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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O corsário negro - 1

Emílio Salgari


O famoso corsário da ilha das Tartarugas obstina-se na
sua terrível vingança contra o governador de Maracaíbo, o
assassino dos seus dois irmãos, o Corsário Verde e o
Corsário Vermelho. Mas o duque de Wan Guld é astuto e,
sabendo o tremendo juramento que contra ele proferiu o
Corsário Negro, está pronto a tudo para ludibriar os
planos do seu inimigo. E o valente pirata, ora por terra,
através da floresta virgem, ora por mar, a bordo do seu
Relâmpago, não hesita em pôr em risco a vida para
capturar o governador.


Índice


I - OS PIRATAS DA ILHA DAS TARTARUGAS ..... 5
II - EXPEDIÇÃO AUDACIOSA ................. 16
III - O PRISIONEIRO ...................... 26
IV - UMA LUTA ENTRE QUATRO PAREDES ....... 37
V - O ENFORCADO .......................... 50
VI - AGRAVA-SE A SITUAÇÃO DOS CORSÁRIOS .. 61
VII - DUELO DE FIDALGOS .................. 73
VIII - UMA FUGA PRODIGIOSA ............... 82
IX - JURAMENTO TERRÍVEL .................. 97
X - A BORDO Do RELÂMPAgO ................ 105
XI - A DUQUESA FLAMENGA ................. 123
XII - A PRIMEIRA CHAMA .................. 131
XIII - ENCANTOS MISTERIoSOS ............. 141
XIV - O FURACÃO ......................... 151
XV - NA ILHA DAS TARTARUGAS ............. 159
XVI - A VIVENDA DO CORSÁRIO NEGRO ....... 169


I


OS PIRATAS DA ILHA DAS TARTARUGAS


Uma voz forte, de vibração metálica, retumbara nas
trevas, lançando esta frase ameaçadora:
- Homens da canoa! Alto ou meto-os a pique!
Uma pequena embarcação, tripulada apenas por dois
homens, avançava lentamente por sobre as ondas negras,
fugindo da costa que mal se divisava na linha do
horizonte, como se daquela banda temesse algum perigo
grave; subitamente, parou.
Os dois marinheiros, colhendo os remos a toda a pressa,
ergueram-se como que movidos por um só impulso, olhando
inquietos para a frente e fitando uma grande sombra, que
parecia emergir inesperadamente das ondas.
Teriam ambos quarenta anos, mas as linhas angulosas das
suas feições denotavam energia, mais acentuada ainda pela
barba espessa e hirsuta.
Dois enormes chapéus de feltro, em mais de uma parte
furados e de abas esfarrapadas, cobriam-lhes a cabeça;
camisas de flanela, rotas, desbotadas e sem mangas,
deixavam a descoberto os peitos robustos; na cintura
faixas vermelhas no mesmo estado miserável, mas segurando
um par dessas pistolas pesadas que se usavam no fim do
século xvI. Rotos eram também os calções, mostrando as
pernas, como os pés descalços, sujos de lama negra.


5


Esses dois homens, ao verem a grande sombra que se
destacava claramente no fundo azul-escuro do horizonte em
meio do cintilar das estrelas, trocaram entre si um olhar
impaciente.
- Cuidado, Carmaux - disse o que parecia mais moço. -
Olha bem, tu que tens a vista mais aguda do que eu. Sabes
que se trata de um caso de vida ou de morte.
- Vejo que é um navio: e, se bem que não esteja a mais
de três tiros de pistola, não posso verificar se vem da
ilha das Tartarugas ou de alguma colónia espanhola.
- Serão amigos?. . Hum! Atreveram-se a vir até aqui,
quase debaixo dos canhões dos fortes, com risco de
encontrar alguma esquadra de alto bordo, escoltando algum
galeão carregado de oiro!...
- Seja como for, já nos viram, e não nos deixarão
fugir. Se o tentássemos, bastaria um tiro de metralha
para nos mandar para os peixinhos.
A voz que se ouvira a princípio, potente e sonora,
ecoou segunda vez nas trevas, perdendo-se ao longe nas
águas do grande golfo.
- Quem vive?
- O demónio - bradou o que se chamava Wan Stiller.
O companheiro, porém, levantou-se do banco e, com voz
possante, bradou:
- Quem ousa perguntar de que terra vimos? Se a
curiosidade vos devora aproximem-se de nós, que vos
receberemos a tiros de pistola.
Semelhante bravata, em vez de irritar o homem que
interrogava do cimo da ponte do navio, pareceu
regozijá-lo, porquanto respondeu:
- Os valentes avançam e vêm abraçar os irmãos da costa.
Os dois homens da canoa soltaram um grito de alegria.
- Os irmãos da Costa! - exclamaram.
Depois, o que se chamava Carmaux acrescentou:
- O mar me engula se não conheço a voz que nos dá tão
boa nova.


6


- Quem julgas que seja? - perguntou o companheiro, que
havia retomado o remo, manobrando-o com supremo vigor.
- De entre todos os valentes da ilha das Tartarugas só
um homem é capaz de vir aqui, sem temer os fortes dos
espanhóis.
- Quem?
- O Corsário Negro!
- Com mil trovões!... Ele!... Ele próprio!...
- Que triste nova para esse audaz marinheiro!... -
murmurou Carmaux, dando um suspiro. - Vem encontrá-lo
morto...
- Esperava chegar a tempo de o arrancar vivo das mãos
dos espanhóis, não é verdade, amigo?
- Exacto, Wan Stiller.
- E é o segundo que Lhe enforcam!
- O segundo, sim. Dois irmãos e ambos pendurados na
forca infame!...
- Mas ele vingar-se-á, Carmaux.
- Creio-o bem, e estaremos com ele. O dia em que eu vir
estrangulado aquele maldito governador de Maracaíbo será
o mais feliz de toda a minha vida e então estafarei as
duas esmeraldas que trago cosidas nas calças. Serão, pelo
menos, duas mil piastras que eu comerei com os camaradas.
- Ah!... Repara! Não to dizia eu? É o navio do Corsário
Negro!
O navio, que pouco antes se não podia distinguir bem
por causa da densa escuridão, estava agora apenas à
distância de meia amarra da pequena embarcação.
Era um desses navios de corso que os corsários da ilha
das Tartarugas adoptaram para dar caça aos grandes
galeões espanhóis, que traziam para a Europa os tesouros
da América Central, do México e das regiões equatoriais.
Tinha extenso velame e mastreação alta, para aproveitar
a mais ligeira brisa; carena estreita, a proa e a popa
altíssimas, como se usava nessa época, e estava
fortemente armado.
O navio corsário pôs-se à capa, à espera da canoa.


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mas à proa viam-se, à luz de um farol, dez a doze homens
armados de espingardas e prontos a fazer fogo à menor
suspeita.
Os dois marinheiros da canoa, que já estavam perto do
costado do navio, colheram um cabo que lhes atiraram
juntamente com uma escada de corda; prenderam a pequena
embarcação, recolheram os remos e com uma destreza
surpreendente saltaram para cima da coberta.
Dois homens armados apontaram-lhes as espingardas,
enquanto um terceiro projectava com uma lanterna um jacto
de luz sobre os recém-chegados.
- Quem sois? - perguntou-lhes.
- Por Belzebu, meu patrão! - exclamou Carmaux. - Já se
não conhecem os amigos?...
- Um tubarão me coma se este não é o biscainho Carmaux!
- disse o homem da lanterna. - Como estás vivo, se na
ilha das Tartarugas te julgavam morto?... Espera!...
Outro ressuscitado! Tu não és o hamburguês Wan Stiller?
- Em carne e osso.
- Também escapaste do baraço?
- A morte não quer nada comigo: e espero ainda viver
alguns anos.
- E o chefe?
- Silêncio! - disse Carmaux.
- Podes falar. Morreu?
- Bando de corvos!... Ainda não acabastes de
grasnar?... - Gritou a voz metálica que havia lançado a
frase ameaçadora aos dois homens da canoa.
- Com mil trovões!... O Corsário Negro!... - exclamou
Wan Stiller, sentindo um calafrio.
Carmaux, erguendo a voz, respondeu:
- Eis-nos, comandante!
Um homem tinha descido então da ponte de comando e
dirigia-se para eles, tendo a mão apoiada na coronha de
uma pistola que trazia à cintura.
Vestia completamente de preto e com uma elegância pouco
habitual entre os corsários do grande golfo do México.
os quais se contentavam com um par de calções e uma
camisola, e cuidavam mais das suas armas do que do seu
traje.
Envergava um belo casaco de seda preta, adornado de
alamares de cor igual, com guarnições de pele também
preta, apertados por uma larga faixa franjada, altas
botas de montar, e na cabeça grande chapéu de feltro
adornado com comprida pluma, que pendia até aos ombros.
O aspecto desse homem tinha, como o seu vestuário, o
que quer que fosse de fúnebre, com o seu rosto pálido,
quase marmóreo, sobressaindo estranhamente por entre a
gola e as largas abas do chapéu, e adornado com uma barba
curta, negra, ligeiramente encrespada.
Era, porém, de belas feições: nariz regular, lábios
pequenos e rubros, fronte espaçosa, sulcada por um
ligeiro vinco, que lhe dava um não sei quê de
melancólico, olhos mais negros que o carvão, de talho
perfeito, vivos e animados por um brilho tal que em
certas ocasiões infundia pavor aos mais intrépidos
piratas de todo o golfo.
A estatura elevada, o porte elegante e a mão
aristocrática denunciavam, à primeira vista, o homem de
elevada condição social e principalmente dado ao comando.
Os dois homens da canoa, ao verem-no aproximar-se,
olharam-se com certa inquietação, murmurando:
- O Corsário Negro.
- Quem sois e de onde vindes? - perguntou-lhes o
corsário, parando diante deles e tendo sempre a mão
direita na coronha da pistola.
- Somos dois corsários da ilha das Tartarugas, dois
irmãos da Costa! - respondeu Carmaux.
- E vindes?
- De Maracaíbo.
- Sois dos que escaparam das mãos dos espanhóis?
- Sim, comandante.
- A que navio pertencestes?
- Ao do Corsário Vermelho.


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O Corsário Negro, ao ouvir aquele nome, deu um salto,
depois ficou silencioso por algum tempo, olhando para os
dois corsários com os seus olhos coruscantes.
- Ao navio do meu irmão! - disse depois, com um tremor
na voz.
Bruscamente, agarrou Carmaux por um braço e conduziu-o
à popa, levando-o quase à força.
Chegando à ponte de comando ergueu a cabeça para um
homem que estava perfilado, como se esperasse alguma
ordem, e disse-Lhe:
- Navegai sempre ao largo, Morgan! Os homens mantêm-se
a postos e os artilheiros com as mechas acesas, e
avisai-me de tudo o que suceder.
- Sim, comandante - respondeu o outro. - Não se
aproximará nenhum navio ou lancha sem que sejais
prevenido.
O Corsário Negro desceu, levando Carmaux sempre seguro
pelo braço.
Entrou num pequeno camarote mobilado com elegância e
iluminado por uma lâmpada doirada, não obstante a bordo
do navio corsário ser proibido ter luz acesa depois das
nove horas da noite; e, indicando uma cadeira, disse
simplesmente:
- Agora podes falar.
- Estou às vossas ordens, comandante.
Em vez de interrogá-lo logo o corsário pôs-se a
fitá-lo, de braços cruzados no peito. Tornou-se mais
pálido, quase lívido, enquanto o peito se dilatava com os
contínuos suspiros.
Duas vezes abriu a boca para falar, outras tantas a
cerrou, como temendo fazer alguma pergunta cuja resposta
o aterrasse. Finalmente, fazendo grande esforço,
interrogou com a voz quase sumida:
- Mataram-no, não é verdade?
- A quem?
- A meu irmão, aquele a quem chamavam o Corsário
Vermelho.
- Sim, comandante - respondeu Carmaux, dando um
suspiro. - Mataram-no, como mataram o outro irmão, o
Corsário Verde.
Um grito rouco, que tinha alguma coisa de selvagem, mas
ao mesmo tempo dilacerante, rompeu dos lábios do Corsário
Negro.
Carmaux viu-o empalidecer horrivelmente e levar a mão
ao coração; depois cair prostrado numa cadeira,
encobrindo o rosto com as largas abas do chapéu.
O Corsário manteve-se nessa atitude alguns minutos,
durante os quais o marinheiro da canoa o ouvia soluçar;
depois ergueu-se como que envergonhado de semelhante
fraqueza. A tremenda emoção que dele se apoderara havia
passado completamente; o rosto recuperou a habitual
tranquilidade; a fronte já era serena, deixando de
mostrar essa cor marmórea do princípio, mas os olhos
irradiavam como uma luz tétrica, que infundia terror. Deu
duas voltas ao camarote, como se quisesse tranquilizar-se
por completo antes de continuar o diáloGo, e em seguida
tornou a sentar-se, dizendo:
- Receei chegar tarde, mas resta-me a vingança.
Fuzilaram-no?
- Enforcado, senhor.
- Estás bem certo disso?
- Vi-o com os meus próprios olhos suspenso de uma forca
levantada na Praça de Granada.
- Quando o mataram?
- Hoje mesmo, depois do meio-dia.
- Morreu, então?
- Como um valente, senhor. O Corsário Vermelho não
podia morrer de outra maneira.
- Continua.
- Quando o laço lhe apertava a garganta teve ainda
coragem para escarrar na cara do governador.
- Desse cão de Wan Guld?
- Sim, desse duque flamengo.
- Ainda ele! Sempre ele!... Jurou-me um ódio feroz. Um
irmão morto traiçoeiramente e dois enforcados por ele!..


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- Eram os dois Corsários mais destemidos do Golfo,
senhor, e é natural que os odiasse.
- Mas resta-me a vingança! - bradou o Corsário com voz
terrível. - Não morrerei sem primeiro ter exterminado
esse Wan Guld e toda a sua família, e reduzido a cinzas a
cidade que ele governa. Maracaíbo!, tens-me sido fatal,
mas eu ser-te-ei mais fatal a ti. Ainda que seja preciso
apelar para todos os Corsários das Tartarugas e para
todos os bucaneiros de São DominGos e de Cuba, não te
deixarei pedra sobre pedra! Agora fala, amigo. narra-me
tudo o que se passou. Como vos prenderam?
- Não nos apanharam pela força das armas: ao contrário,
surpreenderam-nos à traição quando estávamos inermes,
comandante. Como sabeis, vosso irmão dirigia-se a
Maracaíbo, para vingar a morte do Corsário Verde, pois,
como vós, tinha jurado enforcar o duque flamengo. Éramos
oitenta, todos decididos a qualquer eventualidade, ainda
mesmo a afrontar uma esquadra: mas não tínhamos contado
com o mau tempo. Na embocadura do golfo de Maracaíbo
surpreendeu-nos uma tremenda tempestade, lançou-nos sobre
um baixio e as ondas furiosas despedaçaram-nos a
embarcação. Somente vinte e seis, ao cabo de grandes
fadigas, conseguiram ganhar terra. Estávamos todos em
condições deploráveis para oferecer a menor resistência,
e não tínhamos armas de espécie alguma. Vosso irmão
animava-nos e guiáva-nos lentamente através dos pântanos,
receoso de que os espanhóis nos tivessem avistado e
começassem a seguir-nos. Julgávamos poder encontrar
refúgio seguro na floresta quando caímos numa emboscada.
Trezentos espanhóis, comandados pelo próprio Wan Guld,
caíram sobre nós e meteram-nos num círculo de ferro:
mataram os que Lhes ofereceram resistência e levaram os
outros como prisioneiros para Maracaíbo.
- E meu irmão era desse número?
- Era, comandante. Apesar de ter como arma apenas um
punhal, defendeu-se como um leão, preferindo morrer no
combate a morrer na forca: mas o flamengo tinha-o


10 11


reconhecido, e, em vez de o matar com um tiro ou à
espada, poupou-Lhe a vida. Conduzidos a Maracaíbo, depois
dos muitos maus tratos que nos deram os soldados e de
sermos injuriados pela população, condenaram-nos à forca.
Ontem de manhã, porém, eu e o meu amigo Wan Stiller, mais
felizes do que os nossos companheiros, resolvemos fugir,
estrangulando a sentinela que nos guardava. Da cabana de
um índio, perto da qual nos refugiávamos, assistimos à
morte de vosso irmão e dos nossos infelizes companheiros;
depois, auxiliados por um neQro, embarcámos numa canoa,
decididos a atravessar o golfo do México e irmos até à
ilha das Tartarugas. Eis tudo, comandante.
- E meu irmão morto, morto?... - disse o Corsário Negro
com terrível calma.
- Vi-o eu morrer como vos estou vendo agora.
- E ainda estará suspenso na forca?
- Lá permanecerá três dias.
- E depois, será atirado para qualquer fossa?
- Com certeza, comandante.
O Corsário erQueu-se e aproximou-se de Carmaux.
- Tens medo?... - perguntou-lhe, com estranha
expressão.
- Nem do próprio Belzebu, comandante.
- Então não temes a morte?
- Não.
- Seguir-me-ás?
- Para onde?
- Para Maracaíbo.
- Quando?
- Esta noite.
- Vai-se dar assalto à cidade?
- Não, por ora não estamos em número suficiente: mas
Wan Guld terá mais tarde notícias minhas. Iremos nós dois
e o teu companheiro.
- Sozinhos? - perguntou Carmaux, com assombro.
- Nós apenas.


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- Mas que pretendeis fazer?
- Ir buscar o corpo de meu irmão.
- Cuidado, comandante! Arriscar-vos-eis a que vos
enforquem também.
- Sabes quem é o Corsário Negro?
- Raios e coriscos! É o Corsário mais arrojado da ilha
das Tartarugas.
- Vai então esperar-me no convés e manda preparar uma
lancha.
- É desnecessário, capitão, temos a nossa canoa,
verdadeira embarcação de corso.
- Vai!


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II


EXPEDIÇÃO AUDACIOSA


Carmaux apressara-se em obedecer, sabendo quanto era
perigosa qualquer hesitação com o terrível Corsário.
Wan Stiller esperava-o diante da escotilha em companhia
do mestre da tripulação e de alguns Corsários, que o
interrogavam acerca do trágico fim do Corsário Vermelho e
da sua tripulação, mostrando todos terríveis propósitos
de vingança contra os espanhóis, especialmente contra o
governador.
Quando o hamburguês soube que se devia preparar a canoa
para fazer um giro na costa, da qual se haviam afastado
precipitadamente e por verdadeiro milagre, não pôde
ocultar o seu assombro e apreensão.
- Voltar? - exclamou.- Vamos lá deixar a pele, Carmaux.
- Qual!... Desta vez não iremos sós.
- Quem nos acompanha?
- O Corsário Negro.
- Então não tenho receio. Esse homem diabólico vale por
cem Corsários.
- Mas irá só.
- Não importa, Carmaux, com ele nada há que temer. E
voltaremos a Maracaíbo?...
- Sim,meu caro, e seremos uns bravos se levarmos a cabo
a empresa. Mestre, mandai pôr na canoa três espingardas,


15


munições, um par de machados de abordagem, para nos
podermos defender.
- Está tudo já feito - respondeu o mestre da
tripulação. - De nada me esqueci, nem do tabaco.
- Obrigado, amigo. Sois a pérola dos mestres de
tripulação.
- Ei-lo - disse nesse instante Wan Stiller.
O Corsário apareceu na ponte, ainda com o seu lúgubre
vestuário, mas cingia uma comprida espada e trazia na
cinta um par de grandes pistolas e um desses aguçados
punhais espanhóis chamados misericórdia.. No braço trazia
uma grande capa, negra como o seu trajo.
Aproximou-se do homem que estava na ponte de comando, e
que devia ser o imediato; trocou com ele algumas palavras
e depois disse laconicamente aos dois Corsários:
- Partamos.
- Estamos prontos - respondeu Carmaux.
Sentaram-se os três na canoa, que havia sido levada
para baixo da popa, já provida de armas e de víveres. O
comandante envolveu-se na capa e sentou-se à proa,
enquanto os outros dois tomaram os remos e recomeçaram
com grande vigor a sua fatigante faina.
O navio Corsário apagou subitamente os faróis de
posição, e, orientando o velame, pôs-se a seguir a canoa,
navegando aos bordos a fim de não se adiantar a ela.
Provavelmente, o imediato queria escoltar o seu chefe até
perto da costa, a fim de o proteger no caso de qualquer
surpresa.
O capitão, meio estirado á proa e com a cabeça apoiada
num braço, ia silencioso; mas o seu olhar de águia
percorria atentamente o negro horizonte, como se buscasse
descobrir a costa americana, que as trevas ocultavam.
De quando em quando voltava a cabeça para a sua
embarcação, que sempre o seguia a uma distância de sete a
oito amarras; depois tornava a ollhar para o sul.
Wan Stiller e Carmaux remavam com toda a força,


16 17


fazendo voar a leve e esbelta canoa. Nem um nem outro
pareciam preocupados com a ideia de voltar à costa
povoada por inimigos implacáveis, tal era a confiança que
tinham na audácia e valentia do Corsário, tão temido que
bastava apenas o seu nome para espalhar o terror por toda
a costa marítima do grande golfo mexicano.
O braço de mar de Macaraíbo, sendo liso como um
espelho, permitia à veloz embarcação avançar sem fadiga
para os dois remadores. Naquele sítio, apertado entre
dois cabos de costas escarpadas, que o protegem da larga
ondulação do grande golfo, não há águas-vivas, de modo
que é raro que ali dentro se agitem grandes vagas.
Os dois Corsários afanavam-se havia já uma hora quando
o Corsário Negro, que até então tinha mantido uma
imobilidade quase absoluta, se pôs repentinamente de pé,
como se quisesse alcançar com a vista maior horizonte.
Uma luz, que se não podia confundir com uma estrela,
brilhava à flor da água, ao sudoeste, e com intervalos de
um minuto.
- Maracaíbo! - disse o Corsário com voz cava, traído
pelo ímpeto de um furor surdo.
- Sim - respondeu Carmaux, que se havia voltado.
- A que distância estaremos?
- Umas três milhas, capitão.
- Então chegaremos à meia-noite?
- Sim.
- Acolá anda algum cruzeiro?
- O da guarda da Alfândega.
- É preciso afastarmo-nos dele.
- Conhecemos um sítio onde poderemos desembarcar
seguros e ocultar a canoa.
- Avante!
- Uma palavra, capitão.
- Fala.
- Seria melhor que o vosso navio não se aproximasse
mais.


18 19


- Já virou de bordo e esperará ao largo - respondeu o
Corsário.
Conservou-se silencioso por alguns momentos: e depois
prosseguiu:
- É verdade que está uma esquadra ao largo?
- É verdade, comandante, a do contra-almirante Toledo,
que vigia Maracaíbo e Gibraltar.
- Ah!... Têm medo? Mas o Olonês está nas Tartarugas, e
nós ambos metê-la-emos a pique. Tenhamos paciência alguns
dias mais, e depois Wan Guld saberá do que somos capazes.
Envolveu-se novamente com a capa, abaixou o chapéu para
os olhos, depois tornou a sentar-se, com o olhar fixo no
ponto luminoso que indicava o farol do porto.
A canoa prosseguiu: não mantinha, porém, a proa na
direcção da embocadura de Maracaíbo, querendo evitar o
cruzeiro da guarda da Alfândega, a qual não deixaria de a
obrigar a parar e de prender a tripulação.
Meia hora depois, a costa do golfo era perfeitamente
visível, pois estava a cerca de três ou quatro amarras. A
praia descia suavemente para o mar, toda obstruída pelos
paletúvios, plantas que crescem ordinariamente na foz dos
cursos de água, e que produzem febres terríveis e são
causa da temível febre-amarela.
Mais além, divisava-se no fundo estrelado do céu uma
luxuriante vegetação, que lançava no ar tufos de palmares
com dimensões gigantescas.
Carmaux e Wan Stiller principiaram a remar com mais
descanso e voltaram-se para ver a costa. Daí por diante
avançaram com maior precaução, evitando fazer ruído, e
olhando atentamente para todos os lados, como se temessem
qualquer surpresa.
O Corsário Negro não se havia movido, mas colocou
diante de si as três espingardas que o mestre da
tripulação havia posto na canoa, para saudar com uma
descarga a primeira lancha que ousasse aproximar-se.
Seria meia-noite quando a canoa encalhava no meio dos
paletúvios, escondendo-se mais de metade entre as
plantas.
O Corsário ergueu-se rapidamente. Inspeccionou a costa,
depois saltou em terra prendendo a canoa a um ramo.
- Deixem as espingardas - disse a Wan Stiller e a
Carmaux. - Têm pistolas?
- Sim, capitão - respondeu o hamburguês.
- Sabeis onde estamos?
- A dez ou doze milhas de Maracaíbo.
- A cidade fica situada por detrás deste bosque?
- Na margem desta mata gigante.
- Poderemos entrar esta noite?
- Impossível, capitão. O bosque é espessíssimo e só de
manhã será possível atravessá-lo.
- Pelo que seremos obrigados a esperar até à tarde de
amanhã?
- Se não queremos arriscar-nos a entrar de dia em
Maracaíbo, não há mais remédio que esperar.
- Aparecermos na cidade seria imprudência - respondeu o
Corsário, como falando para si mesmo. - Se tivesse aqui o
meu navio para apoiar-nos e recolher-nos, ousá-lo-ia, mas
agora navega nas águas do golfo.
Ficou alguns instantes imóvel e silencioso, como
imergido em profundos pensamentos; depois prosseguiu:
- E o corpo de meu irmão? Poderemos encontrá-lo ainda?
- Ficará exposto na Praça de Granada três dias, como já
vos disse - respondeu Carmaux.
- Então há tempo. Tens alguém conhecido em Maracaíbo?
- Tenho; um negro que nos ofereceu a canoa para que
fugíssemos. Habita na margem desta floresta e numa cabana
isolada.
- Não nos trairá?
- Por ele respondo eu.
- A caminho!
Subiram a margem, Carmaux adiante, o Corsário no meio e
Wan Stiller atrás, introduziram-se na floresta,


20 21


indo com toda a precaução, os ouvidos à escuta e as mãos
na coronha das pistolas, porque podiam cair de um momento
para o outro em alguma emboscada.
A floresta alongava-se diante deles, escura como uma
imensa caverna. Troncos de todas as formas e tamanhos
erguiam-se alto, sustendo folhas enormes que impediam
absolutamente de ver a abóbada estrelada.
Os três piratas, mantendo o mais profundo silêncio,
continuavam a sua marcha sempre precatados, porque, além
dos homens havia que temer os habitantes da floresta, os
sanguinários jaguares e, sobretudo, as serpentes,
especialmente os jaraca, répteis venenosíssimos, que são
difíceis de se distinguir de dia porque têm a pele da cor
de folhas secas.
Depois de haverem percorrido duas milhas, Carmaux, que
ia adiante, porque era o mais prático do lugar, parou
subitamente, armando com precipitação uma das pistolas.
- Um jaguar ou um homem? - perguntou o Corsário, sem o
menor receio.
- Tanto pode ser um jaguar como um espião - respondeu
Carmaux. - Neste país nunca se tem a certeza de se ver o
dia de amanhã.
- Por onde passou?
- A vinte passos de mim.
O Corsário abaixou-se e escutou atentamente, reprimindo
a respiração. Um leve sussurro de folhas chegou até ele,
mas tão débil que só um ouvido muito experimentado e
agudo poderia percebê-lo.
- É possível que seja algum animal - respondeu,
erguendo-se. - Não sejamos homens assustadiços. Empunhai
os terçados e segui-me.
Girou em torno do tronco de uma árvore enorme que se
erguia no meio das palmeiras; depois parou no meio de um
grupo de folhas gigantes, escutando nas trevas.
O estalar das folhas havia cessado; contudo, aos
ouvidos dele chegou um tinido e pouco depois um som seco,
como se se tivesse levantado o cão de uma espingarda.


22


- Firmes - murmurou ele com um sopro de voz,
voltando-se para os companheiros. - Aqui há alguém que
nos espia e espera o momento oportuno para fazer fogo.
- Ter-nos-ão visto desembarcar? - murmurou Carmaux, com
certa inquietação. - Estes espanhóis têm espias por toda
a parte.
O Corsário empunhava a espada na mão direita, e na
esquerda uma pistola, e procurava contornar aquele montão
de folhas sem fazer o mais leve ruído. Num momento,
Carmaux e Wan Stiller viram-no lançar-se adiante e, de um
salto, precipitar-se sobre uma forma humana que de
improviso se havia erguido do meio de um matagal.
O assalto do Corsário foi tão rápido e impetuoso que o
homem, que se havia posto de emboscada, cambaleou e caiu,
ferido em pleno rosto pelo guarda-mão da espada.
Carmaux e Wan Stiller lançaram-se sobre ele; o primeiro
inclinou-se para apanhar a espingarda que o homem da
emboscada havia deixado cair sem tempo para a colher; o
segundo apontou a pistola, dizendo:
- Se te moves, és um homem morto.
- É um dos nossos inimigos - disse o Corsário, que se
havia curvado.
- Um soldado desse maldito Wan Guld - acrescentou Wan
Stiller.
- Que fazias tu emboscado neste sítio? Tenho grande
interesse em o saber.
O espanhol, que estava ainda aturdido com o golpe da
espada do Corsário, começava a voltar a si, tentando
erguer-se.
- Caramba! - balbuciou com voz trémula. - Terei caído
nas mãos do diabo?
- Adivinhaste - disse Carmaux -, já que te apraz
chamar-nos assim, a nós, Corsários.
O espanhol sentiu tão forte estremecimento que Carmaux
deu por ele.
- Nada de medos por ora - disse-Lhe ele, rindo. -
Guarda isso para mais tarde, quando dançares no ar um


23


desordenado fandango, com um bom pedaço de corda apertado
na garganta.
Depois, voltando-se para o Corsário, que em silêncio
olhava para o preso, perguntou-lhe:
- Quereis que o despache com um tiro de pistola.
- Não! - respondeu o capitão.
- Preferis enforcá-lo num ramo desta árvore?
- Não!
- Talvez seja um dos que enforcaram os nossos irmãos da
costa e o Corsário Vermelho, capitão.
A esta lembrança um lampejo terrível fulgurou nos olhos
do Corsário Negro, mas breve se apagou.
- Não quero que morra - disse com voz cava. - Pode
ser-nos mais útil vivo do que enforcado.
- Então atêmo-lo bem - disseram os dois Corsários.
Desenrolaram a faixa de lã vermelha que traziam à cinta
e com ela apertaram os braços do prisioneiro sem que ele
oferecesse a menor resistência.
- Agora vejamos quem és - disse Carmaux.
Acendeu um pedaço de mecha de canhão que trazia na
algibeira e aproximou-a do rosto do espanhol.
O pobre diabo caído nas mãos dos temíveis piratas das
Tartarugas era um homem de trinta anos, alto e magro como
o seu compatriota D. Quixote, com um rosto anguloso
coberto com uma barba ruiva, e de olhos garços dilatados
pelo espanto.
O preso vestia uma jaqueta de pele castanha com alguns
arabescos, curtos e largos calções de riscas negras e
vermelhas. Calçava grandes botas de cabedal preto.
Cobria-lhe a cabeça um capacete de aço adornado com uma
velha pluma, e da cintura pendia comprida espada, cuja
bainha estava bastante enferrujada.
- Por Belzebu, meu patrono!.. - exclamou Carmaux,
rindo. -- Se o governador de Maracaíbo tem destes
valentes, com certeza os não sustenta a capão, pois este
é mais magro do que um arenque fumado. Creio, capitão,
que não vale a pena enforcá-lo.
- Eu não disse que o enforcassem - respondeu o Corsário
Negro.
Depois, tocando o preso com a ponta da espada,
disse-Lhe:
- Agora, fala, se tens amor à pele.
- Já não conto com a pele - respondeu o espanhol. - Não
se sai vivo das vossas mãos, e mesmo quando vos narrasse
o que desejais saber, não ficaria com a certeza de ver o
dia de amanhã.
- O espanhol tem coragem - disse Wan Stiller.
- E a sua resposta vale-Lhe o perdão - acrescentou o
Corsário Negro. - Vamos, falas ou não?
- Não!... - respondeu o preso.
- Prometo salvar-te a vida.
- E quem pode acreditar na vossa palavra?
- Quem... Sabes quem sou?
- Um pirata.
- Sim, mas que se chama Corsário Negro.
- Por Nossa Senhora de Guadalupe! - Exclamou o
espanhol, fazendo-se lívido. - O Corsário Negro por
aqui!... Viestes para exterminar-nos a todos e vingar
vosso irmão, o Corsário Vermelho?
- É verdade, se não falas - respondeu o Corsário com
voz cava. - Exterminar-vos-ei a todos, e de Maracaíbo não
ficará pedra sobre pedra!
- Por todos os santos!... Vós aqui? - repetiu o preso,
que ainda não se refizera da surpresa.
- Fala!...
- Sou um homem morto: é, portanto, inútil.
- O Corsário Negro é um gentil-homem, entendes? E um
gentil-homem nunca falta à palavra dada! - respondeu o
capitão com voz solene.
- Então interrogai-me.


