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sábado, 6 de agosto de 2011

O Corsário Negro 2

O JURAMENTO do CORSÁRIO NEGRO


EMÍLIO SALGARI


O famoso corsário da ilha das Tartarugas obstina-se na
sua terrível vingança contra o governador de Maracaíbo, o
assassino dos seus dois irmãos, o Corsário Verde e o
Corsário Vermelho. Mas o duque de Wan Guld é astuto e,
sabendo o tremendo juramento que contra ele proferiu o
Corsário Negro, está pronto a tudo para ludibriar os planos
do seu inimigo. E o valente pirata, ora por terra, através da
floresta virgem, ora por mar, a bordo do seu Relâmpago, não
hesita em pôr em risco a vida para capturar o governador.

Índice


I - Ódio de morte ...................... 7/0
II - O ataque a Maracaíbo ............. 13/0
III - A caça ao governador ............ 19/0
IV - Na floresta virgem ............... 23/0
V - O ataque do jaguar ................ 27/1
VI - Atribulações de Carmaux .......... 34/1
VII - Os antropófagos ................. 40/1
VIII - Entre as flechas e as garras ... 52/2
IX - A fuga de Wan Guld ............... 61/2
X - A ilha salvador ................... 71/3
XI - Assalto ao monte ................. 75/3
XII - Palavra de fidalgo .............. 84/
XIII - A tomada de Gibraltar .......... 92/4
XIV - O juramento do Corsário Negro ... 97/4


A Noiva do Corsário Negro


I - No rasto de Wan Guld ............. 109/4
II - Falar ou morrer ................. 115/4
III - Traição ........................ 121/5
IV - Cercados no torreão ............. 131/5
V - O ataque ao Relâmpago ............ 137/5
VI - A chegada dos corsários ......... 143/6
VII - O Brulote ...................... 149/6
Viii - Terrível combate .............. 155/6
IX - O ódio de Yara .................. 162/6
X - As costas do Iucatão ............. 168/7
XI - A grande esquadra corsária ...... 175/7
XII - Terrível abordagem ............. 183/8
XIII - A rendição da fragata ......... 187/8
XIV - A lagoa de Tamiahua ............ 191/8
XV - A jangada ....................... 197/8
XVI - A caça ao lamantino ............ 200/8

O juramento do Corsário Negro


I


Ódio de morte


Ao romper do Sol, com a maré alta, entre o rufar dos
tambores e o som dos pífaros, o tiroteio dos bucaneiros e os
hurras estrepitosos, saía do porto a expedição sob o comando
do Olonês, do Corsário Negro e de Miguel o Vascongado.
A expedição compunha-se de oito navios armados de oitenta e
seis canhões, dezasseis dos quais embarcados no navio do
Olonês e doze no Relâmpago, e tripulados por seiscentos e
cinquenta corsários e bucaneiros.
O Relâmpago, sendo o navio mais veloz, navegava à frente da
esquadra, servindo de explorador.
No topo do mastro grande flutuava a bandeira negra com as
insígnias de ouro do seu comandante e no cimo do pequeno
mastro o pavilhão vermelho dos navios de combate.
A esquadra, chegada ao largo, dirigiu-se para o Ocidente, a
fim de alcançar o canal de Barlavento, para depois desembocar
no Mar Caraíbo.
Fazia um tempo esplêndido, o mar estava calmo e o vento de
feição, soprando do noroeste, de modo que tudo fazia esperar
uma tranquila e rápida viagem até Maracaíbo, tanto mais que os
corsários tinham sido avisados de que a frota do almirante
Toledo se encontrava naquela ocasião nas costas do Iucatão,
com rumo para os portos do México.
Após dois dias a esquadra, sem ter tido qualquer encontro,
ia dobrar o Cabo do Engano quando do Relâmpago, que navegava
sempre à frente, foi dado sinal da presença de uma nau inimiga
navegando para as costas de São Domingos.
O Olonês, arvorado em comandante supremo, ordenou logo a
todos os navios que largassem pano e se aproximassem com o seu
do Relâmpago, que já se preparava para dar caça.
Para além do Cabo, um navio que levava no mastro de mezena a
bandeira espanhola e no mastro grande o pavilhão das naus de
guerra navegava ao longo da costa, como se buscasse algum
refúgio, tendo talvez descortinado a poderosa esquadra dos
corsários.
O Olonês mandou fazer sinal ao Corsário Negro para largar
velas como os outros navios e dirigiu-se ousadamente contra o
navio espanhol, intimando-Lhe a capitulação incondicional ou a
luta, e mandando bradar pelos seus homens de proa que,
qualquer que fosse o êxito do combate, a sua esquadra não se
moveria.
O navio, que se reputava já perdido, em face de forças tão
esmagadoras, não esperou segunda intimação; em vez de arriar o
estandarte, o seu comandante fê-lo içar ao topo e, como
resposta, disparou contra o navio inimigo os seus oito canhões
de estibordo, dando assim a entender que não se renderia.
O combate empenhara-se com grande violência de ambas as
partes. A nau espanhola tinha dezasseis canhões, mas apenas
sessenta homens de tripulação: o Olonês tinha outras tantas
bocas de fogo e o dobro dos tripulantes.
A esquadra, por sua banda, largara pano, obedecendo às
ordens do arrojado corsário para não intervir. Simplesmente as
tripulações, enfileiradas nas toldas, assistiam como
espectadoras à luta.
Seis vezes os corsários tinham subido à abordagem, e outras
tantas haviam sido repelidos por aqueles sessenta valentes;
mas à sétima lograram pôr pé na tolda do navio inimigo e
arriar a bandeira.
Desembarcados os sobreviventes na costa, por não quererem a
bordo prisioneiros, e reparados os estragos sofridos na
mastreação, a esquadra, ao entardecer, punha-se em andamento
para a Jamaica.
O Relâmpago tinha retomado o seu posto da vanguarda, por ser
o mais veloz.
O Corsário Negro tinha a peito explorar o mar a grande
distância, pelo receio de que alguma nau espanhola pudesse
descobrir a direcção daquela poderosa esquadra e corresse a
advertir o governador de Maracaíbo ou o almirante de Toledo.
Aquela travessia do Mar Caraíbo efectuou-se sem incidentes,
pois o mar mantinha-se calmo; e na noite do décimo quarto dia,
depois de a esquadra ter saído da ilha das Tartarugas, o
Corsário Negro avistava a ponta do Paraguaná, indicada pelo
pequeno farol destinado a avisar os navegantes da boca do
pequeno golfo.
- Até que enfim!... - exclamou o Corsário Negro, enquanto
uma sinistra chama lhe iluminava os olhos. - Amanhã talvez o
assassino de meus irmãos já não seja do número dos vivos!...
Chamou Morgan, que tinha subido à coberta para fazer o seu
quarto, e disse-lhe:
- Não se acende nenhum farol a bordo. É preciso que os
espanhóis não dêem pela presença da esquadra, senão amanhã não
encontraremos na cidade nem uma piastra.
- Paramos aqui à entrada do golfo?
- Não. Toda a esquadra avançará para a boca da enseada e
amanhã, ao romper da madrugada, caíremos repentinamente sobre
Maracáíbo.
- Os nossos homens vão para terra?
- Vão, juntamente com os bucaneiros do Olonês. Enquanto a
esquadra bombardeia os fortes do lado do mar, assaltamo-los
nós por terra, a fim de obstar a que o governador possa fugir.
Ao alvorecer, tudo deve estar pronto para o desembarque.
- Perfeitamente, senhor.
- Além disso - acrescentou o Corsário Negro - também estarei
no convés. Agora vou pôr a couraça de combate.
Retirando-se do convés, desceu à câmara para passar à sua
cabina. Ia abrir a porta quando um perfume delicadíssimo, bem
seu conhecido, lhe chegou inesperadamente.
- É singular!... - exclamou. - Se não tivesse a certeza de
ter deixado a flamenga nas Tartarugas, ia jurar que era ela!
Olhou em volta mas a escuridão era completa, pois tinham
sido apagadas todas as luzes; mas pareceu-lhe ver a um canto
da câmara, apoiado a uma das janelas, um vulto claro.
O Corsário Negro era corajoso, mas como todos os homens
daqueles tempos, era também um pouco supersticioso, e ao
lobrigar aquela sombra imóvel, sentiu um suor frio.
- Será a sombra do Corsário Vermelho? - murmurou recuando
para o lado oposto. - Virá lembrar-me o juramento proferido
aquela noite, nestas águas? Quem sabe se a sua alma terá
abandonado os abismos do golfo, onde repousava?...
Mas, subitamente, quase se sentiu vexado de ter tido aquele
momento de supersticioso medo, e desembainhando o punhal que
trazia à cinta, avançou, dizendo:
- Quem sois?... Falai ou mato-vos!
- Sou eu, cavaleiro - replicou uma voz meiga, que o fez
estremecer.
- Vós!... - exclamou entre o espanto e a alegria. - Vós,
senhora?!... Vós aqui, quando eu vos julgava em terra? Acaso
estarei sonhando?
- Não sonhais, meu amigo.
O Corsário Negro tinha avançado precipitadamente, deixando
cair o punhal e estendera os braços para a duquesa.
- Vós aqui? - repetiu com voz trémula. - Mas de onde
surgistes? Como vos encontrais no meu navio?
- Não sei... - respondeu a duquesa com embaraço.
- Vamos, falai!...
- Pois bem... Quis seguir-vos.
- Nesse caso, amais-me?... Oh, dizei-mo; é verdade, senhora?
- Sim! - balbuciou num leve fio de voz.
- Meu Deus!... Agora já posso afrontar a morte sem medo!
Tinha tirado da algibeira o fuzil e a isca e acendeu um
candelabro, que colocou a um canto da câmara, de modo que a
luz não se projectasse no mar.
- Agora dizei, senhora, por que milagre vos encontro aqui?
Custa-me ainda a crer em tamanha felicidade.
- Direi, mas depois de me terdes prometido que perdoareis
aos meus cúmplices.
- Aos vossos cúmplices?!
- Deveis compreender que por mim só, não poderia embarcar a
ocultas no vosso navio e conservar-me fechada catorze dias num
camarote.
- Nada posso negar-vos, senhora, e aqueles que desobedeceram
às minhas ordens já estão perdoados. Os seus nomes, senhora.
- Wan Stiller, Carmaux e o negro.
- Eles!... - exclamou o Corsário Negro. - Devia tê-lo
suspeitado!... Mas como pudestes obter a sua cooperação?! Os
corsários que desobedecem às ordens do seu chefe fuzilam-se.
- Estavam convencidos de que não causariam desgosto ao seu
comandante.
- E como conseguiram que embarcásseis?
- Vestida de marinheiro, de noite, junto com eles, a fim de
ninguém dar pela minha presença.
- E esconderam-vos num destes camarotes? - perguntou o
Corsário, sorrindo.
- No contíguo ao vosso.
- E esses marotos, onde se ocultaram?...
- Conservaram-se sempre escondidos no porão, mas vinham
frequentemente trazer-me alimentos que subtraíam ao
despenseiro.
- Velhacos!... Quanta dedicação nestes homens tão rudes!...
Afrontar a morte para ver feliz o seu chefe... e... quem sabe
quanto poderá durar esta felicidade!? - acrescentou com
expressão quase triste.
- E porquê?... Dizei... - interrompeu ela com inquietação.
- Porque daqui a duas horas rompe a madrugada e eu terei de
deixar-vos.
- Tão depressa?!... - exclamou a flamenga com doloroso
espanto.
- Apenas o Sol surja no horizonte, travar-se-á neste golfo
uma das mais tremendas lutas em que jamais se empenharam os
corsários das Tartarugas. Oitenta bocas de fogo troarão sem
tréguas contra os fortes que defendem o meu mortal inimigo, e
seiscentos homens avançarão ao assalto, decididos a vencer ou
morrer; e eu, como podeis imaginar, irei à frente para os
poder guiar à vitória.
- E afrontar a morte! - exclamou a duquesa com terror. - Se
uma bala vos fere!...
- A vida dos homens está nas mãos de Deus, senhora.
- Mas jurar-me-eis que sereis prudente.
- Será impossível. Pensai que há dois anos espero o momento
de punir aquele infame!
- Que poderá ter feito esse homem, para lhe terdes um ódio
tão implacável?
- Matou-me três irmãos, já vo-lo disse, e cometeu uma
traição infame.


9


- Qual?...
O Corsário Negro não respondeu. Pusera-se a passear na
câmara, com a fronte enrugada, olhar torvo e lábios trémulos.
Subitamente parou, retrocedeu lentamente para a duquesa, que o
observava com viva angústia, e sentando-se a seu lado, disse:
- Escutai-me e julgareis se o meu ódio é justificado ou não.
Já se passaram dez anos sobre essa época, mas lembro-me de
tudo como se fosse ontem.
"Tinha rebentado a guerra entre a França e a Espanha, pela
posse da Flandres. Luís XIV, sedento de glória, no apogeu do
poder, querendo despedaçar o seu formidável adversário que
tantas vitórias havia alcançado já sobre as tropas francesas,
tinha invadido audazmente as províncias que o terrível duque
de Alba havia conquistado e subjugado a ferro e fogo.
"Nessa época, exercendo Luís XIV uma grande influência no
Piemonte, socorrera o duque Vítor Amadeu II, o qual tinha
podido recusar-se a mandar-lhe três dos seus mais aguerridos
regimentos - o de Aosta, o de Nisa e o da Marinha.
"Neste último servíamos, como oficiais, eu e meus três
irmãos, o mais velho apenas com trinta e dois anos, e o mais
novo, que mais tarde viria a ser o Corsário Verde, só com
vinte anos.
"Chegados à Flandres, já os nossos regimentos se tinham
batido valorosamente várias vezes na passagem do Schelda, em
Gand, em Tournay, cobrindo-se de glória em toda a parte.
"As armas aliadas por toda a parte haviam triunfado,
repelindo os espanhóis para Antuérpia, quando um belo dia - ou
antes, um mau dia -, uma parte do nosso regimento de Marinha,
que fora às bocas do Schelda para ocupar uma fortaleza
abandonada pelo inimigo, foi inopinadamente acometido por um
tão grande número de espanhóis, que se viu constrangido a
entrincheirar-se apressadamente dentro dos muros, salvando a
grande custo a artilharia. Entre os defensores estávamos nós
quatro.
"Divididos do exército francês, assediados de todos os lados
por um inimigo dez vezes mais numeroso e resolvido a
reconquistar a fortaleza, de grande importância por ser a
chave de um dos principais braços do Schelda, não tínhamos
outra alternativa senão rendermo-nos ou morrer. De capitulação
ninguém falava, muito pelo contrário: tínhamos jurado
fazermo-nos sepultar sob as ruínas antes que abater a gloriosa
bandeira dos valorosos duques de Sabóia.
"Não sei por que razão mas Luís XIV tinha entregue o comando
do regimento a um velho duque flamengo que, segundo se dizia,
gozava fama de valente e experimentado guerreiro. Tendo-se
encontrado com as nossas companhias no dia em que tínhamos
sido surpreendidos, assumira a direcção da defesa.
"Meu irmão mais velho tornara-se a alma da defesa. Valente,
audaz, destro no manejo de todas as armas, dirigia os
artilheiros e os infantes, sendo sempre o primeiro nos ataques
e o último nas retiradas. O valor desse belo guerreiro tinha
despertado no coração do velho flamengo uma surda inveja, que
mais tarde devia ter para nós fatais consequências.
"Aquele miserável, esquecendo que tinha jurado fidelidade à
bandeira do duque e que manchava um dos nomes mais brilhantes
da aristocracia flamenga, concertava secretamente com os
espanhóis para os fazer entrar na fortaleza à traição. O
prémio desse ignominioso pacto devia ser um cargo de
governador nas colónias da América e uma grande soma em
dinheiro. Uma noite, seguido de alguns flamengos seus
parentes, abria um dos postigos, dando passagem aos inimigos
que furtivamente se tinham aproximado da fortaleza.
"Meu irmão mais velho, que a pequena distância velava com
alguns soldados, dando pela entrada dos espanhóis, avança
sobre eles dando o alarme, mas o traidor esperava-o atrás do
ângulo de um bastião, armado de duas pistolas.
"Meu irmão caiu mortalmente ferido e os inimigos entram
furiosamente na cidade. Combatemos nas ruas, nas casas, em
toda a parte, mas em vão. A fortaleza caiu e só nós pudemos
salvar-nos com poucos fiéis e numa precipitada retirada para
Courtray.
"Dizei-me, senhora, se teríeis perdoado a semelhante homem.
- Não! - respondeu a duquesa.
- E tão-pouco nós perdoámos - continuou o Corsário Negro. -
Jurámos matar o traidor e vingar nosso irmão, e finda a guerra
procurámo-lo por muito tempo, na Flandres, e depois em
Espanha.
Sabendo que ele tinha sido nomeado governador de uma das
mais fortes cidades das colónias espanholas, eu e meus irmãos
mais novos armámos três navios, tomámos o rumo da América,
devorados por um insaciável desejo de castigar o traidor mais
cedo ou mais tarde.
Fizemo-nos corsários. O Corsário Verde, mais impetuoso,


10 11


e menos experimentado, quis tentar a sorte, caiu nas mãos do
nosso mortal inimigo e foi vergonhosamente enforcado como um
ladrão vulgar; depois, tentou a sorte o Corsário Vermelho e
não foi mais feliz.
Meus dois irmãos, por mim arrancados da forca, repousam no
mar onde aguardam a minha vindicta. Se Deus me ajudar, daqui a
duas horas o traidor estará nas minhas mãos.
- E que fareis dele?
- Enforcá-lo-ei, senhora - respondeu friamente o Corsário
Negro. - Depois exterminarei quantos tiverem a desventura de
usar o seu nome. Ele destruiu a minha família; eu destruirei a
dele. Jurei-o na noite em que o Corsário Vermelho descia aos
abismos do mar e cumprirei o meu juramento.
- Mas onde estamos nós? Que cidade é a que esse homem
governa?
- Breve o sabereis.
- Mas o seu nome? - perguntou a duquesa, com angústia.
- Tendes pressa de o saber?
A flamenga tinha levado à fronte um lenço de seda. Aquela
formosa fronte estava coberta de bagas de suor frio.
- Não sei - disse com voz trémula. - Parece-me que na minha
juventude ouvi contar a alguns homens de armas que serviam meu
pai uma história que se assemelha à que vós agora me
narrastes.
- É impossível! - disse o Corsário Negro. - Vós nunca
estivestes no Piemonte.
- Não, nunca, mas suplico-vos que me digais o nome desse
homem.
- Pois bem, direi: é o duque Wan Guld.
No mesmo instante um tiro de canhão ribombou no mar.
O Corsário Negro correra para fora da câmara, bradando:
- A alvorada!
A flamenga não tinha feito um movimento para o deter. Levara
as mãos à cabeça, com um gesto de desespero, depois caíra no
tapete como que fulminada.


12

II


O ATAQUE A MARACAÍBO


Quando o Corsário Negro chegou ao convés já Morgan tinha
feito descer para os escaleres sessenta homens escolhidos
entre os mais intrépidos.
- Comandante - disse voltando-se para o Corsário Negro -,
não há um momento a perder. Dentro de poucos instantes os
homens de desembarque começarão o ataque ao forte e os nossos
corsários devem ser os primeiros no assalto.
- O Olonês deu algumas ordens?
- Ordenou que a frota se não expusesse ao fogo do forte.
- Está bem... confio-vos o comando do meu Relâmpago.
Envergou rapidamente a couraça de combate que o mestre lhe
trouxera, e desceu para o escaler que o esperava ao fundo da
escada de bombordo, tripulado por vinte homens e armado de um
pedreiro, aparelho destinado a disparar pedras e metralha.
Começava a alvorecer, e urgia, portanto, desembarcar antes
que os espanhóis do forte pudessem reunir grandes forças.
Todos os escaleres carregados de homens sulcavam rapidamente
as águas em direcção à margem que se elevava íngreme, coberta
de vegetação, transformando-se em colina em cujo cimo se
destacava o castelo, uma sólida fortaleza armada de dezasseis
canhões de grosso calibre e, provavelmente, bem provida de
defensores.
Os espanhóis, postos em alerta pelo primeiro tiro de canhão,
apressaram-se a espalhar algumas filas de soldados pelos
declives da colina, a fim de se oporem à passagem dos
corsários e abrir fogo com a sua poderosa artilharia.
Choviam as balas, batendo no espelho das águas ocupado pelos
escaleres. Com manobras rápidas, com vertiginosos bordos, não
davam tempo aos inimigos para os colher de alvo.
Em quinze minutos, não obstante aquele furioso canhoneio,
aproam os primeiros escaleres. Os corsários e os bucaneiros
que os tripulam desembarcam precipitadamente, sem esperar os
companheiros, e rompem através das matas com os seus chefes,
para repelir os destacamentos espanhóis que se tinham
emboscado no declive da colina.


13


- Ao assalto, meus valentes!... - bradou o Olonês.
- Sus, homens do mar!... - trovejou o Corsário Negro, que
avançava com a espada na mão direita e uma pistola na
esquerda.
Os espanhóis que estavam emboscados começam a fazer chover
sobre os assaltantes uma saraivada de balas, mas com pouco
proveito por causa das árvores e dos espessos matagais que
cobrem a encosta. - Também os canhões da fortaleza troam com
fragor tremendo, arremessando em todas as direcções os seus
grandes projécteis.
- Assaltemos a fortaleza!... - bradou o Olonês.
Eram já mais de quinhentos mas a empresa não era fácil, por
falta de escadas. Além disso, a guarnição espanhola, composta
de duzentos e cinquenta soldados, defendia-se com grande
coragem, não dando sinais de ceder.
O Olonês e o Corsário Negro, prevendo uma resistência
desesperada, tinham parado para conferenciar.
- Perderemos muita gente - disse o Olonês. - É preciso
encontrar um meio para abrir uma brecha ou seremos esmagados.
- Há um único meio - respondeu o Corsário Negro.
- Fala depressa.
- Tentar fazer explodir uma mina na base dos bastiões.
- Acho que será o melhor meio; mas quem se atreverá a correr
semelhante risco?
- Eu! - disse uma voz atrás deles.
Voltaram-se e viram Carmaux, seguido do inseparável Wan
Stiller e do compadre negro.
- Ah! És tu, patife?... - perguntou o Corsário Negro. - Que
fazes aqui?
- Acompanho-vos, comandante. Já tenho o vosso perdão,
portanto não receio ser fuzilado.
- Não, não serás fuzilado, mas irás fazer rebentar a mina.
- Às vossas ordens, comandante. Dentro de um quarto de hora
abriremos uma brecha.
Depois, voltando-se para os seus dois amigos:
- Eh! Wan Stiller, vem daí! E tu, Moko, vai buscar pólvora e
uma boa mecha.
- Espero tornar a ver-te ainda vivo - disse o Corsário Negro
deveras comovido.
- Obrigado pelo augúrio, comandante - respondeu Carmaux
afastando-se apressadamente.


14


Os corsários e os bucaneiros continuavam a internar-se
através das árvores, tentando, com tiros certeiros, afastar os
espanhóis das ameias e abater os artilheiros. No entanto, da
fortaleza, com admirável obstinação continuavam fazendo um
fogo infernal. Parecia uma cratera vomitando lava.
Subitamente ouviu-se lá no alto da colina um formidável
estampido. Viu-se erguer uma chama gigantesca a um lado da
fortaleza, depois uma chuva de destroços caiu impetuosamente
sobre as árvores derrubando centenas de ramos e ferindo e
matando não poucos assaltantes. No meio dos gritos dos
espanhóis, ao troar da artilharia e das espingardas, ouviu-se
a voz metálica do Corsário Negro:
- Sus, homens do mar! Ao ataque!...
Os corsários e os bucaneiros, vendo-o romper pelo terreno
descoberto, precipitam-se atrás dele juntamente com o Olonês.
Transpõem as últimas alturas sem parar, atravessam de corrida
a esplanada e irrompem contra o forte.
A mina que Carmaux e os seus amigos tinham feito rebentar
abrira uma grande brecha num dos bastiões principais. O
Corsário Negro metera por ali dentro, saltando por cima dos
escombros e dos canhões derrubados pela explosão, e a sua
espada afadigava-se a repelir os primeiros adversários que
tinham acudido a defender a passagem. Os corsários avançam
atrás dele com as machadas de abordagem em punho, vociferando
a plenos pulmões para causar maior terror, derrubam com ímpeto
irresistível os primeiros espanhóis e irrompem como uma
torrente pelo forte dentro.
Os duzentos e cinquenta homens que o defendem não podem
resistir a tamanha fúria. Tentam entrincheirar-se por detrás
dos taludes, mas são repelidos; procuram agrupar-se nas
esplanadas para impedir que a bandeira espanhola seja arriada
e também aí são desbaratados, perseguidos ao longo dos
baluartes, e caem todos.
O Corsário Negro manda arriar a bandeira espanhola e
apressa-se a atacar a cidade já indefesa. Reunidos cem homens,
desceram a colina e irromperam pelas ruas já ermas de
Maracaíbo.
Todos tinham fugido: homens, mulheres, crianças,
refugiando-se nos bosques para salvar os objectos mais
preciosos. Mas não era para saquear a cidade que o Corsário
Negro tinha organizado a expedição e sim para agarrar o
traidor. Arrastava os seus homens numa carreira vertiginosa,


15


ansioso por chegar ao palácio do governador Wan Guld.
Também a praça de Granada estava erma, e o portão do palácio
do Governador aberto e sem guardas.
- Será que me fugiu? - perguntou-se com os dentes cerrados.
- Ainda que tenha de persegui-lo pelo continente dentro, não
o largarei.
Vendo o portão escancarado, os corsários que o tinham
seguido pararam, receando alguma traição. Mas o Corsário Negro
tinha continuado a avançar, com prudência, suspeitando também
alguma surpresa.
Ia transpor o limiar e entrar no pátio quando se sentiu
seguro por uma robusta mão, que se lhe pousara no ombro, e por
uma voz que lhe dizia:
- Vós, não, meu comandante. Se consentis, entrarei eu
primeiro.
Voltando-se, viu diante de si Carmaux; enegrecido pela
pólvora, com o fato rasgado, o rosto ensanguentado, mas mais
vivo que nunca.
- Tu, ainda! - exclamou. - Cuidei que a mina te não tivesse
poupado.
- Tenho pele dura, meu capitão, e como eu a devem ter o
hamburguês e o africano, pois ainda me seguem.
- Avante, pois!..
Não estava ali ninguém. Soldados, criados, escudeiros,
servos, escravos, todos tinham fugido atrás dos habitantes,
procurando também um refúgio nos espessos bosques.
Apenas fora encontrado um cavalo caído por terra com uma
perna partida.
- Fugiram - disse Carmaux. - É preciso pôr escritos no
portão: aluga-se este palácio.
- Subamos - disse o Corsário Negro com voz sibilante.
Romperam pelas escadas acima e subiram aos andares
superiores, mas também lá as portas estavam abertas, os
quartos e as salas ermas, as mobílias todas em desordem, os
cofres escancarados e vazios. Tudo indicava uma precipitada
retirada.
Subitamente ouviram-se gritos numa sala. O Corsário Negro,
que tinha percorrido todas as salas de corrida, dirigiu-se
para aquele lado e viu Carmaux e Wan Stiller que arrastavam um
soldado espanhol, alto, magro, seco como um prego.


16


- Reconhecei-lo, comandante? - gritou Carmaux, empurrando
violentamente o desgraçado prisioneiro.
O soldado espanhol, vendo-se diante do Corsário Negro, tirou
o capacete de aço adornado de uma pluma muito velha; e
curvando a esquelética figura disse com voz tranquila:
- Já vos esperava, senhor, e tenho muita satisfação em
tornar a ver-vos.
- Como! - exclamou o Corsário Negro. - Outra vez tu!?...
- Sim, senhor, o espanhol da floresta -- replicou o homem
magro, sorrindo. - Como não quiseste enforcar-me, ainda estou
vivo.
- Tu mas pagarás por todas! - bradou o Corsário Negro.
- Terei feito mal em vos esperár? Teria sido então melhor
fugir atrás dos outros?
- Esperavas-me?
- Quem me teria impedido de fugir?
- É verdade; e por que ficaste?
- Porque queria tornar a ver aquele que generosamente me
perdoou a vida naquela noite em que lhe caí nas mãos.
- E que mais?
- Além disso, porque queria prestar um pequeno serviço ao
Corsário Negro - acrescentou o catalão... - Admirais-vos?
- Confesso que sim...
- Sabei então que o governador, quando teve conhecimento de
que eu tinha caído nas vossas mãos e não fora pendurado numa
árvore com uma corda ao pescoço, mandou-me dar vinte varadas
de recompensa... Percebestes?... Vergastar-me a mim, D.
Bartolomeu de Barbosa Y Camargua, descendente de uma das mais
antigas nobrezas da Catalunha... Caramba!
- Acaba...
- Jurei vingar-me desse flamengo, que trata os soldados
espanhóis como se fossem cães e os nobres como se fossem
escravos índios, e esperei-vos. Vós viestes para o matar, mas
ele, quando viu cair o forte nas vossas mãos, fugiu.
- Ah! Fugiu?!
- Fugiu, mas eu sei onde está e conduzir-vos-ei até lá.
- Não me enganes. Repara que, se me enganas, faço-te
arrancar a pele.
- Não estou eu nas vossas mãos? Podereis mandar-me arrancar
a pele à vontade.


17


- Fala então. Para onde fugiu Wan Guld?
- Para a floresta.
- Para onde quer ir?
- Para Gibraltar.
- Seguindo a costa?
- Sim, comandante.
- Conheces o caminho?
- Melhor que os homens que o acompanham.
- Quantos vão com ele?
- Um capitão e sete soldados fidelíssimos. Para marchar
através das espessas matas da costa é preciso que sejam
poucos.
- Está bem - disse o Corsário Negro. - Nós perseguiremos
esse infame Wan Guld, e não lhe daremos tréguas de dia nem de
noite. Leva cavalos consigo?
- Leva, mas terá de os abandonar porque de nada lhe
servirão.
- Espera-me aqui.
O Corsário Negro abeirou-se de uma secretária, em que havia
papel, pena e um rico tinteiro de bronze.
Escreveu rapidamente estas breves linhas:


Meu Caro Pedro Vou perseguir Wan Guld através da floresta,
com Carmaux, Wan Stiller e o africano. Dispõe do meu navio e
dos meus homens e quando tiver acabado o saque, vai ter comigo
a Gibraltar. Há lá tesouros para recolher, bem mais
importantes que os de Maracaíbo.


O Corsário Negro


Fechada a carta entregou-a a um mestre da tripulação; depois
despediu os corsários que o tinham seguido, dizendo-lhes:
- Tornaremos a ver-nos em Gibraltar, meus valentes.
Depois, voltando-se para Carmaux, Wan Stiller, o africano e
o prisioneiro, disse:
- Vamos à caça do meu mortal inimigo.


18

III


A CAÇA AO GOVERNADOR


O Corsário Negro e os seus quatro companheiros, depois de se
terem munido de armas e mantimentos, seguiram no encalço do
governador.
Mal saíram da cidade, tomaram por um atalho quase
impraticável, através de uma grande mata.
Breve se tinham descoberto no solo húmido da floresta os
primeiros rastros. Eram as pegadas de oito cavalos e um peão.
- Vêdes? - exclamou o catalão com ar triunfante. - Por aqui
passou o governador com o capitão e os sete soldados, um dos
quais partiu sem cavalo, pois este caíra no momento da fuga
partindo uma perna.
- Nós vimos o cavalo - respondeu o Corsário Negro. - Crês
que nos levam grande dianteira?
- Talvez cinco horas.
- Já é bastante, mas somos todos bons caminhantes.
- Acredito, mas não espereis alcançá-los hoje nem amanhã.
Talvez ainda não conheçais as costas da Venezuela. Vereis
quantas surpresas nos esperam!
- E quem nos prepara essas surpresas?
- Os animais ferozes e os selvagens.
- Não me dá isso cuidado. Os selvagens nunca me
amedrontaram.
- Melhor para vós. Vamos, caballeros: eis a grande floresta.
O Corsário Negro e o espanhol tinham parado diante da mata,
escutando com profunda atenção, enquanto os dois companheiros
e o negro perscrutavam a espessa folhagem das árvores próximas
e os matagais, receando alguma surpresa.
- Por onde terão passado? - perguntou o Corsário ao
espanhol. - Não vês nenhuma abertura adiante desse maciço de
árvores e de lianas?
- O governador é astuto e há-de ter procurado fazer perder o
rastro. Ouvis algum rumor?
- Sim - disse Carmaux. - Paréce-me ouvir água a correr.


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- Então achei - disse o catalão.
- O quê? - perguntou o Corsário Negro.
- Segui-me, caballeros.
O soldado voltou atrás, observando o solo e tendo encontrado
novamente as pegadas dos cavalos, seguiu-as internando-se por
meio dos grupos de palmeiras. Caminhando cautelosamente,
observou o terreno, procurando descobrir entre as folhas e as
ervas as pegadas dos quadrúpedes; depois apressou o passo e só
parou na margem de um ribeiro de dois a três metros de largura
e de água escura.
- Ah! Ah! - exclamou ele. - Bem dizia eu que o velho é um
velhaco. Para se ocultar na floresta e fazer perder o rasto,
desceu por este ribeiro.
- É fundo?
O catalão imergiu a espada.
- Não tem mais de uns trinta e cinco ou quarenta centímetros
de fundo.
- Terá serpentes?
- Não, tenho a certeza de que não tem.
- Nesse caso, metamo-nos também à água e apressemo-nos.
Entraram todos cinco no ribeiro, primeiro o espanhol e o
negro por último, a vigiar a retaguarda; puseram-se em marcha
revolvendo aquelas águas negras, lodosas, cheias de folhas
secas e que exalavam miasmas perigosos, produto dos vegetais
em decomposição.
Percorridos duzentos ou trezentos passos, distinguiram
diante deles uns vultos escuros meio submersos que obstruíam a
corrente.
- Olá!... - exclamou o catalão.
- Viste alguma coisa? - perguntou Carmaux.
- Ou muito me engano ou aqueles vultos são os cavalos do
governador e da escolta.
- Cautela - disse o Corsário Negro. - Os cavaleiros podem
estar acampados por aí.
- Duvido - respondeu o catalão. - O governador deve ter
suspeitado de uma encarniçada perseguição.
- Talvez, mas sejamos prudentes.
Armaram as espingardas para não se deixarem exterminar todos
por alguma descarga inesperada, e avançaram silenciosamente,
caminhando curvados e procurando ocultar-se sob os ramos
baixos das árvores que se cruzavam sobre o rio.


20 21


Mas a cada dez ou doze passos o catalão parava para escutar
com grande atenção e espreitar pela ramaria e pelas lianas que
cerravam as duas margens, sempre receoso de alguma surpresa.
Procedendo assim com mil precauções chegaram ao ponto onde
jaziam aqueles vultos escuros. Não se tinham enganado: eram os
cadáveres dos oito cavalos caídos uns ao lado dos outros e
meio mergulhados nas águas negras do ribeiro.
O catalão, auxiliado pelo africano, removeu um que tinha
sido degolado à navalhada.
- Conheço-os - disse o catalão. - São os cavalos do
governador.
- Para onde fugiram os cavaleiros? - perguntou o Corsário
Negro.
- Devem estar escondidos na floresta.
- Vês alguma passagem?
- Não... mas... Ah!, que tratantes!..
- Que há?
- Vedes este ramo partido? E acolá em cima, mais dois também
partidos. Os patifes treparam por estes ramos e saltaram para
o outro lado da mata. O que temos a fazer é imitá-los.
- Coisa fácil para nós, marinheiros - disse Carmaux. - Eh
lá! Iça! Arriba!
O catalão estendeu os braços desmedidos e magros como palpos
de aranha e trepou a um grosso ramo, sendo logo seguido por
todos os outros.
Daquele primeiro ramo passou para outro que se estendia
horizontalmente, depois para um terceiro, que era de outra
árvore, e assim continuou a marcha aérea numa distância de
trinta ou quarenta metros; depois deixou-se cair bruscamente
no chão, soltando um grito de triunfo.
- Eh! catalão! - exclamou Carnaux. - Achaste algum
pedregulho de ouro? Dizem que há muitos por este país.
- Não, mas é um punhal. Para nós pode valer tanto ou mais
que um calhau de ouro.
- Isso, no coração do governador.
O Corsário Negro também se deixou cair e apanhou o punhal,
de lâmina curta, lavrada e ponta muito aguçada.
- Deve tê-lo perdido o capitão que acompanhava o governador
- disse o catalão. - Trazia-o à cinta.


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- Nesse caso, passaram aqui - disse o Corsário Negro.
- Acolá está o caminho que eles abriram com machadas. Sei
que todos traziam uma, suspensa do arção dos cavalos.
- Perfeitamente - exclamou o Corsário Negro. - Não se ouve
nada?
- Absolutamente nada - replicou o catalão depois de ter
escutado por alguns momentos.
- Se estivessem perto, ouvir-se-iam distintamente os golpes
das machadadas.
- Devem levar-nos a dianteira de quatro ou cinco horas.
- É muito; esperemos, no entanto, poder ganhar essa
distância.


23

IV


NA FLORESTA VIRGEM


Anoitecera; o pequeno grupo teve de aguardar o aparecimento
da lua, e para acampar escolheu um espaço ocupado pelas raízes
da sumameira, árvore colossal que se elevava acima de todos os
vegetais da floresta.
Era uma espécie de refúgio fortificado, que punha o Corsário
Negro e os seus companheiros ao abrigo de qualquer ataque
repentino, tanto da parte das feras como dos homens.
Acomodando-se consoante puderam e tendo comido alguns
biscoitos e um pedaço de presunto, concordaram em dormir até o
momento de recomeçar a caça, alternando os quartos de guarda.
Um silêncio absoluto, pavoroso, reinou por alguns momentos,
mas inopinadamente um concerto estranho ecoou na obscuridade,
fazendo estremecer Carmaux, que não estava habituado a passar
as noites no meio da floresta. Parecia que uma matilha de cães
havia invadido os ramos das árvores, porque lá do alto
ouviram-se latidos, uivos e murmúrios prolongados.
- Com mil tubarões! - exclamou Carmaux olhando para o ar. -
Que diabo anda lá por cima?
O negro, em vez de responder, pôs-se a rir em silêncio.
- E isto agora, o que é?... - continuou Carmaux. - É como se
cem marinheiros fizessem chiar todas as polés de um navio.


23


Serão macacos, compadre?
- Não - respondeu o negro. - São rãs, são tudo rãs.
- Que cantam deste feitio?
- É verdade.
- E isto que vem a ser? Ouves?... Parece que centenas de
ferreiros estão batendo todas as caldeiras de Belzebu.
- São outras rãs.
- Com mil tubarões!... Se outro mo dissesse havia de crer
que caçoava comigo ou tinha perdido o juízo. E isto é de
alguma rã de nova espécie?
Alguma coisa semelhante a um poderoso grito felino, seguido
de uma espécie de uivo, ecoara inopinadamente na imensa
floresta virgem, fazendo calar de chofre o concerto formidável
e discorde das rãs. O negro tinha erguido vivamente a cabeça e
deitara a mão à espingarda que tinha ao lado, mas com gesto de
tal modo precipitado que denotava uma grande apreensão.
- Parece que este cavalheiro que uiva tão perto não é
nenhuma rã; digo bem, compadre saco-de-carvão?
- Oh, não! - exclamou o africano com voz alterada.
- Que é então?
- Um jaguar.
- Com cem mil tubarões! Se formos acometidos, não poderemos
fazer uso das nossas armas de fogo.
- E porquê?
- Os tiros iriam ouvir-se e o governador e a escolta logo
suspeitariam de que são perseguidos e apressavam-se a fugir.
- Ora essa! Então querias afrontar um jaguar à navalha?
- Usaremos as espadas.
- Sempre queria ver-te nessa dança.
- Não me enguices, compadre saco-de-carvão.
Um segundo uivo, mais forte e mais próximo que o primeiro,
ecoou na tenebrosa floresta, fazendo estremecer o negro.
- Diabo!... - resmungou Carmaux, que começava a ter medo. -
O caso torna-se sério.
Nesse instante viu o Corsário Negro desembaraçar-se da capa
e erguer-se.
- Um jaguar? - perguntou tranquilamente.
- Sim, comandante.
- Está longe?...
- Não, e, o que é pior, parece que se dirige para aqui.


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- Suceda o que suceder, não façam uso das armas de fogo.
- E a fera devorar-nos-á.
- Pensas isso, Carmaux?... Pois veremos.
Levantou a capa, dobrou-a de certo modo, envolveu-a em volta
do braço esquerdo, desembainhou a espada e ergueu-a
lestamente.
- Será preciso acordar o catalão e Wan Stiller?
- É escusado; nós bastamos. Calai-vos e reavivai a fogueira.
Escutando atentamente ouviam-se no meio das árvores aquele
ronrom peculiar aos jaguares, e o estalar de quando em quando
de folhas secas. A fera já devia ter dado pela presença
daqueles homens e aproximava-se cautelosamente, esperando
talvez cair imprevistamente sobre algum deles e arrebatá-lo.
O Corsário Negro, imóvel ao pé da fogueira e de espada em
punho, escutava com atenção.
Subitamente cessou todo o rumor. O Corsário Negro curvara-se
para melhor escutar, mas em vão; ao erguer-se, os seus olhos
encontraram-se com dois pontos luminosos que brilhavam sob um
maciço bastante espesso.
- Ele ali está, comandante - murmurou Carmaux.
- Bem vejo - respondeu o Corsário Negro com voz sempre
tranquila.
- Prepara-se para nos acometer.
- Cá o espero.
- Mas que diabo de homem - resmungou Carmaux. - Nem todos os
diabos do inferno lhe metem medo!
O jaguar tinha parado a trinta passos do acampamento,
distância bem pequena para semelhantes carnívoros, que dão
saltos prodigiosos, talvez iguais ou maiores do que o tigre;
mas não se decidia a atacar. Inquietava-o o lume que ardia ao
pé da árvore ou a atitude do Corsário?... Conservou-se um
minuto sob aquele espesso matagal, sem despregar os olhos do
adversário, numa imobilidade ameaçadora; depois, os dois
pontos luminosos desapareceram.
Por alguns momentos ouviram-se estalar folhas, depois todo o
rumor cessou.
- Foi-se embora - disse Carmaux, aliviado. - Crocodilos o
comam!
O Corsário Negro manteve-se algum tempo firme no seu posto,
sem baixar a espada; depois, como não ouvisse mais rumor
algum, meteu-a tranquilamente na bainha, estendeu a capa,


25


e deitou-se de novo, dizendo apenas:
- Se voltar, chamem-me.
Carmaux e o africano voltaram para trás da fogueira,
continuando o seu quarto de sentinela.
Às dez horas acordaram Wan Stiller e o catalão; avisaram-nos
da vizinhança do carnívoro e apressaram-se a deitar-se ao lado
do Corsário Negro que dormia placidamente como se estivesse no
beliche do seu Relâmpago.
Aquele quarto de sentinela passou-se mais tranquilo que o
primeiro, conquanto Wan Stiller e o companheiro tivessem
ouvido várias vezes na floresta o grito do jaguar.
À meia-noite, tendo aparecido a Lua, o Corsário Negro, que
já se tinha levantado, deu o sinal de partida. Esperava
alcançar o inimigo no dia seguinte.
Caminhavam havia cerca de um quarto de hora, abrindo
custosamente passagem por entre os ramos, lianas e raízes
monstruosas que pejavam o solo, quando o catalão, que marchava
à frente, parou de súbito.
- Que há? - perguntou o Corsário, que o seguia.
- É a terceira vez que me chega aos ouvidos um rumor
suspeito. Parece que alguém caminha paralelamente a nós, do
outro lado destas espessas moitas.
- Seremos seguidos?
- Ninguém ousaria marchar de noite, no meio desta
floresta...
- Alguém partiu um ramo a pouca distância de nós - disse o
catalão.
- Continuemos a marcha de espada em punho. Não quero que
usemos das espingardas.
O grupo pôs-se de novo a caminho, cautelosamente.
Tinham chegado a uma vereda aberta entre as elevadíssimas
palmeiras ligadas entre si por uma espessa rede de lianas,
quando subitamente uma massa pesada caiu sobre o espanhol, que
caminhava na frente de todos, deitando-o por terra.
O ataque fora tão inopinado que os corsários a princípio
julgaram que se houvesse abatido algum ramo enorme; mas uma
espécie de rugido rouco, soltado por aquele vulto, logo lhes
fez compreender que se tratava de uma fera.
O catalão, ao cair, soltara um brado de terror, depois
voltara-se subitamente tentando desembaraçar-se daquele
agressor que o tinha como que pregado na erva,


26


impedindo-o de se erguer.
- Socorro! - bradou. - O jaguar esquarteja-me!
O Corsário já se lançava de espada erguida, em socorro do
pobre homem. Rapidamente, cravou a arma no corpo da fera, que
logo largou o catalão para se voltar para o novo adversário.
O Corsário Negro recuara lestamente, mostrando a ponta
cintilante da espada, enquanto com um gesto rápido enrolava a
capa no braço esquerdo.
O animal teve um instante de hesitação, depois avançou com
desesperada coragem. Encontrando diante de si Wan Stiller
derrubou-o, depois voltou-se contra Carmaux, que estava ao pé
do companheiro, tentando derrubá-lo também com uma poderosa
patada.
Felizmente, o Corsário Negro não se descuidara. Vendo os
seus companheiros em perigo, pela sua vez acometeu a fera.
Esta recuava rugindo, tratando de ganhar terreno para formar
novo salto, mas o Corsário não a desfitara. De repente, a
espada do valente capitão penetrava-lhe no peito, enquanto o
africano lhe despedaçava o crânio com uma coronhada da sua
pesada espingarda.
- Vai-te para casa de mil diabos!... - praguejou Carmaux,
vibrando-lhe nova fortíssima coronhada para se certificar de
que desta vez estava bem morta. - Que raça de animal era este?
- Agora vamos ver - respondeu o catalão agarrando-a pela
cauda e arrastando-a para o espaço iluminado pela Lua. -
Espera... é um puma... é pesado; mas que coragem e que
garras!... Quando chegarmos a Gibraltar irei acender um círio
a Nossa Senhora de Guadalupe por me ter protegido.
Deixaram o cadáver da fera e recomeçaram a marcha através da
interminável floresta, continuando a fatigante manobra do
córte das lianas e das raízes que impediam a passagem.


27


V


O ATAQUE DO JAGUAR


À medida que os corsários se internavam, as árvores e os
matagais rareavam como se não achassem de seu agrado aquele
terreno húmido e de natureza provavelmente argilosa.


27


O capitão, voltando-se para os corsários, disse-lhes:
- Antes de sairmos da floresta, creio que apreciaremos uma
boa chávena de leite.
- Ora essa! - exclamou Carmaux. - Descobriste alguma manada?
Em tal caso podemos também consolar-nos com bifes.
- Nada de bifes, por enquanto, porque não comeremos nenhuma
vaca.
- E como se arranja então o leite?
- Na árvore do leite.
- Vamos lá mungir a árvore do leite.
O catalão disse a Carmaux que lhe desse um frasco,
abeirou-se de uma árvore de largas folhas, tronco grosso,
liso, com mais de vinte metros de altura, sustentado em raízes
robustas que parecia não caberem na terra, e com um golpe da
sua espada praticou uma incisão profunda. Um momento depois
viu-se sair daquela fenda um líquido branco, denso, que se
assemelhava perfeitamente ao leite e tinha idêntico sabor.
Todos beberam, apreciando-o muito, e logo seguiram caminho por
meio dos bambus, ensurdecidos por um sibilar agudo que os
lagartos produziam.
O terreno tornava-se cada vez menos consistente. A água
rebentava por toda a parte debaixo dos pés dos corsários,
formando poças que se alargavam rapidamente.
Já o espanhol começava a moderar o passo, com receio de que
lhe falhasse o terreno debaixo dos pés, quando um grito rouco
e prolongado se fez ouvir um pouco mais adiante, seguido de um
baque e de um burburinho.
- Água!... - exclamou.
- Mas, além da água, parece-me que se trata de algum animal
- disse Carmaux. - Não ouviste?
- Ouvi o grito de um jaguar.
- Mau encontro - observou Carmaux.
Tinham parado apoiando os pés em alguns bambus caídos por
terra a fim de não se enterrarem no lodo, e tinham
desembainhado os sabres e as espadas.
Não se ouvira o novo uivo da fera; mas ouvia-se um rosnar
abafado que indicava que o jaguar estava pouco satisfeito.
- Talvez o animal esteja pescando - disse o catalão.
- O quê? Pescar? - perguntou Carmaux em tom de
incredulidade.
- Admirais-vos?
- Que eu saiba, os jaguares não têm anzóis.
- Mas têm as unhas e o rabo.
- O rabo?... E para que lhes pode servir?
- Para atrair os peixes.
- Sempre gostava de saber como. Acaso prendem a isca na
ponta?
- Nada disso. Limitam-se a deixar pender o rabo, tocando a
flor da água com os compridos pêlos.
- E depois?
- O resto explica-se. As raias espinhosas ou os gigmnotos,
cuidando achar uma boa presa, acodem, e é então que o jaguar,
com um lesto golpe de pata os agarra, falhando raras vezes os
animais que se aventuram a vir à superfície.
- Já o vejo - disse naquele momento o africano que, sendo o
mais alto de todos, podia observar de longe.
- A quem? - perguntou o Corsário Negro.
- Ao jaguar - respondeu o africano. - Está na margem da
savana e parece que espia alguma coisa.
- Está longe?
- A cinquenta ou sessenta metros.
- Vamos vê-lo - disse o Corsário Negro com expressão
decidida.
- Sede prudente senhor - aconselhou o catalão.
- Se não nos embargar o passo, não seremos nós que o
assaltamos. Aproximemo-nos em silêncio.
Desceram dos bambus e, ocultando-se por detrás de um grupo
de árvores de pau-canhão, começaram a avançar em profundo
silêncio, com os sabres e as espadas desembainhadas.
Percorridos vinte passos chegaram à margem de um vasto paúl,
que parecia alongar-se no meio da floresta virgem.
Mal os corsários tinham relanceado a vista em redor quando
ouviram na sua frente, a pequeníssima distância, um surdo
ruído.
- O jaguar! - exclamou o catalão.
- Onde está? - perguntaram todos.
- Acolá, na margem, à espreita.
A cinquenta passos deles, na orla de uma moita de
pau-canhão, um soberbo animal, parecido com um tigre mas de
menores dimensões, estava na margem da savana, na atitude que
tomam os gatos quando esperam os ratos.


