava com a bolsinha que desaparecera do cinto de meu irmão naquela terça-feira, dia 18. Não era difícil imaginar o que tinha acontecido. No
empurra-empurra debaixo do portal da "casa das flores", Kuteo resvalou entre os curiosos e acabou soltando o cordão que unia a bolsa ao cinto. A "encenação" anterior,
oferecendo-

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se para cambiar moeda, foi apenas uma "inspeção da mercadoria"... O instinto nunca falha.

Mas o ladrão não estava tão ébrio como parecia. Ou, pelo menos, ao ver que o dinheiro "escapava", recuperou-se com incrível rapidez. E de pé, erguendo os braços
e grunhindo como um porco, exigia a bolsa de volta, chamando-nos de ladrões.

A partir daí, as coisas se sucederam com grande velocidade. Meu companheiro se negou a devolver o que era seu, e Nabú, alertado por aquele bate-boca, pegou um enorme
facão, deu a volta no balcão e avançou em direção a nós, brandindo a arma acima da cabeça.

- Vou cortar tua mão, miserável!

E antes que pudéssemos reagir, o sírio se aproximou do perplexo Eliseu e o jogou contra a parede. Meu irmão caiu e o taberneiro avançou sobre ele, disposto a cumprir
a ameaça. Meus dedos deslizaram rapidamente pela "vara de Moisés", procurando o cravo de cobre que ativava os ultrassons. Porém, quando o acionei, o berrante Kuteo,
obcecado pelo dinheiro, passou à frente de Nabú, e a descarga destinada a este atingiu o samaritano em plenas costas. O disparo não serviu para nada. Ele só funcionava
na cabeça1. Entretanto, a irrupção do falso caolho evitou o pior e me deu alguns segundos, suficientes para eu me recompor...

Kuteo, ennlouquecido, acabou se chocando com o sírio e os dois rolaram pelo chão. Eliseu, consciente de minhas intenções, saiu de

O complexo sistema defensivo dos ultrassons, que já descrevemos antes, consiste essencialmente da emissão de ondas com uma freqüência que oscila entre dezesseis
mil e 1010hertz. Os ultrassons, protegidos do ar por um "cilindro" IR, agem como o aparelho vestibular, bloqueando o canal semicircular membranoso (ouvido interno)
e causando a consequente, mas transitória, perda da posição da cabeça e do corpo no espaço. Associado às impressões visuais e táteis, esse aparelho vestibular proporciona
as variações de situação experimentadas pelo corpo, desencadeando reações automáticas que tendem à manutenção do equilíbrio, em colaboração com a contração sinérgica
dos músculos antagonistas. Na verdade, isso não é importante, embora seja de grande utilidade para imobilizar temporariamente um suposto agressor. A arma está em
fase de experimentação pelo exército dos EUA. (N. do M.)

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perto. Um instante depois, uma segunda descarga bloqueou o ouvido interno de Nabú e o deixou imobilizado. O sujeito ficou inconsciente por alguns minutos. O samaritano
não entendeu nada. Não sabia o que tinha acontecido ao taberneiro e tampouco porque tinha perdido a consciência alguns segundos depois de Nabú. Mas nós sabíamos.
A terceira descarga de ultrassom pegou-o em cheio e o deixou desacordado. Mesmo não tendo tempo de apoiar a açáo com as lentes de contato, o resultado, felizmente,
foi bom. Aquele facão e o maldito vendedor de urina não estavam brincando...

E registramos bem isso. O "aviso" não foi ignorado. Estávamos em um "agora" apaixonante e perigoso ao mesmo tempo. Era preciso ter o máximo de precaução.

Abandonamos a taberna o mais rápido possível. Lá fora, todos continuavam com seus afazeres. Ninguém ficou sabendo do que ocorrera no estabelecimento de Nabú. Pelo
menos naquele momento... E, procurando não levantar suspeitas, afastamo-nos com passos firmes daquele setor do cardo.

Eliseu examinou o conteúdo da bolsa de lona. Só restavam cinco denários de prata e algumas moedas de bronze (ases e leptas). O Kuteo se apressara em dilapidar os
outros cinco denários...

Ao distinguir o muro de pedra que protegia a "casa das flores", meu coração se agitou. Mas por quê? Melhor dizendo, por quem? A essas alturas, eu sabia muito bem...
Atravessamos o pórtico com certa timidez. Os encontros com o Mestre e sua família sempre foram assim, um pouco inseguros de nossa parte...

O pátio comum estava quase deserto. Fomos andando devagar. No fundo, debaixo da romãzeira, sentada nas esteiras, estava Raquel, filha de Esta e Santiago, segurando
o nené nos braços. Tinha os olhos baixos pousados sobre o menino. Ouvimos sons. No início não consegui distinguir. Achei que era alguém cantando ou rezando muito
baixinho. Depois foram suspiros. Vinham da casa da Senhora.

Não foi preciso chamar. A menina notou nossa presença e, rapidamente, carregando Amos, perdeu-se atrás da cortina de rede da primeira

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habitação. No mesmo instante surgiu Esta. Atrás estava a menina, como sempre, agarrada à saia da grávida.

Eu não sabia bem o que dizer. Estávamos procurando Jesus... A mulher não respondeu. Dirigiu-se à porta ao lado - a da sogra - e se perdeu na escuridão do recinto.
Eliseu e eu achamos estranho e trocamos um olhar fugaz. O que estava acontecendo? Onde estava o Galileu?

Os suspiros logo arrefeceram. E também o que eu tinha interpretado como uma reza ou um cântico. Eram lamentos. Era a voz da Senhora... Ficamos assustados. Por pouco
não rompemos as normas da hospitalidade e penetramos na casa. Mas soubemos esperar...

Esta retornou e, com sua linguagem lacónica, perguntou qual a razão do nosso interesse por Jesus. Fiquei sem entender. Lembrei-lhe que éramos amigos e que apenas
queríamos encontrar com ele. A mulher, imperturbável, entrou novamente.

O instinto, como um relâmpago, me advertiu...

- Ele não está em casa - informou a grávida, surgindo entre os panos de rede. - Foi embora...

Esta esperou uma resposta. Porém, ao notar nossa incredulidade, mudou de opinião e nos deu as costas pela terceira vez, voltando junto com os lamentos.

Tentei juntar os pensamentos, mas não consegui. A surpresa me causou um branco. Meu irmão, atónito, nem piscava. Onde estava Jesus? O que ela quis dizer?

A presença daquela mulher seca mais uma vez na soleira da porta me fez reagir, e, antes de abrir a boca, formulei a questão-chave:

- Ele está no povoado? Ela negou com a cabeça.

- Para onde ele foi? - interveio Eliseu sem conseguir se conter.
- Quando?...

- Não é possível...

Meu comentário deixou-a confusa. Não sabia para onde olhar e nem a quem responder. Finalmente, respondendo ao meu companheiro, disse laconicamente:

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- Não sei...

Era preciso controlar os nervos. Precisávamos averiguar o que tinha acontecido e, sobretudo, onde se encontrava o Mestre. E, esboçando um sorriso, tentei tranqüilizar-me
e tranqüilizá-la. A cada pergunta, Esta entrava de novo na casa, suponho que para indagar à Senhora. O esforço foi quase em vão...

As mulheres o viram partir com as primeiras luzes do alvorecer daquele domingo, 23 de setembro. Provavelmente na mesma hora em que estes torpes exploradores deixavam
o Ravid. Pendurou o saco de viagem no ombro e desapareceu. A Senhora perguntou ao Filho sobre seus planos. Jesus deu-lhe apenas uma pista: queria estar sozinho com
seu Pai, na Cidade Santa... Isso foi tudo. O resto era fácil de imaginar. A mãe, surpresa e desolada por essa nova partida, caiu em outro estado de profunda tristeza.
Ruth e Esta tentavam consolá-la...

Como eu dizia, o interrogatório parou aí. O Filho do Homem deixara Nahum com destino a Jerusalém. Lembrei-me de suas palavras, pouco antes de conduzir-nos ao terraço:
"O Pai tem planos aos quais não tendes acesso agora... Confiai".

E, por um momento, imaginando que Jesus não queria nossa companhia, vim abaixo. O que fazer diante de uma situação como aquela? Retornar ao Ravid? Conformar-nos?

Foi Eliseu quem me fez reagir. Desistir? E claro que não. O objetivo daquele terceiro "salto" era segui-lo sem descanso. E assim seria enquanto pudéssemos...

Tratei de me acalmar e de pensar em alguma coisa o mais rápido possível. Se a informação estivesse correta - Jesus jamais mentia -, só havia uma solução: seguir
viagem para o sul. O Mestre, segundo meus cálculos, estava com umas três horas de vantagem sobre nós. Não era muito. Podíamos alcançá-lo. Outra questão era o caminho
que devíamos seguir.

Será que optou por uma das margens do yam, rumo ao rio Jordão, ou tinha em mente uma rota que cruzasse Samaria? Impossível saber. O Mestre era imprevisível... "O
mais lógico - disse a mim mesmo numa ten-

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].]. BENÍTEZ

tativa inútil de contornar o problema - é que siga pelo atalho do Jordão. Atravessar a região dos kuteos é arriscado..."

Lógico? O que havia de racional em tudo aquilo? Por que o Mestre, que acabara de chegar à sua casa, tinha decidido seguir por outros caminhos? Será que a fria acolhida
de Maria e de seu irmão havia influenciado? E por que Jerusalém? Dentro de alguns dias, o povo judeu celebraria a festa do Perdão e da Expiação2. Nesse dia sagrado,
a nação hebréia, como se fosse um só homem, abaixava-se diante do temido Yavé e pedia perdão pelos pecados cometidos no ano anterior. Mas vacilei. Não creio que
fosse essa a razão que impulsionara o Galileu a se deslocar até Jerusalém. Jesus respeitava as leis e as tradições, mas suas idéias iam em outra direção. Em particular,
a relação com o pecado e a divindade. Tinha de haver outra explicação para essa súbita viagem. E prometi que iria averiguar.

Partiríamos imediatamente para Jerusalém. E o faríamos pelo caminho mais curto. Primeiro, navegaríamos pelo Kennereth ou mar de Tiberíades, até a margem sul. Era
a rota mais rápida. Chegando lá, tomaríamos o atalho que descia paralelamente à margem direita do Jordão. No "passado" (embora fosse mais apropriado falar do futuro),
este que escreve havia percorrido esse caminho, ainda que com a segurança de uma caravana que vinha de Tiro. Foi depois da morte do Filho do Homem. A marcha de quase
três dias até Jerico resultou de grande utilidade para tomar referências e avaliar os perigos da importante estrada.

Assim ficou decidido. O Destino se encarregaria do resto...

O Destino? Do que eu estava falando? Era ele quem governava. Se não fosse a avaria no "berço", nada disso teria acontecido. Ê o Destino que

O Yom Kippur (Dia do Perdão) geralmente é celebrado dez dias depois do Rosh Hashana ou Ano Novo judaico. Naquele ano 25, o Dia da Expiação ocorreu em finais do tísri
(outubro). Durante essa festividade, o sumo sacerdote dirigia-se ao "Santo dos Santos" do Templo - a única ocasião durante o ano todo - e fazia oferendas a Yavé,
pedindo desculpas pelas ofensas do povo. Era também o único momento em que pronunciava o Nome (YWHW ou Yavé). O sumo sacerdote colocava as mãos sobre a cabeça de
um caprino e transferia ao animal as culpas dos homens. Depois, o bode expiatório era levado a vinte quilómetros de Jerusalém, no deserto de Judá, e lançado do penhasco.
Dessa forma, os pecados - todos - eram perdoados... (N. do M.)

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dispõe. Nós só cumprimos o "estipulado". Mas não quero desviar do assunto. Ainda haverá tempo de retomar o tema fundamental do Destino...

E, para confirmar minhas palavras, ali estava, mais uma vez... Aconteceu quando caminhava em direção ao pórtico. Como dizia, estava decidido. Foi o que conversamos
depois de interrogar Esta. Nós o seguiríamos pelo vale do Jordão. Mas, de súbito, o engenheiro parou e olhou para trás. Não sei como ele adivinhou... Ruth estava
atrás da porta da casa da Senhora, meio oculta pela cortina de rede.

Tenho certeza. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Foram alguns segundos. Eu não poderia descrever ou classificar com exatidão aquele olhar. Só sei que seus
olhos me chamaram no mais clamoroso dos silêncios. E eu obedeci. Então, aquele sentimento - desconhecido para mim - elevou-se até o mais alto dos céus.

E Eliseu ergueu a mão em sinal de despedida. Ela, sem deixar de me olhar, respondeu à saudação... Mas agora, sabendo o que sei, eu me pergunto com amargura: a quem
ela saudou realmente? O Destino sabia... e antevia também o que nos aguardava do outro lado do pórtico.

Foi quase simultâneo. Mal pusemos os pés na rua e demos alguns passos em direção ao cais, quando ouvimos um vozerio. Comerciantes e transeuntes, e nós, juntamente
com ele, dirigimos a atenção ao extremo norte do cardo. Tive um pressentimento. E puxando meu companheiro pela manga, convenci-o de que devíamos nos retirar e alcançar
os atracadouros o mais rápido possível. Segundo nossos cálculos, poderíamos embarcar ali e aproar ao sul, na segunda desembocadura do Jordão.

Eliseu protestou. Por que estávamos fugindo? Não havia tempo para explicações. Tampouco lhe falei do estranho pressentimento. Só queria ir embora dali. Mas o engenheiro,
teimoso como uma mula, foi mais forte do que eu. Plantou-se no meio da rua e disse que não daria um passo se eu não lhe desse uma boa explicação. Não foi necessário.
Os gritos, ao fundo, e os sujeitos que encabeçavam a algazarra falaram por mim. Eliseu começou a entender e arrancou a toda velocidade. Fui atrás dele, o mais rápido
que pude...

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J.J. BENÍTEZ

Ao chegarmos ao cais, paramos. Se os capatazes e os chefes de quadrilha dos carregadores vissem dois indivíduos correndo entre os fardos e saltando as fileiras de
escravos e de am-ha-arez?, nossa fuga terminaria ali. O cais, como todas as manhãs, estava saturado de homens e mercadorias. O que fazer? Que direção tomar? Devíamos
nos esconder ou enfrentálos? Aqueles instantes foram decisivos. Por um lado, meu companheiro reparou em um dos terrenos próximos, perpendicular, como os outros dez
ou quinze, ao espigão do cais principal. Uma das embarcações parecia prestes a abandonar o atracadouro. Os marinheiros, na proa, tentavam soltar as amarras. Digamos
que essa foi a parte positiva. A negativa estava nos rostos dos tipos que se aproximavam e comandavam o tumulto. Nos reconheceram e, uivando, insuflaram a tropa
contra estes exploradores. E se lançaram como chacais. Pensei na "vara de Moisés". Com sorte, eu conseguiria imobilizar meia dúzia, não mais. Os outros nos destroçariam.

Não tínhamos alternativa. Eliseu indicou os degraus de pedra que desciam pelo terreno até a água do lago e deu o sinal:

- Vamos!

Eu nunca havia corrido e saltado com tamanho desempenho. Na corrida, atónitos e indignados, alguns daqueles "am-ha-arez acabaram tropeçando nestes exploradores
e rolando pelas pedras úmidas e escorregadias. Nunca soube quantas cântaras se quebraram e quantas maldições recaíram sobre nós e nossas famílias... A única coisa
que importava era ultrapassar o cais, descer pelo atracadouro e saltar sobre o barco.

E assim ocorreu. Fui o último a cair sobre a proa do pequeno navio. As caras do patrão, dos tripulantes e dos demais passageiros eram indescritíveis. O susto foi
tanto, que, felizmente, não reagiram... E o barco continuou se afastando. Os perseguidores, raivosos, permaneceram no porto.

Nahum e seu porto eram um dos principais redutos dos am-ha-arez ou "povo da terra". Assim eram chamados os judeus ortodoxos não muito conscientes da Lei. Com o tempo,
o termo passou a ser utilizado para designar os mais pobres e deserdados da fortuna. Eram a escória, tão impuros como os pagãos, os bastardos e os filhos ilegítimos
de sacerdotes. (N. do M.)

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Os punhos de Nabú e do Kuteo lá no alto disseram tudo. O taberneiro e o ladrão não perdoariam facilmente o engodo...

E antes que a situação piorasse - ainda mais -, Eliseu, rápido nos reflexos, depositou a bolsa de lona nas mãos do patrão. O homem, um fenício que se tornava surdo,
cego e mudo diante do dinheiro, examinou o conteúdo e levou um dos cinco denários à boca. Mordeu a prata e, satisfeito, aceitou a proposta do engenheiro, gritando
aos marinheiros:

- Rumo à "Lua"!

E uma vela branca, quadrada, abriu-se acima de nossas cabeças. O cargueiro navegou até a lagoa formada pela segunda desembocadura do rio sagrado - o Jordão - e que
recebia o nome de "Yeraj", a "Lua". Ali, decidiríamos. Melhor dizendo, ali nosso "acompanhante", o Destino, decidiria...

Depois de ver Nahum desaparecendo na distância, descobrimos a natureza do barco em que tínhamos ido parar. Era o que naquele tempo e naquela paragem chamavam de
mot (literalmente, "morte"). Eliseu e eu, cautelosamente, nos retiramos para a proa, contemplando a cena.

O patrão deu as ordens e uma segunda vela, atravessada no mastro da popa, foi içada entre protestos, ajudando a maior. O vento, a essa hora (mais ou menos a tercia
[às 9 horas]), ainda não avançara sobre o yam. E o mot cabeceou lento, mas voluntarioso. A mezena também era branca. Tudo naquele pequeno cargueiro - de apenas doze
metros de comprimento - era branco. Obrigatoriamente branco...

O fenício retornou ao remo que funcionava como timão e acertou o rumo. Em seguida, após acariciar novamente a prata que lhe fora entregue por meu companheiro, fez
um gesto aos "passageiros" que ocupavam o centro da coberta. E a mulher, toda de branco, envolvida em um longo véu, inclinou-se sobre o corpo que jazia no piso e,
sem tocá-lo, começou a se lamentar, gemendo e agitando os braços exageradamente. Aos poucos, os lamentos foram se intensificando e também os choros. Eliseu, ainda
agitado pela recente corrida, me inquiriu preocupado. Pedi calma. Até o momento, tudo estava indo bem...

O patrão fez um segundo sinal e o jovenzinho que acompanhava a mulher tirou uma flauta de cana e começou a tocar uma doce e melancó-

154 >

liça melodia. Parecia uma adaptação do kaddisch, uma bela oração judia recitada e cantada nos funerais, e na qual se glorificava o Deus da vida... E assim navegamos
durante quase três horas.

O mot, propriedade do fenício, era um dos barcos autorizados pela estrita legislação judaica para o transporte regular de cadáveres pelo mar de Tiberíades. Dada
a rigorosa proibição de tocar em um defunto ou de aproximarse dele, os fanáticos religiosos optaram por delegar aos pagãos a indispensável tarefa de transportá-los,
tanto por terra quanto pelas águas do yam.

Os escrúpulos dos judeus (pelo menos os mais rigorosos) no que se refere a preservar a pureza exigida por Yavé4 chegavam aos extremos

4 As práticas relacionadas ao "náo-contato" com cadáveres remontavam, mais uma

vez, aos textos supostamente escritos por Moisés e, como consequência, ditados

diretamente por Yavé. Eis o que consta em Números (19, 13-14): "Quem tocar um

morto, no cadáver de um homem, e não se purificar, contaminará o tabernáculo de

Yavé, e será eliminado de Israel, porque não se purificou com a água lustral. Esta

é a lei: quando morre alguém em uma tenda, todo aquele que entrar na tenda e

tudo quanto nela houver ficará imundo por sete dias". Porém, a obsessão dos judeus

pelos cadáveres não termina aí. Com o passar dos séculos, surgiram dezenas de outras

normas (o tratado ohalot reúne dezoito capítulos sobre a impureza nas tendas).

Algumas, como as que exponho a seguir, dispensam comentário...

"Se um homem toca em um cadáver - diz o ohalot- ele contrai impureza, e se outro

homem toca neste permanece impuro até o pôr-do-sol."

"Se alguns objetos tocam em um cadáver e esses objetos em outros objetos contraem

impureza por sete dias. O terceiro que tocar nesses objetos, seja uma pessoa seja um

objeto, contrai impureza até o entardecer."

"Se uma estaca é cravada na tenda (em que se encontra o cadáver), a tenda, a estaca, a

pessoa que tocar na estaca e os objetos em que esse homem tocar contraem impureza

por sete dias..."

"O homem não propaga impureza enquanto não tiver expirado. Mesmo que esteja

mortalmente ferido ou agonizante, ele não contamina... Do mesmo modo, um animal

doméstico ou selvagem não contamina enquanto não expirar. Se tiverem cortado suas

cabeças, mesmo que as extremidades ainda se mexam, são impuros, tal como, por

exemplo, o rabo da lagartixa..."

"No corpo humano há 248 membros. Cada um deles pode contaminar por contato,

transporte e por estar debaixo do mesmo teto."

"Um quarto de log de sangue [um log equivalia a 600 gramas], emanado de uma

pessoa depois de seu falecimento, ou um quarto de log de sangue misturado de um

155

de um pesadelo. O Filho do Homem teve muitos problemas com esse assunto delicado...

Por exemplo, assim como os sepulcros, os mot deviam ser identificados à distância. Por isso eram pintados de branco. Era o sinal. Eram barcos "proibidos". Ninguém,
entre os fiéis observantes da Lei, aproximava-se deles. A presença de um cadáver no navio significava contaminação, e isso, por sua vez, garantia um dinheiro extra
(apenas os sacerdotes - mediante pagamento antecipado - estavam autorizados a "limpar" esse tipo de "impurezas"). E os gentios responsáveis pelo transporte tinham
o máximo cuidado em satisfazer às obsessivas normas judaicas. Como já disse, tudo era pintado de branco: casco, coberta, mastro, velas, cordas e até as gamelas e
marmitas utilizadas para comer e beber. Os tripulantes, naturalmente, também se vestiam de branco. Quando outros barcos avistavam um mot, alteravam a rota, afastando-se
do transporte funerário. Na hora de atracar no porto era a mesma coisa: as pessoas procuravam manter distância, evitando qualquer contato. Daí ao medo e à superstição
era um passo...

Na precipitação da fuga, não conseguimos distinguir. A "escolha" (por parte do Destino) foi acertadíssima. Ninguém, em sã consciência, se atreveria a nos perseguir...
E ao longo da travessia soubemos que o mot estava trasladando o corpo de um zelote até a aldeia de Ha-on, na

morto, o sangue de um recém-nascido morto, que fluiu totalmente, comunicam

impureza debaixo de uma tenda (entendida como o teto em geral)."

"Uma colherada ou mais de pó de uma tumba é contaminante."

"A terra de um país estrangeiro comunica impureza por transporte e por contato

[supondo-se que poderia conter restos humanos, ainda que fossem apenas do tamanho

de uma azeitona]. Se um judeu viaja para o exterior - mesmo que não toque a terra -,

contamina-se até o entardecer."

"Se um cachorro que devorou a carne de um morto morre e jaz no umbral da casa, se

seu pescoço tem um palmo de largura, dá passagem à impureza."

"Se uma pessoa toca em um morto e depois em objetos, ou se projeta sua sombra

sobre um cadáver e depois toca objetos, estes se tornam impuros. Se apenas projeta a

sombra sobre um cadáver e depois a projeta sobre objetos, estes permanecem puros.

Mas se sua mão tem a extensão de um palmo (!), os objetos ficam contaminados..."

Como já disse, sem comentários... (N. do M.)

156

J.J. BENÍTEZ

costa sudeste, relativamente próxima de Kefar-Zemaj. Dali até o nosso destino a distância era de quatro ou cinco quilômetros. O fenício fez um bom negócio...

E ao som da flauta doce e dos soluços e gestos de desespero não tão doces encenados pela carpideira oficial, fomos nos aproximando de Yeraj. Nem meu companheiro
nem eu esqueceríamos facilmente aquela agitada manhã... Tudo parecia ter dado errado. E meus pensamentos se voltaram, mais uma vez, para o Filho do Homem. Conseguiríamos
encontrá-lo?

Quando atracamos em Yeraj, o sol estava muito próximo do zénite. Era a hora sexta. Se o Mestre tivesse partido de Nahum por volta das seis da manhã, e seguido até
a segunda desembocadura do Jordão por uma das margens, isso significava, no mínimo, quatro horas de caminhada. Jesus poderia ter chegado à "Lua" por volta das dez.
Agora eram doze e, se meus cálculos não estivessem errados, talvez tivéssemos diminuído a vantagem. Jesus podia estar a umas duas horas do local onde nos encontrávamos.
Mas tudo isso, naturalmente, eram apenas suposições... E eu me consolei. Nós o encontraríamos. A busca nas alturas do Hermon também não fora fácil.

Yeraj era uma lagoa de uns duzentos metros de extensão, situada ao sul dessa segunda desembocadura do rio Jordão. O braço de terra que a separava do yam era resultado
do contínuo transporte de sedimentos e do intenso bater das ondas. Os habitantes do local souberam aproveitála como enseada natural, bem protegia dos ventos e das
furiosas tormentas invernais. Como comprovamos no "circuito aéreo" - quando nos dirigíamos ao chamado monte das Bem-aventuranças5 -, o Jordão desembocava mais para
o oeste do que supomos hoje. Exatamente a um quilômetro e meio6.

Ampla informação em Saidan. Cavalo de Tróia 3. (N. do A.)

No século XX, a antiga desembocadura situa-se no palmeiral conhecido como "Jardim de Raquel", plantado em memória da citada poetisa... O desvio das águas, segundo
os geólogos, pode ser decorrência de um forte terremoto registrado por volta do ano 1100. (N. do M.)

157

A presença do mot na lagoa nos beneficiou. Quando desembarcamos, ninguém se atreveu a nos seguir, nem mesmo o funcionário da aduana marítima, encarregado de inspecionar
as bagagens.

E, decididos, adentramos na "metrópole" em busca do atalho que seguia quase paralelo à margem direita do Jordão7. Visto a partir do "berço", aquele extenso núcleo
humano, estabelecido ao sul do mar de Tiberíades - e que reunia a Bet Yeraj, as duas Deganias, Philoteria, Senabris e Kinnereth, entre outros povoados -, seria chamado
por nós de "metrópole", se me permitem a expressão. Realmente nos impressionou. As cidades e povoados entrelaçados formavam um conjunto urbano em que era difícil
distinguir onde começava um e terminava o outro. Segundo nossos cálculos, a "metrópole" poderia ter uma população da ordem de quarenta mil habitantes8.

Por um instante, vacilei. Deveríamos procurar nesse enorme emaranhado de casas, edifícios públicos, vilas, ruas e passagens? Teria Jesus parado em alguma daquelas
localidades?

A estrada do Jordão - a mais importante - ligava Jerusalém ao mar de Tiberíades, acompanhando a margem direita do rio. Outro atalho, menos transitado, transpunha
o rio Jordão ao sul, perto de Jerico, e percorria a margem esquerda, atravessando os territórios da Peréia e da Decápolis. No yam, convergia com a calçada que circundava
a costa leste desse mar, ou Kennereth, perdendo-se na Gaulanítis, ao norte (a rota que tínhamos feito recentemente, na ida e na volta do Hermon). Outros caminhos
cruzavam essas duas artérias - a leste e a oeste -, interligando regiões tão distantes quanto as costas da Fenícia, da Síria, a Nabatéia e o Egito. (N. do M.)
8 Bet Yeraj ou "Casa da Lua" era a cidade mais populosa e antiga daquela região. Foi fundada pelos cananeus há cinco mil anos. O nome, possivelmente, procede da
deusa Lua, que eles adoravam. Era urna localização importante, em pleno entroncamento. Em uma de nossas visitas ao Mestre, conseguimos ver um enorme celeiro, com
dez torres de nove metros de diâmetro cada uma. Assim como nos demais povoados do yam, foi construída com pedra escura - basáltica -, que recobria a região. Aos
poucos foi crescendo e acabou por "absorver" Senabris (o lugar onde Vespasiano alojou suas legiões durante a última grande revolta judaica) e as Deganias. A maior
parte da "metrópole" dedicava-se à agricultura e à indústria derivada da pesca (salgamentos, tonelaria, fabricação de barcos etc.). (N. do M.)

158

J.J. BENÍTEZ

Meu irmão, depois da amarga experiência com o facão de Nabú, se recusou. A última coisa que desejava nesse momento era mais complicações. E optamos pelo mais simples
e razoável: deixar a "metrópole" para trás. O Destino foi benévolo...

Aos poucos, ao abandonar as ruas abarrotadas, fomos parar no ponto onde nasce o vale do Jordão propriamente dito: o encontro dos rios Yavneel e Jordão, a pouca distância
do yam. Ali, em um descampado, judeus e gentios previdentes haviam organizado uma base de aprovisionamento para quem iniciava o caminho para o sul ou para quem,
inversamente, procedia de Jerico, de Jerusalém ou do deserto da Judéia, e que pretendia seguir caminho para o norte. Vigaristas e comerciantes ofereciam os mais
variados produtos e serviços. Ficamos perplexos ao percorrer o lugar. Os habitantes da "metrópole" vendiam todo tipo de alimentos, água, odres de vinho, cerveja
gelada, sandálias com sola de madeira (especialmente recomendadas para os solos abrasadores do Jordão) e de palha prensada, amuletos "por um feliz retorno" (sob
a proteção de outros tantos milhares de deuses), "acompanhantes" para a solidão do caminho (masculinos e femininos) pela "irrisória quantia de um denário de prata
por dia", tendas de pele de cabra, mosquiteiros individuais ou coletivos, "almofadas" de pedra vulcânica e, naturalmente, carros de duas rodas (cisum) ou de quatro
(redas). O viajante podia alugá-los e assim se deslocar com mais comodidade e rapidez. Um desses "táxis" para a Cidade Santa custava - por pessoa - em torno de quinze
denários (sempre negociáveis), incluindo comida e alojamento. O sais, ou proprietário do carro e dos cavalos, garantia absoluta segurança e o máximo de um dia e
meio de viagem. Um lenço branco amarrado no carro significava que o "táxi" estava livre.

Chegamos a pensar e a conversar a respeito. O aluguel de um daqueles carros facilitaria a viagem, e, talvez, ajudasse a localizar Jesus mais rapidamente. Infelizmente,
não tínhamos dinheiro suficiente para arcar com essa despesa e as outras que teríamos, sem dúvida, enquanto estivéssemos fora do Ravid. Poderíamos trocar um dos
diamantes, mas, sinceramente, achamos que aquele não seria o lugar mais adequado.

159

Além disso, o sais não aceitava devolver o dinheiro - nem mesmo uma parte - no caso de a viagem ser interrompida. Se estes exploradores encontrassem o Mestre antes
do ocaso, o que faríamos com o carro? E, movido pela intuição, ignorei as ofertas. Seguiríamos a pé.

Além de adquirir alguns mantimentos e a água necessária, fizemos uma busca na base de aprovisionamento, mas foi outro fracasso. Jesus não estava ali ou, pelo menos,
não conseguimos encontrá-lo. Ninguém parecia conhecê-lo. Era óbvio. Em setembro do ano 25, o Filho do Homem era um perfeito desconhecido. Ninguém soube nos informar
sobre o tal YesúaÁ, seu vizinho de Nahum. YesúaÁ, ou Jesus, havia aos milhares...

Percorremos inclusive a confluência do Jordão com seu afluente, o Yavneel, interrogando os trabalhadores das dez enormes rodas de madeira que extraíam água do rio
e a depositavam em outras tantas gigantescas "piscinas" ou cisternas, de onde era distribuída às populações da "metrópole"9. Nem funcionários nem condutores - responsáveis
pelos jumentos que mantinham as engrenagens girando dia e noite - sabiam a que Jesus nos referíamos.

Decepcionados, voltamos para junto dos mercadores. Estava decidido, sim, mas como planejaríamos a caminhada? Eliseu, mais impulsivo, sugeriu que deixássemos isso
nas mãos de meu "amigo", o Destino. No início, resisti. O caminho até Jerusalém era longo (um pouco mais de cento e trinta quilómetros). Era importante traçarmos
um plano. Deveríamos caminhar atentos e com certa pressa. Jesus dava grandes passadas, praticamente devorando as distâncias. Mas o que aconteceria se não topássemos
com Ele? Permaneceríamos em Jerusalém? Por quanto tempo?

9 Uma dessas construções - já observada no périplo aéreo - deixou-nos perplexos. Tratava-se de uma "tubulação" a céu aberto que transportava a água até a cidade
de Tiberíades, a vinte quilómetros da desembocadura do Yavneel no Jordão. A interessante obra de engenharia, financiada por Bet Yeraj, Senabris e a capital do yam,
repousava sobre dezenas de pequenas pontes que se lançavam sobre gargantas e colinas. Numerosos canais e canaletas de menor calibre que saíam da "tubulação" regavam
campos e abasteciam granjas e povoados. (N. do M.)

160

J.J. BE1MÍTEZ

A decisão era minha e parei para pensar por alguns minutos. Enquanto esperava, meu irmão dirigiu-se até o centro da base de aprovisionamento.

Eu o vi passar. Dei uma olhada rápida, mas não prestei mais atenção nele. Ali, no coração desse lugar, alçava-se um curioso "monumento", venerado pelos gentios e
repudiado pelos judeus mais conservadores. Eliseu, curioso, aproximou-se dele e ficou a observá-lo detidamente.

Contei treze obeliscos. Tratava-se de treze pedras negras, cilíndricas, com uns trinta centímetros de diâmetro e um metro e meio de altura, solidamente ancoradas
na terra. Formavam uma fileira. Cada obelisco era delicadamente talhado, com um extremo superior em forma de cone. A dois quartos do vértice, as pedras apresentavam
uma característica que as tornava singulares: cada uma tinha um orifício, perfeito, com dezoito centímetros de diâmetro. Todos iguais. Todos trabalhados com grande
delicadeza. Todos perfurando a rocha basáltica de ponta a ponta. Eram treze irmãos. Foi assim que batizamos a paragem: "os treze irmãos".

Observei-os em diferentes oportunidades - principalmente quando da "descoberta" pelo engenheiro -, mas nunca soube seu verdadeiro significado10. Alguns associavam
o "monumento" ao deus Baal. Outros asseguravam que tinha sido idéia dos construtores da cidade de Ugarit, na costa Síria (ao norte da atual Ras Samra), e que protegia
os transeuntes. E por isso fora instalado na segunda foz do rio Jordão. Este era, por assim dizer, o ponto de partida para qualquer destino. Ouvi comentários para
todos os gostos. Havia quem afirmasse que fora transportado pelo ar - em uma determinada noite - dos templos de Gebal e Kitión, no Chipre, e

10

Essas pedras foram descobertas nos anos 1950 por Bar-Adon e sua equipe. Seu peso médio oscila entre cento e cinqüenta e duzentos quilos. Na opinião de alguns especialistas
- como é o caso de Mendel Nun -, seriam âncoras utilizadas pelos pescadores do yam ou mar de Tiberíades. Outros rechaçam essa possibilidade, argumentando que o peso
era excessivo. Pessoalmente, estou de acordo com aqueles que acreditam tratar-se de "monumentos aos deuses", como Jacó (ver Génese 31, 45). Atualmente, não se sabe
por que, essas pedras são conhecidas entre os arqueólogos como "víboras". (N. do M.)

161

quem jurasse que eram obra dosjenum, os diabos do deserto vizinho de Judá. Já para os judeus mais rigorosos, estávamos apenas diante de uma demonstração da idolatria
"que assolava o país".

Abaixo dos orifícios - em três pedras -, apareciam outras tantas inscrições, gravadas em aramaico e em coiné.

Agora, ao ordenar estas memórias e relembrar o ocorrido, chego a estremecer. Definitivamente, nada é casual. Nada...

Como estava dizendo, foi Eliseu quem fez a "descoberta". Ele me chamou e, ao me aproximar dos "treze irmãos", apontou para o que ficava mais ao sul (a fileira estava
perfeitamente direcionada de norte a sul). Encolhi os ombros. Não conseguia entender o súbito interesse de meu companheiro por aquelas pedras.

- O que diz aí?

Examinei a inscrição. Era a letra grega ômega.

Continuava sem entender...

Então, todo enigmático, ele me sugeriu que olhasse pelo "olho" que perfurava aquele primeiro obelisco. Fiz isso, porém, inicialmente, não descobri nada de anormal.
Como era lógico, vi apenas parte dos outros, com os correspondentes orifícios.

- Refere-se ao alinhamento? - perguntei, intrigado. - É perfeito... Eliseu negou com um movimento da cabeça e sorriu malicioso.

- Por favor, olha de novo...

Repeti a observação, desta vez mais atento. Estava claro que a insistência tinha algum motivo...

As pedras eram separadas entre si por pouco mais de um metro. Averiguei minuciosamente, mas, salvo as inscrições no segundo e no terceiro obeliscos, igualmente abaixo
dos orifícios, não consegui perceber o que chamara a atenção do engenheiro.

- Não estou entendendo...

- O que está escrito?

Eu conhecia aquele tom, entre divertido e mordaz. Eliseu gostava desses "jogos". Examinei a segunda inscrição. Também não me disse nada. Quanto à terceira e última...

162

J.J. BENÍTEZ

-... "O princípio"...

Eliseu me olhava cheio de expectativa.

- Sim, "o princípio" - assinalou satisfeito. - Percebes agora? Olhei de novo pelo orifício e acho que entendi. Comprovei mais

uma vez. Não tinha dúvida.

- É espantoso!

De fato, aquilo parecia ter sentido. Um certo sentido... E, sem conseguir me conter, caminhei entre os "irmãos" para ratificar o que observara pelo primeiro orifício.
As três inscrições eram nítidas. Por mais que explorássemos os outros pilares, não encontramos nenhuma outra legenda. Curiosamente, as inscrições podiam ser lidas
tanto em um sentido quanto em outro, partindo do primeiro obelisco ou do terceiro, respectivamente. Contudo, seu verdadeiro sentido aparecia quando eram observadas
através daqueles orifícios nas pedras.

E o engenheiro, intrigado, perguntou:

- Isso é casual?

Eu não soube o que dizer. Agora, insisto, sabendo o que ocorreria algum tempo depois, acredito que tudo nessa operação foi magicamente planejado. Por quem? Suponho
que o eventual leitor deste apressado diário já adivinhou a quem me refiro...

Lembro que acabei encolhendo os ombros, incapaz de decifrar o mistério.

"Ômega é o princípio."

Assim rezavam as três inscrições, lidas de sul a norte. Ou seja, olhando pelo orifício do primeiro obelisco sagrado.

"Ômega" era a primeira inscrição, "é" a segunda e "o princípio" a terceira e última.

mega e o principio ?

O que queria dizer o autor da legenda? Ômega é a última letra do alfabeto grego: o fim, de um ponto de vista puramente simbólico. Aqui, entretanto, adquiria um sentido
inverso. Por que o "fim" era o "princípio"?

Lido ao contrário - "o princípio é ômega" -, também tinha sentido. Um certo sentido...

163

Mas ainda teríamos de esperar para alcançar seu verdadeiro e pleno sentido. Mais uma vez, o Filho do Homem seria protagonista desse singular e inesperado enigma.
Mas vamos por partes...

Fiquei absorto por algum tempo, tentando decifrar a "descoberta". As inscrições não eram recentes, embora provavelmente não fossem tão antigas quanto o talhe dos
obeliscos. A presença do ômega foi determinante. Como sabem os especialistas, essa letra foi introduzida no ático, a língua da cidade de Atenas, por volta do ano
400 antes de Cristo. A influência ateniense fez desse dialeto do grego antigo a base para o coiné, o grego internacional (uma espécie de "inglês" portuário de grande
importância nas relações comerciais em todo o Mediterrâneo). Portanto, a inscrição não tinha mais de quatrocentos anos.

E o que importava isso?

O incrível é que estava ali. Alguém - consciente ou inconscientemente - gravara palavras "proféticas". E nós, por um desses caprichos (?) do Destino, acabávamos
de descobri-las. Como já disse, no momento oportuno...

E eis que, também no momento oportuno, surgiu aquele velho nómade. Suponho que estivesse nos observando enquanto examinávamos os "treze irmãos". E, sem rodeios,
afirmou:

- É o olho do Destino. Só alguns poucos conseguem saber que está aí... Mas atenção: o homem que o descobre necessita de todas as suas forças para prosseguir na luta.

Naquele momento, tampouco entendi a sábia mensagem do beduíno. Merece um prémio quem conseguir...

E, pouco depois do meio-dia, partimos em direção ao sul.

O que importavam os malditos planos? Viveríamos o presente. A única coisa que importava era Ele. Precisávamos encontrá-lo, e o quanto antes possível. Essa era nossa
missão. Tínhamos assumido o compromisso de ser testemunhos de sua vida, e assim seria.

No momento, dispúnhamos de umas três horas de luz, o suficiente para continuar procurando. Ele tinha de estar em algum lugar... E, animados, seguimos rumo a Jerusalém.

164

J.J. BENÍTEZ

Minha preocupação, naquele início de caminhada, era a água. A paisagem tinha mudado. As exigências, agora, eram de outro tipo. Das montanhas e da neve da Gaulanítis,
passamos à secura do vale do Jordão, com temperaturas diurnas que, no final do verão, nunca eram inferiores a
25 graus Celsius. Mais um suplício.

Nossas reservas eram suficientes. As antigas cabaças utilizadas no caminho para Hermon foram substituídas por um odre de pele de cabra, adquirido na base de aprovisionamento.
O que me preocupava era o risco de contrair algum tipo de infecção intestinal, tão freqüente naquele tempo e naquele lugar, e, ao mesmo tempo, tão perigosa. A eschfrichia
coli, por exemplo, representava uma grave ameaça. Se a água dos "treze irmãos" estivesse contaminada, poderíamos sofrer um processo diarréico agudo que, sem dúvida,
atrasaria nosso trabalho, sem contar, obviamente, outras possíveis doenças, como a disenteria bacilar, as febres tifóides, a amebíase, a cólera etc. Naturalmente,
não foi possível purificar a água mediante o simples procedimento de ebulição, mas tratei de afastar o perigo com as doses adequadas de tintura de iodo e de doxiciclina
(200 miligramas no primeiro dia e 100 ao dia nas semanas seguintes). As cinco ou dez gotas de iodo dissolvidas no odre davam à água um sabor nada agradável, mas
nos conformamos. Não havia alternativa.

Aquele primeiro trecho foi uma tortura. Não pelo terreno em si, que era plano e em ligeiro aclive. Demoramos algum tempo para nos acostumar ao assédio dos sais e
de seus carros. Durante cinco longos quilómetros, os táxis procedentes da base de aprovisionamento nos abordaram sem descanso, repetindo a mesma cantilena: "Jerico?...
Jerusalém?... Barato!"

Diante das recusas, os condutores insistiam, rebaixando os preços e interceptando nosso caminho com os cavalos ou jumentos. O final era sempre o mesmo. O sais, irritado,
golpeava as ancas da cavalaria e os animais arrancavam com violência, levantando um pó espesso e asfixiante. E o indivíduo seguia em frente em meio a insultos e
maldições.

Outras vezes, sempre com os lenços brancos esvoaçando, os sais, entediados, organizavam corridas, tomando conta da via estreita de terra

165

batida e pondo em risco a integridade física de todos os que caminhavam em uma ou outra direção. De nada serviam os protestos irados, os bastões erguidos dos caminhantes
ou até mesmo as pedras, que acabavam bombardeando os grupos de carros. Aos poucos nos acostumaríamos. Assim era a estrada do Jordão...

A paisagem, como eu dizia, mudou bastante. Agora caminhávamos por um vale relativamente estreito onde o rio Jordão despontava como senhor absoluto. O que vimos naquela
aventura nada tem a ver com o Jordão que conhecemos em nossos dias. Hoje, no século XX, o rio sagrado apresenta-se como uma corrente insignificante, com uma escassa
e tímida vegetação brotando das águas. O resto é quase deserto. Naquele tempo, ao contrário, como já constatamos no périplo aéreo já mencionado11, o Jordão era um
canal mais apreciável, capaz de alimentar extensas áreas de floresta subtropical fechada, quase impenetrável, habitadas por felinos (especialmente leopardos e linces),
crocodilos, perigosas manadas de porcos selvagens, chacais, serpentes de todo tipo (entre as quais, dez altamente venenosas), behemoth ou leviatãs (hipopótamos),
raposas e uma imensa colônia de aves.

Era o Gor, a terceira grande região de Israel, para além das montanhas e da costa. Uma enorme falha que percorre o país de norte a sul e que os arqueólogos chamam
de graben, com seu maior desnível no mar Morto (menos quatrocentos metros).

O Jordão era um lugar próspero, densamente povoado - especialmente na sua porção sul -, onde judeus e pagãos das mais variadas origens conviviam em paz, assim como
na Galiléia. O rio descia à nossa esquerda (tomarei sempre o sentido da corrente como principal referência), mais ou menos a meio quilômetro. Salvo em alguns casos
raros, o caminho que descia em direção a Jerico mantinha-se a uma distância prudente da cúpula vegetal - agora verde e amarela -, que recordava a presença do canal.
Um canal de 101 quilômetros em linha reta (do

11 Ver Saidan. Cavalo de Tróia 3 (N. do A.)

166

l

].]. BENÍTEZ

sul do yam até o mar Morto) e 222 quilômetros de rio propriamente dito12. Essa proporção fazia do Jordão um rio tortuoso, com centenas de meandros, alguns quase
circulares, e gargantas profundas de paredes verticais de até sessenta ou cem metros de altura. No momento oportuno, adentraríamos naquelas paragens solitárias e
perigosas. E também em companhia do Filho do Homem...

O Filho do Homem?

Até o momento não tivéramos sorte. Percorremos a longa reta do primeiro trecho sem o menor sinal do Galileu. À direita e à esquerda da rota, entre as colinas e a
"selva" do Jordão, derramavam-se milhares de vinhas de um metro de altura, minuciosamente escoradas e amarradas umas às outras com cordas longas e escuras. As últimas
levas átfelah procediam à coleta de uma uva negra e brilhante acondicionada em grandes cestas.

12 Segundo nossas pesquisas, o Jordão, naqueles anos, dispunha de uma bacia que totalizava 13.600 quilômetros quadrados. Esse vale era dividido em duas grandes regiões:
a ocidental (Samaria e Judéia), com dois mil quilômetros quadrados, e a subbacia oriental (a leste do rio: atual Transjordânia). Esta segunda zona, mais rica em
precipitações, era cercada por numerosos afluentes do Jordão (contamos nove, com um volume total de água de 616 milhões de metros cúbicos). O Yarmuck era o mais
destacado, com 480 milhões de metros cúbicos. No lado ocidental, somamos cinco afluentes, com pouco mais de trinta milhões de metros cúbicos de canal. O Faria era
o mais importante, com dezessete milhões de metros cúbicos. Naturalmente, esses fluxos não eram constantes, e por isso o traçado do Jordão nunca era o mesmo. As
paredes da marga (rocha sedimentar formada por argila cimentada) sofriam as tensões inevitáveis, desmoronando a cada cheia e modificando o perfil das margens. Durante
milhares de anos, as águas foram escavando um canal ou gaon que se estendia entre grandes planícies de marga. Às vezes, o vale chegava a atingir seis milhas, mas
a largura média oscilava em torno de um quilômetro. A velocidade da corrente era alta (1,37 metro por segundo em refluxo, 1,69 em estado médio e 5,1 em nível alto
de chuvas). A inclinação do vale - entre 212 metros abaixo do Mediterrâneo no yam e menos quatrocentos no mar Morto - era de l,79%o. A do fluxo supunha 0,8%o. Devido,
provavelmente, ao forte empuxo dos afluentes orientais, o Jordão sofria um deslocamento para oeste, o que aumentava a superfície da sub-bacia oriental e reduz ao
mínimo o vale ocidental. Em nossos estudos, detectamos também uma alta salinidade nas águas, com um nível variável entre mil e dois mil miligramas de cloro por litro.
(N. do M.)

167

Os camponeses, em fileiras intermináveis, transportavam o fruto para os carros ou gat, lagares de cerâmica vermelha, estrategicamente instalados entre as plantações.

Perguntamos. Indagamos nas choças de palha e adobe que salpicavam os campos. Negativo. Nenhuma pista sequer. Nada... E prosseguimos. Acho que perdemos tempo nos
"treze irmãos". Tínhamos de forçar o passo. Se Jesus estivesse à nossa frente, não devia estar muito longe...

Consultei o sol. Podia ser a hora nona (15 horas). Talvez um pouco menos. E, de súbito, a marcha foi interrompida. Eu tinha esquecido... A cinco quilómetros do yam
terminava a Galiléia e começava outra região
- a Decápolis -, formando uma bacia que penetrava a oeste. O novo território avançava para o sul, até o rio Yavesh, fazendo fronteira com a Peréia de Herodes Antipas,
a velha "raposa".

Ali se erguia a aduana, um mísero edifício de barro e bambu, consumido pelo sol e pela negligência de alguns funcionários a serviço de Roma, cuja única preocupação
era enriquecer o mais rápido possível. Esses publicanos da Decápolis13, assim como a maioria dos que conhecemos, eram judeus. Isto é, duplamente odiados por seus
conterrâneos.

Uma longa fila de viajantes, com seus carros, jumentos e camelos (na verdade, dromedários), esperava pacientemente sua vez. Os publicanos, à sombra de um alpendre
improvisado, se revezavam avidamente na inspeção das mercadorias e dos fardos ou utensílios pessoais. Eram três. Todos com o distintivo de latão na túnica. Atrás,
à esquerda do edifício da aduana, sentados na poeira e aproveitando

13 Naqueles anos, a Decápolis estava sob controle romano. Era um conjunto de cidades helenizadas, a maioria delas fundada por Alexandre Magno e os Diádocos. Depois
da guerra provocada por Alexandre Janeo, Pompeu libertou o território da opressão judaica. Os núcleos mais importantes eram Scythopolis, Pella, Gadara, Hippos, Dión,
Gerasa, Filadélfia (atual Ama) e Rhaphanam. Plínio supunha que Damasco era uma das populações que faziam parte da liga "das dez cidades", ou Decápolis, mas isso
não foi provado. Além disso, Damasco não era regida pelo calendário conhecido como "era pompeana", utilizado pelas cidades mencionadas anteriormente, mas sim pela
era selêucida. (N. do M.)

168

J.J. BENÍTEZ

o duvidoso frescor de um talhadinho de juncos e ramas, dormitavam cinco soldados romanos. As roupas, com a tradicional calça vermelha justa até a metade da perna,
e as afiadas lanças ou pilum, com bases de ferro, levaram-me a pensar que estávamos diante de uma patrulha ou pelotão, integrante de uma turma, unidade de cavalaria
geralmente formada por trinta e três ginetes. Dado o calor sufocante e a ausência do decurião ou chefe de fila, eles tinham se despojado da pesada e incómoda couraça
de malha, assim como dos elmos de couro. Tudo isso repousava ao seu lado, juntamente com as temíveis gladius, as espadas de fio duplo.

Eliseu e eu nos olhamos em silêncio. Eram tropas auxiliares. Sua ferocidade e seus maus modos eram bem conhecidos. Este explorador já tinha passado por uma amarga
experiência com um deles no caminho de Nahum a Saidan. Era preciso agir com cautela. E, lentamente, fomos nos aproximando dos funcionários...

À frente destes exploradores, aguardando sua vez, estavam três judeus - galileus, a julgar por seu forte sotaque -, que conduziam um camelo alto de pêlo macio e
avermelhado, com duas enormes canastras de cada lado da corcova. No início não prestei muita atenção. Pareciam comerciantes, como tantos outros... Eram jovens. Eu
os vi sussurrar entre eles e olhar para os soldados com desconfiança. Imaginei que, como a maioria dos hebreus, se sentiam enojados na presença dos odiosos kittim.
De fato, mas não era só isso...

E quando chegou a sua vez, um dos publicanos os interrogou sobre a natureza do carregamento.

- Cebolas...

O funcionário, experiente nesse tipo de contenda, olhou nos olhos do que acabara de responder. Foram só alguns segundos. O galileu vacilou. Piscou e repetiu inseguro:

- Cebolas de Ginnosar para o mercado de Jerusalém.

Isso bastou. O funcionário "sabia" que havia algo estranho. E, apontando para a carga, mandou que a colocassem no chão. O tom autoritário não dava margem à negociação.

169

Osfelah protestaram, recusando-se a cumprir as exigências do publicano. Um deles argumentou, com razão, que náo era bom descarregar o camelo. Essa operação - e o
publicano sabia muito bem - só podia ser feita no fim da jornada. Ajoelhar o animal, soltar a carga, voltar a subi-la e colocá-lo de pé novamente representava um
enorme esforço, nada recomendável (o camelo poderia se ferir e derramar a carga). E o que parecia mais sensato pediu ao publicano que subisse ao alto do animal e
verificasse o conteúdo das cestas.

Suponho que foi uma questão de "manter a autoridade". O publicano rude, com uma visão estreita e obstinada da situação, recusou. Era ele quem mandava, e ordenou
que o camelo fosse descarregado imediatamente. Era isso, ou dar meia-volta...

E imaginei que a ordem implicaria outro grande atraso na nossa busca por Jesus de Nazaré. Errei mais uma vez...

De súbito, sem que ninguém dissesse nada, um dos galileus - o que tinha respondido sobre as cebolas de Ginnosar - puxou uma adaga de dentro da túnica, atirou-se
contra o publicano e cortou-lhe o pescoço com um talho rápido e certeiro. No mesmo instante, criou-se o caos, com os gritos e o sangue brotando aos borbotões. Eliseu
e eu nos retiramos, tropeçando em outros viajantes e caravaneiros. E os galileus, como uma única sombra, saltaram sobre o camelo e empreenderam a fuga. Sobre o pó,
em um charco de sangue, jazia o funcionário.

Mas a fuga foi frustrada pelos mercenários romanos. Alertados pelos gritos dos outros dois publicanos, vestiram as armaduras e correram atrás dos judeus. E náo demorou
para que zsptlum atravessassem o ventre do camelo e o derrubassem, e com ele, os galileus e a carga. E antes que os fugitivos fizessem uso de suas sicas ou adagas
curvadas, os soldados enterraram as lanças em seus corpos, acabando com a vida dos três jovens. E eles ficaram ali, no meio do caminho, sobre a terra batida e a
fossa escura de esterco das cavalarias.

Náo houve mais inspeções, nem pagamento de "pedágio". E o descontrole nos favoreceu.

Meu irmão e este que escreve, assim como os outros caminhantes, deixamos a aduana rumo ao sul. Só ao passar pelos galileus e pelo camelo

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agonizante é que entendemos. Entre as célebres cebolas de Ginnosar, espalhado pelo chão, via-se um arsenal de armas: gladius, adagas, achas de uma e de duas lâminas
e clavas metálicas com e sem puas. Tratavam-se de zelotes - inimigos declarados de Roma - com um carregamento secreto...

Devia ser a décima (quatro da tarde) quando avistamos a encruzilhada de Gesher. Eliseu e eu náo fizemos nenhum comentário sobre o ocorrido na aduana. Mas nossos
corações estavam apertados. O que poderíamos ter feito em favor dos nacionalistas judeus? Muito pouco ou nada...

Além disso, nosso código proibia esse tipo de intervenção.

Duas balizas cilíndricas de pedra calcária (os utilíssimos miliários), de um lado e de outro da estrada, indicavam os desvios para Scythopolis (atual Bet Shean),
a sudeste, e para Gadara, a nordeste. O atalho do Jordão seguia em linha reta, em direção ao sul14.

Ficamos em dúvida. Que caminho teria tomado o Mestre? Escolheu o de Scythopolis ou seguiu pelo "habitual", paralelo ao rio sagrado? A estrada calçada até a importante
cidade de Decápolis era mais cómoda que a de terra batida por onde tínhamos vindo. Porém, optar por aquele caminho implicava dar uma enorme volta. Era preferível
a poeira e o desconforto do atalho que corria pelo vale. E assim foi. Ficamos com o que já conhecíamos. Além disso, o sol se escondia rapidamente, zombando de nossa
incompetência. Restava apenas uma hora e meia de luz...

O que fazer? Não consegui responder à pergunta formulada pelo engenheiro. Até o momento, a procura por Jesus fora um fracasso. E me conformei, confiando náo sei
muito bem em quê. Se a figura do Filho do Homem náo aparecesse logo, seríamos forçados a interromper a busca, pelo menos até o dia seguinte.

Onde dormir? Também não pude esclarecer a dúvida pertinente de Eliseu. Deixaríamos nas mãos do Destino. Ele "sabe"... E creio que já sabia...

Os miliários, como já mencionei oportunamente, foram de grande utilidade. O Império Romano encarregou-se de instalá-los em quase todas as rotas importantes, sinalizando
direções e distâncias (apareciam a cada milha romana: 1.182 metros). Em todos estava gravado o nome do imperador do momento (nesse caso, Tibério, "filho do divino
Augusto"). (N. do M.)

171

Ao deixar para trás o segundo grande afluente ocidental do Jordão - o Tabor -, a paisagem mudou novamente. As milhares de vinhas desapareceram, e, à direita e à
esquerda, surgiu o jamrá, a terra vermelha - muito fértil - que proporcionava um excelente cereal e pastos não menos cobiçados. Uma densa rede de acéquias e pequenos
canais resplandecia por toda parte, transportando a água dos poços e dos mananciais, muito abundantes no vale. O clima quente e a salinidade do jamrá15 obrigavam
à rega permanente. Boa parte dessa água acabava evaporando, o que, por sua vez, provocava um aumento dessa salinidade. Mas os incansáveis felah procuravam restabelecer
o equilíbrio com uma intensa adubagem da terra, quase sempre com excrementos de cabra e ovelha.

Apressamos o passo. Se não me falhava a memória, a uns sete ou oito quilómetros da encruzilhada de Gesher, erguiam-se outras duas ou três pequenas aldeias. Podíamos
pernoitar num desses humildes povoados de ladrilhos vermelhos e tetos de palha. O ocaso decidiria qual deles...

A primeira dessas aldeias era Neweur. Cruzamos rapidamente entre os dólmens que se projetavam a pouca distância dos casebres de adobe. Meu irmão, espantado diante
das dimensões colossais, perguntou como tinham sido erguidos. Ninguém sabe. As lousas que os cobriam - de uma ou duas toneladas de peso - apareciam a mais de três
metros de altura sustentadas por grupos de pedras verticais solidamente fincadas na terra. As rochas foram removidas até o terceiro ou quarto milénio antes de Cristo.
Talvez muito antes. Supóe-se que eram tumbas. Os supersticiosos habitantes do local chamavam-nos de "casa dos espíritos". Dificilmente entravam neles. Os zelotes,
conscientes de sua estratégica localização, à margem da estrada, os tomaram como objetivo de seus grafites ferinos

15 A bacia do Jordão é a fratura mais profunda da Terra. Adotou a forma atual há um milhão de anos, aproximadamente. Nessa época, o mar penetrou nessa bacia pela
região de Yizreel e Bet Shean. As águas salgadas permaneceram no local até o ano
17000 antes de nossa era. (N. do M.)

172 "

J.J. BENÍTEZ

contra Roma. As pichaçóes a cal faziam referência principalmente ao "velhinho", o imperador Tibério, qualificando-o de "assassino" e de "anãs1 (castigo) do povo
judeu. "Poderás com o próximo rei?", dizia outro grafite, provavelmente fazendo alusão ao esperado Messias.

E a palavra Messias me trouxe de novo a imagem do Mestre. Onde estaria?

Messias? Esse era outro conceito que retificaria oportunamente. Mas podemos antecipar: Jesus nunca se considerou o Messias...

A aldeia seguinte era Bet Yosef, tão pobre como a outra. Pelo menos, essa foi a primeira impressão, ao contemplar as cabanas miseráveis e destrambelhadas, entre
as quais corria e brincava uma legião de crianças nuas, sujas e sempre acossadas por nuvens de moscas e mutucas de olhos protuberantes e iridescentes. E digo que
foi a primeira impressão porque, com o tempo, ao conhecê-las melhor, descobrimos que aquelas pessoas não eram tão pobres como imaginávamos. Viviam em casebres de
barro e careciam de muitas das comodidades (?) da cidade, mas dificilmente passavam fome. O cultivo da terra, no vale, era pesado e extenuante, porém muito rentável.
As altas temperaturas permitiam a maturação antecipada dos frutos, inclusive na primavera, e o crescimento tardio no outono. Isso se traduzia em várias colheitas
e, naturalmente, em suculentos lucros. Por outro lado, a forte radiação solar influía positivamente na qualidade dos produtos. As uvas, os melões, as melancias,
as verduras, os frutos e cereais da bacia do Jordão eram excelentes. Todos os requisitavam. E as exportações chegavam às terras distantes da Germânia, de Partia
e de Loyana, na China. A zona por onde caminhávamos era célebre, entre outras coisas, pelo cultivo de flores. Os hortos e as plantações, pequenas ou intermináveis,
estendiam-se até onde a vista alcançava. Ali floresciam nardos - de especial aplicação em perfumaria e elogiados no Cântico dos Cânticos -, lírios samaritanos, numerosas
espécies de crisântemos, açafrão (cultivado sobretudo com fins curativos), mandrágora de frutos amarelos (requisitada como remédio contra a esterilidade feminina,
a única admitida naquele tempo, e como afrodisíaco) e a chamada rosa "fenícia" - a vered-, de grandes pétalas brancas, cobrindo a bacia com uma impossível nevada.

173

O comércio das flores no Jordão era igualmente próspero. As coroas de rosas ou lírios, tanto para as cabeças das noivas quanto para os banquetes e demais festas
e celebrações, eram encomendadas diariamente. No Dia da Expiação, por exemplo, uma moda imposta pelas escolas rabínicas, elevava as vendas em mais de quarenta mil
vered, apenas na cidade de Jerusalém. O "negócio" se sustentava na demonstração do perdão aos inimigos, presenteando-os com uma rosa fenícia, sempre anonimamente.
Dessa forma, o judeu que dava a flor ficava redimido das culpas cometidas no ano anterior; e o que a recebia ficava sabendo que tinha um inimigo a menos (pelo menos
teoricamente). Qualquer que fosse a razão, o volume de flores colhidas todos os anos passava de sessenta milhões de unidades, dependendo da "associação ou sindicato
defelah" que controlava esse mercado, e cuja sede ficava em Jerico. No total, nos mais de cem quilómetros ocupados pelo vale, só na bacia ocidental, somamos mais
de trezentas chácaras com uma superfície de cerca de mil e setecentos hectares dedicadas exclusivamente ao cultivo de flores. Para protegê-las dos intensos e abrasadores
ventos locais que desciam pelas colinas do oeste durante o verão, os engenhosos camponeses haviam construído barreiras de juncos e carriços16 que permaneciam no
chão até o fim da primavera. Quando chegava a estação estival e essas proteções eram erguidas, o vale sofria uma curiosa metamorfose, com centenas de "paredes" verdes
e brancas, sempre oscilando ao vento17.

Chegamos à aldeia de Yardena na hora exata. O sol, alaranjado e imenso, já rolava na planície do Esdrelão, no horizonte. A noite não tardaria a cair. A jornada,
enfim, parecia condenada ao fracasso. Nosso objetivo
- o Mestre - tinha evaporado... E fomos procurar refugio.

Yardena, dedicada quase exclusivamente ao cultivo das flores, era outro punhado de cabanas, a pouco mais de cinqüenta metros da "selva" do Jordão.

16 Carriço: planta gramínea, comum na Espanha. (N. do T.)

17 O rigoroso regime dos ventos, nos meses de verão, também provocava a conseqüente e importante evaporação do rio, de seus afluentes e da água dos canais, a um
ritmo de 15 metros por dia. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

O Destino teve piedade destes exauridos exploradores, e, em pouco tempo, soltávamos as mochilas e o odre em um dos "quartos" do "hotel" local. Achava que a sujeira
e a miséria da pousada de Sitio, na encruzilhada do Qazrin, eram insuperáveis. Mas me enganei. Aquela "caravaneira" era muito pior. Inclusive, o título de pousada
era um exagero. Uma dezena de casebres de barro e teto de folhas de palmeira, erguidas anarquicamente no interior de um círculo, também de adobe vermelho, supostamente
para proteger os clientes de bandidos e assaltantes, formavam o lugar onde passaríamos a noite. Um lugar infecto, com um poço e uma latrina comuns, onde, no entanto,
nos aguardava uma surpresa. Coisas do Destino, que escreve certo por linhas tortas.

Um exame do quarto derrubou-nos de vez. Não dispúnhamos sequer de um catre. As "camas" eram o próprio chão. Se desejássemos um par de esteiras teríamos de pagar
por elas. Em um canto estava o único mobiliário, uma lamparina apagada e um recipiente metálico, alto e cilíndrico (semelhante a um urinol) que, suponho, servia
de mictório. Todo um "luxo" colonizado, isto sim, por um esquadrão de fétidos e ameaçadores percevejos, os hóspedes permanentes da "inesquecível pousada" de Yardena.
Em uma das paredes, alguém - não muito satisfeito - deixara duas frases: "Os clientes veranistas (referia-se aos percevejos) não me deixaram dormir. Paga tu a limpeza
da parede".

Saímos do antro em busca de oxigénio. As primeiras estrelas já apareciam no firmamento. Não tínhamos opção. Passaríamos a noite no recinto, mas, naturalmente, ao
ar livre. A procura pelo Mestre foi adiada.

Durante alguns minutos me dediquei inutilmente a rastrear o Ravid. Estávamos muito longe. Segundo meus cálculos, a trinta e quatro quilómetros em linha reta. Era
uma distância muito grande para distinguir o leque luminoso que o "olho do ciclope" deveria projetar em caso de uma séria avaria no "berço". Além disso, o terreno
não nos favorecia. Yardena encontrava-se a 244 metros abaixo do nível do Mediterrâneo, e o monte Arbel - à frente do Ravid -, com seus 181 metros, funcionava como
uma cortina, ocultando a nave (o módulo foi estacionado no cume do Ravid, a 138 metros). Não nos restava nem a possibilidade

175

de conexão com o Papai Noel mediante o laser de longa distância18. E a lembrança da última avaria me deixou preocupado.

Mas estávamos longe. Era preciso prosseguir. No momento adequado trataríamos desse "problema"...

Foi então que ouvimos vozes. Vinham de um grupo de indivíduos - possíveis clientes do albergue - que ceavam em redor de uma grande panela.

Discutiam. Meu irmão e eu, incapazes de suportar mais um incidente, nos mantivemos afastados. E nos dispusemos a entregar-lhes boa parte das provisões compradas
nos "treze irmãos".

Eliseu, atento à discussão, logo me fez um sinal, sugerindo-me que escutasse. E quando escutei, tive um sobressalto. E interroguei o engenheiro com o olhar. Será
que eu ouvira ou estava imaginando? Foi isso mesmo... E, então, não desgrudamos mais os ouvidos do vozerio.

Eram pastores. Levavam gado do Hebron, ao sul da Judéia, para os pastos da Batanéia e da baixa Galiléia, menos rigorosos que os do deserto de Judá. Falavam de alguém.
Uns diziam que se tratava de um profeta, enviado por Deus. Outros zombavam, argumentando que "ninguém, em pleno juízo, se vestiria como os antigos". E acrescentavam:
"Está louco..."

A quem se referiam? Falavam de Jesus de Nazaré? Afastamos a idéia. Segundo nossas informações, o Mestre ainda não iniciara sua vida de pregações. Isso ocorreria
mais tarde. Não fazia nem quatro dias que o havíamos deixado em Nahum...

A discussão, cada vez mais inflamada, tomou um rumo inesperado quando um outro judeu mencionou o profeta Elias, tentando explicar aos seus colegas que talvez estivessem
diante do "retorno do desaparecido". Elias, como todos se recordam, teve um papel muito importante durante o reinado de Ahab - por volta do ano 869 antes

Um dos dispositivos técnicos, alojado nas sandálias "eletrônicas", permitiala conexão a longa distância com a nave. Um microtransmissor emitia impulsos eletromagnéticos
a um ritmo de 0,0001385 segundos. O sinal era registrado na "vara de Moisés" e, uma vez amplificado, "transportado" em um laser até o módulo. Ali, o computador central
o decodificava e procedia à execução da ordem. (N. do M.)

176

J.]. BENÍTEZ

de Cristo (ver livros dos Reis). Segundo a tradição, foi atraído aos céus por um "carro de fogo" quando acabava de cruzar o rio Jordão em companhia de outro profeta,
Eliseu. Para muitos, esse desaparecimento ocorreu nas proximidades da desembocadura do Yaboq, no wadi Zarqal, outro afluente do Jordão pela margem esquerda. Nunca
mais se soube de Elias. Como aconteceu com Moisés, seus restos não foram encontrados. Não se sabe que fim levaram...

E os pastores se engalfinharam em outra áspera polêmica. A maioria rechaçava a idéia de um "novo Elias", assegurando que este não fazia prodígios. "Ninguém o viu
falar com corvos ou abrir passagem nas águas com a ajuda do manto."

De que diabos estavam falando? Esses supostos "milagres" são atribuídos ao referido Elias...

Para complicar o debate, um dos pastores levantou outra hipótese, que, longe de ser rejeitada, foi motivo de novas especulações e de mais um significativo silêncio.
Só depois compreenderíamos.

O indivíduo, baixando a voz, sugeriu a possibilidade de que o homem em questão fosse, na realidade, um espião de Antipas, de Roma, dos zelotes ou dos nabateus.

Ficamos perplexos.

Alguns concordaram. Podia ser. Tudo podia ser - disseram - naqueles tempos ruins em que ninguém confiava em ninguém

Nisso eles tinham razão. Desde a época de Herodes, o Grande, falecido no ano 4 a.C., um exército de "espiões" infiltrou-se na população e informava uns e outros
sobre o que pensava e o que fazia o povo. Cidades, portos, aduanas e pousadas eram os "centros de operações" desses informantes. Havia os que trabalhavam para os
romanos ou para os tetrarcas
- ou para ambos ao mesmo tempo - e também para os terroristas ou, inclusive, para o poderoso rei Aretas IV, da Babatéia, ao sul do mar Morto. Graças a esses informantes
camuflados, reis, governadores, castas sacerdotais, zelotes e empresários ficavam a par dos movimentos dos adversários e dos concorrentes. Nós também chegamos a
testemunhar as ações infames desses "serviços de inteligência".

177

Não pude me conter e, tentando averiguar de quem falavam, aproximei-me do grupo. Pedi desculpas pela intromissão e os interroguei.

Eliseu permaneceu em silêncio, ao meu lado. Examinaram-nos à luz do fogo que aquecia a panela e se negaram a responder. Repeti a pergunta, solicitando o nome do
"novo Elias". O silêncio se adensou um pouco mais.

Compreendi. Eu acabara de cometer um erro ao qualificar o protagonista da polémica de "novo Elias". Os judeus, desconfiados, nos tomaram por quem não éramos. Finalmente,
um deles, maldizendo nossa condição de estrangeiros, respondeu a contragosto:

- Não sabemos do que está nos falando...

Era inútil insistir. Meu irmão me puxou, e a tentativa com os homens da Judéia morreu ali.

Um enviado de Deus? Um louco? Elias de volta? Um espião a serviço sabe-se lá de que poder?

Eu já ia esquecendo do assunto, mas o instinto - uma vez mais - me levou pela mão. Tinha de desvendar o mistério. Algo me dizia que essa pessoa fazia parte de nossa
missão. A intuição estava certa.

Foi o dono da pousada quem, nessa mesma noite, em troca de algumas moedas, nos deu o nome e alguns dados complementares, não menos úteis.

O grupo, como eu dizia, era um reduzido clã de pastores de ovelhas que subia pelo vale, rumo ao norte. Em sua passagem pela zona de Damiya, a mais ou menos um dia
do local onde nos encontrávamos, pararam na confluência dos rios Jordão e Yaboq. Ali vivia um homem que estava revolucionando a região. Alguns - como confirmou o
dono da "caravaneira"

- asseguravam que era um profeta. Outros, como os pastores, duvidavam, e os outros, finalmente, tomaram o caso a título de "inventário". Mais um iluminado... Entretanto,
todo o vale comentava sobre ele. Todos tinham curiosidade. Todos desejavam vê-lo e ouvi-lo. Todos - como os pastores

- acabavam discutindo sobre sua missão.

O nome nos deixou sem fala: "Yohanán" ou "Yehohanan"...,

178

24 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA

"Yehohanan"?

A inesperada presença daquele homem em nossa busca pelo Mestre nos deixou confusos. Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, faria parte de nosso trabalho de reconstrução
da vida do Galileu. Contudo, não imaginávamos que aparecesse tão cedo e nessas circunstâncias. Será que a família de Jesus estava enganada? O Mestre estaria indo
para Jerusalém ou desejava visitar Yehohanan, seu primo distante? Será que o velho Zebedeu estava errado quando assegurava que o Filho do Homem foi batizado por
Yehohanan em janeiro do ano 26? Porque "Yehohanan", na verdade, era João, também conhecido como Batista, o Anunciador.

Desta vez, Eliseu é que foi cauteloso. Não devíamos confiar em um bando de pastores ou em um dono de pousada. As duas profissões apareciam nas "listas negras" dos
rabinos, suspeitos de ser ladrões e mentirosos. Eram ofícios "desprezíveis", conforme os judeus ortodoxos. Os pastores conduziam os rebanhos a propriedades alheias
e roubavam parte do leite, do queijo etc. Por isso eram proibidos de vender cabritos ou qualquer produto derivado dos animais que pastoreavam. Os segundos eram tão
pouco confiáveis como os primeiros, ou até mais, e eram acusados, na maioria dos casos, de proxenetas e chulos.

Mesmo assim, a coincidência nos deixou desconcertados. Não creio que os pastores e o dono da pousada tivessem combinado.

O que fazer? Prosseguiríamos na busca ao Galileu? Confirmaríamos a informação recém-obtida sobre o Batista? Não nego que o personagem me atraía. Sabia-se muito pouco
sobre ele...

A paragem onde se encontrava - segundo o dono da pousada - era conhecida como Damiya, a cerca de cinqüenta quilômetros de Yardena, sempre em direção ao sul. Isso
representava um dia de caminhada, se tudo transcorresse dentro da normalidade (?). Para chegar a Jerusalém, a zona de Damiya era uma passagem quase obrigatória.
Se não me falhava a memória, a aldeia em questão ficava à esquerda da estrada, não muito distante do rio.

E Eliseu e eu decidimos por uma solução intermediária. A prioridade era Jesus. Tínhamos de encontrá-lo. Se ao chegar em Damiya não tivéssemos conseguido nada, se
a busca ao Mestre continuasse um fracasso, então pensaríamos no que fazer. Eu me inclinava por uma "parada no caminho" e por uma primeira investigação em torno de
Yehohanan. Se o Galileu estava indo para Jerusalém, o mais provável é que usasse a fazenda de seu amigo Lázaro, em Betânia, como "quartel general". Ali, talvez o
encontrássemos. Eliseu não se manifestou, deixando o futuro nas mãos do Pai. Dito isso...

E, ao amanhecer, mais do que partir, fugimos de Yardena.

Absorvidos pela notícia sobre João, o Batista, em plena açáo, seguimos em um bom ritmo, deixando para trás a aldeia de Hasida. Tudo à nossa volta era luz e verdor.
Dezenas de felah movimentavamse entre os hortos, aproveitando a suavidade do alvorecer. Em breve, o vale do Jordão se transformaria em um forno, com temperaturas
superiores a 30 graus Celsius.

