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sábado, 11 de junho de 2011

A nova ordem. Continuação da saga Crepúsculo, escrito por outro autor.

Crepúsculo.
G. K R A L J
Nova Ordem

PRÓLOGO
BELLA
O ciclo se repetia. Mais uma vez o amor era dividido por três jovens, confusos corações e mais uma vez,
seres inescrupulosos sondavam por uma oportunidade de atacar.
Adoraria que essas coisas parassem de acontecer com minha família, gostaria que minha má sorte fosse
infligida somente a mim. Estamos sempre em estado de alerta para não perdermos quem amamos para os
perigos que insistem em nos perseguir, ou melhor, me perseguir.
Agora sinto uma responsabilidade maior, não sou mais Bella, uma estudante, adolescente, que mora
com seu pai numa cidadezinha esquecida do mundo. Forks.
Apesar de minha aparência de dezoito anos, sou agora esposa e mãe, não posso esquecer o fato de que
também me tornei uma vampira. Um ser imortal. Virtualmente indestrutível. Gostaria de poder dizer o
mesmo sobre todos os que amo: Charlie, René, Jacob e principalmente Renesmee.
Agora só me resta fazer o que estiver ao meu alcance para que o mal não chegue até eles, nem que
para isso eu precise findar minha existência imortal, ou pior.
Depois de uma quase guerra com os Volturis, que acabaria com nossa família juntamente com algumas
dezenas de novos amigos, estamos nos ajustando bem.
É verdade que nem tudo é perfeito, mas não posso deixar de me levar nessa onda de constante
felicidade que nos rodeia, mesmo isso sendo o que mais me preocupa. Não posso baixar a guarda. Algo
dentro de mim insiste em me dizer pra estar pronta. Os Volturis não podem nos atacar abertamente
depois de tudo que aconteceu, porém não posso esquecer que eles são criaturas milenares, astutas, sem
escrúpulo algum e principalmente, querem os talentosos de minha família.
Eu não estaria novamente à mercê dos acontecimentos. Não poderia. Estaria pronta pra enfrentar os
que tentassem fazer mal aos meus. Edward tenta insistentemente em me convencer que não preciso disso,
que Alice nos avisaria quando os Volturis decidissem fazer algo contra nós. Ele só quer me proteger, me
poupar. Entendo e amo isso nele, mas Alice não é a prova de falhas e eu não posso me dar o luxo de correr
o risco de perder os que amo.
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1. Nossa! Renesmee na escola
BELLA
Ainda ontem embalava meu bebê nos braços e agora ela é uma adolescente, bem, pelo menos é isso
que todos pensam que ela é e o que sua documentação falsa diz. Eles nem mesmo desconfiam que ela na
verdade, não passa de uma meio humana e meio vampira, uma híbrida. E que não tem mais do que dois
anos e oito meses de vida.
Gostaria que ela não tivesse crescido tão rápido. Quase não pude aproveitar sua infância. Seu corpo
desacelera o crescimento gradativamente até que chegue ao amadurecimento completo aos sete anos de
vida. Isso, se seguir aos padrões de amadurecimento de Nahuel, que serve como parâmetro de avaliação
de sua condição. Porém, o que me preocupa é que cada indivíduo é único, portanto não existe garantia
alguma de que ela se desenvolverá igualmente.
As coisas têm ficado cada vez mais estranhas porque, se existissem celebridades no meu novo mundo,
aparentemente, seríamos nós. Somos uma família, ao invés de apenas um pequeno agrupamento de
vampiros, assim, somos considerados incomuns. Vampiros tendem a ser solitários ou no máximo se
juntarem aos pares. Somos vegetarianos, não sobrevivemos do consumo de sangue humano, o que é
ainda mais raro no nosso mundo. Temos muitos talentosos em nossa família, uma das poucas híbridas de
que se tem notícia com exceção das meio-irmãs de Nahuel. Temos uma relação de amizade com os
homens-lobos, nunca antes vista na história vampírica. E principalmente, o que atrai mais a atenção à
nossa família é o fato de sermos os únicos a desafiarem os Volturis e ainda existirem para contar a história.
Temos recebido vários visitantes. Alguns dos nossos novos amigos e alguns desconhecidos curiosos em
encontrar cara-a-cara com híbridos, Nessie e Nahuel. E é claro que tem também os visitantes mais
freqüentes, como os Denalis, agora com Garret fazendo parte de sua família.
Para nosso desgosto, alguns novos amigos não nos visitam com tanta freqüência quanto gostaríamos. É
o caso de Zafrina, claro que isso tem relação com a distância geográfica de onde elas se estabeleceram
América do Sul. Tenho certeza que o sentimento de saudade é mútuo, uma vez que sempre que podem,
nem a distância as impede de vir nos visitar.
Se Nessie fosse uma criança comum, eu teria um grande problema nas mãos. Porque escolher uma
madrinha para ela seria uma guerra. É óbvio que Rose, Alice, Zafrina e Carmem disputariam a função à
dentadas. Por outro lado, me deixa um pouco mais aliviada em saber que, se algo acontecesse comigo, ela
teria várias pessoas para protegê-la, quase com mesmo afinco que eu.
Nessie, Ugh! Nem mesmo eu consigo evitar de chamar minha filha por esse apelido odioso que Jacob
criou e se espalhou como uma endemia.
Ela é muito inteligente e madura para sua aparente idade, acreditam que ela tem quinze anos, mesmo
aparentando ter por volta de dezesseis ou dezessete. Isso se deve ao fato de constar quinze em sua
documentação obrigada novamente J. Jenks. Dessa vez eu preferi eu mesma fazer a negociação com o
pobre, para que o Jasper não lhe cause um ataque cardíaco.
Para a sorte dela, Nessie herdou muito das características físicas do pai, porém tem meus olhos e
tamanho. Bem, talvez tenha herdado também um pouco da minha falta de coordenação motora de
quando era humana, mas somente quando está muito nervosa ou ansiosa.
Graças à queda considerável no seu nível de desenvolvimento físico, os humanos na escola não poderão
perceber facilmente que ela é diferente deles. O que é um grande alívio para todos nós e felicidade para
ela que sempre quis freqüentar a escola, desde muito cedo. Ela ficava maravilhada com as histórias que
contávamos sobre nossos períodos na escola e extremamente curiosa em saber como se comportaria
convivendo diariamente entre os humanos. E devo acrescentar que ela está se dando muito melhor que
eu, por exemplo.
É uma jovem autoconfiante e comunicativa, bem diferente do que eu fui. Tem muito mais facilidade em
se misturar com os humanos do que nós, porque sua pele não é fria como o mármore, nem brilha ao sol
como milhões de diamantes sobrepostos.
Por acaso mencionei que ela tende a querer defender os indefesos usando seu dom e força sobre
humanas? Pois é. Edward diz que a teimosia é minha e eu digo que o senso de justiça é dele, mas o
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temperamento definitivamente é o da Rose! O que a faz muito orgulhosa da sobrinha. Às vezes é difícil
fazê-la ficar longe das atenções com esses comportamentos.
Renesmee Carlie Cullen, já conversamos inúmeras vezes sobre você usar seus dons entre os humanos.
Eu não tenho culpa se o Josh Simons é um idiota total. Ele vive implicando com os garotos inteligentes
e menos fortes do que ele. Isso não é justo!
Eu sei que você gostaria de ajudar esses garotos, querida. Aliás, qualquer um que precisasse, mas se
continuar a derrubar garotos com o dobro do seu tamanho, capitão do time de Lacrosse e líder do time de
luta grego-romana da escola, com certeza vai chamar a atenção de todos para nós e você sabe que isso é
ruim para nossa família. Você quer que nos mudemos pra mais longe de seu avô e do Jake?
Claro que não! Mas é que me enerva ver aquele sorriso de deboche do Josh, quando ele maltrata
aqueles pobres coitados que não conseguem defender a si mesmos.
Ela cruzou os braços e bufou de raiva. Me senti orgulhosa pela atitude altruísta dela, porém tenho que
pensar primeiro em sua segurança e na do resto da minha família. Me mantive séria, porém tentando soar
compassiva.
Carinho, eu sei. Contudo, não podemos nos expor ainda mais. Você sabe que é a única lei do nosso
mundo e sabe também o quão difícil foi, fazer os Volturis não acabar conosco da última vez. E perceba que
eles não tinham uma razão plausível para se sustentarem, imagine se eles tiverem um motivo real agora?
Eu não gostava de usar a carta do quase ataque dos Volturis com ela porque ela teve várias noites de
pesadelo sobre eles quando criança, digo, quando mais nova. Ela parecia envergonhada pelas razões que
tinha apontado.
Desculpa mamãe. Eu sinto muito. Prometo ter mais cuidado.
Não era exatamente essa resposta que eu tinha em mente. Preferia ouvir algo do tipo: Não farei mais
isso mamãe. Nunca mais.
Você me conhece, sabe que não posso prometer algo que não sei se posso cumprir.
É verdade. A conheço bem demais pra saber que, não só ela não poderia deixar uma injustiça dessa
impune quando ela tem a possibilidade de impedir, quanto não poderia mentir pra mim, simplesmente
não é de sua natureza.
Eu sei bebê. Mas se esforce mais.
Mãe! Já falei para não me chamar assim aqui na escola. Alguém pode nos ouvir. É assim que você
quer disfarçar o que somos? Eu sendo da idade que eles acham que tenho e ainda assim sua filha? A
matemática deles não iria bater.
Não jogue para cima de mim, mocinha. Eu mesma já usei várias vezes esse truque com seu avô. Sabe
muito bem que eles não conseguem nos ouvir quando falamos assim tão baixo e nessa velocidade.
Eu tinha que tentar alguma coisa não é?!
Nessie deu um sorriso maroto pra mim, daqueles que formam as covinhas em suas bochechas rosadas.
Me deixando sem ação, assim como o pai costumava fazer comigo quando estávamos namorando. Me
deslumbrou.
Como pode alguém que entrou em minha vida há tão pouco tempo, conseguir me enfeitiçar assim tão
facilmente? Pergunta boba. Eu sei a resposta perfeitamente, a amo mais do que a mim mesma.
Além do mais, Josh é um idiota.
Nessie agora estava balançando apressadamente uma das pernas. Uma mania de quando está nervosa
ou com raiva. Acho que isso também é coisa da Rose.
Concordo com você nessa, mas pense antes de agir. Ok?!
Certo, mas se ele aprontar novamente...
Se ele aprontar novamente eu mesma dou um jeito naquele idiota.
Mãe?! Você acabou de chamar o menino de idiota e ainda ameaçou fazer exatamente o que acaba
de me pedir para não fazer, tudo isso na mesma frase?
É, acho que sim. Pelo menos ele não vai chegar nem perto de você.
Deus! Vocês são tão super-protetores comigo que chega a sufocar.
Dê um desconto para sua mãe, sim? Você sabe o quão duro foi pensar que iria te perder na época da
quase guerra com os Volturis? Não quero passar por nada parecido, nunca mais em minha vida, quer dizer,
existência.
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Acho que todos de nossa família tem uma cota de trauma com os Volturis.
Minha vida. Droga. Sempre esqueço certos vícios de linguagem de quando ainda era humana. Edward
diz que é bom para não perder o hábito de falar como humana quando entre eles. Mas se eu falar algo do
gênero perto de Emmet, estou perdida. Seria motivo de chacota dele até o fim da semana.
Desculpa mãe, sei que é péssimo para você pensar sobre isso. Vamos tentar mais uma vez: Juro
solenemente, não atacar o Josh (idiota) de maneira que desconfiem de nós.
Nessie pôs a mão direita sobre o coração como se estivesse em postura de respeito à execução do Hino
Nacional.
Não pude deixar de rir abertamente e puxar minha filha para um abraço apertado no meio do corredor
da escola.
Odeio o fato de não poder contar para todo mundo que ela não é minha sobrinha a qual sou tutora
legal, mas sim minha filha. Espontânea e doce, que me faz lembrar muito da minha própria mãe, René.
Com temperamento forte como a Tia Rose, justa como o pai e romântica como a mãe.
Tivemos que mudar nossa documentação mais uma vez com uma ajudinha dos contatos de Jasper
para que eu e Edward tivéssemos dezenove anos, podendo assim, assumir a tutela de Renesmee
legalmente, conforme a mentira que Edward elaborou dela ser a filha de seu suposto irmão falecido em
um acidente de carro. Carlslile insistiu que ele tivesse a guarda legal dela para facilitar as coisas, mas eu
estava irredutível e Edward não estava muito diferente. Já era ruim o suficiente eu não poder contar aos
quatros cantos do planeta que ela era minha filha, imagine não poder nem mesmo ser sua tutora legal.
Edward veio andando em nossa direção a passos calmos, quase calculados, com aquele meu sorriso
torto favorito. Se fosse hábito meu, apostaria qualquer quantia que ele estava ouvindo a conversa toda.
Quando chegou próximo a mim, eu o beijei suavemente e nos abraçamos.
Sério. Ecaa! Arrumem um quarto vocês dois.
Apesar da falsa expressão de nojo, Nessie mostrou suas covinhas adoráveis e se encaminhou para sua
próxima aula. Edward parou para que eu o encarasse.
Tente relaxar um pouco, sim? Estamos todos aqui para ajudar a cuidar dela. De fato, acho que se
Carlisle e Esme tivesse um jeito de ficar na escola, também estariam aqui para ajudar.
Ele parou para rir imaginando a cena.
Todos nós a amamos demais para deixar que algo de ruim aconteça a ela.
Eu sei. É só que...
Eu sei. Eu também sinto isso, mas não há nada mais que possamos fazer. Ela já não é um bebê. Que
possa ficar em nossa casa, com nossa proteção. Longe de tudo e todos os males.
Você tem certeza que não andou fazendo progresso em ler minha mente?
Tentei rir de minha piada, mas acho que a máscara que se formou em meu rosto não convenceu
Edward. Ele permaneceu sério e eu suspirei.
É que ela cresceu tão rápido. Nem pudemos ficar muito com ela só para nós mesmos.
Resmunguei sabendo que tinha perdido essa discussão. Os argumentos dele estavam certos, como
sempre. Mas isso dela ter crescido rápido demais, foi tão duro para mim, que nem posso descrever.
Eu entendo e também sinto muita falta disso, mas pelo menos a teremos para sempre, agora que já
sabemos mais sobre sua espécie, graças a Nahuel.
Edward falou e me abraçou pousando seu queixo sobre o topo da minha cabeça. Começou a nos
balançar enquanto murmurava minha canção de ninar.
Estamos casados já há dois anos, oito meses e vinte seis dias, mas eu não consigo me imaginar deixando
de amar Edward nem mesmo uma polegada do que eu sempre amei.
Eu te amo Edward Cullen.
Eu sei disso. E olha que nem precisei usar meus dons de leitura de mentes para isso.
Sorri, agora para valer. Olhei para o chão, um pouco encabulada pela piada e fomos para nossa próxima
aula juntos.
Eu, Edward, Alice e Jasper continuamos como estudantes enquanto Rose conseguiu uma posição junto
a escola como treinadora das cheerleaders e Emmet como treinador do time de luta grego-romana, nada
que combinasse mais com eles. É bem verdade que por Emmet, ele não voltaria a por os pés em escola
alguma, mas Rose é quase tão protetora com Renesmee quanto eu, portanto ele teve que vir no pacote.
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Eu não sou mais uma ameaça à sociedade, uma vampira recém nascida sedenta e insana. Bem, pelo
menos não mais tão insana, contudo sedenta. Isso ainda era um problema. A sede.
Aconteceu muito mais cedo do que o normal, para desgosto de Jasper. Ele imaginou que tendo uma
vampira jovem junto não seria mais o centro das atenções de alerta. Tenho que admitir que era divertido
quando eu ainda tinha a força de uma vampira recém-nascida para dar surras em Emmet na queda de
braços. Meus olhos estão âmbar como os do resto de minha família, porém um tom um pouco mais
escuro.
Carlisle acredita que essa mudança rápida para os padrões vampíricos, aconteceu comigo porque eu
estava preparada psicologicamente para me tornar vampira e não cheguei a experimentar sangue humano
depois de minha transformação. Mas minha teoria é que foi meu amor por Edward e minha filha que me
fez mais forte, além do fato de não querer me transformar em um monstro, como Edward uma vez me
disse que ele era, mesmo eu não concordando.
A teoria de Edward é que nasci para ser uma vampira. Eu entendo porque ele afirma isso. Tenho que
admitir que quase não me reconheço mais. Não quebro nada, não caio ou escorrego.
Ele diz que, meio que sente falta disso. Sempre comenta que era engraçado como eu conseguia
tropeçar em um piso plano e sem obstáculos além das minhas próprias pernas, mas que é grato por não ter
que ficar vinte e quatro horas por dia se preocupando de eu me machucar, não que precisasse dessa
proteção agora, afinal de contas, me tornei invulnerável.
Carlisle e Jasper concordavam que apesar de minha recuperação extraordinária, eu não deveria ir para
escolar ainda, que eu não estaria apta a andar entre tantos humanos.
E apesar de eu concordar com eles, tive que vir. O que mais eu poderia fazer? Não posso ficar longe de
minha filha e de Edward. E ele acredita em mim, eu não posso desapontá-lo.
Ah, se ele soubesse as barbáries que passam pela cabeça de sua adorada esposa. Se ele soubesse que
nos primeiros dias eu planejei pelo menos uma dezena de vezes atacar mortalmente todos meus colegas
de classe, ou melhor, com a sede que eu estava, eu mataria a escola toda. Parece que com a sede, vem
uma mentalidade quase psicótica junto.
Quando era humana não assistia muitos filmes violentos porque sempre odiei mutilações e sangue, mas
agora era só no que eu pensava. Não tanto pelas mutilações, elas vinham em minha mente somente como
ferramentas para ter acesso ao que realmente me interessava: aquele líquido viscoso, vermelho, quente e
apelante que cada ser humano expele, até pelos poros. Se eles soubessem não viriam à escola aqueles
dias, aliás não viriam nunca mais. Nem ficariam na mesma cidade porque eu cheguei até a pensar em
seguir alguns deles para suas casas, montando meu esquema diabólico para acabar com sua vida,
drenando todo seu sangue precioso.
Certa vez, esqueceram uma das janelas aberta e Samantha Sands balançou seus cabelos em frente a
ela, como imaginado, o vento trouxe seu cheiro até mim e eu juro por Deus, que em apenas alguns
segundos, bolei ao menos três planos diferentes para atacar ela e de quebra, o resto da sala. Eu fiz Edward
me levar direto para casa.
Não sei o que poderia ter sido capaz de fazer com a pobre garota. Filha de alguém, talvez irmã querida
de outra pessoa. Uma criança ainda. Com uma vida toda pela frente, quer dizer, se ela não se esbarrasse
comigo.
Acho que Alice algumas vezes via isso chegando, porque ela insistia constantemente em puxar assuntos
envolvendo minha filha na escola e nas conseqüências disso quando eu estava em crise. O que me distraía
imediatamente dos meus planos assassinos, é claro, me trazendo de volta à realidade.
Imagine que exemplo eu daria a minha filha, sobre como ser uma vampira comportada na escola se eu
trucidasse todos seus colegas e professores. Acho que um péssimo, eu diria.
Alice às vezes me olha estranho, não acusatório, apenas preocupado e logo em seguida Edward se
aproxima, provavelmente assustado com o que percebe das visões dela sobre meus ataques de loucura. O
que me deixava totalmente embaraçada. Logo eu? A única vampira conhecida na história a conseguir, eu
não diria controlar, mas administrar a sede tão rapidamente?
Eles não me falavam nada. Acho que compreendiam o tipo de dor que eu passava e que,
definitivamente, não precisava de sermão.
Bem, a insanidade raramente me acomete ultimamente, mas a sede? Essa sim é fiel de todos os dias.
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Nos acomodamos em nossos lugares favoritos. Ao fundo da sala, onde poderemos ter alguma
privacidade. Não que eu e Edward fôssemos nos agarrar aqui ou algo do tipo. Mas poderemos, com
cuidado de falar rápido e baixo demais para os humanos entenderem, conversar.
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2. Teatro cotidiano
Que comece o teatro cotidiano. Nós, alunos adolescentes, tentando ter as melhores notas possíveis
para quem sabe, conseguir entrar em uma boa universidade e nos formar em seguida. Depois,
conseguiríamos um bom emprego e formaríamos uma família. Tá certo!
Só que nenhum de nós vai seguir esse plano, e sim repetir continuamente as mesmas séries. Se não
fosse pelo fato de que, quanto mais cedo comecemos na escola, mais tempo poderemos ficar na cidade,
sem que os humanos desconfiem. Não passaríamos por isso novamente. Pelo menos ficando mais tempo
aqui, poderemos conviver mais tempo com meu pai, Jacob e os outros. Além dos amigos que a Nessie fez
na escola.
Sabe, agora eu entendo porque você parecia sempre tão entediado e irritado antes de te conhecer.
Franzi a testa e olhei séria para meu marido. É tão interessante o quanto uma pessoa pode mudar de
opinião, nas condições corretas. Eu nunca me imaginei dizendo essa duas palavras numa mesma sentença,
sem ter um ataque epilético. Meu e Marido. E hoje é tão certo e fácil como respirar.
Você percebia isso, hun?! Claro que sim. Você era a única humana, em mais de um século, que
conseguia perceber coisas sobre nós. Um gênio.
Se ainda pudesse, juro que coraria nesse exato momento. Me deixando hiperventilando, o que se
intensificaria ainda mais pelo fato dele me encarar com aqueles olhos âmbares que eu adoro.
Gênio? Sério? Exagerando muito?
Alice, que se sentava no lado contrário a Edward, me cutucou.
O que?
Gênio talvez seja meio exagerado.
Edward começou a balançar a cabeça, com um canto da boca suspenso. Antes mesmo de Alice terminar
de falar eu já sabia que não vinha coisa boa para mim. Só me restou esperar por alguma piada infame a
meu respeito.
Alguns humanos desconfiavam que tínhamos alguma coisa errada conosco, porém pelo medo que
naturalmente causamos neles, se mantinham afastados, mas você? Parecia que só era mais e mais atraída
por nós, bem, pelo menos por um de nós. O que já era mais do que perigoso considerando que seu sangue
era quase irresistível para ele. Como falamos sempre: um imã de perigo de morte. Gênio não, mas com
desejo de morte inconsciente, talvez.
Alice?
O que? Por acaso falei alguma mentira Edward?
Bem, não mas...
Mais nada. Fatos são fatos. Caso encerrado.
O que você tem de pequena, tem inversamente proporcional em capacidade de irritar.
Alice mostrou sua pequena língua para o irmão favorito e voltou-se para Jasper, beijando-o. Eu a ouvi
falando para seu amor que ele ficaria bem, que a Beatrice Jackson iria se movimentar para longe da saída
de ar e ele não a atacaria.
Antes eu sentia pena de Jasper, mas agora eu me compadeço dele. Sinto a mesma dor, talvez ainda pior
por ter séculos a menos de experiência. Toquei-lhe o braço oferecendo apoio.
Fique tranqüilo. Estamos todos aqui, caso você precise de nós. Mas eu tenho convicção de que não
seremos necessários. Bem, talvez seja mais fácil vocês ME salvarem de atacar alguém do que eu te
salvar, acho que você entendeu.
Pisquei para ele tentando parecer leve e vi um esboço de sorriso em sua costumeira face de sofrimento.
Acho que eu sempre fui muito boa em guardar os sentimentos para mim mesma. Então, acredito que
disfarço a dor melhor do que ele.
Eu nunca fui de faltar aulas, na verdade era até uma boa aluna, comportada e com boas notas, mas
agora entendo perfeitamente porque Jasper sempre parece em dor e sugerindo faltar aulas. Ao contrário
dos motivos dos outros, que já estão mais acostumados com a sede e seus maiores problemas são as aulas
maçantes repetidas algumas centenas de vezes, rotinas que não fazem o menor sentido já que não terão
uma profissão comum.
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Para nós, o pior motivo para vir à escola é o doce, condimentado e ardente cheiro do sangue dos
colegas de classe, de cada um deles, com aromas e imagino sabores melhores uns que os outros. Me rasga
por dentro.
No começo eu ficava imaginando o sabor que combinasse com cada cheiro, mas depois de quase atacar
a Lisa Jones na aula de biologia, parei totalmente com esse jogo doentio.
É frustrante. Não! Isso não chega nem perto da tortura que é para mim. Acho que nenhuma palavra é
suficientemente forte para descrever o que sinto. A dor é excruciante, em cada molécula do meu corpo e a
garganta é pior parte.
Eu não digo para Edward nem a metade da dor que sinto para ele não ficar preocupado, mas para
suportar, tenho que ficar sem respirar durante todo o período que estamos na escola, o que para mim é
horrível porque tenho pouco tempo como imortal. Não estou acostumada a fazer isso facilmente como os
outros. Ainda sinto necessidade de fazer coisas tipicamente de humanos, como respirar.
Mesmo não precisando, me dá uma certa angústia quando não faço. Todos eles me dizem que é
natural, já que ainda estou me acostumando. Leva tempo reeducando meu cérebro para pensar que não
preciso mais dessas coisas para não morrer.
Exceto pela tortura do cheiro de sangue, estou adorando ser uma vampira. Além das razões óbvias,
como poder estar durante toda a eternidade com Edward e minha filha, eu tenho que admitir que tive
alguns bônus. Como por exemplo: não envelhecer ou ficar doente, ter super força, velocidade e resistência.
E é claro, não sou mais descoordenada como quando era humana.
Alguns poderiam até dizer que chego a ser elegante agora, de fato, Edward vive me falando isso e eu
não acreditaria se os outros também não afirmassem.
Tenho caçado periodicamente com minha família, mas tive que aumentar minha freqüência de caça por
ser ainda muito jovem como imortal. É muito perigoso para todos, se por acaso eu perder o controle e sair
atacando as pessoas. Edward sempre me acompanha nas caçadas extras, como apoio moral.
Uma das minhas partes favoritas da minha rotina diária é a noite. Quando vamos para minha choupana
escondida na floresta, somente eu e Edward. Nessie tem um quarto só dela lá, mas preferiu ficar no seu
quarto da casa nova de seus avós paternos.
Tentamos convencê-la a morar conosco, mas como convencer uma adolescente a deixar uma suíte de
luxo só dela, totalmente equipada e decorada por Rose e Alice, longe dos pais extremamente apaixonados
entre si?
Fora o fato de ter todos por lá para fazer seus gostos o quanto quisesse. Sugestão? Não tente! Só vai
causar aborrecimentos. Para falar a verdade, também passamos muito tempo lá na casa nova. Então não
chega a ser um problema. Nos conformamos bem.
A casa nova é mais ampla do que a que meus em Forks. Talvez com a arquitetura mais tradicional do
que a anterior, mas ainda assim muito charmosa. Não era de se esperar menos com Esme cuidando da
escolha do imóvel, assim como a decoração. Obviamente com a ajuda de Alice em todos os passos.
O imóvel parecia bem acabado, em arquitetura neo-renascentista, por influência inglesa na
comunidade local, como Edward me explicou depois.
Composta por paredes sólidas com grandes pedras, lareiras mesmo não sendo necessária para nós,
mas sempre tornando o ambiente mais aconchegante.
A edificação em si, me fazia lembrar um pouco o Castelo de Ferrières, na França. Eu o conheço porque
Renesmee tem o sonho de conhecer o país, sobretudo seus castelos. Edward me contou ainda, que
pertencia à um rico agricultor de alfazema da região, que a construiu para sua esposa doente, que era
apaixonada pela França. Ela teve uma grande melhora, que duraram alguns anos, mas infelizmente sua
doença se agravou e ela veio a falecer. Então ele resolveu voltar à sua região de origem. É uma história
romântica, mas lamentavelmente, com final triste.
Ainda sobre a casa, tem uma garagem muito espaçosa para guardar a frota de carros e motos da
família, uma série de quartos extras já que sempre temos visitas agora, lobos, vampiros e até humanos.
Como na anterior, toda a casa tem um sistema de pânico. Em caso de perigo iminente, as janelas são
fechadas por dentro, com grossas chapas metálicas. Segundo meu sogro, temos uma saída de emergência
oculta para qualquer eventualidade. Eles podem até não entender minha dedicação nos treinamentos para
estar pronta, todavia, mesmo tentando ocultar isso de mim, provavelmente tentando me poupar do
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stress, tenho certeza que eles também pensam que os Volturis não se deram por vencidos tão facilmente,
daí tanta preocupação preventiva.
Quase nunca vamos a Forks. Bem, primeiro porque Charlie e Jake estão quase todos os dias na nova
casa e segundo porque se eu fosse para lá, todos meus ex-colegas de escola me perguntariam o que eu
ando fazendo de minha vida, se já trabalho e com o que.
Coisas que pessoas normais fariam, mas eu não sou mais assim, normal.
Edward sempre me pergunta se eu não sinto falta de fazer coisas de humanos ou se não me arrependo
de ter me tornado uma vampira. Ele diz que eu deveria andar com outras pessoas senão as da nossa
família, mas só depois de minha recuperação total, é claro.
Eu amo a Alice como minha irmã, ela é minha melhor amiga, mas admito que sinto falta da convivência
com humanos. Sinto falta da Ângela, mas Posso viver muito bem sem a Jéssica e os outros.
Entretanto, procurá-la e dizer o que? Contar como anda minha vida de casada e mãe de uma meia
vampira que mais parece ter minha idade, simplesmente não dá. Tenho quase certeza que ela não contaria
nosso segredo para ninguém e até Edward acha que ela seria confiável, só que não seria seguro para ela,
nem para nós.
Então eu simplesmente ignoro essa vontade de procurá-la. Acho que já é pedir demais para quem já
teve tantos pedidos atendidos pelos céus. Meu marido, minha filha, Jake agora amando-o do jeito certo,
meus novos amigos imortais, minha família atual e meu pai. Não tenho do que reclamar. De maneira
alguma.
Edward e Carlisle estudam constantemente a condição de minha filha em toda literatura mitológica que
conseguem encontrar e com a ajuda de Nahuel, que está passando uma temporada conosco.
Ele é um rapaz muito calado e tímido. Esme acha que tem alguma relação com sua criação na selva, sem
maiores contatos com humanos ou outros vampiros. Eu acho que se deve ao fato da culpa que ele sente
por ter causado a morte de sua mãe durante seu parto, mesmo não tendo sido proposital. Sinto pena do
rapaz, mas está me deixando louca como me olha estranho.
Tivemos que nos mudar para Sequim, uma cidade quase do mesmo tamanho e há apenas algumas
horas de Forks. Por nós, iríamos para mais longe, por segurança. O difícil foi convencer Charlie da
mudança, ele nos visita diariamente e foi praticamente uma batalha descomunal com Jacob, que
obviamente não iria deixar Nessie longe de suas vistas.
Charlie! Quer dizer, pai! Pare de mimar a Nessie desse jeito.
O que? Um avô não pode comprar um presentinho para sua única neta? Uma que se mudou para
longe de mim?
Ele falou com um tom falso de rancor. Uma clara chantagem emocional.
Até parece que faz alguma diferença termos nos mudado. Você está sempre aqui. Então, não faz
drama.
Se é assim. Se não quer mais a companhia do seu pai, eu vou embora.
Ele começou a fingir que estava indo embora.
Pai! Você sabe que não é assim e que estamos todos muito felizes com sua presença.
Me aproximei e dei um beijo em seu rosto.
Era um fim de semana meio nublado e graças às previsões meteorológicas da Alice, todos podíamos sair
sem medo do sol aparecer. Charlie comprou mais um de seus presentes para Nessie, como sempre faz.
Dessa vez foi uma vara de pesca semi-profissional, pra ela acompanhá-lo em suas pescarias.
Eu vejo isso acontecendo com toda certeza. Não! Boa sorte com isso pai! Pensei comigo mesma. É tão
fora do jeito dela.
Vô Charlie, é linda! Obrigada! Quando poderemos colocar essa belezinha para pescar alguns peixões?
Se eu não conhecesse tão bem minha filha eu juraria que ela realmente gostou do presente, ao invés de
tentar parecer gentil com seu avô.
Segurei o riso para não desapontá-lo.
No dia que você quiser querida! Quer tentar agora?
Charlie abraçou Nessie e deu-lhe um beijo no rosto. Engraçado como todo homem muda com seus
netos. Me falaram isso, mas eu custava a acreditar, bem, isso pelo menos até ver meu pobre pai babando
de amores por minha filha.
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Ele faria qualquer coisa para agradá-la, mesmo não levando o menor jeito para lidar com ela. Acho que
ele se daria melhor se fosse um garoto, mas mesmo assim ele tenta.
Nessie fez cara de espanto por alguns segundos, rápido demais para um humano ver. Comecei a rir
com Jacob, que também observava a cena.
É, Nessie! Por que você não vai com seu avô pescar?! Eu iria querer ver isso.- provocou Jacob. Segurei
uma gargalhada. E dei uma cotovelada no Jake para ele parar.
Err... Vô?! Você se incomodaria muito se deixarmos isso para um outro dia? Tenho que praticar com
Jacob agora.
Isso. Abandone seu velho avô humano para ficar com o lobisomem ali. Não tem problema. Um dia,
quando eu não tiver mais força nem mesmo para lançar a isca você vai se lembrar de mim.
Ah Vô! Não fala assim. Em primeiro lugar eu sempre terei tempo para você e sabe disso! Em segundo
lugar você não é velho nada. É um conquistador na flor da idade. Ou você acha que eu não estou sabendo
do senhor e Sra. Clearwater, hun?!
Verdade pai? Wow! Essa é nova para mim. Mas eu bem que vi isso chegando.
Você não conhece a imaginação de sua filha? Ela está inventando. Não é Nessie, querida?!
Meu pai olhou para Nessie com olhos suplicantes e eu não pude deixar de brincar com isso.
Hey, pai! Além de conquistador, você agora está tentando fazer minha filha mentir para mim?! Que
coisa mais feia! Estou começando a acreditar que você não é boa companhia para ela.
Edward, que agora se aproximava de nós, deve ter lido a situação nas mentes dos demais porque
também segurava o riso.
Charlie? Eu não posso acreditar nisso. O chefe de polícia, dando mal exemplo aos jovens, sobretudo
sua própria neta? Não pode ser. Devo concordar com minha esposa e proibir você de ver nossa filha.
Edward balançou negativamente a cabeça e se segurou para fazer uma expressão séria. Mas
obviamente era encenação.
Boa sorte com isso! Se vocês acham que podem me afastar dessa pequena, estão muito enganados.
Nem que eu tenha que chutar os traseiros de alguns mortos-vivos.
Falou meu pai, segurando minha filha com um braço e com o outro ele pousou a mão em sua arma.
Pai!?
O quê? Não posso mais brincar?
Você se esqueceu que agora sua filha também é uma morta-viva como você diz e que sua neta é
meio-vampira também?!
Ele visivelmente ficou sem graça. Mas Nessie interveio para salvar a pele dele.
Não tem problema Vô. Se por acaso você tiver que enfrentar alguns mortos-vivos para me ver, pode
contar comigo! Lutaremos juntos. E ainda usaremos essa nova vara para pegar alguns peixes para festa de
comemoração da vitória.
Deu um abraço no avô e logo em seguida soltou-se, fazendo Charlie não entender nada do que estava
acontecendo.
Mas não agora, porque eu realmente tenho que ir treinar com Jacob. Depois nos falamos melhor Vô.
Piscou para meu pai, arrastou Jacob pelo braço e saiu em disparada para a parte mais afastada da
floresta, onde costuma treinar seus dons enquanto Jake treina seus novos truques. Meu pai sacudiu a
cabeça.
Eh! Mais uma que perco para o sobrenatural.
Todos rimos agora com o pesar de Charlie.
Acho que é melhor eu ir andando.
Tem certeza pai? Você não quer comer primeiro?
Ainda me sinto culpada por imaginar ele cozinhando ou melhor, tentando cozinhar algo para ele.
Ele me olhou confuso e só depois as peças se encaixaram para que eu entendesse sua hesitação.
O quê? Nós não comemos comida normal, mas com a Nessie, as constantes visitas suas e dos lobos,
temos sempre comida humana em casa. Ou você acha que vou matar minha filha de fome?
Puxei-o pelo braço em direção à casa. Depois de preparar uma massa para ele e ter certeza de que
estava satisfeito, eu fiquei mais calma.
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Fico feliz por não ter perdido meu jeito para cozinha. Não que eu fosse uma gourmet ou algo assim,
mas era bem aceitável. E isso me deixa um pouquinho mais próxima do que eu um dia fui. Humana.
Engraçado é que os aromas que a comida sendo preparada exalavam, antigamente me deixavam com
água na boca, agora quase me causam náuseas.
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3. Bom partido
Imagino como deve estar uma bagunça na casa, com ele morando sozinho. Acho que vou passar por lá
um dia destes para arrumar um pouco. Ele tinha acabado de comer, mas não tirou os olhos do prato.
Bells?
Sim?
Você acha que é uma boa idéia Jacob e Nessie, er... você sabe.
Ele fez uma daqueles caras de extremo desconforto de quando não quer falar sobre um assunto, mas
precisa. Resolvi dar uma mãozinha.
Estarem se acertando?
É. Isso aí.
Ele suspirou aliviado por não ter ele mesmo que dizer.
Por que não?
Bem, sei lá. Ela é muito jovem, ele muito velho e grande para ela.
Não pude deixar de me divertir.
Bem, pai. Pelo que me lembro, você queria de todas as formas me empurrar para ele. Vivia dizendo
que ele era um bom rapaz, respeitador, filho de seu melhor amigo e a lista de qualidades continuava e
continuava. Por que ele podia ser seu genro e de repente não está mais habilitado a se envolver com sua
neta?
Provoquei ele. Nessas horas eu queria ter o dom de meu marido, só para saber o que está passando na
cabeça do meu velho pai.
Ah vai. Não foi bem assim, além do que é diferente agora.
Não entendo.
Ele era diferente.
Era diferente como?
Insisti. Eu já tinha adivinhado a essa altura do que ele falava, mas eu queria que ele colocasse tudo pra
fora para tentarmos superar isso de uma vez por todas.
Ora Bella, ele só era... diferente. Não tinha aquela coisa antes.
Bingo! Exatamente o que eu previa. A coisa do sobrenatural.
Em primeiro lugar não uma coisa, é um gene que o faz diferente de você. E em segundo lugar ele
nasceu assim, portanto ele já era assim quando senhor o considerou um bom partido.
É, eu sei mas...
O interrompi antes que se amarrasse ainda mais.
Pai, você não precisa gostar do mundo sobrenatural, nem entender, mas tem que aceitar que ele
existe. Você não pode esquecer que sua filha faz parte desse mundo, seu genro e sua neta também.
Falei docemente para tentar acalmar seu espírito.
Me dê um tempo, sim? Eu vou me acostumar à isso tudo, juro. Mas é que ela é tão nova, digo,
apenas alguns anos de vida. Eu mal me acostumei com a idéia de ser avô e pode ser que ela, a exemplo da
mãe, já crie sua própria família tão cedo.
Ele olhou de soslaio para mim e depois para baixo timidamente.
Eu sei que você sente minha falta na casa principalmente para não morrer de fome mas eu tinha
que seguir o meu caminho.
Dei um sorriso irônico para ver se ele relaxava um pouco.
Você sabe que eu não tinha planos de me casar, mas eu encontrei o amor de minha vida e por sorte
ele também me considerou assim. Simplesmente aconteceu. Nós não podemos escolher quando e nem a
quem amar.
Dei uma pausa para ele processar tudo. Ele suspirou.
Eu sei Bells. Você sabe que não sou bom com as palavras como seu marido morto-vivo.
PAI!
Brincando... só brincando...
Ele levantou as mãos apologeticamente.
18
Como eu ia dizendo, eu não sou bom com as palavras, mas é verdade. Eu sinto sua falta garota. E não
estou falando pela falta de uma comida que não esteja empapada ou com gosto de carvão, mas sinto falta
de você. Eu te amo criança.
Puxei uma cadeira e me sentei ao lado dele, segurando sua mão.
Eu sei pai. Eu sei. Eu também te amo e sinto sua falta.
Mesmo eu estando sempre aqui para te perturbar?
Charlie Swan, você não perturba. Nunca! Não repita mais isso!
Ok. Só estava mexendo com você.
Ele parecia ter relaxado por alguns instantes, mas voltou a ficar sério.
E você me deu essa alegria de ter uma neta, tão linda e carinhosa que... eu não queria perder tão
cedo.
As palavras soaram tão doces em sua boca, com tanta adoração e carinho, que quase fiquei com
ciúmes, já que como ele mesmo falou, não é muito de expressar seus sentimentos. Mas essa pontinha de
ciúmes foi só até eu me lembrar que ele estava falando de minha filha. Ele novamente olhou para o chão.
Entendo bem o sentimento, pai. Você não sabe o quanto eu gostaria que ela ainda fosse um bebê.
Mas você tem que se conformar assim como eu que ela cresceu, se tornou uma bela moça, com muita
personalidade e caráter. O tipo de pessoa que não deixa que os outros decidam seu futuro por ela.
O que me lembra muito de você.
Ele piscou para mim. E um sorriso brincou no canto de sua boca, enrugando os cantos dos seus olhos,
que são como os meus eram, antes de me tornar imortal com olhos de rubi e agora âmbares.
E já que não podemos fazer as escolhas por ela. Temos apenas que torcer para que ela faça as
escolhas certas. E aqui entre nós, não acho que ela possa escolher ninguém melhor que Jacob, mesmo se
ainda pudesse. Se ela já não fosse completamente enamorada dele, mesmo ainda não sabendo.
Ele sacudiu levemente a cabeça.
Não sei a quem vocês duas puxaram. Tão teimosas e independentes.
Eu olhei para ele petulantemente.
Não?
Ele deu uma risada baixinha. Limpou a garganta e levantou-se.
Acho que agora eu vou mesmo. Filha, estava tudo ótimo. Você não perdeu o jeito para cozinha,
mesmo agora que não precisa mais comer.
Na verdade ainda preciso comer. Mas não comer o que ele quis dizer, é mais como uma dieta líquida.
Sangue.
Resolvi não abordar o tópico para ele não se sentir desconfortável, como em todas as vezes que
falamos um pouco mais sobre minha nova existência. Ele começou a andar em direção a porta a passos
lentos.
Pai?
Virou-se e me encarou ainda pensativo.
E não se preocupe com Nessie. Ela é muito madura, vai fazer o que é certo. Jacob pode fazer ela feliz.
E se não fizer, eu mesma arranco a cabeça dele fora.
Eu virei minha cabeça de lado. Ele ficou sério e branco como um papel.
Brincando, pai... só brincando...
Ele respirou aliviado e continuou em direção a porta. Eu sorri abertamente.
Além disso, mesmo que eles deixem de ser cabeças duras e começarem a se acertar, não acho que vá
acontecer algum casamento ou algo parecido tão cedo. Ela só vai atingir a maturidade após sete anos,
portanto ainda temos mais uns quatro para começar a nos preocupar com isso, certo?
Certo. Obrigada por acalentar um pouco o coração do seu velho pai.
Velho? Não é isso que estou sabendo. Sue Clearwater, hun? Quem diria.
Parei pensativamente por uns segundos.
Ei! Você sabe que isso foi invenção de sua filha e...
Calma pai. Relaxe. Para falar a verdade eu acho ótimo que isso esteja acontecendo. Já tava na hora de
você se acalmar mesmo.
Bells...
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Ele rosnou em reprimenda pra mim. Com uma mistura de timidez em sua voz.
Ok pai, deixa para lá. Eu te levo até a garagem.
Descemos as escadas que levavam à garagem em silêncio. Ele estava de folga, portanto preferiu não
usar a viatura. Ele usava um carro velho emprestado por Sue Clearwater. Era um Ford Landau 1978 prata,
que ele falou com admiração. Uma que eu não poderia compreender bem, já que se tratava de um carro
muito antigo e em mal estado. Por outro lado, quando me lembro de minha pickup Chevrolet 1953, que
estava em estado pior ainda, mas eu a amava muito, acho que consigo relacionar. Estou pensando
seriamente em pedir para Rosalie, que tem mais gosto por mecânica, me ajudar a salvar a pobre coitada.
Ele tentou dar a partida no velho carro, que engasgou algumas vezes, mas não ligou.
Quer uma mãozinha pai? Eu posso empurrar um pouco para ver se ela pega.
Ele pareceu meio desconcertado em me pedir isso. Estava considerando se aceitava ou não minha
oferta. Acabou cedendo por fim.
Não me tomou esforço algum fazer o carro mover-se com alguma velocidade, ele tentou a ignição
algumas vezes e o carro deu a partida finalmente.
Tchau pai! Vou tentar te visitar em Forks essa semana. Para ver como estão as coisas na casa.
Achei meu pai mais magro. Só Deus sabe de que ele tem vivido, sem ter a mim para cozinhar e tomar
conta dele. Aposto que ele usa a mesma camisa há três dias, bem, pelo menos cheirava a algo assim.
Ok, Bells. Te vejo então, garota.
Ele acenou e se foi. Estou tão feliz que podemos dizer a verdade para meu pai, pena que o mesmo não
serve para minha mãe. Eu me lembro dela a todo instante. De como éramos próximas, tão amigas,
companheiras mesmo.
Ela sempre teve um espírito aventureiro, divertido e jovial. Eu achava engraçado como ela falava mais
gírias de pessoas da minha idade do que eu mesma. Pensando bem sobre o assunto, acho que agora
entendo o porque. Minha teoria é de que, fazer isso servia mais como uma ferramenta de aproximação sua
comigo, do que qualquer outra coisa.
Agora que tenho minha filha contra todas as possibilidades da época em que eu morava com minha
mãe e sequer pensava em casar consigo associar essa artimanha. Devido a convivência com Nessie e seus
amigos, eu comecei a usar mais a linguagem própria deles e até absorvi algumas manias, como ouvir ao
mp3 player durante a aula. Sei que não é exatamente um bom exemplo que uma mãe poderia dar, mas a
justificativa para isso é que um vampiro inexperiente como eu, tende a se distrair muito facilmente e
certos tipos de música me ajudam a focar.
Há muito tempo não vejo minha mãe, na verdade, desde meu casamento. Ligo constantemente para
ela, mas não arrisco uma visita porque ao contrário de meu pai, ela sempre me captou. Sempre
conseguia perceber alguma coisa que eu tentava esconder e isso seria um risco enorme para nós e ainda
maior para ela. Não suportaria que algo de ruim acontecesse com minha mãe.
A pior parte é não poder apresentar Renesmee como sendo sua neta. Ela iria ficar louca de felicidade,
claro, se não fosse pelo fato de Nessie ser meio vampira e ter aparência de uma adolescente de dezesseis
anos em contraste aos meus aparente dezoito e real vinte e um. Edward deveria ter visto a cena toda,
porque assim que meu pai se foi ele se aproximou de mim. Devo ter ficado com ar pensativo, porque
Edward levantou meu rosto para que ele lesse minha expressão e eu estendi meu escudo deixando-o
entrar em minha mente.
Bella, querida. Você sabe que é perigoso para nós, e principalmente para ela, não sabe?
Eu sei, eu sei. É só que...
Você sente falta dela. Entendo.
Ele me abraçou forte e eu suspirei.
E se fossemos ver ela? Digo, irmos para a cidade e ver ela de longe?
Não daria certo porque onde ela mora é extremamente ensolarado, além do mais, só ver de longe
não adiantaria de verdade. O que você quer é falar com ela cara-a-cara, abraçar e beijar. Não é isso?!
Ele me olhou nos olhos esperando uma resposta.
Você conseguiu ler tudo isso em apenas alguns segundos em minha mente?
Não. Eu te conheço bem. Além do que, se eu tivesse a chance de ainda ter minha mãe por perto, eu
iria querer fazer algo parecido.
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Fiquei com pena dele. Eu não posso reclamar. Pelo menos minha mãe está viva e eu ainda esperava
encontrar um solução para vê-la sem que seja um risco extremo. Mas ele não. Sua mãe morreu há mais de
um século.
Agora foi minha vez de consolá-lo. Ficamos abraçados por algum tempo e resolvemos ir para nossa
choupana em seguida.
****
Quando o futuro simplesmente desaparece, Alice já sabe que Nessie ou um dos lobos entrou no
cômodo. Mesmo não gostando muito, por odiar se sentir desamparada, já está quase se habituando a isso.
Ou pelo menos se conformando à situação.
Não poderia ser diferente, já que Seth e principalmente Jacob sempre estão por perto. Todos nós já os
conhecemos pelo cheiro.
Alice, ainda de costas arrumando alguns arranjos de flores na casa, fala em tom calmo:
Oi Jacob. Nessie está lá em cima no quarto.
Oi Alice.
Por acaso já mencionei o susto que tomo quando o futuro simplesmente desaparece e o quanto O-DE-
I-O isso?!
Ela enfatizou isso soletrando letra por letra. Alice volta-se para Jacob com cara de quem não estava com
muita paciência.
Não nas últimas horas.
Jacob ri rapidamente e volta a ficar sério.
O que aconteceu?! Argh! Odeio não saber das coisas que acontecem.
Bem, é que...
Fala logo.
Disse Alice se aproximando mais de Jacob. Eu pude perceber que ela estava mantendo em suspenso a
respiração porque mesmo acostumada a presença dos lobos ainda não suporta o cheiro como ela mesma
chama de cachorro molhado.
Eu gostaria que você conversasse com Nessie sobre ela parar de usar seus dons na escola. Está
ficando meio arriscado.
Alice cruzou os braços colocando uma das mãos sob o queixo pensativamente.
Porque você veio pedir isso para mim e não para Bella?
Você sabe, Bella já é a preocupação personificada. Com Nessie então, é ainda pior. Além do que, você
conhece a Nessie, teimosa demais e como todo bom adolescente não escuta os pais logo de cara.
E porque não a Rose? Ela não seria a segunda em comando nesse jogo de Esquadrão Nessie?!
Há! Tá certo! Eu totalmente vejo isso acontecendo: Olá Sanguessuga Rainha do Gelo. Posso te pedir
um favor?.
Ele riu de sua piada e voltou a encarar a Alice.
Quando chego perto dela parece que meu botão de sarcasmo liga. Não me entenda mal, ainda não
nos damos bem, mas pelo menos não tenho mais vontade de arrancar aquele sorrisinho petulante da cara
dela, bem, pelo menos não mais com tanta freqüência como antes.
Não precisa continuar, já entendi! Você e Rose não se dão bem e acho que isso não vai mudar tão
cedo. Aqui entre nós?! Ela é difícil com todos mesmo.
Alice deu um pequeno sorriso e piscou para ele.
Mas você sabe que ela ama Nessie, muito mesmo. Faria quase qualquer coisa por ela, aliás, todos nós
faríamos.
É, eu sei. Mas ela é quase tão super protetora quanto Bella só que mais psicótica.
Os dois riram facilmente, agora com a nova relação de amizade já estabelecida entre os Cullens e os
lobos.
Deixa ela te ouvir falando isso.
Eu adoraria a brincadeira, mas eu vim aqui por outro motivo. Como eu sei que Nessie procuraria você
para esse tipo de coisas porque você é a Tia Descolada, mas também sensata e sem exageros na
21
proteção dela, eu achei que seria melhor vir à você e evitar alguns desmembramentos e coisas quebradas
pela casa.
Tenho certeza que a Esme aprecia essa atitude de preservação de sua nova casa. Certo, eu converso
com ela. Mas não posso prometer que ela vá me ouvir.
Uau! Foi mais fácil do que pensei.
Agora vai embora daqui porque estou ocupada, Labrador.
Certo Vampira Anã de Jardim.
Ei! Não sou tão baixinha assim! Você que não pára de crescer, Anabolizado Mutante do Além da
Imaginação.
Boa essa! Ponto para você!
Ambos riram. Jacob começou a subir as escadas, parou voltando-se para Alice com um olhar sério.
Obrigado Alice.
Alice apenas acenou com a cabeça e se foi.
Jacob continuou subindo as escadas para dar de cara comigo, de braços cruzados, encostada no
corrimão da escada.
Jacob Black.
Falei com minha voz mais séria. Ele pareceu um pouco apreensivo e parou esperando pelo resto.
Sério? Sou tão super protetora assim?
Pode apostar!
Jake abriu aquele sorriso que esquenta qualquer ambiente.
Apesar de ser o brincalhão de sempre. O que eu acredito ser inerente a sua personalidade mesmo, e
não vai mudar com o tempo.
Acho que ele parece mais maduro. Sei lá. Até seu rosto está tomando formas mais definidas, menos
infantis. O queixo mais largo, as maçãs do rosto um pouco mais proeminentes, porém, tudo ainda muito
harmonioso e jovial. Ele ainda mantém a cara de garoto, mas não tanto como quando nos conhecemos.
Uma coisa que sinto falta nele de quando nos conhecemos é dos cabelos longos. Caíam-lhe muito bem.
Nossa, o tempo passa rápido. Ainda mais se você for um transmorfo em fase de mega-crescimento. Mas
aquele sorriso? Isso não mudou e duvido que um dia mude. Mesmo que ele entre na fase de acomodação
como seu bisavô e comece a envelhecer, duvido muito que ele chegue aos cinqüenta e não tenha a mesma
cara de garoto que tem hoje.
Ok. Talvez eu seja super protetora mesmo. Mas você pode me culpar depois de tudo que aconteceu,
aliás, que vive acontecendo comigo?!
Realmente, não.
Tomei um dos braços gigantes dele no meu e continuamos subindo as escadas. Adoro o fato de poder
amar Jacob do jeito certo agora, como um amigo, um irmão ou até mesmo um genro, quem sabe?!
Sinto em ser a portadora de más notícias, mas eu já sabia do que aconteceu com Josh Simons, já falei
com ela e acho que irá me ouvir sim!
Falei um pouco petulante. Porque sei que minha filha escuta seus pais sim, bem, quase sempre. Jacob
me olhou confuso por um instante e em seguida continuou andando.
Entendi. O Esquadrão Nessie de informação andou ocupado.
Com uma voz mais rouca que o normal, continuou:
Todos aos seus postos. Seeeeeeentido.
Ah vai, não exagera! Toda a escola soube. E teríamos que nos matricular na escola de qualquer
maneira, você sabe, para manter as aparências. Pelo menos eu não estou fugindo às tradições seculares do
meu povo para ficar mais próxima de uma certa pessoa como você fez.
Não é justo. Você sabe que tem o lance do imprinting e tudo. Além do que, não tínhamos muitas
escolhas. Estudar em uma das escolas da reserva e alguém perceberia eventualmente que não
envelhecemos, abandonar completamente os estudos que eu não me oporia completamente. Ou mudar
nossa idade na documentação e irmos estudar em alguma escola fora de Forks. Então no final das contas,
foi a melhor escolha.
É, eu sei. Mas você acha que eu iria perder a chance de pegar no seu pé por isso, lobinho?
Tentei segurar um sorriso que escapava, mas sem sucesso.
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Você pode até ser uma sugadora de sangue malvada e tudo mais agora, mas não é indestrutível. Você
se lembra que sou mais do que o dobro de você e que já tenho uma certa experiência em chutar os
traseiros daqueles de sua espécie?!
Ele se afastou de mim, plantou uma postura de batalha e um rosnado reverberava em seu peito.
Quer tentar lobinho?! Aposto que ainda me resta alguma força de recém nascida para acabar com
essa sua petulância juvenil.
Sério? Ainda com essa história de ser mais velha do que eu? Pensei que tínhamos superado isso. Além
do mais, faço aniversário daqui há dois meses.
Na verdade não tenho mais essa história de diferença de idade. Foi só para provocar mesmo.
Funcionou.
Jacob relaxou o corpo completamente e eu achei que seria a hora perfeita para fazer um brincadeira
com ele. Usei super velocidade para ir para trás dele, dando um abraço apertado de urso e rindo para mim
mesma.
Mas como eu era mais velha do que você e tecnicamente não envelhecerei mais, posso perfeitamente
considerar que sou mais experiente do que você. E agora garoto? Quem manda aqui?
Você está deixando toda essa coisa de treinar para estar pronta subir a sua cabeça.
Ele escorregou por baixo dos meus braços ficando de frente para mim, novamente em postura de
batalha e começando a tremer.
Aproveitando os ensinamentos de batalha que tenho tido, me firmei em frente a ele com o corpo
curvado e com as mãos em garras, pronta para qualquer coisa.
Eu acho que você não é nenhum lobo mal. Na verdade, acho até que vou te adotar como mascote,
Lobinho.
Não pude conter o canto da minha boca que subiu em um sorriso arrogante.
Ah, qual é? Vocês dois parecem duas crianças no jardim de infância.
Nessie apareceu saindo do quarto que Esme fez para ela, com a ajuda da Rose e da Alice, é claro.
Eu e Jake nos olhamos e com o costumeiro entendimento de nossa amizade, estouramos em risos. Juro
por Deus, se eu ainda pudesse, estaria chorando de rir agora.
Tomei Jake pelo braço novamente e caminhamos para encontrar Nessie, que estava agora encostada na
soleira da porta de seu quarto.
Soltei o braço dele por um momento e dei um beijo na testa de minha filha.
Oi bebê.
Mãe! Você sabe que não gosto quando você me chama assim.
Ela franziu o cenho e me olhou com a cabeça meio baixa, com nítido embaraçamento pelo que eu fiz.
Como? Bebê?
Jake disse ironicamente.
Jacob Black! De minha mãe não posso evitar ouvir isso, mas você?!
O que? Porque não? É tão... meigo.
Ele fez questão de mudar o tom da palavra meigo para provocar Nessie. Eu não acho que essa seja
uma boa idéia. Se eu fosse você Jake, cairia fora daqui agorinha mesmo.
Mãe, acho que vou me candidatar pra ajudar você a adestrar um certo Lobinho.
Resolvi entrar na brincadeira. Eu e minha filha começamos a andar vagarosamente em direção a Jacob,
que começara a dar passos em direção a saída mais próxima, no caso, uma janela do segundo andar que
dava para a floresta. Ele acelerou o passo e saltou janela abaixo se transformando em lobo antes de chegar
ao solo. Conosco na cola dele.
Edward que estava entrando na casa, voltou ao ver a cena. Se aproximou de nós duas.
Não sabia que iríamos caçar hoje. Posso me juntar às duas damas de minha vida?
Claro que sim, amor. Ele é grande o suficiente para todos nós.
Respondi e corremos atrás do cheiro de Jacob que começava a se distanciar na floresta.
Claro que Edward tomou a frente já que ele sempre foi o mais rápido de nós, comigo atrás e Nessie nos
seguindo. Ele desacelerou para que eu pudesse ver onde ele olhava. Era uma direção contrária à que Jacob
estava indo e por um momento receei que fosse algum problema. Logo percebi que na verdade ele tinha
bolado uma estratégia de captura, comigo e Nessie indo por um lado e ele pelo outro.
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Jacob parecia muito certo de sua fuga, bem, pelo menos era o que dava para notar em um lobo que
começava a trotar ao invés de correr. Ele nem pôde ver quando o cercamos. Acuado, ele se escorou em
uma rocha enorme enquanto eu, Nessie e Edward fechávamos o cerco em postura de batalha.
Então quem é o Grande Lobo Mau agora, Lobinho?
Nessie disse pausadamente.
Edward então, vira-se para ela.
Ele falou que não é justo dois e meio contra um.
Ei!? Espero que este meio não se refira a mim!
Como se a situação toda não fosse estranha o suficiente para pessoas comuns, aquele lobo marrom
avermelhado gigante começa a fazer um som que parece mais um riso do que uivo.
Nessie pula em cima dele e começar a mordê-lo. Fazendo Jacob ganir e tentar sair dali.
Edward começa a rir alto e comenta com Jacob.
Não me venha com essa de ajudinha agora, amigo. Você a conhece muito bem. Provocou, agora
assuma as conseqüências de seus atos, meu caro. Causa e conseqüência. Além disso, você realmente não
acredita que eu ficaria contra minha própria filha, acredita?!
O lobo Jacob bufa e tenta mancando fugir de uma Nessie enfurecida.
Eu não queria estar na pele de lobo dele, porque ela pode ser minha filha, mas tem um gênio...
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4. Outro tipo de sede
Ainda rindo e com pena de meu amigo, me viro para encontrar os olhos de meu marido.
Bem, já que somos só nós dois agora, que tal caçarmos para valer? Estou com muita sede, aliás, como
sempre.
Edward toma minha mão com um olhar faminto e aquele sorriso de um milhão de dólares.
Na verdade eu estava pensando em matar outro tipo de sede.
Quase me derreto naquele olhar âmbar tentador, mas por um milésimo de segundo a sede falou mais
alto.
Oferta aceita! Mas só depois de caçar pelo menos uma corsa ou um veado. Estou faminta! Por favor!?
Por favor!? Por favor!?
Tudo que você quiser querida, mas depois é minha vez de escolher o cardápio.
Tentando me manter calma e num clima mais leve brinquei.
Promessas e promessas.
Falei meio surpresa pelo tom que usei. Provocador, quase sedutor.
Veremos se serão somente promessas.
Ele falou com um sorriso encantador. Deus! Como ele faz isso? Pensei por um momento em desistir da
dor da sede e ir com ele para nossa choupana escondida. Mas consegui me conter e saímos de mãos dadas
floresta à dentro. Eu realmente precisava me alimentar, a dor estava ficando insuportável.
Depois de devorar duas corsas, ao invés de apenas uma como eu tinha sugerido. Me limpei e fomos em
direção a nossa choupana. Estava tudo como deixamos. O que não era de se estranhar, afinal, Nessie quase
nunca vem aqui.
Eu fui tomar banho primeiro porque estava em piores condições, como sempre. Mas posso me dar um
Não sentimos mais as temperaturas como quando éramos humanos, mas ainda posso afirmar que uma
chuveirada quente é ótima. Quando terminei de me enxaguar, percebi um movimento no banheiro. Fiquei
parada, pronta para qualquer coisa. Exceto talvez, para o que realmente era. Edward estava apenas com
uma toalha amarrada na cintura e tinha aberto a cortina para que eu pudesse vê-lo. Seu perfeito peito nu
estava à mostra e seu olhar cálido.
Posso me juntar à você, minha adorada esposa?
Ele falou docemente, enquanto tirava a toalha e entrava no banheiro. Ainda me surpreende que ele
um anjo na terra me chame de esposa e adorada, na mesma sentença. Isso tudo só para mim!?
Vendo aquela perfeita escultura de mármore viva, vindo em minha direção, me olhando como se ele,
por sua vez, estivesse vendo um anjo e ainda me fazendo uma proposta dessas. Pelo amor de Deus! Não é
justo. Deveria haver alguma lei que proibisse tanta beleza em uma pessoa só. Chega a doer. Ainda bem que
eu já tinha terminado, porque, tenho quase certeza que banho vai ser a última coisa a ser pensada nesse
banheiro pelas próximas horas.
****
Depois de secos, nos trocamos e fomos para nossa cama. Não precisamos dormir, mas gostamos de
ficar deitados juntinhos. Como quando namorávamos. Era romântico, apesar do frio enorme que sentia na
época. Eu tinha que disfarçar muito bem isso, senão ele se retirava imediatamente com receio de eu ter
uma hipotermia ou algo, o que era justificado, porém infinitamente mais doloroso para mim, era ficar
longe de seu corpo.
Sempre aproveitamos a oportunidade para namorar ou simplesmente conversar sobre tudo que não
conseguimos durante o dia. Ele deitou-se primeiro e em seguida deitei sobre seu corpo perfeito.
Ed?
Sim, amor?
Eu estava conversando com o Charlie um dia desses sobre a Nessie e o Jacob, estarem... se acertando.
Me lembrei do mesmo embaraço do meu pai falando sobre isso comigo e ri internamente por saber o
quanto parecemos em alguns aspectos.
E?
desconto, afinal ele tem mais do que um século de prática à minha frente.
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Ele levantou uma das sobrancelhas e aguardou. Certamente imaginando que não iria gostar muito de
para onde essa conversa estava indo.
Ele me falava que estava preocupado com a diferença de idade deles e que tinha medo de a perder
tão cedo.
Olhei para ele tentando adivinhar sua reação.
O que você lhe falou?
Ele questionou não dando indícios do que se passava em sua cabeça. Odeio quando ele faz isso. Agora
está menos freqüente, estamos conseguindo nos comunicar não-verbalmente com tanta facilidade que os
outros se irritam quando conversamos sem dizer nada. Gostaria de saber por onde estou andando, nesse
momento.
Falei que não se preocupasse com ela, porque confio nas suas escolhas e que se ela tivesse que
escolher alguém eu não veria escolha melhor que o Jacob.
Espero que ele não esteja pensando muito diferente de mim a respeito. Já tivemos conversas
semelhantes algumas dezenas de vezes, mas sempre hipoteticamente uma vez que Nessie ainda era um
bebê. Mas agora ela é uma moça, por volta dos dezessete anos. Uma idade em que ele começaria a ter
esse tipo de pensamento e eu precisava saber o que Edward achava a respeito para ajudar minha filha no
que ela decidisse.
Hmm.
Ele fez uma expressão pensativa e relaxou.
É. Acho que você tem razão. Concordo com o que você disse.
Eu também relaxei um pouco e ele adicionou.
Só gostaria que eu não tivesse que ter um genro cão.
Ele deu aquele meu sorriso torto.
Ei?! Não fala assim, vai. Ele se tornou seu melhor amigo também e teve mais de dois anos para
conhecê-lo melhor, sabe que ele é um bom homem, quer dizer lobo.
Eu falei passivamente e adicionei ainda com voz pausada e calorosa.
Ele daria sua própria vida pela a dela em um piscar de olhos e você sabe disso. A protegeria contra
tudo e todos. Faria de tudo para fazê-la feliz. O que mais você poderia esperar?
Calma! Eu também não vejo genro que pudesse ser melhor para ela do que o Jake, é só que... bem,
ele ainda é um cão e fede como tal.
Ele riu e piscou para mim. Então percebi que ele só estava me provocando.
Eu sei Bella, ele com certeza a fará feliz. Mas eu tenho que admitir que gostaria que ainda não fosse
tão cedo.
Ele fez uma expressão hilária. Mistura de raiva moderada, pesar e saudosismo. Usei meus dedos para
desfazer sua expressão e continuei.
Te entendo amor, era mais fácil quando falávamos esse tipo de coisa quando ainda era uma
possibilidade distante. Quando ela era um bebê e ainda não tínhamos que nos preocupar com isso. Mas ela
cresceu, se tornou uma bela moça. E parece demonstrar o mesmo sentimento que o Jake tem por ela. O
que mais podemos fazer?
Despachar ele para o Japão?
Edward!?
Só estou brincando... além do que, não acho que funcionaria. Ele daria um jeito de voltar.
Falou sério como se tivesse mesmo pensado a respeito. Ele é tão ciumento e protetor com ela, quanto é
comigo.
O que está te impedindo de aceitar o relacionamento dos dois?
Nada. É só o que você disse. Ela cresceu muito cedo. Mas também confio no discernimento dela. Sei
que fará o que é certo, afinal, ela é sua filha.
Ele olhou afetuosamente para mim e eu não pude deixar de me derreter. Normalmente não faço isso,
mas resolvi mudar de assunto antes que eu perdesse o foco.
Edward, eu queria falar sobre outra coisa também.
Ele fez uma expressão série esperando.
Me fale sobre o que você mais se lembra de quando era humano.
26
Por que você quer conversar sobre isso?
Porque quando conversamos sobre minha mãe, naquele final de semana com meu pai, ficou claro
para mim o quanto você amava a sua mãe e sente falta dela. Então eu comecei a pensar na época em que
você viveu. O que você gostava ou não. Enfim, sua vida antes da imortalidade.
Você percebeu isso, hun? Eu já deveria esperar.
Como assim?
É que eu acho incrível sua capacidade de observação.
Ok. Mas não estamos falando de mim. Não mude de assunto. Me fale tudo que vier a mente sobre
quando você era humano.
Sim Senhora Cullen. Será uma honra. Por onde devemos começar?
Que tal... qual era seu nome antes de se juntar aos Cullens? como era sua casa na infância? Você tinha
irmãos?
Edward Anthony Masen. Eu não gostava muito do meu nome do meio, mas hoje eu gosto porque me
lembra um pouco de quando eu era humano. Era uma casa muito bonita e espaçosa. Bem verdade que
tinha um ar austero à primeira vista, tipicamente de meu pai, mas quando você entrava, se sentia quente e
confortável pela decoração que minha mãe tinha feito. Era também muito prática, seguindo as tendências
do que era bem visto pela alta sociedade da época. E a minha família tinha algumas posses, que garantia
uma condição social aceitável. Infelizmente era filho único. Minha mãe, Elizabeth Mansen, não pode ter
mais filhos.
Conhecendo a modéstia de Edward e seu desapego aos bens materiais aliás, como a maioria dos
imortais que conheço, por motivos óbvios dá para imaginar que essa condição social aceitável não era
nem perto da realidade. Mas como parece que isso o incomoda resolvi deixar ele continuar sobre as outras
coisas. Mudei de assunto imediatamente.
E seu pai? Por que nunca vejo você falando sobre ele? A única coisa que sei dele é que tinha o mesmo
nome que o seu. Edward.
É porque não tenho do que falar. Edward Senior, industrial bem sucedido. Quando ele morreu, eu e
minha mãe já estávamos doente da gripe espanhola e antes disso ele não era muito... participativo em
nossas vidas, por assim dizer. Por isso que não tenho muito o que me lembrar dele. E você sabe que
memórias humanas não são boas, principalmente sendo poucas. Para todos os efeitos e causas, Carlisle é o
único pai que conheci. E sou muito grato por ter ele em minha existência.
Concordo. Ele é realmente excelente, aliás, Esme também. Mas e sua vida... amorosa? Aposto que as
mulheres caíam aos seus pés.
Ele riu e olhou para o teto. Provavelmente tentando lembrar dos detalhes das milhões de mulheres
lindas, delicadas e refinadas que ele conheceu e o cortejou na época. Comecei a me arrepender de ter
perguntado. E se ele se lembrasse bem demais de alguma garota da sua época?
Não tinha. Eu já te disse. Eu só pensava em ser um herói de guerra, não olhava para as mulheres ao
meu redor. Além do mais, eu sabia que a garota certa iria aparecer algum dia. Depois de mais de um
século de espera, eu cheguei a pensar que não iria acontecer, que estava destinado a passar minha
eternidade só. Mas então você apareceu e mudou meu mundo.
Ele me puxou e deu-me um beijo no topo da cabeça. Eu queria saber como ele sempre sabe a coisa
certa e a hora certa para se dizer. Sorri para mim mesma, encolhida em seu peito para esconder o orgulho
de tê-lo como meu marido. Imagino todas as que o quiseram durante esse século, e que não devem ter
sido poucas, e EU fui a escolhida. EU.
Ainda não entendo a escolha dele, mas estou totalmente feliz por ele ter feito.
O que você gostava de fazer? Digo, para se divertir.
Bem, certamente não existiam tantas opções como hoje. E a sociedade era diferente também. Era
tudo tão mais reservado às nossas famílias e amigos mais próximos.
Seus lábios fecharam em uma linha reta e ele sacudiu a cabeça.
Como assim?
Obviamente não tinha diversões como: shoppings, boates e grandes shows musicais, por exemplo.
Porém, existiam teatros, bailes e noites de poesias. Na época, o cinema ainda estava... engatinhando, já
que tinha sido criado em 1895 pouco antes deu nascer humano em 1901. É bem verdade que o cinema
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em minha juventude não era exatamente bem visto pela sociedade tradicional da época, portanto quase
não existia. Mesmo assim eu ia escondido às vezes, nos poucos locais onde passavam películas, ainda sem
som, que foram lançadas quando eu tinha quinze ou dezesseis anos humanos. Como O Nascimento de
uma nação ou Intolerância. Entretanto, devo admitir que fui mais por influência de alguns amigos, do
que por meu interesse. Sempre fui um filho obediente e bem comportado. Não era de meu feitio fazer
coisas que desagradassem meus pais ou a sociedade em que vivíamos.
Ele ficou calado com alguns momentos, olhando a esmo e retomou seu raciocínio.
Como falei, era tudo mais reservado. Na maioria das vezes apenas ficava em casa lendo um bom livro,
hábito que se tem até hoje e que você é adepta.
Ele falou divertido, tocando a ponta do seu dedo no meu nariz. Então continuou.
Ficava tocando o piano para minha mãe e amigos, ou simplesmente em casa sonhando acordado,
fazendo planos para o futuro. Claro que essa parte não funcionou tão bem, afinal quem imaginaria para
seu futuro: Após a morte de minha mãe por gripe espanhola e que quase me matará também, vou me
tornar um vampiro, existir durante mais de um século em solidão, apesar de ter tido a sorte de encontrar
uma outra família. Mesmo eu sendo um vampiro, finalmente me casarei, e com uma humana! Terei uma
filha meio-vampira e meio-humana, por fim minha amada se tornará vampira quase morrendo no
processo e terei um homem-lobo como meu melhor amigo.
Ele deu um sorriso sombrio de seu humor negro e continuou.
Não. Acho que ninguém imaginaria algo assim. Mas apesar dos percalços, tenho certeza que tudo
aconteceu como deveria ter acontecido.
Eu não tinha percebido o quanto esse assunto o machucava. Principalmente a parte da sua mãe. Eu me
levantei um pouco para meus olhos encontrarem os dele.
Deve ter sido uma existência difícil para você. Principalmente por sentir falta de sua mãe. Eu também
gostaria que ela estivesse aqui, que eu pudesse conhecê-la e agradecer por você existir, que ela
conhecesse sua neta e... infelizmente isso não acontecerá. Mas estamos aqui por você! Eu, sua filha, sua
família e seus amigos. Para sempre, meu amor. Eu prometo! Não fique triste, por favor.
Abaixei minha cabeça por vergonha de ter trazido à tona esse assunto que o entristece tanto. Ele virou
meu rosto para que o encarasse, olhando-me nos olhos.
Isabella Cullen, eu juro que se pudesse, estaria chorando agora.
Como sou estúpida, eu não deveria ter puxado esse assunto. Me perdoe. Eu não...
Minha voz sumiu. Não consegui nem mesmo terminar a frase, com mais vergonha ainda. Estúpida.
Estúpida. Estúpida.
Me deixe terminar, por favor. Estaria chorando de tanta emoção.
Ele pausou e me olhou com grande intensidade.
Por ter encontrado para minha eternidade, uma companheira tão sensível, amável, forte e linda como
você. Por ter a filha maravilhosa que temos, pela família adotiva que tenho, que é melhor do que muita
família de sangue que conheci durante esses anos. Pelos amigos leais, com quem posso contar. E devo
muito disso a você, Isabella Marie Swan, agora minha adorada esposa, Isabella Marie Cullen. Eu te amo
cada vez mais e estou muito feliz por ter você ao meu lado. E não trocaria isso por nada, nesse e em
nenhum outro mundo ou época.
Nos abraçamos fortemente e eu relaxei. Ele me beijou com tanta paixão que eu teria ficado sem ar, se
pudesse. Depois ele começou a beijar meu queixo e a percorrer a forma do meu pescoço com seus lábios.
Suas mãos apoiando-se em minhas costas nuas. Inclinei minha cabeça para trás, para que ele tivesse
melhor acesso ao meu pescoço. Coloquei meus dedos entre seus cabelos bronze para ajudar a puxá-lo
mais pra mim, enquanto me posicionava melhor. Não pude deixar de admirar aquele corpo perfeito,
esculpido pelos deuses em mármore branco. E indo contra toda a lógica, ele me ama, assim como eu o
amo.
Incessantemente, ele percorria as curvas do meu corpo com suas mãos fortes e macias, não mais frias
como quando eu era humana e ele imortal. Agora elas são quentes, tão quentes que me derretem. Ele
crava seus dedos em minha carne e me morde em alguns momentos. Sentou-se, comigo por cima.
Gememos de tanta emoção misturada. Nos amamos apaixonadamente até a manhã seguinte.
28
Acho que não haveria tempo suficiente no mundo para eu matar essa necessidade que tenho dele. Mas
sabíamos que com o raiar do dia, nossas obrigações como pais nos esperavam, então aproveitamos o
máximo que pudemos. O que nos conforta, é o fato de que teremos um ao outro por toda a eternidade.
