LER é VIAJAR, APRENDER, ADQUIRIR CULTURA, É TORNAR-SE GENTE.

Sejam bem vindos!

Para ter o texto Offline em formato txt, solicite-o via e-mail.

Caso se interesse pelos anúncios click nos mesmos para conhecê-los melhor e assim ajude o blogg Cego Lendo Livro.

Postagens super interessantes

Deixe seu email:

domingo, 7 de agosto de 2011

Operação Cavalo de Tróia II.

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA II.
J. J. Benítez

Para Pedro Valverde Tort, que acreditou em mim, como eu em Jesus de Nazaré.

E pelas três horas e trinta minutos, depois de beijar o solo rochoso da cripta, deixei o horto de José de Arimateia. Os soldados da Fortaleza Antónia ali continuavam,
desmaiados, como testemunhas mudas da mais formidável notícia: a Ressurreição do Filho do Homem.
Pelas cinco horas e quarenta e dois minutos daquele domingo de glória, 9 de Abril do ano 30 da nossa Era, o módulo descolou ao nascer do Sol. Ao elevarmo-nos para
o futuro, uma parte do meu coração ficou para sempre naquele tempo e naquele Homem, a quem chamam Jesus de Nazaré Assim acaba com estas frases, o primeiro volume
desta obra.
Aqueles que o leram talvez recordem que no relato do major norte-americano se avançava já com aquilo a que o próprio Jasão chamou uma segunda viagem no tempo. Pois
bem, neste segundo volume ele descreve essa nova e não menos fascinante aventura, interrompida nas linhas anteriores por razões puramente técnicas: era tanta a quantidade
de documentação que se tornou necessário dividi-la, pelo menos, em duas partes.
Feito este esclarecimento e antes de passar à transcrição dessa segunda fase do diário, entendo também ser meu dever esclarecer mais dois pontos.

Primeiro: não seria honesto animar o leitor a continuar a leitura do presente trabalho sem antes ter tido a oportunidade de ler o volume anterior.
Eu explico. Dado que o que aqui se vai expor faz parte de um todo o diário do Major -, com um enredo que, em grande parte, depende do já exposto nesse primeiro
volume, o leitor
que enfrentasse este volume ignorando o já publicado situar-se-ia sem querer em inferioridade de condições para compreender muitos dos pormenores técnicos, situações,
objetivos e acontecimentos registrados na chamada Operação Cavalo de Tróia.
Tudo isso me obriga, em suma, a sugerir ao leitor que, se não conhecer a minha obra anterior, adie para depois a leitura do livro que tem na mão.
Segundo: dada a natureza dos fatos e das afirmações contidas nas páginas que constituem esta segunda parte do diário, atrevo-me a recomendar aos leitores cujos princípios
religiosos se encontram irremediavelmente cristalizados na mais pura ortodoxia que, do mesmo modo, renunciem à presente informação.
Apesar de tais acontecimentos e apreciações sobre a infância de Jesus de Nazaré bem como as aparições do Mestre da Galileia após a sua morte e ressurreição terem
sido tratados pelo autor do diário com absoluto respeito, algumas das revelações são na minha humilde opinião de tal magnitude que os espíritos pouco evoluídos
ou de visão estreita poder-se-ão sentir ofendidos ou, pelo menos, desorientados.
Em contrapartida, para aqueles que permanecem na difícil senda da busca da Verdade, as sucessivas descobertas que irão surgindo à sua frente estou firmemente convencido
contribuirão para enriquecer a sua alma e compreender melhor a figura, o contexto e a mensagem do Filho de Deus.

Estes, e não outros, foram e continuam a ser os meus objetivos ao escrever os dois livros.
Feitos estes esclarecimentos, entremos já plenamente nesta última parte do diário do Major.

O diário
(Segunda Parte)

Cinco horas e quarenta e três minutos.
Sessenta segundos depois da decolagem, o computador central - o nosso querido Pai Natal respondeu com a sua habitual eficácia e minuciosidade, estabilizando o
berço na cota prevista (oitocentos pés) para o imediato e delicado processo de inversão de massa da nave que deveria transportar-nos de volta ao nosso tempo: ao
século XX. Mais exatamente, a 12 de Fevereiro de 1973.
Eliseu e eu trocamos um olhar significativo. Absortos nos preparativos para a decolagem, o meu irmão naquela primeira grande viagem e eu, que escrevo estas linhas,
quase não tínhamos tido ocasião de comentar as minhas últimas e dilacerantes experiências ao pé da cruz e durante as tensas horas que precederam o amanhecer de domingo,
9 de Abril do ano 30.
Quando, finalmente, por volta das quatro horas, abordei o módulo, a minha expressão devia ser tão reveladora que Eliseu se manteve num respeitoso e prolongado silêncio.
E mais uma vez me senti aliviado e agradecido pela sua extrema delicadeza. Recordo-me de, enquanto me desenvencilhava das roupas suadas e já malcheirosas que me
tinham ajudado no meu papel de mercador grego, o meu companheiro, por iniciativa própria, ter ouvido a gravação efetuada durante a chamada última ceia. (Como já
indiquei noutro ponto deste diário, eu ainda não tivera a oportunidade de a ouvir) E ambos, em silêncio, até às cinco horas, nos deixámos arrastar pela voz do Rabi
da Galileia: doce, firme e magnificente.
Conhecendo como conhecíamos toda a dimensão da tragédia que acabara de acontecer, os conselhos e as recomendações de Jesus aos seus íntimos surgiram perante mim
com uma força e luminosidade indescritíveis. Como creio que já indiquei na devida altura, excetuando João, o Evangelista, os outros escritores sagrados não conseguiram
transcrever com fidelidade nem os fatos nem o sentido daquela memorável ceia de despedida. Devo, porém, dominar-me. É necessário que eu saiba controlar as minhas
emoções e a torrente de acontecimentos que se amontoam no meu cérebro e, em prol de uma maior clareza, prosseguir o meu relato sob a mais estrita ordem cronológica.
Espero que aqueles que chegarem a ler o meu legado saibam compreender e perdoar as minhas contínuas debilidades e faltas de jeito. A partir das cinco horas a quarenta
e dois minutos do alvorecer Eliseu e eu, enfiados nos fatos espaciais regulamentares, entregámo-nos de corpo e alma a uma exaustiva revisão dos equipamentos, prestando
uma especialíssima atenção à fase crítica da descolagem.
Embora, como já frisei na devida altura, os técnicos do projeto tivessem programado a descolagem, o posterior estacionário da nave e o retorno dos eixos do tempo
dos swivels de forma automática, uma pungente e lógica dúvida mantinha-nos tensos. E se falhasse qualquer uma das delicadas manobras já citadas? O que seria de nós?
Provavelmente, foi esta passageira mas crescente excitação que, naqueles momentos, me libertou da profunda angústia que se aninhara no meu coração, provocada pelos
onze dias agitados que vivera no Israel do ano 30.
Uma angústia adianto já que me marcaria para sempre.

Cinco horas e quarenta e um minutos.
O computador central, de acordo com o programado, acionou eletronicamente o dispositivo de incandescência da membrana exterior da nave, eliminando assim qualquer
germe vivo que pudesse ter aderido à blindagem do berço.
Esta precaução como já expliquei era de vital importância para evitar a posterior inversão tridimensional dos referidos germes num outro tempo ou enquadramento
tridimensional. As consequências de uma entrada involuntária de tais organismos num outro mundo poderiam ter sido nefastas.
Cinco horas. Quarenta e um minutos. Trinta segundos.
O meu companheiro e eu atentos ao Pai Natal captámos a rápida aceleração das nossas respectivas frequências cardíacas: cento e vinte pulsações!. Cento e trinta!.
Estávamos a quinze segundos da ignição. Cinco horas.
Quarenta e dois minutos.
Oh, meu Deus!
As nossas frequências cardíacas alcançaram o limiar das 150 pulsações. O motor principal não respondia.
Cinco horas. Quarenta e dois minutos. Três segundos.
Vamos!. Vamos! Estamos prontos!
Eliseu e eu, com a voz entrecortada, começámos a animar o preguiçoso J85. Foram os segundos mais longos e dramáticos daquela última fase da operação.
Cinco horas. Quarenta e dois minutos. Seis segundos.
Uma vibração familiar sacudiu o módulo, ao mesmo tempo que o meu irmão e eu contínhamos a respiração. Por fim, a turbina a jato CF-200-2V foi ativada, elevando a
nave com um impulso de mil quinhentos e oitenta e cinco quilos. Cinco horas.
Quarenta e três minutos.

Sessenta e seis segundos depois da decolagem, uma vez alcançados os oitocentos pés de altitude, os foguetes auxiliares, também de peróxido de hidrogénio e com quinhentas
libras de potência máxima cada um, estabilizaram o módulo, controlando a sua posição. Embora a primeira fase de retorno - além dos angustiantes seis segundos de
atraso na ignição do motor principal se tivesse concluído sem grandes dificuldades, Eliseu e eu observámos com alguma preocupação que os tanques de combustível
fixavam o tempo máximo de funcionamento, a partir do início do estacionário, em novecentos e dez segundos.
Era preciso agir com extrema diligência.
E o Pai Natal consciente, como nós, da perigosa escassez das nossas reservas de peróxido de hidrogénio, não se demorou na execução da seguinte e não menos delicada
operação. Às cinco horas e quarenta e cinco minutos daquele 9 de Abril do ano 30, quando a orla superior do Sol já despontava por detrás da cinzenta linha do horizonte
de Moab, na costa oriental do mar Morto, o nosso fiel computador central, que continuava a manter a incandescência da membrana exterior, acionou o sistema de inversão
axial das partículas subatómicas da totalidade do berço, fazendo recuar os eixos do tempo dos swivels aos ângulos previamente estabelecidos pelos homens do Cavalo
de Tróia, que correspondiam às sete horas do dia doze de Fevereiro de 1973.
No total, um salto de 709 612 dias, uma hora e quinze minutos. É de supor que, tal como acontecera na noite daquele histórico 30 de Janeiro de 1973, data do início
da nossa primeira viagem no tempo, uma fortíssima explosão se fizesse sentir no cimo do monte das Oliveiras no momento exato da inversão de massa. Mas, obviamente,
desta vez não houve forma de confirmar este fato. Instantes após a substituição do nosso primitivo sistema referencial de três dimensões pelo novo tempo pelo nosso
verdadeiro tempo uma súbita claridade penetrou pelas escotilhas do módulo.
Eliseu e eu permanecíamos com o coração apertado e os olhos fixos nos dois pares de monitores dos cronómetros moniónicos, diretamente ligados graças ao Pai Natal
ao mecanismo de inversão axial dos swivels. A dança vertiginosa dos dígitos concluía com uma sequência que nos devolveu a calma e que, por sua vez, explicava aquela
diferença substancial de luminosidade entre o momento da nossa partida do monte das Oliveiras e a que agora inundava a nave.
(O nascer do Sol naquele nove de Abril do ano 30 da nossa Era, tinha ocorrido, como referi anteriormente, às cinco horas e quarenta e dois minutos. Agora mil novecentos
e quarenta e três anos depois -, a aurora dera-se às seis horas e vinte e quatro minutos. A nossa súbita aparição sobre a Jerusalém moderna foi portanto, calculámos,
trinta e seis minutos depois do nascer do Sol)
Antes de procedermos a uma comprovação visual e de acordo com o plano de voo foi preciso uma nova revisão dos sistemas que garantiam o estacionário do berço
e, muito em especial, do mecanismo de emissão de luz infravermelha, vital para a camuflagem da nave. Tudo parecia funcionar perfeitamente.
Durante o processo de inversão de massa, a pilha nuclear SNAP-IOA continuara a alimentar o motor principal, e tanto a nossa altitude como a posição no espaço não
tinham variado.
Curtiss e o resto da tripulação de Cavalo de Tróia deviam encontrar-se a oitocentos pés, tão ansiosos e expectantes como nós. Eliseu chamou a minha atenção para
o nível de combustível limitado a seiscentos segundos e assenti, tentando tranquilizar-me e tranquilizar o meu irmão com um leve sorriso. Ambos sabíamos que
não podíamos demorar a descida sobre a mesquita da Ascensão. O menor erro, a mais pequena dúvida ou qualquer variação que efectuássemos do estrito programa previsto
para a aterragem podia ser fatal.
Alguns segundos antes de fazermos a ligação à base em terra, digitámos novamente o computador central, solicitando informação sobre o grau de absorção das ondas
decimétricas
pela membrana exterior. Se esta falhasse, os radares militares israelitas não tardariam a detectar-nos.
O Pai Natal tranquilizou-nos. Para começar, supondo que uma estação de rastreio em especial a situada no monte Hérmon tivesse captado algo de anormal a oitocentos
pés sobre o monte das Oliveiras, o possível eco, por não ter retorno, teria sido identificado pelos operadores de radar como uma zona de silêncio, relativamente
habitual neste tipo de operações.
Não tínhamos tempo a perder. E, após uma rápida localização visual do octógono e dos hangares levantados no recinto interior da mesquita, Eliseu e eu iniciámos a
última fase do Programa Apolo XI. Visto que aqueles últimos minutos da grande viagem tornavam absolutamente necessária a comunicação por rádio entre o módulo e o
novo ponto de contacto, os homens de Cavalo de Tróia tinham inventado um código idêntico ao utilizado por Armstrong e Aldrin para contactar Houston no memorável
20 de Julho de 1969, quando o homem pôs o pé na Lua pela primeira vez. Desta forma, qualquer infiltração estranha ao projecto na banda de emissão= só serviria para
confundir o hipotético intruso. Uma vez introduzida a banda integrada S, Eliseu pegou no microfone e, sem conseguir disfarçar a sua emoção, perguntou:
- Aqui águia. Está alguém aí?.
Segundos depois, a voz de CAPCOM o suposto Houston retumbava nos nossos ouvidos e nos nossos corações porquê ocultá-lo?como a mais doce das melodias.

- Aqui Houston. Bem-vindos a casa. Estamos a receber-vos cinco por cinco.
Eliseu, responsável pelas comunicações, respirou fundo e, depois de comprovar de novo o nível do peróxido de hidrogénio, anunciou: - Roger, escuta. Estamos a oito
por cento de combustível. A advertência deve ter soado como um trovão entre os homens de Curtiss.
- Aqui CAPCOM. Entendi: oito por cento.
- Afirmativo respondeu Eliseu, adotando uma falsa tranquilidade. - Estamos prontos para aterrar. Câmbio. - Roger, entendido. Altitude: oitocentos pés. Podem ligar
o pára-brisas monitorizado 3.

* Naquela época, as ondas utilizadas habitualmente pelos radares militares de Israel oscilavam entre os 1347 e os 2402 megaciclos. (Nota do Major)

As comunicações entre o módulo e os equipamentos situados em terra tinham sido estabelecidas na chamada banda integrada S, que se encontra no setor das ondas de
rádio ultracurtas.
Abrangendo frequências desde 1550 até 5200 megaciclos, correspondentes a comprimentos de onda de 58 a 19 centímetros.
Por razões de segurança não estou autorizado a revelar a frequência específica utilizada neste caso. (N. Do M)

Este revolucionário sistema de navegação às cegas, que algum dia será largamente utilizado na aviação comercial, consiste, em síntese, num pára-brisas monitor no
qual são projectados todos os dados necessários para a aterragem, perfeitamente sobrepostos à paisagem ou a um desenho informático que reproduz fielmente o ponto
de aterragem. No nosso caso, Cavalo de Tróia desenhou um sistema modificado MLS O Pai Natal, que já considerávamos da família, respondeu à minha ordem desenhando
no monitor um túnel sintético e quadrangular em cujo centro estava igualmente digitalizada a imagem da nave. Agora tudo era apenas questão de dirigir a descida do
módulo pelo interior do túnel. O fundo deste túnel mais não era do que o reduzido hangar onde devíamos pousar o berço.
- Roger interveio Eliseu -, Águia a postos. Túnel no ecrã. - Aqui CAPCOM. Agora só têm de deixar-se conduzir pela mamã Curtiss. Câmbio.
- Aqui Águia. Lá vamos nós. Setecentos e cinquenta pés.
Oscilação nula e continuamos a descer. - Águia, muito bem.
Altitude: setecentos pés. Descendo a vinte e três pés por segundo. Podem reduzir para vinte? Câmbio.
- Roger, entendido. Reduzimos para vinte. Seiscentos e oitenta pés e vinte abaixo. Seiscentos e dez pés. Quinhentos e oitenta. Quinhentos e quarenta pés. A voz de
CAPCOM interveio subitamente, cortando Eliseu:
- Atenção, Águia!. Detectámos rajadas de vento a quinhentos pés. Quarenta e cinco graus e quinze nós.
- Repita, Houston.
Tanto Eliseu como eu sabíamos que, naquelas circunstâncias críticas, um dos piores contratempos podia ser justamente este. Uma rajada de vento de trinta quilómetros
por hora, como a anunciada pela estação em terra, era capaz de deslocar o frágil módulo, tirando-nos do túnel sintético que nos servia de guia electrónico. Se isso
chegasse a acontecer e não fôssemos suficientemente hábeis para fazer regressar a nave a tão particular túnel de descida, a aterragem podia fracassar.
- Repita Houston insistiu o meu companheiro.
- Aqui CAPCOM. Estamos a ler: vento a quinhentos.
Direção: quarenta e cinco graus e quinze.
- Aqui águia. Entendi quarenta e cinco graus e quinze nós.
- Afirmativo, Águia. Afirmativo. Reduzir ao máximo. Reduzir a nove e segurem-se com força até ter passado.
- Roger, Houston indicou Eliseu, fazendo-me sinal para que aumentasse a potência dos retrofoguetes auxiliares -, quinhentos e dez pés e descendo a nove. Quinhentos
pés.
Quatrocentos e oitenta pés e mantendo nove pés por segundo.
Tal como temíamos, as rajadas de vento noroeste fizeram oscilar o Hberço. E, apesar dos meus esforços para controlar

* (Microwave Landing System) que, localizado em terra, simplificava a operação de aterragem, projectando, para o módulo um sinal que o computador central descodificava
sob a forma de túnel sintético, com efeito de perspectiva.
Permitindo assim uma aproximação cómoda e automática.
Estruturalmente, um sistema deste tipo é formado por quatro elementos básicos: um gerador de símbolos (um tubo de raios catódis que visualiza as informações de pilotagem
recebidas do MLS); um sistema de focalização; um espelho plano que recebe as informações projetadas pelo sistema de focalização e as dirige para a óptica de colimação
e a própria óptica de colimação. (N do M)

Direção do vento: quarenta e cinco graus (Nordeste). com uma velocidade de vinte e cinco nós (cerca de trinta quilómetros por hora). (N. Do M)

os oito pequenos motores de posição, a imagem digitalizada do módulo acabou por atravessar as linhas amarelas que configuravam o túnel de descida, fazendo disparar
todos os alarmes acústicos e luminosos.
- Aqui Houston. Perda de contato com MLS. Desvio a duzentos e vinte e cinco graus. Calma, rapazes.
- Aqui Águia respondeu Eliseu, com os olhos fixos no párabrisas monitorizado, onde o módulo aparecia, de fato, desviado horizontalmente uns noventa pés. - Jasão
luta com essas malditas válvulas. Estamos estabilizados a quatrocentos e cinquenta pés.
- Roger, Águia. Escutamos. Câmbio.
- Aqui Águia. Motores na máxima potência. Inclinação do módulo trinta e três graus. Repito: estabilizados horizontalmente a quatrocentos e cinquenta pés e recuando
para MLS.
Quarenta pés atrás. Já estamos quase.
- Roger, Águia. - a voz de CAPCOM soou repousada, numa tentativa de acalmar os nossos ânimos. - Um pouco mais.
- CAPCOM, estamos a tentar mas este maldito vento, Inclinação trinta graus e continuamos a quatrocentos e cinquenta pés... Raios! Só faltava isto!...
- Aqui CAPCOM. O que é que está a acontecer agora? Câmbio.
Sujeitos a uma força máxima, os motores estavam a dar boa conta das reservas de peróxido de hidrogénio cada vez mais reduzidas. E nesse instante, quando a nave recuara
oitenta pés no seu voo horizontal, em busca do interior do túnel de descida, o nível de combustível reduzido a cinco por cento fez soar um novo alarme.
- CAPCOM, aqui águia. Temos luz quantitativa. Alarme m duzentos e um. Leitura de combustível: cinco por cento. Vamos ativar a última reserva. Câmbio.
- Roger, Águia. Autorizado tanques onze.
- Okay. Tanques onze.
- Águia, diz-me o combustível. Câmbio.
- Com a reserva, tempo máximo de funcionamento, cento e oitenta segundos. Que Deus nos ajude! Mas o módulo, obediente tinha vencido a força do vento, colocando-se
de novo no centro do túnel. E a voz de Houston soou cinco por cinco: - Aqui CAPCOM. Adiante, Águia.
Restabelecida a ligação MLS. Comece a descer.
- Roger, graças aos céus. Lá vamos de novo. Quatrocentos pés e continuamos a descer. Trezentos e setenta pés e descendo a nove pés por segundo. Inclinação nula ainda
que continue a oscilar.
- Roger. Parece que as coisas agora estão a ir bem.

Informação sobre o combustível. Câmbio.
* Como já descrevi anteriormente, o berço dispunha de oito pequenos motores -foguetes. Cada um deles era accionado por uma válvula selenóide individual com intervalos.
Como um avião pequeno, o piloto controlava o movimento de levantar e baixar por meio do movimento proa-popa e a oscilação pelo movimento direita-esquerda de uma
alavanca. O controlo da guinada e os referidos movimentos estavam ligados electricamente às válvulas. (N. Do M)

2 Tanques on: o módulo tinha praticamente esgotadas as reservas exteriores de combustível e procedeu à ignição dos tanques interiores. O volume total de peróxido
de hidrogénio era então de, apenas, sete por cento. (N. Do M)

- Okay, CAPCOM. Leio cento e vinte segundos e descendo para
- Aqui CAPCOM. Entendi cento e vinte segundos. Câmbio.
- Afirmativo. Altitude: duzentos e vinte pés e reduzimos a quatro e meio. Cento e sessenta pés e quatro pés e meio por segundo. - Okay, Águia. Vamos, mais um pouco.
Ó Mamã Curtiss está já a ouvir o seu assobio. Câmbio.
O controlo em terra referia-se ao ruído dos motores, amortecido pelos potentes silenciadores. Aqueles últimos metros foram para mim responsável pela aterragem
os mais ingratos e penosos. As rajadas de vento oscilando entre os quinze e vinte nós empurravam constantemente o berço contra as paredes do túnel, electrónico,
obrigando o computador central e eu próprio a uma contínua correção da trajetória.
Quando, por fim, Eliseu anunciou os últimos noventa pés, as minhas mãos e a minha testa estavam banhadas de abundante suor.
- CAPCOM. Aqui Águia. Descendo, descendo. Noventa pés de altitude. Já podemos ver a plataforma no interior do hangar.
Descemos para metade. Quarenta e cinco pés e mantendo os três pés por segundo. Câmbio. - Roger, Águia. Tudo em ordem. Qual é a leitura do combustível? - Aqui águia.
Tempo máximo de funcionamento: sessenta segundos. Quarenta pés.
Adiante, adiante. Trinta pés e descendo a três por segundo.
Parece que apanhamos alguma poeira. Para baixo metade.
Trinta segundos.
- Roger, Águia. Quase vos podemos tocar com a mão. Câmbio.
- Aqui Águia. Vinte pés. Quinze. Nove pés. Luz de contato.
Graças a Deus! Quando os apoios amortecedores de choque dos quatro pés do módulo estabeleceram contato com a plataforma da mamã Curtiss, o computador central desligou
automaticamente os motores. A leitura do tempo máximo de funcionamento deixou-nos sem fala: Dez segundos.
Eliseu suspirou, aliviado, ao mesmo tempo que esperava a ordem de desativação do escudo protetor de infravermelhos.
- Aqui CAPCOM. Bem-vindos. Registámos paragem de máquina. Câmbio.
- Okay, CAPCOM. Autorizados anulação ordem de subida? Câmbio.
- Afirmativo, águia. Proceder à desativação camuflagem radiação infravermelha e incandescência membrana exterior. Têm aqui um grupo de rapazes à beira do desmaio.
Respiramos de novo. Muito obrigado. Câmbio.
- Aqui Águia. Obrigado nós.
- CAPCOM. Estão bem? Câmbio.

* O arrefecimento da membrana que cobria a blindagem exterior do berço" - cuja espessura era de 00329 metros requeria, no mínimo, três minutos. Este revestimento
poroso da nave, de cerâmica, tinha um elevado ponto de fusão: 726064 graus centígrados, sendo o seu poder de emissão externa igualmente muito alto. A sua condutividade
térmica, em contrapartida, era muito baixa: 207113x106 Col/em/s/oC. (N. Do M)

- Perfeitamente. Vamos estar ocupados durante alguns minutos. E o silêncio reinou no interior do nosso querido berço, e apenas foi quebrado pelo crescente repicar
dos interruptores que iam sendo desligados.
Às sete horas e dezassete minutos daquele dia 12 de Fevereiro de 1973, ao abandonar o módulo, Eliseu e eu concluíamos assim a primeira e mais fascinante viagem jamais
feita antes por algum ser humano Que longe estávamos de imaginar que em breve muito antes do que alguém poderia supor o meu irmão e eu nos veríamos envolvidos
nu ma segunda e não menos incrível aventura!
Quando descemos do módulo, uma salva de aplausos devolveu-nos à realidade. Os técnicos da Operação Cavalo de Tróia, com o general Curtiss à frente, lançaram-se literalmente
para cima de nós, abraçando -nos. Durante alguns minutos, tal como acontecera onze dias antes por ocasião da nossa partida, formou-se um nó em todas as gargantas.
E os olhos do veterano Curtiss apesar de todo o seu esforço, humedeceram-se. Mas aquela alegria duraria pouco.
Nessa mesma manhã, enquanto os engenheiros se dedicavam à vertiginosa desmontagem do berço, Curtiss e os diretores do Projecto, sentados diante das respectivas e
fumegantes chávenas de café, estavam prestes a receber duas notícias que mudariam o rumo da operação.
De acordo com o estabelecido, uma vez concluída a missão, o trabalho dos homens de Curtiss deveria centrar-se em dois objetivos fundamentais: a já referida desmontagem
do módulo, permitindo a entrada dos técnicos israelitas na estação receptora de fotografias procedentes do satélite artificial Big Bird e, juntamente com o berço
e os instrumentos utilizados na grande viagem, o nosso regresso imediato aos Estados Unidos.
Concretamente, à Base Edwards, onde, sempre em segredo, tinha sido prevista uma análise exaustiva da informação e do material trazido pelos exploradores. A primeira
notícia a minha notificação ao chefe do projecto sobre a perda do microfone, camuflado na noite de Quinta-Feira Santa na base do candeeiro que iluminava a cháma
da última ceia, no andar superior da casa de Elias Marcos caiu como um balde de água fria.
Umà das regras de ouro da operação estabelecia precisamente que nenhum dos exploradores de outro tempo podia regressar com objectos, manuscritos ou materiais próprios
da tal época. Isto era sagrado. E, da mesma forma, os membros de cada expedição estavam obrigados a zelar pelos seus próprios instrumentos e equipamentos, não permitindo,
sob qualquer circunstância, que caíssem em mãos alheias ou, simplesmente se perdessem.
A rigidez do nosso código moral chegava a tais extremos que, em caso de máxima emergência, qualquer um dos dispositivos tecnológicos manipulados na missão que ficasse
gravemente comprometido devia ser destruído. Só as peças
ou objectos que se pudessem associar ao momento histórico
que motivou a exploração como era o caso das esmeraldas
por mim oferecidas a Pôncio Pilatos e ao comandante da
Fortaleza Antónia Civilis, ou o ouro destinado à obtenção de
moeda em circulação legal na Palestina do ano 30 estavam
autorizados e podiam ser incorporados no fluxo rotineiro da
referida sociedade.
Daí que o extravio involuntário do diminuto e sofisticado
microfone desenhado e construído pelos especialistas da
ATT (American Telecone and Telegraph) para esta missão
perturbasse o ânimo de Curtiss e do resto da equipa.
E, embora compreendessem que as consequências do triplo
sismo registado nas primeiras horas da tarde de sexta-feira,
7 de Abril do mesmo ano 30, em Jerusalém, eram totalmente
imprevisíveis para mim e para qualquer outro explorador, só
a ideia de ter lá deixado uma peça tão específica do século

xx num contexto histórico-geográfico remoto e alheio a tal
tecnologia, começou a obcecar o director da operação.
(Sinceramente, agora dou graças aos céus pelo meu erro
involuntário e, sobretudo, pela ideia obsessiva que então
brotou no cérebro do general) E foi ao longo daquele
primeiro exame superficial da nossa exploração e, quase sem
querer e como consequência do comentário acerca do triplo
abalo sísmico, alguns directores do projecto se mostraram
especialmente interessados na natureza de tais tremores.
Logicamente, enquanto sismogramas ou registos
permanentes instalados no berço não fossem enviados para
os Estados Unidos e decifrados por pessoal qualificado, as
nossas apreciações tinham o valor de simples hipóteses. No
entanto, havia algo que estava claro naqueles primeiros
momentos: o terceiro estremecimento do módulo quando os
sismógrafos já se tinham detido só poderia ter sido o
efeito da presença de uma onda expansiva. Esta firme
convicção de Eliseu, que sofrera os dramáticos sessenta e
três segundos de duração estimada de ambos os sismos a
bordo do módulo, foi confirmada pela inconfundível presença
nos sismogramas das ondas P, características das explosões
nucleares subterrâneas 1.
A surpresa e o embaraço dos homens de Cavalo de Tróia,
como disse, foram tais que, nesse mesmo instante, Curtiss
saiu do hangar onde fora montada a estação de recepção de
imagens e que servia de quartel-general improvisado,
regressando poucos minutos depois com os registos
dialógicos e digitais. Estes últimos só podiam ser
descodificados por conputador.
Por isso Curtiss, ajudado pelos directores e pelo próprio
Eliseu, examinou as oscilações registadas no papel térmico.
Lá estava, efectivamente, a série de ziguezagues provocada
pelas mencionadas ondas P ou primárias. No segundo abalo
avaliado depois pelos especialistas como tendo uma
magnitude situada entre 60 e 69 -, este grau de ondas

aparecia em primeiro lugar e com extraordinária clareza.
Curtiss, encerrado num profundo mutismo, deixou-se cair na
cadeira. Suponho que os seus pensamentos eram muito
semelhantes aos do resto da equipa: uma explosão nuclear
subterrânea em pleno século I? E justamente no momento
crítico em que morria o Filho do Homem? Como entender
aquele absurdo?
* energia libertada num terramoto propaga-se na rocha sob a forma de ondas.
Embora os seus padrões sejam muito complexos, constantemente modificados
pelas variedades de reflexão, difracção, refracção e dispersão das ondas,
internacionalmente foram divididas em três grupos: P, S e L. As P" ou primárias,
de impulsão, compressão ou longitudinais, propagam-se no interior da Terra a
uma velocidade média entre 6 e 113 quilómetros por segundo. Sendo as
primeiras a chegar à estação de registo. Nas explosões nucleares subterrâneas,
este tipo de ondas P, é característico e muito forte, comparado com as L ou
superficiais. (N. Do M)
- A não ser que estejamos perante outro tipo de fenómeno.
Murmurou o general, quase para si mesmo.
- De qualquer forma interveio acertadamente outro
membro do Programa -, é preciso aguardar os resultados
definitivos.
Todos estivemos de acordo. No entanto, o velho general,
em cuja mente rondava já uma nova e audaciosa ideia,
sugeriu que tais análises fossem feitas sem demora.
Agora, com o passar do tempo, não parece tão estranho ou
casual que nesse momento em que Curtiss ia guardar os
preciosos sismogramas, decididamente disposto a enviá-los
para os Estados Unidos no mesmo dia 12 de Fevereiro de
1973, um dos seus ajudantes irrompesse no hangar para
entregar ao general um sobrescrito fechado. Quando pegou
nele, todos pudemos distinguir no verso o emblema da
embaixada do nosso país em Israel.
Após alguns segundos de leitura atenta, o seu rosto ficou
sombrio e os seus olhos de falcão acabaram por se fixar nos
meus, passando depois a fulminar os de Eliseu. O meu irmão
e eu entreolhámo-nos, sem compreendermos. Não houve

tempo para mais nada. Curtiss guardou o documento e
levantando-se pediu licença para se ausentar.
Que tinha acontecido? A que se devia aquela alteração no
semblante do general? Por que motivos o seu olhar se fixara
em nós?
Aquela carta, procedente da embaixada dos Estados
Unidos em Israel, continha a segunda notícia que, como
observei anteriormente, contribuiria e de que forma! - para
a alteração dos planos da aparentemente concluída
Operação Cavalo de Tróia.
Alguns dias mais tarde. Agora ao redigir este diário,
estremeço ao pensar no que podia ter acontecido se essas
análises médicas tivessem sido feitas na data inicialmente
prevista. Mas o destino, uma vez mais, tinha outros planos.
Foi então, ao ficar sozinho no meu quarto do Hotel Ramada
Shalom, a discreta zona de Beit Vegan, que toda a angústia
acumulada no meu coração começou a aflorar, fazendo-me
mergulhar num confuso mar de sensações, recordações e
sentimentos. Não podia enganar-me a mim mesmo. Apesar do
meu cepticismo inicial e de todo o meu treino, o meu
contacto com Jesus de Nazaré e,sobretudo, a sua terrível
morte, tinham-me marcado para sempre.
Eu sabia que nada na minha vida ficaria igual depois
daquele encontro com o Mestre da Galileia. A minha
condição humana, as minhas debilidades e os meus múltiplos
erros não iriam mudar. No entanto, a minha forma de ver a
vida e os meus sentimentos mais íntimos já não eram como
dantes.
Que se passava comigo? Porque se sentia a minha alma
tão abatida? Porque me importunavam a figura, as palavras e
até os silêncios daquele Homem? Eu era somente um
explorador. Um simples observador. Porque pareciam
fraquejar toda a minha inteligência e pragmatismo? Durante
várias horas, no silêncio do meu quarto, procurei uma

solução. Tentei chegar a conclusões. Foi inútil.
No centro da minha existência, e para sempre, instalara-se
um nome: Jesus de Nazaré. E ao descobri-lo chorei
desesperadamente. Chorei como nunca tinha chorado antes:
com medo, alegria, raiva e a amargura daquele que sabe que
nunca mais poderá voltar a ter uma experiência tão singular.
Uma vez mais eu me enganava.
Nas primeiras horas da tarde graças aos céus um
telefonema libertou-me de tão sombrios e atormentados
pensamentos. Era Curtiss. 0 tom da sua voz tranquilizou-me.
Queria jantar connosco.
E às dezanove horas e trinta minutos um táxi parava em
frente do restaurante Shahrazad na estrada de Jerusalém
para Belém, muito perto do famoso túmulo de Raquel. Curtiss
apresentou-nos ao proprietário, Michael Klair, um árabe tão
discreto quanto excelente cozinheiro. O general já tinha
provado as especialidades da casa e desejava compartilhar
com Eliseu e comigo umas horas de sossegado e relaxante
convívio.
Pouco a pouco iríamos descobrindo que eram outras as
intenções do chefe do Projecto.
Enquanto saboreávamos os primeiros pratos à base de
saladas árabe e turca -, a velha raposa mostrou-se
interessada na nossa saúde, insistindo, o que era suspeito
em aspectos e pormenores muito concretos. Mas, nem Eliseu
nem eu tínhamos notado nos nossos respectivos organismos
alterações semelhantes às insinuadas por Curtiss. Era a
segunda vez que o veterano oficial, com as suas veladas
interrogações, deixava entrever que aquele salto no tempo
talvez provocasse sérios transtornos psíquicos ou fisiológicos.
Desta vez não pude ou não soube conter-me.
E supliquei-lhe abertamente que falasse com clareza. Que
estava ele a ocultar? Que espécie de repercussões podia ter
a nossa grande viagem? Mas o general, arrependendo-se do

passo dado, adoptou um tom falsamente jovial, pedindo-nos
que desculpássemos aquele enorme desmancha-prazeres. A
operação segundo as suas palavras -
* Aquela segunda-feira, 12 de Fevereiro, foi especialmente
intensa Mas tentarei organizar as minhas lembranças e
sensações.
Nessa mesma manhã, uma vez interrompida a reunião com
o general. Os directores do Programa consideraram que a
nossa presença na mesquita da Ascensão já não era
necessária e que, em boa lógica, depois de efectuados os
obrigatórios e rotineiros exames médicos, podíamos dispor
do resto do dia como muito bem entendêssemos.
Se tudo corresse como até àquele momento, na quintafeira,
15, ou o mais tardar no dia 16 desse mês de Fevereiro,
o módulo e os equipamentos auxiliares encontrar-se-iam
totalmente embalados e prontos para serem transferidos
para o coração do deserto de Mojave. Nós, e grande parte
dos sessenta e um integrantes do Projecto, viajaríamos com o
material que, supostamente, tinha servido para instalar e pôr
em funcionamento a estação receptora de fotografias. Os
Israelitas que continuavam a vigiar o exterior do octógono,
não se mostravam nada inquietos ou nervosos.
Tudo, enfim parecia decorrer na mais perfeita
tranquilidade.
Os check-ups médicos, não muito rigorosos dada a
precaridade das instalações, quase não chamaram a atenção
dos médicos. Eu acusava um grau de esgotamento
ligeiramente superior ao de Eliseu, mas dentro dos limites
previsíveis numa operação daquela natureza. E, embora o
meu aspecto físico não fosse nada animador fruto sem
dúvida, da tensão e das vigílias -, os especialistas
despediram-se de mim com um grande sorriso.
Na realidade, segundo o programado por Cavalo de Tróia,
os exames médicos em profundidade só teriam lugar na Base

Edwards, tinha sido um êxito e o próprio doutor Kissinger,
então conselheiro do presidente Nixon, lhe telefonara
mostrando interesse pelo Projecto e dando-lhe parabéns
pelos resultados. Esse foi um novo erro do nosso bom amigo
Kissinger? - encurralou-o Eliseu com o seu proverbial
descaramento. - Pelo que sei ele foi para Hanói no dia 22 de
dez.
Curtiss hesitou.
- Diga-nos, general pressionou o meu companheiro o
que que está a acontecer? Que relação existe entre esse
telefonema e a carta que o senhor recebeu ainda esta
manhã? Antes que o chefe do Programa, todo atrapalhado,
pudesse reagir, apoiei as perguntas de Eliseu com um
comentário que até a mim I surpreendeu:
- Olhe, general, além de contar com a nossa absoluta
discrição, de saber que, tanto o meu companheiro como eu,
estamos dispostos a regressar.
Eliseu olhou para mim fixamente, adivinhando as minhas
intenções . - Não me pergunte como, mas desde a reunião
desta manhã no hangar que sei que o senhor acalenta uma
ideia. Uma ideia insisti com toda a convicção de que fui
capaz que aplaudimos e fazem nossa. É preciso voltar e
recuperar esse microfone.
Curtiss, gratamente surpreendido, limitou-se a esboçar um
amplo so riso, concordando com um movimento de cabeça.
- E agora, por favor, responda às perguntas do meu
companheiro: O que é que está a acontecer?
- Está bem suspirou o general -, talvez a vossa intuição
facilite as coisas. Eu explico. Durante o desenvolvimento da
operação aconteceram certos factos, digamos, preocupantes.
Nos primeiros dias de Janeiro, como devem recordar, vi-me
obrigado a ir a Washington em busca de uma solução para a
difícil situação criada pela DIA 1 e pelo então director da CIA
Helms.

Os serviços secretos tinham detectado a existência do
nosso Projecto e exigiam, a todo o custo, que os mantivésse
mos informados. Por sugestão expressa do doutor Kissinger,
o próprio Nixon aconselhou a demissão de Helms, que foi
substituído por James Schlesinger. Este homem de confiança
de Nixon tomou posse da direc ção da CIA no passado dia
seis.
Justamente quando vocês se encontravam do outro lado.
Pois bem, Schlesinger, que vem do Gabinete de Orçamentos
do Presidente Nixon, decidiu agilizar a maldita Agência
Central de Informação, multiplicando os seus homens e meios
no Médio Oriente 2.
- Não vemos que relação.
O general pediu-nos que tivéssemos calma.
- Infelizmente, existe prosseguiu num tom grave. -
* DIA: Agência de Informação da Defesa. (Nota do Tradutor) 2 Durante a
Guerra do Vietname, entre 1967 e 1969 o Governo dos Estados Unidos dedicou
seis mil milhões de dólares anuais a actividades de espionagem, empregando
cento e cinquenta mil pessoas em tais tarefas. A CIA, neste caso, teve o maior
quinhão. De facto, a partir da tomada de posse de Schlesinger, a CIA desviou a
sua acção do Sudeste Asiático, passando a considerar o Médio Oriente como a
área geográfica do próximo campo de fricção dos Estados Unidos. (N. Do M)

Schelesinger, homem frio e astuto. Para começar, pediu
calma a esse ninho de incompetentes, e a CIA,
aparentemente, parece ter-se esquecido de nós. A realidade
é outra. Desde há umas horas que
duplicou o número de agentes ao serviço dessa ratazana,
tanto em Israel e Amã como em Saidan. Esta manhã, como
sabem, recebi, através do nosso embaixador, um comunicado
urgente.
Devia apresentar-me imediatamente na sede da
embaixada. Lá, para minha surpresa, puseram-me em
contacto com Kissinger.
Justamente para hoje, doze de Fevereiro, e como medida
Complementar de distracção que contribuísse para um retorno
mais confortável e seguro do módulo, Kissinger tinha
orquestrado a tão esperada troca de prisioneiros da guerra
do Vietname.
E assim foi. Durante horas, a atenção mundial esteve
concentrada em três locais diferentes e foram libertados
cento e quinze norte-americanos. O doutor Kissinger parte
esta mesma noite da Base Clark, nas Filipinas, rumo a
Washington. Antes, porém, amanhã mesmo, para ser mais
exacto, fará escala em Atenas. E ali terei com ele uma
entrevista que, não vos escondo, poderá ser decisiva.
Enquanto Curtiss bebia a sua segunda taça de vinho do
Hébron, aproveitei para lhe fazer umas perguntas sobre algo
que eu não conseguia compreender.
- Porque é que o senhor, meu general, diz que o cerco da
CIA não é o pior?
- A minha conversa telefónica foi breve. Depois de voltar de
Atenas talvez possa responder a essa pergunta com precisão.
No entanto, a julgar pelo que insinuou o conselheiro
presidencial, estou realmente autorizado a comunicar-lhes
que a estação receptora de imagens do monte das Oliveiras
se encontra gravemente ameaçada.

O general adiantou-se aos nossos pensamentos e
acrescentou:
- Ameaçada porquê e por quem? Só lhes digo uma coisa: o
tema é suficientemente sério e urgente para que Kissinger,
que deveria permanecer quatro dias em Hanói, antecipasse o
seu regresso aos Estados Unidos.
- O Governo de Golda Meir sabe isso?
- Ignoro-o respondeu Curtiss com um gesto de impotência.
- Essa será outra das questões a tratar em Atenas. Longe de
nos acalmarem, as revelações do director do Projecto
acrescentaram novas dúvidas aos nossos corações. Que tipo
de ameaça pairava sobre a estação receptora de imagens do
Big Bird? Mas, sobretudo, como conjugar aquele marasmo de
intrigas com a ideia, implicitamente aceite pelo general, de
regressar ao tempo de Cristo?
Naquela madrugada, enquanto o acompanhávamos ao
aeroporto internacional Ben Gurion, em Lod, uma sensação
muito familiar me percorreu o ventre. Era o prelúdio quase
me atreveria a afirmar que era um aviso de uma iminente
cadeia de acontecimentos.
Curtiss, com a sua proverbial prudência, escolheu um voo
regular da companhia judaica El Al para voltar à Grécia. E
antes de partir, levado quem sabe se por uma força oculta ou
misteriosa, deixou no ar um pedido que a mim,
pessoalmente, me fez alimentar certas esperanças. - Não sei
se deva. - sussurrou, detendo-se diante da pequena escultura
erguida em memória do piloto Dan Heymann -, mas mesmo
que seja só por uma vez na minha vida, quero seguir a minha
intuição.
Acariciou a delicada estatueta que representava um ser
humano com asas, ligeiramente inclinado para trás e em
atitude de levantar voo, comovido, sem dúvida, perante o
curioso encontro com uma imagem tão próxima dos nossos
mais íntimos desejos.

-. Se não acontecer um milagre acrescentou o nosso
regresso a Edwards pode atrasar-se indefinidamente.
Aceitando em princípio tal circunstância e contando com a
vossa absoluta discrição, posso pedir-vos uma coisa?.
Aquela inegável demonstração de confiança encheu-nos de
satisfação E, como um só homem, incentivámo-lo a continuar.
- Quero que façam um plano de trabalho. - o general
parecia arrepender-se daquela decisão espontânea, mas,
após alguns segundos de ansioso silêncio, concluiu: - para a
recuperação desse microfone. É claro que tudo isto é tão
provisório como confidencial. Ah, e esqueçam -se da fase de
lançamento! Quero unicamente sublinhou com ênfa se as
linhas mestras de uma possível segunda exploração. Boa
sorte! Ver-nos-emos quando eu voltar.
Mudos e imóveis como estátuas, vimos desaparecer aquele
homem imprevisível. Já não havia tempo para lhe fazermos
qualquer das muitas perguntas que começavam a brotar nos
nossos desconcertados cérebros. A viagem de volta a
Jerusalém foi muito significativa. Nenhum de nós pronunciou
qualquer palavra. No entanto os nossos pensamentos assim
mo confirmaria Eliseu nessa mesma manhã do dia 13 de
Fevereiro - giraram em torno da mesma preocupação: a
incrível possibilidade de uma segunda grande viagem.
Procurando acalmar os nossos próprios ânimos, concedemonos
um tempo de repouso. Às treze horas voltaríamos a
reunir-nos e trocaríamos impressões. Pretensão inútil. Meia
hora depois de me ter metido na cama, voltei a vestir-me,
presa de uma crescente excitação, e fui bater à porta do
quarto do meu irmão. Eliseu, tão alterado como eu, nem
sequer tinha tentado adormecer. Naquele momento não
conseguia compreender por que motivo o meu organismo
depois de mais de quarenta e oito horas de vigilia não
acusava qualquer cansaço.
O facto é que, com um entusiasmo febril nos embrenhámos

na elaboração de uma série de possíveis planos de trabalho.
Ao fim de duas horas intensas de trabalho acabámos por
claudicar. Apesar da infinidade de parâmetros manipulados,
os esquemas e rascunhos chocavam-se sempre com duas
incógnitas fundamentais. Por um lado, de quanto tempo real
iríamos dispor na hipótese de que a segunda exploração
fosse, de facto executada? Por outro, quais deveriam ser os
pontos de lançamento e de contacto? Sem esta informação
prévia, as nossas ideias e a nossa boa vontade eram quase
estéreis.
- Além disso lembrou Eliseu com razão -, porquê forjarmos
esperanças quando não há nenhuma certeza? Seria melhor
esquecermos este assunto.
Permaneci em silêncio durante algum tempo analisando a
lógica esmagadora do meu companheiro. Mas graças a Deus,
acabei por me revelar contra o senso comum, animando Eliseu
a prosseguir naquele aparente absurdo.
- Se nós fiz-lhe ver com todo o meu entusiasmo -, que
vivemos uma experiência tão extraordinária, não
conseguirmos avivar o desejo de Curtiss, quem é que tu
pensas que estará em condições de o fazer?
E, após uma pausa estudada, colocando as minhas mãos
sobre os seus ombros e encarando-o fixamente, acrescentei:
- Temos de conseguir. Eu quero, preciso de voltar.
Um calafrio percorreu-me o corpo, ao aperceber-me de que
imitara inconscientemente uma das atitudes de Jesus de
Nazaré quando falava ou se dirigia a alguém que apreciava.
Eliseu deve ter reparado e, pela primeira vez, abriu o seu
coração, confessando-me uma coisa em que eu não tinha
reparado durante a nossa permanência na Palestina do ano
30. - Sim, essa é também a minha obsessão. E não te
esqueças de que eu não tive a oportunidade de o ver.
Fiquei paralisado e, ao mesmo tempo, humilhado pelo meu
evidente egoísmo. Durante os onze dias de exploração, o

meu fiel e querido companheiro não tinha, de facto,
abandonado o módulo um só instante. A partir daquela
inesperada confissão, uma ideia louca começou a amadurecer
no meu coração.
Mas teremos tempo de falar sobre ela. O entusiasmo,
finalmente, surgiu de novo em Eliseu, e, ultrapassando as
dificuldades já mencionadas, concentrámo-nos no único plano
aparentemente viável. Dado que o objectivo básico desta
segunda exploração era a recuperação da peça perdida
esse foi, pelo menos, o nosso ponto de vista inicial -, o novo
salto no tempo deveria situar-se, necessariamente, nas horas
mais próximas do dia 6 de Abril, Quinta-Feira Santa.
Contudo, ao fixar o instante preciso para a inversão de
massa, ambos estivemos de acordo que seria muito mais
prático e interessante retomar a exploração nas primeiras
horas do amanhecer de domingo, 9 de Abril do ano 30. Além
disso, nem ele nem eu nos sentíamos com forças para reviver
os amargos dias da Paixão e Morte do Filho do Homem.
Depois de um estudo pormenorizado, concordámos,
portanto, que o salto deveria acontecer por volta das três
horas da madrugada do domingo da Ressurreição e, se
possível, localizar o ponto de contacto da nave nas
coordenadas utilizadas na missão anterior. Isto é, na cota
máxima do monte das Oliveiras.
Isso facilitaria um rápido acesso ao lugar onde supúnhamos
estar o candeeiro: um dos bairros de artesãos talvez na
cidade alta de Jerusalém. Depois, de acordo com o tempo
estipulado para a missão, havia a possibilidade de
investigar outro fascinante e obscuro capítulo da vida de
Cristo: as suas aparições depois de morto e ressuscitado.
Aquele dia de trabalho e o seguinte foram decisivos. Muito
mais do que poderíamos imaginar então.
Absortos na preparação pormenorizada do audacioso
projecto, do equipamento e de uma infinidade de

pormenores técnicos necessários, quase nem tivemos
consciência das horas que se passaram.
E finalmente chegou o dia 15 de Fevereiro.
Naquela manhã de quinta-feira, uma chamada do recepcionista
do Ramada Shalom precipitaria os acontecimentos.
Alguns minutos mais tarde, às dez horas, um veículo oficial da
Embaixada dos Estados Unidos deixava-nos defronte ao
número cinquenta e três da Rua Rabiah Adawieh, a trinta
passos da mesquita da Ascensão.
Ao sairmos do carro um grande aparato de segurança,
montado pelo exército israelita, responsável, como já referi,
pela vigilância do exterior
da praceta onde se encontrava o octógono e os improvisados
hangares, chamou-nos a atenção. Aquele súbito reforço
do dispositivo de cerco do nosso quartel-general alarmounos.
Alguma coisa grave devia estar a acontecer para que em
questão de horas nós tínhamos abandonado o recinto na
manhã de segunda-feira o número de soldados tivesse
triplicado. Por um momento, enquanto atravessávamos os
controlos, cheguei a pensar no pior: teriam os Israelitas
descoberto a existência doberço?
Logo recuperámos o ânimo quando, ao subirmos os oito
degraus de pedra que conduziam à antecâmara do templo,
vislumbrámos Curtiss junto à porta de acesso. Tinha um ar
abatido, como se não tivesse dormido desde o nosso último
encontro em Lod. E assim era. Enquanto percorríamos os doze
metros que separavam a referida porta do centro da praceta,
confessou-nos que dada a gravidade da situação
regressara de Atenas na mesma noite de segunda-feira, 12
de Fevereiro.
Eliseu e eu trocámos um olhar de dúvida. Mas o general.
Com voz cansada, pediu para entrarmos com ele no hangar
onde acontecera a primeira e não concluída reunião. Ali,

entre os sofisticados painéis Thompsom-CSF, destinados à
recepção de imagens do Big Bird, aguardavam os directores
do Programa, silenciosos e expectantes.
Quando nos sentámos à volta da pequena mesa central,
ninguém fez qualquer comentário. Todos os olhares estavam
fixos em Curtiss.
- Bem, meus senhores decidiu-se ele por fim. Depois de
tirar uma pequena pasta de pele negra de uma malinha que
colocara à sua frente e que, se não me falhava a memória,
tinha sido a única bagagem do seu último voo à Grécia -,
imagino que devem estar a fazer algumas perguntas a vós
próprios. Vou tentar ir por partes.
E, sem pressa, reviu uma série de notas manuscritas. Ao
levantar de novo os olhos. Curtiss captou de imediato a
crescente inquietação geral.
Forçando um sorriso, exclamou:
- Não se assustem! O que viram lá fora o seu dedo
indicador esquerdo apontou para o exterior do octógono
não tem nada a ver com os reais objectivos do Programa.
Pelo menos, é o que eu acho.
E, voltando aos seus documentos, fez uma nova e
desesperante pausa.
- Não importa como prosseguiu finalmente -, mas o caso é
que chegou à Agência Central de Informação e Segurança de
Israel, o Mossad, uma informação alarmante: o movimento
guerrilheiro palestiniano tem conhecimento da operação que
estamos a levar a cabo juntamente com o Governo de Golda
Meir. Refiro-me à instalação da estação receptora de
imagens via satélite.
Os rostos de todos os presentes reflectiram uma extrema
gravidade.
Os serviços secretos militares de Israel, em especial a
partir da Guerra dos Seis Dias, em 1967, eram considerados

como os mais eficientes e desenvolvidos do Mundo,
sobretudo em assuntos relacionados com o Médio Oriente.
Nenhum dos assistentes punha em dúvida tal revelação.
É mais do que certo continuou Curtiss que. por esta
altura, tanto a OLP como os serviços secretos egípcios, sírios
e, naturalmente soviéticos também estejam a par e já tenham
tomado as medidas oportunas.
Naqueles momentos dramáticos ninguém se apercebeu de
uma subtil e, suponho, involuntária, revelação do general.
Porquê, ao referir-se aos serviços secretos, tinha mencionado,
única e exclusivamente o Egipto, a Síria e a URSS? Dias mais
tarde, teríamos a oportunidade de conhecer a razão desta
tríplice alusão.
- Durante a passada terça-feira, e no mais estrito sigilo,
tive a oportunidade de me encontrar com o doutor Kissinger.
Os directores do Projecto entreolharam-se, atónitos, sem
dúvida associando aquela reunião à súbita partida do
general daquele mesmo hangar. Mas ninguém comentou o
facto, deixando que Curtiss prosseguisse.
- O conselheiro presidencial dispunha de informação em
primeira mão. As suas ordens tinham sido taxativas: por nada
do mundo devemos arriscar a vida dos nossos homens nem o
instrumental que nos foi confiado.
Não havia necessidade de mais explicações. Ao referir-se à
palavra instrumental, todos sabíamos do que estava
realmente a falar.
Pois bem, por expresso desejo de Kissinger, e contando
sempre com o beneplácito do Governo de Israel, a estação
receptora de imagens tem de ser desmontada
imediatamente.
Curtiss pegou de novo nos documentos guardados na sua
pasta e, dirigindo-nos um olhar de cumplicidade, esclareceu:
- Isto implica uma mudança substancial nos nossos planos

originais.
Para já. A não ser que os chefões de Washington
disponham de outra alternativa, o regresso à Base Edwards
fica adiado.
Ontem mesmo, quando do meu regresso de Atenas, tive
uma reunião urgente com o gabinete de cozinha de Golda. O
único assunto em discussão, como já devem ter intuído, foi
este: que fazer com a estação receptora? Estiveram presentes
a primeira-ministra, Golda, o vice-primeiro ministro, Alon, o
ministro da Defesa, o nosso sempre hesitante Moshe Dayan,
o chefe do estado-maior. Tenente-general David Eleazar, o
chefe do Departamento de Investigação dos Serviços
Secretos, general de brigada Arie Shalev, e o chefe dos
Serviços Secretos, general Zeíra. Depois de hora e meia de
intenso debate e por razões que de momento não estou
autorizado a revelar, o Governo de Israel mostrou-se de
acordo com a referida e imediata desmontagem das
instalações, concordando com a sua transferência para outro
local secreto.
* OLP: Organização para a Libertação da Palestina. Dirigida então por Yasser
Arafat. (IN. Do M)
Assim era chamada pelo povo de Israel a equipa de confiança de Golda, A
senhora Meir, com a sua forte personalidade. Tinha desenvolvido um estilo
próprio e muito peculiar de governo. Ultrapassando em numerosas ocasiões a
mecânica burocrática e institucional. Ela preferia trabalhar em estreita
colaboração com os seus mais próximos, formando um sistema ad-hoc que se
tornou célebre e que era conhecido como a cozinha de Golda. (In do t)

(Como já relatei nas primeiras páginas deste diário, num
minucioso
estudo elaborado em Washington pelo CIRVIS, em estreita
colaboração com o Departamento Cartográfico do Ministério
da Guerra de Israel, tinha-se estabelecido que a instalação
da rede receptora de imagens do satélite artificial Big Bird,
devia ser efectuada num prazo máximo de seis meses, a
partir da data de chegada dos instrumentos à cidade de
Telavive. Isto aconteceu em Janeiro de 1973. Os
especialistas, numa primeira fase, procurariam uma base
segura e definitiva. Para isso, os militares israelitas tinham
designado três lugares possíveis: o cume do monte das
Oliveiras, os montes do Golã em mãos israelitas desde a
guerra de 1967 e os maciços graníticos do Sinai) Os
directores do Projecto quebraram o seu mutismo lançando
sobre o general uma torrente de perguntas: Quando se
efectuaria a desmontagem, Qual dos pontos alternativos
montes do Golã e Sinai tinha sido escolhido?, Que
acontecerá com o berço e com todos nós? Curtiss recuperou o
seu sorriso e pediu ordem e calma.
- Isto é o que posso adiantar-vos. Por agora: as previsões e
avaliações dos serviços secretos israelitas consideram que a
situação geral no Médio Oriente tende para um perigoso
agravamento. E rogo-lhes que não me perguntem porquê. O
importante, o que nos importa a nós, é que, por decisão do
Governo de Golda, a estação receptora é agora mais vital do
que nunca e os militares israelitas já andam à procura de
outro local, diferente dos previstos inicialmente. Tanto eles
como nós dispomos de um prazo máximo de três dias para
encontrar esse lugar e fazer a mudança. O doutor Kissinger
considera que a nossa presença nesta nova etapa do
Projecto é absolutamente necessária. Não podemos nem
devemos despertar suspeitas. Para os Israelitas nós somos os
proprietários dos equipamentos e os responsáveis por eles,

e assim vai continuar a ser. Mas há mais qualquer coisa
anunciou Curtiss, adoptando um tom solene. - Uma coisa com
que não tínhamos contado e que, vendo bem, poderemos
qualificar como um novo e apaixonante desafio.
O meu coração deu um pulo. E, instintivamente, procurei o
olhar de Eliseu. Não sei como, mas eu sabia o que o general
nos ia comunicar.
Pela primeira vez nos anos em que estávamos juntos
percebi um ligeiro tremor nas mãos de Curtiss. E a sua voz
ficou embargada pela emoção.
Nunca me esquecerei daquela rotunda afirmação:
- Senhores, regressaremos!
Obviamente, os directores do Projecto não compreenderam
o significado daquelas duas simples palavras. E um deles,
interrompendo-o, lembrou-lhe que, se não tinha entendido
mal, o regresso a casa fora adiado.
Os olhos de Curtiss faiscaram maliciosamente.
- Senhores insistiu, enfatizando cada uma das sílabas regres-
sa-re-mos.
Em poucos segundos, os membros da equipa aperceberamse
do que ele acabara de dizer e, levantando-se, aplaudiramno
calorosamente.
Todos sabiam do extravio do microfone e todos, no mais
íntimo dos seus corações, tinham previsto e desejado uma
segunda oportunidade.
* CIRVIS: Organismo dedicado a Instruções de Comunicação para Detecções
Vitais de Informação Estratégica.

Contudo, passados os primeiros minutos de lógico
entusiasmo, os frios e racionais directores do Programa
despertaram para a crua realidade, levantando uma série
interminável de dúvidas.
Alguns daqueles obstáculos técnicos já tinham sido
avaliados por nós nas horas de profunda reflexão e
enclausuramento no hotel.
Curtiss ouviu pacientemente. Por último, olhando para nós
fixamente, fez uma pergunta concisa:
- O que é que tem para dizer?
- Há uma possibilidade.
Mas, antes de continuarmos com o plano traçado no
Ramada Shalom, o general deu a reunião por concluída.
- Disso atalhou ele perante a curiosidade geral falaremos
a seu devido tempo. Agora é urgente desmontar totalmente o
módulo e embalar todos os equipamentos. Senhores, mãos à
obra! A partir dessa reunião decisiva. Os homens do Cavalo
de Tróia empenharam-se no esgotante trabalho de
desmontagem geral. A maioria dos técnicos, alheia aos
factos que acabávamos de conhecer, interrogou-se
reiteradamente acerca do porquê daquela estranha pressa e
do reforço das medidas de vigilância e segurança exteriores.
Foi o próprio general, em mangas de camisa e a trabalhar
freneticamente como qualquer um, quem lhes insinuou
discretamente que existia o risco de um possível atentado
terrorista contra a estação e que nos preparávamos para a
sua mudança de lugar imediata.
Durante um dos breves períodos de descanso, Curtiss pôsnos
a par de outros acontecimentos intimamente
relacionados sempre segundo o Mossad com a grave
ameaça que pairava sobre a estação receptora de imagens.
Os agentes israelitas infiltrados em Beirute, Amã e Roma,
tinham descoberto um plano para assassinar o rei Hussein da

Jordânia, que naquela altura - primeiros dias de Fevereiro
realizava uma visita semioficial aos Estados Unidos. O grupo
guerrilheiro palestiniano Setembro Negro planeava apoderarse
de diversos edifícios governamentais de Amám fazendo
prisioneiros vários ministros jordanos. Segundo parecia, as
intenções de Hussein de negociar a paz com Israel não
agradavam aos palestinianos, os quais, aproveitando a
ausência do monarca, tinham conseguido infiltrar-se em
território jordano fazendo-se passar por turistas dos Estados
do golfo Pérsico. Alertados pelo Mossad, os serviços de
contra-espionagem da Jordânia detiveram um grande número
de activistas, apreendendo um total de vinte automóveis.
Entre os guerrilheiros que tinham entrado por via aérea,
vindos da Europa, encontravam-se dois indivíduos
recentemente libertados pelas autoridades italianas Ahmed
Zaid, estudante do Iraque. E Adnah Hasem, jordano
acusados de tentarem derrubar um avião da companhia * O
rei Hussein chegara a WashinQton no dia 6 de Fevereiro.
Mantendo no dia seguinte uma entrevista com o presidente
Nixon. Naquela data esperava-se um ofensiva diplomática do
meu país no Médio Oriente. Antes de partir de Amã. Hussein
declarara que o conflito entre os países árabes e Israel teria
de ser resolvido globalmente e não em tratados separados.
Desta forma, evitou os rumores existentes sobre um acordo
de paz secreto entre o seu país e Israel. Em relação ao futuro
estatuto de Jerusalém e dos refugiados palestinianos.
Israelita El Al. Nos interrogatórios que se seguiram a estas
detenções, os jordanos foram informados de alguns dos
projectos imediatos das diferentes facções guerrilheiras
palestinianas. Entre os mais importantes destacavam-se o
assalto a uma embaixada árabe num determinado país do
continente africano, a criação de um arsenal e uma infraestrutura
para o ataque a aviões comerciais israelitas na
Europa e o assalto de um comando suicida à mesquita da
Ascensão. Era óbvio que este último plano terrorista só podia

basear-se numa informação exacta do que os Estados Unidos
e Israel estavam a fazer em relação ao Big Bird.
Tão graves acontecimentos totalmente alheios à nossa
verdadeira missão só vieram perturbar os corações dos
membros da equipa, que se entregou até ao limite da sua
capacidade à delicada operação de limpeza dos barracões.
Dois dias depois no sábado, 17 de Fevereiro, com pouco
mais de vinte e quatro horas de avanço em relação ao
previsto, o berço tinha sido desmontado e protegido em três
contentores blindados.
Por coincidir com o dia sagrado dos judeus. Curtiss,
astutamente, apressou-se a comunicar-lhes que podiam abrir
caminho pelo recinto da mesquita. Mas, como era de esperar,
declinaram a oferta, demorando a sua participação nos
últimos trabalhos de evacuação até ao pôr do Sol.
Aquela providencial coincidência proporcionar-nos-ia uma
preciosa margem de quase seis horas, durante as quais
quase todas as consolas e equipamentos electrónicos da
estação propriamente dita foram deitados abaixo, misturados
e escondidos entre as caixas metálicas que continham o
módulo e os restantes instrumentos auxiliares. Minutos
depois do ocaso por volta das dezassete horas e quarenta
e cinco minutos -. os técnicos e oficiais israelitas entravam na
praceta, já iluminada por potentes reflectores, colaborando
com os nossos homens na desmontagem final.
* A libertação destes guerrilheiros levou Israel a pedir explicações ao
Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália.
Segundo os Serviços secretos israelitas, Zaid e liasem, encarcerados em Roma
desde Agosto de 1967?, eram dois destacados e perigosos terroristas. (fN. Dn
19.) As informações da serviços secretos jordanos e israelitas eram correctas.
Algumas semanas mais tarde no dia 1 de Março guerrilheiros do Setembro
Negro faziam reféns na Embaixada da Arábia Saudita em Cartum (Sudão). Entre
as exigências dos terroristas estava a libertação de quarenta guerrilheiros
palestinianos encarcerados em Israel e de outra meia centena de guerrilheiros
presos na Alemanha Ocidental, Jordánia e Israel. Assim como do assassino do
senador Robert Kennedy, Sirhan Bishara Sirham.
Para grande espanto nosso e supomos que para os serviços de espionagem

israelitas e jordanos, que naquela data não conseguiram uma informação mais
pormenorizada -, os oito guerrilheiros do Setembro Negro matariam três dos
diplomatas retidos na embaixada: Aleo A. Noel, nosso embaixador no Sudão: Guv
Eid, funcionário belga e Curtiss iloore, também diplomata norte-Americano. (I.
Dn11)
Este arsenal seria descoberto pela Polícia italiana a 11 de Setembro desse
mesmo ano de 1973. em Óstia, perto de Roma. Na casa escondiam-se nove
palestinianos, membros de um Qrupo terrorista. Entre as numerosas armas foram
encontrados dois lança-mísseis Srrela, de fabrico russo, que podiam ter sido
utilizados para derrubar aviões comerciais em pleno voo. O temível Strela possui
um cano de 10 metros, com um peso de treze quilos, podendo ser disparado como
uma espingarda: quer dizer, apoiando-o num ombro e apontando com uma
teleobjectiva de reduzidas dimensões.
Alcança facilmente o motor de um avião, graças ao sistema de guia por raios
infravermelhos. (N. Do N)
Ao amanhecer, a operação estava concluída. Tudo estava
preparado para a mudança. Mas, para onde? Qual era o
ponto escolhido? Por razões básicas de prudência e
seguindo as ordens do general de brigada Arié Shalev, chefe
do Departamento de Investigação dos serviços secretos
israelitas -, os arqueólogos (ou supostos arqueólogos)
deveriam permanecer no interior da mesquita da Ascensão
até quarenta e oito horas depois da saída definitiva do
material. Os árabes, proprietários e guardiões do santuário,
atentos a todos os nossos movimentos, podiam ter
desconfiado de alguma coisa se os referidos peritos da
Universidade de Jerusalém, da Escola Bíblica e Arqueológica
Francesa da Cidade Santa e do Museu de Antiguidades de
Amã integrantes da divisão especial encarregue pelo
Governo de Golda Meir das escavações e reparação das
fundações da fachada oriental da inesquecível mesquita,
supostamente danificadas pelo simulacro de atentado
protagonizado pelos agentes de Dayan tivessem evacuado
a zona ao mesmo tempo que retiravam a carga. Esta carga,
segundo as poucas informações que chegaram até nós
naqueles dias, desapareceria do local durante a noite e aos
poucos, a fim de levantar o mínimo de suspeitas. A grande
pergunta que nos fizemos durante aqueles tensos dias de
trabalho.

E que Curtiss não conseguiu ou não soube esclarecer, tinha
uma importância decisiva para a planificação da primeira
fase da aventura que nos aguardava: Qual era o local
escolhido para a estação receptora do Big Bird? Como já
levemente referi, essa nova e tão esperada descolagem do
módulo, e talvez grande parte da segunda exploração,
dependiam de um conhecimento exaustivo do lugar onde
deveria ser instalada a estação receptora.
Logicamente, ao abandonar o monte das Oliveiras, esse
misterioso local tinha de ser longe
* Embora já tenha sido pormenorizadamente explicado no primeiro volume
desta obra, talvez seja conveniente recordar a natureza deste tipo de satélites
artificiais. Que desempenharam um papel decisivo nos dias dramáticos que
precederam a Guerra do Yom Kippur, em Outubro de 1973. A série de satélites
Big Bird. Ou Grande Pássaro consta numa das notas do Major e, em especial, o
protótipo KH II, pode voar a uma velocidade de vinte e cinco mil quilómetros por
hora, demorando noventa minutos a dar uma volta completa ao Planeta. Como
esta oscila ligeiramente durante esse lapso de tempo (22 graus e 30 minutos), o
Big Bird sobrevoa durante a volta seguinte uma faixa diferente da Terra e volta à
sua trajectória original ao fim de vinte e quatro horas.
Quando o Pentágono descobre alguma coisa com interesse, pode modificar a
órbita do satélite, aumentando o tempo de revolução durante alguns minutos e
fazendo-o descer a órbitas que podem ir até 190 quilómetros de altitude. Por
exemplo, uma diferença de um grau e trinta minutos por dia permite cobrir em dez
dias uma zona de conflito, sobrevoando todas as cidades e zonas de interesse
militar. Posteriormente, o Big Bird é impelido para uma órbita superior" Com a
instalação em Israel de uma destas sofisticadas estações receptoras de imagens
para além de materializar os propósitos da Operação Cavalo de Tróia os
Judeus dispunham de um rápido e fiel sistema de controlo dos seus inimigos, e os
Estados Unidos de uma estação estratégica que lhes permitia poupar tempo e
grande parte da manobra sempre complicada de recuperação das oito cápsulas
descartáveis que cada satélite transportava e que eram resgatadas cada quinze
dias nas proximidades de Havai. Militarmente, a operação era de grande
interesse para os Estados Unidos, que assim podiam fotografar à vontade faixas
tão instáveis" como as fronteiras da URSS com o Irão e Afeganistão, Paquistão e
Golfo Pérsico, recebendo centenas de negativos após três minutos de sobrevoo.
(N. de J. J. Benites)

daquele que, em princípio, já era para nós o ponto de
contacto da nave: o referido cume do monte que agora
estávamos prestes a deixar.
Para superar este inconveniente, os directores do Projecto
reunidos com Eliseu e comigo durante todo o domingo. A fim
de planificarmos todos os pormenores do segundo grande
salto estabeleceram só duas soluções. Se a distância entre
a nova instalação e o monte das Oliveiras fosse
considerável, o berço, uma vez efectuada a descolagem e a
imediata inversão de massa, deveria fazer essas milhas num
voo horizontal.
Isto complicava ainda mais as coisas. Entre outras razões,
pelo evidente consumo adicional de combustível. Uma
quantidade de peróxido de hidrogénio que, aliás, tinha de
vir, e secretamente, dos Estados Unidos.
Se, pelo contrário, não fossem muitos os quilómetros que
nos separavam do ponto de contacto, talvez o mais prudente
fosse mudar a zona de descida, fazendo a pé o caminho até
Jerusalém. Nesse caso, dado o indubitável risco que
representaria uma caminhada com essas características, a
estratégia deveria ser radicalmente alterada. Por expresso
desejo de Curtiss, que praticamente não vimos antes de
terça-feira, 20 de Fevereiro, a reduzida equipa que dirigia o
Cavalo de Tróia viveu aqueles dias única e exclusivamente
para a segunda aventura.
No nosso afã de acertar até ao último pormenor tão
apaixonante e porquê negá-lo? - perigosa missão,
comprovámos até, nos primeiros momentos, a possibilidade
de os montes Golã ou os maciços do Sinai serem
reconsiderados pelo Governo israelita como uma das
plataformas para a instalação definitiva da estação. O
general tinha-nos avisado que, dada a situação no Médio
Oriente, o estado-maior israelita pusera de lado esses dois
locais. E não tivemos outro remédio senão rendermo-nos à
evidência quando, nesses dias, a imprensa de Jerusalém

ventilou duas notícias de acontecimentos registados na
última quinta-feira, e justamente nas áreas de litígio. No
golfo do Suez, muito próximo do Sinai. Um avião egípcio e
outro israelita tinham sido atingidos num duelo aéreo entre
aparelhos de ambos os países. Quanto aos montes Golã,
tropas sírias tinham destruído dois tanques e uma
escavadora israelitas, quando estes atravessaram a linha de
cessar-fogo para construírem uma estrada na zona
desmilitarizada.
A tensão entre Israel e os seus vizinhos árabes continuava
a crescer de forma alarmante, pondo mesmo em perigo os
nossos objectivos.
Mas as horas mais amargas ainda não tinham chegado.
Na manhã de segunda-feira, 19 de Fevereiro, aproveitando
uma interrupção forçada nas nossas sessões de trabalho, e
quase sem querer, os meus passos levaram-me a um lugar
que eu tinha evitado até àquele momento: a Cidade Velha de
Jerusalém.
Enquanto Eliseu e os directores estavam ocupados na sede
da embaixada norte-americana nos trâmites do envio por
mala diplomática dos sismogramas obtidos na primeira
exploração e que deviam ser estudados, com prioridade
absoluta, pelo Centro Geológico do Colorado e pela
Administração Nacional do Oceano e da Atmosfera (NOSA),
ambos no meu país, eu deixei-me levar por uma necessidade
quase imperiosa: caminhar lenta e pausadamente pelos
mesmos (?) lugares da Cidade Santa onde séculos antes
tinha vivido tão incríveis e traumatizantes experiências.
Talvez não o devesse ter feito. No fundo, eu sabia o que
me esperava. Mas o meu espírito queria encontrá-lo ou
encontrar algum vestígio queme recordasse a sua presença.
Agora, depois de tanto tempo, tenho a certeza de que fiz
bem em ocultar a Curtiss e à direcção do Projecto a minha

profunda angústia e o desejo de voltar, fruto de uma
complexa mistura de admiração por Ele e de uma ardente
necessidade de o conhecer melhor. Ninguém, nos meus
longos anos de vida, tinha atingido tão certeira e
profundamente o meu atormentado coração. E
constantemente fazia a mim próprio a mesma pergunta:
porquê eu? Por que é que um indivíduo ruim, impuro e
eternamente em dúvida, como eu, se tinha envolvido em
semelhante situação? Que tinha aquele Homem para
conseguir transformar tão violentamente uma vida a minha
cheia de vazio
E assim, se tivesse dado a conhecer ao Cavalo de Tróia a
minha fraqueza por Jesus de Nazaré porque era disso que
realmente se tratava tão flagrante parcialidade e
entusiasmo pela personagem que era motivo da segunda
expedição ter-me-iam desqualificado irremediavelmente. A
objectividade e frieza, nos exploradores, eram condições
básicas para o desempenho de uma missão daquela
natureza. E, embora o meu companheiro e eu
compartilhássemos estes sentimentos, creio que no momento
da verdade como se verá mais à frente soubemos
respeitar esta regra-de-ouro da operação, mantendo sempre,
e por vezes com sérias dificuldades, uma posição distante e
à margem do curso dos acontecimentos.
Ao passar por baixo do arco da Porta de Jafa, no extremo
ocidental da Cidade Velha de Jerusalém, o frio inicial
daquela manhã tinha começado a diminuir. Uns tépidos raios
de sol amenizaram a minha intensa palidez e alegraram o
ocre das pedras da Cidadela. Uma multidão variegada dava
vida à pequena rua que separava os bairros arménio e judeu,
a norte, do cristão e muçulmano, a sul. Apesar de eu ter
passeado em muitas ocasiões antes da grande viagem
por aquele mesmo sector da Cidade Santa, agora era
diferente. Muito diferente. Ao chegar ao fim da Street of the
Chain, hesitei.

Para onde me dirigia? À minha direita, a curta distância,
encontrava-se o Muro das Lamentações: último e único
vestígio do imponente Templo construído por Herodes, o
Grande. E instintivamente caminhei nessa direcção.
Ao chegar ao grande terreiro que existe junto ao muro
ocidental do antigo Templo, centenas de pessoas, na maioria
turistas, andavam de um lado para o outro, bisbilhotando e
tirando fotografias.
Aproximei-me a pouco e pouco da muralha. Era incrível que
daquela monumental construção que eu vira no nosso
primeiro salto só restasse de pé um pequeno troço de parede
de doze escassos metros de altura e pouco mais de setenta
de comprimento 1. Numerosos rabinos e fiéis judeus,
* Este muro. Chamado das Lamentações, é o lugar mais
venerado pelo povo judeu. Trata-se da única relíquia do que
foi o grande Templo edificado pelo rei Herodes, o Grande, no
ano I a. C. O imperador romano Tito, ao destruir Jerusalém no
ano 70 da nossa Era, deu ordens para que aquela parte da
muralha que rodeava o Templo permanecesse em pé, como
demonstração do poder de Roma e dos seus legionários,
capazes de destruir tão sólida construção. No período
bizantino, os Judeus foram finalmente autorizados a visitar a
Cidade Santa, podendo aproximar-se do Muro das
Lamentações uma vez por ano, precisamente na data do
aniversário da destruição de Jerusalém. E ali passaram a
lamentar a destruição, rezando pela reunificação do povo de
Israel. Este costume entre os quais se destacavam crianças e
jovens, rezavam ou liam os rolos da Lei, com os rostos
completamente encostados aos gigantescos e gastos blocos
acinzentados. A devoção e o respeito daqueles israelitas,
cobertos com os seus mantos brancos e os típicos chapéus
pretos e com os filactérios colados à testa, eram
impressionantes.
Levantei os olhos, percorrendo minuciosamente as onze
fileiras de pedra que ainda resistiam ao passar dos séculos,

descobrindo como algumas coisas não tinham mudado no
venerável muro. Entre os buracos e fendas dos imponentes
blocos continuavam a florescer tufos de ervas silvestres que
abrigavam uma grande quantidade de pombos e passarinhos.
E por entre o sussurro daquelas preces vieram-me à
memória as palavras que pronunciara Jesus de Nazaré ao
entardecer da terça-feira, dia
4 de Abril do ano 30:
«Vistes estas pedras e este Templo maciço? Pois em
verdade, em verdade vos digo que dias virão, muito
próximos, em que não ficará pedra sobre pedra. Todas serão
derrubadas».
Levado por uma estranha força, aproximei-me de uma das
moles de pedra. As minhas mãos acariciaram a superfície
rugosa e o meu rosto, lenta e suavemente, foi tocar na
segunda fileira. Fechei os olhos, tentando captar a
extraordinária energia que, sem dúvida alguma, estava
armazenada naquela relíquia. A minha alma precisava
desesperadamente de um sinal, uma simples lembrança,
talvez o fugaz perfume de uma das pedras que tinham sido
testemunhas mudas da presença de Cristo. Um pranto doce e
calmo foi a única resposta.
Quando aquela dilacerante tristeza estava quase a sufocarme,
uma mão pousou no meu ombro direito. Por uns instantes
neguei-me a abrir os olhos, imaginando que aquele gesto
tão típico de Jesus estava a acontecer noutro tempo.
Contudo, ao dirigir a vista para o homem que estava ao
meu lado, um reflexo esverdeado me devolveu à trágica
realidade. Era um páraquedista do exército israelita, com o
seu camuflado e uma metralhadora no ombro esquerdo, com o
cano apontando para o chão. Em volta do seu pescoço tinha
o mais singular manto de oração que eu já vira diante do
Muro das Lamentações: duas cartucheiras, com um brilhante
enxame de balas que cintilavam aos fracos raios do sol da

manhã.
O jovem talvez fosse um judeu ortodoxo que cumpria o
seu serviço militar olhou para mim em silêncio. E, depois de
um breve sorriso, fez um único comentário:
- Irmão, o espírito divino está sempre presente nestas
pedras. Mesmo que não seja judeu, reze, peça a Deus. E os
seus desejos serão satisfeitos.
Não sei ao certo se correspondi ao seu sorriso. O facto é
que me senti aliviado e, seguindo o seu conselho. Rezei em
silêncio e com toda a força do meu coração oprimido. Ao
fazê-lo, outras inesquecíveis palavras do Mestre brotaram no
meu cérebro:
«Nenhuma súplica recebe resposta, a não ser que proceda
do espírito. Em verdade, em verdade te digo que o homem se
* perduraria durante séculos. Entre os anos 1948 e 1967, esta parte de
Jerusalém foi proibida novamente aos Israelitas, por se encontrar no sector
conquistado pela Jordânia. Mas durante a Guerra dos Seis Dias, o muro ocidental
foi tomado pelos Judeus e, desde então, constituiu-se em ponto de exaltação
nacional e de culto. (N. Do M)
engana quando tenta canalizar a sua oração e os seus
pedidos para o benefício material, próprio ou alheio. Essa
comunicação com o reino divino dos seres de Meu Pai, só
obtém a devida resposta quando obedece a uma ânsia de
conhecimento ou consolo espiritual. O restante as
necessidades materiais que tanto vos preocupam não são
consequência da oração, mas sim do amor de meu Pai 1».
Nesse momento compreendi que grande parte da minha
angústia nascia de um desejo egoísta: só pretendia
satisfazer a minha curiosidade e os meus instintos mais
profundos. E ali mesmo pedi perdão, suplicando ao Pai que,
se a nossa segunda aventura chegasse a materializar-se, me
desse luz e força para a viver e aproveitar com o único fim de
beneficiar as gerações futuras. Um pouco mais calmo, afasteime
daquele sítio, dirigindo-me para a extrema direita do
muro: o local destinado às mulheres. Dei a volta à barreira

metálica que separa os dois sectores e, pegando no meu
velho caderno de apontamentos, escrevi três palavras:
«Voltar a Ele»
Aquele era, e é, um dos costumes mais comuns entre as
pessoas que visitam o Muro das Lamentações: escrever num
papel uma oração ou um desejo particular e, depois de
dobrar o papel, introduzi-lo numa das ranhuras que existem
entre os grandes blocos de pedraz. A tradição popular
assegura que essas petições sempre se cumprem. Dado que
nenhum homem pode entrar no sector feminino, pedi a uma
turista que colocasse a minha mensagem na muralha. A
mulher, muito amável, fê-lo logo. E ali ficou e ali suponho
que estará ainda o breve, sincero e intenso rogo. Hoje
posso garantir que, pelo menos no meu caso, a crença
popular está certa.
O resto do meu passeio pela Cidade Velha não contribuiria
em nada para me animar. Todos os lugares por onde calhou
eu passar estavam irreconhecíveis. Não mantinham
praticamente nenhuma semelhança com aquela Cidade Santa
do ano 30. Era lógico. Se não me falha a memória, desde o
ano 587 a. C, data da destruição de Jerusalém e do Templo
por Nabucodonosor, a Cidade Santa tinha sofrido dezasseis
invasões, sendo arrasada e de novo edificada mais de uma
dezena de vezes 3.
* Estas e outras palavras de Jesus de Nazaré sobre a oração aparecem no
primeiro volume desta obra (pág. 249 e seguintes).
(N. de J. J. Benitez)
2 Antigamente, antes de fazerem uma viagem, os Israelitas
colocavam um prego de ferro entre as fendas do muro
ocidental, em sinal de apego à sua pátria. (N. Do M) 3 Eis
aqui, como exemplo do que afirmo, alguns dos mais notáveis
episódios vividos por Israel e por Jerusalém em particular
a partir do citado ano 587 a. C: No ano 539 a. C, o rei persa
Ciro conquista a Babilónia, permitindo a volta dos Judeus a
Jerusalém. O Templo seria reconstruído por Zorobabel. Em

334 a. C, Israel é novamente conquistada. Desta vez, por
Alexandre Magno. Após a sua morte, é controlada pelos
Ptolomeus, do Egipto. Em 198 a.
C, Antíoco III da Síria vence os Egípcios e Israel passa
para as mãos dos Selêucidas. Em 175 a. C, Antíoco IV é
coroado rei e ordena a supressão do culto a Deus. Profana o
Templo, oferecendo no seu altar sacrifícios pagãos. Em 167
a. C, os Judeus levantam-se contra os Selêucidas e derrotamnos.
No ano 64 a. C, Pompeu conquista Israel. Algum tempo
depois, no ano 40 a. C, os Partos derrotam os Romanos e
conquistam o país. Em 39 a. C, Herodes, o Grande, vence os
Partos e reina até 4 a.
C, sempre sob o poder de Roma. Já no século I da nossa
Era, no ano 66, os Judeus revoltam-se contra o Império
Romano.
Nada mais absurdo que eu pretendesse ver e reconhecer na
actual esplanada do Domo da Rocha o magnífico Segundo
Templo ou, no bairro muçulmano, o traçado primitivo das
ruelas que eu tinha percorrido.
Ao entrar no gigantesco rectângulo onde outrora se erguera
o magnífico templo de Herodes, um guia, a meia voz,
explicava a um grupo numeroso de curiosos e respeitosos
turistas ingleses como muitos rabinos e judeus de Mea
Shearim (o bairro religioso da cidade) só aceitam caminhar
descalços ou, então, negam-se a pisar o átrio no qual nos
encontrávamos. Segundo estes rigorosos cumpridores da Lei
judaica, ali encontra-se sepultada a famosa Arca da Aliança,
e, portanto, aquele é um lugar sagrado.
Na verdade, enquanto me dirigia para as mesquitas que
hoje ocupam o terreno do Segundo Templo a de El-Aksa e a
conhecida como o Domo da Rocha tive de reconhecer que
aquele era um dos escassos lugares onde os humanos não
caíram ainda no lamentável tráfico comercial que existe

naqueles a que os cristãos chamam lugares santos. Ali tudo é
silêncio e recolhimento. A venda ou o comércio de lembranças
mais ou menos santas ou religiosas está terminantemente
proibida.
Diante da Mesquita Distante ou de El-Aksa 1, situada a sul
do grande rectângulo, o meu espírito voltou a estremecer.
Atrás dela e à esquerda da sua cúpula de prata via-se grande
parte do monte das Oliveiras e, na encosta ocidental, o
Getsémani. A súbita descoberta da colina e da ladeira pela
qual eu subira e descera tantas vezes,
* ano 70, Tito reprime a rebelião e destrói a cidade. Nos anos 132-135 dá-se
uma nova revolta judaica, dirigida por Bar Kokeba. O imperador Adriano vence,
destruindo Jerusalém. A reconstrução dá-se pouco depois e Jerusalém recebe o
nome pagão de Aelia Capitolina. Nos anos 330-634 acontece a dominação
bizantina. Com a conversão de Constantino ao cristianismo constroem-se
numerosas igrejas na Cidade Santa. Em 614, nova invasão. Desta vez
protagonizada pelos Persas. Foram destruídas centenas de igrejas. No ano 636.
os Muçulmanos conquistam a Palestina, transformando Jerusalém na sua terceira
cidade santa, depois de Meca e Medina. No ano 1009, o califa fatímida
Jakem destrói a igreja do Santo Sepulcro e outros santuários cristãos. Dando
assim início a duzentos anos de lutas entre o Oriente e o Ocidente, e dando
lugar às famosas Cruzadas. No ano 1099, a Cidade Santa cai em poder dos
Cruzados. Em 1187, Saladino, príncipe árabe. Derrota os Cruzados nos chamados
Cornos de Hittin, pondo fim ao Reino Latino do Oriente. Em 1263, outro sultão. O
mameluco Baibars. Do Egipto, conquista as fortalezas do litoral que ainda
pertenciam aos Cruzados. Nos 250 anos seguintes, permanecerão sob o domínio
mameluco. No ano 1400, tribos mongólicas, dirigidas por Tamerlão, invadem
Israel. Em 1517 é a vez de os Turcos entrarem na Palestina a sangue e fogo.
Durante quatro séculos, Israel fará parte do Império Otomano.
Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial. A Palestina é ocupada pelas
tropas aliadas dirigidas pelo general Allenby.
Esse ano é recordado como o da Declaração Balfour para a criação na Palestina
de um Lar Nacional Judaico. Em 1922, o mandato britânico sobre a Palestina é
confirmado pela Liga das Nações. Em 1947, a Organização das Nações Unidas
estabelece um plano que divide a Palestina num Estado judaico e outro árabe.
Em 1948 termina o mandato britânico e, no dia 14 de Maio, o Conselho Nacional
Judaico proclama o nascimento do Estado de Israel. Mas o novo Estado é
invadido pelos países vizinhos. Ao terminar a guerra, a Palestina fica dividida
entre Israel e Jordânia. (N. Do M) 1 Construída entre os anos 709 e 715 pelo
califa El-Walid, filho de Abdel Malek,
que mandou construir a outra mesquita: a do Domo da Rocha. A de El-Aksa
encontra-se quase exactamente sobre o que foi o Palácio de Salomão. (N. Do M)

desencadeou em mim uma reacção quase violenta. E,
dando meia volta, afastei-me a passos largos, em direcção à
bela mesquita de Omar, ou Domo da Rocha. Apenas me
detive uns instantes junto à Oitava Maravilha do Mundo.
Na minha opinião, aquele é o lugar exacto onde, há dois
mil anos, se erguia, majestoso, o Santuário propriamente
dito.
Ali, muito perto de algumas das fachadas do octógono de
sessenta metros de diâmetro que constitui o exterior da
mesquita talvez nas viradas para sul ou sudoeste -,
estiveram outrora as escadarias de acesso ao Templo, onde
eu vira e ouvira o Rabi da Galileia. Ali, naquele terreiro, eu
assistira ao insólito espectáculo de um Jesus firme e seguro,
de látego na mão, abrindo as portas do sector norte do
chamado Átrio dos Gentios e provocando a fuga impetuosa
dos animais destinados aos sacrifícios sagrados. Durante
alguns segundos, no silêncio daquele lugar, pude ouvir os
mugidos dos bois, a algazarra dos cambistas de moeda e o
estrondo das mesas e barracas ao serem atiradas ao chão
pelo gado. Que longe e que perto me parecia tudo! A trinta
ou quarenta metros para noroeste, naquilo que é
actualmente o limite norte do monte do Templo, imaginei por
uns momentos a quase inexpugnável e altiva Fortaleza
Antónia. E novas e vivas lembranças me vieram à mente. Do
formidável quartel-general romano não resta quase sinal ou
vestígio algum. Tudo desapareceu. Melhor dizendo, nem
tudo. Eu tivera a oportunidade de visitar, tempos atrás, o
convento das Irmãs de Sião, onde é venerado pelos cristãos
o famoso litóstrotos ou pátio pavimentado com grandes
lajes, parte integrante, ao que parece, da primitiva Fortaleza
Antónia3. Para alguns, foi este o lugar onde Cristo

* No ano 135 da nossa Era, o imperador Adriano levantou neste lugar um
templo dedicado ao deus Júpiter. Desde então, foi considerado um lugar maldito.
No ano 636, após a invasão árabe, o califa Omar retirou os escombros do monte
Moriá e construiu uma mesquita que ainda hoje tem o seu nome.
Os Muçulmanos identificaram a rocha ou cume do monte Moriá com o lugar de
onde Maomé subira aos céus num cavalo alado. Segundo outra tradição, esta
rocha branca foi o lugar onde Abraão esteve a ponto de sacrificar o seu filho
Isaac. Os Árabes, em contrapartida, consideram que o filho em questão era
Ismael. No ano 691, Abdel Malek. Da dinastia dos Omíadas, restaurou a primitiva
mesquita, transformando-a na que hoje conhecemos. Sob a cúpula.
Construída à base de folhas de alumínio com um banho de ouro que a fazem
brilhar ao Sol de Jerusalém, encontra-se a rocha ou cúspide do monte Moriá.
Alcança os quarenta e cinco metros de comprimento por onze de largura,
elevando-se outros dois acima da superfície circundante. No mundo islâmico, o
Domo da Rocha é o terceiro lugar sagrado, depois da Caaba de Meca e do túmulo
do Profeta na cidade de Medina. (N. Do I)
2 A Fortaleza Antónia foi totalmente arrasada pelo general romano Tito. Ao
romper o cerco dos Judeus no ano 70. Durante séculos, foi apenas um monte de
escombros sobre o qual se ergueram diversas construções. Pouco a pouco, nos
tempos modernos, a arqueologia foi fixando a sua posição exacta. Na
actualidade, o que foi a fortaleza reconstruída também por Herodes, o Grande,
abriga uma escola muçulmana, um mosteiro da Ordem Franciscana e o referido
convento das Irmãs de Sião. É neste último lugar onde se encontra, na minha
opinião. O vestígio mais claro de uma das instalações do quartel-general"
romano durante as festas da Páscoa dos Judeus. (N. Do M)
3 O litóstrotos, que em grego significa pátio pavimentado com grandes lajes,
foi descoberto a ocidente do lugar onde supostamente se localizava a Fortaleza
Antónia. Com base no texto de João, o Evangelista (1913) - «Então, Pilatos,
tendo ouvido estas palavras, conduziu Jesus para fora, e sentou-se no tribunal.
No lugar chamado litóstrotos». alguns especialistas bíblicos acreditaram ser
aquele recinto o cenário de parte do julgamento do procurador romano de Jesus
de Nazaré e da sua apresentação ao povo judeu.
foi julgado por Pôncio Pilatos e apresentado à multidão
depois da flagelação. Outros arqueólogos e exegetas, mais
prudentes, não têm tanta certeza. Depois de descer por umas
pequenas escadas situadas na esquina noroeste do monte
Moriá e de deixar à minha direita no que fora o coração da
Fortaleza Antónia um passeio semiescondido com ciprestes
novos, entrei sem mais demora no convento das Irmãs de
Sião, em pleno bairro árabe. O meu espírito voltou a
inquietar-se. Embora eu compreenda que, às vezes, estas

coisas são necessárias ou irremediáveis, não pude evitar um
sentimento de aversão. Assim que atravessei a pequena
porta do santuário apareceu diante de mim uma brilhante
loja, repleta até ao topo de todo o tipo de lembranças da
capela da Flagelação ou do venerado litóstrotos: desde
medalhas e escapulários até camisolas, cinzeiros, artesanato,
postais, bustos policromados de gesso de Maria ou do seu
Filho, réplicas da coluna da flagelação e um interminável
etcétera, para não falar dos brinquedos japoneses ou dos
refrescos.
Aquele lugar, como muitos outros, para não dizer a maioria,
tinha-se convertido num excelente negócio. À custa de Jesus
de Nazaré e dos seus sofrimentos.
E outras frases de Cristo, pronunciadas na madrugada de
segunda-feira, 3 de Abril, em casa de Lázaro, em Betânia,
voltaram à minha mente: «A minha alma sofre pelos filhos dos
homens, porque estão cegos de coração; não vêem que
chegaram vazios ao mundo e tentam sair vazios do mundo.
Agora estão bêbedos. Quando vomitarem o vinho,
arrepender-se-ão».
Talvez o mais doloroso daquele mercado seja que, tal como
acontecera com Anás e os outros sacerdotes proprietários
do negócio dos intermediários no átrio do Templo -, agora,
dois mil anos depois, os que se dizem sacerdotes ou
religiosos ao serviço do Filho de Deus, continuem a consentir
ou a participar em transacções comerciais que nada têm a ver
com o que Ele desejava e pretendia. E isto, precisamente ali,
no cenário de tão trágicos momentos, está a denegrir
consideravelmente a grandeza do lugar. Enquanto caminhava
em direcção à sala abobadada onde está o litóstrotos,
perguntei a mim próprio que teria acontecido se o Rabi da
Galileia tivesse expressado o menor desejo de que as suas
vestes, objectos pessoais, etc, fossem conservados e
reverenciados.
Felizmente, Ele conhecia bem a debilidade da natureza

humana e teve o máximo cuidado em não cometer
semelhante erro. Apesar disso, os cristãos, longe de
praticarem os ensinamentos ou a religião de Jesus, caíram
desde os primeiros momentos naquilo que, justamente, não
desejava o Mestre: uma religião, uma forma de ser e uns ritos
a pretexto de Jesus.
Ao ver as pedras rectangulares, que se supõe serem as
mesmas a que João se refere no seu Evangelho, senti um
calafrio.
* Outros, pelo contrário, pensam que o litóstrotos talvez tenha sido o pátio
principal da Fortaleza Antónia, onde Cristo foi flagelado e de onde sairia com o
madeiro ou patibulum, rumo ao Gólgota. O convento das Irmãs de Sião foi
fundado por um judeu convertido, o padre Ratisbone. Entre 1931 e 1937, a madre
Godeleise e o padre Vicente, da Escola Bíblica de Jerusalém, escavaram o lugar e
descobriram o pavimento em questão.
Recentemente, arqueólogos ingleses e o professor judeu Kaufman levantaram
uma terceira hipótese: o litóstrotos poderá datar do ano 135 d. C. (do tempo de
Adriano). (N. Do M)
Algumas das enormes e desgastadas pedras estriadas,
para evitar que os cavalos escorregassem eram parecidas
com as de calcário duro que eu vira e pisara no pátio central
da Fortaleza Antónia. O esmero das religiosas responsáveis
pelo litóstrotos e a passagem dos séculos tinham-nas
transformado em parte, emprestando-lhes um brilho especial.
Mas aquele pavimento não correspondia ao do grande pátio
empedrado, à base de seixos rolados, e situado no sector
norte da fortaleza, onde se juntara a multidão na manhã de
Sexta-Feira Santa. Só o empedrado do terraço em frente do
terreiro, onde se deu o debate entre Pôncio Pilatos e os
sacerdotes judeus, tinha alguma semelhança com o que agora
estava diante de mim.
A bem da verdade, João Evangelista não cometeu nenhum
erro ao comentar que o Mestre fora levado ante Pilatos no
tribunal, no sítio chamado litóstrotos. O que pode ser um erro
imperdoável é associar este pavimento do convento das

Irmãs de Sião com o tribunal onde se sentava o procurador
romano. A prova, à margem do meu próprio testemunho, e
que os exegetas e arqueólogos bíblicos deviam ter em conta,
está gravada nalgumas daquelas pedras. Nelas se pode ver
um conjunto de riscos, traçados por espadas ou objectos
pontiagudos, que todos os especialistas identificaram como
uma espécie de jogo da macaca ou jogo do círculo citado
por Plauto -, e que era muito apreciado pelos legionários
romanos. Como já referi noutra parte do meu diário, sobre
uma das lajes do pátio central pude observar um círculo e
uma linha sinuosa que passava entre várias figuras (uma
coroa real e um B).
Os soldados, um após outro, lançavam quatro dados
marcados com letras e números, cantando jogadas que
identificavam como jogada de Alexandre, de Dario, de Efebo,
ou, a que rematava a partida, do Rei.
Logicamente, um divertimento desta natureza que
obrigava a marcar e a danificar um empedrado dificilmente
teria como cenário um lugar tão solene como o litóstrotos,
onde Pôncio ditava justiça; mas sim, em contrapartida, no
pátio com arcadas do quartel romano, ponto de encontro dos
homens dispensados do serviço, e onde não se realizavam
muitos actos oficiais.
Quando me preparava para sair da câmara, o sussurro de
outro guia-turístico, comentando as minúcias e os pormenores
do jogo do Rei, deteve-me. Segundo a tradição, explicou o
hebreu, se um réu aceitava jogar e ganhava, podia salvar a
vida. No caso de Jesus, concluiu o bom homem com um
sorriso, os legionários romanos não aceitaram porque sabiam
que o Galileu podia ganhar Um pouco reconfortado pela
ingenuidade daquele guia, deixei para trás o convento das
Irmãs de Sião e entrei na chamada, pelos cristãos, Via
Dolorosa (Tario A1-Mujahedeen), que faz parte de um
intrincado labirinto de vielas estreitas, mal-cheirosas e, por
vezes, cobertas, em pleno mercado oriental. Tal como na

Jerusalém do ano 30, aquele sector hoje ocupado pelos
muçulmanos conservava ainda alguma semelhança com o
que eu tinha conhecido: passadiços e ruas, qual delas a mais
apertada, e na maioria dos casos precariamente
empedradas, percorridas por valetas pestilentas e, de ambos
os lados, um sem-fim de barracas de feira e diminutos
estabelecimentos infestados onde se cozinhava, se vendia e
comercializava de tudo.
Confuso, abrindo caminho com dificuldade entre aquela
maré humana mistura de turistas, árabes puxando asnos
carregados de volumosos fardos, mulheres de rosto coberto
com véus e equilibrando grandes cântaros de barro na
cabeça, religiosos de todas as confissões e um ou outro
rabino apressado, exibindo as suas tradicionais vestes:
levita comprida e negra como a noite e chapéu de abas
largas de veludo igualmente azeviche, barbas longas e suíças
encaracoladas caindo das têmporas finalmente consegui
chegar a outro dos santuários da Cidade Velha. Sem dúvida,
o mais santo para o cristianismo: a Igreja do Santo Sepulcro.
Não foi fácil desembaraçar-me da criançada, que, desde o
instante em que pisei a suposta Via Dolorosa, praticamente
assaltou os transeuntes estrangeiros ou com aspecto de
turistas, impingindo-lhes todo o tipo de mercadorias. Lembrome
com tristeza de numa sexta-feira, às três horas da tarde,
durante um treino, ter passado por acaso na Via Dolorosa
quando havia uma procissão tradicional organizada todas as
semanas pelos padres franciscanos. Aquele espectáculo
comoveu-me.
Enquanto os religiosos e fiéis avançavam lenta e
pausadamente pelas ruas, ora de joelhos, ora carregando
grandes cruzes, os donos das lojas, de um lado e do outro,
continuavam a apregoar os seus produtos e souvenirs,
alheios a tudo aquilo e sem o menor respeito para com
aqueles devotos cristãos.
Mas aquele descarado e irritante negócio fica obscurecido

perante o que, para mim, constitui uma das mais negras e
frias afrontas que se possa conceber num lugar tão sagrado e
especial como o Santo Sepulcro.
Agora interrogo-me se não deveria ter omitido estas
experiências nada edificantes. Mas eu tenho que ser fiel aos
meus próprios sentimentos e absolutamente claro e sincero.
De facto, também não tem maior transcendência que a
rocha do Gólgota quase oculta sob a basílica do chamado
Santo Sepulcro estivesse ou não uns metros mais a norte ou a
sul da sua actual e suposta localização. O que interessa é ter
sido este o lugar real e concreto onde se desenrolaram as
dramáticas horas finais do Nazareno. Nem mesmo a
circunstância de o túmulo de Cristo ter sido marcado pela
religião e pelas tradições a tão pouca distância do lugar da
execução deveria levantar qualquer problema. (Como também
já expliquei, a propriedade de José de Arimateia uma
pequena quinta de retiro e repouso ficava relativamente
afastada do Gólgota) Não era habitual, nem lógico, que este
tipo de propriedade se situasse praticamente ao lado de um
lugar tão tétrico como o das execuções públicas. Depois do
meu regresso da Jerusalém do ano 30, e após consultar
mapas e percorrer a zona, estou convencido de que a gruta
que abrigou o cadáver de Jesus se encontra
* Digo suposta Via Dolorosa porque, como já disse em páginas anteriores
deste diário, o caminho que Jesus de Nazaré seguiu desde o interior da Fortaleza
Antónia até ao Gólgota, na manhã de sexta-feira, 7 de Abril do ano 30, não foi o
que tradicionalmente os cristãos veneram. As circunstâncias políticas, como já
expliquei, aconselhavam que o oficial romano escolhesse outra via: a que ia pelo
exterior da muralha norte da Jerusalém daquele tempo. Como aconteceu com
outros lugares santos" a tradição não foi muito feliz no momento de fixar com
exactidão onde ocorreram tão importantes acontecimentos. (N. Do N.)
nalgum lugar da ponta nordeste do actual bairro árabe.
Concretamente, entre a Igreja de SantAna e o Museu
Rockefeller; este último, fora do bairro árabe.
Talvez algum dia, se se fizerem escavações nesse sector, o
mundo possa descobri-lo.

O que realmente me pareceu indigno do lugar que se
pretende venerar foi um facto que tive de viver naquela
manhã agitada.
Durante um bom bocado errei pelas escuras e
sobrecarregadas capelas, absurdamente divididas entre
gregos ortodoxos e católicos romanos, descendo até uma das
criptas onde, segundo a tradição, Santa Helena encontrou as
três cruzes, atiradas para uma espécie de lixeira pelos
soldados romanos, depois de concluídas as crucificações.
Noutra das dependências voltei a encontrar-me com a coluna
da flagelação: um delicado e caro pilar de mármore vermelho
de uns cinquenta centímetros de altura e com um fino
pedestal. Não pude deixar de sorrir. Aquela espécie de pedra
miliária jamais poderia ter sido utilizada para amarrar
cavalos. Era demasiado cara e delicada.
* O actual carácter pitoresco dos chamados lugares santos chega ao extremo
de, um pouco a norte da Porta de Damasco, o visitante poder encontrar outro
Gúlgota.
Tudo começou a partir do ano 1883, quando o general britânico
C. Gordon associou um montículo ali existente com a forma de uma
caveira. A existência, na rocha, de um túmulo do século contribuiu e de que
maneira! - para dividir as opiniões. Em 1892, a Sociedade do Jardim do Túmulo
comprou o lugar, sendo desde então visitado por numerosos peregrinos.
Pessoalmente não compartilho do critério do bom general inglês. Entre outras
razões, por que a citada Porta de Damasco e a muralha na qual se encontra não
existiam no tempo de Cristo.
O verdadeiro Gólgota ficava muito mais perto, nas proximidades da Porta de
Efraim. (N. Do M) 2 A actual Igreja do Santo Sepulcro, construída em grande parte
pelos Cruzados no ano 1149. pertence a seis confissões religiosas diferentes, de
acordo com um statu quo decretado em 1082 pelos Turcos, perante as constantes
brigas e autênticas batalhas campais que travavam, e ainda travam, os
diferentes credos que a têm em propriedade.
O que realmente é o Gólgota, ou Calvário, está ocupado por duas capelas que
pertencem às seitas mais prósperas e poderosas: a Igreja Ortodoxa e a Igreja
Católica Romana.
A primeira a grega ocupa o lugar onde se supõe que Cristo foi crucificado.
A católica corresponde, segundo a tradição, ao lugar onde Jesus foi despojado
das suas vestes. Quase um terço das fundações das duas capelas assentam
sobre a rocha do Gólgota propriamente dita. Só uma pequena parte da mesma
pode ser observada sob o altar dedicado à Nossa Senhora das Dores, assim como

na parte inferior de outra capela: a de Adão. (iV. Do M)
3 Esta tradição tem pouco fundamento. A realidade é que os legionários
romanos não costumavam deitar fora as cruzes das execuções. Mais ainda: o
madeiro vertical, ou stipe, permanecia espetado no chão. As peripécias desta
atormentada igreja remontam ao século iv. No ano 324, quando foi construída
pela primeira vez, ficou quase no centro do que era então a Jerusalém
amuralhada. Segundo todos os vestígios arqueológicos, cerca de onze anos
depois da morte de Cristo (ano 30), o Gólgota já ficava dentro da cidade, por
causa da muralha construída por Herodes Agripa no ano 44. No ano 135, o
imperador Adriano, tentando apagar os lugares venerados por cristãos e judeus,
ordenou a construção de um templo a Júpiter nos pontos onde, segundo a
tradição, se encontravam o Gólgota e o túmulo de Cristo. E o mesmo aconteceria
com a gruta da Natividade, em Belém. Tomando como referência estes templos
pagãos, a rainha Santa Helena, mãe do imperador Constantino, mandou construir,
no ano 326, uma magnífica basílica nos lugares ocupados pelo Calvário e o
suposto túmulo de Jesus. No ano
614, os Persas destruíram-na. Mas foi de novo levantada pelo abade Modesto.
Em 1009, o califa Hakem arrasou-a, sendo a destruição desta igreja uma das
causas das Cruzadas No ano 1048 seria restaurada por Constantino Monómaco.
(N. Do M)
E, de repente, encontrei-me diante de um grupo de turistas
em fila para visitar o não menos suposto túmulo do Galileu 1.
Aquele era um dos santuários que eu me negara a ver
durante a minha etapa de preparação e treino. Acho que já o
disse antes: tanto a direcção do Cavalo de Tróia como eu
próprio considerávamos que, para determinadas fases da
missão, era melhor prescindir das informações já existentes.
Isso proporcionava-nos um maior grau de objectividade. Daí
que, ao juntar-me ao paciente grupo, eu sentisse uma
inevitável curiosidade. Era totalmente impossível que a gruta
que serviu de túmulo a Jesus de Nazaré estivesse tão perto
do Calvário. (Apenas vinte ou trinta metros no interior da
igreja) Mas decidi dar uma vista de olhos.
O monumento que na actualidade cobre e protege essa
sepultura, muito decorado e com uma grande cúpula de estilo
russo, é tão estreito que só permite a passagem de quatro
ou cinco pessoas ao mesmo tempo. A grande velocidade,
quase mecanicamente os turistas que me precediam foram

entrando e saindo do túmulo. Quando chegou a minha vez,
sinceramente, fiquei horrorizado. Num estreitíssimo cubículo
com apenas dois metros de comprimento, um de largura e
dois de altura, pode ver-se, à direita, uma pedra mármore
que não tem mais de um metro e setenta centímetros de
comprimento. Era impossível que o corpo de Cristo, com o seu
metro e oitenta e um centímetros de altura, coubesse na
posição horizontal sobre aquela pedra. Mas estas
considerações, insisto, eram de somenos importância.
O que me exasperou foi a atitude do pope grego, que
permanecia de pé ao lado da cabeceira do suposto túmulo. A
sua principal, e eu diria única, missão consistia em arrecadar
as notas se fossem divisas, muito melhor que cada
visitante se via quase forçado a dar. A operação dos
cobiçosos gregos ortodoxos era perfeita.

Ao entrar na reduzidíssima câmara, os quatro ou cinco fiéis
emocionados e trémulos eram abordados por um ajudante do
hierático pope que, mostrando-lhes um punhado de finas
velas negras e quase sem pronunciar uma palavra, lhes dava
a entender que o correcto seria deixar uma boa esmola. Para
no caso de que o surpreendido visitante hesitasse ou não
soubesse que quantidade devia deixar, os astutos
proprietários do túmulo iam depositando as notas de moeda
mais forte (dólares, marcos alemães, etc) ao pé de um dos
círios situados na cabeceira, junto ao vigilante sacerdote. A
abordagem é tão descarada e fulminante que poucas são as
pessoas que se negam a participar naquele negócio. E o
mais doloroso é que, uma vez consumado o assalto, não há
tempo para mais nada. Nem sequer para balbuciar um rápido
pai-nosso. (E preciso lembrar que a imensa maioria dos que
desfilam diante do túmulo de Cristo está convencida que
aquela é a rocha sobre a qual repousou o cadáver do
Salvador. Uma coisa tão grandiosa e emocionante como para
merecer, pelo menos, que se possa orar ou meditar durante
alguns minutos. Mas até isso está subtilmente proibido pelos
modernos Anás e Caifás)
* Uma descrição pormenorizada da cripta onde foi sepultado Jesus Cristo
aparece no volume anterior desta obra, que corresponde à primeira parte do
diário do major norte-americano. Nela, com efeito, se diz que o tecto da gruta
estava a um metro e setenta centímetros de altura e que a câmara era quadrada:
com cerca de três metros de largura. (Notas do autor)

Uma vez acesas as velas, o grupo é convidado quase
compelido a abandonar o lugar, com a desculpa de que são
muitos os fiéis que ainda aguardam do lado de fora. Nisso
têm razão, se bem que as verdadeiras intenções dos gregos
ortodoxos apontem para outra direcção. Se tivermos em conta
que ao longo de qualquer Semana Santa a cripta é visitada,
em média, por quarenta e seis mil pessoas e que a média do
dinheiro doado por pessoa é de cerca de cinco dólares norteamericanos,
não é preciso ser muito perspicaz para adivinhar
quais as intenções.
Como dizem os Israelitas, o túmulo de Jesus de Nazaré é
uma mina de ouro. Que negócio desta natureza arrecada um
lucro médio diário de quinze mil dólares?
Foi talvez um momento de fraqueza. Mas, diante de
semelhante absurdo, não pude conter-me. É claro que não dei
nem um centavo. Encarando o impassível pope, censurei-o
pelo que eu considerava um desonesto aluguer do túmulo do
Nazareno. O grego acariciou as suas negras e desalinhadas
barbas e, olhando para mim com displicência, argumentou:
- Ninguém o obriga, irmão.
- Claro.
Não houve tempo para mais. O ajudante, obedecendo a um
significativo e estudado olhar do sacerdote, agarrou no meu
braço e, suave mas firmemente, levou-me para a saída.
Entristecido e indignado, não parei até alcançar a muralha
sul da Cidade Santa. Cidade Santa? Meu Deus! Como as
coisas mudaram tão pouco!.
Uma ligeira brisa recebeu-me sob o arco da Porta de Sião,
no final do bairro arménio. Parei, procurando acalmar o meu
espírito. No fundo, quem é que pode mudar tão
drasticamente as tendências e fraquezas humanas? Talvez
algum dia como profetizou o Mestre - o mundo saia do
inverno materialista para entrar na primavera espiritual. Mas
isso parece ainda vir longe.