A pergunta era desde quando. Há quanto tempo Yehohanan percorria o Jordão, chamando a atenção de judeus e gentios? Fizemos um esforço de memória. Durante a estadia
nas neves do Hermon, o Filho do Homem não se pronunciou a respeito. Em nenhum momento surgiu o nome de João Batista. Era agosto. E admitimos a possibilidade de que
o Mestre - que empreendera sua última viagem em abril desse ano de 25 de nossa era - não soubesse da atividade de seu parente até o retorno a Nahum. E mais: já o
sabia naquele momento?

180

J.J. BENÍTEZ

Meu irmão acreditava que sim. As notícias corriam como pólvora na pequena província romana da Judéia. Segundo os pastores, aquele indivíduo "era uma revolução".

Eu manifestei minhas dúvidas. Se o Mestre pretendia visitar Batista, por que anunciou que desejava viajar à Cidade Santa? A não ser, é claro, que tivesse um duplo
interesse: ver seu primo e, posteriormente, seguir para Jerusalém. Jesus, afastado de sua família, não tinha por que dar muitas explicações sobre a nova viagem.
E a Senhora, mesmo tendo perguntado, também não podia suspeitar dessas supostas intenções.

Eliseu concordou com a idéia. Fazia treze anos da última conversa de Jesus com Yehohanan. Em setembro do ano 12 de nossa era, quando o Galileu estava com 18 anos
completos, João e sua mãe, Isabel, visitaram Nazaré. As mulheres, como já mencionei anteriormente1, influenciadas pelas respectivas aparições do anjo ou "ser de
luz", traçaram planos, projetando o futuro de seus filhos. Jesus - o "filho da Promessa" - seria o Messias libertador de Israel. Ele conduziria os exércitos vitoriosos,
lançando ao mar os kittim e proclamando o novo reino: a hegemonia judaica sobre o mundo. João seria seu braço direito.

Talvez tenha chegado sua hora - acrescentou o engenheiro. Talvez fosse o momento de retomar ou ressuscitar os "planos" interrompidos treze anos antes. Talvez o principal
objetivo do Mestre naquela viagem fosse justamente o Anunciador. Estaríamos diante do iminente batismo de Jesus no Jordão? Não era estranho que caminhasse bem na
direção em que, supostamente, se encontrava seu primo distante?

Rejeitei essas suposições. Em primeiro lugar - e o tempo haveria de confirmar -, Jesus não se considerava um libertador político, como planejava sua mãe. Esse foi
sempre um motivo de conflitos. Ele era outra coisa. Ele era algo muito mais importante... Eu não acreditava que

0 Mestre desejasse trazer à tona planos que ele nem sequer considerava. Se procurasse Yehohanan - e isso ainda iríamos ver -, a razão teria de ser outra. Obviamente,
não descartei a hipótese do batismo, embora

1 Ampla informação em Nazaré. Cavalo de Tróia 4. (N. do A.)

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acreditasse que minha fonte de informação - o chefe dos Zebedeu
- era consistente.

Havia ainda uma terceira possibilidade: a de que Eliseu e eu estivéssemos equivocados. Talvez Jesus seguisse diretamente para Jerusalém, sem mais.

Obviamente, só havia um meio de responder às perguntas: continuar avançando.

Uma hora e meia depois de nossa partida, sob um céu azul e um sol ameaçador, após atravessar a ponte de pedra que cruzava o rio e o nahal Harod, fomos desembocar
em outra importante encruzilhada. Um dos miliários, à nossa direita, anunciava a proximidade de Scythopolis (atual Bet Shean), a populosa cidade dos escitas2, com
uma população superior à da "metrópole" (possivelmente, mais de cinqüenta mil habitantes). Era, sem dúvida, o núcleo humano mais representativo de Decápolis. Como
teríamos oportunidade de comprovar algum tempo depois, a "porta do Éden" era a mais heterogénea mistura de paganismo de todo o Mediterrâneo. Ali conviviam em paz
e harmonia experientes tecedores de linho do Egito, mercadores do "barro milagroso" do mar Morto, domadores de feras de Persépolis, contadores de história de Sião,
caldeus ou adivinhos e, sobretudo, milhares de legionários e mercenários romanos. Nysa, como a chamavam popularmente, era uma cidade de passagem para as legiões
que se deslocavam rumo ao Oriente ou que retornavam a Roma. E, como tal, um povoado destinado fundamentalmente a oferecer serviços. Os prostíbulos - de todas as
categorias - contavam-se às centenas. Dispunha de

Numerosos estudiosos - baseando-se em Sincello - consideram que Scythopolis ou Bet Shean (para outros Bet San ou Byt sn) foi a cidade onde os escitas se estabeleceram
quando invadiram a Palestina no século VII a.C. Outros, como Plínio e Solino, seus discípulos, afirmam que foram esses escitas que acompanharam o deus Dionísio e
que protegeram a tumba de sua ama, Nysa. Bet Shean já existia no século XIX antes de Cristo. É mencionada no reinado de Tutmosis III, nas cartas de Amarna, como
"Bítsuani" e em monumentos dos faraós Seti I e de seu filho, Ramsés II. Em 107 a.C., caiu sob o domínio do judeu Hircano I. Pompeu, como se disse, libertou-a em
57, e ela foi reconstruída por Gabínio em 54 a.C. Desde então, permaneceu independente, embora sob o controle económico de Roma. (N. do M.)

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J.J. BENÍTEZ

circo, teatros, hipódromo, banhos e de uma destacada coleção de estátuas destinada a Nyke, a deusa da prostituição. Seus ginásios eram famosos, como também o gigantesco
mercado, "com capacidade para cem mil pessoas", segundo seus orgulhosos habitantes. Alguns a chamavam de "Pompéia do Oeste". A colónia judaica era minoritária (aproximadamente
um quinto da população total: em torno de dez mil pessoas). Enfim, Nysa se erguia branca e ruidosa sobre uma pequena montanha, a oitenta metros do Harod, num perímetro
de quatro quilómetros. Sua distância do Jordão era de uma hora. Além disso, Nysa ostentava o título de "cidade livre". Qualquer perseguido político podia refugiar-se
ali sem o temor de ser entregue às autoridades de seu país3.

À nossa esquerda, um segundo miliário indicava a localização de Galaad, a leste do Jordão, com ramificações em Pela e na Gerasa oriental. Era outro dos numerosos
caminhos de terra ligando o Oriente ao Ocidente, agora repleto de vendedores - a maioria procedente de Nysa -, carretas lentas e ruidosas, abarrotadas de frutos
e à&felah, e os inevitáveis carros de duas rodas, com os sais gritando preços e itinerários.

Prudentemente, desviamos do cruzamento, avançando em direção ao sul pelo único atalho que eu conhecia, o "habitual", que seguia mais ou menos paralelo ao rio, e
agora a uns dois quilómetros da "selva" do Jordão. E penetramos em outro setor difícil de esquecer...

Deviam ser sete horas da manhã.

Os camponeses - oufelah - chamavam aquilo de "floresta". Na realidade eram palmeirais. Milhares e milhares de palmeiras muito esguias, de até trinta metros de altura,
com as copas estiradas, imóveis e brilhantes, submetidas a um sol ao qual sucumbiriam em breve. A partir daquele cruzamento, junto com as flores, convertia-se na
rainha do vale (apenas nas terras, ao sul, calculava-se mais de meio milhão de exemplares). Reconheci duas espécies: a tamareira, com meia dúzia de subespécies,
e o

3 Desfrutavam desse mesmo privilégio, na Decápolis, Hippos (Susita), Abila e Gadara. Isso aparece em suas moedas e em outros documentos. O direito de asilo, ao que
parece, surgiu no ano 246 antes de Cristo, nos tempos de Seleuco II Calínico. (N. do M.)

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dendezeiro, bastante apreciado já naquele tempo e de cujos frutos se extraía uma espécie de gordura muito utilizada na fabricação de "sabão". As sementes de élailon
também eram requisitadas por cozinheiros e donas de casa. A manteiga branca que produzia dava um sabor delicioso a muitos pratos locais. Já a Phoenix dactylifera,
tratada com um cuidado muito especial pelos agricultores do Jordão, produzia até cento e cinqüenta quilos de tâmaras por ano. Era um fruto que se utilizava para
quase tudo e do qual, inclusive, se destilava uma bebida aromática, tão deliciosa como o vinho. A dactylifera, particularmente resistente aos solos salinos, podia
se conservar por muitos anos (chegamos a ver exemplares que, segundo os felah, tinham dois séculos). Para o melhor desenvolvimento da "floresta", e dos cultivos
da bacia em geral, os engenhosos camponeses idealizaram um sistema - ao que consta importado do rio Nilo - que evitava, em boa medida, a proliferação de insetos
e parasitas, muito prejudiciais às colheitas. O solo era coberto com longas folhas de ravenala, também chamada de "árvores do viajante", que, em questão de horas,
elevavam a temperatura da superfície, provocando uma espécie de "desinfecção térmica". E os tais insetos eram "cozidos vivos".

Logo surgiria diante destes exploradores outra importantíssima artéria da Decápolis: a calçada romana que ligava Scythopolis à cidade de Pella, a leste do Jordão.
Paramos alguns minutos para examinar a via, tomando as referências necessárias. O trânsito de homens e cavalarias era mais intenso do que no atalho anterior. O calor
começou a aumentar, e procuramos novamente a reconfortante penumbra da "floresta". Jesus continuava desaparecido...

Aos poucos, em pleno palmeiral, quando já tínhamos percorrido uns doze quilómetros desde a aldeia de Yardena, meu irmão me chamou a atenção. Ao fundo, entre os troncos,
avistava-se um povoado. Supus que se tratasse de Ruppin, outra aldeia de médio porte, silenciosa e aparentemente pacífica.

Seguimos em frente, e, relativamente confiantes, como sempre, nos dispúnhamos a atravessá-la. Imaginei que os homens estariam na "floresta", cuidando das plantações.

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J.J BENÍTEZ

No final de uma curva da estrada, quase nos arredores do povoado, nós o vimos...

Eliseu e eu reagimos simultaneamente. Paramos e observamos com atenção. Um calafrio cobriu-nos dos pés à cabeça. Meu companheiro, mais impulsivo, exclamou:

- Não é possível!

Precisávamos confirmar. E, lentamente, fomos nos aproximando.

Estava de costas. Conversava com algumas mulheres da aldeia.

Não havia dúvidas. A elevada estatura, a forte musculatura, o rabode-cavalo, o saco de viagem a tiracolo e a túnica vermelha... Sim, era a túnica que se sobressaía
em Nahum...

- E ele! - sussurrou Eliseu, sem conseguir acreditar no que via.
- Enfim...

Tinham sido necessários trinta quilômetros, a partir do yam, para localizá-lo...

E a uns cinqüenta passos, alertado pelas camponesas que nos viram chegar, o homem virou-se um pouco de lado, oferecendo parte do perfil.

E paramos ao mesmo tempo, mais uma vez.

Impossível!

O homem reparou em nós, mas continuou falando.

Não sabíamos o que dizer. Como era possível que o confundíssemos? Supunha-se que estivéssemos habituados à sua pessoa. Mas não...

Aquele caminhante não era o Mestre. À distância, apresentava uma sensível semelhança, mas só à distância...

Era forte, alto como Jesus, tinha o cabelo igualmente castanho, porém, o rosto era bem diferente. Um sinal na testa tornava-o inconfundível. Era a marca de uma queimadura.
Possivelmente, um ferro em brasa. Simulava um pequeno sol, de uns três centímetros de diâmetro com quatro raios. No rosto, muito branco e minuciosamente barbeado,
destacavam-se olhos negros, profundos e ligeiramente achinesados.

Ao passar por ele, desejamos paz, quase sem tirar os olhos do chão, e seguimos caminho, certamente envergonhados pelo erro e decepcionados. Não era o Galileu!

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As mulheres, sem dar maior importância ao encontro fugaz, aparentemente respondiam a uma pergunta do homem com a cicatriz chamativa na testa.

Ouvimos o nome de Damiya. E aquilo nos deixou em alerta novamente.

- Estais seguras disso? - insistiu o indivíduo com um acentuado sotaque estrangeiro.

- Sim - responderam em coro -, agora está nas "Colunas". Dizem que continua batizando...

Ao ouvir a última palavra - "batizando" -, reagi. Dei meia-volta e, para surpresa de todos, juntei-me ao grupo, manifestando meu interesse pela identidade daquele
que estava batizando nas "Colunas". As mulheres, desconfiadas, ficaram em silêncio. Suponho que tinham razões de sobra para isso. Não era muito normal que, na mesma
manha, três estrangeiros perguntassem pelo mesmo homem.

Foi o do sol, aberto e sorridente, quem confirmou as suspeitas. Ele também procurava Yehohanan.

Assim, aparentemente por casualidade (?), conhecemos Belsa (seu verdadeiro nome era Belsassar ou Baltazar). Disse que era nativo de Susa, a leste do rio Tigre,
na Pérsia. Portanto, era um parsay. Mais exatamente um susankay, ou natural da cidade mesopotâmica de Susa (no atual Irá). Residia provisoriamente na aldeia de Hayyim,
muito próxima de Nysa ou Scythopolis. Trabalhava no momento como chefe de "escaladores" na "floresta" (uma curiosa profissão cujo objetivo era coletar cachos de
tâmaras das altas palmeiras, assim como proceder à poda e à polinização destas). Tinha sido caravaneiro por meio mundo. Falava persa, coiné, aramaico, egípcio, beduíno
e um pouco de latim. Conhecia bem a região e se ofereceu encantado para nos acompanhar até a zona de Gaón Ha Yardén, na confluência dos rios Jordão e Yaboq. Ali,
segundo todas as notícias, em uma paragem conhecida como as "Colunas", encontrava-se naqueles dias o parente do Filho do Homem -João, o Anunciador.

Demorei algum tempo para me recompor do conseqüente assombro. Aquele homem, em curto e médio prazo, seria de grande utilidade em

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nossa missão. E não apenas como um bom guia. Quem poderia imaginar isso naquela luminosa manhã de segunda-feira, 24 de setembro do ano
25? Mas as coisas são assim e é assim que o Destino joga...

Belsa, como eu estava dizendo, era um bom conhecedor do vale do Jordão, e, principalmente, de sua gente tão diversificada. Estava a par de tudo o que interessava.
E soube da presença de Yehohanan ao sul do rio, próximo da margem norte do mar Negro, em finais do mês de nisán (março) desse ano 25. Se a informação dada pelo persa
estivesse correta, minhas suspeitas se confirmavam: Jesus, ao deixar Israel, em abril, não sabia que seu primo distante acabara de iniciar sua própria vida pública.
É provável que tenha recebido as primeiras notícias ao descer do monte Hermon e regressar à "casa das flores", em Nahum. Naturalmente, tratavase apenas de especulação.
Era preciso confirmar.

E prosseguimos a caminhada numa animada conversa. Por precaução, silenciamos sobre nosso verdadeiro objetivo, o Mestre. Quando lhe perguntei sobre o motivo do seu
interesse pelo Batista, Belsa, confessou com sinceridade - pelo menos aparentemente - que lhe chamara a atenção a prática de batismo por parte do tal Yehohanan.
E se proclamava seguidor do mitraísmo, uma religião importada do Oriente4

O deus Mitra nasceu na índia (século XIV antes de Cristo). Era um génio dos elementos. De lá foi para a Pérsia. Seu nome aparece pela primeira vez no ano 500 a.C.,
sob o reinado de Ciro I. As legiões romanas o adotaram, e levaram o culto para o Mediterrâneo. Era venerado particularmente nos portos e nas guarnições militares.
Ocupava-se de pesar a alma dos mortos no além; um além puramente espiritual onde existia a imortalidade. Durante séculos, foi um forte concorrente do recém-surgido
cristianismo. Sua doutrina era dualista: Ormuzd era o deus do bem e Ahriman o do mal. Mitra ocupava uma posição intermediária, era uma espécie de mediador entre
o céu e a terra que se identificava com o sol. A lenda diz que Mitra nasceu de uma pedra. Agarrou um touro (um animal divino) e o sacrificou por ordem de Ormuzd.
Do sangue nasceram animais e plantas. Esse touro purificador - diziam os seguidores

- era a chave da imortalidade. Foi o grande símbolo do mitraísmo, encontrado em várias escavações arqueológicas. Os fiéis também praticavam o jejum, a flagelação
e os banquetes sagrados, nos quais consagravam o pão, a água e o vinho. Com isso

- diziam -, ao comer o pão e beber o vinho sagrado, se convertiam em "homens diferentes", quase deuses. Os segredos de Mitra eram guardados cuidadosamente por

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pelo Império Romano e que causava furor naquela época, em particular nas grandes cidades do Mediterrâneo. Os fiéis do deus Mitra tinham justamente o costume de se
batizar, a fim de limpar suas culpas ou máculas. Esse louco ou profeta era um seguidor de Mitra? Por isso se pôs em marcha. Por isso queria vê-lo e conhecer suas
intenções. E o antigo caravaneiro, respondendo às perguntas destes exploradores, foi acrescentando mais dados sobre sua paixão: Mitra. Os que se consagravam a esse
deus eram organizados em diferentes estágios de iniciação. Ele era um "milles", um "guerreiro". Antes tinha passado pelas etapas de "corax" ("corvo") e "cryphius"
("oculto"). O sol na testa era a confirmação do "guerreiro". Era uma das provas a que se devia submeter: o ferro em brasa. Se demonstrasse o valor necessário, passava
ao grau seguinte, de "leão". Depois podia ser "persa","heliodrimus" ou "mensageiro do sol" e, finalmente, "pai" (Tertuliano designa-o como "Sumo Pontífice").

Ele estava no final da fase preparatória. A partir do grau de "leão", era tudo diferente. Começava-se a conhecer os segredos de Mitra e o porquê da própria vida.
Nenhuma outra religião era tão atraente para ele. Mitra era um ser em quem ele confiava: justo, leal, perfeito (santo). Foi o que disse. Mitra era a encarnação da
verdade. A mentira lhe repugnava. Foi ele também quem disse...

Além das provas a que eram submetidos, os praticantes do mitraísmo tinham de demonstrar - acima de tudo - limpeza de espírito. Belsa enfatizou: "A honradez em primeiro
lugar. Quando alguém morre, Mitra

uma casta sacerdotal (Tertuliano fala de virgines e continentes), muito similar ao que hoje conhecemos como monges. Os ritos eram realizados em grutas escavadas
na rocha. Os fiéis se distribuíam em bancos, de um lado e de outro do templum. Por sua estreita relação com o sol, no Ocidente ele recebeu também a designação de
Sol invicto. Sua festa era celebrada no dia 25 de dezembro, imediatamente depois do solstício de inverno, quando as horas diurnas começam a se alongar. Os devotos
de Mitra animavam o sol com grandes fogueiras, nessa noite, tentando infundir-lhe mana. ou numem. Depois festejavam o "triunfo do sol" com uma ceia e trocavam presentes.
A Igreja Católica substituiu essa festa pagã pelo suposto nascimento de Jesus de Nazaré. Como já mencionei oportunamente, o Mestre nasceu no verão, e não em dezembro.
(N. elo M.)

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pesa sua alma e sabe se foi uma pessoa limpa, caridosa e sacrificada. Só assim se alcança a felicidade eterna..."

Essa religião, como eu disse, causou furor. Principalmente entre os romanos que a consideravam uma alternativa concreta aos trinta mil deuses que os escravizavam.
Os mais humildes e desprezados viram no Mitra um salvador que julgava não pelas riquezas e pelo poder, e sim pela atitude de cada um na vida5. Essa promessa de felicidade
assegurava a passagem de um céu a outro, até chegar ao "sétimo", segundo o mitraísmo. Só havia um "problema": as mulheres não faziam parte desse culto...

Uma vez iniciados6, os seguidores de Mitra se reconheciam por uma série de sinais secretos, pelo "sol vitorioso" marcado na testa e pelo tratamento - apenas entre
homens, é claro - de "caríssimos irmãos" (fratres carissimi ou dilectissimi).

O culto a Mitra, em síntese, constituiu uma esperança nos tempos de Jesus. Era outra opção entre as chamadas religiões de mistérios (a maioria oficial), praticadas
pelos gentios. Ao lado destas, como já dissemos, apareciam os epicuristas, os estóicos, os cínicos e os céticos, além de uma constelação de crenças pagãs, cada uma
mais absurda e estranha que a outra.

5 É muito possível que o mitraísmo tenha chegado a Roma pelas mãos dos escravos, soldados e piratas vindos do Oriente (Plutarco sustenta que ele entrou na Itália
muito antes, através dos piratas trazidos da Sicília por Pompeu: 106 a 48 a.C.). Posteriormente, o Exército introduziria o culto em todos os rincões do império.
Sabese que sua influência - em uma mistura com o maniqueísmo - prolongou-se até a Idade Média. (N. do M.)

6 Tertuliano - uma de nossas fontes de informação - afirmava que essas provas recebiam o nome de "sacramento". Além do batismo e da "confirmação", o neófito tinha
de enfrentar a simulação da morte (às vezes não tão simulada), a fim de expressar seu grau de valor. Outros, como os aspirantes a "guerreiro", eram tentados com
a conquista (recebiam uma coroa e, depois de olhá-la fixamente, deviam recusála). Só Mitra estava capacitado para o triunfo. Eram ainda amarrados com tripa de frango
e, com vendas nos olhos, jogados em uma cisterna ou depósito de água. Mitra enviava então um salvador que resgatava o aspirante. Era o símbolo do deus. Só Mitra
outorgava a salvação eterna. Os sete graus iniciáticos do mitraísmo assemelhavam-se aos "sete céus ou sete moradas existentes depois da morte". Sete passos obrigatórios,
segundo essa religião. (N. do M.)

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Quando perguntei a Belsa sobre Jesus de Nazaré, ele encolheu os ombros. Era a primeira vez que ouvia esse nome. Não insisti. Não

era o momento...

E guiados pelo experiente chefe de "escaladores de palmeiras", prosseguimos pela senda que descia até o mar Morto. A temperatura, em elevação, devia estar próxima
a trinta graus Celsius. Era outro dia extenuante.

E depois da providencial aldeia de Ruppin, nossos passos se dirigiram ao que Belsa chamou de "onze lagoas". Os palmeirais, hortos e plantações de flores davam lugar
agora a um bosque estreito como um punho, verde e amarelo, com belos e desafiadores álamos do Eufrates, alguns com trinta metros de altura. E, aos poucos, entre
os troncos cinzas, surgiram as lagoas.

O guia apressou o passo. Sobre as águas esverdeadas passavam nuvens tremulantes de insetos e mosquitos. Era a pior das ameaças, a malária... Uma família de francolinos,
assustada diante da intromissão daqueles humanos, voou rápida e escandalosamente, agitando sua plumagem mosqueada e, por sua vez, espantando outra colónia de garças
noturnas.

- São tão esquisitos como as perdizes - disse o persa apontando para os francolinos em fuga. - Principalmente os de coleira castanha...

E as branquíssimas garças, lentas e incómodas, alertaram com suas manobras também as passer, as andorinhas do Jordão. Nunca tinha visto tantas. Dos ramos dos alamos
pendiam milhares de ninhos em forma de pêra, pacientemente construídos com barro e minúsculas porções de galhos e juncos. Protestaram com seus trinos e perderam-se
no bosque, recortando os juncos e os preguiçosos plumeiros que cresciam às margens dos pântanos. Uma barreira de vimes, eretos e ameaçadores, de até dez metros de
altura (possivelmente o salgueiro-branco), fechavam a passagem a qualquer tentativa de aproximação das lagoas. Mas essa não era nossa intenção. Aquelas águas salobras,
paradas demais, eram refúgio de ofídios e crocodilos. Algumas se comunicavam com o Jordão. Belsa avisou. Entre os arbustos de salsolas e sempre-vivas, em particular
entre os intricados mangues que avançavam sobre as águas, habitava "uma criatura feroz e impiedosa que atacava o passante e o deixava sem sangue". Disse que era

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um demónio, de olhos vermelhos e brilhantes como tochas. Embora pudesse voar, as pegadas que deixava na terra úmida das "onze lagoas" eram semelhantes às de um cachorro.
Ninguém que tivesse dois dedos de juízo se aventuraria a atravessar aquele território desacompanhado...

Sorri por dentro. Com certeza, o persa estava falando de uma criatura fantástica, fruto da superstição. Eliseu, a julgar por sua expressão, não compartilhava dessa
opinião...

Belsa, naturalmente, acreditava que "Adam-adom" fosse real. Esse era o nome que os nativos do vale do Jordão davam ao sinistro "diabo" dos mangues. Uma espécie de
jogo de palavras: Adam (homem) e adom (vermelho), em hebreu. "Homem vermelho", por causa da luz (?) vermelha projetada pelos olhos e que - segundo diziam - permitia
que se deslocasse com facilidade na escuridão da noite.

Adam-adom... Tratava-se de uma fantasia popular? Como eu conhecia mal aquela gente!

E por volta da tercia (mais ou menos nove da manhã), avistamos uma chácara. Era o final do trecho que também designaríamos futuramente como o das "onze lagoas".

A modesta construção de adobe e folhas de palmeira nos reservava outra surpresa... Belsa parou na porta e, aos gritos, chamou pelos moradores. Não demorou para que
umfelah velho e esquelético viesse ao seu encontro, saudando o persa com uma reverência interminável. Meu irmão e este que escreve tivemos a mesma sensação estranha.
Por que o camponês se curvava - e daquela forma - diante do chefe dos "escaladores"? Afinal de contas, ambos eram felah. Aquilo nos deixou intrigados. Mas na hora
não demos mais importância ao fato.

Estávamos em um lugar dedicado à criação de crocodilos. O velho conversou um pouquinho com o persa e, logo em seguida, levounos até uma das lagoas, infestada de
répteis. Os felah tinham cercado essa lagoa com bambus altos e grossos. Junto à paliçada, imóveis como estátuas e com as impressionantes goelas ligeiramente abertas,
dormitavam várias centenas de niloticus, os terríveis crocodilos-do-nilo. Nunca gostei desses animais. Nem Eliseu.

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Alguns eram enormes, com até oito ou dez metros, segundo meu cálculo. Há séculos habitavam o Jordão, provavelmente desde os tempos da 18a dinastia egípcia. Os faraós
os transportaram por mar até o golfo de Aqaba e, a partir dali, pelo caminho real, até as águas do rio Jordão. Uma viagem de mil quilómetros, sujeita a todo tipo
de peripécias. O investimento era sempre rentável. O niloticus, de focinho mais curto que os jacarés, dispõe de uma pele mais fina e resistente, e também, segundo
os entendidos, de uma carne mais saborosa. E os criadouros de crocodilos se tornaram famosos no vale.

Para nossa surpresa, Belsa pediu uma cria. E osfelah, sem vacilar, penetraram no recinto, caminhando com passos firmes pela margem da lagoa. O velho, o persa e estes
exploradores permaneceram à porta, atentos aos espécimes que flutuavam entre duas águas com os focinhos emergindo como pedaços de pau e aparentemente adormecidos.
Só aparentemente...

Não dava para confiar naquelas criaturas extremamente rápidas. Ao menor descuido, atacavam a presa e arrastavam a vítima para o fundo do pântano. Depois de afogada,
elas a devoravam. Prudentemente, deslizei os dedos pela cabeça da "vara de Moisés", acariciando o laser de gás.

Os camponeses desviavam dos niloticus contornando-os. Um bando de pássaros "lixeiros" abandonou as goelas dos animais, levantando vôo até o alto do bambuzal. E os
empregados do criadouro desapareceram em um labirinto de bambus. Um deles carregava um pau comprido com um laço em uma das extremidades. Outro felah estava armado
com uma tocha e uma adaga afiada. O velho que nos recebeu continuou conversando com o "guia", e, a cada a frase de Belsa, respondia com uma veemente inclinação de
cabeça, chamando-o de "beef ("senhor"). Por que "senhor"?

Os "pluviais" brancos e negros voaram de volta até os impassíveis crocodilos e saltaram sem temor para dentro das goelas. E ali prosseguiram na tarefa de limpeza
de dentes e gengivas que haviam interrompido, bicando todo tipo de insetos, sanguessugas e restos do recente "desjejum": frangos e cabras, sempre vivos...

Não demorou para que Belsa recebesse seu crocodilo. Um espécime de um metro, sacrificado no curral destinado às crias. Continuava

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pendurado no laço. O segundo camponês tinha perfurado seu cérebro, introduzindo a faca afiada por um dos olhos.

E o persa, satisfeito, jogou o animal nos ombros. O velho felah se recusou a cobrar. Aquele gesto foi mais estranho ainda. O niloticus devia custar uns dois denários,
no mínimo...

E, com uma última e enésima reverência, o homem se despediu do persa. A nós, apenas desejou paz.

As dúvidas aumentaram. Quem era de fato o chefe dos "escaladores de palmeiras"?

A partir da chácara dos crocodilos, o caminho ficou mais fácil. O vale continuava descendo em direção ao mar Morto e, depois de deixar para trás as aldeias de Zevi
e Salem, abriu-se diante de nós uma grande planície. Os álamos desapareceram e, em seu lugar, à direita e à esquerda do atalho, surgiram novos hortos e os intermináveis
brancos, vermelhos e violetas das plantações de flores.

Belsa, apontando para o edifício da aduna seguinte, procurou encorajar estes exploradores. Estávamos a pouco mais de vinte milhas romanas de nosso destino: Damiya.
Isso significava umas cinco horas de viagem. E no meu espírito ergueu-se a imagem do Mestre. Desta vez com mais força. Será que estávamos perto? Será que o encontraríamos
junto ao Batista? Ou eram apenas fantasias e o meu enorme desejo de voltar a vê-lo?

De fato, não muito longe de Salem ou Salim, aguardava-nos o edifício que servia de aduana entre os territórios de Decápolis e da Peréia7. Pretendíamos entrar neste
último, na época sob o controle administrativo de Herodes Antipas, um dos filhos de Herodes, o Grande. O verdadeiro "dono" não era a "velha raposa", e sim Roma...

O território judeu da Peréia era uma faixa estreita paralela ao rio Jordão. A fronteira ocidental era formada por esse rio e pela costa leste do mar Morto. Ao sul,
estendia-se até Maqueronte, nas proximidades do wadi Mujib (rio Arnón). Ao norte, fazia limite com a cidade pagã de Pella. A porção sul - a partir da desembocadura
do rio Yaboq
- era a mais povoada. A capital era Gador, a cidade mais conhecida de toda a Peréia. No norte, destacava-se Amatus, uma cidade-fortaleza, sede de uma toparquia e
de um dos "pequenos sinédrios". Nós também a visitaríamos oportunamente. (N. do M.)

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Desta vez não houve espera. O persa, decidido, foi passando à frente dos viajantes e das carretas que formavam fila e, com o niloticus sobre os ombros largos, aproximou-se
dos publicanos. Eliseu e eu, assustados, tememos o pior. E, de fato, enquanto avançávamos ouvimos vozes de protesto. Belsa, imperturbável, virou-se para os irados
judeus e gentios e simplesmente penetrou-os com o olhar. Não abriu a boca.

E, então, aqueles que protestavam silenciaram. Alguns, inclusive, deram um passo atrás, atemorizados. E todos aceitaram que o indivíduo de túnica vermelha e o sol
na testa passasse à sua frente. Nós dois, mais perplexos do que se pode imaginar, olhamos para um e para o outro sem saber o que pensar. Quem era Belsa? Por que
o temiam e reverenciavam? Os funcionários, quando o viram, nem lembraram de registrar bagagens e mercadorias e todos se voltaram à pessoa de nosso amigo (?) e acompanhante.
Eram só atenções: água dos mananciais de Enon, carne salgada da "floresta" vizinha ou vinho negro e forte do Hebron, nas montanhas da Judéia, e, provavelmente, confiscado
por bem ou por mal. Belsa aceitou duas tiras de carne defumada de porco selvagem e recolheu em seu saco uma pequena bolsa com moedas. Eu não gostei daquilo. Decididamente,
o caravaneiro e fiel seguidor de Mitra não era o que dizia ser...

Como imaginávamos, os publicanos franquearam sua passagem, liberando-o do "pedágio". E nós fomos atrás. Nem Eliseu nem eu nos atrevemos a interrogá-lo. Era melhor
assim. Por ora, a companhia do persa
- ou suposto parsay - nos beneficiava. Por que mexer com o Destino?

E Belsa, alegre e exuberante, cantando louvores ao "salvador" Mitra, conduziu-nos pela vasta planície.

Deixamos para trás as aldeias de Mehola, Juneidiya, Ghirur, Khiraf e Coraeae, brancas e modorrentas, escondidas sob os palmeirais ou encobertas pelos mares de rosas
fenícias que as rodeavam por todos os lados. Aqueles vinte quilómetros entre a aduana e o povoado-fortaleza de El Makhruq - ponto final do trajeto - foram deliciosos.
Em todo o percurso, reto e sem obstáculos (descendo de menos 252 metros na zona de Mehola para menos 284 no El Makhruq), com a "selva" do Jordão a oitocentos metros
à nossa esquerda, sentia-se o perfume do

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incenso queimado nas encruzilhadas, outra propaganda dos vendedores do vale. Tanto o incenso quanto a mirra, assim como as plantas de bálsamo, cresciam em abundância
na bacia (especialmente em Jerico). Osfelah vendiam essas gomas-resina no Templo de Jerusalém, e também aos pagãos do Egito e da Mesopotâmia. Segundo Belsa, a fumaça
da mirra e do incenso tinha o poder de afugentar os maus espíritos. Por isso, eram utilizados tanto nos rituais sagrados quanto nas casas modestas do Jordão, conjurando
a possível presença de criaturas ignóbeis como Adam-adom. (O cristianismo e outras religiões herdaram esse costume, utilizando o incenso na liturgia. Naquele tempo,
como verificamos durante o período de pregação do Filho do Homem, a totalidade dos exorcistas judeus empregava o incenso para espantar os demónios, eliminando assim
o odor nauseabundo das criaturas "infernais". Essa era a crença.)

E digo que a marcha foi uma delícia, embora não seja totalmente sincero. Ela só seria inteiramente, é claro, se o tivéssemos encontrado. Porém, o Mestre não deu
sinal de vida. Nem rastro. E, ao pararmos diante da fortaleza de El Makhruq, voltaram as velhas dúvidas... Estávamos a 88 quilómetros de Nahum e a 67 da costa sul
do yam. Onde estaria Ele? Aquele era o caminho "habitual" para a Cidade Santa. Ele o fez e o faria em outras oportunidades. O que estava acontecendo? Por que não
achávamos o Galileu?

E, inevitavelmente, voltaram a mim as palavras de Jesus: "O Pai tem planos aos quais não tendes acesso agora..."

Mas alguma coisa não encaixava. Por que tínhamos chegado até ali, aparentemente para nada?

E o Destino - tenho certeza - sorriu de novo...

Aparentemente? Nada disso. Tudo estava amarrado, e bem amarrado.

Fortaleza de El Makhruq. Como eu dizia, ponto final do trajeto. Pelo menos daquela etapa.

O sol marcava a décima (quatro da tarde aproximadamente). E, rendidos, nos atiramos contra as pedras cinzas que davam sustentação a uma construção quadrangular em
ruínas, que os habitantes do local cha-

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mavam de "o queimado". Tratava-se de uma torre com uns vinte metros de largura, erguida pelos antigos cananeus e cuja função era a vigilância da importante rede
de comunicações existente naquela paragem (ali convergiam o caminho "habitual" do Jordão e a calçada romana que ligava Filadélfia, no leste, a Nablus e à costa do
Mediterrâneo). Por extensão, o termo "queimado" ou "abrasado" - significado de Makhruq - era usado naquele tempo para designar a barreira rochosa que interrompia
a próspera vegetação da bacia do Jordão; uma barreira de calcário branco e cinzaazulado que se prolongava perpendicularmente ao Jordão e que se perdia a oeste, em
direção ao monte Sartaba.

Calculei que faltava uma hora e meia para o pôr-do-sol. Belsa tirou nossas dúvidas. Apontou para um povoado modesto e disse-nos que era o destino final. Referia-se
a Damiya. Um pouco mais adiante, ao leste, encontrava-se o "vau das Colunas". Ali, segundo todas as informações, Yehohanan fazia batismos.

Experimentei uma sensação agridoce. Talvez Jesus tivesse vindo ao encontro de seu primo distante. Será que testemunharíamos o batismo do Mestre? Nessa suposição,
o Galileu estaria perto. Damiya podia ser vista a cerca de três quilómetros do ponto onde nos encontrávamos. Mas e se não fosse isso?

O persa, agradecido pela companhia daqueles inquietos e curiosos gregos - "viajantes em busca da verdade", segundo Eliseu -, tratou de nos brindar, mais uma vez,
mostrando a beleza do lugar para onde nos conduzira o enigmático Destino (Mitra, segundo ele). E escolheu a paragem exata; a já mencionada torre do El Makhruq, no
alto da cadeia rochosa, a
281 metros acima do nível do mar.

O espetáculo foi inesquecível. Aos nossos pés corria o Jordão, agora livre da cobertura de mata, alimentando com suas águas claras e mansas os costumeiros hortos
e plantações. Pelo lado leste, descia um dos afluentes mais importantes: o Yaboq ou Zarqal, que também brilhava como prata. À nossa esquerda, na margem direita do
Jordão, abria passagem entre o verde e negro das palmeiras o menos pretensioso rio Tirza, pai do vale conhecido como Faria. Os dois afluentes desemboca-

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j.j. BENÍTEZ

vam quase frente a frente, dando nome à rica região de Gaón Ha Yardén (algo como "Garganta do Jordão"). Na junção dos outros três cursos dágua, os sedimentos arrastados
pelas águas haviam formado uma ilha de dimensões regulares. Fiquei assombrado. A quase totalidade da ilhota era ocupada por uma singular construção de calcário,
com muros e tetos enegrecidos. Um muro alto, de quatro ou cinco metros, circundava os edifícios, embora não creia que a palavra "edifícios" seja a mais adequada.
O único com um certo porte era o central, totalmente circular, arrematado por uma cúpula na qual se destacavam cinco estreitas chaminés. De cada uma delas emanava
uma coluna de fumaça negra e espessa. No pátio, pegadas à muralha, alinhavam-se numerosas casinhas, igualmente de pedra calcária, tisnadas pela fuligem e suspeitamente
iguais. Por uma das portas do bloco circular - que parecia ser o mais importante -, observamos fortes chamas. Imaginei que estávamos diante de umzyesuqah ou fundição
de ferro ou cobre.

- Sim e não...

A resposta de Belsa me deixou confuso.

- É o cárcere do cobre. Um lugar maldito...

Era uma.yesuqah e, ao mesmo tempo, uma das mais temíveis prisões da Peréia. Para ali eram levados os assassinos, os estupradores de crianças, os fraudadores de impostos
e os que se sublevavam contra Roma ou contra o tetrarca Antipas. A "fina flor"...

Segundo o persa, ali só se entrava para morrer. A população reclusa era de cerca de mil pessoas, a maioria de origem pagã.

Trabalhavam os lingotes de cobre que chegavam regularmente das fundições de Esyón-Guéber, no mar Vermelho, as antigas e autênticas minas do rei Salomão. Longas caravanas
desciam pelo Jordão com os carregamentos. Esses eram desembarcados na ilha e ali reelaborados pela técnica do martelo. Os fornos eram alimentados dia e noite com
madeira extraída das montanhas de Galaad. A fusão do cobre (a 1.083 graus Celsius) era obtida mediante a utilização de enormes foles de couro, ativados manualmente,
e com a ajuda - extremamente eficaz - dos ventos locais, particularmente fortes na desembocadura dos rios citados. As bocas dos fornos

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tinham sido direcionadas estrategicamente para o poente, de modo que os ventos que desciam pelo vale de Faria ativavam a corrente, alcançando-se assim "o laranja
do sol no ocaso" (os especialistas fundidores estabeleciam os diferentes graus de fusão segundo as cores do sol. A obtenção do cobre, partindo da cuprita, da azurita
e da malaquita, exigia um laranja similar ao do pôr-do-sol. O ferro, por exemplo, requeria uma temperatura de 1.539 graus, que transformava o metal proporcionando
uma cor parecida com a do "branco mate do sol entre a névoa", e assim sucessivamente para o bronze, o ouro, a prata ou o estanho).

Logo nos acostumaríamos ao ruído monótono e distante dos martelos batendo nas dúcteis e maleáveis lâminas de cobre. Uma martelagem que não parava nem durante a noite
e que recordava, aos nativos e aos estranhos, a natureza do lugar de onde vinha o som ritmado...

Segundo Belsa, o cárcere do cobre era mais um dos "negócios" rentáveis de Antipas, do qual participavam os de sempre: as castas sacerdotais e os funcionários mais
destacados de Roma. Ali, graças ao esforço dos prisioneiros, fabricava-se todo tipo de armas, ferramentas e adornos, tanto masculinos como femininos. Diariamente,
com as primeiras luzes do alvorecer, uma ou duas embarcações atracavam às margens da ilhota e embarcavam os produtos manufaturados: lanças, pontas de flechas, espadas
de toda natureza, adagas, machados de combate ou para o trabalho, enxadões, enxós, picaretas, cinzéis, freios de cavalo, armaduras, braceletes, ganchos e todo tipo
de utensílios de cozinha.

Eu não sabia o que pensar diante dos comentários do chefe dos "escaladorés de palmeiras". Criticava o tetrarca Antipas e os funcionários, mas, ao mesmo tempo, era
beneficiado por eles. A atitude não parecia muito honesta...

A média de falecimentos naquele campo de concentração era elevada: dois ou três "operários" por dia. Os corpos acabavam nos fornos, fundidos com o cobre líquido.
Segundo diziam, isso proporcionava hitpa ao metal ("o espírito do morto enriquecia a mistura"). Durante o tempo em que permanecemos nas imediações do cárcere do
cobre, ficamos sabendo de três caravanas com novos "reforços", entre os quais se destacava

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J. J. BENÍTEZ

uma leva de zelotes capturados no sul, no deserto de Judá. Antipas, como seu pai, não permitia qualquer movimento (religioso ou civil) que pudesse ameaçar o poder
estabelecido. A temida prisão diante dos nossos olhos foi outro exemplo da crueldade da família de Herodes. Ali perderam a vida muitos judeus cuja única culpa era
sonhar com a libertação de Israel.

Damiya, o povoado branco em que pretendíamos descer, vivia em grande parte dessa prisão. Era uma aldeia a serviço dos fundidores e de seus guardiões. Os cinturões
de hortos que a contornavam não eram suficientes para abastecer zyesuqah, e, todos dias, pelo atalho do Jordão, amanheciam numerosas carretas com encomendas de todo
tipo, incluídas as célebres "burricas" ou prostitutas de Bet Shean e da cidade de Pella. De Damiya saíam os vendedores de água, os médicos, os adivinhos, os carpinteiros,
os pedreiros, os prestamistas ou sacerdotes dos mais diversos deuses, que se ofereciam ao pessoal da ilha. As portas da prisão eram um mercado onde se traficava
com tudo e com todos. A corrupção dos guardas era tal que muitos dos vizinhos de Damiya acabavam entrando no recinto para vender seus produtos nos barracões dos
condenados. Algum tempo mais tarde, quando o Destino julgou conveniente, este que escreve atravessou o umbral daquele inferno, embora por razões muito diferentes...

Outra referência útil em nossa missão foram os incontáveis caminhos e pontes - perfeitamente visíveis a partir das rochas de El Makhruq - naquele que seria nosso
próximo cenário. O lugar constituía uma intricada rede de comunicações. Os hortos eram cortados por uma trama complexa de vias vicinais e pistas de terra que conduziam
a dezenas de cabanas localizadas nas plantações. Nas duas margens do Jordão, como também de seus afluentes, não restava um palmo de terra que não fosse cultivado.
O verdor, interrompido aqui e ali pelo brilho da água em açudes e pequenos canais, era absoluto.

Apenas na margem esquerda do Jordão, contei mais de dez rodas de madeira que nunca paravam de girar, abastecendo com suas caçambas a água necessária para as frutas
e hortaliças que amadureciam na várzea.

Três pontes de pedra ligavam as margens. Uma sobre o Tirza e outras duas sobre as águas do "pai Jordão". Uma delas nos chamou a aten-

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cão. Era bem longa (mais de cem metros). Começava quase aos pés da fortaleza onde nos encontrávamos e saltava sem dificuldade sobre o rio sagrado. Ali nascia um
atalho menor, de terra vermelha, que ziguezagueava entre os hortos até a aldeia de Damiya, já mencionada. Calculei uns dois quilômetros até o povoado. Mais adiante,
por detrás de Damiya, ao leste, o atalho vermelho desaparecia entre bosques. À nossa direita estava a terceira ponte, também sobre o lento Jordão. Era o que chamavam
de "segundo vau", em referência a outros tempos, quando não existiam essas construções de pedra. Uma calçada romana, impecável, corria sobre a ponte, de Scythopolis
a Filadélfia, convertendo o Gaón Ha Yardén em uma destacada encruzilhada, uma das mais freqüentadas do vale. Por ali passavam as intermináveis caravanas de camelos
procedentes do caminho dos Reis, a leste do mar Morto. Aquela terceira ponte era outra "chave" do comércio entre os quatro pontos cardeais. Por ali passavam diariamente
centenas de judeus e pagãos transportando tudo o que se possa imaginar e um pouco mais. O setor em questão (em particular as duas pontes sobre o Jordão) era conhecido
popularmente como as "passagens ou vaus de Adão". Já no século XIV antes de Cristo, os hicsos atravessam o rio nesse lugar. Por ali, os madianitas fugiram em direção
ao leste ao escapar de Gedeáo, como relata o livro dos Salmos (83, 10-
11). Por ali, enfim, entravam e saíam os exércitos e, o que era mais importante, o dinheiro e as idéias.

Yehohanan, sem dúvida, escolhera bem o lugar de pregação. O fluxo de homens e de mercadorias era contínuo e exaustivo...

A paragem recebia o nome de "passagens de Adão" pela cidade situada mais ao sul, na margem esquerda do Jordão, e que mal se avistava a partir do El Makhruq. Situava-se
a uns cinco quilômetros de Damiya e a quase trezentos de Jerico8. Era venerada pelos judeus como o lugar onde

8 Alguns arqueólogos e historiadores identificam - erroneamente - a atual tel EDamiyya (Damiya) com Adam, na Jordânia. Conforme a minha narrativa, tratavamse de
duas populações diferentes. (N. do M.)

I

Yavé realizou o milagre de deter as águas, permitindo que Josué e o povo eleito chegassem a Canaá, a terra prometida9. Foi o primeiro prodígio da arca da aliança
ou do Testemunho, segundo a Bíblia10.

Finalmente, no horizonte, por detrás de Damiya, divisava-se uma massa verde-negra da qual fluíam o rio Yaboq e outros afluentes de menor importância. Eram os bosques
de tamariscos do Nilo, acácias, álamos e salvadoras. Matas fechadas e remotas...

E o instinto me advertiu.

"Algo" importante me aguardava nessa bela e exuberante regiáo. Jesus de Nazaré? Será que o encontraríamos, finalmente, naquele jardim? Quais eram os desígnios do
Destino?

Logo saberíamos...

9 O livro de Josué (3, 14-17 e 4, 10-19) diz: "Quando o povo partiu das suas tendas para atravessar o Jordão, os sacerdotes levavam a arca da Aliança à frente do
povo. E quando os que levavam a arca chegaram ao Jordão, e os pés dos sacerdotes que levavam a arca tocaram a borda das águas, e como o Jordão desce cheio até as
bordas todos os dias da ceifa, as águas que vinham de cima se detiveram e formaram um só bloco a grande distância, em Adão, a cidade que fica ao lado de Sartán,
enquanto as que desciam ao mar da Arabá, o mar do Sal, se separaram por completo, e o povo passou diante de Jerico. Os sacerdotes que levavam a arca da Aliança de
Yavé pararam em terra firme, no seco, no meio do Jordão, enquanto todo o Israel passava no seco, até que todo o povo acabou de atravessar o Jordão..."

Para a maior parte dos exegetas e estudiosos da Bíblia, esse milagre de Yavé poderia ser explicado por um sismo que interceptou o curso d"água do Jordão, justamente
na zona de Adão. As margens, nessas paragens, são formadas por enormes blocos de marga (argila e carbonato de cal), muito sensíveis aos movimentos sísmicos. Um tremor
- segundo dizem - pode romper a marga e impedir a passagem das águas. Há testemunhos históricos que parecem confirmar essa hipótese (anos 31 a.C., 1267,
1546, 1906 e 1927, entre outros). Nesses anos, outros terremotos - relativamente freqüentes no vale do Jordão - desmoronaram as paredes do rio, o que provocou importantes
obstruções e, conforme relatam os testemunhos, "secas de dois ou três dias". O Jordão se deteve - como conta Josué - e o canal ficou seco. O professor Stener também
ouviu falar disso em Kefar Rufin, em 1956. A queda de uma colina deteve as águas durante horas. Em 1970, vinte soldados judeus morreram em Neot Ha-Kikar, ao sul
do mar Morto, como conseqüência de uma dessas quedas. Eu, pessoalmente, não compartilho dessa hipótese. (N. do M.) Ampla informação em Planeta encantado, "Uma caixa
de madeira e ouro". (N. do A.)

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Belsa considerou bem empregado o relaxante descanso e julgou aconselhável descer até Damiya. O sol não tardaria a se esconder por detrás de Sartaba.

Perguntei quais eram suas intenções. Foi tão claro quanto veemente: éramos amigos, procurávamos o mesmo "profeta" e Mitra nos protegia. Isso significava que o acompanharíamos.
Essa noite iríamos dormir na casa de um "irmão" no pequeno povoado diante de nós (Damiya).

Comecei a tremer. A palavra "ah" ("irmão" ou "companheiro") foi pronunciada em um tom - eu diria - malicioso... E o persa, ao perceber minha inquietação, sorriu
irónico.

Creio que Eliseu não se deu conta das segundas intenções do singular "guia". Ele vinha atrás de nós. Fazia horas que estava mudo, um pouco sério e com o olhar perdido.
Fiquei preocupado. Nesse momento, não consegui saber o que estava acontecendo. Depois, ao descobrir o que o atormentava, compreendi. Mas essa é uma outra história...

O que podíamos fazer? Até então não sabíamos o que nos aguardava em Damiya. Procurávamos o Batista, sim, mas, sobretudo, o Mestre. Belsa conhecia o terreno e também
seus habitantes. E eu ainda pensava que o mais razoável era confiar nele, pelo menos inicialmente. Era preciso aprender a confiar nas pessoas. Ou não?

Não houve um dia, ao longo daquela fascinante aventura em Israel, em que eu não aprendi alguma coisa. Um dia sequer...

Percorremos os dois quilómetros sem novidades.

Damiya, como já disse, era um povoado branco, edificado com o calcário branco do cume do Qeren Sartaba, a montanha existente a oeste, a pouco mais de dez quilómetros
do Jordão. Era um povoado pujante, beneficiado pela próspera agricultura, pela proximidade dos "vaus de Adão" e, principalmente, pelo cárcere do cobre. Essas qualidades
tinham atraído numerosos felah de toda a bacia, e também pagãos dos territórios vizinhos de Moab, da Nabatéia e até mesmo do Egito e dos territórios da Cyrenaica.
As casinhas de um único cómodo, erguidas na mais absoluta desordem, eram o cenário de um intricado cruzamento de línguas e de um ire-vir constante de atarefados
sítones ou compradores de colheitas "verdes",

202

caravaneiros de turbantes e túnicas de seda, escravos negros com o lóbulo da orelha direita perfurado, am-ha-arez (a "escória" humana, segundo os judeus ortodoxos),
artesãos do mar Vermelho vindos expressamente para trabalhar o cobre (capazes de martelar o metal a uma razão de cinqüenta batidas por minuto e durante dez horas)
e uma infinidade das "profissões" mais espantosas, todas à sombra do fluxo de homens e de dinheiro. Em geral, eram boas pessoas, abertas, desejosas de agradar e
respeitosas com todas as crenças e as dezenas de deuses que também viajavam nas carretas ou noj sacos de viagem de cada um. Nos dias em que nos mantivemos em contato
com os habitantes de Damiya, tudo foi cordialidade e boas intenções. Ou melhor, quase tudo...

E quando o sol se pôs, fomos tomar posse de uma das casas, uma das maiores e mais cômodas. O dono, um nabateu chamado Nakebos, ficou feliz ao reconhecer Belsa, "velho
companheiro de venturas e desventuras", segundo suas próprias palavras. E eu, idiota que sou, associei-o à profissão de caravaneiro já mencionada, que o persa exercera
tempos atrás, supondo-se que tivesse dito a verdade...

Como exigia a hospitalidade do vale, Nakebos nos recebeu de braços abertos, e pôs à disposição daqueles cansados caminhantes dois quartos espaçosos, água em abundância,
perfumes, lenços de algodão e meia dúzia de serviçais.

Uma hora depois, banhados e relaxados, fomos conduzidos pelos serviçais ao pátio central a céu aberto, onde nos aguardavam o anfitrião e uma suculenta ceia. Suculenta
à primeira vista, é claro...

Ali prosseguiu a conversa cordial. E Belsa - mais do que satisfeito - começou a nos falar sobre seu amigo, o nabateu. Era um homem de confiança de Antipas, o tetrarca
da Peréia e da Galiléia. Eliseu e eu trocamos um olhar de cumplicidade. Aquilo podia ser muito mais interessante que imaginávamos...

Amigo de Herodes Antipas?

Nakebos confirmou as palavras do persa e acrescentou que tinha sido nomeado al-qdid ou alcaide corregedor da prisão do cobre. Sua verdadeira profissão era capitão
da guarda pessoal de Antipas.

203

E o instinto voltou a bater à minha porta avisando:

Oficial da guarda "pretoriana" do reizinho que "governava" aquelas terras? Muito interessante...

Ao que parece, Nakebos era tão rico quanto corrupto. Parte das rendas obtidas com a venda dos utensílios de cobre ia parar diretamente na sua bolsa. Todos sabiam,
inclusive a "velha raposa". O povo inteiro pagava um "extra" a Nakebos, e ainda agradecia por garantir o trabalho em Damiya. A menor descortesia ou falta de pagamento
por parte dos vizinhos, a yesuqah podia romper o negócio, favorecendo qualquer povoado da bacia. Coreae e Adão eram as rivais mais próximas e cobiçosas.

E as suspeitas recrudesceram. O que fazia o chefe dos "escaladores"

- um suposto camponês - na casa do alcaide de um dos cárceres mais temidos de Israel? Por que o tratava como um amigo íntimo? A que se devia tal acolhida? Aquilo,
como eu estava dizendo, não se encaixava...

Porém, meus pensamentos ficaram em suspenso. Os serviçais apresentaram a ceia: o niloticus que Belsa tinha carregado desde as "onze lagoas". Crocodilo na brasa...

Um cheiro azedo e repulsivo me pôs em alerta. Não tive outro remédio a não ser prová-lo. E o sabor áspero - entre frango e peixe

- quase me fez vomitar. Meu companheiro, ao contrário, achou delicioso. E comeu até se fartar. Eu, prudentemente, refugiei-me na abundante variedade de tâmaras,
repondo as energias com aquilo que chamavam de rfis, uma pasta de farinha de trigo torrada onde misturavam tâmaras sem caroço e maceradas. O rfis - delicioso -
era acompanhado de um único legume: palmito. E tudo isso regado com um xarope muito doce, de reflexos cor de âmbar, também extraído das tâmaras e temperado com vinagre
preto. Meus acompanhantes preferiram uma bebida mais forte e popular: o legmi, um licor típico do vale do Jordão, obtido da fermentação da seiva da tamareira: uma
bebida perfumada e enganadora, que levava sempre à embriaguez...

E foi isso que me coube viver naquela noite interminável: uma noite de insónia...

l

j.j. BENÍTEZ

Como era previsível, entre um bocado e outro de crocodilo, Nakebos e Belsa deram cabo das primeiras jarras de legmi. E os efeitos não tardaram a se manifestar. Eliseu,
aparentemente contagiado, uniu-se ao "simpósio", bebendo sem moderação. Não consegui contê-lo. Recusou meus conselhos, acusando-me de "estraga prazer" e de "mau
amigo". E os beberróes, cada vez mais embriagados, aderiram à sua causa, acolhendo-o e consolando o engenheiro.

As línguas começaram a travar e então passaram à fase seguinte: as canções e os juramentos de "amizade eterna". O nabateu e o persa tentaram ficar de pé em várias
oportunidades, erguendo as jarras e querendo brindar um ao outro. Foi impossível. Os vapores do legmi os fizeram cambalear e rolar sobre a mesa. Os criados, acostumados
a essas reuniões, continuavam imperturbáveis, limitando-se a encher as jarras pela enésima vez. E, em uma destas, Eliseu, levantando-se com dificuldade, dirigiu-se
aos "colegas" inchados, fazendo um brinde que me deixou atônito. Em inglês (língua proibida durante a missão), com mais disposição do que clareza, exclamou:

- Por ela... Pela mais linda... Por um amor impossível...

E os olhos do engenheiro encheram-se de lágrimas. Depois, sem desviar os olhos de mim, voltou a se sentar, tomando o licor de um gole.

Não sei por quanto tempo permaneci em silêncio contemplando meu companheiro. Não foi o fato de ter falado em inglês, nem tampouco o porre monumental que me gelou
o sangue. Nosso anfitrião e o "guia" estavam tão bêbados que não podiam distinguir som nenhum. Quanto aos serviçais, devem ter tomado a língua estranha como aquilo
que realmente era: mais uma língua própria de estrangeiros, vindos sabe-se lá de onde.

Foi o conteúdo do brinde que me deixou confuso. Como eu não tinha percebido? Era essa a razão da frieza anormal de Eliseu nas últimas horas de marcha? Estava apaixonado?
Por isso tinha bebido?

Deus! O que estava acontecendo?

E a intuição desenhou um rosto...

Recusei-me a aceitar. Esse cansaço me fazia ver coisas que não existiam. Ou melhor, que não deviam existir. Não... Isso era inviável, absurdo e insano.

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E, subitamente, compreendi que estava dizendo isso para mim mesmo.

A luta interior terminou ali. Pedi ajuda a um dos criados e carregamos meu irmão até o quarto. Nakebos e Belsa, adormecidos, não viram nada.

E este que escreve esperou o dia amanhecer. Foi uma noite interminável e dolorosa. Muito dolorosa...

I

25 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA

Partimos ao amanhecer.

Tive de recorrer à farmácia de campanha para despertar meu companheiro. Os criados, acostumados às tremendas ressacas provocadas pelo legmi, colaboraram de forma
eficaz e discreta. A uma generosa dose de ibuprofeno, um analgésico de ação rápida, acrescentei um remédio oferecido por um dos velhos escravos: casca de salgueiro.
Eliseu devia mastigá-la para liberar uma forma natural de silicato. Esse calmante orgânico foi providencial.

Não precisamos nos desculpar com Nakebos pela saída precipitada de sua casa. Assim como o "guia" persa, ele dormia um sono pesado que se prolongaria por muitas horas.
Os servos se comprometeram a transmitir nossas saudações e nosso agradecimento ao capitão e al-qdid da prisão do cobre.

Minha única obsessão, naquele momento, era sair daquele lugar e interrogar o engenheiro. A missão não podia correr nenhum risco...

E, como tinha planejado com Belsa, tomei a direção do "vau das Colunas". Era ali que, supostamente, Yehohanan, o Batista, fazia sua pregação e batizava. Ali talvez
se encontrasse também o querido e saudoso Jesus de Nazaré...

Eliseu, mudo e pálido, me seguiu cambaleante. Não protestou. E supus que o silêncio fosse conseqüência do lógico mal-estar geral provocado pela bebida. Mas estava
enganado...

O caminho para o vau estava bem próximo. As orientações dos criados de Nakebos foram precisas: o "vidente" (era assim que chamavam

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os profetas e os iluminados naquele tempo) acampava às margens do rio Yaboq, ao norte de Damiya.

O Destino foi benevolente.

A trezentos metros do povoado, um pequeno atalho de terra vermelha nos colocou à frente do referido Yaboq, na margem esquerda. A modesta vereda, sempre entre hortos,
aproximava-se timidamente das águas transparentes do afluente do Jordão, e depois fugia para os bosques que tínhamos avistado da fortaleza de El Makhruq.

As referências coincidiam. O rio, de apenas vinte metros de largura, sofria uma grande dilatação naquela paragem, formando uma espécie de "lago" de águas pouco profundas,
facilmente transponíveis a pé. No canal, destacavam-se quatro bases de pedra, muito deterioradas pelo tempo e pela força da corrente. Eram os restos de outros tantos
pilares, destinados em outras épocas à sustentação das abóbadas de uma ponte. Talvez nunca tenha sido concluída. Mas mesmo assim elas davam nome ao lugar: o "vau
das Colunas". Supus que antigamente o rio fosse mais caudaloso, o que recomendava a construção de uma ponte de pedra.

Na outra orla, na margem direita, a pouco mais de cinqüenta metros de onde nos encontrávamos, erguia-se um muro de acácias do Karu, em plena floração, alegrando
os verdes e azuis com milhões de flores amarelas e esféricas.

O resto eram colónias de bambus, juncos e Cyperus, os sarmentosos bejucos, tão úteis na fabricação de móveis e cestos. Nas ribeiras, aqui e ali, acompanhando a linha
da água, despertavam também para um novo e radiante dia alguns tamariscos do Nilo, altos e desgrenhados, com as flores rosas formando cachos estreitos. Alguns, mais
descuidados, tocavam a água, com o risco de serem arrastados.

Observei com atenção. O silêncio era quase completo, perturbado apenas pelo rumor da corrente entre as "Colunas" e pelo confuso trinar das aves nos bosques e bambuzais.

Constatei que, de fato, havia um grupo de umas duzentas pessoas acampadas junto ao Yaboq. Ocupavam boa parte de uma grande "praia" formada por um terreno pedregoso
(milhares e milhares de pequenos sei-

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j.j. BENÍTEZ

xos arredondados de um branco espantoso). Estavam dormindo, era compreensível. Não fazia meia hora do orto solar.

De um lado e de outro da estradinha de terra vermelha erguiam-se algumas tendas de pele de cabra, mas não muitas. As mulheres, sempre madrugadeiras, atiçavam três
ou quatro fogueiras, preparando o desjejum e obrigando os exércitos de mosquitos a procurar territórios sem fumaça. Vários homens, em roupas de baixo, tinham entrado
no "lago" para uma duvidosa lavagem do corpo. Pegavam a água com as mãos e jogavam nos cabelos, peito, braços e costas. Rapidamente voltavam à orla, gesticulando
e reclamando aos gritos que as águas estavam "frias". Frias? A temperatura do Yaboq nessa época nunca era inferior a 25 ou 30 graus... Um pouco adiante, água abaixo,
outros dois indivíduos, também em saq, se ocupavam da limpeza de panelas e pratos.

Por onde começar? Jesus estaria entre os que descansavam sobre os pedregulhos? Podia estar também em alguma das tendas...

À primeira vista, não consegui identificá-lo. Tive de me aproximar e perguntar. Talvez a chave estivesse em Yehohanan...

Eliseu, distante, tinha se sentado à beira do caminho. Continuava pálido e apático. Deixei-o cuidando do odre e das mochilas e falei da minha intenção de explorar
o acampamento. Ele não respondeu. Continuou de cabeça baixa, amargando a ressaca. Foi o que imaginei. E, decidido, fui em direção ao grupo.

Yehohanan? Nem sabia que aspecto ele tinha. Não seria melhor perguntar por ele? Aquela gente, sem dúvida, estava ali por causa do Batista...

As reflexões foram subitamente interrompidas. Os bambus e os bejucos que cresciam bem junto à orla o encobriam.

Parei, indeciso.

Junto a uma enorme árvore, escondido pelo bambuzal, como eu estava dizendo, descobri um segundo grupo de indivíduos. Eles também dormiam, alojados ao redor de um
tronco grosso e original que, de início, não consegui identificar. As nodosidades eram enormes. Parecia ser o "ancião" do lugar. Algum tempo depois, ao retornar
à nave, Papai Noel deu a informação exata: estava diante de uma sófora

209

pendente de vinte metros de altura, copa arredondada e centenas de anos de antigüidade1. Lembrou-me um salgueiro-choráo, com a madeira "epilética" e atormentada.

Eu não sabia o que fazer. Dois homens que apareciam debaixo da sófora acabavam de se sentar e se espreguiçavam sem o menor constrangimento.

A árvore em questão estava a pouca distância do atalho e paralela ao rio, sobre uma ligeira elevação do terreno. No início estranhei. Por que aquele segundo grupo
estava tão afastado do primeiro? A distância entre ambos era de uma centena de metros.

Optei pelos da sófora. Estavam mais perto.

Eles me viram chegando. De súbito, quando eu estava a trinta passos deles, um se levantou apressadamente. O segundo não tardou a imitálo. Os olhares pareciam fixos
neste explorador. Nenhum era o Mestre. E achei que ele poderia estar entre os que dormiam ao pé da árvore.

Quando reparei nos rostos dos que me observavam tão atentamente, "algo" me advertiu. Os olhares não me agradaram: eram sombrios, pouco amigáveis. Mesmo assim segui
em frente.

E a uns dez metros da árvore, os indivíduos deram dois passos em direção a este que escreve. Os rostos, queimados de sol, apresentavam barbas longas e negras muito
descuidadas. Eu diria que passavam muito tempo ao ar livre.

Quando diminui o passo foi que notei os "frutos" que pendiam da sófora. Acabei parando. E os homens conversaram entre si...

Eram vasilhas. Ou melhor, pedaços de vasilhas. Tinham sido amarradas e suspensas nos galhos retorcidos da árvore. E ficavam balançando.

1 Atualmente, essa árvore estranha é conhecida como Sophora japonica. É muito possível que seja de origem árabe. Chegou à Europa na segunda metade do século XVIII
(jardins de Kew). Na nossa viagem ao rio Jordão, conhecemos a variedade pêndula. Subindo o rio, na região do Enon, vimos outros exemplares de sófora, também com
nodosidades impressionantes. As flores e frutos eram utilizados como corante amarelo. (N. do M.)

210

O que significava aquilo?

Fiz um esforço de memória. Foi inútil. No meu treinamento, nunca ouvi falar de nada parecido entre os judeus. Os pagãos é que tinham o costume de pendurar ossos
e vísceras de cabras nas árvores que consideravam sagradas. A sabina alvar, no caminho para o Hermon, foi um exemplo. Um triste exemplo. Aquilo, porém...

Creio ter lido algo em um dos pedaços de argila vermelha: "Ardo em louvor..."

Não consegui distinguir o resto da inscrição. E, curioso e inocente, segui andando em direção ao grupo. A partir daí, tudo ocorreu tão rápido que levei algum tempo
para esclarecer o ocorrido...

Os dois homens, ao ver que eu prosseguia, sacaram as espadas que escondiam nas cintas e foram se aproximando deste desconcertado explorador. Parei de novo, naturalmente,
buscando em vão encontrar uma explicação. O que estava acontecendo?

E os indivíduos, ameaçadores, continuavam avançando, ao mesmo tempo em que gritavam:

- Fora do guilgaft... Fora, maldito pagão!

Guilgab Essa palavra significa "círculo". Mas, que círculo? E como sabiam que eu era pagão?

Recuei. Não conseguia entender...

Porém, como caminhasse de costas, tropecei em uma pedra e caí no pasto. Não fui rápido nem certeiro. Na queda, a "vara de Moisés" rolou entre meus dedos deixando-me
indefeso. E a ponta fria e afiada de um dos gladius encostou na minha garganta. A "pele de serpente" não contava. A proteção, dessa vez, foi estabelecida a partir
das clavículas...

Se aquele energúmeno enfiasse o ferro no meu pescoço, estava perdido. E nesses instantes - quase eternos -, seus olhos, seu olhar, eram a única coisa que me consolavam.
Ela, de novo...

Mas o Destino não tinha marcado a minha hora. Não ali, nem naquele tempo.

Uma voz ecoou no silêncio. Por um momento pensei que fosse Eliseu. Talvez estivesse assistindo à cena. Não estava muito longe dali. Mas

211

não. A voz doce e suave náo era de meu companheiro. E a ouvi pela segunda vez, exigindo calma. Vinha da sófora.

O sujeito da espada obedeceu. Retirou o gladius e ordenou que eu me levantasse. Ao me recompor, observei que os outros homens, cerca de vinte, que dormiam debaixo
da árvore, estavam todos de pé, alertados pelos gritos de seus companheiros. Náo vi nenhum conhecido.

Um deles - o da voz salvadora - destacou-se do grupo e foi se reunir com os indivíduos armados. Olhou-me de cima a baixo, e, abaixando-se, recolheu o cajado e me
entregou.

- Náo viste o guilgal?

O tom afável tranqüilizou-me um pouco. Olhei ao meu redor e, entre as ervas, descobri um círculo de pedras. Eram seixos arredondados, provavelmente da "praia" que
via dali, na orla do Yaboq. Tinha sido traçado em redor da sófora, com um raio de oito a dez metros. Para dizer a verdade, preocupado em encontrar o Galileu, não
havia reparado na brancura das pedras, meio escondidas pelas moitas.

- Sinto muito - me desculpei, sem saber qual tinha sido o meu erro. - Náo tinha visto...

O homem compreendeu e aceitou as desculpas. Buscando uma saída para a situação embaraçosa, sorriu, mostrando uma dentadura calamitosa, com as gengivas avermelhadas
e sangrando e meia dúzia de dentes tortos e separados uns dos outros. O homenzinho - náo creio que tivesse mais de l ,50 metro de altura - padecia de uma grave periodontite
(piorreia). A doença estava destruindo o osso que dá sustentação aos dentes, assim como os ligamentos, o que provocava a inevitável mobilidade e a queda deles. Provavelmente,
passara por uma primeira fase (gengivite) e, por falta de um tratamento adequado, acabou arruinando a boca. Em breve, caso a infecção bacteriana náo fosse combatida,
a destruição do tecido ósseo seria total. Como já informei oportunamente, aquela era uma das doenças mais comuns entre os varões. Ela atingia também mulheres e crianças,
mas em menor proporção.

- Estás à procura de alguém?

Desta vez fui eu quem explorou a figura miúda e esquelética de meu interlocutor:

212

j.j. BENÍTEZ

Quem era ele? Ao que parecia, tinha uma certa ascendência sobre o grupo que estava alojado debaixo da sófora. Os homens dos gladius, as temidas espadas de fio duplo,
permaneciam a seu lado, atentos às suas palavras e, naturalmente, aos meus movimentos.

Dava a impressão de ser mais velho do que realmente era. Talvez tivesse 30 anos. A pele, enrugada pelo sol, e a catástrofe dentária, davamlhe um aspecto de pessoa
idosa. O corpo, com as costelas à vista, coberto com um simples fraldelim, não o favorecia. Seu aspecto parecia táo frágil que o menor sopro de vento o deixaria
em grande dificuldade. Contudo, aquela imagem delicada não era real. O "homenzinho" era um ari, um leão, na linguagem dos judeus.

Demorei um pouco para responder. Deveria lhe dizer que estava procurando Jesus de Nazaré? Tinha certeza de que esse nome não lhe diria nada.

E o homenzinho, pacientemente, sem abandonar o horrendo sorriso, ficou esperando uma resposta.

- Não sei... - gaguejei.

Minha segunda falha irritou os que me vigiavam. O do fraldelim pediu calma de novo...

- Não convém se precipitar, irmãos... Não tem por que ser um espião...

Irmãos? Um espião? Será que me tomavam por um informante?

E tratei logo de me identificar como um grego que andava pelo mundo em busca da verdade. Eliseu, também de Tessalônica, era meu acompanhante naquela aventura.

Náo sei se acreditou em mim. Dirigiu o olhar para o lugar indicado, onde se avistava meu companheiro e, coçando a cabeleira negra embaraçada e suja, exclamou quase
para si mesmo:

- Buscas a verdade?... Só ele pode satisfazer-te. E apontou para os ramos da árvore.

Náo consegui interpretar suas palavras. A quem se referia? Falava de Deus? Por que apontou para as vasilhas penduradas nos galhos? Ou não foi isso?

- Busco o que batiza com água - me adiantei, suspeitando que me

213

encontrava diante do anunciador. - Disseram-me que é um vidente... és tu?

O homenzinho continuou se coçando com fúria, usando as duas mãos. Evidentemente, os piolhos o consumiam. E permaneceu assim por algum tempo, indiferente à pergunta.
Por fim, examinando as unhas negras e longas, entreteve-se estripando os pediculus, sorrindo aliviado. Finalmente, olhando-me nos olhos respondeu:

- O "Anunciador", como tu o chamas, é mais que um vidente. Terá de esperar o toque do sofar, como todos...

E, dando meia-volta, foi para junto da base da árvore. Os armados permaneceram do outro lado do guilgal, imóveis como estátuas e, suponho, esperando minha reaçáo.

Aquele não era o meu dia. Também não compreendi o significado das últimas palavras. Eu sabia o que era um sofar. Era um chifre de carneiro utilizado normalmente
para atrair a atenção das pessoas nas solenidades, no início e no final do sábado, e para anunciar outras atividades religiosas. Mas o que tinha a ver com o Batista?
E o mais importante: me encontrava na presença de Yehohanan? Aquele homenzinho era o parente do Mestre?

Uma brisa leve balançou os pedaços de vasilhas penduradas na enorme árvore. Então consegui ler algumas das inscrições pintadas no barro: "Ardo em louvor de Yavé",
"Yavé, minha rocha e meu baluarte", "Yavé, meu escudo".

Eram manifestações de fervor religioso. Isso saltava à vista, mas por que suspensas nos ramos?

E, tentando não criar mais conflitos, afastei-me do "círculo de pedras" e retomei a caminhada em direção ao objetivo original: o acampamento instalado na orla dos
pedregulhos brancos. Era a última chance. Se o Mestre não estivesse entre os acampados, prosseguiríamos até a Cidade Santa. Em um dia estaríamos batendo às portas
de Jerusalém. Antes faríamos uma breve parada em Betânia, na fazenda da família de Lázaro. Jesus era amigo deles. Talvez soubessem de algo...

Quanta ingenuidade! Os planos do Destino eram muito diferentes...

Os cálculos estavam corretos. Na "praia", junto à corrente suave do Yaboq, dormiam ou faziam o desjejum umas duzentas pessoas. Estavam em grupos. Imaginei que fossem
de amigos ou de membros de uma mes-

214

ma família. Havia crianças e velhos. A julgar pelas túnicas simples, pelos turbantes ou pelos saq ou encachos de cores vivas, eram todos felah ou camponeses. Gente
humilde e pouco culta.

Fui passando devagar entre as tendas e as fogueiras, atento, sobretudo aos que repousavam.

Nada. O Mestre continuava sem aparecer...

Algumas mulheres, gentilmente, me ofereceram leite e pão. Agradeci. Conversando com um e outro, suspeitei que vinham da Judéia, pelo forte acento aramaico; provavelmente
da região do Hebron. Outros eram do vale e do leste do Jordão. A maioria estava ali porque tinha ouvido falar do vidente Yehohanan e, para o meu espanto, desejava
apenas que os curasse ou simplesmente que olhasse para eles. Diziam que com isso sua sorte mudaria. Foi então, a partir dessas revelações, que me dei conta de um
fato que quase passou despercebido. No grupo, observei alguns aleijados - especialmente -, coxos e crianças contaminadas pelo vírus da pólio. Comecei a compreender.
Aquela gente na verdade não procurava o consolo espiritual ou a palavra do Batista; isso estava muito longe para o seu baixo grau de discernimento. O que os movia
era a possibilidade de um milagre. Algo inerente à natureza de um profeta ou vidente, segundo a mentalidade daquele tempo. Não sei por que razão, esses eram os rumores
que corriam em torno de figura de João ou Yehohanan.