Na manhã seguinte recebemos visitantes inesperados, mas muito bem vindos. Os Denalis vieram nos
ver.
Eles preferem viajar a noite, por motivos óbvios. Mas resolveram vir pela manhã. Me pergunto por que.
Bom dia Tanya, Carmem e Eleazar. Bem vindos à nossa humilde residência. Que bom que vocês
também vieram Kate e Garrett, já havia um tempo desde sua última visita.
Falou Carlisle, com um sorriso na face, como o bom anfitrião que é.
Olá Carlisle. Gentil como sempre. Onde estão os outros membros dessa adorável família?
Carmem por sua vez, repetiu a mesma mesura de meu sogro. Eu e Edward nos aproximamos para
abraçar nossos amigos.
Oh, Isabella! O casamento realmente te fez muito bem. Você está cada vez mais radiante, querida!
Olhei para meu marido e compartilhamos um momento de palavras não ditas, que somente os casais
têm entre si. Sorrimos e disfarçamos. Se ainda fosse humana não teria como disfarçar nada, porque o
rubor de minhas bochechas teriam me entregado.
Hmm, é só Bella, Carmem. Se não se incomodar.
Edward pediu para ela, o que me deixou ainda mais embaraçada. Afinal, depois de tudo que eles
fizeram por nós, ela pode me chamar do que quiser. Ele sabe que não gosto de ser chamada pelo meu
primeiro nome, mas nesse caso eu aceitaria de bom grado.
Não entendo por que. É um nome tão bonito. Que seja, Bella.
Você também me parece ótima, Carmem! O mesmo serve perfeitamente para vocês, Tânia e Kate.
Que belo vestido você está usando!
Não entendo nada de moda como Alice ou Rose, mas posso muito bem identificar o que é bonito e esse
vestido com certeza o era. Posso apostar que muito caro também. Achei que seria gentil comentar sobre
seu belo vestido, já que elas gostam tanto desse tipo de assunto, além de tirar a atenção da situação do
meu nome.
Obrigada querida. Madrid, última coleção.
Estamos muito felizes por tê-los aqui.
Edward apertava a mão de Eleazar. Puxei Carmem de lado discretamente e perguntei o que minha
curiosidade já não podia esperar. Por que eles resolveram viajar durante o dia sabendo que estava
excepcionalmente claro, não ensolarado, mas claro o suficiente para os humanos verem seu brilho.
Ela me respondeu que vieram durante o dia porque passaram a noite vendo alguns imóveis na região e
gastaram mais tempo nessa tarefa do que o esperado. Estão pensando em comprar uma casa de campo.
Decidiram por essa localidade pelo clima perfeito para nós vampiros, estando sempre nublado e com
chuvas. Acreditam ser uma boa opção, além do fato de ser perto de nossa morada.
Nos encaminhamos para a sala de estar e ficamos colocando nossas conversas em dia. Recebemos
constantemente as visitas deles, mas dessa vez tinham passadas algumas semanas desde a última vez que
nos vimos.
Então Eleazar, como vão as coisas?
Escutei Edward perguntando amenidades. Quase ri porque sei que ele não é muito desses temas, mas
como conheço meu marido muito bem, imagino que após as delicadezas de tratamento perguntará sobre
as novidades que mais nos interessa: Os Volturis.
Mesmo com toda nossa aparente calma, este é um assunto que ainda nos atormenta. Provavelmente a
mim mais do que os demais. Sei que eles não podem fazer nada abertamente contra nós, após tudo que
aconteceu. Todavia, eu sinto, no meu interior, que eles não vão deixar tão barato.
Muito bem obrigada, Edward.
Eleazar aparentava uma falsa tranqüilidade, das que percebemos em pessoas que esperam o melhor
momento para dar más notícias.
Mesmo eu estando em outro círculo de conversar, já que estava sentada um pouco afastada, com
Carmem, Tanya e Kate, não pude deixar de me prender no que eles conversavam. Era um assunto por
demais importante para que eu não ouvisse.
29
Não se preocupe cariño, ele fala a verdade. Os Volturis estão meio reclusos depois do conflito.
Carmem colocou a mão sobre a minha, na tentativa de me tranqüilizar. Imagino que ela deva ter
percebido que eu estava mais interessada na conversa entre meu marido e Eleazar, do que no papo de
garotas que estava acontecendo bem ali, onde eu estava.
Eu me senti um pouco envergonhada por não ser uma anfitriã tão boa quanto Carlisle, já que não
estava dando a devida atenção às minhas convidadas. Abaixei minha cabeça levemente e ainda
embaraçada sorri para ela.
Apesar de eu desejar, imensamente, uma oportunidade de vingar minha irmã Irina, não vejo motivos
para preocupação com eles. Estamos cobertos por todas as testemunhas que tivemos, além do fato
deles estarem com vergonha por não terem conseguido fazer o que eles se propuseram com sua visita à
Forks.
Não era culpa dela, mas esse comentário final só me deixou mais aflita.
Ela não sabia, mas era exatamente por isso que eu temia. Nem quando o inferno congelasse os Volturis
nos deixariam escapar sem retaliação por tudo que eles passaram em frente a uma platéia de vampiros de
todas as partes. Além do fato de que eles desejam adicionar os talentosos de minha família em seu clã de
dominação.
Tentei disfarçar para não criar uma situação desagradável. Fiz minha melhor cara de simpatia e
continuei a conversa. Claro que, não esquecendo a conversa que acontecia ali perto.
Então, por que vocês demoraram tanto em nos visitar dessa vez? Não que eu ache que vocês não já
devam ter enjoado de nós e que não tenham suas próprias coisas para cuidar, mas meio que nos
habituamos com suas presenças por aqui.
Acho que consegui convencer o suficiente, pois ela engoliu a isca das novidades.
Como falamos, estamos em fase de prospecção de uma nova casa de campo para nós. Apesar de eu
insistir em ficarmos perto daqui, pelo clima e para ficar mais próximos à vocês, minhas irmãs acharam
melhor olhar em outros locais também. E é o que temos feito nessas últimas semanas.
Ela parecia cansada, mas não fisicamente, já que vampiros não se cansam fisicamente. Acho que a
busca não a agradou muito. Pelo que conheço dela, acredito que nem pensaria duas vezes antes de ficar
mais próximo à nós, sobretudo da Nessie.
Não me entenda mal, adoraria que vocês ficassem mais próximos geograficamente de nós. Mas não
me parece uma idéia tão ruim olhar outras opções em outros locais do mundo. Por que você não me
parece muito feliz com isso?
Ela deu um pequeno sorriso e parecia perdida em seus pensamentos por alguns segundos. Olhou para
meus olhos e disse agradável.
Sabe Isabella, quer dizer, Bella.
Ela parou para me olhar com ares apologéticos e continuou com o mesmo tom agradável e pausado.
Se você tivesse vivido algumas centenas de anos como eu, perceberia que o local não importa muito.
Seria apenas mais um ponto onde ficaríamos até que os humanos desconfiassem de nossa espécie e
fôssemos embora. Por isso já tive moradias em praticamente todos os lugares, éramos quase nômades, de
luxo é claro!
Ela riu levemente de sua piada e voltou a ficar séria para continuar com seu pensamento.
Porém, depois que formamos uma família, vegetariana que nos torna mais humanos por assim
dizer. Depois de formar laços emocionais com amigos como Carlisle e sua adorável família, conseguimos
nos sentir em um lar. Ela fez uma pequena pausa olhando em meus olhos. Acho que para enfatizar seu
ponto.
E isso para nós, imortais, é muito raro. Precisa ser valorizado a todo custo. Por isso, que em minha
opinião, deveríamos ter procurado uma nova residência aqui perto e ponto final. Nada de explorar outras
possibilidades.
Acho que consigo entender ela. Ter uma família, no sentido real da palavra e não apenas um
agrupamento de vampiros, é uma rara exceção à regra no nosso mundo.
Na verdade, sabem-se de casos assim exclusivamente com a nossa família, os Denalis e uma família
ainda mais compacta, Nahuel e sua Tia Huilen.
30
Os demais de nossa espécie, preferem viver só ou em pequenos agrupamentos de interesses em
comum. Quase como uma sociedade em um empreendimento. E se você pensar bem, era exatamente isso.
Então Bella, quando voltaremos aos nossos treinamentos?
Kate interrompeu minha conversa com Carmem com sua excitação. Desconfio que ela fique tão feliz em
ensinar, ou pelo menos, em me atormentar com suas descargas elétricas, que nem pode esperar por nossa
próxima aula. Eu estou muito feliz em finalmente começar a dominar meu dom e muito grata a Kate pelo
esforço em me ajudar nesse processo.
Quando você quiser Kate. Eu não poderia estar mais grata por toda ajuda que vocês tem nos dado.
Ela pensou por um momento.
Acho que devemos esperar por Nessie primeiro. Estou com muitas saudades de minha sobrinha.
Como se ela fosse dar a mínima atenção à sua chegada comigo aqui todos os dias para ajudá-la.
Rose diz, entrando no aposento e sentando-se no lado oposto ao que estávamos. Olhando diretamente
para Kate e Carmem, como se as provocassem.
31
5. Gravetos e pedras.
Elas têm esse antagonismo entre si, pelo amor de minha filha. O que elas não sabem é que Nessie as
ama sem distinção. Honestamente, acho até que elas gostam de implicar umas com as outras.
Rose?! Não fala isso por favor.
Usei meu melhor tom compassivo. E suplicando com os olhos para que ela não complicasse a situação.
Ela revirou os olhos e calou-se.
Não se incomode, Bella. É puro despeito. Como vocês dizem aqui: Gravetos e pedras.
Rose apenas deu de ombros. E eu agradeci aos céus por não ter que me meter em uma briga dessas
duas verdadeiras feras.
Ela já deve estar chegando da escola, Kate. Jacob sempre a trás até em casa. Bem, isso quando nós
mesmo não a trazemos. Só ficamos em casa hoje porque Alice nos informou que seria um dia
especialmente claro em Sequim, além disso teríamos uma agradável surpresa. Agora sei que se tratava de
sua chegada.
Rose bufou como se discordasse de minha afirmação. Fato que Kate ignorou completamente.
Hmm. Ele a trás todos os dias?
Sim. Sem faltar um.
Ela não falou mais nada, mas pelo olhar que ela deu para Carmem eu poderia apostar que elas estavam
confirmando alguma teoria. Ela sacudiu levemente a cabeça e voltou-se para mim.
Então podemos começar enquanto a esperamos. O que lhe parece?
Parece como um plano para mim. Podemos ir então?
Ela nem me respondeu, apenas levantou-se com elegância e eu a conduzi para área lateral da casa,
onde normalmente usamos para treinar, pois temos espaço e privacidade.
Eu chamei Alice no caminho para fazer companhia às nossas demais convidadas porque, de jeito
nenhum eu as deixaria à sós com Rose. Não com o risco de acontecer uma guerra monumental na sala de
Esme.
Kate estava levemente atrás de mim, o que lamentei duramente depois do que me fez. Sem eu
perceber e nem mesmo ter a chance de tentar bloquear seu ataque, caí me contorcendo da descarga
elétrica que ela tinha me dado.
Com os treinamentos que temos feito juntas, ela descobriu um jeito de ultrapassar meu escudo
protetor, mas só se eu estiver muito distraída e ainda assim seus ataques não conseguem alcançar nem dez
por cento da capacidade de dano. Ainda assim, Deus! Como dói!
Jasper e Edward acreditam que isso aconteceu porque, como estou expandindo a capacidade do meu
dom, posso ter inconscientemente ampliado a minha área de proteção por alguns centímetros e daí tem a
brecha que Kate usa.
Rindo de minha desgraça ela começou a mover-se mais rapidamente.
O que? Você não esperava que eu fosse avisar quando atacaria, esperava?
O que confirmava minha teoria dela gostar de me atacar. Mas eu não me importava muito, afinal, o que
seria ela ter um pouquinho de prazer meio doentio, mas ainda uma diversão se estava me prestando
um favor tão grande?!
Só que essa brincadeira pode ser jogada por duas. Usei o que andei treinando com Jasper para me
movimentar mais rapidamente que ela no terreno que eu já conhecia, me posicionando ao seu lado e a
apertando-a com meus braços.
Nada mal. Parece que você andou treinando fisicamente com seus irmãos. Mas você se esqueceu de
uma coisa.
Ela nem mesmo olhou para mim quando falou isso. E no segundo seguinte eu estava sendo lançada à
alguns metros de distância dela, pela violência da descarga.
Porque, para minha infelicidade, esqueci de reforçar meu dom de bloqueio mental. Principalmente
porque não costumava precisar fazer isso, já que esse dom era nativo de mim. Mas como ela descobriu
essa brecha tenho que ficar mais atenta que o normal. Acho que meus treinos com Jasper e Emmet são
ótimos, mas de maneira alguma me preparam para enfrentar as descargas elétricas da Kate.
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Saltei sobre meu corpo. Uma vez de pé, travei minha mandíbula e me concentrei no meu escudo para
não sofrer esse golpe novamente. Mas ela fez algo que até o momento nunca tinha feito antes, começou a
correr, de mim.
Honestamente eu não entendi por que ela correu já que era, com grande margem, a melhor guerreira
entre nós duas, mesmo com minha vantagem do escudo, que agora estava como deveria, não poderia
superar suas centenas de anos de experiência.
Fiquei meio desconfiada. Ainda assim tentei acompanhá-la em sua corrida.
Sabe Bella, você não pode confiar exclusivamente no seu dom, tampouco em seu treinamento físico.
Precisa encontrar um equilíbrio para os dois, além de muita... malícia.
Do que ela está falando especificamente? Eu tenho treinado as duas coisas: meu dom e minha técnica
de batalha. E ela tem pleno conhecimento disso.
Ela tentou se esconder atrás de uma árvore com um tronco enorme. Eu pude sentir seu cheiro. Fui pelo
caminho que eu esperava ser o que ela menos esperasse que eu fosse, na tentativa de surpreendê-la.
E dessa vez ela não iria me pegar desprevenida. Preparei meu escudo e pulei na frente dela com minhas
mãos em garras. Mas a única coisa que minhas garras encontraram foi o tronco da árvore que ela tinha
deixado seu cheiro. Provavelmente se esfregando um pouco nela. Para onde ela foi? Como ela conseguiu
disfarçar seu cheiro? Por mais que ela tivesse deixado sua essência na árvore, seria infinitamente mais
fraca do que nela própria.
Antes que elaborasse mais minhas teorias a respeito, ela pulou em cima de mim. Não usando seu dom,
mas suas presas.
Viu o que falei?
Nossa, isso foi muito bom. Eu devo ser a pior aprendiz de todos os tempos do mundo dos vampiros.
Onde você estava afinal?
Ela me ajudou a levantar e enquanto eu tentava limpar minhas roupas, ela me explicava onde errei.
Você não foi tão ruim. Eu tive que aprender isso da pior maneira. Acredite. É instintivo seguir nossos
sentidos, principalmente quando se é um vampiro jovem. O que pode ser uma grande arma em muitos
casos, mas sempre, a melhor arma é usar o cérebro!
Ela colocou um dedo em minha testa para enfatizar seu comentário.
Você sentiu minha essência a assumiu que eu tentava me esconder depois de ter te atacado. Na
verdade, depois de deixar uma boa porção de minha essência no tronco da árvore eu me posicionei nos
galhos logo acima para ter uma melhor chance de contra-ataque.
Começamos a andar enquanto ela elaborava sua aula.
Você poderia ter esperado mais alguns segundos, avaliado melhor de onde estava vindo meu cheiro e
perceberia que apesar de perto, os locais não eram os mesmo e que a predominância era nos galhos acima
e não no tronco da árvore.
Agora que ela falou, pareceu tão lógico que eu me senti uma tola por não ter percebido o que estava
por vir.
Jasper já havia me alertado sobre esse tipo de coisa, mas imaginei que, ela tendo esse dom especial
que é mais mental do que físico não perderia tempo em bolar um ataque físico ao invés de usar seu dom.
Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa ela começou a correr novamente. Dessa vez eu
demorei menos tempo para segui-la. Estava mais alerta. Não queria perder ela de vista, para que não
tivesse tempo de bolar outro ardil para mim.
Sabe, às vezes eu acho que não nasci para isso, lutar, me defender, estratégias de ataque e defesa. Só
que quando penso no que pode vir pela frente para meus amigos e família, ganho mais força para
aprender. Mesmo que me tome toda a eternidade para isso!
Não me prendi nesse pensamento, preferi repassar tudo que Jasper tinha me ensinado sobre
estratégias de ataque e defesa. Só que ele não esperava que fosse enfrentar alguém como Kate, que além
de boa guerreira tinha um dom tão capaz.
Ela parece ter percebido minha hesitação enquanto pensava e usou seu dom. Me pegando mais uma
vez de surpresa. Hora ataque físico e hora ataque por dons? Deus! Será que não vou parar de apanhar?
Eu estava sentada, me decidindo se levantava novamente para apanhar ou pedia misericórdia.
Kate veio em minha direção. Era para terminar o serviço ou o quê?
33
É mais difícil controlar seus dons quando se está em movimento. E ainda pior quando se está
concentrando em outras coisas, como estratégias de batalha.
Acho que ela percebeu minha expressão e continuou.
Não se martirize tanto. É comum ter essas dificuldades no começo. Depois de muita prática e
dedicação, usar seu dom se torna tão instintivo quando farejar o ar. Você nem precisará mais pensar a
respeito, o instinto tomará conta por você. Eu desejei mais uma vez que eu não tivesse expandido muito
meu escudo, daí não teria que me concentrar, ficaria ativo e onde deveria naturalmente. Só espero que
outros não descubram que existe essa possibilidade.
Mais uma vez ela me deu a mão para me ajudar a levantar, mas como eu já estava bem calejada de
todas essas surpresas, montei meu escudo mental e puxei-a para um abraço de quebrar os ossos.
Ela parecia surpresa dessa vez.
Te peguei, hun?!
Ok. Ok. Você já demonstrou que aprendeu a lição, mas será que já pode me soltar? Está amassando
meu vestido novo.
Não me contive, comecei a rir. Com ela me acompanhando logo depois de eu a ter soltado.
Então? Não posso deixar as duas sozinhas para se sujarem com brincadeiras na lama?
Nessie surgiu por entre as árvores, usando um tom matriarcal. Bem do tipo que uso quando quero dar
uma lição nela.
Nessie! Bom te ver! Como diria a Carmen: Estás muy guapa, cariño!
Olá, Tia Kate! Senti sua falta. Quando chegou? Trouxe algum presente para mim?
Nessie!?!
O que? Eles sempre trazem presentes para mim mesmo sem eu pedir e ouvi dizer que lançaram a
coleção nova em Madrid que está perfeita. Além do mais, perguntar não ofende. Não é mesmo Tia Kate?
Ela virou-se para encarar Kate, que com um sorriso deslumbrante que ia de uma orelha a outra
respondeu negativamente com a cabeça.
Eu desisti. Como todo mundo mima a Nessie, os Denalis não seriam diferente. Às vezes desconfio que
fazer ilusões não é o único dom dela, tem que ter mais alguma coisa, algo como deslumbramento.
Mesmo que eu seja suspeita para falar isso, já que ela é minha filha. Não que ela não seja gentil,
encantadora, doce, inteligente e bonita. O que provavelmente já seria o bastante para toda essa comoção,
mas é muito forte e imediato. Porque praticamente todos que a conhecem se apaixonam
instantaneamente por ela. É algo impressionante. Tenho que me lembrar de conversar sobre isso com
Edward, mas não creio que vá funcionar muito bem, por que ele é o segundo maior fã dela. A primeira
maior fã sou eu!
Tentei dar uma aparência mais apresentável às minhas roupas e voltamos para a casa.
Encontramos Jacob já na roda de conversas com Edward, Eleazar e Garrett. Meus sogros estavam com
Alice fazendo companhia à Carmem e Tanya.
Não vi Rose em lugar algum. Imagino que ela deva ter se cansado de trocar farpas com Carmem que
também tem um gênio terrível e deve ter ido procurar Emmet ou cuidar de um de seus hobbies.
Logo se tornou uma reunião familiar, com exceção se Rose e Emmet, todos estavam reunidos
conversando em um grande grupo. Os Denalis e os Cullens. Após algumas horas, começamos a nos separar,
formando pequenos grupos de conversa. Achei que era minha oportunidade de conversar com Eleazar.
Aproveitei a distração de todos e sinalizei com a cabeça levemente quando ele olhou para mim. Será que
os vampiros ficam distraídos mesmo? Espero que sim. Eu não queria que Edward me visse conversando
com Eleazar, certamente iria educadamente entrar na conversa e mudar o rumo que essa tomaria, para
que não falássemos sobre os Volturis.
Acho que funcionou porque Eleazar me seguiu até a sacada.
Então Bella, em que posso ajudar-lhe? Você me parece meio desconcertada.
Me senti meio constrangida por falar com ele sem Edward, mas não por envolvimentos amorosos ou
algo do gênero porque isso não ocorreria na cabeça de nenhum de nós dois. Somos completamente
comprometidos com nossos companheiros. Mas porque conversar com ele pelas costas de meu marido, eu
sentia como se fosse uma traição também. Mesmo sendo por bons motivos.
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Estou realmente. Me desculpe. É que não pude deixar de notar que você me pareceu meio tenso
quando Edward perguntou sobre as novidades. E...
E você gostaria de saber o que me incomodava, contudo não poderia fazer isso com Edward por
perto porque sabia que ele iria mudar de assunto para não perturbá-la. Estou perto?
Ele falou com uma voz grave e pausada. Como a de um guerreiro experiente.
Está perto sim.
Falei simplesmente e olhei para a vista à nossa frente. A floresta à noite era calma, pacífica e bonita. Eu
não poderia admirar com tantos detalhes com minha visão humana como eu posso agora.
Então?
O que falei é verdade. Os Volturis estão calmos, sem nenhum movimento.
Então por que você estava tão tenso? Quer dizer, se não havia motivos graves envolvendo os Volturis.
De repente pensei que poderia ser alguma coisa pessoal. Me senti muito tola e intrometida.
Oh! Por favor, me perdoe, se for algum motivo pessoal. Eu não tenho nenhum direito de meter em
sua vida.
Ele levantou uma mão negando a possibilidade que eu havia sugerido.
Você estava certa antes, Bella. Foi realmente por causa dos Volturis que eu tentei, sem sucesso,
disfarçar minha preocupação.
Me encolhi com a confirmação de meu pressentimento.
O que está acontecendo então?
Nada.
Eu tenho que me acostumar a falar com vampiros. São tão irritantes, quer dizer, enigmáticos em suas
charadas. Ele parece ter percebido minha expressão e continuou.
É exatamente isso que me preocupa. Eles não estão fazendo nada. Mesmo com toda a repercussão da
quase guerra que ocorreu, suas intenções frustradas, a confiança de seus seguidores um pouco abalada e
eles não estão fazendo nada.
Parece que ele teve a mesma realização que eu.
Era de se esperar que eles não fizessem nada imediatamente, caso contrário só daria mais força aos
rumores. Mas agora? Essa calmaria total? Não sei. Isso vai de encontro com tudo que eu conheci deles.
Eu penso o mesmo que você, meu amigo. E nem posso falar com Edward a respeito, porque logo
quando inicio uma conversa sobre os Volturis ele me interrompe mudando de assunto. Eu sei que é para
me poupar, mas é um assunto importante demais para ser ignorado.
Olhei para seus olhos e voltei a fitar a paisagem.
Estou preocupado também. Claro que pela segurança de vocês, mas principalmente pela segurança da
minha família. Não posso perder a Carmem. Ela é tudo para mim.
Eu estava surpresa por Eleazar falar assim tão abertamente. Desde que nos conhecemos eu faço uma
idéia dele como um guerreiro, muito eficiente e estrategista. Ele nunca foi muito de demonstrar seus
sentimentos pela Carmem. Pelo menos não em público.
Entendo. E é por isso que eu acho que deveríamos nos preparar, ao invés de continuar nossas
existências como se nada tivesse acontecido.
Concordo Bella, mas você tem que entender que não há nada que possamos fazer até que eles façam
algum movimento e então possamos montar algum plano de defesa. Portanto, seu marido não está tão
errado em querer que vocês continuem com suas rotinas. Ele não faz por mal.
Eleazar tocou meu ombro para me confortar.
Eu sei. Só não consigo deixar de me preocupar.
Falei honestamente.
Tudo bem. É normal numa situação como essa. Só não deixe que isso influencie muito no seu dia-adia.
Entende?
Ele olhou em meus olhos para ter certeza que a mensagem foi entendida.
Sim. Obrigada Eleazar você tem sido um bom amigo para todos nós. Aliás, todos os Denalis estão
sendo.
Não há de que. Afinal é para isso que a família serve. E nós consideramos parte de sua família
também, talvez uns primos distantes, quem sabe?
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Ele agora parecia relaxado e eu não pude deixar de me sentir mais calma também.
É. Quem sabe.
Vamos. É melhor descermos.
Voltamos a encontrar os outros. Eleazar foi encontrar Carmem, colocando seu braço sobre os ombros
dela e eu fui atrás de Edward. Que estava em um canto da casa com uma aparência cansada, totalmente
suspeita, já que vampiros não se cansam. Acho que eu deveria ter imaginado ele estaria ouvindo tudo. Eu
tinha me afastado ao máximo para tentar fugir dele, mas quem podia imaginar a distância que ele poderia
ouvir os pensamentos.
Me aproximei e sentei-me ao lado dele, desconfortável por ter feito tudo aquilo escondido para ele e
pior por ter esquecido o principal. Que ele ouve tudo.
Então.
Falei para ele simplesmente.
Então.
Ele falou um pouco mais relaxado para mim.
Deve ser chato você ouvir uma conversa só da perspectiva de uma pessoa, hun?
É meio frustrante.
Ele admitiu com aquele sorriso torto que eu amo. Eu tinha que tentar defender minha razão para
aquilo.
Edward, você tem que parar de tentar me proteger. Não sou mais tão frágil como antes, não mais
como vidro. Agora sou como diamante, igual a você.
Coloquei seu rosto entre minhas duas mãos, me aproximei e beijei ternamente seu olho, repetindo no
outro. Ele suspirou e abriu seus olhos.
Eu sei Bella, mas velhos hábitos são difíceis de perder. Se dependesse de mim eu afastaria qualquer
mal de você, amor. Além do que, eu não suportaria te perder, dói indescritivelmente somente pensar a
respeito.
Aquilo mexeu comigo. Principalmente porque tenho o mesmo sentimento. Mas eu não poderia ceder,
ele tem que parar de me poupar das coisas desagradáveis.
Entendo. Mas por favor, tente. Ok?
Ele afirmou com a cabeça e nos beijamos longamente antes de nos despedirmos de todos e irmos para
nossa choupana.
***
Era dia de treinamento com Jasper e Emmet. Sempre um dia ruim para mim. Quer dizer, não me
entenda mal, eu estava aprendendo muito e eu tinha pedido por isso. Mas se tivesse uma maneira de
evitar a parte das sessões de vamos ver o quanto ela agüenta, seria melhor.
Se ainda pudesse, teria uma série de ossos quebrados e hematomas espalhados pelo corpo. Apesar
disso, só posso ficar agradecida que eles tenham paciência para continuar com nossas aulas.
Então Bella, quem vai ser hoje?
Falou Emmet aparentemente excitado com a nova sessão que se iniciava. Normalmente eu treinava
com um enquanto o outro observava e passava instruções. Emmet sempre prefere que ele seja o meu
adversário, enquanto Jasper nos orientava. Isso porque ele preferia estar me surrando ao invés de apenas
vendo eu apanhar. Resolvi fazer-lhe um agrado.
Vamos lá Emmet. Jasper pode nos orientar hoje.
Andamos para o local onde costumamos treinar. Uma área aberta cercada pela floresta densa.
Escolhemos esse local por ser isolado, portanto sem chance de humanos desavisados passarem por perto
em nosso momento de maior instinto assassino. Claro que também tinha a vantagem de ser perto de casa.
Ele, mesmo não precisando, alongou-se, estalou seus dedos das mãos e se posicionou para nosso
treinamento.
De tanto treinar com eles, eu acabei pegando alguns truques de como sofrer menos, porque só com
mais alguns séculos de experiência eu poderia ficar um pouco mais próxima às habilidades desses
guerreiros. E talvez sofrer menos ainda.
Emmet por exemplo, tinha a tendência a atacar diretamente, ou seja, um ataque frontal. Ele confia em
seu tamanho e força, que até para vampiros, são incomuns. Para mim, não era de todo mal a metodologia
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dele já que eu era menor e um pouco mais rápida. Mas nem essa vantagem conseguia me fazer escapar de
todos seus ataques. Ele sempre guardava um truque ou outro na manga, me pegando desprevenida e se
não tivesse a pele resistente como a atual, eu estaria perdida. Especialmente hoje, ele tinha decidido tirar
alguns coelhos de sua cartola, para minha infelicidade.
Como por exemplo, ele estava para usar um de seus movimentos favoritos, ele viria direto para mim,
faria um movimento para um lado e correria para o outro, conseguindo assim uma posição que me
surpreendia pelas costas, de onde ele me daria um abraço de urso, certamente me partindo em duas.
Graças a Deus, Jasper nunca deixa ele terminar o serviço.
Como eu já conheço esse movimento dele, também usei um jogo de corpo, balançando para um lado e
indo para o outro, ficando eu mesma atrás dele. Pensei em correr para ele por trás e golpear. Para meu
azar ele puxou um truque da manga.
Quando eu estava há apenas alguns centímetros dele, com minhas garras quase em seu pescoço, ele
ainda de costas, deu apenas um passo para o lado e estirou seu braço em uma linha reta. Como eu estava
em altíssima velocidade para compensar meu adversário, não tive tempo para me desviar. Foi como seu eu
tivesse batido com a cara em um poste. Juro que senti meu nariz mudar de posição.
Ainda bem que consigo me recuperar muito rápido agora como vampira, senão certamente iria precisar
de ajudar especializada para voltar a ter um rosto no lugar. E Emmet também teria sérios problemas se
Edward soubesse que eu não tinha mais um rosto, bem, pelo menos não um reconhecível. O pensamento
de Edward vingando minha honra em Emmet, quase me fez sentir melhor. Quase.
Depois de muito apanhar de Emmet, eu tinha conseguido alguma fugas razoáveis e ataques quase sem
efeito. Jasper resolveu ele mesmo ser meu oponente.
Enquanto que Emmet era mais direto, Jasper por sua vez, sempre era o mais trabalhoso para mim. Ele é
muito rápido e sagaz. Tem as técnicas de ataques que mais me surpreendem. Não era a toa que eu achava
que os Cullens se reportavam à ele quando se tratava de estratégias de batalhas e técnicas de ataques.
Acho que por sua vida militar mesmo antes de se tornar vampiro e é claro depois de transformado,
liderando um grupo insano de vampiros recém-nascidos, ele deve ter algumas centenas de experiências
nada agradáveis durante sua vida em batalhas. Más experiências essas, comprovadas em sua própria pele.
Eu não sei como alguém que foi transformado contra sua vontade, com objetivos funestos e teve a
existência que ele teve ainda conseguir preservar alguma humanidade.
Fico imaginando como ele era antes da Alice o conhecer. Voltando de meus devaneios aos meus
treinamentos, Emmet até que é um bom adversário para treinos, mas admito que aprendo mais com
Jasper. E hoje eu consegui aprender alguns truques novos bem interessantes com ele, que é mais didático
do que Emmet. Eu só não digo que estava exausta porque meu corpo não mais poderia ficar, porém minha
mente. Essa sim estava cansada.
Encerramos os treinamentos com Emmet ainda querendo mais ação. Graças a Deus Jasper percebeu
meu humor a respeito e insistiu que terminássemos. Voltamos todos para casa.
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6. Monstro do Lago Ness
RENESMEE
Jeesh! Sou o Monstro do Lago Ness.
Obrigada Jake, você me deve uma. Todo mundo me chama de Nessie desde que descobriram meu
apelido. Apelido esse, por culpa sua.
Não faz drama. Até que é bonitinho.
Jacob Black! Se você não fosse essa massa bruta de lobo e não estivéssemos em público arrancaria
essa sua cabeça de cachorro fora.
Jake riu tão alto que se desequilibrou. Ele não conseguia me imaginar, tão delicada e doce pelo menos
é como ele me vê além de metade do seu tamanho, cumprindo tal promessa.
Eu aproveitei o descuido e o empurrei, imaginando que ele cairia sentado. Só de visualizar a cena em
minha mente, comecei a rir. Mas Jake além de ser como eu mesma disse, muita massa para ser
empurrada, é também muito ágil e se equilibrou rapidamente.
Boa tentativa, mas talvez numa próxima.
Mostrei minha língua para ele e pensei em alguns xingamentos que preferi manter para mim mesma.
Nós andamos juntos pela floresta até minha casa. Brincando, conversando e fazendo gozação da cara um
do outro. É nossa rotina em dias de aula.
Jake já não estuda mais na reserva, ele convenceu seu pai a transferi-lo para a escola de gente cara
pálida. Honestamente acho que foi só um pretexto para ficar mais tempo comigo por causa do
imprinting e etecetera.
Paramos no nosso local favorito de treino de nossas habilidades. Em princípio, meu dom era limitado a
mostrar imagens de situações que aconteceram comigo ou que eu tivesse presenciado. E era sempre
necessário contato físico para que fosse possível alguém visualizar a ilusão.
Agora, graças a muito treino e ajuda de Zafrina, que tem o mesmo dom que eu, só que muito mais
avançado, eu já consigo fazer pequenas projeções. Infelizmente por um curto período e para poucas
pessoas, mas pelo menos é um começo.
Depois da descoberta de meu pai, que os Quileutes contemplados com o gene especial não são
lobisomens, mas sim transmorfos, Jacob tem tentado se transformar em outros animais que não sejam
lobos, porém sem muito sucesso. Na verdade, ele conseguiu se transformar apenas duas vezes na forma de
urso, durante um tempo ainda menor que o meu. Tenho que admitir, que o mais engraçado foi vê-lo
reclamando de dores por todo o corpo como um velho rabugento.
Então, quem começa os treinos hoje?
Cara ou coroa?
Ok, cara.
Jacob jogou uma moeda para cima com muita força e acho que nunca saberemos onde ela foi parar. Na
lua, talvez.
Parabéns, grandão! Como faremos agora? Tem mais alguma moeda aí? Porque eu não tenho
nenhuma.
Não. Desculpa.
Ok então, como você está me devendo pelo apelido hediondo, eu começo.
Mas...
Sem mas.
Ele sentou-se em uma das pedras e ficou me olhando com um canto da boca levantado, mas sem falar
mais nada. O que será que ele está pensando? Deixa pra lá. Agora é hora de me concentrar em fazê-lo ver
o dia que passamos na praia de La Push, duas semanas atrás. Tenho que começar com algo que aconteceu
para ficar mais fácil, depois parto para algo imaginado e não real.
Respirei fundo com os olhos bem fechados e comecei a imaginar a areia meio cinzenta, com pedras lisas
que cobriam o chão daquele dia, era um belo dia de sol e tinham outras pessoas na praia também, afinal
não é sempre que se faz um dia como aquele por aqui.
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Nós brincamos de tentar pegar um ao outro, mas ele sempre me vencia. Devo admitir que eu sempre
deixava ele vencer, porque a recompensa era ele me abraçar com aqueles braços enormes e quentes, me
jogar na areia molhada com ele e me fazer cócegas. Ops! Volte ao foco Renesmee! Não é hora para ficar
delirando acordada com todo aquele calor te cobrindo, o cheiro almiscarado e delicioso dele perto de você
e sua respiração ofegante na sua nuca. Deus! Como eu posso me concentrar assim?!
Abri os olhos de repente, para ver ele me olhando engraçado. O que me fez mais desconcertada ainda.
Será que ele estava vendo a ilusão que eu tentei fazer? Ele percebeu minha... falta de decoro? Me senti
corando.
Você... viu alguma coisa? Porque, ainda estou irritada com o lance do apelido e... outras coisas... da
escola! Então. É melhor começar com você.
Ele ficou confuso por um momento e começou a se levantar para sua demonstração.
Ok. Vamos lá ursinho. Eu sei que você consegue. Vamos lá. Vamos lá.
Falou mais para si mesmo enquanto esfregava as mãos, talvez tentando se concentrar.
Seu corpo tremeu um pouco e voi-lá! Parado em minha frente estava um lobo marrom-avermelhado
gigante. Mas nada de urso.
É isso aí ursinho! Você só tem que voltar para a escola por mais um tempo porque isso aí é um lobo,
nada de urso.
Ele apenas rosnou para mim, deu algumas voltas e deitou sua cabeça sobre suas patas com aqueles
olhos selvagens em mim.
O que foi? Não consegue voltar?
Ele bufou e permaneceu deitado.
Já sei, está irritado porque não conseguiu e por isso ainda não consegue se acalmar o suficiente para
voltar?
Se lobos suspirassem, aposto que o som seria aquele que ele fez depois de minha pergunta.
Entendi. Deixa para lá por enquanto. Tenho certeza que você vai conseguir, vamos descobrir como.
Eu e você. Juntos.
Me aproximei dele, sentei-me ao seu lado e comecei a acariciar aquele pelo lindo e macio. Como posso
me sentir desse jeito mesmo ele estando transformado em um lobo eu não sei, apenas sinto. Reclinei-me
um pouco e pousei minha cabeça sobre ele, depois deitei-me usando seu corpo enorme como um puff
gigante e peludo.
Ainda acariciando seu pêlo, comecei a me imaginar novamente em seus braços e todas aquelas
sensações que tive. Ou melhor, que tenho perto dele. Depois imaginei-o se transformando no urso que ele
tanto queria. Grande, imponente e feroz.
O lobo Jacob se levantou com cuidado para eu não me machucar e começou a pular como um louco.
Uivando e dando voltas em torno de si. Mas que diabos.
O que foi Jacob? Há algo de errado? Quer que eu chame um dos seus lobos? Um veterinário, sei lá.
Ele fez que não com a cabeça e continuou com seu ato insano. Quando desconfiei de algo.
Funcionou? Você viu alguma coisa? Funcionou, não foi?! Fala logo. Uiva, late, qualquer coisa.
Ele começou a uivar e eu comecei a pular com ele, segurando suas duas patas dianteiras. Nossa!
Mesmo como lobo, ele é quase duas vezes e meia mais alto que eu. Mas que se dane, eu consegui! Não
vejo a hora dele voltar ao normal para me contar em detalhes o que foi que ele viu. Ou melhor, até que
parte ele viu.
Paramos de pular e ele parecia mais relaxado, então foi para trás de uma árvore com tronco enorme.
Depois de alguns instantes voltava o Jacob homem, vestido nas roupas que estavam presas em uma de
suas patas. Vinha andando calmamente, olhando para o chão, suas mãos em seus bolsos e com uma
aparência preocupada. Deixando a mim mesma preocupada.
O que foi?
Ãh!? Nada. Só que...
Fala logo, bafo de lobo.
Eu vi algumas cenas e... nah! Deixa para lá. O importante é que você conseguiu!
O que te deixou preocupado? Foi eu? O que eu fiz? Tenho certeza que não enviei nenhuma imagem
ruim, mas...
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Ele colocou suas mãos em minhas bochechas, me prendendo em seu olhar.
Você não fez nada de errado. Você não... Suas imagens estão ficando cada vez melhores e muito
obrigada pelo apoio que você tem me dado, aliás, sempre me deu. Nossa! Aquele urso era enorme!
Daquelas duas únicas vezes que consegui, eu fiquei daquele tamanho?
Fiquei meio tonta com a proximidade de seu rosto com o meu, suas mãos grandes e quentes no meu
rosto, que até me esqueci de respirar, não sabia nem o que ele estava falando. Terra para Renesmee.
Acorda e responde alguma coisa se não quiser fazer papel de boba! Sacudi a cabeça e comecei a recobrar a
consciência. Mas infelizmente não o suficiente para falar algo que não fosse completamente estúpido.
Eu, ah, você. É. Sim.
O que?
Quero dizer, sim. Você ficou grande daquele jeito.
Ainda bem que meu cérebro resolveu voltar de suas férias na terra dos sonhos e me ajudar um
pouquinho aqui. É uma boa hora para mudar de assunto.
Eu estava pensando. Conversei com meu pai sobre seus dons e ele me disse que vocês se
transformam mais facilmente em lobos e até assumem comportamentos tipicamente de lobos porque está
enraizado na sua cultura.
Seu queixo caiu. Ahá! Agora foi minha vez de fazer ele ficar com cara de bobo. Te peguei lobinho.
O que você quer dizer?
Quero dizer que vocês têm uma mente coletiva porque seu povo também é assim. Pensam como um
todo e não individualmente. Têm a questão do imprinting porque ao contrário de alguns povos indígenas
norte-americanos, que têm mais do que uma mulher ao mesmo tempo, são monogâmicos.
Ele ainda parecia confuso. Seus olhos até perderam o foco por alguns momentos. Ele definitivamente
foi para outro lugar por uns instantes. Eu resolvi continuar com a teoria de meu pai.
Entendeu? Vocês adotaram o lobo como símbolo do seu povo porque seus modos de vida são muito
parecidos.
Isso quer dizer o que exatamente e em que pode me ajudar a transformar em outros animais?
Quer dizer que é mais fácil para vocês o lobo porque vocês se conectam a ele, tem afinidade com tudo
que ele é e representa para vocês. Se identificam com ele. Talvez se você tentasse encontrar alguma coisa
em comum com o urso ou outro animal, ficasse mais fácil para você.
Hum...
Foi tudo que ele pôde dizer depois da teoria genial de meu pai.
Adoro estar certa, mesmo quando a idéia não foi exatamente minha. Ele pôs uma das mãos sob seu
queixo e parecia pensar em algo do que falei.
Vem, vamos embora antes que o Esquadrão Nessie venha nos buscar com todo o drama deles.
Imagine uma formiguinha tentando mover uma montanha, pois é. Fui eu tentando mover o Jacob do
lugar, para irmos embora. E olha que sou meio-vampira, o que faz de mim extremamente forte, mas não
pareceu afetar ele.
Jacob Black! Acorda! Vamos, por favor. Não quero me encrencar em casa.
Isso parece ter tido um melhor afeito, pois ele começou a mover-se.
Resolvi que tínhamos que tentar um atalho novo para casa hoje. Como quase sempre ele faz o que eu
quero, foi fácil convencê-lo. Fomos seguindo à margem de um pequeno córrego e encontramos um local
muito bonito, com algumas rochas onde sentamos e ficamos ali parados por alguns momentos, apenas
contemplando a paisagem, mas sabendo que não poderíamos demorar.
Jacob brincava de fazer pequenas pedras lisas quicarem na superfície da água. Ele parecia se divertir
com essa simples brincadeira. Seus cabelos estão agora começando a crescer, caindo atrás das orelhas.
Fico imaginando ele com os cabelos longos, assim como a maioria dos garotos da reserva Quileute.
Minha mãe uma vez me disse que o preferia com cabelos longos. Acho que ficaria legal, certa vez vi
algumas fotos da época e realmente destacava os olhos bondosos dele, bem como seu rosto com traços
fortes indígenas, seu sorriso caloroso e seus lábios carnudos. Nossa, que boca!
Acho que ele percebeu que eu o estava encarando durante muito tempo porque se virou para
encontrar meus olhos.
O que foi? Tem algum coisa errada?
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Eu pisquei para sair do feitiço daqueles olhos e me endireitei.
Nada. Só estava imaginando quando você vai parar de crescer.
O que foi isso que vi em sua expressão? Desapontamento? Mas ele mudou sua fisionomia rapidamente.
Hum... isso. Eu realmente não sei. Segundo os anciões do conselho, parece que pára ou pelo menos
diminui consideravelmente quando completamos dezoito anos.
Quando eu não falei mais nada ele olhou para baixo e continuou.
Eu já devo parecer um coroa para você não é?!
De maneira alguma. Você está ótimo.
Senti minhas bochechas corarem. Odeio quando as palavras saltam de minha boca antes de eu
conseguir impedir delas saírem.
Então, estou ótimo hun?! Bom saber.
Ele levantou-se da rocha num pulo e continuamos nossa caminhada em silêncio durante algum tempo.
Esse silêncio já estava ficando desconfortável, então comecei a puxar conversa.
Então, o que iremos fazer sobre sua festa de dezenove anos? Chamaremos nosso amigos para sair?
Jantar fora? Ou podemos... sei lá, ir para Seattle passear.
Só se fossemos somente nós dois.
Jacob sussurrou tão baixo que eu quase não pude ouvir. Apenas, quase.
Isso aqueceu meu coração e para quebrar totalmente o clima tropecei em absolutamente nada
obrigada mãe como uma tonta, caindo sobre uma pedra grande, quebrando-a ao meio. Jake veio
correndo com suas mãos estendidas para me ajudar a levantar.
Malditas raízes expostas. Droga! Esse vestido era novo, Tia Rose me deu ontem. Ela vai ficar uma fera.
Me limpei rapidamente, tentei dar um jeito no meu vestido arruinado e percebi que ainda estávamos
de mãos dadas. Isso me trouxe descargas elétricas por todo o corpo. Ele também parece ter percebido,
porque ficou encarando nossas mãos sobrepostas por alguns segundos, baixou os olhos e tirou as suas
mãos das minhas lentamente.
Assim que cheguei em casa subi correndo as escadas para me limpar e tentar esconder o vestido
destruído antes que Tia Rose o visse. E Jacob, como de costume, foi direto para cozinha comer uma
montanha da comida que fica acumulada na nossa despensa.
Tomei uma chuveirada rápida, me enrolei na toalha e fui trocar de roupa. No caminho vi meu reflexo no
espelho e parei por alguns segundos, me observando.
Me pareço muito com meu pai, cabelos loiros, meio bronze, em longos cachos caídos abaixo de minha
cintura, pele extremamente branca, um leve rubor em minhas bochechas, corpo esguio, nariz levemente
perfilado, o que faz com que minha Tia Rose diga que eu puxei à ela, mesmo sabendo que isso é impossível
já que não é irmã biológica de meu pai. Mas os olhos, a altura e a falta de coordenação esporádica mais
uma vez, obrigada mãe são como os da minha mãe, definitivamente.
Voltei a me vestir, dessa vez com um vestido que minha mãe havia me dado uma semana atrás. O que é
raro, já que não é muito do seu feitio se preocupar com moda. Mas ela acertou em cheio. Esse vestido era
lindo e tinha tudo a haver comigo.
Estampado em tons de azul claro e médio, alças delicadas, comprimento levemente acima dos joelhos,
um pequeno decote em V na frente e com ótimo caimento no corpo. Definitivamente, ela acertou em
cheio na escolha desse vestido. Olhei meu reflexo mais uma vez e desci procurando por Jacob na cozinha.
Encontrei-o conversando com minha mãe. Eles falavam baixinho e riam. São apenas amigos, de longa
data, mas ainda me incomoda o fato de que ele fora apaixonado por ela. Eu sei que a única coisa que
compartilho fisicamente com minha mãe são os olhos, que realmente são idênticos aos dela quando ainda
humana, mas me pergunto se essa história de imprinting não tem alguma coisa a haver com seus
sentimentos por minha mãe. Sei lá. Talvez como um prêmio de consolação, uma vez que ela já amava meu
pai.
Um nó se fez em minha garganta. Eles me viram e eu tinha que continuar andando para eles. Respirei
fundo e segui.
Jacob deixou o queixo cair e com a respiração presa, me olhou dos pés à cabeça. Ok. Esquece tudo que
falei. Ele olhou realmente para mim e não para uma sombra do passado.
Você está linda filha. Me pergunto quem comprou esse vestido que te caiu tão bem.
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Bobinha, foi você mãe.
Viu que não são somente a Rose e a Alice que servem para comprar belas roupas para você?!
Parei ao lado dela e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Ela pode ser super protetora e adora se meter
em meus negócios, como quase toda mãe, mas não posso negar o quanto a amo. Principalmente
considerando tudo que ela passou para ficar comigo, contra tudo e todos.
Já te disse que te amo?
Falei sorrindo e olhando para seus olhos. Ela fez cara de quem pensava por um momento e respondeu
em seguida.
Hoje ainda não, portanto fique a vontade.
Te amo! Te amo! Te amo! Te amo!
Repetia enquanto a beijava ainda mais. Ela sorriu abertamente e virou-se pra Jacob.
Ela não está linda Jake?
Ele ainda parecia meio aturdido. Sacudiu a cabeça, tirou os olhos do vestido e olhou para meu rosto,
que começava a ficar corado de vergonha. Por que as mães fazem esse tipo de coisa?
Com certeza esse vestido ficou muito bem em você.
Obrigada.
Por um milésimo de segundo nos olhamos nos olhos. Tive que desviar para não começar a falar
incoerências.
Sobre o que vocês estavam conversando? Posso saber?
Sobre você.
Minha mãe falou colocando uma mecha de cabelos atrás de minha orelha.
O que exatamente vocês falavam? Que fez com que rissem tanto assim.
Perguntei já meio desconfiada. Não acho que venha boa coisa por aí.
Falávamos de como você gostava de morder Jacob o tempo todo. Principalmente quando
demorávamos para te alimentar.
Doía a beça se você quer saber. Era maldade da parte de vocês. Acho que vocês gostavam disso.
Jacob olhou para minha mãe passando a mão por sobre uma pequena cicatriz no pescoço. Me senti
corando mais uma vez.
Ah vai. Eu era pequena, não sabia o que fazia.
É verdade, você está uma bela moça agora. Mas para mim, vai continuar sendo meu bebê.
Mãe!? Já te pedi. Não me chama assim, pelo menos não na frente dos outros.
Quem? Jacob? Ele já é da família.
Só se for como cão mascote, Rex!
Disse Tia Rosalie entrando na cozinha com uma das mãos na cintura.
Quem te convidou a participar da conversa?
Jacob?!
Minha mãe o repreendeu.
O que? Não posso mais brincar?
Cachorro mau! Cachorro muito mau!
Tia Rose ainda provocava o Jake. Com a expressão bem satisfeita pelo resultado.
Ei, Rose, Como você distrai uma loira por várias horas? Não sabe? Eu digo para você. Escreva "leia o
outro lado" nos dois lados de um papel e dê a ela para ler.
Hahá! Muito engraçada lobinho.
Tem mais, espera aí. Como se chama uma loira que tinge o cabelo de preto ou castanho? Não se
preocupe tentando pensar, eu te digo também. Inteligência artificial.
Mais alguma gracinha cão vira-latas?
Na verdade tem. Posso fazer isso a noite inteira.
Argh! Como você agüenta esse cara Renesmee?
Ei Rose, espera. Deixa eu te contar mais algumas...
E nisso Tia Rose saiu jogando seu cabelo loiro para trás. Com um Jacob muito satisfeito por sua
performance.
Você se lembra que também sou loira, certo?
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Nessie, você pode até ser loira, mas como sua mãe é morena acho que você pode ter fugido dessa
sina das loiras. Se bem que às vezes...
Poing! Lá se vai a baixela de aço inox importada da Vó Esme e junto a isso, parte da minha mesada.
Amassou quando bateu na cabeça dura do Jake.
Ai! Isso quase doeu.
Não se preocupe, da próxima vez jogo com mais força daí não vai ser um quase.
Jake, você realmente gosta de sofrer, provocando essas duas. Você viu a cara de irritação da Rose?!
Minha mãe balançou a cabeça negativamente, mas ainda divertida.
Ele tem esse efeito nas pessoas.
Meu pai entrou na cozinha e foi abraçar minha mãe. Será que eles nunca enjoam um do outro?
O que posso fazer? É meu charme natural. Acho que tem a haver com meu instinto selvagem, sempre
querendo um pouco de aventura.
Instinto selvagem, sei. Tá mais para desejo de morte. Você não sabe do que a Rosalie é capaz. E essa
pequena aí também não é muito fácil.
Falou meu pai apontando para mim com a ponta do queixo.
Ei?! Ele provocou! Eu estava quieta aqui, ok?!
Já chega vocês dois. Hora de dormir, todos temos aula amanhã e está tarde. Tenho certeza que Billy
está preocupado.
Ah tá certo, nem se meu pai não soubesse que sou um lobo. Olha para o meu tamanho Bella. Quero
dizer, fala sério. Quem iria querer procurar confusão?
Jake se afastou o suficiente para que pudéssemos ver do que ele estava falando, enquanto ele
gesticulava e fazia posturas de competidores de fisiculturismo.
Você confia demais no seu tamanho, cabeça oca!
E porque não confiar?!
Você é muito modesto, não? Agora vai logo porque não quero ouvir sermão do Billy Black.
Ok, estou indo. Eu percebo quando não sou mais bem vindo, Bella.
Que dramático. Te vejo amanhã.
Tchau Bella, Ed.
Ele deu as costas e começou a andar em direção à porta, então virou-se.
Nessie, venho te buscar às 6:45h?
Como sempre. Tchau.
Ele piscou para mim e se foi.
Meus pais começaram a se abraçar e antes que piorasse resolvi ir para o meu quarto, mesmo não
estando com sono ainda.
Bem, acho que essa é minha deixa. Antes que fique quente demais aqui. Ecaaa.
Comecei a andar em direção ao meu quarto quando minha mãe me alcançou pegando em meu braço.
Posso falar com você por um momento?
Claro. O que foi?
Vamos para o seu quarto, para ter um pouco mais de privacidade já que você resolveu colocar aquela
super proteção acústica nele.
Senti um pouco de amargura nessa última frase. Acho que ela não gostou muito dessa atitude, mas o
que eu poderia fazer? Uma garota precisa de alguma privacidade. Além do mais, ela e meu pai passam
mais tempo na casa da floresta do que aqui mesmo, então.
Ok.
Subimos as escadas abraçadas em direção ao meu quarto. Entramos e ela fechou a porta.
Então mamãe, desembucha. Estou curiosa para saber sobre o que você quer conversar sem os outros
ouvirem, principalmente escondido do papai.
Suspendi uma sobrancelha para ela.
Na verdade sugeri isso para seu benefício, não meu.
Colocou suas mãos delicadas nos bolsos traseiros da calça e ficou parada, como se esperasse que eu
falasse algo.
Como assim? Meu benefício?
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Já que você vive fingindo que não está interessada no Jake, imaginei que não quisesse falar sobre ele
com os outros ouvindo.
Mãe! Do que você está falando?
Me fiz de desentendida e tratei de colocar uma cara de quem foi caluniada.
Sério Nessie? Você vai mesmo fingir, para mim, que não é louca pelo Jake?
Eu não falei nada, simplesmente cruzei meus braços e bufei. Ela começou a sair do quarto.
Você não quer conversar, ok então. Estarei esperando até que você esteja pronta.
Arrrg. Você não deixa escapar nada?
De você? Nunca.
Sabe, às vezes acho que você também tem o dom de ler mentes.
Ela riu, fechou a porta e veio sentar-se ao meu lado na cama.
Nah. Só funciona com você e não tenho que ler nada além de seu rosto.
Realmente? Sou assim tão transparente?
Na verdade, acho que você é quase tão boa em esconder esse tipo de sentimento quanto eu era. De
quem você acha que herdou isso?
Ok. O que você quer saber?
Bem, vocês obviamente são loucos um pelo outro. O que impede esse romance de acontecer?
Bem, acho que eu ter apenas dois anos e alguns meses de vida pesa um pouco. Ele vive falando coisas
do tipo, como se ele fosse um velhote depravado, ou algo do gênero.
Me recuso a acreditar que seja somente isso. Tem mais alguma coisa?
Tem também o fato dele ser o melhor amigo de meu pai, que dizer, isso não vai contra todas as regras
entre pais e filhas?
Ri nervosamente.
Nessie?! Você sabe que seu pai não é contra Jacob. É só cuidado de pai mesmo, como você disse.
Ok, ta bom. Tem a situação do imprinting, ele fica querendo o melhor para mim, mesmo que isso
signifique que não seja ele. Às vezes ele insinua que eu teria um futuro mais fácil com alguém mais
próximo do que eu sou, alguém como Nahuel, talvez.
Quanto mais vocês dois vão inventar de desculpas, hun?! Você também não gosta muito dessa
situação do imprinting, mas aceita.
Como você sabe disso?
Olhei confusa para ela por um momento.
Mais uma vez, observação.
Sabe, estou começando a me irritar de como ela está ficando misteriosa como meu pai. Ela percebeu
minha impaciência e continuou.
Você vive falando algumas coisas aqui e ali de que o imprinting te incomoda às vezes e eu sei que no
fundo você aceita porque guarda, ainda hoje, o anel de compromisso que o Jake te deu no seu primeiro
natal.
Nossa! Como você sabia disso?
Ela sorriu amavelmente para mim.
Eu estava procurando por algumas fotos suas, ainda bebê, para mostrar para Carmem em uma de
suas visitas e achei por acaso. Você sabe que não mexo em suas coisas sem permissão e que confio no seu
julgamento, não sabe?
É. Eu sei. Em relação ao imprinting, não sou contra porque eu quero. Apenas acontece. E tem algo
pior...
Pior como? Se abre comigo filha. Deixa eu te ajudar.
Bem, tem também... você.
Hesitei por um momento. Alguém por favor, atire em mim! Eu pagaria qualquer quantia para colarem
minha boca nesse momento. Ou melhor, para terem colado antes dessas palavras terem saído. Abaixei
minha cabeça com vergonha.
Como assim eu?
Ela parecia genuinamente confusa. Levantou minha cabeça para que eu pudesse olhar para ela.
Porque...
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Eu não conseguia fazer as palavras saírem. Há! Bela hora para ficar muda. Depois do estrago feito.
Porque...
Pensei, que se dane, já comecei mesmo. Respirei fundo e simplesmente deixei sair tudo.
Porque, apesar de todos acharem que está tudo acabado entre vocês, mesmo sabendo o quão
perfeitamente e devo acrescentar irritantemente apaixonados são você e meu pai. Eu ainda acho que
esse lance do imprinting tem alguma coisa haver com você. Está aí, falei.
Acho quem nem respirei, porque quando terminei de falar me faltava o ar. Minha mãe parecia em
choque. Não se mexia, só ficava me encarando com a boca aberta.
Por favor, fala alguma coisa.
Me encolhi pensando que poderia ter magoado minha mãe de alguma forma.
Nessie, não consigo acreditar que você é tão parecida comigo.
Não disse? Eu sabia que tinha alguma coisa a haver com parecermos em alguns aspectos.
Minha mãe riu. Eu não podia acreditar que minha própria mãe, alguém que alega fazer qualquer coisa
por mim, estava rindo da minha desgraça. Deus! Bufei incrédula pelo que acabava de acontecer.
Não me referia a isso, bebê. Me referia ao fato de mesmo com todas as provas estampadas na minha
cara, eu preferia acreditar que seu pai não me amava. Que ele nem poderia.
O que? Do que você está falando?
Nessie, Jacob te ama com todas as forças. Ele daria a própria vida pela sua.
Sim, pelo imprinting, eu sei. Mas não é disso que estou falando...
Espera, não é possível que você não consiga perceber. Ele não te olha como alguém que precisa ser
protegido, mas alguém muito amado. E acredite quando eu digo: alguém também muito desejado, se é
que consigo me fazer clara.
Ela cutucou no braço, meio desconfortável, como quem claramente está constrangida e espera que eu
entenda sem que ela precise falar mais. Nisso ela se parece com meu Vô Charlie.
O que? Nah. Deve ser imaginação sua. Ele não me.... deseja?
Pode apostar. Você deveria ver a cara do seu pai quando Jake começa a pensar em você, com ele por
perto. Acredite em mim: 1-Ele te ama e 2-Não como um pequeno animalzinho que precisa ser protegido,
mas como a garota linda que você é.
Sério?
Cem por cento positivo!
Mas e a coisa que aconteceu entre vocês dois?
Isso foi há muito tempo e na verdade acho que nós dois simplesmente confundimos o tipo de amor
que realmente temos: fraternal, de amizade. Eu o amo muito mesmo, mas como deveria ter sido desde o
começo, como o irmão que eu nunca tive.
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7. Muita informação
Uau! Então ele me ama? E me deseja? Só... uau! Muita informação. Nunca me senti tão feliz, excitada e
ao mesmo tempo tão exausta. Foi como se um grande peso fosse tirado de minhas costas. Só queria deitar
por um tempo.
O que eu faço então? Ainda tem a situação da idade e dele achar que pode não ser a melhor opção
para mim.
Você vai encontrar um jeito. Eu sei que vai. Até mesmo porque, ele não está realmente preso a esse
preconceito bobo.
Ela me abraçou apertado e começou a ir embora.
Mamãe?
Sim querida.
Você poderia...
Hesitei um pouco, me sentindo uma tola.
Poderia o quê, carinho?
Ok, o que fiz a seguir foi infantil, eu sei. Principalmente para alguém que precisa provar que já está bem
crescidinha. Ah! Que seja. Eu precisava.
Você poderia ficar aqui comigo hoje? Só até eu dormir? Isso é claro, se você não ficar louca por passar
uns minutos a menos com o papai.
Está brincando? Eu passaria toda a eternidade aqui, abraçada à você querida.
Há! Deixa o papai ouvir isso.
Provoquei.
Se você falar isso para ele, eu conto tudo que conversamos para o Jake.
Ok, ok. Você venceu!!! Jesus, que chantagista!
Ela deu aquele sonoro riso e em super velocidade, se deitou à minha cama, me cobrindo e em seguida
me abraçando forte.
Mamãe?
Sim, querida?
O que eu falei era verdade.
O que exatamente?
Sobre eu te amar muito.
Eu também te amo muito, bebê. Mais do que a mim mesma.
Mamãe?
O que foi agora?
Como é que você conseguia dormir com o papai quando ainda era humana? Eu não sou tão sensível
às temperaturas como os humanos, mas imagino que não deveria ser tão confortável.
Tenho que admitir, que mesmo com o cobertor grosso que ele colocava sobre mim, tinham
momentos em que eu me segurava para não bater os dentes de frio, porque se ele percebesse, sairia
correndo dali e eu não suportaria sua ausência. Mas por que você perguntou isso? Está muito frio?
Não, eu até gosto. Me lembra de quando eu era bebê.
Bons tempos aqueles. Pena que você cresceu tão rápido.
Mãe?!
O que? Só estou dizendo. Queria que eu mentisse?
Deixa para lá.
Alguns minutos de silêncio se instalaram. Acho que ficamos pensando sobre tudo que conversamos. Já
que era uma noite de confidências e tudo, resolvi confidenciar mais uma coisa com minha mãe, que
também é minha melhor amiga. Mesmo sendo super-protetora.
Sabe, eu vivo brincando sobre o quanto você e o papai são grudentos e tudo, mas eu sinceramente
acho lindo o amor de vocês. Principalmente por tudo que vocês tiveram que enfrentar para ficar juntos.
Nem me fale. Tenho certeza que no seu caso, vai se mais fácil. Basta vocês dois deixarem de ser
cabeças duras orgulhosos.
Ei?
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Só brincando.
Boa noite mamãe.
Durma bem meu anjo.
Ela me deu um doce beijo na testa e me emprestou sua canção de ninar para eu pegar no sono
enquanto ela me balançava nos seus braços.
No dia seguinte, me arrumei rápido e fui tomar café. A preparação do meu café da manhã era revezado
entre minhas tias e minha avó. Hoje era a Tia Alice quem preparava. Elas gostavam do desafio de conseguir
fazer uma boa comida mesmo não podendo sequer experimentar. Era quase como fórmulas de alquimia.
Bom dia Tia Alice.
Me aproximei e dei um beijo no rosto dela.
Bom dia querida. Eu ia perguntar, mas pelo seu excelente humor acredito que passou uma ótima
noite, hun?
É verdade. Foi muito boa mesmo. Estou pronta para esse novo dia. Mas... o que temos para o café?
Acho que poderia comer um urso.
Ela me olhou meio espantada porque pela manhã normalmente como alimentos humanos, sabe,
comida normal.
O que? Estou faminta.
Bem, um urso, você infelizmente não vai achar no menu. Mas se quiser, tem ovos, bacon, torradas,
croissants e torta de maçã que você tanto adora.
Nossa, você quer me ver uma baleia ou está tentando me preparar para falar alguma coisa? Qual o
golpe?
Depois de todo esse tempo, se eu não a conhecesse teria caído nesse velho truque. Ela sabe que sou
mais suscetível a críticas ou idéias se estou bem alimentada pela manhã. Ela permaneceu com aquele
conhecido sorriso na face e se aproximou de mim, dando-me um abraço forte. Outro ponto fraco meu.
Por que você é tão desconfiada assim como a Rose? Uma pessoa não pode querer fazer alguns mimos
para sua sobrinha favorita?
Tia, em primeiro lugar eu sou sua única sobrinha e em segundo, conheço esse seu olhar maquiavélico.
Não fala assim, não sou maquiavélica. Para isso eu teria que ter um motivo escuso. Mas... está
funcionando?
Ela piscou para mim e sorriu aquele sorriso aberto, quase como o de uma criança.
Está, por enquanto. É melhor você falar logo o que está maquinando, antes que meu humor mude.
Adicionei a contra gosto.
Ótimo! É suficiente! Porque o que quero não é nada demais.
Ela sentou-se ao meu lado. Me encarou por alguns segundos, mordendo o lábio inferior. Acho que
pensando como iria começar a me pedir seja lá o que for que ela queria.
Ok. Agora que você tem minha atenção, pode desembuchar.
Certo! É o seguinte, eu sei que é um assunto meio complicado para você, mas precisamos falar sobre
você não usar, ou melhor, você usar seus dons na escola.
Ela me olhou com uma cara de expectativa. E eu deixei que ela continuasse.
Se eu pudesse, pararia de usar meu dom por alguns momentos. Você não faz idéia do que é ver tanta
coisa ruim, o que é pior ainda quando é sobre as pessoas que amamos. E acredite, se eu dormisse,
certamente teria vários pesadelos.
Eu não estava entendendo onde ela queria chegar com aquela conversa.
O que isso tem a haver com eu usar meu dom na escola?
Tem que seu dom é mais administrável. Se você quiser, nem mesmo precisa usar, ao contrário de
algum de nós. Além do fato de você se parecer com os humanos em tantas coisas. Vários de nós morreriam
para ter essa possibilidade. Edward e eu, por exemplo, usamos nossos dons para ajudar nossa família,
prevenir problemas para nós.
E?
E mesmo não sendo de propósito, você acaba chamando a atenção dos humanos para nós e isso pode
ser catastrófico, acredite quando sua tia que vê o futuro diz: catastrófico. Você não precisa usar suas
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habilidades sobre-humanas de meio-vampira, nem seu dom para resolver problema algum na escola. Você
é extremamente inteligente, carismática e engenhosa. Tenho certeza que isso basta.
Minha mãe deve ter falado com ela, para tentar me convencer disso. Mas eu já tinha prometido para
ela, minha palavra não é suficiente? Preciso ter uma conversinha com ela sobre isso. E vai ser agora.
Quando eu começava a me levantar para falar com minha mãe, Jacob chega.
Ei Nessie, Alice.
O que foi isso que vi entre Jacob e minha tia? Está tudo claro agora! Não foi minha mãe que pediu a tia
Alice para falar comigo, foi Jacob. Deus! Eu sabia que, mesmo minha mãe tendo todo o direito, não iria
pedir para minha tia se meter assim. Tinha que ser coisa desse vira-latas.
Argh! Nossa, odeio como todos vocês vivem se metendo em minha vida. Até quem não é da família.
Jacob olhou confuso para minha tia e eu só peguei minhas coisas e saí. Na saída, deu para ouvir alguns
sussurros da conversa deles.
Você falou alguma coisa para ela do que eu pedi? Falou que fui eu quem pediu?
Conversei com ela sobre o assunto sim, mas em momento algum deixei escapar que tinha sido você
quem me pediu para falar. Acho que ela adivinhou. Também, com a cara de culpado que você entrou na
cozinha. Como a delicadeza de um lobo desastrado!
Tenho certeza que não fui eu! Foi você!
Ei, parem vocês dois. Vou chegar atrasada na escola!
Eles se calaram, trocaram um último olhar atravessado e Jacob saiu pela porta. Voltando em seguida.
Ãh... bem... obrigada assim mesmo, por tentar, Alice.
Cai fora daqui antes que eu jogue essa travessa em sua cabeça, como a Rose faria.
Vi Jake sorrindo e vindo em minha direção, mas quando ele olhou em meu rosto parou imediatamente
de sorrir.
Então, que diabos passou por sua cabeça em se meter em minha vida assim? E ainda meter a tia Alice
na história.
Porque eu já conversei com você sobre como é perigoso você usar seu dom ou seu negócio de
meio-vampira na escola. Mas você não escuta, resolvi apelar.
Quem te dá o direito de se meter assim? É minha vida. Minha! Pelo amor de Deus!
Se você se meter em alguma coisa que pode te machucar ou pelo menos te encrencar, eu vou me
meter! Sempre!
ODEIO ESSE IMPRINTING! Por que não posso ter uma vida normal como todo mundo?
Eu estava tão furiosa que não queria nem mesmo andar junto a Jacob no caminho da escola. Acelerei
meu passo, mas com a raiva que eu sentia, essa foi uma péssima idéia. Perdi a conta de quantas vezes eu
tropecei, me bati ou escorreguei no caminho para cá.
Jake tentou me ajudar algumas vezes, comigo recusando e o mordendo em todas. Chegamos a escola
atrasados. Cada um foi para sua aula e eu nem mesmo queria pensar mais sobre a conversa que tive com
minha tia essa manhã. As aulas se arrastaram, mas finalmente era o intervalo. E eu estava faminta, já que
nem pude aproveitar o café da manhã especial que minha tia tinha preparado.
É verdade que posso viver de alimentos dos humanos, e gosto muito de alguns deles, como é o caso da
torta de maçã. Mas não nego que preferia viver dos humanos do que da comida deles. Hmm. Cada aroma
de deixar a boca cheia dágua. Cheiros diferentes, para cada um deles, únicos. Nunca experimentei sangue
humano quer dizer, teve o Jake algumas vezes quando era criança, mas não conta porque ele também
não é humano. Mas posso dizer que se fosse pelo cheiro... nossa... eu desistiria de qualquer torta de maçã.
Como não posso, preparei minha bandeja com algumas frutas, dois pedaços de torta de maçã que não
chega nem perto da que minha tia faz, hmm... tomara que ainda tenha quando eu voltar. O que estou
falando? Claro que vai ter! Só tem vampiros na casa. completei com um saco de batatas fritas, um
sanduíche de queijo, um suco em caixinha e fui encontrar Judy.
Garota! Você deve estar com muita fome, hun?! Você come como um estivador.
Judy estava com os olhos presos em minha bandeja. Bem, acho que exagerei um pouquinho mesmo.
Acredito que foi a fome junta com a ansiedade que eu estava. Jacob veio e se sentou à nossa mesa. Eu me
recusei a olhar para ele.
Certo. Mais uma coisa que vocês têm em comum. Olha a bandeja desse cara!
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Ela falou apontando com a cabeça para a bandeja do Jake. E Uau! Ele deve ter algum curso de
arquitetura, ou algo do tipo, para conseguir equilibrar tanta comida em uma única bandeja. Comecei a rir.
Não queria, mas mesmo sem querer esse lobo bobo consegue me fazer rir. Só que minha alegria demorou
pouco.
Esqueci as conversas que tive com minha tia e com Jacob. Só pensava em minha mãe. Eu sei que
prometi à ela não partir Josh ao meio se ele importunasse os garotos mais fracos, mas ele seriamente está
me fazendo repensar essa promessa.
Estávamos sentados em nossa mesa de costume, quando avistei Josh deixando o pé propositalmente
posicionado para que o pobre coitado do Theodore Teddy Adams tropeçasse, derrubando toda a comida
de sua bandeja no chão e nele mesmo. Isso fez meu sangue subir. Tentei respirar fundo, contar até dez e
dizer para mim mesma: Isso não é de sua conta, deixe pra lá. Pense nos outros, você não pode expor
todos assim. O Diretor Bown vai resolver isso. É responsabilidade dele e não sua.
Mas e se ele não resolver? E se ele nem souber disso, afinal de contas Josh Simons e sua gangue são
do time de basquete da escola, além do time de luta grego-romana. E o diretor Bown espera ganhar
algumas medalhas esse ano. Uma maneira estúpida de chamar a atenção para sua pequena escola, se quer
saber.
Eu tenho que fazer alguma coisa. Mas o que? Tem que ser algo que não me faça descumprir minha
promessa com minha mãe. Antes mesmo que eu começasse a bolar algum plano, Jacob olhou para mim e
se levantou. Mas que diabos...
Ele foi em direção à cena do desastre, ajudou Teddy a se levantar, pediu para ele ir embora e foi em
direção a Josh. Jacob você não vai fazer isso. Você não vai... Ele fez!
Pegou Josh pela jaqueta do time de basquete e o puxou para mais perto. Josh, apesar de alto não era
tão grande como Jacob então começou a gaguejar e dizer que não era da conta dele, que ficasse fora disso.
Ele certamente não conhece Jacob, não como eu. Tinha certeza que a situação iria piorar,
principalmente se ele começasse a tremer. Então me aproximei para tentar acalmar os ânimos, mas nem
precisei. Jake parecia calmo como se estivesse lendo poesia ou algo, falando calmamente e com um sorriso
brincando no canto de sua boca. Isso deveria fazer Josh ficar mais calmo, mas como quase todo ser
humano, ele ficou ainda mais apavorado, quase fazendo Jake rir quando percebeu isso.
Escute aqui, eu não acho legal caras grandes usarem sua força para machucar ou perturbar os outros.
É algo que simplesmente me irrita e eu juro para você, cara.
Você.não.vai.querer.me.deixar.nervoso.
Ele falou enfatizando cada palavra com uma sacudida no Josh. O que eu acho fez total efeito, já que
quando Jake o soltou parecia que Josh não tinha força suficiente nas pernas para se manter em pé. Nesse
meio tempo, o Diretor Bown se aproximava. Ah! Ótimo! Onde o cara estava quando realmente
precisávamos dele?!
Bom dia senhores, está acontecendo alguma coisa aqui que eu deva saber?
Ele olhou para todos e para baixo vendo a bagunça que tinha restado da bandeja do Teddy.
Não é nada Sr. Bown, sabe como são esses garotos, muito desastrados.
Tentei parecer calma e leve, mas acho que não colou porque ele continuou encarando Jacob e Josh.
Senhor Black, senhor Simons, poderiam me explicar com mais detalhes o que aconteceu aqui?
Eles começaram a falar ao mesmo tempo e o Senhor Bown os interrompeu, conduzindo-os à caminho
da sala da direção. Droga! Jacob está encrencado, tenho certeza que por minha causa, ele deve ter
percebido que eu ia fazer alguma coisa. E eu nem posso ajudá-lo.
Jacob parecia muito calmo, ao contrário do Josh que ainda estava uma pilha de nervos. Jake deu uma
última olhada onde eu estava, piscou e seguiu o Sr. Bown.
Eu quase fui atrás deles, mas Judy me puxou de volta para nossa mesa e me fez sentar. Acho que é
melhor, afinal de contas o que eu poderia dizer para ajudar Jacob? Fiquei pensando em alguma coisa para
fazer, mas nada aparecia. Então, só me restava esperar o resultado desse drama.
Sabe, você vai ter que parar de fingir que não ama esse cara. Ele não é nem de perto o meu tipo, mas
ele é seriamente quente, gentil e engraçado. E o principal: é completamente louco por você, assim como
você é por ele.
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Judy disse sem olhar para mim, enquanto abria sua embalagem de salgadinhos e começava a devorálos.
Nos conhecemos há apenas alguns meses, mas se eu acreditasse em reencarnação, diria que é coisa de
outra vida, para sermos como irmãs em tão pouco tempo.
Pára com isso! Você sabe muito bem que eu e Jacob somos só amigos, de infância.
Uhun. E eu só me visto assim para que um reality show me encontre aqui nesse fim de mundo.
Ela sempre usava um estilo que batizou de Gótica Chic. Que consistia basicamente de muito preto,
tachinhas, correntinhas e suspensórios. O que é mais gótico, porém ela mesclava com leggins amarelo ou
rosa vibrante, sapatos scarpin Pink e outros acessórios mais femininos e em cores vivas. Até que o
resultado ficava legal. Rebelde, jovial e bastante feminino. Ela bem que combinaria com outros estilos, com
sua pele cor de Latte, olhos castanhos amendoados e cabelos longos em grandes cachos negros.