28 29


O jaguar parecia não ter dado pela vizinhança dos corsários,
pois não tinha manifestado inquietação. Com os olhos fitos nas
águas negras do grande paúl, como se espiasse alguma presa que
estivesse oculta sob as largas folhas da vitória régia,
tinha-se agachado no meio do pau-canhão, mas não inteiramente,
porque se mantinha como suspenso, pronto a saltar. As suas
barbas hirtas moviam-se levemente, dando indício de
impaciência ou de cólera, e a sua longa cauda roçava
brandamente pelas folhas dos fustes, sem produzir rumor algum.
- Que espera ele? - perguntou o Corsário Negro, que parecia
ter esquecido Wan Guld e a sua escolta.
- Espia alguma presa - respondeu o catalão.
- Alguma tartaruga, talvez?
- Não - disse o africario. - É um adversário digno dele, o
que espera. Olhe, acolá, debaixo das folhas das vitórias; não
vê um focinho?...
- O compadre saco-de-carvão tem razão - disse Carmaux.Alguma
coisa se move debaixo das folhas, vejam...
- É a extremidade da cabeça de um jacaré, compadre -
respondeu o negro.
- De um caimão? - perguntou o Corsário Negro.
- Sim, patrão.
- Pois atrevem-se a acometer aqueles formidáveis répteis?
- Sim, senhor - respondeu o catalão. - Se nos conservarmos
quietos assistiremos a uma terrível luta.
- Bom será que não seja coisa demorada.
- São dois adversários pouco pacientes e quando se encontram
frente a frente, não regateiam as mordeduras... Lá aparece
agora o jacaré.
As folhas das vitórias tinham-se apartado bruscamente e duas
mandíbulas enormes, revestidas de compridos dentes
triangulares, tinham assomado, estendendo-se para a margem.
O jaguar, vendo adiantar-se o jacaré, erguera-se, fazendo um
movimento à retaguarda. Não seria certamente por medo que
fizera esse movimento, mas sim com a evidente intenção de
atrair a terra o adversário para o privar de um dos seus
principais meios de defesa, quer dizer, da agilidade, pois
aqueles répteis vêem-se bastante embaraçados fora da água.
O caimão, iludido por aquele movimento, julgou talvez que o
jaguar tivesse medo; e com um poderoso golpe da cauda,


30


que cortou cerce as folhas da vitória de hastes espinhosas e
que levantou uma grande porção de água, avançou até à margem,
onde parou de repente, mostrando as terríveis mandíbulas
abertas.
Sacudiu a água que o inundava, lançando à volta miríades de
gotas, depois apoiou-se nas curtas patas posteriores e soltou
um grito que parecia um vagido de criança, talvez um grito de
desafio.
O jaguar, em vez de o acometer, tinha dado outro salto à
retaguarda, conservando-se encolhido e pronto a avançar.
O crocodilo, cônscio da sua força prodigiosa e da robustez
dos dentes, subiu resolutamente a margem, agitando a pesada
cauda à direita e à esquerda.
Era o momento esperado pelo astuto jaguar. Vendo que o
adversário já estava em terra, formou um grande salto e
caiu-lhe no dorso; mas as suas garras, conquanto sólidas como
o aço, encontraram as escamas ósseas do réptil, aquelas placas
tão sólidas que não se deixam atravessar por uma bala.
Enfurecido por não ter vencido naquele primeiro assalto,
voltou-se com prodigiosa rapidez, vibrou um golpe de garra na
cabeça do adversário, arrancando-lhe um olho, depois, com um
segundo volteio saltou novamente para terra, dez passos
adiante.
O réptil tinha soltado um longo rugido de raiva e dor.
Privado de um olho, como estava, já não podia defrontar-se
vantajosamente com o perigoso inimigo, e tratava de alcançar a
savana, vibrando furibundos golpes de cauda, que erguiam
chapadas de lodo.
O jaguar, que se mantinha sempre em guarda, pela segunda vez
avançou, caindo-Lhe em cima; mas não procurou experimentar de
novo as unhas na impenetrável couraça. Curvou-se para diante e
com um golpe de garra bem assestado rasgou o flanco do réptil
arrancando-lhe ao mesmo tempo pedaços de intestinos.
A ferida devia ter sido mortal, mas o réptil dispunha ainda
de muita vitalidade para que se desse por vencido. Com uma
sacudidela irresistível desembaraçou-se do inimigo, fazendo-o
cair desastradamente no meio dos troncos do pau-canhão, depois
arremessou-se sobre ele para o cortar em dois com um bom golpe
dos seus inúmeros dentes. Desastrosamente para ele, tendo
apenas um olho, não pôde calcular com exactidão o ataque e em
vez de triturar o adversário, o que lhe teria sido fácil,
apenas lhe apanhou a cauda.


31


Um uivo feroz, terrível, soltado pelo jaguar, deu a conhecer
aos corsários que aquele apêndice tinha sido rapidamente
cortado.
- Pobre animal! - exclamou Carmaux. - Que má figura vai
fazer.
- Ele se desforrará - disse o catalão.
Efectivamente, a sanguinária fera voltara-se contra o réptil
com uma fúria desesperada. Agarrou-se-lhe ao focinho
lancerando-lho ferozmente, com risco de perder as patas,
enterrando as garras com prodigiosa rapidez.
O pobre jacaré, escoando sangue, horrivelmente mutilado e
cego, retrocedia sempre para voltar à savana. A cauda vibrava
golpes formidáveis e as mandíbulas batiam ruidosamente, sem
conseguir desenvencilhar-se da fera que continuava a
lacerá-lo.
Subitamente caíram ambos à água. Por alguns momentos
viram-se lutar no cimo de uma montanha de espuma rubra de
sangue, depois um deles reapareceu na margem.
Era o jaguar, num estado deplorável. Do pêlo corria-lhe
simultaneamente sangue e água. A cauda ficara-lhe nos dentes
do réptil, uma pata parecia despedaçada e o dorso esfolado.
Subiu a custo a margem, parando de espaço a espaço para
observar as águas da savana; os olhos faiscavam. Alcançou uma
moita de pau-canhão e sumiu-se da vista dos corsários,
soltando um derradeiro uivo de ameaça.
- Acho que apanhou a sua conta - disse Carmaux.
- Pois sim, mas o jacaré está morto e amanhã, quando voltar
à flor de água, servirá de almoço ao jaguar - observou o
catalão.
- Ficou-lhe cara a conquista!
- Ora! Têm a pele dura, estas feras; há-de curar-se.
- Mas o rabo não lhe cresce de novo, por certo.
- Bastam-lhe os dentes e as unhas.
O Corsário Negro tinha-se posto de novo a caminho, costeando
a margem da savana. Passando pelo ponto onde se dera a
terrível luta entre o rei das florestas americanas e o rei dos
rios e dos pântanos, Carmaux viu no chão um dos olhos perdidos
pelo réptil.
- Puf!... - exclamou. - Que horrenda coisa!... Até depois de
morto tem um lampejo de ódio e de cobiça feroz.
Ao meio-dia, o Corsário Negro, vendo os seus homens
fatigados por aquela longa marcha que durava havia dez horas,


32


e quase sem interrupção, deu o sinal de parar, concedendo um
descanso bem merecido.
Querendo economizar os poucos víveres que tinham levado e
que podiam vir a ser preciosíssimos na grande floresta,
puseram-se logo em busca de caça e de fruta.
O hamburguês e o negro encarregaram-se das árvores e foram
tão felizes que descobriram perto da margem da savana uma
soberba bacabeira, formosíssima palmeira que produz flores de
cor carmesim, e que, fazendo-se-lhe incisões, dá uma espécie
de vinho; e uma jabuticabeira, árvore mirtácea de seis ou sete
metros de altura, de folhagem verde-escura e que produz frutos
do tamanho das nossas laranjas, lisos, de uma bela cor amarelo
vivo e que em volta de um enorme caroço têm uma polpa delicada
e assaz saborosa.
Por sua parte, Carmaux e o catalão incumbiram-se da caça,
pois era preciso prover também à refeição da tarde.
Depois de terem recomendado aos companheiros que entretanto
preparassem o lume, afastaram-se a passo rápido, sabendo que o
Corsário Negro não queria grandes demoras, ansioso como estava
por surpreender Wan Guld e a sua escolta.
Em quinze minutos encontraram-se na margem da floresta
virgem, no meio de um aglomerado de grandes cedros, palmeiras
de toda a espécie e cactos espinhosos.
O catalão tinha parado, apurando o ouvido para escutar algum
rumor que indicasse a proximidade de alguma cabeça de caça,
mas um silêncio quase absoluto reinava sob aquelas cerradas
abóbodas de verdura.
- Receio que nos vejamos obrigados a lançar mão das nossas
reservas - disse, meneando a cabeça. - Encontramo-nos
naturalmente nos domínios do jaguar e a caça já se terá safado
há muito.
- Parece impossível que nestas selvas não possa encontrar-se
sequer um gato...
- Ao contrário, bem viste que não faltam por cá; e que
gatarrões, caramba!
- Se encontrarmos o jaguar, matamo-lo.
- Não é má de todo, a carne dessas feras.
- Pois nesse caso, matamo-lo, decididamente.
- Ah! Ah! - exclamou o catalão que tinha erguido rapidamente
a cabeça.


33


- Creio que vamos matar alguma coisa melhor.
- Viste algum cabrito, catalão?
- Olhai para acolá. Não vedes um grande pássaro?
Carmaux levantou os olhos e viu efectivamente um pássaro
negro voando por entre a ramaria das árvores.
- É aquele o cabrito que me ofereces?...
- Aquilo é um gule-gule. Reparai, lá está outro, e lá
adiante mais outro.
- Mata-os a tiro, se és capaz - disse Carmaux, ironicamente.
- Além do mais, não confio muito nos teus gule-gule.
- Não pretendo matá-los; ao contrário, se o não sabeis, eles
é que nos indicarão onde encontraremos excelente caça. Estes
pássaros são dotados de uma vista agudíssima. Descobrem de
longe os javalis e apressam-se a ir ter com eles para encher o
papo...
- De carne de javali?...
- Qual história! Dos vermes, escorpiões e escolopendros que
os animais descobrem ao esfocear na terra com a tromba, quando
procuram raízes e bolbos.
- Comem também os escolopendros?
- É exacto.
- E não morrem?
- Dizem que os gule-gule são refractários à acção venenosa
desses insectos.
- Tenho percebido. Sigamos os pássaros antes que eles
desapareçam e preparemos as espingardas. Mas espera, e não nos
ouvirão os espanhóis?
- Nesse caso, o Corsário Negro que faça cruzes na boca.
- Tu falas que nem um livro aberto. Antes eles nos ouçam e
nós enchamos a barriga, do que nos faltem as forças para
continuar o caminho.
- Caluda!...
- Os javalis?.
- Não sei. Aproxima-se algum animal. Não sentem mexer as
folhas na nossa frente?


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VI


ATRIBULAÇÕES DE CARMAUX


De facto, sentia-se qualquer coisa que se movia com certa
precaução através das plantas, a quarenta passos dos dois
caçadores, que se tinham apressado a esconder-se por detrás do
tronco de uma corpulenta simaruba.
Subitamente, Carmaux viu abrir-se um matagal e saltar, no
meio de um pequeno espaço aberto, um animal de quase meio
metro de comprimento, pêlo acastanhado, pernas curtas e uma
cauda bastante farta.
Carmaux não sabia a que espécie pertencia nem se seria ou
não comestível; mas ao vê-lo apontou a arma e desfechou.
O animal caiu, mas ergueu-se logo com uma rapidez que
indicava que não estava gravemente ferido e afaStou-se
ocultando-se no meio do matagal.
- Com todos os tubarões do mar!... - exclamou Carmaux. -
Errei a pontaria!... mas não creio que vá longe!
Avançou sem perder tempo a carregar de novo a espingarda,
correndo animosamente, no encalço do animal, sem dar ouvidos
ao catalão que atrás dele gritava.
- Cuidado com o nariz!
O animal fugia à desfilada, procurando naturalmente alcançar
o covil, mas Carmaux era lesto e perseguia-o de perto, com a
machada de abordagem em punho, disposto a cortá-lo ao meio.
A certa altura, exausto por aquela corrida e pela perda de
sangue, parou junto do tronco de uma árvore. Carmaux, julgando
tê-lo já seguro, caiu-lhe em cima. Subitamente foi acometido
de um cheiro tão pestilento que tombou para trás, como se
tivesse sido fulminantemente sufocado.
- Com míl tubarões! - praguejou ele. - Os diabos levem a
azémola! Acho que estoirou!
Depois, uma série de espirros o acometeu, não o deixando
continuar com as suas invectivas pitorescas.
O catalão correu em seu auxílio. Chegado a dez passos parou,
tapando o nariz com ambas as mãos.


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- Caramba! - exclamou. - Eu bem dizia que parásseis,
caballero. Agora estais perfumado para uma semana. Não tenho
ânimo para me abeirar de vós.
- Ah, amigo! - bradou Carmaux. - Estarei empestado? Sinto
uma agonia como se estivesse com enjôo. Que diabo foi isto?
- Safai-vos daqui, já vos disse. Fugi desse insuportável
cheiro que empestou a mata.
Carmaux ergueu-se muito a custo e afastou-se, tentando
dirigir-se para o catalão, que mal o viu encaminhar-se para
ele tratou de se pôr a distância conveniente.
- Com mil tubarões! Tens medo? - perguntou Carmaux. - Então
eu tenho a cólera?
- Não, caballero, mas também me pegareis esse cheiro.
- Como hei-de voltar para o acampamento? Farei fugir todos,
até o comandante.
- Será preciso deixar-vos defumar - disse o catalão que a
grande custo continha o riso.
- Como um arenque?
- Nem mais, nem menos, caballero.
- Mas dize-me cá, meu amigo, que foi isto? Foi aquele
mostrengo que largou este maldito cheiro de alhos pisados, que
me dá volta ao estômago? Queres que te diga? Parece que me
estala a cabeça.
- Acredito.
- Que diabo era o animal?
- Chamam-lhe surilho. É uma espécie de fuinha, certamente a
pior de toda a espécie, não podendo ninguém resistir ao seu
cheiro, nem sequer os cães.
- E de onde larga esse perfume dos diabos?
- De umas pequenas glândulas que tem debaixo da cauda. Se
apanhásseis no fato uma gota, sequer, daquele líquido oleoso,
teríeis de continuar a viagem nu, como o pai Adão.
- Pois mesmo assim cheiro muito mal.
- Pois sereis defumado, já vos disse.
- Diabos levem todos os surilhos da terra! Não podia
acontecer-me outra pior! Que bonita figura vamos fazer quando
chegarmos ao pé dos companheiros!... Esperavam-nos com caça e
em vez disso, levo-lhes um fornecimento de um perfume
infernal!
Carmaux fez um gesto de resignação e sentou-se
melancolicamente ao pé de uma árvore, soltando um grande
suspiro.


36


Depois de ter informado o Corsário Negro da cómica aventura,
o catalão foi à floresta com o africano, apanhou umas certas
ervas verdes, semelhantes à rama de pimenteira, pousou-as a
vinte passos de Carmaux e deitou-lhes fogo.
- Deixai-vos defumar bem com isto - disse ele fugindo e
rindo ao mesmo tempo. - Cá vos espero para o almoço.
Carmaux, um tanto resignado, foi expor-se ao fumo densíssimo
que se desprendia daquelas plantas, resolvido a não se retirar
dali enquanto não perdesse o terrível cheiro que o impregnava.
Meia hora depois, sentindo apenas muito levemente o cheiro
expelido do surilho, resolveu-se a retirar-se dali,
dirigindo-se para o acampamento onde os companheiros estavam
ocupados a repartir uma corpulenta tartaruga que tinham
surpreendido na margem da savana.
- Dão licença?... Com todo aquele fumo espero estar
purificado.
- Adiante - respondeu o Corsário Negro. - Afeitos ao cheiro
acre do alcatrão podemos aturar também o que tu tresandas, mas
espero que doravante terás o cuidado de não te chegares aos
surilhos.
- Com mil milhões de tubarões!... Se torno a ver mais algum,
prometo-vos, comandante, que fujo para mais de três milhas.
- Estavas, ao menos, no mais espesso da floresta quando
fizeste fogo?
- Calculo que a detonação não se tenha prolongado muito -
respondeu o catalão.
- Não gostaria que os fugitivos pudessem suspeitar que são
perseguidos.
- Pois eu creio que devem ter a certeza, capitão, pela
rapidez com que caminham. A estas horas já os devíamos ter
alcançado.
- Há talvez um motivo muito urgente que obriga Wan Guld a
apressar-se: o receio que o Olonês caia sobre Gibraltar.
- Quererá ele tentar o assalto dessa praça? - perguntou o
catalão muito inquieto.
- Talvez... Veremos - respondeu o Corsário Negro
evasivamente.
- Se isso tivesse de acontecer, nunca eu combateria contra
os meus compatriotas - disse o catalão com voz comovida. - Um
soldado nunca pode erguer as armas contra uma cidade em cujas
muralhas tremula uma bandeira da sua pátria.


37


Mas como se trata de Wan Guld, um flamengo, estou pronto a
auxiliar-vos.
- Admiro o teu amor pela pátria - replicou O Corsário Negro.
- Logo que alcancemos Wan Guld, serás livre para ires defender
Gibraltar se assim o quiseres...
- Obrigado, caballero; até então estou às vossas ordens.
- Então, ponhamo-nos de novo a caminho senão não os
alcançamos.
Recolheram as armas e os poucos mantimentos que ainda
possuíam, e recomeçaram a marcha.
O calor era intenso, tanto mais que naqueles sítios não
havia sombra, mas os corsários, habituados às temperaturas do
golfo do México e do mar Caraíbo, não sofriam muito. No
entanto, fumegavam como sulfataras e era tal a abundância de
suor que Lhes corria de todos os poros que a poucos passos
levavam a roupa ensopada.
Felizmente, cerca das quatro horas da tarde, divisou-se a
extremidade oposta da savana, a qual penetrava no meio da
grande floresta na forma de um gargalo de garrafa.
Os corsários e o catalão, que marchavam com agilidade,
apesar de bastante fatigados, iam dobrar para a floresta,
quando o negro, que caminhava na retaguarda, lhes indicou
qualquer coisa vermelha que se mantinha à flor de um pântano
esverdeado que se ligava à savana.
- Uma ave? - perguntou o Corsário negro.
- Parece-me antes uma gorra espanhola - disse o catalão. -
Não vedes também uma borla de penas pretas?
- Quem a terá deitado naquele pântano? - perguntou o
corsário.
- Parece-me que se tratará de coisa pior, senhor - observou
o catalão. - Ou muito me engano ou aquele lodo é formado de
certas areias que seguram sempre e nunca deixam de lá sair
quem nelas cai.
- Que queres tu dizer?
- Que talvez debaixo daquela gorra esteja algum desgraçado
que foi agarrado vivo pelo lodo.
- Vamos ver.
Desviaram-se do seu rumo e dirigiram-se para aquele lado do
lodo. Tinha uma extensão de trezentos ou quatrocentos metros,
sobre igual largura; viram que se tratava efectivamente de um
desses gorros de seda variegada de encarnado e amarelo,


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adornado de uma pena, bastante usados pelos espanhóis.
Tinha ficado pousado no lodo, no centro de uma depressão que
tinha a forma de um funil, e ali perto viam-se emergir cinco
pequenos espeques de uma cor tal que fez estremecer os
corsários.
- Uns dedos - exclamaram simultaneamente Carmaux e Wan
Stiller.
- Bem vos dizia eu, caballeros, que debaixo daquela gorra
havia um cadáver - observou o catalão com voz triste.
- Quem seria o desgraçado que a savana engoliu? - perguntou
o Corsário Negro.
- Algum soldado da escolta do governador - respondeu o
catalão. - Aquela gorra via-a eu na cabeça de João Barreo.
- Então Wan Guld passou aqui?
- Aquilo é uma confirmação, senhor.
- Terá caído acidentalmente?
- Assim o creio.
- Que horrível morte!
- A mais terrível, senhor. Ser tragado em vida por aquele
lodo tenaz e pestilento, deve ser um fim pavoroso.
- Bem, deixemos os mortos e pensemos nos vivos - disse o
Corsário negro dirigindo-se para a floresta. - Agora temos a
certeza de ir na peugada dos fugitivos.
Ia convidar os companheiros a apressar-se, quando o deteve
um assobio prolongado e com certas modulações estranhas,
ecoando do lado mais espesso da floresta.
- Que é isto agora? - perguntou o Corsário Negro voltando-se
para o catalão.
- Não sei - respondeu este, deitando um olhar inquieto para
as árvores gigantes da floresta.
- Será algum pássaro que canta daquela maneira?
- Nunca ouvi um assobio assim.
- Nem eu, capitão - disse o africano.
- Será algum sinal?
- Receio-o bem - respondeu o catalão.
- Dos teus compatriotas?
- Hum... - fez o espanhol, meneando a cabeça. - Receio mais
que não tardemos a defrontar-nos com os índios.
- índios livres ou vossos aliados? - perguntou o Corsário
Negro apreensivo.


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- Mandados contra nós pelo governador.
- Vamos!... Se se trata de índios, facilmente os
repeliremos.
- São perigosos na floresta virgem, talvez mais do que os
brancos. Dificilmente se evitam as suas emboscadas.
- Procuraremos não nos deixar surpreender. Armai as vossas
espingardas e não poupeis as cargas. A estas horas o
governador já sabe que lhe vamos no encalço; pouco importa que
ouça os nossos tiros.
- Vamos então tomar conhecimento com os índios desta região
- disse Carmaux. - Decerto que não são mais brutos nem piores
que os outros.
- Cuidado com eles, caballeros - disse o catalão. - Os
homens vermelhos da Venezuela são antropófagos...
- Oh, diabo!... Amigo Wan Stiller, toca a acautelar os
lombos!

VII


OS ANTROPÓFAGOS


Tinham-se internado na floresta.
Temendo alguma surpresa, avançaram com grande precaução,
apurando o ouvido e observando atentamente as matas mais
espessas, dentro das quais podiam ocultar-se índios.
Não se tinha ouvido mais o sinal; mas tudo indicava que
haviam por ali passado homens. As aves e os macacos tinham
desaparecido, sem dúvida espavoridos pela presença dos seus
eternos inimigos - os índios, que lhes dão caça encarniçada
pelo apreço em que têm a sua carne. Além disso, viam-se aqui e
além ramos recentemente partidos, lianas cortadas há pouco e
que ainda gotejavam linfa.
Marchavam havia já duas horas, sempre com mil cautelas,
quando se ouviram, a alguma distância, certas modulações que
pareciam emitidas por alguma daquelas flautas de bambu usadas
pelos índios. O Corsário Negro, com um gesto, fez parar os
companheiros.
- Um sinal? - perguntou ao catalão.
- Sim senhor - respondeu este. - Não podemos enganar-nos.
- Os índios devem estar próximos.
- Talvez mais do que julgais. Estamos no meio de matas
cerradíssimas que se prestam a uma emboscada.
- Que me aconselhas a fazer?... Esperar que apareçam ou
continuar a marcha?
- Se nos vêem parar podem imaginar que temos medo. Vamos
para diante, senhor, e não poupemos os primeiros que se nos
apresentem.
As modulações da flauta fizeram-se ouvir mais de perto.
Parecia partirem de uma moita de cáricas, plantas que formavam
um obstáculo insuportável com os seus troncos eriçados de
espinhos compridos e agudos.
- Wan Stiller - disse o Corsário Negro voltando-se para o
hamburguês. - Vê se fazes calar aquele tocador misterioso.
O marinheiro, que era um exímio atirador, pois fora alguns
anos bucaneiro, apontou a espingarda para a moita, tentando
descobrir o índio que tocava ou qualquer ponto onde as folhas
se movessem, depois disparou um tiro, mas à toa.
A detonação foi seguida de um grito, que imediatamente se
transformou numa gargalhada.
- Com mil diabos!... - exclamou Carmaux. - Erraste a
pontaria.
- Raios de Hamburgo! - praguejou Wan Stiller irritado. - Se
eu tivesse podido lobrigar a cabeça desse cachorro, não sei se
ele ainda agora ria.
- Não tem dúvida - disse o Corsário Negro. - Agora já sabem
que estamos armados de espingardas e terão mais prudência.
Avante, pois, homens do mar!
Tinham chegado a uma passagem mais complicada que as outras
e mais escura, quando viram o catalão baixar-se bruscamente.
Ouvira-se um leve assobio, depois uma seta fina atravessara
cravando-se num ramo que estava à altura de um homem.
- Uma flecha!... - gritou o espanhol. - Cautela!
Carmaux, que ia atrás dele, disparou a espingarda.
Ainda a detonação se não tinha extinguido quando no meio da
espessa moita ecoou um rugido prolongado, um rugido de dor.
- Raça de tubarão!... Apanhei-te! - bramiu Carmaux.
- Cautela! - bradou nesse instante o catalão.


40 41

Quatro ou cinco flechas passaram sibilando por cima dos
corsários, no momento preciso em que eles se agachavam.
- Acolá, naquela moita! - gritou Carmaux.
Wan Stiller, Carmaux e o catalão dispararam ao mesmo tempo
as armas, mas nenhum outro grito se ouviu. Mas ouviram partir
ramos de árvores, estalar folhas secas; depois todo o rumor
cessou.
- Parece que apanharam a sua conta - disse Wan Stiller.
- Silêncio, deixai-vos estar atrás das árvores - recomendou
o catalão.
- Receias que ainda nos assaltem? - perguntou o corsário.
- Ouvi agitarem-se folhas aqui à nossa direita.
- É então uma verdadeira emboscada?
- É o que eu suspeito, senhor.
- Se Wan Guld cuida que os índios nos tolhem o passo, está
muito enganado. Prosseguiremos avante, a despeito de todos os
obstáculos.
- Não abandonaremos estas árvores protectoras. É possível
que as flechas dos caraíbas estejam envenenadas.
- Comandante - disse Carmaux -, permitis um conselho?
- Fala.
- Desaninhemos estes impertinentes índios incendiando a
floresta.
- E queimarmo-nos vivos a nós mesmos, também. Quem apagaria
depois o fogo?
- Marcharemos disparando tiros à direita e à esquerda -
sugeriu Wan Stiller.
- Creio que tiveste uma boa ideia - replicou o Corsário
Negro. - Marcharemos com música à frente. Vamos lá a isso,
fogo para ambos os lados, meus valentes, e deixai por minha
conta o forçar a passagem.
Pôs-se na primeira linha, com a espada na mão direita e a
pistola na esquerda.
Apenas saíram detrás dos troncos protectores, Carmaux e Moko
dispararam as espingardas, um à direita, outro à esquerda, e
seguidamente, após um curto intervalo, o catalão e Wan Stiller
fizeram outro tanto. De novo carregadas com toda a presteza as
armas, recomeçou aquela música infernal, sem economia de
munições. Entretanto, o Corsário Negro abria caminho, cortando
as lianas e a folhagem que impediam a passagem, mas sempre
pronto a descarregar a pistola logo que avistasse algum índio.


42


Aquele troar furioso parecia produzir um certo efeito nos
misteriosos inimigos, visto que nenhum se atrevia a aparecer.
Cuidavam estar já a salvo da emboscada quando uma árvore
enorme veio cair com grande fragor quase diante deles,
embargando-Lhes a passagem.
- Raios de Hamburgo! - exclamou Wan Stiller, que por pouco
tinha sido esmagado. - Se cai meio segundo mais tarde faria
tudo em borra.
Ainda não tinha acabado de falar quando se ouviram gritos
furibundos; depois algumas flechas cruzaram o ar, cravando-se
profundamente nos troncos das árvores.
O Corsário Negro e os seus homens tinham-se deitado
rapidamente por terra, atrás da árvore caída, a qual de certo
modo podia servir-lhes de trincheira.
- Esperemos que desta feita se mostrem - disse Carmaux. -
Ainda não tive o gosto de ver a cara de um desses ferrenhos
indianos.
- Colocai-vos espalhados - disse o Corsário Negro. - Se nos
vêem assim juntos desfecham-nos uma chuva de flechas.
Os seus homens iam dispersar atrás de uma enorme árvore,
para não oferecer um só ponto de mira aos inimigos, quando se
ouviram algumas flautas tocando uma melodia triste a pequena
distância.
- Os índios aproximam-se - disse Wan Stiller.
- Preparai-vos para os receber com uma descarga - ordenou o
Corsário Negro.
- Não, senhor - objectou o catalão. - Isto não é uma marcha
de guerra.
- Que quer então dizer? - perguntou o Corsário.
- Esperai, senhor.
Tinha-se erguido olhando para o outro lado da árvore.
- Um parlamentário! - exclamou. - É o piaya da tribo que vem
aí.
- Um piaya?!...
- Sim, o feiticeiro, senhor - disse o catalão.
Os corsários tinham-se levantado rapidamente, sempre de
espingarda em punho.
Um índio tinha surgido do meio da mata e avançava para eles,
seguido de dois tocadores de flauta. Era um homem um tanto
idoso, de estatura mediana como são todos os índios


43


da Venezuela. O rosto era amarelo, de expressão mais
melancólica do que feroz, não tinha barba, pois que usam
cortá-la, enquanto uma longa e negra cabeleira cobria a
cabeça, com reflexos azuis-escuros.
O piaya aproximou-se até uns cinquenta passos da árvore, fez
sinal aos dois tocadores de flauta para que se calassem, e
depois bradou com voz estentórica em mau espanhol:
- Que os homens brancos me ouçam.
- Os brancos te escutam - respondeu o catalão.
- Este é o território dos Araucanos; quem deu aos brancos
licença para violar as nossas florestas?
- Nós não temos intenção de violar as selvas dos araucanos-
replicou o catalão. - Apenas as atravessaremos para alcançar o
território dos homens brancos, que se encontram no sul da baía
de Maracaíbo, sem fazer guerra aos homens vermelhos, dos quais
nos declaramos amigos.
- A amizade dos homens brancos não é para os araucanos,
porque já foi funesta aos homens vermelhos da costa. Estas
selvas são nossas; voltai, pois, para a vossa terra, se não
quereis que vos comamos a todos.
- Diabo! - exclamou Carmaux. - Se não me engano, fala de nos
pôr na grelha.
- Nós não somos os homens brancos que conquistaram a costa e
reduziram à escravidão os caraíbas. Ao contrário, somos
inimigos desses homens e atravessamos estas florestas para
perseguir alguns deles - disse o Corsário Negro.
- És tu o chefe? - perguntou o piaya.
- Sim, sou o chefe dos homens brancos que me acompanham.
- E perseguis outros homens brancos?
- Perseguimos, para os matar. Passaram aqui?
- Odeia-los, então? - perguntou o piaya.
- São meus inimigos.
- Ide matá-los na costa, se quereis, mas não no território
dos araucanos. Homens brancos, voltai atrás, ou nós vos
faremos guerra.
- Já te disse que não somos inimigos. Respeitamos a tua
tribo e as tuas colheitas.
- Homens brancos, retirai-vos - repetiu o piaya com mais
força.


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- Escuta-me ainda.
- Tenho dito: retirai-vos ou faremos a guerra e vos
comeremos.
- Toma conta. Nós atravessaremos as tuas florestas, mesmo
contra a vontade da tua tribo.
- Nós impediremos.
- Temos armas que despedem trovões e raios.
- E nós temos as nossas flechas.
- Temos machadas que cortam e espadas que furam.
- E nós temos as nossas batús que esmigalham as cabeças mais
rijas.
- És acaso aliado dos homens brancos que nós perseguimos? -
perguntou o Corsário Negro.
- Não; havemos de comê-los também.
- É então a guerra que tu queres?
- É, se não voltas para trás.
- Homens do mar! - bradou o Corsário Negro saltando para
cima da árvore de espada em punho. - Mostraremos a estes
índios que não temos medo! Avante!
O piaya, vendo-os avançar com as espingardas apontadas,
afastara-se precipitadamente, juntamente com os dois tocadores
de flauta, escondendo-se na mata.
O Corsário Negro tinha obstado a que os seus homens fizessem
fogo, não querendo ser o primeiro a romper o combate, mas
avançava intrepidamente através da floresta, pronto a começar
a luta.
Algumas flechas começaram a sibilar. Wan Stiller e Carmaux
responderam logo com alguns tiros, mas disparados à toa,
porque os índios tinham cessado de mostrar-se, apesar das
bravatas do piaya.
Disparando tiros a torto e a direito, com pequenos
intervalos, o pequeno grupo transpôs a parte mais espessa da
floresta, e alcançou uma clareira em cujo centro as vertentes
do terreno tinham formado um pequeno lago.
Como se aproximasse o pôr do Sol e já não se visse nenhum
índio, o Corsário Negro deu ordem para acampar.
- Se quiserem acometer-nos, a clareira é suficientemente
grande para os podermos avistar apenas apareçam.
- Não podíamos escolher melhor local - disse o catalão. - Os
índios são perigosos no meio das matas, mas não ousam acometer
em campo descoberto, e, além disso, eu prepararei o
acampamento de maneira que não possam forçá-lo.
- Queres construir uma trincheira? - perguntou Carmaux. -
Isso dava um trabalhão de mil diabos, meu amigo.
- Bastará uma barreira de fogo.
- Saltam por cima dela. Não são jaguares para terem medo de
alguns tições.
- E disto? - disse o catalão, mostrando um punhado de bagas
redondas.
- Que é?
- Pimentão, e do mais forte. Pelo caminho o fui apanhando e
trago os bolsos cheios.
- Isso é bom para comer com a carne.
- Servirá para os índios.
- Como?
- Deitando-as nas fogueiras.
- Têm medo do crepitar dessas bagas?
- Não, mas do fumo que deitam. Se quiserem transpor a
barreira de fogo sentirão arder os olhos e ficarão cegos para
um bom par de horas.
- Com mil tubarões! Tu sabes mais que o diabo!
- Foram os caraíbas que me ensinaram este meio de afugentar
os inimigos, e vós ides ver que dará bom resultado, se os
araucanos quiserem atacar-nos. Vá, toca a apanhar a lenha, e
depois esperemos com sossego.
Depois de terem ceado à pressa um pedaço de tartaruga que
tinham guardado da refeição da manhã, e algumas bolachas, os
corsários revistaram primeiramente as imediações, para ver se
encontravam os índios emboscados, depois bateram as ervas para
afugentar as serpentes, e por fim acenderam em volta do
acampamento fogueiras sobre as quais deitaram algumas
mãos-cheias de pimentão.
Receando, com razão, não passar a noite sossegadamente,
decidiram ficar alerta, primeiro os dois marinheiros e o
negro.
Havia já algumas horas que eles velavam, de olhos fitos na
mata próxima, deitando de espaço a espaço nas fogueiras alguns
punhados de pimentão, quando o africano, cujo ouvido era
apuradíssimo, notou um leve rumor de folhas secas.
- Ouviste, compadre branco?... - murmurou ele inclinando-se
para Carmaux, que estava ocupado a saborear,


46 47


com invejável satisfação, uma ponta de charuto que tinha
encontrado no bolso.
- Não ouvi nada, compadre saco-de-carvão - respondeu a rir.
- Esta noite, nem há rãs que ladram, nem sapos que martelam
como os calafates.
- Mexeu-se acolá um ramo, o teu compadre negro ouviu bem.
- Então o teu compadre branco está surdo.
- Espera!... Ouviste agora? Um ramo que se partiu...!
- Eu não ouço nada; se é verdade o que dizes, é que alguém
procura aproximar-se de nós.
- Deita-te ao chão, compadre branco, se não queres ser
apanhado pelas flechas e injectado de veneno.
Estenderam-se ambos entre as ervas, fazendo sinal a Wan
Stiller que estava do outro lado para que os imitasse, e
ficaram à escuta, de armas na mão.
No meio de uma cerrada moita que estava a uns cinquenta
passos viam de quando em quando agitar-se folhas ligeiramente,
e sentia-se estalar algum ramo. Percebia-se que os inimigos
tomavam precauções para chegar a tiro de flecha, sem se
deixarem descobrir.
Os corsários, quase inteiramente escondidos no meio das
ervas, não se moviam, esperando que os inimigos aparecessem
para fazer fogo. Subitamente uma ideia fez estremecer Carmaux.
- Compadre, achas que ainda estão longe?
- Os índios?
- Sim, responde depressa.
- Ainda estão no meio da moita mas se continuarem a
aproximar-se dentro de um minuto estão aqui.
- Tenho tempo; Wan Stiller, dá-me a tua jaqueta e o barrete.
O hamburguês apressou-se a obedecer. Carmaux ergueu-se para
tirar também a sua jaqueta. Deitou a mão a alguns ramos que
lhe estavam ao alcance, cruzou-os o melhor que pôde, depois
cobriu-os com as jaquetas e pôs em cima os barretes.
- Pronto! - disse, tornando a deitar-se.
- Eles aí vêm. Eh, Wan Stiller, outro punhado de pimentão.
O hamburguês ia a erguer-se, mas logo se abaixou. Tinham-se
ouvido alguns sibilos e três ou quatro flechas tinham ido
cravar-se nos dois bonecos improvisados.
- Veneno desperdiçado, meus caros - murmurou Carmaux. -
Espero que vos mostreis para vos dar a provar os meus
confeitos de chumbo.


48


Os índios, vendo que ninguém tinha dado sinal de vida,
despediram outras sete ou oito flechas, tornando a acertar nos
monos; depois, um deles, certamente mais audaz, saltou para
fora da mata brandindo a sua terrível massa.
Carmaux tinha erguido a espingarda, apontando-Lha. Ia a
disparar, quando do meio da grande floresta, a distância de
algumas milhas, se ouviram ecoar inopinadamente quatro tiros,
seguidos de rugidos formidáveis.
O índio tinha recuado com extraordinária destreza,
penetrando novamente na moita, antes que Carmaux tivesse tempo
de o alvejar.
O Corsário Negro e o catalão, subitamente despertados por
aqueles tiros e pelos gritos, tinham-se erguido
precipitadamente, julgando que o acampamento tivesse sido
assaltado pelos índios.
- Onde estão? - perguntou o Corsário Negro, avançando de
espada em punho.
- Desapareceram, comandante, e ainda antes que eu lhes desse
a provar os confeitos da minha espingarda.
- E estes gritos, estes tiros?... Ouves!... Mais três tiros!
- Combate-se no meio do bosque - disse o catalão. - Os
índios decerto acometeram homens brancos.
Outros dois tiros, mais distantes, seguidos de gritos
furibundos, depois um quinto tiro isolado, e nada mais.
- Terminou a luta - disse o catalão que tinha escutado um
tanto apreensivo. - Pelo governador não daria um passo; mas
pelos outros, que são meus compatriotas...
- Desejarias saber o que lhes aconteceu, não é verdade? -
perguntou o Corsário Negro.
- Desejava, comandante.
- Pois a mim o que mais me interessava agora era saber se o
meu inimigo está morto ou vivo - respondeu o Corsário Negro
com voz terrível. - Serias capaz de nos guiar?
- A noite está escura, senhor; mas... Podemos acender alguns
ramos resinosos...
- E atrair sobre nós a atenção dos índios...!
- É verdade, senhor.
- Mas com o auxílio das nossas bússolas podemos
orientarmo-nos.
- É impossível afrontar os mil obstáculos que nos oferece
esta selva tão cerrada; em todo o caso...


49


- Avia-te...
- Há acolá cucujos e podem servir-nos. Dai-me cinco
minutos... Ajuda-me, Moko!...
Tirou o barrete e juntamente com o negro dirigiu-se para um
grupo de árvores no meio das quais se viam brilhar grandes
pontos luminosos, de luz esverdeada, que giravam
fantasticamente nas trevas.
O catalão, chegado que foi ao pé das árvores, desatou a dar
saltos para a direita e para a esquerda, como se andasse à
caça daqueles pontos luminosos.
Dois minutos depois voltava ao acampamento, trazendo o
barrete tapado com ambas as mãos.
- Agora podemos pôr-nos a caminho, senhor - disse ao
Corsário Negro.
- E como? - perguntou este.
O catalão meteu a mão no barrete e tirou um insecto que
irradiava uma bela luz verde pálida, que se espalhava a uma
certa distância.
- Amarremos dois destes cucujos às pernas, como fazem os
índios, e a luz que eles despedem irá permitir-nos distinguir
não só as lianas e as raízes que embaraçam o caminho, mas
também as perigosas serpentes que se escondem nas ervas.
- Engenhosa ideia - disse o Corsário Negro.
- Posta em prática pelos índios - respondeu o catalão. - Com
estes pirilampos poderemos evitar os obstáculos que cobrem a
floresta.
- Estão prontos?... Avante, e não fazer rumor.
Puseram-se em marcha, um após outro, andando cautelosamente
e de olhos fitos no chão, para ver onde pousavam os pés. Os
cucujos serviam maravilhosamente.
Os corsários continuavam a sua rápida marcha.
Os tiros tinham cessado; mas ouviam-se ao longe gritos que
deviam ser soltados por algumas tribos de índios. Ora
emudeciam, ora ecoavam mais agudos, para depois se extinguir
novamente. De espaço a espaço ouviam-se também flautas e
rumores surdos, produzidos talvez por alguma espécie de
tamborins.
Já os gritos se ouviam a pequena distância quando Carmaux,
que caminhava a par do catalão, enquanto erguia os olhos para
evitar uma liana, esbarrou numa massa, caindo tão
desastradamente que esmagou os cucujos que levava ligados aos
tornozelos.
- Com mil bombas! - exclamou, erguendo-se lestamente. - Que
diabo é isto?... Um morto!...
- Um morto!? - exclamaram todos.
- Olhai!
Entre as folhas secas e as raízes jazia um índio de elevada
estatura, com a cabeça adornada de penas de arara, e os
quadris cobertos com uma tanga azul-escuro. Tinha a cabeça
partida por uma espadagada, segundo parecia, e o peito furado
talvez por uma bala. Ainda corria sangue das feridas.
- Deu-se talvez aqui um recontro - disse o catalão.
- Certamente - confirmou Wan Stiller. - Vejo ali algumas
massas e nos troncos das árvores grande quantidade de flechas
ainda cravadas.
- Vejamos se por aqui está algum dos meus camaradas - disse
o catalão um tanto comovido.
- Tempo perdido - observou Carmaux. - Se algum foi morto
está a estas horas a ser cozinhado.
- Pode ter-se escondido algum ferido.
- Procura - disse o Corsário Negro.
O catalão, o negro e Wan Stiller deram busca às moitas
próximas, chamando até em voz baixa, mas sem obter resposta.
Encontraram outro índio que tinha recebido duas balas do lado
do coração, depois algumas massas, alguns arcos e um feixe de
flechas. Convencidos de que não havia ali nenhum ser vivo,
retomaram o caminho. Os gritos da tribo ouviam-se então muito
perto e, com uma marcha rápida, calculavam alcançar o
acampamento dos antropófagos em menos de um quarto de hora.
Parecia realmente que os araucanos estariam festejando a
vitória pois, confundidas com os gritos, ouviam-se também
algumas flautas tocando alegremente.
Já os corsários tinham atravessado a parte mais espessa da
floresta quando lobrigaram, através da ramaria, uma luz
vivíssima que se projectava do alto.


50 51

VIII


ENTRE AS FLECHAS E AS GARRAS


No momento em que os corsários chegaram às árvores que
circundavam o campo índio, uma cena atroz se patenteou aos
seus olhares.
Umas duas dúzias de araucanos, sentados à volta de um
gigantesco braseiro, aguardavam ansiosamente o momento de
apreciar um assado que acabava de ser cozinhado num comprido
espeto. Se se tratasse de uma enorme peça de caça, de um tapui
inteiro ou de um jaguar, os corsários por certo não se teriam
sobressaltado; mas aquele assado consistia em dois cadáveres
humanos, dois brancos, provavelmente dois espanhóis da escolta
de Wan Guld.
- Raios do inferno! - exclamou Carmaux estremecendo. -
Parece impossível que haja gente que se alimente com os seus
semelhantes!
- Podes distinguir aqueles dois desventurados? - perguntou o
Corsário Negro ao catalão.
- Sim, senhor - respondeu este com voz sufocada.
- Pertenciam à escolta de Wan Guld?...
- Sim, senhor; são dois soldados, tenho a certeza de que não
me engano, apesar de o fogo lhes ter destruído a barba.
- Que me aconselhas a fazer?
- Senhor... - murmurou o catalão, olhando-o com expressão
súplice.
- Quereis arrebatá-los a esses monstros e dar-lhes honrosa
sepultura?...
- Iria criar-vos grandes embaraços, senhor. Os araucanos
iriam perseguir-nos depois.
- Não tenho medo desses selvagens - replicou o Corsário
Negro com altivez. - Além disso, não são mais do que duas
dúzias.
- Talvez esperem outros. É impossível que só aqueles sejam
capazes de devorar dois homens.
- Pois bem, antes que os seus companheiros cheguem, teremos
nós sepultado os teus camaradas. Eh, Carmaux... e tu, Wan
Stiller, que sois bons atiradores, não erreis os vossos tiros.
- Eu darei cabo daquele gigante que está deitando ervas
aromáticas sobre o assado - respondeu Carmaux.
- E eu - disse o hamburguês - estoiro a cabeça àquele que
tem na mão uma espécie de forcado de que se serve para voltar
o assado.
- Fogo! - comandou o Corsário Negro.
Ecoaram dois tiros de espingarda, quebrando o silêncio que
reinava na floresta. O índio gigante caíra sobre o assado,
enquanto o outro, que brandia o forcado, caía para trás com o
crânio despedaçado.
Os companheiros tinham-se erguido precipitadamente,
empunhando as massas e os arcos, mas ficaram tão aterrados por
aquela descarga mortífera que não pensaram na defesa. O
catalão e Moko aproveitaram a indecisão, descarregando as suas
armas para o meio do grupo.
Os araucanos, ao verem cair outros dois companheiros, não
quiseram saber de nada mais e largaram a correr, sem querer
saber do assado, fugindo precipitadamente.
Os corsários iam deitar também a correr, quando se ouviram
clamores furibundos ao longe.
- Com mil tubarões! - exclamou Carmaux. - Os outros
preparam-se para voltar.
Os gritos dos índios aproximavam-se rapidamente. A tribo,
que devia ter-se precipitado no encalço de Wan Guld, ao ouvir
o troar daqueles tiros à retaguarda, acorria, em auxílio dos
homens que se tinham encarregado de preparar a monstruosa
ceia.
O Corsário Negro, que tinha avançado um pouco, temendo
alguma surpresa da parte dos que tinham fugido, ao ouvir
quebrar ramos a pequena distância, voltou precipitadamente
para o pé dos seus companheiros, dizendo-lhes:
- Fujamos, ou dentro de cinco minutos teremos sobre nós toda
a tribo.
- Pronto, comandante - disse Carmaux, que com os pés
arrastava terra para cima dos cadáveres.
- Senhor - disse o catalão, voltando-se para o Corsário
Negro. - Se fugirmos, seremos perseguidos.
- E que queres fazer?
- Escondamo-nos acolá - disse ele apontando para uma árvore
enorme, que por si só formava uma pequena moita. - No meio
daquela folhagem não seremos descobertos.


52 53


- És esperto, compadre - disse Carmaux. - Arriba, gajeiros!
O catalão e os corsários, precedidos de Moko, correram para
aquele colosso da flora tropical, ajudando-se reciprocamente
para atingir depressa a ramaria.
Carmaux ia acomodar-se na bifurcação de um ramo, quando
sentiu este oscilar vivamente como se alguém se tivesse
refugiado na ponta.
- És tu, Wan Stiller?... - perguntou. - Queres fazer-me
rebolar daqui abaixo? Olha que desta altura onde estamos fico
com os ossos num feixe.
- Que queres tu dizer? - perguntou o Corsário Negro que lhe
ficava por cima. - O Wan Stiller está adiante de mim.
- Quem é que está então a abanar o ramo? Será algum araucano
que se tenha refugiado aqui?
Olhou em volta e a dez passos de distância no meio da
folhagem, junto quase à extremidade do ramo em que ele estava,
viu brilhar dois pontos luminosos de um amarelo-esverdeado.
- Pelas areias de Olone! - exclamou Carmaux. - Que raio de
animal é este que temos por companheiro? Eh, ó catalão; vê lá
se podes dizer-me a quem pertencem aqueles terríveis olhos que
me estão fitando.
- Olhos!... - exclamou o espanhol. - Há algum animal nesta
árvore?
- Há - disse o Corsário Negro. - Parece que estamos em
péssima companhia.
- E os índios que não tardam! - observou Wan Stiller.
- Também eu vejo dois olhos - replicou o catalão, que se
tinha erguido - mas não sei dizer se serão de um jaguar.
- De um jaguar! - exclamou Carmaux, estremecendo. - Não me
faltava mais nada senão que me caísse em cima e me fizesse
rebolar sobe a cabeça dos araucanos!
- Silêncio - disse o Corsário Negro. - Eles aí vêm!
- E o diabo do animal que está tão perto de mim! - disse
Carmaux que começava a sentir-se muito inquieto.
- Talvez não se atreva a acometer-nos. Não te mexas, se não
queres denunciar-nos.
- Bem, nesse caso, deixa-o devorar-me para vos salvar,
comandante.
- Não te inquietes, Carmaux. Tenho a espada na mão.