Mas minha obsessão era outra. E prossegui a busca, atrevendo-me, inclusive, a penetrar na obscuridade das tendas de peles. Nada. O único resultado foram algumas
maldições e várias sandálias atiradas pelos indivíduos que acabei despertando com minhas perguntas inoportunas. E durante alguns minutos fiquei sentado junto a uma
das fogueiras, tentando entender nossa situação.

Será que tínhamos errado de novo? Aparentemente, o Galileu não estava ali. O que podíamos ou o que devíamos fazer? Eliseu não estava com um bom aspecto. Precisaria
de algumas horas para se recuperar da bebedeira. Talvez minhas perguntas não fossem claras. Eu ia procurar de novo. Reviraria o acampamento mais uma vez. E depois,
se o Filho do Homem não aparecesse mesmo assim, trataria de arrastar o engenheiro até Jerico.

- 215

E, absorvido nessas elucubrações, assisti a chegada à "praia" de outro grupo, não menos importante no conjunto dos acontecimentos que

estavam por ocorrer...

Eram vendedores. Tinham sua "base de operações" em Damiya. De lá, todas as manhas, dirigiam-se ao acampamento do Yaboq. Vendedores e alguma coisa mais... Começaram
a se misturar entre os cerca de duzentos acampados, oferecendo mantimentos, pão recém-saído do forno, água, grandes folhas de palma para proteger-se do sol, "loções"
contra os mosquitos, "leques" trançados com esparto para as horas mais quentes do dia, quando soprasse o ardente jamsín ou vento do leste, colírios fabricados com
antimônio ("refrescantes e milagrosos contra a violenta radiação do vale"), espinhas de acácia para a limpeza dos dentes, e qualquer outro serviço de que a freguesia
pudesse necessitar. Era muito simples. Como eu dizia, o povoado encontrava-se a pouco mais de trezentos metros. Tudo dependia do preço ou da urgência.

Era elementar. A presença de João Batista no "vau das Colunas" tinha se tornado um negócio interessante. Todos, em Damiya e arredores, ofereciam algo e procuravam
tirar partido dessa situação. Qualquer coisa servia...

Um dos vendedores passou bem perto de mim, apregoando o que chamavam de "água de Dekarim", um suco de raízes de palmeira muito recomendado para combater "as manhãs
tristes" (especialmente depois de ter-se embriagado com legmí), e para os freqüentes distúrbios intestinais causados pelas duvidosas águas dos poços e mananciais
da bacia. Pareceume interessante e pedi uma cabaça. Cairia bem para Eliseu. Foi então que, ao me servir, descobri algo que me deixou desconcertado. O homem caminhava
com a ajuda de uma perna de pau. Faltava-lhe o pé esquerdo ou, pelo menos, era o que parecia.

Maldito impostor! Observando melhor, percebi o truque. O pé, supostamente mutilado, estava escondido dentro da prótese. Um dos pedaços de pano sujo enrolado na dupla
armação que prendia a madeira à perna estava solto, e revelava a fraude. O indivíduo, muito hábil, seguiu a direção do meu olhar e acabou percebendo a falha. Tratou
logo de amarrar o pano e, sorrindo maliciosamente, me deu uma piscada de cumplicidade.

216

J.}. BENÍTEZ

E não quis me cobrar nada. Estava claro: água "milagrosa" em troca do silêncio. Aceitei. Deduzi que se tratava de um vigarista, um dos muitos que freqüentavam as
aglomerações ou as portas da cidade provocando a compaixão do próximo. Mas não era só isso...

Esqueci o rufião e fiz uma última inspeção entre as pessoas ali reunidas. No fundo do coração, algo me dizia que a busca seria tão inútil como as anteriores. Mas
não desisti. Jesus de Nazaré tinha de estar em algum lugar...

Dois vendedores dirigiram-se até margem do rio e descarregaram meia dúzia de macas, enfileirando-as cuidadosamente. Os varais foram colocados a um metro da borda
e as superfícies de couro escovadas e limpas com todo rigor. E me perguntei: quem poderia necessitar das "camas"? Estavam vendendo ou alugando?

Por fim, acabei me rendendo.

O Mestre não estava no vau. Naturalmente, ninguém soube me dizer nada. Ninguém sabia de quem eu estava falando. Decepcionado, fui passando entre os grupos para retornar
ao ponto onde deixara o engenheiro. Não conseguia entender o que se passava. Como era possível que não o encontrássemos? Eliseu e eu tínhamos caminhado sem descanso.
O atalho do Jordão, por onde seguíamos, era a rota "habitual" para a Cidade Santa. Onde estava o erro? Poderia ter pego outro caminho? Talvez pela Samaria?

E eis que...

Não tive tempo de me atormentar com mais dúvidas. Um som áspero e cavernoso atraiu meu olhar para a água. Os homens do guilgal estavam na "praia" agora. Um deles
soprava um chifre de carneiro, o sofar. E lembrei das palavras do homenzinho quando lhe perguntei sobre Yehohanan: "... Terá de esperar o toque do sofar, como todos".

O grupo foi entrando na água em direção à pilastra mais próxima. Só o sujeito do chifre permanecia na "praia", chamando a atenção de todos com um segundo toque prolongado.
Alertas, as pessoas fizeram silêncio. Algumas ficaram de pé e outras, uma minoria, foram até o ponto onde estava o tocador de sofar. Eu continuei imóvel, perto das
macas.

A dez metros da orla, junto à tal pilastra (o primeiro pilar da antiga ponte), os homens que estavam alojados na sófora pararam. Rodearam a base

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de pedra e, com a água até a virilha, se colocaram de frente para as pessoas que observavam da "praia". Eu contei. Junto com o do chifre de carneiro e o homenzinho,
eram dezoito. Eles permaneceram ali, firmes e silenciosos.

Ato contínuo, diante da expectativa geral, o homem dos piolhos deu um pulo e se empoleirou na pilastra. Um dos acompanhantes estendeu-lhe algo. Era um pedaço de
vasilha. Eu diria que era um dos "óstracons" que balouçavam sob a copa da árvore. O homenzinho examinou a inscrição em aramaico na argila e, depois de pigarrear,
ergueu os braços, pronto para se dirigir aos acampados.

Uma estranha sensação - incómoda, eu diria - tomou conta deste que escreve e turvou-me os pensamentos. Será que eu estava diante de João Batista? Era esse o homem
selvagem a que se refere Flavio Josefo? Para dizer a verdade, as descrições físicas que consegui encontrar durante nosso treinamento - especialmente as feitas pelos
evangelistas e por esse escritor judeuromanizado - não diziam grande coisa. A única pista confiável (?) era a da vestimenta: "... peles de animais cobrindo-lhe o
corpo". Aquele homem não estava vestido de peles. Envergava um fraldelim de pano...

Naturalmente, em vista dos inúmeros e graves erros cometidos pelos mal chamados "escritores sagrados", a informação fornecida a respeito do Anunciador também poderia
estar equivocada. Até esse momento, muito pouco do que observamos sobre a vida e o pensamento de Jesus se ajustava ao que estava escrito nos Evangelhos. Não seria
nada estranho.

E o sentimento de decepção diante da fracassada busca pelo Mestre foi deixado de lado temporariamente. Se aquele era Yehohanan, a caminhada ao longo do Jordão tinha
sido inútil.

- Yavé é minha rocha e meu baluarte!... Yavé é meu libertador e a muralha em que me amparo, meu escudo e a força de minha salvação!

O pregador começou bem. A voz, fraca e um pouco afeminada, chegava até o grupo com dificuldade, mas chegava. Às vezes dava uma olhada no pedaço de vasilha tentando
se lembrar. O "óstracon", evidentemente, servia de referência ou para encher lingüiça.

E em tom monocórdio e tedioso - como quem recita de memó-

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ria - foi enumerando dezenas de louvores a Yavé, o Deus dos judeus.

- Cidadela, refúgio, salvador de meus inimigos, libertador das massas, lâmpada que ilumina minhas trevas, o Deus que me enche de força, o caminho...

Não demorei a reconhecer o texto. O homenzinho recitava uma das passagens do Livro Segundo de Samuel.

E o discurso se prolongou, o que acabou cansando os ouvintes. O homem estava entregue e dava o melhor de si, mas não era suficiente. E as pessoas, saturadas diante
de tanto elogio, voltaram aos seus afazeres. Os vendedores aproveitaram para continuar vagando entre os acampados, oferecendo aos gritos suas mercadorias. O pregador,
depois de vacilar alguns instantes, tentou recuperar o controle, elevando a voz e recriminando o desinteresse dos que estavam ali reunidos...

- Yavé me recompensa conforme minha justiça! E quanto a vós?... Mereceis justiça? Ele me paga conforme a pureza de minhas mãos!... E vós? Estais limpos?

Um dos judeus, mordaz e desbocado, respondeu às insinuações:

- Nós nos lavamos!... E tu, piolhento?

O desplante foi coroado por uma gargalhada geral e por outros impropérios menos caridosos. Foi um desastre. Os homens que rodeavam o pregador responderam aos insultos,
ameaçando as pessoas com os punhos serrados. E alguns dos acampados, furiosos, entraram na água, se armaram de seixos e enfrentaram o grupo. Eu só tive tempo de
sair para o lado... O sujeito do sofar se meteu no rio e fugiu em meio a uma chuva de pedras. Seus colegas, resgatando o atónito pregador do alto do pilar, também
desapareceram rio abaixo, rumo à sófora.

Em pouco tempo, a confusão acabou. As pessoas se acalmaram, e os dezoito permaneceram na água, à distância, feito uma muralha, e, a julgar pelos gestos, discutiam
o que fazer. Finalmente, convencidos de que não era o momento para retomar o sermão, deram meia-volta e seguiram em direção à orla onde se perfilava a árvore das
vasilhas.

Eu também estava perplexo. Era esse o Anunciador? Aquele homenzinho era a mítica figura do Batista? E da perplexidade passei a uma

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raiva cega e progressiva. Por que fomos nos desviar do objetivo fundamental? Para ser testemunhos de um fanático?

Não fui o único a passar raiva naquela manhã ensolarada junto ao "vau das Colunas". Os encarregados das macas também manifestaram sua ira, pisoteando os varais entre
juramentos. Suas razões, no entanto, como eu teria oportunidade de comprovar algum tempo depois, eram diferentes das minhas...

E renegando minha má sorte, segui em direção à estradinha de terra vermelha, disposto a despertar meu companheiro. Iríamos embora daquele lugar o quanto antes possível.
Já tinha visto o suficiente. Com Belsa ou sem Belsa, retomaríamos a caminhada. Jesus, sim, valia a pena...

Pobre idiota! Retomar o caminho para Jerusalém? Quando aprenderei a não traçar planos para além de trinta segundos?

Tudo veio abaixo...

Ao chegar ao local onde deixara meu irmão, só encontrei os sacos de viagem e o odre com a água. Eliseu desaparecera.

Achei estranho. O estado físico do engenheiro não era o mais adequado para empreender uma caminhada. Além disso, tínhamos combinado que ele me esperaria ali... ele
poderia ter voltado a Damiya? Por quê?

Olhei à minha volta. À frente, no círculo de pedras, ao pé da sófora, o grupo capitaneado pelo pregador continuava envolvido na mesma discussão de antes. Rio acima,
acampados e vendedores continuavam como eu os tinha deixado, entregues a seus afazeres. Será que eu passei por ele? Não, eu o teria visto, sem dúvida.

De súbito me pareceu ouvir um lamento. Vinha de uma das tramas de juncos que se erguiam muito perto dali, na beira do caminho. Corri até a vegetação e meu coração
deu um pulo. Eliseu jazia sobre a erva feito um novelo. Tremia como uma vara. Tremia e gemia. O que tinha acontecido? Aquela tremedeira não era típica de uma ressaca.
Ao lado, no pasto, percebi uma descarga diarréica. Desta vez, eu é que fiquei tremendo.

Comecei a entender o porquê do desaparecimento de meu companheiro. Estava apertado e procurou um lugar para defecar, escondendo-se

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atrás da barreira de juncos. Tratei de erguê-lo. Meus Deus! Estava ardendo em febre. Olhou para mim e com um fio de voz me disse:

- Sinto muito...

Creio que não respondi. Estava tão desconcertado que demorei alguns segundos para reagir. Não podia ser... Agora não.

E meus temores começaram a se confirmar. O pulso estava acelerado. Examinei as fezes. Eram quase líquidas e coleriformes, com o aspecto da água do arroz, e com um
cheiro repugnante.

"Não é possível - disse a mim mesmo -, isso não..."

O homem continuava tremendo e gemendo, pálido e, ao mesmo tempo, consumido pela febre. Eu precisava fazer alguma coisa... Tomei-o em meus braços e o levei de volta
até a clareira onde havíamos parado. Foi só deitá-lo na grama e um outro jorro diarréico me deixou assustado. Desta vez tinha sangue... Apalpei sua barriga e ele
reagiu com novos gemidos. O pulso continuava acelerando. Depois vieram as náuseas e os vómitos...

O engenheiro, fraco e prostrado, respondeu como pôde às minhas perguntas. Sua cabeça parecia que ia estourar. Também sentia uma forte dor de barriga. Dava para ouvir
os burburinhos ou ruídos produzidos pelos líquidos e gases.

Fui pegar as pequenas ampolas de barro que tínhamos na farmácia de campanha. Remexi em tudo, sem conseguir encontrar o remédio adequado. Mas como saber a origem
do problema? A etiologia podia ser bacteriana, virai, parasitária ou tóxica. Não tinha nem idéia... E decidi esperar. Precisava estudar os sintomas com mais calma
e adotar o medicamento certo. Se fosse uma disenteria bacilar - que Deus nos livrasse disso! -, o tratamento tinha de ser mais severo. Esse tipo de infecção intestinal
era mortal naquele tempo. Consolei-me dizendo a mim mesmo que devia ser um "problema menor". Talvez tivesse contraído uma gastrenterite. Talvez uma febre tifóide
ou paratifóide? Ou quem sabe uma salmonelose? Santo Deus! Qual delas? No banco de dados do Papai Noel estavam registrados mais de mil e quatrocentos tipos. Será
que tinha sido contagiado pela typhi ou pela enteritidesi Ou era uma infestação da Salmonella choleraesuis? Só havia uma forma de averiguar, mas, infelizmente, não
estava ao meu

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alcance. Pelo menos nesse momento. O "berço" encontrava-se a dois dias de viagem. Lá eu poderia fazer as análises necessárias e administrar o tratamento adequado
ao meu companheiro. Deixei a idéia de lado. Estávamos naquele lugar e eu teria de me arranjar com os meios disponíveis...

A primeira providência era acalmá-lo. Voltei e, como as dores e o mal-estar que o haviam acometido persistissem, procedi a uma nova e exaustiva exploração, enquanto
conversava com ele. Tudo continuava do mesmo jeito. A febre, inclusive, continuava aumentando. Pediu água e, quando lhe dei, notei que tinha uma certa dificuldade
de engolir. A respiração também parecia alterada. Os temores aumentaram...

Obriguei-o a responder a várias perguntas - suponho que absurdas -, e verifiquei aliviado que a coordenação de idéias e a dicção estavam boas. A visão parecia correta.
Quanto à debilidade muscular, achei que estava dentro dos limites esperados, dadas as circunstâncias.

Era evidente que Eliseu estava sofrendo de uma síndrome infecciosa patológica e, provavelmente, fora contaminado pela água ou pelos alimentos. Também não podia descartar
a infestação pelo contato com pessoas, objetos ou moscas. O vale do Jordão era um viveiro de insetos. Qualquer doente ou portador poderia ter transmitido os germes
ao manipular ou cozinhar os alimentos. Onde aconteceu? Qual foi a via? Desisti. Poderia ter acontecido em qualquer lugar... Além do mais, isso não tinha muita importância
nesse momento crítico. O que interessava era deter e curar a infecção.

O engenheiro, queimando de febre, pediu mais água. O odre, que havíamos enchido essa manhã na casa de Nakebos, logo estaria vazio. A perigosa desidratação nos rondava.
Eu tinha de agir com rapidez e cautela. As bactérias, ao irritar o trato intestinal, provocavam a perda de líquidos. Felizmente, os vômitos não eram tão freqüentes
como as diarreias. Ainda assim, a eliminação de eletrólitos (especialmente potássio, sódio e glicose) era considerável. Eu tinha de dar um jeito para que Eliseu
se reidratasse. Ele precisava de sal, de algum produto açucarado e de todo líquido possível. O sumo de frutas seria o ideal. Se a desidratação progredisse e vencesse,
meu irmão poderia sofrer uma insuficiência renal oligúrica ou um colapso vascular. A perda de líquidos despertava ainda o fantasma da acidose, com a diminui-

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cão das reservas alcalinas do sangue. Por sorte, Eliseu não era diabético. Se não uma acidose extrema poderia levá-lo a um coma...

Mas por que eu me atormentava dessa maneira? Agora posso confessar: eu estava com medo... E tudo o mais - Jesus de Nazaré, a missão

- ficou em segundo plano. Se meu irmão morresse... Não, isso não podia acontecer. Eu não ia permitir.

A primeira coisa era instalar Eliseu em um lugar adequado para que ele pudesse repousar e receber o tratamento mais eficaz. Pensei em Damiya, na casa do alcaide
da prisão do cobre. Achei que ele não faria objeção. E Belsa poderia me ajudar. Era só contratar os serviços dos responsáveis pelas macas e transportá-lo até o povoado.
Depois veríamos...

E foi o que fiz. Ou melhor, foi o que planejei.

Quando corri até a "praia" e pedi para alugar uma das macas a que já me referi, os comerciantes perguntaram qual era o destino. Pois o custo dependia da distância.
Eu disse que era a casa de Nakebos e, automaticamente, todos os carregadores recusaram terminantemente. "Nakebos e sua gente, incluídos os servos, eram vítimas de
uma maldição. Eles mereciam

- disseram. - Olho por olho..."

O homem de confiança de Antipas fora acometido de uma doença que praticamente o fulminou da noite para o dia. Ninguém queria pisar naquela casa. E, pelas informações
recebidas na "praia", comecei a juntar as coisas. Os moradores daquela casa estavam manifestando os mesmo sintomas que Eliseu. A primeira dedução era inevitável:
meu companheiro fora contaminado durante a estada na residência do alqaid, talvez na ceia. E lembrei da carne de crocodilo. Fui o único que não a provou. Tratava-se
de uma salmonela? E possível que o niloticus, previamente infectado, não tivesse sido preparado com as devidas precauções. Quem sabe...

Não havia outro remédio a não ser ajustar-me às circunstâncias. Permaneceríamos no "vau". Pensei em comprar ou alugar uma tenda, como as dos acampados. Eliseu precisava
com urgência de um mínimo de sombra e de proteção. Naquele momento já devia ser a tercia (nove da manhã). Em breve, o Yaboq viraria um forno.

223

Eu disse aos vendedores que precisava de um abrigo, de água e de mantimentos, e eles, muitos astutos, começaram a brigar entre si pelo "negócio". Tive de acabar
com a discussão. Eu mesmo escolhi dois deles e encomendei-lhes tudo o que precisava. Agradecidos, e quase beijando minhas sandálias, desapareceram no caminho para
Damiya levando um bom punhado de denários. Prometeram voltar

" J "

voando ...

A febre rondava os 40 graus. Procurei a duvidosa proteção de um dos bambuzais e fiquei esperando. Mais uma vez amaldiçoei minha sorte por não ter sequer um lenço
para aliviar a queimação. Rasguei minha túnica e preparei uma compressa empapada na água do rio. Aquelas idas e vindas constantes à orla, para tentar refrescar a
testa e as têmporas do engenheiro, não passaram despercebidas do grupo que continuava sob a sófora. Mais calmos, agora, eles se perguntavam o motivo de minha atitude
estranha. Sinceramente, quase não reparei neles.

Eu estava obcecado com a respiração entrecortada. Não sei que idéias absurdas me vieram à cabeça naquele momento... E o medo, como eu disse, tomou conta de mim.
Belisquei o dorso das mãos dele e constatei que a resistência das pregas estava aumentando. A maior tortura era a desidratação, que não parava. A água do odre diminuía
assustadoramente. Pensei em me aproximar do guilgal e implorar que me dessem um pouco.

Logo Eliseu parou de suar. O organismo, em alerta, bloqueou os condutos, evitando assim novas perdas de água. Eu o fiz beber quase à força. E ele, semi-inconsciente,
entrou em uma fase de delírio. O que eu podia fazer? Talvez se o submergisse no Yaboq, isso ajudasse a equilibrar em parte o excesso de temperatura.

- Sinto muito, major...

Eliseu começou a balbuciar, misturando inglês com o aramaico. Procurei tranqüilizá-lo. Impossível. Ele nem me ouvia.

- ...Eles me obrigaram... Sinto muito, major... Sei que é proibido, mas ela...

E ficou repetindo sem parar...

- Eles me obrigaram...

224

Não prestei muita atenção às suas manifestações. Sabia que estava sob o efeito da febre. Contudo, elas ficaram marcadas na minha memória. A quem ele se referia?
Quem o obrigou? Do que estava falando? Demoraria algum tempo para que eu entendesse o significado daquelas palavras supostamente absurdas...

Mais de uma vez, parei no meio da estrada de terra vermelha, tentando avistar os indivíduos que eu encarregara das compras. Por pouco não fui até o povoado para
obrigá-los a voltar aos pontapés... "Calma - repetia para mim mesmo, tentando controlar os nervos. Eles já vão chegar. Não devo abandoná-lo agora." Mas não foi o
que aconteceu. O tempo passou e os pilantras não deram sinal de vida.

Eu não podia esperar nem mais um minuto. Primeiro lhe daria um antibiótico e um analgésico. Depois arriscaria. Minha vontade era ir a Damiya e estrangular aqueles
safados... Faria isso com minhas próprias mãos. E fui ficando cego de cólera. Sim, aqueles miseráveis...

Fiquei em dúvida. Será que eu deveria optar por uma combinação de sulfato triplo e estreptomicina ou pelo cloranfenicol. Resolvi arriscar. Supus que estivesse com
alguma variável de salmonela e preparei o primeiro fármaco. A dose foi reforçada com extrato de bagas de mirtilo. Repetiria o tratamento no pôr-do-sol. Se ele não
reagisse, eu apelaria para um remédio mais agressivo. Para a febre, preferi o salgueiro branco, com uma alta concentração de salicina. Na dissolução do analgésico,
acabou-se o pouco de água que ainda restava. E a irritação - como eu dizia - foi me invadindo...

Prossegui com minhas compressas úmidas, lutando contra a febre. Meu irmão, derrubado, continuava respirando com dificuldade. Os lábios começaram a rachar. O calor
denso foi nos aplastando. Em breve, a temperatura no vale ultrapassaria os trinta graus Celsius... Agora eu precisava de água, líquidos, sal. Mas onde andavam aqueles
malditos?

Fiquei de pé e, desesperado, decidi pela solução mais rápida: pedir água aos sujeitos da árvore das vasilhas. Se não conseguisse, tentaria com os acampados. E, mal
pisei na estrada, uma voz me deteve. Era um dos vendedores a quem eu tinha encomendado as provisões e a tenda. Estava

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chegando do povoado. Vinha apressado com uma cântara na cabeça e uma cesta nas costas. Do segundo vendedor, nem sinal.

Não consegui ou não soube me conter. Admito que errei. Ao vêlo, antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa, comecei a gritar com o pobre infeliz, acusando-o
de tudo que se possa imaginar e um pouco mais. Foi uma explosão de cólera e, suponho, uma forma de descarregar a tensão. Não agi bem.

O homem ficou aterrorizado, e imaginando que dos gritos eu passaria aos atos, depositou a água e as frutas na estradinha e, dando meia-volta, fugiu correndo. E os
gritos o perseguiam...

E ao me abaixar sobre a cântara, uma mão pousou no meu ombro esquerdo. Tive um sobressalto. Era o pregador. Atrás dele, mudos como sempre, vinham vários homens armados.

- Por que tanta violência?

O tom, embora severo, não era ameaçador. E voltou a me sorrir com aquela doçura distante. Foi providencial. A presença e o interesse daquele pequeno-grande homem
me aliviaram, devolvendo-me ao estado do qual nunca deveria ter-me afastado.

Contei-lhe meus problemas e ele, em silêncio, aproximou-se de Eliseu e o examinou.

Foi instantâneo. A uma ordem do homenzinho, sua gente se mobilizou. Começaram a cortar os arundos, os bambus gigantes que cresciam à margem do Yaboq, e, num abrir
e fechar de olhos, eles construíram habilmente uma "tenda" de duas águas. Transportamos o engenheiro para lá. O abrigo, embora rústico, seria eficaz contra o intenso
calor tropical. E, pelo menos, meu companheiro e este que escreve dispúnhamos de um teto.

Curioso Destino... Os mesmos homens que antes me ameaçaram com seus glaáius, agora se desdobravam, com todo empenho e cheios de disposição, para cumprir os desejos
de seu chefe. Eles simplesmente o veneravam...

O resto do dia foi menos agitado. Fiquei de prontidão, mantendo a medicação, as compressas molhadas e as doses seguidas de sumo de frutas com sal. O tratamento fez
efeito e meu companheiro entrou em uma fase um pouco menos tensa. Porém, as diarreias continuavam, embora não tão

226

J.]. BENÍTEZ

coleriformes. Se o diagnóstico não estivesse errado, a crise cederia em um ou dois dias. Oxalá...

E nesse meio-dia, graças aos bons ofícios do pregador, aquele vendedor que eu tinha posto para correr aceitou voltar para me ajudar. Pedi desculpas. E o homem, generosamente,
disse que eu esquecesse o ocorrido. Chamavam-no de "Kesil". A palavra tinha um duplo sentido: bobo e Orion (a famosa constelação). Imaginei que a bondade natural
daquele felah tinha levado seus conterrâneos a classificá-lo como "bobo". Ele não sabia de nada do outro vendedor, mas apostou por sua vida "que nunca mais o veríamos".
E foi o que aconteceu. Com o desertor, também se foi uma parte do dinheiro. Não me importei. Nada disso me preocupava aquele momento: apenas a saúde de Eliseu.

E contratamos os serviços de Kesil a dois denários de prata por dia e a alimentação. Jamais conseguirei pagar minha dívida com ele..., e com o Destino.

227

GAULANÍTIS

DECAPOLIS

Scythopdis l .Petla

Rio Jordão nos tempos de

Jesus, com dois dos mais

notáveis afluentes: Yarmuck e

Yaboq, na margem esquerda.

Maqfi|rte 1

VI

l

26 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA

Foi outra noite longa e em vigília. A segunda.

Kesil, bom conhecedor das plantas da região, colaborou na manutenção do precário equilíbrio orgânico de meu irmão, com doses pontuais de canela e pimenta-do-reino
diluídas em água fervente. Recomendou também um preparado de casca de olmo com mel. E as diarréias foram cedendo.

A lua cheia surgiu alaranjada entre os tamariscos do Nilo adormecidos. E me convidou a avaliar a situação. Kesil, do outro lado da pequena fogueira, cozinhava e
cantarolava, sem tirar os olhos de Eliseu. No acampamento e na sófora só se distinguiam sombras.

Como eu disse, todo o resto ficara em segundo plano. Quanto a Jesus de Nazaré, eu não tinha alternativa. Meu irmão precisava de mim. A retomada, a viagem à Cidade
Santa, teria de esperar. Mas e se ele piorasse? Respirei fundo. Eu precisava de tempo.

O que faria se o processo infeccioso não retrocedesse? A solução se apresentou com toda clareza: retornaríamos ao Ravid. Eu contrataria um carro e os homens necessários.
Chegaria até o módulo. Não importava como. Se me visse forçado a revelar nosso segredo, se tivesse de tornar visível o "berço", muito bem... Eu faria isso. Meu companheiro
tinha prioridade absoluta.

E se ele não se restabelecesse? Esse foi outro momento duro e penoso... Qual seria minha decisão? Ela também surgiu com muita nitidez em minha mente cansada. Mas
desconsiderei a idéia. Isso não aconteceria...

229

E desviei os pensamentos para os acampados e para aquele que, no momento, eu chamava de pregador. Não entendia o comportamento daquelas pessoas. Se elas estavam
ali no "vau" para ouvir o Batista, por que não prestavam atenção a ele? Por que tanta polémica sobre o possível profeta e, inclusive, sobre o ansiado Messias? Se
elas acorriam ao "lago" das "Colunas" para serem curadas ou, simplesmente, como me disseram, para que ele as visse e "mudasse sua sorte", por que o rechaçaram? Por
que atacaram a pedradas o Yehohanan? A não ser que...

Não, isso não parecia lógico. O homenzinho tinha o comando do grupo armado. Ele se dirigira aos acampados. Controlava a situação, em maior ou menor medida. Só podia
ser o Anunciador... E se não fosse, o que eles estavam fazendo ali, distantes dos seus lares e de seus trabalhos? Aquela gente era ingênua e ignorante, mas não era
burra.

"Kése", a lua cheia, despregou-se do bosque. Tudo à nossa volta ficou prateado. As aves, nas copas, estavam em silêncio. Um silêncio cúmplice. Por um instante achei
que a lua, agora de branco, me dava razão. Ele era o Batista...

E, enredado nessas reflexões, me surpreendi ao ver duas tochas se aproximando. Eram o pregador e um de seus homens. A coincidência me deixou atónito e reforçou a
suspeita. Aquele bom homem só podia ser o precursor do Mestre. Eu já disse muitas vezes: a casualidade só existe na mente dos que não superaram o medo.

Perguntou sobre Eliseu, mais uma vez, e pediu permissão para visitá-lo. Fiquei encantado e agradecido, em especial por sua ternura. O aspecto físico, como creio
já ter mencionado, não lhe fazia justiça. E ficou ajoelhado durante alguns minutos junto ao meu companheiro. Então ergueu as mãos e as colocou bem perto do rosto
de Eliseu.

Da porta da cabana improvisada, Kesil, o homem da tocha e este que escreve assistimos à cena muito atentos; o criado e eu provavelmente mais interessados do que
o sujeito silencioso que fazia a escolta do homenzinho de melenas sujas e desgrenhadas.

Ele ergueu os olhos para os bambus, em seguida cerrou as pálpebras e começou a murmurar. Parecia uma oração ou um cântico. Não consegui de-

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j.j. BENÍTEZ

cifrar. As mãos, firmes, sem qualquer tremor, mantinham-se a poucos centímetros do inquieto engenheiro. Em nenhum momento o tocou. Depois, sorridente, exibiu a dentadura
arruinada, mas também uma coisa muito mais importante: a esperança. Segurou minhas mãos e disse: "Confia".

Fiquei perplexo. Essas palavras...

Ao se retirar, entregou-me uma gamela de madeira com um punhado de folhas triangulares com um cheiro repulsivo. Eu não precisava me preocupar. Ele as tinha colhido
nessa mesma manhã. Chamavam-na de "figueira louca". Quando retornei ao "berço", fiquei sabendo que se tratava do estramônio, uma solanácea da família da beladona,
com interessantes princípios ativos (tanino, atropina e escopolamina, entre outros alcalóides). Funcionava muito bem como sedativo. E, de fato, depois que lhe demos
a infusão, Eliseu caiu em um sono profundo.

Eu me reprovei por minha inépcia. Por que não o retive? Por que não lhe perguntei? Ele era ou não era Yehohanan, o Anunciador? Por pouco não atravessei os poucos
metros que separavam nossa cabana da sófora... Porém, "algo" singular, que não consegui definir nesse momento, me reteve junto ao doente. Eu era um perfeito idiota.
Kesil sabia e eu nem reparei nele...

Nessa quarta-feira, os cronômetros da nave registraram o nascimento do sol às 5 horas, 22 minutos e 23 segundos. E o ocaso lunar ocorreu por volta das 6 horas, 44
minutos e 59 segundos. Assim, o alvorecer brincou de perseguir a lua cheia por um espaço de uma hora e vinte minutos. Durante esse tempo permaneceu visível. Quando
a lua fugiu entre as copas, ele também se foi...

Com o tempo compreendi. Mas é melhor ater-me aos fatos, tal como se apresentaram.

Esperei amanhecer. Precisava me lavar e esvaziar a cabeça. Era a segunda noite em vigília... Eliseu, mais tranqüilo, ficou sob os cuidados de Kesil. E este que escreve
foi até a "praia" dos seixos brancos. Quase todos dormiam.

Tirei a túnica, o saq e as sandálias e entrei nas águas mornas do Yaboq. O rio, claro e sereno, me acalmou. Fui nadando até o meio do rio tentando alcançar a primeira
pilastra da antiga ponte. Ao chegar, por mera curiosidade, contornei os restos do pilar e confirmei o que já tinha intuído. Tratava-se de

" 231

uma base muito antiga de pedra calcária branca que um dia serviu para sustentar as abóbadas da ponte. Só uns trinta ou quarenta centímetros sobressaíam na água.
Agarrei-me a um dos blocos e, jogando a cabeça para trás, deixei que a água escorresse em meu corpo e penteasse meus cabelos. O rumor e o odor me invadiram, compensando-me,
de certo modo, pelas últimas horas de incerteza e angústia. E me deixei levar por esse instante de paz...

Ao fundo, do lado leste, o círculo solar, amarelo e brilhante, agitouse entre os bosques. Prometia calor. E o "vau", os bambuzais, a sófora e as copas das árvores
daquele lugar encantador despertaram, o novo dia. Foi um despertar dourado, silencioso, sem alarde...

Mas, de súbito, tudo mudou. Não sei como descrever. Ouvi o som do sofar... Levei um susto. Um dos homens do pregador, instalado entre os juncos, muito perto da sófora,
soprava com força o chifre de carneiro.

Em poucos segundos, o acampamento se mobilizou. Todos correram para a "praia". O pregador e seus homens lançaram-se diretamente no rio, avançando aos saltos e com
grande excitação até o ponto onde se encontrava este perplexo explorador. Os acampados também irromperam no "lago". Aos gritos, apontavam para o norte, para o espesso
bosque das acácias situado defronte a "praia dos seixos".

Olhei para trás, tentando entender o motivo de tamanha reação. Talvez algum crocodilo. Observei a superfície das águas e, prudentemente, entrincheirei-me nas pedras.

Foi então que o vi, iluminado pelo sol nascente...

O sofar continuava bramindo. E, subitamente, todos pararam. E assim permaneceram, imóveis, silenciosos e cheios de expectativa. O grupo dos armados também se deteve.
E esperaram, com a água até os joelhos.

Era um homem. Caminhava pelo vau a grandes passadas... Tive um sobressalto. Será que era ele? Ia em direção à base de pedra onde eu estava escondido. Porém... Não
podia ser. Aquele homem...

E continuou avançando, decidido e seguro, cortando as águas. Levava alguma coisa na mão esquerda. Parecia um tronco ou uma cesta estreita e alongada. E ele também
parou. Então, como se aquilo fosse um sinal, o sofar emudeceu.

232

j.j. BENÍTEZ

Eu não sabia o que fazer. Estava exatamente no meio, entre o homem e as outras pessoas. Bem no meio, e nu... encostei-me nas pedras, tentando passar despercebido.
Talvez não me vissem...

Não, não era o Mestre. Por um instante, ao vê-lo caminhar, eu o confundi. Ou era apenas meu desejo de voltar a encontrá-lo? Aquele homem era mais alto, enorme. Calculei
que tivesse dois metros de altura. Estava quase nu, com um cinto preto de couro, muito largo, com uns vinte centímetros, e um saq ou encacho curto, de pele de gazela.
Carregava um fardel a tiracolo.

Examinou as pessoas que esperavam na água e em seguida continuou avançando até a pilastra. Era forte, embora não tão musculoso como Jesus. A pele, queimada pelo
sol, era elástica como borracha. Mas o que mais me chamou a atenção nesse momento foi a cabeleira vermelha. Nunca tinha visto cabelos tão longos. Estavam amarrados
em sete tranças que chegavam até os joelhos. Quando ele andava, agitavam-se como chicotes. Era um vermelho chamativo, quase branco.

Chegando às pedras, saltou sobre os blocos. Creio que não notou minha presença. Lentamente, submerso até o nariz, fui deslizando pelo perímetro do pilar até ficar
às costas dele. As pessoas continuavam paralisadas, com os olhos fixos na incrível aparição. Ninguém falava. Todos pareciam hipnotizados por aquele personagem singular.
Quem era? De onde saíra? Por que apresentava aquele aspecto tão extravagante? Em toda nossa missão, nunca tinha me deparado com um indivíduo tão fora do comum. E
eu disse bem: tão fora do comum...

Inclinou-se sobre as pedras e, depois de afastar a terra e os ramos, acomodou o objeto que trazia na mão esquerda. Fez tudo isso devagar, com um cuidado muito especial.
Do meu esconderijo, reconheci uma espécie de barril, de um metro de altura e uns trinta centímetros de diâmetro. O cilindro era pintado com anéis sucessivos, vermelhos,
azuis, amarelos e brancos. E, ao depositar o suposto "barril" na plataforma rochosa, o gigante virou a cabeça e me descobriu.

A impressão que tive ao contemplar aquele rosto foi tamanha que não consegui mover nem um único músculo. Santo Deus! Os la-

233

dos do nariz, os globos oculares e parte das faces estavam tomados por uma grande "mancha" em forma de borboleta. Na realidade, não era uma mancha, e sim dezenas
de cicatrizes deixadas pela ocorrência de um LED1, uma doença inflamatória da pele. As placas eritematosas discóides - vermelhas e com uma depressão no centro -
e as escamas correspondentes, ao secar e cair, tinham deixado uma enorme cicatriz que chamava a atenção por um branco manchado e, principalmente, pela forma curiosa.
Uma forma que, em um primeiro momento, podia ser confundida com uma tatuagem.

E o homem cravou seus olhos nos meus, tentando saber quem era o sujeito escondido na água. Foi um olhar de falcão, duro, penetrante. Um olhar com uma característica
difícil de esquecer. Talvez tenha sido isso o que mais me impressionou... Aquele homem tinha a íris azul-celeste, mas o centro do olho era vermelho-fogo. "Pupilas"
vermelhas! Com toda probabilidade, o sinal de um albinismo ocular2.

Fiquei paralisado. Será que ele denunciaria a minha presença? Seus olhos, como eu dizia, me atravessaram. Contemplou-me por alguns segundos, mas logo se recompôs
e me deu as costas de novo. Em seu pescoço pendiam longos colares de conchas marinhas.

As pessoas, atentas, pareciam esperar algo conhecido, algo a que estavam acostumadas. E foi o que aconteceu. O homem ergueu os braços

1 O chamado "lúpus eritematoso discóide" (LED) é uma afecção crônica da pele, não tuberosa, que atinge principalmente o tecido conectivo, e que decorre da degeneração
fibrinóide das fibras de colágeno dos tecidos mesenquimais. A doença localiza-se preferencialmente nas regiões expostas ao sol.

2 Na realidade, não é que as pupilas fossem vermelhas (a pupila ou menina-dos-olhos é uma abertura dilatável e contráctil por onde entra a luz). O albinismo ocular
é provocado por uma falha genética, que altera a pigmentação (melanina), e causa esse efeito ótico.

Na opinião de Fitzpatrick, o albinismo (falta congênita, total ou parcial, da pigmentação da pele, olhos e cabelo) divide-se em seis grandes tipos. Por sua vez,
o albinismo ocular (com alteração pigmentar nos olhos) compreende três divisões (duas ligadas ao cromossomo "X" e uma autossômica recessiva). (N. do M.)

234

l

e estendeu os dedos para aquele céu quase dourado. O silêncio aumentou. Eu diria que todos ficaram de pé...

E o homem de dois metros, com os braços no alto, começou a falar:

- Sabeis que o espírito de Deus paira sobre mim...

A voz rouca e quebrada chegou com força, sem nenhuma vacilação. Era um aramaico guerrilheiro, difícil e às vezes obscuro, próprio das montanhas e do deserto da Judéia.
Falava rápido.

- ...Ele me ungiu...

E foi baixando os braços, lentamente. O pregador e seu grupo estavam transfigurados.

- ...Ele me enviou para anunciar a boa nova aos pobres. Estou aqui para remendar os corações destroçados...

A voz ia e vinha como uma onda. As pessoas, extasiadas, nem respiravam.

- ...Estou aqui para apregoar a libertação dos cativos. Para dar liberdade aos reclusos...

Fez uma pausa. Da linha da pilastra, eu não podia ver seu rosto, mas imaginei que estava percorrendo os olhos dos acampados. E, de súbito, no fundo daquele breve
mas intenso silêncio, ouvi um ruído. Um zumbido, um som surdo e continuado. Levantei os olhos e descobri um bando de abelhas. Voavam inquietas sobre o "barril" de
madeira. Algumas foram pousar nas pedras bem perto dele. Eram grandes, tinham o tórax fulvo e os três primeiros segmentos do abdômen amarelo-avermelhados. Até então,
este que escreve não sabia nada sobre os incríveis insetos. E reagi como qualquer pessoa que ignorasse tudo a seu respeito. Submergi e me transferi para a outra
quina do pilar...

- ...Estou aqui para anunciar a ira de Deus.

A voz retornou ainda mais impetuosa e com uma segunda mensagem.

- ...é o dia da vingança de nosso Deus. O gume do machado já tocou a raiz da árvore...

E, erguendo os braços novamente, agitou as mãos, repetindo em altos brados e incitando a platéia a gritar mais forte:

- O dia da vingança!

235

E os presentes, cheios de fervor, clamaram aos céus:

- Vingança!

O pregador começou a chorar. E tentando conquistar o que já estava conquistado, entoou um nome. Então, se fez a luz em minha mente... As pessoas, entregues, o acompanharam
em coro:

- Yehohanan!... YehohananL. Yehohanan!

O delírio se prolongou por longos e intermináveis minutos. Era como um trovão. As garças e as outras aves dos bosques e dos bambuzais levantaram vôo, fugindo para
o horizonte das acácias.

Eu devia ter imaginado... Aquele gigante, saído não se sabia de onde, era João, o Batista. O Anunciador: "Yehohanan" ("querido por Deus") ou "lochanan" e "lokanán",
em hebreu.

- Buscas a verdade?... Só ele pode satisfazer-te.

Agora entendia a resposta daquele que eu confundira com o Batista, ao pé da árvore na qual estavam penduradas as vasilhas quebradas... Pobre imbecil! Quando aprenderei?

- Chegou o fim de uma era... Deus retorna no fogo. Seus carros são como redemoinhos... Sua cólera é minha cólera... Com fogo e espada julgará toda carne... Nada
escapará ao juízo... E tu, Roma, onde te esconderás?...

A alusão ao invasor incendiou ainda mais os ânimos exaltados, e aquela gente, dando pulos na água, interrompeu novamente o ardoroso Yehohanan. E só se ouviu uma
palavra no "vau das Colunas":

- Motí... Motí... Motl "Morte!"

Morte a Roma. Morte aos kittim. Aquelas pessoas, com os rostos desfigurados pelo ódio e pelo desejo de vingança, teriam seguido o vidente até o fim do mundo. Jamais
esqueceria o que presenciei...

O Anunciador esperou que se acalmassem. Depois, soltando a voz e prolongando-a, arrematou:

- O ano da minha desforra chegou!

E, tendo à frente o pregador, todos uivaram como lobos.

- ...Pisotearei os povos com minha ira... Pisarei com força e farei seu sangue correr por terra... Diante de tua face, as montanhas derreterão... Tu

236

farás coisas terríveis e inesperadas... Para dar a conhecer teu nome aos teus adversários, tu farás tremer as nações diante de ti...

Notei uma certa agitação na "praia", entre os que haviam ficado atrás. Da minha posição forçada, não percebi com clareza o motivo daquele movimento inusitado. Os
vendedores interpelavam-se entre si. Os responsáveis pelas macas eram os mais excitados. Levantavam-nas, discutiam uns com os outros e as colocavam de novo sobre
os seixos. Eu não estava entendendo...

- Arrependei-vos!

O grito do homem das pupilas vermelhas teve um efeito fulminante. Fez-se o silêncio.

Yehohanan apontou para as pessoas com seu dedo indicador esquerdo e o deslocou lentamente, percorrendo a volúvel platéia. Alguns, assustados, recuaram.

- Arrependei-vos! - voltou à carga em um tom mais ameaçador. -Andai pelo bom caminho!... Preparai-vos para o fim dos tempos! A nova ordem está para chegar!... Lobo
e cordeiro pastarão juntos!... O leão comerá palha como o boi, e a serpente se alimentará de pó!... Estais avisados!... O novo reino é hoje!...

O zumbido aumentou. E o que no início era um bando de abelhas transformou-se em um enxame negro, pulsante, e sobretudo ameaçador. Assustei-me. De onde tinha saído
aquela nuvem de insetos?

Os mais próximos do Anunciador, ao perceberem a "coluna" de abelhas, deram o grito de alerta e tentaram fugir. Mas Yehohanan, atento, impediu que o fizessem com
um único gesto. Levantou a mão direita para o enxame e milhares de abelhas, lenta e pausadamente, foram pousar na mão e no antebraço. E o membro transformou-se em
uma massa escura e informe.

Mas o gigante sabia o que estava fazendo...

- O mal - exclamou, descendo a um tom suave e delicado - não causará mais dano nem prejuízo em todo meu monte santo!... Assim fala Yavé!

E todos, incluído este atónito explorador, ficamos de boca aberta, sem acreditar no que víamos.

237

- O novo reino - repetiu sem levantar a voz - é hoje!

Ato contínuo, virando-se para o "barril" de madeira, começou a abrilo pausadamente. E o rosto de Yehohanan ficou novamente à vista deste que escreve. Não me procurou
entre as águas. Provavelmente se esquecera de mim. Várias trancas ocultavam parte do lúpus. E a borboleta no rosto transformouse em uma máscara. Toda a atenção de
Yehohanan estava voltada às abelhas. Destapou o suposto "barril" com a mão esquerda e, bem devagar, aproximou o braço esquerdo da boca do cilindro. Tudo ocorreu,
como eu estava dizendo, muito lentamente e sob um silêncio tenso. Fiquei sabendo depois que o "barril" era uma colmeia. Ao se abrir a parte superior, o enxame sentiu
o cheiro do mel armazenado nos favos e, ao poucos, foi se introduzindo em seu interior.

Maravilhada, aquela gente lançou outro uivo de prazer:

-Yehohanan... Yehohanan!

Não sei como conseguiu. Naquele momento...

E, livre das abelhas, fechou de novo a colmeia. Ergueu os braços e, vitorioso, clamou com todas as suas forças:

- Ele me escolheu!... Preparai o caminho!... E vós, ímpios, povo que me renega na minha própria cara permanentemente, vós, povo rebelde que segue um caminho errado
atrás de seus pensamentos, que sacrifica os jardins e queima incenso nos ladrilhos, que habita em tumbas e em antros escuros, que come carne de porco e sobras apodrecidas
em suas vasilhas, vós, tremei... Ele vem medir a recompensa de sua obra!

A passagem me parecia conhecida, mas não tive certeza... E minha atenção desviou-se novamente para a orla. Os sujeitos das maças carregavam os enfermos e, entre
bate-bocas e empurrões com outros vendedores, tentavam entrar no rio. O que estaria acontecendo?

-Arrependei-vos!... Buscai a paz com Deus!... Do contrário, esperai a espada!... Todos caireis degolados!... Eu venho preparar o caminho de outro, mais forte do
que eu!

As pessoas, inquietas, voltaram-se para os carregadores que avançavam pela água. O homenzinho e os sujeitos armados também detectaram a bronca. Vacilaram. Olharam
para o Anunciador e aguardaram. Mas o homem da longa cabeleira ruiva não se abalou. E prosseguiu:

238

J.). BENÍTEZ

- Ele reunirá todas as nações... Ele anunciará a glória do Justo e governará do trono de Davi.

Imaginei que Yehohanan estava se referindo ao Messias judeu. E o nome de seu primo distante - Jesus de Nazaré - voltou à minha cabeça. Estaria falando do Mestre?
Era essa a mensagem do Filho do Homem? Sangue e espada?

- Arrependei-vos! - bramou o Anunciador, ao mesmo tempo em que as maças se aproximavam das centenas de inquietos e indeciso espectadores. - Se aceitais a nova ordem,
se reconheceis vossos pecados!... "Baixai à água"!

E Yehohanan repetiu a última expressão, dirigindo a voz potente aos da sófora:

- Sakak!

Foi instantâneo. Quando ele pronunciou a palavra "sakak", os dezoito homens se mobilizaram. Parecia uma chave, uma senha. Eu náo estava errado... Rodearam parte
da pilastra e formaram um cinturão, um semicírculo protetor, enquanto eu continuava escondido, às costas de todos eles. E o sujeito do sofar soprou o chifre. Foi
um toque longo...

Então, aquela gente toda, que, sem dúvida, aguardava esse momento, correu em direção aos sujeitos armados, entoando mais uma vez o nome do Anunciador. Os da sófora
resistiram e, ombro com ombro, formaram uma barreira para impedir o avanço dos mais exaltados. Os gritos aumentaram. E as mãos dos acampados resvalavam entre os
defensores, numa tentativa inútil de chegar até o impassível e silencioso homem das pupilas vermelhas.

Yehohanan permanecia no alto das pedras. E ali ficou até que as pessoas, impedidas pela muralha humana, foram cedendo em suas exigência de tocar o vidente.

Um segundo bramido do sofar, mas curto, me colocou em alerta. Tudo parecia minuciosamente planejado.

Fez-se o silêncio, quebrado vez ou outra pelas maldições dos carregadores, que tentavam abrir passagem até os valentes homens da sófora. Mas os próprios acampados
impediram, naquele momento... Todos que-

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riam se aproximar do insólito personagem. Todos desejavam tocar suas tranças ou a pele elástica.

E a uma ordem do homenzinho, alguns dos sujeitos armados empunharam os glaáius. As pessoas, obviamente, recuaram. Mas ninguém protestou ou recriminou a atitude.
E os quatro ou cinco indivíduos, com as espadas apontadas para as gargantas dos mais próximos, deram dois passos para trás, formando um segundo cinturão de segurança
em torno da pilastra. Então, o Anunciador, saltando a correnteza e dirigindo-se àquela gente, proclamou com a voz rouca, destacando cada letra:

- S-a-k-a-k!

E as pessoas ali reunidas repetiram vibrantes:

- Baixai à água!

Foi assim que presenciei a cerimónia de imersão que tornou tão célebre Yehohanan, o Anunciador. Uma cerimónia que, ao longo dos séculos, foi pessimamente interpretada
pelos seguidores das várias Igrejas, em particular a Católica.

O sofar soou novamente, curto e solene, anunciando que estava tudo pronto.

Então, um dos acampados se separou do grupo. Passou sem resistência pelo primeiro cinturão, e também pelo dos gladius. E ao chegar diante de Yehohanan, o homem -
ainda moço - empalideceu. E os olhos se ergueram temerosos, buscando o rosto do gigante.

Foi tudo muito rápido.

- Te arrependes?

Não teve tempo de responder. Sem qualquer aviso, sem palavras, Yehohanan colocou as mãos nos ombros do jovem, e segurando-o com força, deu-lhe um violento empurrão
pelas costas, submergindo-o no rio. Logo que ele desapareceu sob as águas, as pessoas todas, em uníssono, vociferaram outra palavra, sempre repetida nessas imersões:

- Neqel ("Limpo.")

Yehohanan esperou alguns segundos. Depois puxou o rapaz para a superfície e o colocou de pé como um boneco. Sufocado por um ataque de tosse, ele não conseguia ver
nem ouvir.

240

- Limpo! - exclamou Yehohanan, ao mesmo tempo que o afastava para o lado. - O seguinte!

E um segundo candidato à imersão - uma mulher - procedeu como o primeiro. Desta vez, o homem das pupilas vermelhas não perguntou nada. A moça, preparada, fechou
os olhos e tapou o nariz com a mão esquerda. Foi jogada com a mesma violência. Quando saiu da correnteza, Yehohanan não reconheceu sua limpeza. Empurrou-a e gritou:

- O seguinte!

E assim ocorreu com todas as mulheres. Apenas os homens eram perguntados e recebiam o correspondente e obrigatório "neqe". No início, esse comportamento injusto
me deixou desconcertado. Depois, com o passar do tempo, fui entendendo...

O sofar acompanhou cada imersão, exceto as das mulheres. Embora ainda pretenda voltar a esse assunto, resisto e continuarei resistindo a chamá-lo de "batismo"...

Contei dez ou doze imersões. Depois disso, a "cerimónia" praticamente se encerrou, e não por desejo de Yehohanan e de seu grupo... Suponho que era inevitável. Aquilo,
no fim das contas, era apenas para alguns (como sempre).

Cansados de esperar, os carregadores pressionaram de novo, empurrando os que aguardavam para ser submergidos, e açulando-os com insultos e provocações. Estavam ali
para levar os doentes e aleijados à presença do Anunciador e não desistiriam até conseguir. As pessoas protestaram de novo e deram-se os braços para impedir a passagem
dos maqueiros. Os gritos e as pancadas recrudesceram, e as pessoas foram obrigadas a romper o primeiro cinturão de segurança. Os homens armados reataram a barreira
e, com as espadas no alto, trataram de proteger o Yehohanan. Ali, como eu estava dizendo, terminaram as imersões.

E os acampados, ao perceber que aquele era o fim, aliaram-se aos que pretendiam chegar até o vidente. Em pouco segundos, a situação mudou. Todos acorreram em direção
ao gigante, estendendo os braços e implorando aos gritos que os tocasse e que os libertasse de suas doenças. Os sujeitos armados, sem saber o que fazer, recuaram,
forçando Yehohanan a saltar sobre a base de pedra.

241

Este que escreve, de uma das quinas da pilastra, sentiu-se tão acuado como o grupo do pregador. O que aconteceria se aquela turba descobrisse que eu estava nu? Não
tive tempo de perguntar duas vezes. Percebi uma sombra à minha esquerda... Alguém se aproximava. Submergi inteiro e me agarrei às pedras.

Aquele indivíduo...

No mesmo instante, por debaixo da água, eu o vi mexendo em uma de suas pernas. Ou melhor, em uma perna-de-pau. Soltou as faixas que seguravam a armação de madeira
e apareceu um pé... Era o maldito impostor que se fingia de coxo! Continuei grudado à pilastra. O que ele pretendia? E o vi afastar-se, contornado a base. Na verdade,
só vi suas pernas, mas já foi suficiente. Reconheci de imediato a figura.

Voltei à superfície e, com a água pelo nariz, segui os passos do sujeito.

O tumulto aumentava... Os homens da sófora, transtornados, gritavam entre si, dando ordens, brandindo os gladius cada vez mais perto das pessoas e ordenando ao homem
das sete tranças que rugisse.

O "coxo", então, apresentou-se diante dos enfurecidos acampados e levantou a perna-de-pau acima da cabeça, ao mesmo tempo que gritava com todas as suas forças:

-At!

A aparição do pilantra foi tão súbita que a maioria dos presentes não teve tempo de meditar com um mínimo de bom senso. A gritaria se dissipou como que por encanto,
e os rostos decompostos se fixaram na prótese escura e gotejante.

-At!- repetiu o trapaceiro com mais vivacidade, agitando o objeto. -At!...

E alguém, imagino que previamente conchavado, respondeu com outro sonoro e convincente "at!". Passados alguns instantes, contagiados e histéricos, e lembrando que
aquele homem era um dos vendedores de Damiya, os acampados irromperam em um rotundo e repetido "at!".

- Milagre!... Milagre!... Milagre!

Eu não podia acreditar...

242

J J BENÍTEZ

O entusiasmo transbordou, e aqueles infelizes, à espera de algo - se possível sobrenatural - que melhorasse suas vidas precárias, acreditaram piamente na realidade
do "prodígio". Se um dos presentes questionou o "milagre", ninguém ouviu...

E, aos gritos de "at", lançaram-se contra os sujeitos armados com o objetivo de chegar ao vidente. Não sei o que teria acontecido se os fanáti-

cos o pegassem...

Entretanto, Yehohanan, muito ágil, e aparentemente habituado a esse tipo de situação, adiantou-se aos propósitos da turba cega e desgovernada. Pegou a colmeia colorida
e se atirou no rio, fugindo aos saltos pelo vau, com a cabeleira ao vento, como uma hidra, deixando atrás de si um rastro de nervosismo e um grupo de vociferantes
e malogrados seguidores. E desapareceu entre negros, verdes e vermelhos do espesso bosque de acácias que se avistava da margem oriental.

A lua cheia também correu a se esconder... Alguns se atreveram a cruzar as águas, mas, chegando à vegetação espinhosa por onde tinha desaparecido o Anunciador, desistiram
e deram meia-volta.

Aproveitei a confusão para me retirar tão rapidamente como o pregador, mas em direção contrária. E depois de recuperar minhas coisas e me vestir, voltei apressado
para nossa cabana. Como foi possível comprovar posteriormente, Yehohanan pôde ser visto até as 6 horas e 44 minutos...

No abrigo, tudo continuava do mesmo jeito. Kesil, que percebera o alvoroço, me fez perguntas. Relatei uma parte do ocorrido, silenciando sobre meu desafortunado
deslize, e o felah, com um sorriso malicioso, confirmou o que era evidente. O "coxo" era um kedab (em aramaico, uma pessoa "falsa e mentirosa"). Todos o conheciam
em Damiya e arredores. Não era a primeira vez que agia assim. E o estratagema sempre dava certo entre os incautos e os recém-chegados ao "vau das Colunas". O "coxo"
esgotava todas as reservas de "água de Dekarin", e os outros vendedores também tiravam proveito. Ninguém se atrevia a denunciar a fraude. Por que o fariam, se isso
ajudava a atrair novos possíveis "clientes"?

Pouco a pouco, com o progressivo aumento da temperatura, tudo foi voltando à normalidade. Os acampados se entregaram a intermináveis

243

discussões e o homenzinho e seu grupo voltavam a se abrigar sob a copa da frondosa sófora. Eu os fiquei observando por um longo tempo. Também discutiam e polemizavam,
mas não sobre o final brusco e violento da reunião. A fuga de Yehohanan e as contusões sofridas no ataque daquela gente não os preocupavam muito. O principal tema
das conversas era a alusão feita pelo Anunciador a "outro mais forte que ele e ao caminho que estava preparando". Eles não entendiam. Se Yehohanan era o nebi, o
profeta ou vidente, e se o espírito de Deus pairava sobre ele, quem era esse mais forte a quem estava preparando o caminho?

Enquanto velava Eliseu adormecido, tentei ordenar as idéias. Era desconcertante. Estava ali, às margens do rio onde Yehohanan, o Anunciador, agia em função do Filho
do Homem. Uma soma de aparentes "casualidades" nos havia colocado frente a frente com o homem que também fazia parte da vida do Galileu. Pelo menos, era o que se
supunha...

Como explicar racionalmente que o roubo de uma das bolsas de lona, uma incrível avaria na nave, a recuperação da tal bolsa, o inesperado desaparecimento de Jesus,
a fuga precipitada no barco dos mortos etc. tenham contribuído para possibilitar aquele encontro com o homem da "mariposa" no rosto?

Destino curioso. Ou não era o Destino?

Quanto mais observava o grupo da sófora, mais eu me convencia de que não se tratava simplesmente de um punhado de seguidores ou entusiastas do Anunciador. Poderiam
ser seus discípulos? Nos textos evangélicos, quase não se fala deles. Seria preciso ir mais a fundo na incipiente relação com o pequeno-grande homem para descobrir
a verdade.

Os toques do sofar, as palavras malogradas dirigidas aos acampados por aquele que parecia ser o chefe dos homens armados, os movimentos em torno de Yehohanan e o
isolamento dos dezoito, separados dos demais pelo guilgal ou círculo de pedras - tudo isso era muito eloqüente. E mais: eu juraria que o vidente e aqueles homens
também agiam em comum acordo. A intuição não me traiu. Algum tempo depois eu confirmaria isso.

244

E subitamente me lembrei... As palavras proferidas por Yehohanan não eram suas; pertenciam ao profeta Isaías. Pelo menos a maior parte do discurso.

Eu já sei. Ainda tinha muito a aprender sobre aquela personagem misteriosa e singular...

E, sem me dar conta, lá estava eu de novo me fazendo a velha pergunta: qual era a relação entre o homem das pupilas vermelhas e Jesus de Nazaré? O que eu tinha ouvido
lá de dentro do rio me deixou perplexo. O Mestre jamais ameaçou. Nunca falou da ira de Yavé ou da vingança do Pai. Jesus não assustou as pessoas com o fogo ou com
a espada dos céus. Seu reino era diferente. Yehohanan previu o fim de uma era, e, sobretudo, de Roma. Durante todo o tempo que permaneci com o Galileu, jamais ouvi
nada semelhante. Jamais pregou o catastrofismo como fazia o homem da longa cabeleira. Jamais se interessou pelo poder ou pela política. Jamais recorreu ao castigo
como meio de purificar os corações.

Que estranho!

Eles não se pareciam nem fisicamente nem espiritualmente. Por que então o qualificaram de precursor do Filho do Homem? O que um tinha a ver com o outro, a não ser
o possível parentesco? Por que falavam de Yehohanan como "o maior entre os homens"?

Eu precisaria de tempo para me aprofundar na vida do Anunciador e para mostrar que, também neste caso, a verdade está longe do que imaginam crentes e seguidores...

Mas não vamos nos antecipar aos acontecimentos. Ainda que me faltem forças, tenho de relatar fielmente o ocorrido, passo a passo. Só assim, com uma certa ordem,
poderemos chegar mais perto da verdade. Apenas "chegar mais perto"...

Nessa época - setembro do ano 25 de nossa era -, Yehohanan já se referira ao Mestre, porém sem citar seu nome. O sentido da frase - "outro mais forte que eu" - era
claro para nós, mas não para o grupo que se reunia debaixo da árvore das vasilhas quebradas e que o aguardava ali.

Jesus de Nazaré! Onde ele estava? Nós o perdêramos...

245

O Pai dos céus, com certeza, tinha outros planos, tanto para Ele como para estes desolados exploradores...

Quanto às pessoas acampadas defronte as "Colunas", os fatos confirmaram as informações iniciais: a maioria procurava o vidente para resolver seus problemas. Isso
eu vi com os meus próprios olhos e veria outras vezes. A fama de curandeiro e de bruxo do Anunciador acabou por prevalecer. E todos os dias, dezenas de doentes e
aleijados eram trazidos até o local onde ele pregava e onde tentava cumprir a cerimónia muito particular de imersão. Todos vibravam com suas palavras e com a força
torrencial de sua personalidade, e desejavam - sobretudo os mais pobres e necessitados - que a promessa do novo reino e de justiça se concretizasse. Entretanto,
esse não era o objetivo fundamental daqueles que passavam diariamente pelo vau. Não sei como surgiram os rumores acerca do poder curativo e sobrenatural do gigante
da cabeleira até os joelhos, mas náo é muito difícil imaginar...

E os mal chamados "escritores sagrados" também se esqueceram desse aspecto importante na vida de pregação de João, o Batista (não sei por que, sempre me refiro a
ele como "Yehohanan, o Anunciador". Talvez seja mais correto). Todos falam de sua palavra, de seu sentido de justiça e de sua audácia. Mas havia mais, muito mais...

Nessa tarde, quando os ânimos no vale esfriaram, nosso vizinho de cabelos sujos e desgrenhados apareceu de novo na cabana. Trazia um preparado de alhos crus e uma
espécie de compota de maçã. Perguntou pela saúde de meu companheiro e, cerimonioso como de costume, pediu permissão para examinar o doente. Pôs as mãos sobre seu
rosto e depois as desceu até o joelho esquerdo do engenheiro. A manobra era nova para mim. Em silêncio, muito concentrado, colocou os dedos indicador e polegar esquerdos
de um lado e de outro da rótula, e com o dedo médio procurou um ponto na região externa da tíbia. Pressionou por vários segundos e soltou a perna. Depois repetiu
o gesto três vezes.

- Tu o viste? - perguntou inesperadamente. - Satisfizeste tua curiosidade?

246

J J BENÍTEZ

Supus que se referia a Yehohanan. Balancei a cabeça em sinal negativo, e o homenzinho, sem saber a qual de suas perguntas eu estava respondendo, insistiu:

- Era ele. Tu o procuravas...

Pedi que se sentasse e que ficasse um pouco ali comigo. Ele fez um sinal para os homens que estavam debaixo da sófora e se sentou.

- Eu o vi - expliquei -, mas suas palavras me deixaram confuso...

Foi assim que iniciei um relacionamento profícuo com Abner - era esse seu nome -, o homem de confiança do Anunciador.

Durante duas semanas, e em visitas posteriores a Yehohanan, aquele pequeno-grande homem um ano mais velho que seu ídolo, fui levantando as informações de que precisava.
Seu testemunho e sua ajuda seriam extremamente valiosos, particularmente durante o período em que o Anunciador permaneceu preso por ordem de Herodes Antipas. Um
período apaixonante e do qual se conhece muito pouco. Um período essencial em que começou a germinar o ressentimento em um dos íntimos do Mestre.

Era judeu. Ou melhor, kuteo (samaritano). Vivia em Sebaste, ao norte da Samaria. Era o que chamavam de adam-halaq (ao pé da letra, "homem-sorte"), uma espécie de
talismã, alguém que procurava a boa sorte e que era contratado para os propósitos mais variados e estranhos. Podia permanecer numa casa até que a deusa fortuna favorecesse
o proprietário e sua família, ou então acompanhar uma caravana ou um peregrino em particular. Ninguém ousava tocá-lo. Só ele estava autorizado a colocar as mãos
em uma pessoa quando julgasse oportuno. Essa virtude (?) singular de "corrigir" a sorte decorria do fato (não menos singular) de ter "chorado no ventre da mãe".
Era o que diziam...

Sua paixão era Yehohanan e os cavalos, nessa ordem. Estava justamente conduzindo e "protegendo" uma manada de cavalos árabes desde a região de Moab, a leste do mar
Morto, até os territórios de Efraim, ao norte de Jerusalém, quando topou com o homem de longos cabelos ruivos e pupilas vermelhas. Ficou impressionado com ele, como
quase todos os que cruzavam no seu caminho. Isso ocorreu no final do mês de adar (março) desse mesmo ano 25. Abner ouviu o pregador no rio Jordão, no

247

"vau das Doze Pedras", bem próximo a Jerico, a cidade das palmeiras3, e decidiu segui-lo.

Tinha percorrido parte do vale em companhia de Yehohanan. Ali, nas "Colunas", já estavam há quase um mês. A intenção do Anunciador era seguir para o norte. Ninguém
sabia a razão. Eu, instintivamente, imaginei qual era, mas não disse nada...

Pouco a pouco, a fama do pregador rude e esquisito - eu diria espetacular - foi se propagando. Começou a curar com as mãos e a exigir justiça e arrependimento, anunciando
mais ou menos aquilo que eu tinha ouvido no vale do Yabok.

Depois de apenas alguns dias, segundo Abner, apareceu um grupo de homens que pediu para ficar a seu lado. Eram os primeiros discípulos. O adam-halaq, por ser o mais
antigo e um dos mais sagazes, logo se tornou o segundo. Todos o respeitavam e o estimavam. O único problema é que seu aspecto, descuidado e frágil, criava mal-entendidos
entre os que não o conheciam, o que inclusive acabava levando a alterações desagradáveis, como a que eu presenciara no vau já mencionado.

Ele também fez perguntas... O que faziam dois gregos tão longe de sua pátria? Compreendi que as desconfianças não haviam desaparecido. Indagou sobre a profissão
de cada um e, sobretudo, sobre os propósitos daqueles "ricos comerciantes". Não conseguia entender por que nos sentíamos atraídos pelos problemas religiosos de um
povo como o judeu. Buscar a verdade? Na província romana da Judéia? E por que em um vidente como Yehohanan?

Não foi fácil explicar-lhe que vínhamos de um mundo insatisfeito. Que estávamos cansados da mediocridade e da mentira. Que não acreditávamos nos deuses. Em nenhum.
E muito menos no poder do dinheiro. Que, simplesmente, buscávamos.

O "vau das Doze Pedras" foi o lugar por onde passou Josué com o povo judeu, e no qual, segundo a Bíblia, a arca da aliança operou o milagre de separar as águas.
Josué, o novo caudilho, mandou tirar doze pedras do leito seco do Jordão e erigiu um monumento. Cada pedra representava uma das doze tribos de Israel. (N. do M.)

248

No início, tive muito cuidado em não mencionar o Mestre. Tudo devia seguir seu curso natural. Quanto ao Anunciador, a resposta foi tão explícita quanto possível...
Era um nebi, um profeta, segundo diziam. Por que não buscar a verdade em suas palavras?

- Pois bem - resumiu Abner -, agora que já ouvistes, o que me dizes?

- Continuo confuso - afirmei -. Esse Deus da ira e da vingança não é o que necessito...

Ficou em silêncio. Não notei nenhum desagrado ou reprovação em seu olhar. Creio que gostou da minha sinceridade. Foi um bom começo, apesar de tudo...

249

DE 27 DE SETEMBRO A 10 DE OUTUBRO

Eliseu melhorou. A febre foi desaparecendo, assim como os outros sintomas. Logo se recuperou e, com a minha ajuda e a do fiel Kesil, começou a dar passeios curtos
e recuperou o estado de ânimo. Lentamente, seu organismo começou a aceitar sólidos (cereais moles e fervidos e ovos cozidos) e líquidos quentes. Durante alguns dias,
por precaução, mantive uma dose de difenoxilato (entre dois ou três comprimidos por dia), reforçando o primeiro tratamento antibiótico.

Os remédios naturais de Abner - especialmente à base de beladona, pó de bismuto e caulino procedente das colinas do leste do Jordão - também contribuíram para o
restabelecimento do engenheiro. Mas isso não me tranqüilizou. Eu precisava fazer o que tinha planejado. Era importante submetê-lo a um exame cuidadoso e esclarecer
a situação de forma definitiva. Para isso, teríamos de retornar à nave...

E decidi esperar um tempo. A viagem até o alto do Ravid exigia um mínimo de recuperação. Eu aguardaria. O Destino nos conduzira ao "vau da Colunas". O Destino nos
tiraria de lá...

No acampamento às margens do Yaboq, assim como no guilgal, o círculo de pedras que contornava a sófora, pouca coisa mudou, tirando, é claro, o movimento de curiosos
doentes e aleijados que chegavam e partiam diariamente.

O Anunciador passou vários dias sem dar nenhum sinal de vida. Como era natural, os acampados se indagavam, interrogavam os discí-

251

pulos, protestavam pela ausência, discutiam, defendiam ou atacavam o Yehohanan, qualificando-o de vidente, louco ou farsante. Nada de novo. Os vendedores continuavam
esfregando as mãos. Desde que estávamos no vau, contei mais de quinhentas pessoas. Um grande negócio...

Todos os dias, pouco antes do amanhecer, o responsável pelo chifre de carneiro subia no alto da sófora e vigiava a orla das acácias. Eram ordens do Abner. Ficava
ali por cerca de duas horas. Quando o sol começava a esquentar, o homem descia e o grupo desistia da vigilância. Se Yehohanan não aparecesse antes da tercia (nove
da manha), Abner, precedido do toque do sofar, tomava a iniciativa de ir até a primeira pilastra existente no rio. Ali, como tive oportunidade de assistir, dirigia
a palavra à plateia. Pelo menos tentava.

Depois eu soube que isso foi estabelecido pelo próprio Anunciador. Na sua ausência, a prédica e a cerimónia de imersão ficavam por conta do segundo. Porém, os acampados,
que às vezes vinham de muito longe, não se contentavam com a voz suave e a imagem não muito convidativa do homenzinho. E, como eu estava dizendo, os protestos eram
freqüentes. Todos queriam vê-lo. Todos desejavam tocá-lo. Todos esperavam que o Anunciador os curasse. E os espertos vendedores "negociavam" os lugares na água,
assegurando aos crédulos e ingénuos que eles "seriam os primeiros a vê-lo e a ser curados". Presenciei o pagamento de até cinco denários de prata por um desses "primeiros
lugares" no rio.

Obviamente, nada disto foi relatado pelos evangelistas. Nem esses nem outros fatos não menos significativos.

O bondoso Abner ia regularmente à nossa cabana e se mostrava contente com os progressos de meu irmão. E, numa daquelas conversas, cada vez mais descontraídas, o
lugar-tenente de Yehohanan, que não esquecia, tocou de novo na velha questão:

- Então, se não acreditas na cólera e na justa indignação de Deus, tua vida não tem sentido...

Eliseu, que já estava a par de tudo o que tinha acontecido, trocou um olhar de cumplicidade com este que escreve. Prudentemente, ficou calado. E eu mantive uma certa
distância, respondendo apenas com meia verdade.

252

J.j. BENÍTEZ

- Pois se é justamente ao descobrir que Deus não castiga que a vida começa a ter sentido...

Abner arregalou os olhos, desconcertado:

- Como poder pensar uma coisa dessas?

Sorri satisfeito. E a imagem de nosso amigo se fez presente nos corações de duas das pessoas ali reunidas. Não sei se foi o instinto ou se foi o Destino, mas o fato
é que me aventurei a satisfazer a curiosidade de meu generoso vizinho.

- Conhecemos um Homem. Ele nos ensinou...

- Um profeta, como o Anunciador?

- Muito mais do que isso...

O homenzinho vasculhou na sua memória, procurando uma resposta a essa indicação nada fácil. Não encontrou. E, encolhendo os ombros, me pediu que eu esclarecesse
o mistério.

- Yehohanan falou sobre ele - arrisquei. - Yehohanan anuncia que "outro mais forte que ele está para chegar"...

Abner assentiu com a cabeça. A curiosidade tomou conta dele.

- Conheceis o que está para chegar?... Qual é o nome dele? -YesuaÁ...

O homem empalideceu. Chegou bem perto do meu ouvido e, baixando a voz, sussurrou:

-Jesus nascido em Belém deJudá... Yehohanan nos falou sobre ele em segredo... Diz que ele confirma todas as profecias. Mas, como sabeis?

Olhei-o bem dentro dos seus olhos. Creio que captou a mensagem.

- Então... - titubeou -, vós o conhecestes?

Não esperou uma resposta. Nem sequer se despediu. Saiu e foi se refugiar entre os homens armados, à sombra da sófora. Eliseu e eu achamos que ele tinha se ofendido.
Mas, com quê? Kesil levantou outra possibilidade: o "homem-sorte" estava assustado...

Não dei maior importância a isso. O halaq, como todo mundo, também tinha comportamentos erráticos. E já que toquei nisto, falando de atitude imprevisível, não posso
deixar de me referir à explicação de Eliseu sobre a bebedeira de uns dias antes e o misterioso brinde. Simples-

253

mente não houve explicação. De duas uma: ou ele não lembrava ou não queria voltar ao assunto. Decidi esperar. Não seria eu que o obrigaria a revelar aquele "amor
impossível"...

De vez em quando, o engenheiro se isolava, ia para a beira do rio, e ficava ali sentado durante horas. Nunca me atrevi a invadir seus pensamentos. Foi um erro. Hoje,
sabendo o que sei, creio que ambos nos equivocamos...