24 25

III


O PRISIONEIRO


A um sinal do capitão, Wan Stiller e Carmaux levantaram
o prisioneiro e sentaram-no ao pé de uma árvore, sem
todavia lhe desligarem as mãos, conquanto tivessem a
certeza de que não cometeria a loucura de tentar
evadir-se.
O Corsário Negro sentou-se em frente dele sobre uma
enorme raiz que surgia do solo como uma serpente
gigantesca, enquanto que os dois Corsários se puseram de
sentinela à extremidade do matagal, não tendo bem a
certeza de que o prisioneiro estivesse só.
O Corsário Negro, depois de alguns momentos de
silêncio, perguntou:
- Diz-me: está ainda exposto o cadáver de meu irmão?
- Sim - respondeu o prisioneiro. - O governador ordenou
que estivesse suspenso três dias e três noites antes de
mandar lançar o corpo na floresta, para pasto das feras.
- Julgas possível roubar o cadáver?
- Talvez, porque de noite não há mais do que uma
sentinela de guarda à Praça de Granada. Quinze enforcados
não podem fugir.
- Quinze!


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- Maracaíbo encontra-se bem guarnecida de tropas e
canhões.
Um sorriso de desprezo assomou aos lábios do feroz
Corsário.
- Que nos importam a nós os canhões? - disse. - As
nossas machadas de abordagem valem mais. Assim o vistes
por ocasião do assalto a São Francisco de Campeche, a
Santo Agostinho da Florida e em outros combates.
- Tudo isso é verdade, mas Wan Guld encontra-se bem
seguro em Maracaíbo.
- Ah, sim? Vê-lo-emos, quando eu me entender com o
Olonês.
- Com o Olonês? - exclamou o espanhol, estremecendo de
terror.
Parece que o Corsário não prestou atenção ao pavor do
prisioneiro, pois lhe disse, mudando de tom:
- Que fazias neste bosque?
- Andava vigiando a praia.
- Sozinho?
- Sim, sozinho.
- Temia-se alguma surpresa da nossa parte?...
- Não o nego; tinham visto um navio suspeito cruzando o
golfo.
- O meu?
- Se estais aqui, esse navio deve ser o vosso.
- E o governador apressou-se naturalmente a
fortificar-se?
- Fez mais: mandou alguns fiéis a Gibraltar, para
prevenir o almirante.
Fez um movimento, não de susto, mas de inquietação.
- Ah!... - exclamou, enquanto que de pálido se fazia
lívido. - O meu navio correrá talvez grave perigo? -
Depois, erguendo os ombros, acrescentou: - Quando os
navios do almirante chegarem a Maracaíbo já estarei a
bordo do Relâmpago.


28 29


Ergueu-se, com um assobio chamou os dois Corsários, e
disse-lhes laconicamente:
- Partamos.
- E o que faremos deste homem? - perguntou Carmaux.
- Trazei-o connosco; se fugir, responderá a vossa vida
pela dele.
- Raios de Hamburgo! - exclamou Wan Stiller. -
Segurá-lo-ei bem pela cinta, para que não lhe dê na
veneta fugir.
Puseram-se a caminho uns atrás dos outros, Carmaux
adiante e Wan Stiller à retaguarda, indo atrás do
prisioneiro, para não o perder de vista um só instante.
Começava a alvorecer. As trevas recuavam rapidamente
ante a luz cor-de-rosa que invadia o céu e se espargia
por debaixo das gigantescas árvores da floresta.
Os símios, numerosos na América Meridional,
especialmente na Venezuela, despertavam, enchendo a
floresta de gritos estranhos.
Também aparecia a pequena tribo dos micos, os macacos
mais graciosos e ao mesmo tempo mais esbeltos e
inteligentes, conquanto sejam tão pequenos que se podem
meter na algibeira do colete; mais além eram bandos dos
saguins encarnados, pouco maiores do que os esquilos, e
adornados com uma belíssima cabeleira que os faz parecer
leõezinhos; e bandos de certos quadrúmanos que têm o
sestro de tudo devastar, e são o terror dos pobres
plantadores...
Não faltavam as aves, que misturavam os seus gritos com
os dos quadrúmanos. Por entre as grandes folhas dos
pomponasse, que servem para fabricar os leves e
belíssimos chapéus do Panamá, ou no meio das pequenas
matas das laurências, que dão flores de activo perfume,
ou sob as quaresmas, lindíssimas palmeiras de flores
purpúreas, tagarelavam as pequenas maitacas, espécie de
papagaios com a cabeça azul; as araras, que desde manhã
até à noite e com uma constância digna de melhor causa,
gritam incessantemente ará, ará; ou ainda as carpideiras,


30 31


chamadas também choradeiras, porque parecem estar sempre
lamentando-se.
Os Corsários e o espanhol, já habituados a percorrer as
grandes florestas do continente americano e das ilhas do
golfo do México, não se detiveram a admirar nem plantas,
nem quadrúmanos, nem aves. Marchavam o mais depressa que
podiam, buscando as passagens abertas pelas feras, ou
pelos índios, com desejo de se verem fora desse labirinto
de vegetais e de chegar a Maracaíbo.
O capitão havia-se tornado meditabundo e tétrico, como
o era quase sempre, ainda mesmo a bordo do seu navio e no
meio da ilha das Tartarugas.
Envolto na sua capa negra, com o chapéu caído para os
olhos e com a mão esquerda apoiada nos copos da espada, a
cabeça inclinada para o peito, caminhava atrás de
Carmaux, sem olhar nem para os companheiros nem para o
prisioneiro, como se fosse o único que percorria a
floresta.
Os dois Corsários, conhecendo-lhe os hábitos,
abstiveram-se de o inquietar e de despertá-lo da sua
meditação. Apenas trocavam em voz baixa e entre si
algumas palavras para se consultarem acerca da direcção a
tomar; depois alargavam o passo.
Caminhavam havia já duas horas, sempre a passo
acelerado, quando Carmaux, depois de um instante de
hesitação e de haver olhado várias vezes para as árvores
e para o chão, se deteve, indicando a Wan Stiller uma
mata de cajueiros, planta de folhas coriáceas e que
produzem sons estranhos quando o vento sopra.
- É aqui, Wan Stiller? - perguntou. - Parece-me que não
me engano.
Quase no mesmo instante ouviram-se no meio da mata sons
melodiosos e suavíssimos, que pareciam produzidos por
alguma flauta.
- Que é isto? - perguntou o Corsário Negro, erguendo
bruscamente a cabeça e desembaraçando-se da capa.
- É a flauta do Moko - respondeu Carmaux, com um
sorriso.


32


- Quem é esse Moko?
- O negro que nos ajudou a fugir. A sua cabana está no
meio destas plantas.
- E porque toca?
- Anda na faina de domesticar as serpentes.
- É algum encantador de répteis?
- É, sim, capitão.
- Mas esta flauta pode trair-nos.
- Tirar-lha-ei e mandaremos passear as serpentes pela
floresta.
O capitão fez um movimento para adiantar-se,
desembainhando a espada como se temesse alguma surpresa.
Carmaux já se havia internado na mata por um pequeno
atalho, mas pouco depois tornou a voltar, soltando um
grito de espanto e de susto ao mesmo tempo. Diante uma
cabana de ramos entrelaçados, com o tecto feito de folhas
de palmeira, e semioculta por uma cujera, planta enorme
que quase sempre cobre a cabana dos índios, estava
sentado um negro de formas hercúleas. Era um dos mais
belos exemplares, de espáduas largas e robustas, peito
amplo, braços e pernas musculosos, que deviam desenvolver
uma força prodigiosa.
O rosto, ainda que de beiços grossos, nariz achatado e
zigomas muito salientes, não era de todo feio; tinha
alguma coisa de bom, de ingénuo e de infantil, não se
vendo nele o menor traço dessa expressão feroz própria de
muitas raças africanas.
Sentado num pedaço de tronco de árvore, tocava uma
flauta feita de uma delgada cana de bambu, da qual
extraía sons prolongados, que produziam uma estranha
sensação de languidez, enquanto que diante dele
rastejavam vagarosamente oito ou dez répteis da América
Meridional.
O negro, ouvindo o grito de Carmaux, ergueu os seus
grandes olhos, que pareciam de porcelana, fixando-os no
Corsário, e, depois de retirar a flauta dos lábios, disse
com assombro:
- Sois vós?... Ainda aqui?... Já vos fazia no golfo, a
salvo dos espanhóis.


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- É verdade, somos nós, mas... Os diabos me levem se eu
dou um passo no meio destes medonhos répteis que te
cercam.
- Os meus animais não fazem mal aos amigos - respondeu
o negro, rindo. - Esperai um momento, compadre branco,
que já os mando dormir.
Tomou um cesto de folhas entrelaçadas, meteu dentro as
serpentes, sem que elas se rebelassem; e tapou-o
cuidadosamente, colocando-lhe em cima, e para melhor
precaução, uma grande pedra. Depois disse:
- Agora podereis entrar sem receio na minha cabana,
compadre branco. Estais só?
- Não, vem comigo o capitão do meu navio, o irmão do
Corsário Vermelho.
- O Corsário Negro?... Ele aqui?... Maracaíbo toda
tremerá de medo.
- Cala-te, meu pretinho. Põe à nossa disposição a tua
cabana, que não te arrependerás.
O Corsário Negro estava ainda junto do prisioneiro e de
Wan Stiller. Saudou com um gesto o negro, que o aguardava
diante da cabana, e entrou atrás de Carmaux, dizendo:
- É este o homem que te ajudou a fugir?
- É, capitão.
- Odeia os espanhóis?
- Tanto como nós.
- Conhece Maracaíbo?
- Como nós conhecemos a ilha das Tartarugas.
O Corsário Negro observou demoradamente o negro,
admirando a potente musculatura do africano; depois
disse, como falando para si mesmo:
- Eis um homem que pode prestar-me grande auxílio.
Relanceou o olhar pela cabana e, a um canto, viu uma
tosca cadeira de vimes entrelaçados, na qual se sentou,
tornando a mergulhar nas suas cogitações.
Entretanto, o negro apressou-se em trazer algumas
fogaas de mandioca, espécie de farinha extraída de
túberas venenosíssimas, mas que, depois de trituradas


34


e espremidas, perdem a sua qualidade venenosa; alguns
frutos da Anona muricata, uma espécie de pinha verde que,
sob uma escama externa, contém uma nata esbranquiçada e
de sabor delicadíssimo, e algumas daquelas perfumadas
bananas chamadas de oiro; são mais pequenas do que as
nossas, mas deliciosas e mais nutritivas.
A tudo isso havia acrescentado uma cabaça cheia de
pulque, bebida fermentada extraída da agave em notável
quantidade.
Os três Corsários, que durante toda a noite não haviam
comido uma bolacha sequer, fizeram honra àquela refeição,
não esquecendo o prisioneiro; depois deitaram-se em cima
de molhos de folhas verdes que o negro havia trazido para
dentro da cabana, e adormeceram tranquilamente, como se
estivessem em plena segurança.
Moko pôs-se, porém, de sentinela, depois de ter ligado
bem o prisioneiro, visto que assim lho havia recomendado
o compadre branco.
Durante todo o dia nenhum dos Corsários se moveu; mas
apenas começou a cair a noite, o Corsário Negro ergueu-se
imediatamente.
Estava mais pálido do que o habitual; e os seus olhos
mostravam-se animados de um brilho sinistro. Deu duas ou
três voltas dentro da cabana com passo agitado; depois,
parando ante o prisioneiro, disse-lhe:
- Prometi não te matar, apesar de ter o direito de te
enforcar na primeira árvore desta floresta; mas hás-de
dizer-me se posso entrar no palácio do governador sem ser
notado.
- Quereis assassiná-lo, para vingar a morte do Corsário
Vermelho.
- Assassiná-lo!... - exclamou o Corsário Negro com ira.
- Eu bato-me, não mato à traição, porque sou um
gentil-homem. Um duelo entre nós ambos, sim, um
assassinato, não!
- É velho o governador, enquanto que vós sois moço.


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IV


UMA LUTA ENTRE QUATRO PAREDES


Maracaíbo, tendo uma população que não chegava a dez
mil almas, era naquela época uma das cidades mais
importantes que a Espanha possuía na costa do golfo do
México.
Os espanhóis defenderam-na com um forte poderoso,
armado de grande número de canhões, e sobre duas ilhas,
que a protegiam da banda do golfo, colocaram guarnições
formidáveis, temendo qualquer súbito ataque dos temíveis
corsários que se haviam instalado na ilha das Tartarugas.
Os primeiros aventureiros que puseram o pé nestas
paragens construíram lindas casas; abundavam os lugares
públicos de reunião, onde se juntavam os ricos
proprietários de minas e onde se dançava o fandango e o
bolero.
Quando o Corsário e os seus companheiros, Carmaux e o
negro, entraram em Maracaíbo, as ruas estavam ainda
frequentadas, e as tabernas, onde se vendiam vinhos da
Europa, regurgitavam de clientes, porque os espanhóis,
mesmo na sua colónia, não tinham renunciado ao prazer de
saborear um bom copo de Málaga.
O Corsário Negro havia afrouxado o passo. Com o chapéu
caído sobre os olhos, envolto na sua capa, apesar da
noite quente, a mão esquerda apoiada nos copos da espada,
observava as ruas e as casas, como se quisesse
imprimi-las na mente.
Junto à Praça de Granada, o centro da cidade,
encostou-se à esquina de uma casa, como se uma súbita fraqueza
o houvesse acometido.

37


A praça oferecia um espectáculo lúgubre, que faria
estremecer o homem mais impassível do Mundo.
De quinze forcas, alçadas em semicírculo ante o
palácio, onde tremulava a bandeira espanhola, baloiçavam
quinze cadáveres humanos.
Estavam todos descalços e com os fatos esfrangalhados,
excepto um que vestia um trajo cor de fogo e calçava
botas altas.
Sobre aquelas quinze forcas adejavam numerosos bandos
de zopilotes e de urubus, aves de penas negras, que se
encarregam da limpeza das cidades da América Central, e
as quais parecia que só esperavam a putrefacção daqueles
desgraçados para se lançarem sobre as suas pobres carnes.
Carmaux aproximou-se do Corsário Negro, dizendo-lhe com
voz comovida:
- Eis os nossos companheiros!
- Sim - respondeu o Corsário, com voz sufocada. -
Reclamam vingança e tê-la-ão em breve.
Desviou-se da parede, fazendo esforço violento,
inclinou a cabeça sobre o peito, como se quisesse ocultar
a terrível emoção que lhe havia alterado as feições, e
afastou-se a passo rápido, entrando numa pousada, para
beberem à vontade alguns canjirões de vinho.
Encontrando uma mesa devoluta, sentou-se, ou, melhor,
deixou-se cair num banco, sem erguer a cabeça, enquanto
Carmaux bradava:
- Um canjirão do melhor xerez, taberneiro de uma
figa!... Cuidado que seja autêntico ou não respondo pelas
tuas orelhas!... O ar do golfo fez-me tanta sede que sou
capaz de tragar todo o vinho da tua taberna!...
Aquelas palavras, proferidas em puro biscainho, fizeram
acorrer o dono da pousada com uma garrafa daquele
excelente vinho.
Carmaux esvaziou três copos, mas o Corsário Negro


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estava tão absorto nos seus tétricos pensamentos que não
pensou em tocar no seu.
- Com mil tubarões!... O patrão está em plena
tempestade, não queria ver-me na pele dos espanhóis. Foi
na verdade grande audácia vir aqui, mas ele não é homem
para medos.
Olhou em redor da taberna, com alguma curiosidade não
isenta de vago temor, e avistou cinco ou seis indivíduos
armados de navalhas enormes, os quais o observavam com
particular atenção.
- Parece que nos observam - disse o negro. - Quem são
aqueles homens?
- Vascongados, ao serviço do governador - respondeu
Carmaux. - Compatriotas militando sob outra bandeira.
Julgam que me atemorizam com as navalhas; enganam-se.
Aqueles indivíduos, no entanto, haviam atirado fora os
cigarros que estavam fumando; e, depois de terem molhado
a boca com alguns copos de Málaga, puseram-se a conversar
em voz tão alta que eram ouvidos por Carmaux.
- Já viram os enforcados? - perguntou um deles.
- Fomos vê-los ainda esta tarde - respondeu outro. -
Que belo espectáculo oferecem aqueles canalhas!... Há
então um que nos faz rebentar de riso, com a língua
saindo-lhe da boca meio palmo.
- O Corsário Vermelho? - perguntou um terceiro. - Muito
avisadamente lhe puseram um cigarro na boca, para o
tornar mais caricato.
- E eu quero meter-lhe na mão um guarda-sol, para que
amanhã se abrigue dos raios ardentes. Deve ser divertido,
vereis.
Um murro formidável dado na mesa, e que fez saltar os
copos, interrompeu aquela conversa.
Carmaux, sem poder conter-se, e antes mesmo que o
Corsário Negro pensasse em reprimi-lo, ergueu-se da
cadeira e pregou na mesa vizinha aquele formidável murro.
- Ravos de Dios! - disse com voz de trovão. - Grande
valentia é, na verdade, escarnecer dos mortos. Valentia é
sim, escarnecer dos vivos, meus caros cavalheiros...

39


Os cinco beberrões, estupefactos com aquela súbita
explosão de cólera do desconhecido, levantaram-se
rapidamente, empunhando na mão direita a navalha; depois,
um deles, por certo o mais atrevido, perguntou-lhe com
semblante carregado:
- Quem sois vós, cavalheiro?
- Um biscainho que respeita os mortos, mas sabe abrir o
ventre aos vivos.
Os cinco beberrões, ao ouvirem aquela resposta, que se
podia tomar por uma fanfarronada, puseram-se a rir, o que
enfureceu ainda mais Carmaux.
- Ah!.. , ele é isso? - disse este, pálido de ira.
Olhou para o Corsário, que se não havia movido, como se
aquela altercação não Lhe dissesse respeito; depois,
estendendo a mão para o que o havia interrogado,
repeliu-o furiosamente, bradando-lhe:
- O lobo do mar comerá o lobozinho da terra!
O homem repelido caiu sobre uma mesa, mas ergueu-se
prontamente, tirando da cinta uma navalha que abriu com
um estalido seco.
Ia certamente lançar-se sobre Carmaux para o atravessar
de lado a lado com a arma, quando o negro, que até esse
momento se havia conservado simples espectador, a um
sinal do Corsário Negro se colocou entre os dois
contendores, brandindo uma pesada cadeira de pau-ferro.
- Alto ou mato-te!... - gritou para o homem armado.
Vendo aquele gigante de pele negra, cuja poderosa
musculatura parecia estalar nesse corpo atlético, os
cinco vascongados retrocederam, para não serem esmagados
pela cadeira que descrevia no ar curvas ameaçadoras.
Quinze ou vinte beberrões, que se encontravam numa
habitação contígua, ao ouvirem aquele barulho,
apressaram-se a acudir. Vinham precedidos de um
homenzarrão, verdadeiro tipo de valentão, armado de
grande espada, com um amplo chapéu emplumado e caído
sobre a orelha, e o peito coberto com uma couraça de pele
de Córdova.
- Que se passa aqui? - perguntou rudemente aquele
homem, desembainhando o espadagão com modos trágicos.
- Nada tendes com o que aqui se passa, meu caro
cavalheiro - respondeu Carmaux, inclinando-se
burlescamente.
- Por todos os santos!... - exclamou o valentão com
modos arrogantes. - Bem se vê que não conheceis Dom
Gamara y Miranda, conde de Badajoz, nobre de Camarga e
visconde de...
- Da casa do diabo - interrompeu o Corsário Negro,
erguendo-se bruscamente e olhando fixo para o valentão. -
E daí, Don Caballero, conde, marquês, duque, etc.?. .
O senhor de Camarga e de outros lugares tornou-se
vermelho como uma donzela, depois empalideceu, dizendo
com voz cavernosa:
- Por todas as forças do inferno!... Não sei quem me
possa conter que os não mande para o outro mundo a fazer
companhia ao perro do Corsário Vermelho, que está fazendo
bonita figura na Praça de Granada, e aos seus catorze
birbantes!
Desta feita foi o Corsário Negro quem empalideceu
horrivelmente. Com um aceno deteve Carmaux, que ia para
precipitar-se sobre o aventureiro; desembaraçou-se da
capa e do chapéu, e com rápido movimento desembainhou a
espada, dizendo com voz fremente de cólera:
- Perro és tu, que vais fazer companhia aos enforcados,
e a tua alma irá para os infernos.
Fez sinal aos espectadores para se colocarem ao largo e
defrontou-se com o adversário, pondo-se em guarda com uma
elegância e firmeza destinadas a desconcertar o
antagonista.
- A nós, conde da casa do diabo!... - disse com os
dentes cerrados. - Dentro em pouco estarás morto!
O aventureiro pôs-se em guarda, mas subitamente
endireitou-se, dizendo:
- Um momento, cavalheiro. Quando se cruzam os ferros há
direito de saber o nome do adversário.


40 41


- Sou mais nobre do que tu; não te basta?
- Não; o nome é que desejo saber.
- Desejas?... Pois seja, mas pior para ti, porque não o
dirás a ninguém. - Aproximou-se dele e murmurou-lhe
algumas palavras ao ouvido.
O aventureiro soltou um grito de assombro e talvez de
terror, e deu dois passos atrás, como se quisesse
meter-se entre os espectadores para trair o segredo, mas
o Corsário Negro atacou-o vivamente, obrigando-o a
defender-se.
Os beberrões formaram amplo círculo em volta dos
duelistas. O negro e Carmaux estavam na primeira fila,
nada preocupados com o êxito do encontro, particularmente
o último, que sabia de quanto era capaz o seu capitão.
O aventureiro, logo aos primeiros passos, havia
percebido que tinha diante de si um adversário temível,
disposto a matá-lo ao primeiro bote falso, e apelava para
todos os recursos da esgrima, a fim de parar os botes que
caíam como uma chuva de saraiva.
Aquele homem não era, no entanto, um espadachim para
desdenhar. Alto, robustíssimo, com pulso firme e braço
vigoroso, devia opor longa resistência e reconhecia-se
que não era fácil cansá-lo.
O Corsário Negro, ligeiro, ágil, de mão pronta, não lhe
dava um instante de tréguas, temendo que ele se
aproveitasse do menor descanso para traí-lo. A sua espada
ameaçava-o sempre, constrangendo-o a sucessivas paradas.
A ponta cintilante relampejava, batia forte no ferro do
aventureiro, fazendo-o faiscar; e partia a fundo com uma
velocidade quase fulminante, que desconcertava o
adversário.
Dois minutos depois, o aventureiro, não obstante o seu
vigor, principiava a afrouxar. Via-se embaraçado para
responder aos botes do Corsário Negro, e já não
conservava a calma primitiva. Sentia que a pele lhe
corria grave perigo e que acabaria realmente por ir fazer
pouco alegre companhia aos enforcados da Praça de
Granada.


42


O Corsário Negro, no entanto, estava como no primeiro
momento em que desembainhara a espada. Saltava com a
agilidade de jaguar, atacando sempre com crescente vigor
o aventureiro. Somente os olhos, animados de um brilho
sinistro, demonstravam cólera.
Esses olhos não se desviavam um só instante dos do
adversário, como se quisessem fasciná-lo e perturbá-lo.
O círculo dos espectadores alargou-se para dar mais
campo ao aventureiro, que recuava cada vez mais,
aproximando-se da parede oposta.
Num momento, o aventureiro encontrou-se arrimado à
parede. Empalideceu horrivelmente e grossas gotas de suor
frio cobriram-lhe o rosto.
- Basta! - disse com voz rouca e cansada.
- NãO - respondeu o Corsário Negro em tom sinistro. - O
meu segredo deve morrer contigo.
O adversário tentou um bote desesperado.
Endireitou-se o mais que pôde e arremessou-se para
diante, vibrando três ou quatro estocadas umas após
outras.
O Corsário Negro, firme como uma rocha, parou-as com
igual presteza.
- Agora prego-te na parede - disse-Lhe.
O aventureiro, louco de terror, e compreendendo que
estava perdido, ia a gritar:
- Socorro... É o Cor...
Não acabou; a espada do Corsário Negro havia-lhe
penetrado no peito, cravando-o na parede e afogando-lhe a
frase.
Uma golfada de sangue jorrou-lhe da boca, manchando-lhe
a couraça, que não fora bastante para defendê-lo daquele
tremendo golpe.
Abriu horrivelmente os olhos, fixando-os no adversário
como o último lamento de terror; em seguida caiu
pesadamente sobre o solo, partindo em duas a lâmina que o
havia pregado na parede.
- Era uma vez um homem - disse Carmaux em tom de mofa.


43


Curvou-se sobre o cadáver, tirou-lhe da mão a espada,
e, oferecendo-a ao capitão, que, de semblante macabro,
olhava para o aventureiro, disse-lhe:
- Já que a outra se partiu, tomai esta. É uma
verdadeira lâmina de Toledo, asseguro-vos, senhor.
O Corsário recebeu a espada do vencido, sem proferir
palavra; tomou o chapéu e a capa, lançou sobre a mesa um
dobrão de ouro e saiu da pousada seguido de Carmaux e do
negro, sem que alguém ousasse detê-lo.


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V


O ENFORCADO


Quando o Corsário Negro e os seus companheiros chegaram
à Praça de Granada era tal a escuridão que não se
distinguia uma pessoa a vinte passos de distância.
Reinava na praça um profundo silêncio.
Encostando-se às paredes das casas, ou escondendo-se
por detrás dos troncos das palmeiras, o Corsário Negro,
Carmaux e o negro adiantaram-se vagarosamente, de ouvidos
atentos, olhos bem abertos e mãos nas armas, procurando
chegar ao pé dos justiçados sem que alguém os visse.
Estavam já a poucos passos da primeira forca, da qual
pendia, bamboleando levemente, servido pela viração do
Norte, um pobre diabo quase nu, quando o Corsário Negro
apontou aos companheiros uma forma humana que se agitava
à esquina do palácio do governador.
- Com mil tubarões! - regougou Carmaux. - Ali está a
sentinela... Este homem é capaz de vir estragar-nos
tudo...
- Mas Moko é forte - disse o negro. - Eu irei deitar as
unhas àquele soldado.
- Para ele te varar as tripas, compadre.
O negro sorriu, mostrando duas fileiras de dentes
brancos como marfim, e tão agudos que fariam inveja a um
tubarão , dizendo depois:
- Moko é astuto e sabe rastejar como as serpentes que
encanta.


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- Vai, então - disse-lhe o Corsário Negro. - Antes de
te tomar ao meu serviço quero ter uma prova da tua
audácia.
- Tê-la-eis, meu senhor. Agarrarei aquele homem como
noutros tempos agarrava os jacarés na lagoa.
Tirou da cinta um cordão fino de couro entrelaçado, que
terminava num anel, um verdadeiro laço semelhante aos que
usam os vaqueiros mexicanos para dar caça aos touros, e
afastou-se vagarosamente, sem fazer o menor ruído.
O Corsário Negro, escondido atrás do tronco de uma
palmeira, observava-o atentamente, admirando talvez a
audácia, daquele negro que, quase desarmado, ia defrontar
um homem bem armado e certamente corajoso.
- Tem fígados, o compadre - disse Carmaux.
O Corsário fez um gesto afirmativo, mas não proferiu
uma palavra. Continuava a observar o africano, o qual
rastejava agora como uma serpente, aproximando-se
cautelosamente do palácio do governador.
O soldado afastava-se então do ângulo, dirigindo-se
para o portão. Estava armado de uma alabarda e cingia uma
espada.
Vendo que ele lhe voltava as costas, Moko rastejava
mais apressado, segurando na mão o laço. Chegado a dez
passos, ergueu-se rapidamente, fez girar no espaço duas
ou três vezes o cordão e depois lançou-o com mão firme.
Ouviu-se um leve sibilo, depois um grito sufocado e o
soldado caiu por terra, largando a alabarda e agitando
aflitivamente pernas e braços.
Moko, com um salto de leão, caíra-Lhe em cima.
Amordaçá-lo fortemente, levantá-lo nos braços como se
fosse uma criança, foi obra de poucos momentos:
- Ei-lo - disse, atirando-o aos pés do capitão.
- És um valente... Amarra-o a esta árvore e segue-me.
O negro cumpriu a ordem, auxiliado por Carmaux; depois
reuniram-se ambos ao Corsário Negro, que observava os
enforcados.
Chegados a meio da praça, o capitão parou diante de um
justiçado que estava vestido de vermelho e que, por
amarga irrisão, tinha nos lábios uma ponta de charuto.


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Ao vê-lo, o Corsário Negro soltou verdadeiro grito de
horror.
- Malditos!... - exclamou. - Ainda o último sarcasmo...
A sua voz, que parecia o rugido longínquo de uma fera,
apagou-se num lancinante soluço.
- Senhor - disse Carmaux comovido -, sede forte.
O Corsário Negro fez um gesto e apontou o enforcado.
- Imediatamente, capitão - respondeu Carmaux.
O negro tinha trepado à forca, segurando nos dentes o
punhal do Corsário e Cortou de um só golpe a corda,
depois desceu devagarinho o cadáver.
Carmaux amparara-o de baixo. Conquanto a putrefacção já
tivesse começado a decompor as carnes do Corsário
Vermelho, aquele recebeu-o brandamente nos braços e
envolveu-o na capa preta que o capitão lhe dava.
- Vamos - disse o Corsário Negro com um suspiro. - A
nossa missão está cumprida, o oceano espera o cadáver da
valorosa vítima.
O negro pegou no cadáver, ajeitou-o nos braços,
cobriu-o com a capa, e logo a seguir abandonaram a praça,
tristes e silenciosos. Mas, quando chegaram à
extremidade, o Corsário Negro voltou-se, olhando ainda
uma vez para os catorze enforcados cujos corpos se
destacavam lugubremente nas forcas, e disse com voz
magoada:
- Adeus, valorosos desgraçados, adeus, fiéis
companheiros do Corsário Vermelho. O Corsário Negro breve
vingará a vossa morte. - Depois, fitando com olhar
ardente o palácio do governador, que se encontrava ao
fundo da práça, acrescentou:
- Entre nós dois, Wan Guld, está a morte...
Puseram-se a caminho, ansiosos por sair de Maracaíbo e
alcançar o mar para de novo embarcarem no navio corsário.
Já nada mais tinham que fazer naquela cidade, em cujas
ruas se não sentiam seguros, depois da aventura da
taberna.
Tinham percorrido duas ou três vielas desertas , quando


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Carmaux, que ia à frente de todos, julgou lobrigar vultos
humanos, meio escondidos sob a escura arcada de uma
porta.
- Devagar - murmurou para os companheiros. - Se a vista
não me engana, parece-me que está ali gente que nos
espera.
- Onde? - perguntou o corsário.
- Acolá debaixo.
- Talvez ainda os homens da taberna?
- Com mil tubarões... Serão os cinco vascongados com as
suas navalhas?
- Com cinco podemos nós e pagarão bem cara a cilada -
disse o capitão, desembainhando a espada.
- O meu sabre de abordagem poderá medir-se com as
navalhas! - disse Carmaux.
Três homens, envoltos em grandes capas, tinham-se
destacado do ângulo de um portão que ocupava o passeio da
direita, quando outros dois, que até então se tinham
conservado ocultos por detrás de um carro abandonado,
embargavam a passagem pelo passeio da esquerda.
- São os cinco vascongados - disse Carmaux. - Vejo
brilhar as navalhas nas cintas.
- Encarrega-te dos dois da esquerda, que eu me
encarrego dos três da direita - disse o Corsário Negro. -
E tu, Moko, não te importes connosco e safa-te com o
cadáver. Espera-nos à beira da floresta.
Os cinco vascongados tinham-se desembaraçado das capas,
dobrando-as e pondo-as no braço esquerdo e abriram depois
os cuchillos de folha larga como lâmina de espada.
- Ah!... Ah!... - disse o que tinha sido repelido por
Carmaux. - Parece que não nos enganámos.
- Largueza!... - bradou o Corsário Negro, que se tinha
postado adiante dos companheiros.
- Um momento, cavalheiro - disse um vascongado
adiantando-se.
- Que queres tu?
- Satisfazer uma pequena curiosidade.