Ao entrar na calçada de Hativat Etzioni, entre as muralhas
da Cidade
Velha e o monte Sião, o meu único guia foi o instinto. Ao
fim de alguns minutos eu já estava à beira dos profundos
barrancos do vale de Hinnom, onde, outrora, se localizara a
lixeira da Jerusalém bíblica: a Geena mencionada nos
Evangelhos canónicos. Aquela sinuosa depressão, salpicada
de rochas e penhascos, não tinha mudado muito. A principal
e mais forte lembrança daquele desfiladeiro era a ansiosa
busca, na manhã de sábado, 8 de Abril do ano 30, em
companhia do jovem João Marcos, do desaparecido Judas.
Procurei orientar-me, num absurdo esforço por reconhecer o
sítio exacto sobre o qual se atirara o infeliz apóstolo.
Eu lembrava-me muito bem de que o corpo jazia no fundo
daquela garganta, a uns quarenta metros de profundidade.
Recuei para ocidente, dando a volta à zona onde hoje se
levantam o túmulo de David e o Cenáculo. Foi inútil. As
sucessivas edificações e as mudanças na ortografia tinham
apagado parte da antiga e abrupta depressão. Talvez a
Igreja de Santo André, mesmo à beira do Derech Hevron, seja
o recanto mais próximo.
Mas não consigo ter a certeza. É triste a cristandade não
ter levantado apesar de Judas ter sido um traidor um
simples e modesto monumento à memória de uma
personagem tão importante e porque não? - tão próxima do
Mestre. Oxalá estas linhas animem alguém a empreender o
caritativo não sei se justo empreendimento de colocar
uma cruz no fundo ou na orla do vale de Hinnom, em memória
do Iscariotes. Quanto a mim, depois de apanhar numa das
encostas do barranco um punhado das primeiras margaridas e
de as ter envolvido em verdes e brilhantes murtas silvestres,
muito abundantes entre aqueles rochedos, lancei o
improvisado ramalhete para o coração do desfiladeiro.
Nunca consegui uma explicação satisfatória do porquê
daquele sincero gesto.

Talvez, por vezes, me sinta mais atraído pelos homens
derrotados ou enganados do que pelos justos ou
irrepreensíveis. Ele, apesar de tudo, também tinha amado
Judas. E em certa ocasião tinha dito: «Deus é tão liberal que
até permite que erres. Quando for o caso, pede explicação
ao teu irmão, mas nunca o odeies. Só quando olhardes para
os vossos irmãos com caridade é que podereis sentir-vos
contentes».
Lancei um último olhar à minha modesta oferenda,
confundida entre os abrolhos e arbustos que crescem
dolorosamente entre as fendas rochosas do fundo e,
reconfortado, voltei pelo caminho que serpenteia
paralelamente ao Hinnom, vindo pelas Calçadas de
Melchisedek e HaOfel. Sob o famoso pináculo do Templo, no
extremo mais oriental da Cidade Velha, dezenas de pombos
como há dois mil anos aninhavam-se nos buracos da
orgulhosa muralha. Mas a minha atenção desviou-se para a
encosta ocidental do monte das Oliveiras.
O passar dos séculos e a construção na encosta das
conhecidas igrejas e santuários de Getsémani Dominus Flevit,
o túmulo da Virgem Maria, o de Santa Maria Madalena e a
Igreja das Nações, entre outras, alteraram o perfil primitivo e
genuíno do monte sagrado. Exceptuando alguns círculos
isolados de oliveiras, o resto é igualmente irreconhecível.
Caminhei lentamente, seguindo o curso da muralha oriental
do desaparecido Segundo Templo, e fazendo contínuas
paragens. Mas, salvo os precipícios que vão configurando o
velho leito do Cédron e os quatro monumentos funerários que
ainda estão de pé no começo daquela rampa do monte das
Oliveiras atribuídos a Absalão, Josafat, Tiago e Zacarias -,
nada conserva do seu antigo aspecto.
Os velhos caminhos que iam de uma ponta à outra,
atravessando o vale, e que o Galileu tinha palmilhado nas
idas e vindas

* Dominus Flevit ou O Senhor Chorou lembra as lágrimas derramadas por Jesus
na manhã do Domingo de Ramos. A primitiva igreja, obra dos Cruzados, data do
século xII.
Após a sua destruição, foi reconstruída em 1891 em forma de lágrima. (N. Do
M)
2 Também chamada Igreja Russa. Foi construída em 1888 pelo czar Alexandre
III, em memória de sua mãe. É propriedade das freiras russas. Na cripta encontrase
sepultada a grã-duquesa Elizabete Feodorovna, irmã da imperatriz Alexandra,
morta na Sibéria em 1918 pelos bolcheviques. (N. Do M.)
A actual igreja, uma das mais belas de Jerusalém, foi construída no princípio
do século xx. É chamada Igreja das Nações porque os fundos para a sua
construção foram doados por dezasseis países. Em cada uma das cúpulas pode
admirar-se o escudo, em mosaico. De cada uma das dezasseis nações. Em frente
ao altar pude observar os restos daquilo que a tradição cristã considera como
uma das rochas da agonia de Jesus de Nazaré. A verdade é que a basílica e o
bloco de pedra em questão se encontram praticamente no fundo do vale de
Cédron, e a referida oração do horto teve lugar numa cota superior, e um pouco
mais a norte, da encosta ocidental do monte das Oliveiras. (N. Do M.)
As tradições judaico-cristãs asseguram que este estreito vale do Cédron será o
cenário do Juízo Final. (N. Do M)
de Betânia ou do acampamento de Getsémani, tinham sido
apagados ou substituídos por modernas estradas e vias
alcatroadas.
Um vento frio começou a soprar de nordeste, arrastando
nuvens negras e ameaçadoras sobre Jerusalém. Restariam
apenas três horas de luz e, consciente de que a nossa
próxima reunião no Ramada Shalom tinha sido programada
para as dezoito horas, estuguei o passo.
Também não sabia, naquele momento, o que buscava.
Talvez algum oculto ou remoto vestígio do lugar onde o
Mestre costumava instalar o Seu acampamento?
Conforme me fui aproximando do jardim do Getsémani,
aquele interesse foi-se diluindo. Como já disse, nem mesmo o
templo que recorda o lugar onde foi preso o Galileu está
correctamente situado.
Durante alguns minutos, fui pela estrada estreita que sobe
em direcção ao cimo e vai dar à mesquita da Ascensão. E,
tomando como referência a Porta Dourada do muro oriental

do Templo (agora fechada até ao fim dos tempos), virei à
esquerda, saindo da calçada. Se não estava enganado, não
muito longe dali vivera os intensos momentos da oração do
horto, do suor de sangue ou hematidrose de Jesus e, numa
cota inferior, no velho e desaparecido caminho, presenciara a
chegada das tropas romanas e levitas e a acidentada prisão
do Mestre. Não tardei muito a desistir. Depois de uma curta
incursão num pequeno campo onde cresciam oliveiras novas,
uma série de quintas modernas impediu-me a passagem.
Tudo tinha sido engolido pelo progresso. Mais uma vez,
perdido no meu próprio presente, lamentei que os seres
humanos não tenham sabido ou querido respeitar um lugar
tão íntimo e sagrado como aquele.
Sei que é um sonho impossível; mas não teria sido mais
emotivo e autêntico conservar, tal como eram, os lugares
onde viveu Cristo, sem igrejas nem santuários? Depois destas
vivências decepcionantes, compreendo melhor os seguidores
do Rabi da Galileia, que preferem manter a sua lembrança
afastando-se dos tradicionais lugares santos e procurando os
lugares montanhas, desertos, praias da Galileia ou campos
que continuam virgens e sem qualquer transformação.
Pouco faltou para que, ao descer em direcção à
movimentada estrada de Derech Jericho a que passa à
frente da igreja de Getsémani continuasse no meu caminho
à procura de um táxi que me levasse ao hotel. Mas, algo
inexplicável, essa espécie de força interior que me
acompanha desde então, me obrigou a parar diante da porta
do Holy Place: o jardim onde se conservam e cuidam oito
veneráveis oliveiras que, segundo a tradição, foram as
mesmas que abrigaram o Mestre. Depois de me livrar dos
inevitáveis vendedores ambulantes e dos árabes que se
empenhavam em montar os turistas nos seus camelos, entrei
no silencioso e sossegado recinto.
Começava a chover e a maioria dos poucos visitantes
precipitava-se para a saída. Ao ver as velhas oliveiras

enroscadas, senti um estremecimento. Alguns daqueles
vetustos e grossos exemplares eram, de facto, idênticos aos
que cresciam na propriedade de Simão, o Leproso. Agarrado
à cerca de ferro que os separa e protege do público e
absorto na contemplação daquelas possíveis testemunhas
mudas da passagem de Jesus de Nazaré durante as Suas
caminhadas pelas encostas do monte das Oliveiras, não me
apercebi da forte chuva que me encharcava. Até que,
providencialmente, quase como uma aparição, vi surgir de
baixo de uma das frondosas oliveiras, uma personagem
pequenina que, rapidamente, se colocou diante de mim. Com
um sorriso luminoso, o franciscano fez-me cair na realidade,
recordando-me que estava a chover. E, sem mais cerimónias,
fez-me atravessar a grade, conduzindo-me para junto da
gigantesca árvore de onde eu o vira sair uns segundos antes.
Era o padre José Montalverne, por acaso jardineiro excelente
e uma das autoridades mundiais no tema das velhas oliveiras
do Getsémani. Sob as brilhantes folhas verde-brancas do
improvisado guarda-chuva estabeleceu-se entre nós uma viva
corrente de simpatia mútua.
Quando lhe perguntei qual a antiguidade real daqueles
oito exemplares, o religioso sorriu maliciosamente, como se
aquela pergunta fosse habitual entre os peregrinos que as
visitam diariamente. O amável e paciente franciscano
explicou-me então que tinham submetido uma amostra de um
tronco abatido em 1954 às provas do carbono 14. Pois bem,
segundo as tabelas de Nieh-Bohr, aquela madeira remontava
a duzentos anos antes de Cristo.
Quando retorqui que os romanos tinham mandado cortar
todas as árvores que rodeavam Jerusalém 1, Montalverne,
sem se alterar, aconselhou-me que, se eu desejasse mais
informações sobre as oliveiras, não hesitasse em consultar o
professor Shimon Lavee, director do Volcani Agriculture
Centre, em Bet-Dagan. Lavee é considerado o maior
especialista do mundo em oliveiras. E, segundo este

cientista, qualquer oliveira de Israel que tenha uma base de
seis metros de circunferência, tem, pelo menos, dois mil anos.
O franciscano indicou-me então o enrugado e tortuoso tronco
da árvore que nos resguardava da chuva, acrescentando:
- E esta, meu querido amigo, tem onze metros e oitenta
centímetros.
A verdade é que eu não precisava de tantas explicações.
Mas foram bem recebidas. Saltava à vista que algumas das
veneradas oliveiras do horto do Getsémani tinham dois mil
anos ou mais.
E, movido por um íntimo desejo, peguei com os meus dedos
num dos ramos e aproximei-o dos lábios. O bom franciscano,
talvez comovido por aquele beijo espontâneo, apressou-se
então a cortar um raminho com folhas, e deu-mo. Eu sabia
que aquilo era proibido. Uma das justificações para a
existência da cerca metálica que rodeia as oito oliveiras é
precisamente esta: «evitar que o excessivo entusiasmo dos
peregrinos destrua as árvores». E agradeci repetidamente a
sua generosidade. Hoje, as compridas, ainda verdes e
queridas folhas são a única lembrança física da minha
passagem por Israel.
* Para muitos historiadores, este ponto não está completamente claro. Flávio
Josefo escreveu que Tito mandou cortar todas as árvores existentes à volta da
Cidade Santa.
Isto aconteceu no ano 70. Outros especialistas, por seu lado, opinam o
contrário: que o general romano Vespasiano e o seu filho Tito tiveram a máxima
preocupação em respeitar os lugares sagrados. E este, Getsémani ou Jardim de
Zorobabel", como ainda lhe chamam os Árabes, era considerado uma zona
sagrada e monumental. Ao que parece, este jardim" foi plantado por ordem do rei
Ciro da Babilónia, por volta dos anos 520-530 a. C. (N. Do M)

2 Durante a minha primeira visita a Israel (1985), ao percorrer o jardim de
Getsémani, pude comprovar como alguns turistas chegavam a pagar cinquenta
dólares para que os respectivos guias lhes conseguissem sempre às escondidas
algumas folhas ou ramos daquelas oliveiras. (N. Do A)
Entre as sombras do ocaso, com o meu precioso tesouro nas
mãos, regressei finalmente ao nosso quartel-general: o
Ramada Shalom. Eliseu estava à minha espera nervoso e
impaciente.
Algo de muito grave estava para acontecer.
A preocupação dos meus companheiros era mais do que
justificada. Durante a sua permanência na embaixada dos
Estados Unidos em Jerusalém
tinha circulado um rumor confirmado nessa manhã que
podia pôr
em perigo a já complicada situação. As autoridades
jordanas tinham prendido o chefe dos serviços secretos da
organização guerrilheira palestiniana
Setembro Negro, Abu Daoud, quando se preparava para
entrar, de automóvel, na Jordânia, vindo da vizinha Síria. Com
ele foram capturados
outros vinte terroristas. A informação, devidamente
comprovada pelo
Mossad e pelo Agafl, estava correcta e não demorou a
chegar aos serviços secretos norte-americanos destacados em
Amã e, quase simultaneamente, aos de Israel. No dia
seguinte, 20 de Fevereiro, o jornal Davar confirmaria os
factos, prognosticando o recrudescimento da guerra fria
entre a Líbia defensora até às últimas consequências dos
movimentos guerrilheiros palestinianos e a Jordânia.
Aquilo, insisto, podia prejudicar-nos seriamente. Era por
todos sabido que quando o Mossad Lemodün Vetafkidim
Meiujadim (o célebre Instituto de Informações e Operações
Especiais ou Mossad) ou o exército israelita davam um golpe
na resistência palestiniana, esta respondia com tanta

violência como rapidez, escolhendo às vezes de maneira
suicida os objectivos mais à mão. E nós a estação
receptora de imagens, desmontada e escondida no interior
da mesquita da Ascensão éramos mais que um hipotético
alvo militar das facções palestinianas.
Aquela noite de 19 de Fevereiro foi especialmente tensa.
Receávamos pela segurança do berço, mas, salvo roer as
unhas e tentar descobrir onde estava Curtiss, não
conseguimos grande coisa. O general, de acordo com as
informações que tínhamos em nosso poder, devia encontrarse
desde a manhã do domingo, 18 de Fevereiro - em plena
batalha com o estado-maior do general Eleazar, lutando e
pressionando, supúnhamos nós, para descobrir a nova
localização da estação e o sistema operacional que
permitisse o transporte dos equipamentos.
Por volta das onze horas dessa noite, finalmente, tocou o
telefone do quarto de Eliseu, onde estávamos reunidos. Era o
director do Projecto.
As suas ordens foram breves e contundentes: tínhamos de
pôr em andamento a fase azul do programa. Apesar das
nossas
*3 Nesta parte do diário do Major aparece um pequenino sobrescrito de
plástico, colado à folha correspondente, contendo três folhas de oliveira de 45
centímetros de comprimento cada uma. Para mim também constituem um
inestimável tesouro. (N. Do il) Agaf ou Agaf Hamodün: Serviços Secretos do
Exército de Israel. Trabalha paralelamente ao Mossad. Trata-se de um
departamento do estado-maior.
Entre as suas múltiplas funções especiais figuram a estruturação das
avaliações na política de segurança nacional, sempre baseadas em informações
secretas; a obtenção de informação de carácter militar nos países vizinhos (muito
em especial nos árabes); desenvolvimento de metodologias e tecnologias
especiais para o trabalho dos Serviços Secretos; cartografia militar; censura e
segurança militares, e a supervisão da missão dos adidos militares israelitas no
estrangeiro. A sua eficácia era extraordinária, tendo granjeado, do mesmo modo
que o Mossad, um reconhecido prestígio mundial. (N. Do M)

insinuações, Curtiss negou-se a falar. «Amanhã em Lod foi
a resposta dele. - Já está tudo preparado. O árabe estará aí
às oito horas. Boa sorte».
Eliseu compreendeu que não havia nada a fazer e desligou
o telefone.
A fase azul nome de código só conhecido por Curtiss, os
directores e nós era, na realidade, a primeira das três
etapas em que tinha sido dividida a segunda aventura. Mas
não irei referir-me, por agora, às fases seguintes: a verde e
vermelha. A que devíamos executar no dia seguinte era vital,
face à exploração a que nos propúnhamos. Como simples
informação antecipada, direi que, segundo o programa
previsto pelo Cavalo de Tróia, um dos meus trabalhos do
outro lado supondo que tudo funcionasse correctamente
consistiria na análise da natureza e composição atómica e
molecular do chamado, pelos cristãos, corpo glorioso de
Cristo. Supondo, naturalmente, que essas aparições, depois
da morte e ressurreição, fossem verdadeiras.
Para isso, a minha querida e familiar vara de Moisés tão
útil nas comprovações médicas durante a Paixão e Morte de
Jesus tinha de sofrer algumas modificações, às quais me
referirei em seu devido tempo.
Um dos dispositivos, em especial, era fundamental para o
desempenho dessa missão de investigação do misterioso
corpo glorioso.
E, apesar do seu acondicionamento no interior da vara não
levantar muitas dificuldades técnicas, a escassez do tempo
disponível e o necessário transporte da sofisticada
ferramenta para os Estados Unidos preocupava-nos. Nisto,
portanto, se baseava a fase azul: enviar para o nosso país os
equipamentos susceptíveis de alterações ou mudanças.
Dadas as difíceis circunstâncias que atravessávamos
dificultadas ainda mais pela detenção de Abu Daoud -, o que
em condições normais teria sido um trâmite sem

complicações, apresentava-se agora como uma operação
comprometedora. Eu explico-me. Na sequência dos
acontecimentos azarentos vividos nos últimos dias, e por
razões de segurança, Curtiss tinha preferido que a vara de
Moisés ficasse com o resto dos equipamentos na mesquita.
Agora, tinha de a tirar de lá e, devidamente embalada e
camuflada, transportá-la o mais segura e rapidamente
possível para os Estados Unidos. Com os israelitas, em
princípio, não parecia haver muitos problemas.
O general, no decurso dos seus contactos com o estadomaior,
tinha-se encarregado de esclarecer que, face a uma
segunda montagem da estação receptora de imagens, parte
dos instrumentos tinha de ser revista e renovada pelos
especialistas da USAF.
Os israelitas compreenderam e aceitaram, oferecendo todo
o tipo de facilidades para o transporte. Mas a ameaça
palestiniana contra o octógono da Ascensão obrigava à
adopção de medidas complementares. Aí entrávamos nós,
sempre de mãos dadas e convenientemente protegidos pelos
astutos israelitas.
O plano para a retirada da vara era perfeito e sem
complicações aparentes.
Na manhã seguinte, terça-feira, 20 de Fevereiro, às oito
horas, um potente automóvel um Subaru, de chapa amarela,
com
* Os veículos com este tipo de chapa ou matrícula estão autorizados a circular
livremente em todo o Estado de Israel.
Nas chamadas zonas ocupadas" (habitadas sobretudo por árabes). os turistas
particulares usam chapas azuis e os táxis, verdes. (iV. Do M.)

matrícula 22-552-84 parava em frente da porta do hotel.
Eliseu e eu, de acordo com o estabelecido, ocupámos os
bancos de trás e o automóvel arrancou sem perder um
segundo. Ao volante e no banco do lado silenciosos como
múmias viajavam dois indivíduos absolutamente
desconhecidos para nós.
Vestiam-se à maneira árabe: com os respectivos abba ou
albornozes de lã castanha-escura e lenços aos quadradinhos
brancos e vermelhos na cabeça, seguros com duas voltas de
um grosso cordão negro.
Um deles, o que conduzia, a julgar pelo bigode, pêra e pele
escura, devia ser um muçulmano autêntico. Talvez um
beduíno. O outro, pelo contrário, mais novo, branco, de nariz
proeminente e olhos claros, apresentava características muito
típicas dos sabras1.
Ambos deviam ser, sem sombra de dúvida, membros do
exército israelita ou, isso nunca o soubemos, talvez de algum
dos serviços secretos de Israel. Mas o importante é que
estavam ali para nos ajudar.
Vinte minutos depois, o Subaru estacionava em frente do
restaurante The Tent. Os controlos montados pelos soldados
israelitas em redor da mesquita da Ascensão situada a
vinte metros do referido restaurante, impediam a passagem
de qualquer veículo não autorizado. E o nosso, ao que
parecia, também não estava.
Estranhei aquilo. Horas depois, Curtiss explicou-nos o
porquê de tão anómala e, até certo ponto, absurda situação.
Assim que saímos do carro, o árabe de pele branca dirigiuse
ao oficial responsável, mostrando-lhe um documento do
qual apenas consegui decifrar algumas palavras em inglês. O
resto estava escrito em caracteres orientais. E de repente
comecei a perceber.
Aquele organismo oficial Santa Custódia deu-me uma

ideia do que tinham tramado as altas esferas. Desde o início
dos trabalhos de restauração dos supostamente danificados
alicerces do octógono, os membros da Santa Custódia dos
Lugares Sagrados responsáveis também pela mesquita
vinham controlando o trabalho dos arqueólogos e
especialistas.
Aquela visita, por conseguinte, podia ser interpretada como
uma rotineira ronda de inspecção por qualquer hipotético
observador do recinto.
O que desconhecíamos, então, era que o tenente que se
encarregara do documento estava a par da manobra e,
obviamente, da verdadeira identidade dos nossos
acompanhantes. Isto explicava porque é que em tão
delicados momentos com a ameaça de um atentado
palestiniano o oficial israelita nos dava tão pouca atenção.
Depois de simular que revistava a nossa roupa, deu ordem
para que nos acompanhassem até ao muro que rodeia a
capela. Os supostos árabes foram à nossa frente e, uma vez
no interior, fecharam a pequena porta metálica, fazendo-nos
um sinal para que avançássemos.
Durante o tempo gasto na localização e recolha dos dois
estojos blindados com pouco mais de um metro de
comprimento cada um e nos quais fora colocado um rótulo
que dizia: Frágil.
* Assim são chamados os nascidos em Israel. Sabra é o nome do fruto da
figueira-da-índia, muito abundante naquele país.
Tal como os sabras repletos de espinhos por fora, mas doces por dentro -, os
Israelitas, à primeira vista, são duros.
Quando os conhecemos. Vemos que são afáveis e agradáveis como o fruto da
figueira-da-índia. (N. Do A)

material de laboratório que continham as diferentes
peças desmontadas da vara de Moisés, os nossos
protectores não arredaram pé da entrada.
Às nove horas, uma vez arrumada a carga no portabagagens
do carro, este partia a toda a velocidade na
direcção norte.
Vinte minutos depois, no aeroporto de Jerusalém um
helicóptero da Força Aérea israelita levava-nos para Telavive.
Às dez horas e cinco minutos, depois de dezasseis minutos
de voo, aterrávamos na zona militar do aeroporto
internacional de Lod. Ali, no fim da pista, esperava-nos,
sorridente, o general Curtiss. Ele próprio tomou conta das
caixas metálicas, confiando a sua custódia aos dois membros
do Cavalo de Tróia que deveriam levá-las para a Base
Edwards, nos Estados Unidos. A meio da manhã, um voo
regular da TWA descolava, via Roma com o nosso precioso
equipamento. A fase azul estava quase concluída.
Bastante mais calmos, de regresso a Jerusalém, a velha
raposa quis saber como terminara a nossa visita à mesquita
da Ascensão. Quando lhe perguntei porque é que o Subaru
não ia já com a devida autorização para estacionar na
praceta, simplificando assim as coisas, Curtiss fez-nos a
seguinte observação:
- a farsa, preparada de facto, pelos serviços secretos
israelitas, tinha um objectivo primordial: despistar os
possíveis informadores da guerrilha palestiniana, muito
atenta, segundo o Mossad a todos os movimentos dentro e
fora da mesquita. Neste sentido, a subtileza israelita tinha
chegado ao extremo de utilizar um automóvel semelhante ao
do árabe encarregue de vender os souvenirs no escuro
interior do octógono. Falsificando até a matrícula. Em resumo,
dada a estreita ligação deste muçulmano cuj a identidade
silencio por razões óbvias com a Santa Custódia, o serviço
secreto aconselhou a substituir, para esta missão, o

encarregado da mesquita, com automóvel e tudo. Se o
resgate da vara concluiu o general tivesse sido efectuado
às claras pelo exército israelita ou pelo pessoal norteamericano,
o seu transporte estaria permanentemente
ameaçado. O Mossad avisou com toda a clareza, não se
responsabilizando pela segurança dos instrumentos se não
acatassem o seu plano e os seus métodos.
Uma vez concluídas estas explicações, Curtiss não fez mais
comentários, apesar da nossa insistência. O resto dos
sessenta e dois quilómetros que separam Telavive de
Jerusalém foi feito num profundo silêncio. Sabíamos que o
general estava na posse de mais informações. Mas
respeitámos o seu silêncio, embora impacientes, isso sim,
por conhecermos o desenlace da missão.
Aquilo era novo. Curtiss olhou para nós, divertido, mas não
disse nada. Quando finalmente nos sentámos no quarto de
Eliseu, o general, referindo-se aos três homens à paisana
que havíamos cumprimentado no corredor, junto às portas dos
nossos respectivos quartos, esclareceu:
- Não se assustem. São coisas da embaixada. Lá em baixo,
no hall, digo-o só para que tenham conhecimento, há mais.
Era a primeira vez que se tomavam medidas de segurança
tão excepcionais e, francamente, ficámos alarmados.
Evidentemente, alguma coisa não estava a correr bem. Mas o
som do telefone obrigar-nos-ia a adiar algumas das muitas
perguntas que, na minha opinião, tínhamos direito a fazer. O
resto da equipa estava à espera na sala de jantar do hotel.
Quando saiu do quarto, Curtiss trocou umas breves palavras
com um dos funcionários, e logo dois deles se juntaram a
nós.
Ainda mal tínhamos começado a almoçar sempre sob a
discreta vigilância dos guarda-costas, sentados a uma mesa
próxima e o general adiantou-se aos meus pensamentos e

às minhas intenções.
- Suponho que já sabem da prisão desse guerrilheiro. Como
é que se chama?
- Abu Daoud interveio um dos directores do Projecto.
- É isso concordou Curtiss com um gesto de preocupação.
O Governo de Golda receia uma represália palestiniana.
Portanto, não se admirem comentou baixando o tom da voz
e apontando dissimuladamente para os funcionários das
medidas especiais que se adoptaram.
Pessoalmente, creio que este incidente nos pode
beneficiar.
Perante a lógica consternação dos presentes, concluiu
assim a sua exposição:
- Esse perigo latente obrigou os israelitas a acelerar a
mudança dos equipamentos para o novo local.
- Então interrompeu Eliseu -, já se sabe qual é o local.
Curtiss esboçou um sorriso malicioso. Todos esperávamos a
ansiada resposta. Mas isso não aconteceu.
- Há quarenta e oito horas. Exactamente desde a manhã de
domingo, pouco depois da rede do Mossad ter sido
informada da presença de Daoud na Jordânia.
- E então? - pressionámos.
- Sinto muito. Peço-vos um pouco de paciência. Às sete
horas da próxima quinta-feira, dia vinte e dois, talvez eu já
esteja autorizado a revelar-vos o local.
Curtiss percebeu o descontentamento e a desilusão nos
nossos rostos.
Éramos os seus homens de confiança. Porquê, então,
aquela postura absurda?
- Compreendam insistiu, tentando ultrapassar a evidente
decepção colectiva. - São ordens do estado-maior israelita. O
que sem dúvida vos posso adiantar é que a Operação

Eleazar terá início amanhã ao anoitecer.
Eleazar? Amanhã? Que diabos teria querido dizer? Curtiss,
seguindo o seu costume, deixou-nos falar. Quando os
ânimosjá pareciam mais calmos, tomou de novo a palavra,
fazendo duas únicas advertências. Primeira: O exército
israelita levaria a cabo nessa noite, dia vinte e um, um
ataque preventivo que marcaria o começo da Operação
Eleazar; Segunda: Às seis horas e quarenta e cinco minutos
de quinta-feira, todos nós juntamente com a nossa
bagagem nos deveríamos encontrar no vestíbulo do hotel
- Ah, já me esquecia! - concluiu Curtiss, retomando o seu
sorriso tranquilizador. - E com o aspecto de arqueólogos
dedicados.
Nenhum dos presentes insistiu. Conhecíamos o veterano
militar e não valia a pena. Algo decisivo isso estava claro
- fora orquestrado nos gabinetes do estado-maior israelita.
Mas o quê? Até que ponto estava em perigo a segurança
da estação receptora de imagens para que o exército tivesse
planeado um ataque preventivo? Meu Deus!
Todos conhecíamos a dureza desses ataques-surpresa"
israelitas e começávamos a suspeitar que não tardaria a
haver sangue.
Aquela funesta ideia tão estranha ao que eu tinha
aprendido com o Mestre não me abandonaria nas tensas
horas seguintes.
Curtiss mudou de tema, interessando-se pelos pormenores
do aparentemente próximo salto. Examinou muito
superficialmente o relatório redigido pela equipa e, depois
de o guardar na pasta, prometeu estudá-lo nessa mesma
noite. Vários directores do programa, logicamente
preocupados com uma infinidade de problemas técnicos,
assaltaram-no com perguntas.

Mas o general só respondeu com alguma precisão a uma
delas: a que se referia à necessária reserva de combustível.
Sem essa reserva de peróxido de hidrogénio que deveria
chegar dos Estados Unidos a nova e fascinante aventura no
tempo seria inviável.
- Está a caminho anunciou, ao mesmo tempo que se
levantava, dando assim por encerradas a refeição e a
reunião. - Amanhã, às oito, voltaremos a ver-nos. Nessa
altura talvez já se possam desvendar algumas das incógnitas
que me colocaram. Entretanto, por favor, continuem a
trabalhar no plano. Pr eocupa-me, sobretudo, o novo
equipamento de Jasão e o tempo real de permanência no
outro lado. A propósito - acrescentou, fazendo-me um gesto
para que o acompanhasse -, tenho um trabalho, extra para ti.
Enquanto nos aproximávamos da porta do hotel, Curtiss
abriu de novo a pasta e tirou um pequeno embrulho. E, antes
de entrar no veículo oficial que o esperava, sussurrou-me
quase ao ouvido:
- Confio na tua total discrição. Quero que estudes isto.
Ser-vos-á de grande utilidade. Mas, por favor, nem uma
palavra a ninguém. Pelo menos até eu te autorizar
pessoalmente.
Disse que sim com a cabeça. Segundos depois perdia-me
na solidão do meu quarto. Aquele misterioso pedido do
general tinha aguçado novamente a minha curiosidade.
O embrulho continha quatro livros não muito volumosos.
Todos sobre um mesmo tema. Curtiss, ao seleccionar os
autores Flávio Josefo, Adolfo Schulten, Yadin, e a antologia
formada por Avi-Yonah, N. Avigad, Y. Aharoni, I. Dunayevski e
S. Guttman -, tinha procurado, como sempre, a máxima
eficiência.
Ao informar-me, por intermédio daquelas páginas, das
sucessivas expedições arqueológicas protagonizadas e
dirigidas pelos referidos autores (exceptuando,

naturalmente, o judeu romanizado Flávio Josefo), comecei a
compreender. Aquele lugar, descrito com toda a riqueza de
pormenores nas obras que o general me tinha dado, tinha de
ser o misterioso local da estação receptora de imagens. E do
berço. Se assim fosse, a não menos intrigante Operação
Eleazar do exército israelita também começava a ter um
indubitável e inteligente sentido.
Permaneci absorto no estudo e na leitura daqueles textos,
mapas e fotografias até alta noite. Então, a minha máxima
preocupação era a distância considerável que existia entre
aquele monumento da história de Israel e o ponto de
contacto" que tínhamos escolhido, em princípio, para a
descida do módulo. Esta circunstância, como já disse, podia
multiplicar os riscos da missão.
Mas, é justo dizê-lo, também a suposta futura base de
operações reunia consideráveis vantagens. Só quando Eliseu
reclamou por telefone a minha presença é que compreendi
que me esquecera dos outros companheiros. A equipa estava
reunida há horas no quarto ao lado, o do meu irmão. Não
demorei a juntar-me a eles para retomar as exaustivas
revisões do plano. Ninguém me perguntou nada. No entanto,
ao ver a minha expressão grave e preocupada, Eliseu olhou
para mim com apreensão.
Dois dias depois em plena evolução da Operação Eleazar
recordar-me-ia daquele momento e de como ele pressentira
que eu estava a par de algo importante.
Pouco faltou para que, ao ir-mo-nos deitar já bem de
madrugada, eu contasse ao meu querido companheiro o que
Curtiss tinha colocado nas minhas mãos. Mas, o espírito de
disciplina impôs-se e deixei que os acontecimentos
seguissem o seu curso natural.
Ao contrário do que deve ter acontecido com os directores
do Programa e com Eliseu, a tensão nervosa traiu-me. Foi uma
noite difícil. Carregada de presságios. Angustiante. Depois

de me remexer várias vezes na cama, optei por me levantar,
mergulhando novamente nos livros do general. Aquela
informação obcecou-me. Mas as longas horas de vigília não
foram totalmente infrutíferas. Pelo menos, tinha chegado a
uma conclusão que seria de indubitável utilidade na
resolução da futura exploração: uma vez consumada a
inversão axial das partículas subatómicas do módulo, este
deveria efectuar um voo horizontal e manual até ao ponto de
contacto, no cimo do monte das Oliveiras. Essa seria a minha
proposta definitiva.
Às oito da manhã de quarta-feira, 21 de Fevereiro, após um
prolongado e relaxante banho de chuveiro, fui ter com os
directores e com o pontual Curtiss no hall. E quero salientar
um facto que descobri naquela mesma manhã, justamente
quando me preparava para o asseio pessoal, e, ao qual, na
altura não dei o devido valor. Tratava-se de uma série de
sardas em que eu não tinha ainda reparado e que salpicavam
grande parte dos meus ombros, tórax, braços, antebraços e
costas das mãos.
Mas o que mais me surpreendeu foi a presença de
escamas, não muitas, nas pernas (faces anteriores) e nas
zonas dorsais dos antebraços. Nunca me tinha acontecido
nada que se parecesse, e, na verdade, nesse momento
também não lhe dei muita importância. Talvez o prolongado
uso da «pele de serpente», pensei, tenha provocado estas
alterações na epiderme.
Felizmente, fui-me esquecendo do incidente, sem sequer
chegar a comentá-lo com o meu irmão, ou com o resto dos
homens do Cavalo de Tróia. Se o tivesse feito, e tendo em
conta a fatal descoberta de Curtiss pouco antes do
lançamento, a missão talvez tivesse naufragado ali mesmo.
Mais uma vez, a sorte esteve do nosso lado. O general, tal
como prometera, tinha revisto a fundo o projecto elaborado e
redigido pelos directores da operação e por nós próprios.
Mas,

* Quem chegar a ler este diário deverá perdoar-me o facto de não citar, por
agora, o nome do local que provocou as referidas expedições arqueológicas. É
meu propósito tentar respeitar ao máximo a ordem cronológica dos
acontecimentos vitais que precederam a nossa partida (n. Do M)
longe de esclarecer as dúvidas, foi ele quem dedicou
grande parte da manhã a interrogar-nos. A discussão centrouse,
como era de prever, no tempo de permanência do módulo
e dos seus tripulantes no outro lado. Para alguns chefes do
projecto, o ideal seria uma exploração que não ultrapassasse
os três dias.
Quer dizer, o necessário para recuperar o microfone. Os
restantes, praticamente a maioria, consideraram que se
tratava de uma ocasião única para tentar desvendar o que
acontecera nos quarenta dias que, segundo os textos
evangélicos, se passaram entre a morte e a suposta
ascensão aos céus de Jesus de Nazaré. A nova missão fora
concebida por forma a que, para além de recuperarem a peça
perdida, os exploradores tivessem a oportunidade de
verificar algumas das misteriosas aparições do Mestre da
Galileia e, sobretudo, como já referi, de analisar a natureza
do discutível e discutido corpo glorioso.
De facto, a vara de Moisés seria preparada para isso.
Este último critério o dos quarenta dias encerrava, não
obstante, um sério inconveniente que todos reconhecemos.
Com sorte, esticando ao máximo o período de montagem dos
instrumentos secretos da estação receptora de imagens, o
Cavalo de Tróia podia contar com uma margem de quinze a
vinte dias para o lançamento do berço, o desenrolar da
missão e o retorno à base. Um tempo insuficiente, sem
dúvida alguma.
A possível solução que surpreendeu a todos chegou
desta vez pelas mãos de Eliseu. Depois de nos ouvir
pacientemente, expôs o que ele chamou uma via intermédia.
Basicamente, consistia no seguinte: a ausência física do

módulo, a partir do instante da inversão de massa até ao
regresso, podia ser estabelecido nos quinze ou vinte dias já
referidos. Mas, uma vez situados no domingo, 9 de Abril do
ano 30, os expedicionários executariam o seu trabalho por
um período de tempo indefinido. Uma vez concluída a
exploração, seria apenas uma questão de manipular os
swivels, forçando os seus eixos para o instante escolhido
para o retorno e descida. No século xx.
Embora os astronautas vivessem física e realmente esses
quarenta dias, ou mais, no passado, essa manipulação dos
swivels tornaria viável o salto para o futuro, exactamente no
momento cronológico fixado para o final da operação 1.
Nota do Autor: Embora no primeiro volume desta obra se
incluam diversas notas explicativas sobre esta intrincada
matéria, entendo que talvez seja bom refrescar neste
momento a memória do leitor com algumas daquelas
surpreendentes revelações. No essencial (escrevia o major],
o "sistema básico" que dera impulso à operação consistia na
descoberta de uma entidade elementar generalizada no
Cosmos em que a ciência não reparara até àquele instante,
e que foi e seria, no futuro, a «pedra angular» para uma
melhor compreensão da formação da matéria e do próprio
Universo.
Esta entidade elementar que foi baptizada com o nome
de swivel pôs em evidência que todos os esforços da
ciência para detectar e classificar novas partículas
subatómicas não eram mais que uma estéril ilusão. A razão
minuciosamente comprovada pelos homens da operação em
que trabalhei era tão simples quanto espectacular:
um swivel tem a propriedade de alterar a posição ou
orientação dos seus hipotéticos «eixos», transformando-se,
assim, num swivel diferente. Hoje. Ainda, e dado que esta
sensacional descoberta não foi dada a conhecer à
comunidade científica do Mundo, numerosos investigadores e
peritos em física quântica continuam a descobrir e a detectar

uma infinidade de subpartículas (neutrinos, mesões,
antiprotões, etc) que só contribuem para obscurecer o
intrincado campo da física. No dia em que os cientistas
tenham acesso a esta informação compreenderão que todas
aquelas partículas elementares que constituem a matéria não
são mais que diferentes cadeias de swivels, cada uma delas
orientava-se, por conseguinte, com dois termos e realidades
aparentemente sobrepostos o tempo cronológico que fluía
em 1973 e o de idêntica natureza que fluíra num outro agora:
o do ano 30 da nossa Era -, mas que, graças à nossa
tecnologia, se tornavam independentes entre si.
Jogada de forma peculiar em relação às outras. Tanto os
especialistas que trabalharam nesta operação como eu
próprio tivemos de alterar as nossas velhas concepções do
espaço euclidiano. Com a sua rede de pontos e rectas, para
assimilar que um swivel é formado por um feixe de eixos
ortogonais que "não podem cortar-se entre si". Esta aparente
contradição ficou explicada quando os nossos cientistas
comprovaram que não se tratava de "eixos" propriamente
ditos, mas sim de ângulos (Daí que tenha metido entre aspas
a palavra "eixo" e me tenha referido a "hipotéticos eixos"). A
chave estava, portanto, em atribuir aos ângulos uma nova
propriedade ou carácter: o dimensional.
A descoberta deixou perplexos os poucos iniciados.
Arrastando-os irremediavelmente para uma visão muito
diferente do espaço. Da configuração íntima da matéria e do
tradicional conceito de tempo. O espaço, por exemplo, já não
podia ser considerado como um "contínuo escalar" em todas
as direcções. A descoberta do swivel lançava por terra as
tradicionais abstracções de "ponto", "plano" e "recta". Estes
não são os verdadeiros componentes do Universo.
Cientistas como Gauss, Riemann, Bolyai e Lobatschewsky
tinham compreendido genialmente a possibilidade de
ampliar os apertados critérios de Euclides, elaborando uma
nova geometria para um «n-espaço». Neste caso, o auxílio

das matemáticas evitava o grave escolho da percepção
mental de um corpo de mais de três dimensões. Nós tínhamos
imaginado um universo em que os átomos, partículas. Etc,
formam as galáxias, sistemas solares, planetas.
Campos gravitacionais, magnéticos, etc. Mas a descoberta
e posterior comprovação do swivel deu-nos uma visão muito
diferente do Cosmos: o Espaço não é mais que um conjunto
associado de factores angulares, integrado por cadeias e
cadeias de swivels. Segundo este critério, poderíamos
representar o Cosmos não como uma recta, mas como um
enxame destas entidades elementares. Graças a estas
bases, os astrofísicos e matemáticos que tinham sido
recrutados pelo general Curtiss para o Projecto Swivel foram
verificando, com assombro, como no nosso universo conhecido
se registam periodicamente uma série de curvaturas ou
ondulações, que oferecem uma imagem geral muito diferente
da que sempre tivemos.
Em princípios de 1960, e como consequência de um mais
intenso aprofundamento nos swivels, uma das equipas do
Projecto materializou outra descoberta que. Em minha
opinião, será um marco histórico da Humanidade: mediante
uma tecnologia que não posso sequer insinuar, os
hipotéticos eixos das unidades elementares foram invertidos
na sua posição. O resultado encheu de espanto e alegria, ao
mesmo tempo. Todos os cientistas: o minúsculo protótipo com
o qual se fizera a experiência desapareceu à vista dos
investigadores. No entanto, o instrumental continuava a
detectar a sua presença. Ao multiplicarmos os nossos
conhecimentos sobre os swivels e dominarmos a técnica da
inversão da matéria, apareceu diante da equipa uma
fascinante realidade: "mais além" ou do "outro lado" das
nossas limitadas percepções físicas existem outros universos
tão físicos e tangíveis como o que conhecemos (?).
Em sucessivas experiências, os homens do general Curtiss
chegaram à conclusão de que o nosso cosmos goza de uma

infinidade de dimensões desconhecidas. (Matematicamente,
foi possível a comprovação de dez) Destas dez dimensões,
três são perceptíveis para os nossos sentidos. E uma quarta
o tempo chega até aos nossos órgãos sensoriais como
uma espécie de «tluir», num sentido único, e que poderíamos
definir grosseiramente como «flecha ou sentido orientado do
tempo». A mim, pessoalmente, o que acabou por me cativar
foi o novo conceito de «tempo». Ao manipular os eixos dos
swivels, comprovou-se que estas unidades elementares não
"sofriam" a passagem do tempo. Elas eram o tempo! Longas
e laboriosas investigações puseram em relevo, por exemplo,
que aquilo a que chamamos "intervalo infinitesimal de
tempo" não era mais do que uma diferença de orientação
angular entre dois swivels intimamente ligados.
Aquilo constituiu um autêntico cataclismo nos nossos
conceitos do tempo. As verificações seguintes demonstraram.
Outra questão era o tempo biológico. Os cientistas sabem,
e já o demonstraram, que este obedece a parâmetros que em
muitíssimas ocasiões nada têm a ver com os do tempo
cronológico. Um ser humano vê ou sente passar o seu tempo
cronológico e, por sua vez, os seus órgãos podem estar a
passar por outro tipo de envelhecimento o
* (continua nota) série de swivels cujos eixos estão
orientados ortogonalmente em relação aos raios vectores
que implicam distâncias. De acordo com isto, descobrimos
que pode dar-se o caso se a inversão dos eixos for a
adequada que um observador, no seu novo marco
de referência, considere como distância o que no antigo
sistema referencial era avaliado como "intervalo de tempo". É
então fácil de compreender porque é que um evento ocorrido
longe da Terra (por exemplo, num planeta do cúmulo globular
M-13, situado

a vinte e dois mil e quinhentos anos-luz) nunca pode ser
simultâneo com outro que se registe no nosso mundo. Isto
deu-nos a explicação do motivo por que um objecto que
pudesse viajar à velocidade da luz encurtaria a sua distância
no eixo de translação, até se reduzir a um par de swivels.
Distância que, ainda que tenda para zero, não é nula, como
afirma erradamente uma das transformações do matemático
Lorentz. E já que mencionei o processo de inversão dos eixos
dos swivels, devo assinalar que, no princípio. Muitas das
tentativas de inversão da matéria falharam, precisamente por
uma falta de precisão na referida operação. Por não se
conseguir uma inversão absoluta, o corpo em referência por
exemplo, um átomo de molibdénio sofria o conhecido
fenómeno da conversão da massa em energia. (Ao
desorientar no seio do átomo de Mo, um só nucleão um
protão, por exemplo obtínhamos um isótopo do Nióbio-10)
Quando essa inversão foi absoluta, o protão parecia
aniquilado, mas sem quebrar o princípio universal da
conservação da massa e da energia. Não foi muito difícil
detectar que por um daqueles milagres da Natureza os
eixos do tempo de cada swivel se orientavam segundo uma
direcção comum. Para cada um dos instantes que poderíamos
definir puerilmente como o «meu agora». No instante
seguinte, e no seguinte e no seguinte e assim
sucessivamente esses eixos imaginários variavam a sua
posição, dando passagem a diferentes «agorá». E o mesmo
acontecia, obviamente, com os «agora» a que chamamos
passado". Aquele potencial simplesmente ao alcance da
nossa tecnologia fez-nos vibrar de emoção, imaginando as
mais esplêndidas possibilidades de "viagens" ao futuro e ao
passado. Procurarei indicar, ainda que sucintamente, algumas
das linhas básicas referentes à nova definição de "intervalo
de tempo".
Como já disse, os nossos cientistas entendem um intervalo
de tempo "T" como uma sucessão de swivels, cujos ângulos
diferem entre si em quantidades constantes. Quer dizer,

consideremos, num swivel, os quatro eixos (que não são mais
que uma representação do marco tridimensional de
referência), e que não existem, na realidade: por outras
palavras, que são tão convencionais como um símbolo,
embora sirvam ao matemático para fixar a posição do ângulo
real. Se dentro desse marco ideal oscila o ângulo real,
imaginemos agora um novo sistema referencial dos ângulos,
cada um dos quais faz noventa graus com os quatro
anteriores. Este novo marco de acção de um ângulo real e o
anteriormente referido definem, respectivamente, espaço e
tempo. Observemos que os «eixos vectores», que definem
espaço e tempo, possuem graus de liberdade distintos.
O primeiro pode percorrer ângulos-espaço em três
orientações diferentes.
Que correspondem às três dimensões típicas do espaço; o
segundo está "condenado" a deslocar-se num só plano. Isto
leva-nos a crer que dois swivels cujos eixos difiram num
ângulo tal que não exista no universo outro swivel cujo
ângulo esteja situado entre ambos definirão o mínimo
intervalo de tempo. A este imtervalo, repito, chamamos
«instante». Como exprimi anteriormente nem sequer posso
sugerir a base técnica que conduz à mencionada inversão de
todos e cada um dos eixos dos swivels, mas posso adiantar
que o processo é instantâneo e que a contribuição de
energia necessária para esta transformação física é muito
considerável. Essa energia necessária, posta em jogo até ao
instante em que todas as subpartículas sofrem a sua
inversão, é restituída "integralmente" (sem perdas),
transformando-se no novo marco tridimensional em forma de
massa. As experiências prévias demonstraram que,
imediatamente depois desse salto de marco tridimensional, o
módulo se deslocava a uma velocidade superior, sem que a
mudança (nota mais adiante).
Biológico que pode não ter qualquer relação com aquele.
Esta foi a nossa grande incógnita. A sugestão de Eliseu era

tecmicamente viável.
No entanto, nas experiências efectuadas no deserto de
Mojave nunca se tinha manipulado o tempo até esse
extremo.
Desconhecíamos, portanto, quais as consequêncìas que
poderia provocar no organismo humano. E isso,
evidentemente, preocupava-nos a todos. Este facto acarretarme-
ìa, a mim, que escrevo estas linhas, e ao meu irmão,
danos gravíssimos e irreversíveis.
O polémico assunto ficou finalmente em suspenso, à espera
de um estudo mais pormenorizado. Curtiss, nervoso perante
os acontecimentos que se aproximavam e que,
lamentavelmente, eram de uma natureza mais prosaica, tinha
pressa de encerrar a reunião.
Antes de sair do Ramada Shalom, deu-nos as últimas
instruções: no dia seguinte, às sete horas, um veículo
especial, a mando de um oficial israelita, viria buscar-nos.
Até esse momento, era aconselhável que não saíssemos do
hotel.
- Sobretudo, evitem a mesquita da Ascensão.
(Ao que parece, a Operação Eleazar começaria nessa
mesma noite, com o transporte dos contentores ali
depositados)
- A hora agá acrescentou coincidirá com um ataque
israelita preventivo. Esse golpe de força visa uma dupla
finalidade: desviar a atenção dos palestinianos e do povo
em geral para a direcção oposta à das colunas da Operação
Eleazar.
O general fez uma pausa.
-Quanto ao segundo objectivo, amanhã conhecê-lo-ão.
Pelos jornais. Eu não estarei no vosso transporte especial.
A minha missão é velar pela integridade dos equipamentos.
Irei à frente de um dos dois comboios. Ver-nos-emos na nova

base. Boa sorte.
Mais uma vez nos deixou mergulhados na incerteza. Que
quereria ele dizer com conhecê-lo-ão pelos jornais?
Aquele foi um dos poucos momentos divertidos da aventura
em que estávamos imersos. Quando, pouco antes das sete
da manhã de quinta-feira, 22 de Fevereiro, os directores do
Projecto, Eliseu e eu nos encontrámos no hall do hotel, não
conseguimos conter uma enorme gargalhada colectiva.
O nosso vestuário podia parecer-se com o de qualquer
profissão, menos com a sugerida por Curtiss: a de
arqueólogo. Embora, digamos isso em nosso favor, quem
diabos podia saber qual é a vestimenta mais usual entre
esses esforçados profissionais?
O facto é que deixando-nos levar pelo puro instinto ou pelo
que cada um recordava dos romances e filmes relacionados
com estes assuntos, vários colegas meus puseram na cabeça
rudimentares chapéus de palha (nunca soube onde os
conseguiram), grossos blusões nas cores mais
extravagantes e berrantes que se possa imaginar grandes e
pesadas botas militares e, é claro,
* (continua nota) brusca de velocidade (aceleração
infinita) no instante da inversão fosse acusada pelo veículo.
Este processo de viagem como é fácil de adivinhar torna
inúteis os restantes esforços dos engenheiros e especialistas
em foguetes espaciais, empenhados ainda em conseguir
aparelhos cada vez mais sofisticados e potentes. Mas sempre
impelidos pela força bruta da combustão ou da fissão nuclear
máquinas fotográficas e cachimbos de duvidosa utilidade.
(Pouparei a descrição da roupa que eu levava vestida, que
não era muito diferente da dos meus companheiros. ) O
nosso regozijo acabaria em breve. Às sete horas, de acordo
com o previsto, uma carrinha branca, com a matrícula amarela
(60-609-72) e janelas negras, a uma considerável altura do
chão uns dois metros parava suavemente em frente do

Ramada Shalom.
Imediatamente, um tenente com as insígnias da Divisão de
Sapadores do Exército de Israel saiu e cumprimentou-nos. O
motorista, outro oficial de Engenharia, encarregou-se da
bagagem e, sem mais demora, às sete horas e quinze
minutos partíamos rumo ao desconhecido.
Como se tudo tivesse sido meticulosamente planeado,
sobre cada um dos assentos que devíamos ocupar
encontrava-se um exemplar do jornal matutino Jerusalem Post.
E, recordando as palavras do general lançámo-nos com avidez
sobre as suas páginas. O tenente, sentado ao lado do
motorista, parecia estar à espera desta reacção. Mas não fez
qualquer comentário e limitou-se a espiar a nossa expressão.
Meu Deus! Na primeira página, e com letras garrafais,
lemos duas notícias que nos fizeram estremecer. A primeira
tal como Curtiss tinha prognosticado, correspondia ao ataque
preventivo israelita.
Forças de terra, mar e ar, rezava a informação, atacaram na
noite passada vários acampamentos palestinianos no Líbano.
Foi uma das incursões mais profundas em território libanês.
Segundo parece, há numerosas vítimas. Os objectivos
militares foram os campos de guerrilheiros e bases terroristas
contra Israel nas proximidades de Trípoli, no Norte do Líbano,
a cerca de cento e noventa quilómetros da fronteira israelita
mais próxima. Duas unidades da Marinha lançaram um
intenso bombardeamento contra o acampamento de Nahar El
Bard, a norte da mesma cidade de Trípoli. Simultaneamente,
helicópteros israelitas aterraram numa área vizinha do
acampamento Badawi.
Não pude evitar um calafrio. Quando li a concisa e trágica
informação, senti-me cúmplice daquele morticínio. Dias
depois, ao folhear os jornais norte-americanos atrasados que
tinham chegado à base, pudemos confirmar as nossas
suspeitas iniciais. Segundo um telex da agência palestiniana

Wafa Press, um grande número de mulheres e crianças tinham
sido mortas ou feridas naquele golpe, do exército israelita
em território libanês.
Segundo os palestinianos, o número de mortos era superior
a vinte e um. A orgamização guerrilheira Al Fatah, por seu
lado, sustentava que os serviços jordanos e israelitas de
espionagem estavam unidos na luta contra a causa
palestiniana.
Naturalmente, a imprensa de Jerusalém justificava o ataque
preventivo como uma medida necessária face aos planos
terroristas dos palestinianos, descobertos a partir das
detenções na Jordânia de Abu Daoud e seus seguidores. Este
era o segundo objectivo a que se referira o general Curtiss.
Em contrapartida, do primeiro a manobra de diversão para
tirar os equipamentos da mesquita não se dizia uma só
palavra.
Como disse, senti-me deprimido. Eliseu e os outros
experimentaram uma sensação idêntica. Aqueles não eram os
nossos propósitos. Éramos todos cientistas e homens de paz.
Tínhamos a certeza de que deveria haver outros métodos
menos violentos para procurar um transporte seguro e
eficiente do material.
A segunda notícia, tão desoladora como a que acabava de
ler, dizia o seguinte:
Aviões israelitas derrubaram ontem um avião comercial
Líbio, um Boeing 727, com oitenta e três passageiros, ao ser
localizado a sobrevoar a península do Sinai e ao negar-se a
acatar as ordens para aterrar.
As primeiras e confusas informações falavam de setenta
passageiros mortos e treze sobreviventes.
O avião, continuava o jornal, despenhara-se a cerca de
vinte quilómetros a leste do canal do Suez, na zona do Sinai.

Helicópteros israelitas transportaram os feridos para o
hospital de Tel Hashomer, em Telavive. O Boeing 727
efectuava um voo regular do Bahrein nos Emirados Árabes
para Alexandria, no Egipto.
A única explicação, naqueles momentos, para tão
lamentável acontecimento foi a seguinte: O avião, ao que
parecia, errara a rota, devido às péssimas condições
meteorológicas, entrando no espaço aéreo de Israel.
Tanto a mim como aos meus companheiros pareceu-nos
estranho aquele raciocínio dos jornais israelitas. Teríamos de
esperar por novas informações especialmente dos jornais
árabes para sabermos o que realmente tinha acontecido na
península do Sinai. Ninguém do grupo podia então imaginar
as gravíssimas repercussões que iria ter o triste e casual (?)
incidente líbio-israelita, Tanto para as já tensas relações de
Israel com os seus vizinhos como para a nossa própria
missão. Curtiss tinha feito veladas insinuações sobre o
agravamento da situação de nem guerra nem paz existente
entre o Egipto, a Síria e Israel.
No entanto, para dizer a verdade, o plano de paz em três
fases -, apresentado na segunda-feira 19 desse mesmo mês
de Fevereiro, por Hafiz Ismail, na altura conselheiro egípcio
da Segurança Nacional, tinha despertado em nós a esperança
de uma provável e paulatina melhoria das coisas. Mas, de
súbito, com o derrube do Boeing 727 da Líbia, tudo se
tornava mais sombrio.
A carrinha seguiu pela estrada de Jericó. Nenhum dos
elementos da expedição parecia disposto a falar. Em parte,
devido à atenta vigilância
* Na data referida, Hafiz Ismail voou até Londres com o fim de se avistar com
Sir Alec Douglas Home, na ocasião ministro dos Negócios Estrangeiros inglês.
Objectivos? Em primeiro lugar, negociar uma possível abertura do canal de Suez.
Assim como um novo plano de paz para o Médio Oriente. Esta proposta
compreendia três fases.
Primeira: retirada parcial das tropas israelitas da zona do Sinai. A fim de
permitir a reabertura do Suez. Esta etapa só seria aceite pelos Árabes no caso de

Israel se comprometer a passar a uma segunda fase, na qual a retirada fosse
completa na zona do canal, golfo de Akaba, Jordânia e Síria.
Segunda: o problema palestiniano entraria então em discussão, embora se
ignorasse na altura a fórmula que o Egipto iria propor. Especulou-se então que
talvez se estivesse a tentar dar aos palestinianos uma voz nas negociações.
Terceira: negociar-se-ia um acordo que desse por finda a guerra de 1967, e
pelo qual os Árabes se comprometeriam a respeitar as fronteiras de Israel.
Ismail, o Kissinger do presidente egípcio Anuar E1 Sadat.
Efectuaria em Londres a primeira de uma série de reuniões com potências
mundiais sobre o plano de paz elaborado pelo Cairo.
Nos círculos pró-judaicos de Londres especulou-se então que o plano não era
de paz, mas de não guerra". (N. Do M)
do oficial israelita e, suponho, porque também estavam
deprimidos pelos trágicos acontecimentos de que
acabávamos de tomar conhecimento.
Durante algum tempo, fiquei com o olhar perdido num céu
tempestuoso que fustigava o asfalto e as janelas de vidro
fumado do veículo com furiosas bátegas de chuva. (Era
admirável. A meticulosidade dos israelitas atingia extremos
insuspeitados. Naquela carrinha, por exemplo, os vidros
fumados na realidade tratava-se de vidros semi-reflectores
permitiam a visão de dentro para fora, mas não ao contrário.
Isto, unido à considerável e calculada altura das janelas,
tornava quase impossível que um hipotético observador
distinguisse quem ou o que viajava dentro do veículo).
Durante alguns minutos esforcei-me por afastar da minha
mente os negros presságios que pairavam sobre a futura
missão, fixando a atenção em pormenores como os da
carrinha, a crescente tempestade ou a paisagem. Mas foi
inútil. A cada instante, surgiam no meu cérebro como
relâmpagos, as cenas sangrentas dos bombardeamentos ou
do derrube do avião de passageiros. A velha angústia aflorou
então e senti um nó na garganta. Nesse momento, a mão de
Eliseu sentado à minha esquerda apertou o meu
antebraço. Não fizemos qualquer comentário.

O meu rosto devia ser um livro aberto.
Por volta das sete horas e quarenta e cinco minutos, a
carrinha deixou para trás o pedregoso deserto da Judeia. E
placas amarelas, indicando a distância em hebraico e inglês,
começaram a confirmar o que eu já sabia. Nas proximidades
de Almog dobrámos à direita, deixando a estreita estrada
que conduz à fronteira da Jordânia.
Quando avistámos a plácida e esverdeada superfície do
mar Morto, o meu companheiro indicou-me num mapa de
estradas que aquela nos conduzia ao Sinai. Estive a ponto de
esclarecer as suas dúvidas, desenhando o lugar mesmo em
frente ao famoso mar que agora costeávamos onde, se eu
não estava enganado a viagem deveria terminar. Mas
arrependi-me e, com um sorriso forçado, voltei a pôr o lápis
na algibeira do meu pesado casaco. Com efeito, aquela
estrada ia dar à cidade mais meridional de Israel: Eliat, junto
ao golfo do mesmo nome, e às portas do deserto do Sinai.
O motorista reduziu a velocidade. A intervalos, da
escarpada encosta avermelhada que se erguia à nossa
direita precipitavam-se pequenas e brancas cascatas de água
que invadiam a estrada, dificultando a circulação. As
torrentes, que iam aumentando em número e volume à
medida que nos íamos aproximando do nosso objectivo,
terminavam indefectivelmente nas salgadas águas do mar
Morto (a quatrocentos metros abaixo do nível do
Mediterrâneo).
Às oito horas, quando a contemplação das famosas grutas
de Qumrân - onde os Beduínos descobriram os célebres
Manuscritos do Mar Morto tinha conseguido distrair em
parte a nossa tristeza, o motor de um helicóptero do exército
devolveu-nos à realidade. Vinha do Norte, seguindo a linha
da costa, a baixa altitude, sobre os escassos trezentos
metros de dunas que nos separavam da margem do grande
lago. Todos, instintivamente, dirigimos o olhar para o
tenente. Mas o oficial, impassível, limitou-se a olhar para o

aparelho. Este, depois de ter pairado uns segundos diante
da carrinha, levantando nuvens de areia e agitando sem
piedade os juncos e as giestas, empreendeu de novo o voo
em direcção ao Sul. Embora aquela zona, desde o extremo
noroeste do mar morto estivesse cercada de arame e repleta
de tabuletas que recordavam a proibição de tomar banho e o
carácter militar daquela faixa de terra, todos sentimos a
mesma coisa: o helicóptero não estava de certeza a fazer um
voo rotineiro. E o facto de ter efectuado um voo estacionário
em frente ao veículo aumentou as nossas suspeitas. Não
havia dúvidas. A viagem da carrinha estava a ser vigiada.
O motorista acelerou, deixando para trás o oásis de Ein
Gedi. E às oito horas e vinte minutos, para surpresa geral,
abandonava a estrada principal e metia por um desvio à
direita. No meio do inesperado cruzamento, um enorme cartaz
gritou-nos o nome do nosso iminente destino. Um destino
que, efectivamente, já me tinha sido adiantado pelo general
Curtiss.
Massada!
Um murmúrio quebrou o silêncio do grupo, fascinado
perante a repentina aparição, a ocidente, do histórico e
altivo rochedo.
Em pouco mais de oito minutos, a carrinha percorreu os
escassos três quilómetros de curvas que unem o sopé do
grande monte truncado ao litoral do mar Morto. Com o passar
dos séculos, os leitos das correntes como naqueles
tempestuosos momentos tinham vindo a esculpir formas
estranhas e quase mágicas entre as dunas e montículos ocres
e amarelados que cercam quase por completo a formidável
meseta de Massada.
O local não podia ser melhor nem mais adequado. Tanto
para a montagem da estação receptora de imagens como
para os nossos verdadeiros objectivos. E isto por dois
motivos.

O primeiro, pelas características físicas daquela montanha
isolada, a qual, na sua vertente oriental, se eleva a mil e
trezentos pés sobre a superfície do mar Morto, e segundo,
pela sua localização privilegiada: a cerca de cem quilómetros
a sul de Jerusalém e a centenas de milhas dos dois focos de
atrito (os montes Golã, na fronteira com a Síria, e o Sinai).
Aquele colosso de rochedo, dourado pelo ardente sol do
vizinho deserto da Judeia, com o seu cume plano e em forma
de convés de barco, com mil e novecentos pés de
comprimento (de norte a sul) e outros seiscentos e cinquenta
(de este a oeste), praticamente cortada a pique em toda a
volta, era uma base segura, Quase inacessível, e ideal para
uma operação como a que nos propúnhamos levar a cabo.
O segundo motivo era mais íntimo e importante para os
israelitas do que para nós, os homens do Cavalo de Tróia. Na
extensa documentação que me fornecera o general estava
pormenorizada a insólita e emocionante história daquele
gigantesco promontório. Massada tinha sido o cenário de um
dos mais dramáticos e simbólicos acontecimentos da sempre
agitada vida de Israel.
No ano 66 da nossa Era, o povo judaico voltou a pegar em
armas contra o Império Romano. Aquela guerra duraria quatro
anos. Por fim, no ano 70, o general romano Tito conseguiria
vencer a resistência dos defensores de Jerusalém, destruindo
a Cidade Santa. Mas um último foco de valentes israelitas
refugiar-se-ia no alto de Massada, resistindo ao cerco
romano até à Primavera do ano 73. No ano
* No início da rebelião judaica do ano 66 d. C, um grupo de
fanáticos tomou de assalto a escassa guarnição romana
destacada para Massada. E ali se manteve enquanto durou a
guerra. Quando Tito conquistou Jerusalém, um grupo de
zelotas, o governador romano Flávio Silva tomou a decisão de
esmagar este último e incómodo reduto de judeus
insurrectos.
Dirigiu-se a Massada com a Décima Legião, tropas

auxiliares e milhares de prisioneiros israelitas. Ao todo eram
cerca de quinze mil homens. Tanto os sitiados como os
atacantes se prepararam para um prolongado assédio. Silva
mandou construir oito acampamentos em volta da montanha
bem como uma muralha que rodeasse Massada, cortando
qualquer tentativa de fuga.
Devido às escarpas abruptas que formam as paredes do
rochedo, os romanos levaram a cabo uma obra faraónica na
face ocidental da grande meseta: uma rampa, à base de
pedras e de terra branca batida.
Quando a rampa que ainda se conserva ficou pronta,
Silva levantou no final da mesma uma torre de ataque
provida de um formidável aríete, conseguindo abrir uma
brecha na muralha. Naquela noite a anterior à conquista
definitiva de Massada pela legião romana -, os novecentos e
sessenta zelotas que integravam o núcleo da resistência
judaica tomaram uma decisão heróica. Num discurso
memorável narrado pelo historiador Flávio Josefo 1 -, o
chefe dos revolucionários, Eleazar Ben Yair, perante a
dificuldade da situação, decidiu que era preferível uma morte
com glória a uma vida de infâmia, e que a solução mais
digna seria a de rejeitar a ideia de sobreviver à perda da
sua liberdade.
Josefo escreve:
Antes de serem feitos escravos do vencedor, os defensores
novecentos e sessenta homens, mulheres, velhos e crianças
tiraram ali mesmo a sua própria vida com as suas mãos.
Quando, na manhã seguinte, os romanos chegaram ao cimo
da montanha, nada mais encontraram que silêncio.
E assim encontraram os romanos, conclui Josefo a sua
dramática narração, uma multidão de mortos mas não
puderam alegrar-se com isso, embora se tratasse de
inimigos. Nem sequer puderam fazer mais do que admirar o
valor, a determinação e o imbatível desprezo pela morte que

tantos deles tinham demonstrado ao levarem a cabo uma
acção como aquela Só duas mulheres e cinco crianças se
salvaram do suicídio colectivo escondendo-se numa gruta.
Foram elas que, segundo o historiador judaico romanizado,
contaram os factos aos romanos.
Massada, desde então, tem sido e continua a ser um
símbolo para o povo de Israel. Um monumento ao heroísmo e
aos homens que preferem a morte à perda da honra e da
liberdade. Essa heróica resistência
* (continua nota) famílias, e também alguns membros da
seita dos Essénios, fugiram para o Sul, refugiando-se em
Massada e unindo-se aos patriotas que tinham conquistado a
fortaleza.
Durante dois anos lutaram pela sua liberdade, fustigando
os romanos a partir daquele lugar estratégico. Segundo
Flávio Josefo, o primeiro a fortificar esta defesa natural foi
Jónatas, o Grande Sacerdote. Mas, quem verdadeiramente
transformou Massada num reduto quase inexpugnável foi o
rei Herodes, o Grande.
Entre os anos 36 a. C. E 30 a. C. - seguramente por temer
uma possível invasão dos exércitos de Cleópatra -, construiu
uma muralha com ameias que rodeava todo o cume, uma torre
de vigia, grandes cisternas escavadas na rocha, armazéns,
quartéis, palácios e arsenais. Estas construções foram
aproveitadas pelos novecentos e sessenta zelotas. (N. Do M)
*1 Flávio Josefo: nos seus livros Antiguidades Judaicas (XIV e
XV) e A Guerra dos Judeus (I, II, IV e VII). (N. Do M) de
Eleazar Ben Yair e dos seus zelotas fez com que um poeta
judaico exclamasse: «Massada não voltará a ser
conquistada!» Era fácil de perceber por que motivo o Governo
de Golda Meir - permanentemente ameaçado pelos seus
vizinhos, os árabes escolhera o cume de Massada como
localização ideal para uma equipa de técnicos e uma série de
instrumentos que devia velar pela segurança e, em última
análise, pela liberdade de todo um povo. Ali, a Operação

Eleazar adquiria um profundo e simbólico significado que nós
soubemos respeitar.
Por outros motivos, aquele baluarte também iria
representar para o Cavalo de Tróia um símbolo histórico e
inesquecível.
Ao lado de Massada, na vertente oriental, os israelitas
tinham aproveitado as péssimas terras formadas por
depósitos de greda sedimentada construindo um incipiente
mas lucrativo, complexo turístico virado para a exploração das
antiguidades do cume da grande meseta.
Desde que o eminente arqueólogo judeu Yigael Yadin,
catedrático de Arqueologia da Universidade Hebraica,
concluíra as suas escavações e os trabalhos de restauração
(entre os anos 1963 e 1965) na fortaleza rochosa, os
curiosos e visitantes tinham vindo a aumentar. Mas só a
partir de 1970, quando a companhia suíça Willy Graf, de
Meilen, instalou um sistema de funiculares perto da base do
rochedo, é que o fluxo de turistas começou a ser
considerável. O funicular tornar-se-ia de vital importância
para os nossos trabalhos no cume.
Por volta das oito horas e trinta minutos daquela quintafeira,
22 de Fevereiro, a carrinha parava finalmente num
amplo terreiro, muito perto da base do funicular e de umas
ainda modestas instalações turísticas.
Um forte vento de sudeste, com rajadas, encharcou-nos de
chuva e de um penetrante cheiro a salitre vindo do mar
Morto. Curtiss, à civil e protegido por um grosso capote
impermeável, deu-nos as boas-vindas, convidando-nos a
segui-lo até uma pousada da juventude situada a pouco mais
de cem passos. O general parecia satisfeito. E isso deu à
equipa muitas esperanças.
Desde o momento em que descemos da carrinha, chamounos
a atenção a presença naquele lugar de quatro camiões
velhíssimos e quase a caírem aos bocados, carregados com

blocos enormes de pedra de uma belíssima tonalidade
alaranjada. Em volta, formando um círculo fechado vimos
também vários veículos militares e um grande grupo de
soldados armados. Sinceramente, ao princípio, não
associámos aqueles camiões de carroçaria verde e sem toldo
com a Operação Eleazar.
Mas os judeus surpreender-nos-iam novamente.
Quando entrámos na pousada da juventude, dois oficiais
do corpo de engenheiros do exército israelita, que, sem
dúvida, aguardavam a nossa chegada, puseram-se de pé e
fizeram continência. Atrás deles tinham sido colocados vários
mapas e grandes fotografias aéreas; todos do cume de
Massada.
Curtiss, depois de se livrar do seu encharcado capote
verde-azeitona, serviu-nos uma reconfortante chávena de
café, dizendo que nos sentássemos diante dos planos.
- Bem senhores manifestou o general com uma frieza a
que nunca cheguei a habituar-me totalmente -, como sabem,
a Operação Eleazar está em andamento. Parte dos
equipamentos (o primeiro carregamento, para sermos
exactos) encontra-se há horas neste mesmo lugar.
Curtiss apontou muito rapidamente com o indicador direito
para qualquer coisa que devia estar no exterior. No terreiro.
Mas nem eu nem os meus companheiros conseguimos
identificar a coluna. Perante os olhares incrédulos de alguns
directores do Programa, o general sorriu e, apontando para
os silenciosos oficiais israelitas eselareceu:
- Compreendo a vossa surpresa. Os nossos amigos e
aliados, com a sua habitual eficácia, descobriram uma forma
de transportar esses instrumentos nos camiões que devem ter
visto ao descerem da carrinha.
Curtiss, seguindo um velho costume, tratava-nos por tu ou
por vocês, segundo o seu estado de espírito ou a gravidade
do momento.

- Ora bem, agora não faz sentido continuar a ocultar-vos.
Esse tipo de transporte civil, o único autorizado a
atravessar a fronteira jordana e a ir até Amã, foi a
camuflagem perfeita para tirar os equipamentos da mesquita
da Ascensão e trazê-los para Massada.
- Mas interveio Eliseu esses camiões só estão
carregados com grandes blocos de pedra alaranjada.
O general não respondeu. Limitou-se a trocar uma
piscadela de cumplicidade com os israelitas, prosseguindo a
sua exposição nos seguintes termos:
- Como lhes ia dizendo, a Operação Eleazar, em memória
de Eleazar Ben Yair, está em andamento. Hoje mesmo se
incorporarão os outros homens, e, no sábado, se Deus quiser,
chegará o outro carregamento. O transporte dos instrumentos
para o cimo da montanha começará às dez horas. Isto é. -
Curtiss consultou o relógio daqui a mais ou menos
cinquenta e cinco minutos. As ordens são claras e precisas.
Uma vez concluída a transferência de material da base para o
topo, instalar-nos-emos no alto do rochedo.
Repito: todos, sem excepção, acamparemos em Massada.
A ênfase colocada naquelas últimas palavras alarmou-nos.
Que queria ele dizer? Que nos esperaria naquela nebulosa e
desafiante meseta?
- E agora, por favor, prestem atenção.
Curtiss cedeu a palavra a um dos oficiais.
- Chamo-me Bahat. Estou encantado de estar ao vosso
serviço como supervisor da Operação Eleazar. Oficialmente
somos mais uma expedição arqueológica, patrocinada e
dirigida pela Universidade Hebraica de Jerusalém, pela
Sociedade de Exploração da Terra Santa e pelo
Departamento de Antiguidades do Governo de Israel. O meu
camarada, capitão Yefet, é o chefe do acampamento.
Quando acabarmos esta breve reunião informativa, ser-vos

ão fornecidos os documentos que os credenciam como
membros dessa operação. Enquanto permanecermos em
Massada, os vossos nomes e profissões serão os que figuram
nesses documentos.
Alguns minutos depois, quando o capitão Yefet distribuiu
os falsos bilhetes de identidade, os meus colegas não se
aperceberam de um pormenor que reflectia a subtileza dos
serviços secretos israelitas.
Como ignoravam os pormenores das anteriores expedições
arqueológicas a Massada dirigidas pelo general e
arqueólogo Yadin entre 1963 e 1965 os homens do Cavalo
de Tróia não descobriram que pelo menos trinta e quatro
daquelas filiações e profissões correspondiam a arquitectos,
arqueólogos, restauradores, supervisores e pessoal
administrativo que, efectivamente, tinham sido membros das
expedições dirigidas por Yadin. Os nomes de Bahat e Yefet,
por exemplo, aparecem nos relatos dessas expedições
históricas como supervisor e chefe de acampamento,
respectivamente.
Imagino que os israelitas não sabiam que eu tinha
conhecimento disso. Embora também duvide que isso os
preocupasse. -. Vou mostrar-vos agora o novo local.
O suposto Bahat nunca soubemos se era esse o seu
verdadeiro apelido apontou para uma das enormes
fotografias aéreas do cume de Massada.
- Observem que se trata de uma enorme meseta, em forma
rombóide ou de convés de barco. Mede aproximadamente
seiscentos e trinta e três metros, de norte a sul, e duzentos e
dezasseis, de leste a oeste. Pouco mais da metade norte
desta plataforma natural é ocupada pelas ruínas dos
palácios, armazéns, sinagoga, etc. , edificados por Herodes,
o Grande, pelos zelotas e pelos monges bizantinos que mais
tarde se apoderaram de Massada. O resto, pouco menos da
metade sul, não tem quase nenhuma construção, se

exceptuarmos o banho ritual, o acesso a uma cisterna
subterrânea, a chamada lagoa grande, e, é claro, as ruínas
da muralha que cercava todo o cume.
O oficial ia indicando na fotografia cada uma dessas
relíquias arqueológicas.
- Pois bem, depois de estudar o terreno e as nossas
necessidades, a zona escolhida para a colocação da estação
receptora de imagens do satélite Big Bird foi esta: o sul da
meseta.
Bahat dirigiu-se então para junto de um mapa topográfico,
o que reproduzia o cume à escala, completando a sua
exposição:
- Notarão que o local de assentamento se parece com um
triângulo isósceles quase perfeito. Ali nos movimentaremos. A
sua dimensão é mais do que suficiente para os nossos
objectivos: noventa metros de base e cem de altura. No total,
pouco menos de quatro mil e quinhentos metros quadrados,
se descontarmos a superfície das ruínas, de que já falei
antes.
O oficial dedicou mais alguns minutos a diversos aspectos
relacionados com a segurança do Acampamento Eleazar e
aos que em breve me referirei -, passando de imediato às
perguntas.
Na realidade, as dúvidas dos presentes centravam-se,
sobretudo, em assuntos que nada tinham a ver com toda
aquela montagem judaica. Por isso, as perguntas foram
poucas e simples. No entanto, uma das perguntas, feita por
um dos directores do Projecto, era muito importante para os
nossos objectivos secretos:
- Se o cume de Massada continua aberto ao turismo, com
que grau de segurança se levará a cabo a Operação Eleazar?
O oficial israelita parecia estar à espera desta pergunta.
- Reflectiu-se muito sobre essa questão explicou. - A

princípio, os responsáveis do nosso Governo admitiram a
possibilidade de fechar Massada ao turismo e aos visitantes
em geral. Mas o parecer dos serviços secretos mudou essa
alternativa. É mais seguro e inteligente que tudo se
mantenha no seu curso normal. Nesta época, a afluência de
visitantes não é muito alta. Por outro lado, como
compreenderão assim que forem lá para cima, adoptámos
todas as medidas de segurança passíveis.
Apesar de sermos apenas um esforçado grupo de
arqueólogos, entre o pessoal do Acampamento Eleazar
haverá um destacamento permanente e secreto encarregue
da vigilância interna e externa.
Adoptando um tom tranquilizador, Bahat acrescentou:
- Não devem alarmar-se. Tal como aconteceu com o primeiro
local, na mesquita da Ascensão, o nosso Governo não
poupará esforços para que o vosso trabalho seja realizado
com um mínimo de comodidades e tranquilidade.
Aquela segurança do oficial israelita fez-me tremer. Que
teriam preparado no alto da montanha?
- É claro que concluiu, ao mesmo tempo que Yefet pegava
nos bilhetes de identidade, preparando-se para entregá-los
assim que o camarada desse por encerradas as informações -,
durante estes dias, enquanto os contentores não estiverem
todos no acampamento, Massada permanecerá encerrada.
Calculamos que no próximo domingo a situação já deve estar
normalizada.
De acordo com as nossas previsões, o mau tempo reinante
favorece-nos. É mais do que provável que entre hoje e
amanhã as violentas correntes de água que vocês já tiveram
oportunidade de ver durante a viagem obriguem a sucessivos
e lamentáveis cortes da estrada. Isso tornará mais simples o
imprescindível encerramento temporário das ruínas
arqueológicas. Suponho ter-me exprimido com clareza.
A intenção de algumas das palavras pronunciadas por

Bahat, e que coloquei entre aspas, não deixava lugar para
dúvidas. As intensas chuvas de Fevereiro provocavam naquela
zona frequentes e habituais desabamentos ou inundações.
Não era estranho, portanto, que a estrada para sul do mar
Morto, por Ein Hatzeva, Ein Yahav e Elat viesse a ser
afectada pelas enchentes de água que descem do deserto
escarpado da Judeia.
Acabada a reunião, o chefe do acampamento distribuiu os
falsos documentos de identidade, bem como grandes capas
impermeáveis, requisitando todas as nossas câmaras
fotográficas. E, cumprindo as instruções de Curtiss, nós
acompanhámo-lo até à plataforma-base do funicular. A chuva
tinha parado momentaneamente, mas o vento não. Eram
quase dez da manhã.
Quando atravessámos o terreiro apercebemo-nos de que os
camiões já não estavam no mesmo lugar. Também não vimos
qualquer movimento de turistas ou visitantes. A explicação
para o misterioso desaparecimento dos camiões não tardaria
a chegar.
Os responsáveis pela Operação Eleazar tinham-nos
estacionado em fila junto ao barracão que servia de abrigo
às duas cabinas do funicular. Utilizando um poderoso
guindaste instalado num transporte militar, os blocos de
pedra alaranjada tinham começado a ser içados e colocados
sobre umas pequenas bases quadradas ou rectangulares
providas de rodas e que eram rapidamente introduzidas no
interior de cada uma das cabinas do funicular.
Previamente, a porta de correr de cada módulo tinha sido
desmontada, facilitando assim o acesso dos aparentemente
pesados blocos de pedra. O local estava cercado pelo
pelotão de soldados que víramos pouco antes junto dos
camiões. Os meus companheiros e eu começámos a
compreender.
Um após outro uma vez carregados com os blocos, os

funiculares saíam da base, subindo em direcção ao cume de
Massada. Esta difícil operação como pudemos comprovar
pessoalmente no transporte do último carregamento
implicava, sem dúvida, um grande risco. Principalmente
quando o vento atingia os sessenta quilómetros por hora.
Nesse caso, a cabina podia chegar a abanar perigosamente.
E uma queda de duzentos e sessenta e dois metros teria sido
fatal.
Esta circunstância obrigou a fazer muitas pausas durante o
transporte dos blocos de pedra. Os militares israelitas
destacados para o alto da montanha estavam
constantemente a estabelecer contactos por rádio com os
seus colegas na base do funicular, informando sobre as
variações dos anemocinemógrafos 1. O conhecimento preciso
da intensidade e direcção do vento era vital. Quando a
velocidade era nula ou inferior aos sessenta quilómetros por
hora, o funicular empreendia a subida.
Às treze horas, aproveitando o transporte dos últimos
blocos, o primeiro grupo da equipa do Cavalo de Tróia (doze
dos sessenta e um membros) embarcou nas cabinas, rumo ao
topo. Eu fui com Curtiss e com três oficiais israelitas. O nosso
funicular o vermelho estava praticamente ocupado com a
última das vinte e seis misteriosas pedras que já tinham sido
enviadas para o alto do rochedo. Nunca esquecerei aqueles
momentos de tensão.
Após termos feito metade dos setecéntos e noventa e nove
metros do percurso, o telefone do guarda-freios tocou. O
militar que substituíra o vigilante e o condutor habitual do
funicular respondeu com um seco e preocupante «Está bem!.
Paramos!» E a cabina ficou imóvel sobre o vazio, a uns
setecentos e oitenta pés de altura. Talvez a expressão imóvel
não seja correcta, porque as rajadas de vento começaram a
assobiar entre os cabos, fazendo-nos oscilar como uma pena.
Os israelitas verificaram a segurança da pedra, e ao
repararem na minha palidez, sorriram zombeteiramente.

Agarrado às barras horizontais de segurança, evitei olhar
para o abismo, concentrando a minha atenção na escassa
decoração da frágil cabina.
Carga máxima: 40 mais 1 pessoa ou 2600 quilos Não fumar
Meu Deus...
Os ganchos resistiriam àquela tensão? O vento sul
continuava a fustigar-nos, fazendo ranger o L metálico que
unia o tecto do funicular aos grossos cabos de aço.
Instintivamente desviei o olhar do segundo letreiro: 262
metros: queda vertical.
Quem terá tido a ideia de colocar ali um aviso tão
macabro? Capacidade por hora: 640 pessoas
A cabina continuava a oscilar, comprometendo o nosso já
precário equilíbrio. Tentei dominar o medo porquê ocultálo?
Começando a fazer um inútil cálculo mental.
* O anemocinemógrafo é um dos mais completos aparelhos
usados na meteorologia para medir a velocidade e a força do
vento. Costuma ser constituído por um catavento registador,
um anemómetro que regista o percurso do vento e um
registador de rajadas que se baseia no chamado "tubo de
Pitot. (N. Do M) 66 67
Se a extensão do percurso é de quase oitocentos metros e
a capacidade máxima por viagem é de quarenta e uma
pessoas. Isso representa um total de quinze viagens por hora
ou, o que é a mesma coisa, uma deslocação cada quatro
minutos. Se estivermos mais ou menos a metade do caminho,
ainda faltam dois minutos ou mais para pisar esse maldito
cume Hegeman-Harris C. O. N. York
Esse deve ser o fabricante, pensei. Ou serão os suíços.
Tanto fazia. A única coisa que eu desejava era que o
material resistisse. Sem dar por isso, estava a utilizar um dos
sistemas de descompressão mental para situações de
emergência, que são ensinados a todos os astronautas no

Instituto da Força Aérea norte-americana em Ohio. Tratava-se,
sem perder de vista o problema principal, de desviar a
atenção do piloto para outros assuntos, evitando assim uma
queda emocional.
O general deve ter adivinhado a minha situação e os meus
pensamentos. E, apontando para as fotografias de uns
rapazes e um pequeno vaso com um cravo tudo isto sobre o
painel de comando do guarda-freios -, brincou com os oficiais
perguntando-lhes se aquilo (propriedade, sem dúvida, de
algum dos guarda-freios oficiais) também fazia parte da
Operação Eleazar.
Os militares israelitas aceitaram com prazer o relaxante
comentário, esquecendo por alguns instantes a nossa
delicada situação. A verdade é que os meticulosos israelitas
corrigiram o pequeno descuido quando chegámos ao cimo,
fazendo desaparecer da cabina os retratos e a flor.
Finalmente, o vento amainou e o toque do telefone foi para
dar o esperado sinal para continuar a subida.
Por volta das catorze horas depois de aguentar dez
longos minutos de violenta imobilização sobre o abismo a
cabina número dois estacionou na plataforma de embarque
da montanha, a sessenta pés abaixo do topo. Poucas vezes
na minha vida desejei com tanta vontade pisar terra firme.
Os engenheiros militares israelitas e o resto dos nossos
amigos esperavam-nos com impaciência. E, sem qualquer
demora, os técmicos desengancharam a pedra alaranjada,
fazendo rodar a plataforma até ao estreito passadiço de
terra entre o terminal do funicular e a já referida encosta
avermelhada de Massada.
As barreiras de ferro que habitualmente indicam os
caminhos de entrada e saída dos passageiros das cabinas
também tinham sido desmontadas, para facilitar a
movimentação dos blocos. Fiquei perplexo. Sobre as nossas
cabeças, mesmo na borda do cume, os israelitas tinham

montado uma grua que, em questão de minutos, começou a
içar a carga. Desta forma resolvia-se o incómodo desnível
que separa o terminal da meseta propriamente dita. Ao
percorrer os cento e vinte metros do estreito passadiço que
sobe pela vertente oriental de Massada - o único acesso que
vai da base do funicular ao cume -, compreendi também que
o transporte dos blocos por aquele passadiço de três metros
de largura teria sido tão penoso quanto ineficiente. No final
desse carreiro havia uma pequena casamata de cimento
que fazia as vezes de local de controlo e de venda de mapas
das ruínas e que teria impedido também a passagem das
pedras.
Quando, finalmente, pusemos os nossos pés no cume, um
misto de emoção e curiosidade se apoderou de toda a
equipa. O vento continuava a fustigar aquela incrível
plataforma natural, trazendo do Sul uma neblina que se
arrastava lentamente pela poeira e pela terra ressequida do
cume. Aquele seria, se não houvesse alterações, o nosso
local de lançamento.
A árida e majestosa beleza de Massada cativar-me-ia
minuto a minuto. A ocidente recortavam-se os suaves montes
arredondados e os alcantilados amarelados do deserto da
Judeia, milagrosamente vivos e em movimento, devido às
dezenas de cascatas e ribeiros serpenteantes que,
transportando a água das chuvas, corriam imparáveis em
direcção à margem ocidental do mar Morto.
Durante a minha estada em Massada pude compreender
como aqueles wadi tinham alimentado com as suas águas
turbulentas as gigantescas cisternas mandadas escavar na
rocha viva por Herodes, o Grande. Em frente à montanha, a
uns três quilómetros para leste, as águas verde-azuladas do
mar Morto reflectiam aqui e ali como um espelho.
Os raios do Sol conseguiam atravessar nalguns sítios as
baixas nuvens negras e atingir a superfície do lago salgado
em belíssimas celagens. E ao longe, à beira-mar, o oásis de

Ein-Gedi.
Curtiss afastou-me destas primeiras observações. A equipa
do Cavalo de Tróia já se dirigia, na companhia do chefe do
acampamento e de Bahat, o supervisor, para a zona sul da
meseta.
Era espantoso! Junto à grua estavam amontoados grande
parte dos blocos de pedra que tinham sido transportados
pelo funicular. Vários tractores de lagartas transportavam sem
interrupção os blocos pelo centro da meseta em direcção a
uma comprida paliçada de madeira que separava a parte sul
de Massada do resto da meseta.
Mas, como teriam conseguido colocar aquelas pesadas
máquinas no alto do rochedo? Claro que era impossível terem
subido sozinhas, e também não cabiam nos funiculares. A
explicação seria dada nessa mesma noite. A paliçada
porque era disso que realmente se tratava fora erguida
pelos israelitas com troncos grossos firmemente enterrados.
Tinha a altura suficiente uns quatro metros para que
nada do que viesse a acontecer do outro lado pudesse ser
captado nas ruínas do sector norte. Ao atravessar o largo
portão por onde entravam, incansáveis, os tractores, um
espectáculo insólito surgiu diante dos meus olhos. À direita
desse único acesso, bem junto dos restos da muralha do lado
oeste de Massada, o exército israelita instalara dez grandes
tendas de campanha, alinhadas em duas fileiras. A seguir a
estas, também na linha da casamata herodiana, os israelitas
tinham montado dois barracões.
Um, a pouca distância das negras tendas quadradas, já
servia de refeitório para os técnicos e militares que, a julgar
pelo que via, já deviam estar há algum tempo naquele sítio.
O outro, muito mais pequeno, estava situado a uns vinte
metros do primeiro barracão, e praticamente encostado à
chamada lagoa grande, uma das poucas ruínas arqueológicas
que como nos informou o oficial estava dentro do

triângulo isósceles que constituía o Acampamento Eleazar.
Mas o que chamou logo a atenção do grupo foi uma enorme
escavação já concluída aberta no centro geométrico do
triângulo. Tinha cinquenta metros de comprimento por trinta
de largura e dez de profundidade. Ficámos atónitos com
aquela impressionante piscina.
Naquele momento ainda não sabíamos se o general estava
a par da enigmática e audaciosa escavação. Mas, quando
nos aproximámos e vimos no fundo alguns dos blocos de
pedra alaranjada, começámos a perceber a verdadeira
finalidade do fosso.
Outra potente grua, apoiada na borda norte da escavação,
recolhia os blocos e depositava-os no leito da piscina. Tanto
as paredes como o fundo tinham sido cuidadosamente
consolidados e cobertos com camadas de um material
isolante. No canto sudoeste, um grupo de trabalhadores
iluminava o fundo do tanque com as deslumbrantes chamas
azuladas dos maçaricos.
Alguns directores do Programa trocaram comigo e com
Eliseu olhares significativos, procurando uma explicação para
tal obra. Mas ninguém se atreveu a formular qualquer
hipótese. Nas nossas costas, ao pé da paliçada empilhavamse
centenas de sacos que, presumi, deviam conter as
toneladas de terra extraídas do enorme buraco.
Os oficiais israelitas, silenciosos e divertidos, deixaram-nos
bisbilhotar. Após alguns minutos, Yefet, o chefe de tão
estranho acampamento, convidou-nos amavelmente a ir para
o refeitório. O almoço estava pronto. Ali, finalmente,
tiraríamos as dúvidas.
Embora o barracão não tivesse aquecimento, a comida em
abundância e o vinho do Hébron serenaram depressa os
ânimos, fazendo com que nos esquecêssemos,
momentaneamente, da torrente de interrogações que tinham

vindo a acumular-se nas nossas mentes desde que puséramos
os pés em Massada. À hora do café, quando os últimos
engenheiros e militares israelitas acabaram de almoçar e se
voltaram para os seus trabalhos, Bahat, o supervisor, fechou
a porta à chave. Desta vez foi o general Curtiss quem se
dirigiu à equipa.
- Sei que querem saber uma infinidade de coisas disse
ele num tom muito calmo. - Parte do material, como lhes
disse, já está no acampamento.
A velha raposa fez uma pausa, perscrutando os nossos
rostos.
- Suponho que me tomarão por louco acrescentou,
aumentando intencionalmente o ar de mistério que envolvia
tudo aquilo e, ao mesmo tempo, a curiosidade geral. - Aqui
só há pedras, dirão vocês, grandes blocos de rocha
dolomítica alaranjada.
Sim e não. Seguindo um rigoroso plano israelita. Dois
terços dos instrumentos da estação de imagens foram
transportados para o cimo desta montanha, camuflados no
interior dos falsos blocos de pedra.
Como sabem esses camiões e esse tipo de carga são os
únicos autorizados a cruzar a fronteira com a Jordânia,
chegando habitualmente até Amã. Seria difícil que alguém
suspeitasse dos aparentemente maciços cubos pétreos.
Quanto ao resto do equipamento continuou, dirigindo-se
aos dois militares israelitas sentados à nossa mesa -, se não
houver inconveniente, estará cá em cima sábado de manhã.
Seguindo outro tipo de via.
Bahat e Yefet concordaram.
- Até essa altura continuou o chefe do Cavalo de Tróia -, a
nossa missão será muito simples: esperar. Amanhã, talvez a
esta mesma hora, o grupo do gerador eléctrico entrará em
funcionamento.

- E o que está previsto manifestou-se o chefe do
acampamento, como se procurasse a nossa indulgência. -
Hoje mesmo será desembarcado. Pedimos-lhes que nos
desculpem o atraso.
Desembarcado? A quase mil e quatrocentos pés de
altitude. Oh! Os judeus são capazes de tudo. Por isso
ninguém se atreveu a perguntar nada.
A imediata e lógica pergunta continuou Curtiss é onde e
quando será montada a estação receptora.
Por razões de segurança, e seguindo igualmente as
instruções do Governo de Golda, desta vez não haverá
hangares ao ar livre.
O general apercebeu-se da nossa estranheza. E, pegando
na sua inseparável pasta. Tirou um sobrescrito branco com a
inconfundível estrela azul de seis pontas, emblema do Estado
de Israel. Ao abrir o seu conteúdo, apareceu uma planta do
acampamento Eleazar e, nela, um esquema pormenorizado do
fosso que tínhamos ido ver uma hora antes. Não foram
necessárias muitas explicações.
Curtiss, apontando com o indicador para o centro da piscina
assim a chamaríamos na gíria do Cavalo de Tróia -,
convidou-nos a dar uma vista de olhos. A escavação, tal como
tínhamos pensado, não era mais do que o local onde ficaria
colocada a estação de imagens. Quase toda a metade norte
do fosso (vinte dos cinquenta metros disponíveis) receberia
o grosso dos equipamentos: consolas autónomas
operacionais (números 1 e 2), painéis de comando (de
distribuição e alimentação eléctrica), cabos telefónicos e de
rádio, armários de telecomunicações e conversão digital de
sinais do satélite, receptores especiais, transmissores em
frequência S, monitores de televisão, subcontroladores de
tempo.
Climatizadores e um longo etcétera. Os restantes trinta
metros da piscina estavam divididos em dois sectores: a

todo o comprimento da parede sul (ocupando uma superfície
de dois por dez metros) tinham sido colocados os
laboratórios de revelação de fotografias e uma secção
auxiliar de telemetria, armários para gravadores de fita
magnética (para unidades de fita larga ou estreita) e
impressoras ultra-rápidas, capazes de ler e imprimir dados à
razão de oitenta mil dígitos por minuto. O resto da faixa sul
(de vinte por dois metros) aparecia como armazém de hélio.
O espaço existente entre estas baterias de instrumentos
encontrava-se praticamente vazio. No total, vinte e oito
metros. Aquela era outra das novidades da Operação
Eleazar.
Este quase quadrado (vinte e oito por vinte e cinco metros)
no centro da piscina seria para uma antena parabólica
orientável de vinte e seis metros, capaz de seguir
automaticamente o Big Bird e receber os seus sinais à
distância de cem quilómetros`.
* Apesar de não pretender pormenorizar aqui a sofisticada
tecnologia secreta norte-americana utilizada neste tipo de
instalações, posso especificar que os dois amplificadores
maser da estaçào de grande alcance processam os dados
com uma perfeição extraordinária. A baixa temperatura
requerida por este tipo de aparelhos (69 graus centígrados
abaixo de zero) obrigaria a um isolamento especial dos
amplificadores no conjunto da estrutura. Cada maser
funcionava em duplo canal. A sua característica fundamental
era a grande capacidade do seu canal de informação.
Que lhe permitia uma recepção de dados da ordem dos
duzentos quilobits por segundo. (N. Do M)
Esta antena parabólica construída com base em materiais
muito leves pode trabalhar simultaneamente próximo dos
dois Mhz e dos quatrocentos Mhz. Graças a um sub-reflector
dicróico, transparente a algumas frequências. Graças ao seu
extraordinário alcance, pode aumentar um milhão de vezes a

potência do transmissor, podendo ser orientadas para
qualquer ponto do espaço com uma precisão de milésimos de
grau. (Iv do 17)
O GSFC tinha recomendado, desde o princípio da operação,
a utilização deste tipo de antenas. No entanto, por razões de
espaço, não foi possível a sua utilização na mesquita da
Ascensão. A verdade é que a inesperada e rapidíssima
desmontagem das instalações não permitira sequer a
montagem das antenas rastreadoras de varredura de fase,
que deveriam substituir a aconselhada pelo Centro de Voos
Espaciais Goddard.
Uma vez concluída a montagem da estação a piscina ficava
fechada por meio de um engenhoso sistema activado
eléctrica ou manualmente que ocultava o grande fosso. Os
israelitas deram-nos mais pormenores a este respeito. A
cobertura, que ficava recolhida no lado norte, fora desenhada
como uma lâmina dupla de vidro plastificado, de grande
dureza e ductilidade, que permitia a passagem dos sinais
radioeléctricos procedentes do Big Bird. Isto, especialmente
durante as transmissões diurnas, favorecia a camuflagem da
estação.
No caso das recepções nocturnas, a cobertura podia ser
retirada, deixando à vista a superfície ocupada pela antena
parabólica. Esta, pintada de preto, era praticamente invisível
a qualquer hipotético avião de reconhecimento inimigo.
Quando a montagem do material terminou, ficámos muito
admirados. A astúcia e a meticulosidade dos israelitas
levava-os ao extremo de pintarem a cobertura com a mesma
cor amarelada da terra ocre que cobria toda a meseta. Aqui e
ali, com uma paciência beneditina, os engenheiros militares
foram colando sobre essa cobertura um sem-fim de pedrinhas
recolhidas na zona norte do cume. Que proporcionavam à
falsa superfície um mimetismo invejável.

Quando os últimos raios de sol tingiam de vermelho o
deserto da Judeia, os trabalhos no Acampamento Eleazar
eram interrompidos. A falta de energia eléctrica tornava
difícil e perigoso o movimento dos tractores e da grua. Ainda
por cima, as chuvas e o forte vento continuavam a fustigar o
cume de Massada. De forma que, de comum acordo, fomos
para as tendas que nos tinham sido atribuídas. Daí em
diante, cada um daqueles incómodos abrigos, de dura lona
preta, servia de alojamento a dez membros da suposta
operação arqueológica. Com muita astúcia, os judeus fizeram
com que um ou dois dos seus homens compartilhassem
connosco os seus respectivos abrigos de campanha. Desta
forma podiam estar a par das nossas conversas e intenções.
Esta circunstância provocaria na equipa do Cavalo de Tróia
alguns momentos de tensão. Contudo, soubemos resistir a
esta subtil espionagem.
À luz ténue da botija de gás que pendia do tecto da tenda,
com o fino ulular do vento entre as lonas, os meus
pensamentos, mais uma vez, voltaram-se para Ele. Não havia
dúvidas: a sua imagem e as suas palavras já faziam parte do
meu próprio ser. E uma doce melancolia foi-me invadindo. Só
de vez em quando, com muito esforço, conseguia voltar à
realidade. Nesses momentos, uma quantidade enorme de
dúvidas
* O GSFC, ou Goddard Space Flight Center, localizado em
Greenbelt (Maryland), nos Estados Unidos, é um centro
destinado à coordenação e realização de projectos espaciais
(não tripulados). Uma das missões do GSFC é a vigilância da
rede STDN. Ou Rede de Acompanhamento e Aquisição de
Dados de Voos Espaciais, constituída por dezasseis estações
espalhadas por todo o mundo. N(. dol.)
obscurecia aquele estranho sentimento. Havia uma, em
especial, que não me deixava conciliar o sono: Como faríamos
para lançar o berço" de dentro daquele fosso? A antena
parabólica embora pudesse ser desmontada constituiria

um sério obstáculo.
De repente, por volta das nove horas da noite, um
ensurdecedor estrondo tirou o acampamento do seu repouso
forçado. Todos ao mesmo tempo os oito norte-americanos e
os dois israelitas que dormíamos naquela tenda precipitámonos
para a saída. Uma inusitada agitação apoderou-se da
meia centena de homens que ocupava a base naqueles
momentos.
No meio da escuridão e da implacável chuva, a pouco mais
de dez ou vinte metros sobre as nossas cabeças, quatro
potentes reflectores iluminavam a extremidade sul do
Acampamento Eleazar. O ruído dos motores e os piscas
vermelhos e verdes fizeram-nos compreender que se tratava
de dois poderosos helicópteros. Estavam em voo estacionário
entre o fosso e as escadas de pedra que davam para a
cisterna subterrânea situada nas proximidades da face
sudeste de Massada. Ao aproximarmo-nos, graças à
extraordinária potência dos quatro focos instalados na parte
de baixo dos aparelhos, vimos que dos CH-47 Chinook
helicópteros de transporte utilizados pela Marinha
israelitapendiam uns contentores enormes.
Pouco a pouco, seguindo as indicações do pessoal de terra,
as cargas foram colocadas no solo. E, rapidamente, cumprida
a missão, os Chinook apagaram os faróis, aumentaram a
potência dos motores e desapareceram em direcção a norte,
entre as temíveis rajadas de vento e chuva. Na manhã
seguinte, quando vi o peso, o volume e a natureza do
material transportado, não pude deixar de admirar aqueles
audazes pilotos israelitas. Encharcados até aos ossos,
voltámos para as tendas, à espera do novo amanhecer com
impaciência.
E, na verdade, aquela sexta-feira, 23 de Fevereiro de 1973,
seria um dia cheio de surpresas. A primeira surpresa chegou
com o alvorecer. Perto das seis horas e quarenta e cinco
minutos, depois de uma noite intranquila, em que quase não

consegui conciliar o sono, ao chegar à porta da tenda
deparei com um espectáculo inesperado.
Como por milagre, amplas zonas da superfície do
acampamento e do resto do cume surgiram atapetadas de
flores de todas as cores. Era admirável. Em poucas horas,
fruto das chuvas torrenciais, a meseta estava florida,
adornada com milhares de brilhantes e aromáticas flores
amarelas, verdes e vermelhas.
Nas partes mais baixas diga-se em abono da verdade a
tempestade deixara imensos charcos transformando o terreno
num lamaçal. Apesar da aridez de Massada e dos seus
arredores com o mar Morto à direita e o deserto da Judeia
à esquerda -, a realidade que surgira diante dos meus olhos
só vinha confirmar as palavras de Flávio Josefo cuando, mil e
novecentos anos antes, descreveu estas salvadoras chuvas.
*1 Segundo os dados do Serviço Meteorológico de Israel
que tão valiosas informações prestaria à missão a média
dos dias com sol na região de Massada e Sodoma, ao sul do
mar Morto, é de vinte e seis dias para Fevereiro e trinta e um
para Março.
Este facto levara os eruditos a contínuas polémicas em
torno das afirmações do historiador F. Josefo em relação às
chuvas sobre Massada. Josefo refere, por exemplo, que antes
do reinado de Herodes, o Grande, José e outros membros da
sua família se refugiaram nesse cume, Resistindo às tropas
dos últimos Asmonianos e seus aliados. Os Partos. Estavam a
ponto de morrer de sede quando, de repente, os céus se
abriram.
A segunda surpresa ocorreu ao entrar no barracão
apetrechado para os duches, retretes e higiene em geral.
Como já comentei, tinha sido construído quase paredes-meias
com a peça rectangular conhecida por lagoa grande. Aquele
foi outro dos múltiplos pormenores de que eu não me
apercebera durante o primeiro dia no acampamento.

Além da falta de energia eléctrica no alto do rochedo, uma
das principais dores de cabeça, no momento de preparar a
colocação da estação receptora de imagens, foi a ausência
de água. Certamente, segundo nos iriam explicando os
técnicos israelitas, ambos os problemas podiam ter sido resó
vidos sempre de forma incompleta indo buscar a água às
instalações situadas no lado oriental da montanha, no local
do fumicular.
Mas isso, com as quilométricas extensões de cabos e
canalizações, tornava-se tão complicado quanto escandaloso.
Além disso, o fornecimento de energia eléctrica seria
claramente insuficiente para o elevado consumo da estação.
Daí o Governo israelita ter-se decidido, depois de estudar
exaustivamente os dois assuntos, pelo transporte até ao
cimo de Massada de um conjunto de geradores resolvendo o
segundo obstáculo o da água de uma forma semelhante à
das expedições de Yadin nos anos de 1963 a 1965. A umas
quatro milhas a oeste da montanha existia uma rede de
canalizações que tinha sido propriedade da companhia Nafta
Oil e que fora utilizada, na época na (Companhia Nacional da
Água) também do exército israellita a Mek ha.
Foi instalada uma canalização mais estreita, que resolveu
os problemas de Yadin, e agora, oito anos depois, os
nossos.
Esta canalização ia até ao alto de Massada, paralelamente
à rampa romana. No sítio onde terminava na extremidade
noroeste os engenheiros ligaram várias centenas de metros
de novos tubos, escondidos no piso de terra da casamata ou
da muralha de duplo muro que se estende ao longo da face
oeste da meseta.
Ao mesmo tempo, o interior da lagoa grande tinha sido
aproveitado para a montagem de depósitos com capacidade
para cento e vinte mil litros. Por último, os israelitas tinhamnos
camuflado cobrindo a lagoa grande com canas. Dessa

forma, o fornecimento de água potável ao acampamento e
aos complexos sistemas de refrigeração ou alimentação do
equipamentos estava sobejamente assegurado. (Na hipótese
de uma avaria, o tanque escondido entre as paredes
rectangulares da lagoa podia satisfazer as necessidades da
estação sempre prioritária durante seis ou sete dias)
Concluído o pequeno-almoço, Curtiss e o resto da equipa
ofereceram-se para colaborar com os técnicos israelitas nas
tarefas que estes julgassem oportunas. Mas Yefet, depois de
agradecer a nossa sincera e excelente disposição, não
aceitou argumentando que não eram aquelas as ordens. O
Sol pairava, já, sobre as colinas azuis de Moab, rumo a um
céu transparente. O vento havia cessado e o dia, finalmente,
parecia apresentar-se ameno e aprazível.
Alguns minutos antes do pequeno-almoço, os oficiais
destacados para a base do funicular tinham estabelecido
contacto pelo rádio com o
* e as cisternas de Massada se encheram de água. E José e os seus, diz Flávio
Josefo. Salvaram-se. Mas, como anteriormente Yigael Yadin. Pudemos confirmar a
veracidade dos textos do judeu romanizado. (N. Do M)
acampamento, informando o general sobre as razões do
atraso da meia centena de homens que completava a
expedição do Cavalo de Tróia e que, segundo Curtiss, deveria
ter chegado a Massada na noite anterior. Ao que parecia, a
camioneta que os transportava desde Jerusalém tinha sido
obrigada a regressar, devido aos cortes na estrada.
A sua chegada ao acampamento Eleazar, concluíram os
militares, será ainda hoje de manhã
Naquela altura nós ainda não conhecíamos as más novas
que nos trariam aqueles compatriotas e companheiros.
Dado que as nossas obrigações eram quase nulas, cada
qual dedicou-se ao que achou mais conveniente. Curtiss e
vários directores fecharam-se na tenda que fazia as vezes de
estação de rádio e os outros optaram por descansar ou andar
a ver o cimo do rochedo, sempre sob a discreta vigilância de

alguns israelitas, que se ofereceram, com muito prazer, como
improvisados guias turísticos.
Eliseu e eu, de comum acordo, ocupámos grande parte da
manhã num minucioso reconhecimento do perfil e da
topografia do triângulo que formava a nossa base. Desde o
amanhecer que o acampamento tinha recuperado o seu
intenso ritmo de trabalho.
Os tractores de lagartas, levados para o alto da meseta
pelos helicópteros, continuavam no transporte febril das
pedras alaranjadas, que eram colocadas pela grua no fundo
da piscina.
Grande parte dos engenheiros e técnicos israelitas
dedicava todo o seu esforço e atenção aos dois gigantescos
contentores de aço baixados pelos Chinook. Um deles
continha um potente equipamento electrógeno, de geração
contínua, perfeitamente desmontado. Tratava-se do coração
do acampamento. Sem aquele gerador de corrente eléctrica,
tudo teria sido inútil.
Os israelitas sabiam-no e apressaram-se a retirá-lo da
superfície do rochedo, transportando o motor, o alternador, a
base, o painel de comandos, os sistemas de filtragem, etc,
para o fundo da cisterna subterrânea. Até nisto tiveram sorte
os israelitas e, indirectamente, o Cavalo de Tróia. A
localização do gerador tinha sido um problema difícil. Por
elementares razões de segurança não podia ficar à vista nem
ser colocado na piscina, junto dos delicados instrumentos da
estação receptora. As constantes vibrações, bem como o
ruído do motor, teriam interferido no equipamento e causado
uma série de inconvenientes desnecessários.
Por isso, ao estudar o solo e a configuração da zona sul da
meseta, os peritos não hesitaram em escolher a cisterna
subterrânea como o esconderijo ideal para o gerador e para
o correspondente tanque diário de gasóleo. A gigantesca
cisterna escavada na rocha por Herodes, o Grande tem

uma capacidade de cento e quarenta mil pés cúbicos. Tratase
de uma formidável sala de oito metros de altura, à qual se
tem acesso por umas escadas igualmente conquistadas à
rocha. Para lá, enfim foi transportado e montado o flamante
gerador tipo dezasseis cilindros (V), da série 149,
fabricado pela General Motors com uma potência de mil e
duzentos KVA ou mil e trezentos HP e uma voltagem de saída
de trinta mil volts. (Com semelhante monstro teria sido
possível alimentar as principais instalações de um aeroporto
de tipo médio)
Foi assombroso. Aquelas dez toneladas em seco, isto é,
sem a água e sem o óleo ficaram montadas e prontas a
entrar em funcionamento em vinte e quatro horas. A perícia
dos engenheiros, em especial na altura da operação decisiva
de alinhamento do motor e do alternador, foi total.
Por último, um feixe de cabos, enterrados a um metro de
profundidade e cuidadosamente isolados, foi estendido ao
longo do acampamento, pronto para dar vida aos diferentes
serviços.
Aproveitando duas grandes aberturas no tecto da cisterna
subterrânea pelas quais penetrava outrora a água, e
visíveis sobre a escarpa sudeste da montanha -, os
especialistas israelitas montaram também um poderoso
sistema de extractores e ventiladores, proporcionando assim
uma contínua e excelente renovação do ar.
Embora o Charlie assim baptizámos o gerador - quase não
deitasse fumo, tanto os tubos de saída de gases como o
resto do complexo de ventilação foram apetrechados com
finas grelhas de filtragem. Se chegasse a haver uma fuga de
vapor ou de qualquer fonte de calor um hipotético inimigo
teria sabido que algo anormal estava a acontecer nas
entranhas de Massada.
O segundo contentor depositado pelos helicópteros no
Acampamento Eleazar era de idêntica importância vital.

