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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Harry Potter e o cálice de fogo.

Harry Potter e o Cálice de Fogo


É tempo de férias de verão e, certa noite, em seu quarto na rua dos
Alfeneiros número 4, Harry Potter acordou com a cicatriz ardendo intensamente.
Teve um sonho estranho, sobre o qual não conseguiu parar de pensar, intrigado,
até receber aquele convite dos Weasley para assistir, nada mais nada menos, à
Copa Mundial de Quadribol.
Não foi fácil convencer seu tio Valter a deixá-lo passar o resto das férias na
casa da família Weasley, mas, ultrapassada esta barreira, Harry começa a vibrar
com todas as emoções que envolvem um jogo internacional de quadribol. A magia
acontece...e é real todo o deslumbramento de nosso bruxinho órfão diante das
extraordinárias equipes de atletas irlandeses e búlgaros, que se confrontam numa
emocionante partida. No entanto, uma coisa terrível acontece e lança uma sombra
sobre tudo e, principalmente, sobre Harry Potter.
O recomeço de mais um ano letivo vem amenizar os temores de Harry, que
compartilha com os melhores amigos, Rony Weasley e Hermione Granger, todas
as aventuras emocionantes que continuavam a acontecer na Escola de Magia e
Bruxaria de Hogwarts. Também neste quarto ano, acontecimentos inesperados -
como, por exemplo, a presença de um novo professor de Defesa contra as Artes
das Trevas e um evento extraordinário promovido na escola - alvoroçam os
ânimos dos estudantes.
Outras escolas de magia se apresentam e alguns de seus alunos, ao lado
de veteranos de Hogwarts, liderados pelo sábio Prof. Dumbledore, terão de
demonstrar todas as habilidades mágicas ­ e não-mágicas - que vêm adquirindo
ao longo de suas vidas.
Estarão eles preparados para tudo que lhes está reservado? Seu
desempenho será satisfatório para que nada de grave lhes aconteça?
Uma nova aventura de Harry Potter, criada pela genial J. K. Rowling.
A britânica J. K. Rowling é autora da série Harry Potter, que já foi vendida em
dezenas de países e traduzida para diversos idiomas.
O primeiro livro da série, Harry Potter e a pedra filosofal, recebeu um
prêmio inaudito do Scottish Arts Council, e a partir de então se tornou um
fenômeno internacional, acumulando críticas entusiastas e prêmios importantes,
como o National Book Award, o Book Awareds Children's Book of the Year e o
Snarties Prize.
As férias de verão vão se arrastando e Harry Potter mal pode esperar pelo
início do ano letivo. É o seu quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de
Hogwarts, e há feitiços a serem aprendidos, poções a serem preparadas e aulas
de Adivinhação, entre outras, a serem assistidas.
Harry anseia por tudo isso. Porém, muitos outros acontecimentos
surpreendentes já estão em marcha...
Vocês nem podem imaginar!!!

- CAPITULO UM -
A Casa dos Riddle

Os habitantes de Little Hangleton continuavam a chamá-la "Casa dos
Riddle", ainda que já fizesse muitos anos desde que a família Riddle morara ali. A
casa ficava em um morro com vista para o povoado, algumas janelas pregadas,
telhas faltando e a hera se espalhando livremente pela fachada.
Outrora uma bela casa senhorial, e, sem favor algum, a construção maior e
mais imponente de toda a redondeza, a Casa dos Riddle agora estava úmida, em
ruínas, e desocupada.
As pessoas do local concordavam que a velha casa dava arrepios. Meio
século antes uma coisa estranha e terrível acontecera ali, uma coisa que os
antigos habitantes do povoado ainda gostavam de discutir quando faltava assunto
para fofocas. A história fora requentada tantas vezes e enfeitada em tantos
pontos, que ninguém mais sabia onde estava a verdade. Todas as versões,
porém, começavam no mesmo ponto: cinqüenta anos antes, ao amanhecer de
uma bela manhã de verão, quando a casa dos Riddle ainda era bem cuidada e
imponente, uma empregada entrou na sala de estar e encontrou os três Riddle
mortos.
A empregada saiu correndo morro abaixo, aos berros, até o povoado, e
acordou o maior numero possível de pessoas.
- Caídos na sala com os olhos abertos! Gelados! Ainda com a roupa do
jantar!
A polícia foi chamada e Little Hangleton inteiro fervilhou de espanto,
curiosidade e mal disfarçada excitação. Ninguém gastou fôlego em fingir tristeza
com o que acontecera aos Riddle, porque eles eram muito impopulares. Os velhos
Sr. e Sra. Riddle tinham sido ricos, esnobes e grosseiros, e seu filho adulto, Tom,
era tudo isso em grau maior. A preocupação de todos que moravam em Little
Hangleton era a identidade do assassino - pois não havia dúvida de que três
pessoas aparentemente saudáveis não poderiam ter morrido, na mesma noite, de
causas naturais.
O Enforcado, o bar local, faturou sem parar aquela noite; os habitantes do
povoado apareceram em peso para discutir a matança. Foram recompensados por
terem deixado o conforto de sua lareira, quando a cozinheira dos Riddle apareceu
teatralmente e anunciou para o bar, repentinamente silencioso, que um homem
chamado Franco Bryce acabara de ser preso.
- Franco! - exclamaram várias pessoas. - Nunca!
Franco Bryce era o jardineiro dos Riddle. Morava sozinho em uma casa
malcuidada na propriedade dos patrões. Voltara da guerra com uma perna dura e
uma intensa aversão por ajuntamentos e barulhos, e, desde então, trabalhava
para os Riddle.
Houve um corre-corre geral para pagar bebidas para a cozinheira e ouvir
maiores detalhes.
- Sempre achei que ele era esquisito - disse a mulher aos ouvintes
ansiosos, depois do quarto xerez. - Assim, antipático. Tenho certeza de que não
ofereci a ele só uma xícara de chá, ofereci bem umas cem. Nunca quis se
misturar, nunca mesmo.


- Ah - disse uma mulher sentada ao balcão -, mas ele passou muito
sofrimento na guerra, e gosta de uma vida tranqüila. Isso não é razão...
- Quem mais tinha a chave da porta dos fundos, então? - vociferou a
cozinheira. - Desde que me entendo por gente, sempre teve uma chave de
reserva pendurada na casa do jardineiro! Ninguém forçou a porta ontem à noite!
Não tem janelas quebradas! Franco só precisou entrar escondido na casa grande
enquanto a gente dormia...
As pessoas trocaram olhares tenebrosos.
- Eu sempre achei que ele tinha um jeito ruim, e não me enganei -
resmungou um homem junto ao balcão.
- Foi a guerra que deixou ele esquisito, se querem saber a minha opinião -
disse o dono do bar.
- Eu disse que não queria desagradar a Franco, não disse, Dot? - falou uma
mulher agitada a um canto.
- Gênio terrível - concordou Dot acenando a cabeça com vigor. - Me lembro
quando ele era criança...
Na manhã seguinte, quase ninguém em Little Hangleton duvidava que
Franco Bryce tivesse matado os Riddle.
Mas na cidadezinha vizinha de Great Hangleton, na delegacia de polícia
escura e feia, Franco teimava em repetir sem parar que era inocente e que a única
pessoa que ele vira perto da casa, no dia da morte dos Riddle, fora um
adolescente estranho, de cabelos negros e rosto pálido. Ninguém mais no
povoado vira o tal garoto e a polícia não teve dúvidas de que Franco o inventara.
Então, quando as coisas estavam ficando muito feias para Franco, chegou
o laudo sobre os cadáveres dos Riddle e tudo mudou.
A polícia nunca vira um laudo mais esquisito. Uma equipe de legistas
examinara os corpos e concluíra que nenhum dos Riddle fora baleado,
envenenado, esfaqueado, estrangulado, sufocado ou, pelo que sabiam, sofrera
qualquer violência. Com efeito, continuava o laudo, em tom de inconfundível
perplexidade, os Riddle, tirando o fato de que estavam mortos, pareciam gozar de
perfeita saúde. Os legistas observaram (como se estivessem decididos a
encontrar alguma coisa errada nos cadáveres) que cada membro da família tinha
uma expressão de terror no rosto - mas, segundo afirmava a frustrada polícia,
quem já ouvira falar de alguém morrer de pavor e como não havia a menor prova
de que os Riddle tivessem sido assassinados, a polícia foi obrigada a soltar
Franco. Os mortos foram enterrados no cemitério da igreja de Little Hangleton e,
por algum tempo, suas sepulturas se tornaram alvo da curiosidade geral. Para
surpresa de todos, e acompanhado por uma nuvem de desconfiança, Franco
Bryce voltou para sua casinha na propriedade dos Riddle.
- Para mim, foi ele quem matou a família e não me interessa o que a polícia
disse - comentou Dot no Enforcado. - E se ele tivesse um pingo de decência, iria
embora daqui, sabendo que a gente sabe que foi ele.
Mas Franco não foi embora. Ficou para cuidar do jardim para a família que
veio morar logo depois na Casa dos Riddle, e para a próxima - porque nenhuma
das duas se demorou muito. Em parte, talvez tenha sido por causa de Franco que
cada proprietário dizia que o lugar dava uma sensação desagradável e, por falta
de moradores, acabou se desmantelando.


O ricaço que era o atual dono da Casa dos Riddle nem morava lá nem dava
um destino a casa, diziam no povoado que ele a mantinha por "causa dos
impostos", embora ninguém entendesse muito bem o que significava isso. E o
ricaço continuou a pagar a Franco para cuidar da jardinagem. Ele agora se
aproximava do seu septuagésimo sétimo aniversário, muito surdo, a perna mais
dura que nunca, mas era visto trabalhando pelos jardins quando fazia bom tempo,
embora o mato já começasse a levar a melhor.
O mato não era, no entanto, o único problema que Franco precisava
enfrentar. Os garotos do povoado tinham criado o hábito de atirar pedras nas
janelas da Casa dos Riddle. Passavam de bicicleta por cima da grama que Franco
se empenhava tanto para manter aveludada. Umas duas vezes eles haviam
arrombado a velha casa para ganhar apostas. Sabiam que o velho Franco era
dedicado à propriedade e achavam graça vê-lo mancando pelo jardim, brandindo
a bengala e ralhando, a voz roufenha, com os invasores. Franco, por sua vez,
acreditava que os garotos o atormentavam porque, tal qual seus pais e avós,
achavam que ele era um assassino. Por isso, quando acordou certa noite de
agosto e viu uma coisa muito estranha na casa, ele simplesmente supôs que os
garotos estivessem indo um pouco mais longe em suas tentativas de castigá-lo.
Foi a perna dura que o acordou; doía mais do que nunca agora na velhice.
Franco se levantou e desceu as escadas até a cozinha pensando em tornar a
encher a bolsa de água quente para aliviar a rigidez do joelho. Parado a pia,
enchendo a chaleira, ele olhou para a Casa dos Riddle e viu uma luz brilhando nas
janelas do primeiro andar. Franco percebeu na mesma hora o que estava
acontecendo. Os garotos tinham invadido novamente a casa e, a julgar pelo
bruxuleio da luz, haviam acendido a lareira.
Franco não possuía telefone e, de qualquer modo, desconfiava demais da
polícia, desde que esta o levara para interrogatório depois das mortes dos Riddle.
Na mesma hora, ele pousou a chaleira, correu para cima o mais rápido que
a perna dura lhe permitiu, e logo voltou à cozinha, completamente vestido, e
apanhou uma velha chave enferrujada no gancho junto à porta. Depois, pegou a
bengala, que deixara apoiada na parede, e saiu pela noite.
A porta de entrada da Casa dos Riddle não tinha sinais de arrombamento, e
o mesmo acontecia com as janelas. Andando com dificuldade, Franco contornou a
casa em direção aos fundos até chegar a uma porta semi-escondida pela hera,
apanhou a velha chave, enfiou-a na porta e abriu -a silenciosamente.
Entrou em uma cozinha cavernosa. Havia muitos anos não entrava ali;
ainda assim, mesmo no escuro, ele se lembrou de onde era a porta para o
corredor e tateou até encontrá-la, as narinas invadidas pelo cheiro de podridão, os
ouvidos atentos a qualquer som de passos ou vozes no primeiro andar.
Chegou ao corredor, que estava um pouquinho mais claro, graças às
grandes janelas de caixilhos que havia de cada lado da porta de entrada, e
começou a subir as escadas, abençoando a poeira grossa que cobria a pedra,
porque abafava o som dos seus passos e de sua bengala.
No patamar, Franco virou à direita e viu imediatamente onde se
encontravam os intrusos: no finzinho do corredor havia uma porta entreaberta de
onde saía uma luz vacilante, que projetava uma longa nesga dourada no chão
escuro. Franco foi se aproximando mais, segurando a bengala com firmeza. A


alguns passos da entrada, conseguiu entrever uma faixa estreita do quarto
adiante.
O fogo estava aceso na lareira. Isto o espantou. Parou e escutou com
atenção, porque uma voz masculina falava dentro do quarto; parecia tímida e
temerosa.
- Sobrou um pouco na garrafa, milorde, se ainda tiver fome.
- Mais tarde - respondeu uma segunda voz. Esta também pertencia a um
homem, mas era estranhamente aguda e fria como uma rajada repentina de vento
gélido. Alguma coisa naquela voz fez os poucos cabelos na nuca de Franco
ficarem em pé. - Me leve mais para perto do fogo, Rabicho.
Franco virou a orelha direita para a porta, para ouvir melhor. Ouviu o tinido
de uma garrafa que alguém pousava sobre uma superfície dura, depois o ruído
prolongado e seco de uma cadeira pesada arrastando pelo chão. O jardineiro viu
de relance um homenzinho, de costas para a porta, empurrando a cadeira
conforme lhe pediram. Usava uma longa capa preta, e tinha uma grande pelada
na parte de trás da cabeça.
Depois, ele desapareceu de vista.
- Aonde foi Nagini? - perguntou a voz fria.
- N... não sei, milorde - disse a primeira voz, nervosamente. - Saiu para
explorar a casa, acho...
- Você vai ordenhá-la antes de nos recolhermos, Rabicho - disse a segunda
voz. - Vou precisar me alimentar durante a noite. A viagem me deu uma enorme
canseira.
A testa enrugada, Franco inclinou o ouvido para mais perto da porta, e
escutou. Houve uma pausa e, em seguida, o homem chamado Rabicho tornou a
falar.
- Milorde, posso perguntar quanto tempo vamos ficar aqui?
- Uma semana - disse a voz fria. - Talvez mais. O lugar é razoavelmente
confortável, e ainda não podemos dar seguimento ao plano. Seria tolice agir antes
do fim da Copa Mundial de Quadribol.
Franco meteu um dedo nodoso no ouvido e girou-o. Com certeza, devido ao
acúmulo de cera, ele ouvira a palavra "quadribol", uma palavra que não existia.
- A... a Copa Mundial de Quadribol, milorde? - admirou-se Rabicho. (Franco
enfiou o dedo com mais força no ouvido.) - Me perdoe, mas... não compreendo...
por que precisamos esperar o fim da Copa Mundial?
- Porque, seu tolo, neste exato momento estão chegando ao país bruxos do
mundo inteiro e todos os bisbilhoteiros do Ministério da Magia estarão em campo,
à procura de sinais de atividades incomuns, verificando identidades e tornando a
verificá-las. Estarão obcecados com a segurança, tentando impedir que os trouxas
percebam alguma coisa. Por isso vamos aguardar.
Franco parou de tentar desentupir o ouvido. Ouvira distintamente as
palavras "Ministério da Magia", "bruxos" e trouxas. Era óbvio que cada uma
dessas expressões significava alguma coisa secreta, e Franco só conseguia
pensar em dois tipos de gente que falava em código - espiões e bandidos. Franco
apertou mais a bengala e apurou ainda mais os ouvidos.
- Milorde continua decidido, então? - perguntou Rabicho em voz baixa.


- Claro que estou decidido, Rabicho. - Agora havia um tom de ameaça em
sua voz fria.
Seguiu-se uma pausa - e então Rabicho falou, as palavras saíram de sua
boca num atropelo, como se ele estivesse se obrigando a falar antes de perder a
coragem.
- Poderia ser feito sem o Harry Potter, milorde.
Outra pausa, mais longa, e então...
- Sem o Harry Potter? - sussurrou a segunda voz. - Entendo...
- Milorde, não estou dizendo isso porque me preocupo com o garoto! -
explicou Rabicho, a voz subindo esganiçada. - O garoto não significa nada para
mim, nadinha! É só porque se usássemos outro bruxo ou bruxa, qualquer um, a
coisa poderia ser feita muito mais rapidamente! Se o senhor me permitisse deixá-
lo por algum tempo... o senhor sabe que posso me disfarçar com muita
eficiência... eu voltaria em apenas dois dias com a pessoa necessária...
- Eu poderia usar outro bruxo - disse a primeira voz, baixinho - é verdade...
- Milorde, faz sentido - disse Rabicho, parecendo muito mais aliviado - pôr
as mãos em Harry Potter seria tão difícil, ele está tão bem protegido...
- E então você se oferece para ir buscar um substituto? Estranho... talvez a
tarefa de cuidar de mim tenha se tornado cansativa para você, Rabicho? A
sugestão de abandonar o plano não seria apenas uma tentativa de me
abandonar?
- Milorde! N... não tenho nenhum desejo de deixá-lo, absolutamente
nenhum...
- Não minta para mim! - sibilou a segunda voz. - Sempre percebo, Rabicho!
Você está arrependido de ter voltado para mim. Eu o horrorizo. Vejo você fazer
careta quando olha para mim, sinto você estremecer quando me toca...
- Não! Minha devoção a milorde...
- Sua devoção não passa de covardia. Você não estaria aqui se tivesse
aonde ir. Como posso sobreviver sem você, quando preciso que alguém me
alimente a intervalos regulares? Quem vai ordenhar Nagini?
- Mas o senhor parece tão mais forte, milorde...
- Mentiroso - sussurrou a segunda voz. - Não estou mais forte e uns poucos
dias sozinho seriam suficientes para me roubar a pouca saúde que recuperei com
os seus cuidados desajeitados. Silêncio!
Rabicho, que estivera resmungando incoerentemente, calou-se na mesma
hora. Durante alguns segundos, Franco não ouviu nada exceto o crepitar do fogo.
Então o segundo homem recomeçou a falar, num sussurro que era quase um
silvo.
- Tenho minhas razões para usar o garoto, como já lhe expliquei, e não vou
usar mais ninguém. Esperei treze anos. Mais uns meses não me farão diferença.
Quanto à proteção que rodeia o garoto, creio que o meu plano funcionará. Preciso
apenas um pouco de coragem de sua parte, Rabicho, e você encontrará coragem,
a menos que queira sentir o peso da cólera de Lord Voldemort...
- Milorde, tenho que falar! - disse Rabicho, agora com pânico na voz. -
Durante a nossa viagem repassei mentalmente o plano, milorde, o
desaparecimento de Berta Jorkins não passará despercebido por muito tempo, e
se dermos seguimento a ele, se eu enfeitiçar...


- Se? - murmurou a primeira voz. - Se? Se você der seguimento ao plano,
Rabicho, o Ministério jamais precisará saber que mais alguém desapareceu. Você
fará isso em surdina, sem confusão; eu bem gostaria de fazer isso pessoalmente,
mas na minha condição atual... Vamos, Rabicho, mais um obstáculo vencido, e o
caminho até Harry Potter estará livre. Não estou pedindo que você aja sozinho.
Até lá, o meu fiel servo terá se reunido a nós.. .
- Eu sou um servo fiel - disse Rabicho, com um levíssimo traço de
aborrecimento na voz.
- Rabicho, preciso de alguém com cérebro, alguém que nunca tenha
vacilado em sua lealdade, e você, infelizmente, não satisfaz nenhum dos dois
requisitos.
- Eu o encontrei - disse Rabicho, e agora decididamente havia irritação em
sua voz. - Fui eu que o encontrei. Fui eu que lhe trouxe Berta Jorkins.
- É verdade - disse o segundo homem, parecendo achar graça. - Um lance
de genialidade que eu nunca teria achado possível em você, Rabicho, embora, a
verdade seja dita, você não fizesse idéia do quanto ela seria útil quando a pegou,
não é?
- Eu... eu achei que ela poderia ser útil, milorde...
- Mentiroso - disse novamente a primeira voz, a zombaria cruel mais
acentuada do que nunca. - Mas não nego que a informação da mulher foi
preciosa. Sem ela, eu nunca poderia ter traçado o nosso plano, e por isso você
terá a sua recompensa, Rabicho. Vou deixá-lo realizar uma tarefa essencial para
mim, uma que muitos seguidores meus dariam a mão direita para realizar...
- V... verdade, milorde! Qual...? - Rabicho parecia outra vez aterrorizado.
- Ah, Rabicho, você não quer que eu estrague a surpresa! Sua parte virá
bem no finzinho... mas, prometo que você terá a honra de ser tão útil quanto Berta
Jorkins.
- O senhor... o senhor... - a voz de Rabicho saiu repentinamente rouca,
como se sua boca tivesse ficado muito seca. - O senhor... vai... me matar,
também?
- Rabicho, Rabicho - disse a voz fria suavemente -, por que eu iria matá-lo?
Matei Berta porque precisei. Ela não servia para mais nada depois do meu
interrogatório, completamente inútil. Em todo o caso, haveria perguntas
embaraçosas se ela tivesse voltado ao Ministério com a notícia de que encontrara
você nas férias. Seria melhor que bruxos presumivelmente mortos não
esbarrassem em bruxas do Ministério da Magia em hotéis à beira de estradas...
Rabicho murmurou alguma coisa tão baixinho que Franco não pôde ouvir,
mas fez o segundo homem rir - uma risada sem alegria, fria como a sua fala.
- Poderíamos ter alterado a memória dela? Mas os Feitiços da Memória
podem ser desfeitos por um bruxo poderoso, como eu provei ao interrogá-la. Teria
sido um insulto à memória da bruxa não usar as informações que ela me forneceu,
Rabicho.
Fora no corredor, Franco de repente percebeu que a mão que segurava a
bengala se tornara escorregadia de suor. O homem de voz fria tinha matado uma
mulher.


E falava disso sem um pingo de remorso - divertia-se. Ele era perigoso - um
doido. E estava planejando outros assassinatos - esse garoto, Harry Potter, fosse
ele quem fosse - corria perigo...
O jardineiro sabia o que devia fazer. Agora, como nunca antes, estava na
hora de ir a policia. Ele sairia silenciosamente da casa e iria direto à cabine
telefônica no povoado... mas a voz fria recomeçara a falar e Franco continuou
onde estava, paralisado, escutando tudo que podia.
- Mais um feitiço... meu fiel servo em Hogwarts... e Harry Potter será
praticamente meu, Rabicho. Está decidido. Não haverá mais discussões. Mas
fique quieto. .. Acho que ouvi Nagini...
E a voz do segundo homem mudou. Começou a emitir ruídos que Franco
jamais ouvira na vida, sibilava e bufava sem inspirar. Franco achou que ele devia
estar tendo algum tipo de ataque ou acesso.
E então o jardineiro ouviu um movimento às suas costas no corredor
escuro. Virou-se para olhar e quedou paralisado de medo.
Alguma coisa deslizava em sua direção pelo chão escuro do corredor, e
quando se aproximou da nesga de luz, ele percebeu, com um choque de terror,
que era uma cobra gigantesca, no mínimo, com três metros de comprimento.
Apavorado, pregado no chão, ele viu aquele corpo ondulante abrir uma
trilha larga e curva na poeira espessa do chão, sempre mais próximo - que faria?
O único meio de fugir era entrar no quarto onde os dois homens estavam sentados
planejando matar, mas se ele ficasse onde estava a cobra certamente o mataria...
Mas antes que se decidisse, a cobra emparelhou com ele e então,
incrivelmente, milagrosamente, passou; orientava-se pelos silvos e bufos que a
voz fria emitia do outro lado da porta e, em segundos, a ponta do rabo da cobra,
malhada de losangos, desapareceu pela abertura.
Havia suor na testa de Franco agora e a mão na bengala tremia.
No quarto, a voz fria continuava a silvar, e ocorreu a Franco uma idéia
estranha, uma idéia impossível... Esse homem podia falar com as cobras. Franco
não entendia o que estava acontecendo. Queria mais do que tudo voltar para a
cama com a sua bolsa de água quente. O problema é que suas pernas não
pareciam querer se mexer.
Enquanto estava parado ali, trêmulo, tentando se controlar, a voz fria voltou
de repente a falar em inglês.
- Nagini trouxe notícias interessantes, Rabicho.
- Ver... verdade, milorde? - respondeu Rabicho.
- Verdade. Segundo Nagini, tem um velho trouxa parado do lado de fora do
quarto, escutando cada palavra que dizemos.
Franco não teve a menor chance de se esconder. Ouviu passos e em
seguida a porta do quarto se escancarou. Um homem baixo de cabelos grisalhos e
ralos, um nariz pequeno e pontudo, olhos lacrimosos, parou diante dele com uma
mescla de medo e susto no rosto.
- Convide-o a entrar, Rabicho. Onde está a sua educação?
A voz fria vinha de uma velha poltrona diante da lareira, mas Franco não
conseguiu ver quem falava. A cobra, por sua vez, se enroscara no tapete podre
diante da lareira, em uma medonha imitação de bichinho de estimação.


Rabicho fez sinal para Franco entrar. Embora continuasse profundamente
abalado, Franco segurou com firmeza a bengala e, coxeando, cruzou o portal.
O fogo na lareira era a única fonte de luz no quarto; projetava sombras
longas e aranhosas nas paredes. Franco fixou o olhar nas costas da poltrona; o
homem sentado nela parecia ser ainda menor do que o seu criado, pois Franco
não conseguia sequer ver a parte de trás de sua cabeça.
- Você ouviu tudo, trouxa? - perguntou a voz fria.
- Do que foi que o senhor me chamou? - perguntou Franco, desafiando-o,
porque agora que estava dentro do quarto, agora que chegara a hora de agir, ele
se sentia mais corajoso, sempre fora assim na guerra.
- Chamei-o de trouxa - disse a voz calmamente. - Isso quer dizer que você
não é bruxo.
- Eu não sei o que o senhor quer dizer por trouxa - respondeu Franco, com
a voz mais firme. ­ Só sei é que esta noite ouvi o suficiente para despertar o
interesse da polícia, ah, isto eu ouvi, O senhor já matou uma vez e está
planejando matar mais! E vou-lhe dizer outra coisa - acrescentou, numa súbita
inspiração -, minha mulher sabe que estou aqui e se eu não voltar...
- Você não tem mulher - disse a voz fria, muito baixinho. - Ninguém sabe
que você está aqui. Você não disse a ninguém que vinha. Não minta para Lord
Voldemort, trouxa, porque ele sabe... ele sempre sabe...
- É mesmo? - retrucou Franco com aspereza. - Lorde é? Ora, não tenho
muito respeito pelos seus modos, milorde. Vire-se e me encare como homem, por
que não faz isso?
- Mas eu não sou homem, trouxa - retrucou a voz fria, quase inaudível
devido ao crepitar das chamas. - Sou muito, muito mais do que um homem. Mas...
por que não? Vou encará-lo... Rabicho, venha virar minha poltrona.
O servo deu um gemido.
- Você me ouviu, Rabicho.
Lentamente, com o rosto contraído, como se preferisse fazer qualquer coisa
a ter que se aproximar do seu senhor e do tapete em que se deitara a cobra, o
homenzinho se adiantou e começou a girar a cadeira. A cobra ergueu a feia
cabeça triangular e sibilou baixinho quando as pernas da poltrona se prenderam
no tapete.
E, então, a poltrona ficou de frente para Franco e ele viu o que havia nela.
Sua bengala caiu no chão com estrépito. Ele abriu a boca e soltou um grito. Gritou
tão alto que nunca ouviu as palavras que a coisa na poltrona disse ao erguer a
varinha. Houve um relâmpago de luz verde, um ruído farfalhante e Franco Bryce
desabou. Morreu antes de bater no chão.
A trezentos quilômetros dali, o garoto chamado Harry Potter acordou
assustado.

CAPITULO DOIS -
A cicatriz

Harry estava deitado de costas, respirando com esforço como se tivesse
corrido. Acordara de um sonho vivido, apertando o rosto com as mãos. A antiga
cicatriz em sua testa, que tinha a forma de um raio, ardia sob seus dedos como se
alguém tivesse comprimido sua pele com um arame em brasa.
Ele se sentou, uma das mãos ainda na cicatriz, a outra estendida no escuro
à procura dos óculos que deixara na mesa-de-cabeceira. Ele os colocou e o
quarto entrou em foco, iluminado por uma luz fraca e enevoada vinda de um
lampião de rua fora da janela.
Harry tornou a passar os dedos pela cicatriz. Continuava dolorida. Ele
acendeu o abajur ao seu lado, saiu da cama, atravessou o quarto, abriu o guarda-
roupa e espiou no espelho que havia do lado interno da porta. Um menino
magricela de catorze anos olhou para ele, os olhos muito verdes e intrigados sob
os cabelos negros em desalinho. Examinou com mais atenção a cicatriz em sua
imagem. Parecia normal, mas continuava ardendo.
Harry tentou se lembrar do que estivera sonhando antes de acordar.
Parecera tão real... havia duas pessoas que ele conhecia e uma que não
conhecia... ele se concentrou, enrugando a testa, tentando se lembrar...
Veio à sua mente a imagem pouco nítida de um quarto escuro... havia uma
cobra em cima de um tapete diante da lareira... um homenzinho chamado Pedro,
de apelido Rabicho... e uma voz aguda e fria... a voz de Lord Voldemort. Só de
pensar, Harry teve a sensação de que uma pedra de gelo estava descendo para o
seu estômago...
Fechou os olhos com força e tentou se lembrar que aparência tinha
Voldemort, mas foi impossível... tudo que Harry sabia era que, no momento em
que a poltrona girara, vira o que estava sentado nela, sentira um espasmo de
horror que o acordara... ou fora a dor na cicatriz?
E quem era o velho? Porque sem dúvida havia um velho; Harry o vira cair
no chão. Tudo estava ficando confuso; o garoto levou as mãos ao rosto tampando
a visão do quarto em que estava, tentando reter a imagem daquele outro mal
iluminado, mas era o mesmo que tentar segurar água com as mãos; os detalhes
agora desapareciam com a mesma rapidez com que ele tentava retê-los...
Voldemort e Rabicho estiveram conversando sobre alguém que haviam
matado, embora Harry não conseguisse lembrar o nome... e estiveram planejando
matar mais alguém... ele...
Harry tirou as mãos do rosto, abriu os olhos e contemplou o quarto a toda a
volta como se esperasse ver alguma coisa diferente ali. Como era de esperar ,
havia uma quantidade extraordinária de coisas diferentes em seu quarto. Havia
um malão de madeira aberro ao pé da cama, deixando à mostra um caldeirão,
uma vassoura, vestes negras e vários livros de feitiços. Rolos de pergaminho
atulhavam a parte do tampo de sua escrivaninha que não estava levantada por
causa de uma enorme gaiola vazia, em que sua coruja muito branca, Edwiges,
normalmente se encarrapitava. No chão ao lado de sua cama havia um livro
aberto; ele o estivera lendo antes de adormecer na véspera. As ilustrações do livro
se mexiam.


Homens com vestes laranja-vivo voavam em vassouras e entravam e saíam
do seu campo de visão, jogando uma bola vermelha.
Harry foi até o livro, apanhou-o e assistiu a um dos bruxos marcar um gol
espetacular enfiando a bola por um aro a quinze metros de altura. Então o garoto
fechou o livro. Nem mesmo o quadribol ­ na opinião de Harry, o melhor esporte do
mundo - conseguiria distraí-lo naquele momento. Ele repôs o livro Voando com os
Cannons sobre a mesa-de-cabeceira, dirigiu-se à janela e afastou as cortinas para
olhar a rua lá embaixo.
A rua dos Alfeneiros tinha o aspecto exato que uma rua de subúrbio
respeitável deveria ter nas primeiras horas de um sábado.
Todas as cortinas estavam fechadas. Até onde Harry pôde ver no escuro,
não havia um único ser vivo à vista, nem mesmo um gato.
Contudo... contudo... Harry voltou inquieto para a cama e se sentou,
passando mais uma vez um dedo pela cicatriz. Não era a dor que o incomodava;
Harry não era estranho à dor e aos ferimentos.
Uma vez perdera todos os ossos do braço direito e sentira a dor de
recuperá-los em uma noite. O mesmo braço fora perfurado pela presa venenosa
de uma cobra, pouco tempo depois. Ainda no ano anterior, ele despencara quinze
metros da vassoura em que voava. Estava acostumado com acidentes e
ferimentos incomuns; eram inevitáveis quando se freqüentava a Escola de Magia
e Bruxaria de Hogwarts e se tinha um pendor para atrair confusões.
Não, a coisa que estava incomodando Harry era que da última vez que sua
cicatriz doera, fora porque Voldemort tinha andado por perto... mas o bruxo não
poderia estar ali, naquela hora... a idéia de Voldemort estar rondando a rua dos
Alfeneiros era absurda, impossível...
Harry parou para escutar com atenção o silêncio à sua volta. Estaria
esperando ouvir o rangido de um degrau, o farfalhar de uma capa? Então teve um
leve sobressalto, seu primo Duda acabara de soltar um tremendo ronco no quarto
ao lado.
Harry deu em si mesmo uma sacudidela imaginária; estava sendo burro;
não havia mais ninguém em casa exceto o tio Valter, a tia Petúnia e Duda, e era
evidente que eles ainda dormiam, embalados por sonhos tranqüilos e indolores.
Era quando dormiam que Harry mais gostava dos Dursley; não porque não
o ajudassem em nada quando estavam acordados. Tio Valter, tia Petúnia e Duda
eram os únicos parentes vivos de Harry. Eram trouxas (não eram bruxos) que
odiavam e desprezavam qualquer forma de magia, o que significava que Harry era
tão bem-vindo em sua casa, quanto uma pelota de mofo. Eles explicaram as
longas ausências de Harry nos últimos três anos dizendo a todos que o garoto
estudava no Centro St. Brutus para Meninos Irrecuperáveis. Sabiam muito bem
que, como bruxo menor de idade, Harry era proibido de usar a magia fora de
Hogwarts, mas não perdiam a mania de culpá-lo por tudo que acontecia de errado
na casa. Harry nunca pudera fazer confidências a eles, nem contar nada de sua
vida no mundo da magia. A simples idéia de procurá-los quando acordassem para
falar que sua cicatriz estava doendo e que estava preocupado com Voldemort era
ridícula.
No entanto, era por causa de Voldemort que Harry viera morar com os
Dursley, para início de conversa. Se não fosse por aquele bruxo, Harry não teria


na testa a cicatriz em forma de raio. Se não fosse por Voldemort, o garoto ainda
teria pais...
Harry tinha um ano de idade na noite em que Voldemort - há um século o
bruxo das trevas mais poderoso do mundo, um bruxo que fora adquirindo poder
continuamente durante onze anos ­ tinha chegado a sua casa e matado seus
pais. Depois, Voldemort brandira sua varinha contra Harry; executara o feitiço que
havia liquidado muitos bruxos adultos durante sua ascensão ao poder - e,
inacreditavelmente, o feitiço não produzira efeito. Em vez de matar o garotinho, o
feitiço se voltara contra o bruxo. Harry sobrevivera marcado apenas por um corte
em forma de raio na testa, mas Voldemort fora reduzido a uma coisa quase sem
vida. Despojado de seus poderes, a vida quase extinta, ele fugira; o terror em que
a comunidade secreta de bruxos vivera tanto tempo se dissipou, os seguidores de
Voldemort debandaram, e Harry Potter se tornou famoso.
Harry tivera um choque de bom tamanho ao descobrir, no seu décimo
primeiro aniversário, que era bruxo; fora ainda mais desconcertante descobrir que
todos no mundo secreto da magia conheciam seu nome. Harry chegara a
Hogwarts e deparara com cabeças que se viravam e cochichos que o seguiam
aonde fosse. Mas agora já se acostumara com isso. No fim deste verão, ele iria
começar o seu quarto ano em Hogwarts; e já estava contando os dias para
regressar ao castelo.
Mas faltavam ainda quinze dias para as aulas recomeçarem. Harry tornou a
examinar o quarto, desanimado, e seus olhos pousaram nos cartões de
aniversário que seus dois melhores amigos tinham lhe mandado no fim de julho.
Que será que diriam se lhes escrevesse para contar que a cicatriz estava doendo?
Na mesma hora a voz de Hermione Granger penetrou sua cabeça, aguda e
cheia de pânico. "Sua cicatriz está doendo? Harry, isso é realmente sério...
Escreve ao Prof Dumbledore! Vou verificar no meu livro Aflições e males comuns
na magia... Quem sabe tem alguma coisa lá sobre cicatrizes produzidas por
feitiços..."
E, este seria o conselho de Hermione: vai procurar o diretor de Hogwarts, e,
enquanto isso, vai consultando um livro. Harry contemplou pela janela o céu azul,
quase negro. Duvidava muito que um livro pudesse ajudá-lo. Que ele soubesse,
era a única pessoa que tinha sobrevivido a um feitiço como o de Voldemort;
portanto, era pouco provável que encontrasse os seus sintomas descritos em
Aflições e males comuns na magia. Quanto a informar ao diretor, Harry não fazia a
menor idéia de onde Dumbledore passava as férias de verão. Só por um momento
divertiu-se em imaginar Dumbledore, com suas longas barbas prateadas, vestes
compridas de bruxo e chapéu cônico, estirado em uma praia qualquer, passando
filtro solar no longo nariz torto.
Mas onde quer que Dumbledore estivesse, Harry tinha certeza de que
Edwiges seria capaz de encontrá-lo; a coruja de Harry, até aquele dia, jamais
deixara de entregar uma carta, mesmo sem endereço. Mas o que iria escrever?
"Prezado Prof Dumbledore. Desculpe-me o incômodo, mas minha cicatriz
doeu hoje de manhã.
Atenciosamente, Harry Potter."
Mesmo em sua cabeça as palavras pareciam idiotas.


Então ele tentou imaginar a reação do seu outro melhor amigo, Rony
Weasley e, num instante, o rosto sardento, de nariz comprido, do amigo começou
a flutuar diante de Harry com uma expressão de atordoamento.
"Sua cicatriz doeu? Mas... mas Você-Sabe-Quem não pode estar por perto
agora, pode? Quero dizer... você saberia, não saberia? Ele estaria tentando matar
você outra vez, não é? Sei não, Harry, vai ver as cicatrizes produzidas por feitiços
sempre doem um pouquinho... Vou perguntar ao meu pai..."
O Sr. Weasley era um bruxo diplomado que trabalhava na Seção de
Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, no Ministério da Magia, mas,
pelo que Harry soubesse, não tinha qualquer formação específica em feitiços. Em
todo o caso, não lhe agradava a idéia de que a família Weasley inteira soubesse
que estava assustado por causa de uma dorzinha. A Sra. Weasley se preocuparia
mais do que Hermione, e Fred e Jorge, os gêmeos de dezesseis anos, irmãos de
Rony, poderiam pensar que Harry estava se acovardando. Os Weasley eram a
família de que Harry mais gostava no mundo e ele tinha esperanças que o
convidassem para passar uns dias em casa deles uma hora dessas (Rony
mencionara alguma coisa sobre uma Copa Mundial de Quadribol), e Harry não
queria que sua visita fosse pontuada por perguntas ansiosas sobre sua cicatriz.
O garoto massageou a cicatriz com os nós dos dedos. O que ele realmente
queria (e se sentiu quase envergonhado de admitir para si mesmo) era alguém
como um pai ou uma mãe para um bruxo adulto a quem pudesse pedir um
conselho sem se sentir burro, alguém que gostasse dele, que tivesse tido
experiência com artes das trevas...
E então lhe ocorreu a solução. Era tão simples, tão óbvia, que ele nem
podia acreditar que tivesse levado tanto tempo para lembrar - Sirius.
Harry saltou da cama, saiu correndo e se sentou à escrivaninha; puxou um
pergaminho para perto, molhou a pena de águia no tinteiro, escreveu Caro Sirius,
e em seguida parou, pensando qual seria a melhor maneira de contar o seu
problema, ainda admirado com o fato de não ter pensado nele logo de saída. Mas,
por outro lado, talvez não merecesse tanta admiração - afinal, ele só descobrira
que Sirius era seu padrinho fazia dois meses.
Havia uma razão simples para a absoluta ausência de Sirius da vida de
Harry até aquele momento - o bruxo estivera em Azkaban, a assustadora prisão
de bruxos, guardada por dementadores, criaturas malignas que não possuíam
olhos, sugavam a alma das pessoas, e tinham ido a Hogwarts procurar Sirius
quando ele fugira. Porém, o bruxo era inocente - as mortes pelas quais fora
condenado tinham sido cometidas por Rabicho, seguidor de Voldemort, que quase
todos ainda pensavam estar morto. Harry, Rony e Hermione sabiam que não;
tinham encontrado Rabicho cara a cara no ano anterior, embora apenas o Prof.
Dumbledore tivesse acreditado na história que eles contaram.
Durante uma gloriosa hora, Harry acreditara que finalmente deixaria a casa
dos Dursley, porque Sirius se oferecera para ficar com ele, depois que limpasse o
próprio nome. Mas a oportunidade lhe fora roubada - Rabicho escapara antes que
pudessem levá-lo ao Ministério da Magia, e Sirius teve de fugir para salvar a vida.
Harry o ajudara a escapar montado em um hipogrifo chamado Bicuço, e
desde então Sirius estava foragido. A casa que Harry poderia ter tido, se Rabicho


não tivesse desaparecido, o atormentara o verão inteiro. Fora duas vezes mais
penoso voltar para os Dursley sabendo que quase se livrara deles para sempre.
Ainda assim, Sirius vinha ajudando Harry, mesmo sem poder estar
presente. Graças ao padrinho, Harry agora tinha todo o seu material escolar
guardado no quarto. Os Dursley nunca haviam permitido isso; o desejo geral de
tornar a vida de Harry a mais infeliz possível, somado ao medo dos seus poderes,
levara os tios, nos verões anteriores , a trancar o malão de escola do garoto no
armário sob a escada. Mas a atitude dos Dursley mudara desde que descobriram
que Harry tinha um perigoso condenado como padrinho - Harry,
convenientemente, se esquecera de acrescentar que Sirius era inocente.
O garoto recebera duas cartas de Sirius desde que voltara à rua dos
Alfeneiros. Ambas tinham sido entregues não por corujas (como era costume entre
os bruxos), mas por grandes e coloridos pássaros tropicais. Edwiges não aprovara
aqueles intrusos espalhafatosos; relutara muito a permitir que eles usassem o seu
bebedouro antes de irem embora. Harry, por outro lado, gostara muito das aves;
fizeram-no lembrar palmeiras e praias de areia branca e ele desejara que, onde
quer que o padrinho estivesse (Sirius nunca dizia, temendo que as cartas fossem
interceptadas), que estivesse se divertindo. Por alguma razão, Harry achava difícil
imaginar dementadores que sobrevivessem muito tempo sob o sol forte; talvez por
isso é que Sirius tivesse rumado para o sul. As cartas dele, que agora estavam
escondidas sob a utilíssima tábua solta do soalho, embaixo da cama de Harry,
tinham um tom animado e, nas duas, ele lembrava Harry que o chamasse se um
dia precisasse. Bem, ele bem que precisava chamar o padrinho agora...
Sua luz de cabeceira parecia estar enfraquecendo a medida que a luz fria e
cinzenta que antecede o nascer do sol penetrava devagarzinho no quarto.
Finalmente, quando o sol nasceu, quando as paredes do quarto ficaram douradas
e quando ele ouviu sons de gente se mexendo no quarto de tio Valter e tia
Petúnia, Harry tirou os pedaços amassados de pergaminho de cima da
escrivaninha e releu a carta que escrevera.
"Caro Sirius,
Obrigado por sua última carta, a ave era enorme, quase não pôde passar
pela minha janela.
As coisas continuam na mesma por aqui. A dieta de Duda não está dando
muito certo. Minha tia o pegou contrabandeando rosquinhas fritas e açucaradas
para dentro do quarto, ontem.
Meus tios disseram que vão ter de cortar a mesada dele caso ele continue
fazendo isso, então Duda ficou com muita raiva e atirou pela janela o PlayStation.
Isso é uma espécie de computador com muitos jogos. Foi realmente uma burrice
porque agora ele não tem nem um Mega-Mutilation parte três para distrair as
idéias.
Eu vou bem, principalmente porque os Dursley estão apavorados que você
possa aparecer e transformar eles em morcegos se eu pedir.
Mas aconteceu uma coisa estranha, hoje de madrugada. Minha cicatriz
doeu outra vez. A última vez que isto aconteceu foi porque Voldemort estava em
Hogwarts. Mas acho que ele não pode estar por perto agora, pode? Você sabe se
cicatrizes produzidas por um feitiço podem doer até anos depois?


Vou mandar esta carta quando Edwiges voltar, no momento ela saiu para
caçar. Diga olá ao Bicuço por mim.
Harry"

Pensou Harry, parecia boa. Não fazia sentido incluir o sonho, ele não queria
que a carta deixasse transparecer que estava muito preocupado. O garoto enrolou
o pergaminho e deixou-o em cima da escrivaninha, pronto para quando Edwiges
voltasse.
Depois se levantou, se espreguiçou e abriu mais uma vez o guarda-roupa.
Sem olhar para a imagem refletida no espelho, começou a se vestir para ir tomar o
café da manhã.

- CAPÍTULO TRÊS -
O convite

Quando Harry finalmente chegou à cozinha, os três Dursley já estavam
sentados à mesa.
Nenhum deles ergueu a cabeça quando o garoto entrou ou se sentou. A caraça
vermelha de tio
Valter estava escondida atrás do matutino Daily Mail, e tia Petúnia partia um
grapefruit em quatro, os lábios contraídos por cima dos dentes de cavalo.
Duda parecia furioso e carrancudo, e, por alguma razão, dava a impressão
de estar ocupando mais espaço do que de costume. E isso não era pouco, porque
ele sempre ocupava sozinho um lado inteiro da mesa quadrada. Quando tia
Petúnia pôs um quarto de grapefruit no prato do filho com um trêmulo "Tome,
Dudinha querido", o garoto lançou-lhe um olhar raivoso. A vida de Duda tomara
um rumo muito desagradável desde que ele voltara para passar as férias de verão
em casa trazendo o boletim de fim de ano.
Tio Valter e tia Petúnia, como sempre, tinham conseguido arranjar
desculpas para as notas baixas dele; tia Petúnia sempre insistia que Duda era um
menino muito talentoso, incompreendido pelos professores, enquanto tio Valter
sustentava que "ele não queria mesmo um filho cê-dê-efe e educadinho".
Eles também passaram por cima das acusações de truculência e
intimidação de colegas que havia no boletim. "Ele é um garotinho turbulento, mas
não faria mal a uma mosca!", comentou tia Petúnia chorosa.
Contudo, no finalzinho havia uma observação muito bem colocada da
enfermeira da escola, que nem mesmo os pais conseguiram justificar. Por mais
que tia Petúnia choramingasse que Duda tinha ossos grandes e que seu excesso
de peso era na realidade gordura infantil, que ele era um menino em crescimento
e precisava de muita comida, o fato era que os fornecedores de uniformes da
escola não estocavam calças suficientemente grandes para Duda. A enfermeira
da escola vira o que os olhos de tia Petúnia - tão atentos quando se tratava de
encontrar marcas de dedos em suas paredes brilhantes e observar as idas e
vindas dos vizinhos - simplesmente se recusavam a enxergar: que, longe de


precisar de alimentação suplementar, Duda atingira aproximadamente o tamanho
e o peso de um filhote de orca.
Então - depois de muitos acessos de raiva, muitas discussões que
sacudiram o soalho do quarto de Harry e muitas lágrimas de tia Petúnia - o novo
regime começara. A receita da dieta que a enfermeira da Smeltings enviara fora
colada na geladeira, já esvaziada de todas as coisas que Duda mais gostava -
bebidas gasosas e bolos, barras de chocolate e hambúrgueres - e cheia de frutas,
legumes e coisas que tio Valter chamava de "comida de coelho". Para fazer Duda
se sentir melhor com a mudança, tia Petúnia insistira que a família inteira seguisse
a mesma dieta. Agora ela passava um quarto de grapefruit para Harry. O garoto
reparou que o dele era bem menor que o de Duda. A tia parecia sentir que a
melhor maneira de manter o moral de Duda era providenciar para que ele, no
mínimo, recebesse mais comida do que Harry.
Mas tia Petúnia não sabia o que estava escondido sob as tábuas soltas do
soalho no andar de cima.
Não fazia a menor idéia de que Harry não estava seguindo dieta alguma.
No momento em que descobriu que esperavam que ele sobrevivesse durante o
verão comendo palitos de cenoura crua, Harry despachara Edwiges à casa dos
amigos com pedidos de ajuda, e eles tinham correspondido mais do que à altura.
A coruja voltara da casa de Hermione com uma enorme caixa de lanchinhos sem
açúcar (os pais de Hermione eram dentistas). Hagrid, o guarda-caça de Hogwarts,
comparecera com um saco de bolos que ele mesmo fabricara (Harry ainda não
provara; tinha muita experiência com a culinária de Hagrid). A Sra. Weasley,
porém, mandara a coruja da família, Errol, com um enorme bolo de frutas e
tortinhas variadas.
O coitado do Errol, que era velho e fraco, precisara de cinco dias inteiros
para se recuperar da viagem. Então, no aniversário de Harry (a que os Dursley
sequer deram atenção), ele recebera quatro esplêndidos bolos de aniversário de
Rony, Hermione, Hagrid e Sirius.
Ainda lhe restavam dois, e sabendo que teria um café da manhã de
verdade quando voltasse ao seu quarto, ele começou a comer o grapefruit sem
reclamar.
Tio Valter pôs de lado o jornal com um profundo suspiro de desaprovação e
olhou para o seu quarto de grapefruit.
- É só isso? - perguntou em tom de reclamação à tia Petúnia. A mulher lhe
lançou um olhar severo e indicou com a cabeça o filho, que já acabara de comer o
seu quarto de fruta e estava cobiçando o de Harry com um olhar azedo nos
olhinhos de porco, Tio Valter soltou um grande suspiro, que arrepiou sua espessa
bigodeira, e apanhou a colher ao lado do prato.
A campainha da porta tocou. Ele se levantou penosamente da cadeira e
saiu em direção ao hall.
Rápido como um raio, enquanto a mãe se ocupava com a chaleira, Duda
furtou o resto de grapefruit do pai.
Harry ouviu vozes à porta, alguém rindo e a resposta seca do tio. Então a
porta se fechou e seguiu-se um ruído de papel rasgado no hall.


Tia Petúnia colocou o bule de chá sobre a mesa e olhou curiosa à volta
para ver aonde fora o marido. Não precisou esperar muito para descobrir; passado
um minuto ele estava de volta. Com o rosto lívido.
- Você - vociferou ele para Harry. - Na sala de estar. Agora.
Espantado, perguntando-se o que teria feito desta vez, Harry se levantou e
acompanhou o tio para fora da cozinha e rumaram para o aposento vizinho. Valter
fechou a porta com força depois que ele e o sobrinho entraram.
- Então - disse o tio, indo até a lareira e se virando para encarar Harry,
como se estivesse prestes a lhe dar voz de prisão.
- Então.
Harry teria adorado responder "Qual é?", mas achou que a boa disposição
do tio não deveria ser testada assim cedinho, principalmente se já estava sob forte
estresse por falta de comida. Então decidiu fazer cara de quem está
educadamente intrigado.
- Isto acabou de chegar - disse o tio. E brandiu na cara de Harry a folha de
papel de carta roxo. - Uma carta. A seu respeito.
A confusão de Harry aumentou. Quem estaria escrevendo a tio Valter a
respeito dele? Quem é que ele conhecia que mandava cartas pelo correio?
Tio Valter olhou aborrecido para Harry, depois baixou os olhos para a carta
e começou a ler em voz alta:

"Prezados Sr. e Sra. Dursley,
Nunca fomos apresentados, mas tenho certeza de que já ouviram Harry
falar muito do meu filho Rony.
Como Harry deve ter-lhes contado, afinal da Copa Mundial de Quadribol vai
se realizar na próxima segunda-feira à noite, e meu marido, Arthur, conseguiu
arranjar ótimos lugares para o jogo por intermédio de conhecidos do
Departamento de Jogos e Esportes Mágicos.
Espero que o senhor e sua mulher nos permitam levar Harry ao jogo, pois é
realmente uma oportunidade única na vida. A Grã-Bretanha não sedia a Copa há
trinta anos e as entradas são muito difíceis de se obter. Ficaríamos muito felizes
se Harry pudesse passar o resto das férias de verão conosco, e de acompanhá-lo
em segurança até o embarque para a escola.
Seria preferível que ele nos mandasse a resposta, o mais depressa
possível, da maneira normal, porque o carteiro trouxa jamais entregou
correspondência em nossa casa e não tenho muita certeza de que saiba onde é.
Esperando ver Harry em breve, subscrevo-me, Atenciosamente, Molly
Weasley
PS. Espero ter colado selos suficientes na carta."