48


- Qual?
- Saber quem sois, cavalheiro.
- Um homem que mata quem Lhe causa estorvo -, respondeu
altivamente o Corsário Negro, avançando de espada em
punho.
- Nesse caso eu vos direi, cavalheiro, que por nossa
parte somos homens sem medo, e que não nos deixaremos
matar como aquele pobre diabo que vós pregastes na
parede.
Vosso nome e vossos títulos ou não saireis de
Maracaíbo.
Estamos ao serviço do senhor governador e devemos
responder pelas pessoas que a esta hora andam passeando
pelas ruas.
- Se o quereis saber, vinde perguntar-me o meu nome -,
disse o Corsário, pondo-se rapidamente em guarda. - Vê
esses dois da esquerda, Carmaux.
Este tinha desembainhado o sabre e marchado
resolutamente para os dois adversários que lhe embargavam
a passagem no passeio oposto.
Os cinco vascongados não se tinham movido, aguardando o
ataque dos dois corsários.
Deviam ser cinco diestros, que certamente não
desconheciam os mais famosos golpes.
Vendo que não se decidiam, o Corsário Negro, impaciente
por abrir passagem, rompeu contra os três adversários que
tinha na frente, vibrando botes à direita e à esquerda
com velocidade fulmínea, enquanto Carmaux atacava
desesperadamente os outros dois.
Nem por isso os cinco diestros se tinham desconcertado.
Dotados de prodigiosa agilidade, davam saltos à
retaguarda, parando os botes ora com as lâminas dos
cuchillos, ora com as capas que tinham envolvido no braço
esquerdo.
Os dois corsários, reconhecendo que tinham de haver-se
com adversários perigosos, tornaram-se prudentes.
Mas quando viram o negro afastar-se com o cadáver e
perder-se na escuridade da rua, voltaram furiosamente à
carga, ansiosos por liquidar aquele incidente antes que
algum guarda, atraído pelo tinir dos ferros pudesse vir
em socorro dos vascongados.


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O Corsário Negro, cuja espada era bem mais comprida que
as navalhas dos adversários e cuja habilidade na esgrima
era extraordinária, podia fazer bom jogo, enquanto
Carmaux era obrigado a manter-se em guarda pela
circunstância de se servir de um sabre bastante curto.
Os sete homens lutavam com fúria, mas em silêncio.
todos absorvidos em parar e vibrar golpes. Avançavam,
recuavam, saltavam ora à direita, ora à esquerda,
deslocando fortemente os ferros.
Subitamente, o Corsário Negro, vendo um dos adversários
perder o equilíbrio e dar um passo em falso, descobrindo
momentaneamente o peito, avançou com um movimento
fulmíneo.
A lâmina tocou e o homem caiu sem soltar um grito.
- E vai um! - disse o Corsário Negro, voltando-se para
os outros dois. - Não tarda que vos tire a pele.
Os dois vascongados, sem o mínimo indício de terror,
mantiveram-se firmes diante dele; de improviso, porém, o
mais ágil precipitou-se sobre o Corsário, curvando-se e
apresentando à frente a capa enrolada no braço como se
quisesse dar o golpe na parte baixa, o que, no caso de
êxito, lhe abriria o ventre de lés a lés.
O Corsário Negro soube desviar-se com agilidade e meteu
a fundo, mas a lâmina da espada esbarrou na capa do
adversário. Tentou pôr-se de novo em guarda para parar os
golpes que lhe jogava o outro vascongado, e quase logo
soltou um grito de raiva.
A lâmina da espada partira-se ao meio no braço do
homem.
Deu um salto à retaguarda agitando o pedaço da espada e
gritando:
- A mim, Carmaux!...
O valente Carmaux, que ainda não tinha conseguido
subjugar os seus dois adversários, conquanto os tivesse
forçado a recuar até ao ângulo da rua, chegou, em três
saltos, ao pé do capitão.
- Com mil tubarões!... - rugiu. - Estamos metidos em
boa...
- De dois desses malandrins vou eu dar conta -
respondeu o Corsário Negro, tomando precipitadamente a
pistola que tinha à cinta.
Ia disparar sobre o mais próximo quando viu um vulto
gigantesco precipitar-se sobre os quatro vascongados, que
se tinham juntado, julgando segura a vitória.
Aquele homem, chegado em tão boa ocasião, empunhava um
grosso cacete.
- Moko!... - exclamaram o Corsário Negro e Carmaux.
O negro, em vez de responder, ergueu o cacete e desatou
à pancada aos adversários com tal fúria que num abrir e
fechar de olhos aqueles desgraçados estavam por terra,
uns com a cabeça partida, outros com as costelas
despedaçadas.
- Obrigado, compadre!... - gritou Carmaux. - Com mil
raios! Que saraivada!
- Fujamos - disse o Corsário Negro. - Já nada temos que
fazer aqui.
Alguns habitantes, despertados pelos gritos dos
feridos, começaram a abrir as janelas para ver o que se
passava.
Os dois corsários e o negro, desembaraçados dos cinco
agressores, dobraram precipitadamente o ângulo da rua.
- Onde deixaste o cadáver? - perguntou o Corsário Negro
ao africano.
- Já está fora da cidade - respondeu o negro.
- Obrigado pelo teu auxílio.
- Lembrei-me de que a minha intervenção podia ser-vos
útil, e apressei-me a voltar.
- Não há ninguém na extremidade do povoado?
- Não vi ninguém.
- Então tratemos de bater em retirada antes que
apareçam outros adversários.
Iam pôr-se a caminho quando Carmaux, que se tinha
adiantado para inspeccionar uma rua lateral, voltou
apressadamente atrás, dizendo:


50 51


- Capitão, vem aí uma patrulha.
- De onde?
- Daquela viela.
- Teremos outra luta. Armas na mão, meus valentes, e
para a frente!...
- Mas vós estais desarmado, capitão.
- Vai desarmar o biscainho que há pouco matei; à míngua
de outra arma, também serve uma navalha.
- Se me dá licença, capitão, ofereço-lhe o meu sabre.
Eu sei servir-me daqueles cuchillos.
O valente marinheiro estendeu ao Corsário o sabre;
depois voltou atrás e foi buscar a navalha de um dos
biscainhos, arma formidável mesmo na sua mão.
O pequeno destacamento avançava a passo rápido. Talvez
tivesse ouvido os gritos dos combatentes e o tinir das
armas, e apressava-se a acudir.
Os corsários, precedidos de Moko, deitaram a correr
cosidos com as paredes das casas; mas cento e cinquenta
passos adiante ouviram os passos cadenciados de outra
patrulha.
- Raios do inferno! - exclamou Carmaux. - Vamos ficar
entalados no meio.
O Corsário Negro tinha parado, empunhando o sabre,
pronto ao primeiro ataque.
- Seríamos traídos? - murmurou.
- Capitão - disse o africano. - Vejo avançar para nós
oito homens armados de alabardas e mosquetes.
- Amigos - disse o Corsário Negro, - chegou o momento
de vender cara a vida.
- Ordenai o que devemos fazer e estamos prontos -,
responderam Carmaux e o negro, com voz decidida.
- Moko!
- Patrão!
- Confio-te o encargo de levar a bordo o cadáver de meu
irmão. És capaz disso? Encontrarás o nosso escaler na
praia e pôr-te-ás a salvo com Wan Stiller.


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- Sim, patrão.
- Nós faremos o possível para nos desembaraçarmos dos
nossos adversários; mas, se tivermos de sucumbir, Morgan
sabe o que há-de fazer. Vai, leva o cadáver para bordo, e
depois voltarás aqui a ver se ainda estamos vivos.
- Não tenho ânimo para o deixar, patrão; sou forte e
posso servir-lhe de muito.
- Tenho empenho que meu irmão seja sepultado no mar,
como o Corsário Verde; e além de que tu podes prestar-nos
maiores serviços indo a bordo do meu Relâmpago do que
ficando aqui.
- Voltarei com reforços, senhor.
- Morgan virá, com certeza. Vai-te; aí vem a patrulha.
O negro não esperou nova ordem. Mas como a rua estava
impedida pelas duas patrulhas meteu por uma travessa que
ia dar ao muro de vedação de um jardim.
O Corsário Negro, tendo-o visto desaparecer, voltou-se
para Carmaux, dizendo:
- Preparemo-nos para atacar essa patrulha que temos
pela frente. Se com um ataque rápido conseguirmos abrir
passagem, talvez possamos alcançar o campo e depois a
floresta.
Estavam ainda no ângulo da rua. A segunda patrulha que
o negro tinha avistado estava apenas a uns trinta passos
de distância; mas a primeira ainda se não via, tendo
naturalmente parado.
- Preparemo-nos - disse o Corsário Negro.
- Cá estou - disse Carmaux, que se escondera atrás de
uma esquina.
Os oito alabardeiros tinham afrouxado o passo, como se
temessem alguma surpresa; e até um deles, talvez o
comandante, dissera:
- Devagar, rapazes! Esses patifes não devem estar
longe.
- Nós somos oito - observou o soldado -, enquanto que,
pelo que nos disse o taberneiro, os corsários são apenas
três.


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- Ah! O biltre do taberneiro que nos atraiçoou! -
murmurou Carmaux. - Se me cai nas unhas abro-Lhe tamanho
furo na barriga que pode por lá esvaziar todo o vinho que
tiver bebido numa semana.
- Vamos a eles!... - rugiu o Corsário Negro.
Os dois corsários acometeram com ímpeto irresistível
contra a patrulha que ia voltar a esquina, vibrando
golpes furiosos a torto e a direito com uma rapidez
fulminante.
Os alabardeiros, surpreendidos por aquele inesperado
ataque, não puderam resistir e dispersaram cada qual para
seu lado. Quando voltaram a si do espanto, já o Corsário
Negro e o companheiro estavam longe. Mas ao reconhecerem
que haviam sido atacados apenas por dois homens, correram
no seu encalço, gritando a bom gritar:
- Prendam! Prendam os corsários!...
O Corsário Negro e Carmaux corriam desesperadamente,
sem saberem para onde. Tinham metido por um dédalo de
vielas sem conseguir alcançar o campo.
Despertados pelos gritos da patrulha e alarmados pela
presença daqueles formidáveis piratas, tão temidos em
todas as cidades espanholas da América, os habitantes
tinham-se levantado; ouvia-se abrir e fechar janelas e
portas com grande ruído, enquanto algum tiro soava.
A situação dos fugitivos tornara-se de momento para
momento mais grave; aqueles gritos e aqueles tiros podiam
dar o alarme até ao centro da cidade e fazer acudir a
guarnição inteira.
- Raios do inferno! - exclamava Carmaux, continuando a
correr. - Todo este chinfrim acabará por nos perder. Se
não conseguimos meter para o campo, acabaremos numa forca
com uma boa corda ao pescoço.
Correndo sempre, tinham chegado à extremidade de um
beco sem saída.
- Capitão! - gritou Carmaux, que ia na frente. - Caímos
numa ratoeira.
- Que queres tu dizer? - perguntou o Corsário.


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- Esta viela não tem saída.
- Não há um muro que se possa escalar?
- Só há casas altas.
- Voltemos atrás, Carmaux. Os perseguidores ainda estão
longe e talvez possamos encontrar uma nova rua, que nos
leve fora da cidade.
Ia recomeçar a corrida, quando disse bruscamente:
- Não, Carmaux! Ocorreu-me agora uma ideia. Parece-me
que com um pouco de astúcia podemos desnortear os nossos
perseguidores.
Dirigiu-se para a casa que fechava o extremo do beco.
Era uma habitação modesta, de dois andares, construída de
alvenaria, e parte de madeira, com um pequeno terraço
adornado de vasos com flores.
- Carmaux! - disse o corsário. - Abre essa porta.
- Escondemo-nos nesta casa?
- Parece-me o melhor meio de desnorTear os soldados.
- Perfeitamente, capitão. Fazemo-nos inquilinos sem
pagar um ceitil de aluguer.
Com a ponta da sua comprida navalha forçou a fechadura
e fez saltar o trinco.
Os dois corsários apressaram-se a entrar, fechando logo
a porta, enquanto os soldados passavam na extremidade da
viela, berrando sempre:
- Agarra! Agarra!
Os corsários, tacteando no meio da obscuridade,
chegaram breve a uma escada, pela qual subiram sem
hesitação, parando só no patamar superior.
- É preciso ver para onde vamos - disse Carmaux -, e
conhecer os inquilinos. Que desagradável surpresa para
estes pobres diabos!
Tirou da algibeira um fuzil e um pedaço de mecha e
acendeu-a, soprando-lhe para avivar a chama.
- Olá!... Aqui está uma porta aberta - disse ele.
- E alguém que ressona - acrescentou o Corsário Negro.


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- Bom sinal!... Quem dorme é gente de paz.
Entretanto, o Corsário Negro tinha aberto a porta, com
cautela, para não fazer ruído, e entrava numa sala
modestamente mobilada, onde se via uma cama ocupada por
uma pessoa.
Pegou na mecha, acendeu uma vela que estava sobre uma
velha caixa, e dirigiu-se para a cama, levantando
resolutamente o cobertor.
Era um homem que estava deitado; um velho calvo, com
barbichas e bigodes encrespados. Dormia tão regaladamente
que não acordou com a luz.
- Não será decerto este homem que há-de incomodar-nos
-, disse o Corsário Negro.
Agarrou-lhe num braço e sacudiu-o brutalmente, mas a
princípio sem resultado.
- Só disparando-lhe um trabuco aos ouvidos -, disse
Carmaux.
Mas à terceira sacudidela, mais forte que as primeiras,
o velho resolveu-se a abrir os olhos. ao ver os dois
homens armados ergueu-se de um salto, arregalando os
olhos apavorados, e exclamou com voz sufocada pelo
terror:
- Estou morto!
- Eh!.. amigo! Tem tempo de morrer - disse Carmaux. -
Parece-me que está mais vivo do que há pouco.
- Quem sois? - perguntou o Corsário.
- Um pobre homem que nunca fez mal a ninguém -,
respondeu o velho.
- Não queremos fazer-Lhe mal algum, se responder ao que
desejamos saber.
- Então Vossa Excelência não é ladrão?
- Sou um corsário das Tartarugas.
- Um cor... sá... rio! Ai! Agora é que eu estou morto!
- Já lhe disse que não lhe faremos mal.
- Que querem, então, de um pobre homem como eu?
- Antes de tudo, saber se está sozinho nesta casa.
- Sozinho de todo, senhor.


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- Quem mora na vizinhança?
- Honestos burgueses.
- E você, quem é?
- Um pobre homem.
- Sim, um pobre homem que possui uma casa, enquanto eu
nem cama tenho - disse Carmaux. - Ah!, minha raposa
velha, o que tu tens é medo pelo teu dinheiro!
- Não tenho dinheiro, Excelentíssimo!
Carmaux desatou a rir.
- Um corsário com Excelência! Este homem é o maior
ratão que tenho encontrado na minha vida!
O velho olhou de soslaio, mas absteve-se de se dar por
ofendido.
- Vamos ao que importa - disse o Corsário Negro em tom
ameaçador. - Que fazes em Maracaíbo?
- Sou um pobre notário, senhor.
- Está bem. Ora fica sabendo que nós nos albergamos em
tua casa, até que chegue o momento de nos irmos embora.
Não te faremos nenhum mal; mas toma conta que, se nos
atraiçoas, separamos-te a cabeça do corpo. Ficamos
entendidos?
- Mas que exigem de mim? - choramingou o desgraçado.
- Por ora, nada. Veste-te e não grites, senão pomos em
prática a ameaça.
O notário apressou-se a obedecer; mas o tremor era tal
que foi preciso Carmaux ajudá-lo a vestir-se.
- Agora, amarra este homem - disse o Corsário Negro. -
Repara que não fuja.
- Respondo por ele como por mim próprio, capitão. Vou
amarrá-lo de modo que não poderá fazer o menor movimento.
Enquanto Carmaux manietava o velho, o Corsário Negro
tinha aberto uma janela que deitava para o beco, para ver
o que se passava fora.
Parecia que as patrulhas já se tinham afastado, pois
não se ouviam os seus brados; mas várias pessoas,
despertadas pelos gritos, apareciam às janelas das casas


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vizinhas e falavam em voz alta.
- Não ouviram? - gritava um homenzinho que mostrava
comprido arcabuz. - Parece que os corsários tentaram um
assalto à cidade.
- É impossível - respondiam algumas vozes.
- Ouvi os soldados a gritar.
- Foram escorraçados?...
- Acho que sim, pois que já não se ouve nada.
- Que audácia!... Entrar na cidade com tantos soldados
como aqui há!...
- Naturalmente queriam salvar o Corsário Vermelho.
- Mas já o vieram encontrar enforcado.
- Que decepção para esses bandidos!...
- Esperemos que os soldados agarrem outros para os
enforcar... - disse o homem do arcabuz. - Madeira não
falta para levantar mais forcas. Boas noites, vizinhos!
Até amanhã.
- Pois sim - murmurou o Corsário Negro. - Madeira não
falta; mas também nos nossos navios não faltam balas para
arrasar Maracaíbo. Um dia tereis novas minhas.
Fechou prudentemente a janela.
Entretanto, Carmaux rebuscara toda a casa e saqueara a
despensa.
O corsário lembrara-se então de que não houvera tempo
de cear na véspera, e como encontrasse uma ave e um bom
pedaço de peixe assado, que talvez o notário tivesse
reservado para o almoço, apressara-se a pôr uma e outra
coisa à disposição do capitão.
Além desses petiscos tinha descoberto no fundo de um
armário algumas garrafas de xerez e alicante.
- Senhor - disse Carmaux com a sua melhor voz,
dirigindo-se ao Corsário -, enquanto os espanhóis correm
atrás das nossas sombras, dê uma boa entrada neste peixe,
e prove-me este pato bravo. Também encontrei umas certas
garrafinhas que o nosso notário reservava talvez para as


58


grandes ocasiões, e que vos darão por certo um bom humor.
Ah! Bem se vê que este amigo é apreciador de bebidas...
Veremos se tem bom gosto.
- Obrigado - respondeu o Corsário Negro, que de novo
assumira um ar lúgubre.
Sentou-se, mas pouco comeu. Provou o peixe, bebeu
alguns cálices de vinho, depois ergueu-se, pondo-se a
passear pela sala.
Carmaux, pelo contrário, não só devorou o resto como
esvaziou um par de garrafas, com grande desespero do
notário, o qual não se cansava de lastimar-se por ver
desaparecer tão rapidamente o que tanto Lhe custara a
mandar vir, com grandes despesas, da longínqua pátria.
Mas o marinheiro, de bom humor por ter bebido já
bastante, foi tão amável que lhe ofereceu um cálice para
lhe dissipar o terror experimentado e a raiva que o
consumia.
- Caramba!... - exclamou. - Nunca imaginei que a noite
se passasse tão alegremente. Ver-se a gente entre dois
fogos e ameaçados de perder a vida com o baraço ao
pescoço, e em vez disso vir parar ao meio destas
deliciosas garrafas, não era coisa que esperasse.
- Mas o perigo não passou, meu caro - disse o Corsário
Negro. - Quem nos assegura que amanhã os espanhóis, não
nos tendo encontrado, não venham dar connosco? Está-se
bem aqui, mas eu preferia estar a bordo do meu Relâmpago.
- Convosco, meu capitão, nada temo; vós, sozinho,
valeis por cem homens.
- Parece que esqueceste que o governador de Maracaíbo é
uma velha raposa e que tudo tentará para me deitar a mão.
Bem sabes que entre mim e ele se trava uma guerra de
morte.
- Ninguém sabe que estais aqui.
- Poderá suspeitar-se. Além disso, esqueces os
biscainhos! Eu creio que eles souberam que quem matou
aquele fanfarrão do conde foi o irmão do Corsário
Vermelho e do Corsário Verde.
- Talvez tenhais razão. Achais que Morgan nos mandará
socorros?


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- O imediato não é homem para abandonar o seu
comandante às garras dos espanhóis. É audaz, é valente, e
não me surpreenderia que tentasse forçar a passagem, para
fazer chover sobre a cidade uma saraivada de balas.
- Seria uma loucura que poderia sair-lhe cara.
- Eh!, quantas loucuras não temos nós cometido e quase
sempre com feliz resultado?
- É verdade.
Carmaux sentou-se, bebendo aos sorvos um cálice de
vinho; depois ergueu-se e dirigia-se para uma janela que
se abria no patamar e dominava toda a rua quando viu o
Corsário Negro entrar precipitadamente, dizendo:
- É de confiança o negro?
- De toda a confiança, comandante.
- Incapaz de atraiçoar-nos?
- Ponho as mãos no fogo por ele.
- Pois está ali.
- Viste-o?
- Anda rondando a rua.
- É preciso mandá-lo subir, comandante.
- E que faria ele ao cadáver de meu irmão? - perguntou
o Corsário Negro, de mau humor.
- Quando ele chegar o saberemos.
- Vai chamá-lo, mas prudência. Se te descobrem não
respondo mais pelas nossas vidas.


60

VI


AGRAVA-SE A SITUAÇÃO DOS CORSÁRIOS


Ainda bem não tinham decorrido dez minutos, quando
Carmaux saía da casa do notário para ir em procura do
negro que o capitão tinha visto bordejar pela viela.
Naquele brevíssimo tempo, o corajoso Carmaux
metamorfoseara-se de tal maneira que se tornara
irreconhecível. Com umas rápidas tesouradas aparara a
barba inculta e os longos cabelos desgrenhados; depois
envergara apressadamente um fato que o notário devia ter
guardado para os dias solenes e que lhe ficava às mil
maravilhas, pois que eram ambos da mesma estatura.
Vestido desta forma, o terrível pirata podia passar por
um pacífico e honesto burguês de Gibraltar, senão pelo
próprio notário. Mas, como homem prudente, e não
confiando bastante no fato, sempre foi metendo um par de
pistolas nas algibeiras.
Assim transformado, saiu da habitação como um pacífico
citadino.
A viela estava erma; mas, se o pirata tinha avistado
pouco antes o negro, não devia ele andar muito longe.
- Eu o descobrirei algures - murmurou o corsário. - Se
o compadre saco de carvão se decidiu a voltar é porque
graves motivos o impediram de sair de Maracaíbo.
Com este monólogo saíra da viela e preparava-se para
voltar a esquina de uma casa, quando um soldado armado de


[61


arcabuz e que estava escondido na sombra da arcada de um
portão lhe embargou inesperadamente o passo, dizendo-lhe
em tom ameaçador:
- Alto aí!...
- Maldito! - balbuciou Carmaux, metendo a mão no bolso
e empunhando uma pistola. - Já temos dança!
Depois, tomando os ares de um bom burguês, perguntou:
- Que deseja, senhor soldado?
- Saber quem sois.
- Como? Então não me conhece?... Sou o notário do
bairro, senhor soldado.
- Desculpe, estou há pouco tempo em Maracaíbo, senhor
notário. Pode saber-se aonde vai?
- É um pobre diabo que está a morrer, e bem sabeis que
quando um homem se dispõe a ir desta para melhor vida,
sempre precisa de pensar nos herdeiros.
- É verdade, senhor notário; mas tende cuidado com os
corsários que andam por aí.
- Santo Deus! - exclamou Carmaux, fingindo-se
atemorizado. - Os corsários aqui? Como foi que esses
canalhas se atreveram a desembarcar em Maracaíbo, cidade
quase invencível e governada por um valoroso militar que
se chama Wan Guld?
- Como eles conseguiram desembarcar é que ninguém sabe,
pois que não foi avistado nenhum navio corsário, nem
perto das ilhas, nem para além do golfo de Coro; mas que
entraram aqui, isso é que não oferece dúvida. Basta saber
que já mataram uns três ou quatro homens e que tiveram o
arrojo de roubar o cadáver do Corsário Vermelho, que foi
enforcado defronte do palácio do governador, juntamente
com os companheiros.
- Que patife!... E onde estão?
- Supõe-se que tenham fugido para o campo. Já foram
expedidas tropas para vários pontos e há esperanças de os
capturar e mandá-los fazer alegre companhia aos
enforcados.
- Ter-se-ão escondido na cidade?


62


- Não pode ser; viram-nos fugir para o campo.
Carmaux já sabia o bastante e achou que era chegado o
momento de se safar, para não perder o negro.
- Tratarei de os evitar - disse. - Deus vos guarde,
senhor soldado. Eu vou andando, senão chegarei tarde a
casa do meu cliente moribundo.
- Boa fortuna, senhor notário.
O astuto corsário puxou o chapéu para os olhos e
afastou-se precipitadamente, fingindo olhar em volta para
melhor simular o terror que na realidade não sentia.
- Ah! Ah! - exclamou, quando já estava distante. -
Cuidam que saímos da cidade!... Magnífico, meus caros,..
Deixar-nos-emos estar sossegados em casa daquele
excelente notário até que os soldados tenham regressado,
depois poderemos retirar tranquilamente.
Acabara de dobrar a esquina da rua para tomar por outra
mais larga, quando lobrigou um vulto negro, de estatura
gigantesca, parado ao pé de uma palmeira que se elevava
defronte de um grandioso palacete.
- Se não me engano é o compadre saco de carvão -,
murmurou o valente Carmaux. - Desta feita temos uma
grande sorte; mas é sabido que o diabo nos protege, pelo
menos assim o dizem os espanhóis.
O homem que estava meio escondido por detrás do tronco
da palmeira, ao ver aproximar Carmaux tentou agachar-se
sob o portão do palacete, cuidando talvez que tinha pela
sua frente algum soldado; depois, não se julgando seguro
mesmo ali, voltou rapidamente a esquina da casa, sem
dúvida para fugir por alguma das várias congostas da
cidade.
Carmaux tivera tempo de certificar-se de que realmente
era o negro.
- Eh!, compadre! Oh!, compadre!
O negro tinha parado de repente e, depois de alguns
momentos de hesitação, voltara atrás. Reconhecendo
Carmaux, apesar do disfarce, teve uma exclamação de
alegria e espanto.


63


- Tens boa vista, compadre saco de carvão - disse o
corsário, rindo.
- E o capitão?
- Deixa lá agora o capitão; está a salvo, e é o que
importa. Porque voltaste? O capitão tinha-te ordenado que
levasses o cadáver para bordo.
- Não pude, compadre. A floresta foi invadida por uns
poucos de destacamentos de soldados, vindos provavelmente
da costa.
- Já tinham dado pelo nosso desembarque?
- Suspeito que sim, compadre.
- E o cadáver, onde o escondeste?
- Na minha cabana, no meio de uma grande camada de
folhas frescas.
- Não darão com ele os espanhóis?
- Tive a precaução de pôr em liberdade todas as
serpentes. Se os soldados quiserem entrar na cabana verão
os répteis e fugirão.
- És fino, compadre.
- Faz-se o que se pode.
- Não achas então possível fugirmos por agora?
- Já lhe disse que há soldados na floresta.
- O caso é grave. Morgan, o imediato do Relâmpago, não
nos vendo voltar, pode cometer uma imprudência - murmurou
o corsário. - Vamos a ver como acaba esta aventura.
Compadre, és conhecido em Maracaíbo?
- Como venho aqui vender ervas para curar feridas,
todos me conhecem.
- Ninguém suspeitará de ti?
- Ninguém, compadre.
- Então acompanha-me: vamos ter com o comandante.
- Um momento, compadre.
- Que queres?...
- Trouxe comigo o vosso companheiro.
- Quem?... Wan Stiller?
- Sim; corria inutilmente o perigo de ser preso, e
pensou que poderia prestar melhores serviços aqui do que
permanecendo de guarda à cabana.
- E o prisioneiro?
- Amarrámo-lo tão bem que tornaremos a encontrá-lo se
os companheiros o não libertarem.
- E onde está Wan Stiller?
- Espera um momento, compadre.
O negro encostou ambas as mãos aos lábios e expediu um
leve grito que podia confundir-se com o de um vampiro, um
desses morcegos que são muito numerosos na América do
Sul.
Um momento depois saltava um homem o muro do jardim e
quase caía sobre Carmaux, dizendo:
- Ora muito estimo ver-te ainda vivo, camarada.
- E eu ainda o estimo mais do que tu, amigo Wan Stiller
- respondeu Carmaux.
- Achas que o capitão me levará a mal o ter vindo aqui?
Sabendo que ele corria perigo não podia conservar-me
escondido no bosque a olhar para as árvores.
- O comandante ficará contente; mais um valente é um
precioso socorro nesta ocasião.
- Vamos, amigos...
Começava então a aclarar, As estrelas empalideciam
rapidamente, pois que naquelas regiões não há alvorada e
muito menos aurora; à noite sucede quase de repente o
dia. O Sol desponta quase de improviso.
Os habitantes de Maracaíbo, quase todos matinais,
começavam a despertar. Abriram-se janelas e assomaram
algumas cabeças.
Decerto se comentavam os acontecimentos da noite, que
tinham espalhado o terror entre os habitantes, pela
temerosa fama que os corsários tinham em todas as
colónias espanholas do golfo do México.
Carmaux, que não queria ter encontros, pelo receio de
ser reconhecido por algum dos bebedores da taberna,
alargava o passo, seguido pelo negro e pelo hamburguês.


64 65


Chegado ao pé do beco encontrou ainda ali o soldado,
que passeava de um para outro ângulo da rua, de alabarda
ao ombro.
- Já de volta, senhor notário? - perguntou, avistando
Carmaux.
- É verdade, meu amigo - respondeu o corsário. - O meu
cliente estava com pressa de deixar este vale de lágrimas
e aviou breve.
- Legou-lhe talvez esse soberbo negro? - perguntou o
soldado, indicando o encantador de serpentes. - Caramba!
É um colosso que vale milhares de piastras.
- Pois é verdade que me fez este legado. Bons dias,
senhor soldado.
Viraram apressadamente o ângulo, meteram pelo beco e
entraram na casa do notário, fechando logo a porta e
trancando-a.
O Corsário Negro esperava no patamar, com uma
impaciência que não podia dissimular.
- Então? - perguntou. - Porque voltou o negro? E o
cadáver de meu irmão?... E tu aqui também, Wan Stiller?
Carmaux informou-o em poucas palavras dos motivos que
tinham obrigado o negro a voltar a Maracaíbo, assim como
a decisão de Wan Stiller de vir prestar o seu auxílio, e,
enfim, tudo o que pudera saber pelo soldado que estava de
sentinela na extremidade da rua.
- As notícias que trazes são graves - disse o capitão
voltando-se para o negro. - Se os espanhóis batem o campo
e a costa, não sei como havemos de chegar ao meu
Relâmpago. Não é por mim que receio, mas pelo meu navio,
que pode ser surpreendido pela esquadra do almirante
Toledo.
- Raios do inferno! - exclamou Carmaux. - Não faltaria
mais nada!
- Começo a temer que esta aventura acabe mal -,
murmurou Wan Stiller. - Mas, que demónio! Nós já devíamos
ter sido enforcados há dois dias; já é para agradecer o
termos mais quarenta e oito horas de vida.