No sábado, 29, com o pretexto de adquirir provisões, voltei ao povoado de Damya. Kesil, o criado, ficou com meu companheiro. Na realidade, minhas intenções eram
outras. Já fazia tempo que eu queria visitar a casa de Nakebos, o nabateu. Eu sabia que o alcaide e Belsa estavam doentes, supostamente com os mesmos sintomas apresentados
por Eliseu. Queria comparar as informações. Talvez isso ajudasse no completo restabelecimento de meu irmão.

Os vendedores estavam certos. O capitão e o persa, assim como parte dos serviçais, contraíram a mesma infecção intestinal que Eliseu. Por falta de medicação adequada,
estavam em um estado de prostração mais acentuado. Reconheceram-me; porém, não me deram muita atenção. Estavam fracos. O único tratamento que recebiam consistia
de mel em abundância e infusões de arruda e hissopo. Deduzi que a doença acabaria se prolongando e, para aliviar seus sofrimentos, aconselhei que tomassem um de
meus "preparados" (de 15 a 30 miligramas de codeína por dia e um extrato de raízes de cinoglossa). Aquilo não alteraria o ciclo normal da patologia, mas, pelo menos,
amenizaria seus efeitos. Era o mínimo que podia fazer por eles...

E aconteceu pela segunda vez.

No dia seguinte, domingo, 30, daquele mês de tisri (setembro) do ano 25 de nossa era, o Anunciador apresentou-se novamente no vau.

Ouvimos um longo toque. O homem do sofar, ao vê-lo, deu o sinal do alto da árvore. Era bem cedinho. Abner e sua gente, como da vez anterior, correram para o rio.
Todos corremos.

Yehohanan apareceu no mesmo lugar e praticamente na mesma hora. A aparência também era a mesma. A colmeia colorida balançava levemente em sua mão esquerda. Avançou
a largas passadas e saltou sobre a mesma pilastra. Porém, desta vez, os discípulos não se mantiveram

254

a distância. Desde o primeiro momento, circundaram a base de pedras para proteger o pregador.

Eliseu, Kesil e eu ficamos na "praia" dos seixos redondos, misturados a um grupo de ansiosos acampados.

Ele esperou alguns segundos. Passou o olhar agressivo entre os presentes e foi erguendo os braços devagar, com teatralidade. Não mudou nada. Os dedos estenderam-se
em direção ao céu violeta, ainda adormecido, e exclamou com aquela voz rouca e atormentada:

- Sabeis que o espírito do Santo está em mim?

Eliseu, que estava vendo o Anunciador pela primeira vez, ficou mudo.

- Sabeis que vós o encontrareis em um lugar sagrado?... E apontou para as águas do Yaboq.

- Sabeis que aqui, neste vau, nosso pai Jacó pelejou com o Santo? Meu irmão não compreendeu e quis que eu lhe explicasse. Pedi

silêncio. Eu achava que tinha entendido a referência do pregador, mas não desejava perder nem uma só palavra. O tom arrogante não me agradou...

- Nestas águas, Jacó viu o rosto de Deus... Lutou com ele e o venceu... Então, Deus mudou seu nome, passando a chamá-lo de "Yisrael", porque lutou com Deus...

As pessoas, tão desconcertadas quanto o engenheiro, olhavam para a corrente. Os mais incrédulos chegaram a tocar nas águas.

Yehohanan conhecia bem as Escrituras, e estava narrando - à sua maneira - o episódio de Jacó ao atravessar a pé esse mesmo afluente do Jordão1. Entretanto, esse
lugar não era a paragem a que se referia o Gê-

O Génese (capítulo 32) descreve essa luta "encarniçada" entre o neto de Abráo e um homem singular. Jacó o identifica com Yavé. A luta com o varão prolongou-se até
o amanhecer: "E quando o estranho viu que não podia vencê-lo, pressionou a articulação do quadril, em sua luta com ele, e o desconjuntou. E lhe disse [a Jacó]: Solta-me
porque já é alvorada. Porém, Jacó lhe respondeu: Não me despedirei de ti, a menos que me dê tua bênção". Jacó chamou esse lugar de rosto de Deus, e explicou:
Olhei para Deus cara a cara e minha alma se salvou." É por isso que até hoje os filhos de Israel não comem o tendão contraído que fica na articulação do quadril,
porque um anjo de Yavé desconjuntou o de Jacó." (N. do A.)

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nese. Estávamos muito perto da desembocadura, e Jacó, pelo que se sabe, lutou com o estranho "homem" muito mais ao norte, rio acima, no local conhecido pelos arqueólogos
como "Peni El" (Penuel) ou "rosto de Deus". Mas o pregador parecia não se importar com a falta de precisão.

- Somos um povo santo porque lutamos com Deus e o vencemos... Ele nos compensou chamando-nos de Israel... Nós vimos seu rosto... Agora, ele reclama o que é seu...
Ele reclama a glória de Israel, arrebatada pela iniqüidade dos ímpios... Roma pagará...

Os acampados estavam pasmos e demoraram a reagir. Alguns, arrebatados diante da eloqüência de Yehohanan, responderam com gritos contra o invasor. Foi uma minoria.
Desta vez, a platéia não se entregou. E, apesar da veemência de seus gestos e do apoio de vários presentes, a atmosfera manteve-se calma. Os vendedores perceberam
isso, assim como os maqueiros. E todos se mantiveram em um cauteloso segundo plano.

- Eu também vi o rosto do Santo!... Eu vi sua face e continuo vivo!... Eu sou o ungido e o que prepara o caminho para a justiça!...

Eliseu não conseguiu se conter.

- Ele está louco!...

Estava louco? O que significava para o Anunciador ter visto o rosto de Yavé? Prometi a mim mesmo que averiguaria isso. Eu precisava falar com aquele homem estranho...

- Eu vi sua face! - repetiu sem muito êxito. - Seu espírito me deu sua bênção, assim como a Jacó!... E ele disse: "Arrependei-vos!"... Ê hoje

o novo reino!

Essa foi uma das raras variantes naquele segundo discurso. Particularmente, fiquei intrigado com a referência ao "rosto divino"...

O resto do "sermão" foi tão apocalíptico quanto aquele que eu tinha ouvido de dentro da água. Não houve mudanças. Apenas uma novidade no final (para este que escreve,
é claro). Pelo que fiquei sabendo em outras oportunidades, as falas do Anunciador giravam sempre em torno de três ou quatro pontos básicos: ele era um eleito, o
final dos tempos se aproximava, Deus exigia justiça e arrependimento e o messias libertador de Israel estava para chegar.

256

Devo confessar que, quando o conheci melhor, sua mensagem perdeu credibilidade. Yehohanan, na verdade, não era digno sequer de amarrar as sandálias doFilho do Homem.
Mas não vamos nos antecipar aos acontecimentos...

- Tive uma visão noturna - proclamou em seguida, avivando o interesse geral. - Diante de mim, apareceu uma grande estátua, enorme e muito brilhante... Era uma estátua
terrível...

A voz foi ganhando força, o tom foi se elevando entre as pausas estudadas. Yehohanan tinha dom para a oratória. Avaliava bem o uso das palavras e sabia introduzir
silêncios.

- ...Sua cabeça era de puro ouro... O peito e os braços de prata... O ventre e as costas de bronze... As pernas de ferro... Seus pés, parte de ferro e parte de argila...
e estava olhando quando, subitamente, caiu uma pedra...

Yehohanan se apoderou dos corações. E estendeu a pausa. Virei-me para Eliseu e sussurrei:

- Sem que qualquer mão interviesse, e veio parar junto à estátua, a seus pés...

Meu companheiro me olhou surpreso. Eu também tinha perdido o juízo?

Ato contínuo, ao ouvir o pregador ele compreendeu...

- ...sem que qualquer mão interviesse... E veio parar junto à estátua, a seus pés de ferro e argila...

O engenheiro tentou dizer alguma coisa. Não era preciso. Yehohanan estava recitando um texto que não era seu. O sonho, como tal, não era do Anunciador, mas sim de
Nabucodonosor... Yehohanan estava mentindo.

-Apedra os pulverizou!... Então, tudo se pulverizou ao mesmo tempo: ouro, prata, bronze, argila e ferro... e o vento os levou sem deixar rastro.

Os corações se apertaram um pouco mais. E o pregador soube tirar proveito disso.

- Eu vos anuncio que Roma e todos os reinos sofrerão esse mesmo fim!... O Justo os derrubará, fazendo surgir um reino que jamais

257

será destruído!... Permanecerá eternamente!... Ele, o Justo, me advertiu em sonhos!...

Yehohanan continuou recitando o profeta Daniel à sua maneira...

- ... E eis que o vi em minhas visões!... Vinha nas nuvens como um Filho do Homem!... E a ele foi dado um império, honra e reino, e todos os povos, nações e línguas
o serviram!... Seu Império é eterno!...

Silêncio. Ninguém se atreveu a fazer coro com o impulsivo gigante das pupilas vermelhas.

- Olhai para o meu rosto!... Não é como o dos demais!... Eu sou o escolhido!... Eu preparo o caminho desse Filho do Homem!... E vos anuncio que está próximo!...
Arrependei-vos!... Andai direito!

O resto era muito parecido com o que eu tinha ouvido anteriormente. Ameaças, advertências, admoestações: "O machado pronto para golpear", "A cólera divina disposta
a queimar e a degolar..."

Como eu dizia, quem ouviu um de seus discursos ouviu todos. E a imagem do Filho do Homem - doce, compassivo, terno e feliz - tocou no meu ombro, recordando-me que
"os planos do Pai são inescrutáveis!" Aceitei a sutil advertência. Nosso trabalho - como ele lembrou - consistia em observar. Apenas isso. E assim seria. O Destino
quis que conhecêssemos Yehohanan, o Anunciador, e que soubéssemos por ele, sem intermediários. Depois, cada um saberá como interpretar este apressado diário.

O final daquela aparição em público transcorreu sem incidentes. Como já disse, dessa vez os acampados não se mobilizaram. Não houve gritos nem histerismos. Quando
soou o sofar, os que desejavam submeterse à cerimónia da imersão (não eram todos), lentamente e com uma certa ordem, formaram uma fila.

A palavra-chave para o início dessas imersões foi sakak. Eu não tinha dúvida. Era um sinal previamente estabelecido entre Yehohanan e seu grupo. O pregador agiu
exatamente igual, com a mesma violência e desconsideração. Mais do que limpar os corpos e purificar as almas, parecia querer afogar os arrependidos...

E observamos outra coisa que também era nova para mim. De vez em quando, a uma indicação do pregador, o sujeito do chifre de carneiro

258

interrompia os toques e Yehohanan autorizava a presença dos homens das macas. Então molhava as mãos no rio e as levava ao rosto, ao peito, ao ventre ou às pernas
do doente, dependendo da enfermidade. A imposição era breve. E recordei o gesto de Abner com Eliseu. Quem imitaria quem? Eu não demoraria a averiguar isso...

Por mais que buscasse, por mais que explorasse o comportamento do Anunciador, não descobri um único sinal de ternura em suas palavras ou ações. Que personagem incrível
e, sobretudo, que grande manipulação histórica!

Uma hora depois de amanhecer, quando o sol começava a clarear os bosques e bambuzais, notei uma inquietação no pregador. Seu olhar se voltava reiteradamente para
aquele sol, cada vez mais intenso. Parecia preocupado. De súbito, em plena cerimónia de imersão, Yehohanan abriu o saco branco que trazia a tiracolo e puxou - não
sei como definir - uma espécie de talith ou manto (talvez a referência mais próxima seja o xale). Desdobrou-o cuidadosamente e, indiferente à expectativa geral,
cobriu-se com ele.

Meu companheiro e eu nos olhamos surpresos. O sol prometia incendiar, como todos os dias, mas não a essa hora. Por que estava se protegendo? E comecei a suspeitar
qual era o motivo...

Era um xale igualmente singular. À distância, não consegui identificar sua verdadeira natureza. Brilhava como ouro, mas, evidentemente, não era ouro. Parecia leve,
vaporoso e era bem amplo. Demorei algumas horas para resolver esse novo mistério. E posso assegurar que fiquei confuso, mais uma vez...

Subitamente, depois de olhar para o sol pela enésima vez, Yehohanan dirigiu-se ao seu segundo e lhe disse algo. Depois, sem mais, deu meia-volta. Pegou a colmeia
que tinha deixado sobre a pilastra e sumiu rio abaixo. As pessoas da platéia foram pegas de surpresa, e sem saber que atitude tomar, ainda permaneceram por algum
tempo dentro da água, assobiando. Abner anunciou que a cerimónia estava suspensa. Que aguardassem o aviso do sofar.

- O vidente retirou-se para meditar - explicou...

Acho que acreditaram: os acampados voltaram para a orla e os homens armados seguiram os passos de seu chefe.

259

O Anunciador desta vez não foi para o bosque das acácias, na margem direita do Yaboq. Para minha surpresa, vi o gigante se dirigindo para a sóíbra, com a cabeça
e os ombros cobertos pelo xale

te l "

amarelo ...

Nós também retornamos ao abrigo improvisado de bambus. A situação era nova. O vidente decidira meditar (?)...

Sentamos perto da cabana e ficamos observando Yehohanan e os dezoito homens por um longo tempo.

O Anunciador, ainda coberto, depositou a colmeia do lado de fora do guilgal, muito perto do atalho de terra vermelha. Alguns acampados se aproximaram do círculo
de pedra, mas, ao reparar no cilindro colorido, decidiram não arriscar a sorte. As abelhas funcionaram como uma eficientíssima arma de dissuasão.

Então o pregador começou caminhar ao redor da árvore, seguido por Abner e pelos outros homens. Não pareciam conversar. Limitavam-se simplesmente a acompanhar os
passos do vidente. Era uma imagem pouco gratificante, entre o cómico e o patético. E assim permaneceram por mais de uma hora...

Por pouco Eliseu não começou a rir. Devido à sua alta estatura e ao manto que estava vestindo, Yehohanan tinha de desviar toda hora dos pedaços de vasilhas pendurados
nos ramos da sófora. Mais de uma vez topou com um "óstraco", o que sempre provocava risinhos e cochichos dos discípulos. O vidente parava e olhava para trás tentando
descobrir quem ousava zombar dele. Os homens, pegos de surpresa, chocavam-se uns com os outros e acabavam abaixando a cabeça, atordoados e temerosos. Yehohanan não
falava nada, mas
- suponho - seu olhar dizia tudo. E voltava a caminhar...

A insólita "meditação", como eu dizia, prolongou-se por um bom tempo. Calculei umas cinqüenta voltas em redor do tronco. E, de quando em quando, o anunciador interrompia
a marcha e se dirigia à margem do rio, onde urinava abundantemente. Aquilo não era normal e logo associei a poliúria (transtorno na micção) a outros "sintomas" que
começavam a se manifestar. O instinto me advertiu...

- E esse é o precursor de Jesus?

260

A pergunta do engenheiro era mais do que justificada. A imagem atual de João, o Batista, pouco ou nada tem a ver com o que me foi "revelado". Mas é assim que se
faz a história...

Yehohanan parece ter se cansado das impertinentes vasilhas e foi se sentar ao pé da sófora. O sol se firmava. Nesse momento (dez da manhã, aproximadamente), a temperatura
no Yaboq superava os 20 graus Celsius. O dia prometia muito calor.

O vidente, coberto pelo talith, foi rodeado pelo grupo. Pelos gestos, interpretei como o turno das perguntas. De onde nós estávamos, era impossível ouvir. Deduzi
que o anunciador dava uma aula a eles.

E lá pela sexta (meio-dia) percebemos vários movimentos estranhos. Primeiro, todos os discípulos viraram a cabeça e dirigiram os olhares para estes exploradores.
Não sabíamos o que pensar. Depois, o lugar-tenente se levantou, aproximou-se do vidente e cochichou algo no seu ouvido. Abner também olhou para nós. Ato contínuo,
o samaritano e cinco de seus homens saíram do guilgal e vieram ao nosso encontro.

Estava acontecendo alguma coisa... Ficamos de pé. Abner, muito simpático, nos desejou paz. Depois, apontando para a árvore pediu que eu o acompanhasse.

- Quer falar contigo - acrescentou, sem dissimular sua satisfação.
- És um homem afortunado...

Não compreendi; porém, disposto a aproveitar a oportunidade, concordei, também sorrindo.

Abner deu meia-volta e fui atrás dele. Mas, no mesmo instante, os cinco homens armados se interpuseram no meu caminho. Um deles, quase sem palavras, obrigou-me a
levantar os braços. E ali mesmo, diante dos olhares atentos dos outros, fui revistado.

Eliseu me deu um sorriso amargo e eu entendi seu pensamento.

Os armados, satisfeitos, me franquearam a passagem. Entretanto, ao chegar ao círculo de pedras, me detive e esperei. Não desejava novos incidentes, e muito menos
um gladius na garganta...

Abner, que já estava no centro do guilgal, compreendeu minha hesitação e, agitando as mãos, encorajou-me a ultrapassar a barreira.

261

O vidente, mudo, continuava sentado, com a cabeça e parte do corpo cobertas pelo xale dourado. Os homens, também em silêncio, me observavam com curiosidade.

Obedeci e fui andando até a sófora.

Quando me aproximei do Anunciador, reparei na verdadeira natureza do manto que o cobria. Tive uma sensação incómoda... Era cabelo humano! O talih era um trançado
de cabelos ruivos, muito semelhantes aos do vidente. Imaginei que tinha sido confeccionado com a cabeleira do homem das sete tranças. Como era possível? As tais
tranças iam até os joelhos. Quanto cabelo era necessário para confeccionar um xale com aquelas características? Tudo tinha uma explicação...

Outra lembrança daquele encontro inesperado com o Anunciador foi um odor acre, um cheiro inconfundível de suor humano. Era tão forte que fazia do entorno da sófora
um lugar pouco recomendável, quase asfixiante. Logo imaginei que alguns dos homens reunidos ali não se lavavam há muito tempo. Errei de novo.

Yehohanan me observou da penumbra de seu rebuço. Será que me reconheceu? Sabia que era o mesmo indivíduo que estava escondido nas águas do rio quando ele se preparava
para falar aos acampados? O silêncio e a observação desabusada se prolongaram por mais de um minuto. Fiquei preocupado. Não tinha jeito. Aquele homem não parava
de me examinar...

- É verdade que conheces YesúaÁ, da casa de Davi e filho do naggar de Nazaré?

O tom arrogante me pôs em alerta. Todos esperavam uma resposta afirmativa.

Evidentemente, ele se referia ao Mestre. O termo naggar em aramaico, como tekton em grego, significava "centralista de obras" (uma mistura de carpinteiro de exteriores,
pedreiro e "arquiteto"). Segundo minhas informações, essa era a verdadeira profissão de José, o pai terreno de Jesus.

Ele não me permitiu responder. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, foi fazendo uma pergunta atrás da outra, manipulando meus silêncios...

" 262

J.). BENÍTEZ

- Sabia que o conhecias... Diz!... Onde ele está agora?... Quando inaugurará o reino?... Compreendo... Pediu-te que guardasses silêncio... Somos sagrados!... Há
espiões por toda parte!... Pedirei que leves uma mensagem para ele!...

Levantei a mão esquerda interrompendo-o.

- Não gosto de falar com quem oculta o rosto...

Meu tom também foi firme. E o Anunciador entendeu. O silêncio foi um mau prelúdio.

Yehohanan se levantou e, com ele, o resto do grupo. Voltou a perscrutar-me da obscuridade que lhe proporcionava o talith e, numa clara tentativa de me intimidar,
deu um passo e se inclinou ligeiramente sobre este que escreve. Percebi a ameaça, e os dedos, de forma lenta e dissimulada, foram pousar na extremidade da "vara
de Moisés", e ficaram acariciando o cravo dos ultrassons. Não estava disposto a me deixar subjugar por nenhum daqueles fanáticos.

Não recuei. Nem sequer pestanejei. A altura descomunal do pregador era um "argumento" demolidor, mas eu resisti. Não cederia diante daquele energúmeno.

Confuso diante da minha obstinação, aproximou-se um pouco mais. O xale amarelo quase me roçou. E o mau cheiro do suor bateu no meu rosto. Permaneci imperturbável
(aparentemente).

- Sabes quem sou? - explodiu. - Sabes com quem estás falando? Sabes que fui visitado pelo espírito de Deus?... Sabes que sou dEle?

Os gritos, envolvidos por uma soberba mais do que preocupante, fizeram com que os homens recuassem. Eliseu e Kesil, assustados, correram até o limite das pedras
brancas. Meu irmão deve ter notado a posição da minha mão direita, na extremidade da vara, e ficou atento. Felizmente, não ultrapassou o guilgal.

- DEle! - repetiu imponente, ao mesmo tempo que levava a mão esquerda a um quarto do meu rosto. - Sou de Deus!

Faltou pouco para que eu ativasse o cravo. A mão enorme, com uns vinte e cinco centímetros de comprimento, poderia ter me derrubado com um simples empurrão... Mas
não era essa a intenção do Anunciador. Na

263

palma, sobre a pele enrugada e calejada, distingui algumas letras. Parecia uma tatuagem... E li: "Seu". Em hebreu, literalmente: "Eu, do Eterno". Tinham sido gravadas
a fogo, como o sol na testa de Belsa!

"Seu" ou "dEle" ("de Yavé") era um "sinal" que confirmava o "pertencimento", de corpo e alma, ao Deus do Sinai. Embora o Levítico proibisse formalmente as tatuagens
(19, 18), os judeus mais religiosos ou fanáticos gostavam desse tipo de manifestação externa, que revelava sua piedade e seu apreço pelo Deus dos patriarcas. Muitos
se apoiaram em Isaías (44, 5) para gravar a "marca" em questão, seja na palma da mão (sempre na esquerda, visto que a direita normalmente era utilizada para se limpar
depois de defecar), seja na testa. Tudo dependia do rigor religioso do indivíduo. Para as mulheres era proibido...

E gritou de novo para mim, com a voz estrangulada pela raiva:

- Sou dEle!... Quem como eu?... Que se levante e fale!

O profeta Isaías voltava à sua boca, e ele utilizava o texto como bem entendia. Nesse momento pressenti algo. Yehohanan não era um homem normal. O engenheiro, com
sua habitual intuição, tinha acertado em cheio. Mas precisei de algum tempo para me convencer e, sobretudo, para demonstrar isso...

- Ninguém me dá ordens! - clamou, com a mão enorme bem aberta e as letras expostas, acenando à esquerda e à direita com a clara intenção de que todos vissem a marca.
- Sabes que posso mandar vir fogo do céu e te queimar?

Eu é que podia. Bastava ativar o laser de gás... mas me contive.

Dei meia-volta e me retirei. O pregador permaneceu ali com seu grupo, todos tão desconcertados quanto Eliseu e o criado...

O resto do dia transcorreu dentro de uma certa normalidade. Meu companheiro, em razão do que acabara de presenciar, sugeriu uma mudança de planos. Já tínhamos visto
o suficiente. Sabíamos quem era o Anunciador. Era melhor regressar a Nahum. O mestre é que merecia toda nossa dedicação...

Deixei-o falar. Em parte, ele tinha razão. Porém, seu estado de saúde ainda não era o mais recomendável. Não convinha precipitar as coisas.

264

j.j. BENÍTEZ

E foi o que eu lhe disse. Permaneceríamos no vau até segunda ordem.

Estávamos nesse ponto quando Yehohanan e seus homens apareceram de surpresa diante destes exploradores, deixando-nos embasbacados. Era por volta da décima (quatro
da tarde) e faltava uma hora e meia para o ocaso. Estávamos sentados à sombra da choça de bambus e não os vimos chegar. Kesil se assustou e saiu para o lado.

Emudecemos. A "vara de Moisés" estava à minha direita, apoiada na parede do abrigo, longe demais para que eu pudesse alcançá-la do ponto onde me encontrava.

Abner, que vinha à frente, adiantou-se. O Anunciador, coberto com o xale, permanecia imóvel, rodeado por todos os armados. Os rostos pareciam imperturbáveis, como
sempre. Alguns tinham os dedos serrados sobre a empunhadura do gladius.

Não conseguia entender...

- Ele quer se desculpar...

O kuteo exibiu o sorriso catastrófico de sempre. Isso só serviu para confundir de vez tanto a mim como ao engenheiro. O vidente queria pedir desculpas?

Não tive tempo de me manifestar. Yehohanan foi empurrando sem cerimónias os dois ou três armados que o protegiam pela frente e veio em nossa direção. Abner se esquivou
rapidamente. O pregador trazia entre as mãos enormes um recipiente de madeira, cuidadosamente coberto com um pano. Não sabíamos o que fazer. Será que levantávamos
ou ficávamos sentados? Não tivemos opção. Yehohanan ajoelhou-se diante destes exploradores e depositou a gamela no chão. O cheiro de suor foi como uma paulada. Seus
homens não se moveram.

Em seguida, silenciosamente, ele segurou o talith e jogou-o para trás descobrindo a cabeça. Era a primeira vez que o observava tão de perto. Estremeci. Depois senti
piedade dele. E tentei corresponder ao gesto de boa vontade com um sorriso amplo e sincero. Consegui em parte.

Ainda que estivéssemos à sombra, a tragédia daquele homem apareceu em toda sua crueza. A mancha em forma de borboleta talvez fosse o de menos. O que doía o coração
era ver aqueles olhos de um azul celestial belíssimo e, ao

265

mesmo tempo, endiabrados, com as pupilas cor de fogo. Olhá-lo nos olhos era um suplício. Além do albinismo ocular, ele apresentava um persistente e incómodo nistagmo
vertical (uma oscilação do globo em sentido vertical provocada por espasmos involuntários dos músculos motores). Esse contínuo subir e descer dos olhos provocava
estranhas reações em seus interlocutores, quase sempre de rejeição. O resto também não ajudava: orelhas longas com lóbulos carnosos e oscilantes, boca grande com
os dentes amontoados, lábios grossos e sensuais, nariz achatado, glabela (intercílio) proeminente e abóbada craniana alongada, como as mãos e os pés. O tórax apresentava
uma ligeira depressão em forma de funil (pectis excavatum). Seu rosto era duro e impressionante. Até os mais avisados experimentavam uma rejeição natural.

Nunca o vi sorrir. Nunca... Olhava como um falcão. Mais do que olhar: cravava os olhos. Como já disse antes, não era fácil perceber um traço de ternura. Era estranho,
muito estranho...

- E agora, diz-me... Continuava montado na arrogância.

- Onde está?... Quando inaugurará o reino?

Yehohanan não tinha o menor desejo de consertar as coisas ou de se desculpar. Quem fez isso foi seu segundo. O Anunciador se aproximou por interesse. Pouco a pouco,
ia desenhando seu perfil: era frio e calculista, só se interessava por suas idéias, por seus objetivos. E eu fiz a mesma coisa. Aceitei responder por interesse...

Contei-lhe do nosso encontro recente nas montanhas do Hermon, "aparentemente por casualidade". Não me aprofundei nem lhe passei qualquer informação que pudesse ratificar
suas suspeitas sobre o Mestre. "Tudo se limitou a um conhecimento frutífero e recíproco." O Galileu, de fato, nos impressionara por sua inteligência e pela clareza
de idéias.

- Onde ele se encontra?

A pergunta denunciou suas intenções. Como Abner já tinha insinuado, o pregador estava tentando encontrar seu primo distante. Fazia alguns meses que tinha iniciado
o caminho de busca, ao mesmo tempo que pregava e batizava.

Respondi com a verdade...

266

- Não sabemos...

Suponho que acreditou em mim. E, habilmente, levantou uma questão que não havíamos abordado até esse momento.

- Por que dizes que ele é o messias esperado?

Eu não tinha dito isso. Nem sequer tinha sugerido. E não caí na armadilha.

- O messias? Somos gregos... Por que iríamos acreditar em um libertador judeu?

E reafirmei:

- ...Esse Homem é um ser especial. Foi isso o que eu disse.

Seus olhos me devassaram. Não sei se procurava segundas intenções em minhas palavras. Imagino que o agradaram.

- Sei que te reunirás com ele em breve - acrescentou, deixando-nos surpresos. - Pedirei que leves uma mensagem. Mas, antes, deixa-me fazer...

Aproximou-se e colocou suas mãos enormes sobre minha cabeça. Não fez o menor movimento. Fechou os olhos e ergueu o rosto para o céu. Permaneceu assim por algum tempo,
murmurando algo incompreensível. Às vezes suspirava profundamente e continuava sua "reza" (?). Eliseu, tão perplexo como eu, continuou mudo. Os mais surpresos, entretanto,
eram os dezoito seguidores. Os olhos do bondoso Abner se encheram de lágrimas. Supus que aquilo era importante, pelo menos para Yehohanan e seu grupo. De minha parte,
senti calor, um calor intenso que, sem dúvida, vinha de suas mãos grandes e toscas. Eu não tinha explicação. O sol já estava se retirando para o Jordão. Aquela "energia"
(?) nada tinha ver com a temperatura ambiente.

A imposição de mãos foi providencial... Concluída a cerimónia, Yehohanan voltou a falar. A voz, rouca e abafada, chegou "cem por cento" a todos os que assistiam
ao encontro:

-Agora, para nós, tu serás "Ésrin"...

"Esrin"? A palavra, em aramaico, significava "vinte"? O que ele quis dizer com isso?

-... Teu nome é Ésrin - informou solenemente. - Olha... Perguntalhe: quando tempo mais devo esperar?... Compreendeste?

267

Assenti com a cabeça, sem me atrever a pronunciar qualquer palavra. E isso foi tudo. O pregador se levantou, pegou a misteriosa gamela e foi depositá-la nas mãos
do engenheiro. Fez apenas um comentário:

- Elas trabalham para mim... O encontro terminou ali.

Yehohanan retornou ao guilgal. Conversou um pouco com seus homens e, depois de pegar de volta a colmeia colorida, embrenhou-se no vau, afastou-se rapidamente e desapareceu
no bosque vermelho e verde das acácias. De novo, aquele lugar misterioso... Meu companheiro, ao ver que ele tinha entrado na mata fechada, perguntou:

- Está pensando a mesma coisa que eu?

Respondi que sim. Afinal, o que se passava na outra margem? Porque ele abandonava seus discípulos? Por que no ocaso?

Foi assim que surgiu um novo desafio - averiguar o porquê daquelas estranhas escapadas - e também uma alcunha, "Esrin", o nome que recebi de Yehohanan. Segundo o
Anunciador, eu era o "arauto" número vinte...

O "batismo" não me perturbou. Como eu disse, isso seria útil para os nossos propósitos.

Eliseu destampou o recipiente para ver o que tinha ganhado do pregador. Kesil sorriu satisfeito. Eu também. Parecia um bom presente. De fato, "elas trabalhavam bem".
O criado provou o conteúdo e sentenciou: "De primeira qualidade..."

Fiquei pensando. Por que Yehohanan tinha dito que "elas", as abelhas, trabalhavam para ele? Pois era esse o presente, uma generosa porção de mel (de alfazema, segundo
Kesil), densa, alaranjada, dulcíssima e muito apropriada para combater as infecções gastrintestinais2. Esse foi um dos raros gestos de "humanidade" que observei
no Anunciador durante todo o tempo em que estive próximo dele. Agora, sabendo o que sei, não o condeno...

2 O mel, entre outras propriedades, é antisséptico. Ele age sobre a flora intestinal combatendo infecções de todo tipo. É particularmente indicado, por exemplo,
para a disenteria, e também previne as fermentações. Elementos como ácido fórmico, enzimas, essência e levulose agem sobre o intestino favorecendo o peristaltismo
(movimento característico que provoca o avanço de seu conteúdo). (N. do M.)

268

Se o mel foi benéfico, a deferência do pregador com este que escreve foi muito mais. Aquela designação maluca e a mensagem que eu devia levar a Jesus de Nazaré abriram-me
todas as portas. Uma mensagem que, naturalmente, jamais transmiti ao Mestre...

A partir desse dia, como eu disse, passei a ser "Vinte". Até o meu companheiro adotou o cognome, embora de uma forma um pouco debochada. Isso não importava. Tive
acesso ao guilgal (incrível Destino) e, particularmente, ao coração do grupo. Desde então, acolheram-me como mais um, me protegeram e, de certo modo, me invejaram.
Seu ídolo confiava naquele estranho. E eu soube tirar partido das circunstâncias.

Para começar, durante o tempo em que permanecemos no "vau das Colunas", tratei de saber tudo sobre Yehohanan. Abner foi quem mais me ajudou. Era o mais bem informado.
Um belo dia, complacente diante da curiosidade insaciável do Vinte, foi me mostrar um cesto onde guardava seu "tesouro", cuidadosamente envolvido em um lenço, e
que era fruto de quase sete meses seguindo seu ídolo. Desfez o laço e depositou em minhas mãos pecadoras um maço de papiros.

- Aí está o que buscas...

As folhas vegetais continham textos escritos em aramaico, que eu li intrigado. Ao me inteirar do conteúdo, olhei para ele sem esconder

meu espanto.

- Quem escreveu?

- Eu, naturalmente. Tudo vem dele... Podes ler. Depois conversamos.

Abner tinha começado a redigir suas "memórias" sempre em torno do Anunciador. Ali encontrei dados sobre sua vida, os discursos, seu pensamento e seus principais
objetivos, inclusive pormenores sobre os outros dezoito "arautos". Li avidamente, mesmo reconhecendo que procedia de uma mão interessada e, até certo ponto, pouco
objetiva. Porém, como eu dizia, foi útil e interessante. Ficou mais fácil entender Yehohanan.

Tentarei sintetizar o que o Destino me revelou nessas jornadas. Yehohanan nasceu no dia 25 de nisán (março) do ano 7 a.C. Portanto, tinha cinco meses e quatro dias
a mais que seu parente distante,

269

J.j. BENÍTEZ

Jesus (as respectivas mães - Isabel e a Senhora - eram primas em segundo grau). O nascimento, na realidade, ocorreu na madrugada de 25 para 26 (talvez próximo da
última vigília, a do alvorecer: nessa época, por volta de
6 horas).

Tudo aconteceu em uma aldeia situada a oeste de Jerusalém, a pouco mais de uma hora de caminhada (em torno de seis quilómetros). O lugar, naquele tempo, recebia
o nome de "Manancial da Vinha" (possivelmente "Ain Kárim" ou "Ein Kárim")3. Era um punhado de casas (trinta ou quarenta), habitadas por pastores e camponeses. Segundo
minhas informações, foi parto normal. Antes disso, no entanto, nos meses anteriores, ocorreram alguns fatos pouco comuns. Ou melhor, nada comuns...

A mãe se chamava Isabel (ocidentalização do nome hebraico "Elisheba" ou "Meu Deus sete vezes"). Era uma mulher instruída, de boa família, descendente das "filhas
de Aaráo", irmão de Moisés4. Quando Yehohanan nasceu, devia ter uns 53 anos. Ou seja, era uma velha (a expectativa de vida para os varões não superava a média de
35 ou 40 anos. As mulheres viviam um pouco mais).

O pai (Zacarias ou "Zejaria" - "Recordado por Deus") era sacerdote. Pertencia ao clã dos Abiá (oitava classe sacerdotal5), uma das famílias mais respeitadas nas
questões ligadas ao culto a Yavé. Ninguém conseguiu me esclarecer com exatidão a idade do pai de Yehohanan quando do nascimento do Anunciador. Talvez tivesse 60
anos, ou até mais. Esses dados, como espero mostrar no momento adequado, eram muito significativos...

Eu não estava enganado.

Zacarias dividia seu tempo entre uma granja de ovelhas, localizada no "Manancial da Vinha", e o Templo, na vizinha Cidade Santa (Jerusalém). Ali, ele desempenhava
seu trabalho como simples sacerdote, um entre dezoito mil que, supostamente, formavam a lista do chamado Segundo Templo. Recebia o salário correspondente, trabalhando
à razão de uma semana a cada seis meses. A venda de ovelhas era seu principal sustento. Zacarias também era um excelente tosquiador.

Não tiveram filhos. Quando Yehohanan nasceu, Isabel e seu esposo acabavam de completar quarenta anos de matrimónio. Aquilo me chamou a atenção. Indaguei e sempre
obtive a mesma resposta: Isabel era estéril, "amaldiçoada" (!). A sociedade judaica nem sequer considerava que a esterilidade pudesse ser de origem masculina...

3 Ain significa "fonte ou manancial" e Kárim ou Kárem é a vocalização do grupo radical sintético krm ("vinhedo"). Existe um segundo significado para krm: "nobre"
ou generoso".

Segundo a tradição das Igrejas, o Batista nasceu em Jerusalém (Eutímio, Girolano e Agostinho, entre outros), na cidade de Hebron, ao sul (Cesare Baronio), em Maqueronte,
Sebaste, em Beit Zekaria (sudoeste de Belém) e em Beit Sharar (suposta tumba do profeta Zacarias, também próxima a Belém). Nenhuma dessas versões tem fundamento
sólido. (N. do M.)

4 Aarão, irmão mais velho de Moisés, também acompanhou o povo hebreu até a chamada Terra Prometida. Foi nomeado sumo sacerdote por Yavé. Faleceu antes de pôr os
pés em Canaã. As mulheres descendentes de Aaráo eram consideradas da "família sacerdotal" (ver Êxodo e Números). Dada a possível gagueira de Moisés, Aaráo o substituía
na hora da falar com o faraó, que deveria facilitar a saída do Egito do povo hebreu. (N. do M.)

A intricada burocracia sacerdotal na época de Jesus dividia-se em vinte e quatro classes. Cada uma desempenhava uma semana de serviço no Templo, de sábado a sábado.
Vinham de todo o país, especialmente das cidades "levíticas". Assim foi estabelecido desde os tempos de Davi (mil anos antes de Cristo). Os sacerdotes se reuniam
no dia indicado e passavam a primeira noite no pátio do Templo. Ali procediam ao sorteio dos "treze ofícios": imolação, limpeza, queima de perfumes, toque de trombetas,
bênção do povo etc. Durante essa semana, o turno correspondente era responsável por tudo o que dizia respeito ao Templo (da administração da justiça à administração
do dinheiro). Embora eu não disponha dos dados exatos, cada seção semanal reunia cerca de setecentos sacerdotes e levitas distribuídos em 156 seções diárias. Isso
dá um total de uns dezoito mil sacerdotes e levitas. Nem é preciso dizer que o turno que coincidia com uma festa era "particularmente beneficiado", visto que o número
de animais sacrificados e o volume das doações aumentavam consideravelmente. (N. do M.)

270

271

Abner não soube esclarecer a seguinte questão: por que Zacarias não repudiou sua mulher? As severas leis de Moisés previam essa possibilidade. E as famílias sacerdotais
eram mais rigorosas6. A finalidade do matrimónio era a prole. Segundo Yavé, se a mulher não estivesse capacitada para dar filhos, o varão podia divorciar-se ou procurar
novas esposas. O contrário não existia...

Imaginei que Jacarias amava Isabel e por isso não a abandonou. As leis judaicas também tinham limite... Ainda assim, teria de perguntar ao próprio Yehohanan. Mas,
como colocar uma questão tão delicada? O Destino soube fazê-lo... e de que maneira!

Como eu dizia, começaram a ocorrer alguns fatos insólitos na vida do casal e daquela aldeia simples e esquecida. Durante o mês do tammuz (junho) do ano 8 a.C, muitos
vizinhos do "Manancial da Vinha" assistiram assombrados às evoluções sobre casas e campos de "esferas luminosas" pequenas e velozes, que afugentavam o gado e que
chegavam a atravessar muitos e terraços. Apareciam ao entardecer e desapareciam com a alvorada. Foi um sinal. Falavam de uma catástrofe anunciada por esse raz ou
"mistério" (mais do que mistério, poderia ser traduzido como "desígnio

6 Segundo Yavé (Levítico 21, 7-8), a dignidade e a pureza de origem nos sacerdotes impediam que estes contraíssem matrimónio com divorciadas, prostitutas ou mulheres
que não fossem virgens. Só podiam tomar como esposas mulheres virgens ou viúvas, desde que fossem israelitas e com uma ascendência genealógica pura. Se o sacerdote
não tivesse filhos, podia voltar a se casar, mas nunca com uma viúva estéril. Era proibido igualmente o matrimónio com uma prosélita ou com uma liberta, embora não
com sua prole, desde que a mãe fosse judia. A essas leis, sujeitas à arbitrariedade e à injustiça, o Deus (?) do Sinai acrescentou a proibição de desposar a halúsah
e a mulher estéril (Deuteronômio 25, 9). A halúsah era a viúva que tinha se recusado a casar com o irmão do esposo falecido (matrimónio levirático). Quanto à estéril,
um sacerdote só era autorizado a toma-la como esposa se já tivesse mulher e filho. O rabi Yudá proibia sem exceções este último tipo de matrimónio. Se um sacerdote
descumprisse a norma, a lei se abatia sobre ele e seus descendentes com extrema severidade. O matrimónio era declarado ilegítimo e os filhos, se houvesse, perdiam
o direito de ser sacerdotes como o pai. Aconteceu algo parecido com Flavio Josefo quando, sendo prisioneiro dos romanos, foi obrigado por Vespasiano a se casar com
uma judia prisioneira de guerra, ou seja, suspeita de ter sido violada. (N. do M.)

272

J.). BENÍTEZ

misterioso"). Naturalmente, para aquela gente, o raz era obra de Yavé ou de seus "servos", os espíritos maléficos.

As notícias sobre os "fogos inteligentes" se espalharam rapidamente pelo pequeno país. E foram muitos os escribas que consultaram os textos sagrados, fazendo hippa
(profetizando) sobre esses eventos. Os evangelistas também não falam disso.

Foi no final desse mês de junho que ocorreu o segundo fato extraordinário na aldeia de Yehohanan. Isabel, que também testemunhou o raz quando voltava com o gado
das montanhas vizinhas, recebeu uma "visita" bastante inusitada. Nos escritos de Abner que, por sua vez, foram ditados pelo Anunciador, falava-se de "um varão de
estatura considerável, cabelos longos e amarelos e com uma vestimenta como a dos persas" (de calças). Emitia luz em todo seu redor. Era forte, musculoso, com o rosto
áspero, "como que trabalhado a martelo e cinzel". No peito luzia um "desenho" (?): uma espécie de bordado vermelho que reproduzia três círculos concêntricos.

Círculos? A imagem lembrou-me alguma coisa...

Isabel estava sozinha. Nesses dias, seu marido estava em ofício no Templo de Jerusalém. Era o turno da seção semanal da qual fazia parte. O "homem de luz" - como
o definiram - não moveu os lábios, mas Isabel ouviu palavras em sua cabeça. No início, a presença do ser no curral da casa assustou-a. Ficou imobilizada (talvez
de medo). Queria gritar e pedir ajuda. Não foi capaz. E ouviu o seguinte: "Enquanto teu marido, Zacarias, oficia perante o altar, enquanto o povo reunido roga pela
vinda de um salvador, eu, Gabriel, venho anunciar-te que em breve terás um filho que será o precursor do divino Mestre. Tu o chamarás pelo nome de Yehohanan (João).
Crescerá consagrado ao Senhor, teu Deus, e, quando crescer, alegrará teu coração, pois trará almas a Deus. Anunciará a vinda daquele que cura a alma de teu povo
e o libertador espiritual de toda a humanidade. Maria será a mãe desse menino, e também aparecerei diante dela."

Eu conhecia a mensagem de Gabriel. A Senhora e seus filhos já tinham me informado em outro momento7. Os dois textos eram pratica-

Ver informação em Masada. Cavalo de Tróia 2. (N. do A.)

273

mente iguais. Cinco meses depois, em meados do marjesván (novembro), Maria, na época quase uma menina, recebia uma "visita" similar, protagonizada pelo mesmo "homem
luminoso", Gabriel8. O anúncio à Senhora ocorreu dentro da casa de Nazaré.

Pelo que pude deduzir de encontros posteriores com o Anunciador, a presença do "homem de luz" diante de Isabel, e pouco depois diante de Maria, e, sobretudo, as
mensagens, marcariam profundamente a vida de Yehohanan. Seu comportamento estava intimamente ligado a esses fatos sobrenaturais. À margem de outros "problemas" a
que me referi antes, aquilo o influenciou por completo. Era o precursor do messias! O anunciador! Aquele que abre caminho e o que prepara!

Lamentavelmente, nem Isabel, nem Maria, nem tampouco Yehohanan entenderam o verdadeiro significado das palavras de Gabriel... E durante anos, a mãe do Anunciador
se encarregaria de avivar a chama do grande erro: Yehohanan seria o segundo no poder. Yehohanan ocuparia um lugar de honra na divisão do reino. Yehohanan, como o
Messias, como Jesus de Nazaré, seria um sallit, um homem com força (tanto física como mental). E Yehohanan se considerava um eleito, um ser especial, dotado da graça
da profecia e da cura. Ele tinha razão, até certo ponto...

Era por isso que - segundo Abner - ele traçava círculos de pedra onde se encontrava. O guilgal era uma expressão material de sua capacidade como sallit, A vê-lo,
todos sabiam que estavam diante de um homem

Nessa segunda aparição, o anjo Gabriel expressou-se assim: "Venho por ordem daquele que é meu Mestre, ao qual deverás amar e manter. A ti, Maria, trago boas notícias,
já que te anuncio que tua concepção foi ordenada pelo céu... No devido tempo, serás mãe de um filho. Tu o chamarás YesúaÁ (Jesus ou "Yavé salva"), e inaugurará o
reino dos céus sobre a Terra e entre os homens... Fala disto tão somente a José e a Isabel, tua parente, para quem também apareci e que logo dará à luz um menino
cujo nome será Yehohanan. Isabel prepara o caminho para a mensagem de libertação que teu filho proclamará com força e profunda convicção aos homens. Não duvides
de minha palavra, Maria, já que esta casa foi escolhida como morada terrestre deste filho do Destino. Tem minha bênção. O poder do Altíssimo te sustentará... O Senhor
de toda a Terra estenderá sobre ti sua proteção..." (N. do A.)

274

"santo", capaz de impor sua vontade sobre o mal e sobre a natureza. Era uma velha crença que remontava aos tempos do profeta Elias (oitocentos anos antes de Cristo9).
Eu fui um dos poucos que não o levaram a sério, e quase paguei com a vida por isso...

Mas, voltemos a Isabel e à singular "visita" do "homem luminoso". A mulher, primeiro assustada e depois desconcertada, não disse nada a ninguém, nem mesmo a Zacarias.
Passados alguns dias, como é natural, chegou a duvidar até de si mesma. Será que tinha sonhado? Era fruto de sua mente, já velha e cansada? A gravidez, no entanto,
era real. E, pouco a pouco, ao longo desse verão do ano 8 a.C., quando os sinais da gestação começaram a se tornar evidentes, Isabel caiu na mais profunda crise.

Como era possível? Tinha 53 anos, e há muito tempo entrara na menopausa. Não havia ovulação. Como explicar aquela gravidez? Além disso, segundo a sociedade em que
vivia, ela era estéril...

Seria verdade? Fora visitada por um anjo? Deus é que tinha feito aquele milagre? Isabel foi se convencendo dia a dia. Era verdade... E, no quinto mês, em novembro,
decidiu comunicar o fato ao marido.

Zacarias reagiu como era de se esperar. Primeiro achou que era brincadeira. Depois, diante da insistência de Isabel, passou ao assombro e, finalmente, ao ceticismo.
Grávida? Na sua idade? Por obra do Justo?

A inquietação do velho sacerdote aumentou quando, de fato, ninguém mais podia duvidar que a mulher estava esperando um filho. Dezembro e janeiro foram terríveis.
Zacarias achou que fosse enlouquecer. Não que duvidasse da honestidade de Isabel, velha e estéril. O que ele não

9 Entre os judeus, e também em outras culturas, existia a crença de que determinados homens podiam dominar as leis da natureza. Alguns os chamavam de asap (adivinho
ou bruxo), outros de ittim ou sallit. Eram capazes de atrair a chuva, de acabar com uma praga ou de extinguir um incêndio usando apenas a sua palavra. Para isso,
desenhavam um círculo, sentavam-se no centro dele, e rezavam até que Deus lhes concedesse o milagre em questão. Um desses magos - talvez o mais famoso - foi Honi,
o "Desenhador de Círculos", que Flavio Josefo chama de Onias, o Justo (século I a.C.). Sempre aparecem em confronto com os sacerdotes, legítimos e únicos responsáveis
pelo aparecimento das chuvas em toda Israel. (N. do M.)

275

entendia era o porquê daquela escolha. Conhecia bem as profecias sobre o libertador (mais de quinhentas), mas aos 60 anos de idade já não era tão crédulo. Por que
aceitar que aquele filho era o precursor do Messias? Quem eram eles? Ninguém. Quem era Maria, a parente de Isabel? Ninguém... Será que as mulheres estariam confabulando?
Zacarias também afastou essa idéia. Por que iam inventar uma história dessas? E se for uma menina?

A confusão era tal que Zacarias acorreu ao Templo e rogou a Deus que lhe desse um sinal. O atormentado sacerdote não comentou sobre isso naquele momento. O pedido
a Yavé ficou guardado em seu coração. Só algum tempo depois ele contaria a Isabel, diante do ocorrido...

Em fevereiro do ano 7 a.C., Maria, a Senhora, na época uma jovenzinha casada com José, foi ao "Manancial da Vinha" para visitar Isabel. Faltavam dois meses para
o nascimento de Yehohanan. Esse foi o primeiro encontro das duas grávidas. Maria já estava na décima semana, aproximadamente.

Segundo a versão do Anunciador, transmitida ao seu segundo, as mulheres falaram sobre suas experiências, em particular sobre como foi a aparição de Gabriel para
uma e para outra, o que reforçou crenças e deixou ainda mais confuso - se isso ainda era possível - o atordoado Zacarias.

Naquele encontro histórico, foram traçados os primeiros planos para Jesus de Nazaré e seu lugar-tenente Yehohanan. Isabel e Maria, muito animadas, faziam e desfaziam.
O Mestre reuniria os exércitos, expulsaria o invasor e tomaria posse do trono de Davi. Elas seriam as mães do rei e do "arauto" do rei. O mundo estaria a seus pés.
Jesus - como tinha anunciado o "homem de Luz" - era o filho da Promessa ou do Destino. Yehohanan prepararia esse reino de glória esplendor, aguardado há séculos.
Estava muito claro...

Como já disse outras vezes, nem a Senhora nem sua prima em segundo grau entenderam o significado das expressões "reino dos céus" e "libertador espiritual". E ali,
na casa de Zacarias, nasceu um mal-entendido que obscureceu a vida do Galileu.

E então aconteceu o terceiro fato extraordinário. Foi no dia 11

276

de fevereiro. Fazia pouco mais de uma semana que Maria havia chegado ao "Manancial da Vinha". Desta vez, o protagonista foi o desolado Zacarias...

Assim constava nas "memórias" de Abner: "Foi um sonho, um hélem [mais que um sonho, uma visão]. Zacarias sonhou que estava no Templo de Jerusalém. Era um dos turnos
em que oficiava. No sorteio, coube-lhe o incenso [oferecer incenso e outros perfumes no Santo10]. Quando entrou no lugar com seus companheiros, dirigiu-se ao mencionado
altar dos perfumes. De súbito viu um homem junto a esse altar. Não era sacerdote. Vestia calças, como os babilónicos. Zacarias e seus companheiros queriam avisar
os vigias. Como tinha entrado no recinto sagrado? Mas Zacarias e os outros não conseguiram se mover. Estavam presos ao pavimento, como que costurados às pedras.
Então o homem falou, mas sem mover os lábios. Zacarias, aterrorizado, urinou-se. E ouviu: Não temas, Zacarias...

10 O Hekalou Santo era uma das zonas sagradas do Templo judeu. Nele desembocavam todas as estâncias (38 câmaras distribuídas em três pisos ou andares que serviam
de armazéns, alojamentos, oficinas etc.). Tinha a forma de uma ampla galeria, com os muros chapeados com madeiras nobres e indestrutíveis. O acesso ao Santo era
feito por uma grande porta. Atrás dela, várias cortinas entrecruzadas impediam a visão de fora para dentro. Era o primeiro véu do Templo. No Hekal encontravam-se
o célebre candelabro de sete braços, a mesa dos pães da proposição e o altar dos perfumes ou do incenso, tudo coberto de ouro. A liturgia judaica exigia que o incenso
fosse oferecido duas vezes ao dia (na realidade, tratava-se de uma mistura de incenso, gálbano, ônix e estoraque). Para a oferenda do incenso, eram necessários pelo
menos três sacerdotes. Além do responsável pela oferenda, um segundo sacerdote, com uma pá de prata, subia ao altar dos holocaustos e recolhia carvões em brasa e
os transportava até o altar dos perfumes. O segundo ajudante recebia a bandeja ou colher de grandes proporções (com capacidade para sete quilos) onde tinha sido
depositada a mistura de perfumes e que o sacerdote principal oferecia a Yavé. Assim consta no escrito intitulado tamid (sacrifício cotidiano). No fundo do Santo,
separado por um segundo véu ou cortina, encontrava-se o Debtrou "Santo dos Santos" (Qadosh haqedoshim). Era o lugar onde, supostamente, Yavé residira. Nos tempos
de Jesus estava vazio. Em épocas anteriores tinha abrigado a arca da Aliança, hoje desaparecida. No "Santo dos Santos" só entrava o sumo sacerdote, e uma vez por
ano, na festividade solene do Yom Kippur (Dia do Perdão) ou Yom ha-Kippurim, como era chamado naquele tempo. (N. do M.)

277

Não te causarei mal... Teu pedido foi ouvido... Eu sou o sinal que solicitaste ao Todo-Poderoso... Terás um filho que abrirá caminho àquele que é o mais santo e
forte, o libertador espiritual dos homens... E Zacarias respondeu em seu sonho: Sou velho. Poderei vê-lo? O homem ordenou a um dos sacerdotes que saísse do
Santo para ver se tinha chegado a hora da imolação do cordeiro. E o sacerdote conseguiu se mover e fugiu dali. Mas não retornou. E o homem formulou a mesma pergunta
ao segundo companheiro de Zacarias. Mas ele tampouco retornou. Então perguntou a Zacarias: A Luz brilha? Zacarias recuperou o movimento e saiu. Viu que ainda não
chegara a aurora, retornou e respondeu: Nem sequer se vê o Hebron. O homem voltou a lhe perguntar: A Luz brilha? Zacarias repetiu a operação, e também a resposta.
O homem perguntou dezoito vezes ao todo: A Luz brilha? Zacarias saiu outras dezoito vezes e voltou sempre as mesmas palavras: Nem sequer se vê o Hebron. O homem,
então, levou Zacarias até a sala dos cordeiros. Ali pegou um dos animais e o fez beber em um recipiente de ouro. Voltou a falar a Zacarias e disse: Teu filho precederá
o cordeiro e tu precederás teu filho, Yehohanan. Assim, terminou o sonho."

Segundo meu informante, ao despertar, Zacarias, muito impressionado, aceitou a versão de sua mulher. Nunca mais duvidou. Yehohanan seria o nome de seu filho, aquele
que inauguraria o reino. E durante muito tempo, o "segredo" permaneceu em família.

Fiquei tão perplexo quanto o bondoso Zacarias. Aquela versão pouco ou nada tinha a ver com o que foi narrado por Lucas, o evangelista, em seu primeiro capítulo,
quando relata a maneira como se deu a anunciação de Yehohanan, o Batista ou Precursor do Messias. Bastante surpreso, quando voltei ao Ravid examinei e reexaminei
a passagem citada1 e che-

No capítulo l (versículos l a 26), Lucas escreve textualmente: "Existiu nos tempos de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote de nome Zacarias, do turno de Abías, cuja
mulher, da descendência de Aaráo, se chamava Isabel. Eram ambos justos diante de Deus e, irrepreensíveis, conduziam-se nos preceitos e nas observâncias do Senhor.
Não tinham filhos, pois Isabel era estéril e ambos já tinham idade avançada."

278

guei à conclusão de sempre: Lucas manipulou os fatos pela enésima vez (não estou querendo fazer jogo de palavras). Eis a minha interpretação, sempre sujeita a erro,
naturalmente:

1. Lucas, no texto evangélico, transforma em um acontecimento real o que, segundo minhas informações, foi um sonho. Um helém ou "visão" (?) importante, mas um sonho,
em última análise...

2. Lucas, ou quem tenha escrito esse Evangelho, usurpou o protagonismo na citada anunciação do anjo. Não foi Zacarias, e sim a esposa, Isabel, quem recebeu a visita
do "homem luminoso". Por que Lucas cometeu esse erro grosseiro? Ou não foi um erro? Só me ocorrem duas explicações possíveis. Lucas não se informou corretamente
ou se deixou levar por algo mais reprovável: o desprezo pelas mulheres. Por

"Ocorreu, pois, que exercendo ele suas funções sacerdotais perante Deus segundo a ordem de seu turno, conforme o uso do serviço divino, coube-lhe entrar no santuário
do Senhor para oferecer-lhe o incenso, enquanto toda a multidão do povoado orava fora, no momento da oblação do incenso. Apareceu a ele um anjo do Senhor, de pé
à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias perturbou-se, e o temor apoderou-se dele. Disse-lhe o anjo: Não temas, Zacarias, porque tua prece foi ouvida,
e Isabel, tua mulher, te dará um filho, ao qual darás o nome de João."

Será para ti gozo e regozijo, e todos se alegrarão com seu nascimento, porque será grande na presença do Senhor. Não beberá vinho nem licores, e desde o seio da
mãe será pleno do Espírito Santo; e muitos dos filhos de Israel converterá ao Senhor seu Deus, e caminhará diante do Senhor no espírito e no poder de Elias para
reduzir os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes aos sentimentos dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo bem disposto.

"Disse Zacarias ao anjo: E que sinal terei disto? Porque já sou velho, e minha mulher tem idade avançada. O anjo lhe respondeu dizendo: Eu sou Gabriel, que sirvo
a Deus e fui enviado para falar-te e comunicar-te esta boa nova. E eis que tu ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que isto se cumpra, porquanto não acreditaste
em minhas palavras, que se cumprirão a seu tempo."

"O povo esperava Zacarias e estava surpreso por sua demora no templo. Quando saiu não podia falar, por onde souberam que tinha tido alguma visão no templo. Ele fazia-lhes
sinais, porque tinha ficado mudo. Cumpridos os dias de seu serviço, voltou para casa. E depois de outros tantos dias, concebeu Isabel, sua mulher, que se ocultara
durante cinco meses, dizendo: Eis o que o Senhor fez comigo, para me livrar do opróbrio entre os homens." (N. do A.)

279

que divulgar que Isabel foi protagonista de um fato tão importante? Pessoalmente, inclino-me pela segunda possibilidade. Embora Lucas tenha entrevistado muitas testemunhas
presenciais da vida do Mestre alguns anos depois, ninguém poderia ter distorcido os fatos de forma tão lamentável. O escritor "sagrado" (?) simplesmente redigiu
o evento da anunciação a Isabel como bem entendeu (não era a primeira vez), ou alguém o "influenciou" nessa redação. Automaticamente, me veio à cabeça o nome de
Paulo de Tarso, inspirador do Evangelho de Lucas. Médico, natural da Antioquia, na região de Pisidia (atual Turquia), Lucas foi convertido ao recém-surgido cristianismo
por volta do ano
47. Foi Paulo quem o atraiu para a nova religião. Haviam transcorrido dezessete anos da morte do Mestre. A partir dessa conversão, Lucas seguiu Paulo, tomando notas
de tudo quanto dizia. Depois da morte de "Saulo" (nome hebraico de Paulo), Lucas acabou se retirando para a região grega de Acaya. Ali, no ano 82, começou a escrever
uma trilogia sobre Jesus. Só redigiu o evangelho citado e os Atos dos Apóstolos (não concluídos). Morreu no ano 90. Embora dispusesse de parte dos escritos de Marcos
e de Mateus, Lucas, como eu dizia, fundamentou a "vida de Jesus" nas lembranças e impressões de Paulo. E eu me pergunto: a que lembranças se referia Paulo se nunca
encontrou o Mestre? Naturalmente, podia tratar-se das "lembranças" de Pedro e de outros discípulos que Saulo e o próprio Lucas conheceram. Mas tentarei não desviar
da questão essencial: Paulo influenciou na "versão" de Lucas, distorcendo o ocorrido? Se assim foi, por quê?

Os especialistas nos escritos do chamado "apóstolo dos gentios" estão de acordo sobre um ponto: Paulo foi um misógino. Sua antipatia pela mulher aparece refletida
nas epístolas que lhe são atribuídas. Sentia aversão e um enorme desprezo pelo sexo feminino. Eis aqui algumas dessas "maravilhas" que dificilmente se ouviria hoje
nas igrejas: "Bom é o homem não tocar a mulher... A mulher não é dona de seu próprio corpo: o marido é... Que a mulher não se separe do marido e, caso se separe,
que não volte a se casar ou se reconcilie com o marido... Pois se santifica o marido infiel pela mulher e se santifica a mulher infiel pelo irmão... O tempo é curto.
Só resta

280

que os que têm mulher vivam como se não tivessem... A mulher está ligada por todo tempo de vida de seu marido... A cabeça de todo varão é Cristo, e a cabeça da mulher,
o varão... Toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra sua cabeça: é como se estivesse raspada. Se a mulher não se cobre, que se raspe...
O varão não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus: mas a mulher é glória do varão, pois não procede o varão da mulher, mas sim a mulher do varão;
nem foi o varão criado para a mulher, mas sim a mulher para o varão. Deve, pois, a mulher levar o sinal de submissão em respeito aos anjos... Como em todas as igrejas
dos santos, que as mulheres se calem nas assembléias, porque não lhes cabe falar, e sim viver submissas, como diz a Lei. Quando querem aprender algo, que em casa
perguntem a seu maridos, porque não é decoroso para a mulher falar na igreja" (primeira Carta aos Coríntios).

E o "santo" disse mais, segundo a Igreja Católica: "As casadas estão submissas aos seus maridos como ao Senhor; porque o marido é cabeça da mulher... E como a Igreja
está submissa a Cristo, assim as mulheres a seus maridos em tudo..." (Epístola aos Efésios).

Não é preciso ser muito esperto para deduzir que, se o Evangelho de Lucas foi alimentado e dirigido por Paulo, o protagonismo de Isabel corria perigo. Uma mulher
- sempre inferior ao varão, segundo Paulo -, recebendo a mensagem de um anjo de Deus? Isso era intolerável naquele tempo... Então mudaram.

E voltei a me perguntar: por que Lucas, isto é, Paulo, "aceita" que esse mesmo anjo se apresente diante de Maria, a mãe de Jesus? Só encontro uma resposta: porque
convinha aos planos da Igreja nascente. Da Senhora, não se podia prescindir. De Isabel, personagem de segunda ou terceira categoria, sim. Contudo, na anunciação
de Gabriel a Maria, percebe-se a mão de Paulo. Estranhamente, Lucas é o único evangelista que qualifica a Senhora de "virgem" (fala disso em três oportunidades).
Os demais "escritores sagrados" não mencionam isso. [Mateus, em seu capítulo l, versículo 18, afirma que Maria concebeu antes de conviver com seu esposo (!).] E
digo "estranhamente" porque também ali paira a sombra machista de Saulo. Por razoes que ninguém se atreveu a colocar na mesa, Paulo não suportava as

281

relações sexuais com mulheres. Na primeira epístola aos Coríntios, diz isso de forma mais ou menos explícita: "...Quisera que todos os homens fossem como eu [isto
é, celibatários]; mas cada um tem de Deus sua própria graça... Não obstante, aos não casados e às viúvas, lhes digo que é melhor permanecer como eu... Estás livre
de mulher? Não busca mulher. Se te casares, não peca; e se a donzela se casar, não peca; mas tereis assim de estar submetidos à atribulação da carne, que quisera
eu poupar-vos... O celibatário cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor".

Se ele era ou não homossexual, não é esse o problema. O que é grave é que sua mente, doentia ou desequilibrada, possa ter influenciado outros (caso de Lucas) que,
por sua vez, mudaram os fatos...

Como dizia o Mestre, quem tem ouvidos que ouça...

3. Se o que foi dito acima está correto - e eu acredito nisso -, a credibilidade de Lucas fica comprometida. O que o anjo manifesta a Zacarias foi dito a Isabel.
Lucas, confuso ou pessimamente informado, cai em novos erros. Exemplo: ao ler o texto de Lucas, o leitor deduz que Zacarias elevou suas preces a Deus para conseguir
descendência. Em um homem de 60 anos ou mais, tal pedido é inverossímil. Ao contrário, é bem plausível que ele rogasse por um sinal que esclarecesse suas dúvidas
sobre o porquê da gravidez a que ele assistia.

4. Nem a pergunta de Zacarias - "E que sinal terei disto? Porque já sou velho..." - nem a resposta do anjo, condenando o sacerdote ao mutismo, se sustentam. Se a
visita de Gabriel a Zacarias tivesse ocorrido de fato, a própria presença seria mais do que suficiente. Duvido que o sacerdote formulasse uma pergunta tão estúpida.
Quanto à represália do anjo, privando da fala seu interlocutor, só uma mente mesquinha ou pouco informada pode crer que Deus responde ao suposto mal com o mal. Já
a pergunta de Zacarias no sonho tem lógica: "Sou velho... Poderei vê-lo?" O sacerdote se referia ao anúncio do "ser luminoso": Isabel daria à luz um filho que abriria
caminho para o libertador espiritual dos homens. Zacarias pergunta, simplesmente, se terá tempo de ver tal maravilha.

Os filhos dos sacerdotes seguiam o caminho do pai. Ao chegar à idade canónica estabelecida pela lei (20 anos), o Sinédrio se reunia na sala

282

das pedras talhadas e procedia ao exame da legitimidade de sua origem e do aspecto físico do aspirante. Essa era a norma, segundo Yavé (Êxodo e Levítico). Se o filho
fosse considerado apto, ele era ordenado.

Quando Zacarias tem o sonho ou visão (fevereiro do ano 7 a.C.), não sabe o que acontecerá com esse menino, Yehohanan. E pensa ou imagina que ele será consagrado
ao Templo de Yavé, como mais um sacerdote. Por isso faz a pergunta: "Poderei vê-lo?". Se tudo transcorresse normalmente, quando Yehohanan fosse admitido como sacerdote,
ele teria oitenta anos. Longe demais...

Entretanto, Lucas esqueceu esse "detalhe" importante - ou, simplesmente, ajustou-se às exigências do "inventor" do cristianismo, o nefasto Paulo de Tarso (faz tempo
que me nego a reconhecer a santidade de qualquer ser humano. Só ele é santo ou perfeito).

5. Além disso, ao relatar a suposta aparição de Gabriel a Zacarias, Lucas demonstra um escasso conhecimento das rígidas normas judaicas em matéria de liturgia. Não
é certo que "o povo esperava Zacarias e estava surpreso por sua demora no templo". No turno que oficiava, Zacarias era apenas mais um sacerdote entre as centenas
que formavam as sessões semanais. Tampouco era um sumo sacerdote, como se chegou a sugerir. Desempenhava seu trabalho por sorteio, e sempre em companhia de outros12.
Nesse caso, ofereceu incenso e a mistura de perfumes no interior

O tamid (tratado sobre o "sacrifício cotidiano") estabelece o seguinte: "O encarregado (dos sacerdotes) lhes dizia: Vinde e tirai a sorte, para ver a quem cabia
realizar a imolação, a quem aspergir o sangue, a quem limpar das cinzas o altar interior, a quem as do candelabro, a quem subir à rampa as porções sacrificiais:
a cabeça e a perna (direita), as duas patas dianteiras, os traseiros e a perna (esquerda), o peito e o pescoço, os dois laterais, as entranhas, a farinha fina, as
tortas e o vinho. Tiravam a sorte e cabia a quem coubesse". Em outras palavras, cada sacrifício religioso exigia cerca de trinta sacerdotes. Outros falam de cinqüenta
e seis, distribuídos em vinte e sete serviços matutinos e em outros tantos vespertinos. Admitindo-se que cada trabalho exigisse um ou dois sacerdotes ajudantes,
a cifra de congregados seria ainda maior. Com respeito à missão específica de oferecer o incenso e os perfumes, o citado tamid especifica que "ao subir as grades
do pórtico (os sacerdotes encarregados do perfume), aqueles a quem coubera na sorte limpar da cinza o altar interior e o candelabro os precediam". E, ao oferendar
o incenso, os que o rodeavam advertiam: "Tem cuidado,

283

do Santo. Se tivesse demorado, como afirma o evangelista, os sacerdotes ajudantes e os que se encontravam no Hekalo teriam advertido. Todos, no turno, dependiam
de todos. E aqui surge outra objeção no relato de Lucas. Se Zacarias tivesse perdido a fala, ele jamais teria prosseguido no serviço litúrgico, como escreve o seguidor
de Paulo. O Levítico (21, 116-24) é categórico nesse sentido: "Nenhum homem que tenha defeito corporal há de se aproximar [de Yavé13]". Sobre essas injustas disposições
do Deus (?) de Moisés, os judeus tinham elaborado uma "lei" completa, e não menos injusta, com um total de 142 defeitos que incapacitavam para o serviço sacerdotal14.
Um mudo, ainda que o fosse apenas temporariamente, não

não começa pela frente, não vai te queimar" (o perfume devia ser espalhado por todo o altar. Se começasse pela parte dianteira, corria o risco de queimar-se ao espargi-lo
pela zona posterior). Zacarias, portanto, estava necessariamente acompanhado de outros sacerdotes quando ofereceu o incenso no templo. (N. do M.)

O Levítico diz textualmente: "Yavé falou a Moisés e disse: Fala a Aarão e dize-lhe: Nenhum de teus descendentes em qualquer de suas gerações, se tem um defeito
corporal, poderá aproximar-se para oferecer o alimento de seu Deus; pois nenhum homem que tenha defeito corporal pode se aproximar: nem cego, nem coxo, nem disforme,
nem monstruoso, nem o que tenha quebrado a mão ou o pé; nem corcunda, nem raquítico, nem doente dos olhos, nem o que padeça de sarna ou micose, nem o eunuco. Nenhum
descendente de Aaráo que tenha defeito corporal pode aproximarse para oferecer os manjares que se abrasam em louvor de Yavé. Tem defeito: não se aproximará para
oferecer o alimento de seu Deus...". (N. do A.)
14 O tratado "Bejorot" ou "Primogénitos" (capítulo sete) reúne algumas dessas incríveis disposições que incapacitavam um varão para o desempenho do cargo de sacerdote,
em qualquer de suas funções. Não importava que o defeito fosse passageiro. Eis aqui parte dessa "lei": ter a cabeça deformada (em forma de martelo ou nabo, afundada
ou achatada), ser corcunda (havia divergências de opiniões entre os sábios), ser calvo (aquele que não tivesse nem um fio de cabelo que lhe cruzasse a cabeça de
lado a lado, mas se tivesse - diziam -, era apto), o que não tivesse sobrancelhas ou só tivesse uma sobrancelha (outros falavam de sobrancelhas "penduradas"), o
chato (para os judeus era aquele do qual se poderiam pintar os olhos sem a interrupção do nariz), se alguém tivesse os olhos muito em cima ou muito embaixo, se tivesse
um olho alto e outro baixo, se visse simultaneamente o quarto e o piso de cima, se não suportasse a luz (albinismo), se tivesse membros pares desiguais (um olho
preto e outro azul), se os olhos lacrimejassem, então, não seria apto. Se alguém tivesse perdido as pestanas também estaria desqualificado (por causa de sua aparência).
Tampouco era apto o

284 "

JJ. BENÍTEZ

poderia aproximar-se do Santo. Se tivesse ocorrido o "percalço" durante a oferenda do incenso, Zacarias teria sido substituído de imediato.

A minuciosidade e a obsessão doentia da lei por essas questões chegava ao extremo de não considerar apto para o culto aquele que tivesse uma polução (emissão involuntária
de sémen durante o sono15). Neste caso, o sacerdote abandonava o Templo, e só recuperava a pureza no entardecer do dia seguinte. Portanto, um sacerdote com defeito
jamais poderia ter "cumprido os dias de seu serviço", como assegura Lucas. Quando mui-

que apresentava olhos grandes, como os de um bezerro, ou pequenos, como os de um ganso. Se um corpo fosse grande e desproporcional ou demasiado pequeno (anões) tampouco
seria aceito. Os narigudos e os desorelhados, ou com orelhas amassadas (como esponjas) também eram rechaçados. Se o lábio superior sobressaísse do inferior e este,
por sua vez, sobressaísse sobre o superior, o candidato não poderia ser sacerdote. O que carecia de dentes também era considerado não apto. Se alguém tivesse os
peitos pendurados, como uma mulher, ou o ventre inchado, ou o umbigo volumoso, se sofresse de epilepsia (mesmo que fosse apenas uma vez por ano), se padecesse de
asma ou se os testículos ou o pênis fossem demasiado grandes, não seria apto. Se não tivesse testículos, se tivesse apenas um ou se os tinha "esmagados", tampouco
seria aceito por Yavé. Assim reza no Levítico (21, 20): "Se alguém ao caminhar bate os calcanhares ou os joelhos, ou se tem uma protuberância no pé, ou se é zambo,
tampouco é admitido (zambo é aquele cujos calcanhares se tocam mas cujos joelhos não podem se juntar). Qualquer defeito nos pés invalida. Se alguém tem um dedo a
mais e o corta, caso tenha osso é inepto; caso contrário é apto. Se alguém tem um dedo a mais em cada pé e em cada mão, seis em cada, isto é, no total vinte e quatro,
os sábios divergem em suas opiniões. Se alguém tem a pele negra, ou vermelha, ou albina, se é excessivamente alto ou anão, surdo-mudo, idiota, bêbado, ou se tem
sinais de lepra, esses defeitos tornam inepto o homem, ainda que nos animais [para os sacrifícios a Yavé] não são invalidadores". A lista é tão exaustiva quanto
interminável... (N. do M.)

15 A Misná (tamid), em seu capítulo primeiro, assim o especifica: "Os jovens sacerdotes deixavam seus colchonetes no chão. Não dormiam vestidos com as roupas sagradas,
mas as tiravam, as dobravam e as punham debaixo de suas cabeças. Se um deles (na noite anterior ao culto) sofresse uma polução noturna, retirava-se e ia através
de um passadiço circular debaixo do edifício do templo até o local da piscina da imersão... Descia e se imergia, depois se secava, voltava e ficava junto de seus
irmãos sacerdotes até se abrirem as portas, avançava e partia [do Templo] [a emissão do sémen quebrava a pureza ritual]". (N. do M.)

285

to, eles eram autorizados a permanecer no chamado átrio dos sacerdotes, nunca no Santo, e apenas durante a procissão dos salgueiros, na festa dos Tabernáculos. Como
conta Josefo, tinham direito a um salário, mas não podiam vestir a túnica sacerdotal ou partir dos referidos atos de culto a Yavé. Em Antigüidades (XIV) relata-se
como Antígono mutilou o sumo sacerdote Hircano II (século I antes de Cristo), arrancando-lhe as orelhas com os dentes. Dessa forma, incapacitou-o para as funções
sacerdotais. Lucas e Paulo sabiam - ou deveriam saber - do rigor dos judeus quanto a isso e, no entanto, manipularam os fatos.

6. Aquilo que se observou até aqui invalida as demais afirmações do evangelista. Para mim, pouco ou nada é verossímil. Seu Evangelho, como terei oportunidade de
ir demonstrando, é um engodo...