54


- Caluda!... Ei-los! - disse o catalão.
Os índios chegavam, bramindo como possessos. Eram uns
oitenta ou mais, todos armados de massas, de achas e alguns
com uma espécie de azagaias.
- Maldito animal!... - murmurou Carmaux, que se agitava no
seu ramo. - Não me larga de vista um instante!... Eh, catalão,
dize-me a que tripas vou parar, se esse diabo se decide a
cair-me em cima.
- Calai-vos, que podem os índios ouvir - respondia baixinho
o catalão que Lhe ficava por baixo.
- O diabo leve o assado humano. Antes tivéssemos deixado os
selvagens comê-lo em paz.
Um estalido que vinha da extremidade do ramo cortou-lhe a
frase. Olhou espavorido para o animal e viu-o mover-se como se
estivesse já cansado da sua posição, na realidade pouco
cómoda.
- Capitão - murmurou Carmaux. - Acho que está a preparar-se
para me comer.
- Não te movas - respondeu o Corsário Negro. - Já te disse
que tenho a espada na mão.
- Estou certo que não errareis o golpe, mas...
- Caluda; andam aí por baixo de nós dois índios.
- Eh! Com que ganas eu lhes atirava à cabeça esse animal de
má-morte!
Olhou para a extremidade do ramo e viu a fera levantada nas
quatro patas, como preparando-se para formar um salto.
- Quererá ir-se embora?! - pensou, respirando. - Terá
chegado a hora de se decidir a abandonar o posto?
Olhou para baixo e lobrigou confusamente dois vultos que
giravam em volta da árvore, parando a examinar os elevados
pegões, sob os quais podiam comodamente ocultar-se algumas
pessoas.
- Isto acaba mal - murmurou.
Os dois entretiveram-se alguns minutos na base do colosso,
depois distanciaram-se, ocultando-se entre a mata. Os
companheiros deviam já estar muito distantes, pois os seus
gritos começavam a ouvir-se mal.
O Corsário Negro esperou alguns momentos, depois, não
ouvindo mais nada, convencido de que os araucanos se tinham
afastado definitivamente, disse a Carmaux:
- Experimenta sacudir o ramo.
- Que quereis fazer, comandante?!

55


- Livrar-te daquela perigosa companhia. Eh, Wan Stiller,
prepara-te para usar a machada!
- Cá estou eu também patrão - disse Moko que se tinha
endireitado no ramo onde estava, segurando pelo cano a sua
pesada espingarda. - Com uma boa coronhada deito abaixo esse
maldito bicho!
Carmaux, completamente tranquilizado, vendo à volta de si
tão decididos defensores, pôs-se a bambolear furiosamente,
sacudindo o ramo.
O animal, compreendendo talvez que ò agrediam, soltou um
surdo rugido, depois pôs-se a bufar como um gato enraivecido.
- Força, Carmaux! - disse o catalão. - Se não se move é
porque tem medo de ti. Sacode com força e deita-o abaixo.
O Corsário Negro agarrou-se a um ramo superior e redobrou os
impulsos. O animal, refugiado na extremidade da folhagem,
oscilava para a direita e para a esquerda, manifestando o
pouco prazer que sentia com aquela dança de novo género,
soltando miados e bufadelas mais fortes.
Subitamente, talvez receando dar um desastrado trambolhão,
tomou uma decisão desesperada. Encolheu-se, depois saltou para
um ramo que lhe ficava por baixo, passando por sobre a cabeça
do catalão e tentou alcançar o tronco para se atirar a terra.
O africano, vendo-o saltar, vibrou-Lhe à passagem uma
tremenda coronhada, apanhando-o em cheio na cabeça e fazendo-o
cair no chão inerte.
- Morto? - perguntou Carmaux.
- Nem teve tempo para soltar um ai - respondeu Moko,
sorrindo.
- Era um jaguar?... Parece-me pequeno para ser uma dessas
sanguinárias feras.
- Apanhaste um susto sem razão, compadre... - disse o
africano. - Bastava uma cacetada para o estender.
- Que era, então?
- Um maracuyá...
- Fiquei na mesma...
- Um animal que se parece efectivamente com o jaguar, mas
que não é mais que um gato grande - disse o catalão. - É um
caçador de macacos e de pássaros, e não se atreve a atacar os
homens.
- Ah, grandíssimo tratante!... - exclamou Carmaux.


56


- Se eu soubesse antes tinha-o agarrado pelo rabo. Mas eu me
vingarei do susto que me pregou. Afinal de contas, gato bem
guisado não é de todo mau.
- Pode ser, tanto mais que estamos a ficar sem mantimentos e
a floresta que temos de atravessar é pobre de caça.
- É muito extensa? - perguntou o Corsário Negro.
- Vai até perto de Gibraltar.
- Levaremos muito tempo a atravessá-la? Não queria chegar a
Gibraltar depois do Olonês.
- Em quatro ou cinco dias espero que consigamos
atravessá-la.
- Chegaremos a tempo - disse o Corsário Negro, como falando
consigo mesmo. - Julgo que será uma imprudência pormo-nos já a
caminho.
- Os índios ainda não estão muito longe, senhor. Se
quisessem tomar o meu conselho, passaríamos a noite nesta
árvore.
- Mas, entretanto, Wan Guld afasta-se...
- Iremos apanhá-lo na floresta paludosa, tenho a certeza.
- Temo que ele possa chegar a Gibraltar antes de mim e que
me fuja outra vez.
- Também eu estarei em Gibraltar, senhor, e não o perderei
de vista. Ainda não esqueci as vinte e cinco varadas que me
mandou aplicar.
- Tu, em Gibraltar!... Que queres dizer?
- Que estarei lá antes de vós, e que por isso o esperarei.
- Antes de nós, porquê?...
- Senhor, sou espanhol - disse o catalão.
- Continua.
- Espero que vós me permitireis fazer-me matar ao lado dos
meus camaradas e que não me obrigueis a combater nas vossas
fileiras contra o pendão da Espanha.
- Queres defender Gibraltar?
- Tomar parte na sua defesa, comandante.
- Tens pressa de deixar este mundo? Os espanhóis de
Gibraltar morrerão todos.
- Seja assim, mas morrerão com armas na mão, à volta da
gloriosa bandeira da pátria distante - respondeu o catalão com
voz comovida.
- Dizes bem, és um valente - replicou o Corsário Negro com
um suspiro. - Sim, irás adiante de nós combater ao lado dos
teus camaradas. Wan Guld é flamengo, mas Gibraltar é espanhol.


57


A noite passou-se tranquila, tão tranquila que os corsários
puderam dormir placidamente algumas horas, estendidos na
bifurcação dos enormes ramos da sumameira.
Houve apenas um alarme causado pela passagem de um pequeno
bando de araucanos, que constituíam talvez a retaguarda da
tribo, mas nem eles deram pela presença dos corsários e
passaram adiante, seguindo o seu caminho para o norte.
Apenas despontou o Sol, o Corsário Negro, depois de ter
escutado demoradamente, tranquilizado pelo profundo silêncio
que reinava na floresta, dava ordens para descerem e recomeçar
a marcha.
O primeiro pensamento de Carmaux, apenas se encontrou em
terra, foi dar busca ao maracuyá que lhe tinha pregado um bom
susto nos ramos da árvore gigante, e encontrou-o numa moita,
com a cabeça despedaçada pela coronhada de Moko.
- Patife!... - exclamou agarrando-o pela cauda e deitando-o
às costas. - Se tivesse sabido antes que eras tão pequeno,
tinha-te ferrado uma coronhada que te atirava para a casa do
diabo! Mas, deixá-lo! Eu me vingarei assando-te e comendo-te.
- Aviemo-nos - disse o Corsário Negro. - Perdemos muito
tempo com os selvagens.
O catalão consultou a bússola que Wan Stiller lhe tinha
dado, depois pôs-se a caminho, abrindo passagem por entre as
lianas, as raízes e o mato.
Um silêncio profundo reinava sob aqueles vegetais, como se
aquela humidade tivesse afugentado aves e animais.
- Com mil tubarões!... - exclamou Carmaux. - Parece que
atravessamos um enorme cemitério.
- Mas um cemitério alagado - acrescentou Wan Stiller. -
Sinto que esta humidade se me entranha nos ossos.
- Será o princípio de um acesso de febre palustre?
- Não me faltava mais nada - disse o catalão. - Quem for
atacado não sairá vivo desta medonha selva.
- Ora adeus!... Tenho a pele dura - replicou o hamburguês.
- Os pântanos do Iucatão curtiram-me, e tu bem sabes que esses
produzem o vómito negro. Não é a febre que me mete medo, é a
falta de caça.
- Especialmente agora que estamos tão mal de mantimentos -
acrescentou o africano.
- Eh! compadre saco-de-carvão! - exclamou Carmaux. - Já
esqueceste o meu gato?... Pois olha que ele dá bem nas vistas.
- Durará pouco, comandante - replicou o negro. - Se não o
comermos hoje, amanhã esta humidade quente irá reduzi-lo a tal
estado de putrefacção que será preciso deitá-lo fora.
- Acabou-se!... Alguma coisa havemos de encontrar que se
possa comer.
Ao meio-dia, extenuados com aquela marcha, paravam sem terem
descoberto o rastro de Wan Guld e o da escolta.
Possuindo apenas bolachas, resolveram assar o maracuyá, e
conquanto fosse muito duro e cheirasse a bravio, bem ou mal, o
tragaram. Em todo o caso, Carmaux insistiu em proclamar que
era um pitéu de primeira ordem, contra a opinião de todos os
outros, e comeu do bicho a valer.
Às três horas, tendo acalmado um tanto o calor que reinava
na floresta, punham-se novamente a caminho através dos
pântanos infestados de miríades de mosquitos que os acometiam.
Mas ao entardecer fizeram uma descoberta que se por um lado
os contristou, por outro lhes deu satisfação, por terem uma
prova de que ainda se encontravam no rastro dos fugitivos.
Estavam buscando um local adequado para acampar quando viram
o africano, que se tinha afastado um pouco com a esperança de
encontrar alguma planta frutífera, voltar apressadamente, de
olhos esgazeados.
- Que tens, compadre saco-de-carvão? - perguntou Carmaux
armando precipitadamente a espingarda. - És perseguido por
algum jaguar?
- Não!... Acolá... um morto... um branco.
- Um branco!? - exclamou o Corsário Negro. - Um espanhol,
queres tu dizer?
- Sim, patrão. Caí sobre ele e senti-o frio como uma
serpente.
- Será esse canalha do Wan Guld? - disse Carmaux.
- Vamos ver - disse o Corsário Negro.
O africano meteu-se no meio de uma moita, após uns vinte ou
trinta passos parava ao pé duma simaraba que se erguia
solitária com a sua carga de flores.
Ali viram os corsários, não sem um frémito de horrór, um
homem estendido de costas, com os braços cruzados no peito, as
pernas seminuas e os pés já descarnados por alguma serpente ou
pelas formigas térmites.


58 59


Tinha o rosto cor de cera banhado de sangue que Lhe saía de
uma pequena ferida próximo do temporal direito, a barba
comprida e emaranhada e os lábios contraídos deixando a
descoberto os dentes. Os olhos já tinham desaparecido vendo-se
no seu lugar apenas dois buracos ensanguentados.
O catalão, que parecia preso de uma viva comoção, tinha-se
curvado sobre aquele desgraçado, depois erguera-se
rapidamente, exclamando:
- Pedro Herrera!... Pobre homem!... Em que estado o
encontro!...
- Era algum dos que acompanhavam Wan Guld? - perguntou o
Corsário.
- Era sim, senhor; um valoroso soldado e um bom camarada.
- Terá sido morto pelos índios?
- Ferido, sim, pois que vejo do lado direito um buraco que
ainda deita algumas gotas de sangue; mas o seu verdadeiro
assassino foi um morcego.
- Que queres tu dizer?
- Que este pobre soldado foi sugado por um voraz vampiro.
Não vedes este pequeno sinal que tem ao pé da fronte direita e
que deitou tanto sangue?
- Sim, vejo.
- Provavelmente, Herrera foi abandonado pelos companheiros,
por causa da ferida que o impedia de os seguir na sua fuga
precipitada, e o vampiro, aproveitando o seu cansaço ou o seu
desmaio, sugou-o.
- Nesse caso, Wan Guld passou por aqui?
- A prova está à vista.
- A teu ver, há quanto tempo estará morto este soldado?
- Talvez desde esta manhã. Se estivesse morto desde ontem,
as formigas térmites já o teriam descarnado inteiramente.
- Estamos então perto deles! - exclamou o Corsário Negro. -
À meia-noite partiremos de novo.


60

IX


A FUGA DE WAN GULD


Quando a Lua apareceu por sobre as elevadas árvores da
floresta, já o Corsário Negro estava a pé, pronto a reatar a
obstinada caça a Wan Guld e à sua escolta.
Despertou o catalão, o negro e os corsários, e pôs-se de
novo a caminho sem proferir uma palavra mas com tal celeridade
que os companheiros só a muito custo conseguiam acompanhá-lo.
Procuraram manter a direcção do sudoeste, para se
aproximarem do mar de Maracaíbo, onde se encontrava a cidade
de Gibraltar; mas continuavam a ser obrigados a dar voltas,
por causa daqueles frequentes pântanos e terrenos lodosos.
Prolongaram essa segunda marcha até ao meio-dia, sem ter
descoberto o rastro dos fugitivos e sem ter ouvido um grito,
uma detonação. Cerca das quatro horas da tarde, depois de um
descanso de duas horas, descobriram nas margens de um riacho
os restos de uma fogueira cujas cinzas ainda estavam quentes.
Teria sido acendida por algum caçador indiano ou pelos
fugitivos? Era impossível sabê-lo, por não terem encontrado
nenhuma pegada, visto que o terreno estava seco e coberto de
folhas. Em todo o caso, essa descoberta reanimou-os a todos,
convencendo-os de que Wan Guld tinha parado ali.
Surpreendeu-os a noite sem que mais nada tivessem
encontrado, mas sentiam instintivamente que os fugitivos não
deviam estar longe.
Naquela noite viram-se aqueles pobres diabos obrigados a
deitarem-se sem ceia, por não terem achado nada de comer.
- Com mil tubarões! - exclamou Carmaux enquanto tentava
iludir a fome mastigando algumas folhas de um sabor açucarado.
- Se isto assim continua, chegaremos a Gibraltar em tal estado
que será preciso irmos logo para algum hospital.
Quando a meio do dia imediato recomeçaram a marcha, estavam
mais fatigados do que na noite anterior. Carmaux declarava que
não podia resistir mais duas horas se não encontrasse ao menos
um gato bravo para assar e Wan Stiller dizia que preferia um
macaco, mas nem um nem outro apareceram naquelas malditas
selvas.


61


Caminhavam, ou antes, arrastavam-se havia quatro horas,
seguindo o Corsário Negro que continuava a andar lestamente
como se possuísse um vigor sobre-humano, quando ouviram um
tiro a pequena distância.
O Corsário Negro parou de repente, soltando um grito.
- Até que enfim! - exclamara desembainhando a espada com
gesto resoluto.
- Raios de Hamburgo! - bradou Wan Stiller. - Parece que
desta feita estamos perto.
- Resta que por agora nos não escapem - respondeu Carmaux. -
Havemos de ligá-los como salame, para obstar a que nos façam
correr outra semana inteira.
- Este tiro não foi disparado a mais de meia milha distante
de nós - disse o catalão.
- Deve ser isso - confirmou o Corsário Negro. - Espero que
daqui a um quarto de hora tenha nas mãos o assassino de meus
irmãos.
- Quereis um conselho, senhor? - disse o catalão.
- Fala.
- Preparemos-lhe uma emboscada.
- Como?...
- Esperando-os numa mata espessa, para os obrigar a
renderem-se, sem travar uma luta sangrenta. Devem ser sete ou
oito, enquanto que nós somos apenas cinco, e exaustos de
forças.
- Decerto não devem estar mais bem-dispostos do que nós; em
todo o caso, aceito o teu conselho. Iremos cair-lhes em cima
de repente, de modo a não lhes dar tempo para se defenderem.
Preparem as armas, mudem as cargas, e sigam-me sem fazer
rumor.
O Corsário Negro nem para ver os companheiros que o seguiam
se voltava, como se estivesse convencido de vencer a luta
mesmo sozinho contra toda a escolta do traidor.
Mas, de repente, parou, estendendo para diante a mão
esquerda armada da pistola e,erguendo na direita a espada,
como se tentasse avançar com um ímpeto irresistível.
Duas vozes humanas se ouviam num pequeno bosque de calupos.
- Diego - dizia uma voz frouxa, como de quem agoniza. - Um
gole de água, um só... antes que eu morra...!


62


- Não posso - respondia outra, estertorosa. - Não posso,
Pedro... Está tudo acabado para nós, Pedro... os índios
feriram-me de morte... Quando voltarem:... já não nos
encontram.
- Ah!... Quem vem lá?
O Corsário Negro tinha irrompido no meio da mata de espada
erguida, pronto a ferir.
Ao pé de uma grande árvore, estavam prostrados dois
soldados, lívidos e esfarrapados.
Ao verem aparecer aquele homem armado puseram-se de joelhos,
com um esforço supremo, tentando deitar a mão às espingardas
que lhes ficavam a alguns passos de distância, mas logo
caíram, como se as forças lhes tivessem faltado.
- Quem se mexer, morre!... - bradou o Corsário Negro,
ameaçadoramente.
Um dos soldados soerguera-se dizendo com um sorriso forçado:
- Eh, caballero!... Não matareis mais que dois moribundos...
Neste momento avançavam também o catalão seguido do africano
e dos dois marinheiros. Dois gritos lhe saíram dos lábios:
- Pedro!... Diego!... Pobres camaradas!
- O catalão!... - exclamaram os dois soldados.
- Sou eu, meus amigos, e...
- Silêncio! - atalhou o Corsário Negro. - Dizei-me onde está
Wan Guld!
- O governador? - perguntou o que se chamava Pedro. - Partiu
há umas três horas.
- Sozinho?
- Com um índio que nos serviu de guia e dois oficiais.
- Estará longe?... Falai, se quereis que não vos mate.
- Não devem ter andado muito.
- É esperado nalgum ponto da costa?
- Não, mas o índio sabe onde encontrará uma barca.
- Amigos - disse o Corsário Negro. - É indispensável marchar
já, senão Wan Guld foge-nos.
- Senhor - disse o catalão. - Quereis que abandone os meus
camaradas?... O mar fica perto, portanto a minha missão está
terminada, e para não abandonar estes desgraçados, desisto da
minha vingança.
- Compreendo-te - replicou o Corsário Negro. - Estás livre
para fazer o que quiseres; mas creio que o teu socorro será
inútil.


63


- Talvez possa salvá-los, senhor.
- O Moko fica contigo. Eu e os meus dois companheiros somos
bastantes para dar caça a Wan Guld.
- Tornaremos a ver-nos em Gibraltar, senhor, prometo.
- Têm mantimentos, os teus camaradas?
- Algumas bolachas, senhor - respondeu um dos soldados.
- E leite - acrescentou o catalão que tinha deitado um
rápido olhar à árvore ao pé da qual jaziam os dois espanhóis
da escolta.
- Não peço mais nada, por agora - replicou Carmaux.
O catalão fez uma profunda incisão com a navalha no tronco
daquela planta, que deita uma linfa branca e densa, muito
nutritiva e que tem o sabor do leite, mas da qual não se deve
abusar, porque muitas vezes provoca perturbações graves.
Encheu os frascos dos corsários, deu-lhes algumas bolachas,
dizendo-lhes depois:
- Ide, caballeros, senão Wan Guld tornará a fugir-vos.
Espero que nos tornaremos a ver em Gibraltar.
- Adeus - replicou o Corsário Negro, pondo-se a caminho. -
Lá te espero.
O Corsário Negro apressava-se para ganhar as três horas de
dianteira que tinham os fugitivos, e para poder chegar a
qualquer ponto da costa, antes do anoitecer. Eram já cinco da
tarde e tinham pouquíssimo tempo, portanto.
- Vamos, amigos, mais um esforço e Wan Guld cairá finalmente
nas minhas mãos. Amanhã podereis descansar à vossa vontade.
- Pois vamos - disse Carmaux erguendo-se com grande custo. -
As margens do golfo devem ficar perto.
Recomeçaram a marcha por entre as moitas. Começava a
anoitecer e alguns uivos de feras se ouviam nos pontos mais
espessos da floresta.
Caminhavam havia uns vinte minutos, ofegantes e extenuados,
quando ouviram na sua frente um rugido abafado, que parecia
produzido pelas ondas quebrando-se na praia.
Quase ao mesmo tempo viram brilhar por entre as árvores uma
luz.
- O golfo! - exclamou Carmaux.
- Aquela fogueira indica o acampamento dos fugitivos - rugiu
o Corsário Negro. - Armas na mão, homens do mar!... Vou,
enfim, vingar meus irmãos!
Deitara a correr para a fogueira que parecia arder na margem
da floresta. Em poucos saltos, o Corsário Negro, que precedia
os corsários, transpôs a distância e irrompeu no meio do
espaço iluminado, com a formidável espada em punho, pronto a
vibrá-la mortalmente, mas em vez disso viram-no estacar,
soltando um brado de cólera.
Em volta da fogueira não estava ninguém. Viam-se
efectivamente vestígios de uma recente paragem, os restos de
um macaco assado, pedaços de bolacha e um frasco partido, mas
os que ali tinham acampado haviam já desaparecido.
- Raios do inferno!... É tarde!... - rugiu com voz terrível
o Corsário Negro.
- Não, senhor!... - gritou Carmaux que chegava ao mesmo
tempo. - Talvez ainda estejam ao alcance das nossas armas!...
Acolá!... acolá!... na praia!
O Corsário Negro tinha dirigido o olhar para aquele lado.
A duzentos metros terminava abruptamente a floresta e
estendia-se uma praia em que rolavam, gorgulhando, as ondas do
golfo.
À derradeira claridade do crepúsculo vira Carmaux uma canoa
indiana afastar-se apressadamente para o largo, dobrando para
o sul, ou seja em direcção a Gibraltar.
Os três corsários tinham corrido precipitadamente para a
praia, armando as espingardas.
- Wan Guld! - bradou o Corsário Negro. - Pára, vilão!...
Um dos quatro homens que tripulavam a canoa ergueu-se e um
clarão fulgurou diante dele. O Corsário Negro ouviu o sibilar
de uma bala que se perdia entre os ramos das árvores próximas.
- Ah!... Traidor!... - rugiu o Corsário Negro, no auge do
desespero. - Fogo sobre eles!
Wan Stiller e Carmaux tinham ajoelhado na areia, apontando
as espingardas. Um momento depois troaram duas detonações.
Lá adiante ouviu-se um grito e viu-se cair alguém; mas a
canoa, em vez de parar, afastou-se velozmente, dirigindo-se
para as margens meridionais do golfo e sumindo-se nas trevas,
que então desciam com aquela rapidez fulminante peculiar das
regiões equatoriais.
O Corsário Negro, enfurecido, ia deitar a correr para a
praia na esperança de encontrar alguma canoa, quando Carmaux o
conteve, dizendo-lhe:


64 65


- Olhe, capitão!
- O quê? - perguntou o Corsário Negro.
- Acolá, na praia, está outra barca.
- Ah! Wan Guld é meu! - Rugiu.
A uns vinte passos deles, numa pequena enseada que a maré
tinha deixado enxuta, estava uma dessas exíguas canoas índias
cavadas no tronco de um cedro, barcos que à primeira vista
podem parecer pesados, mas que, bem ao contrário, desafiam e
vencem as melhores embarcações.
O Corsário Negro e os seus dois companheiros haviam corrido
para a pequena enseada e, com um vigoroso empurrão, tinham
impelido a canoa para o mar.
- Há remos? - perguntou o Corsário Negro.
- Há - respondeu Carmaux.
- Avante, meus valentes!... Wan Guld já não nos escapa.
- Força, Wan Stiller! - gritou o biscainho. - Os corsários
não têm rivais a remar!
- Olé!... Uma!... Duas! - replicou o hamburguês, curvando-se
sobre o remo.
Embora cansados e cheios de fome, Wan Stiller e Carmaux
tinham imediatamente posto em acção a sua potente musculatura,
imprimindo à canoa uma celeridade prodigiosa.
Remavam havia cinco minutos quando a proa bateu em qualquer
coisa.
- Raios! - rugiu Carmaux. - Algum recife?!
O Corsário Negro tinha-se debruçado e avistando na frente da
canoa uma massa negra estendeu rapidamente o braço para a
agarrar antes que desaparecesse debaixo da quilha.
- Um cadáver!
Fazendo um esforço içou um pouco aquele corpo humano e
observou-o; era o de um capitão espanhol, que tinha a cabeça
despedaçada por uma bala de arcabuz.
- É um dos companheiros de Wan Guld - disse, deixando-o cair
novamente na água.
- Deitaram-no ao mar para aligeirar a embarcação -
acrescentou Carmaux sem deixar o remo. - Força, Wan
Stiller!... Esses birbantes não devem estar longe!...
- Ei-los!... - bradou nesse momento o Corsário Negro.
Tinha avistado à distância de uns seiscentos metros adiante,
um rastro luminoso que de momento se tornava mais brilhante.


66 67


- Avistam-se, capitão?... - perguntaram Carmaux e Wan
Stiller a um tempo.
- Avistam; vejo a canoa lá ao fundo - replicou o Corsário
Negro.
- Avançamos?
- Sempre!
- Força, Wan Stiller!
- Vamos, Carmaux!
- Alonga o remo. Cansamo-nos menos e corremos mais.
- Não gasteis as forças a tagarelar. Já avisto o meu inimigo
- disse o Corsário Negro.
Tinha-se erguido, empunhando o arcabuz e entre as três
sombras que lobrigava na canoa procurava distinguir o odiado
duque.
Subitamente apontou a arma e estendeu-se à proa buscando um
ponto de apoio; depois desfechou.
A detonação ecoou ao longe, mas não se ouviu grito algum.
- Falhou, capitão? - perguntou Carmaux.
- Creio que sim - replicou o Corsário Negro com os dentes
cerrados.
A canoa de Wan Guld continuava perdendo espaço, e já se
distinguia perfeitamente. O índio ia à popa e manobrava
fortemente com dois remos, enquanto o governador e o seu
companheiro o ajudavam o melhor que podiam, um a bombordo,
outro a estibordo.
A quatrocentos passos, o Corsário Negro ergueu-se segunda
vez, armando o arcabuz e bradou:
- Rendei-vos, ou faço fogo!
Ninguém respondeu; e a canoa inimiga virou bruscamente de
bordo, dirigindo-se não para o largo mas para os pântanos da
costa, talvez para buscar um refúgio no rio Catatumbo, que
devia estar perto.
- Rendei-vos, assassino de meus irmãos!...
Ainda desta vez não obteve resposta.
- Então, morre, cachorro!...
Apontou o arcabuz direito a Wan Guld que estava então apenas
a uns trezentos e cinquenta passos, mas a ondulação, que se
tornara fortíssima por causa mesmo dos violentos esforços dos
remadores, não o deixava fazer pontaria com esperança de
êxito.
Três vezes baixou a arma e três vezes a ergueu, apontando-a
para a canoa. À quarta vez desfechou.


68


O tiro foi seguido de um rugido, e um homem caiu à água.
- Ferido?... - gritaram Carmaux e Wan Stiller.
O Corsário Negro respondeu com uma imprecação.
O homem que tinha caído não era o governador; era o índio.
- É o inferno que o protege, decerto!... Avante, meus
valentes! Vamos apanhá-lo vivo!...
A canoa de Wan Guld não tinha parado; mas, sem o índio, não
devia correr muito tempo. Era uma questão de minutos, visto
que Carmaux e Wan Stiller ainda estavam em condições de remar
valentemente algumas horas.
O governador e o companheiro, compreendendo que não podiam
lutar contra os corsários, tinham-se dirigido para uma elevada
ilhota que estava a uns quinhentos ou seiscentos metros, fosse
com intenção de desembarcar ou de passar para trás dela e
ficar ao abrigo do seu formidável adversário.
- Carmaux - disse o Corsário Negro -, mete para a ilhota.
- Então eles querem desembarcar?
- Suspeito que sim.
- Então já não fogem! Com mil coriscos!
- Raios do inferno! - Bradou Wan Stiller.
- Que há?...
No mesmo instante ouviu-se uma voz gritar:
- Quem vive?...
- Espanha! - bradaram o governador e o seu companheiro.
O Corsário Negro tinha-se voltado. Uma massa enorme aparecia
repentinamente por detrás de um promontório. Era um navio de
grandes dimensões, e vinha a todo o pano contra as duas
canoas.
- Maldição! - vociferou o Corsário Negro.
- Será um dos nossos navios? - perguntou Carmaux.
O Corsário Negro não respondeu. Debruçado à proa do barco,
as mãos enclavinhadas no arcabuz, as feições alteradas por uma
cólera medonha, observava com um olhar cintilante de tigre o
navio, que já estava perto da canoa do governador.
- É uma caravela espanhóla!... - rugiu de repente. - Maldito
seja esse cachorro, que ainda desta vez me escapa!...
- E que nos fará enforcar... - acrescentou Carmaux.
- Ainda não, meus bravos - replicou o Corsário Negro. -
Lestos, remai forte para a ilhota antes que o navio nos
descarregue em cima os canhões e nos meta no fundo.


69


- Com mil milhões de raios - desafogou o hamburguês
curvando-se sobre o remo.
A canoa tinha virado de bordo e aproou à ilhota que não
distava mais de trezentos ou quatrocentos passos.
Carmaux e o companheiro tinham avistado uma linha de
recifes, e manobraram de modo a abrigar-se por detrás deles.
Entretanto, o governador e o seu companheiro tinham subido
para bordo da caravela e informado logo o comandante; depois
viu-se que os marinheiros executavam apressadamente uma
determinada manobra.
- Lestos, meus bravos!... - bradou o Corsário Negro, a quem
nada passava despercebido. - Os espanhóis preparam-se para nos
dar caça.
- Não estamos a mais de cem passos da praia - disse Carmaux.
Naquele instante produziu-se a bordo do navio um clarão e os
três corsários ouviram sibilar no espaço um chuveiro de
metralha, cujos projécteis foram esmigalhar a crista de um
escolho.
- Depressa!... Depressa! - bradou o Corsário Negro.
A caravela preparava-se para virar de bordo, enquanto os
seus marinheiros arriavam três ou quatro escaleres para dar
caça aos fugitivos.
Carmaux e Wan Stiller, mantendo-se sempre resguardados pelos
escolhos, redobraram de esforços e pouco depois encalhavam a
três ou quatro passos da praia.
O Corsário Negro atirou-se logo à água e breve alcançou as
primeiras árvores, escondendo-se por detrás dos troncos.
Carmaux e Wan Stiler, vendo brilhar uma mecha na proa da
caravela, deixaram-se cair para trás do bordo externo da
canoa, deitando-se na areia.
Essa manobra salvou-os. Um momento depois outra chuva de
metralha varria a praia, despedaçando as folhas das palmeiras,
enquanto um projéctil despedido por uma pequena peça de
artilharia despedaçava a popa da canoa.
- Aproveitai a ocasião! - bradou o Corsário Negro.
Os corsários, miraculosamente salvos daquela dupla desgraça,
rastejaram rapidamente pela praia e esconderam-se no meio das
árvores, saudados por uma fuzilaria de arcabuzes.
- Estão feridos, meus bravos?... - perguntou o Corsário
Negro.
- Eles não são corsários para ter pontaria certeira - disse
Carmaux.
- Vamo-nos... sem perda de tempo!
Os três homens, sem mais se preocuparem com os tiros de
arcabuz dos marinheiros do barco, meteram rapidamente por meio
das espessas plantas, buscando um refúgio.


70


X


A ILHA SALVADORa


Aquela ilhota devia estar situada em frente da foz do rio
Catatumbo, um pequeno curso de água que desagua no golfo
abaixo do Suana e possui uma região rica de lagos e pântanos.
Elevava-se em forma de cone, atingindo uma altura de
trezentos metros e era coberta por uma cerrada vegetação, na
máxima parte composta de belíssimos cedros, árvores de algodão
e palmeiras de várias espécies.
Os três corsários, chegados às faldas do cone sem terem
encontrado algum ser vivo, pararam um momento para tomar
fôlego; depois esconderam-se no meio dos matagais espinhosos e
sob as plantas que cresciam nos declives, decididos a ir até
ao cume para poderem observar os movimentos dos inimigos e
deliberar, sem ser surpreendidos, sobre o que tinham a fazer.
Foram duas horas de rude trabalho, visto que eram obrigados
a abrir passagem à espadagada por entre aquele amontoamento de
vegetais; mas por fim puderam chegar ao cimo, que se erguia
quase escalvado, tendo em volta apenas mato e rochas. Como a
lua tivesse surgido então puderam distinguir muito bem a
caravela. Estava ainda ancorada a uns trezentos passos da
praia, enquanto os três escaleres tinham parado no sítio em
que havia soçobrado a piroga índia.
Os marinheiros já haviam desembarcado, mas não tinham ousado
meter-se por meio dos vegetais, certamente com receio de
alguma emboscada, e tinham acampado na margem, em volta de
algumas fogueiras, naturalmente acendidas para que não fossem
sugados em vida pelos miríades de terríveis mosquitos que
volteiam em nuvens colossais nas costas do golfo.


71


- Esperam a alvorada para nos dar caça - disse Carmaux.
- Deve ser - respondeu o Corsário Negro com voz cava.
- Com mil raios! A sorte protege demasiado aquele patife de
Wan Guld!
- A sorte ou o demónio!
- O que é certo é que é a segunda vez que nos escapa das
mãos.
- O pior é que nós vamos parar às dele - acrescentou o
hamburguês.
- Quanto a isso, havemos de ver - disse Carmaux. - Ainda
estamos livres e temos as nossas armas.
- E que diabo quereis fazer se toda a tripulação da caravela
assaltar este monte? - perguntou Wan Stiller.
- Também em Maracaíbo os espanhóis assaltaram a casa daquele
pobre notário, e no entanto achámos meio de nos safarmos.
- Pois sim - observou o Corsário Negro -, mas aqui não é a
casa do notário, e não temos um conde de Lerma para nos
ajudar.
- Estamos destinados a acabar os nossos dias na forca?! Ah,
se o Olonês viesse em nosso auxílio!
- A estas horas ainda ele estará ocupado a saquear Maracaíbo
- replicou o Corsário Negro.
- Achais que se demorará muito?
- Já aqui devia estar, mas bem sabes como ele é cobiçoso.
Além disso é provável que se tenha demorado a perseguir os
espanhóis pelos bosques.
- Combinastes algum ponto de reunião?
- Na foz do Suana ou na do Catatumbo - replicou o Corsário
Negro.
- Nesse caso ainda nos resta a esperança de que, mais dia
menos dia, ele aqui venha ter.
- Mas quando?
- Eh, com mil trovões! Não há-de ficar meses em Maracaíbo!
Ele tem todo o interesse em aviar-se, para surpreender
Gibraltar.
- Bem sei.
- Portanto, virá e talvez breve.
- E estaremos nós ainda vivos e livres? Julgas que Wan Guld
nos deixará sossegados no cimo deste monte? Não, meu caro:
esse miserável há-de apertar-nos por todos os lados, e tudo
há-de tentar para nos agarrar, antes da chegada dos corsários.
Odeia-me demasiado para me deixar tranquilo,


72


e talvez a esta hora esteja mandando pendurar nalguma gávea o
laço com que quer enforcar-me.
- Não lhe bastou então a morte do Corsário Verde e do
Corsário Vermelho?
- Não, não bastou - replicou o Corsário Negro com voz cava.
- O que ele quer é a destruição completa da minha família, mas
ainda não me tem nas mãos e eu não desespero de vingar meus
irmãos. Sim! Talvez o Olonês não esteja longe e se nós
pudéssemos resistir alguns dias... Quem sabe? Talvez Wan Guld
ainda venha a pagar os seus crimes.
- E que devemos nós fazer, capitão?
- Resistir tanto quanto pudermos.
- Aqui? - perguntou Carmaux.
- Sim. Aqui neste cume.
- Seria preciso entrincheirarmo-nos.
- E quem o impedirá? Temos ainda quatro horas antes que
desponte a alvorada.
- Com mil trovões!... Wan Stiller, meu amigo, não há tempo a
perder. Os espanhóis, mal surja o sol, decerto aqui vêm
desalojar-nos.
- Estou pronto - respondeu o hamburguês.
- Vamos a isto, meu caro - disse Carmaux. - Enquanto vós,
capitão, ficais de vigia, nós dois levantaremos trincheiras
que hão-de pôr a dura prova as mãos e os costados dos nossos
adversários. Vem daí, hamburguês.
No cume do monte havia grande quantidade de penedos,
certamente destacados de uma rocha que se erguia precisamente
no ponto mais elevado, à guisa de observatório. Os dois
corsários puseram-se a rolar os maiores, formando uma espécie
de trincheira circular, um tanto baixa, é certo, mas
suficiente para resguardar um homem deitado ou ajoelhado.
Aquele trabalho bem fatigante durou duas horas, mas os
resultados foram esplêndidos, pois por detrás daquela espécie
de muralha maciça podiam os corsários opor uma larga
resistência, sem receio de ser atingidos pelas balas dos
adversários.
- Ora aqui está uma pequena fortaleza que dará que fazer a
Wan Guld, se quiser vir desalojar-nos - observou Carmaux
esfregando alegremente as mãos.
- Mas falta-nos uma coisa indispensável a uma guarnição por
mais pequena que seja - ponderou o hamburguês.


73


- O que é?
- Não temos aqui a despensa do notário de Maracaíbo, amigo
Carmaux.
- Com mil raios! Esquecia-me de que nem sequer uma bolacha
temos para aguçar os dentes!
- Como deves imaginar, não podemos converter estes calhaus
em pães.
- Bateremos o bosque, amigo Wan Stiller. Vamos à cata de
mantimentos.
Ergueu a cabeça para a rocha onde o Corsário Negro se tinha
colocado em observação para espiar os movimentos dos
espanhóis, perguntando-lhe:
- Movem-se, capitão?
- Ainda não.
- Nesse caso, aproveitemos o tempo para ir à caça.
- Ide, que eu fico de sentinela.
Os dois corsários deixaram o monte, ocultando-se por entre
os matos. A sua ausência durou até ao alvorecer, mas voltaram
carregados.
Traziam cocos, laranjas, duas couves-palmeiras que podiam
substituir o pão, e uma grande tartaruga e duas arraias que
tinham pescado num pequeno lago. Economizando as provisões
havia com que viver, pelo menos, quatro dias.
Naquele momento, o Corsário Negro, retirando da rocha que
lhe tinha servido de observatório, desceu ao pequeno campo
entrincheirado, dizendo:
- Os escaleres circundaram a ilha.
- Preparam-se para nos bloquear? - perguntou Carmaux.
- E a rigor.
- Mas nós estamos dispostos para sustentar o cerco. Por
detrás destes rochedos e destes espinhos, poderemos resistir
muito tempo, talvez até que cheguem o Olonês e os
companheiros.
- Isto é, se os espanhóis nos derem tempo. Vi desembarcar
mais de quarenta homens.
- Ó capitão! Achais que eles possam chegar aqui? - perguntou
Carmaux, que tinha começado a buscar ramos secos.
- Talvez não se atrevam a acometer-nos de dia e esperem pela
noite.
- Então poderemos preparar o almoço e recuperar as forças.
Confesso-vos que já não sei onde tenho o estômago!


74


Eh! Wan Stiller! Prepara estas duas belas arraias, prometo-te
um assado esplêndido.
Um quarto de hora depois, Carmaux anunciava em tom
triunfante que o almoço estava pronto, enquanto os espanhóis
ainda não tinham aparecido.
Mal os corsários se tinham sentado e comido o primeiro
bocado, ouviu-se no mar uma formidável detonação.
- O canhão!... - exclamou Carmaux.
Ainda bem não tinha fechado a boca, quando a extremidade do
rochedo que tinha servido de observatório, despedaçado por uma
bala de grosso calibre, caiu com grande ruído.
- Com mil raios! - rugiu Carmaux pondo-se prontamente de pé.
- Com mil trovões!... - acrescentou Wan Stiller.
O Corsário Negro já se tinha encaminhado para a margem do
cume para ver de onde tinha partido o tiro de canhão.

XI


O ASSALTO AO MONTE


- Com mil antropófagos!... - bradou Carmaux.
- Não se pode comer descansado! Os diabos levem Wan Guld e
quantos lhe obedecem!... Ora lá se vai pela água abaixo o
almoço! Duas arraias tão boas assim perdidas!
- Mais tarde te desforras... Carmaux.
- Isso é se os espanhóis nos derem tempo - observou o
Corsário Negro que tinha voltado para o pé deles. - Eles vêm
subindo através dos bosques e a caravela prepara-se para nos
bombardear.
- Querem fazer-nos um cerco? - perguntou Carmaux.
- Não, querem esquartejar-nos como fizeste às arraias -
disse Wan Stiller.
- Felizmente somos arraias que podem ser perigosas.
- Visto que a caravela se prepara para nos bombardear,
bombardeemos nós os espanhóis.
- Achaste algum canhão, Carmaux?... Ou o sol deu-te volta ao
miolo?


75


- Nem uma coisa nem outra, capitão. Trata-se simplesmente de
fazer rolar estes penedos. O declive é íngreme, e estes
enormes projécteis com certeza não param a meio caminho.
- Boa ideia. Pô-la-emos em prática em ocasião oportuna. E
agora dividamo-nos e vigiemos cada qual por seu lado. Tende
cuidado em estar afastados dos rochedos, senão podeis apanhar
algum estilhaço na cabeça.
- Já estou satisfeito com o que ganhei nas costas - disse
Carmaux metendo na algibeira dois frutos de mangueira. - Ora
vamos a ver o que querem fazer estes maçadores; hei-de
fazer-lhes pagar caras as minhas arraias.
Separaram-se e foram emboscar-se por detrás dos últimos
matagais que circundavam a crista do monte, aguardando o
inimigo para romper fogo.
Os marinheiros da caravela, talvez estimulados pela
esperança de alguma boa recompensa prometida pelo governador,
trepavam animósamente pelos flancos escarpados do monte,
abrindo passagem através do cerrado mato. Os corsários ainda
não podiam avistá-los, mas ouviam-nos falar e cortar as lianas
ou raízes que lhes embaraçavam a marcha.
Parecia que subiam apenas por dois lados para depois se
juntarem e afrontar qualquer surpresa. Um destacamento devia
já ter circundado um pequeno lago que dali se via, enquanto
outro parecia ter tomado por um vale profundo.
O Corsário Negro, certificando-se da direcção em que eles
vinham, decidiu aproveitar o plano de Carmaux.
- Vinde, meus valentes - disse aos seus dois companheiros. -
Ocupemo-nos por agora do destacamento que ameaça
surpreender-nos pela retaguarda; depois pensaremos no que
tomou o caminho do lago.
- Rompemos o bombardeamento? - perguntou o hamburguês,
fazendo rolar um penedo do peso de duas arrobas.
- Atirai - respondeu o Corsário Negro.
Os corsários não esperaram nova ordem e puseram-se a rebolar
para a beira do planalto, com rapidez prodigiosa, uma dezena
de penedos, impelindo-os na direcção do desfiladeiro.
Aquela formidável avalancha precipitou-se através do bosque
com o fragor de um furacão, saltando, rolando, despedaçando
árvores e arbustos.
Não tinham decorrido cinco minutos quando no fundo do
desfiladeiro se ouviram gritos e depois alguns tiros de
espingarda.
- Eh!... eh!... - exclamou Carmaux, com voz triunfante. -
Parece que apanharam.
- Vejo acolá homens descerem precipitadamente - disse Wan
Stiller que tinha subido a uma rocha.
- Creio que apanharam a sua conta...
- Outra descarga, hamburguês.
- Estou pronto, Carmaux.
Outros dez ou doze penedos foram arrastados um após outro
para a beira do planalto. Uma segunda avalancha rolou com
igual fragor pelo desfiladeiro.
- Por agora não nos incomodarão eles - disse Carmaux,
esfregando alegremente as mãos. - Já têm com que se
entreter...
- Vamos agora aos outros - disse o Corsário Negro.
- Talvez tenham parado com receio de ser repelidos pela
nossa artilharia - disse Carmaux. - Os nossos canhões são
talvez mais perigosos que os da caravela, apesar de mais
baratos.
- Experimenta fazer fogo para o meio daquelas plantas -
ordenou o Corsário Negro voltando-se para o hamburguês. - Se
responderem, já saberemos como havemos de defender-nos.
Wan Stiller dirigiu-se para a beira do planalto, agachou-se
por detrás de um grupo de arbustos e disparou uma arcabuzada
para o meio da floresta.
Ainda desta vez ninguém respondeu, nem se ouviu nenhum
grito. Que fora feito, pois, do segundo destacamento que tinha
sido visto a subir costeando o pequeno lago?
- Antes queria uma descarga furiosa - disse Carmaux. - Este
silêncio preocupa-me e faz-me suspeitar de alguma má surpresa.
Durante todo o dia, nem Wan Guld nem os marinheiros da
caravela deram sinais de vida. Parecia que estavam tão certos
de capturar mais tarde ou mais cedo os três corsários
refugiados no cimo do monte que julgavam supérfluo um assalto.
Queriam obrigá-los a renderem-se pela fome e pela sede,
tendo o governador a peito apanhar vivo o formidável corsário
para o enforcar, como já tinha feito aos dois irmãos.
Mas Carmaux e Wan Stiller, tendo-se aventurado, com mil
precauções, pelo meio do bosque, puderam descobrir, através da
folhagem, numerosos grupos de homens acampados nas faldas dos
montes.


76 77


Chegada a noite, os três corsários fizeram os preparativos
de partida, resolvidos a forçar as linhas, preferindo esse
acto de audácia a ter de esperar no seu pequeno acampamento
entrincheirado uma morte lenta pela fome ou pela sede.
Cerca das onze horas, depois de terem inspeccionado as
margens do planalto e de terem verificado que os inimigos não
tinham saído dos seus acampamentos, carregando as poucas
munições que ainda lhes restavam, obra de trinta tiros cada
um, deixavam silenciosamente o pequeno recinto fortificado,
descendo em direcção ao mar.
Rastejando como répteis e bastante vagarosamente para não
fazer rolar alguma pedra, chegaram passados alguns minutos
abaixo das grandes árvores, onde a escuridão era completa.
Pararam alguns momentos para escutar; depois, como não
ouvissem nenhum rumor e vendo brilhar nas fraldas do monte as
fogueiras dos acampamentos, puseram-se a caminho, devagar.
Já tinham descido uns trezentos metros quando Carmaux, que
rastejava na frente de todos, parou abruptamente,
escondendo-se atrás do tronco de uma árvore.
- Que há? - perguntou-Lhe baixo o Corsário Negro que se
abeirara dele.
- Ouvi partir-se um ramo - ciciou o marinheiro.
- Perto de nós?
- Sim.
- Algum animal?
- Não sei.
- Ou alguma sentinela?
- A escuridão é muito espessa e não deixa ver nada, capitão.
- Paremos alguns minutos.
Estenderam-se todos no meio das ervas e das raízes e
puseram-se à escuta, reprimindo a respiração.
Após alguns instantes de angustiosa expectativa ouviram a
pequena distância duas pessoas que falavam.
- Está a chegar a hora - dizia uma voz.
- Estão todos prontos? - perguntava a outra.
- Talvez já tenham abandonado os acampamentos, Diego.
- Mas ainda vejo luzir as fogueiras.
- Não devem apagar-se para fazer acreditar aos corsários que
ninguém tem tenção de se mover.
- O governador é astuto!


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- É um homem de guerra, Diego.
- Achas que conseguiremos apanhá-los?
- Havemos de surpreendê-los, essa te asseguro eu.
- Mas irão defender-se terrivelmente. Só o Corsário Negro
vale por vinte homens, Sebastião.
- E nós somos noventa e além disso, temos o conde, que é uma
espada formidável.
- Isso não será bastante para aquele endemoninhado corsário.
Receio que muitos de nós sejamos despachados para o outro
mundo.
- Mas os sobreviventes é que lucram... Fazes ideia!... Dez
mil piastras para beber e comer!...
- Que bela maquia, Sebastião! Caramba! O governador não
descansa enquanto o não matar.
- Não! Ele quer apanhá-lo vivo.
- Para o enforcar mais tarde.
- Por essa estou eu. Eh!... ouviste, Diego?
- Ouvi, os companheiros puseram-se em marcha.
- Vamos nós também; as dez mil piastras lá estão.
O Corsário Negro e os dois companheiros não se tinham
movido. Confundidos em meio das ervas, raízes e festões de
lianas, tinham mantido uma imobilidade absoluta, erguendo
todavia as espingardas, prontas a descarregá-las em caso de
perigo.
Apurando a vista lobrigaram confusamente os dois marinheiros
avançar com precaução, desviando as frondes e lianas que lhes
impediam a passagem. Já tinham passado um pouco adiante quando
um deles parou, dizendo:
- Eh, Diego, não ouviste nada?
- Não, camarada.
- Pois a mim pareceu-me ter ouvido um suspiro.
- Ora adeus!... Foi talvez algum insecto.
Após aquela breve troca de palavras, os dois marinheiros
continuaram a caminhar, desaparecendo sob a lôbrega sombra dos
vegetais.
Os três corsários esperaram alguns minutos, receando que os
dois espanhóis retrocedessem, ou que tivessem parado a pequena
distância; depois, o Corsário Negro ergueu-se, olhando em
volta.
- Viva Deus! - murmurou Carmaux, respirando livremente. -
Começo a crer que a sorte nos protege.
- Eu não dava uma piastra pela nossa pele - disse Wan
Stiller.