Seu corpo esguio e altura a fariam, junto com seus outros atributos, uma modelo de sucesso, mas isso
com certeza não era o estilo de Judy.
Depois você pergunta por que eu sou a única que anda com você na escola.
Você anda comigo pelo meu charme, ri das minhas piadas, minhas roupas de Gótica Chic podem não
ser seu estilo, mas você respeita. E principalmente, porque sou uma das poucas pessoas que não babam
por você.
Falou com superioridade. Como quem tem certeza no que afirma. Eu odeio quando estou errada e ela
acertou em quase tudo, tive que me prender no que eu não acho muito que esteja certa.
Ninguém baba por mim. Só sou gentil e as pessoas gostam. Você poderia tentar isso um dia destes ao
invés de constante sarcasmo.
Está certo, você quer me convencer que não tem nada a haver com fato de vocês terem grana, serem
irritantemente lindos e além de tudo, alunos certinhos? E isso não contando aquela coisa que você faz
com a mente das pessoas.
Judy! Já falei para você parar com isso. Eu não faço nada com as mentes das pessoas.
Judy finalmente perdeu a atenção do pacote de salgadinhos e me olhou com uma sobrancelha
levantada. Eu desviei o olhar e mudei de assunto.
Além do mais, ele e minha Tia Bella são amigos e ele já gostou muito dela no passado. Eles têm uma
história. Ele não me vê de outro jeito senão sua amiga mais nova, a quem ele deve proteger. Quase uma
irmã.
Parece que esse assunto funcionou para distrair e ela resolveu formar nosso próximo assunto, acho que
muito mais para eu não pensar na fria que Jacob tinha se metido por minha causa, do que qualquer outra
coisa. A próxima coisa que ela estava fazendo era chamar Seth para sentar-se à nossa mesa.
Oi, garoto lobo! Sente-se aqui conosco.
Olhei para ela assombrada por um instante. Será que ela descobriu alguma coisa? Seth parece ter
pensado o mesmo porque ele fez uma cara de espanto, mas comseguiu se recompor e veio em nossa
direção. Leah estava com ele e como sempre pegou outro rumo. Ela nunca senta-se conosco. Não entendo
o porque disso e não estou interessada em descobrir no momento.
Oi Judy, Nessie.
Oi Seth.
Olá garoto lobo. Como vão as coisas na reserva?
Estão bem, mas porque você me chamou de garoto lobo? Duas vezes agora.
Seth olhou para mim por uma fração de segundos e voltou a olhar para Judy. Ela fez uma cara de
senhora sabe tudo e disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Você deveria estudar mais a cultura do seu próprio povo. Você não sabe que segundo as lendas locais
vocês são descendentes dos lobos?
Eu sei. Isso nos é ensinado de geração em geração. O que eu não sei é como você conhecia essa
história.
Judy se virou para mim e continuou.
E você que é tão interessada em alguns dos nativos, deveria se inteirar mais da história local.
Eu deveria esperar por uma dessas, afinal ela sempre foi aficionada por mitologias. E seria como dar
doce à uma criança, ter aqui em na Península Olímpica uma série de lendas para ela estudar,
principalmente envolvendo seus mitos favoritos: Vampiros e Homens Lobos.
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Eu também sei. Só não dou muita atenção porque são somente mitos. Historinhas contadas às
crianças na hora de dormir.
Olhei de soslaio para Seth que nitidamente segurava uma risada. Imagine se ela soubesse que está
sentada com uma meio-vampira e com um garoto-lobo, como ela mesma chamou Seth e, que tais seres
existem mesmo, não sendo apenas lendas.
Afinal de contas, porque vocês vieram estudar aqui se existem escolas na reserva Quileute, que fica
mais próximo à Forks do que a Sequim?
Caramba! Ela está com um faro para problemas hoje.
Bem a tempo, chegam meus pais. Posso apostar uma boa quantia que eles estavam ouvindo a conversa
toda.
Olá.
Minha mãe usou um tom gentil, olhando para cada um de nós, pausando um pouco demais quando
olhou para mim.
Podemos nos juntar a vocês?
Meu pai disse já se sentando ao meu lado. Nem mesmo nos dando tempo para responder.
Ei Ed, Bella.
Olá Seth, Judy.
Sobre o que conversavam?
Meu pai parecia calmo e usou seu charme para distrair. Posso acreditar que ele já tem uma solução
para nosso pequeno momento de exploração.
Eu estava perguntando ao Seth aqui por que ele, Leah e Jacob estudam aqui se tem escola na reserva
Quileute e se eles quisessem estudar em escolas tradicionais dos chamados homens brancos
poderiam se matricular em alguma de Forks, que fica mais próximo do que Sequim.
Meu pai pareceu lembrar-se de alguma coisa, mas tenho quase certeza que era apenas parte de uma
solução que ele elaborara.
Bem, eu acho que posso responder essa no lugar do Seth. Você me permite, meu caro?
Ele deliberadamente olhou para Seth que gaguejando deu a fala para meu pai começar a encenação.
Eles poderiam estudar lá sim, mas seus pais, assim como os do Jake são muito amigos de nossa família
e apesar de manterem suas tradições ancestrais, resolveram preparar a geração mais nova junto aos
homens brancos, por assim dizer, para que no futuro possam estar em melhores condições de defender
seus direitos. Pelo menos foi isso que meu pai me explicou quando fiz o mesmo questionamento. E se você
pensar bem, acho que eles estão com total razão, não acha Judy?
Meu pai juntou seus lábios numa linha reta e franziu o cenho. Como quem quisera dar um tom de
seriedade no assunto. Se conheço bem a Judy, e pode apostar que conheço, ela não se deu por vencida, e
esse assunto voltará a ser comentado em outra ocasião, talvez quando estivermos somente eu e Seth, por
exemplo.
51
8. Como minha mãe agüenta isso?
Bella, você não me parece bem hoje. Alguma coisa a aborrece?
Judy olha para minha mãe, parecendo preocupada. E eu acredito que estava mesmo, porque, por trás
desse sarcasmo todo e roupas de gótica chic, Judy na verdade é uma pessoa muito doce e preocupada com
os outros.
Minha mãe nunca foi boa em mentir e pelo que eu soube, isso já foi ainda pior no passado.
Estou bem Judy, obrigada por perguntar. Estive mesmo meio preocupada com algumas coisas, mas
nada que não possa ser resolvido.
Minha mãe olhou para mim e voltou-se para Judy.
Você é uma garota muito observadora Judy.
Pra salvar a situação meu pai interveio.
Temos algumas provas inconvenientes semana que vem, além do trabalho de literatura inglesa.
Nossa, o Profº Lindenberg passou esse trabalho para a classe de vocês também?
Judy estava completamente relaxada e esquecida do assunto anterior. Pensei torcendo que meu pai
lesse meu pensamento: Obrigada.
Ele fez um discreto movimento de entendimento e continuou puxando assunto com um sorriso na face.
Então, o que vocês vão fazer no final de semana?
Judy parecia meio desconfortável. Arrumou discretamente a roupa e o cabelo antes de responder.
Bem, nada. Talvez assistir alguns filmes antigos ou trash. Que tal Nessie?
Cara! Como minha mãe agüenta isso? Praticamente todas as garotas daqui se atirariam aos pés de meu
pai se pudessem, ou aos pés de Jacob, depois que ele se transferiu para nossa escola. Incluindo Judy,
mesmo sendo super controlada, sabendo que meu pai, ou melhor: Tio Edward é casado com minha mãe,
quer dizer, Tia Bella e que eles são doentiamente apaixonados um pelo outro, não consegue ficar em seu
estado normal perto dele.
Er... Acho que não vai dar. Tenho que fazer algumas coisas.
Ela me olhou com suspeita. E eu continuei.
Prometi ajudar Jacob com algumas coisas na Reserva Quileute para a Salmon Ceremony.
Seth começou a falar alguma coisa sobre esse evento somente acontecer daqui há duas semanas, mas
minha mãe o chutou por debaixo da mesa. Ele resmungou alguma coisa, mas eu não dei muita atenção.
Judy levantou-se e nos informou que estava indo devolver alguns livros na biblioteca.
Eu fulminei Seth com os olhos.
Alguém pode me dizer o que foi que eu fiz?
Garoto, você não sabe ficar calado? Esqueceu que temos jogo de baseball neste fim de semana?
Nessie, ele não fez por mal, só estava tentando manter a conversa.
Minha mãe estava claramente tentando acalmar meus ânimos. Eu respirei fundo e me desculpei com
Seth.
O que realmente está incomodando você, bebê?
Nada.
Respondi rápido demais, torci para eles não terem notado. Mas como sempre, minha mãe notou pela
minha cara e meu pai porque leu meu pensamento. Deus! Porque eu não tenho a sorte de ter pais normas,
que não freqüentam a mesma escola que eu e que não podem ler meus pensamentos? É pedir demais?
Parece que Deus teve pena de mim porque nenhum deles parecia querer continuar com essa conversa,
contudo eu tinha o pressentimento que isso era por causa da presença de Seth e que eu teria que pelo
menos conversar com minha mãe sobre o acontecido depois.
O intervalo havia acabado e todos tínhamos que voltar para nossas respectivas salas de aula. Seth me
acompanhou, já que fazemos essa aula juntos, então tomamos direções diferentes dos meus pais.
Tchau Ed, tchau Bella.
Tchau crianças.
Disse meu pai, antes de piscar e sair. Crianças? Não como se eu fosse alguma criança, eu supostamente
tenho dezesseis anos, assim como Seth, pelo amor de Deus. Ele adora me provocar.
52
Nos acomodamos em nossos assentos, mas eu não estava com a cabeça na aula. Estava pensando sobre
a conversa que tinha tido com minha mãe ontem a noite e o que eu deveria fazer em seguida.
Senhorita Cullen.
Sim, Sr. Ramirez?
Quase saltei de minha cadeira com o susto.
Sobre o que estávamos falando há alguns segundos atrás, durante a experiência?
Sobre...
Eu estava tão perdida em meus pensamentos que não faço a mínima idéia do que ele estava
lecionando.
Se você não estivesse desenhando padrões de ondas em seu caderno, enquanto pensava, só Deus
sabe no que, poderia saber o assunto.
Sr. Ramirez, o senhor não me deixou responder. Eu só fiquei meio confusa quando seu experimento
começou a borbulhar e cair sobre a mesa.
O que? Não fiz nenhum experimento que borb...
Ele virou-se para mesa onde havia feito o tal experimento, porém, ao invés de ver a mesa
perfeitamente normal como realmente estava via um experimento borbulhando e caindo por sobre
tudo na mesa.
Mais que drog... quer dizer... calamidade. Todos para fora da sala. Preciso saber o que aconteceu aqui
e que dano pode causar.
Então foi isso, não só me livrei de fazer papel de boba com o professor Ramirez, como consegui me
livrar de uma aula chatíssima, assim como todos outros alunos.
O quê? Tinha que fazer alguma coisa, então eu providenciei uma pequena ilusão. Rápida e simples o
suficiente para ele liberar a sala e eu literalmente fugir da cena do crime. O interessante é que nem sequer
tive que me concentrar para fazer a ilusão. Simplesmente saiu. Talvez o truque seja esse. Não me esforçar
muito para fazer as ilusões e simplesmente usar o instinto.
Nessie! Psiu! Espera por mim.
O que foi Seth?
Você não deveria ter feito isso, é perigoso. Mas foi tão legal!
Ele parecia feliz como um filhote ganhando um brinquedinho de morder novo. Só faltava abanar a
causa, se tivesse uma no momento.
Sabe, às vezes me irrito facilmente com Seth, mas em alguns momentos, como esse, adoro ter esse
filhotinho de cão como meu amigo. Ele pode ser tão doce e engraçado.
Shhhh! Você quer que nos descubram? Vamos cair fora daqui imediatamente.
Puxei ele pelo braço e fomos andamos o mais rápido que os humanos pudessem andar. Tinha que sair
dali antes que todo o Esquadrão Nessie aparecesse. Pra minha sorte faltavam ainda alguns minutos até o
fim das aulas dos outros, então tentei sair da escola o mais rápido que pude. Mesmo sabendo que teria
que ouvir horrores depois.
Eu acho que você não consegue fugir desse aí não.
Seth disse à meia voz, e eu não entendi o que ele queria dizer até ver Jacob, de braços cruzados,
definitivamente bravo, encostado em uma parede. Seth abaixou a cabeça e continuamos andando em
direção a saída.
Faltando aula e ainda por cima saindo sem se despedir de mim, vocês dois?
É, fomos liberados da classe.
Tentei parecer o mais calma possível.
Sei. Então não teria nada a haver com uma certa experiência de química que não deu certo. Teria?
Não sei do que você está falando.
Não?! Seth?
O quê? Ah cara! Jake, me deixa fora dessa. Por favor! Você conhece essa aqui, e hoje já tomei até um
chute da Bella. Chega de apanhar por um dia.
Ok então. Depois nos falamos. Direto para casa agora.
Sim senhor. Quer dizer, Jake.
53
Já estávamos fora dos muros da escola, mas parece que ainda não estava longe o suficiente de
problemas. E o pior é que eu estava só, quer dizer, sem reforços. Seth fugiu como um cãozinho assustado.
É nisso que dá você confiar em filhotes.
Agora nós mocinha.
Quem te elegeu meu tutor? Use esse tom com Seth, que é seu subordinado puxa-saco, não comigo
ok?
Achei que a melhor defesa seria o ataque. Eu tinha que tentar algo senão ouviria um belo sermão.
Andando a passos mais rápidos que humanos poderiam, estávamos a meio do caminho para minha casa.
Então. Você não vai me dar sua versão do que aconteceu na escola?
Ele parecia calmo. Colocou as mãos nos bolsos e olhou para frente.
Até parece que você é o melhor exemplo de bom comportamento na escola. Quem foi para a sala do
Diretor Bown hoje?
E porque que eu fui para sala do Diretor hoje? Ou melhor, por quem?
Droga, isso foi golpe baixo.
Eu não mandei você fazer nada daquilo. Você é responsável pelos seus atos, não eu!
Verdade. Mas eu tive que fazer alguma coisa quando vi aquele olhar assassino que você fica quando
vê uma injustiça.
Odeio que ele me conheça tão bem. Às vezes acho até que ele adivinha meus pensamentos. Sou tão
transparente assim para todos?
Ei?! Eu não tenho olhar assassino! Pára com isso!
Ok. Mas de qualquer forma, você não deveria usar seus dons na escola, bebê.
Argh! Mais um para engrossar o coro do Esquadrão Nessie no tutorial sobre Como a Nessie não
deve usar seus dons na escola. E fala sério! Você me chamando de bebê também? Não! Absolutamente
não! Não você!
Por que não?! É o que você é! Um bebê. Talvez um super desenvolvido, mas ainda assim um bebê.
Por acaso me pareço com um bebê? Falo como um bebê ou ajo como um?
Acho que exagerei na tática do ataque como melhor defesa. Ele agora estava irritado de verdade e eu
também.
Quer saber? Na verdade, às vezes sim. Como agora, por exemplo. Você não vê o quanto isso é
perigoso?
Estou cansada de tudo isso. Não tenho que provar a todo instante que não sou mais um bebê, que
sou perfeitamente capaz de responder por meus atos. Eu não sou mais um bebê ok, Jacob Black? E quer
saber? Supere isso!
Mesmo? Porque de onde estou, não parece. Vou falar mais uma vez: você não vê o quão perigoso é
usar seus dons na escola? Você quer que todos nós sejamos descobertos? Não diz respeito somente à
você.
Então por que você me ajuda a treinar meus dons se nem mesmo posso usá-los, hun?
Primeiro porque é divertido e achei que você fosse gostar. E segundo porque pode ser útil um dia em
uma situação real, não com o chato do professor Ramirez, por uma situação boba em frente à vários
humanos.
Ugh! Pelo amor de Deus! Vocês me deixam louca. Não Jake, você me deixa louca. Eu não agüento
mais todos esses sermões. Como você pode ser tão hipócrita?
Hipócrita, eu? E você? Pequena mimada, que acha que sabe tudo. Que o mundo gira em sua volta.
Então, não nos veremos mais. Deve ser bom para você não ter que suportar mais minha presença de
garota mimada.
Ele não falou nada. Estava sem reação, então eu continuei.
Certo. Tenha uma boa vida.
Dei as costas para ele e saí correndo pela floresta, tentando esconder as lágrimas que começavam a
rolar em meu rosto. Estava muito furiosa com toda essa situação absurda. Eu não preciso ficar em uma
droga de uma redoma, Ok? Teve o incidente com os Volturis, mas ninguém vai deixar isso para lá, nunca?
Fora o fato de Jacob ter toda essa tolice de ser muito mais velho que eu, de ter que ser meu protetor.
Ah! Que seja. Ele é um tremendo cabeça dura mesmo!
54
Como saí cedo da escola e quase todos da família ainda estão lá, achei que teria um pouco de paz para
me acalmar, talvez até encontrar alguma coisa para me distrair de toda essa confusão.
Encontrei Vô Carlisle em seu escritório com Nahuel ao seu lado, como sempre, pesquisando mais sobre
nossa condição de híbridos. Chaaato!
Acho que o coitado não teve sequer a chance de se divertir um pouco desde que chegou aqui, ele até
veste as mesmas roupas indígenas de quando chegou. Pensei, minha chance de me distrair, além de salvar
o pobre.
Oi Vô!
Me aproximei e dei um beijo no topo da cabeça de meu avô. Olhei para Nahuel, que estava com a
expressão que parece até mesmo parte de seu rosto, séria.
Escuta Vô, acho que vou pegar emprestado seu assistente aqui por algumas horas, ok?!
Mas Nessie querida, estamos no meio de uma descoberta aqui, você não pode levá-lo agora porq...
Antes que ele continuasse a falar puxei Nahuel pelo braço e saímos em direção ao quarto da Vó Esme.
Como esperado ela estava em um de seus passatempos, pintando uma paisagem.
Oi Vó, França 1925?
1926 na verdade, como sabia?
Minha dica foi o Castelo de Chambord, além do que, acho que me lembro da senhora ter comentado
que esteve por lá com o Vô Carlisle nessa época, apenas alguns anos depois de ter sido transformada em
vampira. Você estava meio triste e o Vô resolveu te levar para conhecer, uma surpresa para a senhora.
Você realmente se lembra de tudo isso?
Claro que sim Vó. Achei uma atitude tão linda dele. Além do que, fiquei com um pouco de inveja. A
senhora sabe o quanto eu gostaria de conhecer esse castelo.
Cheguei mais perto e a abracei.
Vó, acabei de pegar Nahuel emprestado do Vô Carlisle porque acho que o pobre não se divertiu em
momento algum desde que chegou à cidade. O que você acha? Devemos mostrar a boa hospitalidade
Cullen e fazê-lo se divertir um pouco ao invés de só trabalho, trabalho, trabalho?
Concordo plenamente querida, tenho pensado isso eu mesma desde que ele chegou, mas seu pai e
seu avô não o deixam em paz, nem mesmo um minuto que seja. O que você tem em mente?
Ela deixou seus pincéis de lado, lavou as mãos e se juntou à nós.
Não sei ainda, mas tenho certeza que a primeira coisa a fazer é nos livrar desse visual rústico por algo
mais contemporâneo. Concorda?
Sorriu para mim e concordou com um leve movimento de cabeça.
Sei bem onde podemos começar.
Nahuel não se manifestara nem um minuto durante toda essa discussão sobre ele. Isso é que se pode
chamar de timidez. Minha avó nos indicou o caminho, pegando o braço de Nahuel e fomos em direção a
uma dos cômodos desocupados da casa. Eu estranhei isso por um momento até que entramos no cômodo.
Existiam várias caixas de mudança lacradas.
São roupas e acessórios abandonados por Ed e Emmet, já que Alice nos faz comprar novos
constantemente. Tenho certeza de que alguns nem mesmo foram usados. Eu tinha deixado aqui para fazer
uma doação à alguma organização local de ajuda à necessitados, mas acredito que num montante como
esse, algumas roupas não farão falta alguma. Que tal começarmos por esse aqui?
Levantou uma caixa que tinha escrito Edward na lateral. Eu achei ótimo porque Nahuel tem o corpo
parecido com o de meu pai. Alto e esguio, porém com mais músculos. Comecei a mexer para encontrar
algo que fosse bonito, mas confortável já que ele não parece estar acostumado a vestir muitas roupas.
Acho que são perfeitas Vó. Podemos começar com essa camisa social branca, com esse pulôver preto
e essas calças caqui aqui. O que a senhora acha?
Levantei e sobrepus sobre o corpo de Nahuel, como se estivesse demonstrando como ficariam vestidas
no corpo. Sem que ele emitisse uma única palavra desde que o seqüestrei do escritório do Vô. Minha avó
fez uma expressão que tenho certeza, significa que a agradou muito.
Mas eu olhei novamente para Nahuel e percebi que isso não seria suficiente, precisávamos fazer
alguma coisa com os cabelos dele. Talvez não cortar, mas arrumar melhor, prendê-los quem sabe.
O que foi Nessie? Não gostou?
55
Na verdade sim Vó, mas temos que dar um jeito nos cabelos.
Você não pretende cortá-los não é?!
Pela primeira vez desde o escritório, vi Nahuel fazer algo. Ele se afastou um pouco de nós, com uma
expressão, que se não soubesse que se trata de um guerreiro, acreditaria que era de medo. O que é muito
engraçado se você considerar o porte e aparência brava dele.
Claro que não Vó, os cabelos dele são lindos. Só precisam de um trato melhor.
Nahuel, nós não vamos cortar seus cabelos. Pode ficar tranqüilo. Só queremos mudar um pouco seu
visual para que possamos passear pela cidade sem que fiquem nos olhando estranho. Você entende, não
é?! Não podemos chamar a atenção demais para nós.
Ele ainda parecia desconfiado, mas não fugiu. Foi golpe sujo meu, usar o discurso do não podemos
chamar atenção dos humanos para nós, principalmente depois de tudo que fiz hoje. Toquei em seu braço
e olhei em seus olhos para que ele tivesse certeza de que eu falava a verdade. Voltei a prometer com
minha voz mais compassiva.
Nahuel, eu dou minha palavra que não vamos fazer nada com sua aparência que você não queira. Eu
juro.
Ele balançou positivamente com a cabeça e fomos pentear seus cabelos. Cerca de duas horas depois ele
havia tomado banho, se trocado e eu, juntamente com a Vó Esme, o penteamos. Voi-lá! Estava pronto.
Mas precisava que ele também aprovasse, então o colocamos em frente a um espelho enorme do quarto
de Tia Rose.
Então? O que achou? Gostou? Quer que mudemos alguma coisa?
Calma querida, deixa o pobre rapaz se acostumar primeiro com sua nova aparência e depois ele
poderá responder às suas dezenas de perguntas.
Ela sorriu para mim e colocou uma mão no ombro dele suavemente.
Então meu querido rapaz. O que achou? Seja sincero.
Ele parecia não reconhecer a si mesmo no espelho, porque passava as mãos pela roupas e cabelo,
depois olhava no espelho. Deu algumas voltas e esboçou um sorriso. Acho que foi a primeira vez que o vi
sorrindo, ou algo parecido, desde que chegou aqui.
Eu gostei.
Uau! Como sua voz é poderosa! Ele não fala muito, aliás, praticamente não fala. Tanto que às vezes
esqueço que ele fala bem nosso idioma, mesmo tropeçando às vezes. Mas quando fala... Nossa! É um
pouco mais áspera que a de meu pai, mais viril talvez, porém muito confortável aos ouvidos. Um estranho
arrepio passou pelas minhas costas.
Sabe, o vendo assim, todo arrumado, ele até não é um mau partido. Se parece um pouco com o Jake, só
que numa versão um pouco mais compacta, com cabelos longos e mais jovem. Apesar daquele lobo bobo
não ser velho, como ele enfiou em sua cabeça.
Minha avó acabou com minha tagarelice mental em boa hora.
Que bom querido. Podemos providenciar outras roupas para você. Do mesmo tipo dessa. Você
gostaria?
Sim senhora. Se não for incômodo.
Deus! Que voz. Era só o que eu podia pensar. Minha avó me chamou, pelo que percebi, pela segunda
vez.
Nessie querida, você está bem?
Ah!? Certo. Estou. Bem. Ah, ótima. Sem problemas.
Decidido. Apesar de termos muitas roupas aqui que servirão perfeitamente para ele, acredito que
deveríamos ir para Port Angeles para comprar alguma coisa que lhe falte. Que tal amanhã já que você não
terá aula, Nessie querida?
Ela olhou para mim esperando alguma resposta, mas na verdade eu não estava muito presente. Fiz a
única coisa que podia fazer: balancei a cabeça afirmando.
Você acha que ficaria bom irmos logo pela manhã? Teríamos o dia todo para passear por lá depois.
Você poderia chamar Judy para ir conosco. Que tal, bebê?
Minha avó e meus avôs são os únicos que eu não me incomodo de me chamarem de bebê.
Acho uma ótima idéia Vó. Por volta das 7h está bom para senhora?
56
Por mim está ótimo. E você meu rapaz? Gostaria de acompanhar alguma damas num passeio?
Ficaria honrado, senhora.
Nossa! Por que esse cara não fala com mais freqüência? Além da voz poderosa é também um cavalheiro
à moda antiga, como meu pai e o vô Carlisle. Quero só ver a cara da Judy amanhã, quando conhecê-lo.
Certo então. Mas é melhor sairmos daqui logo. Antes da Tia Rose voltar e nos pegar no quarto dela.
Não se preocupe, querida. Eu tenho alguns privilégios na família e não hesitarei em usá-los.
Minha avó piscou para mim. Mas para evitar confusão, resolvemos partir.
Infelizmente a realidade tinha que cair em minha cabeça, mais cedo ou mais tarde. Todos chegaram da
escola e foram se amontoando na cozinha, na mesa que usamos pra reunião já que somente quem come
comida normal ocasionalmente aqui somos eu, Nahuel e os lobos que nos visitam.
Meu pai começou a Inquisição Espanhola. Quanto drama por uma bobagem.
Nessie minha filha, você tem que nos ouvir. Dessa vez você foi um pouco longe demais. Uma coisa é
derrubar o Josh Simons usando sua força sobre-humana, que poderíamos justificar como sendo técnicas de
artes marciais ou algo semelhante. Outra inteiramente diferente é você usar seus dons para fazer uma
ilusão em frente a toda a classe.
Mas pai...
Ainda não Nessie, não terminamos.
Disse minha mãe com uma voz séria, me olhando nos olhos.
Você sabe que não podemos usar nossos dons entre os humanos. Sabe que é perigoso para todos nós.
Se formos descobertos, teremos que nos mudar para ainda mais longe. Talvez até mudar de país.
Dessa vez foi meu avô Carlisle quem falou. Ele parecia preocupado.
Foi uma pequena ilusão pai. Poderia mesmo ter acontecido uma reação química causando aquela
confusão.
Uma pequena ilusão?
Sim, uma bem inocente.
Como você me explica que depois de todos terem saído da classe a reação química e a bagunça
causada por ela não estavam mais lá?
Odeio quando ele faz isso. Ele sempre foi muito lógico e argumentar contra ele é sempre entrar numa
guerra perdida. Usei minha última cartada, mesmo sabendo que não tinha razão alguma e que ele estava
certo.
O Prof. Ramirez é conhecido por beber, ele poderia ter imaginado?
Minha Voz falhou no fim da frase. Droga! Fui pega.
E como explicar todos os outros alunos? Eles ainda estavam lá por perto. Um ou mais poderiam ter
voltado e não ver mais nada da bagunça. Como explicaria isso? Além do fato da confusão acontecer no
exato momento que ele te perguntava algo que você claramente não sabia a resposta.
Edward, ela se arrependeu e não vai mais fazer isso, não é Nessie?!
Disse Vó Esme usando de seus privilégios. Cara, amo minha avó. Mesmo eu estando errada, ela tenta
me ajudar. Ou pelo menos amenizar as coisas.
Foi o que eu tinha achado quando falamos com ela sobre o incidente de Josh.
Meu pai insistia, sem demonstrar irritação, somente preocupação. O que foi pior para mim. Estou
começando a me sentir culpada. Será que eles estão mesmo exagerando ou algo pior poderia ter
acontecido?
Ei! Aquele Josh Simons merecia mesmo uma lição. Pena que não foi eu a dar-lhe.
Meu Tio Emmet sorriu e piscou para mim. Segurei uma risada porque sabia que já estava encrencada o
suficiente.
Emmet?! Shhh. Não está ajudando.
Tia Rose deu-lhe uma cotovelada para encerrar a intromissão dele.
O pior é que nem pudemos contar com as previsões de Alice porque ela não consegue ver você.
Edward, você sabe que não é minha culpa se eu não consigo enxergar híbridos e lobos.
Tio Jasper a abraçou consolando-a.
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Em momento algum eu disse que foi culpa sua Alice. Todos nós sabemos que você não é onipresente.
Além do mais você já nos ajuda demais vigiando os Volturis. Portanto, fique tranqüila, nós só temos a
agradecer a você.
Ela parecia mais calma, assim como todos na sala. Posso jurar que o Tio Jasper andou usando um pouco
do seu dom. Tia Alice piscou para mim. Há! Quem disse que não tenho aliados nessa guerra? Parece que
esse draminha dela foi só para distrair o foco.
Mas para quebrar meu espírito de luta, minha mãe resolveu dar o golpe final.
Querida, não é perigoso só para você. É para todos nós. Você deseja que nos mudemos para longe
de quem amamos? Você sabe o que pode acontecer quando os Volturis descobrirem algo assim? Quer que
algum de nós nesta mesa seja ferido ou até mesmo destruído para sempre? E se eles quiserem usar seu
avô Charlie ou os lobos como isca para nos capturar e depois nos executar?
Exagero demais? Mas ela parecia triste, meio desapontada. Olhei para cada rosto de minha família à
mesa e de repente percebi que eles estão todos preocupados não somente comigo, mas com a segurança
de si mesmos e dos que amam. Começaram a dar as mãos em pares. O Vô Carlisle e a Vó Esme, o Tio
Emmet e a Tia Rose, o Tio Jasper e a Tia Alice. E por fim: Meu pai e minha mãe.
Meu Vô Charlie que estava em silêncio desde que chegou, resolveu se manifestar.
Bem, em meu nome e imagino que em nome dos lobos eu digo: Se eles vierem, estaremos prontos,
mas prefiro que não seja necessário chegar a esse ponto, porque existe muita gente inocente aqui na
cidade e nas redondezas que podem se tornar vítimas. Pessoas que nem tem consciência desse... outro
mundo. Droga! EU queria não ter consciência desse outro mundo!
E com isso todos riram, mas seus sorrisos não alcançavam seus olhos, sobretudo os de minha mãe. Foi o
que me doeu mais. Ela me deu um último olhar e meu pai resolveu acabar a reunião. Eu prometi não mais
usar meus dons e poderes entre os humanos e todos nos retiramos.
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9. É uma promessa
Foi uma das piores noites da minha vida. Demorei muito a dormir pensando nas conseqüências de meus
atos. Não somente porque eu poderia causar tanto mal à minha família, como fui injusta com Jacob, que só
queria me alertar. Como todos têm tentado em vão.
E eu não somente ignorei Jacob, como o ofendi, gritei e briguei com ele injustamente. Ele nem estava
presente nessa reunião. E ele também é da família, deveria estar aqui.
Tenho que corrigir isso. E irei. É uma promessa.
Mas na manhã seguinte já tinha um compromisso. Com minha avó Esme e Nahuel em Port Angeles para
fazer compras. Nem sei como eles me deixaram ir depois de ontem. Imaginei que ficaria de castigo até ir
para universidade. Mas eles acharam que mudar um pouco de ambiente talvez me ajudasse.
Não entendi muito bem o objetivo disso, mas estou no lucro, então não vou reclamar. Acho que como
era em benefício de Nahuel, que nos tem ajudado tanto sem pedir nada em troca, eles resolveram deixar
passar essa viagem.
Preciso resolver esse assunto das compras cedo, para ter tempo de resolver um assunto ainda mais
complicado. Jacob.
Judy não pôde vir conosco, acho que ela deve ter odiado perder a oportunidade para renovar seu
guarda-roupa de Gótica Chic, mas enfim. Ela tinha alguns compromissos com sua avó.
Vó Esme nos conduziu rápido, mas nem perto de chegar a velocidade do papai ou da Tia Rose, por
exemplo. Fomos em seu Mercedes Maybach 57, presente do Vô Carlisle. O que eu acho uma grande
injustiça, considerando um carro como esse para alguém que nem mesmo gosta de dirigir. Ele poderia ser
melhor aproveitado, por quem gosta de carros, alguém assim, como EU. Infelizmente ainda não tenho
carteira, senão, tenho certeza que ela me deixaria dirigir. Por enquanto só me resta conformar com a
paisagem vista do banco do carona.
São algumas horas de Sequim para Port Angeles, então fui selecionando o que ouviríamos durante a
viagem. Conheço bem o gosto da Vó Esme, mas não faço idéia do que Nahuel poderia gostar, então fiz um
play-list de músicas populares entre as pessoas de minha idade, também um pouco de rock e para minha
avó música clássica.
Não adiantou muita coisa, já que Nahuel não esboçou gostar de nenhuma delas, minha avó murmurou
um pouco da música clássica que selecionei para ela. E eu, bem, estava muito tensa pensando no que fazer
com Jacob quando voltássemos para prestar atenção em qualquer das músicas que passava.
Chegamos a Port Angeles pouco antes das dez da manhã, com tempo suficiente para comprar o que
viemos comprar, voltando o mais rápido possível para Sequim e de lá para a reserva Quileute, onde eu
tenho que fazer as pazes com o Jake.
Ainda bem que resolvemos vir só eu, Nahuel e vovó fazer essas compras, porque se fosse a Tia Rose ou,
que Deus proíba, Tia Alice, não conseguiríamos terminar antes do natal. Ainda bem que Tia Rose ficou
consertando seu Mustang Fastback 1967 vermelho, que o Tio Emmet deu a ela de presente. Ela adora
carros antigos.
E Tia Alice andava preocupada com alguma coisa, que não quis dizer para ninguém, provavelmente com
uma possível recaída do Tio Jasper ou algo assim.
Entramos em uma das lojas de roupas para homens e começamos a procurar algo que servisse bem em
Nahuel. Juntamos alguns pares de camisas pólo, alguns pares de calças e é claro, os acessórios. Tenho a
impressão que ele não está muito habituado a ver esse tipo de coisas, porque em diversos momentos em
que nos distraíamos de nossas compras e olhávamos para ele, parecia perdido o pobre coitado.
Enquanto esperávamos que Vó Esme finalizasse as compras, fomos tomar um frozen yogurt. Ele parecia
uma criança descobrindo doce, o que era bonitinho. Mas infelizmente, mesmo meu corpo estando lá,
minha cabeça não acompanhou. Fiquei todo o tempo pensando no que diria para Jacob perdoar minha
estupidez, mesmo quando eu aparentava estar me divertindo, ainda pensava na maneira como eu tinha
tratado ele, nas coisas horríveis que falei. Eu não queria dizer nada daquilo, ele deve saber isso. Ele precisa.
A angústia era tanta que por muitas vezes eu esquecia de respirar, doía tanto o peito que pensei que
fosse ter um troço ali mesmo, no meio daquela multidão. Sentei-me num banco para não cair.
Acho até que estou começando a ficar louca, minha consciência está falando em voz alta.
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Não se preocupe, eles irão te perdoar.
Surgiu essa voz grave e branda perto de mim. Então percebi que não era minha consciência e sim
Nahuel. Interessante, para um cara que não fala de jeito nenhum, quando fala é sempre uma surpresa para
mim ouvir uma voz tão firme e aveludada ao mesmo tempo.
Olhei pra cima e encontrei seus olhos. A surpresa deveria estar muito visível em mim.
O quê? Eu falo... às vezes.
Eu sei. Mas por que você fala tão pouco?
Ele sentou-se ao meu lado, deu uma colherada no seu frozen.
Não tenho muitos motivos para falar. Como você sabe, vivo com minha tia desde pequeno, desde
que, bem, eu matei minha mãe. E onde vivemos somente falamos o necessário, para evitar espantar
nossas presas ou atrair pessoas indesejadas que às vezes aparecem no nosso território.
Eu tenho tanta pena do garoto. Ele matou a própria mãe. Mesmo não tendo sido de propósito, porque
foi durante o parto. Ele literalmente rasgou a mãe dele, de dentro para fora, para conseguir sair de seu
ventre.
Eles não tiveram apoio durante o processo como no meu caso e graças aos céus, minha mãe está viva.
Senão poderia ter sido eu ali, triste, arrasado pela culpa e o pior de tudo, sem minha mãe.
Parece uma vida muito triste. Você não se sente só? Quer dizer, você não tentou morar com seu pai e
suas irmãs?
Ele fez uma cara de nojo e desistiu do frozen, mas posso jurar que foi mais por eu ter mencionado seu
pai do que pelo sabor da bebida.
Não deu certo.
Como eu achei que não iria conseguir arrancar mais nenhuma palavra dele a respeito desse assunto,
resolvi mudar de assunto.
Vocês não encontram outros como nós, quer dizer não como nós, eu e você, mas vampiros com quem
vocês possam conviver? Quer dizer, a Zafrina mora por aquela região. Vocês nunca se cruzaram?
Acho que vi uma pequena curva se formando levemente no canto de sua boca. E ele me falou divertido.
Me diga você.
Olhei para ele com surpresa. Não consegui entender.
Você conviveu um bom tempo com ela, aliás, ainda convive quando ela visita. Todos percebem o
quanto ela gosta de você. Pode me dizer quantas conversas longas você teve com ela?
Entendi o que você quer dizer. Ela é um doce comigo e tudo, mas posso contar nos dedos as vezes em
que realmente conversamos e mesmo assim ela parece economizar em palavras.
Ele esboçou um sorriso, para em seguida voltar a parecer triste.
O que foi? Lembrou de algo ruim?
Na verdade não. Apenas estava pensando em minha vida desde que me mudei temporariamente para
a casa dos Cullens, quer dizer, sua casa.
Como ele finalmente estava começando a falar, achei melhor não interromper. Admito que estava
muito curiosa para saber mais sobre ele.
Vocês são tão diferentes de tudo que eu sei sobre vampiros. Na verdade, até sua Tia Alice ir me
buscar, eu nem sabia da existência de outros como eu, com exceção de minhas meio-irmãs. Ainda mais
vampiros completos que não sobrevivem de sangue humano. Isso era o que mais me chamou a atenção
antes de ir morar lá.
O que mais me espanta, é como vocês realmente tem a convivência como uma família, assim como os
humanos. Com carinho, atenção, cuidado e amor. Por isso que falei que eles irão te perdoar. Não foi por
isso que você estava tão preocupada?
Uau! Me lembre de ter medo de gente que não fala muito. Eles podem ter suas dificuldades em se
expressar, mas com certeza captam tudo ao redor.
Você sabe que falou só nesses minutos, mais do que você falou durante quase toda sua estadia
conosco?
É, sei.
Respondendo então: sim e não. Também estou preocupada com eles, ou melhor dizendo, por eles.
Mas o que está me deixando assim é outra coisa. Deixa para lá.
60
Sacudi a cabeça pensando novamente em Jacob. Como vou resolver isso?
Ele também vai te perdoar. Aliás, acho até que já deve ter feito isso. Porque de todos, o lobo é o mais
dependente de você.
Ok. Estou oficialmente assustada: além de tudo ele é vidente ou algo assim? Porque mesmo não
falando nada remotamente ligado ao Jacob, Nahuel sabia que eu estava pensando nele.
Eu não sei do que você está falando. E não quero mais falar a respeito disso.
Tentei me fazer de desentendida. Com certeza eu não queria falar sobre Jacob com ele. Aliás, eu não
queria falar sobre Jacob com ninguém.
Ok então. Me desculpe se fui intrometido, não foi minha intenção. É só que você parecia precisar
disso. Colocar para fora. Não entendo muito da dinâmica entre os humanos, mas parece fazer bem para
eles esse tipo de coisa, e como os Cullens vivem como os humanos, achei que funcionaria também.
Hum... me senti culpada agora. O coitado estava apenas tentando ajudar e eu descontei minha
frustração nele.
Olha, foi muito doce de sua parte e me desculpe se fui rude com você. Mas eu realmente não quero
conversar sobre isso. Nem com você, nem com ninguém.
Dei-lhe um beijo no rosto e ele parecia tão espantado com isso quanto se eu tivesse lhe dado um soco
no estômago.
Começamos a andar em direção à minha avó, mas antes de chegarmos perto o suficiente para ela ouvir,
sussurrei no ouvido dele: Você deveria falar mais. Além de ter uma bela voz, tem coisas muito
interessantes para dizer.
Quando estávamos entrando no carro eu tive uma idéia. Tinha que continuar com essa fase falante de
Nahuel, então pensei em estimular o quanto pudesse.
Esperem aqui. Eu já volto.
Saí em disparada para comprar umas surpresinhas para ele. Voltei logo em seguida e fomos para o
carro.
Vó? Posso ir atrás, com Nahuel?
Claro querida.
Nahuel me deu um olhar estranho. Entrou na parte de trás e sentou-se, comigo entrando no carro em
seguida.
Peguei as sacolas e comecei a mostrar cada item, explicando como e quando usar. Ele parecia meio
confuso no princípio, mas acho que vai dar certo. Deixei uma sacola por último, como grand finale.
Tenho uma surpresa para você!
Falei enquanto abria a grande sacola da loja esportiva.
O que é tudo isso?
Vovó olhou pelo retrovisor, curiosa em saber o que eu tinha saído escondida para comprar.
Material para prática de baseball. Acho que Nahuel deveria participar de nossos jogos. Acredito que
ele daria um bom lançador.
Vi o brilho dos olhos dele e tive certeza que ele amou meus presentes. Sobretudo essa parte final.
Ótima idéia querida, só tome cuidado em dizer isso para sua Tia Alice. Para que ela não se sinta
excluída, já que é nossa lançadora oficial.
Não se preocupe! Já tenho tudo planejado.
Me ajustei no banco para que ela pudesse me ver pelo espelho retrovisor e continuei.
Planejo colocar ela como mentora e treinadora oficial do Nahuel em práticas de baseball. A senhora
sabe o quanto ela gosta de ensinar coisas. E principalmente tendo total atenção desse alguém.
Nessie, que coisa mais doce essa que você fez pelo rapaz.
Me senti corando, mas admito que também me senti muito orgulhosa de minha idéia.
Que é isso vovó!? É só lógica.
E você? Não vai dizer nada Nahuel?
Err... Obrigado?
Não estou falando disso, seu bobo! Queria saber se você gostou da idéia, mas pelo jeito que você está
com essas coisas, acho que nem preciso mais da resposta - provoquei.
61
Nahuel agora parecia empolgado, pegando cada coisa que comprei e experimentando por cima da
roupa que usava para ver se cabia. Fico feliz por ter conseguido agradecer a ele pelos conselhos que me
deu.
Desculpa Nessie! É que quando eu via vocês jogando lá, tinha curiosidade em saber se eu conseguiria.
Tenho assistido aos jogos há algum tempo e acho que consegui aprender algumas coisas na teoria.
Veremos se na prática funcionam.
Uau! Quanta empolgação.
Rimos os três, verdade que o riso de Nahuel era tímido. Continuamos conversando sobre os planos para
inclusão do novo integrante do time Cullens. Ficamos tão distraídos com a conversa, que o caminho
passou muito mais rápido do que quando viemos.
Ao chegar em casa, Nahuel foi direto para o escritório de meu avó, alguém por quem ele criou uma
grande admiração, mostrar seus novos presentes. E é claro que depois foi a vez de sua Tia Hulien.
Minha avó também foi para o escritório de meu avô. Mas foi por outros motivos. Primeiro dar-lhe um
grande beijo e quando Nahuel saiu, começaram a conversar sobre seus dias, como um casal humano faria.
Infelizmente, a minha tarefa de casa não seria tão prazerosa quanto a de meus colegas de viagem. O
que eu tinha que fazer não era nada agradável, me desculpar com Jacob. E torcer para ele me perdoar
daqui há alguns anos.
Estava tão nervosa que gastei muito mais tempo para chegar à casa de Jacob na Reserva Quileute do
que normalmente gastaria. Primeiro porque eu adiava a chegada tentando repassar meu discurso em
minha mente e segundo porque tropecei uma dezena de vezes no caminho. Quando avistei a casa dele me
arrumei um pouco, respirei fundo, levantei a cabeça e tomei os metros restantes em apenas alguns
segundos. Acho que estava querendo aproveitar enquanto ainda me restava alguma coragem. Bati à porta
e esperei ver Jacob atendendo, mas foi Billy quem a abriu.
Oi Billy, como vai? Jacob está em casa?
Ele abriu a porta e se afastou para que eu pudesse entrar. Me olhou sério e eu travei. Como é sempre
Jacob quem abre a porta para mim imaginei que tivesse acontecido alguma coisa com ele.
Aconteceu alguma coisa com o Jacob? Onde está ele?
Eu comecei a me dirigir desesperada ao quarto dele, quando a mão de Billy me segurou.
Se você se refere à segurança física dele, a resposta é sim. Ele está bem.
Ops?! Então é o outro assunto?! O que eu vim tratar. Droga. Acho que a situação está ainda pior pro
meu lado do que pensei. Preferi ficar calada esperando ele continuar. Na verdade foi covardia mesmo.
Mas se você se refere por dentro? Não acho que ele esteja nada bem. De fato, acho que ele está
muito mal, arrasado até.
Olhei para baixo, com vergonha por ter causado alguma dor para Jacob. Ainda não tinha coragem de
falar qualquer coisa que seja. Me mantive olhando para o chão.
Nessie?
Olhei pra cima e ele continuou.
Não quer se sentar?
Aceitei a oferta e esperei mais um pouco pela conclusão de sua linha de raciocínio.
Eu sei que ele tem o imprinting por você e que todos te amam. Eu aprendi a te amar também. Mas
você tem que pensar nos outros também. Não pode agir daquela maneira, pensando que não haverão
conseqüências, tanto para você, quanto para todos nós. E sim incluo os lobos nisso também.
Ele respirou fundo, como quem tenta se acalmar e continuou.
Eu sei que vocês se amam e...
Pensei em interromper dizendo que isso não era verdade, mas a essa altura não tenho como negar:
AMO Jacob Black!
Não como amiga, não como irmã, mas como uma mulher ama um homem. Acho que quando era
pequena o amava fraternalmente, mas agora não.
Em minha epifania, não consegui ouvir o que Billy continuava a dizer.
...então é isso Nessie. Pense melhor em suas ações porque elas poderão ter conseqüências
desastrosas para todos nós.
62
Agora eu sei disso. Tivemos uma conversa em família, ou melhor, foi mais como um sermão, mas o
ponto é que, eu percebo os riscos que vivemos constantemente e não agirei mais assim, impulsivamente.
Me desculpe pelos transtornos a você e por ter feito mal para seu filho.
Não se preocupe com isso. Logo tudo será resolvido. Basta ele olhar para essa sua carinha de anjo e
tudo estará perdoado.
Me sentindo um pouco mais confiante com essa afirmação, voltei a perguntar.
E por falar em seu filho. Onde ele está agora?
Você não imagina?
Então olhei para ele e tive a certeza. Falamos juntos:
Na garagem, mexendo em sua moto!
Onde mais?
Rimos até nos acalmar, me aproximei dele e dei-lhe um abraço forte.
Obrigada Billy. Por tudo. Pelos conselhos e por cuidar dele quando eu faltei.
À disposição, querida. Precisando, é só pedir.
Saí pela porta em direção à garagem. Que é uma estrutura velha em madeira que fica anexa a casa,
usada como garagem para a moto e o VW Rabbit 1986 usado, ou melhor, beeeeem usado.
Lembro-me que uma vez me diverti às custas disso com Jacob. Dizendo pra ele que deveria desistir do
monstrengo porque se um dia ele saísse para dar uma volta com ele e estacionasse em algum lugar
próximo à cidade, iam rebocar pensando que se tratava de um monte de peças abandonadas, sujando a
cidade. Ele ficou irado e eu corri, mas logo ele deixou para lá.
Quando estava chegando perto da garagem, meus batimentos começaram a acelerar e minha
respiração a ficar ofegante. Só pensava como poderia recuperar meu amigo, meu melhor amigo. E
principalmente, como fazer ele parar de me ver como um bebê, como minha mãe insiste em me chamar,
e me ver como a mulher que o ama. Isso mesmo: o ama! Agora que eu consegui admitir para mim mesma
está difícil não repetir que eu amo Jacob Black a todo instante.
Ouvi um barulho na lateral na garagem e meus instintos de meio-vampira foram ativados.
Imediatamente pus minhas mãos em garras, meu corpo arqueado. Farejei o ar, mas só o que eu pude
sentir foi o cheiro de graxa, madeira, pneu, gasolina e óleo da garagem. Então andei em direção a lateral da
garagem. Suguei o ar mais uma vez e dessa vez um aroma extremamente conhecido estava lá. Algo
amadeirado, familiar e feliz para mim. Segundos depois vi a origem do aroma, Jacob. Ele estava
amontoando algumas toras enormes, umas em cima das outras.
Então, onde vai ser a fogueira gigante?
Ele continuou a fazer sua tarefa, sem mesmo olhar para mim. Isso me partiu por dentro. Ele deve estar
realmente magoado, vai ser mais difícil do que pensei. Nós brigamos o tempo todo, é até divertido. Mas
nunca tão sério como foi dessa vez.
Ei, Lobo! Estou falando com você.
Ele olhou pra cima sem expressão alguma.
Então, estamos nos falando agora?
Eu desconfiava que ele fosse jogar isso na minha cara mais cedo ou mais tarde. Melhor que tenha sido
mais cedo, assim consertamos logo as coisas antes de piorar. Só que meu temperamento às vezes é um
problema, porque apesar dele estar completamente com a razão, fui eu que me irritei.
Acho que não. Foi um engano, estou indo embora. Eu vim aqui para pedir perdão e você
simplesmente me ignora. Mas não se preocupe, não vou mais incomodar você, já que está numa tarefa
muito importante. Quando você quiser deixar de ser tão cabeça dura e quiser falar comigo, me procura.
Dei as costas pra ele furiosa e comecei a andar em direção ao caminho de minha casa, quando Jacob
segurou em minha mão e me virou.
Então, você veio me pedir perdão?!
Ele me olhou obviamente se divertindo às minhas custas. Aquele, aquele... arrr... comecei a ir embora
novamente, mas ele me parou mais uma vez.
O que é que você quer Lobo? Me larga!
Quase gritei de raiva. E ele simplesmente riu, mas não me soltou. Eu estava quase me preparando para
atacar, quando ele começou a falar.
63
Fica calma, ok nervosinha?! Eu só estava brincando com você. Sabia que mais cedo ou mais tarde você
viria se desculpar.
Quanta segurança, Jacob Black. Se achando muito? E você está enganado, eu só vim aqui porque
todos insistiram e...
Você pode usar a desculpa que quiser, mas você está aqui por vontade própria. Todos nós sabemos
que você não é muito de obedecer os outros.
Eu vou matar esse cachorro vira-latas. Como ele pode zombar de mim assim. Eu passei por cima de meu
orgulho para me desculpar com ele e é assim que me trata? Eu vou... eu vou... mas antes que eu fizesse
qualquer coisa ele falou novamente.
Além do que, se você não aparecesse aqui até hoje, eu iria ter que te procurar em sua casa, para
conversarmos e principalmente para te dar umas boas palmadas. De fato, estou pensando seriamente em
fazer isso agora mesmo.
Eu comecei a correr para ele não cumprir sua promessa, mas já estava extremamente feliz por ainda
sermos amigos.
Você quer apostar que nem vou precisar correr tanto?!
Duvido que você consiga vovô. Eu sempre fui mais rápida do que você!
Falei em desafio enquanto olhava para trás, para ver sua reação. Infelizmente, para minha desgraça,
quando olhei para frente tinha uma árvore gigantesca no meu caminho e na velocidade que eu estava a
única coisa a fazer foi proteger meu rosto com as mãos e me bater com ela. Era muito grande para eu ter
derrubado, então, ela permaneceu lá, parada. E eu sentada no chão, verificando o estrago.
Não foi um total desastre porque só tive alguns arranhões e me curo extra-rápido. Jacob veio
preocupado em minha direção, mas quando viu que estava tudo bem começou a rir tanto que caiu sentado
no chão.
Eu falei que te pegava e nem precisaria correr. Sabia que algo do tipo iria acontecer.
Mais uma explosão de risos.
Ele me deu a mão para eu me levantar, mas me recusei a pegar ela. Me levantei, ainda cambaleando
um pouco e tentei me limpar.
Que tal aquelas palmadas agora?!
Você não ousaria!
Na verdade sim, ousaria. Mas vou deixar para lá porque você já sofreu o suficiente por hoje.
Seu... seu... argh!
O quê? Lindo? Charmoso? Inteligente?
Ugh... deixa para lá. Nem vale a pena eu perder meu tempo para te xingar.
Depois de dar um jeito na roupa, sentei em uma árvore grande que estava tombada no chão e respirei
fundo.
Jake?
O que foi? Lembrou do que ia me xingar?
Ele riu novamente, mas quando viu minha expressão ficou sério e sentou-se ao meu lado.
Você está bem? Quer que eu chame alguém? Bella? Ed?
Não! Só...
O que foi?
Desculpa por eu ter agido daquele jeito com você ok?! Eu fui infantil e irresponsável, como todo
mundo insiste em me chamar. Acho que eles estão todos certos mesmo.
Encarei meus sapatos imundos com a queda.
Você está errada!
Eu sei disso! Precisa jogar isso na minha cara mais uma vez?
Ele pegou minha mão entre as suas e me olhou nos olhos.
Eu quis dizer que você não é infantil e muito menos irresponsável.
Fiquei surpresa pela afirmação e ele continuou com voz branda.
É a menina, garota, não! Mulher, mais responsável e altruísta que conheço, mesmo sendo
extremamente mimada, sempre pensa nos outros. De fato, às vezes muito mais nos outros do que em si
mesma, como foi o caso daqueles garotos que o Josh estava perturbando.
64
Mas no caso do pobre Prof. Ramirez eu não precisava ter feito aquilo. Foi muito perigoso e...
Conversei com Seth sobre o que aconteceu e ele me contou tudo.
Tudo? Engoli seco com isso. O que ele quis dizer com tudo? Será que Seth sabia que eu não estava
prestando atenção à aula porque estava pensando em Jacob? Esperei que ele continuasse.
Seth me disse que você estava distraída com alguma coisa e que acha que você não fez a ilusão por
mal. Foi quase como uma auto-defesa instintiva.
Vou ter que presentear Seth com alguma coisa. Ele não só livrou a minha barra, como me mostrou o
quanto ele é observador.
Bem, eu acho que foi isso mesmo.
Você só precisa nos ouvir mais Nessie, para sua própria segurança. E para nossa.
Não pude deixar de me sentir melhor com tudo que ele falou.
Eu sei. Entendi. Vou me controlar melhor. Prometo.
Bom, já que é assim. Podemos acabar logo com essa falsa guerra ente nós. Estava morrendo de
saudades de você. Meu pai quase me colocou para fora a tiros porque não agüentava mais minha
ansiedade dentro de casa. Por isso que ele me mandou empilhar aquelas toras, acho que para me manter
ocupado e não pirar.
Eu também estava morrendo de saudades de você Jacob Black. Mas se você disser isso para alguém,
juro que vai ser a última coisa que vai falar em vida.
Rimos juntos timidamente e ele me ajudou a levantar.
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10. Problemas cardiorrespiratórios
Ele é muito mais alto do que eu, mas como o local onde ele estava em pé era um pouco mais baixo do
que onde eu estava, fiquei na altura do seu peito. Ele me puxou para um abraço e colocou sua cabeça
sobre a minha. Nossa! Se existe algo parecido com o paraíso na Terra, deve ser isso! Seu cheiro, sua pele
quente, seus cabelos caindo sobre minha cabeça e coçando minha orelha, a proteção do seu abraço,
nesses braços fortes e quentes de lobo, meu lobo.
Mantivemos o abraço, mas ele afastou a cabeça para que pudesse me olhar nos olhos e eu meus
batimentos aumentaram novamente, comecei a me sentir ofegante mais uma vez. Porém percebi que não
era a única a ter problemas cardiorrespiratórios. Ele também estava assim e começou a aproximar seus
lábios semi-cerrados aos meus e eu pensei: É agora. Meu primeiro beijo. E vai ser com o homem da minha
vida, que dizer lobo, que eu tanto amo.
Mas para meu desgosto ele se afastou e saiu tremendo. Segundos depois o vi como lobo, correndo
floresta a dentro. Restando apenas suas roupas rasgadas em um rastro disforme.
Mais que diabos foi isso! O que será que aconteceu? Estava dando tudo tão certo e de repente: Bam!
Um lobo em fuga.
Fiquei furiosa, excitada, frustrada e confusa. Tudo ao mesmo tempo. Esperei que ele voltasse a ser
humano e retornasse onde estávamos antes dele fugir para que pudesse me explicar o que tinha
acontecido, mas depois de uma hora tive certeza que ele não voltaria. Resolvi ir para casa.
Cheguei como um furacão em casa. Batendo portas, subindo as escadas de dez em dez degraus e fui
para o meu quarto. Onde bati mais uma porta. Como se era de esperar, minha mãe apareceu minutos
depois.
Nessie? Você está bem?
Não aconteceu nada mãe. Só quero ficar sozinha.
E você pode ter certeza disso: não aconteceu nada! Droga!
Você chegou em casa de mal humor e com as roupas todas estragadas. O que aconteceu querida? Me
disseram que você tinha ido falar com o Jacob? Aconteceu alguma coisa no caminho?
Não.
Não me diga que isso é alguma brincadeira do Jacob? Se ele estiver envolvido nisso, eu arranco a
cabeça dele para você. Quer que eu faça isso?
Apesar de minha irritação não pude deixar de rir de minha mãe. Mas não foi o suficiente para eu me
acalmar. Eu tinha que sair dali. Não estava com cabeça para interrogatórios, então pulei a janela e fui para
o quintal.
Comecei a andar a esmo e de repente avistei Nahuel lançando alguma coisa com muito esforço. Só
alguns segundos depois que percebi o que era. Uma bola de baseball. Isso me animou um pouco.
Me aproximei dele com calma, mas fazendo barulho para ele perceber minha aproximação. É perigoso
você chegar sorrateiramente por trás de um vampiro, principalmente um que foi criado na selva.
Vejo que você nem mesmo quis esperar eu falar com a Tia Alice, hun?
Ele parou os lançamentos e veio até mim.
Ofendi você ou sua tia com isso? Quer que eu pare até você falar com ela?
Não. Em absoluto. Você faz bem em treinar e não se preocupe com minha tia. Aposto que ela vai
adorar ser sua mentora de baseball.
Ele pareceu convencido. Sentei-me na grama para tentar me acalmar um pouco. Ele se sentou ao meu
lado, meio desconfiado.
Alguma coisa está perturbando você?
Quando fiquei calada ele pareceu compreender.
Foi tão mal assim? Ele que fez isso com suas roupas?
Não consegui. Simplesmente ri. Era a segunda pessoa que perguntava se Jacob tinha feito isso com
minhas roupas. Se eles soubessem que foi eu mesma.
Não. Ele nunca iria fazer algo assim comigo.
Hun, mas tem alguma coisa errada, não tem?
É, tem. Porque vocês garotos são tão complicados?
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Ele ficou confuso e eu continuei.
Nós conversamos, fizemos as pazes e...
De repente percebi onde meu pensamento estava me levando e dessa vez consegui parar as palavras
antes de mais constrangimento.
Ele tentou alguma coisa com você?
Quem me dera. Foi exatamente o contrário. Mas é óbvio que não iria dizer isso para ele.
Não! Claro que não! Não foi nada disso. É que, bem, que se dane, vou dizer! Nós quase nos beijamos
e...
E foi ruim?
Não! Nossa! Estou começando a gostar mais de quando você era calado. Deixa eu concluir, sim?
Ok, perdoe-me. Continue.
Então, onde estava até ser interrompida por você? Ah, sim! Quando o beijo estava prestes a
acontecer, ele começou a tremer e simplesmente sumiu na mata. Assim! Sem mais nem menos.
Hun...
Hun? É a resposta genial depois de todo esse drama? Hun?
Pelo amor de deus! Definitivamente preferia ele quando não falava.
Eu estava pensando sobre o que você tinha falado. Falei hun somente para você continuar seu
pensamento.
Ah! Ok. Desculpe então. É que... esse assunto é meio crítico pra mim. Mas não tinha direito de
descontar minha frustração em você. Novamente. Você deve estar achando que sou uma neurótica ou algo
do tipo heim?!
Não. Só acho que está muito sensível no momento. Somente isso. É compreensível.
Como assim é compreensível? O que é?
Você está apaixonada pelo Jacob e ele por você. Porém ele tem o problema de sua idade consigo e
você o problema de não admitir publicamente que o ama.
Meu queixo caiu por alguns segundos. Consegui me recompor. Mais uma vez eu repito: tenha medo de
quem é do tipo calado observador.
O que... como assim? Porque você diz isso?
Ele apenas me olhou nos olhos. Talvez esperando por alguma resposta, que eu obviamente não iria dar.
Isso tudo está mais do que óbvio em vocês dois. Se você não enxerga ainda, precisa se concentrar
mais.
Ele deu de ombros. Fiquei mais irritada do que já estava. Primeiro eu só tive certeza que amava Jacob
hoje, segundo: como ele tem a coragem de me dizer essas coisas assim? Nem nos conhecemos direito. E
terceira, ele estava completamente correto sobre tudo. Odeio isso!
Acho que não quero mais falar sobre isso. Podemos conversar sobre outra coisa?
Claro, se você insiste em se esconder. Por mim tudo bem.
Não estou me escondendo! Quanta petulância!
Ah não?! Alguém sabe que você está aqui? Além de mim, é claro.
Não.
Olhei para baixo com vergonha por ele estar certo ao meu respeito, novamente.
Você sabia que é extremamente irritante, Nahuel?
Minha tia me diz isso, às vezes, quando estou certo sobre algo que ela não está.
Resolvi relaxar. Afinal, não era com ele que eu estava com raiva, não era nem mesmo com Jacob. Era
comigo mesma. Por deixar a situação chegar a esse estado.
Mas...
O que foi agora garoto?
Se você prometer não me bater, eu gostaria de fazer mais uma pergunta. É que estou realmente
curioso.
Até eu fiquei curiosa para saber qual era a próxima bomba que ele iria soltar no meu colo.
Ok. Pergunte. Só não prometo não te bater.
Sorri maliciosamente para ele, talvez na esperança dele desistir.
Acho que vou aceitar os riscos. O que aconteceu às suas roupas?
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Olhei para baixo e vi que não tinha trocado as roupas destruídas antes de fugir pela janela.
Ah, isso? Bem, eu tenho a tendência a ficar desastrada quando estou muito ansiosa ou irritada.
Então...
E tudo isso que aconteceu deve realmente ter te deixado ansiosa, hun? O que aconteceu? Foi
atropelada por um caminhão?
Há! Muito engraçado! Mas foi perto, uma árvore gigante.
Como uma árvore gigante conseguiu se mover para te atropelar?
É que na verdade, ela estava parada e eu é que estava correndo. Sem olhar por onde ia. E de repente:
Cabum! Me bati de frente com ela e caí.
Encarei ele, esperando uma gargalhada, mas quando ele me viu espiando, desistiu. Então eu não
agüentei e comece a rir, com ele me acompanhando em seguida.
Imagine esse guerreiro, criado na selva, forte e maior que eu. Que poderia totalmente chutar meu
traseiro, com medo de eu ter um ataque? Sério? Era simplesmente hilário. Sabe, estou começando a gostar
desse garoto.
Eu o abracei e ele pareceu meio constrangido em princípio, acho que eles não costumam ter muito
contato físico na mata.
Que estranho! Por alguns segundos pensei ter visto um vulto parecido com um lobo atrás de algumas
árvores perto de onde estávamos, como se estivesse nos espiando. Mas não deve ter sido isso. Foi muito
rápido, parecia ser menor que um lobo e se fosse algum dos lobos Quileutes, teria se aproximado.
Eu e Nahuel resolvemos voltar para casa, afinal de contas era amanhã que ele começaria seus treinos
de baseball e tinha que estar descansado para isso.
Eu estava cansada demais e diga-se de passagem, imunda demais, para não ir diretamente para o
chuveiro e depois para cama. E foi exatamente o que eu fiz.
Na manhã seguinte estávamos todos empolgados com mais um jogo de baseball Cullens X Lobos
Quileutes. Meus tios Emmet e Jasper juntos com meu pai criando a estratégia de jogo. Minha Tia Alice e Vó
Esme preparando algo para comer. É isso mesmo! Algo para comer! Não para os vampiros, é claro. Mas
sim para os híbridos, lobos, meu avô Charlie e Billy.
Os demais estavam pra lá e pra cá esperando a hora do jogo. Tia Alice já tinha confirmado que hoje
seria um dia de muitos trovões e pouca chuva, então só esperávamos chegar a hora aproximada que ela
disse que iria começar a tempestade. Começamos a arrumar os jipes com o material, entramos todos e
começamos a nos dirigir à clareira.
Ainda fazia bom tempo para os padrões de Sequim o que preocupou Nahuel por um momento, mas
eu o acalmei informando que a Tia Alice nunca errou sobre o tempo antes e que não aconteceria hoje.
Conseguimos chegar ao local, mas os lobos ainda não estavam lá.
Vô Carlisle decidiu que seria melhor se começássemos a arrumar as linhas na clareira, a mesa de comes
e bebes, e os equipamentos para quando os lobos chegassem tudo já estivesse pronto.
Passada meia hora comecei a me preocupar pelo atraso deles. Mesmo irritada com Jacob, o receio por
sua segurança foi maior e tentei ligar no seu celular, mas só caía na caixa. Assim como o de Seth e Leah. O
pior era que a Tia Alice nem podia nos dizer alguma coisa porque ela não consegue ver os lobos.
Minha angústia aumentava a cada segundo. Mas finalmente eles começaram a aparecer e eu pude
finalmente ver Jacob. Meu coração se acalmou. Ele me devia algumas explicações, sobre ontem e sobre o
atraso hoje.
Todos se cumprimentaram amistosamente, os times foram divididos e cada um foi para sua posição.
Resolveram que seria bom um time de lobos contra um de vampiros hoje, mesmo às vezes fazendo times
mistos, hoje não seria o caso.
Eu e Nahuel ficamos no banco de reserva, aguardando nossa vez. Ele tinha recebido algumas aulas da
Tia Alice e eu o estava ajudando a praticar os movimentos enquanto esperávamos nossa vez.
Era muito interessante como os lobos jogavam. Alguns em sua forma animal, como era o caso de Leah,
imagino que para aproveitar mais a velocidade. E outros preferindo sua forma humana, como Jake, que já
era grande e forte o suficiente em sua forma humana. O mesmo acontecia com Sam.
Jake estava em campo como Lançador, aproveitando sua força bruta, Leah a Corredora, por ser a
mais rápida, Seth Receptor, dentre os outros jogadores do time deles. Como Jacob estava em campo,
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não pudemos conversar sobre ontem. O que me deixava ainda mais ansiosa, estar perto e longe ao mesmo
tempo. Às vezes eu percebia ele me olhando com o canto de seu olho, mas sem muita expressão. O que
será que está passando na cabeça dele?
Nessie, se não quiser me ajudar a treinar eu vou entender, juro. Depois de tudo que aconteceu
ontem.
Nahuel falou e apontou com a cabeça para Jacob.
O que aconteceu ontem?
Perguntou minha mãe quando se aproximava de nós.
Ãh, nada. Só que compramos as coisas para ele treinar no time, mas estava um pouco nervoso, então
eu conversei com ele a respeito e ficou tudo ok. Porém, acho que ele está com os pés frios agora, não é
Nauhel?!
Pelo nervosismo, cuspi as palavras para fora num fôlego só. Olhei para ele quase implorando com os
olhos que ele continuasse a desculpa.
Acho que é só nervosismo de estréia, senhora Cullen, mas vai passar logo.
Tenho certeza que sim.
Ela falou, mas olhou pra mim desconfiada e continuou em direção ao Vô Charlie que assistia à partida.
Ela não gosta de jogar. Eu não entendo muito bem o por quê, mas acho que tem alguma coisa a haver de
quando ela ainda era uma humana desastrada.
Só tenho certeza de uma coisa: minha mãe não caiu nessa desculpa sobre ontem. Vai sobrar pra mim
depois. Não que Nahuel não tenha sido convincente, ele foi assustadoramente bom, é que ela me conhece
bem, até demais.
Fora o fato do vestido estragado e minha entrada dramática na casa ontem à noite.
Continuamos praticando, quando finalmente chegou a vez de Nahuel rebater. Ele parecia até bem
tranqüilo, para quem estava jogando pela primeira vez.
Jacob lançou uma bola curva que eu poderia jurar que Nahuel não iria conseguir rebater, mas para meu
espanto, ele conseguiu, bang! Lançou-a muito longe. Um grande estrondo irrompeu a clareira do impacto
da bola no taco de titânio especialmente preparado, criado por encomenda para nós não me pergunte
onde o Tio Emmet conseguiu, porque não faço a mínima idéia e bolas especialmente preparadas para
nós. Para que pudessem resistir à nossa força sobre-humana.
Ainda bem que temos os raios para nos encobrir porque com todo esse barulho de destruição, atrairia
facilmente a atenção dos humanos.
Leah começou sua corrida, e oh meu Deus, como ela era rápida!
A bola parecia ter sido disparada por um canhão de tão veloz que ia em direção às árvores que rodeiam
a clareira, mas Leah aumentou incrivelmente sua velocidade.
Suas patas traseiras arrancavam grandes tufos da grama por onde passava e seu corpo esguio de pêlos
cinza se curvava com enorme graciosidade. Era belo de se ver, exceto que ela estava quase na bola, o que
faria meu time perder o jogo se ela o conseguisse mandar de volta antes que nosso Corredor (papai)
chegasse na base.
Uma vez a bola em sua boca, ela apoiou-se nas patas traseiras, jogou a bola para cima com um
movimento de cabeça e com as patas dianteiras atingiu a bola fazendo-a voltar para o diamante, porém
não rápido suficiente para que pudesse impedir a pontuação de papai.
O jogo continuou e nós vencemos os lobos dessa vez. Admito que nas duas últimas partidas foram eles
que nos venceram, para total desgraça do Tio Emmet.
Achei os lobos muito tensos. Não estou muito certa se foi só por eles terem perdido o jogo. Até mesmo
Paul e Embry, que sempre faziam gozação dos vampiros ganhando ou perdendo, não estavam brincando.
Tenho que descobrir se aconteceu alguma coisa.
Alguns foram comentar sobre o jogo com o adversário, outros foram comer e alguns ficaram sentados
na arquibancada improvisada que fizemos, dentre eles, Jacob. Decidi que seria a hora de conversarmos e
sentei-me ao lado dele. Ele segurava um cachorro-quente gigante em uma das mãos, mas sem mesmo ter
dado uma mordida. Logo ele que adora cachorros-quentes? Eu sei, eu sei, que ironia hun? Enfim.
Oi.
Hey.
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Podemos conversar um minuto?
Eu falei.
Estamos conversando, pode dizer.
Ai! Quanta frieza! Como pode o cara que ontem estava a ponto de dar meu primeiro beijo, estar me
tratando assim agora?
Fiquei sem ação, nem sabia mais o que dizer. Comecei a sentir meus olhos a encherem de lágrimas.
Deixa para lá, seu estúpido cão vira-latas.
Dei as costas para ele mais uma vez e fui para única direção que não tinha ninguém, na mata. Eu não
agüentaria o interrogatório do porque eu estava chorando.
Ele veio correndo atrás.
Ei Nessie! Me espera, por favor! Eu não queria dizer aquilo, não é com você que estou irritado, eu só...
Ele finalmente me alcançou, pegando pelo braço para me fazer parar.
Você o quê, Jacob Black?
Não tinha mais como disfarçar minhas bochechas molhadas e os olhos vermelho, então resolvi encarar.
Tivemos problemas na Reserva. Problemas sérios.
Isso me desarmou completamente. Já tinha uma série de insultos listados para usar contra ele, mas
agora eu só queria saber o que aconteceu.
Que tipo de problemas? Estão todos bem? Todos pareciam tensos, mas bem fisicamente.
Eles estão todos bem, quer dizer, com exceção de meu pai.
Ele estava bem ontem. O que aconteceu?
Ele tomou minha mão e me puxou para sentarmos numa pedra grande.
Tínhamos decidido em reunião antes do jogo, que não contaríamos nada disso para vocês. Mas para
você? Para você, eu não poderia omitir nada.
Jacob, por favor. Está me assustando. Ele está bem?
Ele está bem, só com alguns arranhões. Está temporariamente na casa de Sue Clearwater.
Graças a Deus.
Suspirei, agora um pouco mais calma, me dei conta de uma coisa.
Espera aí! Você não me disse o que aconteceu com ele.
Tivemos uma visita de transmorfos, como nós, só que não conhecíamos nenhum deles e
aparentemente essa não era uma visita cordial.
Como assim? Transmorfos, além dos existentes na tribo Quileute?
Sim. Mas não temos a mínima idéia de quem são, de onde vieram ou por que atacaram meu pai.
Nossa! Agora entendo porque vocês estavam tão tensos. Mas por que não queriam que soubéssemos
disso tudo?
Ele olhou pra mim como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Quando percebeu que eu não tinha a
mínima idéia do que ele estava falando, continuou.
Nessie, não é da conta de vocês nossos problemas. Temos que resolver por nós mesmos, sem
envolver vocês nisso.
Eu simplesmente não podia acreditar no que estava ouvindo. De repente fiquei furiosa novamente. Me
levantei porque senão acho que teria quebrado aquela pedra em minúsculos pedaços de tanta raiva.
De que diabos você está falando?! É claro que é de nossa conta! Vocês são nossos amigos e você é
quase da família.
Apontei meu dedo acusatoriamente em direção à ele. Enfatizando minhas palavras.
É nossa obrigação estar lá quando vocês precisarem de ajuda.
Não é obrigação nenhuma. Somos amigos dos Cullens agora, mas nossos problemas são nossos. Além
do que, tenho plena certeza que vários de nós poderia dar conta de apenas dois deles.
Ele parecia divertido agora e até meio convencido. Como é que eu posso amar esse... esse... nem sei o
que dizer sobre ele agora.
Estava tão transtornada que eu só queria bater nele.
Seu arrogantezinho! Estúpido e egoísta.
Fui andando em direção a ele, enquanto respirava várias vezes tentando me controlar o suficiente para
terminar meu discurso ao invés de fazê-lo em pedacinhos.
70
Ele parecia surpreso e eu apenas continuei.
Você realmente acha que quando descobríssemos isso não iríamos nos meter para ajudar vocês? Você
realmente acha que só afeta vocês? E quanto ao fato de que vocês estiveram ao nosso lado durante a
quase guerra aos Volturis? Não era um problema só nosso?
Mas era diferente, eu e meu bando estávamos por você e Bella. Os outros entraram para ajudar a
defender nossa cidade.
Ah é? Em que isso difere? Eu entraria em qualquer luta por você, acho que qualquer um de minha
família entraria, bem, talvez não a Tia Rose, mas os demais? Com certeza! E quanto ao que eles podem
fazer na cidade que possa nos expor a todos? Fora que não sabemos o que eles querem e até que ponto
podem ser uma ameaça para todos nós.
Ele parecia envergonhado e organizando o pensamento de acordo com os fatos que eu tinha acabado
de expor. Mas eu ainda estava furiosa e decidida. Comecei a andar de volta à clareira tão rápido que nem
ele poderia me alcançar. Graças aos céus, não tive um ataque de falta de coordenação motora dessa vez.
Cheguei perto de meu pai e apenas de olhar para minha expressão, que deveria estar assustadora, ficou
sério e começou imediatamente a ler minha mente, porque eu nem mesmo conseguia falar de tanta raiva.
Nessie querida, tente se controlar e pense mais devagar para que eu possa entender.