"E depois de alguns dias concebeu Isabel, sua mulher, que se ocultou durante cinco meses dizendo: Eis o que o Senhor fez comigo, para me livrar do opróbrio entre
os homens".

Lucas delira.

A esterilidade (sempre feminina, segundo a Lei) era causa de vergonha pública, certamente. Mas não a maternidade. Se Isabel engravidou, acabando com a desonra e,
desse modo, com a maldição de Yavé, por que se esconder durante cinco meses? Seria mais lógico que tratasse de divulgar sem demora que estava esperando um filho.
E o mesmo se pode dizer do pai, mais afetado socialmente pela esterilidade do que a própria Isabel. Zacarias teria sido o primeiro a comunicar a boa-nova. Lucas
e Paulo ouviram o galo cantar mas não sabiam onde...

Esses cinco meses misteriosos que o evangelista enxerta na narração foram o tempo de silêncio que a mulher manteve, como já mencionei. No final de novembro, Isabel
decide falar, e fala primeiro ao seu marido. Se decidiu guardar segredo foi por outra razão: a insólita "visita" de um "homem misterioso". Quem acreditaria nisso?

7. Maria, a mãe de Jesus, não permaneceu no "Manancial da Vinha" durante três meses, como afirma Lucas. A estada junto a Isabel foi de três semanas. Se a informação
do evangelista estivesse correta, a Senhora teria presenciado o nascimento de Yehohanan, coisa que não ocorreu.

286

O resto da passagem evangélica - anunciação de Jesus pelo anjo, visita de Maria à sua parente Isabel e nascimento do Anunciador - é outro amontoado de despropósitos.
Como já mencionei oportunamente, Maria jamais conversou com o ser de luz. Limitou-se a ouvir, o que não é pouco. A mensagem de Gabriel foi diferente (radicalmente
distinta). As saudações de Isabel e Maria, e vice-versa, quando a Senhora chegou à casa de sua prima em segundo grau, são pura invenção de Lucas ou de seu "inspirador",
Paulo de Tarso. O célebre magnificai de Maria nunca existiu. Lucas, ou Paulo, inventou isso, inspirando-se em alguns textos bíblicos16, em especial no "cântico de
Ana", mãe do profeta Samuel17 ("estéril" como Isabel), e nos salmos que são atribuídos a Davi. Estes últimos eram muito populares entre os judeus, que os conheciam
de memória e os cantavam sem cessar. Paulo, como antigo fariseu, foi educado desde menino na recitação desses salmos. Portanto, sabia o que estava fazendo...

Naturalmente, o que Lucas relata sobre a imposição do nome a Yehohanan também foi inventado. Ninguém tratou de impô-lo a Zacarias. Não houve tabuletas nem o pai
do Anunciador fez qualquer profecia. Foi tudo manipulado.

E tudo tão desastroso que não temos outro remédio a não ser nos perguntar: os Evangelhos têm alguma credibilidade? A julgar pelo que já tinha visto, muito pouca...

Prossigamos.

16 Ver Juizes (5, 24), Judit (13, 18), Livro Primeiro de Samuel (2, 1-10), Isaías (29,
19 e 61, 10), Habacuc (3, 18), Génese (12, 3-13, 15-22, 18 e 30, 13), Jó (12, 19) e Salmos (89, 11-103, 17 e 107, 9), entre outros. (N. do M.)

17 Segundo relata o Livro Primeiro de Samuel, Elcaná tinha duas mulheres: Ana e Peninná. A primeira não tinha filhos. Ana pediu a Yavé que lhe concedesse descendência.
Segundo os judeus, ela era estéril. E Ana deu à luz um menino que chamou de Samuel ("solicitado a Deus"). Ana, como aconteceria mil anos depois com Isabel e Zacarias,
também consagrou seu filho a Deus. Ana - segundo esse livro - compôs uma oração de agradecimento a Yavé. Esse texto foi outra das fontes inspiradoras de Lucas, o
evangelista, provavelmente com uma finalidade didática ou teológica. A coincidência na esterilidade de Ana e na consagração do filho - imagino eu - foram determinantes
na hora de inventar a saudação de Maria. (N. do M.)

287 "

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA ?

No final daquele mês de fevereiro do ano 7 a.C., Maria se despediu do "Manancial da Vinha" e voltou a Nazaré. Provavelmente, saiu mais animada. Yehohanan, segundo
meu informante, veio ao mundo no dia 25 de março. Não houve nenhuma complicação no parto. Aos oito dias, como ordenava a lei, foi levado ao Templo para a circuncisão.
Zacarias, como sacerdote, foi isentado do imposto dos primogénitos, determinado por Yavé no Pentateuco (se uma mulher, em seu primeiro parto, desse à luz um varão,
o pai teria de resgatá-lo mediante o pagamento de cinco siclos de prata ao Templo: em torno de vinte denários de prata. Se o pai fosse levita ou sacerdote, ou se
a mãe fosse filha de sacerdote ou de levita, a criança não teria de ser resgatada).

Maria recebeu um aviso pontual do feliz acontecimento. E o menino cresceu normalmente na pequena granja, entre as ovelhas e o campo. No início ninguém percebeu nada
de estranho. Quando Yehohanan começou a compreender as coisas, os pais - principalmente Isabel
- trataram de informá-lo sobre quem era ele de fato. A mãe foi decisiva na mentalizaçáo precoce e inoportuna do menino: ele era um ser especial, anunciado por Yavé,
que teria um papel muito importante na esperada materialização do reino de Deus na Terra. E o menino ouvia, ouvia...

Isabel também lhe falou de seu parente, Jesus de Belém, residente em Nazaré. Narrou a "visita" de Gabriel a Maria e explicou-lhe que aquele primo distante era o
messias anunciado pelos profetas, o libertador de Israel. Isabel, convicta e feliz, foi desenhando o que ela considerava o futuro de Yehohanan: "arauto" e homem
de confiança de Jesus, futuro rei dos judeus. Yehohanan seria um grande mestre espiritual e, ao mesmo tempo, um poderoso herói nacional. O pai, mais prudente, não
interveio com tanto empenho nessa preparação, embora tenha tratado de levá-lo ao Templo. Yehohanan ficou muito impressionado com a liturgia e com os

sacrifícios de animais.

Em junho do ano l a.C., quando ele acabara de completar seis anos, Isabel viajou para Nazaré. Foi o primeiro encontro de Jesus com Yehohanan. O Galileu tinha cinco
anos. E as mães voltaram a se debruçar sobre o "esplêndido futuro" de seus filhos. Foi outra "conferência" histó-

288

rica na qual Isabel e Maria se reconfortaram mutuamente, prometendose dias de grande felicidade. As conversas foram secretas. Pelo que pude averiguar com a Senhora,
José manteve distância. Aquele planejamento das vidas dos meninos ainda pequenos não o agradava. O pai terreno do Mestre, como já mencionei oportunamente, não tinha
tanta certeza sobre o suposto destino de seu primogénito como "libertador político e religioso" de seu país. Foi o único que acertou, mas não viveu para ver...

Nem tudo foram satisfações na família de Isabel e Zacarias. Um dia os pais compreenderam que Yehohanan não podia ser consagrado a Yavé, tal como havia ordenado o
"homem luminoso". Os defeitos que já haviam reparado no rosto se tornaram mais visíveis. Aquilo o invalidava como sacerdote. O normal seria que o menino seguisse
os passos do pai. Aos vinte anos deveria ser ordenado18. Essa era a idade reconhecida oficialmente para o início de qualquer atividade pública. Mas, como proceder
à preparação da chegada de Messias se não tinha acesso ao sacerdócio?

Restava outro caminho...

E Zacarias, resignado, dirigiu-se à margem ocidental do mar Morto. Ali, em uma aldeia chamada En Gedi, existia um grupo de homens e mulheres consagrados a Yavé.
O sacerdote negociou e Yehohanan foi aceito como nazir19. O "nazireato" foi estabelecido pelo próprio Yavé (Números
6, 1-21). Consistia em uma consagração - permanente ou temporária - ao

18 Uma vez aceito pelo sinédrio, o aspirante a sacerdote de Yavé era consagrado mediante um rito especial, tal como aparece no Êxodo (29) e no Levítico (8). Ao banho
obrigatório de purificação seguia-se a entrega das vestimentas sagradas e ainda uma série de sacrifícios rituais. O novo sacerdote era roçado com sangue e suas mãos
recebiam certas porções da vítima sacrificada (rito de "encher as mãos"), assinalando assim seus deveres e privilégios. A unção, ao que parece, era destinada unicamente
ao sumo sacerdote. A cerimónia tinha uma duração aproximada de uma semana. (N. do M.)

Nazir (da raiz hebraica nzr) (não confundir com notzri; habitante de Nazaré ou nazareno) significava "guardados" ou "reservados". Era um estilo de vida. O nazir
não podia provar nenhum produto da vinha (uvas secas ou frescas, polpa ou casca, nem nada que estivesse misturado ou empapado em vinho). Assim foi estabelecido por
Yavé e resumido em Números: "...não beberás vinho nem bebidas embriagantes, nem

289

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA ?

Todo-Poderoso. O nazir se comprometia a três votos solenes: não beber vinho, não cortar os cabelos e não entrar em contato com os mortos. O menino e a menina poderiam
ser "separados" para Deus antes de seu nascimento (caso de Samuel, o profeta, do não menos célebre Sansáo [ver Juizes, 13] e do próprio Yehohanan).

A informação ajudou a esclarecer o motivo da longa cabeleira do Anunciador. Era o sinal visível que distinguia os nazir perpétuos. E creio que entendi, inclusive,
a razão das sete tranças. Yehohanan, provavelmente, tinha imitado o penteado de Sansão, o herói que, como ele, tinha nascido de uma mulher estéril que também foi
visitada por um estranho

vinagre de vinho, nem qualquer sumo de uvas...". Tratava-se, provavelmente, de uma reação contra os costumes dos cananeus, muito aficionados ao vinho... Além disso,
o nazir tinha de manter os cabelos longos. Esse era outro sinal de santidade, segundo a Bíblia. A navalha era proibida. Nem ele nem seus amigos ou familiares estavam
autorizados a mexer na sua cabeça. Podia alisar com as mãos, jogar os cabelos para o lado ou prendê-los em tranças, mas não penteá-lo. Se o nazir bebesse vinho ou
tocasse em um morto (voluntária ou involuntariamente), romperia o voto e deveria raspar a cabeça, recomeçando do zero. No caso de um "nazireato" temporário, o tempo
mínimo para o voto era de trinta dias.

Por último, o nazir se contaminaria se entrasse em contato com o cadáver de uma pessoa. Não importava que fosse seu pai, sua mãe, irmãos, amigos ou desconhecidos.
Mesmo que o pedaço de cadáver tivesse o tamanho de uma azeitona, o nazir ficaria impuro. Só havia uma exceção: se o nazir encontrasse o corpo no meio do caminho.
"Se o morto jazia de forma natural - reza a Misná -, pode removê-lo, assim como a terra sobre a qual ele jaz."

No caso de quebra do voto, o nazir era obrigado a se apresentar diante dos sacerdotes e sacrificar três animais. As mulheres podiam ser nazir, mas seus votos estavam
sujeitos à vontade do marido ou do pai. Eles tinham o poder de anulá-los. O mais freqüente era o voto temporário ou promessa. As pessoas se tornavam nazir por qualquer
motivo: para obter a cura de alguém, para conseguir que um filho voltasse são e salvo de uma guerra ou de uma viagem, para obter um bom negócio etc. Às vezes, virava
uma espécie de "esporte": apostava-se por qualquer coisa. ("Eu me torno um nazir - diziam - se aquele que estou vendo ao longe não é fulano de tal." Outros apostavam
pelo contrário: "Serei nazir se não és fulano de tal.") Se o nazir temporário invalidasse o voto, teria de recomeçar. Se fosse uma mulher, o vinho ou o contato com
um cadáver significavam quarenta açoites. Os pagãos não estavam sujeitos ao "nazireato", mas os escravos sim. (N. do M.)

290

}.}. BENÍTEZ

personagem20, identificado na Bíblia como um "anjo de Yavé". Mas a confirmação dessa suspeita e de outros dados que foram surgindo posteriormente exigiriam uma conversa
direta com o gigante. Um interrogatório sem intermediários. Tinha de encontrar a fórmula para chegar ao seu coração. Eram muitas as dúvidas que me assaltavam. Para
dizer a verdade, não sabia nada sobre aquele singular vidente...

E aos catorze anos, Yehohanan se mudou para o sudeste do mar Morto. Na aldeia recebeu as primeiras instruções. Foi assim que começou a germinar nele seu grande objetivo:
pregar a mudança, preparar o mundo para a chegada de outro, mais forte do que ele.

A escolha de Zacarias - consagrando seu filho como nazir - foi acertada. Nesse tempo, Yehohanan atingiu uma estatura pouco freqüente. Aos defeitos do rosto veio
se somar a desproporção do corpo (aos 15 anos já media 1,90 m). O Templo de Jerusalém jamais o teria admitido como sacerdote. Entretanto, como nazir perpétuo, Yehohanan
tinha direito não só de entrar no templo, como também de pisar o "Santo dos Santos", o lugar mais sagrado, e no qual, supostamente, residia a divindade. Só o sumo
sacerdote desfrutava desse direito, e penetrava no "Santíssimo" uma vez por ano, no Yom Kippur (e diz a tradição judaica que fazia isso com medo e rapidamente).
Yehohanan, segundo minhas informações, nunca fez uso desse privilégio.

Sua figura espetacular chamava a atenção do todos que o conheciam. E durante vários anos dedicou-se inteiramente a cuidar das ovelhas na granja de seus pais no "Manancial
da Vinha". Crescia saudável,

20

No livro dos Juizes (13, 1-25) fala-se de Manóaj, da tribo de Dan, que tinha uma esposa estéril. Um homem, com o aspecto de um anjo de Deus, muito terrível, apresentou-se
diante da mulher e lhe disse: "Vais conceber e dar à luz um filho. Daqui por diante, não bebas vinho nem bebida fermentada e não comas nada impuro, porque o menino
será um nazir de Deus desde o seio de sua mãe até o dia de sua morte". Em uma segunda aparição, o anjo ordenou à mulher e ao esposo que o menino não deveria provar
nada que procedesse da vinha. A mulher deu à luz e o chamou de Sansão. Foi o herói que lutou contra os filisteus e de quem Dalila arrebatou a força depois de cortar
as sete tranças de sua cabeleira. (N. do M.).

291

embora - segundo Abner - as pessoas não compreendessem certos costumes do rapaz. Um dia, depois de uma das visitas usuais e regulares a En Gedi, Yehohanan despojou-se
de suas vestes, e para surpresa das pessoas próximas e dos estranhos, decidiu vestir-se com um simples saq ou encacho. No inverno - mas nem sempre - cobria-se com
um aba ou manto de pastor, confeccionado com peles de animais (geralmente cabras ou camelos). O pai tentou chamá-lo à razão: "Aquela nudez não era honesta nem recomendável".
A aldeia, nas montanhas situadas a oeste de Jerusalém, atinge temperaturas extremas no inverno (inferiores a cinco ou dez graus abaixo de zero). Permanecer seminu
nas colinas é um risco. Ninguém, na época, conseguiu entender a razão de uma atitude tão estranha. Foi inútil. Yehohanan não cedeu. Desde então, desde os 15 ou 16
anos, sempre se vestiu como um "selvagem", na opinião da maioria. Algum tempo mais tarde, quando este explorador conseguiu conquistar definitivamente sua confiança,
Yehohanan me confessou seu "segredo"...

Mas vamos por partes.

Zacarias acertou também na pergunta formulada no "sonho": "Sou velho... Poderei vê-lo?" Chegaria a ver seu filho atuando como "arauto" do messias?

Não, nunca chegou a ver... Zacarias faleceu em julho do ano 12 de nossa era, quando Yehohanan tinha dezoito anos. O sonho-profecia começava a se realizar...

Porém, só fui me conscientizar plenamente desse assunto instigante muito tempo depois. Foi Eliseu quem descobriu. A "visão" do sacerdote era mais que um "sonho".

A morte do pai foi um trauma para Yehohanan. A condição de nazir o impedia de tocar os mortos. Com isso, não pôde dar o último abraço no velho Zacarias. E o jovem,
abatido, teve de assistir ao enterro a distância.

O desaparecimento de Zacarias trouxe consigo uma seqüência de imprevistos que condicionariam a vida do Anunciador. Como Zacarias era sacerdote, a família tinha direito
a continuar recebendo o pagamen-

292

to correspondente21, uma espécie de pensão por viuvez. Entretanto, por razões que não consegui esclarecer, Yehohanan recusou essa compensação económica, e a renda
familiar, pouco a pouco, foi minguando.

Doze meses após a morte de Zacarias, a viúva e o filho decidiram viajar para o norte. Fazia muito tempo que não viam Maria e o suposto Messias. Quando Yehohanan
e Jesus se viram pela primeira vez - treze anos antes - ainda eram meninos.

21 Na época de Jesus, os sacerdotes recebiam os emolumentos a cada seis meses, coincidindo com o turno em que deviam oficiar. Em síntese, o dinheiro e a compensação
em espécie procediam dos seguintes itens:

Produtos da terra

O pagamento do Templo de Jerusalém era feito em género ou no equivalente em dinheiro. Abarcava quatro conceitos que deviam ser separados na ordem estabelecida pela
lei:

1. Primícias ou bkwrym. Compreendia as sete principais colheitas fixadas no Deuteronômio (8, 8): trigo, cevada, uvas, figos, romãs, azeitonas e mel. Organizavam-se
longas procissões que levavam essas primícias de todos as regiões de Israel. Se a colheita procedia de zonas remotas, os produtos eram secos. Cada judeu depositava
seu cesto junto ao altar, ao mesmo tempo que recitava uma passagem do Deuteronômio (26, 5-
10). E os sacerdotes esfregavam as mãos. Todos os anos entravam no Templo centenas de toneladas de produtos...

2. Terumah. Era o pagamento simbólico, sempre em espécie, dos produtos mais selecionados das colheitas. O imposto equivalia à qdinquagésima parte dos rendimentos
do cidadão. Embora a lei determinasse que a terumah só podia ser consumida pela classe sacerdotal, a trapaça e a corrupção convertiam a oferenda em outro atrativo
"negócio".

3. Dízimo. Era o imposto religioso mais importante. Proporcionava milhares de siclos (um siclo equivalia a quatro denários de prata, aproximadamente). "Tudo o que
serve de alimento e é cultivado e nasce da terra está submetido ao dízimo", reza a Misná. Contudo, o dízimo não se destinava "oficialmente" aos sacerdotes, mas sim
aos levitas (ministros de segunda ordem). Uma décima parte desse imposto era recolhida pelos sacerdotes. Assim estabelecia Yavé. O que o Deus (?) do Sinai não estabelecia
eram as corruptelas e os trambiques que se produziam em torno do dízimo e que, mais uma vez, acabavam beneficiando os sacerdotes. (O chamado "segundo dízimo" - outra
décima parte dos rendimentos do proprietário que só era utilizada em banquetes oficiais - não constituía um rendimento propriamente dito e, portanto, especialistas
como Schurer não o consideram emolumento).

293

O encontro foi um fracasso. "Meu primo - relatou Yehohanan a Abner - tinha dúvidas. Ele ouviu, mas, na hora de decidir, recuou, dizendo que a prioridade no momento
eram as nossas famílias."

Imaginei o semblante do jovem Jesus, ouvindo o inflamado discurso do Anunciador: "É o tempo do novo reino... A cólera de Deus não espera mais... Roma e os ímpios
têm de pagar... O país inteiro espera... Vamos seguir nosso rumo... Tu és o Messias, o Rei,... Eu estarei contigo..."

4. Oferenda da massa ou hallah. Afetava o trigo, a cevada, a espelta, a aveia e o centeio. A oferenda era feita não em farinha, mas sim em forma de massa. O cidadão
trazia uma vigésima-quarta parte do total. Aos padeiros correspondia uma quadragésima parte.

Gado

Os sacerdotes recebiam também quantidades consideráveis procedentes do sacrifício dos animais. O dinheiro entrava em moeda sonante ou em espécie. Os emolumentos
tinham a seguinte ordem:

1. Primogénito macho. A lei dizia que o primogénito macho do gado devia ser sacrificado e consumido em um banquete sagrado. A Tora fixou também a obrigação de "resgatar"
os filhos primogénitos mediante o pagamento de imposto: cinco siclos. Os dois impostos iam diretamente para os bolsos dos sacerdotes. Em troca do "não-sacrifício
do animal", o proprietário pagava. Em troca do "resgate" do filho (do domínio de Yavé), o pai pagava. Um dono podia entregar o animal para ser sacrificado (touros,
carneiros e cabritos). Se esse animal fosse puro - sem defeito -, os sacerdotes o sacrificavam no Templo. A carne era património exclusivo da casta sacerdotal e
de suas mulheres (só podiam ser comidas em Jerusalém, segundo Yavé). Se o primogénito do gado fosse um animal impuro (especialmente asnos, camelos e cavalos), o
proprietário pagava novamente, segundo critério dos sacerdotes (acrescentando um quinto; ver Números e Levítico). Essa carne e a dos animais puros, mas defeituosos,
eram vendidas aos cidadãos, e ali o negócio se multiplicava. Somava-se a isso a venda, por baixo do pano, da carne pura...

2. Porções do animal sacrificado. Segundo reza o Deuteronômio (18, 3), os sacerdotes tinham direito a três porções de cada sacrifício: paleta, estômago e as duas
queixadas. Tudo isso voltava a ser vendido "extra-oficialmente".

3. Tosquia. O novo imposto chegava a cinco sela (cerca de dez siclos), dependendo do número de ovelhas. Segundo a escola de Sammay, o imposto afetava o proprietário
que dispunha de duas ovelhas ou mais. Hillel dizia que era a partir de cinco.

Sacrifícios

Também davam dinheiro (e muito). Os chamados "santíssimos" eram os mais

interessantes do ponto de vista económico. Conhecemos quatro modalidades:


294


Isabel apoiou seu filho e estimulou Jesus a empreender a missão de libertador de seu povo. Maria, ao que parece, não se mostrou tão combativa e iludida como na "conferência"
anterior. Não havia nada de estranho nisso. Poucos meses antes, a família tinha entrado em profunda crise em conseqüência da recusa de Jesus de fazer parte dos grupos
de zelotes ou revolucionários que lutavam clandestinamente contra os kittim (romanos). Como já informei oportunamente, aquele acontecimento dividiu os vizinhos de
Nazaré, e colocou Jesus e seus familiares em uma situação difícil. A Senhora não entendia a atitude e as idéias de seu Filho. Nem Isabel e muito menos Yehohanan.

1. Sacrifícios expiatórios.

2. Sacrifícios penitenciais.

Em ambos, só queimavam a gordura dos animais. A carne era propriedade dos sacerdotes. A venda, à margem da Lei, era comum. Tudo dependia do grau de corrupção.

3. Oferendas de grão. Acontecia exatamente o mesmo.

4. Pães da proposição. Os doze pães eram renovados em cada turno semanal. Os que eram retirados pertenciam aos sacerdotes (a metade cabia aos que encerravam o turno
e o resto aos que estavam entrando).

Nesse capítulo incluíam-se outras formas "não santíssimas":

1. Sacrifícios de açáo de graças ou de comunhão. Os sacerdotes recebiam o peito e a paleta do animal. Eles podiam ser comidos fora do Templo, sempre em lugar puro,
seja pelos sacerdotes ou por suas famílias. E surgia de novo a corrupção: a carne era vendida, às escondidas, a quem pagasse mais. Criava-se o paradoxo de o dono
do animal sacrificado em açáo de graças acabar comprando parte dele.

2. Holocaustos. Os animais eram queimados totalmente. Só as peles davam dinheiro aos sacerdotes. Seguindo Filón, "muito dinheiro".

Oferendas extraordinárias

Além do rio de dinheiro que representava tudo o que foi mencionado anteriormente, os sacerdotes recebiam outras rendas a título de sacrifícios privados ou ocasionais.
Essas oferendas eram de vários tipos. Por exemplo, uma pessoa preocupada com uma doença própria ou alheia acorria ao Templo e oferecia a si mesma em troca da cura.
Esse gesto significava dinheiro. Aquele que se "consagrava" tinha de pagar. E depois, para "ser resgatado" (quer a cura se produzisse ou não), os sacerdotes fixavam
a "libertação" em cinqüenta siclos (duzentos denários de prata) para o do varão e em trinta para a mulher. O cidadão podia "consagrar" ao Templo um de seus escravos
ou posses. Tudo tinha um preço.

295

A informação passada pelo Anunciador ao seu segundo era correta, com exceção de um único detalhe: Jesus nunca "recuou", simplesmente porque jamais adotou o papel
de libertador político-social-religioso-militar, como pretendiam seus familiares. Essa afirmação por parte de Yehohanan foi gratuita. Ele deu como assentado aquilo
que as mães projetavam, mas nunca perguntou ao Mestre.

Jesus acabou não tendo outra saída a não ser refugiar-se no silêncio. Era a melhor para todos...

No caso do anátema (oferenda votiva sem possibilidade de "resgate"), a situação era mais delicada. O que fazia anátema oferecia a Yavé, sem mais. Em agradecimento
(em troca de um favor recebido ou por qualquer outra razão de caráter pessoal), o indivíduo doava pessoas ou coisas (terras, casas etc.) a seu deus. Isto é, aos
sacerdotes. Esses bens passavam a fazer parte do património de famílias sacerdotais. Um grande negócio. Também a restituição do que foi roubado, ou adquirido ilicitamente,
quando não existisse a possibilidade de devolução ao seu legítimo dono, passava ao clã sacerdotal.

Pecados

Se alguém imaginasse ter cometido uma falta, o caminho indicado pela lei era apresentarse no Templo e "lavar" o erro com o sacrifício correspondente. Em outras palavras:
mais dinheiro. Como já mencionei, "curar" e "perdoar" os pecados eram a mesma coisa. Por isso Jesus de Nazaré era odiado pelos sacerdotes desde o primeiro instante
de sua vida de pregação. Jesus perdoava os pecados (curava) sem cobrar. Isso era intolerável!

Diáspom

O montante do dinheiro procedente dos judeus que viviam fora de Israel é difícil de calcular. Essa foi, provavelmente, uma das fontes de renda mais importante naquele
tempo. O dinheiro entrava diretamente no templo.

Impostos religiosos

Destinados "oficialmente" à manutenção do culto. O mais famoso era o didracma ou "meio siclo". Devia ser pago anualmente por todo varão judeu maior de 20 anos. Cada
comunidade era responsável por cobrá-lo, quase sempre no mês de adar (fevereiromarço) e de enviar a arrecadação ao Templo. Chegava a mais de quatrocentos mil denários.
A esse imposto somavam-se outros de menor valor, como o que era destinado à compra de lenha para o altar dos holocaustos.

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Segundo Abner, se Jesus tivesse aceitado a proposta de Yehohanan, a "campanha" do Anunciador, como certeza, teria começado ali mesmo, em Nazaré. Isabel estava até
disposta a deixar a granja e se mudar para a pequena aldeia de sua prima em segundo grau, para colaborar no planejamento do trabalho de seu filho e do Messias.

Como eu disse, o encontro das famílias, desse ponto de vista, foi um completo fracasso. Então Isabel e o decepcionado Yehohanan retornaram ao "Manancial da Vinha".
Jesus e o homem das pupilas vermelhas não voltariam a se ver por mais treze anos. Cada um seguiu seu Destino, como estava previsto.

A situação económica do Anunciador piorou. As ovelhas não rendiam o suficiente. Ainda assim, Isabel continuou estimulando o filho e traçando planos para o momento
da "libertação". Segundo Abner, Yehohanan e sua mãe chegaram a levantar a possibilidade de prescindir de Jesus. Mas a dura realidade se impôs, e eles tiveram de
adiar os ambiciosos planos religiosos. A ruína ameaçava a família, e dois anos depois da visita a Nazaré, quando Yehohanan tinha vinte anos, largaram tudo e partiram
com o rebanho até a cidade vizinha de Hebron, ao sul, em território idumeu. O "sonho" de Zacarias, mais uma vez...

Começava assim uma nova etapa na vida do Anunciador. Uma etapa que se prolongaria por um período de onze anos...

Doações voluntárias

No Templo, na época do Mestre, havia treze cofres ou coletores nos quais se depositava todo tipo de moeda. Tinham as bocas em forma de trombeta para evitar roubos.
A essas doações era preciso acrescentar o ouro, a prata, as madeiras nobres etc. presenteados por judeus e gentios. Era norma oferecer cachos de ouro para guarnecer
a vinha de ouro situada na porta do Templo. Alexandre de Alexandria, por exemplo, doou o ouro e a prata necessários para banhar as portas do átrio externo, segundo
Josefo. Em suma, as rendas dos sacerdotes - por todos os conceitos - deviam superar os dez mil talentos por ano (um talento correspondia a 14.400 denários, mais
de cento e quarenta milhões de dólares). (Ndo M.)

297

I

Yehohanan adentrou então no deserto de Judá. Era o seu primeiro encontro verdadeiro com o deserto. Ali passou muito tempo com suas ovelhas, meditando sobre seu trabalho
e o de seu primo distante. E foi nesses anos que intensificou o contato com "sua gente", os nazir de En Gedi, no extremo sudeste do mar Morto. Eles o acolheram,
substituindo, em parte, sua mãe. Isabel permaneceu em Hebron, cada vez mais sozinha e decepcionada. Seu filho não conseguia cumprir o anunciado pelo "ser luminoso".
E as visitas de Yehohanan a Hebron foram se tornando menos freqüentes.

Na comunidade dos nazir, teve oportunidade de consultar as Escrituras, e de indagar sobre aquilo que tanto o preocupava: as profecias e os principais textos sobre
a chegada do "reino de Deus". Os profetas lhe davam razão: "Aproximava-se o fim de uma era... Yavé exigia o ajuste de contas... Roma, sem dúvida, era a cabeça do
ímpio... era preciso decapitá-la..."

Quanto a Jesus, suposto libertador, o novo e ansiado Rei, que deveria ocupar o trono de Davi, as ilusões de Yehohanan foram diminuindo perigosamente. Seu primo não
dava sinais de vida. Não respondeu a nenhuma das mensagens. Nem sequer sabia se ele estava vivo.

O Anunciador - segundo seu confidente - preparou um plano. Agiria sem Jesus. Primeiro em Israel. Depois no resto do mundo. Chamaria a atenção de judeus e pagãos.
Todos teriam a mesma oportunidade. "Arrependei-vos!", esse seria o grito de guerra...

A morte súbita de Isabel afundou o projeto. Ocorreu no mês de elul (agosto) do ano 22 de nossa era, quando o homem de sete tranças contava
28 anos de idade. A mulher foi sepultada em Hebron antes que Yehohanan recebesse a notícia. Essa era a norma entre os nazir perpétuos.

O Anunciador foi à casa da mãe e, em outra reação inexplicável (nunca chegou a tocar no cadáver de Isabel), cortou os longos cabelos ruivos. Fazia então catorze
anos que a navalha não raspava seu crânio. E os guardou (a lei estabelecia que, em caso de quebra do voto, o cabelo devia ser jogado no fogo).

Abner confirmou minhas suspeitas: a longa cabeleira foi usada por Yehohanan para tecer o xale ou tallih com que costumava se cobrir. O samaritano também não compreendeu
o comportamento anormal...

j.j. BENÍTEZ

O rude e desconcertante Yehohanan quase não abriu a boca nos três dias em que permaneceu na casa onde Isabel vivera. Os parentes, perplexos, não sabiam o que fazer.
Não comia nem bebia. "Só dava voltas e mais voltas em redor de um poço! De vez em quando exclamava: É tudo mentira."

Sem aviso prévio, tal como chegou, desapareceu do Hebron. Nunca mais voltou. Levou o gado até En Gedi e o doou à comunidade nazir.

Mandou avisos a Nazaré. Ninguém respondeu. Jesus, naquela época, estava ausente. Já não residia em Nazaré. Segundo minhas informações, estava imerso em sua primeira
grande viagem, fora de Israel. Quanto ao silêncio da Senhora, eu nunca soube o motivo. Eu ainda lhe perguntaria...

E, sozinho, sem dar explicações a ninguém, certo dia Yehohanan deixou a comunidade e se retirou para o interior do deserto de Judá, outro lugar extremo, com altas
temperaturas durante o dia e quedas consideráveis à noite25.

Ali viveu qual um asceta, seminu como sempre, rezando e refletindo. Alimentava-se de carne de ovelha, gafanhotos (havia até seis tipos comestíveis), leite e, sobretudo,
mel. Foi nessa época, durante os dois anos e meio em que viveu no deserto, que adotou o não menos insólito costume de "conviver" com uma colmeia. As abelhas o acompanhavam
a toda parte. Não dava um passo sem elas. E me propus a desvendar mais um mistério. Por que o Anunciador sentia aquela afinidade doentia com esses insetos?

De vez em quando aparecia na aldeia dos nazir. Abastecia-se de provisões e tentava convencê-los da "proximidade do fim". Os discursos apocalípticos não tiveram muito
êxito. Segundo Abner, os nazir gostavam dele, mas o consideravam apenas um menino grande. Sua forma de viver e de se vestir eram motivo de discussão. Onde ele chegava
surgia a polêmica...

Nos barrancos de Mampis, Arad e Ziph, as temperaturas noturnas entre novembro e março podem cair a menos de cinco graus negativos. (N, do M.)

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j.j. BENÍTEZ

E foi nesse longo período de tempo, nas bacias e barrancas do deserto de Judá, que testemunhou outros acontecimentos extraordinários. Abner guardou silêncio. Náo
sei se cumpria ordens de seu líder ou, simplesmente, não falou porque ignorava o que ocorrera. "Acontecimentos extraordinários"? O que aconteceu no deserto nesses
trinta meses?

Eu teria de falar diretamente com o Anunciador. Só ele poderia esclarecer (com sorte).

E as dúvidas continuavam a sufocá-lo... Deveria começar sem Jesus, o cada vez mais duvidoso Messias? Por que ele não respondia às mensagens? A que se devia aquele
silêncio? Tinha se arrependido de sua excelsa missão como Ungido de Deus e legítimo herdeiro do trono de Davi? E o que seria dele, seu arauto e precursor? Quem era
realmente o Messias? Jesus ou ele próprio? As profecias também falavam de Elias. O profeta precederia o libertador. Ele era Elias?

O que Abner escreveu não respondia a nenhuma dessas delicadas questões. Resignei-me. Havia outros meios de esclarecer as perguntas. Eu tentaria oportunamente...

Inexplicavelmente (pelo menos para mim), o Filho de Deus não respondeu às mensagens e aos pedidos de seu parente. Agora, depois de comprovar o que inicialmente era
apenas uma suspeita, acho que posso entender a postura de meu amigo, o Galileu.

O Destino, mais uma vez...

Yehohanan, finalmente, tomou uma decisão. Inauguraria o "reino" sozinho. Iniciaria o trabalho como "anunciador da nova era" no vale do Jordão. E esperaria. Talvez
Jesus, ao saber dele e de sua proclama, acabasse "despertando e encabeçando os exércitos do Justo". Caminharia em direção ao norte, até o yam. Seu objetivo era Nahum.
As últimas notícias que tinha sobre Jesus e sua família davam conta de que agora residiam na costa norte do mar de Tiberíades.

No dia 3 de março desse ano de 25, depois de contemplar um eclipse total da lua, o gigante se pôs em marcha. Subiu o mar Morto pela margem ocidental e alcançou o
rio Jordão. No "vau das Doze Pedras", iniciou os inflamados discursos e as não menos extravagantes cerimónias de

imersão. Ali conheceu Abner. Depois, lentamente, foram seguindo pelo vale até chegar ao lugar onde nos encontrávamos.

Há um mês decidira construir o guilgal - símbolo de seu poder
- no "vau das Colunas". Sobre a etapa seguinte, ninguém sabia de nada. Só Yehohanan.

Era essa, em síntese, a pequena grande história de João ou Yehohanan, o Batista ou Anunciador. Uma história em que faltavam peças, com certeza. Tudo a seu tempo...

E eis que também chegou o momento da recuperação de meu companheiro. Eliseu estava forte e disposto. Os cuidados do bondoso e insubstituível Kesil foram decisivos.
O que teríamos feito sem ele?

E marcamos a partida para o Ravid para o dia 11 ou 12 do mês de outubro. Kesil foi encarregado de negociar um carro para nos levar até a localidade de Migdal, na
margem oeste do yam. Não quis arriscar. Faríamos a viagem da forma mais cómoda possível. Meu irmão precisava disso. E ambos percebemos uma sombra de tristeza no
olhar do fiel criado. Conversamos com ele. O que podíamos fazer? Levá-lo conosco? Impossível. Teríamos de abandoná-lo ao subir ao porta-aviões...

E o Destino, como sempre, é que decidiria...

Dedicamos aqueles últimos dias no Yaboq a conversar com Abner e seu grupo, e a um terceiro objetivo..., muito mais "eletrizante": o misterioso bosque das acácias
onde Yehohanan se embrenhava a cada dois ou três dias.

As pessoas continuavam fluindo. Todos os dias apareciam dezenas e dezenas de judeus e gentios, procedentes da Judéia, Peréia, Galiléia, Samaria e, principalmente,
de Jerusalém. Outros partiam, mais ou menos convencidos do que haviam presenciado. As disputas estavam na ordem do dia. A maioria, como acho que já comentei, se
aproximava do vau por mera curiosidade e pelo afã de receber algum benefício: cura, golpe de sorte etc. Fora aqueles que, certamente, só pretendiam ganhar dinheiro
graças ao Anunciador.

Foi numa dessas manhãs, enquanto assistíamos da cabana a mais um dos sermões de Yehohanan sobre a "iminente cólera de Yavé", que

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Eliseu, com suas perguntas, deu margem a um frutífero debate sobre o "espetáculo" que presenciávamos.

- Não consigo entender - reclamou -. Esse homem náo está em seu juízo perfeito...

- Não te precipites. Faltam-nos informações. Parece um louco, mas... Eliseu não me deixou concluir.

- Como podem acreditar em um "deus-espada"? O Messias não é assim.

- O Messias. A quem te referes?

Meu irmão observou Kesil com o rabo do olho. O homem, sentado a pouca distância, permanecia mudo e atento à conversa.

- Já sabes a quem... Ele não é um deus de fogo e vingança.

- Temo que tuas idéias continuem confusas. Deus (Yavé) náo é o Messias que pregam esses judeus. E ele, teu amigo, o Mestre, não é nem um nem outro. Ele não é o Yavé
e tampouco o Messias.

- O Mestre não é - corrigiu a tempo -, não será o Messias? Neguei firmemente. Kesil, intrigado, esperou uma resposta. O criado, obviamente, não sabia quem era o
Mestre.

- Esse é um conceito erróneo, alimentado pelas religiões... E acrescentei:

- Sabes qual é a tradução de msyh (messias em árabe) ou hmsyh (em hebreu)?

O engenheiro, versado como eu em hebreu e aramaico, sabia a resposta. Mas insisti, tentando mostrar-lhe seu erro:

- "Messias", para os judeus, significa "Ungido", sempre em maiúscula. O "Ungido de Deus", aquele sobre o qual Yavé derramará seu azeite e sua bênção. Alguém que
está por chegar. Alguém sagrado...

- O Mestre, evidentemente!

- Náo - repliquei com a mesma firmeza -. Se estudares os escritos judaicos, observarás que esse msyh tem outras características e propósitos. O "messias" histórico
e tradicional de Israel, cantado em mais de quinhentas profecias e textos bíblicos, nada tem a ver com teu amigo...

Eliseu me encorajou a prosseguir.

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j.j. BENÍTEZ

- Ajuda-me a refrescar a memória...

- Nesse povo, existem tantas interpretações messiânicas quanto indivíduos. Cada judeu tem seu Messias ideal. E o mesmo ocorre com cada seita ou movimento social
ou religioso26. Entretanto, existe um denominador comum: o Messias significará a restauração de Israel como nação líder e soberana do mundo. O Messias judeu é isso:
o "caminho" para a hegemonia definitiva de Israel. A cólera de Yavé - dizem os videntes
- chegou ao limite. Deus enviará o Messias para restabelecer a ordem e o reino. Será um intermediário, um rei da casa de Davi que derrotará os ímpios, especialmente
Roma, e devolverá ao "povo eleito" seus direitos e seus préstimos. O Messias judeu será um guerreiro, um rei sábio e justiceiro, um sacerdote, um super-humano, um
destruidor e, inclusive, um filho de Deus, conforme os grupos...

26 Entre as hairéseis ou "opções" messiânicas na época de Jesus, cada uma com suas variantes, podemos destacar as seguintes:

1. Sacerdotes e levitas: acreditavam em um Messias eminentemente religioso que, após a eliminação dos pagãos, tornaria possível a observância integral da lei e da
pureza do culto.

2. Escribas e doutores da lei: faziam mil cabalas e combinações com os textos bíblicos e as profecias ou supostas profecias buscando detalhes que esclarecessem a
chegada do Messias.

3. Saduceus: eram os mais reacionários. Náo acreditavam nos profetas. O Messias podia significar um sério risco à sua vantajosa relação económica com Roma.

4. Zelotes: viam com bons olhos um Messias político e libertador do domínio estrangeiro, em qualquer de suas modalidades. Lançaram-se à guerra de guerrilhas, preparando
assim o caminho do futuro rei.

5. Essênios: acreditavam em um Messias triplo: profeta, rei e sacerdote.

6. Fariseus: o Messias ocuparia o trono vacante de Davi. A tendência era parecida com a dos sacerdotes. Após a fracassada rebelião Macabéia (167 a.C.), os "piedosos
ou separados" prescindiram da idéia de um Messias humano que restituísse a velha glória de Israel e voltaram os olhos para Yavé, o único capaz de mudar o rumo da
nação. Yavé acabaria com os ímpios e restabeleceria o rigor e a pureza no culto.

A essas "opções", como as denomina Flavio Josefo, seria preciso acrescentar as dos apocalípticos, dos legalistas, dos helenizantes, dos ascetas e dos gnósticos,
entre outros. (N. do M.)

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- A glória de Israel! - resumiu o engenheiro com precisão. - Tudo consiste nisso: poder, domínio, dinheiro e superioridade racial...

- Exato! Esse é o conceito tradicional judeu sobre o Messias, pelo menos o mais difundido. No princípio, há muitos séculos, com os primeiros profetas, a hegemonia
da mão do Messias limitava-se a Israel. Uma vez destruídos os ímpios, Yavé, graças ao Ungido, restabeleceria a lei e o culto. Seria um reino de paz e alegria. Agora,
essa concepção transcendeu as fronteiras. O Messias será o libertador de Israel e o rei e o juiz que controlará o mundo inteiro. Israel será o centro do universo.
Tudo passará pelas suas mãos. A criação será removida. Um grande desastre precederá a chegada desse rei-juiz. E surgirá uma nova terra, mais bonita e pacífica, sempre
sob o controle de Israel. Esse é o "reino de Deus" de que tanto falam e que, posteriormente, com o passar do tempo, serão tão pessimamente interpretados como o próprio
conceito de Messias.

- Então, o "reino de Deus" não será uma invenção do Mestre...

- O "reino de Deus" ou os "dias do Messias" são conceitos muito antigos. Os judeus dizem que Yavé entregou seu povo aos gentios, temporariamente, por causa de seus
pecados. Mas chegará o dia, muito próximo, segundo Yehohanan, em que os ímpios serão derrotados por esse Messias, e o próprio Deus assumirá o comando e voltará a
governar o mundo. Daí o nome de "reino de Deus". Em outras palavras: "reino de Deus" é igual a reinado de Israel sobre toda a criação. E quanto mais penosa é a situação
dos judeus como povo, maior é a esperança na chegada desse personagem. Teu "amigo", como sabes, falará de um "reino" muito diferente. Essa será outra de suas geniais
inovações.

Kesil, com os olhos arregalados, não disfarçava seu interesse, em especial por aquele enigmático Mestre. Porém, muito discreto, não abriu a boca. - Estão loucos!
- bradou Eliseu. - Uma nova criação?

- É isso mesmo. Nesse "reino" todos viverão mil anos. Ninguém trabalhará. Ou melhor, os "náo-judeus" trabalharão para os judeus. E assim será durante seis mil anos,
período estimado pelos rabinos para esse tempo de "paz".

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- Mil anos? E sem trabalhar!...

- Os profetas garantem que esses mil anos serão, na realidade, como mil dias. Não haverá velhos, mas sim crianças. Todos desfrutarão de saúde. Segundo Filon, "o
segador trabalhará sem esforço e os partos ocorrerão sem dor".

A incredulidade nos rostos de Eliseu e Kesil foi crescendo.

- Estão loucos...

- Não, Eliseu, eles acreditam nisso. Em sua opinião, o mundo atual (wlm hzl) é controlado pelo Mal e por seus anjos, com a permissão de Yavé. Isso terá de mudar
necessariamente. O novo "reino", o mundo futuro (wlm hb) será o contrário: o Bem e a Justiça. Mas para que se chegue ao "reino de Deus", o mundo terá de ser demolido.
Lembra: "O machado está na base da árvore...". Yehohanan está gritando o que foi escrito e o que fez suspirar gerações inteiras. O que vês agora é o reverso do divino.
Será Deus, dizem, que destruirá esta velha ordem e restabelecerá o "reino" lá de cima. O Messias será seu arauto e a mão de ferro que sacudirá a Terra.

- E quando vamos parar de trabalhar? - perguntou o engenheiro brincando. - Porque, afinal de contas, nós estamos com eles...

Supus que ele se referisse aos Estados Unidos e às suas relações com o Estado de Israel. Não fiz o menor caso.

- A chegada do "reino", segundo as Escrituras (Os. 13 e Dn. 12), será precedida pelo pranto e pela calamidade. Serão as célebres "dores do parto do Messias", anunciadas
pelos profetas. Essa aflição mundial também será precedida por sinais de todo tipo: o sol e a lua escurecerão, surgirão ginetes entre as nuvens e espadas brilhantes
nos céus, as árvores destilarão sangue, as pedras gritarão, o sol iluminará a noite, os celeiros ficarão vazios, as águas doces se transformarão em salgadas, o mar
arrasará a terra, o homem se levantará contra o homem, o pai contra o filho e o irmão contra o irmão...

Kesil, atemorizado, tapou os ouvidos, recusando-se a ouvir.

-Tens muita imaginação...

- Não sou eu que digo. Quem diz são os escritos rabínicos, o segundo livro dos Macabeus, as narrativas essênias, Flavio Josefo e Tácito entre outros. As referências
e alusões ao desastre são mais de trezentas,

305

segundo os judeus. Mas antes, como outro importante sinal, deverá surgir o profeta Elias.

- Elias? - retrucou meu companheiro com razão. - Mas ele não desapareceu em um "carro de fogo"27?

- Sim, isso foi há oitocentos e sessenta anos, aproximadamente. Assim como Moisés, nunca se soube onde ele foi sepultado.

E reza a tradição que retornará para preparar o caminho do Messias, arrumando a desordem e restabelecendo a paz. Outros, acenando com uma afirmação de Moisés, dizem
que Elias chegará "para excluir do reino os que foram introduzidos à força e para admitir os que serão excluídos, também pela força". Ele dirá quem é impuro e, portanto,
indigno de entrar no "reino de Deus". Os doutores da Lei, no entanto, não conseguem chegar a um acordo. Alguns asseguram que ungirá o Messias. Outros negam, afirmando
que aparecerá para mudar os corações (Mat. 4) e, inclusive, para ressuscitar os mortos.

Fez-se um silêncio.

Eliseu e eu nos olhamos. Creio que pensamos a mesma coisa...

Será que o Anunciador se identificava com o profeta Elias?

- Arrependei-vos! - continuava clamando Yehohanan no vau. Nada escapará à ira de Deus!

Meu companheiro negou com a cabeça. Entendi: aquelas palavras tinham muito a ver com o Messias judeu, mas nada com a futura mensagem do Mestre.

27 No livro segundo dos Reis (capítulo 2), conta-se que o profeta Elias foi arrebatado nos céus por um estranho "carro de fogo com cavalos de fogo". Isso aconteceu
no rio Jordão: "...Cinqüenta homens da comunidade dos profetas (possivelmente de Jerico ou da comarca) vieram e ficaram à frente, a certa distância; eles dois (Elias
e seu discípulo Eliseu) pararam junto ao Jordão. Elias tomou seu manto, enrolou-o e golpeou as águas, que se dividiram de um lado e de outro, e ambos passaram a
pé no enxuto. Depois que passaram, disse Elias a Eliseu: Pede-me o que queres que faça por ti antes de ser arrebatado do teu lado. Disse Eliseu: Que eu tenha
duas partes em teu espírito. Disse-lhe: Pedes uma coisa difícil; se conseguir me ver quando eu for levado de teu lado, o terás; do contrário, não o terás. Iam
caminhando enquanto falavam, até que um carro de fogo com cavalos de fogo interpôs-se entre eles, e Elias subiu ao céu no redemoinho... E não foi mais visto". (N.
do M.)

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- Depois - prossegui, tentando evitar o assunto da volta de Elias -, após essas guerras e catástrofes, será o tempo do Messias e do "reino".

- Em suma - interveio meu companheiro -, o conceito de Messias é muito anterior ao cristianismo...

- Nos escritos de Baruc, Esdras, nos antigos Oráculos Sibilinos, nas parábolas de Enoc, nos Salmos de Salomão etc., menciona-se um Messias que vencerá os ímpios.
Os essênios também escreveram sobre isso. Lembra seus "chefes de militares" e a derrota que sofreram os "filhos das trevas", segundo o manuscrito da Guerra. Serão
os futuros cristãos que se apropriarão do conceito judeu, modificando-o a seu critério. Esse Messias pré-cristão, como te digo, deverá ser humano, totalmente humano,
descendente da casa de Davi (rei), e também sacerdote e profeta ou vidente. Os judeus o proclamam como um enviado de Deus, dotado de poderes extraordinários, capaz
de milagres e de sanções maciças, justo, sábio e livre de pecado. Para alguns, é um "preexistente". Estaria sentado à direita de Deus, preparado para atuar desde
toda a eternidade.

- Um filho de Deus?

- De certo modo, sim. Como diz Enoc, um "Filho de Homem", mas, ao mesmo tempo, um deus.

- Nisso não estão errados...

- Sim e não. Teu "amigo" - dissimulei mais uma vez - é um homem e um Deus. Os judeus, no entanto, não compreendem que as duas naturezas, humana e divina, podem viver
simultaneamente...

- E nós também não...

Assenti em silêncio. Aquele foi outro dos grandes mistérios para o qual não encontramos uma explicação racional. Porém, essa é uma outra questão.

- O Messias judeu (segundo as Escrituras) será um desafio para o mundo. As nações formarão uma aliança e lutarão contra Israel. Deus sairá vitorioso e a destruição
das potências hostis será sua grande vingança...

- Que Absurdo! "Deus vitorioso"... "Deus vingativo". Desde quando Deus necessita da vitória? O Pai é um Deus da vingança?

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Eliseu conhecia meu pensamento. Não precisei responder. O Pai, de fato, não é o que afirmam os judeus. Não seria isso o que o Mestre ensinaria. E acrescentei:

- ...Mais absurda é a crença em um Messias destruidor de dentes. E citei a sentença de Enoc (livro primeiro 46, 4-6): "O Filho do

Homem" que expulsa os reis e poderosos de seus acampamentos, quebra os dentes dos pecadores e derruba os reis de seus reinos e tronos".

Jesus de Nazaré quebrando os dentes dos pecadores ou acorrentando os ímpios?

- Esqueceste de algo - disse Kesil timidamente -. Nós, os pobres, também temos uma razão para esperar o Messias...

Encorajei-o a continuar.

- ...Esse "reino de Deus" será um lugar sem impostos. Ele tinha razão.

O Messias judeu, em suma, não se enquadra no perfil do Mestre. Não era suficiente fazer uma revelação do Pai (um Deus "humano", muito diferente do colérico Yavé).
O Messias tinha de ser alguém que estabelecesse o "reino" (a superioridade de Israel). Por isso, os seus não o compreenderam. Por isso a Senhora e os íntimos, os
apóstolos, viveram em uma permanente confusão. Jesus não foi um rei, tampouco um sacerdote ou um guerreiro. Por isso, seus compatriotas o rechaçaram, como fizeram
com outros28. E continuam esperando esse suposto libertador. Até o século XX, entretanto, não tinha chegado, segundo os rabinos...

28 Entre os numerosos falsos messias destacaram-se três. Foram capazes de mobilizar milhares de pessoas. Um deles apareceu no ano 35 de nossa era (cinco anos depois
da morte do Mestre). Ele já foi mencionado neste diário. Tratava-se de um samaritano, um kuteo, que disse saber onde estavam enterrados os vasos sagrados de Moisés.
Convocou o povo ao monte Gerizím. Pôncio dissolveu a multidão, provocando uma carnificina. O incidente implicou em uma nova denúncia contra o célebre governante,
que teve de viajar para Roma para prestar contas.

O segundo "messias" chamava-se Teudas (44 a 46 d.C). Ele também convenceu milhares de judeus (Antigüidades, XX, 5). Conduziu-os ao rio Jordão e prometeu separar
as águas, como fizera Josué com a arca da Aliança e, posteriormente, o profeta Elias. O fracasso foi estrondoso. Fado, procurador romano, enviou um destacamento

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E por essa razão que não gosto das palavras "Cristo", versão grega de "messias" ("Kkrístos" ou "Ungido") e "Jesus Cristo". Já as utilizei. Agora, não mais. Ele não
foi Khrístos. Foi muito mais29.

E ao concluir-se a filípica, voltou a se repetir a cena que eu havia presenciado de dentro do rio no meu primeiro "encontro" com o homem das sete tranças. O povo,
os maqueiros e os enfermos pressionaram, provocando o caos. Yehohanan se viu obrigado a fugir novamente, e entrou correndo pela orla das acácias.

O Destino me alertou. O bosque verde e vermelho... Eu tinha de descobrir o "segredo" das acácias. Ou não existia "segredo"?

Abner e os discípulos do Anunciador acabaram voltando para junto da sófora. Decidi visitá-los, numa tentativa inútil de animar o grupo. Estavam desolados. Conviviam
há meses com Yehohanan, mas não entendiam sua maneira de agir. Por que aparecia e desaparecia? Por que não permitia que o acompanhassem? Por que não se separava
daquela odiosa e temida colmeia? Por que era tão rude?

Lamentaram-se, discutiram e, naturalmente, não chegaram a nenhuma conclusão. Não compreendiam suas medidas de segurança, em-

de cavalaria e matou muita gente. Teudas foi preso e decapitado. A cabeça foi levada a Jerusalém. Yehohanan, em outras circunstâncias, sofreu o mesmo castigo. Lucas,
o evangelista, fala igualmente de um falso profeta -Teudas -, mas não se tem certeza se é o mesmo a que se refere Josefo (ver Atos dos Apóstolos 5, 36). O terceiro
"messias" foi um egípcio. Assim narra Flavio Josefo em seus livros Antigüidades (XVIII e XX) e Guerras (II). O falso profeta reuniu mais de seis mil homens, mulheres
e crianças no deserto. Dali levou-os para o monte das Oliveiras. Prometeu que faria cair as muralhas de Jerusalém. Foi entre os anos 52 e 60 depois de Cristo. Obviamente,
as muralhas continuaram no mesmo lugar... A esses "messias" caberia acrescentar Judas da Galiléia, Simão da Peréia (escravo de Herodes), Atronges (pastor da Judéia),
Menahemo (neto de Judas, o Galileu) e Bar Coqueba, entre outros (N. do M.)

A confusão das religiões, particularmente da Igreja Católica, chega ao extremo de celebrar a festa de "Cristo Rei". Essa festividade foi instituída pelo papa Pio
XI em 1925 para celebrar "a realeza messiânica de Jesus". Como se disse, Jesus não foi "Cristo" (messias), nem rei. (N. do M.)

309

bora admitissem a possibilidade de serem espionados pelos esbirros de Herodes Antipas, dos sacerdotes, da casta saducéia de Roma. Havia ali centenas de pessoas.
Qualquer uma poderia ser informante.

E por que aquela obsessão com o mel? Por que era preciso consumilo a toda hora, como ordenava o gigante? Por que fazer a pregação quando ele não estava, se quase
sempre acabava em fracasso...

O pior é que Yehohanan não admitia opiniões diferentes das suas. Sua verdade era inegociável. Ninguém podia criticá-la, nem criticá-lo. Interpretava tudo à sua maneira,
excluindo o que não seguia sua linha apocalíptica. Era cabeça dura, autoritário, egocêntrico, dramático quando lhe convinha, arrogante, sem tato, frio e calculista,
sem o menor senso de humor, e incapaz de sorrir.

Seus homens se sentiam ridículos, às vezes. Por que escrever frases de seus sermões nas vasilhas que balouçavam sob a sófora? Na realidade, como fui descobrindo,
eram expressões extraídas dos textos bíblicos (sobretudo de Isaías, Daniel, Samuel e Elias, seu favorito): "Ouve o rei, filho de Davi"... "Cinge-o de força para
que destrua os ímpios"... "O espírito de Yavé fala por mim"... "Com vara de ferro os aniquilarei!"... "As nações ímpias serão destruídas com o sopro de sua boca"...
"Quem como eu?"

Ao egocentrismo somava-se um profundo narcisismo, alimentado um dia por Isabel, sua mãe. E comecei a imaginar algo pior... A colmeia, os óstracos pendurados nos
galhos, o xale sobre a cabeça, as "meditações" ao redor da árvore e todos os outros comportamentos singulares podiam ser manifestações de um transtorno mental. Mas
não quis me precipitar.

Por que Yehohanan escolhia tão minuciosamente os lugares onde acampavam? Por que inspecionava nos mínimos detalhes os vaus onde procedia à cerimónia de imersão?
Esse outro costume estranho também perturbava seus homens. Segundo Abner, ele "só pregava em águas golpeadas ou mananciais30". Antes de se assentar em uma paragem,
ela a percor-

30 A rigorosa lei de Moisés estabelecia uma ordem até mesmo entre as águas que serviam para a purificação ritual. O tratado miqwaot é esclarecedor nesse sentido
(miqwaof. banhos pelos quais alguém obtém a purificação ou libertação de algum tipo de impureza). As águas, segundo esse tratado, eram qualificadas em seis ordens

310

ria e tentava averiguar que eventos bíblicos tinham se registrado no trecho de rio em questão. Se não houvesse nenhum, ele simplesmente inventava, como foi o caso
da luta de Jacó com o "anjo". Em encontros posteriores confirmei a versão do segundo...

Apesar de tudo, Abner e o grupo gostavam dele. Era seu ídolo. E mais: Yehohanan não era o precursor ou anunciador do futuro Messias. Para aqueles "arautos" ele era
o autêntico libertador, embora ninguém se atrevesse a manifestar isso em sua presença. Outro mais forte que Yehohanan? Isso era impossível ou, na melhor das hipóteses,
tratava-se apenas de um recurso oratório do Anunciador. E comecei a intuir que Alguém como o Mestre não seria bem recebido por aqueles homens simples (apenas varões,
naturalmente).

Não me enganei... Eles o seguiriam até o fim do mundo. Seriam testemunhos da chegada do "reino de Deus" e ocupariam os postos de honra junto ao novo e indiscutível
rei: Yehohanan. Ninguém podia detê-los. As multidões acorriam sem cessar. O êxito do gigante das pupilas vermelhas era inquestionável. Quem arrebataria sua glória?

(de menor a maior pureza): cisterna, charco, piscina de banhos rituais, fonte, águas golpeadas e mananciais. Para ser "pura", a piscina tinha de contar com um mínimo
de quarenta seãs (em torno de 656 litros). Entendiam por águas "golpeadas" as salgadas ou termais, como menciona o "Pará", outro tratado da Misná. As "golpeadas"
não eram potáveis. Também não serviam as chamadas "águas enganosas" ou intermitentes (as que "enganam ou deixam de fluir pelo menos uma vez a cada sete anos"; se
desaparecessem por causa da guerra ou de uma seca, então eram "puras"). Os mananciais ou águas vivas eram as mais "puras". Nelas podiam submergir os homens que sofriam
de blenorréia. Com esse tipo de águas realizava-se a aspersão dos leprosos. Tudo era previsto pelos meticulosos judeus: desde a condução da água (para não torná-la
impura) até as coisas ou objetos que podiam aderir à pele de quem se banhava, passando pelos líquidos que mudam a cor da água. Nem todos os rios serviam. O Jordão,
por exemplo, ou o Yarmuck, no norte do vale, não eram "puros" (arrastavam lama: águas inservíveis para a purificação). Já os afluentes eram puros, desde que suas
águas corressem. O mesmo ocorria com os arroios (era autorizada a imersão, independentemente do volume ou caudal das águas). Qualquer mar era considerado "piscina
de imersão", pois está escrito: "À congregação das águas chamou de mares" (Génese l, 10). (N. do M.)

311

Abner advertiu em várias oportunidades: "Ninguém pode substituir o enviado por Deus".

Eu tremi... O que aconteceria quando o Mestre se lançasse abertamente pelos caminhos? Seria possível que os dois grupos participassem do mesmo projeto? Dois líderes?

Verdadeiramente, o Destino "sabe"... Agora entendo porque fomos parar no "vau das Colunas". Era preciso que avançássemos também nisto. Nada é casual.

No dia 9 de outubro, terça-feira, decidi testar a sorte. Yehohanan não havia regressado. Falei com meu companheiro e ele concordou. Tínhamos de tirar as dúvidas.
Que diabos fazia o Anunciador no bosque das acácias? Eliseu me esperaria.

E antes do alvorecer, de maneira discreta e silenciosa, procurando não ser visto, cruzei o vau e alcancei a margem direita do Yaboq. Minha intenção era simples:
localizá-lo e averiguar por que desaparecia na mata fechada de acácias, rícinos e salvadoras. Sabia que era proibido segui-lo, mas mesmo assim decidi me arriscar.
Não queria voltar ao módulo com essa dúvida. Algo me dizia que a "visita" ao outro lado do afluente era de extrema importância...

Aguardei o dia clarear.

Tive sorte. Ninguém percebeu minha manobra. Explorei a mata com os olhos e, lentamente, com o auxílio da "vara de Moisés" fui ganhando terreno entre o emaranhado
de ramos. Não descobri nenhum caminho. Aquela zona do Yaboq era selvagem e improdutiva. As acácias, armadas com milhares de espinhos de até dez centímetros de extensão,
amarfinadas e impiedosas, eram uma barreira excelente. Só um louco se atreveria a penetrar naquele território. Os frutos, ligeiramente curvados, encontravam-se em
plena estação. Centenas de pássaros disputavam as copas, agitando as flores vermelhas e amarelas em seus vôos. O amanhecer despertou as crias, e o trinar das passer
(andorinha do Jordão), dos tordos, dos ferreiros e dos pedreiros solitários despediu o silêncio, condenando-o ao ocaso.

Quando já tinha caminhado cerca de quinhentos metros, parei. Para onde devia conduzir meus passos? A mata parecia não ter fim... Então eu o vi.

312

J.). BENÍTEZ

Ou melhor, ouvi. Era sua voz. Eu tinha certeza. Soava muito próxima.

Instintivamente, tratei de me esconder atrás de um dos troncos. Dado o caráter rude e tosco do Anunciador, minha presença podia ser pouco agradável. Tinha de ser
cauteloso.

Era como uma oração... Deduzi que estava sozinho, mas não tinha certeza. Com quem ele estava falando? Avancei devagar e descobri uma pequena clareira. Yehohanan,
sentado em uma árvore caída, manipulava o interior de uma tigela de barro. De fato, ele estava sozinho.

- ...Porque assim fala Yavé... Não acabará a farinha na cântara, nem o azeite na talha até que Deus...

Quando tentei me aproximar um pouco mais, um ramo se quebrou debaixo da minha sandália e alertou o homem das pupilas vermelhas. Abriguei-me atrás dos troncos e prendi
a respiração. Se ele me descobrisse, o que eu iria lhe dizer?

O Anunciador interrompeu a prece e se levantou, olhando para o trecho do bosque onde eu tentava me esconder. Foram alguns segundos intermináveis. Finalmente, esquecendo
o ruído, voltou ao que estava fazendo. Introduziu a mão esquerda na tigela e tirou um punhado de farinha.

- Não acabará a farinha na cântara...

Inspecionou o interior do recipiente e depositou a farinha que estava na palma de sua mão em uma segunda tigela. Depois repetiu a operação e a ladainha. E toda a
farinha foi transferida.

Então interrompeu a oração monótona. Olhou de novo no interior da cântara onde antes havia farinha e de repente começou a gemer e a choramingar. Era um choro amargo
que, sinceramente, me apertou o coração. O que estava acontecendo com ele?

E, tão subitamente como irromperam, as lágrimas secaram. O Anunciador ficou de pé e começou a andar ao redor do tronco caído. E o ouvi sussurrar:

- É tudo mentira...

Assim permaneceu um bom tempo, dando voltas em torno da árvore e repetindo sem cessar o enigmático "é tudo mentira".

313

Depois voltou ao centro do tronco. Sentou-se novamente e começou a extração da farinha, depositando-a na cântara que fora esvaziada na primeira operação.

- ...Porque assim fala Yavé... Não acabará a farinha na tigela... Não se esgotará o azeite na talha até o dia em que Deus conceder a chuva sobre a Terra.

Aquela era uma passagem do livro primeiro dos Reis. Mas o da farinha... Não podia ser... e rechacei a idéia.

Yehohanan continuou o trabalho, esvaziando o recipiente e enchendo a segunda tigela. A cada punhado repetia a ladainha.

Sentei no chão, certamente derrotado. E aquela idéia levantada pelo engenheiro ganhou força.

Concluída a passagem da farinha, o Anunciador mais uma vez olhou para a cântara vazia e irrompeu em outro choro, mais escandaloso ainda.

Eu estava quase indo embora. Mas ainda não tinha visto tudo...

Encerrado o desconsolado pranto, o homem da longa cabeleira ruiva voltou a repetir os passos ao redor do tronco, ao mesmo tempo que lamentava sem cessar:

- É tudo mentira...

A cena se prolongou por várias horas, com uma única mudança. Ao notar que o sol se despregava das acácias, Yehohanan pegou o talith de cabelo e se cobriu. E as suspeitas
iniciais foram se confirmando. Aquele homem era vítima de um desequilíbrio mental...

A clareira era um acampamento ou refúgio improvisado. Deduzi isso em vista dos poucos utensílios de que o Anunciador dispunha. Junto às cântaras, vi o barril-colméia,
sempre à mão. Ao redor do tronco caído, Yehohanan dispusera outro círculo ou guilgal, mas com ramos de acácia. A mochila branca descansava junto às tigelas de barro.

A que se devia esse isolamento? No início, confuso, não consegui encontrar uma explicação. Depois, pouco a pouco, a triste realidade se impôs...

Por volta da hora sexta (meio-dia), Yehohanan abandonou o cansativo processo de passar a farinha de uma cântara a outra e saiu do círculo de ramos. Permaneci atento
e oculto.

314

JJ. BENÍTEZ

Voltou a urinar pela quinta ou sexta vez e foi em direção às árvores mais altas. Embora o xale o cobrisse quase por completo, pareceu-me que inspecionava a ramagem.
O que estava procurando?

Tentei encontrar alguma coisa diferente na copa da acácia. Só vi pássaros, uma alegre e incansável colónia de ferreiros, com plumagens tingidas de azul, preto, branco
e amarelo. Entravam e saíam da árvore. Os machos retornavam com larvas e insetos para alimentar uma prole com o bico sempre aberto. Aspasser, mais numerosas, brigavam
para conquistar a ramagem, aproximando-se velozes. As fêmeas dos ferreiros, no entanto, tão zelosas e combativas como as andorinhas, não permitiam. E aspasser, sufocadas,
acabavam trançando os ninhos em forma de pêra nas acácias próximas.

Yehohanan, então, começou a trepar pelo troco. O que pretendia? Subia devagar, calculando cada movimento. Os pássaros, assustados, voaram em fuga. O homem, muito
ágil, alcançou os ramos e logo se deteve. Ali continuou por um longo tempo, absolutamente imóvel.

Não consegui entender, não sabia o que o guiava. Pensei nas crias. Será que tentava capturá-las. Para quê? Estaria com fome?

Continuou ganhando cada palmo, lenta e silenciosamente, como um réptil. Como conseguiu desviar daquele emaranhado de espinhos? Não faço idéia, mas ele conseguiu.
E foi se sentar muito perto de um dos ninhos de ferreiros.

Os pássaros, tão assombrados quanto este explorador, pousaram perto dali, trinando desesperados, agitando as asas e mostrando as cores vivas ao "invasor", em uma
inútil tentativa de assustá-lo.

Mudei de árvore e me aproximei. O rosto, no entanto, continuava oculto. Mas foi por pouco tempo... Yehohanan, de súbito, retirou o talih e deixou-o cair sobre os
ombros. Fechou os olhos. A luz certamente o incomodava. Depois aproximou o rosto de um dos ramos e pôs a boca na altura do ninho onde piavam insistentes quatro ou
cinco minúsculas crias peladas.

Os ferreiros continuavam protestando da ramagem. Obviamente, nenhum se atreveu a saltar sobre o ninho. E este que escreve assistiu a uma outra cena que nem sei como
descrever...

315

Yehohanan separou os lábios e por algum tempo ficou imitando as crias, piando. Acho que empalideci. E assim continuou agachado sobre a acácia, abrindo a boca de
forma ritmada e reproduzindo, à sua maneira, o lamento angustiante dos passarinhos famintos.

Eu não sabia se ria ou se chorava...

Mas a representação não parou aí. O Anunciador, já cansado, parou a mímica e, sem separar o rosto do ramo, exclamou:

- Pão para a manhã!... Pão! Pão? A quem ele pedia pão?

Meus temores se intensificaram... E Yehohanan repetiu:

- Pão para a manhã!... Pão para a manhã!

Os ferreiros, ao ouvir o som, abandonaram os ramos e se afastaram para os karus (acácias) mais próximos.

- Pão!... - insistiu, ao mesmo tempo que levantava a mão esquerda mostrando a "tatuagem" -. Pão para a manha!... Sou do Eterno!

Não tinha dúvida. Yehohanan falava com os ferreiros... Pretendia que o alimentassem! Ensinava-lhes o "sinal" que tinha na palma da mão.

A cena patética me lembrou alguma coisa, mas nesses instantes críticos, confuso e entristecido, não atinei. Os pedidos de "pão para a manhã" se sucederam durante
muito tempo. Calculei duas ou três horas. Finalmente, esgotado, Yehohanan adormeceu no alto da acácia.

Foi o suficiente. Ao voltar para junto de Eliseu e Kesil, meu coração estava apertado. De fato, o Anunciador padecia de um grave transtorno. Eu tinha de explorar
mais a fundo essa estranha personagem. Mas como?

O Destino previra minuciosamente...

Só meu companheiro tomou conhecimento do que presenciei do outro lado do vau. Não disse nada. Ele tinha advertido. A história, no entanto, voltou a mentir. Yehohanan
não era um santo, como garantem as religiões. Era um desequilibrado.

Mas eu preciso me conter. Cada coisa na sua hora...

O dia seguinte também foi difícil. Assim como acontecia com o Mestre, eu também não gosto de despedidas. No adeus se morre um pouco. E foi isso que fizemos: nos
despedimos de todos.

316

j.j. BENÍTEZ

Os discípulos lamentaram e insistiram para que eu transmitisse a mensagem de seu ídolo a Jesus de Nazaré. Yehohanan não apareceu. Eu aproveitei as circunstâncias
para dar um pequeno presente ao sempre bondoso Abner, o "homem-sorte". Devia muito a ele.

Passei às suas mãos uma das pequenas ampolas de barro da "farmácia" de campanha. Era tintura de arnica, muito apropriada para aliviar os problemas dentais que o
consumiam. Bastariam dois enxágues para diminuir a piorreia. Não acabaria com a inflamação e o sangramento das gengivas, mas, pelo menos, reduziria as dores por
algum tempo.

A Belsa e Nakebos, ainda prostrados e debilitados, dei uma dose de antibiótico para cada um. A infecção intestinal parecia ceder. A medicação não alteraria o ciclo
natural, mas era o mínimo que eu podia fazer.

Os dois se mostraram tristes com a nossa partida. Mal tínhamos conversado. Nem eles e nem este que escreve sabíamos, nesse momento, que ainda voltaríamos a nos encontrar.

Mas o pior foi Kesil, o amigo carinhoso e prestativo, mais que um serviçal. Tinha se afeiçoado a nós, principalmente ao engenheiro. Na véspera da partida, ele se
esmerou. Preparou uma sopa deliciosa ao estilo de Damiya, espessa, de cor âmbar, com tenros e suculentos pedaços de carneiro e barbo frito, polvilhado com pimenta
e cominho moído. Quase não falou.

Na manhã seguinte, com lágrimas nos olhos, perguntou só uma vez: "Eu poderia ir com vocês? Trabalho pela metade do preço".

Eliseu, emocionado, baixou os olhos. Recusei a oferta e repeti o que ele já sabia: éramos viajantes incansáveis. Agora estávamos em Damiya, amanhã em Migdal, depois,
talvez, em Nahum. Seu lugar era no vale, junto com sua família.

Nós o abraçamos e entramos no carro que nos levaria para o norte, até a cidade de Migdal, na margem ocidental àoyam. Ele nos acenou com o braço. Nossa aventura no
"vau das Colunas" havia terminado. O Ravid nos aguardava e, em seguida, o Mestre...

317

DE 11 A 17 DE OUTUBRO

O Mestre?

Náo tínhamos a menor idéia de onde estava. Será que voltara a Nahum? Ou prosseguia aquela viagem misteriosa a Jerusalém? A verdade é que fazia vinte e três dias
que não O víamos, e sentíamos a sua falta.

A idéia de alugar o carro e o sais, o condutor, foi muito boa. Eliseu viajou descansado e, além disso, nos poupamos de possíveis inconvenientes.

Passamos a noite na conhecida pousada de Yardena e no dia seguinte, sexta-feira, chegamos a Migdal. Dispensamos o carro e devagar, sem nenhuma pressa, subimos ao
"porta-aviões".

Tudo transcorreu bem, "de primeira classe". Náo houve nenhum imprevisto. Reforçamos as provisões na plantação vizinha onde residia Gamar, o velho beduíno, e ingressamos
na nave.

Papai Noel mantinha os sistemas de forma impecável. O trabalho de inspeção foi mínimo e rotineiro. E nos dias que se seguiram me ocupei de Eliseu e da preparação
das etapas imediatas e hipotéticas. Hipotéticas porque, para dizer a verdade, estávamos no vácuo. Não sabíamos de nada. Ignorávamos os planos de Jesus. O Destino
era imprevisível. Melhor assim... Agora, ao ordenar estas memórias, me surpreendo mais uma vez. Nós, cientistas, acabamos por confiar no Destino. Poucos acreditarão.
O que importa? Eu sei que tinha razão. E isto basta. Aprendi tarde, mas aprendi: na vida convém ouvir os sussurros da intuição. A lógica e a razão são mensageiras.
E apenas isso.

319

Como temia, o exame feito em meu irmão deu positivo. Eliseu foi vítima de uma salmonella typhimurium, uma variante da salmonelose, muito comum em homens e animais.
A contagem de leucócitos estava praticamente normal, embora a eosinofilia (formação e acumulação de um número excessivo de células eosinófilas no sangue) recordava
a grave infecção parasitária. As culturas de urina e fezes confirmaram isso.