66


O Corsário Negro pusera-se a passear. Parecia muito
preocupado e nervoso; de espaço a espaço suspendia o
giro, parando diante dos seus homens; mas logo recomeçava
o passeio, cabisbaixo.
De repente parou diante do notário, que jazia no leito,
fortemente amarrado, e cravando-lhe no rosto um olhar
ameaçador, perguntou-lhe:
- Conheces os arredores de Maracaíbo?
- Conheço, excelência - replicou o pobre homem em voz
trémula.
- Poderás fazer-nos sair da cidade sem sermos
surpreendidos pelos teus compatriotas, e conduzir-nos a
lugar seguro?
- Como poderia eu fazer tal coisa, senhor? Mal
saíssemos de casa, reconhecer-vos-iam e seríeis preso,
depois eu seria acusado de ter procurado salvar-vos, e o
governador, que não é homem para graças, enforcava-me...
- Ah!... O medo de Wan Guld.. - disse o Corsário Negro
com os dentes cerrados, enquanto um lampejo sinistro lhe
brilhava nos olhos. - É isso; esse homem é enérgico,
feroz e desapiedado; a todos impõe medo, a todos faz
tremer.
A todos?! A todos, não! Um dia será a ele que eu verei
tremer!... Nesse dia pagará com a vida a morte de meus
irmãos...
- Quereis matar o governador?... - perguntou o notário
com expressão de incredulidade.
- Silêncio, se tens amor à pele - disse Carmaux.
O Corsário Negro parecia não ter ouvido nem um nem
outro. Tinha saído da sala, dirigindo-se para a janela do
corredor contíguo, de onde, como já se disse, podia
ver-se toda a rua.
- É uma boa entaladela esta - disse Wan Stiller,
voltando-se para o negro. - O nosso compadre saco de
carvão não terá na cabeça alguma boa ideia que nos tire
desta situação pouco alegre?... Não me sinto muito seguro
nesta casa.
- Talvez tenha uma ideia - respondeu o negro.


67


- Venha ela, compadre - disse Carmaux. - Se é
realizável, prometo-te um abraço, eu, que nunca abracei
um homem de cor, nem negro, nem amarelo, nem vermelho.
- Será preciso esperar pela noite.
- Por ora não temos pressa.
- Vistam-se de espanhóis e saiam tranquilamente da
cidade.
- Acaso não estou eu vestido com o fato de notário?
- Não é bastante.
- Que queres então que eu vista?
- Uma boa farda de mosqueteiro ou de alabardeiro. Se
saírem da cidade vestidos à paisana, as tropas que batem
o campo logo nos apanham.
- Que soberba ideia!... - exclamou Carmaux. - Dizes
bem, saco de carvão!... Vestidos de soldados, ninguém se
lembraria de nos deter para perguntar-nos aonde vamos e
quem somos, especialmente de noite. Julgar-nos-ão uma
ronda e nós poderemos safar-nos à vontade e embarcar.
- E fardas, onde se arranjam? - perguntou Stiller.
- Onde?... Vamos estripar dois soldados e tiramos-lhes
as fardas - disse resolutamente Carmaux. - Bem sabes que
somos lestos.
- Não é preciso exporem-se a tamanho perigo - disse o
negro. - Sou conhecido na cidade, ninguém suspeita de
mim, e posso portanto ir comprar fato e até armas.
- És um grande homem, compadre saco de carvão, e vou
dar-te um abraço fraternal.
Dizendo isto, o pirata abrira os braços para estreitar
o negro, mas não teve tempo. Uma pancada sonora ecoou na
rua e na escada.
- Com mil raios!... - bramiu Carmaux. - Alguém bate à
porta...
Neste momento entrou o Corsário Negro, dizendo:
- Está ali um homem que vem naturalmente procurar-vos,
notário.
- Será algum cliente, senhor - respondeu o prisioneiro


68


com um suspiro. - Algum cliente que talvez me desse bom
dinheiro a ganhar, enquanto eu, agora...
- Basta de conversa - disse Carmaux. - Já sabemos o
bastante, tagarela!
Uma segunda pancada, mais violenta que a primeira, fez
estremecer a porta, seguida destas palavras:
- Abri, senhor notário, que não há tempo a perder!
- Carmaux - disse o Corsário Negro, que tomara uma
rápida resolução -, se nos recusarmos a abrir, esse homem
pode ter suspeitas, temer que tenha sucedido algum
acidente ao velho e ir avisar o alcalde do bairro.
- Que hei-de fazer então, comandante?
- Abrir e depois amarrar bem esse importuno e mandá-lo
fazer companhia ao notário.
Ainda não tinha concluído e já Carmaux estava na
escada, acompanhado do gigantesco negro.
Ouvindo uma terceira pancada, que por pouco não fez
saltar as tábuas da porta, apressou-se a abrir, dizendo:
- Eh! Que fúria, senhor!
Um rapazote de dezoito ou vinte anos, elegantemente
vestido e armado de um belo punhal metido na cinta,
entrou apressadamente, dizendo:
- É assim que se fazem esperar as pessoas que têm
pressa?
Ao ver Carmaux e o negro, deteve-se, observando-os com
espanto e até uma certa inquietação, depois tentou recuar
um passo, mas a porta já tinha sido fechada.
- Quem sois? - perguntou.
- Dois servos do senhor notário - respondeu Carmaux,
fazendo uma grosseira reverência.
- Ah, Ah!... Don Turillo enriqueceu de repente, para se
dar ao luxo de ter dois criados?
- É certo, herdou de um tio que morreu no Peru - disse
Carmaux, rindo.
-Levai-me aonde ele está. Já tinha avisado de que hoje


69


devia efectuar-se o meu casamento com a Señorita Carmen
de Vasconcelos. Precisa de fazer-se rogado, esse...
A frase foi cortada cerce pela mão do negro, que
abruptamente caiu entre as espáduas do recém-chegado.
O pobre rapaz, meio estrangulado por um rápido apertão,
caiu de joelhos, enquanto os olhos lhe saíam das órbitas
e a pele se lhe enegrecia.
- Eh, mais delicadeza, compadre - disse Carmaux. - Se
apertas um pouco mais, sufoca-lo completamente. É preciso
ser um pouco amável com os clientes do notário.
- Não tenhas medo, compadre branco - replicou o
encantador de serpentes.
O rapaz, que afinal estava tão apavorado que nem sequer
pensava em opor resistência, foi transportado para a sala
superior, desarmado do punhal, bem amarrado e colocado ao
lado do notário.
- Pronto, capitão - disse Carmaux.
O Corsário Negro aprovou o acto do marinheiro com um
gesto, depois, aproximando-se do rapaz, que o encarava
com olhos apavorados, disse-lhe:
- Quem é o senhor?
- É um dos meus melhores clientes, senhor - disse o
notário. - Este brioso moço ter-me-ia feito ganhar, hoje,
pelo menos...
- Calai-vos - disse o Corsário Negro, secamente.
- O notário arma em papagaio! - observou Carmaux. - Se
continua assim, será preciso cortar-lhe um pedaço da
língua.
O gentil rapaz tinha-se voltado para o Corsário Negro e
depois de o ter observado alguns momentos, com certo
espanto, respondeu:
- Sou filho do juiz de Maracaíbo, Don Alonso de
Conxevio. Espero que agora me explique o motivo deste
sequestro.
- É escusado sabê-lo; mas se estiverdes sossegado não
se vos fará nenhum mal, e amanhã, se não se derem
acontecimentos imprevistos, estareis livre.
- Amanhã!... - exclamou o mancebo com doloroso espanto.
- Mas reparai, senhor, que devo desposar hoje a filha do
capitão Vasconcelos!
- Casareis amanhã!
- Tomai conta! Meu pai é amigo do governador, e vós
podereis pagar caro o vosso misterioso procedimento para
comigo. Aqui, em Maracaíbo, há soldados e há canhões!
Um sorriso desdenhoso aflorou aos lábios do homem do
mar.
- Não os temo - disse depois. - Também eu tenho homens,
bem mais formidáveis que os que guardam Maracaíbo, e
também tenho canhões.
- Mas quem sois vós?
- Escusais de sabê-lo.
Dito isto, o Corsário Negro voltou-lhe bruscamente as
costas e saiu, pondo-se de atalaia à janela, enquanto
Carmaux e o negro davam busca à casa, desde a adega até
às águas-furtadas, a ver se seria possível preparar um
almoço, e Wan Stiller se instalava ao pé dos dois
prisioneiros para obstar a qualquer tentativa de fuga.
Os dois compadres, o branco e o preto, depois de terem
revistado a casa de alto a baixo, conseguiram descobrir
um presunto defumado e um certo queijo bastante
apimentado que devia pôr todos de bom humor, e fazer
apreciar melhor o excelente vinho do notário. Pelo menos,
assim o afirmava Carmaux.
Já tinham avisado o Corsário Negro de que o almoço
estava pronto e já tinham desrolhado duas garrafas de
porto, quando ouviram bater novamente à porta.
- Quem será? - perguntou a si mesmo Carmaux. - Outro
cliente que deseja ir fazer companhia ao notário?
- Vai ver - disse o Corsário Negro, que já se sentara à
mesa.
O marinheiro não esperou nova ordem e chegando à
janela, sem todavia erguer a persiana, viu em frente da
porta um homem idoso que parecia um criado ou guarda do
tribunal.


70 71


- Diabo!... - murmurou. - Virá em busca do rapaz? A
desaparição misteriosa do noivo terá preocupado a noiva,
os padrinhos e os convidados? Hum! O caso começa a
embrulhar-se!...
Entretanto, o criado, como não recebesse resposta,
continuava a martelar com ânsia, fazendo tal barulho que
atraía às janelas os moradores das casas vizinhas.
Era absolutamente preciso abrir e aprisionar também
aquele importuno antes que os vizinhos, postos em
sobressalto, acudissem a arrombar a porta ou mandassem
chamar os soldados.
Carmaux e o negro apressaram-se, pois, a descer e a
abrir, mas apenas o criado ou guarda se encontrou no
corredor, foi agarrado pelo pescoço, a fim de não poder
gritar, amarrado, amordaçado, e depois levado para o
quarto de cima a fazer companhia ao desventurado amo e ao
não menos desditoso notário.
- O diabo os carregue a todos!... - exclamou Carmaux. -
Se isto assim continua, dentro em pouco temos encarcerada
toda a população de Maracaíbo.


72


VII


DUELO DE FIDALGOS


O almoço foi pouco alegre, não obstante aquele
excelente presunto, o queijo apimentado e as garrafas do
pobre notário.
Começavam todos a inquietar-se pelo mau aspecto que os
acontecimentos tomavam.
Aquele estado de coisas não podia de modo algum durar
muito.
O Corsário Negro e os seus dois companheiros discutiam
vários planos, mas nenhum Lhes pareceu bom.
Cogitavam em descobrir algum novo projecto, que lhes
fornecesse o meio de sair daquela situação, que de
momento para momento se tornava mais difícil e perigosa,
quando um terceiro indivíduo veio bater à porta do
notário.
Desta feita não se tratava de um criado, mas sim de um
fidalgo castelhano armado de espada e punhal, porventura
algum parente do noivo ou algum padrinho.
- Com mil raios! - exclamou Carmaux. - É uma procissão
de gente que vem a esta maldita casa!...
O castelhano, vendo que ninguém se apressava a abrir,
começara a redobrar as pancadas, levantando e deixando
cair continuamente o pesado batente de ferro. Aquele
homem devia por certo estar muito impaciente e era
provavelmente bem mais perigoso que o mancebo e o criado.
- Vai abrir, Carmaux - ordenou o Corsário Negro.
- Receio, comandante, que não seja fácil prendê-lo


73


e amarrá-lo. Asseguro-vos que é um homem forte e fará uma
resistência desesperada.
- Eu cá estou, e bem sabes que tenho braços robustos.
O Corsário Negro, tendo avistado ao canto da sala uma
espada, alguma velha arma de família que o notário teria
conservado, pegara nela e, depois de experimentar a
elasticidade da lâmina, pusera-a à cinta, murmurando:
- Aço... Toledo; dará que fazer ao castelhano.
Carmaux e o negro abriram a porta, que começava a dar
de si sob as furiosas e incessantes marteladas, e o
fidalgo entrara com olhar furibundo, a fronte carregada e
a mão esquerda no punho da espada, dizendo com voz
colérica:
- É preciso empregar um canhão para entrar nesta
casa...
O recém-vindo era um belo homem de seus quarenta anos,
alto, robusto e arrogante, olhos pretos e espessa barba
também preta que lhe dava um aspecto marcial.
- Perdoai, senhor, se nos demorámos - respondeu
Carmaux, curvando-se grotescamente diante dele -, mas
estávamos muito ocupados.
- A fazer o quê?... - perguntou o castelhano.
- A tratar do senhor notário.
- Então ele está doente?
- Foi atacado de uma febre fortíssima, senhor.
- Chama-me conde, birbante.
- Desculpai, senhor conde; eu não tinha a honra de
conhecer-vos.
- Ide para o diabo!... Onde está meu sobrinho?... Há
duas horas que veio para aqui...
- Não vimos ninguém.
- Zombas de mim?... Onde está o notário?...
- Na cama, senhor.
- Conduz-me ao pé dele.
Carmaux, que queria atraí-lo para o fundo do corredor ,
antes de fazer sinal ao negro para pôr em acção a sua
prodigiosa força muscular, pôs-se diante do castelhano;
depois, mal chegou ao fundo da escada, voltou-se,
bradando:


74


- Agora tu, compadre!
O negro atirou-se sobre o castelhano; este, que
naturalmente estava em guarda e que dispunha de uma
agilidade capaz de competir com a de um marinheiro, num
salto transpôs os três primeiros degraus, derrubando
Carmaux com um forte empurrão, e desembainhou
resolutamente a espada, gritando:
- Ah! patifes!... Que significa este ataque?... Vou
cortar-Lhes as orelhas...
- Eu vos explico o que este ataque significa - disse
uma voz.
O Corsário Negro assomara no patamar, de espada em
punho, e começava a descer os primeiros degraus.
O castelhano voltara-se, sem, todavia, perder de vista
Carmaux e o negro, os quais se retiraram para o fundo do
corredor, pondo-se de guarda à porta. O primeiro
empunhara o comprido cuchillo e o segundo armara-se de
uma tranca de madeira, arma formidável nas suas mãos.
- Quem sois vós, senhor? - perguntou o castelhano, sem
manifestar o menor medo. - Pelo trajo que vestis poderia
julgar-se que sois um fidalgo; mas nem sempre o hábito
faz o monge, e podereis ser até algum bandido.
- Eis uma palavra que pode custar-vos cara, meu fidalgo
- replicou o Corsário Negro.
- Ora adeus!... É o que havemos de ver!
- Sois corajoso, senhor; tanto melhor. Mas
aconselho-vos a que largueis a espada e vos rendais.
- A quem?
- A mim!
- A um bandido que prepara uma cilada para assassinar
traiçoeiramente os homens?
- Não, ao cavaleiro Emílio da Rocha Negra, senhor de
Vintemilhas.
- Ah!... Sois fidalgo!... Ao menos desejava saber
porque é que o senhor de Vintemilhas tentava fazer-me
assassinar pelos seus criados.


75


- É uma pura suposição a vossa, senhor; ninguém aqui
pensou em assassinar-vos. Queria desarmar-vos e fazer-vos
prisioneiro por alguns dias, nada mais.
- E porquê?
- Para vos impedir de avisardes as autoridades de
Maracaíbo de que me encontro aqui - respondeu o Corsário
Negro.
- Dar-se-á o caso de que o senhor de Vintemilhas tenha
contas a ajustar com as autoridades de Maracaíbo?
- Não morrem de amores por mim, ou antes, é Wan Guld
que me detesta, e que estimava imenso apanhar-me, como eu
estimaria tê-lo debaixo do meu poder.
- Não vos compreendo - disse o castelhano.
- Também não é coisa que vos interesse. Vamos a saber:
rendeis-vos ou não?
- Oh!... Pensais em tal? Um homem que usa espada ceder
assim sem defender-se?
- Nesse caso forçar-me-eis a matar-vos. Não posso
deixar-vos retirar, sob pena de nos perdermos, eu e os
meus companheiros.
- Mas quem sois vós, afinal?
- Já devíeis tê-lo adivinhado; somos os corsários da
ilha das Tartarugas. Defendei-vos, senhor, que vou
matar-vos.
- Acredito, pois que tenho de defrontar-me com três
adversários.
- Não vos preocupeis com eles - disse o Corsário Negro,
indicando Carmaux e o negro. - Quando o seu comandante se
bate, estão habituados a não se intrometer.
- Nesse caso, espero em breve pôr-vos fora de combate.
Vós ainda não conheceis o braço do conde de Lerma.
- Como vós não conheceis o do senhor de Vintemilhas.
Conde, defendei-vos!
- Uma palavra, se mo permitis. O que fizestes de meu
sobrinho e do criado?
- Estão prisioneiros juntamente com o notário. Mas não
vos inquieteis por eles. Amanhã estarão livres e vosso
sobrinho poderá desposar a sua bela.
- Obrigado, cavaleiro.
O Corsário Negro inclinou-se levemente, depois desceu
rápido os degraus e avançou para o castelhano com tal
ímpeto que este foi obrigado a recuar dois passos.
Por alguns momentos, no estreito corredor, apenas se
ouviu o tinir dos ferros. Carmaux e o negro, apoiados
contra a porta, de braços cruzados, assistiam ao duelo
sem proferir uma palavra, procurando seguir com a vista o
fulmíneo esgrimir das espadas.
O castelhano batia-se esplendidamente, como espadachim
valoroso.
Dados os primeiros passes, o Corsário Negro tinha
readquirido a serenidade. Só raras vezes atacava,
limitando-se a defender-se como se antes quisesse cansar
o adversário e estudar-lhe o jogo.
Subitamente partiu a fundo. Tocar de terço a lâmina do
adversário com um golpe seco, ligá-la de segunda e
fazê-la ceder e cair, foi obra de um bote único.
O castelhano, ao ver-se desarmado, empalideceu,
soltando um grito. A ponta cintilante da lâmina do
Corsário Negro ficou um momento direita, ameaçando-lhe o
peito; depois, de repente, ergueu-se.
- Sois um valente - disse, saudando o adversário. - Não
queríeis ceder a vossa arma; agora sou eu que a tomo, mas
deixo-vos a vida.
O castelhano tinha ficado imóvel, com o mais profundo
espanto desenhado no rosto. Parecia-lhe talvez impossível
o encontrar-se ainda vivo.
Num impulso, avançou dois passos e estendeu a mão ao
adversário, dizendo:
- Dizem os meus compatriotas que os corsários são
homens sem fé e sem lei, que somente se entregam à
pirataria nos mares; mas eu posso agora dizer como entre
eles se encontram também homens valorosos que em
cavalheirismo e generosidade podem ombrear com os mais


76 77


perfeitos fidalgos da Europa. Senhor cavaleiro, aqui
tendes a minha mão: obrigado...
O Corsário Negro apertou-lha cordialmente e, apanhando
a espada caída e entregando-lha, respondeu:
- Guardai a vossa arma, senhor; e basta-me a vossa
promessa de que até amanhã não fareis uso dela contra
mim.
- Assim vo-lo prometo, cavaleiro, pela minha honra.
- Agora deixai-vos manietar, sem resistência. Sinto ter
de recorrer a este expediente, mas é indispensável.
- Fazei o que quiserdes.
A um sinal do Corsário Negro, Carmaux aproximou-se do
castelhano e ligou-Lhe os pulsos, depois do que o
entregou ao negro, o qual se apressou a conduzi-lo à sala
superior, onde foi fazer companhia ao sobrinho e ao
notário.
- Oxalá que tenha acabado a procissão - disse Carmaux,
voltando-se para o Corsário Negro.
- Pois eu estou bem persuadido de que, em breve, virá
mais gente importunar-nos - respondeu o capitão. - Todas
estas desaparições misteriosas levantarão em breve graves
suspeitas. Faríamos bem barricando a porta e
preparando-nos para a defesa. Viste se haverá armas de
fogo cá na casa?...
- Encontrei um arcabuz e munições, além de uma velha
alabarda ferrugenta e uma couraça.
- O arcabuz talvez sirva...
O negro tinha voltado, deixando Wan Stiller de guarda
aos prisioneiros. Auxiliado por Carmaux transportou para
o corredor todos os móveis mais pesados, não sem provocar
por parte do pobre notário uma avalanche de protestos.
Caixotes, armários, mesas, tudo foi amontoado de
encontro à porta, de modo a barricá-la completamente.
Mal tinham concluído todos estes preparativos de defesa
quando viram Wan Stiller descer a escada
precipitadamente.
- Comandante - disse ele -, na rua estão agrupados
vários populares que olham para cá.


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- Ah! - exclamou apenas o Corsário Negro, sem que se
Lhe alterasse um só músculo do rosto.
Subiu tranquilamente a escada e abeirou-se da janela
que dominava a rua, ocultando-se por detrás das
persianas.
Wan Stiller dissera a verdade. Umas cinquenta pessoas,
divididas em vários grupos, enchiam a extremidade da rua.
Aqueles burgueses falavam animadamente, apontando para
a casa do notário, enquanto às janelas das casas vizinhas
se viam assomar os inquilinos.
- O que eu temia vai acontecer - murmurou o Corsário
Negro, enrugando a fronte. - Pois bem, se também eu devo
morrer em Maracaíbo é porque estava escrito no livro do
meu destino. Pobres irmãos, que ficam por vingar!...
Carmaux! Vem cá!
O marinheiro, ouvindo chamar, acorreu logo, dizendo:
- Aqui estou, comandante.
- Disseste-me que tinhas encontrado munições...
- Um barril de pólvora...
- Coloca-o no corredor, por detrás da porta, e põe-lhe
uma mecha!
- Cáspite!... Vai a casa pelos ares?
- Sim, se for preciso.
- E os prisioneiros?
- Mal deles se os soldados quiserem prender-nos. Temos
o direito de nos defendermos, e faremos isso sem hesitar.
- Ah!. Ei-los aí... - exclamou Carmaux, que não
despregava os olhos da rua.
- Quem?
- Os soldados, comandante.
- Vai buscar o barril da pólvora e depois vem aqui ter
com Wan Stiller. Não te esqueças do arcabuz.
Na extremidade da rua aparecera um destacamento de
arcabuzeiros comandado por um tenente e seguido de uma
multidão de curiosos.
Os soldados vinham perfeitamente equipados, como se
fossem para a guerra, com espingardas, espada e punhais à
cinta.


79


Ao lado do tenente viu o Corsário Negro um nomem idoso,
de barba branca, armado de espada, e logo suspeitou que
fosse parente do conde ou do noivo.
O destacamento abriu passagem por entre os burgueses
que enchiam a rua e fez alto a dez passos da casa do
notário, dispondo-se numa tríplice linha e preparando as
armas, como se tivessem de romper fogo.
O tenente observou por alguns momentos as janelas,
trocou algumas palavras com o velho que lhe estava
próximo, depois abeirou-se resolutamente da porta e
deixou cair o pesado batente, bradando:
- Em nome do governador, abri!...
- Estão prontos, meus valentes?... - perguntou o
Corsário Negro.
- Estamos, senhor - responderam Carmaux, Wan Stiller e
o negro.
- Vocês ficarão comigo, e tu, meu valoroso africano,
sobe ao andar superior e vê se podes descobrir alguma
trapeira que nos permita fugir pelos telhados.
Dito isto, abriu a janela e perguntou:
- Que desejam?...
O tenente, ao ver aparecer, em vez do notário, aquele
homem de feições arrogantes e largo chapéu preto,
adornado de comprida pluma também preta, ficara imóvel,
atónito.
- Quem sois? - inquiriu o Corsário Negro.
- Eu procuro o notário.
- Respondo por ele, visto que não pode agora mover-se.
- Então abri; é ordem do governador.
- E se eu não quiser?
- Em tal caso não responderia pelas consequências.
Deram-se nesta casa coisas assaz estranhas, meu fidalgo,
e recebi ordem para averiguar o que aconteceu ao senhor
Pedro Conxevio, ao criado, e ao tio, o senhor conde de
Lerma.
- Se tendes empenho em o saber, dir-vos-ei que nesta
casa estão todos vivos e bem-dispostos.
- Dizei-lhes que desçam.
- É impossível - respondeu o Corsário.
- Intimo-vos a obedecer ou mando arrombar a porta.
- Fazei-o; mas advirto-vos de que atrás da porta mandei
colocar um barril de pólvora, e que à primeira tentativa
vossa para a forçar deitarei fogo à mecha e farei voar a
casa com o notário, o senhor Conxevio, o criado e o conde
de Lerma. Agora experimentai!
Ouvindo estas palavras, proferidas com serenidade,
friamente, num tom que não admitia dúvidas sobre a
tremenda ameaça, um frémito de horror sacudira os
soldados e os curiosos; e até alguns se apressaram a
safar-se, com receio de que a casa saltasse imediatamente
pelos ares. Até o tenente havia recuado alguns passos.
O Corsário Negro deixara-se ficar tranquilamente à
janela como se fosse um simples espectador, sem todavia
perder de vista os arcabuzes dos soldados, enquanto que
Carmaux e Wan Stiller, que estavam atrás dele, espiavam
os movimentos dos vizinhos, os quais tinham acudido às
varandas e terraços.
- Mas quem sois vós? - perguntou afinal o tenente.
- Um homem que não quer ser estorvado por quem quer que
seja, e muito menos pelos oficiais do governador -,
respondeu o Corsário Negro.
- Intimo-vos a dizer o vosso nome.
- E eu não estou para isso.
- Obrigar-vos-ei.
- Eu farei voar a casa - replicou o Corsário Negro.
- Mas, estais doido!
- Tão doido como vós.
- Ah, insultais-me?
- Nada disso, meu caro senhor.
- Acabemos com isto!... Basta de brincadeira!
- Ah! Quereis? Pois bem. Carmaux... deita fogo ao
barril de pólvora...


80 81


VIII


UMA FUGA PRODIGIOSA


Perante aquela ordem, um rugido de terror se elevou não só
entre a multidão de curiosos, mas até entre os soldados.
Apavoraram-se sobretudo os vizinhos, e com sobeja razão, pois
que voando a casa do notário, certamente desabariam também as
que eles ocupavam.
Burgueses e soldados apressaram-se a fugir, pondo-se a salvo
na extremidade da rua, enquanto os vizinhos se precipitavam
desvairadamente pelas escadas abaixo, tratando de levar
consigo os objectos mais preciosos. Todos estavam já
convencidos de que aquele homem, um doido na opinião de
alguns, ia pôr em execução a sua ameaça.
Somente o tenente se deixara ficar corajosamente no seu
posto, mas pelos olhares ansiosos que deitava à casa podia
compreender-se que, se estivesse só e não tivesse galões de
comandante, com certeza não permaneceria ali.
- Suspendei, senhor! - bradara ele. - Estais louco?
- Quereis alguma coisa? - perguntou-lhe o Corsário Negro,
com a usual serenidade.
- Digo-vos que não deveis executar o vosso sinistro
projecto.
- Da melhor vontade, contanto que me deixeis em paz.
- Dai liberdade ao Conde de Lerma e aos outros e prometo não
vos incomodar.
- De boamente o farei, se antes aceitardes as minhas
condições.


83


- E quais são?
- Antes de mais nada, fazer retirar a tropa.
- Depois?
- Obter para mim e para os meus companheiros um
salvo-conduto assinado pelo governador, para poder sair da
cidade sem ser incomodado pelos soldados que andam batendo os
campos.
- Mas quem sois para assim precisardes de um salvo-conduto?
- perguntou o tenente, cujo espanto aumentava.
- Um fidalgo de além-mar - respondeu o Corsário Negro, com
nobre altivez.
- Nesse caso não precisais de salvo-conduto para sair da
cidade. Dizei-me o vosso nome.
Neste instante um homem que trazia a cabeça amarrada com um
lenço manchado de sangue em vários pontos e que avançava a
custo, como se tivesse uma perna aleijada, chegou-se ao pé do
tenente.
Carmaux, que se tinha conservado sempre atrás do Corsário
Negro, espiando os soldados, viu-o e logo um grito lhe
irrompeu da garganta.
- Com mil raios! - exclamou.
- Que há, meu bravo? - perguntou o Corsário Negro,
voltando-se rapidamente.
- Vamos ser denunciados, comandante. Aquele homem é um dos
biscainhos que nos assaltaram com as navalhas.
- Ah! - fez o Corsário Negro, erguendo os ombros.
O biscainho, pois que era efectivamente um dos que tinham
presenciado o duelo da taberna e que depois tinham agredido os
corsários com os seus enormes cuchillos, voltou-se para o
tenente, dizendo-lhe:
- Quereis saber quem é aquele fidalgo de chapéu preto não é
verdade?
- Quero - respondeu o tenente. - Conhece-lo?
- Caracoles!... Um dos seus homens foi quem me pôs neste
preparo. Cuidado, senhor tenente, que não vos fuja. É um dos
piratas.