Tio Valter terminou a leitura, tornou a meter a mão no bolso superior do paletó e
tirou mais alguma coisa.
- Olhe só isto - rosnou.
E mostrou o envelope em que chegara a carta da Sra. Weasley, e Harry
precisou fazer força para não rir. O envelope estava coberto de selos exceto por
um quadrado de uns três centímetros na face, em que a senhora havia espremido
o endereço dos Dursley numa letra miudinha.


- Então ela colou selos suficientes - disse Harry tentando fazer parecer que
o engano da Sra. Weasley era muito comum. Os olhos do tio faiscaram.
- O carteiro reparou - disse ele entre dentes. - Estava muito interessado em
saber de onde veio a carta. Foi por isso que tocou a campainha. Parecia estar
achando muito engraçado.
Harry ficou calado. Outras pessoas talvez não entendessem o porquê da
preocupação do tio com tantos selos, mas Harry vivera com os Dursley tempo
bastante para saber que se incomodavam muito com qualquer coisa até
ligeiramente anormal. O pior receio dos dois era alguém descobrir que estavam
ligados (por mais remotamente que fosse) com gente como a Sra. Weasley.
Tio Valter continuou a olhar feio para Harry, que tentava sustentar uma
expressão neutra. Se não fizesse nem dissesse nada idiota, talvez pudesse curtir
uma oportunidade que só ocorria uma vez na vida.
Esperou o tio dizer alguma coisa, mas o homem simplesmente continuou a
fitá-lo com raiva. Harry resolveu, então, quebrar o silêncio.
- Então... posso ir? - perguntou.
Um ligeiro espasmo passou pela caraça púrpura do tio. Os bigodes se
arrepiaram. Harry achou que sabia o que estava acontecendo por trás daquela
bigodeira: uma batalha encarniçada em que dois instintos muito fundamentais de
tio Valter se confrontavam. Permitir que Harry fosse seria fazer o garoto feliz, uma
coisa que o tio lutava para evitar havia treze anos. Por outro lado, deixar que Harry
sumisse para a casa dos Weasley o resto do verão seria livrar-se dele duas
semanas mais cedo do que os Dursley poderiam ter sonhado, e tio Valter
detestava ter Harry em casa.
Aparentemente, para ganhar tempo para pensar, ele baixou os olhos para a
carta da Sra. Weasley.
- Quem é essa mulher? - perguntou examinando a assinatura com
desagrado.
- O senhor já a viu. É a mãe do meu amigo Rony, estava esperando ele
descer do trem de Hog...do trem da escola no fim do ano letivo.
Quase dissera "Hogwarts", e isso certamente irritaria o tio. Ninguém jamais
mencionava o nome da escola de Harry em voz alta na casa dos Dursley. Tio
Valter amarrou a cara enorme como se tentasse se lembrar de uma coisa muito
desagradável.
- Uma mulher feito uma rolha de poço? - rosnou finalmente. - Uma penca de
filhos de cabelos vermelhos?
Harry franziu a testa. Achou que era demais o tio chamar alguém de "rolha
de poço", uma vez que seu filho, Duda, finalmente atingira a forma que vinha
ameaçando atingir desde os três anos de idade, ter mais largura do que altura. Tio
Valter tornou a examinar a carta.
- Quadribol - resmungou. - Quadribol, que droga é isso?
Harry sentiu nova pontada de aborrecimento.
- Um esporte - respondeu secamente. - Joga-se montado numa vass...
- Está bem, está bem! - disse o tio em voz alta. Harry observou, com
alguma satisfação, que ele parecia ligeiramente em pânico. Pelo visto seus nervos
não iriam suportar o som da palavra "vassouras" em sua sala de estar. Refugiou-


se outra vez no exame da carta. Harry viu os lábios do tio formarem as palavras
"nos mandasse a resposta da maneira normal". Tornou a fechar a cara.
- Que é que ela quer dizer da maneira normal? - bufou ele.
- Normal para nós - explicou Harry e, antes que o tio pudesse interrompê-lo,
acrescentou: - o senhor sabe, por correio-coruja. Isso é que é o normal para os
bruxos.
Tio Valter fez uma cara tão indignada como se Harry tivesse dito um
palavrão. Trêmulo de raiva, lançou um olhar nervoso para a janela, como se
esperasse ver os vizinhos com os ouvidos colados na vidraça.
- Quantas vezes tenho que lhe dizer para não mencionar essa
anormalidade sob o meu teto? - sibilou ele, o rosto agora um intenso tom ameixa. -
Você fica parado aí, vestindo as roupas com que Petúnia e eu cobrimos suas
costas ingratas...
- Só depois que Duda não quer mais elas - disse Harry com frieza, pois na
realidade estava vestindo um suéter tão grande que ele precisava fazer cinco
dobras nas mangas para poder usar as mãos, e que lhe caía abaixo dos joelhos
da calça jeans muito larga.
- Não vou admitir que você fale comigo assim! - disse o tio tremendo de
raiva.
Mas Harry não precisava aturar isso. Ia longe o tempo em que era obrigado
a aceitar todas as regras idiotas dos Dursley. Não ia seguir a dieta de Duda, e não
ia deixar o tio impedi-lo de assistir à Copa Mundial de Quadribol, não se
dependesse dele. Harry inspirou profundamente para se acalmar e então disse:
- Muito bem, não posso assistir à Copa Mundial de Quadribol. Posso ir,
agora? É que eu tenho uma carta para Sirius que quero terminar. O senhor sabe,
o meu padrinho.
Conseguira. Dissera as palavras mágicas. Ficou então observando o tom
púrpura no rosto do tio ir clareando desigualmente, fazendo-o parecer um sorvete
de groselha mal misturado.
- Você está escrevendo para ele? - indagou tio Valter numa voz falsamente
calma, mas Harry vira as pupilas dos olhos dele se contraírem com repentino
medo.
- Bem... é - disse Harry em tom casual. - Já faz um tempo que ele não tem
notícias minhas e, o senhor sabe, se não receber nada, pode pensar que
aconteceu algum problema.
Ele parou para gozar o efeito de suas palavras. Quase pôde até ver as
engrenagens girando por baixo dos cabelos do tio, escuros, grossos e
caprichosamente repartidos. Se Valter tentasse impedir Harry de escrever para
Sirius, este pensaria que o garoto estava sendo maltratado. Se dissesse que o
sobrinho não podia ir à Copa Mundial de Quadribol, o garoto iria escrever
contando ao padrinho, que teria certeza de que Harry estava sendo maltratado. Só
havia uma coisa para tio Valter fazer. Harry via a conclusão se formando no
cérebro do tio como se sua caraça bigoduda fosse transparente. O garoto tentou
não sorrir e manter o rosto o mais inexpressivo possível. E então...
- Bem, está bem, então. Pode ir para a casa dessa rolha... dessa idiota...
para essa tal de Copa Mundial. Escreva respondendo a esses... esses Weasley
para virem apanhá-lo, veja bem. Não tenho tempo para acompanhar você por todo


o país. E pode passar o resto do verão lá. E pode dizer ao seu, seu padrinho...
diga a ele... diga a ele que você vai.
- O.K. então - disse Harry animado.
O garoto se virou e saiu pela porta da sala de estar, brigando com a
vontade de saltar no ar e gritar. Ele ia... ia para a casa dos Weasley, ia assistir à
Copa Mundial de Quadribol!
Já no corredor, ele quase colidiu com Duda, que estivera escondido atrás
da porta, na esperança de ouvir Harry levar um passa-fora. Ficou chocado ao ver
o largo sorriso no rosto do primo.
- Foi um excelente café da manhã, não foi? - exclamou Harry.
- Estou de barriga cheia, você não?
Rindo da cara de espanto de Duda, Harry subiu a escada, saltando três
degraus de cada vez, e correu para dentro de seu quarto.
A primeira coisa que viu foi que Edwiges voltara. Estava na gaiola, espiando
Harry com seus enormes olhos cor de âmbar, estalando o bico de um jeito que
significava que estava aborrecida com alguma coisa. Exatamente o que a estava
aborrecendo tornou-se visível quase na mesma hora.
- AI! - gemeu Harry.
Algo que lembrava uma minúscula bola de tênis, cinzenta e emplumada,
acabara de bater do lado da cabeça de Harry. Ele massageou a cabeça
furiosamente erguendo os olhos para ver o que o atingira, e viu uma corujinha
mínima, pequena o bastante para caber na palma de sua mão, chiando excitada
pelo quarto como se fosse um busca-pé. O garoto percebeu que a coruja deixara
cair uma carta a seus pés. Ele se abaixou, reconheceu a letra de Rony e abriu o
envelope. Dentro havia um bilhete apressado.
"Harry - PAPAI CONSEGUIU AS ENTRADAS - Irlanda contra a Bulgária, na
noite de segunda. Mamãe escreveu aos trouxas para convidar você. Talvez a
carta já tenha chegado, não sei quanto tempo demora o correio dos trouxas.
Pensei em lhe mandar este bilhete pela Píchi.
Harry olhou bem para a palavra "Píchi", depois para a minúscula coruja que
voava velozmente em volta da luz no teto. Que nome mais esquisito para uma
coruja. Talvez ele não tivesse entendido a letra de Rony. Voltou ao bilhete.
Vamos buscar você, quer os trouxas gostem ou não, você não pode perder
a Copa, só que mamãe e papai acham que é melhor a gente primeiro fingir que
está pedindo permissão. Se eles disserem sim, mande logo Píchi com a sua
resposta, e iremos buscar você às cinco horas no domingo. Se eles disserem não,
por favor, mande Pichi de volta depressa e iremos buscá-lo no domingo às cinco
horas, assim mesmo.
Hermione está chegando hoje à tarde. Percy começou a trabalhar -
Departamento de Cooperação Internacional em Magia. Não fale em ir para o
exterior enquanto estiver aqui a não ser que queira que ele lhe arranque as calças
pela cabeça.
Até é mais - Rony."
- Calma aí! - disse Harry, quando a corujinha tirou um rasante da cabeça
dele, batendo as asas loucamente. Harry só pôde supor que de orgulho por ter
entregado a carta à pessoa certa. - Vem cá, preciso que você leve a minha
resposta!


A corujinha voou até o topo da gaiola da coruja de Harry.
Edwiges olhou-a friamente, como se a desafiasse a tentar se aproximar
mais. Harry tomou a pena de águia mais uma vez, apanhou um pergaminho limpo
e escreveu:
"Rony, está tudo certo, os trouxas disseram que eu posso ir. Vejo vocês
amanhã às cinco.
Mal posso esperar.
Harry"
Depois, dobrou o bilhete muitas vezes e, com imensa dificuldade, prendeu-
o na perna da corujinha que pulava no mesmo lugar de tanta excitação. No
instante em que o bilhete ficou preso, a coruja partiu, disparou pela janela e se
perdeu de vista.
Harry se virou para Edwiges.
- Está com disposição para fazer uma longa viagem? - perguntou.
A coruja piou com uma certa dignidade.
- Pode levar isto ao Sirius para mim? - disse ele apanhando a - Espera aí...
quero terminar.
Ele tornou a desenrolar o pergaminho e apressadamente acrescentou um
post scriptum. Se quiser entrar em contato comigo, estarei na casa do meu amigo
Rony Weasley até o fim do verão. O pai dele arranjou entradas para a gente
assistir à Copa Mundial de Quadribol!
Terminada a carta, ele a amarrou à perna de Edwiges; ela ficou
anormalmente quieta, como se estivesse decidida a mostrar ao dono como é que
uma verdadeira coruja-correio devia se comportar.
- Vou estar na casa de Rony quando você voltar, está bem? - Harry a
informou.
A coruja deu uma bicadinha carinhosa no dedo do garoto, depois, com um
ruído farfalhante, abriu as enormes asas e saiu voando pela janela aberta.
Harry observou-a desaparecer ao longe, depois entrou de quatro embaixo
da cama, soltou a tábua do soalho e apanhou um pedação de bolo de aniversário.
Sentou-se no chão para comê-lo, saboreando a felicidade que o invadia. Ele
comia bolo e Duda só comia grapefruit, fazia um belo dia de verão, sua cicatriz
estava perfeitamente normal, ele ia deixar a rua dos Alfeneiros no dia seguinte e ia
assistir à Copa Mundial de Quadribol. Naquele momento era difícil se preocupar
com alguma coisa - até mesmo com Lord Voldemort.


- CAPÍTULO QUATRO -
De volta à Toca

Por volta do meio-dia do dia seguinte, o malão de Harry estava pronto com
o seu material escolar e seus pertences mais preciosos - a Capa da Invisibilidade
que ele herdara do pai, a vassoura que ganhara de Sirius, o mapa encantado de
Hogwarts, presente de Fred e Jorge Weasley no ano anterior.
Ele retirara toda a comida do esconderijo sob a tábua solta, verificara duas
vezes cada cantinho de seu quarto para ver se esquecera livros de feitiços ou


penas, baixara da parede o calendário em que fizera a contagem regressiva para
o dia primeiro de setembro, riscando cada dia que passava até a volta a Hogwarts.
A atmosfera no nº 4 da rua dos Alfeneiros estava extremamente tensa. A
chegada iminente à casa de um grupo variado de bruxos estava deixando os
Dursley nervosos e irritadiços. Tio Valter parecera decididamente assustado
quando Harry informou-o de que os Weasley chegariam às cinco horas do dia
seguinte.
- Espero que você tenha avisado para se vestirem direito, a essas pessoas
- rosnou o tio na mesma hora. - Já vi o tipo de coisa que gente da sua laia usa. É
melhor terem a decência de vestir roupas normais, é só.
Harry sentiu uma ligeira apreensão. Raramente vira o casal Weasley usar
alguma coisa que os Dursley pudessem chamar de "normal". Os filhos até usavam
roupas de trouxas durante as férias, mas o Sr. e a Sra. Weasley, em geral,
usavam vestes longas e surradas em vários graus. Harry não se incomodava com
o que os vizinhos pudessem pensar, mas estava aflito com as grosserias que os
Dursley pudessem fazer aos Weasley se eles realmente correspondessem à
péssima idéia que os tios faziam dos bruxos.
Tio Valter vestira o melhor terno. Para alguns isto poderia parecer um gesto
de boas-vindas, mas Harry sabia que era porque o tio queria impressionar e
intimidar. Duda, por outro lado, parecia encolhido.
Não era porque a dieta afinal estivesse produzindo efeito, mas por medo. O
garoto saíra do último encontro com um bruxo adulto levando um rabo de porco,
enroscado, que saía pelo fundilho das calças e tia Petúnia e tio Valter precisaram
pagar um hospital particular em Londres para remover o tal rabo.
Portanto, não surpreendia que Duda não parasse de passar a mão,
nervosamente, pelo bumbum, e andasse de lado quando ia de um cômodo a
outro, para não oferecer o mesmo alvo ao inimigo.
O almoço foi uma refeição quase silenciosa. Duda sequer protestou contra
a comida (queijo branco e aipo ralado). Tia Petúnia não comeu nadinha. Manteve
os braços cruzados, os lábios contraídos e parecia estar mastigando a língua,
como se refreasse o discurso violento e injurioso que queria fazer para Harry.
- Eles virão de carro, naturalmente? - vociferou tio Valter por cima da mesa.
- Hum - fez Harry.
Ele não pensara nisso. Como é que os Weasley viriam apanhá-lo? Não
tinham mais carro; o velho Ford Anglia, que outrora possuíam, atualmente andava
rodando pela Floresta Proibida de Hogwarts. Mas, no ano anterior, o Sr. Weasley
tomara emprestado o carro do Ministério da Magia; será que faria o mesmo hoje?
- Acho que sim - respondeu Harry.
Tio Valter bufou para dentro dos bigodes. Normalmente, ele teria
perguntado qual era a marca do carro do Sr. Weasley; tinha uma tendência a
julgar outros homens pelo tamanho e o luxo de seus carros.
Mas o garoto duvidava que o tio tivesse simpatizado com o Sr. Weasley
mesmo que o bruxo dirigisse uma Ferrari.
Harry passou a maior parte da tarde em seu quarto; não suportava ver tia
Petúnia espiar entre as cortinas a todo instante, como se tivesse havido um alerta
de que existia um rinoceronte à solta.


Finalmente, às quinze para as cinco, Harry voltou ao térreo e entrou na sala
de estar. Tia Petúnia ajeitava compulsivamente as almofadas. Tio Valter fingia ler
o jornal, mas seus olhinhos miúdos não se mexiam, e Harry teve certeza de que
na realidade ele mantinha os ouvidos muito atentos para a chegada de um carro.
Duda se enterrou numa poltrona, sentado em cima das mãos muito gordas, e
segurava com firmeza o bumbum. Harry não suportou a tensão: saiu da sala e foi
se sentar na escada do hall, os olhos no relógio de pulso e o coração batendo
muito forte de tanta excitação e nervosismo.
Às cinco horas vieram e se foram. Tio Valter, suando ligeiramente no terno,
abriu a porta da frente, espiou para um lado e outro da rua, e recolheu depressa a
cabeça.
- Eles estão atrasados! - rosnou para Harry.
- Eu sei - disse Harry. - Talvez... hum... o trânsito esteja ruim, ou outro
problema qualquer.
Cinco e dez... depois cinco e quinze... Harry estava começando a ficar
ansioso também. Às cinco e meia, ele ouviu os tios conversarem em murmúrios
tensos na sala de estar.
- Não tem a menor consideração.
- Poderíamos ter outro compromisso.
- Talvez eles pensem que serão convidados para o jantar se chegarem
tarde.
- Certamente que não serão - respondeu tio Valter, e Harry o ouviu se
levantar e começar a andar pela sala. - Vão pegar o garoto e ir embora, não vão
se demorar. Isto é, se é que vão aparecer. Provavelmente se enganaram no dia.
Eu diria que gente da laia deles não liga muito para pontualidade. Ou isso ou
estão dirigindo uma lata velha que parou de...AAAAAAAARRRRRFEE!
Harry deu um pulo. Do outro lado da porta da sala ele ouviu os três Dursley
correrem precipitadamente, cheios de pânico. No momento seguinte, Duda entrou
voando pelo hall, aterrorizado.
- Que aconteceu? - perguntou Harry. - Que foi que houve? Mas Duda
parecia incapaz de responder. As mãos ainda agarradas às nádegas, saiu
desengonçado, e o mais depressa que pôde, em direção à cozinha. Harry correu
para a sala de estar.
Ouviam-se fortes batidas e arranhões por trás das tábuas que vedavam a
lareira dos Dursley, diante da qual estava ligada uma imitação de fogo a carvão.
- Que é isso? - exclamou tia Petúnia, que recuara de costas para a parede,
arregalando os olhos para a lareira, aterrorizada.
- Que é isso, Valter?
Mas eles não precisaram gastar nem um segundo pensando. Ouviram-se
vozes no interior da lareira fechada.
- Ai! Fred, não... volte, volte, houve algum engano... diga Jorge para não...
AI! Jorge, não, não há espaço, volte depressa e diga ao Rony...
- Talvez Harry possa ouvir a gente, papai... talvez possa abrir para a gente
passar...
Ouviram-se murros contra as tábuas.
- Harry? Harry, você está ouvindo a gente?
Os Dursley investiram contra Harry como um casal de carcajus furiosos.


- Que é isso? - vociferou tio Valter. - Que é que está acontecendo?
- Eles... eles tentaram chegar aqui usando Pó de Flu - disse Harry,
reprimindo uma vontade louca de rir. - Eles podem viajar entre lareiras, só que
vocês tamparam a entrada, esperem um pouco...
Harry se aproximou da lareira e chamou.
- Sr. Weasley? O senhor está me ouvindo?
As pancadas pararam. Alguém do outro lado fez "psiu".
- Sr. Weasley, é o Harry... a lareira está bloqueada. O senhor não vai
conseguir passar por aí.
- Droga! - exclamou a voz do Sr. Weasley. - Para que foi que eles
inventaram de bloquear a lareira?
- Eles têm um fogo elétrico - explicou Harry.
- Verdade? - ouviu-se a voz excitada do Sr. Weasley. - Eclético, você disse?
Com uma tomada? Nossa, eu preciso ver isso... vamos pensar... ai, Rony!
A voz de Rony agora se juntava a dos outros.
- Que é que estamos fazendo aqui? Deu alguma coisa errada?
- Não, Rony - ouviu-se a voz de Fred, muito sarcástica. - Era exatamente
aqui que queríamos chegar.
- É, e estamos nos divertindo de montão - acrescentou Jorge, cuja voz
parecia abafada, como se ele estivesse esmagado contra a parede.
- Meninos, meninos... - disse o Sr. Weasley vagamente. - Estou tentando
pensar no que fazer... é... é o jeito... afaste-se, Harry.
Harry recuou até o sofá. Tio Valter, porém, avançou para a lareira.
- Espere aí! - berrou para a peça. - Que é que você vai fazer exatamente...?
BAM!
O fogo elétrico foi arremessado pela sala, ao mesmo tempo que as tábuas
saltavam da lareira, expulsando o Sr. Weasley, Fred, Jorge e Rony em meio a
uma nuvem de caliça e fragmentos de madeira.
Tia Petúnia berrou e caiu de costas por cima da mesinha de centro; tio
Valter agarrou-a antes que ela batesse no chão e encarou os Weasley,
boquiaberto, incapaz de falar, todos de cabelos ruivos, inclusive Fred e Jorge,
gêmeos idênticos até a última sarda.
- Agora melhorou - ofegou o Sr. Weasley, espanando a poeira das longas
vestes verdes e endireitando os óculos. - Ah... vocês devem ser a tia e o tio de
Harry!
Alto, magro e meio careca, o bruxo caminhou em direção ao tio Valter, a
mão estendida, mas o homem recuou vários passos, arrastando tia Petúnia. As
palavras lhe fugiram totalmente. Seu melhor terno estava coberto de pó branco,
que assentara em seus cabelos e bigodes e dava a impressão de que ele acabara
de envelhecer trinta anos.
- Hum... ah... sinto muito - disse o Sr. Weasley, baixando a mão e olhando
por cima do ombro para a lareira destruída. - Foi minha culpa, mas não me
ocorreu que não poderíamos sair por aqui. Mandei ligar a sua lareira à rede do
Flu, entende, só por uma tarde, sabe, para podermos apanhar Harry.
Rigorosamente falando, as lareiras dos trouxas não podem ser ligadas, mas tenho
um contato útil na Comissão de Regulamentação do Flu e ele deu um jeitinho.
Mas posso consertar tudo em um segundo, não se preocupe. Vou acender um


fogo para mandar os garotos de volta, depois posso refazer sua lareira antes de
desaparatar.
Harry podia apostar que os Dursley não tinham entendido uma única
palavra. Continuavam a boquiabrir-se para o Sr. Weasley, aparvalhados. Tia
Petúnia levantou-se com dificuldade e se escondeu atrás do marido.
- Olá, Harry! - cumprimentou o Sr. Weasley animado. - A mala está pronta?
- Está lá em cima - respondeu o garoto, retribuindo o sorriso.
- Vamos buscar - disse Fred na mesma hora. Piscando para Harry, ele e
Jorge saíram da sala.
Sabiam onde era o quarto de Harry, porque tinham salvado o garoto uma
vez no meio da noite. Harry suspeitou que Fred e Jorge estavam querendo dar
uma espiada em Duda; tinham ouvido Harry falar muito do primo.
- Bom - disse o Sr. Weasley, agitando levemente os braços, enquanto
tentava encontrar palavras para quebrar o silêncio mais que desagradável. - Uma
bela... hum... bela casa vocês têm.
Como a sala habitualmente impecável estava agora coberta de poeira e
caliça, o comentário não foi muito bem recebido pelos Dursley. O rosto do tio
Valter ficou, mais uma vez, púrpura, e tia Petúnia recomeçou a mastigar a língua.
Porém eles pareciam demasiado apavorados para conseguir falar alguma coisa.
O Sr. Weasley olhou para todos os lados. Adorava tudo que dizia respeito
aos trouxas. Harry via que ele estava doido de vontade de examinar a televisão e
o videocassete.
- Eles funcionam com eletricidade, não é? - disse mostrando-se bem
informado. - Ah, é, estou vendo as tomadas. Eu coleciono tomadas - acrescentou
para o tio Valter. - E baterias. Tenho uma enorme coleção de baterias. Minha
mulher acha que eu sou maluco, mas o que fazer?
Era visível que tio Valter também o achava maluco. Ele avançou um
tantinho para a direita, escondendo tia Petúnia, como se achasse que o bruxo
poderia de repente avançar e atacá-los.
Duda, de repente, reapareceu na sala. Harry ouviu o ruído metálico do
malão descendo pelas escadas, e concluiu que o barulho havia afugentado Duda
da cozinha.
O garoto vinha costeando a parede, olhando para o Sr. Weasley com terror
nos olhos e, depois, tentou se esconder atrás da mãe e do pai. Infelizmente, o
corpanzil do tio Valter, embora suficiente para esconder a ossuda tia Petúnia, não
era bastante grande para esconder também o filho.
- Ah, e esse é o seu primo, não é, Harry? - perguntou o Sr. Weasley
fazendo outra corajosa tentativa de iniciar uma conversa.
É - confirmou Harry -, é o Duda.
Ele e Rony se entreolharam e desviaram depressa os olhos para longe; a
tentação de cair na gargalhada era forte demais. Duda ainda segurava o bumbum
como se tivesse medo de que ele se soltasse.
O Sr. Weasley, porém, parecia sinceramente preocupado com o
comportamento estranho do garoto. De fato, pelo tom de voz com que falou a
seguir, Harry teve certeza de que o Sr. Weasley achava que Duda era tão maluco
quanto os Dursley achavam que ele era, só que o Sr. Weasley sentia piedade em
vez de medo.


- Está gostando das férias, Duda? - perguntou bondosamente.
Duda choramingou. Harry viu as mãos do primo apertarem com mais força
o bumbum maciço. Fred e Jorge voltaram à sala trazendo o malão escolar de
Harry.
Eles olharam para os lados ao entrar e viram Duda. Seus rostos se abriram
em sorrisos malvados idênticos.
- Ah, certo - disse o Sr. Weasley. - Melhor irmos andando, então.
Ele arregaçou as mangas das vestes e puxou a varinha. Harry viu os
Dursley recuarem contra a parede, como se fossem uma pessoa só.
- Incêndio!- disse o bruxo, apontando a varinha para o buraco na parede.
As chamas irromperam na mesma hora na lareira, crepitando alegremente
como se já estivessem acesas há horas. O Sr. Weasley tirou do bolso um
saquinho fechado com cordões, desamarrou-o, tirou uma pitada do pó e jogou-o
nas chamas, que viraram verde-esmeralda e rugiram com mais força do que
antes.
- Pode ir, Fred - disse o Sr. Weasley.
- Estou indo - respondeu Fred. - Ah, não... espera aí...
Um saquinho de balas caiu do bolso de Fred e o conteúdo se espalhou em
todas as direções - grandes caramelos em embalagens muito coloridas.
Fred saiu catando os caramelos, guardando-os de volta no bolso, depois
deu um adeusinho animado aos Dursley, adiantou-se e entrou direto nas chamas,
dizendo "A Toca!". Tia Petúnia soltou uma exclamação trêmula. Ouviu-se um
barulho de deslocamento de ar e Fred desapareceu.
- Agora você, Jorge - disse o Sr. Weasley. - Leve a mala.
Harry ajudou Jorge a carregar a mala até as chamas da lareira e virou-a de
ponta para o gêmeo poder segurá-la melhor. Depois com um segundo
deslocamento de ar, Jorge gritara "A Toca!" e desapareceu também.
- Rony, você é o próximo - disse o Sr. Weasley.
- Até outro dia - disse Rony animado para os Dursley. Deu um grande
sorriso para Harry, entrou no fogo e gritou "A Toca!" e desapareceu.
Agora só faltavam Harry e o Sr. Weasley.
- Bom... tchau então - disse Harry aos Dursley.
Os tios não disseram uma palavra. Harry adiantou-se para o fogo, mas na
hora em que pisou na lareira, o Sr. Weasley esticou a mão e segurou-o. Encarou
os Dursley surpreso.
- Harry disse tchau para vocês - falou ele. - Vocês não ouviram?
- Não faz mal - murmurou Harry para o Sr. Weasley. - Francamente, eu não
me importo.
O Sr. Weasley não tirou a mão do ombro de Harry.
- Vocês não vão ver seu sobrinho até o próximo verão - disse ele a tio
Valter, ligeiramente indignado. - Com certeza, vocês vão se despedir?
O rosto de tio Valter se contraiu furiosamente. A idéia de aprender a ter
consideração com um homem que acabara de explodir metade da sua sala de
estar parecia lhe causar intenso sofrimento.
Mas o Sr. Weasley ainda empunhava a varinha e o olhar do tio Valter
correu até ela antes de dizer, muito ressentido:
- Então, tchau.


- Até outro dia - disse Harry enfiando um pé nas chamas que, aos seus
sentidos, pareceram um hálito morno. Naquele momento, porém, um horrível ruído
de alguém se engasgando ocorreu às costas dele e tia Petúnia começou a gritar.
Harry se virou. Duda não estava mais escondido atrás dos pais. Estava
ajoelhado ao lado da mesinha de centro, e tossia e cuspia uma coisa de uns trinta
centímetros, roxa e viscosa que saía de sua boca. Passado um segundo de
aturdimento, Harry se deu conta de que aquela coisa de trinta centímetros era a
língua de Duda - e que havia um papel de caramelo, vivamente colorido, caído no
chão ao lado dele.
Tia Petúnia atirou-se ao chão ao lado do filho, agarrou a ponta da língua
inchada e tentou arrancá-la da boca do garoto; como era de se esperar, Duda
berrou e cuspiu pior do que antes, tentando resistir à mãe. Tio Valter urrava e
agitava os braços, e o Sr. Weasley precisou gritar para ser ouvido.
- Não se preocupem, posso dar um jeito nisso! - gritou ele, avançando para
Duda com a varinha estendida, mas tia Petúnia berrou mais do que antes e se
atirou em cima de Duda, protegendo-o do Sr. Weasley.
- Não, estou falando sério! - disse o Sr. Weasley, desesperado. - É um
processo simples, foi o caramelo, meu filho... gosta de pregar peças, mas é
apenas um Feitiço de Ingurgitamento, pelo menos, acho que é, por favor, posso
consertar tudo...
Mas longe de se tranqüilizar, os Dursley foram tomados de um pânico ainda
maior; tia Petúnia, soluçando histericamente, puxava a língua de Duda como se
estivesse decidida a arrancá-la, o garoto parecia estar sufocando sob a pressão
da língua e da mãe somadas e tio Valter, que se descontrolara completamente,
agarrou uma estatueta de porcelana de cima do bufê e atirou-a contra o Sr.
Weasley, que se abaixou, deixando o enfeite se espatifar na lareira escancarada.
- Ora francamente! - exclamou o Sr. Weasley, zangado, brandindo a
varinha. - Estou tentando ajudar!
Urrando feito um hipopótamo ferido, tio Valter agarrou outro enfeite.
- Harry, vá! Vá logo! - gritou o Sr. Weasley, a varinha apontada para tio
Valter. - Eu resolvo isso!
Harry não queria perder o espetáculo, mas o segundo enfeite atirado pelo
tio errou por pouco a sua orelha esquerda e, pensando bem, ele achou preferível
deixar o Sr. Weasley resolver a situação.
Entrou nas chamas, espiando por cima do ombro e disse "A Toca!"; seu
último vislumbre da sala de estar foi o Sr. Weasley arrancando com a varinha um
terceiro enfeite da mão do tio, tia Petúnia gritando agachada por cima de Duda e a
língua do primo pendurada para fora como uma grande e viscosa jibóia.
Mas no momento seguinte, Harry começou a rodopiar em grande
velocidade e a sala de estar dos Dursley desapareceu de vista numa erupção de
chamas verde-esmeralda.


- CAPITULO CINCO -
As "Gemialidades" Weasley

Harry rodopiou cada vez mais veloz, apertando os cotovelos junto ao corpo,
lareiras difusas passaram como relâmpagos por ele, até que começou a se sentir
nauseado e fechou os olhos. Depois, ao sentir finalmente que estava
desacelerando, esticou as mãos para a frente e fez força para parar em tempo de
evitar cair de cara na lareira da cozinha da casa dos Weasley.
- Ele comeu? perguntou Fred excitado, estendendo a mão para ajudar
Harry a se levantar.
- Comeu - disse Harry se endireitando. - O que era?
- Caramelo Incha-Língua - informou-lhe Fred, animado. - Foi Jorge e eu que
inventamos, passamos o verão todo procurando alguém para experimentar...
A pequena cozinha explodiu de risadas; Harry olhou para os lados e viu que
Roney e Jorge estavam sentados à mesa da cozinha com dois rapazes ruivos que
ele nunca vira antes, embora soubesse na hora quem deviam ser: Gui e Carlinhos,
os dois irmãos Weasley mais velhos.
- Como vai, Harry? - disse o que estava mais próximo, sorrindo para ele e
estendendo a mão enorme, que Harry apertou sentindo calos e bolhas sob os
dedos.
Tinha que ser Carlinhos, que trabalhava com dragões na România. O rapaz
tinha o mesmo físico dos gêmeos, mais baixo e mais forte do que Percy e Rony,
que eram compridos e magros. Seu rosto era largo e bem-humorado, castigado
pelo sol e tão sardento que quase parecia bronzeado; os braços eram musculosos
e em um deles havia uma grande e reluzente queimadura.
Gui se levantou, sorrindo, e também apertou a mão de Harry. O rapaz foi
uma surpresa. Harry sabia que ele trabalhava para o banco dos bruxos, o
Gringotes, e que fora monitor-chefe em Hogwarts, e sempre imaginara que Gui
fosse uma versão mais velha de Percy; preocupado com as infrações dos
regulamentos e chegado a mandar em todo mundo.
No entanto, Gui era - não havia outra palavra - descolado. Alto, os cabelos
compridos presos em um rabo-de-cavalo. Usava um brinco de argola com um
berloque pendurado que parecia um dente canino.
Suas roupas não estariam deslocadas em um concerto de rock, exceto pelo
detalhe de que as botas não eram feitas de couro de boi, mas de couro de dragão.
Antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, ouviu-se um leve estalo e o Sr.
Weasley apareceu de repente junto ao ombro de Jorge. Parecia mais zangado do
que Harry jamais o vira.
- Não teve graça alguma, Fred! - gritou ele. - Que diabo foi que você deu
àquele garoto trouxa?
- Eu não dei nada a ele - disse Fred, com outro sorriso malvado. - Só deixei
cair um caramelo...foi culpa dele se o apanhou e comeu, não o mandei fazer isso.
- Você deixou cair de propósito! - berrou o Sr. Weasley. - Sabia que ele ia
comer, sabia que ele estava fazendo regime...
- De que tamanho ficou a língua dele? - perguntou Jorge, ansioso.
- Já estava com mais de um metro quando os pais me deixaram encolhê-la!
Harry e os Weasley caíram na gargalhada outra vez.


- Não tem graça!- gritou o Sr. Weasley. - Esse tipo de comportamento
desestabiliza seriamente as relações bruxos-trouxas! Passo metade da vida
fazendo campanha contra os maus-tratos aos trouxas e os meus próprios filhos...
- Não demos o caramelo a ele porque é trouxa! - disse Fred.
- Não, demos porque ele é um filho-da-mãe implicante - disse Jorge. - Não
é verdade, Harry?
- É, sim, Sr. Weasley - confirmou Harry com sinceridade.
- Isto não vem ao caso! - vociferou o Sr. Weasley. - Espere até eu contar à
sua mãe...
- Contar o quê? - perguntou uma voz às costas dele.
A Sra. Weasley acabara de entrar na cozinha. Era uma mulher baixa e
gorducha, de rosto bondoso, embora, no momento, seus olhos estivessem
apertados numa expressão de desconfiança.
- Ah, olá, Harry querido - disse ela, sorrindo, ao vê-lo. Então seus olhos se
voltaram para o marido. - Contar o quê, Arthur?
O Sr. Weasley hesitou. Harry percebeu que, por mais zangado que
estivesse com Fred e Jorge, ele não pretendera realmente contar à Sra. Weasley
o que tinha acontecido. Fez-se silêncio, enquanto o Sr. Weasley encarava a
esposa, nervoso. Então duas meninas apareceram à porta da cozinha atrás da
Sra. Weasley. Uma, de cabelos castanhos muito fofos e os dentes da frente um
tanto grandes, era a amiga de Harry e Rony, Hermione Granger. A outra, pequena
e ruiva, era a irmã mais nova de Rony, Gina. As duas sorriram para Harry, que
retribuiu o sorriso, fazendo Gina ficar escarlate - tinha um xodó por Harry desde a
primeira visita dele à Toca.
- Contar o quê, Arthur? - repetiu a Sra. Weasley, num tom de voz perigoso.
- Não é nada, Molly - resmungou o marido. - Fred e Jorge... mas eu já tive
uma conversa com eles...
- Que foi que eles fizeram desta vez? - perguntou a Sra. Weasley. - Se foi
alguma coisa relacionada com as "Gemialidades" Weasley...
- Por que você não mostra ao Harry aonde ele vai dormir, Rony? ­ sugeriu
Hermione da porta.
- Ele já sabe aonde vai dormir - respondeu Rony. - No meu quarto, foi lá
que dormiu da última...
- Então todos podemos ir - disse Hermione, sublinhando as palavras.
- Ah - fez Rony, entendendo. - Certo.
- É, nós também vamos - disse Jorge.
- Vocês ficam onde estão!- vociferou a Sra. Weasley.
Harry e Rony saíram de fininho da cozinha e seguiram com as meninas
pelo corredor estreito, subiram a escada desconjuntada e saíram ziguezagueando
pela casa até os últimos andares.
- Que são "Gemialidades" Weasley? - perguntou Harry quando subiam.
Rony e Gina riram, embora Hermione continuasse seria.
- Mamãe encontrou uma pilha de formulários de pedidos quando estava
limpando o quarto de Fred e Jorge - disse Rony em voz baixa. - Listas enormes de
preços de coisas que eles inventaram. Artigos para logros e brincadeiras, sabe.
Varinhas de imitação, doces-surpresa, um monte de coisas.
- Genial. Eu não sabia que eles estavam inventando tanta coisa...


- Há muito tempo que ouvíamos explosões no quarto deles, mas nunca
pensamos que estavam fabricando coisas - explicou Gina -, achamos que era só
vontade de fazer barulho.
- Só que, a maior parte das coisas, bom, na realidade, tudo... era meio
perigoso - disse Rony - e, sabe, eles estavam planejando vender os artigos em
Hogwarts para ganhar dinheiro, e mamãe ficou uma fera. Disse que eles estavam
proibidos de fabricar aquelas coisas e queimou todos os formulários... já estava
furiosa mesmo porque eles não conseguiram tantos N.O.M"s quanto ela esperava.
Os N.O.M"s eram Níveis Ordinários de Magia, os exames que os alunos de
Hogwarts faziam aos quinze anos.
- Depois houve uma briga danada - disse Gina -, porque mamãe queria que
eles entrassem para o Ministério da Magia como papai, e os dois responderam
que o que eles querem é abrir uma loja de logros e brincadeiras.
Nessa hora, uma porta se abriu no segundo patamar e um rosto com óculos
de aros de tartaruga e expressão mal-humorada espiou pra fora.
- Oi, Percy - cumprimentou Harry.
- Ah, olá, Harry. Eu estava imaginando quem é que estava fazendo essa
barulheira. Estou tentando trabalhar aqui dentro, sabe, tenho um relatório do
escritório para terminar, e é difícil me concentrar se as pessoas não param de
subir e descer fazendo as escadas reboarem.
- Não estamos fazendo as escadas reboarem - retrucou Rony irritado. ­
Estamos andando. Desculpe se perturbamos o trabalho secreto do Ministério da
Magia.
- No que é que você está trabalhando? - perguntou Harry.
- Sei, sei, tudo bem - interrompeu-o Rony e recomeçou a subir as escadas.
Percy bateu a porta do quarto. Quando Harry, Hermione e Gina iam começar a
acompanhar Rony na subida de mais três lances de escada, ouviram os ecos dos
gritos na cozinha. Pelo jeito o Sr. Weasley contara a Sra. Weasley sobre os
caramelos.
O quarto em que Rony dormia, no último andar da casa, conservava a
mesma aparência da última vez que Harry viera passar dias com o amigo; os
mesmos pôsteres do time favorito de quadribol de Rony, os Chudley Cannons, em
que os jogadores acenavam das paredes e do teto inclinado, o aquário no peitoril
da janela que anteriormente abrigara ovas de rã agora continha um enorme sapo.
O velho rato de Rony, Perebas, não morava mais ali, em seu lugar havia a
coruja minúscula que entregara a carta de Rony na rua dos Alfeneiros. Saltitava
numa gaiolinha, piando feito louca.
- Cala a boca, Píchi - disse Rony, manobrando para passar entre duas das
quatro camas que haviam sido espremidas no quarto.
- Fred e Jorge estão aqui conosco, porque Gui e Carlinhos ficaram com o
quarto dos dois ­ disse Rony a Harry. - Percy conseguiu ficar com o quarto só
para ele porque tem que trabalhar.
- Hum... por que é que você chama essa coruja de Píchi? - perguntou Harry
a Rony.
- Porque Rony está sendo idiota - disse Gina. - O nome todo é Pichirinho.
- É, e isso não é um nome nem um pouco idiota - comentou Rony
sarcasticamente.


- Foi Gina que o batizou - explicou a Harry. - Ela acha que é um nome
bonitinho. Tentei mudar, mas já era tarde demais, ele não responde a nenhum
outro. Então ficou Píchi. Tenho que trancar ele aqui porque vive chateando o Errol
e o Hermes. Pensando bem, chateia a mim também.
Pichitinho voava alegremente pela gaiola, piando em tom agudo. Harry
conhecia Rony muito bem para levá-lo a sério. Tinha reclamado o tempo todo do
seu velho rato Perebas, mas ficara aborrecidíssimo quando pareceu que o gato de
Hermione, Bichento, o comera.
- Por onde anda o Bichento? - perguntou Harry a Hermione nessa hora.
- No jardim, espero. Ele gosta de caçar gnomos, nunca tinha visto nenhum.
- Então o Percy está gostando do trabalho? - perguntou Harry se sentando em
uma das camas e se pondo a observar os Chudley Cannons entrando e saindo
velozes dos pôsteres no teto.
- Gostando? - disse Rony misterioso. - Acho que nem voltaria para casa se
papai não obrigasse. Está obcecado. Nem puxe conversa sobre o chefe dele. O
Sr. Crouch diz... como eu ia dizendo ao Sr. Crouch... O Sr. Crouch é de opinião...
O Sr. Crouch esteve me dizendo... Qualquer dia desses vão anunciar o noivado
dos dois.
- Como foi o seu verão, Harry, bom? - perguntou Hermione.
- Recebeu os pacotes de comida que mandamos e tudo o mais?
- Recebi, muito obrigado. Salvaram minha vida, aqueles bolos.
- E você teve notícias de...? - Rony começou, mas a um olhar de Hermione
calou a boca. Harry sabia que Rony ia perguntar por Sirius. Rony e Hermione
tinham participado tão intensamente da fuga de Sirius do Ministério da Magia que
estavam quase tão preocupados com o padrinho de Harry quanto o garoto.
Porém, falar dele na frente de Gina não era uma boa idéia. Ninguém a não ser
eles e o Prof. Dumbledore sabiam como o padrinho de Harry havia fugido ou
acreditavam em sua inocência.
- Acho que eles pararam de discutir - disse Hermione, para disfarçar o
momento de constrangimento, porque Gina olhava com curiosidade de Rony para
Harry. - Vamos descer e ajudar sua mãe com o jantar?
- Tudo bem - disse Rony. Os quatro tornaram a descer e encontraram a
Sra. Weasley sozinha na cozinha, parecendo extremamente mal-humorada.
- Vamos comer no jardim - disse ela quando os garotos entraram. - Não há
lugar para onze pessoas aqui dentro. Podem levar os pratos para fora, meninas?
Gui e Carlinhos estão armando as mesas. Facas e garfos, por favor, vocês dois -
disse ela a Rony e Harry, e apontou a varinha com um pouco mais de força do que
pretendera para um monte de batatas na pia, que saíram da casca demasiado
depressa e acabaram ricocheteando nas paredes e nos tetos.
"Ah, pelo amor de Deus!", exclamou ela, agora apontando a varinha para
uma pá, que saltou de lado e começou a patinar pelo piso, recolhendo as batatas.
"Aqueles dois!", explodiu ela furiosa, agora tirando tachos e panelas de um
armário, e Harry entendeu que ela estava se referindo a Fred e Jorge. "Não sei o
que vai ser deles, realmente não sei. Não têm ambição, a não ser que se leve em
conta toda confusão que são capazes de aprontar..."


Ela bateu com uma grande caçarola de cobre na mesa da cozinha e
começou a agitar a mão para os lados. Um molho cremoso foi escorrendo da
ponta da varinha à medida que ela mexia.
- Não é que não tenham inteligência - continuou ela irritada, levando a
caçarola para o fogão e acendendo-o com um toque da varinha -, mas estão
desperdiçando a que têm e, a não ser que tomem jeito depressa, vão se meter em
apuros. Já recebi mais corujas de Hogwarts a respeito dos dois do que de todos
os outros juntos. Se continuarem assim, vão terminar tendo que comparecer a
Seção de Controle do Uso Indevido da Magia.
A Sra. Weasley apontou a varinha para a gaveta de talheres, que se abriu
com violência. Harry e Rony saltaram para o lado ao ver várias facas saírem
voando, atravessarem a cozinha e começarem a cortar as batatas que tinham
acabado de ser devolvidas à pia pela pá.
- Não sei onde foi que erramos com os gêmeos - disse a Sra. Weasley
descansando a varinha e recomeçando a tirar mais caçarolas do armário. - Tem
sido sempre assim há anos, uma coisa atrás da outra, e eles não dão ouvidos...
AH, OUTRA VEZ, NÃO!
Ela apanhara a varinha da mesa, e a coisa emitira um guincho alto e se
transformara em um enorme camundongo de borracha.
- Mais uma varinha falsa fabricada por eles! - gritou ela. - Quantas vezes já
disse aos dois para não deixarem essas coisas largadas por aí?
Ela agarrou a própria varinha, e quando se virou descobriu que o molho no
fogão estava soltando fumaça.
- Vamos - disse Rony depressa a Harry, enfiando a mão na gaveta e tirando
uma mão cheia de talheres -, vamos ajudar o Gui e o Carlinhos.
Eles deixaram a Sra. Weasley e saíram pela porta dos fundos em direção
ao quintal. Tinham dado apenas alguns passos quando o gato de Hermione, de
pêlo amarelo e pernas arqueadas, saiu saltando do jardim, o rabo de escova de
limpar garrafas esticado no ar, caçando alguma coisa que parecia uma batata com
pernas, suja de terra.
Harry reconheceu-a instantaneamente, era um gnomo. Mal chegava aos
vinte e cinco centímetros de altura, os pezinhos cascudos batendo célere no chão
ao atravessar o quintal e mergulhar de cabeça em uma das botas espalhadas à
porta da casa. Harry ouviu o gnomo se acabar de rir quando Bichento enfiou a
pata na bota, tentando alcançá-lo. Entrementes, ouvia-se um estrépito de coisas
que batiam do outro lado da casa. A origem do barulho surgiu quando eles
entraram no jardim e viram Gui e Carlinhos, de varinhas em punho, fazendo duas
mesas velhas voarem alto pelo gramado e colidirem, cada qual tentando derrubar
a outra no chão. Fred e Jorge aplaudiam; Gina ria e Hermione estava parada junto
à sebe, pelo jeito dividida entre o riso e a aflição.
A mesa de Gui bateu na de Carlinhos com estrondo e perdeu uma das
pernas. Eles ouviram um barulho no alto, todos ergueram os olhos e viram a
cabeça de Percy aparecer à janela do segundo andar.
- Dá para vocês maneirarem? - berrou ele.
- Desculpe, Percy - disse Gui rindo. - Como é que vão os fundos dos
caldeirões?


- Muito mal - disse Percy irritado e tornou a fechar a janela com uma
pancada.
Rindo, Gui e Carlinhos devolveram as mesas em segurança ao chão,
juntaram-nas pelas extremidades e, então, com um golpe de varinha, Gui colou de
volta a perna da mesa e conjurou toalhas do nada.
Às sete horas, as duas mesas rangiam sob o peso de travessas e mais
travessas da excelente comida da Sra. Weasley, e os nove Weasley, Harry e
Hermione se sentaram para jantar sob um céu azul escuro e limpo. Para alguém
que andara sobrevivendo com refeições de bolos cada vez mais secos o verão
inteiro, aquilo era o paraíso e, no primeiro momento, Harry escutou mais do que
falou, se servindo de empadão de galinha e presunto, batatas cozidas e salada.
Na ponta da mesa, Percy contava ao pai todos os detalhes do seu relatório
sobre os fundos dos caldeirões.
- Eu prometi ao Sr. Crouch que aprontaria o relatório até terça-feira - dizia
Percy pomposo. ­ É um pouco mais cedo do que ele pediu, mas gosto de estar
um passo à frente. Acho que ele ficará agradecido por eu ter terminado em menos
tempo. Quero dizer, há muito trabalho em nosso departamento neste momento,
com todas as providências para a Copa Mundial. Não estamos recebendo a
colaboração necessária do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos. Ludo
Bagman...
- Eu gosto do Ludo - disse o Sr. Weasley em tom ameno. - Foi ele que nos
arranjou aqueles excelentes lugares para a Copa. Fiz um favorzinho a ele: o
irmão, Otto, se meteu em uma pequena confusão, um cortador de grama com
poderes fora do comum, eu acertei o problema.
- Ah, Bagman é uma pessoa agradável, é claro - disse Percy fugindo à
questão -, mas como conseguiu ser chefe do departamento... quando o comparo
ao Sr. Crouch! Não posso imaginar o Sr. Crouch perdendo um funcionário do
departamento sem tentar descartar Berta Jorkins que está desaparecida há mais
de um mês? Saiu de férias para a Albânia e nunca mais voltou?
- Verdade, indaguei ao Ludo sobre isso - respondeu o Sr. Weasley
enrugando a testa. - Ele me disse que Berta já se perdeu uma porção de vezes
antes, embora eu deva dizer que se fosse alguém no meu departamento eu ficaria
preocupado...
- Ah, a Berta não toma jeito, é verdade - falou Percy. ­ Ouvi dizer que ela é
empurrada de departamento para departamento há anos, dá mais trabalho do que
trabalha... mas, mesmo assim, Bagman devia estar tentando encontrá-la. O Sr.
Crouch tem sei uma época, sabe, e acho que o Sr. Crouch gostava bastante dela,
mas Bagman fica rindo e dizendo que ela provavelmente leu mal o mapa e em vez
da Austrália acabou na Albânia. Contudo - Percy deixou escapar um imponente
suspiro, e tomou um bom gole do vinho de flor de sabugueiro -, já temos muito
com o que nos preocupar no Departamento de Cooperação Internacional em
Magia sem ficar tentando achar funcionários de outros departamentos. Como o
senhor sabe, já temos outro grande evento para organizar logo depois da Copa.
Ele pigarreou cheio de importância e olhou para a ponta da mesa em que
Harry, Rony e Hermione estavam sentados.
- O senhor sabe do que estou falando, papai. - E alteou ligeiramente a voz.
- O evento secreto.


Rony girou os olhos para o alto, e murmurou para Harry e Hermione:
- Ele está tentando fazer a gente perguntar que evento é esse desde que
começou a trabalhar. Provavelmente uma exposição de caldeirões com fundo
grosso.
No centro da mesa, a Sra. Weasley discutia com Gui por causa do brinco,
que aparentemente era uma aquisição recente.
-... com um canino horroroso pendurado, francamente Gui, que é que eles
dizem lá no banco?
- Mamãe, ninguém lá no banco liga a mínima para a roupa que eu uso
desde que eu traga muito ouro para eles - disse Gui pacientemente.
- E seus cabelos estão sem corte, querido - disse a Sra. Weasley passando
os dedos, carinhosamente, pelos cabelos do filho. - Gostaria que você me
deixasse aparar...
- Eu gosto deles assim - disse Gina, que estava sentada ao lado de Gui. -
Você é tão antiquada, mamãe. Mesmo desse tamanho, eles não chegam nem
perto do comprimento dos cabelos do Prof. Dumbledore...
Ao lado da Sra. Weasley, Fred, Jorge e Carlinhos discutiam animadamente
a Copa Mundial.
- Vai ser da Irlanda - disse Carlinhos com a voz engrolada por causa das
batatas que lhe enchiam a boca. - Eles acabaram com o Peru nas semifinais.
- Mas a Bulgária tem o Vítor Krum - comentou Fred.
- O Krum é apenas um jogador decente, a Irlanda tem sete - cortou
Carlinhos. - Mas eu gostaria que a Inglaterra tivesse passado para as finais. Foi
um vexame, ah, foi.
- Que aconteceu? - perguntou Harry pressuroso, lamentando mais do que
nunca o seu alheamento do mundo mágico quando ficava atolado na rua dos
Alfeneiros. Harry era apaixonado por quadribol.
Jogava como apanhador no time da Grifinória desde o primeiro ano em
Hogwarts e era dono de uma Firebolt, uma das melhores vassouras de corrida do
mundo.
- Perdeu para a Transilvânia, por trezentos e noventa a dez - disse
Carlinhos sombriamente. ­ Um desempenho sinistro. E Gales perdeu para
Uganda, e a Escócia foi massacrada por Luxemburgo.
O Sr. Weasley conjurou velas para clarear o jardim antes de comerem a
sobremesa (sorvete de morangos feito em casa), e na altura em que o jantar
terminou, as mariposas voavam baixo sobre a mesa e o ar morno estava
perfumado com o aroma de relva e madressilvas.
Harry se sentia muitíssimo bem alimentado e em paz com o mundo, e
observava vários gnomos saltarem por dentro das roseiras, rindo des
bragadamente, perseguidos de perto por Bichento.
Rony correu os olhos, cauteloso, pela mesa, verificando se o resto da
família estava entretida conversando, depois perguntou baixinho a Harry:
- Então... tem tido notícias de Sirius ultimamente?
Hermione olhou para os lados, apurando os ouvidos.
- Tenho - disse Harry baixinho -, duas vezes. Tenho a impressão de que
está bem. Escrevi para ele anteontem. Talvez receba resposta enquanto estou
aqui.