Por sorte, o engenheiro se recuperou. Aqueles dias angustiantes no "vau das Colunas" foram uma má lembrança. E eu prometi a mim mesmo algo muito difícil de cumprir:
seríamos mais rigorosos no consumo de líquidos e alimentos. A agitada dinâmica do dia-a-dia nos obrigaria a desistir...

Como eu dizia, não sabíamos de nada sobre o futuro imediato. No entanto, teimoso como uma mula, me empenhei em planejar (?) os passos seguintes. Eliseu riu, com
razão.

A primeira coisa seria o alojamento. Procuraríamos um abrigo em Nahum, se possível, nas proximidades da "casa das flores". O mais provável é que o Galileu tivesse
voltado da Cidade Santa. Tínhamos de ficar perto dele e não voltar a perdê-lo.

- E se ele não voltou? O que faremos, major, se teu amigo não estiver em Nahum?

Preferi ignorar as dúvidas sensatas de Eliseu. Desta vez ele estava enganado. Eu tinha certeza... Ou era o meu desejo de reencontrar o Mestre? Depois de instalados
em Nahum, nós decidiríamos.

E "ela" me voltou à mente. Fazia parte dos planos? Naturalmente que não. Esse sentimento não era viável. Estava proibido. Eu tinha de descartá-lo. E concentrei-me
no objetivo seguinte, não menos vago: Yehohanan. Estudei e me documentei quanto pude, confirmando algumas suspeitas. Outras continuavam no ar, dependendo de uma
informação mais exaustiva.

As "pupilas" vermelhas eram, de fato, conseqüência do albinismo ocular. Trata-se de uma condição hereditária que afeta os olhos, em particular, o pigmento chamado
de melanina. O mais provável é que o "defeito" procedesse do cromossomo X, transmitido pela mãe (nettleschip-falis). Não conhecemos Isabel e, portanto, não posso
saber se ela apresentava a mesma pigmentação colorida na região posterior dos olhos. Embora fosse portadora do cromosso-

320

mo falho, ela não sofreria necessariamente do mesmo albinismo ocular. Sua visão podia ser normal. No filho, porém, a julgar por minhas observações, a visão parecia
afetada pelo nistagmo ou movimento involuntário dos olhos, pela fotofobia (sensibilidade à luz) e por uma bastante provável diminuição da acuidade visual. Isso explicaria
o talih sobre a cabeça, a aparição do Anunciador nas primeiras horas do dia, quando a luz solar ainda é fraca, e o fato de ele não ter me visto claramente quando
eu estava atrás da pilastra de pedra no meio do rio Yaboq1. Por isso não me reconheceu nos encontros posteriores, no guilgal e na cabana? Era provável. Por isso,
talvez, não percebeu minha presença no bosque das acácias. Quem sabe...

Pensei em um segundo encontro. Seria útil e esclarecedor.

Eliseu riu de mim mais uma vez. Já não bastara a experiência no "vau das Colunas"?

Fiquei quieto. Tinha um outro assunto mais delicado que o albinismo ocular e suas seqüelas. Ninguém, nos raros testemunhos escritos que se conservaram sobre o Batista,
fala de um possível distúrbio psíquico2. Era compreensível. Como já disse, nenhum dos evangelistas se atreveria a

A fóvea (fossa no centro da retina) proporciona a acuidade visual. Quando ela é alterada - caso do albinismo ocular -, essa acuidade diminui, o olho é afetado pela
luz e não pode processar as imagens agudas ou muito luminosas. No albinismo ocular, os nervos que se dirigem ao cérebro não seguem o "caminho natural". Entretanto,
para confirmar essa anomalia, teríamos de submeter o Anunciador a um exame específico (visually evokedfotential), obviamente, algo muito pouco plausível. (N. do
M.)
2 À parte os Evangelhos canónicos - de pouca credibilidade, como pude demonstrar ao longo deste diário -, o único testemunho mais ou menos confiável é do historiador
judeu romanizado Flavio Josefo (ver seu livro Antiguidades dos judeus, XVIII). Nesse texto, menciona-se Yehohanan, embora as razoes de sua prisão não coincidam com
as dos evangelistas. Para Josefo foi um problema político. A alusão ao Batista, no entanto, é de origem duvidosa. Para autores como Herrmann seria uma interpolação
posterior, "fabricada" pelos cristãos. Outros cristãos, como Bilde e Méier, têm uma opinião contrária. Do meu modesto ponto de vista, tendo a compartilhar a opinião
de Herrmann. As 172 palavras gregas que integram o suposto testemunho de Josefo sobre o Anunciador poderiam corresponder a uma versão medieval dessa obra, como ocorreu
na chamada "versão eslava" (russa, na realidade) de A guerra judaica, também de Flavio Josefo. (N. do M.)

321

estragar a imagem de um homem que, supostamente "abriu caminho para o Mestre". Só João Zebedeu conheceu-o pessoalmente. Seu testemunho, no entanto, não esclarece
esse pormenor. Além disso, como exporei oportunamente, as palavras de João, o evangelista, sobre Yehohanan tampouco se ajustam à verdade.

E comecei a amadurecer um plano. Os nemos dissipariam as dúvidas. Para isso, eu teria de me aproximar de novo do Anunciador. O problema era quando...

Não disse nada. Estudaria o projeto minuciosamente. Depois, se surgisse uma oportunidade, comentaria com meu companheiro e tomaríamos uma decisão. Entendi que Yehohanan
também fazia parte dos objetivos em que estávamos envolvidos. Convinha esclarecer as dúvidas, incluindo o possível distúrbio mental do gigante.

E comecei a trabalhar, centrando-me na preparação dos nemos, cuja descrição (na medida do possível) deixarei para mais adiante, e nos capítulos que julguei úteis
para este hipotético segundo encontro com o rude homem das "pupilas" vermelhas. Deixei-me levar pela intuição e dediquei um tempo especial ao mundo das abelhas.
O instinto me advertiu. Podia ser importante...

Assim transcorreram aqueles dias de relativo descanso. Papai Noel, mais uma vez, foi vital. Encontrei tudo o que precisava no seu riquíssimo banco de dados.

Desta vez não houve sobressaltos. A avaria no sistema ECS não se repetiu. Nesse momento, insisto, não percebi um detalhe: só eu manejei o computador central. Eliseu
ficou à margem...

Como não me dei conta?

E fixamos a descida a Nahum para o amanhecer de quinta-feira, 18 de outubro do ano 25.

Nos dois últimos dias em Ravid, notei um comportamento estranho no engenheiro. Falava pouco. Achei-o nervoso e insociável. Como já ocorrera no "vau das Colunas",
preferia a solidão. Afastava-se do módulo e caminhava até os restos da muralha romana. Ali permanecia horas, cabisbaixo e com o semblante grave. Aproximei-me em
duas ocasiões, tentando

322

saber o que o preocupava. Foi inútil. Não consegui que se abrisse. Ele me contemplava com os olhos tristes e perdidos e acabava se esquivando Eu não sabia o que
dizer nem o que fazer. Cheguei a pensar em um novo transtorno, em consequência do mal que nos afligia e que, por enquanto, parecia respeitar-nos.

Nunca aprenderei...

323

I

18 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA

O sol apareceu às 5 horas, 38 minutos e 55 segundos.

A estação meteorológica do "berço" avisou. Os barómetros registradores e de mercúrio baixaram sensivelmente, apontando para os 995 milibares. O "ceilômetro" e os
sferic confirmaram a possível alteração atmosférica. Uma frente nublada de cem quilômetros aproximava-se pelo noroeste. Velocidade: quinze nós. Base dos cúmulos-nimbos:
34 (3.400 metros). A partir do meio-dia, o costumeiro maarabit (vento do oeste) aceleraria a marcha dos "cb". A chuva poderia apresentar-se na zona, em questão de
horas. Tínhamos de agir com rapidez. Convinha chegar a Nahum o quanto antes possível. Fizemos isso.

Mais ou menos por volta da hora tercia (nove da manhã), Eliseu e este que escreve nos aproximamos da "cidade de Jesus". Notei como meu coração acelerava. Novamente
perto do Mestre...

O lago se revestia agora de outra cor. A superfície, azul e prateada, mudara para o branco e o vermelho púrpura, quase violeta. A explicação devia-se às milhares
de aves aquáticas, recém-chegadas do norte, em especial dos pântanos do Hule. Descansavam e se alimentavam no mar de Tiberíades, retomando o vôo na direção das ensolaradas
terras da África tropical, no final de outubro. A garça púrpura e o pelicano eram as famílias dominantes. Estes últimos, sobretudo, eram um problema para os esforçados
pescadores do yam. Mesmo que a permanência não fosse muito longa, aquelas massas brancas, que formavam "ilhas" no

325

centro do lago, tornavam-se um sério obstáculo para a navegação em geral e para os trabalhos de pesca em particular. Os galileus tentavam espantá-los, utilizando
todo tipo de recursos, incluindo o fogo e os venenos. Mas os pelicanos, enormes e barulhentos, limitavam-se a trocar de lugar. Essa situação incómoda era suportada
duas vezes por ano: entre março e abril, quando se dirigiam para o norte, e agora nos meses de setembro e outubro, em sua habitual emigração para o sul. A essas
aves havia que se somar outras colónias de patos multicoloridos e também escandalosos, como várias espécies de mergulhões, todos excelentes pescadores. O mergulhão
de crista, assim chamado pela franja extravagante que tem sobre a cabeça, era o mais abundante e ativo. Mergulhava sem cessar nas águas e pescava todo tipo de peixe.
Sua gula era tal que, às vezes, acabava preso nas redes, com a conseqüente contrariedade dos proprietários dos artefatos. No final do verão, juntavam-se também as
inevitáveis carniceiras, gaivotas oriundas do que hoje conhecemos como Europa. Chegamos a estimar a população de inverno em mais de dez mil exemplares. Eliseu classificou-as
em quatro espécies: prateada (a maior), negra, pequena e sobretudo, a dos lagos, que constituía oitenta por cento. As aves ajudavam os pescadores, assinalando a
posição dos bandos de tilápias. Em abril desapareciam e voltavam ao Mediterrâneo.

Foi outro impulso... Ao passar diante da taberna de Nabú, o sírio, parei. Se desejássemos começar com pé direito aquela nova etapa em Nahum, por que não esclarecer
a situação desde o primeiro momento? O engenheiro estava de acordo e entramos decididos. A minha intenção era simples: enfrentar o indivíduo violento e explicar-lhe
que não éramos ladroes. A sacola de borracha que roubamos do Kuteo, o falso caolho de barba tingida de vermelho, era de nossa propriedade.

O local se encontrava vazio. Nabú, de costas, mexia em algo do outro lado do balcão. Aproximamo-nos em silêncio. Prudentemente, coloquei a mão direita na ponta da
vara. Ao menor sinal de violência, ativaria os ultrassons. Não foi necessário. Ao virar e nos ver, o sírio empalideceu. Suponho que era a última coisa que esperava
encontrar naquela manhã.

326

}.}. BENÍTEZ

Secou as mãos no avental imundo e encarou-nos de cima a baixo. Não lhe dei escolha. Falei e, com voz firme, expus o que não tivemos oportunidade de esclarecer da
outra vez, quando nos atacou com o facão. Escutou perplexo. O argumento principal - o ladrão era o samaritano
- levou-o a refletir. O Kuteo, Nabú sabia isso bem, era um vigarista e um boa-vida. Além disso, que ladrão se apresenta no lugar do roubo para esclarecer as dúvidas
sobre honra se é verdadeiramente o culpado?

O sírio, inteligente, deixou de lado as desavenças e concordou. Esqueceríamos o assunto, desde que continuássemos freqüentando o seu "honrado estabelecimento". Prometemos
isso, embora, para dizer a verdade, não tivéssemos a menor intenção de voltar àquele antro. O olhar atravessado e o sorriso forçado não me agradaram. Era preciso
permanecermos atentos...

Antes que ele tivesse tempo de colocar sobre a madeira negra do balcão um par de jarras com a "especialidade" da casa - a schechar ou cerveja de painço (e urina)
-, demos meia-volta e desaparecemos na agitação do cardo maximus, a rua principal de Nahum.

O objetivo seguinte foi menos trabalhoso do que supúnhamos. Os comerciantes nos orientaram. Lá mesmo, um pouco mais abaixo, na direção do cais, alugavam-se quartos.
O edifício, ainda em construção, erguia-se a pouca distância da "casa das flores", a casa de propriedade do Mestre. Para ser mais exato, cerca de cinqüenta metros,
na mão contrária. A coincidência nos animou. A proximidade poderia ser importante.

Tratava-se de uma ínsula, um bloco de casas populares de três andares. A moda das insulae ou "ilhas", como já mencionei em outra ocasião, tinha chegado também da
velha Roma. A falta de espaço obrigara os construtores a construir "para o alto", descobrindo assim um bom negócio. No império todo foi surgindo esse tipo de "colmeias",
habitadas, na sua maioria, pelas famílias de menos posses.

Neste caso, como dizia, o bloco de "apartamentos" dispunha de três andares. O último encontrava-se ainda sem terminar. As paredes eram uma armação de madeira que
ia sendo preenchida com pedras e argamassa. Era outra das exceções da Nahum negra, onde as casas dispunham de um só andar, erguidas quase sempre com pedra basáltica.
Andaimes precá-

327

rios, trançados com tábuas e varas, escondiam parte da fachada. Na parte de baixo havia pequenas lojas, similares às tabernas que vira na Cesaréia. Eram as instalações
mais caras, chegando algumas a custar duzentos denários por ano. Ali se alojavam comerciantes, banqueiros, cambistas, vendedores de plantas medicinais, fabricantes
de móveis, padeiros, exportadores e importadores em geral. Em algumas ocasiões, os engenhosos vendedores formavam "empresas ou cooperativas" e ofereciam ao público
os mais variados produtos (algo similar ao que hoje conhecemos por "supermercados"). Na parte superior dessas tabernas, em estreitos e sufocantes sótãos de madeira,
viviam os familiares do comerciante em questão.

Um judeu velho e encurvado disse ser o responsável pela ínsula. Convidou-nos a entrar e a inspecionar os quartos disponíveis. Uma escada interna levava aos andares
superiores. O "porteiro" procurou entre as longas e pesadas chaves de ferro que pendiam do cinto e, queixando-se do peso do molho de chaves, abriu uma das portas
do primeiro andar. O quarto, de acordo com o ancião, era um "luxo". Devia ter uns vinte metros quadrados. Uma cama rústica era toda a mobília. Eliseu e eu nos olhamos.
Se não havia outra solução...

O homem escancarou uma janela dupla de madeira e mostrou o exterior. A luz se encarregou de revelar o único "luxo" do lugar: umas paredes cobertas com estuque e
decoradas com pinturas quase infantis. Em cada uma das paredes laterais tinham sido pintadas - com mais vontade do que engenho - duas janelas, com todo tipo de colunas
e enfeites exagerados, que visavam "alargar" o quarto.

Cheguei perto e comprovei que não havia visão do Ravid. Não importava. Um dos motivos do aluguel era dispor de um lugar do qual pudéssemos vigiar o "porta-aviões"
com um mínimo de conforto. Se ocorresse um novo defeito no "berço", o computador central avisaria, projetando um facho de luz para o alto ("olho de ciclope").

Continuamos olhando. Os operários que trabalhavam na parte superior cruzavam-se na escada estreita, carregando água, madeiras e ferramentas. Quase todas as portas
do segundo andar estavam abertas. Algumas crianças, curiosas, surgiam ao longo do corredor. Na parte de trás se

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ouviam as vozes das senhoras, ocupadas com seus afazeres. De muitas moradias, além de gritos e músicas cantaroladas, escapavam alguns cheiros, típicos das insulae,
que denunciavam o "cardápio" de cada família.

Também não nos interessou. A visibilidade não era boa e o "porteiro", resmungando, nos conduziu ao último andar. Dali sim via-se o Ravid. Era mais barato. Nas insulae,
o preço dos quartos diminuía com a altura.

Escolhemos três. Dois davam para o oeste, para o "porta-aviões". O terceiro era de quina e oferecia um ótimo panorama sobre o yam e, o que era mais importante, sobre
os terraços e parte do pátio a céu aberto da casa do Galileu. Daquela terceira moradia seria possível vigiar os movimentos da família.

O lugar - ou melhor, a localização - me pareceu excelente. Havia outras insulae. Era questão de continuar procurando. No entanto, depois de pensar muito, nos decidimos
pela "ilha" do Taqa. Desse modo chamavam o "porteiro", porque acertava tudo com um aperto de mãos. Além do mais, era o dono de boa parte do imóvel e de algumas lojas
do térreo. Como teríamos oportunidade de comprovar nos dias seguintes, as outras insulae de Nahum eram muito parecidas. Ou seja: o conforto era mínimo. Não importava.
Estávamos acostumados. O importante era Ele. Era vital permanecer o mais próximo possível e durante o máximo de tempo. Esse era nosso trabalho.

A intuição me ajudou. Podíamos ter-nos contentado com uma ou duas moradias. Escolhi três. Em princípio, como disse, por sua situação estratégica e depois, pouco
depois, o Destino prepararia das suas. E haveria outra surpresa...

Taqa regateou, choramingou, maldisse sua sorte e, finalmente, fechou o trato. Doze denários ao mês. Consideramos que era um bom preço.

Os quartos escolhidos, contíguos, eram 39, 40 e 41. Como os quarenta e oito que formavam a comunidade, apresentavam o número correspondente pintado de forma rudimentar
sobre as respectivas madeiras das portas. Não havia regras, contratos ou normas. As únicas leis respeitadas eram as do dinheiro e as do medo. Quanto mais baixo na
ínsula, mais respeitado. Os inquilinos do primeiro andar pagavam cerca

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de vinte denários por um quarto simples. O aluguel de uma loja ou "taberna", como falei, podia alcançar duzentos denários de prata, dependendo da área e dos artigos
vendidos. Não era a mesma coisa uma loja de amuletos contra o mau olhado e uma padaria. Quanto mais exótica fosse a mercadoria, mais alto o aluguel.

O "porteiro" deu-nos as incómodas chaves e, depois que ficamos sozinhos, procedemos uma nova inspeção.

O 39, tão pequeno quanto os outros (apenas vinte metros quadrados), dispunha de um beliche triplo, colocado junto à parede da esquerda. Esse tipo de cama, "impuro"1
para os ortodoxos ou legalistas judeus, fazia furor também no império. Os inventores, ao que parece, foram os bárbaros do norte. A questão é que, por baixo do pano,
muitos judeus, mais interessados na rentabilidade de seus negócios do que em Deus, colocavam essas estruturas de dois ou três lugares, tornando mais atraente o aluguel
dos quartos. Não dispondo dessas "camas revolucionárias", as famílias viam-se na necessidade de descansar no chão. Os fundos ou estrados eram também de tábuas. Teríamos
de comprar alguns edredons.

Isso era tudo. No centro do quarto havia sido feita uma cavidade de uns quarenta centímetros de diâmetro e pouco mais de quinze de profundidade que servia de "estufa"
e lareira. O buraco se enchia com madeira ou carvão. No inverno, quando só ficavam as brasas, tapava-se com um reci-

1 As leis judaicas em seus meandros declaravam impuro um homem que, voluntária ou involuntariamente, tivesse uma ejaculação, não considerando a quantidade de sémen
vertido. No caso de um beliche, se o indivíduo dormisse em qualquer das camas superiores, poderia contaminar aquele que se encontrasse debaixo. Se quem dormisse
nesse tipo de cama fosse uma mulher, a situação se complicava. A menstruação
- segundo o tratado nidá - tornava impura uma mulher durante sete dias. Nesse período de tempo ficavam proibidas as relações conjugais. Qualquer pessoa ou objeto
que fossem manchados por uma mulher menstruada ficava contaminado também. "Se três mulheres tivessem dormido em uma mesma cama - diz a Misná -, e fosse encontrado
sangue debaixo delas, todas seriam consideradas impuras". Os beliches, para os judeus muito religiosos, "eram uma invenção de Satanás". As mulheres, sobretudo, estavam
terminantemente proibidas de dormir neles. O povo, no entanto, não dava muita atenção a tal regra. (N. do M.)

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piente ou com uma tábua, o que mantinha o recinto relativamente quente. O sistema era tão asfixiante quanto perigoso, e obrigava a manter as janelas abertas. Um
par de nichos nas paredes, com os respectivos candeeiros ou lamparinas de óleo, completavam a "decoração". Se quiséssemos limpar-nos era preciso ir às tabernas e
comprar o que fosse necessário. Esse foi o conselho de Taqa, que nos recomendou sua própria loja, como era de esperar...

O quarto 40 era praticamente igual. O beliche, de dois lugares, estragado pelas traças, encontrava-se em estado duvidoso.

Quanto ao terceiro, o 41, ligeiramente maior, estava totalmente vazio. Se pretendêssemos mobiliá-lo, seria preciso comprar ou alugar os objetos, passando, é claro,
pelas garras do judeu ou as de seus capangas. Não tínhamos alternativa. Era assim o negócio das insulae. Lá, como já disse, tudo estava sujeito à lei do denário.
Se precisássemos de água, os aquarii ou vendedores de água estavam às nossas ordens. Cada viagem (dois cântaros) supunha um as2. Caso o "contrato" fosse por uma
jornada completa (três viagens), o preço seria mantido em dois ases. A mesma coisa acontecia com a lavagem da roupa ou o fornecimento de comida. Se estivesse disponível
o dinheiro necessário, não havia problema. Cada grémio disputava os clientes. No cardo, a rua principal, uns e outros iam e vinham, apregoando aos gritos seus serviços
e excelências. Havia, inclusive, "especialistas" no transporte de excrementos. Pagando-se subiam às moradias, esvaziavam os recipientes destinados a tais necessidades
e, munidos de uma argola de madeira ou de metal, transportavam as fezes em grandes baldes. A argola citada ajudava a manter longe das pernas os referidos baldes
fedorentos. Para os pobres, esses luxos eram impensáveis. Cada família se organizava para carregar a água necessária, transportandoa dos poços ou fontes mais próximos.
As insulae também não dispunham de banheiros e, muito menos, de água corrente. As necessidades fisiológicas eram satisfeitas indo ao campo ou com os "banheiros portáteis",
como eram chamados em Nahum (baldes que podiam ser transportados

2 Naquele tempo, um denário de prata (padrão monetário) equivalia a 24 ases ou 128 leptas (seis sestércios). (N. do M.)

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até o "barranco" ou depósito de lixo do povoado). As outras águas eram jogadas pelas janelas, com os riscos decorrentes para os transeuntes. Havia uma terceira alternativa,
à qual me referirei oportunamente: os banheiros públicos, insólitas "tertúlias" em que se reuniam até trinta indivíduos...

Um longo e escuro corredor cruzava o edifício de fora a fora em cada um dos andares. De um lado e de outro alinhavam-se as portas das moradias. No terceiro andar,
quinze quartos, com um total de dez famílias. Parte do imóvel, como eu dizia, encontrava-se em obras. Dez famílias significavam outros tantos problemas.

Tentamos raciocinar. Não sabíamos por quanto tempo iríamos permanecer naquele edifício lúgubre. Tudo dependia do Mestre... e consideramos válido o investimento.
A visão do "porta-aviões" era perfeita. Todas as noites, de acordo com o previsto, antes de entrarmos para descansar, um dos dois ajustaria as lentes de visão noturna
e inspecionaria o alto do monte.

Em princípio escolhemos o de número 40. Era o quarto mais limpo e ali fixamos o "quartel general".

O resto da manhã foi dedicado às compras prioritárias: "banheiros portáteis", bacias para limpeza diária, esponjas etc. O porteiro mostrou-se feliz e encantado,
aconselhando-nos aonde ir e aonde não ir. Os comerciantes, por sua vez, alertados por Taqa, foram especialmente afáveis e servis e, como acontece também em nosso
tempo, acabamos comprando o que precisávamos e o que não precisávamos. Os "travesseiros" de madeira, por exemplo, com uma pequena depressão no centro - "recém-chegados
do Nilo" - foram um capricho de Eliseu. Quanto a mim, comprei dois edredons forrados de algodão (algo também desnecessário no clima agradável do yam). Cada um comprou
também cintos de couro, com bolsos internos, muito práticos para guardar o dinheiro, e jogamos fora as tentadoras bolsas de borracha que havíamos usado até aquele
momento.

Era a hora nona (três da tarde). Aproximei-me novamente de uma das janelas do quarto 41. Na "casa das flores" não havia nenhum movimento. Nossa visão, por certo,
também não era completa. Isso me pareceu estranho e meus olhos percorreram os telhados e a parte do pátio que se via da insula. Procurava o Mestre ou ela?

332

Afugentei aquele incrível sentimento. Somente ele contava. Havia chegado o momento de bater à porta do Filho do Homem. Estaria em Nahum? E se não estivesse?

Eliseu se aproximou também e, depois de uns instantes de observação, propôs algo que me pareceu correto: não deveríamos apresentar-nos de mãos vazias. Dito e feito.
Taqa nos recomendou o mercado habitual, situado na parte de trás da ínsula, a duas ruas do decumano. Na realidade, em Nahum não havia distâncias. Lembrei que era
quinta-feira, e, portanto, dia de mercado semanal. Nessas datas, mascates, agricultores, "dentistas" e comerciantes de todos os tipos e procedências reuniam-se na
praça da fonte dos seis jorros de água e ofereciam suas variadas e mais económicas mercadorias3. O "porteiro" insistiu. O mercado semanal era mais barato, mas menos
recomendável. Seguimos o seu conselho e nos encaminhamos para o próprio mercado do povoado.

Evidentemente, "alguém" dirigiu a recomendação de Taqa. Se tivesse seguido meu impulso visitando o mercado situado no extremo oeste do cais, não teria acontecido
o que aconteceu...

O mercado ou praça habitual de Nahum era um espaço aberto, rodeado, por sua vez, por outras insulae e casas térreas. Ali se alinhavam cinco fileiras de pequenas
lojas de madeira, providas de toldos coloridos. A primeira coisa que nos chamou a atenção foi o barulho. Todos falavam gritando. Não importava se estivessem próximos.

Iniciamos uma inspeção lenta do pitoresco lugar. Compramos um par de cestas e começamos a seleção de víveres. Meu irmão tinha razão: não era aconselhável abusar
da hospitalidade da família.

Duas das fileiras de lojas eram destinadas à comida kasher ou pura (alimentos prescritos por Yavé). O resto das barracas oferecia comida pura ou impura, indistintamente.
Nestes últimos, o porco era o mais abundante, bem como o peixe sem escamas.

Continuamos examinando a mercadoria. Havia de tudo: legumes de Guinosar, frutas da alta Galiléia, cordeiros da Judéia, da Síria e do leste

Ampla informação em Saidan. Cavalo de Tróia 3. (N. do A.)

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da Decápolis, especiarias e flores do vale do Jordão e um rico sortimento de peixe fresco do yam, recém-pescado.

Eliseu deteve-se em uma das barracas de flores e, depois de examinar tudo, ficou pensativo. Que pretendia? Por fim, pegou um ramo de anêmonas-do-bosque azuis e brancas
- os célebres lírios do campo cantados por Mateus, o evangelista - e pagou o valor. Nem sequer me olhou. Guardou as flores cuidadosamente e continuamos entre os
escandalosos vendedores. Todos chamavam por nós, mostrando as tilápias úmidas, as cebolas enormes das hortas de Migdal e Gadara, ou as cabeças ensangüentadas dos
porcos cevados nas colinas próximas da margem oriental do lago. Uns se sobrepunham à palavra dos outros, lutando para conseguir nossa atenção, puxando os cabelos
e as barbas quando não nos detínhamos. Atrás ficavam os "preços mais irrisórios", os produtos "mais saborosos" e, de vez em quando, as maldições obrigatórias, que
nos condenavam ao fogo do sheol ou às minas de sal do mar Morto. Tudo normal...

Perguntei a mim mesmo: quais eram as intenções do engenheiro? Ele sabia - ou deveria saber - que os homens não davam flores às mulheres, pelo menos entre os judeus
e naquela época. Mas por que supunha que os lírios eram destinados a uma mulher? Talvez à Senhora? Eram para as filhas? Faltou pouco para que o interrogasse. No
entanto, me contive. Também não deveria invadir a pouca intimidade que desfrutávamos e se ele não dava o primeiro passo, eu não perguntaria.

Creio que então começaram os nossos "problemas", ou melhor, nosso "problema". Mas deixemos que os acontecimentos sigam seu curso natural... Aconteceu ao deter-me
em uma das barracas. Eliseu continuou e nos separamos uns metros. O dono do comércio oferecia um excelente conjunto de anatídeos. Examinei os patos, já depenados
e prontos para cozinhar. Havia os de tipo rabudo, de pescoço fino e real, de considerável envergadura e de patas grandes. O galileu me observou, animando-me a comprar
o pato real, mais saboroso e, logicamente, mais caro.

Por um momento pensei no mahaneh, o acampamento no monte Hermon, e no inesquecível jantar de 21 de agosto, preparado pelo Mestre e o "ajudante" de cozinha, Eliseu.
O primeiro pato não ficou bom, mas o

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segundo ficou delicioso. Era uma boa idéia. Compraríamos um daqueles anatídeos. Jesus de Nazaré adorava pato assado...

Apalpei um dos exemplares e, quando me dispunha a regatear o preço, senti uma mão no meu ombro esquerdo. Supus que se tratava de meu irmão. No entanto, num primeiro
momento, ao olhar de relance, comprovei que meu companheiro se encontrava a uns dez ou quinze passos, observando uma das barracas de fruta. Senti um calafrio. Aquela
mão... E ao virarme, vi-o sorridente, com aquele luminoso olhar cor de mel. O Mestre!

Foi colocar as mãos sobre os meus ombros e, antes de beijar-me e abraçar-me, disse:

- Patos não, por favor!

Mais uma vez, eu não soube o que dizer. Jesus me atraiu com força para si e, depois de beijar-me na bochecha direita e, depois, na esquerda, sussurrou-me ao ouvido:

- Obrigado por confiar!

Eu não podia acreditar. Que fazia Jesus no mercado? A resposta à estúpida pergunta encontrava-se na cesta de compras, que estava a seus pés. Tinha esquecido que,
entre os judeus, eram os homens que se ocupavam dessa tarefa. Eram os homens que iam regularmente à praça comprar os artigos de primeira necessidade.

Jesus vestia sua habitual túnica branca, até os tornozelos, com um cinto de cordas. Os cabelos, soltos, descansando sobre os ombros musculosos, estavam levemente
cortados, assim como a barba. Notei um brilho especial nos olhos. Parecia mais alegre que no dia 18 de setembro, quando entramos em Nahum.

Cumprimentou Eliseu com o mesmo afeto e, durante um instante, interessou-se por nossas andanças. Somente nós falamos. Depois, lentamente, enquanto contávamos alguns
pormenores da viagem ao vale do Jordão, fomos nos aproximando da "casa das flores".

O Mestre não fez nenhum comentário sobre Yehohanan. Limitouse a escutar com atenção. Outro calafrio me advertiu. Ela estava ali...

Enganei-me. A casa se encontrava vazia. A Senhora e suas filhas voltariam antes do crepúsculo. Segundo o Galileu, estavam na vizinha

335

Migdal. Lá vivia e trabalhava Judá, o irmão mais novo, o que foi a ovelha negra da família. Agora, casado e com um filho pequeno, tinha perdido a antiga agressividade.
Em junho completou vinte anos de idade.

Sentamos debaixo do pé de romã e, durante uns minutos, tivemos de suportar a reprimenda carinhosa do Mestre por termos alugado os quartos na ínsula. Tinha razão,
e nós também.

Jesus guardou as provisões e quando se dispunha a pegar as flores que Eliseu segurava, o engenheiro, vermelho como uma papoula, negouse e escondeu o ramalhete nas
costas. Continuava sem entender as intenções do teimoso e enigmático Eliseu.

O Mestre sorriu com malícia e foi sentar-se sobre as esteiras dos círculos concêntricos. Tentei amenizar a situação e desviei a conversa para um assunto que me havia
intrigado. Viajou para Jerusalém? Jesus começou a contar o que acontecera naquelas quase três semanas de ausência da "casa das flores".

No domingo, 23 de setembro, realmente viajara de Nahum, como nos informaram as mulheres. Sua intenção era viajar à Cidade Santa e assistir à festa solene do Yom
Kippur, o Dia do Perdão. Surpreendeu-me. Não imaginava o Filho do Homem em uma celebração tão contrária ao que era a essência do Ab-bã, o bom Pai. Mas fiquei quieto.

Ele caminhara pela margem norte do yam até chegar à aldeia de Saidan. Lá convenceu João Zebedeu a acompanhá-lo. No dia seguinte, desceram pela costa oriental do
lago e empreenderam a caminhada pelo vale do rio Jordão.

Compreendi. Por isso não conseguimos alcançá-lo. Eliseu e eu sempre fomos na frente... Destino inacreditável! O Mestre parecia escutar meus pensamentos. Sorriu ligeiramente
e, de repente, piscou um olho para mim. Como fazia isso? Era impossível...

- Lembras? Exclamou, afastando-se momentaneamente do tema principal. O Pai tem outros planos...

Concordei, reconhecendo que tinha razão. Aquele erro, adiantando-se a nós no caminho, foi providencial. E continuou, suponho que feliz e divertido, diante do meu
desconcerto.

336

Pararam na aldeia de Betânia, perto de Jerusalém, passando alguns dias com Lázaro e sua família.

Fiquei em silêncio ainda que, sinceramente, tivesse muita vontade de perguntar: ao atravessar o vale sabia das andanças do Anunciador. Por que não foi vê-lo?

Jesus me observou e notei uma sombra fugaz de tristeza em seu semblante. Foi o suficiente. Acho que entendi. Durante três semanas, como disse, o Mestre e o Zebedeu
percorreram a Cidade Santa. Às vezes, Jesus se separava do amigo e se retirava para as colinas que rodeiam Jerusalém. Lá, como havia feito em Hermon, comunicava-se
com o Pai dos céus. João, ao que parece, não entendia esses retiros e, muito menos, o estreito "contato" com Deus (algo incompreensível, quase proibido, na religião
judaica).

No Dia do Perdão ou da Expiação, os dois foram juntos ao Templo e assistiram às cerimónias e aos sacrifícios de animais. O Mestre foi sincero, como sempre. Não escondeu
o seu desagrado com aquele ritual4, tão cheio de sangue e, como dizia, tão contrário ao que ele entendia como Deus. Sentiu-se frustrado. Isso não era Deus. Isso
não era o Pai-Amor de quem havíamos falado em tantas ocasiões e reconheceu que desejava inaugurar seu tempo de pregação. Queria abrir os olhos dos homens e revelar

4 Em l O do mês de tisri (setembro), o povo judeu comemorava uma festa antiquíssima, cujas origens remontavam aos tempos de Aaráo, irmão mais velho de Moisés e sumo
sacerdote. Dois dos filhos de Aaráo, também sacerdotes, tinham entrado na Tenda da Reunião (lugar no qual se apresentava Yavé) sem aviso prévio, e foram fulminados
por Yavé (!). Esta "inadvertência" ou "pecado involuntário" originou um ritual, ordenado por Deus e que aparece em Levítico (16). Uma vez por ano, Aarão deveria
sacrificar um novilho e oferecê-lo a Yavé por seus pecados. Depois tomava dois bodes. Um era dedicado a Yavé e o segundo ao povo. O sumo sacerdote degolava o que
havia sido oferecido a Deus e misturava seu sangue com o do novilho. Em seguida, impunha as mãos sobre o segundo animal e transferia a ele os pecados do povo. O
bode era conduzido então a uns vinte quilómetros de Jerusalém, ao deserto de Judá e ali, solenemente atirado do penhasco. A morte era comunicada ao Templo e a festa
prosseguia: o povo havia sido purificado de suas culpas - voluntárias ou involuntárias
- e retornava às suas casas com a alegria e a satisfação daquele que "começa do zero". Assim ordenava Yavé: "Esta será lei perpétua para todos; no sétimo mês, no
dia dez do mês, vos mortificareis e não fareis trabalho algum, nem o indígena nem o estrangeiro

337 "

a autêntica natureza desse Deus "que não castiga e a quem não é possível ofender". Falamos disso no kan dias antes, ao descer do Hermon. Foi, provavelmente, uma
das conversas mais importantes que mantive com o Filho do Homem. Pelo menos, um bate-papo "libertador"...

Para Jesus, aqueles sacrifícios e o sangue derramado não tinham nada que ver com o Pai Azul. Era um ritual de outra época e a conseqüência de um equivocado conceito
divino. O homem, ainda que se empenhe, não é capaz de compreender a Deus. Somos carne e, por isso, matéria finita.

que habita no meio de vós; porque nesse dia será feita a expiação por vós para que vos purifiqueis e sejais purificados, diante de Yavé, de vossos pecados". Essa
cerimónia, de grande transcendência para o povo judeu, somente podia ser realizada pelo sumo sacerdote. Na noite anterior, permanecia acordado, cuidando de maneira
especial para não transgredir as leis da pureza. Vestia uma túnica branca que trocava várias vezes durante o longo e complexo cerimonial, tomava banho cinco vezes
e lavava as mãos e os pés em outras dez ocasiões. Era o único dia em que tinha acesso ao Santo dos Santos ou Santíssimo, no qual se supunha que Yavé habitava. Entrava
três vezes. Na primeira, oferecia incenso. Saía e o povo respirava aliviado. Na segunda, borrifava o aposento com o sangue do novilho (nos tempos de Jesus, o citado
Santo dos Santos estava vazio; a arca da Aliança havia desaparecido). "Não devia demorar-se para não inquietar o povo." Na terceira entrada, borrifava de novo o
lugar com o sangue do bode destinado a Deus. Em seguida, voltava para junto da multidão e impunha as mãos sobre o segundo bode. Uma vez declarados os pecados do
povo (?), o animal - que recebia o nome de Azazel - era conduzido ao deserto. Depois da confissão de cada pecado, o sumo sacerdote pronunciava o nome de Yavé, o
célebre tetragrama ("YHWH" ou "JHVH"). Essa era também a única ocasião na qual era possível pronunciar esse nome. Os judeus estavam autorizados a escrevê-lo, mas
não a dizê-lo. Em seu lugar, utilizavam sinónimos ou toda sorte de circunlóquios. O Santo ou o Bendito eram os mais freqüentes.

No dia do Yom Kippur ou da Expiação, o jejum era absoluto. Ninguém trabalhava nem desenvolvia qualquer atividade. Era, com certeza, o dia mais severo do ano, no
qual se perdoavam os pecados do homem para com Deus. Com o passar do tempo, o Dia do Perdão foi modificando a sua essência e os judeus começaram a perdoar também
os pecados dos homens contra seus semelhantes. O dia era dedicado à oração nas sinagogas e no Templo. Somente os doentes estavam eximidos do jejum obrigatório e
das visitas correspondentes aos lugares de culto. Era também o dia das visitas aos túmulos dos rabinos e familiares. Diferentemente dos romanos, os judeus, naquele
tempo, não depositavam flores sobre os túmulos. (N,do M.)

338

- Então, se isso é assim - e evidentemente é -, como uma criatura limitada pode sequer imaginar que tem a capacidade de ferir um ser ilimitado?

Não éramos teólogos, mas reconhecemos a verdade nas palavras do Mestre.

- Somente vós, na vossa cegueira, pensais ofender a quem só vos ama.

Cinco dias depois, a 15 de setembro, Jesus e João Zebedeu participaram também da festa de Succot ou das "Tendas" ("Tabernáculos"). Era outra celebração típica, na
qual os judeus davam por encerrada a coleta das colheitas em geral e a vindima, em particular. Festejava-se desde os tempos de Moisés. Assim o dizia o Êxodo (23,
16 e 34, 22). Durante sete dias, todo homem judeu era obrigado a viver em uma tenda ou cabana feita com folhas de palmeira. As mulheres, os escravos e os enfermos
ficavam livres dessa obrigação. Inclusive as crianças que não dependessem dos cuidados das mães deveriam cumprir com o preceito de dormir e comer "debaixo da tenda".
Saíam nos terraços, no campo ou em plena rua. Qualquer lugar era bom. Somente as chuvas ou uma calamidade poderiam suspender a sukka, um período de alegria e de
descanso no qual o povo judeu refletia sobre sua própria sorte. Com o tempo, a festa das Tendas transformou-se na rememoração dos quarenta anos no deserto do Sinai,
vivendo, justamente, em cabanas e tendas. Os judeus lembravam desse modo os prodígios de Yavé desde a partida do Egito e o longo tempo de exílio, antes de chegar
à Terra Prometida. A permanência nas cabanas durante uma semana era outra forma de expiação dos pecados. "Colher o lulav" era um dos rituais da sukka. Consistia
em segurar com a mão direita um ramo formado por folhas ou ramos de palmeira, mirto e salgueiro, tal como ordena o Levítico (23,40). Com a esquerda seguravam o etrog,
um cítrico parecido com o limão. Agitar o ramo ou lulav era um dos momentos culminantes da festa5.

Ao longo da semana das Tendas, consumado o sacrifício diário, quando os levitas entoavam os versículos 25 a 29 do Salmo 118, a multidão ficava de pé e agitava as
palmas e o etrog, dizendo a palavra hosanna. Nessa celebração nasce a bênção das palmeiras que os cristãos comemoram. Todas as manhãs saíam do Templo duas procissões
sacerdotais. Uma dirigia-se aos arredores de Jerusalém e tratava de recolher

339

I

Jesus, como já disse anteriormente, tinha uma idéia diferente de Yavé, e no meio da semana despediu-se de Zebedeu e retirou-se de novo para as colinas. Joáo também
náo compreendeu o porquê daquela atitude. Para aqueles homens e mulheres, o comportamento do Galileu, pretendendo falar diretamente com o Santo, era um sacrilégio
ou um sinal de loucura. Como vimos, somente o sumo sacerdote estava autorizado a pronunciar o nome de Yavé, e uma vez por ano. Falar de igual para igual com Deus?
Tratá-lo como a um amigo ou um Pai? Isso era inviável naquela religião. Semelhante desobediência supunha a pena capital.

Jesus voltou sozinho para Nahum e o fez na primeira hora da sextafeira, 12 de outubro, pouco antes que Eliseu e eu dispensássemos o carro em Migdal. Estivemos perto...

No dia seguinte, como todos os sábados, o Mestre dirigiu-se à aldeia vizinha de Saidan, continuando o traçado de suas viagens "secretas" durante quase três meses.
Ao alvorecer, embarcava em algum dos numerosos barcos que iam e vinham pelo yam, permanecendo no casarão até o pôr-do-sol. Somente o patriarca dos Zebedeu foi testemunha
desse relato minucioso (minucioso e apaixonante, acrescento). Ninguém mais foi informado dessas duas longas estadas do Mestre fora de Israel.

Naquele sábado, 13, o Filho do Homem propôs ao chefe dos Zebedeu a necessidade de trabalhar e de "manter-se ocupado enquanto chegava a sua hora". O Zebedeu náo teve
dúvida. Jesus participara do

os ramos para a confecção do lulav. A segunda dirigia-se ao tanque ou piscina de Siloé, ao sul da Cidade Santa. Recolhiam água e a transportavam até o altar. Dali
a derramavam pelos degraus do Templo, simbolizando que a fé judaica daria satisfação ao mundo, da mesma forma que a água escorria para o exterior. O povo se aproximava
e dava uma volta ao redor do altar durante os seis primeiros dias da festa. No sétimo e último faziam isso sete vezes, em memória do ritual feito por Josué antes
da destruição de Jerico. Somente os varões podiam caminhar ao redor do altar. Jerusalém se iluminava inteira, em especial, o átrio das mulheres, onde colocavam quatro
candelabros grandes com os pratos cheios de óleo. As pessoas dançavam e cantavam e os sábios tinham o costume de fazer malabarismos com tochas acesas, entre as risadas
da gente simples. A luz dos fogos era a representação viva da revelação da verdade da religião judaica, manifestadas por Yavé no Sinai. (N. do M.)

340

estaleiro familiar e conheciam sua forma excelente de trabalhar. Foi contratado, naturalmente.

No dia 14, domingo, primeiro dia da semana para os judeus, o Mestre começou no varadouro que conheci "no futuro" (ano 30), localizado às margens do lago, no canto
oriental do cais de Nahum. Estava, portanto, havia cinco dias naquele trabalho.

A informação deixou-me pensativo. Se o Mestre tinha começado a trabalhar em Nahum, isso significava que, durante um tempo, não empreenderia sua tarefa como pregador.
Mas quanto tempo? Ninguém o sabia. Nossa última pista, como já disse, era o Zebedeu pai. Falou de janeiro do ano 26 como o mês em que Jesus seria batizado por Yehohanan.
Fui levado a crer nessa possibilidade. O velho Zebedeu estava bem informado. Isto significava uma permanência de dois meses, longos, em Nahum. Caso se cumprissem
os prognósticos, a idéia de alugar quartos na insula tinha sido acertada. Surgiu um segundo pormenor, náo menos problemático. Se o Galileu dedicava a quase totalidade
de seu dia ao varadouro, como faríamos para segui-lo? Minha intenção era única e muito clara: transformar-nos em sua sombra. A partir daquele momento, deveríamos
estar ao lado, ou o mais perto possível, daquele novo Jesus. O Filho do Homem em um estaleiro de barcos! Algo insólito, nunca mencionado.

Tive uma idéia, mas, quando tentava expô-la, fui interrompido. Faltava uma hora, mais ou menos, para o pôr-do-sol. Nunca esquecerei aquele entardecer...

De repente vimos entrar a Senhora e os seus. Tiago, o irmão de Jesus, segurava o pequeno Amos. A conversa ficou suspensa. Todos se alegraram ao ver-nos. Eliseu,
nervoso, colocou-se de pé, esquecendo as normas. Ninguém se levantava para receber alguém.

Vi como o engenheiro passava as flores de uma mão à outra. Evidentemente, algo o deixava nervoso. Depois, ao comprovar que continuávamos sentados, desculpou-se baixinho.
Tentou sentar-se novamente, mas os lírios, em um dos movimentos, escorregaram dos dedos do cada vez mais aturdido companheiro e caíram sobre o piso do pátio. Apressei-me
em ajudá-lo. Fui até as anémonas e comecei a recolhê-las. Eliseu, transtor-

341

nado, não se moveu. Foi então que ela, obedecendo ao mesmo impulso, ajoelhou-se para também recolher algumas flores.

A cena foi rápida mas inesquecível (para mim).

Os dois, de joelhos, quase tropeçamos. Os olhares se cruzaram. Nesta ocasião, mais próximos que nunca, pude respirar seu perfume, uma intensa fragrância de jasmim.
Os olhos verdes permaneceram fixos nos meus. Foram segundos, mesmo que para mim tenham durado mais. Ruth falou sem dizer nada. Foi um olhar de mulher...

Então, um fogo perturbador e benéfico ao mesmo tempo me consumiu. Foi a única resposta. As entranhas, misteriosamente para mim, arderam como fagulhas. Pensei que
estava me afogando...

Os dois ficamos ruborizados e nos apressamos em nos levantar, sobretudo eu, e colocamos os lírios nas mãos do meu companheiro.

A partir daí, as lembranças se misturaram. Somente ela permaneceu transparente na minha memória e no meu coração. O que se registrou naquela tarde-noite na "casa
das flores" foi praticamente salvo por Eliseu. Ele sim conservou um mínimo de dignidade, apesar de tudo...

Somente tive olhos para Ruth. Olhava-a passar, ajudando nos preparativos do jantar e nossos olhares sempre se juntavam, sempre... Não havia dúvida: estava apaixonado
por Ruth. Meu Deus! Era a primeira vez que experimentava um sentimento como aquele. A primeira vez e no lugar e com a pessoa errados...

"É absurdo! - disse -. Impossível! É terminantemente proibido! A operação não admite isso! Você vai voltar ao seu "agora"! Por quê? Quero apagar tudo! Preciso esquecer!
Mas, Deus!... não consigo! Ela está em mim! Ela instalou-se em mim e ocupa todo o meu "agora"! Ela?... Nem mesmo sei se sente o mesmo que eu..."

Estava perdido. No meio daquela luta comigo mesmo, cruzei um olhar com o silencioso Jesus. Foi a salvação. Seus olhos me acariciaram e, não sei como, voltaram à
minha lembrança umas palavras pronunciadas pelo Mestre naquele mesmo lugar quando, dias antes, "descobri" o belo sentimento pela moça: "Lembras da esperança?...
A tua acaba de acordar".

342

Tinha razão. O amor significa esperança, mesmo que nasça aparentemente morto, como o meu. Ou não estava morto?

A Senhora também nos admoestou. "Tinham quartos de sobra." Naquelas circunstâncias - reconheço -, não teria sido fácil. Abençoei o momento em que decidimos alugar
os quartos na ínsula.

Durante o jantar - segundo Eliseu -, a família interessou-se pela viagem ao Jordão e, sobretudo, por Yehohanan. Tiago e a Senhora foram os que mais perguntaram.
Esta, como sempre, quase não abriu a boca. Quanto a Ruth, limitou-se a jantar, estranhamente silenciosa. Estranhamente? Coitado! Quando vou aprender?

Respondia quando me perguntavam, mas sempre com evasivas. Foi meu companheiro o mais claro, ainda que tenha sabido manter-se "a distância", evitando, de maneira
inteligente, qualquer alusão ao possível problema psíquico do Anunciador.

As flores continuaram ao seu lado, inseparáveis...

Tiago aventurou-se na dúvida principal: o que achávamos? Era Yehohanan o precursor do Messias?

O engenheiro argumentou que não éramos os mais indicados para responder a essa questão:

- Jasão e eu somos estrangeiros.

Tiago insistiu, afirmando que, por sermos estrangeiros, estávamos muito bem informados. Que quis dizer? Convinha estarmos atentos. Os erros do passado - ou do "futuro",
conforme se considere - não deveriam repetir-se...

O engenheiro saiu do aperto como pôde. Repetiu o que todo mundo sabia, mais ou menos. O messias judeu era um libertador que ocuparia o trono de Davi. Conduziria
os exércitos israelitas à vitória e subjugaria os gentios e ímpios como nós. Somente haveria um poder, uma cultura e uma fé: Israel. Então, Deus desceria dos céus
e inauguraria o "reino". Segundo os profetas e os textos bíblicos, esse Messias estava para chegar. Alguém o anunciaria e lhe abriria caminho.

A explanação, impecável do ponto de vista judeu, foi elogiada e ratificada pela Senhora e por Tiago. Jesus continuou calado e atento. Maria, a Senhora, interveio
então e anunciou algo que nós, suposta-

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mente, não sabíamos. Yehohanan era o precursor, o homem que abriria o caminho...

Eliseu fingiu surpresa e incredulidade. A Senhora compreendeu que se havia precipitado (fora da família, ninguém estava a par das respectivas aparições do "ser luminoso"),
mas, depois de uma curta vacilação, conti-

nuou com a mesma coragem.

- O tempo da mudança está próximo - disse -, ainda que alguns não queiram falar disso...

Deteve-se no rosto impassível de Jesus. O Mestre, porém, não reagiu. Eu me encontrava perdido na serena quietude dos olhos de Ruth. Docemente perdido...

- ...Ainda que alguns - repetiu sem contemporizar e com os olhos fixos nos de seu Filho - queiram fugir de seu destino...

O espesso silêncio que veio a seguir quase me tirou dos meus pensamentos. A mulher, sentida com a postura do Galileu, concluiu sem piedade:

- Ele foi mais valente. Yehohanan já está no caminho, preparando o reino. E tu, esperas o quê?

Desta vez sim houve resposta. O Mestre, corrigindo a mãe, exclamou, categórico:

- Esse reino - e insistiu no termo malkutadielaha ("reino de Deus")
- nada tem a ver comigo...

Fim da conversa.

A Senhora replicou com um gesto de desagrado e materializou a oposição ao critério do Filho levantando-se e desaparecendo detrás da cortina de rede de sua moradia.

O distanciamento entre Jesus e parte da família parecia sem salvação... Mas aquilo foi somente o princípio de um longo calvário. Algo que os textos evangélicos também
não mencionam.

Era o momento de abandonar a casa. Já no portão, quando nos dirigíamos à ínsula, Eliseu deu meia-volta e procurou o irmão de Jesus. Sussurrou-lhe algo no ouvido
e depositou o ramo de flores nas mãos do perplexo Tiago. Depois nos perdemos na escuridão...

344

19 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA

Tal corno acontece com as anémonas, que fecham suas pétalas com a escuridão, aconteceu comigo durante algum tempo. Também meus olhos permaneceram fechados, ignorando
a luta em que se debatia o meu companheiro de venturas e desventuras. Na verdade, "nossa luta"...

Mas continuemos por partes.

Essa noite, na insula, não foi noite. Foi um suplício a mais. Tentamos conciliar o sono no 39, e teria sido igual em qualquer dos quartos. Aos meus inquietos pensamentos
somou-se um lamento: ou melhor, vários e seguidos lamentos - quase cânticos - que pareciam provir de alguma das moradias contíguas. Creio lembrar que, ao entrar
no quarto, já se ouviam no corredor, mas não prestamos muita atenção. Pensamos em alguma criança. Pois bem, as tristes lamentações - provavelmente de duas ou mais
pessoas - duraram até o amanhecer. Não houve forma de dormir, a não ser por um momento, quando o choro e os gemidos diminuíam ou se interrompiam. De repente, voltavam,
e com forças renovadas, tomando conta do silêncio e de meus nervos castigados. Estranhamente, ninguém protestou.

Por fim acabei deixando o beliche e, de cotovelos na janela, contemplei o passar das parelhas de asnos que partiam para o norte ou que se incorporavam ao cais de
Nahum. Esperei com paciência o amanhecer. Com as primeiras luzes, aquele inferno emudeceu.

O murmúrio da moagem foi abrindo passagem no povoado. Nahum acordava.

345

Fizemos nosso asseio e, quase sem palavras, descemos às tabernae, com o objetivo de repor as forças e estabelecer um plano para a nova jornada. Eliseu continuava
triste e perdido em si mesmo. Quanto a mim, mais que perdido...

Ela continuava ali, próxima e impossível.

Eliseu chamou minha atenção sobre a massa de nuvens que se divisava a oeste. Eram os "cb", os cúmulos-nimbos que havíamos detectado do "berço". Aproximavam-se da
região. Em questão de horas poderiam descarregar sobre o lago. Era conveniente não se descuidar...

Tive a idéia que não cheguei a expor no dia anterior na "casa das flores". Se pedíssemos trabalho no estaleiro dos Zebedeu, seria mais fácil seguir o Mestre. O lugar,
segundo me lembrava, era suficientemente pequeno para não perdê-lo de vista. Se nos aceitassem, estaríamos juntos durante todo o dia de trabalho. O resto, veríamos
depois.

Eliseu, com seu habitual senso prático, fez-se de advogado do diabo: por que haveriam de dar trabalho a dois estrangeiros que, além do mais, não tinham experiência
na construção de barcos? Tinha razão, mas, que mais podíamos fazer? Esperar em Nahum de braços cruzados que ele voltasse para o seu lar?

Ambos recusamos essa possibilidade. Não teríamos resistido. Era necessário experimentar. Contávamos, além de tudo, com a recomendação, ou suposta recomendação, de
Tiago e do próprio Jesus. Sobre a amizade com o chefe do estaleiro, o Zebedeu, era melhor esquecer. Ele me conheceu no ano 30. Agora estávamos no 25. Se nos encontrássemos,
para ele seria a primeira vez.

Decidimos assim. Nossa missão era segui-lo e dar testemunho de sua vida e de suas palavras. Estaríamos onde ele estivesse. Não importava como...

Atravessamos o cais, e, por prudência, mesmo que lembrasse do lugar onde estava o estaleiro, perguntei aos am-ha-arez ("escória do povo", segundo os ortodoxos da
lei) que carregavam e descarregavam as embarcações atracadas no porto. Apontaram para o leste, no final do cais.

Realmente, o varadouro achava-se junto ao rio Korazaín, mas, para minha surpresa, não se tratava do lugar que visitei na primeira oportuni-

346

J.). BENÍTEZ

dade, na companhia de Jonas, o afável felah que me acompanhou naquela ocasião. Aquele estaleiro era de dimensões regulares. O que agora tínhamos diante de nós era
muito maior. Que tinha acontecido?

Descemos os degraus de pedra que conduziam do cais à beira do yam e caminhamos sobre o tapete de pedras brancas e negras que cobria aquela zona da costa. A princípio,
como é natural, tudo parecia confuso. Sobre uma longa faixa de terreno, entre o povoado e o rio que desembocava no lago, erguia-se o próspero estaleiro dos Zebedeu.
Como digo, para nós, a princípio uma confusa mistura de barcos construídos pela metade, pavilhões de madeira, altas pilhas de troncos, fossas, ferramentas, barulho
de martelos e de homens por toda parte, seminus ou cobertos com aventais de couro negro e brilhante.

Procuramos com o olhar. Jesus ou Tiago, seu irmão, tinham de estar ali, em algum lugar.

Pouco depois, um dos trabalhadores nos indicou um fosso no qual estavam armando duas embarcações. Mesmo estando de costas, o reconhecemos em seguida. Jesus, curvado
sobre um barco de uns oito metros, concentrava-se no ajuste das quadernas. Vestia o saq ou sunga e um daqueles longos aventais, do peito até os joelhos. De sua cintura
pendiam um martelo e um saco cheio de pregos. O corpo, bronzeado e suado, brilhava com os primeiros raios do sol.

Não pareceu muito surpreso. Eu diria até que nos esperava.

Pulou sorridente para fora do fosso e, depois de desejar-nos a paz, escutou nosso pedido. Não disse nada. Ajustou a tira de pano que segurava seus cabelos e, sem
deixar de sorrir, pediu que esperássemos. Logo se perdeu em um dos pavilhões de madeira. Pouco depois voltava na companhia de um homem relativamente mais velho.
Não teria mais de l ,60 metro. Era calvo e com os olhos rasgados. Parecia de origem asiática. Disse que se chamava "Yu" ou algo parecido...

Seus olhos, como um remanso em paz constante, me chamaram a atenção desde o primeiro momento. Era magro, mas forte. Os dedos, incrivelmente longos, apareciam cruzados
sobre o peito.

Olhou-nos devagar e depois, em um aramaico impecável, interessou-se pelo que já havíamos exposto ao Galileu. Repetimos o desejo de

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trabalhar, ainda que reconhecêssemos que não tínhamos experiência. Insisti no fato de que não importava o posto.

O naggar ou mestre, algo similar ao que hoje conhecemos como "carpinteiro náutico", não fez mais perguntas. Aqueles olhos, limpos e questionadores ao mesmo tempo,
devem ter notado que falávamos com o coração. Precisávamos daquele trabalho...

Antes de retirar-se esclareceu que a decisão não dependia dele. Era o "patrão" que decidia. Ainda não tinha chegado e teríamos que esperar. Deu meia-volta e afastou-se
na direção do barracão.

Jesus piscou para mim e sugeriu que esperássemos ali mesmo. O "chefe", o Zebedeu pai, sempre era pontual. Em breve desembarcaria. Todas as manhãs partia de Saidan
e voltava à sua aldeia ao anoitecer.

O Mestre voltou ao fosso, entregando-se ao trabalho do madeiramento das cavernas.

Não tivemos alternativa senão armar-nos de paciência e esperar o proprietário do estaleiro. Algo me dizia que a sorte estava do nosso lado. A piscada de Jesus foi
um sinal...

Se bem me lembro, aquela foi a primeira vez que contemplamos um Jesus de Nazaré "trabalhador". Durante algum tempo fiquei absorto. O Galileu entregava-se inteiramente
ao que fazia. Não importava se era grande ou aparentemente insignificante. Isolava-se. Acariciava a madeira. Quase falava com ela. Não negava esforços, fazendo-o
com alegria, satisfeito e, como repetia sem cessar, "atento às surpresas com que era presenteado por seu Pai em cada dia de trabalho". No começo não entendi muito
bem a que se referia. Depois, com o passar dos dias, compreendi e participei encantado...

Talvez não tenha me expressado corretamente. Hoje, no século XX, ao falar de um estaleiro, imaginamos quase sempre uma fábrica na qual constróemse barcos, geralmente,
de grande tonelagem. Este não era o caso dos "estaleiros" que existiam nas margens doyam. Ali não eram feitos somente barcos. O conceito era diferente. Lá se explorava
o tanino que se extraía da casca das árvores, eram lavradas âncoras de pedra, eram feitos consertos de qualquer objeto ou móvel de madeira e, também, eram fabricadas
embarcações, mesmo que dificilmente superassem os dez ou quinze metros de comprimento. O termo "estalei-

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ro" (mézah, em hebraico) era algo difuso e, sobretudo, pouco relacionado com o mar. Os judeus nunca foram marinheiros, pelo menos por vocação, como no caso dos fenícios.
Na Bíblia muitas vezes (cerca de duzentas) menciona-se o mar, mas quase sempre com reverência ou temor. Os navios eram, geralmente, naves estrangeiras, nunca próprias,
e isso obedecia a uma circunstância eminentemente geográfica. Nos tempos de Jesus, a costa de Israel carecia de portos seguros e protegidos. Somente o de Cesaréia,
feito por Herodes o Grande na antiga aldeia sírio-fenícia de Estratão1, oferecia garantias à navegação. O resto - Jope (atual Jaffa), Dor ou a enseada do Carmelo
- eram somente modestos ancoradouros nos quais os pescadores se protegiam dos ventos da África. Os navios de maior calado tinham de ancorar longe da costa, dependendo
dos recifes e de algumas praias traiçoeiras e sujeitas a mudanças em que a agitação do mar alterava constantemente o fundo. Quanto aTolemaida (São João do Acre),
por ser uma povoação grega, não contava para os judeus. Os homens de negócio, especialmente os dedicados à exportação e importação, recorriam às companhias romanas,
gregas, fenícias ou egípcias, alugando os serviços de seus barcos. O mesmo acontecia na hora das viagens particulares. O mar não era judeu, ainda que Jacó e Moisés
falassem das vantagens de Zabulon, a tribo que se instalou na costa (Gênesis e Deuteronômio). Os judeus somente navegavam por necessidade e sempre com bandeira alheia.

Nesse sentido, oyam ou mar deTiberíades não era uma exceção. Os galileus pescavam e navegavam nele, mesmo que os conceitos e as técnicas não fossem propriamente
"marítimas". Isso não significava que estivessem mais atrasados em relação a seus "colegas", os pescadores ou marinheiros do "grande mar" (Mediterrâneo2). Simplesmente,
eram diferentes.

1 Ampla informação em Cesaréia. Cavalo de Tróia 5. (N. do A.)

2 No yam, nos tempos do Mestre, havia irmandades ou associações de pescadores e marinheiros, exatamente como no Império Romano e nos vizinhos Grécia, Egito ou Fenícia.
Uma delas, denominada "Ah Tiberias" ("Irmãos de Tiberíades") controlava minuciosamente os períodos de pesca, sancionando os que violavam as normas e as "paradas
biológicas". Era uma espécie de "sindicato" que decidia quando pescar ou quando se dedicar ao transporte de mercadorias. Todos, no lago, respeitavam o que era estabelecido
pelos Ah, como chamavam popularmente tal associação (Ah, em aramaico,

349

Tal como nos asseguraram, o velho Zebedeu apresentou-se pontualmente na costa. Vinha sozinho. Passou por nós e, durante uns instantes, sem parar, ficou nos olhando.
Tinha mudado pouco. Quiçá tivesse cinqüenta e cinco anos. Mostrava um porte atraente: alto, magro como seus filhos, rijo, com o cabelo branco, muito curto, o rosto
enrugado pelo sol e pelos ventos e os olhos claros, sempre intuitivos e confiantes. Cumprimentou com a cabeça e entrou no barracão de Yu.

Jesus continuava com suas tábuas, martelando.

Eliseu me fez um sinal. A massa de nuvens aproximava-se. O Zebedeu voltou e, junto com ele, o asiático. Depois das apresentações, o "patrão" escutou nossos pedidos.
Yu lhe ofereceu um dos aventais e continuou atento às minhas palavras enquanto colocava a peça de couro.

- ...Não é um problema de dinheiro - esclareci, na tentativa de ser o mais honesto possível -. Somos viajantes e, agora, as circunstâncias nos obrigam a procurar
uma ocupação.

- Por quanto tempo? - interveio o carpinteiro náutico.

- Quanto o Destino decidir - respondi sem rodeios -. Pode ser dias, meses...

Falava com absoluta sinceridade. Tudo dependia Dele e de seus movimentos.

O Zebedeu manteve os olhos fixos nos meus. Depois desviou o olhar para o engenheiro e o mediu sem pronunciar uma só palavra.

significa "irmão ou companheiro"). Junto aos Ah havia outros grupos ou "cooperativas", menos numerosos, que concorriam com os primeiros. Eram controlados por Antipas,
o tetrarca, e por sociedades mistas, integradas por judeus (geralmente sacerdotes e saduceus ricos) e estrangeiros. Ainda que a lei proibisse esse tipo de associação
com pagãos, dinheiro era dinheiro...

Durante as festas judaicas, nenhum estrangeiro podia pescar com embarcações. Somente eram autorizadas as varas de pesca e as armadilhas. Isso originava inúmeros
litígios. Cada grupo ou associação obrigava seus "sócios" a pagar determinadas cotas semanais, tanto em dinheiro quanto em espécie, compensando com isso os acidentes
ou perdas de barcos. A negligência ou o descuido não justificavam o pagamento de uma nova embarcação. Os "sindicatos", além do mais, eram os que fixavam os preços
do pescado e do transporte. (N. do M.)

350

Aceitou, enumerando as condições. Trabalharíamos como ajudantes. Disso se ocuparia Yu. Salário: vinte e quatro ases por dia (um denário de prata). A comida era por
nossa conta. O dia de trabalho começava ao amanhecer e terminava ao anoitecer. Roubar levava à demissão imediata. Poderíamos começar em seguida... Entendi tudo menos
sobre o roubo. Para ser exato, utilizou a palavra bazaz ("saquear").

O Zebedeu retirou-se e Yu se encarregou do resto. Durante uns segundos permaneceu pensativo, com sua postura habitual: as mãos cruzadas sobre o peito e deduzi que
não sabia o que fazer conosco.

Mostrou as túnicas e a "vara de Moisés", recomendando que, para o dia seguinte, esquecêssemos aquela forma de vestir "tão refinada".

Foi quando me dei conta: o que faríamos com a vara? Enquanto trabalhasse naquele lugar não deveria levá-la comigo. Não seria lógico. Onde a guardaria? Devia deixá-la
na insula! A vara era um sistema de segurança eficaz. Não desejava prescindir de seus serviços. Com isso surgiu um novo problema...

Yu tomou a melhor das decisões possíveis. Mostrou-nos o mézah e deixou que nós mesmos escolhêssemos o trabalho no qual podíamos render mais e melhor. Agradeci sempre
sua extrema delicadeza.

A construção e o reparo de barcos ocupavam a maior parte do terreno do mézah ou estaleiro dos Zebedeu. Naquela zona do yam, contei outras três "instalações" parecidas.
Uma delas, propriedade dos Ah. O da família dos Zebedeu tinha forma retangular. Localizava-se paralelamente ao rio. Tudo nele encontrava-se disposto de forma inteligente,
e a aparente confusão ou caos inicial deveu-se à minha própria ignorância.

Os Zebedeu só construíam barcos por encomenda. O estaleiro dispunha de uma coleção de modelos em miniatura, de uns trinta centímetros, feitos em madeira e que serviam
para ajudar na escolha do comprador. As variações não eram muitas. O futuro dono dava as sugestões oportunas e o "patrão" e os carpinteiros (sócios do Zebedeu) reuniam-se
e estudavam a proposta. Geralmente construíam embarcações de carga, as mais rentáveis, e de tempos em tempos, barcos de pesca, sempre mais refinados e caros. Quando
começamos a trabalhar no mézah, ocupavam-se

351

de dois "pesqueiros" e do conserto de cinco "cargueiros". Nenhum deles tinha mais do que quinze metros de comprimento.

No extremo norte do "retângulo", do outro lado do lago, localizavase o depósito de madeira. Uma ou duas vezes por ano, os trabalhadores do estaleiro iam até os bosques
vizinhos (quase sempre a Gaulanítis) e realizavam o necessário corte de carvalhos, salgueiros, amieiros e pinheiros, entre outros exemplares. O conhecimento da madeira,
por parte daquelas pessoas, era muito grande3. Não era de se estranhar. Tratava-se da matériaprima, cuidavam dela e a mimavam sem cessar.

Uma vez no varadouro, os operários separavam as cascas dos troncos recém-cortados e as reuniam em grandes pilhas, com a parte interna virada para a terra. Dessa
forma protegiam os taninos das chuvas e do vento. Este produto - o tanino - era outra das fontes de riqueza do mézah. Seus elementos químicos naturais evitavam o
apodrecimento das cascas e as transformavam em excelentes odres, flexíveis e duráveis. O carvalho era a árvore escolhida neste caso.

A referência do profeta Ezequiel (27, 3) sobre as madeiras que serviam para a construção de barcos não parece muito correta. As quilhas não eram feitas de ciprestes,
nem os mastros de cedro. Nem os remos eram fabricados com azinheira, nem os bancos com a madeira do boj. O comum era construir com carvalho e pinheiro (especialmente,
o pinea ou pinhoneiro). O carvalho tem uma dureza considerável e uma excelente resistência à água (uma vez na água, a resistência se multiplica). Nos tempos de Jesus,
sabia-se que o carvalho era a madeira adequada para produzir "cavilhas". Uma vez no interior, era muito difícil a extração. O pinheiro, por sua vez, muito abundante,
era tão útil quanto barato. Seu alto conteúdo de resina tornava ideal a madeira para lutar contra a intempérie. Nos estaleiros trabalhava-se também com salgueiro
(muito estável e com grande docilidade na hora de ser curvado), amieiro (madeira muito recomendada para permanecer debaixo da água), teca (de grande estabilidade
e aconselhada pelos carpinteiros de mar para todas as peças que exigissem resistência e estabilidade, em especial as cobertas), olmo (muito durável debaixo da água)
e iroco, uma árvore importada da África, similar à teca, porém mais económica. Só quando o comprador exigia trabalhava-se com madeiras nobres, como o cedro. O corte
e o transporte, geralmente do norte, encareciam sensivelmente o preço final do barco. O entabuamento de algumas embarcações de pesca era fabricado com esse tipo
de madeira, procedente quase sempre dos maciços do Hermon. (N. do M.)

352 "

Em seguida realizava-se a secagem da madeira, um processo delicado que exigia uma atenção permanente e, como digo, um profundo conhecimento de cada árvore. Algumas
vezes era defumada, embelezando-a e favorecendo a secagem. O normal, no entanto, era extrair a casca, serrála e empilhá-la durante o tempo necessário, segundo a
árvore e a finalidade. A maior parte da casca era vendida como combustível e aproveitada para as "estufas" e os fornos do estaleiro. Se a encomenda exigisse isso,
seria possível secar a madeira de forma artificial, enterrando-a com esterco, cinzas ou barro, ou mergulhando-a em água corrente (se o cliente pedisse, recorria-se
a banhos de sebo e à água com cal). A teca, por exemplo, permanecia dois ou três anos debaixo da terra. O resultado era surpreendente: a madeira parecia ferro e
ficava blindada contra os insetos destruidores que eram abundantes nas águas doyam". Esses procedimentos de secagem eram altamente benéficos e evitavam, sobretudo,
as temidas pragas de fungos que devoravam um barco em questão de meses. Yu e seu pessoal eram tão escrupulosos na secagem que pesavam os troncos, controlando assim
o grau de umidade que perdiam semanal ou mensalmente5. A totalidade do setor destinado à armazenagem e à secagem da madeira estava protegida por uma parede de taquaras.
Desse modo, evitava-se a açáo dos ventos do sul, muito nociva pelo calor e secura. No recinto em questão, observamos

4 Um dos piores "inimigos" dos pescadores e marinheiros do mar de Tiberíades era o teredo, do género dos lamelibrânquios, que prolifera nas águas com pouca salinidade.
Encontra-se espalhado por todos os mares. São os responsáveis pelo caruncho dos barcos. Os ovos transformam-se em larvas velígeras que se fixam na madeira e a devoram.
A larva se introduz perpendicularmente ao veio da madeira, gira e perfura segundo o sentido de tal veio. A madeira acaba desaparecendo. Enterrar ou proteger com
asfalto etc., era a única solução. (N. do M.)

No século XX foi possível comprovar que uma carga de postes libera, em questão de dois ou três dias, até vinte e três mil litros de água. Para isso passa-se a madeira
por um tanque no qual se injeta uma corrente de óleo a 93 graus. Na época de Jesus, os construtores de barcos aceleravam a secagem mergulhando os troncos ou tábuas
em depósitos ou piscinas de água que esquentavam a uma temperatura "suportável pelo corpo humano" (por volta de 30 ou 40 graus). Em duas semanas, a madeira perdia
uma notável quantidade de água, ainda que diminuísse sua resistência. (N. do M.)

353

vários cartazes, pregados em lugares estratégicos e nos quais se lia, em aramaico e grego: "Proibido roubar". A palavra "roubar" havia sido escrita em suas três
acepções (bazaz: "saquear"; gazal: também "roubar", "saquear" ou "arrancar"; e ganab: "pegar às escondidas"). Em outros "departamentos" a mesma advertência repetia-se.
Então comecei a compreender.

O depósito de madeira era de responsabilidade de um velho operário, especialista, sobretudo, em algo que me deixou perplexo: a "linguagem" das tábuas. Devo adiantar
que a minha ignorância nesses assuntos era, e continua sendo, quase total. Peço desculpas, portanto, ao hipotético leitor destas memórias apressadas.

O sab ou ancião, que respondia pelo nome de "Sekal" (literalmente, "olhar com atenção"), além de controlar as já referidas operações de secagem, tinha a obrigação
de autorizar quais tábuas seriam utilizadas na construção dos barcos propriamente ditos. Para isso, além do exame da cor, ausência de furos, cheiro etc., Sekal ocupava-se
em "escutar" o som da madeira. Colocava cada tábua sobre dois suportes e golpeava sobre ela na altura exata da metade com a ajuda de uma marreta. Se a resposta fosse
"surda", mau sinal. A madeira havia sido invadida por fungos e, naturalmente, recusada. Nem todos os estaleiros agiam com tanta honestidade. Se a "linguagem" era
limpa, passava no teste. Em seguida achava-se o lugar de serrar, estratégica e inteligentemente localizado entre o depósito citado e o fosso em que se procedia à
fabricação das embarcações.

Eliseu, ao descobrir os cortes, os bancos e as ferramentas, ficou fascinado. Acariciou os sarrafos, as serras em arco e as de contornar e, com o olhar brilhando,
pediu a Yu que lhe conseguisse um posto de ajudante. Aquele trabalho de precisão era com ele. Uma das serras, movidas a pedal, chamou-me a atenção. Era assombroso.
Pouco a pouco iria descobrindo a engenhosidade do asiático...

Por último, na parte inferior do estaleiro, quase na costa, Yu nos mostrou o "coração" do varadouro: o fosso em que se construíam os barcos. Ali estava Jesus.