79


- Um desses dois passou tão perto de nós que por pouco me
pisava.
- Fizemos bem em retirar do nosso acampamento. Noventa
homens!... Quem poderia resistir a semelhante assalto?
- Má surpresa para eles, Carmaux, quando não encontrarem
mais do que espinhos e penedos.
- Que os levem ao governador.
- Avante! - ordenou nesse momento o Corsário Negro. - É
preciso alcançar a praia antes que os espanhóis possam dar
pela nossa fuga. Dado o alarme, já não poderemos surpreender
os escaleres.
Tendo agora a certeza de não encontrar outros obstáculos nem
correr perigo de serem descobertos, os três corsários tomaram
a vertente do desfiladeiro por onde tinham arremessado os
penedos, querendo alcançar a praia a fim de se afastarem da
caravela.
A descida executou-se sem mais encontros e, antes da
meia-noite, desembocavam na praia.
Diante deles, meio encalhado na extremidade de um pequeno
promontório, estava um escaler. A sua tripulação, composta de
dois homens apenas, tinha desembarcado e dormia ao lado de uma
fogueira quase apagada, tão seguros estavam de não serem
incomodados, sabendo que o monte havia sido circundado pelos
marinheiros da caravela e que os corsários estavam bloqueados
no cume.
- A empresa será fácil - murmurou o Corsário Negro. - Se
esses dois homens não acordarem, tomaremos o largo sem alarme
e poderemos alcançar a foz do Catatumbo.
- Não matamos esses dois marinheiros? - perguntou Carmaux.
- É escusado - respondeu o Corsário Negro. - Não nos
causarão embaraço, pelo menos assim o espero.
- E os outros escaleres, onde estão? - perguntou o
hamburguês.
- Vejo um encalhado ao pé daquele recife - respondeu
Carmaux.
- Rápido, embarquemos - ordenou o Corsário Negro. - Dentro
de alguns minutos os espanhóis terão dado pela nossa fuga.
Aventuraram-se, caminhando em bicos de pés, pelo pequeno
promontório, parando ao lado dos dois marinheiros que
ressonavam placidamente.


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Com um leve impulso meteram o escaler na água e saltaram para
dentro, deitando as mãos aos remos.
Tinham-se distanciado uns cinquenta a sessenta passos e já
começavam a ter esperanças de alcançar o largo sem serem
embaraçados, quando no alto do monte ecoaram algumas
descárgas, seguidas de gritos. Os espanhóis, chegados ao
planalto, deviam ter assaltado o pequeno acampamento,
convencidos de que iam apanhar os três corsários.
Ao ouvirem aquelas descargas troar na montanha, os dois
marinheiros haviam despertado repentinamente; e vendo que o
escaler se tinha afastado, tripulado por três homens, correram
para a praia, de espingarda em punho, bradando:
- Alto aí... Quem sois...
Em vez de responderem, Carmaux e Wan Stiller curvaram-se nos
remos, arrancando desesperadamente.
- Às armas!... - gritaram os dois marinheiros, tendo
percebido, mas já tarde, a partida que lhes haviam pregado os
corsários.
Depois ecoaram dois tiros de espingarda...
- O diabo vos carregue! - bradara Carmaux, quando uma bala
lhe partia o remo a duas polegadas apenas do bordo do escaler.
- Pega noutro, Carmaux - disse o Corsário Negro.
- Raios do inferno! - praguejou Wan Stiller.
- Que há?
- O escaler que estava encalhado no promontório
persegue-nos, capitão!
- Trata de remar, que eu me encarrego de o manter à
distância a tiros de espingarda! - respondeu o Corsário Negro.
Entretanto, no alto do monte continuava a fuzilaria.
Provavelmente, os espanhóis, encontrando-se diante daquela
trincheira de espinhos e penedos, haviam parado, com receio de
alguma emboscada.
O escaler, sob o impulso dos quatro remos, vigorosamente
manejados pelos dois corsários, afastava-se rapidamente da
ilha, dirigindo-se para a foz do Catatumbo, distante apenas
umas cinco ou seis milhas. A distância a atravessar era
considerável, mas se os homens que tinham ficado de guarda à
caravela não dessem pelo que se passava na praia sul da ilha,
ainda havia possibilidade de fugir à perseguição.


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Ainda não se tinham distanciado mil metros, quando viram
avançar os outros dois escaleres, um dos quais, bastante
grande, era armado de uma pequena colubrina de desembarque.
- Estamos perdidos! - exclamara involuntariamente o Corsário
Negro. - Amigos, preparemo-nos para vender cara a vida.
- Com mil trovões!... - exclamou Carmaux. - Tão depressa
terá cansado a sorte?... Pois seja assim; mas antes de morrer
mandaremos alguns para o outro mundo.
Tinha largado o remo e empunhava o arcabuz. Os escaleres,
precedidos do maior, que era tripulado por uma dúzia de
homens, estavam a uma distância de trezentos passos, apenas, e
avançavam furiosamente.
- Rendei-vos, ou ireis a pique! - bradou uma voz.
- Não! - respondeu o Corsário Negro, com voz trovejante. -
Os homens do mar morrem, mas não se rendem.
- O governador perdoa-vos a vida.
- Eis a minha resposta.
E o Corsário Negro disparou, matando um dos remadores.
Um brado de furor se ergueu entre a tripulação dos três
escaleres.
- Fogo! - ouviu-se gritar.
A pequena colubrina disparou com um grande fragor. Um
momento depois, o escaler dos fugitivos inclinava a proa,
metendo água em torrentes.
- A nado!... - gritou o Corsário Negro largando o arcabuz.
Os dois corsários descarregaram as espingardas contra o
barco maior, depois atiraram-se à água, enquanto o escaler,
cuja proa fora despedaçada pela bala da pequena peça de
artilharia, se afundava.
- Machado nos dentes e vamos à abordagem!... - rugiu o
Corsário Negro. - Morreremos dentro do escaler do inimigo.
Flutuando muito a custo por causa da água que se lhes
introduzia nas compridas botas de canhão, os três corsários
começaram a nadar desesperadamente contra a embarcação,
decididos a tentar uma luta suprema, antes de se renderem ou
serem mortos.
Os espanhóis, que certamente tinham a peito apanhá-los
vivos, pois de contrário ter-lhes-ia sido facílimo metê-los no
fundo com uma só descarga, com poucas remadas chegaram ao meio
deles, abalroando-os com a proa do escaler grande.


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Subitamente, vinte mãos se estenderam segurando os braços
dos três nadadores, e puxando-os para bordo, desarmando-os e
manietando-os, antes que tivessem podido voltar a si do embate
que os tinha feito beber grande porção de água.
Quando o Corsário Negro pôde apreciar o que se tinha
passado, estava deitado à popa do escaler, com as mãos
amarradas atrás das costas, enquanto os seus companheiros
haviam sido colocados debaixo dos bancos da proa.
Um homem que envergava um elegante trajo de fidalgo
castelhano estava ao lado deles, segurando com a mão a cana do
leme.
Ao vê-lo, o Corsário Negro tinha soltado uma exclamação:
- Vós, conde!
- Eu sim - replicou o castelhano, sorrindo.
- Nunca teria imaginado que o conde de Lerma se tivesse
esquecido tão cedo de ter sido eu quem o salvei, quando podia
tê-lo morto em casa do notário de Maracaíbo - disse o Corsário
Negro com amargura.
- E o que é que vos leva a acreditar, senhor de Vintemilhas,
que eu tenha esquecido o dia em que tivemos a fortuna de
travar conhecimento? - perguntou o conde.
- Parece-me que sou vosso prisioneiro, se não me engano.
- E daí?
- E que me levais ao duque flamengo.
- E então?
- Haveis esquecido que Wan Guld enforcou meus dois irmãos? -
Ignorais por acaso o ódio de morte que existe entre nós?
- Tão-pouco.
- E que me enforcará...
- Ora adeus!
- Não o acreditais?
- Que o duque assim o deseje, creio; mas esqueceis que eu
estou aqui também. Acrescentarei que a caravela é minha e os
marinheiros só a mim obedecem.
- Wan Guld é o governador de Maracaíbo e todos os espanhóis
devem obedecer-lhe.
- Bem vedes que o contentei fazendo-vos render mas dePois. -
disse o conde, baixinho, e com um sorriso misterioso para o
Corsário Negro, segredou-lhe: - Gibraltar e Maracaíbo estão
longe, amigo; e mostrar-vos-ei como o conde de Lerma burla o
flamengo. Silêncio, por agora.


83

Neste instante o escaler, escoltado pelas duas outras
embarcações, tinha chegado ao pé da caravela.
A um sinal do conde, os seus marinheiros agarraram os três
corsários e guindaram-nos para bordo do navio, enquanto uma
voz dizia em tom triunfante:
- Finalmente, tenho o último nas minhas mãos!

XII


PALAVRA DE FIDALGO


Do castelo da popa um homem desceu rapidamente e parou
diante do Corsário Negro, que fora desligado.
Era um velho de aspecto imponente, de longa barba branca,
dotado de uma robustez excepcional, apesar de ter sessenta
anos.
Observou por alguns momentos o Corsário Negro com um olhar
ainda fulgurante, e depois disse com voz pausada:
- Bem vedes, cavaleiro, que a sorte está do meu lado. Eu
tinha jurado enforcar-vos a todos, e cumprirei a minha
palavra.
O Corsário Negro, ouvindo estas palavras, ergueu vivamente a
cabeça e deitando-lhe um olhar de supremo desprezo, disse:
- Os traidores têm sorte nesta vida, mas resta ver se
igualmente a têm na outra. Assassino de meus irmãos, completa
a tua obra. A morte não põe medo aos fidalgos da Casa de
VintemiLhas!
- Quisestes medir-vos comigo - retorquiu o velho, friamente.
- Perdestes a partida e pagareis.
- Pois bem, manda-me enforcar, traidor.
- Tão depressa, não.
- Que esperas então?
- Ainda não é tempo. Teria preferido enforcar-vos em
Maracaíbo, mas visto que os vossos lá estão, será em Gibraltar
que darei oespectáculo.
- Miserável! Não te basta a morte de meus irmãos!
Um lampejo de furor cintilou nos olhos do duque.
- Não - disse depois, a meia voz. - Sois uma testemunha
demasiado perigosa do que aconteceu na Flandres, para vos
deixar com vida; e depois, se não vos matasse, mais dia menos
dia morreria eu às vossas mãos.


84 85


Não vos odeio talvez tanto quanto julgais; defendo-me, eis o
que é, ou antes, livro-me de um adversário que não me deixaria
viver tranquilo.
- Então, matai-me, porque se eu pudesse escapar-vos, amanhã
mesmo recomeçaria a luta contra vós.
- Bem o sei - disse o velho, após alguns momentos de
reflexão. - E, no entanto, se quisésseis, ainda poderíeis
fugir à morte ignominiosa que vos espera na vossa qualidade de
corsário.
- Já vos disse que não tenho medo da morte - retorquiu o
Corsário Negro com suprema altivez.
- Conheço a coragem dos Vintemilhas - replicou o duque,
enquanto uma sombra lhe carregava a fronte. - Efectivamente,
não só aqui mas noutra parte tive ensejo de avaliar o seu
indómito valor e o seu desprezo pela morte.
Deu alguns passos pela coberta da caravela, com olhar
sinistro e cabeça inclinada para o peito; depois, voltando-se
bruscamente para o Corsário Negro:
- Talvez não acrediteis, cavaleiro, mas estou cansado da
tremenda luta que empenhastes contra mim, e estimaria bem que
ela acabasse de vez.
- Sim?... - disse o Corsário Negro com ironia. - E para
acabar, enforcais-me?
O duque ergueu vivamente a cabeça e fitando o Corsário
Negro, perguntou-lhe à queima-roupa:
- E se eu vos deixasse livre, que faríeis depois?
- Recomeçaria com maior encarniçamento a luta, para vingar
meus irmãos - respondeu o Corsário Negro.
- Nesse caso, obrigar-me-eis a matar-vos. Poupar-vos-ia a
vida para acalmar os remorsos que às vezes me atormentam, se
vós tivésseis consentido em desistir para sempre das vossas
vinganças e voltar para a Europa; mas sei que não aceitais
tais condições, e por isso vos enforcarei como enforquei o
Corsário Verde e o Corsário Vermelho.
- E como assassinastes, na Flandres, meu irmão mais velho.
- Calai-vos!... - gritou o duque com voz angustiosa. - Para
quê lembrar o passado? Deixai-o dormir em paz.
- Completai a vossa obra de traidor e assassino! - continuou
o Corsário Negro. - Suprimi também o último dos Vintemilhas,
mas previno-vos de que nem por isso terminará a luta, pois
outro omem igualmente formidável e audaz tomará como seu o
juramento do Corsário Negro,


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e não vos dará quartel até ao dia em que lhe cairdes nas mãos.
- E quem será esse? - perguntou o duque com expressão de
terror.
- O Olonês.
- Pois bem. Enforcarei também esse.
- Contanto que não seja ele que breve vos enforque! Pedro
dirige-se a Gibraltar e dentro em poucos dias ter-vos-á nas
mãos.
- Achais? - perguntou o duque com ironia. - Gibraltar não é
Maracaíbo e a valentia dos vossos corsários quebrar-se-á
contra as poderosas forças dos espanhóis. Que venha o Olonês,
e terá a sua conta.
Depois, voltando-se para os marinheiros:
- Levai os prisioneiros para a estiva e vigiai-os
rigorosamente. Vós ganhastes o prémio que eu tinha prometido,
recebê-lo-eis em Gibraltar.
Dito isto, voltou as costas ao Corsário Negro e
encaminhou-se à popa, para descer à câmara. Já estava perto da
escada quando o conde de Lerma o deteve, dizendo-lhe:
- Senhor duque, estais resolvido a enforcar o Corsário
Negro?
- Estou - respondeu o velho com tom resoluto. - É um
corsário, é um inimigo da Espanha; foi ele, com o Olonês, que
dirigiu a expedição contra Maracaíbo. Morrerá, pois.
- É um valoroso fidalgo, senhor duque.
- Que importa?
- Faz pena ver morrer homens assim.
- É um inimigo, senhor conde.
- Nem assim eu o mataria.
- E porquê?
- Como sabeis, senhor duque, consta que vossa filha foi
capturada pelos corsários das Tartarugas.
- É verdade - disse o velho com um suspiro. - Mas ainda não
tivemos confirmação de que a nau em que ia tenha sido
aprisionada.
- E se fosse verdade?
O velho encarou o conde com um olhar angustioso.
- Sabeis alguma coisa? - perguntou com ansiedade.
- Não, senhor duque. Mas penso que, se vossa filha tivesse
realmente caído nas mãos dos corsários, poderia ser trocada
pelo Corsário Negro.


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- Não, senhor conde - replicou Wan Guld em tom resoluto.
- Com uma grande soma poderia eu igualmente resgatar minha
filha, no caso que ela tivesse sido reconhecida, o que duvido.
A demorada luta que tenho sustentado contra ele e contra seus
irmãos tem-me extenuado, e é tempo de acabar. Senhor conde
mandai fazer rumo para Gibraltar.
O conde de Lerma inclinou-se sem responder e dirigiu-se para
a proa, murmurando consigo mesmo:
- O fidalgo cumprirá a sua palavra.
Cerca das sete horas da tarde a brisa começou a soprar e o
navio pôde entrar em movimento, sem todavia se afastar muito
da praia.
O conde de Lerma, depois de ter ceado em companhia do duque,
pusera-se à barra do leme, com o piloto a seu lado,
conversando baixo com este. Parecia ter de dar longas
instruções sobre a manobra nocturna.
Aquela conversa, um tanto misteriosa, durou até às dez horas
da noite; depois, o conde abandonou a barra do leme e
aproveitando a escuridão desceu à câmara, sem ser visto pela
tripulação, passando depois para a estiva.
- Agora nós - murmurou. - O conde de Lerma pagará a sua
dívida; depois suceda o que suceder!
Acendeu uma lanterna de furta-fogo que tinha escondida no
largo canhão de uma das botas, depois passou para a quadra,
projectando a luz sobre algumas pessoas que pareciam dormir
tranquilamente.
- Cavaleiro - chamou baixinho.
Um dos homens ergueu-se, conquanto tivesse os braços
fortemente amarrados.
- Quem vem importunar-me?
- Sou eu.
- Vós, conde? - disse o Corsário Negro. - Vindes fazer-me
companhia, talvez!
- Venho fazer melhor, meu amigo - respondeu o castelhano.
- Que quereis dizer?
- Que venho pagar a minha dívida. Venho salvar-vos.
Dito isto, o conde cortou as ligaduras, deu-lhe armas,
apertou-Lhe a mão e afastou-se a passos rápidos, desaparecendo
pela escada da câmara.
O Corsário Negro ficou alguns momentos imóvel,


87


como que atónito com o acto magnânimo do castelhano; depois,
quando não ouviu nenhum rumor, sacudiu Wan Stiller e Carmaux,
dizendo-lhes:
- Partamos, meus amigos.
- Partamos! - exclamou Carmaux esgazeando os olhos. - Para
onde, capitão?... Estamos ligados como se fôssemos salame e
quereis que fujamos?...
O Corsário Negro cortou com um punhal as cordas que prendiam
os seus dois companheiros.
- Com a fortuna! - exclamou carmaux.
- Com mil raios! - acrescentou o hamburguês.
- Estamos livres? Que aconteceu, capitão? Esse velhaco do
governador tornar-se-ia de repente generoso a ponto de nos
deixar ir embora?
- Silêncio, segui-me.
O Corsário Negro tinha empunhado a machada e dirigia-se para
um dos portalós, o mais largo de todos e que era defendido por
grossas barras de madeira. Aproveitando o momento em que os
marinheiros faziam barulho, executando a manobra para virarem
de bordo, partiu com quatro poderosas machadadas duas
travessas, obtendo um espaço suficiente para dar passagem a um
homem.
- Cuidado, não vos deixeis surpreender - disse aos dois
corsários. - Se tendes amor à vida, sede prudentes.
Passou através do portaló e deixou-se bambolear no vácuo,
suspenso da travessa inferior. O bordo era tão baixo que se
encontrou metido na água até à cinta.
Esperou que uma onda viesse bater contra o flanco do navio e
depois largou-se, pondo-se a nado ao longo do bordo a fim de
não se deixar avistar pelos marinheiros de guarda. Um momento
depois, Carmaux e o hamburguês aproximaram-se dele, segurando
nos dentes os punhais entregues pelo castelhano.
Deixaram passar a caravela e depois, vendo um escaler que ia
preso à popa por uma corda bastante comprida, alcançaram-no e
saltaram para dentro dele.
Iam empunhar os remos quando a corda, que ligava o escaler à
caravela, caiu à água cortada por mão amiga.
O Corsário Negro ergueu os olhos para a popa do navio e
lobrigou no castelo uma forma humana, que lhe fez um gesto de
adeus.


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- Eis um nobre coração - balbuciou, reconhecendo o conde de
Lerma. - Deus o proteja da cólera de Wan Guld.
A caravela, com todo o pano desdobrado, tinha prosseguido o
seu rumo para Gibraltar, sem que um grito, sequer, se tivesse
erguido entre os homens de sentinela. Viram-na ainda bordejar
alguns momentos, e por fim desaparecer por detrás de um grupo
de ilhotas.
- Com mil diabos! - exclamou Carmaux, rompendo o silêncio
que reinava no escaler. - Eu ainda não sei se estou acordado,
se estou a sonhar. Encontrar-se um homem amarrado no porão de
uma caravela com todas as probabilidades de ser enforcado ao
nascer do Sol, e em vez disso ver-se livre, não é coisa para
se acreditar facilmente. Que foi que aconteceu, capitão? Quem
nos forneceu os meios para fugir àquele velho antropófago?
- O conde de Lerma - respondeu o Corsário Negro, que olhava
para o norte, interrogando ansiosamente a linha do horizonte.
- Amigos, - disse com certa emoção. - Não lobrigais o que seja
lá ao longe?
Os dois corsários tinham-se posto de pé, observando na
direcção indicada. Lá adiante, onde a linha do horizonte
parecia confundir-se com as águas do vasto lago, viam-se
fulgurar pontos luminosos, semelhantes a pequeníssimas
estrelas.
- São faróis de navio que brilham no oceano - disse Carmaux.
- Será Pedro que se dirige a Gibraltar? - perguntou a si
mesmo o Corsário Negro, enquanto um lívido lampejo Lhe
fulgurava nos olhos. - Ah! se fosse certo, ainda poderia
vingar-me do assassino de meus irmãos.
- É certo, capitão - disse Carmaux. - Aqueles pontos
luminosos, estou certo, são de barcos ou de navios. É o Olonês
que avança, - Depressa, para a praia; e acendamos uma fogueira
para que venham recolher-nos.
Carmaux e Wan Stiller empunharam os remos e puseram-se a
remar vigorosamente, dirigindo o escaler para a costa, que não
ficava a mais de três milhas.
Meia hora depois os três corsários desembarcaram numa
enseada: Atracado o escaler, apanharam folhas e ramos secos e
acenderam uma gigantesca fogueira, susceptível de ser avistada
a quilómetros.


89


Os pontos luminosos já estavam mais próximos e continuavam a
avançar rapidamente.
- Amigos - bradou o Corsário Negro que tinha subido a um
rochedo. - É a flotilha do Olonês.
Pelas duas horas da madrugada quatro grandes barcas,
atraídas pela fogueira que continuava a arder na praia,
entravam na enseada.
Eram tripuladas por cento e vinte corsários comandados pelo
Olonês, e formavam a vanguarda da flotilha encarregada de
atacar Gibraltar.
O famoso corsário ficou surpreendido ao ver-se
inopinadamente em presença do Corsário Negro, a quem não
contava encontrar tão cedo. Julgava-o ainda nos grandes
bosques ou entre os pântanos do interior, ocupado em perseguir
o governador, e tinha até perdido a esperança de o ter por
companheiro no assalto à poderosa cidade.
- Meu pobre cavaleiro, tu não tens sorte com aquele maldito
velho, mas, pelas areias do Olone! Desta feita espero poder
capturá-lo, pois trataremos de cercar Gibraltar de modo a
impedir-lhe que tome o largo. Havemos de enforcá-lo no mastro
grande do teu Relâmpago, prometo-te.
- Duvido, Pedro, que o encontremos em Gibraltar - respondeu
o Corsário Negro. - Ele sabe que nos dirigimos para a cidade,
decididos a atacá-lo; sabe que o buscarei de casa em casa,
para vingar meus pobres irmãos, e receio por isso mesmo que
não o encontremos lá.
- Não o viste dirigir-se para Gibraltar, com a caravela do
conde?
- Vi, mas tu bem sabes, Pedro, que ele é astuto. Pode ter
depois mudado de rumo, a fim de não se deixar apanhar dentro
dos muros da cidade.
- É verdade - disse o Olonês, que se tornara pensativo. -
Esse maldito duque é mais astuto do que nós e bem pode ter
evitado Gibraltar, para se pôr a salvo nas costas orientais.
Soube que ele tem parentes e ricas propriedades nas Honduras e
Porto Cavalo, e é possível que tenha procurado fugir para lá.
- Já vês, Pedro, como a sorte protege esse velho.
- A sorte há-de cansar, cavaleiro. Se eu pudesse ter a
certeza de que ele se havia refugiado em Porto Cavalo, não
hesitaria em ir procurá-lo. Aquela cidade merece uma visita, e
estou certo de que todos os corsários das Tartarugas me
seguiriam para se apoderarem das incalculáveis riquezas que lá
se ocultam. Se não o encontrarmos em Gibraltar pensaremos
depois no que havemos de fazer. Eu prometi ajudar-te, e bem
sabes que o Olonês nunca faltou à sua palavra.
- Obrigado, conto contigo. Onde está o meu Relâmpago?
- Mandei-o para a saída do golfo, juntamente com os dois
navios de Harris, a fim de obstar a que os navios de linha
espanhóis assim não nos incomodem.
- Quantos homens trouxeste contigo?
- Cento e vinte, mas esta noite chegará o Vascongado com
mais quatrocentos homens, e amanhã de manhã daremos o assalto
a Gibraltar.
- Esperas sair-te bem?.
- Estou disso convencido, conquanto tenha sabido que os
espanhóis reuniram oitocentos homens resolutos, tornaram
impraticáveis os caminhos da montanha que conduzem à cidade e
ergueram numerosas baterias. Teremos um osso duro de roer, que
nos fará perder muita gente, mas venceremos.
- Estou pronto a seguir-te, Pedro.
- Contava com o teu poderoso braço e com o teu valor,
cavaleiro. Vem cear a bordo da minha barca, e depois vai
descansar. Creio que estarás bem precisado disso.
Os corsários desembarcaram na praia, acampando na margem do
bosque, à espera do Vascongado e seus companheiros.
Aquele dia, porém, não devia ser perdido, porque boa parte
daquela gente incansável tinha-se posto quase imediatamente em
marcha para explorar as imediações, a fim de caírem sobre a
forte cidadela espanhola, de surpresa, se possível fosse.
Audazes exploradores, tinham avançado muito até à vista das
poderosas fortalezas de Gibraltar.
Por toda a parte tinham encontrado os caminhos cortados por
trincheiras armadas de canhões, o campo inundado e enormes
paliçadas eriçadas de espinhos. Além disso, tinham sabido que
o comandante da cidadela, um dos mais valentes e corajosos
militares que nessa época a Espanha tinha na América, fizera
jurar aos seus soldados que antes se deixariam matar, até ao
último, do que arriar a bandeira da pátria.
O Olonês, informado do que os exploradores tinham observado
e ouvido, nem por isso perdera a coragem.


90 91


À meia-noite chegavam à praia as barcaças de Miguel, o
Vascongado, tripuladas por cerca de quatrocentos homens.


92


XIII


A TOMADA DE GIBRALTAR


A coluna que o Corsário Negro e o Vascongado capitaneavam
era composta de uns trezentos e oitenta homens armados cada
qual de machada e pistolas, pois não tinham julgado necessário
armar-se de espingardas, armas que consideravam de nenhuma
utilidade contra os fortes, e embaraçosas nos combates corpo a
corpo. Eram, porém, trezentos e oitenta demónios, decididos a
tudo.
À ordem dos chefes, puseram-se rapidamente em marcha,
levando cada qual um feixe de lenha e grandes ramos de árvore
para deitar no pântano, que servia de defesa.
Mal tinham chegado à beira daquele vasto pântano quando
viram a bateria espanhola, que ficava na extremidade oposta,
flamejar, vomitando para o meio dos canaviais uma torrente de
metralha. Era um aviso perigoso, mas insuficiente para fazer
parar aqueles feros corsários.
O Corsário Negro e o Vascongado tinham soltado o formidável
grito de guerra.
- Avante, homens do mar!
Os corsários tinham-se precipitado no pântano, deitando
feixes de lenha e troncos de árvores para prepararem a
estrada, sem se preocuparem com o fogo da bateria inimiga.
Entretanto, o fogo dos espanhóis crescia. A metralha
sibilava por entre os canaviais cortando-os, levantava nuvens
de água lamacenta, e feria os homens das primeiras filas, sem
que estes pudessem de qualquer modo responder àquelas
descargas mortais, pois não possuíam senão pistolas de tiro
limitado.
O Corsário Negro e o Vascongado, no meio daquela confusão,
mantinham uma admirável presença de espírito.
- Em marcha, homens do mar!... - bradava o Corsário Negro,
arrancando da espada. - Se tomarmos a primeira bateria, não
recuaremos diante da segunda.


92


Os corsários, ansiosos por chegar aos fortes de Gibraltar,
não esperaram nova ordem. Deixando um destacamento de guarda
aos feridos, meteram resolutamente por baixo das árvores de
uma floresta que se seguia ao pântano.
A travessia da floresta operou-se facilmente, não tendo eles
topado resistência alguma, mas quando chegaram ao fim da
floresta deparou-se-lhes uma planície onde pararam indecisos
perante uma formidável bateria levantada pelos inimigos.
Não era um simples baluarte, era um verdadeiro reduto,
defendido por fossos, paliçadas e muralhas, e armado de oito
canhões Prontos a vomitar torrentes de metralha.
Até o próprio Corsário Negro e o Vascongado ficaram
hesitantes.
- Ora aqui está um osso bem duro de roer - disse Miguel ao
Corsário Negro. - Não será fácil atravessar a planície debaixo
do fogo daqueles canhões.
- E todavia, não podemos retroceder, agora que o Olonês está
provavelmente ao pé dos fortes. Dir-se-á que tivemos medo.
- Se ao menos tivéssemos alguns canhões...
- Os espanhóis encravaram os da bateria que nós
conquistámos. Vamos. Ao assalto!...
Sem curar de ver se era ou não seguido pelos outros, o
audacioso corsário avançou para a planície, de espada em
punho.
Os corsários hesitaram a princípio, depois, vendo que atrás
do Corsário Negro se tinham lançado também o Vascongado, Wan
Stiller, Carmaux e o africano, correram para a frente
animando-se com brados ensurdecedores.
Os espanhóis do reduto deixaram-nos aproximar até mil
passos, depois chegaram fogo às peças carregadas de metralha.
O efeito dessa descarga foi desastroso. As primeiras filas
dos corsários foram deitadas por terra enquanto as outras,
aterradas e desalentadas, retrocediam precipitadamente, apesar
dos brados de encorajamento dos chefes.
O Corsário Negro não os tinha seguido. Reunindo à sua volta
uns dez ou doze homens, entre os quais Carmaux, Wan Stiller e
o africano, tinha-se lançado no meio de algumas moitas que
orlavam as margens da planície, e com uma marcha rápida tinha
podido transpor o raio do tiro do reduto, chegando com
felicidade ao sopé da montanha.
Mal se tinha ocultado no bosque quando ouviu ribombar no


93


alto a artilharia grossa dos dois fortes de Gibraltar e ecoar
os gritos dos corsários.
- Amigos! - bradou o Corsário Negro. - O Olonês prepara-se
para assaltar a cidade. Avante, meus valentes!...
- Vamos tomar parte noutra dança! - disse Carmaux. - Oxalá
seja mais feliz.
Conquanto todos estivessem fatigados, trataram de subir
animosamente a montanha, abrindo custosamente passagem através
dos silvados.
Ouviam-se troar lá no alto os grandes canhões dos dois
fortes. Os espanhóis deviam ter descoberto os bandos do Olonês
e preparavam-se para se defender desesperadamente.
O Corsário Negro e os seus companheiros apressaram-se em
alcançar o Olonês, antes que este começasse o assalto dos dois
fortes. Tendo encontrado uma vereda aberta entre o arvoredo,
em menos de meia hora chegaram ao cimo, onde se encontraram
com a retaguarda dos homens do Olonês.
- Onde está o chefe? - perguntou o Corsário Negro.
- Na margem do bosque - responderam.
- Já começou o ataque?
- Espera-se o momento propício, antes de nos expormos.
- Guia-me onde ele está.
Destacaram-se do bando dois corsários e fazendo-o passar
pelo meio de espessas moitas, conduziram-no aos fortes
avançados onde estava o Olonês com alguns subchefes.
- Pelas areias do Olone! - exclamou o Olonês com voz alegre.
- Aqui está um reforço que me chega a tempo.
- Minguado reforço, Pedro - respondeu o Corsário Negro. -
Repara, apenas te trouxe doze homens.
- Doze?!... E os outros?! - perguntou o Olonês
empalidecendo.
- Foram repelidos, depois de terem sofrido grandes perdas.
- Com mil raios!... E eu que contava com eles!
- Talvez tenham tentado novamente o ataque da segunda
bateria ou tenham aberto outro caminho. Há pouco ouvi troar os
canhões na planície.
- Não importa. Começaremos, entretanto, o assalto do forte
maior.
- E como faremos a escalada?...
- Conto obrigar os espanhóis a sair, simulando uma fuga
precipitada. Os meus corsários estão já prevenidos.
- Então, ataquemos.
- Ao ataque, Corsários das Tartarugas!... - rugiu o Olonês.
Os bandos dos corsários, que até então se tinham conservado
escondidos sob as árvores e nas moitas, para se resguardarem
das tremendas descargas dos canhões, à voz do seu chefe
precipitaram-se para a esplanada.
O Olonês e o Corsário Negro tinham-se colocado à sua frente
e avançavam correndo, a fim de não fazer sofrer aos seus
homens perdas muito cruéis.
Os espanhóis do forte mais próximo, que era o mais
importante e o mais bem armado, vendo-os aparecer, disparavam
metralha para varrer a esplanada, mas era talvez demasiado
tarde. Conquanto caíssem muitos, os corsários em poucos
momentos chegaram aos muros e perto dos torreões, tentando
trepar pelas escarpas e fazendo fogo com as pistolas para
afastar dos taludes os defensores.
Alguns, a despeito da desesperada defesa na guarnição, já
tinham conseguido subir, quando se ouviu a voz trovejante do
Olonês:
- Homens do mar... Em retirada!
Os corsários, que já se viam impossibilitados de subir aos
torreões e bastiões por falta de escadas e também pela feroz
resistência que os espanhóis opunham, apressaram-se a
abandonar a empresa fugindo confusamente para o bosque
próximo, segurando todavia bem as armas que empunhavam.
Os defensores do forte, julgando exterminá-los facilmente,
em vez de os metralhar com os canhões, desceram rapidamente as
pontes levadiças, e precipitaram-se imprudentemente para o
campo aberto, na intenção de cair em cima dos assaltantes. Era
isso o que o Olonês esperava.
Os corsários voltaram-se repentinamente para trás,
acometendo furiosamente os inimigos.
Uma batalha tremenda, sanguinolenta, se travou de ambos os
lados na esplanada e diante dos bastiões. Corsários e
espanhóis lutavam com igual furor. Os espanhóis, colhidos por
todos os lados, foram repelidos a dentro dos fortes, e
juntamente com eles entraram os corsários, com o Olonês, o
Corsário Negro e o Vascongado, que miraculosamente haviam
escapado.


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Mas ainda dentro do forte, os espanhóis opunham uma tremenda
resistência, decididos a morrer antes que arriar o pavilhão da
Espanha.
O Corsário Negro, que fora dos primeiros a entrar, tinha
irrompido no meio de um amplo pátio, onde duzentos e tantos
espanhóis combatiam com desespero, tentando repelir os
adversários e abrir passagem através das suas fileiras, para
acudir em defesa de Gibraltar. Mais de um arcabuzeiro tinha já
caído sob a formidável espada do terrível Corsário Negro,
quando viu precipitar-se sobre ele um homem ricamente vestido
e com um largo chapéu de feltro cinzento, adornado de uma
comprida pena de avestruz.
- Cuidado, senhor! - bradou aquele gentil-homem erguendo a
cintilante espada. - Fazei alto ou vos mato!...
O Corsário Negro, que então se tinha desembaraçado, com
grande custo, de um capitão de arcabuzeiros, que acabava de
expirar a seus pés, voltou-se rapidamente e soltou um grito de
espanto:
- Vós, conde!...
- Eu, sim - respondeu o castelhano saudando-o com a espada.
- Defendei-vos, senhor, pois que entre nós já se não interpõe
a amizade: vós combateis pelos corsários e eu bato-me pela
bandeira da velha Castela.
- Suplico-vos, conde, que me deixeis passar!... Não me
forceis a cruzar o meu ferro com o vosso. Se quereis
bater-vos, estão centenas de corsários atrás de mim. Eu tenho
uma dívida de gratidão para convosco.
- Não, senhor! Nós estamos quites. Antes que a bandeira seja
arriada, o conde de Lerma morrerá como governador deste forte
e com ele todos os seus bravos oficiais.
Dito isto, rompeu contra o Corsário Negro, acometendo-o com
furor, mas este, que conhecia a sua superioridade sobre o
castelhano e a quem pesava ter de matar tão leal e generoso
fidalgo, recuou dois passos gritando ainda:
- Suplico-vos que não me forceis a matar-vos!
- Embora!... - exclamou o conde sorrindo. - Agora nós,
senhor de Vintemilhas!
O conde acometia com grande ímpeto, redobrando as estocadas,
e cobrindo o Corsário Negro com uma série ininterrupta de
botes, que eram rapidamente parados.


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Além das espadas, ambos tinham arrancado dos punhais para
melhor parar os botes. Avançavam, retrocediam, acometiam-se
com incessante furor, sustendo-se de pé com grande custo por
causa do sangue que corria pelo pátio.
Subitamente, o Corsário Negro, que tinha repelido a ideia de
matar o nobre castelhano, com um bote de terço, seguido de um
rápido semicírculo, fez saltar a espada do conde, jogo que já
lhe tinha saído bem na casa do notário.
Infelizmente para o castelhano, ao lado dele jazia o capitão
dos arcabuzeiros, que pouco antes tinha caído sob os golpes do
Corsário Negro. Precipitar-se sobre ele, arrancar-lhe a espada
que ainda empunhava nos dedos enclavinhados pela morte e
lançar-se novamente contra o Corsário Negro, foi obra de um
instante apenas. Ao mesmo tempo acudia em seu auxílio um
soldado espanhol.
O Corsário Negro, obrigado a fazer face àqueles dois
adversários, não hesitou mais. Com uma estocada fulmínea
abateu o soldado; depois voltando-se contra o conde que o
acometia de lado, meteu a fundo.
O castelhano, que não contava com aquele duplo golpe,
recebeu um golpe em pleno peito e a espada saiu-lhe pelas
costas.
- Conde! - gritou o Corsário Negro, tomando-o nos braços
antes que ele caísse. - Triste vitória esta para mim, mas
assim o quisestes.
O castelhano, que se tinha feito pálido como um defunto e
que cerrara os olhos, reabriu-os fitando o Corsário Negro;
depois disse-lhe com um triste sorriso:
- Assim o queria... o destino... cavaleiro... Ao menos...
não verei arriar... a bandeira... da velha Castela!... Adeus,
fidalgo...

XIV


O JURAMENTO DO CORSÁRIO NEGRO


Enquanto os corsários, ávidos de saque, rompiam como vaga
impetuosa pela cidade agora indefesa para obstar a que toda a
população fugisse para os bosques, levando consigo as coisas
mais preciosas, o Corsário Negro, Carmaux,


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Wan Stiller e Moko removiam os cadáveres amontoados no
interior do forte, com a esperança de encontrar entre eles o
governador de Maracaíbo, o odiado Wan Guld.
O Corsário Negro, que nenhum ódio tinha aos espanhóis,
quando ouvia algum ferido apressava-se a desembaraçá-lo de
entre os cadáveres que o cercavam, e auxiliado por Moko e
pelos dois corsários, levava-o para outro sítio, encarregando
qualquer corsário de lhe prestar os primeiros socorros.
Chegados a um ângulo do pátio interior, onde havia outro
grupo de cadáveres de espanhóis e corsários, ouviram uma voz
que lhes parecia conhecida.
- Com mil tubarões! - exclamou Carmaux. - Eu já ouvi algures
esta voz ligeiramente rouca!...
- E eu também - continuou Wan Stiller.
- Água, caballeros!... Água!... - ouviu-se clamar sob aquele
montão de mortos.
- Raios de Hamburgo!... - exclamou Wan Stiller. - É a voz do
catalão.
O Corsário Negro e Carmaux removeram rapidamente os
cadáveres. Uma cabeça banhada de sangue, depois dois braços
compridos e magros, apareceram, e por fim um comprido corpo
coberto de uma couraça de pele, igualmente empapada em sangue.
- Caramba!... - exclamou aquele homem ao ver o Corsário
Negro e Carmaux. - Que inesperada fortuna!
- Tu!... - exclamou o Corsário Negro.
- Eh! catalão da minha alma!... - bradou Carmaux
jovialmente. - Estimo imenso tornar a ver-te, compadre. Oxalá
que não te tenham escalavrado muito o corpo.
- Onde estás ferido? - perguntou-lhe o Corsário Negro.
- Deram-me uma espadagada numa espádua e outra na cara, mas,
diga-se sem intenção de vos ofender, ao corsário que me pôs
neste preparo varei-o eu de lado a lado como a um cabrito. Mas
juro-vos, caballeros, que estou satisfeitíssimo por voltar a
vê-los.
- Achas que são perigosos os teus sofrimentos?
- Não, senhor. Mas causaram-me uma dor tão forte que me
fizeram cair sem sentidos. Dai-me de beber!
- Toma, compadre - disse Carmaux apresentando-lhe um frasco
de água com aguardente. - Isto vai reanimar-te.
O catalão, que se sentia arder em febre, esvaziou-a
rapidamente, e depois, encarando o Corsário Negro, disse-lhe:


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- Vós procuráveis o governador de Maracaíbo, não é assim?
- Sim - respondeu o Corsário Negro. - Viste-o?
- Ai, senhor! Perdeste a ocasião de o enforcar e eu de lhe
retribuir as vinte e cinco varadas.
- Que queres dizer? - perguntou o Corsário Negro com voz
sibilante.
- Que esse patife, prevendo a vossa vitória, não aproou
aqui.
- Para onde foi então?
- Para Porto Cavalo, onde tem propriedades e parentes.
- Pois seja assim. Fuja, muito embora para as profundezas do
inferno, o Corsário Negro irá lá buscá-lo!
- E eu acompanho-vos, senhor, se não vos contrario - disse o
catalão.
- Sim, irás comigo, visto que o nosso ódio por esse homem é
comum. Ainda uma pergunta... Julgas que será possível
persegui-lo?
- A esta hora deve estar embarcado, e breve alcançará as
costas da Nicarágua.
- Está bem, que fuja, mas quando tivermos voltado à ilha das
Tartarugas organizarei uma expedição como nunca se viu outra
assim no golfo do México. Carmaux, Wan Stiller, encarregai-vos
deste homem. Confio-o aos vossos cuidados, e tu, Moko,
acompanha-me à cidade. Preciso falar com o Olonês.
O Corsário Negro, seguido do africano, saiu do forte e
desceu a Gibraltar.
A cidade, que os corsários tinham invadido, quase sem
resistência, oferecia um aspecto não menos desolador que o
interior do forte.
Chegado à praça central, viu, no meio de um bando de
corsários que ali se tinham reunido, numerosos cidadãos, e o
Olonês atarefado a fazer pesar o ouro que os seus homens
continuavam a acumular, vindo de todos os lados.
- Pelas areias de Olone! - exclamou o Olonês ao avistar o
Corsário. - Cuidava que já tivesses partido de Gibraltar ou
estivesses ocupado a mandar enforcar Wan Guld. Olá!...
Parece-me que não estás contente, cavaleiro?
- É verdade - respondeu o Corsário Negro.
- Que há então de novo?
- Wan Guld navega a esta hora para as costas da Nicarágua.


99


- Ele!... Outra vez em fuga?... É o diabo; não é homem!
- Vai refugiar-se nas Honduras.
- E que tencionas fazer?
- Vinha dizer-te que volto para as Tartarugas, a organizar
uma nova e maior expedição.
- Sem mim?!... Ah!... cavaleiro!...
- Virás?
- Prometo-te. Partiremos dentro de poucos dias e mal
cheguemos às Tartarugas, reuniremos uma frota para ir
desencantar esse velhaco.
- Obrigado, Pedro. Conto contigo.


Três dias depois de terminado o saque, os corsários
embarcavam nos numerosos escaleres que lhes tinham mandado a
esquadra, que não tinha deixado a extremidade da baía.
A travessia efectuou-se sem incidente, e no dia imediato os
corsários subiam para bordo dos seus navios, navegando para
Maracaíbo, sendo sua intenção visitar novamente aquela cidade
para a saquear segunda vez, se possível fosse.
O Corsário Negro e os seus companheiros tinham embarcado no
navio do Olonês, pois o Relâmpago havia sido mandado para a
entrada do golfo, para obstar a uma surpresa da parte das
esquadras espanholas, as quais navegavam ao longo das costas
do grande golfo, a fim de proteger as numerosas praças
marítimas do México, do Iucatão, das Honduras, da Nicarágua e
da Costa Rica.
Carmaux e Wan Stiller não se tinham esquecido de trazer
consigo o catalão, cujos ferimentos eram de pouca gravidade.
Conforme os corsários tinham suspeitado, os habitantes de
Maracaíbo tinham voltado para a cidade, na esperança de que os
navios corsários não tornassem a fundear naquele porto, de
modo que esses desgraçados, que tinham sofrido já um completo
saque e se encontravam impossibilitados de opor a mínima
resistência, viram-se obrigados a entregar mais trinta mil
piastras, e ainda ameaçados de novas rapinas e de um incêndio
geral.
Na tarde do mesmo dia, a esquadra corsária saía
definitivamente daquelas paragens, navegando apressadamente.
O tempo tinha-se tornado ameaçador. Do lado da serra de
Santa Maria negras e grossas nuvens se erguiam, ameaçando
obscurecer o Sol, enquanto a brisa se tornava em vento forte.
Às oito horas da noite, quando no horizonte começava a
relampejar, a esquadra avistava o Relâmpago,


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o qual bordejava diante do Cabo Espada.
Um foguetão que o Olonês mandara lançar avisou o Relâmpago
para que se aproximasse, enquanto era arriado um escaler com o
Corsário Negro, o catalão, Carmaux, Wan Stiller e Moko.
Morgan, tendo visto o sinal e os faróis da esquadra, aproara
à entrada do golfo. Em quatro bordos o veloz navio do Corsário
Negro abeirou-se do escaler e embarcou o seu comandante e os
seus amigos. Apenas pôs o pé no convés, um clamor imenso o
sáudou:
- Viva o nosso comandante!...
O Corsário Negro, seguido de Carmaux e de Wan Stiller, que
amparavam o catalão, atravessou o seu navio por entre duas
alas de marinheiros e encaminhou-se rapidamente para um vulto
alvejante que assomara na escada que dava para a câmara.
Uma exclamação de alegria irrompera dos lábios do capitão.
- Vós, Honorata!...
- Eu, cavaleiro - respondeu a jovem flamenga. - Que ventura
tornar a ver-vos!...
Nesse instante um relâmpago rasgou a profunda obscuridade
que reinava no mar, seguido de um longínquo trovão. Àquele
inesperado clarão, que tinha mostrado as adoráveis feições da
flamenga, fez irromper um grito dos lábios do catalão:
- Ela!... A filha de Wan Guld aqui! Deus do céu!
O Corsário Negro, voltando-se impetuosamente para o catalão
que contemplava a donzela com assombro, perguntou-lhe num tom
de voz que nada parecia ter de humano:
- Que disseste?... Fala...
O catalão não respondeu. Acurvado, observava silenciosamente
a donzela que retrocedia lentamente, vacilando, como se
tivesse recebido uma punhalada.
Por momentos reinou profundo silêncio, apenas quebrado pelo
rugido das ondas. Todos pressentiam uma tremenda tragédia.
- Fala... fala!
- Esta dama... é a filha de Wan Guld - disse o catalão.
- Conhecia-la?
- Conhecia.
- Juras que é ela?
- Juro...


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O Corsário Negro, ao ouvir aquela afirmação soltou um
verdadeiro rugido de fera. Viram-no dobrar-se lentamente como
se Lhe tivessem assentado uma pancada na cabeça, mas
subitamente aprumou-se; a sua voz rouca ecoou no meio do
fragor das ondas.
- Fiz um juramento na noite em que sulcava estas águas,
conduzindo comigo o cadáver do Corsário Vermelho. Maldita seja
essa noite que vai matar a mulher a quem amo!
- Comandante - disse Morgan aproximando-se.
- Silêncio! - rugiu numa explosão de choro. - Quem manda
aqui são meus irmãos mortos!...
Um tremor de supersticioso terror tinha feito vibrar toda a
tripulação. Todos os olhos se tinham voltado para o mar.
Entretanto, a duquesa flamenga continuava a retroceder, com
as mãos apertadas à volta dos cabelos que o vento fazia
flutuar, e o Corsário Negro seguia-a passo a passo, de olhar
coruscante. Nenhum deles falava, como se repentinamente
houvessem perdido a voz.
Os corsários, mudos, imóveis, aterrados com aquela cena,
seguiam-no com o olhar. Nem o próprio Morgan ousaria
abeirar-se do comandante.
Subitamente, a donzela chegou à beira da escada que conduzia
à câmara. Parou um momento, fazendo com as mãos ambas um gesto
de mudo desespero, depois desceu, recuando sempre e seguida do
Corsário Negro.
Quando ambos chegaram ao interior da câmara, a duquesa,
parecendo que a energia que até então a tinha sustentado de pé
lhe faltava de repente, deixou-se cair numa cadeira.
O Corsário Negro, tendo fechado a porta, com a voz
soluçante, gritou:
- Desgraçada!
- Desgraçada, sim! - murmurou a duquesa com voz quase
apagada.
Seguiu-se um breve silêncio, quebrado apenas pelos soluços
da flamenga.
- Maldito juramento! - tornou o Corsário Negro, num ímpeto
de desespero. - Vós! Vós, filha de Wan Guld, daquele a quem
jurei ódio eterno!... Filha do traidor que assassinou meus
irmãos! Oh, Deus! Isto é pavoroso!
Interrompeu-se e depois continuou com exaltação:
- Vós não sabeis que jurei exterminar todos aqueles que
tivessem a desventura de pertencer à família do meu mortal
inimigo? Jurei-o na noite em que entreguei às ondas o cadáver
de meu terceiro irmão, assassinado por vosso pai; e Deus, e os
homens foram testemunhas desse fatal juramento que custará a
vida à única mulher que amei.
A duquesa, ouvindo aquela tremenda ameaça, erguera-se.
- pois bem... - disse ela. - Matai-me! Quis o Destino que
meu pai fosse traidor e assassino... matai-me... mas sede vós
quem faça isso por vossas próprias mãos. Morrerei feliz às
mãos do homem que amo infinitamente!
- Eu!...
- Eu! Não. não - clamou o Corsário Negro recuando apavorado.
... matar-vos, eu?!... Não vos matarei... Olhai!
Tinha agarrado a donzela por um braço e arrastara-a para a
ampla janela que deitava para estibordo. O mar fulgurava
ainda, como se jactos de enxofre líquido corressem sob as
ondas enquanto no tenebroso horizonte carregado de nuvens
flamejava de quando em quando algum relâmpago.
- Olhai! - disse o Corsário Negro com exaltação. - O mar
fulgura, como na noite em que deixei cair no seio destas ondas
os cadáveres de meus irmãos, as vítimas de vosso pai! Eles
estão ali e contemplam o meu navio... Vejo-os flutuar sobre as
vagas e vigiam que eu cumpra o meu juramento!... Irmãos!
Sim... sereis vingados... mas eu amei esta mulher... velai por
ela... -a!... Amei-a imensamente! Eu amei!
Uma explosão de choro lhe afogava a voz; parecia um louco.
Subitamente voltou-se para a donzela, que se Lhe escapara da
mão. Todo o vestígio de dor desaparecera do seu rosto. O
Corsário Negro voltava a ser o terrível pirata, cheio de ódio
implacável.
- Preparai-vos para morrer, senhora - lhe disse com voz
lúgubre. - Rogai a Deus e aos meus irmãos, que vos protejam!
Espero-vos no convés.
Saiu da câmara a passo firme, sem se voltar. Subiu a escada,
atravessou a tolda e passou à ponte de comando.
Os homens da tripulação não se tinham movido. Apenas o
timoneiro, erecto à popa, dirigia o Relâmpago para o norte,
seguindo os outros navios corsários, cujos faróis brilhavam ao
longe.
- Morgan - disse o Corsário Negro. - Mande preparar um
escaler e arriá-lo ao mar.