De repente ele se lembrou do motivo por que escrevera a Sirius e, por um
instante, esteve prestes a contar aos dois amigos que a cicatriz voltara a doer e
que um sonho o acordara... mas na realidade não queria preocupá-los naquele
momento, não quando ele próprio estava se sentindo tão feliz e tranqüilo.
- Gente, olhe as horas! - exclamou subitamente a Sra. Weasley,
consultando o relógio de pulso. - Vocês deviam estar na cama, todos vocês, vão
ter que acordar quase de madrugada para ir à Copa. Harry, se você deixar a sua
lista de material escolar, eu compro tudo para você amanhã, no Beco Diagonal.
Vou comprar o dos meus meninos. Talvez não haja tempo depois da Copa
Mundial, da última vez o jogo durou cinco dias.
- Uáu... espero que aconteça o mesmo desta vez! - exclamou Harry
entusiasmado.
- Eu espero que não - disse Percy, virtuosamente. - Estremeço só de
pensar no estado da minha caixa de entrada se eu me ausentar cinco dias do
trabalho.
- Um, alguém poderia deixar bosta de dragão nela outra vez, hein, Percy? -
comentou Fred.
- Aquilo foi uma amostra de fertilizante da Noruega! - protestou Percy,
corando. - Não foi nada
- Foi - cochichou Fred para Harry, quando eles se levantavam da mesa. ­
Fomos nós que mandamos.


CAPITULO SEIS
A Chave do Portal

Harry teve a sensação de que acabara de se deitar para dormir no quarto
de Rony quando foi acordado pela Sra. Weasley.
- Hora de levantar, Harry, querido - sussurrou ela, se afastando para
acordar Rony.
Harry tateou a procura dos óculos, colocou-os e se sentou. Ainda estava
escuro lá fora. Rony resmungou alguma coisa quando a mãe o acordou. Aos pés
do seu colchão, Harry viu duas formas grandes e desgrenhadas emergindo de um
emaranhado de cobertas.
- Já está na hora? - exclamou Fred tonto de sono.
Os garotos se vestiram em silêncio, demasiados sonolentos para falar,
depois, bocejando e se espreguiçando, os quatro desceram as escadas rumo à
cozinha.
A Sra. Weasley estava mexendo o conteúdo de um grande tacho em cima
do fogão, enquanto o Sr. Weasley, sentado à mesa, verificava um maço de
grandes bilhetes de entrada em pergaminho. Ergueu os olhos quando os garotos
chegaram e abriu os braços para eles poderem ver melhor suas roupas. Vestia
algo que parecia um suéter de golfe e jeans muito velhas, ligeiramente grandes
para ele, seguras por um grosso cinto de couro.
- Que é que vocês acham? - perguntou ansioso. - Temos que ir incógnitos:
estou parecendo um trouxa, Harry?
- Está - aprovou Harry sorrindo - muito bom.


- Onde estão Gui, Carlinhos e Per-Per-Percy? - perguntou Jorge, incapaz
de reprimir um enorme bocejo.
- Ora, eles vão aparatar, certo? - disse a Sra. Weasley, carregando um
panelão para cima da mesa e começando a servir o mingau de aveia nos pratos
fundos. - Logo, eles podem dormir mais um pouco.
Harry sabia que aparatar era muito difícil; significava desaparecer de um
lugar e reaparecer quase instantaneamente em outro.
- Então eles ainda estão na cama? - concluiu Fred mal-humorado, puxando
um prato de mingau para perto. - Por que não podemos aparatar também?
- Porque ainda são menores e ainda não prestaram o exame - respondeu a
Sra. Weasley. - E onde foi que se meteram essas meninas?
Ela saiu apressada da cozinha e todos a ouviram subir as escadas.
- A pessoa tem que prestar um exame para poder aparatar? - perguntou
Harry.
- Ah, tem - respondeu o Sr. Weasley, guardando as entradas
cuidadosamente no bolso traseiro da jeans. - O Departamento de Transportes
Mágicos teve que multar umas pessoas, ainda outro dia, por aparatarem sem
licença. Não é fácil aparatar e quando não se faz corretamente pode acarretar
complicações desagradáveis. Esses dois que estou falando racharam ao meio.
Todos ao redor da mesa fizeram uma careta, menos Harry.
- Hum... racharam? - admirou-se Harry.
- Deixaram metade do corpo para trás - explicou o Sr. Weasley, agora
acrescentando várias colheradas de caramelo ao mingau.
- E, é claro, ficaram entalados. Não conseguiram avançar nem retroceder.
Tiveram que esperar pelo Esquadrão de Reversão de Feitiços Acidentais para
resolver o problema. E vou dizer mais, foi preciso preencher uma enorme
papelada, por causa dos trouxas que encontraram as partes do corpo que eles
deixaram para trás...
Harry teve uma súbita visão de um par de pernas e um olho abandonados
na calçada da rua dos Alfeneiros.
- E eles ficaram O.K.? - perguntou o garoto, assustado.
- Ah, claro - respondeu o Sr. Weasley factualmente. - Mas receberam uma
multa pesada e acho que não vão tentar fazer isso outra vez quando estiverem
com pressa. Não se brinca com aparatação. Há muitos bruxos adultos que nem
experimentam. Preferem vassouras, mais lentas, porém mais seguras.
- Mas Gui, Carlinhos e Percy, todos sabem aparatar?
- Carlinhos teve que prestar exame duas vezes - disse Fred sorrindo. ­
Levou bomba na primeira vez, aparatou a oitenta quilômetros do ponto que queria,
bem em cima de uma pobre velhinha que estava fazendo compras, lembram?
- Foi, mas ele passou da segunda vez - disse a Sra. Weasley, voltando à
cozinha em meio a gostosas risadas.
- Percy só passou há duas semanas - disse Jorge. - Desde esse dia tem
aparatado todas as manhãs aqui em baixo, para provar que sabe.
Ouviram-se passos no corredor, e Hermione e Gina entraram na cozinha,
as duas pálidas e cheias de preguiça.
- Por que temos que levantar tão cedo? - perguntou Gina, esfregando os
olhos e se sentando a mesa.


- Temos que andar um bom pedaço - respondeu o Sr. Weasley.
- Andar? - espantou-se Harry. - O quê, vamos a pé para a Copa Mundial?
- Não, não, a Copa vai ser a quilômetros daqui - disse o Sr. Weasley,
sorrindo. - Só precisamos andar um pedacinho. É que é muito difícil um grande
número de bruxos se reunir sem chamar a atenção dos trouxas. Temos que tomar
muito cuidado com o modo de viajar até em tempos normais e numa ocasião
grandiosa como a Copa Mundial de Quadribol...
- Jorge! - chamou a Sra. Weasley rispidamente e todos se assustaram.
- Quê? - perguntou Jorge, num tom de inocência que não enganou
ninguém.
- Que é isso no seu bolso?
- Nada!
- Não minta para mim!
A Sra. Weasley apontou a varinha para o bolso de Jorge e disse:
-Accio!
Vários objetos pequenos e vivamente coloridos dispararam para fora do
bolso de Jorge; o garoto tentou segurá-los, mas não conseguiu, e eles foram parar
direto na mão estendida da Sra. Weasley.
- Mandamos vocês destruírem isso! - disse ela furiosa mostrando
indiscutíveis Caramelos Incha-Língua. - Mandamos vocês se desfazerem de
todos. Esvaziem os bolsos, vamos, os dois!
Foi uma cena desagradável; os gêmeos evidentemente tinham tentado
contrabandear o maior número possível de caramelos para fora da casa e
somente usando um Feitiço Convocatório a Sra. Weasley conseguiu encontrar
todos.
- Accio! Accio! Accio! - gritava ela e os caramelos voavam dos Lugares mais
improváveis, inclusive do forro da jaqueta de Jorge e das barras da jeans de Fred.
- Gastamos seis meses para inventar esses caramelos - gritou Fred para a
mãe, quando ela os jogou no lixo.
- Que bela maneira de gastar seis meses! - guinchou a mãe. - Não admira
que não tivessem obtido mais N.O.M"s!
No todo, o clima não estava muito simpático quando eles partiram. A Sra.
Weasley continuava enfurecida quando beijou o rosto do marido, mas não tanto
quanto os gêmeos, que tinham posto as mochilas às costas e saído sem dizer
uma palavra à mãe.
- Bom, divirtam-se - desejou a Sra. Weasley - e se comportem - gritou para
os gêmeos que se afastavam, mas eles não se viraram nem responderam. - Vou
mandar Gui, Carlinhos e Percy por volta do meio-dia - avisou a Sra. Weasley ao
marido quando ele, Harry, Rony, Hermione e Gina começaram a atravessar o
gramado escuro atrás de Fred e Jorge.
Fazia frio e a lua ainda estava no céu. Apenas um esverdeado-claro no
horizonte, à direita deles, denunciava que em breve amanheceria. Harry, que
andara pensando nos milhares de bruxos que rumavam apressados para a Copa
Mundial de Quadribol, acelerou o passo para caminhar com o Sr. Weasley.
- Então como é que todo o mundo chega lá sem os trouxas repararem? ­
perguntou ele.


- Foi um enorme problema de organização - suspirou o Sr. Weasley. - O
caso é que vêm uns cem mil bruxos para a Copa Mundial e, é claro, não temos
nenhum local mágico grande bastante para acomodar todos. Há lugares em que
os trouxas não conseguem penetrar, mas imagine tentar acomodar cem mil bruxos
no Beco Diagonal ou na plataforma nove e meia. Então tivemos que encontrar
uma charneca deserta que servisse e instalar o máximo de precauções antitrouxas
possível. O ministério inteiro vem trabalhando nisso há meses. Primeiro, é claro,
tivemos que escalonar as chegadas. Quem comprou entradas mais baratas teve
que chegar duas semanas antes. Um número limitado tem usado os transportes
dos trouxas, mas não podemos ter gente demais entupindo os ônibus e trens
deles, lembre que temos bruxos chegando de todo o mundo. Alguns aparatam,
naturalmente, mas temos que escolher pontos seguros para eles aparecerem,
bem longe dos trouxas. Acho que há uma floresta próxima que eles estão usando
para aparatar. Para os que não querem aparatar, ou não podem, usamos os
portais. São objetos para o transporte de bruxos de um lugar para outro em horas
certas. Pode-se atender a grandes grupos de cada vez se for preciso. Foram
instalados duzentos portais em pontos estratégicos da Grã-Bretanha, e o mais
próximo da nossa casa é no alto do morro Stoarshead, por isso é que estamos
indo para lá.
O Sr. Weasley apontou para uma grande massa escura que se erguia à
frente, para além do povoado de Ottery St. Catchpole.
- Que tipo de objetos são esses portais? - perguntou Harry curioso.
- Podem ser qualquer coisa - respondeu o Sr. Weasley. - Coisas discretas,
obviamente, para os trouxas não as pegarem e saírem brincando com elas...
coisas que eles simplesmente considerem lixo...
O grupo caminhava pela vereda escura e úmida que levava ao povoado, o
silêncio quebrado apenas pelo eco de seus passos. O céu foi clareando muito
devagarinho quando eles atravessaram o povoado, o azul-tinta se dissolvendo em
azul-escuro.
As mãos e os pés de Harry estavam congelados. O Sr. Weasley não parava
de consultar o relógio. Eles já estavam sem fôlego para conversar quando
começaram a subir o morro Stoatshead, tropeçavam ocasionalmente em tocas de
coelho escondidas, escorregavam em grossos tufos de grama escura. Cada vez
que Harry inspirava sentia o peito arder e suas pernas já começavam a se recusar
a andar quando finalmente seus pés pisaram em terreno nivelado.
- Ufa! - ofegou o Sr. Weasley, tirando os óculos e secando-os no suéter. -
Bom, fizemos um bom tempo, ainda temos dez minutos...
Hermione foi à última a aparecer na crista do morro, apertando uma cãibra
do lado do corpo.
- Agora só precisamos da Chave do Portal - disse o Sr. Weasley repondo os
óculos e apurando a vista para esquadrinhar o terreno.
- Não deve ser grande... vamos...
Eles se espalharam para procurá-la. E estavam nisso havia poucos
minutos, quando um grito cortou o ar parado.
- Aqui, Arthur! Aqui, filho, achamos!
Dois vultos altos surgiram recortados contra o céu estrelado, do outro lado
do cume do morro.


- Vamos! - exclamou o Sr. Weasley, encaminhando-se sorridente para o
homem que gritara. Os garotos o acompanharam.
O Sr. Weasley apertou as mãos de um bruxo de rosto corado, com uma
barba castanha e curta, que segurava em uma das mãos uma bota velha de
aparência mofada.
- Este é Amos Diggory, pessoal - apresentou-o o Sr. Weasley. - Trabalha no
Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. E acho
que vocês conhecem o filho dele, Cedrico?
Cedrico Diggory era um rapaz muito bonito de uns dezessete anos. Era
capitão e apanhador do time de quadribol da Lufa-Lufa, em Hogwarts.
- Oi - disse Cedrico olhando para os garotos.
Todos retribuíram o "Oi", exceto Fred e Jorge, que apenas acenaram com a
cabeça. Eles nunca haviam perdoado Cedrico por derrotar o time da Grifinória, no
primeiro jogo de quadribol do ano anterior.
- Uma longa caminhada, Arthur? - perguntou o pai de Cedrico.
- Não foi tão ruim assim - respondeu o Sr. Weasley. - Moramos logo ali do
outro lado do povoado. E você?
- Tivemos que nos levantar as duas, não foi, Ced? Confesso que vou ficar
satisfeito quando ele passar no exame de aparatação. Mas... não estou me
queixando... a Copa Mundial de Quadribol, eu não a perderia nem por um saco de
galeões, e é mais ou menos quanto custam as entradas. Mas, pelo visto, parece
que me saiu barato... - Amos Diggory mirou bem-humorado os três garotos
Weasley, Harry, Hermione e Gina. - São todos seus, Arthur?
- Ah, não, só os ruivos - esclareceu o Sr. Weasley apontando os filhos. -
Esta é Hermione, amiga de Rony, e Harry, outro amigo...
- Pelas barbas de Merlin! - exclamou Amos Diggory arregalando os olhos. -
Harry? Harry Potter?
- Hum... é - respondeu o garoto.
Harry estava habituado às pessoas o olharem curiosas quando o
conheciam, habituado à corrida instantânea do olhar delas a cicatriz em forma de
raio em sua testa, mas isto sempre o constrangia.
- Ced nos falou de você, naturalmente - disse Amos Diggory. - Nos contou
tudo sobre a partida que jogaram com vocês no ano passado... Eu disse a ele:
Ced, isto vai ser uma história para contar aos seus netos, ah, vai... você derrotou
Harry Potter!
Harry não conseguiu pensar em nenhuma resposta a esse comentário, por
isso ficou calado. Fred e Jorge amarraram a cara outra vez. Cedrico pareceu
ligeiramente encabulado.
- Harry caiu da vassoura, papai - murmurou ele. - Contei a você... foi um
acidente...
- É, mas você não caiu, não é mesmo? - rugiu Amos jovialmente, dando
uma palmada nas costas do filho. - Sempre modesto, o nosso Ced, sempre
cavalheiro... mas venceu o melhor, tenho certeza de que Harry diria o mesmo, não
é? Um cai da vassoura, um continua montado, não é preciso ser gênio para saber
quem voa melhor!
- Deve estar quase na hora - disse o Sr. Weasley depressa, puxando o
relógio do bolso mais uma vez. - Você sabe se temos que esperar mais alguém?


- Não, os Lovegood já estão lá há uma semana e os Fawcett não
conseguiram entradas - disse o Sr. Diggory. - Não tem mais gente nossa na área?
- Não que eu saiba. Só falta um minuto... é melhor nos prepararmos...
Ele olhou para Harry e Hermione.
- Vocês só precisam tocar na Chave do Portal, só isso, basta um dedo...
Com dificuldade, por causa das volumosas mochilas, os nove se agruparam
em torno da velha bota que Amos Diggory segurava.
Todos ficaram parados ali, num circulo fechado, sentindo a brisa gélida que
varria o cume do morro. Ninguém falava. De repente ocorreu a Harry como
pareceria estranho se um trouxa subisse até ali naquele momento... nove
pessoas, dois adultos, segurando uma bota velha de pano, esperando...
- Três... - murmurou o Sr. Weasley, com o olho ainda no relógio - dois...
um...
Aconteceu instantaneamente. Harry teve a sensação de que um gancho
dentro do seu umbigo fora irresistivelmente puxado para a frente. Seus pés
deixaram o chão; ele sentiu Rony e Hermione de cada lado, os ombros se
tocando; todos avançavam vertiginosamente em meio ao uivo do vento e ao
rodopio de cores; seu dedo indicador estava grudado na bota como se esta o
atraísse magneticamente para frente, e então...
Seus pés bateram no chão; Rony deu um encontrão nele e caiu; a Chave
do Portal despencou no chão do lado da cabeça dele com um baque forte.
Harry ergueu os olhos. O Sr. Weasley, o Sr. Diggory e Cedrico continuavam
parados, embora com a aparência de terem sido varridos pelo vento; os demais
estavam caídos no chão.
- O sete e cinco chegando do morro Sroarshead - anunciou uma voz.


CAPITULO SETE
Bagman e Crozích

Harry se desvencilhou de Rony e se levantou. Tinham chegado, pelo que
parecia, a um trecho deserto de uma charneca imersa em névoa. Diante deles
havia dois bruxos cansados, com cara de rabugentos, um dos quais segurava um
grande relógio de ouro, e o outro, um grosso rolo de pergaminho e uma pena.
Ambos estavam vestidos como trouxas, embora sem muita habilidade; o homem
do relógio usava um terno de tweed com botas de borracha até as coxas, o
colega, um saiote escocês e um poncho.
- Bom-dia, Basílio - cumprimentou o Sr. Weasley, apanhando a bota que os
transportara e entregando-a ao bruxo de saiote, que a atirou em uma grande caixa
de chaves de portal usadas, a um lado. Harry viu, entre elas, um jornal velho, latas
de bebidas vazias e uma bola de futebol furada.
- Olá, Arthur - disse Basílio em tom entediado. - Não está de serviço não, é?
Tem gente que se dá bem... estivemos aqui a noite toda... é melhor você
desimpedir o caminho, temos um grupo grande chegando da Floresta Negra às
cinco e quinze. Espere um pouco, me deixe ver onde é que você vai ficar...
Weasley... Weasley... - Ele consultou a lista no pergaminho. - A uns quatrocentos


metros para aquele lado, primeiro acampamento que você encontrar. O gerente é
o Sr. Roberts. Diggory... segundo acampamento... pergunte pelo Sr. Payne.
- Obrigado, Basílio - disse o Sr. Weasley e fez sinal para todos o
acompanharem. Eles saíram pela charneca deserta, incapazes de distinguir muita
coisa através da névoa, Passados uns vinte minutos, avistaram uma casinha de
pedra ao lado de um portão. Mais além, Harry pôde distinguir mal e mal as formas
fantasmagóricas de centenas de barracas, montadas na ondulação suave de um
grande campo, no rumo de uma floresta escura no horizonte. Eles se despediram
dos Diggory e se aproximaram da casa.
Havia um homem parado à porta, contemplando as barracas. Harry soube
só de olhar que aquele era o único trouxa legítimo numa área de muitos hectares.
Quando o trouxa ouviu os passos do grupo, virou a cabeça para olhá-los.
- Bom dia! - cumprimentou o Sr. Weasley animado.
- Bom dia - disse o trouxa.
- O senhor seria o Sr. Roberts?
- É, seria - respondeu o Sr. Roberts. - E quem é o senhor?
- Weasley, duas barracas reservadas há uns dois dias?
- Certo - confirmou o Sr. Roberts, consultando uma lista pregada à porta. -
O lugar é lá perto da floresta. Só uma noite?
- Isso - respondeu o Sr. Weasley.
- O senhor vai pagar agora, então? - perguntou o Sr. Roberts.
- Ah... certo... é claro. - O Sr. Weasley se afastou um pouco da casa e fez
sinal a Harry para acompanhá-lo. - Me ajude, Harry - murmurou, puxando do bolso
um rolinho de dinheiro de trouxa e começando a separar as notas. - Esta aqui é
de... de... de dez? Ah é, vejo agora que tem um numero... então esta é de cinco?
- De vinte - corrigiu-o Harry falando baixo, incomodamente consciente de
que o Sr. Roberts estava tentando ouvir cada palavra que diziam.
- Ah é, é mesmo... Não sei, esses pedacinhos de papel...
- É estrangeiro? - perguntou o Sr. Roberts, quando o Sr. Weasley voltou
com o dinheiro certo.
- Estrangeiro? - repetiu o bruxo, intrigado.
- O senhor não é o primeiro que se atrapalha com o dinheiro - disse o
gerente, observando o Sr. Weasley atentamente. - Tive dois querendo me pagar
com grandes moedas de ouro do tamanho de calotas de automóvel faz uns dez
minutos.
- Sério? - disse o Sr. Weasley nervoso.
O Sr. Roberts vasculhou uma lata à procura de troco.
- Nunca esteve tão cheio - disse ele de repente, voltando outra vez o olhar
para o campo enevoado. - Centenas de reservas. As pessoas em geral aparecem
sem aviso...
- Verdade? - exclamou o Sr. Weasley, a mão estendida à espera do troco,
mas o Sr. Roberts não lhe deu nenhum.
- É - disse pensativo. - Gente de toda parte. Montes de estrangeiros. E não
são só estrangeiros. Gente esquisita, sabe? Tem um sujeito andando por aí de
saiote e poncho.
- E não devia? - perguntou o Sr. Weasley ansioso.


- Parece que é uma espécie de... ... uma espécie de convenção - comentou
o Sr. Roberts. - Parece que todos se conhecem. Como numa grande festa.
Naquele momento, um bruxo de bermudão largo materializou-se do nada
ao lado da porta da casa do Sr. Roberts.
- Obliviate!- disse ele bruscamente, apontando a varinha para o Sr. Roberts.
Instantaneamente os olhos do Sr. Roberts saíram de foco, suas sobrancelhas se
desfranziram e um olhar de vaga despreocupação cobriu o seu rosto. Harry
reconheceu os sintomas de alguém que acabara de ter a memória alterada.
- Um mapa do acampamento para o senhor - disse o homem, placidamente,
ao Sr. Weasley. - E o seu troco.
- Muito obrigado.
O bruxo de bermudão acompanhou o grupo em direção ao portão do
acampamento. Parecia exausto; a barba por fazer azulava seu queixo e havia
olheiras roxas sob seus olhos. Uma vez longe do raio de audição do gerente, ele
murmurou para o Sr. Weasley.
- Estou tendo um bocado de problemas com ele. Precisa de um Feitiço de
Memória dez vezes por dia para ficar feliz. E Ludo Bagman não está ajudando.
Anda por aí falando em balaços e goles a plenos pulmões, sem a menor
preocupação com a segurança. Pombas, vou gostar quando isso terminar. Vejo
você mais tarde, Arthur.
E desaparatou.
- Pensei que o Sr. Bagman fosse chefe de Jogos e Esportes Mágicos -
disse Gina parecendo surpresa. - Devia ter mais juízo e parar de falar de balaços
perto de trouxas, não devia?
- Devia - concordou o Sr. Weasley, sorrindo e passando com os garotos
pelo portão do acampamento -, mas Ludo sempre foi um pouco... bem...
displicente com a segurança. Mas não se poderia desejar um chefe mais
entusiasta para o Departamento de Esportes. Ele jogou quadribol pela Inglaterra,
sabem. E foi o melhor batedor do Wimbourne Wasps que o time já teve.
O grupo avançou lentamente pelo campo entre longas fileiras de barracas.
A maioria parecia quase normal, os donos tinham visivelmente tentado o possível
para fazê-las parecer equipamento de trouxas, embora tivessem cometido alguns
deslizes ao acrescentarem chaminés ou cordões de sinetas ou cata-ventos.
Porém, aqui e ali, havia uma barraca tão obviamente mágica que Harry não se
surpreendia que o Sr. Roberts estivesse desconfiado. Lá para o meio do campo,
havia uma extravagante produção de seda listrada como um palácio em miniatura,
com vários pavões vivos amarrados à entrada. Um pouco adiante, eles passaram
por uma barraca que tinha três andares e várias torrinhas e, mais além, havia uma
outra com um jardim anexo, completo, com banho para passarinhos, relógio de sol
e fonte.
- Sempre os mesmos - comentou o Sr. Weasley sorrindo -, não
conseguimos deixar de nos exibir quando nos reunimos. Ah, lá está, olhem,
aquela é a nossa.
Tinham alcançado a orla da floresta no alto do campo, e ali havia uma área
livre com um pequeno letreiro enfiado no chão em que se lia "Weezly".
- Não podíamos ter ganhado um lugar melhor! - exclamou o Sr. Weasley
feliz. ­ O campo preparado para as partidas é logo do outro lado da floresta,


estamos o mais perto que poderíamos estar. - Ele descarregou a mochila dos
ombros. - Certo ­ disse excitado -, rigorosamente falando, nada de mágicas, não
quando estamos no mundo dos trouxas em tão grande número. Vamos armar
estas barracas à mão! Não deve ser muito difícil... Os trouxas fazem isso o tempo
todo... tome, Harry, por onde você acha que devo começar?
Harry nunca acampara na vida, os Dursley nunca o haviam levado em
férias, preferindo deixá-lo com a Sra. Figg, uma velha vizinha. No entanto, ele e
Hermione descobriram como distribuir os paus e as estacas, e embora o Sr.
Weasley atrapalhasse mais do que ajudasse, porque ficara excitadíssimo quando
precisaram usar o martelo, eles finalmente conseguiram erguer duas barracas
modestas para duas pessoas cada.
Todos se afastaram para admirar a habilidade manual deles. Ninguém que
visse aquelas barracas teria adivinhado que pertenciam a bruxos, pensou Harry,
mas o problema era que quando Gui, Carlinhos e Percy chegassem, eles
formariam um grupo de dez pessoas. Hermione parecia ter identificado esse
problema também, lançou a Harry um olhar cômico quando o Sr. Weasley ficou de
quatro e entrou na primeira barraca.
- Vamos ficar meio apertados - comentou ele -, mas acho que vai dar para
nos espremermos. Venham dar uma olhada.
Harry se abaixou, passou por baixo da aba de entrada e sentiu o queixo
cair. Entrara em uma barraca que parecia um apartamento antigo de três quartos,
completo, com banheiro e cozinha. E o que era curioso, estava mobiliado no
mesmíssimo estilo que o da Sra. Figg; havia capas de crochê nas poltronas sem
par e um forte cheiro de gatos.
- Bom, não é para muito tempo - disse o Sr. Weasley, secando a careca
com um lenço e espiando as quatro camas beliches que havia no quarto. - Pedi a
barraca emprestada ao Perkins, lá do escritório. Ele não acampa muito
atualmente, coitado, está com lumbago.
O Sr. Weasley apanhou uma chaleira empoeirada e espiou dentro.
- Vamos precisar de água...
- Tem uma torneira assinalada no mapa que o trouxa nos deu - disse Rony,
que seguira Harry para dentro da barraca e parecia completamente indiferente a
essas extraordinárias proporções internas. ­ Fica do outro lado do campo.
- Bom, então por que você, Harry e Hermione não vão apanhar um pouco
de água... - o bruxo entregou aos garotos a chaleira e duas caçarolas -... e nós
vamos apanhar lenha para fazer uma fogueira?
- Mas temos um forno - lembrou Rony -, por que não podemos...?
- Rony, segurança antitrouxa! - disse o Sr. Weasley, o rosto brilhando de
expectativa. - Quando os trouxas de verdade acampam, eles cozinham em
fogueiras ao ar livre, já os vi fazendo isso!
Depois de uma rápida visita à barraca das garotas, que era ligeiramente
menor do que a deles, embora sem o cheiro de gato, Harry, Rony e Hermione
atravessaram o acampamento levando as vasilhas.
Agora, com o sol de fora e a névoa se dissipando, eles puderam ver a
cidade de lona que se estendia para todas as direções. Caminharam lentamente
entre as fileiras de barracas, espiando tudo com interesse. Harry estava


começando a se indagar quantos bruxos e bruxas devia haver no mundo; ele
nunca pensara realmente nos bruxos de outros países.
Seus companheiros de acampamento iam acordando aos poucos. Os
primeiros a dar sinal de vida foram às famílias com crianças pequenas, Harry
nunca vira bruxos tão pequenos antes. Um pirralhinho, que não tinha mais de dois
anos, estava agachado do lado de fora de uma barraca em forma de pirâmide,
empunhando uma varinha com a qual cutucava, feliz, um caramujo na grama, que
ia ganhando lentamente o tamanho de um salame. Quando se emparelharam com
ele, a mãe saiu correndo da barraca.
- Quantas vezes tenho de dizer, Kevin? Não pode... mexer... na... varinha...
do papai, putz!
Ela pisou no enorme caramujo, estourando-o. A bronca acompanhou os
garotos pelo ar parado, se misturando aos gritos do garotinho:
- Você acabou caramujo! Você acabou caramujo!
Um pouco mais adiante, eles viram duas bruxinhas, pouco mais velhas do
que Kevin, cavalgando vassouras de brinquedo que se elevavam o suficiente para
os dedos dos pés das meninas rasparem a grama orvalhada. Um bruxo do
Ministério já as vira; quando passou correndo por Harry, Rony e Hermione,
murmurava agitado:
- Em plena luz do dia! Os pais devem estar cochilando, suponho...
Aqui e ali bruxos e bruxas adultos saíam das barracas e começavam a
preparar o café da manhã. Alguns, lançando olhares furtivos para os lados,
conjuravam fogueiras com as varinhas, outros acendiam fósforos com ar de
dúvida, como se tivessem certeza de que aquilo não ia funcionar. Três bruxos
africanos conversavam sentados, trajando longas vestes brancas, enquanto
assavam uma carne que parecia coelho sobre uma fogueira púrpura berrante, um
grupo de bruxas americanas de meia-idade fofocava alegremente sob a bandeira
estrelada que elas haviam estendido entre as barracas, na qual se lia Instituto das
Bruxas de Salem. Harry captava fragmentos de conversas em línguas estranhas
que saíam das barracas pelas quais passavam, e embora não conseguisse
entender uma única palavra, o tom das vozes era de excitação.
- Hum... são os meus olhos ou tudo ficou verde? - perguntou Rony.
Não eram os olhos de Rony. Os garotos tinham entrado em uma área em
que as barracas estavam cobertas por uma camada de trevos, dando a impressão
de que morros de formas estranhas haviam brotado da terra. Viam-se rostos
sorridentes nas barracas com a aba da entrada erguida. Então, às costas, os
garotos ouviram alguém gritar seus nomes.
- Harry! Rony! Hermione!
Era Simas Finnigan, um colega quartanista da Grifinória. Estava sentado
diante de uma barraca coberta de trevos, em companhia de uma mulher de
cabelos louro-claros que só podia ser sua mãe e com Dino Thomas, também da
Grifinória.
- Gostaram da decoração? - perguntou Simas sorrindo, quando Harry, Rony
e Hermione se aproximaram para cumprimentá-los. - O Ministério não está nada
feliz.
- E por que não deveríamos mostrar nossas cores? - perguntou a Sra.
Finnigan. - Vocês deviam ver o que os búlgaros penduraram nas barracas deles.


- Vocês vão torcer pela Irlanda, naturalmente? - acrescentou ela fixando
Harry, Rony e Hermione com insistência.
Depois de terem tranqüilizado a senhora de que realmente iam torcer pela
Irlanda, os garotos seguiram caminho, embora Rony tivesse comentado:
- Como se a gente fosse dizer que não ia, com aquela turma em volta.
- Que será que os búlgaros penduraram nas barracas? - indagou Hermione.
- Vamos dar uma olhada - disse Harry, apontando para uma grande área de
barracas mais adiante, onde a bandeira da Bulgária, vermelha, verde e branca,
tremulava a brisa.
As barracas não estavam enfeitadas com plantas, mas cada uma exibia o
mesmo pôster, um pôster com um rosto muito carrancudo com grossas
sobrancelhas negras. A foto, é claro, se mexia, mas apenas para piscar os olhos e
franzir a testa.
- Krum - disse Rony em voz baixa.
- Quê? - perguntou Hermione.
- Krum! - repetiu Rony. Vítor Krum, o apanhador búlgaro!
- Ele parece bem rabugento - comentou Hermione, olhando para os muitos
Krums que piscavam e franziam a testa para eles.
- Bem rabugento?- Rony olhou para o céu. - Quem se importa com a cara
dele? Ele é incrível! E é bem moço, também. Tem uns dezoito anos, por aí. É um
gênio, espere até ver hoje à noite.
Já havia uma pequena fila à torneira no canto do acampamento. Harry e
Rony entraram logo atrás de dois homens que discutiam acaloradamente. Um
deles era um bruxo muito velho que usava uma longa camisola florida. O outro era
visivelmente um bruxo do Ministério, este segurava calças listradas e quase
chorava de exasperação.
- Vista as calças, Arquibaldo, seja bonzinho, você não pode andar por aí
vestido assim, o trouxa no portão já está ficando desconfiado...
- Comprei isso numa loja de trouxas - defendeu-se o velho bruxo, teimando.
­ Os trouxas usam isso.
- Mulheres trouxas usam isso, Arqui, não os homens, eles usam isto aqui -
disse o bruxo do Ministério mostrando as calças listradas.
- Não vou vestir isso - retrucou o velho bruxo indignado. - Gosto de sentir
uma brisa saudável nas minhas partes, obrigado.
Hermione foi tomada por um tal acesso de riso, nessa hora, que precisou
sair da fila e só voltou depois que Arquibaldo tinha se abastecido de água e fora
embora.
Caminhando mais devagar agora, por causa do peso da água, os garotos
tornaram a atravessar o acampamento. Aqui e ali, eles viam rostos mais
familiares: outros alunos de Hogwarts com as famílias.
Olívio Wood, o ex-capitão de quadribol do time de Harry, que terminara os
estudos em Hogwarts, arrastou o garoto até a barraca dos pais para apresentá-lo,
e lhe contou cheio de excitação que acabara de entrar para o time de reserva do
Puddlemere United. Depois os garotos foram saudados por Ernesto Maemillan,
um quartanista da Lufa-Lufa, e, mais adiante, viram Cho Chang, uma garota muito
bonita que jogava como apanhadora no time da Corvinal. Ela acenou e sorriu para
Harry, que derramou um bocado de água na roupa ao retribuir o aceno. Mais para


impedir Rony de caçoar do que por outro motivo, Harry apontou depressa para um
enorme grupo de adolescentes que ele nunca vira antes.
- De onde você acha que eles são? - perguntou Harry. - Eles não
freqüentam Hogwarts, freqüentam?
- Devem freqüentar alguma escola estrangeira - sugeriu Rony. - Sei que há
outras, mas nunca encontrei ninguém que estudasse nelas. Gui teve uma
correspondente em uma escola no Brasil... isto foi há anos... e ele quis ir para lá
numa viagem de intercâmbio, mas mamãe e papai não tiveram dinheiro para
bancar a viagem. A moça ficou toda ofendida quando ele disse que não ia e
mandou para ele um chapéu enfeitiçado. As orelhas dele murcharam.
Harry riu, mas não manifestou a surpresa que era saber que havia outras
escolas de magia. Supôs, agora que via representantes de tantas nacionalidades
no acampamento, que fora muito burro por jamais ter imaginado que Hogwarts
não poderia ser a única. Ele olhou para Hermione, que não demonstrara a menor
surpresa com a informação. Sem dúvida, ela devia ter visto referências a outras
escolas de magia em algum livro.
- Vocês demoraram uma eternidade - comentou Jorge, quando eles
finalmente chegaram às barracas dos Weasley.
- Encontramos alguns conhecidos - disse Rony, pousando as vasilhas de
água. - Você ainda não acendeu a fogueira?
- Papai está se divertindo com os fósforos - disse Fred.
O Sr. Weasley não estava tendo o menor sucesso em acender a fogueira,
mas não era por falta de tentativas. Fósforos partidos coalhavam o chão ao seu
redor, mas ele parecia estar se divertindo como nunca.
- Opa! - exclamou ele, ao conseguir acender um fósforo, mas largou-o na
mesma hora no chão, surpreso.
- Chegue aqui, Sr. Weasley - disse Hermione bondosamente, tirando a
caixa das mãos dele e começando a mostrar como fazer fogo direito.
Finalmente, eles acenderam a fogueira, embora levasse no mínimo mais
uma hora até ela esquentar o suficiente para cozinhar alguma coisa. Mas havia
muito que ver enquanto esperavam. A barraca deles estava armada ao longo de
uma espécie de rua de acesso ao campo de quadribol, por onde funcionários do
Ministério corriam para cima e para baixo, cumprimentando cordialmente o Sr.
Weasley ao passar. O Sr. Weasley fazia comentários contínuos, principalmente
para benefício de Harry e Hermione, seus próprios filhos já conheciam bastante o
Ministério para se interessar.
- Aquele era Cutberto Mockridge, chefe da Seção de Ligação com os
Duendes... lá vem Gilberto Wimple, ele trabalha na Comissão de Feitiços
Experimentais, já usa aqueles chifres há algum tempo... Alô Arnaldinho... Arnaldo
Peasegood, ele é um obliviador, trabalha no Esquadrão de Reversão de Feitiços
Acidentais, sabe... e aqueles outros são Bode e Croaker... são dois inomináveis...
- São o quê?
- Do Departamento de Mistérios, ultra-secretos, não tenho a menor idéia do
que fazem... Finalmente, a fogueira ficou pronta e eles já haviam começado a
preparar salsichas com ovos quando Gui, Carlinhos e Percy saíram caminhando
da floresta para se reunirem à família.


- Acabei de aparatar, papai - disse Percy em voz alta. - Ah, que excelente
almoço!
Já haviam comido metade das salsichas com ovos quando o Sr. Weasley
se levantou, acenando e sorrindo para um homem que vinha em sua direção.
- Ah-ah! - exclamou ele. - O homem do momento! Ludo! Ludo Bagman era,
sem favor algum, o homem mais chamativo que Harry já vira na vida, até mesmo
incluindo nessa conta o velho Arquibaldo com sua camisola florida. Usava longas
vestes de quadribol com grandes listras horizontais amarelas e pretas. Uma
enorme estampa de uma vespa tomava todo o seu peito. Tinha a aparência de um
homem corpulento que parara de se exercitar; suas vestes estavam muito
esticadas por cima da enorme barriga, que certamente não existia na época em
que ele jogava quadribol pela Inglaterra. Seu nariz era achatado (provavelmente
quebrado por algum balaço errante, pensou Harry), mas os redondos olhos azuis,
os cabelos louros curtos e a pele rosada o faziam parecer um menino de escola
que crescera demais.
- Olá, - exclamou Bagman alegremente. Andava como se tivesse molas nas
solas dos pés, era visível que estava num estado de extrema excitação.
- Arthur, meu velho - ofegou ele, ao chegar à fogueira - que dia, hein? Será
que podíamos ter desejado um tempo mais perfeito? Uma noite sem nuvens... e
quase nenhum problema na programação...quase nada para eu fazer!
Por trás dele, um grupo de bruxos do Ministério, de cara exausta, passou
apressado, apontando para a evidência distante de algum tipo de fogueira mágica
que disparava faíscas violetas a seis metros de altura.
Percy adiantou-se rapidamente com a mão estendida. Pelo jeito o fato de
desaprovar o modo de Ludo Bagman dirigir o departamento, não o impedia de
querer causar boa impressão.
- Ah... sim - disse o Sr. Weasley, sorrindo -, este é o meu filho, Percy,
começou a trabalhar no Ministério agora, e este é Fred, não, Jorge, desculpe,
esse é o Fred... Gui, Carlinhos, Rony... minha filha, Gina... e os amigos de Rony,
Hermione Granger e Harry Potter.
De maneira discretíssima, Bagman olhou uma segunda vez ao ouvir o
nome de Harry e seus olhos deram a conhecida espiada na cicatriz na testa do
garoto.
- Pessoal - continuou o Sr. Weasley -, este é Ludo Bagman, vocês sabem
quem ele é, e é graças a ele que temos entradas tão boas...
Bagman abriu um sorriso de lado a lado do rosto e fez um gesto com a mão
significando que não fora nada.
- Quer arriscar uma apostinha no jogo, Arthur? - perguntou ele ansioso,
sacudindo, ao que parecia, um bocado de ouro nos bolsos das vestes amarelas e
pretas. - Já aceitei a aposta de Roddy Pontner de que a Bulgária vai marcar
primeiro, ofereci a ele uma boa vantagem, levando em conta que os três jogadores
avançados da Irlanda são os mais fortes que já vi em anos, e a pequena Ágata
Timms apostou meias quotas da fazenda de enguias de que a partida vai durar
uma semana.
- Ah... vá lá, então - disse o Sr. Weasley. - Vejamos... um galeão na vitória
da Irlanda?


- Um galeão? - Ludo Bagman pareceu ligeiramente desapontado, mas se
recuperou: - Muito bem, muito bem... mais alguma aposta?
- Eles são um pouco jovens demais para andar jogando ­ disse o Sr.
Weasley. - Molly não gostaria...
- Nós apostamos trinta e sete galeões, quinze sicles e três nuques - disse
Fred, ao mesmo tempo em que ele e Jorge juntavam rapidamente todo o dinheiro
que tinham - que a Irlanda ganha, mas Vítor Krum captura o pomo. Ah, e damos
uma varinha falsa de cortesia.
- Vocês não vão querer mostrar ao Sr. Bagman esse lixo - sibilou Percy,
mas o bruxo não pareceu achar que a varinha era lixo, muito ao contrário, seu
rosto de colegial iluminou-se de excitação ao recebê-la das mãos de Fred e,
quando a varinha deu um cacarejo e se transformou em uma galinha de borracha,
Bagman caiu na gargalhada.
- Excelente! Não vejo uma varinha tão convincente há anos! Eu pagaria
cinco galeões por uma dessas!
Percy ficou paralisado, numa atitude de indignada desaprovação.
- Meninos - disse o Sr. Weasley entre dentes -, não quero vocês jogando...
isto é tudo que economizaram... sua mãe...
- Não seja estraga-prazeres, Arthur! - trovejou Ludo Bagman excitado,
sacudindo as moedas nos bolsos. - Eles já são bem grandinhos para saber o que
querem! Vocês acham que a Irlanda vai vencer, mas Krum vai capturar o pomo?
Nem por milagre, moleques, nem por milagre... Vou dar uma excelente vantagem
nessa...e acrescentar mais cinco galeões por essa varinha marota, concordam...
O Sr. Weasley ficou olhando sem ação enquanto Ludo Bagman puxava um
caderninho e uma pena e começava a anotar os nomes dos gêmeos.
- Tchau - disse Jorge, apanhando o pedaço de pergaminho que Bagman lhe
estendia e guardando-o no peito das vestes. Bagman virou-se animadíssimo para
o Sr. Weasley.
- Daria para me fazer um chá, suponho? Estou de olho para ver se localizo
Crouch. O meu contraparte búlgaro está criando dificuldades e não consigo
entender uma palavra do que ele diz. Bartô poderia resolver o problema, fala umas
cento e cinqüenta línguas.
- O Sr. Crouch? - disse Percy, abandonando subitamente o seu ar de
impassível desaprovação e quase se contorcendo de óbvia excitação. - Ele fala
mais de duzentas! Serêiaco, grugulês, trasgueano...
- Qualquer um sabe falar trasgueano - disse Fred fazendo pouco -, é só a
gente apontar e grunhir. Percy lançou a Fred um olhar feiíssimo e atiçou os
gravetos da fogueira vigorosamente para fazer a chaleira ferver.
- Já teve notícias de Berta Jorkins, Ludo? - perguntou o Sr. Weasley
quando Bagman se sentou na grama ao lado deles.
- Nem um pio - disse Bagman à vontade. - Mas ela vai aparecer. Coitada da
velha Berta... tem a memória de um caldeirão furado e nenhum senso de direção.
Perdida, se quiserem acreditar. Vai aparecer na seção lá para outubro, pensando
que ainda é julho.
- Você não acha que já estava na hora de mandar alguém procurá-la? -
sugeriu, hesitante, o Sr. Weasley, quando Percy estendeu a Bagman o chá
pedido.


- É o que o Bartô Crouch não pára de dizer - respondeu Bagman,
arregalando inocentemente seus olhos redondos -, mas o fato é que não podemos
destacar ninguém no momento. Ah... é falar no demônio! Bartô!
Um bruxo acabara de aparatar junto à fogueira, e não poderia oferecer um
contraste maior a Ludo Bagman, estirado na grama com as vestes velhas do
Wasp.
Bartô era um homem mais velho, formal, empertigado, vestido com um
terno e uma gravata impecáveis. A risca nos seus cabelos grisalhos e curtos era
quase absurdamente reta e o bigode fino de escovinha parecia ter sido aparado
com uma régua. Seus sapatos eram exageradamente lustrosos. Harry percebeu
na hora por que Percy o idolatrava.
Percy acreditava piamente em obedecer às regras sem fazer concessões, e
o Sr. Crouch obedecera à regra de se vestir como trouxa tão rigorosamente que
poderia ter passado por gerente de banco. Harry duvidava que seu tio Valter
pudesse ter descoberto quem ele realmente era.
- Estrague um pouco a grama, Bartô - disse Ludo animadamente, batendo
no chão.
- Não, muito obrigado - respondeu Crouch, e havia um vestígio de
impaciência em sua voz. - Estive procurando-o por toda parte. Os búlgaros
insistem que coloquemos mais doze cadeiras no camarote de honra.
- Ah, é isso que eles querem? - exclamou Bagman. - Achei que o sujeito
estava pedindo uma pinça emprestada. Sotaque forte o dele.
- Mr. Crouch! - disse Percy sem fôlego, curvando-se numa espécie de meia
reverência que o fez parecer corcunda. - O senhor aceita uma xícara de chá?
- Ah - exclamou o bruxo, olhando surpreso para Percy. - Claro... obrigado,
Wearherby.
Fred e Jorge se engasgaram dentro das xícaras de que bebiam. Percy, as
orelhas muito rosadas, ocupou-se com a chaleira.
- Ah, e tenho querido dar uma palavra com você, também, Arthur - disse o
Sr. Crouch, seu olhar penetrante recaindo sobre o Sr. Weasley. - Ali Bashir está
em pé de guerra. Quer falar com você sobre o embargo dos tapetes voadores.
O Sr. Weasley soltou um profundo suspiro.
- Mandei-lhe uma coruja sobre isso ainda na semana passada. Já devo ter
dito a Bashir umas cem vezes: tapetes são classificados como artefatos mágicos
pelo Registro de Objetos Enfeitiçáveis Proscritos, mas, e ele quer me escutar?
- Duvido - respondeu o Sr. Crouch, aceitando a xícara de Percy. - Ele está
desesperado para exportar para cá.
- Bom, eles nunca vão substituir as vassouras na Grã-Bretanha, vão? -
disse Bagman.
- Ali acha que há um nicho no mercado para um veículo familiar - explicou o
Sr. Crouch. - Eu me lembro de que o meu avo tinha um Axminster que levava
doze pessoas, mas isso foi antes dos tapetes serem banidos, naturalmente.
Ele falou como se não quisesse deixar a menor dúvida de que todos os
seus antepassados cumpriam rigorosamente a lei.
- Então, muito ocupado, Bartô? - perguntou Bagman despreocupadamente.
- Bastante - respondeu o outro seco. - Organizar chaves de portal em cinco
continentes não é uma tarefa qualquer, Ludo.


- Imagino que os dois vão ficar contentes quando o evento acabar -
comentou o Sr. Weasley.
Ludo Bagman pareceu chocado.
- Contente! Não me lembro de ter me divertido tanto... ainda assim, não é
que não haja mais trabalho pela frente, hein, Bartô? Hein? Muita coisa ainda para
organizar, hein?
O Sr. Crouch ergueu as sobrancelhas para Bagman.
- Combinamos não anunciar nada até todos os detalhes...
- Ah, os detalhes! - exclamou Bagman, afastando a palavra como se fosse
uma nuvem de mosquitos. - Eles já assinaram, então? Concordaram? Aposto o
que você quiser como esses garotos vão saber logo. Quero dizer, vai acontecer
em Hogwarts...
- Ludo, precisamos receber os búlgaros, sabe - disse o Sr. Crouch
bruscamente, cortando os comentários de Bagman. - Obrigado pelo chá,
Weatherby.
Ele devolveu a Percy a xícara de chá intocada e esperou Ludo se levantar;
Bagman se pôs em pé com dificuldade, virando o restinho de chá, o ouro em seus
bolsos tilintando alegremente.
- Vejo vocês todos mais tarde! - disse ele. - Vão ficar no camarote de honra
comigo, vou comentar o jogo! - Ele acenou, Bartô Crouch fez um movimento
rápido com a cabeça e os dois desaparataram.
- Que é que vai acontecer em Hogwarts, papai? - perguntou Fred na
mesma hora. - Do que é que eles estavam falando?
- Você vai descobrir logo - disse o Sr. Weasley sorrindo.
- É informação privilegiada, até o Ministério achar conveniente comunicá-la
- disse Percy empertigado. - O Sr. Crouch estava certo em não querer revelar
nada.
- Ah, cala a boca, Weatherby - disse Fred.
A atmosfera de excitação foi-se adensando como uma nuvem palpável
sobre o acampamento, à medida que a tarde avançava. A hora do crepúsculo, o
próprio ar parado de verão parecia estar vibrando de excitação, e quando a noite
se estendeu como um toldo sobre os milhares de bruxos que aguardavam, os
últimos vestígios de fingimento desapareceram: o Ministério pareceu se curvar ao
inevitável e parou de combater os indisfarçáveis sinais de magia que agora
irrompiam por toda parte.
Ambulantes aparatavam a cada metro, trazendo bandejas e empurrando
carrinhos cheios de extraordinárias mercadorias. Havia rosetas luminosas - verdes
para a Irlanda, vermelhas para a Bulgária - que gritavam os nomes dos jogadores,
chapéus verdes cônicos enfeitados com trevos dançantes, echarpes búlgaras
adornadas com leões que rugiam de verdade, bandeiras dos dois países que
tocavam os hinos nacionais quando eram agitadas, havia miniaturas de Firebolts,
que realmente voavam, e figurinhas colecionáveis dos jogadores famosos, que
andavam se exibindo nas palmas das mãos.
- Guardei o meu dinheiro o verão todo para o dia de hoje - disse Rony a
Harry, quando os três saíram caminhando entre os vendedores comprando
lembranças. Embora Rony já tivesse comprado um chapéu com trevos dançantes
e uma grande roseta verde, comprou também uma figurinha de Vítor Krum, o


apanhador búlgaro. O brinquedo andava para a frente e para trás na mão do
garoto, amarrando a cara para a roseta verde acima.
- Uáu, olha só para isso! - exclamou Harry, correndo até um carrinho
atulhado de coisas que pareciam binóculos de latão, só que eram cheios de
botões estranhos.
- Onióculos - disse o vendedor pressuroso. - Você pode rever o lance...
passar ele em câmara lenta... e ver uma retrospectiva lance a lance, se precisar.
Pechincha: dez galeões um.
- Eu queria não ter comprado isso - disse Rony, indicando o chapéu com os
trevos dançantes e olhando, de olho comprido, para os onióculos.
- Três - disse Harry com firmeza ao bruxo.
- Não... não precisa - disse Rony ficando vermelho. Sempre se melindrava
com o fato de que Harry, que herdara uma pequena fortuna dos pais, tivesse
muito mais dinheiro do que ele.
- Não vou te dar nada no Natal - disse Harry, empurrando os oníóculos nas
mãos do amigo e de Hermione. - Por uns dez anos, não se esqueça.
- É justo - disse Rony rindo.
- Aaah, obrigada, Harry - disse Hermione. - E eu compro os programas para
nós, olha...
Com as bolsas de dinheiro bem mais leves, os três voltaram às barracas.
Gui, Carlinhos e Gina também estavam usando rosetas verdes, e o Sr. Weasley
carregava uma bandeira da Irlanda. Fred e Jorge não compraram suvenires
porque tinham entregado todo o dinheiro a Bagman.
Então, eles ouviram um gongo, grave e ensurdecedor, bater em algum lugar
além da floresta e, na mesma hora, lanternas verdes e vermelhas se acenderam
entre as árvores, iluminando o caminho até o campo.
- Está na hora! - exclamou o Sr. Weasley, parecendo tão excitado quanto os
garotos. ­ Andem logo, vamos!