84


Um rugido, desta vez não de pavor, mas sim de cólera,
explodiu de todos os lados, seguido de um tiro e de um grito
de dor.
Carmaux, a um sinal do Corsário Negro, apontara o mosquete e
com uma bala certeira deitara por terra o biscainho.
Era de mais!... Vinte arcabuzes se ergueram para a janela
onde estava o Corsário Negro, ao mesmo tempo que a multidão
clamava desabridamente:
- Matai essa canalha!...
- Não! Não! Prendei-os e enforcai-os na praça!
- Queimai-os vivos!
- - Morram!... Morram!...
O tenente, com um gesto rápido, fizera baixar as espingardas
e adiantando-se para debaixo da janela disse:
- Meu fidalgo, terminou a farsa: rendei-vos.
O Corsário Negro respondeu com um encolher de ombros.
- Não me entendeis? - perguntou o tenente, rubro de cólera.
- Perfeitamente, senhor.
- Rendei-vos ou mando arrombar a porta.
- Pois fazei-o - replicou friamente o Corsário Negro. - Só
vos observo que o barril de pólvora está pronto e que farei
voar a casa juntamente com os prisioneiros.
- Mas também vós ireis pelos ares.
- Embora!... Morrer no meio do fragor das ruínas fumegantes
é preferível à morte ignominiosa que me poderão infligir se eu
me entregar.
- Prometo salvar-vos a vida.
- De que me servem as vossas promessas, se eu sei bem o que
elas valem? São seis horas da tarde, ainda estou sem almoçar.
Enquanto resolveis sobre o que se fará, irei comer alguma
coisa com o conde de Lerma e seu sobrinho e faremos o possível
por beber um cálice à vossa saúde, se antes a casa não for
pelos ares.
Proferida esta ironia pouco tranquilizadora, o Corsário


85


Negro tirou o chapéu, saudando com cortesia, e voltou para o
interior da casa.
- Vinde, meus valentes - disse o Corsário Negro a Carmaux e
Wan Stiller. - Creio que teremos tempo de comer e cavaquear um
pouco.
- E os soldados? - perguntou Carmaux, que não estava menos
admirado do que os espanhóis da presença de espírito e
audácia, absolutamente fenomenais, do comandante.
- Deixá-los gritar à vontade.
- Vamos à ceia da morte, meu capitão!
- Ora adeus!... A nossa última hora está mais longe do que
tu pensas - respondeu o Corsário Negro. - Espera que anoiteça
e verás como o barril da pólvora faz milagres.
Entrou na sala sem dar mais explicações e foi cortar as
cordas que manietavam o conde de Lerma e o mancebo e
convidou-os a sentar-se à mesa, dizendo-Lhes:
- Fazei-me companhia, senhor conde, e também vós, meu rapaz;
mas conto com a vossa palavra de que nada tentareis contra
nós.
- Seria impossível empreender qualquer coisa, cavaleiro -
respondeu o conde, sorrindo. - Nós já sabemos quanto é
perigosa a vossa espada. Então que fazem os meus
compatriotas?... Ouvi uma vozearia ensurdecedora.
- Por enquanto limitam-se a sitiar-nos.
- Sinto dizer-vo-lo, mas receio, cavaleiro, que acabem por
meter a porta dentro.
- E eu julgo o contrário, meu caro conde.
- Nesse caso, sitiar-vos-ão e tarde ou cedo sereis obrigado
a capitular. Viva Deus! Asseguro-vos que me desgostaria ver um
homem tão valoroso e amável como vós nas mãos do governador.
Esse homem não perdoa aos corsários.
- Wan Guld não me apanhará. Preciso viver para saldar umas
contas antigas com esse flamengo.
- Conhecei-lo?
- Conheci-o por meu mal - disse o Corsário Negro, com um
suspiro. - Tem sido um homem funesto para a minha família, e
se me fiz corsário a ele o devo. Mas não falemos mais nisto.
Sempre que penso nele, sinto revolver-me o sangue num ódio
implacável, e torno-me triste como um túmulo. Bebei, conde.
Diz-me, Carmaux, que fazem os espanhóis?
- Estão conferenciando, comandante - respondeu o corsário,
que regressava da janela. - Parece que não se resolvem a
atacar-nos.
- Farão isso mais tarde, mas talvez nós aqui não estejamos.
O negro está de atalaia?
- Está no sótão.
- Wan Stiller, leva de beber a esse homem.
Dito isto, o Corsário Negro ficou como imerso em profundas
cogitações, continuando todavia a comer.
A ceia terminou sem que fosse interrompida. Parecia que os
soldados, apesar de enfurecidos e ansiosos por enforcar ou
queimar em vida os corsários, não sabiam tomar uma
deliberação.
Não lhes faltava já coragem, muito ao contrário, nem
tão-pouco os apavorava o barril da pólvora, importando-lhes
pouco que a casa fosse pelos ares; temiam pelo conde de Lerma
e pelo sobrinho, pessoas a quem a todo o custo queriam salvar.
Já tinha anoitecido quando Carmaux avisou o Corsário Negro
de que um destacamento de arcabuzeiros, reforçado por uns doze
alabardeiros, acabava de chegar, postando-se à entrada da rua.
- Quer dizer que se preparam para empreender alguma coisa -
respondeu o Corsário. - Chama o negro.
Passado um momento, o africano estava diante do comandante.
- Examinaste o sótão?
- Examinei, patrão.
- Há alguma trapeira?
- Não, mas arrombei uma parte do telhado, por onde podemos
passar.


86 87


- Não há lá inimigos perto?
- Nem um, patrão.
- Sabes onde podemos descer?
- Sei e não é longe.
Nisto ecoou na rua uma formidável descarga, que fez
estremecer as vidraças. Algumas balas, atravessando as
persianas, penetraram na casa, cravando-se nas paredes e
esburacando os tectos das salas.
O Corsário Negro dera um pulo, desembainhando rapidamente a
espada. Aquele homem, alguns momentos antes tão sereno, ao
sentir o cheiro da pólvora tinha-se transfigurado. Os olhos
chamejavam e nas faces pálidas aparecera inopinadamente um
ligeiro rubor.
- Ah, começamos?! - exclamou, em tom escarninho.
Depois, voltando-se para o conde e para o mancebo,
continuou:
- Prometo salvar-vos a vida e, aconteça o que acontecer,
cumprirei a minha palavra; mas deveis obedecer-me e jurar-me
que não vos rebelareis.
- Falai, cavaleiro - disse o conde. - Lastimo que os
assaltantes sejam meus compatriotas; se não o fossem,
asseguro-vos que de boa vontade combateria a vosso lado.
- Deveis seguir-me, se não quereis ir pelos ares.
- Vai desabar a casa?
- Em poucos momentos não estará de pé uma só parede.
- Quereis arruinar-me? - gritou o notário.
- Caluda, forreta! - bradou Carmaux, que estava desligando o
pobre homem. - Salva-se a vida e ainda não estais contente?
- Mas a casa é minha e não a quero perder.
- O governador que vos indemnize depois.
Segunda descarga reboou na rua e algumas balas atravessaram
a sala, despedaçando a lâmpada que havia no meio.
- Avante, homens do mar! - trovejou o Corsário Negro. -
Carmaux, vai deitar fogo ao rastilho!...
- Pronto, comandante.


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- Repara que a bomba não rebente antes de nós termos saído
da casa.
- O rastilho é comprido, senhor - respondeu Carmaux,
descendo precipitadamente a escada.
O Corsário Negro, seguido pelos quatro prisioneiros, por Wan
Stiller e pelo africano, subiu ao sótão, enquanto os
arcabuzeiros repetiam as suas descargas, apontando
principalmente às janelas e intimando em grandes brados à
capitulação.
Chegados ao sótão, o africano mostrou ao Corsário Negro uma
larga abertura que dava para o telhado e que ele tinha feito.
- Avante! - ordenou o Corsário Negro.
Meteu por um momento a espada na bainha, agarrou-se aos
bordos da abertura e num instante saltou para cima do telhado,
lançando em volta um rápido olhar investigador.
Descobriu logo, além de uns três ou quatro telhados, altas
palmeiras, uma das quais se encostava quase a uma parede,
estendendo as suas esplêndidas e gigantescas folhas sobre as
telhas.
- É por ali que havemos de descer? - perguntou ao negro,
que chegara ao pé dele.
- É, patrão.
- E poderemos sair daquele jardim?
- Assim o espero.
O conde de Lerma, seu sobrinho, o criado e o notário,
levantados nos robustos braços de Wan Stiller, já estavam
sobre o telhado, quando apareceu Carmaux, dizendo:
- Aviemo-nos, senhor, depressa; dentro de dois minutos
desfazer-se-á a casa debaixo dos nossos pés.
- Estou arruinado! - choramingou o notário. - Quem me
indemnizará depois do...
Wan Stiller cortou-lhe a palavra, empurrando-o rudemente.
- Para a frente, se não quereis ir também pelos ares! -
disse-lhe.


89


O Corsário Negro, certificando-se de que não havia
inimigos à vista, já tinha passado para outro telhado,
seguindo-se-lhe logo o conde de Lerma e o sobrinho.
As descargas sucediam-se então umas às outras e grandes
nuvens de fumo se erguiam da rua, espalhando-se
lentamente sobre os telhados.
Os corsários, arrastando consigo o notário, que já não
podia ter-se nas pernas, tal era o medo, chegaram em
poucos momentos, passando de um para outro telhado, à
beira da última casa, ao pé da palmeira.
Em baixo estendia-se vasto jardim, cercado por um muro
elevado, e que parecia prolongar-se em direcção ao campo.
- Conheço este jardim - disse o conde. - Pertence ao
meu amigo Morales.
- Espero que não nos traireis - disse o Corsário Negro.
- Ao contrário, cavaleiro. Ainda não esqueci que vos
devo a vida.
- É preciso descer já - disse Carmaux. - A explosão
pode atirar-nos daqui abaixo.
Mal tinha proferido estas palavras quando se viu um
clarão gigantesco, imediatamente seguido de horrível
fragor. Os corsários e os seus companheiros sentiram
estremecer debaixo dos pés o telhado; depois caíram uns
sobre os outros, enquanto em volta deles choviam pedaços
de caliça, fragmentos de mobília e pedaços de pano
ardendo.
Uma nuvem de fumo estendeu-se sobre os telhados,
ofuscando tudo por alguns momentos, enquanto para o lado
da rua se ouviam desabar paredes e pavimentos, entre
rugidos de terror e imprecações.
- Com mil raios! - exclamou Carmaux, que tinha sido
arremessado até ao beiral. - Mais um metro adiante e ia
malhar com os ossos no jardim, como um saco de trapos.
O Corsário Negro erguera-se rapidamente, cambaleando no
meio do fumo que o envolvia.
- Estão todos vivos? - perguntou.
- Creio que sim - respondeu Wan Stiller.


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- Mas... está aqui alguém que não se mexe - disse o
conde. - Terá sido morto por algum estilhaço?
- É este poltrão do notário - respondeu Wan Stiller. -
Mas sossegai, que apenas está desmaiado com o susto.
- Deixemo-lo ficar - disse Carmaux. - Que se arranje
como puder, se a dor de ter perdido a choupana o não
fizer morrer.
- Não - objectou o Corsário Negro. - Vejo erguer
labaredas por entre o fumo e se o deixássemos aqui
correria o risco de morrer assado. A explosão incendiou
as casas vizinhas.
- É verdade - confirmou o conde. - Vejo uma casa a
arder.
- Aproveitemos a confusão para nos evadirmos, amigos -
disse o Corsário Negro. - Tu, Moko, encarregas-te do
notário.
Aproximou-se do beiral, agarrou-se ao tronco da
palmeira e deixou-se cair no jardim, seguido logo por
todos os outros.
Ia meter por uma rua que ia dar ao muro quando viu
alguns homens, armados de arcabuzes, irromperem de um
maciço de plantas, bradando:
- Alto, ou fazemos fogo!...
O Corsário Negro arrancara da espada com a mão direita
enquanto na esquerda empunhava uma pistola, resolvido a
abrir passagem; o conde deteve-o com um gesto, dizendo:
- Deixai-me proceder a mim, cavaleiro.
Depois, adiantando-se para os homens, acrescentou:
- Então já aqui se não conhece o amigo de vosso amo?
- O senhor conde de Lerma!... - exclamaram os homens.
atónitos.
- Abaixo as armas ou queixar-me-ei a vosso amo.
- Perdoai, senhor conde - disse um dos criados, - mas
ignorávamos com quem tínhamos de haver-nos. Ouvimos uma
detonação e sabendo que, nas vizinhanças, os soldados
faziam cerco a uns corsários, corremos para aqui, a fim
de impedir a fuga desses perigosos bandidos.

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- Os corsários já fugiram; podeis, portanto,
retirar-vos. Há alguma porta no muro?
- Há, senhor conde.
- Queira abri-la para mim e os meus amigos, e não vos
ocupeis de mais nada.
O que falara despediu com um gesto os homens armados,
depois dirigiu-se para uma rua lateral e chegado a um
portão de ferro, abriu-o.
Os três corsários e o negro saíram, precedidos do conde
e do sobrinho. O criado, que segurava nos braços o
notário ainda desmaiado, parou junto à saída do jardim e
depositou-o no chão.
O conde acompanhou os corsários até à distância de uns
duzentos passos, metendo por uma viela erma e ladeada
apenas de muros; e depois disse:
- Cavaleiro, vós salvastes-me a vida; tenho imensa
satisfação em prestar-vos também este pequeno serviço.
Homens valorosos como vós não devem morrer na forca, e
asseguro-vos que o governador não vos pouparia, se
pudesse deitar-vos a mão. Segui por essa viela que vai
direita ao campo e voltai para bordo do vosso navio.
- Obrigado, senhor conde - respondeu simplesmente o
Corsário Negro.
Os dois fidalgos apertaram a mão cordialmente e
separaram-se, cortejando-se.
Dez minutos depois, sem terem sido embaraçados, estavam
os corsários fora da cidade, na orla da floresta, no meio
da qual se situava a cabana do encantador de serpentes.
Bastaram vinte minutos para transpor a distância que os
separava da cabana. Já estavam a poucos passos quando
lhes chegou aos ouvidos um gemido.
O Corsário Negro parara, procurando distinguir alguma
coisa no meio da profunda obscuridade projectada pelas
altas e espessas plantas.
- Com mil raios! - exclamou Carmaux. - É o prisioneiro
que deixámos amarrado ao tronco da árvore. Já não me
lembrava dele!


92 93


- É verdade! - murmurou o Corsário Negro.
Aproximou-se da cabana e avistou o espanhol ainda
amarrado.
- Querem matar-me à fome? - perguntou o desgraçado. -
Antes me enforquem já.
- Não apareceu por aqui ninguém? - perguntou o Corsário
Negro.
- Não vi mais do que vampiros, senhor.
- Vai buscar o cadáver de meu irmão - disse o Corsário
Negro, voltando-se para o africano.
Depois, aproximando-se do soldado, que começava a
tremer, temendo que tivesse chegado a sua última hora,
libertou-o das cordas que o aprisionavam, dizendo com voz
cava:
- Eu podia vingar em ti, antes de qualquer outro, a
morte daquele a quem irei sepultar no fundo do oceano e a
de seus desventurados companheiros que ainda estão
suspensos na praça daquela cidade maldita; mas prometi
perdoar-te, e o Corsário Negro nunca faltou à sua
palavra. Estás livre, mas hás-de jurar-me que, apenas
chegues a Maracaíbo, irás ter com o governador e
dizer-lhe, da minha parte, que eu, esta noite, perante os
meus homens enfileirados no convés do Relâmpago, e
perante o cadáver daquele que foi o Corsário Vermelho,
proferirei um juramento que deve fazê-lo tremer. Ele
matou os meus dois irmãos e eu hei-de aniquilá-lo a ele e
a quantos tenham o nome de Wan Guld. Dir-lhe-ás que jurei
pelo mar, por Deus, pelo inferno, e que em breve nos
encontraremos.
Depois, agarrando o espanhol, que ficara apavorado, e
dando-lhe um empurrão, acrescentou:
- Vai, e não te voltes, porque podia arrepender-me de
te poupar a vida.
- Obrigado, senhor - disse o espanhol, fugindo com medo
de não sair vivo da floresta.


94 95

IX


JURAMENTO TERRÍVEL


Aqueles homens, guiados pelo africano, que conhecia a
palmo todos os meandros da floresta, estugaram o passo,
para alcançar breve a margem do golfo e chegar ao largo
antes que rompesse a manhã.
Iam inquietos pelo navio que devia andar pairando à
entrada do golfo, pois pelo prisioneiro tinham sabido que
o governador de Maracaíbo mandara mensageiros a Gibraltar
pedir auxílio ao almirante Toledo.
Temiam os corsários que os navios do almirante Toledo,
formando uma verdadeira esquadra, tripulada por algumas
centenas de valorosos marinheiros, na máxima parte
biscainhos, viessem atacar o Relâmpago e destruí-lo.
O Corsário Negro falava, mas denunciava a sua
inquietação. De quando em quando fazia sinal aos
companheiros para que apurassem o ouvido, receando
perceber alguma detonação longínqua; depois acelerava o
passo, quase deitando a correr.
Felizmente, o africano conhecia o bosque e fazia-os
seguir atalhos que permitiam ganhar terreno.
Às duas da manhã, Carmaux, que caminhava adiante do
negro, ouviu um ruído distante que indicava a proximidade
do mar.
- Se tudo correr bem, daqui a duas horas estaremos a
bordo do nosso navio, senhor, - disse ao Corsário Negro.


97


Este fez um gesto afirmativo, mas não respondeu.
Carmaux não se tinha enganado. O quebrar das ondas
distinguia-se cada vez melhor e ouviam-se também de
quando em quando os gritos das bernacas, espécie de
gansos bravos muito matinais, de dorso variegado e cabeça
branca, que se banhavam nas águas do golfo.
O Corsário Negro fez sinal para caminharem depressa
mais alguns minutos, e pouco depois chegavam à praia.
O céu estava coberto pelas névoas que se erguiam dos
enormes charcos que cercavam a enseada, pelo que a
escuridão era profunda, mas o mar mostrava-se aqui e além
interrompido como por linhas de fogo que se cruzavam em
todas as direcções.
Parecia que as cristas das ondas expeliam centelhas, e
a espuma que se estendia na praia, em forma de franja,
via-se semeada de soberbos fulgores fosforescentes.
Em certos momentos, amplos tratos de mar, pouco antes
negros, como se fossem de tinta, iluminavam-se
abruptamente, como se uma lâmpada eléctrica de grande
poder se acendesse no fundo do mar.
- A fosforescência! - exclamou Wan Stiller.
- Os diabos a levem! - disse Carmaux. - Dir-se-ia que
os peixes se fizeram com os espanhóis para nos impedir de
ganhar o mar largo.
- Não - replicou Wan Stiller em tom misterioso,
apontando para o cadáver que o negro transportava. - As
ondas iluminam-se para receber o cadáver do Corsário
Vermelho.
- É verdade! - murmurou Carmaux.
Entretanto, o Corsário Negro deitava um olhar
investigador pelo mar fora, a fim de verificar, antes de
se meter no barco, se a esquadra do almirante navegava
naquelas águas.
Não lobrigando nada, olhou para o norte, e no oceano
flamejante distinguiu uma grande mancha negra, que se
destacava nitidamente em meio à fosforescência.
- Ali está o Relâmpago - disse. - Tragam o bote e
deitemo-nos ao largo.
Carmaux e Wan Stiller, ignorando em que ponto da praia
estavam, orientaram-se o melhor que puderam, e depois
afastaram-se apressadamente, subindo a costa para o
norte.
Percorrido um quilómetro conseguiram descobrir o barco,
que na maré baixa tinham deixado no meio das plantas.
Embarcaram lestamente e remaram para o lugar onde os
esperavam o capitão e o negro.
Colocaram o cadáver, envolto num manto preto, entre os
dois bancos, tapando-lhe o rosto, e depois deitaram ao
largo remando vigorosamente.
O negro sentara-se à proa, segurando entre os joelhos a
espingarda do prisioneiro espanhol, e o Corsário Negro
sentara-se à popa, em frente do cadáver do enforcado.
Caíra de novo na sua lúgubre melancolia. Com a cabeça
agarrada entre as mãos e os cotovelos apoiados nos
joelhos, não despregava um só momento os olhos de cima do
cadáver, cujas formas se desenhavam sob o fúnebre manto.
Imerso nos seus tristes pensamentos, parecia ter
esquecido tudo.
No entanto, o barco deslizava velozmente sobre as
ondas, distanciando-se cada vez mais da praia.
Já não estava a mais de milha e meia do navio, que
vinha ao seu encontro navegando a pequenos bordos, quando
um ruído estranho, que parecia um gemido agudo terminando
em lúgubre soluço, lhes chegou aos ouvidos.
Pararam de remar, lançando em volta olhares apavorados.
- Ouviste? - perguntou Wan Stiller, que sentia
percorrer-lhe o corpo um suor frio.
- Ouvi - respondeu Carmaux com voz trémula.
- Seria algum peixe?
- Nunca ouvi peixe algum soltar um grito assim.
- Que queres então que fosse?
- Não sei; o que te digo é que me causou uma grande
impressão.
- Seria o irmão do morto?
- Silêncio, camarada!


98 99


Contemplavam ambos o Corsário Negro, mas este parecia
nada ter ouvido, porque continuava imóvel, com a cabeça
agarrada nas mãos e os olhos fitos no cadáver do irmão.
- Vamos, e que Deus nos ampare - murmurou Carmaux,
acenando a Wan Stiller para que tomasse novamente os
remos.
Depois, inclinando-se para o negro, perguntou-lhe:
- Ouviste um grito, compadre?
- Ouvi - respondeu o africano.
- Que achas que fosse?
- Talvez um peixe-boi.
- Hum! - regougou Carmaux. - Seria um peixe-boi, seria,
mas...
Interrompeu-se abruptamente, empalidecendo.
Precisamente naquele instante, atrás da popa do bote,
em meio de um círculo de espuma luminosa, aparecera um
vulto escuro mas impreciso, mergulhando logo nos abismos
do golfo.
- Viste? - perguntou a Wan Stiller, sobressaltadíssimo.
- Vi - respondeu este, a tremer.
- Uma cabeça, não é verdade?
- Sim, Carmaux.
- De um cadáver.
- É o Corsário Verde que nos segue para receber o
Corsário Vermelho.
- Fazes-me medo, Carmaux.
- E o Corsário Negro não viu nem ouviu nada?
- É o irmão dos dois mortos.
- E tu, compadre, não viste nada?
- Vi, sim, uma cabeça - replicou o africano.
- De quem?
- De um peixe-boi.
- Os diabos te levem e mais aos peixes-boi - respondeu
Carmaux.
- Era a cabeça de um cadáver, adulto, sem olhos.
Naquele momento, uma voz que partia do navio ecoou no
mar.


100


- Eh! Eh! Ó do barco! Quem vive?
- O Corsário Negro! - rugiu Carmaux.
- Atraca!
O Relâmpago avançava rapidamente, como uma andorinha do
mar, cortando as águas fulgurantes com o seu agudo
esporão.
Ao longo das amuradas viam-se enfileirados, imóveis
como estátuas, os corsários que constituíam a tripulação,
todos armados de espingardas, e no castelo da popa, atrás
de dois canhões de corso, distinguiam-se os artilheiros
empunhando as mechas acesas, enquanto no alto do mastro
de mezena flutuava a grande bandeira escura do Corsário
Negro, com duas letras de ouro estranhamente cruzadas por
um adorno inexplicável.
O escaler abordou a bombordo, e foi amarrado com um
cabo que os marinheiros lhe deitaram do convés.
Seguidamente foram arriados mais dois cabos, amarrados
aos bancos do escaler e este içado para bordo, com a
gente que o tripulava.
Quando o Corsário Negro ouviu a quilha bater no convés
do navio, pareceu despertar dos seus lúgubres
pensamentos.
Olhou em volta, como se ficasse admirado de se
encontrar a bordo do navio, depois curvou-se sobre o
cadáver, tomou-o nos braços e depô-lo ao pé do mastro
grande.
Toda a tripulação, formada ao longo das amuradas, se
descobriu ao ver o cadáver.
Morgan, o imediato, viera ao encontro do Corsário
Negro.
- Estou às suas ordens, senhor - disse.
- Faz o que sabes - respondeu este, meneando
tristemente a cabeça.
Atravessou lentamente o convés, subiu ao castelo de
comando e ali se postou, de braços cruzados, imóvel como
uma estátua.
Subitamente retiniu no quadro da popa um toque de
sineta.
Toda a tripulação ajoelhara, enquanto o mestre,
auxiliado por três marinheiros, levantava o cadáver do


101


pobre Corsário Vermelho, depondo-o na amurada de
bombordo.
Um fúnebre silêncio reinava então no convés do navio,
que ficara imóvel nas águas luminosas: até o mar estava
emudecido. Todos os olhos se tinham fixado no Corsário
Negro, cujo vulto se destacava na linha cinzenta do
horizonte.
Parecia que naquele momento o formidável pirata do
grande golfo havia assumido proporções gigantescas.
Erecto no castelo de comando, com a negra pluma flutuando
à viração matutina, com um braço estendido para o cadáver
do Corsário Vermelho, parecia estar ali para proferir
alguma terrível ameaça.
A sua voz forte e metálica rompeu bruscamente o
silêncio tenebroso que reinava a bordo do navio.
- Homens do mar! - clamou. - Escutai!... Eu juro por
Deus, sobre estas ondas que nos são fiéis companheiras,
pela minha alma, que nenhum bem sentirei na terra
enquanto não tiver vingado meus irmãos assassinados por
Wan Guld. Que os raios arrasem o meu navio; que as ondas
me engulam convosco, que os dois corsários que estão
sepultados nestas águas, nos abismos do grande golfo, me
amaldiçoem; que a minha alma seja eternamente maldita, se
eu não matar Wan Guld e não exterminar toda a sua família
como ele destruiu a minha!... Homens do mar!...
Ouvistes-me?
- Sim - responderam os corsários, enquanto um frémito
de horror perpassava pelos seus rostos.
O Corsário Negro tinha-se curvado sobre o varandim e
fitava as ondas luminosas.
- À água o cadáver!... - bradou com voz cava.
O mestre da tripulação e os três marinheiros ergueram o
fúnebre fardo e deixaram-no cair.
O cadáver do corsário mergulhou nas ondas, levantando
grandes flocos de espuma fosforescente.
Todos os corsários se tinham debruçado na amurada.
Naquele instante, lá ao longe, ainda se ouviu ecoar o
grito misterioso que tanto havia apavorado Carmaux e Wan
Stiller.


102


Os dois corsários, que estavam ao pé do castelo de
comando entreolharam-se, lívidos como lençóis.
- É o grito do Corsário Verde que anuncia a chegada do
Corsário Vermelho - murmurou Carmaux.
- E - respondeu Wan Stiller com voz sufocada. -
Encontraram-se os dois irmãos no fundo do mar.
A vibração de um apito cortou esta conversa.
- Manobra a bombordo - comandava o mestre -, Leme a
estibordo!
O Relâmpago virara de bordo e circulava entre as
ilhotas, fugindo para o grande golfo, cujas águas se
douravam sob os primeiros raios do Sol.


103


X


A BORDO Do RELÂMPAgO


O Corsário Negro, tendo saído do meio das ilhotas e
transposto o longo promontório formado pelos últimos
contrafortes da serra de Santa Maria, lançara-se nas
águas do mar das Caraíbas, navegando para o norte, ou
seja, na direcção das Grandes Antilhas. O mar estava
calmo, apenas levemente encrespado pela brisa da manhã.
Não se via navio algum. Os homens de sentinela, que
ficaram no convés, bem observavam, mas nenhuma embarcação
se via passar no horizonte.
O receio de encontrar os terríveis piratas das
Tartarugas retinha os navios espanhóis dentro dos portos
de Caracas, de Iucatão, da Venezuela e das Grandes
Antilhas, enquanto não se encontrassem em número para
formar uma esquadra.
Apenas os navios bem armados e equipados por numerosas
tripulações ousavam ainda atravessar o mar das Caraíbas
ou o golfo do México, sabendo como sabiam, por
experiência, quanta era a audácia daqueles intrépidos
piratas que tinham desfraldado a sua bandeira na ilha das
Tartarugas.
Durante aquele primeiro dia nada sucedera a bordo do
Relâmpago, depois de terem sepultado o pobre Corsário
Vermelho.
O comandante não comparecera no convés nem no
tombadilho, deixando a direcção das manobras ao imediato.
Fechara-se no seu beliche, e ninguém tivera mais notícias
dele, nem mesmo Carmaux e Wan Stiller.


105


Sabia-se, todavia, que levara consigo o africano, ou
assim o suspeitavam, pois que nem o negro se avistava,
nem se encontrava nalgum recanto do navio nem na estiva.
O que estariam fazendo no beliche, fechados à chave,
ninguém o poderia dizer, nem mesmo o imediato, porque
Carmaux, que quisera interrogá-lo, recebera como resposta
um repelão, acompanhado de um gesto quase ameaçador, que
queria dizer: "Não indagues do que não é da tua conta, se
tens amor à vida".
Caída a noite, enquanto o Relâmpago colhia parte do seu
velame por causa dos golpes repentinos do vento, que
naquelas paragens quase sempre ocasionam desgraças,
Carmaux e Wan Stiller viram finalmente assomar na
escotilha da proa a cabeça lãzuda do africano.
- Lá vem o compadre! - exclamou Carmaux. - Ora sempre
vamos saber se o patrão ainda está a bordo ou se foi
conferenciar com os irmãos no fundo do mar. Aquele homem
fúnebre é bem capaz disso.
- Estou por essa - disse Wan Stiller, sempre
supersticioso. - Eu tenho-o mais por um espírito do mar
do que por um homem de carne e osso como nós.
- Oh!, compadre! - disse Carmaux, ao negro. - Já era
tempo de vires cumprimentar o compadre branco.
- Foi o patrão que me reteve - respondeu o africano.
- Há então grandes novidades? Que faz o comandante?
- Está mais triste do que nunca.
- Nunca o vi alegre, nem na Tartaruga; nunca o vi rir.
- Não se fartou de falar dos irmãos e de tremendas
vinganças.
- Que cumprirá, compadre. O Corsário Negro é um homem
que executará à risca o seu terrível juramento e eu não
queria encontrar-me nos lençóis do governador de
Maracaíbo e de todos os seus parentes. Wan Guld deve
sentir um ódio implacável contra o Corsário Negro, mas
este ser-lhe-á fatal.
- E conhece-se o motivo desse ódio, compadre branco?


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- Diz-se que é muito antigo e que Wan Guld tinha jurado
vingar-se dos três corsários antes de ter vindo para a
América e ter oferecido os seus serviços à Espanha.
- Quando estava na Europa?
- Sim.
- Ter-se-iam então conhecido antes?
- Assim se diz, pois que enquanto Wan Guld se fazia
nomear governador de Maracaíbo compareciam em frente da
ilha das Tartarugas três grandes naus, comandadas pelo
Corsário Negro, pelo Vermelho e pelo Verde. Eram três
corsários, três belos homens, corajosos como leões e
marinheiros audazes e intrépidos. O Corsário Verde era o
mais novo e o Negro o mais idoso, mas em valor nenhum era
inferior ao outro e no manejo das armas não tinham rivais
entre todos os corsários das Tartarugas. Esses três
marinheiros deviam em breve fazer tremer os espanhóis em
todo o golfo do México. Eram sem conta os navios por eles
saqueados e as cidades expugnadas: ninguém podia resistir
às suas três naus, as mais belas, mais velozes e melhor
armadas de toda a pirataria.
- Faço ideia - respondeu o africano. - Basta ver este
navio.
- Mas vieram para eles tristes dias - prosseguiu
Carmaux. - O Corsário Verde, tendo partido na sua nau
para paragens desconhecidas, caía em meio de uma esquadra
espanhola, era vencido numa luta titânica, preso,
conduzido a Maracaíbo e enforcado por Wan Guld.
- Lembro-me disso - interrompeu o negro. - Mas o
cadáver não foi lançado às feras.
- Não, porque o Corsário Negro, acompanhado por alguns
fiéis, conseguiu entrar de noite em Maracaíbo e roubá-lo
para o sepultar no mar.
- Sim, soube-se isso depois. Diz-se que Wan Guld,
exasperado por não prender também o irmão, mandou fuzilar
as quatro sentinelas incumbidas de velar pelos enforcados
da Praça de Granada.


107


- Agora chegou a vez ao Corsário Vermelho e também este
foi sepultado nos abismos do mar das Caraíbas; mas o
terceiro irmão é o mais temível e acabará por exterminar
todos os Wan Guld da terra.
- Irá breve a Maracaíbo, compadre. Pediu-me todas as
informações para dirigir contra a cidade uma imensa
frota.
- Pedro Nau, o terrível Olonês, ainda está nas
Tartarugas e é amigo do Corsário Negro. Quem poderia
resistir a estes dois homens? Demais...
Interrompeu-se e, tocando no negro e em Wan Stiller,
que lhe estava à ilharga, escutando em silêncio, disse:
- Vede-o!... Não faz medo aquele homem? Parece o deus
dos mares!
O corsário e o africano tinham dirigido o olhar para o
tombadilho.
O Corsário Negro estava lá, vestido de preto como
sempre, com o seu largo chapéu caído para a testa e a
grande pluma flutuando.
De cabeça inclinada para o peito, braços cruzados,
passeava lentamente pelo tombadilho, sozinho e sem
produzir o menor ruído.
Morgan, o imediato, velava na extremidade do
tombadilho, mas não ousou interrogar o seu capitão.
- Parece um espectro - murmurou baixo Wan Stiller.
- E Morgan não representaria mal de seu companheiro -
disse Carmaux. - Se um é funéreo como a morte, o outro
não é mais alegre. Encontraram-se ambos. Oh!...
Um grito ecoara nas trevas. Descia do alto da gávea do
mastro grande, onde se distinguia vagamente uma forma
humana.
Aquela voz tinha bradado duas vezes:
- Navio ao largo, a sotavento!
O Corsário Negro interrompeu o passeio. Ficou por
momentos olhando, imóvel, para sotavento, mas
encontrando-se tanto em baixo não podia lobrigar um navio
que estava a seis ou sete milhas de distância.