103


- Que quereis fazer, comandante? - perguntou o imediato.
- Cumprir o meu juramento - respondeu o Corsário Negro com
voz meio apagada.
- Quem descerá no escaler?
- A filha do traidor.
- Senhor!...
- Silêncio!... Meus irmãos estão a ver-me!... Obedece...
Aqui neste navio, quem manda é o Corsário Negro...
Ninguém ousou mover-se para obedecer. A voz do Corsário
Negro, que se tornara estrídula, ecoou de novo no castelo de
comando, num tom ameaçador:
- Obedecei, homens do mar!
O mestre da tripulação saiu das fileiras, acenando a alguns
homens para que o seguissem, e arriou, abaixo da escada de
estibordo, um escaler para onde mandou transportar
mantimentos. Tinha compreendido tudo. Mal tinham terminado
quando viram sair da câmara a jovem flamenga. Vinha ainda
vestida de branco, com os cabelos esparsos sobre as espáduas.
A tripulação julgou ver um fantasma!
A duquesa atravessou a tolda sem proferir uma palavra, e tão
ao de leve que parecia nem tocar no tabuado. Mas caminhava
resoluta, sem vacilações. Quando chegou ao pé da escada, onde
o mestre da tripulação lhe indicava o escaler que as ondas
impeliam contra o costado do navio, deteve-se um momento,
depois voltou-se para a popa contemplando o Corsário Negro,
cuja figura se recortava sinistramente no fundo do céu
iluminado por fortes relâmpagos.
Observou por alguns momentos o implacável inimigo de seu
pai; fez-lhe um gesto de adeus com a mão, desceu rapidamente a
escada e saltou para o escaler.
O mestre havia retirado o cabo sem que o Corsário Negro
tivesse feito um aceno para o deter.
Um grito irrompera dos lábios da tripulação:
- Salvai-a!
O Corsário Negro conservou-se silencioso. Debruçara-se na
amurada e observava o escaler que as ondas arrastavam para o
mar largo.
O vento soprava então com violência, enquanto o fragor das
ondas se aliava ao ribombar do trovão.
No escaler, que continuava a distanciar-se, destacava-se ao
centro o vulto alvejante da jovem duquesa.

104


Toda a tripulação se tinha precipitado para estibordo,
seguindo-a com a vista, mas ninguém se atrevia a falar. Todos
tinhan compreendido que tudo seria inútil para demover o
vingador na sua atroz resolução.
O escaler continuava sempre a distanciar-se. Ora se erguia
no dorso das vagas, ora se afundava nos abismos, para
reaparecer uma e muitas vezes, como se algum ser misterioso o
protegesse.
Durante alguns minutos ainda se pôde distinguir o barco;
depois sumiu-se no tenebroso horizonte.
Quando os corsários voltaram os olhares, aterrados, para a
ponte de comando, viram o Corsário Negro deixar-se cair num
monte de cordame, escondendo o rosto entre as mãos. Entre os
bramidos do vento e o fragor das ondas, ouviam-se a intervalos
os seus surdos soluços.


105

A NOIVA DO CORSÁRIO NEGRO


I


NO RASTO DE WAN GULD


O célebre mar das Caraíbas, açoitado pelo temporal, rugia
furioso, projectando verdadeiras catadupas de água contra os
molhes de Porto Limão, costas da Nicarágua e da Costa Rica. O
Sol estava no ocaso e as trevas caíam rapidamente como se
tivessem pressa de ocultar a tremenda luta travada entre a
terra e o céu. Ainda não chovia, mas não devia tardar e por
isso os habitantes se tinham apressado a abandonar as ruas da
cidadela e o pequeno porto, refugiando-se nas suas casas.
Apenas alguns pescadores e soldados da diminuta guarnição
espanhola permaneciam na praia, afrontando a fúria crescente
das vagas e as massas de água que o vento erguia do mar e
arremessava contra o molhe. Motivo talvez muito grave os
prendia ali. Havia algumas horas que se tinha avistado um
navio na linha do horizonte e, pela inclinação das velas,
parecia querer refugiar-se na pequena baía. Noutra altura,
ninguém se teria importado com um navio, mas em 1680, época em
que decorre esta narrativa, o caso era diferente. Qualquer
barco que viesse do mar largo impressionava vivamente as
populações espanholas das colónias do golfo do México. O
receio de ver aparecer os audaciosos piratas das ilhas das
Tartarugas sobressaltava todos os corações.


109


Bastava notarem qualquer coisa de suspeito nas manobras do
navio para as mulheres e crianças correrem a fechar-se em casa
e os homens se armarem rapidamente.
Os estragos, morticínios e saques feitos por vários
corsários, entre eles o célebre Corsário Negro e por seus
irmãos, o Corsário Verde e o Corsário Vermelho, e pelo Olonês,
tinham espalhado o terror em todas as colónias do golfo, tanto
mais que, naquela época, acreditavam que todos esses piratas
eram de origem diabólica e, portanto, invencíveis.
Vendo surgir o navio, os poucos habitantes que permaneciam
na praia abandonaram a ideia de voltar para casa, ansiosos por
saber se o navio seria espanhol ou algum atrevido corsário que
cruzasse aquelas costas a fim de apanhar um dos famosos
galeões carregados de oiro.
- Nossa Senhora do Pilar nos proteja! - exclamava um velho
marinheiro, de pele crestada e compridas barbas. - Aquele
navio não é dos nossos, posso afirmar-lhes. Quem se atreveria,
com semelhante temporal a navegar tão longe dos nossos portos,
se não um desses filhos do diabo, esses bandidos das
Tartarugas?
- Por que afirmas não ser dos nossos?
- Se o navio fosse espanhol, em vez de vir buscar refúgio na
nossa baía, que é pouco segura, teria ido para Chiriqui. Ali,
as ilhas servem de dique à fúria das ondas e até uma esquadra
inteira teria abrigo seguro.
- Deves ter razão, mas continuo a duvidar de que o navio
seja tripulado por corsários das Tartarugas. Porto Limão nada
tem que lhes desperte cobiça.
- Sabe o que penso, senhor Vasco? - perguntou o marinheiro.
- Diz, Diogo.
- Aquele navio é o Relâmpago do Corsário Negro.
Um frémito de terror perpassou por todos os rostos. Até o
sargento, conquanto tivesse conquistado as divisas no campo de
batalha, se tornou extremamente pálido.
- O Corsário Negro aqui?! - exclamou, estremecendo. - Estás
doido, meu rapaz.
- Terá a prova, senhor Vasco. O navio aproou para este porto
e dentro de meia hora estará aqui. Tente opor-lhe resistência
se a tanto se atreve. Por mim, vou esconder-me o melhor
possível e depois fujo para os bosques.


110


- E deixarás invadir a cidadela? - perguntou, indignado o
sargento.
- Quando não se pode defender uma fortaleza, abandona-se -
respondeu o gigante. - Senhor Vasco, se quer embargar o passo
aos corsários, está no seu direito.
E, dizendo isto, rodou nos calcanhares.
Os pescadores que se encontravam na praia dispunham-se a
seguir-lhe o exemplo quando um homem bastante idoso, que até
então se conservara calado, os deteve com um gesto.
- Fiquem - aconselhou. - O Corsário Negro não faz mal a quem
não lhe resiste.
- Como sabe? - inquiriu o sargento.
- Conheço o Corsário Negro.
- E parece-lhe que seja o seu navio?
- Sem dúvida, é o Relâmpago.
- Com mil bombas!
- amigos! - exclamou o pescador.
- Fujamos, - Estão a chegar! - exclamou um deles. - A bordo
preparam as âncoras.
- Fujamos! - bradaram os outros. - São os corsários das
Tartarugas!
Os pescadores, sem esperar mais, deitaram a fugir e
desapareceram.
O sargento e os soldados, depois de breve hesitação,
seguiram-lhes o exemplo, dirigindo-se para o fortim, situado
na extremidade do cais, no cimo de uma rocha que dominava a
baía.
Entretanto, o navio, a despeito da fúria do vento e das
tremendas vagas que o assaltavam, tinha entrado no porto e
lançado ferro.
Colhidas as velas e lançadas mais duas âncoras foi arreado
um escaler, que logo se dirigiu para o cais., Tripulávam-no
quinze homens, armados de espingardas, pistolas e espadas
curtas e largas, muito usadas pelos corsários da ilha das
Tartarugas.
Enquanto alguns dos corsários, apoiando os remos, faziam
parar o escaler, um homem, subindo à proa, com um pulo
extraordinário, digno de um tigre, saltou para o cais.
O Corsário Negro - pois era ele - assim que se encontrou em
terra, parou, olhando atentamente para as casas da cidadela,
cujas janelas estavam todas fechadas.


111


Um sorriso mordaz lhe aflorou aos lábios.
- Que terror reina aqui! - murmurou. - Ficarei senhor da
praça sem a menor dificuldade.
Voltou-se para os homens que tinham ficado no escaler e
exclamou:
- Carmaux, Wan Stiller e Moko!
- Aqui estamos, capitão - disse o negro.
- Sigam-me.
Voltou-se para o escaler, bradando aos homens que o
tripulavam:
- Regressem para bordo! Digam a Morgan que esteja sempre
pronto a largar.
Depois, vendo que os remadores hesitavam em obedecer-lhe,
gritou num tom que não admitia réplica:
- Não ouviram? Larguem.
Quando viu o escaler afastar-se, voltou-se para os seus três
companheiros, dizendo:
- Vamos ter com o administrador do duque.
- Permitis-me uma palavra, capitão? - perguntou Carmaux.
- Fala, mas avia-te.
- Nós não sabemos onde mora o tal administrador, capitão.
- E que tem isso? - replicou o Corsário Negro. - Iremos
procurá-lo.
- Não vejo vivalma neste burgo. Parece que os habitantes, ao
avistarem o nosso Relâmpago, apanharam tamanho susto que se
sumiram todos.
- Vi acolá um fortim - respondeu o Corsário Negro. - Se
ninguém me disser onde poderemos encontrar o administrador,
iremos perguntar à guarnição. Os espanhóis são obsequiadores:
- Pelos chavelhos de Belzebu! Ir perguntar à guarnição!...
Mas nós somos apenas quatro, capitão!
- E não contas com os doze canhões do Relâmpago? Antes de
mais nada, vamos explorar as ruas.
- Encontraremos emboscadas, capitão - observou o companheiro
de Carmaux.
- Preparem as espingardas e sigam-me.
Enquanto os marinheiros obedeciam, o Corsário Negro dobrou a
capa no braço, puxou o chapéu para os olhos e com gesto
resoluto desembainhou a espada que lhe pendia ao lado,
dizendo:
- Avante, homens do mar! Sou eu quem os guia!


112


A cidade parecia deserta. Nenhuma luz brilhava nas ruas nem
através das esteiras que cobriam as janelas.
As próprias portas estavam fechadas, provavelmente
trancadas.
O Corsário Negro, após breve hesitação, meteu por uma rua
que parecia a mais larga da povoação.
Tinham já chegado a meio quando parou rependinamente,
bradando:
- Quem vive?
Um vulto apareceu na esquina de uma travessa e, vendo os
quatro homens, meteu-se por trás de um carro de palha,
abandonado ali.
- Será uma emboscada? - perguntou Carmaux, aproximando-se do
capitão.
- Ou algum espião... - disse este. - Vai buscar o homem e
conduze-o aqui.
- Disso me encarrego eu - declarou o negro, empunhando o
machado.
- Vamos, aviem-se - disse o Corsário Negro.
O gigante, em três saltos, atravessou a rua e caiu sobre o
homem que se havia ocultado por detrás do carro.
Agarrá-lo pelo pescoço e erguê-lo como se fosse um boneco,
fói obra de um momento.
- Socorro, que me matam! - bradou o desgraçado, debatendo-se
desesperadamente.
O negro, sem se importar com os gritos, levou-o à presença
do Corsário Negro, deixando-o cair no chão.
- Belo tipo! - exclamou Carmaux, desatando a rir. - Onde
pescaste este caranguejo, compadre Saco de Carvão?
O homem que o negro agarrara não tinha o aspecto de militar
nem de valente. Era um pobre burguês, um tanto idoso, com o
nariz monumental, olhitos encovados e monstruosa corcunda. O
desgraçado estava lívido de terror e tremia a tal ponto que
era de recear vê-lo desmaiar.
- Um corcunda! - exclamou Wan Stiller, que estivera a
observar o homem à luz de uma lanterna. - É de bom agouro.
O Corsário Negro pousou uma das mãos no ombro do espanhol,
perguntando-lhe:
- Aonde ias?
- Sou um pobre diabo que nunca fez mal a ninguém -
choramingou o corcunda.


113


- Perguntei-te aonde ias - repetiu o Corsário.
- Este caranguejo ia ao forte chamar a guarnição para nos
prender.
- Não, excelência - protestou o corcunda -, juro que não.
- Com mil sapos! - exclamou Carmaux. - O marreco toma-me por
algum fidalgo. Excelência!
- Silêncio, tagarela! - trovejou o Corsário Negro. - Vamos,
aonde ias?
- À procura de um médico! - balbuciou o corcunda. - A minha
mulher está doente.
- Cuidado! Se me enganas, mando-te enforcar na gávea mais
alta do meu navio.
- Juro!...
- Deixa-te de juramentos e responde: Conheces D. Pablo
Ribera?
- Conheço, sim, senhor.
- Administrador do duque de Wan Guld?
- Do ex-governador de Maracaíbo?
- Esse mesmo.
- Conheço-o pessoalmente.
- Então, leva-me onde ele está.
- Mas... senhor...
- Leva-me lá!... - trovejou ameaçadoramente o corsário. -
Onde mora?
- Aqui perto, Excelência...
- Então vamos e depressa, se tens amor à pele... Moko,
agarra este homem e tem cuidado não fuja.
O negro agarrou o espanhol nos braços robustos e, apesar dos
seus protestos, levou-o, dizendo:
- Para onde?
- Para o extremo da rua.
- Poupar-te-ei a fadiga de andar.
O pequeno grupo pôs-se a caminho. Avançavam com precaução,
parando nas esquinas das ruas transversais, com receio das
emboscadas ou de algum tiro à queima-roupa.
Chegados ao extremo da rua, o corcunda voltou-se para o
Corsário Negro e, apontando-lhe uma casa de belo aspecto, de
vários andares e um torreão, disse-lhe:
- É aqui.


114


- Muito bem - respondeu o Corsário Negro.
Observou atentamente a casa e foi até à esquina certificar-
se não havia por ali inimigos escondidos; depois aproximou-se
da porta, levantou o pesado batente deixando-o cair com força.
Ainda não se tinha dissipado o eco da pancada quando uma
Persiana do último andar se abriu e alguém perguntou:
- Quem é.
- O Corsário Negro. Abra ou deitamos fogo à casa - bradou,
fazendo brilhar à lívida luz de um relâmpago a lâmina da sua
espada.
- D. Pedro de Ribera, administrador do duque de Wan Guld.
No interior da casa ouviram-se passos precipitados, gritos
que pareciam de pavor, depois nada mais.
- Tens aí alguma bomba, Carmaux? - perguntou o Corsário
Negro.
- Tenho, sim, capitão.
- Coloca-a junto da porta. Se não abrirem, deitamos-lhe fogo
e abriremos nós o caminho.
Sentou-se num frade de pedra que havia a pequena distância e
esperou impaciente, afagando os copos da espada.

II


FALAR OU MORRER


Ainda não tinha decorrido um minuto quando as persianas do
primeiro andar deixaram filtrar delgados feixes de luz. Mais
de Uma ou duas pessoas preparavam-se para descer, a calcular
pelo ruído de passos que soavam no corredor.
O Corsário Negro pôs-se rapidamente de pé, com a espada na
mão direita e a pistola na esquerda.
Os companheiros colocaram-se de um e de outro lado da porta,
com as espingardas engatilhadas.
- Linda noite para vir procurar alguém! - murmurou Carmaux.
- Contanto que a guarnição do forte não se aproveite do
temporal para nos pregar uma partida.
- Vem alguém - avisou Wan Stiller, que tinha espreitado pelo
buraco da fechadura. - Vejo luz.


115


O Corsário Negro, que já começava a perder a paciência,
ergueu o pesado batente e deixou-o cair outra vez. A pancada
repercutiu-se no interior da casa como o estampido de um
trovão e uma voz trémula respondeu:
- Lá vou, senhores.
Ouviu-se o ruído de ferrolhos e chaves e depois, lentamente,
a porta maciça abriu-se. O Corsário Negro erguera a pesada
espada, enquanto os companheiros apontavam os mosquetes.
Apareceu um homem de idade, seguido por dois pajens de raça
índia que empunhavam archotes. Teria sessenta anos, mas era
robusto e direito como um rapaz. Cobria-lhe o queixo comprida
barba branca.
- Que quereis de mim? - perguntou em voz trémula.
Em vez de responder, o Corsário Negro fez sinal aos seus
homens para entrarem e fecharem a porta. O corcunda, agora
inútil, ficou de fora.
- Espero a resposta - disse o velho.
- O cavaleiro de Vintemilhas não está habituado a falar nos
corredores - replicou, secamente, o Corsário Negro.
- Sigam-me - disse o velho depois de ligeira hesitação.
Precedidos pelos dois pajens, subiram uma espaçosa escada de
madeira vermelha e entraram numa sala elegantemente mobilada e
adornada com antigas tapeçarias, trazidas de Espanha.
Um candelabro de prata, sustentando quatro velas, estava
poisado na mesa com incustrações de madrepérola e prata. O
Corsário Negro certificou-se de que não havia outras portas e
depois, voltando-se para os seus homens, ordenou:
- Tu, Moko, faz sentinela à escada e põe a bomba à porta;
Carmaux e Wan Stiller ficarão no corredor.
Depois, fitando o velho, que empalidecera
extraordinariamente, disse-lhe:
- Senhor de Ribera, sabeis o motivo por que ousei
aventurar-me nestas costas, só com o meu navio?
- Ignoro-o, mas calculo que deve ser grave, para vos levar a
cometer tão grande imprudência.
- Disseram-me que o senhor sabia alguma coisa a respeito de
Honorata Wan Guld.
Naquela voz vibrava uma nota dilacerante; parecia que um
soluço se tinha despedaçado no peito do valente corsário.
Entre os dois homens pesou um silêncio angustioso e dir-se-ia
que ambos tinham receio de o quebrar.


116


- Falai - pediu, subitamente, o Corsário Negro. - É verdade
que um pescador do mar das Caraíbas viu um escaler arrastado
pelas ondas, tripulado por uma mulher?
- É verdade, sim - confirmou o velho com voz fraca.
- Em que ponto?
- Muito longe das costas da Venezuela, ao sul da costa de
Cuba, a cinquenta ou sessenta milhas do cabo de Santo António
no canal do Iucatão.
- Tão longe da Venezuela? - exclamou o Corsário Negro,
batendo com o pé no chão. - Quando foi encontrado o escaler?
- Dois dias depois da partida dos navios corsários das
praias de Maracaíbo.
- E ainda estava viva?
- Ainda, cavaleiro.
- E esse miserável não o socorreu?
- O temporal era tremendo e o seu navio não se encontrava em
estado de resistir ao embate das ondas.
O Corsário Negro soltou um grito angustioso e cobriu o rosto
com as mãos.
- Fostes vós, cavaleiro, quem a matou - proferiu Don Pablo
de Ribera, em voz cava. - Que tremenda vingança! Deus há-de
castigar-vos.
O Corsário Negro, ao escutar estas palavras, ergueu a
cabeça. Todos os vestígios de dor tinham desaparecido para dar
lugar a espantosa expressão.
- Deus me castigará! - exclamou em voz trovejante. - Sim,
matei-a, a essa mulher que tanto amava, mas de quem foi a
culpa? Ignora as infâmias cometidas pelo seu amo o duque de
Wan Guld? Um dos meus irmãos dorme nas margens de Escalda e os
outros dois repousam no fundo do mar das Caraíbas. E sabeis
quem os matou? O pai da mulher a quem eu amava.
O velho continuou calado, sem perder de vista o Corsário
Negro.
- Jurei ódio eterno a esse homem que matou meus irmãos na
flor da idade, que traiu a amizade, a bandeira da pátria
adoptiva, que por amor do ouro vendeu a alma e manchou o seu
brasão. Jurei e cumpri a minha palavra.
- Condenando à morte uma pobre menina que nenhum mal vos
tinha feito.


117


- Jurei, na noite em que atirei ao mar o cadáver do Corsário
Vermelho, exterminar toda a sua família como ele tinha
destruído a minha e não podia faltar à minha palavra. Se não o
tivesse feito, meus irmãos subiriam do fundo do mar para me
amaldiçoar... E o traidor ainda vive! - prosseguiu, numa
explosão de cólera. - O assassino ainda não foi morto e meus
irmãos continuam a clamar vingança.
- Loucura!... Delírio!...
- Não, não é loucura. A morte da mulher amada não foi
suficiente para os acalmar e a sua alma mortificada não
sossegará, enquanto eu não tiver punido o assassino. Onde está
Wan Guld?
- Ainda pensais nele? - perguntou o administrador. - Não lhe
bastou a filha?... Não sei precisamente onde se encontra o
duque, mas dizem que no México.
- Dizem! Então o senhor, que é administrador dos seus bens,
seu intendente, não tem a certeza!... Não acredito.
- E, no entanto, é verdade.
- Quero saber onde está esse homem! - bradou o corsário. -
Preciso da sua vida. Escapou-me em Maracaíbo e em Gibraltar,
mas desta vez estou decidido a encontrá-lo, ainda que tenha de
afrontar toda a esquadra do México, sozinho com o meu navio.
- Não falarei.
- Ignorais então as infâmias cometidas pelo seu amo, volto a
perguntar-vos?
O velho esboçou um gesto vago.
- Tenho ouvido dizer muita coisa a respeito do duque -
replicou o velho. - Mas não sei se deva acreditar.
- Don Pablo de Ribera!... - protestou o Corsário Negro em
voz solene. - Sou fidalgo e não minto.
- Falai então, senhor da Rochanegra!
- Éramos quatro irmãos - começou em voz pausada e triste. -
Poucos teriam o valor dos senhores da Rochanegra, Valpenta e
Vintemilhas e poucos eram tão dedicados ao duque de Sabóia
como nós. Rebentara a guerra na Flandres. A França e a Sabóia
combatiam contra o sanguinário duque de Alba, pela liberdad
dos valentes flamengos. O duque de Wan Guld estava
entrincheirado nuns rochedos situados perto da foz do Escalda.
Nós, guia dos fiéis da gloriosa bandeira do heróico duque
Amadeu II, estávamos com ele. Três mil espanhóis tinham
sitiado o reduto, decididos a conquistá-lo. Assaltos
desesperados, bombardeamentos, escaladas nocturnas, tudo
tinham tentado e sempre em vão. O estandarte de Sabóia nunca
foi arreado. Os senhores de Rochanegra defendiam a fortaleza e
mais facilmente se deixariam matar do que a cederiam. Uma
noite, um traidor comprado pelo oiro espanhol, deu entrada ao
inimigo. O primogénito dos Rochanegra avançou para se opor à
passagem dos invasores e caiu varado por um tiro de pistola
desfechado pelas costas. Sabe como se chamava o homem que
traiu as suas tropas e assassinou vilmente o meu irmão? O
duque de Wan Guld, o seu amo!
- Cavaleiro! - protestou o velho.
- Deixa-me falar - prosseguiu o Corsário Negro com acento
terrível. - Em recompensa pela sua infâmia, o traidor recebeu
uma colónia no golfo do México, a Venezuela. Mas esqueceu-se
de que existiam ainda três senhores da Rochanegra que tinham
jurado sobre a cruz de Deus vingar o irmão e castigár a
traição: um chamava-se o Corsário Verde, o outro Corsário
Vermelho e o terceiro Corsário Negro.
- Conheço a história dos três corsários - atalhou Don Pablo.
- O Vermelho e o Verde caíram nas mãos do meu amo e foram
enforcados como vulgares malfeitores...
- E por minhas mãos foram sepultados nos abismos do mar das
Caraíbas - concluiu o Corsário Negro. - Que castigo merece
esse homem que atraiçoou a sua bandeira e assassinou meus
irmãos...
- Lembrai-vos de que lhe matou a filha, cavaleiro.
- Calai-vos, por Deus! - bradou o Corsário Negro. - Não
acordeis a dor que me esmaga o coração. E, por agora, basta.
Onde está esse homem?
- A salvo dos seus ataques.
- Veremos. Vamos, falai.
O velho hesitou. O corsário ergueu a espada. Terrível
lampejo de aço patente nas negras pupilas. Mais alguns
instantes e a ponta cravar-se-ia no peito do administrador.
- Em Vera Cruz - disse este, vendo-se perdido.
- Finalmente! - exclamou o corsário Negro. retirou-se,
disposto a partir, quando Carmaux entrou na casa agitado e o
seu olhar traduzia viva inquietação.
- Vamos, Carmaux - ordenou o Corsário. - Já sei o que
desejava saber.


118 119


- Também eu gostava de voltar para bordo, capitão, mas não
me parece muito fácil agora.
- Porquê?
- A casa está cercada.
- Quem nos traiu? - perguntou o Corsário Negro, encarando
ameaçadoramente Don Pablo.
- O maldito corcunda que deixámos em liberdade - declarou
Carmaux.
- Cometemos uma imprudência que talvez nos saia cara,
capitão - acrescentou Wan Stiller.
- Tens a certeza de que a rua está ocupada pelos espanhóis?
- Vi dois homens esconderem-se no portão que fica defronte
desta casa.
O Corsário Negro ficou pensativo e, instantes depois,
voltando-se para Don Pablo, perguntou:
- Não existe nesta casa uma saída secreta?
- Existe, sim, cavaleiro - respondeu o velho com um brilho
estranho no olhar.
- Ide guiar-nos para sairmos por lá.
- Com uma condição. Desisti dos vossos projectos de vingança
contra o meu amo.
- Estais a brincar, senhor de Ribera? - perguntou o Corsário
Negro com ironia.
- Não estou.
- Então declaro-vos que nunca aceitarei semelhante condição.
- Preferis deixar-vos apanhar e ser enforcado pelos
espanhóis?
- Ainda não me apanharam.
- Porto Limão dispõe de cento e cinquenta soldados.
- Não tenho medo. A bordo do meu navio encontram-se cento e
vinte lobos do mar capazes de afrontar um regimento completo.
- O vosso Relâmpago não está ancorado diante desta casa,
cavaleiro.
- Irei eu ter com ele.
- Como, se não conheceis a passagem secreta?
- Basta-me que o senhor a conheça.
- Não a indico enquanto não tiverdes jurado que deixareis em
paz o duque de Wan Guld.


120


- Veremos - bradou o corsário com ar ameaçador.
Engatilhou a pistola e, apontando-a ao peito do velho,
intimou:
- Ou nos guia até à passagem ou morre. Escolha.


121


III


TRAIÇÃO


Don Pablo empalideceu com a ameaça. Levou a mão direita aos
copos da espada. Valoroso homem de guerra que fora em tempos,
não tremia, mas ao ver Carmaux avançar por sua vez, reconheceu
ser inútil a resistência.
De resto, mesmo sozinho, estava certo de perder a vida se
tivesse de lutar contra o Corsário Negro, pois não ignorava
ter de haver-se com terrível espadachim.
- Cedo, porque estou nas vossas mãos, cavaleiro - declarou.
Don Pablo saiu da sala e meteu por comprido corredor em
cujas paredes se viam grandes quadros representando episódios
da guerra de Flandres e retratos que deviam ser dos
antepassados do duque de Wan Guld.
O corsário seguia-o com a espada em punho e pistola na mão
pois desconfiava do velho administrador.
Chegados ao extremo da galeria, Don Pablo parou diante de um
quadro maior do que os outros, apoiou o dedo na moldura e por
alguns momentos correu-o ao longo da canelura.
Subitamente, o quadro moveu-se, descendo até ao chão,
patenteando uma abertura tenebrosa, susceptível de dar
passagem a duas pessoas.
Um sopro de vento fez oscilar a chama das velas.
- Eis a passagem - declarou o velho.
- Aonde conduz?
- Rodeia a casa e vai dar a um jardim.
- Muito distante?
- A quinhentos ou seiscentos metros.
- Ide adiante.
O velho hesitou.
- Será preciso acompanhá-los? Não vos basta tê-los trazido
aqui?
- Quem me garante que seja este o bom caminho?


121


Quando nos encontrarmos ao ar livre, podeis regressar.
O velho franziu a testa, olhando desconfiado para o Corsário
Negro. Depois meteu pela tenebrosa passagem. Os quatro
corsários seguiram-no em silêncio, sempre de armas apontadas.
A poucos passos da porta havia uma escada tortuosa,
estreitíssima, talhada na espessura da parede. O velho desceu
vagarosamente, resguardando as velas com a mão para as
defender do vento, e por fim parou diante da boca de uma
galeria subterrânea.
- Estamos ao nível da rua. Caminhem sempre a direito.
- Pode ser verdade, mas não vos deixarei - declarou o
Corsário Negro.
Fortes sopros de vento vinham do extremo oposto, ameaçando a
cada momento apagar as velas. Don Pablo avançou uns cinquenta
passos e depois parou de repente soltando um grito. No mesmo
instante, as velas apagaram-se e as trevas envolveram a
galeria.
- Com mil demónios! - bradou Carmaux. - O velho
atraiçoou-nos!
O Corsário Negro correu para a frente para impedir que o
velho fugisse, mas, com grande espanto, não encontrou ninguém.
- Onde está, Don Pablo? - gritou. - Responda ou disparo!
Uma pancada surda, que devia ter sido produzida por uma
porta maciça ao fechar-se, ecoou a poucos passos.
- Traição! - bradou Carmaux.
O Corsário Negro apontou a pistola. Um clarão rompeu as
trevas, logo seguido pelo estampido do tiro.
- O velho sumiu-se! - gritou. - Eu já devia esperar esta
traição!
Com o clarão, tinham podido ver uma porta que tapava
completamente a galeria. Aproveitando a escuridão, o
administrador do duque devia tê-la fechado depois de passar.
- Com mil bombas! - exclamou Carmaux. - O velho soube
enganar-nos. Se volta a cair-me nas mãos, enforco-o, palavra
de corsário.
- Cala-te e acende uma mecha, isca, seja o que for! - bradou
o Corsário Negro.
Wan Stiller tirou a pederneira e a isca e acendeu-a.
- Vejamos - disse o corsário, aproximando-se da
porta:Examinou-a atentamente e logo se convenceu de que por
ali não havia salvação.


122


Era maciça e forrada com grandes chapas de bronze, uma
verdadeira porta blindada. Para a arrombar seria necessário um
tiro de peça.
- O maldito velho fechou-nos no subterrâneo! Nem o machado
do nosso amigo Saco de Carvão seria capaz de a deitar abaixo.
- A retirada talvez não seja ainda cortada - lembrou o
Corsário Negro. - Voltemos depressa para trás.
Voltaram pelo mesmo caminho que tinham percorrido, subiram a
escada de caracol e chegaram à entrada da passagem secreta.
Mas aí esperava-os nova e desagradável surpresa: o quadro
tinha voltado ao seu lugar. O Corsário Negro, batendo-Lhe com
a espada, arrancou um som metálico.
- Outra porta de ferro - murmurou. - O caso começa a
tornar-se inquietante.
voltara-se para Moko, no intuito de Lhe ordenar que atacasse
o quadro à machadada, quando ouviu vozes.
Alguém falava do lado de lá do quadro.
- Serão os soldados? - murmurou Carmaux. - Pelos chavelhos
de Satanás!
- Cala-te! - ordenou o corsário.
Ouviam-se duas vozes: uma de homem e outra de uma mulher que
devia ser nova.
- Quem será? - perguntou o Corsário de si para si.
Depois encostou o ouvido à porta e escutou. a mulher dizia:
- Asseguro-te que o nosso amo fechou aqui o cavaleiro.
- É um homem terrível, Yara - respondeu o homem. - Chama-se
o Corsário Negro!
- Não podemos deixá-lo morrer.
- Se abríssemos, o patrão seria capaz de nos matar.
- Não sabes que chegaram os soldados?
- Sei que estão na travessa próxima.
- Então teremos de deixar assassinar tão garboso cavaleiro?
- Já te disse que é um corsário das Tartarugas.
- Mas eu não quero que morra, Colima.
- Mas que capricho!
- Yara assim o quer.
- Lembra-te do nosso amo.
- Nunca tive medo dele. Obedece, Colima.


123


A mola funcionou e, com prolongado ruído, a chapa metálica
que revestia o quadro desceu, deixando a passagem a
descoberto.
O corsário avançou de espada desembainhada, pronto a atacar,
mas logo parou espantado.
Na sua frente estava uma formosa rapariga de tipo índio e um
negro que tinha na mão um pesado castiçal de prata.
A rapariga devia ter dezassete anos e, como já dissemos, era
formosíssima, conquanto a sua pele fosse ligeiramente
acobreada. Esbelta, com a cintura tão delgada que podia caber
em duas mãos fechadas; olhos esplêndidos, pretos como carvão,
sombreados por compridas pestanas; nariz talhado à grega; boca
pequena, de lábios vermelhos que, ao entreabrirem-se, punham a
descoberto duas fileiras de dentes muito brancos e brilhantes
como pérolas; cabelos negros como asa de corvo, soltos pelos
ombros numa desordem graciosa, formando como um manto de
veludo.
O companheiro era um negro de dezoito a vinte anos, com
grandes olhos que pareciam de porcelana e cabeleira
encarapinhada.
Numa das mãos segurava o castiçal e na outra empunhava um
punhal recurvo, arma usada pelos plantadores mexicanos.
Ao ver o corsário naquela atitude ameaçadora a índia recuou,
soltando um grito, misto de terror e alegria.
- O formoso cavaleiro! - exclamou.
- Quem és? - perguntou o Corsário Negro.
- Yara - respondeu ela com voz argentina.
- A casa está cercada?
- Está, sim, meu senhor.
- E Don Pablo de Ribera onde se encontra?
- Não o vimos mais.
O Corsário Negro voltou-se para os seus homens, dizendo:
- Não podemos perder tempo. Talvez ainda possamos...
Sem mais pensar no negro e na índia, meteu pelo corredor no
intuito de alcançar a escada, quando sentiu que lhe puxavam
pela aba da casaca.
Voltou-se e viu a rapariga, cujas feições exprimiam tão
profunda angústia que lhe causou espanto.
- Que desejas? - perguntou.
- Não quero que te matem, senhor - respondeu Yara com voz
trémula. - Posso esconder-te no sótão!
- O Corsário Negro esconder-se! Nunca!


124


Agradeço-te o conselho; hei-de ser-te sempre grato. Como te
chamas?
- Yara, já to disse.
- Nunca esquecerei o teu nome.
Fez-lhe um gesto de despedida e desceu a escada precedido
por Moko e seguido por Carmaux e Wan Stiller.
Chegados ao corredor, pararam um instante para engatilhar os
mosquetes e depois Moko abriu resolutamente a porta.
- Deus te proteja, meu senhor! - exclamou Yara, que tinha
ficado parada no patamar.
- Obrigado - respondeu o corsário, avançando para a rua.
- Cuidado, capitão. Vejo sombras à esquina daquela casa.
O corsário parou. A escuridão era tal que não se podia
distinguir uma pessoa à distância de trinta passos, e, além
disso, chovia a cântaros. Os relâmpagos tinham cessado, mas
não o vento, que continuava a ulular pelas estreitas ruas e
por sobre os telhados. No entanto, o Corsário Negro também
tinha visto as sombras indicadas por Carmaux. Tornava-se
impossível saber quantos seriam, mas deviam ser poucos.
- Esperavam-nos! - murmurou o capitão. - O corcunda não
perdeu tempo. Homens do mar, avante!... Lutaremos.
Deitara o capote no braço esquerdo e com a mão direita
brandia a espada. Não querendo, todavia, afrontar subitamente
o inimigo, ignorando ainda com quantos tinha de haver-se, em
vez de caminhar para as sombras emboscadas, encostou-se à
parede. Tinha dado apenas dois passos quando foi acometido por
dois homens armados de espada e pistola. Estavam escondidos
num portal e ao verem aparecer o formidável corsário,
avançaram resolutamente contra ele, na esperança de o
surpreender. Mas o cavaleiro não era homem para se deixar
apanhar de improviso.
Com um salto felino evitou as duas estocadas e depois, por
sua vez, carregou, fazendo sibilar a lâmina.
- Tomem! - bradou.
Com um golpe bem lançado, feriu um dos agressores e,
saltando por cima do ferido, que rolara pelo chão,
precipitou-se para o segundo. Este, vendo-se sozinho, voltou
costas e fugiu à desfilada. Enquanto o Corsário Negro se
desembaraçava dos dois, Carmaux, Wan Stiller e Moko
acometeram o grupo que desembocava da esquina.
- Deixem-nos ir! - bradou o Corsário Negro.
Mas era tarde para conter o impulso dos três homens.

125


Enfurecidos pela iminência do perigo, caíram sobre os inimigos
com tal fúria que os desbarataram com poucas espadeiradas.
Depois, em vez de pararem, continuaram a correr atrás deles,
gritando:
- Mata!... Mata!
Nessa altura, desembocou de outra rua um grupo de cinco
homens, três armados com espada e dois com mosquete.
Vendo o Corsário Negro sozinho, soltaram um grito de alegria
e correram para ele, gritando:
- Rende-te ou morres!
O Corsário Negro olhou em volta e não conseguiu reprimir uma
surda imprecação. Os companheiros, entusiasmados e supondo
talvez que lhe desembaraçavam o caminho, tinham continuado a
perseguir os inimigos, que fugiam diante deles.
- Imprudentes! - murmurou.
Encostou-se à parede para não ser cercado e, empunhando uma
das pistolas que trazia à cinta, bradou com toda a força dos
seus pulmões:
- A mim, corsários!
A sua voz foi abafada por um tiro. Um dos cinco homens tinha
disparado, enquanto os outros dois desembainhavam as espadas.
A bala esmagou-se contra a parede, a poucas polegadas da
cabeça do corsário.
- Raios do inferno! - murmurou este.
Apontou a pistola e desfechou também. Um dos mosqueteiros,
ferido em pleno peito, caiu fulminado, sem soltar um grito. O
Corsário Negro deitou fora a arma descarregada e empunhou a
outra. O segundo mosqueteiro visava-o e dispunha-se a
disparar. O Corsário Negro, rápido como o relâmpago,
desfechou, mas o tiro falhou.
- Maldição! - bradou.
- Rende-te! - gritaram os quatro espanhóis.
- Eis a resposta! - gritou o corsário.
Destacou-se da parede e, com um salto fulmíneo, caiu sobre
eles, vibrando estocadas a torto e a direito.
O segundo mosqueteiro caiu, mas os outros atravessaram-
diante do Corsário Negro, embargando-lhe novamente o passo.
Para evitar que o cercassem, começou a recuar para se encostar
novamente à parede. Os três espanhóis atacavam-no vivamente,
vibrando-lhe estocadas sobre estocadas, empenhados em matá-lo
antes que os corsários voltassem.


126


Já haviam reconhecido o Corsário Negro, e, por isso mesmo,
redobraram o ataque; mas sabendo também que tinham de
defrontar-se com famoso esgrimista, não se expunham muito.
Dados uns quinze passos, o corsário sentiu atrás de si um
obstáculo. Estendendo a mão esquerda, percebeu que se
encontrava contra uma porta.
- Se ela não se abrir, espero fazer frente a estes patifes -
murmurou.
Neste momento, ouviu em cima um grito de mulher.
- Colima! Eles matam-no!
- A índia! - pensou o Corsário Negro continuando a se
defender. - Belíssimo! Posso esperar auxilio.
Enquanto os três espadachins o apertavam de todos os lados,
multiplicando as estocadas, ouviam-se no extremo da rua os
gritos de Carmaux e Wan Stiller, e o tinir das espadas. Não
havia portanto, que esperar socorro daquele lado. Oscorsários
deviam travar furioso combate, cilada habilmente preparada
para isolar o Corsário Negro. No entanto, este não perdia a
coragem. Habilíssimo espadachim, parava os botes com rapidez e
vibrava outros tantos. Todavia, muito lhe custava a fazer
frente àquelas três espadas que procuravam atingir-lhe o
coração, como provavam as duas estocadas que lhe tinham
rasgado a casaca e aflorado a carne. O capote, que Lhe servia
de escudo, estava já esfarrapado. Subitamente, recebeu uma
estocada do lado esquerdo em direcção ao coração. Parou-a com
o braço, mas não conseguiu evitar que a lâmina lhe penetrasse
na carne.
- Cachorro! - bradou, desviando-se, rapidamente, para a
esquerda Antes que o seu agressor tivesse tempo de
desenvencilhar a ponta da espada, envolvida nas pregas do
capote, vibrou-Lhe um bote desesperado. A lâmina apanhou o
adversário em plena garganta, cortando-lhe a carótida.
- Já lá vão três! - gritou o Corsário Negro.
Com duas terríveis estocadas derrubou um dos outros dois
espadachins, mas logo a seguir sentiu as forças faltarem-lhe,
ao mesmo tempo que pelos olhos lhe passava uma nuvem de
sangue.
- Carmaux!., Wan Stiller... Socorro..... - murmurou com voz
quase apagada. Levou a mão ao peito e retirou-a banhada em
sangue. Retrocedeu até à porta, à qual se apoiou. Andava-lhe a
cabeça à roda e sentia zumbidos nos ouvidos.


127


- Carmaux! - murmurou outra vez.
Pareceu-lhe ouvir passos precipitados, depois as vozes dos
seus fiéis corsários, e afinal a porta abriu-se.
Viu, confusamente, uma sombra na sua frente e pareceu-Lhe
que dois braços o cingiam; depois nada mais soube e perdeu os
sentidos.
Quando voltou a si, já não se encontrava na rua onde travara
tão violento combate. Estava estendido num confortável leito
com cortinas de cetim azul franjadas de oiro. Os lençóis eram
de linho branco, enfeitados com preciosas rendas. Debruçado
para ele, espreitando o mais leve dos seus movimentos, viu um
rosto gracioso que logo reconheceu.
- Yara! - exclamou.
A índia endireitou-se. Ainda tinha os olhos húmidos de
pranto.
- Que fazes aqui? - perguntou o Corsário Negro. - Quem me
trouxe para este quarto? Onde estão os meus homens?
- Não te mexas, senhor!
- Diz-me onde estão os meus homens - teimou. - Oiço o tinir
das armas na rua.
- Os teus homens estão aqui, mas...
- Continua! - ordenou o corsário, vendo-a hesitar. - Não os
vejo.
- Defendem a escada.
- Porquê e de quem?
- Dos espanhóis.
- Eles estão aqui?
- Cercaram a casa - elucidou a rapariga, toda a tremer.
- Com mil trovões! E eu deitado nesta cama!
Tentou levantar-se, mas sentiu uma dor agudíssima.
- Estou ferido, agora me recordo!
Só então notou que tinha o peito ligado e as mãos cobertas
de sangue.
Apesar da sua coragem, empalideceu.
- Não poderei defender-me? - murmurou com ansiedade. -
Ferido, enquanto os espanhóis nos atacam e talvez ameacem meu
Relâmpago! Yara, que aconteceu enquanto estive sem sentidos?
- Colima e dois criados do meu amo trouxeram-te para aqui -
informou a índia. - Pedi ao negro que fosse em teu auxílio,


128


mas não se atreveu a sair enquanto viu os espanhóis na rua.
- Quem me tratou?
- Um dos teus homens e eu.
- Recebi duas feridas, não é verdade?
- Sim, duas. Uma mais grave e outra mais dolorosa do que
perigosa.
- Não me sinto muito fraco, apesar disso.
- Estancámos logo o sangue.
- Os meus homens voltaram todos?
- Voltaram. Um deles tinha muitos arranhões e o negro perdia
sangue por um braço.
- Porque não estão aqui?
- Os dois brancos vigiam a escada e o negro guarda a
passagem secreta.
- Há muitos inimigos pelas imediações?
- Ignoro. Colima e os dois criados fugiram antes que os
soldados chegassem e eu não saí um instante daqui.
- Obrigado pela tua dedicação e cuidados, valente rapariga!
- agradeceu o corsário, afagando-lhe os cabelos. - O Corsário
Negro nunca te esquecerá!
- E vingar-me-á? - perguntou a índia, cujas pupilas
cintilaram com sinistro lampejo.
Naquele instante ouviu-se um tiro e a voz de Carmaux que
gritava:
- Cuidado! Há uma bomba atrás da porta!
- Com mil trovões! - bradou o Corsário Negro. - Vão
atacar-nos e eu não estou junto dos meus marinheiros!
Deixa-me!
- Não, meu capitão, não deveis sair da cama - disse Carmaux,
entrando. - Os espanhóis ainda não nos apanharam.
- És tu? - perguntou o Corsário Negro. - Vocês são valentes,
bem sei, mas muito poucos para poderem defender-se no caso de
um ataque geral. Não quero faltar na ocasião oportuna.
- Como podereis combater se estais ferido, capitão?
- Parece-me que ainda poderia aguentar-me. Examinaste as
feridas?
- Examinei. Deram-vos uma valente estocada, pouco abaixo do
coração.
- Mas não é grave?
- Não. Suponho que, dentro de doze dias, podereis voltar a
combater.


129


- Doze dias? Enlouqueceste, Carmaux!
- São duas feridas abertas. Um pouco mais abaixo, tendes
outro buraco menos profundo, mas mais doloroso. Mas pagastes
essas estocadas com juro, capitão. Junto da porta estavam três
homens mortos e dois feridos.
- E vocês mataram muitos?
- Uns doze em troca de leves arranhaduras.
- Como souberam que estava aqui?
- Esta valente rapariga avisou-nos. E agora estamos
cercados.
- São muitos os inimigos?
- Não é fácil saber com esta escuridão. Mas calculo que
devam ser.
- Nesse caso, a situação é grave?
- Não o nego, capitão, tanto mais que somos obrigados a
defender-nos dentro de casa. E os espanhóis podem entrar pela
passagem secreta.
- O perigo é esse, justamente - confirmou a rapariga. D.
Pablo tem a chave da porta de ferro.
- Com mil demónios! - exclamou Carmaux. - Se os inimigos nos
atacarem por todos os lados, não sei se poderemos
defender-nos.
- Sim, são poucos para poderem resistir - murmurou o
capitão, pensativo.
- Basta que possamos aguentar oito ou dez horas. O senhor
Morgan, não nos vendo regressar a bordo, adivinhará que nos
aconteceu qualquer coisa e mandará para terra forte
destacamento para nos libertar.
- Será possível resistir até nascer o dia?
- Conheço um sítio onde poderão resistir por muito tempo -
informou a índia, que não tinha perdido uma palavra da
conversa.
- Um esconderijo?
- Não. O torreão.
- Existe um torreão nesta casa? Então estamos salvos! E se é
alto, poderemos fazer sinais à tripulação do Relâmpago.


130

IV


CERCADOS NO TORREÃO

Cinco minutos depois, o Corsário Negro, levado em braços
pelos seus três fiéis marinheiros, encontrava-se no torreão do
palácio do senhor de Ribera. A índia teimou em segui-los,
apesar dos conselhos de Carmaux, que temia expô-la aos perigos
de um assalto.
O torreão, não muito alto nem sólido, era dividido em dois
aposentos circulares, comunicando com o terraço por meio de
uma escada de madeira. Conquanto este também não fosse muito
alto, dominava não só toda a cidade, mas também o porto, a
meio do qual estava ancorado o Relâmpago.
Depois de ter deitado o capitão numa cama velha, Carmaux
correu para a janela que dava para o porto. Avistando as luzes
do Relâmpago, soltou um grito de contentamento.
- Pela vida de cem mil baleias! - exclamou. - Daqui
poderemos trocar sinais com o nosso navio. Meus amigos
espanhóis, vamos dar-lhes muito que fazer! Eu bem sabia que
sem o consentimento do senhor Morgan não conseguiriam
prender-nos!
- É o navio? - perguntou o Corsário Negro, muito comovido. -
Muito bem.
- Não o assaltaram?
- Por enquanto, não.
- Nesse caso, teremos de resistir até chegarem os reforços
enviados por Morgan.
- Tudo isto me parece em mau estado.
- Contanto que os espanhóis não deitem fogo à casa...
- O senhor de Ribera não deixaria. Esta casa deve valer,
pelo menos, mil onças de oiro.
- Será melhor destruir a escada.
- Saco de Carvão e Wan Stiller estão a tratar disso. E
depois já lhes ordenei que trouxessem para aqui a madeira.
- Para quê?
- Para se acender uma fogueira no terraço. O Senhor Morgan
compreenderá o sinal.
- Basta acender uma luz três vezes com intervalos de cinco
minutos.