- CAPÍTULO OITO -
A Copa Mundial de Quadribol

Agarrados às compras, o Sr. Weasley à frente, todos correram para a
floresta seguindo o caminho iluminado pelas lanternas. Ouviam a algazarra de
milhares de pessoas que se movimentavam à volta deles, gritos, gargalhadas e
trechos de canções. A atmosfera de excitação febril era extremamente contagiosa;
Harry não conseguia parar de sorrir. Caminharam pela floresta durante vinte
minutos, conversando e brincando em voz alta até que finalmente emergiram do
outro lado e se viram à sombra de um gigantesco estádio.
Embora Harry só pudesse ver partes das imensas paredes douradas que
cercavam o campo, ele podia afirmar que caberiam dentro dele, com folga, umas
dez catedrais.
- Tem capacidade para cem mil pessoas - disse o Sr. Weasley, vendo o ar
de assombro no rosto do garoto. - Uma força-tarefa do Ministério, com quinhentas
pessoas, trabalhou o ano inteiro. Há Feitiços Antitrouxas em cada centímetro.
Todas as vezes que, neste ano, os trouxas se aproximavam da área, eles de


repente se lembravam de compromissos urgentes e precisavam sair correndo...
Deus os abençoe - acrescentou ele carinhosamente, se encaminhando para o
portão mais próximo, que já estava cercado por um enxame de bruxos e bruxas
aos gritos.
- Lugares de primeira! - exclamou a bruxa do Ministério ao portão, quando
verificou as entradas deles. - Camarote de honra! Suba direto, Arthur, o mais alto
possível.
As escadas de acesso ao estádio estavam forradas com carpetes púrpura
berrante. Eles subiram com o resto da multidão, que aos poucos foi se
dispersando pelas portas à direita e à esquerda que levavam às arquibancadas. O
grupo do Sr. Weasley continuou subindo e finalmente chegou ao alto da escada,
onde havia um pequeno camarote, armado no ponto mais alto do estádio e situado
exatamente entre as duas balizas de ouro. Umas vinte cadeiras douradas e
púrpura tinham sido distribuídas em duas filas, e Harry, ao entrar na primeira com
os Weasley, deparou com uma cena que ele jamais imaginara ver.
Cem mil bruxos e bruxas iam ocupando os lugares que se erguiam em
vários níveis em torno do longo campo oval. Tudo estava banhado por uma
misteriosa claridade dourada que parecia se irradiar do próprio estádio. Ali do alto,
o campo parecia feito de veludo. De cada lado havia três aros de gol, a quinze
metros de altura, do lado oposto ao que estavam, quase ao nível dos olhos de
Harry, havia um gigantesco quadro-negro. Palavras douradas corriam pelo quadro
sem parar como se uma gigantesca mão invisível as escrevesse e em seguida as
apagasse, observando melhor, Harry viu que o quadro projetava anúncios no
campo.
Bluebottle: uma vassoura para toda a família - segura, confiável, equipada
com alarme antiroubo...
Removedor Mágico Multi uso da Sra. Skower. sem dor nem cor!...
Trapo belo Moda Mágica - Londres, Paris, Hogsmeade...
Harry desgrudou os olhos do quadro e espiou por cima do ombro a ver
quem mais dividia o camarote com eles. Por ora estava vazio, exceto por uma
criaturinha sentada na antepenúltima cadeira na fila logo atrás. A criatura, cujas
pernas eram tão curtas que ficavam esticadas para a frente sem poder dobrar,
usava uma toalha de chá drapejada, presa como uma toga, e tinha o rosto
escondido nas mãos. Contudo, aquelas compridas orelhas de morcego eram
estranhamente familiares...
- Dobby?- perguntou Harry incrédulo.
A criaturinha levantou a cabeça e entreabriu os dedos, deixando aparecer
enormes olhos castanhos e um nariz do tamanho exato de um tomate. Não era
Dobby - mas era, sem a menor dúvida, um elfo doméstico, como fora o amigo de
Harry, Dobby. O garoto o libertara dos antigos donos, a família Malfoy.
- O senhor me chamou de Dobby? - guinchou o elfo cheio de curiosidade,
por entre os dedos. Sua voz era ainda mais aguda que a de Dobby, um fiapinho
trêmulo de guincho, e Harry suspeitou, embora isso fosse muito difícil dizer no
caso de elfos domésticos, que este talvez fosse do sexo feminino. Rony e
Hermione se viraram nas cadeiras para olhar. Embora tivessem ouvido Harry falar
muito de Dobby, nunca haviam chegado a conhecê-lo. Até o Sr. Weasley se virou
para trás interessado.


- Desculpe - disse Harry -, achei que você era alguém que eu conhecia.
- Mas eu também conheço Dobby, meu senhor! - guinchou o elfo. Escondia
o rosto como se a luz o cegasse, embora o camarote de honra não fosse muito
bem iluminado. - Meu nome é Winky, meu senhor, e o senhor... - seus grandes
olhos castanho-escuros se arregalaram tanto que pareceram pratinhos de pão ao
pousarem na cicatriz de Harry - o senhor com certeza é Harry Potter!
- É, sou.
- Ora, Dobby fala do senhor o tempo todo, meu senhor - disse ela baixando
um tantinho as mãos e parecendo assombrada.
- Como vai ele? - perguntou Harry. - Está gostando da liberdade?
- Ah, meu senhor - disse Winky, sacudindo a cabeça -, ah, meu senhor,
sem querer lhe faltar ao respeito, meu senhor, mas não tenho muita certeza se o
senhor fez um favor a Dobby, meu senhor, quando deu a liberdade a ele.
- Por quê? - perguntou Harry, espantado. - Que é que ele tem?
- A liberdade está subindo à cabeça dele - disse Winky tristemente. - Idéias
acima da condição social dele, meu senhor. Não consegue outro emprego, meu
senhor.
- Por que não?
Winky baixou a voz uma oitava e sussurrou:
- Ele está exigindo pagamento pelo trabalho que faz, meu senhor.
- Pagamento? - exclamou Harry sem entender. - Ora... por que ele não
deveria receber pagamento?
Winky pareceu horrorizada com a idéia e fechou os dedos um tantinho, de
modo que seu rosto tornou a ficar invisível.
- Elfos domésticos não recebem pagamento, meu senhor! - disse ela num
guincho abafado. - Não, não, não. Eu digo ao Dobby, eu digo, procure uma boa
família e tome juízo, Dobby. Ele anda fazendo todo tipo de feitiço avançado, meu
senhor, o que não fica bem para um elfo doméstico. Você fica aprontando por aí,
Dobby, eu digo, e daqui a pouco eu vou saber que você teve que comparecer no
Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, como um
duende desclassificado.
- Bem, já estava na hora de ele se divertir um pouco - falou Harry.
- Elfos domésticos não nasceram para se divertir, Harry Potter - disse Winky
com firmeza, por trás das mãos. - Elfos domésticos fazem o que são mandados
fazer. Eu não estou gostando nem um pouco da altura, Harry Potter... - ela olhou
para a borda do camarote e engoliu em seco - ... mas meu dono me mandou para
o camarote de honra e eu obedeço, meu senhor.
- Por que é que ele mandou você aqui, se sabe que você não gosta de
alturas? - perguntou Harry franzindo a testa.
- Meu dono... meu dono quer que eu guarde um lugar para ele, Harry
Potter, ele está muito ocupado - disse Winky, inclinando a cabeça pata a cadeira
vazia ao lado. - Winky está querendo voltar para a barraca do dono, Harry Potter,
mas Winky é bem mandada, Winky é um bom elfo doméstico.
Ela lançou outro olhar assustado à borda do camarote e tornou a esconder
completamente os olhos. Harry se virou para os outros.
- Então isso é um elfo doméstico? - murmurou Rony. - Esquisitos, não são?
- Dobby era ainda mais esquisito - disse Harry, com veemência.


Rony tirou o onióculo e começou a testá-lo, observando a multidão
embaixo, do lado oposto do estádio.
- Irado! - disse ele, girando o botão lateral para fazer a imagem voltar. ­
Consigo ver aquele velhote lá embaixo meter o dedo no nariz outra vez... mais
uma vez... e mais outra...
Entrementes, Hermione estava lendo superficialmente o programa que tinha
borla e capa de veludo.
- Vai haver um desfile com as mascotes dos times antes da partida - leu ela
em voz alta.
- Ah, a isso sempre vale a pena assistir - disse o Sr. Weasley. ­ Os times
nacionais trazem criaturas da terra natal, sabem, para fazer farol.
O camarote foi-se enchendo gradualmente em volta deles durante a meia
hora seguinte. O Sr. Weasley não parava de apertar a mão de bruxos, obviamente
muito importantes. Percy levantou-se de um salto tantas vezes que até parecia
que estava tentando sentar em cima de um porco-espinho. Quando Cornélio
Fudge, Ministro da Magia, chegou, Percy fez uma reverência tão exagerada que
seus óculos caíram e se partiram. Muito encabulado, ele os consertou com a
varinha e dali em diante permaneceu sentado, lançando olhares invejosos a Harry,
a quem o ministro cumprimentara como um velho amigo. Os dois já se conheciam
e Fudge apertou a mão de Harry paternalmente, perguntou como ele estava e
apresentou-o aos bruxos de um lado e de outro.
- Harry Potter, sabe - disse ele em voz alta ao ministro búlgaro, que usava
esplêndidas vestes de veludo preto, enfeitadas com ouro, e aparentemente não
entendia uma única palavra de inglês. ­ Harry Potter... ah, vamos, o senhor sabe
quem é... o menino que sobreviveu ao ataque de Você-Sabe-Quem...tenho
certeza de que o senhor sabe quem é...
O bruxo búlgaro, de repente, viu a cicatriz de Harry e começou a algaraviar
em voz alta e excitada, apontando para a marca.
- Sabia que íamos acabar chegando lá - disse Fudge, esgotado, a Harry. -
Não sou grande coisa para línguas, preciso de Bartô Crouch nesses encontros.
Ah, vejo que o elfo doméstico está guardando o lugar dele... bem pensado, esses
búlgaros danados têm tentado arrancar da gente os melhores lugares... ah, ai vem
Lúcio!
Harry, Rony e Hermione se viraram depressa. Avançando vagarosamente
pela segunda fila, em direção a três lugares ainda vazios, bem atrás do Sr.
Weasley, vinham ninguém menos que os antigos donos de Dobby - Lúcio Malfoy,
seu filho Draco e uma mulher que Harry supôs que fosse a mãe do garoto.
Harry Potter e Draco Malfoy eram inimigos desde a primeira viagem de trem
para Hogwarts. Um garoto de rosto fino e cabelos muito louros, Draco se parecia
muito com o pai. A mãe também era loura, alta e magra, e até seria bonita se não
carregasse no rosto uma expressão que sugeria que estava sentindo um mau
cheiro bem debaixo do nariz.
- Ah, Fudge - disse o Sr. Malfoy, estendendo a mão para o Ministro da
Magia, ao chegar mais próximo. - Como vai? Acho que você não conhece minha
mulher, Narcisa? Nem o nosso filho, Draco?
- Como estão, como estão? - disse Fudge, sorrindo e se curvando para a
Sra. Malfoy. - E me permitam apresentar a vocês o Sr. Oblansk ("Obalonsk,


senhor"), bem, o Ministro da Magia da Bulgária, e de qualquer modo ele não
consegue entender nenhuma palavra do que estou dizendo, portanto não faz
diferença. E vejamos quem mais, você conhece Arthur Weasley, imagino?
Foi um momento tenso. O Sr. Weasley e o Sr.- Malfoy se entreolharam e
Harry se lembrou nitidamente da última vez que haviam se encontrado; fora na
livraria Floreios e Borrões, e os dois tinham partido para uma briga.
Os olhos do Sr. Malfoy, frios e cinzentos, examinaram o Sr. Weasley e
depois a fila em que ele estava.
- Meu Deus, Arthur - disse ele baixinho. - Que foi que você precisou vender
para comprar lugares no camarote de honra? Com certeza sua casa não teria
rendido tudo isso, não?
Fudge que não estava prestando atenção, comentou:
- Lúcio acabou de fazer uma generosa contribuição para o Hospital St.
Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Está aqui como meu convidado.
- Que... que bom - disse o Sr. Weasley com um sorriso muito forçado.
Os olhos do Sr. Malfoy se voltaram para Hermione, que corou de leve, mas
retribuiu o seu olhar com determinação. Harry sabia exatamente o que estava
fazendo os lábios do Sr. Malfoy se crisparem. Os Malfoy se orgulhavam de ter o
sangue puro, em outras palavras, consideravam qualquer pessoa que
descendesse de trouxas, como Hermione, gente de segunda classe. No entanto,
sob o olhar do Ministro da Magia, o Sr. Malfoy não se atrevia a dizer nada. Acenou
a cabeça com desdém para o Sr. Weasley e continuou a avançar em direção aos
lugares vazios. Draco lançou a Harry, Rony e Hermione um olhar de desprezo,
depois se sentou entre a mãe e o pai.
- Babacas nojentos - murmurou Rony, quando ele, Harry e Hermione
tornaram a se virar para o campo. No momento, seguinte, Ludo Bagman adentrou
o camarote de honra.
- Todos prontos? - perguntou ele, o rosto redondo e excitado brilhando
como um queijo holandês.
- Ministro, podemos começar?
- Quando você quiser, Ludo - disse Fudge descontraído.
Ludo puxou a varinha, apontou-a para a própria garganta, disse "Sonorus!"
e então, sobrepondo-se à zoeira que agora enchia o estádio lotado falou; sua voz
reboou, ecoando em cada canto das arquibancadas:
"Senhoras e senhores... bem-vindos! Bem-vindos à final da
quadricentésima vigésima segunda Copa Mundial de Quadribol!".
Os espectadores gritaram e bateram palmas. Milhares de bandeiras se
agitaram, somando seus desafinados hinos nacionais à barulheira geral. O grande
quadro-negro defronte apagou a mensagem (Feijõezinhos de todos os sabores
Beto Botts - um risco cada dentada!) e passou a informar BULGÁRIA: ZERO,
IRLANDA: ZERO.
"E agora, sem mais demora, vamos apresentar...os mascotes do time
búlgaro!".
O lado direito das arquibancadas, que era uma massa compacta e
vermelha, berrou manifestando sua aprovação.


- Que será que eles trouxeram? - comentou o Sr. Weasley curvando-se
para a frente na cadeira. - Ah-ha! - Ele de repente tirou os óculos e limpou-os
depressa nas vestes. - Veela!.
- Que são Veela..?
Mas cem veela deslizaram pelo campo e a pergunta de Harthu ficou
respondida. Veela eram mulheres... as mulheres mais belas que Harry já vira... só
que não eram - não podiam ser humanas .
Isto deixou Harry intrigado por alguns momentos, tentando adivinhar o que
poderiam ser exatamente, que é que faria a pele dela refulgir como o luar ou os
cabelos louro-prateados se abrirem em leque para trás sem haver vento... mas
então a música começou tocar e Harry parou de se preocupar se elas seriam ou
não humanas. Na realidade, parou de se preocupar com tudo.
As veela começaram a dançar e a cabeça de Harry ficou completa e bem-
aventuradamente vazia. Tudo que importava no mundo era continuar a assistir às
veela, porque se elas parassem de dançar coisas terríveis iriam acontecer...
E enquanto as veela dançavam cada vez mais rapidamente, pensamentos
incompletos e delirantes começaram a se formar na mente ator doada de Harry.
Ele queria fazer uma coisa bem impressionante naquele momento. Atirar-se do
camarote para o estádio lhe pareceu uma boa idéia... mas seria suficiente?
- Harry, que é que você está fazendo? - ele ouviu lá longe a voz de
Hermione.
A música parou. Harry piscou os olhos. Ele estava em pé, tinha uma das
pernas passada por cima da borda do camarote. Ao lado dele, Rony estava
paralisado numa posição que dava a impressão de que ia saltar de um trampolim.
Gritos indignados começaram a encher o estádio. A multidão não queria
que as veela se retirassem. Harry concordava, ele iria, claro, torcer pela Bulgária,
e se perguntou meio vagamente porque estava usando um grande trevo verde
preso ao peito. Entrementes, Rony, distraidamente, despetalava os trevos do
chapéu. O Sr. Weasley, sorrindo, curvou-se para Rony e tirou o chapéu das mãos
do filho.
- Você vai querer isso depois - disse ele -, depois que a Irlanda disser a que
veio.
- Hum? - exclamou Rony fixando, boquiaberto, as veela, que agora estavam
enfileiradas a um lado do campo. Hermione deu um muxoxo alto. Esticou o braço
e puxou Harry de volta à cadeira dele.
- Francamente! - exclamou.
"E agora - trovejou Ludo Bagman - por favor, levantem as varinhas bem
alto... para receber os mascotes do time nacional da Irlanda!".
No instante seguinte, algo que lembrava um imenso cometa verde e ouro
entrou velozmente no estádio. Deu uma volta completa, depois se subdividiu em
dois cometas menores, que se projetavam em direção às balizas. De repente, um
arco-íris atravessou o céu do campo unindo as duas esferas luminosas.
A multidão fazia "aaaaah" e "ooooh", como se presenciasse um espetáculo
de fogos de artifício. Depois o arco-íris foi se dissolvendo e as esferas se
aproximaram e se fundiram; tinham formado um grande trevo refulgente, que
subiu em direção ao céu e ficou pairando sobre as arquibancadas.
Parecia estar deixando cair uma espécie de chuva dourada...


- Excelente! - berrou Rony, quando o trevo sobrevoou o camarote, fazendo
chover pesadas moedas de ouro, que ricocheteavam nas cabeças e cadeiras.
Apertando os olhos para ver melhor o trevo, Harry percebeu que na realidade ele
era composto de milhares de homenzinhos barbudos de colete vermelho, cada
qual carregando uma minúscula luz ouro-e-verde.
- Leprechauns!- exclamou o Sr. Weasley, fazendo-se ouvir em meio ao
tumultuoso aplauso dos espectadores, muitos dos quais continuavam a disputar o
ouro e a procurá-lo por todo o lado em volta e embaixo das cadeiras.
- Toma aqui, Harry - gritou Rony feliz, metendo um punhado de moedas de
ouro na mão do amigo. - Pelo onióculo! Agora você vai ter que me comprar um
presente de Natal, ha!
O maior dos trevos se dissolveu e os leprechauns, que são duendes
irlandeses, foram descendo no lado do campo oposto ao das veela, e se sentaram
de pernas cruzadas para assistir à partida.
"E agora, senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas... ao time
nacional de quadribol da Bulgária! Apresentando, por ordem de entrada...
Dimitrov!".
Um vulto vermelho montado em uma vassoura, que voava tão veloz que
parecia um borrão, disparou pelo campo, vindo de uma entrada lá embaixo, sob o
aplauso frenético dos torcedores da Bulgária.
"Ivanova!".
Um segundo jogador de vermelho passou zunindo.
"Zografi Levski! Vulchanov! Volkov! Eeeeeeeee... Krum!"
- É ele, é ele! - berrou Rony, acompanhando Krum com o onióculo; Harry
focalizou rapidamente o dele.
Vítor Krum era magro, moreno, de pele macilenta, com um narigão adunco
e sobrancelhas muito espessas e negras. Lembrava uma ave de rapina grande
demais. Era difícil acreditar que tivesse apenas dezoito anos.
"E agora vamos saudar... o time nacional de quadribol da Irlanda!", berrou
Bagman.
"Apresentando... Connolly! Ryan! Troy! Mullet! Moran! Quigley! Eeeeeee...
Lynch".
Sete borrões entraram velozes no campo; Harry girou um pequeno botão
lateral no onióculo e reduziu a velocidade da imagem o suficiente para ler
"Firebolt" em cada uma das vassouras, e ver os nomes, bordados em prata, nas
costas dos jogadores.
"E conosco, das terras distantes do Egito, o nosso juiz, o famoso bruxo-
presidente da Associação Internacional de Quadribol, Hassan Mostafa!".
Um bruxo miúdo e magro, completamente careca, mas com uma bigodeira
que rivalizava a do tio Valter, entrou em campo trajando vestes de ouro puro para
combinar com o estádio. Um apito de prata saía por baixo dos bigodes e ele
sobraçava de um lado uma grande caixa de madeira e, do outro, sua vassoura.
Harry girou o botão de velocidade do seu onióculo para a posição normal, e
observou com atenção Mostafa montar a vassoura e abrir a caixa com um pontapé
- quatro bolas se projetaram no ar, a goles vermelha, os dois balaços pretos e
(Harry o viu por um brevíssimo instante antes que ele desaparecesse de vista) o


minúsculo pomo alado de ouro. Com um silvo forte e curto do apito, Mostafa saiu
pelos ares acompanhando as bolas.
"COOOOOOOOOooMEçou a partida!", berrou Bagman.
"É Muíler! Troy! Moran! Dimirrov! De volta a Muíler! Troy! Levski! Moran!".
Era quadribol como Harry nunca vira ninguém jogar antes. Ele apertava o
onióculo com tanta força contra os olhos que seus óculos estavam começando a
cortar a ponta do nariz. A velocidade dos jogadores era incrível - os artilheiros
jogavam a bola um para o outro tão depressa que Bagman só tinha tempo de
identificá-los.
Harry tornou a girar o botão do lado direito do onióculo para reduzir a
velocidade da imagem, apertou o botão "lance a lance" e na mesma hora estava
assistindo ao jogo em câmara lenta, enquanto letras púrpuras passavam brilhando
pelas lentes do instrumento, e o rugido da multidão martelava seus tímpanos!
Formação de ataque de Hawkshead - leu ele enquanto assistia a três
artilheiros irlandeses voarem juntos, Troy no meio, um pouco à frente de Mullet e
Moran, e investirem contra os búlgaros. ­ Manobra de Ploy, leu ele em seguida,
quando Troy fingiu que ia subir com a goles, atraindo a artilheira búlgara Ivanova,
e deixou cair a bola para Moran. Um dos batedores búlgaros, Volkov rebateu
violentamente, com o seu pequeno bastão, um balaço que passava, derrubando-o
no caminho de Moran, Moran se abaixou para evitar o balaço e soltou a goles e
Levski, que voava mais abaixo, apanhou-a...
"GOL DE TROY!", berrou Bagman, e o estádio estremeceu com o rugido
dos aplausos e vivas.
"Dez a zero para a Irlanda?".
- Quê? - berrou Harry nervoso, observando o campo com o onióculo. - Mas
Levski é que está com a goles!
- Harry, se você não observar em velocidade normal, vai perder todos os
lances! ­ gritou Hermione, que dançava aos pulos, agitando os braços no ar,
enquanto Troy dava uma volta no campo para comemorar o gol. Harry espiou
depressa por cima do onióculo e viu que os leprechauns, que assistiam ao jogo na
extremidade do campo, tinham novamente levantado vôo e formavam o grande
trevo refulgente. Na outra extremidade, as veela assistiram a essa exibição em
silêncio.
Furioso consigo mesmo, Harry girou o botão de volta à velocidade normal
quando o jogo recomeçou.
Harry entendia o suficiente de quadribol para saber que os artilheiros
irlandeses eram fantásticos. Deslocavam-se em harmonia, parecendo ler o que ia
nas mentes uns dos outros, pela maneira com que se posicionavam, e a roseta no
peito de Harry não parava de guinchar o nome deles: "Troy - Mullet - Moran!" Em
dez minutos a Irlanda marcou mais duas vezes, elevando sua vantagem para
trinta a zero e provocando uma onda de gritos e aplausos dos torcedores de
verde.
A partida se tornou ainda mais rápida, porém mais brutal. Volkov e
Vulchanov, os batedores búlgaros, atiravam os balaços com bastonadas
fortíssimas nos artilheiros irlandeses e estavam começando a impedi-los de
executar alguns dos seus melhores movimentos, duas vezes eles foram obrigados


a dispersar e então, finalmente, Ivanova conseguiu passar por eles, driblar o
goleiro Ryan, e marcar o primeiro gol da Bulgária.
- Dedos nos ouvidos! - berrou o Sr. Weasley, quando as veela começaram
a dançar comemorando o lance. Harry apertou os olhos também, queria manter a
atenção no jogo. Passados alguns segundos, arriscou uma espiada no campo. As
veela haviam parado de dançar e a Bulgária recuperara a posse da goles.
"Dimitrov! Levski! Dimitrov! Ivanova... ah, essa não!", berrou Bagman.
Cem mil bruxos e bruxas prenderam a respiração quando os dois apanhadores,
Krum e Lynch, mergulharam no meio dos artilheiros, tão velozes que pareciam ter
pulado sem pára-quedas de um avião.
Harry acompanhou a descida deles com o onióculo, apurando a vista para
procurar o pomo...
- Eles vão colidir! - berrou Hermione ao lado de Harry.
Hermione estava parcialmente certa - no último segundo, Vítor Krum se
recuperou do mergulho e se afastou em círculos. Lynch, no entanto, bateu no
chão com um baque surdo que pôde ser ouvido em todo o estádio. Um enorme
gemido subiu dos lugares ocupados pelos irlandeses.
- Idiota! - lamentou o Sr. Weasley. - Era uma finta de Krum!
"Tempo!", berrou Bagman. "Os medibruxos vão entrar em campo para
examinar Aidan Lynch!".
- Ele está bem, só levou um encontrão! - disse Carlinhos tranqüilizando
Gina, que estava pendurada por cima da lateral do camarote, horrorizada. - E isso
era, naturalmente, o que Krum pretendera...
Harry apertou depressa os botões de "repetição" e de "lance por lance" no
onióculo, girou o botão de velocidade e tornou a levar o onióculo aos olhos.
Ele assistiu a Krum e Lynch mergulharem outra vez em câmara lenta. Finta
de Wronski ­ uma manobra perigosa dos apanhadores, leu Harry na legenda
púrpura que passou pelas lentes. O garoto viu o rosto de Krum se contorcer,
concentrando-se, quando o apanhador se recuperou do mergulho no último
instante, ao mesmo tempo que Lynch se estatelava e compreendeu - Krum não
vira pomo algum, estava só obrigando Lynch a imitá-lo. O garoto jamais vira
alguém voar daquele jeito; Krum nem parecia estar usando uma vassoura,
deslocava-se com tanta facilidade pelos ares que parecia solto, sem peso. Harry
tornou a ajustar o onióculo na posição normal e focalizou Krum. O jogador voava
em círculos bem acima de Lynch, que agora estava sendo reanimado pelos
medibruxos com xícaras de poção. Harry focalizou o rosto de Krum ainda mais de
perto e viu seus olhos negros correndo para cá e para lá por todo o campo, trinta
metros abaixo. Usava o tempo em que Lynch era reanimado para procurar o pomo
sem interferência.
Lynch se levantou finalmente, sob ruidosos vivas dos torcedores de verde,
montou a Firebolt e deu impulso para o alto. Sua reanimação parecia ter dado à
Irlanda novas esperanças. Quando Mostafa tornou a soar o apito, os artilheiros
entraram em ação com uma destreza que não se comparava a nada que Harry
tivesse visto até então.
Decorridos quinze minutos de velocidade e fúria, a Irlanda acumulara uma
vantagem de mais dez gols. Agora liderava por cento e trinta pontos a dez e a
partida estava começando a ficar mais desleal.


Quando Mullet disparou em direção às balizas mais uma vez, segurando
firmemente a goles embaixo do braço, o goleiro búlgaro, Zograf, correu ao
encontro da jogadora. O que aconteceu foi tão rápido que Harry não percebeu,
mas subiu um grito de raiva da torcida irlandesa, e o silvo longo e agudo do apito
de Mostafa informou que alguém cometera uma falta.
"E Mostafa repreende o goleiro búlgaro pelo jogo bruto ­ usou os
cotovelos!", informa Bagman aos espectadores que berram. "E... confirmando, é
pênalti a favor da Irlanda".Os leprechauns, que haviam levantado vôo, furiosos,
como um enxame de marimbondos reluzentes, quando Mullet fora atingida, agora
corriam a se juntar formando as palavras "HA! HA! HA!". As veela, do lado oposto
do campo, levantaram-se de um salto, sacudiram os cabelos com raiva e
recomeçaram a dançar.
E Como se fossem um, os garotos Weasley e Harry enfiaram os dedos nos
ouvidos, mas Hermione, que não se dera a esse trabalho, logo em seguida puxou
Harry pelo braço. O garoto se virou para olhá-la, e ela puxou impacientemente os
dedos que ele enfiara nos ouvidos.
- Olha o juiz! - disse a garota, rindo.
Harry olhou para o campo. Hassan Mostafa aterrissara bem diante das
veela dançantes, e estava agindo de modo realmente estranho. Flexionava os
músculos e alisava os bigodes, muito agitado.
"Ora, isso não é admissível!", disse Ludo Bagman, embora seu tom de voz
fosse o de quem estava achando muita graça. "Alguém aí dê um tapa nesse juiz!".
Um medibruxo entrou correndo em campo, os dedos enfiados nos ouvidos,
e deu um baita chute nas canelas de Mostafa. O juiz pareceu voltar a si, Harry que
observava outra vez o jogo com o onióculo, viu que Mostafa parecia
extremamente constrangido e gritava com as veela, que tinham parado de dançar
e pareciam estar se rebelando.
"E a não ser que eu muito me engane, Mostafa está de fato tentando
despachar as mascotes do time da Bulgária!", comentou Bagman. "Aí está uma
coisa que nunca vimos antes... ah, isso é capaz de dar confusão..."
E deu: os batedores búlgaros, Volkov e Vulchanov, pousaram ao lado de
Mostafa e começaram a discutir furiosamente com o juiz, gesticulando em direção
aos leprechauns, que agora formavam alegremente as palavras "HI! HI HI!".
Mostafa, porém, não se deixou impressionar com a argumentação dos búlgaros,
espetou o dedo indicador no ar, dizendo claramente a eles que voltassem ao ar e
quando os jogadores se recusaram, ele puxou dois silvos breves no apito.
"Dois pênaltis a favor da Irlanda!", gritou Bagman, ao que a torcida búlgara
ululou de raiva. "E é melhor Volkov e Vulchanov voltarem a montar as vassouras...
é isso aí... e lá vão eles... e Troy toma a goles..."
A partida agora atingira um nível de ferocidade que ultrapassava tudo que
os garotos já tinham visto. Os batedores dos dois lados jogavam sem piedade:
principalmente Volkov e Vulchanov pareciam nem ligar se os seus bastões
estavam fazendo contato com balaços ou com gente, quando os giravam
violentamente no ar.
Dimitrov disparou um balaço em cima de Moran, que segurava a goles, e
quase a derrubou da vassoura.


- Falta!- urraram os torcedores irlandeses em uníssono, todos de pé como
uma enorme onda verde.
"Falta!", ecoou a voz de Ludo Bagman, magicamente ampliada. "Dimitrov
esfola Moran ­ o jogador saiu com intenção de dar um encontrão - e tem que ser
outro pênalti - e aí vem o apito!"
Os leprechauns subiram ao ar mais uma vez e agora formaram uma
gigantesca mão que fazia um gesto muito grosseiro para as veela. Ao verem isso,
elas se descontrolaram. Precipitaram-se pelo campo e começaram a atirar algo
com o aspecto de bolas de fogo contra os duendes irlandeses. Observando com o
onióculo, Harry viu que elas agora não estavam nem remotamente belas. Muito ao
contrário, seus rostos começaram a se alongar para formar cabeças de aves com
bicos afiados e cruéis e irromperam asas longas e escamosas dos seus ombros...
- E aí está, rapazes - berrou o Sr. Weasley se sobrepondo ao tumulto da
multidão embaixo -" está aí a razão por que vocês não devem se deixar levar só
pelas aparências!
Bruxos do Ministério invadiam o campo para separar as veela e os
leprechauns, mas sem muito sucesso, entrementes a batalha no campo não era
nada comparada a que estava ocorrendo no ar. Harry se virava para cá e para lá,
espiando pelo onióculo, pois a goles trocava de mãos com a velocidade de uma
bala...
"Levski - Dimirrov - Moran - Troy - Mullet - Ivanova - Moran de novo - Moran
- um GOL DE MORAN!"
Mas a gritaria da torcida irlandesa mal conseguia abafar os gritos agudos
das veela, os estampidos que agora vinham das varinhas dos funcionários do
Ministério e os berros furiosos dos búlgaros. A partida recomeçou imediatamente,
agora Levski estava com a posse da goles, agora Dimitrov...
O batedor irlandês Quigley levantou com violência o bastão contra um
balaço que passava e arremessou-o com toda a força contra Krum, que não se
abaixou com suficiente rapidez. O balaço atingiu-o em cheio no rosto.
Ouviu-se um lamento ensurdecedor da multidão, o nariz de Krum parecia
quebrado, saía sangue para todo lado, mas Hassan Mostafa não apitou. Distraira-
se e Harry não podia culpá-lo, uma das veela atirara uma mão cheia de fogo e
incendiara a cauda da vassoura do juiz.
Harry queria que alguém percebesse que Krum estava ferido, embora
estivesse torcendo pela Irlanda, Krum era o jogador mais fascinante em campo.
Rony obviamente sentia o mesmo.
- Tempo! Ah, anda, ele não pode jogar assim, olha só para ele...
- Olha o Lynch!- berrou Harry.
O apanhador irlandês repentinamente mergulhara e Harry teve certeza de
que aquilo não era uma finta de Wronski, era para valer...
- Ele viu o pomo! - berrou Harry. - Ele viu! Olha lá ele correndo!
Metade da multidão parecia ter compreendido o que estava acontecendo, a
torcida irlandesa se levantou como uma grande onda verde, animando o
apanhador... mas Krum voava na esteira dele. Como conseguia enxergar aonde
ia, Harry não fazia idéia, gotas de sangue voavam pelo ar à sua passagem, mas
ele emparelhava com Lynch agora e os dois disparavam em direção ao chão...
- Eles vão bater! - esganiçou-se Hermione.


- Não vão! - berrou Rony.
- O Lynch vai! - gritou Harry.
E tinha razão - pela segunda vez, Lynch bateu no chão com um tremendo
impacto e foi imediatamente pisoteado por uma horda de veela raivosas.
- O pomo, onde é que está o pomo? - berrou Carlinhos, mais adiante na fila.
- Ele pegou, Krum pegou, terminou o jogo! - gritou Harry.
Krum, as vestes vermelhas tintas com o sangue que escorrera do seu nariz,
tornava a levantar vôo suavemente, o punho erguido lá no alto, um brilho de ouro
na mão.
O placar piscou por cima da multidão da BULGÁRIA: CENTO E
SESSENTA; IRLANDA: CENTO E SETENTA, mas os torcedores não pareciam ter
percebido o que acontecera. Então, lentamente, como se um grande jumbo
começasse a aquecer as turbinas, o rugido da torcida da Irlanda foi se
avolumando e explodiu em urros de alegria.
"VENCE A IRLANDA!", gritou Bagman, que, como os irlandeses, parecia
estar espantado com o inesperado desfecho da partida.
"KRUM CAPTURA O POMO - MAS VENCE A IRLANDA - Deus do céu,
acho que nenhum de nós esperava uma coisa dessas!"
- Para que foi que ele agarrou o pomo? - berrou Rony, ao mesmo tempo em
que continuava a pular, aplaudindo com as mãos no alto. - Ele encerrou a partida
quando a Irlanda estava cento e sessenta pontos à frente, o idiota!
- Ele sabia que o time não ia conseguir se recuperar - respondeu Harry aos
gritos, tentando se sobrepor à zoeira geral e aplaudindo com estrépito -" os
artilheiros irlandeses eram bons demais... ele queria encerrar a partida nos termos
dele, foi só...
- Ele foi valente, não foi? - comentou Hermione esticando-se à frente para
ver Krum pousar e um enxame de medibruxos abrir caminho à força entre os
leprechauns e as veela que brigavam para chegar ao apanhador. - Ele está
pavoroso...
Harry tornou a levar o onióculo aos olhos. Era difícil ver o que estava
acontecendo lá embaixo, porque os leprechauns sobrevoavam o campo, felizes e
em grande velocidade, mas ele conseguiu divisar Krum, rodeado por medibruxos.
Parecia mais carrancudo que nunca e se recusava a deixar que o limpassem.
Seus colegas de time o rodeavam, sacudindo a cabeça, arrasados; um pouco
adiante, os jogadores irlandeses dançavam felizes sob a chuva de ouro que seus
mascotes faziam cair. Bandeiras se agitavam pelo estádio, o hino nacional
irlandês tocava altíssimo por todo lado; as veela revertiam à beleza de sempre,
mas pareciam desanimadas e infelizes.
- Pom, prrigamos falentemente - disse uma voz triste atrás de Harry. Ele se
virou para olhar; era o Ministro da Magia búlgaro.
- O senhor fala a nossa língua! - exclamou Fudge indignado. - E vem me
obrigando a falar por mímica o dia inteiro!
- Pom, foi muito engrraçado - disse o ministro búlgaro, encolhendo os
ombros.
"E enquanto o time irlandês dá a volta olímpica, ladeado pelos mascotes, a
Copa Mundial de Quadribol está sendo levada para o camarote de honra!", berrou
Bagman.


A visão de Harry foi repentinamente ofuscada por uma luz branca, o
camarote de honra foi magicamente iluminado para que todos os espectadores
nas arquibancadas pudessem ver o seu interior.
Apertando os olhos na direção da porta, ele viu dois bruxos ofegantes
entrarem no camarote com uma imensa taça de ouro, que foi entregue a Cornélio
Fudge, ainda muito aborrecido por ter passado o dia falando com as mãos à toa.
"Vamos aplaudir com vontade os galantes perdedores - Bulgária!", gritou
Bagman.
E pelas escadas entraram os sete jogadores derrotados. A multidão
aplaudiu manifestando o seu apreço; Harry viu milhares e milhares de lentes de
onióculo faiscarem e lampejarem em sua direção.
Um a um, os búlgaros se acomodaram nas filas de cadeiras do camarote e
Bagman chamou-os, nome por nome, para apertarem a mão do seu ministro e
depois a de Fudge. Krum, que foi o último da fila, estava com uma aparência
medonha. Seus olhos negros se destacavam espetacularmente no rosto
ensangüentado. Continuava a segurar o pomo. Harry reparou que ele parecia
muito menos coordenado em terra. Andava com os pés meio para fora e seus
ombros eram visivelmente caídos. Mas quando o nome de Krum foi anunciado, o
estádio inteiro lhe deu uma ovação de rachar os tímpanos.
Depois foi a vez do time irlandês. Aldan Lynch veio amparado por Moran e
Connolly; a segunda colisão parecia tê-lo atordoado e seus olhos pareciam
estranhamente fora de foco. Mas ele sorriu com alegria quando Troy e Quigley
ergueram a Copa no ar e a multidão embaixo fez ouvir sua aprovação. As mãos
de Harry estavam insensíveis de tanto aplaudir.
Finalmente, quando o time irlandês deixou o camarote para dar mais uma
volta olímpica montado nas vassouras (Aidan Lynch na garupa de Connolly,
agarrado à sua cintura e ainda sorrindo abobalhado), Bagman apontou a varinha
para a própria garganta e murmurou Quietus.
- Eles vão comentar isso durante anos - disse ele rouco -" uma reviravolta
realmente inesperada, essa... pena que não pudesse ter durado mais... ah sim...
sim, devo a vocês... quanto?
Pois Fred e Jorge tinham acabado de saltar por cima de suas cadeiras e
estavam parados diante de Ludo Bagman com enormes sorrisos no rosto, as
mãos estendidas.


CAPÍTULO NOVE
A Marca Negra

- Não conte à sua mãe que andou apostando - implorou o Sr. Weasley a
Fred e Jorge, quando juntos desciam, lentamente, as escadas forradas com
carpete púrpura.
- Não se preocupe, papai - disse Fred feliz -" temos grandes planos para
esse dinheiro, não queremos que ele seja confiscado.
Por um instante, pareceu que o Sr. Weasley ia perguntar que planos eram
aqueles, mas em seguida, pensando melhor, decidiu que não queria saber.


Logo eles foram engolfados pela multidão que saía do estádio e regressava
aos acampamentos. O ar da noite trazia aos seus ouvidos cantorias desafinadas
quando retomavam o caminho iluminado por lanternas, os leprechauns
continuavam a sobrevoar a área em alta velocidade, rindo, tagarelando, sacudindo
as lanternas. Quando os garotos chegaram finalmente às barracas, ninguém
estava com vontade de dormir e, dado o nível da barulheira, o Sr. Weasley
concordou que podiam tomar, uma última xícara de chocolate, antes de se deitar.
Logo estavam discutindo prazerosamente a partida, o Sr. Weasley se deixou
envolver por Carlinhos em uma polêmica sobre jogo bruto, e somente quando
Gina caiu no sono em cima da mesinha e derramou chocolate quente pelo chão
que o pai deu um basta nas retrospectivas verbais e insistiu que todos fossem se
deitar. Hermione e Gina se transferiram para a barraca vizinha e Harry e os
Weasley vestiram os pijamas e subiram nos beliches.
Do outro lado do acampamento eles ainda ouviam muita cantoria e uma
batida que ecoava estranhamente.
- Ah, fico feliz de não estar de serviço - murmurou o Sr. Weasley cheio de
sono. - Eu não iria gostar nem um pouco de ter que dizer aos irlandeses que eles
precisam parar de comemorar.
Harry, que ocupava a cama superior do beliche de Rony, ficou olhando para
o teto de lona da barraca, observando o brilho ocasional das lanternas dos
leprechauns que sobrevoavam o acampamento e visualizando alguns dos lances
mais espetaculares de Krum. Estava doido pata tornar a montar sua Firebolt e
experimentar a Finta de Wronski... por alguma razão Olívio Wood jamais
conseguira transmitir como era aquele lance com os seus diagramas
complicados...
Harry se viu usando vestes com seu nome nas costas e imaginou a
sensação de ouvir uma multidão de cem mil pessoas berrando, enquanto a voz de
Ludo Bagman ecoava pelo estádio "Com vocês... Potter!"
Harry jamais chegou a saber se adormecera ou não - seus devaneios de
voar como Krum talvez tivessem se transformado em sonhos de verdade -, só
sabia que, de repente ouviu o Sr. Weasley gritar.
- Levantem! Rony, Harry, vamos logo, levantem, é urgente!
Harry se sentou depressa e seu cocuruto bateu na lona do teto.
- Que foi? - perguntou.
Vagamente ele percebeu que alguma coisa não estava bem. O barulho no
acampamento tinha mudado. A cantoria parara. Ele ouvia gritos e um tropel de
gente correndo.
Harry desceu do beliche e apanhou suas roupas, mas o Sr. Weasley, que
vestira a jeans por cima do pijama, falou:
- Não temos tempo, Harry, apanhe uma jaqueta e saia, depressa!
Harry obedeceu e saiu correndo da barraca, com Rony nos seus
calcanhares. À luz das poucas fogueiras que ainda ardiam, viu gente correndo
para a floresta, fugindo de alguma coisa que avançava pelo acampamento em sua
direção, alguma coisa que emitia estranhos lampejos e ruídos que lembravam
tiros. Caçoadas em voz alta, risadas e berros de bêbedos se aproximavam, depois
uma forte explosão de luz verde, que iluminou a cena.


Um grupo compacto de bruxos, que se moviam ao mesmo tempo e
apontavam as varinhas para o alto, vinha marchando pelo acampamento. Harry
apertou os olhos para enxergá-los... não pareciam ter rostos... então ele percebeu
que tinham as cabeças encapuzadas e os rostos mascarados. No alto, pairando
sobre eles no ar, quatro - figuras se debatiam, forçadas a assumir formas
grotescas. Era como se os bruxos mascarados no chão fossem titereiros e as
pessoas no alto, marionetes movidas por cordões invisíveis que subiam das
varinhas erguidas. Duas das figuras eram muito pequenas.
Mais bruxos foram se reunindo ao grupo que marchava, riam e apontavam
para os corpos no ar. Barracas se fechavam e desabavam à medida que a
multidão engrossava. Uma ou duas vezes Harry viu um bruxo explodir uma
barraca com a varinha para desimpedir o caminho. Outras tantas pegaram fogo. A
gritaria foi se avolumando.
As pessoas no ar foram repentinamente iluminadas ao passarem sobre
uma barraca em chamas, e Harry reconheceu uma delas - o Sr. Roberts, o
gerente do acampamento. As outras três, pelo jeito, deviam ser sua mulher e seus
filhos. Um dos arruaceiros virou a Sra. Roberts de cabeça para baixo com a
varinha, a camisola dela caiu deixando à mostra suas enormes calças ela tentava
se cobrir enquanto a multidão embaixo dava guinchos e vaias de alegria.
- Que coisa doentia - murmurou Rony, observando a menor das crianças
trouxas, que começara a rodopiar feito um pião, quase vinte metros acima do
chão, a cabeça sacudindo molemente de um lado para outro. - Que coisa
realmente doentia...
Hermione e Gina vieram correndo ao encontro dos garotos, vestindo
casacos por cima das camisolas, seguidas de perto pelo Sr. Weasley. No mesmo
momento, Gui, Carlinhos e Percy saíram da barraca dos garotos inteiramente
vestidos, com as mangas enroladas e as varinhas em punho.
- Vamos ajudar o pessoal do Ministério - gritou o Sr. Weasley para ser
ouvido com aquele barulho, enrolando as próprias mangas. - Vocês... vão para a
floresta e fiquem juntos. Irei apanhá-los quando resolvermos este problema aqui!
Gui, Carlinhos e Percy já estavam correndo em direção aos baderneiros
que se aproximavam; o Sr. Weasley saiu depressa atrás dos filhos. Bruxos do
Ministério convergiam de todas as direções para o foco do problema. A multidão
sob a família Roberts se aproximava sempre mais.
- Anda - disse Fred, agarrando a mão de Gina e começando a puxá-la para
a floresta. Harry, Rony, Hermione e Jorge os acompanharam. Todos olharam para
trás ao alcançarem as árvores. Os manifestantes sob a família Roberts eram mais
numerosos que nunca, os garotos viram os bruxos do Ministério tentando chegar
aos bruxos encapuzados no centro, mas encontravam grande dificuldade.
Aparentemente estavam com medo de executar algum feitiço que pudesse
fazer a família Roberts despencar.
As lanternas coloridas que antes iluminavam o caminho para o estádio
tinham sido apagadas. Vultos escuros andavam perdidos entre as árvores;
crianças choravam, ecoavam gritos ansiosos e vozes cheias de pânico por todo o
lado no ar frio da noite.
Harry se sentiu empurrado para cá e para lá por pessoas cujos rostos ele
não conseguia distinguir. Eles ouviram Rony dar um berro de dor.


- Que aconteceu? - perguntou Hermione ansiosa, parando tão
abruptamente que Harry quase deu um encontrão nela. - Rony, onde é que você
está? Ah, mas que burrice... Lumus!
Ela iluminou a varinha e apontou o fino feixe de luz para o caminho. Rony
estava esparramado no chão.
- Tropecei numa raiz de árvore - disse ele aborrecido, pondo-se de pé.
- Ora, com pés desse tamanho, é difícil não tropeçar - disse uma voz
arrastada às costas deles.
Harry, Rony e Hermione se viraram rapidamente. Draco Malfoy estava
parado sozinho perto deles, encostado a uma árvore, numa atitude de total
descontração.
Os braços cruzados, parecia ter estado a contemplar a cena no
acampamento por uma abertura entre as árvores. Rony disse a Malfoy que fosse
fazer uma coisa que Harry sabia que o amigo jamais teria se atrevido a dizer na
frente da Sra. Weasley.
- Olha a boca suja, Weasley - disse Malfoy, seus olhos claros reluzindo. -
Não é melhor você se apressar? Não quer que descubram sua amiga, não é?
Ele indicou Hermione com a cabeça e, neste instante, ouviu-se no
acampamento uma explosão como a de uma bomba, e um relâmpago verde
iluminou momentaneamente as árvores à volta deles.
- Que é que você quer dizer com isso? - perguntou Hermione em tom de
desafio.
- Granger, eles estão caçando trouxas - disse Malfoy. -Você vai querer
mostrar suas calcinhas no ar? Porque se quiser, fique por aqui mesmo... eles
estão vindo nessa direção, e todos vamos dar boas gargalhadas.
- Hermione é bruxa - rosnou Harry.
- Faça como quiser, Potter - disse Malfoy sorrindo maliciosamente.
- Se você acha que eles não são capazes de identificar um Sangue Ruim,
fique onde está.
- Você é que devia olhar sua boca suja! - gritou Rony. Todos os presentes
sabiam que "Sangue Ruim" era uma palavra muito ofensiva a uma bruxa ou bruxo
de pais trouxas.
- Deixa para lá, Rony - disse Hermione depressa, agarrando o amigo pelo
braço para contê-lo, quando ele fez menção de avançar em Malfoy.
Ouviu-se um estampido do outro lado das árvores mais alto do que
qualquer dos anteriores. Várias pessoas que estavam próximas gritaram. Malfoy
deu um risinho abafado.
- Eles se assustam à toa, não é? - disse com a fala mole. - Imagino que
papai disse a vocês para se esconderem? Que é que ele está fazendo, tentando
salvar os trouxas?
- Onde estão os seus pais? - perguntou Harry, a raiva crescendo. - Lá no
acampamento usando máscaras, é isso?
Malfoy virou o rosto para Harry, ainda sorrindo.
- Ora... se eles estivessem, eu não iria dizer a você, não é mesmo, Potter?
- Ah, anda gente - disse Hermione, com um olhar de repugnância para
Malfoy -, vamos procurar os outros.
- Fique com essa cabeçorra lanzuda abaixada, Granger - caçoou Malfoy.


- Anda gente - repetiu Hermione, e puxou Harry e Rony de volta ao
caminho.
- Aposto qualquer coisa como o pai dele é um dos mascarados! - disse
Rony indignado.
- Bem, com um pouco de sorte, o Ministério vai agarrá-lo! - disse Hermione
com veemência. - Ah, não dá para acreditar, onde foi que os outros se meteram?
Fred, Jorge e Gina não estavam em nenhum lugar à vista, embora o
caminho estivesse apinhado de pessoas, todas espiando nervosamente a
confusão no acampamento, por cima dos ombros.
Um grupo de adolescentes de pijamas discutia em altos brados um pouco
adiante no caminho. Quando viram Harry, Rony e Hermione, uma garota de
cabelos espessos e crespos se virou e disse depressa:
- Ou est Madame Maxime? Nous l"avons perdue...
- Hum... quê? - perguntou Rony.
- Ah... - A menina que falara deu as costas para ele, e quando os garotos
continuaram andando ouviram-na dizer claramente: - Hogwarts.
- Beauxbatons - murmurou Hermione.
- Como disse? - falou Harry.
- Devem estudar na Beauxbatons - esclareceu Hermione. - Você sabe...
Academia de Magia Beauxbatons... Li sobre ela em Uma avaliação da educação
em magia na Europa.
- Ah... sei... certo - disse Harry.
- Fred e Jorge não podem ter ido tão longe assim ­ comentou Rony
puxando a varinha do bolso, acendendo-a como fizera Hermione e
esquadrinhando o caminho. Harry enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta à procura
da própria varinha, mas não estava lá. A única coisa que encontrou foi o seu
onióculo.
- Ah, não, eu não acredito... Perdi a minha varinha!
- Está brincando!
Rony e Hermione ergueram bem as varinhas para projetar seus finos raios
de luz mais à frente no caminho; Harry olhou para todo lado, mas a varinha não
estava visível em lugar algum.
- Talvez tenha ficado na barraca - disse Rony.
- Talvez tenha caído do seu bolso quando você estava correndo? ­ sugeriu
Hermione ansiosa.
- É - falou Harry -, talvez...
Em geral ele a carregava o tempo todo quando estava no mundo dos
bruxos, e vendo-se sem a varinha no meio de uma confusão daquelas sentiu-se
extremamente vulnerável. Um rumorejar fez os três se sobressaltarem. Winky, a
elfo doméstica, estava tentando sair de uma moita de arbustos ali perto. Movia-se
de um jeito esquisitíssimo, com visível dificuldade; era como se alguém invisível
estivesse tentando segurá-la.
- Tem bruxos malvados aqui! - guinchou ela nervosa, ao se curvar para a
frente e se esforçar para correr. - Gente voando... lá no alto! Winky está saindo do
caminho!
E desapareceu entre as árvores do outro lado da via, ofegando e
guinchando enquanto lutava com a força que a retinha.