108


Voltou-se para Morgan, que também se debruçara na
amurada, dizendo-lhe:
- Manda apagar os faróis.
Os marinheiros da proa, recebida a ordem, apressaram-se
a cobrir os dois grandes faróis acesos, um a bombordo e
outro a estibordo.
- Gajeiro! - bradou o Corsário Negro, mal a escuridão
foi completa a bordo. - Onde navega esse barco?
- Para o sul, comandante.
- Na costa da Venezuela?
- Creio que sim.
- A que distância?
- Cinco ou seis milhas.
O Corsário Negro debruçou-se no varandim e lançou esta
ordem:
- Homens à coberta!
Em menos de meio minuto os cento e vinte corsários que
constituíam a tripulação do Relâmpago estavam a postos.
Aqueles piratas, reunidos no golfo do México, vindos de
todas as partes da Europa e recrutados entre a ínfima
canalha dos portos do mar da França, Itália, Holanda,
Alemanha e Inglaterra, dados a todos os vícios, mas
descuidosos da morte e capazes dos maiores heroísmos e
das mais incríveis audácias, nas naus corsárias
tornavam-se mais submissos do que cordeiros, até se
transformarem em tigres no combate.
Bem sabiam que o seu comandante não deixaria impune
qualquer negligência e que a mais leve indisciplina seria
castigada com um tiro de pistola na cabeça ou pelo menos
com o abandono em alguma ilha deserta.
Quando o Corsário Negro viu todos os seus homens a
postos, observando-os quase um a um, voltou-se para
Morgan, o qual esperava ordens:
- Achas que aquele navio será...? - perguntou-Lhe.
- Espanhol, senhor - respondeu logo o imediato.
- Espanhóis! - exclamou o Corsário Negro com voz (
cava.


109


- Será uma noite fatal para eles, e muitos não chegarão a
ver o sol de amanhã.
- Assaltaremos aquele navio esta noite, senhor?
- Sim, metê-lo-emos a pique. No fundo do mar dormem
meus irmãos, mas não dormirão sós.
- Pois seja, se assim o desejais, senhor.
Saltou para cima da amurada, segurando-se a um pateraz,
e olhou para sotavento.
Em meio das trevas que cobriam o mar rumorejante, dois
pontos luminosos, que não podiam ser confundidos com as
estrelas que cintilavam no horizonte, corriam quase à
flor da água.
- Estão a quatro milhas - disse.
- E continuam a seguir para o sul? - perguntou o
Corsário Negro.
- Para Maracaíbo.
- O mal é deles. Dai ordem para virar de bordo e cortar
o rumo àquele navio.
- E depois?
- Mandareis vir para o tombadilho cem granadas de mão,
e mandareis assegurar tudo nas coxias e nos beliches.
- Meteremos a pique o espanhol?
- Meteremos, se puder ser.
- Perderemos os prisioneiros?
- Que me importam a mim os prisioneiros?
- Mas o navio pode levar riquezas.
- Na minha pátria ainda tenho castelos e valiosas
propriedades.
- Falava pelos nossos homens.
- Para eles tenho eu oiro. Mandai virar de bordo.
À primeira ordem ouviu-se silvar a bordo do navio o
apito do mestre. Os homens da manobra, com uma rapidez
fulmínea e com perfeita concordância, largaram as velas
enquanto o timoneiro tomava o braço do leme.
O Corsário Negro e Morgan não tinham deixado o
tombadilho. Apoiados na travessa do varandim, um ao lado
do outro, não perdiam de vista os dois pontos luminosos
que sulcavam as trevas a menos de três milhas de
distância.
Carmaux, Wan Stiller e o negro, todos três à proa, no
castelo, conversavam baixo, observando ora o navio
desconhecido que continuava tranquilamente a sua rota,
ora o Corsário Negro.
- Má noite para aquela gente - dizia Carmaux. - Receio
bem que o comandante, com aquele rancor que tem no
coração, não deixe vivo um só espanhol.
- Mas está-me parecendo que aquela nau é de alto bordo
- observou Wan Stiller, que media a altura dos faróis
pela distância da água. - Oxalá não seja uma nau de linha
que vá juntar-se à esquadra do almirante Toledo.
- Ora adeus!. . Não é coisa que assuste o Corsário
Negro. Ainda não houve navio que resistisse ao seu
Relâmpago, e, além disso, ouvi o comandante falar de o
meter a Pique.
- Caluda!
A voz do Corsário Negro rompera subitamente o silêncio.
- Homens da manobra!... Largai cutelos!
Os gajeiros desdobraram imediatamente as velas
suplementares das gáveas e joanetes.
- A todo o pano! - exclamou Carmaux. - Parece que o
espanhol navega com toda a velocidade, para assim obrigar
o Relâmpago a largar cutelos e varredouras!
- Se eu te digo que temos de haver-nos com uma nau de
alto bordo - repetiu Wan Stiller. - Olha como tem a
mastreação?
- Tanto melhor! Teremos bom fogo de parte a parte.
Naquele momento uma voz robusta ecoou no mar. Vinha do
navio inimigo e o vento trouxera-a até bordo do navio
corsário.
- Olá!.. Navio suspeito a bombordo!
No tombadilho do navio corsário viu-se o Corsário Negro
inclinar-se para Morgan, como se lhe dissesse alguma
coisa em segredo, e depois afastar-se, bradando:


110 111


- Vou tomar o leme!... Homens do mar, avante!
Os dois navios distavam um do outro apenas uma milha,
mas ambos deviam ser dotados de extraordinária
velocidade, porque a distância não parecia diminuir.
Decorrera meia hora quando, no navio que se julgava ser
espanhol, se viu um clarão iluminar fugazmente o convés e
parte da mastreação, e logo uma fragorosa detonação ecoou
sobre as negras vagas, perdendo-se nos horizontes
longínquos, com um estampido cavo e prolongado.
Um momento depois, um sibilo bem conhecido dos
corsários ouviu-se no ar, e logo um enorme jacto de água
se levantou a vinte braças da proa do navio corsário.
Nenhuma voz se ergueu entre a tripulação. Apenas um
sorriso desdenhoso aflorou aos lábios do Corsário Negro,
ante aquele primeiro emissário da morte.
O navio inimigo, depois daquele primeiro tiro de
canhão, que significava um convite ameaçador para não o
seguir mais, tomou resolutamente o rumo do golfo de
Maracaíbo.
O Corsário Negro, dando por aquela nova direcção,
voltou-se para Morgan, que estava encostado à amurada, e
disse:
- À proa!
- Começa o fogo?
- Ainda não; está muito escuro. Preparai tudo para a
abordagem.
- Abordamos?
- Veremos.
Morgan desceu do tombadilho, chamou o mestre e
dirigiu-se para a proa, onde quarenta homens estavam
formados no castelo com as machadas de abordagem ao seu
alcance e as espingardas em punho.
- A pé! - Comandou.
A esta e outras ordens incisivas,os quarenta homens da
proa puseram-se à manobra silenciosamente, sem confusão,
sob a vigilância do imediato.


112 113


Aqueles homens, se temiam o Corsário Negro, não tinham
menos medo de Morgan, tão audaz como o chefe, corajoso e
decidido a tudo.
Morgan, inglês de nação, tinha chegado recentemente à
América, mas desde logo se destacara pelo seu espírito
empreendedor e pela sua rara energia e audácia. Já havia
feito as suas provas, soberbamente, sob as ordens do
famigerado corsário Mansfield, mas devia mais tarde
sobrelevar pela coragem e pelo valor todos os famosos
corsários da ilha das Tartarugas, com as célebres
expedições do Panamá e com a expugnação, que antes se
julgara inexequível, daquela cidade, rainha do Oceano
Pacífico.
Dotado de robustez excepcional e de força assombrosa,
formoso de feições e generoso de carácter, com um olhar
agudo que tinha não sei que misterioso dom fascinador,
também ele, como o Corsário Negro, sabia impor-se àqueles
rudes marinheiros.
Sob as suas ordens, em menos de vinte minutos foram
elevadas duas fortes barricadas, a bombordo e a
estibordo, uma diante do mastro do traquete, e outra
diante do mastro grande, compostas de traves e barricas
cheias de ferragens, destinadas a proteger o tombadilho e
o castelo de popa, no caso em que os inimigos assaltassem
o convés.
Cinquenta granadas de mão foram colocadas por detrás
das traves.
Quando tudo ficou pronto, Morgan fez recolher os homens
à ré, e pôs-se ele de observação à beira do gurupés, com
uma das mãos no punho da espada e a outra na coronha da
pistola que trazia na cinta.
O navio adversário não estava então a mais de
seiscentos ou setecentos metros. O Relâmpago,
justificando plenamente o nome, ganhava caminho, e
preparava-se para cair-lhe em cima com um choque
tremendo, irresistível.
O navio espanhol podia distinguir-se nos seus mínimos
pormenores, conquanto a noite estivesse escura, à mín ua
de luar.


114 115


Conforme Wan Stiller o havia suspeitado, era um navio
de linha, de aspecto imponente, um verdadeiro navio de
guerra, talvez formidavelmente armado e equipado por
numerosa e aguerrida tripulação.
Outro que não fosse o Corsário das Tartarugas ter-se-ia
abstido de o acometer; mesmo vencendo, bem pouco
encontraria que saquear, visto que aqueles intrépidos
piratas tinham sobretudo a peito atacar os navios
mercantes ou os galeões carregados de tesouros
provenientes das minas do México, do Iucatão e da
Venezuela. Mas não pensava de semelhante modo o Corsário
Negro, homem que não se importava com riquezas.
Via talvez naquele navio um poderoso aliado de Wan
Guld, que mais tarde poderia embaraçar os seus intentos,
e preparava-se para o acometer antes que fosse reforçar a
esquadra do almirante Toledo, ou defender Maracaíbo.
A quinhentos metros, o navio espanhol, vendo-se
obstinadamente perseguido, e não duvidando já dos
sinistros propósitos do navio corsário, disparou segundo
tiro de canhão.
Desta feita a bala não se perdeu no mar. Passou entre
as velas do joanete e da gávea e foi cortar a extremidade
do mastro de mezena, fazendo cair a bandeira negra dos
corsários.
Os dois contramestres da artilharia do tombadilho
voltaram-se para o Corsário Negro, que permanecia ao
leme, empunhando o porta-voz, e perguntaram:
- Começamos, comandante?
- Ainda não - respondeu o Corsário Negro.
Terceiro tiro de canhão ecoou no mar, mais forte que os
outros dois, e uma terceira bala sibilou entre os
aparelhos do navio corsário, arrombando a amurada da
popa, a três passos apenas do leme.
Outro sorriso sardónico aflorou aos lábios do audaz
corsário, mas nenhuma ordem saiu da sua boca.
O Relâmpago precipitava a carreira, mostrando ao navio
inimigo o seu alto esporão, o qual fendia o mar com um

116


sussurro cavo, impaciente por penetrar, com um rasgão
tremendo, no bojo do navio espanhol.
Subitamente um clamor enorme reboou nas trevas.
Ouviram-se brados de terror e ordens precipitadas no
navio inimigo.
Uma voz imperiosa dominou por um momento o tumulto,
talvez a do comandante.
- Vira a bombordo... Apoia todo o leme!...
- Descarga geral!...
Fragoroso estampido rebentou a bordo do navio de linha,
enquanto enormes clarões iluminaram a noite. As sete
peças de estibordo e os dois canhões de corso do convés
vomitaram os seus projécteis sobre o navio corsário.
Sibilam as balas por entre os homens, atravessam as
velas, cortam cabos, cravam-se na querena ou arrombam as
amuradas, mas não sustêm o avanço do Relâmpago.
Governado pelo braço robusto do Corsário Negro, cai com
todo o ímpeto sobre o grande navio. Felizmente para este,
uma rápida metida de leme, pelo piloto, salva-o de uma
pavorosa catástrofe.
Desviado repentinamente da sua linha, vira a bombordo,
fugindo por milagre à esporoada que devia metê-lo no
fundo com o flanco aberto:
O Relâmpago passa então onde, um momento antes, estava
a popa do navio adversário. Toca-lhe no flanco,
abalroando com um estampido seco que se repercute nas
profundidades do porão, despedaça a verga da mezena e
parte da coroa - mas nada mais.
O navio corsário, tendo falhado o golpe, prossegue a
sua carreira veloz e some-se nas trevas sem ter dado
indício de ser tripulado por numerosa marinhagem e de
estar formidavelmente armado.
- Raios de Hamburgo!... - exclamou Wan Stiller, que
tinha reprimido a respiração, contando com um tremendo
choque. - Ora podem gabar-se os espanhóis de ter escapado
de boa. É o que se pode dizer estar em sorte.


117


- Não dava uma cachimbada pelos homens que tripulam o
navio - respondeu Carmaux. - Já me parecia vê-los
mergulhar nos abismos do grande golfo.
- Achas que o comandante tentará outra vez o ataque?
- Os espanhóis hão-de pôr-se agora em guarda e
apresentar-se-ão de proa.
- E bombardeiam-nos lentamente. Se fosse de dia, aquela
descarga podia ter-nos sido fatal.
- Enquanto que assim, só nos causaram estragos
insignificantes.
- Caluda, Carmaux!...
- Que há?...
O Corsário Negro tinha levado à boca o porta-voz e
bradara:
- Prestes a virar de bordo!
- Voltamos à carga? - perguntou a si mesmo Wan Stiller.
- Por Baco!... Não deixa certamente safar-se o navio
espanhol - observou Carmaux.
- Parece-me que o navio não está com tenções de se
safar.
Era exacto. O navio espanhol, em vez de prosseguir na
carreira, tinha parado, atravessando-se, como se tivesse
decidido aceitar batalha.
Mas virava vagarosamente de bordo, apresentando o
esporão para evitar a investida.
Também o Relâmpago tinha virado de bordo a duas milhas
de distância; mas, em vez de atacar de novo o adversário,
descrevia em volta dele um grande círculo, mantendo-se em
todo o caso fora do alcance da artilharia.
- Já percebo - disse Carmaux. - O nosso comandante quer
aguardar a madrugada antes de travar a luta e arrojar-se
à abordagem.
- E impedir os espanhóis de continuarem o seu rumo para
Maracaíbo - acrescentou Wan Stiller.
- É isso, exactamente. Meu amigo, preparemo-nos para


118


um combate desesperado, e como é costume entre corsários,
se eu tiver de ser cortado em dois por alguma bala de
canhão ou morto no convés do navio inimigo, nomeio-te
herdeiro da minha modesta fortuna.
- Que monta a...? - perguntou Wan Stiller, rindo.
- A duas esmeraldas, que valem pelo menos quinhentas
piastras cada uma, e que trago cosidas no forro do meu
jaleco.
- Chega para me divertir uma semana nas Tartarugas. Eu
nomeio-te meu herdeiro, mas previno-te de que apenas
possuo dois dobrões, cosidos na minha cinta.
- Chegam para beber duas garrafas de vinho de Espanha à
tua memória, amigo.
- Obrigado, Carmaux; fico sossegado e posso esperar a
morte com toda a serenidade.
Toda a noite o navio corsário continuou a girar em
volta do navio espanhol, sem responder aos tiros de
canhão que de quando em quando este disparava, mas sem
nenhum resultado. Porém, quando as estrelas começaram a
desmaiar e os primeiros alvores da madrugada tingiram as
águas do golfo, a voz do Corsário Negro tornou a fazer-se
ouvir:
- Homens do mar! - bradou. - Cada qual ao seu posto de
combate.... Iça a minha bandeira!...
Três formidáveis hurras ecoaram a bordo do navio
corsário, seguidos do troar dos dois canhões de corso.
O navio de linha largara pano novamente, e marchava de
encontro ao navio corsário. Devia ser tripulado por
homens valorosos e resolutos, porque geralmente as naus
espanholas procuravam fugir aos ataques dos corsários das
Tartarugas, sabendo por experiência própria a casta de
adversários com que tinham de haver-se.
A uns mil metros recomeçou o canhoneio com grande
fúria. Dando bordos, ora descarregava as peças de
estibordo ora as de bombordo, cobrindo-se de fumo e
chamas.
Era um grande navio de três pontes, com mastreação de
nau, de bordo muito alto, e munido de catorze bocas de


119


fogo, uma verdadeira nau de guerra, talvez pedida por
alguma necessidade urgente pela esquadra do almirante
Toledo.
No castelo da proa via-se o comandante, de grande
uniforme, espada em punho, cercado pelos seus oficiais,
enquanto na coberta se distinguia avultado número de
marinheiros.
Com o pavilhão da Espanha içado no mastro grande,
aquele poderoso navio dirigia-se para o Relâmpago,
troando terrivelmente.
O navio corsário, conquanto mais pequeno, não se
deixava atemorizar por aquela chuva de balas. Apressava a
marcha, respondendo com os seus canhões de corso, e
aguardando talvez o momento oportuno para descarregar as
doze peças das portinholas.
A quatrocentos metros os fuzileiros vieram auxiliar os
dois canhões da popa, metralhando a tolda do navio
inimigo.
Aquele fogo devia em breve tornar-se desastrosíssimo
para os espanhóis, porque, como dissemos, os corsários
quase nunca erravam os tiros, tendo sido antes
bucaneiros, ou seja, caçadores de bois bravos.
As balas daqueles grossos arcabuzes faziam realmente
bem maiores estragos que o fogo dos canhões. Os homens da
nau caíam às dúzias ao longo das amuradas e caíam também
os artilheiros das peças de popa e os oficiais do
tombadilho.
Dez minutos bastaram para que não ficasse viva nem uma
pessoa sequer. Até o comandante caíra no meio dos seus
oficiais, antes ainda que os dois navios se abordassem.
Restavam, porém, os homens das baterias, bem mais
numerosos do que os da tolda. A vitória, era, pois, ainda
disputável.
A vinte metros um do outro, os dois navios viraram de
bordo bruscamente. Neste momento, a voz do Corsário Negro
trovejou, dominando o troar da artilharia.
- Ferra a mestra e a gávea, iça o traquete, caça a
mezena...
O Relâmpago deslocou-se velozmente sob uma forte metida
de leme e foi envolver o seu gurupés entre as enxárcias
da mezena do navio espanhol.
O Corsário Negro saltara do castelo de popa, de espada
na mão direita e pistola na esquerda.
- Homens do mar! À abordagem!


120 121


XI


A DUQUESA FLAMENGA


Ao verem o seu comandante e Morgan lançarem-se à
abordagem do navio que não podia fugir, os corsários
precipitaram-se como um só homem.
Largando as espingardas e empunhando as machadas de
abordagem e as pistolas, faziam enorme alarido para
produzir maior terror.
As abalroas foram rapidamente lançadas para melhor
aproximar os dois navios. Mas os marinheiros que primeiro
chegaram ao pé do mastro do gurupés, atiraram-se
impacientes sobre as enxárcias e agarrando-se aos cabos e
descendo pelo cordame, deixaram-se cair no convés do
navio.
Mas, chegados aí logo se encontraram ante uma
resistência inesperada. Das escotilhas subiam
impetuosamente os espanhóis das baterias, de armas em
punho.
Eram cem, pelo menos, comandados por alguns oficiais e
pelos mestres e contramestres artilheiros.
Num abrir e fechar de olhos espalham-se pelo convés,
sobem ao tombadilho, caindo em cima dos primeiros corpos,
enquanto outros se precipitam sobre o castelo de popa e
descarregam à queima-roupa os dois canhões, atravessando
o convés do navio corsário com um furacão de metralha.
O Corsário Negro não hesitou mais. Os dois navios
estavam então bordo contra bordo, pois tinham sido
atestadas as cordas das abalroas.


123


De um salto transpõe as amuradas e lança-se na tolda do
navio inimigo, bradando:
- A mim, corsários!
Morgan segue-o e após ele precipitam-se os fuzileiros,
enquanto os gajeiros alcandorados nas gáveas, nas vergas
e nos enfrechates arremessam granadas para o meio dos
espanhóis e fazem um fogo infernal com as espingardas e
com as pistolas.
A luta torna-se medonha, terrível!
O Corsário Negro arrasta por três vezes os seus homens
ao castelo de popa, onde se juntaram sessenta espanhóis,
que varrem a toda a pressa com os canhões; por três vezes
é repelido, enquanto Morgan não consegue subir ao
tombadilho.
De ambos os lados se combate com igual furor. Os
espanhóis, que já sofreram perdas desastrosas causadas
pelo fogo dos arcabuzeiros, a quem já são inferiores em
número, resistem heroicamente, decididos a fazer-se matar
antes que render-se.
As granadas de mão, despedidas pelos gajeiros das
gáveas do navio corsário, abrem brechas nas filas, mas
eles não retrocedem. Os mortos e os feridos amontoam-se
em volta, mas o grande pavilhão espanhol continua a
tremular impávido no alto do mastro grande, com a sua
cruz pompeante aos primeiros raios do Sol. Mas semelhante
resistência não devia durar muito. Os corsários,
enfurecidos pela obstinação dos inimigos, atiram-se uma
última vez ao assalto do castelo da popa e do tombadilho,
guiados pelos seus comandantes, que combatem na frente.
O Corsário Negro rasga aquela massa de corpos humanos e
irrompe no meio do último grupo de combatentes. Larga a
machada de abordagem e empunha uma espada.
A lâmina da espada silva, bate e rebate os ferros que
tentam atingir-lhe o peito e fere à direita, à esquerda e
para a frente. Ninguém pode resistir àquele braço, e
ninguém pode aparar os seus botes. Abre-se-lhe um espaço


124


em volta e encontra-se no meio de um amontoado de
cadáveres, com os pés no sangue, que corre como um rio
pelo plano inclinado do tombadilho.
Morgan acudia neste momento com um bando de corsários.
Expugnara o castelo de proa e preparava-se para trocidar
os poucos sobreviventes que defendiam com o furor do
desespero o pavilhão tremulante no alto da mezena.
- Sobre estes últimos! - bramiu ele.
O Corsário Negro deteve-o, gritando:
- Homens do mar! O Corsário Negro vence, mas não
assassina!
O impulso dos corsários suspendera-se e as armas
prestes a ferir tinham-se baixado.
- Rendei-vos! - bradou o Corsário Negro, avançando para
os espanhóis agrupados à volta da barra do leme. -
Salva-se a vida aos valentes!
O contramestre, o único que sobrevivera de entre os
graduados, avançou, largando a machada tinta de sangue.
- Estamos vencidos - disse com voz rouca. - Fazei de
nós o que quiserdes.
- Tomai de novo o vosso machado, contramestre -
respondeu nobremente o Corsário Negro. - Homens tão
valorosos, que defendem com tanto ardor a bandeira da
pátria distante, merecem a minha estima.
Depois olhou para os sobreviventes, sem reparar no
espanto do contramestre, espanto natural, visto que,
naqueles combates, raro os corsários dão quartel aos
vencidos, e menos a liberdade sem resgate.
Dos defensores do navio de linha apenas restavam
dezoito marinheiros e quase todos feridos. Já tinham
largado as armas e aguardavam com triste resignação a sua
sorte.
- Morgan - disse o Corsário Negro -, manda arriar o
escaler grande com mantimentos suficientes para uma
semana.
- Quer deixar livres todos esses homens? - perguntou o
imediato, com certo ar de exprobração.


125


- Sim. Apraz-me premiar a coragem infeliz.
O contramestre, ao ouvir aquelas palavras,
adiantara-se, dizendo:
- Obrigado, comandante. Nunca esqueceremos a
generosidade daquele que se chama o Corsário Negro.
- Deixai-vos de agradecimentos e respondei-me.
- Falai, comandante.
- De onde vindes?
- De Vera Cruz.
- Aonde vos dirigis?
- A Maracaíbo.
- Espera-vos o governador? - perguntou o Corsário
Negro, carregando o sobrecenho.
- Ignoro-o, senhor. Só o capitão poderia responder-vos,
e esse...
- Tendes razão. A que esquadra pertencia a vossa nau?
- À do almirante Toledo.
- Tendes alguma carga no porão?
- Balas e pólvora.
- Ide, estais livres.
O contramestre, em vez de obedecer, encarou-o com certo
embaraço que não escapou aos olhos do Corsário Negro.
- Que quereis dizer-me? - perguntou este.
- Que há outras pessoas a bordo, comandante.
- Prisioneiros, talvez?
- Não; mulheres e pajens.
- Onde estão?
- Na câmara da popa.
- Quem são essas mulheres?
- O capitão não no-lo disse; mas parece que uma delas é
dama de alta linhagem, uma duquesa, creio.
- Neste navio de guerra? - exclamou o Corsário Negro
com espanto. - Onde embarcou?
- Em Vera Cruz.
- Está bem. Irá connosco para a ilha das Tartarugas, e
se quiser a liberdade terá de pagar o resgate que a minha


126


tripulação estipular. Podem partir, valorosos defensores
do vosso navio, desejo-vus que chegueis à costa.
- Obrigado, senhor.
O grande escaler fora arriado e provido de mantimentos
para oito dias, algumas espingardas e uma certa
quantidade de cargas.
O contramestre e os seus dezoito marinheiros desceram à
embarcação enquanto o grande pavilhão da Espanha era
arriado do mastro grande, ao mesmo tempo que a bandeira
que tremulava no extremo da mezena, e eram içadas as
bandeiras do Corsário Negro, saudadas por dois tiros de
canhão.
O Corsário Negro subiu à proa e observou o grande
escaler que se afastava rapidamente, dirigindo-se para o
sul, isto é, para onde se abria a grande baía de
Maracaíbo.
Quando o escaler já estava longe, desceu ao convés,
murmurando:
- E são aqueles os homens do traidor!...
Observou a sua tripulação, que estava ocupada em
transportar os feridos para a enfermaria de bordo e em
meter os cadáveres nas macas para os deitar ao mar, e fez
sinal a Morgan para que se aproximasse.
- Dizei aos meus homens - ordenou-lhe - que lhes cedo a
parte que me toca na venda deste navio.
- Senhor! - exclamou o imediato, surpreendido. - Esta
nau vale muitos milhões de piastras, bem o sabeis.
- E que me importa a mim o dinheiro? - respondeu o
Corsário Negro com desprezo. - Eu faço a guerra por
motivos pessoais, e não pela cobiça das riquezas. Além
disso, Já tive a minha parte.
- Não é exacto, senhor.
- É, sim; os dezanove prisioneiros que não quis
conduzir às Tartarugas deviam ter pago o resgate para
obter a liberdade.
- Valiam bem pouco, esses.


127


- Basta-me isso. Diz, pois, aos meus homens que
estipulem o resgate pela duquesa que se encontra a bordo
deste navio. O governador de Vera Cruz e o de Maracaíbo
pagarão, se quiserem vê-la livre.
- Os nossos homens apreciam o dinheiro, mas apreciam
ainda mais o seu comandante, e ceder-vos-ão também os
prisioneiros da câmara.
- Veremos - respondeu o Corsário Negro, erguendo os
ombros.
Ia a dirigir-se para a popa quando a porta da câmara se
abriu repentinamente e uma dama muito nova assomou,
seguida de duas mulheres e dois pajens elegantemente
vestidos.
Era bela e juvenil, alta, de cútis finíssima, de um
branco levemente rosado. Tinha cabelos de um louro
pálido.
Essa donzela, pois que o devia ser, visto que ainda não
tinha formas desenvolvidas de mulher, ostentava elegante
vestido de seda azul, de grande gola, como era moda na
época, mas muito simples; no pescoço trazia vários fios
de enormes pérolas, que deviam ter custado alguns
milhares de piastras, e nas orelhas duas soberbas
esmeraldas, pedras muito apreciadas naquele tempo.
As duas mulheres que a acompanhavam, duas criadas, sem
dúvida, eram mulatas, também formosas, de pele levemente
bronzeada, e mulatos eram também os pajens.
A donzela, vendo o convés do navio juncado de cadáveres
e de feridos, de aparelhos despedaçados e de balas de
canhão, e por toda a parte manchas de sangue, fez um
gesto de repugnância e quis regressar à câmara para se
subtrair àquele espectáculo horrível; mas vendo o
Corsário Negro, que havia parado a quatro passos de
distância, perguntou-lhe com expressão de desgosto:
- Que se passou aqui, senhor?
- Podeis fazer ideia, senhora - respondeu o Corsário
Negro, inclinando-se. - Uma tremenda batalha que acabou
mal para os nossos adversários.


128


- E quem sois vós?
O Corsário Negro arremessou de si a espada
ensanguentada, que ainda não tinha deposto, e tirando
galantemente o largo chapéu emplumado disse-lhe com
extrema polidez:
- Sou um fidalgo de além-mar, senhora.
- Isso não me explica quem sois - disse ela, um pouco
reconciliada pela amabilidade do Corsário Negro.
- Nesse caso, acrescentarei que sou o cavaleiro Emílio
da Rocha Negra, senhor de Valpenta e Vintemilhas, mas que
uso um nome especial.
- E qual, cavaleiro?
- Corsário Negro.
Ao ouvir tal nome, um frémito de terror passou pelo
formoso rosto da donzela, e a cor rosada da sua pele
desapareceu, tornando-se branca como o alabastro.
- O Corsário Negro! - murmurou, encarando-o aterrada. -
O terrível corsário da ilha das Tartarugas, o formidável
inimigo dos espanhóis...
- Talvez vos enganeis, senhora. Posso combater os
espanhóis, mas não tenho razões para os odiar, e ainda há
pouco o demonstrei aos sobreviventes deste navio. Vedes
além, onde o mar se confunde com o céu, aquele ponto
negro que parece perdido no espaço? É um escaler
tripulado por dezanove marinheiros espanhóis e que eu
deixei livres, enquanto por direito de guerra podia
tê-los trucidado ou conservado prisioneiros.
- Acaso terão mentido aqueles que vos pintavam como o
mais temível corsário das Tartarugas?
- Talvez - respondeu o Corsário.
- E que tencionais fazer de mim, cavaleiro?
- Antes de tudo, uma pergunta.
- Dizei, senhor.
- Vós sois...
- Flamenga.
- Duquesa, segundo me disseram.
- Exactamente, cavaleiro - respondeu ela, sem ter


129


podido reprimir um gesto de mau humor, como se lhe
tivesse desagradado que se soubesse qual era a sua
elevada posição.
- O vosso nome, se não vos custa dizê-lo...
- É preciso?...
- É necessário que eu saiba quem sois, se quereis
readquirir a liberdade.
- A liberdade!... Ah, sim! Esquecia-me que sou vossa
prisioneira.
- Não, minha senhora; sois prisioneira dos corsários.
Se se tratasse apenas de mim, poria à vossa disposição o
meu melhor escaler e os meus mais fiéis marinheiros, e
fazer-vos-ia desembarcar no porto mais próximo; mas eu
não posso subtrair-me às leis que nos governam.
- Obrigada - disse ela, com um adorável sorriso. -
Ter-me-ia parecido estranho que um fidalgo descendente
dos cavalheirescos duques de Sabóia se tivesse feito
salteador dos mares.
- A expressão pode ser rude para os corsários - disse
ele, com manifesto despeito. - Salteadores dos mares!...
Eh!, quantos vingadores há entre eles! Quem sabe se algum
dia não sabereis o motivo pelo qual um gentil-homem da
casa dos duques de Sabóia veio sulcar as águas do grande
golfo mexicano!... O vosso nome, senhora?
- Honorata Willerman, duquesa de Weltendrem.
- Está bem, senhora. Retirai-vos para a câmara, pois
que temos de proceder a uma triste operação: dar
sepultura aos valentes caídos na luta. Esta tarde
espero-vos ao jantar, a bordo do meu navio.
- Obrigada, cavaleiro - disse ela, estendendo-lhe a mão
alva, pequena como a de uma criança e de dedos afilados.
Fez uma leve reverência, e retirou-se vagarosamente,
mas antes de entrar de novo na câmara voltou-se e vendo
que o Corsário Negro ficara imóvel no seu sítio, com o
chapéu ainda na mão, sorriu-se para ele uma última vez.