131


Isso dará a saber a Morgan que estamos em perigo e
necessitamos de socorro.
Naquele momento, ouviu-se em baixo, na rua, um barulho
infernal. Dir-se-ia que alguém tentava forçar uma porta ou
janela.
- São os nossos a demolir a escada?
- Não, são os espanhóis - informou Carmaux, espreitando pela
janela. - Arrombam a porta com uma trave.
- Nesse caso, em breve estarão aqui.
- Encontrarão um osso duro de roer. Vou levantar uma
barricada na entrada do torreão... Com mil baleias!
- O que foi? - perguntou o Corsário Negro.
- Não quereis morrer de fome ou de sede, não é verdade? Não
vejo comida ou bebida e, sem elas, um sitiado ou morre ou
entrega-se. Antes de nos encerrarmos no torreão temos de ir
buscar víveres. Sabes onde fica a despensa do senhor Ribera,
minha linda?
- Não se preocupem - respondeu a índia. - Eu vou tratar
disso.
- Permite-me que te acompanhe. Os espanhóis talvez já
tivessem entrado pela passagem secreta.
- Não tenho medo deles - afirmou a rapariga. - Deixa-me ir
sozinha. Fica aqui a olhar pelo teu capitão.
- É corajosa, a pequena! - comentou Carmaux, quando ela saiu
tranquila como se fosse fazer a coisa mais simples.
- Vai com ela. Se a apanham a trazer-nos comida, matam-na.
Carmaux desembainhou a espada e desceu atrás da índia,
disposto a defendê-la a todo o custo. Wan Stiller e Moko, de
machado em punho, preparavam-se para demolir a escada, a fim
de impedir os espanhóis de subirem ao andar superior do
torreão.
- Esperem um momento, meus amigos. Primeiro a comida e
depois a escada. Vinde comigo. Trataremos de arranjar algumas
garrafas de vinho. Na adega de D. Pablo de Ribera devem
existir algumas bastante velhas que muito bem devem fazer ao
nosso capitão.
- Está aqui um cesto muito a propósito para as trazer -
declarou o hamburguês...
Seguiram atrás da índia, que havia entrado na despensa da
casa, enchendo um cesto enorme com todas as provisões que
encontrou, retrocedeu para o torreão.
Por seu lado, Carmaux e Wan Stiller apoderaram-se de
numerosas garrafas cobertas de pó e também tiveram o bom senso
de levar alguns odres cheios de água.


132


Preparavam-se também para retirar quando no corredor se
ouviram passos precipitados.
- Eles aí vêm! - exclamou Carmaux, agarrando no cesto.
- Entraram pela passagem secreta. Fujamos!
Ligeiros, meteram pelo corredor que conduzia ao torreão e
iam transpor a porta por trás da qual os esperava o negro
quando do lado oposto apareceu um soldado.
- Alto ou faço fogo! - gritou o espanhol.
- Vai para o diabo - respondeu Carmaux, Soou um tiro e a
bala furou um dos odres levados pelo hamburguês. A água correu
pelo chão.
- Cuidado! - gritou Carmaux. - A água pode ser-nos mais
útil do que o sumo de Noé.
Entraram, fechando a porta do torreão atrás de si, enquanto
no corredor se ouviam gritos de raiva.
- Façamos uma barricada! - gritou o negro a Carmaux.
Na sala de baixo havia muitos móveis abandonados: mesas, uma
cómoda monumental, poltronas e cadeiras pesadíssimas.
Em poucos minutos, Carmaux e o negro empilharam-nos contra a
porta, formando uma barricada tão forte que podia desafiar as
balas dos mosquetes.
- Posso destruir a escada? - perguntou Moko.
- Por enquanto, não. Estaremos sempre a tempo de o fazer.
- Porque esperas, compadre branco?
- Quero divertir-me um bocadinho.
- Vão atacar a porta.
- Responder-lhe-emos, compadre Saco de Carvão. Temos de
resistir o mais possível. De resto, não nos faltam munições.
- Eu disponho de cem cargas.
- E Wan Stiller tem outras tantas, sem contar com as
pistolas do capitão.
Nesse instante, os espanhóis chegavam à porta. Verificando
que estava barricada ficaram furiosos.
- Abram ou morrerão todos! - gritou uma voz imperiosa,
enquanto os soldados batiam com as coronhas dos mosquetes.
- Devagar, meu amigo! - replicou Carmaux.
- Não tenha tanta pressa, que demónio! Um pouco de
paciência, belo soldado!
- Exijo que se rendam!... E já.


133


- Que pressa!
- Veremos isso. Soldados, deitem essa porta abaixo!
- Compadre Saco de Carvão, destrói a escada - ordenou
Carmaux, voltando-se para o negro.
Subiram ambos para o andar superior e, com algumas
machadadas, despedaçaram a escada. Depois taparam o buraco,
colocando-Lhe em cima uma pesada mala.
- Agora subam, se puderem.
- São os espanhóis? - perguntou o Corsário Negro, que,
empunhando a espada, se preparava para saltar da cama, não
obstante o sofrimento causado pelas feridas.
- Ainda não, meu capitão. A porta é forte e vai dar-lhes
muito trabalho a abrir.
- São muitos?
- Parece-me que sim, capitão.
- Temos de resistir até às oito da noite para podermos fazer
sinais a Morgan.
- Resistiremos, descansai.
- Não sei se poderemos. O torreão é independente da casa e
os espanhóis podem deitar-lhe fogo sem a prejudicar.
- Com mil bombas! - exclamou Carmaux. - Não me lembrei
disso.
- Fizeste mal em destruir a escada, meu amigo. A resistência
devia ser feita na barricada. Torna-se necessário impedir a
entrada dos espanhóis no torreão.
- Temos tempo. Eles ainda não conseguiram deitar a porta
abaixo. No entanto, a escada já está cortada.
- Ainda poderá servir-nos!
- Não percam tempo, meus amigos. Ainda temos catorze horas
diante de nós.
- Vamos, Saco de Carvão! - disse Carmaux, pegando no
arcabuz.
- Acompanho-os - declarou o hamburguês. - Nós três faremos
prodígios e impediremos a entrada dos espanhóis até Que
anoiteça.
Os três valentes arrastaram a mala que tapava o buraco e,
agarrando-se ao bocado da escada que restava, deixaram-se
escorregar para a sala inferior, dispostos a morrer de
preferência a renderem-se.
Os espanhóis, entretanto, haviam começado a atacar a porta,


134


tentando demoli-la com as coronhas dos mosquetes, mas sem
resultado. Teria sido necessário empregar machados e
catapultas para derrubar a forte barricada.
- Coloquemo-nos atrás deste aparador e, mal eles consigam
abrir uma brecha, disparamos! - indicou Carmaux.
- Já estamos preparados - responderam os outros dois.
As pancadas na porta eram cada vez mais fortes. Os espanhóis
batiam com mosquetes e copos das espadas, na esperança de
abrir pequena brecha por onde pudessem meter os canos das
armas.
Os três corsários deixavam-nos proceder, certos de poderem
repeli-los ao primeiro ataque, não obstante a desigualdade do
número.
Uma pancada tremenda, seguida por forte ranger, foi o que os
três homens ouviram.
- Recorrem aos machados! - Disse o hamburguês.
- Vê-se que têm pressa de nos prender - comentou o negro.
- Veremos! - exclamou Carmaux engatilhando a espingarda.-
Conto detê-los até descer a noite e podermos fazer sinais ao
Relâmpago.
- Se continuam a bater com tanta força, acabam por abrir uma
brecha na porta.
- Deixa-os, Wan Stiller. Nessa altura falará a pólvora.
Os espanhóis prosseguiam a tarefa com verdadeira fúria, Além
dos machados empregavam também as espadas e as coronhas dos
mosquetes, contando que deitassem a porta abaixo.
Os três corsários, não podendo, de momento, responder-lhes,
deixavam-nos proceder. Estavam agachados atrás do aparador,
tendo à mão espadas e mosquetes.
- Batem com alma! - comentou Carmaux. - Parece-me que já
conseguiram fazer uma brecha.
- Podemos então abrir fogo - replicou o hamburguês, pondo-se
de pé.
- Espera um momento - pediu o companheiro. - Ainda têm que
atravessar o aparador.
- Já vejo um buraco - gritou Moko, pegando no mosquete.
Ia disparar quando se ouviu uma detonação. Depois de ter
quebrado um ângulo do aparador, a bala foi achatar-se num
candelabro que estava no canto da casa.
- Começam! - gritou Carmaux. - Nós também vamos fazer
qualQuer coisa.


135


Aproximou-se do ponto por onde tinha penetrado a bala e
examinou o buraco, procurando ocultar-se o melhor possível
para não apanhar um tiro.
Os espanhóis tinham conseguido abrir uma brecha na porta e
já haviam metido por ela o cano de outro mosquete.
- Muito bem - Murmurou Carmaux. - Aguardemos que comecem a
fazer fogo.
Rapidamente, agarrou o cano do mosquete e puxou-o para si. O
soldado que o empunhava, sentindo a resistência, disparou
logo, para dar lugar a outro.
Veloz como o relâmpago, Carmaux antecipou-se e, metendo o
cano do seu mosquete pelo buraco, fez fogo.
Ouviu-se um grito.
- Tocado! - gritou Carmaux.
- Apanha lá esta, agora.
Uma detonação e a bala, passando a pouca distância da cabeça
do corsário, arrancou a parte superior do aparador.
Simultaneamente, algumas machadadas bem dirigidas
despedaçavam uma tábua da porta. Quatro ou cinco canos de
mosquetes e algumas espadas apareceram na abertura.
- Cautela! - avisou Carmaux para os companheiros.
- Conseguiram entrar? - perguntou Wan Stiller, empunhando o
mosquete pelo cano a fim de o utilizar como uma moca.
- Ainda não - tranquilizou Carmaux. - A porta já não
resiste, mas ainda resta o aparador, que é forte e pesado e
lhes há-de dar muito trabalho.
- Que pena não termos a bomba! - murmurou Moko.
- Seria demasiado perigosa, compadre Saco de Carvão.
Fazia-nos saltar a nós também.
Naquele momento, uma voz gritou:
- Rendem-se ou não?
- A quem?
- Com mil raios! Acabam com a brincadeira?
- Ainda agora começamos.
Soaram quatro ou cinco detonações. As balas cravaram-se no
aparador sem conseguir atravessá-lo.
- Que concerto! - exclamou Wan Stiller. - Não poderíamos nós
tocar um igual?
- Deixo-os à vontade.
- Então vamos começar.


136


- Cuidado com a cabeça, hamburguês.
- Não há perigo, é muito dura.
Defendendo-se com o aparador, Wan Stiller alcançou o ângulo
no momento em que os espanhóis, para assustar os corsários,
faziam nova descarga.
- Pronto - disse Wan Stiller. - Vou mandar um para o outro
mundo.
Um dos soldados tinha metido a espada pela brecha, no
intuito de fazer saltar uma das tábuas do aparador. Certo de
não ser incomodado pelos sitiados, não tivera o cuidado de se
resguardar com a porta.
Vendo-o, Wan Stiller apontou rapidamente o arcabuz e
disparou.
O espanhol, ferido em pleno peito, largou a espada, estendeu
os braços e caiu por cima dos companheiros que estavam atrás
dele. A bala atingira-lhe o coração. Os assaltantes,
espantados com o imprevisto ataque, recuaram, vociferando.
Nesse momento, ouviu-se ao longe o troar do canhão.
- Com mil trovões! - esclamou Wan Stiller, empalidecendo. -
É um dos canhões do Relâmpago.

V


O ATAQUE AO RELÂMPAGO


Ao ouvir o tiro do canhão, o Corsário Negro que, vencido
pela fraqueza originada pela perda de sangue, tinha cerrado as
pálpebras, ergueu-se rapidamente. A índia, que se conservava
junto do leito, sem por momentos desviar os olhos do rosto do
ferido, pôs-se de pé, adivinhando donde partia a detonação.
- É o canhão, não é verdade, Yara? - perguntou o Corsário
Negro.
- É, sim, meu senhor.
- E troa do lado do mar?
- Sim, do lado da costa.
- Vê o que se passa na baía.
- Receio que o tiro tenha partido do teu navio, senhor.
- Raios do inferno! - exclamou o Corsário. - Observa Yara!


137


A índia correu para a janela e olhou na direcção da baía.
O Relâmpago estava ancorado no mesmo sítio, mas tinha
voltado a proa de maneira a dominar com as peças de estibordo
o fortim da cidadela. Na tolda, ao longo das amuradas e no
castelo da proa, viam-se muitos homens. Outros subiam pelos
mastros, talvez para tomar posições nos cestos das gáveas.
Oito ou dez escaleres, carregados de soldados, haviam
largado da praia e dirigiam-se ao navio.
- O teu navio está ameaçado, senhor - avisou a índia com voz
alterada.
- O meu Relâmpago! - bradou o corsário, dispondo-se a saltar
do leito.
- Que fazes, senhor? - protestou Yara, correndo para ele.
- Ajuda-me.
- Não deves sair daí, senhor.
- Sou forte, não tenhas medo.
- As tuas feridas vão reabrir.
- Voltarão a fechar. Outro tiro! Depressa, ajuda-me.
Sem esperar mais, envolveu-se no capote e, num esforço de
vontade, saltou do leito, mantendo-se de pé, sem apoio.
Yara precipitou-se para ele e recebeu-o nos braços. O
corsário confiara demasiado nas suas forças, que de súbito Lhe
faltaram.
- Maldição! - bradou, mordendo os lábios até fazer sangue -
Estar impossibilitado neste momento quando o meu navio corre
perigo!... Aquele maldito velho acabará por fazer a desgraça
de toda a minha família. Yara, deixa-me encostar ao teu ombro.
Encostado ao ombro da índia, dirigiu-se à janela quando
Carmaux apareceu, aflito.
- Capitão, combate-se no mar? - perguntou, inquieto.
- Combate, sim, Carmaux.
- Com mil tubarões! E nós aqui cercados, sem podermos
socorrer o navio. E, ainda por cima, o capitão está ferido.
- Morgan saberá defendê-lo. A bordo há homens valentes e
bons canhões.
- Mas aqui, a nossa posição torna-se insustentável.
Terceiro e quarto tiro de peça troaram no mar, seguidos por
frequentes descargas de fuzilaria.
Carmaux e Yara transportaram o Corsário Negro quase em peso
e sentaram-no diante da janela.


138


Daquele ponto, o olhar abraçava toda a baía e um imenso
trecho do mar.
A batalha entre o Relâmpago e os escaleres tripulados pela
guarnição do fortim travava-se com grande fúria de parte a
parte.
- O meu Relâmpago dará muito que fazer aos assaltantes -
disse o Corsário Negro, satisfeito. - Daqui a um quarto de
hora, poucos escaleres estarão em cima da água.
- Temo o pior, capitão - observou Carmaux. - Não me parece
que tão poucos escaleres tentassem abordar um navio tão bem
armado, se não contassem com outros recursos.
- Também me parece, Carmaux. Não vês nada ao largo?
- Não, mas a costa é alta e aqueles penhascos podem
esconder-nos alguma fragata. Os espanhóis contam com o auxílio
do lado do mar.
- O meu Relâmpago apanhado entre dois fogos!
- Morgan é homem para fazer frente a dois adversários.
- Bem sei, mas, mesmo assim, estou preocupado. Estará al gum
navio na baía de Chiriqui?... Não a corremos toda... Isso,
bravo, Morgan!... Metralha para cima deles!... Varre-me essa
canalha!... Muito bem... Não tarda que os escaleres estejam
fora de combate.
- A situação aqui é que não é das melhores, capitão.
- Vai socorrer os teus companheiros, Carmaux. Yara fica
comigo.
- De facto, parece-me que precisam de mim - concordou o
corsário. - O primeiro que apareça pode considerar-se morto -
acrescentou, pegando no mosquete.
Enquanto Carmaux corria em socorro dos dois homens que
estavam em má situação por causa dos repetidos ataques dos
espanhóis, na baía a batalha tomava tremendas proporções. Três
escaleres já tinham ido a pique, mas os outros não desistiam
Encostado à janela, o Corsário Negro seguia todas as fases da
batalha. Nem sentia a dor causada pelos ferimentos e, animado,
ameaçava com o punho ora o forte ora os escaleres.
- Força, homens do mar!
- Uma boa descarga sobre esse escaler que se prepara para a
abordagem.
De repente, soltou um grito terrível: - Maldição!
Três dos escaleres, a despeito das tremendas descargas dos
corsários, tinham conseguido alcançar o navio, pondo-se assim
fora do raio de acção da artilharia.


139


Ao mesmo tempo, por trás da península que se estendia diante
da baía, apareciam os mastros de dois navios.
- O Relâmpago vai ser apanhado entre dois fogos! - gritou
Yara, que também dera por eles.
O Corsário Negro dispunha-se a responder-lhe, quando
Carmaux, Moko e Wan Stiller entraram no quarto.
- Será possível, senhor! - bradou Wan Stiller.
- Olha para ali.
Os dois brancos e Moko correram para a janela.
Os navios avistados pouco antes apareciam à entrada da baía,
impedindo a saída ao navio corsário.
Não se tratava de simples veleiros, mas sim de navios de
alto bordo, fortemente armados e com numerosa tripulação. Dois
verdadeiros barcos de guerra, capazes de se medirem
vantajosamente com uma pequena esquadra.
Os corsários do Relâmpago, comandados por Morgan, não
perderam a coragem nem se deixaram surpreender. Com prodigiosa
rapidez, o navio levantou ferro, desfraldando a vela do
traquete, a do mastro grande e a da gávea, pondo-se a favor do
vento.
O Corsário Negro e os companheiros supuseram, de princípio,
que Morgan tinha tomado a heróica resolução que estes
estivessem preparados para o combate e tentar, com fulminante
ataque, alcançar o mar alto, fugindo assim à batalha. Mas logo
compreenderam que não era essa a intenção do esperto imediato.
O Relâmpago, aproveitando um golpe de vento, evitou a
abordagem dos três escaleres e, com uma bordada, entrou no
pequeno porto situado atrás de uma ilhota, entre a costa e a
península, formando uma espécie de dique.
- Valente Morgan! - exclamou o senhor de Vintemilhas. -
compreendo a atrevida manobra do Relâmpago. - Salvou o meu
navio!
- Os dois adversários vão atacá-lo no seu refúgio! - disse
Carmaux.
- Enganas-te - respondeu o Corsário Negro. - Ali não há água
suficiente para navios de tão grande calado.
- Então vão impedir-nos a saída, mais tarde.
- Veremos, Carmaux!
- Estamos salvos?


140


- Não corras tanto, amigo! Mas, não tenciono ficar muito
tempo aqui, descansa. Bem sabes que tenho pressa de chegar a
Vera Cruz - concluiu com terrível inflexão.
- Para apanhar esse maldito vélho, não é verdade?
- Cala-te, Carmaux! - respondeu o Corsário em voz surda.
Depois, curvando-se para o chão, ficou algum tempo à escuta.
- Parece-me que os espanhóis já conseguiram entrar -
murmurou.
- Também assim julgo - confirmou Wan Stiller. - Oiço
murmúrio de vozes no quarto, por baixo de nós. Devem ter
conseguido despedaçar o aparador.
- Temos de impedir que entrem até podermos fazer sinais -
disse o Corsário. - É já meio-dia.
- Ainda poderemos resistir oito ou nove horas - afirmou
Carmaux. - Ânimo, meus amigos. Barriquemos o buraco, deixando
espaço para passarem os canos dos mosquetes.
- O soalho é forte? - perguntou o Corsário.
- O suficiente para não deixar passar as balas.
- Então tratem disso, meus valentes.
- E tu, meu senhor, deita-te - pediu a índia.
- Não penses nisso! Interessa-me muito a sorte do meu navio
para abandonar esta janela.
- E as tuas feridas?
- Depois se curam.
Enquanto Carmaux e os companheiros faziam os preparativos
para a defesa, os dois navios de alto bordo tinham ancorado
diante da baía, a uma distância de duzentos metros um do
outro, com as peças de estibordo voltadas para a costa a fim
de as descarregarem contra o Relâmpago, se este tentasse
forçar o bloqueio.
Morgan, porém, não tencionava travar batalha com tão fortes
adversários. Conquanto tivesse debaixo das suas ordens uma
tripulação habituada ao fragor dos combates e pronta para
tudo, não se considerava bastante forte para lutar contra
quarenta ou mais canhões das fragatas tanto mais não estando o
Corsário Negro a bordo.
Repelidos com algumas descargas os escaleres que ainda
tentavam abordar o Relâmpago e reduzidos ao silêncio os
canhões do forte, o navio conseguira deitar ferro junto da
ilhota, conservando, no entanto, soltas as velas baixas,


141


para poder aproveitar qualquer ensejo para assaltar uma ou
outra das fragatas ou tentar forçar a passagem para o mar
alto.
Os dois navios inimigos, depois de alguns tiros inúteis,
tinham deitado à água alguns escaleres, que se dirigiam para o
forte. Possivelmente, os comandantes desejavam pôr-se de
acordo com a guarnição para tentar novo ataque ao barco
corsário.
- O caso começa a tornar-se mais sério - murmurou o Corsário
Negro, seguindo-os com a vista. - Se consigo livrar-me destes
soldados que me prendem aqui, penso preparar às duas fragatas
desagradável surpresa. Vejo uma barcaça amarrada perto da
ilhota, que servirá admiravelmente para os meus projectos.
Yara, ajuda-me a voltar para a cama.
- Estás fatigado, senhor? - perguntou a índia.
- Mais do que as feridas, as comoções esgotaram-me as
forças.
Abandonou a janela e, encostando-se ao ombro de Yara,
alcançou o leito e deitou-se, pondo as pistolas e a espada
desembainhada ao alcance da mão.
- Então, meus valentes - perguntou depois a Carmaux e aos
companheiros -, isso vai bem?
- Mal, meu capitão - respondeu Carmaux. - Estes malditos
espanhóis têm muita pressa de nos prender.
- São muitos?
- Uns vinte, pelo menos.
- Estás a vê-los... Que estão a fazer?
- Parece estarem a tomar resoluções.
- Se nos deixassem em paz esta noite...
Como resposta, ouviu-se espantosa pancada que fez tremer
tudo. Carmaux, que estava espreitando os espanhóis por fenda
aberta no soalho, pôs-se imediatamente de pé e pegou na
espingarda.
Do andar inferior alguém gritou:
- Digam ao Corsário Negro que se renda se quer salvar a
vida.
- Como se salvaram o Corsário Verde e o Corsário Vermelho -
replicou Carmaux com ironia. - Já os conhecemos bem, amigos, e
sabemos quanto valem essas promessas.
- Serão presos de qualquer forma.
- Então venham prender-nos.
- O Relâmpago está bloqueado, não sabiam?
- E não sabem também que os seus canhões não estão
carregados com pastilhas de chocolates?


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- Camaradas!... - gritou o espanhol. - Ataquemos aquele
parapeito!
- Amigos, preparemo-nos para demolir o soalho para cima
destes cavalheiros! - gritou Carmaux. - Vamos fazer com eles
excelente marmelada!

VI

A CHEGADA DOS CORSÁRIOS


Carmaux e os companheiros, depois de breve conversa com o
capitão, colocaram-se junto da abertura da escada com as
espingardas engatilhadas, prontos a dispararem sobre os
inimigos. Entretanto, Yara, que se conservava à janela, deu a
boa notícia de que na baía reinava a maior calma e que as duas
fragatas estavam ancoradas, sem tentarem atacar o Relâmpago.
- Se conseguirmos resistir mais cinco horas - observou o
Corsário Negro -, Morgan virá libertar-nos.
Ainda não tinha decorrido um minuto, quando ressoou nova e
mais violenta pancada, que fez tremer os móveis. Os
assaltantes deviam ter arrancado uma das vigas e serviam-se
dela como ariete.
- Com mil demónios! - bradou Carmaux. - Se continuam a bater
assim, acabam por arrombar o soalho. O perigo está em cair no
meio dos assaltantes.
Terceira pancada, que abalou o próprio leito do Corsário,
deitou por terra parte dos móveis acumulados em volta do
buraco da escada e fez saltar uma tábua do chão.
- Atirem para baixo! - gritou o Corsário Negro, que havia
empunhado as pistolas.
Os três homens meteram as espingardas pelo buraco e deram
uma descarga.
Ouviram-se gritos de raiva e de dor e passos apressados que
se afastavam.
Quando se dissipou o fumo, Carmaux olhou para baixo e viu um
soldado estendido no chão. Ao lado viam-se manchas de sangue,
indício certo de que os tiros haviam causado mais vítimas.


143


Os assaltantes apressaram-se em abandonar o quarto e a
procurar refúgio no corredor. Mas não deviam estar longe
porque se ouviam falar.
Alguns minutos passaram sem que os espanhóis fizessem nova
investida.
- Começo a acreditar que teremos uns momentos de sossego -
observou Carmaux, que viu a retirada.
- Mesmo assim, é bom desconfiar - replicou o Corsário Negro.
- Levantem aquelas malas e coloquem-nas de modo a
resguardá-las das balas dos espanhóis, que não deixarão de
voltar ao ataque.
- Boa ideia! - aprovou Van Stiller. - Faremos uma espécie de
parapeito em volta do buraco da escada.
Manobrando com prudência, para não apanharem alguma bala na
cabeça, os três corsários fizeram um parapeito em volta da
abertura e depois deitaram-se no chão, encobertos com ele, sem
perder de vista a porta do corredor.
Durante três horas, reinou no torreão a mais completa calma,
interrompida, de longe em longe, por um tiro, disparado quer
pelos espanhóis quer pelos sitiados. Perto das seis, porém, os
primeiros apareceram em maior número à porta do corredor,
dispostos, segundo parecia, a recomeçar as hostilidades.
Carmaux e os companheiros voltaram a fazer fogo, no intuito
de os obrigar a recuar; mas depois de várias descargas e tendo
perdido alguns homens, os assaltantes conseguiram instalar-se
no aposento inferior, barricando-se com os destroços dos
móveis.
Os corsários, impotentes para fazer frente às nutridas
descargas dos espanhóis, viram-se obrigados a abandonar o seu
posto, reservando as suas forças para o momento do assalto.
- Isto vai mal! - comentou Carmaux. - E ainda falta uma hora
para anoitecer.
- Entretanto, vamos preparando os sinais - alvitrou o
Corsário Negro. - O telhado é plano, Yara?
- É - respondeu a índia, que se tinha refugiado atrás do
leito do capitão.
- E como chegar até lá?
- Não se preocupe com isso, capitão. Moko é mais ágil do que
um macaco.
- Que é preciso fazer? - perguntou o negro. - Estou disposto
a tudo.


144


- Tens que arriscar a pele, compadre Saco de Carvão -
declarou Carmaux.
- Como?
- Vai desmanchando a escada.
Enquanto os dois companheiros iam disparando contra os
espanhóis para demorar o assalto, o negro, com poucas, mas
fortes machadadas, cortou a escada aos bocados, que colocou
perto da janela.
- Está pronto - declarou.
- Agora tens de subir ao telhado para fazer o sinal - disse
o Corsário Negro.
- É fácil, capitão.
- Toma cautela, não escorregues, porque estamos a trinta e
cinco metros do chão.
- Não há perigo, descanse.
Saltou para o parapeito da janela e estendeu os braços para
a beira do telhado, a fim de experimentar a sua resistência.
A manobra tornava-se perigosa, porque não tinha ponto de
apoio. O negro, porém, era dotado de prodigiosa força e de
agilidade capaz de competir com a dos macacos.
Olhou para cima para evitar as vertigens e, com uma flexão
de rins, levantou-se à força de pulso até ao telhado ou
plataforma superior do torreão.
- Já lá estás? - perguntou-lhe Carmaux.
- Estou, sim, compadre branco - respondeu Moko em voz
ligeiramente trémula.
- É possível acender uma fogueira lá em cima?
- É. Passa-me a lenha.
- Eu sabia que ele valia mais do que um macaco! - murmurou
Carmaux. - No entanto, esta proeza causaria vertigens ao mais
experimentado gajeiro.
Depois assomou à janela e foi passando os bocados de
madeira.
- Daqui a pouco podemos acender a fogueira. Deita uma
braçada de lenha de cinco em cinco minutos para dar uma chama
mais alta.
- Está bem.
- Eu regresso ao meu posto. Por Baco! Dir-se-ia que esses
malditos adivinharam que vamos pedir socorro aos homens do
Relâmpago!
Os assaltantes redobraram de assaltos para conseguir
conquistar o andar superior.


145


Já tinham, por duas vezes, encostado escadas ao buraco,
intentando alcançar o parapeito formado pelos móveis
empilhados. Wan Stiller, porém, apesar de se encontrar só,
conseguira repeli-los com terríveis espadeiradas.
- Aí vou! - gritou Carmaux, correndo para junto dele.
- E eu também! - trovejou o Corsário Negro.
Não conseguindo conter-se, saltou da cama, empunhando as
pistolas. Entre os dentes metera a espada. Naquele instante
decisivo parecia ter recuperado todo o seu vigor.
Os espanhóis tinham conseguido alcançar o parapeito e,
enlouquecidos, disparavam, vibrando ao mesmo tempo furiosas
estocadas para afastar os defensores.
Um momento mais e o reduto dos corsários cairia em seu
poder.
- Avante, homens do mar! - gritou o Corsário Negro, que
parecia um leão.
Descarregou as pistolas sobre os assaltantes e com duas
estocadas certeiras derrubou dois soldados espanhóis.
O golpe e mais ainda a aparição do terrível corsário,
salvou-os.
Os espanhóis, não conseguindo fazer frente às descargas de
Carmaux e de Wan Stiller, desceram precipitadamente as
escadas, e, pela terceira vez, fugiram para o corredor.
- Moko, acende a fogueira! - gritou o Corsário.
- E nós vamos tirar as escadas! - disse Carmaux para Wan
Stiller. - Suponho que, por agora, esses patifes já têm a sua
conta.
Aproveitando a trégua, o corsário foi à janela.
Vivo clarão se espalhava por cima da torre, dissipando as
trevas que tinham caído com a rapidez própria das regiões
tropicais.
Carmaux olhou para a baía.
Naquele momento, um foguetão azulado subia nos ares com
fantástica rapidez e estoirou no meio da baía, lançando em
volta uma chuva de centelhas doiradas.
- De que cor era o foguete, Carmaux? - perguntou o Corsário
Negro.
- Azul.
- Com chuva de oiro?
- Exactamente. E agora deitaram outro foguete.
- Verde?
- Sim, verde.


146


- Então Morgan percebeu os sinais e vem socorrer-nos. Moko
que desça. Os espanhóis voltam à carga.
- Já não os temo. Moko, deixa o teu observatório e vem
ajudar-nos.
Moko deitou para a fogueira quanta lenha lhe restava, para
que o clarão guiasse os homens de Morgan e, agarrando-se à
beira do telhado, deixou-se cair com precaução. Carmaux
apanhou-o nos braços.
Nesse instante, Wan Stiller gritou:
- Depressa, amigos! Eles voltam à carga?
- Sempre são muito teimosos! - comentou Carmaux.
Os espanhóis voltaram e deram uma tremenda descarga contra o
parapeito.
- Deitem abaixo o parapeito! - ordenou o Corsário Negro.
As cinco caixas que o formavam foram atiradas pelo buraco,
caindo em cima dos espanhóis que subiam.
Um grito terrível se seguiu à operação. Homens e escadas
caíram com medonho fragor. Por entre os gemidos dos feridos,
gritos dos sobreviventes e ordens dos oficiais, ouviam-se três
tiros de peça e dois de pistola, descarregados na baía pelos
corsários para tornar maior a confusão.
- Agora, a cama! - ordenou o Corsário.
Moko e Carmaux, com tremendo esforço, empurraram a cama até
ao buraco, que ficou completamente tapado.
Mal tinham acabado a tarefa quando se ouviram a pequena
distância tiros e gritos.
- Avante, homens do mar! - bradou uma voz. - O capitão está
aqui.
Carmaux e Wan Stiller correram à janela.
Na rua, um bando de homens munidos de archotes, avançava a
passo de carga para a casa de D. Pablo de Ribera, disparando
as espingardas para todos os lados, talvez com o intento de
atemorizar a população e obrigá-la a fechar-se nas suas casas.
Carmaux reconheceu logo o homem que comandava o bando.
- É Morgan, capitão! Estamos salvos!
- Morgan! - repetiu o Corsário Negro, fazendo um esforço
para se levantar.
E, franzindo a testa, murmurou em seguida:
- Que imprudência!
Carmaux e os companheiros fizeram fogo contra os espanhóis


147


que cercavam a casa.
Estes, ouvindo a fuzilaria na rua, temeram ser apanhados
pelas costas e fugiram precipitadamente.
Entretanto, os marinheiros do Relâmpago arrombaram o portão
e subiram as escadas a correr, gritando:
- Capitão!... Capitão!
Carmaux e Wan Stiller deixaram-se cair para o andar de baixo
depois de terem colocado uma escada no buraco e saíram para o
corredor.
Morgan, o imediato do Relâmpago, avançava à frente de
quarenta homens, escolhidos entre os mais arrojados e mais
fortes marinheiros do navio do Corsário.
- Onde está o capitão? - perguntou, correndo de espada em
punho, supondo ter de defrontar-se com os espanhóis.
- No torreão - indicou Carmaux.
- Vivo?
- Sim, vivo, mas ferido.
- Gravemente?
- Não, mas como perdeu muito sangue, não se aguenta de pé.
Morgan voltou-se para os seus homens e ordenou:
- Fiquem alguns de guarda ao corredor e os outros desçam
para a rua e continuem a fazer fogo para as casas.
E, seguido por Carmaux e Wan Stiller, subiu ao andar
superior do torreão.
O Corsário Negro, auxiliado por Moko e Yara, havia-se
levantado.
Vendo aparecer Morgan, estendeu-lhe a mão, dizendo:
- Obrigado, Morgan. Mas não posso deixar de te censurar. O
teu lugar não era aqui.
- Tendes razão - concordou o imediato. - Mas, para conduzir
os homens através da cidade, cheia de inimigos, impunha-se um
homem resoluto. Espero que me perdoais a imprudência, capitão:
- Tudo se perdoa aos valentes como tu.
- Não podemos perder tempo, capitão; os espanhóis podem ter
dado pelo pequeno número de homens que compõe o meu bando e
atacarem-nos por todos os lados. Precisamos de partir já:
Moko, pega nesse colchão. Servirá para deitar o nosso capitão.
- Isso fica por minha conta - declarou Carmaux. - Moko, que
é o mais forte, levará o capitão nos braços.


148


O negro já tinha nos braços o Corsário Negro, quando este se
lembrou de Yara. Sentada num canto da casa, a índia chorava
silenciosamente.
- Não nos acompanhas, Yara?
- Meu senhor! - exclamou a rapariga, levantando-se num
salto.
- Supunhas que te esquecia? Enganavas-te. Se não tens coisa
alguma a prender-te a Porto Limão, vem connosco para o meu
navio.
- Hei-de seguir-te até ao fim do mundo, meu senhor -
declarou Yara, beijando-lhe as mãos.
- Vem então. Serás dos nossos.
Abandonaram o quarto e desceram para o corredor. Os
marinheiros, ao avistar o capitão, que já supunham morto ou
prisioneiro dos espanhóis, soltaram um brado de alegria:
- Viva o nosso capitão!
- Para bordo, meus valentes! - respondeu o Corsário. - Vamos
derrotar os nossos inimigos.
- Partamos! - ordenou o imediato.

VII

O BRULOTE


Os vinte homens que tinham ido adiante para desembaraçar a
rua dos inimigos travavam luta contra os habitantes da cidáde
e contra os soldados que se tinham refugiado nas casas. Das
janelas partiam tiros e eram atiradas cadeiras, jarros, móveis
e recipientes cheios de água mais ou menos limpa.
Os corsários, porém, só tinham desejado atingir a casa de D.
Pablo.
Com bem dirigidas e nutridas descargas, obrigaram os
habitantes a sair das janelas. Um destacamento foi encarregado
de varrer as ruas transversais, a fim de evitar surpresas
desagradáveis.
Quando apareceu o Corsário Negro a rua estava em poder dos
corsários e as descargas continuavam para todas as janelas
iluminadas ou abertas.
- Dez homens à frente - ordenou Morgan -, e outros dez à
retaguarda e fogo à vontade.


149


- Cuidado com as ruas transversais! - recomendou Carmaux,
que comandava a retaguarda.
O bando, continuando a disparar e a gritar para infundir
terror e fazer acreditar que eram muitos, partiu à desfilada
até ao cais.
A tripulação já tinha lançado à água alguns escaleres para
recolher os camaradas, enquanto os artilheiros disparavam as
peças sobre as fragatas e o forte.
- Embarquem! - ordenou Morgan.
O Corsário Negro foi colocado numa baleeira com Yara,
Carmaux e alguns feridos e cuidadosamente transportado para
bordo. Quando se viu outra vez na tolda do seu navio,
respirou, aliviado, dizendo:
- Agora já não me apanham, meus amigos! O meu Relâmpago vale
uma esquadra!
Entretanto, os homens que tinham ficado no cais faziam
frente ao inimigo, que desembocava de todas as ruas, cada vez
em maior número.
As descargas sucediam-se sem interrupção, causando perdas de
ambos os lados e impedindo os corsários de embarcar.
O Corsário Negro, que se conservava na coberta, viu o perigo
que ameaçava os seus homens e, voltando-se para os
artilheiros, ordenou:
- Dêem uma descarga sobre o inimigo!
As duas peças foram voltadas para o cais e vomitaram uma
nuvem de fogo sobre os espanhóis.
Duas descargas bastaram para os convencer da inutilidade dos
seus esforços. Recuaram e os corsários aproveitaram a
hesitação para embarcar.
Quando os espanhóis voltaram à carga, já estavam todos a
bordo dos escaleres.
- Muito tarde, amigos! - gritou Carmaux com ironia. -
metralha não nos falta, fiquem sabendo.
Quando viu todos os seus homens a bordo, inclusive os
feridos, o Corsário Negro deixou-se transportar para o seu
camarote, aposento mais rico e cómodo que se possa imaginar.
Por sua vez, Morgan desceu, acompanhado pelo médico, Yara e
Carmaux, uma espécie de ajudante-de-campo do Corsário:
- Que lhe parece? - perguntou o imediato, depois de o médico
ter examinado o ferido.
- Nada grave. As feridas são mais dolorosas do que
perigosas, conquanto uma seja bastante profunda.


150


Dentro de quinze dias o capitão poderá restituir as estocadas
recebidas.
,- Não será preciso, doutor - observou Carmaux.
- Os homens que o feriram, a estas horas devem estar em casa
de Belzebu.
- Faça o possível para o capitão voltar a si - pediu Morgan.
- Preciso de falar-lhe imediatamente.
O médico abriu uma caixa, contendo pequena farmácia,
desrolhou um frasco e deu-o a cheirar ao Corsário Negro. Pouco
depois, este abria os olhos, volvendo-os pelo luxuoso
aposento.
- Com mil raios - exclamou o Corsário fitando ora o médico
ora Morgan, que estavam debruçados para ele. - Não sonhei?...
Estou realmente a bordo do meu navio?
- Estais sim, capitão - Confirmou Morgan, rindo.
- Então perdi os sentidos? Malditas feridas!
- exclamou enfurecido.
- Hão-de curar-se depressa, descanse - afirmou o médico.
- Obrigado pelo vaticínio. Então, Morgan, qual é a situação?
- A baía está bloqueada pelas duas fragatas.
- E a guarnição do forte?
- Contenta-se em olhar para nós.
- Será que se pode forçar o bloqueio?
- Esta noite?
- Com certeza. Amanhã será tarde.
- As duas fragatas estão alerta, capitão.
- Não duvido.
- E estão poderosamente armadas, Uma tem dezoito canhões e a
outra catorze. - Mais vinte do que nós.
- Não supus que fossem tantos - murmurou o Corsário.
Conservou-se algum tempo calado como se reflectisse e depois,
de repente, disse: - Seja como for, temos de sair para o mar.
E terá de ser esta noite para não corrermos o perigo de sermos
abordados pelas forças de terra e mar.
- Sair! Pensai que três ou quatro descargas bem dirigidas
podem desmantelar o nosso navio e afundá-lo.
- Evitaremos essas descargas.
- Como?


151


- Preparando um brulote. Não está nenhum navio perto do
porto?
- Ancorada junto da ilhota, está uma lancha canhoneira de
dois mastros.
- Armada?
- Com dois canhões.
- A bordo temos matérias inflamáveis, não é verdade?
- Não nos faltam esparto, pez e granadas.
- Muito bem. Então dá as tuas ordens para prepararem um bom
brulote. Se o meu plano der resultado, veremos arder uma das
fragatas. Que horas são?
- Dez horas, capitão.
- Deixa-me descansar até às duas. Às três estarei na coberta
para comandar a manobra.
Morgan, o médico e Carmaux saíram, enquanto o Corsário se
deitava. Antes de fechar os olhos, procurou a índia, e viu-a
sentada num canto.
- Que fazes aqui, Yara?
- Velo por ti, meu senhor.
- Deita-te num desses divãs e trata de dormir também. Dentro
de algumas horas choverão balas e granadas e o clarão do
incêndio cegar-te-á os olhos. Dorme e sonha com a tua
vingança.
Enquanto o capitão descansava, Morgan subiu à coberta para
preparar o audacioso golpe que daria aos corsários a liberdade
ou a morte.
Logo que chegou à coberta, ordenou a um grupo de marinheiros
que se apoderassem da lancha canhoneira, designada para servir
de brulote, e a trouxessem para junto do Relâmpago.
Não se tratava de uma lancha propriamente dita, mas de uma
caravela destinada a cabotagem, já muito velha e quase
impotente para lutar com as águas do golfo do México. Como
todos os navios da sua classe, dispunha de dois mastros
altíssimos, de velas quadradas, o castelo da proa e casco
muito altos. De noite, seria fácil confundi-la com um barco de
mais envergadura e até com o Relâmpago.
O proprietário já tinha feito desembarcar a carga quando os
corsários entraram na baía, com receio de que ela lhes caísse
nas mãos. A bordo, porém, encontrava-se ainda grande
quantidade de campeche, madeira então muito apreciada e usada
para fabricar uma espécie de tinta.


152


- Esta madeira vai servir-nos às mil maravilhas! - comentou
Morgan quando saltou para bordo da caravela.
Chamou Carmaux e o contramestre e deu-lhes algumas ordens,
concluindo:
- Principalmente, trabalhem bem, e depressa. A ilusão terá
de ser completa.
- Deixe isso a nosso cuidado - tranquilizou Carmaux. - Nem
os canhões faltarão.
MMomentos depois, trinta homens desciam para bordo da
caravela amarrada a estibordo do Relâmpago.
Sob a direcção de Carmaux e do contramestre, começaram a
trabalhar para transformar o velho barco num brulote.
Antes de mais nada, construíram junto do leme uma forte
barricada, utilizando os troncos, convenientemente serrados,
fizeram uns bonecos que dispuseram nas amuradas, ficando
homens prontos para a abordagem e também canhões dispostos no
castelo da proa e no casco.
Feito isto, os marinheiros empilharam nas escotilhas alguns
barris de pólvora, alcatrão, esparto e umas cinquenta
granadas, espalhadas à popa e proa, encharcando ainda com
aguarrás e álcool os pontos mais fáceis de se incendiarem
rapidamente.
- Por Baco! - exclamou Carmaux. - Este Brulote vai arder
como tronco seco.
- É um paiol flutuante - Acrescentou Wan Stiller, que não se
separava do amigo um instante que fosse.

- Agora cravemos archotes na amurada e acendamos os faróis.
- E desfraldemos à popa a bandeira dos senhores do Valpenta
e Vintemilhas, para a ilusão ser completa.
- As fragatas cairão no laço, Carmaux?
- Caem, tenho a certeza. Verás como correm a abordá-lo. -
Quem vai no brulote?
- Nós dois com mais três ou quatro camaradas.
- O perigo é enorme, Carmaux. As fragatas cobrir-nos-ão de
ferro e fogo.
- Ocultar-nos-emos por trás da barricada. Bastará cair um
dos archotes para se incendiar este armazém de matérias
inflamáveis.
- Já acabaram? - perguntou Morgan da borda do Relâmpago.
- Está tudo pronto. Os nossos homens podem vir.


153


- E tu?
- Reclamo a honra de dirigir o brulote. Fico com Wan Stiller
e manda-me Moko e mais quatro homens.
- Prepara-te para içar as velas. O vento sopra de terra e
vai impelir-te para cima das fragatas.
- Só espero as suas ordens para cortar as amarras.
Quando Morgan se voltou, viu o Corsário Negro deitado em
cima de um tapete persa e encostado a duas almofadas de seda.
Yara, não obstante os desejos do corsário, não quisera ficar
no camarote e acompanhava o seu senhor.
- Está tudo pronto, capitão - declarou Morgan.
O Corsário Negro aprumou-se e olhou para a baía.
A noite não estava muito escura, permitindo-lhe que visse
perfeitamente as fragatas.
Nos trópicos e no equador, as noites têm sempre
extraordinária transparência. A luz projectada pelos astros
basta para distinguir um objecto, embora pequeno, a distâncias
quase inacreditáveis.
Os dois enormes navios não tinham mudado de posição e o seu
vulto negro destacava-se na linha do horizonte. A maré
tinha-as aproximado bastante uma da outra, deixando entre elas
espaço suficiente para que pudessem manobrar à vontade.
- Passaremos sem que nos prejudique muito o fogo dos trinta
canhões - comentou o Corsário Negro.
- Tudo a postos para o combate!
- Está tudo em ordem, capitão.
- Quero um homem de confiança no brulote.
- Está lá o Carmaux.
- É um valente! - respondeu o Corsário Negro, já descansado.
- Dize-lhe que, mal o fogo se propague na caravela, salt com
os seus homens para o escaler e venha para bordo o mais
depressa possível. Um atraso de poucos minutos pode ser fatal;
Olha!
- Para onde, capitão?
- Vejo luzes perto da praia.
Morgan voltou-se de testa franzida.
- Tentam surpreender-nos.
- Chegarão tarde. Manda levantar ferro e preparar as velas.
Num esforço, pôs-se de joelhos e, empunhando a espada que
tinha ao lado, gritou com voz de trovão:
- Homens do mar, para o vosso posto! Recordem-se do Corsário
Verde e do Corsário Vermelho!


154


- Larga o brulote, Carmaux! - ordenou-lhe Morgan.
A caravela já tinha cortado as amarras. Carmaux empunhou o
leme e dirigiu-a para as fragatas, enquanto os companheiros
acendiam os archotes e os faróis de bordo para que os
espanhóis vissem bem a bandeira dos senhores de Vintemilhas
que ondeava à proa.
Terrível alarido se levantou a bordo do brulote e Relâmpago
perdendo-se ao longe.
- Viva a pirataria!... Viva o Corsário Negro!
Os tambores rufaram e as trombetas que davam o sinal para a
abordagem vibraram num barulho ensurdecedor. O brulote, com
hábil manobra, dobrara a ponta do ilhote e dirigia-se para as
fragatas, como se quisesse abordá-las. O Relâmpago seguia-o a
pouca distância. Todos os seus homens estavam nos postos de
combate: os artilheiros por trás das peças; os fuzileiros na
amurada e nas gáveas; os gajeiros nas cruzetas e mastros. De
repente, um relâmpago, dois e três sulcáram a escuridão e a
voz da artilharia confundiu-se com os gritos da tripulação e
dos homens da guarnição do forte, reunida na praia.
- Começa a música! - gritou Carmaux. - Cuidado com as
amêndoas. São muito duras e podem fazer dores de dentes!

VIII


TERRÍVEL COMBATE


As fragatas, vendo avançar o navio com as velas desfraldadas
e todo iluminado, calcularam que se dispusesse a abordá-las e
apromaram-se uma da outra o máximo que as correntes lho
permitiam, a fim de se auxiliarem. Aos gritos de alarme das
sentinelas, ambas as tripulações correram para a coberta,
prontas a sustentar o combate. Os artilheiros colocaram-se
junto das peças com a mecha na mão. A uma ordem dos
comandantes, os canhões de proa foram apontados para o
brulote. À primeira descarga, toda a população de Porto Limão
e a guarnição do forte correram para a praia. Os tiros não
foram infrutíferos. Parte do castelo da proa da caravela caiu,


155


derrubada por uma granada, a bandeira, despedaçada por outra,
caiu na coberta a poucos passos da barricada.
O brulote não respondeu, embora entre os canhões fingidos
levasse dois verdadeiros.
- Deixá-los desafogar a ira - comentou Carmaux.
- A pobre caravela está destinada a ir pelos ares...
Carmaux voltou-se para o lado da ilhota e viu o Relâmpago
avançar a cerca de duzentos metros, dobrando, nessa altura, a
ponta extrema.
Os corsários também não haviam respondido à provocação das
fragatas, apesar de disporem de catorze peças de artilharia e
de terem a bordo os melhores artilheiros das Tartarugas.
Convinha-lhes mais conservarem-se calados a fim de passarem
despercebidos e não chamarem a atenção sobre si.
- O Corsário Negro é muito esperto - disse Carmaux para Wan
Stiller, que estava a seu lado. - Reserva as suas forças para
a altura decisiva.
- Cautela! Vão mandar-nos uma bordada!
Ainda não acabara de falar quando as duas fragatas
dispararam simultaneamente com terrível estrondo. As baterias
vomitavam línguas de fogo e os navios ficaram envolvidos em
fumo.
Artilheiros e fuzileiros abriram fogo infernal contra a
pobre caravela, na esperança de a meterem a pique antes que
pudesse abordá-los.
A primeira fragata encontrava-se a uns quinze metros e o
brulote, que conservava o mastro grande e as velas do gurupés
ainda desfraldadas, corria para ela impelido pelo vento.
Carmaux tirou a mecha que Wan Stiller tinha na mão e,
inclinando-se para o canhão que estava apontado, chegou-lhe
fogo; gritando com voz de trovão:
- Um homem para a tolda!
Mas Naquele momento, tremendo alarido se levantou à proa. A
caravela tinha embatido com a fragata.
Carmaux e Wan Stiller empunharam os croques de abordagem,
arrancaram os archotes e faróis do navio e atiraram-nos para o
meio da tolda.
A resina espalhada pelo convés incendiou-se num instante e
chamas logo se comunicaram ao esparto e ao pez.
Dez, quinze línguas de fogo serpentearam pela tolda,
incendiando as tábuas e subindo pelos mastros e velas.