Os Zebedeu escavaram uma galeria de um metro de profundidade por cinco de largura e outros sessenta de longitude que nascia, como digo,

354

na margem do yam. As paredes tinham sido escoradas com madeiras duras e o leito do fosso, debaixo do nível do lago, foi coberto com as pedras da praia. Uma porta
muito pesada, fabricada com postes de carvalho e olmo, funcionava como eclusa principal. No momento indicado, abria-se e a água do lago inundava o fosso, permitindo
um fácil lançamento das embarcações. Em outros estaleiros, trabalhava-se com a ajuda de cabos e molinetes, facilitando o deslizamento dos barcos com o uso de sebo
e gordura de animais. Também nisso os Zebedeu levavam vantagem. Uma vez lançado o barco, retirava-se a água usando duas canaletas laterais que desaguavam no rio
Korazain, situado a pouco mais de trinta metros do mézah. Fechada a eclusa de carvalho e olmo, duas rodas hidráulicas encaixadas na parede direita do fosso (usarei
sempre como referência principal a linha da água do yam), no início das tais canaletas, tratavam da extração, bombeando a água acumulada no fosso com a ajuda de
uma longa peça de madeira, similar a um "parafuso de Arquimedes". A água era passada de um lugar a outro conforme girava o citado parafuso. O "invento" não era de
Yu, mas soube adaptar o parafuso sem fim do sábio de Siracusa às suas necessidades.

Quando o projeto do barco era definitivamente aprovado, Yu, como chefe dos carpinteiros náuticos do varadouro, construía a maquete-guia. Tratava-se de um modelo
maciço, em madeira de pinheiro, de trinta ou quarenta centímetros de comprimento. Serrava-o em lâminas finas e em cada uma das "fatias" escrevia ou marcava as medidas
fundamentais. Depois, cada lâmina era perfurada com várias estaquinhas e o modelo ficava pendurado no avental de Yu até que se desse por terminada a construção do
barco. Na etapa seguinte, com uma maestria admirável, Yu desenhava as peças básicas da embarcação na parede ou no chão de sua casa-barracão, localizada a pouca distância
do fosso. Assim "nascia" o barco propriamente dito, sempre em escala (hoje seria correspondente a um padrão 1:48). O restante dos oficiais cuidava, então, da confecção
dos moldes, que passavam, de imediato, à serraria. Ali tinha lugar outro processo não menos delicado e comprometido. Um erro significava desperdiçar uma tábua, algo
caro e, sobretudo, mal visto pelos mestres. Eliseu, a princípio, passou por maus momentos.

355

Finalmente, com as peças meticulosamente medidas, iniciava-se a construção do "pesqueiro" ou "cargueiro".

Yu havia introduzido várias "novidades". Em primeiro lugar, a presença da quilha, que não era muito habitual naquele tempo e que, ao que parece, ele copiou dos estaleiros
de Tiro, lugar que visitava com certa regularidade. Foi outra "revolução" entre os marinheiros e pescadores do yam. No começo, os mais velhos, incluindo as pessoas
do seu varadouro, duvidaram do "invento". Somente Zebedeu pai lhe deu apoio. Agora não davam conta. Os pedidos eram contínuos. Todos desejavam que seus barcos fossem
reformados. A segunda inovação consistiu na forma de fabricar. Yu pensou que o mais cómodo e rentável era deixar o barco virado para baixo. E fez assim, diante do
estranhamento lógico e do receio inicial de seus companheiros. Mas o asiático tinha razão. A preparação do entabuamento era mais fácil e rápida. Quanto à terceira
"novidade", deixarei para mais adiante...

Começavam pela quilha, geralmente construída em uma peça única, após escolher o carvalho adequado. Depois levantavam a roda (peça curva que servia de proa) e o cadaste
(popa). Após fixar a roda, os homens, fossem ou não judeus, colocavam uma corda sobre a peça. Era o "nó de Isis", um amuleto de boa sorte, segundo diziam. Nenhum
barco, no yam, iniciava uma viagem sem o referido "nó divino".

Depois trabalhavam com as cavernas mestras, procedendo à montagem de forros e cavername. Mais que carpinteiros náuticos, pareciam marceneiros, sempre atentos e cuidadosos.
Utilizavam as mais variadas técnicas para calçar ou encaixar as tábuas. A mais freqüente era a chamada "mortalha e queixo" e "caixa e espiga". As espigas encaixavam-se
milimetricamente nas caixas e os encaixes eram feitos com parafusos de madeira, furados, por sua vez, por pregos de bronze. As junções não podiam superar um span
entre uma e outra6. O normal, para os bons carpinteiros náuticos, é que estivessem a um dedo de distância. O grande problema era a obtenção de uma madeira suficientemente
curva para entalhar o cadaste,

6 Medida existente entre os dedos polegar e mínimo da mão de um homem (aproximadamente, dezoito centímetros). (N. do M.)

356

].]. BENÍTEZ

a peça de popa que recebia a travaçáo, e em algumas ocasiões, os tirantes que sustentavam os lados. Nem todas as árvores apresentavam as linhas, ou melhor, as curvas
exigidas por Yu e seu pessoal.

Ao nos aproximarmos da borda do fosso, Jesus nos viu. Continuou com o rítmico martelar sobre o casco externo do "pesqueiro". Aquele barco estava ainda em plena construção.
O "cargueiro", no entanto, mais próximo da eclusa principal, estava quase acabado. Os artesãos tinham começado a calafetá-lo.

Durante alguns segundos não percebi com clareza. O bater do martelo sobre os parafusos de salgueiro acabava por abafar o cantarolar do Mestre. Em uma das pausas,
enquanto o Galileu extraía vários pregos de bronze de um dos bolsos do avental e os colocava entre os lábios, pensei ouvir parte da letra da canção: "Deus é ela...
Ela, a primeira hé, a que segue à iod... Ela, a formosa e virgem..., o vaso do segredo... Pai e Mãe são nove mais seis... Deus é ela... Ela, a segunda hé, habitante
dos sonhos... Deus é ela...".

Nos dias seguintes, tive a oportunidade de escutá-la várias vezes. Jesus trabalhava ao ritmo daquela estranha canção. "Deus é ela" era o verso ou estribilho principal.
Isso entendi. Mas o que queria dizer? "Deus é ela..." Hé e iod são letras hebraicas. Meus conhecimentos terminavam aí. Jesus a entoava com emoção, acomodando o ritmo
às marteladas. Sempre terminava com um vibrante: "Deus é ela!".

Em alguns momentos, enquanto eu o olhava, veio-me à mente uma idéia, mas a recusei. Não era possível: Deus era uma mulher? Pessoalmente, eu ficaria encantado...
Tinha de perguntar isso a Ele.

Yu foi concluindo...

Quando a embarcação havia sido terminada, entrava em ação o grupo de calafetar e o da pintura. Era o último processo ou hamar (tapar frestas). Primeiro carbonizavam
a madeira (interna e externamente) com a ajuda de tochas. Era uma queima rápida, na qual o fogo lambia e beijava. Só isso. Dessa forma neutralizavam as possíveis
invasões de fungos. O carvalho agradecia mais do que qualquer outra árvore.

Ao "beijo do fogo", como diziam, seguia a calafetação, outra operação para a qual era preciso maestria. Um oficial veterano era sempre

357

o responsável. Os ajudantes preparavam a estopa (geralmente, fibras de cânhamo) e a mergulhavam em alcatrão, diferentes tipos de liga7, resinas, breu ou, simplesmente
óleo. O especialista abria as frestas com o auxílio de chaves de ferro e, depois de enrolar a estopa sobre a coxa, introduzia-a nas junções da madeira com uma forma
especial de martelar. Mais que um martelado, um bater ritmado, com um golpe duplo. E a estopa penetrava até o fundo. Dessa forma, a calafetação impedia que a água
entrasse no barco, o que aliviava, além do mais, o esforço futuro das madeiras.

Depois, "maquiava-se" a nave: uma camada de massa, feita com cal em pó e óleo de peixe, e finalmente pintura e breu. Essas proteções, como já disse, eram vitais
nas águas do yam, conquistadas permanentemente pelas "brocas" ou carunchos e por algumas algas que acabavam por grudar no casco, o que diminuía a velocidade da embarcação
e ameaçava a sua integridade8. Yu havia proposto uma solução extra: revestir o casco com placas de chumbo, tal como faziam os cargueiros no "grande mar". O Zebedeu,
no entanto, não aceitou. O custo encarecia sensivelmente o preço

7 Na hora de fazer a liga, Yu era partidário do visco, viburno e casca de azevinho. Depois de aferventar a mistura, passava-se a triturá-la. A polpa resultante era
exposta ao relento durante algumas semanas, e assim conseguia-se um apodrecimento homogêneo. A boa liga, de acordo com o asiático, devia ser tão verde quanto ácida.
O calafetador-chefe a experimentava sempre antes de utilizá-la. Outros preferiam triturar os materiais e, depois de diluir a pasta em um pouco de água, mastigá-la,
acelerando o processo através da açáo dos fermentos da saliva. Depois, deixava-se descansar, umedecendo-a antes de impregnar os fios de linho ou cânhamo que dava
forma à estopa. (N. do M.)
8 Durante o período em que estivemos no mar de Tiberíades, detectamos numerosos tipos de algas. Aperidinium westii era a mais abundante. Trata-se de um exemplar
esférico protozoário, do grupo das "brilhantes" (pirofitd). Em janeiro multiplica-se com grande rapidez, e chega às 3.300 unidades por centímetro cúbico entre fevereiro
e abril. Um par de flagelos lhe dá uma considerável velocidade e pode mover-se na vertical ou na horizontal. O diâmetro médio é entre quarenta e setenta microns,
mas localizamos colónias de 125. Seu alimento principal é o nitrogênio e o fósforo. Com isso consegue uma notável massa orgânica que acaba dificultando a navegação
e os trabalhos de pesca (em uma das primaveras calculamos uma biomassa superior às vinte mil toneladas). Com a madrugada sobe à superfície e ocupa uma lâmina de
até quatro metros de espessura. À primeira hora da tarde, desce, e dorme entre cinco e sete metros de profundidade. Em junho, com o aumento da temperatura, Aperídinium
morre. (N. do M.)

358

final. Um barco de oito metros, por exemplo, podia custar entre oitocentos e mil e duzentos denários de prata, dependendo do material utilizado. Era concluído em
cinco ou seis meses.

No lançamento do barco, o proprietário era obrigado a pagar uma refeição a todos os grupos que tinham participado na construção do barco. Ninguém faltava. Geralmente
terminava em uma bebedeira coletiva.

Cada embarcação dispunha de um nome, dado sempre pelo dono ou, na sua ausência, por Yu. Aparecia pintado na proa e, às vezes,

na popa.

O resto do estaleiro, além de outras dependências de menor importância, era composto por três barracões de madeira. Um fazia as vezes de vestiário e refeitório.
Lá era guardada a roupa e a comida que se consumia no meio da manhã. Às vezes era utilizado pelos trabalhadores que, por uma ou outra razão, não dispunham de um
teto fixo. Em uma das paredes estava pendurado o referido aviso: "Proibido roubar".

Eliseu e eu nos olhamos e creio que tivemos o mesmo pensamento: o que faríamos com a "vara de Moisés"?

O segundo barracão, maior, ainda que tosco, era a casa e o lugar de trabalho de Yu, o chefe dos carpinteiros náuticos. Ali, em uma das paredes, como disse, desenhava
as peças sobre as quais se fabricavam os moldes. Vivia sozinho e pouco a pouco fui conhecendo-o... E admirando-o.

Seu nome verdadeiro era "Yuxuè", mesmo que todos o chamassem Yu. Era chinês. Yuxuè, segundo me explicou, queria dizer "sangue tranqüilo ou de remanso". Em uma tradução
pouco ortodoxa, podiase associar a "homem sereno". O que os judeus conheciam por neqe, uma pessoa calma e, além disso, pura e limpa de coração. Assim era Yu, transparente,
honrado, brilhante e com os nervos de aço. Também acabou sendo um seguidor do Mestre, ainda que nunca viesse a constar dos textos evangélicos...

Quatro ou cinco gerações antes, um de seus antepassados emigrou do arquipélago de Chusan (China atual) com toda a família. Era irmão de um general chamado Xiang
Yu, rival do imperador Liu Bang, que governou por volta de 202 a. C. A derrota de Xiang Yu obrigou ao desterro toda

359

sua família. Alguns chegaram até o yam e ali se estabeleceram; seguindo a tradição familiar, eram construtores de barcos.

Yu considerava-se um digno descendente dos han, o verdadeiro povo chinês. Continuava praticando a filosofia dos seus antecessores. Acreditava em Kongfuzi, o mestre
Kong, como chamavam Confúcio, ainda que suas idéias tivessem a influência das obras de Lao Tsé, outro dos grandes filósofos que influenciaram a religiosidade chinesa9.
O Too Te King, livro escrito por Lao Tsé, era a sua principal referência moral (estudo do "não ser" e do "ser").

Era um homem bom, com uma intensa inquietude intelectual. Seu trabalho, no fundo, era somente um meio para sobreviver. O que realmente o apaixonava era a busca da
verdade, "se é que existia", e as "invenções"... Mas destas últimas falarei oportunamente.

O terceiro barracão, muito perto da serraria, foi um mistério durante muito tempo. Permanecia sempre fechado. Na porta havia outro cartaz pendurado que dizia: "Só
Yu".

Ninguém entrava, exceto o referido chinês. Fazia-o em sigilo. Carregava nas mãos um ou dois pacotes, cuidadosamente embrulhados em pano ou em sacos. Não houve maneira
de averiguar o conteúdo. Olhava

Kongzi ou Kongfuzi (Confúcio para os ocidentais) viveu entre 522 e 479 a.C. Foi o fundador da doutrina conhecida como "confucionismo", uma corrente éticosocial que
nada teve a ver, inicialmente, com a religião. O pouco que sabemos sobre Confúcio deve-se ao que foi escrito pela segunda geração de seus discípulos no texto que
recebe o nome de Lunyu. Supõe-se que, no final de sua vida, trabalhou para o governo, mas acabou exilando-se. Viveu errante durante treze anos. Segundo os citados
discípulos, Confúcio defendia a honra, a ordem e a cultura como os valores máximos aos quais o ser humano pode aspirar. Ao estudar, refletir e cultivar a própria
pessoa, o homem se transforma em sábio e expande à sua volta um princípio que beneficia todas as criaturas. Essa ordem, suprema e magnífica segundo o "confucionismo",
provinha dos céus. Por isso, o imperador deveria ser uma fonte de inspiração para os seus súditos.

Lao Tsé, anterior a Confúcio, defendia a renúncia total do homem diante das riquezas ou do poder. O destino estava escrito. Tudo deveria seguir seu curso, sem alteração.
O tão, entre outros princípios, ensina que a solidariedade do homem para com a natureza é prioritária. O tão transforma o universo no jogo eterno do yin (escuro
e frio) e do yang (luminoso e quente). (N. do M.)

360

J.]. BENÍTEZ

para um lado e outro e, quando tinha certeza de que não havia ninguém por perto, abria a porta e entrava rapidamente. Lá permanecia muito tempo. Não se ouvia nem
um ruído. O único sinal de atividade era a coluna de fumaça que se elevava de um dos cantos do barracão.

Eliseu e eu o batizamos de "o barracão secreto" e este que escreve foi destinado ao "departamento" que Yu chamou de hezeer...

Hezeer?

O asiático sorriu com malícia. O que significava aquela palavra? Eu não a conhecia. Talvez se tratasse de um dos muitos modismos que provinham do aramaico-galilaico
e aos quais nunca me acostumei. "He-zeer", repetiu devagar, separando o primeiro som. Continuava sem entender. "Zeer" era pequeno, mas "he-zeer"...

Yu mandou que o seguíssemos. Entramos no barracão-vestiário e nos deu dois aventais de couro, mais escuros pela sujeira que pela cor do material. Tirei a roupa e
tentei ajeitar-me. Digo tentei porque, para dizer a verdade, a peça ficava escandalosamente curta em mim. Com meus 1,80 metro de estatura, era uma figura ridícula.
Estava evidente que o avental pertencia a um menino. Não havia outro e eu tinha de me conformar. As túnicas ficaram penduradas em um prego, em uma das paredes, junto
ao resto das roupas e ao almoço dos trabalhadores. Meu companheiro, um pouco mais baixo, teve mais sorte.

A verdadeira preocupação, porém, não foi minha figura, mais ou menos cómica, mas "a vara de Moisés". Deixei-a ali, junto à túnica. Não podia trabalhar com ela...

Começou então um novo tormento. O que aconteceria se a roubassem? Não quis nem pensar nisso. Se alguém roubasse a vara ou ativasse acidentalmente algum dos sistemas
de defesa, o resultado seria catastrófico.

Os cartazes, advertindo os possíveis ladrões, me pareceram premonitórios e eu estremeci...

Eliseu dirigiu-se à serraria, e eu fui levado ao começo do fosso, nas proximidades do "pesqueiro" sobre o qual martelava e cantarolava o Galileu. O he-zeer não era
outra coisa senão uma cobertura de tábuas e de varas, no centro do varadouro, em que se armazenavam os cântaros

361

de água potável e o material com que se procedia à fabricação de tintas, pinturas e vernizes. Aquele seria o meu lugar de trabalho. Estaria às ordens do oficial
encarregado dos referidos produtos protetores da madeira. Seria ajudante, e algo mais...

Não demorei a verificar em que consistia esse "algo mais".

De repente, no depósito de lenha, ouviu-se um "Eh, rapaz!". Alguém chamava por mim com a pele de cabra que servia para transportar água.

- Eh..., zee^.

Compreendi então. O he-zeer pronunciado por Yu era uma expressão, em aramaico, algo distorcida, que equivalia a um chamamento: "Eh, rapaz!", referindo-se ao rapaz
ou aprendiz que era o "faztudo". Em decorrência disso, a cobertura em que se armazenava a água recebeu o citado nome. Todos, no estaleiro, pediam a presença do "faztudo"
com o vocativo "Eh, zeer\". Era o sinal. Quando se ouvia, minha obrigação era deixar o que estivesse fazendo e ir apressado, ou melhor, correndo, ao lugar em que
eram solicitados meus serviços. Esse serviço incluía o fornecimento de pregos ou parafusos, afiar ferramentas, transporte de madeira, alimentar os fornos e estufas,
varrer a serragem, recolher a sujeira e transportá-la à lixeira próxima ou gehenna, limpeza diária do vestiário e, por certo, a preparação dos mencionados vernizes
e pinturas.

Nasceu desse modo "Eh, zeer*." ou "Eh, rapaz!". Durante a permanência no estaleiro, todos me conheceram por esse apelido. Quem poderia adivinhar! Eu, piloto da USAF,
acabei varrendo um estaleiro e correndo como uma lebre de um lugar para outro...

Não importava. Tínhamos conseguido nosso objetivo. Ele estava perto. Nunca o perdemos de vista e conhecemos um Jesus desconhecido, um trabalhador caprichoso e responsável
que esperava a sua hora...

Mas estou sendo injusto. Também gostei de ser um "faz-tudo". Aprendi muito, em especial sobre a mansidão e a humildade. Servir é tão árduo quanto saber mandar. Talvez
mais...

362

J.). BENÍTEZ

Aproveitei, sobretudo, o meu trabalho como aprendiz, na elaboração de produtos protetores da madeira10. Meu professor, um fenício velho e desencantado, ensinou-me
alguns segredos, demonstrando que também é possível viver no pequeno mundo de um recipiente cheio de pintura ou de cola de carpinteiro.

Aquele dia de trabalho, no entanto, foi um desastre. À minha inabilidade tive de acrescentar a preocupação (quase medo) com a sorte da "vara de Moisés". Toda minha
atenção ficou dirigida à porta do vestiário. Cada vez que alguém entrava ou saía do barracão, eu interrompia o que estava fazendo, e com isso recebi as primeiras
repreensões e reprimendas. Foi mais forte que eu. Não me acostumei. Tínhamos de achar uma solução...

Por volta da quinta (onze da manhã), Yu bateu a barra metálica que pendia do eh, zeer, anunciando a hora do almoço. Almoço? Nem Eliseu nem eu tínhamos previsto isso,
e por pura prevenção nos sentamos no interior do barracão que funcionava como vestiário e refeitório. A vara continuava em seu lugar.

Os operários pegaram os seus respectivos cestos e farnéis e procuraram acomodação dentro e fora do barracão. Eram momentos de piadas e confidências.

Durante esse período, fiquei "especialista" em todo tipo de ligas, pinturas, protetores contra cupins, tinturas e vernizes em geral. A cola mais utilizada era um
preparado que se fabricava com farinha de trigo estragada. Uma vez dissolvida em água, era esquentada até o ponto de fervura; acrescentavam-se pequenas quantidades
de essência de terebentina, uma resina que era obtida dos pinheiros e abetos. O resultado era espantoso. Também fabricávamos uma pasta especial que se aplicava a
frestas e juntas, o que evitava que a madeira fosse atacada por roedores e insetos. O fenício misturava vidro moído com breu e pêlo de vaca. Nem um único rato invadia
as embarcações. As madeiras e os metais eram protegidos por um líquido que o mestre destilava do alcatrão natural, chegado do mar Morto. As superfícies ficavam lustrosas
e brilhavam com a água e o sol. Ninguém conhecia a fórmula exata. As embarcações construídas no estaleiro dos Zebedeu se sobressaíam, entre outras coisas, pelo or
ou "luz" que emitiam, o que era consequência, justamente, da habilidade do velho mestre. O único item no qual não permitia nenhuma ajuda era no das pinturas. Somente
ele conhecia os ingredientes para a obtenção dos deslumbrantes brancos ou vermelhos-fogo. (N. do M.)

363

Primeiro vimos entrar o Galileu. Sorriu para nós brevemente. Pegou a sua comida e dirigiu-se de novo para a porta. Compreendemos que desejava ficar sozinho. Esta
era, como disse, outra norma sagrada. Nós éramos expectadores, sempre na sombra: ele decidia. Porém, ao chegar ao umbral, deteve-se. Ficou quieto por alguns minutos,
deu meia-volta e veio até a parede em que estávamos encostados. Colocou-se de cócoras. Destampou o cestinho de vime e foi tirando a comida: ovos cozidos, pão de
trigo e fruta. Colocou a comida em nossas mãos e, sem dizer nada, sorriu mais intensamente. Levantou-se em seguida e afastou-se, desaparecendo na claridade do estaleiro.

Meu companheiro fez um gesto para levantar-se e sair atrás Dele. Eu o detive. Se quisesse sentar-se junto destes pesquisadores, teria feito isso, sem dúvida, como
tinha acontecido em outras oportunidades. Agradeceríamos isso a ele no momento certo.

Em seguida, chegou Tiago, o irmão do Mestre. Trabalhava como oficial na serralheria, junto com Eliseu. Pegou seu almoço e juntou-se a nós, interessando-se por aquelas
primeiras horas no estaleiro. O engenheiro empalideceu. Quase não falou nada e veio-me à lembrança a imagem do dia anterior, no portão da "casa das flores", quando
nos retirávamos para a insula. Eliseu entregou o ramo de lírios para Tiago e disse-lhe algo no ouvido. Essa era a causa do seu silêncio? O que escondia? Por que
tanto mistério?

O bom homem, querendo ser gentil, perguntou sobre nossos planos imediatos. Não havia tais planos. Permaneceu pensativo e, finalmente, animado, propôs que os visitássemos
nesse fim de tarde para jantarmos juntos.

- Esta, minha mulher, fala pouco mas cozinha uma excelente bamia
- disse.

Eu não sabia o que era uma bamia, mas confirmei que tinha razão. Fosse o que fosse seria a primeira vez...

Combinou o jantar para "depois da cerimónia" no kahal. Aquilo me interessou. Kahal em uma das denominações do que hoje conhecemos como sinagoga. Outros, especialmente
os rabinos, a chamavam de vaad, Keneset, zibbur ou kenisah, entre outros nomes. Tudo dependia do lugar e do grau de ortodoxia.

364

j.j. BENÍTEZ

Disse que me interessava porque, até agora, não havia tido a ocasião de pisar em um desses lugares de "reunião" (o significado mais correto seria "reunião congregada"
com propósitos religiosos). Será que Jesus iria?

Tiago acreditava que sim, ainda que não tivesse muita certeza. Não o consultou. Sua família comparecia ao kahal ao entardecer da sexta-feira ou à primeira hora da
manhã do shabbat ou sábado (os judeus, como se sabe, consideravam o início do novo dia no pôr-do-sol do dia anterior).

O Filho do Homem na sinagoga... Como reagiria? Observamos enquanto orava nas neves do Hermon. Seu estilo não tinha relação com o do resto dos judeus e, muito menos,
com os ortodoxos e intransigentes defensores da Lei.

Custava-me trabalho imaginar o Mestre em uma dessas tradicionais reuniões, invocando o nome do raivoso Yavé, "ao que era preciso primeiro temer e depois amar". Não
o via no meio de pessoas que nem sequer se atreviam a pronunciar o nome do Pai...

Eu não podia perder semelhante oportunidade e, discretamente, simulando interesse pela cerimónia em si, fiz algumas perguntas. Tiago, muito surpreendido pela curiosidade
daquele forasteiro, respondeu com paciência e fez algo mais: ofereceu-se para acompanhar-nos à galeria da sinagoga destinada aos prosélitos (pagãos convertidos ao
judaísmo) e estrangeiros, um recinto separado do resto da comunidade, mas integrado no edifício.

O encontro seria ao toque da trombeta, na porta do kahal. Esse era o procedimento habitual para anunciar o começo e o final do sábado, o dia de descanso fixado por
Yavé, o dia santo por excelência entre os israelitas11.

Quando Yu chamou o grupo com o som do ferro, Jesus se encontrava sentado ao pé do "pesqueiro". Tinha a cabeça encostada no casco e os olhos fechados. Parecia adormecido.
Acordou ao chamado e, esticando os braços, espreguiçou-se feliz durante vários segundos. Nisso caíram as pri-

Como mencionei neste diário, as chamadas ao culto, incluído o anúncio do shabbat, eram feitas ao toque de sofar ou de trombeta. O chifre soava no primeiro dia do
Ano-Novo, e as trombetas nos dias de jejum. (N. do M.)

365 "

meiras gotas. E que gotas, gotas enormes! Pouco depois, a frente nublada, instalada sobre o lago, disse: "Aqui estou". Foi o dilúvio.

O trabalho ficou interrompido e, durante algum tempo, permanecemos protegidos, contemplando impotentes como o fosso e os drenos se enchiam de água. Ninguém pôde
fazer nada, e Yu, como era a décima hora, (quatro da tarde), compreendendo que a chuva não iria parar, correu ao eh, zeer e fez soar a barra metálica por três vezes.
Isso significava "fim do trabalho". O chinês refugiou-se no "barracão secreto".

Cada um pegou as suas coisas, e abandonamos o estaleiro da forma como pudemos. Perdemos Jesus e Tiago de vista. Supus que tivessem corrido como os outros.

As ruas se transformaram em rios. Somente o cardo, ligeiramente inclinado na direção do yam, permitia um trânsito um pouco mais aceitável.

Os trabalhadores, na insula, também interromperam os trabalhos de reparação do terceiro andar. Trocamos as túnicas molhadas, e seguindo a recomendação de Eliseu,
escondi a "vara de Moisés" entre as pregas de um dos edredons, no beliche do quarto 39. Era o mais prático. Na sinagoga não teriam deixado que eu entrasse com uma
vara.

Mesmo compreendendo, fiquei tão preocupado quanto no varadouro. A chave do 39, como dos outros aposentos, estava sempre conosco, mas... Procurei me acalmar. Agora,
supunha-se, não precisaríamos dela. Nessa noite jantaríamos na casa do Mestre e no dia seguinte, dia de descanso, então veríamos...

Tivemos o tempo exato. Ao chegar à sinagoga, um dos funcionários, que ficava em um pórtico que se abria à direita da fachada, fez soar uma trombeta de prata, para
convocar o povo. Foi um toque com duas notas, repetido três vezes. A busca do by(t)knYst, o edifício propriamente dito, foi fácil. Era o único imóvel de pedra caliça.
Encontrava-se, além do mais, na parte alta de Nahum, tal como a tradição recomendava (dessa forma, ficava simbolizado que a atividade da sinagoga deveria ser mais
importante do que qualquer outra, lembrando Isaías (2, 2): "Dias virão em que o monte da casa de Yavé será estabelecido no mais alto das montanhas e se alçará acima
de todos os outeiros". Se isso não fosse possível, a sinagoga era erguida nas

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esquinas das ruas ou nas praças. Em alguns povoados ou cidades, nos que não existiam elevações do terreno, a comunidade judaica cravava um longo mastro sobre o telhado
do kahal, de forma que se erguesse mais acima do sótão da casa mais alta. Para os judeus supersticiosos, uma sinagoga construída mais abaixo do que o resto das casas
implicava um risco iminente de destruição. Em Nahum, a zona mais elevada encontrava-se no extremo noroeste, perto do cinturão dos hortos e cerca de trezentos metros
da insula. Como comentei, na "cidade de Jesus" tudo estava a um passo.

Não havia como se perder porque, como dizia, era o único edifício de pedra branca e com um telhado de duas águas, construído em madeira. A fachada, com vinte e três
metros, aparecia delicadamente trabalhada, com umas pedras lavradas de mais de quatro toneladas. As janelas me chamaram a atenção. Contei cinco, todas com as correspondentes
proteções fixas... de vidro! Algo pouco comum em um povoado como Nahum. Três portas davam acesso ao interior. Portas pelas quais somente entravam os varões judeus.
As mulheres entravam pelo extremo oposto, no lado norte. Os outros, prosélitos ou pagãos simpatizantes, éramos obrigados a entrar por uma escada lateral geminada
ao muro oeste. Na fachada se destacavam ainda três orifícios no centro geométrico. Foram colocados verticalmente. No pórtico da porta central (a maior), haviam sido
lavradas duas guirlandas de flores que acompanhavam uma ânfora romana. Soube mais tarde que representava o "vaso do maná".

O povo, empurrado pela chuva, refugiava-se no pórtico que havia à direita. Lá, entre as colunas, sacudiam as roupas, lavavam obrigatoriamente as mãos em uma pequena
fonte e abriam os mantos brancos ou talith, cobrindo com eles a cabeça e os ombros. Ninguém podia assistir à cerimónia sagrada da oração sem se cobrir. Algo assim
significaria a expulsão imediata. Eliseu e eu dispúnhamos também de "xales", feitos de acordo com a lei, com lã crua de cordeiro.

Uma forte descarga elétrica provocou um murmúrio generalizado. A tempestade continuava implacável, iluminando com os relâmpagos o madeiramento azul do telhado e
os rostos nervosos e assustados da comunidade. Onde estava Tiago?

367

Não havia outro jeito senão aguardar diante da fachada, debaixo do dilúvio. Misturar-se com os do pórtico ou procurar a entrada que nos correspondia era arriscado.
Assim, esperamos imperturbáveis sob o forte aguaceiro.

Os homens, cobertos com os mantos, saíam da galeria correndo e entravam por qualquer das três portas da fachada. No começo pensei que a pressa devia-se às adversas
condições atmosféricas. Parecia óbvio, mas não era. Mais adiante, conforme fui conhecendo o mundo singular das sinagogas, soube que aquela suposta "pressa" era uma
forma de acatar as Escrituras. De acordo com os escribas e outros intérpretes da Lei, o judeu crente e respeitador tinha que correr ao encontro do conhecimento.
Isso diz Oséias (6,3): "Conheçamos, corramos ao conhecimento de Yavé". Por isso, ao entrar na sinagoga, procuravam fazê-lo o mais rápido possível. A saída, no entanto,
era lenta e pausada12.

Tiago apareceu. Acabava de deixar sua mãe e sua irmã no recinto do lado norte, o único lugar onde as mulheres podiam permanecer. Esta, grávida e com um bebé, estava
dispensada.

O irmão nos guiou até o lado oeste, e subimos por uma escada de pedra geminada ao muro. Lá se abria uma porta estreita que permitia o acesso a uma galeria superior.
Era o "mirante", o lugar destinado aos náojudeus. Éramos autorizados somente a olhar e a rezar. Nenhum prosélito intervinha nas discussões.

Quatro ou cinco homens encontravam-se de pé, com os cotovelos sobre um balcão de madeira; olhavam os que entravam pelas portas. Era só pisar o pavimento de pedra
e os judeus esqueciam a "pressa", procurando lugar nos longos bancos que ficavam paralelos às paredes. Precisei de tempo para acostumar-me ao recinto. Encontrava-me
a uns cinco metros, no alto do flanco

12 Os judeus muito religiosos mantinham essa atitude ao longo do sábado inteiro. Cada vez que saíam à rua o faziam correndo, tentando demonstrar seu zelo com Yavé.
No sábado, como se sabe, a ordem era manter repouso absoluto. Quando pisava a rua era porque, supostamente, iam à sinagoga. Disso provinha o fato de correrem ou
andarem mais devagar. Em muitas ocasiões, somente se tratava de uma postura falsa e hipócrita. (N. ao M.)

368

J.). BENÍTEZ

esquerdo da sinagoga (tomarei sempre como referência a fachada do edifício). A primeira coisa que me chamou a atenção naquele retângulo foram as lamparinas de óleo.
Pendiam do teto por cabos de dois e três metros. Somei quinze, distribuídas em cinco fileiras. Era uma luz amarela, bruxuleante, que perfumava o recinto com um suave
cheiro de azeite. Ao fundo, diante das portas da fachada, separadas por uma grade, divisei as mulheres. Apertavam-se em dois compartimentos. Indaguei a Tiago e ele
me explicou que a divisão devia-se à condição de judias ou escravas ou prosélitas. As primeiras ocupavam o lado da direita. Um tabique grosso impedia o contato entre
as "puras" e as "impuras". A congregação chamava a tal divisória de zgenizã, uma espécie de "cemitério" de livros da Lei, usados e deteriorados. Lá eram guardados
e encapados. Os judeus consideravam esses rolos como seres vivos. Não podiam ser jogados ao lixo ou aproveitados para outras finalidades.

Eu sabia do machismo dos judeus em geral, mas agora, ao contemplar as hebréias e prosélitas atrás da alta grade, voltou-me a velha indignação. Esse foi outro tema
de luta do Filho do Homem13.

Ela, Ruth, também estava lá...

Os homens foram ocupando os lugares. Contei três fileiras de bancos em um dos lados, todos de madeira negra e lustrosa, com encostos de um metro de altura. Os das
primeiras filas apresentavam inscrições respectivas, gravadas a fogo nos suportes de braço da esquerda. Eram os nomes dos "proprietários", os "principais" de Nahum,
todos benfeitores da sinagoga, todos ricos e poderosos, segundo Tiago.

Na frente da genizá estava pendurado um pano quadrado de uns dois metros de largura, de veludo vermelho. Estava suspenso do

Os rabinos e especialistas na Lei procuravam sempre uma justificativa para qualquer de suas ações ou movimentos. A separação das mulheres nas sinagogas provinha
de um texto do profeta Zacarias (12, 11-14) no qual, falando das lamentações de Israel, explica que as mulheres devem lamentar-se à parte. O texto "sagrado" repete
isso cinco vezes: "Cada família à parte e suas mulheres à parte." Os judeus interpretaram ao pé da letra essa passagem, não consentindo que as mulheres fizessem
parte do ritual ou das assembléias que eram constituídos nas citadas sinagogas. Essa atitude foi herdada depois pelos cristãos. (N. do M.)

369

madeiramento do teto, tal como as lamparinas. Ocultava o objeto mais sagrado da sinagoga: o aron, ou arca, na qual se guardavam os rolos ou livros das Escrituras,
delicadamente embrulhados em linho e encerrados, por sua vez, em estojos de ouro, prata e madeiras nobres. O cofre ou arca da Lei de Nahum dispunha de rodas, de
forma que era possível transportá-lo pelo interior da sinagoga e, inclusive, pelo exterior, na ocasião de certos jejuns e celebrações. Tanto o véu como a arca recordavam
o "Santíssimo", ou Santo dos Santos do Templo de Jerusalém14. Na frente do véu, muito próxima, pendia também a ner alam, a lâmpada santa, sempre acesa.

14 Mesmo que os especialistas não concordem, a opinião mais comum é que seria preciso buscar a origem das sinagogas na época da Babilónia, durante o exílio dos judeus
(ano 587 a.C.). Cerca de quatro mil famílias foram tiradas de Israel, e o Primeiro Templo de Salomão, em Jerusalém, totalmente destruído e saqueado por Nebuzardão,
capitão dos exércitos de Nabucodonosor. Foi nesses anos de desterro, sem Templo, que os judeus sugeriram a necessidade de continuar reunindo-se, tanto para rezar
e estudar a Lei quanto para manter o sentido de nação e combater o paganismo que os estava invadindo. Assim, provavelmente, nasceu o kahal (sinagoga é uma palavra
grega). Os indícios nos livros de Esdras e Neemias são eloqüentes. Alguns acreditam ter sido Moisés o primeiro a dar forma a uma sinagoga e ter estabelecido, inclusive,
a súplica que deveria ser recitada (Êxodo 18,20). Filon e Flavio Josefo também têm essa opinião. O certo é que a sinagoga surgiu como uma clara defesa contra a ameaça
babilónica, com o objetivo principal de manter a instrução da Tora ou Lei de Moisés. O restante - culto, assembléias, reuniões políticas etc. - era secundário, pelo
menos nos primeiros tempos.

As sinagogas eram também lugares onde habitualmente se oferecia educação em geral. Eram as escolas, tal como as conhecemos na atualidade. Um dos empregados ou funcionários
- o hazán - ocupava-se disso.

Todos os povoados ou cidades onde pudessem viver no mínimo dez homens (varões) "piedosos e interessados nos assuntos divinos" (os chamados batlanim) deveriam ter
uma sinagoga. O número dez vinha, ao que parece, da Bíblia (Números 14, 27) em que são citados os espiões que trouxeram uma informação negativa (dez homens, uma
vez descartados Josué e Caleb). Em muitos povoados eram contratados os serviços de dez homens sem trabalho para que se formasse o mnyn ou número mínimo necessário
para constituir a assembléia religiosa. Cheguei a conhecer os freqüentadores mnyn que assistiam diariamente aos ofícios da sinagoga. Todos os dias havia uma cerimónia
- mas que as ocasiões mais importantes eram as do shabbat e as das segundas e

370

Observei atentamente, mas não consegui ver o Mestre. Os homens continuavam entrando, com as túnicas e os mantos empapados. Tiago não soube o que responder à minha
pergunta. Jesus não os acompanhara ao sair da "casa das flores". Devia estar para chegar...

Continuei observando. No centro da nave erguia-se a berma, um estrado, também de madeira, com quase dois metros de lado, sobre o que tinham colocado uma poltrona
e uma mesa pequena (mais exatamente, uma "torre" ou migdat).

Nosso informante explicou tratar-se da tribuna na qual eram lidos os livros da Lei e dos Profetas, e de onde eram pronunciados os "avisos", uma exortação ou sermão
que geralmente encerrava a cerimónia. Muitas das lamparinas coincidiam exatamente sobre a mesinha de leitura. Entre o véu e a bema havia um exuberante candelabro
com sete braços, a menorá, com outras tantas e generosas lamparinas. A luz alcançava as paredes com docilidade, mostrando um espetáculo incomum entre os rígidos
judeus. O artista, provavelmente pagão, havia desenhado sobre o estuque um Hércules lutando com um grifo, outro ser mitológico, metade águia, metade leão. A pintura,
na qual apareciam também um centauro e uma espécie de unicórnio (?), estendia-se ao longo de toda a parede da direita, interrompida somente por janelas pequenas
em forma de estrela de Davi. Era a primeira vez que eu via representações "humanas" em um lugar eminentemente judeu. A Lei, como se sabe, proibia isso terminantemente.
Entendi um pouco melhor o desprezo dos habitantes da Judéia por aquele "círculo de gentios", como chamavam a Galiléia.

quintas-feiras (dias de mercado semanal e de reunião dos tribunais locais de justiça). O fanatismo dos ortodoxos chegava ao extremo de contar os homens antes de
começar uma sessão. Invocavam Isaías (50, 2) e Jeremias (12, 4), ameaçando com a cólera de Deus se não conseguissem reunir o mnym. "Se o Eterno vê menos de dez homens
reunidos, acende-se a sua ira, corno está escrito: Por que vim e não havia ninguém?" Para os muito religiosos, a oração somente tinha valor se fosse feita na sinagoga.
Se alguém deixava de frequentá-la, Yavé pedia contas. Se um judeu não ia ao kahal, os vizinhos podiam qualificá-lo de "malvado", originando assim o repúdio social
e, inclusive, o exílio. (N. do M.)

371

Na parede da frente, no centro, descobri os já referidos três buracos, de uns dezoito centímetros de diâmetro cada um, alinhados verticalmente. Tiago esclareceu
a dúvida. Tratava-se da referência obrigatória na hora de rezar. A parede estava voltada para o sul, na direção de Jerusalém, e os orifícios eram o ponto de foco
que, supostamente, apontavam Deus. Fiquei perplexo. Na hora de rezar, realmente, a comunidade erguia os olhos, procurando os três círculos. De onde vinha esse costume?
Tiago não sabia. Era muito antigo. Talvez de um príncipe, Melquisedec, do tempo de Abraão... Melquisedec?

O Génesis o menciona e também o Salmo 110. Dizem que foi um sacerdote, mas ninguém sabe de onde veio nem como viveu. Asseguram que foi rei de Salem, uma antiga povoação
do vale do Jordão. Outros o citavam como rei de Jerusalém e fundador (?) de uma ordem singular: os "melquisedec". Propus-me a pesquisar essa questão. Se fosse correto
o que disse Tiago, por que motivo o tal Melquisedec identificou Deus com "três círculos"? Outra vez os "círculos"... O que não imaginava nesse momento é que, em
breve, receberia

uma interessante "pista" a respeito.

Com o entardecer - "quando fica impossível distinguir um fio branco de um negro" -, começou a cerimónia que, segundo Tiago, chamavam "Kabalat shabbat", as "boas
vindas ao sábado"; uma cerimónia três vezes solene naquele 19 de outubro. Foi uma sorte. A formalidade especial e o esplendor deviam-se, em primeiro lugar, a uma
coincidência. Nesse dia terminava a leitura da Tora ou "Shemini atzeret" (Oitavo dia da assembléia). O Pentateuco, os cinco livros possivelmente escritos por Moisés
(Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), era lido pouco a pouco, geralmente em ciclo de três anos, dividido em 154 sessões. Em outros lugares, a leitura
da Tora era mais longa, chegando a alcançar três anos e meio. Em segundo lugar, durante a festividade da Shemini, o povo tinha o costume de formular a oração das
chuvas. Outubro era um mês chave. Se em 3 de marjesván (aproximadamente, 20 de outubro) não chegassem as primeiras chuvas, o Sinédrio, em Jerusalém, ordenava três
dias de jejum nacional. Se na lua nova de kisléu (novembro) continuasse a seca,

372

a comunidade judaica submetia-se a outros três dias de jejum. Se a água continuasse atrasando, no final de novembro era decretada uma semana de jejum. A tempestade,
justamente na festa de Shemini, era um "sinal dos céus". Nem mesmo tinham tido tempo de entoar a prédica pelas chuvas e a água descia sobre a terra. "Agora," - acrescentou
Tiago - "o importante é que o Santo, bendito seja seu nome, distribua a água com equilíbrio". O comentário era lógico naquele tempo e entre aquela gente. Yavé era
o único responsável pelas chuvas. Assim está dito no Deuteronômio: "Eu darei ao teu país a chuva no seu tempo: a chuva da primeira estação (outubro) e a chuva da
última (março-maio)...". Supor que Deus não tivesse nada que ver com as precipitações era inimaginável. O terceiro motivo de solenidade era a "acolhida do shabbat",
o dia sagrado.

Quando os bancos estavam ocupados - calculei uns duzentos homens -, alguém se aproximou de um indivíduo sentado em um dos lugares dos "notáveis", na primeira fila
da direita. Todos os "notáveis" eram anciãos ou relativamente velhos. Sentavam-se nos assentos preferenciais. Mais atrás vinham os mais novos.

Olhei novamente os rostos e os perfis, meio escondidos pelos mantos. Não conseguia descobrir o Mestre.

Talvez tivesse mudado de opinião. Talvez não desejasse participar da cerimónia religiosa...

Outra descarga seca da tempestade soou como um aviso. O instinto, como sempre, falou ao meu coração. Algo estava para acontecer.

- É a hora...

Tiago apontou o "notável" e acrescentou:

- Seu nome é Yehudã benjolí. Ele preside. Agora receberá o shabbat...

Esse tal Yehudá (filho de Jolí) era um indivíduo extremamente gordo, alto, com os olhos maquilados em um tom vermelho e escandaloso, o cabelo curto e tingido de
louro "romano", como ditava a última moda importada de Roma.

Respondeu afirmativamente ao que lhe foi sussurrado pelo recémchegado e colocou-se de pé. A obesidade, no entanto, não lhe permitiu isso, e vários dos que estavam
ao seu lado se apressaram a ajudá-lo. Imagi-

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no que superava os 130 quilos de peso. Vestia uma longa túnica branca até os tornozelos, e usava filactérios negros na testa e no braço esquerdo.

Respirou alto como uma baleia e, finalmente, conseguiu encaminhar-se para a porta central da fachada. Atrás, o restante dos "notáveis"... Ben Jolí era o presidente
da sinagoga, isto é, o funcionário mais importante. Recebia o nome de "arquissinagogo" (Ros-ha-keneset). Era o dono e senhor do imóvel e de muitas das vidas dos
que estavam ali presentes. Era prestamista, administrador dos bens da sinagoga, responsável pelo culto e membro ativo do partido do povo, os fariseus. A tudo isso
somava-se a condição de sacerdote, descendente dos filhos de Aaráo. Era um dos homens mais temidos e odiados de Nahum. Eu não sabia disso naquele momento, mas aquele
sujeito teria um papel importante na vida pública do Filho do Homem. Um triste papel... Estava perto dos
50 anos. Com os passos vacilantes, oscilando à direita e à esquerda, foi se aproximando da porta.

O que aconteceu a seguir deixou todos surpresos. Segundo meu informante, a tradição estabelecia que o sábado deveria ser recebido com o Lejã dodí, um hino típico
e alegre, com o qual a comunidade "abraçava o shabbatcomo se fosse uma noiva". O costume, antiquíssimo, começou na cidade de Safed, na alta Galiléia. As pessoas
saíam do povoado, recebiam o sábado e o conduziam às suas casas com todas as honras. Pois bem: ao chegar ao umbral, o sufocado Jolí ergueu os braços e começou o
cântico. Todos, atrás dele, formaram o coro com os versos:

-Vem com paz, coroa de teu esposo!... Com alegria e regozijo! O sacerdote inclinou-se o quanto pôde, reverenciando a simbólica entrada do shabbat na sinagoga. Mas,
ao deslocar a massa de gordura para a frente, o manto escorregou dos ombros e da cabeça e caiu sobre o pavimento de lajotas. Os "notáveis" correram até o "xale",
mas uma mão adiantou-se. Pegou a peça de roupa e a ofereceu ao arquissinagogo, ao mesmo tempo que entoava parte do Lejá dodí:

- Sacode o pó, ergue-te! Coloca teus melhores trajes, oh meu

povo!...

Era o Mestre!

374

j.j. BENÍTEZ

Tinha a cabeça coberta com um talith do qual pendiam cinco ou seis borlas azuis.

- Por meio do filho de Ishai de Belém... - continuou - se aproxima a tua redenção!

A comunidade, entusiasmada, repetiu as proféticas palavras de Jesus, broto ou filho de Belém.

Jolí recolheu o manto e concluiu o hino. Depois deu meia-volta e voltou ao seu banco.

Eu não podia acreditar na cena. Casualidade? Duvido...

Jesus manteve-se junto à porta principal, meio escondido entre outros fiéis. Jolí continuou com a cerimónia. Fez um gesto e outro "notável" se levantou.

- E Nitay - esclareceu Tiago - irmão de Yehudá, responsável pelas bênçãos.

Nitay ben Jolí também era sacerdote, ainda que totalmente oposto ao "saco de sebo", como chamavam pejorativamente Yehudá (sobretudo suas vítimas). Era magro como
uma vara, dócil e de bons sentimentos. Era também funcionário, responsável pelas esmolas15 ougby-sbqh e diretor das "sessões menores" do culto. Dedicava-se totalmente
à sinagoga e ao auxílio aos pobres e estrangeiros necessitados. Também desempenharia um certo papel principal no período de pregação do Filho do Homem.

Nitay subiu os degraus curtos que levavam ao alto da bema ou estrado localizado no centro da nave, e depois de inclinar levemente a cabeça, saudando os "notáveis",
dirigiu o olhar na direção dos "círculos" da fachada, iniciando o serviço religioso propriamente dito. Fez isso com duas

O coletor de esmolas, segundo a tradição, deveria ser israelita de ascendência pura, sem mistura de raças. Era o responsável pelas diferentes arrecadações, tanto
em dinheiro como em espécie, todas depositadas na sinagoga e controladas pelo arquissinagogo. Havia um pequeno cesto ou cupa para as esmolas semanais que, em teoria,
era destinado aos pobres do lugar e a bandeja ou tmhwy, na qual os fiéis entregavam todo tipo de prod!íos, especialmente comida. A bandeja estava destinada, sobretudo,
aos estrangeiros sem recursos económicos. Quem tivesse dinheiro para duas refeições por dia não podia valer-se da bandeja. (N. do M)

375

bênçãos, às quais seguiu-se o Sema ("Ouve, Israel"), o credo judaico por excelência, baseado na Bíblia (Deuteronômio 6, 4-9 e 11, 13-21 e Números 15, 37-41), onde
se proclama a autoridade de Yavé. Essa confissão de fé deveria ser pronunciada duas vezes ao dia, de manhã e de tarde, no lugar onde estivesse o varão judeu. Mulheres,
crianças e escravos estavam liberados. Por certo, nem todo mundo cumpria com o citado preceito.

- Escuta ó Israel!... O Santo, nosso Deus, é o único Santo!

Nitay recitou o Sema com voz embargada e uma entonação nasal artificial. Os fiéis repetiram alguns dos conceitos, ao mesmo tempo que começavam a balançar-se para
a frente e para trás, cada vez com mais

intensidade.

- Amarás ao Santo com todo teu coração, com toda tua alma e com

toda tua força!

Os olhares estavam fixos nos "círculos" e a maioria, atenta à recitação do sacerdote, começou a amarrar no braço esquerdo e na testa os filactérios de couro negro.
Essas caixinhas, nas quais se guardavam frases do Pentateuco, eram maiores e mais brilhantes nos "notáveis". Dessa forma demonstravam ser "mais justos e melhores
cumpridores

da Lei".

- Que estas palavras que hoje eu te ordeno estejam em teu coração!... Tu as atarás em tua mão como um sinal e serão como um frontal

entre os teus olhos!

- E serão como um frontal entre os teus olhos - repetiu a congregação, cada vez mais excitada.

No exterior, a chuva continuava batendo no telhado.

Procurei o Mestre. Permanecia imóvel, perto da porta principal. Seu corpo oscilava. Também não repetia o Sema. Seus lábios estavam fechados e tinha no rosto uma
expressão grave. Em nenhum momento dirigiu os

olhos para o sul.

Temi que seus compatriotas pudessem repreendê-lo. Jesus estava na

sinagoga, mas não estava...

- Amém! - foi a resposta coletiva às últimas palavras de Nitay. Concluído o "Escuta, ó Israel", o coletor das esmolas desceu da

376

plataforma de madeira e caminhou devagar para a cortina de veludo vermelho. Era a segunda parte do ofício: a recitação das Semoneh esreh, as dezenove preces, a oração
por excelência do povo judeu. Chamavam-na assim, a "prece", a htplh. Todos eram obrigados a recitá-la três vezes por dia (pela manhã, na primeira hora da tarde e
ao anoitecer16).

Nitay colocou-se diante do véu e com voz igualmente embargada, "dirigiu a prece", fazendo o que os judeus chamavam br Ipny htybh. Qualquer um poderia encarregar-se
dessa recitação, com exceção das mulheres e dos menores de idade (o judeu alcançava a maioridade legal aos doze anos e meio). Não era necessário que fosse sacerdote
ou funcionário da sinagoga.

- Bendito és, Senhor Deus nosso e Deus de nossos pais!... Grande Deus, poderoso e terrível!...

Os que estavam reunidos fizeram coro das últimas palavras.

- Grande! Poderoso! Terrível!

Alguns dos "notáveis", balançando-se sem cessar, levantaram os braços e começaram a golpear-se no peito e na testa. A congregação os imitou, aumentando a temperatura
e o frenesi dos mais fanáticos.

Assustei-me. O Mestre não se abalou. Parecia uma estátua. Felizmente, a comunidade olhava para o norte, para o lugar em que Nitay continuava recitando. Faltou pouco
para que eu perguntasse a Tiago sobre a conduta de seu Irmão: por que não agia como os outros? A dúvida, sei agora, foi uma estupidez...

- Senhor, tu és o todo-poderoso para sempre! Tu fazes viver os mortos!

- Os mortos! - repetiu a assembleia, fora de si -. Tu fazes viver os mortos!

As Semoneh compõem-se de dezenove berakot ou bênçãos. As primeiras louvam a onipotência e a graça de Yavé. Nas centrais aparecem as súplicas e as petições de conhecimento,
arrependimento, perdão, libertação do mal, saúde e boas colheitas. Finalmente, pede-se a restauração da soberania nacional judaica, a reunião dos dispersos, a destruição
dos ímpios (naquele tempo de Roma), o prémio dos justos e o envio do Messias libertador. Anos depois, por volta de 70-100 d.C., ficaram reduzidas a dezoito. (N.
do M.)

377

Vários dos "notáveis", embriagados na atmosfera de fervor, começaram a bater nos braços dos bancos... O Galileu nem piscou. Meus olhos, sem querer (?), voaram na
direção da grade que separava as mulheres. Ruth levantou os olhos e nos olhamos.

- Tu dás o conhecimento aos homens e os ensinas a entender! Ela, creio, compreendeu. Que mais eu podia deduzir daquele olhar? - Perdoa-nos, Pai, porque pecamos!
Proclama nossa libertação com

a grande trombeta e eleva uma bandeira para reunir todos os dispersos... Os homens gritaram de prazer, fazendo eco às palavras de Nitay.

- Que não haja esperança para os delatores e que pereçam logo todos os que fazem maldade!

Os "notáveis" levantaram-se dos bancos e, com fúria, se estapeavam, clamando e invocando o nome do Santo. A voz de Nitay quase se extinguiu.

- Que não sejamos envergonhados!

Jesus baixou a cabeça e permaneceu com os olhos fixos no chão. Que loucura era aquela?

- Faze que brote logo o rebento de Davi e levanta o seu corno de

carneiro por tua salvação!

O final da "prece" foi inaudível. Os gritos, os golpes nos bancos e os pedidos de "Messias já" abafaram as últimas bênçãos. Tiago, com os braços erguidos, também
se uniu à congregação, reclamando o libertador.

Era evidente como a luz. O Mestre estava ali, mas não estava...

Nitay inclinou a cabeça três vezes e voltou ao seu lugar, no primeiro banco da direita. Os ânimos se acalmaram de repente. Era assombroso. Aquela gente passava da
mais absoluta frieza ao paroxismo em um abrir e fechar de olhos. Bastava que alguém os dirigisse. À minha memória vieram algumas cenas da paixão e morte do Filho
do Homem...17

Sim, era evidente como a luz. Lá também partilhavam do conceito de um Messias libertador que os arrancasse do jugo dos invasores e que pusesse Israel no ponto mais
alto, dominando e dominante. Baixei os olhos. Era evidente...

17 Ampla informação em Jerusalém. Cavalo de Tróia 1. (N. do A.)

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J.]. BENÍTEZ

Jolí aproveitou a pausa e, como "mestre de cerimónia", deu as ordens oportunas para continuar o serviço religioso. Com isso entramos na terceira parte, a leitura
da Lei.

Um ancião de pequena estatura, com túnica e manto brancos, aproximou-se do véu e o recolheu à esquerda. A congregação, então, colocou-se de pé.

Tiago continuou informando. Atrás da cortina apareceu a arca, com rodas. Era uma espécie de armário de quase dois metros de altura, todo em madeira de oliveira e
muito bem lavrado. No tybh, como o chamavam, eram guardados (cuidadosamente) os rolos da Lei e dos Profetas. Cada livro muito bem embrulhado em um pano duplo de
linho fino (mtphwt) e fechado em um tyq ou estojo de metal precioso. Aquele homem chamava-se Tarfão e era funcionário da sinagoga - mais exatamente, ministro ou
hazzan ha-keneset. Fazia de tudo. Preparava e transportava os livros da arca até a mesa da bema, dava atendimento aos leitores, corrigindo-os se se enganavam, devolvia
os rolos sagrados ao tybh, tocava a trombeta anunciando o shabbat e outras celebrações, atendia à escola, era carrasco, ajudava nas coletas, cuidava da limpeza e
manutenção do edifício e, sobretudo, era espião do arquissinagogo. Todos sabiam disso. "Tarfão era um indesejável a serviço de Jolí." Nunca soubemos sua idade. Estaria
perto dos 60 anos e caminhava curvado, com os olhos no chão, "pela eventualidade de encontrar um as". Nunca olhava os olhos da pessoa com quem falava. Sofria um
tique permanente nos olhos e tinha o apelido de "Repas" (literalmente, "pisotear") porque era capaz de pisar sua mãe, "se tivesse tido uma", por dinheiro. Esse foi
outro acirrado inimigo de Jesus em Nahum...

Tarfão abriu o armário e retirou um dos estojos de madeira e nácar. No interior encontrava-se o rolo que deveria ser lido nesse dia. Naquele tempo, a Tora18 era
copiada em tiras de pergaminhos curadas e tratadas previamente e, posteriormente, costuradas entre si e amarradas a duas varas ou "árvores da vida".

18 A palavra hebraica "tora", como já expliquei, significa "ensinamento, guia ou instrução". Naquela época, englobava três grandes capítulos: o Pentateuco, a lei
oral ou misná e o resto da literatura religiosa judaica. (N. do M.)

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ele retirou a capa de linho que o protegia e desenrolou o "livro", mostrando parte do texto. A congregação, ao ver as colunas em tinta preta, com a letra quadrada
e simétrica do hebraico sagrado, irrompeu em um suspiro generalizado. Era a Lei, a palavra de Deus.

O hazán levantou então o rolo acima de sua cabeça e começou um lento passeio pela sinagoga. Todos pudemos contemplar a escrita esmerada. Tratava-se disso. Os fiéis,
emocionados, saudavam a passagem da Lei com gritos ensurdecedores que repetiam: "Tora! Tora! Tora!" e recomeçavam o balancear rítmico dos corpos.

Jesus, silencioso, acompanhou com a vista o movimento do "livro". Que pensaria de tudo aquilo? Precisava perguntar a Ele.

A chuva cessou. Tarfáo depositou o rolo sobre a mesa da bema e começou a procurar o parágrafo correspondente. Para isso, desenrolou a vara da direita e foi enrolando
o suporte ou "árvore da vida" da esquerda. Uma vez localizado, permaneceu de pé, ao lado da mesa ou migdal, cuidando do "tesouro". Fez então um sinal ao presidente.

Jolí concordou com a cabeça e ergueu os braços, pedindo silêncio. Com a última exclamação - louvando a Tora - vi levantar-se outro "notável". Caminhou rapidamente
e subiu os degraus da plataforma pelo lado direito. O hazán assinalou um ponto no couro da vitela e o homem, depois de certificar-se do texto marcado pelo dedo indicador
esquerdo do ancião, começou a ler. Concluído o primeiro versículo, deteve-se e fez targum, isto é, traduziu o hebraico da língua do povo ao aramaico19. Continuou
com o segundo versículo e a tradução obrigatória. Concluída a terceira leitura e o correspondente targum, o "notável" desceu os degraus

19 O meturgeman ou tradutor era outro personagem importante no mundo das sinagogas. Era impossível a leitura da Lei ou dos Profetas se este náo se encontrasse presente.
O hebraico sagrado deixou de ser utilizado pelo povo e foi substituído pelo aramaico. Somente era obrigatório nas recitações escolares e nas referidas leituras da
Lei. Às escolas ia somente uma minoria, por isso o hebraico náo era compreendido pela maior parte do povo judeu. É possível que o costume de fazer targum tivesse
nascido com a volta da Babilónia. Assim deduzem os especialistas ao ler o capítulo 8 de Neemias. Quando Esdras leu a Lei, e o povo respondeu com o "Amém", os levitas
leram no livro da Lei de Deus "com clareza e precisando o sentido, de maneira que

380 -

pelo lado oposto ao que havia subido e rodeou o estrado, voltando a subir à bema. Continuou a leitura e a tradução da Lei, e ao finalizar o sexto versículo repetiu
a estranha cerimónia de descer e tornar a subir. Tiago se desculpou pelo que considerou "uma falta de respeito para com o Eterno": a leitura da Tora deveria ser
efetuada por diferentes membros da comunidade. Segundo alguns doutores e rabinos, o mínimo de leitores era três. Outros permitiam até sete. Lamentavelmente, poucos
liam hebraico em Nahum. Essa era a razão pela qual o "notável" subia e descia ao estrado a cada três versículos, "simulando" que a leitura era feita por indivíduos
diferentes (!). Era assim aquele povo...

A simulação repetiu-se sete vezes. O serviço religioso entrou na sua última fase: a leitura de um texto dos Profetas ou "recitação de despedida", também conhecida
como haftará. O hazán retirou o rolo da Lei e voltou à mesa com outro "livro". Abriu-o com idêntica reverência sobre a pequena mesa e avisou Jolí. Tudo estava preparado.
A congregação, em silêncio, aguardou que o presidente obeso se levantasse. Empenho inútil. Jolí tentou algumas vezes e foi necessário que os "notáveis" o puxassem.
Depois, bamboleando e respirando com dificuldade, subiu os degraus da bema e colocou-se diante da mesa. Aquele que tinha sido leitor e tradutor

entenderam a leitura". Tudo estava previsto pelos escribas e doutores: a Lei somente poderia ser traduzida versículo a versículo (os Profetas de três em três versículos)
e nunca lida (somente memorizada). Se o leitor cometesse um erro, o hazán o corrigia. O mesmo acontecia com o tradutor. Se a passagem em questão provocasse dúvida,
escândalo ou o riso da congregação, o ministro detinha a leitura ou o targum. Segundo as prescrições dos rabinos, a Lei ou Tora somente podia ser lida, nunca recitada
de memória (ao contrário das traduções). Isso obedecia ao seguinte princípio: a Bíblia é imutável e sagrada, é a palavra de Deus. Ninguém deve modificá-la, nem sequer
de forma involuntária. Nenhuma tradução, nem a mais fiel e esmerada, é comparável com a categoria da palavra de Deus. Toda tradução - diziam - leva consigo o caráter
da transitoriedade. O targum não é definitivo. A Tora, sim. Por isso traduzia-se de cor e sem olhar o livro. Por isso as traduções escritas eram repudiadas pelos
mais religiosos e puristas. Nenhuma tradução era capaz de aproximar-se das "setenta faces da Bíblia", e muito menos da sutileza e da sabedoria de seus textos. Argumentavam
assim os rabinos, com certa razão. (N. do M.)

381 >

posicionou-se à sua esquerda e o arquissinagogo deu início à leitura, em hebraico, dos três versículos selecionados.

- Dirás: assim diz o Eterno: "Eis que vou encher de embriaguez todos os habitantes desta terra, os reis que estão sentados no trono de Davi, os sacerdotes, os profetas,
e todos os habitantes de Jerusalém".

O "notável" traduziu ao aramaico com a vista fixa nos círculos da parede. Sua memória era excelente.

- E lançarei uns contra os outros - prosseguiu Jolí -, mesmo os pais contra seus filhos, diz o Eterno... Não terei piedade nem compaixão para destruí-los.

Os fiéis, mudos, encolheram-se diante das palavras do profeta Jeremias.

O Mestre tinha levantado o olhar para uma das lamparinas de azeite que pendiam do teto. Parecia definitivamente ausente...

Jolí concluiu o 15°. versículo daquele capítulo 13, soletrando uma das frases:

- Escutai, prestai ouvidos, não se-ja-is or-gu-lho-sos... Porque o Eterno falou.

Terminada a tradução, à qual o "notável" injetou a mesma ênfase e o tom ameaçador utilizado pelo presidente da sinagoga, Jolí deixou-se cair pesadamente sobre a
cadeira. A congregação preparou-se para a "lição final", um discurso, geralmente curto, no qual o pregador ou darshan expunha suas idéias a respeito da passagem
que acabava de ler20.

Um murmúrio suspeito desprendeu-se da assembléia. Tiago esclareceu o motivo.

20 Ao longo do período de pregação de Jesus de Nazaré - quase quatro anos -, este que escreve teve a oportunidade de assistir diferentes cerimónias religiosas nas
sinagogas judaicas. A "lição final" privilegiava duas possibilidades: "fazer maftir" ou "fazer amora". A primeira versão consistia em um discurso direto, ao alcance
do povo. Na segunda, o mestre ou rabi sussurrava sua lição ao ouvido de um amora e este, por sua vez, como um tradutor, com palavras simples, transmitia à congregação
os complexos e labirínticos postulados do pregador. Era o único jeito que o povo entender as colocações doutrinais dos sábios. Jesus sempre utilizou a. primeira
técnica: "fazer maftir" ou ensinar com palavras "luminosas". (N. do M.)

382

j.j. BENÍTEZ

- Orgulhosos? Somente nós somos soberbos e altivos? Sorriu com ironia.

- Que podemos dizer dele? Hipócrita!

Foi um adiantamento sobre a personalidade daquele sujeito. Com o tempo seríamos testemunhas de algo muito pior...

- Não respeita sequer suas próprias normas - acrescentou em alusão à maquiagem. Somente as "burrinhas" se pintam para sair à rua.

Os sacerdotes, realmente, não podiam participar do culto com o rosto, as mãos ou os cabelos pintados. Alguns rabinos discutiam se essa proibição afetava unicamente
o Templo de Jerusalém ou a totalidade dos lugares de reunião, como o era o caso das sinagogas. As "burrinhas" ou prostitutas tinham a obrigação de sair à rua com
uma peruca amarela que as distinguia das mulheres "não-pecadoras". Em raras ocasiões cumpria-se esse preceito.

Jolí fez maftir. Suas palavras foram claras e diretas. Todos os presentes compreenderam, exceto estes exploradores. Amparando-se nas frases de Jeremias, acusou determinados
membros da comunidade (sempre sem mencioná-los) de "maus, miseráveis e vadios". Para ser exato, usou o termo "prevaricadores", ameaçando-os com a destruição anunciada
pelo profeta...

Tiago esclareceu nossas dúvidas.

O sacerdote e arquissinagogo atacava os que vinham com regularidade à entrada do shabbat. Isso, é óbvio, repercutia na coleta... Resumindo, outro problema interessante.

Durante um tempo continuou com as diatribes, uma mais injuriosa que outra, lembrando à congregação - "e aos ausentes" - "que se um homem deixa de ir só uma vez à
sinagoga, o Santo, bendito seja o seu nome, lhe pedirá contas".

A comunidade, incomodada, começou a remexer-se nos bancos.

- E o Santo, bendito seja, quebrará seus dentes e não terá piedade! Lançará uns contra os outros!

Jolí manipulava o texto da Lei à sua vontade. A passagem de Jeremias não fazia alusão, nem de longe, ao que dizia aquele de cabelo pintado. O que o profeta anunciava
referia-se ao desterro dos judeus para a Ba-

383

bilônia e ao desastre do reinado de Joaquim, assassinado, provavelmente no ano 598 antes de Cristo.

- Mas, se não sois orgulhosos - acrescentou gritando - se vos vejo todas as semanas neste santo lugar, então, Ele, bendito seja o seu nome, vos recompensará com
uma vida longa...

- E a ele - murmurou Tiago sem piedade - encherá os bolsos.

Ao procurar por Jesus me sobressaltei: já não o via. Não estava junto da porta principal. Percorri as proximidades com os olhos, mas também foi inútil. O Mestre
não estava na sinagoga.

O que estava acontecendo?

Não perguntei. Não quis inquietar seu irmão. O instinto me dizia que o Galileu não estava à vontade...

O presidente e arquissinagogo concluiu a "homilia" pouco caridosa e tentou levantar-se para dar a bênção final. O hazán apressou-se a recolher o rolo e se afastou
na direção da arca.

Lutou curvado, uma vez mais, para soltar-se da poltrona. Impossível. A exagerada corpulência de Yehudá ben Jolí tinha se encravado no assento. Estava entalado. Suspirou
impotente, e o tradutor e vários dos "notáveis" correram para ajudá-lo pela enésima vez.

A congregação, atónita, não sabia o que acontecia; os murmúrios recomeçaram. Tentaram liberar as nádegas, uns puxando a cadeira e outros os 130 quilos. Os murmúrios
aumentaram e surgiram as primeiras risadinhas... Jolí conseguiu ficar de pé, mas a cadeira continuou grudada

no enorme traseiro.

Os fiéis, ao descobrir a situação comprometedora e ridícula, tapavam a boca com as mãos, tentando frear as gargalhadas. O indivíduo, vermelho de raiva, apressou-se
a resmungar o que Números (6,
22) estabelecia, recitando as bênçãos a toda velocidade, sem respirar e

sem pausas:

- O Santo te abençoe e te guarde ilumine o Santo seu rosto sobre ti e te seja propício o Santo te mostre seu rosto e te conceda a paz.

Somente alguns responderam com o costumeiro "amém". A risada foi geral e, de certo modo, tão impiedosa quanto o sermão.

384

j.j. BENÍTEZ

- Olho por olho - sentenciou Tiago, enquanto nos convidava para sair da galeria.

Assim terminou o ofício religioso daquele sábado recém-estreado. Como disse, não seria a última vez que assistiríamos a uma cerimónia semelhante...

O Destino nos reservava várias surpresas, justamente naquele lugar e com aquelas personagens. Mas demos tempo ao tempo.

A noite, límpida e estrelada, com a lua nova em seu último estágio, recebeu-nos cálida e promissora. Procurei Jesus entre os fiéis que permaneciam nas portas da
sinagoga, conversando e comentando o último "incidente". Não pude encontrá-lo e deduzi que tinha voltado para a "casa das flores".

Na entrada da porta principal, Nitay, o coletor de esmolas, agitava a cupa ou cestinho à passagem dos que se retiravam, animando-os a depositar o seu dinheiro. A
cada um chamava pelo nome e, gritando, proclamava o valor da sua doação. As pessoas falavam e riam, mas na realidade, estavam mais atentas aos avisos do sacerdote
do que às conversas e às fofocas. Todos, ao voltar para casa, sabiam o que cada um havia oferecido, e isso era motivo de comentários durante o resto da semana. Comentários,
entregassem o que entregassem.

Ao seu lado, diante de um grande cesto, encontrava-se Turfão, curvado e silencioso, o hazán ou "sacristão". Era o responsável pelo tmhwy ou "bandeja" para os estrangeiros.
Aqueles que não podiam ou não desejavam participar com moedas o faziam em espécie, entregando grão, fruta, peixe, comida já cozida, pães (alguns recheados), animais
vivos (nunca mortos), roupa, calçados etc. Todos conheciam muito bem o "destino" da coleta: os respectivos bolsos do arquissinagogo e demais funcionários. As pessoas,
no entanto, não tinham alternativa.

Tiago, depois de despedir-se de alguns vizinhos, encaminhou-se ao cardo, lembrando-nos do convite para o jantar. Várias crianças, com tochas acesas, vieram encontrar-nos,
oferecendo-se para iluminar-nos o caminho por um par de leptas. Não era preciso. Nós três conhecíamos o percurso. Insistiram. Para os "iluminadores", o final do
ofício religioso era uma oportunidade de ganhar algumas moedas, mesmo que fossem só

385

trocados. Caminhavam na frente, aproximando a luz ou a tocha dos pés da pessoa que pedia seus serviços. Por determinadas ruas e bairros eram

realmente úteis...

Foi então que Eliseu me avisou. Um dos supostos meninos que estavam ao nosso redor, disputando os pobres "clientes", era um velho "amigo"... Creio que nos reconheceu,
ou melhor, tenho certeza. Ficou para trás, desconcertado, segurando a tocha entre as mãos. Apressamos o passo, despedindo a criançada. Não me atrevi a virar a cabeça.
Não queria novos problemas e muito menos como os que vivemos com o Kuteo, o samaritano que roubou a bolsa de borracha do meu companheiro. Não havia dúvida: era ele.
A estatura baixa o camuflava entre os meninos, mas a longa barba tingida de vermelho-sangue era inconfundível. Por certo, não o vimos usando nenhum tapa-olho...

Aquele encontro rápido com o "cambista" e falso caolho não me agradou. O sujeito não era confiável. Teríamos de ficar muito atentos...

Não me enganei.

Como já mencionei em outras oportunidades, a escuridão das casas judaicas sempre foi um problema para mim. Eliseu, por sua vez, sabia movimentar-se com habilidade.
Tive contínuas dificuldades. Os judeus iluminavam seus lares com lamparinas, mantendo-as acesas, inclusive, durante a noite. Mas não era suficiente...

Tiago atravessou o pátio da "casa das flores" e se deteve no fundo da moradia. Afastou a cortina de rede e entrou no aposento que servia de cozinha e refeitório
na época de chuvas. Nós, na frente da porta, não soubemos o que fazer. Pouco depois, compreendendo, o irmão apareceu de novo no pátio descoberto e nos repreendeu
carinhosamente:
- Vamos! Esta é vossa casa...

Eu entrei em primeiro lugar, mas, sinceramente, quase não via nada. O lugar, mal iluminado por algumas luzes colocadas em nichos das paredes, foi como boca de lobo
para este desajeitado explorador. No afã de dar passagem para o meu companheiro, coloquei-me de lado, e isso foi a pior coisa que poderia ter feito... Tropecei em
algo e, sem poder fazer nada, perdi o equilíbrio e cai sobre o chão de lajotas. O que recordo a

386

seguir foi o choro do bebê e as palavras de consolo da filha mais velha de Tiago e Esta. Palavras de consolo para Amos, naturalmente...

Tiago correu para me ajudar. Veio com uma das lamparinas e iluminou a cena e este inútil varapau. Eliseu me perguntou se tudo estava bem, mas o que não estava era
o meu ânimo, que continuava no chão. Na minha inabilidade, como digo, não havia notado Raquel, a filha do casal, que tinha no colo o caçula da família. Dei graças
a Deus. Por sorte, o tropeção foi na garota: não sei o que teria acontecido se tivesse pisado no bebé... A mãe, Esta, também acudiu, tomando o pequeno nos braços
e saindo do quarto. Atrás dela, segurando sua túnica, saiu a menina. Levantei-me e lentamente fui me acostumando com a penumbra. Ela não estava presente e me senti
melhor...

Ao passar os olhos pelo quarto, descobri o Mestre. Estava de pé, no nível superior, olhando para mim. O lugar era muito parecido ao que havia visitado na casa de
José e Maria, em Nazaré: dois níveis (o mais elevado, cerca de um metro do chão, era utilizado habitualmente para cozinhar e dormir). No inferior, coberto por esteiras,
reunia-se a família na hora de comer, conversar ou receber os amigos e convidados.

Jesus levantou a mão esquerda e pediu que eu me aproximasse. Subi a escada de pedra e cheguei perto Dele. Segurava um pequeno fole circular de esparto21 com o qual
costumavam avivar o fogo. Entregou-o a mim e, seu único comentário, sorrindo brincalhão, foi:

- Vem, aprende a manter vivo o ur...