Conttnha cerca de trezentas e cinquenta chapas de aço, de
um metro de largura cada uma, destinadas à construção dos
dois depósitos de combustível do equipamento electrógeno:
o do dia e o de armazenamento. O Charlie consumia cerca de
cento e sessenta gramas de gasóleo por cavalo-hora.
Isso exigia a presença de um tanque com uma capacidade
mínima de 5420 litros por dia. (Este foi o consumo diário
médio do gerador) Como era lógico, tornava-se mais prático,
rentável e seguro instalar na rocha um tanque de
fornecimento ou armazenamento do que efectuar todos os
dias o correspondente transvase de combustível. Uma
operação que, dada a localização de Massada só podia ser
efectuada com rapidez e comodidade pelo ar.
Neste sentido, os helicópteros-cisterna do exército de Israel
desempenhariam um papel de destaque. Uma vez por mês,
vários daqueles gigantescos Sikorsky S-64 (tipo CH-54
Tarhe), previamente modificados, voavam durante a noite até
ao acampamento enchendo o tanque de reserva: 162 600
metros cúbicos. Este segundo depósito com cinco metros de
largura, quinze de comprimento e três de altura foi montado
numa das grutas que se alinhavam no já referido alcantilado
sudeste da montanha, muito perto da cisterna subterrânea 2.
Com a ajuda da grua e de cordas, os israelitas,
* Este tipo de geradores consome, em média, 14? m de ar por minuto, só para
a combustão do motor (este trabalha à razão de sessenta ciclos). Por outro lado,
a refrigeração do radiador exige 2349 m de ar, também por minuto. Todo o
conjunto emite um calor equivalente a 189 KW por minuto. (N. Do M)
2 Neste alcantilado sudeste de Massada, muito perto da casamata, pode verse
uma fileira de grutas.
Na que se situa no extremo sul a mais pequena de todas -, as expedições
arqueológicas de Yadin encontraram os esqueletos de vinte e cinco seres
humanos. Provavelmente, zelotas auto-imolados naquela histórica noite. Entre os
esqueletos havia fragmentos de tecidos e bocados de pano. Segundo o doutor N.
Hass, da Faculdade de Medicina da Universidade Hebraica. Aqueles ossos eram
de catorze homens, seis mulheres e, o resto, de crianças.
Com quase toda a certeza, defensores de Massada. Esta circunstância, ainda
que incrível, condicionou muito a operação. Apesar de os arqueólogos de Yadin
terem examinado as outras grutas, não encontrando novos esqueletos, antes de

profanar uma daquelas grutas com o depósito de gasóleo, os israelitas fizeram
uma revisão exaustiva da caverna em questão, com o fim de se certificarem de
que, de facto, nenhuma guardava ainda vestígios dos seus heróis nacionais.
(N. do M)
numa verdadeira demonstração de alpinismo, foram
transportando as peças de aço desde o cimo até à entrada
da gruta natural, pondo em risco a própria vida num
alcantilado com mais de mil pés de altura. Creio que nunca
lhes agradeceremos bastante. Na manhã de sábado, uma vez
concluída a operação de junção e soldagem do tanque, os
engenheiros deixaram em condições as bombas para a
mudança do líquido, unindo os dois depósitos o de reserva
e o diário com uns tubos que foram colocados e camuflados
na parede sudeste de Massada. A conduta penetrava na
cisterna subterrânea através de um dos orifícios de
ventilação.
Os meus conhecimentos sobre a história de Massada, dos
seus edificios e dos castros romanos que a rodeiam tudo
isso fruto da documentação proporcionada pelo general
mostrar-se-iam muito úteis quando, seguindo o nosso plano
de reconhecimento do terreno, nos dirigimos para norte da
meseta.
O meu irmão e eu ficámos admirados com a audácia e
beleza do Palácio do Norte, com os seus três terraços em
socalcos. E sentimos uma emoção especial ao percorrer o
labirinto formado pelas ruínas dos armazéns mandados
construir por Herodes e que serviram de despensa aos
heróicos zelotas. Assomando àquela espécie de proa, no
ponto mais alto de Massada, compreendi por que motivo o
rei Herodes tinha construído, precisamente ali, o seu palácio
suspenso.
Aquele vértice do grande rochedo em especial os terraços
central e inferior é o único ponto resguardado do ardente
sol e dos temíveis ventos de sul, que, às vezes, ultrapassam

as sessenta milhas por hora. Se não fosse este compacto
complexo de ruínas (palácios, armazéns, balneários, edifícios
administrativos, postos de guarda, etc), o Acampamento
Eleazar, explicou-nos um dos inseparáveis guias, teria sido
instalado aqui mesmo. Os incómodos ventos de sul e
sudoeste, tão frequentes em Massada, iriam ser um autêntico
pesadelo para os homens do Cavalo de Tróia; sobretudo nos
minutos decisivos da descolagem e posterior descida do
módulo.
(Espero que Deus me conceda as forças suficientes para
chegar a esse ponto deste relato) Nos estudos
meteorológicos da estação de Kalya, a norte do mar Morto,
as estatísticas elaboradas com base nos dados recolhidos em
1972 pelos três centros de observação indicavam, no
entanto, para o mês de Fevereiro, uma frequência e
intensidade dos ventos relativamente baixas ou suportáveis:
a estação número vinte apontava uma percentagem de 189
para o vento sul e só 40% para o vento sudoeste.
Por seu lado, as estações números vinte e um e vinte e dois
fixavam para os mesmos ventos índices de 189 e 79 e de
147 e 56, respectivamente. Nos três casos, as velocidades
dos referidos ventos oscilavam entre os doze e os dezanove
quilómetros por hora. Só as estações vinte e vinte e um é que
previam ventos entre cinquenta e sessenta e um quilómetros
por hora, mas numa percentagem muito baixa
Naturalmente, a parte mais alta de Massada encontra-se a
mais de mil pés de altitude e isso notava-se.
Mas o lugar que mais nos impressionou talvez por se
conservar tal como o deixaram os legionários de Silva foi a
* Por não existir estação meteorológica em Massada, os dados foram
fornecidos pela de Kalya Alef. Os seus três observatóríos situam-se a 395, ?70 e
60 metros abaixo do nível do mar, respectivamente. (N. Do N)
Descrição Superfície do planalto de Massada. No triângulo sul, o
Acampamento Eleazar.
1 recinto subterrâneo destinado à estação receptora de imagens (a

piscina).
2 escadas que conduzem à cisterna subterrânea.
3 a lagoa grande.
4 barracão destinado aos balneários.
5 refeitório.
6 tendas de campanha.
7 portão da paliçada.
8 a cidadela ocidental.
9 o banho ritual.
10 muralha ou casamata oriental.
11- muralha ou casamata ocidental.
12 habitações dos zelotas.
13 - pombal.
14 oficina de mosaicos bizantinos.
15 aposentos da família real.
16 habitações dos zelotas.
17 tanque de natação.
18 vila.
19 Palácio Ocidental.
20 a rampa romana.
21 igreja bizantina.
22 edifício dos oficiais.
23 - a torre ocidental.
24 habitações dos zelotas.
25 cisterna aberta.
26 funicular.
27 porta do caminho ou vereda das árvvoras.
28 armazéns.
29 banhos.
30 Palácio Norte: terraço superior.
31 terraço intermédio.
32 terraço inferior.

rampa de terra batida que se eleva desde a base até
quase tocar a orla noroeste da meseta. Aquele reduto de
assalto é, sem dúvida alguma, uma das estruturas ou
fórmulas de assédio do exército romano mais interessante do
Mundo. A verdade é que se encontra francamente bem
conservada. A brancura da rampa cuja terra foi extraída do
chamado promontório branco, justamente onde ela se inicia
é deslumbrante.
Durante alguns minutos, ficámos ali, pasmados e absortos
perante a visão da rampa e do acampamento de Flávio Silva.
Agora, mil e novecentos anos depois daquela luta pela
soberania e liberdade de um povo, o Estado de Israel tinha
voltado a Massada, precisamente, como já observei, para
velar por essa segurança.
O nosso passeio pelas ruínas de Massada foi agradavelmente
interrompido quando, a meio da manhã os funiculares
conduziram para o cimo os últimos cinquenta especialistas do
Cavalo de Tróia. Tal como fizera connosco, Curtiss tinha-os
posto a par de alguns pormenores da missão secreta. E
todos, como era previsível, se mostraram entusiasmados com
aquela segunda tentativa. A sua permanência no Acampamento
Eleazar foi, por isso mesmo, tão discreta e eficaz como
seria de esperar. Mas aqueles amigos não eram precisamente
portadores de boas notícias. A pedido de Curtiss tinham
reunido uma ampla selecção de jornais internacionais daqueles
dias. Tanto o general como o resto do grupo intuiu que o
recente derrube do Boeing 727 líbio na península do Sinai
podia trazer péssimas consequências para o já deteriorado
panorama político do Médio Oriente. Não nos enganámos.
Os comentários e as reacções de meio mundo foram unânimes:
o metralhamento do avião de passageiros e a morte de
cento e quatro ocupantes foram condenados sem atenuantes.
Os países árabes manifestaram-se especialmente agressivos,
aquecendo ainda mais a atmosfera de pré-guerra para com o
seu vizinho Israel. A leitura daqueles jornais ingleses, norte

americanos e egípcios encheu-nos de confusão e incerteza.
Os jornais do Cairo, por exemplo, qualificavam o facto de
assassínio premeditado e de um novo e bárbaro crime contra
civis árabes. O jornal egípcio Al Ahram transcrevia também as
declarações de um porta-voz do Governo de Sadat, nas
quais, entre outras coisas, assegurava que o sionismo
israelita, que vive da agressão, da usurpação e do delito,
pagará caro esta acção e receberá o justo castigo, das mãos
dos Árabes.
* Nos escritos de Flávio Josefo lê-se, em relação a esta rampa: Já que o
general romano Silva tinha construído uma muralha no exterior, à volta de todo
este lugar, como o dissemos anteriormente, e de tal forma tinha construído uma
protecção tão adequada para evitar que qualquer dos sitiados fugisse, que se
dedicou ao assédio propriamente dito, embora encontrasse apenas um único
lugar onde era possível construir a rampa que projectara, porque por trás daquela
torre que protegia o caminho do palácio.
E até ao cimo da colina pela parte ocidental, havia uma grande saliéncia da
rocha, muito larga e proeminente, e apenas trezentos côvados (quinhentos pés]
sob a parte mais elevada de Massada. Era chamado o "promontório branco".
Portanto, fixou-se naquele lugar da rocha e ordenou aos soldados que trouxessem
terra, e quando se aplicou a esta tarefa com ardor grande quantidade deles,
levantou-se a rampa que era sólida, de duzentos côvados (trezentos pés] de
altura e, no entanto, não se considerou essa rampa suficientemente alta para o
uso das máquinas de guerra que deviam instalar-se ali e elevou-se sobre esta
rampa outra, alta e grande, feita de grandes pedras unidas, medindo cinquenta
côvados, tanto de altura como de largura" (N. Do M )
Por seu lado, os mais prestigiados jornais de Nova Iorque e
Washington pronunciavam-se nos seguintes termos: A
incursão israelita no Líbano e o derrube de um avião de
passageiros no Sinai desencadearam no mercado de valores
de Nova Iorque o medo de que a situação no Médio Oriente
se agrave. O que provocou uma queda brusca dos preços dos
títulos.
Nixon e o secretário de Estado norte-americano, William P.
Rogers, enviaram mensagens de condolências a Muamar
Kadhafi e ao presidente do Egipto di no Sinai, The Times
afirmava que Num editorial intitulado Tragédia, o incidente
não era só mais um infeliz acto de guerra, mas uma matança

irreflectida de civis. E, como tal, injustificada, senão mesmo
premeditada.
O Daily Telegraph qualificava a acção israelita de brutal,
garantindo que a matança de civis representava um duro
golpe nas tentativas de Nixon para conseguir um acordo
sobre o canal do Suez.
Por último, porque a lista seria interminável, o Financial
Times escrevia: Depois de um período de cinco anos de "nem
paz nem guerra", Israel não quer arriscar-se a negociar um
verdadeiro acordo de paz .
Em tudo aquilo, no entanto, havia qualquer coisa estranha.
Por mais que voltássemos a folhear os jornais. Em nenhum
encontrámos uma úniqa reacção ou declaração do veemente
coronel Kadhafi. O Boeing abatido era do seu país e, além
disso, cinquenta e cinco dos cento e quatro passageiros
mortos eram líbios. Porque mantinha um mutismo tão
invulgar?
Seria que tinha alguma coisa a ocultar da opinião pública?
Porque se teria desviado o avião centenas de milhas das
duas rotas de voo habituais do Bahrein, nos Emirados
Árabes, para o seu aeroporto de destino, em Alexandria».
Naquele momento não dispúnhamos dos dados
meteorológicos da zona relativos ao dia 21 de Fevereiro
data do acidente -, mas parecia-nos difícil acreditar que as
más condições climatéricas (razão alegada a princípio pela
imprensa judaica) tivessem forçado o Boeing a violar o
espaço aéreo de Israel, e justamente sobre uma zona militar.
Era, pelo menos, suspeito.
As tímidas e escassas notícias procedentes de Telavive
também não projectaram muita luz sobre o que tinha
acontecido na zona central do Sinai. Numa conferência de
imprensa realizada no Cairo, os jornalistas garantiram ter
ouvido a voz do comandante do Boeing 727 a gritar: Estão a
disparar contra nós! Estão a disparar de um caça!

Naturalmente, como era de esperar, a imprensa israelita
acusava o piloto de ter desobedecido às ordens dos
interceptores. O co-piloto, Jean Pierre Hure, um dos sete
sobreviventes, garantiu que estavam aterrorizados e que não
seguiram as instruções dos caças israelitas, optando por
fugir.
Poucas horas depois do incidente, o chefe supremo da
Força Aérea israelita, general Mordekai Hod, e dois pilotos
dos Phantom, cujos nomes
* As rotas comerciais do voo de Bahrein para Alexandria, no Egipto, seguem,
habitualmente, as seguintes direcções: uma para Damasco. E, dali, sobrevoando
o Sul de Beirute e águas internacionais do Mediterrâneo, para Alexandria. A
segunda rota atravessa a Arábia Saudita, sobre Buraida e norte de Medina, até
entrar no Egipto. Ao norte de Assuão, os aviões giram noventa graus, na direcção
de Alexandria. O Sinai encontra-se na bissectriz de ambas as rotas. (N. Do M)
não foram revelados, realizaram outra conferência de
imprensa a fim de darem informações sobre o gravíssimo
assunto. Segundo estes militares israelitas, fizeram-se
esforços desesperados para obrigar o Boeing a aterrar. Um
dos caças até se aproximou o suficiente para fazer sinais com
as mãos à tripulação do avião líbio para que aterrasse. Mas
o 727 fugiu, informaram os oficiais israelitas, para evitar um
conflito diplomático.
Mais tarde, a própria imprensa de Israel lançaria outra
explicação não menos estranha: Receavam que o Boeing
fosse a Telavive em missão de sabotagem E ainda que, de
facto, as ameaças dos guerrilheiros de bombardear aquela
cidade fossem reais, no fundo, ninguém acreditou em
nenhuma das justificações. Nem nas israelitas nem nas
árabes. Dias mais tarde, após o seu regresso dos Estados
Unidos, Curtiss informar-nos-ia acerca da verdadeira razão
daquele lamentável acontecimento. Uma causa que era de
facto suficientemente grave para os israelitas e que eles
jamais admitiriam oficialmente.
Nada digno de menção aconteceria já naquela sexta-feira,
23 de Fevereiro. A equipa, inquieta devido aos

acontecimentos, fazia a si própria milhares de perguntas.
Mas, para já todas continuavam sem resposta. Em que
medida o envenenamento das relações israelo-árabes
poderia vir a afectar a evolução da nossa missão? Se tudo
acabasse em novas hostilidades ou, o que seria pior, numa
quarta guerra, que papel iria desempenhar aquela meia
centena de norte-americanos, perdida no alto de uma
montanha solitária?
Ao entardecer, pouco antes dos funiculares deixarem de
funcionar, submetendo-nos assim a um forçado isolamento,
Curtiss conseguiu rodear-se de vários dos seus directores do
Projecto e, num aprazível passeio pelas ruínas do sector norte
- desta vez sem guias nem israelitas intrusos ditou as
instruções a ter em conta para o dia seguinte, sábado:
- Devemos estar atentos à chegada do resto dos
equipamentos. Uma vez no alto da meseta, o Cavalo de Tróia
porá em andamento a fase verde da operação. Esta fase,
como já assinalei, consistia, fundamentalmente, no processo
de montagem da estação e, a partir de um determinado
momento, do berço. Esta última parte da fase verde sofrera
substanciais modificações em relação à operação gémea da
mesquita da Ascensão, no cimo do monte das Oliveiras.
A especial configuração da piscina e do Acampamento
Eleazar exigia outro tipo de táctica para manter os israelitas
afastados durante o processo de montagem dos scanners
ópticos e dos restantes instrumentos secretos. O pacto inicial
de Curtiss com o Governo de Golda Meir, segundo o qual o
pessoal israelita deveria abandonar a estação enquanto
durassem os trabalhos secretos, continuava em vigor. Mas
ninguém estava a par da argúcia planeada por Curtiss.
Quando um dos directores mostrou interesse pela vara de
Moisés e pelo imprescindível combustível para o módulo em
especial pela forma escolhida para o levar clandestinamente
para Massada -, o general limitou-se a repetir:

- Calma. Tudo está previsto.
O pôr do Sol põs ponto final no trabalho febril dos
israelitas. Excepcionalmente, dada a urgência e natureza da
Operação Eleazar, os turnos de montagem do Charlie e do
tanque de armazenamento foram libertos da sagrada
obrigação de guardar o sábado. Apoiados por grandes
holofotes alimentados a gás, os técnicos encerrados na
cisterna subterrânea e na gruta prosseguiram nas suas
tarefas durante toda a noite. O resto do acampamento ficou
mergulhado numa quase total escuridão, apenas interrompida
pelos mortiços candeeiros instalados no interior das tendas e
do refeitório. Por razões óbvias de segurança o exército tinha
proibido a utilização de focos na superfície da meseta. Nem
mesmo quando o gerador de electricidade entrou em
funcionamento se quebrou esta norma rigorosa.
A integridade física da estação e da centena de homens
que cómpunha o acampamento assim o exigia. Éramos uma
simples e pacífica expedição arqueológica e, por
conseguinte, a presença de focos no triângulo sul de
Massada só teria servido para levantar suspeitas.
Na manhã do dia seguinte. Quando nos preparávamos para
tomar o pequeno-almoço, notámos a falta de Curtiss e de
vários oficiais-chefes do acampamento. Bahat, adivinhando
as nossas perguntas, convidou-nos a dar uma vista de olhos
à ponta oriental do rochedo. Para lá nos encaminhámos,
cheios de uma enorme curiosidade. Sinceramente, naqueles
momentos ninguém se lembrava das palavras do general
acerca da chegada do último terço do material.
No portão de entrada do chamado caminho de serpente ou
das víboras um sinuoso e estreitíssimo carreiro que sobe
até ao alto de Massada pela sua vertente oriental surgiu
diante de nós uma visão difícil de esquecer: muito perto da
base do funicular, ocupando praticamente o terreiro contíguo,
agrupava-se uma apreciável manada de camelos ou de
dromedários (daquela distância era difícil precisar).

O grupo entrou numa acesa polémica acerca das possíveis
razões da presença daquela caravana em Massada daqueles
animais dO deserto. Seria que pelo o carregamento tinha
vindo em cima daqueles animais? E se assim era, porquê? O
debate terminou com a chegada de alguns militares
israelitas. Reclamavam a nossa presença na estação de
rádio.
Alguns minutos mais tarde, cerca de vinte homens do
Cavalo de Tróia embarcavam no funicular, rumo às instalações
da base.
O insólito espectáculo multicolor que nos aguardava no
sopé do rochedo deixou-nos sem fala. Curtiss e várias
dezenas de israelitas empenhavam-se na descarga de uma
série de enormes volumes, ajudados continuamente pelos
membros daquela caravana beduína. Cerca de quarenta ou
cinquenta dromedários - os famosos barcos do deserto
encostavam-se, nervosos, à plataforma do funicular. Das suas
gibas pendiam de ambos os flancos fardos emalhados
que continham arcazes.
Utensílios domésticos e até pequenos cordeiros. A alguma
distância, entre as dunas, permaneciam outros seis ou oito
animais, com grandes baldaquinos descobertos, onde se
viam mulheres e crianças.
* Este caminho escarpado nasce praticamente no sopé da montanha, a uns mil
e duzentos pés do topo. Caminhando depressa demora-se de quarenta a
cinquenta minutos se não mais a percorrê-lo. As suas pedras escalonadas
foram dramaticamente descritas por Flávio Josefo. Os Israelitas desaconselharam
o seu uso para o transporte do material até ao cimo do planalto. (N. Do M)
Os nómadas, vestidos com grandes albornozes negros de
lã, sem mangas, e com as cabeças cobertas com gorros de
pêlo de camelo e vistosos mantões vermelhos e brancos,
desenganchavam os canastros, que eram imediatamente
transportados para o interior das cabinas do funicular. Por um
momento perguntei-me para que precisaríamos nós no

acampamento de todos aqueles objectos, incluindo os
borregos. Os beduínos tinham obrigado os dromedários a
ajoelhar-se, mantendo-os nesta posição mais acessível com
uma corda que unia as cabeças dos animais a um ou a ambos
os joelhos.
Concluída a operação, os dromedários foram desatados e
um dos voluntários árabes o que parecia o xeque ou chefe
da tribo despediu-se do oficial mais graduado com um seco
Salaam aleikum (A paz esteja contigo). O israelita
correspondeu com outra ligeira inclinação de cabeça,
respondendo Aleikum as salaam (Que contigo seja).
Beduínos e dromedários tomaram a direcção das dunas,
juntando-se ao grupo das mulheres.
Sentia-me tão fascinado por aqueles incríveis exemplares
humanos que, de volta ao rochedo, quase nem prestei
atenção às explicações do general sobre os fardos que
acabavam de ser descarregados e sobre a sua insólita
viagem.
Ao que parecia, se bem me lembro, três dias antes, a
caravana em questão encarregara-se do último terço do
material, perfeitamente camuflado nos fardos. Recolheram o
carregamento na noite do dia 21, quarta-feira, num ponto a
noroeste de Qumrân, em pleno deserto da Judeia. Aquela
zona era frequentada desde tempos imemoriais pelas
caravanas de beduínos que iam e vinham da Arábia. Muitas
destas tribos traficavam armas ou trocavam vinho por
mulheres, atravessando livremente a fronteira da actual
Jordânia. Suponho que aquela tribo ou clã dos nobres
shammar aceitara por um alto preço a missão de transportar
até Massada aquilo que, oficial e aparentemente, era
apenas um prosaico conjunto de vasilhas e outros utensílios
domésticos. Necessários em qualquer acampamento.
Os beduínos fizeram-se surdos e mudos perante a generosa
recompensa dos israelitas. Na verdade, o plano dos serviços
secretos judaicos funcionou perfeitamente. Quem podia ter

imaginado que entre os fardos daquela austera caravana
viajava um sofisticado equipamento de recepção de imagens
via satélite?
Sempre longe das estradas e dos centros populacionais, os
shammar tinham caminhado durante a noite descansando
de dia - por uma complicada rede de azinhagas e veredas,
em pleno deserto, que conheciam e percorriam desde há
séculos. Mas a missão dos beduínos ainda não tinha
acabado. Naquele meio dia, correspondendo a um convite do
* Os shammar constituem uma das mais nobres e antigas tribos beduínas da
Arábia Setentrional. Subdivide-se em quatro grandes facções tribais: os abde, os
singiara, os aslam e os tuman. Os shammar consideram-se qathanitas, isto é.
Descendentes de Qathar. Este, juntamente com o mítico Ismael.
É reconhecido como um dos fundadores de várias estirpes do povo muçulmano.
Supõe-se que os slammar se estabeleceram na região compreendida entre o
Yébel Aeia e o Yéhel Selma. A sul.
E o terrível deserto do Grande siefud, a norte. (N. Do M)
xeque da tribo para participar no sempre complexo ritual da
preparação e degustação do café, Curtiss teria a
oportunidade de forjar um novo e astuto plano. Um
estratagema que nos cobriria as costas no crítico momento
do lançamento do módulo.
Aquele trabalho foi bem-vindo. O isolamento no alto do
nosso porta-aviões de pedra, sem energia eléctrica nem
distracção alguma e com meia centena de homens, de braços
cruzados, começava a preocupar-nos. Por isso, o grupo do
Cavalo de Tróia ofereceu-se, espontânea e voluntariamente,
para transportar os fardos e os depositar com o resto dos
blocos cor de laranja - no fundo da piscina. Oficialmente, a
fase verde acabava de ser inaugurada.
Curtiss, que, como já disse, forjava qualquer coisa no seu
cérebro, pediu-nos que separássemos a meia dúzia de
borregos.
E o pessoal fê-lo com satisfação, prendendo-os a uma das

cordas da tenda do general. Alguns rapazes, com pena dos
lastimosos balidos dos frágeis cordeiros, armaram-se em
improvisadas amas-de-leite esgotando as reservas de leite
da cozinha. A verdade é que os cozinheiros israelitas não
fizeram má cara. Ali, o que menos faltava era comida e
aborrecimento.
(Todas as manhãs, pontual e religiosamente, o funicular
abastecia-nos de pão fresco, de leite e dos alimentos que
começavam a escassear nas despensas do barracão.
Por volta das duas horas da tarde, o general pegou nos
seis cordeirinhos e, acompanhado por Bahat o supervisor,
cruzou o portão da paliçada em direcção à plataforma do
funicular. O paciente Curtiss encaixou com desportivismo as
gracinhas de judeus e norte-americanos, divertidos perante a
pouco habitual cena de um general da USAF a fazer de pastor
de um rebanho.
Quando perguntei a Eliseu qual seria a intenção do chefe
da operação, o meu irmão encolheu os ombros. Ninguém no
Acampamento Eleazar tinha a menor ideia do motivo que o
levara a preocupar-se com os animais. A possível explicação
devia estar dentro da grande tenda negra de pele de cabra
que naquela mesma manhã os shammar tinham montado nas
amarelentas dunas que se estendem a nordeste da montanha
à distância de uma pedrada das ruínas do acampamento
romano B. Era evidente que os beduínos tinham a intenção
de permanecer naquele lugar, pelo menos durante algum
tempo.
Mas esta circunstância não parecia inquietar os militares
israelitas. De qualquer forma, enganámo-nos quando demos
como certo que, ao regressar ao cimo da montanha, Curtiss
nos desvendaria o mistério. Entre outras razões, porque o
general
* O plano do cerco de Massada pelo general romano Silva, como já referi,
compreendia a construção de uma muralha que desse a volta ao monte, assim
como o levantamento de oito acampamentos para cerca de quinze mil homens.

Estes castros, conservam-se em tão bom estado que, observados do cimo ou de
avião, é como se acabassem de ser abandonados. Foram montados dois
acampamentos grandes o 8, e o F e outros seis mais pequenos. O primeiro, a
leste de Massada, e o F, a oeste.
Ambos se encontram fora da muralha de circunvalação e são quase gémeos,
tanto em dimensões cento e quarenta por cento e oitenta jardas o B" e cento e
trinta por cento e sessenta o F, - como na sua planificação. Metade do grosso da
X Legião (fretensis) alojou-se no "B, e o resto no F. Este último acampamento,
segundo Josefo, foi o quartel-general de Silva durante o cerco. (N. Do M)
não voltaria a Massada. Pelas quatro horas dessa tarde de
sábado, o funicular trouxe Bahat para a meseta. Vinha com o
encargo de recolher os poucos objectos pessoais do general
e levá-los a toda a pressa para a plataforma da base. O
supervisor foi muito sóbrio nas explicações. Um carro oficial
aguardava Curtiss. Tinha sido chamado com urgência à
embaixada dos Estados Unidos. Algumas horas mais tarde, os
oficiais encarregados do rádio receberiam uma comunicação
do próprio general. Encontrava-se em Telavive pronto para
descolar para os Estados Unidos. Tudo aquilo deixou os
homens do Cavalo de Tróia abatidos. Nos planos do chefe da
operação pelo menos que nós soubéssemos não figurava
aquela viagem repentina.
Que estaria a acontecer?
As últimas palavras da mensagem de Curtiss, no entanto,
pareciam tranquilizadoras: «Comecem sem mim. Regressarei a
tempo».
O resto do dia passou quase sem nos apercebermos. Os
homens refugiaram-se nas tendas ou no refeitório, discutindo
e polemizando sem cessar sobre tão inesperada partida.
Já tinha anoitecido quando as acaloradas tertúlias foram
momentaneamente interrompidas pela presença dos Sikorsky
no cume.
De acordo com o programa previsto pelos israelitas, uma
vez concluída a montagem dos depósitos de combustível,
estes seriam enchidos durante duas noites consecutivas: as
de sábado e domingo. Para a maior parte do acampamento,

aquele transvase do gasóleo foi um dos piores suplícios de
toda a operação. Por razões de segurança, os gigantescos
helicópteros-grua israelitas em cujos bojos tinham sido
colocados tanques de dez toneladas cada um só podiam
sobrevoar Massada em plena escuridão e, se possível, sem
luzes. O troar dos motores principais, com as suas seis pás,
foi, como digo um pesadelo.
De hora a hora, pontuais como relógios, um par de Sikorsky
aterrava na orla sudeste do triângulo para esvaziar os seus
depósitos. Foi inútil tentar dormir. Impacientes por verificar o
bom funcionamento do gerador, os israelitas depois de
atestado o tanque diário com os cinco mil e quinhentos litros
ligaram o Charlie. Os sistemas responderam na perfeição e
os técnicos, como é lógico, felicitaram-se mutuamente.
Por volta das cinco da madrugada de segunda-feira, 26 de
Fevereiro, o último S-64 descolava do cimo da meseta,
afastando-se na direcção sul: para a base de Etzion. O
trabalhoso armazenamento de quase cento e setenta mil
litros de combustível havia terminado. Um mês depois, se
tudo corresse bem, os helicópteros repetiriam a operação de
encher o tanque de armazenamento. Mas antes, muito antes,
dar-se-iam outros acontecimentos.
Muito antes do amanhecer de domingo, 25 de Fevereiro
mais de metade do Acampamento Eleazar já estava de pé,
despertado pelo incessante ruído dos helicópteros.
De comum acordo, apesar dos rostos dos homens
denotarem um profundo cansaço como consequência de uma
noite de vigília, os oficiais israelitas e os directores do
Cavalo de Tróia escolheram aquela mesma manhã para o
início da montagem da estação receptora de imagens. No
entanto, a maior parte do dia foi dedicado a trabalhos
preliminares, à abertura dos falsos blocos de pedra e dos
fardos e, muito especialmente, a uma série exaustiva de
provas do fecho eléctrico que devia cobrir a piscina. Quando
os técnicos de ambos os lados se consideraram satisfeitos, o

tecto, da futura estação foi fechado, dando-se início aos
trabalhos prévios de desembalagem.
Israelitas e norte-americanos, lado a lado, empenhámo-nos
com ardor naquilo que, para as duas partes, significava uma
missão de importância vital. Para eles num sentido, para o
Cavalo de Tróia, naturalmente, noutro sentido muito
diferente.
Só sete dos vinte e seis cubos de pedra cor de laranja
previamente marcados com um círculo negro foram
respeitados.
Para os nossos amigos, aquela parte continha o material
secreto, e só podia ser aberta e manipulada por nós. Com
prudência, a fim de evitar desagradáveis confusões na altura
de mamipular o material, os sete caixotes, em questão foram
isolados no centro do fosso e convenientemente atados.
Ao fixarem os turnos de trabalho o plano previa quatro
turnos de seis horas cada um -, os directores norteamericanos
designaram três dos dez especialistas norteamericanos
(cada turno era formado por duas brigadas
israelita e norte-americana de dez homens cada brigavam
os turnos, com o velado objectivo de não perderem de vista
os blocos. Graças a este método subtil, o berço, ficou
protegido de dia e de noite. Todos os dias desde que a
estação começou.
À medida que foram passando a adquirir forma, Eliseu e eu
apercebemo-nos de outro pormenor, magistralmente
planeado pela equipa de directores. Como já disse, uma das
nossas muitas preocupações, desde que tínhamos chegado a
Massada, havia sido a inevitável antena parabólica, prevista
no centro da estação. A nossa estupidez foi imperdoável. Ao
colocar os sete blocos de pedra, no meio do fosso, Curtiss.
Astutamente, impossibilitou o início da montagem da
parabólica, que, em condições normais, podia ser feita
simultaneamente com a dos outros equipamentos.

Esta manobra facilitar-nos-ia consideravelmente o trabalho.
(A colocação do módulo, como iremos vendo, foi projectada
para o sítio que devia ser ocupado pela parabólica de vinte
e seis metros de diâmetro). Por outro lado, com uma boa
lógica, e com a finalidade de não atrapalhar o trabalho dos
técnicos, os israelitas concordaram com a proposta dos seus
aliados: a instalação e as provas da parabólica seriam
efectuadas em último lugar.
Até terça-feira, 27 de Fevereiro, não se iniciaria a
montagem propriamente dita da estação receptora de
imagens do Big Bird.
Na segunda-feira, finalizada a operação do armazenamento
do gasóleo, os israelitas, sempre minuciosos e desconfiados,
colaboraram na desembalagem dos equipamentos, mas os
seus esforços e a sua máxima atenção concentraram-se na
infra-estrutura que devia mover aquela complexa rede de
instrumentos e instalações.
Grande parte dos seus homens permaneceu debaixo de
terra, verificando e comprovando constantemente os sistemas
de ventilação, fornecimento de combustível, instalação
eléctrica, etc.
Lembro-me de que a chegada dos jornais por volta do
meio-dia dessa terça-feira trouxe uma salutar descontracção
ao acampamento. Embora as reacções contra o derrube do
727 líbio continuassem a ser extraordinariamente duras, as
tranquilizadoras declarações de Hafiz Is O rei Hassan II de
Marrocos chegou a anunciar que enviaria tropas para a Síria
no mês de Março. Pelos vistos, estava convencido de que
Israel atacaria os seus irmãos.
Mail, conselheiro da Segurança Nacional do Egipto
chamado o Kissinger egípcio lançaram um pouco de luz
sobre a actualidade atormentada do Médio Oriente. Apesar
do incidente no Sinai, dizia Ismail em Washington, ainda há
esperanças de paz

Ao mesmo tempo, Dayan pedia um telefone-vermelho para
unir Israel às outras capitais árabes, a fim de evitar
incidentes como o do Boeing. Mas o que causou um impacte
especial foi a súbita viagem de Golda aos Estados Unidos.
Segundo os jornais israelitas, a primeira-ministra chegaria
nessa mesma noite de terça-feira, 27 de Fevereiro, aos
Estados Unidos. Fontes oficiais adiantavam que a visita tinha
como objectivos prioritários a realização de encontros com o
presidente Nixon e outras altas autoridades e,
presumivelmente, negociações para a compra de aviões de
guerra Phantom.
Se tivéssemos em conta que no sábado, dia 24, o ministro
israelita Galili tinha declarado ao Jerusalem Post que a visita
de Golda aos Estados Unidos se efectuaria em princípios de
Março, como deveríamos interpretar semelhante alteração
nos planos? Instintivamente, nós, homens do Cavalo de Tróia,
associámos este inesperado voo da primeira-ministra
israelita a Washington com a também repentina viagem do
nosso chefe, o general Curtiss. Algo muito grave estava a
acontecer.
Era curioso e significativo. Por mais que mergulhássemos no
emaranhado de notícias não conseguíamos encontrar uma
única que se referisse ao pensamento ou às intenções do
coronel líbio Kadhafi. Tinham passado seis dias desde o
derrube do 727 e, inexplicavelmente para os observadores
políticos, o messiânico e polémico líder da revolução líbia
continuava mudo. Algumas horas depois, em Bengazi, durante
os funerais das vítimas do Boeing, milhares de líbios tinham
explodido, gritando: Vingança, Kadhafi, vingança! Levavam
cartazes onde se podia ler: As almas dos mártires do Sinai só
descansarão com a vingança e Olho por olho e dente por
dente. O tumulto alcançou tal grau de histeria e violência que
Kadhafi se viu obrigado a escapar da multidão num Land
Rover. Mas, como já disse, o dirigente líbio não fez qualquer
declaração.

Os egípcios, por seu lado, também tinham saído para as
ruas, clamando por vingança e bradando em coro um grito
que nos encheu de espanto: Guerra, guerra, Sadat!, Meu
Deus! Em que iria acabar tudo aquilo? Talvez a melhor síntese
tivesse sido a que fez o então ministro dos Negócios
Estrangeiros do Egipto, Mohamed Hassan E1 Zavyat:
O Médio Oriente, declarou na segunda-feira, 26 de
Fevereiro, está prestes a explodir. O nosso país deve pôr em
acção todos os seus esforços nacionais, quer políticos e
militares, quer económicos, para acabar com a situação
actual
* interesses sírios pelos montes Golã. (N. Do M) 2 No decurso da visita do
Kissinger egípcio aos Estados Unidos a primeira de um representante do
Governo do Egipto desde a Guerra dos Seis Dias (1967) -, a Casa Branca
anunciaria também a chegada de Golda Meir aos Estados Unidos nos primeiros
dias de Março. (N. Do N)
Estas declarações proferidas depois da reunião dos
embaixadores árabes no Cairo para tratar do incidente do
Sinai - abalaram de uma forma muito especial os militares
israelitas do Acampamento Eleazar. Mas, prudentemente,
mantiveram-se em silêncio, negando-se a fazer comentários.
As medidas de segurança em torno da nossa base e das
instalações do funicular, essas, sim, foram discretamente
reforçadas.
Notícias provenientes de Damasco onde se efectuara uma
reunião de guerrilheiros palestinianos, presidida por Yasser
Arafat, líder da OLP (Organização para a Libertação da
Palestina) advertiam para um iminente recrudescimento dos
atentados terroristas contra Israel, em todo o mundo e a
todos os níveis.
Naquela tarde, a pedido dos israelitas, realizar-se-ia no
acampamento uma reunião secreta e urgente com a
participação dos nossos directores, na qualidade de
representantes de Curtiss. No dia seguinte, os homens teriam

a oportunidade de conhecer e sentir algumas das medidas
especiais adoptadas pelos nossos superiores.
Encerrada a reunião, a tenda que abrigava o rádio
conheceu uma actividade inusitada. Os oficiais israelitas
entravam e saíam ditando instruções ao pessoal às suas
ordens. Depois de uma comunicação secreta com a
plataforma-base do funicular, a grua e os tractores
começaram a ser desmontados a grande velocidade.
Por volta das dez da noite, o eco do motor de um
helicóptero, batendo como uma gigantesca maça na parede
oeste de Massada, fez-nos sair das tendas. Poucos minutos
depois, outro potente Sikorskv (S-64) mantinha-se em voo
estacionário a três metros do topo. E ali permaneceu, sem
tocar terra, até o contentor, com o material desmontado, ficar
devidamente enganchado ao seu bojo. Depois desapareceria
como uma sombra entre as estrelas.
De acordo com o estado-maior israelita, as ruínas
arqueológicas da montanha foram definitivamente abertas ao
público na manhã de quarta-feira, 28 de Fevereiro. O tempo
tinha melhorado nos últimos dias e, por recomendação
expressa do Mossad, era conveniente não levantar suspeitas,
mantendo fechado o acesso ao cume.
Se, como se esperava, as acções de guerrilha voltassem a
multiplicar-se, a normalidade parcial em Massada podia ser
uma excelente forma de desviar a atenção dos palestinianos.
A presença de turistas, ainda que escassos, implicava
também alguns riscos. Mas os serviços secretos judaicos e os
militares do Acampamento Eleazar souberam resolver isso
satisfatoriamente. A partir daquela mesma manhã, tudo
retomou o seu ritmo habitual, tanto no funicular como nas
ruínas do sector norte.
Os soldados desapareceram, e diante do portão da
paliçada foi colocado um enorme cartaz (em hebraico e
inglês) que dizia:

«OBRAS DE RESTAURAÇÃO DA CIDADELA OCIDENTAL
UNIVERSIDADE HEBRAICA DE JERUSALÉM SOCIEDADE DE
EXPLORAÇÃO DA TERRA SANTA DEPARTAMENTO DE
ARQUEOLOGIA DO GOVERNO DE ISRAEL PROIBIDA A
PASSAGEM».
Nem é preciso dizer que aquele Proibida a Passagem, na
prática, estava a mais. O único acesso ao triângulo sul era
por aquele portão.
E este já estava, desde o amanhecer daquela quarta-feira,
vigiado permanentemente por dois israelitas cuja missão
básica era identificar todos os que entrassem ou saíssem. Na
cimeira secreta do dia anterior, os directores e oficiais
israelitas tinham chegado a um acordo que, entre outras
coisas, estabelecia rigorosos turnos de vigilância interna e
externa do acampamento, assim como um curioso sistema de
contra-senhas. Eu explico. Todos os dias enquanto durasse
a operação o chefe da segurança receberia do estadomaior,
em código um nome. Esta palavra era transmitida pelo
rádio à meia-noite e era válida até à mesma hora do dia
seguinte.
Isto deve ter sido invenção de alguém que conhecia bem os
pormenores das anteriores escavações arqueológicas de
Yadin.
Ao longo desses trabalhos, os membros da expedição
julgo lembrar-me de que foi um dos voluntários, domador de
elefantes na sua vida normal encontraram entre as ruínas
onze pequenos e estranhos ostraca, ou pedacinhos de barro
com inscrições, e que na Antiguidade eram um material
comum e habitual de escrita.
(Convém recordar que o papiro e o pergaminho eram muito
caros) Pois bem, nestes onze ostraca diferentes das
setecentas inscrições encontradas em Massada apareciam
vários nomes, todos diferentes, embora, ao que parecia,
escritos pelas mesmas mãoz. Eram vocábulos estranhos.

Qualquer coisa como apodos ou epítetos. Por exemplo: Joav
ou Joab (um nome pouco frequente na época do Segundo
Templo e que significava homem sobremaneira valoroso).
Outro nome era o mítico Ben Yair, que, seguramente, se
referia ao caudilho zelota: Eleazar Ben Yair.
As contra-senhas usadas naqueles dias baseavam-se, em
última análise, nesses nomes. De acordo com as
necessidades do acampamento, cada pessoa que saía dele
recebia a senha e a contra-senha do dia. Só o chefe da
segurança e os guardas do portão é que tinham
conhecimento do nome. Qualquer tentativa, pouco provável
para entrar, por parte de um indivíduo alheio à operação,
estaria condenada ao fracasso.
Além desta medida, os israelitas indicaram, dentre os seus
homens dispensados do serviço na piscina, um turno
permanente de dez vigilantes, responsáveis pela segurança
geral do acampamento. Nós, de acordo com os planos do
exército fomos dispensados de tão ingrata missão. Embora o
acesso ao cume de Massada pelos alcantilados oriental e
ocidental fosse quase impossível, os israelitas estabeleceram
seis pontos de observação (três em cada uma das vertentes
referidas),
* Yadin conta que este achado ocorreu num dos lugares estratégicos de
Massada: perto da entrada que dá para as condutas de água e próximo da praça
que se encontra entre os armazéns e o edifício administrativo, num ponto em que
confluem todos os caminhos que vão dar ao cimo. (N. Do M) 2 Os arqueólogos
pensam que estes onze ostraca podem ter sido as peças utilizadas no fatídico
sorteio realizado pelos zelotas. Josefo escreve a propósito: «Então, eles
escolheram por sorteio dez homens, para que matassem todos os outros; todos
se estenderam no chão, ao lado da respectiva mulher e filhos, e, pondo o braço
por cima deles ofereceram o pescoço para ser cortado por aqueles que, por
sorteio, levaram a cabo tão triste tarefa; e quando estes dez homens sem medo
acabaram de matar todos os outros, seguiram a mesma regra para sortearem
entre eles, pois aquele a quem coubesse a sorte primeiro, mataria os outros nove
e depois matar-se-ia» (N. Do M.)

estrategicamente distribuídos no interior da casamata. Com
tanta vigilância, os trabalhos na meseta estavam contínua e
perfeitamente protegidos.
Demasiado protegidos, lamentámo-nos nós. Os homens do
Cavalo de Tróia, prevendo que aquele férreo controlo do
Acampamento Eleazar só nos poderia trazer dores de cabeça,
nos momentos decisivos da descolagem do berço.
Mas Curtiss não era fácil de vencer.
A rotina era quase um milagre com aquele homem. E de
novo surpreendeu a todos. Às doze horas de quarta-feira 28
de Fevereiro, quando o primeiro turno de trabalho no qual
eu estava incluído deu por terminada a sua missão na
piscina, um rosto sorridente e familiar esperava por nós no
alto da pequena escada de acesso ao fosso.
Curtiss!
O general havia regressado tão inesperadamente como
tinha partido.
E, como era seu costume, não houve grandes explicações
pelo menos nas primeiras horas da sua nova estada no
acampamento. O pessoal que não estava de serviço rodeou-o
e bombardeou-o com milhares de perguntas. Mas ele,
imperturbável, limitou-se a mostrar grande interesse pelo
andamento da montagem da estação. A verdade é que os
oficiais israelitas, a partir daquele acontecimento no Sinai e
do agravamento da situação internacional, tinham imprimido
um ritmo acelerado às tarefas de montagem. Era claro que
pressentiam qualquer coisa e desejavam concluir a Operação
Eleazar em tempo recorde.
Eliseu, os directores e eu próprio quase nem trocámos
nenhuma palavra com o general. Bastou-nos observar os
olhos dele para compreendermos que ocultava alguma coisa"
muito grave. Decidimos esperar. Se ele quisesse, não
demoraria a dar-nos conhecimento.

De facto, assim foi. Depois do almoço, com a desculpa de
querermos mostrar-lhe o Charlie e as admiráveis instalações
levadas a cabo na cisterna subterrânea, os directores, o meu
irmão e eu tivemos a oportunidade de conhecer essa coisa.
Sinceramente, hesitei no momento de narrar esta parte da
operação. Será que interessa a alguém, agora que já
passaram cinco anos, o conhecimento do que aconteceu
naqueles primeiros meses de 1973? Talvez não. Do que
estou, sim, certo a razão que em última análise me impeliu
a relatá-lo é de que o mundo tem direito a saber como e
até que ponto é manipulado secretamente pelas grandes
potências. Meu Deus, como estamos cegos! Ignoramos o que
se trama nos gabinetes dos políticos e dos militares. E o pior
é que muitas dessas más obras, e operações" confidenciais
como no caso que me disponho a expor têm levado e
continuarão a levar para a morte, para a ruína e para o caos
milhões de inocentes.
Sirva, pois, de exemplo o que vou dizer.
O general Curtiss explicou-nos que fora chamado com
urgência pelo próprio Kissinger. No mesmo dia da sua
chegada a Nova Iorque domingo 25 o então conselheiro
do presidente Nixon acolhera-o no seu apartamento de luxo
do Hotel Waldorf Astoria. No mais rigoroso sigilo, Curtiss
receberia duas informações que justificavam sobejamente a
sua apressada viagem aos Estados Unidos e que,
certamente, o fizeram estremecer.
A primeira referia-se ao derrube do Boeing 727 líbio no
coração da península do Sinai. Todos nós já o manifestei
anteriormente tínhamos intuído que aquele acontecimento
obedecia a razões especialmente graves. Não era normal que
a Força Aérea de Israel se dedicasse a metralhar aviões de
passageiros em pleno voo. Os agentes norte-americanos em
Jerusalém e Telavive sempre em estreita ligação com os
serviços secretos israelitas tinham confirmado um aspecto
decisivo que, obviamente, jamais seria admitido, pelo

Governo de Golda: no momento do encontro entre os caças
Phantom e o Boeing 727, este sobrevoava a área de Refidim.
Nesta zona estava estacionado, naquela altura, parte do
arsenal nuclear israelita.
(Em Outubro desse mesmo ano de 1973, no decurso das
primeiras e dramáticas horas da Guerra do Yom Kippur
quando o Estado judaico foi surpreendido pelos ataques
sírio-egípcios -, o próprio Parlamento de Israel chegou a
colocar a hipótese da utilização de uma das suas bombas
atómicas sobre a cidade de Damasco. Mas este tenebroso
assunto levar-nos-ia para muito longe do verdadeiro
objectivo deste diário) A desobediência dos pilotos do avião
Líbio, em última instância, pôs ao rubro os nervos do estadomaior
israelita, que deu a ordem para o neutralizarem. O que
nunca se averiguou Kissinger, pelo menos, parecia não o
saber foi se o 727 chegou a recolher alguma informação à
sua passagem sobre Refidim ou se, como opinavam alguns
sectores do Mossad, os planos secretos daquela base já
estavam no Boeing. Neste caso, o
* Nove meses depois do derrube do Boeing Líbio. O prestigiado comentador
político Hassanein Heikal, amigo pessoal do presidente egípcio Sadat, daria a
conhecer (23 de Novembro) uma informação que ratificava o que tinham dito os
serviços de informação israelo-norte-americanos. Segundo Heikal, Israel já
dispunha naquela altura de três bombas nucleares e de capacidade para fabricar
outras num prazo de seis meses. Os esforços dos israelitas para disporem deste
tipo de armas", escrevia o comentarista do Cairo. Remontam a 1957; isto é,
depois da Guerra do Suez, na qual Israel, ajudado pela Grã-Bretanha e pela
França, atacou o Egipto.
Naquela ocasião, a França vendeu aos israelitas um reactor atómíco que foi
instalado em Dimona. Por seu lado. Os árabes também se tinham esforçado por
conseguir bombas atómicas. Que se saiba prosseguia Heikal em três
ocasiões: a primeira, antes de rebentar a Guerra dos Seis Dias. Em 1967. Mas a
falta de meios e de dinheiro obrigou-os a desistir. A segunda, depois de 1967,
quando a China começou a estreitar relaçòes com países árabes. Mas Pequim
aconselhou-os a que, nesta matéria, aprendessem a depender de si próprios.
A terceira foi protagonizada pelo coronel líbio Muamar Kadafi, em 1970.
quando tentou comprar uma bomba nuclear. O «clube atómico» respondeu-lhe que
as bombas atómicas não estavam á venda"
Um dia antes destas revelações do comentarista egípcio, outro prestigiado
jornal o New York Times insistia sobre o tema das armas nucleares. O jornal

norte-americano garantia que a Rússia tinha enviado bombas atómicas para o
Egipto, a seguir à Guerra do Yom Kippur, em Outubro de 1973. Essas bombas
estariam sob o rígido controlo dos assessores soviéticos.
Estas informações, conseguidas pelos serviços secretos dos Estados Unidos,
foram uma das principais causas que levaram Nixon a declarar em estado de
alerta máximo as tropas norte-americanas no Mundo durante a chamada quarta
guerra" israelo-árabe. (No dia 16 de Outubro desse ano de 1973, o presidente
Nixon declarava a esse respeito: «A crise mundial mais difícil e grave desde
1962». aquando do envio de mísseis russos para Cuba, teve lugar durante a
Guerra do Yom Kippur, A Rússia estava decidida a enviar para o Egipto uma
«força substancial», pelo que os Estados Unidos puseram os seus exércitos em
estado de alerta máximo (N. Do N)
desvio do avião podia visar a confirmação de algo que eles
já sabiam. De uma forma ou de outra, a verdade é que a
queda do 727 cortara pela raiz as duas possibilidades,
ambas verosímeis. (Há que recordar que as vítimas
incluindo os sete sobreviventes e os destroços do aparelho
foram controlados desde o primeiro momento pelo exército
de Israel) Se isso era certo, então o desacostumado silêncio
do coronel Kadhafi estava justificado.
Segundo Kissinger, este incidente era suspeito de mais
para ser classificado de casual ou para atribuí-lo a uma
infeliz audácia dos líbios, inimigos mortais de Israel. O
Mossad estava especialmente preocupado com aquele voo.
Como teriam obtido uma informação tão altamente secreta?
Quem estaria por trás dos medíocres serviços de espionagem
da Líbia? A possível resposta surgia irremediavelmente
ligada à segunda informação fornecida pelo conselheiro
presidencial a Curtiss. Uma informação que fez empalidecer o
nosso chefe, e a nós também.
O roído do Charlie era tão grande que Curtiss convidou-nos
a procurar um lugar mais sossegado. Mas antes, abrindo as
páginas de um exemplar do New York Times exclamou,
apontando para o jornal
- Reparem nisto!. Mao também anda a aprender inglês.
Desconcertados pelo insólito comentário, lançámo-nos

sobre o jornal que o general tinha nas mãos. Na página seis,
com efeito, entre outras informações das agências United
Press International e Associated Press aparecia uma breve e
discreta notícia sobre uma entrevista televisiva nos estúdios
da NBC (National Broadcasting Company), em Nova Iorque.
Os protagonistas: Henry Kissinger e a temida jornalista
Barbara Walters.
Tomando como pretexto a recente viagem que Kissinger
efectuara à China e a sua entrevista com Mao Tsé-Tung,
Barbara interrogara o conselheiro presidencial acerca do
inglês do líder chinês.
- Leiam, leiam! - animou-nos Curtiss. - É um diálogo que não
devemos esquecer!
Olhámo-nos, espantados. Que queria ele dizer? Porque é
que não devíamos esquecer semelhante trivialidade?
Referindo-se a um comentário anterior de Kissinger no qual
afirmava que Mao usava algumas frases em inglês a
jornalista fazia-lhe a seguinte pergunta:
- Podia dizer-nos quais?
- Sente-se, se faz favor respondeu Kissinger.
- Isso é mais do que aquilo que o senhor consegue dizer em
chinês. - Lá isso é verdade
Alguém do grupo perguntou a Curtiss qual o interesse de
um diálogo tão intranscendente. O chefe, depois de
pigarrear banalmente, lançou um olhar furtivo aos técnicos de
manutenção do gerador. Continuavam distantes e alheios à
nossa conversa.
- Simplesmente sentenciou com altivez -, não se esqueçam
disto. Pode ser-nos útil na fase vermelha.
Obedecemos sem ripostar. Ao fim de uns minutos quando já
tínhamos memorizado o diálogo, o general continuou a
folhear o jornal, mostrando-nos outra surpresa. Sobre toda a
página dedicada à habitual

secção de Business-Finance tinha sido cuidadosamente
colada uma folha de papel dactilografada e com um
cabeçalho que, a princípio, não nos disse grande coisa:
«O RAPTO DE EUROPA».
Pelo pouco que conseguimos ler, aquele documento tão
habilmente camuflado falava de um plano secreto entre a
União Soviética e o nosso país, os Estados Unidos. E digo
que mal tivemos tempo de passar do primeiro parágrafo
porque quando Curtiss calculou que já tinha prendido a nossa
atenção, fechou o jornal e deixou-nos na expectativa.
Subimos os degraus de pedra e, uma vez no acampamento, o
rosto do general sofreu uma drástica transformação. Dias
depois, com a chegada dos novos equipamentos, os seus
olhos voltaram a obscurecer-se com uma amargura
semelhante.
O Sol começava a tingir de violeta o horizonte do deserto,
e, sem pressa. Simulando um passeio, fomo-nos aproximando
da metade oriental da paliçada. Ali, sentados sobre os sacos
de terra, a uma prudente distância dos atarefados israelitas,
tomámos conhecimento do mais sujo e inumano projecto que
qualquer homem pode imaginar.
Curtiss abriu de novo o jornal e, com voz baixa e
alquebrada, leu aquele documento: a segunda informação
altamente confidencialfornecida por Kissinger. Em síntese
porque a exposição do pormenorizado plano poderia ocupar
muitas páginas e não é esse o meu verdadeiro objectivo -, e
tal como tínhamos lido estávamos perante um acordo secreto
dos dois grandes URSS e EUA para provocar a destruição
moral e económica dos dois perigosos rivais no concerto
mundial: a Europa e o Japão. Estes dois blocos estavam a
criar graves dificuldades aos programas económicos e
expansionistas de soviéticos e norte-americanos.
Ora bem, algumas semanas antes, Moscovo e Washington
tinham projectado o chamado Rapto de Europa: título em

código de uma manobra diabólica. Tanto o corrupto Nixon
como o frio e impiedoso Brejnev sabiam que a fórmula mais
eficaz para atingir os seus propósitos era a utilização de uma
nova arma infalível: o petróleo. Se a Europa e o império
nipónico vissem cortados os seus respectivos fornecimentos
de crude, as suas economias sofreriam uma travagem
violenta. Mas, como consegui-lo?
Como fazer com que os poços petrolíferos do Médio Oriente
as principais torneiras de alimentação da pujança do
mundo ocidental fossem fechados? E, sobretudo como
conseguir que nenhum dos inspiradores deste macabro
projecto fosse descoberto ou envolvido directamente.
* O Rapto de Europa era um título tristemente inspirado na mitologia grega.
Europa filha de Fénix, rei da Fenícia, estava um dia à beira-mar, colhendo flores.
Nesse momento reparou na presença de um touro de pêlo brilhante e aspecto
majestoso, que pastava entre os rebanhos do seu pai. Europa não imaginou
tratar-se de Zeus, que adoptara esta forma para a raptar.
A jovem aproximou-se do animal, para o acariciar. O touro, gentilmente, dobrou
os joelhos, permitindo assim que a jovem subisse para o seu lombo. De repente,
o touro levantou-se e avançou para a água, levando consigo a infortunada
Europa.
Zeus levou-a até Gortina, na costa meridional da ilha de Creta. Da união do
deus e de Europa nasceram Ninos, Radamantis e Sarpédon. O rei Astérion, de
Creta, adoptou-os e converteu-se no esposo de Europa. (N. Do N)
Nem será preciso dizer que um plano assim só era
conhecido pelos mais próximos de Nixon e de Brejnev.
A Operação Rapto de Europa tinha em conta uma solução
sinistra: uma quarta guerra no Médio Oriente. Assim tão
simples e tão cruel. Para isso - continuou o general com uma
voz que parecia falhar por momentos ssempre de comum
acordo, os grandes deviam usar todos os métodos ao seu
alcance para estimular e dirigir os maltratados sentimentos
patrióticos dos árabes contra o sempre odiado vencedor:
Israel.
Essa guerra tinha sido minuciosamente planificada a partir

do Kremlin e do Pentágono.
O documento chegava a estabelecer as possíveis datas
para o conflito, a sua duração máxima, os países que
deveriam enfrentar o exército israelita, as tácticas a seguir, o
tipo de equipamentos bélicos a utilizar, os limites nos apoios
logísticos e de material por parte dos Estados Unidos e da
União Soviética aos seus respectivos aliados e até o cálculo
de número de baixas durante as hostilidades
Ainda que me repugne recordar esta história tão louca. Eis
aqui, muito resumidos, alguns dos relatórios da Operação
Rapto de Europa:
As datas mais propícias para o ataque a Israel foram
fixadas inicialmente para três momentos de 1973: segunda
quinzena de Maio, Setembro e Outubro. De facto. Em Janeiro
desse ano.
Sadat ordenaria ao chefe do estado-maior egípcio, general
Shazli, que estivesse preparado para atravessar o canal de
Suez. Com o passar dos dias, os Russos optariam pela
terceira data. E o dia "D foi marcado para 6 dess mês de
Outubro.
O ódio cego dos Árabes aos Judeus levá-los-ia a escolher
essa data, não só porque a maré no canal era mais favorável.
Como também, muito especialmente, porque esse dia
coincidia com o décimo dia do Ramadão. (Nesse dia, no ano
614, o profeta Maomé iniciou os preparativos para a Batalha
do Badir. Que seria o prelúdio da sua triunfante entrada em
Meca e do começo da expansão do Islão) Para cúmulo das
coincidências, esse dia 6 de Outubro era o Dia do Perdão
dos Israelitas: uma solene celebração religiosa em que todo
o judeu é obrigado a reconciliar-se e pedir perdão a quem
tiver ofendido no decurso do ano. Durante o Yom Kippur, ou
Dia do Perdão, tudo paralisa em Israel.
O maquiavelismo árabe e porquê negá-lo? - russo-norteamericano
chegou a estes extremos repugnantes. Um ataque

em massa naquele dia previa o plano seria vantajoso
para os exércitos atacantes: egípcios, sírios e jordanos
Seriam estes segundo o Rapto de Europa os países
árabes que suportariam o peso da nova guerra.
Outras nações do Médio Oriente figuravam como «forças de
apoio e reserva», tanto no envio de tropas como de
armamento em geral. Na hora da verdade, o prudente rei
jordano não cairia na armadilha, limitando-se a enviar a
Brigada 40 quando a guerra lá fosse no sétimo dia e as
pressões sobre ele se tornassem insuportáveis.
A duração máxima, permitida, das hostilidades assim
rezava o plano secreto seria de quarenta dias.
(Efectivamente, o acordo final de cessar-fogo egípcioisraelita
foi assinado no domingo, 11 de Novembro.
Pelo general Aron Yariv, anterior chefe dos serviços secretos
militares israelitas, e pelo também geeneral egípcio Ismail
Jamsi, chefe de operações do exército. Tinham transcorrido
trinta e cinco dias desde o 6 de Outubro. ) O plano geral de
ataque baptizado com o nome de código de Faísca
baseava-se em duas fases: a primeira, a travessia do canal
do Suez e a consolidação dos exércitos egípcios no Sinai; a
segunda, uma invasão em massa e simultânea dos montes
Golã pelas forças sírio-jordanas. Com o mais frio
pragmatismo.
Os artífices da guerra tinham previsto, inclusivamente, o
número de baixas de soldados, blindados e aviões, em
especial na frente do canal: a mais virulenta. No total, a
operação da travessia do canal poderia custar cerca de trinta
mil baixas para os egípcios. Incluindo dez mil mortos. O
minucioso estudo russo-norte-americano especificava qual
podia ser o contingente de forças de ambos os lados antes
da guerra.
Israel disporia de trinta mil homens. Embora fosse
exequível uma mobilização de trezentos mil reservistas em

setenta e duas (nota interrompida).
Entre os métodos a seguir para elevar a temperatura de
pré-guerra na zona, o plano Rapto de Europa especificava
uma série de mobilizações graduais dos exércitos árabes. (a
partir de Janeiro de 1973, o Egipto mobilizaria as suas
reservas vinte vezes), intensas campanhas terroristas,
intoxicação da opinião mundial contra Israel, com a difusão
de emissões de rádio que apontassem para um ataque
iminente dos israelitas em qualquer das suas fronteiras,
pistas falsas e comunicados na imprensa estrangeira acerca
do deficiente material bélico dos Árabes. E um pormenorizado
etcétera que contribuiu ainda mais para aumentar a nossa
vergonha.
A operação concluía com uma análise também exaustiva
das posições políticas e económicas dos países europeus e
do Japão em relação aos Arabes e Judeus, e das quase
certas consequências dessa quarta guerra. Consequências
que como fatalmente aconteceria provocariam a divisão
entre os povos e o sombrio colapso das economias. (Nem a
Rússia nem os Estados Unidos dependiam do petróleò árabe)
No caso do império nipónico, por exemplo, o seu consumo de
petróleo desde
* (continua nota) horas. Quanto ao potencial bélico dos
egípcios sírios e jordanos, Rapto de Europa calculava-o em
cerca de quinhentos mil homens (298 000 egípcios, 13? 000
sírios e cerca de 70 000 jordanos). Israel contava com mil e
setecentos carros de combate, de tipo médio, contra cerca de
quatro mil dos seus inimigos. A temida e eficaz Força Aérea
israelita dispunha, por sua vez, de 488 aviões de combate
(12 bombardeiros ligeiros, 9 caças F-4, 36 Mirage. 16 caçasbombardeiros
Skyhwak, modelo A-4, 24 caças Baraks. 18
Super-Llvstère e 23 llstère, entre outros).
Os atacantes somavam mais de mil e duzentos aparelhos,
sem contar os duzentos aviões egípcios de reserva. Esta
esmagadora desproporção de forças e o factor surpresa (os

Árabes dispunham de dezasseis preciosos minutos antes que
soassem os alarmes electrónicos de Israel) faziam pender a
balança da guerra para o lado atacante. No entanto,
segundo o documento de Curtiss, a vitória seria parcial. Isto
é, as batalhas teriam um único duplo objectivo: reconquistar
os montes Golã e parte do Sinai e desferir um golpe mortal
em Israel.
A provisão de munições e equipamentos militares aos
beligerantes tanto no caso russo como norte-americano
era calculada num máximo de cem mil toneladas. Com um
investimento máximo em armas (antes do conflito) de mil e
quinhentos milhões de dólares, respectivamente. O obstáculo
representado pela não presença de assessores soviéticos no
Egipto expulsos em Julho de 1972 foi ultrapassado com o
compromisso de sucessivas reuniões russo-egípcias e,
durante a guerra, com uma ponte aérea através da
Jugoslávia. (Em Janeiro desse ano.
Sadat visitou o marechal Tito. Consolidando o direito de
trânsito da URSS sobre o território jugoslavo) (N. Do n) 2
Entre os atentados e operações terroristas perpetrados nos
meses anteriores à Guerra do Yom Kippur, cabe destacar
como simples amostra o assalto, no dia ?9 de Setembro, a
um comboio que levava emigrantes judeus de Moscovo para
Viena.
No momento em que o comboio chegou à fronteira entre a
Checoslováquia e a Áustria, dois guerrilheiros palestinianos
apoderaram-se de cinco cidadãos judeus e de um funcionário
aduaneiro austríaco. No decurso das tensas negociações, o
então primeiro-ministro da Áustria, Bruno Kreiskv, propôs que
em troca da liberdade dos reféns se fechasse o acampamento
de passagem para os emigrantes judeus da Rússia, instalado
no Castelo de Schonau, perto de Viena. A medida causou
indignação em Israel, forçando até uma viagem relâmpago de
Golda Meir a Viena. (N. Do M.)
3 Entre os enganos árabes, recordo o estranho comunicado

aparecido na imprensa britânica sobre "o pobre estado de
manutenção dos mísseis antiaéreos no Egipto. As fontes da
informação russas, é claro garantiam que tais armas eram
praticamente inutilizáveis. Depois da quarta guerra, Sadat
declararia, com evidente regozijo, que "os israelitas
chegaram a morder no anzol (N. Do N)
1971 representava oito por cento de toda a produção
mundial.
Dessa percentagem, setenta e cinco por cento procedia dos
poços do Médio Oriente.
A cilada, em suma, era perfeita. No fundo, o resultado do
conflito pré-traçado por Washington e por Moscovo era
pouco importante. A chave da sinistra operação era outra:
forçar o mundo muçulmano ao fecho ou redução do
fornecimento de crude. O fantasma do aumento dos preços
do petróleo pairava há muito tempo sobre os países
industrializados. Com esta jogada criminosa, a Europa e o
Japão ver-se-iam forçados a tomar posição, ou a favor do
dinheiro judeu, ou do fluxo, vital, do crude árabe. A
neutralidade perante a guerra era quase impensável. E, no
caso de acontecer essa neutralidade, nem uns nem outros a
perdoariam.
A sorte do Japão e da Europa estava lançada. (Basta dar
uma vista de olhos aos meses que se seguiram à Guerra do
Yom Kippur para perceber a dimensão do diabólico plano 1,
(Um projecto que mnguém se atreveu a desvendar até hoje)
Era grotesco.
Sentados sobre uns prosaicos sacos de terra, acabávamos
de conhecer um dos segredos mais ciosamente guardados.
Mas o mais paradoxal era que nós estávamos ali, no alto de
Massada, em pleno coração de Israel, colaborando na
montagem de uma estação receptora de imagens espias e,
ao mesmo tempo os que se declaravam amigos dos Judeus

os Estados Unidos da América do Norte forjavam e
consentiam uma guerra contra o seu aliado.
Não era de enlouquecer? Na opinião de Curtiss o derrube
do Boeing Líbio fazia parte da campanha orquestrada por
Rapto de Europa para instigar e promover o ódio
generalizado aos Israelitas, contribuindo assim para a
crescente deterioração da atmosfera política no Médio
Oriente. Neste sentido, Kissinger insinuara que, segundo os
seus serviços secretos, a informação sobre o arsenal nuclear
em Refidim tinha sido fornecida à Líbia seguindo uma
* A grande crise do petróleo da qual o Mundo ainda não recuperou foi, em
última análise, o resultado do confronto entre seis milhões e quinhentos mil
árabes contra seiscentos e cinquenta milhões de europeus e de japoneses. No
dia 8 de Novembro desse mesmo ano de 1973, a Arábia Saudita, o maior
exportador mundial de crude, reduziria a sua produção de petróleo em cerca de
317 por cento, em relação à produção de Setembro.
A Arábia Saudita planeava para esse Novembro de 1973 uma produção global
de 91 milhões de barris diários. Esta quota, como disse, seria reduzida para 344
milhões/dia. O exemplo da Arábia seria seguido pelos restantes países árabes
do Médio Oriente, caindo, desse modo, na cilada russo-norte-americana. No dia
13 de Novembro, por exemplo, o primeiro-ministro da Libia, Abdel Salam Jallud,
declararia que o embargo de petróleo para a Europa e o Japão continuaria
enquanto se negassem a fornecer armas modernas ao mundo árabe.
A Europa veio abaixo e os países do golfo Pérsico aproveitaram a anemia e as
disputas do Ocidente para intensificar a pior das guerras: a da energia.
Exceptuando o Irão. Os países do Golfo que representavam sessenta por cento
da produção mundial de petróleo estabeleceram três frentes de batalha : uma,
aumentando o preço do ouro negro em dezassete por cento; duas: Abu Dhabi,
primeiro, e os restantes países árabes, depois decidiram suspender o envio de
petróleo para qualquer nação que se declarasse partidária de Israel.
Além disso, reduziram a sua produção em dez por cento e, mais tarde, em cinco
por cento acumulativo; e três: tendendo para a nacionalização dos seus recursos
e indústrias derivadas. Se se tivesse dado a nacionalização absoluta, a medida
ter-se-ia virado contra os Estados Unidos. Mas isso. Obviamente, nunca chegaria
a acontecer. (N. Do M)
típica e tortuosa via que não criasse suspeitas nos
receptores de tão grande segredo. A sibilina operação foi
desencadeada nos finais de 1972 pela GRUt, serviço secreto
soviético, com prévio conhecimento e consentimento da CIA.
Os agentes russos expulsos do Egipto em Julho de 1972 pelo

presidente Sadat tinham conseguido apoderar-se de
preciosos e precisos pormenores acerca da localização e
natureza da bombas atómicas israelitas. O Mukhabarat El
Kharbeiyah (serviço de espionagem do Cairo) tinha
pressionado os assessores soviéticos para que o
informassem sobre tão apetitoso assunto. Mas Moscovo
negou-se rotundamente. Como costuma acontecer no
tenebroso mundo dos serviços de informação, os egípcios,
contrariados, não tiveram escrúpulos em trocar esta pista
pelos cada vez mais numerosos homens da CIA em terras
egípcias. Em contrapartida, os serviços secretos norteamericanos
forneceram-lhes relatórios de segunda categoria
e outros, altamente secretos. E falsos.
O facto é que, quando os russos abandonaram o país os
serviços secretos egípcios de espionagem e, quase
simultaneamente, os norte-americanos depararam com
várias surpresas. Uma delas, sobretudo, foi muitíssimo grave.
Durante a sua estada no Egipto, os agentes do
Departamento de Tecnologia e Investigação do Ministério da
Defesa da URSS tinham realizado experiências de guerra
bacteriológica no interior das pirâmides.
Aquilo provocou um abalo na CIA. Pelo que Kissinger relatou
a Curtiss, as surpreendentes alterações de radiação dentro
das pirâmides favoreciam em grande medida o
desenvolvimento de determinadas bactérias, altamente
letais. Os egípcios não souberam o que fazer com aquela
perigosa informação. Mas a CIA, sim. Naquele mesmo Verão
de 1972, representantes do KGB e da CIA concordaram num
encontro em terreno neutro: em Paris.
Ali, uns e outros confirmaram a veracidade das suas
respectivas suspeitas: os norte-americanos sabiam das
actividades russas nas pirâmides e Moscovo, por sua vez, do
arsenal atómico israelita e da assistência técnica de
Washington ao referido arsenal. E, como em ocasiões
precedentes, estabeleceram um pacto: cada parte arquivaria

o que havia descoberto em relação à outra. Ambos os lados
ttnham muito a perder e, por conseguinte, o acordo foi rápido
e simples.
Mas, ao nascer o projecto Rapto de Europa, russos e norteamericanos
decidiram, de comum acordo, utilizar uma parte
daquela informação em benefício mútuo.
* GRU: Glivanoie Rizviedilvatelnoie Upravlenie. (N. Do M) 2 Os serviços
secretos norte-americanos multiplicaram-se no Egipto na sequência da referida
expulsão dos assessores russos. Substanciais créditos norte-americanos e um
paciente trabalho da CIA, intoxicando o hlulhabarat El Kharbeiyah e o Mukhabarat
Elasma (serviço secreto de contra-espionagem egípcio), convenceram Sadat de
que Moscovo poderia arrebatar-lhe o poder, determinando assim a expulsão.
Entre outros argumentos, a CIA utilizou perante os egípcios o facto -totalmente
falso de que os serviços de informação soviéticos tinham entrado em contacto
com o partido comunista no Cairo, a fim de levarem a cabo um plano que pusesse
o partido comunista no poder. Para isso contaram com a ajuda de um falso
agente chinês que, no Quénia, entrou em contacto com um membro dos serviços
secretos do Egipto, informando-o sobre as aspirações de hegemonia russa no
Egipto. (N. Do N)
Era um segredo conhecido por todos que a França vinha
fornecendo armamento em especial aviões Mirage a
diferentes países árabes. Pois bem, Washington e Moscovo
estenderam a sua teia, preparando uma subtil cilada. Quase
no final desse ano de 1972, três agentes soviéticos em
França
- Alexei Krojin, V. Romanov e Victor Volodin receberam
dos seus superiores um dossier altamente secreto, com a
missão específica de o deixarem cair em mãos francesas. O
documento continha uma pormenorizada e fidedigna
informação sobre a possível base nuclear em Refidim (Sinai).
Um dos agentes russos, acima mencionado, tinha organizado
uma rede de espionagem dentro da polícia política francesa.
A «infiltração»

do dossier, portanto, não deu muito trabalho. O que as
autoridades gaulesas desconheciam, naturalmente, era que
paralelamente Kadhafi recebera também dos próprios
russos algumas
insinuações, dando-lhe a entender que Paris dispunha de
uma preciosa informação sobre o arsenal atómico de Israel.
Nas suas conversas com o coronel líbio, os astutos soviéticos
aconselharam-no a pagar as elevadas quantias exigidas pela
França para a venda dos Mirage, desde que os franceses
como justa compensação fizessem com que o valioso
dossier "acompanhasse" os caças O temperamental Kadhafi
caiu na esparrela esfregando as mãos de contente perante a
magnífica oportunidade de obter um segredo que iria
beneficiar os seus irmãos árabes. A ambiciosa França cedeu
finalmente às pretensões da Líbia, fechando o negócio da
venda de vinte e oito aviões Mirage 2. Em princípios de 1973
o documento em questão foi transferido para o chefe da
revolução líbia.
É fácil imaginar o resto desta truculenta história. Com uma
mais que notável imbecilidade, Kadhafi deve ter pedido aos
pilotos do 727 que confirmassem
* Estes espiões russos o primeiro foi terceiro-secretário da embaixada russa
em Paris e chefe de treino do KGB em França; o segundo, adido de imprensa, e o
terceiro, membro dos serviços de segurança da embaixada foram expulsos de
França no final de 1972, graças à denúncia de um quarto agente soviético
Fedosseiev -. que se passou para os serviços secretos da NATO na Inglaterra. (N.
Do M)
2 Pouco depois da chegada dos Mirage ao território líbio.
Exactamente como esperavam os responsáveis pelo Rapto de Europa, o
Mossad, de Israel, descobriu a presença dos caças na Líbia. E a 21 de Março, um
avião de transporte norte-americano C-130, preparado para espionagem
electrónica e tripulado por pessoal israelita, esteve a ponto de ser derrubado
pelos caças líbios.
O C-I30, com base em Atenas, pretendia confirmar as suspeitas dos serviços
secretos de Israel. Ao ser atacado, a sul da ilha de Malta, teve de fugir
precipitadamente. Naqueles momentos, a imprensa internacional associou este
novo incidente ao derrube do Boeing líbio no Sinai. O Governo de Golda Meir
denunciou a presença de aviões Mirage franceses na Líbia, mas a França, numa

demonstração de cinismo, negou a acusação. Como previam os militares
israelitas, os caças foram transferidos para o Egipto. Mas as insistentes
reclamações israelitas foram sistematicamente desatendidas. No dia 26 de Abril
de 1973, o Conselho de Ministros francês, sob a presidência de Georges
Pompidou, chegou a publicar uma nota em que se dizia: «até agora, não há
confirmação dos rumores que correm sobre o tema». Horas depois, o comentador
Yves Cau, de Le Figaro, punha em xeque o Governo de Paris, revelando que, de
facto, os Mirage vendidos pela França à Líbia se encontravam nas bases egípcias
próximas do canal do Suez.
Dezoito dos caças saíram de Trípoli na primeira semana de Abril. A mudança
definitiva foi levada a cabo dias depois, gradualmente, e com voos entre Tobruk
e a base egípcia de Nasr. Dali passaram para as bases de Benisueif e Fayum. (N.
Do M)
a informação que ele tinha em seu poder. O resultado final
por todos conhecido elevou a tensão no Médio Oriente,
exactamente como os pais da Operação Rapto de Europa
desejavam.
Quando Curtiss acabou a sua minuciosa e dramática
exposição, um silêncio de morte caiu sobre nós.
Não era preciso que o general nos recordasse o carácter
absolutamente confidencial desse plano tão monstruoso, nem
mesmo o grave risco que corriam as vidas de todos os
presentes, no caso de alguém decidir prevenir os israelitas
ou os árabes.
Simplesmente, estávamos prisioneiros da gigantesca
envergadura do próprio segredo. Alguém, por fim se decidiu
a fazer um comentário lamentando que um presidente dos
Estados Unidos fosse capaz de semelhante aberração. E
Curtiss, com um olhar fatigado, apressou-se a responder com
frases que se revelariam proféticas:
- Nixon pagará por isto. Watergate será o seu verdugo.
Antes de nos retirarmos para as tendas, o general fez um
último esforço para nos aconselhar que esquecêssemos
aquilo e nos dedicássemos à nossa verdadeira e secreta
missão de paz.
Kissinger, ao mostrar-se interessado nos preparativos do
Cavalo de Tróia para a segunda grande viagem, tinha-o

incentivado a realizá-la o mais depressa possível Se o plano
de Moscovo e de Washington fosse avante, não haveria mais
oportunidades. A enlouquecida máquina da guerra estava em
marcha. Era preciso, portanto, agir com cautela e diligência.
Na manhã seguinte, quinta-feira, 1 de Março, durante a
sobremesa, Bahat. O supervisor, mais excitado do que nunca,
embrenhou-se numa polémica acalorada com outros militares
israelitas. O motivo não era mais do que a repentina visita a
Moscovo do ministro da Guerra egípcio. O general Ahmed
Ismail Ali, acompanhado por representantes de todas as
armas do seu país, tinha começado na capital soviética uma
suspeita ronda de consultas ao mais alto nível.
Embora esta cimeira egípcio-soviética aparecesse envolta
num impenetrável secretismo, o facto de Ismail Ali ter ido num
avião especial e escoltado por altos oficiais de todos os
exércitos egípcios criou em Israel um receio especial. Para
alguns técnicos que polemizavam com Bahat, estávamos
perante uma perigosa etapa de rearmamento egípcio. O
supervisor pelo contrário, ia mais longe: Aquela súbita
aproximação do Cairo a Moscovo expôs ele com tanta
veemência como razão só podia ser o prelúdio da guerra.
Curtiss, em silêncio, deixava-os falar. Ao ouvir a palavra
guerra, o general, mantendo um olhar eloquente, deu-nos a
entender que Bahat não estava muito enganado nas suas
apreciações. Aqueles cinco dias de entrevistas na União
Soviética não tinham outra finalidade senão a de pôr os
egípcios a par de alguns aspectos essenciais do sinistro
plano concebido por Washington e Moscovo.
Naturalmente, durante as cinco horas que durou a reunião
entre Ismail e Brejnev, o premier russo pôs um cuidado
especial em não levantar suspeitas entre os seus amigos, os
egípcios, quanto aos verdadeiros objectivos e inspiradores
do projeeto Rapto de Europa. Quando os enviados de Sadat
regressaram ao Cairo, a quarta guerra já era irreversível.

Aquele inevitável sentimento de perigo paradoxos do
destino! - beneficiaria os nossos planos secretos. Israel,
sempre desconfiado, activou as suas defesas e redes de
informação até limites insuspeitados.
E uma das ordens do estado-maior israelita até nos afectou
em cheio: A estação recettora de imagens tinha prioridade
absoluta. Não se devia poupar homens nem meios para
entrar em funcionamento o mais rapidamente possível.
Os militares e técnicos israelitas e nós juntamente com
eles lançaram-se a um trabalho esgotante. A estação, essa
foi a ordem, devia começar as suas primeiras recepções de
imagens no dia 1 de Abril. Isto dava-nos uma escassa
margem de tempo e, consequentemente, novas preocupações.
A mais grave, pelo menos naquele momento era o
combustível do berço. Nem os directores do programa, nem
Eliseu e eu tínhamos a mais remota ideia de como e quando
podia chegar ao alto de Massada.
É claro que as nossas notícias acerca da vara de Moisés
eram igualmente nulas. Mas alguma coisa tínhamos
aprendido naquela apaixonante aventura: a confiar em
Curtiss. E por isso, no decurso da primeira semana de Março,
apesar destas interrogações na mente de todos, ninguém
exteriorizou qualquer inquietação. Simplesmente, trabalhámos
duramente e esperámos.
Naquela quinta-feira, ao tomarmos conhecimento do
assalto à embaixada da Arábia Saudita em Cartum (Sudão),
por guerrilheiros do Setembro Negro, o acampamento sofreu
um novo abalo. As acções terroristas, como o Mossad previra,
continuavam a sua imparável espiral, favorecendo, assim, as
diabólicas maquinações do Rapto de Europa.
Por fim, ao meio-dia de sábado, 3 de Março o nosso chefe
decidiu-se a falar. Depois de usarmos a contra-senha do dia
- Zehohanan (João) -, cruzámos o portão de saída e
misturámo-nos como se fôssemos turistas aos escassos

visitantas das ruínas.
O general, os directores, o meu irmão e eu comunicámos a
Yefet que desejávamos desentorpecer as pernas e que
regressaríamos no último funicular. A tensão e o esforço
daqueles dias tinham sido tão grandes que os israelitas
compreenderam e não se opuseram ao que se supunha um
inofensivo passeio de descontracção pelo chamado caminho
das víboras. Deixámos para trás o cume e começámos, com ar
bem-disposto, a descer lentamente pelo sinuoso caminho da
face oriental de Massada.
Quando nos encontrávamos a uns cem metros do cimo,
Curtiss deteve-se. Sentou-se à beira do carreiro e. Com a
cabeça inclinada, começou a desenhar estranhos sinais na
amarelenta e calcinada terra. O seu espírito parecia mais
calmo do que nos dias anteriores. Finalmente, presa de uma
contagiosa excitação, deu-nos a conhecer os planos mais
imediatos:
- Dada a rapidez com que decorrem os trabalhos no
Acampamento Eleazar, é mais que provável que na próxima
segunda ou terça-feira nos vejamos obrigados a dar início à
fase secreta da montagem da estação. Nesse momento
continuou com uma crescente euforia -. activaremos a última
etapa do nosso plano: a etapa vermelha. Como sabem, os
israelitas deverão desimpedir a piscina.
O general fez uma pausa, como que à procura das palavras
e do tom adequado para o que pretendia dizer-nos.
- Sei qual vai ser a vossa resposta continuou, ao mesmo
tempo que apontava para o alto de Massada -. mas a minha
obrigação é perguntar-vos. Os homens do Cavalo de Tróia
estão em condições de aguentar um novo e considerável
esforço?
- De que tipo? - foi a nossa pergunta obrigatória.
- É preciso que o módulo esteja pronto ao fim da tarde de
sexta-feira, nove de Março. Olhámos uns para os outros em

silêncio. Supondo que, de facto, a fase secreta da montagem
começasse na segunda ou terça-feira, isso significaria uma
margem de três ou quatro dias. Alguns directores abanaram a
cabeça, manifestando as suas dúvidas. - Para quando está
previsto o lançamento? - interveio Eliseu com o seu habitual
pragmatismo.
- Para a noite do dia nove respondeu o general sem
rodeios -, se formos capazes de colocar o berço no centro do
fosso.
Creio que nenhum dos presentes duvidava da eficiência e
do espírito de dedicação da meia centena de especialistas
que nos acompanhava desde o princípio da missão. O que de
facto nos preocupava e foi isso que dissemos a Curtiss
era a falta de notícias acerca do combustível, da vara de
Moisés e do resto dos equipamentos projectados para a
segunda exploração.
Além de tudo isso, as reservas de hélio vitais para o
funcionamento dos amplificadores maser 1 também não
tinham chegado ao alto do rochedo. O general sabia, como
nós, que sem as botijas de gás, os trabalhos eram inviáveis.
Mas o chefe do Cavalo de Tróia, como fizera noutras
ocasiões em que lhe manifestáramos esta mesma
inquietação, não se alterou. Evidentemente, o que o
preocupava naquele momento era saber se podia contar, ou
não, com o supremo esforço que exigia dos nossos homens.
Quando, por fim, arriscando-nos a assumir o sentimento da
maioria, lhe garantimos que o berço estaria pronto no local e
momento desejados, Curtiss aliviou a ansiedade geral
anunciando-nos que, de acordo com os planos, tanto o hélio
como o combustível para o módulo estavam já a caminho.
Ambos chegariam ao acampamento na noite seguinte,
domingo. Simultaneamente, Na previsão de uma possível
sabotagem palestiniana, o fornecimento de hélio à estação
receptora tinha sido planeado seguindo as recomendações

do serviço de informação militar israelita tendo em conta
uma via dupla. Exceptuando, obviamente, as jazidas russas, o
resto das reservas naturais deste gás nobre, localizava-se no
Canadá, na Polónia e no meu próprio país: os Estados
Unidos.
Esta circunstância, e o facto de os Estados Unidos
monopolizarem a sua extracção, manipulação e distribuição
por meio mundo, proporcionaram-nos uma vantagem
considerável. O abastecimento estava garantido, tanto em
volume como em periodicidade.
* Os dois amplificadores maser da estação, como creio já ter explicado antes,
processavam os dados com uma precisão extraordinária. Esses sofisticados
equipamentos requerem uma temperatura permanente de 269 graus centígrados
negativos (quer dizer, apenas quatro graus acima do zero absoluto). Para isso,
tinham de ser mergulhados em hélio-60 previamente liquefeito num criogerador
que fazia parte do instrumental.
Este criogerador, ou coldbox, tinha sido comprado a uma importante
multinacional suíça. Com a ajuda de turbinas de expansão, gradientes ou etapas
de gás e intercomutadores térmicos de placas, alcançava-se a temperatura
requerida: - 269x C (42 K), conseguindo assim a liquefacção do heliogás.
Logicamente, sem essas reservas de hélio, o criogerador e os maser não
podiam funcionar. (N. Do M)
Quanto à dupla via de fornecimento a Massada, judeus e
norte-americanos tinham estabelecido duas pontes aéreas:
uma com origem na Polónia e a outra nos Estados Unidos.
Aviões de carga, especializados neste tipo de transporte,
deviam aterrar em Israel no decurso das primeiras horas do
domingo, 4 de Março. Mas um suspeito acidente de aviação,
ocorrido na noite do dia 28 de Fevereiro, obrigou a alterar
parte dos planos, fazendo com que os responsáveis da
Operação Eleazar prescindissem de uma das pontes de
abastecimento: a polaca.
Na noite da última quarta-feira, segundo as informações
recebidas por Curtiss, por volta das vinte e três horas, um
aparelho da Força Aérea polaca tipo AN-24, despenhara-se a
uns seis quilómetros do aeroporto de Varsóvia.

Vinha de Golenion, nas proximidades do porto de Sczcecin,
no mar Báltico. Apesar da boa visibilidade, o aparelho
incendiou-se em pleno voo, provocando a morte dos seus
quinze ocupantes. O Mossad não descartava a hipótese de
um atentado. O Governo da Polónia tinha sido previamente
avisado das intenções de transportar um determinado
carregamento de hélio para Israel com fins puramente
industriais e, casualmente, como gás para a cromatografia.
A pessoa que estava a par dessa transacção comercial, o
ministro polaco do Interior, Wieslaw Ocieka, viajava nesse
avião.
Como medida de segurança, o estado-maior israelita optou
por esquecer a fonte polaca. O fornecimento, portanto, viria
unicamente das jazidas dos Estados Unidos. O resto do
passeio até à plataforma-base do funicular transcorreu em
animada conversa. O general tinha conseguido contagiar-nos
com o seu entusiasmo. Quase sem nos apercebermos,
estávamos a ponto de iniciar a contagem decrescente da
ansiada segunda aventura. Não imaginávamos então que,
dois dias mais tarde, as nossas ilusões sofreriam um duro
revés.
A ordem de Curtiss foi recebida com euforia pela equipa do
Cavalo de Tróia: A descida das botijas de hélio para o fundo
da "piscina" marcaria o início da fase "vermelha" E todos nos
preparámos para o grande momento. No dia seguinte,
domingo, ao cair da noite, um trémulo resplendor
avermelhado e o matraquear de motores chamou-nos a
atenção para os potentes S-64 que se aproximavam. Os dois
primeiros helicópteros-grua depositaram no cume de
Massada um total de trezentas e sessenta botijas de héliogás
(N-60). Duas horas mais tarde, outro par de Sikorsky
ultimava o transporte com um carregamento semelhante.
No total, setecentas e vinte botijas de 93 metros cúbicos
cada uma. Uma reserva mais que suficiente para garantir o
funcionamento permanente (vinte e quatro horas por dia) do

criogerador durante trinta dias. O que os israelitas não
podiam suspeitar era que, confundidas entre aquelas botijas
de aço de um metro e sessenta de altura e sessenta e oito
quilos de peso cada uma, se encontravam também outras
botijas -
* O consumo médio de hélio calculado pelos especialistas na liquefacção do
gás era de cerca de cinco litros por hora. (De cada garrafa de 93 m obtinha-se,
aproximadamente, esse mesmo volume de gás) (N. Do M)
aparentemente idênticas mas com um conteúdo muito
diferente: o combustível para o berço 1! Segundo as
explicações que o general nos havia de dar, a direcção do
Cavalo de Tróia, devido à maior duração do tempo de voo do
módulo neste novo salto, tinha mudado de tipo de
carburante, substituindo o peróxido de hidrogénio por uma
mistura mais segura e potente.
Existia, aliás, outra razão: o forte carácter oxidante do HOZ
desaconselhava o seu transporte por via aérea. Na mesquita
da Ascensão, apesar da argúcia utilizada para introduzir o
combustível ter sido praticamente a mesma (escondido entre
o hélio-gás), o Cavalo de Tróia não precisou na altura de se
enfrentar, como agora, com um transporte aéreo dessa carga.
Enfim, o que importava era que o carburante vital para os
nossos propósitos já se encontrava no Acampamento
Eleazar.
Como proprietários e únicos responsáveis pela montagem
dos maser, a manipulação do hélio N-60 foi dirigida e
executada pelo grupo norte-americano. Isso era o combinado.
Os israelitas, respeitosos, deixaram-nos agir. Durante essa
noite, sob a vigilância atenta do general, descemos as
setecentas e vinte botijas até ao fundo da piscina,
depositando-as cuidadosamente, em posição horizontal, no
recinto de vinte metros por dois, destinado a armazém.
Ao alvorecer de segunda-feira, 5 de Março, quando as nove
filas de oitenta botijas cada uma já estavam colocadas,

Curtiss anunciou a Yefet e aos restantes oficiais israelitas
que estávamos prontos para iniciar a fase secreta da
montagem da estação.
Assim, deu-se início à última etapa prévia ao lançamento
do módulo. Mas os problemas, como vou contar a seguir, não
haviam acabado.
A equipa da direcção do Cavalo de Tróia soube conjugar as
nossas verdadeiras necessidades com as dos israelitas. No
protocolo prévio, Curtiss estabelecera, entre outros acordos,
um tempo máximo de duas semanas para a montagem
completa do material secreto. Durante este período
considerado razoável pelo estado-maior de Israel a
presença dos técnicos e militares israelitas no Acampamento
Eleazar seria substancialmente reduzido. Só uma mínima
parte dos cinquenta homens permaneceria no cume e,
naturalmente, sem possibilidade de acesso ao interior da
estação. Mantiveram-se os serviços de vigilância, assim como
os de cozinha e supervisão do Charlie e do tanque de reserva
de gasóleo. Yefet, como chefe do acampamento, foi o único
oficial autorizado a continuar na meseta, ficando responsável
pelas comunicações. Naquela manhã de segunda-feira, trinta
e quatro israelitas abandonaram temporariamente Massada,
dispostos a desfrutar de um merecido descanso. O seu
regresso foi fixado para terça-feira, 20 de Março. Esta era,
portanto, a margem disponível para pormos o berço em
condições para o seu lançamento e posterior regresso.
Se não surgissem inconvenientes, a hora zero isto é, a
descolagem do módulo efectuar-se-ia na noite
* O novo combustível tetróxido de azoto (oxidante) e uma mistura de
cinquenta por cento de hidracina e dimetil-hidracina assimétrica tinha sido
calculado para um período global de combustão de cinco horas e catorze minutos.
Com uma disponibilidade máxima de dezasseis mil e quatrocentos quilogramas.
(N. Do M)
de sexta-feira, 9 de Março. (Curtiss manteve em segredo a

hora exacta até à manhã desse novo histórico dia) De acordo
com estes planos, Eliseu e eu ausentar-nos-íamos durante
dez dias.
A missão deveria terminar, impreterivelmente, na
madrugada de 19 para 20 desse mesmo mês de Março. No
entanto, como sugerira Eliseu numa das múltiplas sessões de
trabalho do Cavalo de Tróia, a nossa permanência real no
outro lado não seria de dez dias. A manipulação dos swivels
dar-nos-ia a oportunidade única de viver um período
indefinido (fixado incialmente em quarenta ou cinquenta
dias), podendo voltar ao nosso presente cronológico (1973)
no instante desejado. Como também sugeri, a ideia tropeçou
inicialmente com a lógica resistência de alguns directores do
Projecto.
Não havia informações sobre as possíveis repercussões no
organismo humano desta exagerada manipulação do tempo.
Era provável que nada acontecesse. Mas, baseando-nos
nesta mesma lógica, também não podíamos ignorar o
contrário. Em última instância, estávamos dispostos a levar a
cabo uma experiência singular: viver um tempo biológico e
cronológico -, mais prolongado e teoricamente dissociado do
nosso agora real. Apesar dessas compreensíveis dúvidas, a
missão afigurava-se tão fascinante, quer do ponto de vista
histórico quer científico, que os directores acabaram por
ceder, assumindo, como nós, o possível risco. Quem poderia
então imaginar que aquela ideia genial de Eliseu nos levaria
a uma terceira e maravilhosa experiência. E à morte.
Os homens do Cavalo de Tróia, tal como supúnhamos,
aceitaram entusiasmados o novo desafio. Contávamos com
quatro dias e algumas horas para instalar o módulo no centro
da piscina e efectuar o seu lançamento.
E às doze horas daquela segunda-feira, 5 de Março, com
uma certa solenidade, o fecho hidráulico foi activado,
sepultando no fosso meia centena de técnicos e engenheiros,
absolutamente eufóricos.

Contra a vontade geral, Curtiss estabeleceu um rigoroso
sistema de turnos de trabalho. Não convinha despertar
suspeitas entre os israelitas que nos acompanhavam no
acampamento lançando-nos como pretendia a equipa a
um trabalho em bloco e sem pausa, durante o qual todos nós,
norte-americanos, permanecêssemos debaixo de terra. Por
outro lado, além do necessário descanso, os homens de folga
deveriam vigiar atentamente os passos e a atitude dos
nossos aliados.
Como medida de precaução, a cobertura do fosso só seria
retirada nos últimos minutos antes da descolagem do berço.
Até essa altura, as entradas e saídas do pessoal efectuarse-
iam pelas duas escotilhas de emergência, abertas no
centro do fecho hidráulico nos lados oriental e ocidental do
grande rectângulo, respectivamente. Assim, as nossas
manobras no interior da estação ficavam a salvo de qualquer
olhar indiscreto.
Enquanto os técnicos desembrulhavam rapidamente os sete
grandes cubos de pedra alaranjados colocados no centro da
piscina, Curtiss e outros especialistas dedicavam-se a uma
exaustiva revisão das botij as de hélio. Ainda que, à primeira
vista todas fossem iguais, depressa me apercebi do que
distinguia as que tinham combustível. Na parte superior - na
zona da ojiva cor de tabaco estas tinham uma etiqueta de
contraste que, habitualmente, se situa no corpo da botija.
E, junto à indicação da pressão (duzentos bares) havia,
igualmente, uma análise do falso conteúdo 1.
Seria preciso conhecer muito bem o que constitui uma
análise típica do hélio N-60 para detectar que um dos seus
componentes - o Oz aparecia ligeiramente alterado na sua
proporção. Em lugar de 015 ppm, Cavalo de Tróia colocara
016. Esta ligeiríssima diferença no índice de oxigénio e a
posição das etiquetas nas cabeças das botijas, muito perto
das torneiras correspondentes, eram a chave para as

distinguir umas das outras. Mas, subitamente, Eliseu e eu
sentimos uma profunda emoção. Ao retirar os painéis cor de
laranja que não eram mais do que grossas pranchas de aço,
revestidas exteriormente com uma fina camada de pedra
dolomítica -, o módulo, a nossa querida nave, ficou à vista. E,
ao acariciarmos as peças, um turbilhão de recordações e
sensações invadiu-nos a ambos.
Tudo decorreu com normalidade até pouco depois daquela
comunicação da plataforma-base do funicular. Pelas quatro
horas da tarde de terça-feira, 6 de Março, Yefet anunciou ao
general a chegada dos dois técnicos norte-americanos que,
dias antes, tinham ido de avião aos Estados Unidos com os
estojos blindados que continham, oficialmente, material de
laboratório. O regresso dos nossos companheiros com a vara
de Moisés encheu-nos de alegria. Tudo parecia correr sobre
rodas.
No entanto, para Curtiss, Eliseu e eu, essa satisfação
esfumou-se com uma das notícias trazidas pelos viajantes
regressados da Base Edwards.
O próprio chefe do Cavalo de Tróia, acompanhado por
alguns homens que estavam de folga, foi ao encontro dos
recém-chegados, levando para o interior da piscina as urnas
que continham as diferentes peças que deviam integrar a
minha saudosa vara e os dois volumosos baús de aço, nos
quais estavam escritos rótulos idênticos: «Frágil. Material de
laboratório».
Os responsáveis deste transporte entregaram a Curtiss dois
sobrescritos lacrados. E ali mesmo, perante a mal
dissimulada curiosidade dos técnicos, que se atarefavam na
preparação final do módulo, o general abriu um deles. Depois
de dar uma vista de olhos aos documentos, acabou por os
entregar a um dos directores. A informação a que me
referirei no devido momento estava relacionada com os
novos equipamentos a instalar no berço. E transmitia,
igualmente, uma série de instruções sobre as modificações

introduzidas na vara de Moisés e sobre o meu equipamento
pessoal. Os novos instrumentos encontravam-se nos
contentores metálicos. A leitura da segunda mensagem foi
muito diferente. O general, apanhado de surpresa pelos
relatórios, foi empalidecendo durante alguns segundos. Um
dos documentos, em especial, devia conter qualquer coisa
sumamente grave. Não satisfeito com uma primeira leitura,
releu-o, ao mesmo tempo que nascia entre os seus dedos um
quase imperceptível tremor que o traía. Maquinalmente,
entregou o primeiro relatório a outro director, guardando o
que o afectara tão profundamente. Então, com o semblante
alterado, procurou-me entre os homens lançando-me um olhar
penetrante. Nesse instante soube que a informação tinha a
ver comigo e, presumivelmente, com o meu irmão de
expedição. Mas, em que sentido? Porque alterara ela o frio e
veterano militar? A resposta, desoladora, chegaria nessa
mesma noite.
A partir desse momento, desculpando-se com uma pertinaz
dor de cabeça, o nosso chefe desapareceu do fosso. E,
depois de pedir licença para abandonar o acampamento,
perdeu-se para norte da meseta. Era evidente que precisava
reflectir sobre o nosso sector, Quem poderia suspeitar na
altura? - tomar uma decisão crítica.
Eliseu, alguns directores e eu trocámos um olhar cheio de
funestos presságios. Mas os trabalhos na estação
continuaram no ritmo habitual. Antes de irmos descansar,
Eliseu e eu fomos chamados pela equipa de directores, que
nos mostrou um dos documentos: o que estava no segundo
sobrescrito. Era remetido pelo Centro Geológico do Colorado
e era a resposta dos especialistas em terramotos aos
sismogramas obtidos no cimo do monte das Oliveiras no
inesquecível dia 7 de Abril do ano 30.
Tal como resumia o Cavalo de Tróia, as análises apontavam
para uma considerável explosão subterrânea como a
explicação mais verosímil do que aparecia nos registos

digitais e analógicos.
Naturalmente, os sismólogosnão tinham sido informados
nem do lugar nem da data em que tinham sido captados
aqueles movimentos telúricos. Por esta razão, os
especialistas em sismologia, - embora determinassem a
magnitude dos abalos, a possível energia libertada na
suposta explosão e outros parâmetros complementares
insistiam na necessidade de conhecer, sobretudo, as
coordenadas da estação sismográfica de onde procediam os
misteriosos sismogramas.
Com este dado e com a data exacta dos movimentos
sísmicos esquecimento qualificado de incompreensível por
aqueles especialistas do Colorado -, seria possível uma
consulta à rede de estações mais próxima completando assim
o estudo. É claro que o Cavalo de Tróia nunca lhes forneceria
as informações solicitadas e supostamente, para nós era
mais do que suficiente a simples ratificação de que
estávamos perante uma série de abalos provocada por uma
explosão e não por um terramoto vulgar ou habitual. À vista
das ondas longitudinais
* Um parâmetro importante para a classificação Édte belelce-sdeea posição
resid em determinar a latitude e a longitude do fenómeno desde tempos de
chegada das ondas P de período curto a várias estações sismográficas
espalhadas pelo mundo. Se undo Lynn R. Sykes e J. F. Everden, o tempo que as
ondas «P« demóram a chegar a cada estação está em função da distância e
profundidade do foco. A partir dos tempos de chegada, obtém-se com precisão a
localização da fonte com uma margem de erro inferior a dez ou vinte e cinco
quilómetros, se os dados sísmicos forem de alta qualidade".
(N. do M)
As actuais redes de instrumentos estão per e esta liberte
energia equi r um sismo provocado or explosão subterrânea,
mesmo que valente
a um único quilo ón. (Um quiloton é a energia irradiada por
uma detonação de mìl toneladas de trinitrotolueno ou TNT)
Uma explosão nuclear subterrânea é uma fPonte quase pura

de ondas P ou primárias, porque exerce uma pressão
uniforme nas paredes da cavidade que origina. Um terramoto,
pelo contrário, produz-se ao deslizarem
Graças a uma conscienciosa análise dos tempos de
chegada das ondas P e de outros parâmetros mais
complexos, o Cavalo de Tróia tinha a certeza de que a
misteriosa explosão ocorrera a várias centenas de milhas essudeste
de Jerusalém. Talvez num dos domos ou cúpulas
salinas ou no interior de uma cavidade natural, nos depósitos
estratificados de sal dos desertos de Nafud ou de Dahna.
Esta verificação veio confirmar a nossa ideia inicial: o
terramoto descrito pelos evangelistas nos instantes que
precederam a morte do Filho do Homem não foi casual nem
pode ter sido de origem natural. Sobretudo numa zona como
Israel, com baixo índice de sismos.
Aquele era mais um motivo para voltarmos, como tínhamos
planeado. Curtiss, os directores e nós próprios estávamos de
acordo numa coisa: uma prospecção na área da detonação
podia lançar muita luz sobre tão incrível acontecimento.
Talvez a vinda de Eliseu à minha tenda tenha sido
providencial. Eram nove horas da noite e o general
continuava sem dar sinais de vida. Preocupado, o meu
companheiro animou-me a sair à sua procura. Não era normal
que em plena fase vermelha Curtiss se ausentasse durante
tanto tempo.
A amena temperatura daquela terça-feira e o rutilante
firmamento de Massada convidavam a passear. De forma
que, cada um com a sua lanterna e com a correspondente
contra-senha, deixámos a paliçada. Em silêncio, com uma
crescente inquietação, como se pressentíssemos alguma
coisa, evitámos o labirinto dos armazéns herodianos,
dirigindo-nos ao Palácio do Norte. Uma vez na proa do portaaviões
de pedra, vislumbrámos logo o escuro perfil do
general. Estava debruçado sobre a balaustrada semicircular

que fecha o terraço superior.
* (continua nota) rapidamente dois blocos da crusta
terrestre ao longo de uma falha. Devido a este movimento em
tesoura", um sismo natural emite, sobretudo, ondas do tipo
S" ou secundárias. Além disso, uma explosão gera outro tipo
de ondas sísmicas as chamadas Ravleigh -, que provêm de
complexos reflexos de parte da energia que as ondas dos
estratos superiores da crusta terrestre transportam. Ao
contrário dos terramotos, as explosões subterrâneas quase
não dão origem a ondas de tipo Love.
Também a localização da profundidade do foco permite
distinguir uma explosão de um sismo normal. De cinquenta e
cinco a sessenta por cento dos terramotos que se registam
na Terra produzem-se a profundidades superiores a trinta
quilómetros. Até hoje, ninguém foi capaz de perfurar a crusta
terrestre além dos 10.
As explosões nucleares mais profundas de que se tem
notícia foram detonadas a cerca de dois mil metros. (N. Do
M) 2 De acordo com a escala de intensidade de Mercalli
modificada e abreviada -, num movimento sísmico de grau VII,
todas as pessoas correm para fora das suas casas. Registamse
danos de pouca monta nos edifícios de boa arquitectura e
construção, e leves ou moderados em estruturas vulgares mas
bem construídas. Pelo contrário os danos são consideráveis
em estruturas pobremente construídas ou mal projectadas.
Caem algumas chaminés e é sentido por pessoas que
conduzem automóveis (VIII da escala Rossi-Forel). (N. Do M)
Ao ouvir os nossos passos voltou-se lentamente.
- Estava à vossa espera exclamou com voz inflamada.
Uma familiar corrente de fogo prelúdio sempre de
situações graves ou comprometedoras percorreu-me as
entranhas.

- Estava à vossa espera. - repetiu com um fio de voz. E,
metendo a mão direita num bolso da sua farda de trabalho,
mostrou-nos os documentos que o tinham feito empalidecer
no fosso.
Nem Eliseu nem eu nos atrevemos a articular qualquer
palavra. O general pegou então na minha lanterna,
iluminando o cada vez mais intrigante relatório.
- Tenho más notícias anunciou por fim com o rosto
alterado
- Esta informação, absolutamente confidencial, vem de
Edwards.
- E então A voz do meu irmão surgiu repleta de
impaciência.
- Se isto for verdade, talvez tenhamos cometido um erro
irreparável.
Visivelmente esgotado, Curtiss deteve-se de novo. Eliseu
fez o gesto de lhe tirar os papéis, mas, segurando-o pelo
antebraço pedi-lhe calma.
Reagiu o general entregando-me o relatório.
- Será melhor que, como médico o leias e dês a tua
opinião.
Assim fiz. E depois de uma leitura atabalhoada, o meu
semblante também se alterou.
Eliseu, sem pestanejar, esperava a minha resposta.
- Bom, Mas isto não parece definitivo. - balbuciei sem
muita convicção.
- Por amor de Deus! - explodiu o meu companheiro. - Que
raio está a acontecer?
Comecei a minha explicação, buscando termos pouco
arrevesados.
- Qualquer coisa anormal nas cobaias do laboratório.
Parece que Os rapazes de Mohave de obiam Qualquer, tem

uma estreita relação com as experiências de inversão de
massa dos swivels. Qualquer coisa que pode áo de de E1
seuooptei poroérebros.
Perante o esgar de incredulidade tive que lhe mostrar
várias microfotografias que acompanhavam os documentos.
Numa delas, marcados com uma flecha, apareciam os
pigmentos do envelhecimento (lipofucsina), típicos da
passagem do tempo nos neurónios e noutras células fixas
osmitóticas ou sumamente diferenciadas dos mamíferos e
restantes animais pluricelulares.
A microfotografia em questão apresentava o aspecto
característico do referido pigmento num neurónio do cérebro
de uma cobaia de oito meses 1. (A imagem tinha sido
aumentada quinhentas vezes) continuei sem muitas
esperanças de que captara o sentido dramático das minhas
palavras -. A presença destes pigmentos do envelhecimento
seria normal se não fosse um pormenor arrepiante: esses
neurónios das cobaias estão a morrer ver-ti-gi-no-sa-men-te a
partir do momento em que foram submetidos a sucessivos
processos de inversão.
* Está demonstrado que o corpo dos mamíferos, incluindo o do homem, contém
nos seus tecidos células que envelhecem e outras que, pelo contrário, conservam
o seu aspecto juvenil, mesmo em seres velhos. Um exemplo das primeiras são os
neurónios do cérebro e as que se alojam nas fossas de Lieberkuhn, no duodeno.
As segundas amebóides têm uma capacidade inesgotável de crescimento. (N.
Do M)
de massa. O que, num envelhecimento natural, precisaria
de meses ou anos, nessas circunstâncias mudou em questão
de dias.
Não sei se me explico com suficiente clareza.
- Mas porquê? - interpelou-nos Eliseu, que intuía o alcance
daquelas descobertas. - Isso não é claro retorqui,
apontando para o relatório. - Parece que durante o tempo
infinitesimal da inversão dos swivels há qualquer coisa que
afecta os neurónios, superexcitando-os ou provocando-lhes
um cansaço e o subsequente e galopante consumo de

oxigénio. E isso, como deves saber, é uma arma de dois
gumes. O homem, na sua dependência aeróbica de ser
pluricelular altamente diferenciado, deve ao oxigénio a sua
vida e o seu envelhecimento. Estamos, em suma, perante a
teoria dos chamados radicais livres, proposta pelos doutores
Harman, Nagy, Hosta e outros.
Os radicais livres, para que me compreendas, na minha
qualidade de médico, e a partir dessa fatal descoberta,
consultei as mais avançadas hipóteses acerca do obscuro
problema do envelhecimento humano. Em especial, as
formuladas por homens como Harman, da Universidade de
Nebraska (pai da teoria dos radicais livres); Warburg, Prémio
Nobel.
Que identificou o oxigénio como o grande responsável da
diferenciação celular; J. Miyuel, chefe da Secção de Patologia
Experimental do Ames Research Center da NASA; Imre Zs-
Nagy. E muitos outros. Todos, à sua maneira, coincidiam em
que o calcanhar de Aquiles do envelhecimento não está nas
células que têm capacidade de divisão, mas nas que, como o
neurónio, perderam a virtude da proliferação e que, devido
ao seu elevado consumo de oxigénio nas mitocóndrias,
sofrem uma desorganização perioxidativa.
Miquel, que pôs à prova a teoria do doutor Harman, explica
isso quando diz: «A nossa hipótese está no genoma
mitocondrial ser a chave. A sua vulnerabilidade abre o
caminho à evolução senil. O envelhecimento celular é o
resultado da toxicidade do oxigénio, ou melhor, dos radicais
livres» (R-OH). Estes radicais surgem durante a redução
univalente do oxigénio na cadeia respiratória mitocondrial
(N. Do M)
Dentro da programação genética da duração da vida, como
assinala o doutor A. Hosta, a teoria da sua limitação pela
toxicidade dos radicais livres ao nível celular está na
sequência coerente dos conhecimentos e das experiências
dos últimos anos. A escassa divulgação do conceito R-OH

leva-me a considerar, aqui e agora, o que são e como agem.
Com isso, o leitor poderá aproximar-se melhor da natureza da
nossa tragédia. Os «R-O1» são compostos químicos de
génese plural.
Com uma grande capacidade de reacção e alto poder
oxidante.
Digo génese plural" porque podem ter origem tanto ao
nível celular, resultado forçoso da respiração aeróbica da
célula, como pela acção directa ou induzida da contaminação
do meio que os rodeia: meio ambiente, radiações,
alimentação, etc. Os R-OH actuam interferindo com a sua
capacidade reactivo-oxidante nos esquemas de
funcionamento metabólico preestabelecidos.
Os R-Ohf são responsáveis pela peroxidação dos ácidos
gordos insaturados dos fosfolípidos componentes das
membranas biológicas. Ao desorganizarem as membranas
celulares e os seus pequenos órgãos, acumulam
lipopigmentos (fundamentalmente no cérebro e no coração).
incrementam o eross-linking de macromoléculas
(especialmente colágenos e elastinas). geram a fibrose
arteríolo-capilar e degradam os mucopolissacarídeos.
O microsccipio electrónico mostra-nos as mutações
morfológicas que a acção dos R-OH introduz na célula,
sobretudo quanto à perda de estrutura (membrants).
diminuição do número de mitocôndritis (fonte da energia
celular ou ATP) e inclusões no citoplasma de lipopigmentos
inertes (lipofucsina. etc).
Do ponto de vista funcional, o panorama anterior implica
uma perda de funcionalidade da célula que, na destruição da
mitocôndria, alcança o clímax da evolução celular. Já que não
pode responder à demanda de energia (noventa por cento
da energia celular provém da mitocóndria). e já não só à
demanda normal quanto mais aos grandes tiumentos de
consumo que o organismo do paciente vai exigir inúmeras

vezes, mais não são do que o oxigénio normal, transformado
e activado pelas células. Pois bem, se excitámos um
neurónio, o seu consumo de oxigénio multiplica-se e os R-OH
(radicais livres) actuam como oxidantes poderosos e
corrosivos, acelerando o seu envelhecimento, e até mesmo a
paradoxalmente, um consumo anormal de oxigénio por parte
dos neurónios leva-nos, definitivamente a uma evolução
senil.
Mesmo havendo toda uma gama de factores ambientais e
de dieta que contribuam igualmente para a acção oxidante
dos R-OH, o stress é, possivelmente, um dos grandes
verdugos. Já reparaste como e a que velocidade envelhecem
os estadistas ou os executivos?
O meu companheiro caiu num profundo abatimento. Isto
- No entanto retomei tentando animá-lo e animar-me
não pode ser tomado como definitivo. No fim de contas, os
resultados , em animais de laboratório nem sempre são
aplicáveis ao homem.
Curtiss e o meu irmão ouviram-me com benevolência. A
verdade é que nem eu próprio concedia muita credibilidade a
tais raciocínios. No fundo nem eu conseguia compreender o
meu próprio comportamento.
Talvez eu, como Eliseu fosse vítima de um erro fatal da
Operação Cavalo de Tróia. E, no entanto, em lugar de me
mostrar nervoso, estava a lutar por tirar importância ao
assunto. Nunca consegui encontrar uma explicação para o
porquê daquela serenidade fora do vulgar.
- A verdade argumentou o general, abandonando o seu
mutismo e pegando de novo nos documentos é que
estamos perante uma grave possibilidade. E, para confirmá-la
ou não, só há um meio: voltarem a casa de avião e
submeterem-se a um minucioso exame médico. Aqui não
temos especialistas nem meios adequados. Se o processo de
inversão de massa afectou também os vossos cérebros, talvez

ainda estejamos a tempo de evitar uma catástrofe.- suspirou
ruidosamEnte o general, levantando os olhos para as
estrelas, encerrando-se numa nova e prolongada meditação.
Um estranho tremor invadiu-me dos pés à cabeça. Eu sabia
o que significavam as últimas frases do chefe do Projecto.
Mas uma súbita e importante pergunta do meu companheiro
veio dispersar os meus receios.
- Diz-me, Curtiss: por que motivo não fomos avisados antes
do primeiro salto? Será que a falha não foi detectada nas
experiências preliminares?
Eliseu, com a sua pergunta, já tinha inconscientemente
respondido. O general desenhou nos seus lábios um amargo
sorriso.
- Insinuas que, se o tivesse sabido antecipadamente, o
Cavalo de Tróia vos teria lançado para essa aventura?
- Não suponho que não. - reconheceu Eliseu, baixando os
olhos. -. A única coisa que vos posso dizer revelou-nos
Curtiss, pedindo indulgência é que, em todos os ensaios
prévios com animais de laboratório, o controlo e
acompanhamento dos especialistas se concentraram no
comportamento das funções vitais das cobaias. E nunca foi
detectada uma alteração grave. Certamente, sabemo-lo
agora, devíamos ter insistido nas explorações com os
scanners, a nível cerebral, exactamente como tinha sugerido
o doutor Shock, de Baltimore.
Meu Deus! Aquela confissão trouxe-me à memória a
inexplicável obsessão do general pela nossa segurança
pouco antes do lançamento do módulo na mesquita da
Ascensão. E ainda que nunca chegasse a censurá-lo por isso,
naquele momento tive a certeza de que o chefe da operação
sabia qualquer coisa, muito antes de Janeiro de 1973. -. Mas
quem podia imaginar que se registaria uma alteração desta
natureza e num sítio tão oculto como o sistema de neurónios?