- Que é que há com ela? - perguntou Rony, acompanhando-a com o olhar,
curioso. - Por que ela não consegue correr direito?
- Aposto como não pediu permissão para se esconder ­ disse Harry. Estava
se lembrando de Dobby: todas as vezes que tentava fazer alguma coisa que os
Malfoy não gostariam, era forçado a bater em si mesmo.
- Sabem, os elfos domésticos têm uma vida duríssima! - disse Hermione
indignada. ­ É escravidão, isso é que é! Aquele Sr. Crouch fez Winky subir até o
topo do estádio, e ela estava aterrorizada, e a enfeitiçou dessa maneira para que
nem possa correr quando eles começam a pisotear barracas! Por que ninguém faz
nada para acabar com uma situação dessas?
- Ué, os elfos são felizes, não são? - admirou-se Rony. - Você ouviu a
Winky durante a partida... "Elfos domésticos não devem se divertir..." é disso que
ela gosta, que mandem nela...
- É gente como você, Rony - começou Hermione com veemência -, que
sustenta sistemas podres e injustos, só porque são preguiçosos demais para...
Um novo estrondo ecoou na orla da floresta.
- Vamos continuar andando, vamos? - disse Rony, e Harry o viu olhar
irritado para Hermione.
Talvez fosse verdade o que Malfoy dissera; talvez Hermione estivesse em
maior perigo do que eles. Recomeçaram a andar, Harry ainda revistando os
bolsos, embora soubesse que a varinha não estava ali.
Os garotos seguiram o caminho que se aprofundava na floresta, atentos
para avistarem Fred, Jorge e Gina. Passaram por um grupo de duendes que
davam gargalhadas à vista de um saco de ouro que, sem dúvida, deviam ter
ganho apostando na partida, e que pareciam imperturbáveis diante da confusão
no acampamento. Mais adiante, depararam com um trecho iluminado por uma luz
prateada e, quando espiaram entre as árvores, viram três veela altas e belas
paradas em uma clareira e cercadas por um bando de jovens bruxos barulhentos,
todos falando em altos brados.
- Ganho uns cem sacos de galeões por ano - gritava um. - Mato dragões
para a Comissão para Eliminação de Criaturas Perigosas.
- Mata nada - berrou seu amigo -, você lava pratos no Caldeirão Furado...
mas eu sou caçador de vampiros, já matei uns noventa até agora...
Um terceiro bruxo, cujas espinhas eram visíveis até à luz fraca e prateada
das veela, entrou nesse instante na conversa:
- Eu estou às vésperas de me tornar o Ministro da Magia mais novo de
todos os tempos.
Harry deu risadinhas abafadas. Reconheceu o bruxo espinhento; o nome
dele era Stanislau Shunpike, e era, na realidade, condutor do Nôitibus Andante.
Ele se virou para dizer isso a Rony, mas o rosto do amigo se afrouxara
estranhamente e no segundo seguinte Rony estava gritando:
- Eu já disse a vocês que inventei uma vassoura que pode chegar a
Júpiter?
- Francamente! - tornou a exclamar Hermione, e ela e Harry agarraram
Rony pelos braços com firmeza, viraram-no e saíram andando com ele. Quando a
algazarra das veela com seus admiradores se tornou completamente inaudível, os


três já estavam no coração da floresta. Pareciam estar sozinhos agora, tudo
estava muito mais quieto. Harry espiou para os lados.
- Acho que podemos esperar aqui, sabe, dá para ouvir uma pessoa
chegando a mais de um quilômetro.
Nem bem ele dissera essas palavras, Ludo Bagman saiu de trás de uma
árvore um pouco adiante. Mesmo à luz fraca das duas varinhas, Harry viu que
uma grande mudança se operara em Bagman. Ele já não parecia displicente e
rosado; não havia mais elasticidade em seu andar. Parecia muito pálido e
cansado.
- Quem está aí? - perguntou o bruxo, piscando os olhos, tentando distinguir
os rostos dos garotos.
- Que é que vocês estão fazendo aqui sozinhos?
Eles se entreolharam surpresos.
- Bem... está acontecendo um tumulto - disse Rony.
Bagman arregalou os olhos para ele.
- Quê?
- No acampamento... umas pessoas agarraram uma família de trouxas...
Bagman praguejou em voz alta.
- Desgraçados! - Ele pareceu ficar muito perturbado e, sem dizer mais
nada, desaparatou com um pequeno estalo.
- Não anda muito bem informado o Sr. Bagman, não é? - comentou
Hermione franzindo a testa.
- Mas ele foi um grande batedor - disse Rony e, adiantando-se aos amigos,
rumou para uma pequena clareira e se sentou em um trecho de grama seca ao pé
de uma árvore. - Os Wimbourne Wasps foram campeões três vezes seguidas
quando ele fazia parte do time.
Tirou, então, a pequena estátua de Krum do bolso, colocou-a no chão e
ficou por instantes observando-a andar. Igualzinho ao Krum verdadeiro, o modelo
andava com os pés para fora e tinha os ombros caídos, bem menos
impressionante andando feito pato do que montado na vassoura. Harry escutou
com atenção se vinha algum barulho do acampamento. Tudo parecia silencioso;
talvez o tumulto tivesse acabado.
- Espero que os outros estejam bem - disse Hermione depois de algum
tempo.
- Estão - disse Rony;
- Imagine se o seu pai apanhar o Lúcio Malfoy - disse Harry sentando-se ao
lado de Rony para observar a estatueta de Krum andando por cima das folhas
secas. - Ele vive dizendo que gostaria de ter alguma coisa contra o Malfoy.
- Isso ia apagar aquele risinho na cara do nosso amigo Draco, ah, ia - disse
Rony.
- Mas, e os coitados daqueles trouxas - lamentou Hermione nervosa. - E se
não conseguirem trazer eles de volta ao chão?
- Vão conseguir - Rony tranqüilizou a amiga -, vão arranjar um jeito.
- Mas é uma loucura fazer uma coisa daquelas com o Ministério da Magia
em peso aqui hoje! Quero dizer, como é que eles esperam se safar? Vocês acham
que eles andaram bebendo ou só...


Mas Hermione parou de falar abruptamente e espiou por cima do ombro.
Harry e Rony também se viraram depressa. Parecia que alguém estava
cambaleando em direção à clareira em que se encontravam. Eles esperaram,
prestando atenção ao ruído dos passos desiguais por trás das árvores escuras.
Mas os passos pararam repentinamente.
- Alôô? - chamou Harry.
Silêncio. Harry se levantou e espiou atrás da árvore. Estava escuro para ver
muito longe, mas ele sentia que havia alguém logo além do seu campo de visão.
- Quem está aí? - perguntou.
E então, sem aviso, o silêncio foi rompido por uma voz diferente de todas
que tinham ouvido antes; e ela não soltou um grito, mas algo que lembrava um
feitiço.
- MORSMORDRE!
E uma coisa enorme, verde e brilhante, irrompeu do lugar escuro que os
olhos de Harry se esforçaram para penetrar e voou para o topo das árvores e para
o céu.
- Quem...? - exclamou Rony, ficando em pé de um salto e arregalando os
olhos para a coisa que aparecera.
Por uma fração de segundo, Harry pensou que fosse outra formação de
duendes irlandeses. Depois percebeu que era um crânio colossal, aparentemente
composto por estrelas de esmeralda e uma cobra saindo da boca como uma
língua. Enquanto olhavam, o crânio foi subindo cada vez mais alto, envolto em
uma névoa de fumaça esverdeada, recortando-se contra o céu noturno como uma
nova constelação.
De repente, toda a floresta ao redor deles explodiu em gritos. Harry não
entendeu o motivo, mas o único possível era a súbita aparição do crânio, que
agora estava alto o suficiente para iluminar toda a
floresta, como um letreiro macabro de néon.
Ele esquadrinhou a escuridão à procura da pessoa que conjurara o crânio, mas
não conseguiu ver ninguém.
- Quem está aí? - chamou ele mais uma vez.
- Harry, vamos, anda! - Hermione agarrou-o pelas costas da jaqueta e o
puxou para trás.
- Que foi? - perguntou Harry, espantado de ver a cara da amiga tão branca
e aterrorizada.
- É a Marca Negra, Harry! - gemeu Hermione, puxando-o com toda a força
que podia. - O sinal do Você-Sabe-Quem!
- Do Voldemort...?
- Harry, anda logo!
Harry se virou - Rony estava recolhendo depressa a miniatura de Krum -, os
três começaram a atravessar a clareira - mas antes que conseguissem dar mais
de cem passos, uma série de estalos anunciaram a chegada de vinte bruxos,
saídos do nada, a toda volta.
Harry se virou e numa fração de segundo registrou um fato: cada um dos
bruxos puxara a varinha, e cada varinha estava apontada para ele, Rony e
Hermione. Sem parar para pensar, berrou:
- ABAIXA! - Ele agarrou os dois amigos e puxou-os para o chão.


- ES TUPEFA ÇA! - berraram vinte vozes desencadeando uma série de
lampejos, e Harry sentiu seus cabelos ondularem como se um vento poderoso
tivesse varrido a clareira. Ao erguer a cabeça um centimetro, ele viu jorros de luz
flamejante saírem das varinhas dos bruxos e sobrevoarem seus corpos,
entrecruzando-se, ricocheteando nos troncos das árvores, saltando para a
escuridão...
- Parem! - berrou uma voz que ele reconheceu. - PAREM! É o meu filho!
Os cabelos de Harry pararam de voar para todos os lados. Ele levantou a
cabeça mais um pouquinho. O bruxo diante dele baixara a varinha. O garoto rolou
o corpo e viu o Sr. Weasley vindo em direção ao ajuntamento, com uma
expressão aterrorizada no rosto.
- Rony, Harry... - sua voz tremia -... Hermione, vocês estão bem?
- Saia do caminho, Arthur - disse uma voz fria e ríspida.
Era o Sr. Crouch. Ele e os outros bruxos do Ministério fechavam o cerco em
torno dos garotos. Harry levantou-se para encará-los. O rosto do Sr. Crouch
estava tenso de cólera.
- Qual de vocês fez aquilo? - perguntou aborrecido, seus olhos penetrantes
indo de um garoto para o outro. - Qual de vocês conjurou a Marca Negra?
- Nós não conjuramos aquilo! - respondeu Harry apontando o crânio.
- Nós não conjuramos nada! - disse Rony, que esfregava o cotovelo e
olhava cheio de indignação para o pai. - Por que vocês nos atacaram?
- Não minta, senhor! - gritou o Sr. Crouch. Sua varinha continuava apontada
diretamente para Rony, e seus olhos saltavam das órbitas, parecia um tanto
maluco. - Vocês foram encontrados na cena do crime!
- Bartô - murmurou uma bruxa trajando um longo penhoar de lã -, eles são
meninos, Bartô, nunca teriam capacidade para...
- De onde saiu a marca? Respondam vocês três - mandou o Sr. Weasley
depressa.
- Dali - respondeu Hermione trêmula, apontando para o ponto em que
tinham ouvido a voz -, havia alguém atrás das árvores... gritou umas palavras,
uma fórmula mágica...
- Ah, havia gente parada ali, é mesmo? - disse o Sr. Crouch, virando seus
olhos saltados para Hermione, a incredulidade estampada por todo o rosto. -
Disseram uma fórmula mágica, não foi? A senhorita parece multo bem informada
sobre as palavras que conjuram a Marca, senhorita...
Mas nenhum dos bruxos do Ministério, exceto o Sr. Crouch, achou nem
remotamente provável que Harry, Rony e Hermione tivessem conjurado o crânio,
muito ao contrário, ao ouvirem as palavras de Hermione voltaram a erguer e
apontar as varinhas na direção que ela indicara, procurando ver entre as árvores
escuras.
- Tarde demais - disse a bruxa de penhoar de lã, sacudindo a cabeça. - Já
devem ter desaparatado.
- Acho que não - disse um bruxo com uma barba curta e castanha. Era
Amos Diggory, o pai de Cedrico. - Os nossos raios passaram direto por aquelas
árvores... há uma boa chance de os termos atingido...
- Amos, cuidado! - disseram alguns bruxos em tom de alerta, quando o Sr.
Diggory aprumou os ombros, ergueu a varinha, atravessou a clareira e


desapareceu na escuridão. Hermione observou-o sumir, levando as mãos à boca.
Alguns segundos depois, eles ouviram o Sr. Diggory gritar.
- Acertamos, sim! Tem alguém aqui! Inconsciente! É... mas... caramba...
- Você pegou alguém? - gritou o Sr. Crouch, parecendo muitíssimo
incrédulo. - Quem? Quem é?
Eles ouviram gravetos se partirem, folhas farfalharem e, por fim, passos
quando o Sr. Diggory reapareceu por trás das árvores. Trazia uma figura
minúscula e inerte nos braços. Harry reconheceu a toalha de chá na mesma hora.
Era Winky.
O Sr. Crouch não se mexeu nem falou enquanto o Sr. Diggory depositava o
elfo do Sr. Crouch no chão aos seus pés. Todos os bruxos do Ministério se
viraram para o Sr. Crouch. Durante alguns segundos o bruxo permaneceu
paralisado, os olhos ardendo no rosto branco, olhando para Winky. Então, ela
pareceu voltar à vida.
- Isto... não pode... ser - disse ele aos arrancos. - Não...
Contornou rápido o Sr. Diggory e saiu em direção ao lugar em que o bruxo
encontrara Winky.
- Não adianta, Sr. Crouch - gritou Diggory para ele. - Não há mais ninguém
aí.
Mas o Sr. Crouch não parecia disposto a aceitar sua palavra. Eles o
ouviram andar por todo o lado, as folhas rumorejarem ao serem afastadas para os
lados, na busca.
- Meio embaraçoso - disse o Sr. Diggory sombriamente, contemplando o
corpo inconsciente de Winky. - O elfo doméstico de Bartô Crouch... quero dizer...
- Pode parar, Amos - disse o Sr. Weasley baixinho. - Você não acredita
seriamente que foi o elfo? A Marca Negra é um sinal de bruxo. Exige uma varinha.
- É - disse o Sr. Diggory -, e havia uma varinha.
- Quê?- exclamou o Sr. Weasley.
- Olhe aqui. - O Sr. Diggory ergueu uma varinha e mostrou-a ao Sr.
Weasley. - Estava na mão dela. Então, para começar, violação da Cláusula 3 do
Código para o Uso de Varinhas. Nenhuma criatura não-humana tem permissão
para portar ou usar uma varinha.
Nesse instante ouviu-se mais um estalo e Ludo Bagman aparatou bem ao
lado do Sr. Weasley. Parecendo sem fôlego e desorientado, ele girou no mesmo
lugar, com os olhos cravados no crânio verde esmeralda no céu.
- A Marca Negra! - ofegou ele, quase pisoteando Winky ao se virar,
intrigado, para os colegas. - Quem fez isso? Vocês apanharam quem fez? Bartô!
Que é que está acontecendo?
O Sr. Crouch voltara de mãos vazias. Seu rosto continuava branco como o
de um fantasma e torcia tanto os bigodes em escovinha quanto as mãos.
- Onde é que você andou, Bartô? - perguntou Bagman. - Por que é que
você não assistiu à partida? E o seu elfo ficou guardando uma cadeira para você...
Gárgulas vorazes! - Bagman acabara de notar Winky caída aos seus pés. - Que
foi que aconteceu com ela?
- Estive ocupado, Ludo - disse o Sr. Crouch, ainda falando aos arrancos
como antes, e mal movendo os lábios. - E o meu elfo foi estuporado.


- Estuporado? Por gente nossa você quer dizer? Mas por quê...? De
repente o rosto redondo e reluzente de Bagman revelou ter compreendido, ele
ergueu os olhos para o crânio, baixou-os para Winky e, em seguida, ergueu-os
para o Sr. Crouch.
- Não! - exclamou ele. - Winky? Conjurou a Marca Negra? Ela não saberia
fazer isso! Para começar precisaria de uma varinha!
- E tinha uma - disse o Sr. Diggory. - Encontrei-a segurando uma, Ludo. Se
o senhor não se opõe, Sr. Crouch, acho que devíamos ouvir o que ela tem a dizer
em sua defesa.
Crouch não deu sinal de ter ouvido o Sr. Diggory, mas este pareceu tomar o
silêncio do outro por concordância. Ergueu a varinha e apontando-a para Winky
disse:
- Enervate!
Winky mexeu-se fracamente. Seus grandes olhos castanhos se abriram e
ela piscou várias vezes de um jeito meio abobado. Observada pelos bruxos em
silêncio, ergueu o tronco aos poucos e se sentou.
Avistou, então, os pés do Sr. Diggory e lentamente, tremulamente, ergueu
os olhos para fixar seu rosto, mais lentamente ainda, olhou para o céu. Harry viu o
crânio flutuante refletir-se duas vezes em seus enormes olhos vidrados. Ela soltou
uma exclamação, olhou a clareira em volta, agitada, e irrompeu em soluços
aterrorizados.
- Elfo! - disse o Sr. Diggory severamente. - Você sabe quem eu sou? Sou
do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas!
Winky começou a se balançar no chão para frente e para trás, a respiração
saindo em fortes arquejos. Harry teve que se lembrar de Dobby em seus
momentos de aterrorizada desobediência.
- Como você está vendo, elfo, a Marca Negra foi conjurada aqui há alguns
instantes - disse o bruxo. - E você foi descoberta, pouco depois, logo embaixo
dela! Sua explicação, por favor!
- Eu... eu... eu não estou fazendo isso, meu senhor! - Winky ofegou. - Eu
não estou sabendo, meu senhor!
- Você foi encontrada com uma varinha na mão! - vociferou o Sr. Diggory,
brandindo a varinha diante dela. E quando a varinha refletiu a luz verde, vinda do
crânio no alto, que inundava a clareira, Harry a reconheceu.
- Ei... é minha! - disse.
Todos na clareira olharam para o garoto.
- Perdão? - disse o Sr. Diggory incrédulo.
- É a minha varinha! - repetiu Harry. - Deixei-a cair!
- Deixou-a cair? - repetiu o bruxo incrédulo. - Isto é uma confissão? Você se
desfez dela depois de conjurar a Marca?
- Amos, lembre-se de com quem está falando! - disse o Sr. Weasley, muito
zangado. ­ Acha provável que Harry Potter conjure a Marca Negra?
- Hum... claro que não - murmurou o Sr. Diggory. - Desculpem... me
empolguei...
- Em todo o caso, não a deixei cair lá - disse Harry, indicando com o polegar
as árvores. - Dei falta dela logo depois que entramos na floresta.


- Então - disse o Sr. Diggory, seu olhar endurecendo ao se virar novamente
para Winky que se encolhia aos seus pés. - Você encontrou a varinha, não foi,
elfo? E você a apanhou e pensou em se divertir com ela, é isso?
- Eu não estava fazendo mágica com ela, meu senhor! - guinchou Winky, as
lágrimas correndo pelos lados do nariz achatado e grande. - Eu estava... eu
estava... eu estava só apanhando ela, meu senhor! Eu não estava fazendo a
Marca Negra, meu senhor, eu não sei fazer!
- Não foi ela! - afirmou Hermione. Ela parecia muito nervosa, dizendo o que
pensava diante de todos aqueles bruxos do Ministério, mas, ainda assim, decidida.
- Winky tem uma vozinha esganiçada e a voz que ouvimos dizer a fórmula era
muito mais grave! - Ela olhou para os lados à procura de Harry e Rony, à procura
de apoio. - Não parecia nada com a voz da Winky, parecia?
- Não - confirmou Harry, sacudindo a cabeça. - Decididamente não parecia
voz de elfo.
- É, era uma voz humana - disse Rony.
- Bem, logo veremos - rosnou o Sr. Diggory, sem parecer se impressionar. ­
Há uma maneira simples de descobrir o último feitiço que a varinha realizou, você
sabia, elfo?
Winky estremeceu e sacudiu a cabeça freneticamente, as orelhas
abanando, quando o Sr. Diggory ergueu a própria varinha e encostou-a, ponta
com ponta, na de Harry.
- Prior Incantato!- rugiu o Sr. Diggory.
Harry ouviu Hermione prender a respiração horrorizada, quando um crânio
com uma enorme língua de cobra surgiu no ponto em que as duas varinhas se
tocavam, mas era uma mera sombra do crânio verde no alto, parecia até feito de
uma espessa fumaça cinzenta: o fantasma de um feitiço.
- Deletrius!- bradou o Sr. Diggory, e o crânio difuso desapareceu
transformado em um fiapo de fumaça.
- Então, disse o Sr. Diggory com um tom de furioso triunfo, fixando Winky,
que continuava a tremer convulsivamente.
- Eu não estava fazendo isso! - guinchou o elfo, seus olhos revirando
aterrorizados. - Eu não estava, eu não estava, eu não sei fazer!
- Você foi apanhada com a mão na botija, elfo - rugiu o Sr. Diggory. ­
Apanhada com a mão na varinha culpada!
- Amos - disse o Sr. Weasley em voz alta -, pense um pouco...
pouquíssimos bruxos sabem fazer esse feitiço... onde ela o teria aprendido?
- Talvez Amos esteja insinuando - disse o Sr. Crouch, a fúria reprimida em
cada sílaba - que eu rotineiramente ensino meus criados a conjurarem a Marca
Negra?
Seguiu-se um silêncio profundamente desagradável. Amos Diggory pareceu
horrorizado.
- Sr. Crouch... de... de jeito nenhum...
- Você agora já chegou quase a denunciar as duas pessoas nesta clareira
que menos provavelmente conjurariam aquela Marca! - vociferou o Sr. Crouch.
- Harry Potter... e eu! Suponho que você conheça a história do garoto,
Amos?


- Claro, todos conhecem... - murmurou o Sr. Diggory, parecendo
extremamente sem graça.
- E espero que se lembre das muitas provas que tenho dado, durante a
minha longa carreira, de que desprezo e detesto as Artes das Trevas e aqueles
que a praticam - gritou o Sr. Crouch, os olhos saltando das órbitas outra vez.
- Sr. Crouch, eu... eu nunca insinuei que o senhor tenha alguma coisa a ver
com isso! ­ murmurou Amos Diggory, corando por baixo da barba castanha e
curta.
- Se você acusa o meu elfo, você acusa a mim, Diggory! Onde mais ela
teria aprendido a conjurar a Marca?
- Ela... ela poderia ter aprendido em qualquer lugar...
- Precisamente, Amos - disse o Sr. Weasley. - Ela poderia ter aprendido em
qualquer lugar...
- Winky? - disse ele bondosamente, virando-se para o elfo, que se encolheu
como se este bruxo também estivesse gritando com ela. - Onde foi exatamente
que você encontrou a varinha de Harry?
Winky estava torcendo a barra da toalha de chá com tanta violência que o
pano se esfiapava entre seus dedos.
- Eu... eu estava encontrando... encontrando ela lá, meu senhor... -
murmurou ela - lá... no meio das árvores...
- Está vendo, Amos? - disse o Sr. Weasley. - Quem quer que tenha
conjurado a Marca poderia ter desaparatado logo em seguida, deixando a varinha
de Harry para trás. Uma idéia inteligente, não ter usado a própria varinha, que
poderia tê-lo denunciado. E Winky aqui teve a infelicidade de encontrar a varinha
momentos depois e de apanhá-la.
- Mas, então, ela deve ter estado a poucos passos do verdadeiro
responsável! - disse o Sr. Diggory com impaciência. - Elfo? Você viu alguém?
Winky começou a tremer mais que nunca. Seus olhos imensos piscaram
indo do Sr. Diggory para Ludo Bagman e dele para o Sr. Crouch. Então ela engoliu
em seco e disse:
- Eu não estava vendo ninguém... ninguém...
- Amos - disse o Sr. Crouch secamente -, estou muito consciente de que
normalmente você iria querer levar Winky para interrogatório no seu
departamento. Mas vou-lhe pedir que me deixe cuidar dela.
O Sr. Diggory fez cara de quem não achava a sugestão muito boa, mas
ficou claro para Harry que o Sr. Crouch era um funcionário tão importante no
Ministério que o outro não se atreveria a recusar o pedido.
- Pode ficar tranqüilo de que ela será castigada - acrescentou o Sr. Crouch
friamente.
- M-m-meu senhor... - gaguejou Winky, olhando para o Sr. Crouch, seus
olhos rasos de lágrimas. - M-m-meu senhor, p-p-por favor...
O Sr. Crouch encarou o elfo, seu rosto ainda mais agressivo, cada ruga
nele profundamente marcada. Não havia piedade em seu olhar.
- Esta noite Winky se portou de uma forma que eu não teria imaginado
possível - disse ele lentamente. - Eu a mandei permanecer na barraca. Mandei-a
permanecer ali enquanto eu ia resolver o problema. E descubro que ela me
desobedeceu. Isto significa roupas.


- Não! - berrou Winky, prostrando-se aos pés do Sr. Crouch. - Não, meu
senhor! Roupas não, roupas não!
Harry sabia que a única maneira de libertar um elfo doméstico era
presenteá-lo com roupas decentes. Era penoso ver como Winky se agarrava à sua
toalha de chá enquanto soluçava sobre os sapatos do Sr. Crouch.
- Mas ela estava assustada! - explodiu Hermione aborrecida, encarando o
Sr. Crouch. - O seu elfo tem pavor de alturas, e aqueles bruxos estavam fazendo
as pessoas levitarem! O senhor não pode culpá-la por ter querido sair de perto!
O Sr. Crouch deu um passo atrás, desvencilhando-se do contato com o
elfo, a quem ele examinava como se fosse algo imundo e podre que contaminava
seus sapatos muito bem engraxados.
- Não preciso de um elfo doméstico que me desobedeça - disse ele
friamente, erguendo os olhos para Hermione. - Não preciso de uma criada que
esquece o que deve ao seu senhor e à reputação do seu senhor.
Winky chorava tanto que seus soluços ecoavam pela clareira. Seguiu-se um
silêncio desagradável, que foi interrompido pelo Sr. Weasley, ao dizer baixinho:
- Bom, acho que vou levar o meu pessoal de volta à barraca, se ninguém
tiver objeções a fazer. Amos, a varinha já nos informou tudo que pôde, se Harry
puder levá-la, por favor...
O Sr. Diggory entregou a varinha a Harry e ele a embolsou.
- Vamos, vocês três - disse o Sr. Weasley em voz baixa. Mas Hermione não
parecia querer arredar pé, seus olhos ainda miravam o elfo soluçante.
- Hermione! - chamou o Sr. Weasley com mais urgência. Ela se virou e
acompanhou Harry e Rony para fora da clareira, embrenhando-se entre as
árvores.
- Que é que vai acontecer com Winky? - perguntou ela no instante em que
deixaram a clareira.
- Não sei - respondeu o Sr. Weasley.
- O jeito como a trataram! - disse Hermione, furiosa. - O Sr. Diggory
chamando-a de "elfo" o tempo todo... e o Sr. Crouch! Ele sabe que não foi ela e
ainda assim vai despedir Winky! Não se importou que ela tivesse sentido medo
nem que estivesse perturbada, era como se ela nem fosse humana!
- E ela não é - disse Rony.
Hermione se voltou contra ele.
- Isso não significa que não tenha sentimentos, Rony, é repugnante o jeito...
- Hermione, eu concordo com você - disse o Sr. Weasley depressa, fazendo
sinal para a garota continuar andando -, mas agora não é hora de discutir os
direitos dos elfos. Quero voltar à barraca o mais depressa que pudermos. Que
aconteceu aos outros?
- Nós os perdemos no escuro - disse Rony. - Papai, por que todo mundo
estava tão nervoso com aquele crânio?
- Eu explico tudo quando estivermos na barraca - prometeu ele, tenso.
Mas quando alcançaram a orla da floresta, depararam com um obstáculo.
Havia ali uma aglomeração de bruxas e bruxos assustados, e, quando viram o Sr.
Weasley caminhando em sua direção, muitos foram ao seu encontro.
- Que é que está acontecendo na floresta?
- Quem conjurou aquilo?


- Arthur, não é... ele?
- Claro que não é ele - disse o Sr. Weasley impaciente. - Não sabemos
quem foi, parece que desaparatou. Agora, me dêem licença, por favor, quero ir me
deitar.
Ele passou com Harry, Rony e Hermione pela aglomeração e voltou ao
acampamento. Tudo estava silencioso agora, não havia sinal de bruxos
mascarados, embora várias barracas destruídas ainda fumegassem.
Carlinhos meteu a cabeça pela abertura da barraca dos garotos.
- Papai, que é que está acontecendo? - perguntou ele no escuro. - Fred,
Jorge e Gina já voltaram, mas os outros...
- Estão aqui comigo - respondeu o Sr. Weasley, se abaixando pra entrar na
barraca. Harry, Rony e Hermione entraram atrás dele. Gui estava sentado à
pequena mesa da cozinha, apertando um braço com um lençol, que sangrava
profusamente. Carlinhos tinha um rasgo na camisa e Percy ostentava um nariz
ensangüentado. Fred, Jorge e Gina pareciam ilesos, embora abalados.
- Pegou ele, papai? - perguntou Gui bruscamente. - A pessoa que conjurou
a Marca?
- Não. Encontramos o elfo de Bartô Crouch segurando a varinha de Harry,
mas não ficamos sabendo quem realmente conjurou a Marca.
- Quê?- exclamaram Gui, Carlinhos e Percy, juntos.
- A varinha de Harry? - disse Fred.
- O elfo do Sr. Crouch?- disse Percy, parecendo estupefato.
Com alguma ajuda de Harry, Rony e Hermione, o Sr. Weasley explicou o
que acontecera na floresta. Quando terminaram a história, Percy encheu-se de
indignação.
- Ora, o Sr. Crouch tem toda razão em querer se livrar de um elfo desses! -
exclamou ele. ­ Fugir desse jeito depois que ele o mandou expressamente fazer o
contrário... envergonhando o dono diante de todo o Ministério... que iria parecer se
ele tivesse que comparecer no Departamento para Regulamentação e Controle...
- Ela não fez nada, só estava no lugar errado na hora errada! - disse
bruscamente Hermione a Percy, que ficou muito espantado. Hermione sempre se
dera muito bem com ele, melhor até que qualquer dos outros.
- Hermione, um bruxo na posição do Sr. Crouch não pode se dar ao luxo de
ter um elfo doméstico que endoida com uma varinha na mão! - disse Percy,
pomposamente, recuperando-se do espanto.
- Ela não ficou maluca! - gritou Hermione. - Ela só apanhou a varinha no
chão!
- Olha aqui, será que alguém pode explicar o que significava aquele crânio?
- perguntou Rony impaciente. - Não estava fazendo mal a ninguém... por que esse
escândalo todo?
- Eu já lhe disse, é o símbolo do Você-Sabe-Quem, Rony - disse Hermione,
antes que mais alguém pudesse responder. ­ Li sobre ele em Ascensão e queda
das artes das trevas.
- E não é visto há treze anos - acrescentou o Sr. Weasley em voz baixa. - E
claro que as pessoas entraram em pânico... foi quase o mesmo que rever Você-
Sabe-Quem.


- Não estou entendendo - disse Rony, franzindo a testa. - Quero dizer... é
apenas uma forma no céu...
- Rony, Você-Sabe-Quem e seus seguidores projetavam a Marca Negra no
céu sempre que matavam alguém - disse o Sr. Weasley. - O terror que isso
inspirava... você não faz idéia, era muito criança. Mas imagine a pessoa chegar
em casa e encontrar a Marca Negra pairando sobre ela, sabendo o que vai
encontrar lá dentro...
- O Sr. Weasley fez uma careta. - O que todos temem mais... temem mais
do que tudo...
Houve um silêncio momentâneo. Então Gui, levantando o lençol do braço
para verificar o corte, disse:
- Bem, não fez nenhum bem à gente esta noite, quem quer que tenha
conjurado aquilo. A Marca Negra afugentou os Comensais da Morte no momento
em que a viram. Todos desaparataram antes que chegássemos bastante próximos
para arrancar a máscara deles. Aliás, seguramos os Roberts antes que atingissem
o chão. A memória deles está sendo alterada.
- Comensais da Morte? - perguntou Harry. ­ Que são Comensais da Morte?
- É o nome que os seguidores de Você-Sabe-Quem davam a si mesmos.
Acho que vimos o que restou deles hoje à noite, pelo menos os que conseguiram
ficar fora de Azkaban.
- Não podemos provar que eram eles, Gui - disse o Sr. Weasley. ­ Embora
provavelmente tenham sido ­ acrescentou desanimado.
- E, aposto que eram! - disse Rony repentinamente. - Papai, encontramos
Draco Malfoy na floresta, e ele praticamente nos disse que o pai dele era um dos
idiotas mascarados! E todos sabemos que os Malfoy eram íntimos de Você-Sabe-
Quem!
- Mas o que é que os seguidores de Voldemort... - começou Harry. Todos
se encolheram, como a maioria das pessoas no mundo dos bruxos, os Weasley
sempre evitavam dizer o nome de Voldemort. - Desculpem - disse Harry depressa.
- Mas o que é que os seguidores de Você-Sabe-Quem pretendiam fazendo
aqueles trouxas levitar? Quero dizer, qual era o objetivo?
- O objetivo? - disse o Sr. Weasley com uma risada desanimada. - Harry,
essa é a idéia que fazem de uma brincadeira. Metade das mortes de trouxas
quando Você-Sabe-Quem estava no poder foi feita de brincadeira. Imagino que
eles tenham tomado uns drinques esta noite e não puderam resistir ao impulso de
nos lembrar que um grande número deles continua em liberdade. Uma
reuniãozinha simpática - terminou ele desgostoso.
- Mas se eles eram realmente os Comensais da Morte, por que
desaparataram quando viram a Marca Negra? - perguntou Rony. - Deveriam ter
ficado felizes de ver a Marca, não?
- Usa os miolos, Rony - disse Gui. - Se eles eram realmente os Comensais
da Morte, se viraram de todo o jeito para não serem mandados para Azkaban
quando Você-Sabe-Quem perdeu o poder, e contaram um monte de mentiras de
que ele os forçara a matar e torturar gente. Aposto como sentiriam ainda mais
medo do que nós ao ver que ele estava voltando. Negaram que estivessem
metidos com Você-Sabe-Quem quando ele perdeu o poder e voltaram as suas


vidinhas de sempre... acho que o Lord não ficaria muito satisfeito de ver essa
gente, não é mesmo?
- Então... quem conjurou a Marca Negra... - disse Hermione lentamente -
estava fazendo, isso para manifestar apoio ou amedrontar os Comensais da
Morte?
- O seu palpite vale tanto quanto o meu, Hermione - disse o Sr. Weasley -,
mas vou lhe dizer uma coisa... somente os Comensais eram capazes de conjurar
a Marca. Eu ficaria muito surpreso se a pessoa que a conjurou não tivesse sido
um dia Comensal da Morte, mesmo que não o seja agora... Olhem, é muito tarde,
e se sua mãe ouvir falar do que aconteceu vai morrer de preocupação. Vamos
dormir mais um pouco e depois tentar pegar um portal bem cedo para sair daqui.
Harry voltou ao seu beliche com a cabeça zunindo. Sabia que devia estar
se sentindo exausto, eram quase três horas da manhã, mas estava
completamente acordado - completamente acordado e preocupado.
Há três dias - parecia muito mais, mas só tinham sido três dias - acordara
com a cicatriz ardendo. E esta noite, pela primeira vez em treze anos, a Marca de
Lord Voldemort tinha aparecido no céu. Que significavam essas coisas?
Ele pensou na carta que escrevera a Sirius antes de deixar a rua dos
Alfeneiros. Será que o padrinho já a recebera? Quando iria mandar resposta?
Harry ficou contemplando a lona, mas não lhe ocorreu nenhum devaneio em que
voasse para ajudá-lo a adormecer e somente muito tempo depois, quando os
roncos de Carlinhos encheram a barraca, foi que o garoto finalmente adormeceu.


- CAPITULO DEZ -
Caos no Ministério

O Sr. Weasley acordou os garotos após algumas horas de sono. Usou
magia para fechar e dobrar as barracas, e o grupo deixou o acampamento o mais
depressa que pôde, passando pelo Sr. Roberts à porta da casa. O homem tinha
um estranho olhar vidrado e acenou se despedindo com um vago "Feliz Natal".
- Ele vai ficar bom - disse o Sr. Weasley baixinho, quando começaram a
atravessar a charneca. - As vezes, quando a memória de uma pessoa é alterada,
ela fica um pouco desorientada durante algum tempo... e precisaram fazê-lo
esquecer muita coisa.
Eles ouviram vozes ansiosas quando se aproximaram do lugar onde estava
a chave do portal e, ao chegarem, encontraram numerosos bruxos e bruxas
reunidos em torno de Basílio, o guardador das chaves dos portais, todos exigindo,
em altos brados, partir do acampamento o mais rápido possível. O Sr. Weasley
teve uma discussão com Basílio, eles entraram na fila e conseguiram tomar um
velho pneu de volta ao monte Sroatshead antes do sol realmente nascer. Voltaram
caminhando por dentro de Ottery St. Catchpole, em direção à Toca, à claridade da
alvorada, falando muito pouco porque estavam demasiado exaustos e ansiosos
pelo café da manhã que iriam tomar.
Ao virarem para a estrada de casa e avistarem A Toca, um grito ecoou pela
estrada úmida.
- Ah, graças a Deus, graças a Deus!


A Sra. Weasley, que evidentemente estivera à espera diante da casa, veio
correndo ao encontro deles, ainda usando chinelos, o rosto pálido e tenso, um
exemplar amassado do Profeta Diário amarrotado na mão.
- Arrhur... eu estava tão preocupada... tão preocupada...
Ela se atirou ao pescoço do marido e o Profeta Diário caiu de sua mão
frouxa no chão. Baixando os olhos, Harry leu a manchete: CENAS DE TERROR
NA COPA MUNDIAL DE QUADRIBOL, completa com uma foto em preto e branco
da Marca Negra cintilando sobre as copas das árvores.
- Vocês estão bem - murmurou a Sra. Weasley distraída, largando o marido
e olhando para os garotos com os olhos vermelhos -, vocês estão vivos... ah,
meninos...
E para surpresa de todos, agarrou Fred e Jorge e puxou os dois para um
abraço tão apertado que as cabeças dos garotos se chocaram.
- Ai! Mamãe, você está estrangulando a gente...
- Gritei com vocês antes de irem embora! - disse a mãe, começando a
soluçar. - é só nisso que estive pensando! E se Você-Sabe-Quem tivesse pegado
vocês, e a última coisa que disse aos dois foi que não obtiveram suficientes
N.O.M"s? Ah, Fred... Jorge...
- Ora vamos, Molly, estamos todos perfeitamente bem - disse o Sr. Weasley
acalmando-a, desvencilhando-a dos gêmeos e levando-a em direção à casa.
- Gui - murmurou ele em voz mais baixa -, apanhe esse jornal, quero ver o
que diz...
Quando já estavam todos apertados na pequena cozinha e Hermione
preparara uma xícara de chá forte para a Sra. Weasley, no qual o marido insistira
em acrescentar uma dose de uísque, Gui entregou o jornal ao pai.
O Sr. Weasley examinou a primeira página enquanto Percy espiava por
cima do seu ombro.
- Eu sabia - disse o Sr. Weasley deprimido. - Ministério erra... responsáveis
livres... segurança ineficaz... Bruxos das trevas correm desenfreados... desgraça
nacional... Quem escreveu isso? Ah... só podia ser... Rira Skeeter.
- Essa mulher vive implicando com o Ministério da Magia! - reclamou Percy,
furioso. ­ Semana passada ela disse que estávamos perdendo tempo discutindo a
espessura dos caldeirões, quando devíamos estar acabando com os vampiros!
Como se isso não estivesse explícito no parágrafo doze das Diretrizes para o
Tratamento dos Semi-Humanos Não-bruxos...
- Faz um favor à gente, Percy - disse Gui bocejando -, cala a boca.
- Falaram de mim - disse o Sr. Weasley, arregalando os olhos por trás dos
óculos ao chegar ao fim do artigo no Profeta Diário.
- Onde? - perguntou num atropelo a Sra. Weasley, engasgando-se com o
chá batizado com uísque. - Se eu tivesse visto isso, saberia que você estava vivo!
- Não dizem o meu nome - explicou o Sr. Weasley. -Escute isso: Se os
bruxos e as bruxas aterrorizados que prendiam a respiração à espera de notícias
na orla da floresta queriam ouvir do Ministério da Magia uma palavra que os
tranqüilizasse foram lamentavelmente desapontados. Um funcionário do Ministério
saiu da floresta uns minutos depois do aparecimento da Marca Negra, dizendo
que não havia ninguém ferido, mas recusando-se a dar maiores informações.


Resta ver se tal declaração será suficiente para abafar os boatos de que vários
corpos foram retirados da floresta uma hora mais tarde.
- Ah, francamente, disse o Sr. Weasley, exasperado, entregando o jornal a
Percy. Ninguém ficou ferido mesmo, que é que eu deveria dizer? Boatos de que
vários corpos foram retirados da floresta... Ora, agora é que vai haver boatos
depois de ela publicar isso.
Ele soltou um profundo suspiro.
- Molly, vou ter que ir ao escritório, isso vai dar um certo trabalho para
consertar.
- Eu vou com você, pai - disse Percy cheio de importância. - O Sr. Crouch
vai precisar de toda a tripulação a bordo. E aproveito para entregar a ele o meu
relatório sobre os caldeirões, pessoalmente.
O rapaz saiu apressado da cozinha. A Sra. Weasley pareceu muito
aborrecida.
- Arthur, você está de férias! Isso não tem nada a ver com o seu trabalho,
com certeza eles podem resolver o caso sem você, não?
- Tenho que ir, Molly - disse o Sr. Weasley. - Piorei as coisas com a minha
declaração. Vou trocar de roupa um instante e vou...
- Sra. Weasley - disse Harry de repente, incapaz de se conter -, Edwiges
não chegou com uma carta para mim?
- Edwiges, querido? - disse a Sra. Weasley distraída. - Não... não, não
chegou nenhum correio.
Rony e Hermione olharam, curiosos, para Harry. Com um olhar expressivo
para ambos ele disse:
- Tudo bem se eu for deixar minhas coisas no seu quarto, Rony?
- Claro... acho que eu também vou - respondeu Rony na mesma hora. -
Mione?
- Vou - disse ela depressa, e os três saíram decididos da cozinha e subiram
as escadas.
- Que é que está acontecendo, Harry? - perguntou Rony, depois de
fecharem a porta do sótão atrás deles.
- Tem uma coisa que não contei a vocês - disse Harry. - No domingo de
manhã, acordei com a minha cicatriz doendo outra vez.
As reações de Rony e Hermione foram quase exatamente as que Harry
imaginara em seu quarto na rua dos Alfeneiros. Hermione prendeu a respiração e
começou a dar sugestões na mesma hora, mencionando vários livros de
referência e diversas pessoas desde Alvo Dumbledore a Madame Pomfrey, a
enfermeira de Hogwarts. Rony simplesmente fez cara de espanto.
- Mas ele não estava lá, estava? Você-Sabe-Quem? Quero dizer, da última
vez que sua cicatriz ficou doendo, ele esteve em Hogwarts, não foi?
- Tenho certeza de que ele não estava na rua dos Alfeneiros - falou Harry. ­
Mas sonhei com ele...com ele e Pedro, sabe, Rabicho. Não me lembro do sonho
todo agora, mas eles estavam planejando... matar alguém.
Hesitara por um momento quase dizendo "me matar", mas não teve
coragem de fazer Hermione ficar mais horrorizada do que já estava.
- Foi só um sonho - disse Rony tranqüilizando o amigo.- Só um pesadelo.


- É, mas será que foi mesmo? - disse Harry, virando-se para espiar, pela
janela, o céu que clareava. - É esquisito, não é... minha cicatriz dói e três dias
depois os Comensais da Morte se manifestam e o sinal de Voldemort volta a
aparecer no céu.
- Não... diz... o nome... dele! - sibilou Rony entre dentes.
- E lembra o que foi que a Prof Trelawney disse? - continuou Harry, sem dar
atenção a Rony. - No fim do ano passado?
A Profª Trelawney era a professora de Adivinhação dos garotos em
Hogwarts. A expressão aterrorizada de Hermione desapareceu substituída por
uma risadinha de desdém.
- Ah, você não vai prestar atenção ao que aquela velha charlatã diz, vai?
- Você não estava lá - respondeu Harry. - Dessa vez foi diferente. Eu contei
a você, ela entrou em transe, de verdade. E disse que o Lord das Trevas se
reergueria... maior e mais terrível que nunca... e que teria sucesso porque seu
servo ia voltar para ele... e naquela noite Rabicho fugiu.
Seguiu-se um silêncio, em que Rony ficou brincando distraidamente com
um furo em sua colcha dos Chudley Cannons.
- Por que você estava perguntando se Edwiges tinha chegado, Harry? ­
perguntou Hermione. - Você está esperando uma carta?
- Contei ao Sirius sobre a minha cicatriz - disse Harry, encolhendo os
ombros. - Estou esperando a resposta.
- Bem pensado! - exclamou Rony, desanuviando a expressão.
- Aposto que Sirius sabe o que fazer!
- Eu esperava que ele me respondesse logo - disse Harry.
- Mas nós não sabemos onde Sirius está... talvez esteja na África ou em
outro continente, não é? - ponderou Hermione. - Edwiges não poderia fazer uma
viagem dessas em poucos dias.
- É, eu sei - disse Harry, mas teve uma sensação de peso no estômago ao
olhar o céu sem nem sinal de Edwiges.
- Vamos jogar uma partida de quadribol no pomar, Harry - sugeriu Rony. -
Vamos, uma melhor de três, Gui, Carlinhos, Fred e Jorge jogarão... você pode
experimentar a Finta de Wronski...
- Rony - disse Hermione, num tom de quem diz eu não acho que você
esteja sendo muito sensível -, Harry não quer jogar quadribol agora... esta
preocupado e cansado... nós todos precisamos dormir...
- Ah, quero jogar quadribol - disse Harry subitamente. - Guenta aí, vou
pegar a minha Firebolt.
Hermione saiu do quarto resmungando alguma coisa com o som de
"Meninos" Nem o Sr. Weasley nem Percy pararam muito em casa na semana
seguinte. Os dois saíam toda manhã antes do resto da família se levantar e só
voltavam bem depois do jantar.
- Tem sido um absoluto tumulto - contou Percy a todos, cheio de
importância, no domingo à noite, véspera dos garotos regressarem a Hogwarts. ­
Estive apagando incêndios a semana inteira. As pessoas não param de mandar
berradores e, é claro, se a gente não abre um berrador na mesma hora ele
explode. Tem marcas de queimadura por toda a minha mesa e a minha melhor
pena ficou reduzida a cinzas.


- Por que é que estão mandando berradores? - perguntou Gina, que se
ocupava em remendar com fita adesiva o seu exemplar de Mil ervas e fungos
mágicos, sentada no tapete diante da lareira da sala de estar.
- Para se queixarem da falta de segurança na Copa Mundial - disse Percy. -
Querem compensação pelos prejuízos. Mundungo Fletcher entrou com um pedido
de compensação pela perda de uma barraca de doze suítes com banheira jacuzzi,
mas eu saquei logo qual era a dele. Sei sem a menor dúvida que ele estava
dormindo embaixo de uma capa estendida por cima de paus.
A Sra. Weasley olhou para o relógio de carrilhão a um canto da sala. Harry
gostava desse relógio. Era completamente inútil se alguém queria saber as horas,
mas para outras coisas era muito informativo.
Tinha nove ponteiros dourados e em cada um estava gravado o nome de
um Weasley. Não havia números no mostrador, mas o local onde cada membro da
família poderia estar. Havia "casa", "escola" e "trabalho", mas também "perdido",
"hospital", "prisão" e, na posição em que estaria o número doze em um relógio
normal, "perigo mortal".
Oito dos ponteiros indicavam "casa", mas o do Sr. Weasley, que era o mais
comprido, ainda apontava para "trabalho". A Sra. Weasley suspirou.
- O seu pai não precisa ir ao escritório num fim de semana desde o tempo
de Você-Sabe-Quem - disse ela. - Estão obrigando-o a trabalhar demais. O jantar
dele vai estragar se demorar muito mais a chegar em casa.
- Papai acha que precisa compensar o erro que fez no jogo, não é? - disse
Percy. - Verdade seja dita, foi meio imprudente ele fazer uma declaração à
imprensa sem antes pedir autorização ao chefe do departamento...
- Não se atreva a culpar o seu pai pelo que aquela infeliz da Skeeter
escreveu! - disse a Sra. Weasley, irritando-se na hora.
- Se papai não tivesse dito nada, a Rira teria escrito que era lamentável que
ninguém do Ministério tivesse comentado nada - disse Gui, que estava jogando
xadrez com Rony. - Rita Skeeter nunca pinta ninguém de anjo. Estão lembrados
da vez que ela entrevistou todos os desfazedores de feitiços do Gringotes e me
chamou de frangote de cabelo comprido?
- Bom, está um pouco comprido, querido - disse a Sra. Weasley
carinhosamente. ­ Se você me deixasse...
- Não, mamãe.
A chuva açoitava a janela da sala de estar. Hermione lia, absorta, O livro
padrão de feitiços, 4ª série, que a Sra. Weasley comprara para ela, Harry e Rony
no Beco Diagonal. Carlinhos cerzia um gorro à prova de fogo. Harry dava
polimento na Firebolt, o Estojo para Manutenção de Vassouras que Hermione lhe
dera no décimo terceiro aniversário aberto aos seus pés. Fred e Jorge estavam
sentados no canto mais afastado, de penas na mão, conversando aos cochichos,
as cabeças curvadas sobre um pedaço de pergaminho.
- Que é que vocês dois estão aprontando? - perguntou a Sra. Weasley
rispidamente, os olhos nos gêmeos.
- Dever de casa - disse Fred vagamente.
- Não seja ridículo, vocês ainda estão de férias - disse a mãe.
- Deixamos este para depois - disse Jorge.


- Por acaso vocês não estão preparando um novo formulário, estão? -
perguntou a Sra. Weasley perspicaz. - Por acaso não estariam pensando em
recomeçar as "Gemialidades" Weasley?
- Ora, mamãe - disse Jorge erguendo os olhos para a mãe, uma expressão
mortificada no rosto. - Se o Expresso de Hogwarts bater amanhã e Jorge e eu
morrermos, como é que você iria se sentir sabendo que a última coisa que
ouvimos de você foi uma acusação sem fundamento?
Todos riram, até mesmo a Sra. Weasley.
- Ah, seu pai está chegando! - disse ela de repente, olhando mais uma vez
para o relógio. O ponteiro do Sr. Weasley de repente girou de "trabalho" para
"viagem"; um segundo depois parou estremecendo em casa junto aos demais, e
todos o ouviram chamar da cozinha.
- Estou indo, Arthur! - respondeu a mulher, saindo correndo da sala.
Mais alguns minutos e o Sr. Weasley entrava na sala aquecida, trazendo o
jantar numa bandeja. Parecia completamente exausto.
- Bom, agora a coisa está realmente pegando fogo ­ comentou ele com a
Sra. Weasley, sentando-se numa poltrona junto à lareira e brincando desanimado
com uma porção murcha de couve-flor. ­ Rita Skeerer andou fuçando a semana
inteira, procurando mais bobagens ministeriais para denunciar. E agora descobriu
que a coitada da velha Berta está desaparecida, então isso vai ser a manchete de
amanhã no Profeta. Eu disse a Bagman que ele devia ter mandado alguém
procurá-la há séculos.
- O Sr. Crouch vem dizendo isso há semanas seguidas - disse Percy
depressa.
- Crouch tem muita sorte de Rita não ter descoberto nada sobre a Winky ­
retrucou o Sr. Weasley irritado. - Haveria uma semana de manchetes com a
história do elfo doméstico; dele ter sido apanhado segurando a varinha que
conjurou a Marca Negra.
- Acho que todos concordamos que o elfo, embora irresponsável, não
conjurou a Marca? ­ disse Percy inflamado.
- Se você quer saber, o Sr. Crouch tem muita sorte que ninguém no Profeta
Diário saiba como ele é ruim para os elfos! ­ disse Hermione zangada.
- Agora, olha aqui, Hermione! - retrucou Percy. - Um funcionário de primeiro
escalão no Ministério como o Sr. Crouch merece obediência cega dos seus
criados.
- Dos seus escravos, você quer dizer! - falou Hermione com a voz muito
aguda. - Porque ele não pagava salário a Winky, não é mesmo?
- Acho melhor vocês todos subirem e verificarem se fizeram as malas
direito! - disse a Sra. Weasley, interrompendo a discussão. - Andem logo, vamos,
todos vocês...
Harry fechou o estojo de manutenção, pôs a Firebolt ao ombro e subiu com
Rony. A chuva parecia ainda mais forte no último andar da casa, e vinha
acompanhada por assobios e gemidos do vento, para não falar nos uivos
ocasionais do vampiro que vivia no sótão. Pichitinho começou a piar e a voar
dentro da gaiola quando eles entraram. A visão dos malões quase prontos o
deixara num frenesi de excitação.