[130]


XII


A PRIMEIRA CHAMA


O terrível combate entre o navio corsário e a nau de linha
fora desastroso para ambas as tripulações. Mais de duzentos
cadáveres obstruíam o convés.
Cento e sessenta homens havia perdido a nau espanhola e
quarenta o navio corsário, além de vinte e sete feridos que
foram transportados para a enfermaria do Relâmpago.
Os navios ficaram muito danificados pelo canhoneio. O
Relâmpago, mercê da rapidez do seu ataque e das suas manobras
expeditas, apenas perdera duas vergas, facilmente
substituíveis, pois que estava bem prevenido de aparelhos, e
ficara com as amuradas e as enxárcias maltratadas; por sua
parte, a nau espanhola ficara em péssimo estado e quase
incapaz de navegar.
O leme fora despedaçado por uma bala de canhão; o mastro
grande ameaçava cair ao mínimo esforço das velas; a mezena
perdera as enxárcias e as amuradas haviam sofrido bastante.
Todavia, ainda era uma bela nau, que, consertada, podia ser
vendida com grande proveito dos corsários, tanto mais que
possuía numerosas bocas de fogo e abundantes munições, coisas
muito procuradas pelos corsários, a quem geralmente faltavam
umas e outras.
A triste cerimónia da desobstrução da tolda foi rapidamente
executada. Os cadáveres, reunidos aos pares nas macas, com uma
bala de canhão aos pés, foram sepultados nos abismos do golfo,


131


depois de serem despojados de todos os valores que tinham
consigo.
Terminada aquela lúgubre tarefa, a tripulação, sob a
direcção do mestre e do contramestre, desobstruiu a tolda dos
destroços, lavou o sangue com torrentes de água e procedeu à
substituição dos aparelhos estragados pela metralha.
Foi preciso apear o mastro grande da nau de linha, reforçar
vigorosamente o de mezena e colocar no lugar do leme um remo
de enormes dimensões, visto não haver um leme sobresselente na
câmara dos carpinteiros.
Com tudo isto ainda o navio não estava em condições de
navegar e foi decidido que o Relâmpago o levaria a reboque,
mesmo porque o Corsário Negro não queria dividir a tripulação,
agora muito reduzida.
Foi lançado um grosso cabo à popa do Relâmpago, e ao pôr do
Sol os corsários punham-se de novo à vela, navegando devagar
para o norte, pressurosos de alcançar sítio seguro na sua
formidável ilha.
O Corsário Negro, dadas as últimas ordens para a noite,
recomendou que se dobrassem os homens de guarda, pois não se
sentia inteiramente seguro a tão pequena distância da costa
venezuelana, e ordenou ao negro e a Carmaux que fossem à nau
espanhola buscar a duquesa flamenga.
Enquanto os dois homens, descendo a uma embarcação que fora
arriada, se dirigiam para a nau que o Relâmpago rebocava, o
Corsário Negro pusera-se a passear na tolda, com certos
movimentos que indicavam até que ponto estava dominado por uma
viva agitação e profundamente preocupado.
Contrariamente a seus hábitos, estava inquieto, nervoso;
interrompia o passeio, parando, como se algum pensamento o
atormentasse; abeirava-se de Morgan, que vigiava no
tombadilho, como se intentasse fazer-Lhe alguma comunicação,
mas, em vez disso, voltava-lhe as costas e afastava-se para a
popa.
Estava, no entanto, tétrico como sempre, talvez ainda mais
triste do que costume.


132


Mas quando ouviu no flanco direito o choque sonoro do
escaler que regressava da nau espanhola, afastou-se
precipitadamente do tombadilho e parou no alto da escada de
bombordo.
Honorata subia, ligeira como uma alvéola, sem se apoiar no
corrimão. Vinha vestida como de manhã, mas trazia na cabeça
uma manta de seda multicolor, bordada a ouro.
O Corsário Negro esperava-a de chapéu na mão.
- Agradeço-vos, senhora, o terdes vindo para o meu navio -
disse ele.
- Eu é que devo agradecer-vos, cavaleiro, o terdes-me
recebido no vosso corsário - respondeu ela, inclinando
gentilmente a cabeça. - Não esqueçais que sou uma prisioneira.
- A cortesia não é desconhecida mesmo entre os salteadores
do mar - replicou o Corsário Negro, com uma pontinha de
ironia.
- Ainda estais ressentido com as palavras que proferi esta
manhã?
O Corsário Negro não respondeu, limitando-se a convidá-la
com um gesto a que o seguisse.
- Antes, uma pergunta, cavaleiro - disse ela, detendo-o.
- Dizei.
- Não vos desgosta que eu tenha trazido comigo uma das
minhas criadas?
- Não, senhora; julguei até que viessem ambas.
Ofereceu-lhe galantemente o braço e conduziu-a à popa do
navio, fazendo-a entrar na sua câmara.
Aquele pequeno recinto situado sob o castelo de popa, ao
nível do convés, estava mobilado com tal requinte de elegância
que maravilhou a própria duquesa.
Via-se que o Corsário Negro não renunciara a todas as
comodidades.
As paredes da câmara estavam forradas de seda azul bordada a
ouro e adornadas de grandes espelhos de Veneza; o pavimento
ocultava-se sob um macio tapete oriental, e as amplasjanelas
que davam para o mar eram resguardadas por leves cortinas de
cassa.


133

Aos cantos havia quatro prateleiras cheias de baixela de
prata; no meio, uma mesa luxuosamente preparada e coberta com
uma rica toalha da Flandres, e à volta cómodas cadeiras
estofadas de veludo azul, com ornatos de metal.
Dois grandes e artísticos candelabros de prata iluminavam a
saleta, fazendo cintilar os espelhos e um feixe de armas
cruzadas sobre a porta.
O Corsário Negro convidou a jovem flamenga e a mulata que a
acompanhava a sentarem-se, e depois sentou-se ele defronte,
enquanto Moko, o hercúleo negro, servia a ceia em travessas de
prata que tinham gravado um estranho brasão, talvez o do
comandante, pois que figurava uma rocha sobreposta de quatro
águias e um desenho indecifrável.
A refeição, composta na maior parte de peixe fresco,
delicadamente cozinhado de várias formas pelo cozinheiro de
bordo, de carnes de conserva, doce e frutas, acompanhada por
escolhidos vinhos de Itália e Espanha, terminou em silêncio,
pois que nem uma palavra saíra dos lábios do Corsário Negro,
nem a jovem flamenga ousara tirá-lo das suas preocupações.
Depois de servido o chocolate, segundo o uso espanhol, em
minúsculas xícaras de porcelana, o comandante decidiu-se a
quebrar o silêncio.
- Perdoai, senhora - disse ele, encarando a sua formosa
comensal. - Perdoai se me mostrei muito preocupado durante a
ceia, e vos fiz péssima companhia, mas, quando vem a noite,
sinto muitas vezes que uma profunda tristeza se apodera da
minha alma, e o meu pensamento desce ao fundo do grande golfo
e voa aos nebulosos países banhados pelo mar do Norte. Que
quereis? São tantas e tão dolorosas as lembranças que me
povoam a mente e me torturam o coração!
- A vós! O mais audaz corsário? - exclamou a dama, com
espanto. - Vós, que fazeis o corso, que tendes um navio que
vence a mais poderosa nau, homens intrépidos que a um sinal
vosso se fazem matar; vós, que tendes riquezas e sois um dos


134


mais formidáveis chefes dos irmãos da costa...
vós, viveis amargurado?
- Reparai no fato que visto e pensai no nome que uso.
Não terá tudo isto alguma coisa de macabro?
- É verdade - respondeu a duquesa, impressionada por estas
palavras. - Vestis um fato sombrio como a noite e os corsários
dão-vos um nome tenebroso. Em Vera Cruz, onde passei algum
tempo em casa do marquês de Herédia, ouvi contar a vosso
respeito inúmeras histórias aterradoras.
- E que histórias, senhora? - perguntou o Corsário Negro,
com um sorriso irónico, enquanto os olhos se lhe animavam de
fulgor sinistro e se fixavam nos da duquesa, como se
pretendesse ler-Lhe no íntimo da alma.
- Ouvi contar que o Corsário Negro tinha atravessado o
Atlântico juntamente com seus dois irmãos, que vestiam fato
verde, um deles, e fato vermelho, o outro, para executar uma
terrível vingança.
- Ah!... - fez o Corsário Negro, cuja fronte se anuviava.
- Disseram-me que sois um homem sempre triste, que, quando
as tempestades se desencadeavam nas Antilhas, partíeis para o
mar a despeito das ondas e dos ventos, e que sulcáveis sem
temor o grande golfo, afrontando as iras da Natureza,
protegido pelos espíritos infernais.
- E depois? - perguntou ainda, numa voz quase estridula.
- Depois... que os dois corsários, de vestes vermelha e
verde, tinham sido enforcados por um homem que era vosso
mortal inimigo e que...
- Continuai... senhora...
Em vez de concluir a frase, a duquesa calara-se,
observando-o com certa inquietação.
- Então? Porque vos interrompeis? - perguntou ele.
- Não me atrevo... - respondeu ela, hesitante.
- Porventura causo-vos medo?
- Não, mas...
Depois, erguendo-se, perguntou-Lhe de repente:
- É certo que evocais os mortos?


135


Neste momento ouviu-se quebrar a bombordo do navio uma
grande vaga, cujo fragor se repercutiu lugubremente nas
profundezas do porão, enquanto alguns flocos de espuma
atingiam a janela da câmara, banhando as cortinas.
O Corsário Negro erguera-se precipitadamente, pálido como um
cadáver. Envolveu a dama num olhar cintilante, que exprimia ao
mesmo tempo uma profunda comoção, depois abeirou-se de uma das
janelas e debruçou-se.
O mar estava calmo e cintilante sob os raios pálidos do
astro da noite. A ligeira brisa que enfunava as velas do
Relâmpago mal encrespava aquela vastíssima superfície.
No entanto, a bombordo via-se espumar ainda a água de
encontro ao flanco do navio, como se uma grande vaga,
levantada por força misteriosa ou por algum fenómeno
inexplicável, aí se tivesse desfeito.
O Corsário Negro, imóvel em frente da janela, de braços
cruzados como era de seu costume, continuava a observar o mar
sem proferir uma palavra. Dir-se-ia que com os seus olhos
coruscantes queria sondar as profundezas do mar das Caraíbas.
A duquesa abeirou-se dele silenciosamente, mas estava também
muito pálida.
- Que estais observando, cavaleiro?
O Corsário Negro pareceu não a ter ouvido, pois que não
respondeu.
- Em que pensais? - acrescentou ela.
Desta vez o corsário estremeceu.
- Perguntava a mim mesmo - respondeu em voz lúgubre -, se
será possível que os mortos, no fundo do Oceano, possam
abandonar os abismos profundos onde repousam e subir à
superfície.
A duquesa estremeceu.
- De que mortos quereis falar? - perguntou-lhe, após alguns
momentos de silêncio.
- Daqueles que morreram e ainda não foram vingados.
- Vossos irmãos?
- Talvez. - respondeu o Corsário Negro em voz sumida.


136


Depois, volttando para a mesa e enchendo dois cálices de
vinho branco, disse com um sorriso forçado que contrastava com
o aspecto do seu rosto:
- À vossa saúde, senhora. Já anoiteceu há algumas horas, e
deveis voltar para o vosso navio.
- A noite está serena, cavaleiro, e nenhum perigo ameaça o
escaler que deve conduzir-me - replicou ela.
O olhar do Corsário Negro, até esse momento tão triste,
pareceu animar-se de repente.
- Quereis fazer-me companhia, senhora?
- Se não vos incomodo...
- Ao Corsário Negro, senhora?!... A vida é rude no mar, e
tais distracções raras vezes se gozam. Mas vós, se os meus
olhos se não iludem, deveis ter um motivo secreto para vos
deterdes aqui.
- Talvez seja assim...
- Falai. A tristeza que há pouco me tinha invadido
dissipou-se...
- Dizei-me, cavaleiro; é verdade que deixastes o vosso país
para vir cumprir uma terrível vingança?
- É verdade, senhora; e acrescentarei que não terei descanso
na terra, nem no mar, enquanto a não tiver cumprido.
- Assim tanto odiais esse homem?
- Tanto... tanto, que para o matar daria todo o meu
sangue...
- Mas... que vos fez ele?
- Destruiu a minha família, senhora; e eu, há duas noites,
proferi um juramento terrível e cumpri-lo-ei, ainda que haja
de correr o mundo inteiro e escavar as entranhas da terra para
alcançar o meu mortal inimigo e todos aqueles que tenham a
desventura de usar o seu nome.
- E esse homem está aqui na América?
- Numa cidade do grande golfo.
- Mas, o seu nome? - perguntou a duquesa com extrema
ansiedade. - Posso acaso conhecê-lo?


137


O Corsário Negro, em vez de responder, fitou-a de frente.
- Tendes empenho em o saber? - perguntou, após alguns
momentos de silêncio. - Vós não pertenceis ao corso, e seria
talvez um perigo o dizer-vo-lo.
- Oh!, meu amigo!... - exclamou ela, empalidecendo.
O Corsário Negro sacudiu a cabeça, como se quisesse
afugentar um pensamento importuno, depois ergueu-se
subitamente e pondo-se a passear com agitação, disse:
- É tarde, senhora. É necessário voltar para o vosso navio.
Virou-se para o negro, que estava imóvel diante da porta, e
perguntou-lhe:
- O escaler está pronto?
- Sim, patrão - respondeu o africano.
- Quem o tripula?
- O compadre branco e o seu amigo.
- Vinde, senhora.
A flamenga tinha lançado a larga manta de seda pela cabeça e
erguera-se. O Corsário Negro ofereceu-lhe o braço sem
pronunciar palavra e conduziu-a ao convés. Porém, durante
esses poucos passos, parou duas vezes a contemplá-la.
- Adeus, senhora - disse-lhe, quando chegaram próximo da
escada.
Ela estendeu-lhe a pequenina mão e estremeceu, sentindo
tremer a mão dele na sua.
- Obrigada pela vossa hospitalidade - murmurou ela.
Ele inclinou-se em silêncio e apontou para Carmaux e Wan
Stiller, que a esperavam ao fundo da escada.
A duquesa desceu, seguida da mulata, mas quando chegou ao
último degrau ergueu a cabeça e viu em cima o Corsário Negro
debruçado na amurada.
Saltou para o escaler e sentou-se à ré, ao lado da mulata,
enquanto Carmaux e Wan Stiller tomavam os remos.
Em poucas remadas o escaler encostava ao flanco do navio
espanhol, o qual navegava lentamente na esteira do Relâmpago,
puxado a reboque.


138


A dama flamenga, chegada a bordo, em vez de se dirigir para
a câmara, subiu ao castelo da proa e olhou atentamente para o
navio corsário.
À popa, perto do leme, à luz da Lua, viu recortar-se
nitidamente a negra figura do Corsário Negro.

139


XIII


ENCANTOS MISTERIoSOS


O Relâmpago navegava lentamente na direcção da costa de São
Domingos e de lá meteu-se pelo amplo canal que existe entre
aquela ilha e a de Cuba.
Embaraçado pela forte corrente do Golfo, o barco avançava
muito a custo. O tempo mantinha-se sereno; se assim não fora,
ter-se-ia visto obrigado a abandonar à fúria das ondas a
grande presa que tão caro lhe custara, visto que os furacões
se desencadeiam nos mares das Antilhas de modo terrível.
O Relâmpago navegava placidamente sobre aquelas águas de
esmeralda, tão transparentes que deixavam distinguir à
profundidade de cem braças o leito alvíssimo do golfo,
matizado de corais.
No meio daquela nítida transparência viam-se peixes
extravagantes cruzar-se em todas as direcções, brincando,
perseguindo-se e devorando-se.
Dois dias depois da tomada do navio, tendo-se levantado um
vento mais forte e muitíssimo favorável, o Relâmpago
aventurava-se naquele trato de mar compreendido entre a
Jamaica e a ponta ocidental do Haiti, dirigindo-se velozmente
para as costas de Cuba.
O Corsário Negro, depois de ter permanecido quase sempre
fechado no seu camarote, ao ouvir o piloto anunciar as altas
montanhas da Jamaica, subira ao convés.
Mas estava ainda dominado por aquela inquietação que o


141


acometera na mesma noite em que tinha recebido a visita da
juvenil duquesa.
Não parava um momento. Passeava nervosamente pelo bailéu,
sem dizer uma palavra.
Demorou meia hora na ponte, observando de quando em quando,
mas distraído, as montanhas da Jamaica, que se desenhavam com
nitidez no horizonte; depois desceu à tolda, recomeçando o seu
passeio entre o mastro do traquete e o mastro grande, com as
amplas abas do seu chapéu bem caídas para a testa.
Subitamente, como se tivesse sido assaltado por algum
pensamento e obedecesse a uma tentação irresistível, subiu de
novo à ponte e tornou a descer ao castelo de popa, parando ao
pé da amurada.
Os seus olhos fixaram-se na proa do navio espanhol, distante
apenas uns metros, tanto quanto era o comprimento do cabo que
o trazia a reboque.
Estremeceu e fez menção de retirar-se, mas logo parou,
enquanto o seu rosto, muito carregado, se iluminava e a sua
palidez se mudava numa cor levemente rosada.
Avistara na popa do navio espanhol uma forma branca apoiada
na amurada. Era a jovem flamenga, envolta num roupão branco e
com os louros cabelos caídos em desalinho e que a brisa
marítima de momentos a momentos fazia flutuar.
Tinha o rosto voltado para o navio e os olhos fitos no
Corsário Negro.
Mantinha-se numa imobilidade absoluta.
O Corsário Negro não fizera qualquer gesto, nem um leve
cumprimento. Agarrara-se à amurada com ambas as mãos, como se
temesse ser arrancado dali.
Parecia estar fascinado por aqueles olhos cintilantes.
Semelhante encanto, estranho num homem como ele, durou um
momento apenas.
Como se se tivesse arrependido de se deixar vencer pelos
olhos da donzela, desprendeu-se repentinamente e recuou um
passo.


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Olhou para o timoneiro, que estava a dois passos, depois
para o mar, e seguidamente para o velame do seu navio, e então
de novo para a branca figura, recuando agora sem poder
desfitá-la.
Esta não se tinha movido.
O capitão do Relâmpago recuava sempre, como se não tivesse
forças para fugir àquela fascinação. Tornara-se mais pálido
que nunca.
Chegado à extremidade do castelo de popa, desceu para o
tombadilho, onde parou alguns momentos; depois, sempre
recuando, foi bater de encontro a Morgan, que acabava o seu
quarto de vigia.
- Desculpai-me! - disse com modo embaraçado, enquanto um
rápido rubor lhe coloria as faces.
- Observais também a cor do Sol, senhor? - perguntou o
imediato.
- Que tem o Sol?
- Reparai...
O Corsário Negro ergueu os olhos e viu que o Sol, pouco
antes refulgente, tomara uma cor avermelhada que fazia lembrar
uma chapa de ferro incandescente.
Voltou-se para os montes da Jamaica e viu os seus cumes
recortarem-se com mais nitidez no fundo do céu, como se fossem
iluminados por uma luz bem mais viva do que antes.
Uma certa inquietação se manifestou logo no rosto do
Corsário Negro e o seu olhar voltou-se para o navio espanhol,
detendo-se na jovem flamenga, a qual ainda se conservava no
mesmo sítio.
- Teremos um furacão - disse depois com voz abafada.
- Tudo indica, senhor - respondeu Morgan. - Não sentis este
cheiro nauseante que se ergue do mar?
- Sinto, e vejo também que o ar começa a turvar-se. São
estes os indícios dos tremendos furacões que se desencadeiam
nas Antilhas.
- É exacto, capitão.
- Teremos de perder a nossa presa?
- Quereis um conselho, senhor?


143


- Dizei, Morgan.
- Fazei passar metade da nossa tripulação para o navio
espanhol.
- Parece-me que tendes razão. Penalizar-me-ia, pela minha
gente, que aquela magnífica nau fosse parar ao fundo do
Oceano.
- E a duquesa, quereis deixá-la ficar lá?
- A dama flamenga!... - disse o Corsário Negro, enrugando a
fronte.
- Estará melhor no nosso Relâmpago do que ali.
- Sentiríeis que fosse a pique? - perguntou o capitão,
voltando-se para Morgan e fitando-o.
- Penso que essa duquesa pode valer alguns milhares de
piastras.
- Ah, sim, é verdade! Terá de pagar o resgate.
- Quereis que a mande passar para bordo do Relâmpago, antes
que as vagas o impeçam?
O Corsário Negro não respondeu. Tinha-se posto a passear
pela ponte como se estivesse preocupado.
Assim continuou alguns minutos, até que, parando subitamente
diante de Morgan, lhe perguntou de chofre:
- Acreditas que há mulheres fatais?
- Que quereis dizer? - perguntou o imediato, com espanto.
- Serias capaz de amar sem receio uma mulher?
- Porque não?
- Julgas que seja mais perigosa uma mulher formosa do que
uma abordagem sangrenta?
- Algumas vezes, será; mas sabeis, comandante, o que dizem
os corsários e os bucaneiros da ilha das Tartarugas, antes de
escolher companheira entre as mulheres que os governos da
França e da Inglaterra mandam para aqui à busca de marido?
- Nunca me preocupei com os casamentos dos nossos homens.
- Pois dizem, palavras textuais: "... Do que fizeste até
aqui,


144


mulher, não quero saber e absolvo-te, mas terás de dar-me
contas do que fizeres de ora avante". e batem no cano da sua
espingarda, acrescentando: "Aqui está quem me vingará, e se tu
errares, repara bem, esta não costuma errar...", O Corsário
Negro encolheu os ombros, dizendo:
- Eu referia-me a mulheres bem diferentes dessas que os
governos do ultramar expedem para cá pela força.
Parou um momento, e depois, indicando a jovem duquesa,
continuou:
- Que dizes daquela donzela?
- Que é uma das mais belas criaturas que se têm visto nestes
mares das Grandes Antilhas.
- Não vos faria medo?
- Quem? Aquela dama ... Por certo que não.
- Pois a mim, faz.
- A vós? Àquele que se chama o Corsário Negro? Estais
caçoando, comandante?
- Não - respondeu o Corsário Negro. - Leio às vezes no meu
destino; demais, uma cigana do meu país prognosticou-me que a
primeira mulher que eu amasse me seria fatal.
- Mau agoiro, capitão!
- E que dirias, se eu acrescentasse que essa cigana
predisse, acerca dos meus três irmãos, que um morreria num
assalto, em virtude de uma triste traição, e que os outros
dois seriam enforcados? Sabes, tão bem como eu, que tudo isso
se realizou.
- E vós...
- Que morreria no mar, longe da minha pátria, por causa de
uma mulher.
- Por Deus! - exclamou Morgan, estremecendo. - Mas essa
cigana pode ter-se enganado a respeito do quarto irmão.
- Não! - respondeu o Corsário Negro com voz lúgubre.
Meneou a cabeça, ficou um momento pensativo, e depois
acrescentou:

145


- Pois seja!
Desceu do castelo da popa, foi à proa, onde tinha visto
o africano a conversar com Carmaux e Wan Stiller e
disse-lhes:
- Arreiem o escaler grande. Tragam para aqui a duquesa
e todos que a acompanham.
Enquanto os dois corsários e o africano se apressavam a
obedecer, escolhia Morgan trinta marinheiros para os
mandar de reforço aos que já estavam no navio de linha,
prevendo que muito breve seria preciso cortar o cabo de
reboque.
Um quarto de hora depois, Carmaux e os seus
companheiros estavam de volta. A duquesa flamenga, as
duas criadas e os dois pajens subiram para bordo do
Relâmpago, em cuja escada os aguardava o Corsário Negro.
- Tendes alguma comunicação urgente a fazer-me, meu
amigo? - perguntou a donzela, fitando-o.
- Tenho, senhora - respondeu o Corsário Negro,
inclinando-se.
- E o que é?
- Que seremos obrigados a abandonar o navio à sua
sorte.
- Porquê?... Somos acaso perseguidos?
- Não; é o furacão que nos ameaça e nos obrigará a
cortar o cabo de reboque. Vós conheceis talvez as fúrias
tremendas deste grande golfo quando o vento o açoita.
- E tendes a peito não perder a vossa prisioneira, não
é verdade, cavaleiro? - disse a flamenga, sorrindo.
- O meu Relâmpago é mais seguro do que a nau.
- Obrigada pela vossa gentileza.
- Não me agradeçais, senhora - replicou o Corsário
Negro, com ar meditabundo. - Talvez que este furacão seja
fatal a alguém.
- Fatal! - exclamou a duquesa - E a quem?
- Ver-se-á.
- Mas porquê?
- Tudo está nas mãos do destino.
- Também temeis pelo vosso navio?
Um sorriso aflorou aos lábios do Corsário Negro.
- O meu navio pode afrontar os coriscos do céu e as
iras do mar, e eu sou homem para o guiar através de uma
tempestade...
- Bem sei, mas...
- É inútil insistirdes para obter mais ampla
explicação, senhora. Tudo dependerá da sorte.
Apontou-lhe para a câmara de popa e, tirando o chapéu,
continuou:
- Aceitai a hospitalidade que vos ofereço, senhora. Eu
vou afrontar a morte e o meu destino.
Pôs o chapéu e subiu para o castelo de popa, enquanto a
calmaria que até então reinava no mar se quebrava
bruscamente, como se das Pequenas Antilhas viessem cem
trombas de vento.
Os escaleres que transportavam para bordo da nau os
trinta marinheiros haviam regressado e a tripulação
estava ocupada em içá-los nos guindastes do Relâmpago.
O Corsário Negro, que subira ao castelo da popa, onde
já o precedera Morgan, pusera-se a observar o céu do lado
do Levante.
Uma grande nuvem bastante escura, de bordos tintos de
um vermelho afogueado, erguia-se rapidamente no
horizonte, impelida sem dúvida por um vento irresistível,
enquanto o Sol, quase no ocaso, escurecia cada vez mais,
como se uma névoa se tivesse interposto entre os seus
raios e a terra.
- No Haiti já o furacão esbraveja - disse o Corsário
Negro a Morgan.
- E a esta hora as Pequenas Antilhas estão talvez
devastadas - acrescentou o imediato. - Dentro de uma hora
também este mar estará medonho.
- Que farias no meu caso?
- Buscaria um refúgio na Jamaica.
- O meu Relâmpago fugir do furacão! - exclamou o
Corsário Negro com altivez. - Oh! Nunca!...
- Mas bem sabeis, senhor, como são formidáveis os
furacões das Antilhas.


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- Sei, e afrontá-los-ei. Será o navio de linha que irá
buscar salvamento naquelas costas, mas não o meu
Relâmpago. Quem comanda os nossos homens a bordo da nau?
- O mestre Wan Horn.
- Um valente que virá a ser um famoso corsário (1).
Sabe sair das dificuldades sem perder a presa.
Desceu do castelo da popa, segurando na mão um
porta-voz e, subindo à amurada, bradou com voz
trovejante:
- Cortai o cabo de reboque!... Eh, mestre Wan Horn,
metei para a Jamaica!... Esperamos nas Tartarugas!
- Está bem, comandante - replicou o mestre, que estava
à proa da nau esperando ordens.
Armou-se de uma machada, e de um só golpe cortou o cabo
de reboque, e depois, voltando-se para os seus
marinheiros, bradou, tirando o chapéu:
- À graça de Deus!
A nau virou de bordo, afastando-se para a Jamaica,
enquanto o Relâmpago se internava audazmente entre as
costas do Haiti e as de Cuba, no chamado canal de
Barlavento.
O furacão avizinhava-se célere. A calmaria fora
quebrada por furiosos pés-de-vento, que vinham da banda
das Pequenas Antilhas, enquanto as vagas se avolumavam
rapidamente, assumindo um aspecto pavoroso.
Parecia que o fundo do mar havia entrado em ebulição,
pois se viam formar à superfície como que sorvedoiros
espumantes, enquanto enormes colunas de água se erguiam e
caíam com grande fragor.
O Corsário Negro, sempre sereno, não parecia
preocupar-se com o furacão. Seguia com os olhos a nau,

*1 Wan Horn alcançou poucos anos mais tarde uma grande
celebridade, com a tomada e saque de Vera Cruz, a mais
importante cidade do México.


148


que se via capear no meio das ondas e que estava prestes
a sumir-se no fosco horizonte, em direcção à Jamaica.
Quando a nau desapareceu, subiu ao castelo de popa e
afastou o piloto, dizendo:
- Dá-me o leme!... Quero eu mesmo governar o meu
Relâmpago!


149


XIV


O FURACÃO


Uma medonha tempestade varria o mar com fúria
irresistível. Rajadas tremendas sucediam-se com rugidos
apavorantes, fazendo crepitar o velame e chegando a
vergar a sólida mastreação.
Ouviu-se no espaço um fragor estranho, que recrudescia
de momento para momento.
O mar tornara-se horrendo.
O Relâmpago, com o velame reduzido às mínimas
proporções, aceitara valorosamente a luta.
Navegava com desespero, mergulhando às vezes a
extremidade das velas na espuma, mas os seus flancos
poderosos não cediam ao embate formidável das vagas.
Em volta, e mesmo na tolda, caíam ramos de árvores,
frutos de todas as espécies, canas-de-açúcar e montões de
folhas que redemoinhavam, arrebatadas dos bosques e das
plantações da próxima ilha do Haiti, enquanto verdadeiros
borbotões de água se despenhavam ruidosamente sobre o
convés.
Não tardou que à noite tenebrosa sucedesse uma noite de
fogo. Relâmpagos deslumbrantes rasgavam as trevas,
iluminando as águas e a nau com uma luz lívida, enquanto
entre as nuvens estalavam tremendos trovões.
O furacão tocava então o auge da intensidade.
O vento adquirira uma velocidade fulminante, e rugia,


151


levantando verdadeiras trombas-d'água, que depois
tombavam vertiginosamente.
O Corsário Negro, erecto na popa, de mão no leme,
governava-o com firmeza.
A sua negra figura destacava-se em meio dos relâmpagos,
assumindo algumas vezes proporções fantásticas.
Parecia um génio do mar, emergido dos abismos do grande
golfo para medir as próprias forças com as da Natureza
desenfreada.
Uma mulher tinha saído da câmara e subiu para o
castelo, agarrando-se ao corrimão da escada com suprema
energia, a fim de não ser derrubada pelos desordenados
balanços do navio.
Vinha envolvida num pesado vestido de fazenda grossa,
mas trazia a cabeça descoberta, e o vento fazia-lhe
flutuar os soberbos cabelos loiros.
- Senhora! - bradou o Corsário Negro, que logo
reconhecera a jovem flamenga. - Não vedes que aqui vos
ameaça a morte?
A duquesa não respondeu, fez-lhe um gesto que parecia
querer dizer: "Não tenho medo.", - Retirai-vos, senhora -
disse o Corsário Negro, que se tornara mais pálido que de
costume.
Em vez de obedecer, a corajosa flamenga subiu para o
castelo, atravessou-o, segurando-se à corda do varandim,
e resguardou-se entre a amurada e a popa do escaler
grande, que tinha sido arriado para obstar a que as ondas
o levassem.
O Corsário Negro fez um sinal para que se retirasse,
mas ela replicou com um gesto negativo.
- Mas aqui espera-vos a morte! - repetiu-Lhe ele. -
Voltai para a câmara, senhora! Estar aqui é perigoso!
- Não! - retorquiu a flamenga.
- Mas que vindes aqui fazer?
- Admirar o Corsário Negro.
- E fazer-vos levar pelas ondas.
- Que vos importa isso?
- Mas eu não quero a vossa morte, compreendeis,
senhora! - bradou o famoso corsário num tom de voz que
pela primeira vez se sentia vibrar num ímpeto apaixonado.
A duquesa sorria, mas não se moveu. Agachada naquele
recanto, com as mãos agarradas à volta do seu pesado
vestido, de cabelos ao vento, deixava-se banhar pela água
que irrompia no castelo, sem despregar os olhos do
Corsário Negro.
Este, compreendendo que tudo seria baldado, e talvez
contente de ver tão perto aquela corajosa donzela que
subira até ali, afrontando a morte, para admirar a sua
audácia, não lhe repetiu a ordem de abandonar o castelo.
Quando o furacão cedia ao navio um momento de tréguas,
voltava os olhos para a duquesa e, involuntariamente,
sorria. Por certo se admiravam um ao outro.
Todas as vezes que a observava, logo os seus olhos se
encontravam com os dela, que tinham adquirido uma
imobilidade quase vítrea, como nessa manhã, quando ela
estivera na proa da nau espanhola.
Mas aqueles olhos, de que irradiava uma fascinação
misteriosa, produziram no Corsário Negro uma perturbação
que ele não compreendia. Até mesmo quando não a
contemplava sentia que ela não o perdia de vista um só
instante e experimentava o desejo irresistível de voltar
a cabeça para aquele canto do navio.
Houve até um momento, em que as ondas investiam mais
impetuosamente contra o Relâmpago, em que ele teve medo
daquele olhar, pois que bradou:
- Não me olheis assim, senhora!... Jogamos a vida!
Aquela inexplicável fascinação cessou depressa. A
duquesa cerrou os olhos e baixou a cabeça, cobrindo o
rosto com as mãos.
O Relâmpago estava então perto das praias do Haiti. A
claridade dos relâmpagos tinha delineado elevadas costas
flanqueadas ,de perigosos escolhos, de encontro aos quais
podia despedaçar-se o navio.