Nisso, Curtiss tinha razão. Por outro lado, a má sorte ou
não foi a má sorte? - fez com que a maioria daqueles animais
utilizados nas inversões dos swivels fosse esquecida ou
sacrificada uma vez concluídas satisfatoriamente as
experiências. O carácter secreto e militar do Cavalo de Tróia,
e a pressa inerente a este tipo de operações, não eram
conciliáveis, evidentemente, com uma verdadeira e sensata
política de investigação científica. Mas nada disto tinha já
solução. Era necessário enfrentar os factos. Agora eu
compreendia a razão da palidez do general na piscina e o
porquê do seu anormal isolamento na solidão do rochedo.
Sentia-se responsável.
E, de repente, como se fosse uma pancada, anunciou-nos o
que, sem dúvida, era fruto de uma prolongada e penosa
reflexão:
- Está decidido. Não haverá segunda exploração.
Fiquei paralisado. Praticamente, senti-me pregado ao chão
de Massada. E o general, sem mais comentários, fez menção
de se retirar. Se não fosse por Eliseu, tudo teria acabado ali
mesmo. Mas o meu companheiro, recuperada a sua habitual
frieza, interpôs-se no seu caminho. E, pondo as mãos nos
ombros de Curtiss um gesto muito familiar para mim -, faloulhe
nos seguintes termos:
- Um momento. Eu acho que te enganas.
Cansado, o general olhou para ele sem compreender.
- De qualquer forma acrescentou Eliseu com calor -, nós é
que deveríamos tomar essa decisão. Os nossos cérebros é
que estão teoricamente lesados. Se a descoberta de
Edwards não fosse sobre nós, reconhece que teríamos
perdido uma oportunidade única. Se, pelo contrário, não se
enganaram e os nossos neurónios estão danificados, esta
repara bem! - é uma ocasião que não podemos nem devemos
desperdiçar.

Curtiss moveu a cabeça, aturdido.
Escuta, velho teimoso! Estamos a um passo da descolagem.
Tu mesmo o reconheceste: agora é impossível analisar os
nossos malditos cérebros. Em contrapartida, se continuarmos
com o plano previsto, esta terceira e quarta inversões podem
fornecer novos e preciosos dados sobre o problema em
questão.
Como compreenderás, tanto eu como Jasão voltaríamos a
uma missão fatal ou estimamos** as nossas vidas e não nos
parece irreversível. Compreendo que os médicos e
especialistas talvez pudessem impedir ou remediar mais
eficazmente a hipotética alteração neurónica se contassem
com uma série de comprovações.
O meu irmão procurou apoio para o seu duvidoso raciocínio
lançando-me um olhar de que jamais me esquecerei. E,
deixando-me uiar pela intuição, acabei de encurralar o frágil
ânimo do nosso chefe.
- Estou de acordo. Se estimas realmente as nossas vidas,
permite-nos que sigamos em frente. E, aí sim reforcei com
toda a autoridade de que fui capaz -, exigimos um controlo
minucioso no momento da inversão dos swivels. Como deves
ter visto, as condições físicas e mentais dos teus astronautas
não podem ser melhores. Mais ainda acrescentei sem muito
convencimento -, duvido muito que os nossos neurónios
estejam afectados.
Tudo, quase Aquela meia verdade naufragaria no meu
coração. Quase simultaneamente, me lembrei das escamas e
das manchas cor de café que tinham aparecido na minha
pele. Era mais do que provável que aqueles sintomas de
envelhecimento estivessem a dar razão aos cientistas da
Base Edwards. Mas, graças a Deus, Curtiss ainda não tinha
sido informado. Pelo menos naquela altura.
Eliseu e eu descobrimos um fundo de complacência no
ressuscitado olhar do nosso amigo.

- E então? - incitou-o o meu irmão.
O general pigarreou, tentando ganhar tempo.
- Não sei. - murmurou com teimosia.
- Curtiss! Em nome da nossa amizade: confia em nós!
- Não sei. Tenho que pensar nisso.
E, esquivando-se das mãos de Eliseu, voltou-nos as costas.
Rumo ao acampamento. Alguns segundos depois, detevese.
Girou sobre os calcanhares e, com os olhos húmidos,
sussurrou:
- Deus vos abençoe.
Aquela noite de terça-feira, 6 de Março, foi, simplesmente,
um pesadelo. Suponho que Curtiss, como nós, também não
conseguiu conciliar o sono. A frio na solidão da minha tenda,
a informação procedente do deserto de Mojave instalar-se-ia
para sempre na minha vida. Os dados eram escassos e não
totalmente comprovados, mas tragicamente correctos. Eu
sabia-o, No fundo. Na minha perspectiva actual quero
agradecer à Providência o facto de as coisas me terem
acontecido senão tivesse chegado aquele sobrescrito lacrado
e nem o meu companheiro nem eu teríamos tomado uma
decisão que felizmente tomámos em plena segunda
exploração.
Mas essa é outra história, que terei de contar mais
adiante.
Para já e sobre isso não havíamos mentido os nossos
cérebros continuavam a funcionar normalmente. Mas até
quando? Entre as confusas explicações científicas expostas no
fatídico documento, havia uma que, intencionalmente, passei
por alto na nossa conversa no extremo norte de Massada.
Segundo os neurofisiólogos, a maior parte das mutações
observadas nos cérebros das cobaias registava-se no

hipocampo.
E eu sabia que essa área cerebral regula o conceito e a
sensação de espaço e de tempo. Em inúmeros casos de
demência senil, por exemplo, o envelhecimento do hipocampo
é uma realidade clara e indiscutível. O que aconteceria a
Eliseu e a mim se os nossos respectivos hipocampos se
vissem igualmente lesados? Uma perda de memória em tais
circunstâncias, só para dar um exemplo, teria sido o fim.
Assaltado por estes e outros não menos funestos
pensamentos, acabei por saltar do divã e sair da tenda. Uma
brisa suave começara a soprar de norte, fazendo baixar a
temperatura e arraneando trémulas e intermitentes
cintilações brancas e azuis das estrelas. E comecei a andar
sem rumo. Exceptuando os dez vigilantes israelitas e o
correspondente turno ocupado nos trabalhos do fosso, o
resto do acampamento dormia placidamente. Contornei o
bordo norte da piscina e, procurando um canto solitário,
dirigi-me para o sector leste da paliçada.
Quando já estava a poucos metros dos sacos de terra, a
inesperada presença de um vulto escuro sobressaltou-me. Ao
ver-me, o indivíduo pôs-se de pé, avançando em direcção a
mim.
A escuridão era tanta que só quando chegou a um metro de
mim é que distingui a robusta silhueta de Eliseu. Tal como
eu, também ele não conseguira adormecer. Mas as suas
razões eram outras. Sentados sobre os sacos, e sem
necessidade de o pressionar, abriu-me o seu coração,
confessando-me porque tomara aquela valente e insólita
atitude perante o general.
De certo modo, o desejo do meu irmão não era novo para
mim. Ele já mo tinha insinuado durante a nossa estada em
Jerusalém: Desejava, precisava de ver Jesus de Nazaré. Face
a face E aquela segunda oportunidade talvez não voltasse a
apresentar-se. Não podia permitir que uns malditos

relatórios, por muito graves que fossem, arruinassem os seus
propósitos.
- E mais acrescentou com veemência -, se for preciso,
continuarei a mentir e a fingir. - A mentir? - interrompi-o sem
compreender.
- Meu querido amigo manifestou ele como se lesse os
meus pensamentos -, o teu destino e o meu estão unidos.
Não nos enganemos. Sabes muito bem que não fui sincero ao
antepor o interesse científico da missão à nossa
sobrevivência. Não me preocupa mesmo nada saber se, com
as novas inversões de massa, se consegue impedir ou não o
mal que se instalou no nosso organismo. Foi a primeira coisa
que me ocorreu naquele momento crítico e foi como se Deus
me tivesse iluminado. Curtiss duvidou. Não achas?
- É claro que não. O general disse-lhe eu claramente
não é homem fácil de enganar. Mas numa coisa tiveste razão
e ele soube captar e agradecer-te por isso: a decisão de
levar a cabo a segunda exploração depende, agora mais do
que nunca, de nós.
Eliseu já conhecia a minha posição a este respeito, mas,
com a sua natural candura, pressionou-me para que eu a
expressasse de novo.
- Está bem tranquilizei-o -, eu também quero voltar. E
compartilho os teus sentimentos: não é a procura de um
remédio para o nosso mal que me move a isso. É Ele que
puxa por mim.
O meu companheiro sorriu, satisfeito. E, embora ambos
soubéssemos que era Curtiss quem teria a última palavra,
deixámo-nos levar pelo entusiasmo e pela esperança,
discutindo e analisando até ao amanhecer os pormenores da
nossa segunda e ainda hipotética missão.
E, justamente ao amanhecer, as nossas dúvidas ver-se-iam
definitivamente dissipadas.

- Muito bom dia. Rapazes!
Eliseu, perplexo, não conseguiu responder ao general.
Quase que tive de o arrastar para a mesa onde,
solitariamente, tomava uma fumegante e apetecível chávena
de café. O rosto do nosso
chefe estava transfigurado. Aquela cordialíssima saudação
e o sorriso franco e prolongado, tão opostos ao semblante
sombrio da noite anterior, deixaram-nos estupefactos. Que
teria acontecido depois de tomar uns goles, divertido,
repetiu os bons dias e foi directamente ao que desejávamos
ouvir:
- Vocês ganharam. A missão irá para a frente.
Pouco faltou para que o meu irmão saltasse em cima dele
para o abraçar. Curtiss e eu acalmámo-lo, fazendo-lhe ver que
não estávamos sozinhos no refeitório. - sentenciou, ao
mesmo tempo que apontava para os documentos que
guardava numa das algibeiras.
- Sobretudo que ninguém saiba, pelo menos até vocês
regressarem, da existência deste relatório.
Aceitámos com um fulminante e afirmativo movimento de
cabeça. No entanto, enquanto Eliseu, com o entusiasmo
recuperado, despachava vorazmente o seu pequeno-almoço,
Curtiss leu no meu olhar: O que o tinha feito mudar??,
- Suponho que têm direito a saber o porquê desta decisão.
O general esfregou a cara suavemente, fechando os olhos
cansados e avermelhados. Quando tirou as mãos, o sorriso
inicial tinha-se transformado num trejeito solene.
- Como sabem, os graves acontecimentos que se aproximam
no Médio Oriente ditaram já a sentença da Operação Cavalo
de Tróia. Esta é, portanto, a nossa últìma oportunidade de
voltar. E, dado que vocês, meus queridos exploradores, livre
e voluntariamente, colocaram o interesse histórico e científico
da missão acima da vossa própria segurança e sobrevivência.

Não serei eu a opor-me. Compreendo que há momentos na
vida de todo o ser humano em que um ideal pode e deve
prevalecer até sobre os interesses individuais ou pessoais.
Nenhum de nós, agora, é suficientemente consciente da
transcendência do que temos em mãos. Será a História, um
dia, a julgar a Operação Cavalo de Tróia.
E, antes de se retirar, comovido, resumiu os seus
sentimentos com as mesmas palavras que pronunciara diante
do Palácio do Norte:
- Que Deus vos abençoe.
Tal como eu imaginava, apesar de se ter referido ao
interesse histórico e científico da missão, o general estava a
par das
verdadeiras motivações que nos tinham levado a continuar.
Curiosamente, tínhamo-nos convertido os três em cúmplices
de um sonho.
Trinta e seis horas antes do lançamento do berço, a
actividade na piscina alcançou níveis inimagináveis. O
renovado optimismo de Curtiss foi determinante. Tudo estava
pronto. O módulo, definitivamente montado e com os novos
equipamentos a bordo, esperava unicamente o atestar dos
tanques de combustível. Mas. Por estritas razões de
segurança, o carburante não seria introduzido até à manhã
do dia seguinte, sexta-feira. O resto daquela quinta-feira, 8
de Março, mesmo arrastando o cansaço de uma tensa e
dramática noite de vigília, transcorreu num abrir e fechar de
olhos. As reuniões com a equipa de directores sucederam-se
até à tardinha.
Os planos da segunda exploração foram revistos várias
vezes, prestando uma especial atenção aos voos obrigatórios
da nave de Massada ao monte das Oliveiras e vice-versa.
Todos estávamos conscientes da transcendência daquela
navegação. Qualquer falha, quer na ida quer na volta ao
rochedo, podia ser desastrosa. Mas deixarei para depois os

pormenores do nosso plano de voo, assim como a descrição
de algumas inovações introduzidas no módulo e nos
equipamentos tendo em vista esta fascinante exploração no
ano 30 da nossa Era.
O que desejo anotar, aqui e agora, é um facto ocorrido
nessa mesma noite de quinta-feira e que, na minha opinião,
veio confirmar o que já sabíamos em relação às verdadeiras e
profundas motivações do general Curtiss no momento de
autorizar aquele segundo lançamento. Por outro lado, acho
que - de acordo com a minha intenção de transcrever fiel e
escrupulosamente tudo o que vi e ouvi na Palestina de Cristo
é este um momento adequado para introduzir um relato que
tinha ficado pendente: o diálogo de Jesus de Nazaré com os
amigos mais íntimos na histórica última ceia de quinta-feira,
6 de Abril.
Por razões estritamente éticas, como assinalei em páginas
anteriores, não me foi permitido estar presente em tão
notável acontecimento. Mas, graças às gravações captadas a
partir do módulo e aos meus diálogos com André, o irmão de
Simão Pedro, o importantíssimo banquete pôde ser
reconstituído pelo Cavalo de Tróia.
Antes de entrar plenamente na transcrição do mesmo, é
minha obrigação recordar uma coisa que já indiquei na
devida altura: pela enésima vez, como consequência
inevitável da passagem do tempo, muitas das palavras do
Mestre da Galileia naquela última ceia seriam mutiladas,
ignoradas e, o que é pior, adulteradas pelos chamados
escritores sagrados", e, em última instância, pelas próprias
Igrejas, Com o passar dos séculos.
A maravilhosa mensagem protagonizada por Jesus naquela
quinta-feira santa" foi caricaturizada e reduzida a uma mera
fórmula matemática".
Foi por volta das dez horas da noite. Eu tinha ido descansar
quando, inesperadamente, se apresentou na tenda um dos

vigilantes israelitas. Curtiss reclamava a minha presença. A
princípio pensei que se trataria de alguma comprovação
técnica. Mas, ao ver que nos dirigíamos para o portão da
paliçada, a minha curiosidade voltou a acender-se. Ao dar-me
a contra-senha, o israelita indicou-me o Palácio do Norte,
explicando-me que o general e outro colega estavam à minha
espera ao pé do terraço superior. Um tanto alarmado, dirigi
os meus passos para o sector em questão. Ali, de facto,
descontraídos e em animada conversa, encontrei o meu irmão
e o chefe da operação.
Ao ver-me, Curtiss disse-me que me sentasse ao pé deles,
no chão do terraço. E, sob o branco silêncio de milhares de
estrelas, num tom doce, quase suplicante, pediu-me que,
antes de partir, lhe satisfizesse um íntimo desejo seu,
materialmente sufocado até àquele momento pelas
circunstâncias:
- Fala-me dEle!
Realmente, os infelizes acontecimentos que nos tinham
dominado desde que colocáramos o módulo no hangar da
mesquita da Ascensão, as suas viagens e mudança para
Massada, não nos tinham permitido uma serena e sossegada
troca de impressões sobre a incrível personagem que fora o
motivo do nosso primeiro salto. E apesar de me ter sentido
feliz por poder falar de Jesus de Nazaré, da Sua
impressionante atracção humana, das Suas palavras e da Sua
fascinante personalidade, tive um cuidado especial em não
mostrar uma veemência excessiva.
A sagacidade do general não tinha limites e um erro nesse
sentido, revelando o meu entusiasmo por Ele e pondo em
causa a nossa obrigatória objectividade talvez tivesse
repercussões como exploradores de outro tempo, mais graves
que as da descoberta de Edwards. Mais ainda, Precavendome,
manifestei algumas dúvidas em torno da Sua suposta

ressurreição, acrescentando com toda a intenção que a nova
exploração poderia tornar-se altamente esclarecedora nesse
sentido.
Curtiss ouviu durante várias horas a minha exposição quase
sem fazer perguntas. Mas, ao chegar a quinta-feira santa e
ao lembrar-lhe do burro lazarento e dos seus apóstólos, e
que as suas palavras tinham sido gra vada**s no berço, o
general, com a voz alquebrada por uma súbita emoção,
suplicou-me que esperasse um momento eú envol óoedm
papel de rlrou um pequeno embrulho, minu nal.
Pô-lo no chão e, cerimoniosamente, começou a
desembrulhá-lo.
Ao vermos do que se tratava, Eliseu e eu olhámos um para
o outro, intuindo a intenção dele. E um relâmpago de
sensações se propagou dentro de mim turbando-me a mente.
Curtiss ligou o diminuto gravador e uma saudosa voz
doce, profunda e brilhante como aquele firmamento
preencheu o silêncio da montanha, crispando-me a ele. O
dedo do general deteve o andamento da fita, fazendo-a
retroceder até ao princípio da gravação. Uma gravação que
eu conhecia perfeitamente.
- Jasão. Um último favor.
Não consegui responder. Tinha um nó na garganta.
- Quero que me traduzas as suas palavras.
Como não respondi, Curtiss, tendo-se apercebido de que já
eram quase duas horas da madrugada e, interpretando o meu
silêncio como um lógico sintoma de cansaço pediu-me que
entrasse e ofereceu-me um copo de café. Com rapidez, Pegou
no termo que o meu companheiro trazia. Mas não era a sede
ou o esgotamento o que me paralisava. O meu irmão
apercebeu-se logo do delicado momento que eu atravessava
e, com reflexos invejáveis, tomou a iniciativa.
Com o pretexto de estirar as pernas doridas, apoiou-se no

meu ombro direito, batendo com o joelho no fumegante café.
O café caiu sobre a minha perna e a dor fez-me reagir. O
pequeno e intencional incidente devolveu-me à realidade.
Preparei uma nova dose de café e, mais calmo, disse-lhe que
já estava preparado.
Contudo, antes de ligar o gravador fiz-lhe um resumo de
alguns dos acontecimentos anteriores aos diálogos que nos
preparávamos para ouvir e que, do meu ponto de vista, eram
fundamentais para uma melhor compreensão do que
acontecera naquela noite no andar superior da casa dos
Marcos.
* A fim de refrescar a memória do leitor apesar destes
acontecimentos a que o Major se refere terem sido narrados
pormenorizadamente no primeiro volume desta obra,
considerei oportuno recordá-los neste momento. Uma vez
terminada a última ceia, a narração do Major transcorria nos
seguintes termos: «Os onze, pelo menos naqueles instantes,
estavam muito menos tensos que durante a manhã.
Despediram-se da família e eu acompanhei-os de regresso ao
acampamento de Getsémani.
Enquanto atravessávamos as ruas solitárias do Bairro
Baixo, em direcção à Porta da Fonte, no extremo sul de
Jerusalém.
Consegui que André se separasse do grupo. E, um pouco
para trás, interessei-me pela forma como correra a ceia. O
chefe dos apóstolos começou a dizer-me que, tanto ele como
os seus companheiros, estavam intrigados com o repentino
desaparecimento de Judas e muito especialmente, pelo facto
de não ter voltado ao cenáculo. "De começo, quando o vimos
sair, todos pensámos que vinha ao andar de baixo, talvez à
procura de algum dos víveres para a ceia. Outros acreditaram
que o Mestre lhe confiara algum encargo».
«Os pensamentos dos discípulos eram correctos, já que
ninguém dispunha de verdadeira informação sobre a conjura.

Por outro lado, com excepção de David Zebedeu que não
participara no convite pascal nem André nem os restantes
sabiam ainda que o Iscariotes deixara de ser o administrador
e que o dinheiro comum estava desde essa tarde em poder
do chefe dos emissários».
«E André continuou com a sua narrativa, destacando um
facto que se dera logo à entrada no andar de cima da casa
dos Marcos, e que do meu ponto de vista esclarecia
perfeitamente a razão por que o Nazareno se decidiu a lavar
os pés dos discípulos. Os evangelistas tinham dado uma
versão correcta: Jesus levou a cabo aquele gesto,
manifestando a muito honrosa virtude da humildade. No
entanto, qual fora a "chispa" ou a causa final que obrigou o
Mestre a proceder à lavagem dos pés? Será que tudo aquilo
era devido a uma pura e simples iniciativa de Jesus? Talvez
sim e talvez não. Ao visitar a sala onde ia celebrar-se a ceia
pascal, eu tinha reparado nos lavatórios, jarros e toalhas,
colocados para as abluções obrigatórias de pés e de mãos.
O costume judaico exigia que, antes de se sentar à mesa,
o convidado devia ser lavado pelos servos ou pelos próprios
anfitriões. Aquela, repito, era a tradição. No entanto, as
ordens do Mestre tinham sido terminantes: não haveria
criadagem no andar de cima. E a prova é que segundo pude
comprovar os gémeos desceram a dada altura para virem
buscar o cordeiro assado. Pois bem, aí surgiu a discussão
entre os doze.
«- Quando entrámos no cenáculo continuou André -, todos
reparámos que estavam ali os jarros e a água para a
lavagem dos pés e das mãos. Mas, se o Rabi ordenara que
não haveria criadagem na sala, quem se encarregaria da
lavagem obrigatória? Tenho de te confessar humildemente
que, tanto eu como os restantes, tivemos os mesmos
pensamentos. Para já eu não cairia tão baixo que me
prestasse a lavar os pés dos outros. Essa era uma missão da
criadagem.

"E, todos em silêncio, dissimulámos, evitando qualquer
comentário sobre a questão da lavagem. "O ambiente
começou a ficar perigosamente pesado e, para cúmulo, o
aborrecido assunto da limpeza pessoal viu-se envenenado
por outro facto que nos fez irritar, originando uma azeda
discussão.
O Mestre tardava em subir e, entretanto, cada um de nós
dedicou-se a examinar os divãs. Saltava à vista que o lugar
de honra correspondia ao divã mais alto o colocado ao
centro e novamente caímos na tentação: quem ocuparia os
lugares próximos de Jesus? Suponho que quase todos
voltámos a pensar o mesmo: «Será o Mestre a escolher os
discípulos predilectos»
E nestes pensamentos estávamos quando,
inesperadamente, Judas se dirigiu para o assento colocado à
esquerda do que fora reservado para o Rabi, manifestando a
sua intenção de nele se sentar como convidado preferido.
Esta atitude do Iscariotes revoltou-nos a todos, originandose
uma desagradável discussão».
Conforme fui avançando na minha exposição, o rosto do
general foi reflectindo a sua surpresa. De certo modo, a
situação era absurda. O respponsável máximo do Cavalo de
Tróia
- embora eu reconheça que havia razões de sobra para isso
não conhecia ainda muitos dos pormenores da nossa
primeira missão nem as circunstâncias que rodearam os onze.
«Mas Judas instalara-se já no divã e João, num dos seus
impulsos, fez o mesmo, apoderando-se do lugar da direita».
"Como poderás imaginar, a irritação foi geral. Porém, as
ameaças e os protestos de nada serviram. Judas e João não
estavam dispostos a ceder. Talvez o mais aborrecido fosse
meu irmão Simão. Sentia-se ferido e prejudicado pelo que
chamou orgulho indecente dos seus companheiros. E,
visivelmente zangado, deu uma volta à mesa, escolhendo

então o último lugar. Justamente no divã mais baixo. A partir
desse momento, os restantes foram-se instalando onde
podiam. Sabes que Pedro é bom e ama intensamente o
Mestre, mas. Naquela altura, a sua fraqueza foi grande.
Conheço meu irmão e sei porque fez aquilo.
Perdido pelos ciúmes e pelo desgosto, - animei-o a que
fosse sincero comigo.
- Porque. - André precisava de o contar a alguém e
desabafou:
«A impertinente iniciativa de Judas e de João, Simão não
hesitou em se sentar no último lugar da mesa com uma
secreta esperança: que, quando entrasse o Mestre, lhe
pedisse publicamente que deixasse aquele divã e fossse
para o lugar de Judas ou, até mesmo, do jovem João. Desta
forma, ocupando um lugar de honra, seria honrado e deixaria
mal os seus orgulhosos companheiros. A, ainda nos
encontrávamos em plena batalha dialéctica, recriminando-nos
mutuamente pelo sucedido, Quando o Rabi apareceu na
abertura da porta.
Vimo-Lo e, bruscamente Jesus permaneceu uns instantes no
umbral. O seu rosto fora ficando paulatinamente sério.
Evidentemente, tinha compreendido a situação. Mas, sem
fazer comentário algum, dirigiu-se para o seu lugar, ante o
olhar desolado de meu irmão Pedro.
Foram minutos difíceis. No entanto, Jesus foi recuperando a
habitual e característica doçura e todos nos sentimos um
pouco mais calmos. As conversas voltaram a surgir, ainda que
alguns dos meus companheiros continuassem empenhados em
se atacar por causa do incidente da escolha dos divãs. Bem
como da aparente falta de consideração da família Marcos,
ao não ter previsto um ou vários servos para a lavagem dos
pés Jesus desviou então o seu olhar para os lavatórios.
Verificando que, efectivamente, não tinham sido utilizados.

Mas também nada disse.
Tadeu começou a servir a primeira taça de vinho. Enquanto
o Rabi escutava e observava em silêncio. Como sabes. Uma
vez bebida esta primeira taça, a tradição estabelece que os
hóspedes devem levantar-se e lavar as mãos. Nós sabíamos
que o Mestre não apreciava muito estes formalismos e
aguardámos em expectativa».
«Ante a surpresa geral, o Rabi levantou-se, caminhando
silenciosamente para os jarros de água. Encarámo-nos,
surpreendidos. E, sem uma palavra, despiu a túnica, cingindo
um dos panos em volta da cintura. Depois, pegando na bacia
e na água, deu uma volta completa à mesa, chegando até ao
lugar menos honroso: o que meu irmão ocupava, Ajoelhandose.
Com grande humildade e submissão. Dispós-se a lavar os
pés de Pedro. Ao vê-lo, nós os doze levantámo-nos como um
só homem. Do espanto, passámos à vergonha. Jesus tomara
a si o trabalho de um qualquer criado, recriminando-nos
assim pela nossa falta de consideração e de caridade. Judas
e João baixaram os olhos, aparentemente mais feridos que
os restantes».
- Judas também interrompi-o. Com alguma incredulidade.
André deteve os seus passos e, olhando-me fixamente,
perguntou, por sua vez:
- Jasão, tu sabes alguma coisa. Que se passa com Judas?
Encolhi os ombros. Procurando esquivar-me. Mas o chefe
dos apóstolos insistiu e dada a iminência da prisão
expus-lhe que, efectivamente, também eu duvidava da
lealdade do Iscariotes.
* últimos dias da vida de Cristo. Daí que lhe causassem
uma grande comoção, por exemplo, o incidente dos divãs e a
negativa dos apóstolos em lavarem os pés e as mãos.
Nenhum dos evangelistas como apontou acertadamente

tinha feito referência a esses factos. Criando assim uma
imperdoável lacuna informativa que deixava incompleta a
realidade histórica. A cena da lavagem dos pés aparece nos
Evangelhos Canónicos como uma simples iniciativa do
Galileu, desligada de qualquer outro acontecimento anterior.
No entanto, basta reler os textos que os cristãos consideram
sagrados para ver que o Mestre não gostava muito de
iniciativas gratuitas. Todos os seus actos e palavras tiveram
sempre uma razão de ser.
Contudo, como já contei e continuarei a revelar nas
próximas páginas, estes não foram os únicos acontecimentos
escamoteados - consciente ou inconscientemente por estes
evangelistas. O microfone, dissimulado na base do candeeiro
que iluminara a mesa em forma de U da última ceia, tinha
respondido perfeitamente. O som foi captado cinco por cinco
nos instrumentos do módulo. No meio de um solene silêncio,
Curtiss ligou o gravador. E o meu coração voou para a tão
histórica noite.
Prosseguimos. E ao atravessarmos o Cédron. O meu
companheiro saiu do seu mutismo. Supliquei-lhe que
continuasse a sua narrativa e André acabou por aceitar.
- Quando Simão viu Jesus ajoelhado na sua frente. O seu
coração inflamou-se de novo e protestou energicamente.
Como te disse, meu irmão ama o Mestre acima de tudo e de
todos.
Suponho que ao vê-lo assim, como um criado insignificante
e disposto a fazer o que nem ele nem nós tínhamos aceitado,
compreendeu o seu erro e quis dissuadir o Mestre. Porém. A
decisão do Rabi era irrevogável e Pedro consentiu. Um a um,
como te dizia, Jesus foi-nos lavando os pés. Depois das
palavras de Pedro, nenhum se atreveu a protestar. Num
silêncio dramático, o Mestre foi rodeando a mesa até chegar
ao último dos convidados.
"Depois vestiu a túnica e voltou ao seu lugar.

- - João e Judas continuavam à direita e à esquerda do
Mestre, respectivamente?
- Sim. Ninguém saiu dos seus lugares, com excepção de
Judas, que saiu da sala pouco antes de ter sido servida a
terceira taça: das bênçãos. A proximidade do acampamento
obrigou-me a suspender aquela esclarecedora narrativa. No
entanto. Na minha mente ainda se acumulavam muitas
interrogações. Como fora a revelação de Jesus a João sobre a
identidade do traidor? Como era possível que os outros
apóstolos não o tivessem ouvido Não havia dúvidas de que
assim era, - já que nenhum estava a par dos actos do
Iscariotes. Só havia suspeitas (N. De J. J. Benítes)
* Este sofisticado microfone, com pouco mais de dez gramas de peso. Media
vinte milímetros de comprimento, doze de largura e seis de espessura. Com uma
antena de vinte e cinco centímetros de comprimento e um fio de dois milímetros
de diâmetro. (A pequena antena, do mesmo modo que o emissor multidireccional,
tinha sido perfeitamente camuflada entre as franjas que pendiam do candeeiro)
Os especialistas de Cavalo de Tróia tinham feito um excelente trabalho ao
incorporar no microemissor um conversor A/D (analógico-digital) miniaturizado,
que eliminava qualquer ruído estranho, Dado que o som devia atravessar várias
paredes antes de se propagar até ao cimo do monte das Oliveiras, dividindo
assim por dois o alcance máximo (calculado em cerca de dois quilómetros). a
transmissão tinha sido apoiada por um telemicrofone. De tipo unidireccional,
montado sobre o berço, e a que apontava directamente para o andar superior da
casa de Elias Marcos.
Esta espécie de teleobjectiva sonora sincronizada na mesma frequência do
microfone multidireccional (130 Mhz) actuava como um zoom, apanhando e
facilitando o transporte do som emitido pelo microfone espião. Um receptor Sone,
excepcionalmente sensível, alimentado pela pilha SAP-IOA, fazia o resto. (N. do
n)
A extrema sensibilidade do microfone tinha registado até o
ranger da porta de dupla folha, empurrada pelos
companheiros de Jesus quando entraram no aposento,
decididos a participarem na ceia.
- O Mestre fui comentando, enquanto ouvíamos uma série
de passos e alguns murmúrios encontrava-se no andar de
baixo a conversar com a família de Elias Marcos.

As vozes todas num claro aramaico ocidental ou galileu (a
língua falada por Jesus foram-se tornando mais fortes e
nítidas, à medida que os doze começaram a distribuir-se em
torno do U. Durante quatro ou cinco minutos tudo correu
normalmente. Mas, de repente fez-se um brusco silêncio.
Segundos mais tarde, o sinal elevou-se consideravelmente.
Numa confusa miscelânea, foram surgindo ameaças protestos
e até maldições. Os discípulos, encolerizados, recriminavam
Judas por se ter colocado no divã situado à esquerda do
lugar de honra. A algazarra aumentou ainda mais quando a
julgar pelos comentários João Zebedeu fez o mesmo,
acomodando-se no divã da direita. A voz de Simão Pedro,
mais exaltado do que os outros, distinguia-se facilmente.
Mas, também de repente, a voz rouca e poderosa do fogoso
Pedro deixou de se ouvir. E entre as acaloradas acusações
ouvimos uns passos que, precipitadamente, se afastavam da
curvatura da mesa.
- Esse é Pedro intervim, interrompendo a gravação. - Anda
à procura do divã mais baixo e afastado, como me explicou o
seu irmão.
- Qual foi a distribuição final em torno da mesa? -
perguntou o general.
- Segundo o meu informador, Judas Iscariotes e João
ficaram à esquerda e à direita do Mestre respectivamente.
Este, como sabes, ocupava o divã de honra, no centro do U.
Os outros dispuseram-se na seguinte ordem: Simão, o Zelota,
Mateus, Tiago Zebedeu e André, a seguir a Judas. À direita
de João, os gémeos Alfeu, Filipe, Bartolomeu, Tomé e Simão
Pedro, nesta ponta do U.
Ao ligar o microfone, e durante cinco ou seis minutos,
sucederam-se, num tom mais do que vergonhoso, as violentas
recriminações mútuas dos discípulos. Provavelmente, anos
mais tarde, quando alguns daqueles apóstolos e seguidores
do Nazareno decidiram escrever a vida e a mensagem do

Filho do Homem tiveram o máximo cuidado em esquecer um
incidente que, embora humano, punha em causa a dignidade
do recém-nascido no colégio apostólico.
Subitamente, os doze guardaram silêncio. As gravações do
módulo tinham captado o leve ranger de uma porta.
- Aí está Jesus. - exclamei, imaginando o Mestre no umbral
do cenáculo.
Cinco segundos depois, sonoros no meio de um denso
silêncio, ouviam-se os passos do Gigante em direcção ao
centro da mesa.
Um minuto, Dois, O silêncio era geral, apenas interrompido
por um ou outro embaraçoso pigarro. Pouco a pouco, as vozes
foram surgindo na sala, um pouco mais descontraídas e
cordiais. Jesus de Nazaré continuava calado, provavelmente
observando os seus amigos. E, por fim, como se não tivesse
acontecido nada, a sua voz soou doce e conciliadora,
enchendo-nos a todos de uma indescritível emoção:
- Desejei ardentemente fui traduzindo com um fio de voz
comer esta ceia da Páscoa convosco. Queria fazê-lo mais uma
vez antes de sofrer. Chegou a minha hora e, quanto ao
amanhã, estamos todos nas mãos do Pai, cuja vontade vim
cumprir. Não voltarei a comer convosco até que vos senteis
comigo no reino que o meu Pai me entregará quando tiver
terminado aquilo para que me enviou a este mundo.
O Mestre calou-se e as conversas recomeçaram. Mas
nenhum dos comensais fez referência às proféticas palavras
do Rabi.
Pelo contrário, vários dos discípulos retomaram a áspera
polémica dos divãs, criticando igualmente a família Marcos
por não ter designado um ou dois criados que tivessem
evitado o tema desagradável das abluções.
Por um momento imaginei o rosto grave e talvez desiludido
do Galileu, atento à polémica. Como André me advertira, os

seus olhos procuravam as jarras destinadas às abluções,
verificando que, de facto, não tinham sido usadas.
O ardor da discussão foi decaindo, sendo substituído pelo
inconfundível som do vinho ao ser servido nos recipientes de
vidro. Era o ritual da primeira taça. Dois minutos depois,
cumprida a cerimónia da mistura da água e do vinho, Tadeu
voltou para o lugar dele e a voz de Jesus de Nazaré mais
severa do que da vez anterior encheu novamente o recinto.
Depois de dar graças, exclamou:
- Tomai esta taça e dividi-a entre vós. E quando a tiverdes
compartilhado, pensai que já não beberei convosco o fruto da
videira. Esta é a nossa última ceia
Eliseu, Curtiss e eu captámos uma sombra de tristeza
naquela breve pausa.
- Quando nos sentarmos outra vez concluiu o Mestre
será no reino que está para vir.
Um novo silêncio caiu sobre a sala. Como já referi, a
tradição judaica estabelecia que, uma vez bebida esta
primeira taça, os comensais deviam levantar-se, para
procederem ao formalismo das abluções. Mas, tal como
dissera o chefe dos apóstolos, a gravação sonora não
detectou qualquer movimento entre os doze. Melhor dizendo,
apenas registou o roçar das vestes de um homem que se
levanta do seu assento e uns passos - os do Nazareno
contornando o U em direcção às bacias.
Logo a seguír, vindo daquele canto do aposento, ouvimos o
barulho de um líquido a água de um dos jarros a ser
vertido numa vasilha larga e metálica. Depois, mais três ou
quatro passos, o golpe seco de uma bacia a ser colocada no
chão e outro impacte de natureza desconhecida sobre o
soalho do aposento.
(Possivelmente o ruído produzido pelo Galileu ao deixar-se
cair de joelhos no soalho) Apenas dois segundos depois, o

microfone fazia-nos chegar uma mistura confusa e enorme de
sons: taças depositadas na mesa, algumas exclamações de
surpresa e corpos que se levantavam precipitadamente. Eram
os doze a levantarem-se dos seus bancos, aturdidos ao
descobrir as intenções do Mestre. E, durante vários e
prolongados minutos, silêncio. Um total e eloquente silêncio.
Ninguém parecia disposto a reconhecer a infantil e estúpida
atitude geral. O final daquele dramático vazio deveu-se a
Pedro. Com voz trémula e insegura, perguntou:
- Mestre, vais realmente lavar-me os pés? Jesus deve ter
levantado o rosto para o impetuoso e desiludido pescador,
porque, logo a seguir, ouvi-mo-lo a dizer:
- Talvez não compreendais o que me disponho a fazer. Mas,
de agora em diante, conhecereis o sentido de todas estas
coisas Um suspiro profundo saiu da garganta de Pedro.
- não me lavarás os pés! - Mestre ouvi-mo-lo de novo a
andar.
Um tímido cicio acompanhou esta imperativa resolução do
discípulo. Era claro que os onze concordavam com as palavras
do companheiro, rejeitando o que qualificavam de penosa
humilhação. Como desejei ter presenciado aquela cena e,
sobretudo, ter perscrutado o rosto do Iscariotes! Realmente,
ele partilharia aquele sentimento?
- Pedro ripostou Jesus, num tom que não deixava lugar a
dúvidas -, em verdade te digo que, se não te lavár os pés,
não tomarás parte comigo no que estou a ponto de levar a
cabo.
Silêncio. Quinze, vinte, trinta segundos de angustiante
silêncio. Não era difícil imaginar o olhar atónito de Simão.
E, finalmente, outra das típicas explosões do bom galileu:
- Então, Mestre, não me laves só os pés. Também as mãos
e a cabeça!
Ninguém na sala parecia respirar. Só o barulho da água

revelava que o Rabi tinha iniciado a lavagem.
- Aquele que já está limpo interveio de novo o Mestre
só precisa de que lhe lavem os pés. Vós, que vos sentais
comigo esta noite, estais limpos.
Seguiu-se uma pausa.
- Embora nem todos.
Apurámos o ouvido, tentando captar alguma pergunta
relacionada com esta observação de Cristo. Mas talvez
aqueles homens não soubessem dar valor à velada acusação
do Rabi.
E a voz de Jesus, entremeada com o ruído da água,
continuou assim:
- Deveríeis ter lavado o pó dos vossos pés antes de vos
sentardes para tomar o alimento comigo. Além disso, quero
fazer este serviço para ilustrar um novo mandamento que vos
vou dar.
Não houve mais comentários, Durante o tempo que o
Galileu permaneceu a lavar os pés dos seus amigos mais
íntimos trinta e seis minutos ao todo -, só os seus passos,
o sucessivo ajoelhar-se em volta da mesa em qUe o ruído das
mãos na água da bacia foram os únicos registos gravados no
módulo.
Concluída a operação, Jesus de Nazaré voltou para o seu
divã. O ranger da madeira sob os seus pés foi desta vez,
mais lento e suave. Como se as abluções o tivessem
acalmado.
Pouco depois, a sua potente voz soou clara e cálida:
- Compreendeis o que vos fiz?
Silêncio. - acrescentou em tom condescendente
- Chamais-me «rabi». dizeis bem pois o sou. Então, se o
Mestre vos lavou os pés porque vos negais a lavar-vos uns
aos outros? Que lição deveis aprender desta atitude? Que o

mestre vos fez com tanto prazer um serviço que vós vos
negastes a fazer mutuamente. Em verdade, em verdade vos
digoque o servo não é maior do que o seu senhor. Nem é o
enviado maior do que aquele que o enviou. Vistes qual tem
sido a forma do meu serviço em vida. Bendito seja quem tiver
a graciosa valentia de fazer outru tanto.
Mas, porque sois tão lentos a aprender que o segredo da
grandeza no reino do espírito nada tem a ver com os
métodos do mundo material? Quando cheguei a esta sala,
não só vos recusáveis a lavar os pés uns aos outros, como
também, além disso, discutíeis sobre quem deve ocupar os
lugares de honra em torno da mesa.
Essas honras são os fariseus, e as crianças, que as buscam.
Mas não será assim entre os mensageiros do reino celestial.
Será que não sabeis que não pode haver lugar de preferência
na minha mesa? Não compreendeis que vos amo a cada um
de vós como aos outros? O lugar mais próximo de mim pode
não significar nada em relação ao vosso lugar no reino dos
céus.
Não ignorais que os reis dos gentios têm poder e
majestade sobre os súbditos e que até são chamados
benfeitores. No reino dos céus não será assim. Se algum de
vós quiser ter a preferência, que saiba renunciar ao privilégio
da idade. E se outro deseja ser chefe, que se torne servidor.
Quem é maior: o que se senta a comer ou o que serve? Não
é o primeiro que é considerado o mais importante? Mas, no
entanto, vede que eu estou entre vós como aquele que serve.
Em verdade, em verdade vos digo que se agirdes assim,
fazendo comigo a vontade do Meu Pai, então, sim, tereis um
lugar ao Meu lado, no poder.
Quando Jesus acabou, parei o gravador, alertando o
absorto general para as cenas que iríamos ouvir e que dão
uma nova luz às confusas explicações dos evangelistas acerca
de Judas e da sua traição.

Perto das oito horas daquela noite de quinta-feira, 6 de
Abril do ano 30 da nossa Era uma hora, mais ou menos,
depois do início da histórica última ceia os sensíveis
receptores instalados no berço registaram uma série de
passos e o agudo lamento dos gonzos da porta a abrir-se.
Aqueles sons correspondiam à primeira saída dos
discípulos do cenáculo. Eram os gémeos, Tiago e Judas de
Alfeu, que iam ao andar de baixo buscar parte da ceia.
Lembro-me muito bem dos seus rostos, extraordinariamente
tristes.
O regresso à sala foi marcado por um segundo ranger da
porta por mais passos sobre o soalho, pelo bater de pratos e
pelo alegre ruído da água e do vinho a serem, aqui e ali,
novamente servidos.
Durante breves minutos, Curtiss assistiu entre o divertido
e o escandalizado a uma inconfundível «sinfonia de sons».
Aqueles homens rudes não se distinguiam, precisamente,
pela sua delicadeza ao comer ou beber.
Era evidente que os apóstolos tinham fome. Durante cinco
ou dez minutos, ninguém fez o menor comentário. Mas, pouco
a pouco no meio do segundo prato, começaram a surgir
algumas graças acerca do cordeiro assado.
O Galileu, recuperando o seu característico e habitual bom
humor, interveio também, fazendo um caloroso elogio da
jarôset: uma geleia à base de vinho, vinagre e frutas
esmagadas feita pela mãe do pequeno João Marcos e cuja
finalidade era aliviar o forte sabor das obrigatórias ervas
amargas. Assim, a conversa foi-se tornando,
progressivamente, mais alegre e intranscendente. Como se
nada tivesse acontecido. Mas o Mestre tinha ainda muitas
coisas para dizer. E a sua voz voltou a soar, cinco por cinco,
anunciando, pública e oficialmente, a traição do Iscariotes:
- Já vos disse quanto desejava celebrar esta ceia
convosco...

Jesus de Nazaré parecia perturbado.
- ... E sabendo de que forma as forças demoníacas das
trevas conspiraram para levar à morte o Filho do Homem,
tomei a decisão de cear convosco, nesta sala secreta e um
dia antes da Páscoa...
Os discípulos, a julgar pelos estalidos esporádicos das
suas línguas, pelo barulho dos ossos ao serem atirados para
os pratos e por um ou outro generoso arroto, continuavam a
comer, mais atentos, ao que parecia, aos deliciosos manjares
do que às frases proféticas do Rabi.
- ... dado que amanhã, a esta mesma hora, já não estarei
convosco.
O dramático anúncio de Cristo deve ter sido captado por
alguns apóstolos porque, de repente, a movimentação da
ceia diminuiu. E o silêncio tornou-se mais intenso.
- ... Disse-vos repetidas vezes continuou o Nazareno
que tenho de voltar para o Pai. Agora é chegada a minha
hora, embora não fosse necessário que um de vós me traísse,
entregando-me aos meus inimigos.
Depois destas palavras a ausência de sons foi tal que
Curtiss quase chegou a perguntar se tinha havido alguma
falha na transmissão. Neguei com a cabeça. Pela primeira
vez, os amigos do Galileu alertados pelo próprio Rabi
começavam a tomar consciência da existência de um
renegado no seio do grupo. Aquilo foi tão grave e
inesperado que precisaram de vários minutos para reagir. Por
fim, um após outro, timidamente, fizeram a mesma pergunta:
- Serei eu?
Intencionalmente, a fim de que o general reparasse no que
estava prestes a acontecer, fui contando e identificando a
origem das sucessivas perguntas. Ao chegar ao décimo
primeiro "serei eu?" - todos sem resposta por parte do
Nazareno parei o gravador.

- Terás notado disse-Lhe eu que Judas foi o único que
não perguntou. ...
- óbvio retorquiu Curtiss. - O Iscariotes, embora traidor,
não era néscio.
- Pois observa o que vem a seguir...
Liguei o gravador e, depois do referido décimo primeiro
"serei eu?", surgiu a voz de Cristo, repetindo parte do que já
expusera antes:
- É preciso que Eu vá ao Pai. Mas, para cumprir a Sua
vontade, não era preciso que um de vós se convertesse em
traidor. Isto é fruto da maldade de um que não conseguiu
amar a Verdade... Que falso é o orgulho que precede a
queda espiritual! Um velho amigo, que até agora, come o
meu pão, está desejoso de me trair. Até mesmo agora
reiterou o Galileu, dando uma ênfase especial às suas
palavras que mete a sua mão no prato juntamente com a
minha...
A esta nova alocução seguiram-se murmúrios e um ou outro
repetitivo "serei eu?". Mas o Mestre não respondeu. Os
comentários entre os discípulos generalizaram-se e foiesta,
com quase toda a certeza, a razão de nenhum dos onze ter
prestado atenção a um imediato e lacónico diálogo entre o
Iscariotes e Jesus. - No meio daquele marasmo de opiniões,
Judas reclinado à esquerda do Mestre perguntou, por sua
vez, ainda que num tom dificilmente perceptível pelos outros:
- Serei eu?
A meu pedido, durante as horas que antecederam a
descolagem do módulo e em que tive a oportunidade de
ouvir esta gravação pela primeira vez, Eliseu tinha
neutralizado o ruído de fundo, amplificando até ao máximo
aquele breve diálogo e os poucos sons que pareciam vir do
centro da curvatura do U. Graças a este milagre da técnica foi
possível reconstituir um pormenor que, como já disse, não
aparece de todo claro na exposição dos evangelistas.

Uma vez feita a pergunta de Judas, o Rabi mergulhou um
pedaço de pão no prato de ervas que tinha à sua frente,
oferecendo-o ao traidor. Segundos depois de perceber o
ranger do pão a partir-se no fundo de madeira do prato Jesus
também a meia voz respondeu com o seu fatídico... "Tu o
disseste!" Não houve silêncio ou qualquer sintoma que,
depois da curta conversa entre o Iscariotes e o Rabi,
revelassem que os outros onze tinham ouvido a confirmação
definitiva da traição.
Normalizada a gravação, esta apenas ofereceu uma
continuação dos atropelados e confusos comentários dos
apóstolos,-discutindo acaloradamente acerca da identidade
do hipotético renegado. É mais do que lógico que bastava
que um dos que se sentavam mais perto do Galileu o tivesse
ouvido, para que a polémica morresse logo.
A prova disso é que, pouco depois, João Zebedeu
reclinado à direita do Mestre, e num nível de audição
sumamente baixo, como se a pergunta tivesse sido feita
quase ao ouvido (o próprio João, ao referir-se a este
episódio, especifica que (se inclinou sobre o peito de Jesus)
lhe perguntaria:
- Quem é?... Devemos saber quem é infiel à sua crença.
E o Rabi num tom igualmente confidencial respondeu:
- Já vo-lo disse: aquele a quem dou pão molhado...
Não houve resposta de João. O costume do anfitrião ou do
convidado de honra oferecer pão embebido num molho era
tão comum naquelas celebrações que, muito provavelmente,
nenhum dos onze no caso de o ter visto deve ter dado
muita importância a este gesto tão específico.
Naqueles momentos que antecederam a segunda
exploração duvidámos até que João, tão próximo da cena em
questão, tenha captado o sinal de Jesus. (Este era outro dos
muitos pontos a esclarecer no iminente regresso ao ano 30.)
Jesus de Nazaré permaneceu calado. Na sala continuava a

batalha dialéctica. E, inesperadamente, de uma das pontas
da mesa, uma excitada e inconfundível voz eclipsou as
restantes. Era Simão Pedro.
- Pergunta-Lhe quem é!... Ou, se já te disse, diz-me quem é
o traidor.
Pela direcção do som parecia provável que a sugestão do
nervoso galileu se tinha dirigido a João. No entanto, este
não teve a oportunidade de satisfazer a curiosidade de
Pedro.
(Supondo, é claro, que o soubesse naquele momento.) Os
cochichos e as hipóteses peregrinas dos apóstolos foram
interrompidos de repente por Jesus.
- Entristece-me disse-lhes ele que este mal tenha
chegado a prosperar. Esperava, mesmo até esta hora, que o
poder da Verdade triunfasse sobre as perversidades do mal.
Mas estas vitórias não se ganham sem fé e sincero amor
pela Verdade. Não vos diria isto na nossa última ceia, se não
desejasse avisar-vos e preparar-vos acerca do que está
agora sobre nós...
Apesar da nitidez das suas palavras, Curtiss, Eliseu e eu
estivemos de acordo numa coisa: aqueles onze rudes judeus
não pareciam compreender o verdadeiro alcance daquelas
revelações.
Como já narrei anteriormente, os acontecimentos ocorridos
nas horas que se seguiram ao convite dar-nos-iam a razão.
- Falei-vos disto porque desejo que recordeis, depois da
minha partida, que eu sabia de todas estas malvadas
conspirações e que vos avisei da traição. E faço-o para que
possais ser mais fortes face às tentações e julgamentos que
temos justamente pela frente.
Concluídas estas advertências, o Nazareno, num tom
imperativo e suficientemente alto para que todos pudessem
ouvi-lo, dirigiu-se a Judas, comunicando-lhe:

- O que decidiste fazer... fá-lo depressa.
Eram nove horas da noite. O Iscariotes não abriu a boca.
Levantou-se do assento e o ranger precipitado da madeira
sob as suas sandálias de couro revelou-nos que se dirigia
para a porta e para o inevitável...
Nessa altura, João Zebedeu tinha razão. Nenhum dos
presentes - nem mesmo o próprio evangelista entendeu o
sentido real da ordem de Jesus. Entre outras razões porque,
como expliquei em páginas anteriores, supunham que Judas
continuava como administrador do grupo. (O Iscariotes, como
se sabe, havia horas que transferira a bolsa comum a David
Zebedeu, o chefe dos emissários:) Todos acreditaram que a
ordem do Mestre o que decidiste fazer... fá-lo depressa
tinha alguma relação com a sua tarefa diária como "pagador"
ou "tesoureiro".
Quando Judas Iscariotes abandonou a sala, Curtiss fez um
comentário interessante. Uma observação que provocou rios
de tinta e grandes polémicas. Ao longo da História:
- Então é verdade que o traidor não chegou a comungar...
A minha resposta um imediato e irónico sorriso deixou-o
perplexo.
- Não te compreendo acrescentou num tom de lógica
censura.
- Vais compreender já retorqui. - Prepara-te para ouvir
uma coisa que nada tem a ver com o que escreveram três dos
quatro evangelistas e, muitíssimo menos, com a posterior
interpretação das Igrejas...
- Queres dizer que não houve instituição da Eucaristia?
Neguei-me a responder. Liguei de novo a gravação,
convidando-o a que prestasse toda a sua atenção.
Como eu dizia, os discípulos não deram muita importância à
saída precipitada do Iscariotes. Mais ainda, a discussão
sobre a identidade do traidor prolongar-se-ia durante mais

alguns minutos. É quase certo que Jesus deve ter feito algum
sinal, porque, de repente, a polémica cessou.
Ouviram-se uns passos que se aproximavam do divã do
Rabi e, logo a seguir o ruído da água e do vinho em partes
iguais a serem deitados na taça do Mestre. O discípulo
encarregado desta cerimónia conhecida como a terceira
taça ou taça da bênção voltou para o seu lugar: O Galileu
pôs-se de pé e todos fizeram imediatamente a mesma coisa.
Depois de uma breve pausa possivelmente, de acordo
com a tradição e com o seu próprio costume, Jesus abençoou
a taça -, a sua voz encheu de novo o silêncio de Massada: -
Tomai esta taça e bebei todos dela... Esta será a taça da
minha recordação. Esta é a taça da bênção de um novo
desígnio divino de graça e verdade. Este será o símbolo da
outorga e do ministério do divino Espírito da Verdade.
Da solenidade, o Rabi passou à tristeza.
- ... Já não beberei convosco até que o faça numa nova
forma no reino eterno do meu Pai.
Os apóstolos pareciam constrangidos. Assim que acabaram
de beber, a taça de vidro foi colocada sobre a mesa. Nesse
instante, o suave roçar das vestes de Jesus revelou que Ele
se inclinava para a mesa em U. Pegou em qualquer coisa e,
depois de dar graças, ouviu-se o som do pão a ser partido. O
microfone multidireccional captaria igualmente um movimento
generalizado. Como se os discípulos distribuíssem os
pedaços entre si.
- Tomai este pão e comei-o disse-lhes o Mestre. - Afirmeivos
que sou o pão da vida, que é a vida unificada do Pai e
do Filho num só dom. A palavra do Pai, tal como foi revelada
pelo Filho, é realmente o pão da vida.
Quando acabaram de comer reclinaram-se nos divãs, e fezse
de novo o silêncio. Parecia que o Galileu não sei se os
seus homens também tinha entrado numa profunda
reflexão.

Estive a ponto de intervir. Ardia em desejos de comentar
aquelas últimas frases sobre o vinho e o pão, tão diferentes
das que figuram nos escritos de Mateus, Marcos e Lucas.
Mas, suponho que com um bom critério, deixei isso para o fim
da gravação.
No fim, Jesus rompeu o seu silêncio:
- Quando fizerdes estas coisas, recordai a vida que vivi na
Terra e regozijai-vos porque continuarei a viver convosco. Não
luteis por averiguar quem é o maior entre vós. Sede como
irmãos. E quando o reino crescer até alcançar numerosos
grupos de crentes, não luteis também por essa grandeza ou
para procurar subir nesses grupos.
E todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de
mim. E quando me recordardes, primeiro olhai para trás: a
minha vida na carne. E recordai que uma vez estive convosco.
Então, pela fé, percebei que todos ceareis alguma vez,
comigo, no reino eterno do Pai. Esta é a nova Páscoa que vos
deixo: a palavra da verdade eterna, o meu amor por vós e o
derramamento do Espírito sobre a carne...
A um sinal do Mestre, os onze levantaram-se e entoaram o
Salmo 118: K Aleluia! "Dai graças a Javé, porque é bom,
porque é eterno o seu amor...!
A voz de Cristo, vigorosa e contida inveja de qualquer
bom barítono impôs-se desde o princípio, eclipsando e
conduzindo as dos seus homens. ... "Javé está comigo, não
tenho medo, que pode fazer-me o homem?..."
Senti um novo arrepio. Até as estrofes pareciam
especialmente escoLhidas para aquele momento...
"... A pedra que os construtores rejeitaram, em pedra
angular se converteu, esta foi a obra de Javé... "
Terminado o cântico, alguns discípulos comentaram a
necessidade de voltar a Getsémani. A cena terminara e,
obviamente, fazia-se tarde.

Mas Jesus disse-Lhes que se sentassem.
- Recordais bem quando vos enviei sem bolsa nem
bagagem e até vos avisei que não levásseis roupa de
muda...
Os apóstolos, com monossílabos, responderam
afirmativamente.
- ... Todos recordareis que nada vos faltou. No entanto,
agora os tempos são difíceis. Já não podeis depender da
boa vontade das multidões. Portanto, doravante, aquele que
tiver bolsa, que a leve. Quando sairdes para o mundo a
proclamar este evangelho, fazei provisão para o vosso
sustento, como melhor vos parecer. Eu vim trazer a paz, mas,
por algum tempo, esta não aparecerá.
Chegou o tempo em que o Filho do Homem será glorificado
e o Pai, nEle...
A sua voz ficou de novo alquebrada.
- ... Meus amigos, vou estar convosco só mais um pouco. Em
breve me buscareis, mas não me encontrareis, pois vou para
um lugar para onde, desta vez, não podeis vir. Quando
tiverdes terminado o vosso trabalho na Terra, como eu concluí
o meu, então vireis até mim da mesma forma que eu me
preparo agora para ir até ao Pai.
Os comentários em voz baixa de vários discípulos
evidenciavam que não acabavam de entender o mestre. Mas
Jesus, como se não os tivesse ouvido, continuou:
- Dentro de muito pouco tempo vou deixar-vos... Já não me
vereis na Terra, mas ver-me-eis todos no tempo vindouro,
quando subirdes ao reino que o meu Pai me deu.
Ferida pela tristeza, a sua voz fraquejou. E os onze, ainda
que sem muita decisão, engalfinharam-se numa nova disputa,
esforçando-se por desvendar o misterioso significado
daquelas frases.
Jesus de Nazaré deixou-os falar e, ao fim de uns minutos,

erguendo-se, dirigiu-lhes úmas palavras que, tal como muitas
outras, foram depois pèssimamente transmitidas.
- Quando vos contei uma parábola mostrando como deveis
estar ansiosos por servir uns aos outros, disse-vos também
que desejava dar-vos um novo mandamento. Fá-lo-ei agora,
já que estou prestes a deixar-vos. Conheceis perfeitamente o
mandamento que ordena amar-vos uns aos outros e ao vosso
próximo como a vós mesmos...
Jesus fez uma pausa calculada.
- No entanto, não estou totalmente satisfeito, mesmo com
esta sincera devoção por parte dos meus filhos. Quero que
façais maiores actos de amor no reino da irmandade dos
crentes.
Por isso, eis aqui o meu novo mandamento: "que vos ameis
uns aos outros como eu vos amei".
A expressão "como eu vos amei" foi reforçada com uma
clara elevação do tom da voz.
- Se assim o fizerdes, os homens saberão que sois meus
discípulos.
Logo a seguir, o Nazareno referiu-se a outra coisa que
também não foi recolhida na sua totalidade. Nem mesmo por
João, que estava à sua direita.
- Com este novo mandamento não sobrecarrego as vossas
almas com um novo peso. Antes pelo contrário: trago-vos uma
nova alegria e torno possível que sintais um novo prazer, ao
conhecerdes as delícias da entrega, pelo amor, ao vosso
próximo. Eu próprio estou prestes a sentir o supremo regozijo
(mesmo suportando uma pena exterior), com a entrega do
meu afecto por vós e pelos restantes mortais.
Quando vos convido a amar-vos uns aos outros como eu vos
amei, estou a mostrar-vos a suprema medida do verdadeiro
afecto. Nenhum homem pode alcançar um amor superior a
este: o de dar a vida pelos seus amigos. Vós sois meus

amigos e continuareis a sê-lo se apenas desejardes fazer o
que vos ensinei. Chamastes-me Mestre, mas eu não vos
chamo servidores.
Se vos amardes uns aos outros como eu vos amo, então
sereis meus amigos e eu falar-vos-ei daquilo que o meu Pai
me revelou. Não fostes vós que me elegestes, mas, sim, eu. E
mandei-vos ir pelo mundo para entregar o fruto do serviço
amoroso aos vossos semelhantes, da mesma forma que eu
vivi entre vós e vos revelei o Pai.
Ambos trabalharemos convosco e sentireis a divina
plenitude da alegria se apenas obedecerdes a este novo
mandamento: "amai-vos uns aos outros como eu vos amei".
Se compartilhardes o regozijo do Mestre, deveis
compartilhar também o seu amor. E compartilhar o seu amor
significa que compartilhastes o seu serviço. Tal experiência
de amor não vos liberta das dificuldades deste mundo. Mas,
certamente, torna "novo" o velho mundo...
A seguir, Jesus de Nazaré pronunciaria umas frases que
em especial uma delas se fossem conhecidas, talvez
tivessem modificado alguns dos conceitos religiosos
incongruentes sobre o sacrifício.
- Recordai: é lealdade o que vos peço. Não sacrifício. A
consciência de sacrifício implica a ausência desse afecto
incondicional que faria desse serviço amoroso uma suprema
alegria. A ideia de dever ou obrigação significa que,
mentalmente, vos converteis em servidores, perdendo assim
a poderosa sensação de praticar o vosso serviço como
amigos e para os amigos.
A amizade transcende o significado do dever e o serviço de
um amigo a outro amigo nunca deve ser qualificado como
sacrifício. O Mestre ensinou-vos que sois filhos de Deus.
Chamou-vos irmãos e agora, antes de partir, chama-vos
amigos.

Cristo optou por abandonar o seu divã. E, enquanto
caminhava de um extremo ao outro da sala dirigiu-Lhes a
seguinte parábola:
- Eu sou a verdadeira videira, e o meu Pai é o agricultor.
Eu sou a videira e vós os ramos. O meu Pai só vos pede
que deis muito fruto. A vinha só é podada para aumentar a
fertilidade dos seus ramos. Todos os ramos que brotam de
mim e que não dão fruto, o meu Pai cortá-los-á. Em
compensação, aqueles que trouxerem frutos o Pai limpá-los-á
para que multipliquem a sua riqueza. Já estais limpos,
através das palavras que vos dirigi, mas deveis continuar
limpos. Deveis morar em mim e eu em vós. Se for separado
da videira, o ramo secará. Assim como o ramo não pode dar
fruto se não morar na videira, assim vós não podeis produzir
os frutos do amor se não morardes em mim.
Recordai: eu sou a verdadeira videira e vós os ramos vivos.
O que vive em mim, e eu nele, dará muito fruto e sentirá a
suprema alegria da colheita espiritual: Se mantiverdes esta
ligação viva e espiritual comigo, os vossos frutos serão
abundantes. Se morardes em mim e as minhas palavras em
vós, podereis comunicar livremente comigo. Então, o meu
espírito vivo entrará em vós de tal forma que podereis pedir
o que quiserdes. O Pai garantirá a vossa petição.
Assim é glorificado o Pai. Que a videira tenha muitos ramos
vivos e que cada ramo produza muito fruto. Quando o mundo
conseguir ver esses ramos vivos e carregados de fruto (isto é,
os meus amigos que se amam como eu os amei), os homens
saberão então que sois na verdade os meus discípulos. Como
o meu Pai me amou, assim eu amei. Vivei no meu amor, do
mesmo modo que eu vivo no do Pai. Se fizerdes como eu vos
ensinei, morareis em mim e, como vos prometi, no seu amor.
Os discípulos continuavam sem compreender. O mestre
guardou alguns minutos de silêncio, mas continuou a
caminhar pela sala, a ouvir como nós as opiniões

díspares dos seus homens acerca da mensagem da videira e
dos ramos. Finalmente, detendo-se em frente da porta, pediu
silêncio, insistindo mais uma vez na sua iminente partida:
- Quando vos tiver deixado, não fiqueis desalentados
perante a hostilidade do mundo. Não vos deixeis abater
quando crentes de coração fraco se voltarem até contra vós e
juntarem as suas mãos às dos inimigos do reino. Se o mundo
vos odeia, recordai que, primeiro do que a vós, me odiou a
mim. Se vós fôsseis deste mundo, então o mundo amaria o
que era seu. Mas, porque não o sois, o mundo nega-se a
amar-vos. Estais neste mundo, mas as vossas vidas não
devem ser deste mundo, Escolhi-vos no meio do mundo para
representardes o espírito de outro mundo.
Lembrai-vos sempre das minhas palavras: .o servo não é
maior do que o seu senhor. Se se atrevem a perseguir-me,
também vos hão-de perseguir a vós. Se as minhas palavras
ofendem os não crentes, também as vossas ofenderão aos
sem Deus. Far-vos-ão tudo isto porque não crêem em mim
nem Naquele que me enviou.
Por isso sofrereis muitas coisas em nome do meu
Evangelho.
Mas, quando suportardes estas tribulações, recordai que eu
também sofri antes de vós em nome deste Evangelho do
reino celestial.
Muitos dos que vos atacarem ignoram a luz do céu. Isto, em
contrapartida, não é assim para alguns que agora nos
perseguem. Se não lhes tivéssemos mostrado a Verdade
poderiam fazer coisas estranhas sem cair na condenação.
Mas agora, que já conheceram a luz e se atreveram a rejeitála,
não têm desculpa para a sua atitude. Aquele que me
odeia, odeia também o meu Pai. Não pode ser de outro
modo. Da mesma forma que a luz vos salvará, se for aceite,
assim vos condenará se, conscientemente, for respeitada.
E que fiz eu para que estes homens me odeiem com tanta

pertinácia? Nada, salvo oferecer-lhes a fraternidade na Terra
e a salvação no céu. Não lestes na Escritura: "E odiar-me-ão
sem uma causa"?
Mas não vos deixarei sós no mundo. Muito em breve,
depois de eu ter partido, vos enviarei um Espírito auxiliador.
Tereis então convosco alguém que ocupará o meu lugar.
Alguém que continuará ensinando o caminho da Verdade, e
que até vos consolará.
Não permitais que se perturbem os vossos corações. Credes
em Deus.
Continuai a crer também em mim. Apesar de ter de vos
deixar, não estarei longe de vós. Já vos disse que no
universo do meu Pai há muitos lugares onde ficar. Se não
fosse verdade, não vos teria falado repetidamente sobre
isso. Vou regressar a esses mundos de luz: paragens no céu
do Pai, às quais alguma vez ascendereis. Desses lugares vim
a este mundo e agora é chegado o momento em que devo
voltar ao trabalho do meu Pai nas esferas do alto.
Portanto, se vou antes de vós para o reino celestial do Pai,
tende a certeza de que mandarei buscar-vos para que
possais estar comigo nos lugares que foram preparados para
os filhos mortais de Deus antes de que existisse este
mundo...
- Estranhas palavras murmurou Curtiss, referindo-se aos
«mundos de luz». - Muito estranhas...
- Sobretudo para aqueles homens do ano trinta... - cortei
com toda a intenção.
- ... Apesar de ter de vos deixar continuou Jesus perante a
lógica incompreensão dos atentos discípulos continuarei
presente em espírito. Finalmente estareis comigo em pessoa
quando tiverdes subido até mim, no meu universo, assim
como eu estou prestes a ascender ao meu Pai, ao seu
universo maior(1).

E o que vos digo é eterno e verdadeiro, mesmo que agora
não o compreendais totalmente. Eu vou para o Pai e, mesmo
não podendo seguir-me agora, fá-lo-eis certamente no futuro.
Os passos do Galileu dirigiram-se para o divã. E, depois
de se reclinar, um dos apóstolos pôs-se de pé, manifestando
o seu peculiar sentido prático. Era o pragmático Tomé:
- Mestre disse-Lhe ele nós não sabemos para onde vais.
Não conhecemos o caminho. Mas, se o mostrares, esta
mesma noite Te seguiremos...
Aquelas palavras resumiam perfeitamente o desconcerto e
o amor dos onze pelo seu Rabi.
A resposta do Mestre não se fez esperar:
- Tomé, eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Nenhum
homem vai ao Pai senão por mim. Todos os que encontram o
Pai, primeiro encontram-me a mim. Se me conhecerdes,
conheceis o caminho para o Pai. E vós conheceis-me porque
tendes vivido comigo e agora me estais a ver.
Jesus ficou calado, como que mergulhando nos corações dos
seus amigos. Mas, como se verá a seguir, os seus
pensamentos eram muito profundos. Tomé sentou-se
novamente e, no meio de um significativo silêncio, apenas se
ouviu uma longínqua troca de opiniões entre dois discípulos.
Eram Filipe e Bartolomeu. O primeiro, talvez atendendo a um
pedido do segundo, levantou-se e, dirigindo-se ao Rabi,
falou assim:
- Mestre, mostra-nos o Pai e tudo quanto disseste ficará
claro.
O Nazareno retorquiu, em tom de evidente decepção:
*1. Ao reler estas frases no Diário do meu amigo o Major,
não resisto à tentação de recordar ao leitor um dos meus
últimos livros La rebelión de Lucifer no qual do meu ponto
de vista, se fornece uma apreciável informação sobre esses
"universos e esferas do Alto" a que Jesus se refere. (N. De J.

J. Benitez.)
- Filipe, há tanto tempo que estou contigo e ainda não me
conheces? De novo vos declaro: quem me viu, viu o Pai. Como
podes então dizer "mostra-nos o Pai"? Não crês que estou no
Pai e Ele em mim? Não vos ensinei que as palavras que vos
digo não são minhas, mas do Pai? Eu falo pelo Pai e não por
mim mesmo. Estou neste mundo para fazer a sua vontade e é
isso o que tenho feito. O meu Pai mora em mim e actua
através de mim.
Crede em mim quando digo que o Pai está em mim e que
eu estou nEle. Ou, então, crede pelo menos em nome da vida
que vivi e em nome das minhas obras.
Os onze, mais por boa fé do que por outra coisa,
enredaram-se numa nova discussão. E nós percebemos como
o mestre se levantava do seu assento e se dirigia ao lugar
em que se encontravam as bacias e os jarros de água.
Ouvimos então um ruído de água como se alguém estivesse
a refrescar a cara e, logo a seguir, as passadas do Rabi,
voltando para o divã. A polémica foi crescendo e, por entre
aquele labirinto de vozes, impôs-se de novo o vozeirão de
Simão Pedro. Ao que parecia, estava disposto a lançar-se à
aventura de um longo discurso. As suas palavras foram
cortadas de um golpe pelo Galileu.
- Quando eu tiver ido para o Pai interveio de novo Jesus
e depois de Ele aceitar o trabalho que para vós fiz na Terra
e eu receber a soberania final do meu próprio domínio, então
direi ao meu Pai: - "Tendo deixado os meus filhos sozinhos
sobre a Terra, envio-lhes, de acordo com a minha promessa,
outro Mestre."
E quando o Pai o aprovar, eu derramarei o Espírito da
Verdade sobre toda a carne. O Espírito do meu Pai já está
nos vossos corações, e, quando chegar esse dia, também me
tereis a mim convosco, do mesmo modo que agora tendes o
Pai. Este novo dom é o Espírito vivo da Verdade. Os que não

acreditarem não ouvirão os seus ensinamentos, mas os filhos
da luz recebê-lo-ão com agrado e com todo o seu coração. E
conhecereis este Espírito quando ele vier, da mesma forma
que conhecestes a mim. E recebereis este dom nos vossos
corações e Ele morará em vós. Percebeis, portanto, que não
vos vou deixar sem ajuda e sem guia? Não vos deixarei na
desolação. Hoje só posso estar convosco em pessoa. Nos
tempos vindouros estarei convosco e com todos os homens
que desejarem a minha presença, onde quer que estejais e
com cada um ao mesmo tempo.
Não vedes que é melhor para mim que me vá embora e vos
deixe na carne para poder estar convosco em espírito? Dentro
de umas poucas horas, o mundo não me verá mais. Mas
continuareis a conhecer-me nos vossos corações até eu vos
enviar o novo mestre: o Espírito da Verdade. Do mesmo modo
que vivi convosco em pessoa, assim viverei então em vós
serei uno com as vossas experiências pessoais no reino do
espírito.
E, quando for chegado o momento de isto acontecer,
sabereis com toda a certeza que eu estou no Pai e que,
enquanto a vossa vida estiver oculta com o Pai em mim, eu
também estarei convosco. Eu amei o Pai e mantive a sua
palavra. Tendes-me amado e mantereis a minha palavra. Do
mesmo modo que o meu Pai me deu o seu Espírito, assim eu
vos darei o meu. E este Espírito da Verdade que eu vos
outorgarei guiar-vos-á e confortará e, por fim, conduzir-vos-á
a toda a Verdade.
Digo-vos estas coisas para que vos possais preparar melhor
e suportar as provas que a partir de agora surgirão diante de
vós. Quando chegar esse novo dia, sereis habitados pelo
Filho e pelo Pai. E estes dons do céu trabalharão sempre um
com o outro, do mesmo modo que o Pai e eu construímos
sobre a Terra, e diante dos vossos olhos, o Filho do Homem
como uma só pessoa. Este Espírito amigo trará à vossa
memória tudo o que eu vos ensinei.

Aquelas, sem dúvida, difíceis palavras acabaram por
confundir o já perturbado espírito dos discípulos. Ninguém
ripostou. Quem poderia associar a profundidade daquela
mensagem com as ideias tão enraizadas de um messias
político e libertador do jugo romano? Necessitariam de tempo
e da vinda desse Espírito da Verdade para começarem a
vislumbrar a grandeza do que Jesus acabava de lhes
anunciar. Mas não adiantemos os acontecimentos...
O facto é que, no meio de tanto silêncio e confusão, um
dos apóstolos mais tímidos o gémeo Judas de Alfeu
atreveu-se a levantar-se e a perguntar:
- Mestre... sempre viveste entre nós como um amigo. Como
te conheceremos quando já não te manifestares a nós senão
através desse espírito? Se o mundo não te vir, como
estaremos nós certos de ti? Como te mostrarás a nós?
- Meus queridos filhos a voz de Cristo era sumamente
cordial eu vou partir. Volto ao Pai. Dentro de pouco já não
me vereis como agora, como carne e sangue. E em breve vos
enviarei o meu Espírito, que é igual a mim, excepto por este
corpo material. Este novo Mestre é o Espírito da Verdade,
que viverá com cada um de vós, nos vossos corações.
Portanto, todos os filhos da luz serão um. Desta forma,
tanto o meu Pai como eu poderemos viver nas almas de cada
um de vós e também nos corações dos outros homens que
nos amam e que tornam esse amor uma realidade, amandovos
uns aos outros como eu vos amo agora.
Durante alguns minutos, Pedro, os irmãos Zebedeu e
Mateus dirigiram-se ao Mestre, fazendo-lhe perguntas sobre
esse misterioso Espírito da Verdade e sobre a sua não menos
incompreensível partida. Jesus de Nazaré passaria a
responder a todas as perguntas naquilo que, com toda a
evidência, era o seu discurso de despedida.
- Digo-vos isto repetiu pela enésima vez para poderdes
estar preparados face ao que vos espera e para não cairdes

no erro. As autoridades não se contentarão em expulsar-vos
das sinagogas. Aviso-vos: aproxima-se a hora em que
aqueles que vos matarem o farão acreditando que estão a
prestar um serviço a Deus.
Far-vos-ão tudo isso porque não conhecem o Pai. E
recusaram conhecê-Lo porque recusaram receber-me. E eles
recusam receber-me porque vos rejeitam. Digo-vos estas
coisas antecipadamente para que, quando chegar a vossa
hora, como agora é chegada a minha, possais reconfortar-vos
ao recordar que tudo era por mim conhecido e que o meu
espírito estará convosco em todos os vossos sofrimentos.
Tem sido com este fim que eu tenho estado a falar tão
claramente desde o princípio.
Até vos avisei de que os inimigos de um homem podem ser
os da sua própria casa. Embora este evangelho do reino
nunca deixe de trazer grande paz à alma do crente, ele não
trará a paz à Terra até que o homem esteja ansioso por
acreditar nos meus ensinamentos com todo o seu coração,
estabelecendo a prática de fazer a vontade do Pai como o
propósito principal de toda a vida mortal.
E agora que vos deixo, vendo que é chegada a hora em
que estou prestes a ir para o Pai, estou surpreendido por
nenhum de vós me ter perguntado: "Porque nos deixas?" De
qualquer forma, sei que fazeis estas perguntas nos vossos
corações.
Falar-vos-ei com clareza. Como um amigo a outro...
O silêncio tornou-se mais denso. Sinal inequívoco da
expectativa despertada pelo Mestre.
- ... É na verdade proveitoso para vós que eu parta. Se não
me fosse embora, o novo Mestre não poderia vir aos vossos
corações. Devo ser despojado deste corpo mortal e restituído
ao meu lugar, lá no alto, antes de poder enviar esse espírito
esclarecedor. E quando o meu Espírito vier morar em vós, ele
fará luz sobre a diferença entre o pecado e a rectidão e

tornar-vos-á capazes de julgar com sabedoria.
O cansaço devia estar a fazer estragos entre os seus
homens, porque, de repente, Jesus aludiu a ele:
- Ainda tenho muito para vos dizer, embora já veja que não
vos tendes em pé. Quando o Espírito vier, ele conduzir-vos-á
finalmente a toda a Verdade, fazendo-vos passar por muitas
moradas do universo do meu Pai. Este Espírito não falará de
si próprio. Mostrar-vos-á o que o Pai revelou ao Filho e, até,
as coisas que hão-de vir. Ele glorificar-me-á, assim como eu o
fiz com o Pai. Ele vem depois de mim e revelar-vos-á a minha
verdade. Tudo o que o Pai tem neste domínio é agora meu.
Portanto, este novo Mestre tomará do que é meu e vo-lo
manifestará.
Vou deixar-vos dentro de muito em breve, ainda que por
pouco tempo. Depois, quando voltardes a ver-me, eu já irei a
caminho do meu Pai. Então, não me vereis por muito tempo.
Como era de esperar, os apóstolos estavam de novo
profundamente confundidos. E, aproveitando o silêncio do
Mestre, começaram a perguntar-se uns aos outros:
- O que é isso que ele nos disse?... "Em breve vos vou
deixar e, quando me virdes, será por pouco tempo, pois irei a
caminho do Pai?" O que pode querer dizer com esse "dentro
de muito pouco" e com "ainda que por pouco tempo"?... Não
conseguimos compreender o que ele nos está a dizer...
As respostas a estas perguntas óbvias facilmente
compreensíveis para os que sabem da ressurreição do Filho
do Homem não tardariam a ser respondidas. Mas os
fatigados discípulos precisariam de semanas para as
assimilar na sua totalidade.
- Vós perguntais uns aos outros o que é que eu quis dizer
quando afirmei que dentro de muito pouco tempo já não
estaria convosco e que, quando me vísseis outra vez, iria a
caminho do meu Pai? Falei-vos claramente insistiu Jesus. - O

Filho do Homem deve morrer, mas voltará a levantar-se. Será
que não conseguis discernir o significado das minhas
palavras?
Primeiro ficareis tristes. Mais tarde, quando estas coisas
tiverem acontecido, regozijar-vos-eis com todos aqueles que
compreenderem. A mulher fica verdadeiramente aflita na hora
do parto. Mas quando deu à luz um filho, esquece
imediatamente a sua angústia perante a alegria de saber
que trouxe ao mundo um homem. E assim estais vós: quase
aflitos por causa da minha partida. Mas em breve voltarei a
ver-vos e, nessa altura, a vossa tristeza converter-se-á em
regozijo. E recebereis uma nova revelação sobre a salvação
de Deus. Uma revelação que nenhum homem vos poderá
arrebatar. E todos os mundos serão abençoados nesta
mesma revelação de vida, ao levar a cabo a derrota da
morte. Até agora fizestes todas as vossas petições em nome
do meu Pai. Depois de voltardes a ver-me, também podereis
pedir em meu nome, e eu ouvir-vos-ei.
Aqui em baixo ensinei-vos em provérbios e falei-vos em
parábolas. Fi-lo assim porque sois apenas crianças no
espírito. Mas é chegado o tempo em que vos falarei
claramente a respeito do Pai e do seu reino. E fá-lo-ei porque
o próprio Pai vos ama e deseja ser plenamente revelado a
vós. O homem mortal não pode ver o Pai, que é espírito. Por
isso vim ao mundo: para vo-Lo mostrar. Quando o crescimento
do espírito vos aperfeiçoar, então vereis o próprio Pai.
Para nosso assombro, alguns discípulos replicaram com
frases como estas:
- Olhai, realmente fala-nos com clareza. Certamente, o
Mestre veio de Deus. Mas, porque diz que tem de voltar para
junto do Pai?
Apesar dos seus reiterados esforços, saltava à vista que
não o compreendiam. Aqueles rudes galileus estavam muito
longe de captar o glorioso sentido de esperança das suas

palavras. Mas, curiosamente e convido os cristãos a
comprovarem-no por si próprios nenhum dos evangelistas
reconhece esta limitação humana dos seus cérebros naqueles
momentos dramáticos...
Acabado o que poderíamos qualificar de discurso de
despedida, o Nazareno afastou-se do seu divã. Alguns
apóstolos imitaram-no e, durante quinze ou vinte minutos,
conversaram amistosamente, rememorando algumas
experiências da sua vida em comum. Depois, todos voltaram
para os seus respectivos lugares.
- Jesus prepara-se para dar os últimos conselhos avisei
ao não menos fatigado general.
Mas Curtiss fez-me um gesto tranquilizador. Estava disposto
a ouvir até ao fim.
Quando os onze voltaram a reclinar-se nos seus divãs, o
Mestre, de pé, falou-lhes assim:
- Enquanto permanecer convosco, sob a forma de carne, não
posso ser mais do que um indivíduo no meio do mundo. Mas,
quando tiver sido libertado desta investidura de natureza
mortal, poderei voltar como espírito e morar em cada um de
vós e nos outros que crêem neste evangelho do reino. Assim,
o Filho do Homem tornar-se-á uma encarnação espiritual nas
almas de todos os verdadeiros crentes.
Quando tiver voltado a vós em espírito, poderei guiar-vos
melhor através desta vida e das muitas moradas da vida
futura, no céu dos céus. A vida na eterna criação do Pai não é
um descanso, uma ociosidade sem fim. ...
Ainda não sei porque o fiz. O facto é que interrompi a
gravação, rebobinando parte da fita. Curtiss e Eliseu olharam
para mim surpreendidos. Mas nada perguntaram.
- ... através desta vida voltou a ouvir-se a voz de Jesus
- e das muitas moradas da vida futura, no céu dos céus. A

vida na eterna criação do Pai não é um descanso, uma
ociosidade sem fim ou uma comodidade egoísta, mas uma
incessante progressão em graça, verdade e glória. Cada uma
das muitas moradas da casa do meu Pai é um lugar de
passagem por uma vida projectada para que vos sirva ãe
preparação para a seguinte. E assim, os filhos da luz
seguirão de glória em glória até alcançarem o estado divino
(no qual serão espiritualmente perfeitos), da mesma forma
que o Pai é perfeito em todas as coisas.
- Meu Deus! - explodi sem poder conter-me. - Ouviram o
mesmo que eu? É a promessa mais clara e categórica, não de
uma, mas de muitas vidas em contínua e progressíva
perfeição!... Mas o que poderão ser essas moradas?
- Aí está outra razão maravilhosa para voltar reforçou o
meu companheiro, cravando o seu olhar em Curtiss.
O general assentiu em silêncio.
Logo a seguir, o Mestre faria uma recomendação subtil.
Uma insinuação que, quando analisada pormenorizadamente,
põe em causa o esforço constante de muitos cristãos por
imitar em tudo o Filho do Homem.
- Se me seguirdes quando eu vos deixar, dedicai os vossos
mais ardentes esforços a viver de acordo com o espírito dos
meus ensinamentos e com o ideal da minha vida: fazer a
vontade do meu Pai. Fazei isto em vez de tentar imitar a
minha vida natural na carne...
O Pai enviou-me a este mundo, mas só uns poucos
escolheram receber-me plenamente. Eu derramarei o meu
espírito sobre toda a carne, mas nem todos os homens
optarão por receber este novo Mestre como guia e consolo
da sua alma. No entanto, os que o receberem serão
iluminados, limpos e reconfortados. E este Espírito da
Verdade transformar-se-á neles num poço de água viva,
jorrando a vida eterna.
E agora, já que vou deixar-vos dentro em pouco, quero

transmitir-vos palavras de consolo. Deixo-vos a paz. Dou-vos
a minha paz. E dou-vos estes dons, não como os dá o mundo,
por medida.
Dou a cada um de vós tudo o que fordes capazes de
receber. Não permitais que o vosso coração se turbe, ou se
mostre assustado. Eu venci o mundo e, em mim, todos
triunfareis pela fé. Já vos avisei que o Filho do Homem será
morto, mas asseguro-vos que voltarei antes de ir ao Pai,
mesmo que seja só por um pouco: E depois de ter ido ao Pai,
com certeza enviarei o novo Mestre para que habite nos
vossos próprios corações. E quando virdes que está a chegar
o momento em que tudo isto acontecerá, não fiqueis tristes:
Crede. Tanto mais que já o sabíeis antecipadamente. Ameivos
com grande afecto e não vos deixaria, mas é a vontade
do Pai. A minha hora chegou.
Não duvideis destas verdades, mesmo que estejais
dispersos pelo estrangeiro por causa das perseguições ou
abatidos por muitas penas. Quando vos sentirdes sós no
mundo, eu saberei da vossa solidão, da mesma forma que
vós sabereis da minha quando deixardes o Filho do Homem
nas mãos dos seus inimigos. A diferença é que eu nunca
estou só. O Pai está sempre comigo.
Até nesses momentos pedirei por vós. Disse-vos estas
coisas para que possais ter paz e a tenhais em abundância.
Neste mundo tereis aflições, mas conservai o bom humor. Eu
triunfei sobre o mundo e mostrei-vos o caminho para a
alegria eterna e para o serviço eterno.
Não deixeis que se turbe o vosso coração... nem deixeis
que ele tenha medo.
Aquelas belas palavras quase que puseram o ponto final na
chamada última ceia. Restava apenas um derradeiro e
emocionante capítulo: o das despedidas pessoais...
Um... dois passos. O Mestre foi colocar-se diante do divã
ocupado por João Zebedeu. Este levantou-se imediatamente.

E o Galileu, num tom cálido e íntimo, dirigiu-lhe as seguintes
palavras de despedida:
- Tu, João, és o mais novo dos meus irmãos. Estiveste muito
perto de mim e, embora vos ame a todos com o mesmo
afecto que um pai tem pelos seus filhos, foste designado por
André como um dos três que deviam estar sempre perto de
mim...
Curtiss pediu que parasse a fita.
- Que significa isto? - perguntou-me, dando por certo que
eu conhecia a resposta. - De que designação está a falar? É
claro que eu também não tinha uma explicação. A enigmática
escolha de André, o chefe dos apóstolos, devia ter sido um
facto ocorrido muito antes da nossa primeira exploração.
Certamente como tivera a oportunidade de comprovar na
oração do horto de Getsémani -, Jesus de Nazaré parecia
mais próximo de três dos seus homens que dos restantes.
Noutras muitas passagens dos textos evangélicos
passagens sempre de uma especialíssima transcendência -,
João, o seu irmão Tiago e Simão Pedro encontravam-se
sempre muito perto da figura do Rabi. Todos os exegetas e
comentadores bíblicos atribuíram este facto a uma
predilecção concreta do Mestre por estes homens.
Por não existir nos Evangelhos e outros textos sagrados
uma única referência a esta designação específica de André,
era lógico supor que a presença contínua dos eleitos junto do
Nazareno tivesse uma origem puramente emotiva.
No entanto, quando se conhece e estuda profundamente a
vida e o comportamento do Filho do Homem, torna-se difícil
aceitar que Cristo fizesse distinções pessoais, provocando
assim hipotéticas e nada aconseLháveis situações de inveja
ou ciúme entre os que o rodeavam diariamente. Embora
naquele momento ignorasse tudo sobre aquela designação, a
suspeita segundo a qual esta teria sido uma coisa,
precisamente, dos apóstolos, e não do Mestre, começou a

ganhar terreno no meu coração. E se a escolha daqueles três
galileus obedecesse a uma ânsia pura e simples de proteger
a pessoa do Mestre?
Isto, pelo menos em teoria, podia encaixar na forma de agir
de Cristo e, sobretudo, na aceitação geral e pacífica dos
mencionados guarda-costas por parte do grupo. Da mesma
forma que Filipe e Judas Iscariotes tinham sido nomeados,
respectivamente, mtendente e administrador dos fundos
comuns, os irmãos Zebedeu e Pedro podiam ter assumido
também a responsabilidade da segurança do guia.
Com excepção do Iscariotes, os restantes discípulos nunca
se tinham mostrado em desacordo com esta permanente
escolta, em torno de Jesus. Sintoma inequívoco de que
tinham participado naquela designação ou, no mínimo, de
que estavam de acordo com a decisão de André. Talvez
agora, com o passar dos séculos, quando as figuras dos
apóstolos adquiriram uma natural auréola de santidade e
elevação espiritual, se torne difícil imaginar estes homens
empenhados na tarefa de designar todo um serviço de
protecção.
Mas, em prol da verdade, não devemos esquecer que,
durante grande parte das suas vidas, as reacções e os
pensamentos deles não foram tão santos como hoje nos
inclinamos a crer.
Uma boa prova do que digo é, por exemplo, o facto de irem
armados...
Naturalmente, tanto Eliseu como eu prometemos ao general
que aquele seria outro dos mistérios a desvendar no nosso já
iminente salto no tempo. O que não podíamos imaginar,
então, eram as circunstâncias em que chegaríamos a obter
essa informação. Mas continuemos com o «adeus» de Jesus
de Nazaré ao jovem João:
- ... Além disso, actuaste por mim próprio e deves continuar
assim, a trabalhar em prol dos assuntos relacionados com a

minha família na Terra. Eu vou para o Pai, João, confiando
plenamente em que continuarás velando por aqueles que são
meus na carne. Tenta que a sua presente confusão sobre a
minha missão de nenhuma maneira te impeça de dar-lhes
toda a simpatia, o conselho e a ajuda que, sabes bem, eu
lhes daria se tivesse de permanecer na carne.
E agora, enquanto entro nas horas finais da minha carreira
na Terra, mantém-te próximo, à mão, para eu poder deixar
alguma mensagem à minha família.
Desta vez fui eu que interrompi a gravação. Desejava que o
chefe do projecto captasse a especial importância daquela
última frase do Rabi.
.. mantém-te próximo, à mão, para eu poder deixar alguma
mensagem à minha família.
Isto explicava perfeitamente o acompanhamento quase
permanente de João Zebedeu durante as horas da prisão,
dos interrogatórios e da crucificação e morte do Galileu.
Como já comentei noutro lugar deste diário, o jovem e audáz
discípulo juntar-se-ia ao pelotão que prendeu o Mestre nos
arredores da quinta de Getsémani, não se separando nunca
mais dele, exceptuando os trágicos momentos do
espancamento durante um dos intervalos do simulacro de
julgamento por Caifás, no interior da Fortaleza Antónia, da
não menos dramática flagelação e ao longo do caminho para
o Gólgota(1).
Embora ainda venha a ter tempo de o comentar, nunca
consegui entender porque é que João, ou os outros
evangelistas, nunca se referem a estas despedidas nos seus
respectivos escritos.
No primeiro caso, a constatação da ordem do Galileu
pedindo a João que não se afastasse do seu lado, - teria
poupado múltiplas e peregrinas explicações exegéticas sobre
as razões do Zebedeu para permanecer ao lado do Mestre.
Como vemos, as coisas quase sempre são mais simples do

que julgamos.
- ... No que diz respeito à minha obra, posta nas minhas
mãos pelo Pai prosseguiu Jesus ela está concluída, com
excepção da minha morte na carne. E estou preparado para
beber esta última taça, Quanto ás responsabilidades
deixadas por José, o meu pai na Terra, assim como eu as
atendi durante a minha vida, agora dependo de ti para que
actues no meu lugar, resolvendo estes assuntos. E escolhi-te
para fazeres isto por mim, João, porque és o mais novo e,
portanto, é provável que sobrevivas aos outros apóstolos.
*1. Veja-se o primeiro volume desta obra. (N. De J. J.
Benitez.)
Esta insólita revelação de Jesus de Nazaré também
omitida pelos evangelistas vinha corroborar as minhas
suspeitas sobre o anteriormente exposto. A designação de
João como guardião dos seus assuntos familiares incluindo
o cuidado de Maria, sua mãe não obedecia a razões
sentimentais ou de especial simpatia pelo Zebedeu. Antes
pelo contrário. A julgar por estas palavras do Nazareno, eram
motivos muito pragmáticos: Jesus sabia ou intuíaH que, ao
ser João o mais novo, a sua permanência no mundo dos vivos
devia ser mais prolongada. E não se enganaria. João, o
Evangelista, deve ter falecido na década de noventa da
nossa Era. Talvez perto do ano cem.
- Uma vez chamei-te a ti e ao teu irmão "filhos do trovão".
Começaste connosco com uma mente rude e intolerante.
Mas mudaste muito desde que me pediste que fizesse cair
fogo do céu contra os ignorantes e irreflectidos não crentes.
E ainda deves mudar mais. Tens de chegar a ser o apóstolo
do novo mandamento que vos dei esta noite. Dedica a tua
vida a ensinar os teus irmãos a amarem-se uns aos outros
como eu os amei.
Quando Jesus terminou, um imparável coro de lamentações

quebrou o silêncio dos ali reunidos. João chorava. E, com a
voz entrecortada, respondeu:
- E assim o farei, Mestre. Mas como posso aprender a amar
os meus irmãos?
- Aprenderás a amar mais os teus irmãos retorquiu
solicitamente Jesus quando aprenderes a amar primeiro o
seu Pai do céu e quando chegares a estar verdadeiramente
interessado no bem-estar de todos eles... no tempo e na
eternidade. E todo este interesse humano ver-se-á favorecido
com o serviço generoso, com a compreensão, com a simpatia
e com o perdão ilimitado. Nenhum homem desprezará a tua
juventude.
Mas exorto-te a concederes sempre a devida consideração
ao facto de a velhice representar, normalmente, experiência.
E nada, nos assuntos do homem, pode substituir a autêntica
experiência. Esforça-te por viver bem com todos os homens.
Em especial, com os teus amigos na irmandade do reino
celestial.
E lembra-te sempre, João: não lutes contra as almas que
puderes ganhar para o reino.
Sem poder conter o pranto, João sentou-se. Os passos do
Galileu contornaram então o seu próprio divã, em direcção ao
outro braço do U. Mas ao chegar diante do assento que Judas
ocupara, deteve-se. E permaneceu ali, imóvel e em silêncio,
durante vinte ou trinta segundos. Não houve comentário ou
sinal que nos permitisse reconstituir o semblante ou a
atitude de Jesus diante do divã vazio do traidor. (Mais
adiante, ao regressar à Palestina do ano 30, André definirme-
á aquele momento crítico como de uma tristeza para o
Mestre.
O único pensamento que então perpassou pela mente dos
onze foi a inusitada demora do Iscariotes. Tinham acontecido
tantas coisas desde que Judas desaparecera da nossa vista
acrescentaria o chefe dos apóstolosque chegámos até a

esquecer-nos dele.) No fim desse breve período de reflexão,
Jesus de Nazaré avançou mais um pouco, detendo-se em
frente do aguerrido Simão, o Zelota. Uma vez de pé, o
provável membro ou simpatizante do grupo guerrilheiro ouviu
as seguintes palavras:
- Tu és um verdadeiro filho de Abraão. Mas durante quanto
tempo tentei transformar-te num filho do reino celestial!...
Amo-te, e também a todos os teus irmãos. Sei que me
amas, Simão, e que amas também o reino, mas continuas a
tentar que este reino seja de acordo com o teu gosto. Sei
muito bem que, finalmente, compreenderás a natureza
espiritual e o significado do meu Evangelho e que realizarás
um grande trabalho para a sua proclamação. Mas estou
preocupado pelo que te possa acontecer quando eu partir.
Alegrar-me-ia saber que não duvidarás. Seria feliz se pudesse
saber que, depois de eu partir para o Pai, não deixarás de
ser meu apóstolo e que te comportarás aceitavelmente como
embaixador do reino celestial.
O ardente patriota não hesitou na sua resposta:
- Mestre, não temas pela minha lealdade. Virei as costas a
tudo para poder dedicar a minha vida à implantação do teu
reino na Terra e não falharei. Até agora sobrevivi a todas as
decepções e não te abandonarei.
Estas frases do Zelota eram de suma importância para
entender melhor o grau de frustração de alguns dos
seguidores do Galileu, convencidos até ao último momento
do papel político e terreno de Jesus. Mas ainda há-de haver
tempo para aprofundar este espinhoso assunto, tão
escassamente tratado pelos evangelistas...
Ao ouvir tão veemente afirmação, o Mestre retorquiu com
alguma crueza.
- É realmente reconfortante ouvir-te falar assim num
momento como este. Mas, meu bom amigo, ainda não sabes
do que estás a falar. Nem por ùm momento eu duvidaria da

tua lealdade ou devoção. Sei que não vacilarias em seguir
em frente na luta e em morrer por mim, como também estes...
Um murmúrio geral de aprovação interrompeu as palavras
de Cristo.
- ... Mas não se exigirá isso de vós. Disse-vos
repetidamente que o meu reino não é deste mundo e que os
meus discípulos não terão de lutar para levar a cabo a sua
implantação. Disse-vos isso muitas vezes, Simão, mas não
quereis encarar a verdade. Não estou preocupado com a
vossa lealdade.para comigo ou para com o reino. Mas o que
fareis quando eu partir e por fim vos aperceberdes de que
não compreendestes o significado dos meus ensinamentos e
que tereis de ajustar os vossos conceitos erróneos a uma
outra realidade?
Simão tentou falar. Mas Jesus continuou:
- Nenhum dos meus apóstolos é mais sincero e honesto de
coração do que tu, mas nenhum estará tão abatido e
perturbado como depois de eu ter partido. No teu desalento,
o meu espírito morará em ti e estes teus irmãos não te
abandonarão.
Não esqueças o que te ensinei sobre a relação entre os
cidadãos do mundo e a "cidadania" dos outros filhos: os do
reino do meu Pai. Medita bem sobre tudo o que te disse
sobre aquilo de dar a César o que é de César, a Deus o que é
de Deus e a mim o que é meu.
Dedica a tua vida, Simão, a mostrar quão aceitavelmente
pode o homem mortal cumprir o meu preceito referente ao
reconhecimento simultâneo do dever temporal para com os
poderes civis e o serviço espiritual na irmandade do reino. Se
fores ensinado pelo Espírito da Verdade" nunca haverá
conflito entre as obrigações que a cidadania da Terra impõe
e as de ser filhos do céu... a não ser que os dirigentes
temporais pretendam de vós a homenagem e a adoração que
só a Deus pertencem.

E agora, Simão, quando vires finalmente tudo isto, e
tiveres sacudido de ti a depressão e caminhares em frente,
proclamando com grande poder este evangelho, nunca
esqueças que eu estava contigo, até durante todo otempo
de desalento e que continuarei contigo mesmo até ao fim.
Sempre serás meu apóstolo e, quando chegares a ver com
os olhos do espírito e submeteres plenamente a tua vontade
à do Pai do céu, então voltarás a trabalhar como meu
embaixador. Apesar da tua lentidão para compreender as
verdades que te ensinei, ninguém te tirará a autoridade que
te dei. Assim, Simão, aviso-te uma vez mais: os que lutam
com a espada, com a espada morrem.
No entanto, os que trabalham no espírito conseguem a vida
eterna no reino e a paz e a alegria na Terra.. Quando a
missão que te foi encomendada tiver sido concluída no
mundo, tu, Simão, sentar-te-ás comigo no meu reino. E verás
realmente o reino pelo qual suspiraste. Mas não será nesta
vida. Continua a crer em mim e no que te revelei e receberás
a recompensa da vida eterna.
A seguir, o Mestre colocou-se diante de Mateus Levi.
- Já não te competirá cuidar da caixa do grupo apostólico.
Em breve, muito em breve todos vos dispersareis. Não vos
será permitido desfrutar sequer do reconfortante e contínuo
apoio de um só dos vossos irmãos.
Quando fordes pregar este evangelho do reino, tereis de
procurar novos companheiros. Enviei-vos dois a dois durante
o tempo de preparação, mas agora que vos deixo, depois de
terdes recuperado do choque, ireis sozinhos e até aos confins
da Terra, proclamando esta boa nova: os mortais vivificados
na fé são os filhos de Deus.
Mateus, por sua vez, com a sua habitual calma e sentido
prático, perguntou:
- Mas, Mestre, quem nos enviará e como saberemos para

onde ir? Ensinar-nos-á André o caminho?
- Não, Levi respondeu Jesus, confirmando assim o que eu
já sabia e que deixei bem claro em relatos anteriores: a
chefia do irmão de Simão Pedro -, André já não vos dirigirá
na proclamação do evangelho. Na verdade, continuará como
vosso amigo e conselheiro até ao dia em que chegar o novo
Mestre.
Então, o Espírito da Verdade guiar-vos-á até ao estrangeiro
para trabalhardes pela ampliação do reino. Muitas mudanças
se operaram em vós desde aquele dia, na casa aduaneira,
quando, pela primeira vez, começastes a seguir-me.
Mas muitas mais virão antes de poderdes contemplar a
visão de uma irmandade em que gentios e judeus se sintam
em associação fraternal. Mas continuai em frente na vossa
pressa por conquistar os vossos irmãos judeus. Quando
estiverdes totalmente satisfeitos, voltai então com força para
os gentios. De uma coisa podes ter a certeza Levi: ganhaste
a confiança e o afecto dos teus irmãos. Todos gostam de ti.
Um novo e colectivo murmúrio de aprovação sublinhou as
últimas palavras de Jesus.
- Levi, sei das tuas ansiedades, dos teus sacrifícios e
trabalhos para manter cheia a caixa. Os teus irmãos não o
souberam. E sinto-me contente, apesar de estar ausente o
que leva a bolsa, de estar aqui o embaixador do taverneiro,
na minha reunião de despedida, com os mensageiros do
reino.
Oro para que possas discernir o significado dos meus
ensinamentos com os olhos do espírito. E quando o novo
Mestre chegar ao teu coração, segue em frente. Ele te guiará.
E mostra aos teus irmãos e a todo o mundo o que o Pai pode
fazer com um odiado cobrador de impostos que se atreveu a
seguir o Filho do Homem e a crer no evangelho do reino.
Amei-te logo desde o princípio, Levi, como amei estes outros
galileus.

Sabendo então muito bem que nem o Pai nem o Filho têm
em conta as pessoas, procura não fazer essas distinções
entre os que vierem a ser crentes no Evangelho através do
teu ministério. E assim, Mateus, dedica toda a tua vida de
serviço futuro a mostrar aos homens que Deus não tem em
conta a posição das pessoas. Que, à vista do Pai e na
irmandade do reino, todos os humanos são iguais, todos são
filhos de Deus., Tiago Zebedeu, o irmão de João, aguardava
em pé o Mestre. Este encaminhou-se para ele, dizendo-lhe:
- Tiago, quando tu e o teu irmão mais novo viestes uma vez
ter comigo, pedindo preferências nas honras do céu e eu vos
respondi que essas honras eram outorgadas pelo Pai,
perguntei-vos se seríeis capazes de beber do meu cálice. Os
dois respondestes que sim. Se bem que nem naquela altura
nem agora estejais preparados para isso, em breve estareis
dispostos para tal serviço, devido à experiência que estais a
ponto de atravessar.
Por aquele comportamento zangaste-te com os teus irmãos.
Se ainda não te perdoaram totalmente, fá-lo-ão quando
virem que bebes do meu cálice. Seja o teu ministério longo
ou curto, conserva a tua alma em paz. Quando vier o novo
Mestre, deixa que ele te ensine o equilíbrio da compaixão e
essa amável tolerância que nasce da sublime confiança em
mim e na perfeita submissão à vontade do Pai.
Dedica a tua vida a demonstrar afecto humano e
dignidade divina combinados. E todos os que viverem assim
revelarão o evangelho, até na forma da sua morte. Tu e o teu
irmão João ireis por caminhos diferentes e um de vós talvez
se sente comigo no reino eterno muito antes que o outro....
Subtilmente, Jesus de Nazaré estava a anunciar a Tiago que
a sua morte ocorreria muito antes que a do seu irmão.
- Ajudar-vos-ia muito saber que a verdadeira sabedoria
compreende discrição e coragem ao mesmo tempo.
Aprendereis a sagacidade, para acompanhar a vossa

agressividade. Virão momentos supremos em que os meus
discípulos não hesitarão em dar as suas vidas por este
evangelho. Mas, nas outras circunstâncias, nas ordinárias,
será melhor acalmar a ira dos não crentes para poderdes
viver e continuar a pregar a boa nova.
Enquanto tiverdes forças, .vivei durante muito tempo para
que o vosso trabalho seja frutífero em almas ganhas para o
reino celestial.
Terminadas as suas palavras de despedida a Tiago, Jesus
foi até ao fimda mesa. Ali encontrava-se André, o seu fiel
ajudante. As suas frases relacionadas com a chefia do
apóstolo não deixaram lugar a dúvidas:
- André, representaste-me com fidelidade como cabeça dos
embaixadores do reino celestial. Apesar de teres duvidado
muitas vezes e noutras ocasiões teres manifestado uma clara
e perigosa timidez, mesmo assim foste sempre sinceramente
justo nas tuas relações com os teus companheiros. Desde a
tua nomeação, e a dos teus irmãos, como mensageiros do
reino, soubeste governar-te a ti mesmo nos assuntos
administrativos do grupo. Em nenhum outro assunto temporal
tive de agir para dirigir ou influenciar as tuas decisões.
Só o fiz para te ensinar, tendo em vista as tuas
deliberações nos grupos futuros. No meu universo e no
universo dos universos do meu Pai, os nossos filhos-irmãos
são tratados como indivíduos em todas as suas relações
espirituais. Mas nas de grupo procuramos que exista uma
direcção. O nosso reino é um reino de ordem e, onde duas ou
mais criaturas actuem em cooperação, sempre existe essa
autoridade.
E agora, André, dado que és o chefe dos teus irmãos pela
autoridade da minha nomeação, e dado que assim tens
servido, como meu representante pessoal, já que estou
prestes a partir e a ir para o meu Pai, liberto-te de toda a
responsabilidade no que diz respeito aos assuntos temporais

e administrativos.
De agora em diante podes não exercer jurisdição sobre os
teus irmãos, excepto a que tiveres ganho pela tua
capacidade como guia espiritual e que eles reconheçam
livremente. A partir deste momento podes não exercer
nenhuma autoridade sobre os teus irmãos, a não ser que eles
a restaurem. Mas esta libertação como cabeça administrativa
do grupo de forma alguma diminui a tua responsabilidade
moral para fazeres tudo o que estiver nas tuas mãos com
respeito à manutenção da união de todos no período de
prova que se avizinha. Daqui em diante apenas exercerei
autoridade espiritual sobre e entre vós.
Se os teus irmãos desejarem manter-te como conselheiro,
digo-te que deves fazer tudo o que puderes para promover a
paz e a harmonia (tanto nos assuntos temporais como
espirituais) entre os grupos de sinceros crentes no
evangelho. Dedica o resto da tua vida a incentivar os
aspectos práticos do amor fraterno. Sê amável com os meus
irmãos na carne. Manifesta uma devoção amorosa e imparcial
aos gregos, do oeste, e a Abner, do leste. Embora estes, os
meus apóstolos, venham a ser dispersos dentro de muito
pouco pelos quatro cantos da Terra para proclamarem a boa
nova da salvação, deves mantê-los unidos durante o tempo
de prova que se avizinha.
Nessa altura tereis de aprender a crer neste Evangelho sem
a minha presença pessoal. E assim, André, apesar de não
recaírem em ti os grandes trabalhos que os homens vêem,
contenta-te em ser o mestre e conselheiro dos que os fazem.
Continua com o teu trabalho na Terra (até ao fim) e assim
continuarás este ministério no reino eterno. Não te disse
muitas vezes que tenho outras ovelhas que não são deste
rebanho? A despedida seguinte foi para os gémeos Alfeu. De
pé, entre os dois, anunciou-lhes:
- Meus filhos, vós sois um dos grupos de irmãos que
escolheram seguir-me..." Como eu não conhecia com

exactidão como fora a escolha dos doze, aquelas palavras
confundiram-nos. Será que só metade dos discípulos os
irmãos Alfeu, André e Simão Pedro e os também irmãos João
e Tiago de Zebedeu escolheu seguir o Mestre? E os outros
seis? Os motivos que justificavam o nosso regresso
continuavam a multiplicar-se...
- ... Os seis prosseguiu Jesus tendes trabalhado bem e
em paz com a vossa própria carne e sangue. Mas ninguém o
fez melhor do que vós. Aproximam-se tempos duros... Talvez
não compreendais tudo o que vai acontecer, mas não
duvideis de que uma vez fostes chamados para a tarefa do
reino. Por algum tempo não haverá multidões para dirigir.
Mas não desanimeis.
Quando o vosso trabalho nesta vida estiver concluído,
receber-vos-ei no alto, e ali, na glória, falareis da vossa
salvação aos exércitos seráficos e às multidões dos altos
Filhos de Deus. Dedicai a vossa vida a engrandecer as
tarefas triviais. Mostrai a todos os homens e aos anjos como
o homem mortal pode ser alegre e forte. E, após o vosso
tempo ao serviço de Deus, voltai aos trabalhos dos dias
passados. Se, de momento, virdes concluído o vosso trabalho
nos assuntos exteriores do reino, voltai às tarefas
quotidianas. E fazei-o com a nova luz da experiência de
saber-vos filhos de Deus. A vós, que tendes trabalhado
comigo, tudo se vos tornou sagrado.
Todo o trabalho terreno se tornou num serviço ao Deus Pai.
E quando ouvirdes notícias dos feitos dos vossos anteriores
companheiros apostólicos, regozijai-vos com eles e continuai
o vosso trabalho diário como os que esperam em Deus e
servem enquanto esperam. Tendes sido os meus apóstolos e
sempre o sereis e recordar-vos-ei no reino que há-de vir.
Era a primeira vez que Jesus de Nazaré dava por adquirido
que vários dos seus homens mais próximos não
desempenhariam a tarefa de evangelizadores depois de ele
ter desaparecido. A verdade é que, exceptuando uns poucos

discípulos, as actividades apostólicas do resto do grupo
quase não ficaram reflectidas nos escritos e nas tradições
dos cristãos.
Filipe foi o seguinte. De pé, como os outros, ouviu
atentamente o seu Rabi:
- Filipe, fizeste-me muitas perguntas loucas. E eu fiz o
possível para responder a todas. Agora vou responder à
última que surgiu na tua mente muito honesta, embora pouco
espiritual. Estive todo o tempo a ir em tua ajuda, enquanto
tu te interrogavas: "Que farei eu se o Mestre se for embora e
nos deixar sozinhos no mundo?" Oh, tu, homem de pouca fé!
E, mesmo assim, tens quase tanta como muitos dos teus
irmãos... Foste um bom servidor, Filipe. Falhaste poucas
vezes. E uma dessas falhas, utilizámo-la para manifestar a
glória do Pai...
- A que estará a referir-se? - interveio Curtiss.
Também não lhe soube responder. Eu sabia que Filipe era o
responsável pela intendência-geral do grupo, mas, naquele
momento, não conseguia imaginar de que falava o Galileu.
Quem podia supor que eu próprio contemplaria a «falha» em
questão? Mas não antecipemos os acontecimentos...
- ... O teu ofício de servidor está prestes a terminar. Em
breve deverás fazer o trabalho para que foste chamado: a
pregação deste evangelho. Filipe, tu sempre quiseste que te
mostrassem as coisas. Em breve vais ver grandes factos.
Dado que foste sincero, mesmo na tua visão material, viverás
para ver as minhas palavras cumpridas. E nessa altura,
quando te for concedida a visão espiritual, continua no teu
trabalho, dedicando a tua vida à condução da Humanidade
em busca de Deus e das realidades espirituais, mas com os
olhos da fé, não com os da mente material. Recorda, Filipe,
que tens uma grande missão na Terra.
O mundo está cheio de homens que olham para a vida
como tu o fizeste. Tens um grande trabalho para fazer, e,

quando estiver concluído, virás a mim, no meu reino, e terei
um grande prazer em mostrar-te o que os olhos não viram, os
ouvidos não ouviram, nem a mente mortal concebeu.
Entretanto, sê como uma criança pequena no reino do
espírito e permite-me, como espírito do novo Mestre, guiar-te
para o reino espiritual. Desta forma poderei fazer muito por
ti: o que não pude levar a cabo enquanto permaneci contigo
como um mortal.
E recorda sempre, Filipe: quem me viu a mim, viu o Pai.
Ao terminar, Filipe voltou a reclinar-se. E os passos do
Mestre dirigiram-se para o divã seguinte: o de Bartolomeu ou
Natanael. Este pusera-se de pé, mas Jesus indicou-Lhe que
se sentasse, fazendo o Rabi outro tanto, acomodando-se ao
lado dele. E falou-lhe assim:
- Natanael, aprendeste a viver acima dos preconceitos e a
praticar uma tolerância cada vez maior, dado que te fizeste
meu apóstolo. Mas ainda há muito para aprender. Foste uma
bênção para os teus companheiros, sempre admoestados com
a tua sinceridade. Quando me tiver ido embora, talvez a tua
franqueza inteira nas relações com os teus irmãos, quer com
os antigos quer com os novos.
Deves aprender que até a expressão de um bom
pensamento tem de ser modelada de acordo com o nível
intelectual e o desenvolvimento espiritual daquele que ouve.
A sinceridade é mais útil nas tarefas do reino quando se
junta à discrìção.
Se aprendesses a trabalhar com os teus irmãos poderias
finalizar muito mais coisas. Mas se te encontrares a ti mesmo
na busca daqueles que pensam como tu, nesse caso dedica a
tua vida a demonstrar que o discípulo conhecedor de Deus
pode chegar a ser um construtor do reino, mesmo quando
está só e separado dos seus irmãos crentes. Sei que serás
fiel até ao fim. E um dia dar-te-ei as boas-vindas no amplo
serviço do meu reino, lá no alto.