A essa altura todos estavam ao nosso redor, lobos e vampiros. Eu respirei fundo tentando fazer o que
meu pai tinha pedido.
Mais que diabos é isso?
Foi a única coisa que ele conseguiu falar quando terminou. Ele virou-se para Jacob com um olhar
assassino e foi em sua direção. Por um segundo temi ter feito a coisa errada.
Eu até te defendo das agressões verbais da Rose, mas depois de tudo isso que vi, acho que ela está
certa. Você é um idiota!
Eu sabia que estava, mas sobre o que estamos falando exatamente Edward? Por favor, não nos deixe
no escuro aqui.
Concordou a tia Rose, expressando o que todos os outros queriam saber. O que tinha acontecido?
Eles foram atacados por dois transmorfos ontem a noite. Ninguém se feriu gravemente, mas eles não
sabem quem são, de onde vieram ou o que queriam. O que já seria ruim o bastante. Mas eles acharam que
não deveriam dizer nada para que não nos metamos nos problemas deles. Era isso que eles estavam
discutindo antes de virem ao jogo. Por isso, o atraso, e por isso, não conseguíamos falar com nenhum deles
no celular.
As palavras saltaram da boca de meu pai. Eu estava muito transtornada para falar com calma e me
parece que ele resumiu bem a história.
Você não sabe manter essa sua boca fechada, Jacob? Tinha que falar para ela, não tinha?
Paul estava nitidamente transtornado e começando a tremer. Mas Sam mandou ele se acalmar.
Minha mãe se aproximou de Jacob e apenas olhou para ele, não falou sequer uma palavra. Ele abaixou
a cabeça com vergonha. Ela se retirou irritada, ou melhor, não parecia irritada, era algo mais parecido com
desapontamento. Como era de se esperar, meu pai a seguiu.
Mas foi a Tia Rose que teve a atitude que mais me surpreendeu. Ela se aproximou de Jacob e deu-lhe
um tapa no rosto, isso mesmo! Um tapa! E Jacob deve ter ficado tão surpreso quanto eu, porque nem
reagiu. Leah é que estava a ponto de saltar nela, mas Jacob fez sinal negativo com a cabeça.
Sabe, eu sempre me diverti muito às suas custas, Jacob Black. Sempre fiz gozação de vocês lobos, mas
somente para isso. Diversão. O que mais me irrita é saber que eu falava era verdade, vocês são tapados
mesmo. Como é que vocês podem acreditar que nós não iríamos fazer nada para ajudar vocês, depois de
tudo que aconteceu? Depois de tudo que passamos juntos? A quase guerra com os Volturis, a criação de
Nessie, os finais de semana e até mesmo a convivência forçada de vocês em nossa casa.
Ela sacudiu a cabeça negativamente e saiu.
Cara, isso foi muito errado. Vocês pisaram na bola.
Disse meu tio Emmet antes de ir atrás de sua companheira. O tio Jasper apenas observava segurando a
mão da tia Alice. Somente meus avós se aproximaram sem agressividade. Ele olhou para cada um de nós
antes de dizer brandamente.
Por favor, vamos todos manter a calma.
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Meu avô colocou uma mão no ombro de Jacob e minha avó tomou sua mão, puxando ele para
sentarem-se todos na arquibancada e conversarem. Eu não quis ficar ali para saber o final da conversa. Fui
atrás de minha mãe e meu pai.
72
11. Ele é um idiota às vezes
Os encontrei sentados, conversando baixo, na mesma pedra que eu e Jacob estávamos há alguns
minutos. Me aproximei e sentei-me entre eles. Ambos puseram um braço sobre mim. Meu pai estava mais
controlado agora, mas ainda dava pra ver raiva nele. Quem me preocupava era minha mãe. Estava com
uma aparência cansada e acho até que estaria chorando se pudesse.
Mãe, te entendo perfeitamente, mas não fica assim. Não suporto te ver assim.
Ela suspirou.
É que não consigo entender como ele pode pensar isso de nós. É como se ele não confiasse em nós.
Depois de tudo? Não dá... simplesmente não dá.
Eu sei, mas você conhece o Jacob, ele é um idiota às vezes.
Eu sei bem disso. Se ele fizer algo do tipo novamente...
Se aquele idiota fizer algo do tipo, eu dou uma lição nele antes. E duvido que minha mãe me proíba de
usar força sobre-humana nesse caso.
Ela olhou pra mim e começamos a rir, com meu pai reforçando o coro. Ela parecia mais calma, levantouse
deu um beijo em meu pai e olhou para mim.
Obrigada querida. Eu te amo.
Também te amo e se quiser aceitar minha oferta em dar uma lição no Jacob, me avisa, ok?!
Vou manter isso em mente. Mas por enquanto só quero saber os detalhes do que aconteceu.
E foi assim. Ela voltou para a clareira enquanto eu e meu pai ficamos mais uns minutos sentados.
Eu não consigo parar de me surpreender com você.
Meu pai falou olhando para longe. Olhei para ele esperando uma melhor explicação para essa
afirmação.
Bem, você nitidamente foi uma das que mais se irritaram com o acontecido. No entanto está aqui,
consolando sua mãe e até fazendo piadinhas para fazer ela se sentir melhor. É muito madura para alguém
de sua idade, também muito sensível e altruísta, pensando nos outros antes de você. Sou muito orgulhoso
de ser seu pai. Gostaria de saber de quem você herdou tais qualidades, acho que de sua mãe e seus avós.
Uau! E por falar em dia cheio de revelações. Ele tinha usado um discurso muito parecido com o que o
Jacob tinha usado ontem.
Pai, como você pode dizer isso? Eu também te conheço e puxei muito de você. A lógica, o bom senso
e você também gosta de ajudar os outros.
Ok, ok. Mas tenho que te dizer uma coisa: você tem se tornado tudo o que um pai poderia esperar de
uma filha e mais. Pena que cresceu tão rápido.
Ah pai! Tava indo tudo tão bem. Você também com essa história da mamãe que eu cresci rápido
demais?!
Ele riu e me abraçou apertado.
Eu sei que você não gosta quando falamos isso e não é só porque achamos que você cresceu
fisicamente, mas porque sentimos falta da época que as coisas eram um pouco mais simples. E aqui entre
nós, apesar de você ser uma moça linda, você era ainda mais linda quando bebê.
Fingi estar bufando de irritação e comecei a me levantar do tronco. Ele me segurou pela mão e me
baixou novamente, mas para sentar em seu colo.
O que foi agora pai? Vai começar a cantar uma canção de ninar para mim?
Não era bem isso que eu estava pensando, mas até que é uma boa idéia.
Argh...
Calma, só estou te provocando. Eu também quero um minuto com minha filha, posso? Não foi só sua
mãe que ficou desapontada.
Ok. Vá em frente, pode cantar. Além do mais, eu gosto quando você murmura a canção de ninar da
mamãe para mim. Me acalma. E calma é tudo que eu preciso nesse momento.
Ele começou a murmurar a canção da mamãe enquanto me balançava em seus braços. Eu recostei
minha cabeça no seu ombro e comecei a me acalmar.
Filha?
Sim?
73
Eu te amo muito.
Também te amo, pai.
Ficamos assim por mais alguns minutos, mas a realidade chamava. Hora de encarar os problemas!
Quando chegamos à clareira, parecia que todos já tinham acalmado seus ânimos com certeza com
ajuda do bom senso dos meus avôs: Carlisle e Charlie que estavam ao centro da conversa, e de Sam que
parecia acalmar os lobos. Aposto até que tinha dedo do tio Jasper. Nos aproximamos mais e sentamos ao
lado da mamãe que parecia melhor, já sentada ao lado de Jacob, que segurava uma de suas mãos.
Eu estava espantada com aquelas duas mãos juntas. O que será que ele fez para minha mãe ter
perdoado ele tão depressa? Olhei para minha mãe com uma das sobrancelhas suspensas para ela perceber
minha dúvida. E é claro que o entendimento foi imediato, porque ela tratou de me explicar, falando baixo
em meu ouvido quando me sentei ao lado dela.
Em sua conversa com ele, você não esperou te explicar que ele tentou convencer os lobos a nos
contar tudo, mas foi voto vencido.
O quê? Sério?
Sim, sério. Entendeu porque o perdoei tão rápido?! Se me permite um conselho, acho que você
deveria fazer o mesmo.
Meu pai se atualizava da situação tocando minha mãe enquanto ela estendia seu escudo para ele ler
seus pensamentos. Eles faziam muito isso agora, mas ele ainda dependia de tocar nela e dela permitir ele
entrar em sua mente. Aproveitei para me levantar e sentar no outro lado livre de Jacob.
Então, você não é o traidor que eu pensei que fosse?
Então, você novamente se precipitou?
É o que parece. Me desculpe, novamente. Por tudo, meu ataque nervoso, a ira de todos e
principalmente o tapa.
Nah. Aquilo? Nem doeu. E também tenho minha parcela de culpa. Não deveria ter prometido que
manteria esses fatos ocultos para vocês.
Então, estamos ok?
Falei ainda com dúvidas e esperanças que ele, mais uma vez, me perdoasse por agir por impulso.
Claro, claro.
Ele tomou minha mão e ficou segurando durante o resto da reunião.
Acho que quem não gostou muito de nossa reconciliação foi Leah. Se ela tivesse olhar de raio laser, eu
estaria fulminada nesse exato minuto. Eles se superprotegem uns aos outros. Esse negócio de um bando
menor: Leah, Seth e depois com a adição de Embry, fez com que ficassem mais protetores uns com os
outros, ainda pior com seu líder. Claro que só a Leah parecia querer ver se eu sangrava.
O engraçado é que com toda essa confusão, nem pude pensar novamente sobre o acontecido ontem
entre eu e Jacob. Sei que é um pensamento infantil e até meio egoísta, mas agora que quase tudo foi
esclarecido e ações conjuntas estão sendo tomadas para nossa segurança, acho que posso me dar o luxo
de pensar em nós, eu e Jacob, por um momento. Preciso saber o que aconteceu para ter feito ele sair
correndo daquele jeito. Mas vamos deixar isso para o fim da reunião.
Sam, pode nos dar uma descrição desses dois indivíduos?
Meu pai estava no modo negócios.
Um é magro e rápido, com o porte parecido com o seu Edward. O outro, bem, o outro parecia uma
montanha. Talvez um pouco mais robusto do que Jacob no porte, só que ainda maior do que ele.
Mas com uma cara muito feia para ser parecido comigo.
Eu dei-lhe uma cotovelada para calar o bico. Ele não consegue perceber que é uma situação séria e ele
acabou de fazer as pazes com as pessoas aqui? Sem noção.
E tem mais um detalhe. Talvez o mais importante de todos, eles conseguem se transformar em outros
animais que não o lobo.
Todos os vampiros pareciam meio aturdidos com a nova informação, eu incluída entre eles. Só meu pai
parecia interessado na nova informação. Aposto que ele está juntando as novas informações e já está
processado tudo em sua cabeça.
Uma vez ele me disse que queria, dentre outras profissões, ser um engenheiro. Que sempre teve
aptidão para operações lógicas, cálculos matemáticos e outras coisas que são comuns aos que tomam essa
74
profissão como sua. E pelo visto, já devem existir algumas teorias se formando, porque ele me pareceu
estar segurando um sorriso.
Sam, vocês sabem ou pelo menos suspeitam o que eles queriam?
Continuou meu pai com uma mão sob o queixo. Ainda em suas análises.
Nós não sabemos ao certo. Eles foram procurar o pai de Jacob e ele foi o primeiro a enfrentá-los,
conosco chegando em seguida.
Jacob tomou a frente, tentando explicar o que aconteceu. Se esforçando para lembrar-se dos detalhes.
Eu, primeiro senti o cheiro, então fui correndo para casa.
Jacob pausou e olhou para mim. De repente, caiu a ficha. Foi por isso que ele saiu correndo quando
íamos nos beijar. Para salvar seu pai. Deus! Estou me sentindo péssima no momento, por ter pensando
tantas coisas ruins sobe ele e ter me comportado como uma criança. Novamente.
Ele continuou sua explicação.
Então, encontrei esses dois lobos, que não eram dos nossos e cheiravam muito mal, circulando nossa
casa. Me aproximei devagar, para tentar saber o que eles queriam.
Ele se curvou e simulou alguns passos. Tem sempre que dar um ar teatral em suas história, não nos
poupando nem da sonoplastia.
Eles se transformaram em humanos, ou quase, se você pode chamar aquilo de humanos. Quer dizer,
eles pareciam em estado tão ruim quanto estavam como lobos. Maltrapilhos, sujos e o fedendo muito.
Não consigo ver nenhuma diferença deles para vocês.
Tia Rose, ainda provocava, mas sendo totalmente ignorada por todos.
Jake, eles falaram alguma coisa? Disseram por que estavam lá?
Falei ainda sem agüentar de curiosidade e medo por eles.
Eles não pareciam saber falar muito bem nossa língua. Mas o que pude entender do mais magro era
algo como: Os descendentes de Ephraim Black vão pagar pelo que nos fizeram no passado. Mas não vou
matar você rapidamente, tem que sofrer. Então se transformaram em lobos e entraram na casa em
direção ao meu pai. Daí eu fiz a única coisa possível, parti pra cima deles com tudo.
Ele socou uma mão com sua outra no ar. Coisa de garotos.
Os olhos de meu pai se desfocaram por alguns segundos. Aonde a mente dele pode ter ido?
Ele ia apanhar feio se não chegássemos a tempo.
Falou Paul arrogantemente.
Que nada, eles só tiveram alguma vantagem por serem dois. E um deles ser uma montanha.
Tentou defender Seth, mas foi logo interrompido por Sam.
Chega vocês! Estamos falando sobre uma situação séria aqui. Não é uma disputa de quem é maior ou
mais forte.
Sam está certo. Devemos nos focar nos fatos e no que faremos a seguir.
Por favor, continue Jacob.
Insistiu meu pai.
Então, como eu ia dizendo. Começamos a lutar e estava meio equilibrado até que o grandão se
transformou num urso gigante e o menor em um leão da montanha. O urso veio em minha direção num
ataque frontal e cara, ele era forte. Já o leão veio por trás, rápido e sorrateiro, mas felizmente consegui me
desviar dos dois, por um triz.
Ele voltou a sua postura normal, já relaxado.
Foi quando os outros chegaram, começamos a lutar em conjunto. Seth levou meu pai para longe,
enquanto o resto de nós acuava os dois invasores. Eles perceberam a dificuldade e fugiram. Acho que é só.
Tentamos seguir o rastro deles, mas os perdemos quando eles chegaram no rio.
Então é isso. Todos devemos ficar mais atentos ao nosso redor. E qualquer novidade que surgir, os
demais devem ser avisados imediatamente.
Meu avô Carlisle enfocou a parte do avisar aos outros imediatamente.
Os lobos se despediram de nós e foram quase todos embora. Ficando somente Seth, Leah e é claro,
Jacob.
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Eu queria a oportunidade para conversar com ele sobre ontem, mas os homens da minha família não o
deixavam em paz. Meu pai parou de perguntar e ficou apenas observando o que os outros falavam. Mas
ele não foi o único a se manter como observador. Leah se encontrava ao longe, também observando.
Pensei em me aproximar dela para conversar, mas pensando bem, acho que não é uma boa idéia. Ela
sempre é muito hostil comigo, não que seja um doce com as outras pessoas, mas comigo sempre acho que
é pior.
E eu não faço a mínima idéia do porquê dela agir assim. Nunca fiz nada contra ela, nunca a ofendi ou
machuquei.
Minha última teoria para essa animosidade dela foi tudo que eles passaram para me proteger quando
eu era apenas um bebê, mas isso faz tanto tempo e todos parecem ter superado isso. Simplesmente desisti
de tentar descobrir o que aconteceu para ela agir assim.
Meu pai deixou seu lugar e veio em minha direção.
Não é nada pessoal. Não é que ela não goste de você, é que ela tem outros motivos para manter sua...
antipatia por você.
Há! Ajudou muito. Continuei na mesma. Sem entender do que se trata.
Levantei uma sobrancelha e encarei ele.
Desculpe filha, mas diz respeito somente a ela. Prefiro não me meter. Se um dia ela decidir falar com
você ou com qualquer outra pessoa, vai ser por decisão própria e não cabe a mim, fazer isso por ela.
Enigmático como sempre, hun?
Pensei. Ele curvou o canto da boca e foi em direção a meu avô Carlisle.
Eu estava cansada de tudo o que aconteceu. Da partida de baseball e dos conflitos. Eu só queria tomar
um banho e me deitar um pouco. Depois da reunião, voltamos pra casa, todos em silêncio. Subi as escadas
em direção ao meu quarto, separei a roupa que eu ia vestir e fui tomar uma chuveirada.
Não tem nada mais relaxante do que um banho bem quente.
Enrolei uma toalha no corpo, uma outra no cabelo e voltei para o quarto. Eu estava pegando minha
camisa quando Jacob entrou no meu quarto, todo empolgado, falando sobre as idéias que eles estavam
tendo lá em baixo depois que eu saí.
Eu fiquei tão chocada que paralisei. Não conseguia me mover nem uma polegada. Minha voz sumiu
para reclamar. Eu fiquei ali, parada como um poste.
Quando ele percebeu o que eu vestia, ou melhor, não vestia, se virou rapidamente. Mas não antes de
me dar uma olhada rápida, dos pés a cabeça.
Eu estava quase vermelho rubi de vergonha. Ele começou a gaguejar, pedir desculpas por entrar sem
bater e começou a sair do quarto fechando a porta atrás dele.
O que mais falta acontecer hoje?
Fiz o que restava fazer, coloquei minhas roupas, sequei o cabelo e desci. Eu juro que arranco um
membro do corpo daquele vira-latas, se ele fizer alguma brincadeira em frente dos outros sobre o que
acabou de acontecer.
Os lobos tinham vindo conosco para minha casa e ainda no fervor dos acontecimentos recentes, a visita
acabou formando várias pequenas reuniões. Algumas sérias como Sam, Paul e meu Avô Carlisle e outras
nem tanto.
Seth estava explicando a Jasper e Emmet que os lobos só perderam o jogo de baseball para nós hoje
porque estavam todos preocupados com a situação dos invasores. Versão apoiada por Embry e Quil. E é
claro que Emmet estava discordando fortemente, com o apoio de Jasper. Homens, sempre tão
competitivos.
Minha Avó e minhas tias Rose e Alice estavam conversando alguma coisa, que não pude ouvir na sala de
estar.
Leah estava como sempre, parecendo irritada. Sentava-se na sala de TV e zapeava pelos canais, talvez
esperando Seth resolver ir embora para acompanhá-lo. Apesar de Seth já ser bem grandinho e
convenhamos um homem-lobo, Leah insiste em protegê-lo, o que acho bonitinho da parte dela, mas tão
irritante quanto a super proteção de minha família tem em relação a mim. Enfim, família.
Não consegui achar minha mãe e meu pai em lugar algum da casa. Eles devem ter ido na sua choupana,
buscar alguma coisa. Tampouco achei Jacob.
76
Continuei andando para o lugar mais provável de encontrá-lo: na cozinha. Que surpresa, lá estava ele.
Mas ele não estava comendo, isso sim é uma surpresa! Estava apenas mexendo em alguns talheres, mas
dava para percebe que sua mente não estava naquilo.
Acho que não foi só eu quem ficou constrangida com o acontecido no quarto. Que bom, porque a
promessa de desmembramento permanece até segunda ordem.
Oi, brincando com os talheres?
Ele se sacudiu, ficou em uma postura mais ereta e limpou a garganta.
Er... , não. Só estava pensando.
Como eu também não queria tocar no assunto quarto resolvi mudar o rumo da conversa.
Então, por que você não está com os rapazes discutindo sobre a partida? Ou com meus avôs bolando
estratégias de defesa, afinal você é um alfa, o todo poderoso líder.
Usei uma voz imitando a que ele faz quando quer parecer sério.
Ele agora parecia mais relaxado e meio arrogante.
Bem, porque é óbvio que a teoria de Seth está certa. Nós totalmente teríamos detonado vocês. Estava
no papo.
Aí estava o bom e que ele não me ouça velho Jacob que eu conheço e tanto amo.
Há! Até parece. Você fala isso porque não chegou a ver nossa arma secreta. Só vai ser apresentada
oficialmente no próximo jogo.
Agora ele parecia brincalhão.
Sei, o garoto-morcego? Não vejo como ele pode ser diferente em campo do que a garotinha (Alice)
lançando.
Cara, você se confia demais. Já te disseram isso?
Um milhão de vezes, eu acho.
Tia Rose aparece do nada, mas provocando como sempre. Ah se ela soubesse o que viria a seguir, com
certeza teria ficado calada.
Oi Rose, então... Quer dizer que você também gosta de mim?!
Ela parecia surpresa com a afirmação, mas conseguiu disfarçar bem.
Que diabos você está falando?
Estou falando daquela sua declaraçãozinha de amor no campo de baseball. Com direito a tapa de
novela e tudo.
Ok. Nem eu consegui me segurar. Ri tanto que tive que me segurar no balcão. Mas ela não perdeu a
pose.
Aquilo. Nah. Foi somente a chance que achei para fazer algo que por mim, deveria ter feito há muito
tempo. Te dar um tapa! Preferia um soco, mas acho que iria ficar muito óbvio para disfarçar. O texto antes
foi só para criar a oportunidade, sem que me criticassem depois do ocorrido.
Jake agora estava encostado na porta da geladeira, com uma das mãos sobre o peito e um expressão
sofrida na face.
O que? Já vai desistir assim do nosso amor? Não Rosalie! Não fale isso, senão vai despedaçar meu
coração.
E nisso vai mais uma gargalhada minha. Tia Rose olhou para mim com sangue nos olhos.
Eu não falei nada! Estou aqui só como expectadora da novela.
Pensei que ela fosse rir de minha piada, mas não colou.
O quê? Até você tem que admitir que foi engraçado! Do tapa até agora.
Continuei tentando salvar minha pele.
Só o tapa foi engraçado. Se eu soubesse que iriam usar isso contra mim, teria tirado melhor proveito e
talvez arrancado um braço, quem sabe.
Jessh! Acho que percebo agora quando dizem que meu temperamento é parecido com o da tia Rose.
Até a brincadeira do desmembramento é igual. Tenho que repensar minhas ações melhor, de agora por
diante.
Ela seriamente parece meio... como dizer? Psicopata? Bem, pelo menos vista de fora. Sem conhecê-la.
Será que em alguns momentos também me vêem assim? Preferi não pensar mais nisso por agora.
77
Tarde demais Rose, você não pode voltar atrás do que falou. Vem aqui. Vamos consumir nossa paixão
com nossos corpos se tocando e selar nosso amor com um beijo profundo.
Ele falou com voz igualzinha daqueles atores ruins de novelas bem melosas. E começou a andar em
direção a minha tia, que obviamente começou a rosnar, mas se afastou o mais rápido que pode.
Cara! O que eu não daria para ter uma câmera nesse momento. Ela saiu correndo para fora da cozinha,
bradando promessas de sangue, muito sangue derramado dele, caso ele a seguisse.
Rose, amada minha. Volte, deixa pelo menos eu te contar o que uma loira diz se perguntam para ela
se o pisca alerta do caro está funcionando? Ela diz: Agora tá. Agora não tá. Agora tá. Agora não tá. Me
lembrei de outra ainda melhor Rose, volta aqui: O que você tem quando oferece a uma loira um centavo
pelos pensamentos dela? Resposta: Troco.
Ele teve que gritar porque a tia Rose já havia saído há alguns segundos.
Ei! Dá para maneirar nas piadas de loiras?!
Claro, claro. Só por você, Nessie. Mas não prometo nada quando ela estiver por perto.
É suficiente para mim. Mas então?! Sobre o que falávamos quando tia Rose chegou?
Você falava sobre sua arma secreta para seu time... booooohuuu! Assustador!
Ele começou a se proteger teatralmente.
E você desdenha porque não o viu lançando ainda. Ele tem potencial. Só precisa treinar mais um
pouco.
Sei. Treinar tipo mais um século.
Bufou Jacob. Resolvi deixar isso pra lá.
Por que você não gosta dele?
Não é que eu goste ou não goste, apenas não o conheço bem e...
E o que?
Sei lá. Ele me dá nos nervos. Tem alguma coisa nele que faz meus instintos de lobo saltarem. Como
ele olha para Bella e principalmente como... ele olha para você recentemente.
Quase tive um troço. Não. Tenho que manter as aparências. Respire Nessie, só respire.
Sabe Jacob, se não te conhecesse bem, diria que você só está com ciúmes de mim.
Pisquei para ele, rindo da vergonha que ele deve estar agora.
Talvez seja isso mesmo.
Ok. Não era essa a reação que eu esperava. Só queria fazer uma brincadeira para deixar ele sem graça,
mas ele resolveu tirar a máscara de lobo mais velho do que eu e expor um pouquinho dos seus
sentimentos para mim? Aqui?
Bem, o local pode não ser o mais apropriado, nem a hora certa, mas que se dane! Por quanto tempo
esperei por algo assim. Só que eu não sabia o que fazer com isso. Meu coração acelerou e deu nó em
minha garganta.
Em meu resgate, entra Nahuel na cozinha. Acho que ele percebeu o clima estranho e saiu sem fazer
nada e nem dizer uma palavra. Ele parecia desconcertado.
Eu e Jake nos olhamos e começamos a rir da cena bizarra que acabara de acontecer.
******
Vô Carlisle, eu estava pensando. Acho que seria uma boa idéia levar Nahuel para escola conosco, o
que acha? Imagino que será melhor para ele aprender a lidar com pessoas e também uma forma de
agradecer por toda ajuda que ele tem nos dado.
Fiz minha melhor cara de filhotinho, a que eu uso quando quero garantir que algum pedido meu seja
atendido.
Talvez seja uma boa idéia Nessie, mas você já procurou saber dele se é de seu interesse? Não me
parece que ele seja muito do tipo de se enturmar, como vocês falam.
Ele fez aquela expressão sábia de avô, mas eu não me dei por vencida. Era verdade que sequer
comentei com Nahuel sobre meus planos, mas estou certa de que é melhor para ele.
Não falei, mas tenho certeza que ele irá dizer sim. Não se lembra o quão feliz ele ficou quando o
convidei para o time de baseball? Aposto que o garoto só está esperando a oportunidade de viver mais
coisas entre nós.
78
Pode ser petulância minha afirmar isso sem consultar o principal interessado, mas eu realmente
acredito no que falei. Acho que ele vai gostar da experiência.
Meu avô franziu o cenho, pensou um pouco e decidiu.
Vamos falar com ele primeiro. Se ele se interessar por sua proposta poderemos ver como colocá-lo na
escola com as aulas já iniciadas e sem que ele tenha nenhuma documentação.
Comecei a saltitar de alegria.
Não se preocupe vô. Converso com ele agora mesmo e sobre os documentos, podemos falar com o tio
Jasper para entrar em contato com seus contatos. Tenho certeza que isso vai ser fácil. O que realmente
me preocupa é com a vaga na escola.
Coloquei a mão sob o queixo, tentando pensar na solução para essa única parte falha do meu plano.
Mas foi meu avô que me acalmou. Ele colocou uma mão sobre meu ombro.
Não se preocupe com essa parte. Pode deixar que eu resolvo. Você só terá que se resolver as outras
pendências.
Obrigada, obrigada, obrigada vô!
Eu o abracei. Corri para encontrar Nahuel e contar as novidades.
Encontrei-o no jardim treinando como sempre, depois que começou a praticar baseball seus
lançamentos contra uma armação de madeira, preenchido com feno, coberto com couro super resistente e
meio deformado ao centro para que pudesse acomodar a bola quando esta fosse atirada contra o receptor
improvisado, já que nem todos tínhamos tempo para treinar com ele.
Oi. Tenho novidades para você.
Ele interrompeu seus lançamentos e virou-se pra mim empolgado.
É? E do que se trata?
Consegui convencer o vô Carlisle a te matricular na escola que freqüentamos. Não é o máximo?! Já
estamos até providenciando a documentação e sua vaga na escola.
Estava tão excitada que me segurei para não saltitar novamente. Estava perdida em meus
pensamentos, quando percebi que ele não parecia empolgado. Permaneceu mudo. E a julgar por sua
expressão, ele parecia mais irritado do que qualquer outra coisa.
Ele foi andando em direção a receptor, sem ao menos olhar para trás. Que diabos mordeu ele?
O que foi? Pensei que você fosse gostar da minha idéia.
Quando ele permaneceu calado eu insisti.
Me diz o que está acontecendo. Foi alguma coisa que eu fiz ou falei? Me dá uma pista.
Ele pegou a bola, voltou à sua posição e lançou ainda com mais violência do que antes. Não entendo
esse garoto. Num momento ele está todo empolgado por estar sendo parte do grupo e no outro ele parece
contrariado com a ajuda nesse processo.
Ele se dirigiu novamente ao receptor para pegar a bola que havia lançado e eu o segui.
É que você deveria ter perguntado primeiro se eu queria, sabe? Você não pode ficar tomando as
decisões ou intercedendo por mim assim. Não é correto.
Acho que meu avô Carlisle estava certo. Eu deveria ter conversado com ele antes.
Me desculpa se eu te ofendi de alguma maneira, é que... bem, pensei que estivesse te ajudando de
alguma forma. Você deveria conviver mais com as pessoas, pelo menos assim eu acho. Já que você viveu
sua vida quase toda somente com sua tia, isolado na selva, longe de tudo e de todos. Mas se realmente te
ofendi, foi sem intenção, me perdoe.
Falei com sinceridade.
Tudo bem. Eu estourei sem necessidade. Me desculpe também. É que, isso tudo é novo para mim. Ter
alguém se preocupado por mim além de minha tia, é claro. E... eu acho que não sei lidar muito bem com
isso. Além do que, não sei se quero ir para escola, não creio que seja controlado como vocês. Como você
mesma disse, eu fui criado na selva, longe de tudo e de todos.
Senti o rancor em suas palavras e me arrependi de ter falado elas em primeiro lugar.
Se você não quiser ir, tudo bem. Não vai. Eu só pensei que seria bom pra você, teria chance de
conhecer pessoas, lugares, coisas e talvez se divertir um pouco. Mas você está absolutamente certo! Eu
deveria ter te perguntando antes. É o meu jeito impulsivo. Será que você poderia me perdoar?
79
Olhei para ele com o coração apertado de culpa. Eu pensando em ajudar e acabei magoando o pobre
coitado.
Sem problema.
E foram suas únicas palavras. Eu resolvi respeitar.
Podemos mudar de assunto então? Que tal... já sei. Vou te ajudar nos treinamentos, posso?
Ele sorriu timidamente e me deu a luva. Eu dei as costas e fui andando em direção ao local onde estava
o receptor falso, quando ele me chamou.
Nessie?!
Sim?
Sobre ir para escola.
Eu comecei me empolgar novamente, para ser mais uma vez desapontada.
Eu vou pensar sobre o assunto. Ainda não é um sim, mas prometo pensar com calma.
Bem, já é um começo, hun?! Como ele parecia mais calmo, resolvi brincar.
Então não demore muito a se decidir, senão você vai perder o período das provas. Uau! O melhor
período de todos na escola!
Comecei a ri, mas acho que ele não entendeu o sarcasmo. Desisti da conversa e começamos a praticar.
80
12. Meu mantra
Era uma das minhas piores aulas. Argh! Educação física. Eu até tenho alguma habilidade com esportes,
mas não poder mostrar nem uma pequena porção do que eu realmente tenho a capacidade de fazer é
maçante.
A quadra de esportes foi divida porque o time de luta grego-romana, treinado pelo tio Emmet, estava
usando uma parte para suas práticas, uma vez que o espaço que era reservado para eles estava passando
por reformas.
Em nossa turma, resolveram fazer dois times mistos entre garotos e garotas para uma partida amistosa
de voleibol. Me colocaram em um dos times, juntamente com Teddy. Eu ainda estava irritada pela quase
fria que tinha colocado Jake por causa desse garoto. Mas eu não estava irritada com ele, que era uma
vítima. E sim com o Josh.
Ele não passa de um garoto super crescido que acha que pode tudo, um valentão. Os outros garotos eu
não conhecia bem ao ponto de me lembrar seus nomes. Seth estava no time oposto. O que eu acho bom,
para equilibrar um pouco a força dos nossos times.
Faltava um jogador no time de Seth e o Professor Gibbons, nosso professor de educação física, resolveu
chamar advinha quem para completar o time? Dou um dólar se acertar? Josh Simons. Ele tinha posto uma
calça de moletom, quando tinha acabado suas práticas na aula de luta greco-romana e veio caminhando
com aquele sorrisinho irritante, pior, olhando diretamente para mim.
A partida começou. Seth e eu tentávamos controlar nossa força sobrenatural, enquanto nossos colegas
se esforçavam para fazer o seu melhor. Fizemos alguns pontos, mas o time de Seth estava na frente do
placar.
Era a vez do Josh sacar. Ele olhou para mim mais uma vez e em seguida para o Teddy. Estou com um
mal pressentimento de onde isso vai dar. Se preparou, lançou a bola ao ar e golpeou. Ela veio como um
projétil em direção ao Teddy e eu estava em uma posição muito afastada para tentar ajudar, senão
desconfiariam de minha velocidade incomum.
Tive que ver a cena toda em câmera lenta, a bola acertando o estômago de Teddy, ele se
desequilibrando e caindo sentado na quadra. Todos fomos em direção à ele, para verificar como estava.
Parecia sem ar, mas com todos os ossos intactos.
A única coisa que eu queria naquele momento era voar no idiota do Josh Simmons. Comecei então meu
mantra, de depois que prometi a minha mãe me controlar: Juro solenemente não atacar o Josh (idiota) de
maneira que desconfiem de nós.. Repeti quantas vezes foram possíveis enquanto alguns colegas nossos
levam Teddy à enfermaria e voltamos às nossas posições, com uma garota substituindo-o no meu time.
Era a minha vez de sacar. Repetia meu mantra, de novo e mais uma vez. Acho que consegui me acalmar
o suficiente para não fazer um estrago maior. Meu controle era tanto para minha surpresa que
consegui até medir a força suficiente para não desconfiarem do que eu fiz propositalmente a seguir. E Josh
foi fazer companhia ao Teddy na enfermaria, depois de ter tomado uma bolada, também no estômago.
Me sinto melhor agora, não só dei uma lição naquele valentão como pude exercitar meu controle,
cumprindo a promessa que fiz à minha mãe.
Seth me alcançou antes que chegássemos aos vestiários.
Oh, cara! Aquilo foi incrível! Juro que se você não tivesse feito nada, eu teria arranjado um jeito de
derrubar o garoto. Estava me dando nos nervos.
Eu sei que você teria Seth, pude ver no seu olhar. Desculpe ter te privado da chance. Mas aquele
moleque estava me devendo desde a fria que ele colocou Jake semana passada.
Ele? Mas eu pensei que Jake tinha entrado na briga por sua causa?!
Seth murmurou para si mesmo baixinho, mas eu pude ouvir.
Me senti envergonhada, porque de certa forma ele está certo. Eu fui a culpada na situação. Jake só fez
aquilo para que eu não fizesse alguma bobagem com meu gênio impulsivo.
Eu sei.
Falei olhando para o chão. Ele me olhou de relance. Segundos depois, tio Emmet se aproxima de nós.
Oi Ness. Olá garoto lobo.
Ele abriu aquele sorriso largo que é constante em sua face.
81
Oi tio. Que há de novo?
Você não acha que eu perdi aquela cena toda, acha?
Ele me encarou. Eu não sabia o que esperar, acho que pode vir mais um sermão a caminho.
Cara, você reagiu melhor do que eu pensei. Acho que se fosse a Rose, não teria sobrado nada daquele
garoto.
Heim?! Só o tio Emmet para ter uma resposta dessa.
Eu fiquei lá pensando: Droga! Teremos que nos mudar. Novamente. Agora que estava começando a
me acostumar aqui e a temporada dos campeonatos de luta iam começar... De jeito nenhum eu achei que
você fosse levar tão na boa. Pensei até que teria que interferir.
É. Acho que me saí bem, não foi?! Quer dizer, ele ainda está em uma peça só.
Tio Emmet deu uma piscadela pra mim e foi para a sala dos professores, enquanto eu me dirigia para o
vestiário, me trocar para próxima aula.
Na verdade nem suei, mas ficaria estranho se, ao contrário de todos os outros alunos da educação
física, eu não me lavasse.
Comecei a tirar minhas roupas, ainda em estado de graça com meu controle pessoal. Feito inédito pra
mim. Quando olho para cima, avisto Tricia Simmons e sua gangue vindo em minha direção. Pensei
imediatamente: Aí vem problemas. Hoje realmente é um dia ruim.
Ela se parece muito com seu irmão, que devo admitir, é um gato. Alto, porte atlético, cabelos loiros em
cachos angelicais e um corpo bem definido. Porém com um QI não superior ao de uma cebola e uma
atitude altamente desagradável. Poderia dizer que Tricia seria a versão feminina dele. Em todos os
detalhes.
Me mantive calma esperando o que poderia acontecer. Ela não me decepcionou. Fechou a porta do
meu armário com toda a força e eu simplesmente a encarei.
Você sabia que poderia ter acabado com meu irmão?! Ele está na enfermaria nesse momento por sua
causa. Eu não sei como diabos você fez isso, sua esquisitinha, mas vai pagar!
Ela fez questão de mudar o som da palavra esquisitinha tentando me ofender. Há! Se ela soubesse o
quanto está certa.
Por que você não procura saber como está o coitado do Teddy Adams?
Teddy quem?!
Ela parecia verdadeiramente confusa.
O garoto que seu querido irmão mandou para enfermaria segundos antes dele mesmo ir lá fazer uma
visita.
Não era minha intenção, mas minha irritação fez com que parecesse sarcasmo.
Aposto que ele fez por merecer. Além disso, esse Toby qualquer coisa não importa. Meu irmão é o
capitão do time de Lacrosse da escola e a temporada está para começar. Você imagina o problema que
causou para ele e para nossa reputação se nosso time perder?
Acho que demência é genética. Como eu queria acertar um soco nessa garota, ou pelo menos morder
ela. Mas como a situação era tão ridícula quanto os argumentos que ela usava, eu só pude rir.
Eu já estava impaciente, sentada, balançando minhas pernas. Doida para sair dali, afinal, eu tinha
conseguido me controlar com Josh. Não seria essa garota que iria me tirar do sério. Ou seria?
Você é surda ou demente?!
Ela realmente está procurando problemas! Tentei usar a mesma técnica de relaxamento que usei com o
Josh. O mantra que minha mãe me fez jurar: Juro solenemente não atacar o Josh (idiota) de maneira que
desconfiem de nós.. Respirei fundo.
Ei! Estou falando com você, sua esquisita!
Ela jogou algumas toalhas sujas em mim, colocou as mãos na sua cintura e deu aquele sorriso
debochado. Acho que isso também é genético.
Eu ainda usando meu mantra. Respirando com mais dificuldade do que antes.
Eu acho que vocês deveriam ir embora. Agora.
Ou o que, esquisita?! Vai chamar seu pele vermelha Apache para te defender de novo?
Bem, foi bom enquanto durou. Lá se foi meu controle. Afinal, na promessa que fiz para minha mãe
falava sobre Josh, não sobre sua irmã.
82
Levantei em postura de batalha, com as mãos em garras, dentes escancarados e um rosnado gutural.
Elas deram um pulo pra trás, mas não perderam a atitude.
O que? Vai nos morder, rainha da esquisitice?
Eu poderia. Mas acho que seu gosto deve ser como fel. E minha mãe sempre me disse para que não
comer porcaria na rua. E para sua informação, ele é descendente dos Quileutes, sua ignorante. Não
Apache.
Virei minha cabeça de lado, usando meu melhor olhar assassino que eu nunca vou admitir para os
outros que o tenho e sorri arrogantemente para ela.
Não sei exatamente o que foi que ela viu, porque eu estava tão irritada que fiz uma ilusão meio
confusa, até para mim mesma. Posso afirmar o seguinte, envolvia algo sobre ela estar careca, usando
roupas caipiras e faltando alguns dentes em seu sorriso perfeitamente falso.
Ele saiu do vestiário empurrando as outras garotas com tanta velocidade que bateu o próprio joelho em
um banco, com tanta força que posso apostar, vai ficar uma marca horrível amanhã.
Fique feliz comigo mesma. Ok. Descumpri uma série de promessas, mas que diabos! Ela totalmente
mereceu.
Então...
Apareceu Judy do nada, com os braços cruzados, a voz calma e uma expressão acusatória.
Ah, oi! Você está aí há muito tempo?
Me desarmei, abri o armário para procurar seja lá o que for. Acabei puxando uma camisa suja que tinha
acabado de colocar lá dentro.
O que você fez para Tricia Simmons sair daqui como se estivesse em frente ao Diabo, na porta do
inferno?
Estava tão nervosa que nem percebi que tinha colocado a camisa suja no corpo novamente. Tomara
que ela não tenha percebido.
Tentei soar calma.
Nada. Acho que ela não está acostumada a encontrar quem a enfrente. Deve ter sido uma surpresa,
alguém que não atendesse às suas demandas de imediato. Só isso.
Só isso?! O que no céu passou por minha cabeça? Nem em mil anos ela vai cair nessa. Esperei pelo pior.
Uhun. Sei.
Mais nada. Ela ficou me olhando com uma expressão indecifrável, com aqueles olhos castanhos
enormes. Isso me deixou mais louca do que se ela tivesse me acusado diretamente de alguma coisa. Acho
que não tem como esse dia ficar pior. Estava enganada.
Ao sair do vestiário encontrei meu pai encostado na parede oposta à porta. Me esperando.
Oi. Estou atrasada para aula. Depois conversamos.
Volte aqui mocinha, agora mesmo.
Ele não falou irritado. Parecia até muito controlado. É o que me apavora mais. Droga!
Então...
Como foi seu dia na escola hoje, querida? Aprendeu alguma coisa nova, interessante?
Er... foi normal, nada demais. Aula de educação física, sabe como é, muito chata.
Fiz de tudo para pensar em qualquer coisa exceto nesses dos incidentes desastrosos, nas últimas 24
horas.
Não foi isso que eu ouvi.
Pronto. Estava decretado meu castigo até o fim da minha existência ou que literalmente todos na
escola estivessem vendo o capim crescer, pela raiz.
O que o tio Emmet te disse?! Eu pensei que você não viesse para escola hoje, que iria visitar uma
biblioteca, museu, sei lá. Com o Vô Carlisle.
Museu natural. Eu ia, até receber uma ligação da Alice me contando algo muito interessante. Gostaria
de saber o que era?
Cara. Odeio quando ele usa esse tom comigo. Por que a tia Alice tinha que ver o futuro, nada
aconteceu. Ainda.
Adiantaria eu dizer não?
Na verdade não adiantaria. Perguntei mais por delicadeza.
83
Ele completou ainda calmo. Comecei a andar novamente com ele ao meu lado.
Bem, como eu estava dizendo. Alice me ligou informando que a Rose fazia Josh Simmons em pedaços
em um lado escondido da floresta. Que coisa interessante não é?!
Na verdade não.
Voltando ao assunto. Fiquei imaginando o que poderia fazer a rainha do gelo, como Jacob a chama,
perder o controle de tal forma. De repente me caiu a ficha. Para ela nos expor assim só poderia ter uma
razão.
Ele pausou. Provavelmente esperando que eu falasse alguma coisa. Me mantive quieta e ele continuou
quando percebeu que eu não iria participar da brincadeira.
Hum. Será um monólogo então. Muito bem, que seja. Achei que teria alguma coisa relacionada à
você. Então, para não preocupar sua mãe, resolvi vir verificar pessoalmente. E imagina só? Josh na
enfermaria depois de uma bolada poderosa! Bolada essa causada por ninguém menos do que você.
Ah, vai! Ele tá bem. E você deveria ter visto o que ele fez com o coitado do Teddy.
Estava tão cansada que nem quis falar. Preferi pensar.
Eu vi. Emmet me mostrou tudo.
Sabia que tinha dedo do tio Emmet também. Com aquela empolgação dele, no mínimo ele deve ter
falado todo animado com a ação. Pensei em minha tagarelice mental. Como eu invejo minha mãe nesses
momentos.
É, foi. Ele estava empolgado mesmo. E sua mãe também adora isso nela.
Eu parei de andar e ainda sem olhar para ele, esperei.
Ok então. Quando começa a parte do Você não deveria ter feito isso! ou Você tinha prometido ser
mais cuidadosa! ?
Ele veio em minha direção e colocou seu braço ao redor de minha cintura e continuamos a andar.
Grande auto-controle o seu. Estou surpreso e orgulhoso.
Hun? O que foi isso?
Você não foi tão mal quanto pensa. Afinal, foi uma bela pancada que ele levou, mas na medida
aceitável para uma humana forte, talvez MUITO forte. Mas ainda assim aceitável. E aqui entre nós? Ele
mereceu!
Eu estava em choque! Não podia acreditar no que havia acabado de ouvir.
Você... quer dizer? Hun?! Espera! E a história toda de se controlar, ficar oculta e deixar o Josh pra lá?
É... bem, esse seria o ideal. Mas você honestamente não achou que nenhum de nós tem seus deslizes
de vez em quando, pensou?
Na verdade pensei. Eu nunca vejo vocês fazendo nada que pudesse nos expor! São tão controlados
que as vezes até eu mesma esqueço o que são!
Certo... Se você soubesse das coisas que eu e os outros já fizemos. O único autenticamente
controlado é seu avô Carlisle. Já os demais, não tanto. Bem, talvez sua mãe. Mas até ela já passou por
algumas, que só foram impedidas por mim graças a Alice.
Sério?! Eu sempre pensei nela como um ícone para cultura vampírica nesse sentido.
Se você analisar bem, ela realmente o é. Por que nada aconteceu de verdade. Só visões de possíveis
acontecimentos trágicos. Que como todos sabemos, essas visões são subjetivas. Talvez nem precisasse de
nossa interferência. Eu só, preferi não correr o risco. Você entende?!
Claro, Claro.
Nossa! Estou até parecendo Jacob com esse Claro, Claro.
Acho que é a convivência. Eu também peguei algumas manias daquele cara.
Admitiu meu pai. Balançando a cabeça, como se estivesse lembrando de alguma coisa.
Então... não estou encrencada?
Perguntei, esperançosa em voltar para a escola ainda nesse século.
Na verdade não. Vou me fazer de desentendido, porém você vai ter que dar um jeito na sua tia Rose,
antes dela fazer algo ruim. Muito ruim.
Pode deixar! Onde ela está?
No estacionamento. Por enquanto Emmet está conseguindo controlar ela.
84
Comecei a andar em direção ao estacionamento para impedir uma catástrofe. Feliz da vida por ter
acertado o ponto no controle, pelo menos uma vez até agora. Já não era sem tempo.
Nessie?
Me voltei para ele. Talvez tenha alguma dica para ajudar a argumentar com minha tia.
Na verdade não. Você vai ter que fazer isso por sua conta. Mas tenho certeza que você vai conseguir.
Sempre foi boa em convencer os outros a fazerem o que quer.
Então o que foi?
Er... será que você poderia deixar de lado o que te contei sobre sua mãe? Ela pode ficar triste e...
Não precisa continuar, já entendi. Pode ficar tranqüilo. Seu segredo morre comigo.
Cruzei os dedos no peito e depois beijei-os, selando nosso pacto. Voltei ao meu caminho para encontrar
a fera.
Filha?
Mais alguma promessa pai?
Ri de minha piada, mas ele não.
Depois conversaremos sobre a irmã apavorada de Josh. A senhorita Tricia Simmons.
Oops! Tava bom demais para ser verdade. Pensei que escaparia ilesa.
Mas você escapou ilesa! No caminho até aqui pensei em uma série de castigos medievais, mas acho
que você já está se sentindo culpada o suficiente para pelo menos tentar não agir tão impulsivamente
numa próxima vez.
Ok pai! Desculpa! E... obrigada. Por tudo.
Sem problema! Que tipo de pai eu seria se não aliviasse com você às vezes!? Só não pode se
acostumar, heim mocinha!?
Voltei até ele e dei-lhe um beijo demorado no rosto. Pensei: Fechado! Pena que não posso contar para
todo mundo aqui na escola, que tenho o melhor pai do mundo, de todos os tempos. Além do mais gato, é
claro!
Ele riu alto agora.
Não o mais gato, como você pensou, mas talvez o mais incomum.
Se ser assim tão legal, é ser incomum, então aposto o que quiser que todas as meninas do mundo
adorariam ter um pai incomum.
Ele parecia convencido agora.
Convencido não! Só considerando o que você falou. É melhor se apressar e boa sorte!
Vou precisar. Te vejo em casa.
Tchau querida.
Nos despedimos e fomos em direções opostas. Não duvido que ele tenha ido contar de maneira
amenizada tudo o que aconteceu para minha mãe.
Mas não quero pensar nisso agora, tenho um problema mais imediato. Parar uma força da natureza. A
tia Rose!
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13. Que você é uma estranha!
Saindo depois das aulas, fui em direção ao estacionamento da escola para o local onde eu sempre me
encontro com Jake para voltarmos para casa. Mas ele não estava lá. O que achei muito estranho,
considerando que não me lembro disso ter acontecido nenhuma vez. Ele sempre me escoltava para casa.
Sempre.
Pensei que poderia ter acontecido alguma coisa de errada. Será que os invasores atacaram
novamente?
Acelerei meu passo ainda em velocidade humana para sair do estacionamento e poder pegar o
atalho pela floresta.
Eu poderia ter pego uma carona com meus pais ou tios, mas a pé chegaria muito mais rápido.
Enquanto saía do estacionamento, tateei meu celular na bolsa para tentar contato com Jake, quando
escutei um barulho vindo atrás de mim.
Me virei rapidamente, em posição de batalha e rosnando, mas percebi que não passava do idiota do
Josh e seu capangas. Tentei relaxar.
Esses caras não poderiam ter aparecido em melhor momento. Não!
Só porque eu estava com pressa, preocupada e sozinha. Não que eu estivesse com medo por mim, temi
por eles. Porque com meu humor no momento, não sei se conseguiria manter a promessa de minha mãe.
Então, tampinha! Eu estava comentando como uma garota sem força muscular alguma, conseguiu me
acertar tão forte com a bola de vôlei.
Sério? E qual foi sua genial conclusão?
Ele continuou vindo em minha direção, andando lentamente. Me pareceu que ele estava cauteloso. O
que teria me feito rir se eu não soubesse que tinha algo errado com Jake.
Que você é uma estranha! Talvez em algum lance de anabolizantes ou alguma experiência científica.
Ouvi dizer que seu avô falso, o Dr. Carlisle, é dado à experiências e você tem toda cara de porquinho da
índia.
Na verdade Josh, são ratos de laboratórios e não porquinhos da índia. E meu avô certamente ficaria
mais interessado em estudar seu cérebro limitado. Se ainda encontrasse alguma coisa aí nesse buraco
negro que fica dentro de sua cabeça.
Os colegas deles começaram a gozar da cara dele e ele parecia um tomate de tão enraivecido.
Ah é?! Ele deve ter usando alguma fórmula Frankenstein para te dar super força, sua... sua... ah, sei lá.
Alguma coisa forte e estranha!
Sério Josh?! É o máximo que você pode fazer? Eu já discuti com tubérculos que possuíam o QI maior
que o seu. E olha que eles nem precisaram responder para eu saber disso.
Foi o suficiente. Ele partiu para cima de mim com tudo que tinha. Eu já estava considerando se seria
descumprir a promessa com minha mãe, se quebrasse um dedo dele? Talvez mais do que um? Afinal, isso
um humano poderia fazer, não poderia?
Quando ele estava a ponto de me tocar, talvez para me empurrar. Eu comecei a me desviar e girar meu
punho para acertar ele, então pude usar minha visão periférica para perceber algo mais chegando por trás
de mim, mas antes que eu pudesse atacar esse capanga do Josh que teve a infeliz idéia de atacar pela
minha retaguarda, percebi que o conhecia. Era Nahuel.
No segundo seguinte ele estava parado entre nós dois, segurando o braço de Josh em um ângulo que
eu poderia apostar que estava doendo bastante. Acho que até ouvi alguns estalos vindo do braço dele. Me
deixando bastante satisfeita. Não sou sádica! Mas esse Josh Simmons está pedindo por isso há algum
tempo.
Nunca ouviu dizer que não se bate em uma dama?
Ele usou um tom calmo e firme, ainda mais desafiador em sua voz poderosa.
Nahuel estava vestido em uma das roupas novas que tínhamos comprado para ele em Port Angeles.
Calças um pouco folgadas azul escuro, camisa pólo branca e seus cabelos presos em um rabo de cavalo.
Ficou bem interessante, quem deve ter sugerido o look para ele? Tia Alice?
Quem é você? Algum Chayene parente do outro cara grandão lá?
Eu já disse para vocês Simmons. É Quileute!
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Quase gritei para ele.
E dá para soltar meu braço, cara? Isso aqui não é de sua conta.
A voz de Josh estava falhando em alguns lugares, acho que pelo medo. Não o culpo, se eu estivesse
encarando um cara como Nahuel também teria medo.
Quando eu vejo quatro rapazes tentando machucar uma garota, é da minha conta sim!
Ele aproveitou para dar mais um apertão no braço do Josh. E farejou o ar em torno de Josh. Estou
começando a ter um mal pressentimento aqui. Tomara que Nahuel consiga se controlar.
Cai fora daqui seu indiozinho de merda ou eu chamo a polícia!
Berrou um dos colegas do Josh.
Vocês têm certeza que querem chamar a polícia? Eu tenho plena convicção de que tentativa de
agressão e formação de quadrilha são crimes. Acho que quem iria se prejudicar seriam vocês.
Falei em tom arrogante para eles caírem fora. Acho até que é verdade, mas não tenho certeza. E nem
eles. Porque começaram a trocar olhares e se afastar deixando Josh preso no aperto forte de Nahuel.
Belos amigos você tem rapaz.
Nahuel piscou para ele. E o soltou em seguida.
Eu sugiro que não incomodem mais a Srta. Cullen ou eu terei fazer uma visitinha aos rapazes. O que
acha?
Enquanto Josh se afastava sem dar as costas para nós e tropeçando no caminho, ainda teve tempo para
uma última ameaça boba.
Vocês... eu vou pegar vocês seus... seus... estranhos!
Você não tem outras palavras para usar além de estranho não? Você deveria ler mais.
Gritei para ele. Nahuel deu um passo em direção a ele rosnando, fazendo ele correr desesperadamente
agora. Ao longe, ouvi um gritinho nada másculo vindo do Josh.
Agora eu e você!
Me virei para ficar de frente para Nahuel.
Que diabos você está fazendo aqui? Está me seguindo?
Ele parecia meio constrangido e olhou para o chão.
Você sugeriu que eu viesse para escola, disse que seria bom para mim. Então, eu vim ver o que
poderia ter de bom para mim aqui. Mas acho que não gostei do que vi.
Não é bem assim. Você só pegou um dia ruim com um cara ainda pior. Me desculpe por isso e por ter
acusado você de ter me seguido.
Tomei o braço dele e fomos andando para o atalho da floresta.
Tem muitas coisas legais na escola. Você só deu azar de ter se batido com um tipo como o Josh no
primeiro dia.
O pudim se chama Josh?
Não agüentei. Ri como uma louca.
Pudim?
Ele me pareceu confuso a princípio, mas acho que foi só para ficar mais engraçada a piada.
Não é o nome daquela sobremesa branca, mole e doce demais? Então? Pudim!
Outra explosão gutural de gargalhadas e ele me acompanhou nessa. Estou definitivamente começando
a gostar desse cara. Vejo uma bela amizade em nosso futuro, se ele continuar cavalheiro, gentil e
engraçado assim. Acho que seremos grandes amigos.
Vamos! Temos que encontrar o Jake.
Ele me pareceu meio tímido novamente.
Ah, certo.
Vamos logo! Ele sempre me espera aqui, mas não hoje. Acho que aconteceu alguma coisa grave.
Ele entrou no modo negócios e aceleramos um pouco os passos.
O que você acha que aconteceu?
Não sei Nahuel, mas com certeza algo muito sério para ele não estar aqui. E se nada aconteceu, ela vai
me pagar caro por me fazer ficar preocupada assim.
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Tentei fazer piada, mas honestamente, não tinha cabeça para isso. Eu meio que me escondo no humor
quando estou nervosa. Me perdi em meus pensamentos por um momento. Para tentar me distrair, resolvi
puxar outro assunto.
Então? Há quanto tempo você esta observando a escola?
Er... acho que o dia todo.
Uau! Onde esse cara se meteu durante todo esse tempo que não percebemos sua presença?
Guardei meu espanto para mim e ele continuou.
Fiquei entre as árvores, em um ponto onde eu pudesse ver as salas pelas janelas.
Será que se eu ligar para Seth, ele consegue me passar alguma informação sobre o Jake? Bem, para
Leah não arrisco. Droga! Eu tinha que esquecer meu celular em casa logo hoje. Tomara que eles estejam
bem. Que ELE esteja bem.
Nessie?
Ãh? O que? O que foi?
Ele parou de andar e olhou para mim com uma cara.
Você está bem? É sobre o Jacob Black?
Olhei para ele ainda meio atordoada.
Estou. Estou bem sim. Por que?
Bem, porque você está prendendo a respiração desde que saímos da escola e você está com uma ruga
de preocupação. Na verdade achei que você iria passar mal por ficar sem respirar tanto tempo. Afinal,
somos só meio vampiros. Ainda precisamos respirar.
Eu deveria ter esperado por essa. Ele é um daqueles caras que não deixam escapar qualquer detalhe,
nem mesmo quando você está tentando parecer calma.
Desculpa. É isso mesmo. Estou preocupada com o Jake. Depois do que aconteceu com seu pai e ainda
não sabermos nada daqueles dois invasores. Seu sumiço. Estou preocupada sim.
Respirei fundo agora e quando soltei soou mais como um suspiro.
Pode ficar tranqüila, ele parece saber se defender bem. E más notícias são as últimas a sair.
Hmm. Nahuel, acho que o que você quis dizer foi: As más notícias são as primeiras a chegar.
Ow! Ok então. Ainda é meio confuso para mim, alguns ditados de vocês. A língua foi fácil, já esse tipo
de coisa?! Não entra muito bem em minha cabeça.
Ele murmurou a frase correta para si mesmo, como se estivesse tentando decorar o texto correto. E
repetiu mais duas vezes, provavelmente para reforçar na memória.
Sem querer ele conseguiu me deixar um pouco mais relaxada. Gosto de conversar com ele. Apesar da
aparência rude e de não ser exatamente uma pessoa falante, é boa companhia.
Qual foi o veredicto da escola? Sim ou não?
Ele apertou os lábios olhando para longe e pausou um pouco.
Honestamente não sei ainda. São muitas coisas para considerar, mas a principal delas é que vocês já
têm problemas demais em controlar seus familiares na escola sem ofensas. Pior seria com mais um meiovampiro
na redondeza.
Ele colocou as mãos nos bolsos, meio constrangido.
Eu posso viver de comida de humanos, assim como você também pode. Mas a verdade é que prefiro
sangue, humano. Eu fui criado diferentemente de vocês. Não sei se conseguiria resistir a andar tão perto
deles sem querer atacar.
Nah! Fácil, fácil! Você se acostuma. Nunca vi alguém aprender tanta coisa em tão pouco tempo como
você. E sobre controlar familiares. Bem, acho que o familiar que mais precisa ser controlado sou eu
mesma.
Dei uma piscadela para ele, que só balançou a cabeça.
Ainda não me decidi. Mas quando fizer, você será a primeira a saber. E tem a questão das provas que
você falou. Engraçado, a maioria das pessoas que ouvi falando de provas, falava com raiva ou medo. Não
entendi porque você falou como se fosse a coisa mais interessante no mundo.
Ele levantou uma sobrancelha ao me olhar. E desviei do assunto.
Você vai entender o porque disso se aceitar a freqüentar nossa escola.
Quase cantarolei a frase, tentando provocar ele. Seria legal que ele estudasse conosco.
88
Meu pensamento foi interrompido quando chegamos em casa e encontramos minha família reunida na
sala. Como eles chegaram primeiro que eu?
Ouvi algumas vozes falando ao mesmo tempo em tom urgente. Acho que eu estava certa em desconfiar
que algo tinha acontecido.
Nessie, que bom que você chegou!
Minha mãe veio em minha direção.
O que aconteceu mamãe? Por que estão todos aqui? Por que não esperaram por mim ou me avisaram
que tinha algo errado?
Eram tantas perguntas que nem sabia por onde começar, então soltei todas.
Os invasores voltaram a rondar a área da reserva.
Antes que eu começasse mais uma onda de perguntas ela continuou.
Calma! Está tudo bem! Como você deve ter percebido, estão todos aqui e bem. Parece que eles
estavam rondando a área. Não houve confronto dessa vez.
Mas por que não me avisaram ou esperaram eu vir junto com vocês?
Porque imaginamos que se você ficasse na escola estaria mais segura, por que eles provavelmente
não atacariam em público. E não te chamamos por precisávamos de mais informações sobre o incidente.
Ugh! Não sou mais criança mãe! Vocês têm que parar com isso de me tratar como uma.
Ela colocou uma mão na cintura e me encarou.
Quem falou em criança aqui? Só disse que precisávamos esperar por mais informações antes de te
contar.
Quer saber? Não esperem! Gostaria de ser tratada como qualquer outro membro dessa família.
Comecei a sacudir meus pés enquanto cruzava os braços. Aposto que minha cara está em um tom
avermelhado de raiva.
Sabe, amo meus pais, meus tios e tias, e meus avós. Mas em momentos como esse, eu penso que
deveria virar uma nômade solitária, como a maioria dos vampiros mundo afora.
O que me interessava agora era saber o que aconteceu e como Jake estava. O avistei encostado no
corrimão da escada que dava para a sala. Ele estava com uma aparência pensativa, distante. Fui em sua
direção para perguntar-lhe o que aconteceu.
Jake? Você está bem? Me parece muito preocupado.
Ele nem olhou para mim. Continuou encarando seus pés descalços e sujos.
É que... Seth quase se machucou na ronda por causa desses caras e Leah me acusou de ser um alfa
ausente. Que deveríamos estar estudando na reserva como os outros lobos. Que eu gasto todo meu tempo
disponível, você sabe, com você, ao invés de criando estratégias para ajudar a proteger meu povo e...
As palavras morreram em sua boca. Seu olhar parecia desfocado.
O que ela sabe, Jacob? Ela não é alfa e nunca vai ser! É responsabilidade sua e de Sam. Se ela estiver
achando ruim que volte para o bando de Sam.
Cuspi as palavras para ele. Quem ela pensa que é para falar assim com Jacob?!
Mas Nessie, ela está certa. Ando muito ausente de minhas responsabilidades. Tudo bem, tem o lance
do imprinting que eles entendem e tudo. Mas e se ela estiver certa? Quer dizer, Quil também tem um
imprinting e no entanto, consegue fazer as rondas.
O interrompi irritada demais para deixar ele continuar.
Jake. O Quil teve seu imprinting com Claire, que mora na reserva e tem quatro anos de idade, o que
faz com que ela passe quase cem por cento do seu tempo com sua mãe, deixando ele livre para outras
atividades. Não estou dizendo que você deva largar tudo para, bem, ficar comigo. Mas que eles não podem
comparar as situações.
Mas e Seth? O garoto é minha responsabilidade e eu não estava lá por ele! Se os caras de Sam não
estivessem em ronda, nem sei o que poderia ter acontecido.
Engoli a bílis com o pensamento de Seth ter se machucado. Amo aquele filhote, mas não poderia
permitir que aquela... aquela... loba magoasse Jacob assim. Deixasse ele se sentindo mortificado por algo
que claramente não foi sua culpa.
Jacob Black! Pare agora mesmo! Você não é onipotente ou onipresente! Sim, você tem uma
responsabilidade com seu bando, mas é só humano, ou quase.
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Oni o q?
Ele franziu o cenho para mim. Uma interrogação tatuada em sua face. Eu suspirei e expliquei.
Onipotente, que pode tudo. Onipresente que está em todos os lugares. Em suma, você não é nenhum
Deus.
Não importa. Eu estou deixando minhas obrigações com meu bando de lado. Eu nunca pedi para ser
um alfa. Droga! Eu nem mesmo queria um bando. Mas o tenho! E é minha responsabilidade cobrir as
costas deles e nem isso estou conseguindo fazer. Que porcaria de lobo alfa eu sou?
Ele sacudiu a cabeça em frustração.
Que tipo de lobo alfa você é?!
Repeti incrédula da estupidez que ele falava.
Que tipo de pergunta estúpida é essa? Eu respondo o tipo de alfa que você é. Do tipo que cuida
deles, que para o que estiver fazendo quando eles precisam de você, que não impõe regras a não ser que
seja para o bem deles. Eles te seguem Jacob. Não são obrigados a nada! Você deu essa liberdade de
escolha para eles. No entanto, eles preferem continuar com você! Então não me venha com essa
historinha de auto-piedade porque nem combina com seu estilo.
Tentei fazer graça no final para ver se melhorava o clima. E parece que deu certo, porque ele segurou a
respiração uns segundos e estourou em risos.
Cara! Você tinha que ser política ou algo assim. Belo discurso madame. Quem sabe não temos em
mãos a primeira presidenta dos Estados Unidos, hun?!
Claro, claro. Eu totalmente vejo eles elegendo um vampiro sugador de sangue para ser seu
representante.
Falamos em uníssono: Nah!
Sacudimos nossas cabeças negativamente e rimos juntos. Ele se sentou em um dos degraus da escada,
comigo sentando ao seu lado. Acho que consegui distrair ele desse assunto.
Eu não queria isso, mas acho que vou ter que bater um papinho com Leah sobre as besteiras que ela
anda falando para o Jacob. Para o meu Jacob.
Em resumo da reunião, ficou entendido que os invasores estão observando as rotinas na reserva
Quleute, mas não se sabe o motivo. E que rondas mais freqüentes, incluindo o mini-bando de Jacob, serão
realizadas até que se descubra o que os invasores querem e como pará-los.
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14. Partida amistosa de Lacrosse
Estava um dia especialmente claro em Sequim hoje, os meus pais e tios não puderam vir para escolar
porque a claridade exporia sua natureza imortal. Eu por outro lado, não tenho esse problema. O difícil foi
convencê-los a me deixar vir sem eles.
Depois de muita persuasão consegui o consentimento deles com a promessa de Jacob e Seth estarem
sempre por perto. Como isso é irritante! Eu não preciso de babá. Mas como era uma das minhas únicas
chances de ir para escola sem o Esquadrão Nessie, ou pelo menos sem a maior parte dele já que Seth e
Jacob ainda estariam em meu encalço, me dei por satisfeita.
No final das contas ainda estava no lucro, considerando que estaria com Seth, que eu adoro como um
irmão mais novo e com Jacob, que não preciso nem falar a importância dele para mim. Estava super
excitada com as possibilidades desse dia.
Por causa do bom tempo, que é muito raro na região, tinha uma partida amistosa de Lacrosse, e todos
da escola estavam convidados à assistir. O nosso time da escola o Sequim Wolves Squad(Esquadrão de
Lobos de Sequim), imagine a ironia nisso, já que os únicos lobos na escola estavam na arquibancada e não
em campo.
Nosso time escolar jogaria com o time universitário The Mountaineers que representa a junção de
Sequim, Port Angeles e a região norte da Península Olímpica. A partida era de demonstração e incentivo ao
esporte, portanto não valia pontos para ganhar posição no campeonato regional. Mesmo assim, nosso
time estava empolgado e disposto a demonstrar o seu melhor porque olheiros de times maiores assistiriam
à partida hoje.
Como sempre, Josh Pudim Simmons liderava os Wolves como seu capitão e principal atacante. Ainda
bem que a bolada que dei nele no dia da partida de voleibol não o afetou gravemente, como sua irmã
Tricia afirmara para me provocar. Só o deixou enjoado por algumas horas e mais nada. Caso contrário, o
time estaria desfalcado de seu melhor jogador, tenho que dar o braço a torcer para ele nisso, e
provavelmente perderíamos feio.
Jacob estava empolgado com a mudança de cenário, mesmo que por algum tempo. Fazer uma atividade
de entretenimento para variar, o deixara de ótimo humor e com fome, é claro! Ele comprou pelo menos
uma dúzia e meia de cachorros-quentes e três litros de soda para ele. Quando me viu encarando aquele
montante enorme de comida ele parecia encabulado, talvez pelo exagero.
Quer um?
Ele apontou para um naquela montanha de comida e eu disse que não, deixando-o felicíssimo. Seth por
sua vez, tentou pegar um, com Jacob rosnando para ele como um cão defendendo seu prato de outro
animal.
É só um cara! Um bem pequeno!
Ele ponderou por alguns segundos deixando Seth pegar apenas um de sua montanha. Como eu conheço
a fome desenfreada dos lobos, imagino que logo em seguida Jacob vai sair para comprar mais com Seth o
acompanhando para comprar alguns para si.
Todos nas arquibancadas pareciam felizes. Seja pelo o bom tempo ou com a atividade ao ar livre. E nem
precisava de meu pai aqui para ler as mentes deles para eu saber que estavam felizes, principalmente por
não terem aula num dia bonito como esse.
Os jogadores se aqueciam enquanto aguardavam o início da partida. Os Mountaineers ainda não
tinham chegado e o público começava a se agitar pelo começo da partida. Depois de um atraso de vinte
minutos, nosso time adversário chega justificando que foram problemas com o ônibus que os
transportava. Os técnicos se cumprimentaram amistosamente, os jogadores seguiram o exemplo e dá-se
início à partida.
Como esperado, nosso time começou perdendo por quatro pontos de vantagem para os
Mountaineers. Para completar, o time adversário estava bastante violento nesse dia. É verdade que
Lacrosse é um esporte de contato e que certas agressões são permitidas, assim como outras não o eram,
mas parece que o juiz estava cego em benefício dos Mountaineers. E olha que nem estou falando de
jogadas que alguém com visão privilegiada como eu teria visto.
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Imagino que qualquer humano poderia ver os absurdos da arbitragem, amplamente criticada na
arquibancada. Jacob e Seth sendo os mais empolgados, soltando gritos de incentivos aos nossos jogadores
esquecendo o fato de Josh fazer parte do nosso time e participando dos xingamentos contra o juiz.
Quando olhei severamente para Jake em um desses momentos mal criados dele, ele simplesmente
pareceu sem graça por exatos dois milésimos de segundos voltando a gritar para os jogadores em campo.
Esse juiz fede! Não é possível que você não esteja vendo que isso foi falta!
Seth disse com Jacob complementando.
Esse juiz só não é pior que o atacante dos Wolves! Qual é Pudim!? Ou melhora ou vai para casa e
deixa alguém fazer alguma coisa para melhorar o placar!
Se eu soubesse que o Jacob iria usar o apelido que Nahuel tinha colocado no Josh, na frente de todo
mundo, eu não teria contado para ele. Todos os presentes começaram a rir, fazendo Josh se desconcentrar
e tropeçar em suas próprias pernas, causando mais uma onda de gargalhadas. Jacob ria tanto que se
engasgou com um dos cachorros-quentes e Seth segurava a barriga como se doesse de tanto rir.
Pára! Sentado! Junto! Você quer criar problemas para mim no meu único dia livre do Esquadrão
Nessie?!
Falei empurrando ele para sentar na arquibancada, porque ele estava de pé tentando evitar de se
engasgar novamente.
Você não quer me dizer que não foi engraçado.
Ele suspendeu uma das sobrancelhas e o canto de sua boca arqueou presunçosamente. Eu tentei me
segurar um pouco para que ele não ficasse tão convencido, mas foi mais forte do que eu. Olhei para a cara
petulante dele, me lembrei da cena do Josh caindo sobre suas próprias pernas e não resisti. Uma
gargalhada gutural se formou e explodi em risos. Quando finalmente consegui me controlar o suficiente
para respirar bem e falar.
Ok, te devo essa. Foi engraçado mesmo! Muito!
Eu agora com uma expressão um pouco mais séria.
Mas não crie mais confusão, senão o Diretor Bown vai te dar alguma punição. Esqueceu que ele
protege o Josh e sua gangue? E que não é lá um dos seus maiores fãs.
Agora foi minha vez de fazer uma expressão presunçosa para ele.
É cara. Tenta se controlar!
Jacob deu um soco de brincadeira no ombro de Seth, o que eu repeti nele por bater no pobre coitado
que só estava tentando ajudar.
Ai! Por que você me bateu?
Você não precisava ter batido no Seth, ele só está tentando evitar de você ser expulso da escola.
Eu não serei. Pode ficar tranqüila.
Ei Nessie, cadê a Judy?
Perguntou Seth mudando de assunto.
Ela não pôde vir. Nem sei ao certo o que a impediu.
Respondi enquanto tentava me lembrar o que ela disse apressadamente no telefone quando perguntei
se ela viria para o jogo.
Ah, certo. Que pena, ela é engraçada e muito esperta. Se não tomarmos cuidado, um dia ela descobre
alguma coisa sobre nós.
Ele apontou com a mão colocando nos três no circulo.
Eu andei pensando a mesma coisa Seth. Acho que eu poderia confiar a contar para ela.
E por que você não faz então? Ela me parece confiável e nada do tipo que teria um ataque por saber
dessas coisas, você sabe.
Eu sei, é só que me preocupo com a segurança dela. No meu mundo não podemos falar com os
humanos sobre nossa existência.
Mesmo estando em público sei que ninguém ouviu esta última parte porque falei baixo e muito rápido
para compreensão humana. Ele gesticulou que entendia a situação.
Dá para vocês pararem? Estão perdendo o jogo.
Jacob nos interrompeu e logo em seguida enfiou mais um cachorro-quente em sua boca. Inteiro. Sabe,
às vezes eu não entendo o que vejo nesse cara.
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Como se estivesse adivinhando meus pensamentos, ele terminou de engolir seu cachorro-quente,
limpou a boca e me deu um sorriso campeão. Daqueles que os modelos de propaganda de creme dental
arrancariam um olho para ter. Algo dentro de mim ficou quente. Eu me virei para o jogo antes que ficasse
ainda mais corada.
Qual a pontuação? Ainda estamos perdendo?
Ele também se virou para o campo e respondeu menos animado do que estava.
Ainda. Agora de quinze a sete. Esses caras não merecem o nome do time que têm. Wolves?(Lobos)
Há! Grande piada! Acho que vou mudar de time. Vai Mountaineers!
Ele gritou e alguns entraram na brincadeira, enquanto outros nos vaiavam.
Eu aposto que consigo fazer muito melhor do que isso.
Disso eu não duvidava. Aliás, eles os lobos Quileutes levariam uma vantagem absurda em qualquer
esporte que tentassem. A menos é claro, quando os oponentes sejam os vampiros!
Estou indo comprar mais uma leva de petiscos. Você quer que eu te traga alguma coisa?
Respondi para Jacob que não queria nada, agradeci e o acompanhei com minha visão periférica,
enquanto ele descia os degraus da arquibancada e ia andando calmamente para a barraquinha. Como
pode um rapaz tão grande ser tão gracioso?
A pele bronzeada que estava exposta em locais estratégicos pela camisa regata cinza que ele usava,
brilhava quando os raios do sol a tocava. Junto com sua bermuda de verão jeans, que ele dizia que ficava
meio apertada nele porque continuava crescendo, mas se quer saber, em minha opinião ficava perfeita!
Aquele corpo também perfeito, de um Hércules andando nos dias atuais, junto com as feições indígenas
que davam um charme especial, exótico ao conjunto da obra me hipnotizavam. Só não era melhor que o
sorriso caloroso dele e seu cheiro almiscarado. É, acho que sei o que vejo nele. E não estou falando
somente da embalagem, como diria meu avô Charlie, mas o conteúdo doce, gentil, cuidadoso e até mesmo
protetor dele o faz ideal, pelo menos para mim. Fiquei observando mais alguns momentos quando fui
interrompida em meu sonho acordada.
Eu só queria saber quando vocês vão parar com a brincadeira.
Seth me olhou com um sorriso brincando no canto de sua boca e eu tratei de fechar a minha que estava
aberta de admiração por Jacob. Sua voz era de zombaria. Mais uma vez me senti corando, agora mais do
que nunca. Graças a Deus que meu pai não está aqui para ouvir minha falta de decoro mental e ainda por
cima com seu melhor amigo.