- Arrolha ele com um pouco desses petiscos para Corujas - disse Rony
atirando um pacote para Harry, - Quem sabe ele cala o bico.
Harry enfiou alguns petiscos pelas grades da gaiola, depois voltou sua
atenção para o malão. A gaiola de Edwiges estava do lado, ainda vazia.
- Já faz mais de uma semana - disse Harry, contemplando o poleiro deserto
de Edwiges. - Rony, você acha que Sirius foi capturado?
- Nããão, teria saído no Profeta Diário - protestou Rony. - O Ministério iria
querer mostrar que capturou alguém, não acha?
- É, acho...
- Olha, toma aqui o material que mamãe comprou para você no Beco
Diagonal. E ela tirou um pouco de ouro do seu cofre para você... e lavou todas as
suas meias.
Rony carregou uma pilha de coisas para a cama de armar de Harry e largou
uma bolsa de dinheiro e um monte de meias do lado. O garoto começou a
desembrulhar as compras. Além do Livro padrão de feitiços, 4ª série, de Miranda
Goshawk, ele tinha agora um punhado de penas novas, doze rolos de pergaminho
e ingredientes para o seu estojo de poções - os estoques de espinha de peixe-
leão e essência de beladona estavam quase no fim. Começou a empilhar a roupa
íntima dentro do caldeirão quando Rony soltou uma exclamação de desagrado às
costas dele.
- Que vem a ser isso?
Ele estava segurando uma coisa que pareceu a Harry uma longa veste de
veludo marrom. Tinha um babado de renda de aspecto mofado no decote e
punhos de renda iguais.
Os garotos ouviram uma batida na porta e a Sra. Weasley entrou, trazendo
uma braçada de vestes de Hogwarts recém-lavadas.
- Tomem aqui - disse ela, dividindo a braçada ao meio. - Agora vejam se
guardam tudo na mala direito para não amarrotar.
- Mamãe, você me deu a roupa nova da Gina - disse Rony devolvendo a
veste marrom à mãe.
- Claro que não, é para você. Vestes a rigor.
- Quê?- exclamou Rony, horrorizado.
- Vestes a rigor! - repetiu a Sra. Weasley. - Está na sua lista de material que
este ano você deverá levar vestes a rigor... vestes para ocasiões formais.
- A senhora tem que estar brincando - exclamou Rony incrédulo. - Eu não
vou usar isso, nem pensar.
- Todo mundo usa, Rony! - disse a Sra. Weasley aborrecida. ­ E são todas
assim! Seu pai também tem uma para festas elegantes!
- Saio pelado, mas não visto uma coisa dessas - teimou Rony.
- Não seja bobo. Você precisa de vestes a rigor, estão na sua lista! Comprei
para o Harry também... mostre a ele, Harry...
Com uma certa apreensão Harry abriu o último embrulho sobre a cama.
Mas não eram tão ruins quanto esperara, as vestes não tinham renda alguma, de
fato, eram mais ou menos iguais às vestes da escola, só que eram verde-garrafa
em vez de pretas.
- Achei que elas realçariam a cor dos seus olhos, querido - disse a Sra.
Weasley afetuosamente.


- Ora, as dele são legais! - disse Rony zangado, olhando para as vestes de
Harry. - Por que eu não ganhei vestes como as dele?
- Porque... bom, precisei comprar as suas de segunda mão, e não havia
muita escolha! - disse a Sra. Weasley corando.
Harry olhou para o outro lado. Teria dividido com os Weasley, de boa
vontade, o dinheiro que havia em seu cofre no Gringotes, mas sabia que eles
jamais aceitariam.
- Não vou usar isso nunca - insistiu Rony. - Nunquinha.
- Ótimo - retorquiu a Sra. Weasley. - Ande nu. E Harry não se esqueça de
tirar uma fotografia dele. Deus sabe que eu estou precisando de umas boas
gargalhadas.
Ela saiu do quarto batendo a porta. Os meninos ouviram um ruído
engraçado de alguém cuspindo às costas deles. Era Pichitinho se engasgando
com um petisco grande demais.
- Por que é que tudo que eu tenho é porcaria? - enfureceu-se Rony,
atravessando o quarto para descolar o bico da coruja.


- CAPITULO ONZE -
A bordo do Expresso de Hogwarts

Havia no ar uma inquestionável tristeza de fim de férias quando Harry
acordou na manhã seguinte. A chuva forte continuava a fustigar a janela enquanto
ele vestia uma jeans e uma camiseta, trocaria pelas vestes de escola no Expresso
de Hogwarts.
Ele, Rony, Fred e Jorge tinham acabado de chegar ao patamar do primeiro
andar, a caminho de tomar o café da manhã, quando a Sra. Weasley apareceu ao
pé da escada, parecendo aflita.
- Arthur! - gritou ela para cima. - Arthur! Mensagem urgente do Ministério!
Harry se achatou contra a parede quando o Sr. Weasley passou correndo,
com as vestes de trás para a frente e desapareceu de vista. Quando Harry e os
outros entraram na cozinha, viram a Sra. Weasley remexendo, ansiosamente, nas
gavetas do guarda-louça.
- Tenho uma pena em algum lugar aqui! - dizia ela, enquanto o Sr. Weasley
se curvava para a lareira falando com...Harry fechou os olhos com força e reabriu-
os para ter certeza de que estava vendo direito.
A cabeça de Amos Diggory estava parada no meio das chamas como um
grande ovo barbudo. Ele falava muito depressa, completamente indiferente às
fagulhas que voavam ao seu redor e às chamas que lambiam suas orelhas.
-... os vizinhos trouxas ouviram estampidos e gritos, então foram e
chamaram a... como é mesmo o nome?... polícia. Arthur, você tem que ir lá...
- Tome! - disse a Sra. Weasley sem fôlego, empurrando um pedaço de
pergaminho, um tinteiro e uma pena amassada nas mãos do marido.
- ... foi pura sorte eu ter sabido - continuou a cabeça do Sr. Diggory -,
precisei vir ao escritório mais cedo para despachar umas corujas, e encontrei o
pessoal do Uso Indevido da Magia de saída... se a Rita Skeeter souber dessa,
Arthur...


- Que é que Olho-Tonto diz que aconteceu? - perguntou o Sr. Weasley, ao
mesmo tempo que desenroscava a tampa do tinteiro, molhava a pena e se
preparava para escrever.
Os olhos do Sr. Diggory reviraram nas órbitas.
- Disse que ouviu intrusos no jardim. Disse que se aproximavam
sorrateiramente da casa, mas que foram atacados pelas latas de lixo.
- Que foi que as latas de lixo fizeram? - perguntou o Sr. Weasley,
escrevendo freneticamente.
- Fizeram um estardalhaço e dispararam lixo para todo lado, pelo que sei -
falou o Sr. Diggory. - Aparentemente uma delas ainda estava voando a esmo
quando a polícia apareceu...
O Sr. Weasley gemeu.
- E o que aconteceu com os intrusos?
- Arthur, você conhece Olho-Tonto - disse a cabeça tornando a revirar os
olhos. ­ Alguém andando pelo jardim dele na calada da noite? Mais
provavelmente era algum gato com neurose de guerra vagando por ali, coberto de
cascas de batatas. Mas se o pessoal do Uso Indevido da Magia puser as mãos em
Olho-Tonto, ele está perdido, pense na ficha dele, temos que livrá-lo com uma
acusação menos séria, alguma coisa no seu departamento, qual é a penalidade
para explosão de latas de lixo?
- Talvez uma advertência - respondeu o Sr. Weasley, ainda escrevendo
muito depressa, a testa vincada. - Olho-Tonto não usou a varinha? Não chegou a
atacar ninguém?
- Aposto que ele pulou da cama e começou a enfeitiçar tudo que conseguiu
alcançar pela janela, mas daria muito trabalho provar isso, não houve nenhuma
vítima.
- Tudo bem, estou de saída - disse o Sr. Weasley e, enfiando o pergaminho
com as anotações no bolso, saiu correndo da cozinha.
A cabeça do Sr. Diggory olhou para os lados e se fixou na Sra. Weasley.
- Desculpe o mau jeito, Molly - disse, mais calmamente -, incomodar vocês
tão cedo... mas Arthur é a única pessoa que pode - livrar Olho-Tonto, e Olho-
Tonto ia começar um novo emprego hoje. Por que é que tinha que escolher ontem
à noite...
- Tudo bem, Amos. Tem certeza de que não quer comer uma torrada ou
qualquer outra coisa antes de ir?
- Ah, então quero.
A Sra. Weasley apanhou uma torrada amanteigada em uma pilha sobre a
mesa da cozinha, prendeu-a nas tenazes da lareira e a levou à boca do Sr.
Diggory.
- Obrigado - disse ele com a voz abafada e, em seguida, com um estalido,
desapareceu.
Harry ouviu o Sr. Weasley gritar tchaus apressados para Gui, Carlinhos,
Percy e as garotas. Em cinco minutos, ele estava de volta à cozinha, as vestes
agora do lado certo, passando um pente nos cabelos.
- É melhor eu me apressar... um bom ano letivo para vocês, meninos - disse
o Sr. Weasley para Harry, Rony e os gêmeos, puxando uma capa por cima dos


ombros e se preparando para desaparatar. - Molly, você acha que dá conta de
levar os meninos até King's Cross?
- Claro que sim. Se preocupe com Olho-Tonto que nós cuidamos do resto.
Quando o Sr. Weasley desapareceu, Gui e Carlinhos entraram na cozinha.
- Alguém falou em Olho-Tonto? - perguntou Gui. - Que é que ele andou
fazendo agora?
- Diz que alguém tentou entrar na casa dele à noite passada - respondeu a
Sra. Weasley.
- Olho-Tonto Moody? indagou Jorge pensativo, passando geléia na torrada.
­ Não é aquele biruta...
- Seu pai tem uma excelente opinião sobre Olho-Tonto Moody - disse a Sra.
Weasley severamente.
- É, tudo bem, papai coleciona tomadas, não é mesmo? - disse Fred
baixinho quando a mãe saiu da cozinha. - Cada qual com o seu igual...
- Moody já foi um grande bruxo - disse Gui.
- Ele é um velho amigo do Dumbledore, não é? - perguntou Carlinhos.
- Mas o Dumbledore não é bem o que a gente chamaria de normal, não é -
comentou Fred. - Quero dizer, eu sei que ele é um gênio e tudo o mais...
- Quem é Olho-Tonto? - perguntou Harry.
- Está aposentado, mas costumava trabalhar no Ministério - falou Carlinhos.
­ O vi uma vez quando papai me levou ao trabalho. Ele foi Auror... um dos
melhores... um cara que captura bruxos das trevas - acrescentou, vendo o olhar
atônito de Harry. - Encheu metade das celas de Azkaban. Mas fez uma pá de
inimigos... principalmente as famílias das pessoas que ele prendeu... e ouvi falar
que Moody está ficando realmente paranóico na velhice. Não confia mais em
ninguém. Vê bruxos das trevas por todo lado.
Gui e Carlinhos resolveram acompanhar os garotos ao embarque na
estação de King"s Cross, mas Percy se desculpou profusamente e disse que
precisava de fato ir trabalhar.
- Não posso pedir mais licenças no momento. O Sr. Crouch está realmente
começando a confiar em mim.
- Ah é, sabe de uma coisa, Percy? - disse Jorge sério. - Acho que não
demora muito, ele vai aprender o seu nome.
A Sra. Weasley tinha se aventurado a telefonar para a agência de correio
do povoado para pedir três táxis de trouxas para levá-los a Londres.
- Arthur tentou pedir emprestado uns carros do Ministério para nós -
sussurrou a Sra. Weasley a Harry, enquanto aguardavam parados no pátio lavado
de chuva os motoristas dos táxis carregarem os pesados malões de Hogwarts nos
carros. - Mas não havia nenhum disponível... Ah, meu Deus, a cara deles não está
nada feliz, não é?
Harry não quis comentar com a Sra. Weasley que motoristas de táxi trouxas
raramente transportavam corujas excitadas, e Pichitinho estava fazendo um
estardalhaço tremendo. E tampouco ajudou o fato de alguns fogos Dr. Filibusteiro,
que não aquecem e acendem molhados, terem explodido inesperadamente
quando o malão de Fred se abriu, fazendo o motorista que o carregava berrar de
susto e dor, pois Bichento enterrou as garras na perna do homem.


A viagem foi desconfortável, porque eles viajaram espremidos no banco
traseiro dos táxis com os malões. Bichento levou algum tempo para se recuperar
do susto com os fogos e, até entrarem em Londres, Harry, Rony e Hermione
acabaram seriamente arranhados. Sentiram um grande alívio ao desembarcar na
estação, embora a chuva caísse mais forte que nunca e eles tivessem se
encharcado para atravessar a rua movimentada para entrar na estação com os
malões.
A essa altura, Harry já estava se acostumando a embarcar na plataforma
nove e meia. Era apenas uma questão de rumar diretamente para a barreira,
aparentemente sólida, que dividia as plataformas nove e dez. A única parte difícil
era fazer isso discretamente de modo a não chamar a atenção dos trouxas.
Fizeram isso em grupos, hoje; Harry, Rony e Hermione (os mais visíveis, pois iam
levando Pichitinho e Bichento) foram os primeiros, eles se encostaram
descontraidamente na barreira, conversando despreocupados e deslizaram de
lado por ela... e, ao fazerem isso, a plataforma nove e meia se materializou diante
deles.
O Expresso de Hogwarts, uma reluzente locomotiva vermelha, já estava
aguardando, soltando nuvens repolhudas de fumaça, através das quais os muitos
alunos de Hogwarts e seus pais parados na plataforma pareciam fantasmas
escuros.
Pichitinho fez mais barulho que nunca em resposta ao pio das outras
corujas escondidas na névoa. Harry, Rony e Hermione saíram em busca de
lugares e logo estavam guardando a bagagem em uma cabine mais ou menos na
metade do trem. Depois, eles tornaram a saltar para se despedir da Sra. Weasley,
de Gui e Carlinhos.
- Talvez eu volte a ver vocês mais cedo do que pensam - disse Carlinhos,
rindo, ao dar um abraço de despedida em Gina.
- Por quê? - perguntou Fred interessado.
- Você verá - respondeu Carlinhos. - Só não diga a Percy que eu falei isso...
porque afinal é informação privilegiada, até o Ministério resolver divulgá -la.
- É, eu até sinto vontade de estar estudando em Hogwarts este ano - disse
Gui, as mãos enfiadas nos bolsos, contemplando com um ar quase saudoso o
trem.
- Por quê?- perguntou Jorge impaciente.
- Vocês vão ter um ano interessante - comentou Gui, com os olhos
cintilando. - Talvez eu até peça licença para ir dar uma espiada...
- Uma espiada em quê? - perguntou Rony.
Mas nessa hora ouviram o apito e a Sra. Weasley conduziu-os impaciente
às portas do trem.
- Obrigada por nos convidar, Sra. Weasley - disse Hermione, depois que
embarcaram, fecharam a porta e se debruçaram na janela do corredor para falar
com ela.
- É, obrigado por tudo, Sra. Weasley - disse Harry.
- Ah, o prazer foi meu, queridos - respondeu ela. - Eu os convidaria para o
Natal, mas... bem, imagino que vocês vão querer ficar em Hogwarts, por causa...
de uma coisa ou outra.


- Mamãe! - exclamou Rony irritado. - Que é que vocês três sabem que nós
não sabemos?
- Vocês vão descobrir hoje à noite - disse a Sra. Weasley sorrindo. - Vai ser
muito excitante, estou muito contente que tenham mudado as regras...
- Que regras? - perguntaram Harry, Rony, Fred e Jorge juntos.
- Tenho certeza de que o Prof. Dumbledore vai contar a vocês... agora,
comportem-se? Ouviu bem Fred? E você Jorge!
Os pistões assobiaram e o trem começou a andar.
- Conta para a gente o que vai acontecer em Hogwarts! - berrou Fred pela
janela, quando a Sra. Weasley, Gui e Carlinhos foram se distanciando
rapidamente. - Que regras é que vão mudar?
Mas a Sra. Weasley apenas sorriu e acenou. Antes que o trem tivesse
virado a primeira curva, ela, Gui e Carlinhos tinham desaparatado.
Harry, Rony e Hermione voltaram à cabine. A chuva grossa que batia nas
janelas tornava difícil ver o lado de fora. Rony abriu o malão, tirou as vestes a rigor
marrons e atirou-as por cima da gaiola de Pichitinho para abafar os seus pios.
- Bagman queria nos dizer o que ia acontecer em Hogwarts - disse ele mal-
humorado, sentando-se ao lado de Harry. - Na Copa Mundial, lembra? Mas nem a
minha própria mãe quer contar. Que será...
- Psiu! - sussurrou Hermione de repente, levando o indicador aos lábios e
apontando para a cabine ao lado. Harry e Rony prestaram atenção e ouviram uma
voz arrastada já sua conhecida que entrava pela porta aberta.
-... Papai, na realidade, pensou em me mandar para Durmstrang em lugar
de Hogwarts, sabem. Ele conhece o diretor lá, entendem. Bom, vocês sabem qual
é a opinião dele sobre Dumbledore... o cara gosta muito de sangues-ruins e
Durmstrang não admite esse tipo de ralé. Mas mamãe não gostou da idéia de eu ir
para uma escola tão longe. Durmstrang tem uma política muito mais certa que
Hogwarts com relação às Artes das Trevas. Os alunos de lá até aprendem essa
matéria, não é só essas bobagens de defesa que a gente aprende...
Hermione se levantou, foi pé ante pé até a porta da cabine e fechou-a para
abafar a voz de Malfoy.
- Então ele acha que Durmstrang teria sido melhor para ele, é? - disse ela
zangada. - Eu gostaria que ele tivesse ido para lá, ai não teríamos que aturá-lo.
- Durmstrang é outra escola de bruxaria? - perguntou Harry.
- É - respondeu Hermione fungando -, e tem uma péssima reputação.
Segundo aquele livro uma avaliação da educação em magia na Europa, a escola
enfatiza as Artes das Trevas.
- Acho que já ouvi falar nisso - disse Rony vagamente. - Onde fica? Em que
país?
- Ora, ninguém sabe, não é mesmo? - respondeu Hermione, erguendo as
sobrancelhas.
- Hum... por que não? - quis saber Harry.
- Tradicionalmente há uma forte rivalidade entre as escolas de magia.
Durmstrang e Beauxbatons gostam de esconder onde ficam para ninguém poder
roubar os segredos delas - disse Hermione simplesmente.


- Corta essa! - exclamou Rony, começando a rir. - Durmstrang tem que ser
mais ou menos do tamanho de Hogwarts, como é que alguém vai esconder um
castelão encardido?
- Mas Hogwarts é escondida - retrucou Hermione, surpresa -, todo mundo
sabe disso... bom pelo menos todo mundo que leu Hogwarts: uma história.
- Então é só você - falou Rony. - Por isso pode continuar, como é que se
esconde um lugar como Hogwarts?
- Encantando ele - respondeu Hermione. - Se um trouxa olhar, só o que vai
ver é uma velha ruína embolorada com um letreiro na entrada PERIGO, NÃO
ENTRE, ARRISCADO.
- Então Durmstrang também vai parecer uma ruína a um estranho?
- Talvez - disse Hermione, encolhendo os ombros -, ou talvez tenha feitiços
antitrouxas, como o estádio da Copa Mundial. E para impedir bruxos estrangeiros
de encontrá-lo, devem ter tornado ele impossível de mapear...
- Como é?
- Bom, a gente pode enfeitiçar um prédio para tornar impossível a pessoa o
localizar em um mapa, não pode?
- Hum... se você diz que pode - falou Harry.
- Mas eu acho que Durmstrang deve ficar em algum lugar bem ao norte ­
disse Hermione pensativa. - Algum lugar muito frio, porque as capas de peles
fazem parte dos uniformes de lá.
- Ah, pensem só nas possibilidades - disse Rony sonhando. - Teria sido
muito mais fácil empurrar Malfoy de uma geleira e fazer parecer acidente... pena
que a mãe goste dele...
A chuva foi ficando mais pesada, à medida que o trem seguia mais para o
norte. O céu estava tão escuro e as janelas tão embaçadas que as lanternas
foram acesas antes do meio-dia. O carrinho dos lanches surgiu sacudindo pelo
corredor, e Harry comprou uma montanha de bolos de caldeirão para os três
dividirem.
Muitos amigos apareceram durante a tarde, inclusive Simas Finnigan, Dino
Thomas e Neville Longbottom, um menino de rosto redondo e extremamente
esquecido que fora criado pela bruxa formidável que era sua avó. Simas ainda
usava a roseta da Irlanda. Parte da mágica parecia estar se esgotando agora, ela
ainda gritava esganiçada "Troy! Muilet! Moran!", mas de um jeito muito fraco e
cansado. Passada meia hora mais ou menos, Hermione, cansando-se da
interminável discussão sobre quadribol, enterrou-se mais uma vez no Livro padrão
de feitiços, 4ª série e começou a tentar aprender a fazer um Feitiço Convocatório.
Neville escutava, invejoso, a conversa dos colegas que reviviam a partida
de quadribol.
- Vovó não quis ir - disse ele, infeliz. - Não quis comprar as entradas. Mas
parecia fantástico.
- Foi -. disse Rony. - Olhe só para isso, Neville... - Ele meteu a mão no
malão guardado no bagageiro e puxou a miniatura de Vítor Krum.
- Uáu!- exclamou Neville, invejoso, quando Rony equilibrou Krum na mão
gorducha.
- E vimos ele de perto, também - continuou Rony. - Ficamos no camarote
de honra...


- Pela primeira e última vez na vida, Weasley.
Draco Malfoy aparecera à porta. Atrás dele vinham Crabbe e Goyle, seus
enormes sequazes agressivos, que pareciam ter crescido no mínimo trinta
centímetros durante o verão. Evidentemente tinham ouvido a conversa pela porta
da cabine, que Dino e Cenas deixaram entreaberta.
- Não me lembro de ter convidado você para a nossa cabine, Malfoy - disse
Harry friamente.
- Weasley... que é isso? - perguntou Malfoy, apontando para a gaiola de
Pichitinho. Uma das mangas das vestes de Rony estava pendurada, e balançava
com o movimento do trem, deixando o punho de renda mofada muito visível.
Rony fez menção de esconder as vestes, mas Malfoy foi rápido demais
para ele; agarrou a manga e puxou.
- Olhem só para isso! - disse o garoto em êxtase, segurando as vestes de
Rony e mostrando-as a Crabbe e Goyle. - Weasley, você não andou pensando em
usar isso, andou? Quero dizer, isso esteve em moda aí por 1890...
- Vai lamber sabão, Malfoy! - xingou Rony, da mesma cor que as vestes ao
puxá-las das mãos de Malfoy. O garoto uivava, rindo de desdém, Crabbe e Goyle
gargalhavam estupidamente.
- Então... vai entrar, Weasley? Vai tentar trazer alguma glória para o nome
da sua família? E tem dinheiro também, sabe... você vai poder comprar umas
vestes decentes se ganhar...
- Do que é que você está falando? - retorquiu Rony.
- Você vai entrar? - repetiu Malfoy. - Suponho que você vá, Potter? Você
nunca perde uma chance de se exibir, não é?
- Ou você explica a que está se referindo ou vai embora, Malfoy - disse
Hermione, impaciente, por cima da borda do Livro padrão de feitiços, 4ª série.
Um sorriso satisfeito se espalhou pelo rosto pálido de Malfoy.
- Não me diga que você não sabe? Você tem um pai e um irmão no
Ministério e nem ao menos sabe? Nossa, meu pai me contou há séculos... soube
pelo Cornélio Fudge. Mas papai sempre convive com o primeiro escalão do
Ministério... talvez seu pai seja insignificante demais para ter sabido, Weasley...
é...provavelmente não falam coisas importantes na frente dele...
Rindo mais uma vez, Malfoy fez sinal para Crabbe e Goyle e os três
desapareceram. Rony se levantou e bateu a porta de correr da cabine com tanta
força atrás deles que o vidro se espatifou.
- Rony!- exclamou Hermione em tom de censura, e puxando a varinha,
murmurou a palavra Reparo! e os estilhaços do vidro tornaram a formar uma
vidraça inteira e a se reencaixar na porta.
- Ora... tirando onda que ele é bem informado e nós não... - rosnou Rony. ­
Papai sempre convive com o primeiro escalão do Ministério... Papai poderia ter
recebido uma promoção a qualquer tempo... mas ele gosta do cargo que ocupa...
- Claro que gosta - disse Hermione baixinho. - Não deixe o Malfoy chatear
você, Rony...
- Ele! Me chatear! Como se pudesse! - retrucou Rony, apanhando um dos
bolos de caldeirão que sobravam e amassando-o todo. O mau humor de Rony
continuou pelo resto da viagem. Ele não falou muito quando vestiram os uniformes
da escola, e continuou de cara amarrada quando o Expresso de Hogwarts


começou finalmente a reduzir a velocidade até parar de todo na escuridão de breu
da estação de Hogsmeade.
Quando as portas do trem se abriram, ouviu-se uma trovoada no alto.
Hermione agasalhou Bichento na capa e Rony deixou as vestes a rigor por cima
da gaiola de Pichitinho ao desembarcarem, as cabeças abaixadas e os olhos
apertados para impedir que o temporal os molhasse. A chuva caía em tal volume e
rapidez que até parecia que alguém estava esvaziando baldes e mais baldes de
água gelada na cabeça dos garotos.
- Oi, Hagrid! - berrou Harry, ao ver a silhueta gigantesca na extremidade da
plataforma.
- Tudo bem! - gritou Hagrid em resposta, acenando. - Vejo vocês na festa,
se não nos afogarmos no caminho!
Os alunos de primeiro ano tradicionalmente chegavam ao castelo de barco,
atravessando o lago com Hagrid.
- Oooh, eu não gostaria de atravessar o lago com esse tempo ­ exclamou
Hermione com veemência, tremendo durante a caminhada lenta pela plataforma
escura com os outros colegas. Cem carruagens sem cavalos os aguardavam à
saída da estação. Harry, Rony, Hermione e Neville embarcaram agradecidos em
uma delas, a porta se fechou com um estalo e momentos depois, com um grande
ímpeto, a longa procissão de carruagens saiu roncando e espalhando água trilha
acima em direção ao castelo de Hogwarts.


- CAPÍTULO DOZE -
O Torneio Tri bruxo

Os garotos passaram pelos portões, ladeados por estátuas de javalis
alados, e as carruagens subiram o imponente caminho oscilando perigosamente
sob uma chuva que parecia estar virando tromba d'água. Curvando-se para a
janela, Harry pôde ver Hogwarts se aproximando, suas numerosas janelas
borradas e iluminadas por trás da cortina de chuva. Os relâmpagos riscaram o céu
no momento em que a carruagem parou diante das enormes portas de entrada de
carvalho, a que se chegava por um lance de degraus de pedra. As pessoas que
tinham tomado as carruagens anteriores já subiam correndo os degraus para
entrar no castelo; Harry, Rony, Hermione e Nevilie saltaram da carruagem e
correram escada acima, também, só erguendo a cabeça quando já estavam
seguros, no cavernoso saguão de entrada iluminado por archotes, com sua
magnífica escadaria de mármore.
- Caracoles - exclamou Rony, sacudindo a cabeça e espalhando água para
todos os lados -, se isso continuar assim, o lago vai transbordar. Estou todo
molhado!
Um grande balão vermelho e cheio de água caíra do teto na cabeça de
Rony e estourara. Encharcado e resmungando, Rony cambaleou para o lado e
esbarrou em Harry na hora em que uma segunda bomba de água caiu - errando
Hermione por um triz, ele estourou aos pés de Harry, espirrando água gelada por
cima dos tênis e das meias do garoto. As pessoas em volta soltaram gritinhos e
começaram a se empurrar procurando sair da linha de tiro - Harry olhou para o


alto e viu, flutuando seis metros acima, Pirraça, o poltergeist, um homenzinho de
chapéu em forma de sino e gravata borboleta cor de laranja, o rosto largo e
malicioso contorcendo-se de concentração para tornar a fazer mira.
- PIRRAÇA! - berrou uma voz zangada. - Pirraça, desça já aqui, AGORA!
A Profª Minerva McGonagall, subdiretora da escola e diretora da Grifinória,
saiu correndo do Salão Principal, a professora escorregou no chão molhado e
agarrou Hermione pelo pescoço para evitar cair.
- Ai... Desculpe, Srta. Granger...
- Tudo bem, professora! - ofegou Hermione, massageando a garganta.
- Pirraça, desça aqui AGORA! - bradou ela, ajeitando o chapéu cônico e
olhando feio pelos óculos de aros quadrados.
- Não tô fazendo nada! - gargalhou Pirraça, disparando uma bomba de
água contra várias garotas do quinto ano, que gritaram e mergulharam no Salão
Principal. - Já molharam as calças, foi? Que inconvenientes! Ihhhhhhhhhh! - E
mirou mais uma bomba em um grupo de alunos do segundo ano que tinha
acabado de chegar.
- Vou chamar o diretor! - ameaçou a Profª Minerva. - Estou lhe avisando,
Pirraça...
Pirraça estirou a língua, jogou a última de suas bombas de água para o alto
e disparou pela escada de mármore acima, gargalhando feito um louco.
- Bom, vamos andando, então! - disse a professora em tom eficiente para
os alunos molhados. - Para o Salão Principal, vamos!
Harry, Rony e Hermione escorregaram pelo saguão de entrada e pelas
portas de folhas duplas à direita, Rony, furioso, resmungando entre dentes ao
afastar os cabelos, que escorriam água, para longe do rosto.
O Salão Principal tinha o aspecto esplêndido de sempre, decorado para a
festa de abertura do ano letivo. Pratos e taças de ouro refulgiam à luz de centenas
e centenas de velas que flutuavam no ar sobre as mesas. As quatro mesas longas
das Casas estavam cheias de alunos que falavam sem parar; no fundo do salão,
os professores e outros funcionários sentavam-se a uma quinta mesa, de frente
para os estudantes.
Estava muito mais quente ali. Harry, Rony e Hermione passaram pela mesa
dos alunos da Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa, e se sentaram com os colegas da
Grifinória no extremo do salão, ao lado de Nick Quase Sem Cabeça, o fantasma
de sua Casa. Branco-pérola e semitransparente, Nick estava vestido esta noite
com o gibão de sempre e uma gola de rufos particularmente grande, que servia o
duplo propósito de parecer bem festiva e garantir que sua cabeça não balançasse
demais no pescoço parcialmente decepado.
- Boa noite - disse ele aos garotos.
- Para quem? - perguntou Harry, descalçando os tênis e despejando a água
que se acumulara dentro. - Espero que andem depressa com a seleção. Estou
faminto.
A seleção dos novos alunos por Casas era realizada no início de cada ano
letivo, mas por uma infeliz combinação de circunstâncias, Harry não estivera
presente a nenhuma desde a dele mesmo. Estava ansioso para assisti-la. Nesse
instante, uma voz excitada e ofegante chamou-o mais adiante à mesa:
- Oi, Harry!


Era Colin Creevey, um aluno do terceiro ano para quem Harry era uma
espécie de herói.
- Oi, Colin - cumprimentou Harry cauteloso.
- Harry, adivinha só! Adivinha só, Harry! Meu irmão está começando! Meu
irmão Dênis!
- Hum... que bom! - disse Harry.
- Ele está realmente excitado! - continuou Colin, praticamente dando pulos
na cadeira. ­ Espero que ele fique na Grifinória! Cruze os dedos, hein, Harry?
- Hum... claro - disse Harry. E tornou a se virar para Hermione, Rony e Nick
Quase Sem Cabeça.
- Irmãos e irmãs geralmente vão para a mesma Casa, não é? Estava
pensando nos Weasley, todos os sete alunos da Grifinória.
- Ah, não, não obrigatoriamente - disse Hermione. - A gêmea de Parvati
Patil está em Corvinal e elas são idênticas, a gente podia até pensar que fossem
ficar juntas, não é mesmo?
Harry olhou para a mesa dos professores. Parecia haver mais lugares
vazios do que habitualmente. Hagrid, é claro, ainda estava lutando para atravessar
o lago com os alunos do primeiro ano, a Profª McGonagall provavelmente estava
supervisionando a secagem do piso do saguão de entrada, mas havia ainda outra
cadeira desocupada e ele não conseguia atinar quem mais estava faltando.
- Onde é que está o novo professor de Defesa contra as Artes das Trevas?
- perguntou Hermione, que também estava olhando para os professores .
Os garotos ainda não tinham tido nenhum professor de Defesa contra as
Artes das Trevas que durasse mais de três trimestres. O favorito de Harry fora, de
longe. o Prof. Lupin, que se demitira no ano anterior. Seu olhar percorreu a mesa
dos professores. Decididamente não havia nenhuma cara nova.
- Quem sabe não conseguiram ninguém! - sugeriu Hermione, parecendo
ansiosa.
Harry examinou os ocupantes da mesa com mais atenção. O minúsculo
Prof. Flitwick, professor de Feitiços, estava sentado em uma alta pilha de
almofadas ao lado da Profª Sprout, a mestra de Herbologia, usando um chapéu
enviesado sobre os cabelos grisalhos e esvoaçantes. Conversava com a Profª
Sinistra, do Departamento de Astronomia. Do outro lado de Sinistra estava o
mestre de Poções, de rosto macilento, nariz de gancho e cabelos oleosos, Snape
a pessoa de quem Harry menos gostava em Hogwarts. A repulsa de Harry por
Snape só igualava o ódio que o professor sentia por ele, um ódio que tinha, se é
que isso era possível, se intensificado no ano anterior, quando o garoto ajudara
Sirius a fugir bem debaixo do nariz exageradamente grande de Snape - ele e
Sirius eram inimigos desde os tempos de escola.
Do outro lado de Snape, havia um lugar vago, que Harry achou que devia
ser o da Profª McGonagall. Ao lado, e bem no centro da mesa, sentava-se o Prof.
Dumbledore, o diretor, seus cabelos e barbas prateados e ondulantes brilhando à
luz das velas, suas magníficas vestes verde-escuras bordadas com luas e
estrelas. Dumbledore tinha as pontas dos dedos longos e finos e ele apoiava nelas
o queixo, contemplando o teto através de oclinhos de meia-lua, como se estivesse
perdido em pensamentos.


Harry olhou para o teto também. Era encantado para parecer o céu lá fora e
nunca tivera um aspecto tão tempestuoso. Nuvens roxas e negras giravam por ele
e quando se ouvia uma nova trovoada, corria um relâmpago pelo teto.
- Ah, anda logo - gemeu Rony, ao lado de Harry. - Eu seria capaz de
devorar um hipogrifo.
As palavras mal tinham saído de sua boca e as portas do Salão Principal se
abriram e fez-se silêncio. A Profª Minerva encabeçava uma longa fila de alunos do
primeiro ano até o centro do salão. Se Harry, Rony e Hermione estavam
molhados, seu estado nem se comparava ao desses garotos. Eles pareciam ter
feito a travessia do lago a nado em lugar de fazê-la de barco. Todos estavam
tomados por tremores, em que se misturavam o frio e o nervosismo, ao passarem
pela mesa dos professores e pararem em fila diante do resto da escola - todos
exceto o menorzinho, um menino com cabelos castanho-baços, que vinha
embrulhado em um agasalho que Harry reconheceu ser o casaco de pele de
toupeira de Hagrid.
O casaco era tão grande que o garoto parecia coberto por um toldo escuro
e peludo. Seu rosto miúdo aparecia por cima da gola, quase dolorosamente
excitado. Quando ele se alinhou com os colegas aterrorizados, viu que Colin
Creevey o olhava, ergueu os polegares e falou:
- Caí no lago! - Parecia decididamente encantado com o ocorrido.
A Profª Minerva agora colocava um banquinho de três pernas diante dos
novos alunos e, em cima, um chapéu de bruxo, extremamente velho, sujo e
remendado. Os garotos arregalaram os olhos. E todo o resto da escola também.
Por um instante, fez-se silêncio. Em seguida um rasgo junto à aba se escancarou
como uma boca, e o chapéu começou a cantar:
Há mil anos ou pouco mais,
Eu era recém-feito,
Viviam quatro bruxos de fama,
Cujos nomes todos ainda conhecem:
O valente Gryffindor das charnecas,
O bonito Ravenclaw das ravinas,
O meigo Hufflepuff das planícies,
O astuto Slytherin dos brejais.
Compartiam um desejo, um sonho,
Uma esperança, um plano ousado
De, juntos, educar jovens bruxos,
Assim começou a Escola de Hogwarts.
Cada um desses quatro fundadores
Formou sua própria casa, pois cada um
Valorizava virtude vária
Nos jovens que pretendiam formar.
Para Gryffindor os valentes eram
Prezados acima de todo o resto;
Para Ravenclaw os mais inteligentes
Seriam sempre os superiores;
Para Hufflepuff os aplicados eram
Os merecedores de admissão;


E Slytherin, mais sedento de poder,
Amava aqueles de grande ambição.
Enquanto vivos eles separaram
Do conjunto os seus favoritos
Mas como selecionar os melhores,
Quando um dia tivessem partido?
Foi Gryffindor que encontrou a solução
Tirando-me da própria cabeça
Depois me dotaram de cérebro
Para que por eles eu pudesse escolher!
Coloque-me entre suas orelhas,
Até hoje ainda não me enganei.
Darei uma olhada em sua cabeça
E direi qual a casa do seu coração!

Os aplausos ecoaram pelo Salão Principal quando o Chapéu Seletor
terminou.
- Não foi essa a música que ele cantou quando fomos selecionados - disse
Harry, fazendo coro aos aplausos gerais.
- Cada ano ele canta uma diferente - disse Rony. - Deve ser uma vida bem
chata, não é, a de um chapéu? Vai ver ele passa o ano compondo a nova canção.
A Profª Minerva agora desenrolava um grande pergaminho.
- Quando eu chamar seu nome, ponha o Chapéu e se sente no banquinho -
explicou ela aos alunos do primeiro ano. - Quando o chapéu anunciar sua casa, vá
se sentar à mesa correspondente.
- Ackerley, Stuart!
Um menino se adiantou, tremendo visivelmente da cabeça aos pés,
apanhou o Chapéu, colocou-o e se sentou no banquinho.
- Corvinal!- anunciou o chapéu.
Stuart Ackerley tirou o chapéu e correu para uma cadeira à mesa de
Corvinal, na qual todos o aplaudiam. Harry viu, de relance, Cho, a apanhadora do
time da Corvinal, aplaudindo Stuart Ackerley quando o garoto se sentou. Por um
segundo fugaz, Harry teve um estranho desejo de se reunir à mesa da Corvinal
também.
- Baddock, Malcolm!
A mesa do outro lado do salão prorrompeu em vivas. Harry viu Malfoy
aplaudindo quando Baddock se juntou aos alunos de Sonserina. Harry se
perguntou se Baddock saberia que a casa de Sonserina formara um número maior
de bruxos das trevas do que qualquer outra. Fred e Jorge vaiaram Malcolm
Baddock quando ele se sentou.
- Branstone, Eleanora!
- Lufa-Lufa!
- Cauldwell, Owen!
- Lufa-Lufa!
- Creevey, Dênis!
O miudinho Dênis Creevey adiantou-se com passos incertos, tropeçando no
casaco de Hagrid, que nesta hora entrou discretamente no salão por uma porta


atrás da mesa dos professores. Umas duas vezes mais alto do que um homem
normal e pelo menos três vezes mais largo, Hagrid, com seus cabelos e barbas
negros, longos, desgrenhados e embaraçados, parecia um tanto assustador - uma
impressão enganosa, porque Harry, Rony e Hermione sabiam que o amigo
possuía uma natureza muito bondosa. Ele deu uma piscadela para os três
garotos, ao se sentar à ponta da mesa dos professores e viu Denis Creevey
experimentar o Chapéu Seletor. O rasgo junto à aba se escancarou...
- Grifinória!- gritou o chapéu.
Hagrid aplaudiu com os demais alunos da Casa, quando Denis Creevey,
abrindo um sorriso de lado a lado do rosto, tirou o chapéu, recolocou-o no
banquinho e correu para se juntar ao irmão.
- Colin, eu caí na água! - disse ele com a voz aguda, atirando-se no assento
de uma cadeira vazia. - Foi genial! E uma coisa na água me agarrou e me
empurrou de volta pro barco!
- Legal! - disse Colin, no mesmo tom excitado. - Provavelmente foi a lula
gigante, Dênis!
- Uáu! - exclamou Dênis, como se ninguém, nem no sonho mais delirante,
pudesse esperar coisa melhor do que ser atirado em um lago revolto e profundo e
ser empurrado de volta por um gigantesco monstro marinho.
- Dênis! Dênis! Está vendo aquele garoto lá? Aquele de cabelos pretos e
óculos? Está vendo ele? Sabe quem é, Dênis?
Harry olhou para o outro lado, fixando toda a atenção no Chapéu Seletor,
que agora selecionava Ema Dobbs.
A seleção prosseguiu, garotos e garotas expressando no rosto variados
graus de medo se adiantavam, um a um, até o banquinho de três pernas, e a fila
foi diminuindo à medida que a Profª Minerva ultrapassava a letra "L".
- Ah, anda logo - gemeu Rony, massageando o estômago.
- Ora, Rony, a seleção é muito mais importante do que a comida - disse
Nick Quase Sem Cabeça, na hora em que "Madley, Laura!" tornava-se aluna da
Lufa-Lufa.
- Claro que é, se a pessoa já está morta - retrucou Rony.
- Espero que os selecionados para a Grifinória este ano estejam à altura do
time - disse o fantasma, aplaudindo, quando "McDonald, Natália!" reuniu-se à
mesa deles. - Não queremos interromper a nossa maré de vitórias, não é mesmo?
Grifinória tinha ganhado o Campeonato Inter-casas nos três últimos anos.
- Pritchard, Grão!
- Sonserina!
- Quirke, Orla!
- Corvinal!
E, finalmente, com "Whirby, Kevin!" (Lufa-Lufa.") encerrou-se a seleção. A
Profª Minerva apanhou o chapéu e o banquinho e levou-os embora.
- Já não era sem tempo - exclamou Rony, apanhando os talheres e olhando
esperançoso para seu prato de ouro.
O Prof. Dumbledore se levantara. Sorria para os estudantes, os braços
abertos num gesto de boas-vindas.
- Só tenho duas palavras para lhes dizer - começou ele, sua voz grave
ecoando pelo salão. ­ Bom apetite!


- Apoiado! Apoiado! - disseram Harry e Rony em voz alta, enquanto as
travessas vazias se enchiam magicamente diante dos seus olhos. Nick Quase
Sem Cabeça ficou observando tristemente Harry, Rony e Hermione encherem os
pratos.
- Aaah, agora sim! - disse Rony, com a boca cheia de purê de batatas.
- Vocês têm sorte de que haja uma festa esta noite, sabem - disse Nick
Quase Sem Cabeça. ­ Hoje cedo tivemos problemas na cozinha.
- Por quê? O que aconteceu? - perguntou Harry com a boca cheia de carne.
- Pirraça, é claro - disse Nick sacudindo a cabeça, que se desequilibrou
perigosamente. O fantasma puxou mais para cima um rufo da gola. - A história de
sempre, sabem. Ele queria vir à festa, bom, isto está fora de questão, vocês
sabem como ele é, absolutamente selvagem, não pode ver um prato de comida
sem querer atirá-lo longe. Reunimos um conselho de fantasmas, frei Gorducho foi
a favor de dar uma chance a Pirraça, mas muito prudentemente, na minha opinião,
o barão Sangrento fez pé firme.
O barão Sangrento era o fantasma da Sonserina, um espectro
extremamente magro e silencioso, coberto de manchas de sangue prateado. Era a
única pessoa de Hogwarts que conseguia realmente controlar Pirraça.
- E, achamos que Pirraça estava invocado com alguma coisa - disse Rony
sombriamente. - Então, que foi que ele aprontou na cozinha?
- Ah, o de sempre - respondeu Nick Quase Sem Cabeça, sacudindo os
ombros -, causou prejuízos e confusão. Tachos e panelas por toda parte. Sopa
para todo lado. Deixou os elfos domésticos loucos de terror...
Blém. Hermione derrubara sua taça de vinho. O suco de abóbora escorreu
pela mesa, manchando de laranja mais de um metro de linho branco, mas nem se
importou.
- Tem elfos domésticos aqui? - perguntou, encarando Nick Quase Sem
Cabeça com uma expressão de horror. - Aqui em Hogwarts?
- Claro que sim - disse o fantasma, parecendo surpreso com a reação da
garota. - O maior número que existe em uma habitação na Grã-Bretanha, acho.
Mais de cem.
- Eu nunca vi nenhum! - exclamou Hermione.
- Bom, eles raramente deixam a cozinha durante o dia, não é? Saem à noite
para fazer limpeza... abastecer as lareiras e coisas assim... quero dizer, não é
esperado que fiquem à vista. Essa é a marca de um bom elfo doméstico, não é,
que não se saiba que ele existe.
Hermione ficou olhando o fantasma.
- Mas eles recebem salário? - perguntou ela. - Têm férias, não têm?
Licença médica, aposentadoria e todo o resto?
Nick Quase Sem Cabeça deu gargalhadas tão gostosas que sua gola de
tufos escorregou, e a cabeça despencou para o lado e ficou balançando nos
poucos centímetros de pele e músculo fantasmais que ainda a ligavam ao
pescoço.
- Licença para tratamento médico e aposentadoria? - repetiu ele, puxando a
cabeça de volta aos ombros e prendendo-a mais uma vez com a gola. - Elfos
domésticos não querem licenças nem aposentadorias.


Hermione olhou para o prato de comida em que mal tocara, juntou os
talheres e afastou-o.
- Ora, vamos, Mi-oinc - disse Rony, cuspindo, sem querer, fragmentos de
pudim de carne em Harry. - Opa... desculpe, Harry... - E engoliu. - Você não vai
arranjar licenças para eles deixando de comer!
- Trabalho escravo - disse a garota, respirando com força pelo nariz. - Foi
isso que preparou este jantar. Trabalho escravo.
E recusou-se a continuar comendo.
A chuva ainda batucava com força nas janelas altas e escuras. Mais uma
trovoada sacudiu as vidraças e o céu tempestuoso relampejou, iluminando os
pratos de ouro quando os restos do primeiro prato desapareceram e foram
substituídos instantaneamente por sobremesas.
- Torta de caramelo, Mione! - exclamou Rony, abanando intencionalmente o
cheiro da sobremesa para os lados da amiga. - Pudim de groselhas, olha! Bolo de
chocolate recheado!
Mas Hermione lhe lançou um olhar tão parecido com o que a Profª Minerva
costumava dar que o garoto desistiu. Quando as sobremesas também tinham sido
destruídas, e as últimas migalhas desaparecidas dos pratos, deixando-os limpos e
brilhantes, Alvo Dumbledore tornou a se levantar. O burburinho das conversas que
enchiam o salão cessou quase imediatamente, de modo que somente se ouviam o
uivo do vento e o batuque da chuva.
- Então! - exclamou Dumbledore, sorrindo para todos. - Agora que já
comemos e molhamos também a garganta ("Hum!", fez Hermione), preciso mais
uma vez pedir sua atenção, para alguns avisos.
- O Sr. Filch, o zelador, me pediu para avisá-los de que a lista dos objetos
proibidos no interior do castelo este ano cresceu, passando a incluir Ioiôs -
berrantes, Frisbees -dentados e Bumerangues de repetição. A lista inteira tem uns
quatrocentos e trinta e sete itens, creio eu, e pode ser examinada na sala do Sr.
Filch, se alguém quiser lê-la.
Os cantos da boca de Dumbledore tremeram ligeiramente. Ele continuou:
- Como sempre, eu gostaria de lembrar a todos que a floresta que faz parte
da nossa propriedade é proibida a todos os alunos, e o povoado de Hogsmeade,
àqueles que ainda não chegaram à terceira série.
- Tenho ainda o doloroso dever de informar que este ano não realizaremos
a Copa de Quadribol entre as casas.
- Quê? - exclamou Harry. Ele olhou para Fred e Jorge, seus companheiros
no time de quadribol.
Xingaram Dumbledore em silêncio, aparentemente espantados demais para
falar. Dumbledore continuou:
- Isto se deve a um evento que começará em outubro e ira prosseguir
durante todo o ano letivo, mobilizando muita energia e muito tempo dos
professores, mas eu tenho certeza de que vocês irão apreciá-lo imensamente.
Tenho o grande prazer de anunciar que este ano em Hogwarts...
Mas neste momento, ouviu-se uma trovoada ensurdecedora e as portas do
Salão Principal se escancararam.
Apareceu um homem parado à porta, apoiado em um longo cajado e
coberto por uma capa de viagem preta. Todas as cabeças no Salão Principal se


viraram para o estranho, repentinamente iluminado por um relâmpago que cortou
o teto. Ele baixou o capuz, sacudiu uma longa juba de cabelos grisalhos ainda
escuros e começou a caminhar em direção à mesa dos professores.
Um ruído metálico e abafado ecoava pelo salão a cada passo que ele dava.
Quando alcançou a ponta da mesa, virou à direita e mancou pesadamente até
Dumbledore.
Mais um relâmpago cruzou o teto. Hermione prendeu a respiração. O
relâmpago revelou nitidamente as feições do homem e seu rosto era diferente de
qualquer outro que Harry já vira. Parecia ter sido talhado em madeira exposta ao
tempo, por alguém que tinha uma vaguíssima idéia do aspecto que um rosto
humano deveria ter, e não fora muito habilidoso com o formão.
Cada centímetro da pele do estranho parecia ter cicatrizes. A boca
lembrava um rasgo diagonal e faltava um bom pedaço do nariz. Mas eram os seus
olhos que o tornavam assustador.
Um deles era miúdo, escuro e penetrante. O outro era grande, redondo
como uma moeda e azul elétrico vivo, O olho azul se movia continuamente sem
piscar, e revirava para cima, para baixo, e de um lado para o outro,
independentemente do olho normal - depois virava de trás para diante, apontando
para o interior da cabeça do homem, de modo que só o que as pessoas viam era
o branco da córnea.
O estranho chegou-se a Dumbledore. Estendeu a mão direita, que era tão
cheia de cicatrizes quanto o rosto, e o diretor a apertou, murmurando palavras que
Harry não pôde ouvir. Parecia estar fazendo perguntas ao estranho, que abanava
negativamente a cabeça, sem sorrir, e respondia em voz baixa. Dumbledore
assentiu com a cabeça e indicou ao homem o lugar vazio à sua direita.
O estranho se sentou, sacudiu a juba grisalha para afastá-la do rosto,
puxou um prato de salsichas para si, levou-o ao que restara do nariz e cheirou-o.
Tirou então uma faquinha do bolso, espetou a salsicha e começou a comer.
Seu olho normal fixava as salsichas, mas o olho azul continuava a dar voltas na
órbita registrando o salão e os estudantes.
- Gostaria de apresentar o nosso novo professor de Defesa contra as Artes
das Trevas ­ disse Dumbledore, animado, em meio ao silêncio. - Prof. Moody.
Era normal os novos membros do corpo docente serem recebidos com
aplausos, mas nem os colegas nem os estudantes bateram palmas, exceto
Dumbledore e Hagrid. Os dois juntaram as mãos e bateram palmas, mas o som
ecoou tristemente no silêncio e eles bem depressa pararam. Todos pareciam
demasiado hipnotizados pela aparência grotesca de Moody para ter qualquer
reação exceto encarar o homem.
- Moody? - murmurou Harry para Rony. - Olho-Tonto Moody?O que o seu
pai foi ajudar hoje de manhã?
- Deve ser - disse Rony baixo, em tom de assombro.
- Que aconteceu com ele? - cochichou Hermione. - Que aconteceu com a
cara dele?
- Não sei - cochichou Rony em resposta, mirando Moody, fascinado.
Moody parecia totalmente indiferente à recepção quase fria que tivera.
Ignorando a jarra de suco de abóbora à sua frente, o homem tornou a enfiar a mão
no interior da capa, puxou um frasco de bolso e bebeu um longo gole. Quando


levantou o braço para beber, sua capa se elevou alguns centímetros do chão e
Harry viu, por baixo da mesa, um bom pedaço de uma perna de pau, que
terminava em um pé com garras.
Dumbledore pigarreou outra vez.
- Como eu ia dizendo - recomeçou ele, sorrindo para o mar de alunos à sua
frente, todos ainda mirando Olho-Tonto Moody, paralisados -, teremos a honra de
sediar um evento muito excitante nos próximos meses, um evento que não é
realizado há um século. Tenho o enorme prazer de informar que, este ano,
realizaremos um Torneio Tribruxo em Hogwarts.
- O senhor está BRINCANDO! - exclamou em voz alta Fred Weasley.
A tensão que invadira o salão desde a chegada de Moody repentinamente
se desfez. Quase todos riram e Dumbledore deu risadinhas de prazer.
- Não estou brincando, Sr. Weasley - disse ele -, embora, agora que o
senhor menciona, ouvi uma excelente piada durante o verão sobre um trasgo,
uma bruxa má e um leprechaun que entram num bar...
A Profª Minerva pigarreou alto.
- Hum... mas talvez não seja hora... não... Onde é mesmo que eu estava?
Ah, sim, no Torneio Tribruxo... bom, alguns de vocês talvez não saibam o que é
esse torneio, de modo que espero que aqueles que já sabem me perdoem por dar
uma breve explicação, e deixem sua atenção vagar livremente.
- O Torneio Tribruxo foi criado há uns setecentos anos, como uma
competição amistosa entre as três maiores escolas européias de bruxaria -
Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang. Um campeão foi eleito para representar
cada escola e os três campeões competiram em três tarefas mágicas. As escolas
se revezaram para sediar o torneio a cada cinco anos, e todos concordaram que
era uma excelente maneira de estabelecer laços entre os jovens bruxos e bruxas
de diferentes nacionalidades - até que a taxa de mortalidade se tornou tão alta que
o torneio foi interrompido.
- Taxa de mortalidade? - sussurrou Hermione, parecendo assustada. Mas,
aparentemente, sua ansiedade não foi compartida pela maioria dos alunos no
salão, muitos murmuravam entre si, excitados, e o próprio Harry estava bem mais
interessado em saber mais sobre o torneio do que em se preocupar com o que
acontecera centenas de anos atrás.
- Durante séculos houve várias tentativas de reiniciar o torneio - continuou
Dumbledore -, nenhuma das quais foi bem-sucedida. No entanto, os nossos
Departamentos de Cooperação Internacional em Magia e de Jogos e Esportes
Mágicos decidiram que já era hora de fazer uma nova tentativa. Trabalhamos
muito durante o verão para garantir que, desta vez, nenhum campeão seja
exposto a um perigo mortal.
- Os diretores de Beauxbatons e Durmstrang chegarão com a lista final dos
competidores de suas escolas em outubro e a seleção dos três campeões será
realizada no Dia das Bruxas. Um julgamento imparcial decidirá que alunos terão
mérito para disputar a Taça Tribruxo, a glória de sua escola e o prêmio individual
de mil galeões.
- Estou nessa! - sibilou Fred Weasley para os colegas de mesa, o rosto
iluminado de entusiasmo ante a perspectiva de tal glória e riqueza. Aparentemente
ele não era o único que estava se vendo como campeão de Hogwarts. Em cada


mesa Harry viu gente olhando arrebatada para Dumbledore ou então cochichando
ardentemente com os vizinhos. Mas, então, Dumbledore recomeçou a falar, e o
salão se aquietou.
- Ansiosos como eu sei que estarão para ganhar a Taça para Hogwarts -
disse ele -, os diretores das escolas participantes, bem como o Ministério da
Magia, concordaram em impor este ano uma restrição à idade dos contendores.
Somente os alunos que forem maiores, isto é, tiverem mais de dezessete anos,
terão permissão de apresentar seus nomes à seleção. Isto - Dumbledore elevou
ligeiramente a voz, pois várias pessoas haviam protestado indignadas ao ouvir
suas palavras, e os gêmeos Weasley, de repente, pareciam furiosos - é uma
medida que julgamos necessária, pois as tarefas do torneio continuarão a ser
difíceis e perigosas, por mais precauções que tomemos, e é muito pouco provável
que os alunos abaixo da sexta e sétima séries sejam capazes de dar conta delas.
- Cuidarei pessoalmente para que nenhum aluno menor de idade engane o
nosso juiz imparcial e seja escolhido campeão de Hogwarts. - Seus olhos azul-
claros cintilaram ao perpassar os rostos rebelados de Fred e Jorge. ­ Portanto
peço que não percam tempo apresentando suas candidaturas se ainda não
tiverem completado dezessete anos.
- As delegações de Beauxbatons e de Durmstrang chegarão em outubro e
permanecerão conosco a maior parte deste ano letivo. Sei que estenderão as
suas boas maneiras aos nossos visitantes estrangeiros enquanto estiverem
conosco, e que darão o seu generoso apoio ao campeão de Hogwarts quando ele
for escolhido. E agora já está ficando tarde e sei como é importante estarem
acordados e descansados para começar as aulas amanhã de manhã. Hora de
dormir! Vamos andando!
Dumbledore tornou a se sentar e virou-se para falar com Olho-Tonto
Moody. Ouviu-se um estardalhaço de cadeiras batendo e se arrastando quando os
alunos se levantaram para sair como um enxame em direção às portas de entrada
do Salão Principal.
- Não podem fazer isso com a gente! - reclamou Jorge Weasley, que não se
reunira aos colegas que se dirigiam às portas, mas continuara parado olhando de
cara emburrada para Dumbledore. ­ Vamos fazer dezessete anos em abril, por
que não podemos tentar?
- Não vão me impedir de me inscrever - disse Fred, teimoso, também
amarrando a cara para a mesa principal. - Os campeões vão fazer todo o tipo de
coisa que normalmente nunca podemos fazer. E mil galeões de prêmio!
- É - disse Rony, um olhar distante no rosto. - É, mil galeões...
- Vamos - disse Hermione -, vamos ser os únicos a ficar aqui se você não
se mexer.
Harry, Rony, Hermione, Fred e Jorge saíram para o saguão de entrada, os
gêmeos discutindo as maneiras pelas quais Dumbledore poderia impedir os
menores de dezessete anos de se inscreverem no torneio.
- Quem é esse juiz imparcial que vai decidir quem são os campeões? ­
perguntou Harry.
- Sei lá - disse Fred - mas é ele a quem temos de enganar. Acho que umas
gotas de Poção para Envelhecer talvez resolvam, Jorge...
- Mas Dumbledore sabe que vocês são menores - ponderou Rony.