Bartolomeu dirigiu-se então ao Rabi, perguntando-lhe:
- Tenho ouvido os teus ensinamentos desde a primeira vez
que me chamaste ao serviço deste reino. Mas, honestamente,
não consigo compreender todo o significado do que nos
dizes. Não sei que mais devemos esperar. E acho que a
maioria dos meus irmãos está perplexa, como eu, embora
hesitem em confessar a sua confusão. Podes ajudar-me?
- Meu amigo respondeu Cristo logo a seguir -, não é
estranho que estejas perplexo no teu esforço por
compreender o significado dos meus ensinamentos
espirituais. Carregais com o preconceito da tradição judaica e
colocais o empenho todo em interpretar o meu evangelho de
acordo com os ensinamentos dos escribas e fariseus. Ensineivos
com a palavra da minha boca e vivi a minha vida entre
vós. Fiz o possível para iluminar as vossas mentes e libertar
as vossas almas, mas o que não conseguisteis até agora com
os meus ensinamentos, deveis adquiri-lo da mão desse
mestre dos mestres: a experiência real. Nesse novo caminho,
eu irei à frente e o Espírito da Verdade estará convosco. Não
temais. O que agora não podeis compreender, o novo
Mestre, quando vier, vo-lo revelará nesta vida e na vossa
aprendizagem no tempo eterno.
Jesus dirigiu então a sua voz para o centro da mesa:
- Não fiqueis perturbados por não poderdes assimilar todo
o significado do Evangelho. Não sois mais do que homens
finitos e mortais e o que eu vos ensinei é infinito, divino e
eterno.
Sede pacientes. Tende coragem. Tendes as idades eternas
à vossa frente. Nelas continuareis a vossa progressiva
perfeição, assim como o vosso Pai do Paraíso é perfeito.
Curtiss, Eliseu e eu olhámos uns para os outros. Nós os três
vimo-nos assaltados pelo mesmo sentimento.
Era como se aquelas últimas frases do Mestre dirigidas
para o centro do U, para o lugar onde se encontrava o

microfone não se destinassem apenas aos seus amigos
íntimos...
Jesus levantou-se e foi até ao lugar de Tomé. E ouviu-se
que dizia:
- Tomé, muitas vezes a fé te faltou. No entanto, apesar
desses momentos de dúvida, nunca te faltou a coragem. Sei
muito bem que os falsos profetas e mestres não te
enganarão.
Depois de Me ir embora, os teus irmãos apreciarão muito
mais a tua forma crítica de ver e julgar os ensinamentos. E
quando todos vos dispersardes pelos confins da Terra,
lembra-te de que ainda és o meu embaixador. Dedica a tua
vida à grande obra de mostrar como a mente crítica material
pode triunfar sobre a inércia da dúvida intelectual quando se
enfrenta com a demonstração da manifestação da verdade
viva.
Tomé, estou contente por te teres juntado a nós. E sei que,
após um curto período de perplexidade, seguirás em frente
no serviço do reino. As tuas dúvidas confundiram os teus
irmãos, mas a mim não. Tenho confiança em ti e irei à tua
frente para os lugares mais longínquos da Terra.
E Jesus, lentamente, foi colocar-se diante de um dos
homens mais difíceis e queridos: Simão Pedro. Íamos assistir
a outra alocução profética...
No caso de Pedro, como se verá, as críticas do Mestre
foram mais duras.
- Pedro, sei que me amas. E sei que dedicarás a tua vida à
proclamação pública deste evangelho do reino a judeus e
gentios. Mas estou triste... Os teus anos de tão firme ligação
a mim não te ajudaram o suficiente a pensar antes de falar...
Foi uma pena eu não ter estado presente naquela reunião.
Tenho a certeza de que a expressão de Pedro deve ter sido
como um livro aberto.

- Que experiência tens de viver para aprenderes a ser
cauteloso com a tua boca? Quantos problemas nos deste
pela tua irreflexão e pela tua presunçosa confiança em ti
mesmo! E estás destinado a criar muitos mais se não
dominares essa tua debilidade. Sabes que, apesar desse
defeito, os teus irmãos te amam. E deves também
compreender que essa debilidade não diminui em absoluto o
meu afecto por ti. Mas retira-te eficácia e multiplica os teus
problemas...
O tom de Jesus tornou-se menos severo.
- Sem dúvida, a experiência por que passarás esta noite
ser-te-á de grande ajuda. E o que agora te digo, Simão
Pedro, serve também para todos os aqui reunidos: esta noite
correreis um grave perigo se estiverdes comigo. Sabeis que
está escrito: "O Pastor será castigado e as ovelhas
dispersas." Quando eu estiver ausente haverá o risco de
alguns de vós sucumbirdes perante a dúvida e cairdes por
aquilo que me aconteçer a mim.
Mas agora mesmo vos prometo que voltarei durante um
espaço curto de tempo e que, nessa altura, entrarei na
Galileia.
O fogoso Pedro não tardou a replicar:
- Não importa se todos os meus irmãos sucumbirem perante
a dúvida por tua causa. Prometo que não irei contra nada que
Tu possas fazer. Irei contigo! E, se for necessário... morrerei
por ti!
O exaltado e voluntarioso apóstolo esperou a resposta do
Mestre. E esta chegou como um jarro de água fria.
- Pedro, em verdade, em verdade te digo que esta noite,
antes de o galo cantar, ter-me-ás negado... três ou quatro
vezes.
- Três ou quatro vezes? - exclamou o general que,
obviamente, não conhecia ainda a nossa versão sobre o que

aconteceu naquela madrugada de quinta para sexta-feira.
- Afirmativo apressei-me a responder. - Foram três
negações públicas e uma praticamente em privado.
- ... Desta forma continuou Jesus -, o que não conseguiste
aprender com a tua pacífica união comigo assumi-lo-ás entre
problemas e sofrimentos. E quando tiveres entendido esta
necessária lição, deverás reconfortar os teus irmãos e
continuar em frente, levando uma vida dedicada à pregação
deste evangelho. Mesmo que possas ir para a prisão e,
talvez, seguir-me, pagando o preço supremo pelo serviço
amoroso da construção do reino do Pai.
Simão Pedro e os outros não compreenderam na altura o
trágico alcance daquelas palavras proféticas.
- Mas lembra-te da minha promessa: quando eu ressuscitar,
ficarei convosco algum tempo antes de ir para o Pai. Mesmo
esta noite Lhe suplicarei que vos dê forças para o que ireis
ter de suportar. Amo-vos a todos com o amor com que o Pai
me ama e, portanto, de agora em diante, deveis amar-vos
uns aos outros como eu vos amei.
O grupo pôs-se de pé e, dirigido por Jesus de Nazaré,
entoou um novo cântico.
Por volta das vinte e duas horas e trinta minutos daquela
quinta-feira, 6 de Abril do ano 30, os passos e os murmúrios
dos doze perdiam-se em direcção ao andar de baixo da casa
de Elias Marcos. A última ceia havia terminado.
Caímos os três num prolongado silêncio. Com efeito, havia
muitos pontos sobre os quais meditar. E apesar de deixar ao
hipotético leitor deste diário o direito a tirar as suas
próprias conclusões, considero que é minha obrigação dar
conta de algumas apreciações e comentários expressos
naquela madrugada na solidão do cume de Massada.
Para o general muito mais afectado do que nós pelo que
acabávamos de ouvir era totalmente incompreensível que

os evangelistas não mencionassem, entre outras coisas, os
incidentes dos divãs e da lavagem dos pés, bem como das
onze últimas despedidas do Galileu. Só um dos escritores
sagrados Lucas deixa entrever que algo esquisito
aconteceu entre os apóstolos: Entre eles houve também uma
discussão sobre qual se devia considerar o maior, (22, 24).
Porque é que nenhum dos outros três fala dessa estranha
discussão? Para Eliseu, como para mim, a possível resposta
sempre a título de hipótese de trabalho estava justamente
no denominador comum das três situações referidas.
Tanto na azeda polémica sobre quem devia ocupar os
lugares mais próximos do Rabi como na orgulhosa atitude de
não quererem lavar os pés uns aos outros e nas despedidas,
os apóstolos não ficavam bem vistos. Como vimos, em cada
adeus do Mestre pairava uma considerável carga de censura.
Jesus, mais uma vez, chamou as coisas pelo seu nome, pondo
a nu os principais defeitos dos seus amigos mais íntimos. E
isto, repito, com o passar dos anos, não deve ter sido
considerado muito edificante pelo colégio apostólico ou
pelos responsáveis das respectivas redacções evangélicas.
Nem sequer é o único caso nos Evangelhos Canónicos...
Em abono deste mesmo sentido, é altamente estranho,
para não dizer sintomático, que só um dos evangelistas,
João, recorde nos seus escritos o belíssimo gesto de Jesus de
lavar os pés aos seus discípulos. Porque é que Mateus,
Marcos e Lucas se esquecem por completo de um
acontecimento tão instrutivo? Não terá acontecido que, à
hora de o redigirem, se sentissem na obrigação moral de
contar os factos tal como se deram, optando finalmente pelo
silêncio em vez de deteriorarem a sua imagem individual e
colectiva?
Em defesa da objectividade informativa dos evangelistas
ainda que haja fissuras de mais para acreditarmos nela
cabe alegar também que, talvez, as actuais versões dos
textos de Mateus, Marcos e Lucas não correspondam ao

verdadeiro e originariamente escrito. O primeiro documento
sobre a vida e ensinamentos de Cristo pelo menos de que
se tem notícia foi a obra de Mateus. A tradição assegura
que este Mateus foi um dos doze. No entanto, os cristãos
não dispõem de uma prova irrefutável nesse sentido. Mesmo
admitindo que esse Mateus Levi, o autor do referido
evangelho, fosse o apóstolo, deparamo-nos com um outro
facto irredutível: o texto original, redigido em língua
aramaica, perdeu-se.
Resta-nos, isso sim, um evangelho de Mateus, em grego,
que não é outra coisa senão uma nova redacção eivada de
possíveis alterações do Mateus genuíno. Para cúmulo dos
males, a versão actual, em grego, .deve ter sido redigida por
volta dos anos sessenta da nossa Era. Isto é, uns trinta anos
depois da morte do Salvador. Um tempo, embora
historicamente curto, longo de mais para se poder recordar
com exactidão os extensos e profundos discursos de Jesus.
Eu acrescentaria que os dez ou vinte anos que podem ter
decorrido desde o desaparecimento do Galileu até à
redacção do primeiro evangelho o Mateus aramaico são
muito tempo para tentar memorizar e reter devidamente as
centenas de milhares de palavras que saíram da boca do
Mestre. Quanto aos outros evangelistas Marcos e Lucas -, a
situação ainda se torna mais sombria. O primeiro talvez
tenha sido aquele adolescente João Marcos(1) que, de
facto, conheceu e conviveu com o Galileu. Mas a sua
permanência ao lado do Mestre foi muito espaçada e
esporádica.
É mais do que certo que à hora de pôr por escrito as suas
recordações e investigações sobre Cristo ele tivesse de
recorrer às fontes já existentes: Mateus e outros documentos
que circulavam nas comunidades cristãs. Por não ter estado
presente na última ceia, Marcos teve de confiar em versões
alheias. E, ou a discussão dos divãs e o tema da lavagem já
teriam sido censurados ou, por acordo com os apóstolos

sobreviventes, considerara mais prudente ignorá-los. O certo
é que nunca conheceremos as razões deste tríplice vazio
informativo.
O caso de Lucas parece mais lógico. Os especialistas
demonstraram que o seu evangelho foi escrito baseando-se
em grande medida nos textos de Mateus e de Marcos(2). O
evangelista copiou, modificou e suprimiu uma infinidade de
passagens,
*1. João Marcos,.o filho da família de Elias Marcos, em cuja casa se celebrou a
última ceia. NoEvangelho de Marcos (14, 51-53) oferece-se uma subtil pista
sobre a sua própria identidade: "Um jovem o seguia coberto apenas com um
lençol, e prenderam-no. Mas ele, largando o lençol, escapou-se-Lhes".
(N. do M.)
2. Por simples comparação dos textos verifica-se que em
Lucas há trezentos e cinquenta versículos comuns a Marcos e
Mateus (tradição tríplice) e uns cinquenta em comum com
Marcos (tradição dupla). (N. Do M.)
seguindo o seu critério pessoal e, sem dúvida, os dos que
o rodeavam. A sua versão, por conseguinte, deixa muito a
desejar, ainda que, como já disse, tenha cometido o deslize
de insinuar o caso da discussão...
Mas talvez o capítulo mais delicado seja o da instituição
da Eucaristia. Não vou andar com rodeios. Do meu ponto de
vista, Jesus de Nazaré não instituiu nenhuma Eucaristia, tal
como hoje os cristãos entendem este sacramento. E uma
prova importante do que afirmo está precisamente na única
testemunha que com toda a certeza viveu e escreveu
sobre aquela ceia: João. Se Cristo tivesse pronunciado
realmente as conhecidas palavras - "tomai, este é o meu
corpo ou este é o meu sangue" -, o jovem discípulo, que se
encontrava à sua direita, não as teria ignorado. O facto, se
foi assim, reveste-se de uma importância tal que, por si só,
eclipsa muitas outras passagens da vida do Galileu. Porque
é que, então, não aparece na narração de João, o
Evangelista? Alguns exegetas tentam remendar o

acontecimento, alegando que a missão de João ao escrever o
seu evangelho era apenas a de completar as lacunas dos
outros três.
A hipótese é muito fraca. Se fosse realmente essa a
intenção do Zebedeu, porque é que repetiu tantas
passagens que já figuravam nos evangelhos dos seus
companheiros? Porque é que insistiu, por exemplo, na morte
e ressurreição?
Ao longo de toda a sua vida, o Filho do Homem nunca
deixou um só legado ou lema que não fossem mensagem e
atitude suas perante a vida. Foi tão subtil que nem nos
deixou nada escrito. Nem sequer se conservaram os seus
restos mortais. Por que razão se arriscaria a cristalizar em
palavras algo que, com o passar do tempo, podia vir a ser
motivo de interpretações e definições que limitassem as suas
grandes verdades espirituais? Seria mais lógico que, sob o
simbolismo do pão e do vinho, falasse aos seus discípulos de
uma simples ceia de recordação.
Esta, na minha opinião, pode ter sido a sua verdadeira
intenção: que soubéssemos e tivéssemos consciência de que
ele está presente sempre que os crentes se reúnem. Mas que
o está sempre, sem necessidade de fórmulas mágicas ou
matemáticas, que, em última instância, constituem hoje a
Eucaristia. Mais uma vez, as suas palavras e intenções foram
dominadas e enclausuradas pelos juízos falsos e pueris do
homem, que sente uma atracção especial pelos dogmas.
Quando acontece uma reunião de fiéis crentes, não é preciso
associar a presença divina a um pedaço de pão ou a um
cálice de vinho.
O Espírito vivo do Filho de Deus tal como ele repetiu
torna-se fisicamente presente em cada um dos espíritos dos
congregados.
Tomai esta taça e bebei dela. Esta será a taça da minha
recordação...

A manipulação do homem, mais uma vez, foi total. Duvido
muito que Jesus desejasse destruir o conceito individual da
divina comunhão, estabelecendo uma fórmula tão precisa e
estranha às suas maneiras habituais como aquela que hoje
praticam os cristãos. O seu estilo não foi precisamente o de
limitar a imaginação espiritual do crente, aprisionando-a com
formalismos.
Tomai este pão e comei-o. Manifestei-vos que sou o pão
da vida, que é a vida unificada do Pai e do Filho numa só
doação.
A palavra do Pai, tal como foi revelada pelo Filho, é
realmente o pão da vida.
Que relação existe entre estas frases e as que nos foram
transmitidas pelos três evangelistas? Na minha opinião,
nenhuma. Nem na letra, nem no espírito. Infelizmente, de
todas as suas parábolas e ensinamentos, esta talvez tenha
sido a mais manipulada e estandardizada. Mas, como se verá
mais à frente, não é o único acontecimento deformado ou
ignorado...
Por conseguinte, tendo em conta que não houve
transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue do
Galileu, como hoje é dita a crença dos cristãos, também não
se pode polemizar sobre se Judas chegou ou não a comungar.
O bocado de pão embebido no molho foi, simplesmente, um
costume e um sinal. Uma pista que também não foi captada
pelos discípulos. Tal como vimos, nem mesmo João que se
encontrava reclinado à direita do Rabi se apercebeu do
breve diálogo entre o Mestre e o traidor. É óbvio, portanto,
que o chamado anúncio da traição de Judas, de que fala
João, foi um facto descoberto pelo Evangelista, não no
momento em que se produziu, mas a posteriori.
O certo é que os onze saíram do cenáculo ignorando as
maquinações do Iscariotes. Só depois é que souberam.
Por último já que a análise da última ceia nos levaria

muito longe -, porque é que os textos evangélicos não dizem
uma única palavra sobre a chefia de André, o irmão de Simão
Pedro? Porque é que não dedicam mais espaço às bèlas e
esperançosas revelações de Jesus sobre o seu universo e o
universo dos universos do Pai, ou sobre as moradas ou
lugares de passagem no além? Será que o universo do Filho
do Homem é um e o do seu Pai, outro?(1)
Será que não interessava deixar testemunho de tudo isso
ou, simplesmente, não o compreenderam? Suponho que a
leitura de algumas destas apreciações pessoais podem ferir
ou inquietar o espírito dos cristãos menos evoluídos. Não é
essa a minha intenção. Poucas pessoas neste mundo
professam uma fé em Cristo como a que me foi dada. Mas
isso não tem que significar uma escravizante submissão a
dogmas ou rituais que não me satisfazem e que, sobretudo,
não foram desejados pelo Mestre...
As nossas discussões terminaram ao amanhecer. E não por
falta de temas ou de interesse. Simplesmente por
esgotamento.
Curtiss, compreendendo que se tinha excedido,
recomendou-nos que fôssemos dormir até nova ordem. E
assim fizemos.
Por volta das duas horas da tarde daquela sexta-feira nove
de Março de 1973, Eliseu tirou-me de um sono profundo e
reparador. O seu rosto parecia feliz. Iluminado.
- Vamos sussurrou-me sem dissimular a emoção. - Está
tudo pronto.
*1. Sobre estas revelações insólitas em torno do universo particular, de Jesus e
do «universo dos universos» do Pai, atrevo-me a sugerir ao leitor que se aventure
no meu último livro: La rebelión de Lucifer. (N. De J. J. Benitez).
O tempo mudara bruscamente. Nuvens negras e
ameaçadoras levantavam-se a norte, empurradas por um
vento forte. O meu companheiro apercebeu-se da minha
inquietação e, empurrando-me para o refeitório, pediu-me
que ignorasse a meteorologia.

Pouco depois, a seguir a um frugal almoço, descemos ao
fosso.
A actividade febril do dia anterior decaíra sensivelmente. O
esforço extraordinário dos homens do Cavalo de Tróia
começava a dar os seus frutos. No centro da piscina
aguardava reluzente e majestoso o módulo, com os seus
quase vinte e três pés de altura. Naqueles instantes, ao
rodeá-lo, um calafrio sacudiu-me dos pés à cabeça. E creio
que foi a partir desse momento que intuí que «algo» de
extraordinário e inimaginável nos esperava do outro lado.
O carburante a dimetil-hidrazina e o tetróxido de
nitragénio já tinha sido introduzido nos tanques. No total,
dezasseis mil e quatrocentos quilos. Mais do que suficiente
para os nossos propósitos. Com aquelas quase dezasseis
toneladas e meia dispúnhamos de uma margem máxima de
voo de cinco horas e catorze minutos.
Desta vez, como consequência dos novos equipamentos e
da maior duração da missão, o peso do berço tinha
aumentado consideravelmente, até alcançar as vinte e cinco
toneladas.
Destas, como já disse, quase dezassete correspondiam aos
depósitos e aos citados propulsantes.
O general fez-nos um sinal, convidando-nos a ir a uma
reunião com os directores do projecto. Ali, por fim, tivemos a
notícia da hora zero. O lançamento, salvo imprevistos,
realizar-se-ia à uma hora da madrugada de sábado, dez de
Março.
Quando nos interessámos pelas medidas de segurança
para o momento crítico, Curtiss, sem perder o sorriso, desviou
a questão.
- Não há problema limitou-se a responder. - Será como um
passeio.
- Mas... e os vigilantes? - insisti, alarmado.

O chefe da operação nem sequer me ouviu. E continuou
mergulhado nos pormenores da exploração.
Por unanimidade, a inclinação dos eixos dos swivels tinha
sido estabelecida para a uma hora da madrugada de
domingo, dia 9 de Abril do ano 30. Deste modo, uma vez
efectuada a inversão de massa do módulo, teríamos tempo
suficiente para alcançar o cimo do monte das Oliveiras antes
das três da madrugada desse mesmo dia. A razão era
simples: eu devia estar no jardim, propriedade de José de
Arimateia, exactamente no momento em que se produzisse a
primeira das supostas aparições do Ressuscitado.
Como já referi, a vara de Moisés sofrera algumas
modificações. Uma delas que descreverei na devida altura
consistia na introdução de um sistema revolucionário
baseado em transductores de hélio que, na opinião dos
cientistas, podia vir a ser de grande utilidade para analisar o
misterioso corpo glorioso de Jesus de Nazaré. Mas as coisas
não iriam ser tão simples...
O general e os directores mostravam-se especialmente
preocupados com a falta de dados concretos sobre as
referidas aparições do Mestre da Galileia. Estas, insisto,
constituíam um dos objectivos básicos da missão. Mas, no
momento de traçar um plano, as múltiplas contradições dos
evangelistas a nossa principal fonte informativa só
contribuíram para complicar as coisas.
Enquanto Mateus e Lucas, por exemplo, apenas falam de
duas aparições, Marcos refere três e João, o mais digno de
confiança, quatro.
Um dos poucos pontos em que há coincidência entre os
quatro evangelistas era o da data da primeira aparição: no
primeiro dia da semana.
Eis aqui os textos evangélicos que nos serviram de suporte
inicial. Mateus, no capítulo 28, versículos 1 a 11, escreve:
"Passado o sábado, ao amanhecer do primeiro dia da

semana, foi Maria Madalena e a outra Maria visitar o
sepulcro. De repente deu-se um grande terramoto, porque o
Anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, fez rodar a
pedra e sentou-se sobre ela.
O seu aspecto era como um relâmpago, e o seu vestido
branco como a neve. Os guardas, atemorizados diante dele,
puseram-se a tremer e ficaram como mortos. O Anjo dirigiu-se
às mulheres e disse-Lhes: "Não temais, porque sei que
procurais a Jesus o Crucificado; ele já não está aqui, porque
ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde ele
estava. E, agora, ide já dizer aos seus discípulos: Ressuscitou
de entre os mortos e irá diante de vós para a Galileia; lá o
vereis. Eu já vo-lo disse ". Elas partiram a toda a pressa do
sepulcro, com medo e grande júbilo, e foram a correr a dar a
notícia aos seus discípulos.
Nisto, Jesus saiu-Lhes ao encontro e disse-Lhes: "Deus vos
guarde!" E elas, aproximaram-se dEle e abraçaram os seus
pés e adoraram-No. Então disse-Lhes Jesus: «Não temais.
Ide, avisai os meus irmãos para que vão à Galileia; lá Me
verão».
Mais adiante (versículos 16 a 18), diz-se: «Por sua vez os
onze discípulos partìram para a Galileia, para o monte que
Jesus Lhes tinha indicado. E, vendo-O, O adoraram; alguns,
porém, duvidaram»
- Quanto a Marcos (16, I-19), eis a sua versão: «Tendo
passado o dia de sábado Maria Madalena, e Maria, mãe de
Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamá-Lo.
E, de madrugada, no primeiro dia da semana, ao nascer do
Sol vão ao sepulcro. Diziam-se umas às outras: "Quem nos
há-de retirar a pedra da porta do sepulcro?" E levantando os
olhos viram que a pedra já estava retirada, a qual era muito
grande.
E, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado
direito, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas.

Mas ele disse-Lhes: «Não vos assusteis. Buscais lesus de
Nazaré, o Crucificado; ressuscitou, não está aqui. Vede o
lugar onde o puseram. Mas ide dizer aos seus discípulos e a
Pedro que ele irá adiante de vós para a Galileia; lá O vereis,
como Ele vos disse«. Elas saíram fugindo do sepulcro, porque
um grande tremor e espanto se tinha apoderado delas, e não
disseram nada a ninguém, porque tinham medo».
«Jesus ressuscitou de madrugada, no primeiro dia da
semana, e apareceu primeiro a Maria Madalena, da qual
tinha expulsado sete demónios. Ela foi levar a notícia aos
que tinham vivido com Ele, os quais estavam tristes e
chorosos.
Eles ao ouvirem que Ele vivia e que tinha sido visto por ela,
não acreditaram. Depois disto, apareceu, sob outra forma, a
dois deles, quando estavam a caminho de uma aldeia. Eles
voltaram para o comunicar aos outros; mas também não
acreditaram nestes».
«Por último, estando à mesa os onze discípulos, apareceulhes
e censurou-Lhes a sua incredulidade e dureza de
coração, por não terem acreditado nos que o tinham visto
ressuscitado. E disse-Lhes: «Ide por todo o mundo e
proclamai a Boa Nova a toda a criatura. O que crer e for
baptizado, salvar-se-á; o que não crer, condenar-se-á. Estes
são os sinais que acompanharão os que crerem: em meu
nome expulsarão demónios falarão em línguas novas,
agarrarão em serpentes com as suas mãos e, mesmo que
bebam veneno, não Lhes fará mal; imporão as mãos sobre os
enfermos, e estes ficarão curados».
«Com isto, o Senhor Jesus, depois de lhes falar, foi elevado
aos céus e sentou-se à direita de Deus» Lucas dedica o
último capítulo do seu evangelho, o 24a, a narrar os
acontecimentos nos seguintes termos: «No primeiro dia da
semana, muito cedo, foram ao sepulcro, levando os aromas
que tinham preparado. Mas viram que a pedra tinha sido
retirada do sepulcro, e entraram, mas não encontraram o

corpo do Senhor Jesus. Não sabiam que pensar disso quando
se apresentaram diante delas dois homens com vestes
* Isto é, no domingo. A mesma coisa não acontecia, em
contrapartida, com a hora. Para Mateus, as mulheres que
foram ao sepulcro sobre cuja identidade e número também
não estão de acordo os escritores sagrados fizeram-no ao
alvorecer do dia. Marcos, como vimos, fala da saída do Sol.
Lucas é mais impreciso: de manhã cedo. Finalmente,
resplandecentes. Como elas estivessem com medo e virassem
os olhos para o chão, eles disseram-Lhes: «Porque buscais
entre os mortos O que está vivo? Não está aqui, ressuscitou.
Recordai como Ele vos falou quando ainda estava na
Galileia, dizendo: É necessário que o Filho do Homem seja
entregue nas mãos dos pecadores, e seja crucificado, e ao
terceiro dia ressuscite ». E elas lembraram-se das suas
palavras.
Regressando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas
aos onze e a todos os outros. As que diziam estas coisas aos
apóstolos eram Maria Madalena, Joana, Maria, a de Tiago, e
as outras que estavam com elas. Mas todas estas palavras
Lhes pareciam como que desatinos e não acreditavam nelas».
«Pedro levantou-se e foi a correr ao sepulcro. Inclinou-se,
mas viu só os panos e voltou para casa, admirado com o
sucedido. Naquele mesmo dia iam dois deles a uma aldeia
chamada Emaús que ficava à distância de sessenta estádios
de Jerusalém, e conversavam entre eles sobre tudo o que se
tinha passado. E sucedeu que, enquanto eles iam
conversando e discutindo, o próprio Jesus se aproximou deles
e caminhou com eles; mas os seus olhos estavam como que
fechados para que não O reconhecessem. Disse-Lhes Ele: «De
que falais entre vós enquanto ides andando?" Eles pararam
com ar entristecido.
"Um deles, chamado Cléofas respondeu-Lhe: "És tu o único
morador de Jerusalém que não sabe as coisas que nestes

dias se tém passado nela?" E Ele disse-Lhes: "Que coisas?"
Eles disseram: Sobre Jesus, o Nazareno, que foi um profeta
poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo
o povo; como os nossos sumos sacerdotes e magistrados O
condenaram à morte e O crucificaram. Nós esperávamos que
seria Ele quem iria libertar Israel; mas, com todas estas
coisas, já lá vão trés dias desde que isto se passou. O caso
é que algumas mulheres que estavam connosco nos
sobressaltaram, porque foram de madrugada ao sepulcro e,
não tendo achado o seu corpo, vieram dizer que até tinham
visto uma aparição de anjos que diziam que ele estava vivo.
Foram também alguns dos nossos ao sepulcro e acharam-no
tal como tinham dito as mulheres, mas a Ele não o viram"
"Ele disse-Lhes: «Oh, insensatos e lentos de coração para
crer tudo o que disseram os profetas! Não era necessário que
o Cristo sofresse isso e assim entrasse na sua glória?» E
começando por Moisés, e passando por todos os profetas,
explicou-Lhes o que sobre Ele havia escrito em todas as
Escrituras».
«Ao aproximarem-se da aldeia para onde iam, Ele mostrou
intenção de seguir em frente. Mas eles retiveram-No,
dizendo-Lhe: «Fica connosco, porque se faz tarde e o dia já
declinou». E entrou para ficar com eles. E aconteceu que
quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoouo,
partiu-o e começou a distribuí-lo. Então abriram-se-lhes os
olhos e reconheceram-no mas Ele desapareceu de ao pé
deles.
Disseram um para o outro: "Não estava ardendo o nosso
coração dentro de nós, quando Ele nos falava pelo caminho e
nos explicava as escrituras?" E, levantando-se logo, voltaram
para Jerusalém e encontraram juntos os onze, e os que
estavam com eles, e que diziam: "É verdade! O Senhor
ressuscitou e apareceu a Simão!" Eles, por seu lado, contaram
o que se tinha passado no caminho e como O tinham
reconhecido ao partir o pão. Estavam a falar destas coisas,

quando Ele se apresentou no meio deles e Lhes disse: "A paz
seja convosco" Surpreendidos e assustados, julgavam estar a
ver um espírito.
Mas Ele disse-Lhes: "Porque vos perturbais, e porque
surgem dúvidas no vosso coração? Olhai para as minhas
mãos e para os meus pés; sou Eu mesmo. Apalpai-me e vede
que um espírito não tem carne e ossos como vedes que eu
tenho E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Como
eles não conseguiam acreditar de tanta alegria e se
mostrassem assombrados, disse-Lhes: "Tendes aqui alguma
coisa que se coma?" Eles ofereceram-lhe parte de um peixe
assado. Tomou-o e comeu diante deles».
João, mais minucioso, oferece-nos um dado importante: de
madrugada ( quando ainda estava escuro.
«Levou-os até perto de Betânia e, levantando as mãos,
abençoou-os. E aconteceu que, enquanto os abençoava, se
separou deles e foi levado para o céu. Eles, depois de se
prostrarem diante dEle, voltaram para Jerusalém com grande
júbilo, e estavam sempre no Templo bendizendo a Deus» Por
último, João Evangelista (201-31 e 211-25) fala de quatro
aparições: «No primeiro dia da semana vai Maria Madalena
ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e
vê a pedra tirada do sepulcro. Desata a correr e vai ter com
Simão Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e
disse-lhes: "Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos
onde o puseram". Saíram Pedro e o outro discípulo e
dirigiram-se para o sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o
outro discípulo correu à frente mais rápido que Pedro, e
chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se e viu os panos no
chão; mas não entrou.
Chega também Simão Pedro, seguindo-o, entra no sepulcro
e vê os panos no chão, e o sudário que cobrira a sua cabeça,
não junto aos panos mas dobrado num lugar à parte. Então
entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado
primeiro ao sepulcro viu e acreditou, pois até então não

tinha compreendido que, segundo a Escritura, Jesus devia
ressuscitar de entre os mortos. Os discípulos, então, voltaram
para casa».
Quanto à aparição a Madalena, João diz: «Estava Maria
junto ao sepulcro, fora, chorando. E, enquanto chorava,
inclinou-se para o sepulcro e viu dois anjos de branco,
sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e
outro aos pés.
Dizem-Lhe eles: "Mulher, porque choras? A quem procuras?"
Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-Lhe:
"Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o
levarei comigo" Disse-Lhe Jesus: "Maria" Ela volta-se e diz-lhe
em hebraico: "Rabboni" - que quer dizer "Mestre" Diz-Lhe
Jesus: "Não me toques, que ainda não subi para o meu Pai.
Mas vai aos meus irmãos e diz-Lhes: subo para o meu Pai, e
vosso Pai, para o meu Deus, e vosso Deus". Foi Maria
Madalena e disse aos discípulos que tinha visto o Senhor e
que tinha dito estas palavras».
«Ao entardecer daquele dia, o primeiro da semana, e
estando fechadas com medo dos Judeus as portas do lugar
onde se encontravam os discípulos, apresentou-se Jesus no
meio deles e disse-lhes: A paz seja convosco". Dito isto,
mostrou-lhes as mãos. Os discípulos alegraram-se ao ver o
Senhor. Jesus disse-Lhes de novo: "A paz seja convosco.
Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio". Dito isto,
soprou sobre eles, e disse-Lhes: "Recebei o Espírito Santo.
Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão
perdoados; àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão
retidos".
Tomé, um dos doze, chamado "o Dídimo não estava com
eles quando veio Jesus". Os outros discípulos disseram-Lhe:
"Vimos o Senhor" Mas ele respondeu: "Se não vir nas suas
mãos a abertura dos cravos, e não lhe tocar com a minha
mão, não crerei". Oito dias depois, estavam outra vez os
seus discípulos dentro e Tomé com eles. Apresentou-se Jesus

no meio deles
estando as portas fechadas, e disse: "A paz seja convosco".
Depois disse a Tomé: "Aproxima aqui o teu dedo e olha as
minhas mãos, aproxima a tua mão e toca-me, e não sejas
incrédulo, mas crente". Tomé respondeu-Lhe: "Senhor meu e
Deus meu". Disse-lhe Jesus: "Porque me viste, tu creste.
Ditosos os que não viram e creram""».
Finalmente, depois de afirmar que Jesus realizou outros
muitos sinais na presença dos seus discípulos, João narra a
aparição nas margens do lago de Tiberíade: «Depois disto
tornou a manifestar-se Jesus aos seus discípulos, nas
margens do mar de Tiberíade. Manifestou-se desta maneira.
Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado "o Dídimo",
Natanael, o de Caná da Galileia, os de Zebedeu e outros
dois discípulos. Simão Pedro disse-lhes: "Vou pescar"
Responderam-Lhe eles: "Também nós vamos contigo". Foram e
entraram para a barca, mas naquela noite nada pescaram.
Quando amanheceu, estava Jesus na margem; mas os
discípulos não sabiam que era Jesus. Disse-lhes Jesus:
"Rapazes, não tendes peixe?". Responderam-Lhe: "Não".
* Para nós, embora conhecêssemos a hora exacta em que
se registaram os enigmáticos acontecimentos que rodearam a
suposta ressurreição, o facto de podermos determinar com
precisão o momento em que as muLheres entraram na
propriedade de José de Arimateia tinha um interesse
especial.
Tendo em conta que o nascer do Sol em Jerusalém ocorrera
naquela data às cinco horas e quarenta e dois minutos, a
tendência geral entre os homens do Cavalo de Tróia
inclinava-se para a versão de João, o Evangelista. Mas seria
preciso uma comprovação sobre o terreno. No que se refere
ao famoso terramoto citado por Mateus ignorado pelos
outros três evangelistas -, o nosso cepticismo foi quase total.
As vibrações e o zunido que acompanharam ou precederam

pois este ponto não estava de todo claro o
desaparecimento do cadáver do interior da gruta nada
tinham a ver com o que hoje interpretamos como um sismo.
Quanto à pedra que fechava o sepulcro, as contradições eram
igualmente palpáveis.
Mateus culpa o Anjo do Senhor que baixou do céu. Marcos,
Lucas e João, prudentemente estão de acordo em que,
quando as mulheres chegaram ao lugar, a pedra já tinha sido
deslocada. Mas como ou por quem? Possivelmente, como eu
próprio tive a oportunidade de ouvir do pombal, o
movimento, não de uma, mas das duas lajes foi devido a
alguma força ou entidade invisíveis aos olhos humanos. Com
respeito aos jovens ou anjos, de vestes brancas e
resplandecentes que foram vistos pelas mulheres, o assunto
complicava-se até limites insuspeitados. Mateus e Marcos só
falam de um. Para o primeiro, fora do sepulcro. O segundo,
pelo contrário, coloca-o no interior da cripta. Lucas e João
referem-se aos dois, respectivamente.
Com que versão ficávamos?
O primeiro dos evangelistas Mateus -, quando narra a
aparição às mulheres entra de novo em flagrante contradição
com João. Enquanto aquele afirma que Jesus saiu ao encontro
das mulheres e que estas, aproximando-se, abraçaram os
seus pés e adoraram-No, o Zebedeu assegura algo de muito
diferente: que Maria Madalena voltou-se estando ainda
junto do sepulcro
- e viu Jesus. Mais ainda: chegou a confundi-lo com o
jardineiro, pedindo-lhe que lhe dissesse onde tinha colocado
o corpo do Mestre. Quando, finalmente, a de Magdala
reconheceu o Galileu, este proibiu-a de Lhe tocar, que ainda
não subi para o meu Pai.
Enfim, para quê continuar? O estudo e a revisão destas
passagens só contribuiu para nos confundir. Era preciso
reconstituir, os factos. E fazê-lo desde o princípio. Daí ser

vital a minha presença no jardim. E, se fosse possível, como
planeara o Cavalo de Tróia, a partir do momento da suposta
ressurreição.
Disse-lhes Ele: "Lançai a rede para o lado direito da barca
e encontrareis". Lançaram, pois, e já não podiam arrastá-la,
pela grande quantidade de peixes. O discípulo a quem Jesus
amava disse então a Pedro: "É o Senhor". Quando Simão
Pedro ouviu "É
o Senhor", vestiu a sua roupa pois estava nu e lançouse
ao mar. Os outros discípulos vieram na barca, arrastando a
rede com os peixes; pois não distavam muito da terra,
apenas uns duzentos cóvados. Logo que saltaram em terra,
viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas e
pão. Disse-Lhes Jesus: "Trazei alguns dos peixes que acabais
de pescar". Subiu Simão Pedro e tirou a rede para terra,
cheia de peixes grandes, cento e cinquenta e três. E, mesmo
sendo tantos, não se rompeu a rede. Disse-Lhes Jesus:
"Vinde e comei". Nenhum dos discípulos se atrevia a
perguntar-lhe: "Quem és tu?", sabendo que era o Senhor.
Aproximou-se então Jesus, tomou o pão e repartiu-o; e de
igual modo o peixe. Foi esta já a terceira vez que Jesus se
manifestou aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado
dos mortos (N. Do M)
Mas o destino tinha outros planos.
Pelo segundo dos livros atribuídos a Lucas os Actos dos
Apóstolos sabíamos que a última aparição do Mestre aos
seus discípulos (denominada entre os cristãos como a
Ascensão aos Céus) deve ter-se dado quarenta dias depois
da ressurreição.
Isto é mais ou menos no dia 18 de Maio, quinta-feira. Mas,
logicamente o dado não era muito seguro. Mesmo assim,
embora o tempo atribuído a esta segunda exploração
estivesse nas nossas mãos, Cavalo de Tróia teve a
preocupação de encher a despensa do módulo com uma

reserva de água e alimentos suficientes para uns doze dias.
Embora não tão grande, esta foi outra das preocupações do
general. Se a missão, como estava inicialmente previsto, se
prolongasse até um total de quarenta ou cinquenta dias,
Eliseu e eu tínhamos de resolver a falta de provisões,
recorrendo às fontes naturais do próprio meio. Dadas as
deficientes condições de higiene da época, a equipa de
directores fixara uma série de normas drásticas, de carácter
preventivo, que devíamos cumprir com todo o rigor. Mas
prefiro deixar este assunto para mais adiante.
A maior parte das reservas alimentícias do berço, tal como
acontecera no primeiro salto, tinha sido minuciosamente
estudada, seguindo é claro! - as directrizes e os costumes
da NASA. No plano diário de trabalho que dizia respeito
sobretudo ao meu irmão havia três indicações muito
concretas: pequeno-almoço, almoço e jantar. No total, o
Cavalo de Tróia tinha seleccionado uma ementa constituída
por trinta e cinco manjares diferentes, todos desidratados,
isto é, sem água. A dieta diária abrangia desde esparguete
com carne picada até cocktail de gambas, passando pelos
mais variados sumos de fruta, tarte de maçã, queijo, leite e
uma infinidade de hortaliças e legumes e outros alimentos
ricos em açúcares ou hidratos de carbono, lípidos, vitaminas
e minerais. Este último capítulo recebeu uma atenção
especial da parte dos nossos especialistas.
Como se sabe, os minerais, assim como as vitaminas, não
fornecem energia, mas são muito importantes para regular
todas as funções vitais. O homem pode suportar a falta de
vitaminas durante semanas. No entanto, qualquer pequena
alteração na concentração de cloreto de sódio no sangue,
para dar um exemplo, pode provocar consequências fatais.
Daí as provisões ricas em minerais sobretudo em sódio,
potássio, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, iodo, cobalto, cloro
e flúor terem merecido um tratamento especial.
Os alimentos, que acabavam por desfazer-se em migalhas,

foram reunidos em porções. Cada uma perfeitamente envolta
por uma camada de fécula que evitava que se esboroassem.
A preparação do correspondente menu obrigava a um
tratamento prévio, à base de água fria ou quente,
dependendo dos gostos pessoais e da natureza da refeição.
Cada pequeno-almoço, almoço ou jantar fora acondicionado
em
* A lista de alimentos ricos em vitaminas abrangia os sete grandes grupos
essenciais. I: verduras e hortaliças; II: frutos cítricos (laranjas, tangerinas e
limões); III: batatas e frutas diversas; IV: leite e seus derivados; V: carne, peixe e
ovos. VI: pão, massa, cereais e seus derivados, e VII: manteiga, margarina
enriquecida com vitamina A" e óleos vegetais. (N. Do hl).
Diferentes recipientes cilíndricos e tudo, por sua vez,
hermeticamente protegido num compartimento destinado a
despensa e situado na popa da nave. Tendo em conta a
forma prismática do berço com pouco mais de sessenta
metros cúbicos de capacidade -, tinha sido colocado naquilo
a que podíamos chamar a proa, a maior parte dos
equipamentos electrónicos, de navegação e o computador
central: o nosso serviçal e utilíssimo Pai Natal. À direita e à
esquerda dos assentos de pilotagem, ocupando quase a
totalidade das paredes laterais, estavam os depósitos de
combustívél, água e gases auxiliares. Tudo isto, em
compartimentos estanques, fabricados com uma liga especial
de alumínio. As juntas e outras zonas que podiam vir a ser
submetidas a maiores esforços mecânicos eram de titânio.
Sob os nossos pés, como creio que já comentei, o motor
principal e os dois reactores auxiliares e reguláveis. Os
outros oito foguetes estavam distribuídos estrategicamente
nas diferentes faces do módulo. A popa, para além da
despensa e dos beliches, abrigava complexos circuitos de
rádio de medição ambiental interna e externa e uma bateria
atómica tipo SNAP 27 capaz de transformar a energia
calorífica do plutónio radioactivo em corrente eléctrica (50
W), com uma vida útil de um ano. Esta pilha, especialmente
blindada, era o coração do módulo. Todos os circuitos e

instrumentos dependiam dela em maior ou menor grau. Não
quero nem pensar no que nos podia ter acontecido se
houvesse uma falha no fornecimento de electricidade.
Como medida de precaução, o Cavalo de Tróia acrescentou
aos novos equipamentos uma bateria de espelhos metálicos
doze no total
- que podiam ser montados na face externa do berço,
aproveitando a radiação solar e podendo gerar até 500 W.
Entre os assentos dos tripulantes encontrava-se o núcleo de
controlo dos eixos dos swivels, essencial para a inversão de
massa e para o retrocesso no tempo2. Este enxame de
equipamentos era controlado pelo computador central o Pai
Natal -, de que já falei e cuja natureza nada tem a ver com a
dos seus irmãos, os computadores de válvulas de elevado
vácuo ou de estado sólido. A coordenação dos principais
sistemas -
* Estes espelhos, de vidro revestido de prata, tinham 293 centímetros de
diâmetro. Na parte posterior tinham coladas diversas películas de cobre,
podendo ser fixos a um estribo de ferro, em disposição azimutal bìaxial.
Inventado pelo professor israelita Tahor, o sistema, graças à fórmula especular
assimétrica e ao deslocamento do eixo de giro horizontal no centro da curvatura
da imagem permitia que toda a radiação reflectida incidisse num único ponto.
Embora a capacidade de reflexão do vidro revestido de prata fosse alta - cerca
de oitenta e oito por cento -, Cavalo de Tróia abasteceu-nos também de outras
pranchas de reserva, à base de aço maleável prateado e metal electroprateado,
com índices de reflexão de noventa e um e noventa e seis por cento,
respectivamente. (N. Do rLl).
* Este núcleo de controlo tinha sido colocado numa pequena cúpula cilíndrica. A
rede" do sistema de inversão de massa estendia-se, no entanto, a toda a
estrutura sólida do berço, incluindo, naturalmente, a membrana" que recobria a
blindagem externa e à qual me referi no começo deste diário. Qualquer partícula
subatómica ou qrirn energético que se fechasse nesse recinto era invertido
automaticamente, incluindo, é claro, as massas dos astronautas, os gases, etc. A
inversão simultânea dos eixos orientados dos suivels alcançava também uma
pequena área do invólucro cortical clinwe: até uma distância de 1111329 metros.
(N. Do M)
* Veja-se o primeiro volume desta obra. (N. Do A)
propulsão, inversão dos eixos, verificação visual para voos,
descida do módulo, detecção e emissão, controlo do meio

biológico, alimentação geral dos equipamentos, etc. - era
executada através da técnica conhecida como controlo por
retroacção com o auxílio de computadores 1.
E apesar de não pretender alongar-me nas sempre difíceis
e complexas características técnicas dos instrumentos e dos
sistemas utilizados, tanto o meu companheiro de aventuras
como eu próprio sentimos um profundo prazer quando, ao
revistar o interior do berço, comprovámos que o Cavalo de
Tróia tinha contemplado algumas das nossas sugestões,
tendo em vista a iminente exploração. Na popa, devidamente
acondicionados, encontravam-se, entre outros, os seguintes
aparelhos e ferramentas: dois microscópios, um do tipo
Ultropack, da casa Leitz, muito útil para a visualização de
corpos opacos, e o segundo, mais complexo, que naquela
altura iniciava os seus primeiros passos no mundo da
investigação científica o denominado efeito túnel, que
procurarei pormenorizar na devida altura e que se mostraria
de grande utilidade para os objectivos da missão.
O considerável peso e volume do microscópio electrónico
fez-nos desistir da sua instalação no interior da nave. Além
disso, havia um microdensitómetro e um sofisticado
interpretador de imagens que contribuiriam e de que forma!
- para o que, sem dúvida, foi uma das descobertas mais
sensacionais deste segundo salto.
O grosso do novo instrumental era complementado por um
laser experimental destinado a comunicações a longa
distância; um aparelho mi- niaturizado de raios X de
modulações dirigidas; material termográfico de alta
velocidade e outros dispositivos que irei revelando quando
chegar a ocasião.
Num dos compartimentos da despensa protegidos a baixa
temperatura foram introduzidos também diversos reagentes
e uma ampla amostra dos antibióticos, das sulfamidas e
outros fármacos sintéticos, imprescindíveis num clima
temperado, em especial para combater possíveis infecções

microbianas2.
Além desta generosa representação da mais moderna
quimioterapia reservada, em princípio, de acordo com o
rigoroso código ético da operação, aos ocupantes do módulo
o general Curtiss e alguns directores tinham insistido na
necessidade de abastecer a nave de uma extensa reserva de
plantas medicinais. No total, 147 espécies altamente
benéficas e que, em caso de necessidade, e segundo o
nosso critério, podiam ser tiradas do berço. A maior parte
delas, segundo os estudos dos nossos especialistas, existia
naquele tempo na Palestina e nas regiões circundantes.
Portanto, a sua presença não ia contra os esquemas ou o
quadro evolutivo do momento. E devo reconhecer que a ideia
tornar-se-ia muito útil e frutuosa.
Cada erva, depois de devidamente seca foi introduzida
*1 O Pai Natal, o computador central, operava, numa primeira fase, analisando
as funções contínuas ou analógicas.
Posteriormente por um processo automático de amostragem estatística,
seleccionava os parâmetros básicos, efectuando os cálculos digitalmente. Desta
forma oferecia-nos uma resposta definitiva e quantificada. O grau de confiança
dos resultados era extraordinária: praticamente total. (N. Do M).
* Ainda haverá ocasião para falar disso, mas sirva de antecipação que entre o
arsenal de medicamentos figuravam, por exemplo, penicilinas, ammoglicoidios e
aminociclitois, cefalosporinas, macrolídeos e lincosamidas, tetraciclinas,
peptídios, antibióticos, antimicóticos, clorofenicol, etc. (N. Do M)
em pequenos frascos de vidro, com o nome da planta e a
data em que fora colhida num rótulo. O Pai Natal recebeu
também uma informação completíssima sobre a natureza,
origem e propriedades curativas de todas elas.
Por último, entre as novidades, contávamos também com
valiosas réplicas das tábuas astrológicas utilizadas pelos
Egípcios no tempo de Jesus, assim como de uma série de
astrolábios assírios igualmente talhados em tabuinhas de
madeira policromada que deviam ajudar-me na minha tarefa
de áugure e adivinho.

Mas o que mais despertou a nossa atenção foi uma caixa
de aço quadrada, hermeticamente fechada, colocada também
na popa e ligada directamente ao computador central. Por
mais que inspeccionássemos por todos os lados de
quarenta centímetros cada um -, fomos incapazes de
descobrir uma única inscrição ou pista que revelasse o seu
conteúdo. Como estava firmemente aparafusada, foi
impossível avaliar o peso ou sequer intuir a razão da sua
presença no interior do módulo. Eliseu e eu, de mútuo acordo
perguntámos a Curtiss o porquê de tão misterioso recipiente.
O general parecia estar à espera da pergunta. O seu rosto
ficou fugazmente sombrio e, num tom autoritário pouco
comum nele, replicou: ,
- Lamento. Isso é material secreto. Altamente secreto.
E dando meia volta, afastou-se em direcção à escotilha de
emergência do fosso. Naturalmente, acatámos a ordem. Mas
Curtiss sabia que aquela atitude de sigilo militar só podia
contribuir para excitar a nossa curiosidade de modo a mais
tarde, tentar desvendar a missão daquela caixa.
Por volta das quatro horas e meia, o general regressou à
piscina.
Ocupados em mais uma revisão dos equipamentos de
bordo, não nos apercebemos da sua chegada. Um dos
engenheiros é que nos disse, assomando a cabeça pela
escotilha aberta no chão do berço, que o chefe nos estava a
chamar. Ao descer pela escada hidráulica do módulo,
aguardava-nos uma outra surpresa: todo o turno de trabalho
e outros homens de folga tinham-se juntado diante da nave.
Curtiss, na primeira fila, e sorridente, tinha nas mãos um
cilindro de vidro. Consultou o relógio e, transbordante de
satisfação, exclamou:
- Rapazes, dentro de sete horas e trinta minutos, se tudo
correr bem, daremos início à contagem decrescente. Desta
vez não estarei fisicamente presente. A vossa segurança, e a

de toda a equipa, dependem, em grande medida, desta
minha ausência, temporária. Depressa compreenderão
porquê.
Baixou os olhos e, apelando a toda a sua energia resumiu
numa única frase os desejos e sentimentos de todos os que
ali estávamos:
- Boa sorte. E que Ele vos abençoe de novo! Com os olhos
húmidos estendeu as mãos para Eliseu, entregando-lhe uma
oliveira pequenina dentro de um estojo.
- Um último pedido acrescentou. - Levem também este
rebento e plantem-no em nome dos que ficam deste lado.
Será o símbolo humilde e secreto de uns homens que aPenas
buscam a paz. Uma paz sem fronteiras. Uma paz sem limites
de espaço, e de tempo. Obrigado! E repito: boa sorte! Antes
de podermos reagir abraçou-nos, avançando imediata e
rapidamente por entre os comovidos técnicos do Projecto,
subindo as escadas rumo à superfície de Massada.
Eliseu e eu, com os corações batendo forte, só tivemos
forças para balbuciar um duplo e trémulo obrigado. Tal como
acontecera na primeira descolagem, na mesquita da
Ascensão, as palavras negaram-se a fluir dos nossos lábios.
Restabelecida a normalidade na estação, os directores
explicaram-nos o porquê da inesperada ausência do general
nos últimos momentos da fase vermelha.
Dias antes, Curtiss tinha convencido Qasim, o xeque
beduíno que erguera a sua tenda à distância de uma
pedrada da plataforma-base do funicular, a celebrar uma ceia
nómada típica precisamente na noite de sexta-feira, 9 de
Março. Os borregos e um substancioso presente em
dólares, claro tinham sido decisivos. A finalidade não era
outra senão manter Yefet, o chefe do Acampamento Eleazar,
afastado do cume do rochedo durante a abertura da piscina e
o subsequente lançamento do berço".
O capitão israelita e o nosso chefe eram os únicos

convidados. Yefet interpretou o gesto como uma
manifestação da tradicional hospitalidade beduína,
aceitando, encantado. Por um lado, rejeitar o convite dos
shammar teria sido um insulto. Por outro, a festa quebrava a
monotonia e o enclausuramento a que se encontrava
submetido desde Fevereiro.
Às cinco horas dessa tarde, uma das cabinas do funicular
conduziu-os até ao sopé de Massada. Dado que o serviço do
funicular terminava com o crepúsculo, ambos teriam de
pernoitar na tenda nómada. Como prccaução adicional, o
chefe do Cavalo de Tróia havia estabelecido um código
secreto para ser utilizado nos casos seguintes: se qualquer
coisa falhasse no fosso e a descolagem do módulo fosse
anulada, um dos nossos homens deveria transmitir
imediatamente para a estação de rádio situada na
plataforma-base do funicular uma das frases da conversa que
o doutor Kissinger tivera com a jornalista da NBC, Barbara
Walters, a propósito do que dissera em inglês Mao Tsé-Tung:
«Sente-se, se faz favor».
Se, pelo contrário reclamassem inesperadamente a
presença de Yefet no cume, vendo-se obrigado a abandonar
a hospitalidade dos shamna antes da uma hora da
madrugada de sábado,
Curtiss teria de encontrar uma solução para fazer os
duzentos metros que separavam a tenda da estação de rádio
e transmitir para o acampamento outra das frases que nos
recomendara memorizar durante a visita ao gerador: «Isso é
mais do que aquilo que o senhor consegue dizer em chinês».
- Esperemos, para o bem da missão e de todos
concordámos que não seja necessário recorrer a nenhuma
dessas ridículas frases.
No entanto, do nosso ponto de vista, nem tudo parecia tão
simples. Apesar do perigoso Yefet ter sido afastado da
meseta, ainda ali havia mais vinte e cinco israelitas. Como

iríamos iludi-los. Sobretudo como neutralizar os vinte
vigilantes? À primeira vista o plano do general era bom. Com
os dois técnicos encarregues da manutenção de Charlie não
havia problema. Como se encontravam na cisterna
subterrânea, era pouco provável que vissem ou ouvissem algo
de anormal. Quanto aos restantes os cozinheiros e os
grupos de vigilantes -, as ordens eram drásticas.
Pouco antes do jantar por volta das nove horas da noite,
um dos nossos homens devia infiltrar-se na cozinha deitando
na comida, na água e no vinho uma pequena dose de
nembutal, um sedativo cuja acção dependendo da
quantidade em miligramas se mantém entre trinta minutos
e cinco ou seis horas.
Assim, tanto o turno que iniciava a vigilância nas
casamatas oriental e ocidental às dez da noite como o que a
deixava e ia para o refeitório, ficariam sob os efeitos do
hipnótico no máximo quarenta e cinco a cinquenta minutos
depois de o terem ingerido. Com o fim de não levantar
suspeitas, os vinte especialistas do Cavalo de Tróia, que
terminavam o seu serviço na piscina às vinte e uma horas e
trinta minutos, deviam dirigir-se normalmente para o
refeitório e compartilhar com os nossos aliados o jantar. E o
nembutal. Se no dia seguinte, algum vigilante ousasse
confessar que tinha adormecido no seu posto de observação
coisa pouco provável -, descobrindo-se assim que
acontecera a mesma coisa aos outros, os militares israelitas
ver-se-iam obrigados a reconhecer que também os norteamericanos
que não estavam de serviço tinham sido vítimas
da mesma anomalia.
A ideia não era má. No entanto, confiámos em que a
situação não chegasse a esse extremo. No acampamento
todos sabiam, apesar de ser segredo, que em geral e a partir
das onze ou doze horas da noite, a maioria dos vigilantes
acabava por acomodar-se nos seus improvisados catres e
passavam pelas brasas. Se não fosse a inevitável abertura

do fecho hidráulico do fosso e o ruído dos motores do módulo
ao descolar talvez tivesse sido desnecessária aquela série
de precauções.
Como já referi, o berço dispunha de um sistema de emissão
de radiação infravermelha que o tornava invisível aos olhos
de qualquer hipotético observador. Esta fonte energética
irradiava de toda a membrana, que, como também já
expliquei, revestia totalmente a nave.
* As funções básicas desta membrana" eram as seguintes:
Em primeiro lugar como ficou dito, a camuflagem do módulo
por meio de um escudo ou colchão" de radiação infravermelha
(acima dos setecentos nanómetros). Este requisito era
imprescindível para as nossas observações, não afectando
assim o ritmo natural dos indivíduos que se pretendia
estudar ou controlar. Em segundo lugar, procurar a absorção
sem reflexo ou retorno das ondas decimétricas,
fundamentalmente utilizadas nos radares.
(No caso dos ecrãs militares israelitas estes dispositivos
de segurança foram previamente ajustados às ondas
utilizadas por tais radares: 1347 e 240 2 megaciclos) Este
método anulava a possibilidade de localização electrónica do
berço, enquanto era elevado a oitocentos pés, ponto ideal
para a seguinte fase de inversão de massa dos swivels. Por
último, a membrana" que cobre a blindagem exterior da nave,
cuja espessura é de 00329 m, devia provocar uma
incandescência artificial que eliminasse qualquer tipo de
germe vivo que aderisse à sua superfície. Esta precaução
evitava que os germes fossem invertidos tridimensionalmente
com a nave. Uma entrada, involuntária desses organismos
num outro tempo", ou noutro contexto tridimensional, poderia
trazer consequências imprevisíveis de carácter biológico.
Como informação puramente descritiva, posso dizer que a
membrana" tem propriedades de resistência estrutural muito
especiais.
Este revestimento poroso do berço, de cerámica, tem um

elevado ponto de fusão: 726061"C, sendo o seu poder de
emissão externa igualmente alto. A sua condutibilidade
térmica, em contrapartida, é muito baixa: 2071 13x 10
Col/Cm/s/oC. (Para esta membrana" é muito importante que a
ablação se mantenha dentro de uma margem de tolerância
muito ampla) Para isso utiliza-se um sistema de
arrefecimento por transpiração com base no lítio liquefeito.
Além disso, foi envolvida de uma fina camada de platina
coloidal colorida posta sobre a superfície externa. (N. Do n.)
Vinte e três horas.
Eliseu fechou a escotilha do módulo.
- Sessenta minutos para o início da contagem decrescente.
- Entendido.
A voz dos técnicos chegava forte e clara. O nosso passo
seguinte foi vestirmos os fatos especialmente desenhados
para o processo de inversão de massa, comprovando no
computador o novo dispositivo de RMN, colocado nos
escafandros e que devia fotografar os tecidos neurónicos
durante a mudança dos eixos dos swivels. Aquela fora uma
das nossas exigências para prosseguirmos com a missão.
Durante o tempo infinitesimal das duas inversões
inicialmente previstas, o sistema miniaturizado de RMN, ou
ressonância magnética nuclear, permitiria um seguimento fiel
e minucioso da actividade dos nossos neurónios, fornecendo,
talvez, novas informações sobre o mal que afectava os
nossos cérebros, tínhamos a certeza o Pai Natal verificou e
interpretou aqueles primeiros cortes da massa cerebral,
marcando a ignição automática seguinte da RMN para as
vinte e quatro horas e quarenta e cinco minutos; isto é, um
quarto de hora antes da descolagem. - supondo que
regressássemos Isso permitiria uma análise comparativa do
comportamento e possíveis alterações dos pigmentos do
envelhecimento antes, durante e depois da inversão axial.

Esta espécie de radiografias magnéticas são totalmente
inócuas. No entanto, o sistema foi posto de lado na nossa
primeira exploração. Em princípio devia ter sido introduzido
na vara de Moisés, com a missão básica de estudar o cérebro
de Jesus de Nazaré durante a sua Paixão e Morte. Mas, o
facto de a RMN provocar a orientação de alguns átomos na
direcção do campo magnético foi visto como uma forma de
alteração do organismo humano a observar.
E isto, como se disse, estava terminantemente proibido. O
sistema, além disso, não foi miniaturizado a tempo e foi
preciso deixá-lo de fora. Agora, pelo contrário, as coisas
eram diferentes De um ponto de vista ético não nos
pareceu digno de reprovação tentar estudar um corpo
glorioso com a ajuda da ressonância magnética nuclear. O
objectivo, e nós sabíamos isso, tinha mais de sonho do que
de realidade científica. Nem sequer tínhamos a certeza da
existência desse organismo ressuscitado. E, no caso de que
fosse visível e real, o que é que nos esperava?
Mas apercebo-me de que estou a cair na velha tentação de
me antecipar aos factos. Vinte e três horas e trinta minutos.
* O fundamento do RMN baseia-se na característica peculiar do núcleo dos
átomos de hidrogénio. Utilizando palavras simples. São como microscópicos
ímanes, capazes de provocar um fenómeno de ressonância magnética.
Submetendo estes átomos a um campo magnético de alta frequência (01 teslas.
Os núcleos de hidrogénio ficam em linha. Ao serem excitados por meio de ondas
de rádio. Esses núcleos atómicos giram sobre si mesmos, perdendo a energia
inicial sob a forma de radiação. Esta pode ser captada e processada com a ajuda
de um computador, e ser traduzida para imagens.
1 trabalhando num campo, O nosso dispositivo RMN especialmente
miniaturizado magnético de dois teslas, podia explorar a fundo a totalidade das
nossas massas cerebrais, interpretando cada órgão e região em trés dimensões
simultâneas e reconstruindo os "cortes em forma sagital, axial ou oblíqua. (N. Do
M).
Sentados diante do grande painel de instrumentos, o meu
irmão começou a fazer a última leitura do computador central.
- Medidores do campo gravitacional.
- Okay.

- Indicadores de velocidade.
- Okay.
- Painel de instrumentos de vigilância de motores:
temperatura. - Okay.
A revisão ficou concluída às vinte e três horas e quarenta
minutos. Na realidade, tanto a descolagem como o voo e a
aterragem, assim como a maioria das funções de
fornecimento, pilotagem, etc, estavam controladas pelo Pai
Natal. O nosso papel, por conseguinte, era o de meros
supervisores ou, em casos extremos, de rectificadores.
- Zero horas.
- Sessenta minutos para levantar voo.
O início da contagem decrescente acelerou a nossa
frequência cardíaca. Se temos de ser sinceros, durante
grande parte daqueles intermináveis sessenta minutos,
apesar de acompanharmos mecanicamente a evolução dos
parâmetros de voo que o computador nos dava, os nossos
pensamentos estavam fora da nave. Precisamente na tenda
que abrigava a estação de rádio. Naquela altura da noite
já madrugada de sábado, 10 de Março -, à julgar pelas
indicações dos técnicos que permaneciam em contacto com o
interior do módulo, o hipnótico fazia tempo que surtira
efeito, mergulhando o acampamento num profundo silêncio.
Quanto ao receptor-transmissor de rádio, continuava
maravilhosamente mudo. E, instintivamente, imaginámos o
velho general rodeado de beduínos e com os olhos fixos no
seu cronómetro.
- Zero horas e trinta minutos.
- A trinta da descolagem.
Nervosamente, digitei num dos terminais do computador
central, à procura do último boletim meteorológico. Aquelas
nuvens e o forte vento que se abatiam sobre Massada nas
primeiras horas da tarde continuavam fixos na minha mente.

A resposta do Pai Natal foi tranquilizadora: Temperatura: 718
graus centígrados. Humidade relativa: 81%.
Velocidade do vento: 11 Km/h.
Respirei aliviado.
Direcção do vento: 270 graus.
Havia amainado e rodado para oeste.
. Nebulosidade: 7/8. Cumulonimbos. Altitude: 2100 metros.
Últimas precipitações às vinte horas: 16 mm. Eliseu olhou
de soslaio para o monitor e, depois de comparar aqueles
dados com as previsões fornecidas pela estação de Kalya, a
norte do mar Morto, comentou:
- Já te disse que não te preocupasses. O berço vai subir
como uma bala.
- Zero horas e quarenta e cinco minutos.
O Pai Natal ligou o dispositivo de RMN.
- Zero horas e cinquenta e cinco minutos.
- Pronta a absorção de ondas decimétricas e a camuflagem
infravermelha.
-. Sinais de alarme: negativo.
- Controlo de graduação de pré-ignição em automático.
- Okay, rapazes ecoou a voz do controlador no exterior. -
O fecho hìdráulico foi retirado. - Zero horas e cinquenta e
oito minutos.
- Atenção!. Ignição dentro de cento e vinte segundos!
- Teste de silenciadores?
- Roger. Aí vamos nós!
- Okay. Estamos a ouvir-vos cinco por cinco. Ignição dentro
de sessenta segundos e continua a contagem decrescente.
Aquele foi outro minuto interminável. Troquei um olhar com
Eliseu. Apesar do vertiginoso ritmo cardíaco quase cento e

trinta pulsações -, os olhos dele cintilaram com uma luz
especial.
Piscou-me um olho e continuou debruçado sobre os
comandos electrónicos, absorto, como eu, no medidor de
combustível e da perigosa e iminente ignição do motor
principal.
. Quarenta e cinco segundos.
Sobre as nossas cabeças, as negras nuvens de evolução
vertical tinham começado a fragmentar-se. E a Lua como um
presságio -, na fase de quarto crescente, apareceu por
breves instantes, com a sua afiada forma de foice.
- Atenção, rapazes!. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco,
quatro, três, dois, um!.
Foram as últimas palavras do controlo.
- Ignição!
- Roger!. Aí vamos nós!
E o módulo, envolto numa espessa e branca nuvem, foi
catapultado para os céus de Massada.
Os relógios marcavam uma hora de sábado, 10 de Março
de 1973. A aventura tinha começado.
- Vamos!. Vamos!. Para cima! Para cima, meu lindo! Os
sistemas responderam com uma suavidade quase humana. -
Altitude: trezentos pés sobre Massada e elevando-se a zero
vírgula um por segundo. Trezentos e cinquenta. Trezentos e
setenta e cinco. - Roger, meu lindo, Roger! As nossas vozes
misturavam-se, carregadas de emoção e nervosismo. - Leitura
do combustível e temperatura do motor?
- Correctas respondeu Eliseu -, queimando a cinco quilos e
duzentos por segundo. O berço prosseguiu a sua ascensão. .
Setecentos pés. Setecentos e cinquenta. A cinquenta para o
nível de voo estacionário.
- Okay, vigia a leitura do Pai Natal.

- Foguetes auxiliares prontos!
- Roger. Oitocentos pés. Manobra de travagem!
- Okay, vamos bem.
- Ajustado nível estacionário: estamos a oitocentos pés
sobre a Meseta.
- Dá-me combustível e tempo de ascensão.CO(I11)lIlIÍVtl (
- Trinta segundos desde a ignição. Consumo calculado até
nível oito: cento e cinquenta e seis quilos. Estamos a
noventa e nove vírgula um por cento.
Aquilo significava que contávamos com um total de 16 244
quilos de combustível. Mais do que o necessário para os
voos de ida e volta e para as manobras de aterragem e
descolagem.
Mas, apesar das comunicações com terra terem sido
cortadas no próprio instante da ignição e de o módulo estar
camuflado não convinha prolongar a situação de imobilidade
ou de estacionário. Nessas condições, o consumo de
propulsante era sempre brutal.
- Pronta incandescência membrana, blindagem exterior.
- Roger!. Programada a cinco mil graus.
- Atenção! Activação do sistema de inversão axial à uma
hora e sessenta segundos. - Dispositivo em automático. Dáme
o WX. Quero saber se vou precisar de guarda-chuva.
Eliseu agradeceu a piada. Os segundos que antecediam a
inversão simultânea dos eixos das partículas subatómicas do
módulo e de tudo quanto encerrava no seu interior eram
sempre de uma tensão fora do normal. Mais ainda quando
ambos sabíamos que as novas mudanças de parâmetros
tridimensionais podiam acarretar-nos consequências funestas
para os neurónios.
- WX a dez milhas: visibilidade seis mil e trezentos BRKN.
Vento: cento e noventa graus. Não há alteração de

velocidade no nível oito. Em altura: por cima dos
cumulonimbos, ventos em trinta a vinte e cinco. Nível: dez mil
pés. - Okay, amigo disse para o meu irmão. - Lá vamos nós.
- Uma hora e cinquenta e cinco segundos.
- Boa sorte!
- Uma hora e sessenta segundos.
O computador central despoletou o mecanismo de
incandescência da blindagem externa e, ao mesmo tempo, o
sistema de inversão de massa, aniquilando todo o tipo de
germes que eventualmente tivessem aderido à fuselagem,
lançando-os, para o que poderíamos qualificar como outro
agora no permanente fluir do tempo2.
* WX" ou condições meteorológicas. Visibilidade seis mil e trezentos BRKN
quer dizer seis mil trezentos pés de altitude base das nuvens e BRKN",
abreviatura de broken (partido, em inglês), significa que as nuvens aparecem
partidas nalgumas zonas do céu. Estão cobertos mais de quatro oitavos do céu.
Vento, cento e noventa graus: direcção sudoeste. Nível oito: a oitocentos pés
de altitude. Ventos em 030 a 25: que têm direcção nordeste e que atingem uma
velocidade de vinte e cinco nós ou cinquenta quilómetros por hora,
aproximadamente.
(N. do M).
*2 Não é meu desejo desviar-me agora para as
descobertas revolucionárias dos especialistas do Cavalo de
Tróia em relação ao Tempo e ao Espaço (parte delas já foram
sumariamente descritas). Como simples apontamento
complementar, referirei algumas definições do que nós
entendemos agora como tempo. No contínuo espaço-tempo" -
ainda erradamente concebido por muitos físicos o homem
não é mais que uma espécie de ruga, desse Espaço; uma
"depressão, através da quarta dimensão, que poderíamos
definir matematicamente em dez dimensões. Em suma, uma
massa com volume e tempo associados. Para a maioria dos
seres humanos actuais, esse homem é um ser de três
dimensões que vive o fluir do tempo através de uma
sucessão encadeada de factos ou de acomtecimentos. Para
essas pessoas só há lembranças de acontecimentos

E os eixos do tempo dos swivels foram empurrados para um
ângulo equivalente ao retrocesso desejado: para a uma hora
de domingo, 9 de Abril do ano 30 da nossa Era.
Décimos de segundo depois, o primitivo sistema referencial
(1973) era substituído pelo novo tempo. Os cronómetros
monoiónicos da nave tinham começado uma contagem
esperada e fascinante: 09-04-30,
(* nota em continuação).
Ou situações passadas. O presente é a única realidade e o
futuro, naturalmente, não existe. As nossas descobertas
demonstraram que essa concepção está errada. Vou dar um
exemplo: imaginemos todos os acontecimentos que viveu,
vive e viverá um ser humano ao longo da sua existência. E
imaginemo-los alinhados sobre um eixo que represente a
dimensão tempo". Cada acontecimento aparece com uma
data. Pois bem, de acordo com as nossas descobertas, o
espaço e o tempo encontram-se tão intimamente ligados
que, se fundirmos todos esses acontecimentos formando uma
única imagem, resultará uma estranha criatura de quatro
dimensões (volume mais tempo), muito semelhante a um
cilindro" ouchouriço. Cada rodela" ou secção será a
representação de um acontecimento. Poderíamos classificar
esse formidável Htubo" como um contínuo e permanente
presente". Um para cada indivíduo. E o que é que representa
um corte ou secção desse contínuo presente"? Um
acontecimento em que o ser humano é o protagonista. Mas
esse acontecimento é uma mera ficção. Da mesma forma que
seria uma ilusão interpretar ou pensar que a totalidade do
cilindro, não pode ser cortada às rodelas, formando um todo
inviolável. Vou usar outra imagem. Suponhamos um bosque
pelo qual serpenteia um túnel de vidro ou plástìco
transparente. O interior desse túnel está cheio de móveis,
utensílios e objectos diversos. E imaginemos um homem a
nossa consciência
- que caminha por ele. É de noite e ele traz uma lanterna.

Ao longo da sua caminhada, o indivíduo vai iluminando os
objectos que encontra na sua passagem, e até parte das
árvores mais próximas das paredes de vidro do sinuoso
corredor.
Surpreendido, o nosso protagonista verá outros pontos
luminosos (outras lanternas), que não são mais que uma
infinidade de homens como ele percorrendo os seus
respectivos túneis. Tanto o túnel como o bosque já existiam
antes de aparecer cada um dos homens. No entanto, o que
caminha pensa que o que está a iluminar nesse instante
acaba de ocorrer nesse preciso momento. E chama-lhe
presente". O que deixou para trás é tido como passado, e os
objectos que ainda não viu, como futuroH. É claro que nem um
nem outro passado" e futuro" - existem para esse ser
humano. É evidente que está enganado. Tudo é um
permanente presente.
Pode argumentar-se, com razão, que esta situação
diminuiria a liberdade. Aí, precisamente, intervém outro
factor" - ao qual me referirei mais adiante e que
descobrimos" na nossa segunda exploração: aquilo a que
muitos chamam alma. Uma entidade difícil de rotular,
adimensional, que goza de uma sublime prerrogativa: poder
modelar a conduta do corpo em que se insere. Apesar de,
insisto, mais à frente me Ir referir a esta sensacional
descoberta a descoberta científica da «alma» -, talvez um
novo exemplo seja, para já, esclarecedor. Imaginemos de
novo que esse túnel, longo e " flexível, é adquirido pelo seu
Hproprietário" (a alma), que pode encurvá-lo e estendê-lo
pelo bosque com inteira liberdade. Obviamente, terá de
adaptá-lo à topografia, contornando as árvores e os
acidentes geográficos e, muito especialmente, procurar que o
percurso não perturbe o dos outros túneis. O verdadeiro
«proprietário» só precisa de olhar uma vez para contemplar a
totalidade do seu" túnel. O homem que, ao nascer, começa a
caminhar por ele, não é o seu autêntico dono. Trata-se

apenas de um corpo e de uma consciência". A Hconsciência
real é outra coisa. Mas a diferença entre estas duas
consciências" levar-nos-ia muito longe. (N. Do M)
* O cálculo exacto dos dias e horas que devíamos recuar"
no tempo não constituiu problema algum para os
computadores do Cavalo de Tróia. Os especialistas
basearam-se no sistema conhecido como data juliana". Para
saber o tempo entre duas datas muito afastadas é
necessário ter em conta as correcções dos diferentes
calendários, as diferentes Eras, os anos bissextos, etc. A
data juliana", que nada tem a ver com o calendário juliano,
começa a contar os dias a partir da segunda-feira, dia 1 de
Janeiro do ano d713A. C. Esse dia recebe o múmero 1. (N. Do
M).
e a hora real da nossa aparição": uma hora da madrugada.
E, à nossa frente, um enigma maravilhoso: quarenta ou
quarenta e cinco dias de exploração. Tínhamos retrocedido
709 637 dias.
9 DE ABRIL, DOMINGO (ANO 30)
- Tudo operacional?
Eliseu respondeu piscando de novo o olho. E durante
alguns segundos dedicámo-nos à obrigatória e rotineira
comprovação dos instrumentos. Os altímetros especiais a
que aludirei em breve não tinham modificado as suas
leituras: oitocentos pés sobre o terreno situado por baixo do
berço. O passo seguinte foi conferir as nossas coordenadas.
O meu companheiro, com a ajuda de um sextante, determinou
as novas posições da Lua e de algumas estrelas, introduzindo
os novos dados no Pai Natal.
O computador efectuou o cálculo e, segundos depois,
líamos no monitor o que já supúnhamos: o módulo não havia
alterado a sua localização no espaço. - Regulação da
plataforma de inércia sem alteração.
Um pouco mais calmos demos uma vista de olhos ao

exterior. A Lua, às três da nossa posição quase cheia,
brilhava com força sobre as imóveis águas do mar Morto. Não
havia sinais da nebulosidade que cobriria a região. Mil
novecentos e quarenta e três anos depois! Aos nossos pés,
tremulamente iluminada, a meseta de Massada. O luar cor de
prata permitia vislumbrar o perfil dos edifícios herodianos,
agora intactos. No sector norte, por trás dos armazéns e junto
da torre ocidental, despontavam outras tantas fogueiras.
Eram os únicos sinais de vida no alto do rochedo.
Possivelmente, acesas pelos guardas de turno da pequena
guarnição. - Uma hora e sessenta e cinco segundos.
Depois de consultar o WX vento calmo, visibilidade
ilimitada, baixa humidade e dez graus de temperatura, com
tendência para aumentar -, o Pai Natal de acordo com o
programado, começou a girar o motor principal (o J85), cujo
anel cardan ttnha sido modificado nesta ocasião, permitindo
assim uma propulsão horizontal do módulo. - Roger
exclamou Eliseu, mais uma vez surpreendido pela precisão do
computador central -, pegeons: dez graus. Distância calculada
até ao ponto Gedi? Nove vírgula sete milhas2
* Da mesma forma que os Apofo, o nosso módulo também foi programado para
utilizar dois tipos de métodos de navegação e direcção: o inercial e o de
orientação óptica. O primeiro assenta numa plataforma orientável situada numa
posição constante, quaisquer que fossem os movimentos da nave, graças a três
giroscópios. As estrelas e o horizonte podiam servir como sistema de referência.
Três dispositivos sensíveis à aceleração mediam todas as mudanças de posição.
Esses parâmetros eram transferidos para o Pai Natal que, depois de os comparar
com os correspondentes aos da trajectória de voo programada efectuava as
correcções oportunas. Qualquer desvio desencadeava um impulso eléctrico que
disparava os propulsores de controlo, com o objectivo de alterar a trajectória.
Claro que nós podíamos desligar este sistema automático e utilizar os comandos
manuais. (N. Do M)
*2 Dar pegeons, em linguagem aeronáutica, é fornecer o rumo e a distância.
10 graus: rumo nordeste. O ponto gedi correspondia à zona situada nas margens
do mar morto: o oásis de Ein Gedi, situado a 97 milhas da vertical de Massada.
(N. Do M)

- Okay. Leitura do combustível?
- Estamos a noventa e nove por cento.
E o berço iniciou o seu voo para nordeste, em busca do
chamado oásis de En Gedi. Uma vez ali, o computador
rectificaria automaticamente o rumo, virando para noroeste.
- Oscilação nula. Mantendo o nível.
- Okay, Eliseu. Tempo calculado para o ponto Gedi? O meu
companheiro consultou o plano de voo.
- A partir deste instante, dois minutos e seis segundos. À
uma hora, dois minutos e cinco segundos isto é, um minuto
depois de ter abandonado a posição estacionária a nave
atingiu a velocidade de cruzeiro prevista: quatrocentos
quilómetros por hora. - Nível?
- Dois mil pés.
Os nossos altímetros gravitacionais, bem como os
especialistas em engenharia aeronáutica e geofísica do
Cavalo de Tróia tinham preparado para esta missão
altímetros que, um dia, quando forem conhecidos pela
navegação comercial, substituirão os actuais métodos de
medição da altitude a que voa uma aeronave. Estes
altímetros especiais utilizam medidas que já avaliam a altura
em função do valor de g (constante da aceleração da
gravidade). O valor de g, como se sabe, varia de acordo com
a distância entre o ponto em que se mede e o centro do
planeta.
Assim, enquanto na superfície da Terra g" equivale a 98
m/seg2, um astronauta que suba num foguetão a uma
velocidade constante aperceber-se-á de uma paulatina
redução desse valor inicial de g", que será sentido como
uma perda de peso. Embora eu não esteja autorizado a
revelar todos os pormenores desta nova tecnologia, não
deixarei de apresentar algumas das suas principais
características. Para começar, direi que esses altímetros

foram reduzidos a um volume equivalente a alguns milímetros
cúbicos, conseguindo, além disso, uma precisão equivalente
a um centésimo milésimo de gal. O volume total do
instrumento não alcança os vinte e nove milímetros cúbicos.
Quase todos os seus elementos estão integrados num
minúsculo cristal de boro (isótopo estável de peso atómico
onze). Eis aqui um sucinto esquema do seu funcionamento: a
célula básica é formada por um espaço cilíndrico, de nove
micros de calibre, perfurada verticalmente num módulo
miniaturizado de boro cristalizado, quimicamente puro e
desidratado.
O interior do espaço cilíndrico capilar não contém uma só
molécula de gás e as suas paredes mantêm-se altamente
ionizadas com carga electrostática negativa. Na zona
superior, um espaço esférico termoestável, i contém uma
quantidade infinitesimal de gás rarefeito formado por
moléculas ionizadas de tiocianato de mercúrio com cargas
negativas. Uma célula discriminadora selecciona
sequencialmente moléculas isoladas de tiocianato,
libertando-as na extremidade superior do capilar.
Abandonando a molécula com um nível de energia cinética
nulo, esta inicia um processo de queda livre no interior do
capilar cujo eixo se mantém vertical e tangente às linhas de
força do campo gravitacional.
A molécula nunca chega a I aderir às paredes do capilar,
devido à força de repulsão que o campo electrostático
gerado pela distribuição de carga negativa exerce sobre a
própria molécula, também ionizada negativamente. Num
espaço circundante próximo recinto esférico também
escavado no cristal de boro um dipolo magnético (lãmina
elíptica microscópica formada por uma liga de cromo e de
ferro) é obrigado a girar com uma velocidade angular
constante de sessenta radianos por segundo.
O dipolo encontra-se em suspensão numa massa líquida
que preenche a cavidade (diâmetro: 0 74 mm. Emulsão

límpida). Consegue-se assim um campo magnético rotatório
muito débil, mas suficiente para ser detectado por um
transductor de bismuto (valor do campo H: 000002 Oersted).
Quando a molécula de tiocianato de mercúrio ionizado desce,
gera, por sua vez, um campo magnéticu muito frio que
perturba o campo girocírio gerado (*nota interrompida).
Barómetros e os radioaltímetros, mostravam que o berço se
deslocava ao longo da margem ocidental do mar Morto.
- Ponto Gedi.
Eliseu continuou a ler no monitor.
- Rectificação para radial trezentos e trinta e cinco. Okay, o
Pai ( Natal é uma bênção!
Com efeito, a nave tinha virado para noroeste, rumo ao
ponto B. - Distância calculada: vinte e quatro vírgula treze
milhas. O Pai Natal calcula o tempo de voo em seis minutos e
cinco segundos. - Roger. Parece que tudo está a correr sobre
rodas.
A verdade é que não tardaria a arrepender-me daquele
comentário. - Mantendo dezoito mil pés por minuto.
Três minutos depois de iniciado o novo rumo, os radares
detectaram um núcleo humano às oito da nossa posição
(aproximadamente, a sudoeste). Ao longe, efectivamente, a
pouco mais de novecentos metros de altitude, a ondulante
semiobscuridade dos contrafortes do deserto da Judeia
surgia quebrada por um tremeluzir cerrado e amarelado. Eram
os archotes e os candeeiros de azeite de Hébron.
- O perfil do terreno continua a subir. Mil e noventa e dois
pés. Mil duzentos e sessenta e três. Mil quatrocentos e
oitenta e cinco. Fazemos a correcção da elevação? Consultei
os altímetros gravitacionais:
- Margem de segurança a quinhentos e quinze pés.
- Não, faremos isso por cima do ponto B respondi,
indicando-lhe a nossa altitude: dois mil pés. - Por agora

vamos bem. Dás-me o combustível?
- Noventa e oito vírgula sete por cento.
- Entendido: noventa e oito vírgula sete.
- Afirmativo.
O radar alertou de novo o meu companheiro.
- Atenção!. Vejo o Herodium cinco por cinco. Setenta e dois
segundos para a vertical do ponto B. - Roger.
O Herodium com a sua forma cónica, semelhante a um
vulcão, estava à vista. Isso significava que nos
encontrávamos a uns oito quilómetros a sudeste do ponto B.
A especial configuração deste promontório, isolado
(* segue a nota).
Pelo dipolo anterior. Esta perturbação está em função da
velocidade momentânea da molécula em análise em cada
ponto do seu percurso. Mas, por outro lado, a velocidade
momentânea molecular depende do valor de g. Tal
perturbação é detectada e avaliada, ainda que o seu nível
diferencial seja da ordem de um trilionésimo de milioersted.
Um minicomputador recebe três canais de informação:
1. Informação, por via eléctrica, do campo magnético
detectado. 2. Informação, por via óptica (filamento de vidro),
sobre a velocidade de rotação do dipolo.
3. Informação, por via eléctrica, acerca das acelerações
do veículo sobre o qual se monta o altímetro gravitacional".
Esta última informação é muito importante para neutralizar
os erros causados por outras forças actuantes sobre a
molécula de tiocianato, discriminando-as da gravitacional. O
computador de integração fornece directamente por canal a
informação sobre a altitude. (N. Do N)
Entre os áridos montes da Judeia, tinha-nos levado a
considerá-lo nos momentos iniciais quando planeávamos a
presente expedição como um dos lugares possíveis de

localização da estação receptora de imagens do Big Bird.
Subindo-se ao cimo do Herodium descobre-se uma enorme
cratera artificial e, no seu interior, um magnífico palácio
fortificado, residências reais, piscinas e jardins em degraus,
tudo isso comunicando com uma cidadela superior através de
duzentos degraus de mármore. Foi outra das ciclópicas obras
do rei Herodes, o Grande. Ao que parece, o sanguinário
Herodes morreu em Jericó, mas deixou escrito que queria ser
sepultado na fortaleza que tem o seu nome. Na actualidade,
apesar das escavações arqueológicas, o esplêndido túmulo
de ouro com incrustações de pedras preciosas ainda não foi
encontrado. A nossa ideia, como mostro neste diário, não
chegou a vingar. Os judeus optaram por Massada.
- Herodium no ecrã e a quinze segundos.
- Recebido.
- Herodium na nossa vertical! Rectificação para radial
trezentos e sessenta graus.
- Dá-me nível.
- Mil e quinhentos pés e subindo. Mil e seiscentos.
- Distância calculada para chegada a ponto B?
- Temo-lo a quatro vírgula quatro milhas.
- Okay, vigia o Pai Natal.
Eliseu seguiu as minhas ordens, constatando com
satisfação como o computador forçava em vários graus a
direcção do jacto do motor principal, elevando a nave para
um novo nível de voo.
- Roger. Alcançando os três mil pés. Trinta e cinco graus.
Vinte graus. Módulo estabilizado.
- Atenção!. Ponto B à vista. O radar dá a leitura clara:
colinas de pedra. Perfil: dois mil e quatrocentos pés.
- Repete nível de voo.

- Estabilizado em três mil.
- Roger.
A verdade é que, se tivéssemos podido contar com uma
margem de tempo mais ampla no momento de planificar esta
nova exploração, e se tivéssemos contado, naturalmente, com
um conhecimento prévio do lugar da estação, o Cavalo de
Tróia teria podido simplificar o plano de voo do berço,
introduzindo no computador o sistema SMAC de navegação 1.
Mas as coisas eram como eram.
- Contacto com o ponto B!
Senti um estremecimento. Ali em baixo, apenas a
seiscentos pés, entre tortuosas colinas e azinhagas
salpicadas de enormes e brancas pedras, estava outro dos
objectivos da nossa exploração: Belém!
*1 O SMAC (Scene Malching Area Correlarion), um sistema utilizado nas
tristemente famosas bombas ou mísseis inteligentes", consiste num dispositivo
que regula a trajectória do aparelho, com base nas sucessivas imagens do solo,
comparando-as com as previamente armazenadas no computador e que podem
ser captadas por aviões de reconhecimento ou satélites artificiais, através da
técnica de varrimento televisual. Desta forma, o projéctil vai lendo" o terreno
sobre o qual voa, evitando os obstáculos. (N. Do N)
A escuridão não nos permitiu visualizar com precisão a
posição exacta da aldeia. Por outro lado, o terreno irregular e
pedregoso tornava difícil a leitura do radar.
Quase no topo de um daqueles outeiros, virado para norte,
desenhava-se o perfil de um núcleo diminuto de pequenas
casas, quase todas térreas. E aqui e ali, dispersas pelos
arredores, uma luz ou outra.
- Activada correcção automática de voo. Virando para radial
quinze graus Distância à vertical da base-mãe confirmada. -
Okay.
Base mãe em quinze e quatro vírgula cinquenta e seis
milhas.
- Roger. Reduzindo para nove mil por minuto.

- Diz-me nível.
- Perfil a descer. Dois mil pés. Agora a subir! Dois mil
duzentos e vinte pés.
- Roger!. Aí o temos nós!
- Graças a Deus!
O ecrã do radar começava a desenhar-nos o perfil sul do
monte das Oliveiras, a nossa base-mãe.
- Confirma redução de velocidade e combustível.
- Afirmativo. Continua a descer: seis mil pés por minuto.
Tanques a noventa e oito vírgula dois.
A tensão daqueles últimos minutos envolveu-nos por
completo.
O módulo tinha sido programado para voar até à vertical
da cota máxima do monte das Oliveiras situada a norte e a
2454 pés sobre o nível do mar e, uma vez ali, efectuar a
descida.
O ponto de contacto era praticamente o mesmo do nosso
primeiro salto.
- Verifica coordenadas.
- Okay: trinta e um graus, quarenta e cinco minutos norte.
Trinta e cinco graus e quinze minutos leste. Afirmativo: o
radar mostra o perfil de uma cidade às nove da nossa
posição.
- Jerusalém!
- E o que é que esperavas?. Honolulu? Eliseu não
respondeu à piada. De repente, o meu coração deu um salto.
Sob a mortiça luz avermelhada da cabina, a sua testa parecia
banhada de abundante suor. - Estás bem? Moveu a cabeça
afirmativamente e continuou com os olhos fixos no mostrador
dos instrumentos.
Ao princípio não dei muita importância àquele suor. Embora

a temperatura ambiente no interior do módulo não
ultrapassasse os quinze graus centígrados, tentei acalmar-me
atribuindo o suor à grande excitação daqueles últimos
instantes. - Activados retrofoguetes. A sessenta segundos
para posição estacionário. O computador central, pontual e
seguro, reduziu a força do J85, fazendo girar noventa graus. -
Dá-me nível de voo.
Eliseu não respondeu.
- Repito: nível de voo.
- Três mil pés. E a trinta para estacionário.
- Tanques?
- A um noven...
- Repete!
Meu Deus! O meu companheiro não conseguiu concluir a
leitura. Jazia sobre o encosto do assento, com o rosto pálido
e brilhantemente salpicado de suor.
- Eliseu, responde!. Eliseu!
Foi inútil. Comprovei as suas constantes vitais. O ritmo
cardíaco tinha baixado bruscamente: de cento e vinte para
noventa, provocando uma perda de consciência.
- Oh, meu Deus!
Com os nervos a ponto de explodir, os sinais acústicos e
luminosos do painel de alarmes vieram romper o silêncio da
cabina fazendo-me voltar à crítica realidade: era preciso fazer
descer o módulo.
1 hora, 11 minutos, 41 segundos
A nave tinha percorrido as 3839 milhas de voo (quase
setenta quilómetros) e acabava de ficar em voo estacionário
a quinhentos e quarenta e seis pés sobre o cimo norte do
monte das Oliveiras. Não havia tempo a perder. Se me
deixasse arrastar pelo pânico, as nossas vidas e a missão
podiam terminar ali mesmo.

Zero graus. Oscilação nula
- Vamos lá!. Para baixo, para baixo, meu lindo!. Isso
mesmo!. Descendo a vinte e três pés por minuto.
Em voz alta, animando-me a mim mesmo, fui controlando a
descida, atento ao intenso fluxo de leituras do computador
central. O Pai Natal tinha colimado, com precisão
matemática, a pequena clareira de dura pedra calcária sobre
a qual o «berço» já tinha pousado na primeira missão e que
se conseguíssemos chegar sãos e salvosconstituiria a basemãe
na nova expedição. - Roger!. Tanques a noventa e oito
vírgula um por cento. Nível: trezentos e vinte pés e descendo
a quatro. Roger, meu lindo! Eliseu continuava inconsciente.
- É assim mesmo!. Duzentos pés e a descer. Quatro e meio
e para baixo.
Embora tivesse sido previsto para o momento de aterrar
liguei o dispositivo de segurança do módulo, projectando a
trinta pés do berço um muro de ondas gravitacionais, em
forma de cúpula, que nos protegeria perante uma provável
presença de pessoas ou animais nos arredores. Os registos
electrónicos continuavam a vomitar dados.
. Setenta e cinco pés para contacto. Redução de velocidade
para dois pés e meio por minuto. Cinquenta pés. Quarenta e
cinco. Redução para dois Meu Deus! É quase nosso! De
repente, uma travagem brusca. Os quatro pés extensíveis da
nave chocaram com a rocha, acendendo as luzes de contacto
no painel de comandos.
Respirei profundamente. Os cronómetros indicavam a uma
hora da madrugada treze minutos e onze segundos.
Enfim, de volta! Mas aquelas não eram as circunstâncias
que eu tinha imaginado para o ansiado regresso à Palestina
de Cristo. O Pai Natal anunciou uma pequena inclinação do
módulo: quinze graus. Calibrei imediatamente as secções
telescópicas do trem de aterragem, nivelando a nave. Sem
fazer caso do que tinha sido planeado pelo Cavalo de Tróia,

desliguei o J85, anulando a ordem do computador que dizia
para manter ligado o motor principal durante um minuto e
meio a partir do momento da aterragem. Em caso de
emergência, teria bastado uma rápida digitação e o Pai
Natal- cumprindo o programa de regresso teria elevado de
novo o berço, executando o plano de voo inverso ao que
acabávamos de completar.
Uns segundos mais tarde, silenciada a quase totalidade
dos circuitos, comprovei a camuflagem infravermelha,
deixando em automático os sensores do segundo cordão de
segurança que rodeava o berço. A cento e cinquenta pés do
módulo a toda a nossa volta qualquer ser vivo que
atravessasse este perímetro podia ser visualizado nos
monitores, graças às radiações infravermelhas emitidas pelos
seus corpos. Como já comentei, se o intruso continuasse a
avançar, a membrana exterior estava em condições de emitir
um fluxo de ondas gravitacionais que se comportavam a trinta
pés da nave como um furacão, impossibilitando a
passagem de pessoas ou animais.
E, completamente arrasado, dediquei-me por inteiro ao
meu irmão.
- Responde!. Maldito sejas!
De repente, ao agarrá-lo pelos ombros, descobri que o seu
dispositivo RMN ainda estava a funcionar. Desesperado,
retirei-o, bem como o escafandro. - Eliseu!. Deus do céu! A
palidez, o frio e o abundante suor tinham-me baralhado e
angustiado. A que se deveria aquela perda súbita da
consciência.
Naqueles minutos dramáticos não consegui associar o
desmaio do meu companheiro ao processo de inversão dos
eixos dos swivels e por conseguinte, da rede de neurónios.
Se pelo menos o tivesse intuído, talvez a minha reacção
tivesse sido radicalmente diferente. O mais provável é que
tivesse dado por concluída a missão, regressando

imediatamente a Massada e ao nosso tempo. Mas o destino
como se verá, tinha outros planos.
Procurei deitá-lo no chão da nave, colocando-lhe as pernas
elevadas sobre o seu assento de pilotagem. Se aquele
desmaio pensava eu atabalhoadamente fosse devido à
falta de sono e ao grande stress dos últimos dias, sem deixar
de ter em conta a tensão do voo até à base-mãe, era
possível que estivéssemos perante uma síncope por
insuficiência de irrigação cerebral passageira e nada
preocupante.
Ao comprovar as constantes vitais de Eliseu durante aquele
período de inconsciência, o computador confirmou o meu
primeiro diagnóstico: descida brusca da pulsação cardíaca,
problemas respiratórios e de tensão arterial. Conclusão:
lipotimia. No entanto, embora o controlo rigoroso do Pai
Natal acusasse a noxa como possível responsável pelo
desmaio, alguns parâmetros não se encaixavam no quadro
clínico deste tipo de síncopes.
Chamaram-me a atenção, sobretudo, as insólitas
alterações electrocardiográficas e algumas mudanças
patológicas pouco comuns nas artérias carótidas: as que
transportam o sangue para a cabeça. Mas a confusão do
momento fez com que me esquecesse disso, pelo menos
durante algum tempo.
Depois de lhe ter dado umas bofetadas, procurando
desesperadamente alguma reacção, tomei-lhe o pulso.
Continuava baixo. Cada vez mais aturdido, dirigi-me à
reserva de fármacos. Poucos minutos depois lutava para que
ele bebesse uma mistura de água com vinte gotas de um
analéptico respiratório, recomendado especialmente para
estes casos de perda de consciência. O estimulante actuou
sobre a sua circulação e, dez minutos depois, voltava a si.
Pouco a pouco, a pulsação cardíaca, o ritmo arterial e a cor
foram-se estabilizando.

* Segundo o eminente professor Seyle grande estudioso da origem dos
estados de tensão ou stress -, os seus estímulos ou causas principais, a que ele
pôs o nome «noxa», estão muito interligados. A noxaH, sumariamente, actua
assim: estimula as glândulas endócrinas, activando as supra-renais e o sistema
adreno-simpático. As glândulas endócrinas enviam glucocorticóides para o
sangue; o sistema referido faz o mesmo com quantidades adicionais de
adrenalina e noradrenalina. (N. Do M)
- Jasão!. O módulo!
Aquelas primeiras e titubeantes palavras devolveram-me,
em parte, a calma. Tentou levantar-se, mas eu obriguei-o a
desistir, pedindo-lhe que ficasse mais alguns minutos na
mesma posição.
- Calma! Está tudo sob controlo tranquilizei-o. - O pior já
passou. Estamos em terra. Eliseu fechou os olhos e, depois
de respirar profundamente, indicou-me com a cabeça que
estava de acordo e que obedecia à minha sugestão.
Obedecendo a um primeiro impulso, digitei o Pai Natal. A
memória do computador deu-me imediatamente uma
informação completa sobre as plantas medicinais existentes
na nave e que podiam aliviar o meu irmão:
Éfedra. Contém alcalóides (efedrina, pseudo-efedrina, etc),
taninos, saponinas, tlavina, óleo essencial. Efeito:
vasodilatador, aumenta a tensão arterial estimula a
circulação, antialérgico Escila. Contém glicose cardíaca
escilareno A, glicoescilareno A, proescilaridina, muctna,
tanino, um pouco de óleo essencial e gordura. Efeito:
diurético, estimula o músculo cardíaco, regula o ritmo
cardíaco Ginkgo. Contém óleo clavinóide alcanforado
(kamferol), quercetina, luteolina, compostos de catequina,
resina, óleo essencial e gorduras. Efeito: aumenta o fluxo
sanguíneo por vasodilatação.
A lista começava a tornar-se interminável e optei, sem
mais, pelo ginkgo, uma planta extraída da árvore com o
mesmo nome e oriunda da China e do Japão.

Meia hora depois, Eliseu, com a sua habitual docilidade,
ingeria o extracto preparado com aquele espécime. Não
tardou a pôr-se de pé e às duas horas e trinta minutos,
completamente recuperado, voltou para o seu lugar, diante
dos comandos. As minhas recomendações para que se
deitasse no beliche e descansasse não foram aceites. Nesse
sentido, Eliseu tinha razão. Havia muita coisa a fazer e o
tempo perdido já era preocupante. A minha presença no
horto que era propriedade de José de Arimateia tinha sido
marcada pelo Cavalo de Tróia para as três horas,
aproximadamente.
De comum acordo, antes de iniciar a primeira fase da
exploração, efectuámos uma revisão minuciosa dos
equipamentos básicos. A pilha atómica continuava a fornecer
energia regularmente e os sistemas de infravermelho não
detectavam qualquer anormalidade no exterior. A reserva de
propulsante estava no nível previamente calculado para o
momento da aterragem: a noventa e oito por cento justos. A
verdade é que, embora a nossa confiança no Pai Natal fosse
quase absoluta e nós soubéssemos que ele teria sido o
primeiro a alertar-nos para possíveis falhas ou deterioração
dos instrumentos, tanto o meu companheiro como eu ficámos
mais sossegados depois daquela última revisão geral.
A disposição de Eliseu estava definitivamente a melhorar e,
de acordo com o planeado, enfrentámos os preparativos para
a minha imediata descida para terra.
Eram duas horas e quarenta e cinco minutos.
Não tive de deixar muitas coisas no módulo. Como já disse
algumas vezes, a operação não permitia, obviamente, que os
exploradores de outro tempo transportassem objectos que
pudessem ser anacrónicos para a população da época
histórica a estudar.
- Cronómetro de pulso, anel de ouro. E a placa de
identidade.

Eliseu encarregou-se das minhas coisas. Uma vez nu, tal
como mandava o plano, cooperou comigo numa minuciosa
revisão do meu corpo. Qualquer descuido podia ser
comprometedor.
Foi durante ésta operação, anterior à implantação da
chamada pele de serpente que o meu irmão reparou numa
coisa de que eu já me tinha esquecido.
- QuE é isto?
Ao apontar para as escamas que cobriam parte das minhas
pernas e as zonas dorsais dos antebraços, só pude encolher
os ombros.
Eliseu fulminou-me com o olhar. E, perante a sua
insistência, não tive outro remédio senão contar-lhe a
verdade. De facto, há uns dias que aquelas zonas do meu
corpo apresentavam um ressecamento anormal e aquelas
escamas. Ao mesmo tempo, pu-lo a par da não menos
estranha colónia de sardas ou lentigem senil cor de café
que salpicava o dorso das minhas mãos, parte do pescoço,
braços e antebraços.
- E então.
O meu companheiro, pouco amante de rodeios ou falinhas
mansas, foi direito ao que ambos tínhamos em mente.
. Isso poderá ter alguma relação com o hipotético ataque
aos neurónios?
Era muito difícil de saber. E foi o que lhe disse. Só era
certo que aquela descamação um fenómeno conhecido como
xerose se devia a uma inegável mudança evolutiva das
estruturas epidérmicas e outros anexos cutâneos. Um
fenómeno muito bem estudado pela geriatria, ou
especialidade que investiga os processos de envelhecimento,
tanto nos seus aspectos biológicos e psicológicos como
sociais. Havia, portanto, uma probabilidade de essas
manifestações da minha pele terem tido uma origem muito

mais profunda e grave: a alteração dos pigmentos do
envelhecimento no seio dos neurónios. No entanto, numa
tentativa de desanuviar o ambiente que nos envolvia, cada
vez mais carregado, coloquei uma ênfase especial noutra
possível causa daquelas sardas e escamas:
- Talvez estejamos a ir demasiado longe. Também não
podemos descartar a possibilidade de ser um efeito da pele
de serpente" sobre a epiderme, ou, até mesmo, na derme.
Este ressecamento, em última análise acrescentei com
muito pouco poder de convicção está directamente
relacionado com a diminuição da produção de gordura. E tu
deves saber que isso acontece às vezes devido ao uso de
sabões não gordurosos ou pelo roçar da roupa de lã e de
linho. Quando voltarmos falaremos disso com Curtiss.
Eliseu esboçou um semi-sorriso céptico. A pele de serpente,
fora sobejamente experimentada e nunca dera origem a
problemas como aquele.
* Creio já ter falado desta segunda pele, de grande utilidade nas minhas
correrias. Por meio de uma abertura tubular de aspersão, o corpo era pulverizado
com uma substância que formava uma fina película. O elemento básico era um
composto de silício em dissolução coloidal num produto volátil. Ao ser borrifado
sobre a pele, este líquido evapora rapidamente o diluente e cobre-a com uma
delgada camada porosa de carácter electrostático. Esta epiderme artificial e
milimétrica protegia o explurador de possíveis ataques bacteriológicos e
mecânicos, suportando, por exemplo, impactes equivalentes ao disparo de uma
bala (calibre vinte e dois americano) a uma distância de vinte pés. Este eficaz
futo" protector permitia, além disso, o processo normal de transpiração. (N. Do
M)
E o meu companheiro inteligentemente, mudou de conversa,
deixando de lado o incidente. Isso, pelo menos, foi o que eu
pensei naquele momento.
Sem qualquer outra interrupção, submeti-me à pulverização,
vestindo a valiosa e necessária armadura. Tal como da
primeira exploração, escolhi também uma pele de serpente
totalmente transparente, que evitasse perguntas ou
situações comprometedoras. Ao contrário da primeira
aterragem, e tendo em conta a maior duração da missão

actual e o virtual aumento dos riscos, a pulverização não se
limitou às zonas críticas: tronco ventre, órgãos genitais e
pescoço. Por desejo expresso dos directores do Projecto, a
pele de serpente cobriu também a totalidade dos meus
membros superiores e inferiores, excluindo, unicamente, os
pés e a cabeça.
Por estritas razões de continuidade, as minhas vestes não
foram alteradas. Para as pessoas com as quais me
relacionara desde quinta-feira, 30 de Março, até à
madrugada de domingo, 9 de Abril do ano 30, tudo
incluindo a roupa devia continuar a ser o mesmo. A verdade
é que para elas, do ponto de vista puramente cronológico,
apenas tinham passado algumas horas desde que me tinham
visto pela última vez. Os céus quiseram que, ao ajustar a
minha tanga, o meu irmão desatasse a rir. O meu aspecto
não devia ser muito ortodoxo e aquela situação engraçada
veio suavizar os momentos amargos pelos quais acabávamos
de passar. Aquela espécie de saq, muito semelhante à usada
pela quase totalidade dos homens da Palestina do século I,
tinha sido confeccionada e suavizada, na medida do
possível, com algodão, tendo como modelos os saq, ou
tangas que aparecem nos documentos arqueológicos do
Egipto e da Mesopotâmia.
O algodão dado o carácter íntimo da peça, era uma
concessão dos especialistas. Na realidade, se tivessem
seguido literalmente a informação existente, a minha tanga
devia ter sido fabricada num tecido muito mais grosseiro:
pano de saco. Por outro lado, o facto de ser um rico
comerciante grego de Tessalónica dedicado ao comércio de
vinhos e madeiras autorizava-me a dispor de roupas mais
adequadas ao meu status social.
Quando o saq foi atado à minha cintura, Eliseu ajudou-me
a enfiar o saiote castanho-escuro e a túnica simples cor de
marfim. Esta última, tecida sem costuras e à base de linho de
sequeiro, por hábeis tecelões sírios herdeiros do antigo

núcleo comercial de Palmira respeitando o costume grego,
era um pouco mais curta do que o chaluk ou túnica judaica.
Tratava-se na realidade de uma réplica do chiton dos meus
acompatriotas os Helenos. De acordo com as medidas-padrão
dessas túnicas ou chiton, a minha descia alguns centímetros
abaixo dos joelhos. Embora o cinto ou cordão pudesse ter
sido de melhor qualidade, de acordo com a minha categoria
e posição social, o Cavalo de Tróia considerou que não
convinha despertar a atenção das pessoas, nem tentar a
inveja alheia com uma peça de ouro ou de prata. Para o seu
entrançado foram suficientes umas modestas cordas egípcias.
O manto ou Chlamys ao qual nunca consegui habituar-me
dava mais nas vistas do que o usado mormalmente pelos
Judeus: o talith.
Igualmente tecido à mão, com lã dos montes da Judeia,
apresentava uma cor azul-celeste, discreta mas aveludada,
fruto do glasto utilizado na tintura. Esta peça, que eu estava
a tentar enrolar ao pescoço e aos ombros era completamente
imprescindível na vida quotidiana daquela sociedade. Além
de representar um símbolo de dignidade (para os judeus era
de mau tom apresentarem-se sem ele no Templo ou diante de
um superior), servia para múltiplas situações: como manta ou
cobertor, para se taparem quando dormiam ao relento, para
cobrir uma cadei a ou até para colocar aos pés de um herói
ou personagem relevante.
Os dois pares de sandálias que me tinham sido entregues,
esses, sim, foram modificados, de acordo com a perspectiva
da última fase da nossa exploração, a qual como narrarei
mais adiante exigia de nós um esforço físico especial.
Embora o material utilizado fosse basicamente o mesmo
esparto entrançado nas montanhas turcas de Angora -, as
solas foram substituídas por um sólido aglomerado de juncos
e casca de palmeira. Parcialmente oco. Os especialistas
tinham camuflado os sofisticados sistemas nuns pequenos
nichos.