Só quando ele parar com as brincadeiras infantis dele. Daí eu paro de bater nele.
Me fiz de desentendida. Achei que seria a melhor solução.
Você sabe que não estou falando disso.
Seth, eu não sei de que diabos você está falando. E eu não vim aqui para bater papo-furado, eu vim
para assistir ao jogo, se você me deixar.
Como quiser.
Ele virou-se para o campo. E quando eu achei que tinha me livrado muito fácil do embaraçamento de
ser flagrada babando pelo Jake, Seth, sem se virar, fala para mim.
Você sabe que ele te ama, não sabe? Não tem como você não saber uma coisa tão óbvia.
Ele falou com uma voz tão branda que quase não reconheci meu amigo mais jovem e empolgado
falando tão sabiamente.
Claro que sim. Como sua irmã mais nova e objeto de seu imprinting.
Não é só por isso e você no fundo deve sentir que não é.
Seth é o cara mais gentil que conheço, ainda mais do que Jacob. Mas sempre o vi como um irmãozinho
mais novo a quem eu deveria guiar e ajudar. Nunca o imaginei como um rapaz muito maduro para sua
idade, como ele vive provando para mim. Antes que eu respondesse mais alguma coisa, Jacob veio com
mais um montante de cachorros-quentes nos braços e outra uma garrafa de soda. Dessa vez ele se
lembrou de Seth e trouxe-lhe alguns extras.
Então, o que foi que eu perdi?
Jacob olhou para o campo tentando se atualizar. Já eu, olhei desconfiadamente para Seth e baixamos o
olhar. Eu devia saber que ele não brincaria com uma coisa dessas, sobretudo, ele não seria louco! Porque
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se ele fizesse isso viraria, ele mesmo, um hot-dog. Jacob pareceu não notar o clima estranho e continuou
comendo enquanto reclamava do jogo.
Como eu queria uma chance de mostrar para esses caras como realmente se joga isso.
Jacob resmungou entre uma mordida e outra.
Você sabe que Lacrosse foi criado por nativos americanos, certo?
Olhou para mim esperando uma confirmação. Que eu não tinha. Balancei a cabeça negativamente e ele
continuou.
Não acredito! Uma coisa que a Miss Sabe-tudo não conhece!?? Deve ser mesmo um dia diferente
esse. Não se preocupe eu te ensino tudo.
Se sentindo muito?!
Falei enquanto olhava para ele.
Nah. É que não é todo dia que você não sabe alguma coisa. Isso deveria ser motivo de orgulho e não o
contrário, sabe, essa coisa de saber tudo.
Ele piscou para mim e começou sua aula de história nativa.
Bem, quando as tribos estavam se estranhando eles faziam esse jogo, certo?
Ele continuou todo empolgado.
Os caras de um time se concentravam primeiro em lesionar os caras do outro com os seus bastões,
para ficar mais fácil marcar os pontos, entende?! Os jogos duravam desde o nascimento até ao pôr-do-sol
ou mesmo durante dois a três dias. Deveria ser mesmo muito insano e o mais louco era a freqüência com
que os jogadores se machucavam feio e até rolavam algumas mortes. Era jogo para homens, não Pudins.
A última palavra ele falou um pouco mais alto, provavelmente tentando provocar o Josh mais uma vez,
entretanto falhando nessa. Ele deu de ombros.
Muito sangue, suor, terra e glória.
Ecaa, nojento! Eu acho que era só mais um motivo bobo para vocês garotos, baterem uns nos outros.
Deus, que horrível. Não que agora seja tão diferente assim, mas pelos menos não ocorrem mortes, eu
acho.
Como se para enfatizar o que eu falava, um jogador dos Mountaineers derrubou um dos nossos, que
ficou imóvel no chão. Assim como vários de nosso banco de reserva, esse também não voltaria à partida.
Viu o que falei?! Acho que perderemos por não termos uma quantidade mínima de jogadores em
campo.
Jacob bufou. Eu ainda estava com dó do pobre coitado que estava sendo levado numa maca para fora
do campo, quando avistei o Diretor Bown olhando para a arquibancada. Congelei. Eu pensei que ele
finalmente tinha se decidido a dar uma lição no Jacob por ficar zombando do nosso próprio time. Ele saiu
abrindo caminho entre os alunos que estavam nas arquibancadas até onde estávamos. Eu já estava
elaborando algumas desculpas para ajudar o Jake, quando o Sr. Bown nos alcançou.
Garotos, boa tarde.
Nós respondemos educadamente. Ele tomou fôlego pela subida rápida que fez e para um homem de
certa idade, foi até impressionante.
Senhor Black, como deve ser de seu conhecimento, estamos meio... desfalcados em nosso time e
como o senhor mesmo insiste em dizer que faria melhor, imaginei se o senhor gostaria de tentar provar
essa teoria em campo. Isso se ainda for de seu interesse, é claro.
Eu senti uma pontada de ironia em sua voz, entretanto como todos nós sabemos ele tem um certo
interesse em que nossa escola se destaque nos esportes, então acho que o convite foi a sério.
Fiquei boquiaberta. Assombrada mesmo, porque Jake tinha falado há pouco que queria uma chance e
ela está aqui. Fiquei feliz por ele, contudo preocupada. Não que houvesse alguém ali que pudesse
machucá-lo, mas ele poderia machucar alguém gravemente. Além disso, fiquei me perguntando se essa
não era uma artimanha do Sr. Bown para finalmente ter um motivo para colocar Jacob para fora de sua
escola.
Jacob deve ter percebido a preocupação em meu semblante e ter chegado às conclusões que cheguei.
Nessie? Você está bem, me parece pálida. Quer dizer, mais pálida do que o usual. Me fala.
Eu olhei para o Sr. Bown que ainda aguardava uma resposta e arrastei Jake para um local um pouco
mais reservado. Comecei a sussurrar. Evito usar meu dom do toque em público, ainda menos com Jake, já
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que tenho certos pensamentos e sentimentos por ele que não desejo compartilhar, ainda. E
eventualmente, pode escapar alguma coisa, sobretudo porque é necessário o toque em sua pele.
Portanto, definitivamente é melhor não usar.
E se isso for só uma armadilha para te encrencar na escola? Até te expulsar? Fora que você pode
machucar alguém seriamente.
Quanta consideração... e com meu corpinho? Você não se preocupa?
Ele deu um sorriso torto e quando viu que eu não estava com clima para brincadeiras continuou.
Relaxa! Me expulsar por que? Por que alguém se contundiu? Não existe regra para isso. E eu não
pretendo machucar ninguém em campo só se o Josh estivesse no time adversário.
Ele fez uma cara pensativa e eu dei uma cotovelada na costela para ele voltar a realidade.
Que droga Jacob! Você está fora de seu juízo normal? Isso é loucura!
Agora eu não me importava em sussurrar. Estava gritando para ver se as palavras entravam em sua
cabeça dura.
Não. Isso é Lacrosse, bebê. É só um esporte e eu juro que irei me comportar. Eu prometo!
Ele juntou dois dedos e os beijou como prova da promessa que acabara de me fazer. Eu dei de ombros
com a teimosia dele. Suspirei e voltamos para onde o Sr. Bown aguardava, não por muito tempo, porque a
conversa toda durou apenas alguns segundos do jeito que falávamos rápido.
Diretor Bown, ele vai jogar no seu time, mas...
Prolonguei a última palavra para enfatizar minha condição. Talvez minha última tentativa de colocar
alguma razão na mente do diretor.
Só se o Seth for junto! De acordo?
Eu apontei para Seth, que estava muito surpreso, entretanto, extremamente excitado com a chance de
também entrar em campo. O Sr. Bown olhou para o garoto que era consideravelmente alto e com porte
invejável por muitos esportistas, enquanto avaliava minha condição. Seth andou desenvolvendo bastante
seus músculos nesses dois anos e oito meses. Teve uma espécie de explosão de crescimento, aliás, como é
comum para os homens lobo. Está quase do tamanho do Jake, porém mesmo sendo muito forte, falta um
monte para alcançar a musculatura dele. Tenho que dizer, considerando sua taxa de desenvolvimento,
acredito que mesmo ele não ficando tão forte quanto o Jake, certamente será muito próximo.
Ele não estava me ajudando, levantou-se para mostrar seu tamanho, estufou o peito e fez uma cara
séria, que assustaria muito dos humanos. O Sr. Bown parece ter gostado do que viu.
Garoto, você sabe jogar Lacrosse?
Ele perguntou, também muito sério para Seth.
Sim, senhor.
Então vão lá Wolves. E acabem com os Mountaineers!
Ele deu um tapinha de incentivo no ombro de Seth e começou a sacudir a mão como se a tivesse
machucado. Lá se vai meu plano de impedir Jacob de jogar. Que Deus não permita que eles machuquem
alguém seriamente. Pelo menos Seth estaria lá para ajudar caso alguma coisa aconteça.
Jacob deu uma última olhada para mim, como se esperando minha aprovação. E vendo aquele brilho
todo no olhar dele eu não puder fazer mais nada se não balançar minha cabeça em direção ao campo.
Boa sorte Jake, Seth. Vamos tentar não ter nenhum ferido grave hoje ok?!
Eu falei os alertando sobre não machucar os humanos, contudo foi interpretado pelo Sr. Bown que
ouvia a cena, como se eu estivesse preocupada com eles.
Não se preocupe criança. Eles vão ficar bem. Olha só para eles, máquinas de destruição.
Ele parecia extremamente satisfeito com seus dois novos jogadores, mas não sabia o quão certo ele
estava sobre a parte das máquinas de destruição. Vamos apenas esperar que não dê nada errado.
Eles desceram a arquibancada rapidamente, experimentaram os equipamentos emprestados de alguns
dos jogadores contundidos, mesmo quase nada servindo no Jacob pelo seu assombroso tamanho, eles
conseguiram se vestir muito rapidamente, receberam as instruções iniciais do treinador Bown e entraram
em campo. Parece que nossa sorte está lançada literalmente junto com a bola que seria lançada ao
chão.
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Jacob foi posicionado como meio de campo, pelo seu tamanho assustador e porque as vagas na defesa
que seria mais apropriada para ele estavam ocupadas. Seth por ser menor que o Jake e mais magro,
imaginaram que daria um bom atacante.
Antes que o jogo se iniciasse, eu ouvi o Josh provocando Seth.
Vê se não estraga tudo sendo morto em campo indiozinho.
Seth apenas deu de ombros, mas eu vi o Jacob rosnando para Josh. Que se afastou imediatamente.
Estou com um mal pressentimento quanto à isso.
A bola foi lançada e um dos nossos conseguiu pegá-la para nosso time, jogou-a para o Josh, que fez uma
jogada ensaiada repassando a bola para um da defesa que fez um lançamento longo de volta para ele, mas
antes que pudesse pegar a bola o jogador adversário o derrubou e mais uma vez o juiz não fez nada a
respeito.
Seth se aproximou dele e o ajudou a levantar-se. Sem a menor expressão de que estava ofendido pelo
que o Josh tinha feito alguns segundos antes.
Acho que você deveria ter cuidado, cara.
Seth falou com toda calma. Jacob riu.
A bola estava novamente em jogo, mas nas raquetes dos adversários, que se encaminhavam para área
do meio do campo. Era a vez de Jacob entrar em ação. Eu acho que o atacante adversário que estava com a
bola tinha sérios problemas de visão ou muita loucura para ter feito o que fez. Foi com toda violência para
cima de Jacob, que simplesmente ficou parado onde estava.
Foi como ver um carrinho de brinquedo ir de encontro com uma locomotiva de aço. É claro que o
resultado foi um jogador a menos para os Mountaineers. Jake olhou desconfiado para mim, nem
precisava de meu pai aqui para ver o que passava em sua mente: Ei, você viu! Não foi minha culpa! Ele
veio em minha direção. Eu não consegui resistir, ria incontrolavelmente. Fazendo ele relaxar e se
concentrar novamente na partida.
A bola tinha sido recuperada pelos Wolves, que a lançaram para Jacob, que pegou com muita
agilidade e se dirigiu ao campo de ataque. Claro que agora os Mountaineers aprenderam a lição e só
tentaram tomar a bola dele à uma distância segura. Ele procurou por Seth e mesmo não estando como
lobos pareciam se comunicar sem palavras, era como uma série de jogadas ensaiadas por anos. Acho que
se tem algumas vantagens você compartilhar constantemente sua mente com outrem. Você acaba
entendendo um pouco como a pessoa pensa e age. Pelo menos foi o que consegui deduzir.
Eles trocaram passes até perto do gol adversário, quando Jacob lançou uma bola tão alta que todos os
humanos perto de mim falavam estar perdida, mas eles não conheciam eles, não como eu. Seth pulou,
alcançou a bola e ainda no ar, de costas para o gol virou-se projetando a bola para o gol adversário antes
de cair no chão. A arquibancada estava em polvorosa! Eles se agitavam, gritavam e sacudiam as mãos
comemorando a grande jogada dos Wolves, dessa vez, literalmente os lobos.
Seth correu para seu parceiro de jogada e lançou-se ao ar, sendo levantado ainda mais por Jacob que
também vibrava pelo seu primeiro ponto. Eles voltaram às suas posições e o jogo recomeçou.
O placar mal calculava um novo ponto para o nosso time e tinha que atualizar com a pontuação que
acabara de acontecer. Parece que temos então, uma chance de vencer afinal de contas. Porém, só se
dermos um pouco de sorte, porque o marcador estava quase com o tempo da partida esgotado. Faltando
apenas alguns poucos minutos para seu fim.
O diretor Bown, quer dizer, o treinador Bown pediu tempo e chamou todos os jogadores para a
beirada do campo. Acredito que para tentarem algumas táticas que pudessem nos levar à vitória.
Garoto...
Seth.
Interrompeu Jake quando o dire... treinador Bown começou a falar.
Seth, certo.
Ele repetiu para si mesmo, como se estivesse tentando decorar o nome.
Eu vi que você corre bastante e que tem alguns movimentos. Podemos usar isso para virar esse jogo.
Ou pelo menos dar algum trabalho para nossos visitantes. O que acha?
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Eu tenho que admitir. Estou tão surpresa quanto ele. Seth realmente tem jeito para esse jogo. Se move
com enorme agilidade, velocidade incrível e se posiciona estrategicamente com muita naturalidade, como
se fora nascido para isso.
Quem parecia que iria estourar como uma bexiga, de tão vermelho que estava, era o Josh. Ele é a
estrela do nosso time, ou era, e o novato que acabou de entrar somente porque tinham alguns jogadores
machucados era quem estava recebendo toda a atenção.
Podemos tentar treinador.
Seth falou.
Maldição! Eu digo que vamos pegar aqueles caras!
Bradou Jacob. Seguido por palavras de incentivo do restante do time. Somente o Josh permaneceu
calado.
O treinador Bown explicou o que ele tinha em mente e todos afirmaram entender sua estratégia.
Voltando em seguida ao campo.
A estratégia que ele tinha bolado na verdade era bastante simples. Simular passes para o Josh,
passando na realidade para o Seth, com Jake ora cobrindo sua retaguarda, ora abrindo o caminho para o
gol.
O time adversário parece ter percebido a artimanha e resolveu marcar Seth com quase todos seus
jogadores de defesa, dificultando as coisas, mas não o impedindo de marcar pontos. Estava faltando
apenas um ponto para empatar com o time adversário e menos de um minuto de tempo disponível para
isso. Jacob resolveu tentar a sorte ele mesmo, e conseguiu marcar o ponto que nos garantiu mais alguns
minutos de prorrogação.
A bola estava com Seth, com quase toda a defesa dos Mountaineers o cercando. Ele avistou Jacob
com marcação também, nada que ele não pudesse se livrar, mas percebeu que Josh estava em uma
posição privilegiada e quase sem marcação. Ele não pensou duas vezes. Lançou a bola, que foi recebida
sem nenhuma tentativa de interceptação. Josh correu o restante do espaço que faltava e marcou.
Estávamos com um ponto à frente e com vinte segundos para terminar a partida. Parecia que a vitória
seria nossa. E foi! O jogo terminou em 19 X 18 para os Wolves.
Josh foi carregado nos ombros de seus colegas comemorando a vitória. E eu desci a arquibancada o
mais rápido que uma humana pudesse descer. Como os humanos conseguem andar assim tão devagar?! É
tão irritante!
Quando finalmente consegui alcançá-los, abracei o Seth e o congratulei. Repeti o gesto com o Jacob,
nosso abraço acabou demorando mais que o normal. Mais uma vez, somente nesse dia, eu senti o sangue
subir às minhas bochechas. Seth quem interveio, mas acho que foi mais por pura empolgação do que como
apoio.
Ganhamos, cara! Nossa! Não vejo a hora de contar isso lá na reserva e para os Cullens.
É isso aí Seth! Foi demais mesmo! Mas...
Jacob parecia hesitar agora.
Mas o que?
Eu perguntei impaciente. Será que aconteceu alguma coisa errada. Não. Eu repassei todo o jogo em
minha memória de meio-vampira e não encontrei nada que pudesse ser caracterizado como um problema.
É que os caras do bando do Sam vão nos preparar um belo sermão sobre como não devemos
participar de esportes com os humanos, para não perceberem nossa natureza e...
E nada Jacob! Eu vi vocês jogando e não fizeram nada que um bom jogador não pudesse ter feito. Não
há nada que possa ser usado contra vocês.
Isso mesmo Nessie! É cara, relaxa! Não fizemos nada demais, além do que, você é nosso alfa e não o
Sam.
Seth falou isso tentando apoiar seu líder, mas pelo que conheço do que anda passando pela cabeça de
Jacob, acabou saindo ainda pior. Resolvi conversar com ele depois. Agora era hora de comemorar.
Eu pago uma rodada de cachorros-quentes para vocês! Vamos celebrar essa vitória! A primeira em
um bom tempo.
Em cima de um time semi-profissional!
Acrescentou Seth.
97
E mostrando pra todo mundo como os Wolves deveriam jogar!
Gritou Jacob, agora mais alegre.
Passamos pelo Josh que ainda estava nos ombros da torcida e ele nos encarou.
Boa partida Josh.
Cumprimentou o Seth.
Você também garoto-índio.
Ele ainda soou preconceituoso, mas pelo menos não tão arrogante e insensível como no começo da
partida. Talvez ainda haja esperança para o garoto, afinal das contas.
98
15. Comemorações
Ficamos sabendo que todos iam para Port Angeles comemorar a vitória inédita e de virada. Mas
tínhamos nossos próprios planos. Fomos para a reserva, para casa de Billy Black.
Já estávamos no meio da floresta, a caminho da reserva. Seth tomou a frente em meio à excitação toda
e ficamos andando mais atrás calmamente, eu e Jacob. Somente depois que vi Seth olhando com sua visão
periférica enquanto tomava ainda mais distância de nós que percebi o que ele tinha feito. Nos dado um
tempo a sós para conversar. Ainda me surpreendo muito com esse garoto. Resolvi aproveitar a
oportunidade para acabar com um dos mal entendidos do dia.
Jake, eu sei que você anda preocupado se está sendo um bom alfa, se não está fugindo de suas
responsabilidades, mas eu te garanto, você está fazendo um bom trabalho. Ok?
Toquei-lhe o ombro para dar-lhe apoio e mostrei as vezes que ele foi nitidamente um ótimo líder. Ele
parecia mais aliviado, porém, ainda sério.
Obrigada Nessie. É muita pressão. Eu não pedi por essa responsabilidade, simplesmente herdei a
bomba. Agora só estou tentando fazer o meu melhor para o bando, a reserva, minha família e você.
Ele olhou para baixo parecendo cansado e mais maduro. E eu fiquei pasma por ter aparecido no meio
daquela conversa que era basicamente sobre os Quileutes.
Como assim por mim?
Ele me olhou de soslaio e baixou sua voz rouca quando falou novamente.
Porque eu quero que você tenha orgulho de mim. E que a Bella e o Ed saibam que além do Jake,
brincalhão, eu posso ser sério e confiável. Mas acho que essas atitudes como a de hoje não me ajudam
muito.
Deus! Esse dia teve de tudo. Ele está tentando me dizer que tem intenções sérias comigo ou estou
ficando louca? Não consegui formar nem mesmo uma palavra de incentivo para ele em minha boca. Ele
também ficou calado. Andamos em silêncio por mais alguns minutos.
Se ele soubesse o quão orgulhosa sou dele. O quanto meus pais o admiram e seus liderados o
idolatram, ele não se sentiria assim. Mas eu não conseguia falar nada. Estava chocada demais para isso.
Não percebemos, mas aumentamos nossos passos. Em poucos minutos já estávamos à porta do Billy e
para nossa surpresa, a casa estava cheia de gente, quer dizer, lobos e vampiros. O que achei muito
suspeito considerando que, mesmo com a amizade que havia sido criada entre os vampiros da minha
família e os lobos, minha família com exceção de minha mãe e eu não freqüentam a reserva. A menos
que sejamos convidados. Sabe como é, por garantia.
Eu estava começando a acreditar na teoria do Jake que eles iriam ouvir um bom sermão, quando nos
aproximamos mais e percebemos que o ambiente estava muito festivo. Caixas de cervejas, fogueira
assando cachorros-quentes e todos conversando animadamente.
Ahá! Chegou nosso herói! Finalmente alguém para representar nossa classe junto àqueles caraspálidas.
Gritou o Embry. Os índios Quileutes não usam essa expressão cara-pálida por acharem meio ofensiva,
tal qual pele-vermelha que algumas pessoas falam sobre eles, Embry só usou para provocar mesmo.
E aí cara! Você deveria ter estado lá. Aposto que teríamos ganhado a partida com muitos pontos de
diferença ao nosso favor.
Respondeu Jacob, agora mais relaxado. Porém, Sam começou a aproximar-se de nós com uma
expressão extremamente séria. Me preocupei que finalmente o receio de Jacob virasse realidade. Ele ficou
à uma distância de um palmo de Jacob, que agora também estava sério, estendeu sua mão e falou.
Parabéns. Ficamos sabendo que você representou bem os Wolves.
Jacob agora abriu seu sorriso enorme e Sam sorriu de volta, com a mesma alegria. Eu passei pelo seu
lado e nos olhamos, sem precisar falar nenhuma palavra para nos entender. Não é que ele precisasse da
aprovação de Sam. Ele já era alfa há mais de dois anos e havia se habituado à isso. É que ele o admirava
como alfa e ele queria seu respeito. Estou muito feliz pelo Jacob hoje.
Dá para vocês pararem com a rasgação de seda e me contar em detalhes como foi o jogo?
99
Falou meu tio Emmet ao se aproximar deles. Aposto que ele daria tudo para ter entrado em campo
também. Mas seria mais difícil de disfarçar sua natureza, que a dos lobos. Bastava um toque, um raio de
sol ou um jogador se bater contra ele e todo nosso esforço em nos misturar iria pelos ares.
Foi demais! Você deveria ter estado lá.
Jacob falou com empolgação, batendo na mão dele.
Cara, logo hoje tinha que ser um dia ensolarado em Sequim?!
Murmurou meu tio, muito irritado. Eu resolvi dar um espaço para o momento de garotos deles e fui
encontrar minha mãe que estava conversando com Billy.
Oi mamãe. Billy, Como vai?
Muito bem criança, obrigado por perguntar.
Ele fez uma leve reverência com a cabeça e depois sorriu. Eu consigo ver a enorme semelhança dele
com o Jacob, principalmente no sorriso. Mas tem alguma coisa ali que não era do Billy. Imagino que seja
herança da mãe do Jake. Infelizmente não a conheci, ela morreu em um trágico acidente de carro quando
ele ainda era criança e ele foi praticamente criado só pelo Billy e por suas irmãs mais velhas, Rebecca e
Rachel. Para completar o cenário e causar total desgosto no Jake, Rachel é objeto de imprinting do Paul.
Acho que fiquei admirando demais ele, enquanto me lembrava dessas coisas e que minha mãe tocou meu
braço tentando me tirar do transe.
Então? Como foi seu dia na escola?
Ela perguntou como se nada demais tivesse acontecido. Mais um dia de aula.
Ah. Foi ótimo! Me diverti bastante.
Que bom querida. Acho que você precisa de mais folgas do Esquadrão Nessie, hun?!
Ela suspendeu uma sobrancelha provocando.
Não foi isso que eu quis dizer. Como você sabe desse apelido? Eu...
Ela começou a rir.
Calma querida, só estou mexendo com você. Sei desse apelido há um bom tempo. De fato, Jake vive
usando isso. E eu entendi o que você quis dizer.
Ela se aproximou mais e colocou seu braço ao redor de minha cintura. Eu já deveria saber que ela
conhecia esse apelido, afinal ela é uma vampira com super audição e meu pai pode ler mentes. Dãh!?
Mas dessa vez a culpa não foi minha. O crédito foi todo de seu amigo ali.
Falou meu pai apontando para o Jake.
Então? Não que eu não esteja feliz em ver vocês aqui, mas o que os trazem na reserva? Todos vocês.
Perguntei mudando de assunto.
Bem, soubemos do jogo e da participação do Jake e do Seth, então resolvemos vir comemorar juntos.
Falou meu pai e depois se encaminhou para perto de minha mãe.
Essa é a única razão?
Perguntei desconfiada. Precisaria mais do que isso para fazer minha família vampira vir para a reserva
sem um convite prévio.
Ok, você está certa. Por favor, não se irrite conosco, mas eu fiquei escondido na floresta observando
vocês de longe e quando tudo terminou, eu ouvi que Jake estava se sentindo mal como alfa, então entrei
em contato com o Sam e resolvemos vir todos para a casa do Billy.
Ele respondeu minha pergunta não dita e tocou no ombro do Billy. Eu sei que a intenção foi boa, mas
quando Jacob souber disso tudo não vai gostar muito de ser tratado como um rapazinho que precisa de
uma conversa de animação.
Na verdade, ele já sabe. No começo ele ficou meio irritado sim, mas ele resolveu que era melhor levar
na esportiva. De fato, ele achou que saiu no lucro. Afinal, ele tinha pensado que receberia um sermão de
todos e ao invés, estamos aqui para parabenizá-lo pela excelente partida.
Ei, vocês dois. Poderiam nos incluir nessa conversa?
Billy estava um pouco impaciente por só ouvir a parte de meu pai na conversa.
Só estava a atualizando porque estamos todos aqui.
E sobre a espionagem do Esquadrão Nessie, conversamos depois pai! Ele não falou nada, apenas deu
um meio sorriso e começou a conversar com a mamãe, que nos olhava desconfiada. Aposto que ela
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percebeu que estávamos acertando uns ponteiros mentalmente. Meu pai acenou levemente com a
cabeça, confirmando minha teoria sobre minha mãe. Oh sim! Eles não deixam passar nada!
Oh sim! Não deixamos mesmo.
Meu pai me imitou rindo.
Pai?
Só brincando filha. Calma.
Ugh! Deixa eu sair logo daqui. Pensei em ir atrás de minha tia Rose, mas conhecendo bem como eu a
conheço, acredito que não tenha vindo. Meu pai mais uma vez confirmou com a cabeça. Às vezes é útil
esse negócio de ler mentes.
Você não imagina o quanto, filha.
Dá para vocês dois pararem de conversar assim.
Minha mãe nos repreendeu, fazendo ambos rirem. Eu fui procurar a tia Alice, que eu acho mais
provável que esteja aqui. Após caminhar um pouco em meio a conversas altas, risos e tapinhas de
congratulações, achei minha tia junto ao meu avô Charlie, conversando.
Olá para vocês dois.
Oi Nessie.
Oi criança.
Vô, não me chama assim. Por favor?
Supliquei com os olhos, mesmo não achando que vá funcionar. Minha tia Alice rolou os olhos me puxou
pelo braço.
Vamos Nessie. Deixa eu te tirar daqui.
Ei, Alice. O que foi que eu fiz?
Perguntou meu avô. E ela somente deu de ombros rindo para ele.
Então Nessie, como foi seu dia?
Você também tia Alice? Parece que foi um dia especial ou algo assim para todos estarem me
perguntando isso. Além do mais, eu sei muito bem que meu pai já deve ter contado tudo para vocês.
Cruzei meus braços em frente ao peito, chateada com tanto alarde por tão pouco. Foi somente um dia
de esporte na escola. Nada demais. Bem, exceto por meus pensamentos indecorosos por Jacob em alguns
momentos e... Deus! Meu pai! Será que ele ouviu aquilo tudo que pensei sobre o Jake? Por favor não! Por
favor não! Por favor não! Fiquei totalmente rígida com a idéia.
Ok, dá para me falar de uma vez?
Mandou a tia Alice.
Falar o que?
Sobre o que acabou de passar em sua mente para ter te deixado tão tensa.
Ela passou o dedo indicado na linha de preocupação que havia se formado em minha testa sem que eu
notasse.
Uhn... nada. Não pensei em nada demais.
Ela parou de andar e me encarou, repetindo minha ação de há pouco, cruzando seus braços.
Nessie, quem tem o dom de ler mentes na família é seu pai. Se você quer que eu te ajude em alguma
coisa, você vai ter que me dizer. Por favor, eu te conheço e sei que tem alguma coisa errada.
Eu suspirei e botei tudo para fora.
É que eu andei pensando algumas coisas sobre o Jake e...
E você acha que seu pai pode ter ouvido e que isso de alguma forma pode fazer a situação entre você
e o Jake se agravar. Perto?
Basicamente isso. Além da vergonha por meu pai ter ouvido... o que pensei sobre o Jake.
Me encolhi de timidez e senti meu sangue subindo para o rosto. Fomos para um lugar mais calmo para
conversar. Andamos alguns metros sem rumo e chegamos ao tronco caído onde eu e o Jake quase nos
beijamos. Que coincidência virmos parar exatamente aqui. Sentei e ela me imitou.
Quero que você me conte tudo em detalhes.
Tia, não há muito o que falar. É só que, eu... bem...
Mesmo minha mãe sendo também minha amiga, talvez minha melhor amiga, a tia Alice é minha
favorita para esse tipo de conversas. Acho que é pelo fato de minha mãe se envolver demais. Minha tia é
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mais imparcial. Mas eu não sabia como falar para ela que eu estava babando sobre o Jake em alguns
momentos. Era embaraçoso falar algo assim.
Edward só falou sobre o jogo e Jake ficou meio paranóico com o fato dele alfa. Mas nada sobre vocês
dois. Vocês se beijaram ou algo assim?
Ela bateu seu ombro no meu para me provocar.
Tia?!
É uma pergunta válida! E você não me respondeu.
Ela acusou. Eu olhei para o chão com vergonha e comecei a me lembrar que naquele mesmo lugar, há
algumas semanas atrás, eu quase dei meu primeiro beijo com o Jacob. Suspirei involuntariamente e minha
tia interpretou mal. Ela me olhou espantada e empolgada ao mesmo tempo.
Não. Não nos beijamos, ok? Satisfeita?
Ela parecia desapontada.
Bem, ainda não foi dessa vez, hun? Por um momento, eu desconfiei que finalmente tivesse
acontecido algo entre vocês. Tem certeza? Você não mentiria para sua tia, mentiria?
Tia! Eu não minto e você sabe disso. E não, nada aconteceu. Infelizmente...
Falei a última palavra quase num sussurro. Ela colocou seu braço delicado sobre meus ombros, me
consolando.
Eu não consigo entender vocês dois, estão tão apaixonados um pelo outro e nada acontece de
verdade. E o pior é que como não posso prever o futuro de vocês, não posso sugerir algo mais efetivo.
Ela agora parecia pensativa e culpada por não me ser útil em meu pequeno drama amoroso.
Sabe, quase nos beijamos um dia.
Isso pareceu animar ela novamente. Ótimo. Odeio vê-la triste e pior, por mim.
Sério? Quando? Onde? Como? Eu quero detalhes.
Ela virou seu pequeno corpo para que ficasse de frente para mim, me encarando, enquanto esperava
por maiores explicações.
Respondendo ao seu inquérito: Sério. Há umas quatro semanas atrás, aqui mesmo onde estamos, foi
quando eu vim me desculpar com ele porque brigamos sobre usar meus dons na escola.
Vamos lá. Continue.
Ela me incentivou com um brilho de felicidade nos olhos. Eu hesitei um pouco. Era bom estar contando
isso para alguém, além de Nahuel, mas eu não me sinto a vontade com esse tipo de conversa.
Não tem mais nada. Simplesmente não aconteceu.
Dei de ombros.
Por que não?
Bem, foi quando os invasores atacaram o Billy e antes que acontecesse alguma coisa ele teve que
sair correndo para salvá-lo. Só que eu não sabia o motivo da saída inesperada dele na época. Então foi
meio frustrante.
Ela agora parecia surpresa. Acho que eu também ficaria se estivesse avaliando a minha falta de sorte.
Sei que é egoísta pensar nisso, quando ele estava salvando a vida de seu pai, mas eu me sinto assim. Talvez
não tivesse mesmo que acontecer. Talvez nós não devamos ficar juntos afinal.
Nessie? Eu sei que deve ter sido desconfortável no dia, por você não saber o motivo da fuga dele, mas
você parece mais incomodada sobre isso do que o deveria. Quer dizer, vocês ainda têm toda a eternidade
para se acertarem.
Ou não. Pensei sarcasticamente. Ainda bem que é a tia Alice e não meu pai aqui.
Estou bem.
Ela ergueu uma sobrancelha.
Está bem? Então por que a carinha triste que você está usando agora?
Ela pausou um pouco para continuar em seguida.
Se abre comigo. Quem sabe eu não possa ajudar. Não que eu tenha muita experiência com garotos
e aposto que sua mãe não se saía muito melhor nesse departamento. Mas sou boa em solucionar
problemas do coração. Pode perguntar pra ela. Acho que você nem existiria se não fosse por mim.
Não pude deixar de rir. Ela sempre consegue me deixar para cima.
102
Eu só acho que talvez não deva acontecer, sabe? Eu e ele. Talvez não tenhamos um futuro juntos, com
o felizes para sempre dos romances antigos de minha mãe.
Por fora era pura calma, mas falar isso em voz alta me fez doer o peito mais do que já estava. É como se
tornasse mais real falando.
Sobre o seu futuro eu infelizmente não posso falar, porque não consigo ver o de vocês, lobos ou
híbridos, mas posso te dizer uma coisa sobre o futuro em si. Seja lá qual for, ele é mutável. A partir das
decisões tomadas pelos envolvidos.
Ela alisou meus cabelos carinhosamente. E eu me deixei ser confortada. Ultimamente tem sido minha
rotina: ficar frustrada por nunca resolver o drama Renesmee X Jacob, alguém tenta me consolar e me
aconselhar. Estou cansada disso. Talvez seja melhor desistir agora que ainda não aconteceu nada. Que
ninguém será gravemente ferido. Ignorando meus devaneios ela continuou com seu discurso para ânimo.
Ou seja, talvez vocês tenham que se esforçar mais. Já que você citou os romances antigos de sua mãe,
deixa eu te lembrar uma coisa sobre eles. Sempre há muito sofrimento e desencontros antes do amor
vencer no final. Quase todos os grandes épicos românticos são assim. Eles inspiram as pessoas. Fazem com
que acreditem que coisas como honra, coragem para enfrentar os obstáculos para conseguirem alcançar
seus objetivos e amor não sejam esquecidas porque são importantes. Eu já vivi muito minha querida e
posso dizer que na época atual, esses valores precisam ser revisitados e revividos.
É verdade, mas são só histórias. Ficção.
Argumentei, um pouco irritada. Eu não estava com muita paciência para soluções teóricas, eu queria
resultado imediato! Isso é pedir demais?
Verdade? E a história de seus pais não conta? Existe uma história mais intrincada, romântica e
dramática, porém com final feliz como a deles? Aposto que se alguém tivesse a sacada de juntar uma
história como essa, teria um Best-Seller em mãos.
Ela estava convencida da vitória de seus argumentos.
Eu sei. Acho o amor deles lindo também, mas...
Nada de mas. Você só pegou o fim da história deles, eu estava aqui como espectadora e
participante. Garanto. Seja lá qual for o problema que esteja separando vocês dois de terem o seu final
feliz, pode ser resolvido.
Admito, ela é boa oradora. Seu discurso quase me convenceu. Mas algo dentro de mim está
dormente, sem forças.
Tia, são tantas coisas contra nós, que desanima. Mesmo eu aparentando ter dezessete anos, na
verdade só tenho dois anos e alguns meses de vida. Fazendo com que ele se sinta um pedófilo ou algo do
gênero. Somos de espécies diferentes, como a senhora mesma disse: um lobo e uma híbrida. Talvez
sejamos incompatíveis, você sabe, fisicamente. E se um dia resolvermos ter filhos? Tem também o lance do
imprinting. E se ele só estiver interessado em mim por uma necessidade inconsciente de melhorar
geneticamente seu povo e não por me amar? E se ele só tiver transferido seu amor por minha mãe para
mim, por algumas semelhanças que possamos ter?
Encarei a visão da floresta à minha frente. Era melhor que encarar a já comum aparência do puro ânimo
que a tia Alice tem. Eu realmente não sou um boa companhia hoje. Era para eu ter ido para casa. Como
meu dia ficou assim tão complicado?
Quer dizer, eu estava radiante há poucas horas atrás com o dia que eu achava ter sido o melhor de
minha vida até hoje. Desabafar é bom, mas ter que reviver todas essas frustrações novamente é doloroso.
O que você me diz de um romance entre uma humana adolescente frágil e um vampiro virtualmente
indestrutível e imortal, com mais de cem anos? Duas espécies diferentes, além das idades muuuito
diferentes.
Ela piscou para mim.
E a sede quase incontrolável que Ed sentia por Bella sua cantante. E o fato de conseguir ler todas as
mentes, menos a dela? Acho que são motivos bastante convincentes para desistir e o fim dessa história
você conhece bem.
Ok. Agora ela me convenceu. Ou pelo menos me deu mais energias para continuar tentando.
Se anima querida. Eu sei que vocês terão um lindo futuro juntos. E eu nem preciso de meu dom para
prever isso.
103
Ela me puxou para levantarmos do tronco.
Vamos voltar para a festa, sim? Falar tanto de amor assim, me deixou com saudades do Jasper.
Mesmo depois de tanto tempo juntos?
Acho que isso nunca vai mudar, querida.
Ela respondeu com total convicção no que falava. Eu sou uma pessoa positiva, é de minha natureza.
Então resolvi dar uma chance à tudo que a tia Alice tinha me falado. Empurrei todas as razões para eu
não ficar com Jacob em um compartimento fechado e isolei em minha mente, para que elas não me
atrapalhem nos desafios desse romance épico como minha tia usou como exemplo que se segue agora.
Tenho que admitir que me sinto melhor agora.
Voltamos à festa e todos estavam ao redor da fogueira, conversando. Encontrei meus pais onde eu os
havia deixado, conversando com Billy e agora meu avô Charlie tinha se juntado à eles. A tia Alice sentou-se
ao lado do meu tio Jasper. E eu resolvi ficar com meus pais.
Billy, vocês já sabem porque aqueles invasores te atacaram?
Ainda não Edward. Eles falaram alguma coisa sobre vingança do que fizemos aos seus antepassados e
outras coisas incoerentes. Não dava para entender muito bem o que eles falavam.
Ele franziu o cenho.
Quer que eu deixe alguns policiais aqui para ajudar?
Ofereceu meu avô Charlie, fazendo Billy suspender o canto da boca.
Obrigada amigo. Mas não acho que seja uma boa idéia para a integridade física deles e para a
permanência do nosso segredo aqui da reserva. Se você consegue me acompanhar.
Ele colocou a mão no ombro de meu avô.
Droga! Eu odeio me sentir um completo inútil nesse mundo sobrenatural.
Meu avô Charlie colocou suas mãos em seu cinto. É um hábito dele. Acho que ele se sentia mais
confortável assim. Bem no estilo cowboy, coisa que sempre achei característico dele. Não foi criado em
fazenda, nem nada semelhante, mas ele tem um jeitão de cowboy de faroeste antigo às vezes.
Entendo pai. Eu também me sentia assim antes. Por isso que agora eu treino.
Minha mãe tentou acalmá-lo, mas acho que o efeito foi contrário.
Eu gostaria que você também não estivesse envolvida nesse mundo sobrenatural, Bells. Sem ofensas
Edward.
Ele adicionou rapidamente levantando uma mão para meu pai.
Mas eu dormiria melhor a noite, se eu soubesse que você a e pequena estão seguras e longe de tudo
isso.
Não me ofendi. E pode se sentir mais seguro Charlie. Porque eu, e acredito que estou falando também
em nome de minha família, não deixaríamos que nada acontecesse de ruim com nenhuma das duas.
Meu pai usou uma expressão muito séria, com a mandíbula rígida e seus lábios em uma linha reta.
É isso aí Edward. Nada nem ninguém vai se aproximar delas.
Berrou meu tio Emmet do outro lado da fogueira. De repente percebi que todas as conversas paralelas
haviam sido cessadas para que a atenção ficasse no assunto mais sério atualmente, os invasores, seus
objetivos e a segurança de todos.
Sam? Existe alguma informação nova sobre eles?
Meu tio Jasper estava no modo negócios. Me surpreendeu um pouco porque como regra geral, ele é
bastante calado. Sobretudo em um local onde não é de seu domínio. E a reserva Quileute certamente não
era.
Temos feito rondas mais freqüentes, porém somente sentimos o cheiro e vimos rastros algumas
poucas vezes.
Acho que eles foram embora com medo de nós.
Falou Embry todo orgulhoso, tomando um belo soco no braço por Leah em seguida.
Quil ia começar a rir quando olhou para expressão séria de Sam e depois olhou para Jacob, que apenas
acenou negativamente com a cabeça.
Que belos ajudantes você achou heim, Jake?
Nem me fale. Quer eles de volta, Sam?
Só se você me pagar uma boa quantia.
104
Para encerrar as brincadeiras, Sam voltou ao assunto.
Não acho que seja assim tão fácil, Embry.
Concordo com o Sam. Devemos manter nossas rondas, fechando o cerco onde pudermos e todos têm
que ficar atentos. Nós não sabemos o que eles querem e nem quando podem atacar. Pode ser fatal e não
queremos perdas em nosso lado.
Parece que Jacob também estava no modo negócios. Ele olhou pausadamente para os componentes do
seu bando e depois para meu pai, como se incluíssem os Cullens na fatia deles.
Billy, você se lembra da lenda da terceira esposa? Pergunta tola, me perdoe. É claro que você se
lembra. O que quis dizer foi: vocês pensaram a respeito dela em relação à esses invasores?
Meu pai abaixou a voz para perguntar isso. Não entendi o porque, já que quase todos aqui tem super
audição. Talvez para não fazer alarde sobre o assunto.
O que você quer dizer?
Perguntou Billy.
Bem, quando o Jacob estava nos contando, sobre o ataque à vocês dois, eu comecei a juntar os
pontos. Eles podiam se metamorfosear, falaram em vingança dos seus antepassados, sobretudo sobre os
Black descendentes diretos do antigo líder então eu comecei a me lembrar da história da terceira
esposa e principalmente do traidor. O que mais me intrigou foi a época que ele ficou no corpo antigo do
Chefe Taha Aki e casou-se com algumas jovens. Me pergunto se ele teve filhos.
Billy parecia chocado e seus olhos desfocaram por alguns momentos. Tentando se lembrar com
precisão dos detalhes da história de seu povo.
Não existem provas, mas comenta-se que ele teve sim alguns filhos, permaneceram com nosso povo,
mas os filhos dos seus filhos resolveram ir embora porque existia uma certa animosidade por parte de
alguns integrantes da tribo. Você está tentando dizer que esses dois invasores são descendentes do
traidor Utlapa enquanto estava usando o corpo do nosso chefe?
Billy estava pasmo. Vários olhares estavam com ele, na expectativa da resposta.
Não posso afirmar nada. Mas esses indícios são fortes e a possibilidade existe. Ele poderia ter tido
descendentes, podendo então herdar o gene da mutação. Afinal quantos povos indígenas vocês
conhecem que podem se transformar em animais? Só poderíamos ter certeza se conversássemos com eles,
o que eu acho meio improvável, se eles vieram em sua vendetta.
Todos se calaram processando a nova possibilidade. Foi Sam quem quebrou o silêncio.
Em todo caso Edward, agora temos pelos menos uma teoria sobre quem são e o que querem.
Vingança. Devemos ficar fortes, ficar juntos e tomar todas as precauções possíveis.
Sam usou um tom de voz forte. Acho que deve ter sido o tom de comando alfa. E para cada frase, ele
fechava o punho e batia no ar como se estivesse batendo em uma mesa. Seus olhos brilhavam com a
luminosidade das chamas da fogueira. Tenho que dizer, ele tem uma presença admirável.
Talvez pudéssemos falar com eles. Esclarecer esse mal entendido.
Eu gostaria que fosse fácil assim, Carlslile, mas não acredito que esses caras estejam com espírito para
reconciliação familiar. Acredite, eu estava lá e eles mal pronunciaram algumas palavras antes de tentar
arrancar os membros de meu pai.
Apesar do tom divertido, Jake parecia muito preocupado. Tanto quanto Sam.
As conversas continuaram por mais algum tempo, claro que todos consideraram as possibilidades
levantadas por meu pai. Nos despedimos, e fomos todos para nossas casas.
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16. Do tipo gostoso, calado e misterioso
No horário de intervalo da escola, estávamos sentadas em nossa mesa de costume. Só que faltando
Jacob e Seth, que estavam fazendo a ronda.
Eu não estava com fome alguma, fiquei meio que remexendo minha comida com o garfo, mas sem
nenhuma relação com a ação.
Desembucha! O que está acontecendo com seu herói lobo?
Passados os segundos do susto, entendi. Tenho que me acostumar com o fato de que ela conhece as
lendas dos lobos e tem mania de brincar com isso.
Do que você está falando?
Do seu protetor? Sabe, aquele com dois metros de altura, muita massa muscular, pele morena, olhos
castanhos e sorriso largo de pura gostosura.
Judy levantou uma das sobrancelhas e me encarou com os braços cruzados.
Ugh! Ele não é meu protetor! Eu não preciso de um. E mesmo que precisasse não seria Jacob.
Ok, então, não precisa enlouquecer. Onde ele está? E cadê a sombra dele, o Seth?
Acho que ela não vai desistir. É melhor eu dar uma explicação.
Eles estão resolvendo algumas questões na Reserva Quileute. Parece que estão acontecendo alguns
problemas por lá.
Olhei para minha comida distraidamente. Pensando no que ele deve estar fazendo nesse momento.
Espero que eles não enfrentem aqueles dois estranhos. Jacob se confia demais em seu tamanho excessivo,
mas pelo que soubemos, um desses caras é ainda maior que ele, fora o fato de poder se transformar em
ursos gigantes e sabe-se lá mais no que.
Certo. Você não quer falar e eu vou respeitar, dessa vez. Que tal mudar de assunto?
Ela esperou minha resposta, mas eu estava sem ânimo nem mesmo para olhar para ela.
Que tal... hmmm...
Usei minha visão periférica para ver que ela colocou uma das mãos sobre seu queixo, pensando e
olhando em todas as direções. Provavelmente pensando no que poderia me distrair.
Já sei! Que tal conversarmos sobre aquele cara ali. Me parece ser bem do tipo gostoso, calado e
misterioso.
Eu não queria ver ninguém. Não estava com espírito para brincar de avaliar os garotos.
Ah vai, pelo menos olha! Deve ser novo, nunca o vi aqui na escola. O novato é bem gato e se veste
muito bem, de uma maneira tradicional para mim, mas ainda assim o efeito é bom naquele corpo todo. De
fato, ele até que se parece um pouco com seu protetor. Só que numa versão mais compacta e talvez
mais novo.
Que diabos ela estava falan... quando olhei para cima, foi somente para confirmar o que eu já
desconfiava. Era Nahuel. O incrível é que Judy usou a mesma descrição que eu dei para ele no dia das
compras em Port Angeles. Pena que ela não pôde ir. Senão teria conhecido ele na ocasião.
Ela estava certa mais uma vez. Ele estava muito bem vestido. E quente. Usava um par de calças caquis
com corte tradicional, uma camisa social azul clara com as mangas dobradas até perto dos ombros, o que
mostrava boa parte dos seus músculos bem definidos. Definitivamente bem vestido e quente. Essa
precisão dela está começando a me dar nos nervos.
Ele veio andando em nossa direção deixando ela de boca aberta. Não pude deixar de me sentir
divertida pelo fato de eu conhecê-lo e ela não. E pior, dele estar vindo em nossa direção logo depois dela
usar tantos adjetivos desconcertantes sobre ele. Há!
Mas o que...
As palavras morreram antes dela terminar a frase. Ele tinha chegado até onde estávamos.
Oi Nessie.
Virou-se educadamente para Judy e a cumprimentou formalmente, como já é bem característico de sua
personalidade. Eu ainda me surpreendo em ver um cara que foi criado na selva sul-americana, cercado de
animais e com pouco convívio com vampiros e ainda menor com humanos, ser tão educado. Chega a ser
irritantemente formal. Acho que foi da época que ele tentou conviver com seu pai e suas meio-irmãs.
Judy limpou a garganta para que eu saísse de minha tagarelice mental e apresentei um ao outro.
106
Nahuel, essa é minha melhor amiga Judy. Ela é meio estranha, mas se você esquecer o look dela, vai
perceber que é uma pessoa maravilhosa.
Apontei minha mão em direção a ela, que fez uma careta para mim e estendeu sua mão para Nahuel.
Judy, esse é Nahuel. Ele é...hmm... como um protegido de meu avô Carlslile. Ele está passando uns
tempos conosco.
Encantado.
Prazer... er... Nahuel, certo?
Ela ficou meio tímida. O que com certeza não é de seu feitio. Ela só fica assim com caras com
potencial como ela mesma chama.
Sim, senhorita.
Ela deu um sorrisinho e olhou para mim. Como se eu tivesse dado uma facada nela pelas costas.
O que? Eu falei sem som, quando olhou para mim daquele jeito. Ela discretamente apontou para ele
com a cabeça.
Então Nessie, como é que eu não sabia da existência de Nahuel até hoje? Pensei ter ouvido você falar
que eu era sua melhor amiga.
Fel escorria em suas palavras. Droga! Ela vai arrancar minha cabeça depois que ele sair. Eu tenho que
dar um jeito nisso!
Ele... er... bem... eu ia te apresentar a ele naquele dia que fomos fazer compras em Port Angeles.
Nahuel não sai saía muito então, eu e minha avó Esme resolvemos dar um banho de loja nele e
aproveitar para fazer um tour pelo local. Aquele dia que você disse que ia resolver algumas coisas para sua
avó, lembra?
Não tem problema eu chamar Esme de minha avó porque já expliquei para Judy que eu a considerava
assim e que Esme tinha alguns traumas com filhos, portanto adorou. Sacudi minha cabeça, como se
estivesse insinuando para ela dizer sim.
Uhun. Certo.
Nahuel parecia confuso com nossa cena. Então tratei de mudar de assunto.
Então Nahuel, você decidiu se vai estudar conosco?
Essa é boa. Eu adoraria mostrar a cara de interesse que ela fez quando eu disse isso para ele! Estou
certa que ela iria negar até a morte.
Ainda não decidi. Vim hoje para olhar um pouco por aí e quem sabe fazer minha cabeça.
Judy andou em sua direção, colocou seu braço cruzado ao dele enquanto o arrastava para as
dependências da escola.
Pode deixar isso comigo Nessie! Eu tomo conta do rapaz. Vou mostrar tudo que tem de bom em nossa
pequena, porém confortável escola.
Nahuel me olhou com verdadeiro pavor! Isso está ficando cada vez melhor. Nessas horas que é que
sinto falta de andar com uma câmera nas mãos. Ele pode estar até assustado com a situação de controle e
tudo, mas tenho certeza de que sem tem alguém que pode convencê-lo a ficar aqui. Esse alguém é a Judy.
Enquanto eles rumavam ao ginásio de esportes, eu voltei para minha mesa e fiquei por lá mais alguns
minutos. Ainda não comendo nada. Perdida em meus receios.
Leah passou pelo outro lado da cantina e eu pensei: é agora ou nunca!
Quando me aproximei dela um pouco, chamei pelo nome, mas parece que ela não me ouviu, pois nem
virou.
Leah! Espera!
Tentei mais uma vez e ela não demonstrou nenhuma reação. O que acontece com essa garota?
Leah, pare! Precisamos conversar.
Segurei seu braço para que ela me desse atenção. Ela olhou para mim sem expressão alguma, como se
fosse um fantasma. Por um momento fiquei preocupada que tivesse acontecido alguma coisa com Jake ou
Seth, mas descartei logo porque se fosse esse o caso, ela certamente não teria vindo para escola e minha
família teria me avisado. Não teria?
O que aconteceu? Jake e Seth estão bem?
Ela olhou para minha mão que segurava seu braço como se fosse arrancá-la a dentadas a qualquer
momento. Para evitar uma cena na escola resolvi tirar.
107
Eles estão fazendo a ronda.
Disse simplesmente e continuou sua caminhada. Eu a segui.
Por que você está assim então? Parece que viu um fantasma.
Ela olhou para baixo tristemente. Eu estava chamando-a para dar-lhe uma boa lição de como tratar
Jacob, mas vendo-a assim, a única coisa que eu queria era ajudar de alguma forma. Ela parecia muito mal.
Sentou-se num dos bancos do pátio e eu sentei-me ao seu lado.
O que você ainda está fazendo aqui?
Jesus! Alguém acordou de mau humor hoje... se bem que conhecendo Leah, acho que ela sempre
acorda de mau humor.
Só estou tentando te ajudar. Por que você é assim tão agressiva?
Ela deu de ombros ainda sem falar nada.
Olha Leah eu não sei que diabos eu fiz para você me odiar e honestamente não estou nem um pouco
interessada em saber no momento. Mas acho que você está com algum problema sério. Tem certeza que
não quer se abrir comigo?
Eu estava a ponto de desistir e me levantar daquele banco quando ela olhou para mim, mordendo o
lábio inferior. Talvez pensando se falava o que estava acontecendo ou não. Resolvi dar mais alguns
segundos para ela.
Eu odeio ser uma loba!
Só isso? Depois de todo esse tempo ela vem falar algo que todo mundo sabe? Afinal ela nunca
escondeu esse fato. Esperei que ela falasse mais alguma coisa. Nada.
Er... Leah, eu meio que já sabia disso. Você vive falando coisas do tipo, mas nunca pareceu te afetar
tanto como hoje. Aconteceu alguma coisa?
Você sabe porque eu faço parte do bando de Jacob e não do Sam certo? Como não saber... todo
mundo sabe.
Falou com amargura.
Por causa do Seth?
Hmm... parece que aquele cabeça oca do Jacob não deu com a língua nos dentes afinal das contas.
Ela murmurou pra si mesma. Eu fiquei ali, sem falar nada. Ela deve ter percebido que eu estava na
mesma e continuou fazendo cara de ser a coisa mais óbvia do mundo.
Como tem o lance do imprinting do Jacob, eu imaginei que ele devia ter te dito o porque de eu fazer
parte do bando dele. Não foi só pelo Seth.
Será que vou ter que tirar à força as palavras de sua boca? Ela consegue ser mais calada que Nahuel,
que pelo menos agora conversa mais.
Então, o que tem mais?
Você deve saber que eu namorava o Sam, certo?
Ela olhou de soslaio para mim, com uma voz calculada.
Soube disso.
E que logo quando ele começou a se transformar em lobo, teve um imprinting por Emily, que é
minha prima.
Então são problemas com garotos, hun?
Ela rangeu os dentes para mim. Eu juro que não quis parecer dar menos importância ao problema. Eu
bem que sei como os garotos são uma complicação.
Ei, não me olha assim! É que pela sua cara pensei que alguém tinha morrido.
Quem me dera.
Ela praticamente sussurrou. Eu olhei espantada para ela porque mesmo sendo rude o tempo todo,
ainda é bastante protetora com seu povo.
Olha aqui, eu não queria essa vida ok? Na verdade eu sou uma aberração. A única mulher a me
transformar em lobo, o que é automaticamente ser a mais esquisita entre os esquisitos. A droga de Rainha
dos estranhos!
Rainha dos Estranhos? Sei, até os Simmons já me deram esse título. Acredite, eu entendo de
estranheza.
108
Você acha isso esquisito? Tente ser meio-humana e meio-vampira, numa família que se alimenta de
animais e não de sangue humano, com um avós humanos e sua melhor amiga humana, além de seu
melhor amigo homem-lobo.
Acredite em mim. Tem coisas piores.
Como o que?
Eu não conseguia ver algo que fosse mais estranho do que isso.
Como, por exemplo, você te que compartilhar todos seus pensamentos mais íntimos com os outros
sem sua permissão?
Olá? Meu pai lê mentes! E olha que estamos falando de meu pai e não de alguns amigos.
Ponto para você! Mas e que tal você não ter privacidade sobre seu corpo enquanto está mudando de
uma forma para outra? E ainda ter entre seus amigos seu ex-namorado por quem você ainda tem
sentimentos, mesmo ele sendo escravo de outra, que é sua prima?
Touché! Imagino que isso deva ser bem constrangedor.
Ela olhou para baixo com vergonha.
Tem ainda pior.
As palavras saíram de sua boca como um suspiro. Eu certamente não ouviria se não fosse meiovampira.
O que poderia ser pior?
Deixa para lá. Não é de sua conta.
Deus, como você é irritante às vezes.
Às vezes? Pensei que era sempre. Acho que minha fama está enfraquecendo.
Ela deu um pequeno sorriso azedo que logo se desfez.
Quer saber, esquece tudo que falei. Não desejo o mal de ninguém, mas...
Mas?
Ela ponderou se deveria continuar.
Mas eu também não sou masoquista e ficar vendo certas coisas que ainda me magoam, mesmo eu
tentando não me importar.
Entendi. Ela deve ter visto Sam com Emily ou algo assim.
Então você decidiu se afastar um pouco?
Há! Quase isso.
Por que a cara de divertimento?
Eu não me afastei, me mandaram afastar. Na verdade ver Sam e Emily quase não me machuca mais
graças a Deus. Agora meu problema é outro e...
E?
É tão difícil fazer essa garota falar.
Agora ser parte desse bando miniatura de Jacob está começando a me afetar.
Ela parecia distraída em seus pensamentos, como se eu não estivesse ali e que ela estivesse
conversando consigo mesma em voz alta.
Afetar? O que aconteceu exatamente?
Deixa para lá. Você, de todas as pessoas, é a que menos deve saber sobre esse meu problema.
Ela sacudiu a cabeça, parecendo ter percebido a platéia.
Me fala. Quem sabe eu não posso ajudar. Dizem que sou boa ouvinte.
Tentei usar minha melhor cara de simpatia. Admito que tenho curiosidade sobre ela. Sempre foi muito
reservada, durona e agressiva. Sempre me perguntei se não existe mais por debaixo da máscara da beta do
bando.
É que... realmente não é de sua conta e envolve outras pessoas. Não vou falar. Esquece!
Ela levantou-se rapidamente e começou a andar, comigo em seu encalço. Quando eu finalmente faço
essa garota falar alguma coisa, ela vai embora na parte mais interessante.
Já te disseram que você pode ser muito irritante?
Já. Se não me engano você mesma falou agora há pouco.
Continuou andando. Um poço de mau humor, principalmente para mim.
109
Você não vai me contar o que aconteceu no seu bando em miniatura, como você mesma chamou,
para te deixar nesse estado?
Não. Minha mente já está confusa demais para ficar colocando gente que está envolvida na história.
Ugh! Não importa que estejamos na escola e que temos um tratado de paz com os lobos. Eu vou
morder ela!
Chega. Eu não vou ficar te pedindo para me contar seja lá o que for. Se é problema seu, resolva só, já
que ajuda não parece interessar a loba durona.
Que bom.
Bom mesmo!
Silvei. Não queria de verdade que ela sofresse mais. Parecia que ela já estava passando por um mal
bocado, eu querendo ajudar e ela sendo rude comigo, sem nenhuma razão aparente. Acho que vou fazer o
que sempre me mandam: cuidar de minha vida.
Dei as costas para ela e comecei a andar, quando me lembrei porque eu puxei esse papo para início de
conversa. Para exigir que ela trate Jacob melhor.
Rodei meus calcanhares e adiantei meus passos para alcançar ela.
Leah, ainda temos o que conversar.
Não temos não.
Ela falou sem interromper seus passos.
Não é sobre você!
Isso deve ter chamado a atenção dela.
Sobre quem então?
Bem, na verdade É sobre você.
Ela rolou os olhos e recomeçou a andar.
Me escute, é sobre você e o Jacob.
Ela ficou pálida e rígida.
O que tem nós dois?
Ela tremeu um pouco para falar, mas levantou o queixo em desafio.
Você tem que parar de fazer isso.
Isso o que?
Tratar ele tão mal. Ele não escolheu ser lobo, assim como você. E tão pouco escolheu ser um alfa, o
que já o faz cobrar demais de si mesmo. E você não ajuda nada soltando seu mau humor nele!
Não é de meu feitio, mas apontei o dedo acusatoriamente para ela. Acho que seu mau humor passou
para mim.
Tratar ele mal?! Tratar ele mal? Você só pode estar brincando! Depois de Seth quase ser morto
porque nosso destemido líder estava brincando de herói, em armadura reluzente, montado em seu cavalo
branco para a princesinha aí, ao invés de cobrir sua retaguarda?
Ela apontou para mim com seu lábio inferior em desprezo.
Em primeiro lugar, eu não peço para ele ser meu herói, nunca pedi. Em segundo, você sabe que Seth
não iria se machucar, ele sabe se defender sozinho e tem os outros lobos que sempre fazem a ronda. Você
mais do que ninguém, já que compartilha o pensamento com ele, deveria entender que ele tem o
imprinting e que não pode controlar.
Certo, muito conveniente para você, hun?!
Que baboseira é essa que você está falando? Você acha que eu gosto que Jacob tenha esse maldito
imprinting comigo? Se você soubesse...
Graças a Deus consegui fazer as palavras morrerem antes de desabafar. Que por mim ele não teria
imprinting algum. Para eu saber ao certo se ele gosta de mim ou só é obrigado por um instinto de
procriação para uma melhor geração de lobos, segundo a teoria de alguns dos anciões. Ou ainda porque
ele pode ter tido esse imprinting comigo como premio de consolação por não conseguir ficar com minha
mãe.
Ela me olhou meio desconfiada, processando as informações que dei com uma sobrancelha arqueada.
Acho que falei até demais.
Quer saber Leah, eu é que vou embora! E se você maltratar o Jacob novamente vai se ver comigo!
110
Uuuhhh! Estou morrendo de medo, princesinha sanguessuga. Corram para as colinas! Salvem suas
vidas!
Ela mudou a entonação da voz para ficar mais irritante ainda. Sé é que isso é possível.
Mãe, se você soubesse como tem sido difícil manter minha promessa para você! Como eu adoraria voar
na garganta dessa metida agorinha mesmo.
Sua, sua... ah esquece! Está avisada! Eu nem vou mais perder meu tempo com você!
Dei as costas para ela novamente, respirando fundo, contando as batidas do meu coração para ajudar a
me acalmar. O que não funcionou muito bem porque estavam aceleradas de raiva e frustração. Me afastei
dali o máximo que pude para manter minha promessa com minha mãe. Preciso de uma distração
urgentemente! Acho que vou procurar Judy e Nahuel para saber como anda o tour dele em nossa escola.
Fui andando em direção ao ginásio de esportes o último local para onde os vi se dirigindo. A quadra
estava com aula de outras turmas. Olhei ao redor e encontrei Judy sentada ao lado de Nahuel na
arquibancada. Eles pareciam bem à vontade, claro que Judy muito mais do que ele.
Tentei usar um tom alegre. Só porque eu estava tendo um dia daqueles, não precisava descontar em
meus amigos. Como algumas pessoas que conheço!
Olá garotos! Posso me sentar com vocês?
Fui me sentando e respirando fundo para me acalmar. Os dois me olharam com suspeita, mas ficaram
calados. Eu agradeci aos céus por não ter que repetir a cena deprimente.
Então, quem está ganhando?
Eles se olharam por uns instantes e começaram a rir.
O que eu falei?
Se você estivesse realmente aqui perceberia que é uma atividade de aquecimento. Ainda não tem
jogo nenhum, de absolutamente nada, acontecendo nesse momento.
Judy ainda me olhava com uma expressão irônica. Bem característica dela.
Oh, ok. Me desculpe.
Pela falta de atenção ou por quebrar totalmente um clima que começava a se formar aqui?
Ela sussurrou em meu ouvido, inocentemente do fato de Nahuel, com certeza, ter ouvido. O que foi
confirmado quando olhei para cara envergonhada que ele fez em seguida ao comentário dela. Para salvar
minha amiga, resolvi mudar de assunto.
Então Nahuel, o que achou das acomodações da escola? Não são excepcionais, mas conseguem
atender as nossas necessidades. O que mais importa aqui são as pessoas e nesse quesito estamos bem.
Olhei para Judy e sorri abertamente. Ele pensou um pouco e quando começou a responder foi
interrompido pelo Pudim, quer dizer Josh Simmons.
Vou ter que pedir para meu pai o Prefeito que fale com o Diretor Bown para não transformar essa
escola em uma extensão da reserva daqueles índios.
Uau Josh! Você sabe falar extensão. Estou abismada com seu vasto vocabulário!
Judy não perderia uma oportunidade como essa, é claro. Segurei o riso na seqüência. Ele não perdeu o
sorriso debochado em sua feição, mas ao olhar Nahuel que estava há um passo de começar mostrar os
dentes para ele resolveu não continuar com seu discurso ridículo.
Você pode falar o que quiser, mas aqui não é o lugar desses selvagens.
Agora quem estava para mostrar os dentes para o Josh era eu. Surpreendentemente, quem tomou a
frente na defesa dos índios em meu lugar foi novamente a Judy.
Eles têm o direito de estudar aqui como qualquer um. Na verdade, creio que eles têm mais direitos
até do que você Josh.
Ela parecia enfurecida. Pelo que conheço da Judy ela não estava falando aquilo somente por Nahuel,
mas por Jacob, Seth e até a Leah que eram descendentes de indígenas e estudavam na escola. Uma das
coisas que mais me atraíram em ser amiga dela foi seu senso de justiça, assim como ela está advogando
em prol de meus amigos nesse momento.
Eu não sei de que droga você está falando, mas meus tataravós foram os fundadores da cidade e...
Ela o interrompeu antes que terminasse a besteira que ia falando.
E nada Josh. Eu não vou perder meu tempo ensinando história para um cabeça oca como você.
111
Ela cruzou os braços e bufou em indignação. Josh não satisfeito com a confusão que já tinha começado,
com todos olhando para nós, em antecipação talvez para uma briga, foi em direção a ela com olhar raivoso
na face.
Eu me levantei, porque com promessa ou não, eu certamente não iria permitir que o idiota do Josh
fizesse algum mal para minha melhor amiga. Antes de mais nada, Nahuel tomou a frente novamente. Ele
não o tocou, apenas ficou no espaço entre Judy e Josh com um olhar assassino para ele. Foi a primeira vez
que vi Josh fazendo alguma coisa certa, deu alguns passos para trás preventivamente, antes que qualquer
um de nos dois fizéssemos ele em pedacinhos.
Vai embora agora Josh, antes que algo realmente ruim aconteça.
Alertei para ele antes de um estrago maior.
Você está me ameaçando Cullen? Você sabe quem eu sou? Eu sou...
Um Pudim.
Nahuel falou isso com a maior calma, como se estivesse falando da cor dos cabelos de Josh. Todos que
viam a cena começaram a rir incessantemente, inclusive eu e Judy. Nahuel manteve-se sério o tempo todo,
mas com a aparência tranqüilizadora. No caso, ainda mais assustadora.
Do que você me chamou mestiço?!
Josh cuspiu as palavras. Nahuel deu outro passo ameaçador para frente, fazendo Josh recuar pelo
menos mais uns três passos de onde estava.
Pudim. Branco, doce demais, enjoativo e mole.
Mais uma leva de risos se espalhou pelo ginásio, que agora estava ainda mais cheio porque as notícias
de uma possível briga envolvendo Josh e um grandalhão índio segundo eu soube depois estava para
acontecer. Um riso gutural saiu de mim. Eu quase não consegui parar para avisar Josh novamente, para ir
embora, para sua própria segurança.
Ele parecia perdido, não sabia se tentava a sorte com Nahuel em uma luta mano-a-mano, que seria
desastroso para a possibilidade de entrada de Nahuel na escola e fatal para Josh. Além de não ajudar
muito no nosso processo de não chamar a atenção para nós.
Parece que no seu conflito interno, o instinto de sobrevivência dele falou mais alto e foi embora
resmungando algumas coisas que definitivamente não valem a pena serem repetidas.
Coloquei uma mão cautelosamente no ombro de Nahuel e perguntei se ele estava bem. Ele sinalizou
que sim com a cabeça e virou-se para Judy.
Você está bem? Quer que eu faça algo por você? Como arrancar a cabeça dele?
Ele murmurou a última parte muito baixo para que ela não pudesse ouvir, mas eu o olhei com
reprimenda aparente, só que uma pontinha de vontade de rir.
Nah. Estou bem. No dia que eu perder minha razão por um tipo como o Josh, pode me internar.
Ela arrumou suas roupas e sacudiu seus cachos em retirada do ginásio que começava a esvaziar já que
não teria o show prometido.
Seguimos os três calados por um momento. Interrompido por uma gargalhada nervosa de Judy,
sussurrando para si mesma.
Pudim. Há! Essa foi ótima!
Ela sacudiu a cabeça rindo.
Aposto que o apelido vai ficar forte por pelo menos uma semana, com um pouco de sorte, duas.
Pisquei pra ela.
Nos despedimos de Nahuel, que tinha que ir embora para ajudar meu vô Carlslile com umas pesquisas e
fomos para nossas aulas ainda excitadas com tudo que tinha acontecido. No meu íntimo eu estava
antecipando a bronca que levaria do Esquadrão Nessie por tudo que aconteceu, mesmo não sendo
minha culpa, bem, pelo menos não inteiramente.
112
17. Se eles querem um pedaço de mim
Seth tinha ficado para ajudar o Professor de Educação Física, o Sr. Gibbons, a colocar em um depósito,
os equipamentos novos que acabavam de chegar na escola. Era um material muito pesado e volumoso.
Imagino que por isso mesmo ele o tenha chamado, junto com uma dezena de outros alunos com aparência
forte.
Ele certamente teria acionado o Jake também, mas ele não veio para escola hoje por causa da ronda,
porém ele obrigou Seth e Leah a virem. Ele achou que eles estavam sendo muito prejudicados com tantas
faltas na escola, com essas rondas constantes. Quer dizer que ele também não está sendo prejudicado?
Eu sei que essas rondas são necessárias por causa dos invasores, mas poderiam ser melhor divididas
entre o bando do Jake e o do Sam. Como não estava no meu papel me meter nisso e também porque na
única vez que abri a minha boca para reclamar dessa situação, Sam e Jacob me mandaram ficar fora disso,
preferi cuidar de minha vida.
O dia passou muito lento, mas por sorte, algumas das minhas aulas foram dispensadas porque os
professores tinham pego uma gripe ou algum outro vírus que seja. Eu estava com a tarde livre e queria ir
embora para minha casa.
Eu sabia que meus pais e tios ainda tinham aula, então fui checar se Seth tinha acabado a ajudinha
que tinham pedido para ele, quando vi mais um caminhão chegar com outra leva de equipamentos.
Parece que esse tinha ficado na estrada por problemas mecânicos e só havia conseguido chegar na escola
agora. Seth juntou os lábios em uma linha reta e deu de ombros, se desculpando por não me acompanhar
de volta pra casa. Eu poderia esperar, mas estava entediada demais, chateada demais e só queria ir para
minha casa.
Peguei o mesmo caminho de sempre, pela floresta. Após alguns quilômetros, ouvi barulhos estranhos
atrás de mim. Será que os invasores vieram atacar aqui? Tão longe da reserva e perto de tantos
humanos? Não pode ser.
Mesmo não sabendo o que procurar, suguei a maior porção de ar que pude, para tentar sentir o cheiro
deles, mas o vento não estava ao meu favor. Não consegui encontrar nada. Usei todo meu conhecimento
de batalha, que aprendi observando os treinamentos de minha mãe com meus tios e tias.
Achei a árvore com o maior tronco possível, para cobrir minha retaguarda. Visualizei rotas possíveis de
fuga e me firmei em posição de combate, com as garras prontas. Um rosnado feroz instintivo se formou
em minha garganta, mas consegui controlar a intensidade para não dar minha posição ao inimigo tão
facilmente.
Consegui ouvir mais alguns barulhos em uma direção da floresta, me virei quase que instantaneamente
àquela direção, mas no segundo seguinte o barulho vinha de outro lado, de outro e de outro. Só me
restavam duas possibilidades, nenhuma melhor que a outra. Eles me superavam em número ou era um ser
muito rápido. Nos dois casos, eu não teria um bom momento pela frente. Mas se eles querem um pedaço
de mim, que venham pegar. Eu não me entregaria sem uma boa luta.
Chequei novamente todos os pontos das técnicas estratégicas ensinadas pelo meu tio Jasper e me
preparei. Quando o som me pareceu mais próximo resolvi provocar, para quem sabe conseguir uma
identificação do meu oponente ou pelo menos uma melhor noção de sua posição, melhorando assim
minha estratégia de ataque ou defesa.
Quem está aí? Apareça covarde!
O silêncio permaneceu. Só havia os sons da floresta.
Apareça de onde quer que você esteja, para eu chutar seu traseiro gordo.
Eu estava preparada para quase tudo. Para lutar, para correr ou até mesmo para morrer, menos para a
cena que estava ali em minha frente. Saindo de trás de uma árvore também muito grande, estava Leah
rindo tanto que faltava-lhe o ar.
Que diabos Leah! Pensei que era um dos invasores. O que passou por sua mente doentia para me
dar um susto desses?
Coloquei uma mão sobre meu peito e comecei a respirar mais profunda para tentar fazer meu coração,
que estava muito acelerado, voltar ao seu compasso normal. Me parecia que ela ainda não estava pronta
para parar de rir e me responder. Então resolvi dar-lhe uma ajudinha. Peguei um galho enorme que estava
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no chão e joguei em sua direção. Ela rapidamente se recompôs e desviou do galho, me olhando como se
ela fosse mesmo um perigo de morte para mim. Eu bufei.
Está fora do seu juízo? Você quase me acertou com aquela droga de tronco. Não que fosse me
machucar muito, eu estaria recuperada ao fim do dia, mas o processo iria doer.
Você não me respondeu, então resolvi chamar sua atenção. Parece que funcionou afinal das contas.
Que.diabos.você.estava.fazendo?
Pausei palavra por palavra, para me acalmar e fazer com que aquela obtusa me entenda.
Relaxa princesinha. Eu só estava de olho em você. O chefe mandou, e nós seus humildes lacaios
devemos obediência suprema.
Ela bateu continência de forma zombeteira e continuou com seu monólogo.
Como eu tinha esse dever extremamente chato, achei que merecia um pouco de diversão, então
pensei em te dar... um pequeno susto. E escuta aqui, meu traseiro não é gordo! Está muito bem em forma,
obrigada.
Havia um pequeno sorriso em sua face, mas seu olhar era de pura ira.
Você é doente! Sabia? Sua... sua... arg... chega. É uma perda de tempo. Tenho que ir para casa. Adeus
e não me siga mais!
Dei as costas para ela e tentei acelerar meus passos, sendo que essa atitude foi uma péssima idéia,
considerando o quão irritada eu estava e o que isso normalmente me causa. Tropecei pelo menos três
vezes em menos de dez metros. Mais uma vez: obrigada mãe! Com tanta coisa boa para herdar de você, eu
tinha que ficar logo com isso.
Eu não preciso de babá, ainda menos uma mal humorada e que é propensa a me causar um ataque do
coração. Sádica ao ponto de ainda se divertir muito com isso.
Sussurrei por baixo do fôlego. Mais para mim mesma, do que para ela ouvir. Acho que eu só estava
deixando sair minha fúria. Ela também acelerou o passo e me chamou.