- É, mas não é ele que decide quem é o campeão, é? - perguntou Fred,
astutamente. ­ Estou achando que quando esse juiz souber quem quer entrar, ele
vai escolher o melhor de cada escola, sem se importar com a idade do campeão.
Dumbledore está tentando impedir a gente de se inscrever.
- Mas teve pessoas que morreram! - disse Hermione com a voz
preocupada, enquanto passavam por uma porta escondida atrás de uma tapeçaria
para subir outra escada ainda mais estreita.
- É - disse Fred levianamente -, mas isso foi há muitos anos, não é? Em
todo o caso onde é que está a graça se não houver um pouco de risco? Ei, Rony,
e se descobrirmos como contornar Dumbledore? Já imaginou a gente se
inscrevendo?
- Que é que você acha? - perguntou Rony a Harry. - Seria legal, não seria?
Mas suponha que eles queiram alguém mais velho?... Não sei se já aprendemos o
suficiente...
- Eu decididamente não aprendi - ouviu-se a voz tristonha de Neville às
costas de Fred e Jorge. - Mas imagino que a minha avó vai querer que eu
experimente, ela está sempre falando que eu devia lutar pela honra da família. Eu
terei que... opa...
O pé de Neville afundara direto por um degrau no meio da escada. Havia
muitos desses degraus bichados em Hogwarts, já era uma segunda natureza na
maioria dos alunos antigos saltar esse determinado degrau, mas a memória de
Neville era notoriamente fraca. Harry e Rony o agarraram pelas axilas e o
puxaram para cima, enquanto uma armadura no alto das escadas rangia e retinia,
rindo-se asmaticamente.
- Quieta aí - disse Rony, baixando o visor da armadura com estrépito, ao
passarem. Os garotos se dirigiram à entrada da Torre da Grifinória, que ficava
escondida atrás de uma grande pintura a óleo de uma mulher gorda com um
vestido de seda rosa.
- Senha? - perguntou ela quando os garotos se aproximaram.
- Asnice- disse Jorge-, um monitor me informou lá embaixo.
O retrato girou para a frente, expondo um buraco na parede, pelo qual
todos passaram. Um fogo crepitante aquecia a sala comunal circular, mobiliada
com fofas poltronas e mesas.
Hermione lançou às chamas dançantes um olhar mal-humorado e Harry a
ouviu dizer distintamente "trabalho escravo!", antes de dar boa-noite aos amigos e
desaparecer pelo portal que dava acesso ao dormitório das meninas.
Harry, Rony e Neville subiram a última escada em espiral para chegar ao
próprio dormitório, que ficava situado no alto da Torre. As camas de colunas com
cortinados vermelho escuro estavam encostadas às paredes, cada uma com o
malão do dono aos pés. Dino e Simas já estavam se deitando, Simas pregara sua
roseta da Irlanda na cabeceira da cama e Dino afixara um pôster de Vítor Krum
em cima da mesa-de-cabeceira. Seu velho pôster do time de futebol de West Ham
estava pendurado ao lado do novo.
- Biruta - suspirou Rony, sacudindo a cabeça para os jogadores de futebol
completamente imóveis.
Harry, Rony e Neville vestiram os pijamas e se enfiaram em suas camas.
Alguém ­ um elfo doméstico, com certeza - colocara esquentadores entre os


lençóis. Era extremamente confortável, ficar ali deitado na cama escutando a
tempestade rugir lá fora.
- Eu tentaria, sabe - disse Rony, sonolento, no escuro - se Fred e Jorge
descobrirem como... o torneio... nunca se sabe, não é?
- Imagino que não... - Harry se virou na cama, uma série de imagens novas
e fascinantes se formando em sua cabeça... ele enganara o juiz imparcial fazendo-
o acreditar que tinha dezessete anos...tornara-se campeão de Hogwarts... estava
em pé nos jardins, os braços erguidos em triunfo diante de toda a escola, que o
aplaudia e gritava... ele acabara de ganhar o Torneio Tribruxo... O rosto de Cho se
destacava claramente na multidão difusa, o rosto radioso de admiração...Harry
sorriu para o travesseiro, excepcionalmente contente de que Rony não pudesse
ver o que ele via.


- CAPITULO TREZE -
Olho-Tonto Moody

O temporal já se esgotara quando o dia seguinte amanheceu, embora o teto
no Salão Principal continuasse ameaçador; pesadas nuvens cinza-chumbo se
espiralavam no alto quando Harry, Rony e Hermione examinaram seus novos
horários ao café da manhã. A poucas cadeiras de distância, Fred, Jorge e Lino
Jordan discutiam métodos mágicos de se tornarem velhos e, com esse truque,
participar do Torneio Tribruxo.
- Hoje não é ruim... lá fora a manhã inteira - disse Rony, que corria o dedo
pela coluna intitulada segunda-feira no seu horário -, Herbologia com a Lufa-Lufa e
Trato das Criaturas Mágicas... droga, continuamos com a Sonserina...
- Dois tempos de Adivinhação hoje à tarde - gemeu Harry, baixando os
olhos.
Adivinhação era a matéria de que ele menos gostava, depois de Poções. A
Profª Sibila Trelawney não parava de predizer a morte de Harry, coisa que ele
achava muitíssimo aborrecida.
- Você devia ter desistido como eu fiz, não é? - disse Hermione decidida,
passando manteiga na torrada. - Então poderia fazer alguma coisa sensata como
Aritmancia.
- Você voltou a comer, pelo que estou vendo - comentou Rony, observando
Hermione acrescentar generosas quantidades de geléia à torrada amanteigada.
- Já resolvi que há maneiras melhores de marcar posição no caso dos
direitos dos elfos ­ disse Hermione com altivez.
- E... e pelo visto está com fome - disse Rony, sorrindo.
Houve um repentino rumorejo acima deles e cem corujas entraram pelas
janelas abertas, trazendo o correio da manhã. Instintivamente, Harry olhou para o
alto, mas não viu nada branco na mancha compacta de castanhos e cinza. As
corujas circularam sobre as mesas, procurando as pessoas a quem as cartas e
pacotes eram endereçados. Uma corujona âmbar desceu até Neville Longbottom
e depositou um embrulho em seu colo - o garoto quase sempre se esquecia de
guardar na mala alguma coisa. Do outro lado do salão, a coruja de Draco Malfoy
pousara no ombro dele trazendo sua habitual remessa de doces e bolos de casa.


Tentando ignorar a profunda sensação de desapontamento no meio do estômago,
Harry voltou sua atenção para o mingau de aveia. Será que alguma coisa tinha
acontecido a Edwiges e que Sirius sequer recebera sua carta?
Sua preocupação se prolongou por todo o caminho pela horta enlameada
até chegarem à estufa número três, mas ali ele se distraiu com a Profª Sprout que
mostrava à turma as plantas mais feias que Harry já vira. De fato, elas se
pareciam mais com enormes lesmas gordas e pretas que brotavam verticalmente
do solo do que com plantas. Cada uma delas se contorcia ligeiramente e tinha
vários inchaços brilhantes no corpo que pareciam cheios de líquido.
- Bubotúberas - disse a Profª Sprout brevemente. - Precisam ser
espremidas. Recolhe-se o pus...
- O quê? - exclamou Simas Finnigan, expressando sua repugnância.
- Pus, Finnigan - respondeu a professora -, e é extremamente precioso, por
isso não o desperdice. Recolhe-se o pus, como eu ia dizendo, nessas garrafas.
Usem as luvas de couro de dragão, podem acontecer reações engraçadas na pele
quando o pus das bubotúberas não está diluído.
Espremer as bubotúberas era nojento, mas dava um estranho prazer. Á
medida que estouravam cada tumor, saía dele uma grande quantidade de líquido
verde-amarelado, que cheirava fortemente a gasolina. Os alunos o recolheram em
garrafas, conforme a professora orientara e, no fim da aula, haviam obtido vários
litros.
- Isto vai deixar Madame Pomfrey feliz - disse a Profª Sprour arrolhando a
última garrafa. ­ Um remédio excelente para as formas mais renitentes de acne, o
pus de bubotúberas. Pode fazer os alunos pararem de recorrer a medidas
desesperadas para se livrarem das espinhas.
- Como a coitada da Heloisa Midgen - disse Ana Abbott, aluna da Lufa-Lufa,
em voz baixa. ­ Ela tentou acabar com as dela lançando um feitiço.
- Que menina tola! - disse a professora, balançando a cabeça.
- Mas, no fim, Madame Pomfrey fez o nariz dela voltar à forma anterior.
Uma sineta ressonante sinalizou o fim da aula e a turma se separou; os da
Lufa-Lufa subiram a escada de pedra rumo à aula de Transformação e os da
Grifinória tomaram outro rumo, descendo o jardim em direção à pequena cabana
de madeira de Hagrid, que ficava na orla da Floresta Proibida.
Hagrid estava parado à frente da cabana, uma das mãos na coleira do seu
enorme cão de caçar javalis, Canino. Havia vários caixotes abertos no chão a
seus pés, e Canino choramingava e retesava a coleira, aparentemente tentando
investigar o conteúdo dos caixotes mais de perto. Quando os garotos se
aproximaram, um estranho som de chocalho chegou aos seus ouvidos pontuado,
aparentemente, por pequenas explosões.
- Dia! - cumprimentou Hagrid, sorrindo para Harry, Rony e Hermione. ­
Melhor esperar pelos alunos da Sonserina, eles não vão querer perder isso...
Explosivins!
- Como é? - perguntou Rony.
Hagrid apontou para os caixotes.
- Arrrrrre! - exclamou Lilá Brown num gritinho agudo, saltando para trás.
"Arrrrrre" resumia o que eram os explosívíns, na opinião de Harry.


Pareciam lagostas sem casca, deformadas, terrivelmente pálidas e de
aspecto pegajoso, as pernas saindo dos lugares mais estranhos e sem cabeça
visível. Havia uns cem deles em cada caixote, cada um com uns quinze
centímetros de comprimento, rastejando uns sobre os outros, batendo às cegas
contra as paredes das caixas. Desprendiam um cheiro forte de peixe podre. De
vez em quando, soltavam faíscas da cauda e, com um leve pum, se deslocavam
alguns centímetros à frente.
- Acabaram de sair da casca - informou Hagrid orgulhoso -, por isso vocês
vão poder criar os bichinhos pessoalmente! Achei que podíamos fazer uma
pesquisa sobre eles!
- E por que nós íamos querer criar esses bichos? - perguntou uma voz fria.
Os alunos da Sonserina haviam chegado. Quem falava era Draco Malfoy.
Crabbe e Goyle davam risadinhas de prazer ao ouvir suas palavras. Hagrid
pareceu embatucar com a pergunta.
- Quero dizer, o que é que eles fazem? - perguntou Malfoy. - Para que
servem?
Hagrid abriu a boca, aparentemente fazendo um esforço para responder,
houve uma pausa de alguns segundos, depois ele disse com aspereza:
- Isto é na próxima aula, Malfoy. Hoje você só vai alimentar os bichos.
Agora vamos ter que experimentar diferentes alimentos... nunca os criei antes,
não tenho certeza do que gostariam... tenho ovos de formiga, fígados de sapo e
um pedaço de cobra, experimentem um pedacinho de cada.
- Primeiro pus e agora isso - resmungou Simas.
Nada, exceto a profunda afeição que tinham por Hagrid, poderia ter feito
Harry, Rony e Hermione apanhar mãos cheias de fígados de sapo melados e
baixá-las aos caixotes para tentar os explosivins. Harry não conseguiu refrear a
suspeita de que aquilo tudo não tinha finalidade alguma, porque os bichos não
pareciam ter bocas.
- Ai!- gritou Dino Thomas, passados uns dez minutos. - Ele me pegou!
Hagrid correu para o garoto, com uma expressão ansiosa no rosto.
- A cauda dele explodiu! - disse Dino zangado, mostrando a Hagrid uma
queimadura na mão.
- Ah, é, isso pode acontecer quando eles disparam - disse Hagrid,
confirmando o que dizia com a cabeça.
- Arre! - exclamou Lilá Brown outra vez. - Arre, Hagrid, que é essa coisinha
pontuda neles?
- Ah, alguns têm espinhos - disse Hagrid entusiasmado (Lilá retirou
depressa a mão da caixa). - Acho que são os machos... as fêmeas têm uma
espécie de sugador na barriga... Acho que talvez seja para sugar sangue.
- Bom, sem a menor dúvida eu entendo por que estamos tentando manter
esses bichos vivos - disse Malfoy sarcasticamente. - Quem não iria querer
animalzinhos de estimação que podem queimar, picar e morder, tudo ao mesmo
tempo?
- Só porque eles não são muito bonitos, não significa que não sejam úteis ­
retorquiu Hermione. - Sangue de dragão é uma coisa assombrosamente mágica,
mas você não iria querer um dragão como bicho de estimação, não é mesmo?


Harry e Rony sorriram para Hagrid, que retribuiu com um sorriso furtivo por
trás da barba espessa. Nada o teria agradado mais do que um filhote de dragão,
como Harry, Rony e Hermione sabiam mais do que bem - ele criara um, por um
breve período, durante o primeiro ano deles na escola, um agressivo dragão
norueguês que recebera o nome de Norberto. Hagrid simplesmente amava
monstros - quanto mais letal, melhor.
- Bom, pelo menos os explosivins são pequenos - disse Rony, quando
voltavam uma hora depois ao castelo para almoçar.
- São agora - disse Hermione, com uma voz exasperada -, mas depois que
o Hagrid descobrir o que eles comem, imagino que vão atingir um metro e meio de
comprimento.
- Bom, isso não vai fazer diferença se descobrirem que eles curam enjôo ou
outra coisa qualquer, não é? - disse Rony, sorrindo sonsamente para a amiga.
- Você sabe perfeitamente bem que eu só disse aquilo para calar a boca de
Malfoy ­ retrucou Hermione. - Aliás acho que ele tem razão. O melhor que
podíamos fazer era acabar com os bichos antes que eles comecem a nos atacar.
Os garotos se sentaram à mesa da Grifinória e se serviram de costeletas de
cordeiro com batatas. Hermione começou a comer tão rápido que Harry e Rony
ficaram olhando para ela.
- Hum, essa é a sua nova posição em favor dos direitos dos elfos? -
perguntou Rony. - Em vez de não comer, comer depressa para vomitar?
- Não - respondeu Hermione com toda a dignidade que conseguiu reunir
tendo a boca cheia de couves-de-bruxelas. - Só quero chegar à biblioteca.
- Quê?- exclamou Rony incrédulo. - Mione, é o primeiro dia de aulas! Ainda
nem passaram dever de casa pra gente!
Hermione sacudiu os ombros e continuou a devorar a comida como se não
comesse há dias. Em seguida se levantou e disse:
- Vejo vocês no jantar! - e saiu apressadissima.
Quando a sineta tocou para anunciar o inicio das aulas da tarde, Harry e
Rony se dirigiram à Torre Norte, onde, no alto de uma estreita escada em caracol,
uma escada de mão prateada levava a um alçapão no teto e à sala em que
morava a Profª Sibila Trelawney.
O já conhecido perfume doce que saía da lareira veio ao encontro das
narinas dos garotos quando eles chegaram ao topo da escada. Como sempre, as
cortinas estavam fechadas; e a sala circular, banhada por uma fraca luz
avermelhada projetada por várias lâmpadas cobertas por lenços e xales. Harry e
Rony caminharam entre as cadeiras e pufes forrados de chintz, já ocupados, e se
sentaram a mesma mesinha redonda.
- Bom-dia! - disse a etérea voz da professora às costas de Harry, causando-
lhe um sobressalto.
Uma mulher magra com enormes óculos que faziam seus olhos parecerem
demasiado grandes para o rosto, a professora mirava Harry com a expressão
trágica que fazia sempre que o via. Os numerosos colares e pulseiras habituais
faiscavam em seu corpo às chamas da lareira.
- Você está preocupado, meu querido - disse ela tristemente a Harry. ­
Minha Visão Interior transpõe o seu rosto corajoso e chega dentro de sua alma
perturbada. E lamento dizer que suas preocupações têm fundamento. Vejo


tempos difíceis em seu futuro, ai de você... dificílimos... receio que a coisa que
você teme realmente venha a acontecer... e talvez mais cedo do que pensa...
Sua voz foi baixando até virar quase um sussurro. Rony revirou os olhos
para Harry, que lhe retribuiu com um olhar impassível. A Profª Sibila deixou os
garotos, com um movimento ondulante, e se sentou na grande bergere diante da
lareira, de frente para a turma. Lilá Brown e Parvati Patil, que a admiravam
profundamente, estavam sentadas em pufes muito próximos à professora.
- Meus queridos, está na hora de estudarmos as estrelas - disse ela. ­ Os
movimentos dos planetas e os misteriosos portentos que eles revelam somente
àqueles que compreendem os passos da coreografia celestial. O destino humano
pode ser decifrado pelos raios planetários que se fundem...
Mas os pensamentos de Harry tinham se afastado. As chamas perfumadas
sempre o deixavam sonolento e embotado, e os discursos desconexos da
professora sobre adivinhação nunca conseguiam mantê-lo exatamente fascinado -
embora não pudesse deixar de refletir sobre o que ela acabara de dizer: "Receio
que a coisa que você teme realmente venha a acontecer..."
Mas Hermione tinha razão, pensou Harry irritado, Sibila era realmente uma
velha charlatã. Ele não estava com medo de absolutamente nada naquele
momento... bom, a não ser talvez o medo de que Sirius tivesse sido apanhado...
mas o que sabia a professora?
Harry já chegara à conclusão, havia muito tempo, de que a adivinhação
dela não passava de palpites ocasionalmente certos e um jeito misterioso de
apresentá-los. Exceto, naturalmente, aquela vez no fim do último trimestre,
quando predissera o retorno de Voldemort ao poder... e o próprio Dumbledore era
de opinião que o transe de Sibila fora genuíno, quando Harry lhe contara...
- Harry! - murmurou Rony.
- Quê?
Harry olhou para os lados, a turma inteira o observava. Ele se sentou
direito, estivera quase cochilando, perdido em meio ao calor e aos seus
pensamentos.
- Eu estava dizendo, meu querido, que você sem dúvida nasceu sob a
influência nefasta de Saturno - disse a Profª Sibila, com um leve quê de mágoa na
voz pelo fato de que o garoto obviamente não estivera pendurado em suas
palavras.
- Nasci sob o quê... perdão? - disse Harry.
- Saturno, querido, o planeta Saturno! - disse a professora, parecendo
irritada que ele não tivesse prestado atenção à informação. - Eu estava dizendo
que Saturno com certeza estava numa posição dominante no céu na hora em que
você nasceu... seus cabelos escuros... sua baixa estatura... suas perdas trágicas
na infância... acho que estou certa ao afirmar, meu querido, que você nasceu em
pleno inverno?
- Não - respondeu Harry. - Nasci no verão.
Rony se apressou em transformar uma risada em um forte acesso de tosse.
Meia hora depois, cada um dos alunos recebeu um mapa circular e tentou
desenhar a posição dos planetas na hora do seu nascimento. Era um trabalho
enjoado, que exigia muitas consultas a tabelas horárias e cálculos de ângulos.


- Eu tenho dois Netunos aqui - disse Harry, depois de algum tempo,
olhando insatisfeito o seu pergaminho -, isso não pode estar certo, pode?
- Aaaaah - exclamou Rony, imitando o sussurro místico da professora -,
quando dois Netunos aparecem no céu é um sinal seguro de que um anão de
óculos está nascendo, Harry...
Simas e Dino, que estavam sentados próximos, riram alto, embora não tão
alto a ponto de abafar os gritinhos excitados de Lilá Brown:
- Ah, Profª Sibila, olhe! Acho que tenho um planeta oculto! Aaaah, qual é
esse, professora?
- É Urano, minha querida - disse a professora examinando o mapa.
- Posso dar uma olhada no seu Urano, também, Lilá? - perguntou Rony.
Por infelicidade, a professora o ouviu e talvez tenha sido por isso que no fim
da aula passou para a turma tanto dever de casa.
- Quero uma análise detalhada do modo com que os movimentos dos
planetas vão afetá-los no próximo mês, tendo em vista o seu mapa pessoal - disse
ela secamente, parecendo mais a Profª Minerva do que a fada etérea de sempre. -
Para entrega na próxima segunda-feira, e não aceito desculpas!
- Diabo de morcega velha - exclamou Rony com amargura, quando eles se
reuniram aos alunos que desciam as escadas para jantar no Salão Principal.
- Isso vai nos tomar todo o fim de semana, ah vai...
- Muito dever de casa? - indagou Hermione animada, alcançando-os. - A
Profª Vector não passou nada para nós.
- Palmas para a Profª Vector - retrucou Rony mal-humorado.
Os três chegaram ao saguão de entrada, que estava lotado de gente
fazendo fila para o jantar. Tinham acabado de entrar no fim da fila, quando uma
voz alta soou às costas deles.
- Weasley! Ei, Weasley!
Harry, Rony e Hermione se viraram. Malfoy, Crabbe e Goyle estavam
parados ali, cada qual parecendo mais satisfeito.
- Que é? - perguntou Rony rispidamente.
- Seu pai está no jornal, Weasley! - disse Malfoy brandindo um exemplar do
Profeta Diário, e isso bem alto para que todas as pessoas aglomeradas no saguão
pudessem ouvir. - Escuta só isso!
NOVOS ERROS NO MINISTÉRIO DA MAGIA
Pelo visto os problemas no Ministério da Magia ainda não chegaram ao fim,
informa nossa correspondente especial Rita Skeeter. Recentemente censurado
por sua incapacidade de controlar multidões durante a Copa Mundial de
Quadribol, e ainda devendo à opinião pública uma explicação para o
desaparecimento de uma de suas bruxas, ontem o Ministério enfrentou novo
constrangimento com as extravagâncias de Arnold Weasley, da Seção de Controle
do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas.
Malfoy ergueu os olhos.
- Imagina, nem escreveram direito o nome dele, Weasley, é quase como se
ele não existisse, não é?
Todos no saguão agora prestavam atenção. Malfoy esticou o jornal com um
gesto largo e continuou a ler:


- Arnold Weasley acusado de possuir um carro voador há dois anos,
envolveu-se ontem numa briga com guardiões trouxas da lei (policiais) por causa
de latas de lixo extremamente agressivas. O Sr. Weasley parece ter ido socorrer
"Olho-Tonto" Moody, um ex-auror idoso, que se aposentou do Ministério ao se
tornar incapaz de distinguir um aperto de mão de uma tentativa de homicídio. Ao
chegar à casa do ex-auror, fortemente guardada por um funcionário verificou, sem
surpresa, que, mais uma vez, o Sr. Moody dera um alarme falso. Em
conseqüência, o Sr. Weasley foi obrigado a alterar muitas memórias para poder
escapar dos policiais, mas se recusou a responder às perguntas do Profeta Diário
sobre as razões que o levaram a envolver o Ministério nesse episódio pouco digno
e potencialmente embaraçoso.
- E tem uma foto, Weasley! - acrescentou Malfoy, virando o jornal e
mostrando-a. - Uma foto de seus pais à porta de casa, se é que se pode chamar
isso de casa! Sua mãe bem que podia perder uns quilinhos, não acha?
Rony tremia de fúria. Todos o encaravam.
- Se manda, Malfoy - disse Harry. - Vamos Rony...
- Ah, você esteve visitando a família no verão, não foi, Potter? ­ caçoou
Malfoy. - Então me conta, a mãe dele parece uma barrica ou é efeito da foto?
- Você já olhou bem para sua mãe, Malfoy? - respondeu Harry, ele e
Hermione seguravam Rony pelas costas das vestes para impedi-lo de partir para
cima do outro. - Aquela expressão na cara dela, de quem tem bosta debaixo do
nariz? Ela sempre teve aquela cara ou foi só porque você estava perto dela?
O rosto pálido de Malfoy corou levemente.
- Não se atreva a ofender minha mãe, Potter.
- Então vê se cala essa boca - disse Harry dando as costas ao colega.
BANGUE!
Várias pessoas gritaram - Harry sentiu uma coisa branca e quente arranhar
o lado do rosto - mergulhou a mão nas vestes para apanhar a varinha, mas antes
que chegasse sequer a tocá-la, ouviu um segundo estampido e um berro que
ecoou pelo saguão de entrada.
-AH, NÃO VAI NÃO, GAROTO!
Harry se virou. O Prof. Moody descia mancando a escadaria de mármore.
Tinha a varinha na mão e apontava diretamente para uma doninha muito alva, que
tremia no piso de lajotas, exatamente no lugar em que Malfoy estivera. Fez-se um
silêncio aterrorizado no saguão. Ninguém exceto Moody mexia um só músculo.
Ele se virou para olhar Harry - pelo menos, o olho normal estava olhando para
Harry; o outro estava apontando para dentro da cabeça.
- Ele o mordeu? - rosnou o professor. Sua voz era baixa e áspera.
- Não - respondeu Harry -, por pouco.
- DEIXE-O! - berrou Moody.
- Deixe... o quê? - perguntou Harry espantado.
- Não você, ele! - vociferou Moody, apontando o polegar por cima do ombro
para Crabbe, que acabara de congelar em meio a um gesto para recolher a
doninha branca. Parecia que o olho giratório de Moody era mágico e enxergava
através da nuca do professor.
Moody começou a mancar em direção a Crabbe, Goyle e a doninha, que
soltou um guincho aterrorizado e fugiu em direção às masmorras.


- Acho que não! - rugiu Moody, tornando a apontar a varinha para a
doninha, ela subiu uns três metros no ar, caiu com um baque úmido no chão e
quicou de novo para cima.
- Não gosto de gente que ataca um adversário pelas costas - rosnou
Moody, enquanto a doninha quicava cada vez mais alto, guinchando de dor. - Um
ato nojento, covarde, reles...
A doninha voava pelo ar, as pernas e a cauda sacudiam descontroladas.
- Nunca... mais... torne... a... fazer... isso - continuou o professor,
destacando cada palavra para a doninha que batia no piso de pedra e tornava a
subir.
- Prof. Moody! - chamou uma voz chocada.
A Profª Minerva vinha descendo a escadaria com os braços carregados de
livros.
- Olá, Profª McGonagall - cumprimentou Moody calmamente, fazendo a
doninha quicar ainda mais alto.
- Que... que é que o senhor está fazendo? - perguntou a professora
seguindo com o olhar a subida da doninha no ar.
- Ensinando - respondeu ele.
- Ensinan... Moody, isso é um aluno? - gritou a professora, os livros
despencando dos seus braços.
- É.
- Não! - exclamou ela, descendo a escada correndo e puxando a própria
varinha, um momento depois, com um estampido, Draco Malfoy reapareceu, caído
embolado no chão, os cabelos lisos e louros sobre o rosto agora muito vermelho.
Ele se levantou, fazendo uma careta.
- Moody, nunca usamos transformação em castigos! - disse a professora
com a voz fraca. - Certamente o Prof. Dumbledore deve ter lhe dito isso?
- É, talvez ele tenha mencionado - respondeu Moody, coçando o queixo
displicentemente -, mas achei que um bom choque...
- Damos detenções, Moody! Ou falamos com o diretor da casa do faltoso!
- Vou fazer isso, então - disse Moody, encarando Malfoy com intenso
desagrado.
O garoto, cujos olhos claros ainda lacrimejavam de dor e humilhação,
ergueu o rosto maldosamente para Moody e murmurou alguma coisa em que se
distinguiam as palavras "meu pai "
- Ah, é? - disse Moody em voz baixa, aproximando-se alguns passos, a
pancada surda de sua perna de pau ecoando pelo saguão.
- Bom, conheço seu pai de outras eras, moleque... diga a ele que Moody
está de olho no filho dele... diga-lhe isso por mim... agora imagino que o diretor de
sua casa seja o Snape, não?
- É - respondeu Malfoy cheio de rancor.
- Outro velho amigo - rosnou Moody. - Estou querendo mesmo conversar
com o velho Snape...vamos, seu... - E segurando o garoto pelo antebraço saiu
com ele em direção às masmorras.
A Profª Minerva acompanhou-os com um olhar ansioso por alguns
momentos, depois apontou a varinha para os livros fazendo-os subir no ar e voltar
aos seus braços.


- Não falem comigo - disse Rony em voz baixa para Harry e Hermione,
quando se sentaram à mesa da Grifinória alguns minutos mais tarde, cercados por
alunos excitados por todos os lados que comentavam o que acabara de
acontecer.
- Por que não? - perguntou Hermione surpresa.
- Porque quero gravar isso na memória para sempre - disse Rony, com os
olhos fechados e uma expressão de enlevo no rosto.
- Draco Malfoy, a fantástica doninha quicante...
Harry e Hermione riram, e a garota começou a servir bife de caçarola no
prato dos dois.
- Ele poderia ter realmente machucado Malfoy - comentou ela. - Foi bom a
Profª Minerva ter feito ele parar...
- Mione! - exclamou Rony furioso, os olhos se abrindo repentinamente. ­
Você está estragando o melhor momento da minha vida!
Hermione soltou uma exclamação de impaciência e começou a comer outra
vez em alta velocidade.
- Não me diga que vai voltar à biblioteca hoje à noite?-perguntou Harry,
observando-a.
- Preciso - respondeu Mione indistintamente. - Muito que fazer.
- Mas você nos disse que a Profª Vector...
- Não é dever de escola. - Em cinco minutos ela limpara o prato e fora
embora.
Nem bem a garota tinha saído e sua cadeira foi ocupada por Fred Weasley.
- Moody! - disse ele. - Ele é legal?
- Pra lá de legal - disse Jorge, sentando-se defronte a Fred.
- Superlegal - disse o melhor amigo dos gêmeos, Lino Jordan,
escorregando para o lugar ao lado de Jorge. - Tivemos ele hoje à tarde - disse
Lino a Harry e Rony.
- Como foi a aula? - perguntou Harry ansioso.
Fred, Jorge e Lino trocaram olhares cheios de significação.
- Nunca tive uma aula igual - disse Fred.
- Ele sabe das coisas, cara - disse Lino.
- Do quê? - perguntou Rony, curvando-se para a frente.
- Sabe o que é estar lá fora fazendo as coisas - disse Jorge cheio de
importância.
- Que coisas? - perguntou Harry.
- Combatendo as Artes das Trevas - disse Fred.
- Ele já viu de tudo - disse Jorge.
- Fantástico - exclamou Lino.
Rony enfiara a cabeça na mochila à procura do seu horário.
- Não vamos ter aula com ele até quinta-feira! - disse desapontado.


CAPITULO CATORZE
As Maldições Imperdoáveis

Os dois dias seguintes transcorreram sem grandes incidentes, a não ser
que se levasse em conta o sexto caldeirão derretido por Nevilie na aula de
Poções. O Prof. Snape, que, durante as férias, parecia ter alcançado novos níveis
em sua gana de se vingar do garoto, deu-lhe uma detenção, da qual Nevilie voltou
com um colapso nervoso, pois teve que destripar uma barrica de iguanas.
- Você sabe por que Snape está nesse mau humor tão grande, não sabe? -
perguntou Rony a Harry, enquanto observavam Hermione ensinar a Neville um
Feitiço de Limpeza para remover as tripas de iguanas presas sob suas unhas.
- Hum-hum - disse Harry. - Moody.
Era do conhecimento de todos que Snape queria realmente o lugar de
professor de Artes das Trevas, e acabara de perdê-lo pelo quarto ano seguido.
Snape detestara todos os professores anteriores dessa matéria e demonstrara
isso - mas parecia ter extrema cautela para esconder sua animosidade contra
Olho-Tonto Moody. De fato, sempre que Harry via os dois professores juntos - na
hora das refeições ou quando passavam pelos corredores - tinha a nítida
impressão de que Snape evitava os olhos de Moody, fosse o mágico fosse o
normal.
- Acho que Snape tem medo dele, sabe - disse Harry pensativo.
- Imagine se Moody transformasse Snape em iguana - disse Rony, seus
olhos se toldando ­ e fizesse ele ficar saltando pela masmorra...
Os alunos da quarta série da Grifinória estavam tão ansiosos para ter a
primeira aula com Moody que, na quinta-feira, chegaram logo depois do almoço e
fizeram fila à porta da sala, antes mesmo da sineta tocar. A única pessoa ausente
foi Hermione, que chegou no último instante para a aula.
- Estava na...
- ... biblioteca - Harry terminou a frase da amiga. Anda logo senão não
vamos arranjar lugares decentes.
Eles correram para pegar três cadeiras bem diante da escrivaninha do
professor, apanharam seus exemplares de As forças das trevas: um guia para sua
proteção, e esperaram anormalmente quietos. Não tardaram a ouvir os passos
sincopados de Moody que vinha pelo corredor e que, ao entrar na sala, parecia
mais estranho e amedrontador que nunca. Seu pé de madeira em garra aparecia
ligeiramente por baixo das vestes.
- Podem guardar isso - rosnou ele, apoiando-se na escrivaninha para se
sentar -, esses livros. Não vão precisar deles.
Os alunos tornaram a guardar os livros nas mochilas, Rony tinha um ar
excitado. Moody apanhou a folha de chamada, sacudiu sua longa juba de cabelos
grisalhos para afastá-los do rosto contorcido e marcado, e começou a chamar os
nomes, seu olho normal percorrendo a lista e o olho mágico girando, fixando-se
em cada aluno quando ele respondia.
- Certo, então - concluiu ele, quando a última pessoa confirmara presença.
­ Tenho uma carta do Prof. Lupin sobre esta turma. Parece que vocês receberam
um bom embasamento para enfrentar criaturas das trevas, estudaram bichos -


papões, barretes vermelhos, hinkypunks, grindylows, kappas e lobisomens,
correto?
Houve um murmúrio geral de concordância.
- Mas estão atrasados, muito atrasados, em maldições - disse Moody. -
Então, estou aqui para pôr vocês em dia com o que os bruxos podem fazer uns
aos outros. Tenho um ano para lhes ensinar a lidar com as forças das...
- Quê, o senhor não vai ficar? - deixou escapar Rony.
O olho mágico de Moody girou para se fixar em Rony, o garoto ficou
extremamente apreensivo, mas, passado um instante, o professor sorriu - a
primeira vez que Harry o via fazer isso. O efeito foi entortar mais que nunca o seu
rosto muito marcado, mas de qualquer forma foi um alívio saber que ele era capaz
de um gesto amigável como sorrir. Rony pareceu profundamente aliviado.
- Você deve ser filho do Arthur Weasley? - disse Moody. ­ Seu pai me tirou
de uma enrascada há alguns dias... é, vou ficar apenas este ano. Um favor
especial a Dumbledore... um ano e depois volto ao sossego da minha
aposentadoria.
Ele deu uma risada áspera e então juntou as palmas das mãos nodosas.
- Então... vamos direto ao assunto. Maldições. Elas têm variados graus de
força e forma. Agora, segundo o Ministério da Magia, eu devo ensinar a vocês as
contra-maldições e parar por aí. Não devo lhes mostrar que cara têm as maldições
ilegais até vocês chegarem ao sexto ano. Até lá, o Ministério acha que vocês não
têm idade para lidar com elas. Mas o Prof. Dumbledore tem uma opinião mais
favorável dos seus nervos e acha que vocês podem aprendê-las, e eu digo que
quanto mais cedo souberem o que vão precisar enfrentar, melhor. Como vão se
defender de uma coisa que nunca viram? Um bruxo que pretenda lançar uma
maldição ilegal sobre vocês não vai avisar o que pretende. Não vai lançá-la de
forma suave e educada bem na sua cara. Vocês precisam estar preparados.
Precisam estar alertas e vigilantes. A senhorita deve guardar isso, Srta. Brown,
enquanto eu estiver falando.
Lilá levou um susto e corou. Estivera mostrando a Parvati o horóscopo que
aprontara por baixo da carteira. Aparentemente o olho mágico de Moody podia ver
através da madeira, tão bem quanto pela nuca.
- Então... algum de vocês sabe que maldições são mais severamente
punidas pelas leis da magia?
Vários braços se ergueram hesitantes, inclusive os de Rony e Hermione.
Moody apontou para Rony, embora seu olho mágico continuasse mirando Lilá.
- Hum - disse Rony sem muita certeza -, meu pai me falou de uma... chama
Maldição Imperius ou coisa assim?
- Ah, sim - disse Moody satisfeito. - Seu pai conheceria essa. Certa vez, deu
ao Ministério muito trabalho, essa Maldição Imperius.
Moody se apoiou pesadamente nos pés desiguais, abriu a gaveta da
escrivaninha e tirou um frasco de vidro. Três enormes aranhas pretas corriam
dentro dele.
Harry sentiu Rony se encolher ligeiramente ao seu lado - Rony detestava
aranhas. Moody meteu a mão dentro do frasco, apanhou uma aranha e segurou-a
na palma da mão, de modo que todos pudessem vê-la. Apontou, então, a varinha
para o inseto e murmurou "Império!" A aranha saltou da mão de Moody para um


fio de seda e começou a se balançar para frente e para trás como se estivesse em
um trapézio. Esticou as pernas rígidas e deu uma cambalhota, partindo o fio e
aterrissando sobre a mesa, onde começou a plantar bananeiras em círculos.
Moody agitou a varinha, e a aranha se ergueu em duas patas traseiras e saiu
dançando um inconfundível sapateado. Todos riram - todos exceto Moody.
- Acharam engraçado, é? - rosnou ele. - Vocês gostariam se eu fizesse isso
com vocês?
As risadas pararam quase instantaneamente.
- Controle total - disse o professor em voz baixa, quando a aranha se
enrolou e começou a rodar sem parar. - Eu poderia fazê-la saltar pela janela, se
afogar, se enfiar pela garganta de vocês abaixo...
Rony teve um tremor involuntário.
- Há alguns anos, havia muitos bruxos e bruxas controlados pela Maldição
Imperius ­ disse Moody, e Harry entendeu que ele estava se referindo ao tempo
em que Voldemort fora todo-poderoso. - Foi uma trabalheira para o Ministério
separar quem estava sendo forçado a agir de quem estava agindo por vontade
própria.
- A Maldição Imperius pode ser neutralizada, e vou lhes mostrar como, mas
é preciso força de caráter real e nem todos a possuem. Por isso é melhor evitar
ser amaldiçoado com ela se puderem. VIGILANCIA CONSTANTE!", vociferou ele,
e todos os alunos se assustaram.
Moody apanhou a aranha acrobata e atirou-a de volta ao frasco.
- Mais alguém conhece mais alguma? Outra maldição ilegal?
A mão de Hermione voltou a se erguer e, para surpresa de Harry, a de
Nevilie também. A única aula em que Neville normalmente voluntariava
informações era a de Herbologia, que era, sem favor algum, a matéria que ele
sabia melhor. O garoto pareceu surpreso com a própria ousadia.
- Qual? - perguntou Moody, seu olho mágico dando um giro completo para
se fixar em Neville.
- Tem uma, a Maldição Cruciatus - disse Neville, numa voz fraca, mas clara.
Moody olhou Nevilie com muita atenção, desta vez com os dois olhos.
- O seu nome é Longbottom? - perguntou ele, o olho mágico girando para
verificar a folha de chamada. Neville confirmou, nervoso, com a cabeça, mas o
professor não fez outras perguntas.
Tornando a voltar sua atenção à classe, ele meteu a mão no frasco mais
uma vez, apanhou outra aranha e colocou-a no tampo da escrivaninha, onde o
inseto permaneceu imóvel, aparentemente demasiado assustado para se mexer.
- A Maldição Cruciatus - começou Moody. - Preciso de uma maior para lhes
dar uma idéia ­ disse ele, apontando a varinha para a aranha. - Engorgio!
A aranha inchou. Estava agora maior do que uma tarântula.
Abandonando todo o fingimento, Rony empurrou a cadeira para trás, o mais
longe que pôde da escrivaninha de Moody. O professor tornou a erguer a varinha,
apontou-a para a aranha e murmurou:
- Crucio!
Na mesma hora, as pernas da aranha se dobraram sob o corpo, ela virou
de barriga para cima e começou a se contorcer horrivelmente, balançando de um
lado para outro. Não emitia som algum, mas Harry teve certeza de que, se tivesse


voz, estaria berrando. Moody não afastou a varinha e a aranha começou a
estremecer e a se debater violentamente...
- Pare! - gritou Hermione com a voz aguda.
Harry olhou para a amiga. Ela estava com os olhos postos não na aranha,
mas em Neville, e Harry, ao seguir a direção do seu olhar, viu que as mãos do
garoto se agarravam à carteira diante dele, os nós dos dedos brancos, seus olhos
arregalados e horrorizados. Moody ergueu a varinha. As pernas da aranha se
descontraíram, mas ela continuou a se contorcer.
- Reducio - murmurou Moody, e a aranha encolheu e voltou ao tamanho
normal. Ele a repôs no frasco.
- Dor - explicou Moody em voz baixa. - Não se precisa de anjinhos nem de
facas para torturar alguém quando se é capaz de lançar a Maldição Cruciatus...
ela também já foi muito popular.
"Certo... mais alguém conhece alguma outra?"
Harry olhou para os lados. Pela expressão no rosto dos colegas, ele achou
que estavam todos pensando no que aconteceria com a última aranha. A mão de
Hermione tremia levemente quando, pela terceira vez, ela a ergueu no ar.
- Sim! - disse Moody olhando-a.
- Avada Kedavra - sussurrou a garota.
Vários colegas a olharam constrangidos, inclusive Rony.
- Ah - exclamou Moody, outro sorrisinho torcendo sua boca enviesada. - Ah,
a última e a pior. Avada Kedavra... a maldição da morte.
Ele enfiou a mão no frasco e, quase como se soubesse o que a esperava, a
terceira aranha correu freneticamente pelo fundo do objeto, tentando fugir aos
dedos de Moody, mas ele a apanhou e a colocou sobre a escrivaninha. O inseto
começou a correr, desvairado, pela superfície de madeira. Moody ergueu a
varinha e Harry sentiu um repentino pressentimento.
- Avada Kedavra!- berrou Moody.
Houve um relâmpago de ofuscante Luz verde e um rumorejo, como se algo
vasto e invisível voasse pelo ar - instantaneamente a aranha virou de dorso, sem
uma única marca, mas inconfundivelmente morta. Várias alunas abafaram
gritinhos, Rony se atirara para trás, quase caindo da cadeira, quando a aranha
escorregou em sua direção. Moody empurrou a aranha morta para fora da mesa.
- Nada bonito - disse calmamente. - Nada agradável. E não existe contra-
maldição. Não há como bloqueá-la. Somente uma pessoa no mundo já sobreviveu
a ela e está sentada bem aqui na minha frente.
Harry sentiu seu rosto corar quando os (dois) olhos de Moody fitaram os
dele. Sentiu que toda a turma também estava olhando para ele. Harry encarou o
quadro-negro limpo como se estivesse fascinado por sua superfície, mas na
realidade sem sequer vê-lo...
Então fora assim que seus pais tinham morrido... exatamente como aquela
aranha. Será que tinham morrido sem desfiguração nem marcas, também? Será
que tinham simplesmente visto um relâmpago verde e ouvido o rumorejo da morte
que se aproximou célere, antes que a vida fosse varrida de seus corpos?
Harry imaginara a morte dos pais muitas vezes nesses três anos, desde
que descobrira que tinham sido assassinados, desde que descobrira o que
acontecera naquela noite: como Rabicho informara o esconderijo de seus pais a


Voldemort, que viera procurá-los em casa. Como o bruxo matara primeiro o pai de
Harry. Como Tiago Potter tentara atrasá-lo, enquanto gritava para a mulher
apanhar Harry e correr... e Voldemort avançara para Lílian Potter, dissera-lhe para
se afastar para ele poder matar Harry... como sua mãe suplicara para que a
matasse no lugar do filho, recusara-se a deixar de proteger o filho com o corpo...e
então Voldemort a assassinara também, antes de virar a varinha contra Harry...
Harry conhecia esses detalhes porque ouvira a voz dos pais quando
enfrentara os dementadores no ano anterior - pois esse era o terrível poder
dessas criaturas: forçar suas vítimas a reviverem as piores lembranças de suas
vidas e se afogarem, impotentes, no próprio desespero...
Harry teve a impressão de que Moody recomeçara a falar de muito longe.
Com um enorme esforço, ele se obrigou a voltar ao presente e fixar a atenção no
que o professor dizia.
- Avada Kedavra é uma maldição que exige magia poderosa para lançá-la,
vocês podem apanhar as varinhas agora, apontá-las para mim, dizer as palavras e
duvido que consigam sequer que o meu nariz sangre. Mas isto não importa. Não
estou aqui para ensiná-los a lançá-la.
- Ora, se não há uma contra-maldição, por que estou lhes mostrando essa
maldição? Porque vocês precisam conhecê-la. Vocês têm que reconhecer o pior.
Vocês não querem se colocar em uma situação em que precisem enfrentá-la.
VIGILÂNCIA PERMANENTE!", berrou ele e a turma inteira tornou a se
sobressaltar.
- Agora... essas três maldições, Avada Kedavra, Imperius e Cruciatus, são
conhecidas como as Maldições Imperdoáveis. O uso de qualquer uma delas em
um semelhante humano é suficiente para ganharem uma pena de prisão perpétua
em Azkaban. É isso que vão ter que enfrentar. É isso que preciso lhes ensinar a
combater. Vocês precisam estar preparados. Vocês precisam de armas. Mas,
acima de tudo, precisam praticar uma vigilância constante, permanente. Apanhem
suas penas... copiem o que vou ditar...
Os alunos passaram o resto da aula tomando notas sobre cada uma das
Maldições Imperdoáveis. Ninguém falou até a sineta tocar - mas quando Moody os
dispensou e eles saíram da sala, explodiram em um falatório irrefreável. A maioria
dos alunos discutia as maldições em tom de assombro: "Você viu ela se
contorcendo?", e quando ele matou a aranha - assim!"
Comentavam a aula, pensou Harry, como se ela tivesse sido um espetáculo
fantástico, mas ele não a achara nada divertida - tampouco Hermione.
- Anda logo - disse ela tensa para Harry e Rony.
- Não é a biblioteca outra vez, é? - perguntou Rony.
- Não - respondeu a garota, secamente, apontando para um corredor
lateral. - Neville.
Nevilie estava em pé sozinho, no meio do corredor, de olhos fixos na
parede de pedra oposta, com a mesma expressão horrorizada e pasma que fizera
quando Moody demonstrara a Maldição Cruciatus.
- Nevilie? - chamou Hermione de mansinho.
Nevilie virou a cabeça.
- Ah, alô - disse ele, a voz mais aguda do que habitualmente.


- Aula interessante, não foi? Que será que tem para o jantar, estou... estou
morto de fome, vocês não?
- Nevilie, você está bem? - perguntou Hermione.
- Ah, claro, estou ótimo - balbuciou o garoto, na voz anormalmente aguda.
- Jantar muito interessante... quero dizer, aula... que será que tem para se
comer.
Rony lançou a Harry um olhar assustado.
- Neville, que...?
Mas eles ouviram às costas um som seco e metálico estranho e, ao se
virarem, viram o Prof. Moody vindo em sua direção. Os quatro ficaram em silêncio,
observando-o apreensivos, mas quando ele falou, foi com um rosnado bem mais
baixo e gentil do que tinham ouvido até então.
- Está tudo bem, filho - disse ele a Neville. - Por que não vem até a minha
sala? Vamos... podemos tomar uma xícara de chá...
Neville ficou ainda mais assustado ante a perspectiva de tomar chá com
Moody. Ele não se mexeu nem falou. Moody virou o olho mágico para Harry.
- Você está bem, não está, Potter?
- Estou - disse Harry, quase em tom de desafio.
O olho azul de Moody estremeceu de leve na órbita ao examinar Harry.
Então falou:
- Vocês têm que saber. Parece cruel, talvez, mas vocês têm que saber. Não
adianta fingir... bom...venha, Longbortom, tenho uns livros que podem lhe
interessar.
Neville olhou suplicante para Harry, Rony e Hermione, mas eles não
disseram nada, de modo que o garoto não teve escolha senão se deixar conduzir,
uma das mãos nodosas de Moody em seu ombro.
- Que foi que houve? - perguntou Rony, observando Neville e Moody
virarem para outro corredor.
- Não sei - disse Hermione, parecendo pensativa.
- Mas foi uma aula e tanto, hein? - disse Rony a Harry, quando se dirigiam
ao Salão Principal. - Fred e Jorge tinham razão, não é? Ele realmente conhece o
assunto. Quando ele lançou a Avada Kedavra, o jeito com que aquela aranha
simplesmente morreu, apagou na hora...
Mas Rony se calou de súbito ao ver a expressão no rosto de Harry, e não
tornou a falar até chegarem ao salão, quando comentou que era melhor eles
começarem a preparar as predições da Profª. Trelawney àquela noite, porque iam
demorar horas naquilo.
Hermione não entrou na conversa de Harry e Rony durante o jantar, mas
comeu furiosamente depressa e, em seguida, foi para a biblioteca. Harry e Rony
voltaram à Torre da Grifinória, e Harry, que não pensara em outra coisa durante
todo o jantar, agora levantou o assunto das Maldições Imperdoáveis.
- Moody e Dumbledore não ficariam encrencados se o Ministério soubesse
que vimos lançar as maldições? - perguntou Harry ao se aproximarem da Mulher
Gorda.
- Provavelmente - disse Rony. - Mas Dumbledore sempre fez as coisas do
jeito dele, não é, e Moody, eu imagino, já anda encrencado há anos. Atacar
primeiro e fazer perguntas depois, veja só a história das latas de lixo. Biruta.