Dado que uma das últimas etapas da nossa estada em
Israel previa várias e duras caminhadas, as sandálias tinham
sido acondicionadas com um microcontador de passos com o
correspondente cronómetro digital e interruptor de programa.
O sistema tinha sido experimentado havia algum tempo pelo
astronauta Aldrin num dos seus passeios pela superfície
lunar.
Os sensores colocados na sola permitiam conhecer as
distâncias percorridas, o tempo que se demorava e, até, as
calorias gastas em cada deslocação. Além disso, se
quiséssemos, podíamos ligar uma célula minúscula que
elevava a temperatura do calçado, protegendo os pés em
situações de extrema dureza.
Aquelas sandálias electrónicas como lhes chamávamos
entre nós prestar-nos-iam um serviço notável. Cada
exemplar foi perfurado manualmente, incrustando no
perímetro de cada sola finas tiras de couro de vaca,
devidamente untadas de pez. Cada cordão era tão comprido
cinquenta centímetros que segurava perfeitamente o
calçado, pois podia dar-se quatro voltas à perna.
O segundo dispositivo, também introduzido na sola, tinha
um carácter puramente logístico. Consistia num
microtransmissor capaz de emitir impulsos electromagnéticos
a um ritmo de 0000138 5 segundos. Este sinal era registado
na vara de Moisés e logo a seguir, amplificado e
transportado a longa distância por um laser muito especial,
que procurarei descrever na devida altura. Graças a esta
técnica, de uma
* O famoso domingo de Ramos" teve a oportunidade de o comprovar. O talith,
ou manto judaico, desempenhava um papel tão vital naquela sociedade que a Lei
- Êxodo, XXII, 26, e Deuteronómio, XXIV12 obrigava o credor que o tivesse
recebido em sinal ou garantia de uma dívida a devolvé-lo ao dono antes do cair
da tarde. (N. Do N.) *2 Como se sabe, os pés constituem uma das partes mais
sensíveis às baixas temperaturas. Num ambiente de 23"C, por exemplo, só
atingem um nível de 25oC. As mãos, pelo contrário, podem manter uma média de
30"C. E, apesar de o mês de Abril já não ser um mês rigoroso na Palestina, o
Cavalo de Tróia preferiu acrescentar este sistema, numa previsão de possíveis

mudanças climatéricas. (N. Do M)
precisão extraordinária Eliseu podia seguir os meus passos
no radar do berço. Esta radioajuda seria lIgada unicamente
quando me visse obrigado por exigências da exploração a
afastar-me do módulo para lá dos quinze mil pés. A partir
desse limite, a banda de recepção da ligação auditiva, que
eu também devia levar no interior do meu ouvido direito,
tornava-se inútil.
E, após uma última revisão do meu uniforme, sentei-me,
indicando ao meu irmão que estava pronto para receber a
correspondente cabeça de fósforo. Assim tínhamos baptizado
as cápsulas acústicas miniaturizadas que eram activadas por
um equipamento de ondas gravitacionais. Esta ligação
auditiva de incalculável valor, como ficou demonstrado na
missão anterior proporcionar-nos-ia uma comunicação nítida
e permanente enquanto eu estivesse no exterior.
A colocação da prótese, embora simples, exigia mãos
hábeis.
E, em poucos minutos, ficava encaixada a poucos milímetros
do orifício de entrada do canal auditivo externo, entre as
paredes cartilaginosas. Eliseu foi então colocar-se diante do
receptor-transmissor, fazendo-me um gesto para que fizesse a
experiência. Carreguei com os dedos na parte central da
orelha, empurrando o trago e o antitrago. Os respectivos
alertas um apito agudo e uma luzinha cor de laranja
confirmaram imediatamente a excelente ligação auditiva. -
Okay!. E não te esqueças de que és surdo de nascença 1.
Agradeci o bom humor do meu companheiro. Os
cronómetros avançavam inexoravelmente e eu começava a
ficar inquieto. A missão devia ter arrancado às duas horas e
trinta minutos e já eram quatro horas da madrugada.
Curtiss pôs de lado o terceiro dispositivo de ligação com a
nave. Com a cabeça de fósforo e o microtransmissor na sola
da minha sandália direita era mais do que suficiente para

garantir uma ligação nítida e contínua. A fivela de bronze da
minha capa durante a investigação anterior, que ocultava um
emissor para mensagens de curta duração, foi, portanto,
anulada. Ficou no berço, preparada para ser utilizada em
caso de emergência. No lugar dela, foi colocada na chlamys
uma fivela normal de elos, também de bronze, e muito
parecida com os nossos alfinetes de segurança.
Finalmente, peguei no saco de borracha impermeabilizada
e meti lá dentro os cem denários que tinham sobrado da
última exploração, meia libra romana em pepitas de ouro, as
incómodas, mas necessárias, lentes de contacto crótalos e o
salvo-conduto que ainda conservava e que me fora passado
pelo procurador romano na manhã do dia 5 de Abril, quartafeira.
A primeira fase da missão consistia numa breve incursão,
com uma duração máxima de oito horas. Quer dizer, supondo
que eu tivesse descido do módulo no momento estipulado
às duas e
*1 Como também já expliquei, embora eu não pudesse receber a voz de Eliseu
directamente, as minhas chamadas para o módulo, em contrapartida, exigiam que
eu, previamente, pressionasse a parte externa do meu ouvido direito, para
activar a cápsula acústica. Com o fim de evitar suspeitas entre os habitantes de
Jerusalém e arredores, o Cavalo de Tróia tinha estabelecido que eu fingisse uma
ligeira surdez. (N. Do M)
meia da madrugada -, o meu regresso ao módulo devia
acontecer às dez horas e trinta minutos. Durante esse tempo,
estava encarregue dos primeiros e importantes objeetivos:
tentar uma aproximação e análise do suposto corpo glorioso,
do Mestre e apoderar-me de um tesouro. Um tesouro
científico e arqueológico,
entenda-se. Um tesouro que tinha de ser levado para a
nave, submetido a uma exaustiva investigação e,
naturalmente, devolvido ao seu lugar de origem no prazo
mais breve possível.

Por esta razão, dado que tinha de regressar naquela manhã
de domingo, as outras peças do meu equipamento pessoal
a utilizar ao longo da exploração não seriam retiradas do
módulo nesta primeira saída. Esta circunstância aconselhava,
também, que os dinheiros a manipular naqueles momentos
fossem os estritamente necessários para as primeiras
necessidades. O Cavalo de Tróia, por conseguinte,
determinou que eram suficientes os cem denários e a meia
libra: uns cento e sessenta e três gramas em ouro. Mas, claro,
primeiro, tornava-se necessário trocá-los por moedas de
circulação legal na Palestina: denários de prata e peças
fraccionárias; especialmente siclos, asses e óbolos ou
sestércios.
- Quatro horas e quinze minutos.
O meu irmão montou a vara de Moisés e, ao entregar-ma,
exclamou com a voz entrecortada pela emoção: - Boa sorte!
Embora a minha ausência não fosse longa, obriguei-o a jurar
que ao menor sintoma de desmaio ou mal-estar me avisaria
imediatamente. Eliseu compreendeu e apreciou a minha
preocupação sincera e, depois de verificar que as
proximidades do berço continuavam desertos e silenciosos,
indicou-me o monitor e a última leitura meteorológica:
- Temperatura na superfície: doze vírgula oito graus
centígrados. Vento: calmo. Humidade relativa: abaixo de
dezassete por cento.
E com uma pancada seca sem desviar o olhar dos
controlos electrónicos ligou o mecanismo de descida da
escada. Eu não gostava muito das despedidas. Por isso, sem
mais demoras, notando que os meus olhos se humedeciam,
deixei cair a mão esquerda sobre o ombro do meu irmão. E,
girando sobre os calcanhares, enfiei pela escotilha de saída
e desapareci.
Eram quatro horas e vinte e oito minutos.
Precisei de uns minutos. As minhas pupilas foram-se

adaptando à escuridão e, pouco depois, a luz oblíqua da Lua
provocava milhares de cintilações nas copas cinzentas das
oliveiras que rodeavam a clareira pelo lado sul. Dei quatro ou
cinco passos e parei. Um silêncio pastoso e anormal
apoderara-se do lugar. Tal como a primeira descida sobre a
Palestina de Cristo, as emissões de ondas e a poeira
levantada pelo J85 tinham feito emudecer os insectos e
avezinhas que colonizavam aquele segundo cume
* No câmbio, aqueles 163 gramas de ouro equivaliam a cerca de 379 denários.
Devo lembrar que o preço de um par de pássaros
era um asse. Por sua vez quatro denários de prata ou dracmas representavam
um siclo de prata. Um denário subdividia-se em 16 asses ou 61 quadrantes ou
128 leptas. O denário romano tinha então um sério competidor: o zuz, uma peça
de prata de valor senelhante e cunhada pelos joalheiros fenícios de Tiro.
(N. do N)
do monte das Oliveiras. Olhei a toda a minha volta,
perscrutando a escuridão azulada que surgia recortada entre
os troncos negros das oliveiras. Com efeito, tudo parecia
calmo. Mas aquele silêncio. Se pelo menos tivesse ouvido o
gorgeio do zamir.
Depois de uns segundos de hesitação recomecei a andar,
metendo pelo pequeno monte que fechava pelo lado
ocidental o lugar onde se encontrava a nave. Se não me
estivesse a faltar o sentido de orientação, eu estava no sopé
da ladeira dentro de poucos minutos. Uma vez lá, com
Jerusalém do outro lado do desfiladeiro, o meu caminho seria
mais cómodo.
Ao contornar os maciços de murtas e de acantos, à medida
que me aproximava da beira do cume, o meu coração
começou a palpitar e uma imparável excitação fez que as
minhas pernas fraquejassem. Não tive outro remédio senão
parar.
- Meu Deus!
Eliseu ouviu a minha exclamação. E, ligando o contacto,

perguntou: - Estou a receber-te em cinco por cinco. O que é
que está a acontecer?
Antes de responder, inspirei profundamente várias vezes,
procurando acalmar a minha pulsação.
- Roger, eu também te recebo alto e claro. Nada! Deve ser
da emoção. Estou a ponto de entrar na velha cidade e isso
traz-me recordações. Câmbio. - Okay!. Ânimo! Enxuguei o suor
das minhas mãos e agarrando a vara com força voltei a
respirar profundamente. A intensa e agradável fragrância do
matagal, prenúncio da esplêndida Primavera judaica, invadiume
por completo. E o meu espírito, agradecido e estimulado,
recuperou. Quando já me encontrava a meia centena de
metros do ponto de contacto, a voz do meu solitário amigo
voltou a soar na minha cabeça: - Atenção, Jasão!.
Estás no perímetro da segunda cintura de segurança. O
radar está a ver-te a cento e cinquenta pés do berço.
Câmbio.
Dei meia volta e, dirigindo o olhar para a plataforma
rochosa onde estava pousado o módulo invisível, carreguei
no meu ouvido e retorqui a meia voz: - Entendido. Câmbio.
- Acho que, antes de continuar, deves experimentar os
crótalos. E dá-me o resultado.
Ele tinha razão. Com os nervos que eu tinha naquela altura,
esquecera-me da necessária verificação das lentes de
contacto especiais. Tirei-as do pequeno estojo que levava na
minha bolsa e, depois de as colocar, levantei o rosto para o
centro da clareira. A radiação infravermelha emitida pela
nave surgiu perante mim como uma visão vermelha e infernal,
pulsando, gigantesca, no meio de um cenário negro e frio.
Sob aquela massa cor de grenate cintilava uma faixa de um
branco amarelado, consequência do calor acumulado pelo
motor principal.
* Ampla informação sobre os crótalos no primeiro volume desta obra. (N. Do A.)

- Vejo-te cinco por cinco. Impressionante! Vou continuar a
descer. - Okay!. E de novo boa sorte!
Tal como esperava, alguns minutos depois, já à beira do
grande barranco do Cédron, a claridade do luar fez surgir
diante de mim o perfil da Cidade Santa.
- Jerusalém!
E uma cascata de calafrios e sensações deixou-me
paralisado.
Lá estava ela: majestosa, com as suas altas muralhas
tingidas de um azul espectral e a cúpula do Templo
sobressaindo branca
- quase cor de neve, em direcção a um céu transparente e
pontilhado por uma Via Láctea feita espuma.
A quarta e última vigília da noite aproximava-se já do seu
fim e as sinuosas e apertadas vielas dos bairros alto e baixo
- pessimamente iluminadas pelas tochas e lampiões de
azeite estavam desertas. Alheías ao extraordinário
acontecimento que se dera uma hora antes e que, em breve,
ao alvorecer, faria estremecer os seus habitantes.
Fiz uma nova ligação com o módulo e Eliseu disse-me a
hora exacta: - Quatro horas e cinquenta minutos.
Não havia tempo a perder. O nascer do Sol seria às cinco
horas e quarenta e dois minutos. E, de acordo com os nossos
cálculos, as mulheres surgiriam no jardim de José de
Arimateia, preparadas para lavar e amortalhar o cadáver do
Galileu, de um momento para o outro. Se é que lá não
estavam já.
Aquela lamentável cadeia de imprevistos e contratempos
tinha-nos atrasado perigosamente. Já não faltava sequer uma
hora para o nascer do Sol. Se já se Uvesse dado a primeira
das supostas aparições do Mestre, ver-me-ia obrigado a
tentar a sorte com a segunda, citada pelo evangelista Lucas.
De acordo com Lucas, nesse mesmo dia embora sem

precisar a hora o Ressuscitado tinha acompanhado dois dos
discípulos quando iam a caminho da povoação de Emaús.
Mas, como disse, o relato evangélico era confuso.
Como e onde localizar esses discípulos? Consolei-me ao
pensar que, na pior das situações, se eu fracassasse nas
duas tentativas, sempre restaria uma terceira oportunidade:
a reunião dos apóstolos no entardecer daquele domingo,
primeiro dia da semana, segundo as palavras de João.
Menos de uma hora para o amanhecer! A situação era mais
comprometedora do que imagináramos. Era preciso alterar os
planos. O Cavalo de Tróia de acordo com as minhas
sugestões, tinha previsto o meu acesso ao sepulcro pelo
caminho mais longo. E seguro. Uma vez no exterior devia
procurar o caminho que, vindo de Betânia, atravessava o
cume do monte das Oliveiras para descer até ao extremo sul
da cidade. A minha entrada em Jerusalém seria pela Porta da
Fonte e, aproveitando as ruas desertas, atravessaria a
cidade sem ser notado e iria até ao extremo norte, pela
Porta dos Peixes.
O troço entre a muralha setentrional e a propriedade de
José podia ser percorrido em poucos minutos.
Uma breve reflexão foi suficiente para me convencer. Era
preferível esquecer o itinerário inicial e, com o fim de ganhar
tempo, aventurar-me pelo caminho mais curto e perigoso.
Não havia alternativa caso eu, na verdade, quisesse estar
presente na primeira aparição.
Para não inquietar inutilmente o meu irmão, não lhe revelei
a minha decisão. Era a primeira violação do plano
estabelecido por Curtiss e, por sorte ou por infortúnio, não
seria a última.
Com o espírito decidido, lancei-me ladeira abaixo, ao
encontro do fundo do vale que me separava da muralha

oriental do Templo. Aquele gesto voluntarioso custar-me-ia
caro.
A abrupta encosta recebeu-me como era de esperar.
Mantendo com dificuldade o equilíbrio, agarrando-me aqui e
ali aos lentiscos e giestas e evitando as rochas aguçadas fui
ganhando terreno. Amaldiçoei várias vezes a minha
estupidez.
A desalinhada chlamys ficava enganchada nos espinhos
daquela vegetação agreste. Se não fosse a minha pele de
serpente, os meus braços e as minhas pernas teriam ficado
com um sangrento e deplorável aspecto.
Cerca de quinze minutos depois galgava o leito seco e
pedregoso do barranco.
Detive-me para tomar ar. Compus o meu manto amarrotado,
lamentando os rasgões e, com o coração aos saltos deitei um
olhar à minha volta. Os cinquenta ou sessenta metros de
profundidade do Cédron, naquele ponto, e o já iminente
desaparecimento da Lua por trás da muralha ocidental tinham
sepultado o desfiladeiro em trevas inquietantes. Depois de
alguns segundos de nervosa escuta e mais do que difícil
observação, decidi atravessar o fundo do vale, dirigindo-me
para o muro informe que fechava o Templo e a cidade e que
se erguia como uma continuação da nova encosta que tinha
diante de mim. Tudo naquele lugar tétrico era silêncio. Um
plúmbeo e irritante silêncio.
Muito perto de onde me encontrava, um pouco mais para
norte, passava outro caminho que vindo das aldeias próximas
de Betânia e Betfagé, subia para o monte das Oliveiras e
descendo pela encosta ocidental, ia morrer nas proximidades
da Porta Dourada, na muralha oriental do Templo.
Ali mesmo, muito perto da esquina nordeste do recinto
sagrado, o caminho ramificava-se e, dobrando a muralha,
perdia-se paralelamente ao muro norte e à Fortaleza Antónia,
havendo uma nova bifurcação diante da Porta dos Peixes: um

caminho dirigia-se para a costa, para Cesareia, o outro,
directamente para norte, para a Samaria e Galileia. A minha
intenção era ir ao encontro desse caminho e, contornando
Jerusalém, ir dar rapidamente à quinta e ao sepulcro. O
caminho escolhido, sensivelmente mais curto, era também
muito solitário e por conseguinte, teoricamente pouco
aconselhável àquelas horas da noite. Por um momento veiome
à memória o desagradávelencontro com um ladrão na
noite de quinta-feira santa.
E tive de reunir todas as minhas energias para poder
continuar. Procurando evitar os calhaus que salpicavam o
leito do Cédron, avancei alguns metros. Subitamente uma
coisa me fez parar. Eram grunhidos.
Uns grunhidos horríveis. Imóvel como uma estátua, esforceime
por perscrutar a escuridão do barranco. Mas as trevas
eram tão densas que os meus olhos se perderam entre as
rochas e ilhotas de moitas. De novo caiu o silêncio. Um negro
silêncio.
Voltei-me, prescrutando inutilmente o lado sul do
desfiladeiro. O coração, em alerta máximo, palpitava com
força. E uma inconfundível sensação de medo eriçou-me os
cabelos.
Pela segunda vez agora atrás das costas -, aquele
grunhido provocou-me uma descarga de adrenalina,
prendendo-me os músculos. Virei-me lentamente. O que quer
que fosse, estava a norte e, a julgar pela intensidade do
som, bastante mais próximo.
Forcei a vista numa tentativa desesperada de localizar
algum vulto ou, pelo menos o movimento da ramagem. Foi
inútil.
Com um ligeiro tremor, deslizei a minha mão direita para o
alto da vara de Moisés, à procura de um dos pregos com
cabeça de cobre. Se os grunhidos fossem de algum animal
selvagem, aquela era uma ocasião única para experimentar o

dispositivo de defesa integrado no meu novo equipamento.
Carreguei no prego.
Maldição!
Não trazia os crótalos. Sem as lentes de contacto
especiais, a eficácia do sistema diminuía notavelmente.
Aturdido, peguei na bolsa de borracha. Mas, no momento
em que ia abri-la, oscilaram com violência várias moitas a
cinco ou seis metros de mim. Senti o sangue a gelar-me nas
veias.
Algo avançava em direcção a mim. Era uma sombra baixa e
alongada. Não, duas!. Recuei uns passos, mas com tanto azar
que tropecei numa pedra, estatelando-me estrepitosamente.
Liguei o contacto auditivo.
- Meu Deus!
- Jasão!. O que foi?
Eliseu tinha ouvido a minha exclamação e, assustado, fez
também a ligação auditiva.
Os vultos pararam e, quase não houve tempo para uma
resposta. Simultaneamente, soltaram uivos agudos e
estremecedores.
- Jasão!- insistiu o meu irmão. - O que é que foi? Responde.
Levantei-me de um salto. Um novo calafrio impiedoso pôsme
de pé os cabelos da nuca, eriçando-os como se fossem
pregos.
- Não sei! - respondi, quase sem forças. - Parecem chacais!.
Ou talvez cães selvagens!
Eu já tivera a oportunidade de ver, na minha exploração
anterior, algumas matilhas de cães selvagens metade
lobos, metade chacais comuns ou canis aureus, tão perigosos
como os seus congéneres os africanos de lombo reto ou os
listrados a andar pelos arredores da Cidade Santa e a

devorarem carne de animal morto. Aqueles famélicos, ariscos
e perigosos cães-chacais, muito diferentes dos cães
domésticos que hoje conhecemos, eram um pesadelo para o
infeliz peregrino que viajasse sozinho. E o desfiladeiro, a
lixeira localizada a sul a célebre Geena constituíam um
território muito propício para as suas correrias.
As sombras foram-se aproximando.
- Jasão!.
Quando jáestavam a pouco mais de três ou quatro metros,
dois pares de olhos semi-rasgados e de cor de mel
relampejaram na escuridão. Levantando as cabeças,
intensificaram os uivos, que ecoaram várias vezes por entre
as encostas do desfiladeiro.
Logo a seguir, os uivos cessaram e um dos animais,
grunhindo surdamente, levantou as orelhas compridas e
pontiagudas, mostrando-me uns caninos afiados e húmidos.
Lutei por abrir a bolsa.
- Oh, meu Deus!.
A besta retesou os seus robustos jarretes e arremeteu,
saltando como um raio para o meu pescoço.
Com um movimento reflexo interpus o meu braço esquerdo,
inclinando-me para trás instintivamente. - Jasão. Responde.
As suas fauces cravaram-se no meu pulso, fechando-se como
um cepo sobre a minha pele. Melhor dizendo, sobre a pele de
serpente. Poucos segundos depois, como um estalido, alguns
caninos saltaram pelos ares. O animal, cego no seu ataque
selvagem, continuou revolvendo-se no chão, sem soltar a sua
presa.
- Maldita seja!. Jasão!
Aterrorizado, com os músculos duros como pedras, resisti
tentando libertar-me das mandíbulas. Mas a situação
complicou-se quando o segundo chacal ou cão selvagem,
talvez intuindo que o irmão dele conseguira imobilizar

parcialmente a vítima, arremeteu contra o meu flanco direito,
desferindo todo o tipo de dentadas nas coxas e baixo ventre.
Nalguns dos seus ataques furiosos, o último chacal rasgou
parte da túnica e do manto. Tentei bater-lhe com a base da
vara, mas os ataques e os recuos contínuos e os puxões
fortes do primeiro tornavam imprecisas as minhas pancadas e
os meus pontapés.
Tinha que arriscar!
Assim, banhado em suor, quase exausto, apontei com a
parte superior do bastão para a cabeça daquele que lutava,
entre baba abundante e latidos por partir o meu pulso
esquerdo. O dispositivo ultra-sónico de defesa falhou nas
primeiras tentativas. Então, inclinando-me até sentir o fedor
nauseabundo da fera aproximei a faixa negra da vara até a
um palmo da base da cabeça.
O segundo animal, num novo e frenético ataque, levantarase
sobre os quartos traseiros, cravando as mandíbulas e as
falciformes e aceradas unhas no meu braço e flanco. E os
caninos e as garras deste tiveram o mesmo destino que os
do primeiro.
Desta vez, sim tive sorte. E o feixe de ondas penetrou por
um dos olhos da besta. Ao receber a descarga de 21000
Herz, emitiu um lastimoso e curto latido, soltando o meu
braço.
- Jasão. Jasão!.
Cheio de dor, o segundo chacal saltou para trás, fugindo
precipitadamente e, tal como o outro que recebera os ultrasons,
ganindo e gemendo com a longa cauda entre as patas.
Em menos de um segundo desapareceram na escuridão. E os
seus ganidos foram-se distanciando até que, pouco depois, o
silêncio voltou a dominar a quebrada.
- Jasão! Responde!
Eliseu, desesperado, insistia mais uma vez. Deixei-me cair

sobre uma pedra e a tremer dos pés à cabeça, carreguei no
ouvido, explicando o que acabava de acontecer.
- Pelo amor de Deus!
Teve razão o meu companheiro para desabafar, acusandome
de inconsciente e insensato. Mas o pior já tinha passado.
A defesa ultra-sónica e a "pele de serpente" tinham
funcionado.
Aquela frequência, que podia ser aumentada até 10".
roçando quase os hipersons, tinha resultados fulminantes
para determinadas espécies de animais.
Eu disse que o pior já tinha passado?. Sim, isso foi o que
eu pensei. Mas as surpresas, naquela madrugada tinham
apenas começado.
Não havia tempo para contemplações. Assim, pondo de
lado os enormes rasgões que destroçavam o manto e a túnica
pus-me a caminhar, ansioso por sair de uma vez para sempre
daquele funesto vale.
Só faltavam doze minutos para o amanhecer.
Que teria acontecido entretanto no horto de José?"
* Um dos dispositivos situados no interior do cajado o de
ondas ultra-sónicas, de natureza mecânica, e cuja frequência
se situa acima dos limites da audição humana (superior aos
dezoito mil Hertz) tinha sido modificado tendo em vista
esta nova missão. O Cavalo de Tróia proibia terminantemente
que os seus exploradores ferissem ou matassem os
indivíduos objecto das suas investigações. O código moral,
como eu já disse, era rigoroso. Mas, prevendo possíveis
ataques de animais ou de homens, como meio dissuasório e
inofensivo, Curtiss aceitara que os ciclos das referidas ondas
fossem intensificados até ultrapassarem mesmo os vinte e um
mil Hertz. Em caso de necessidade como vimos -, o uso dos
ultra-sons podia resolver situações de perigo, sem que
ninguém chegasse a aperceber-se do sistema utilizado. Como

também já expliquei, tanto os mecanismos de
teletermografia" como os de ultra-sons eram alimentados por
um microcomputador nuclear, estrategicamente inserido na
base do bastão.
A cabeça emissora", colocada a um metro e setenta
centímetros da base da vara", era ligada por um prego de
cabeça larga de cobre, trabalhado como tudo o resto de
acordo com as antiquíssimas técnicas metalúrgicas
descobertas por Glueck no vale da Arabá, a sul do mar Morto,
e em Esyon-Gucher, o lendário porto de Salomão no mar
Vermelho. Os ultra-sons, pelas suas características e natureza
inócua, eram apropriados para a exploração do interior do
corpo humano.
Com base no efeito piezeléctrico, o Cavalo de Tróia colocou
na cabeça emissora, camuflada com uma faixa preta, uma
placa de cristal piezeléctrico, formada por titanato de bário.
Um gerador de alta frequência alimentava a placa produzindo
assim as ondas ultra-sónicas. Com intensidades que
oscilavam entre os 25 e os 28 milwatts por centímetro
quadrado e com frequências próximas aos 225 megaciclos, o
dispositivo de ultra-sons transforma as ondas iniciais em
outras audíveis, mediante uma complexa rede de
amplificadores controladores de sensibilidade, moduladores
e filtros de bandas sonoras.
Com o fim de evitar o árduo problema do vento inimigo
dos ultra-sons -, os especialistas inventaram um sistema
capaz de aprisionar e conduzir os ultra-sons através de um
finíssimo cilindro ou tubo, de luz laser de baixa energia, cujo
fluxo de eleetrões livres ficava congelado no próprio instante
da emissão. Ao manter um comprimento de onda superior aos
oito mil angstrons (OA micros), o tubo, laser continuava a
manter a propriedade essencial do infravermelho, pelo que
só podia ser visto com o uso das lentes de contacto
especiais (crótalos"). Dessa forma, as ondas ultra-sónicas
podiam passar pelo interior do cilindro" ou túnel" formado

pela luz sólida" podendo ser lançadas a distâncias que
oscilavam entre os cinco e os vinte e cinco metros.
Chamavam-se crótalos, por se parecerem com o sistema
utilizado por este tipo de serpente. As suas fossas
infravermelhas" permitem-lhe caçar as vítimas através das
emissões de radiação infravermelha dos corpos das presas.
Qualquer corpo cuja temperatura for superior ao zero
absoluto (menos 273oC) emite energia de tipo IV, ou
infravermelho.
Estas emissões de raios infravermelhos, invisíveis para o
olho humano, são provocadas pelas oscilações atómicas no
interior das moléculas e estão ligadas, por conseguinte, à
temperatura de cada corpo. (N. Do M)
Enredado nessas reflexões, depois de andar outros cem ou
cento e cinquenta passos pelo Cédron acima, compreendi que
continuava a perder tempo. E, num impulso, renunciei a
procurar o camìnho. Virei para a esquerda, enfrentando a
suave e curta encosta que conduzia ao muro oriental do
Templo.
Ao assomar ao estreito passadiço que se estendia
paralelamente à imponente muralha, uma claridade malva
ascendia já por trás do monte das Oliveiras, ceifando
estrelas e arraneando cantos longínquos entre os galos
madrugadores. As trombetas dos levitas não tardariam a
soar, anunciando o novo dia. Era preciso estugar o passo. Em
poucos minutos, os locais fora de portas da cidade, agora
solitários, ficariam paulatinamente animados por homens e
animais. E os milhares de peregrinos que tinham celebrado a
Páscoa, assim como os habitantes de Jerusalém, dedicar-seiam
às suas ocupações quotidianas. Aquilo podia complicar
ainda mais os nossos planos.
Sem pensar duas vezes, lancei-me numa frenética corrida. O
bater das minhas sandálias na poeira do caminho e a
espalhafatosa ondulação do manto assustaram os pombos

que dormitavam entre os silhares da muralha. E um branco
bater de asas elevou-se sobre os torreões. Dobrei a esquina
nordeste e, animado pela solidão do lugar, acelerei o
andamento, procurando controlar a respiração. Deixei à minha
direita o obscuro promontório de Bèzatha e os perfis
imprecisos da Piscina dos Cinco Pórticos. Enfrentado o último
trecho: o que me separava do bastião norte da Antónia. A
Fortaleza Antónia!
Um súbito sentimento de perigo fez-me abrandar o passo.
Com o coração catapultado contra as paredes do peito,
distingui ao longe os fogos de duas das quatrostationes, ou
postos de guarda, situados no ponto mais alto das torres
que se erguiam airosas em cada um dos ângulos du
formidável castelo.
De repente, quando me faltavam poucos metros para virar à
altura do parapeito de pedra que circundava o fosso do
quartel-general de Pilatos, ouvi gritos. Sem parar, levantei os
olhos. Na torre mais próxima, entre as ameias acinzentadas,
alguns legionários gesticulavam, gritando para as uigiliae, ou
patrulhas nocturnas, que estavam na torre noroeste. A
gritaria não durou muito. Com a forte suspeita de que
aqueles gritos de alerta
* O historiador judeu-romano Flávio Josefo assegUra no seu
livro A Guerra dos Judeus (livro sexto) que três dessas
torres tinham cinquenta côvados (uns 2250 m) de altura e a
quarta, encostada ao muro norte do Templo, setenta côvados
(cerca de 31 50 m). O castelo", sede dos procuradores
romanos durante as grandes solenidades, tinha uma forma
rectangular, com cerca de cem metros de comprimento e
cinquenta de largura.
Fora cercado por um muro ou parapeito exterior de metro e
meio de altura e por um fosso de 2250 metros, mandado
escavar por Herodes, o Grande, quando ordenou a
reedificação da antiga fortaleza macabeia, e à qual deu o
nome de Antónia. Em honra do seu protector, Marco António.

As fundações do castelo eram um penedo gigantesco, liso em
cima, e muros. Herodes, na previsão de possíveis ataques,
tinha revestido os muros com pranchas de ferro. Umas
escadas ligavam a Antónia ao Átrio dos Gentios, facilitando
assim o acesso da guarnição ao Templo. No centro, como já
ficou dito pormenorizadamente, havia um pátio empedrado,
com um tanque central dedicado à deusa Roma. (N. Do M)
tinham muito a ver comigo, forcei as pernas. Já só faltavam
cem metros para a bifurcação do caminho.
Esforço vão. Num abrir e fechar de olhos antes que pudesse
percorrer uma décima parte do trajecto, três soldados da
infantaria romana irromperam no meio do caminho, cortandome
a passagem.
Era evidente que eu tinha cometido dois novos e
lamentáveis erros. Primeiro, lançar-me numa corrida tão
suspeita, e, segundo ignorar a vigilância nocturna da
Fortaleza Antónia, e a abertura ou porta existente no
parapeito, permanentemente aberta.
Parei imediatamente. Esperei que se aproximassem. Fugir
teria sido um terceiro erro.
Enquanto enchia os pulmões numa fatigante tentativa por
me acalmar, um ruído que me era familiar chegou aos meus
ouvidos.
Era a moagem diária do grão. Jerusalém despertava. E,
como uma confirmação fatal, a repentina claridade do dia
caiu sobre a cidade, fazendo reverberar os polidos e
esverdeados capacetes de bronze dos legionários.
Lutei com o meu cérebro. Tinha de encontrar uma boa
desculpa.
Mas qual?
Os soldados detiveram-se. Cautelosamente, sem dizer
palavra, olharam-me dos pés à cabeça. Estremeci ao

reconhecer os seus uniformes de campanha. Não pude evitar
uma emoção profunda.
Eram os primeiros seres humanos com que me deparava
naquele novo e acidentado salto.
E o primeiro toque das trombetas de bronze do Templo a
anunciar o amanhecer, retumbou entre as muralhas, agitando
o céu azul com dezenas de remoinhos de pombos e o negro
planar das andorinhas.
Os levitas, do alto do santuário, seguindo um costume
ancestral avisavam os habitantes da Cidade Santa de que o
Sol estava a ponto de romper no azulado horizonte dos
montes de Moab.
Eram cinco horas e quarenta e dois minutos.
A minha roupa suja e esfrangalhada e o suor que escorria
das minhas fontes, banhando-me a barba não deve ter
inspirado muita confiança aos soldados. Assim, colocando-se
de ambos os lados, continuaram a avançar, apontando-me as
compridas lanças ou pilum.
Os três vestiam cotas entrançadas à base de malhas de
ferro que usavam como uma túnica curta (até ao meio da
coxa).
Estas couraças muito flexíveis e sólidas, recobriam um
gibão de couro de comprimento idêntico. Por último, a
pesada indumentária envolvia uma túnica vermelha de
mangas curtas (até ao cotovelo), que era dez ou quinze
centímetros mais comprida que a armadura, caindo sobre os
joelhos.
Quando se achavam a três metros, os legionários dos
flancos detiveram-se pela segunda vez. E as brilhantes
pontas de flecha dos seus pilum ficaram a um metro do meu
ventre.
Ao observar os seus rostos fatigados e sonolentos deduzi
que se tratava duma patrulha de serviço durante a quarta e

última vigilia da noite 1.
As horas durante a noite era ainda mais vaga do que
durante o dia. No tempo de Jesus, tanto os judeus como os
romanos dividiam" a noite em vigílias: quatro no total. O
nome vigilia, estava associado às horas que a sentinela
permanecia a vigiar, ou o pastor a guardar o rebanho. Cada
uma somava três horas, aproximadamente. Começavam com o
ocaso e findavam com a sombra, de manhã quando o
horizonte se iluminava com os primeiros raios do sol. (n. Do
N)
Para minha infelicidade, tinha chegado na pior altura:
Justamente no momento em que iam ser rendidos. O seu
mal-estar e contrariedade revelavam-se na forte contracção
dos maxilares e no olhar, avermelhado e acusador.
Levantei o meu braço esquerdo, com a palma da mão
aberta, em sinal de paz e submissão. Nesse mesmo instante,
o soldado que estava no centro da formação levou a mão
esquerda ao flanco direito, desembainhando a espada: uma
hispanicus de cinquenta centímetros e gume duplo. Uma
corrente de fogo pareceu devorar as minhas entranhas. Que
tencionava fazer aquele soldado? O segundo toque das sete
trombetas, avisando da abertura da célebre Porta de Nicanor,
no Templo, fez o legionário hesitar. O seu gladius, a um
palmo do meu esterno, cintilou por um breve instante,
aumentando a minha já copiosa transpiração.
Com voz rouca e levantando a espada até à minha
garganta, o soldado pronunciou umas palavras que não
compreendi. Devia tratar-se de um dos legionários da tropa
auxiliar, integrada por trácios, sírios germanos ou espanhóis.
Com um leve gesto de negação da cabeça, dei-lhe a entender
que não percebia a língua dele. Mas o soldado,
possivelmente alterado, repetiu a pergunta num tom
imperativo, cravando a ponta da hispanicus debaixo do meu
queixo.

- Jasão.
Eliseu estava à escuta. Mas o que é que ele podia fazer
num momento tão crítico. Senti o metal bem afiado a entrar
ligeiramente na minha pele, obrigando-me a levantar a
cabeça. Era evidente que ao menor movimento suspeito me
podia considerar um homem morto. Esforçando-me por manter
a cabeça numa posição tão violenta, respondi em grego na
esperança de que algum legionário me compreendesse.
- Sou de Tessalómica.
O soldado que estava à minha esquerda pareceu
compreender e, na mesma gíria utilizada pelo que mantinha a
arma debaixo do meu queixo, comentou qualquer coisa com
os seus colegas.
Avançou e, colocando-se junto ao da hispanicus, despejou
uma série de perguntas acusadoras:
- Porque é que corrias?. A quem roubaste?. Reconhece que
és um bastardo e porco judeu! Fala!
Dificilmente o poderia fazer. Assim apontando com o
indicador esquerdo para a ponta da espada, supliquei-lhes
que baixassem a arma. A pressão diminuiu, mas o gladius
permaneceu a muito poucos centímetros do meu pescoço.
Engoli em seco e, simulando uma comichão inexistente,
cocei-me fazendo força no meu ouvido direito, ao mesmo
tempo que tentava esclarecer aquele mal-entendido: -
Lamento muito!. Não era minha intenção. Sou grego e amigo
do procurador. Tenho um salvo-conduto! A dureza do meu
sotaque e a menção do salvo-conduto aliviaram a tensão.
Mas o improvisado intérprete, desconfiando e levantando os
pedaços rasgados da minha túnica com a ponta do seu pilum,
insistiu:
- E isto.
Quando eu ia esclarecer a razão do estado lamentável das
minhas vestes, o soldado colocou de novo a sua lança em

posição vertical e, num furor súbito, deu-me uma forte e
sonora bofetada.
- Mentes!. Porque é que corrias?
O meu rosto endureceu e, pressionando os maxilares num
ataque de ira, encarei o jovem soldado de infantaria
lançando-lhe em pleno rosto: - Civilis!. Levai-me ao vosso
primipilus! O nome do centurião, comandante-chefe das
sessenta centúrias e homem de confiança de Pilatos,
provocou o efeito desejado. Os lábios do legionário que me
tinha esbofeteado tremeram nervosamente e a expressão do
seu rosto mudou. Balbuciou palavras ininteligíveis e a
hispanicus regressou imediatamente para o seu invólucro de
madeira.
Quando me dispunha a mostrar-lhes o rolo com a assinatura
e o selo do procurador, o intérprete, sem perder o seu tom
autoritário, ordenou-me que os acompanhasse.
Ao franquear o parapeito de pedra e vislumbrar ao fundo,
do outro lado da ponte levadiça a monumental porta coroada
com um canhão e provida de dois sólidos batentes de
madeira, novas e comoventes recordações longínquas e
próximas me tes recordações me vieram à memória.
Pareciam aquelas cenas dos interrogatórios de Pilatos e da
enfurecida multidão a gritar pela libertação de Barrabás.
Um grupo numeroso de legionários apareceu no portão.
Vestiam também o uniforme de campanha e cada um levava o
seu escudo rectangular, vermelho, - de uns oitenta
centímetros de altura - com a mesma bela águia amarela que
eu contemplara em ocasiões precedentes a decorar o umbon,
ou pretuberância central. Avançaram com alguma pressa e,
mesmo à beira do fosso, juntaram-se aos meus três
guardiões. Trocaram algumas palavras entre si e, sem
deixarem de me observar, puseram-se novamente em
movimento, ordenando-me que atravessasse com eles a
ponte de troncos grossos para entrar no interior da fortaleza.

Até àquele momento quase seis horas da madrugada
Apouca sorte só nos proporcionara desgosto atrás de
desgosto.
Resignado, deixei-me conduzir.
Ao cruzar a muralha pensei que a patrulha se dirigia para o
terraço onde Pilatos tinha tentado administrar justiça na
cadeira curul na manhã de sexta-feira. Não foi assim. Mal
pusemos os pés no grande pátio e nos brancos seixos que o
pavimentavam, os legionários pararam. Dois deles afastaramse
até a um quartito de adobe, encostado ao muro e à
esquerda da grande porta aberta na muralha, a qual, ao que
parecia, servia de posto de guarda.
Por um momento, no silencioso espreguiçar do amanhecer,
vieram-me à memória os gritos da multidão, congregada
naquele mesmo recinto, reclamando a liberdade de Barrabás,
o revolucionário, e a execução de Jesus.
Uma robusta silhueta, surgindo na penumbra da porta do
posto de guarda, dispersou as minhas recordações. Era um
optio, uma espécie de ajudante ou homem de confiança dos
centuriões, e responsável pela vigilia, ou vigilância nocturna
naquele sector.
Segundo autores como Arriano e Vegécio, esta couraça só
era usada na perna direita, porque a esquerda era protegida
pelo escudo) As caligas, ou sandálias de correias, de sola
dura e cravejada, envolviam os tornozelos e o dorso dos pés,
completando o uniforme de campanha.
Durante breves instantes, reclinado displicentemente no
gonzo da porta e a tamborilar com os dedos dentro de uma
escudela de madeira, revistou-me dos pés à cabeça.
Concluído o exame, foi-se aproximando com lentidão e ar
cansado. Ao chegar ao pé de mim, baixou os olhos,
entretendo-se com os rasgões do manto e da túnica. Tirou
uma tâmara do fundo da tigela e, com um sorriso malicioso,
levou-a à boca. A negra cárie que atacava os poucos dentes

que lhe restavam, era um exacto reflexo dos seus
pensamentos. Mastigou o fruto parcimoniosamente e, ante a
expectativa dos seus homens, cuspiu o caroço entre as
minhas sandálias.
Não pestanejei. E, com idêntica frieza, aguentando o seu
olhar desafiador, estendi-lhe o salvo-conduto. A minha
firmeza fê-lo hesitar. Com um safanão, tirou-me o rolo. - E
porque é que queres ver Civilis? - perguntou, por fim,
devolvendo-me o documento. Era preciso arriscar. Supondo
que a patrulha de vigilância no sepulcro já tinha regressado
à fortaleza e que a notícia do estranho desaparecimento do
cadáver do Crucificado já era sobejamente conhecida pelo
optio, comuniquei-lhe que tinha acontecido qualquer coisa
especial. - Especial acrescentou com curiosidade. - Onde?
- No túmulo situado na propriedade de José, o membro do
Sinédrio, e que, como sabes era vigiado por levitas e homens
desta guarnição. Ele franziu o sobrolho.
- Que sabes tu desse assunto?
Mas abanando a cabeça, dei-lhe a entender que só falaria
na presença de Civilis ou do procurador. - Sabes que eu
podia mandar espancar-te por isso? Quem és tu, miserável
maltrapilho, para pretenderes incomodar o governador de
toda a Judeia?
Pegou numa segunda tâmara e, antes de eu ter tempo para
lhe responder, fez-me uma terceira pergunta: - Não terás sido
tu um dos ladrões?.
Sem querer, acabava de confirmar as minhas suspeitas: os
dez legionários que faziam parte da escolta de vigilância no
sepulcro deviam ter voltado. Não há dúvida que, uma vez
recuperados da sua inconsciência momentânea, ao
comprovarem que o túmulo estava vazio, deviam ter optado
por regressar à fortaleza, relatando o que tinha acontecido.
Mas. Porque utilizara ele a palavra ladrões?
Decidido a terminar com um diálogo tão estéril, declarei

com severidade: - Cuidado com as tuas maneiras! Pilatos está
a par da minha recente estada na ilha de Capri, junto do
divino Tibério. E duvido que ambos aprovem que se
espanque um astrólogo ao serviço do velhinho. O nome de
César foI decisivo. O optio atónito engoliu a tâmara e, entre
os cochichos sarcásticos da tropa, deu as ordens necessárias
para que informassem Civilis da minha presença naquele
lugar.
Dez minutos depois, perante o assombro de todos os
presentes, o próprio comandante-chefe aparecia no alto do
terraço, descendo apressadamente a escadaria. Atrás dele,
com evidente dificuldade para o seguir, distingui outro
centurião e o soldado que tinha feito de mensageiro.
Avancei e, atravessando o pátio, fui ao encontro do
salvador primipilus. Civilis, ao ver-me, sorriu. Trajava a sua
habitual cota de malha e um fulgurante capacete prateado,
encimado por uma crista ou cimeira transversal sobre a qual
se destacava um penacho semicircular de penas vermelhas.
As suas grandes passadas faziam flutuar a capa cor
grenate, que segurava elegantemente com a mão esquerda.
Com a mão direita segurava o emblema dos centuriões,
símbolo, ao mesmo tempo, da disciplina do exército romano:
a uitis, ou ramo de videira, tão temida entre os soldados. Ao
chegar diante de mim, e sem deixar de sorrir, levantou o
braço direito, saudando-me:
- Salve, Jasão!. Mas o que te aconteceu? Satisfeito com
aquele encontro com o leal e eficaz chefe de centuriões,
correspondi-lhe com o mesmo afecto. E, logo a seguir,
enquanto iniciávamos um curto passeio perante o olhar
desconcertado do optio e dos seus soldados fui
improvisando.
Eu já não via Civilis desde sexta-feira de manhã e resumilhe
como pude os passos que dera durante aquelas setenta e
duas horas.

Em parte fui sincero. Mostrei-lhe como depois de ouvir
várias vezes a estranha história que circulava em Jerusalém
sobre a possível ressurreição do Rabi da Galileia, a minha
curiosidade de áugure me levara a esconder-me nos
arredores do túmulo e como, por volta das três da
madrugada, tinha presenciado um fenómeno lumimoso ímpar
e surpreendente que, saindo da entrada da cova sepulcral, se
propagara até às árvores mais próximas, deitando ao chão
os bravos legionários que faziam a guarda.
Os oficiais ouviam-me atentamente.
- Depois continuei fingindo estar muito cansado -, da
mesma forma que os teus homens, também eu me vi
surpreendido por uma força maléfica e caí no chão, perdendo
os sentidos.
Quando os deuses quiseram que eu voltasse a mim, o
túmulo estava vazio.
E o medo fez-me correr e andar sem rumo certo. Sei que
qualquer coisa sobrenatural, obra dos deuses, aconteceu
nesse horto. E, ao alvorecer, com o espírito mais sereno,
tomei a decisão de vir à Fortaleza Antónia para te contar
tudo o que vi e ouvi. O comandante deteve-se. Levou a mão
esquerda ao punho da espada e, com um gesto grave,
perguntou:
- E porquê a mim? Sabes que não acredito nessas
patranhas.
Senti-me apanhado. Mas Eliseu, atento no módulo,
ofereceu-me um argumento perfeito. E assim o expus a Civilis.
- É muito simples. Nas minhas caminhadas pelas ruas da
cidade menti -, tive a oportunidade de ouvir uma versão
que, alimentada por essas ratas do Sinédrio, começou a
circular em Jerusalém. Caifás e os seus sequazes lançaram o
boato de que os levitas deles e os teus legionários
adormeceram, e que, aproveitando essa circunstância, os
discípulos do Galileu foram roubar o cadáver.

O comandante abanou a cabeça afirmativamente.
- Eu, como te digo, fui testemunha privilegiada do que
aconteceu e vi como os guardas do Templo, de facto, fugiram
como cobardes. Mas a patrulha romana não. Foram os deuses
que dominaram os teus bravos soldados.
Desta vez Civilis não ripostou à minha calorosa exposição.
Aquele mutismo levou-me a supor que o centurião estava,
de facto, a par dos acontecimentos. E, depois de alguns
segundos de reflexão, perguntou-me de novo: - Estarias
disposto a repetir isso diante do procurador? Aquela
inesperada oportunidade de voltar a encontrar-me com
Pilatos deixou-me perplexo. Não estava nos meus planos,
mas, intuindo que podia ser altamente benéfico, apressei-me
a aceitar, espicaçando a curiosidade dele com uma sentença
que eu tinha a certeza avivaria a mente supersticiosa do
governador.
- Além disso, Pilatos tem de saber que o milagre do
sepulcro é só o princípio.
Fiz propositadamente uma pausa.
- de outros fenómenos não menos prodigiosos.
- A que te referes?
À medida que improvisava, uma ideia tinha vindo a
germinar no meu cérebro. Decidi utilizá-la.
Sorri e, colocando a mão esquerda no ombro do meu amigo,
pedi-lhe que não mo perguntasse.
- Agora tenho de me ir arranjar e meditar. Amanhã, se o
procurador o considerar oportuno, terei o maior prazer em vos
transmitir o que li nos astros.
Civilis bateu na sua perna com a vara de videira e, dando o
assunto por encerrado, propôs-me a hora tércia (nove da
manhã) do dia seguinte para a reunião. Quando, finalmente.
Deixei para trás o fosso e o parapeito da Antónia, o meu
irmão estabeleceu de novo a ligação auditiva, interessado

nos pormenores da minha captura e, sobretudo, na
maquinação que eu concebera no pátio da fortaleza. O meu
plano, como supunha, só contribuiu para duplicar a sua
inquietação.
Senti-me abatido. Os cronómetros do módulo, devorando
dígitos, aproximavam-se das seis horas e trinta minutos da
manhã. Tinham passado cinco horas, dezasseis minutos e
quarenta e nove segundos desde o contacto no monte das
Oliveiras.
E estávamos como no princípio! Levávamos, ou, para ser
mais correcto, levava mais de cento e oitenta minutos de
atraso em relação ao plano do Cavalo de Tróia. A uma
centena de passos da bifurcação para Cesareia e Samaria
com a muralha cinzento azulada da Antónia à minha esquerda
hesitei: O que é que adiantava dirigir-me ao horto de José?
O mais provável era que ele estivesse deserto. Não seria
mais prudente seguir o plano e entrar na Cidade Santa, à
procura dos apóstolos e das mulheres? Elas é que deviam
estar em condições de me contarem o que tinha acontecido.
Estive a ponto de confessar as minhas inquietações a
Eliseu.
Contudo, não querendo tornar mais sombria a sua solidão,
fiquei calado. Se as minhas suposições estivessem correctas,
há uma hora ou até maisque os legionários tinham
abandonado a quinta do de Arimateia. Pela lógica, as
mulheres deviam ter 193
chegado ao sepulcro depois de os guardas se terem ido
embora.
Quando muito, ao mesmo tempo que eles constatado o
desaparecimento do motivo da sua vigilância tomaram a
decisão de voltar para o quartel-general. Com os dez romanos
no jardim, as amigas do Mestre não se teriam atrevido a
passar a cerca de madeira da propriedade.
Que fazer?

E voltei a aperceber-me de um fenómeno curioso. Enquanto
a minha lógica e senso comum me ditavam o caminho de
Jerusalém, uma outra força que não sei explicar e que cada
dia se tem tornado menos subtil, arrastava-me para o
sepulcro.
Que podia eu encontrar ali?
Como um autómato, deixei o caminho e entrei num prado
que subia para norte e ia morrer nos cumes achatados dos
promontórios que em cadeia, rodeavam Jerusalém, do Gareb
ao Cédron. Aquele atalho levava-me a trezentos ou
quatrocentos metros do horto de José. E decidi averiguar por
que motivo o túmulo exercia tanta atracção sobre o meu
atormentado espírito.
Diante de mim, desde os oitocentos metros de altitude do
Gareb a oeste até aos setecentos e trinta e cinco de
Betsaida à minha direita -, aquela suave sucessão de
colinas estava semeada de pequenas e médias
propriedades, repletas de figueiras, ciprestes de madeira
perfumada e compacta, zimbros que atingiam vinte metros de
altura, terebintos ramificados e exuberantes, de folhas muito
parecidas às da nogueira e de penetrante fragrância e,
finalmente, de abundantes e selectos pomares. Perante
semelhante jardim, compreendi as grandes dificuldades de
Tito quando, trinta e seis anos mais tarde, ao sittar
Jerusalém, avançou com o seu exército desde o monte
Scopus, um pouco mais a norte de onde me encontrava.
Se eu tivesse continuado pelo caminho inicial, tomando,
diante da Porta dos Peixes, o desvio para a Samaria, talvez
os meus problemas se tivessem multiplicado. O meu aspecto
era horrível e chamativo, e, muito provavelmente, teria
despertado a curiosidade dos comerciantes, camponeses e
pastores que, muito antes daquela aurora de dedos cor-derosa
- como havia cantado Homero tangiam os seus
jumentos e rebanhos em direcção ao grande mercado do
bairro mais alto da cidade: o súq ha-elyon. (Muitas

hortaliças, grãos e outros produtos do campo vinham,
naquele tempo, da Samaria e da planície da fronteira com a
Idumeia).
Observada da muralha norte de Jerusalém, bem como da
Porta dos Peixes ou dos muros da Fortaleza Antónia, a quinta
de José ficava à direita da referida Estrada do Norte a da
Samaria perdendo-se para leste, num vale escondido no
sopé dos montes de Bèzatha. Era um verdadeiro prodígio os
Israelitas terem conquistado aqueles solos calcários e
pedregósos, transformando cada palmo de terra útil numa
bênção.
Apesar disso, entre bosques cerrados e sementeiras
despontavam aqui e ali brancas clareiras de pedras. O meu
objectivo era, precisamente, uma daquelas formações
rochosas. Atraído por aquela força irresistível aventurei-me
pela verdejante pradaria. A suave Primavera e as chuvas de
Março tinham feito crescer a erva, salpicando-a de gladíolos
silvestres e das pequenas flores do vento as anémonas
com as suas campainhas cor de violeta púrpura.
O orvalho da manhã não tardou a humedecer as minhas
sandálias, e dezenas de gotinhas de água foram ficando
presas entre os pêlos e a pele de serpente. Das minhas
pernas.
Apesar de ter tomado algumas referências na minha
primeira visita à quinta do ancião membro do Sinédrio
durante o triste traslado do corpo sem vida do Rabi -, assim
que transpus o pequeno prado, um labirinto diabólico de
cercas, veredas
serpenteantes e sebes altas de artemísias-amargas
atrasaram, como eu já temia, o meu avanço. Orientando-me
pelas quatro torres da Fortaleza Antónia (sempre nas minhas
costas), pelo forte brilho avermelhado do Sol a nascer (à
minha direita) e pelos balidos esporádicos do gado que
descia pelo caminho da Samaria (à minha esquerda), fui

avançando por entre os campos, na esperança de me
encontrar, de um momento para o outro, com a cerca de
estacas pintadas de branco que fechava a propriedade de
José. De súbito, à minha esquerda, ouvi a típica saudação
judaica.
- Schalom alekh hem!.
Aquele «a paz seja contigo» vinha de um camponês
madrugador que, ao ver-me passar à frente do seu campo,
saiu de trás de um sicômoro. Vestia o chaluk, ou túnica
enrolada na cintura, mostrando as pernas peludas e
esqueléticas. Carregava ao ombro direito uma pele de cabra
inflada.
- Saúde! - apressei-me a responder, adoptando um tom
cordial. - Procuro o horto de José, o de Arimateia.
Ao notar o meu sotaque estrangeiro, o judeu franziu o
sobrolho, mostrando a sua contrariedade, Resmungando
algumas maldições entre as quais cheguei a perceber um
«maldita seja a tua mãe!» - virou-me as costas, continuando a
sua singular rega da terra. Ao destapar o rústico odre, um
jorro avermelhado caía nos sulcos. Era sangue. Não se
tratava realmente de uma rega propriamente dita, mas de um
fertilizante. Grande parte do sangue que corria nos pátios do
Templo durante os sacrifícios rituais de animais era
aproveitada pela casta sacerdotal, para ser vendida aos
agricultores.
Na esplanada do Santuário, perfeitamente empedrada e
em declive, tinha sido feita uma rede de pequenos regos por
onde se recolhiam os milhares de litros de sangue de bois,
borregos, etc. Armazenando-os em cisternas subterrâneas. O
sangue que sobejava perdia-se na corrente do Cédron, para
onde era sabiamente levado por um canal de desaguamento.
Esta era a explicação para a misteriosa água vermelha que
tínhamos detectado do módulo na nossa primeira
aproximação à Cidade Santa.

Não muito contrariado pelo descaramento do hortelão
afinal de contas, aquelas saudações nunca eram dirigidas
aos gentios - continuei no meu lento avançar. Ao contar-lhe o
incidente e o curioso sistema de fertilização da terra, Eliseu,
depois de consultar o Pai Natal, deu-me mais pormenores
sobre esse particular.
* Segundo a informação acumulada no computador central, textos rabínicos
como o Middot (III, 2), Pesahim (V, 8), Meila
(III, 3), Tamid (IV1) e Yoma (V, 6 e 8), entre outros, descrevem estes canais
de desaguamento, assim como o uso que se fazia do sangue. Os hortelões, por
exemplo, compravam o sangue aos tesoureiros do Templo e aquele que o
aproveitasse sem pagar cometia um roubo contra o Santuário. O Talmud
babilónico (em Pesahim, 65b) diz: «O orgulho dos filhos de Aarão consistia em
andar com o sangue das vítimas até aos joelhos». A quantidade do sangue no
átrio dos sacerdotes era, portanto, muito considerável. (N. Do M.)
Poucos minutos depois, entre a ramagem de umas
amendoeiras ou espreitadores (saqed) como eram
chamados pelos Judeus estes precoces anunciadores da
Primavera julguei ver, semiocultas pelas flores brancas como
a neve, as estacas pontiagudas, de um metro de altura, do
horto tão desejado.
Corri para elas. De facto, o meu coração palpitou com toda
a sua força ao descobrir, ao longe, como uma branca
confirmação entre o verde carregado das ameixeiras,
macieiras e romãzeiras, a casinha onde, sem dúvida, morava
o corpulento jardineiro que ajudara José na tarde de sextafeira.
Tomando o Sol como referência, caminhei para a minha
direita, sem me afastar da cerca. Não tardei a encontrar a
cancela de entrada. A porta de tábuas estava aberta.
Misteriosamente aberta.
Desta vez avisei o berço das minhas intenções. Ia entrar na
silenciosa quinta. Este é, talvez, outro conceito não muito
bem interpretado pelos cristãos. Ao ler os textos evangélicos
fica-se com a ideia de que o lugar onde o Mestre foi
sepultado era um simples horto, com um sepulcro novo, como

narra João.
Na realidade, mais do que um horto, a propriedade de José
podia ser classificada como um pomar. E nada modesto,
digamos.
Toda uma quinta de recreio, com dezenas de árvores de
fruto e hortaliças, uma casa rústica, um pombal e, é claro,
como correspondia à sua elevada posição, um jazigo familiar.
Mas continuemos com o que é importante.
Como disse, não era normal que a cancela estivesse aberta
de par em par. Aquilo fez-me suspeitar de que algo anormal
tinha acontecido ou estava a acontecer na herdade.
Lentamente, com os cinco sentidos despertos, fui
avançando pelo caminho estreito que começava na cerca e
virava para norte, por entre fileiras de bem cuidadas árvores
de fruto.
O silêncio era absoluto. Muito significativo.
Parei uma ou duas vezes, à espera de ouvir algum som.
Talvez as brincadeiras ou os latidos dos dois cães que
guardavam a propriedade. Nada, mesmo nada.
A meia centena de metros da entrada, a vereda dividia-se
em duas. O caminho da esquerda, como tivera a
oportunidade de comprovar na minha visita anterior, passava
ao pé da casa do hortelão, perdendo-se depois entre
camoesas carregadas e açofeifeiras, ou açofaifas, brilhantes.
Desta vez a lareira parecia apagada. O da direita levava à
cripta. A uns vinte passos, coberta com a sombra delicada
das árvores que a rodeavam, vislumbrei a clareira rochosa
que se erguia pouco mais de um metro e meio sobre o nível
do terreno. Estremeci.
E se tudo tivesse sido um sonho? E se o Mestre não tivesse
ressuscitado? Estes pensamentos tão absurdos ficaram
praticamente desfeitos quando, meio escondido entre os
pequenos troncos das árvores de fruta, compreendi que, de

facto, as patrulhas judaica e romana tinham desaparecido.
Era lógico que, se nada de anormal tivesse acontecido,
continuassem ali, diante dos degraus e do rústico caminho
que conduziam à gruta funerária.
Prudentemente, dediquei vários minutos a uma exploração
pormenorizada dos arredores. Só descobri restos de comida,
armas e algumas capas, espalhados no terreno argiloso em
volta da formação calcária. Não havia dúvidas: levitas e
legionários tinham abandonado o lugar. E os primeiros, a
julgar pelo que fui encontrando, após uma fuga vergonhosa
ainda não tinham regressado. Um pouco mais confiante,
afastei-me das árvores e aproximei-me cautelosamente dos
restos da fogueira que alumiara e aquecera a guarda
romana. As cinzas estavam ainda mornas. Soprei e alguns
tições reavivaram-se fugazmente. Era provável que a lenha
tivesse ardido pouco mais de meia hora antes.
De cócoras, dirigi um olhar rápido para o caminho que ia
dar ao sepulcro. O meu coração respondeu com força. Mas,
fazendo um esforço, contive-me. Primeiro tinha de examinar
aqueles restos.
No bocado de terra que tinha sido ocupado por aquela
dezena de levitas ou guardas do Templo, a desordem era
total.
Roupões amarelos, tingidos de açafrão, cheios de pegadas
da fuga; bastões e c ápas típicos dos servidores dos sumos
sacerdotes betusianos, e temidos pelos seus revestimentos
de cravos semienterrados na vermelha e esponjosa argila;
uma aljava de couro, cilíndrica, cheia de flechas de cinquenta
centímetros de comprimento e um duplo machado de combate
igualmente abandonada durante a fuga, formavam aquele
cenário desolador. Por último, tombada na sequência de
algum empurrão dos aterrorizados ammarklin, ou guardiões
do Santuário, uma bojuda tina de barro conservava no seu

interior parte da ceia: um guisado espesso à base de sémola
de trigo cozido, com abundantes pedaços de borrego. E um
pouco mais à frente, cuidadosamente embrulhadas num pano
Alvo, pequenas e várias rodelas de pão de trigo, e uma coroa
ou fogaça redonda.
Perto de uma árvore descobri também um odre de pele de
cabra, cuidadosamente curtida e fechado com uma cavilha de
madeira.
Pesava uns dez loq (pouco mais de quatro litros e meio) e
ao pegá-lo deduzi que servia para armazenar água ou,
talvez, vinho. Deitei fora parte do conteúdo e, cheirando-o,
comprovei que se tratava de schechar, uma espécie de
cerveja - muito fraca feita à base de milho e cevada e com
uma remota semelhança com a cervisia latina. No sector
ocupado pelos legionários, em contrapartida, e com excepção
das cinzas da fogueira não consegui encontrar um único sinal
que indicasse um desonroso abandono do lugar.
Os romanos, como já comentei na devida altura sabiam 1
muito bem que tipo de pena os esperava em caso de fuga ou
deserção.
Os levitas, pelo contrário, não estavam submetidos a uma
disciplina tão férrea. A esta circunstância nada desprezível é
preciso acrescentar que, sem qualquer tipo de dúvidas os
soldados do exército romano eram homens física e
psicologicamente mais bem preparados para enfrentar o
medo e os perigos do combate ou, simplesmente, de uma
guarda nocturna. Por conseguinte, não tem sentido as
afirmações do evangelista Mateus referindo-se às mulheres 8
6 diz textualmente: «Enquanto elas, alguns membros da
guarda foram à cidade contar aos sumos sacerdotes tudo o
que tinha acontecido. Estes reunindo com os anciãos,
realizaram um conselho e deram uma grande soma de
dinheiro aos soldados, dizendo-lhes:
«Dizei: os seus discípulos vieram de noite e roubaram-no

enquanto nós dormíamos. E, se isto chegar aos ouvidos do
procurador, nós convencê-lo-emos e evitaremos que vocês
tenham complicações» Eles pegaram no dinheiro e fizeram de
acordo com as instruções recebidas. E circulou esta versão
entre os Judeus até ao dia de hoje.
Se Mateus se refere aos legionários romanos coisa nada
clara comete, pelo menos, dois erros. Primeiro: estes
soldados estavam sujeitos às ordens e à disciplina do
exército romano e não à autoridade dos sumos sacerdotes
judeus. Porque recorrer então a Caifás e aos seus sequazes
no Sinédrio? Se falassem, fá-lo-iam com os seus comandos
naturais: o optio ou o centurião respectivo.
Segundo: estes soldados veteranos na sua maioria
conheciam o preço que teriam de pagar pelo abandono do
serviço ou o que vinha a dar no mesmo por adormecerem em
plena vigilia, e, cúmulo dos cúmulos, ser roubados
eludibriados.
Neste aspecto, as palavras do evangelista não são muito
sensatas. É preciso ser-se ingénuo para acreditar que os
romanos aceittariam semelhante trato. Não esqueçamos
que eles odiavam os Judeus e que uma notícia daquela
índole, a suposta ressurreição de um crucificado era
impossível de ocultar. E menos ainda ao procurador. Desde
sábado, 8 de Abril, que em Jerusalém só se falava da
profecia do Rabi da Galileia sobre o seu regresso à vida.
Milhares de peregrinos e moradores da Cidade Santa
estavam pendentes do terceiro dia; isto é, do domingo. Se
os soldados da Fortaleza Antónia tivessem aceitado o
suborno quanto teria durado a satisfação pelo dinheiro
recebido? Mais: de que lhes teria servido, se o castigo
imediato e inapelável era a morte? Os legionários podiam
ser ambiciosos ou corruptos, mas não eram estúpidos.
Pessoalmente, acho que o evangelista se referia à guarda
do Templo: aos levitas e não aos soldados romanos. Aqueles

é que tinham a obrigação de ir aos sumos sacerdotes, seus
chefes. E tanto uns como outros eram muito capazes de
propor e aceitar este tipo de suborno.
* a expulsão do exército e os chamados Ignominia. Eram impostos pelo general
e publicados na contio. Implicavam, além disso, a redução do soldo e dos direitos
passivos. Entre os castigos colectivos, o mais grave era dizimar a unidade como
referem Suetónio, Dion, Cássio, Tácito e outros. Costumava ser imposta por fuga
desonrosa, sedição ou rebelião. Uma décima parte dos soldados, designada por
sorteio, era condenada à morte por espancamento.
Os restantes ficavam com a comida racionada à base de cevada em vez de
trigo e, em caso de guerra, obrigados a pernoitar fora do acampamento ou da
fortaleza. Entre as circunstâncias modificadoras da responsabilidade tinh a um
relevo especial a reincidência. Se era dupla, determinava a pena capital para
qualquer infracção (Polibio, VI, 379). (N. Do M)
Que terá acontecido então com o texto de Mateus? Ter-se-á
enganado o escritor sagrado? Foi deformada ou mál
interpretada a versão aramaica? Porque será que os outros
evangelistas também não se referem a este assunto tão
espinhoso? Mas voltemos àquela manhã de domingo, 9 de
Abril do ano 30. À medida que me fui aproximando dos
degraus que davam para a estreita passagem, antecâmara
do túmulo, a minha alma foi ficando mais tensa. A minha
respiração agitou-se e, ao ver-me diante da boca da cripta,
surgiram inevitavelmente os velhos calafrios.
Durante alguns minutos quem sabe quantos! - fiquei
imóvel e como que hipnotizado diante daquela abertura
quadrada, parcialmente tapada pela tosca e pesada roda de
moinho que servia de porta. Naqueles instantes preso de
uma angústia e de dúvidas inenarráveis não me apercebi
de um pormenor muito interessante relacionado com esta
pedra redonda. O meu espírito racional e científico
continuava a sobressair. Apesar do que eu tinha vivido com o
Mestre, apesar do inegável poder daquele Homem, apesar
da sua misteriosa e atraente natureza, apesar de tudo. Eu
continuava a duvidar.
Não é possível, repetia eu para mim vezes sem conta. Não
é possível que um cadáver, depois de trinta e seis horas. Uns

saquitos de serapilheira familiares, cuidadosamente
colocados em cima do último degrau, vieram tirar-me de tão
profunda incerteza. Eram os utilizados por José e Nicodemo
durante os minutos agitados que antecederam o fecho do
sepulcro.
Lembrei-me de como as mulheres, já de volta a Jerusalém,
se tinham encarregado das cem libras de aloés e mirra com
que se propunham concluir rapidamente a lavagem e o
embalsamamento de Jesus. Desci as escadas e, inclinandome
sobre o saco maior, examinei-o. Estava por abrir. Pareceume
reconhecê-lo.
Tratava-se dos quinze ou vinte quilos de pó granulado, de
um amarelo dourado e sumamente aromático. Devia ser o
aloés. .
Ao lado, um pano tapava o mesmo jarro campanudo de
cobre que eu vira ser usado pelos amigos do Rabi no
sepulcro. Estava cuidadosamente fechado com uma rolha de
pano. Deduzi que estava perante aquela substância pastosa,
uma goma-resina, que identifiquei como mirra. Num terceiro
envoltório, firmemente atado, descobri com o tacto um
segundo recipiente de metal.
Agitei-o e pareceu-me ouvir um ruído de água. Talvez fosse
uma vasilha trazida para o asseio do cadáver. Por último,
num cesto de vime de tamanho regular, apareceram vários
rolos de pano, uma esponja dura e enegrecida, um frasquito
de vidro com um líquido cor de conhaque possivelmente
nardo e uma bolsa de couro de uns vinte centímetros,
delicadamente fechada com um passador ou fivela de bronze
em forma de arco. Fui vencido pela curiosidade. Apalpei o
seu conteúdo e senti que era qualquer coisa dura e comprida.
Tirei o alfinete de segurança e, muito excitado, retirei o que
havia dentro. Era uma chave! Uma dessas chaves curiosas que
os judeus utilizavam para as portas e arcas. Tinha um cabo de
madeira e um corpo de bronze dobrado em forma de L,
com cinco dentes, compridos e paralelos, na ponta.

Não pude deixar de sorrir. Aquele símbolo, colocado sobre
um defunto, representava o seu celibato, ou estado de
solteiro.
Às vezes, em vez de uma chave, colocavam uma pena. Se se
tratasse de uma noiva, esta tinha direito assim o
estabelecia a Lei a um pálio.
A delicadeza das mulheres para com o seu querido Rabi
comoveu-me. Já não havia dúvida. As fiéis seguidoras do
Mestre tinham estado ali. Transmiti ao módulo as minhas
descobertas, acrescentando que os sacos pareciam estar
abandonados. Era óbvio que não tinham sid utilizados. Mas
porquê? Que estranho acontecimento tinha levado as Judias
a suspender a lavagem e o embalsamamento do Crucificado?
A resposta eu sabia-o só podia estar ali: no fundo da
gruta sepulcral.
Pus-me de pé e, sentindo que as minhas pernas
fraquejavam, dirigi o olhar para a boca da cripta.
Porque duvidava? Não conseguia compreender. Eu tinha
visto o sepulcro vazio. No entanto, o meu espírito racional e
científico resistia a admitir o seu regresso à vida. Apesar de
o ter conhecido, da sua irresistível personalidade, do seu
poder e das suas próprias palavras anunciando a sua
ressurreição -, apesar de tudo isso, eu continuava a duvidar.
Não é possível, repetia eu para mim mesmo
insistentemente.
Não é possível
Mas, passo a passo, fui percorrendo os dois metros e vinte
centímetros que separavam aquele último lanço desde o
umbral até àquela boca quadrada de escassos noventa
centímetros de lado. Para cá, já surgia a claridade da manhã.
Senti a falta de uma tocha. E o medo voltou a assaltar-me.
Entrava?
Tem de ser, disse para mim próprio. Tenho de ter a certeza.

Preciso de confirmar mais uma vez.
Obcecado por esta ideia, não me apercebi então da
ausência dos selos do procuradór. Depois da surpreendente
deslocação das pedras que tapavam o túmulo, tinham ficado
espalhados pelo chão da estreita passagem.
Apoiei a vara de Moisés contra a rocha e enchendo os
pulmões de ar, pus-me de cócoras e lancei um olhar tímido
para o fundo da cripta Mas as trevas impossibilitavam
qualquer observação. Não tinha outro remédio senão entrar.
Fechei os olhos e, obrigando os músculos a obedeceremme,
entrei de repente.
O pavor mais do que medo secou-me a garganta. Abri
oS olhos e, durante alguns segundos, permaneci na mesma
posição: de joelhos sobre o chão áspero e rochoso,
esforçando-me por dominar os nervos e vislumbrar alguma
coisa naquela câmara de três metros de largura por um metro
e setenta de altura. Precisei de vários minutos
intermináveis como séculos para ver a forma das seiras
cheias de entulho e da picareta num canto da sepultura.
Estava frio ou era o terror que tinha gelado as minhas
veias?
Lentamente, com a remota esperança de que os meus
dedos tropeçassem no corpo do Mestre, estendi os braços.
Se bem me recordava, o banco escavado na pedra estava a
pouco mais de meio metro do chão.
Entre tremores, os meus dedos chocaram com a parede e
uma convulsão percorreu-me as entranhas.
Tacteei o muro. Fui levantando as mãos e senti logo o fio.
Detive-me um pouco mais...
E num impulsoestendi os dedos para a escuridão.
Meu Deus!
Só encontrei o vazio. Um espesso e revelador vazio.

Vasculhei o ar, à direita e à esquerda, numa tentativa inútil
de apalpar o cadáver. Nada. Ao colocar as mãos em cima da
plataforma rochosa, uma nova e intensa cãibra sacudiu-me
até à medula dos ossos. Identifiquei o lençol de linho.
Parecia estar na mesma posição em que eu o vira horas
atrás. Levantei-me e, inclinando-me sobre a mortalha,
comecei a examiná-la. Na cabeceira, por baixo dela, notei
que havia uma forma dura, rígida e ovalada.
Não pode ser!
Com toda a delicadeza de que fui capaz, levantei a parte
superior do lençol, tentando confirmar as minhas suspeitas.
Mas era tal a escuridão que foi uma tentativa inútil.
Decidido a acabar com as minhas dúvidas, passei a mão
direita por entre as duas metades do tecido até tocar
naquela forma. Incrível!
Com efeito, tratava-se do xaile ou sudário que Nicodemo
tinha dobrado e atado em volta da cabeça de Jesus,
levantando assim o maxilar inferior para evitar que ficasse
com a boca aberta. - Deus do céu! - exclamei, sem conseguir
conter o meu espanto, Como é possível? O desconcertante
desaparecimento do corpo não alterara a posição original do
sudário, que continuava no mesmo lugar e abraçando uma
cabeça inexistente.
A lógica e o meu senso comum ficaram seriamente
afectados. E, durante mais de um minuto, continuei ali,
totalmente desconcertado. Se o cadáver tinha sido roubado,
lutava eu por racionalizar o assunto, porque é que os panos
estavam como se ninguém tivesse tocado no Rabi?
O normal teria sido que, ao mexerem no corpo, o lençol que
o envolvia caísse para o chão. Ou que fosse juntamente com
os restos mortais do Crucificado. Teria sido mais cómodo
transportá-lo, aproveitando precisamente aquele grande
lençol.

Tive de render-me à evidência. Apesar de saber que, sem a
menor consistência científica, aquele cadáver parecia ter-se
esfumado ou evaporado. Só assim se podia perceber que o
linho que repousava sobre a sua parte frontal tivesse caído
docemente sobre a metade dorsal. Emocionado deixei-me
levar, antes de abandonar o lugar, por outro impulso
irresistível.
Aproximei os meus lábios do lençol e dei-lhe um beijo cheio
de fervor. Nesse instante captei algo novo: um cheiro
penetrante e, de certo modo, familiar. Mas não soube
identificá-lo.
Deitei um último olhar à cripta e, rapidamente, voltei para
a radiante claridade.
A minha habitual falta de jeito e o facto da abertura do
sepulcro ser tão estreita fizeram com que, ao sair, desse uma
pancada enorme no meu ombro direito. A minha intenção era
regressar a Jerusalém e localizar as mulheres.
Tinha de reconstituir os acontecimentos na propriedade de
José durante os minutos que antecederam o nascer do Sol.
Mas aquela pancada que dei na mó foi providencial. Peguei
de novo na vara" e, enquanto alçava o meu ombro dorido,
reparei noutro pormenor singular.
A pedra que habitualmente servia para tapar o poço e que
fora colocada pelos soldados ao pé da pedra redonda para a
reforçar, - Ao contrário da segunda pedra -, esta mó de
moinho não estava caída no caminho. Tinha rolado para a
esquerda, seguindo o rego de vinte centímetros de fundo e
trinta de largura que havia ao pé e a toda a largura da
entrada.
Como é que foi possível?"
Nem os soldados nem eu próprio tínhamos visto sair
ninguém de ddentro do túmulo, que tivesse podido tirar
aqueles setecentos quilos, ou talvez mais. Imaginar que
alguém pudesse é pouco verosímil. A verdade é que a grande

pedra circular de um metro de diâmetro tinha sido retirada,
deixando a entrada praticamente escancarada. Só uma parte
da mesma uns trinta centímetros continuava
obstruída pela borda direita da mó. Naturalmente, aquele
vão era suficiente para permitir a passagem de uma pessoa.
Contudo, contrariamente ao que tinha sido revisto pelo
Cavalo de Tróia, o movimento das pedras, a julgar pelo que
eu tinha diante dos meus olhos, não pôde ser devido a uma
explosão" no interior da cova. É verdade que eu vira sair uma
labareda de luz" que se propagara até às árvores mais
próximas.
Aquela língua de um branco azulado, no entanto, não foi
acompanhada de qualquer detonação e, além disso, fora
posterior à deslocação da pedra que fechava o túmulo. Se se
tivesse produzido uma onda expansiva, a laje principal teria
caído e ter-se-ia partido pela base.
Examinei a pedra sem encontrar qualquer vestígio da
hipotética explosão. Era claro que algo" ou alguém com
uma força mais que respeitável a tinha feito rolar. O
mistério, longe de ficar esclarecido, enredava-se de minuto
para minuto.
Subi os degraus e, quando cheguei ao cimo, voltei-me para
o sepulcro. Era estranho, muito estranho, aquela labareda
luminosa" não ter chamuscado os degraus ou as paredes do
fosso. Medi com os olhos a distância em linha recta desde a
entrada até onde me encontrava. Não chegava a três metros.
E logo a seguir guiado pela intuição, dei meia volta e olhei
para as árvores de fruto, situádas a pouco mais de quatro
metros. A língua" prolongara-se seguindo uma via de
escape natural em sentido oblíquo e até à ramagem
daquelas árvores.
No total, uns sete metros.
Fui andando até à base de um corpulento sicômoro que de
acordo com a trajectória da radiação, deveria ter sido o mais

afectado. Eu estava certo.
Parte da folhagem e um grande número de bagas
apresentavam um aspecto diferente do resto da árvore. A
ramagem estava ressequida e cinzenta. Como se uma súbita
onda de calor a tivesse calcinado. Parti uma pequena
amostra, apanhando também alguns figos. E ao
cheirá-los, tive a mesma sensação que ao beijar o lençol.
As bagas, sobretudo, desconcertaram-me. Estavam
consumidas e duras como fósseis. Dei uma volta àquele belo
exemplar, mas não consegui descobrir mais nenhum sinal de
secura. O sicômoro apresentava uma florescência normal.
Talvez uma análise minuciosa no berço" pudessse fornecer
alguma luz sobre este enigma tão desconcertante. E, depois
de guardar no saco algumas bagas, várias folhas e dois ou
três raminhos, dirigi-me para a cancela disposto a procurar as
mulheres. Elas eu tinha a certeza podiam ajudar-me.
Eram sete horas e trinta minutos.
Dos pequenos montes do norte, Jerusalém aparecia ao
caminhante como um veado deitado nas colinas". A luz da
manhã branqueava as suas muralhas, pintando de vermelho e
amarelo o calcário das suas casas bizarras, quadradas, que
galgavam por ambas as encostas do vale do Tiropéon. Nos
grandes bairros o do noroeste e o de Acra ou súq ha-tajtôn
elevavam-se já, preguiçosas, grande número de finas
colunas de fumo cinzento.
A vida despertava, pujante e livre. Entre o ocre cúbico
daqueles milhares de casebres, separados por outras tantas
sombras móveis, os Palácios dos Asmonianos, de Herodes e
dos Sumos Sacerdotes, com as suas torres de pináculos
dourados e brancas açoteias. Mais além a oeste, o peregrino
podia vislumbrar o quebrado perfil da muralha abraçando a
cidade e a estender-se, desafiador, até ao cume do cerro do
Gareb.
Uma comichão foi-me invadindo à medida que me

aproximava da movimentada Porta dos Peixes, na muralha
norte. Desde as primeiras horas que o vaivém de homens,
animais e carros era constante. Lancei um olhar para a forma
comprometedora como ia vestido e, com uma ponta de
receio, agarrei-me com força à vara", caí naquela maré de
comerciantes, hortelãos, pastores, peregrinos de mil terras e
rebanhos de balidos monótonos.
Jornaleiros tão andrajosos como eu, transportando toda a
espécie de ferramentas agrícolas, saíam em bandos ou
solitários, rumo aos hortos e campos de lavoura.
Às portas da cidade, aleijados, mendigos e vagabundos
estendiam os seus famélicos braços à passagem dos
viandantes fazendo soar um ou outro lepton no fundo das
suas escudelas, apregoando as suas misérias entre lamentos
ou suplicando benevolência e caridade.
Vários traficantes de Alexandria, trajando luxuosas vestes
de linho, contemplavam, extasiados, a resplandecente e
altiva cúpula do Templo, provocando comentários de
admiração entre os judeus menos favorecidos pela fortuna. E
entre tanta barafunda, centenas de peregrinos, entrando e
saindo do recinto amuralhado, esquivando-se mutuamente ou
desculpando-se com gestos exagerados e intermináveis
quando tropeçavam uns nos outros.
Havia-os de todas as latitudes: hebreus da Babilónia, de
negros mantos até às sandálias, persas de rutilantes sedas
recamadas de ouro e prata, judeus das mesetas da Anatólia
com as suas típicas opas ou fraldas. De pele de cabra e
fenícios de calções multicoloridos. Ao atravessar o arco da
Porta dos Peixes um cheiro penetrante a peixe fez-me
recordar que ali era o lugar habitual dos Tírios. À sombra da
muralha, uma dezena de fenícios todos eles pagãos
animava a clientela para que provassem as excelências das
recentes capturas do lago de Genesaret e da vizinha costa
de Tiro". Ao dar uma vista de olhos aos carros pude distinguir
alguns belos exemplares de percas, salmões, timalos e lúcios,

cuidadosamente protegidos entre folhas de feto e grosso sal
diamantino. Astutamente, punham à vista os peixes
considerados puros todos Os que a Lei de Moisés
classificava como impuros - eram escondidos debaixo dos
carros os que não tinham escamas ou barbatanas.
Depois de ter suportado doze a quinze horas desde a sua
possível saída do litoral mediterrânico a mercadoria não
estava muito deteriorada. A neve, embora conhecida e
utilizada como meio de conservação de alimentos, ainda era
um artigo de luxo, apenas acessível às mesas dos
imperadores e dos ricos.
Quando rejeitei a oferta de um dos vendedores, e ao
captar o meu sotaque estrangeiro, o tírio piscou-me o olho.
Puxou um cesto escondido debaixo daquela improvisada
banca e, num tom de cumplicidade, informou-me que as suas
raias, lampreias, lagostas, enguias e siluros não tinham por
que invejar os peixes «puros».
Correspondi-lhe com um sorriso e, desejando-lhe saúde,
afastei-me daquele sítio empestado e enlouquecedor.
Curiosamente, a maior parte dos clientes eram homens
judeus de barbas espessas e bigodes vestidos com os seus
roupões clássicos às riscas verticais, vermelhas e azuis
agarrados aos cestos de palha, que levavam na mão e em
que iam colocando as compras.
Fui abrindo passagem para o lado sul, aos tropeções, à
procura da muralha que separava o sector noroeste no não
menos concorrido bairro ou cidade baixa.
* Tal como narra Josefo em A Guerra dos Judeus, V 42143,
esta muralha, conhecida como a primeira, partia do flanco
norte, onde está a Torre Hippico, estendia-se do Templo,
seguindo depois até à Cúria e terminando no pórtico.
As vielas de Jerusalém, com a sua desordem infernal
sempre foram um tormento. E as que iam dar ao grande
mercado do bairro mais alto

- o súq ha-elyon não o eram menos. As casas e oficinas
de adobe, encostadas umas às outras e estas sobre aquelas,
fundidas num labirinto de sombras, becos sem saída e
centenas de degraus húmidos e pestilentos, devido à urina
dos miúdos e dos animais de carga, eram um grande
problema para quem quisesse orientar-se. Embora pareça
mentira cada zona da cidade possuia o seu cheiro
característico e foram os ruídos e os cheiros que mais me
ajudaram a descobrir onde diabo estava.
Naqueles momentos, por exemplo, o ruído surdo e
monótono dos pisoeiros lavando, impermeabilizando e
transformando em feltro a película da lã e os tecidos a saírem
dos teares, fez-me recordar que ainda me encontrava no
bairro alto; o sector pagão por excelência, onde segundo
os doutores da Lei o cuspo daqueles pisoeiros era tido por
impuro.
Conforme fui descendo, tentando não escorregar nas
pedras, gastas e redondas, da calçada em Jerusalém era
impossível caminhar mais de quinze minutos seguidos sem
descer ou subir escadas o bater inconfundível e ritmado dos
caldeireiros foi abafando a actividade dos pisoeiros.
De vez em quando via-me forçado a colar-me às paredes,
para dar passagem a um dos numerosos e dóceis asnos de
mascate, de orelhas compridas e altas, de um pêlo quase
branco e tangidos sem piedade por crianças, velhos e
adultos. Aqueles sofridos animais carregados com canastos
sebentos a gotejarem, nos quais balançavam bojudas ânforas
de azeite ou de vinho eram tão abundantes na Cidade
Santa e em toda a Palestina, que os seus excrementos,
pisados pelo constante vaivém das pessoas, formavam um
todo com o pavimento das ruas.
Na realidade, só algumas praças e as poucas rüas
principais as duas ruas com arcadas dos dois mercados, por
exemplo é que eram varridas todos os dias pelos colectores
de lixo e vassoureiros oficiais. (R. Shemaya bar Zeera escreve

que as ruas de Jerusalém eram varridas todos os dias. E era
verdade, Mas a limpeza limitava-se a uma parte mínima do
centro urbano) À porta das tenebrosas habitações, mulheres
com grandes mantos verdes, castanhos e de outras cores
indefinidas, de tão sujos que estavam, atarefavam-se
debruçadas sobre as panelas de barro cozido, enchendo o ar
de cheiro acre da gordura quente e das especiarias e
cobrindo o rosto à passagem dos homens.
E entre os degraus e patamares daquela rede de vielas
pestilentas dezenas de crianças de cabeça rapada, olhos
negros e profundos e pele fustigada por nuvens de moscas e
crostas purulentas, tudo consequência da péssima higiene. A
criançada, alheia a tanta miséria, enchia a manhã do
primeiro dia da semana com os seus gritos, saltos e
brincadeiras, sonhando aventuras com leviatãs ou pequenos
crocodilos de madeira, passarinhos de barro avermelhado e
tosco, matracas trepidantes e uma ou outra carica de pedra,
decorada com lindas cores.
Embora a escola tivesse sido instituída havia alguns anos,
muitas daquelas crianças e daqueles adolescentes eram
instruídos pelos pais quase unicamente na Tora -, passando
a partir dos cinco anos, para a aprendizagem do ofício do
seu progenitor.
Na maior parte dos casos, as suas vidas já estavam
marcadas pela profissão do pai. Espero poder referir-me mais
adiante a este curioso capítulo do ensino, dedicado
exclusivamente aos rapazes. Por fim, vislumbrei a larga rua
principal, com arcadas, sede do mercado do bairro alto da
cidade. Ali, o tumulto ultrapassava tudo quanto se pudesse
imaginar.
Sob as colunas e sobre o empedrado central, os grémios
empenhavam-se nas suas tarefas, chamando a atenção dos
possíveis compradores com os seus gritos, cânticos e
estentóreos pregões. Os bufarinheiros ambulantes
propunham negócios e trocas: túnicas purpúreas de Sídon,

anéis e meias-luas de ouro, tapetes ou tecidos finos de
bysus em troca de plantas medicinais madeiras, frutas, mel
ou é claro, denários de prata. Muitos daqueles artesãos a
Bíblia chega a citar vinte e cinco ofícios eram facilmente
reconhecíveis pelos seus emblemas ou distintivos.
Os carpinteiros, por uma apara na orelha. Os alfaiates, por
uma agulha grossa de osso espetada na roupa. Um trapo de
cor, por exemplo distinguia os tintureiros. Enquanto
atravessava aquele mercado, esquivando-me de toda a sorte
de trastes velhos de bronze e das mais variegadas
exposições de sandálias de couro de vaca ou de pele de
camelo mantos da Judeia, xailes e túnicas dos hábeis
tecelões galileus, olaria de Hébron, Maresa, Cef e Socob,
redomas de vidro, marfim, refinado alabastro ou pedra
calcária que continham unguentos e perfumes, chamou-me a
atenção o círculo, ocupado pelos médicos. Naqueles tempos,
o conceito de médico era muito mais impreciso do que nos
nossos dias. Eram considerados artesãos úmanut e, como
diz uma passagem do tratado rabínico Kidduchin (LXXXII, a),
tão pessimamente valorizados como em todos os outros
tempos.
O melhor dos médicos, lamentava-se um dos rabinos no
referido Kidduchin está destinado à Geena Os seus
honorários, como sempre, oscilavam de acordo com a sua
categoria. Havia-os tão notáveis que nunca se ocupavam do
povo preferindo os presentes e boas graças dos poderosos.
Os médicos das tripas, por exemplo, eram os responsáveis
pelo cuidado dos sacerdotes do Templo, quase sempre
sofrendo de problemas intestinais por causa da excessiva
alimentação em carne.
Outros, cujos preços eram muito baixos ou irrisórios, eram
tidos por inúteis.
Um dos galenos, Ao aperceber-se da minha curiosidade,
pôs-se de pé e, apontando para a minha barba desalinhada,
prontificou-se a apará-la por um assep.

Ao recusar, prosseguiu com o resto das suas habilidades:
extracção de algum queixal? Circuncisão? Uma sangria?. Uma
beberagem?
O homem, empenhado em atender-me no que fosse preciso,
convidou-me a ver a sua botica. A verdade é que as suas
explicações demonstravam um profundo conhecimento das
virtudes curativas das plantas. O hebreu invocou o Livro de
Salomão, fazendo-me ver que estava a par da lista
pormenorizada de remédios nele contida:
- Óleo, unções suavizantes. Mel para as feridas abertas ou
como remédio para as anginas. - Sofres de antraz? Tenho
aqui um emplastro de figos prodigioso. Ou preferes o vinho
misturado com aloés púrpura?
Mudo e sorridente, deixei que ele explicasse.
- Se tiveres filhos, dá-lhes desta avenca. Acaba com as
lombrigas num abrir e fechar de olhos.
O médico indicou então uma colecção de cestinhos de
palha descolorida, repletos das mais variadas ervas: alecrim,
hissopo, centinódia, arruda, charamela-de-pastor ou
bignónia.
- São excelentes contra as doenças da barriga. Também
tenho água de Dekarim.
Ao perguntar-lhe sobre aquele remédio, o judeu informoume
que era extraído da raiz de algumas palmeiras. Mas,
cioso dos seus conhecimentos, pediu-me que compreendesse
a sua curta explicação.
- Sofres de palpitações? Tenho o que há de melhor
E, pegando num cântaro de bico, animou-me a examiná-lo.
Um cheiro nauseabundo a leite coalhado obrigou-me a fazer
uma careta. O médico sorriu. - É uma mistura de cevada
molhada e leite de camela coalhado. Podes provar.
Neguei-me rotundamente.
E o artesão-médico-curandeiro insensível ao desânimo

prosseguiu na enumeração dos géneros que tinha à vista:
- Cataplasmas de salmoura de peixe para o reumatismo.
Alho ou raiz de parietária para a dor de dentes? Sal ou
levedura para as gengivas? Ou preferes uma pitada de
mandrágora? Piscou-me o olho, acrescentando que aquela
solanácea tão parecida com a beladona podia estimular a
minha potência sexual.
- Tens pai?
Não me deixou responder.
- Este extracto de fígado é o indicado para curar cataratas.
Também tenho ventosas, colírios contra o rigor do sol.
Esgotado o seu repertório, concluiu, mostrando-me uma
adaga muito afiada.
- Se ainda não fizeste os quarenta, posso praticar-te uma
benéfica sangria cada trinta dias. O que é que dizes? Pelo
meu aspecto saltava à vista que já ultrapassara, e bastante,
aquela idade. E para não o defraudar pedi meio log do
empestado leite coalhado, de duvidosa eficácia como
sedativo. Pouco depois, em casa de Elias Marcos, iria ter a
oportunidade de comprovar as suas decantadas excelências.
Ao deitar os duzentos e cinquenta gramas da poção numa
minúscula redoma de vidro esverdeado, o úmman não deixou
de elogiar a minha grande inteligência e bom gosto,
garantindo-me que tinha feito uma boa compra. Mas os seus
exagerados elogios transformaram-se em gritos de admiração
e surpresa quando, obrigado pelas circunstâncias, não tive
outro remédio senão colocar nas suas engelhadas mãos um
denário de prata. Naquele momento não tinha uma moeda
mais pequena e, para minha desgraça, os uivos de alegria do
médico, alertaram os outros vendedores, que se precipitaram
sobre mim como corvos carniceiros sobre uma suculenta peça.
Saltei como pude por entre aquelas bugigangas e os cestos
de frutas e hortaliças, safando-me das garras dos

gesticulantes e charlatões perfumistas, alfaiates, sapateiros
e todo o tipo de artesãos, fugindo rua abaixo e confundindome
entre os peões que entravam e saíam do agitado bazar.
Ninguém me seguiu.
Uma vez recomposto da investida atravessei a primeira
muralha contornando o mastodôntico Palácio dos Asmonianos
na direcção ocidental. O grandioso edifício que seria
restaurado e ampliado por Agripa II marcava para mim o
início da Cidade Baixa. Aquela zona de Jerusalém estava
ligeiramente mais bem urbanizada que o território dos tírios,
gregos sírios e outros pagãos impuros.
Algumas das suas vielas, com pedras brancas e calcárias,
mantinham um simulacro de paralelismo, quase obrigatório
devido ao profundo desnível entre os dois extremos do sector
sul da Cidade Santa. O que se situava à sombra da muralha
ocidental dominado pelo Palácio de Herodes e pelos
jardins reais erguia-se sobre uma das cotas mais elevadas
de Jerusalém: setecentos e sessenta metros.
Dali, os cachos de casas cúbicas, caiadas e com portas e
janelas minúsculas, precipitavam-se em sucessivos e
intermináveis terraços sobre o lado oposto: o muro oriental.
Neste sítio, como já disse, junto à Piscina de Siloé e à
Porta da Fonte, o nível do terreno era muito mais baixo:
seiscentos e sessenta metros, aproximadamente. Uma
inclinação tão pronunciada tinha obrigado os construtores a
uma edificação escalonada, aberta cada cem ou cinquenta
metros por ladeiras mais do que ruas que, começando no
citado palácio de Herodes, o Grande, cobriam os mil metros
que separavam aquele lugar do ângulo sul.
Eram estas as artérias mais bem pavimentadas, dispondo
até de pequenos regos centrais que escoavam as águas das
grandes chuvadas. Havia também outra rua principal a do
mercado sulparalela ao muro ocidental do Templo e da qual
partia outra teia de ruas mais pequenas, tão escuras,

estreitas e pestilentas como as que acabava de deixar para
trás. O piso da rua com arcadas suportava as aduelas de um
arco hoje conhecido como arco de Robinson que ligava o
Átrio dos Gentios com a parte norte.
Pressionado pelo tempo e sem o menor desejo de repetir a
minha agitada experiência anterior, tomei como referência as
altas torres de Marianne e Phasael, no Palácio de Herodes, e
dirigi os meus passos para poente. Dei a volta ao bairro das
tinturarias e, após uns momentos de dúvida, identifiquei o
grande casarão de Anás e o murito gradeado que cercava o
memorável pátio das negações de Pedro. Mais ou menos um
minuto depois, ao dobrar uma das esquinas, surgiu diante
dos meus olhos a luxuosa mansão dos Marcos.
Com certa premência, Eliseu recordou-me que faltavam duas
horas e meia para o meu regresso obrigatório ao módulo.
Avancei devagar, passeando o olhar pela sólida fachada de
pedra trabalhada, transportada pelos pais de Elias Marcos
das pedreiras de Beth-Kerem, numa colina próxima de Téqoa.
A mansão de dois andares de tão cálidas recordações
parecia morta.
Silencioso, Pus-me diante da alta e pesada porta de
carvalho, a contemplar e a reconhecer a mezuza que enfeitava
o seu lado direito: uma fina tira de madeira de sicômoro de
dez por três centímetros, incrustada na ombreira e em cuja
superfície tinham sido gravados a fogo os mandamentos de
Deus. Todo o judeu respeitoso da tradição tinha o especial
cuidado de tocar na mezuza com os dedos, levando-os depois
aos lábios quando saía e quando voltava ao lar.
Inspirando profundamente, empurrei uma das portas, que
girou preguiçosamente nos gonzos.
Transpus o pequeno vestíbulo e, ao assomar no espaçoso
pátio a céu aberto, distingui no fundo algumas caras
conhecidas. O jovem João Marcos, de cócoras, observava
atentamente um dos criados. O criado com um pau comprido

batia com força num odre de pele de cabra inchado que
estava pendurado num tripé de madeira. Um segundo criado,
ajoelhado diante dos toscos madeiros, segurava dois deles
procurando que as certeiras pancadas não os deslocassem do
piso de ladrilhos vermelhos.
Era uma forma ancestral e habitual entre os povos do
Oriente à hora de fazer manteiga. O odre era enchido com
leite azedo geralmente de cabra ou de ovelha, já que o de
camela não tem nata e, de acordo com os costumes de
cada região, golpeado ou agitado, remexendo assim o
conteúdo.
- Paz aos desta casa!
Ao ouvir a minha tímida saudação, o filho de Elias voltou o
rosto, ao mesmo tempo que o criado suspendia o seu
trabalho.
Os olhos negros do audaz adolescente abriram-se de par
em par e, de um salto, lançou-se em direcção a mim,
abraçando-se ao meu peito.
- Jasão!. Ouviste o que dizem as mulheres?
Tomei o seu rosto entr e as minhas mãos e, agradecendo
aquele gesto de afecto, sorri para ele, negando com a
cabeça.
- Onde tens estado? Toda a gente fala do Mestre. O seu
túmulo está vazio. As mulheres dizem.
Passei o meu braço sobre os seus ombros e,
atabalhoadamente, enquanto nos aproximávamos dos
criados, foi-me informando de alguns dos pormenores dos
acontecimentos ocorridos pouco antes.
- Paz, irmão! - responderam os criados, retomando as
pancadas no odre.
O rapaz, cada vez mais entusiasmado, saltava de um tema
para outro, multiplicando a minha já considerável confusão.
Pedi-lhe que se sentasse e, acariciando as suas faces

empalidecidas, tomei a iniciativa. - Diz-me, filho. As mulheres
estão aqui?
- Estão, sim, amigo Jasão.
O esclarecimento veio da boca de Maria, a mãe, que, com
o rosto radiante de felicidade, me contemplava de uma porta
que estava por trás dos criados, no extremo oposto ao lugar
por onde eu entrara no pátio. Embora não fosse costume
entre os Judeus, apressei-me a ir ao seu encontro e aliviá-la
do pesado cântaro que trazia à ilharga esquerda.
- Bem-vindo, irmão!
Sem mais comentários, encaminhou-se para um dos cantos
do pátio, prestando atenção à cozedura do pão. Segui-a em
silêncio. Ardia em desejos de lhe fazer perguntas, mas,
prudentemente, esperei que acabasse. A mulher inclinou-se
sobre uma prancha de ferro convexa, observando as dez ou
doze bolas redondas, que já apresentavam uma apetitosa
tonalidade dourada. Aquela espécie de escudo metálico
descansava sobre uma lareira igualmente circular, feita de
negras pedras basálticas. Junto ao fogo, espalhados pelo
chão, contei três alguidares de pedra de diferentes
diâmetros e profundidades, um grande caldeirão de bronze e
uma tigela, também de metal.
Uma vez moído o grão, as mulheres tinham colocado a
massa, feita à base de farinha, água, sal e levedura,
distribuindo-a por aqueles recipientes. Depois de amassada
à mão, a pasta leitosa era delicadamente cortada em forma
de bolas e colocada sobre o ardente e improvisado forno.
Maria tocou num dos pães com a ponta do indicador
esquerdo e, suspirando, endireitou-se e levou as mãos aos
rins. - Esta dor vai dar cabo de mim.
Antes que eu pudesse perguntar pela sua saúde, Maria
perdeu-se pela portazita escura por onde eu a vira aparecer.
Coloquei o cântaro no pavimento de tijolo e reparei que se

tratava de leite quente. João Marcos, de novo ao meu lado,
tinha compreendido as minhas verdadeiras intenções. E,
disposto a agradar ao pagão que, segundo ele, tinha
demonstrado mais coragem do que muitos dos discípulos do
seu amado Rabi, fez-me a pergunta-chave:
- Queres falar com elas?
Agradeci a sua boa vontade, insinuando-lhe que talvez
devesse aguardar a licença da dona da casa. E estávamos
nisso quando se apresentou de novo, tão diligentemente
como tinha desaparecido da nossa vista, a mulher de Elias
Marcos.
Segurava uma grande bandeja de madeira com duas pilhas
de tigelas fundas, igualmente de branca madeira de pinho.
Ao ver-me, esboçou um sorriso de cumplicidade. Naquele
instante não compreendi a razão da sua transbordante
alegria. Mas soube logo a seguir. Ela, como David Zebedeu e
muito poucos seguidores mais, recordavam-se e acreditavam
na promessa do Galileu. Maria foi das primeiras a conhecer a
realidade do sepulcro vazio e não hesitou em associá-la com
a prometida ressurreição.
Fraco serviço o dos evangelistas ao não deixarem registo
deste núcleo de personagens apagados que, ao contrário
dos apóstolos, souberam estar à altura das circunstâncias!
Mas não precipitemos os acontecimentos. .
Indicou-me que a ajudasse com a bandeja. E, um a seguir
ao outro foi pegando nos pães de trigo e colocando-os uns
em cima dos outros ao lado das tigelas. Depois, ajeitando o
cântaro no quadril, piscou-me o olho e fez-me sinal para que
a acompanhasse. A aguda intuição da hebreia vinha
simplificar a minha tarefa.
João Marcos, alvoroçado, correu à frente, desaparecendo
na penumbra do vestíbulo. Ao começar a subir os degraus
que levavam ao andar de cima, o meu coração acelerou. Se
as minhas informações não estivessem erradas, ali mesmo,

na câmara onde se realizara a última ceia estava reunida a
maior parte dos amigos íntimos de Jesus de Nazaré. Na tarde
anterior sábado -, como já disse os onze apóstolos e outros
discípulos tinham realizado uma espécie de reunião de
emergência, na qual analisaram a sua triste situação.
Embora eu intuísse o estado de espírito generalizado, a
extraordinária possibilidade de o comprovar por mim mesmo
encheu-me de excitação. Que me esperaria do outro lado
daquela porta?
Enganei-me. A cena que surgiu diante dos meus olhos foi
mais dolorosa e deprimente do que havia imaginado.
Maria entrou em primeiro lugar. E o seu filho, segurando a
porta aberta, deu-me passagem.
Recordo que a minha primeira impressão foi um cheiro
desagradável. Um característico cheiro acre a lugar fechado e
ocupado durante muito tempo por seres humanos. A luz
matinal entrava muito reduzida pelas frestas esguias das
paredes daquela memorável sala rectangular, de vinte metros
de comprimento e seis ou sete de largura. E os candelabros
das paredes, com as suas chamazinhas brilhantes e
amareladas, não eram suficientes. Em cima da mesa em U, os
criados tinham colocado outro par de lâmpadas de azeite,
que só contribuíam para endurecer o perfil dos presentes.
Custou-me muito aperceber-me onde estava e começar a
distinguir as formas e silhuetas dos ocupantes da escura e
carregada sala. A maior parte dos divãs continuava nos
mesmos lugares onde eu os vira na noite de quinta-feira:
estrategicamente distribuídos em volta da mesa em U. Só um
tinha sido retirado e encostado à parede da direita
(tomando sempre como referência a porta de entrada da
sala). Os meus olhos foram-se adaptando à penumbra e,
entre as sombras, enquanto a mãe de João Marcos deixava o
leite junto da mesa e me tirava a bandeja pareceu-me ouvir
uns gemidos. Ao fundo no canto esquerdo, descobri então a

origem dos velados lamentos. Eram quatro ou cinco vultos.
Avancei um ou dois passos, sentindo o ranger do soalho.
João Marcos agarrou-se ao meu braço, puxando-me para
aquele canto. Diante de mim, reclinados ou sentados em
nove dos doze bancos, encontrava-se a maioria dos
apóstolos. O mutismo entre eles era total. Numa primeira e
deficiente observação não soube se os que se encontravam
recostados estavam a dormir ou, simplesmente,
descansavam. Creio que nem olharam para mim.
Deixei-me levar pelo rapaz, caminhando lentamente perto
dos abatidos galileus. Sim, talvez seja essa a expressão mais
adequada: abatidos, com as cabeças inclinadas e as mãos
tensas e crispadas entre as dobras dos mantos
multicoloridos. Parei um instante, contando de novo e
tentando identificá-los.
Faltavam dois. O Iscariotes, é evidente, e outro. Mas qual?
O décimo homem, o que estava reclinado no divã retirado,
tinha o rosto colado à parede. Em volta da mesa em U
reconheci os irmãos Zebedeu, Mateus Levi, os gémeos os
quais, com a sua habitual presteza, acabaram por se levantar
e ajudar Maria a encher as tigelas com o leite quente -,
Filipe, o intendente, e Bartolomeu ambos deitados e com
as cabeças semitapadas com os roupões -, o chefe deles
todos, André, que não deixava de olhar para o canto donde
saíam os intermináveis soluços, e Pedro, sentado e a
esfregar a sua cara redonda com as duas mãos. O décimo
apóstolo o que se ocultava à direita da sala
- só podia ser Simão, o Zelota, ou Tomé. João Marcos
acabou por me levar até ao sítio onde, de facto, se
agrupavam cinco mulheres. Uma delas estava rodeada e
assistida pelas outras.
Mas, de repente, quando me dispunha a certificar-me da
identidade daquela que gemia, uma voz conhecida, potente
e rouca obrigou-me a virar-me para trás.

- Visões!. Isso é o que tivestes! Visões próprias de mulheres
assustadiças e malucas! Pedro, de pé, gesticulando e com o
pescoço inchado por aquele arrebatamento súbito, continuou
num tom de censura. - O túmulo vazio!. O jejum e o choro
transtornaram-te. Maldita sejas! Porque não nos deixas em
paz com a nossa dor?
André intercedeu, pedindo calma ao seu fogoso irmão. E
Simão, resmungando, acedeu a sentar-se de novo, enquanto
Judas de Alfeu um dos gémeos lhe oferecia uma tigela e
um pão de trigo. Mas o pescador, com a mão, atirou a tigela
para o chão, esparramando o leite no brilhante soalho de
madeira. A típica reacção violenta de Pedro só contribuiu
para exaltar ainda mais os ânimos. Vários discípulos
criticaram a sua atitude, enredando-se numa áspera troca de
insultos e impropérios.
Aquela explosão como me confirmaria André pouco depois
não era outra coisa senão a consequência lógica e humana
da grande pressão a que estavam submetidos desde a prisão
e crucificação do Rabi. Não eram as dúvidas ou o desespero
que tinham ofuscado a inteligência daqueles homens. Era
algo muito pior: o medo do Sinédrio e da guarda do Templo e
a vergonha individual e colectiva perante a ignominiosa
execução do guia.
O facto de terem permanecido durante tantas horas no
andar de cima da casa dos Marcos, com as espadas atadas à
cintura e sem forças para regressar aos seus lares, na
Galileia, era a melhor e a mais palpável demonstração do
terror que os dominava. É claro que esta situação tão tensa
tinha-os levado até a esquecerem-se das promessas de Jesus
sobre o seu regresso à vida. Por isso, quando as hebreias
correram a toda a pressa para o cenáculo, todos, sem
excepção, as tomaram por loucas, estúpidas e visionárias.
No meio dos gritos e das maldições, enquanto Maria
procurava, silenciosa e pacientemente, limpar o leite
derramado e João Marcos, assustado, se agarrava ao meu

braço, umas pancadas secas ecoaram no aposento.
O discípulo que estava deitado no divã encostado à
parede, tinha começado a bater com a cabeça. João, o
Zebedeu, saltou do seu assento e lançou-se sobre o seu
companheiro, segurando-o pelos ombros. Mas o robusto
apóstolo, invadido por um ataque de histeria e desespero,
continuou a bater com a cabeça na parede. Impotente, o
magro e jovem discípulo voltou-se para o grupo a pedir
ajuda. André e os gémeos acudiram logo e imobilizaram
Simão, o Zelota. Efectivamente, tratava-se do impulsivo
simpatizante do grupo revolucionário.
Tal como o Mestre o tinha avisado na última ceia, aquela
tragédia lançara-o numa desolação sem paralelo entre os
seus irmãos. Todos os seus ideais, os seus sonhos e as suas
ânsias de liberdade se tinham desmoronado com a notícia da
morte de Jesus.
Desfiz-me repentinamente do cajado e, aproximando-me do
agitado galileu, esforcei-me por examiná-lo. Simão, com os
olhos fechados, lutava por se libertar dos braços dos seus
amigos. Cabeceava constantemente, procurando a parede,
emitindo uma série entrecortada de gritos agudos e
angustiados. Agarrei-o, como pude, pelo pulso, tentando
calcular as suas pulsações. Estava muito acelerado. Peguei
na redoma com a cevada e o leite coalhado e, a um sinal
meu, André e o jovem Zebedeu obrigaram-no a abrir a boca.
Sem hesitar um segundo, verti parte da poção entre a sua
negra e hirsuta barba. Ao sentir a repugnante mistura, os
olhos dele abriram-se, espantados. Estavam vermelhos por
causa daquelas longas horas de pranto. Pouco a pouco, entre
suspiros e estremecimentos esporádicos, foi-se acalmando.
Não sei se foi a beberagem ou as palavras de consolo dos
seus irmãos, mas Simão, o Zelota, caiu num doce torpor, e,
revirando outra vez os olhos, voltou a reclinar-se no divã,
completamente alheio a tudo o que acontecia à sua volta.