Cara! Depois eu que sou a mau humorada? Foi só uma pequena peça, Princesinha. Onde está seu
senso de humor, hun?! Vou ter que pedir desculpas?
Eu parei, rodei nos calcanhares e cruzei meus braços. Meus pés batiam repetidamente no chão em sinal
de irritação suprema. A encarei com meu melhor olhar assassino e esperei.
O que? Você realmente não está esperando por desculpas, está?
Parecia realmente surpresa. Eu já devia ter imaginado. Voltei a minha tentativa de corrida para casa.
Desculpa, ok? Satisfeita? Foi só uma brincadeira. Pelo amor de Deus! Quanto drama!
Ela levantou os braços exasperadamente. Eu desacelerei um pouco me decidindo se a perdoava por sua
brincadeira de extremo mal gosto considerando o momento que estamos passando com os invasores
ou se quebrava-lhe o focinho. Como ela totalmente merecia!
Por causa do bom relacionamento com o povo da Reserva, resolvi tentar a primeira opção. E se desse
errado, com muito prazer, daria um soco certeiro no meio da cara dessa cadela. Com tratado de paz ou
não! Que se dane!
Você é incapacitada mentalmente? Ou só estúpida mesmo?
Cuspi as palavras, enquanto colocava minhas mãos na cintura e me virava para encarar Leah.
Esqueceu que existem dois lunáticos assassinos rondando a área por qualquer um de nossos
pescoços?
Adicionei. Ela parecia relaxada, talvez até demais. Simplesmente deu de ombros.
Não foi nada demais, só uma brincadeira, como venho tentando explicar nos últimos vinte minutos.
Não precisa fazer um cavalo de batalha sobre isso.
Em sua voz de desdém. Quase que sua voz padrão.
Nada demais, hun? Não se deve brincar com uma coisa séria como essa Leah! Você acha que as
rondas que todos nos bandos estão fazendo são inúteis ou por brincadeira?
Acusei. Ela deu um passo para trás e depois andou em minha direção com o dedo empunhado.
Escute aqui sua princesinha mimada do mundo da vapirolândia. Eu fiz parte das rondas e sei o quão
importante elas são. Não me venha com lição de moral. Não você, que fica no conforto de sua casa
enquanto nós, os Quileutes, ficamos como seus mascotes fofinhos circulando a casa como cães de guarda.
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Ela cuspiu as palavras com desprezo e ainda usando seu dedo indicador como provocação. Eu rosnei tão
alto que ela se afastou e começou a tremer. Eu consegui me controlar. Por um fio, apenas. Ela parece ter
conseguido se controlar também porque seus tremores haviam diminuído.
Escute aqui você! Nós não pedimos para vocês fazerem isso em momento algum. Se estão fazendo
isso é porque seus líderes estão preocupados em pegar esses caras, para que não sejam um risco de morte
para um de seus familiares, amigos e humanos que possam eventualmente se envolver.
Agora foi minha vez colocar meu dedo em seu focinho. Ela calou-se, mas não perdeu o orgulho. Me
pareceu que ela pensou em algo para falar, preferiu engolir o que quer que tenha sido. Simplesmente
continuou andando. Tomou a frente no caminho.
Você vem ou não?
Ela chamou sem perder o passo.
Por que?
Por que o que?
Por que você agora está querendo me acompanhar pelo caminho? Eu já te dispensei de sua tarefa.
Se o Jake te der algum trabalho quanto a isso, eu me acerto com ele. Você está livre de sua tarefa
enfadonha. Vá! Não quero e não preciso de babá.
Não estou mais como babá. Quer companhia? Quer dizer, estou indo nesse caminho mesmo.
Ela colocou suas mãos nos bolsos e olhou para o chão. Seria uma tentativa de trégua? Prefiro pensar
que sim porque se ela aprontar novamente, juro por Deus que ela vai virar cachorro-quente no espeto.
Só se você prometer parar com sua tentativa fracassada de ser engraçada e andarmos em silêncio.
Isso eu posso tentar. Então é um acordo?!
É um acordo.
Sem mais nenhuma palavra, recomeçamos a andar em nosso caminho. Passados por volta de quinze
minutos de silêncio, ela falou.
Sabe, você não é tão ruim quanto eu pensei.
Jesus! Que elogio, hun?! O que você quer dizer?
Que você não é tão delicadinha e mimada quanto eu pensei que fosse. Quer dizer, você até é mesmo.
Mas sabe se impor pelo que acredita, sem precisar que ninguém faça isso por você. E isso hoje em dia, é
raro.
De onde veio isso. Quer dizer que a receita para sua aprovação é ser rude com ela? Vai entender. Só
pode ser louca mesmo.
Pois eu ainda acho você tão mau humorada e agressiva como antes.
Provoquei. Agora um pouco mais relaxada.
Há! Talvez você esteja certa sobre mim. Pelo menos não é tão ofensivo quanto o que algumas pessoas
já pensaram ao meu respeito.
Eu pensei que ela iria responder com alguma piadinha infame, mas acho que não era bem o seu espírito
no momento. Ela sacudiu a cabeça para apagar alguma má recordação e continuamos andando em
silêncio. Ficamos sem nos falar por mais alguns minutos. Absorvendo o que falamos uma para outra. De
repente ouvi mais barulhos estranhos por detrás de algumas árvores ao leste de onde estávamos.
O que foi isso? Você ouviu?
Perguntei para Leah. E no mesmo segundo, já estávamos prontas para a ação caso fosse necessário. Ela
tomou um pouco a minha frente, como um guarda-costas faria. Fiquei surpresa e até grata, mas como falei
antes, eu não quero babá. Então me posicionei ao seu lado. Ela não insistiu na posição onde estava.
Será que é o Seth? Ele pode estar nos pregando uma peça como eu fiz há pouco?
Não acho Leah, quando saí da escola ele ainda estava lá para descarregar e armazenar um caminhão
de equipamentos na escola.
Ficamos de costas uma para outra, para cobrirmos nossa retaguarda mutuamente. Senti seus músculos
tremendo em estado de alerta para o perigo.
Droga. Rezei tanto para que tivesse alguma ação e tinha que ser logo hoje que estou usando minha
blusa favorita? Eu não sou como você, sabe, que tem dinheiro para comprar qualquer roupa a qualquer
momento.
115
Leah resmungou. Eu ignorei. Os barulhos estavam mais próximos e de repente cessaram. Imaginei que
era apenas nossa imaginação ou algum animal de passagem. Contudo, duvido que sejam animais porque
eles não se aproximam de nós, vampiros ou lobos. Sabem do perigo que correm.
Antes que eu elaborasse outra teoria, algo atingiu a Leah bem na lateral do seu corpo. Tinha um pêlo
cor de areia misturado com cinza, cauda longa e peluda, corpo esguio e forte, patas grandes e garras ainda
maiores. Um leão da montanha, muito grande para ser comum, estava atacando Leah.
Talvez grande demais e ousado demais em atacar dois dos melhores predadores do planeta, para ser
ordinário. Tinha que ser um dos invasores.
Ela estava tentando fugir das garras do leão, empurrando-as com as mãos para longe. E antes que eu
me aproximasse para ajudá-la, ela rolou de lado e em apenas um piscar de olhos, estava o lobo cinza Leah
de pé, pronta para atacar. Um rugido ensurdecedor surgiu de sua garganta. Eu me aproximei e me plantei
ao seu lado, ainda observando ao redor. Porque se o leão da montanha estava aqui, certamente o urso
também estaria. Que ótimo, eu pensei. Lá se vai minha tarde de folga.
Tão certa como previsto, um urso pardo enorme surgiu do meio das árvores e vinha em nossa direção.
Era gigantesco mesmo, com Jake tinha falado, mas nem de perto ágil como seu comparsa.
Como Leah já estava acertando suas contas com o leão, achei que era obrigação minha tentar dar conta
do urso. Devido às proporções, acho que ninguém daria conta desse cara. Bem, talvez um guindaste
pudesse fazer algum estrago. Mas tinha que tentar nos defender.
Ao meu favor, sou bastante ágil, mas não tenho experiência em lutas. Usei seu tamanho e desvantagem
de falta de velocidade em meu benefício. Cerquei-o pelos lados, alternando a posição e sempre que podia
usava minhas garras nele, sem muito efeito. Apenas cortes superficiais. Talvez minhas presas funcionassem
melhor, mas se eu me aproximasse dele por muito tempo e ele me pegasse, seria uma luta perdida para
mim.
Minha pele é bastante dura, porém não tanto quanto a de um vampiro completo. Estava aí uma boa
coisa para herdar de meu pai vampiro, mas eu não tenho essa sorte. Outra coisa que me faz muita falta
nesse momento é o veneno, que pelo conhecimento Quileute, é fatal para eles. Há! Mais uma vez minha
sorte. Eu não sou venenosa. Se fosse, bastaria cravar minhas presas nesse brutamonte uma única vez e
adeus urso! O mesmo poderia acontecer com o leão, talvez com a ajuda de Leah para fazer uma distração.
Mas como falei: sorte minha! Yey!
De repente, lembrei-me que a pele dos homens lobo, quer dizer, transmorfos-urso, qualquer coisa, não
são tão duras quanto as nossas, então resolvi tentar uma estratégia diferente. Corri para dentro da floresta
fechada e ouvi Leah uivar. Acho que ela deve ter pensado que eu fugi ao invés de ficar para ajudá-la. Tão
típico da Leah.
Depois de alguns segundos retornei com um galho tão grande quanto o que eu tinha jogado nela, mas
tive tempo suficiente para usar minhas presas para fazer uma ponta afiada em um dos lados. Era uma
estaca rústica. Que irônico, considerando que na mitologia humana, esse é o melhor meio de matar um
vampiro. Enquanto que na vida real, provavelmente não teria nenhum efeito em mim e eu usaria para
matar um lobisomem, ou melhor, um transmorfo. Isso se eu não morrer antes.
O golpe de sua garra direita passou zumbindo perto do meu ouvido. Só houve tempo suficiente para eu
me desviar e tentar uma investida contra ele. Infelizmente para mim, o galho não era resistente o
suficiente e quebrou-se. Lá se vai meu plano brilhante. Ou não. Talvez eu devesse tentar um maior.
Corri novamente para a o meio das árvores e agora Leah não esboçou nenhuma reação, seja porque
não tinha mais dúvidas se eu retornaria ou porque estava muito ocupada tentando manter-se viva, isso eu
não sabia. Eu não tinha tempo para me informar a respeito.
Dessa vez eu derrubei uma árvore com aproximadamente cinqüenta centímetros de diâmetro e uns
bons seis metros de altura. A sorte, para variar, estava do meu lado, pois quando o tronco se rompeu, uma
forma pontiaguda irregular foi criada e eu não tive que perder nenhum tempo precioso para fazer isso.
Como na primeira vez, voltei em apenas alguns segundos e vi de relance Leah desviar das presas do
leão, mas não vi o urso em parte alguma. Olhei ao redor tentando encontrar sua posição sem sucesso.
Leah sinalizou com a cabeça para o sul e eu segui seu olhar bem em tempo de me desviar de mais um
golpe. Dei algumas cutucadas nele para provocar sua ira e fui andando de costas para umas rochas que eu
116
sabia que estavam atrás de mim. Parece que não era uma idéia tão ruim ir pela floresta para casa quase
todos os dias, isso me fez conhecer o terreno tão bem como minha casa, ao contrário do urso.
Depois de mais uma cutucada com a ponta da estaca, causando-lhe um arranhão na face e deixando-o
furioso, ele veio como um vagão descarrilado em minha direção. Eu fingi que o tronco tinha escorregado
de minhas mãos e caído. Quando ele estava há uns sete metros de distância, me abaixei rapidamente,
finquei o fundo de minha lança improvisada na rocha e suspendi a ponta oposta em direção ao seu peito, o
empalando.
Roubei a idéia de um filme épico que eu tinha assistido na semana passada. Acho que posso dizer que a
vida imita a arte nesse caso. Ou melhor a morte imita a arte.
Eu pude ver a dor profunda, mesmo em seus olhos selvagens de urso. Ele começou a voltar a ser
humano, enquanto sua vida se esvaia pela perfuração que eu tinha causado.
Não sei se você poderia chamar aquilo de homem. Estava nu e mesmo não estando em sua forma de
urso, seu corpo parecia enorme, mesmo para um homem lobo. Cabelo curto marrom escuro, olhos
profundamente negros, traços fortes e assustadores. Cheguei a sentir um pouco de pena do pobre,
considerando que ele fora enganado seja lá por quem fora criado, para pensar que os Quileutes eram os
traidores e que foram injustos com seus antepassados. Mas eu tinha que manter minha cabeça no jogo.
O leão rugiu pela perda de seu parceiro e se desconcentrou por um milésimo de segundo. Foi o
suficiente para que Leah usasse sua maior vantagem, a velocidade. Fincou suas presas no pescoço do leão.
Um estalido forte foi ouvido e silêncio. Foi um golpe fatal e limpo. Não houve nem tempo para ele esboçar
algum lamento.
Estava imóvel sobre a poça de sangue no chão encoberto por folhagens, o corpo de um jovem menor
que seu companheiro, magro, também com cabelos curtos, mas não dava para ver a cor dos seus olhos
porque estavam fechados.
Eu e Leah trocamos um olhar de reconhecimento enquanto tentávamos recobrar nossos fôlegos.
Estávamos vivas! Tivemos a sorte de vencer. Não podemos nos enganar dizendo que foi uma luta de
grandes guerreiras, pelo menos não de minha parte. Apenas tive sorte. Muita, considerando que usei uma
estratégia extraída de um filme de Hollywood. Graças aos céus que meus instintos de sobrevivência
prevaleceram no final.
Infelizmente comemoramos cedo demais. Antes que conseguíssemos nos recompor, alguns capuzes
pretos apareceram por entre as árvores. Eu os reconheceria em qualquer lugar. Após tentarem dizimar
minha família e atormentar boa parte da minha infância com pesadelos terríveis, eles voltaram. Como
minha mãe sempre disse que fariam. Os Volturis vieram completar o que começaram há dois anos atrás.
117
18. Morrer com apenas dois anos de vida
Dessa vez não existia um pequeno exército ao nosso favor. Éramos apenas eu e Leah, uma meiovampira
e a única mulher lobo de que se tem conhecimento, contra pelo menos seis deles.
Alguns eu consigo reconhecer. E como não poderia? Criaturas tão majestosas e horripilantes ao mesmo
tempo. Mesmo depois de tanto tempo, suas figuras ainda me assombram. Alec e Jane, os gêmeos bruxos
como são conhecidos. Mas não vejo Demétri ou Félix. Apenas alguns outros que nunca vi. Entretanto,
tendo esses dois liderando o grupo já seria razão suficiente para fazer qualquer um tremer e eu
certamente estava. Senti um calafrio passar por minha espinha.
Ninguém espera morrer com apenas dois anos de vida. Sem se despedir dos seus entes queridos, sem
dizer para meus pais que eu os amo muitíssimo, nunca mais ouvir os conselhos da tia Alice ou ser mimada
pela Tia Rose ou pela vó Esme. Sem nunca conhecer minha avó materna ou dizer ao meu avô Charlie que
eu sentia muito por não ter ido pescar com ele quando tive chance. Tantas coisas, e só no que eu podia
pensar era que eu nunca tinha confessado meu amor ao Jacob, meu Jacob.
Pensar que nunca o beijei, que o amei desde sempre, mas nunca falei isso para ele. Que não me
importo com a idade dele ou a minha, de sermos de espécies diferentes ou seja lá quais forem os outros
motivos, que simplesmente não me ocorrem agora. Eles apenas não me importam mais. São inúteis e
quebráveis.
Enfrentaria qualquer dificuldade para ficar com ele. Eu sempre soube que deveríamos ficar juntos. Até
hoje guardo meu anel de compromisso Quileute que ele me deu quando eu ainda era um bebê, em meu
primeiro Natal. Eu esperava um dia ser capaz de firmar aquele compromisso.
Dizem que quando você está prestes a morrer, sua vida passa em sua frente como um filme. A minha
parece mais como uma previsão do futuro como as da tia Alice, várias promessas para coisas futuras que
não aconteceram ainda e nada parece que vai ter a chance de acontecer agora.
O que eu sei é que se eu tiver que morrer hoje, vou morrer tentando vencer. Enquanto eu tiver ar em
meus pulmões e sangue correndo em minhas veias, eu vou tentar voltar para meu futuro, voltar para ele.
Não vou desistir de você Jacob. Pensei tentando me motivar um pouco.
Eles nos cercaram e eu e Leah tentamos nos preparar para o que viesse, entretanto, eles nos superam
em número e experiência em combate, Leah também parecia ciente disso porque sua postura estava rígida
como uma estátua e um rosnado reverberava em sua garganta.
Jane estava olhando atentamente para Leah, que começou a ganir e se contorcer no chão enquanto eu
ficava congelada, sem saber o que fazer.
Pare, por favor! Está machucando ela.
Suspendi uma das mãos em súplica. Jane nunca hesitou seu olhar sobre Leah, virou sua cabeça para o
lado levemente e um sorriso cruel brincou em seu rosto petrificado de uma jovem moça com aparência
angelical. Ela era linda como uma pintura renascentista e tão perigosa quanto sua beleza.
Nunca mande um vira-latas para fazer o trabalho de um vampiro.
A voz dela era entediada. Torturar pessoas e sentir prazer nisso, durante séculos, deve fazer isso à você.
Concordo, minha irmã. Admito que fiquei um pouco desapontado com nossas marionetes nessa
empreitada surpresa. Mas pelos menos não apareceu nenhum reforço dos Cullens até agora, ao que
parece nossa cobertura contra premonição parece estar funcionando.
Eles conversavam como se nós não estivéssemos ali.
O que vocês querem de nós? Deixem-nos em paz seus monstros!
Eu já estava gritando, desesperada em ajudar a Leah. A dor que ela parecia sentir era algo que não
existia como descrever. Nunca fomos amigas e de qualquer forma eu não sou de desejar mal aos outros,
mas depois das últimas conversas que tivemos e principalmente nestas poucas horas que lutamos juntas,
criou-se um laço de companheirismo, que me fazia sentir culpada, por de alguma forma a envolver nessa
batalha, que é entre minha família e os Volturis. Quem me respondeu foi Alec, que parecia muito a
vontade, quase descontraído ao lado de Jane que ainda não tirava os olhos de cima da Leah.
Queremos você, Renesmee. O que mais?
Eu? Meu dom não é nada demais. Se fosse meu pai, minha mãe ou a tia Alice eu entenderia, mas eu?
118
Por que eu? O que a realeza do mundo dos vampiros iria querer comigo? Eu não tenho nada a
oferecer à vocês que fosse fazer algum sentido.
Tentei argumentar enquanto eu tentava extrair minhas próprias respostas.
Bem, por diversos motivos minha querida, que honestamente não vêm ao caso. Além disso eu não
preciso me justificar para você.
Ele começou a andar casualmente em minha direção com um braço cruzado atrás de suas costas
enquanto o outro gesticulava. Leah ainda estava no chão, mas conseguiu rosnar para ele em aviso. De
certa forma, aquilo me acordou, rosnei alto e quando me preparava pra atacá-lo me senti entorpecida,
meu corpo não me respondia e de repente só havia escuridão. Eu estava consciente, mas sem controle.
Uma passageira em meu próprio corpo. Caí.
Eu deveria saber, Alec estava usando seu dom em mim. Então não tínhamos mesmo uma chance.
Seríamos mortas ali, na floresta e eu não poderia voltar ao meu futuro.
Ouvi um grande estrondo de duas rochas se chocando e imaginei que seria meu corpo se
transformando em pedaços. Meio que agradeci por não poder sentir ou ver nada. Apenas esperava que
fosse rápido. Outras coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo, mas não puder identificar de
imediato. Ouvia os uivos de Leah, mas não pareciam de dor e sim de raiva. Mais barulhos de rocha se
quebrando, gritos de dor e de repente comecei a sentir meu corpo. Eu estava de novo ao volante.
Quando consegui ver alguma coisa, me chocou. A cena tinha mudado completamente. Leah estava de
pé, lutando com um dos Volturis que não consegui identificar e Nahuel estava lutando com Alec. Jane
estava em pedaços no chão, tentando se juntar como em um filme de horror de quinta categoria. Não
imagino como isso tenha acontecido, apenas agradeço que tenha. Corri para pegar um dos outros
oponentes. No caminho, chutei um pedaço grande do corpo de Jane para longe, tentando ganhar mais
algum tempo até que ela se juntasse novamente.
Os outros encapuzados eram bons lutadores, o que eu infelizmente pude verificar em primeira mão,
mas nada em comparação aos bruxos. Usei um ilusão para distraí-los enquanto ia fazendo eles em
pedaços. E como antes, essa saiu mais fácil e instintiva do que nos meus treinamentos. Porém, ainda
tinham falhas. O importante é que era suficiente. Sempre chutando as maiores partes dos corpos deles
para longe.
Leah também estava fazendo um grande progresso com os seus. Não pude deixar de admirar a
agilidade e graça que ela tinha durante a luta enquanto seus adversários sucumbiam um a um. Nahuel
também não me desapontou. Eu sabia que ele era um bom guerreiro e hoje ele estava comprovando isso.
Parece que Alec, além de ter um dom, sabia como lutar. Não muito eficientemente, devo acrescentar.
Me parece que sua técnica era apenas defensiva. Consistia basicamente em escapar dos golpes de Nahuel
e tentar ficar o mais longe possível do seu oponente. Descobri o porque dessa atitude de Alec, quando eu
vi Nahuel, dobrar os joelhos e tombar para o lado com os olhos em branco. Alec só estava tentando ganhar
algum espaço para usar seu dom. Nahuel foi o primeiro a cair, em seguida Leah e depois eu mesma. Se
existia alguma chance de ganharmos, agora não há mais. Esperei o inevitável.
Eu ouvia enquanto os Volturis se recompunham e reclamavam das dores. Mas o que mais me assustou
foi o que Jane falou quando ela conseguiu se recompor.
Vamos matar eles! Todo eles! Agora!
Acredito que seu grito de fúria poderia ser ouvido à quilômetros de distância. Todo o tédio que ela tinha
há pouco foi se transformando em ódio. Irracional e selvagem ódio.
Calma, minha querida. Recorde-se que nosso objetivo aqui é outro.
Ele falou com uma voz monótona. Quase tão calma quanto a que me lembro da voz de Aro. Ele deve ter
assimilado com o passar dos séculos de convivência. Porém, parecia não ter convencido sua irmã gêmea.
Não! Eu quero retaliação. Quero acabar com todos eles.
Ela continuava a gritar.
Não. As prioridades são mais importantes. Você conhece nossos mestres. Deseja estar contra os
interesses deles?
Dessa vez a voz de Alec foi imperiosa e taxativa. Ele terminou com uma ameaça velada no final. Que
parece então, ter tido efeito.
Urhh! Mas saiba que não estou nada satisfeita com essa situação.
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Eu sei minha adorada irmã e também não estou. Mas devemos fazer nosso papel aqui e irmos
embora. Havia um bom tempo que não a via tão descontrolada, irmã. Tenho certeza que nos fará bem
voltarmos ao nosso lar.
Acho que isso convenceu Jane. Então estaríamos vivos, pelo menos por mais algum tempo. Apenas a
idéia do que nos aguarda não me agrada. Quais seriam os planos deles conosco?
Tudo bem. Mas não precisamos de todos, podemos pelo menos matar a loba.
Me desesperei novamente. Estavam falando de Leah. Mais precisamente em acabar com sua vida.
Tentei com toda a minha vontade me movimentar para tentar sair daquele encanto infernal, mas sem
nenhum resultado.
Espere!
Alec falou com urgência em sua voz. Como se tivesse pensado em uma alternativa naquela exato
momento e tentava impedir sua irmã de estragar seu novo plano.
O que é agora?
Precisaremos dela viva.
Pra que?
Ela estava exasperada.
Precisamos de alguém que entregue um recado por nós. Que informe aos Cullens que teremos seus
híbridos como nossos convidados por algum tempo.
Sua voz havia voltado ao seu estado monótono novamente.
Hum. Entendi seus planos meu irmão. De acordo. Mas devo acrescentar que hoje só não será mais
frustrante porque teremos esses dois aqui como presentes aos nossos mestres e teremos a chance de...
Jane, já basta. Vamos embora.
Alec falou calmamente. Eu esperava que ela continuasse para que soubéssemos quais eram seus
planos. Infelizmente ela parece ter se controlado o suficiente.
Finalmente, casa.
Infelizmente não, adorada irmã. Se formos para Volterra e nosso povo souber que temos ela em
nossas mãos só vai piorar a crescente desconfiança em nosso governo. Não acho que nossos mestres
ficarão muito satisfeitos com isso.
Seguimos para onde então?
Eu acho que já sei o lugar perfeito, estrategicamente falando.
Eles parecem ter se entendido sem maiores detalhes, me deixando totalmente no escuro figurativa e
literalmente.
Mas podemos acabar com o índio. Certo?
Jane interrompeu meus pensamentos.
Poderíamos. Mas acho que talvez seja melhor chegarmos com dois presentes do que com um. Talvez
Aro se interesse em fazer alguns experimentos com esse híbrido.
Ok. Vocês aí, façam ela desmaiar para que não tente nenhum truque quando Alec a libertar de seu
dom. Mas cuidado, não queremos a loba morta. Afinal, para que serve uma garota de recados sem vida?
Ela ordenou e depois riu baixo. Então ouvi passos de alguém vindo em minha direção. Tentei, mais uma
vez em vão, me movimentar. Não pude saber o que eles estavam fazendo porque eu não tinha quase
nenhum dos meus sentidos. Interessante como ainda consigo ouvir ele. Me pergunto se existe mais alguma
coisa que eu pudesse fazer. Antes que eu pensasse em mais alguma coisa, Alec falou novamente.
Eu levo a garota e vocês aí, levam o índio.
Ouvi uma leve movimentação. Provavelmente seus subalternos obedecendo suas instruções.
Então, ar, terra ou água?
Ar.
Por mim, iríamos correndo mesmo. Seria mais rápido. E você sabe que não gosto muito dessas coisas
tecnológicas hediondas que os humanos criam.
Jane parecia ansiosa para voltar para sua casa. Sobretudo para trazer as boas novas aos seus mestres.
Mas era meio engraçado você imaginar um ser imortal com centenas de anos, participação em só Deus
sabe quantas batalhas, ter algum receio de tecnologia.
Não podemos, minha querida.
120
Por que não?
Primeiro, para que você não estrague seu belíssimo penteado na água e depois no vento. E segundo,
porque eles são meio humanos, devo lembrar-lhe. E acho que não suportariam tanto tempo debaixo
dágua sem respirar. Acredito que nossos mestres não ficariam satisfeitos se nossa surpresa chegasse
morta em suas mãos. O que me diz?
Vamos logo. Estou ansioso para sair desse lugar desprezível.
Ouvi o caminhar elegante quase imperceptível dos Volturis por algum tempo e depois barulhos de
pneus tocando a pista. Imagino que com a fortuna acumulada durante esses milênios, nós devamos estar
em uma pista particular de pouso onde um jatinho ou algo do gênero nos espera, para me levar e a Nahuel
ao nosso fatídico destino. Como se estivesse sabendo meu pensamentos, Alec falou ao meu ouvido.
Ouve esse som, querida? É nossa carruagem alada que nos levará para seu novo lar.
Ele riu. Eu me apavorei. Se meu corpo estivesse funcionando corretamente, certamente teria sentido
calafrios novamente.
Eu vou libertar vocês, todavia, devem prometer que irão se comportar. Senão, além de nos fazer
perder nosso jato favorito, obrigarão a Jane a fazer o que ela mais quer. Torturar seu amigo índio.
Eu não tinha como responder, então, minutos depois eu podia ver, porém minha situação não havia
melhorado. Estávamos no ar. Como eu suspeitei, num jatinho particular todo preto de muito luxo. Nahuel
sentado à minha frente, me olhando como se esperasse que eu fizesse alguma coisa. Mas como eu podia,
se a ameaça foi contra ele? Se tivesse sido Alec, talvez sim. Mas Jane, eu não poderia arriscar. Eu vi como
ela pode ser poderosa e cruel. Eu não poderia fazer isso com ele.
Ele deve ter percebido minha hesitação e tentou levantar-se para atacá-los, mas caiu ao chão do jato se
contorcendo tanto quanto a Leah fez na floresta.
Espere. Nós iremos colaborar, ok? Só pare. Ele agiu por impulso, sabe como é, criado na selva, longe
da civilização.
Implorei. Alec fez um leve sinal de compreensão e Jane, sem mesmo olhar para ele recebeu a
mensagem e parou. Mas não antes de dar mais uma descarga de dor nele. Incrível como uma criatura tão
angelical pode ser tão sádica.
Quando Nahuel estava de volta ao seu assento, eu o implorei com os olhos que ele não tentasse mais
nada.
Chegamos.
Afirmou Alec, mas o que eu vi pela janela não era o que eu conhecia da descrição de Volterra. Na
verdade eu conhecia muito bem aquele país. Sempre sonhei em visitá-lo, mas nunca pude. Infelizmente
precisou que eu fosse seqüestrada para somente então, ver a França com meus próprios olhos.
Finalmente.
Completou Jane. Satisfeita em sair daquele avião.
****
Não se passou muito tempo e estávamos em um castelo, como saído de um filme épico medieval. Eu
não pude ver muito dele, pois nossos algozes estavam com muita pressa. Senão, certamente teria
descoberto em qual estávamos porque tenho verdadeiro fascínio por castelos, sobretudo os franceses.
Aqui estamos. Comuniquem aos nossos mestres a nossa chegada e informem que temos os presentes
que eles esperam ansiosamente.
Alec soltou meu braço enquanto entrávamos em um corredor enorme, horripilante, escuro e feito com
pedras negras como seus mantos. Ele instruía seus subordinados gesticulando e ignorando completamente
nossa presença. Imagino que o fato de que não conseguiríamos sair daqui com vida se tentássemos, deva
esse tipo de confiança.
Leve-os aos seus aposentos.
Jane instruiu outros e apontou para nós com um discreto movimento com a cabeça. Sua voz era ácida,
irônica. Imagino que nós não vamos gostar de nossos aposentos.
Quatro vampiros muito grandes e com aparência intimidadora nos tomaram pelos braços e nos levaram
escadas abaixo. Imagino, para o que tenha sido no passado um calabouço. Porém, esse havia sido
modificado, acredito que para aprisionar vampiros, porque ao invés de barras de ferro, comuns a esse tipo
121
de edificação, haviam barras com pelo menos vinte centímetros de diâmetro de uma metal meio escuro,
talvez titânio. Poderíamos ter algum sucesso com as paredes. Um dos guardas deve ter visto para onde eu
olhava e ter adivinhado a direção de meus pensamentos.
Eu nem tentaria, se estivesse em seu lugar. É feito de rocha maciça e tem mais de quatro metros de
espessura, além de ficar debaixo da terra.
Eu deveria saber que não seria a única a pensar em algo do gênero e que eles teriam séculos de
experiência em encarcerar prisioneiros vampiros.
Bem, pensar não custa.
Sorri para o guarda. Vi que os músculos do rosto dele retesaram um pouco perto da boca, mas ele
conseguiu segurar o sorriso e me conduziu para uma cela, enquanto outro levava Nahuel para a cela ao
lado. Eles se posicionaram em frente às nossas celas, há pelo menos uns quatro metros de distância, mas
onde pudessem nos ver.
Nahuel, você está bem?
Ele não me respondeu. Ficou carrancudo, encostado em uma das paredes de sua cela e encarava a
outra. Sem se importar em olhar para mim.
O que foi?
O que foi, ela pergunta. Humpf.
Ele resmungou.
O que você acha que foi? Nós estamos presos e você nem me ajudou a tentar fugir, quando tínhamos
alguma chance.
Ele sacudiu negativamente a cabeça. E agora era minha vez de ficar irritada.
Se você está falando sobre o jatinho, eu não ajudei por sua causa!
Ele estava surpreso e finalmente teve a decência de olhar para mim.
Você esqueceu que eles ameaçaram você? E sem querer parecer metida, eles disseram que foram
para lá atrás de mim. Exclusivamente. Não falaram nada sobre você. Eles só pouparam a vida de Leah para
que tivessem alguém para entregar um recado por eles. Mas e você? Me desculpe amigo, mas tenho que
dizer, era dispensável.
Ele ficou calado por mais alguns minutos. Eu cruzei meus braços sobre o peito e bufei. Minha perna
balançava incessantemente.
Acho que você está certa. Me perdoe, eu não deveria ter brigado com você. É só que eu não estou
acostumado a ficar preso.
E você acha que eu estou?
É. Acho que não, vejo seu ponto. Mais uma vez, me desculpe e obrigado por tentar me ajudar.
Eu já estava mais calma. Afinal estávamos os dois passando por um momento de muito stress.
Raptados, levados para um país distante, sem que ninguém soubesse onde estávamos para tentar ajudar e
presos em um lugar virtualmente a prova de fuga. Isso mexe com a cabeça de qualquer um.
De nada. Tenho certeza que você teria feito o mesmo por mim. Aliás, você fez. Afinal, o que você
estava fazendo na floresta?
Olhei para ele curiosa.
Estava indo te visitar na escola. Estou cada vez mais curioso em estudar lá. Quer dizer, estava.
Sua voz parecia preocupada. Resolvi tentar mudar um pouco o clima.
Mesmo que pra isso você tenha que estudar na mesma escola que o Pudim? E a aluna que está
interessada em você?
Provoquei, mudando de assunto.
Seria ótimo dar umas lições naquele Pudim. E quanto a aluna que você diz estar interessada em mim,
bem, eu acho que consigo viver com isso.
Ele estava sério na voz e na postura, mas o canto de sua boca o entregou. Imagino se ele está ficando
interessado na Judy. Ela certamente piraria de alegria. Fiquei feliz por minha amiga, mas no momento o
que precisamos é focar em sair daqui.
Você tem alguma sugestão do que podemos fazer para nos distrair? Você sabe.
Olhei com o canto do olho para os guardas, para Nahuel pegar a dica.
Ainda não. Deixa eu pensar um pouco. Assim que eu juntar algo, você vai saber.
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Acho que precisamos aguardar alguma idéia brilhante surgir. Bem, aguardar isso ou ao nosso fim. Sei
que as opções não são boas, mas são as únicas que temos no momento.
Eu sabia que tinham se passado várias horas, então comecei a imaginar se era dia ou noite, se meus
pais já tinha pirado por notarem minha ausência, se Leah tinha conseguido dar o recado, se Jake estava
bem. Era muita coisa para pensar. Mas era a única coisa que eu podia fazer, presa naquele lugar úmido,
escuro e horroroso.
123
19. Nossas acomodações
Ouvi passos de vampiros descendo as escadas. Imagino que sejam Alec e Jane checando nossas
acomodações. Eles realmente estavam à frente da comitiva, mas minhas preocupações acabaram de
aumentar. Eles não estavam sós. A realeza do mundo dos vampiros, representada pelos três anciões,
estava ali. Aro, Caius e Marcus estavam descendo as escadas com eles, tendo Félix e Demétri como guardacostas.
Ora, ora, ora. Você estava certo meu jovem. É de fato uma ótima surpresa.
Aro usou sua voz doce e monótona com Alec, que por sua vez parecia envaidecido.
Não vejo como isso pode ser importante ao ponto de nos retirar de nosso lar.
Bufou Caius. Marcus, como de costume, não falou nada, apenas olhou para mim, ignorando meu
companheiro da cela ao lado. Ele ficou me acompanhando com os olhos e isso me incomodou mais do que
se ele tivesse falado alguma coisa.
Irmão, seja paciente. Peço que pense melhor a respeito da oportunidade única que temos em mãos.
Dois híbridos para meus estudos e um deles é da família dos Cullens. A protegida deles.
Ele parecia compassivo. Entretanto, eu percebi que ele falou a palavra família como se ela queimasse
em sua boca. Caius parecia contente agora, imagino que ele deva ter percebido o caminho maquiavélico da
mente de seu irmão e líder do conselho, Aro.
Eu vejo.
Ele falou simplesmente.
Como está, adorada Renesmee? Faz muito tempo que não a vejo. Como está crescida e devo
acrescentar, uma bela jovem. Você me lembra muito minha...
Ele interrompeu a última frase, olhando meio aflito para seu irmão Marcus e no segundo seguinte
voltando à sua expressão amigável. Que parecia hipnotizado por mim. Aquilo estava me deixando louca.
Nahuel rosnou da cela dele. Aro o ignorou completamente.
Não muito bem, como você deve imaginar.
Apontei para a cela onde estávamos. Resolvi usar a mesma mesura dele para tentar ganhar tempo para
nós e quem sabe descobrir quais são seus planos.
Me perdoe pelo inconveniente, minha cara criança. Não é de meu feitio tratar meus convidados
assim. São para sua própria segurança. Afinal, você é meio humana e aqui existem muitos vampiros que
adorariam experimentar seu sangue tão único.
Para enfatizar o que falava, ele lambeu seus lábios de maneira discreta. Como se ele mesmo fosse um
desses interessados. Um tremor de medo passou por mim.
Como estão seus pais? Carlslile e os outros? Eles sabem que você está aqui como nossa convidada?
Perguntou Caius cinicamente.
Imagino que não, já que seu convite foi meio... em cima da hora. Não tivemos tempo de avisar aos
meus pais.
Olhei acusatoriamente para Alec e Jane. Ela tomou à frente na resposta dessa vez.
Foi uma decisão de última hora meu senhor, infelizmente não houve tempo para outras ações. Nós
estávamos cumprindo a tarefa de punição de Lazarus, no Canadá, conforme ordenado pelos senhores,
quando pudemos notar o cheiro de lobo. Assumimos que seriam do grupo de mascotes dos Cullens,
decidimos que seria melhor segui-los para obtermos maiores informações sobre eles para meus senhores.
Ela sorriu para Aro que passou a mão sobre sua cabeça, como recompensando um cão pelo bom
serviço.
Todavia, eles atacaram o que parecia ser um dos líderes do bando da Reserva Quileute, nos deixando
confusos. Achei que seria útil abordá-los, já que tínhamos desavenças em comum com aquele bando.
Alec pausou para que Aro absorvesse as informações e eu quase rosnei quando ele disse desavenças
com os bandos da reserva.
Essa foi uma atitude imprudente. Acho que estamos ficando moles com nossos subordinados, Aro.
Caius cuspiu as palavras. Alec e Jane pareciam assustados. Me senti satisfeita por isso.
Meu irmão, pense que se não fosse pela atitude imprudente deles, não teríamos esses dois em nossa
companhia no momento.
124
Aro apontou para nós.
Continue meu jovem.
O líder dos anciões insistiu. Os irmãos bruxos prosseguiram como quem precisava convencer o chefe
que não fizeram um movimento ruim. Alternando os locutores na explicação, ora Alec, ora Jane.
Eles tentaram nos atacar, mas consegui que me ouvissem ao ponto de provar que estávamos do
mesmo lado que eles nessa batalha, que queríamos o fim dos lobos Quileutes. Isso parece ter ganhado a
confiança deles.
Alec explicou.
Nós andamos próximo à eles, para que a vidente não pudesse nos enxergar. Parece ter funcionado a
contento, porque mesmo com o assalto fracassado deles à essa aqui e sua companheira loba, não tivemos
interferência dos demais Cullens. Somente o índio apareceu e pelo que pude perceber, foi apenas uma
coincidência ele estar por perto.
Explicou Jane em complemento ao discurso do irmão.
Por que não os enviou à Volterra? Por que trazê-los aqui?
Questionou Caius de forma acusatória.
Por que imaginamos que seria ruim para a reputação dos Volturis se a nossa comunidade descobrisse
que estávamos de posse destes dois. Quero dizer, desde o incidente em Forks, estamos passando por...
alguns abalos na confiança. Trazendo-os aqui, seria mais discreto e meus senhores teriam mais tempo para
pensar como melhor usar essa situação.
Alec parecia medir com cuidado o que falava.
Portanto, resolvemos avisar meus senhores antes de avisar aos Cullens. Espero que nos perdoem a
ousadia.
Ela olhou para baixo e fez uma humilde reverência aos anciões. Movimento seguido por seu irmão
gêmeo.
É claro, minha querida. Acho que devido às circunstâncias, aconteceram alguns desencontros, vamos
chamar assim. Entretanto, eu acredito que essa situação deve ser imediatamente remediada, não acha?
Ele olhou para ela e para Alec, que não pareciam mais tão confiantes.
Alec, meu adorado rapaz. Poderia pegar uma caixa em madeira escura com uma cruz esculpida em
sua tampa, que está junto à minha bagagem?
Ele afirmou com a cabeça e em menos de um segundo estava de volta com a caixa. Era pequena,
simples e bem trabalhada. Com intrincadas texturas nas laterais. De onde eu estava, me parecia conter
temática religiosa cristã. Aro prontamente entregou a caixa para um de seus servos e pediu que a
encaminhasse aos cuidados de Carlslile Cullen, em Sequim, Washington US. Mas não antes de recomendar
muito cuidado com o embrulho, por se tratar de uma relíquia histórica cristã. Como eu suspeitei.
Me perdoe não poder dar maior atenção à você, adorável criança, mas tenho negócios a discutir.
Sem mais, Aro deu as costas para nós e encaminhou-se escadas acima, seguido pelos seus dois irmãos.
Novamente Marcus me encarou, com olhos curiosos.
Cobras.
Cobras aqui? Onde?
Acabaram de subir as escadas. Falam manso, mas é possível perceber o veneno em suas palavras.
Eu tenho que concordar com Nahuel. Eu poderia até incluir uma outra qualidade das cobras à eles:
Perigosos. Extremamente perigosos e ardis.
Passada por volta de meia hora, Marcus voltou sozinho. Sua expressão era calorosa. Muito diferente da
que tinha sido em minha memória de infância. Eu sempre me recordava do terceiro ancião em comando
com uma aparência entediada, distraída. Hoje ele parecia quase entusiasmado.
Ele andou de um lado para o outro compassadamente, sem falar uma palavra e nem ao menos tirar
seus olhos de mim. Isso me deixou extremamente nervosa.
Sabe criança, você me lembra alguém.
Ele falou pausadamente em sua voz rouca, provavelmente de quem não fala há séculos.
Hum. Meu pai, talvez. Dizem que me pareço muito com ele. Ou talvez minha mãe, por causa dos
olhos, quem sabe.
125
Disparei a falar, acho que por nervoso. Ele juntou as sobrancelhas em uma expressão tensa, me fitou
por mais alguns segundos e concluiu.
Definitivamente você se parece com ela. Com a minha Didyme.
Quem diabos era a Didyme dele, eu não sabia. Olhei confusa para o homem de cabelos longos negros,
pele com uma aparência leitosa, mas com uma boa estrutura física para alguém que aparentava ter por
volta dos quarenta anos humanos, tendo entretanto, existido por alguns milênios. Imaginei se vampiros
ficavam loucos com o tempo. Se a resposta fosse afirmativa, acho que teria um caso ali em minha frente.
Ele murmurou para si mesmo Didyme mais uma vez, me olhando com cuidado.
Hun, senhor? Acho que o senhor está temporariamente confuso. Meu nome é Renesmee e sou filha
de Edward e Isabella Cullen, quem o senhor deve conhecer.
Tentei aparentar calma, mas esse olhar incessante dele me deixava inquieta.
Eu sei criança. Por favor perdoe esse velho tolo. Eu apenas...
Ele não falou mais nada. Uma máscara de dor se formou em sua face extremamente pálida. Ele parecia
organizar suas idéias e continuou em seguida.
Não espero que você compreenda, mas você tem muita semelhança física com a minha adorada
Didyme. Minha falecida esposa. Com excessão dos cabelos, eu poderia dizer que ela estaria em minha
frente.
Entendi agora. Acho que você ficaria meio tonto se visse o fantasma de sua esposa em sua frente. Eu
me senti meio culpada por ter pensado tão mal dele pelo seu comportamento estranho nesses últimos
minutos.
Eu sinto muito.
Falei honestamente. Mesmo ele sendo um dos anciões dos Volturis, o que para mim é o mesmo que um
vilão, ele me parecia muito fragilizado e sentido naquele momento.
Não sinta. Fazem muitos séculos que existo sem ela. Devo admitir que me assustei um pouco com a
semelhança entre vocês duas, no entanto.
Ele esboçou um sorriso. Nahuel que estava quieto desde o início dessa visita surpresa, moveu-se para
ficar mais perto de nós. Então Marcus finalmente notou sua presença.
E você meu rapaz, posso estar enganado, mas normalmente acerto quando vejo um guerreiro em
minha frente.
Acho que ele estava tentando compensar a indelicadeza de nem mesmo ter olhado para Nahuel quando
desceu as escadas pela primeira vez. Nahuel não respondeu nada. Apenas cruzou os braços e o encarou
com uma expressão feroz.
Adeus minha jovem. Devo me juntar aos meus irmãos.
Após a saída de Marcus, Nahuel bufou.
Gostei dele menos ainda.
Apesar do comentário negativo de Nahuel sobre Marcus, eu fiquei um pouco sentida pelo pobre e sua
perda eterna. Deve ser muito difícil você passar milênios sem sua companheira.
Deitei-me em minha cela, tentando assimilar as informações que eu tinha ouvido há pouco. Então era
isso. Eles estavam me usando como isca para atrair minha família talentosa. Como eu posso alertá-los da
armadilha? Eu não tinha recursos para isto, porém, já que ainda estava cativa e não tinha mais nada a fazer
além de esperar por uma oportunidade de escapar, eu poderia aproveitar esse tempo para testar uma
teoria sobre um dom alternativo que eu poderia ter. O que Judy insiste em dizer. Que eu manipulo a mente
das pessoas, não no sentido de ilusão, mas em relação à causar simpatia, ou seja lá como se poderia
chamar isso.
Me sentei novamente e chamei o guarda que tinha falado comigo quando fomos trazidos à força para
essas celas. Ele não se moveu de onde estava, contudo olhou para mim.
Qual o seu nome?
Eu perguntei com um sorriso. Ele hesitou, mas respondeu desconfiado.
Nouveaux. Thierre Nouveaux.
Hmm, francês. Deve ter sido criado vampiro aqui mesmo.
Belo nome.
Sorri mais uma vez e continuei.
126
Você poderia nos conseguir algum alimento? Você sabe, nós somos meio-humanos e acredito que
nossos anfitriões esqueceram que temos necessidades diferentes de vocês.
Andei para as barras da cela para que eu pudesse ficar mais próxima à ele. Parecia constrangido e
confuso, imagino que estava decidindo se atendia à minha solicitação ou mantinha seu posto. Seu
companheiro limpou a garganta para alertá-lo.
Acho que meus anfitriões não vão ficar agradados em saber que seus hóspedes não estão sedo bem
tratados. Acho até que eles não vão se importar em pensar que eles mesmos tenham esquecido desses
detalhes, posso apostar que irão culpar a quem estiver de guarda.
Ameacei. Ele e seu parceiro pareciam agitados.
Er... eu não posso. Mas deixa eu verificar se consigo que alguém traga alguma coisa para você, quer
dizer, vocês.
Ele olhou de relance para Nahuel. Tirou um celular do bolso, ligou e instruiu rapidamente que nos
trouxessem alimentos humanos imediatamente. Eu não sei se foi o dom que a Judy diz que eu tenho que
funcionou ou a ameaça velada que fiz. Preciso testar mais isso.
Aproximadamente vinte minutos após a ligação, um vampiro magro, com nariz afilado e expressão de
desdém desceu as escadas da masmorra trazendo consigo uma bandeja com frutas, pães, queijo e vinho.
Era verdade que a comida parecia boa, mas por meio segundo fiquei receosa de comer seja lá o que viesse
dos Volturis. Antes que eu decidisse se deveria comer ou não, Nahuel pegou um dos pães e colocou uma
generosa fatia de queijo Camembert um dos poucos queijos que conheço e devorou em apenas alguns
segundos, partindo imediatamente para um segundo pão.
Vejo que está mesmo com fome.
Olhei desafiadoramente para ele, que deu de ombros e continuou a devorar o que podia da bandeja.
Como ele não estava tendo nenhuma reação de envenenamento ou outra qualquer além da esperada de
quem estava comendo alguma delícia, experimentei um dos pães e o vinho. Tenho que dizer, os Volturis
podem ser o símbolo do mal para mim, mas que têm excelente gosto para vinhos, mesmo eles não
tomando, isso eu não podia negar.
Depois de satisfeitos, Nahuel voltou para cama de sua cela e eu achei que seria uma ótima
oportunidade de testar esse outro dom em Thierre, já que seu companheiro fora chamado e tinha saído às
pressas.
Então, quando você foi transformado em imortal? Aposto que há muito tempo. Alguns milênios?
Tentei soar o mais casual possível. Captei pelo canto do meu olho, Nahuel suspender uma das
sobrancelhas, obviamente desconfiado. Thierre parecia meio surpreso por eu estar puxando assunto, creio
que os outros hóspedes dos Volturis não tinham muito ânimo para conversas ou pelo menos não ficavam
aqui tempo suficiente para isso. Passado o momento de espanto, ele apertou os lábios e enrugou a testa,
como quem tentava se lembrar dos fatos com certeza.
Na verdade, dizer que faz muito ou pouco tempo é relativo. Talvez você mesma deva tirar suas
conclusões. Eu era um dos guarda daqui, o Château de Beynac, durante a primeira década da Guerra dos
Cem Anos, quando Félix me transformou em imortal.
Seus olhos se desfocaram por alguns segundos e depois ele olhou para mim curioso. Acho que o pobre
não deve ter muito com quem conversar. Estou indo pelo caminho certo. Me aproximei mais das barras,
mas ele ainda parecia tenso como um bom guarda deve estar quando está cuidando de prisioneiros
conversadores. Insisti, mal não ia fazer.
Hum. Que interessante. Quantos anos você tinha na época?
Acredito que tinha por volta dos trinta e cinco anos humanos. Não sei ao certo, porque mesmo
humano, eu não me importava muito com essas coisas. Além disso, os vampiros daqui não tem o hábito de
lembrar de seu passado humano. Bem, pelo menos não muitos deles.
Ele ficou cabisbaixo, o que pra mim significa que ele é um dos que se lembram de sua vida humana.
Você tinha família? Esposa ou filhos?
Ele olhou meio desconfiado. Mas respondeu.
Não. Era órfão. Meus pais tinham morrido na guerra há um bom tempo e eu tive que me virar para
sobreviver. Assim como muitos jovens de minha época, eu queria entrar para o exército francês para
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tentar vingar meus entes queridos, isso além de ter algo que comer porque era uma época de muita
privação também.
Eu comecei a ficar com pena dele. Pensei como eu ficaria em seu lugar. Órfão, com fome, raiva e
tristeza pela perda de meus pais. Eu quase desisti de continuar nesse assunto, mas eu estava
verdadeiramente curiosa sobre a história dele e também se eu tinha mesmo esse dom causar simpatia o
que ainda não estou convencida acho que devo utilizá-lo instintivamente porque não faço a mínima idéia
de como ativar. Então resolvi continuar a conversa com Thierre para ver se surte algum efeito nele.
Imagino então que tenha sido uma coisa boa você ter se transformado em um vampiro.
Ele fez uma expressão que eu tinha certeza que não era de satisfação, mas rancor. Permaneceu calado
e eu insisti.
Oh! Me perdoe, eu não sabia que tinha sido assim tão ruim. Não vamos mais falar mais sobre isso, se
te incomodar.
Ele sacudiu a cabeça e esboçou um sorriso.
Não me incomoda, exatamente. É só que...
Ele suspirou e olhou para mim.
Por que você quer saber isso?
Ok, essa pergunta dele me pegou de surpresa. Respondi o que eu podia da verdade.
É que você não me parece ser do tipo de cara mau que faz parte da Guarda Volturi. Só estava
tentando entender como você foi parar aqui. Mas se conversar sobre isso te faz mal, mais uma vez eu peço
desculpas.
Ele sorriu fracamente e se aproximou um pouco das barras de minha cela.
Vamos dizer que não fui exatamente convidado a me juntar à guarda. Eles queriam alguém que fosse
forte, conhecesse a região e todos as entradas secretas do Château de Beynac porque tinham planos para
ele, e eu estava no lugar errado, na hora errada.
Eu sinto muito.
Falei com sinceridade.
Está tudo bem agora. Eu tenho um propósito aqui. Mas...
Ele parecia ter se transportado para a época em que ainda era humano. Eu o incentivei com os olhos
para que continuasse.
É que tinha essa jovem em quem eu tinha meus olhos. Ela era ajudante na cozinha, uma serva como
eu. E estávamos apaixonados.
Ele sorriu de sua lembrança.
E o que aconteceu? Você a transformou?
Ele parecia ofendido e negou incisivamente.
Eu não poderia causar tanto sofrimento para ela. Físico pela transformação e sentimental porque ela
perderia toda sua família com o tempo, isso se ela mesma não os matasse com a sede. Então, para evitar
isso, eu implorei para que me deixassem afastado do castelo até que eu pudesse me controlar melhor. Mas
eles se recusaram. Disseram que não tinham tempo para atenderem à caprichos de um recém-nascido que
era só mais um peão no tabuleiro. Como resumo da história, eles mandaram Josephine para longe daqui.
Estou seriamente sentida por ele. Os Volturis são mesmo frios e maquiavélicos. Não tinha o que se
discutir. Estava sem mais perguntas para ele, ficamos quietos alguns momentos. Olhei com compaixão
para o vampiro muito forte e doce que era meu carcereiro e ele suspirou.
Sabe, eu não sou uma má pessoa, quer dizer vampiro. Eles são a forma da lei no mundo dos vampiros
e eu me sinto honrado em trabalhar para eles. Mas eles são como meus donos e eu tenho o dever de fazer
o que me mandam ou serei destruído. Novamente.
Ele quase sussurrou a última palavra. E olhou para mim apologeticamente.
Entendo Thierre, mas eu acho que você deveria pensar melhor sobre sua existência. Quer dizer, eles
te oprimiram durante séculos e ainda o fazem até hoje. Eu tenho que dizer, você não é o único a sofrer
pelos desmandos deles. Um dia alguém vai ter que se impor para dar um fim a isso. Não foi para defender
seu país, amigos e crenças que houve essa Guerra dos Cem Anos?
Tentei me concentrar nele enquanto falava para tentar de alguma forma fazer o dom funcionar. Só que
no meu interior, eu me sentia péssima. Tão manipuladora quanto os Volturis são. Eu acreditava nos
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argumentos que tinha dito, contudo as razões de tê-las exposto eram o que pesavam em mim. Entretanto,
por mim, por Nahuel e até por minha família que estava sendo atraída para uma armadilha, eu tinha que
tentar.
Você é boa criança. Eu quase me convenci com seu discurso. Infelizmente eu não tenho muito que
possa fazer por vocês. E sinto muito por isso, de verdade. Mas se de alguma maneira vocês saíssem daqui,
não adiantaria muito porque eles encontrariam um outro jeito para te trazerem de volta. Eles sempre
conseguem o que querem. Além disso, significaria o meu fim.
Ele falou docemente.
Eu entendo. Eu gostaria que tivesse uma maneira de ajudar à nós dois, mas por enquanto não vejo
nenhuma.
Ele concordou e ficamos calados. Olhei de relance para Nahuel e ele também não tinha o que dizer.
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20. Sensação ruim
BELLA
Nossas aulas tinham acabado e eu estava ansiosa para voltarmos à nossa choupana. Não quis comentar
com Edward, mas eu tinha passado o dia inteiro com uma sensação ruim no peito, era quase doloroso. Eu
teria que consultar Carlslile a respeito. Seria possível um vampiro ter algum problema cardíaco? Com a
minha sorte e estranheza certamente não era impossível. Alice também não estava no seu estado
normal, quer dizer, o que se pode dizer sobre o que é normal para ela. Porém, eu não sabia o motivo de
sua agitação.
Emmet ainda ficaria mais algum tempo na escola para ajudar a guardar uns equipamentos novos que
tinham chegado hoje e Rose decidiu ficar para voltar para casa com ele. Puxei Edward pelo braço, Alice e
Jasper nos seguiram. Fomos encontrar Nessie para irmos embora com ela, já que Jake não estaria aqui para
levar ela para casa, como de costume. Pensei que a encontraria no estacionamento da escola, mas só havia
o Seth encostado muito à vontade, no Volvo de Edward.
Seth? Onde está a Nessie?
Olhei para Edward para confirmar e ele negou com a cabeça. Não conseguia ouvi-la. Comecei a me
desesperar. Algo dentro de mim dizia que a sensação ruim que eu sentia era por causa dela. Olhei para
Alice buscando algum conforto, mesmo sabendo que ela não consegue ver minha filha, imaginando se pelo
menos ela poderia nos dar uma direção de onde ela estava. Seth parece ter finalmente percebido o clima.
Alice ainda estava tentando ver, ou melhor, não ver alguma coisa. Seth se adiantou nas explicações.
Calma pessoal. Ela foi na frente porque eu estava ajudando o professor Gibbons, mas ele me liberou
quando Emmet chegou para ajudar. A essa altura já deve estar em casa.
Estou conseguindo ver tudo em casa. Ela não está lá, nem Nahuel ou algum dos lobos.
Meu peito reclamou novamente. Olhei para Edward que já estava com as mãos no celular, discando
para Jacob. Fora de área. Em seguida para Billy. Ele atendeu rapidamente e usei minha audição melhorada
para saber que ela não tinha ido para a reserva. Eu toquei desesperada o braço de Edward, ele pode ver
meus pensamentos sobre o aperto no peito e entendeu meu desespero.
Ligou imediatamente para Charlie, que também o informou que ela não estava com ele. Eu comecei a
correr para a floresta, na tentativa de encontrar algum rastro de minha filha. Nem me preocupei em usar
uma velocidade humana. O que eu me importava naquele momento não era se um bando de humanos
fossem notar alguém desaparecendo como em um passe de mágica, mas sim saber se meu bebê estava
seguro.
Todos me acompanharam em seguida, Seth já como lobo. Alguns metros depois senti um rastro que
desconhecia, parecia com os dos homens lobo, entretanto era mais forte, um tanto podre. Em seguida
senti o cheiro de sangue. Se meu coração ainda batesse, estaria para ser esmagado no peito de tanta
angústia.
Corri com a maior velocidade que pude e percebi evidências de luta no caminho, contudo, nenhum sinal
de minha filha. De repente ouvi um uivo, me virei para enfrentar os invasores, mas era somente o Seth
que corria para um local à direita de onde eu estava. Vi Leah deitada sobre o chão de folhas. Nua, suja e
com sangue cobrindo algumas partes do seu corpo. Corremos para onde ela estava.
Com exceção de Seth, Edward foi o primeiro a chegar, tirou seu casado e usou para cobri-la. Ela parecia
desacordada e muito machucada. Eu olhei ao redor para tentar encontrar minha filha ou os agressores de
Leah. Percebi ao longe, mais dois corpos nus. Um muito grande e corpulento, com um tronco de árvore
atravessando seu peito. Seu companheiro era mais magro e seu pescoço estava torcido. Ambos imóveis e
envoltos em muito sangue.
Leah! Acorde! Você está bem? Me diga o que aconteceu.
Edward perguntava urgentemente para ela, mas tomando cuidado para não movimentá-la mais que o
necessário. Acho que Seth estava nervoso demais para voltar a ser humano, ficava ganindo baixinho
enquanto andava de um lado para o outro, preocupado por sua irmã. Leah parecia exausta e muito
machucada para falar. Felizmente ela não precisava.
130
Ela estava acompanhando Renesmee no caminho para a casa e elas foram atacadas pelos invasores.
Felizmente, elas conseguiram vencê-los, mas então...
Ele ficou paralisado antes de completar o pensamento. Seus olhos estavam arregalados em horror.
Então o que? Onde está Renesmee? Ela está bem?
Eu o sacudi para que continuasse. Ele hesitou por um momento e então só falou uma palavra. Uma
única palavra que continha todo o significado de seu pânico repentino.
Volturis.
Não!
Eu gemi. Ele parecia estar pegando o resto da história com Leah.
Onde ela está Edward? Por favor, me diga.
Supliquei.
Eles a levaram junto com... Nahuel?! Ela não sabe onde eles foram. Só pouparam sua vida para que
pudesse nos dar esse recado.
Nahuel? O que ele estava fazendo aqui?
Jasper perguntou.
O que isso importa?! Onde está minha filha?
Gritei, perdendo o resto de sanidade que me restava naquele momento. Comecei a imitar Seth em seu
caminhar insano de um lado à outro. Uma idéia me ocorreu. Será que eles já estão muito longe? Eu corri o
mais rápido que eu poderia para onde eu sentia cheiro de vampiros. Alice veio atrás de mim. Após vários
quilômetros ela me alcançou porque eu havia desacelerado tentando reencontrar o rastro perdido.
Bella, pare! Eles não estão mais aqui. Não sente o cheiro? Fez tempo que eles passaram por aqui e
podem ter ido para qualquer lugar. Temos que tentar nos acalmar e planejar o que fazer a seguir para
recuperá-la. Ok?
Ela tocou meu ombro e por mais que isso me doesse, eu sabia que estava certa. Voltamos juntas onde
Edward ainda tentava deixar Leah em melhores condições e juntava mais informações.
Edward, por favor me diga que sabe mais alguma coisa que possa nos ajudar a encontrá-la.
Me abaixei junto a ele.
Ainda não. Eles a deixaram inconsciente, ela só consegue se lembrar o que nos disse antes. Seus
pensamentos não estão muito organizados, ela ainda está confusa, mal consegue se manter consciente. Eu
me antecipei e liguei para Carlslile. Estão todos se reunindo para resolvermos o que fazer. Jacob viu o que
aconteceu pelos pensamentos de Seth e também está indo para lá com Sam.
Acho que eu tinha ficado em choque, não conseguia mover nada em meu corpo, minha mente revirava
em torno do que aconteceu e o que deveríamos fazer para salvá-la. Ele deve ter notado meu estado,
respirou fundo, mesmo não precisando e me assegurou.
Nós vamos achá-la Bella, eu prometo! Ela vai voltar pra nós. Confie em mim. Você confia?
Eu estava atordoada, triste, com raiva, angustiada, mas uma coisa eu sabia. Eu posso confiar nele. Eu
suspirei e sinalizei o sim com a cabeça. Ele voltou-se para Leah, levantou-a e fomos praticamente voando
para casa.
Antes mesmo de chegar, encontramos Jacob na porta, nos aguardando. Sua expressão era quase como
um espelho do desespero que era refletido na nossa. Seu corpo tremia incessantemente.
Bella, Edward, o que aconteceu? Onde está Nessie? O que vamos fazer?
As palavras jorravam de sua boca em ansiedade. Eu estava sem forças para falar. Edward colocou Leah
nos braços de Jacob que e a levou para dentro, com todos nós atrás. Seth agora em sua forma humana.
Vamos para dentro, Jacob.
Que estranha convenção era aquela formada em nossa sala. Existiam vampiros, lobos e humanos.
Minha família, o bando de Sam e o de Jacob estavam ali, além de meu pai e Billy. Me dirigi diretamente
para meu sogro.
Carlslile, para onde podem tê-la levado?
Perguntei aflita.
Eu não sei Bella, eu não entendo. Eles pareciam ter nos esquecido.
131
Eu já estava nervosa demais para argumentar. Como era possível que ele, que conviveu com os anciões
por um tempo, pudesse acreditar no que acabara de falar, se eu, mesmo sendo uma jovem vampira, já
sabia da fama que os Volturis têm de não perdoarem quem atravessa seu caminho.
Edward assumiu o controle. Ele deve ter percebido minha revolta, não com meu sogro, que é realmente
uma alma boa e não pensaria mal de seus velhos amigos, mas com a situação que minha filha se
encontrava.
Leah está machucada, mas irá sobreviver. Li em sua mente que os invasores as atacaram, mas elas
conseguiram vencê-los por pouco. Quando elas estavam se recuperando do ataque deles, os Volturis
apareceram e levaram Nessie e Nahuel consigo.
Leah, que estava deitada em um sofá próximo à reunião, levantou-se com dificuldades e veio para o
centro da conversa.
Você não precisa falar por mim. Eu ainda tenho forças para explicar aos meus irmãos o que
aconteceu.
Ela parecia muito cansada e dolorida, porém determinada. Falhou no passo seguinte, mas antes que
caísse, Seth a amparou, colocou um dos braços dela sobre seu ombro e eles continuaram juntos.
Por que os outros transmorfos estavam trabalhando em conjunto com os vampiros?
Paul perguntou. Eu mesma não tinha pensado a respeito até agora. Ela deu de ombros.
Isso eu não sei dizer. Sabe Paul, não houve tempo para bater um papinho com eles.
Ela satirizou e continuou.
Já os capas pretas disseram que vieram por Renesmee, que eu e Nahuel éramos dispensáveis.
Resolveram me poupar para que eu informasse aos Cullens que eles estavam com ela.
Ela respirou fundo e logo arrependeu-se, imagino que o estalos que eu ouvi devem ter sido de uma ou
mais costelas. Ela colocou a mão sobre o local machucado, se endireitou e continuou.
Eles tentaram me apagar, mas não conseguiram. Eu estava atordoada, sem controle sobre meu corpo,
mas estava parcialmente consciente.
Minha cara, você conseguiu ouvir alguma coisa que pudesse servir como pista para descobrirmos o
paradeiro deles?
Carlslile perguntou. Eu olhei para Edward tentando ver alguma coisa nele que indicasse esperança, mas
nada. Ele estava completamente focado no rosto dela. Leah fechou os olhos, como se estivesse tentando
lembrar o que aconteceu.
A única coisa que consigo me lembrar é da loira azeda falar que deveriam matar a todos nós.
Eu estremeci. Edward, que estava ao meu lado, me amparou como Seth fez pela irmã. Mas ele não
tirava os olhos de Leah.
Foi o rapaz que não permitiu. Aparentemente Renesmee era uma mercadoria valiosa demais para ser
machucada.
Ela usou sua voz irônica e fez um esboço de seu sorriso sarcástico, que é sua marca registrada. Eu quase
voei no pescoço dela, mas antes que eu fizesse qualquer coisa, um urro gutural surgiu em Jacob.
Que diabos Leah! Como você pode brincar com uma coisa tão séria como essa? Talvez você tenha
motivos para não dar a mínima importância para o que aconteceu com Nessie ou Nahuel, mas nós temos.
Ele gesticulou apontando para todos nós. Ela parecia chocada.
Afinal, você não esconde de ninguém que não morre de amores por Nessie. Não duvidaria nada que
você não tivesse feito o menor esforço para ajudá-la. Aliás, você até teria motivos para não ter se
esforçado, não é?! Quer saber, talvez tivesse sido uma coisa boa se eles tivessem acabado com você. Daí
você traria fim a essa sua existência de auto-piedade e de infernizar a vida dos outros.
Ela agora parecia muito magoada. Lágrimas se formaram em seus olhos, porém se recompôs o mais
rápido que pôde evitando assim, chorar na frente de todos nós.
É Jacob. Talvez tivesse sido melhor para todos mesmo.
Ela puxou o braço que estava apoiado no ombro de Seth e começou a andar em direção à porta, agora
mais firmemente pela raiva que a impulsionava. Quando chegou lá, derrubou o casaco que Edward tinha
colocado nela e estava correndo para floresta tremendo completamente. Segundos depois Leah havia
sumido por entre às árvores como loba. Seth olhou para Jacob como quem olhava um bandido. Foi a
132
primeira vez que eu vi Seth olhar para quem quer que seja com tanta fúria. Jacob parece ter percebido.
Seth deu as costas para ele e começou a se dirigir à porta. Edward o impediu.
Seth, ela precisa pensar. Dê um tempo para ela, sim? Eu prometo que será melhor.
Ele não parecia convencido, hesitou por mais um momento e foi para o sofá onde sua irmã estava há
pouco.
Jacob, você não deveria ter feito isso. Você sabe que não foi culpa dela, além disso, nós a conhecemos
bem o suficiente para saber que ela não trairia nossa confiança assim.
Sam, você não compartilha mais sua mente com ela. Eu sim. Tenho convicção de que ela não trairia a
confiança do bando, mas eu sei de algumas coisas sobre ela que você não sabe.
Ele olhou para Seth, como se procurasse por apoio. Contudo, o que achou foi mais fúria. Seth bufou e
saiu tremendo porta a fora.
Calem a boca! Todos vocês!
Eu me descontrolei novamente. Ao invés de estarmos tentando descobrir para onde eles levaram
minha filha, estavam discutindo briguinhas domésticas.
Se você quer achar um culpado Jacob, que tal começar por você?
Acusei.
Eu? Como assim?
Você se esqueceu que os invasores só vieram para região com a intenção de se vingar de você e sua
família? Para que melhor vingança do que acabar com o objeto do seu imprinting no processo?
Ele engoliu seco. Nem mesmo tinha algum contra-argumento.
Bella, talvez o invasores tenham vindo por nós se essa teoria de seu marido for correta mas
quem a levou foram os Volturis, sua espécie, não nossa.
Billy usou sua voz firme de ancião indígena. Ele não parecia irritado, apenas condescendente.
Não importa encontrar o culpado. Precisamos saber para onde levaram eles e como faremos para
resgatá-los. Somente isso.
Carlslile como sempre tentando acalmar nossos ânimos.
Por favor, vamos todos nos acalmar. Não podemos nos jogar uns contra os outros.
Esme falou e se aproximou de seu marido. Edward apertou seu braço ao meu redor e continuou.
Isso mesmo. Minha mãe está certa. Não existem culpados entre nós.
Ele olhou nos olhos de Jacob, que agora estava constrangido.
Vamos concentrar nossos esforços no que realmente importa. Edward, por que você está tão certo de
que não levaram eles para Volterra?
Por que uma das outras coisas que Leah ouviu, foi que eles disseram não poder levá-los para Volterra
para não abalar ainda mais a confiança que nossa espécie está começando a perder neles depois do
incidente em Forks.
Em Forks? Que incidente?
Meu pai perguntou.
Depois, Charlie.
Ouvi Billy dizendo.
Faz sentido. Se eles não querem chamar a atenção para si, nada mais prático do que usar uma de suas
muitas residências espalhadas pelo mundo para mantê-los prisioneiros. Mas qual?
Jasper que estava calado desde minha explosão na floresta, falou com um aparência pensativa. Acho
que ele já estava elaborando algum plano de ação.
Para que lado vocês perceberam o último rastro deles?
Carlslile falou e uma ruga de preocupação formou-se em sua testa.
Bella farejou eles indo em direção ao sul, mas não importa. Porque uma das coisas que Leah estava
tentando explicar, mas não teve a chance, era que eles decidiram ir pelo ar. Portanto, de avião. Não tem
como tentar farejar o rastro. Teremos que usar algum outro meio para localizá-los.
Edward explicou. Agora entendi por que ele estava encarando Leah tão atentamente, tentava absorver
qualquer detalhe que nos fosse útil.
Talvez devêssemos contatar Eleazar para saber se ele não tem algum informante dentro da guarda
Volturi.
133
Isso mesmo Jazz. Eleazar trabalhou para eles por muito tempo. Deve saber alguma coisa que possa ser
útil para nosso lado.
Emmet sempre tão brincalhão, estava tão compenetrado como o resto de nós. Rose nem se mexia ao
seu lado, talvez em choque como eu fiquei ao saber do ocorrido. Seu olhar estava distante.
Carlslile pegou o telefone e subiu as escadas para conversar com seu amigo, longe de todo o
murmurinho que havia se formado na sala, com todos falando ao mesmo tempo. Edward o seguiu. Eu
fiquei tão petrificada como a Rose estava, Esme e Alice se aproximaram de mim e me apoiaram. Eleazar
tem que ter alguma idéia para nos ajudar, ele precisa. Senti mais uma vez meu peito apertar em angústia.
Jacob parecia que queria me consolar também, mas desistiu. Com certeza deve ter se lembrado do que eu
falei há pouco.
Alguns minutos passados, Edward e Carlslile estavam de volta. Eles pareciam um pouco mais animados.
Isso me encheu de expectativa.
Então? O que ele disse?
Perguntei. Edward parecia decidir o que dizer para mim.
Não me esconda nada, ou juro por Deus que eu não sei a loucura que serei capaz da fazer. Talvez até
de ir para Volterra lutar com quem quer que seja para descobrir onde ela pode estar.
Bella, se controle. Você sabe que fazer isso não ajudaria Renesmee em nada.
Alice apertou meus ombros restritivamente. Eu rosnei.
Me controlar? Eu quero saber o que vamos fazer. Eu não posso ficar aqui de mãos atadas enquanto
eu nem sei se minha filha está...
Não consegui completar a frase. Apenas pensar que algo de muito ruim pudesse ter acontecido à ela,
era forte demais para mim.
Bella, amor. Nós não estamos mais tão de mãos atadas assim. Eleazar nos disse que tinha alguns
vampiros fiéis à ele, ainda trabalhando para os Volturis e assim que tivesse alguma pista nos informaria.
Além disso todos eles estão vindo para nos ajudar no que for preciso, ok?! Tente se acalmar um pouco,
você nesse estado não vai ajudar nossa filha.
Edward falou o mais docemente possível. Isso me acalmou um pouco. Me senti uma louca por estar
agindo assim, mas não posso evitar. Não com a vida de minha filha em risco.
Alice, Esme, fiquem com Bella um instante, sim? Tenho que conversar com o Jacob.
Elas praticamente me rebocaram dali. Eu não mais me cansava fisicamente, mas estava esgotada
mentalmente. Se pudesse, dormiria por várias horas. Acho que elas reconheceram a situação e nos
sentamos na sala ao lado. Tentaram me acalmar falando algumas coisas, que eu honestamente não ouvi.
Eu precisava saber o que Edward tinha ido falar com Jacob. Ele estaria tentando esconder alguma coisa de
mim para me proteger? Não acredito, senão teria ido para muito mais longe. Ele sabe que eu conseguiria
ouvir da outra sala.
Jacob, você tem que se acalmar também. Precisamos estar inteiros para isso dar certo.
Eu não consigo ficar calmo Ed. É demais para mim.
E você acha que está sendo fácil para mim? É de minha filha que estamos falando. Pelo amor de Deus.
Ele rosnou. Acho que nem mesmo Edward, que é tão racional, controlado, está conseguindo ficar calmo
em uma situação como essas.
Me desculpe, você está certo.
Jacob abaixou a cabeça envergonhado e continuou.
É que... você sabe.
Olhou para Edward ainda sem suspender seu rosto.
Jacob, não é culpa sua o que aconteceu com elas. Você não poderia estar em dois lugares ao mesmo
tempo. Você estava cumprindo seu dever com a tribo.
Mas Ed, eu não estava lá! Quem estava era Nahuel. Com ou sem imprinting, eu não sou o ideal para
ela, quer dizer, ela é uma híbrida assim como ele e eu um transmorfo. Nossas naturezas são diferentes,
não podemos ter um futuro juntos. Não. Ela tem que ficar com ele e não comigo.
Jacob parecia se afundar de tão encolhido que estava. Era estranho ver aquele homem enorme tão
fragilizado. Era simplesmente errado.
Você sabe que não é verdade. Ela te ama, Jacob.
134
Do que você está falando? Era pra você está feliz com isso, afinal, vocês nunca aprovaram nosso
relacionamento.
Jacob agora parecia curioso, porém ainda apático.
Eu admito que preferia não ter um genro canino, mas quem escolhe não sou eu. E mesmo se eu
tivesse que escolher, eu não acho que você seria uma escolha ruim, mesmo não sendo um híbrido ou
vampiro. E eu digo isso porque sei que mesmo você tendo uma lista enorme de defeitos, que às vezes
tenho que concordar com a Rose.
Ele pausou para dar um sorriso para Jake e continuou.
Você é uma pessoa honrada, que ama muito minha filha, independentemente do imprinting e que
faria qualquer coisa no mundo para protegê-la e fazê-la feliz.
Ei?! Quem é você e o que fizeram com o Edward?
O velho Jake tinha voltado. Ambos riram e eu tenho que admitir, até eu ri um pouquinho.
Desculpe eu ter me descontrolado.
Não é para mim que você deve desculpas, Jake. Eu sei o que motivou você a desconfiar da dedicação
de Leah, mas eu posso garantir que ela fez tudo o que podia. Eu mesmo teria culpado ela, se eu não tivesse
visto o quanto ela se esforçou para tentar impedir o rapto.