156


Vivo clarão iluminou a noite. Os marinheiros da fragata,
supondo que se tratava de uma abordagem em regra,
precipitaram-se para a amurada, descarregando os mosquetes
sobre o castelo de proa e restos de mastros derrubados. Os
mais atrevidos saltaram para a coberta da caravela, empunhando
espadas e mosquetes, julgando ter de defrontar os corsários.
Um grito se ouviu à popa do navio, que começava a arder.
- Em retirada, camarada!
Carmaux abandonou o leme, saltou por cima da popa, agarrou o
cabo e deixou-se escorregar para o escaler que estava por
baixo.
- Ao mar! - Gritou. - Para o relâmpago, Wan Stiller e os
outros!
O negro, o hamburguês e os outros corsários imitaram-no,
abandonando a caravela, que ardia como um vulcão. O esparto e
o alcatrão incendiavam-se com inacreditável rapidez, atirando
para a fragata com nuvens de fumo e de centelhas ardentes. Não
tardaria que o fogo chegasse aos barris de pólvora e estes
explodissem, fazendo ir o brulote pelos ares.
- Estão todos? - perguntou Carmaux.
- Estamos - respondeu Wan Stiller, depois de ter lançado em
volta uma rápida olhadela.
- Então ao largo!
Abrigando-se por trás da caravela, afastaram-se, remando com
energia.
Atravessaram a baía e chegaram junto do costado do
Relâmpago, que, de velas desfraldadas, os aguardava.
- Depressa! - gritou Morgan. Os cinco marinheiros
agarraram-se aos cabos que de cima lhes atiravam e saltaram
para bordo do seu navio.
- Cá estamos! - exclamou Carmaux, correndo para o ponto onde
se encontravam o Corsário Negro e Morgan.
- Todos a postos para o combate! - ordenou o Corsário Negro.
- preparem-se para o fogo de bordada.
O Relâmpago avançou, passando a duzentos metros da fragata
incendiada. Navegava rápido, com as luzes de bordo todas
apagadas. Os corsários estavam todos a postos.
- Atenção - gritou Morgan.
A segunda fragata, compreendendo por fim a audaciosa manobra
dos corsários, descarregou todas as peças de um bordo,
tentando deter o Relâmpago.


157


Mas tinha de haver-se com homens resolvidos a tudo para não se
deixarem apanhar. A descarga foi perder-se contra as rochas
que formavam o prolongamento da península, porque o barco dos
corsários, com hábil manobra, soube fugir-lhe.
A outra fragata não podia tomar parte na luta porque as
chamas se tinham propagado, envolvendo-a por todos os lados, e
a pobre ardia como um archote.
Vivo clarão espalhou-se pela baía, tingindo as águas de
vermelho e reflectindo-se nas velas do navio dos corsários.
Os três mastros ardiam enquanto o brulote, ainda encostado à
fragata, crepitava e sibilava, atirando para o ar nuvens de
chispas ardentes e de fumo.
Subitamente, imenso clarão envolveu a caravela. Com a
explosão dos barris de pólvora, a coberta, castelo da proa e
mastros foram pelos ares espalhando em volta fragmentos
incendiados.
A fragata, presa ao brulote, inclinou-se sobre o costado; a
explosão da caravela fez-lhe um rombo a estibordo por onde a
água se precipitou com surdo mugido.
Entre o alarido da tripulação, gemidos dos feridos e
moribundos, elevou-se uma voz de trovão:
- Fogo de bordada!
Era a voz do Corsário Negro, comandando os seus homens.
Os seus canhões de estibordo e os dois da coberta dispararam
ao mesmo tempo, formando uma só detonação.
Balas e metralha cobriram a tolda das fragatas aumentando a
confusão e o horror. Um mastro vacilou e caiu, arrastando
consigo velas e cabos.
Com a última descarga, o Relâmpago chegou à saída do porto.
Passando quase ao lado das duas fragatas, descarregou sobre
elas toda a sua artilharia e saiu para o mar.
Uma descarga atingiu-lhe a ponta da gávea, esburacando
algumas velas e matando quatro homens. Mas o navio podia
considerar-se livre e salvo de novos ataques.
Antes que a fragata conseguisse levantar ferro, já ele
estaria longe para que esta pudesse albergar a esperança de o
alcançar.
O Corsário Negro, auxiliado por Morgan e Yara, pôs-se de pé
Na baía, a fragata, quase afundada, ainda ardia; enormes
línguas de fogo erguiam-se para o céu, enquanto as faúlhas,
levadas pelo vento, sulcavam as trevas como miríadas de
estrelas.


158


- Quem sabe o que o futuro me reserva! - murmurou o temível
corsário. - Se, pelo menos, antes de morrer pudesse vingar-me
do meu inimigo e saber onde se encontra aquela a quem amo!
Já lá vão quatro anos e, no entanto, continuo a vê-la vogar
sobre o tempestuoso mar das Caraíbas, à luz dos relâmpagos e
do rugir das ondas encapeladas. Noite fatal! Não consigo
esquecê-la! O juramento que proferi na noite em que o cadáver
do Corsário Vermelho foi engolido pelas águas, destruiu-me a
vida! Mas esqueçamos isso.
Estava sentado e o seu olhar triste perdia-se ao longe no
horizonte que, pouco a pouco, parecia iluminar-se.
Sob as ondas, subiam das profundezas do oceano como que
lantejoulas de oiro que se difundiam lentamente, invadindo
tudo para logo desaparecerem e depois voltarem a reunir-se. Às
vezes, pareciam pequeninas chamas, outras, correntes de
enxofre líquido ou de bronze fundido. Medusas esplêndidas como
globos de luz eléctrica, boiavam em volta do navio., O
Corsário Negro continuava a olhar. O rosto pálido exprimia
extrema angústia e as suas pupilas negras profundo terror.
Morgan e Yara, de pé, a seu lado, guardavam silêncio. O
navio corria a todo o pano, deixando atrás de si uma esteira
luminosa.
Os marinheiros dispersos pela tolda pareciam dominados por
supersticioso terror e, mudos, olhavam também para o mar, cada
vez mais brilhante.
Carmaux aproximou-se de Wan Stiller e tocou-Lhe o braço.
- Sempre que há mortos a bordo - murmurou -, a
fosforescência aparece. Já reparaste?
- Já - respondeu o hamburguês em voz trémula.
- Estas noites recordam-me o Corsário Vermelho e o Corsário
Verde!
- E aquela em que o capitão abandonou Honorata de Wan Guld
num escaler, quando o furacão rugia furioso. Vê o Corsário
Negro e repara como olha para as águas.
- Bem vejo. - Parece que espera a aparição do espectro dos
irmãos. Quando o mar cintila assim, abandonam as profundidades
do golfo e sobem à superfície.
Entretanto, o Corsário Negro olhava para o mar com crescente
ansiedade. De tempos a tempos, soltava fundo suspiro e o seu
olhar tornava-se cada vez mais atento, como se quisesse
descobrir qualquer coisa que se ocultasse com as trevas.


159


De repente, ecoou um grito que parecia saído dos abismos do
oceano.
Teria sido lançado por um cetáceo que nadava à flor da água
ou por algum ser misterioso? Ninguém saberia dizê-lo.
- Ouviste? - perguntou o Corsário Negro, voltando-se para
Morgan.
O imediato precipitou-se para a proa, procurando distinguir
que espécie de ser tinha soltado o grito.
- É o Corsário Vermelho que subiu à superfície - respondeu o
senhor de Vintemilhas. - Continua a clamar vingança!
Pouco tempo depois, longe, na linha do horizonte, surgiu um
vulto negro, sulcando as ondas com rapidez.
Que seria?... Um delfim, baleia ou embarcação?
Fosse o que fosse, o Corsário Negro, apesar das feridas,
opôs-se a que o auxiliassem e agarrou-se com força à
balaustrada.
- Lá vai ela! - gritou. - Será a sua alma que vagueia pelo
mar ou ainda estará viva? Honorata, perdão!
- Senhor! - exclamou Morgan. - Não passa de uma alucinação!
- Enganas-te! - protestou, exaltado, o corsário. - Estou a
vê-la. Olhem para ela, homens do mar. Ela estende-lhes os
braços! Vejam... Ali... ali... O vento faz-lhe esvoaçar os
cabelos, as águas sobem em volta do escaler. Chama-me! Não
ouvem a sua voz? Depressa! Um escaler à água antes que
desapareça!
E, exausto, deixou-se cair nos braços de Morgan, enquanto os
marinheiros murmuravam com voz aterrada:
- A visão!
- Senhor! - gritou Yara, curvando-se para o Corsário Negro
que não dava sinais de vida.
- Desmaiou - declarou Morgan. - Quis abusar das suas forças.
Não foi nada, descansa.
- Mas a aparição? - perguntou a índia, toda a tremer.
- Tolices! - respondeu Morgan. - Ajuda-me a levá-lo para o
camarote.
A um sinal seu, Carmaux e Moko aproximaram-se e, levantando,
com infinito cuidado, o corsário desmaiado, levaram-no para
baixo. Yara e o médico de bordo seguiam-nos.

160 161

IX


O ÓDIO DE YARA


Quando surgiu a madrugada e Morgan teve a certeza de que
nenhum navio espanhol cruzava ao largo das costas da
Nicarágua, desceu ao camarote do capitão.
Duas vezes, durante a noite, o médico tinha procurado Morgan
para o tranquilizar. Conhecendo como conhecia a excepcional
robustez do Corsário Negro, estava convencido de que depressa
melhoraria, embora os ferimentos lhe causassem alguma
apreensão.
Quando entrou no camarote do corsário, este dormia velado
por Yara e por Carmaux. A respiração do ferido era calma e
regular, mas de vez em quando agitava-o leve estremecimento e
dos lábios fugia-lhe um nome:
- Honorata!...
- Está a sonhar - disse Carmaux, voltando-se para Morgan,
que se aproximara do leito. - Supõe ver um escaler tripulado
por uma mulher, como há pouco. Acredita em aparições, senhor
Morgan?
- E tu? - retorquiu o imediato, com ironia.
- Também me pareceu ver o escaler.
- Loucura! Ilusão provocada pelo terror supersticioso.
- E iria jurar que vi dentro uma forma humana - afirmou
Carmaux com convicção.
- Talvez tivesses febre também ou confundiste alguma baleia
com um escaler.
- E o nosso capitão?
- Desde a terrível noite, frequentes vezes supõe ver a
flamenga dentro de um escaler, vogando nas águas do golfo. Mas
será melhor deixarmos os mortos e pensarmos nos vivos. Onde
iremos esperar a esquadra das Tartarugas, pode saber-se?
- Na baía da Anunciação, nas costas das Honduras.
Nesse instante o Corsário Negro abriu os olhos, perguntando
em voz fraca:
- Quem fala na baía da Anunciação?
- Sou eu, capitão.
- És tu, Morgan?


162


Ergueu-se vagarosamente, afastando Carmaux, que pretendia
ajudá-lo e deitou em redor um olhar vago. Um raio de sol
entrava pela janela, reflectindo-se nos enormes espelhos de
Veneza que adornavam as paredes e na lâmpada de prata doirada.
O corsário fixou-o e murmurou:
- Já era tempo que desaparecessem as trevas.
Aspirou profundamente o vento fresco que entrava pelas
janelas abertas e, voltando-se para Morgan, perguntou:
- Onde estamos?
- Em breve alcançaremos São João. Subimos as costas da
Nicarágua.
- Nenhum navio à vista?
- A esta hora já correu a notícia de que aparecemos nestas
paragens e todos os navios se conservam nos portos.
- Temem-nos, dizes bem. E as fragatas?
- Não saíram de Porto Limão. Reconheceram não terem força
para se medir connosco.
- Antes assim. Apressa a marcha. Bem sabes que nos esperam.
- Chegaremos antes da esquadra das Tartarugas. O nosso navio
é mais veloz de quantos sulcam as águas do golfo do México.
E como vos sentis capitão?
- Melhor. Daqui a pouco já poderei comandar o navio.
- Contais apanhar o duque em Vera Cruz? Tendes a certeza de
que ele se encontra ali?
- Tenho - afirmou o Corsário Negro, enquanto terrível
lampejo lhe perpassava nas pupilas negras. - Confessou-mo D.
pablo de Ribera com a espada na garganta.
- Então desta vez não nos fugirá?
- Não, por Deus! - exclamou o corsário com feroz expressão.
- Tomaremos as nossas providências para que não se repita a
partida que nos pregou em Gibraltar. De resto, tenciono
assaltar Vera Cruz e entrar lá de surpresa. Já me entendi a
esse respeito com Wan Horn, Laurent e Grammont.
- Alcançaremos grandes lucros, capitão. Vera Cruz deve
encerrar riquezas fabulosas, visto ser o mais importante porto
do México.
- É de lá que partem em maior número os galeões carregados
de oiro e de prata - afirmou o Corsário Negro. - Porém,
basta-me a vingança.
- Por mim, Cederei a parte que me couber no saque a ti e à
tripulação.


163


- Possuis em Itália muitas terras e castelos para poder
desprezar os saques. Nem o Corsário Negro nem os irmãos foram
piratas como o Olonês, Miguel, o Vascongado, e tantos outros
chefes dos corsários.
- Viemos à América para matar o duque e não para alcançar
riquezas.
- Não o ignoro, capitão. Tendes mais alguma ordem a dar-me?
- Conserva-te ao longo das costas da Nicarágua e, mal
avistes o cabo da Graça de Deus, corta a direito para a baía
da Assunção, evitando quanto possível o golfo das Honduras.
Prefiro não ser visto por qualquer nau espanhola.
- Tudo se fará como indica, capitão - afirmou o imediato,
que logo abandonou o camarote.
Depois de Morgan sair, o Corsário Negro ficou silencioso,
entregue a profundas reflexões. Momentos depois, porém, olhou
para Yara, que tinha assistido à conversa, sentada no tapete,
junto ao leito, sem proferir palavra.
Quando ouviu falar do duque, o seu rosto meigo revestiu-se
de expressão terrível, feroz e assustadora. Os olhos negros
mas límpidos carregaram-se de nuvens e as feições
contraíram-se-lhe. Notando a mudança, o corsário observou-a
com surpresa e inquietação.
- Que tens? - perguntou, quando Carmaux, por sua vez, se
retirou. - Estás com saudades de Porto Limão?
- Não, meu senhor - afirmou a índia.
- Os teus olhos brilham sinistramente e o teu lindo rosto
tomou terrível expressão.
- Dizes bem, meu senhor - confirmou Yara.
- Em que pensas, então?
- No meu pai e meus irmãos.
- Foi por causa deles que me pediste para te vingar?
- Foi e tu prometeste fazê-lo.
- Prometi e cumprirei a minha promessa.
- Sempre ambicionei encontrar-te em qualquer ponto do golfo
do México, meu senhor, e por essa esperança vivi. E, como vês,
as minhas esperanças realizaram-se.
O Corsário Negro olhou-a com espanto.
- Já me tinhas visto alguma vez, antes de eu desembarcar em
Porto Limão?


164


- Nunca. Mas tinha ouvido falar de ti em Maracaíbo, Vera
Cruz e Porto Limão, e não ignorava com que fito percorrias o
golfo do México. Sabia que não tinhas abandonado a tua terra e
vindo à América com a sede do oiro, mas apenas para te
vingares.
- Quem to disse?
- O meu amo, o duque de Wan Guld.
- O duque? - repetiu o Corsário no auge do espanto.
- Sim, ele.
- E sabias também que o duque matou o meu irmão mais veLho e
depois enforcou os dois mais novos, o Corsário Vermelho e o
Corsário Verde?
- É um ser monstruoso, meu senhor.
- Hei-de matá-lo. É poderoso, tem homens e navios à sua
disposição, a protecção da corte de Espanha e, no entanto
cairá um dia, varado pela minha espada.
- Juras-mo?
- Éramos três irmãos, ricos e poderosos no nosso país, mas
dissemos adeus às nossas terras, castelos e vassalos, à pátria
enfim, e viemos a estes mares e países que desconhecíamos
para apanhar esse homem fatal. Meus irmãos caíram vencidos por
ele, mas eu ainda não morri e o coração diz-me que os vingarei
em breve. Pode fugir, ocultar-se nas mais poderosas fortalezas
dos espanhóis que, mesmo assim, saberei alcançá-lo. Não vivo
senão para a vingança. E agora, fala. O que te fez esse homem?
- Foi o exterminador da minha família e de toda a minha
tribo.
- Conta, que eu escuto-te.
Yara encostou-se ao leito do corsário e começou com voz
grave:
- Não conhecíamos os homens brancos que tinham vindo de
países longínquos a bordo das casas flutuantes. Apenas das
terras distantes nos tinha chegado o eco das tremendas
carnificinas cometidas por eles no país dos astecas, mas
ninguém os tinha visto ainda.
- Bem sei. As carnificinas perpetradas por Cortés, o
conquistador do México.
- murmurou o Corsário Negro.
- Um império poderoso, governado por um homem que se chamava
Montezuma, fora destruído por esses homens cruéis.


165


índios, vindos dos países setentrionais, trouxeram a estupenda
notícia até às selvas do Dariano. Ninguém os acreditou, pois
as casas flutuantes nunca tinham aparecido nas nossas costas.
A incredulidade dos nossos seria funesta para todos. A minha
tribo era numerosa como as folhas das árvores de uma floresta
e vivia feliz no meio dos grandes bosques que se estendem ao
longo do golfo Dariano. Viviam da pesca, da caça e da fruta
das selvas e desconheciam a guerra, porque o homem branco
ainda não tinha aparecido. Meu pai, o cacique da tribo, era
amado e respeitado e os meus quatro irmãos não o eram menos.
Um dia nefasto, essa ventura que durava havia muitos séculos
foi destruída por um homem branco.
- Quem era esse homem?
- O duque de Wan Guld. Uma das tais casas flutuantes foi
arremessada por um tufão contra as nossas costas e aí se
despedaçou. Todos os que a tripulavam foram tragados pelas
ondas, excepto um. Meu pai acolheu-o como seu irmão, conquanto
tivesse a pele branca e o eco das carnificinas cometidas no
país dos astecas ainda não se tivesse apagado. Melhor fora que
o tivesse atirado ao mar ou lhe esmigalhasse a cabeça com uma
machadada! Acolheu uma víbora que, mais tarde, lhe mordeu o
coração.
Calou-se. Lágrimas ardentes lhe corriam pelas faces,
enquanto os soluços lhe sacudiam o peito.
- Continua - pediu o Corsário Negro. - As mulheres da tua
raça são fortes.
- Dizes bem, meu senhor. Mas há infortúnios que nos
despedaçam o coração. O homem branco arrojado às nossas praias
pelas ondas teve honras e favores, tornou-se amigo do meu pai,
dos feiticeiros e dos maiores guerreiros do meu país e tão bem
soube conquistar-lhes a confiança que conseguiu descobrir o
segredo do oiro.
- O teu país era rico?
- Possuía minas riquíssimas que, desde muitos séculos, eram
exploradas por nós para pagar o tributo ao rei Dariano.
Imensos tesoiros haviam sido acumulados nas cavernas das
montanhas, ca vernas que só os caciques conheciam. Um dia, meu
pai, que não desconfiava do homem branco, conduziu-o a essas
cavernas e mostrou-lhe as fabulosas riquezas. E aquele infame,
esquecendu os favores recebidos, desde esse dia só pensou em
atraiçoar o nosso povo para se apoderar daquelas montanhas de
oiro. Fingia-se doente e manifestou o desejo de voltar ao seu
país, afirmando que morreria se não tornasse a ver, ainda que
por pouco tempo, os homens da sua raça. Acreditaram-no e certa
manhã partiu numa das nossas embarcações, acompanhado por
quatro índios Prometendo regressar em breve. Com efeito, dois
meses depois, uma enorme casa flutuante aproava às nossas
costas e dela desembarcavam o homem branco e muitos
marinheiros com barris.
- Aqui tens - disse, dirigindo-se a meu pai -, eis o
presente que ofereço ao teu povo.
Mandou abrir os barris e chamou os homens da tribo,
oferecendo-lhes de beber. Não era vinho o que enchia os
barris, mas sim água de fogo (1). Os nossos nunca tinham
provado esse licor e, como podes calcular, caíram avidamente
sobre os barris que continham a embriaguez. A água de fogo não
se esgotava. Da casa flutuante vinha sempre mais e mais, com
louca prodigalidade, e o povo, ignorando a terrível traição,
bebia sem parar; apenas meu pai e meus irmãos, feridos por
dolorosa suspeita, não a provaram, não obstante a insistência
do homem branco. Quando caiu a noite, a tribo estava
completamente embriagada. Guerreiros, mulheres e crianças
dançavam ou caíam por terra como que fulminados e o homem
branco com os seus marinheiros ria, ria, enquanto meu pai
chorava. De repente, do lado do mar soaram tremendas
detonações. Eram os canhões da nau que atacavam a aldeia,
semeando o terror e a morte.
- Miseráveis! - exclamou o Corsário Negro, pálido de
indignação. - Continua, Yara.
- Meu pai entrincheirou-se entre as cabanas juntamente com
meus irmãos e alguns guerreiros que não se deixaram engodar
com a água de fogo dos homens brancos. Aquele punhado de
valentes tentou resistir, defendendo-se com um furor que o
desespero multiplicava. Às intimações de rendição feitas pelo
duque respondiam com uma chuva de flechas, golpes de lança e
de clava. Os espanhóis, para os vencer, deitaram fogo às
cabanas vizinhas. Ainda vejo as línguas de fogo subirem e
lançarem nuvens de centelhas para cima da cabana do meu pai.
Como seria de calcular, o fogo propagou-se às nossas casas,
que arderam no meio de turbilhões de fumo. Meu pai e meus
irmãos continuavam a lutar com energia, enquanto os espanhóis
disparavam as armas para o meio da fogueira.


*1 Aguardente.

166; 167


Recordo-me de ter ouvido o meu pai gritar: "Avante,
guerreiros!... Matem o miserável traidor!" Depois não vi nem
ouvi mais nada. O fumo asfixiou-me e desmaiei. Quando
recuperei os sentidos, da minha aldeia não restava uma casa de
pé e de todos os habitantes só eu vivia. Meu pai e meus irmãos
tinham morrido no meio das chamas, à vista do infame traidor.
Soube mais tarde que o horrendo morticínio de nada lhe serviu,
porque os guerreiros de uma tribo vizinha, adivinhando as suas
intenções, desviaram o curso do rio e inundaram as cavernas
onde se encontrava o oiro.
- Quem te salvou?
- Um soldado espanhol. Compadecido com a minha pouca idade,
atirou-se às chamas e conseguiu arrancar-me a uma morte
horrível. Fui levada, como escrava, para Vera Cruz e depois
para Maracaíbo. Depois, fui oferecida a D. Pablo de Ribera. O
duque adivinhou o ódio que lhe votava e, com receio de que
mais tarde eu conseguisse vingar-me, afastou-me. Mas esse ódio
nunca se apagou do meu coração - prosseguiu Yara, com terrível
expressão. - Vivo só para vingar meu pai, meus irmãos e a
minha tribo. Compreendes-me agora, senhor?
- Muito bem, Yara.
- E vais ajudar-me a vingá-los?
- Sim, porque o meu ódio iguala o teu se não for maior -
afirmou o Corsário Negro em voz surda.
- Serei tua escrava, o meu sangue pertence-te.

X


AS COSTAS DO IUCATÃO


O Relâmpago, habilmente dirígido por Morgan, navegava
velozmente ao longo das costas da Nicarágua, mantendo-se, con
tudo, a grande distância dos pequenos portos, pelo receio de
en contrar alguma fragata ou esquadra da frota do México.
Já tinham ultrapassado as costas da Costa Rica e de São João
da Luz Norte, porto que, naquela época, tinha certa
importância. Na linha muito pura do horizonte avultavam seis
vulcões, especialmente o Zazu, cuja cratera está situada a
três mil e quinhentos metros de altitude.


168


Dez dias depois da partida de Porto Limão, chegava o
Relâmpago ao cabo da Graça de Deus, ponta extrema de
Nicarágua.
O vento era favorável e a corrente do Golfo do México
concorria para acelerar a marcha do navio.
Esta corrente, que percorre toda a costa da América Central,
entrando nas praias da América do Sul e regressando ao
Atlântico perto das ilhas de Baama, mantém uma velocidade que
varia entre vinte e dois a cinquenta e seis quilómetros por
dia. Perto da Florida, porém, chega a alcançar cento e
quarenta quilómetros em vinte e quatro horas.
Não obstante o mar estar deserto, porque os navios espanhóis
não se atreviam a abandonar o porto quando os corsários
andavam pelas proximidades, Morgan mandou colocar vigias nos
cestos das gáveas para não se deixar surpreender por alguma
poderosa fragata.
Tinham a certeza de que haviam sido assinalados em todos os
portos da Nicarágua depois da atrevida aventura de Porto Limão
e não seria impossível que parte da esquadra do México tivesse
saído em perseguição do Relâmpago para o capturar ou meter a
pique.
Por isso mesmo, o Corsário Negro recomendou a maior
vigilância, que era reforçada de noite, mandando apagar todas
as luzes, mesmo o farol da proa, para puderem navegar sem
receio de serem surpreendidos.
Avistado o cabo da Graça, o veloz navio, depois de ter
passado rapidamente diante da vasta lagoa de Caratasca para
ver se descobria alguma esquadra de corsários, metia a todo o
pano para o golfo das Honduras, imensa enseada de forma
triangular que banhava simultaneamente as costas do Iucatão e
do Belize, ao norte, da Guatemala ao oeste e das Honduras ao
sul.
No momento em que o navio, depois de ter dobrado o cabo
Cameron, aproava à ilha Bonaca, o Corsário Negro, amparado Por
Yara e por Carmaux, aparecia pela primeira vez na tolda do
navio.
Permaneceu alguns momentos agarrado à borda sem aceitar o
apoio de Yara ou de Carmaux; depois sentou-se ou melhor,
deixou-se cair sobre uma das duas peças, enquanto a índia se
sentava a seus pés, encostando-se a um monte de cabos.
Era um esplêndido ocaso, um desses ocasos como se vêem nas
margens do Mediterrâneo ou nas do golfo do México.


169


O Sol descia por entre as nuvens cor de fogo que se
reflectiam na superfície calma do oceano, avermelhando-o num
espaço enorme.
O horizonte parecia arder, como se muitos vulcões estivessem
em erupção ou estivesse em chamas uma frota inteira.
A brisa que soprava de terra varria a tolda do navio,
impregnando-a de perfume dos cedros em flor, de aloés, do
cheiro acre dos pinheiros, enquanto a atmosfera muito pura
permitia distinguir com nitidez maravilhosa as longínquas
costas das Honduras.
Nenhuma vela se avistava no horizonte nem ponto algum negro
que indicasse a presença de algum barco. Simplesmente, à flor
das águas, se viam esvoaçar bandos de aves marinhas.
- Esplêndida tarde! - murmurou o Corsário Negro. - Quantas
recordações me desperta este pôr do Sol!
Yara levantou a cabeça, observando o corsário com os seus
grandes olhos negros, impregnados de infinita tristeza.
- Estás a pensar na flamenga; não é verdade, senhor?
- Estou, sim - confirmou o corsário, soltando um suspiro. -
Lembro-me daquela tarde em que me esperou na ilha das
Tartarugas! Como fui feliz, então!... Nessa altura ainda
ignorava que era filha do meu mortal inimigo.
Ficou uns momentos calado, continuando a contemplar o Sol
que, lentamente, mergulhava nas águas tranquilas, enquanto a
grande nuvem cor de fogo empalidecia. Depois prosseguiu:
- Nessa tarde decidiu-se a minha sorte, pois nunca, antes
disso, eu tinha sentido pulsar o coração nem nunca tinha
encontrado mulher mais bela. Loucuras! Esquecera a profecia da
cigana, não dei crédito às suas funestas palavras. A primeira
mulher que amares ser-te-á fatal, disse-me a feiticeira, e se
me foi fatal só eu o sei!...
- Para que falas ainda dessa flamenga, meu senhor? - disse
Yara. - Está morta e foi juntar-se às vítimas do pai.
- Morta! Não, não pode estar morta porque, depois daquela
noite, os cadáveres dos meus irmãos tornaram a voltar à
superfície. As suas almas ainda não estão aplacadas. Queriam o
corpo de Wan Guld e não o da filha: Breve o apanharemos, Yara.
Dentro de pouco tempo encontraremos a esquadra comandada por
rent, Grammont e Wan Horn, todos eles famosos corsários.
- A esquadra dos teus amigos é poderosa... E também a de
Vera Cruz?


170


- Vão, porque também eles juraram vingar a morte do Corsário
Vermelho e do Corsário Verde.
- Também te ajudaram no assalto a Maracaíbo?
- Não. Nessa altura estavam comigo o Olonês e Miguel, o
Vascongado.
- O célebre Olonês, o terror dos espanhóis! Porque não está
contigo agora. A sua presença valeria por cem homens.
- Esse valente não foi feliz, Yara. Os selvagens do Dariano
talvez compatriotas teus, devoraram-no.
- Se os meus compatriotas tivessem sabido o mal que esse
homem fez aos espanhóis, tê-lo-iam poupado. Queres um
conselho, meu senhor?
- Fala, Yara.
- Vamos a Vera Cruz antes que chegue a esquadra dos teus
amigos. Se o duque sabe que a esquadra dos corsários se dirige
para aquela praça, foge para o interior. Bem sabes que, antes
da capitulação de Gibraltar e de Maracaíbo, fez o mesmo.
- Tens razão. Conheces Vera Cruz?
- Conheço e saberei guiar-te e conduzir-te ao palácio onde
podes surpreender o duque. Sei onde mora a marquesa de
Bermejo.
- Quem é essa marquesa?
- Amante do duque. Surpreendê-lo no seu palácio seria
impossível, porque é guardado noite e dia por numerosas
sentinelas.
- E o da marquesa?
- Aí torna-se mais fácil - afirmou Yara. - Uma noite entrei
no seu quarto de dormir, trepando por uma árvore.
- Que ias fazer? - perguntou com espanto o Corsário Negro.
- Matar o assassino de meu pai.
- Tu... Tão nova...
- Tê-lo-ia feito. Mas, infelizmente, nessa noite o duque não
foi a casa da marquesa.
- Poderás conduzir-me a casa dela?
- Posso, sim, meu senhor.
O Sol tinha desaparecido. As estrelas surgiam lentamente no
céu, enquanto do lado oposto, no horizonte, a faixa argêntea
que se alargava cada vez mais, indicava a próxima aparição do
astro nocturno. A brisa refrescara e sibilava docemente por
entre as enxárcias do navio, enfunando as velas. O Corsário
Negro continuava a olhar para a grande faixa prateada.


171


Mantinha-se numa imobilidade absoluta e em religioso silêncio.
Yara, sentada a seus pés, respeitava esse silêncio e também
ela parecia procurar alguma coisa na imensidade do oceano.
- Yara - chamou de repente o Corsário Negro -, não vês
qualquer coisa no meio da claridade que a Lua projecta nas
águas? Um ponto negro atravessando a estrada argêntea?
Yara levantou-se e olhou atentamente na direcção indicada
pelo Corsário Negro, mas nada viu. Lá longe, o mar cintilava
como espelho imenso, levemente ondulado, sem qualquer mancha
escura.
- Não vejo nada - afirmou, decorridos alguns momentos.
- No entanto, iria jurar que vi um barco atravessar a zona
luminosa.
- Foi ilusão, meu senhor.
- Talvez - concordou o Corsário Negro, soltando fundo
suspiro. - Vejo-a sempre, sempre, quer à luz dos relâmpagos,
quer à claridade da lua. Só eu vejo essa aparição.
Abandonou a amurada e começou a passear pelo castelo da
proa, aspirando com certa volúpia o ar fresco da noite. Yara,
pelo contrário, sentou-se com a cabeça oculta nas mãos.
Nessa altura, Morgan aproximou-se do Corsário Negro,
perguntando:
- Não vistes nada, capitão?
- Não. Viste alguma coisa, tu?
- Vi muitos pontos luminosos, brilhando na linha do
horizonte.
- Talvez alguma esquadra que navegue ao largo... Será a do
México?... Mau encontro, nesta altura.
- O nosso navio é veloz e pode desafiar impunemente as
pesadas fragatas espanholas.
- Vejamos - disse o Corsário Negro, empunhando o óculo que o
imediato lhe estendeu. E apontando-o para ocidente, observou
demoradamente o horizonte.
Pontos luminosos, dispostos dois a dois, como os faróis
regulamentares dos navios, deslizavam sobre as ondas, a uma
distância de doze a quinze milhas.
Se o Corsário Negro estivesse em terra, poderia supor que
fossem pirilampos voando sobre enorme prado, mas no mar era
diferente.


172

- Deve ser, de facto, uma esquadra que passa ao largo.
Felizmente, navegamos com os faróis apagados.
- Pensais que seja a esquadra do México, capitão?
- Penso, sim, Morgan. Talvez o almirante que a comanda tenha
tido conhecimento da nossa entrada em Porto Limão ou da
passagem de um navio suspeito pelas costas de Costa Rica e nos
procure.
- Vão para o sul, capitão?
- Vão, sim. E quando chegar a Porto Limão já nós teremos
deixado as costas do Iucatão. Vão. Procurem-me. Eu espero-os
em Vera Cruz e nessa altura não estarei só. Não é assim
Morgan?
- Também lá estarão os nossos camaradas.
- E eu já terei morto o duque! - acrescentou o corsário com
acento feroz. - Boa noite, Morgan, e boa guarda.
No dia seguinte, o Relâmpago, que tinha navegado
constantemente para norte, avistava a ilha Bonaca, terra quase
deserta naquela época, visto ser habitada por poucos índios;
mas os corsários mantiveram-se ao largo com receio de
encontrarem algum navio naquelas paragens.
O Corsário Negro, que raramente saía da tolda, pois estava
quase curado, aproou para o norte a fim de evitar as costas
das Honduras, que também estavam ocupadas pelos espanhóis.
A baía da Ascensão já não estava longe. Em quarenta e oito
horas ou talvez menos poderia o veloz navio atingi-la sem
cansar a tripulação, tanto mais que o vento não dava indícios
de mudar e a corrente do Golfo do México o impelia.
Foram mandados gajeiros para as gáveas, munidos com óculos
de grande alcance, para avisarem se aparecesse algum navio,
não sendo improvável que a esquadra dos corsários tivèsse
mandado um dos seus navios em exploração, ao largo da baía da
Ascensão para procurar o Relâmpago.
A esperança do Corsário Negro realizou-se. Quarenta horas
depois, o navio avistava pequena embarcação que navegava a
cinquenta ou sessenta milhas da baía.
Era um navio explorador destacado pelos chefes dos
corsários. Mal deu pelo Relâmpago, dirigiu-se rapidamente para
ele, fazendo sinais com bandeiras e disparando dois tiros de
pólvora.
- Esperavam-nos - disse o Corsário, voltando-se para Morgan.


173


- Oxalá a esquadra seja tão numerosa que possa afrontar as
fragatas do vice-rei do México.
- Devem estar todos - replicou o imediato. - Wan Horn,
Laurent e Grammont não são homens para faltarem à sua palavra.
- Vera Cruz pode considerar-se perdida para os espanhóis.
Depois, examinando atentamente o navio, que estava cada vez
mais próximo, disse:
- É o Maria Ana que vem ao nosso encontro.
- E traz no topo as cores de Grammont, Laurent e o Wan Horn
- acrescentou Morgan.
- Nesse caso, os três valorosos corsários vêm a bordo.
Dão-nos a honra de uma visita no alto mar. Devem ter-nos
avistado de bem longe para se arriscarem a vir aqui em tão
pequena embarcação. Morgan, manda parar o navio e
preparemo-nos para receber condignamente os nossos preciosos
aliados.
O Maria Ana estava a trezentos ou quatrocentos metros e
também se pusera através do vento. A tripulação arriava uma
baleeira.
- Todos os homens para a tolda - ordenou o Corsário Negro.
Os cento e vinte corsários, que formavam a tripulação do
Relâmpago, dispuseram-se ao longo da amurada, em fila dupla,
em posição de combate, enquanto Carmaux e Moko levavam para o
castelo da proa algumas garrafas e copos.
A baleeira destacou-se do Maria Ana e aproou ao Relâmpago.
Tripulavam-na doze marinheiros armados com espingarda e três
corsários com largos chapéus enfeitados com penas de papagaio.
O Corsário Negro mandou arrear a escada de honra e desceu
até à pequena plataforma, dizendo:
- Sejam bem-vindos a bordo do meu navio.
Os três corsários saltaram agilmente para a plataforma e
estenderam as mãos ao Corsário Negro.
- Cavaleiro, temos o maior prazer em tornar a ver-vos -
disse um deles.
- E eu também, Grammont. Subam, meus amigos.

174

XI


A GRANDE ESQUADRA CORSáRIA


Entre os mais célebres corsários das Tartarugas, ocupavam o
primeiro lugar os três intrépidos que se chamavam Grammont,
Laurent e Wan Horn, unidos ao Corsário Negro para tentar a
tomada e o sangue de Vera Cruz, uma das mais importantes e
ricas cidades do México.
Os três corsários subiram ao castelo da proa precedidos pelo
Corsário Negro e seguidos por Morgan e pelo mestre da
tripulação.
Esvaziaram alguns copos de Málaga que Carmaux encheu e
depois, Grammont, que era o mais falador, começou:
- E agora, cavaleiro, explicai-nos o que fazíeis em Porto
Limão. Já estávamos inquietos com a demora.
- Tive de sustentar violento ataque dos espanhóis e, por
pouco, não fiquei bloqueado no porto - replicou o Corsário
Negro. - Mas como vêem, o meu Relâmpago conseguiu safar-se sem
danos.
- Nunca me consolaria se visse o vosso belo navio
desabordado. E Wan Guld?
- Está em Vera Cruz.
- Tendes a certeza, capitão?
- Absoluta.
- Nesse caso havemos de vingá-lo - afirmaram Wan Horn e
Laurent.
- Obrigado, amigos. A vossa esquadra é forte?
- Conta com quinze navios e mil e quinhentos homens de
tripulação.
- Não seremos de mais - comentou o Corsário Negro, franzindo
a testa. - Sei que em Vera Cruz estão três mil soldados e
todos valentes. Sem contar que devemos assaltar o forte de São
João da Luz, que está armado com sessenta canhões e defendido
por oitocentos homens.
- E que das cidades do interior podem vir mais quinze ou
dezasseis mil homens - acrescentou Morgan que assistia à
conversa - Disse-me um negro fugido de Vera Cruz.


175


- Vamos jogar tremenda cartada - concordou Wan Horn. - Mas
existe uma circunstância que poderá ser-nos muito favorável.
- Qual? - inquiriu o Corsário Negro.
- Os espanhóis esperam dois navios procedentes de Goaves.
- E isso que tem?
- Para não amedrontar os espanhóis das tripulações, que não
desconhecem as grandes dificuldades que iremos encontrar em
Vera Cruz, dissemos-lhes que nos contentaríamos em assaltar
esses navios. Depois, quando estivermos perto da cidade,
atacaremos os fortes. E bem sabeis que, travada a luta, não
recuarão.
- Isso é verdade - concordou o Corsário Negro. - Já traçaram
o plano?
- Iremos atacá-los de surpresa. Desembarcaremos próximo do
porto e chegaremos à cidade atravessando os bosques.
- E eu lá estarei para os guiar à vitória.
- Que pretendeis dizer com isso, capitão?
- Tenciõno precedê-los e aguardá-los já dentro da praça.
- Sereis preso.
- Pelo contrário. Eu é que prenderei o duque, De Grammont. O
Relâmpago, mais veloz do que os seus navios, irá conduzir-me
até à costa e depois virá juntar-se ao resto da esquadra para
os auxiliar, no caso de um ataque pela esquadra do México.
- Ides sozinho?
- Com três homens fiéis e corajosos.
- Sim, sei a quem vos referis. Conheço o valor de Carmaux,
Wan Stiller e Moko. Mas, se me permitis, vou dar-vos um
conselho. Vinde connosco e desisti de semelhante empresa, que
mais se pode chamar uma loucura. O duque cairá, da mesma
forma, naS nossas mãos e, palavra de fidalgo, hei-de mandá-lo
enforcar no mastro grande do meu navio.
- Impossível, De Grammont - replicou o Corsário Negro em tom
resoluto. - Esse homem poderia fugir-me como já fez em
Maracaíbo e Gibraltar, quando eu e o Olonês assaltámos essas
praças. Agradeço-lhe o conselho, mas estou decidido e não
desistirei.
- Nesse caso, onde poderemos encontrar o vosso navio? -
perguntou Wan Horn.
- Cruzará no golfo de Campeche, diante da praia de Trabasco.


176


E os meus amigos quando partem? Não percam tempo, pois receio
que a minha aventura em Porto Limão tenha feito muito barulho.
- Largaremos dentro de uma semana - respondeu De Grammont.
- Desejo-lhes boa sorte.
Esvaziaram ainda alguns copos e depois os três corsários
retiraram-se, dirigindo-se para a escada de honra. Apertaram
mais uma vez a mão do Corsário Negro e desceram para a
baleeira, que se afastou rapidamente.
No dia seguinte, o Relâmpago, depois de ter costeado as
praias orientais do Iucatão e de ter passado com felicidade
diante da ilha de Cozumel, chegava ao cabo Catoche.
Sendo grandes as probabilidades de encontrarem navios
espanhóis naquelas paragens, por causa da próxima ilha de
Cuba, o Relâmpago conservou-se a meio do canal do Iucatão para
poder afastar-se para o largo, no caso de aparecerem inimigos.
O corsário não desejava ser visto naquelas águas, para que não
suspeitassem do rumo tomado pelo navio e fossem avisar as
cidades do México e de Campeche, pondo-as de sobreaviso.
A travessia do canal do Iucatão efectuou-se sem maus
encontros e na noite seguinte o Relâmpago fazia-se de vela ao
longo das costas setentrionais da grande península, direito ao
golfo de Campeche.
O corsário e Morgan já supunham poder chegar às costas do
México sem serem vistos quando, ao quarto dia, depois de
passarem o estreito, na altura da grande lagoa de Término
avistarem uma vela.
- Um navio que vem de Cuba, provavelmente - sugeriu
Morgan.
- Ou algum barco encarregado de nos vigiar - respondeu o
Corsário.
- Porque suspeitais isso, capitão?
- Há duas noites, quase ao anoitecer, avistei um navio que
seguia o mesmo rumo que nós.
- Teremos sido descobertos?
- Os espanhóis estão sempre alerta para evitar surpresas.
- Vamos experimentar se nos segue? Voltamos a proa ao Norte
e fingimos que procuramos alcançar o mar largo. Se esse navio
consegue descobrir os nossos intentos, os nossos companheiros,


177


quando chegarem a Vera Cruz, encontrarão a cidade em armas e a
guarnição triplicada.
- Por enquanto, não, Morgan. Não tarda a anoitecer e
poderemos então escapar-lhe. Entretanto, vigiemos os
movimentos do navio e talvez possamos saber com quem temos de
nos haver.
Subiram ao cesto da gávea do mastro grande a fim de
abrangerem mais largos horizontes.
O corsário assestou o óculo e com extrema atenção observou o
navio.
- Morgan - disse, decorridos alguns instantes. - Estamos
muito longe, mas estou certo de não me ter enganado. O navio
que nos segue pode trazer-nos graves inconvenientes.
- É grande?
- Deve ser uma fragata. Talvez uma das que nos bloquearam em
Porto Limão. Para nos ter seguido, deve ser um navio de
primeira ordem, pois poucos podem competir em velocidade com o
meu Relâmpago. Prouvera a Deus que me enganasse e em breve
reconhecesse ser esse navio um barco mercante.
Desceram à coberta e deram ordem ao piloto para meter a proa
ao Norte, como se procurassem dirigir-se à Luisiana.
Em breve o Relâmpago, impelido por vento favorável, se
afastou velozmente das costas do Iucatão.
O corsário e Morgan continuavam na coberta e mandaram para
os cestos das gáveas do mastro grande e do traquete alguns
homens munidos de óculos de grande alcance.
O navio entrevisto, contrariando todas as previsões,
continuou o seu rumo para o golfo de Campeche. Mas não se
podiam fiar: Talvez o comandante espanhol não achasse oportuno
mudar o rumo imediatamente para não despertar suspeitas nos
corsários e só o fizesse depois.
O cair da noite pôs termo às investigações do corsário e
Morgan; mas nem um nem outro abandonou a coberta por temerem
inesperada surpresa. Na mesma ideia dobraram os vigias e
mandaram carregar as peças.
Pouco depois da meia-noite, brilhando na escuridão, surgiu
ao longe um ponto luminoso.
Devia ser farol de navio, pois o céu estava coberto e não
havia estrelas.
- Somos seguidos, não há dúvida - comentou Morgan,
designando a luz ao corsário, que, atento, observava o
horizonte.


178


- Ele ameaça o bom êxito da nossa expedição. Que faremOs,
capitão?
O Corsário Negro ficou calado, com o olhar cravado na luz
que seguia exactamente o rumo do Relâmpago.
- Não responde, capitão?
- Estava a pensar como poderíamos assaltar aquele navio.
- E se for a fragata de Porto Limão?
- Não temos canhões suficientes para meter a pique um navio
de guerra? Não somos homens para contar o número dos nossos
inimigos. Preparemo-nos para lhes mostrar a cor da nossa
bandeira e fazer ouvir a voz dos nossos canhões.
- E se fugisse? Pensai, capitão, que se conseguis alcançar
as costas do México, teremos de renunciar ao nosso projecto.
- O meu navio é muito veloz para deixar fugir um veleiro
espanhol e nós muito valentes para consentirmos que nos meta a
pique. Manda arriar seis escaleres e escolher, entre a
tripulação, oitenta homens dos mais valentes.
- Pretendeis assaltar a fragata com os escaleres? - inquiriu
Morgan com o maior espanto.
- Pretendo, mas só depois de a termos desarvorado. Depressa,
Morgan. Temos de aproveitar a noite para surpreender os
espanhóis e apanhá-los entre dois fogos. Vocês com os
escaleres e eu com o Relâmpago.
Pouco depois, o Relâmpago pairava e os oito escaleres tinham
sido arreados. Oitenta homens, escolhidos por Morgan entre os
mais valentes, ocuparam-nos, levando mosquetes e pistolas,
espadas e machados de abordagem.
Enquanto se faziam estes preparativos, o Corsário não
abandonou a popa do navio, observando o barco inimigo, que se
aproximava com espantosa velocidade.
Depois de terem embarcado todos, Morgan foi ter com ele.
- Espero ordens, capitão.
O Corsário Negro voltou-se e explicou:
- Eu ficarei aqui com os faróis acesos. Vocês aproximam-se
do navio, tendo o maior cuidado para não serem pressentidos.
Quando o virem empenhado no combate comigo, acerquem-se e
lancem-se à abordagem.
- O plano é audacioso, capitão.
- Mas resultará, Morgan. Vai e que Deus te acompanhe.
Decorridos poucos minutos, os oito escaleres afastavam-se e
sumiam-se nas trevas.


179


O corsário dirigia-se à popa quando viu diante de si um vulto.
- És tu, Yara?
- Aconteceu alguma coisa, meu senhor?
- Os espanhóis seguem-nos e eu preparo-me para me defender.
Dentro em pouco irá ouvir-se o canhão e havemos de lutar
furiosamente. Volta para o teu camarote, Yara.
- E tu, meu senhor?
- Eu fico. Não temo a morte.
- Tremo por ti, senhor.
- Também a flamenga tremeu por mim e eu voltei vivo para
bordo do meu navio para a abandonar no mar dos Caraíbas. Teria
sido melhor que a artilharia de Gibraltar me tivesse
despedaçado o coração. Mas não é este o momento de sentir
remorsos, mas sim de combater. Homens do mar! - gritou. -
Acendam os faróis e preparem-se para o combate.
A noite estava escuríssima, o que permitia distinguir
perfeitamente o ponto luminoso que se aproximava. O mar estava
calmo e as ondas embatiam docemente contra o costado do
Relâmpago, quase imóvel sobre a água.
Os quarenta homens que tinham ficado a bordo do navio
corsário já ocupavam os seus postos de combate. Os artilheiros
empunhavam as mechas, que espalhavam em volta leve clarão.
O Corsário Negro, aprumado a meio da coberta, destacava-se
no meio da claridade projectada pelos faróis da popa. Trajando
de negro, com a comprida pluma esvoaçando ao vento, tinha
aspecto pavoroso. Parecia o génio do mal, saído das
profundezas do oceano para desencadear tremenda tempestade.
Imóvel, não desviava a vista do ponto luminoso, que estava
cada vez mais perto. Os gajeiros e homens da manobra, com
escotas das velas na mão, prontos para as orientarem,
esperavam ordens, enquanto os artilheiros das peças da proa só
esperavam um sinal do seu capitão para desencadearem um
furacão de fogo e metralha.
- Vês os escaleres, Carmaux? - inquiriu o Corsário Negro
voltando-se para o fiel marinheiro, que, com Wan Stiller e
Moko se conservava a seu lado.
- Por enquanto vejo. Mas não tardarão a tornar-se
invisíveis.
- A que distância estará o navio?
- A uns duzentos metros, talvez.


180


- Deixemo-lo aproximar, para que os tiros não falhem.
Depois voltou-se para os artilheiros e gritou:
- Quinhentas piastras a quem derrubar o mastro do navio
espanhol.
- Com mil baleias! - exclamou Carmaux. - Que pena eu não ter
nascido artilheiro.
- Homens, Larguem as velas - gritou ainda o corsário. -
Prontos para o assalto.
O Relâmpago, que, até então se conservava quase imóvel, deu
uma volta quase completa e foi ao encontro do adversário.
O Corsário Negro tomara conta do leme e não perdia de vista
o navio inimigo que se aproximava cautelosamente, pois já
tinha visto os faróis do Relâmpago.
A distância que os separava era cada vez mais pequena. O
navio espanhol, quando chegou perto, manobrou de forma a
passar a estibordo do navio corsário. Uma voz, trazida pelo
vento, gritou:
- Quem vive?
- Que ninguém responda! - ordenou o Corsário Negro.
E, pegando no porta-voz, gritou:
- Espanha!
- Parem!
- Quem manda?
- Uma fragata espanhola.
- Aproximem-se!
Os artilheiros olharam para ele, aguardando o sinal.
O Corsário Negro olhou para o mar, tentando descobrir os
escaleres, mas a escuridão era tanta que não o conseguiu.
- Comecemos! - murmurou. - No momento oportuno Morgan
entrará em cena. Fogo! - gritou.
Bruscamente, dois relâmpagos iluminaram a coberta do
Relâmpago, seguidos por duas tremendas detonações.
Forte clamor se ergueu a bordo do navio espanhol, perante o
inesperado ataque.
- Traição... Traição! - gritavam.
O Corsário Negro debruçara-se na amurada tentando descobrir
o que se passava a bordo da fragata.
O Relâmpago tinha virado, apresentando a proa ao navio
inimigo. Não pensava em fugir, mas sim em abordá-lo, para
auxiliar os escaleres.