Os gémeos mantiveram-se ao lado dele enquanto João e
André, com o olhar entristecido, voltavam para a mesa. O
patético espectáculo de Simão a arremeter contra a parede
fizera acabar de repente a discussão. E os abatidos
seguidores do Nazareno entregaram-se, impotentes, a
obscuras reflexões. Mas o silêncio duraria pouco. Pegando de
novo na vara, dei meia volta, disposto a prosseguir as
minhas averiguações junto do grupo das mulheres. Não foi
preciso.
Uma delas a que estivera a soluçar acabava de separarse
das suas companheiras, colocando-se a meio metro de
Pedro. Era Maria Madalena, uma das mais destacadas
hebreias ao mesmo tempo que temerária e sensata, de todas
as que seguiam o Rabi. Ao vê-la, fiquei paralisado. Agora
começava a compreender o porquê dos seus lamentos.
E aquela valente mulher, de queixo hipoplásico rosto
estreito e triangular, olhos perdidos em órbitas profundas
sombreadas por grandes olheiras, encarou com valentia o
homem que a havia admoestado. A fúria inflamou as artérias
do seu pescoço comprido e grácil e um temível faiscar brilhou
no seu olhar de azeviche. Pedro mal teve tempo de levantar
os seus apagados olhos claros.
Como um terramoto, a Madalena, colando as suas mãos
ossudas e longas sobre o magro peito, jurou pelo nome de
Deus vivo que não mentia, que não sofria de alucinação
alguma e que galileu teimoso! -, se quisesse, que fosse
com ela mesma comprovar.
Simão Pedro empalideceu perante a justificada cólera da
Madalena. Devido à veemência que mostrara, o manto que
cobria a sua cabeça acabou por escorregar até ao chão,
deixando a descoberto uns cabelos suaves, negros e
desordenados. E os finos cordõezinhos dourados que
pendiam dos orifícios dos lóbulos das orelhas oscilaram
ritmadamente, ao mesmo tempo que naquela sala silenciosa
se ouvia o entrechocar do seu colar de conchas.

Uma das mulheres, discretamente recolheu o manto e,
entregando-o à furiosa Maria, tentou dissuadi-la. Mas ela
que não fora em vão cortesã na industriosa e dissoluta
cidade de Magdala sabia enfrentar os homens e, com a
força que lhe dava a segurança e o conhecimento da
verdade, afastou a companheira e acrescentou:
E não só dou testemunho, como estas, de que o túmulo
estava vazio. Como também vos juro que o vi e falei com Ele!
Pedro, farto de tanto palavreado, pôs-se a coçar a careca, e,
encolhendo os ombros, voltou-lhe as costas. João Marcos veio
salvar aquela situação embaraçosa.
Antes que a Madalena arremetesse novamente contra o
incrédulo apóstolo, o miúdo interpôs-se entre os dois
contendores, pedindo à mulher que me contasse o que dizia
ter visto e ouvido. Aquele impulso espontâneo do benjamim
da casa pareceu acalmar os nervos da hebreia, e, perante a
expectativa geral, fui acomodar-me num dos divãs vazios,
ratificando o pedido de João Marcos.
A Madalena observou-me com desconfiança. Ao que
parecia, era o único homem, entre os ali reunidos, que
mostrava interesse pelas suas palavras. Maria, a senhora da
casa, contribuiu para distender aquela atmosfera
desagradável, enchendo as restantes tigelas e oferecendo
solícita e conciliadora o pão já frio. Todos aceitaram com
prazer, incluindo Pedro, que, com a mesma espontaneidade,
pediu perdão à esposa de Marcos.
A de Magdala com um ar cansado, sem conceder muito
crédito à minha boa fé, recolheu as pregas da sua túnica
verde-erva e sentou-se de pernas abertas no divã de honra.
Ao destapar parte das pernas, um leve brilho fez com que eu
reparasse num dos seus tornozelos. À trémula luz dos
candelabros, vi brilhar um aljôfar uma pequena pérola
presa numa fina corrente em volta do tornozelo.
Sorri para ela animando-a a começar. Depois de se cobrir

com o manto, suspirou profundamente. Cravou os olhos em
mim e, por fim, um sorriso de gratidão revelou uma dentadura
impecável.
* Magdala nas margens do lago da Galileia, é hoje conhecida como El-Megdel.
Outrora foi famosa pelas suas tinturarias, pelo seu mercado de pombas e
borrachos e pelos seus bordéis. (N. Do M)
Eu estava prestes a conhecer o que segundo aquelas
mulheres
- constituía o primeiro de uma longa cadeia de misteriosos
e inquietantes acontecimentos. - e a de Magdala indicou as
quatro mulheres.
- Estas que vês aqui e mais outras dez ou quinze que
tinham ido sentar-se a seus pés passaram a festa do
shabbat crentes no reino do nosso Mestre, recolhidas na casa
de José de Arimateia. A nossa tristeza era tão grande, e a
nossa desolação tão profunda, que muitas de nós julgávamos
que íamos morrer.
E, antes do alvorecer do primeiro dia da semana, de acordo
com o prometido a José e a Nicodemo, pegámos nos óleos e
aromas.
- Então interrompi-a, tentando encontrar o fio à meada
eram cinco?
- Sim.
E Maria foi apontando e identificando cada uma delas.
- Joana, mulher de Chuzal. Maria, mãe dos gémeos Alfeu.
Salomé, de João e Tiago de Zebedeu, e Susana, a mais
nova, filha de Ezra, o de Alexandria.
Só o curtido rosto de Salomé me era familiar. A verdade é
que eram tantas as mulheres que tinham seguido
habitualmente Jesus e o grupo dos apóstolos que se tornava
problemático reter os nomes ou as fisionomias. Mas qualquer
dia terei de falar também destas esforçadas, imprescindíveis

e esquecidas discípulas do Rabi da Galileia. Sim, talvez lá
mais para a frente, supondo que Deus me continue a iluminar
e a sustentar.
- Caminhám, pressurosas. Não tardaria a amanhecer e
queríamos concluir o mais depressa possível o doloroso
transe de lavar e preparar o corpo de nosso Senhor.
Chegámos ao sepulcro e, ao ver a laje.
Maria Madalena ia depressa de mais na sua narração. Eu
precisava de mais pormenores. Por exemplo o que sabiam
elas das patrulhas de vigilância colocadas no sepulcro? O
que pensariam fazer para que as deixassem entrar na cripta?
Estava deslocada! Compreendes, Jasão? Confrontava-me de
novo com uma situação delicada.
Tinha de proceder com muita delicadeza. Com a máxima. Por
nada deste mundo eu poderia sugerir, antecipar ou revelar o
que já sabia. Isso iria contra o rígido código moral da
operação. Por isso, medindo as minhas palavras e os meus
pensamentos, fui conduzindo a veemente Madalena para
onde me interessava. .
No caminho prosseguiu a mulher -, os meus irmãos e eu
tínhamos mostrado alguma inquietação por causa da pedra.
Tu viste-a e sabes que são precisos quatro ou cinco homens
para a moverem. Porém, como eu estava a dizer, ao
chegarmos às escadas vimo-la deslocada.
Levantei as mãos indicando que queria intervir. A de
Magdala, intrigada, deixou-me falar. - Mas. E a guarda?
A minha pergunta despertou interesse entre alguns dos
esmorecidos discípulos.
* Chuza ou Cusa: ao que parece, um dos administradores da casa de Herodes,
(segundo o evangelista Lucas 13) e Tanto Joana como Susana, foram curadas por
Jesus de Nazaré. Desde essa altura seguiam-no. (N. Do M)
- Ah, sim! Esses bastardos!.
- Estavam lá? - insisti.
Com a mente confundida por tantas e tão excitantes

emoções, a hebreia como eu já suspeitava tinha-se
esquecido de qualquer coisa. Foi Salomé quem se encarregou
de recordar:
- Quando chegámos à Porta dos Peixes cruzámo-nos com
uma patruIha da Fortaleza Antónia. Eram uns dez legionários.
E pareciam ter muita pressa. Gritavam uns com os outros e
não paravam de olhar para trás. Como se alguém os
perseguisse.
Surpreendidas, tentámos averiguar o que estava a
acontecer.
Aquela zona, tu sabes, está deserta a essas horas e
receámos que houvesse algum perigo. - Qual, por exemplo?
- Não sei. Talvez bandidos ou animais selvagens. Mas os
soldados, desfigurados e cheios de suor, ignoraram-nos e
prosseguiram na sua precipitada correria para a fortaleza.
Era esquisito. Aqueles soldados da infantaria romana
estavam mais do que acostumados a lutar com salteadores
de caminhos e com animais. As mulheres deveriam ter tido em
conta este facto indiscutível. Se pareciam fugir, a causa tinha
de ser de outra natureza. Eu sabia qual era, mas durante
alguns minutos, fiquei intrigado pelo facto de as cinco
hebreias não se terem posto o problema.
- Um momento intervim novamente -, então ninguém as
avisou da guarda enviada por Pilatos?
- Não, naquele momento não sabíamos que o sepulcro
estava a ser guardado por uma patrulha.
Madalena, talvez adivinhando algo de anormal nas minhas
perguntas, olhou-me directamente nos olhos.
- E tu, como sabias isso dos guardas?
João Zebedeu, que não perdia nenhum pormenor, livrou-me
da explicação: - Ele estava comigo quando no sábado de
manhã José nos deu a notícia da suja manobra do Sinédrio. A
mulher ficou satisfeita e, retomando o fio da narrativa,

continuou, nos seguintes termos:
- Salomé tem razão. A atitude dos legionários em fuga
tranquilizou-nos. Mas não a associámos com a sepultura do
Mestre. Como já te dissemos, nem sequer estávamos a par de
que havia vigilantes. As minhas suspeitas, portanto, tinham
fundamento. José de Arimateia desconheço por que razão
não as tinha informado acerca das patrulhas.
As mulheres, por conseguinte, partiram de casa do ancião
desconhecendo absolutamente o cerco policial em volta do
túmulo. Talvez tenha sido melhor assim. Se o soubessem, o
mais provável seria que os factos tivessem evoluído de outra
forma. Talvez pensassem duas vezes antes de ir e até
desistido das suas intenções. Na verdade, os caminhos da
Providência são misteriosos.
Madalena, como sempre, foi categórica. A julgar pelas suas
palavras, nem ela nem as amigas chegaram a pensar sequer
na possibilidade de o Rabi ter ressuscitado. Não me cansarei
de insistir neste ponto. Salvo David Zebedeu, os outros
discípulos e simpatizantes de Cristo não acreditaram em
absoluto nas promessas do Galileu. Caso contrário, aquelas
mulheres não se teriam preocupado em preparar os
unguentos e demais utensílios necessários para o
embalsamamento.
- De modo que, mortas de medo acrescentou -,
atravessámos os hortos e entrámos, por fim, na propriedade
de José.
- Já tinha amanhecido?
Madalena, cada vez mais confusa com as minhas perguntas
aparentemente superficiais, olhou para os companheiros,
tentando lembrar-se.
- Não.
As amigas concordaram.
- Mas não faltava muito. Acho que estávamos no final da

última vigília da noite. Por alguns pormenores que fui
obtendo ao longo daquela instrutiva
conversa, e pelas informações que consegui recolher no dia
seguinte, no meu diálogo com os legionários da Antónia,
estou quase em condições de afirmar que o encontro das
mulheres com os soldados romanos os levitas tinham fugido
muito antes) deve ter acontecido por volta das cinco ou das
cinco horas e quinze minutos daquela madrugada. Isto é,
uando faltavam quarenta e cinco ou trinta minutos para o
nascer do Sol. Assim sendo, João, o Evangelista, era o que
mais se aproximava da verdade: Quando ainda estava escuro
(João 20, 1).
. Durante algum tempo, surpreendidas perante a visão do
túmulo aberto, não conseguimos mover-nos de ao pé das
escadas. Não sabíamos que fazer. E o medo foi-se
apoderando de nós todas. Algumas sugeriram que devíamos
regressar e informar os homens. Mas eu senti uma
curiosidade irresistível. E animei-as a descerem as escadas.
Deixámos as coisas no chão e, fazendo das tripas coração
aproximei-me da abertura da gruta. Estava tudo escuro e,
como não tínhamos nenhuma tocha, não consegui ver nada.
Sorri para comigo. A narração da Madalena começava a serme
familiar. E compreendi o terror dela.
- As minhas irmãs, especadas ao pé dos degraus,
suplicaram-me que deixasse estar e voltasse com elas. No
entanto, apesar de todo o meu corpo tremer, tomei a firme
decisão de entrar e averiguar o que estava a acontecer. E
assim fiz. Sem pensar, desapareci no escuro daquele buraco.
E, às apalpadelas, dei por fim com o banco de pedra sobre o
qual devia estar deitado o cadáver do Senhor. Ao notar que
estava vazio, ia caindo desmaiada. Gritei, horrorizada. Meio
enlouquecida pelo susto, com as mãos estendidas, lutei por
encontrar a saída. Mas o pânico perturbou-me os sentidos e
fui bater numa das paredes da sepultura. Foram momentos
angustiantes.

Estremecendo com aquelas recordações fez uma pausa.
- Quando, por fim, toquei nas arestas da abertura e saí
para o exterior estas já tinham desaparecido.
Dirigi então o olhar para as quatro atentas mulheres; e uma
delas, Susana, confirmou-o:
- Ao ouvir o alarido de Maria, a tensão e o pavor
explodiram e precipitámo-nos escada acima. Não sabíamos o
que se passava mas corremos. Corremos como loucas
tropeçando aqui e ali, até chegarmos às muralhas. Uma vez
junto à cidade, enquanto tentávamos recuperar o fôlego,
Joana, mais calma do que nós, fez-nos ver que tínhamos
abandonado Maria. Discutimos, mas, por último, de mãos
dadas e a tremer de medo, voltámos pelo mesmo caminho,
entrando de novo no horto.
Madalena desculpou as suas amigas com um sorriso. E
acrescentou:
- Quando as vi aparecer lancei-me ao encontro delas,
gritando-lhes: , Já não está! Levaram-no! Estas primeiras
expressões de Madalena, do meu ponto de vista, tinham
especial importância. Reflectiam as suas autênticas
convicções e pensamentos naqueles momentos tão críticos.
Não disse ressuscitou. Simplesmente, a sua lógica
materializou o que lhe parecia evidente: que o tinham
levado. Mas, deserto por ouvi-lo dos seus próprios lábios,
insisti nos matizes do grito: - Levaram-no? Foi isso a primeira
coisa que pensaste?
Humildemente, sem o menor desejo de arrogar-se uma falsa
fé na promessa de Jesus, retorquiu com um sim categórico.
Fiquei em silêncio, emocionado com a sinceridade dela.
- Então, quase de rastos, conduzi-as até à entrada do
sepulcro, obrigando-as a entrar e a certificarem-se do que eu
lhes dizia. - Fizemo-lo confirmaram todas.
- E qual foi o vosso primeiro pensamento?

- O de Maria: que alguém tinha roubado ou levado o corpo
para outro lugar. Pouco me faltou para lhes perguntar se
tinham visto mais alguma coisa. Por exemplo os anjos de
vestes luminosas citados pelos evangelistas, ou até se
tinham visto ou sentido o terramoto de que fala Mateus. Mas
optei por esperar e apalpar o terreno um pouco adiante
quando elas tivessem concluído a sua versão e com a
delicadeza suficiente para não levantar suspeitas. De
qualquer forma, já era muito revelador que nenhuma
daquelas mulheres tivesse feito qualquer referência a um
acontecimento tão invulgar como a possível aparição de um
anjo do Senhor. A ter-se dado um acontecimento desses,
nenhuma o teria omitido. - E que fizeram depois?
- Estávamos tão confusas que durante um bom bocado
ninguém disse nada. Fomo-nos sentar na segunda pedra, a
que estava atirada no meio do caminho, e começámos a
discutir entre nós. Nem José nem Nicodemo nos tinham dito
que o corpo tinha de ser transladado. Chegámos até a
zangar-nos, magoadas pelo que considerávamos uma falta de
delicadeza. Mas rejeitámos logo a seguir essa possibilidade.
O furto tinha de ser obra de outras pessoas. De certeza,
comentámos, que os responsáveis foram Caifás e as suas
ratazanas. Além disso, havia um outro pormenor inexplicável.
Quando começou a clarear, com um pouco mais de luz e de
calma, entrámos outra vez no túmulo, confirmando a estranha
disposição dos panos.
Aquilo interessava-me sobremaneira. Simulando não ter
percebido, pedi-lhes que repetissem as suas explicações.
Efectivamente, as mulheres mais perspicazes para estas
questões do que os homens também tinham reparado na
singular disposição do sudário e do lençol.
- Era muito estranho insistiram. - Se alguém rouba um
cadáver, para que há-de estar a perder tempo a deixar o
sudário tão bem arrumado?

Naqueles momentos de confusão, apesar da evidência da
mortalha, Madalena e as suas companheiras continuaram
convencidas de que tudo aquilo era obra humana. Teve de
acontecer uma coisa muito especial para que começassem a
entender.
- O primeiro toque das trombetas do Templo avançou a
de Magdala tirou-nos de tão emaranhada discussão. E já
nos dispúnhamos a regressar para ir contar estes
acontecimentos quando, de repente, ao subirmos as escadas
do jazigo, vimos um homem debaixo das árvores.
- E como souberam que era um homem?
A súbita pergunta de Simão Pedro vinha carregada de
ironia.
E a maioria dos discípulos riu do aparte. O rosto de
Madalena voltou a endurecer. Nesse momento reparei no
jarrão de barro colocado sobre a mesa. Lá continuavam os
ramos de alfazema e os lírios brancos e roxos que eu colhera
nos arredores de Getsémani e que tinham enfeitado a mesa
em U durante a última ceia. Ainda conservavam grande parte
da sua fragrância e frescura. Numa tentativa desesperada de
aliviar a tensão e demonstrar a minha fé nas palavras da
hebreia, estendi o braço para tirar uma daquelas delicadas
flores.
Levantei-me, abri as mãos dela e, com um doce sorriso,
roguei-lhe que a aceitasse. Maria, comovida, passou da dor e
da raiva à gratidão. Voltei para o meu divã e, perante a
estupefacção dos mordazes discípulos e o olhar de aprovação
de João Marcos, fiz-lhe ver que ardia em desejos de saber o
resto.
Fazendo um esforço e respondendo directamente a Pedro
-, Madalena continuou: - A sua túnica e o seu manto eram de
homem. Um pouco diferentes, mas de homem.
- Porquê? - perguntei, intrigado.

- Não sei explicar-te.
Olhou para as suas companheiras, como que à procura de
apoio.
- Eram de linho e de lã. Disso temos quase a certeza. Mas
as cores. As vestes pareciam de neve. Pedro soltou outra
inoportuna e sonora gargalhada. Mas desta vez Maria
continuou como se não o tivesse ouvido.
- Brilhantes queres dizer? - animei-a.
A cabeça de Madalena oscilou para a direita e para a
esquerda, em sinal de hesitação. - Não exactamente. Era
mate. Num primeiro momento tive a impressão de que as
vestes estavam cobertas de milhares de pequeníssimos
flocos de neve. Mas sei que isso é impossível.
- Está bem. Por favor, continua.
- Ficámos quietas. Em silêncio. Observando-o. Estava a
certa distância. .
- Quanto?
- Não sei. Debaixo das árvores.
Isso queria dizer a quatro ou cinco metros do primeiro
degrau.
- Parecia absorto em qualquer coisa que estava no chão.
Penso que eram uns mantos amarelos e uns bastões com
cravos.
- Uns bastões? - perguntei, simulando estranheza.
Mas as mulheres encolheram os ombros. Era evidente que
não sabiam o porquê da presença daqueles objectos nas
proximidades do sepulcro. E guardei um prudente silêncio.
- Uma das minhas companheiras sussurrou-nos qualquer
coisa sobre o jardineiro de José. Mas não tínhamos a certeza.
Era tão alto e forte como o hortelão, isso sim, mas vestia-se
de forma muito diferente. Além disso, a cara dele.

Ao pronunciar aquela palavra, o silêncio no aposento
tornou-se mais denso. Embora alguns tentassem fingir, a
verdade é que quase todos os apóstolos seguiam o relato
com grande curiosidade.
A cara dele, não te rias, Jasão, era como o cristal.
É claro que não movi um único músculo. E a mulher
agradeceu a minha prudente atitude. - É tão difícil de
explicar!.
- Queres dizer que a cara era luminosa?
- Não, nenhuma de nós se lembra que aquele homem
emitisse luz. Era outra coisa. Apesar de nos termos mantido
sempre a uma certa distância, pudemos apreciar os seus
traços e os seus cabelos. Não eram como os de um ser
humano. Pareciam transparentes!
Um cochicho inevitável de desaprovação espalhou-se pela
sala. - Estou a dizer-vos o que eu e estas vimos!. Que Deus
me fulmine se não for verdade!
Transparentes? Aquilo sim era novo para mim. E tenho de
ser sincero. Ao ouvir aquilo, duvidei. Estava a alvorecer. A luz
era ainda difusa. A visão das coisas, muito parcial e limitada.
As mulheres estavam sob o efeito de um choque intenso. A
imaginação e a vontade de voltar a ver o Mestre bem as
podiam ter ludibriado. Era preciso que eu pudesse presenciar
alguma daquelas supostas aparições. Assim, lutando por não
deixar transparecer as minhas sérias dúvidas, tentei abreviar
as descrições, perguntando-lhe sem rodeios:
- E que aconteceu?
- As minhas irmãs não se atreveram a dar um único passo.
Mas eu, pensando que aquele homem sabia alguma coisa
acerca do desaparecimento do cadáver, dirigi-me a ele. E
quando estava a dois ou três metros chamei a atenção dele,
perguntando-lhe: Para onde levaste o Mestre? Onde
repousa? Diz lá, para irmos buscá-lo. O estrangeiro não

respondeu. Nem sequer olhou para mim. Continuou ali, com os
seus compridos braços desmaiados ao longo da túnica e a
cabeça baixa, olhando para o chão.
- Estrangeiro? - intervim eu. - Porque é que lhe chamaste
estrangeiro? - Porque não o conhecia. Além disso, as suas
vestes.
Apesar de agora, na nossa época, o gesto de Maria nos
parecer normal, indo ao encontro de um homem e fazer-lhe
uma pergunta, naquele tempo não era assim. Antes pelo
contrário. A sociedade não via com bons olhos a mulher que
tinha a ousadia de dirigir a palavra aos homens ou se
detinha na rua a falar com um estranho.
O facto é que Madalena, no limite da sua resistência e ao
não conseguir uma resposta da misteriosa personagem,
desatou a chorar, deixando-se cair no chão argiloso da
quinta.
- No meio do meu desespero acrescentou Maria com
renovada energia aquele estrangeiro, por fim, levantou a
cara e falou-nos. - Lembras-te das palavras dele.
Exactamente?
- Uma por uma. Parece-me que o estou a ver e a ouvir.
Maria levou o lírio aos lábios. E as suas narinas tremeram
levemente.
- Que buscais?
Fiquei desconcertada. Aquela voz. Enxuguei as lágrimas
como pude e olhando para ele, consegui responder: "-
Buscamos Jesus. Enterrado no túmulo de José. Mas já lá não
está. Tu sabes para onde o levaram?"
A impaciência consumia-me. E, sem deixar que ela acabasse
referi-me ao seu comentário sobre a voz do estrangeiro,
pedindo-lhe mais pormenores.
Madalena, com os olhos humedecidos, abanou a cabeça
afirmativamente. Acho que lhe faltavam as palavras.

Finalmente, num tom mais caloroso, quase confidencial
dominou a sua emoção:
- Era Ele. Soube-o então. A sua voz. A sua voz.
Escondeu o rosto entre as mãos e, por uns instantes,
julguei que ia começar a chorar outra vez. Todos os que ali
estavam reunidos, comovidos, quase nem se atreviam a
respirar. - A sua voz. Sim, eu conheço-a. Era Ele.
- Mas, o que é que Ele respondeu?
-Esse Jesus não vos disse, até na Galileia, que morreria,
mas, que também ressuscitaria?
- Tens a certeza de que foram essas as palavras do
estrangeiro
Maria, cerrando os dentes, sufocada pela emoção só
conseguiu responder com vários e consecutivos movimentos
de cabeça. No fim, as lágrimas corriam-lhe pelas brancas
faces. Algumas mulheres foram logo consolá-la, enquanto o
silêncio se fazia violento, pesado.
- Todas nós ficámos comovidas prosseguiu Salomé. -
Todas nós compreendemos. Mas não soubemos reagir. Pouco
depois voltou a falar. A sua voz, doce e afectuosa, pronunciou
um nome: Maria!
Esperei que Madalena se acalmasse. Enxugou o pranto e,
ao comprovar que os meus olhos continuavam fixos nela,
pediu desculpa e que eu não fizesse caso da sua fraqueza.
Deve ter notado alguma coisa no meu olhar porque,
esboçando um sorriso exclamou:
- Obrigada, Jasão!. Tu és diferente de todos estes.
O brilho dos meus olhos foi a melhor resposta. E a corajosa
hebreia continuou então, aó uvir o meu nome, deixei de ter
dúvidas. Era o Mestre! Mas estava tão mudado!.
E, presa ao mesmo tempo de alegria surpresa e medo,
prostrei o meu rosto no pó do chão, murmurando: "Meu
Senhor. Meu Mestre

As minhas irmãs imitaram-me e caíram igualmente de
joelhos, atónitas. Sei que te pode parecer uma criancice,
mas, ardendo em desejos de o abraçar, e de o beijar, de
apertá-lo entre os meus braços, fui-me aproximando dEle. E,
quando me dispunha a fazê-lo, retrocedeu, dizendo: "Não me
toques, Maria! Não sou o que tu conheceste em carne"
Interrompi-a de novo. E a minha pergunta eu sei deve
ter-lhe parecido absurda. Mas eu tinha de fazê-la.
- Chegaste a ver os pés?
Maria desconcertada, sem acabar de perceber a minha
intenção, franziu o sobrolho.
- Não sei. Acho que sim.
- Como eram? - perguntei sem lhe dar tempo de reflectir. -
Bom. Agora me lembro. Espera sim. Eram como o vidro! Sim,
meu Deus! Podia ver a terra através deles! Não fiz mais
comentários. O pormenor da transparência tinha-me
transtornado. Por um lado eu duvidava, mas, por outro, a
segurança da testemunha parecia tão sólida.
- É claro que não me atrevia a desobedecer-lhe. E fiquei ali,
de joelhos, absorta. - Visões! São tudo visões.
Pedro voltou a insistir, remexendo-se, inquieto, no seu divã
e remoendo a sua teoria. - Porque é que achas que Ele te
disse que não era o que tu tinhas conhecido na carne? Neste
momento, Maria ripostou com uma lógica demolidora:
- Porque, embora tivesse forma humana, não parecia de
carne e osso. - Disse mais alguma coisa?
- Sim. Depois de me ordenar que não lhe tocasse,
acrescentou: . Sob esta forma permanecerei entre vós antes
de ir para junto do Pai.
Sob esta forma? A que estaria a referir-se a mulher? Que
tipo de corpo era aquele que asseguravam ter visto? Que
novo mistério eu tinha diante de mim?
A de Magdala levantou-se e, com os olhos fixos no teimoso

Pedro, gritou:
- E disse mais!
Deu a volta pelos divãs e, aproximando-se do pescador,
explodiu: - Agora ide todas e dizei aos meus apóstolos e a
Pedro! - que ressuscitei e que falastes comigo.
A reacção do rude galileu surpreendeu-nos a todos. Ao
ouvir o nome dele, levantou-se e, lívido, sem desviar os olhos
de Madalena, gaguejou: - Disse o meu nome?
- Todas o ouvimos responderam as mulheres em uníssono.
- Tendes. A certeza?
- Agora ide todas e dizei aos meus apóstolos, e a Pedro,
que ressuscitei e que falastes comigo.
Maria repetiu as palavras de Jesus, pondo especial ênfase
na alusão ao incrédulo galileu.
Compreendi logo. Aqueles homens, com as suas troças e
críticas, nem sequer as tinham deixado explicar-se e narrar
integralmente o que acontecera. E algo que estava
adormecido no coração de Pedro despertou, levando-o a
reagir. Pôs o manto sobre os ombros e, noutro dos seus
característicos repentes, saiu a correr da sala. Um segundo
depois, como que movido por outra mola, João Zebedeu
imitava-o. Saltou do assento e correu atrás de Pedro.
Nenhum dos outros discípulos moveu um dedo sequer. A
incredulidade continuava desenhada nos seus rostos.
Não pensei duas vezes. Peguei no cajado e, sem dirigir
qualquer palavra aos presentes, percorri a distância que me
separava da porta e desapareci.
Na minha mente acumulavam-se ainda muitas perguntas. O
relato de Madalena estimulou ainda mais a minha
curiosidade.
Mas tinha de cumprir o que fora planificado pelo Cavalo de
Tróia. Era imprescindível que eu estivesse perto de Pedro e

de João no momento em que descobrissem a demolidora
realidade do túmulo vazio. Como iriam reagir? Os factos darse-
iam como contam alguns dos escritores sagrados?
Neste aspecto, pelo que tinha visto e ouvido, nem mesmo o
fidedigno João tinha respeitado a ordem cronológica
daqueles primeiros acontecimentos. Mais ainda: essa parte
do seu evangelho aparece alterada. No capítulo 20, como é
fácil de comprovar a famosa corrida para o sepulcro é
intercalada antes da aparição do Rabi a Maria Madalena.
Lendo o evangelista em questão, tem-se a impressão de que
Madalena foi ao túmulo sozinha, sem as mulheres. E que,
assim que descobriu o sepulcro vazio, foi a correr à cidade.
Disse-o aos discípulos e Pedro e João saíram disparados
para a quinta de José.
Incompreensível.
Como já referi mais de uma vez e como continuarei a
demonstrar, a correcção dos evangelistas como historiadores
e notários dos factos e ditos de Jesus de Nazaré deixa muito
a desejar.
Quando saí da casa fiz uma rápida ligação com o módulo,
para anunciar a Eliseu que me dispunha a cobrir outro dos
objectivos do plano. Eram oito horas e quarenta e cinco
minutos.
O bulício tinha vindo a aumentar nas ruas da cidade e,
seguindo a inteligente recomendação do meu irmão, decidi
evitar as aglomerações. Perdera de vista os discípulos, mas
imaginava qual podia ser a sua rota. Estariam com toda a
probabilidade a percorrer no sentido contrário o mesmo
caminho que eu fizera para ir até à mansão de Elias Marcos.
Se agisse com rapidez, talvez chegasse à quinta ao mesmo
tempo que eles.
Subi rapidamente a rampa que desembocava na fachada do
Palácio de Herodes, deixando o recinto amuralhado pela
Porta dos Jardins ou do Ângulo. E dali, sempre a correr ao

lado dos sectores oeste e norte da muralha, não demorei a
avistar a dupla corcova rochosa do Gólgota. O meu espírito
estremeceu ao reconhecer as stipes verticais, negras e nuas,
recortadas sobre o fundo azul do céu. Procurei não olhar e
continuei na minha frenética corrida, entre o olhar atónito
dos peregrinos que tinham montado as tendas junto dos
muros e que sentados nas suas esteiras, se ocupavam a moer
o grão, penteavam as barbas e cabeleiras com largos pentes
de madeira ou mexiam a comida nos grandes caldeirões
comunitários.
Deixei para trás o concorrido caminho que partia da Porta
de Efraim em direcção a Jafa, mas antes tive de ouvir as
maldições de um aguadeiro indignado em quem eu tropeçara
e cujo odre, inevitavelmente rolou por terra. Não estou muito
certo, mas acho que a minha descida do cerro do Gareb ao
vale do Tiropéon foi acompanhado de algumas pedradas
furiosamente atiradas pelo atropelado e pelos guardadores
de ovelhas, cujos rebanhos ficaram meio descontrolados à
minha passagem.
Ofegante, cruzei o caminho de Cesareia, correndo ladeira
abaixo, ao encontro da via que conduzia ao norte. Ao pisar o
caminho da Samaria detive-me durante alguns segundos.
Precisava de oxigénio. Fui olhar à vertente oriental da
calçada, tentando reconhecer a propriedade de José. Um
brilho fez-me virar a cara para o lado esquerdo. E, com muita
inquietação, vislumbrei no fim do poeirento caminho uma
turmae romana: uma pequena unidade de cavalaria. No total,
uns trinta cavaleiros, com as suas reluzentes couraças de ferro
entrançado e as características calças vermelhas ajustadas.
Certamente regressavam à Fortaleza Antónia. E, embora os
seus cavalos tordilhos fossem a passo e se encontrassem
ainda a uns duzentos metros, evitei novo encontro com as
longas e pontiagudas lanças dos soldados. Saltei o
pronunciado talude e escondi-me entre os zambujeiros e as
moitas. Desta vez a sorte esteve do meu lado. Pouco depois,

quando senti que a patrulha se afastava, recomecei a andar,
deixando pedaços do manto entre os cardos e as urtigas.
Não tardei a ver a cerca de madeira caiada. Saltei e,
procurando fazer o menor ruído possível depois de verificar a
posição do Sol, dirigi-me para sudeste. Aquele lado ocidental
da plantação estava cheio de hortaliças. Fui-me esquivando
como podia às fileiras de escalónias a cotizada variedade
de cebola egípcia -, assim como aos alhos de cavalo ou
porros, as belas e cuidadas escarolas e beringelas e, logo a
seguir, à minha direita, entre as primeiras filas de árvores de
fruto, reconheci as paredes imaculadas da casa do hortelão.
O silêncio continuava a reinar na quinta.
Diante de mim surgiam altas videiras as tamareiras de
Beiruteque o velho proprietário importara da costa fenícia e
que cuidava com muito esmero. No outro lado da vinha
erguia-se o pombal, de angustiante recordação para mim.
Que fazer? Escondia-me de novo naquele pombal? Rejeitei
esta ideia. A primeira coisa que eu tinha de comprovar era se
os discípulos já tinham chegado.
Escolhi o pomar e, sem o menor ruído, como em vezes
anteriores, fui avançando entre as árvores. Era muito
estranho os cães não darem sinais de vida. Mas atribuí isso
à presença prolongada dos guardas e legionários. Rodeei a
casinha pelo lado de trás e, deixando a boca do poço à
minha direita, acabei por me agachar entre os pequenos
troncos das árvores, que começavam a fazer sombra no suave
promontório rochoso. Tudo em frente às escadas que davam
para o sepulcro continuava inalterável: os mantos, as maças e
a marmita continuavam ali, esquecidos. Não havia qualquer
sinal de Pedro ou de João. Supus, acertadamente, que a sua
passagem pelas vielas de Jerusalém não tinha sido tão
rápida como a minha.
Aqueles minutos ajudaram-me a recuperar o fôlego.
Confirmei a Eliseu a minha posição e este, prudentemente,
recordou-me que eram nove horas e que tinha noventa

minutos para regressar ao berço. Não me esquecera. Mas
antes tinha de descortinar uma forma de subtrair
temporariamente uma das peças vitais em todo aquele
enredo e, é claro, para a nossa nova exploração.
Não tive de esperar muito. Poucos segundos depois da
ligação auditiva, João surgiu na bifurcação do caminho que
começava na cancela de entrada da quinta. Vinha a suar,
muito agitado, respirando pela boca, às escâncaras e com os
seus negros e grandes olhos quase fora das órbitas. No seu
rosto havia uma mistura de medo e de esperança.
Antes de optar pelo caminho que levava ao sepulcro,
dedicou uns instantes a inspeccionar os arredores. O jovem
discípulo sabia da guarda e, embora Madalena tivesse dito
várias vezes que o lugar estava deserto, optou por se
certificar.
Convencido de que a zona estava calma, deu
cautelosamente alguns passos, detendo-se ao ver no chão os
mantos dos levitas. Aquilo surpreendeu-o. Agachou-se e,
pegando num dos bastões, murmurou com raiva:
- Bastardos!
Deitou fora a arma com nojo e, enxugando o suor da testa
com a aba da manga esquerda da sua túnica cor de osso,
olhou em frente, directamente para os degraus que desciam
para o fosso ou antecâmara da gruta funerária. Hesitou.
Depois de descer o primeiro degrau ficou imóvel. Voltou a
cabeça na direcção do caminho por onde tinha vindo e, com
um esgar de impaciência pela demora do amigo, encolheu os
ombros. Vi-o descer os pequenos degraus e parar de novo na
estreita passagem.
Como estava de costas não consegui ver a reacção dele
perante a visão das pedras deslocadas. Continuava indeciso.
Colocou-se diante da boca da gruta e, depois de dar uma
segunda vista de olhos para trás de si, inclinou-se, tentando
perscrutar o interior escuro da cripta. Permaneceu assim, de

cócoras e com a mão esquerda apoiada na borda superior da
pedra circular, que tapava metade da entrada, até que uns
sonoros e dramáticos arquejos o alertaram e obrigaram a
voltar-se pela terceira vez. Era Pedro.
Embora, de facto, eu o tivesse visto sair primeiro da casa
dos Marcos, a idade e a nada desprezível gordura que se
acumulava no ventre e dorso tinham-no deixado para trás.
Não pude evitar. Tive pena do esgotado pescador. João
correu escadas acima e, ao vê-lo, Simão Pedro ficou
especado interrogando-o com os olhos. Mas o seu esforço
fora excessivo e teve de encostar-se a uma árvore,
preenchendo o silêncio daquele lugar com intermináveis
inspirações ofegantes. A sua recortada barba branca
gotejava um suor abundante, enquanto a túnica ficava
encharcada e colada à pele.
Mas a sua curiosidade e inquietação eram mais fortes do
que o cansaço. E com um gesto da mão incapaz de articular
palavra interrogou de novo o companheiro. João, junto do
primeiro degrau, negou com a cabeça. Mas não percebi o que
ele quis dizer. E imagino que Pedro também não interpretou
correctamente aquele gesto de negação.
Estaria o discípulo a referir-se à ausência do cadáver ou a
explicar-lhe que não tivera tempo nem a oportunidade de
entrar na gruta? Pesadamente, sem deixar de ofegar, com um
mal dissimulado desgosto que tornava mais pronunciadas as
rugas da cara Simão aproximou-se do amigo e, sem qualquer
pergunta ou comentário de qualquer deles, desceu as
escadas. A meio do caminho, ao descobrir o negro buraco da
entrada, titubeou.
Foi uma fracção de segundo. Como um meteoro, pôs-se de
joelhos e entrou como uma bala no sepulcro. João, perplexo e
admirado perante a indubitável valentia do seu companheiro,
nem se mexeu.
Ainda não tinha passado um minuto quando vi aparecer a

careca do galileu. Desta vez, saiu da gruta, cansada e
lentamente. Tanto João como eu estávamos pendentes da
sua cara e da sua possível reacção. Levantou-se com
dificuldade e, cambaleante, sem abrir os lábios, procurou
descanso na rocha que servia de protecção à boca do poço e
que, como já disse estava tombada à entrada do sepulcro.
Os seus olhos claros estavam fixos em parte nenhuma.
Parecia hipnotizado. Pálido e alheio a quanto o circundava.
João, nervoso e impaciente, gritou-lhe da boca do sepulcro.
Então compreendi que o Zebedeu não tivera tempo de
distinguir com nitidez a superfície do banco em que repousou
o corpo do Mestre. Era lógico. Embora o Sol já tivesse
remontado o cimo do monte das Oliveiras, iluminando as
terras com uma doce claridade meridiana a luz que irrompia
na câmara mortuária era escassa. E suponho que o decidido
Pedro, como Madalena e como eu próprio, se havia
contentado com apalpar o vazio. - O quê.
Simão Pedro nem pestanejou. E, com um gesto indefinido
da mão esquerda, disse-lhe que entrasse. João fez uma
careta e, contrariado pelo mutismo do irmão, pôs-se de
cócoras. Baixou a cabeça e desapareceu nas trevas do
sepulcro. A sua permanência no interior foi um pouco mais
prolongada que a de Pedro. Quando saiu, ao contrário de
Pedro, a sua cara parecia radiante, transfigurada. .
Durante alguns minutos não disse nada. Deixou-se cair de
costas contra a fachada da cripta, e vi-o chorar com os olhos
fechados. Foram lágrimas silenciosas, de paz, que diziam
mais que todas as palavras do mundo.
Pedro acabou por voltar à realidade e, com um ricto amargo
nos lábios, exclamou:
- Filhos de má mãe!Profanaram o túmulo! A reacção do
pescador deve ter chocado João, que, abrindo os olhos, foi
sentar-se ao lado dele. Visivelmente alterado, apontando
para a boca da gruta, o mais novo dos Zebedeus tentou

convencer Pedro de uma coisa em que, ao que parecia, o
amigo não tinha reparado: a estranha disposição da
mortalha.
Como explicar aquilo? Por que motivo os supostos
profanadores não tinham levado o lençol e o sudário?. Os
argumentos tão subtis como sensatos não afectaram
Pedro. Enquanto João discutia, resmungava e lhe chamava
teimoso e néscio, Simão, inalterável, limitava-se a dizer que
não com a cabeça, repetindo como um papagaio:
- Roubaram-no!. Roubaram-no! O discípulo que parecia
convencido da misteriosa ressurreição invocou até a
promessa do Rabi de voltar à vida
ao terceiro dia. Foi inútil. A sua alegria e o seu avassalador
entusiasmo tropeçavam sempre no cepticismo de Pedro.
Numa desesperada e derradeira tentativa por fazer que
Pedro entendesse que o sepulcro vazio não podia ser obra
de ladrões, João puxou por ele convidando-o a entrar de
novo. O galileu aceitou, contrariado. E ambos desapareceram
pela segunda vez na escuridão do túmulo. Não sei de que
falaram, mas tenho quase a certeza de que os dois tactearam
a superfície da plataforma rochosa, encontrando, como eu, o
suave lençol de linho e o lenço, misteriosa e inexplicavelmente
lisos. E vazios.
Pouco depois regressaram à luz do dia. Pedro, sem
mudança aparente: confuso e aferrado à ideia dos
profanadores. João, pelo contrário, exultante. Mais convicto
de que o Mestre tinha realmente ressuscitado. Vi-o saltar de
júbilo. Bater nas pedras da entrada do sepulcro com as duas
mãos e repetir aos gritos:
- Fê-lo!. Cumpriu!. As mulheres tinham razão
Simão, mal-humorado e temeroso tentou fazê-lo calar-se. O
seu receio em relação aos do Sinédrio não tinha
desaparecido.
O medo de ser também capturado continuava a dominar e a

onentar a sua débil vontade. Ao ver que o seu jovem e
impulsivo amigo não cedia, deu meia volta e afastou-se da
passagem. A verdade é que, ao rememorar esta passagem,
eu não soube o que pensar. João, o Evangelista não se
refere em nenhum momento à postura dura e arisca de Simão
Pedro. Ao lermos o texto (João, 20 110), vemos que o autor
deixa claro que ele, sim, viu e acreditou.
Mas porque não menciona a incredulidade e teimosia do
companheiro? Foi por compaixão? Talvez por benevolência?
Ou, como já vimos na última ceia, porque não convinha
denegrir a imagem daquele que depois seria a cabeça visível
da Igreja? As cenas da famosa correria e da entrada no
sepulcro tinham acabado. Mas não as surpresas daquela
agitada manhã de domingo, 9 de Abril do ano 30.
No fundo, como passarei a relatar, a entrada inesperada
daquela mulher na quinta contribuiu e não pouco para
multiplicar a minha desolação. Isto foi o que presenciei.
Pedro, como eu estava a dizer, subiu os degraus e,
gesticulando e resmungando incongruências, dirigiu-se para o
caminho. Parecia decidido a deixar ali o seu amigo. Porém,
subitamente, uns passos apressados obrigaram-no a deterse.
Eu, que me tinha levantado e me preparava para ir ao
encontro dos apóstolos, fiz a mesma coisa. Aquilo não estava
previsto nem figura nos textos evangélicos.
Ao fundo da vereda, por entre a ramagem das árvores,
aproximava-se rapidamente uma silhueta. João foi até ao
pequeno largo em frente da rócha e, devagarinho, colocou-se
junto do seu expectante companheiro. Não falaram. Pedro
levou a mão esquerda ao punho da espada e os dois, talvez
temendo um encontro desagradável, ficaram à espera.
A figura, alta e esguia, chegou à bifurcação do carreiro e,
ao descobrir a presença dos galileus, deteve o seu nervoso
caminhar. Era uma mulher. Levava o rosto tapado com um

grande manto verde-erva. Julguei reconhecer o talhe e
aquelas vestes delicadas. E foi João a confirmar o meu
pressentimento.
- Maria! - exclamou o Zebedeu. E, abrindo os braços
precipitou-se em direcção à hebreia. - Maria! Perdoa-me!. É
verdade é verdade.
A de Magdala destapou o rosto, acolhendo o feliz
discípulo.
Simão tirou a mão da espada e, respirando, aliviado,
permaneceu imóvel. João e Madalena tinham desatado a
chorar.
E continuaram assim durante alguns minutos, fortemente
abraçados. Mas Simão, cuja paciência não era precisamente
generosa tentou cortar aquela cena emotiva, censurandolhes
a credulidade infantil e instando João a sair quanto antes
daquele lugar perigoso. Foi então, ao lançar um olhar
inquieto à sua volta, que descobriu a minha presença entre
as árvores.
O pescador, sobressaltado, desembainhou a espada. Mas
eu, saindo do meu esconderijo, dei-me a conhecer e pedi-lhe
que não perdesse a calma. Quando me reconheceu, João
enxugou as lágrimas e, perante o gesto contrariado de
Simão, veio ter comigo para me relatar entre soluços e
sorrisos convulsivos
- o que eu já sabia. Durante alguns instantes eu não soube
o que fazer nem o que dizer. Estava plenamente consciente
de que não devia influenciar em nenhum sentido o ânimo ou
as decisões daqueles homens. O meu papel era o de mero
espectador. No entanto, em situações como aquela, a fria e
necessária imparcialidade tornava-se extremamente difícil. E
limitei-me a ouvi-lo, acariciando os seus cabelos
desgrenhados e sedosos.
Foi Pedro quem, mais sereno, me veio tirar daquela tão
embaraçosa situação. Deixando-se levar pela sua lógica e

senso comum, ignorando Maria, deu um curto passeio entre
os bastões e a marmita dos guardas do Templo, expondo o
que, em princípio, me pareceu uma excelente sugestão:
- Temos de ir comunicar o roubo a José e aos outros.
Ao ouvir a palavra roubo, Madalena desatou em pranto,
presa de um novo ataque de desespero. Mas o teimoso
galileu nem olhou para ela. Agarrando com pressa no pulso
de João, levou-o pela vereda acima, desaparecendo da nossa
vista.
Por um lado, alegrei-me. A intransigência do pescador tinha
começado a pôr-me os nervos em ponta. A missão obrigavame
a permanecer no horto, atento à sorte dos panos
mortuários. Esse era o meu imediato e delicado objectivo:
pegar neles e, durante umas horas, submetê-los a uma
análise científica exaustiva no interior do módulo. Uma vez
trazidos para o berço, começaria a segunda fase daquela, de
momento, acidentada aventura. Mas sigamos a ordem
cronológica dos factos.
Comovido, aproximei-me de Maria. Tinha-se ajoelhado e,
abatida, tapava o rosto com as mãos. Deixei-a chorar e
desabafar. Quando vi que os seus soluços e suspiros
começavam a espaçar-se, fui retirando delicadamente as suas
longas mãos, pedindo-lhe que tivesse paciência. Mas
Madalena, com os olhos inchados e vermelhos, abanou a
cabeça, revelando-me a sua impotência e profunda angústia.
Era triste e desesperante, para mim, não poder ajudar melhor
aquela bonita hebreia de vinte ou vinte e dois anos. Teria
gostado de lhe antecipar alguma coisa do que eu sabia. Mas
o rigoroso código moral que regia o nosso trabalho impôs-se
mais uma vez.
De joelhos diante dela, pendente da sua amargura, tive de
repente a sensação de que alguém nos observava. Senti um
calafrio na nuca. E, de facto, ao voltar-me, deparei com a
robusta figura de um homem. Estava descalço. Talvez por isso

não o tenha ouvido chegar. Levantei o olhar e respirei com
alívio ao reconhecer o hortelão de José. Vestia um grosseiro
chaluk de lã, cinzento e descolorido, cobrindo a cabeça com
um não menos gasto chapéu de folha de palma. Na mão
esquerda trazia uma antorcha. O am-ha-arez assim eram
chamados os sofridos trabalhadores do campo e a massa do
povo sorriu para mim, deixando ver os dois ou três únicos
dentes que continuavam de pé nas suas inflamadas e negras
gengivas. Parece-me que aquela foi uma das poucas ocasiões
em que o ouvi falar.
O homem, fiel seguidor dos ensinamentos de Jesus de
Nazaré, tinha ouvido os rumores que já circulavam na cidade
sobre o desaparecimento do cadáver do Mestre e, num quase
indecifrável aramaico galileu, perguntou-me se sabia alguma
coisa a esse respeito.
Pus-me de pé e improvisei apontando para Maria,
explicando-lhe que sim, que tinha ouvido dizer alguma coisa,
mas que não estava muito certo.
O hortelão caiu então no seu habitual mutismo. Olhou para
a mulher e, direito como um poste afastou-se em direcção ao
fosso.
Compreendi que estava decidido a certificar-se por si
próprio e, após uns segundos de hesitação, decidi juntar-me
a ele. A presença da tocha era importante. Até esse
momento, as minhas idas sucessivas à cripta tinham sido
sempre em condições precárias de visibilidade. E, sem mais,
esquecendo-me por completo de Madalena, apressei-me a
seguir os passos decididos do hortelão.
Em má hora.
O cheiro nauseabundo a sebo de vaca que impregnava a
tocha invadiu tudo. E a vibrante chama, entre esporádicas
chispas, foi arrancando reflexos avermelhados às paredes da
gruta, estirando e deformando as nossas sombras. O
silencioso hortelão, com a cabeça e o dorso inclinados para

não bater no tecto, ficou com os olhos fixos no banco vazio.
Parecia hipnotizado.
Durante alguns segundos fiquei a observá-lo, à espera de
algum comentário ou alguma reacção de surpresa. Enganeime.
Frio como o gelo, limitou-se a passar a tocha por cima da
plataforma rochosa, comprovando, como eu, que o tecido
estava numa posição anormal.
Passados alguns minutos, fez um gesto de retirar-se
daquele lúgubre recinto. Mas estupidez minha! - fiz-lhe um
sinal e o seco mas atencioso servidor de José acedeu ao meu
pedido e aproximou a tocha do linho. Obviamente, devido à
escuridão, nas vezes anteriores eu não tinha reparado num
pormenor que agora, à luz da chama, me deixou atónito Um
pormenor do qual tivera conhecimento no meu tempo mas
que, honestamente, nunca valorizei como sério e científico.
Refiro-me a manchas estranhas, de tom caramelo que se viam
em ambas as faces do pano de linho. Mas vamos por ordem.
Recordo-me que, numa primeira exploração da metade
superior do lençol, uma série de coágulos e fiozinhos de
sangue me chamara a atenção. Pus o nariz mesmo em cima
das manchas, observando com uma perplexidade nada
pequena, que estavam intactas. Limpas.
Perfeitamente definidas. Aquilo era incompreensível.
Depois de trinta e quatro horas tempo aproximado de
permanência do cadáver na sepultura -, a maioria das feridas
e grumos sanguinolentos devia ter ficado colada ao tecido.
Se o corpo fora roubado ou transladado, o lógico teria sido
que, na mudança, ao despegar-se, os coágulos manchassem
o lençol. Pelo contrário, os coágulos de sangue continuavam
intactos.
Meu Deus! Que teria acontecido naquele negro lugar na
madrugada de domingo?
Levantei a face superior do linho e, à luz da tocha, entre

uma constelação de marcas de sangue igualmente nítidas,
descobri aquelas manchas douradas. Ou não seriam
manchas? Nervoso e confuso diante de tanto desatino
científico, tacteei a superfície da metade inferior da
mortalha. As pontas dos dedos roçaram primeiro nalguns
grumos de sangue. Sim, não havia dúvida: aquilo era só
sangue. Mas ao fazer a mesma coisa nas supostas manchas
de cor acastanhada, não senti a rugosidade dos coágulos. A
deficiente iluminação e a proibição estabelecida pelo Cavalo
de Tróia de manipular ou alterar a posição dos panos pelo
menos enquanto estivessem no sepulcro - não me permitiram
chegar a nenhuma conclusão.
Enquanto durou a curta e apressada exploração vieram-me
à cabeça várias hipóteses. Tratar-se-iam de manchas
provocadas pelos unguentos? Ou estaria perante possíveis
fluidos de origem orgânica resultantes da decomposição do
cadáver -, que teriam empapado o tecido?
O assombroso era aquelas manchas reproduzirem o perfil
do corpo que tinha sido envolvido naquele lençol.
- Isto é de loucos!
A minha exclamação deve ter abalado o carácter frio do
hortelão. Porque, imitando-me, aproximou a cara dos panos.
Cruzámos um olhar de incredulidade. No entanto, não foram
as misteriosas manchas cor de ouro ou a desconcertante
estrutura dos coágulos que surpreenderam o sagaz hortelão.
Suponho que estas subtilezas escaparam ao seu fino instinto.
Mas sim, pelo contrário, um outro pormenor que, se não fosse
ele, certamente teria passado despercebido.
Sem pronunciar uma palavra, apontou com o dedo para o
centro do linho. Ao ver aquilo, o meu coração deu um salto.
Quase no centro do banco, no meio das duas partes do
lençol e justamente no ponto onde tinham repousado os
pulsos do Nazareno, encontrava-se a tira de pano que, uma
vez pulverizada com aloés, servira para atar as mãos

destroçadas. O incrível é que a ligadura em questão estava
enrolada, como um anel, perfeitamente atada e envolvendo.
O vazio!
Fechei os olhos. Estaria também eu a ser vítima de uma
alucinação ou da histeria colectiva? Mas não. Ao abri-los, a
descoberta do hortelão continuava ali, desafiando a lógica
humana.
Tal como acontecera com o lenço que segurara o maxilar
inferior do Rabi e que, como já disse, se encontrava firme e
no seu lugar, aquela peça de pano obrigatória nos enterros
judaicos da época não mostrava sinais de ter sido mexida
por mãos humanas. Se um hipotético profanador tivesse
levado o corpo, por que motivo se iria entreter a soltar as
ligaduras para as atar de novo e, para cúmulo do absurdo, as
colocar delicada e cuidadosamente no mesmo sítio e na
mesma posição em que tinham estado?
Ali acontecera algo extraordinário. Algo que superava a
minha capacidade mental. Mas o quê? Tal como tinha
imaginado, a faixa que Nicodemos atara à altura dos
tornozelos do Mestre surgiu perante os meus olhos atónitos
na mesma posição. Meticulosamente enrolada e com os nós
intactos.
Satisfeita a minha curiosidade mas não as minhas
dúvidas voltei a colocar a metade superior do linho na
posição original.
Agora, mais do que nunca, eu tinha de conseguir aquela
mortalha e submeter o tecido, os coágulos e as manchas
douradas a uma análise médico-científica exaustiva. Como
estava eu longe então de imaginar as múltiplas surpresas
que nos reservariam esses estudos! Mas antes tinha de
resolver um pequeno problema: como e quando tirar os
panos? Creio que estávamos para abandonar a cripta
quando, de repente,
uma sucessão de gritos fez com que o hortelão e eu

olhássemos um para o outro, alarmados. Que tinha
acontecido?
De facto, acho que foi uma estupidez da minha parte. Não
devia ter retido o hortelão no túmulo. Mas o destino, como se
verá, tem destas coisas. .
Fui o primeiro a sair. Meio cego pela forte claridade da
manhã, estive a ponto de tropeçar na segunda pedra.
As vozes vinham do lugar onde, pouco antes, tínhamos
deixado a amargurada Maria. Não pareciam gritos de medo
ou de dor.
Era difícil explicar. Soavam como invocações. Como se
alguém
- sem dúvida uma mulher reclamasse a atenção ou a
presença de outra pessoa.
Ao chegar ao último degrau, fiquei estupefacto. De costas,
a Madalena, ajoelhada e com os braços no ar, não cessava
de clamar, repetindo uma única e mesma palavra:
- Rabboni!.
O termo Mestre referia-se ao falecido Rabi da Galileia.
Disso tenho a certeza. Mas porque invocava ela o seu
nome? E, sobretudo, porque o fazia naquele tom tão
estranho?
Tive um pressentimento. Olhei à minha volta, mas logo
rejeitei uma ideia tão absurda. Ali não havia ninguém. Tudo
estava calmo. Além disso, os textos evangélicos consultados
pelo Cavalo de Tróia não falam de uma segunda aparição de
Jesus a Madalena.
A mulher não se movera, praticamente, do limiar das
árvores.
Talvez, pensei, tenha sido vítima de outra depressão.
O encarregado da quinta veio para ao pé de mim e de
novo olhámos um para o outro sem compreendermos. E,

devagar, procurando não a assustar aproximámo-nos dela.
- Rabboni!
Aquilo era um apelo.
Detivemo-nos, cada um a um dos lados dela e, durante
alguns minutos, contemplámo-la com tanta inquietação
quanto curiosidade. Madalena apresentava agora uma
expressão diametralmente oposta. O abatimento anterior
tinha desaparecido da sua face. Era muito estranho.
Os olhos, muito abertos, sem pestanejar, pareciam presos
num ponto invisível do espaço. Havia neles uma sombra de
espanto e surpresa. Foi então, ao olhar para as mãos dela,
que reparei na direcção e posição dos dedos. Estavam
rígidos, crispados e em atitude de querer receber ou agarrar
qualquer coisa.
- Rabboni!
Maria, imóvel como uma estátua, não se apercebeu da
nossa presença. Apenas repetia o título do Nazareno. E o seu
tom, evidentemente, , era de súplica. Eu não sabia o que
pensar.
Todos os sintomas indicavam uma nova crise. E comecei a
perguntar-me se a saúde e o equilíbrio mentais da antiga
cortesã estariam normais.
Se não tivesse sido a fulminante reacção do meu
companheiro, talvez aquela situação se tivesse prolongado
indefinidamente. Mas o homem, compreendendo que Maria
estava fora de si, acabou por se lançar sobre ela e,
sacudindo-a pelos ombros, quase a levantou no ar. As secas
e violentas sacudidelas produziram o seu efeito. E Madalena
pestanejou várias vezes, voltando à realidade. As faces
foram recuperando a cor e, baixando a cabeça, suspirou
ansiosamente.
- Estás bem? - atrevi-me a perguntar.
Levantou os olhos, e as suas pupilas azeviche falaram em

silêncio e com uma força tal que me fizera recordar o
poderoso olhar do Filho do Homem. Estremeci e ela, eu sei,
percebeu. Sorriu com íntima satisfação e, levantando a mão
esquerda para as árvores do pomar, comentou sem rodeios:
- Eu vi-o!
O hortelão, instintivamente, voltou a cabeça para o sítio
indicado pela mulher.
- Sim, já nos tinhas contado. - retorqui em tom conciliatório.
- Não! - explodiu a tremer. - Agora!. Foi agora!
Desta vez fui eu quem empalideceu. Mas, logo a seguir,
suspeitando que Madalena podia estar a ser vítima das suas
próprias emoções, esforcei-me por conservar a calma e fazerlhe
a vontade. - Tem calma. Sabes que acreditei no teu
testemunho. Sei que o viste. - Não! - interrompeu-me com
violência. A sua face tinha mudado. I Madalena
compreendera que, mais uma vez, não acreditavam nela.
- Repito-vos que o vi pela segunda vez!. Aqui! E avançando
alguns passos foi colocar-se a um metro das árvores.
O silencioso hortelão torceu o nariz. Voltámos a olhar um
para o outro e, prudentemente, não fizemos qualquer
comentário. Uma suposta segunda aparição do não menos
suposto ressuscitado era de mais. E, sem querer, vi-me
arrastado pelo mesmo cepticismo de Pedro que eu,
paradoxalmente, criticara no meu íntimo. Era curioso. Apesar
da veemência da hebreia, fui incapaz de acreditar nas suas
palavras. Ou será que a sensação de frustração que tinha
vindo a germinar no meu espírito enevoava a minha mente ao
ponto de rejeitar o testemunho dela, procurando assim a
minha própria justificação? Agora sei que só a ideia de que
aquilo fosse verdade, e de Ele ter estado tão perto, tinha
começado a minar as minhas forças.
- Era Ele!.
E Maria, sem ninguém lhe perguntar, repetiu a mesma

descrição do estrangeiro de túnica e manto "da cor da neve".
Deixámo-la falar. Que outra coisa podíamos fazer?
- E falou comigo prosseguiu com uma crescente emoção
Disse-me: Não fiques na dúvida. Tem coragem. Acredita no
que viste e ouviste. Volta para junto dos apóstolos e diz-lhes
outra vez que ressuscitei. Que aparecerei diante deles e que
em breve, como prometi, os precederei na Galileia.
Ela ficou a examinar os nossos rostos. O significativo
silêncio que
se seguiu à sua exposição foi revelador. Mas desta vez
Madalena não se alterou. Não houve protestos ou lamentos.
Compreendeu quais eram os pensamentos daqueles
homens e, ocultando o rosto com a borda do manto, afastouse
em passos rápidos.
Eram nove horas e quarenta minutos. Supondo que esta
segunda manifestação do Mestre foi real, devia ter
acontecido três ou quatro minutos antes. Estupefactos, sem
saber o que dizer, vimos como a mulher meteu pelo caminho
e começou a correr.
Nesse momento, ao mesmo tempo que ela desaparecia em
direcção à cancela, surgiram outras duas figuras entre a
ramagem. Ao cruzarem-se com Madalena detiveram-se, mas
esta aparentemente, nem respondeu à saudação dos dois
homens e, sem deixar de correr, desapareceu vereda acima.
Os novos visitantes, contrariados visivelmente, hesitaram
durante alguns segundos.
Mas, ao descobrirem a nossa presença, retomaram o
andamento.
Eram José o de Arimateia e dono do lugar, e o eficiente
David, irmão dos Zebedeus e chefe dos mensageiros.
Tanto um como o outro, da mesma forma que a maioria dos
seguidores de Jesus que eu tivera a oportunidade de ver até
àquele momento, traziam no rosto o esgotante cansaço de

dois dias e duas noites sem dormir, a angústia e o horror da
tragédia e sobretudo no caso de David Zebedeu, um brilho
de esperança nos olhos.
Ambos se alegraram quando me viram. E José desde o
princípio sabedor da existência da férrea vigilância do
sepulcro, elogiou a minha presença naquele lugar,
comparando-a com a mesquinha e covarde atitude de muitos
dos mais íntimos do Mestre. Tentei dissuadi-lo, mas o ancião,
mudando de conversa, falou logo sobre aquilo que era o
verdadeiro motivo da visita de nós os dois à sua
propriedade: o sepulcro.
As mulheres que naquela madrugada tinham acompanhado
Maria Madalena esclareceram-nos -, depois de transmitirem
aos apóstolos as notícias do túmulo vazio, do
desaparecimento das patrulhas e da suposta presença do
Rabi no jardim, tinham ido a casa de José e contado à filha e
às outras hebreias tudo o que segundo elas tinham visto
e ouvido. Pouco depois, a filha de José de Arimateia e as
quatro testemunhas em questão apresentaram-se em casa de
Nicodemo. Estavam lá David Zebedeu e o ancião membro do
Sinédrio.
Repetiram a sua história, mas, segundo as próprias
palavras de José, quase todos duvidaram da veracidade de
tais factos. Sobretudo da pouco credível ressurreição do
Nazareno. Tanto Nicodemo como os discípulos que se
ocultavam na casa inclinavam-se a crer que o cadáver podia
ter sido roubado. Só David e José recordavam as promessas
do Filho do Homem e, movidos pela esperança e pela
curiosidade no caso de José, esta última pesava muito mais
do que a primeira -, tomaram a decisão de ir à cripta e tentar
esclarecer o enigma.
David quase não abriu a boca. Observou detidamente o
terreiro e, logo a seguir, tremendo de impaciência, pediu ao
ancião que não perdessem mais tempo e entrasse à frente no
sepulcro. José concordou e, a um sinal seu, o hortelão foi à

frente do grupo. Eu, cautelosamente, fiquei para trás e
aguardei no meio da escada. Durante os minutos não
muitos que durou o novo exame, um pensamento, quase
uma obsessão, me atormentou sem piedade: E se a segunda
aparição tivesse sido real?
Também não figuravam nos Evangelhos os acontecimentos
que eu estava a presenciar. Nem a segunda e até então
suposta aparição do Mestre a Maria Madalena, nem a visita
espontânea de José e David ao túmulo, nem muitíssimo
menos o que iria acontecer pouco depois. Não me cansarei
de repetir: é uma pena os escritores chamados sagrados não
se terem empenhado num relato mais minucioso e completo
dos acontecimentos que rodearam a vida e a morte do Filho
do Homem! Se o tivessem feito, os cristãos e os não crentes
teriam compreendido melhor os protagonistas daquela
época.
Quanta razão tem João Evangelista quando, no seu último
versículo (21, 25), afirma que «muitas outras coisas há que
fez Jesus!» Mas recuso-me a cair em novas elucubrações
pessoais. Curiosamente, aqueles dois homens seriam os
últimos fiéis seguidores de Cristo a terem acesso à gruta
enquanto ela ainda estava intacta; isto é, com os panos
mortuários tal como tinham sido vistos depois do enigmático
desaparecimento do cadáver.
José de Arimateia não tardou a sair. A sua atitude, a
princípio, foi de aspereza. Levou as mãos às costas e, num
pequeno vaivém pelo beco, limitava-se a abanar a cabeça,
como que a repelir a possibilidade de uma ressurreição. De
certo modo fez-me lembrar Simão Pedro:
David Zebedeu, pelo contrário, tal como João, seu irmão
mais novo, surgiu como que renascido. Com uma eloquente
felicidade nos olhos. Antes que o responsável dos
mensageiros emitisse qualquer comentário ou opinião, o
euschemon nome com que naquele tempo se designava um
rico proprietário rural colocou-se a dois palmos do seu

amigo e, olhando-o fixamente, perguntou-lhe sem rodeios:
- Que opinas?
A resposta do galileu, no meu entender, foi perfeita:
- Fiz bem em convocar os meus homens para hoje. Tenho
curiosidade em conhecer as reacções dos apóstolos. Vou a
casa de Elias e pergunto-lhes. Jesus prometeu ressuscitar ao
terceiro dia e cumpriu. Assim que chegar o meu último
mensageiro darei as ordens oportunas para divulgarem a boa
nova.
- Mas.
A previsível impugnação de José não chegou a ser
formulada.
Uma gritaria distante fez com que nos voltássemos para o
alto das escadas. David interrogou com o olhar o membro do
Sinédrio. Mas este, encolhendo os ombros, consultou o
hortelão. Ninguém sabia do que se tratava. Subiram os
degraus com todo o cuidado e, uma vez em cima, detiveramse.
Apressei-me a segui-los. Espalhados entre as árvores
juraria que em posição de combate aproximavam-se uns
vinte homens.
Vestiam de forma bem diferente. Cinco ou seis, com longas
túnicas verdes que arrastavam pelo solo argiloso e camisas
de escamas metálicas até ao meio da coxa. Cobriam-se com
capacetes polidos e em forma de cúpula e traziam arcos de
dupla curvatura. Avançavam no centro da formação e um deles
talvez o chefe vinha ligeiramente adiantado e com uma
tocha acesa na mão esquerda.
Outros vestiam roupões amarelos, idênticos aos que tinham
sido deixados no chão. Reconheci nas suas mãos e nas faixas
alguns daqueles compridos e temíveis bastões cheios de
cravos.
Os restantes, pelo menos os que vinham na primeira linha,

vestiam umas peças curiosas parecidas com as nossas
camisolas interiores de tecido grosseiro e mangas curtas,
todas da mesma cor pardo-canela. Sobre uma pequena túnica
da mesma cor talvez se tratasse de uma peça única
cingiam a cintura com uma larga faixa de couro reluzente, de
uns trinta centímetros, dividida em três barras, com todas as
características de uma couraça abdominal.
Na cabeça traziam turbantes do mesmo tom das vestes. Um
dos pendentes daquele simulacro de capacete caía sobre a
orelha direita, com franjas compridas que repousavam sobre
a clavícula. Uma lança de madeira, com mais de dois metros e
uma ponta de ferro triangular, e um grosso escudo ovalado
também de madeira de sicômoro (capaz de resistir aos
vermes), completavam o armamento. O aspecto dos guardas
do Templo porque deles se tratava trouxe-me à memória
o pormenor de um dos relevos descobertos no Palácio de
Senaqueribe em Nínive, no qual está representada a
conquista da cidade judaica de Lakis, em 701 antes de
Cristo.
Ao ver-nos no alto do caminho, a guarda do Templo deteve
a sua marcha. Alguns deles, os que traziam os arcos em forma
de jugo, levaram as mãos às costas e tiraram uma flecha da
aljava cilíndrica de cor granate. Mas o que vinha à frente fez
um sinal com o machado e as flechas voltaram às aljavas.
David Zebedeu, percebendo as intenções daqueles
ammarkelin ou strategoi, como foram chamados por Flávio
Josefo, desembainhou o seu gladius e, frio como o gelo,
cobriu o seu amigo ancião. Mas este, consciente da
superioridade dos esbirros de Caifás, obrigou o discípulo a
guardar a arma.
E, avançando até à orla do pomar, interpelou o que
parecia o cabecilha, chamando-o pelo nome. Tratava-se de
um tal Eleazar, um sagan ou chefe do Templo. O capitão dos
levitas foi logo ter com o dono da plantação e durante uns
breves minutos discutiram acaloradamente. Por último, depois

de fazer um sinal ao grupo que se mantinha atento e a curta
distância, saiu de detrás dos guardas um hebreu com uma
túnica branca comprida, de linho, com um faixa na cintura de
tecido da mesma cor, da qual pendia uma pequena caixa de
madeira fina. Impressionou-me o seu nobre porte, tranquilo e
comedido. Devia ter a mesma idade de José: uns sessenta
anos. O recém-chegado cumprimentou José de Arimateia com
uma ligeira vénia e metendo a mão na larga manga direita
mostrou-lhe um rolo de pele de borrego cuidadosamente
atado com um cordel vermelho. José abriu-o e leu-o
atentamente. Sem
* Os chefes do Templo gozavam de grande consideração. Além da supervisão
do culto, administravam tudo o que se referia à segurança e trabalhos policiais
desempenhados pelos levitas.
No ano 66, por exemplo, outro Eleazar chegou a ordenar a eliminação do
sacrifício em honra do imperador romano. Foi quase uma declaração oficial de
guerra contra Roma. Foi o começo da insurreição. (N. Do M.)
poder resistir à curiosidade, inclinei-me dissimuladamente
sobre David, sussurrando-lhe ao ouvido se podia adiantar-me
uma explicação. O Zebedeu, sem deixar de olhar para os três
homens, disse-me que não tinha bem a certeza:
- Talvez pretendam o encerramento do túmulo.
Mas o chefe dos mensageiros enganava-se. A intenção
daqueles indivíduos ou, para ser mais exacto, do sumo
sacerdote Caifás e dos saduceus que o secundavam no
problema chamado Jesus, era muito mais sibilino.
José de Arimateia devolveu o pergaminho ao ancião e,
dando meia volta, veio para junto de nós. O seu rosto,
habitualmente sereno, estava congestionado. Indicou-nos
com a mão que nos afastássemos para um lado, deixando
livre o acesso ao fosso, e, com um conciso e seco comentário,
resumiu a situação: - Ordem para revistar.
- Mas porquê?. De quem?
José olhou para David e respondeu com um sorriso cínico.
Foi o Zebedeu quem respondeu a si mesmo, e

correctamente, é claro: - Caifás!. Esse bastardo!
A princípio, tal como os meus companheiros, não
compreendi o sentido daquela revista. O sumo sacerdote
tinha sido informado pela própria patrulha judaica do
desaparecimento do cadáver, e do não menos inquietante
fenómeno das pedras a deslocarem-se sozinhas. Que
obscuras intenções podiam ocultar-se, portanto, por trás
daquela ordem absurda? Não tardaria a saber.
Os levitas cercaram por fim o acesso à gruta e nós, em
silêncio, continuámos afastados, atentos àquela
surpreendente manobra. O capitão exigiu então a presença
de dois indivíduos que não pareciam fazer parte do corpo de
vigilantes do Templo.
Vestiam como a maioria dos am-haarez ou plebeus: túnicas
gastas e de uma cor debotada pela inseparável imundície.
Um deles tinha a cabeça enfaixada à altura das têmporas. A
ligadura ocultava-lhe a orelha direita. E, ao olhar com mais
atenção, pareceu-me reconhecer o criado do sumo sacerdote
que provocara a rixa nas proximidades do horto de
Getsémani.
Aquele sírio ou nabateu, que se chamava Malco, e que eu
procurara em vão nas últimas horas da minha primeira
viagem, parecia bem recuperado da terrível cutilada
desferida por Simão Pedro. Se as circunstâncias não fossem
tão rígidas, eu teria certamente tentado satisfazer uma
grande curiosidade minha: examinar a orelha e o ombro
direitos do servo inoportuno. Mas não tive outro remédio
senão dominar-me.
Talvez haja uma terceira oportunidade, disse para comigo.
De qualquer forma, enquanto Eleazar, o capitão dos guardas,
dava instruções aos esfarrapados, pude esclarecer outro
ponto interessante. Aqueles indivíduos não eram na
realidade criados, no sentido que hoje podemos dar a esse
atributo. O ostensivo orifício no lóbulo da orelha direita do

segundo personagem revelava claramente que se tratava de
um escravo. Neste caso, escravo pagão.
(Procurarei, mais adiante, penetrar no tenebroso e pouco
conhecido mundo da escravatura em Israel no tempo de Cristo
e à qual incompreensivelmente, Jesus, não prestou muita
atenção) O caso é que, para minha surpresa e espanto o
chefe do Templo entregou a tocha a Malco e este, na
companhia do segundo escravo e de três levitas de túnicas
verdes, desceram os degraus e dirigiram-se para a entrada
do sepulcro.
O capitão ordenou que recolhessem os mantos, os bastões
e a marmita da patrulha que prestara serviço à entrada do
sepulcro, e, logo a seguir, desceu e entrou na cripta. Pelo
que pude observar, só os escravos e o chefe daquele novo
pelotão é que entraram na gruta. Este último, por acaso, até
passou pela estreita abertura com precauções que me
pareceram tão absurdas quanto excessivas. Os três levitas
restantes mantiveram-se diante da entrada, vigiando o
acesso ao interior.
A explicação para a maneira quase teatral de Eleazar entrar
no sepulcro evitando por todos os meios roçar sequer a
pedra redonda que servia para o fechar foi-me dada por
David, que, espontaneamente, relembrou uma das frases do
Mestre:
- Sepulcros caiados!
Que queria dizer o Zebedeu? Muito simples. A lei mosaica
era estrita no que se refria ao contacto e à contaminação
com cadáveres. Na Misná, por exemplo, capítulo Ohalotl,
ordenam-se, entre outros, os seguintes preceitos,
fundamentados no livro dos Números (19 14): A pedra circular
que fecha o túmulo, reza o capítulo II, e as pedras de apoio
propagam impureza por contacto e sob a tenda, ainda que
não por transporte .
As seguintes coisas são puras se forem imperfeitas quer

dizer, se não alcançarem a medida -: meia azeitona de um
cadáver meia azeitona de substância cadavérica putrefacta,
uma colherada de podridão, um quarto de 1oq de sangue
(um loq equivalia a meio quilograma), um osso do tamanho
de um grão de cevada, um membro de um ser vivo a que falta
o osso.
Se uma pessoa tocar num morto e depois em objectos ou se
projectar a sua sombra sobre um cadáver e depois tocar em
objectos, estes tornam-se impuros. Se projectar a sua sombra
sobre um morto e depois a projectar em objectos ou se tocar
num morto e depois projectar a sua sombra sobre objectos,
estes permanecem puros. Mas se a sua mão tiver a extensão
de um palmo quadrado, os objectos tornam-se impuros
Todas estas medidas que no início tiveram sem dúvida
um carácter higiénico-sanitário tinham sido deformadas e
manipuladas pelos doutores da Lei, transformando-se, com o
passar dos séculos, num pesadelo. E embora a maioria do
povo não fizesse caso daquelas centenas de regras e
prescrições absurdas, o mesmo não acontecia com os
sacerdotes e outras castas, directa ou indirectamente ligadas
ao Templo ou à Lei.
Era esse o caso do chefe de turno dos levitas. E essa era a
razão pela qual se tinha feito acompanhar pelos dois
desprezíveis escravos pagãos, que não estavam submetidos
à força do ritual sobre impurezas. Como viria a ter ocasião de
presenciar alguns minutos mais tarde, os sepulcros caiados
cumpriam as formalidades ao ponto de se negarem a tocar
nos panos mortuários, obrigando Malco e o segundo gentio a
pegar neles. O estranho foi Eleazar ter-se dignado
ultrapassar a porta da cripta. Mas as ordens que tinha, ao
que parecia, obrigavam-no a essa aberração religiosa.
Seguindo os costumes de Caifás, e dadas as especiais
circunstâncias, a Lei, neste caso, tinha sido adaptada aos
inconfessáveis interesses da hierarquia. Poucos minutos
depois, com efeito, a revista ficou concluída. E vimos

aparecer o capitão e os seus homens. O da orelha perfurada
levava debaixo do braço um embrulho. José reconheceu logo
o lençol de linho que ele próprio comprara e que servira para
o translado e amortalhamento provisório do corpo do seu
Rabi. Enfurecido, foi ter com o chefe da patrulha e exigiu-lhe
os panos.
Eleazar afastou-o bruscamente. Foram segundos de uma
grande tensão. David levou a mão esquerda ao punho da
espada, mas, antes que a espada saísse da bainha de
madeira, os levitas que nos cercavam encostaram o ferro das
suas lanças aos nossos ventres. Os protestos do ancião
membro do Sinédrio foram inúteis. E, cumprida a missão, os
soldados do sumo sacerdote dispuseram-se a abandonar o
horto. Antes disso, aos empurrões e sob a ameaça contínua
das lanças, o hortelão, David e eu, fomos obrigados a retirarnos
para o caminho de saída da plantação.
Mas José de Arimateia, que não recuava perante as
dificuldades, voltou a enfrentar o capitão, e, apontando para
o velho da túnica de linho, recordou-lhe que aquela
propriedade era sua e que ele, no mínimo, tinha a obrigação
de lavrar a acta do que fora confiscado. Eleazar,
desorientado, esperou a resposta do rabino ou escriba. Este,
conhecido pelo nome de Johanan ben Zakkai, concordou com
parcimónia. O chefe do Templo cedeu e, a um sinal seu, os
levitas obrigaram-nos a voltar para a clareira. Íamos servir de
testemunhas.
O criado que segurava a trouxa atirou-a para o chão e,
depois de consultar Eleazar, apressou-se logo a desembrulhála.
Tanto o capitão como os esbirros recuaram vários passos,
como que impelidos por uma mola. O ancião, depois de se
certificar que a sua sombra e as dos levitas não se
projectavam sobre o embrulho fúnebre, foi sentar-se à
maneira turca diante das peças que estavam a ser
confiscadas.
Colocou a caixa sobre as pernas e, em silêncio, recreando

se no que sem dúvida constituía todo um cerimonial, começou
a abri-la. Fiquei fascinado. Tratava-se de uma espécie de
módulo, chapeado em madeira fina, com duas concavidades
numa das pontas. Nelas se guardavam bolas de tinta
solidificada. Uma preta e outra vermelha. Tratava-se,
possivelmente, de fuligem e de ocre, misturados com goma,
que se diluíam em água no momento de usar. (Algo assim
como a nossa tinta-da-china, que permitia lavagem fácil e,
naturalmente, todo o tipo de falsificações)
A massa avermelhada obtinha-se também com sikra, um pó
que se extraía triturando cochonilhas e que, muitas vezes, era
igualmente aproveitado pelas hebreias como cosmético. No
centro da caixa tinha sido feito um terceiro buraco, onde se
guardavam os utensílios próprios da escrita: os cálamos ou
pequenos juncos marítimos, utilizados como penas. Tinham
sido aparados numa das extremidades e, na outra,
esmagados, para poderem ser utilizados como pincéis.
Por último, noutra concavidade da caixa, o escriba guardava
uma série de tabuinhas de madeira muito finas cobertas
de cera. Junto delas havia um estilete de osso. Uma das
pontas tinha a forma de espátula que devia servir para
amassar a cera e assim apagar o que se escrevera,
aproveitando de novo a tabuinha. A extremidade oposta era
muito afiada e pontiaguda.
O tal Zakkai pegou numa daquelas tabuinhas e, com a mão
esquerda, dispôs-se a perfurar a cobertura de cera. Deu o
sinal com o estilete e o escravo foi levantando as diferentes
peças mortuárias e mostrando-as aos presentes.
Da direita para a esquerda, em aramaico só se utilizava o
hebraico em assuntos religiosos -, o rabino foi escrevendo
sem pressa e com letras grandes: Um sudário. Duas ligaduras
para as mãos e para os pés. E um lençol de linho de Palmira.
Ao levantar parcialmente o longo lençol, todos os ali
reunidos, incluindo David e José de Arimateia, puderam

observar algo que nos surpreendeu, sobretudo a mim. À clara
luz da manhã, entre os restos sanguinolentos, o lençol
apresentava umas insólitas manchas douradas as que eu
descobrira na cripta que reproduziam parte de uma figura
humana. Embora breve, a exposição do tecido permitia
distinguir as plantas de uns pés nus e a metade inferior de
umas pernas. O incrível desenho naquele momento não
soube defini-lo melhor não passou despercebido a Eleazar
e ao escriba. Este, ao reparar nas manchas, ficou um instante
com a pena no ar, atónito. David Zebedeu olhou para mim de
soslaio interrogando-me com uma quase imperceptível
elevação da cabeça. Limitei-me a arquear as sobrancelhas,
dando-lhe a entender que eu também não tinha uma
explicação para aquilo.
A repentina reacção do capitão foi muito significativa. Ao
aperceber-se de que naquele tecido havia muito mais do que
coágulos de sangue, deu por concluído o protocolo,
simulando uma súbita pressa e ordenando ao escravo que
atasse de novo a trouxa. E o rabino, depois de estampar o
selo no final de tão concisa acta, guardou os instrumentos e
pôs-se de pé.
A partir daí, tudo se passou com rapidez. Os levitas
empurraram-nos com as armas, obrigando-nos a sair da
quinta enquanto o resto do pelotão, com Eleazar à frente,
nos seguia a curta distância. Transposta a cerca de madeira,
os soldados deixaram-nos em paz. Foram juntar-se aos seus
colegas, e José e David, indignados pelo que consideravam
uma violência, convidaram-me a acompanhá-los até casa de
Elias Marcos.
Hesitei. Aquela parte da missão não tinha sido concluída.
Eu tinha de conseguir os panos mortuários e levá-los para o
berço. Mas como? O criado que os guardava não parecia
disposto a perdê-los ou a entregá-los a alguém. E, pedindo
desculpa, disse-lhes que nos veríamos mais tarde. Sem mais,
os meus amigos desapareceram em direcção à cidade. O

hortelão perguntou ao chefe do Templo se podia voltar ao
seu trabalho na plantação e uma vez autorizado, também
desapareceu pelo caminho do horto. Quanto a mim, como
disse, as coisas voltavam a ficar difíceis. A minha única
obsessão era apoderar-me do lençol. Mas a sorte não
parecia estar do meu lado. Que deveria eu fazer?
O diálogo de Eleazar com a sua gente foi brevíssimo. Eu
tinha de manter os olhos bem abertos e seguir a pista do
linho. Não havia outra solução. Assim, simulando um cansaço
que não tinha, deixei-me cair ao pé da paliçada, sentindo a
agradável e tépida carícia do sol no meu rosto. Semicerrei os
olhos, lamentando não ter sido mais rápido a ir buscar a
mortalha.
O Cavalo de Tróia, na planificação desta segunda missão,
fora taxativo: a análise daquele tecido era vital para a nossa
tentativa de esclarecer o hipotético fenómeno a que os
cristãos chamam ressurreição. Por conseguinte, eu tinha de o
levar para o módulo custasse o que custasse. Mas aquele
pensamento foi imediatamente rejeitado. Já não havia
remédio.
Além disso, teria ido contra o curso natural dos
acontecimentos que, em parte, eu presenciara. Um erro desta
índole, confiscando a mortalha antes de tempo, podia ter
mudado substancialmente os factos históricos, tal como hoje
os conhecemos. Se eu tivesse ficado com o sudário numa das
minhas primeiras incursões ao interior do sepulcro, o relatado
por João, o Evangelista, por exemplo, não teria sido a mesma
coisa.
Nem ele nem Simão Pedro, depois da famosa correria,
teriam tido a oportunidade de ver aqueles panos e a sua
insólita disposição no banco de pedra. A minha
responsabilidade, mais uma vez, era muito grande. Tinha de
esperar. Era preciso esperar pelo momento mais propício. Um
momento em que o envoltório passasse para segundo plano,
historicamente falando. Mas, quando e onde?

E se as intenções do sumo sacerdote fossem no sentido de
o destruir? De Caifás e sua gente podia esperar-se qualquer
coisa. Se o embrulho que o criado levava acabasse nalgum
canto obscuro de Jerusalém ou, simplesmente, fosse
incinerado, teríamos de dizer adeus aos nossos objectivos.
Mas talvez eu estivesse a sobrevalorizar a agudeza daqueles
esbirros. A julgar pelo que tinham feito, não estavam
convencidos longe disso de que os rumores sobre o
regresso à vida do Galileu fossem verdadeiros.
A patrulha, reunida em volta do seu chefe, deu por
concluído o conclave e, enquanto a maioria dos seus
elementos se punha em movimento para a muralha norte,
Eleazar, o escravo que levava o envoltório funerário e dois
dos arqueiros deram meia volta e afastaram-se em sentido
contrário ao da tropa. E um raio de esperança brilhou no meu
abatido coração. O que é que eles pretendiam fazer?
Nem sequer repararam em mim. Os quatro passaram diante
daquele estrangeiro esfarrapado e aparentemente
adormecido, contornando a vedação da quinta em direcção
ao nordeste e dando grandes passadas. Vi-os
desaparecerem no interior de umas espessas alfarrobeiras de
vistosas flores vermelhas. Foi uma referência excelente.
Levantei-me rapidamente e, depois de me certificar de que
o grosso dos levitas prosseguia o seu caminho em direcção à
Porta dos Peixes, saltei a sebe de murtas da propriedade
que ficava em frente da de José, tentando dar a volta ao
pequeno bosque de alfarrobeiras pelo lado leste. Não tive
de caminhar muito. Na sua vertente oriental, a pequena
mancha de árvores era bruscamente cortada por uma das
múltiplas depressões dos contrafortes das colinas e
desfiladeiros de Bèzatha. Tratava-se de uma das mil encostas
rochosas de marga calcária sinclínica, tão frequentes na
tortuosa superfície da Judeia.
Colei-me ao pó avermelhado do terreno e, oculto entre o
matagal, vi o capitão e os seus homens na borda do

precipício. Eleazar apontou para o rochedo e o escravo,
obedecendo à ordem, atirou o envoltório para o fundo do
alcantilado. Cumprida a missão, afastaram-se pelo mesmo
caminho por onde tinham vindo. Aguardei uns minutos. Tudo
naquele recôndito lugar estava deserto e silencioso.
O sítio escolhido para se desfazerem da mortalha era
realmente o melhor. A estrada mais próxima a da Samaria
ficava muito mais para ocidente e o barranco penhascoso,
afastado de qualquer caminho ou azinhaga. Quem poderia
aventurar-se por semelhante precipício? Tomando todo o tipo
de precauções fui-me aproximando do declive rochoso. Não
tardei a vislumbrar o meu objectivo.
Eu ficara meio enganchado nos rebentos de uma alcaparra
silvestre. A verdade é que não teria sido muito difícil
localizá-lo da orla do pequeno bosque. Qualquer hipotético
observador teria visto sem dificuldade o estranho embrulho,
salpicado por aquela infinidade de manchas sanguinolentas,
já obscurecidas pelo passar das horas.
Estive tentado a desatar o envoltório e satisfazer a minha
enorme curiosidade. As manchas de cor torrada intrigavam-me
extraordinariamente. Mas não era o momento nem o lugar
mais adequados. Haveria tempo para examinar o tecido. E
surpreender-me com o seu conteúdo.
Rasguei o meu destroçado manto e atei o farrapo a um
ramo tenro da alcaparra. Desta forma, embora recordasse
perfeitamente o sítio onde caíra o pano, talvez não tivesse
muitos problemas à hora de voltar a pôr a trouxa no primitivo
e histórico lugar em que foi escondida e abandonada.
Os evangelistas também não falam deste assunto. Talvez
não o considerassem importante. Talvez João, o único dos
escritores sagrados que viu os panos dobrados, não tivesse
tido a oportunidade de reparar nas manchas misteriosas. Ou,
se reparou, não lhes deu importância, como noutros muitos
capítulos da vida do Filho do Homem. No entanto, na nossa

opinião, como terei ocasião de demonstrar mais adiante,
aqueles panos em especial o lençol teriam uma
importância decisiva na altura de enfrentar o controverso
fenómeno da ressurreição. Estou a referir-me, naturalmente,
ao lado científico do tema; não ao da fé.
Como certamente já terá adivinhado o possível leitor
destas recordações e anotações apressadas, o grande pano
de linho que serviu para envolver o corpo sem vida do Mestre
tinha muito a ver com uma relíquia polémica, venerada no
século xx na cidade italiana de Turim.
Eu, como já comentei, tomara conhecimento da mesma. Mas
não lhe soube dar a devida atenção. Como tantas outras
relíquias dos cristãos, pareceu-me uma coisa pouco séria, do
ponto de vista da ciência. Como estava enganado!
E, sem poder conter a minha alegria comuniquei a Eliseu a
minha descoberta, anunciando-lhe que ia partir
imediatamente para a base-mãe e com todas as peças
mortuárias. Eram dez horas e quarenta e cinco minutos. Iria
entrar no módulo com um atraso considerável em relação ao
programa previsto pelo Cavalo de Tróia. Um atraso que
provocaria novas frustrações a este péssimo explorador. .
Sem qualquer complacência, rasguei o linho da minha
túnica, escondendo o meu tesouro no flanco esquerdo. O Sol
corria desafiante para o zénite e, a passos largos, tomando
como referência a Piscina dos Cinco Pórticos e o monumento
ao pisoeiro, no ângulo nordeste da muralha setentrional, fui
desembocar na estrada poeirenta que passava pela garganta
do Cédron e que serpenteava pelo sopé ocidental do monte
das Oliveiras. Com o auxílio dos crótalos, a localização do
berço foi extremamente simples. E às onze e um quarto
daquela manhã do domingo de glória, exausto e radiante de
satisfação voltava a abraçar o meu irmão.
Não havia tempo a perder. Substituí a minha roupa
destroçada por outra túnica e por outro roupão exactamente

iguais, prendendo ao cinto uma segunda bolsa feita à base
de estopa grosseira (uma espécie de sarapilheira),
quadrada, de vinte e cinco centímetros de largura, que
continha os astrolábios assírios e os quadros astrológicos
egípcios, tudo em madeira policromada. Eliseu, que parecia
totalmente recuperado da sua passageira indisposição, não
fez muitas perguntas. Ambos estávamos conscientes do grave
atraso no programa e do muito que ainda havia por fazer
naquele intenso e memorável domingo, 9 de Abril. Nem tive a
preocupação de meter mais pepitas de ouro na bolsa de
borracha. Os primeiros 163 gramas-ouro e os cem denários
que eu não tivera tempo de cambiar continuavam a ser
mais do que suficientes para as minhas necessidades.
Apesar de tudo, o meu segundo regresso forçado ao
módulo iria ser dentro de poucas horas. De acordo com o
plano, depois de examinados, os panos tinham de ser
devolvidos, intactos, logicamente, ao sítio de onde os tirara.
Antes de sair da nave, e enquanto colaborava com o meu
irmão na abertura da mesa giratória de alumínio e aço
inoxidável, expressamente desenhada pelo Cavalo de Tróia
para a investigação do grande sudário, Eliseu, morto de
curiosidade, não conseguiu resistir à tentação e perguntoume
sobre um dos objectivos fundamentais daquela primeira
fase da operação: a suposta ressurreição do Mestre. Não
soube o que responder. E, mostrando-lhe a impressionante
figura que se destacava no sujo e ensanguentado lençol,
comentei:
- Talvez as análises disto te digam muito mais do que eu,
por agora, te poderia adiantar. Ao observar a mancha
dourada
- réplica fiel de um corpo deitado o meu companheiro
ficou estupefacto.
- Isto.
A surpresa e admiração de Eliseu eram justificadas.

Também ele, como eu identificara a majestosa figura
impressa no linho com a do Sudário de Turim, a enigmática
relíquia a que já me referi.
- Tu achas que é o mesmo?
Preferi não me pronunciar. A origem e a história daquele
Santo Sudário são francamente obscurast. E ali o deixei,
entusiasmado com o seu novo trabalho. Um dos mais
ambiciosos do projecto.
Às doze horas e quinze minutos, com o ânimo refeito,
afastei-me da clareira que nos servia de base. O resto do dia
prometia ser especialmente intenso. Desta vez fui pelo
caminho que levava ao extremo meridional da cidade, com o
propósito de entrar pela Porta da Fonte. Indo pela Baixa da
cidade, a casa dos Marcos não ficava muito longe.
E, enquanto passava junto das tendas improvisadas dos
peregrinos galileus, muitos dos quais tinham começado a
recolher os seus haveres com a evidente intenção de
regressar às suas terras do Norte, fui recapitulando o que
tinha visto e ouvido naquelas primeiras e agitadas horas.
Não me saíam do pensamento as duas supostas aparições de
Jesus a Maria Madalena e às outras quatro mulheres.
Segundo os textos evangélicos, ainda deveriam ocorrer mais
duas ou três materializações do Rabi, para além das que se
deram no lago de Tiberíade. Mas esta parte da missão ainda
vinha longe.
Era preciso encontrar a forma de estar presente nalgum dos
acontecimentos ocorridos em Jerusalém ou no caminho para a
aldeia de Emaús. Se os evangelistas diziam a verdade, nesse
mesmo entardecer, no andar superior da casa de Elias
Marcos, iria acontecer uma dessas pouco credíveis aparições.
E digo pouco credíveis porque, tendo em conta o que eu
tinha visto até àquele momento, algumas passagens dos
quatro escritores sagrados sobre a ressurreição não pareciam
ter qualquer fundamento.

Ninguém tinha falado, por exemplo, dos famosos anjos ou
jovens com vestes resplandecentes que, dizem, foram vistos
no interior do sepulcro, e até mesmo sentados na pedra que
servira para tapar a gruta. O bom Mateus deixara-se levar
pelo seu entusiasmo e ardente imaginação, fazendo crer aos
cristãos que a abertura da cripta fora obra de um anjo do
Senhor que, além disso, provocara um terramoto. Nem
Madalena nem as outras hebreias viram tais personagens
celestes, nem, é claro, houve sismo algum.
Quanto às ligaduras que Lucas e João referem -, também
não é digno de confiança. Para já, não estavam no chão,
como diz João. Mesmo que estivessem, porquê acreditar que
se tratava de algo sobrenatural? Antes pelo contrário, teria
sido um claro sinal de profanação ou roubo do cadáver. Não
me cansarei de repetir: os panos estavam dobrados e o lenço
e os dois pares de ligaduras utilizadas para atar os pulsos e
os tornozelos do Rabi estavam nos respectivos lugares, como
se o corpo se tivesse esfumado.
Tanto os tradutores destes textos como o próprio esforço
dos evangelistas por enaltecer o acontecimento do túmulo
vazio levaram, quase com toda a certeza, a erros e falsas
interpretações. A verdade ia ser mais simples e sublime. Mas
antes de me defrontar com essa Verdade aguardava-me
ainda uma grande corrida de obstáculos e decepções.
Na residência dos Marcos não observei mudanças
importantes.
Depois da minha saída precipitada, os discípulos tinham
continuado enclausurados e mergulhados no medo e na
tristeza.
A primeira a regressar foi Maria, a de Magdala. Contou aos
mais íntimos a segunda e suposta aparição de Jesus na
quinta de José, mas, pelo que pude deduzir, eles tornaram a
não acreditar. Simão Pedro e o jovem João voltaram pouco
depois. A tentativa de localizarem José de Arimateia tinha

sido infrutífera. Tal como eu tinha imaginado, o ancião e
David, alertados pelas outras mulheres, saíram da casa uns
minutos antes de chegar o céptico pescador e Zebedeu.
Embora a versão dos dois sobre o sepulcro vazio não fosse
muito convincente, a verdade é que os outros apóstolos se
riram mais de Madalena.
Algo tinha acontecido na cripta. Isso era claro para todos.
Mas quase todas as opiniões eram coincidentes: esse algo
só podia ser devido a um roubo ou a uma astuta manobra de
Caifás e seus odiados sequazes. E o medo daqueles galileus
aumentou, ao ponto de pedirem à dona da casa madeiras
para escorar a porta do cenáculo. E as discussões entre eles
recrudesceram de novo.
Entristecido por aquele panorama patético, acabei por
descer para o pátio. Ali, na companhia de João Marcos e de
Maria, sua mãe, Maria Madalena, que optara por ignorar os
teimosos amigos de Jesus, relatou várias vezes a sua
segunda visão. E foi ela quem me informou também da visita
de José e de David Zebedeu aos discípulos. Ao que parecia,
seguindo os desejos expressos pelo chefe dos emissários na
plantação, os dois tinham ido directamente da quinta para a
casa de Elias Marcos.
A conversa deles com os oito apóstolos começou por girar
em torno do sepulcro vazio e da possível ressurreição do
Mestre. Mas, apesar dos argumentos e do arrazoado de
David, aqueles homens continuavam a defender a hipótese
do roubo.
- David não quis discutir explicou-me Maria Madalena,
elogiando a postura do irmão dos Zebedeus -, mas disse-lhes
o que pensava. Estas foram as palavras dele: Vocês é que
são os apóstolos e deveriam compreender estas coisas. Não
vou discutir convosco. Seja como for, vou para casa de
Nicodemo, para onde convoquei os mensageiros. Quando
chegarem todos, enviá-los-ei a cumprir a última missão:

anunciar a ressurreição do Mestre. Ouvi-o dizer que, depois
da sua morte, ressuscitaria ao terceiro dia. E eu acredito.
Pela enésima vez fiquei espantado com a fé inquebrantável
daquele discípulo de segunda linha.
Os apóstolos, derrotados e, o que era pior desesperados,
não lhe concederam muito crédito. David, depois de se
despedir, colocou nos joelhos de Mateus Levi a bolsa que
Judas lhe confiara antes dos tristes acontecimentos de
quinta-feira. Era o dinheiro do grupo. Não sei se naqueles
momentos eles já conheciam a sorte do traidor.
Possivelmente não. Mas também não estranharam a
transferência dos fundos. A humilhação e o medo de uma
rusga dos guardas do Templo eram tais que os seus
pensamentos se concentravam só numa obsessão: fugir da
cidade.
Essa era a única preocupação deles: a sobrevivência.
Alguns planearam até a fuga para assim que se fizesse de
noite. Que pouco e quão deficiente se mostraria depois esta
dramática e prolongada angústia dos mais próximos de Jesus
de Nazaré durante aquele interminável domingo.
O tempo urgia, mas, embora um dos meus trabalhos
obrigatórios daquele dia fosse recuperar o microfone que
servira para a transmissão da última ceia, a informação de
Maria Madalena sobre as intenções do chefe dos emissários
pôs-me em alerta. Aquilo também não figurava nos textos dos
evangelistas. Pensei que talvez fosse útil e interessante
estar presente naquela reunião dos correios. Apesar de tudo,
as supostas aparições seguintes de Cristo sempre segundo
os Evangelhos não deveriam verificar-se até ao entardecer.
O planificado pelo Cavalo de Tróia era tão simples quanto
problemático. Se eu fracassasse nas primeiras manifestações
do Ressuscitado como de facto acontecera tinha de dirigir
o meu esforço para a localização dos discípulos citados por
Lucas (24 13-15) e que, segundo este relato, habitavam

numa povoação chamada Emaús, a uns sessenta estádios da
Cidade Santa. Se falhasse novamente, a operação fixara a
minha indispensável presença no que parecia ser o último
acontecimento prodigioso daquele domingo: a aparição no
cenáculo. Em caso de novo fracasso, eu tinha pela frente
outras oportunidades: a que é mencionada por João, oito
dias depois e na presença de Tomé, ou os intrigantes
acontecimentos da Galileia. Mas estes últimos
acontecimentos - que constituíam a nossa fase final ainda
vinham muito longe. De momento, como ia dizendo, a minha
preocupação centrava-se nos discípulos de Emaús, e, antes
de partir para a casa de Nicodemo, simulando um interesse
especial pelos vimeiros que, ao que parecia, cresciam na
Ammaus citada por Flávio Josefo (Guerra, VII, 217) 1, fiz
algumas perguntas discretas aos criados de Elias Marcos,
dirigindo-as fundamentalmente para o que me preocupava: a
procura e identificação de alguém próximo do grupo de fiéis
do Nazareno que vivesse na referida aldeia e que me
pudesse ajudar na falsa missão de comprar vime.
Como comerciante nada havia de estranho que eu
mostrasse interesse pelo lucrativo negócio dos vimes. Era-me
terminantemente proibido fazer qualquer alusão à suposta
aparição no caminho para Ammaus ou Emaús e, por
conseguinte, devia levar a cabo as minhas pesquisas com o
máximo de cuidado. Mas ninguém na casa nem mesmo a
mãe de João Marcos ou Maria Madalena me soube informar.
Rejeitei a ideia de perguntar aos apóstolos reunidos no
andar de cima. E, um pouco preocupado por mais aquela
frustração, consolei-me, pensando que talvez David Zebedeu
conhecedor excelente das pessoas que tinham rodeado
Jesus pudesse tirar-me as dúvidas.
Com esta desculpa, e prévia autorização da mãe, o jovem
João Marcos e o autor destas páginas dirigiram-se para a
casa de Nicodemo, outra notável personagem na vida da
Cidade Santa e amigo público nada secreto, como insinuam

os evangelistas do Rabi da Galileia. Pelo caminho,
enquanto atravessávamos o bairro alto da cidade, o rapaz foi
respondendo a algumas das minhas perguntas sobre aquele
rico fariseu, membro do Sinédrio e aparentado com o ramo
dos Ben Gorion. Alguns anos depois segundo Josefo (B. J,
IV 3, 9) -, um tal Gorion ou Gurion ocuparia um lugar de
destaque na Jerusalém do ano 70. Nicodemo ou Naqdemon
negociava com trigo e chegou a acumular uma invejável
fortuna, calculada pelos seus amigos em mais de um milhão
de sestérciosz. Entre os seis mil santos ou separados, como
eram chamados os da casta dos fariseus, contabilizados na
Palestina do tempo do rei Herodes 3, o nosso homem como
José de Arimateia e outros membros da nobreza, -
distinguira-se sempre pelo seu espírito liberal e aberto, mais
próximo da escola de Hillel que da de Schammai. Ambas as
ideologias ou tendências no seio do farisaísmo da época
tendiam para uma espécie de direita e esquerda. Hillel, que
foi ganhando terreno, simbolizava a esquerda: mais aberta,
prudente e compreensiva que a de Schammai, rígida,
reaccionária e mais ritualista. Nicodemo, seguindo o exemplo
do próprio Mestre que teve muito em conta a escola de
Hillel -, sentia-se próximo da cada vez mais numerosa ala
esquerda.
E, apesar de ainda termos outras oportunidades para
penetrarmos no curioso mundo das comunidades de Fariseus
ou haburot e dos Essénios, igualmente separados ambos os
ramos partiam de um tronco comum -, penso que não será
mau insistir de vez em quando num facto que já referi várias
vezes neste diário e que poderá ser útil para distinguirmos
uns fariseus de outros. Infelizmente, o mundo moderno meteuos
a todos no mesmo saco.
E não é justo. Houve fariseus que defenderam Jesus, que se
distinguiram e se orgulharam da sua amizade com o Galileu e
que até, como no caso de alguns dos dezanove membros do
Sinédrio já citados, não hesitaram em se demitir do Conselho

quando se aperceberam das irregularidades de Caifás no
processo contra o Mestre. As críticas do Rabi da Galileia não
eram dirigidas contra esses, quase todos solidários com os
ensinamentos de Hillel As famosas acusações de Mateus
(13) - «Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!» - foram
lançadas contra os fariseus de direita.
Toda a gente sabia que aqueles santos eram mentirosos,
sepulcros caiados e que deitavam para as costas dos outros
a carga que eles se negavam a levar. Eram os popularmente
conhecidos como fariseus tingidos e que um antigo apólogo
do Talmud retrata na perfeição. O apólogo em questão reza
a sim: «Há sete classes de fariseus: o fariseu "onde está o
meu benefício.
O fariseu "bem o pareço". O fariseu "a minha cabeça deita
sangue", porque caminha com os olhos tão baixos para não
ver as mulheres que dá com a cabeça nas paredes. O fariseu
malhador, que caminha tão encurvado que parece uma mão
de almofariz a esmagar. O fariseu "qual é o meu dever para
eu o cumprir?" O fariseu "faço uma boa acção todos os dias"
e, finalmente, o único e verdadeiro fariseu: o que o é por
temor e amor a Deus.»
Nesta confusão de critérios e posturas, Nicodemo, como já
disse, tivera a coragem suficiente para enfrentar não só os
de direita, como até muitos dos seus companheiros de
esquerda, para quem os ensinamentos do Galileu crucificado
eram duvidosos e excessivamente radicais, como de uma
espécie de extrema esquerda. Assim foram qualificadas as
palavras do Filho do Homem quando defendia as prostitutas
e os gentios impuros ou quando aceitava no seu grupo
mulheres e, até, um publicano ou cobrador de impostos
indirectos, como no caso de Mateus. Meu Deus!
Como parecem ter mudado pouco as coisas depois de dois
mil anos! Há tantos membros das igrejas do século xx que se
enquadrariam na rigidez e intransigência daqueles fariseus
de direita! De bom grado me teria acercado dos numerosos

grupos de judeus que fomos encontrando à medida que nos
aproximávamos da muralha norte.
Discutiam, polemizavam e transmitiam uns aos outros as
últimas notícias sobre o sepulcro vazio do Rabi da Galileia.
O acontecimento, logicamente, acabara por chegar à
população, e em Jerusalém era um fervilhar de boatos,
havendo até quem fizesse apostas sobre o destino do
crucificado. Era o prato do dia. E aquela situação tão
excitante e inevitável alarmou-me.
O sumo sacerdote e os que haviam conspirado para que
condenassem o Mestre não veriam com bons olhos aqueles
rumores incessantes sobre a pretensa ressurreição, e a
consequente glorificação, do odiado Galileu. Alguma coisa
engendrariam para neutralizar tal movimento. Passei de novo
pela Porta dos Peixes e, guiado pelo rapaz, enveredei pela
Estrada de Cesareia, para oeste.
A casa de Nicodemo muito mais luxuosa que a de José
ficava a uns três estádios da cidade (uns quinhentos metros).
no cimo das circunvoluções do cerro do Gareb: a 778 metros
acima do nível do mar e naquilo que poderemos considerar a
zona privilegiada fora dos muros de Jerusalém. Naquele
monte, situado entre as calçadas da Cesareia e da Samaria,
os judeus abastados tinham construído vivendas sólidas e
espaçosas muitas delas imitando as tendências
arquitectónicas romanas e helénicas à sombra de
corpulentos terebintos, azinheiras e ciprestes. Fiquei
admirado com a paz do lugar e com as soberbas edificações,
que nada tinham a ver com as míseras casitas de adobe e
palha triturada dos grandes bairros da Cidade Santa.
O solícito e eficiente João Marcos deteve-se, por fim,
diante de um daqueles palacetes de dois andares,
totalmente cercado por um muro de pedra rematado por um
gradeamento de quase dois metros de altura e meio
escondido por uma densa rede de trepadeiras. Um amplo
jardim de fina erva muito bem cuidada estendia-se diante da

casa. À direita da cancela de ferro avistei um poço, à sombra
de vários carvalhos altos.
Havia-os do tipo velani, com cerca de quinze metros de
altura, e os quase eternos de galhos, mais pequenos.
Um caminho estreito de imaculados calhaus de rio brancos
como os muros da casa conduzia à fachada da casa.
Seguindo a moda da época, Nicodemo construíra a sua
vivenda de acordo com o mais puro estilo das residências
romanas ou domus.
O atrium, ou parte semipública, destacava-se pela sua
forma clara de tetrastilo, com um espaçoso pátio quadrado,
com arcos em volta sustentados por um pilar em cada um dos
ângulos do pátio. No centro do empedrado, tal como eu já
tinha visto em casa de Lázaro, abria-se uma cisterna
rectangular em que se recolhia a água da chuva. Escadas
reluzentes e semicirculares, de mármore branco, davam
acesso à habitação propriamente dita. Mas, desta vez, não
tive a oportunidade de a visitar.
David Zebedeu, o dono da casa e um grande grupo de
pessoas talvez trinta ou trinta e cinco no totaldialogavam à
esquerda do tetrastilo, à sombra daquela parte dos arcos.
Pelo menos uma vez eu tinha chegado a tempo. E ali fui
testemunha de outro acontecimento que, embora breve, foi
tão emocionante como inesperado.
Quando nos aproximámos, vários daqueles hebreus, na sua
maioria jovens, com os típicos mantos às riscas verticais azuis
e vermelhas, discutiam à maneira judaica: em voz alta e
gesticulando desmesuradamente. Nicodemo, sentado numa
cadeira de abrir e fechar, contemplava a cena em silêncio. Ao
ver-me chegar sorriu levantando a mão esquerda em sinal de
amizade.
A minha presença obrigatória ao pé da cruz granjeara-me a
estima de muitos daqueles fiéis seguidores do Mestre.
Porque deduzi à medida que me fui aproximando e

compreendendo o motivo da polémica, todos os que ali
estavam eram isso mesmo: discípulos do Rabi. David, de pé e
à esquerda do anfitrião, seguia o debate com atenção mas
com uma sombra de tristeza e decepção nos seus olhos
verde-azulados. Uns vinte homens estavam sentados ao pé
de Zebedeu pendentes do menor movimento ou palavra do
chefe dos emissários. Seriam aqueles os correios convocados
pelo irmão de João e de Santiago? A discussão girava como
é óbvio em torno do sepulcro vazio e da suposta
ressurreição de Jesus. A maior parte das opiniões dos
discípulos soaram-me muito familiares. Pareciam contagiados
pelo cepticismo de Pedro e dos outros apóstolos.
Troçavam descaradamente de Maria Madalena,
qualificando-a de cortesã bêbeda, mentirosa como todas as
mulheres e visionária transtornada. O tom dos insultos foi
adquirindo níveis preocupantes e, com um gesto autoritário o
Zebedeu impôs o silêncio, recordando aos mais enfurecidos
que entre aquelas mulheres visionárias estava a mãe dele
Salomé.
Envergonhados, aqueles hebreus baixaram a cabeça mas
continuaram a resmungar a sua ladainha de impossível,
incrível e fantástico.
David, a quem não me lembro de ter visto perder a
compostura, tirou o manto que cobria a sua cabeça, deixando
a descoberto a sua grande cabeleira encaracolada e
ligeiramente branqueada por umas cãs prematuras. E,
dirigindo-se aos que estavam sentados no empedrado, faloulhes
assim: - Vocês todos, meus irmãos, têm-me servido
sempre de acordo com o juramento que fizemos uns aos
outros. Agora tomo-os como testemunhas de que nunca dei
uma notícia falsa. Não havia dúvida: aqueles vinte ou vinte e
cinco homens eram os correios, que tão eficientes serviços
tinham prestado ao grupo apostólico de Cristo. Vou confiarvos
a última missão como mensageiros voluntários do reino.
Ao fazer isto, liberto-vos do vosso juramento. Amigos: declaro

que terminámos o nosso trabalho. O Mestre já não precisa de
mensageiros humanos.
Ressuscitou de entre os mortos! O cálido timbre de voz de
David fora aumentando em expressão e solidez, fazendo
vibrar o coração dos seus homens. Alguns discípulos negavam
com a cabeça.
- Antes de ser preso prosseguiu sem se alterar com os
gestos de desacordo Ele disse-nos que iria morrer e que
ressuscitaria ao terceiro dia.
Fez uma pausa e, cravando os olhos nos que discordavam,
exclamou com uma força que não deixava margem para
dúvidas:
- Eu vi o túmulo. Está vazio!. Falei com Maria Madalena e
com mais quatro mulheres que viram Jesus. Agora despeçovos
e digo-vos adeus, ao mesmo tempo que vos envio para
as vossas respectivas missões com a seguinte mensagem,
que levareis aos crentes. O silêncio apenas foi quebrado
pelos alegres trinados das andorinhas que esvoaçavam sobre
o pátio.
- Jesus ressuscitou de entre os mortos. O túmulo está vazio.
Logo a seguir, o Zebedeu fez um sinal e um criado da casa
avançou por detrás do grupo, trazendo nas mãos uma pilha
de cartuchos cilíndricos, feitos de couro e com um cordel em
forma de laçada num dos extremos. Foi colocar-se ao lado de
David que, pegando num daqueles tubos castanhos, levantou
a tampa e tirou um pequeno rolo de pele de cabra. Leu o
conteúdo e, com um gesto de aprovação, recolocou-o no
tubo.
Como um só homem, os emissários puseram-se de pé e, um
após outro, foram-se aproximando do chefe, que, depois de
os abraçar, lhes entregava o cilindro correspondente. Chamou
a cada um pelo seu nome. E a cada um desejou sorte. No
total, vinte e seis correios. Todos, sem excepção, eram novos:
entre os vinte e os trinta anos. Traziam armas e um par de

sandálias a mais que levavam penduradas nas largas e
apertadas faixas ou hagorah.
Mas aquela cena emotiva ficou maculada por novas e acres
intervenções dos discípulos, que procuravam convencer David
Zebedeu a desistir da sua louca intenção: transmitir uma
mensagem que na opinião da maioria era falsa. No
entanto, o imperturbável chefe dos emissários não retorquiu
nem se dignou olhar para eles. Continuou a sua entrega, sem
deixar de sorrir para os seus homens. Estes, à medida que
recebiam o cartucho, punham o cordão ao pescoço e
deixavam o cilindro pendurado sobre o peito.
Não tendo qualquer êxito com David, desolados e furiosos,
meteram-se com os emissários, tentando dissuadi-los. Mas o
resultado foi igualmente desastroso. Aqueles jovens e
entusiastas corredores tinham uma fé cega em David. Nunca
os defraudara e agora, como em tantas outras ocasiões,
dispunham-se a cumprir o seu último trabalho no singular
serviço de correio organizado pelo Zebedeu. Os últimos
correios saíram de casa de Nicodemo às catorze horas e
quinze minutos, rumo aos quatro pontos cardeais: Damasco e
Síria, a norte, Bersabé, a sul, Alexandria, a oeste, e Filadelfia
e Betânia a leste. Graças àqueles esforçados e valentes
emissários, a notícia da ressurreição seria conhecida pela
primeira vez a centenas de quilómetros de Jerusalém e por
* Tanto este curioso serviço de correio como os que existiam naquela época se
baseavam no que fora inventado pelo rei persa Dario, no século v antes da nossa
Era. Depois, o Império Romano viria a copiar este serviço, criando um autêntico
ministério, com um complexo quadro de corredores, vigilantes e guardiões de
rendição. Previam-se mesmo velocidades diferentes de acordo com a urgência das
cartas ou mensagens. Neste sentido é muito ilustrativa a Vita Romana, de Paoli.
O sistema, logicamente, não era muito rápido: o correio imperial de Roma a
Cesareia, por exemplo, demorava cinquenta e quatro dias. E uma carta da Síria
para a capital do Império, cem dias. (N. Do M)
milhares de seguidores do Filho do Homem. No fundo, era
triste e paradoxal que, enquanto aqueles vinte e seis
hebreus que quase nem tinham conhecido Jesus de Nazaré

corriam pelos caminhos da Palestina com a boa nova, os mais
íntimos do Mestre a quem cabia a responsabilidade da
expansão do reino
- continuassem encerrados cheios de medo, incerteza e
desespero. Sem querer, eu assistira a toda uma lição de
audácia e fé. Uma lição que também não consta nos
Evangelhos.
Após a partida dos mensageiros, mal troquei umas palavras
com David. Os incrédulos discípulos continuaram a fazer
pressão sobre ele, que, desejando afastar-se deles, se
despediu de Nicodemo dizendo-lhe o que pensava fazer a
seguir. Passaria por casa de José de Arimateia, para ir buscar
a mãe, Salomé, e partiria logo de viagem para Betânia, para
casa de Lázaro e das irmãs. Nela estava parte da família de
Jesus. Pelo que consegui ouvir, o Zebedeu prometera a Marta
e a Maria acompanhá-las até Filadelfia, a fim de se juntarem
ao irmão, Lázaro, que fugira por causa das ameaças do
Sinédrio.
Dito e feito. David saiu do solar de Nicodemo e regressou à
cidade. No curto trajecto em que João Marcos e eu o
pudemos acompanhar, o chefe dos correios, tal como eu
supunha, forneceu-me uma curta mas valiosa informação.
Efectivamente, conhecia os famosos discípulos de Emaús.
Mas, para surpresa minha, garantiu-me que não eram
exactamente discípulos ou crentes no reino. Eram dois irmãos,
pastores por sinal, e por conseguinte, de péssima reputação.
Um deles, um tal Cléofas, o mais velho, parecia sentir alguma
simpatia por Jesus. Mas nada mais. O outro, Jacob, na
opinião de David, era uma pessoa inquieta e curiosa que, de
vez em quando, ia às assembleias e lições do Galileu.
- Seguramente poderás encontrá-los em casa de José,
acrescentou, avisando-me que, como bons pastores que eram
talvez tentassem enganar-me
Não era a primeira vez que ouvia um comentário como

aquele.
Para certos sectores da Palestina do tempo de Cristo, além
da pureza de origem, existia uma outra realidade de grande
peso social: os chamados ofícios ou profissões desprezíveis,
que rebaixavam de forma mais ou menos inexorável aqueles
que a exerciam. J. Jeremias fez um estudo magnífico a este
respeito. (Zollner und Sunder: ZNW 301931) E chegaram a
redigir-se até quatro listas com estes trabalhos repudiados e
repudiáveis 1.
A verdade, como sempre, encontrava-se no meio termo.
Embora muitos destes ofícios pudessem levar os seus
praticantes à tentação do roubo, à picardia ou à mentira, a
realidade não era tão dramática. É verdade que para muitos
sacerdotes, escribas fariseus e puritanos da Lei todos os
médicos ou pastores ou bufarinheiros eram uns indesejáveis.
Oficialmente, por exemplo, era proibido aos pastores
venderem lã, leite ou cabritos. (Supunha-se que podiam ser
produtos roubados aos donos legítimos dos rebanhos ou a
outros pastores) Mas, em geral, o povo chão convivia
encantado com estes artesãos e requeria os seus serviços
quando precisava deles. De qualquer forma, a advertência de
David precisamente por proceder de um homem que eu
considerava justo e sincero pôs-me em guarda. E, ao passar
a muralha norte, despedimo-nos.
Ele continuou para o extremo meridional de Jerusalém e
João Marcos e eu, para leste, em direcção ao Templo.
Se eu tivesse seguido o seu conselho e fosse com ele a
casa de José de Arimateia não teria tido de lamentar, mais
uma vez, a minha pouca sorte.
Antes de partir de casa de Elias Marcos, eu pedira a Maria,
a dona, um pequeno favor. A mulher concordou sem reserva
nem receios. Como estrangeiro, eu precisava de um guia que
simplificasse as minhas idas e vindas pela cidade. De certo
modo assim era. E o jovem João Marcos saltou de alegria ao

receber a autorização da mãe. Durante aquele dia e todos
os que fossem precisos, segundo a senhora eu poderia
encontrar o seu filho mais novo, pronto e encantado, para me
servir. E, graças à generosidade de tão afável família, os
meus passos em Jerusalém não foram tão estúpidos nem
infrutíferos como na primeira aventura. Apesar disso, como é
evidente e como irei expondo pouco a pouco, o destino
continuaria a zombar de mim.
A razão por que não acompanhei David Zebedeu até casa
de José de Arimateia foi quase banal. Mas assim fora
estabelecido pelo Cavalo de Tróia e eu tinha de me limitar,
sempre que possível, ao programado. Como já referi, as
sempre supostas aparições seguintes de Cristo não se dariam
até ao entardecer.
O ocaso seria às dezoito horas e vinte e dois minutos.
Aproximava-se a hora nona (quinze horas) e, por
conseguinte, ao dispor de uma relativa margem de tempo,
devia concentrar todo o meu esforço noutro objectivo-chave
da missão: procurar, localizar e resgatar o microfone
involuntariamente extraviado.
O candeeiro em cujo interior eu dissimulara a minúscula e
sofisticada peça electrónica que por nada do mundo podia
ficar perdida naquele tempo ficara danificado com os
abalos sísmicos registados nas primeiras horas da tarde de
sexta-feira, 7 de Abril. E Maria Marcos mandara-o arranjar a
um dos artesãos da parte alta da cidade. Esse era, enfim, o
meu trabalho obrigatório e imediato. Mas antes eu tinha de
cumprir um trâmite necessário e imprescindível: trocar parte
da meia libra romana em ouro por moedas fraccionárias.
Assim, confiante, deixei-me conduzir pelo rapaz.
Sinceramente, se tivesse tentado atravessar outra vez aquele
sector do bairro mais alto da cidade sozinho, teria sido um
enorme fracasso.
Assim que perdi de vista o mercado dos tírios, João Marcos

virou à esquerda, entrando num labirinto fétido e obscuro de
voltas e reviravoltas, passadiços e becos sem saída à vista.
Aquilo não eram ruas. Era uma rede louca de casebres
imbricados entre si, formando um labirinto infernal,
pestilento, devorado por uma humidade que roía a cal das
paredes de adobe e que me fez lembrar as piores zonas da
Casbá de Argel. Do interior de muitas casas (?), na sua
maioria apenas com uma única e cavernosa assoalhada, saía
um vapor agressivo, com um forte cheiro a urina, que me fez
lembrar o carbonato de soda ou natrum carbonicum. Ao
chegar ao negro umbral de uma porta, avistei a custo dois ou
três indivíduos a lavarem e a esfregar uma série de panos
dentro de uns alguidares de barro enormes. Num canto,
escavado no chão de terra batida, uma lareira rústica fazia
ferver a água de um grande caldeirão de bronze do qual,
precisamente, se elevava aquele vapor comum a toda a zona.
Eram os pisoeiros ou lavadores, autênticos párias da
sociedade judaica quase todos pagãos, lutando por fazer
espumar as vestes encardidas dos seus conterrâneos.
Utilizavam para isso o natrão, umas pastilhas de carbonato
de soda, importado da Síria e do Egipto, e que faziam as
vezes do nosso sabão. Depois de lavadas, as túnicas, os
roupões, saiotes, etc, eram pendurados em cordas de uma
casa a outra, transformando as estreitas e confusas vielas
num estendal multicolorido e gotejante. De vez em quando,
devido àquele vapor irritante, os pisoeiros escarravam para o
meio dos sinuosos e irregulares paralelepípedos. Aquele sujo
e repugnante costume forçado, aliás, pelas duras condições
do ofício tornara-se, com o passar dos anos, um símbolo de
impureza religiosa.
E, embora fosse um hábito generalizado em todas as
classes sociais incluindo as mais refinadas a subtileza
das leis e prescrições religiosas conduzira a situações tão
absurdas como esta: o escarro de um pagão do bairro mais
alto contaminava, o de um judeu de sector oposto da parte

alta da cidade não.
A contaminação, naturalmente, era de carácter ritual ou
religioso. No ano 20, por causa de uma cuspidela daquelas,
chegou-se até a impor a reclusão nocturna do sumo sacerdote
durante a semana anterior ao solene dia da Expiação. Pelos
vistos, Simeão, filho de Kamith que exerceu a função de sumo
sacerdote entre os anos 17 e 18 depois de Cristo, teve a
pouca sorte de receber o cuspo de um árabe na noite anterior
ao citado dia da Expiação ficando assim impossibilitado de
oficiar.
Evitando a confusão dos estendais, a criançada suja que
surgia à nossa passagem, e que não hesitava em abrir as
mãos na esperança de conseguir um lepton ou sestércio, e os
fogareiros crepitantes que as mulheres colocavam no meio
dos passadiços, chegámos por fim ao terreiro arenoso de
Xisto, na margem direita do vale do Tiropéon. A altiva
muralha ocidental do Templo surgiu diante de mim branca e
aquecida pelo sol.
Respirei aliviado. Apesar das centenas de pináculos
resplandecentes que coroavam o Santuário central, erguidos
para afastar os pássaros, grandes bandos de pombos e de
andorinhas faziam das suas sobre o majestoso edifício,
ensombrando-o com os seus rápidos e anárquicos voos.
Passámos por uma das pequenas pontes de pedra
construída sobre o leito seco que sulcava Jerusalém de norte
a sul e subimos pelas escadas do Arco de Robinson. Aquela
passagem, em forma de L, dava acesso a uma das treze
portas do Templo: a situada no extremo sudoeste do grande
rectângulo amuralhado.
Um grande vão, aberto na gigantesca muralha e provido de
enormes portas de madeira de ébano recobertas com lâminas
de ouro nas duas extremidades, dava directamente para o
Átrio dos Gentios: o largo imenso e belo de 225 metros de
comprimento, onde se permitia o acesso de todos os goyims

isto é, pagãos, homens e mulheres, e, até, hereges, impuros,
gente de luto e excomungados. Como já comentei em
ocasiões anteriores aquele largo era uma espécie de praça
pública, foro romano ou ágora ateniense, onde se passeava,
se discutia, se pronunciavam os mais variados discursos e, é
claro, se traficava com todo o tipo de mercadorias. Embora a
festa solene da Páscoa daquele ano duplamente festiva
por ter coincidido com um sábado já tivesse acabado, a
animação continuava a ser extraordinária.
Ao longo do Pórtico Real e de Salomão, nas faces sul e
oriental do grande rectângulo, respectivamente, os
vendedores e cambistas disputavam a atenção dos possíveis
compradores, numa confusão diabólica de gritos regateios e
acesas polémicas que, na maioria dos casos, não passavam
de insultos ou mútuas acusações. Sob os tectos de madeira
de cedro, entre a tríplice colunata de onze metros de altura
do Pórtico de Salomão muitos hebreus escribas na sua
maioria passeavam de mãos dadas, detendo-se, às vezes,
para contemplar a embriagadora paisagem do monte das
Oliveiras. Ao longe, para noroeste, os brilhantes capacetes
dos legionários romanos, de guarda nas torres da Fortaleza
Antónia, cintilavam constantemente, anunciando a
proximidade do pôr do Sol.
Fomos contornando mesas e tendinhas dos vendedores de
rolas e de pombas, mais abundantes agora do que os
traficantes de especiarias, e que, com as suas monótonas
cantilenas, mostravam aos possíveis clientes os excelentes e
baratos passarinhos e aves, quase todos destinados às
oferendas a que as parturientes e os leprosos curados eram
obrigados. A operação do câmbio de moeda era sempre
aborrecida e árdua. É claro que eu conhecia a técnica do
regateio obrigatória em qualquer tipo de transacção e,
mesmo sabendo que o cambista procurava sempre enganar o
cliente, simulei diante de João Marcos uma escolha
cuidadosa da mesa em que devia efectuar a operação.