Edward falou isso para Jacob não com raiva, mas como quem tratava de trazer alguma razão à mente
dele.
É verdade. Eu não deveria ter descontado minha frustração nela. Sei que ela fez o que poderia ter
feito. Acho que Bella esta certa, foi mesmo minha culpa, não da Leah.
Não foi culpa sua, nem de ninguém. Eu não acredito nisso, tão pouco a Bella acredita. Ela só está
muito nervosa com toda a situação, e é normal que esteja. Descontou em você, assim como você
descontou na Leah.
Como você sabe? Não tocou nela para saber o que se passava em sua mente.
Jacob provocou. Edward agora parecia presunçoso.
Eu não preciso ler a mente dela para saber o que minha esposa pensa. Não precisamos disso há um
bom tempo. E quer saber, cansei dessa conversa, eu não deveria ter que te dar uma lição de moral. Eu não
tenho filho super crescido assim para ter essa obrigação. Essa é função do Billy.
Edward deu um soco no ombro dele.
Por que não fazemos o que devemos fazer então?
Edward continuou.
Mas e sobre os planos do resgate?
Há tempo para isso Jacob, ainda nem sabemos onde ela está.
Certo então. Não decidam nada enquanto eu estiver fora.
Jacob suspirou.
Sim. Estou indo falar com a Leah. Me desculpar, melhor dizendo.
Boa sorte.
Edward concluiu e veio em minha direção.
Eu também gostaria de saber como você sabe ou não o que eu penso sem tocar em mim e eu permitir
você ler minha mente.
Essa é fácil, eu te amo demais. Isso me obriga a observar você em tudo, saber suas manias, adivinhar
seus gostos, sua forma de pensar, enfim. Me obriga a ter um dossiê completo sobre você, gravado em
minha mente e em meu coração.
Eu tenho que admitir, se minha filha não estivesse em perigo eu me jogaria nos braços de Edward e
iríamos para nossa choupana.
Boa resposta Sr. Cullen. Você está certo sobre o Jacob também. Eu não acho que ele tenha sido
culpado de nada, depois eu converso com ele. É que eu não agüentava mais não ter alguma direção de
como agir para salvar minha filha e estávamos perdendo tempo precioso com discussões sem sentido.
Olhei para o chão e suspirei. Ele levantou minha cabeça para encontrar meus olhos.
Bella, marque o que eu digo: eu vou trazer nossa filha de volta. Eu juro. Nem que seja a última coisa
que eu faça.
135
Aquilo fez meu coração apertar ainda mais. Se algo de ruim acontecesse com ele ou com Renesmee eu
não sei o que faria. Precisava de uma distração para não enlouquecer ainda mais. E Edward sempre foi
excelente em me distrair. Resolvi usar isso em meu favor.
O que você quis dizer com você saber o porque de Jacob desconfiar de Leah? Quais teriam sido os
motivos para não se empenhar em ajudar nossa filha? Eu sei que ela não é nem de longe amigável com
Nessie, mas ela não é amigável com ninguém. É verdade que com ela a situação é pior, mas deve ser
alguma outra coisa para uma reação como aquela do Jake
Perguntei, agora verdadeiramente curiosa.
Bem, diz respeito à eles. Como cavalheiro, eu não deveria te dizer isso, mas eu não consigo esconder
nada de você de qualquer forma. E tenho certeza que você descobriria por si só em algum momento.
Ele sorriu para mim, porém parecia meio constrangido.
Me fala. Eu juro que não conto a ninguém. Você sabe que sou boa em guardar segredos ou esqueceu
quanto tempo eu guardei o seu?
Pisquei pra ele.
Tudo bem. É que Jacob desconfia que Leah está começando a se apaixonar por ele.
Não pude evitar, meu queixo caiu. Leah apaixonando-se pelo Jake? Eu definitivamente não vi isso
acontecendo.
Wow! Isso sim é uma bomba. Mas como assim, desconfia?
Ela tenta a todo custo não pensar sobre isso quando eles estão como lobos, para ele não perceber,
mas às vezes escapa alguma coisa.
Ele parecia um pouco divertido com a conversa. Achei uma boa distração. Enquanto esperamos por
mais informações de Eleazar, acho melhor continuar.
Você já deve ter ouvido isso há algum tempo. Estou certa?
O canto de sua boca se contraiu.
Er... Ela tenta não pensar nele quando eu estou perto também. Acho que com medo de eu falar
alguma coisa para o Jake. Mas se com ele já é ruim o suficiente para ela disfarçar, imagine comigo? Quando
loba, ela pensa na tarefa a cumprir, focada e é puro instinto animal. Já em sua forma humana, é mais difícil
controlar essas coisas. Está mais propensa a ficar distraída olhando para ele.
É, parece que nossa filha tem competição agora. Que acha? Será que poderemos nos livrar do genro
cão?
Forcei um sorriso para ele.
Improvável. Apesar do Jake continuar achando que não é o ideal para ela, ele simplesmente não
consegue enxergar qualquer garota que não seja a Nessie. Tenho pena da Leah. Deve ser péssimo você se
apaixonar por uma pessoa destinada à outra. E pior, compartilhar os pensamentos mais íntimos com ele.
Pois eu digo que é pior ainda. Que sina a da Leah, essa não é a primeira vez que isso acontece com ela
ou você esqueceu que ela namorava e era apaixonada por Sam, antes dele ter o imprinting por Emily?
136
21. Cupido estúpido e doente
Eu estava abismada. Acho que encontrei alguém com ainda mais falta de sorte do que eu.
Não tinha como eu esquecer isso porque ela fica xingando, como ela mesma apelidou, o cupido
estúpido e doente, que fez ela passar por isso duas vezes. Ela acha que nunca vai conseguir encontrar
alguém a quem amar que pudesse corresponder a esse sentimento. Que talvez até não mereça isso. Se
sente alguém de fora de tudo, única mulher lobo, que não teve imprinting ainda e que é odiada por
quase todo mundo, já que adotou o sarcasmo como forma de defesa.
Me senti muito mal pela pobre garota.
Agora entendo porque ela é ainda mais agressiva com nossa filha. Ciúmes.
Na verdade esse é o principal motivo, mas não o único. Ela acha nossa filha mimada, geniosa e que
tem tudo que quer muito facilmente. O que não deixa de ser verdade, mas o ciúme não deixa ela enxergar
as qualidades que Nessie tem. Bem, pelo menos não deixava. Algum tempo antes do ataque elas estavam
começando a criar laços, meio tortos pelo temperamento explosivo de ambas, mas essa afinidade
aumentou bastante nesses últimos tempos. Aposto que ela está tão ansiosa para ajudar no resgate de
nossa filha como todos os outros.
Ele explicou.
É, mais uma que está sendo conquistada por nossa filha. Eu estava pensando sobre isso um dia
desses. Será que isso não seria mais um dom dela? Todos se encantam por Renesmee muito facilmente. Já
existiu algum vampiro com mais de um dom?
Olhei para ele esperando uma resposta.
Já existiu uma híbrida, filha de uma humana que já tinha um dom antes de ser vampira e um pai
vampiro com o dom de ler mentes?
Vejo seu ponto.
Eu assenti e sorri para ele.
É possível. Eu mesmo já andei observando isso, mas seriam necessários testes para sabermos.
Ficamos calados abraçados por algumas horas, processando tudo que conversamos e principalmente
tentando elaborar algum plano para resgatar Nessie e Nahuel das garras dos Volturis. Por que levar
Nessie? Por que não Alice, Edward e até mesmo eu? Nossos dons são mais valorizados por eles, além do
fato de já termos um acerto de contas a fazer com eles. Por que levar minha filha e Nahuel? E levaram para
onde? São muitas perguntas, que nem começavam a ser respondidas. Eu não conseguia deixar de pensar
nessas coisas nem um minuto, nem mesmo enquanto estava conversando com Edward sobre a bomba da
possível paixão de Leah por Jacob.
Após mais algumas horas de conversas esparsas, enquanto aguardávamos notícias de Eleazar, os lobos,
meu pai e Billy foram para suas casas, descansar um pouco. Nós ficamos de informar imediatamente sobre
qualquer novidade que surgisse. Amanheceu e no decorrer do dia o telefone não tocou nenhuma vez. Isso
estava me deixando louca. Todos com exceção de Leah já estavam de volta. Seth veio a mando da irmã
para buscar informações de como estavam os planos de resgate. Acho que a conversa entre ela e Jacob
não deve ter corrido muito bem. Ele também, como esperado, estava de volta. Por volta das duas horas da
tarde, os Denalis chegaram à nossa casa. Devem ter passado a noite toda e parte desse dia vindo do Alaska
para Sequim.
Eleazar, Garret, meus amigos. Obrigada por virem.
Carlslile o cumprimentou, seguido de Edward.
Infelizmente por um motivo desagradável, mas esperamos resolver isso o quanto antes.
Eleazar parecia otimista ou era somente fachada para tentar nos acalmar. Garret parecia enojado com
tudo isso que os Volturis tinham feito. Carmem, Kate e Tanya vieram falar comigo. Eu as cumprimentei, a
exemplo do meu sogro, porém devo admitir que eu estava mais aliviada por ver Eleazar. Talvez ele tivesse
alguma informação nova.
Desculpe ser rude, mas você deve imaginar nossa aflição. Tem alguma informação sobre o possível
paradeiro de Renesmee?
Edward roubou minha fala. Eleazar parecia apreensivo.
137
Nada em Volterra, pelo que vocês me falaram de quando isso aconteceu, os anciões estavam lá e os
gêmeos tinha sido enviados para uma tarefa de rotina, punição. Entretanto, ouvi alguns comentários que
eles recentemente viajaram para fora do país e ninguém sabe para onde foram ou seus objetivos. São
pouquíssimos que sabe desse movimento deles. Afinal não é de seu feitio sair de Volterra, muito menos
deixando suas esposas expostas. Ainda tenho informantes por lá que ficaram de me passar qualquer
informação nova, mesmo que considerem irrelevantes.
Todos na casa estavam atentos às novidades. Alguns começaram a conversar paralelamente tentando
chegar a alguma conclusão e eu me sentia doente de frustração.
O que devemos fazer então? Esperar?
Jasper perguntou à ele. Mais uma vez roubaram minha fala, mas eu completaria dizendo que eu não
esperaria mais.
Eu receio que sim. Mas pelo que conheço do modus operandi deles, farão questão de nos mandar
alguma informação de como achá-los.
Então você também acha que se trata de uma armadilha, onde estão usando Nessie como isca?
Jasper continuou. Eu estava espantada por não ter pensado nisso em primeiro lugar. Acho que eu
estava tão desesperada com tudo, que não vi o que estava ali em minha frente. Estúpida, Isabella Marie
Cullen. Era óbvio que se tratava de uma armadilha, seja para capturar os talentosos de minha família
incluindo eu mesma ou para vingança. Eleazar assentiu à teoria de Jasper.
Como você me falou ao telefone Edward, os Volturis estão com a confiança dos vampiros abalada,
então acredito que seja mesmo em outro país que a operação esteja acontecendo e que somente tenham
usado parte da elite de sua guarda para não chamar atenção. O que é uma boa notícia para nós em relação
à números.
Eleazar comentou.
Todavia, se juntarmos todos nossos aliados como da última vez, isso poderia se voltar contra nós.
Edward complementou, aparentemente lendo o que se passava na mente de Eleazar.
Isso mesmo. Andei sabendo que eles tentaram espalhar que os Cullens estavam tentando formar um
exército para tomar o poder deles à força, para benefício próprio e não como defesa pessoal, como
realmente aconteceu.
Que é exatamente o que aqueles bastardos merecem. Serem derrubados do poder. Acabar com o
reinado abusivo deles.
Bradou Garret.
Que demônios! Como eu gostaria de pôr minhas mãos sobre eles.
Emmet falou e fez um movimento como se estivesse torcendo um deles ao meio.
Você acha mesmo que eles seriam capazes de tentar iludir os outros a esse ponto?
Carlslile ainda tentava defender seus velhos amigos.
Não só acredito firmemente como poderia apostar que eles usariam isso para comprovar seus
rumores. Tendo como resultado não só restauração de sua credibilidade como também usariam para
conseguir força total contra nós.
Eleazar parecia desapontado. Acho que ele lamenta muito pela época que fez parte da guarda Volturi.
Não tem nada que possamos fazer agora? Talvez tentar mais algum contato com Volterra? Não sei.
Qualquer coisa do que ficarmos aqui parados.
Jacob falou quase tão ansioso quanto eu.
Não, meu jovem transmorfo. O melhor que podemos fazer é nos preparar para quando soubermos
onde vamos.
Eleazar concluiu me deixando em ponto de ebulição de tanta raiva. Tudo isso por vingança e poder?
Nós não queremos nada com o reino Volturi, somente continuar com nossas vidas o mais longe possível
deles.
Por que eles não podem nos deixar em paz. Não podemos ficar livres deles pra sempre?
Pensei alto. Edward olhou para mim e não precisou falar nada. Ele pensava o mesmo. Alice correu para
janela, então ouvimos uivos vindos de fora da casa Embry e Quil tinham ficado de guarda e
imediatamente, estávamos todos em alerta. Edward correu para fora e Jacob se transformou em lobo
deixando um rastro de roupas destruídas pelo caminho e marcas profundas de suas garras pelo piso
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encerado da sala. Quando cheguei no lado de fora existiam apenas dois Volturis, parados com um
embrulho nas mãos. Não me parecia um ataque, nem de perto como a formação militar elegante da última
vez.
Eles são apenas mensageiros.
Alice nos assegurou.
Só estão aqui para entregar uma encomenda em nome de seus mestres.
Edward complementou e apontou para o pequeno embrulho que carregavam. Os dois vampiros
afirmaram com a cabeça, deixaram o pacote no chão e partiram apressadamente.
Devemos pegar? Ou seria alguma artimanha de ataque deles?
Emmet perguntou.
Podemos pegar sim. Eu já sei o que tem dentro. E não tem mais nenhum deles por perto.
Alice falou enquanto Edward foi andando em direção ao embrulho, comigo, Sam e Jacob o seguindo. Os
demais mantiveram seus postos por garantia. Edward abriu o embrulho e puxou algo brilhante em prata e
parecia ter várias pedras preciosas incrustadas. Carlslile correu para nós.
Impossível.
Meu sogro murmurou.
Tem certeza que é esse Carlslile?
Edward perguntou. Mas meu sogro ainda estava analisando o pequeno objeto, uma colar com um
pingente de cruz.
Tenho sim. Olha a inscrição na parte de trás.
Ele virou as costas do pingente para que seu filho pudesse ver.
O que é Edward? Por que os Volturis nos mandariam uma colar e por que Carlslile parece conhecer?
Perguntei o que deve ter passado pela cabeça de todos já que ele estava em conversa particular com
seu pai. E que diabos os Volturis têm com colares? É algum tipo de cartão de visita deles: Ei, se preparem.
Vamos atacar em seguida.
É um presente de casamento. Carlslile deu à Esme quando eles fizeram a primeira viagem juntos,
depois dele a ter transformado em vampira e em seguida sua esposa.
Esme veio correndo olhar de perto.
É ela mesma. Pensei que a tinha perdido há muito tempo.
Manuseou o objeto com afeto, saudosismo e surpresa por revê-lo. Eu olhei confusa para Eleazar.
O que isso quer dizer?
Perguntei.
Carlslile, onde você acha que perdeu esse colar?
Eu não acho, tenho certeza. Foi na França, em um dos castelos dos Volturis quando fomos visitá-los
para Esme conhecê-los e ao país que tanto adora.
Isso mesmo.
Esme confirmou. Eu ainda estava confusa.
Segundo Eleazar, essa é uma pista, ou melhor, um convite para onde eles os levaram. Para França.
Edward respondeu a pergunta não dita pelo lobo Jacob.
Ainda não Jake, precisamos nos preparar melhor. Eu concordo com Eleazar, é sem dúvida uma
armadilha.
O que ele disse?
Perguntei.
Ele disse que temos que ir imediatamente para França.
Estou de acordo. Vamos logo.
Respondi e comecei a me encaminhar para a casa. Edward me pegou pelo braço.
Bella, eu sei que você está ansiosa para ver nossa filha e Nahuel bem, eu também estou, mas se não
formos preparados pode ser um desastre ainda maior para todos nós, para eles inclusive.
Eu não agüentava mais ter que ser paciente. Queria ação, ou melhor, queria resultado. Minha filha nos
meus braços novamente, agora! Mas me conformei temporariamente.
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Venham todos, precisamos decidir como agir, agora que sabemos para onde ir. Inclusive vocês, Embry
e Quil. Não virão mais Volturis, foram somente aqueles. Alice tem certeza disso e precisamos das opiniões
de todos.
Edward comandou. Entramos e nos acomodamos. Estava muito mais agitado do que da última reunião
aqui. Muito barulho e gente gesticulando em antecipação.
O que estamos esperando? Nós vencemos vampiros antes e poderemos vencer novamente.
Quil estava empolgado. Os lobos haviam voltado à sua forma humana para facilitar a discussão.
Meu jovem, antes eram muitos vampiros recém-nascidos e fortes, porém totalmente despreparados e
insanos de sede. O que não é o caso da elite da guarda dos Volturis
Jasper tentava trazer alguma lucidez à situação.
Alguns deles são portadores de dons que você nem pode imaginar. E mesmo os que não possuem
dons especiais, são verdadeiras armas de guerra, extraordinariamente letais, com séculos de experiência
ao seu lado - Completou Eleazar.
Eu ainda acho que podemos vencê-los.
Embry apoiava o irmão e Emmet parecia concordar. Eu queria socá-los agora por estarem tão
empolgados com a batalha e não se preocupando com o resultado. Aliás, com a raiva que eu estava, só
queria socar alguém, qualquer um.
Mesmo que pudéssemos convocar nossos aliados da última vez o que não podemos, por que não
temos como saber com certeza em que isso implicaria para todos nós, tem muitos pontos cegos envolvidos
e Alice não consegue enxergar o resultado. Peço que sejamos cautelosos agora porque em uma batalha
como essa não sei o que esperar com certeza. E principalmente: quem perderíamos no processo. Você
gostaria de arriscar a vida de seus irmãos e irmã assim?
Edward perguntou para ele. Embry agora estava pensativo. O que realmente me estranhava era como
Sam estava olhando para Edward sem falar um palavra e extremamente sério.
Entendo Sam e não estou pedindo isso. Não se preocupe, não pensaremos que vocês nos
abandonaram ou algo do gênero. Eu sei que você tem que pensar no seu povo, é seu dever.
Edward falou diretamente para Sam.
Do que ele está falando? Sam?
Jacob perguntou e olhou de Edward para Sam com uma expressão confusa.
Não podemos ir. Os riscos são muito altos. E mesmo que vençamos, eles podem se voltar contra
nosso povo. Eu tenho que pensar nele acima dos interesses de dois indivíduos. Me perdoe Jake.
Sam estava triste, mas decidido. Todos começaram a falar ao mesmo tempo. Paul e alguns dos novatos
do bando de Sam concordando com ele, enquanto Jake, seu bando e a outra parte do bando de Sam
argumentava contra a decisão. Jake estava tremendo. Temi que acontecesse algum conflito sério aqui
mesmo na casa. Comecei a sentir uma onda de calmaria e posso apostar que Jasper está usando seu dom
para tentar evitar mais tragédias. Infelizmente não creio que esteja sendo suficiente.
Jake, controle-se. Eles têm todo o direito de não concordarem em nos ajudar agora. Já fizeram muito
por nós no passado e somos eternamente gratos, não podemos exigir deles mais do que isso.
Não Edward. Isso não está certo.
Embry falou por Jacob, que parecia usar toda sua força para manter uma respiração uniforme o
suficiente para não explodir em lobo naquele momento.
Jacob, eu não espero que entenda minha decisão. Eu sei que pelo seu imprinting você não consegue
enxergar mais nada que não seja a Renesmee. Todos nós gostamos dela também, aprendemos a conviver
com os Cullens e até a termos amizade por eles, mas só existimos como lobos para proteger nosso povo. É
nossa única razão de viver. E ir para outro país em uma missão quase suicida, deixando nosso povo para
trás sem proteção alguma, não está de acordo com nossa obrigação.
Sam falou calmamente. Então ele ordenou que todos de seu bando fossem embora com ele. Não sei se
ele precisou usar a voz de comando alfa, afinal, a maioria do bando dele concordava. Ele olhou mais uma
vez para Edward que sinalizou com a cabeça, então deu as costas e foi embora.
Humpf! Lobos! Não dá para confiar neles.
Rosalie finalmente falou alguma coisa, desde que soube do seqüestro.
Não Rose, eles têm direito de decidirem o que quiserem e o mesmo vale para vocês.
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Edward olhou para os integrantes do bando de Jake.
Espere aí um momento. Nós não vamos desistir assim tão fácil, nem pelo Jake e nem por vocês. Não
tome alguns de nós como sendo todos nós.
Quil cuspiu as palavras para Rose.
Basta! Já sabemos quem vai e quem fica. Precisamos saber agora o que vamos fazer - gritou meu pai.
Pai, você não vai fazer nada porque você não vai conosco.
O inferno que não vou. É sobre minha neta que estamos falando.
Pense o que quiser pai. Você não vai e é definitivo.
Ele bufou e ficou vermelho como sangue.
Você não pode me impedir. E mais respeito mocinha, eu sou seu pai. Você é quem deve obediência à
mim e não o contrário.
Me perdoe Charlie, mas Bella está certa. Você não poderá ir conosco. Não temos pessoal suficiente
para ter o luxo de deixar alguém para proteger um humano.
Edward falou. Jacob e os demais concordaram com a cabeça. Meu pai parecia que iria insistir, mas
Jasper colocou a mão sobre seu ombro e imagino ter usado seu dom para acalmá-lo. Ele parou seu
protesto extremamente contrariado, mas pacificamente. E nós começamos finalmente os planos de
ação, depois de superada toda a polêmica.
Existem muitos castelos na Franca, de qual exatamente estamos falando Carlslile?
Eleazar perguntou mudando para o assunto que interessava.
Foi no Chateau de Beynac. Era um castelo imponente e com um ar misterioso, bela vista e em uma
vizinhança com poucos habitantes humanos. Tudo o que eu esperava para animar Esme.
Meu sogro olhou amorosamente para sua esposa.
Hum, eu me lembro desse. Era um castelo medieval que ficava à sudoeste da França, na commune de
Beynac-et-Cazenac. Estava em condições muito ruins e os Volturis se ofereceram para restaurar todo ele, a
pretexto de que a herança histórica do local fosse preservada. Foi construído por volta do século 12, por
um dos barões de Beynac, o interessante é que na verdade os Volturis somente ofereceram esse apoio
porque tinham participado da construção e porque eles queriam um local com classe para passar
temporadas ou um local estratégico para um fuga. Que fosse em um país vizinho à Itália, mas não tão
longe em relação a Volterra. É claro! Um local perfeito para ocultar prisioneiros sem que a comunidade
vampira soubesse e que se alguma coisa desse errado, voltariam imediatamente para sua terra natal.
Eleazar estava perdido em seus pensamentos. Honestamente, eu não estava nem um pouco
interessada na história do castelo ou mesmo na geografia do local. Estava interessada unicamente nos
detalhes que pudéssemos usar no resgate.
Carlslile, você pode nos informar alguma coisa mais específica? Entradas alternativas, calabouços ou
outra coisa da estrutura do local?
Parece que não era só eu que estava ansiosa por algo mais útil porque Jasper perguntou isso e Carlslile
começou a andar de um lado a outro, tentando lembrar o que fosse possível.
Bem, não conhecemos todo o castelo porque ainda estava em reforma. Eu ouvi, por acaso, que
existiam entradas secretas.
Soubemos que existia um calabouço, sim. Aro brincou falando sobre isso e eu me lembro de ter me
sentido desconfortável a respeito.
Esme parecia encolhida com a lembrança.
Ótimo.
Murmurou Eleazar.
Como assim ótimo? Eu não vejo como isso pode ser útil para nós.
Resmunguei para ele.
Bella, ele só está sendo profissional. Ele pensou ótimo porque já sabemos de duas coisas que podem
estar ao nosso favor. O calabouço, porque certamente é onde eles aprisionaram Nessie e Nahuel. E a
entrada secreta porque pode servir para nosso ataque.
Edward tentou me acalmar.
Mas vocês não sabem onde ficam nenhum dos dois. Como isso pode ser útil? Argumentei.
141
Calabouços são em sua maioria na parte inferior do castelo. Para evitar tentativas de fugas ou
resgates. Então sabemos sua localização aproximada - Jasper me respondeu.
E quanto a não sabermos onde ficam as entradas secretas, eu posso resolver isso facilmente lendo a
mente de um dos guardas dos Volturis.
Edward complementou o irmão. Agora eu estava começando a entender porque eles estavam tão
excitados com essas novas informações. Eu realmente não entendo nada de estratégias militares, me senti
um tonta, atrapalhando quem entende. Se pudesse corar, estaria vermelha agora. Resolvi me calar até o
fim da reunião para não atrapalhar.
Alice, precisamos de informações mais recentes sobre o castelo. Pesquise se está aberto à visitações,
mapas do local e qualquer outra coisa que possa ser útil para nossa missão.
Edward pediu. Ela sinalizou com a cabeça e flutuou escada acima em alta velocidade, onde nossos
computadores ficam. E pelo que sei dos conhecimentos dela em tecnologia, imagino que irá conseguir
além do que lhe fora solicitado.
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22. Uma pontinha de inveja
Continuaram discutindo quem faria o que, seja para distração, para coletar informações ou para linha
de frente de batalha. Todos já estavam com seus papéis definidos.
Edward queria me deixar de fora de todo o esquema, pensando em me proteger porque sou
inexperiente em batalha. Mas não tinha ninguém que pudesse me impedir de estar lá para salvar minha
filha e Nahuel, além de tentar proteger minha família e amigos. Graças a Eleazar, que convenceu Edward
que meu dom era importante demais para que eu ficasse fora disso, fiquei com o grupo que iria resgatar
Renesmee.
Alice voltou não só com o que lhe fora solicitado, como também as plantas baixas do castelo.
Mostrando exatamente onde ficava o calabouço e alguns locais que poderiam ser utilizados como entrada
alternativa.
Perfeito Alice! Bom trabalho.
Edward congratulou sua irmã, que parecia contente em poder ser útil. Senti uma pontinha de inveja,
porque quase todos estavam contribuindo de alguma forma e eu ali, um peso morto. Bem, pelo menos até
a ação começar.
Tem outra coisa. Não sei se poderemos usar isso de alguma forma, mas o castelo está novamente em
reforma, uma maior agora. Com uma série de equipamentos pesados.
Alice comentou, mas não parece ter atraído o interesse dos demais.
Rose imaginou que poderíamos entrar junto com as excursões turísticas, infiltrados, sendo essa idéia
logo descartada por Jasper, já que nosso cheiro é muito diferente dos deles e os guardas perceberiam
facilmente. Argumentação apoiada por Carlslile, obviamente pensando no fato de não podermos colocar
os humanos em perigo. Ela ficou contrariada, com os braços cruzados e balançando uma das pernas
nervosamente. Me lembrei imediatamente de minha filha e o aperto no peito voltou com força, mas
disfarcei. Eu tinha que ficar com a cabeça no jogo.
Com todo o esquema do resgate organizado, estávamos nos preparando para partir pra França. Jasper
tinha conseguido passaportes para todos, incluindo os lobos. Uma mera precaução já que iríamos em um
jatinho particular que Eleazar nos conseguiu. A parte mais difícil foi obrigar meu pai a ficar, Billy tentou
convencê-lo, ainda que ele mesmo tenha ficado irritado por não poder ir ajudar. Deixamos eles na reserva
e fomos pegar o jatinho.
Era estranho pensar que eu, pela segunda vez, estaria viajando para outro país que sempre quis
conhecer, mas não sendo uma viagem de turismo e sim de resgate de alguém que amo mais que tudo.
Impressionante como essas coisas vivem acontecendo comigo. Impressionante e irritante!
Estávamos todos muito concentrados na missão. A maioria ainda discutindo os detalhes de seus papéis,
como Jake, Eleazar, Seth, Jasper, Garret, Emmet e Quil. Alguns muito calados, como Kate, Carmem e Tanya.
Embry, incrivelmente, dormia a viagem toda, mesmo com as conversas. Leah não pôde vir conosco por
ainda estar muito machucada fisicamente e psicologicamente, eu imagino. Ela e Jacob não se acertaram e
ele teve que usar a voz de comando alfa para obrigá-la a ficar com Billy e Charlie, já que ela não queria ficar
na casa de Sue, para que sua mãe não soubesse do ataque e ficasse preocupada.
Ainda assim, eu soube que a reação dela ao ser deixada de fora do resgate foi digna de um furacão,
terremoto ou alguma outra catástrofe natural. Eu não deveria ficar surpresa com isso, mas admito que
fiquei impressionada com a bravura e dedicação dela para com o bando e por tabela, para com a minha
filha.
Carlslile e Esme, apenas se sentaram juntos, com as mãos dadas, olhando nos olhos um do outro e sem
falar nenhuma palavra. Edward viu para onde eu estava olhando e saiu da reunião que revisava a missão,
vindo sentar-se ao meu lado tomando minhas mãos e olhando nos meus olhos, a exemplo de seus pais.
Nós também não falamos nada, nossos olhares falaram por nós tudo o que tínhamos que dizer. Que
tudo vai dar certo, mas se não der, que um soubesse o quanto o outro amou mais que tudo. Edward me
beijou com muito carinho em princípio, depois se intensificando. Acho que pelo medo de perdermos um ao
outro ou a quem amamos.
Depois do beijo, olhamos com cuidado para cada um dos que faziam parte dessa missão. Os Denalis,
que mais uma vez, sem obrigação alguma, estavam colocando suas existências em segundo plano para nos
143
ajudar. Os lobos, que mesmo tendo o imprinting de seu líder com Nessie sendo um bom motivo, não
foram obrigados em momento algum pelo seu alfa, Jake. Na verdade, ele fez questão de pedir que eles, a
exemplo do bando de Sam, desistissem. Mas eles se recusaram, informando que estavam fazendo isso por
ele e por nós, os Cullens, como fariam por qualquer amigo. Isso foi muito tocante e valente, porém eu me
preocupo com o que pode acontecer com eles. Aliás, com qualquer um dos que estão aqui.
Eu os considero com o sendo parte de minha família, os Denalis, os lobos e os Cullens, sendo um bloco
só. Único.
Pensar em perder qualquer um deles é extremamente doloroso. Tenho esperança que não precisemos
passar por isso. Os planos eram de um assalto na surdina, rápido e limpo. Com combate direto com a elite
da guarda Volturi somente pela equipe de distração. Com um pouco de sorte, enfrentaríamos apenas
alguns guardas que estariam de prontidão no calabouço, resgataríamos Nessie e Nahuel e estaríamos fora
dali antes que percebessem.
Alguns estavam bastante confiantes no plano, contudo conhecendo minha sorte, prefiro estar
preparada para um combate pior. Porém não custava tentar pensar positivamente e foi o que tentei fazer
o resto da viagem.
Havíamos finalmente chegado à França, porém em uma commune que descobri depois que é como
são chamadas as cidades na França vizinha de onde o Chateau de Beynac ficava. Essa medida foi para
tentar ganharmos mais algum tempo até que os Volturis soubessem de nossa chegada.
Fizemos o restante do caminho à pé. Imaginei que os lobos teriam alguma dificuldade nisso porque,
afinal de contas, eles são parecidos com os humanos em algumas aspectos, como dormir, comer e se
cansar.
Para minha surpresa, eles não pareciam ter dificuldade em nos acompanhar, alguns até passando de
nós e sem nenhum cansaço aparente. Pareciam até divertidos em correr brincando com seus irmãos. Mais
uma vez minha preocupação por eles aumentou.
Se eles perdessem algum de seu grupo, seria triste e isso não era impossível, porque outra coisa que
eles se parecem com os humanos é que eles morrem. Para piorar, eles são tão jovens, com tanta vitalidade
e sem experiência de vida. Seria trágico, não existe outra palavra que defina melhor. Absolutamente
trágico.
Faltando alguns quilômetros para chegar ao castelo, ficamos observando a rotina da guarda Volturi.
Edward ocasionalmente se aproximava para tentar obter deles mais alguma informação que pudesse ser
proveitosa. Estávamos quase todos impacientes, claro que alguns mais que os outros. Estes seriam Jacob,
Rose e eu, obviamente. Passadas mais algumas horas resolvemos dar início a operação de resgate.
Era dividida em três iniciativas:
A primeira seria para confundir, usando o que consideramos nossos melhores lutadores como isca, eles
aparentariam estar fazendo um ataque de resgate compacto e eficiente, porém desesperado. Para que isso
funcionasse, Edward, Emmet, Jasper e Jacob estariam a frente do ataque, como seus líderes e contaria com
o apoio dos lobos. Achamos que talvez eles pudessem acreditar, mesmo que não inteiramente, que
teríamos deixado alguns para trás. Esme seria um desses, por não ter nenhum conhecimento de guerra,
acompanhada do seu marido Carlslile, Alice por ser muito valiosa pelo seu dom, os Denalis porque talvez
não tivéssemos interesse em envolvê-los em uma missão suicida de resgate. E eu, bem, porque Edward
poderia tentar me convencer a ficar de fora para não atrapalhar, eu sendo muito passional. Tá certo! Como
se isso pudesse mesmo acontecer. E a Rose pelo mesmo motivo que o meu.
Tenho que admitir que, tal qual minha sogra, eu não entendo nada de guerra. Isso é fato! Entretanto,
acredito que depois de minhas experiências com os Volturis, posso dizer que sei um pouquinho deles. Não
acho que esses pretextos irão colar.
No caso de Esme, o argumento tem alguma relevância. Os Denalis até poderiam ter ficado de fora se
não os avisássemos, o de Rose até poderia ser aceito porque, de fato, ela tem um gênio muito explosivo e
isso não seria novidade para ninguém. Mas nem em um milhão de anos eu ficaria longe da missão de
resgate de minha filha. Fora o fato que Alice já fizeram algo semelhante quando os Volturis tentaram
acabar conosco da última vez.
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É um tiro longo e devemos torcer que funcione, pelo menos parcialmente. Isso porque, não espera-se
que os Volturis acreditem realmente, mas que fiquem tentando descobrir o que há por trás dessa iniciativa
tempo suficiente para que o segundo grupo possa fazer o resgate.
Na segunda parte, o meu grupo entraria por uma das passagens secretas, o mais discretamente que
pudéssemos, com o objetivo de resgatar Nessie e Nahuel. Nesse grupo, ficamos eu, Kate, Carlslile, Garret,
Rosalie e Esme. Nos encarregaríamos de derrubar alguns poucos guardas que ficassem responsáveis pelas
celas, os libertaríamos e sairíamos de lá o mais rápido possível, tentando assim evitar baixas em nosso
lado. O mais complicado nesse grupo foi decidir quem NÃO iria fazer parte dele.
Jacob insistia em argumentar como a Rose poderia ir conosco e ele não. Edward por sua vez, queria
fazer parte por minha causa e da Nessie. Contudo, eles foram convencidos de que desempenhariam papéis
mais importantes se fizessem parte do grupo de ataque.
A terceira parte era basicamente de reforços. Alice tentaria prever quem necessitaria mais de apoio, o
grupo de distração ou de resgate. Isso seria facilitado por ela estar longe dos lobos e dos híbridos, então
ela, Eleazar, Carmem e Tanya entrariam em ação. Uma vez Nessie e Nahuel fora do castelo, salvos em um
local seguro, mais de nós participaria da luta de retirada do grupo de distração.
Segundo a teoria de Eleazar a partir de informações coletadas junto aos seus contatos remanescentes
na guarda real só enfrentaríamos alguns componentes da guarda Volturi. Afinal, seria muito arriscado
para eles usar todo seu poder bélico fora de Volterra. Chamaria muita atenção da comunidade dos
vampiros para eles, de uma maneira extremamente negativa, talvez até desastrosa. Tínhamos que
acreditar nisso também ou nossas chances seriam nulas.
Eu estava muito nervosa, não só pelo fato de não ter Edward à vista, mas também por todas as variáveis
que teríamos que enfrentar. E se a teoria de Eleazar estivesse errada e fôssemos enfrentar toda a guarda
Volturi? E se eles não acreditassem nem por um minuto em nosso ardil e mandassem seu poder armado
para nos confrontar no calabouço? Ou se acreditassem nos argumentos do ataque e usassem força total,
eliminando alguns dos nossos? Se descobrissem nossos reforços e atacassem simultaneamente nossos
grupos de ataque e de resgate?
Eu já estava para perder a cabeça. Graças a Deus eu pensei no que realmente importava, o motivo de
estarmos ali. Salvar Nessie e Nahuel das garras dos Volturis. No processo, tentar fazer com que o maior
número dos nossos consiga viver para ver um outro dia. Eu tinha que me apegar à isso ou sabe-se lá o que
poderia acontecer.
Não que eu me importasse muito com o que acontecesse comigo, não tendo tantas pessoas que amo
correndo risco. Me sacrificaria por elas de bom grado, sobretudo se as pessoas em questão fossem meu
marido e minha filha.
Tínhamos decidido que o ataque seria à noite, quando as visitações estivessem encerradas, para não
expor humanos desavisados aos perigos de uma guerra sangrenta entre grupos de vampiros e ainda com
participação de lobos do tamanho de cavalos.
Foi feita uma breve revisão dos papéis, com Jake rolando os olhos impaciente por perder mais aquele
tempo e finalmente colocamos o plano em movimento.
Pouco antes de eu me afastar com meu grupo, Edward me puxou pelo braço e me deu um abraço
apertado, que é claro, eu respondi imediatamente. Depois nos beijamos e quando terminamos, percebi
que essa ação foi imitada por todos os casais presentes. Enquanto os amigos apertavam as mãos e diziam
frases para melhorar o moral. Aquilo me levou de volta no tempo, à época que quase entramos em batalha
contra os Volturis, que seriam os advogados de acusação, juízes e carrascos da única lei dos vampiros. E
que tinham feito essa ação por mais de três mil anos, sendo admirados por isso.
Os Volturis, que tinham um exército excelentemente treinado, uma verdadeira máquina de guerra e
que estava com suas armas apontadas para nós. A história só não iria se repetir, porque dessa vez a
batalha não poderia ser evitada no último minuto, na verdade ela começaria antes de qualquer tentativa
de resgate. Teríamos que nos colocar à todos em risco para salvar quem amamos. Outra coisa que não
seria igual era que seria uma batalha em porte menor, mais especializada por assim dizer. Talvez mais
perigosa para ambos os lados.
No nosso lado, porque não poderíamos envolver quase nenhum dos nossos aliados da batalha anterior.
Porque se eles fossem chamados, poderia fazer com que a comunidade vampira se voltasse contra nós,
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como possíveis usurpadores do trono. Isso se deve ao fato dos rumores que os Volturis espalharam pelo
mundo, de que nossa família estaria formando uma exército para tomar o poder. Então não teríamos
somente os Volturis contra nós, mas cada vampiro em todo o mundo.
No lado dos Volturis, porque, teoricamente, eles não poderiam ter Nessie e Nahuel em seu poder, já
que fora provado da última vez, que não existia motivos para a intervenção dos Volturis no caso da
existência dos híbridos. Sua reputação estava em jogo. Assim como nós, eles também tinham rumores
contra eles. De que haviam se corrompido com o tempo, de que as únicas razões de seu quase ataque da
última vez, foi para adquirir mais vampiros talentosos para sua guarda. Isso poderia voltar todos seus
súditos contra eles, ruindo seu império e podendo até implicar no fim de suas existências.
Envolver mais gente ou espalhar notícias sobre o que estava acontecendo no Castelo de Beynac seria
uma possível catástrofe para qualquer um dos dois lados.
Acabadas as despedidas, o grupo de ataque entrou por uma das entradas secretas, para que o ataque
parecesse mais real, enquanto que nosso grupo aguardava à entrada de outra passagem, esperando por
barulhos que indicassem o início do confronto. E isso não demorou muito para começar. Dados apenas
alguns minutos da entrada do grupo um, pudemos ouvir pedras rachando e gritos de ataque. Entramos
sem falar nenhuma palavra, tentando fazer o máximo de silêncio possível. Para falar a verdade, entrar foi
extremamente fácil, já que existiam apenas cinco guardas e liquidá-los foi uma tarefa muito rápida.
Renesmee? Você está bem filha? Nahuel?
Perguntei aflita quando os outros encurralaram o último guarda que vigiava eles dois. Ele foi o único
poupado, à pedido de minha filha. Eu não entendia bem o porque, mas costumo confiar no bom senso
dela.
Estou bem mãe. Nossa, como é bom te ver!
Depois que pegamos a chave das celas, eu corri para abraçar meu bebê.
Graças a Deus você está bem. Quer dizer, vocês estão bem.
Onde estão os outros?
Nessie me perguntou olhando ao redor, depois que se soltou quase a força de meus braços, que
instintivamente não queriam mais deixar ela longe de mim.
Ouve essa barulheira toda, querida? São eles fazendo a distração, enquanto tentamos sair daqui o
mais rápido que pudermos.
Kate respondeu por mim.
Vamos sair daqui agora mesmo. Ao contrário do que pensei, aqui não teve muita ação. Precisamos
sair rápido para ajudar os outros.
Garret, ao contrário da maioria de nós, parecia estar um pouco desapontado por não ter acontecido
muita ação. Eu só queria tirar minha filha dali e tentar ajudar meu marido a sair o quanto antes.
Começamos a voltar para a entrada secreta que tínhamos usado para entrar, quando ouvimos barulho
vindo dela. E esse barulho era muito rápido e sutil para serem humanos. Não tinha como voltarmos por
onde viemos.
O que faremos? Não parecem ser poucos, não sei se conseguiremos passar por tantos.
Rose perguntou à Garret, que do grupo, era o único com alguma experiência militar.
Certamente foi uma armadilha. Eles também devem ter ciência dessa entrada. Precisamos de uma
saída alternativa.
Ele subiu as escadas devagar e olhou um pouco acima. Voltando rapidamente com uma expressão
preocupada.
Então? O que você viu? Tem como sairmos daqui por essas escadas?
Kate perguntou ao seu parceiro. A expressão dele era agitada.
Não. Seria muito perigoso porque muitos guardas estão vindo nessa direção. Eles devem ter
percebido que tentaríamos atacar aqui simultaneamente.
Comecei a ficar aflita, eu sabia que os Volturis não cairiam em um plano como esses. Porém, admito
que pensei que teríamos um pouco mais de tempo para fugir.
Eu não poderia ter vindo tão longe para perder minha filha novamente. Não suportaria. Me preparei
para lutar com quantos fossem necessário. Para minha surpresa, Nessie foi em direção ao guarda que não
acabamos e eu a impedi.
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O que você está fazendo?
Perguntei aturdida.
Estou tentando fazer nossa saída mais rápida. Confie em mim.
Ela olhou muito séria em meus olhos. Mesmo a contra-gosto a soltei. Ela tocou no ombro do guarda e
eu quase rosnei por não gostar do quão perto ela estava dele. Eu não o conheço e se ele significar algum
perigo para ela, não vai existir nada nesse planeta que me impeça de fazê-lo em pedacinhos.
Thierre, qual é o melhor caminho para pegarmos?
O homem parecia que estava com medo de responder.
Confie em mim, lembra-se do que conversamos? Eles precisam ser parados. São o mal personificado e
temos que pelo menos tentar alguma coisa. Podemos te tirar daqui junto conosco.
Ela olhou docemente para ele e colocou sua mão no ombro do enorme vampiro. Ele hesitou por um
momento e então fez uma expressão que conheço bem. Ficou deslumbrado. Se existia alguma dúvida para
mim, de que ela tinha o poder de encantar as pessoas e vampiros, agora não existe mais. Ele ficou de pé e
começou a andar em direção à uma parede, Garret quase o interrompeu, mas Nessie e Nahuel o
impediram. Eu achei que ele tinha ficado louco ou algo assim porque ele começou a empurrar algumas
rochas da parede. Ele não poderia achar que era possível sair dali derrubando aquela parede, poderia?
Alguns segundos depois eu vi uma das rochas cederem e uma porta secreta deu acesso à um túnel
extremamente escuro, que nós só conseguíamos ver alguma coisa porque somos vampiros.
Que diabos é isso?
Garret pensou alto.
Esse castelo foi construído com várias passagens secretas por ser localizado na fronteira entre a
França e Inglaterra, durante a guerra. Sempre existia a possibilidade de um ataque inimigo. Algumas dessas
passagens não foram divulgadas nem mesmo quando o castelo foi aberto ao público. E eu não mostrei
todas aos Volturis.
Thierre nos explicou como um bom guia turístico o faria, mas duvido que os guias locais conheçam
essas passagens. Como isso poderia ser usado como rota de fuga, se eu que sou vampira estou tendo
alguns problemas em enxergar tudo, imagine humanos passando por aqui, eu não sei. O desertor que
graças a Deus e aos encantos de minha filha, havia se juntado à nós fechou a passagem para o túnel,
deixando impossivelmente mais escuro do que já estava.
Em seguida, começou a acender algumas tochas enquanto passávamos. Pude então entender como
humanos conseguiam usar essa saída, ainda assim, tenho que dizer, humanos teriam um tempo difícil
passando por ali.
Ainda era muito escuro e eu podia perceber que o ar era escasso. Chegamos finalmente ao fim do túnel,
contudo não nos levava para fora do castelo e sim para uma sala muito grande e bonita, decorada em
temática medieval, móveis rústicos, mas bem trabalhados, tapeçarias mostrando cenas com jovens
vestidos com roupas medievais, pinturas a óleo enormes com o que imagino tenham sido os barões de
Beynac. Incluindo armaduras de cavaleiros e outras armas da época. Me senti transportada para a época
em alguns breves instantes.
Por um momento pensei que Thierre tivesse nos levado para uma emboscada, já que não se tratava da
prometida saída, todavia, pude ouvir os barulhos da batalha do grupo de distração.
Onde estamos?
Perguntei pra ele.
No antigo salão de festas, agora sala de exposição de armas. Daqui poderemos sair mais rápido e com
mais segurança, bem, isso se conseguirmos ficar imperceptíveis para os que estão na batalha da sala ao
lado.
Tive a resposta à minha pergunta, só que a única coisa que eu poderia pensar era se meu marido e
amigos estavam bem. Era frustrante estar tão perto, com apenas uma parede nos separando e tão longe
com a obrigação de tirar minha filha da área de perigo. Infelizmente, eu ouvi algo que em qualquer
situação me faria agir por impulso. Edward gritando de dor.
Carlslile, cuide dela. Vou ajudar Edward e os outros.
Só me restava razão suficiente para deixar Renesmee segura com suas duas tias super-protetoras e seu
avô, e ir ajudar meu marido. Elas, Carlisle e Garret tentaram me impedir, mas eu estava determinada.
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Pense no que você está fazendo Bella. Temos que levar Nessie embora daqui.
Carlslile falou, tentando trazer de volta alguma razão ao meu juízo. Mas naquele momento a única coisa
que eu via era vermelho em minha frente, eu queria machucar muito quem quer que estivesse causando
dor à Edward.
Vocês levam ela embora daqui, agora! Eu tenho que ajudar os outros com meu dom. Assim que eu
puder, encontro vocês no local marcado.
Isso parece ter convencido eles a me deixarem ir.
E... Carlslile, eu conto com você para proteger ela.
Olhei significativamente para meu sogro, sabendo exatamente de quem eu estava falando. Depois de
me assegurar que tinham partido com Nessie, me encaminhei para a sala onde a batalha estava
acontecendo. Quando estava para chegar à porta, ouvi algo vindo atrás de mim. Virei-me rapidamente e
rosnei.
Calma Bella, sou eu!
Por que você não foi com os outros, Rosalie? E como fica Nessie?
Perguntei.
Bem, por mais que eu não queira admitir, ela está segura com Carlslile, Kate e os outros. Achei que
você precisaria de ajuda para salvar nossos maridos. Além do mais, eu não poderia deixar você ficar com
toda a fama de valente para si.
Ela piscou para mim e eu não pude me impedir de dar uma risada fraca. Depois de tudo que passamos
juntas durante a minha gravidez e depois para cuidar de Nessie, nossa amizade cresceu muito. Eu que
nunca tive uma irmã, tinha ganhado duas ao mesmo tempo quando me casei com Edward e entrei para
família Cullen. Ganhei a Alice e Rose, além dos meus irmãos e sogros.
Então, está certo. Vamos lá pegar eles e ir embora daqui.
Quando ela percebeu que eu não ia falar nada, então começamos a andar.
Há apenas alguns passos para a porta, ouvi mais alguém vindo de nossa retaguarda. Instintivamente nos
viramos prontas para atacar.
Wow! Calma aí tigresas! Sou eu.
Garret!? Demônios!
Rosalie falou respirando mais aliviada, porém ainda irritada pelo susto.
Quem ficou com a Nessie afinal? Temos que voltar.
Falei, soltando fogo pelas ventas, já me dirigindo ao caminho por onde ele veio.
Relaxe, ela está bem. A deixei com Carlslile, Kate e o francês, já na saída do castelo. Tenho certeza que
conseguem cuidar do resto do caminho já que toda a ação está ali.
Ele sinalizou com o indicador, apontando para a sala onde estávamos para entrar quando fomos
interrompidas por ele.
Se mais algum de vocês me seguir juro que tenho um troço. Alguém tem que ficar com Nessie e
Nahuel ou então foi tudo em vão!
Silvei.
Te falei. Ela está em boas mãos e quase fora daqui quando a vi por último. Além disso, acho que nossa
maior arma vai precisar de alguém que cubra sua retaguarda para darmos aos nossos, alguma chance de
vencer.
Ele olhou seriamente para mim. Rosalie rosnou baixinho e ele levantou uma das mãos
apologeticamente.
Sem ofensas.
Ele complementou olhando rapidamente para Rose. Mas ela nem se deu ao trabalho de responder.
Bufou e rodou em seus calcanhares em direção à porta.
Quanto ao seu dom, você está certa. Se existe uma hora melhor do que essa para colocar suas aulas
em prática, para ajudá-los eu não poderia contestar.
Garret olhou pra mim e continuamos seguindo. Com a mão na maçaneta, ele hesitou e olhou para nós
duas. Mesmo sendo completamente inútil, eu respirei fundo e sinalizei que sim com a cabeça. Ainda bem
que ele não perguntou se eu estava pronta porque, nem em um milhão de anos eu estaria. Imagine se a
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Rose soubesse o que está passando em minha cabeça nesse exato momento, acredito que a suposta fama
de valente que ela falou há pouco, iria por água abaixo.
Vamos lá então!
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23. Fazia o sangue gelar
Entramos com nossas garras e presas à mostra. O que vimos era pior do que eu pensava. Além de
Demétri, Félix e Jane, tinham pelo menos mais nove a dez rostos desconhecidos. Nossos rapazes estavam
realmente com problemas e é claro, os três anciões estavam atrás, sem se envolver diretamente no
conflito, com Renata cobrindo a retaguarda de Aro, como esperado.
Onde diabos estavam nossos reforços? Seria possível Alice não ter visto um cenário tão desfavorável
como esse? Não tinha tempo para pensar nessas coisas, procurei imediatamente por meu marido no meio
daquela confusão. Demorei a encontrá-lo porque estava distraída com as partes de corpos desmembrados
espalhados pelo chão. Felizmente não pareciam fazer parte de nenhum dos nossos.
Consegui identificar a origem do único som que conseguiria me fazer deixar minha filha para entrar
nessa guerra louca, Edward gemendo de uma maneira que fazia o sangue gelar. Ele estava de joelhos, seu
corpo contraído, braços na frente do seu corpo, como se tentasse abraçar a si mesmo com força, sua
mandíbula rígida e os olhos lutando para manter-se abertos. Sofrendo visivelmente, os sons que ele fazia
eram apavorantes para mim. Significava muita dor.
Não! Ele não.
Murmurei para mim mesma. Eu surtei e quase corri para ele, sem me importar nem por um milésimo
de segundo com todo o combate que estava acontecendo ao redor. Garret e Rose ficaram em minha
frente, graças a Deus, porque eu consegui algum tempo para pensar com clareza. Como não tinha ninguém
o agredindo diretamente, eu sabia exatamente de onde estava vindo aquela dor. Jane. Procurei
imediatamente pela fonte do sofrimento de meu Edward.
Não sou uma pessoa violenta, mas desde a última vez que quase enfrentamos os Volturis, tenho sentido
uma vontade enorme de arrancar aquele sorriso cruel do rosto angelical da Jane. Acho que hoje eu terei
essa chance.
Ninguém parecia ter notado nossa presença ainda, acho que estavam todos distraídos com seus
adversários. Bem, exceto por Aro e Caius, que me acompanhavam de perto com seus olhos vermelhos
leitosos. O interessante era que Marcus não parecia como das outras vezes que me encontrei com ele. Me
olhava atentamente, mas não com irritação, como seus irmãos e sim como quem estuda alguma
informação nova, quase curioso. Acho que eu preferia ele antes, esses olhares estão me deixando nervosa.
Basta Bella! Eu precisava me concentrar. Os ignorei e imediatamente lancei meu escudo para proteger
Edward. Ele estava com a cabeça baixa, uma das mãos apoiando-se no chão para não cair e ficou imóvel
por alguns segundos. Eu não poderia ter falhado logo agora, não com uma coisa tão séria como é proteger
meu amor. Ele levantou a cabeça e de alguma maneira sabia exatamente onde eu estava, olhou para mim
e deu aquele meu sorriso torto favorito. Algo dentro de mim voltou a funcionar corretamente. Sorri de
volta e tratei de estender meu escudo para os outros.
Estranhei o fato dele não estar enfrentando Demétri ou Félix, mas como eu finalmente tinha recobrado
a noção das coisas, percebi o porque. Demétri estava enfrentando Jasper e Félix por sua vez, media forças
com o Emmet. Acho que não poderiam ter escolhido melhor seus oponentes, por suas similaridades em
batalha. Jacob e os lobos estavam cuidando dos outros vampiros desconhecidos.
Enquanto eu tratava de reforçar meu escudo, Jane parecia ter finalmente percebido que eu estava no
local. Ela olhou para mim como se estivesse vendo sangue. Imagino que esse confronto entre nós duas não
estava sendo aguardado ansiosamente só da minha parte.
Acredito que eu estava certa em relação a Jane, ela não é uma guerreira. Por isso que ela estava com
quatro vampiros muito fortes e com aparência feroz fazendo sua guarda pessoal. Edward levantou-se
rapidamente e foi em direção à Jane. Mas com dois dos seus guarda-costas para impedir um ataque direto
dele, ela se desviou com os outros dois vindo em minha direção. Rose e Garret tomaram a minha frente.
Eu deveria estar agradecida por sua lealdade, deveria estar focada pensando que era o correto para que
eu pudesse proteger as mentes dos nossos, entretanto, eu só pensava que estava colocando eles dois em
perigo enquanto o que realmente queria era atacar diretamente aquela psicopata que estava agora há
pouco, machucando meu marido!
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Consegui, por pouco, controlar minha fúria e meu escudo estava onde deveria estar, protegendo a
todos. Bem, protegendo-os de poderes mentais como os da Jane ou Alec, mas nada faria contra ataques
físicos, nisso eles teriam que cuidar de si mesmos.
Jacob olhou para mim por um segundo como um cão que implorava por atenção, mas no caso dele,
entendi que o que ele realmente queria era uma confirmação de que Nessie estava bem. Eu e Jake sempre
nos entendemos bem, mesmo sem palavras, ele estando em forma humana ou como lobo, então não
precisou muito para que ele suspirasse aliviado em saber que ela estava segura.
Garret, Rose e Edward estavam tentando manter Jane e seus guarda-costas o mais afastados possível
de mim, o que a esse ponto tinha ficado fácil considerando que Edward podia prever os movimentos deles
e de alguma maneira conseguia articular com Rose e Garret seus ataques e defesas.
Me senti com um pouco de inveja branca, porque eles estavam em ação e eu apenas uma observadora.
Não sei se era por ser uma vampira, que me fazia ter um monstro selvagem dentro de mim, monstro esse
que eu tentei deixar adormecido para não matar ninguém durante esses quase três anos e que agora seria
uma boa oportunidade para libertá-lo ou apenas ódio por Jane, pelo que ela fez com meu marido. Eu
apenas me sentia frustrada.
Eu estava surpresa por estar pensando assim, já que não é de minha natureza, mas eu queria estar
destruindo alguém ou alguma coisa. Fazer algo mais palpável. Ajudando mais proativamente.
Tentando aliviar essa sensação, comecei a avaliar as lutas que estavam ocorrendo simultaneamente no
salão.
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. Emmet foi com seu estilo próprio que seria muita força
e agressividade direta para cima de Félix. Infelizmente, ainda como sendo o estilo do Emmet, ele se
descuidou um pouco de sua defesa e Félix, que obviamente tem mais experiência em batalhas, tirou
proveito disso.
Ouvi o som que uma esmerilhadeira faria se estivesse em ação. Emmet, colocou sua mão sobre o corte
profundo que as garras de Félix tinham lhe causado, então percebi Rose se contrair em minha frente, mas
não abandonou seu posto.
Entendi perfeitamente o dilema dela, sair e ajudar seu marido, podendo deixar à todos expostos ou
ficar e correr o risco de perder o amor de sua vida. Ele olhou para Rose por alguns segundos e ela se
acalmou. Ele deve ter passado alguma mensagem não dita para ela de que ele estava bem. Logo em
seguida Emmet estava sorrindo olhando para o local onde estava o ferimento, que já começara a se curar.
Eu deveria imaginar que ele estaria feliz em ter, enfim, uma luta de verdade.
Ah, qual é! Você pode fazer melhor do que isso.
Emmet provocou. Félix por sua vez, permanecia carrancudo, muito concentrado e irritado. Ele não
falava nada, vez ou outra rosnava e deixava seus dentes à mostra para tentar intimidar.
Eles correram um de encontro ao outro para mais um confronto e dessa vez eles travaram seus braços,
medindo forças como em uma luta grego-romana. Um estudando o próximo movimento do outro. Félix era
maior do que Emmet por pouco, mas Emmet tinha mais massa muscular.
Eles continuaram tentando achar um ponto de ataque, rosnaram em uníssono e começaram a rodar,
mais e mais rápido. Emmet foi lançado contra uma parede que estava em reforma, despedaçando-a. No
mesmo instante, Emmet estava de pé, limpando a poeira e voltando ao combate.
Eu tenho que admitir que a luta entre Jasper e Demétri era realmente algo assustador e ao mesmo
tempo bonito de se ver. Ao contrário de seu irmão, que é maior em tamanho, mas sem a mesma leveza e
agilidade, Jasper estudava melhor seus movimentos. Estratégia que se assemelhava bastante à de
Demétri, os deixando meio que empatados, aguardando o melhor momento de atacar.
Se eu não soubesse melhor acharia que eles estavam dançando, tamanha a elegância de movimento de
ambos. Aconteciam alguns entorses de membros, algumas chaves de braço, porém nada que conseguisse
imobilizar ou incapacitar nenhum deles por muito tempo. Estava mesmo equilibrada essa luta.
Fico imaginando como Jasper usa seu dom em uma luta direta. Quer dizer, se é que ele o usa. Acho que
ele deve infringir medo ou angústia em seu oponente, bem, pelo menos é o que eu faria. Não sou
estrategista de guerra ou algo assim, entretanto, acredito que seria alguma vantagem minar a confiança, a
calma ou até mesmo a coragem de seu adversário. Às vezes penso que eu deveria ter um dom mais
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ofensivo, algo que me fosse mais útil em um momento como esse, como o de Jasper. Por outro lado, se
meu dom fosse diferente do atual eu não poderia ajudar minha família e amigos ao mesmo tempo.
Enquanto eu devaneava, pude ouvir um pouco do que Jasper e Demétri falavam entre um golpe e
outro, o que eu achei estranhamente civilizado.
É uma pena estarmos em lados opostos. Posso apostar que você seria muito útil na guarda Volturi.
Soube que você nos admirava e chegou até a pensar em entrar para a guarda. Que tal se juntar à nós e
usar um capuz preto? - Demétri comentou com pesar sobre a ausência dele na guarda.
Eu não duvido que seja verdade o que Demétri dizia, considerando o valioso membro que Jasper se
tornaria.
Se Demétri tivesse falado algo do gênero antes de dele conhecer Alice, eu não duvidaria nem por um
momento na aceitação da proposta, mas para o Jasper de agora, principalmente sabendo que os Volturis
não são exatamente o que ele imaginava e admirava, duvido muito que isso tenha sido de alguma forma
tentador para ele.
Verdade, pensei em me juntar à sua ordem, quando eu era ingênuo de achar que vocês defendiam a
lei de nossa espécie e não defendiam seus próprios interesses como foi comprovado. Além disso, não acho
que eu vá ficar bem com seu capuz, Alice diz que eu fico muito fúnebre de preto.
Jasper riu sombriamente de volta para a proposta dele. Ficando ainda mais sinistro seu sorriso,
emoldurado naquele rosto danificado que Jasper tinha da época que ele tentava controlar dezenas de
vampiros recém-nascidos.
Acho que isso confirma minha teoria sobre ele nem considerar a proposta, claro que eu não imaginei
que ele faria com humor, já que não é muito de sua característica, acredito que ele estava tentando
ofender mesmo Demétri. O que parecia ter sucesso, ele aparentava uma face constrangida com a verdade
que fora jogada em sua cara sobre sua ordem, que fora maculada.
Em alguns momentos, como esse, eu fico imaginando se ele também não gostaria de abandonar a
guarda, assim como Eleazar fez no passado. Afinal, pelo que me contaram, os Volturis foram durantes
algumas centenas de anos, o pilar de sustentação de nossa espécie, mas eu sou prova viva ou nem tanto
de que hoje eles estão corrompidos pelo poder e interesses próprios.
A batalha continuava e Jacob e seu bando estavam se saindo bem. Ao contrário dos vampiros, os lobos
tendiam a trabalhar em conjunto, o que é perfeitamente compreensível, já que eles têm a vantagem do
pensamento compartilhado. E isso pode ter um diferencial enorme em um confronto direto como esse.
Eles só estavam tendo alguma dificuldade com o piso, que era maciço porém muito escorregadio para
eles. Que dizer, não é nem de perto como um campo ou algo do tipo, comum ao seu habitat natural. Onde
eles fincavam as garras de suas patas para terem tração suficiente para se movimentar com mais
facilidade.
Felizmente isso não parecia atrapalhar tanto no desempenho, pelo menos até o momento. Imagino o
quanto eles devem estar xingando toda essa situação, fora o fato de estarem confinados em um espaço
fechado. Eu sei que eles não gostavam nada, nada, disso, mas a batalha continuava.
Eu não tive a oportunidade de vê-los em ação quando estavam lutando contra a horda de recémnascidos
que veio por mim, porque Jacob e Edward estavam muito protetores comigo, me deixando o mais
longe possível do campo de batalha. E eu não contava com o dom de Edward para conseguir ver a ação
remotamente, exceto quando ação foi atrás de mim e eu puder testemunhar Edward lutando e um pouco
de Seth em ação também.
Não imaginava que teria chance de ver com meus próprios olhos como o bando de lobos luta. Muito
menos em uma situação tão adversa quanto essa. Sem mais da metade dos aliados que tínhamos da última
vez, nos causando uma desvantagem numérica, além do fato de termos tido alguns conflitos internos antes
de vir e nem sabemos no momento, onde estão nossos reforços. Alice, onde estão você e os outros?!
Pensei irritada, mas principalmente preocupada. Espero que a Alice e os outros estejam bem e que não
tenham vindo para nos ajudar porque ela nos viu, de algum modo, vencendo ou pelo menos conseguindo
escapar sem baixas.
Contudo, conhecendo minha sorte, eu comecei a sentir um caroço se formando em minha garganta.
Não! Ela está Bem! Pensei para mim mesma. Ela tem que estar. Deve ter visto alguma vitória ou algo assim,
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afinal, mesmo com a desvantagem numérica, posso dizer que estávamos agora conseguindo superar
nossos adversário compensando com alguma habilidade e os dons, é claro.
De todas as coisas que estavam acontecendo nessa sala, a que mais me surpreendia era ver os anciões
assistindo tudo de longe, tão serenos. Era de se imaginar que eles não se envolvessem pessoalmente na
luta, mas pelo menos estivessem um pouco agitados. Mas nada. Nenhuma reação deles, bem, pelo menos
nada que parecesse medo ou pelo menos algum receio.
O máximo que acontecia era Caius olhar para uma das entradas daquele salão. Provavelmente
imaginando uma saída de emergência, já que agora eu, Rose e Garret entramos no jogo, parecia que a
vantagem deles havia sido compensada com alguma sobra do nosso lado. O pensamento me fez quase feliz
por um momento. Eles precisam aprender a não mexer com a família dos outros, sobretudo com a minha.
Porém, algo me dizia que minha momentânea alegria terminaria logo que Caius sorriu para uma das
entradas, mesmo eu não podendo ver nada vindo dela.
Entrou uma mulher jovem, baixa, talvez um pouco menor do que eu, tez extremamente pálida, rosto
arredondado, cabelos lisos indo até quase sua cintura em um tom de preto digno de filme de terror. Era
estonteantemente bonita. Tinha também e olhos vermelhos, gritando o que ela era. Uma de nós. Movia-se
com fragilidade e seus olhos pareciam ansiosos, não era isso. Assustados.
Aro praticamente salivou ao ver-lhe. O que explicaria Caius verificar aquela entrada a cada instante. Um
arrepio subiu pela minha espinha. Eu sabia que eles não se sentiriam tão confiantes se não tivessem
alguma vantagem sobre nós. Entretanto, o que não conseguia entender era como Aro estava agindo em
relação a vampira desconhecida que acabara de adentrar o espaço. Percebi que ela era a nova menina dos
olhos dele e eu não fui a única a perceber isso porque Jane estava com os punhos fechados firmemente e
a mandíbula travada, olhando alternadamente entre seu mestre e a garota nova.
A misteriosa garota não parecia perceber o olhar que Jane lhe direcionava. Na verdade eu nem
precisaria do dom do Jasper para adivinhar que ela estava assustada demais com as lutas que aconteciam
para prestar atenção na Jane. Acabando com minhas especulações, Aro falou pela primeira vez desde que
entrei na luta e todos literalmente todos pararam para ouvi-lo.
Então, queridos convidados. Acho que estamos com alguns problemas de comunicação. E como eu
não pretendo destruir meu castelo de férias, resolvi trazer mais alguns amigos. Espero que vocês não se
incomodem.
Ele gesticulava pouco e graciosamente. Não pude ver nenhum sinal ou ordem.
Acessando o salão estavam entrando três homens, se é possível chamá-los assim. Suas peles morenas e
traços indígenas fortes, além de suas aparências muito sujas e desmazeladas os denunciaram o que eles
eram, isso e o cheiro forte que entrou com eles. Transmorfos.
Eles tinham as feições muito parecidas com as dos invasores mortos na floresta. Por uma milésimo de
segundo cheguei a pensar que eram eles, descartando logo em seguida porque dois tinham tamanho
similar. Aproximadamente a estatura do maior invasor que estava morto. E o outro era baixo. Mas algo
me dizia que ele é que era o maior problema dos três.
Suas expressões eram de pura ira. Eles olharam fixamente para o grupo de Jacob e nossa, se olhar
matasse...
Eles estavam escoltando com o auxílio de algumas dezenas de vampiros os integrantes do nosso
grupo de resgate, um a um eles entravam, Alice, Esme, Eleazar, Carmem e Tanya. Para cada um deles que
entrava, eu sentia meu peito se apertando um pouco. Então era por isso que eles não vieram nos ajudar.
Parece que eu estava certa afinal de contas. Os Volturis não entrariam numa luta onde não tivessem
certeza de ganhar. Tanto em números, quanto em estratégia.
A pior parte ainda estava por vir. Eu sabia antes de acontecer. Alec entrava com mais vampiros,
escoltando Carlslile e Kate. Tudo ficou congelado para mim. Nessie estava entre os cativos. Eles a
pegaram. Depois de tanto esforço, depois de tudo. Mas como? Onde estavam Nahuel e o francês?
Instintivamente, dei um passo para frente em direção à minha filha. Garret e Rose estavam tentando
me segurar. Tive um acesso com isso. Rosnei como um animal provocado, dentro de uma jaula. E era
exatamente isso. Não se mexe com a cria de um animal selvagem e eu ia provar isso para Aro, aliás, para
todos eles. Comecei a salivar em antecipação ao que eu iria fazer com eles se sequer pensassem em fazer
alguma coisa para machucar minha filha. Percebi que não era o único com problemas de controle.
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Não! Parem ele agora!
Edward apontou para Jacob enquanto gritava para Emmet. Jacob parecia que ia destruir qualquer um
que estivesse em sua frente. Foi necessária a intervenção do bando todo, além de Emmet para ajudar a
segurá-lo. Eu ainda pude ver Jacob rasgando boa parte das roupas de Emmet e causando algum dano nele,
na tentativa de sair de seu abraço de urso.
Rose e Garret também precisaram de ajuda, Edward teve que vir ajudar a me conter. E eu tenho que
admitir que foi difícil conseguir enxergar ele em minha frente, quando minha filha estava em risco
novamente.
Bella! Se acalme! Ele não vai ferir ela. Ele só pretende a usar como moeda de barganha. Eu prometo.
Edward teve que obrigar meu rosto virar para encarar o dele. Sua voz era trêmula, mas compassiva. Eu
não sabia o que fazer.
Bem, agora que a ceninha dramática de vocês acabou, acho que podemos ir aos negócios. Podemos?
Sibilou Caius e acomodou-se em uma cadeira grande e antiga de madeira. Agora foi a vez de Edward
rosnar, mas nem perto da minha fúria.
Eu pude perceber o quanto as coisas estavam ruins para o nosso lado quando os que lutavam conosco
se afastaram calmamente para ficar à frente de seus mestres. Como uma parede humana, ou melhor, de
vampiros. Acho que eles só estavam lutando conosco para nos distrair, enquanto os demais iam atrás do
resto de minha família e amigos. Eu deveria saber que no que diz respeito a enganar, distrair e iludir, os
Volturis seriam mais eficientes do que nós nunca chegaríamos perto.
Soltem ela imediatamente!
Uivei de raiva. Caius riu e Aro não demonstrou nenhuma emoção. O que mais me estranhou foi como
Marcus olhava para minha filha. Quase com pena.
Acredito que você não está em posição de exigir nada, jovem Isabella Swan.
Aro me respondeu segurando ele mesmo algum contentamento por sua jogada de mestre.
É Cullen agora Aro e eu vou provar como você está errado sobre eu poder ou não fazer exigências
quanto à minha filha.
Dei mais um passo em direção à ele e fui novamente restringida por Edward e os outros.
Oh, queira me perdoar Sra. Cullen. Não cometerei nenhum dos dois erros num futuro próximo. Afinal,
eu vejo que a situação está totalmente sobre seu controle, não é mesmo?
Ele com as mãos meio erguidas com as palmas para cima, mostrou o cenário que estávamos. Todos os
Volturis riram. Entendi o que ele quis dizer. Ele estava com todas as cartas. Ainda assim, tentei não
demonstrar nenhuma dúvida em meu semblante.
Bem, para provar que esse é apenas um mal entendido vou deixar vocês irem.
Nesse momento, alguns dos cativos foram soltos. Na verdade, com exceção de Alice e Nessie, todos
foram libertados.
Soltem a Alice e minha filha!
Tentei mais uma vez.
Aro olhou para o chão divertido e começou a andar com as mãos para trás como quem precisa elaborar
melhor seus pensamentos, seguido de perto por Renata. Como se isso fosse me enganar. Tenho certeza
que ele já pensou tudo o que vai fazer e dizer muito antes de nossa chegada.
Você vê jovem Isabella, isso eu infelizmente não poderei fazer.
Ele quase parecia pesaroso. Se eu ainda pudesse ser enganada por ele. Após uma pequena pausa,
continuou seu monólogo.
Depois do nosso último incidente, no qual não pudemos ter garantia do quão perigoso seria ter um
ser como a preciosa Renesmee existindo. Além de alguns inconvenientes causados por insinuações
maldosas da parte de vocês que devo acrescentar, tem sido... desafiadoras e irritante para nós
achamos por bem, manter a adorável Renesmee sob nossos cuidados, tendo sua Tia Alice como sua tutora
e é claro que você e meu adorado rapaz, Edward, sendo seus pais, podem se juntar a nós durante essa
estadia.
Ele deu um sorriso adorável para nós. É claro que mais uma vez não me enganou nem por um segundo.
Contudo, tenho que admitir que cheguei a cogitar a aceitar a proposta dele, se isso significasse que ela
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estaria segura, que todos nós estivéssemos seguros. Mesmo que para isso eu me tornasse eternamente
escrava dos Volturis. Esse certamente seria um fim quase tão ruim quanto a minha extinção.
Baboseira! É o que digo. Esses cuidados que você diz, não passam de um rapto.
Garret exprimiu toda a frustração e raiva que eu sentia. Com isso, apaguei momentaneamente a idéia
de rendição de minha mente. Eu deixaria para pensar a respeito quando não tivéssemos mais escolha.
Meu caro nômade. Vejo que desde nosso último encontro, você não mudou sua opinião ao nosso
respeito. É verdadeiramente uma pena.
Aro balançou a cabeça negativamente. Alice olhava para mim como quem se desculpava. Seria isso
então, o fim? Nem ela estava conseguindo ver alguma chance para o nosso lado?
Aro, meu velho amigo. Eu peço em nome de nossa amizade de séculos, que por favor reconsidere sua
decisão.
Carlslile ainda tentava apelar pela amizade que ele afirmava ter com os anciões. Ele chegou a dar um
passo em direção à eles, sendo obviamente ameaçado pela guarda.
Carlslile, você sabe o quanto temos que ir contra nossos interesses pessoais no que se diz respeito ao
objetivo maior de nossa lei.
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24. Inferno estava congelando
Aro insistia na sua encenação de que isso tudo era para defender a lei dos vampiros. Mais e mais eu
ficava enojada com tanto cinismo e vi em várias outras expressões que não era a única a me sentir assim.
Aro, talvez devamos avaliar a liberação da criança para sua família.
Só podia ser mais uma armação dos anciões. Porém, mesmo das outras vezes, Marcus nunca se
pronunciou abertamente. Nunca. Ele malmente usou uma ou duas palavras das outras vezes.
Edward, o que está acontecendo?
Perguntei. Ele parecia quase tão atordoado quanto eu. Ficou olhando atentamente para o ancião que
acabara de falar. Aliás, todos na sala estavam encarando ele. Inclusive seus irmãos. Aro estava
especialmente intrigado com a intromissão de Marcus.
Irmão, acredito que o momento para essa avaliação tenha passado.
Aro ainda tentava controlar sua irritação. E por mais estranho que isso possa parecer, eu acho que o vi
olhar de soslaio entre Marcus e minha filha. O que foi aquilo?
Edward?
Insisti. Ele virou-se para mim como se uma força o estivesse obrigando à isso. Como se ele, ao virar para
mim, fosse perder a cena mais importante de um filme.
Ele... er... na verdade ele está sendo sincero. Ele quer mesmo ajudar nossa filha.
Ele falou baixinho para mim, quase como se estivesse pensando alto. Meu queixo caiu, eu não podia
acreditar no que acabara de acontecer! Marcus, o vampiro mais calado e entediado que já vi, não só
participou da discussão, como estava argumentando ao nosso favor?! Algum lugar no inferno estava
congelando nesse momento. Eu fiquei tão chocada que nem sabia o que fazer. Edward voltou-se para ele
no mesmo instante e em seguida para Aro. Sua expressão tornou-se tensa e eu pude ver uma ruga de
preocupação se formando no rosto de meu marido.
Não me deixe no escuro. O que está acontecendo agora?
Toquei em seu ombro para tirá-lo do transe. Dessa vez ele não se virou.
Didyme. Aro?
Ele murmurou quase que para si mesmo. Se eu não fosse uma vampira, nem teria ouvido.
O que tem ele? Me fala. Ele vai reconsiderar?