152 153


A voz do Corsário Negro ecoou logo no meio dos rugidos
das ondas e do vento.
- Uma vela nova no traquete!... Larga cutelos!...
Atentos a virar!
Toda a noite o navio corsário lutou desesperadamente
contra a tempestade, conseguindo transpor o canal de
Barlavento e desembocar naquele trato de mar compreendido
entre as Grandes Antilhas e a ilha Bahama.
Ao alvorecer, quando o vento virara ao norte, o
Relâmpago estava quase em frente do Cabo haitiano.
O Corsário Negro que devia estar extenuado daquela
longa luta, e que tinha o fato alagado, quando pôde
lobrigar o pequeno farol da cidade do Cabo entregou a
cana do leme a Morgan, dirigiu-se depois para o escaler
grande, ao pé da popa, próximo do qual ainda estava
agachada a jovem flamenga, e disse-lhe:
- Vinde, senhora. Também eu vos admirei e creio que
nenhuma mulher teria afrontado a morte como vós, para ver
o meu Relâmpago lutar com o furacão.
A duquesa erguera-se, sacudindo a água que lhe ensopava
o vestido e os cabelos. Olhou fixamente o corsário,
sorrindo, e disse-lhe:
- Pode ser que nenhuma outra mulher tivesse ousado
subir ao convés; mas eu posso orgulhar-me de ter visto o
Corsário Negro governar o seu navio no meio de um dos
mais terríveis furacões, e admirei a sua coragem e a sua
audácia.
O Corsário Negro não respondeu. Estava diante dela,
observando-a com olhos ardentes, enquanto um véu de
tristeza lhe cobria a fronte.
- Sois valorosa - murmurou, mas tão brandamente que só
ela o poderia ouvir.
E, suspirando, acrescentou:
- Pena é que a triste profecia da cigana faça de vós
uma mulher fatal.
- De que profecia quereis falar?... - perguntou a
duquesa, com espanto.


154


O Corsário Negro, em vez de responder, murmurou:
- São loucuras!
- Sois supersticioso?
- Talvez... as profecias realizam-se algumas vezes!
Contemplou as ondas que vinham quebrar-se contra os
flancos do navio com rugidos cavos, e mostrando-as à sua
interlocutora, disse em tom triste:
- Perguntai a eles, se podeis... Ambos eram belos,
moços, fortes e audazes, e ambos dormem sob aquelas
ondas, no fundo do mar. A fúnebre sina cumpriu-se, e
talvez se cumpra também a minha, porque sinto que aqui,
no coração, se ergue uma chama gigantesca, sem que eu
possa apagá-la. Seja!... Cumpra-se o Destino se assim
está escrito: o mar não me apavora e onde repousam meus
irmãos também eu poderei descansar... mas mais tarde...
quando o traidor me houver precedido.
Ergueu os ombros, fez com ambas as mãos um gesto de
ameaça, depois desceu do castelo, deixando a duquesa
atónita com aquelas palavras que não podia compreender.
Três dias depois, quando o mar já acalmara, o
Relâmpago, impelido por ventos de feição, chegava à vista
da ilha das Tartarugas, o formidável ninho dos corsários
do grande golfo.


157

XV


NA ILHA DAS TARTARUGAS


Quando o Relâmpago ancorou em porto seguro, para lá do
estreito canal que o punha a coberto de qualquer surpresa
da parte das esquadras espanholas, os corsários estavam
em plena festa.
Em frente ao cais, sob vastas tendas e à sombra fresca
das palmeiras, aqueles terríveis bandidos banqueteavam-se
alegremente, consumindo o seu quinhão do último saque.
Tigres no mar, esses homens tornavam-se em terra os mais
alegres habitantes das Antilhas, e, coisa realmente
estranha, talvez até os mais corteses, pois que não
deixavam de convidar para suas festas os espanhóis a quem
tinham aprisionado com a esperança de resgates, e até as
prisioneiras, para com as quais se comportavam como
verdadeiros fidalgos, desfazendo-se em amabilidades, a
ponto de fazer-lhes esquecer a sua triste condição.
Dissemos triste, porque se os resgates exigidos não
chegavam, recorriam frequentemente a meios cruéis para os
obter, mandando aos governadores espanhóis a cabeça de
algum prisioneiro para o constranger a apressar-se.
Quando o Relâmpago ancorou, todos aqueles corsários
interromperam o banquete, as danças e os jogos, para
saudar com ruidosos vivas o regresso do Corsário Negro,
que entre eles gozava de uma popularidade talvez igual à
do famoso Olonês.


159


Ninguém desconhecia a sua audaciosa empresa para
arrancar ao governador de Maracaíbo o pobre Corsário
Vermelho, morto ou vivo, e conhecendo por experiência a
sua coragem chegaram a ter a ilusória esperança de os ver
regressar ambos.
Mas vendo descer a meia haste a bandeira negra, sinal
de luto, todas aquelas ruidosas manifestações cessaram
como por encanto; depois, aqueles homens juntaram-se
silenciosamente no cais, ansiosos por notícias dos dois
corsários e da expedição.
O cavaleiro da Rocha Negra, do alto do tombadilho, vira
tudo. Chamou Morgan, que fazia arriar alguns escaleres, e
disse-lhe, apontando para os homens reunidos na praia:
- Ide dizer-lhes que o Corsário Vermelho teve honrosa
sepultura nas águas do grande golfo, mas que seu irmão
voltou vivo para preparar a vingança...
Interrompeu-se por alguns momentos; depois, mudando de
tom:
- Mandareis avisar o Olonês de que esta noite irei ter
com ele; depois irei levar os meus cumprimentos ao
governador. Mais tarde me avistarei com ele.
Dito isto, desceu à câmara onde estava a duquesa.
- Senhora, está um escaler preparado para vos conduzir
a terra.
- Estou pronta para obedecer, cavaleiro - respondeu
ela. - Sou vossa prisioneira e não me oporei às vossas
ordens.
- Não, senhora, já não sois prisioneira.
- E porquê?... Ainda não paguei o meu resgate.
- Já foi entregue no cofre da tripulação.
- Por quem?... - perguntou a duquesa, muito admirada. -
Eu ainda não preveni o marquês de Herédia, nem o
governador de Maracaíbo da minha prisão.
- É verdade, mas alguém se encarregou de pagar o vosso
resgate - respondeu o Corsário Negro, sorrindo.
- Vós, talvez?...
- Pois bem; e se tivesse sido eu?


160


A duquesa ficou um pouco silenciosa; depois disse com
voz comovida:
- É uma generosidade que eu não esperava encontrar
entre os corsários das Tartarugas, mas que não me
surpreende se quem a praticou se chama o Corsário Negro.
- E porquê, senhora?
- Porque vós sois bem diferente dos outros. Nestes
poucos dias que passei a bordo deste navio, tive ocasião
de poder apreciar a gentileza e a generosidade do
cavaleiro da Rocha Negra. Rogo-vos, em todo o caso, que
me informeis em quanto foi fixado o meu resgate.
- Tendes urgência em saldar o vosso débito? Tendes
pressa de retirar-vos da ilha das Tartarugas?
- Não, enganais-vos; e quando for chegado o momento de
abandonar esta ilha, talvez tal me custe mais do que
podereis imaginar; guardarei uma viva gratidão ao
Corsário Negro e talvez nunca mais o olvide.
- Senhora!... - exclamou o capitão, enquanto um fulgor
lhe iluminava os olhos.
Tinha dado um passo rápido para a donzela, mas logo se
deteve, dizendo tristemente:
- Talvez que então eu me tenha feito o mais desapiedado
inimigo dos vossos amigos, fazendo nascer no vosso
coração uma profunda aversão.
Deu uma volta a passos agitados; depois, parando
repentinamente, perguntou-lhe à queima-roupa:
- Conheceis o governador de Maracaíbo?
A duquesa, ao ouvir aquelas palavras, estremeceu,
depois empalideceu.
- Conheço - respondeu com voz trémula. - Porque me
fazeis essa pergunta?
- Suponde que a fiz por mera curiosidade! Mas que
tendes, senhora? - perguntou o Corsário Negro. - Estais
pálida e agitada?
Em vez de responder, a donzela tornou a perguntar com
maior veemência:


161


- Mas, porquê essa pergunta?
O Corsário Negro ia responder quando se ouviram passos
na escada. Era Morgan que descia à câmara.
- Comandante - disse ele, entrando -, Pedro Nau
espera-vos em sua casa, para fazer-vos comunicações
urgentes. Durante a vossa ausência estudou os vossos
projectos e tudo está pronto para a expedição.
- Ah! - exclamou o Corsário Negro, enquanto sinistro
lampejo lhe fulminava nos olhos. - Já?... Não cuidei que
a vingança fosse tão rápida.
Voltou-se para a duquesa, que parecia ainda dominada
por estranha agitação, dizendo-lhe:
- Senhora, consenti que vos ofereça hospitalidade na
minha casa, que ponho inteiramente à vossa disposição.
Moko, Carmaux e Wan Stiller conduzir-vos-ão até lá e
ficarão às vossas ordens.
- Mas... cavaleiro... ainda uma palavra...
- Sim... do resgate falaremos mais tarde.
Depois, sem prestar mais atenção à duquesa, saiu
apressadamente, seguido de Morgan, atravessou o convés e
desceu a um escaler tripulado por seis marinheiros.
Sentou-se à popa, tomando a cana do leme, mas em vez de
dirigir a embarcação para o cais, onde os corsários
tinham reatado as orgias, meteu a proa para uma pequena
enseada a este do porto, que estava resguardada por um
bosque de palmeiras.
Desembarcando aí, deu ordem aos seus homens para
voltarem para bordo e meteu por meio das plantas, tomando
um atalho quase invisível.
Já se tinha internado bastante no bosque, quando uma
voz alegre o arrancou às suas meditações:
- Que os caraíbas me comam se eu não tinha a certeza de
vos encontrar, cavaleiro. Acaso a alegria que reina nas
Tartarugas te causa medo, para que venhas a minha casa
tomando por atalhos?
O Corsário Negro erguera vivamente a cabeça, enquanto
levava a mão direita às guardas da espada.
Um homem um tanto baixo, vigoroso, de feições rudes,
olhar penetrante, vestido de simples marinheiro e armado
de um par de pistolas e de uma machada de abordagem,
saíra de um grupo de bananeiras, embargando-lhe o passo.
- Ah, és tu, Pedro?
- O Olonês, em carne e osso.
Aquele homem era efectivamente o famoso corsário, o
mais formidável bandido do mar e o mais desapiedado
inimigo dos espanhóis; naquela época teria trinta e cinco
anos, mas já era célebre.
Natural de Olonne, no Poitou, França, tinha sido
marinheiro contrabandista nas costas de Espanha.
Surpreendido uma noite pelos guardas aduaneiros, perdera
o barco; seu irmão fora morto e ele próprio tinha ficado
gravemente ferido.
Curado, mas caído da mais atroz miséria, vendera-se
como escravo a Montbars, o exterminador, por quarenta
escudos, a fim de socorrer sua velha mãe.
Primeiramente trabalhara como bucaneiro na qualidade de
engajado, ou seja, de servo; depois passara a corsário, e
tendo demonstrado possuir uma coragem excepcional e uma
força de vontade extraordinária, pudera finalmente obter
do governador da ilha das Tartarugas um pequeno navio.
Com esse barco, aquele homem audaz operara prodígios,
protegido pelos três corsários, o Negro, o Vermelho e o
Verde.
Mas um dia fatal, atirado por uma tempestade para
costas de Campeche, naufragara quase à vista dos
espanhóis. Todos os seus companheiros tinham sido
trucidados, mas ele conseguira salvar-se enterrando-se
até ao pescoço no lodo de uma savana.
Tendo saído ainda vivo daquele pântano, em vez de
fugir, ainda teve a audácia de se aproximar de Campeche,
vestido de soldado espanhol, entrar na povoação para a
estudar melhor e, arranjando alguns escravos, com um
barco roubado, regressar à ilha das Tartarugas, onde
todos o julgavam morto.


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Outro qualquer talvez se abstivesse de tentar novamente
fortuna, mas, ao contrário, o Olonês apressara-se a
voltar para o mar, somente com duas pequenas embarcações,
e logo se dirigiu com vinte e oito homens a Los Cayos de
Cuba, praça que a esse tempo era bastante comercial.
Alguns pescadores espanhóis, sabedores da sua presença,
avisaram o governador da praça, o qual mandou contra os
dois naviozitos corsários uma fragata tripulada por
noventa homens e quatro navios menores com tripulações
valentes, e um negro que devia encarregar-se do
enforcamento dos corsários.
Em presença de tanta força, não se amedrontou o Olonês.
Esperou o romper da madrugada, abordou dos dois lados a
fragata com os seus vinte e oito homens, não obstante o
valor desesperado dos espanhóis, subiu à abordagem e
trucidou todos, inclusive o negro. Feito isto, avançou
contra os outros quatro navios e assaltou-os, atirando
depois à água os tripulantes. Tal era o homem com quem ia
entender-se o Corsário Negro.
- Vem a minha casa - disse o Olonês, depois de ter
apertado a mão do comandante do Relâmpago. - Esperava com
impaciência o teu regresso.
- E eu estava também impaciente por ver-te - disse o
Corsário Negro. - Sabes que entrei em Maracaíbo?
- Tu? - exclamou o Olonês, assombrado.
- E como querias tu que eu roubasse o cadáver de meu
irmão?
- Julguei que te servisses de intermediários.
- Não; bem sabes que prefiro fazer as coisas por minhas
mãos.
- Toma tento, não vá a tua audácia custar-te a vida.
Viste como acabaram teus irmãos?
- Cala-te, Pedro.
- Oh! Mas havemos de vingá-los, e breve!
- Decidiste-te, finalmente? - perguntou o Corsário
Negro com animação.
- Fiz mais. Preparei a expedição.
- É certo o que me dizes?
- Pela minha fé de ladrão, como me chamam os espanhóis
- disse o Olonês, rindo.
- De quantos navios dispões?
- De oito navios, incluindo o teu Relâmpago, e de
seiscentos homens entre corsários e bucaneiros. Nós
comandaremos os primeiros e Miguel Vascongado comandará
os segundos.
- Vem também o Vascongado?
- Pediu-me para fazer parte da expedição e eu
apressei-me a aceitá-lo. Como sabes, é militar, tem
combatido nos exércitos europeus, e é rico.
- Precisas de dinheiro?
- Gastei todo o que tinha colhido no último navio
tomado em Maracaíbo, ao voltar de Los Cayos.
- Conta de minha parte com dez mil piastras.
- Pelas areias de Olonne!... Tens alguma mina?
- Dar-te-ia mais se não tivesse pago esta manhã
avultado resgate.
- Um resgate!... Tu!... E por quem?
- Por uma ilustre dama que me caiu nas mãos. O resgate
pertencia à minha tripulação e paguei-o eu.
- Quem é ela?... Alguma espanhola?
- Não; uma duquesa flamenga, que, no entanto, é
aparentada com certo governador de Vera Cruz.
- Flamenga! - exclamou o Olonês, que se tornara
pensativo. - O teu mortal inimigo também é flamengo.
- E que queres tu concluir daí? - perguntou o Corsário
Negro, que empalidecera.
- Pensava que poderia ser parente de Wan Guld.
- Queira Deus que não! - exclamou com voz quase
trémula. - Não... não é possível!
O Olonês parara e pusera-se a observar atentamente o
companheiro.
- Porque me olhas assim? - perguntou este.


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- Pensava na tua duquesa flamenga e perguntava a mim
mesmo qual será o motivo da tua repentina agitação. Sabes
que estás lívido.
- Essa suspeita fez-me afluir todo o sangue ao coração.
- Que suspeita?
- Que ela pudesse ser parente de Wan Guld.
- E que te importaria a ti se o fosse?
- Jurei exterminar todos os Wan Guld e todos os seus
parentes.
- Pois bem; matar-se-ia a duquesa, e...
- Ela!... Oh, não!... - exclamou com terror.
- Quer dizer que amas a tua prisioneira.
- Cala-te, Pedro!
- Calar?... Acaso será vergonha amar uma mulher?
- Não, mas, instintivamente, sinto que essa criatura me
será funesta, Pedro.
- Nesse caso, abandona-a ao seu destino.
- É demasiado tarde.
- Ama-la muito?
- Loucamente!
- E ela ama-te?
- Creio que sim.
- Um belo par, por minha fé!... O senhor da Rocha Negra
só podia apaixonar-se por uma fidalga!... Ora bem, vamos
beber um copo à saúde da tua duquesa!
A habitação do Olonês era uma modesta vivenda de
madeira, construída grosseiramente, com tecto coberto de
folhas secas, mas bastante cómoda e mobilada com certo
luxo.
Estava situada a milha e meia da cidade, à beira do
bosque.
O Olonês introduziu o Corsário Negro numa sala do
rés-do-chão, fê-lo sentar numa grande cadeira de bambu,
depois mandou vir por um dos seus engajados algumas
garrafas de vinho de Espanha, e abriu uma, enchendo dois
grandes copos.
- À tua saúde, cavaleiro, e aos olhos da tua dama!
- Prefiro que bebas ao feliz êxito da nossa expedição -
respondeu o Corsário Negro.
- Vingará plenamente, meu amigo, e prometo entregar-te
o assassino de teus dois irmãos.
- Dos três, Pedro.
- Oh! Oh! - exclamou o Olonês. - Eu sei, como o sabem
todos os corsários, que Wan Guld matou o Corsário Verde e
o Vermelho; mas ignorava que houvesse terceira vítima.
- Três, sim - repetiu o Corsário Negro, com expressão
terrível.
- E vive ainda esse homem?...
- Mas morrerá breve, Pedro.
- Assim o espero e estou pronto para te ajudar com
todas as minhas forças. Mas, antes de tudo mais, vejamos:
conheces bem esse Wan Guld?...
- Conheço-o melhor do que os espanhóis que ele serve.
- Que homem é?
- Um velho militar que combateu longo tempo na Flandres
e que tem um dos nomes mais ilustres da nobreza flamenga.
Foi homem de grande valor e talvez pudesse acrescentar
outros títulos ao que usa, se o ouro espanhol não tivesse
feito dele um traidor.
- É velho?
- Deverá ter uns cinquenta anos. Mas parece que ainda
tem fibra dura. Diz-se que é o governador mais valoroso
que a Espanha tem nestas colónias. É astuto como uma
raposa, enérgico e corajoso.
- Nesse caso devemos contar com uma resistência
desesperada em Maracaíbo.
- Certamente, Pedro. Mas quem poderá resistir ao
assalto de seiscentos piratas?... Tu bem sabes quanto
valem os nossos homens.
- Pelas areias de Olonne! Eu bem sei como se bateram os
vinte e oito homens que afrontaram comigo a esquadra de


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Los Cayos. Além disso, tu já conheces Maracaíbo, e deves
saber qual será o lado fraco da praça.
- Eu te guiarei.
- E a tua bela flamenga?
- Decerto estará à minha espera - disse o Corsário
Negro, com um sorriso.
- Onde a hospedaste?
- Na minha vivenda.
- E para onde vais, se a tua casa está ocupada?
- Ficarei contigo.
- Ora aqui está uma felicidade com que eu não contava.
Assim, combinaremos a expedição, juntamente com
Vascongado, que vem cear comigo.
- Obrigado, Pedro. Partiremos, não?
- Amanhã de madrugada. Está completa a tua tripulação?
- Faltam-me setenta homens, porque me vi na necessidade
de mandar trinta para o navio espanhol capturado ao pé de
Maracaíbo e perdi quarenta no combate.
- Embora!... Será fácil encontrar outros tantos. Todos
ambicionam navegar contigo e tripular o teu Relâmpago.
- Sim, enquanto eu goze a fama de ser um demónio do
mar.
- Pelas areias do Olonne!... És sempre tétrico como um
fantasma!... Mas por certo o não és com a tua duquesa.
- Talvez - replicou, dirigindo-se para a porta.
- Já te vais embora?... - perguntou o Olonês.
- Vou, tenho alguns negócios a resolver; mas ainda esta
noite, talvez um pouco tarde, aqui estarei. Adeus, Pedro;
até logo.
- Adeus, e tem cuidado com os olhos da flamenga!

168


XVI


A VIVENDA DO CORSÁRIO NEGRO


O Corsário Negro, sempre absorto nos seus pensamentos,
apressou o passo, como se estivesse impaciente por chegar
a algum local.
Meia hora depois parava na orla de uma plantação de
canas altas, de cor amarelo-avermelhada, que, sob os
raios do Sol,. prestes a cair no ocaso, tinham reflexos
purpurinos.
O Corsário Negro parou um momento, depois atravessou
aquele trato de terreno cultivado e tornou a parar do
outro lado, em frente de uma graciosa habitação.
Era uma casinha de dois andares, pintada de vermelho,
adornada de azulejos, de telhado coberto por um grande
terraço cheio de vasos com flores.
Diante da porta de entrada estava sentado Moko, o
gigante africano, fumando cachimbo.
O Corsário Negro ficou um momento imóvel, observando
primeiro as janelas, depois o terraço; a seguir,
dirigiu-se ao africano, que rapidamente se erguera.
- Onde estão Carmaux e Wan Stiller?
- Foram ao porto saber se havia algumas ordens.
- Que faz a duquesa?
- Está no jardim.
- Sozinha?...
- Com as suas criadas e os pajens.
- Que está fazendo?


169


- Preparando a mesa para vós.
- Para mim? - perguntou o Corsário Negro, enquanto o
rosto se lhe alegrava.
- Tinha a certeza de que viríeis cear com ela.
- Realmente, esperavam-me noutro lugar, mas prefiro a
minha casa e a sua companhia.
Transpôs a porta, metendo por uma espécie de corredor,
e saiu pelo outro lado da casa, entrando num jardim
espaçoso, cercado de muros. O Corsário Negro
aproximou-se, sem fazer ruído, de uma espécie de cabana
formada por uma enorme cuieira.
O Corsário Negro parou a pequena distância, observando
através da folhagem; debaixo daquele pitoresco retiro
estava preparada uma mesa coberta com uma alva toalha de
linho da Flandres.
Grandes ramos de flores tinham sido dispostos em volta
de dois candelabros e à volta de pirâmides de frutos
delicados.
A duquesa estava ajeitando as flores e os frutos,
ajudada pelas duas mulatas. Ostentava um vestido
azul-celeste, com rendas de Bruxelas, que fazia
sobressair a alvura da pele e o loiro dos cabelos.
O Corsário Negro detivera-se a contemplá-la. Os seus
olhos, animados de uma viva chama, observavam-na
atentamente, seguindo-lhe os mais pequenos movimentos.
Parecia que o tinha deslumbrado aquela singular beleza,
pois quase não ousava respirar.
A donzela flamenga, ouvindo ligeiro ruído, voltou-se.
Um leve rubor lhe tingiu logo as faces, enquanto os
lábios desabrochavam num sorriso.
- Ah!, sois vós, meu amigo!...
Depois, enquanto o Corsário Negro tirava delicadamente
o chapéu, acrescentou:
- Já vos esperava...
- Esperáveis-me?... - perguntou o Corsário Negro,
depondo um beijo na mão que ela estendia.
- Bem o vedes, cavaleiro. Aqui tendes um pedaço de
peixe-boi, aves e peixes que só esperam que os comam. Eu
própria dirigi o cozinhado, sabeis?
- Vós, duquesa?
- E de que vos admirais?... As mulheres flamengas
costumam preparar por suas próprias mãos as refeições
para os seus hóspedes...
- E esperáveis-me?
- Sim...
- Senhora - disse o Corsário Negro -, eu tinha dito a
um dos meus amigos que me esperasse para a ceia; mas,
viva Deus! Pode esperar-me enquanto queira, porque não
renunciarei ao prazer de cear convosco. Quem sabe! Talvez
seja a última vez que nos vejamos.
- Que dizeis? - volveu a donzela, estremecendo. - Acaso
o Corsário Negro tem pressa de voltar para o mar?...
Acaba de regressar de uma audaciosa expedição e já quer
correr em busca de novas aventuras?... Não sabe, então,
que no mar pode esperá-lo a morte?
- Sei, senhora; mas o Destino impele-me para longe, e
irei.
- E nada poderá deter-vos?
- Nada, senhora - respondeu ele, tristemente.
- Nenhum afecto?
- Nenhum.
- Nenhuma amizade? - insistiu a donzela com crescente
ansiedade.
O Corsário Negro ofereceu à donzela uma cadeira e
disse:
- Sentai-vos, senhora; a ceia esfriará e
penalizar-me-ia não fazer as honras a estes acepipes
preparados por vossas formosas mãos.
Sentaram-se em frente um do outro, enquanto as duas
mulatas começaram a servir. O Corsário Negro tornara-se
amabilíssimo, e enquanto comia, ia falando com espírito e
gentileza.
A juvenil flamenga escutava-o, sorrindo. Parecia,


170 171


no entanto, preocupada por um constante pensamento,
porque, respondendo-Lhe, voltava sempre ao assunto da sua
expedição.
Já tinha anoitecido havia duas horas quando o Corsário
Negro se levantou. Só naquele instante se tinha lembrado
de que o Olonês e o Vascongado o esperavam e que antes da
alvorada devia completar a tripulação do Relâmpago.
- Como o tempo voa junto de vós, senhora - disse. - Que
misteriosa fascinação possuís, para me fazer esquecer que
ainda tenho graves negócios a concluir?... Cuidava que
apenas fossem oito horas e já são dez.
- Creio que terá sido o prazer de descansar um pouco em
vossa casa, depois de tantas fadigas no mar, cavaleiro -
disse a duquesa.
- Ou antes os vossos belos olhos e a vossa
agradabilíssima companhia.
- Em tal caso, terá sido a vossa companhia que me terá
feito passar estas horas deliciosas... e quem sabe se
outras gozaremos ainda, juntos, neste poético jardim,
longe do mar e dos homens?... - acrescentou ela com
profunda amargura.
- Muitas vezes a guerra mata, mas algumas vezes a
fortuna poupa.
- A guerra! E o mar, não contais com ele? O vosso
Relâmpago nem sempre vencerá as vagas.
- O meu navio não teme as procelas, quando sou eu que o
governo.
- Visto isso, voltareis breve para o mar?
- Amanhã, de madrugada, senhora.
- Dir-se-ia que a terra vos causa horror.
- Eu amo o mar, duquesa, e, depois, não será aqui que
eu poderei encontrar o meu mortal inimigo.
- Tende-lo sempre fixo no pensamento?
- Sempre! E esse pensamento só se extinguirá com a
minha vida.
- É para ir combatê-lo que partis?
- Talvez.
- E ireis?... - perguntou a donzela com uma ansiedade
que não passou despercebida ao Corsário Negro.
- Não vo-lo posso dizer, senhora. Eu não posso trair os
segredos dos corsários. Não devo esquecer que vós, até há
poucos dias, fostes hóspeda dos espanhóis de Vera Cruz e
que também tínheis conhecimentos em Maracaíbo.
A donzela flamenga encarou o Corsário Negro com uma
expressão de desgosto.
- Desconfiais de mim?
- Não, senhora. Deus me livre de desconfiar de vós, mas
devo respeitar as leis dos corsários.
- Magoar-me-ia muitíssimo que o Corsário Negro tivesse
podido duvidar de mim. Tive ocasião de reconhecer quanto
é leal e fidalgo.
- Obrigado, pela boa opinião que de mim fazeis.
Pusera o chapéu na cabeça e deitara o capote no braço;
mas parecia não se decidir a retirar-se. Ficara de pé,
diante da donzela, fitando-a tristemente.
- Tendes alguma coisa a dizer-me, não é verdade?
- Tenho, senhora.
- E tão grave é que estais embaraçado?
- Talvez.
- Falai...
- Queria perguntar-vos se na minha ausência
abandonareis a ilha.
- E se assim procedesse?... - perguntou ela.
- Penalizar-me-ia muito não vos encontrar quando
regressasse.
- Sim?... E porquê? - perguntou a duquesa, sorrindo e
corando ao mesmo tempo.
- Não sei porquê... mas sinto que seria tão feliz se
pudesse passar outra noite como esta, junto de vós...
Compensar-me-ia de tantas amarguras!...
- Pois bem, se vos seria desagradável não me encontrar,
confesso-vos que também eu sentiria não tornar a ver o
Corsário Negro - disse a juvenil duquesa, inclinando a


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cabeça para o seio e cerrando os olhos.
- Nesse caso, esperar-me-eis?... - perguntou o Corsário
Negro, com ímpeto.
- Farei mais, se mo permitirdes...
- Dizei, senhora.
- Pedir-vos-ei ainda uma vez hospitalidade a bordo do
vosso Relâmpago.
O Corsário Negro tornou-se imediatamente sombrio.
- Não... É impossível - disse com firmeza.
- Acaso vos causaria estorvo?
- Não; mas não é permitido aos corsários, quando
empreendem uma expedição, levar consigo alguma mulher. É
certo que o Relâmpago me pertence, que sou eu o senhor
absoluto a bordo do meu navio, mas...
- Continuai - disse a duquesa, que se tornara triste.
- Não sei dizer-vos porquê, senhora, mas sinto que
teria medo de vos ter a bordo do meu navio. É o
pressentimento de alguma desgraça que não posso prever,
ou alguma coisa pior?... Vós fizestes-me esse pedido, e o
meu coração, em vez de exultar, experimentou uma dor
cruel; olhai para mim: vereis que estou mais pálido que
de costume...
- É verdade!... - exclamou a duquesa, com espanto. -
Meu Deus! Poderá esta expedição ser-vos funesta?
- Quem pode prever o futuro?... Deixai-me partir. Neste
momento sofro muito!... Adeus, senhora! E se eu tiver de
perder-me nos abismos do grande golfo ou morrer com uma
bala ou um ferro no peito, lembrai-vos sempre do Corsário
Negro!


FIm

Do primeiro volume

A luta implacável que oCorsário Negro vaitravar contra
o governador de Maracaíbo, duque de Wan Guld, terá lugar
no volume intitulado:


O JURAMENTO DO CORSÁRIO NEGRO

Clássicos TVI

1 - Peregrinação, Fernão Mendes Pinto
2 - A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, Júlio Verne
3 - Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
4 - O Corsário Negro, Emílio Salgari
5 - A Ilha do Tesouro, R. L. Stevenson
6 - As Minas de Salomão, Rider Haggard
7 - Robinson Crusoe, Daniel Defoe
8 - O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
9 - Sandokan, O Tigre da Malásia, Emílio Salgari
10 - A Cabana do Pai Tomás, Harriet Beecher Stoe
11 - Miguel Strogoff, Júlio Verne
12 - Ben-Hur, Lewis Wallace
13 - Oliver Twist, Charles Dickens
14 - As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain
15 - O Juramento do Corsário Negro, Emílio Salgari
16 - O Último Moicano, Fenimore Cooper
17 - A Ilha Misteriosa, Júlio Verne

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