O adolescente, habituado a estas lides, recomendou-me
desde o primeiro momento um velho caldeu, com um turbante
cor de grenate na cabeça e umas largas sarabarae ou calças
persas de seda púrpura. Concordei e, depois de uma grande
vénia, o meu jovem acompanhante apresentou-me como um
honrado comerciante grego de passagem por Jerusalém. Os
olhinhos do cambista percorreram num relance as minhas
esmeradas vestes e, indicando a pequena balança romana
que estava sobre o tabuleiro de pinho da sua tenda,
correspondeu com outra não menos falsa e pronunciada
inclinação de cabeça.
O rapaz, esperto como um esquilo, reparou na minha
demora a responder à saudação e, com um dissimulado toque
da sua sandália, fez-me compreender que eu estava a ser
descortês.
Dobrei a cabeça e, antes de ter tempo de expor o motivo
da minha presença, o homem, num grego quase perfeito, e
mostrando com orgulho os fios de ouro que lhe sustentavam
vários dentes postiços (réplicas em marfim dos naturais),
começou uma ladainha em que misturou a sua remota e
sagrada origem babilónica com a minha sabedoria em ter
escolhido o mais honesto dos cambistas de moedas puras. O
monótono preâmbulo fazia parte do cerimonial e, sem a
mínima intenção de o contrariar, aguardei pacientemente que
ele acabasse. Soube assim que se chamava Serug e que
descendia do bisavô do próprio Abraão. Também me fez ver
que, desde tempos remotos, um ramo dos Serug se instalara
na parte ocidental de Jaran, fundando a cidade de Sarugi. É
claro que não acreditei numa só palavra, embora os nomes e
os dados fossem correctos.
Por fim, quando se sentiu satisfeito entrámos no assunto.
Entreguei-lhe um dos dois saquinhos em que o Cavalo de
Tróia dividira os cento e sessenta e três gramas de ouro e,

depois de deitar o conteúdo na palma da mão, mexeu nas
pepitas de ouro com a ponta do dedo mínimo. Pegou numa.
Levantou-a à altura dos olhos. Comprovou o brilho e, por
último, colocou-a cuidadosamente na mesa. Observou-me com
um ar grave e, como se se tratasse de pura rotina, pegou
numa pedra de toque.
Esfregou a pepita com muita força, deitou no contraste
dourado um líquido (talvez um pouco parecido com a águaforte)
e comparou o resultado com uma contraprova de outra
pepita que lhe pertencia. Satisfeito, passou à verificação
seguinte pegando num martelo de madeira que estava junto
da balança.
Ergueu-o uns dois palmos sobre a pepita e deu uma
certeira e sonora martelada que, naturalmente, esmagou o
nobre e brando metal. À primeira martelada seguiram-se
outras duas, que transformaram a pepita numa lâmina.
Naturalmente, o ouro era excelente e, dando um grande
suspiro, convencido da sua autenticidade, pegou naquele
bocado e uniu-o ao resto dos 815 gramas. Perguntou-me que
tipo de moeda eu queria e eu disse-lhe que queria sekels e
sestércios. Eu sabia que aquele quarto de libra romana de
ouro equivalia a 189 denários de prata ou seja, cerca de 47
sekels ou 1134 sestércios.
O problema, em princípio, estava nos pesos utilizados pelo
cambista e nos juros que ele estipulasse pela operação.
Despejou o ouro num dos pratinhos de latão da balança e
procurou numa gaveta de madeira onde tinha uma bateria de
pesos de bronze. Eu fora treinado para estas coisas e
reconheci as minas (cujo peso oficial era de 571 gramas), os
siclos (de 114 gramas), os meios siclos (de 57 gramas) e os
óbolos (de 06 gramas).
Mas, tal como eu suspeitava, nenhuma daquelas peças
atingia o peso exigido pela Lei. Não demorei a comprová-lo.
Acostumado a este tipo de manipulações, o caldeu foi

directamente aos siclos, pegando em meia dúzia daqueles
pesos cúbicos e gastos. Colocou-os com grande teatralidade
no prato oposto da balança e, ao chegar ao número seis, a
balança ficou equilibrada. Tive de fazer um grande esforço
para não sorrir. Era óbvio que devia ter colocado sete, e
mesmo assim ainda faltariam algumas décimas de grama. O
cambista espertalhão acabava de me roubar mais de 115
gramas de ouro.
Ainda faltava a taxa ou juros fixados como margem do
negócio.
E o amigo Serug pegou na tabuinha de madeira encerada
que pendia de um cordel encardido atado à sua faixa,
rabiscando não sei que estranhas inscrições com um estilete
de osso que tirou de baixo do turbante. Foi murmurando para
si mesmo uma prolixa e indecifrável cadeia de operações
matemáticas e, finalmente, com aquele falso sorriso
afivelado no seu escuro rosto, mostrou-me a tabuinha e
cantou o resultado final:
- Quarenta sekels e oitocentos e setenta e quatro
sestércios. Fiz um rápido cálculo mental e deduzi que, além
de me roubar no peso, aquele maldito cambista aplicara-me
a mais alta tarifa permitida: meio óbolo e meio querá por
cada meio siclo ou meio sekel entregue. Algo assim como dez
por cento sobre o valor total.
João Marcos voltou a dar-me outro pontapé, animando-me
a rejeitar a oferta, ou pelo menos a regatear. Mas o tempo
urgia e, ignorando os justos conselhos do rapaz, aceitei a
proposta.
O pagão abriu os olhos de par em par sem compreender, e,
mudo diante da inesperada reacção daquele grego
supostamente tonto ou excessivamente rico, apressou-se a
entregar-me a quantidade combinada. Desta vez a sua vénia
quase o levou a bater com a cabeça na mesa de câmbio.
Então, a grandes passadas, com as críticas do meu amigo

atrás de mim, abandonei o agitado Átrio dos Gentios.
João Marcos havia começado a sentir verdadeiro carinho
por mim. E eu por ele. E embora o Cavalo de Tróia, nas suas
normas rigorosas, proibisse qualquer relação que pudesse
fazer surgir laços de carácter sentimental, deixei actuar o
destino. Acariciei os seus negros cabelos sedosos e dei-lhe a
entender que. Naquilo do cambista, o caldeu é que fora
realmente enganado. Enquanto atravessávamos outra vez o
Tiropéon, lembrei-lhe os ensinamentos do seu saudoso ídolo:
Jesus de Nazaré. A mentira, disse-lhe, parafraseando
Chesterfield e Geibel, é a única arte dos medíocres e o
refúgio dos vis. E mesmo que seja astuta, sempre acaba por
quebrar uma perna.
Embora estas frases não tivessem sido ditas pelo Filho do
homem, o rapaz elogiou a minha fidelidade para com o
Mestre, e a sua estima pelo velho comerciante de
Tessalónica cresceu um pouco mais. Quando me perguntou
para onde nos dirigíamos, ficou surpreendido. Pedi-lhe que
guardasse segredo e, em voz baixa, disse-lhe que queria dar
um pequeno presente à mãe dele.
Os seus olhos vivos iluminaram-se e, pegando-me na mão,
levou-me para o sector noroeste da cidade. Eu pedira-lhe que
me conduzisse à oficina para onde, ao que parecia, ele
próprio levara o candeeiro quadrado de ferro forjado que
ficara danificado pelo terramoto. Eu, de facto, queria
agradecer as atenções da esposa de Elias Marcos e não me
ocorreu melhor coisa que arcar com as despesas da reparação
do referido candeeiro. Assim era essa a minha intenção o
meu acesso ao microfone não se tornaria suspeito. Isso,
supondo, naturalmente, que continuava no mesmo sítio.
Caminhámos ao longo de toda a muralha que separava os
dois grandes bairros e, quando avistámos as torres do
Palácio de Herodes, virámos para a direita e passámos pelo
arco da Porta de Ginnot. Distingui imediatamente as
marteladas do clã dos ferreiros: um som que, quando parava,

servia para as pessoas das redondezas saberem que acabara
o dia de trabalho.
Fiquei espantado com a diferença entre aquela zona do
mais alto bairro da cidade perfeitamente pavimentada, de
fachadas caiadas e sem urina nem excrementos de cavalos
nas pedras de um cinzento azulado e as míseras vielas que
eu percorrera pouco antes, no lado oposto. Talvez a
explicação estivesse na relativa proximidade do Palácio de
Herodes. Pouco depois, ao entrar numa das fundições e
descobrir o que nela se fazia, compreendi as razões do
tetrarca para manter contentes aqueles artesãos ou gentes
de ofício, como também eram chamados.
O caso é que me vi, de repente, num grande pátio
descoberto de uns quinze por dez metros. À minha frente
abria-se um espectáculo que os homens da Idade Média, e
até os do século xix, reconheceriam. Meia dúzia de homens
musculosos, de pele tisnada e banhados em suor, unicamente
cobertos pelos saq ou tangas, trabalhavam debruçados sobre
as bigornas. Com a mão esquerda, e com a ajuda de grandes
tenazes de ferro, seguravam várias peças incandescentes,
rítmica e sistematicamente marteladas com pesados martelos
pretos. De vez em quando deixavam de martelar e metiam os
rubros metais numas cubas de madeira cheias de água ou
areia, provocando uma chiadeira de colunas de fumo branco.
O estrondo era tão ensurdecedor que João Marcos, que
avançara em direcção a um dos ferreiros, quase teve de falar
com ele por gestos. Ao fundo do recinto alinhavam-se três
curiosas forjas.
Duas eram semiesféricas, rematadas por altas chaminés em
bico. A terceira também construída com blocos calcários
tinha a forma de um poço. Na base das duas primeiras viamse,
através das janelas abertas na pedra, chamas de fogos
rubros e vorazes. Segundo o quenita que dirigia a oficina
descendente de uma antiga família fenícia de ferreiros
ambulantes os fornos fechados destinavam-se

habitualmente à fundição de pequenas quantidades de
cobre.
A torrefacção preliminar do mineral, extraído nas minas do
wadi Arabá, a sul do mar Morto, era efectuada em fornos das
proximidades das respectivas minas. Quanto aos lingotes
destinados à exportação eram preparados numa outra grande
fundição: Esyon-Gueber, obra de Salomão. O metal chegava,
portanto, a Jerusalém pronto para a sua última e definitiva
transformação. Um engenhoso sistema subterrâneo em forma
de L e recoberto de tijolo fazia de conduta de ar.
Este era insuflado, mais do que por foles, por meio de
grandes e não menos artesanais balões, feitos de pele de
boi ou de vaca, atados pela cabeça e pelo rabo e cheios de
ar a sopro. Uma prancha circular, de madeira de pinho,
provida de uma braçadeira e fixa com cordas à parte superior
de cada odre, servia para os esvaziar.
Quando as fogueiras começavam a apagar-se, um dos
ferreiros colocava a comprida cabeça do balão no orifício de
entrada da conduta subterrânea e, com grande habilidade,
soltava o nó que não deixava sair o ar, pressionando com
todo o peso do seu corpo a tampa superior.
Desta maneira o fole soltava o seu conteúdo, avivando a
lenha ou o carvão vegetal depositado no crisol. Depois, lenta
e penosamente, o operário tinha de soprar até voltar a
encher o odre.
No momento em que o cobre, ou qualquer outro metal,
atingia o ponto exacto de moldagem, os sofridos e
excelentes artesãos retiravam os crisóis cónicos, de barro,
segurando-os com uma das suas longas tenazes.
Tanto o chão de terra como as paredes altas da oficina
estavam cheias das mais variadas ferramentas, armas e
utensílios domésticos da época. Fiquei fascinado. Havia ali
relhas de arado, aguilhões machados simples muito
semelhantes aos actuais - machados duplos, picaretas (uma

espécie de machado e enxadão), freios de cavalos, grandes
bocados de armaduras, facas das mais diversas formas e
tamanhos, pulseiras, argolas, todo o tipo de vasos, copos e
pratos e uma infinidade de pequenos utensílios de uso
comum nas casas ou noutras oficinas: cinzéis, espátulas,
agulhas, tenazes, fivelas, etc. João Marcos interrompeu a
minha observação.
O capataz ou chefe da forja aproximou-se, na companhia
dele, do lugar onde eu estava à espera. O rapaz explicaralhe
as minhas intenções e ele, falando mais alto que o
frenético martelar dos seus companheiros, deu-me a entender
que o candeeiro de Elias ainda não fora reparado.
Compreendi-o. Embora a peça tivesse chegado na tarde de
sexta-feira, o sábado e a celebração da Páscoa haviam
atrasado o arranjo.
O quenita, convertido à religião judaica, aproveitou
aqueles minutos de descanso para desatar a faixa de pano
que cingia a sua fronte e cabelos, torcendo-a e escorrendo o
abundante suor que a empapava.
Depois convidou-me a segui-lo até ao canto onde guardava
o famoso candeeiro.
Habituado a distinguir e manipular todo o tipo de objectos
metálicos, identificou logo o motivo da minha presença na
forja, retirando-o, sem perder tempo, do meio de um montão
de caldeirões e trastes velhos enferrujados. Receei que ele
se entretivesse a examiná-lo. E dei graças aos céus pelo
providencial dia festivo. Se os artesãos tivessem feito o
trabalho, teriam encontrado, quase com toda a certeza, a
estranha peça e a antena camuflada entre os pingentes.
Nesse caso eu ficaria numa situação comprometedora. A
pancada partira a base que sustentava a caixa de ferro, que
também ficou danificada, numa aresta e em três das quatro
lâminas de vidro colorido. Com algum nervosismo, simulando
um interesse especial pelos pormenores do candeeiro, pedi

lhe que mo deixasse ver. E o homem, encolhendo os ombros,
aproximou-o de mim. Senti fraquejarem-me as pernas. Por
entre as fissuras dos cristais, vi a tríplice mecha de cânhamo
e a concavidade do azeite. E por baixo, tacteando com os
dedos, o microfone, solidamente colado à base do candeeiro
com um íman. Agora eu tinha de o descolar e esconder no
saco de borracha. Mas o ferreiro e João Marcos continuavam
atentos aos meus movimentos e à minha decisão. Tinha de
encontrar a forma de os distrair ou afastar de mim durante
uns segundos.
Perguntei ao capataz quando calculava ele que estaria
pronto e quanto iria custar a reparação. Não soube responder
a nenhuma das perguntas. Aquilo, aparentemente tão fácil,
começava a ficar complicado. E o chefe da oficina, impaciente
pelo que, de facto, parecia uma coisa sem importância, fez o
gesto de pegar no candeeiro.
Por um momento senti-me desfalecer. Mas, recordando a
minha promessa de dar um presente à mãe do moço, retive a
peça e disse ao quenita algo que Lhe agradou muito. Aos
gritos, aproximando o meu rosto do ouvido dele, disse-lhe
que desejava comprar-lhe um objecto que fosse realmente
valioso e original. Como não especifiquei que o destinatário
era uma mulher, o artesão supôs que era para oferecer a um
homem. A verdade é que naquele tempo, e na sociedade
judaica, não era frequente os homens oferecerem coisas às
mulheres. E menos ainda um pagão e estrangeiro.
O erro involuntário de nós dois levar-me-ia a uma
descoberta sensacional, pelo menos do ponto de vista da
indústria metalúrgica.
- Valioso e original? - repetiu o ferreiro.
Concordei sem hesitar.
Dando meia volta, dirigiu-se para o terceiro forno: o que
tinha forma de poço. O meu guia foi atrás dele e eu, sem
pensar duas vezes, meti a mão na base do candeeiro e

desprendi o microfone. Sem me aperceber muito bem do que
estava a fazer, atirei a base metálica para cima dos tachos
de bronze e apressei-me a guardá-lo. Sem me controlar,
fechei os olhos e respirei com todas as minhas forças.
O quenita e João Marcos voltaram logo a seguir. O primeiro
trazia nas mãos um tecido fino de algodão preto, que,
obviamente, vinha a tapar uma coisa. Mas essa coisa, a
julgar pelo tamanho do pano que a cobria, devia ser
comprida. O ferreiro, ao ver a minha curiosidade, sorriu,
divertido. E, retirando a parte superior do pano deixou a
descoberto uma autêntica obra de arte: uma espada de uns
sessenta ou setenta centímetros, enfiada numa bainha de
marfim, finamente esculpida dos dois lados com um
entrançado de estrelas de cinco pontas.
Percebi que havia um erro. Mas, fascinado peguei no punho
branco e cilíndrico, também de marfim, desembainhando a
arma.
Como o gladius romano, era uma espada de duplo gume e
uma ponta pequena mas afiada. Ao brandi-la, notei algo
estranho.
Pesava muito pouco. De repente, o reflexo avermelhado das
forjas espalhou-se pela lâmina, chamando a minha atenção.
Examinei o suposto ferro e, desconcertado, descobri que
ambas as faces eram cruzadas por uma série de belas e
suaves marcas ondulantes que lhe davam uma tonalidade
branco-azulada.
Levantei os olhos e o sorriso de profunda satisfação do
quenita confirmou as minhas suspeitas. Aquilo não era ferro.
Era aço! Mas, como podia ser? As primeiras descrições
conhecidas do chamado aço de Damasco datam do ano 540
depois de Cristo. Devia haver confusão. Aproximei-me de uma
das aberturas dos crisóis e, à luz do fogo, examinei mais uma
vez com os olhos e com os dedos a enigmática superfície da
espada.

Tivera a oportunidade de contemplar mais de uma vez o
fascinante exemplar existente no Museu Metropolitano de
Arte, de Nova Iorque uma cimitarra persa do século xvII
trabalhada à base de aço com elevadas concentrações de
carbono e com as típicas marcas verticais ou escada de
Maomé na lâmina.
Sim, não havia dúvida. Aquelas partes esbranquiçadas do
aço eram carboneto de ferro ou cementite. E as faixas escuras
do fundo eram de ferro, com um índice inferior de carbono.
Certamente, eu sabia que o uso do aço de Damasco já era
provavelmente conhecido no tempo de Alexandre Magno (232
anos antes da nossa Era). Mas, até àquele momento, não
havia uma constatação fidedigna de ter sido utilizado e
manipulado no século I.
* O nome Damasco do aço não provém do seu lugar de
origem, mas do ponto onde os Cruzados o descobriram. As
melhores espadas deste tipo foram fabricadas na Pérsia e,
difundidas pelos Muçulmanos chegaram à Rússia medieval,
onde se lhes deu o nome de bulat. A proporção de carbono
nestas espadas oscilava entre um e meio e dois por cento.
Eram de extraordinária resistência à compressão e, durante
séculos, isso foi um segredo de Estado, bem protegido. (N.
Do M)
O ferreiro não queria revelar-me o seu segredo. Mas,
depois de lhe garantir que eu só pretendia saber qual o lugar
de origem do misterioso material que servia para fabricar
uma arma assim, levou-me a uma pequena cabana de palha e
mostrou-me uma pastilha de uns setenta e cinco milímetros
de diâmetro, cor de chumbo e muito semelhante aos discos
usados no hóquei sobre o gelo. Era o famoso wootz, ou aço
fabricado na Índia, e que isso ele não mo quis dizer tinha
começado a ser-lhe entregue regularmente por uma caravana
mesopotâmica.
No terceiro forno, sempre no maior dos segredos, o ferreiro

mergulhava a peça de wootz em temperaturas que oscilavam
entre os seiscentos e cinquenta e os oitocentos e cinquenta
graus centígrados, forjando depois o aço. (Os aços com um
elevado teor de carbono são dúcteis a estas temperaturas)
Como não tinham termómetros, estes engenhosos ferreiros
calculavam as diferentes temperaturas por referências
antiquíssimas e transmitidas de pais para filhos, como a
encontrada no templo de Balgala, na Ásia Menor. Dizia
assim: «Aqueça-se o bulat (aço de Damasco) até ele deixar
de brilhar, tal como o sol nascente no deserto, arrefeça-se
depois até abaixo da cor da púrpura real, e introduza-se no
corpo de um escravo musculoso ) a força do escravo transferese
para a lâmina e é a única que confere a sua resistência ao
metal».
À margem desta última e fantástica prescrição, a verdade é
que as indicações das cores sol nascente e púrpura real
eram bastante aproximadas. Cerca de mil graus Celsius para
o sol nascente e uns oitocentos para a púrpura real. Por
último, as peças eram temperadas em salmoura quente, a
trinta e sete graus Celsius.
Devo confessar. O meu primeiro pensamento foi adquirir
aquele exemplar super-secreto desconhecido, até, para as
legiões romanas e levá-lo para o módulo. Mas esta acção
não teria sido aprovada pelo Cavalo de Tróia e, tal como
planeara, optei por obedecer ao meu impulso inicial: oferecêlo,
não a Maria, a mãe do rapaz, mas a Elias, seu pai. No
fundo, o meu presente seria igualmente bem recebido pelos
dois. Não houve problemas nem regateios na venda. Os
cinquenta denários exigidos pelo ferreiro pareceram-me
justos. Em compensação, consegui que o arranjo do candeeiro
entrasse também naquele preço final. Ao receber as moedas
de prata, o quenita encantado com a inesperada e perfeita
operação, pegou no amuleto que tinha ao pescoço e beijouo.
Era um cravo de bronze de um supliciado na cruz! Talvez
mais à frente surja uma oportunidade para falar também das

incríveis superstições dos judeus e pagãos que povoavam a
Palestina de Cristo. Mas, meu Deus, tenho tantas coisas para
contar!. Só peço forças para chegar ao fim do relato daquilo
que foi a nossa segunda.
E terceira aventuras.
Consultei a posição do Sol. Faltavam cerca de duas horas
para se pôr. Devia apressar-me se quisesse localizar os
pastores de Emaús. Lucas diz no seu evangelho que
entardecia quando se aproximavam da povoação e que os
discípulos tentaram convencer o Aparecido a pernoitar em
casa deles, já que o dia declinava.
Estas pistas, embora inseguras, eram as únicas de que eu
dispunha. Se a aldeia em questão ficasse a sessenta
estádios dado fornecido também por Lucas (24, 13-14)
era lógico supor que os irmãos, bons andarilhos, dada a sua
condição de pastores, deveriam partir de Jerusalém por volta
das dezassete ou dezassete e trinta; isto é, uma hora ou
hora e meia antes do ocaso, nessa data às dezoito horas e
vinte e dois minutos, como já referi noutras ocasiões. Com um
pouco de sorte, talvez os encontrasse ainda em casa de José.
Como ficava em caminho, detivemo-nos uns minutos na
residência do jovem João Marcos.
O rapaz, feliz, correu ao encontro da mãe e contou-lhe
atabalhoadamente as nossas andanças. Elias, o esposo,
ainda não tinha regressado, e, impaciente por ir ao encontro
do ancião de Arimateia, coloquei a minha prenda nas mãos
de Maria, aproveitando para lhe agradecer as atenções que
tivera comigo. Atónita, a mulher não conseguiu pronunciar
uma palavra. E, sem lhe dar a hipótese de rejeitar o
presente, despedi-me dizendo-lhe que tinha quase a certeza
de nos voltarmos a ver ao cair da noite.
O silêncio reinante na casa - em especial no andar de cima
deu-me a entender que tudo continuava igual entre os
amigos do Mestre. E, sem esperar por João Marcos, saí a

correr e desci rapidamente uma das rampas semiescalonadas
que ia acabar no ângulo sul da cidade.
Atravessei outra pequena ponte sobre o leito do Tiropéon
e contornei a alta edificação que cercava a Piscina de Siloé.
Os raios do Sol, já muito oblíquos, iluminavam as colunas que
rematavam os muros daquele tanque tão popular. O tempo
continuava a correr contra mim. Desta vez não podia falhar.
Era vital localizar os pastores e encontrar-me face a face
com o misterioso ressuscitado. A sólida casa de José,
construída ao pé da muralha oriental e muito próxima da
sinagoga dos Libertos, foi sempre um dos sítios mais fáceis
de localizar. O escudo circular, com uma estrela de David e as
cinco letras hebraicas entre as pontas, formando a palavra
Jerusalém, primorosamente lavrado no lintel de pedra, era
para mim a última e definitiva confirmação.
Antes de entrar fiz uma ligação de rotina com o berço.
Eliseu parecia muito excitado e animadíssimo. Os seus
trabalhos sobre o pano mortuário tinham começado a dar
frutos surpreendentes. Confirmei a hora - dezasseis horas e
cinquenta e cinco minutos e, depois de nos desejarmos boa
sorte, atravessei o umbral com determinação. Mas o meu
entusiasmo não tardaria a desvanecer-se.
Logo da porta pude ouvir uma mistura de gritos e cânticos
que me alarmou. Atravessei o vestíbulo e, ao pisar as
tijoleiras do pátio central, o que vi acabou por me
desconcertar. Homens e mulheres, discípulos e seguidores de
Jesus na sua maioria, corriam de um lado para o outro,
tropeçando uns nos outros e como se fugissem de alguma
coisa.
Gritavam, riam ou choravam, abraçando-se e levantando os
braços ao céu. Num canto, no claustro em arcadas que
rodeava aquele lugar, outro grupo de mulheres batia palmas
e dançava numa roda. Não percebia nada. Ao ouvir os
lamentos pensei que tivesse acontecido alguma desgraça

repentina em casa do ancião membro do Sinédrio. Mas, por
outro lado, as danças e demonstrações de alegria.
Inesperadamente, vi aparecer José por uma porta que dava
para o pátio, seguido de um dos criados. O escravo trazia um
cântaro e um pano branco no braço direito. Os dois estavam
com pressa. Quando me viu, José de Arimateia fez-me um
gesto, sem se deter, para que eu o seguisse. E assim fiz,
intrigado e confuso.
Entrámos num quarto, fracamente iluminado por quatro ou
cinco lâmpadas de azeite. A princípio apenas distingui uns
vultos curvados que se agitavam na penumbra. José e o
criado passaram entre as sombras, e foi então que reparei
que se tratava de outro grupo de mulheres a choramingar.
Olhei por cima das mulheres e vi no chão, desmaiada sobre
as esteiras, a minha velha amiga: Maria Madalena. Senti um
calafrio. Que lhe teria acontecido desta vez? Ajoelhei-me ao
lado de José e, enquanto o criado molhava o pano na água
do jarro, tomei-lhe o pulso. Não parecia grave. Ao contacto
com a frescura do lenço, a extenuada Madalena estremeceu.
- Que aconteceu? - perguntei a José sem fazer ideia do que
se passara.
José teve dificuldade em responder. A sua cara
apresentava uma palidez tão acentuada como a da mulher.
Fazendo um esforço, como se Lhe faltassem as palavras,
sussurrou, ao mesmo tempo que desenhava um círculo no ar,
apontando para o grupo de mulheres:
- Estas. Que dizem terem-No visto.
Eu ouvira-o perfeitamente. Mas, durante alguns segundos,
fiquei mudo. Perplexo.
- Outra vez? - consegui balbuciar.
José de Arimateia pôs-se de pé e eu fiz o mesmo. E ambos
nos afastámos do grupo que solícito assistia Madalena.
Maria começava a recuperar do desmaio. Uma vez

distanciados, pedi-lhe que se explicasse melhor.
- Não sei hesitou o ancião -, eu não estava aqui. Dizem
que voltou a aparecer.
- Mas quem?
O meu interlocutor olhou para mim com uma certa
reprovação.
De facto, a pergunta tinha sido totalmente estúpida.
- Ah, compreendo! - rectifiquei, olhando-o fixamente.
Mas José evitou o meu olhar e, antes que eu conseguisse
manifestar o meu profundo cepticismo, adiantou-se e disseme:
- Sei no que pensas. Mas, desta vez, há mais alguma coisa.
Uma coisa que, certamente, ainda não sabes.
Aguardei, expectante. Mas a entrada em cena do criado
frustrou o esclarecimento do nervoso dono da casa. O escravo
acabara a sua tarefa e perguntou ao patrão se seria preciso
chamar um médico. José de Arimateia repetiu-me a pergunta
e eu, convencido de que os sintomas reflectiam apenas um
mal-estar passageiro e de pouca importância, disse que não
com a cabeça. O criado inoportuno retirou-se e José, que
parecia ter-se esquecido das suas palavras anteriores, deu
meia volta e foi outra vez para junto do grupo. Maria, quase
recuperada, estava recostada sobre várias almofadas.
Acabavam de lhe dar um copo de vinho e ela, sorvendo-o aos
poucos, tentava recuperar as forças.
José de Arimateia pediu silêncio e, dirigindo-se a
Madalena, perguntou-lhe: - Queres contar-nos de novo o que
aconteceu? A mulher levantou os olhos. Olhou para nós com
um cansaço infinito e acedeu, com um movimento de cabeça
quase imperceptível. Uma lágrima solitária começara a rolar-
Lhe pela face direita. Senti compaixão. Três aparições, e ela
como testemunha de todas era de mais. Aquela situação
começava a preocupar-me seriamente. Estaria Madalena no

seu perfeito juízo? A morte do seu adorado Mestre tê-la-ia
perturbado? Naquele momento lamentei não ter investigado
os antecedentes de Maria.
Que teria querido dizer o evangelista quando assegura que
Madalena foi curada por Jesus, expulsando dela sete
demónios? Tratava-se de algum tipo de doença mental?
Talvez de uma ninfomania. Ou estaria a referir-se a um
contágio venéreo? Não me podia esquecer dos seus anos
como prostituta na cidade de Magdala. E claro que essa
expressão sete espíritos malignos ou imundos podia
também ser um código ou uma imagem esotérica ou
cabalística de que os orientais tanto gostavam.
E decidi-me a, na primeira oportunidade, falar com ela e
tentar reconstruir a sua história clínica. À primeira vista,
Maria era uma mulher saudável. Com demasiada experiência
para a sua idade fruto do seu trabalho como cortesã -,
valente e sincera.
Revoltava-se contra a odiosa e forte opressão das suas
companheiras na sociedade judaica. Sempre me tinham
chamado a atenção a sua audácia e lucidez mental. E, pela
enésima vez, perguntei a mim próprio se ela não estaria a
ser vítima de algum tipo de alucinação ou neurose. Dentro do
complexo mundo da psicopatologia da percepção, o estado
afectivo do indivíduo pode alterar gravemente a
objectividade do que observa ou do que julga observar. E o
estado de espírito de Maria, como o de muitos discípulos,
encontrava-se alquebrado pelos últimos e funestos
acontecimentos 1.
Revi os meus antigos conhecimentos de psiquiatria e
psicopatologia, no intuito de racionalizar aquele cada vez
mais complicado fenómeno das supostas aparições
cristológicas. De acordo com a clássica definição de
alucinação dada por Ball, ela é resultado de uma percepção
sem objecto, com o pleno convencimento do sujeito da
realidade do mesmo. Desta forma, a alucinação verdadeira

ou psico-sensorial é definida por Ey e Claude em função de
três parâmetros: projecção objectivante no espaço exterior ao
sujeito, cuja personalidade fica inteiramente implicada neste
acto perceptivo anómalo; ausência do objecto e juízo de
realidade positivo. Para aquela mulher de Magdala e
restantes testemunhas o objecto - neste caso Jesus era
algo real e exterior a elas. Com formas físicas claras e, até,
com voz. As coisas portanto, complicavam-se
extraordinariamente. Esta suposta realidade externa
descartava a primeira categoria de alucinações: a que Ey
chama pseudo-alucinação ou alucinação psíquica e que é
frequentemente um distúrbio comum nas esquizofrenias e
outros delírios crónicos. Um dos dados que melhor a definem
é o seu aparecimento no interior do indivíduo. Que eu
soubesse, nenhuma daquelas mulheres sofria de
esquizofrenia.
Quanto ao segundo tipo de alucinação a alucinose -,
também não aparecia com muita clareza. As alucinoses
definem-se como percepções sem objecto correctamente
criticadas pelo protagonista, que as vive como algo
patológico. Que eu recordasse, Maria Madalena sempre
rejeitara a possibilidade de que fosse irreal o que vira ou
ouvira. Tentou mesmo abraçar os pés transparentes do
Mestre. De qualquer forma, tudo aquilo era muito confuso. Eu
desconhecia se a mulher havia sofrido, ou sofria nesse
momento, de alguma doença somática.
Restava a terceira categoria a ilusão -, que pressupõe
uma deformação de algo real e que costuma aparecer em
pessoas saudáveis e em doentes. Se forem frequentes e
muito vivas chamam-se pareidolias. É bem conhecido o
exemplo de indivíduos que, partindo dos ramos de uma
árvore, julgam estar a ver as mais diversas caras ou figuras.
Nesta nova hipótese, eu esbarrava com outro problema não
menos espinhoso: o que poderia ter sido esse algo real que,
tanto Madalena como as outras, haviam forjado nas suas

mentes, transformando-o numa ilusão? Por não dispor de
elementos concretos, não quis sequer pôr a hipótese da
possível ou possíveis causas das alucinações em questão,
supondo, repito, que o fossem. (É claro que algumas teorias
patogénicas de alucinações não se adaptavam ao caso de
Maria)
E, no capítulo psiquiátrico da classificação dos distúrbios
perceptivos, segundo o canal sensorial, as chamadas
alucinações visuais também não se adaptavam totalmente ao
descrito por aquelas hebreias. As características destas
alucinações variam extraordinariamente: aparecem como
elementares ou complexas, móveis ou estáticas, a preto e
branco ou a cores, agradáveis ou ameaçadoras (que são as
mais comuns), de tamanho reduzido ou liliputianas ou
gigantes (gulliverianas)
As descrições que eu ouvira um Jesus estático, nada
ameaçador, colorido e de tamanho natural constituíam uma
arrevezada miscelânea que coincidia em parte com os traços
típicos das alucinações visuais. Enfim: uma autêntica
confusão.
- Por favor. - animei Madalena. - O que é que aconteceu?
Suspirou e, entre lamúrias começou:
- Estava eu aqui, com estas, a falar das duas aparições do
Rabi em Betânia quando. Não consegui aguentar. Ao ouvir
aquilo reagi com brusquidão.
- Betânia? Duas quê?.
Madalena não gostou do tom. E José, conciliador, pediu-me
calma. . Estava a meio do que aconteceu em casa de Lázaro
prosseguiu ela quando, inexplicavelmente sentimos frio. Foi
uma sensação muito nítida. Como a de um vento gelado.
Olhámos umas para as outras, em silêncio, espantadas. Essa
porta estava aberta, sim, mas lá fora não havia vento nem
estava frio.
Apesar do evidente cansaço, Maria falava com o seu

habitual domínio e bom senso. E isto mergulhou-me numa
confusão maior.
-E, de súbito, no centro do grupo, vimos a figura do Mestre.
Ao ouvirem isto, algumas mulheres desataram a chorar
nervosamente. Impacientei-me. Mas o ancião, com voz
imperativa, ordenou silêncio. - Era Ele! E saudou-nos,
dizendo: «A paz seja convosco».
Preferi não fazer perguntas. Primeiro tinha de ouvir a versão
de Madalena.
Depois disse-nos: «Na comunhão do reino não haverá nem
judeu nem gentio. Nem rico nem pobre. Nem homem nem
mulher.
Nem escravo nem senhor. Vós também sois chamadas a
proclamar a boa nova da libertação da Humanidade pelo
evangelho da união com Deus no reino dos céus. Ide pelo
mundo inteiro anunciando este evangelho e confirmando os
crentes nesta fé. Sempre que fizerdes isto, não vos esqueçais
dos doentes e dai alento aos tímidos e temerosos. Estarei
sempre convosco até aos confins da Terra». - E, dito isto,
desapareceu. Nós, como já sabeis, caímos de joelhos, mortas
de medo. Suponho que perdi os sentidos. O resto já o
sabeis.
Terminada a exposição, fez-se um profundo silêncio.
Evidentemente, Maria estava muito afectada. Eu diria que
muito mais do que das vezes anteriores. A sua atitude era
até diferente. Havia passado da euforia, dos gritos e da luta
contra os cépticos a uma introversão e melancolia impróprias
do seu temperamento. Chorava, sim, mas doce e
sossegadamente.
Não mostrava desejo de falar ou de comunicar com alguém.
Era muito estranho.
Mas eu precisava de esclarecer aquele manicómio. Que
teria querido dizer com aquilo das aparições em Betânia?

Será que continuavam a repetir-se as supostas visitas do
Ressuscitado? Aquilo não tinha pés nem cabeça.
Os evangelhos não dizem nada de possíveis
materializações de Jesus em casa de Marta e de Maria, nem
daquela terceira e duvidosa presença diante de Madalena e
das outras que a acompanhavam. É claro que também nesse
aspecto eu não confiava nos evangelistas. Se Maria e as
outras não estavam a mentir e não eram vítimas de uma
alucinação, as palavras do Filho do Homem, e o facto em si
de se fazer ver só por mulheres, eram sumamente
interessantes e significativos. Repito: se fosse verdade a
presença do Rabi, a confirmação do papel das
mulheres na pregação do Evangelho do Reino fora
escamoteada pelos homens. Assim, clara e categoricamente.
E não era de estranhar, dado o secundário, quase infantil e
menosprezado lugar das mulheres na sociedade de então e
dos séculos seguintes. Eis um testemunho que, se houvesse
sido publicado, talvez tivesse alterado os esquemas
estreitos, mesquinhos e machistas das igrejas em relação às
mulheres.
Desta vez respeitei o silêncio de Maria. E, pegando no
braço de José, saímos da casa. Eram muitas as perguntas que
eu lhe queria fazer. A minha pressa desapareceu. O rumo
inesperado dos acontecimentos daquele agitado domingo fez
com que eu me esquecesse temporariamente dos planos da
missão. Se as supostas novas aparições fossem reais, o que
é que interessava localizar e seguir os pastores de Emaús?
Jesus de Nazaré era capaz de se apresentar no lugar menos
esperado. Tinha de manter os olhos bem abertos. Deixar-me
guiar pela intuição e, naturalmente, tentar reconstituir aquela
charada.
Passeámos durante muito tempo sob o tecto de cedro
trabalhado dos claustros. As mulheres, mais sossegadas,
continuavam com os seus cânticos. Um criado veio ter
connosco, oferecendo-nos uma deliciosa e reconfortante taça

de vinho tinto doce, aromatizado com mel.
A verdade é que o bom José não soube dar-me muitas
explicações sobre o assunto de Betânia. Estava ocupado
noutras tarefas quando, por volta das quatro e um quarto
dessa tarde, os criados lhe anunciaram a visita de Maria
Madalena. Vinha de casa de Marta e Maria, na pequena
aldeia do leste. Segundo parecia, depois da sua segunda
visão no horto, e do seu novo e sonoro fracasso com os
apóstolos, tomou a decisão de ir a casa de Lázaro a fim de
Lhes dar as notícias de que ela fora, em parte, protagonista.
Algumas horas antes, como eu já sabia, David Zebedeu
passara pela casa de José de Arimateia, para ir buscar a
mãe, Salomé, e despediu-se de todos, dirigindo-se para o
mesmo destino de Madalena. Quando esta chegou a
Betânia, os rumores sobre o túmulo vazio já circulavam pela
povoação. Os numerosos peregrinos e caminhantes tinham-se
encarregado de os divulgar e já eram conhecidos pelas irmãs
do Ressuscitado e pelos membros da família de Jesus que se
haviam hospedado naquela quinta. - Não sei muito bem
comentou José de Arimateia -, mas imagino que os irmãos do
Mestre também duvidaram das palavras de Madalena.
O facto é que, por volta da hora sexta (mais ou menos
meio-dia, quando Maria conversava com os de Betânia,
aconteceu outra vez. José de Arimateia deteve-se diante da
caixa em que guardava as suas valiosas pedras ovais e
esféricas e o vaso de diatreta encontrado na Germânia e,
durante alguns segundos, encerrou-se num pesado silêncio.
Depois como que tentando convencer-se a si próprio,
murmurou:
- Mas nessa ocasião não foi visto por mulheres
assustadiças.
O ancião, com grande surpresa minha, terminou o seu curto
relato por sua vez tomado do de Madalena infõrmandome
que a testemunha dessa aparição (a terceira, segundo a

minha contabilização) tinha sido Tiago, um dos irmãos do
Nazareno.
Este facto ainda confundira muito mais José de Arimateia.
De facto, Tiago era um homem muito sensato e correcto.
Maria, apesar da sua natural loquacidade, mostrara-se um
pouco indecisa quando teve de descrever a visão.
- Pelos vistos acrescentou José -, o encontro com Jesus foi
muito particular.
A segunda visão de Betânia sempre segundo o ancião
teria ocorrido algumas horas depois. Passava já da hora nona
(mais ou menos quinze horas). José falava por ter ouvido
dizer, como no relato anterior. Mesmo assim, este quarto
acontecimento considerado apenas cronologicamente
parecia tê-lo afectado tanto ou mais que o de Tiago. A razão
era muito simples: essa nova aparição do Filho do Homem,
também em casa de Lázaro, fora compartilhada por Marta,
Maria, a família do Galileu e por David Zebedeu e sua mãe,
que, segundo parecia, acabavam de chegar à aldeia.
Eu conhecia um pouco o carácter frio e sóbrio do chefe dos
correios e compreendi, tal como o meu amigo, que David não
era pessoa fácil de enganar ou sugestionar. O facto deixoume
perplexo. Ao interessar-me pelas circunstâncias desta
última presença e pela possível mensagem de Jesus, o ancião
encolheu os ombros. Maria Madalena que também
presenciara o incrível acontecimento quase não se tinha
referido a ele.
Santo Deus! O labirinto começava a tornar-se um pesadelo.
Madalena, nesse caso, vira e ouvira o Ressuscitado. Quatro
vezes! Depois estavam aqueles homens Tiago e David
dignos de toda a confiança. E as minhas convicções sobre o
fenómeno das aparições começaram a desmoronar-se. Já não
estava tão seguro de tudo ser pura imaginação, fruto da
neurose de mulheres emocionalmente perturbadas ou simples
alucinações, individuais ou colectivas. Confesso

honestamente: a minha mente, em branco, negou-se a
raciocinar. Talvez fosse melhor assim. A única coisa que,
suponho, me animou a continuar naqueles momentos difíceis
e confusos foi o rígido sentido da minha educação militar.
Agora, mais do que nunca, tinha de conservar a calma e a
frieza.
É claro que era obrigatória a minha ida a Betânia. Embora
figurasse no programa do Cavalo de Tróia, decidi antecipá-la.
Os encontros com David e com o irmão de Jesus eram
vitais.
Estava decidido a pôr em ordem a teia de aranha que me
envolvia e, graças aos céus, consegui-lo-ia. Mas antes pois
claro! - ainda teria de aguentar mais sustos.
Suponho que foi uma falha da minha memória. Nunca me
tinha acontecido. E embora não entre nos meus cálculos
justificar-me, aquele lapso e o que me aconteceria pouco
depois, quando estava a ponto de entrar no cenáculo, foram
totalmente alheios à minha vontade. Irei por partes.
Por volta das dezoito horas, em pleno caminho de volta a
casa dos Marcos, apercebi-me que não tinha perguntado
pelos irmãos de Emaús. Atribuí o esquecimento às emoções e
à velocidade frenética a que se davam os acontecimentos.
Com a casa à vista detive-me, colocando-me o dilema: que
fazer? Aventurava-me pela Estrada de Jafa, no encalço dos
pastores, ou permanecia na residência de Elias, à espera da
suposta aparição aos amigos do Nazareno? Avaliei as minhas
possibilidades. A noite cairia pelas dezoito horas e vinte e
dois minutos. Na realidade, como diziam os hebreus, já
quase não se distinguia uma linha branca de outra negra.

Se fosse atrás de Cléofas e de Jacob precisaria com sorte -
de cerca de hora e meia para fazer os onze quilómetros que
me separavam da povoação dos vimeiros. Isto é, por muito
que corresse e o escuro não me facilitaria as coisas -, a
noite surpreender-me-ia a meio do caminho. A pele de
serpente e os ultra-sons da vara eram uma boa protecção. No
entanto, o Cavalo de Tróia recomendava não correr riscos.
Sobretudo os desnecessários. Não sei se já comentei o
problema dos caminhos de Israel naquela época. Os ladrões,
bandoleiros, mendigos famintos, escravos fugitivos e
sicários, ou revolucionários que se constituíam em partidas
contra os romanos ou contra as hostes da numerosa família
herodiana, eram uma legião nas estradas e azinhagas.
Sobretudo nas da parte oriental. Isso aconselhava nunca
viajar de noite e muitíssimo menos sozinho.
Por outro lado, o facto de não conhecer fisicamente os
pastores e a possibilidade de me cruzar com eles em plena
caminhada acabou por me fazer desistir. O mais prudente e
prático seria esperar pelos acontecimentos na companhia dos
Marcos. Apesar de tudo, pensei, enquanto batia à porta, se
conseguisse estar presente na que é referida como a última
aparição do Ressuscitado naquele domingo, os objectivos da
missão estariam em grande parte satisfeitos.
Alguém, do outro lado da porta, me obrigou a identificarme.
Só então, e com medidas de segurança exageradas,
pude entrar na casa. Fiquei alarmado com aquela mudança.
Que se estaria a passar? Depressa o comprovaria por mim
mesmo.
O facto é que, entre os Marcos e os criados, reinava uma
agitação especial, uma mistura de nervosismo e de alegria
incontida. Ao princípio não percebi muito bem tão
contraditória situação.
O dono, de volta do campo, recebeu-me no pátio com o
tradicional beijo da paz. Correspondi-lhe com outro beijo na

face e, durante alguns minutos, tive de suportar, sorridente,
as suas paternais repreensões. O meu presente disse era
tão régio quanto desnecessário. Maria, a esposa, veio
libertar-me, censurando o bom Elias pela sua tagarelice e
falta de tacto para com um amigo. Vi que estava feliz.
Obrigou-me a sentar num dos tamboretes estrategicamente
espalhados à volta da fogueira, sobre a qual balançava uma
caçarola de cobre com quase meio metro de diâmetro. O
enorme caldeirão estava suspenso de uma corrente que, por
sua vez, estava fixada numa das vigas de madeira calafetada
que cruzava o pátio a céu aberto. O cheiro que vinha da
panela fez-me lembrar que há muitas horas que eu não comia
nada. (Na realidade, mil novecentos e quarenta e três anos).
Não vi João Marcos. A mãe dele continuava a mexer o
guisado e, enquanto o anfitrião me servia uma generosa taça
de vinho do Hébron, perguntou-me se eu estava a par das
notícias que circulavam em Jerusalém. Respondi-Lhe que em
parte, e ela, desejosa de me transmitir a sua alegria, foi-me
contando alguns dos rumores que já conhecia. Mas os meus
pensamentos estavam no andar superior e com o pretexto de
dar uma olhadela ao guisado, aproximei-me de Maria Marcos
e perguntei-lhe como estavam os amigos de Jesus. A senhora
recolheu o seu quase permanente sorriso, resumindo a
situação com uma palavra:
- Abatidos!
Levantando os olhos para o andar onde continuavam
encerrados, sugeriu que podia comprová-lo por mim mesmo.
O aroma das lentilhas a ferver, sabiamente condimentadas
com cebola e louro, distraiu-me momentaneamente. A mulher
apercebeu-se e, curiosa, perguntou-me se eu estava com
fome.
Reconheci que tinha muita, apesar de ter almoçado tanto,
menti-lhe, e tão cedo que sessenta corredores não teriam

conseguido alcançar-me. Maria sorriu, reconhecendo o velho
adágio hebreu e, depois de provar as fumegantes lentilhas
na ponta da sua colher de pau, chamou um dos criados para
que me acompanhasse ao andar superior. Levando uma
concha do mar em que flutuava uma espécie de lamparina de
azeite, o fiel criado foi à minha frente em direcção ao sítio
onde se encontravam os 10.
Naquele momento, o longo e triste som do sofar um
chifre de bode anunciou o fim do dia. O luar de Nisan não
tardaria a brilhar no sereno céu da Cidade Santa. Naquele
momento não me pareceu grave. Agora sei que tenho de o
contar. Aconteceu ao subir os dez ou quinze degraus de
pedra que conduziam ao cenáculo. Foram só uns segundos.
De repente a minha visão enevoou-se. Pareceu-me ter
perdido a noção do tempo e do espaço. Tudo foi vertiginoso.
Tive de apoiar-me na parede e, instintivamente, fazer várias
respirações rápidas e profundas.
Sacudi a cabeça sem compreender. Um suor frio empapou
as minhas têmporas, e imediatamente a obnubilação cessou.
Que me tinha acontecido? Refeito daquela estranha tontura,
tranquilizei-me atribuindo-a às quase dezassete horas de
constante ir e vir sem comer qualquer alimento. Dias depois,
na terceira ida ao módulo, compreenderia que aquela
indisposição passageira era devida a razões mais sérias.
Mas falarei disso a seu tempo.
O criado bateu três vezes com o nó dos dedos, e logo a
seguir se ouviu uma voz do outro lado da porta: - Quem é?
- Um crente! - respondeu o criado.
Ainda não havia saído do meu espanto quando ouvi e
identifiquei o ranger do pau que trancava a porta a ser
tirado. A porta foi entreaberta e, comprovada a identidade
do criado, o discípulo um dos gémeosdeixou-nos entrar. O
meu gentil acompanhante retirou-se e, em seguida, Judas
Alfeu, como se a sua vida dependesse disso, foi trancar de

novo a porta. Observei-o entre o atónito e divertido.
Qualquer levita ou guarda do Templo teria podido abri-la
com um pontapé. Mas o terror daquela gente era tanto que
pareciam cegos. Será que a absurda e quase grotesca contrasenha
teria servido para alguma coisa na hipótese de a casa
ser invadida pelos inimigos?
Deus do céu! Que diferença abissal no ambiente dos dois
andares! Em baixo, os seguidores de Cristo estavam
praticamente convencidos da sua ressurreição. A esperança e
o júbilo eram um dado físico palpável. Ali, a tão poucos
metros, entre os grandes do reino, encontrei só desolação.
Que mal e tão sumariamente foi esta dramática situação
registada pelos evangelistas!
A meia dúzia de lâmpadas de azeite que alumiava a sala
fora reduzida, a muito custo, a duas precárias e insuficientes
chamazitas. Uma na parede da direita e a outra em cima da
mesa em forma de U. Nos primeiros momentos tive problemas
para identificar as pessoas. A visão era limitadíssima. O
apóstolo que nos abrira a porta e João Zebedeu acolheramme
de imediato, bombardeando-me com perguntas. Pareciam
os únicos com um mínimo de vitalidade naquele quadro
decepcionante.
Enquanto me aproximava de um divã desocupado, fui
respondendo com monossílabos e sem a menor precisão. Pelo
que consegui captar, o jovem João Marcos informara-os
acerca da evolução dos acontecimentos, embora ignorassem
os de Betânia e, é claro, o recentíssimo acontecimento em
casa de José de Arimateia. Prudentemente, não fiz a menor
alusão a estes factos.
O meu papel continuava a ser o de um observador e por
nada deste mundo eu podia, nem devia condicioná-los.
Suponho que esta minha extrema sobriedade os terá
defraudado. Durante alguns minutos, deixaram-me em paz.
Os meus olhos, novamente acostumados à difícil penumbra,
percorreram a sala tentando distinguir os ali enclausurados e

adivinhar os seus estados de espírito.
Tudo continuava mais ou menos como quando os deixara.
Talvez pior. Simão, o Zelota, reclinado no seu assento e de
cara para a parede. Parecia adormecido. Simão Pedro,
sentado ao pé do irmão, com a cabeça apoiada entre as suas
grossas mãos e resmungando sem cessar. Os outros,
reclinados nos bancos avermelhados ou dormitando no
soalho. Dois deles o segundo gémeo e Mateus Levi
ressonavam beatífica e ritmadamente.
Pareceu-me a atitude mais inteligente. Tiago, o irmão de
João, foi talvez quem mais me deixou preocupado naquela
minha primeira vista de olhos. Tinha ido sentar-se no fundo
do salão, recostando-se contra a parede. Num inabordável
silêncio, matava o tempo numa tarefa que hoje poderia fazer
estremecer os cristãos mas que na altura, dadas as
circunstâncias e a sua deplorável concepção dos
acontecimentos, nada tinha de estranho.
Mecânica e pacientemente, fazia passar a lâmina da sua
espada sobre uma pedra negrusca que, provavelmente,
continha coríndon granulado, que afiava melhor a arma.
Agora sei que o som sibilante o único que quebrava aquele
ambiente carregado, juntamente com o ressonar e os
cochichos de Pedro e de André era na verdade, o melhor
resumo dos pensamentos dos ali presentes. Só importava a
sobrevivência.
Estava há pouco mais de um quarto de hora na sala
quando, talvez cansado de aguentar as lamentações do
irmão, André o que fora o chefe dos apóstolos se veio
sentar ao meu lado. E mantivemos uma interessante e
esclarecedora conversa.
Sobretudo para mim. O sofrimento daquele pescador, como
o da maioria dos seus companheiros, era digno de
compaixão. O galileu, solícito e agradecido pela
oportunidade de poder descarregar a sua angústia e os seus

receios, foi respondendo às minhas perguntas. Era verdade
que tinham discutido a ideia de fugirem da cidade. Mas o
medo que tinham do Sinédrio, não me cansarei de insistir
nisto, era total. E, por unanimidade, decidiram fazê-lo de
noite. Era inacreditável! Conheciam, não haja dúvida, os
insistentes rumores que circulavam em Jerusalém.
Rumores contraditórios, é verdade, mas que, na sua
maioria, estavam de acordo com o possível e milagroso
fenómeno do regresso à vida do saudoso Mestre. No
entanto, nem um tivera a coragem de sair às ruas e interrogar
as pessoas. De facto, a ida de Pedro e João ao túmulo
apenas servira para aumentar as dúvidas, as agressões
verbais e o pânico de uma possível prisão. Se Caifás foi
capaz de pôr termo à vida de Jesus, pensavam eles com
razão, que tipo de benevolência podemos esperar nós, os
seus seguidores?
André lamentou-se também pelo pouco valor que até então
tinham dado ao excelente serviço de David Zebedeu e os
seus correios. Agora, apesar de João Marcos e algumas
mulheres os manterem informados, compreendiam a
importância daquele trabalho. Tenho de ser sincero mais uma
vez. O abatimento e a tristeza daqueles pobres e
infortunados discípulos eram tão grandes que pouco faltou
para que eu os pusesse a par do que sabia.
Pouco a pouco, quase sem nos apercebermos, André e eu
fomos revendo a situação pessoal de cada um dos presentes.
O antigo chefe dos apóstolos que se sentia muito aliviado
pelo facto de ter sido exonerado da sua responsabilidade em
momentos tão difíceis elogiou sem rodeios João Zebedeu.
Foi o único a manter a fé na ressurreição de Jesus.
Recordou-lhes cinco vezes as promessas do Rabi e sempre
segundo o meu informador noutras três ocasiões referiu-se
às palavras do Mestre sobre a data exacta do seu regresso à
vida: ao terceiro dia. Bartolomeu sentiu-se especialmente
reconfortado com a insistência obstinada de João. Mas,

segundo parecia a juventude do Zebedeu tirara seriedade e
gravidade àquelas palavras cheias de esperança. E o grupo
acabou por ignorá-lo ou dizer-lhe que se calasse.
Tiago, um dos mais racionais, absorto no trabalho de afiar
o seu gladius, tinha apoiado, a princípio, a sugestão de irem
todos juntos ao túmulo e comprovar o que lhes tinha sido
contado pelas mulheres, por Simão Pedro e pelo seu próprio
irmão. É preciso chegar ao fundo do mistério, chegou a dizer
de manhã. Contudo, perante as exigências de Bartolomeu, e
de mais alguns, de não aparecerem em público para assim
não exporem as suas vidas, como lhes pedira o Mestre, o
Zebedeu acabou por ceder, encerrando-se naquele triste
mutismo.
Limitou-se, como a maioria, a esperar os acontecimentos,
muito desiludido, isso sim, diante do inexplicável
comportamento de Jesus. - Inexplicável comportamento?. -
perguntei-lhe, sem compreender. André, baixando o tom da
voz, fez-me ver que não eram tão estúpidos e que,
naturalmente, perante a avalancha de notícias sobre as
aparições do Rabi, muitos pensavam que essas misteriosas
presenças do Mestre podiam ser reais. Mas, nesse caso, por
que motivo Jesus não se apresentava primeiro aos eleitos?
Que razão havia para que o fizesse a umas mulheres tontas e
inúteis, cujo papel na evangelização do reino era
publicamente reconhecido como nulo?
- Tens de concordar connosco sentenciou, convencido -,
que, se Jesus tivesse ressuscitado de entre os mortos e
decidido tornar-se visível, fá-lo-ia primeiro, e antes de mais
nada, aos seus amigos mais íntimos. A nós.
Olhei para ele, surpreendido. André falava absolutamente
a sério. Eis outro pormenor habilmente esquecido pelos
evangelistas; homens, ao fim e ao cabo.

Depois do que acabava de escutar não pude deixar de
ouvir também as outras explicações com algum tédio e
indiferença.
Bartolomeu, com a sua típica conduta sempre indecisa, não
conseguia definir-se. Nunca negou a possibilidade de Jesus
ter ressuscitado mas também não se declarou a favor. Animou
os seus irmãos, é verdade, mas apenas num nível puramente
humano.
- Quanto a Simão o Zelota André apontou para o divã
onde Simão continuava deitado -, é como vês. Ainda não
abriu a boca. Parece estar aterrorizado. Pelos
esclarecimentos do pescador deduzi que o simpatizante dos
zelotas se negara a participar nas discussões. O seu conceito
de reino caíra por terra. Num momento de lucidez chegou a
intervir na polémica, assegurando com uma perigosa carga de
pessimismo que, realmente, o facto da discutível ressurreição
do Rabi não vinha alterar a situação.
Ele, pelo menos, sentia-se incapaz de ver em que medida o
pouco provável regresso à vida do Crucificado alteraria a
desonrosa situação geral. Tal como o Galileu previra,
precisaria de muito tempo para vencer a decepção, o medo e
a ruína moral. O caso de Mateus Levi, docemente ausente
graças ao sono, também reflectia a sua particular
idiossincrasia. Segundo André, o seu único problema eram as
finanças. Como já comentei, David Zebedeu entregara-Lhe a
bolsa com o dinheiro da comunidade e, desde esse momento,
o seu velho espírito de cobrador de impostos impusera-se
sobre o resto. Não deu uma opinião sobre a discutida
ressurreição.
Não era coisa que o preocupasse naqueles momentos. A
sua obsessão era a falta de um chefe hábil e capacitado para
levar adiante o projecto do reino e as contas. «Não tomarei
decisões», resumiu Mateus «antes de ir dormir, enquanto não
vir Jesus face a face».

Sem querer, Mateus descobrira o seu subconsciente,
reconhecendo que acreditava ou queria acreditar na
ressurreição do Rabi. Os gémeos de Alfeu, como sempre,
eram um caso à parte. As suas únicas preocupações sérias
tinham sido de carácter doméstico: comida, entrincheiramento
da porta, contra-senha, etc.
- Só numa ocasião manifestou André com um sorriso de
benevolência se atreveram a dar a opinião, e porque
forçados por uma pergunta directíssima de Filipe. «Nós»,
disseram, «não percebemos muito bem toda essa história do
sepulcro vazio e da ressurreição de Jesus, mas a nossa mãe
diz que falou com o Mestre, e acreditamos nela».
Não fiz mais comentários sobre os gémeos ingénuos mas
fiéis.
Filipe, falador e chalaceiro, fizera jus à sua fama de
brincalhão e tagarela incorrigível. Foi quem mais participou
nas discussões, andando sem cessar de um lado para o outro
da sala.
André fez um gesto de censura, perante o que qualificou de
dúvidas infantis do seu companheiro. Pelos vistos, a máxima
preocupação de Filipe, o intendente, repetida até à exaustão
durante toda aquela tarde, era a de saber se Jesus depois
de ressuscitado continuaria ou não com as marcas fisicas da
crucificação.
Como vemos, não era só Tomé refugiado na aldeia de
Betfagé o único que tinha curiosidade por uma coisa tão
banal. É claro que os outros nove, embora o ouvissem de bom
grado e com paciência não tiveram em muita consideração as
reflexões mórbidas de Filipe. Simão Pedro, em especial,
mostrou-se corrosivo para com o inocente apóstolo.
Deixar o irmão de André para o penúltimo lugar daquele
exame apressado não foi casual. Eu tinha um interesse
especial em Pedro. A sua personalidade contraditória, e tudo
o que ele vivera desde a prisão de Jesus de Nazaré mereciam

uma análise pormenorizada e o mais racional possível.
A sua conduta naquele domingo creio-o sinceramente
não foi mostrada na sua verdadeira dimensão. E é preciso
conhecê-la para o compreendermos e compreender a sua
gigantesca tragédia interior. O fogoso pescador da Galileia
isso eu percebi fora passando, durante as horas que se
seguiram à prisão e crucificação do seu Amigo, pelas
seguintes fases: tristeza, desalento e medo.
Na madrugada do primeiro dia da semana, ao tomar
conhecimento do sepulcro vazio e da suposta aparição de
Jesus, sentiu irritação e um cepticismo brutal, e tudo isto
mergulhado num pavor acrescido da polícia do Sinédrio.
Depois, ao comprovar por si próprio a veracidade do sepulcro
vazio, teve dúvidas também espantosas que foram
perfeitamente controladas e dominadas até ficarem
reduzidas à teoria do roubo do cadáver. Mas as notícias e os
rumores sobre novas aparições continuaram a multiplicar-se, e
Simão Pedro que desejava como ninguém o regresso do seu
Senhor foi evoluindo para uma posição ao mesmo tempo
mais maleável e mais perigosa.
Com o passar das horas, sem muita força para negar com a
tenacidade dos primeiros momentos, o atormentado apóstolo
chegou a dizer: «Se ressuscitou e falou com as mulheres,
porque é que não aparece aos seus apóstolos?» E um
lamentável pensamento começou desde então a cristalizar no
seu coração. André estava convencido assim ouvira dizer a
seu irmão de que Simão Pedro se sentia culpado.
- Porquê? - interrompi-o, sem saber onde ele queria chegar.
André abanou a cabeça como se estivesse diante de uma
criança.
- E tu ainda perguntas, Jasão?
Lançou um olhar complacente ao irmão e continuou:
- Fugiu como todos nós e, além disso, renegou-O.

Compreende-se que se sinta mal.
Começava a perceber a nova obsessão do rude pescador. O
que seria confirmado por André. Simão Pedro apesar do
relativo e passageiro consolo que significou para ele a
menção do seu nome numa das aparições caíra no erro de
pensar que o Filho do Homem não se apresentava diante dos
escolhidos por culpa da sua quádrupla traição no pátio de
Anás, o sogro do sumo sacerdote.
Por outro lado, para acabar de baralhar ainda mais a sua
mente confusa, continuava a não querer aceitar o testemunho
das mulheres. A alternativa e o pânico de ser feito
prisioneiro mantinham-no encurralado. Pouco antes, quando o
vira cochichar com André, Pedro tomara uma decisão: estava
disposto a separar-se do grupo apostólico. Só assim
pensava o aturdido discípulo -, supondo que Jesus tivesse
realmente ressuscitado, se daria a ansiada aparição do
Mestre aos seus.
Fiquei perplexo.
- Tenciona, realmente, ir-se embora?
O irmão assentiu com resignação.
- E nada nem ninguém conseguirá que ele mude de ideias
insistiu. Disso, sim, estava seguro. Aquele que mais tarde
viria a ser uma das cabeças do movimento cristão era lento e
tardo nas decisões, mas, uma vez tomadas.
- E quando pensa ele partir?
André não tinha a certeza.
- Não mo disse, mas imagino que esta mesma noite.
Para mim era claro que Simão Pedro estava a ser vítima de
uma crise neurótica aguda. Bastava vê-lo e saber das suas
mudanças contínuas, complexas e absurdas, para perceber
que atravessava o que hoje poderíamos definir como uma
forma clínica de neurose: angústia histérica, fóbica ou
obsessiva.

Talvez fosse uma mistura da primeira e da última. O estado
de espírito do meu companheiro André talvez fosse um
dos mais estáveis: aliviado pela sua libertação como chefe
daqueles homens e prudentemente esperançado. A sua
grande preocupação naquele momento era Pedro. Somente
Pedro. Do apóstolo ausente Tomé praticamente não
falámos.
De certa forma contagiado pela inquietação de André, fui
ter com Pedro. Sentei-me ao lado dele e, durante breves
minutos, pus-me a observá-lo. Qualquer psiquiatra se sentiria
feliz e eu também se pudesse fazer ao pescador um teste
ou questionário que servisse para medir o grau de neurose e
ansiedade: Cattell, NAD, Hamilton, SriSy, Taylor, etc. Mas isso
evidentemente, teria sido um pouco comprometedor. No
entanto, decidi tentar. Mais adiante. A experiência poderia
ser apaixonante. De momento, contentei-me com uma ligeira
exploração de algumas das suas constantes vitais. Passei-Lhe
um braço pelos ombros e, procurando transmitir-lhe todo o
meu afecto e simpatia, tentei animá-lo. Quase não olhou
para mim.
E percebi logo algumas características dos indivíduos
dominados pela neurose: uma grande rigidez perceptivomotora
e pouco controlo corporal. Faltava-me um terceiro
elemento e, num tom de cumplicidade, de forma a que os
outros não me ouvissem, perguntei-lhe se a luz o
incomodava. Negou com a cabeça e, de imediato, censurou
os irmãos por terem apagado as luzes. Tal como já
suspeitava, a sua adaptação sensorial à visão no escuro era
muito fraca. (Outro sintoma indicador do grave momento que
atravessava) Notei que o seu ritmo respiratório tinha altos e
baixos e, recordando-lhe a minha condição de curandeiro,
tomei-lhe o pulso. Consentiu sem muita vontade.
Efectivamente, a sua excitação nervosa acelerava-lhe o ritmo
cardíaco, com uma possível elevação da tensão arterial. A
condutância cutânea parecia muito alta.

Apalpei-lhe os antebraços e o fluxo sanguíneo revelou-se
muito acelerado 1. Se eu tivesse tido acesso a uma análise
de sangue, talvez tivéssemos encontrado um aumento de
colinesterassa.
- Tens frio?
- Um pouco.
A verdade é que não havia motivo. A temperatura ambiente
no exterior era moderada talvez uns doze ou catorze graus
-, mas na sala era um pouco mais elevada. Aquela
sensibilidade especial de Pedro ao frio e ao cansaço eram
novos sintomas que vinham enriquecer o meu diagnóstico
provisório. E, embora eu saiba que este quadro biológico
deva ser utilizado com prudência no momento de tomar uma
decisão, era revelador de uma insuficiência energética geral
e de um estado de hiperactivação ou elevado drive ou
ansiedade, próprio do que hoje chamamos stress.
- O que é que eu tenho, Jasão?
A voz enrouquecida do apóstolo mergulhou-me numa
tristeza indescritível. Os olhos dele, como os de João e
Simão, o Zelota, estavam inchados, vermelhos pela falta de
sono e pelas lágrimas, e marcados por umas olheiras
horríveis.
Senti tanta vontade de lhe dizer a verdade naquele
momento! Anunciar-Lhe o que lhe reservava o destino e,
assim, aliviar o seu sofrimento e o meu. Mas o meu trabalho
não era esse. E, dando-lhe umas palmadas nas costas,
apenas me saiu uma resposta vaga e nada reconfortante:
- Trata-se de um mal-estar. Passageiro.
O bom Pedro tentou retribuir com um sorriso. Mas não
conseguiu. Escondeu o rosto nas mãos peludas e calejadas
de pescador, e começou a soluçar entre estremecimentos
intermitentes.
Tive de me retirar, maldizendo o código moral a que estava

sujeito. Mas, de repente, umas pancadas na porta tiraram-me
do meu aturdimento.
A reacção do grupo foi fulminante e digna de ter sido
narrada pelos evangelistas.
Tiago Zebedeu pôs-se em pé de um salto, brandindo a
espada.
Pedro, com os olhos desfigurados pelo medo, foi
entrincheirar-se atrás do divã, não conseguindo sequer, no
seu nervosismo, desembainhar o gladius. João e os gémeos,
lívidos, não moveram um único músculo. Bartolomeu, na
pressa de fugir para o fundo da sala escura, pisou o seu
próprio manto e caiu de bruços no soalho. Filipe correu a
despertar Mateus Levi, e André, tão pálido e indeciso como
os restantes, permaneceu sentado, paralisado pelo terror. Eu,
é claro, também me assustei. E, reunindo toda a minha
serenidade, pus-me de lado, encostando-me à parede da
direita. Por pouco tropeçava no divã de Simão, o Zelota. O
seu estado de prostração era tão grande que nem ouviu as
pancadas.
Evidentemente, o que estava do outro lado da porta não
sabia ou não recordava a contra-senha. No meio do silêncio e
do rumor de uma ou outra respiração entrecortada, o intruso,
bateu com mais força na porta, fazendo estremecer os
assustados discípulos. Tiago Zebedeu, mais frio e audacioso
que os seus amigos, deu uns passos sem fazer barulho e
aproximou-se da porta. Pôs-se a um lado, levantou bem alto
a sua arma afiada e, com a mão direita, disse a André que
destrancasse a porta. Numa grande tensão, o irmão de Pedro
cammhou devagarinho até à tranca e, quando ia tirá-la com
um pontapé, uma voz aguda e familiar deixou-nos perplexos.
Era João Marcos!
Um suspiro de alívio ecoou no cenáculo, ao mesmo tempo
que alguns dos amigos de Jesus se precipitavam para a
porta. Mas Tiago. O filho do trovão, com a espada no ar,

obrigou-os a recuar.
- Pode ser uma armadilha!
Então, André, ajudado por Mateus Levi, procedeu a
desimpedir o acesso. O rapaz entrou de rompante na sala.
Suado e ofegante, a gesticular e apontando para o exterior,
tentava articular as palavras. Mas era tão grande a sua
excitação que precisou de alguns segundos para o conseguir.
Desconfiados, os gémeos, seguindo a direcção indicada pelo
benjamim, voltaram a cabeça para o exterior. Mas logo se
viraram para os ansiosos companheiros, encolhendo os
ombros. De facto, não havia ali ninguém.
Passado o falso alarme, os discípulos, profundamente
irritados, repreenderam o rapaz. Mas João Marcos, sem lhes
prestar atenção, foi sentar-se num divã. Por fim, lá conseguiu
dizer:
- Viram-no!. Outra vez!
Pensei que se referia à última suposta presença de Cristo
em casa de José de Arimateia. Voltei a enganar-me. E, tão
perplexo como os outros, ouvi dos lábios daquela criança
outra novidade não menos singular e incrível. Este foi o seu
atabalhoado relato:
- Foi por volta das quatro e meia. Na casa de Flávio. Foi
visto por mais de quarenta gregos.
André ajoelhou-se diante do moço e pediu-lhe calma. João
Marcos engoliu em seco e disse que sim com a cabeça. Foi
inútil. O coração estava a ponto de lhe saltar pela boca. - E
disseram-me continuou com os olhos cheios de luz que
lhes falou.
Os apóstolos, amontoados em torno do aturdido correio,
devoravam-no com os olhos atentos a cada gesto e a cada
palavra. Alguém que os visse naquela altura juraria que eles
não eram homens cépticos e mdecisos. Eu mesmo cheguei a
duvidar. Pedro, sobretudo, com a boca aberta e o olhar

ausente, esfregava nervosamente as mãos, concordando
ritmadamente com a cabeça a cada uma das explicações do
rapaz.
E uma enorme, ainda que momentânea alegria, fez-me
tremer de emoção.
- E que disse Ele? - explodiu, impaciente, João Zebedeu.
- Não me lembro.
A decepção estampou-se nos rostos e alguns murmuraram
um palavrão que me nego a transcrever. Mas João Marcos era
tão sincero quanto eficiente. Assim, vasculhando entre as
pregas da sua túnica, tirou um pedacinho de barro cozido
provavelmente os restos de um cântaro ou de uma tigela no
qual, com caracteres mal traçados, copiara as palavras ou
supostas palavras do Galileu nessa nova aparição.
Orgulhoso, mostrou aquela espécie de ostraca e,
adoptando um tom solene leu as letras mal feitas com
alguma pedra ou objecto pontiagudo:
- A paz seja convosco. Ainda que o Filho do Homem tenha
aparecido na terra entre os Judeus, trazia o seu ministério a
todos os homens.
O rapaz parecia ter problemas com a sua própria escrita
apressada.
- Que mais?
Os incrédulos apóstolos agitaram-se nervosos.
- Ah, sim! - disse João Marcos. - Já entendo. Trazia o seu
ministério a todos os homens. No reino do meu Pai não há
nem haverá judeus nem gentios. Todos sereis irmãos. Os
filhos de Deus.
- Essa última coisa não está bem sentenciou Mateus.
João Marcos releu o pedaço de argila e, levantando os
olhos para o impaciente grupo, repetiu:
- Todos sereis irmãos, Os filhos de Deus Foi isto que me

disseram que Ele afirmou.
Aquele possível erro de transcrição tão próximo e ainda
quente, era muito simbólico. Se o voluntarioso benjamim dos
Marcos não fora capaz de copiar com precisão algumas
palavras do Mestre, que podia esperar-se de textos
redigidos dezenas de anos mais tarde e por pessoas que
nem sequer tinham conhecido ou ouvido os ensinamentos do
Rabi da Galileia?
- Está bem!. Está bem! Continua!
- . Ide, portanto, pelo mundo inteiro espalhando este
evangelho de salvação, como o recebestes dos embaixadores
do reino e eu vos receberei na comunhão da fraternidade dos
filhos do Pai na fé e na verdade O mensageiro ficou calado.
- E que mais? - insistiram vários dos presentes.
- Mais nada esclareceu João Marcos. - Despediu-se e
desapareceu. Os discípulos trocaram alguns olhares,
interrogando-se em silêncio. Ninguém se atreveu a
pronunciar-se em primeiro lugar. Enquanto voltavam para os
seus assentos, a atmosfera electrizante alcançou o seu ponto
máximo e um espontâneo comentário depreciativo foi o
suficiente para que surgisse a discussão.
- Gregos!
Não sei muito bem quem pronunciou aquela palavra.
Também não me senti atingido. Não havia razão. O facto é
que Simão Pedro num segundo, como um furacão, com as
mãos atrás das costas e sem deixar de andar de um lado
para o outro, se impôs de novo como cabecilha dos
recalcitrantes.
- Porquê aos pagãos?.
João Zebedeu, paladino dos que acreditavam na
ressurreição do Mestre, censurou Pedro pelo comentário tão
pouco caridoso.
E logo a seguir, enredaram-se no velho círculo vicioso de

ressurreição sim, ressurreição não e porquê primeiro a
mulheres estúpidas e infiéis impuros. Já era muito mau que
se tivesse apresentado às hebreias antes que aos eleitos do
reino, mas aquilo dos gregos argumentavam os
incrédulosultrapassava todas as medidas. Os gritos, as
acusações mútuas e os desaforos foram aumentando,
transformando aquele lugar numa jaula de disparates onde
só se respirava mal-estar.
Cansado e deprimido, tirei João Marcos daquela loucura e
desci para o pátio. O ar fresco da noite reconfortou-me.
Maria e os criados continuavam felizes, entregues à tarefa da
preparação do jantar. Peguei na mão do rapazinho e
passeámos calmamente junto das heras e dos perfumados
jasmins que enfeitavam o alto muro da direita. Soube assim
que Flávio era um pagão, morador em Jerusalém e velho
conhecido de Jesus.
Quanto aos gregos, segundo as informações do benjamim,
eu tivera já a oportunidade de conhecer muitos deles no Átrio
dos Gentios, durante o almoço em casa de José de Arimateia
e na quinta de Getsémani. Segundo parecia, eram os
mesmos que tinham assistido à prisão do Filho do Homem e
que, juntamente com Pedro e João Zebedeu, se lançaram
contra Malco e os levitas. Senti-me tão frustrado que não
quis tirar conclusões. Se todas aquelas histórias eram
verdadeiras, a minha missão começava a ser um estrondoso
fracasso. Bastava rever a cronologia das supostas presenças
do Galileu naquele domingo para reconhecer que não tivera
muita sorte. Chegava sempre tarde.
Primeiro, ao alvorecer, no primeiro encontro da Madalena e
das quatro mulheres no horto de José. Onde estava eu?
Perdido em problemas estúpidos.
Depois, na segunda e não menos suposta visão da
Madalena, pelas nove horas e trinta e cinco minutos, a
poucos metros mas ausente, imerso no exame dos panos
mortuários.

Às doze horas, enquanto Ele aparecia em Betânia,
preparava-me para sair do berço.
Às quinze horas e trinta minutos, aproximadamente, na
quarta aparição também em casa de Marta e Maria eu
andava estupidamente ocupado no câmbio do ouro para
trocos.
E que dizer da quinta visão, ocorrida, segundo as
testemunhas, pelas dezasseis horas e trinta minutos e na
casa do ancião de Arimateia! Se não me tivesse entretido no
assunto do aço de Damasco.
Em relação à sexta a dos gregos que talvez tenha tido
lugar poucos minutos depois da de Maria Madalena e das
restantes hebreias, apanhou-me, como se sabe, em pleno lar
de José. Tendo em conta que desistira da sétima a dos
irmãos de Emaúse da qual ainda não tivera notícia, que me
restava? Apenas a do cenáculo.
Pobre de mim! A corrida de obstáculos em que se havia
convertido a minha perseguição particular do ressuscitado
estava prestes a sofrer outro incrível fracasso.
Por volta das dezanove horas e trinta minutos, um dos
criados libertou-me destes pensamentos tão negativos. O
jantar estava pronto. Apesar dos protestos da dona da casa,
colaborei no transporte das tigelas de madeira, cheias de um
apetitoso e fumegante guisado de lentilhas, ao qual Maria
acrescentara uma pitada de jeezer, uma variedade de alecrim
silvestre.
Era curioso. Ignorando olimpicamente as opiniões
controversas dos amigos íntimos do Mestre, a família feliz e
convencida da realidade da ressurreição decidira fazer uma
grande celebração. Aquele jantar, na realidade, era uma das
primeiras manifestações do regozijo e da fé dos verdadeiros
crentes. E, além do delicioso primeiro prato, Maria e os seus
tinham-se esforçado por aprimorar o pequeno banquete com
uma das especialidades da mãe de João Marcos: os bolinhos

de mel. Num fornilho ao lado, à medida que consumíamos as
lentilhas, a mulher, com a ajuda de um criado, ia fritando num
tacho grande de ferro porções de uma massa, previamente
elaborada, à base de farinha, levedura, mel, ovos e leite de
cabra.
Alternadamente, ao mesmo tempo que desapareciam os
bolinhos dourados e estaladiços, completava a sobremesa
com outros fritos não menos deliciosos: uns pastéis, também
de farinha perfumada com cominhos, canela, hortelã e até
bocadinhos de lagosta. Estas iguarias, bem como várias
bandejas cheias de figos secos, tâmaras e cidra, foram
sucessivamente levadas para o cenáculo.
Instalei-me numa ponta da mesa em U e tive de submeterme
previamente ao protocolo da lavagem dos pés. Os
criados cumpriram diligentemente as normas obrigatórias da
hospitalidade oriental. E embora alguns discípulos não
estivessem com humor para aquelas abluções a verdade é
que a suculenta ceia fez com que se esquecessem das suas
divergências, reunindo-se todos em volta da mesa e
devorando em silêncio os manjares que iam chegando do
pátio. Cada um, também de acordo com o costume, devia
lavar as suas próprias mãos. Bastava a direita.
Acenderam todas as lâmpadas de azeite e, talvez com a
generosa intenção de amenizar as angústias e tensões dos
apóstolos, Elias mandou trazer da adega um espesso e
excelente vinho tinto, rico em álcool e tanino, e previamente
coado.
Seguindo uma moda greco-romana e a pedido de cada um,
o anfitrião foi adicionando nalgumas taças de bronze e latão
pitadas de canela, tomilho e até flores de jasmim. Isto servia
para aromatizar o vinho. Os mais prudentes a minoria
preferiram misturar àquele vinho do Sul da Judeia apenas
água.
Os outros talvez com uma vontade muito humana de aliviar

as suas mágoas, beberam várias taças, sem mais
acompanhamento e ajuda que as generosas doses de
lentilhas ou de bolos.
Tiago Zebedeu, Simão Pedro, os gémeos e Mateus Levi
seguindo também as normas da boa conduta, libertaram-se
previamente das respectivas espadas, que repousaram
cintilantes ao longo da baixa mesa de madeira. Simão, o
Zelota, foi o único que nada provou. João Marcos, que se
sentou com o pai e comigo junto aos nove, ofereceu-lhe uma
tigela. Mas o discípulo recusou amavelmente.
Durante dez ou quinze minutos apenas se ouviu na sala o
surdo entrechocar das colheres de madeira mergulhando nas
lentilhas, o barulho que faziam ao mastigar o alegre e
cantante borboteio do vinho a ser constantemente despejado
nas taças de metal estanhado e, como não podia deixar de
ser, os obrigatórios arrotos.
Elias procurou, sem êxito, animar a reunião, falando das
boas notícias procedentes das suas propriedades na Galileia
e que concretamente na colheita do linho, eram altamente
promissoras. (Este trabalho, que costumava realizar-se nos
meses de Março e Abril, consistia em cortar as plantas rente
ao solo para não estragar os talos, sendo utilizadas depois
quando já estavam secas no florescente negócio da
confecção de tecidos e cordas).
Com a maior das descortesias, os comensais não prestaram
qualquer atenção ao dono da casa, ocupados como estavam
em satisfazer a sede e o apetite. João Zebedeu e Pedro não
conseguiam libertar-se facilmente do peso que tinham sobre
si. Petiscaram aqui e ali, e, aparentando não terem vontade
de comer, deitaram-se nos seus divãs.
Pelas oito horas da noite, Simão Pedro, que não conseguia
esquecer os acontecimentos do dia, pôs-se de pé,
visivelmente perturbado. Ou muito me enganava ou estava
com outra crise.

Deu uns passos, bateu com o punho num tapete que pendia
da parede e, virando-se para a mesa em U, permaneceu
alguns minutos com o olhar fixo e vidrado na chama ambarina
duma lâmpada de azeite. Nenhum dos presentes lhe prestou
a menor atenção. Melhor dizendo, nenhum não. André e eu,
que seguíamos os seus movimentos trocámos um olhar de
preocupação. Conhecíamos as intenções dele de desertar do
grupo e perguntámo-nos se não teria chegado o momento.
De súbito, sem se despedir e sem dar qualquer explicação,
encaminhou-se para a porta, que continuava entreaberta.
Esperei pela reacção de André. No entanto, o irmão de
Pedro nada fez. Empalideceu. Encheu a taça e, lentamente,
bebeu o vinho de uma só vez.
Senti-me confundido mais uma vez. Aquilo não estava nos
Evangelhos. Cumpriria o pescador a sua promessa de fugir da
cidade? Devia lançar-me atrás dele? Ou seria melhor
permanecer na sala à espera dessa última e teórica aparição,
tão esperada por todos, incluindo eu próprio?
Preocupado, reparei no manto e no gladius hispanicus de
Simão. Tinham ficado sobre o divã e a mesa,
respectivamente.
Isso tranquilizou-me. Talvez viesse buscá-los. Mas, e se não
o fizesse? Passados uns quinze minutos, o meu desassossego
foi crescendo. Compreendi que tinha agido mal. Aquela
situação, precisamente por ser nova, e por se tratar de quem
se tratava, tinha prioridade. Por isso, pondo de lado a
certamente próxima, mas sempre hipotética, aparição citada
pelos evangelistas, optei pelo seguro: seguir o pescador.
Pedi licença a Elias para me retirar, mas, quando estava
prestes a fazê-lo, a inesperada intervenção de André reteveme
por uns momentos. Tão impaciente quanto eu, aproveitou
uma entrada dos criados para lhes perguntar pelo irmão. Um
criado tranquilizou-nos aos dois. O galileu andava no pátio,
a passear. Talvez tenha mudado de ideias, disse eu para

comigo, ao mesmo tempo que contrariado procurava
apressadamente uma desculpa que me justificasse o facto de
já não me ir embora.
Os céus quiseram que o meu pequeno amigo João Marcos,
perspicaz como poucos se levantasse do seu banco e viesse
ter comigo para me perguntar onde pensava eu passar a
noite. Não soube o que responder. Na verdade, eu ainda nem
tinha pensado nisso. Perante a minha indecisão, o pai do
benjamim interveio, fazendo o resto. Ofereceu-me a sua casa
e, com a maior das facilidades reconheço-o -, convenceramme
a aceitar a sua hospitalidade. Recusei por pura cerimónia
e, finalmente, agradeci, encantado, voltando para o meu
lugar na mesa. Eram vinte horas e trinta e cinco minutos.
Novos factos insólitos estavam a ponto de nos deixarem
espantados.
Mas antes de tentar transcrever o que vivemos naquela
sala oxalá o Todo-Poderoso continue a dar-me luz e força
para isso -, por apenas uma vez, e em benefício desta
simples narração, pressinto que devo prescindir da ordem
cronológica dos acontecimentos. E assim farei. Naquela
noite, quando os ânimos se acalmaram, mantive uma longa
conversa com Pedro. Foi assim que soube o que Lhe passava
pela cabeça quando aconteceu o que aconteceu.
Tanto André como eu tínhamos razão para nos sentirmos
preocupados com a sorte do perturbado pescador de homens.
Continuávamos todos no cenáculo, mas Simão, que queria
fugir mas tinha medo de ser reconhecido pelos espiões ou
pelos levitas de Caifás, estava decidido a sair de casa
quando a noite deixasse desertas as ruas de Jerusalém. E,
sem vontade de voltar para o salão, refugiou-se no pátio.
Os criados, com efeito, viram-no passear ao longo do muro,
com as mãos atrás das costas e de cabeça baixa. Porém,
respeitando a dor e o silêncio de Simão, retiraram-se pouco a
pouco.

Naqueles momentos de dor segundo me confessou o
apóstolo -, os remorsos pela sua traição eram insuportáveis.
O seu complexo de culpa era tão grande que chegou a pensar
na morte.
Estava convencido que perdera o seu lugar como
embaixador do reino. A isto era preciso acrescentar a sua
íntima convicção de que Jesus se é que realmente havia
ressuscitado não apareceria aos seus enquanto ele ali
estivesse. No entanto, e sem saber como nem porquê, foram
também surgindo no seu coração outras recordações repletas
de esperança. Viu os olhos do Mestre, cheios de ternura,
quando, ao sair do palacete de Anás, olhou para ele durante
uns breves segundos. E igualmente lhe veio à memória a
mensagem que Jesus dera às mulheres: «Ide dizer aos meus
apóstolos e a Pedro».
- Não sei o que me aconteceu, Jasão mas desatei a chorar.
No fundo era muito simples. Simão Pedro, apesar das suas
violentas e disparatadas reacções, amava o seu Amigo e
Senhor.
Dominara durante muitas horas o seu ardente desejo de
crer nas promessas do Filho do Homem. Mas, finalmente, um
raio de luz iluminou o seu desespero e, enquanto caminhava
pelo pátio, a sua fé adormecida triunfou. - Não sei como foi,
Jasão, mas, de repente, parei, apertei os punhos e,
levantando os olhos para as estrelas, gritei: Creio que
ressuscitou de entre os mortos! E vou dizê-lo aos meus
irmãos! Feito este esclarecimento, voltemos ao cenáculo e à
hora já mencionada: vinte e trinta e cinco.
Recordo-me de me ter servido de uma taça daquele
espesso vinho do Hébron, assim que me sentei. Ia levá-la à
boca, quando um ciclone humano, um terramoto ou um
possesso não tenho palavras para descrever aquilo
empurrou a porta, enchendo a sala com os seus gritos, saltos
e gargalhadas. Era Pedro! Ficámos sem respiração. Até Simão,

o Zelota, assustado, se levantou do seu divã.
- Vi o Mestre!
Foi a primeira frase que consegui entender. O galileu, com
o rosto iluminado e os seus olhos azuis a dançarem nas
órbitas, corria enlouquecido em volta da mesa em U.
- Eu vi-o!
Os apóstolos pareciam ter perdido a fala e a cor dos seus
rostos. Tiago Zebedeu, ágil como um felino, ao ver Pedro
irromper na sala com tanto estrondo e aparato, foi logo
pegar na espada, convencido de que alguém perseguia o
pescador.
Mas Simão, à beira da loucura ou de um colapso cardíaco,
continuava a saltitar entre os divãs e, com os braços no ar, a
gritar:
- Eu vi o Mestre!
Sinceramente, quando o vi naquele estado, pensei que fora
muito brando no meu diagnóstico.
À terceira volta, André e Mateus agarraram-no, segurandoo.
Os outros correram logo em auxílio do transtornado galileu.
Isso era o que nós todos pensávamos. Mas estávamos
enganados.
Simão estava perfeitamente bem. O seu pulso, que tomei
imediatamente, estava aceleradíssimo. A respiração também.
Mas, segundos depois ao ouvi-lo, não tive outro remédio
senão ceder perante a realidade. Aquele alvoroço todo era
unicamente devido à sua alegria.
- Eu vi-o!. Ele esteve no jardim!
Depois de o obrigarmos a sentar-se num divã, Elias,
pedindo-lhe calma, ofereceu-lhe uma taça de vinho. Simão
agarrou-se a ela com ambas as mãos e bebeu-a
sofregamente.

- Digo-vos que o vi! - exclamou de repente, engasgando-se.
André sacudiu-o pelos ombros e, gritando-lhe a um palmo
da cara, ordenou-lhe que não fosse criança e se deixasse de
tolices. Foram momentos de um silêncio tenso. O pescador,
compreendendo o paradoxo da sua situação, dominou os
nervos.
Deixou o vinho sobre a mesa e, afastando suavemente o
irmão, contou o ocorrido com um autodomínio que ainda hoje
me surpreende.
- Eu estava no pátio a passear e decidido a renunciar à
minha missão no reino quando apareceu diante de mim a
figura de um homem. Não o reconheci, mas reconheci a sua
voz.
A voz. Aquele pormenor voltava a repetir-se. Porque será
que nenhuma das testemunhas parecia reconhecê-lo pelo
físico mas sim pela voz?
. E aquela voz familiar falou-me. E disse-me: Pedro, o
inimigo queria possuir-te, mas eu não te abandonei.
Os seus lábios vermelhos e carnosos abriram-se num sorriso
interminável e feliz. Olhou para nós, um a um, e, pedindo a
nossa compreensão, abanou afirmativamente a sua cabeça
grande e redonda. Mas ninguém respondeu.
Então disse-me: Eu sabia que no teu coração não me havias
renegado. Por isso te perdoei antes de mo pedires. Agora é
preciso deixar de pensar em nós próprios e nas dificuldades
que se apresentam. Prepara-te para levar a boa nova do
evangelho àqueles que se encontram nas trevas. Não te
preocupes pelo que possas conseguir no reino. Melhor, vê o
que é que tu podes dar aos que vivem na terrível miséria
espiritual. Está preparado, Simão, para o combate de um
novo dia, para a luta contra o obscurantismo espiritual e as
nefastas dúvidas do pensamento natural dos homens.
- Acreditai em mim! - acrescentou Simão ao ver as caras de

espanto e incredulidade dos companheiros. - Depois disso,
aquele Homem e eu passeámos pelo pátio durante mais de
cinco minutos, recordando coisas do passado. E falámos
também do presente e do futuro. Depois, ao despedir-se,
voltou a dizer-me: «Adeus, Pedro, até te ver junto dos teus
companheiros».
Depois daquela visão, Simão ficou uns minutos no pátio
como que hipnotizado. Quando compreendeu que vira e
falara com o Galileu, foi a correr louco de alegria para o
andar de cima.
- E como desapareceu?
- Como estás seguro de que era o Mestre?
- Viste as feridas?
- Não o terás confundido com algum criado de Marcos? O
turbilhão de perguntas dos discípulos foi inevitável. E Simão
Pedro, com a boca aberta e sem saber a quem responder,
acabou por baixar os olhos, consciente de que estava a ser
objecto das mesmas dúvidas e suspeitas que ele próprio
manifestara ao longo de todo o dia. E vi-o chorar
amargamente.
A partir desse momento, o desiludido pescador negou-se a
pronunciar qualquer palavra.
Como era previsível, a nova aparição veio agitar o rescaldo
das divisões anteriores. Mas, curiosamente, pouco a pouco, a
maioria dos apóstolos começou a ceder, dando o seu apoio
ao hermético e silencioso galileu. E talvez tivessem deixado
de ter dúvidas se não fosse a súbita, fria e impiedosa
intervenção de André. Com expressões muito bem calculadas,
lembrou aos presentes as fantasias do seu irmão, capaz de
ver coisas irreais, até mesmo sobre as águas.
Associei logo esta afirmação com uma das passagens
evangélicas mais famosas e misteriosas: Jesus a caminhar
sobre as águas do lago de Tiberíade. O que teria querido

insinuar o antigo chefe dos apóstolos? E, no mais íntimo do
meu coração, fiz o propósito de o averiguar. Mas esta é uma
história que talvez eu conte mais adiante.
André, com uma dureza implacável, imprópria dele
continuou a dirigir-se aos companheiros, com a única e
manifesta finalidade de fazer com que se esquecessem das
tolices de Simão. Este sentiu-se ferido no mais profundo de si
e, levantando-se do divã, foi para um canto da sala. Só os
gémeos tiveram a delicadeza e a coragem de ir para junto do
humilhado pescador, consolando-o e dizendo em voz alta
de forma a que todos os pudéssemos ouvir que eles
acreditavam, sim, e que a mãe deles também vira o Senhor.
O irmão de Pedro olhou depreciativamente para os Alfeus
e, cada vez mais enfurecido, prosseguiu no seu empenho de
conseguir apagar das mentes dos apóstolos as supostas
aparições do galileu.
Mas o fogoso discurso de André ver-se-ia subitamente
frustrado.
Em parte alegrei-me. O impertinente discurso do antigo
chefe dos apóstolos estava a fazer estragos. Ao princípio
ouvimos um pequeno tumulto. Vozes de homens e um ou
outro breve mas agudo grito de mulher. O irmão de Simão
Pedro titubeou. Elias virou-se para a porta e João Marcos,
que brincava com um punhado de caroços de tâmaras,
fazendo sobre o tampo da mesa a cabalística palavra Yeshus
ou Jesus, mas que naquela língua significava também Yah
(Javé e saúde). apagou com a mão o querido nome do seu
ídolo, com medo de que fossem os guardas do Templo.
Ficámos em silêncio, e alguns discípulos, a um sinal de
Tiago Zebedeu, empunharam as armas. Elias indignou-se. E,
com um gesto autoritário, recordou-lhes que estavam em casa
dele e que não permitia violências de nenhuma espécie. O
alvoroço foi-se tornando mais nítido. Ouviram-se novas vozes
e passos a subirem as escadas de acesso ao andar onde nos

encontrávamos.
Tiago e mais alguns puseram-se de pé, maldizendo os
gémeos por não terem trancado a porta. Mas já era tarde.
Umas mãos fortes empurraram bruscamente a porta e
apareceram logo dois indivíduos que eu ainda não tinha
visto em nenhuma das minhas explorações. Atrás deles, entre
cochichos mal contidos adivinhavam-se as pequenas silhuetas
de Maria a mulher de Elias, e de outras mulheres.
Interpretei o gesto do filho do trovão e dos outros,
atirando os gladius para cima da mesa, como um novo falso
alarme. Depois de uns segundos de hesitação, o anfitrião fez
um gesto convidando os homens a entrarem. Quando se
aproximaram da fraca e amarelada luz das candeias, vi pelas
suas roupas que deviam ser pastores ou, talvez, guardadores
de porcos.
Pastores?
O meu pulso descontrolou-se. Seriam aqueles os irmãos de
Emaús? Um dos recém-chegados sentou-se ao lado do dono
da casa, enquanto o seu companheiro e as mulheres entre
as quais reconheci Maria Madalena se colocavam em volta
da mesa. Os homens, como acontecera com Simão Pedro um
pouco antes, respiravam agitadamente. O suor corria-lhes
abundante pela testa, fazendo brilhar o rosto queimado e as
negras barbas revoltas. Pareciam cansados. Um deles, o que
permanecia de pé, tirou o grosso e impermeável capote de
pele de camelo que trazia aos ombros, deixando-o no chão. A
peça era tão rígida e pesada que ficou direita, na vertical,
sobre o soalho. Nos meus treinos eu tivera conhecimento
destes capotes, feitos de propósito para o frio e a chuva e
que costumavam ser fabricados nas terras da Cilícia e da
Anatólia.
Entre o cinto de couro que cingia uma túnica grosseira de lã
distinguia-se o cabo de um enorme punhal. Da mesma forma
que o seu companheiro, o desconhecido protegia as pernas

até aos joelhos com polainas feitas de tiras de couro escuro
e ensebado. (Aquele costume fora introduzido pelos romanos
que, por sua vez, o tinham importado da Gália) Não havia
dúvida.
O cheiro a bodum que encheu a sala em poucos minutos, e
que parecia fluir de cada centímetro quadrado daqueles
indivíduos, confirmou o meu primeiro pensamento: eram
pastores; os controversos pastores da Judeia. - E então? -
perguntou Elias, dando a entender que esperávamos uma
explicação por tão brusca invasão.
O que estava sentado, um pouco mais loquaz que o outro,
começou por apresentar-se. Segundo parecia, salvo um ou
dois dos presentes, ninguém os conhecia. Disse chamar-se
Cléofas. O acompanhante era Jacob, o seu irmão mais novo.
Senti um estremecimento. Estava a ponto de ouvir outras
das supostas ou já não devia empregar este termo? -
aparições do Mestre.
Depois de um prolixo preâmbulo, no qual procurou agradar
aos ali reunidos, assegurando que acreditava em Jesus e que
por esse motivo fora expulso de uma sinagoga da sua aldeia
Ammaus -, o pastor explicou a razão da sua presença em
Jerusalém. Como bons fiéis que eram tinham assistido aos
sacrifícios, às cerimónias e demais festejos da Páscoa. Nessa
mesma tarde, faltando umas duas horas para o pôr do Sol,
partiram de casa de José de Arimateia em direcção à sua
povoação, distante, como afirma Lucas, uns sessenta
estádios.
Umas duas horas antes do pôr do Sol? Fiz contas. E cheguei
à triste conclusão de que os dois tinham partido da
residência de José de Arimateia entre as quatro e as quatro
e meia. Tendo em conta o tempo necessário para atravessar
Jerusalém, era muito provável que Cléofas e Jacob chegassem
ao caminho de Emaús antes das cinco da tarde. Digo triste
conclusão, porque eu entrei naquela casa alguns minutos

depois. Mas vamos ao que importa.
Os discípulos tinham acompanhado as longas explicações e
circunlóquios dos dois irmãos sem saber aonde eles queriam
chegar. Numa dada altura da exposição, levantei os olhos à
procura dos de Maria Marcos ou de Maria Madalena, que
estava atrás de mim, e só consegui vislumbrar o olhar da
esposa de Elias. A mulher, sorrindo, fez-me uma das suas
típicas piscadelas de cumplicidade. Ela sabia alguma coisa.
O caso é que, pelo que consegui captar na lingua