E quem era essa Didyme? O que ela tinha com essa história? Pensei adicionalmente.
Não. Na verdade...
O que?
Silvei.
Ele levantou levemente uma das mãos como se eu o estivesse atrapalhando de ouvir alguma coisa.
Resolvi que era melhor esperar. Aro parece ter se distraído de seu irmão e seu olhar se encontrou com o
de Edward por alguns milésimos de segundo. Como um bom ator que Aro era, percebendo a platéia, sua
expressão voltou àquela cínica de antes.
Caius, acho que devemos considerar a opinião de nosso irmão.
Aro virou-se para um Caius muito indignado. Sua expressão mudou imediatamente após olhar para o
rosto de Aro. Acho que todos eles se tornam mestres em encenação depois de alguns milênios de farsas,
intrigas e esquemas.
Que as deliberações comecem.
Aro concluiu e os irmãos deram as mãos como da última vez. O Diabo que eu ia esperar. Quando eu
comecei a andar, Edward me puxou pelo braço, ainda hipnotizado pela cena dos três anciões. Eu hesitei.
Jacob por sua vez, não.
Com a distração de toda a cena, ele conseguiu se desvencilhar de Emmet e correu contra a parede de
vampiros, seguido pelo seu bando que mais parecia tentar controlar ele do que investir em um ataque.
Assim que ele se aproximou o suficiente, Demétri e Félix o golpearam, jogando-o para longe. O mesmo
aconteceu com seu bando. Eu fechei meus punhos e travei a mandíbula.
Bella, espere. Confie em mim.
Edward falou e mesmo não me acalmando eu resolvi pelo menos dar uma chance porque eu confio
nele. Os demais foram ajudar Jacob e os outros lobos a se levantarem. Garret olhou rapidamente para
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Edward, que afirmou alguma coisa com a cabeça. Em seguida Garret foi em direção aos lobos para falar
com eles. Nessa confusão toda eu não vi nenhuma interferência na reunião dos anciões. Foi como se nós
não estivéssemos ali, como platéia. Eu odeio me sentir assim, impotente. Eu precisava fazer alguma coisa.
Bem, agora eles estão, como eles dizem: deliberando. Edward, me explique exatamente o que
aconteceu. Ou melhor, o que está acontecendo.
Mas Bella, eu tenho que ouv...
Não. Você pode falar e ouvir ao mesmo tempo. Você faz isso há mais de um século. O que você tem
fazer, agora, é me contar o que está acontecendo ou eu não vou esperar mais.
Não foi preciso nenhum dom para ele saber que eu estava falando sério. Ele ponderou por alguns
segundos e suspirou.
Sabe, às vezes você é extremamente teimosa.
Ele esboçou um sorriso, mas ficou sério.
Bem, como eu estou certo, você deve ter percebido que Marcus não costuma falar, muito menos
opinar abertamente sobre as decisões feitas pelo conselho.
Ele pausou um pouco e eu fiquei mais ansiosa ainda porque até agora ele não tinha me falado nada que
eu já não soubesse.
E?
Provoquei.
Ele resolveu participar mais ativamente nessa decisão por causa de nossa filha.
O que isso quer dizer? Por que ele está do nosso lado?
É uma espécie de empatia. Ele acha que ela é muito parecida com sua falecida esposa, Didyme. O que,
pelo que pude ver de suas memórias, é a mais pura verdade. Se não fosse pelos cabelos, Renesmee seria
assustadoramente a cópia de sua falecida esposa. E tem mais uma coisa, Didyme tinha o dom de fazer uma
aura de felicidade àqueles ao seu redor. Que não é igual ao dom de nossa filha, mas, assim mesmo, ele se
sente bem perto dela. O que não sentia há vários séculos, desde que sua esposa se foi.
Edward pausou por mais alguns segundos, com uma mão no queixo e uma sobrancelha suspensa. Eu sei
que fui meio rude com ele, me arrependo muito disso, mas é a vida de minha filha que está em jogo aqui e
não temos tempo para ele ficar tentando me poupar.
Bem, dei-lhe mais um tempo para pensar e ouvir mais do que estava sendo deliberado. Nossa, como
isso parece um déja-vu macabro do que aconteceu no evento em que quase fomos atacados pelos Volturis.
Eu estou farta dos desmandos deles, queria que tivesse algo que pudesse tirá-los de nossas vidas para
sempre. Sei que não é demais pedir paz e sossego para variar.
As deliberações tinham acabado e pela cara de Marcus, acho que não foi ao nosso favor.
Espere!
Edward gritou ao meu lado, me pegando de surpresa. Quase dei um pulo com o susto.
Marcus, ele mentiu para você o tempo todo. Didyme não foi destruída por um clã adversário. Ele pós
fim nela para que você se juntasse à ele contra o Clã Romeno, saindo de Volterra. Ele precisava de seu
conhecimento militar para ajudá-lo a tomar o poder.
Meu queixo tinha caído, assim como o de Marcus. Aro tinha, pela primeira vez desde que o conheci,
mudado sua expressão cínica para uma de fúria. Marcus ainda não falava nada, apenas olhou para o irmão
e balançava negativamente com a cabeça.
Ataquem! Não poupem ninguém!
Exclamou Caius, antes que mais alguma coisa acontecesse no desenrolar desse drama familiar. Eu já
estava me preparando para o confronto quando o próprio Edward sinalizou para Garret e um ataque em
massa de nosso grupo começou.
Eu segui tão instintivamente que só me tomou alguns milésimos de segundo para entrar em ação. O
caos tinha se formado novamente. Dessa vez, todas as peças estavam no tabuleiro, os grupos de distração,
resgate e reforços estavam lutando com todos aqueles vampiros, além dos três transmorfos.
Eu ainda estava sendo protegida por Rose e Garret, que tinham voltado à sua posição anterior
rapidamente. Expandi meu escudo para minha família e amigos, uma vez que Jane, e agora Alec, estavam
aqui.
157
Eram muitos contra nós. Por isso, alguns conseguiam passar por Rose e Garret, vindo me atacar.
Agradeço muito a minha teimosia em treinar, caso contrário, nesse momento eu estaria literalmente em
pedaços. Não que eu tivesse acabado com eles ou feito algum estrago maior, contudo, fui ágil o suficiente
para que eles não me machucassem ou conseguissem me desconcentrar do escudo, que ainda estava em
seu lugar.
A garota de cabelos negros não estava lutando e isso de alguma forma me deixou mais preocupada. Aro
não poderia estar tão deliciado com ela se não tivesse algum dom especial. Felizmente, ela não a tinha
usado até agora e eu esperava não ter que descobrir seu dom.
Caius e Aro estavam olhando o desenrolar da luta, mas Marcus parecia ter finalmente deixado o
assombro de lado e partindo para Aro. Sendo desviado por Renata, ele voltou a atacar.
Renata, estou ordenando, deixe-nos!
Marcos impôs. Renata estava quase tremendo. Era perceptível a dúvida dela, afinal, um dos anciões
estava dando uma ordem direta, por outro lado essa ordem ia de encontro com sua função de séculos,
proteger o líder deles, Aro. Ela acabou permanecendo com sua mão no ombro de Aro. Que agora ria.
Irmão, pondere por um momento. Ele só está tentando usar sua fragilidade com Didyme para nos
colocar um contra os outros. Você não pode estar realmente achando que eu poria fim a existência de
minha adorada irmã apenas para fazer você se juntar a mim numa luta por poder. Acha?
Esse era definitivamente o Aro que eu conhecia, cínico, manipulador e maquiavélico. Não aquele
descontrolado de momentos atrás.
Você me conhece, irmão.
Marcus tinha hesitado, mas depois dessa última frase, parece que tinha tomado sua decisão. Ele
investiu novamente contra Aro.
O conheço tão bem meu irmão, que posso afirmar saber que você seria capaz de tal atrocidade sim.
Mesmo sendo sua própria irmã. Minha pobre Didyme.
A palavra soava amarga na boca de Marcus. Ele se movia graciosamente, mas tinha algo surpreendente
nos movimentos dele. Eram calculados, eficientes e ferozes. Assim como os de Jasper, porém mais
apurados. Ele realmente era um militar, alguém de batalhas. Sua fúria era palpável, ele continuava
atacando incessantemente. Todas as vezes sendo desviado por Renata.
Por que Aro? Você era como um verdadeiro irmão para mim, mesmo antes de nossa imortalidade.
Como você pode?
E nisso ele rosnou e atacou novamente. Parecia que cada vez que ele atacava conseguia chegar alguns
milímetros mais perto. Acho que ele estava usando seu dom para perceber a fragilidade da ligação entre
Renata e Aro.
Enquanto acontecia o desenrolar da batalha interna entre os anciões, nós tentávamos manter os nossos
inteiros. A barulho era quase ensurdecedor. Vários estouros quando os vampiros se chocavam, gritos e
rosnados. Eu não acho que mesmo o castelo sendo feito em sua maioria por rocha maciça, ele vá agüentar
o fim dessa batalha que, já que não nos cansamos, pode durar infinitamente. Interessante como não tinha
vindo nenhum vigia ou qualquer outro humano nos verificar, tamanho o barulho. Imagino que os Volturis
tenham dado fim a todos eles.
Como numericamente estávamos em desvantagem, Emmet e Jasper tinham mudado sua estratégia de
ataque. Lutavam um cobrindo a retaguarda do outro. E o mesmo padrão foi seguido por todos nós. Exceto
pelos lobos que permaneceram com seus métodos.
Eram quatro lobos do bando de Jacob, incluindo ele mesmo, contra os três transmorfos do lado dos
Volturis. Só que dois deles equivaliam a quatro, devido ao seu assombroso tamanho. Me pergunto o que os
anciões podem ter oferecido para eles ficarem ao seu lado, mas isso não era o importante agora, deixei
esse pensamento de lado.
Jake tomou um dos grandes pra si só. Deixando o outro gigante e seu parceiro menor contra os demais
de seu bando. Como eu imaginei, o lobo menor deles era muito perigoso, ágil e esperto. Sempre conseguia
entrar bons golpes nos nossos. Jake também não estava se saindo muito melhor contra sua montanha.
Os Denalis se uniram em um bloco compacto. Aproveitando os séculos de prática juntos. Eles pareciam
funcionar como as engrenagens de um relógio. Preciso, unido e eficiente. Quem mais se destacavam no
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grupo deles eram Eleazar, por sua experiência militar e Kate com o uso do seu dom de descargas elétricas.
Entretanto, Carmem e Tanya também faziam um bom estrago.
Nós também não estávamos tão mal. Aos poucos, vários membros dos corpos estavam espalhado pelo
chão. Havia uma lareira grande na sala que estávamos, então, assim que existia um oportunidade,
jogávamos os membros que encontrávamos para o fogo, para tentar dificultar a recuperação de nossos
oponentes. Nosso lado também teve algum dano, Tanya tinha perdido um braço durante a batalha, mas
suas irmãs conseguiram recuperá-lo antes que a guarda o pusesse no fogo também. As roupas de quase
todos estavam em farrapos e existiam inúmeras marcas profundas, causadas por presas ou garras em
ambos os lados.
Os lobos estavam sangrando, o que fazia muitos dos vampiros na sala salivar, mas eu podia perceber
que a idéia logo mudava quando sentiam o cheiro do corpo deles. Ma parece que ter cheiro de cachorro
molhado não é assim tão má idéia afinal.
Parecia que ainda tínhamos uma chance de pelo menos alguns dos nossos fugirem para se salvar,
mínima, mas ainda estava ali alguma esperança. Tínhamos conseguido derrubar alguns dos vampiros que
eu não conhecia. Os que ainda não tinham ferimentos consideráveis eram da elite Volturi, os anciões que
ainda lutavam entre si. E Félix, Demétri, Alec e Jane também ainda estavam sem muitos danos.
Eu, Garret e Rose começamos a ficar mais compactos aos poucos, nos juntamos o que fosse possível,
para facilitar a nossa defesa. De repente algo estranho aconteceu. Eu estava paralisada. Literalmente
imóvel.
Não conseguia fazer com que nada, além dos meus olhos, se mexesse. Olhei ao redor tentando
encontrar Alec, que era o único que poderia fazer algo assim. Mas não poderia ser. Ele não tem efeito
sobre mim. Nenhum ataque mental teria efeito. Entrei em pânico, presa no meu próprio corpo. Rose e
Garret olharam para mim, também sem entender o que acontecia. Era possível que ele tivesse encontrado
a brecha que Kate descobriu e estivesse usando contra mim?
Edward! Tem alguma coisa errada com Bella.
Rose exclamou para meu marido. Ele imediatamente terminou o ataque ao seu adversário e veio em
minha direção. Ao chegar perto de mim, eu fiz algo que nunca imaginei fazer em minha existência. Ataquei
ele.
Num minuto ele estava perto de mim e no minuto seguinte ele estava deslizando sobre o piso do salão
com o golpe que eu havia lhe aplicado. Todos ficaram estupefatos. Eu inclusive.
Olhei pedindo-lhe perdão, apertando meu coração ainda mais. O que estava acontecendo? Continuei
tentando achar Alec, mas enquanto eu varria o local apenas com os olhos, acabei achando a fonte de
minhas ações inexplicáveis. A garota nova estava olhando para mim fixamente e seus lábios se moviam
sem nenhum som perceptível, como se murmurasse algo. Ela estava fazendo isso comigo, só podia ser.
Como? Parecia magia, como um canto de sereia.
Edward parece ter percebido isso também porque se levantou imediatamente e foi em direção a ela. A
garota tirou sua vista de mim e virou-se para ele, repetindo a mesma ação estranha que ela estava fazendo
comigo. Ele parou imediatamente e veio em minha direção. Enquanto isso, eu conseguia me controlar
novamente. Ao que parece, seja lá qual for o dom de controle dela, só funciona em uma pessoa por vez.
Edward se aproximou, tentando aplicar alguns golpes em mim e eu tentei desviar, conseguindo fugir de
quase todos eles. Mas como eu poderia contra-atacar o amor de minha vida, eu não sabia responder.
Eu estava tão distraída tentando me defender sem atacar Edward que o elástico do escudo voltou para
mim. Deixando todos indefesos. Eu pude ver a neblina de Alec começando a se formar lentamente e ir se
movimentando, como em um filme de terror, em direção à minha família e amigos. Consegui, com muita
dificuldade restabelecer o escudo. Porém, com um simples sinal de Aro, a garota nova agora tinha mudado
sua estratégia. Voltando a me usar como uma marionete.
Eu percebi que ela não controlava unicamente meu corpo, mas parte dos meus comandos mentais
também. Era como se eu estivesse presa em uma caixinha dentro de minha própria mente. Era
angustiante. Eu não estava conseguindo mais manter o escudo. Não pude evitar, ele voltou para mim. Se
eu supostamente teria uma espécie de proteção contra controles mentais, como ela estava fazendo isso?
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A névoa de Alec estava se aproximando, derrubando cada um deles. Primeiro foi o Clã Denalli, que
estava mais próxima à onde Alec se encontrava. Depois os lobos e o restante de minha família. Deixando
apenas Edward e eu, ainda lutando entre nós mesmos. Sem que eu pudesse fazer nada para me impedir.
Apenas o nosso lado tinha caído, todos os integrantes dos Volturis estavam de pé, com controle total
sobre suas capacidades motoras. Eles também tinham conseguido parar Marcus com a névoa. Então era
isso, o fim. E eu sem poder me movimentar ou falar. Sem poder aceitar a oferta de Aro, em ficar sobre seu
poder, como uma escrava, em troca dele poupar a todos com exceção de minha filha, Alice e Edward que
ficariam prisioneiros como eu. Pelo menos pouparíamos os outros e estaríamos vivos e juntos.
Aro fez outro sinal para a garota, que começou a murmurar algo mais e em seguida eu fiquei parada,
sem mais lutar contra Edward.
Então Sra. Cullen, pensou sobre a generosa oferta que eu fiz. De você, seu marido e a preciosa Alice se
juntarem à nós enquanto tivermos a adorável Renesmee sob nossos cuidados?
Ele parecia adivinhar os rumos dos meus pensamentos àquela altura. Era a já familiar expressão falsa de
cuidado dele, para conosco. Sua voz tinha voltado a ser agradável.
Meu corpo ainda estava paralisado, me parece que ela tinha deixado apenas minha cabeça livre para se
movimentar. Virei para que meus olhos encontrassem os de Edward. Não falamos nada. Nem era preciso.
Voltei-me para Aro e respondi a única coisa que poderia, para dar alguma chance de salvação aos outros,
que era também a última coisa que eu gostaria de dizer.
Sim.
Minha voz tremeu. Aro parecia muito satisfeito por sua estratégia ter funcionado. Ainda que com
alguns percalços como era o caso de Marcus. Ele realmente era um excelente jogador. Não poderia tirar
esse crédito dele. Infelizmente, o que estava em jogo aqui era a nossa liberdade ou a destruição de todos.
E essa segunda opção eu não conseguiria aceitar.
Me parece que eu estava correto ao afirmar que a Sra. Cullen não estava em posição de exigir nada,
afinal.
Ele usou uma voz calma e suave. Vários de sua guarda riram novamente.
Tem uma coisa!
Não tem coisa alguma. Basta desse drama todo. Guardas, aprisionem eles e matem os demais.
Caius silvou.
Não!
Eu e Edward gritamos ao mesmo tempo.
Você prometeu que iria poupá-los, Aro. Eu acredito que você tem palavra para algo como isso.
Edward estava jogando com a diplomacia e o ego inflado de Aro para tentar salvar os outros.
Não temos que fazer nada. A oferta que foi feita incluía vocês e mais ninguém.
Sibilou Caius.
Espere irmão, em consideração ao nosso velho amigo Carlslile, acredito que devemos liberá-los.
Aro sinalizou com a cabeça para seu irmão. Caius não parecia nada satisfeito, porém, conformado com
a decisão.
Resolvido então. Exterminem os lobos e os Denalis. E providenciem o transporte dos demais para
longe daqui.
Exterminar eles? Não! Isso não pode estar acontecendo. Eu sei que não deveria depois de toda a
experiência que tivemos com os Volturis, mas aquilo tinha me chocado. Eu estava para tentar me
movimentar novamente, quando percebi perder o resto do controle físico que tinha.
Aro, você deu sua palavra.
Edward insistia na diplomacia. Eu queria destruir Aro com minhas próprias mãos. Aro olhou para os
transmorfos que o auxiliaram na luta e depois para Edward.
É uma pena meu caro Edward, mas eu somente prometi poupar sua família. Os lobos eu já tinha
prometido aos nossos aliados caninos. Você entende, foi uma promessa anterior à sua e eu cumpro minhas
promessas. Além disso, seria perigoso deixar eles irem porque devido ao peculiar relacionamento do líder
deles com a jovem Renesmee, eles certamente voltariam algum dia para tentar nos atacar novamente.
Como foi provado hoje, com seus espíritos impulsivos e selvagens. Quanto aos Denalis, bem, precisamos
dar exemplo ao nosso mundo. Não se pode atacar os Volturis sem resposta. Sobretudo, quando esse
160
ataque vem de um traidor, como Eleazar. Que devo admitir, fez muito por nós no passado, mas se mostrou
ser indigno de confiança para nossa lei. É uma pena.
Isso não podia acabar assim, não era pra acabar assim. Nós aceitamos ser escravos dos Volturis em
troca da segurança dos outros e isso não seria cumprido completamente.
Bem, acho que já gastamos tempo demais com isso tudo. Vamos aos negócios. Senhor Utlapa, eles
são seus.
Aro falou para o menor dos transmorfos que lutavam ao lado dos Volturis. Nem mesmo olhou para ele.
Como Edward imaginava, eles eram mesmo descendentes do traidor da tribo Quileute. Tendo um deles,
até o mesmo nome, Utapla.
Eu lutei com tudo que eu podia para tentar impedir que eles fizessem mal ao bando de Jacob, mas
absolutamente nada movimentava. Edward tentou correr, mas Jane o parou lançando uma onda de dor,
que eu não pude protegê-lo porque a garota nova estava me mantendo prisioneira até mesmo em minha
mente. Eu não só tinha que testemunhar eles acabarem com meus amigos, como torturarem meu marido,
além de saber que quando acabassem com eles, eu, minha filha, meu marido e a Alice ficaríamos
prisioneiros dos Volturis e longe do resto de nossa família para sempre.
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25. Meu melhor amigo, meu irmão
Utapla e seu irmãos se aproximaram de Embry e uma das montanhas quebrou o pescoço dele com
tanta facilidade que eu não consegui nem realizar o que tinha acabado de acontecer. Parecia irreal. Embry
estava morto. Eu e Edward fomos os únicos a presenciar essa cena pavorosa. Bem, nós, além dos Volturis e
os invasores.
O corpo de Embry, agora em sua forma humana, estava em uma posição nada natural e seus olhos
estavam abertos, virados para minha direção. Eu me apavorei. Isso não podia estar acontecendo. Eles vão
matar todos meus amigos e eu não vou poder nem mesmo tentar fazer alguma coisa para impedi-los.
Eles se encaminharam para Jacob. Eu não tinha mais as reações certas em meu corpo agora que era
uma vampira, isso era parte da barganha de troca, mas ainda assim, eu sabia que estaria sentindo um fio
gélido percorrer minha coluna nesse momento. Entrei em pânico, comecei a lutar contra o controle da
Sereia. Eles estavam com suas presas há alguns centímetros do pescoço dele. Quando eu percebi que não
tinha nada que eu pudesse fazer, eu fechei meus olhos. Eu sei que era covardia, mas era inimaginável ver
eles machucando o Jake. Meu melhor amigo, meu irmão.
Um estouro muito alto aconteceu e quando eu abri meus olhos vi que uma das paredes tinha explodido.
Fogo, poeira, fuligem e destroços voaram para todos os lados. Tinha sido uma parede próxima aonde
estavam os anciões, minha filha e Alice. Foi tudo muito rápido. Como a confusão havia se formado, a
garota nova parou de usar seu dom em mim. Consegui finalmente me movimentar e a primeira coisa que
fiz foi lançar o escudo de volta a todos e a segunda foi correr para ver Embry, mesmo sabendo que era
tarde demais.
Jacob se recuperou antes do ataque fatal de Utapla e quando ele viu onde eu estava, com Embry
deitado em meus braços, correu para nós. Eu tentei explicar para ele o que tinha acontecido e pedi
desculpas por não ter conseguido sair do encanto da Sereia a tempo de salvar o Embry. Como ele estava
como lobo eu não pude saber a resposta que ele teria para o que tinha acabado de contar, mas eu tive
certeza da reação dele.
Jacob parecia mais animal do que já fora em qualquer dia. Era uma fúria selvagem que imanava dele. A
montanha que tinha posto fim à vida de Embry tinha se transformado em um urso negro enorme. Jake não
se intimidou com isso, apenas fez com que ele tremesse ainda mais. Um urro assustador de Jake ecoou
naquele momento e de repente ele começou a se contorcer, segundos depois estava ali um urso marromavermelhado
atacando a montanha dos invasores.
Todos nós recomeçamos as nossas lutas. Em uma situação como essa, onde ainda existiam muitos dos
nossos em perigo, não existiam muito espaço para lamentações, apenas para vingança como era o caso
de Jacob e luta para sobrevivência dos que amamos, como era o meu caso. Contudo, eu também senti
vontade de vingar o jovem e extrovertido Embry. A prioridade de tentar nos salvar venceu minha sede de
vingança.
Mesmo com essa perda trágica, eu acho que finalmente parecia que a sorte estava começando a mudar
para nosso lado, porque eu avistei Nahuel e Thierre entrando por sobre os descombros do que antes tinha
sido uma parede sólida. Aparentemente, eles a tinham explodido como forma de dispersão.
Junto deles vinha um lobo que eu reconheceria em qualquer lugar, Leah. Seguida, para minha surpresa,
de Paul e um outro lobo que eu não conhecia, imagino que seja um dos novatos do bando de Sam. Todos
eles estavam empenhados em tentar libertar Nessie e Alice. Senti também cheiro de humanos, mas isso
deve estar errado já que eu não vi nenhum e duvido que qualquer humano fosse querer ficar perto de uma
batalha assustadora como essa.
Ao menos tínhamos alguns reforços surpresa ao nosso favor. Digo surpresa até para nós. Contudo, eram
suficientes unicamente para tentar equalizar com os reforços que os Volturis também tinha trazido
escoltando seus prisioneiros. Como os Volturis tinham usado o poder de Alec para imobilizar à todos, não
existia necessidade de deixar nenhum de sua guarda vigiando individualmente de cada prisioneiro, então,
quando Alec não estava mais no controle, todos os nossos saíram rapidamente de suas posições de perigo
e voltamos à uma quase organização de batalha.
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Para meu maior alívio, Nahuel e Thierre tinham conseguido resgatar Nessie, mas Alice continuava
cativa. Era um pouco de egoísmo, eu sei. Mas pelo menos minha filha não estava mais sob as garras deles e
Aro nem de longe queria fazer algum mal à Alice.
O ar ainda estava pesado com toda a poeira que tinha sido gerada com a explosão da parede. Isso não
interferia nos vampiros, mas todos os lobos os aliados e os invasores estavam tendo alguma
dificuldade em respirar, bem como Nahuel e Nessie. Por sorte, Thierre era uma vampiro grande e estava
ajudando a carregar os dois para um local um pouco afastado da confusão.
Caius sinalizou com a mão para que Jane e alguns outros vampiros fossem atrás deles. Eu não sabia se
corria para ajudá-los ou ficava aqui, garantindo que Alec não nos incapacitasse novamente. Um lampejo
me ocorreu, expandi meu escudo para Marcus. Assim que ele notou sua liberdade, aproveitou a
oportunidade para atacar Jane. Os vampiros que a guardavam não sabiam o que fazer, afinal, Marcus
também era um de seus líderes. E essa dúvida foi o suficiente para ele se desfazer de todos. Jane foi
despedaçada com facilidade por ele, que em seguida se dirigiu à Aro. Sendo mais uma vez repelido por
Renata.
A poeira tinha baixado e os transmorfos recuperaram seu fôlego. A garota nova estava olhando para
mim outra vez e eu imaginei que iria cair no encanto de Sereia. Quando seus lábios iam começar a se
movimentar, um gancho preso à um guindaste de demolição a atingiu em cheio, partindo-a em dois. Quem
disse que não seria útil o castelo estar em reforma? Tenho quase certeza de quando terminarmos aqui, ele
vai precisar mais do que uma reforma, talvez precise mesmo uma reconstrução.
Olhei para a cabine do guindaste e para minha surpresa e desespero, era meu pai quem controlava.
Agora entendi o cheiro de humanos. Somente meu pai era louco o suficiente para se meter em uma guerra
épica como essa. Não me entenda mal, eu estava agradecida por ele ter aparecido nesse exato momento
para me salvar, mas ele só poderia ser suicida em vir aqui. Olhei séria para ele e balancei a cabeça, ele
ignorou e começou a golpear outros vampiros adversários. Acho que não reconheci seu cheiro porque
tinham muitos outros fortes para distrair meu olfato apurado de vampira.
Carlslile, Charlie está ali!
Meu sogro olhou confuso pra mim e eu apontei para a cabine do guindaste. Ele nem precisou perguntar
mais nada, correu para ajudá-lo. Se sobrevivêssemos a isso tudo, Sam teria que me explicar direitinho
porque ele deixou meu pai, um humano, vir e ainda participar dessa luta. Mas devo admitir, que se não
fosse por ele, eu estaria novamente sob o controle da Sereia e mais uma vez estaríamos a mercê de Alec.
As lutas prosseguiam. Ainda estávamos em desvantagem numérica, entretanto a maioria de nossos
lutadores eram bons, alguns muito bons. Eu estava começando a me sentir um pouco mais confiante,
agora que minha filha não estava mais com Aro e que estávamos com um grupo equivalente ao dos
Volturis, incluindo alguns reforços surpresa, como Marcus, alguns dos lobos de Sam e até meu pai. Contra
todas as possibilidades, talvez conseguíssemos nos salvar. Contudo, Embry era prova de que se tratava de
uma batalha mortal e eu não poderia ficar tranqüila até que todos os que amo estivessem longe daqui,
sãos e salvos.
Com meu pai sendo coberto por Carlslile e minha filha em um local um pouco afastado da luta, eu
decidi que deveria ajudar de maneira mais ofensiva. Afinal, meu escudo estava onde deveria e mais um par
de mãos seria de grande valia nesse momento. Mesmo um par inexperiente como o meu. Garret e Rose
também estavam muito ocupados para que ficassem me guardando.
Olhei ao redor, tentando identificar onde minha ajuda seria melhor aproveitada. Vi que Félix estava
para atacar Jacob pelas costas. Bastaria uma mordida sua para que uma morte lenta e dolorosa fosse
encomendada para o Jake. Não tinha como ele ver o ataque que estava por vir em sua retaguarda porque
estava muito ocupado tentando escapar dos poderosos golpes da montanha com quem lutava ferozmente.
Eu estava muito longe e tinham muitos obstáculos para que eu pudesse ajudá-lo. Angústia tomou conta de
mim mais uma vez.
Comecei a me movimentar em direção a ele, mas não iria dar tempo, Félix era um vampiro como eu e
estava há apenas alguns metros de Jake, ao contrário de mim. Esse golpe seria seu fim.
Quando pensei que era tarde demais, Leah se jogou na frente de Félix tentando um ataque. Ela foi
extremamente rápida, mas não o suficiente para escapar da mordida que tinha o nome de Jake escrita.
Leah uivou alto e o sangue escorria por seu ombro ferido.
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Ela cambaleou um pouco mais, porém conseguiu se manter de pé por alguns minutos e continuou
atacando Félix. Ela não era nem de longe um dos meus lobos favoritos, mas durante todo esse tempo de
convivência entre os lobos e nós, eu acabei criando uma certa simpatia por todos eles.
Leah era sempre a de mau humor, uma das que mais odiava os vampiros e a que sempre tinha algo
ofensivo para falar para nós. Contudo, nem para ela eu desejaria um destino tão cruel como o que eu
estava presenciando.
Quando Jake percebeu o que estava acontecendo ficou ainda mais furioso. Esqueceu-se
temporariamente de sua montanha a partiu para cima de Félix, que ria sombriamente. Enquanto a luta
entre Jacob e Félix continuava, Leah se escorou em uma das paredes e eu a vi ceder ao veneno. Seu corpo
tremia enquanto ela gania baixinho. Segundos depois ela voltava a ser uma jovem humana. Mas seu
sangue cheirava errado. Não era como sangue de lobo, tampouco de humano. Era podre.
Seth se aproximou dela e colocou-a apoiada contra parede para que pudesse respirar melhor. Carlslile
chegou em seguida e colocou seu casaco cobrindo-a. Olhei para meu sogro na esperança dele dizer que
existia alguma coisa a se fazer, mas sua mandíbula ficou rígida.
Eu fiquei de guarda ali perto, para que mais desgraças não acontecessem à ela. Aos poucos, outros de
nós fizeram o mesmo. Até mesmo Nahuel, Thierre e Renesmee foram para lá. Claro que eu não estava de
acordo com Nessie ir para o centro da luta novamente, mas dadas as circunstâncias, aceitei. Além disso, a
conheço bem o suficiente para saber que mesmo eu ficando contra, ela iria querer ajudar de alguma
forma. Estávamos quase todos ali, formando uma barreira protetora.
Jake notou então a situação, desistiu de Félix e veio em direção à Leah. Voltou à sua forma humana, já
que ela não estava mais como lobo e eles não poderiam se comunicar. Jacob se abaixou ao seu lado, seu
corpo tremendo também, ainda que por motivo diferente.
Leah, garota estúpida. O que você fez?
Leah sorriu com esforço e olhou para ele.
O que você acha? Salvei seu traseiro de líder estúpido.
Primeiro Embry e agora você. Não. Você não tinha que se meter nessa história. É tudo culpa minha.
Você é um bom líder Jake. Faz besteira às vezes, como vir para uma guerra de sanguessugas.
Olhou para ele e fez uma careta irônica antes de continuar.
Mas no geral é bom. E o nosso povo precisa de você. Precisa que você ajude o Sam a tomar conta
deles. E quanto ao Embry, ele era grandinho o suficiente para saber no que estava se metendo quando
aceitou vir com você. Sim. Eu digo aceitou porque você não obrigou como alfa que nenhum deles viessem.
Ao contrário de mim que você obrigou que eu ficasse com Charlie e Billy.
Ela olhou irritada para ele. Jacob não sabia o que dizer. Ele estava atordoado demais. Era muita coisa
para processar. A morte prematura de um de seus melhores amigos, Embry. E agora a morte iminente de
Leah, principalmente considerando o motivo que a levara à este fim trágico.
Era fácil entender seu choque, afinal, da última vez que Jake e Leah conversaram, as coisas não
acabaram muito bem para nenhum deles e hoje, ela não só tinha se sacrificado por ele, como estava
usando palavras boas ao seu respeito.
Como você conseguiu vencer o comando alfa que te dei para ficar longe daqui?
Uma expressão marota cruzou a face de Leah.
Tecnicamente você me ordenou que eu ficasse com Billy e Charlie. Não longe daqui. Então, quem
disse que eu conseguir vencer? Billy está por perto, em um local seguro. E Charlie, bem, você sabe bem
onde ele está.
Eu vou ter que me lembrar disso da próxima vez que eu resolver usar o comando alfa em você.
Jake tentou sorrir, mas ele não conseguiu. Ela ainda parecia descontraída.
Você não vai precisar porque da próxima vez que você viajar para outro país, para lutar com um
bando de mortos-vivos e me mandar ficar, eu irei obedecer como um bom cãozinho faria. Porque nem
pensar eu voltaria a entrar numa guerra como essa, para salvar seu traseiro de tomar uma mordida, que só
para constar, dói como o diabo!
Cara, você é a garota mais impossível de se liderar da história.
Ela riu novamente.
Eu sou a única garota lobo da história, seu estúpido.
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Leah tentou rir, mas seu corpo doía demais. Jake a apoiou melhor contra a parede.
Jake, você vai ter que me fazer um favor.
Jacob balançou a cabeça afirmativamente e Leah continuou.
Você vai ter que tomar conta do Seth pra mim. Ele se acha muito maduro, mas no fundo ainda é uma
criança. Além disso ele é muito impulsivo.
Seth ainda como lobo ganiu e encostou sua cabeça nela. Leah o acariciou e sorriu com o canto da boca.
Jake parecia pensar um pouco a respeito e ficou calado, mas ele queria manter ela falando para que ela
não dormisse pra sempre.
Ah, não! Você vai sair dessa. E eu não vou ter que encarar a fúria assassina da Sue Clearwater.
Os olhos de Jacob começaram a ficar molhados, aliás, todos os olhos dos outros lobos estavam assim.
Ele nitidamente estava tentando distrair ela da dor que era visível em seus olhos.
Há! Essa é boa! Você é o bravo líder que enfrenta um bando de mortos-vivos sanguinários, mas tem
medo de uma velha senhora humana?!
Leah tentou rir mais uma vez, mas não tinha mais forças, ela não estava mais conseguindo deixar seus
olhos abertos e sua respiração estava ficando mais difícil. A cena da morte de Embry foi horrível, mas pelo
menos ele não sentiu nada por causa do dom de Alec. Foi rápido.
Leah por outro lado, estava sofrendo por causa do veneno. Era uma morte dolorosa e lenta, tão lenta
que você começa a implorar que o fim chegue logo. E eu sei em primeira mão o quanto dói, porque eu
tinha me transformado em vampira também pelo veneno.
Imagino que no caso dela seja pior, porque pelo que soubemos dos antigos Quileutes, os lobos sofrem
uma espécie de reação alérgica severa ao nosso veneno. Eles não se transformam, apenas morrem. É como
se os corpos deles fossem incompatíveis com o nosso para poderem ser transformados.
Até parece. Sua mãe poderia dar um surra em qualquer um de nós se eu deixasse que alguma coisa
acontecesse com você ou com o Seth.
Nem precisava do dom de Edward para saber que Jake estava tentando manter o clima um pouco mais
ameno para que Leah não se preocupasse mais do que o necessário.
Verdade.
Leah sussurrou. A respiração agora começara a falhar. O mais surpreendente era como os Volturis
estavam ao nosso redor, mas preferiram não nos atacar nesse momento. Era verdade que tinha alguns
mais ansiosos para isso do que outros, como era o caso de Félix e Jane, entretanto Aro decidiu aguardar
um pouco quando olhou para o rosto do seu irmão, Marcus, que contra todas as possibilidades tinha
entrado para o nosso lado.
Mesmo não existindo luta concreta agora, ainda existiam muitas demonstrações de força, seja de
influência, como era o caso de Marcus ou de agressividade como era o caso dos rosnados vindos de ambos
os lados.
Bem, só mais uma coisa. Eu te perdôo por ter achado que não me esforcei o quanto pude quando os
sanguessugas-mor mandaram seus capachos. Entendo porque você achou isso, mas acredite, eu fiz tudo o
que pude para ajudá-la.
Nós já conversamos sobre isso Leah. Só falei aquelas besteiras porque estava aflito, não deveria ter
descontado minha frustração em você. Me perdoe.
Eu já te perdoei há um segundo atrás, não lembra? Nossa, não sei o que eu vi em você. Cara, meu
cupido é o mais estúpido do planeta, só pode ser.
As duas últimas frases ela falou quase para si mesma. Ela parecia a mesma Leah sarcástica de sempre,
porém um pouco magoada. Pelo menos agora ela estava minimamente mais desperta e falando. Ele ficou
calado apenas olhando para ela com uma aparência frágil.
Ei?! Parece que agora vocês vão finalmente se livrar da Leah mau humorada. Yey!
Não tem graça Leah!
Jacob bradou. Ela limpou a garganta.
Como eu ia dizendo antes de ser interrompida por você. Eu sei que meu tempo aqui acabou e eu não
quero ir sem que eu tenha tirado algumas coisas do meu sistema.
Ela olhou seriamente para Jacob e continuou.
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O que você achou foi verdade. Por um segundo eu pensei em deixar os sanguessugas-mor levarem
ela, mas daí eu pensei no quão arrasado você ficaria e eu não poderia fazer isso com você. Para minha
maior desgraça, eu gosto demais de você para deixar isso acontecer. E ela também não é tão ruim.
Leah olhou para Nessie e piscou, depois seus olhos começaram a fechar.
Leah? Acorda! Você tem que ficar acordada para te tirarmos daqui e os anciões da tribo... eles vão...
Jacob estava desesperado agora. Sacudia seu corpo inanimado para que ela acordasse. Leah respirava
com muita dificuldade e seus batimentos cardíacos estavam muito fracos, quase imperceptíveis. Ela puxou
ele para mais perto de seus rosto e beijou-o suavemente em seus lábios. Mesmo com todos ali de platéia,
incluindo Nessie, Jake retribuiu o beijo. Não com paixão, mas com doçura.
Cupido estúpido. Ou não.
Ela sussurrou uma última vez, sorriu e fechou os olhos pesadamente. Mesmo Jacob sacudindo Leah e
mandando ela acordar, nada aconteceu. Seth uivava um choro de cortar a alma, pela perda de sua única
irmã. Alguns dos outros lobos estavam inquietos e chorando baixinho, enquanto que outros rosnavam para
Félix e os intrusos. Edward colocou a mão no ombro dele.
Jake, está no final agora. É melhor deixar ela ir. Não tem nada que você possa fazer por ela,
precisamos tentar sair daqui. Você tem que liderar seu bando.
Edward estava tentando dar a ele um motivo para continuar, mas Jacob se manteve imóvel. Seus olhos
estavam fechados e ele também respirava com dificuldades. Seu corpo começou a tremer ainda mais.
Não venha me falar de minhas responsabilidades, Edward! Leah e Embry são minhas
responsabilidades e eu falhei como líder deles.
Jacob silvou. Edward se afastou um pouco para dar espaço para ele, mas permaneceu sério e
compassivo.
Não foi culpa sua Jake.
Jacob deu um passo ameaçador em direção a Edward e eu fiquei chocada. Instintivamente, também dei
um passo em sua direção. Mas antes de uma desgraça acontecesse, Renesmee tomou a frente de seu pai.
Jake, ele só está tentando ajudar.
Ela falou calmamente enquanto colocava uma das mãos no peito dele com muito cuidado. Ele estava
visivelmente transtornado. Ofegando muito e olhando para Edward com ódio. Nessie segurou o rosto dele
o obrigou a olhar para os olhos dela. Ele foi aos poucos cedendo.
Nessie, tire sua mão de mim. Eu não quero machucar você.
Ela insistiu, não moveu sua mão nem um milímetro. Eu temi por sua segurança, afinal os lobos não são
conhecidos por manterem sua calma.
Jake, estamos todos aqui com você. Por mais que eu não queira admitir, também sentirei falta dela.
Todos iremos, mas ela se foi e você tem que cuidar dos outros.
Renesmee olhou com o canto do olho para Seth e Jake parece ter pego a dica.
Eu sei. Mas isso tudo é culpa minha.
Ele olhou para baixo inconsolável.
Que cena tocante.
Caius usou toda sua ironia e continuou.
Basta! Vamos acabar com isso agora. Estou cansado de tudo isso.
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26. Prophêtê (Oráculo) e a Nova Ordem
A guarda Volturi começou a rosnar mais forte agora, em antecipação à um ataque em massa e nós
estávamos em desvantagem sob vários aspectos. Mas pelo menos estávamos juntos. E se era assim, seu
não poderia salvar a todos, pelo menos iria acabar com minha existência mortal lutando para defendê-los.
E definitivamente teria que levar alguns dos Volturis comigo.
Comecei a rosnar também, seguida por todos de minha família e amigos. É verdade que Alice ainda
estava sob o poder de Aro, mas pelo menos ela sobreviveria. Aro não faria mal à mais nova peça preciosa
de sua coleção.
Aro, deixe a criança fora disso, seu canalha!
Marcus parecia outra pessoa. Ele ficou tanto tempo enterrado no luto por sua esposa. E agora ele era
uma máquina letal.
Meu irmão, se estivesse em minha alçada, deixaria todos eles viver. Mas você sabe que ela tem que
ficar conosco e a proposta ao jovem Edward e sua esposa permanecem. Todavia, não poderei mais poupar
os outros. Não depois de tudo que aconteceu hoje aqui.
Aro usou uma voz adocicada com seu irmão, depois virando-se para Edward. Como quem o incitava a
aceitar sua proposta. Eu vi de soslaio, um vinco de preocupação se formar no rosto de Edward. Ele estava
considerando a possibilidade. Antes que ele falasse qualquer coisa, correu para conter Jacob, sendo
ajudado por Nessie, porque ele estava à um segundo de atacar. Várias pessoas rosnaram ao mesmo
tempo.
Não Aro. Não posso permitir que você acabe com minha família e meus amigos.
Edward respondeu à proposta de Aro, depois apenas lançou um olhar para mim e eu compreendi
imediatamente. Não existia escolha a fazer, a não ser lutar. Eu estava pronta e tenho certeza que os outros
também estavam, entretanto, ficamos imóveis, talvez aguardando que o primeiro movimento fosse da
guarda. Jacob caiu sob suas quatro patas, com os dentes à mostra e seu peito reverberava sua fúria.
Vi Edward virando um pouco a cabeça e seu olhar estava confuso. Seja lá o que estivesse ouvindo dos
pensamentos alheios, o deixou muito surpreso. Alice também não estava com uma expressão muito boa,
se assemelhava muito à de seu irmão. Olhei ao redor tentando encontrar o que os deixaram em tal estado.
Não encontrei nada em princípio, depois vi alguns vultos se formando nas sombras mais distantes do
cômodo em que nos encontrávamos.
Impossível.
O murmúrio de Edward saiu quase imperceptível.
Várias vultos iam preenchendo as sombras com tamanhos e formas variadas e iam começando a se
modelar em pessoas, porém, da maneira como se moviam significava que eram mais do que isso, só
podiam ser de uma espécie. A nossa. Ótimo! Era exatamente o que precisávamos, mais vampiros da
guarda Volturi para lutar contra nós. Minha sorte. Sempre ela. E agora com super potência porque a
quantidade deles era imensa.
A elite Volturi percebeu nossa inquietação e também olhou ao redor. Os vultos iam aos poucos saindo
das sombras e podíamos então ver seus rostos. Como sempre, muitos deles eram assombrosamente lindos
enquanto outros aparentavam ferocidade com seus olhos afiados.
Testemunhas? Vocês trouxeram testemunhas?
Enquanto Caius nos acusava, com o indicador apontado em nossa direção, eu compreendi que esses
estranhos não eram Volturis afinal. Mas quem eles eram e principalmente, o que eles queriam?
Não Caius, eles não são nossas testemunhas. Graças às calúnias que vocês têm espalhado sobre o
nosso suposto plano de tomar o poder de vocês, não teríamos como trazer testemunhas sem que isso
parecesse verdade.
Edward estava tranqüilo agora, quase confiante. Que diabos estava acontecendo?
De quem então?
Rosalie perguntou exatamente o que eu queria saber. Um pequeno sorriso se formou na boca de
Edward, mas Alice ainda parecia confusa. Isso não me deixou muito calma. Olhamos todos os estranhos
tentando entender o que se passava.
São testemunhas dele.
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Edward então, apontou para um último vulto que se formara à sombra. Era definitivamente muito alto
e esguio. Se movia com muita leveza. Quando a luz finalmente tomou conta, eu vi um homem com pele
pálida como neve no inverno, os cabelos negros e lisos iam até seus ombros. Seus olhos eram de um tom
vermelho vivo, mais do que qualquer um que eu já tenha visto. Quase incandescentes. Tinha um rosto de
alguém, que entre os humanos aparentaria apenas dezoito anos, porém sua expressão era forte e madura.
Era absurdamente lindo. Não do tipo que vemos nas ruas, mas do tipo que qualquer modelo famoso
venderia sua própria alma ao diabo para ser. Suas indumentárias eram como se fossem retiradas do filme
Romeu e Julieta de 1968. Porém, ao invés do azul índico mais comum das roupas do herói do filme, ele
preferiu em sua maioria preto, com detalhes em verde musgo e vermelho. Ele sabia como equilibrar essas
cores aparentemente discordantes em plena harmonia. Usava também uma longa capa negra com capuz,
muito semelhante às adotadas pelos Volturis.
Devo admitir que fiquei feliz por saber que Edward não conseguia ler minha mente naquele momento.
Claro que eu não o trocaria por ninguém nesse mundo ou em outro, apenas fiquei abismada com tanta
beleza e graça. Além disso ele tinha um ar extremamente autoconfiante.
Todavia, eu honestamente não estava conseguindo ver o porque de Edward estar tão satisfeito com a
chegada desse rapaz e principalmente a comoção que a chegada dele estava causando aos demais.
A despeito de minha ignorância, o jovem varreu o restante do espaço de onde estava à sombra até nós.
Dentre a guarda Volturi eu podia ouvir sussurros inteligíveis, expressões pasmas, mas o que realmente me
espantou foi ver Caius e Aro. Eles pareciam surpresos como todo o resto, é claro. Porém assustados. Como
eles poderiam de alguma forma temer esse rapaz que se aproximava?
Bem vindo Prophêtê.
Ouvi Carlslile falar, seguido de uma mesura e depois abaixando sua cabeça, demonstrando humildade e
respeito, o que todos os vampiros na sala repetiram, incluindo Marcus e até para minha surpresa, Caius e
Aro também o fizeram. Agora, mais do que nunca, eu gostaria de saber quem é esse vampiro que impõe
tanto respeito, apesar de sua aparência tão jovial. E porque meu sogro o chamou de Prophêtê. O que
isso significa?
Ele ignorou à todos e foi em direção à minha filha. Meu primeiro instinto foi atacar ele, mas Edward me
censurou. Os outros de minha família cuidaram de restringir Jacob, que já estava uma pilha com tudo que
tinha acontecido. O estranho fez uma mesura galanteadora, tomou a mão de Renesmee e beijou-a com
respeito e delicadeza. Seu sorriso se abriu, mostrando as fileiras de dentes brancos e perfeitos. Adoráveis
covinhas se formaram em seu rosto, emoldurando seu sorriso encantador.
György Erdos, seu crriado.
Ele falava com um estranho sotaque. Para mim parecia Russo ou algo parecido. Seus olhos se fixaram
nos de minha filha. A face dela enrubesceu de vergonha, mas por fim sorriu de volta para ele.
Eu pensei que você estivesse...
Caius não pôde conter seu espanto.
Extinto? Petrrificado em uma estátua de mármore brranco?
Ele interrompeu Caius e parecia se divertir com o espanto do ancião.
Não, claro que não, meu senhor. Apenas incógnito.
Caius se recompôs rapidamente e curvou-se respeitosamente. Edward sorriu ao meu lado por alguma
coisa que ouviu de Caius ou do estranho.
Edward, quem é ele? E porque Carlslile o chamou de Profet ou sei lá o que?
Edward não tirou os olhos do estranho, que estava parado como uma estátua, olhando para minha
filha. Todos na sala também estavam como estátuas, alguns nem respiravam.
Prophêtê vem do grego e significa aquele que fala em lugar (do deus), virando Profeta nas culturas
ocidentais. Mas a melhor denominação para ele seria Oráculo.
Grego? Pelo sotaque, pensei que ele era Russo ou Húngaro.
Como que tirado de um transe, o estranho soltou a mão de minha filha se começou a andar
displicentemente no corredor que tinha se formado entre minha família e os Volturis. Como se nenhuma
ameaça de morte tivesse sido declarada segundos atrás e nada estivesse acontecendo.
168
Quase isso, sou Esloveno. O que pelo sotaque você chegou perto. E, meu rapaz, por favor não me
chame de nenhuma dessas palavras que você falou. Eu semprre odiei essas expressões tolas que vocês
colocam em mim. Nenhuma delas tem charrme.
Então ele virou-se pra mim e repetiu a mesma ação que tinha feito com minha filha, porém com menos
ênfase no galanteio. Ele tinha alguns problemas com R e sua entonação era diferente para algumas
palavras, mas suas expressões eram claras.
Pode me chamar pelo equivalente em sua língua, George. Mademoiselle Cullen.
Ele deu as costas para mim e voltou-se aos anciões Volturis.
Então, onde eu estava.
Ele colocou o dedo indicador em seu queixo bem modelado e continuou com sua voz arrogante.
São minhas testemunhas Arro e Caius. Vocês tem andado ocupados nesses último três milênios em
que eu me ausentei.
Caius se apressou em responder, mas foi interrompido pelo Oráculo.
Arro, poderia me dizer do que se trrata essa interressante reunião?
Aro parecia hesitar em responder. Provavelmente elaborando uma resposta adequada para esse
estranho que parecia causar medo e respeito em todos os vampiros presentes. Eu só queria saber porque
toda essa comoção. Mas agora não era o momento para ficar interrogando Edward e sim concentrar no
que a chegada dele implicaria para nossa salvação ou desgraça.
Estávamos cumprindo a sua lei, meu senhor. Eles estão a todo custo, tentando nos derrubar e nos
expor à todos para os humanos.
Besteira.
Gritou Emmet. Sendo ignorado por ambos.
Hum, entendo. E como eles estarriam orquestrando seu plano nefasto?
Aro parecia mais confiante. Incentivado pela frase do estranho. Não estou gostando muito do rumo que
estamos indo.
Eles fazem de tudo contra nossa sociedade. Não se alimentam dos humanos, de fato, vivem entre eles
como se fossem de sua espécie. Podendo ser expostos como o que são a qualquer momento. Convivem
com lobos e humanos que sabem de sua natureza e até mesmo procriam com os humanos. Tendo como
prova, a jovem que meu senhor acabou de conhecer.
Eu vejo.
O Oráculo voltou-se novamente para nosso grupo, olhando de um a um. Sua expressão era indecifrável.
Ele parou um tempo maior nos lobos e em meu pai.
Sabe meu carro, eu sempre admirei sua astúcia e inteligência incomuns. Eram as coisas que mais me
chamavam a atenção para você de quando eu erra o líder de nossa espécie. Isso e sua lealdade inabalável
para com os nossos.
Obrigado, meu senhor. Era apenas minha humilde obrigação.
Aro sorriu e fez mais uma reverência humilde.
Eu não acabei meu discurrso ainda. Não seja indelicado.
Ele pausou e olhou com indiferença para o líder dos anciões. A expressão no rosto de Aro era quase a
representação do medo. Emmet e os lobos riram. Aro olhou para eles com puro ódio. Era a primeira vez
que eu puder ver ele mostrando alguma falta de controle. Caius nem mesmo se mexia.
O Oráculo, ou melhor George, uma vez que ele não gosta de ser chamado assim, virou-se para suas
testemunhas e olhou-as significativamente.
Meus camaradas, eu estive longe de nosso povo por mais de cinco milênios. Observando de longe, as
transformações dos nossos e dos humanos. Optei por não participar das decisões, mesmo as mais
importantes. Longe das lutas dos clãs pelo poder supremo de nossa raça. E em apenas algumas vezes,
interferi diretamente. E somente o fiz porque profecias me exigiam tomar alguma atitude para nossa
salvação em momentos críticos. Então imagino que, todos vocês estejam prevendo com o perdão do
trocadilho infame por que resolvi interferir nessa pequena reunião. Mesmo não sendo Oráculo, como
insistem em me rotular.
Alguns riram, mas em sua maioria eles permaneceram sérios e pensativos.
O que exatamente essa reunião implicará para nós, meu senhor?
169
Uma mulher, dentre as testemunhas perguntou.
Ainda não está completamente formado em minha mente. Como em outras vezes, apenas tenho o
impulso de proteger este grupo heterogêneo de seres. Caso contrário, uma desgraça sem precedentes
poderá ocorrer para todo nosso povo.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo. As expressões variavam entre medo, surpresa e raiva. Eu
não sabia como reagir. Que tipo de desgraça ele estava falando e porque nós deveríamos ser protegidos
por ele? Não me entenda mal, se ele tem o poder de nos tirar dessa confusão toda que se formou, estou
mais do que agradecida, apenas gostaria de entender a situação toda.
Por que poupar as existências de humanos, lobos e vampiros que nem mesmo se comportam como
nós, significaria nossa salvação e o contrário, significaria o nosso fim?
Outra testemunha se pronunciou. Perguntando exatamente o que eu queria saber, acho que a essa
altura, todos estavam pensando o mesmo. Desta vez era um homem baixo e corpulento. George tinha
voltado à sua aparência arrogante.
Por que exatamente não estou certo, meu camarada diminuto. Eu não estou familiarizado com você.
Há quanto tempo foi transformado?
O vampiro se mexeu inquieto, depois estufou-se e encontrou sua voz para responder.
Há quinhentos anos meu senhor.
Uma criança. Acho que não deveríamos convidar vampiros tão jovens a participar de decisões tão
importantes.
Ele sorriu zombeteiramente para as demais testemunhas e risos se espalharam pela sala. Após alguns
momentos, ele voltou a ficar sério. Se ele considera um vampiro com quinhentos anos de existência uma
criança, imagino o que ele pensará sobre mim, com apenas dois anos e alguns meses.
Quem tem mais de um milênio sabe que eu não teria saído do meu exílio apenas para interceder por
um bando de humanos, lobos e vampiros degenerados se não fosse importante demais.
Alguns vampiros balançavam a cabeça afirmativamente e o homem diminuto se encolheu. Eu estava
quase para discutir a maneira depreciativa que ele usou para se referir à nós. Edward percebeu e segurou
meu braço, olhei para ele que dizia não sem nenhuma som. Ele não tinha sido o único a perceber minha
reação. George parecia deliciado com a atitude que quase tomei.
Mas meu senhor. Nós...
Caius começou a se defender e George o parou apenas com seu olhar.
Quanto a vocês Volturis, eu agora pronuncio a dissolução do Conselho dos Anciões. E que vocês não
terão mais, a partir desse momento, nenhum poder de decisão sobre nossa espécie.
Eu estava chocada. Eu nunca poderia imaginar que esse vampiro com aparência tão jovem tivesse tanta
influência. E ainda mais, que ele seria o responsável por nossa salvação. Aro percebeu o erro do irmão e
nem tentou contra-argumentar. Apenas o reverenciou. Eu não acredito que ele tenha se rendido assim tão
facilmente. Posso apostar qualquer coisa que ele e Caius estão apenas fazendo um recuo estratégico para
um golpe futuro. Todos os vampiros presentes, minha família e amigos, a guarda Volturi e as testemunhas
pareciam espantados, não, essa palavra não é suficiente para demonstrar como eles pareciam. Perdidos
talvez fosse o mais próximo.
Mas meu senhor, quem deve nos liderar? O meu senhor voltará a ser nosso líder?
Um homem negro e forte parecia assustado. Sua voz era profunda, mas continha dúvida nela. O queixo
de Edward parecia que iria ultrapassar o piso de tão atônito ele aparentava. Alice não estava muito
diferente. De repente algo dentro de mim se apertou. Eu sabia que o que estava por vir seria sério, muito
sério. Como nossa salvação ou ruína. Fechei meus punhos com o suspense.
Meu tempo se foi. Eu fui útil aos nossos quando me fora necessário. Mas estamos em uma época
muito diferente. O mundo não é mais o mesmo. Os humanos agora poderiam quase que causar nossa
extinção com suas armas e o que eles chamam de tecnologia. Precisamos respeitar nossas origens, nosso
passado, todavia abraçar esse novo mundo. Uma nova ordem precisa ser estabelecida e essa jovem e sua
família serão a chave para isso.
A expressão de Edward e Alice foi repetida por todos na sala. Sem exceção. O choque era tanto que
ninguém ousava falar. Deus! Ninguém ousava respirar ou piscar.
Eu? Chave para uma nova ordem? Que diabos você está falando?
170
Renesmee foi a única que conseguiu superar o espanto e falar. George se aproximou novamente dela.
Não mais usava uma máscara de seriedade e sim seu aparente perfil excêntrico e extrovertido.
Seus dons serão a chave. Mas não somente eles, você e sua família também. Precisamos de vampiros
que tenham uma visão mais... como poderia dizer? Contemporânea, acho que é a expressão que os
humanos usam.
Dons? No plural? Você está enganado! Eu somente consigo fazer pequenas ilusões e honestamente
nem sou boa com elas porque se desfazem com enorme facilidade. Deve ser outra pessoa. Você tem que
rever suas cartas de tarô ou bola mágica 8 porque não sou a garota que você procura.
Ela gesticulava muito enquanto cuspia as palavras como se elas demorassem muito em sua boca a
queimaria. Sua perna começava a mexer sem parar, como é de costume quando ela está nervosa e eu
posso apostar que ser apontada como a chave para salvação de uma raça inteira a deixaria nervosa.
No entanto, eu concordo com ela. Não pode ser. Ela é muito jovem para ter o peso de tanta
responsabilidade em suas costas. Ah! Minha sorte! Nunca falha! Logo agora que parece termos nos livrado
mesmo que temporariamente dos Volturis, outro desastre cai em nosso colo. Me aproximei dela e a
abracei.
Você está errado Orác... George. Ela não pode ser o que você diz. É muito jovem e nem mesmo é uma
vampira pura. Eu não sei se você percebeu, mas ela é meio-humana.
Tentei argumentar e ele ria zombeteiramente. Edward se aproximou de nós, também abraçando nossa
filha. O Oráculo veio mais perto dela, eu e Jacob rosnamos instintivamente. Ele nos ignorou e olhou para
Edward, que mais uma vez parecia surpreso. Eu já estava cansada com a falta de informações sobre o que
estava acontecendo. Edward teria que me explicar tudo em detalhes, se sobrevivermos.
Me permite?
Ele falou para Edward. Permitir o que? Eu quase perguntei, mas como Edward provavelmente nos
avisaria se ele tentasse alguma mal para nossa filha, apenas observei a cena a seguir. Ele mais uma vez
tomou a mão de Renesmee e eu imaginei se ele a beijaria na mão novamente. Jacob rosnou mais uma vez,
Edward levantou uma das mãos pedindo para ele deixar.
Ao contrário do que eu tinha pensado, ele começou a alisar o pulso dela. Mais precisamente a veia
principal que percorria seu pulso. Meu corpo todo enrijeceu. Não são todos os vampiros que conseguem se
controlar ao ver sangue, aliás, somente minha família e a dos Denalli conseguíamos e mesmo assim, com
muito esforço. Edward tocou meu braço.
Ele não vai machucá-la. Eu prometo. Ele só quer demonstrar um ponto e eu admito que também
estou curioso em ver.
Eu ainda não estava certa disso. Olhei de relance para Jacob e sem nos falar, meio que combinamos
atacar a qualquer sinal de perigo. Ele parecia um pouco mais controlado e eu sinalizei para Emmet e Garret
deixarem ele vir mais perto.
Você me disse que somente tinha um dom, criança.
Ele afirmou, mas ainda assim ela respondeu afirmativamente com a cabeça. Ele sorriu, soltou seu pulso
e se afastou um pouco. Me deixando um pouco mais calma.
E sobre seu dom de... como é a palavra em sua língua...
Ele estalou os dedos e franziu o cenho. Deu uma volta sobre sua posição e ao se lembrar da palavra
voltou.
Encantar as pessoas?
Ah, isso? Nem sei se realmente tenho esse dom. Eu falei que era um engano.
Ela parecia aliviada. Mas ele não perdeu sua aparência arrogante, deixando-a desconfortável.
Eu já disse! Não tenho esse dom, pergunte ao Thierre ali. Tentei alguma coisa nele, mas sem efeito
algum.
Ela riu apontando com a cabeça para o francês que tinha se tornado um aliado.
Não? Pelo conhecimento prévio de meus informantes, ele era um Volturi, seu guarda de confiança. No
entanto ele está ao seu lado agora. Não está?
Ele perguntou petulante e cruzou seus braços. Certo de seu argumento. E ele realmente tinha um
ponto. Eu mesma vi algo acontecendo quando Thierre tinha resolvido vir para o nosso lado.
Ele apenas percebeu que os Volturis estavam errados e eram maus.
171
Jane deu um olhar assassino para minha filha e eu imediatamente a cobri com meu escudo. Olhei para
Jane e provoquei.
Eu não queria chegar a esse extremo, mas a situação exige.
Ele começou a se aproximar novamente de minha filha e Edward o parou. Eu e Jacob ficamos prontos
para atacar. Ele sorriu.
Com todo respeito meu senhor, mas eu não acho que seja uma boa idéia. Você não conhece minha
esposa e o amigo de minha filha como eu. Eles arrancariam seu braço sem ao menos pensar a respeito.
Edward mantinha o tom calmo, mas sua expressão se tornou séria. Uma ruga de preocupação se
formou em sua testa.
Eu não estou pedindo permissão para nada, meu jovem.
Ele zombou.
Tudo bem então. É seu braço. Eu só peço humildemente que não haja retaliação com os meus.
George assentiu e olhou para suas testemunhas como se confirmasse sua parte no negócio.
O que ele quer fazer com ela Edward?
Tirar uma amostra de sangue.
Respondeu como se fosse a coisa mais simples no planeta. E até seria se estivéssemos entre humanos,
mas estamos em uma sala cheia de vampiros e mesmo que minha filha seja meio vampira, ela ainda é meio
humana também. Me aproximei mais, Jacob ao meu lado.
O que meu sangue tem a haver com o dom que você afirma que eu tenho?
Renesmee questionou. E eu pensei em outra coisa: Para que ele queria correr o risco de expor o sangue
dela em um ambiente hostil como esse? Não foi ele mesmo quem disse que ela era valiosa para que não
nos extinguíssemos?
Você verá, minha criança.
Ele sorriu mais uma vez e com a ponta de uma de suas garras, fez uma pequena incisão na veia. O
líquido espesso e vermelho começara a sair e eu estava tão preocupada analisando a reação dos vampiros
na sala, que nem olhei mais para o sangue.
Agora vá até sua amiga transmorfo e ponha um pouco do sangue em sua boca.
Argh! Para que?
Ele agora parecia uma criança que teve seu jogo atrasado por alguém que não sabia as regras para
brincar. Aposto que ele não tinha o costume de ter seus pedidos negados por quem quer que seja.
Se quer salvar sua amiga, vá agora. A não ser que ela seja melhor morta.
Ele riu de sua piada infame de humor negro. Mesmo estando desconfiada, Nessie foi até Leah. Paul
rosnou, mas depois de olhar para o lobo esperançoso que era Seth, ele deixou. Ela pingou algumas gotas
em sua boca e se afastou. Como esperado nada aconteceu.
Não adiantou em nada.
Nessie mordeu seu lábio inferior e parecia triste novamente.
Ainda não acabou. Não é suficiente.
Nessie colocou a outra mão na cintura e sacudiu uma das pernas.
Quanto de sangue você espera que eu dê para ela? E via oral? Pelo amor de Deus!
Ele se irritou. Sua mão percorreu seu rosto como quem procurava por paciência. Ele se endireitou e se
aproximou dela. Tanto que ficou há apenas alguns centímetros de seu rosto e virou-se para o ouvido dela.
Você precisa usar seu dom parra que seu sangue faça efeito. Afinal, ela está quase morta. Como seus
pais e eu.
Em algum momento no futuro, eu tinha que dizer para ele que essas piadas não tinham graça alguma.
Nessie se afastou dele, foi novamente em direção a Leah, se concentrou, mas o cenário continuava o
mesmo.
Não está funcionando. O que eu devo fazer?
Ela também parecia esperançosa agora. Talvez seja realmente bom que exista alguma coisa a se fazer
quanto a isso. Eu me aproximei e toquei seu ombro, Edward fez o mesmo incentivando.
Você está usando muito a cabeça. Tente usar seu sentimento. Pense nela, em como ela está sofrendo,
como ela ficaria se estivesse bem, como seus entes queridos se sentiriam com sua volta do mundo dos
mortos. Ou semi-mortos.
172
Eu estava quase me virando para socar ele por estar fazendo ela se sentir mal por tudo que aconteceu à
Leah, quando minha filha saiu de nosso amparo e caminhou novamente para Leah. Abaixou-se e colocou
uma mão sobre o local da mordida de Félix. Seth encostou seu focinho nela, que assentiu para ele. Ela
fechou seus olhos, respirou profundamente algumas vezes e se concentrou de novo. Nada tinha mudado
em princípio, mas depois que suor começou a se formar na testa de minha filha, eu vi um pequeno
movimento no corpo de Leah.
Impossível.
Murmurou Carlslile.
Ela tomou um susto e tirou a mão. Seth e Jacob uivaram em uníssono. Ela entendeu o que acabara de
acontecer e repetiu sua concentração. Gotas de suor começaram a rolar no rosto de Nessie e Leah
começava a se movimentar mais. Eu peguei na mão de Edward procurando conforto. Ele me abraçou
apertado. Leah abriu os olhos vagarosamente.
Seu olhar parecia inquieto, confuso. Depois de alguns minutos Leah sentou-se com a ajuda de meu
sogro.
Onde estão minhas roupas? Por que todo mundo tá me olhado estranho?
Ela pegou o casaco que Carlslile a tinha coberto antes e tentou inutilmente cobrir o que pudesse. Todos
estávamos boquiabertos. Os lobos começaram a pular e uivar, nós comemoramos e os demais vampiros
começaram a palavrear sobre o acontecido.
Shush! Calados seus bobos! Minha cabeça dói! E porque vocês não estão chutando os traseiros
daqueles sanguessugas?
É. Parece que ela voltou mesmo.
Emmet falou e todos rimos.
Acho que minha participação acabou por hoje. Estou entediado, vou me retirar. Com licença.
George deu as costas e começou a sair. Nessie se aproximou e tocou-lhe o ombro. Ele parece não ter se
incomodado com a invasão de seu espaço pessoal, mas parecia como ele tinha dito: entediado.
Sim?
Eu queria agradecer por tudo que você fez por minha família e amigos. Mas eu ainda acho que não
sou quem você procura.
Ele levantou uma sobrancelha.
Ainda não é. Mas será. E por falar nisso.
Ele voltou-se para as testemunhas e Volturis.
Declaro que a partirr de hoje. Quem quer que tente prejudicar os Cullens...
Renesmee limpou a garganta.
E seus amigos.
Ele adicionou e continuou.
Será punido severamente por estar expondo à todos nós um futuro desastroso. Eu diria catastrófico.
Eles agora, são a nova ordem de comando dos vampiros.
Sem mais nenhuma palavra ele saiu rapidamente e sumiu nas sombras. Mas, eu tenho certeza de que
essa não será a última vez que o veremos. Assim como tenho certeza de que várias questões ficaram de
seu rastro. Quem é esse Oráculo e qual seu interesse nisso tudo? Que futuro catastrófico ele pode ter
previsto? A sociedade dos vampiros irá respeitar as suas determinações? O que faremos com esse poder
que recebemos sem nunca termos pedido? Teremos que mudar nossas vidas? Além de algumas certezas.
Os anciões Volturis não irão desistir de seu trono assim tão facilmente e teremos que descobrir mais
sobre esse novo dom de Renesmee. E o principal de todos: conseguimos e juntos.
Tenho que admitir que infelizmente tivemos algumas perdas e que de alguma maneira, nossas
existências se tornaram ainda mais complicadas. Eu não tinha como pensar sobre essas coisas agora. Eu só
queria uma coisa nesse momento. Voltar para nossa choupana na floresta imediatamente. Que o mundo
desabe em nossas cabeças depois, mas não agora.
173
EXTRAS
Links Referência
Neo-renascentista(Estilo arquitetônico da edificação que é a nova mansão dos Cullens):
http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&source=imghp&q=neo-renascentista&gbv=2&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=
Castelo de Ferrières(Castelo que lembra à Bella a nova mansão dos Cullens):
http://images.google.com.br/images?q=Castelo+de+Ferri%C3%A8res&hl=pt-BR&safe=off&gbv=2&tbs=isch%3A1&sa=2
Sequim(Cidade para onde os Cullens se mudaram): http://en.wikipedia.org/wiki/Sequim,_Washington#Aboriginal_inhabitants
Ford Landau 1978 prata(Carro antigo emprestado a Charlie, por Sue Clearwater): http://images.google.com.br/images?hl=pt-
BR&safe=off&rlz=1T4ADBS_pt-BRBR290BR290&tbs=isch%3A1&sa=1&q=Ford+Landau+1978&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=

Chevrolet 1953(Antiga Pick-up de Bella): http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&safe=off&rlz=1T4ADBS_pt-
BRBR290BR290&tbs=isch%3A1&sa=1&q=Chevrolet+1953+bella&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai=

Edward Anthony Masen: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Cullen
Elizabeth Mansen: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Cullen
Edward Senior: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Cullen
Gravetos e pedras.(Expressão que significa algo como o nosso: Suas palavras não me atingem):
http://idioms.thefreedictionary.com/Sticks+and+stones+may+break+my+bones
Latte(Cor da pele de Judy, um tom achocolatado): http://pt.wikipedia.org/wiki/Latte
Salmon Ceremony(Evento que Nessie cita para disfarçar o jogo de Baseball que irá acontecer):
http://www.quileutelegend.com/
Castelo de Chambord(Castelo pintado por Esme): http://images.google.com.br/images?sourceid=navclient&ie=UTF-8&hl=pt-
BR&rlz=1T4ADBS_pt-BRBR290BR290&q=Castelo+de+Chambord

Mercedes Maybach 57(Carro de Esme, presente de Carlslile):
http://images.google.com.br/images?sourceid=navclient&ie=UTF-8&hl=pt-BR&rlz=1T4ADBS_pt-
BRBR290BR290&q=Mercedes+Maybach+57

174
Mustang Fastback 1967 vermelho(Carro de Rosalie e que ela usa seu tempo consertando já que um de seus hobbies é paixão
por carros antigos): http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&safe=off&rlz=1T4ADBS_pt-
BRBR290BR290&tbs=isch:1&aq=f&aqi=&oq=&gs_rfai=&q=Mustang%20Fastback%201967

VW Rabbit 1986(Carro de Jacob): http://images.google.com.br/images?sourceid=navclient&ie=UTF-8&hl=pt-
BR&rlz=1T4ADBS_pt-BRBR290BR290&q=VW+Rabbit+1986

Lacrosse(Esporte que Jacob e Seth entram no time da escola): http://pt.wikipedia.org/wiki/Lacrosse
Alguém(Alguém que juntou uma história como a de Edward, Bella e Jacob. Homenagem à Stephenie Meyer):
http://www.stepheniemeyer.com/
Vendetta(Vingança): http://en.wikipedia.org/wiki/Vendetta
Touché(Expressão usada na esgrima, mas também significa em uma discussão que seu oponente argumentou algo melhor que
você):http://pt.wikipedia.org/wiki/Touch%C3%A9
Château de Beynac(Castelo para onde levaram Nessie e Nahuel): http://en.wikipedia.org/wiki/Ch%C3%A2teau_de_Beynac
Guerra dos Cem Anos(Guerra Citada por Thierre): http://en.wikipedia.org/wiki/Hundred_Years_War
Modus operandi(Jargão usado para definir o modo de agir dos Volturis): http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_operandi
Esmerilhadeira(Citado quando Emmet foi ferido, refere-se ao som que foi ouvido por Bella):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Esmerilhadeira
Romeu e Julieta de 1968(Filme citado por Bella para descrever o estilo de roupas do Oráculo):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Romeu_e_Julieta_(1968)
Oráculo(Vampiro recluso e extremamente respeitado. Misterioso. Seu personagem será melhor apresentado no Livro 2:
Ascensão e Queda): http://pt.wikipedia.org/wiki/Or%C3%A1culo
Bola mágica 8(Brinquedo usado para adivinhações): http://en.wikipedia.org/wiki/Magic_8-Ball
175
Sobre a Saga(Spin-off)
Esse é o primeiro livro da Saga derivada(spin-off) da Saga consagrada e Best-seller Crepúsculo. Não é oficial, apesar de
estarmos tentando pelo menos uma autorização da autora/editora. Não existe objetivo comercial com essa saga derivada, os livros
impressos poderão ser adquiridos a preço de custo(sem lucro para a autora) e os livros em formato digital poderão ser baixados no
site oficial da nova saga sem nenhum custo.
Com os livros impressos, os leitores terão a oportunidade de ter em seu poder, um exemplar com qualidade de impressão
profissional, capa ilustrada e recebendo no conforto de sua casa. São direcionados para os leitores que não têm afinidade com e-
Books(livros digitais), que por sua vez serão disponibilizados com a mesma qualidade e detalhes de produção dos impressos, mas em
formato digital.
A Saga Nova Ordem não tem a intenção de ser uma continuação da Saga Crepúsculo, pois é mais focada em Renesmee.
Obviamente, que por ser centrada em Nessie, os demais personagens estarão presentes. Nova Ordem foi escrito inicialmente com o
ponto de vista de Bella. Percebam algumas modificações deste personagem e de outros que foram feitas devido ao amadurecimento
que passaram desde "Amanhecer" até quando se passa a nova saga(aproximadamente três anos após). Passando para o ponto de
vista da própria Renesmee, onde será possível para o leitor traçar o perfil dela e voltando ao de Bella para que pudéssemos entender
o que se passou durante os momentos onde Nessie não estava envolvida.
Livro 2: Ascenção e Queda
Acreditamos que, com a oportunidade dessa nova saga, poderemos utilizar o ponto de vista de outros personagens
importantes - caso os leitores concordem.
O segundo livro da Saga já está sendo escrito, se chamará - até o momento - "Ascensão e Queda" e será focado no que
aconteceu após o término de Nova Ordem, terá um desvio para a origem dos Volturis.
Quem eles eram antes de se tornarem imortais, como eles chegaram ao poder entre os vampiros e principalmente como
eles se corromperam com os séculos, para que os leitores entendam um pouco sobre certas atitudes deles. Voltando ao tempo
presente com o desenrolar dos acontecimentos.
Pretende-se que mais alguns livros da saga sejam escritos, entretanto, ficarão a critério da aceitação dos leitores.
Site de Divulgação: http://www.novaordemsaga.xpg.com.br/
E-mail
de Contato: nova.ordem.saga@gmail.com

2 comentários:

elaine amaral disse...

Ola bom dia, vc poderia me enviar por e-mail? elaineamaralma@hotmail.com
obrigado

Anônimo disse...

oi, vcs podem enviar para meu email por favor, sou apaixonada com a Saga Crepúsculo, preciso muito ler esse livro tbm. fernandaawfe@gmail.com
Estou aguardando ansiosa.
Bjsss
adorei o blog.
Fernanda