181


Mal tinha começado a andar, quando a fragata disparou por
sua vez. As balas atingiram a amurada e furaram as velas. Uma
delas atingiu o casco, felizmente acima da linha da água.
Momentos depois, o Corsário Negro soltava um grito de raiva:
- A fragata foge!
- Com mil demónios! - gritou Carmaux. - Se consegue evitar a
abordagem, estamos prontos. Temos os escaleres na água e,
enquanto esperamos, a fragata ganhará tempo e caminho!
Com efeito, a fragata, depois da descarga, em vez de esperar
o Relâmpago, mudou de rumo e aproou à costa de Campeche,
procurando refugiar-se nalgum porto do golfo do México. Não
fugia por medo, mas sim para avisar as guarnições das cidades
da costa da presença do navio corsário.
Rápido, o Relâmpago aproou a oeste e meteu-se entre a
fragata e a costa americana. A manobra foi efectuada com tanta
perícia e rapidez que quando o navio espanhol menos pensava,
viu aparecer diante de si a proa do Relâmpago.
Vendo o caminho interceptado, ficou hesitante e depois, de
repente, cobriu-se de fumo e de chamas. Compreendendo que não
conseguiriam fugir, os espanhóis aceitavam a luta, com a
esperança de alcançar a vitória ou de abrirem caminho.
O Corsário Negro não desanimou com a superioridade numérica
do inimigo, com a sua poderosa artilharia e o tamanho do
navio. Opunha-lhes a habilidade dos seus marinheiros,
fuzileiros e artilheiros e, principalmente, contava com os
escaleres de Morgan.
- Fogo à vontade! - gritou. - Vamos abordar a fragata
espanhola!
A artilharia dos dois navios não se calava. Embora os
espanhóis causassem grandes prejuízos ao navio corsário, este
não recuava, aguardando o melhor ensejo para a abordagem.
A batalha durava havia um quarto de hora, com grandes perdas
para ambos os adversários, quando se ouviu enorme gritaria,
uma voz que sobressaía às outras, bradar:
- Para a frente, homens do mar!
- Morgan! - exclamou o Corsário Negro.
Entregou o leme a Carmaux e correu para a amurada. Por entre
o relampejar da artilharia, distinguiu confusamente os
escaleres encostados à fragata.
- Coragem, homens do mar!- gritou. - Os nossos camaradas
abordam a fragata!


182

Nessa altura, ouviram-se gritos terríveis a bordo do navio
inimigo, enquanto as peças e mosquetes ensurdeciam com
constantes detonações.
- Fogo! - gritou o Corsário Negro. - Avante! Vamos à
abordagem!


183


XII


TERRíVEL ABORDAGEM


Os seis escaleres comandados por Morgan aproximaram-se
lentamente da fragata espanhola.
A escuridão favorecia a atrevida manobra, porque os inimigos
não podiam sequer suspeitar a presença da minúscula frota que
navegava sobre as ondas negras como azeviche.
Para evitarem o risco de serem metidos a pique por um ou
outro dos navios, facto muito possível, pois a cada momento
mudavam de posição, Morgan, depois de ter percorrido uma milha
parou. A fragata espanhola estava à distância de setecentos ou
oitocentos metros e, estando a atmosfera calma, Morgan podia
ouvir perfeitamente as ordens dadas a bordo do navio inimigo
e, temendo ser ouvido também e revelar assim a sua presença,
ordenou aos seus homens que se conservassem no mais absoluto
silêncio. Um alarme poderia ter terríveis consequências para
as frágeis embarcações, privadas de todos os meios de defesa.
A fragata, depois da inútil tentativa de fuga, aceitara o
combate, confiada na superioridade da sua artilharia.
Os corsários dos escaleres assistiam a todas as fases da
luta com ansiedade. Se não fosse Morgan contê-los, aqueles
endiabrados homens ter-se-iam lançado contra o navio inimigo,
correndo o risco de serem atingidos pelas granadas ou metidos
a pique.
Quando Morgan viu a fragata completamente envolta em fumo,
deu sinal para avançarem com o máximo da velocidade, mas não
dispararem senão quando ele ordenasse.
Era a altura de tentarem a abordagem. Se os espanhóis dessem
pela aproximação dos escaleres estavam perdidos.


183


- Avancem com cautela! - recomendou Morgan. - E mantenham-se
a sotavento, de modo que o fumo impeça o inimigo de nos ver.
Poucos minutos depois, os escaleres estavam junto da
fragata. Os espanhóis, empenhados a responder às descargas do
Relâmpago, não davam pelo perigo que os ameaçava, tanto mais
que voltavam costas à flotilha. E como estavam longe de recear
um ataque, nem sequer tinham posto homens de vigia a bombordo.
O Relâmpago avançava para tentar a abordagem e todos os
homens da fragata correram para estibordo a fim de repelirem o
ataque.
Morgan levantou-se com a espada na mão direita. Com a
esquerda, agarrou-se a um cabo e, num segundo, estava à altura
da amurada. Catorze homens seguiram-no, trepando como macacos.
Iam a saltar para a coberta quando um gajeiro da fragata
gritou:
- Às armas!
- A eles, corsários! Fogo! - gritou Morgan.
Terrível descarga atingiu os espanhóis, derrubando mais de
metade.
No entanto, a luta era desigual e os corsários iam recuando
perante o número crescente dos espanhóis.
Felizmente, o Corsário Negro chegou na altura precisa.
Descarregou as peças sobre a coberta da fragata e lançou-se à
abordagem.
Habilmente dirigido, o navio corsário encostou à fragata e o
Corsário Negro, abandonando o leme, saltou para o meio dos
espanhóis, à frente dos seus homens, gritando:
- A mim, homens do mar!
Os corsários seguiram-no, prontos a deixarem-se matar pelo
seu capitão. Afrontando as descargas dos espanhóis, saltaram
por cima da amurada, gritando para aumentar a confusão e dar a
impressão de que eram três vezes mais numerosos.
A terrível espada do Corsário Negro abriu um sulco sangrento
por entre os inimigos. Tornava-se impossível deter aquele
punho de ferro e os espanhóis caíam feridos ou mortos.
- Coragem, meus valentes! - gritava. - A mim, Morgan!
Os espanhóis, apanhados entre dois fogos e desorientados com
a rapidez do assalto, vacilaram e recuaram, uns para a ré e
outros para a proa.


184


O terror que naquela época inspiravam os corsários das ilhas
das Tartarugas, considerados filhos do inferno e homens
invencíveis, era tão grande que, por vezes, os espanhóis se
deixavam matar sem resistência, considerando inútil qualquer
tentativa de lutar. Não era de estranhar que depois de ter
combatido na esperança de alcançar a vitória, a tripulação da
fragata começasse a recuar, vendo-se atacada por tão terrível
adversário.
Mesmo assim, não pensavam em render-se e opunham tremenda
resistência, concentrando-se a meio da coberta e no castelo da
proa, procurando tentar desesperado esforço.
- Tentemos o último esforço! - gritavam os corsários.
O Corsário Negro dirigiu-se para a popa, decidido a fazer
arriar a bandeira espanhola. Ninguém tentou impedir-lhe o
passo, tão grande era o terror que inspirava. Com a espada
cortou o pau da bandeira e esta caiu ao mar desaparecendo nas
águas do Golfo do México.
Um hurra imenso, que se repercutiu por todo o navio, saudou
a vitória dos corsários.
- Está tudo acabado! - murmurou Morgan, aproximando-se do
Corsário Negro.
- Mas quanto sangue derramado! - murmurou este, contemplando
tristemente os cadáveres espalhados pela coberta.É terrível
ter de matar homens que nunca vimos.
- Vingamos os morticínios ordenados por Cortés e Pizarro e
por todos os conquistadores que esmagaram os pobres índios
americanos. Os erros cometidos por esses homens tinham de ser
vingados.
O corsário ficou uns momentos calado e depois replicou:
- Disseste que estava tudo acabado, mas enganas-te.
- Os espanhóis não têm outro remédio senão render-se.
- Ainda são muitos e não entregaram as armas. Conservam
ainda os canhões e julgo que novo assalto seria desastroso
para nós. As nossas perdas foram grandes.
- Morreram quarenta homens e quinze estão feridos.
Felizmente que quando voltarmos às Tartarugas repararemos
estas perdas, por que todos os corsários ambicionam embarcar
no Relâmpago e combater debaixo das suas ordens, capitão.
- Vamos tentar evitar novos derramamentos de sangue.
Intima-lhes a rendição.
- As vossas condições.
- A vida de todos sem resgate.


185


Enquanto o Corsário Negro e o seu imediato combinavam as
condições a impor aos espanhóis, os corsários tinham ocupado
as escotilhas a fim de impedir que os espanhóis refugiados no
quadro os atacassem novamente. Estes, por seu lado, tomaram
precauções para evitar surpresas do vencedor. Como o corsário
tinha previsto, apontaram os canhões e levantaram uma
trincheira com sacos de serradura, barris, colchões e com tudo
quanto puderam alcançar.
Ainda eram uns oitenta e, apesar de derrotados, não
tencionavam render-se, confiados no número e na artilharia.
Infelizmente, não se lembravam que, por sobre as suas
cabeças, se abria a escotilha maior, pela qual os corsários
podiam atingi-los. O Corsário Negro e Morgan logo reconheceram
a vantagem que poderiam tirar dessa circunstância. O imediato
não quis parlamentar por essa abertura, para não lhes chamar a
atenção.
Desceu a escada, mas a meio caminho foi detido por quatro
soldados que lhe apontaram as espingardas.
- Baixem as armas! - ordenou Morgan. - Não venho como
inimigo, mas sim como parlamentário. Quero falar com o
comandante.
Um tenente que, por morte do comandante, tinha tomado conta
do navio, apareceu.
- Quem o manda?
- O Corsário Negro.
- Que deseja?
- Intimá-los a renderem-se.
- Diga ao Corsário Negro que os espanhóis morrem, mas não se
rendem.
Morgan subiu à coberta. O Corsário esperava-o.
- Recusam?
- Recusam.
- Admiro-os e, se não estivesse certo que me trairiam,
deixava-os seguir.
- Iriam imediatamente dar alarme em Vera Cruz.
- Não o ignoro, Morgan.
- Tentemos quebrar-lhes a resistência.
- Perderíamos muita gente e talvez sem resultado. Manda
levar algumas caixas de granadas para a ponte.
- Para as atirarmos pela escotilha no momento oportuno, não
é?


186

- Exactamente. - E, erguendo a voz, gritou: - Coragem, meus
valentes! Preparem-se para o combate!

XIII


A RENDIÇÃO DA FRAGATA


Poucos minutos depois, duas colunas de vinte homens cada,
escolhidos entre os melhores atiradores da tripulação, desciam
ao quadro e à sala da guarnição, entrincheirando-se com os
móveis e caixotes empilhados.
Como se adivinha, o Corsário Negro não tencionava
sacrificá-los em novo combate, especialmente contra forças
dobradas. Incumbia-lhes desviar a atenção dos espanhóis. O
golpe decisivo seria dado pela escotilha, em volta da qual
estavam colocados os restantes corsários.
- Principalmente, façam muito barulho - recomendou o
Corsário Negro.
Com efeito, os dois destacamentos, logo que ocuparam o
corredor, abriram fogo contra a barricada espanhola, soltando
ao mesmo tempo gritos tremendos, para lhes fazer acreditar que
se preparavam para os assaltar.
Os espanhóis responderam, disparando as peças que tinham
levado para baixo. O efeito das descargas, dadas a tão pequena
distância, foi desastroso, não para os corsários, mas para o
navio. As balas destruíram móveis e tabiques. Os cristais e
porcelanas quebravam-se com estrépido, os quadros e candeeiros
voavam, feitos em pedaços.
Os corsários, estendidos no chão, embora sentissem cair em
cima deles todos aqueles destroços, não se moviam e respondiam
com descargas de mosquete quase à queima-roupa. O fumo
tornava-se sufocante.
O Corsário Negro, de pé junto da escotilha, escutava com
ansiedade os gritos ferozes que se repercutiam no interior do
navio, talvez, no meio daquele ruído ensurdecedor, esperasse
alguma coisa que lhe indicasse a rendição dos espanhóis.
Decorrido algum tempo, quando o fumo começava a sair pelas
fendas da coberta voltou-se para os seus homens e ordenou:


187


- Preparem as granadas!
- Estão prontas, capitão.
- Então levantem a escotilha e não poupem projécteis. Dentro
de pouco tempo esses homens render-se-ão.
Quatro marinheiros levantaram as duas barras de ferro e
abriram a escotilha. Densa nuvem de fumo se elevou nos ares.
Por baixo daquela fumarada viam-se cruzar relâmpagos e
ouviam-se detonações.
Fragmentos de ferro incandescentes voavam com estridentes
sibilos, semeando a morte entre os espanhóis. Com as contínuas
explosões, ardiam as bases dos mastros e grande número de
línguas de fogo serpenteavam aqui e acolá, ameaçando
propagar-se. Por entre o alarido dos combatentes, gemidos dos
feridos e explodir das granadas, elevou-se a voz do Corsário
Negro, gritando:
- Rendam-se ou serão todos mortos!
- Basta! Basta! - gritaram mais de cinquenta vozes.
- Serão todos mortos! - gritou um corsário, preparando-se
para despejar pela escotilha uma caixa de granadas.
O Corsário Negro voltou-se para ele de espada erguida e
gritou:
- Se não obedeces, quem morre és tu. Vai-te!
A chuva de bombas cessou, assim como as descargas dos
corsários escondidos em baixo. O Corsário Negro debruçou-se na
escotilha e perguntou:
- Rendem-se?
- Sim, depomos as armas - respondeu uma voz.
- Então mandem-me um parlamentário.
Momentos depois um homem subia à coberta. Era o único
sobrevivente de toda a oficialidade do navio. Estava pálido,
tinha a farda esfarrapada e um braço despedaçado por uma
granada.
Entregou a espada ao corsário, dizendo:
- Confessamo-nos vencidos.
Aquele recusou a arma, dizendo nobremente:
- Conserve a sua espada, senhor oficial. É um valente.
- Obrigado, cavaleiro. Agora que exigis de nós?
- Ficareis todos como prisioneiros no meu navio até terminar
a nossa expedição. Depois irei desembarcá-los em qualquer
ponto da costa mexicana, sem exigir resgate.
- Vão atacar a cidade do México? - perguntou o oficial com
doloroso espanto.


188


- Quanto a isso, não vos posso responder. É segredo meu.
E, pegando-Lhe no braço, levou-o consigo para a popa e
perguntou-lhe em voz surda:
- Conhece o duque de Wan Guld?... Sabe se ele está em Vera
Cruz?
O espanhol hesitou.
- Concedi-lhes a vida, quando podia mandá-los para o fundo
do mar com o navio. Pode, portanto, conceder a um fidalgo
favor tão pequeno como é a resposta à minha pergunta.
- Pois bem, sim, o duque encontra-se em Vera Cruz.
- Obrigado.
O oficial debruçou-se na escotilha e gritou:
- Deponham armas. O cavaleiro de Vintemilhas concede-lhes a
vida.
As armas e munições da fragata foram levadas para bordo do
navio corsário, assim como o cofre do comandante, que continha
vinte mil piastras que o Corsário Negro distribuiu pela
tripulação.
Ao meio-dia, o Relâmpago desfraldava as velas e tomava o
rumo do México.
Quanto à fragata espanhola, ardia com rapidez.
- Que pena perder-se tão belo navio! - comentou o Corsário
Negro.
- Não tarda a ir para o fundo - disse uma voz feminina com
terrível inflexão.
O corsário voltou-se e viu a índia.
- Que fazes aqui, Yara?
- Vim assistir à agonia desse navio que pertencia ao
assassino do meu pai.
O corsário não respondeu. Encostara-se à borda e olhava para
a fragata, que ardia como um archote. As chamas envolviam-na
por todos os lados e densa nuvem de fumo negro ondeava sobre
ela.
Embora o Relâmpago se tivesse afastado, ouviu-se
distintamente o surdo rugir do incêndio. A pobre fragata tinha
as horas contadas.
O Corsário Negro voltou-se para Yara e murmurou:
- É terrível tudo isto, não achas?
- Sim, meu senhor, mas ainda não me sinto vingada.


189


- Em breve o estarás - afirmou o corsário, dirigindo-se para
a escada que conduzia à ponte de comando, onde era aguardado
por Morgan.
O imediato, que estava de pé, diante de um mapa, quando viu
o capitão, perguntou, indicando o mapa:
- Onde desembarcamos?
- Sabes se perto de Vera Cruz cruzam navios espanhóis?
- Disseram-me que toda a costa até Tuxpam está vigiada para
evitar uma possível surpresa em Jalapa.
- Nesse caso, um desembarque teria poucas probabilidades de
êxito.
- Nenhumas. Seríamos logo presos. É preferível escolher um
ponto deserto, embora afastado de Vera Cruz, e avançar depois
para a cidade, disfarçados em caçadores ou alquiladores.
- Conheces algum ponto onde possa realizar-se esse
desembarque, sem que nos descubram?
- Poderiam desembarcar ao sul de Tampico, na vasta lagoa de
Tamiahua. Naquele ponto não haverá postos de guarda porque,
nesta época, reina ali a febre-amarela.
- Essa lagoa fica muito longe de Vera Cruz?
- A quatro ou cinco milhas de marcha, sem terem de se cansar
muito.
- Está bem, porque a esquadra não deve chegar a Vera Cruz
antes de dez dias. Desembarcaremos na lagoa de Tamiahua e
espero não encontrar grandes dificuldades para alcançar Vera
Cruz - decidiu o Corsário Negro após alguns monentos de
reflexão.
- E cuidado com os espanhóis. Estão mais vigilantes do que
pensais.
- Saberei despistá-los, Morgan.
Quatro horas depois desta conversa, o Relâmpago, que tinha
conservado o rumo para o norte a fim de passar ao largo de
Vera Cruz, voltou para o ocidente e aproximou-se das praias
mexicanas.
Como a noite estava escuríssima, não seria difícil iludir a
vigilância que os espanhóis exerciam ao largo das costas para
se defenderem dos ataques dos piratas.
O Corsário Negro nem por um instante abandonou a ponte de
comando, desejando assegurar-se por seus próprios olhos de que
o navio não corria perigo.
No dia seguinte, avistavam a enorme península que serve de
barreira à lagoa de Tuxpan.


190


Não sendo prudente aproximarem-se da costa de dia, o Relâmpago
afastou-se para o largo e costeou a península na direcção de
Tampico.
Para melhor enganar os navios espanhóis que, por acaso,
encontrasse, o Corsário Negro mandou retirar parte dos
canhões, esconder mais de metade da tripulação e desfraldar à
popa a bandeira de Castela.
A costa era deserta mas não árida. De quando em quando,
surgiam espessos bosques, formados na sua maior parte por
palmeiras, mas essas amareladas e murchas.
- Parece que a costa sofreu alguma inundação. Nunca vi
palmeiras saírem da água como algas - comentou Morgan.
- De facto, estas costas estão sujeitas a bruscas
modificações - elucidou o Corsário Negro. - Os terramotos
submergem com frequência grandes extensões da terra. Sofrem
depressões e outras vezes elevações.
- É espantoso!
- Admiras-te! Não é só neste ponto que isso acontece. Muitas
costas da Europa, sem serem atingidas por terramotos ou
erupções, sofrem consideráveis alterações de nível.
Afastemo-nos mais para o largo e manda aprontar o meu escaler.
- Quem vos acompanha, capitão?
- Carmaux, Wan Stiller, Moko e Yara.
- Yara também! - exclamou Morgan, espantado.
- Talvez me seja mais útil do que os outros - respondeu o
corsário, sorrindo. - Sabe muitas coisas que os nossos homens
ignoram.
- Conheceis o sítio onde se oculta o vosso inimigo?
- Exactamente, Morgan, e será esse também o sítio onde o
matarei.

XIV


A LAGOA DE TAMIAHUA


Três dias depois, às onze da noite, o Relâmpago alcançava a
ponta meridional da lagoa da Tamiahua, pondo-se à capa a
quinhentos metros da costa.


191

Nem uma só luz fora avistada naquelas paragens, sendo de
esperar que nenhum navio cruzasse aquelas águas e não
existissem postos de guarda para defesa da costa.
O Corsário Negro, depois de ter observado o horizonte em
todas as direcções, desceu à tolda. Os marinheiros estavam
arriando um escaler carregado com caixas de víveres.
Carmaux, Wan Stiller e Moko tomaram lugar nesse escaler.
Tinham abandonado o fato de marinheiro para envergar calções
de pele franjada, grandes casacos de cores variadas, apertados
com faixas, dentro das quais haviam metido navalhas e
pistolas.
Na cabeça levavam chapéus de palha de grandes abas que
ocultavam a maior parte do rosto. Só o Corsário Negro
conservava o seu trajo cor da noite e a espada com a qual
tencionava matar o assassino dos irmãos.
- Tudo pronto? - perguntou. - Onde está Yara?
- Estou aqui, meu senhor - respondeu a índia, aparecendo
imediatamente.
Como os companheiros, tinha mudado de trajo. Estava
envolvida numa capa e ocultava os lindos cabelos sob o enorme
chapéu de abas largas, enfeitado com fita franjada.
- Dai-me as vossas ordens, capitão - pediu Morgan.
- Reúne-te, o mais depressa possível, à esquadra dos nossos
aliados e marcha com eles sobre Vera Cruz. Eu lá estarei a
esperar-vos.
- Conheceis o ponto onde deve realizar-se o desembarque?
- Conheço. A duas léguas ao sul da cidade. Adeus, Morgan,
até breve.
Sentou-se à popa do escaler, ao lado de Yara, e fez sinal
aos homens para largarem.
Carmaux, Wan Stiller e Moko pegaram nos remos e o escaler
afastou-se, enquanto o Relâmpago virava para retomar o mar
largo.
Um leve nevoeiro ondeava por cima das águas negras da lagoa,
tornando a noite mais escura.
O escaler, impelido pelos três remadores, fugia diante do
nevoeiro que o vento atirava para a costa. Ao leme, o Corsário
Negro regulava o rumo. De vez em quando, observava a bússola
que levava consigo e trocava algumas palavras com Yara.


192


Tendo encontrado um canal aberto entre os bancos de areia, o
escaler avançou devagar para não encalhar.
Ninguém sabia onde se encontrava pois nenhum deles conhecia
aquela praia, nem mesmo Yara.
O escaler navegou por entre um labirinto de plantas
aquáticas e bancos de areia. Grupos de mangueiras surgiam aqui
e ali, estendendo os seus ramos em todas as direcções e
exalando pestíferos miasmas.
- Estaremos num pântano? - sugeriu o Corsário Negro.
- Abundam nas costas mexicanas, tal como os crocodilos -
replicou Wan Stiller.
- Viste algum? - perguntou Carmaux.
- Vi e olhava para o escaler com tais olhos que devia ter
grandes desejos de o esmagar com uma pancada.
O escaler navegava direito a uma ilhota, coberta de árvores
altíssimas. Dentro em pouco desembarcavam.
A escuridão era tão profunda que não conseguiam distinguir
coisa alguma; dos canais subia leve nevoeiro saturado de
miasmas.
Os corsários sentaram-se junto de enorme árvore, embrulhados
nos capotes para se defenderem da humidade e com as
espingardas poisadas no chão, a seu lado, pois não se sentiam
muito seguros.
Com efeito, pouco depois, ouviram a pouca distância um grito
agudo que terminou em pavoroso rugido.
- Aí estão os caimães - disse Carmaux, tremendo.
Um forte cheiro a almíscar espalhou-se pelos ares, sinal
evidente de que os terríveis animais andavam perto.
Depois do primeiro grito, tudo ficou em silêncio. Pouco
depois, porém, repetiu-se, mas não partiu do canal. Soou no
alto, entre os ramos das árvores.
O concerto era de ensurdecer. Mugidos, rugidos, notas agudas
e uivos fortíssimos.
- Parece que endoideço, capitão. Tenho a cabeça em água!
` Com efeito, os gritos tinham atingido tão grande intensidade
que poderiam ser ouvidos até por um surdo.
- Os caimães preparam-se para nos atacar - disse o Corsário
Negro.
- Com efeito, vejo dois ou três - afirmou Moko.
O nevoeiro dissipara-se e o dia começava a romper,
permitindo que se distinguisse o que se passava no canal.


194


Um enorme sáurio, pelo menos com seis metros de comprimento,
saíra do meio dos canaviais e avançava lentamente para o
ilhote ocupado pelos corsários.
Tentando enganar os inimigos, conservava a cabeça debaixo de
água, levantando-a de longe em longe, para respirar. A cauda
também não se via, mas, pela esteira que produzia, tornava-se
fácil descobri-la.
- Procura surpreender-nos - disse Carmaux. - Mas não seremos
tão tolos que o tomemos por um tronco de árvore.
- Deixa-o aproximar e verás o que lhe acontece - respondeu o
negro.
- Será preciso empregar as espingardas?
- É inútil, compadre branco, tanto mais que as detonações
podem chamar a atenção dos espanhóis.
O gigante cortou grosso tronco de árvore e com a navalha
despojou-o das folhas e troncos pequenos. Depois escondeu-se
entre os canaviais que cresciam na margem.
Carmaux e Wan Stiller também se esconderam, enquanto o
Corsário Negro se ocultava com Yara atrás do tronco de enorme
árvore.
O caimão avançava devagar, deixando-se levar pela corrente.
Não mexia a cauda e apenas agitava as patas.
Estava já perto da margem quando apareceu segundo caimão e
depois terceiro. Mugidos ouviram-se a distância e mais caimães
apareceram.
- Que se passa? - inquiriu Carmaux, deveras espantado. -
Dir-se-ia que estes animais não pensam atacar-nos.
Com efeito, os caimães lançaram-se uns contra os outros com
espantosa fúria, abrindo as queixadas monstruosas, munidas de
formidáveis dentes. Só um deles, o mais pequeno, se conservava
longe da luta, resguardado com o canavial.
- Lutam pela fêmea que se refugiou além, não vês? - elucidou
o negro.
- Nunca poderia supor que estes monstros tivessem ciúmes uns
dos outros.
- E que ciúmes! E ela assistirá tranquilamente à batalha e
depois seguirá o vencedor.
Entretanto, os quatro sáurios lutavam uns com os outros.
A água saltava por todos os lados, agitada pelas pancadas
das caudas e ouvia-se o estalar das mandíbulas.


195


Um deles, talvez o mais fraco, já estava fora do conbate; o
rival, com tremenda dentada, esmagara-lhe o focinho. O pobre
mutilado, coberto de sangue, debatia-se entre os canaviais da
margem.
Segundos depois, outro dos caimães, assaltado por dois ao
mesmo tempo, foi vencido e morto. Os vencedores, porém,
encontravam-se em muito mau estado. Um deles tinha a queixada
partida e o outro tinha perdido um dos membros anteriores.
Apesar disso, livres dos outros dois rivais, atiraram-se um
ao outro, soltando surdos mugidos.
O que tinha a queixada partida, porém, logo que apanhou as
primeiras dentadas, fugiu para o ilhote ocupado pelos
corsários e passou a defender-se com a cauda.
Vendo-o aproximar, Moko levantou o tronco, disposto a
dar-lhe o golpe mortal, mas era inútil, porque o rival não
desistia e os dois sáurios, embora esgotados pela perda de
sangue, recomeçaram a luta com redobrado furor.
- Moko! - gritou de repente o Corsário Negro. - O nosso
escaler!
Os dois sáurios, com efeito, ameaçavam a ligeira embarcação
com as constantes pancadas da cauda.
Moko, seguido por Carmaux e Wan Stiller, correu para a
margem quando se ouviu um ruído seco e o escaler, despedaçado
por formidável pancada, afundou-se rapidamente.
- Com seiscentos demónios! - gritou Carmaux.
- Ladrões! - vociferava ao mesmo tempo o negro.
E, louco de cólera, sem medir o perigo, precipitou-se contra
os dois adversários, que, cegos pela ira, ainda não tinham
dado por ele.
Levantando o tronco, vibrou terrível pancada que partiu a
espinha dorsal de um dos monstros. Perante o ataque, o outro
voltou-se e atirou-se ao negro, que mal teve tempo para dar um
salto para trás.
Vendo o perigo, o Corsário Negro correu e, rápido como um
relâmpago, enterrou a espada na garganta do caimão.
No entanto, talvez esta ferida não fosse suficiente para
deter o animal furioso, quando o negro atacou novamente e, com
tremenda pancada, lhe esmagou as escamas do dorso. O caimão
ficou meio tonto, mas, reunindo as suas últimas forças,
desapareceu debaixo de água, que se tingiu de sangue.


196


- Vai procurar a fêmea, anda! - gritou Carmaux.
- É tarde para isso. A senhora aborreceu-se e foi-se embora
- comentou Wan Stiller.
- E nós ficámos sem escaler! - comentou Moko.
- E sem comida, porque os nossos mantimentos devem estar, a
estas horas, no estômago dos peixes.

XV


A JANGADA


Carmaux tinha razão. Além de perderem o escaler, os
corsários tinham perdido também os mantimentos e grande parte
das munições. Por sorte, não haviam abandonado as espingardas
e possuíam uma centena de cargas embrulhadas nas mantas que
Yara tivera a precaução de levar por causa da humidade.
Mesmo assim, a situação não podia considerar-se das mais
agradáveis. Os três corsários, o capitão e a índia
encontravam-se perdidos numa ilhota, no meio de imensos
pântanos que desconheciam e estavam infestados de caimães.
- Comer esses animais? - protestou Carmaux com ar enjoado.
- A cauda não é má. Já a comi por mais de uma vez. Tem um
sabor almiscarado, é verdade, mas ao qual não é difícil
habituarmo-nos.
- E a falta do escaler como remediá-la? - perguntou Van
Stiller. - Teremos de ficar aqui para toda a vida?
- Madeira não falta - observou o Corsário Negro. - Os meus
marinheiros, por acaso, não sabem construir uma jangada?
- Sou um burro, capitão. Não me tinha lembrado disso.
- Moko - ordenou o Corsário Negro -, agarra no teu machado e
vai cortar algumas árvores.
- E nós vamos apanhar lianas.
- E o almoço? - perguntou o Corsário Negro. - Não se pode
trabalhar com o estômago vazio. Enquanto Moko corta as
árvores, tu e Wan Stiller percorram a ilha e, se não
encontrarem melhor, tragam-nos um macaco.
Carmaux fez uma careta.


197


- Em Gibraltar comeste pior. Se bem me recordo, chegaste a
cobiçar serpentes.
- Nessa altura morríamos de fome, capitão.
- E aqui não nadamos em abundância. Vamos, aviem-se.
Entretanto, Yara vai acendendo uma fogueira.
Enquanto o negro e o Corsário se dirigiam para o bosque a
fim de escolher e abater as árvores, Carmaux e o hamburguês
afastavam-se para arranjar almoço. O ilhote era muito maior do
que supunham e árvores não faltavam. No terreno, adubado pelas
folhas apodrecidas, cresciam várias espécies de palmeiras,
mangueiras, entre os ramos das quais não seria difícil
encontrar alguma peça de caça.
Carmaux e Wan Stiller avançavam com precaução. Como o Sol já
tinha nascido, bandos de pássaros elevavam-se nos ares e no
cimo das palmeiras e outras árvores os macacos divertiam-se
guinchando e saltando.
- Antes de recorrermos aos macacos, tentemos arranjar assado
mais saboroso - alvitrou Carmaux, que, de repente, soltou uma
praga.
- Com mil baleias! Vi um animal fugir por entre a erva.
Parecia um coelho.
- Se fosse, de facto, um coelho, que rico almoço, Carmaux.
- Cala-te que até me cresce água na boca.
Os dois corsários, antevendo delicioso assado, correram para
o ponto onde viam as ervas agitarem-se.
Um animalzito fugia diante deles, mas sem grande pressa.
Chegado junto da velha árvore, viram-no meter-se por um
buraco, ficando de fora a cauda, comprida e escamosa.
- Estás apanhado, patife! - gritou Carmaux, agarrando-o.
Puxou; mas, com grande espanto, não conseguiu obrigar o
animal a sair.
- Com mil baleias! - exclamou Carmaux. - Será possível que
sejas mais forte do que eu, se não és maior do que um coelho!
Com uma das mãos agarrou a cauda do animal e com a outra
empunhou a navalha, meteu-a pelo buraco e empurrou-a com
força. O animalzinho ainda tentou resistir, mas, por fim,
cedeu e abandonou o seu refúgio.
Era do tamanho de um coelho grande e tinha o dorso coberto
por uma verdadeira couraça de placas ósseas e amareladas,
muito resistentes.


198


Mal tocou no chão, enrolou-se de tal forma que ficou feito
numa bola defendida pela couraça de escamas.
- Estranho animal! Como soube enrolar-se na sua couraça!
- Que não o defenderá de nós - retorquiu Carmaux,
batendo-Lhe com a coronha da espingarda.
O animal soltou um grito e morreu.
Munidos com o almoço, os dois homens regressaram ao
acampamento; pelo caminho dispararam ainda contra os bandos de
pássaros, matando grande número deles.
Quando chegaram, Moko já tinha cortado grande número de
árvores e apanhado muitas lianas que serviriam de cordas.
Enquanto Yara preparava o almoço, os corsários começaram a
construir a jangada. Como eram habilidosos, bastou uma hora
para que ficasse pronta e suficientemente grande para caberem
todos.
Como medida de precaução, rodearam a borda com grandes
ramos, como defesa contra caimães. Ao centro, construíram uma
espé cie de cabana, feita com bambus e folhas de palmeira.
Às oito da manhã, depois de terem almoçado, tomaram lugar na
jangada e os três corsários, pegando nos remos, afastaram-se
da ilhota, contornando os bancos de areia.
O Corsário Negro, que tinha subido para cima da cabana a fim
de abraçar mais largos horizontes, avistou ao longe uma linha
escura não interrompida que devia ser uma floresta.
- Vejo além terra firme - declarou - mas teremos ainda,
muito trabalho para a alcançar. Conduz a jangada sempre para
oeste, Carmaux.
- Tentarei, capitão, mas torna-se difícil por causa dos
canais que dão voltas muito caprichosas.
A jangada avançava lentamente. Não corria um sopro de vento.
Bandos de pássaros de todas as espécies cruzavam os ares.
Deitados indolentemente nos bancos de areia, viam-se muitos
zapilotes, espécie de abetardas pequenas, de plumagem escura e
que no México desempenham o ofício de varredores. Dotados de
extraordinária voracidade, engolem tudo quanto apanham.
- Isto é um verdadeiro paraíso para os caçadores! - Comentou
Carmaux, que seguia com olhar cobiçoso as evoluções das aves.
- Se não tivéssemos pressa, poderíamos fazer uma boa colheita,


199


não achas, amigo Stiller?
- Tens razão. Repara naquela esplêndida ave!
- Bocado de rei, meu amigo.
- E aquele pássaro de aspecto aguerrido que vem além, não
vês, Carmaux?
- É um kamiki - elucidou Moko.
- Fico na mesma, meu caro Saco de Carvão.
- Presta atenção e verás que pássaro é. Prepara-se uma
batalha.
A ave em questão era um pássaro de plumagem quase negra,
munido com uma espécie de chifre, asas robustas, pernas
fortes, patas com agudos esporões.
O Corsário Negro e Yara também se tinham aproximado da borda
da jangada, olhando com interesse o estranho volátil.
- É um animal valente que não receia qualquer inimigo.
Reparem, prepara-se para atacar uma serpente que se esconde no
canavial - elucidou Yara.
Com efeito, o kamiki precipitara-se para o chão, mergulhara
por entre as canas, batendo com as asas e inclinando a cabeça,
disposto a levantar o adversário, que, sabendo a espécie de
inimigo que tinha de defrontar, se ocultava obstinadamente.
Não tardou, porém, que aparecesse entre as canas. Era uma
serpente negra como ébano, grossa como um braço e com a cabeça
achatada. Era uma aligator, réptil muito vulgar nos pântanos
da América Central.
Vendo o kamiki, tentou apanhá-lo e mordê-lo. Por seu lado, a
ave, já habituada a esta espécie de combates, defendia-se com
os esporões, enquanto a serpente sibilava, projectava a língua
bífida e se enroscava ou dava saltos prodigiosos,
alternadamente.
O Kamiki, dotado de espantosa agilidade, não estava quieto
um momento. Saltava, ameaçando a serpente com o corno,
retrocedia, esquivando-se e defendendo-se com as asas, depois
voltava a atacar.
A serpente perdia a calma. Saltava a cada instante, correndo
o perigo de ir ela própria cravar-se nos agudos esporões.
A luta já durava havia alguns minutos quando o kamiki,
calculando que o adversário já estava cansado e desorientado,
atacou-o resolutamente.
Agarrá-la com o bico, atordoá-la com duas pancadas das asas
e levá-la pelos ares foi obra de um momento.


200


Elevou-se a dez ou doze metros, deixou-a cair e depois por
sua vez, caiu sobre ela e despedaçou-lhe o crânio com uma
bicada.
Feito isto, começou tranquilamente a comê-la, como se não
passasse de uma inofensiva enguia.
- Bom apetite! - gritou Carmaux, quando a valente ave se
elevou nos ares e satisfeita, desapareceu por entre as nuvens.

XVI


A CAÇA AO LAMANTINO


À noite, a jangada, que ainda não tinha conseguido alcançar
a terra firme, chegava junto de uma ilhota coberta de
luxuriante vegetação.
Os corsários, que tinham remado todo o dia debaixo de um sol
implacável, sentiam-se cansados e, principalmente, cheios de
sede, pois não tinham conseguido encontrar uma gota de água
doce.
Por várias vezes provaram a da lagoa, mas reconheceram ser
ela salobra e incapaz de ser bebida.
- Um copo de água em troca do meu cachimbo! - dizia Carmaux.
- Já não posso mais.
- Uma gota de água por todas as piastras que possuo! -
acrescentou Wan Stiller.
- Receio, meus amigos, que tenhamos de passar a noite sem
molharmos os lábios - replicou o Corsário Negro. - Até
encontrarmos um rio não teremos água para beber.
- Esperem aí - disse Moko, que, havia algum tempo, olhava
atentamente para as plantas da ilhota.
- Que esperas encontrar?... Alguma fonte - disse o Corsário
Negro. - Não existem nestes terrenos lodosos.
- Julgo ter visto uma planta que nos matará a sede.
- Uma árvore fonte! - exclamou Carmaux, rindo. - Nunca ouvi
falar em árvores que dessem água.
- É uma coisa parecida, compadre branco.
- Se nos desse vinho também...
- Contenta-se com água, por agora - replicou o negro. -
Venham comigo.


201


Depois de ter percorrido cerca de duzentos passos, Moko
parou diante da bela árvore que se erguia, solitária, a meio
de uma clareira.
Era uma espécie de salgueiro com mais de sessenta pés de
altura, com a copa semelhante a enorme cúpula, formada por
foLhas oblongas e largas, não tanto como as das palmeiras.
Dos ramos e do tronco da estranha árvore brotava água em tão
grande quantidade que formava um grande charco no chão. Era
uma espécie de chuva contínua, incessante, que caía com
monótono rumor.
- Uma verdadeira fonte! Nunca vi coisa igual - exclamou
Carmaux, no auge do espanto.
- Na verdade, é curiosíssima! - concordou o Corsário Negro.
- Como se chama?
- É um tamai caspi (1) - respondeu Moko. - Esta árvore
absorve e condensa a humidade da atmosfera por meio de órgãos
especiais. Nas Canárias também se encontram.
- Está sempre a chorar assim? - perguntou Carmaux.
- Nunca pára. Quando secam os rios e as fontes, mais ela
goteja.
- Vê se encontras outra tamai caspi que chore frangos
assados, por exemplo.
- Estás muito exigente, compadre branco. Nem mesmo em África
encontrei árvores dessa natureza.
- Nesse caso, procuremos arranjar comida por outro meio.
Como a responder-lhe, ouviu-se um grito estranho, emitido
por um animal que não devia ser muito pequeno.
- Que é isto? - perguntou Carmaux.
O negro e Yara voltaram-se e escutaram com atenção.
- Pareceu-me o grito de uma vaca-marinha, ou seja, de um
lamantino.
- Animal delicioso, mas difícil de capturar.
- Se empregássemos as espingardas?
- Bastaria um arpão.
- Não o temos.
- Pode fazer-se - alvitrou Moko. - Tens uma corda?


*1 Esta árvore actualmente só se encontra em alguns dos
vales do Peru e da Bolívia.


202


- Quantas quiseres. Um marinheiro nunca está desprevenido a
esse respeito.
- Nesse caso, o lamantino é nosso.
- Que espécie de animal é esse?
- Em breve verás, ou antes, provarás. É melhor do que os
frangos assados que há pouco pediste.
Segundo grito soou mais de perto. O animal devia
encontrar-se a cerca de uma milha da ilhota.
O negro cortou um ramo bastante direito, despojou-o das
folhas e numa das extremidades amarrou a navalha, arranjando
assim uma espécie de lança com cerca de três metros de
comprido.
- Venham e não façam barulho - recomendou.
Cauteloso, dirigiu-se para o ponto onde se encontrava a
jangada. Chegando perto da margem, parou, ocultando-se atrás
das mangueiras que cresciam naquele ponto, e observou
atentamente as águas do canal.
A noite estava escura, mas como não havia nevoeiro, via-se
perfeitamente o que se passava na lagoa.
A pequena distância da jangada, as águas agitavam-se.
- Está ali - disse o negro, voltando-se para os
companheiros.
- Deve estar a comer.
- Não o vejo - replicou Carmaux.
- Espera um pouco. Deixem-se estar escondidos que não tarda
a aparecer. Ele aí está.
O Corsário Negro e os companheiros inclinaram-se para a
frente e espreitaram. Entre as ervas que bordavam a margem
apareceu um animal, semelhante a uma foca, mas com o focinho
pontiagudo e não redondo.
- É o lamantino?... Está gordo...
- E logo verás como é saboroso - replicou Moko.
- Se não fugir - comentou o Corsário Negro.
- Não se mexam - recomendou o negro.
Depois empunhou a lança e avançou cautelosamente por entre
os arbustos, fazendo o possível para não ser pressentido. O
lamantino estava submerso, mas, de vez em quando, levantava a
cabeça como se tivesse ouvido barulho e procurasse descobrir
donde vinha.
De repente, Moko surgiu, a lança sibilou e foi cravar-se no
lombo do lamantino, penetrando profundamente na carne.


203


- Vamos para a jangada! - gritou Moko, correndo, seguido
pelos três corsários e por Yara.
O lamantino, ferido mortalmente, debatia-se entre os
arbustos da margem, lançando uma espécie de grunhidos, que,
pouco a pouco, iam enfraquecendo.
Rebolava-se, quebrando as canas com o seu peso, mergulhava
ruidosamente e voltava a aparecer, soltando surdos grunhidos.
Apesar destes esforços desesperados, a lança não se soltava
e, pelo contrário, mais fundo se cravava aumentando a perda de
sangue.
- A ele!... A ele! - gritou o Corsário Negro, correndo de
espada na mão.
Saltaram para a jangada, que, impelida pelas remadas de
Carmaux e de Wan Stiller, atravessou rapidamente o canal e
alcançou o animal que se debatia no meio do canavial.
- Está morto! - gritou Moko.
O lamantino, com a cabeça esmagada, estava caído nõ banco de
areia e exalara o último suspiro.
- Já temos jantar e que jantar! - exclamou Carmaux, enquanto
Moko partia o animal aos bocados. - Seriam precisos cem homens
para dar conta dele.
O Corsário Negro, inclinado para o animal, examinava-o com
curiosidade.
Com algumas machadadas, Moko cortou a parte inferior do
lamantino, magnífico pedaço de carne bastante para os
alimentar durante alguns dias. O resto foi abandonado aos
caimães, pois não tinham tempo nem meio de conservar tanta
carne.
Regressaram à ilhota, acenderam bela fogueira e assaram o
bocado de lamantino. A espoleta da espingarda serviu de
espeto.
O jantar foi delicioso, mas Carmaux lamentava-se por não ter
pão e uma garrafa de genebra ou rum.
No dia seguinte voltaram a navegar, com a esperança de
alcançarem terra antes do pôr do Sol.
Como o vento era favorável e acelerava o andamento da
jangada, colocaram em cima da cabana alguns ramos frondosos
que, bem ou mal, serviam de velas. Ao meio-dia, depois de
terem percorrido muitos canais e passado por muitas ilhotas, o
Corsário Negro descobriu uma coluna de fumo que subia por
entre o arvoredo.
- Serão espanhóis ou índios? - perguntava de si para si o
Corsário Negro.


204


- Debaixo daquelas árvores deve estar gente acampada -
observou Carmaux, que também tinha dado pelo fumo. - Devemos
afastar-nos ou aproximamo-nos?
- Que dizes, Moko? - perguntou o Corsário, voltando-se para
o negro.
- Não devem ser espanhóis - declarou o interpelado. - Neste
ponto, que eu saiba, não existem povoações.
- E tu, Yara, que me aconselhas?
- Aproximemo-nos do acampamento, meu senhor. Se são índios
nada temos a recear e, pelo contrário, poderemos obter,
talvez, valiosas informações.
- Vamos então para a costa - decidiu o Corsário Negro,
depois de breve hesitação. - De facto, por aqui não devem
existir espanhóis.
A jangada encontrava-se à entrada de um canal que parecia
dirigir-se justamente para a coluna de fumo.
O vento continuava a empurrá-la, impelindo-lhe certa
velocidade.
Ilhas e ilhotas sucediam-se à direita e à esquerda, umas
cobertas de canas, outras de árvores muito grossas. À beira da
água famílias de caimões dormiam ao sol.
Às duas estavam separados de terra firme apenas por meio
quilómetro. A costa, muito baixa, era coberta por arbustos e
árvores; viam-se muitas palmeiras e frondosos cedros.
A coluna de fumo já não era visível, mas o Corsário Negro
contava poder chegar ao acampamento, pois tivera o cuidado de
tomar nota da sua posição.
- O último esforço, meus amigos! - gritou Carmaux para os
companheiros. - Em breve poderemos descansar.
A água descia pouco a pouco. O fundo, coberto de plantas,
dificultava o avanço da jangada. Mas esta última dificuldade
foi vencida e às quatro os corsários e Yara desembarcavam na
orla do bosque.
- Vamos ao acampamento? - perguntou Carmaux.
- Preferias descansar, não é verdade, meu valente? -
perguntou o Corsário Negro.
- Será melhor dizer que preferia preparar o jantar, capitão
- respondeu Carmaux, rindo. - Ainda nos resta um bom bocado do
lamantino.
- Está dito, vamos jantar - concordou o Corsário Negro. -
Iremos depois procurar o acampamento.


205


- Entretanto, compadre Saco de Carvão, vai procurando
árvores de fruto. Não devem faltar por aqui...
- E mel - acrescentou o negro, que olhava atentamente para
as árvores.
- Com mil baleias! Mel, disseste tu?... Viste alguma
colmeia?
- Não, vi formigueiros.
- Formigueiros!... Que têm as formigas com o mel que
prometeste?
- Moko, quando promete, cumpre - respondeu o negro. -
Sigam-me e verão.
Seguido pelos corsários e pelo capitão, não menos admirado
do que Carmaux, internou-se pelo bosque, parando diante de
pequeno montículo com um metro de largura e cerca de dez
centímetros de altura.
- Que é isto?
- Um formigueiro. Agora, olha.
Por pequeno buraco aberto no alto do montículo saíam naquele
momento algumas formigas maiores do que as nossas e tão
redondas que mais pareciam bagos de uva.
Moko agarrou uma, esborrachou-a entre os dedos e,
aproximando-a dos lábios, chupou com avidez.
- Porcaria! - comentou Carmaux.
- Está cheia de mel - afirmou o negro.
- Não acredito. Nunca ouvi dizer que as formigas produzissem
mel.
- Então espera um instante, compadre branco.
Com a navalha fendeu o montículo e pôs a descoberto uma
série de galerias, divididas por pequenas paredes construídas
com pedrinhas amassadas com lama.
Continuando a escavar as galerias cheias de formigas,
levantou um bocado de terra e mostrou aos assombrados
companheiros oito células de forma ovalada com seis polegadas
de diâmetro por quatro de altura.
Estavam cheias de uma substância escura que exalava um
cheiro acidulado.
- Que é isso? - perguntou Carmaux.
- Mete lá o dedo e prova, compadre branco.
- Não me fio em ti! - respondeu o marinheiro.
- Vou provar - declarou o Corsário Negro.
Enterrou o dedo na tal substância e levou-o aos lábios.


206

- É mel e do melhor - declarou.
- É, de facto, mel, capitão?
- Esplêndido, Carmaux. Apenas um pouco mais ácido que o das
abelhas, por causa do ácido fórmico que têm as formigas, Estas
laboriosas formigas abundam na América Central,
particularmente no México e no Colorado.
Devemos acrescentar que são muito perseguidas pelos homens e
pelos animais, principalmente pelos ursos-formigueiros, que;
além de comerem o mel, também comem as suas produtoras: o mel
que produzem pouca diferença faz do das abelhas e tem um sabor
agradável mas não é perfumado. É uma solução açucarada sem
vestígios de cristalização.
A matéria-prima é extraída da goma açucarada dos galhos dos
carvalhos e calcula-se que sejam necessárias novecentas
formigas para fabricarem cerca de uma libra de mel.
Os mexicanos e, principalmente, os índios, consomem muito
deste mel e sabem também extrair dele uma bebida muito
alcoólica e saborosa.


207


FIM

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