Um estranho calor me subiu ao estômago. A palavra ur aceitava vários significados. Era "fogão" ou "fogo" e também "luz" ou "resplendor externo ou interno". Podia
ser entendida como "estar enamorado". Preferi este último. Ele sabia...

Juntos, revezando-nos, agitamos o fole, avivando o ur do fogão sobre o qual as mulheres iam preparar o jantar do sábado, e o ur do meu coração. Não houve mais palavras.
Não eram necessárias. Ele, como eu disse, sabia de tudo e, o que era mais importante, conhecia o final...

21 Esparto: espécie de junco que cresce nas regiões do Mediterrâneo. (N. do T.)

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Aquele gesto - avivar o fogo do lume - era outro sinal da "liberalidade" da família que nos acolhia. Para os muito religiosos, uma vez iniciado o shabbat, o trabalho
estava rigorosamente proibido. Yavé exigia isso no Êxodo22. Qualquer violação era castigada, inclusive com a morte. Somei dezenas de proibições, algumas absurdas
e ridículas, às quais espero dedicar atenção mais adiante. Uma delas, justamente, era fazer ou atiçar o fogo. Os ortodoxos e judeus observadores da Lei eram obrigados
à refeição fria, ainda que, na hora da verdade, quase ninguém cumprisse isso. Era tão simples como acender o fogo antes do pôr-do-sol e conseguir mante-lo aceso
com a ajuda de alguém não judeu. Para isso existiam, por exemplo, os "iluminadores". Por umas moedas entravam nas casas e faziam o que os puristas não queriam fazer.
O pecado - diziam - quem o cometia eram os pagãos...

A maior parte do povo, no entanto - como sucedia com a família do Mestre -, não chegava a esses extremos, e muito menos, na Galiléia. As pessoas respeitavam o sábado
- não trabalhavam - mas se comportavam com o senso comum. Aguardavam os toques de trombeta (geralmente três) para deixar as suas ocupações. O primeiro avisava aosfelah
ou camponeses para que interrompessem os afazeres do campo. O segundo era o aviso aos comerciantes judeus. Os proprietários das tabernae fechavam as portas dos

O livro do Êxodo (31, 12-17) diz textualmente: "Yavé disse a Moisés: Tala aos filhos de Israel e dize-lhes: Observareis de verdade os meus sábados, porque são um
sinal entre mim e vós em vossas gerações, a fim de que saibais que eu sou Yavé, o que vos santifica. Observareis, pois, o sábado, porque é uma coisa santa para vós.
Quem profanar será castigado com a morte. Todo aquele que realizar nele algum trabalho será retirado do meio do povo. Durante seis dias poder-se-á trabalhar; no
sétimo dia, porém, se fará repouso absoluto, em honra de Yavé. Todo aquele que trabalhar no dia do sábado deverá ser morto. Os filhos de Israel observarão o sábado,
celebrando-o de geração em geração, como uma aliança eterna. Será um sinal perpétuo entre mim e os filhos de Israel, porque em seis dias Yavé fez os céus e a terra:
no sétimo dia, porém, descansou e tomou alento". Também os escravos, estrangeiros a serviço dos judeus e toda classe de animais se encontram isentos da obrigação
de trabalhar no sbabbat. Isso provocava situações complexas que davam em intermináveis discussões entre os doutores da Lei. Por exemplo: o que aconteceria se uma
galinha pusesse ovos na festividade do sábado? Era culpada? Sem comentários... (N. do M.)

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estabelecimentos. O último toque alertava as mulheres: era o momento de acender a chama sagrada que deveria presidir a casa durante a jornada. O hazãn ou ministro,
como já referi, era o responsável pela trombeta. Quando o sol se ocultava - mais exatamente, quando aparecia a primeira estrela no firmamento -, tinha a obrigação
de abrir as portas da sinagoga e fazer soar a trombeta. Às vezes subiam aos sótãos e repetiam os toques até seis vezes. Esse era um dos sons mais esperados pelos
trabalhadores. A partir daí, as pessoas se lavavam, vestiam roupas limpas e se preparavam para ir ao primeiro serviço religioso, a "acolhida ou boas-vindas ao shabbat",
a "noiva" de Israel.

A Senhora não demorou a chegar na sala. Carregava uma chama pequena, tímida e oscilante na mão esquerda. Era a luz do shabbat. Maria, levantando o candeeiro, disse:

- O sábado começa a brilhar... Bendito seja o Eterno, rei do mundo, que nos santificou com seus preceitos e nos ordenou acender a luz do sábado.

Notei que estava feliz, muito diferente dos dias anteriores... Havia um porquê. O sábado não era somente o dia de descanso. Era também o dia "oficial" da alegria.
Assim ordenava Yavé. Ninguém deveria entristecer-se. Estar alegre era uma obrigação assinalada na Tora. Nisso os invejei. Nunca soube ser feliz "por decreto"...
O shabbat, além disso, era a ocasião na qual os puristas aconselhavam fazer o amor23. Como é fácil imaginar, somente os ortodoxos (não todos) se ajustavam a essa
normativa, supostamente ditada por Deus do Sinai.

O shabbat, definitivamente, era a "festa das festas", na qual se comemorava uma série de "eventos", alguns improváveis, mas que enchiam de or-

Naquele tempo, segundo a lei oral (ketubbot ou "documento matrimonial") o ato sexual ou "débito marital", como o chamavam, vinha estabelecido da seguinte forma:
os trabalhadores deveriam cumprir uma vez por semana, no mínimo; os escribas e outros estudiosos da Lei podiam desobrigar-se durante um mês, no máximo; os ociosos
eram obrigados a satisfazer as suas mulheres todos os dias; os trabalhadores manuais, duas vezes por semana; os arrieiros, uma vez por semana; os cuidadores de camelos
e de burros, uma vez cada trinta dias, e os marinheiros, uma vez cada seis meses. Se a esposa se opusesse ao "débito marital", os anciãos diminuiriam o dote a cerca
de sete denários por semana. Quando era o marido quem se opunha, tinha que somar três denários por semana ao dote mencionado. (N. do M.)

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gulho e satisfação os judeus. Por exemplo: "No sábado Adão foi perdoado". Também, no sábado, foi composta a primeira canção humana, obra do citado Adão quando soube
que o Eterno o havia perdoado (!). Outros afirmavam que esse primeiro homem foi criado no sábado, justamente ao entardecer da sexta-feira. Assim, o shabbat foi o
final da criação (a mulher era notavelmente inferior ao homem - diziam - porque, entre outras coisas, "foi criada no domingo"). Também celebravam o que chamavam
a "correlação de Moisés", o homem que materializou os desejos de Deus, segundo diziam24.

Em seguida entraram Esta, sem os filhos, e Ruth... Ela, com o cabelo preso, os olhos levemente sombreados e a túnica azul que tanto me agradava... Trazia pendurado
no peito um amphoriskos, uma minúscula esfera de alabastro na qual as mulheres costumavam guardar perfume. O pescoço longo e fino permitia verter a essência gota
a gota. Estava realmente bela...

Em questão de minutos, tudo ficou pronto para a celebração do jantar do shabbat. Nem Eliseu nem eu tivemos de fazer nada. Não o permitiram.

Depois de lavar as mãos obrigatoriamente, Tiago, como o cabeça da família, nos convidou para sentar sobre as esteiras, no nível inferior. Como já disse antes, havia
anos que Jesus passara a função e as responsabilidades de chefe de família a seu irmão Tiago, o mais velho dos homens depois do Mestre.

Fomos seguindo as indicações do anfitrião: o Galileu foi o primeiro a sentar-se, "às doze", digamos, da minha posição25. Formamos um círculo. De acordo com o sentido
das agulhas do relógio, Tiago sentou-se à esquerda de seu irmão. Eliseu ocupou o lugar seguinte e eu me sentei em seguida, diante de Jesus. As mulheres continuaram
arrumando as coisas, subindo e descendo de um a outro nível. Esta depositou uma bandeja de madeira sobre as esteiras,

24 Para os sábios judeus, Moisés foi o artífice do shabbat. Ele o organizou, proporcionando à semana seu aspecto definitivo. Para isso usou a correlação existente
entre as letras "sh", que significam "sete" (Sebà) e "sbt" que querem dizer "parar ou cessar" (shabbat). A semana (sb) era, portanto, um tempo entre dois sbt ou
"sábados". Assim o ratifica o profeta Ezequiel no capítulo 20, versículo 12. (N. do M.)

25 "Às doze", na linguagem aeronáutica, equivale à posição "na frente" do piloto. As "nove" seria à sua esquerda, e às "três", à direita. O resto das horas marca
as correspondentes posições. (N. do M.)

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no centro do círculo ainda incompleto. Continha dois pães de trigo oujalot e oito canecas de barro, uma delas mais alta e larga. Em seguida, a mulher grávida se
acomodou em silêncio entre seu esposo e o engenheiro.

Tiago chamou a mãe e Ruth. Ambas vieram em seguida. A Senhora carregava a lamparina com a qual havia entrado na sala e a deixou cuidadosamente entre as taças. Agradeci.
Agora a visão era melhor...

Suponho que foi por casualidade. Ou não? Mas desde quando acredito na casualidade? Não, não foi casualidade... Ela sentouse à minha esquerda, ou melhor, ajoelhou-se.
E aquele incontrolável "fogo" subiu pela minha barriga. Não me atrevi a olhá-la. O perfume de jasmim me fez voar... A Senhora completou o círculo, ajoelhandose também
à esquerda de Ruth, o "pequeno esquilo". Tiago abençoou, primeiro os homens: "Deus te faça como a Efraim e Menashe...", e depois as mulheres.

Senti-me perturbado. Não sabia onde fixar o olhar. Meu coração se acelerou e imaginei que todos começavam a perguntar o motivo daquela inquietação. Um apaixonado
supõe coisas estranhas, verdadeiramente. Depois, a família entoou o Shalom alejem... Jesus cantou com força. Parecia mais tranqüilo e alegre do que na sinagoga.
Nem Eliseu nem eu abrimos a boca.

- A paz esteja convosco, mensageiros da paz, anjos da guarda... Arautos celestiais!

Ao pronunciar a palavra "arautos", o Mestre procurou-nos com o olhar e sorriu durante alguns segundos. Ninguém se deu conta da rápida, mas importante, "piscadela".
Mensagem recebida.

Tiago deu início ao Kidush, a prece que o chefe da família recitava enquanto impunha as mãos sobre o vinho e os pães, declarando-os sagrados26.

Na cerimônia de despedida do shabbat ou Havdalá também era realizada a consagração ou "declaração de sagrado" do vinho e dos gêneros, geralmente o pão de trigo.
Os cristãos, mais tarde, copiaram parte dessa cerimônia, adaptando-a à fórmula mágico-matemática que conhecem como Eucaristia. A família invocava a Deus, pedindo
uma semana de paz e com saúde, implorando a "volta rápida do Profeta Elias", anunciador do Messias, filho de Davi. (N. do M.)

391

- E foi-se a tarde e foi-se a manhã... No sexto dia foi concluída a criação do céu, da terra e de tudo o que está neles. O Santo havia concluído sua obra no sétimo
dia...

Terminada a recitação do KidusH11, Tiago, em meio de um silêncio solene, tomou a caneca maior e ofereceu-a a meu companheiro. Eliseu, agradecido, bebeu e, sem saber
o que fazer, consultou o chefe da família. A lógica ignorância do engenheiro provocou algumas risadas. Tiago, fiel às regras da hospitalidade, apontou para mim,
indicando-lhe que me passasse a vasilha.

Bebi. Era um vinho negro e doce, muito agradável. Então aconteceu algo que não soube explicar. Ou sim? Em lugar de entregar a caneca a Tiago, para que os homens
continuassem bebendo, tal como estabelecia o costume, oferecia-a a Ruth. A mulher vacilou. Interrogou seu irmão com o olhar, e este, sorrindo, aprovou a suposta
incorreção com um ligeiro e afirmativo movimento de cabeça.

E aconteceu. Ao entregar-lhe a caneca, seus dedos roçaram os meus. Foi nada e tudo. Nesse instante nos olhamos de novo. Foi tudo e nada. Retirei as mãos e fiquei
com aquele "tudo", para sempre...

Os olhos do Mestre, atentos, brilhavam com uma luz especial. A mulher, acesa como uma papoula, apressou-se a passar a vasilha a seu irmão. Não bebeu. As risadas
estalaram, aliviando minha "distração"; melhor dizendo, minha suposta distração. Somente a Senhora permaneceu calada. Tinha o rosto grave, como se tivesse descoberto
o meu "segredo". Agora sei: ela soube desde a primeira noite...

27 O texto, naquele tempo, continuava assim: "...e repousou no sétimo dia de toda a obra que havia feito. O Santo abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele
repousou de toda a obra que havia feito. Bendito seja nosso Deus, o Rei do mundo que criou o fruto da videira. Bendito seja nosso Deus, Rei do mundo que nos santificou
com seus preceitos, nos escolheu e nos instituiu o sábado com amor e graça em comemoração à criação do mundo. Este é o primeiro dia de santas invocações, em memória
da saída do Egito. Foi-nos dado porque nos escolheste entre os povos, nos santificaste e nos fizeste observar o sábado com amor e graça. Bendito seja o Santo que
santifica o sábado". (N. do M.)

392

Tiago tinha razão: a bamia cozida por Esta era excelente. Nunca tinha experimentado aquela hortaliça da baixa Galiléia. A grávida temperou-a com sal e pimenta, arrumando-a
no prato em forma de estrela. Serviu-a fria. Todos comemos o molho, untando o pão àepitah até que acabasse.

Jesus parecia de bom humor e parte do jantar transcorreu entre piadas, comentando as peripécias dos novatos no estaleiro, em especial as do "Eh, rapaz!".

O segundo prato trouxe consigo uma mudança que me fez pensar. As mulheres abandonaram o círculo e começaram a servir o siniye, uma carne de cordeiro moída, coberta
de pinhões e queijo derretido. A receita era da Senhora: carne, cebolas, alhos, sal, azeite de oliva, um pouco de vinho, pimenta e o "segredo" da casa: duas pitadas
de canela. Uma vez preparada, dividia-se a mistura e servia-se em quatro porções por prato. Nem um mais nem um menos. Esse era o costume. O "quatro" representava
as quatro décadas no deserto. Quando o queijo começava a borbulhar, era o momento de levá-la à mesa. Neste caso, às esteiras. O siniye, também delicioso, foi colocado
diante destes famintos exploradores. Mas a Senhora ocupou o lugar de Ruth, mandando a ruiva para perto do Mestre. Foi tudo tão rápido e aconteceu com tanta naturalidade
que ninguém, ou quase ninguém, percebeu a troca. Eu sim, naturalmente, e deduzi que algo assim teve de ser falado previamente, enquanto cozinhavam a carne no nível
superior. Senti-me magoado.

Tiago serviu o vinho e, ao despejar o licor seco na vasilha, perguntou sobre o que havia visto na sinagoga. Sinceramente não respondi. Estava compenetrado no que
acabara de acontecer. Meus olhos buscaram os de Ruth, mas a mulher, totalmente consciente do que ocorrera, não ergueu a vista. Estava pálida. Minha dor multiplicou-se.
Foi Eliseu quem veio em meu auxílio, dizendo com toda sua boa vontade e sua proverbial falta de tato:

- Não gosto do vosso Deus...

A referência à passagem de Jeremias, lida por Jolí, o arquissinagogo, não podia ser mais sincera... e inoportuna. Tiago, perplexo, permaneceu com a jarra suspensa,
sem saber o que dizer. Foi a Senhora, atenta, quem solicitou uma explicação. Eliseu, que nunca se atrapalhava, deu-a. Com certeza, deu-a.

393 "

- "E lançarei uns contra os outros" - repetiu as palavras do sacerdote - "e não terei piedade nem compaixão para destruí-los". Que tipo de Deus é este, que joga
pais contra filhos?

- O Santo é a Chejina de nossos mais velhos. Grande, sim. Poderoso, sim. Terrível, sim, como diz a Semoneh...

A Senhora, ao falar de Chejina, referia-se a Deus, mas como todos os judeus, evitava o nome de Yavé. Chejina significava "Presença" ou algo parecido. Era um dos
habituais circunlóquios. Referiam-se a ele também como a "Glória", a "Potência", o "Santo", o "Eterno", a "Majestade", o "Altíssimo, o "Lugar", o "Todo-Poderoso",
o "Nome", o "Santo Único", ou a "Morada", entre outros nomes.

- Nem sequer pronunciais seu nome...

A Senhora, desconcertada diante do sutil (?) ataque daquele convidado, reagiu com firmeza.

- Que sabes de nossas leis e tradições? Dizer o Nome é morrer... Essa é a Lei. O nome de Yavé ("YHWH", posto que não utilizavam

vogais) somente era pronunciado pelo sumo sacerdote no Dia do Perdão, como já mencionei. Se alguém se atrevesse a dizê-lo em voz alta, diante de testemunhas, "era
passível de morte", como reza o tratado Pesikta. Ninguém em seu juízo perfeito, teria feito algo semelhante.

- Terrível - reagiu o engenheiro com ironia -, nisso tinha razão... Que Deus faz lapidar um homem por recolher lenha no sábado?

A Semoneh ou "prece" recitada na sinagoga dizia, com efeito, que "Deus era grande, poderoso e terrível". Eliseu usou o último dos adjetivos, apoiando-se, para sua
argumentação certeira, no livro de Números28. Yavé, segundo a Bíblia, ordenou o apedrejamento de um homem porque recolhia lenha no shabbat.

8 O capítulo 15 (versículos 32 a 37) diz textualmente: "Enquanto os filhos de Israel estavam no deserto, um homem foi surpreendido apanhando lenha no dia de sábado.
Aqueles que o surpreenderam recolhendo lenha trouxeram-no a Moisés, a Aarão e a toda a comunidade. Puseram-no sob guarda, pois não estava ainda determinado o que
se devia fazer com ele. Yavé disse a Moisés: Tal homem deve ser morto. Toda a comunidade o apedrejará fora do acampamento. Toda a comunidade o levou para fora
do acampamento e o apedrejou até que morreu, como Yavé ordenara a Moisés". (N. do M.)

394

-Terrível!...

Maria não soube o que responder. Aquela passagem, como outras igualmente injustas ou sangrentas do Antigo Testamento, era uma incógnita para os judeus. Sobretudo
para as pessoas simples. Pessoalmente, creio que essas atitudes de Yavé foram as que desencadearam o terror. Daí, provavelmente, nasceu o terror de pronunciar o
nome do deus sanguinário (escrevi com minúsculas intencionalmente. Talvez, algum dia, me atreva a esvaziar meu coração). O certo é que a nação judaica, mais que
amar a Yavé, temia-o. Era o Deus do pânico e das proibições. Os rabinos e os sábios tratavam de justificar esse terror, argumentando que "temor era sinónimo de justiça".
Assim, os pagãos que simpatizavam com a Tora eram chamados de "temerosos a Deus", e o Salmo 112 cantava: "Feliz o homem que teme a Yavé". O profeta Isaías colocou
mais lenha na fogueira, proclamando que "sua profunda alegria era o temor a Yavé".

- Que entendes de Deus? - completou Tiago com evidente curiosidade. Ambos, Eliseu e eu, olhamos para o Mestre. Jesus assistia à luta

dialética com absoluta tranqüilidade. Serviu-se de uma segunda porção de carne e esperou a resposta do meu irmão. Uma certa satisfação se ocultava naqueles olhos
cor de mel. Mensagem recebida...

- Estamos aprendendo - acrescentei, com a intenção de acalmar a onda provocada por Eliseu. Ainda não sabemos o que é Deus...

- Eu sei sim - cortou meu companheiro, que não aceitava acordos -. Melhor dizendo, sei o que não é.

Todos aguardaram impacientes. Comecei a tremer. Que se propunha?

- Sei que o Pai não é um ser destruidor e terrível. O Pai não enviará nunca um "quebrador de dentes"...

A alusão ao Messias não agradou à Senhora e nem a Tiago.

- Está escrito - sentenciou Maria: "Eu os destino à espada e todos vós caireis degolados".

- Ele não é assim - lamentou Eliseu, ignorando a passagem de Isaías. Por um momento fiquei na dúvida. Referia-se ao Pai ou a Jesus?

- E, como é? - perguntou Ruth, que parecia recuperar o ânimo.

395

j] BENÍTEZ

O engenheiro olhou-a em silêncio. Sorriu compreensivo e, escolhendo as palavras, como se desejasse não magoá-la, comentou:

- Como o pai que nunca conheceste, mas que sabes que te ama... Ruth era filha tardia. Quando nasceu, José, seu pai, havia falecido

seis meses antes. Ela compreendeu perfeitamente. O engenheiro, sem deixar de olhá-la, prosseguiu:

- Assim é o Deus em que nós - retificou - em que eu creio...

Por que falava assim? Eu também acreditava nesse Deus-Pai. Nesses momentos não compreendi a dura e injusta atitude do meu companheiro. Agora entendo...

- E como sei que me ama se nunca o conheci?

Silêncio. Os olhares voltaram-se para a Senhora. Maria deu razão a Eliseu.

- Teu pai amava os seus filhos, todos - insistiu sem possibilidade ou sombra de dúvida - ainda que não tivessem nascido. Continua amando-te, lá onde estiver. Para
saber isto não são necessárias provas, só um coração...

Sem haver se proposto isso, a Senhora ratificou e deu acabamento à idéia sobre Deus sugerida pelo engenheiro. Jesus, feliz, deixou a conversa seguir o seu curso.

- Falo - acrescentou Eliseu com renovados brios - de um Deus ao qual só é preciso sentir e nunca temer.

- Mas não compreendo - interrompeu a bela ruiva -. A tradição diz que o Santo, bendito seja o seu nome, é sangue, fogo, cólera, justiça e espada. Tu falas de amor...

Esperei que seus olhos verdes me procurassem. Não foi assim.

- Somos nós homens que fazemos Deus à nossa imagem de semelhança. Não o contrário...

Aquelas palavras de Eliseu foram pronunciadas pelo Mestre nas neves de Hermon. Jesus, ao escutá-las, sorriu ligeiramente, com doçura.

- Deus, querida Ruth - prosseguiu meu companheiro tomando uma das canecas entre as mãos -, não é como dizem ou como desejamos. Deus não é ira ou vingança. Também
não é poder...

Eliseu colocou a vasilha no centro do círculo que os atentos ouvintes formavam:

- O que vês no interior?

Todos, instintivamente, nos inclinamos.

- Vinho - confirmou Ruth, intrigada -, que outra coisa devo ver?

- Exato. Mas enquanto observas o vinho, podes ver o que há nas tuas costas?

- Não, claro que não...

- Pois bem, Deus pode. Jesus concordou com a cabeça.

- Não entendo - interveio Tiago, sem dissimular sua confusão -. Que queres dizer?

- Que este é o problema: não podemos compreender a Deus... Nossa mente é como o vinho que esta caneca contém. Deus seria a cidade de Nahum. Acreditas que poderias
introduzir o povo inteiro neste pequeno recipiente?

Os olhos de Ruth brilharam e durante um tempo pousaram nos do engenheiro.

- Muito mais que Nahum...

O Mestre, por fim, interveio na conversa e afirmou, categórico:

- O Pai é muito mais que Nahum...

- Deus não é poder? - Cortou a Senhora, que não tinha esquecido as afirmações de Eliseu -. Isto é blasfémia!

Foi meu irmão quem replicou com idêntica firmeza.

- Expliquei-me mal. O Pai sim é poder, mas não o utiliza. Não precisa disso. Ele é amor. E tu, como mulher, sabes muito bem que o amor não precisa da alavanca do
poder ou da força...

Eliseu deixou que os pensamentos girassem. Depois, com entusiasmo, cravando os olhos em Jesus, matizou:

- Uma carícia tem mais eficácia que um exército. Pode mover a vontade...

O Mestre piscou para o meu irmão.

- Isso é Deus? Esse é o teu Deus? - perguntou a Senhora, claramente na defensiva -. Teu Deus é como uma mulher?

396

397

Eliseu não respondeu de imediato. Compreendeu que Maria não podia assimilar suas palavras. Como explicar-lhe que sim, que Deus, provavelmente, tem mais de mulher
que de homem? Fez a opção pela sensatez. Limitou-se a confirmar o que já havia dito.

- Meu Deus, nosso Deus, é um Pai, incapaz da cólera, da vingança ou da injusta morte de um homem que recolhia lenha no sábado...

- O eterno, bendito seja o seu nome, nos escolheu entre todas as nações da Terra. Somos seus filhos. Ele é nosso Pai, mas nos conduz com vara firme...

Era inútil. A Senhora, como o resto da comunidade judaica daquele tempo, aceitava o conceito de Pai, mas num sentido puramente coletivo. Os profetas haviam insistido
nisso. "Tua prole herdará nações", gritava Isaías. O Livro da Sabedoria também "orgulha-se de ter Deus como Pai". O problema é que esse "Ab-bã", o Pai que o Mestre
defendia, nada tinha a ver com o "olho que vê, o ouvido que escuta e o livro em que são registradas todas as obras do homem", segundo dizia o rabi Yehudá, um dos
compiladores da Misná. Para os israelitas, Ab-bá era juiz e fiscal. Esta seria uma das grandes e revolucionárias inovações de Jesus: um Deus, mais que Pai, "papai"...

-Tu te enganas, mamãe Maria...

Jesus tomou a palavra. O tom foi inflexível.

- ...O Pai jamais - e insistiu no termo - jamais, utilizou uma vara... O Pai não é o ser enfurecido do qual falas.

E soletrou "enfurecido" (zaep) para que não ficasse dúvida. A Senhora se irritou.

- Já começamos com as tuas loucuras! Queira o Santo que não te ouçam esses fanáticos de Jerusalém!

Quem pareceu não escutar foi o Mestre.

- ...Se o Pai conduzisse seus filhos com uma vara, seria um deus

menor... Seria Yavé.

- Então, segundo tua opinião, como nos guia?

O Galileu esticou o braço esquerdo, mostrou a palma da mão e pronunciou:

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- Pas\ (literalmente, "palma da mão").

- Estamos na palma da sua mão? - quis confirmar Ruth com um sorriso.

- A todo o momento. Na escuridão e na alegria. No erro e no acerto. No amor e no desamor. No princípio e no fim...

- Isso é impossível - interrompeu-o seu irmão -. Os malvados não têm lugar na mão do Santo, bendito seja o seu nome...

Jesus limitou-se a esboçar um sorriso enigmático. Ruth pressionou:

- O que acontece com os malvados e os ímpios?

Era a mesma questão que lhe havia sido colocada no kan de Assi. O Mestre respondeu em termos parecidos:

- Raz\ Mistério! Tudo no seu devido tempo!

Assim finalizaram a conversa e o jantar do shabbat na "casa das flores".

A realidade continuou impondo-se...

O distanciamento ideológico entre o Mestre e os seus, em especial com a Senhora, aumentava. Eles acreditavam firmemente em um Messias político e libertador social
e religioso do povo de Israel. Um enviado, "quebrador de dentes", que inauguraria o "reino de Deus": a hegemonia da nação judaica sobre o resto do mundo. Todos ficariam
rendidos diante da espada e da glória do filho de Davi. Ele, no entanto, falava de outro tipo de "enviado". Ele falaria, quando chegasse a sua hora, de um Deus "papai".
Mas o pior estava por vir. Nunca imaginei que aquela diferença nas idéias poderia alcançar extremos tão dolorosos. Eu mesmo testemunhei.

Voltamos à insula com novas dúvidas. Por que Jesus comparou Yavé com um "deus menor"? Quem era realmente o Deus (?) do Sinai? Teria de falar a sós com o Mestre e
perguntar-lhe sem rodeios. O assunto dos malvados e da maldade quimicamente pura também me intrigava. No kan do lago Hule não ficou claro, nem agora, quando Ruth
propôs o assunto obscuro. Por que Jesus justificava o mal? Ou não era assim? Talvez eu não soubera interpretar suas palavras adequadamente.

Quanto à bela Ruth, que poderia pensar? O acertado discurso de Eliseu parecia tê-la deslumbrado. Somente tinha olhos para ele. Que de-

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via fazer? A Senhora, além disso, não demonstrou excessiva satisfação ao observar que meus dedos roçavam os de sua filha...

Tudo se apresentava contra mim. Mas que estava pensando? Aquilo era absurdo. Era um sonho. Tarde ou cedo, despertaria. Creio que já despertei... Mas a realidade
nos aguardava no longo corredor do terceiro andar.

Os lamentos aconteceram novamente, ou melhor, já estavam lá quando entramos no quarto 39. Eram idênticos, contínuos, não se interrompiam. Eliseu, furioso, se jogou
no beliche. Recorri ao duvidoso remédio da janela. Uma hora depois, com os nervos tensos, optei por esclarecer o mistério. Segurei uma das lamparinas e informei
ao meu companheiro. Tinha de verificar que diabos acontecia. O engenheiro concordou. Pegou outra lamparina de azeite e abandonamos o lugar.

O corredor, às escuras, estava logicamente deserto. Talvez fosse a segunda vigília, a do galo (cerca das duas da madrugada). Todos dormiam, com exceção dos responsáveis
por aqueles sofríveis gemidos. Percorremos parte do corredor, atentos às numerosas portas. A última era a 48.

Eliseu apontou um dos quartos. Encostei o ouvido na madeira e, com efeito, verifiquei que os lamentos - quase cânticos - vinham do interior. Ergui a lamparina e
examinei a porta. Achava-se tão apodrecida e desconjuntada quanto as outras. Empurrei suavemente e verifiquei que estava fechada. Que devíamos fazer? Chamar? Meu
companheiro procurou uma das frestas e tentou olhar.

- Parece fogo...

Empurrei-o, alarmado, e repeti a operação. Era isso. Dava para ver reflexos no interior. Podiam ser chamas... Não tive dúvida. Bati na porta com força. Duas vezes,
três... Primeiro o silêncio. O choro cessou. Eliseu e eu nos olhamos. Repeti as batidas e, em seguida, os gemidos aumentaram. Eram duas, quiçá três pessoas... Voltei
a olhar, mas somente via a luz avermelhada e algumas sombras que se deslocavam, rápidas. Se estivéssemos diante de um incêndio, tínhamos de agir com rapidez. Agir?
Segundo a operação "Cavalo de Tróia", isto estava rigorosa e terminantemente proibido... As favas a operação! Bati na 44 pela terceira vez. Inútil. Os gemidos se
transformaram em gritos. Eram gritos de horror. Dei um passo atrás e avisei Eliseu. Iria

400

j.). BENÍTEZ

derrubar a porta que, com um ponta-pé, saltaria pelos ares. Mas, quando me dispunha a bater na madeira, o engenheiro me deteve:

- A vara! Espera um pouco!

E correu até nosso quarto. Tínhamos esquecido a "vara de Moisés"... Tinha razão. Não sabíamos o que poderíamos encontrar do outro lado.

Os gritos, agora, rangidos, gelaram-me o coração. O que acontecia naquele lugar? Alguns vizinhos, alertados pela gritaria e pelas batidas na porta, apareceram no
corredor. Perguntaram, mas não soube o que lhes dizer. Eliseu voltou veloz e me entregou o cajado. Não esperei nem um segundo. A porta voou com um só golpe. E os
vizinhos, aterrorizados, fugiram para suas casas.

Estávamos em um único quarto, como os nossos. No centro do pavimento, no buraco utilizado como fogão, havia algumas chamas. Os gritos cessaram. Avançamos mais um
pouco e tentei acostumar-me à penumbra. Ali, à primeira vista, não havia ninguém. Não era possível! Logo ouvimos um gemido. Eliseu indicou um dos cantos. Aproximei
a luz e percebei um vulto. Meu Deus! Eram crianças! Relaxei. Chegamos mais perto e os iluminamos. Eram três, de uns cinco ou seis anos. Tremiam. Olhavam-nos com
terror, abraçados. Vestiam túnicas negras até os tornozelos. Passei a lamparina diante dos rostos e tentei verificar o que acontecia. Não responderam às minhas perguntas.
Não sei se compreenderam. Eram idênticos e estranhos. Tinham algo especial. Os cabelos, até os ombros, eram brancos, com brilhos avermelhados. Também a pele era
muito branca, como leite. Quanto aos olhos, rasgados, apresentavam as íris amarelas. Pareciam trigêmeos, possivelmente, de origem asiática. Vestiam roupa limpa,
com os rostos e as mãos igualmente limpos, e os cabelos macios e sedosos. Evidentemente não estavam abandonados. Mas, por que gritavam? Que faziam sozinhos, no meio
da noite e tão perto do fogo? Onde estavam seus pais?

Não tivemos a oportunidade de esclarecer o enigma. Subitamente, um deles bateu na lamparina de azeite que eu segurava na mão esquerda e a luz rolou ao chão. Visto
e não visto. Como se tivessem combinado, os três escaparam velozes, driblando o engenheiro e fugindo. Desapareceram

401

na escuridão do corredor. E ficamos ali os dois, atónitos, com os olhos fixos nas chamas flexíveis. Não entendia absolutamente nada.

Os vizinhos, um pouco mais calmos, levantaram os restos da porta e nos observaram com curiosidade e receio. Não era para menos... Ao sair me atrevi a perguntar.
Obtive uma só resposta:

- São os meninos da lua...

402

DE 20 A 26 DE OUTUBRO

Na manhã seguinte, sábado, 20 de outubro do ano 25 da nossa era, Taqa, o velho porteiro da insula, esclareceu parte do mistério. Para começar, não eram os "meninos
da lua", como eu pensei ouvir, mas "meninos lua". Eram chamados assim porque só podiam ser vistos à noite. Jamais saíam da insula à luz do dia. Supus, com razão,
que estava diante de um novo caso de albinismo. Trigêmeos com fotofobia ou intolerância à luz por razoes oculares ou neurológicas; algo não muito comum em um caso
de trigêmeos.

A mãe era uma "burrinha". Havia emigrado da distante ilha de Melita e trabalhava especialmente no cais... Voltava ao amanhecer e ia de novo ao anoitecer. Os meninos
ficavam sozinhos a noite inteira. Eu não podia saber nessa ocasião, mas aqueles meninos também teriam seu papel na aventura da vida pública do Mestre. Disse-o bem:
"aventura"...

Tivemos de pagar uma porta nova; era o correto. O resto do sábado foi dedicado aos "afazeres domésticos": limpeza, compras etc.

Jesus, como todos os sábados, foi a Saidan, prosseguindo nas viagens com Zebedeu pai. Como já comentei, ninguém esteve presente nessas reuniões particulares. Nem
mesmo os filhos de Zebedeu.

No dia seguinte, domingo, 21, fomos ao estaleiro e voltei a ser "Eh, garoto!".

Jesus continuou com seu trabalho no "pesqueiro" e com sua canção costumeira, "Deus é ela"...

403

Eliseu preocupava-se ainda. Estava triste e distante. Conversávamos somente o necessário. A serraria o animou um pouco e também os "meninos lua". Diariamente, com
sua infinita paciência, foi ganhando o carinho dos trigêmeos e a confiança da mãe, a prostituta. A maior parte da noite ele passava no 44. Não me pareceu mal. Estávamos
em um período de espera e, portanto, submetidos a uma dupla tensão. Qualquer distração era positiva. A idéia do meu companheiro, além de tudo, nos permitiu dormir.
Os meninos, cuidados e distraídos pelas visitas do engenheiro, acabaram voltando ao ciclo natural. Todos, no terceiro andar, lhe agradecemos. Desde esses dias, Eliseu
foi o homem mais popular da insula de Taqa. Aquele carinho, no entanto, lhe custaria caro...

Tudo, definitivamente, transcorreu com relativa normalidade até a terça-feira, 23 de outubro... De certo modo, foi um dia decisivo para nosso trabalho como pesquisadores...

Sim, o Destino, mais uma vez. Aconteceu perto do meio-dia, pouco antes que Yu, o chinês, batesse na barra de ferro, anunciando a hora do almoço. Encontrava-me -
casualmente? - oferecendo água para o Mestre. Ouvimos, então, gritos e maldições. Jesus me devolveu a concha de madeira e dirigiu o olhar para o nordeste, do outro
lado do rio Korazain. Seu rosto escureceu. Outros operários, também alertados, interromperam seu trabalho e viraram as cabeças em direção ao lugar de onde se originava
o barulho.

Jesus deu alguns passos e colocou-se na borda do fosso. A uns cem metros, mais ou menos, sobre o fumegante e queimado lixáo de Nahum, quinze ou vinte homens discutiam
acaloradamente. Era uma das costumeiras discussões a que já estávamos acostumados. Aqueles infelizes eram os tofet ("escarros"), uma definição depreciativa dos que
trabalhavam (?) no tafat (palavra aramaica que significa "queimar" e que era atribuída também aos lixeiros ou gehenna, "sempre ardendo"). Os rabinos e puristas da
Lei associavam assim esses marginalizados com o que havia de "mais impuro e execrável". Eram os "donos" da gehenna. Todos os dias a percorriam com sacos e cestas,
resgatando o que ninguém queria. Com isso se alimentavam e negociavam. Como explico, as brigas estavam na ordem do dia. Se dois tofet - homens, mulheres ou crianças
- coincidiam na coleta

" 404 "

J J BENÍTEZ

de um mesmo lixo, o resultado era sempre a agressão, até que um deles cedesse ou ficasse ferido. E pobre do "intruso" que invadisse seu "território"! O normal é
que fosse espancado até a morte.

A disputa foi além. Os tofet empurravam alguém, ameaçando com os punhos e com paus. Vários trabalhadores se mobilizaram. Yu foi o primeiro, e correram até a gehenna.

O Mestre não teve dúvida. Deixou o martelo, saiu do fosso e dirigiu-se também ao lixáo. Saí atrás do Mestre, sem saber muito bem que desculpa dar. Não importava:
o que contava era não perdê-lo de vista. Eliseu o viu da serraria, mas não se moveu.

Yu e seus homens subiram pelo montículo que os detritos formavam e, gritando, tentaram impedir a luta. Num instante, misturaram-se com os "catarros" enfurecidos,
empurrando-se, na tentativa vá de separá-los. Jesus chegou em seguida. Subi na gehenna, afundando-me na fruta podre, restos de pão duro, excrementos humanos, trapos
e móveis velhos ou quebrados, cacos de cerâmica, vidro, ossos de animais e cães e gatos mortos. O cheiro quase me jogou para trás. Mas aconteceu o que ninguém podia
imaginar...

Ao chegar ao grupo, o Mestre se deteve. Não fez nem disse nada. Este que escreve, atordoado e sem ar, contemplou uma cena à qual, num futuro não muito distante,
deveria acostumar-me. Não tenho palavras. Não sei explicar isso.

Jesus, com o rosto grave, contemplou os que lutavam. Foi percorrendo cada um com o olhar. E fez-se o silêncio. Que aconteceu? Sinceramente, ignoro. Ou melhor, somente
suspeito...

Os tofet, para desconcerto de Yu e dos seus, abaixaram os paus, retrocedendo. Os rostos, encardidos e crispados, apresentavam os olhos muito abertos e fixos no olhar
de aço do Filho do Homem. Um "aço" pouco habitual naquele Humano...

Jesus abriu caminho entre eles e chegou à altura de um homem caído no meio do lixo. Gemia. Era, sem dúvida, a causa da briga e, obviamente, a vítima. Estava encolhido,
em posição fetal, no intento de proteger a cabeça dos golpes. O Mestre inclinou-se, abraçou-o e o

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ergueu como uma pluma. O indivíduo, ao notar o contato das mãos, achou que a gentalha atacava novamente e estremeceu, encolhendo-se o quanto pôde. Jesus o apertou
contra o avental de couro e, doce e mansamente, beijou os seus cabelos.

Os olhos de Yu se umedeceram... e também os meus. Quem era aquele Homem? Até onde chegavam o seu poder e a sua ternura?

O Mestre caminhou decidido sobre a gehenna, afastando-se dos atónitos catadores de lixo.

Foi quando, ao cruzar diante deste explorador, eu o reconheci. Deus do céu! O homem que havia estado a ponto de morrer e que agora era transportado nos braços do
Filho do Homem era... Não podia ser! Corri atrás do Mestre e tentei confirmar a primeira sensação. Sim, era ele... Mas, como era possível?

Jesus, com suas costumeiras grandes passadas, não demorou a alcançar o estaleiro. Dirigiu-se ao pavilhão que servia de vestiário e lá o recostou. Pediu água e lhe
deu de beber. Eliseu, ao vê-lo, estremeceu e apontando o homem disse:

- Mas...

Dei de ombros. Eu sabia tanto quanto ele.

Jesus o deixou nas mãos de Yu e voltou ao seu posto. Eu o olhava e não acreditava... O chinês o examinou e verificou, acertadamente, que não tinha nenhum osso quebrado.
Tivera sorte. Eram visíveis somente alguns ferimentos, um supercílio sangrando, uma túnica suja e fome, muita fome... Santo Deus!... Kesil!... Nosso fiel servidor
e amigo no vale do Jordão. Mas como havia chegado até Nahum? Quando conseguiu recuperarse, abraçou-nos e Eliseu chorou com ele.

Havia dias que nos procurava. Eu mesmo, se não me engano, na hora da despedida em Damiya, lhe dera as pistas necessárias. Falei-lhe de Migdal e Nahum. Pois bem,
movido pela necessidade e pelo carinho, Kesil decidiu procurar na primeira povoação. Depois, com certo desalento, chegou a Nahum. Ninguém sabia nada dos gregos "que
viajavam pelo mundo". As escassas moedas de que dispunha se esgotaram. Foi à sinagoga, mas o hazán o tomou por um vagabundo e lhe negou ajuda. Também não

406

encontrou trabalho no cais. Foi assim que acabou na gehenna, mexendo no lixo, faminto... O Destino...

Que fazer? Eliseu não consentiu que o abandonássemos de novo. Pareceu-me justo. Aquele homem tinha algo especial. O beijo do Mestre foi um "sinal"... Foi contratado,
é evidente. Tinha conseguido isso pela força... Tomaria conta de nós, dos quartos na insula e do que fosse necessário, segundo suas palavras; nos acompanharia nas
viagens, sempre que fosse possível. Kesil chorou novamente. Quis beijar-nos as mãos. Eliseu ficou sério e obrigou-o a prometer que visitaria a sua família regularmente.
Assim foi feito.

A partir desse dia, tudo foi mais fácil para estes pesquisadores. Pudemos dedicar-nos inteiramente à tarefa que realmente nos interessava: o acompanhamento contínuo
do Filho do Homem. Para isso estávamos naquele "agora"... A verdade é que a ajuda de Kesil, nosso querido "Orion", foi decisiva..., enquanto durou. Mas não adiantemos
os acontecimentos. Antes aconteceram outras coisas...

As notícias sobre Yehohanan, o Anunciador, continuavam chegando às aldeias e às cidades do yam. Todos falavam do novo vidente. Como sempre, uns faziam troça; outros
estavam zelosos pelo esperado messias, defendendo o fogoso João Batista. Jesus escutava com atenção e silenciosamente. No começo - que estúpido! -, eu não soube
interpretar essa atitude...

Eliseu e eu colocamos a necessidade de voltar para perto do Anunciador. Tínhamos falado disso anteriormente, mas agora, diante do avanço que apresentavam as notícias
procedentes do rio Jordão, achamos que a minha presença no vale era importante. Os nemos estavam colocados no "berço". Convinha fornecê-los e começar a esclarecer
dúvidas. Se o batismo de Jesus seria em janeiro, e com isso, supostamente, a arrancada da vida pública do Mestre, não dispúnhamos de muito tempo. Tudo parecia tranqüilo.
O Galileu desenvolvia o seu trabalho no estaleiro. Não era provável que abandonasse Nahum. Eliseu, além disso, estaria permanentemente ao seu lado. Kesil o ajudaria
no que fosse necessário. Planejamos assim. Este que escreve procuraria Yehohanan e se juntaria novamente ao grupo dos discípulos. Além do mais, era Esrm ("Vinte"),
um deles...

407

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA ?

A viagem foi programada para meados de novembro. O Destino, no entanto, fez um cálculo diferente e em outro momento. Nunca vou aprender... Enganei-me, nem tudo estava
tranqüilo... Foi na manhã do dia
26, sexta-feira, no varadouro. Eliseu me chamou e acudi com a água. Não era água que precisava... Olhou-me sério. Deixou de um lado o tronco que manipulava e comentou
com ar preocupado:

-Tenho de falar contigo...

Assenti e aguardei impaciente.

- Aqui não - acrescentou com severidade. - Esta noite, no Ravid...

- O que está acontecendo?

- Algo grave - murmurou, olhando-me nos olhos . - Muito grave... Não consegui tirá-lo do seu mutismo. Continuou serrando. Olhei

para Jesus. Tinha algo a ver com a atitude enigmática do meu companheiro? O Mestre continuava com suas coisas, arrumando o travamento do forro do "pesqueiro". Era
o martelado típico, alegre, ao ritmo de "Deus é ela...". Não me pareceu inquieto ou preocupado. Que diabos estava acontecendo? Tive de agüentar o dia todo. Foi um
suplício. Passou de tudo pela minha mente. O que era tão grave? Por que tínhamos de falar na nave? Pensei em tudo, sim, e não acertei...

Kesil não fez perguntas. Viu-nos fazer a mala de viagem e concordou, resignado, diante das minhas observações: voltaríamos no dia seguinte, sábado; deveria ocupar-se
das compras e, como sempre, vigiar e socorrer, se fosse preciso, os "meninos lua". Destino incrível! Não voltaria a vê-lo durante muito tempo...

Não importava que chegássemos ao "porta-avióes" em plena escuridão. Meu irmão me puxou em silêncio. Não consegui tirar dele uma única palavra. Continuava mudo e
ausente. Não insisti. Ao chegar no alto, supus, me tiraria da dúvida angustiante. Uma vez no módulo, esperei.

Eliseu, nervoso, entrou e saiu várias vezes. Sentou-se na beira do penhasco e lá permaneceu um tempo, com o olhar perdido nas tochas distantes que se moviam nas
águas prateadas do lago. A lua, quase cheia, foi sua companheira durante parte da noite. Era evidente que não estava sendo fácil para ele. Por fim, tentando resolver
a tensa situação, me juntei

408

a ele, simulando serenidade, e o questionei. Tinha a cabeça baixa. Olhoume e me assustei. Não podia acreditar... Era a primeira vez que o via com lágrimas nos olhos.

- Quero regressar - exclamou por fim, com uma voz vencida e desconhecida. - Voltemos, major!

- Não compreendo...

- Vamos acabar com isto! Suspendamos a missão!

- Terás de me dar uma boa razão...

- Eu a tenho - adiantou-se -, a tenho...

- E então?

- Estou apaixonado...

Observou-me angustiado, aguardando uma reprimenda que, por certo, nunca foi dada. Creio lembrar que sorri, tentando tirar importância de sua confissão.

- Estou apaixonado - acrescentou com veemência. - Sei que é proibido. Sei que não é possível. Sei que é uma loucura. Sei, major, mas não posso evitar. Não posso...

Olhei-o atónito e comecei a compreender a causa de sua estranha atitude desde aquela primeira noite, no terraço da "casa das flores", quando o vi mexer-se inquieto.
Agora entendi seus silêncios e seus passeios, na solidão, no "vau das Colunas", seus anormais distanciamentos e, sobretudo, o brinde em Damiya... Meu Deus! Eliseu
falava sério. Estava apaixonado e, ao mesmo tempo, angustiado. Ele sabia, com efeito, que esse tipo de sentimentos não era viável. Não para nós, que pertencíamos
a "outro mundo", ao qual, necessariamente teríamos de retornar. Compreendia isso perfeitamente. Quanto a mim, afinal de contas, estava passando pelo mesmo problema...

Perguntei-me: como era possível que ambos tivéssemos nos apaixonado no lugar e no momento não recomendados? Deixei passar os minutos. As lágrimas continuaram escorrendo
pelo rosto do engenheiro. O instinto me preveniu. Sua confissão havia terminado... Finalmente, fazendo um esforço, conhecendo a resposta, perguntei:

- Quem é?

409

Meu companheiro secou as lágrimas e esboçando um meio sorriso, com a voz embargada, sussurrou:

- Tu a conheces... É o que há de mais formoso que vi na minha vida. Sinto muito, major!

Eliseu pronunciou o seu nome e eu, então, senti que o mundo

veio abaixo...

410

27 DE OUTUBRO, SÁBADO

- Ruth?

- Sim, Ruth, a ruiva, a irmã do Mestre - confirmou Eliseu.

Foi uma marretada. Não pude responder. Isolei-me... Sei que deveria ter lutado. Sei também que meu coração ficou encharcado. Não sei o que aconteceu. Sinceramente,
permaneci em silêncio e durante algum tempo vi-o falar e gesticular. Creio que se referia a ela, à sua bondade e às suas qualidades. Eu não estava realmente ali.
Somente desejava fugir, escapar de tudo e de todos. Por um momento estive a tempo de aceitar. Suspenderíamos a missão e voltaríamos a Masada e ao nosso "agora",
em 1973. Depois, lentamente, recuperei o sanguefrio. Uma calma que agora, ao lembrar daqueles momentos críticos, me aterra. Como pude resistir? Não sei. O certo
é que me tornei um túmulo. Meu companheiro não deveria saber quais eram os meus sentimentos. Ninguém o saberia jamais. A missão era a única coisa que contava. Ele
tinha prioridade. Esse foi nosso compromisso e eu era um homem honrado. Cumpriríamos até o final...

Nunca me arrependi daquela decisão, mas ela, misteriosamente, também não desapareceu do meu coração e da minha lembrança. Pedi um tempo. Tinha de refletir, menti.
Eliseu compreendeu e aceitou. Ao amanhecer, sentindo-me acabado, lhe expus parte do plano que acabava de amadurecer. O engenheiro escutou em silêncio. Por enquanto,
a missão seguia em frente. O Mestre era mais importante que nós mes-

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mós. O assunto de Ruth - e creio que minha voz tremeu ao pronunciar o seu nome - passaria. O melhor era esperar... Sugeri um mês, com outra condição. A idéia de
continuar, no fundo, elevou o seu ânimo. Era o que desejava. Seu coração - eu sabia - caminhava em uma direção e sua mente em outra... Concordou, inclusive, sem
saber.

- ...Preciso de um mínimo de calma para pensar. Adiantarei a viagem para o Jordão. Essa é minha condição. Permanecerei longe durante um mês. Tu te ocuparás de acompanhar
o Mestre. Nesse tempo, analisarás e analisarei a situação. Depois, veremos. O Destino e eu decidiremos.

Eliseu me olhou agradecido e exclamou:

- Confio em ti, major...

Senti-me como um verme. Não tive coragem suficiente para confessar-lhe a verdade, e o que era o pior: também desprezei a mim mesmo. Não soube lutar por ela...

- Quando pensas encontrar-te com Yehohanan?

- Imediatamente...

Meu companheiro notou algo estranho. Aquela súbita reação não era habitual em mim, sempre ponderado e minucioso em todas, ou quase todas, minhas ações. Eliseu, como
digo, intuiu algo mas, prudentemente, guardou silêncio, aceitando.

- Às tuas ordens...

Sim, tinha razão. Eu escondia algo. Somente pretendia fugir. A viagem ao vale, os nemos e Yehohanan eram o de menos... Não queria voltar a vê-la. Não teria resistido.
Minto. Sim, desejava isso... e desejo... Fiz meus cálculos. Se tudo transcorresse sem incidentes, dentro de um ou dois dias, talvez três, poderia localizar o Anunciador
e tomar parte do grupo de Abner. Preparei a bagagem. Não precisava de grande coisa. Farmácia de campanha e, sobretudo, antioxidantes. Calculei que trinta tabletes
seriam suficientes. Talvez me acalmassem. Talvez voltasse antes do previsto. Pobre tolo! Qual era meu objetivo? Supostamente, continuar o estudo do precursor do
Mestre. Sim, supostamente... Meu afã pouco tinha a ver com os desígnios do Destino.

412

j.j. BENÍTEZ

Eliseu me deixou à vontade. Retirou-se para perto do limite norte do Ravid e esperou. Foi ao vê-lo, sentado na beira do penhasco, que, de repente, me veio à memória.
Soou como uma advertência. O caderno de bitácula, o diário em que anotava até a mais insignificante das experiências! Ali apareciam os meus sentimentos para com
Ruth. Obedeci à intuição. Entrei no computador, procedi a uma revisão minuciosa e anulei os textos comprometedores. Ninguém devia saber do meu segredo. O engenheiro,
ainda que não fosse seu costume, estava capacitado para ter acesso a tal diário e registrar, obviamente, o que achasse conveniente. Não, esse era o meu segredo (mach)1.
Somente meu...

Cometi um novo erro. Subestimei o general Curtiss e seus especialistas em informática... Mas esta é outra história. Tudo no seu devido tempo...

Consultei os relógios. Nesse dia 27, sábado, o sol se ocultaria às 16 horas, 53 minutos e 9 segundos (num provável "tempo universal"). Tinha de agir com rapidez.
Senti uma certa tristeza. Eliseu não era culpado. Simplesmente acontecera. Ele estava apaixonado por algo impossível e eu também. Demos um abraço e nos desejamos
sorte. Isso foi tudo.

Peguei a sacola de viagem e a inseparável vara e desapareci. Eram sete da manhã de um dia esplêndido e maravilhoso. Uma brincadeira com meu coração perdido no escuro.
Por que não lutei? Por que não enfrentei

0 Destino? Ela merecia isso. Além disso, estava enamorada de quem? Meu olhar havia cruzado o seu. Os olhos nunca mentem. Sabia disso. Ela sentia alguma coisa por
mini. Mas por que fugia? Por que havia decidido enterrar aquele amor, o único da minha vida? Pelas malditas normas da operação? Talvez por medo? Talvez por ser quem
era? Por que não agia com coragem? Era tão simples ir ao seu encontro e falar-lhe claramente. "Estás louco! E

1 O major não acrescenta nenhuma informação complementar sobre tal palavra. Poderia tratar-se de hebraico ou aramaico? Os especialistas consultados pelo autor não
concordam. A transcrição para letras latinas dos sons originais do hebraico ou do aramaico, por não ter vogais, não é fácil. Estamos diante de um erro ortográfico
do original em inglês: Match, em vez de mach. Algumas acepções correspondem a "semelhante", "igual" ou "par". (N do A.)

413

que supões que lhe dirás? Que a amas, que desejas casar-te com ela e que te acompanhe ao teu mundo? Sim, estás louco..."

"É melhor assim. Esquece-a. Pertenço a outro agora. Não seria lógico. Temos de voltar. Ele é a única coisa que conta. Somos seus mensageiros. É preciso contar
a verdade. Esquece-a, se puderes..."

Umas duas horas depois, imerso nesses pensamentos e nessas torturas, divisei os obeliscos, ao sul do yam... O caminho pela borda ocidental foi rápido e sem tropeços.
O tráfego de homens e animais, no shabbat, diminuiu de forma notável.

Ali, no que denominávamos os "treze irmãos", comecei as consultas. Tive sorte. Zeladores de burros e sais sabiam do vidente. As notícias chegavam sem cessar. Era
o "espetáculo" do momento. Todos obtinham algum benefício com aquele novo profeta. Pregava e mergulhava as pessoas na zona de Enavan, a pouco mais de doze quilómetros
de Bet Shena, no sudeste, e relativamente perto do rio Jordão. Isso significava que Yehohanan e seus discípulos tinham avançado cerca de 32 ou 33 quilómetros desde
que os deixáramos no "vau das Colunas", junto ao povoado de Damiya.

Contratei os serviços de um dos "táxis". Desta vez, economizaria esforço. "Ômega é o princípio." Não pude evitar. Antes de partir do centro de abastecimento, voltei
a aproximar-me dos buracos dos obeliscos e verifiquei o que já vira anteriormente. "Ômega é o princípio". O que queria dizer a misteriosa inscrição? E o Destino
sorriu, brincalhão... Tudo a seu devido tempo.

A carroça andou os poucos quarenta quilómetros em pouco mais de duas horas. O sol, no alto, indicava a hora sexta (meio-dia). O sais, de poucas palavras, esclareceu
que aquela modesta aldeia na qual havíamos parado era Salem ou Salim. Yehohanan encontrava-se muito perto. Recebeu o combinado e deu a volta, retornando pelo caminho
empoeirado que Eliseu e eu percorrêramos a pé.

Tentei localizar-me. Se me lembrava bem, aquele lugar fazia fronteira com Perea, o território de Herodes Antipas. A alfândega, de tristes lembranças, não estava
longe. Talvez a cinco ou seis quilómetros,

- 414

J.j. BENÍTEZ

um pouco mais longe, ao sul, aparecia a também pequena povoação de Mehola ou Abel Mehola (na atualidade, identificada com o tal El-Jiló). Depois, como já expliquei,
o caminho ia para El Makhruq, Jerico e, finalmente, Jerusalém.

Minha primeira impressão, naquele momento, foi de confusão. Lembrava do lugar, mas o tínhamos atravessado rapidamente, sem fixar nenhuma referência de importância.
Vi somente palmeiras, bosques e bosques de palmeiras, e na frente, à esquerda do caminho, a linha verde e negra da floresta do Jordão. O rio podia estar a dois quilómetros
da referida aldeia de Salem. Aldeia? Observei detidamente. Entre os palmeirais e os hortos apresentou-se diante de mim um conjunto de casas, umas vinte, em desordem,
vermelhas pela argila e cobertas no teto pelo amarelo das folhas da palmeira, já murchas pelo sol implacável do vale. O mais adequado seria empregar o termo vilarejo...

Caminhei decidido para o simulacro de povoado. Não convinha arriscar-me. Primeiro, reuniria toda a informação possível. Depois, procuraria Yehohanan. Agora era "Esrin",
ou o "arauto" número vinte. Náo podia esquecer. Imaginei que Enavan era um lugar próximo a Salem. Em aramaico significava "mananciais ou fontes". O Batista provavelmente
se instalara em alguma corrente de água próxima. Por certo, conhecendo seus rígidos costumes, deveriam ser águas "puras".

Entrei na aldeia, espantando os únicos seres vivos que desafiavam o calor intenso: círculos de alvoroçadas galinhas pretas e nuvens de moscas. Jamais vira tantas.
Logo se transformaram em uma segunda túnica...

O pavimento de Salem também era diferente de tudo o que já tinha visto. Era feito de conchas marinhas, centenas de milhares de conchas brancas, restos do primitivo
mar de Lisan2! Era um bom sis-

2 Como expliquei neste diário, na Antigüidade, o vale do rio Jordão foi um grande mar, ao que atualmente chamam de Lisan, ou da Língua. Foi no período do holoceno
(há uns dez mil anos), quando adquiriu a forma que hoje conhecemos. Posteriormente, ao desaparecer, ficaram as jazidas de sal, cal e gesso, bem como notáveis acúmulos
de conchas marinhas e todo tipo de fósseis. O mar deTiberíades ouyam é um dos restos, como também o Mar Morto, ao sul. (N. do M.)

415

tema para manter as "ruas" (?) mais ou menos limpas e para advertir a proximidade de qualquer intruso. Os rangidos eram inevitáveis e acusadores. Salem era um lugar
especial; não demoraria em comprovar isso. O Destino, mais uma vez, sabia o que fazia...

Os moradores do lugar, quase todos felah ou camponeses, ofereceram-se para dar-me todo tipo de explicações. O vidente acampava para o leste, a pouca distância do
povoado. A chegada de Yehohanan e os seus transtornara, até certo ponto, a monótona e linear rotina da zona. Todos teciam comentários sobre a figura, espetacular,
do "profeta" e, sobretudo, seus métodos e palavras, nunca vistos naqueles lugares afastados. E, como sempre, as opiniões estavam divididas. A maioria não sabia o
que pensar. Uns criticavam e outros defendiam. O certo é que optei por buscar alojamento em Salem. Segundo os vizinhos, Yehohanan há cinco dias não dava sinais de
vida. Foi visto rodeando a espessa selva do Jordão e se perder na direção do Querit, um dos afluentes orientais. Lembrava muito bem daquela atitude esquiva. Também
aqui ele procurava a solidão?

E, como dizia, escolhi Salem. Não queria precipitar-me. Tinha de agir com calma. Teria tempo para encontrar-me com o Anunciador.

Um dos amáveis felah conduziu-me até a casa de Aba Saul. Ele, certamente, poderia dar-me o que eu necessitava. Somente precisava de um local onde pudesse dormir
e, talvez, alguém com quem falar. Acertei.

Aba, o "pai" Saul, era um ancião venerável. Tinha sido escriba e doutor da Lei em Jerusalém. Agora, cansado, esperava a morte naquele canto escondido, dedicado à
sua mulher, aos seus "filhos" e ao cultivo de uma pequena horta. Todos o cumprimentavam com reverência e o chamavam de rby ("meu senhor"). Aquele rabi tinha conseguido
a categoria de hakam, ou "doutor graduado", a máxima dignidade entre os especialistas na Lei. Era um profissional dos livros (chamavam-no um swpr). Dispunha de uma
casinha tão humilde quanto o seu olhar. Vivia na companhia de Jaiá, sua esposa, também velha, e de seus "filhos", os livros. Toda a casa estava dominada por rolos
e rolos. Pendiam das paredes, dormiam nas arcas ou apertavam-se nos cantos, atrapalhando a passagem do casal.

416

Destino curioso... Se eu tivesse tentado localizar Yehohanan logo ao chegar a Salem, o mais provável é que não tivesse entrado em contato com aquele sábio singular.

Aba Saul escutou o felah que me havia conduzido até sua casa. Depois atendeu meu pedido. Somente procurava um lugar onde proteger-me durante a noite: não incomodaria.
Deixou-me falar, observando atentamente minhas mãos e meus olhos. Não me senti incomodado. Inspirava paz. Tudo nele era luminoso. Vestia-se de branco, sempre de
branco. Seus cabelos, até as costas, eram como a espuma marinha. Nunca os prendia. Sorriu e me fez entrar. Conversou brevemente com Jaia e me convidou para sentar
sobre uma das esteiras de esparto. Foi assim que iniciamos aquela intensa amizade.

Jaia, cuja tradução poderia ser "vivente", serviu o tradicional rfis (semolina tostada e amassada com tâmaras trituradas) e um suco doce de seiva de palmeira. Assombrou-me
o brinde de Saul:

- Lehaim\...

- Pela vida! - repeti. A tristeza veio ao meu encontro, mas disfarcei, penso eu...

O ancião continuou formulando perguntas. Quem era? De onde vinha? Como era a minha vida? Em que deus acreditava?... Respondi até onde me foi possível. Logo, imersos
naquele interrogatório, reparei em algo que me deixou desconcertado. Acariciei-os com as pontas dos dedos. "Casualidade?... não, impossível." Aba Saul se deu conta
da minha "descoberta". A partir desse momento, seu tom mudou. Pareceu feliz. Na esteira sobre a qual me encontrava, apareciam, trançados, os misteriosos três círculos
concêntricos que vira na "casa das flores", em Nahum. Eram idênticos aos que o Mestre acariciou...

Sua última pergunta - Qual era o meu deus - ficou em suspenso. Decidi colocar a dúvida abertamente:

- Por que três círculos?

- Estás aqui por isso?

Não compreendi. Lento como sempre, em vez de aprofundar a pergunta do sábio, respondi com a verdade:

417

- Procuro Yehohanan, o vidente. Dizem que anuncia um novo

reino...

Saul se lamentou.

- Por um instante pensei...

E continuou interessando-se pela minha vida. Por fim, sem poder conter-se, fez uma reflexão que também eu não soube avaliar...

- Por um momento acreditei que procuravas o Altíssimo... Suspirou e chamou sua mulher. Sussurrou-lhe algo ao ouvido e Jaia,

olhando-me, concordou e sorriu. Fui aceito, com duas condições. Não deveria pagar pela permanência. Isso, sentenciou Saul, não era assunto seu, nem meu. Em segundo
lugar, em troca de sua hospitalidade, teria de prometer alguma conversa, de vez em quando, "com aquele velho intrometido". Naquela aldeia não era fácil conversar...
Não soube o que dizer.

- Não é preciso - esclareceu, satisfeito. O silêncio foi anterior à

palavra.

Acertei em todos os sentidos. Aprendi, cuidaram deste voluntarioso mas inepto explorador, e, quando chegou o momento, salvaram a minha vida...

418

DE 28 DE OUTUBRO A 4 DE NOVEMBRO

Na manha seguinte, ao alvorecer, mais calmo, atravessei o vilarejo e me dirigi à zona que chamavam "Enavan" (hoje conhecida também como Enon ou Ainot Mechatzetsim).
Aquela casa e seus habitantes exerceram sobre mim uma influência benéfica. Foi Saul, muito provavelmente, quem me proporcionou as forcas e a clareza mental necessárias
para continuar...

As "fontes" ou "mananciais" eram um lugar paradisíaco. Encontravam-se mais perto do que supunha. Um pequeno caminho vermelho, barrento pelas últimas chuvas, saía
de Salem e guiava o caminhante, sem erro, até uma imensa planície na qual dormiam, plácidos, cinco ou seis lagos de pouca profundidade e águas azuis, como os céus
do Jordão. Contei duzentos metros, aproximadamente, até o primeiro dos lagos. Na realidade, um passeio a partir da casa de Aba Saul.

Os camponeses, madrugadores, se ocupavam nos hortos e nas plantações de palmeiras existentes entre as lagoas. Por trás, ao longe, entre os mastros negros dos bosques,
aparecia, tímida, a linha verde e intrincada da floresta, um território no qual não havia entrado, por enquanto.

O grupo de Yehohanan não se encontrava longe. Segundo osfelah, junto à árvore de "ferro", no "terceiro lago". Somente devia rodear dois dos yam. Não havia como se
perder.

E assim o fiz. Na realidade, ao aproximar-me, observei que não se tratava de lagos propriamente ditos. A água nascia em generosos mananciais - contei seis, espalhados
pela planície -, ficava tranqüila e,

419

finalmente, fugia em torrentes na direção da linha da selva. Eram os laboriosos felah que tinham sabido aproveitar os caudais, transformando a zona em uma excelente
reserva de água. Para isso, haviam fechado as saídas naturais com poderosas barreiras de troncos, criando represas e uma rede de canais que regava as plantações
e chegava até Mehola.

Uma espessura de taquaras, tamariscos, os chamados arbustos de Abraão e as voluntariosas espirradeiras brigavam nas laterais, disputando cada palmo daquela terra
vermelha e fértil como poucas. Nas águas, atentas, observavam centenas de garças cinzas e brancas, esperando a comida e os inoportunos intrusos. Algumas, ao descobrir-me,
se afastavam prudentes ou levantavam vôo, mudando de lago. O silêncio, com segurança, era o selo de Enavan. Somente as fontes e as aves se atreviam a elevar a voz,
e sempre discretamente.

Foi simples. Reconheci o estilo do Anunciador à distância... Ao sul de uma dessas represas - a que chamavam "terceiro yam" -, na margem, elevava-se uma árvore solitária
de proporções médias. Pendiam de seus ramos os familiares pedaços de louças que vi na sófora do "vau das Colunas". Muito perto brotavam duas fontes. Ambas impetuosas
e com uma característica singular: de uma jorrava água fria; da outra, separada pouco mais de um metro, surgia um cano morno, de uns trinta graus Celsius. Os jatos
pulavam de uma rocha, a uns cinco metros sobre o nível do lago, formando uma dupla e "divertida" cascata. Era chamada teomin (gémeos). A água potável era fria. A
quente, por sua vez, apresentava-se ligeiramente salgada. Ofereciam um assombroso contraste.

Abner e os seus me reconheceram e se apressaram a dar-me as boas vindas, abraçando-me e beijando-me.
- Esrin ("Vinte") voltou!...

Fiquei surpreso. O grupo crescera consideravelmente. Agora somava trinta homens. Continuavam mantendo o guilgal ou círculo de pedras. Nessa ocasião, o haviam traçado
ao redor da mencionada e solitária árvore, muito próximo da água. Os camponeses a chamavam "árvore de ferro". Ao voltar ao Ravid, Papa i Noel informou-me tratar-se
de uma espécie não muito freqüente na Palestina. Os gregos lhe deram

420

J.J BENÍTEZ

o nome de metro, sideros ou "medula de ferro" em virtude da dureza de sua madeira. Florescia em um tom vermelho "marte", com flores de nervuras salientes que davam
o aspecto de mechas ao vento. Para mim, a partir de então, foi a árvore "da cabeleira".

Nos arredores, entre as lagoas, perto das nascentes, curiosos e seguidores acampavam. No começo, menos numerosos que no "vau das Colunas". Quase não vi vendedores,
nem inválidos, doentes, ou os inevitáveis vigaristas que contratavam seus serviços e os das padiolas. Deduzi que o lugar, mais afastado que Damiya, era a causa dessa
calma aparente. Fiquei alegre. Eu também precisava de um pouco de paz.

Durante várias horas, sentado debaixo das "mechas vermelhas" da árvore de ferro, observando o oscilar dos pedaços de vasilhas que pendiam dos galhos, este pesquisador
recebeu informação completa do ocorrido naqueles dias de ausência. Tudo, mais ou menos, transcorrera com "normalidade": os mesmos discursos, a mesma fúria nas palavras
do vidente, as mesmas cerimónias de imersão e, de vez em quando, os mesmos finais catastróficos, com o Anunciador correndo na direção do bosque das acácias.

Yehohanan, como avisaram os felah de Salem, não estava. Abner não respondeu à minha pergunta sobre o motivo daquela ausência. Baixou os olhos, resignado. Compreendi.

O segundo no "corpo apostólico" do Batista encarregou-se de apresentar-me aos "novos". Dez entusiastas do "reino" que acreditavam na missão de Yehohanan como precursor
ou preparador do caminho do Messias libertador político, religioso e militar. Na verdade, recordo mal seus nomes e rostos, à exceção de um...

Todos, conforme eram mencionados, levantavam-se e me abraçavam. Abner se detinha então na enumeração das virtudes do recémchegado, bem como na pureza de sua origem
genealógica. Supus que a maior parte do que assegurava era pura invenção, muito apropriada, isso sim, para os planos "salvadores" do grupo. Muni-me de paciência
e resisti. Era o estabelecido na hora das apresentações naquele tempo e com aquelas pessoas.

421

Subitamente, Abner mencionou seu nome e o povoado de origem. Vi-o levantar-se devagar, com má vontade. Estremeci. Parecia mais jovem, obviamente, e calculei estar
entre 27 e 30 anos. Aproximou-se e, em vez de abraçar-me, beijou-me nas duas bochechas. Foram beijos frios... "Judas, de Queriot"... Judas, o Iscariotes! O homem
de Queriot, uma das aldeias de Judá, ao sul de Jerusalém! Então era verdade! Judas foi primeiro discípulo do Anunciador. Minhas informações estavam corretas. Deve
ter notado o meu interesse, mas, tímido e reservado, limitou-se a voltar ao seu lugar. É curioso, jamais o vi sorrir.

Abner o apresentou como filho de uma rica e nobre família de saduceus. Seu pai, Simáo da Judéia, era célebre por suas empresas de fabricação de barris. Judas decidira
deixar tudo e buscar a "libertação de sua alma e de seu povo, nessa ordem". Por isso estava ali, junto ao novo profeta de Israel... A partir daí, as palavras do
segundo escorregaram em minha mente. Quase não lhe dei mais atenção. Estava fascinado pelo aparecimento do "traidor". Dei graças aos céus pela seqüência de acontecimentos
que me havia levado, finalmente, a Salem diante da presença do Iscariotes.

Incrível Destino! Foi justamente por causa daquele 28 de outubro do ano 25, domingo, que comecei a conhecer o esquivo e labiríntico Judas, e a entender, em definitivo,
o porquê de seu comportamento final com o Filho do Homem. Nada foi como contaram...

Quase não falava e, se o fazia, selecionava muito bem os seus interlocutores. Mantinha a mesma figura e os gestos discretos e educados. Era alto (1,70 metro), se
levarmos em conta a média dos homens naquele tempo. Sempre me lembrou um pássaro, com o nariz aquilino e pontudo. Mostrava uma pele branca, quase transparente, com
um rosto imberbe e uns olhos negros, profundos, inquisidores, mas inseguros. Seus cabelos eram mais longos que no ano 30. Caíam delicadamente sobre os ombros. Eram
tão pretos e frágeis quanto o seu coração. Na época, vestia-se com um certo luxo, sempre com túnicas de linho bordado, geralmente na cor marfim. E, inseparável,
na faixa ou hagorah que o cingia, uma espada ou uma sica (um punhal curto), conforme o momento e o lugar...

422

Durante o tempo que permaneci em Enavan, praticamente não o perdi de vista. Estudei a fundo seus modos e penetrei discretamente no seu mundo. Foi assim que soube
de alguns de seus mais delicados "segredos". Naquele momento, o complexo universo de Judas limitava-se a uma idéia central e outras de menor categoria. Seu objetivo
era colaborar, como fosse, na libertação de sua pátria. Os zelotes1 eram seus ídolos. Somente aspirava fazer parte daquele grupo de patriotas e expulsar os kittim
(romanos), jogando-os no "grande mar" (Mediterrâneo).

Entendi que a associação com Yehohanan era uma via para demonstrar seu patriotismo, e mais adiante, quem sabe, fazer parte com todo direito dos "zeladores da lei",
como também chamavam os zelotes. Como já mencionei em outras oportunidades - e não me cansarei de insistir nisso -, para a maioria dos judeus, os romanos eram déspotas,
sacrílegos, parricidas, incestuosos, ladroes, assassinos e pederastas (entre outras "belezas"). Judas estava convencido do triunfo de Israel sobre Roma. Acreditava
no Messias e na inevitável "depuração dos ímpios". Em alguns momentos, chegou a pensar que o grupo encabeçado pelo Anunciador era o ansiado movimento de libertação
nacional do qual - segundo ele - falavam os profetas. Essa foi a razão inicial que o levou a solicitar o ingresso entre os discípulos do vidente do Jordão. De fato,
durante aquele tempo, Judas se auto-proclamou o "guerrilheiro" ("iscariotes"); assim seria conhecido no futuro. Seu nome verdadeiro era Judas ben Simão. Os pais,
ao tomarem conhecimento dessa decisão, o repudiaram e deserdaram. Como já disse, o grupo ou seita dos saduceus, a que pertencia a família do Iscariotes, pregava
o bom relacionamento com os invasores. Isso favorecia seus interesses econômicos e mantinha suas posições de destaque entre as classes sacerdotais e a aristocracia
judaica. Judas soube jogar com o desprezo de sua família, aproveitando-o como uma "condecoração". Os zelotes, pelo que pude deduzir naquela ocasião, já o haviam
notado. Mas, extremamente desconfiados, o mantiveram "sob vigilância", observando suas palavras e

1 Ampla informação sobre os zelotes em Jerusalém, Cavalo de Tróia 1; Massada. Cavalo de Tróia 2; Nazaré. Cavalo de Tróia 4 e Cesaréia. Cavalo de Tróia 5. (N. do
A.)

423

atitudes. E digo antecipadamente: se Yehohanan não houvesse morrido, o maquisard, muito provavelmente, não teria se unido a Jesus de Nazaré. Mas Deus escreve certo
por linhas tortas...

Falei muito com Judas. No começo, esteve receoso. Depois, ao comprovar minha amizade com Abner e, sobretudo, com o Anunciador, cedeu, permitindo um certo acesso
(o mínimo) a seus pensamentos e intenções. Sua filosofia, como digo, era zelote. Judas praticava o "esporte" da liberdade. Acreditava nela sobre todas as coisas.
Era um i