A Mulher Gorda girou para a frente, revelando a passagem e eles entraram
na sala comunal da Grifinória, que estava cheia e barulhenta.
- Vamos apanhar o nosso material de Adivinhação, então? - disse Harry.
- Acho que sim - gemeu Rony.
Os dois subiram ao dormitório para apanhar os livros e mapas e
encontraram Neville sozinho, sentado na cama, lendo. Parecia bem mais calmo do
que ao fim da aula de Moody, embora ainda não estivesse completamente normal.
Seus olhos estavam muito vermelhos.
- Você está bem, Neville? - perguntou Harry.
- Ah, estou. Estou ótimo, obrigado. Lendo o livro que o Prof. Moody me
emprestou...
Ele mostrou o livro: Plantas mediterrâneas e suas propriedades mágicas.
- Parece que a Profª Sprout disse a ele que sou realmente bom em
Herbologia - disse Nevilie. Havia um quê de orgulho em sua voz que Harry
raramente ouvira antes. - O professor achou que eu gostaria deste.
Repetir para Neville o que a Profª Sprout dissera, pensou Harry, fora uma
maneira muito delicada de animar o garoto, porque Neville raramente ouvia
alguém dizer que ele era bom em alguma coisa. Era o tipo de coisa que o Prof.
Lupin teria feito.
Harry e Rony apanharam seus exemplares de Esclarecendo o futuro e
voltaram à sala comunal, procuraram uma mesa e começaram a trabalhar nas
predições para o mês seguinte. Uma hora mais tarde, tinham feito pouco
progresso, embora a mesa estivesse coalhada de pedaços de pergaminho
cobertos com somas e símbolos e o cérebro de Harry estivesse enevoado, como
se impregnado pela fumaça da lareira da Profª Trelawney.
- Não tenho a menor idéia do significado disso - falou ele examinando a
longa lista de cálculos.
- Sabe de uma coisa - disse Rony, cujos cabelos estavam de pé de tanto o
garoto passar os dedos por eles, cheio de frustração. - Acho que voltamos à velha
regra da Adivinhação.
- Quê... inventar?
- É - disse Rony, varrendo da mesa o monte de anotações e mergulhando a
pena no tinteiro para começar a escrever.
- Na próxima segunda-feira - disse ele enquanto escrevia - há grande
probabilidade de eu apanhar uma tosse, devido à infeliz conjunção de Marte com
Júpiter. - Ele ergueu os olhos para Harry.
- Você conhece ela: escreve uma porção de desgraças que ela engole tudo.
- Certo - disse Harry, amassando seu primeiro rascunho e atirando-o por
cima das cabeças de um grupo de alunos do primeiro ano que conversavam. -
Muito bem... na segunda:feira vou correr o perigo de... hum... me queimar.
- E vai mesmo - disse Rony sombriamente -, vamos ver os explosivins de
novo. Na, terça -feita, vou... hum...
- Perder algo valioso - disse Harry, que folheava o Esclarecendo o futuro à
procura de idéias.
- Boa - disse Rony, copiando-a. - Por causa de.,. hum.. Mercúrio. Por que
você não leva uma punhalada pelas costas de alguém que você pensou que fosse
amigo?


- Legal... - disse Harry, anotando a sugestão - porque... Vênus está na
décima segunda casa.
- E na quarta-feira, acho que vou levar a pior em uma briga.
- Aah, eu ia ter uma briga. OK, vou perder uma aposta.
- É, você vai apostar que vou ganhar a minha briga...
Os garotos continuaram a inventar predições (que foram se tornando mais
trágicas) por mais uma hora, enquanto a sala comunal se esvaziava à medida que
as pessoas iam se deitar. Bichento foi até os dois, deu um salto leve para uma
cadeira vazia e mirou Harry misteriosamente, de um modo semelhante ao de
Hermione quando sabia que os garotos não estavam fazendo o dever de casa
direito.
Correndo o olhar pela sala, tentando pensar em alguma desgraça que ainda
não tivesse usado, Harry viu Fred e Jorge sentados junto à parede oposta, as
cabeças encostadas uma na outra, as penas na mão, examinando um pedaço de
pergaminho. Era muito estranho ver os dois escondidos em um canto, trabalhando
em silêncio, em geral eles gostavam de ficar no meio da confusão e de serem o
centro das atenções. Havia um certo sigilo no jeito como estudavam um único
pergaminho, e Harry se lembrou dos dois sentados juntos, escrevendo alguma
coisa, lá na Toca. Ele pensara na época que era outro formulário para as
"Gemialidades" Weasley, mas desta vez parecia diferente, se não, eles com
certeza teriam deixado Lino Jordan participar da travessura. Harry ficou
imaginando se teria alguma coisa a ver com a inscrição no Torneio Tribruxo.
Enquanto Harry observava, Jorge sacudiu a cabeça para Fred, rabiscou
alguma coisa com a pena e disse, num tom muito baixo que, mesmo assim, ecoou
pela sala quase deserta:
- Não... assim parece que nós o estamos acusando. Temos que ter
cuidado...
Então Jorge deu uma olhada na sala e viu que Harry o observava. Harry
sorriu e voltou depressa às suas predições - não queria que Jorge pensasse que
ele estava bisbilhotando. Logo depois, os gêmeos enrolaram o pergaminho, deram
boa-noite e foram se deitar.
Fred e Jorge tinham saído havia uns dez minutos quando o buraco do
retrato se abriu e Hermione entrou na sala comunal, trazendo um rolo de
pergaminho em uma das mãos e uma caixa, cujo conteúdo fazia barulho, na outra.
Bichento arqueou as costas, ronronando.
- Alô - disse ela -, acabei!
- Eu também! - disse Rony em tom triunfante, largando a pena.
Hermione se sentou, deixou as coisas que carregava em uma poltrona
vazia e puxou as predições de Rony para ver.
- Não vai ter um mês nada bom, hein? - disse ela ironicamente, quando
Bichento veio se enroscar em seu colo.
- Bom, pelo menos estou prevenido - bocejou Rony.
- Você parece que vai se afogar duas vezes - disse a garota.
- Ah, vou, é? - disse Rony baixando os olhos para suas predições. - É
melhor eu trocar uma delas por um acidente com um hipogrifo desembestado.
- Você não acha que está um pouco óbvio que você inventou isso tudo? -
perguntou Hermione.


- Como é que você se atreve! - exclamou Rony, fingindo-se ofendido. ­
Estivemos trabalhando como elfos domésticos aqui!
Hermione ergueu as sobrancelhas.
- É só uma expressão - acrescentou ele depressa.
Harry pousou a pena, tendo acabado de predizer a própria morte por
decapitação.
- Que é que tem nessa caixa? - perguntou ele, apontando-a.
- Engraçado você perguntar - respondeu a garota com um olhar feio para
Rony. Tirou então a tampa e mostrou o conteúdo aos garotos. Dentro havia uns
cinqüenta distintivos, de cores diferentes, mas todos com os mesmos dizeres:
F.A.L.E.
- Fale? - estranhou Harry, apanhando um distintivo e examinando-o. ­ Que
significa isso?
- Não é fale - protestou Hermione impaciente. - É F-A-L-E. Quer dizer,
Fundo de Apoio à Liberação dos Elfos.
- Nunca ouvi falar nisso - disse Rony.
- Ora, é claro que não ouviu - disse Hermione energicamente.
- Acabei de fundar o movimento.
- Ah, é? - disse Rony com um ar levemente surpreso. - E quantos membros
já tem?
- Bom, se vocês dois se alistarem... três.
- E você acha que queremos andar por aí usando distintivos que dizem
"fale", é? - falou Rony.
- F-A-L-E! - corrigiu-o Hermione irritada. - Eu ia pôr "Fim ao Abuso
Ultrajante dos Nossos Irmãos Mágicos" e "Campanha para Mudar sua Condição",
mas não dava certo. Então F.A.L.E. é o título do nosso manifesto.
Ela brandiu um rolo de pergaminho para os garotos.
- Andei pesquisando minuciosamente na biblioteca. A escravatura dos elfos
já existe há séculos. Custo a acreditar que ninguém tenha feito nada contra ela até
agora.
- Hermione, abra bem os ouvidos - disse Rony em voz alta. - Eles. Gostam.
Disso. Gostam de ser escravizados!
- A curto prazo os nossos objetivos - disse Hermione, falando ainda mais
alto do que o amigo e agindo como se não tivesse ouvido uma única palavra ­ são
obter para os elfos um salário mínimo justo e condições de trabalho decentes. A
longo prazo, os nossos objetivos incluem mudar a lei que proíbe o uso da varinha
e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentação e Controle das
Criaturas Mágicas, porque eles são vergonhosamente sub-representados.
- E como é que vamos fazer tudo isso? - perguntou Harry.
- Vamos começar recrutando novos membros - disse Hermione feliz. - Achei
que dois sicles para entrar, o que paga o distintivo, e o produto da venda pode
financiar a distribuição de folhetos. Você é o tesoureiro, Rony, tenho lá em cima
uma latinha para você fazer a coleta, e você, Harry, o secretário, por isso você
talvez queira anotar tudo que estou dizendo agora, para registrar a nossa primeira
reunião.
Houve uma pausa em que Hermione sorriu radiante para os dois, e Harry
se dilacerou entre a exasperação com a amiga e a vontade de rir da cara de Rony.


O silêncio foi quebrado, não por Rony, que de qualquer maneira parecia estar
temporariamente mudo de espanto, mas por umas batidinhas leves na janela.
Harry correu os olhos pela sala agora vazia e viu, iluminada pelo luar, uma coruja
branquíssima encarapitada no peitoril da janela. .
- Edwiges! - gritou ele, precipitando-se pela sala para abrir a janela do lado
oposto. Edwiges entrou, voou pela sala e pousou na mesa em cima das predições
de Harry.
- Até que enfim! - exclamou Harry, correndo atrás da coruja.
- Ela trouxe uma resposta! - exclamou Rony, excitado, apontando para um
pedaço sujo de pergaminho preso à perna de Edwiges.
Harry desamarrou-o depressa e se sentou para ler, depois do que Edwiges
voou para o joelho do garoto, piando baixinho.
- Que é que ele diz? - perguntou Hermione ofegante.
A carta era muito curta e parecia ter sido escrita com muita pressa. Harry
leu-a em voz alta.

"Harry

Estou viajando para o norte imediatamente. A notícia sobre a sua cicatriz é o
último de uma série de acontecimentos estranhos que têm chegado aos meus
ouvidos.
Se ela tornar a doer, procure imediatamente Dumbledore - dizem que ele tirou
Olho-Tonto da aposentadoria, o que significa que tem identificado os sinais,
mesmo que os outros não os vejam.
Logo entrarei em contato com você. Dê minhas lembranças a Rony e Hermione.
Fique de olhos abertos, Harry.
Sirius"

Harry olhou para Rony e Hermione, que retribuíram o seu olhar.
- Ele está viajando para o norte? - sussurrou Hermione. - Está voltando?
- Dumbledore tem identificado que sinais? - perguntou Rony, parecendo
perplexo.
- Harry, que é que está acontecendo?
Pois Harry acabara de dar um soco na própria testa, sacudindo Edwiges
para fora do colo.
- Eu não devia ter contado a ele! - disse Harry furioso.
- Do que é que você está falando? - perguntou Rony, surpreso.
- Fiz ele pensar que precisa voltar! - disse Harry, agora batendo o punho na
mesa de modo que a coruja foi parar no espaldar da cadeira de Rony, piando
indignada. - Precisa voltar porque acha que estou correndo perigo! E não há nada
errado comigo! E não tenho nada para você - falou ele com rispidez para Edwiges,
que batia o bico, esperançosa, vai ter que ir para o corujal se quiser comida.
Edwiges lançou ao dono um olhar extremamente ofendido saiu voando pela
janela aberta, raspando a asa na cabeça dele ao sair.
- Harry - começou Hermione, numa voz tranqüilizadora.
- Vou me deitar - disse Harry impaciente. - Vejo vocês de manhã.


Em cima, no dormitório, ele vestiu o pijama e enfiou-se na cama de colunas,
mas não se sentiu nem um pouco cansado.
Se Sirius voltasse e fosse apanhado seria culpa dele, Harry. Por que não
ficara calado? Uma dorzinha à-toa e ele fora tagarelar... se tivesse tido o juízo de
guardar a dor só para si...
Ele ouviu Rony entrar no dormitório pouco depois, mas não falou com o
amigo.
Durante um longo tempo, Harry ficou contemplando o dossel escuro de sua
cama. O dormitório estava completamente silencioso e, se ele estivesse menos
preocupado, teria reparado que a ausência dos costumeiros roncos de Neville
significava que ele não era o único que estava acordado.


CAPÍTULO QUINZE
Beauxbatons e Durmstrang

Logo cedo na manhã seguinte, Harry acordou com um plano inteiramente
formado na cabeça, como se o seu cérebro adormecido tivesse trabalhado naquilo
a noite toda.
Ele se levantou e se vestiu à luz fraca do amanhecer, saiu do dormitório
sem acordar Rony e desceu para o salão comunal, àquela hora deserto. Ali
apanhou um pedaço de pergaminho na mesa em cima da qual ainda se achava o
dever de Adivinhação e escreveu a seguinte carta:

"Caro Sirius,

Acho que imaginei a dor na minha cicatriz, eu estava quase dormindo quando lhe
escrevi a última carta. Você não precisa voltar, vai tudo bem aqui. Não se
preocupe comigo, sinto a cabeça completamente normal.

Harry"

Depois, Harry passou pelo buraco do retrato, subiu as escadas do castelo
silencioso (só foi detido brevemente por Pirraça, que tentou virar um enorme vaso
em cima dele no meio do corredor do quarto andar) e finalmente chegou ao
corujal, que ficava no alto da Torre Oeste.
O corujal era uma sala circular revestida de pedra; um tanto fria e varrida
por correntes de vento, porque nenhuma das janelas tinha vidro. O chão era
coberto de palha, titica de coruja e esqueletos de ratos e arganazes que as
corujas regurgitavam. Centenas e mais centenas de corujas de todas as espécies
imagináveis estavam aninhadas ali em poleiros que subiam até o alto da torre,
quase todas adormecidas, embora aqui e ali um redondo olho cor de âmbar
olhasse feio para o garoto.
Harry localizou Edwiges aninhada entre uma coruja-das-torres e uma coruja
castanho-amarelada, e correu para ela, escorregando um pouco no chão coberto
de excremento.


Levou um certo tempo para convencê-la a acordar e olhar para ele porque
sua coruja não parava de mudar de lugar no poleiro, virando-lhe o rabo.
Evidentemente continuava furiosa com a falta de gratidão que ele
demonstrara na noite anterior. Por fim, foi a insinuação de Harry que ela poderia
estar demasiado cansada e que talvez ele pedisse Pichirinho emprestado a Rony
que a fez esticar a perna e permitir ao dono amarrar nela a carta.
- Acha ele, está bem? - pediu Harry, alisando o dorso de Edwiges enquanto
a levava no braço até uma das aberturas na parede. - Antes que os dementadores
façam isso.
Ela lhe deu uma mordidela no dedo, talvez com mais força do que
normalmente teria feito, mas, mesmo assim, piou baixinho de uma maneira que o
deixou tranqüilo. Em seguida abriu as asas e levantou vôo para o céu do
amanhecer. Harry observou-a desaparecer de vista com a conhecida sensação de
mal-estar no estômago. Antes tivera tanta certeza de que a resposta de Sirius
aliviaria suas preocupações em vez de aumentá-las.
- Isso foi uma mentira, Harry - falou Hermione com severidade ao café da
manhã, quando o garoto contou a ela e a Rony o que fizera. - Você não imaginou
que sua cicatriz estava doendo e sabe muito bem disso.
- E daí? - retrucou Harry. - Ele não vai voltar para Azkaban por minha
causa.
- Esquece - disse Rony com aspereza a Hermione, quando ela abriu a boca
para continuar a discussão e, uma vez na vida, a garota atendeu ao amigo e se
calou.
Harry fez o que pôde para não se preocupar com Sirius nas semanas
seguintes. É verdade que não conseguia deixar de olhar para os lados,
ansiosamente, toda manhã quando as corujas chegavam trazendo o correio e
tarde da noite antes de dormir, tinha horríveis visões em que Sirius era
encurralado pelos dementadores em alguma rua escura de Londres. Mas entre um
momento e outro, ele tentava não pensar no padrinho. Desejou que ainda tivesse
o quadribol para distraí-lo, nada dava tão certo para uma cabeça preocupada
quanto um treino exaustivo. Por outro lado, as aulas estavam se tornando cada
vez mais difíceis e exigindo que se esforçasse mais do que nunca, principalmente
a de Defesa contra as Artes das Trevas.
Para surpresa dos alunos, o Prof. Moody anunciara que ia lançar a
maldição Imperius sobre cada um deles, a fim de demonstrar o seu poder e
verificar se conseguiam resistir aos seus efeitos.
- Mas... se o senhor disse que é ilegal, professor - perguntou Hermione
incerta, quando Moody afastou as carteiras com um movimento amplo da varinha,
deixando uma clareira no meio da sala. ­ O senhor disse... que usá-la contra outro
ser humano era...
- Dumbledore quer que vocês aprendam qual é o efeito que ela produz em
uma pessoa ­ disse Moody, o olho mágico girando para a garota e se fixando nela
sem piscar, com uma expressão misteriosa. - Se a senhorita preferir aprender pelo
método difícil... quando alguém a lançar contra a senhorita para controlá-la... para
mim está bem. A senhorita está dispensada da aula. Pode se retirar.
Ele apontou um dedo nodoso para a porta. Hermione ficou muito vermelha
e murmurou alguma coisa no sentido de que a pergunta não significava que ela


quisesse sair. Harry e Rony sorriram um para o outro. Eles sabiam que Hermione
preferia beber pus de buborúberas do que perder uma lição daquela importância.
O professor começou a chamar os alunos à frente e a lançar a maldição
sobre eles, um de cada vez. Harry observou os colegas fazerem as coisas mais
extraordinárias sob a influência da Imperius. Dino Thomas deu três voltas pela
sala aos saltos, cantando o hino nacional. Lilá Brown imitou um esquilo. Neville
executou uma série de acrobacias surpreendentes, que ele certamente não teria
conseguido em condições normais. Nenhum deles parecia ser capaz de resistir à
maldição, e cada um só voltava ao normal quando Moody a desfazia.
- Potter - rosnou Moody -, você é o próximo.
O garoto se adiantou até o meio da sala, no espaço que Moody deixara
livre. O professor ergueu a varinha, apontou-a para Harry e disse:
- Império.
Foi uma sensação maravilhosa. Harry sentiu que flutuava e todos os
pensamentos e preocupações em sua mente desapareceram suavemente,
deixando apenas uma felicidade vaga e inexplicável. Ele ficou ali extremamente
relaxado, vagamente consciente de que todos o observavam.
Então, ouviu a voz de Olho-Tonto Moody ecoar em uma célula distante do
seu cérebro vazio: Salte para cima da carteira... salte para cima da carteira...
Harry dobrou os joelhos obedientemente, preparando-se para saltar.
Salte para cima da carteira...
Mas por quê? Outra voz despertara no fundo de sua mente. Que coisa boba
para alguém fazer, francamente, disse a voz.
Salte para cima da carteira...
Não, acho que não, obrigado, disse a segunda voz, com mais firmeza...
não, não quero...
Salte! AGORA!
A próxima coisa que Harry sentiu foi uma imensa dor. Ele saltou e tentou
não saltar ao mesmo tempo - o resultado foi se estatelar em cima de uma carteira,
derrubando-a, e, pela dor que sentiu nas pernas, fraturar as duas rótulas.
- Agora está melhor! - rosnou a voz de Moody e, de repente, Harry
percebeu que a sensação de vazio e os ecos tinham desaparecido de sua mente.
Lembrou-se com exatidão do que estava acontecendo e a dor nos joelhos pareceu
dobrar de intensidade.
- Olhem só isso, vocês todos... Potter resistiu! Lutou contra a maldição e
quase a venceu! Vamos experimentar de novo, Potter, e vocês prestem atenção,
observem os olhos dele, é onde vocês vão ver, muito bem, Potter, muito bem
mesmo! Eles vão ter trabalho para controlar você!
- Pelo jeito que ele fala - resmungou Harry, ao sair mancando da aula de
Defesa contra as Artes das Trevas, uma hora depois (Moody insistira que Harry
mostrasse do que era capaz, quatro vezes seguidas, até o garoto conseguir
resistir inteiramente à maldição) -, a gente poderia pensar que vai ser atacado a
qualquer momento.
- É, eu sei - respondeu Rony, que estava saltitando, um passo sim outro
não.
Tivera muito mais dificuldade com a maldição do que Harry, embora Moody
lhe garantisse que os efeitos passariam até a hora do almoço. - Falando em


paranóia... - Rony espiou nervosamente por cima do ombro para verificar se
estavam mesmo fora do campo de audição de Moody, e continuou: - Não me
admira que tenham ficado contentes em se livrar dele no Ministério. Você ouviu
quando ele contou ao Simas o que fez com a bruxa que gritou "buu" atrás dele, no
dia primeiro de abril? E quando é que a gente vai ter como resistir à Maldição
Imperius com todo o resto que tem para fazer?
Todos os alunos do quarto ano haviam notado que decididamente houvera
um aumento na quantidade de deveres exigida deles neste trimestre. A Profª
Minerva explicou o porquê, quando a turma gemeu particularmente alto à vista do
dever de Transformação que ela passava.
- Vocês agora estão entrando numa fase importantíssima da sua educação
em magia! - disse ela, os olhos faiscando perigosamente por trás dos óculos
quadrados. - O exame para obter os Níveis Ordinários de Magia estão se
aproximando...
- Mas não vamos fazer exames de nivelamento até a quinta série! -
exclamou Dino Thomas indignado.
- Talvez não, Thomas, mas, me acredite, vocês precisam de toda a
preparação que puderem obter!
A Srta. Granger foi a única aluna desta turma que conseguiu transformar
um porco-espinho em uma almofadinha de alfinetes razoável. Eu talvez possa lhe
lembrar, Thomas, que a sua almofadinha ainda se encolhe de medo quando
alguém se aproxima dela com um alfinete!
Hermione, que tornara a corar, parecia estar fazendo um esforço para não
parecer cheia de si demais.
Harry e Rony acharam muita graça quando a Profª Trelawney lhes disse
que tinham tirado a nota máxima no dever da aula anterior de Adivinhação. Ela leu
longos trechos das predições que eles fizeram, comentando a impassível
aceitação dos horrores que os aguardavam - mas os garotos não acharam tanta
graça quando ela pediu que fizessem outra projeção para dali a dois meses: eles
tinham quase esgotado as idéias para catástrofes.
Entrementes, o Prof. Binns, o fantasma que ensinava História da Magia,
mandou-os escrever ensaios semanais sobre a Revolta dos Duendes no século
XVIII. O Prof. Snape estava obrigando-os a pesquisar antídotos. A turma levou o
dever a sério, porque ele insinuou que talvez envenenasse um deles antes do
Natal para ver se o antídoto que encontrassem faria efeito. O Prof. Flitwick lhes
pedira que lessem mais três livros, em preparação para a aula de Feitiços
Convocatórios.
E até Hagrid aumentara a carga de trabalho de seus alunos. Os explosivins
estavam crescendo em um ritmo excepcional, dado que ninguém ainda descobrira
o que comiam. Hagrid estava encantado e, como parte da "pesquisa", sugeriu que
fossem à sua cabana em noites alternadas para observar os bichos e tomar notas
sobre o seu extraordinário comportamento.
- Eu não vou - disse Draco Malfoy com indiferença, quando o professor fez
essa proposta com ar de Papai Noel tirando um brinquedo muito vistoso do saco. -
Já vejo o bastante dessas nojeiras durante as aulas, obrigado.
O sorriso desapareceu do rosto de Hagrid.


- Você vai fazer o que mando - rosnou ele - ou vou arrancar uma folha do
livro do Prof. Moody... ouvi falar que você ficou muito bem de doninha, Malfoy.
Os alunos da Grifinória deram grandes gargalhadas. Malfoy enrubesceu de
raiva mas, pelo visto, a lembrança do castigo de Moody ainda era suficientemente
dolorosa para impedi-lo de responder.
Harry, Rony e Hermione voltaram para o castelo no fim da aula, muito
animados, ver Hagrid desmoralizar Malfoy era particularmente gostoso porque, no
ano anterior, o garoto se esforçara o máximo para fazer com que Hagrid fosse
despedido.
Quando chegaram ao saguão de entrada, viram-se impedidos de prosseguir
pela aglomeração de alunos que havia ali, em torno de um grande aviso afixado
ao pé da escadaria de mármore. Rony, o mais alto dos três, ficou nas pontas dos
pés para ver por cima das cabeças à sua frente e ler o aviso em voz alta para os
outros dois.
TORNEIO TRIBRUXO
As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas,
sexta-feira, 30 de outubro. As aulas terminarão uma hora antes...
- Genial! - exclamou Harry. - É Poções a última aula de sexta-feira! Snape
não terá tempo de envenenar todos nós!
Os alunos deverão guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se
reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de
Boas- Vindas.
- É daqui a uma semana! - exclamou Ernesto MacMillan da Lufa-Lufa,
saindo da aglomeração, os olhos brilhando. - Será que o Cedrico sabe? Acho que
vou avisar a ele...
- Cedrico? - repetiu Rony sem entender, enquanto Ernesto saía apressado.
- Diggory - disse Harry. - Ele deve estar inscrito no torneio.
- Aquele idiota, campeão de Hogwarts? - disse Rony, quando abriam
caminho pelo ajuntamento de alunos para chegar à escadaria.
- Ele não é idiota, você simplesmente não gosta dele porque ele derrotou a
Grifinória no quadribol - disse Hermione. ­ Ouvi falar que é realmente um bom
aluno, e é monitor!
Ela falou isso como se encerrasse a questão.
- Você só gosta dele porque ele é bonito - respondeu Rony com desdém.
- Perdão, eu não gosto de pessoas só porque são bonitas! - retrucou
Hermione indignada.
Rony fingiu que pigarreava alto, um som que estranhamente lembrava
"Lockhart!". A afixação do aviso no saguão de entrada teve um efeito sensível nos
moradores do castelo.
Durante a semana seguinte, parecia haver um assunto nas conversas, onde
quer que Harry fosse: o Torneio Tribruxo. Os boatos voavam de um aluno para
outro como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o
campeão de Hogwarts, que é que o torneio exigia, e em que os alunos de
Beauxbatons e Durmstrang se diferenciavam deles.
Harry notou, também, que o castelo estava sofrendo uma faxina mais do
que rigorosa. Vários retratos encardidos tinham sido escovados para
descontentamento dos retratados, que se sentavam encolhidos nas molduras,


resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos.
As armaduras de repente brilhavam e mexiam sem ranger e Argo Filch, o zelador,
estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de
limpar os sapatos que aterrorizou duas garotas do primeiro ano levando-as à
histeria. Outros funcionários também pareciam estranhamente tensos.
- Longbottom, tenha a bondade de não revelar que você não consegue
sequer lançar um simples Feitiço de Troca diante de alguém de Durmstrang! ­
vociferou a Profª Minerva ao fim de uma aula particularmente difícil, em que
Neville acidentalmente transplantara as próprias orelhas para um cacto.
Quando eles desceram para o café na manhã do dia 30 de outubro,
descobriram que o Salão Principal fora ornamentado durante a noite. Grandes
bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de
Hogwarts - a vermelha com um leão dourado da Grifinória, a azul com uma águia
de bronze da Corvínal, a amarela com um texugo negro da Lufa-Lufa e a verde
com uma serpente de prata da Sonserina. Por trás da mesa dos professores, a
maior bandeira de todas tinha o brasão de Hogwarts: leão, águia, texugo e
serpente unidos em torno de uma grande letra "H".
Harry, Rony e Hermione viram Fred e Jorge à mesa da Grifinória. Mais uma
vez, e muito anormalmente, os dois estavam sentados à parte dos demais e
conversavam em voz baixa. Rony se encaminhou para os dois.
- É chato, sim - dizia Jorge sombriamente a Fred. - Mas se ele não quer
falar conosco pessoalmente, temos que lhe mandar uma carta. Ou enfiá-la na mão
dele, ele não pode ficar nos evitando para sempre.
- Quem é que está evitando vocês? - perguntou Rony, sentando-se ao lado
deles.
- Gostaria que fosse você - disse Fred, mostrando-se irritado com a
interrupção.
- Que é que é chato? - perguntou Rony a Jorge.
- Ter um babaca metido feito você como irmão - disse Jorge.
- Vocês já tiveram alguma idéia para o Torneio Tribruxo? - perguntou Harry.
­ Continuaram pensando como vão tentar se inscrever?
- Perguntei a McGonagall como é que os campeões são escolhidos, mas
ela não quis dizer - respondeu Jorge com amargura. - Só me disse para calar a
boca e continuar transformando o meu racun.
- Fico imaginando quais vão ser as tarefas - disse Rony pensativo. - Sabe,
aposto que poderíamos dar conta, Harry e eu já fizemos coisas perigosas antes...
- Não na frente de uma banca de juizes, isso vocês não fizeram - disse
Fred. - McGonagall disse que os campeões recebem pontos pela perfeição com
que executam as tarefas.
- Quem são os juizes? - perguntou Harry
- Bem, os diretores das escolas participantes sempre fazem parte da banca
- disse Hermione e todos a olharam surpresos -, porque os três ficaram feridos
durante o torneio de 1792, quando um basilisco que os campeões deviam capturar
saiu destruindo tudo.
Ela notou que todos a olhavam e disse, com o seu costumeiro ar de
impaciência quando via que ninguém mais lera os mesmos livros que ela:


- Está tudo em Hogwarts: uma história. Embora, é claro, esse livro não seja
cem por cento confiável. Uma história revista de Hogwarts seria um título mais
preciso. Ou, então, Uma história seletiva e muito parcial de Hogwarts, que aborda
brevemente os aspectos mais desfavoráveis da escola.
- Do que é que você está falando? - perguntou Rony, embora Harry
soubesse o que vinha pela frente.
- Elfos domésticos!- disse Hermione em voz alta, comprovando que Harry
acertara. - Nem uma vez, em mais de mil páginas, Hogwarts: uma história
menciona que somos todos coniventes na opressão de centenas de escravos!
Harry sacudiu a cabeça e se concentrou nos ovos mexidos. A falta de
entusiasmo dele e de Rony não conseguiu refrear a decisão de Hermione de obter
justiça para os elfos domésticos. Era verdade que os dois tinham pago os dois
sicles pelo distintivo do F.A.L.E., mas só o tinham feito para fazê-la calar-se.
Os sicles, no entanto, tinham sido gastos em vão, se produziram algum
efeito foi o de tornar Hermione ainda mais vociferante. A garota andava
atormentando os dois desde então, primeiro para usarem o distintivo, depois para
persuadirem outros a fazer o mesmo, e ela também passara a caminhar pela sala
comunal da Grifinória todas as noites, encostando os colegas na parede e
sacudindo a latinha de coleta debaixo do nariz deles.
- Vocês têm consciência de que os seus lençóis são trocados, as lareiras,
acesas, as salas de aula limpas e a comida preparada por um grupo de criaturas
mágicas que não recebem salário e são escravizadas? - ela não parava de
lembrar a todos com veemência.
Alguns colegas, como Neville, tinham pago só para Hermione parar de fazer
cara feia para eles. Alguns pareceram ligeiramente interessados no que a garota
tinha a dizer, mas relutavam a assumir um papel mais ativo no movimento. Muitos
encaravam a coisa toda como piada.
Rony agora contemplou o teto, que banhava a todos com um sol de outono
e Fred fingiu-se extremamente interessado no bacon que havia em seu prato (os
gêmeos tinham se recusado a comprar um distintivo do F.A.L.E.). Jorge, no
entanto, chegou para mais perto de Hermione.
- Escuta aqui, Mione, você já foi à cozinha?
- Não, claro que não - respondeu a garota secamente. - Nem posso
imaginar que os alunos devam...
- Bom, nós já fomos - disse Jorge, indicando Fred - várias vezes para
afanar comida. E encontramos os elfos e eles estão felizes. Acham que têm o
melhor emprego do mundo...
- E porque eles não têm instrução e sofrem lavagem cerebral! - começou
Hermione acaloradamente, mas suas palavras seguintes foram abafadas pelo
ruído de asas que vinha do alto anunciando a chegada das corujas com o correio.
Harry ergueu os olhos e, na mesma hora, avistou Edwiges que voava em sua
direção. Hermione parou de falar abruptamente; ela e Rony observaram a coruja,
ansiosos, enquanto a ave batia as asas rapidamente para descer e pousar no
ombro de Harry, depois fechou-as e estendeu a perna, cansada.
Harry desamarrou a resposta de Sirius e ofereceu a Edwiges suas aparas
de bacon, que ela comeu, grata. Então, verificando que Fred e Jorge estavam


absortos em novas discussões sobre o Torneio Tribruxo, Harry leu a carta de
Sirius, aos cochichos, para Rony e Hermione.

"Não me convenceu, Harry.
Estou de volta ao país e bem escondido. Quero que me mantenha informado de
tudo que estiver acontecendo em Hogwarts. Não use Edwiges, troque de corujas e
não se preocupe comigo, cuide -se. Não se esqueça do que lhe disse sobre a
cicatriz.
Sirius"

- Por que é que você precisa trocar de corujas? - perguntou Rony em voz
baixa.
- Edwiges chamará muita atenção - respondeu Hermione na mesma hora. -
Ela se destaca. Uma coruja muito branca que fica voltando para o lugar em que
ele está escondido... Quero dizer, ela não e um pássaro nativo, não é mesmo?
Harry enrolou a carta e guardou-a dentro das vestes, se perguntando se
estaria se sentindo mais ou menos preocupado do que antes. Supunha que o fato
de Sirius ter conseguido voltar sem ser apanhado já era muito. Tampouco podia
negar que a idéia de que seu padrinho estava muito mais próximo era
reconfortante, pelo menos não teria que esperar tanto por uma resposta todas as
vezes que lhe escrevesse.
- Obrigado, Edwiges - disse, acariciando-a. Ela piou sonolenta, meteu o
bico rapidamente no cálice de suco de laranja do garoto, depois tornou a levantar
vôo, visivelmente desesperada para tirar um longo sono no corujal.
Havia uma sensação de agradável expectativa no ar aquele dia. Ninguém
prestou muita atenção às aulas, pois estavam bem mais interessados na chegada
das comitivas de Beauxbatons e Durmstrang à noite, até Poções foi mais tolerável
do que de costume, porque durou meia hora a menos. Quando a sineta tocou
mais cedo, Harry, Rony e Hermione subiram depressa para a Torre da Grifinória,
largaram as mochilas e os livros, conforme as instruções que tinham recebido,
vestiram as capas e desceram correndo para o saguão de entrada.
Os diretores das Casas estavam organizando os alunos em filas.
- Weasley, endireite o chapéu - disse a Profª Minerva secamente a Rony. -
Srta. Patil, tire essa coisa ridícula dos cabelos.
Parvati fez cara feia e retirou o enorme enfeite de borboleta da ponta da
trança.
- Sigam-me, por favor - mandou a professora -, alunos da primeira série à
frente... sem empurrar... Eles desceram os degraus da entrada e se enfileiraram
diante do castelo. Fazia um fim de tarde frio e límpido, o crepúsculo vinha
chegando devagarinho e uma lua pálida e transparente já brilhava sobre a
Floresta Proibida. Harry, postado entre Rony e Hermione na quarta fileira da frente
para trás, viu Denis Creevey decididamente trêmulo de expectativa entre os
colegas da primeira série.
- Quase seis horas - comentou Rony, verificando o relógio e depois
espiando o caminho que levava aos portões da escola. - Como é que vocês
acham que eles vêm? De trem?
- Duvido - respondeu Hermione.


- Como então? Vassouras? - arriscou Harry, erguendo os olhos para o céu
estrelado.
- Acho que não... não vindo de tão longe...
- De chave de portal? - aventurou Rony. - Ou quem sabe aparatando, talvez
tenham permissão de fazer isso antes dos dezessete anos no lugar de onde vêm?
- Não se pode aparatar nos terrenos de Hogwarts. Quantas vezes tenho
que repetir isso a vocês - falou Hermione com impaciência.
Os garotos examinavam excitados e atentos os jardins cada vez mais
escuros, mas nada se movia, tudo estava quieto, silencioso, como sempre. Harry
começava a sentir frio. Desejou que os visitantes chegassem logo... talvez os
estudantes estrangeiros estivessem preparando uma entrada teatral... lembrou-se
do que o Sr. Weasley dissera no acampamento antes da Copa Mundial de
Quadribol: "Sempre os mesmos, não resistimos à tentação de fazer farol quando
nos reunimos..."
E então Dumbledore falou em voz alta da última fileira, onde aguardava
com os outros professores:
- Aha! A não ser que eu muito me engane, a delegação de Beauxbatons
está chegando!
- Onde? - perguntaram muitos alunos ansiosos, olhando em diferentes
direções.
- Ali! - gritou um aluno da sexta série, apontando para o céu sobre a
Floresta.
Alguma coisa grande, muito maior do que uma vassoura - ou, na verdade,
cem vassouras -, voava em alta velocidade pelo céu azul-escuro em direção ao
castelo, e se tornava cada vez maior.
- É um dragão! gritou esganiçada uma aluna da primeira série, perdendo
completamente a cabeça. - Deixa de ser burra... é uma casa voadora! - disse
Dênis Creevey.
O palpite de Dênis estava mais próximo... quando a sombra gigantesca e
escura sobrevoou as copas das árvores da Floresta Proibida, e as luzes que
brilhavam nas janelas do castelo a iluminaram, eles viram uma enorme carruagem
azul-clara do tamanho de um casarão, que voava para eles, puxada por doze
cavalos alados, todos baios, cada um parecendo um elefante de tão grande.
As três primeiras fileiras de alunos recuaram quando a carruagem foi
baixando para pousar a uma velocidade fantástica - então, com um baque
estrondoso que fez Neville saltar para trás e pisar no pé de um aluno da quinta
série da Sonserina -, os cascos dos cavalos, maiores que pratos, bateram no
chão. Um segundo mais tarde, a carruagem também pousou, balançando sobre as
imensas rodas, enquanto os cavalos dourados agitavam as cabeçorras e
reviravam os grandes olhos cor de fogo.
Harry só teve tempo de ver que a porta da carruagem tinha um brasão
(duas varinhas cruzadas, e de cada uma saíam três estrelas) antes que ela se
abrisse.
Um garoto de roupas azuis-claras saltou da carruagem, curvado para a
frente, mexeu por um momento em alguma coisa que havia no chão da carruagem
e abriu uma escadinha de ouro. Em seguida, recuou respeitosamente. Então Harry
viu um sapato preto e lustroso sair de dentro da carruagem ­ um sapato do


tamanho de um trenó de criança - acompanhado, quase imediatamente, pela
maior mulher que ele já vira na vida.
O tamanho da carruagem e dos cavalos ficou imediatamente explicado.
Algumas pessoas exclamaram.
Harry só vira, até então, uma pessoa tão grande quanto essa mulher:
Hagrid; ele duvidou que houvesse dois centímetros de diferença na altura dos
dois. Mas, por alguma razão - talvez simplesmente porque estava habituado a
Hagrid -, esta mulher (agora ao pé da escada, que olhava para as pessoas que a
esperavam de olhos arregalados) parecia ainda mais anormalmente grande. Ao
entrar no círculo de luz projetado pelo saguão de entrada, ela revelou um rosto
bonito de pele morena, grandes olhos negros que pareciam líquidos e um nariz um
tanto bicudo. Seus cabelos estavam puxados para trás e presos em um coque na
nuca. Vestia-se da cabeça aos pés de cetim negro, e brilhavam numerosas opalas
em seu pescoço e nos dedos grossos.
Dumbledore começou a aplaudir; os estudantes, acompanhando a deixa,
prorromperam em palmas, muitos deles nas pontas dos pés, para poder ver
melhor a mulher.
O rosto dela se descontraiu em um gracioso sorriso e ela se dirigiu a
Dumbledore, estendendo a mão faiscante de anéis. O diretor, embora alto, mal
precisou se curvar para beijar-lhe a mão.
- Minha cara Madame Maxime - disse. - Bem-vinda a Hogwarts.
- Dumbly-dorr - disse Madame Maxime, com uma voz grave. - Esperro
encontrrá-lo de boa saúde.
- Excelente, obrigado - respondeu Dumbledore.
- Meus alunos - disse Madame Maxime, acenando descuidadamente uma
de suas enormes mãos para trás.
Harry, cuja atenção estivera focalizada inteiramente em Madame Maxime,
reparou, então, que uns doze garotos e garotas - todos, pelo físico, no fim da
adolescência - haviam descido da carruagem e agora estavam parados atrás de
Madame Maxime. Eles tremiam de frio, o que não surpreendia, pois suas vestes
eram feitas de finíssima seda e nenhum deles usava capa. Alguns tinham
enrolado echarpes e xales na cabeça. Pelo que Harry pôde ver de seus rostos
(estavam à enorme sombra de sua diretora), eles olhavam para o castelo, com
uma expressão apreensiva.
- Karrkarroff já chegou? - perguntou Madame Maxime.
- Deve chegar a qualquer momento - disse Dumbledore. - Gostaria de
esperar aqui para recebê-lo ou prefere entrar para se aquecer um pouco?
- Me aquecerr, acho. Mas os cavalos...
- O nosso professor de Trato das Criaturas Mágicas ficará encantado de
cuidar deles ­ disse Dumbledore - assim que terminar de resolver um probleminha
que ocorreu com alguns de seus outros...protegidos.
- Explosivins - murmurou Rony para Harry, rindo.
- Meus corrcéis ecsigem... hum... um trratadorr forrte - disse Madame
Maxime, com uma expressão de dúvida quanto à capacidade de um professor de
Trato das Criaturas Mágicas em Hogwarts para dar conta da tarefa. - Eles son
muito forrtes...


- Posso lhe assegurar que Hagrid poderá cuidar da tarefa - disse o diretor,
sorrindo.
- Ótimo - disse Madame Maxime, fazendo uma ligeira reverência -, por
favorrr inforrrme a esse Agrid que os cavalos só bebem uísque de um malte.
- Farei isso - respondeu Dumbledore, retribuindo a reverência.
- Venham - disse Madame Maxime imperiosamente aos seus alunos e o
pessoal de Hogwarts se afastou para deixá-los subir os degraus de pedra.
- De que tamanho você acha que os cavalos de Durmstrang vão ser? ­
perguntou Simas Finnigan, esticando-se por trás de Lilá e Parvati para falar com
Harry e Rony.
- Bom, se eles forem maiores do que esses, nem Hagrid vai ser capaz de
cuidar deles ­ comentou Harry. - Isto é, se ele já não foi atacado pelos explosivins.
Qual será o problema com eles?
- Talvez tenham fugido - arriscou Rony esperançoso.
- Ah, não diz uma coisa dessas - falou Hermione, com um arrepio. ­
Imaginem aqueles bichos soltos pela propriedade...
Eles continuaram parados, agora tremendo um pouco de frio, à espera da
delegação de Durmstrang. A maioria das pessoas contemplava o céu,
esperançosa. Durante alguns minutos, o silêncio só foi interrompido pelos
cavalões de Madame Maxime que resfolegavam e pateavam. Mas então...
- Vocês estão ouvindo alguma coisa? - perguntou Rony de repente.
Harry prestou atenção, um barulho alto e estranho chegava até eles através
da escuridão, um ronco abafado mesclado a um ruído de sucção, como se um
imenso aspirador de pó estivesse se deslocando pelo leito de um rio...
- O lago! - berrou Lino Jordan apontando. - Olhem para o lago!
De sua posição, no alto dos gramados, de onde descortinavam a propriedade,
eles tinham uma visão desimpedida da superfície escura e lisa da água ­ exceto
que ela repentinamente deixara de ser lisa.
Ocorria alguma perturbação no fundo do lago, grandes bolhas se formavam
no centro, e suas ondas agora quebravam nas margens de terra - e então, bem no
meio do lago, apareceu um rodamoinho, como se alguém tivesse retirado uma
tampa gigantesca do seu leito...Algo que parecia um pau comprido e preto
começou a emergir lentamente do rodamoinho... e então Harry avistou o velame...
- É um mastro! - disse ele a Rony e Hermione.
Lenta e imponentemente o navio saiu das águas, refulgindo ao luar. Tinha
uma estranha aparência esquelética, como se tivesse ressuscitado de um
naufrágio, e as luzes fracas e enevoadas que brilhavam nas escotilhas lembravam
olhos fantasmagóricos. Finalmente, com uma grande movimentação de água, o
navio emergiu inteiramente, balançando nas águas turbulentas, e começou a
deslizar para a margem.
Alguns momentos depois, ouviram a âncora ser atirada na água rasa e o
baque surdo de um pranchão ao ser baixado sobre a margem.
Havia gente desembarcando, os garotos viram silhuetas passarem pelas
luzes das escotilhas. Os recém-chegados pareciam ter físicos semelhantes aos de
Crabbe e Goyle... mas então, quando subiram as encostas dos jardins e chegaram
mais próximos à luz que saía do saguão de entrada, Harry viu que aquela
aparência maciça se devia às capas de peles de fios longos e despenteados que


estavam usando. Mas o homem que os conduzia ao castelo usava peles de um
outro tipo; sedosas e prateadas como os seus cabelos.
- Dumbledore! - cumprimentou ele cordialmente, ainda subindo a encosta. ­
Como vai, meu caro, como vai?
- Otimamente, obrigado, Prof. Karkaroff.
O homem tinha uma voz ao mesmo tempo engraçada e untuosa; quando
ele entrou no círculo de luz das portas do castelo, os garotos viram que era alto e
magro como Dumbledore, mas seus cabelos brancos eram curtos, e a barbicha
(que terminava em um cachinho) não escondia inteiramente o seu queixo fraco.
Quando alcançou Dumbledore, apertou-lhe a mão com as suas duas.
- Minha velha e querida Hogwarts! - exclamou, erguendo os olhos para o
castelo e sorrindo, seus dentes eram um tanto amarelados, e Harry reparou que
seu sorriso não abrangia os olhos, que permaneciam frios e astutos. - Como é
bom estar aqui, como é bom... Vítor, venha, venha para o calor...você não se
importa, Dumbledore? Vítor está com um ligeiro resfriado...
Karkaroff fez sinal para um de seus estudantes avançar. Quando o rapaz
passou, Harry viu de relance um nariz grande e curvo e sobrancelhas escuras e
espessas.
Não precisava do soco que Rony lhe deu no braço, nem do cochicho na
orelha para reconhecer aquele perfil.
-Harry, é o Krum!


- CAPITULO DEZESSEIS -
O Cálice de Fogo

- Eu não acredito! - exclamou Rony, em tom de espanto, quando os alunos
de Hogwarts se enfileiraram pelos degraus atrás da delegação de Durmstrang.
- Krum, Harry! Vítor Krum!
- Pelo amor de Deus, Rony, ele é apenas um jogador de quadribol ­ disse
Hermione.
- Apenas um jogador de quadribol?- exclamou Rony, olhando para a amiga
como se não pudesse acreditar no que ouvia. - Mione, ele é um dos melhores
apanhadores do mundo! Eu não fazia idéia de que ele ainda estava na escola!
Quando eles atravessaram o saguão com os demais alunos de Hogwarts, a
caminho do Salão Principal, Harry viu Lino Jordan pulando nas pontas dos pés
para conseguir ver melhor a nuca de Krum. Várias garotas do sexto ano
apalpavam freneticamente os bolsos enquanto andavam:
- Ah, não acredito, não trouxe uma única pena comigo... Você acha que ele
assinaria o meu chapéu com batom?
- Francamente! - exclamou Hermione com ar de superioridade, ao
passarem pelas garotas, agora disputando o batom.
- Vou pedir um autógrafo a ele se puder - disse Rony -, você tem uma pena,
Harry?
- Não, deixei todas lá em cima na mochila - respondeu Harry. Os garotos se
dirigiram mesa da Grifinória e se sentaram.


Rony tomou o cuidado de se sentar de frente para a porta, porque Krum e
seus colegas de Durmstrang ainda estavam parados ali, aparentemente sem
saber onde se sentar. Os alunos de Beauxbatons tinham escolhido lugares à
mesa da Corvínal. Corriam os olhos pelo Salão Principal com uma expressão triste
no rosto. Três deles ainda seguravam as echarpes e xales que cobriam a cabeça.
- Não está fazendo tanto frio assim - comentou Hermione que os observava,
irritada. - Por que não trouxeram as capas?
- Aqui! Venham se sentar aqui! - sibilou Rony. - Aqui! Mione chega para lá,
abre um espaço...
-Quê?
- Tarde demais - disse Rony com amargura.
Vítor Krum e os colegas de Durmstrang tinham se acomodado à mesa da
Sonserina. Harry viu que Malfoy, Crabbe e Goyle pareciam muito cheios de si com
isso. Enquanto o garoto observava, Malfoy se curvou para falar com Krum.
- É, vai fundo, puxa o saco dele, Malfoy - disse Rony com desdém. - Mas,
aposto como o Krum está percebendo o jogo dele... aposto como tem gente
adulando ele o tempo todo... onde é que você acha que eles vão dormir?
Poderíamos oferecer um lugar no nosso dormitório, Harry... eu não me importaria
de ceder a minha cama, e poderia dormir em uma cama de armar.
Hermione deu uma risadinha desdenhosa.
- Eles parecem bem mais felizes que o pessoal da Beauxbatons - disse
Harry.
Os alunos de Durmstrang estavam despindo os pesados casacos de peles
e olhando para o teto escuro e estrelado com expressões de interesse; uns dois
seguravam os pratos e taças de ouro e examinavam-nos, aparentemente
impressionados.
Na mesa dos funcionários, Filch, o zelador, acrescentava cadeiras. Estava
usando a velha casaca mofada em homenagem à ocasião. Harry ficou surpreso
de ver que ele acrescentara duas cadeiras de cada lado de Dumbledore.
- Mas só tem mais duas pessoas - disse Harry. - Por que Filch está
colocando mais quatro cadeiras? Quem mais vem?
- É? - respondeu Rony vagamente. Ainda olhava com avidez para Krum.
Depois que todos os estudantes tinham entrado no salão e sentado às
mesas das Casas, vieram os professores, que se dirigiram à mesa principal e se
sentaram. Os últimos da fila foram o Prof. Dumbledore, o Prof. Karkaroff e
Madame Maxime.
Quando a diretora apareceu, os alunos de Beauxbatons se levantaram
imediatamente. Alguns alunos de Hogwarts riram. A delegação de Beauxbatons
não pareceu se constranger nem um pouco e não tornou a se sentar até que
Madame Maxime estivesse acomodada do lado esquerdo de Dumbledore. Este,
porém, continuou em pé e o Salão Principal ficou silencioso.
- Boa-noite, senhoras e senhores, fantasmas e, muito especialmente,
hóspedes - disse Dumbledore sorrindo para os alunos estrangeiros. - Tenho o
prazer de dar as boas-vindas a todos. Espero e confio que sua estada aqui seja
confortável e prazerosa.
Uma das garotas de Beauxbatons, ainda segurando o xale na cabeça, deu
uma inconfundível risadinha de zombaria.


- Ninguém está obrigando você a ficar! - murmurou Hermione, com raiva.
- O torneio será oficialmente aberto no fim do banquete - disse Dumbledore.
- Agora convido todos a comer, beber e se fazer em casa!
Ele se sentou, e Harry viu Karkaroff se curvar na mesma hora para a frente
e iniciar uma conversa com o diretor.
As travessas diante deles se encheram de comida como de costume. Os
elfos domésticos na cozinha pareciam ter se excedido, havia uma variedade de
pratos à mesa que Harry jamais vira, inclusive alguns decididamente estrangeiros.
- Que é isso? - disse Rony, apontando uma grande travessa com uma
espécie de ensopado de frutos do mar ao lado de um grande pudim de carne e
rins.
- Boujilabaisse - disse Hermione.
- Para você também! - respondeu Rony.
- É francesa - explicou a garota. - Comi nas férias, no penúltimo verão, é
muito gostosa.
- Acredito - retrucou Rony, servindo-se de chouriço de sangue.
De alguma forma o Salão Principal parecia muito mais cheio do que de
costume, ainda que só houvesse umas vinte pessoas a mais ali, talvez porque os
uniformes de cores diferentes se destacassem tão claramente contra o preto das
vestes de Hogwarts.
Agora que tinham despido as peles, os alunos de Durmstrang deixavam ver
que usavam vestes de um intenso vermelho-sangue. Vinte minutos depois do
início do banquete, Hagrid entrou discretamente pela porta atrás da mesa dos
funcionários. Deslizou para sua cadeira na ponta da mesa e acenou para Harry,
Rony e Hermione com a mão coberta de ataduras.
- Os explosivins estão passando bem, Hagrid? - perguntou Harry.
- Otimamente - respondeu ele animado.
- É, aposto que estão - disse Rony em voz baixa. - Parece que finalmente
encontraram a comida que gostam, não? Os dedos de Hagrid.
Naquele instante, ouviram uma voz:
- Com licença, vocês von querrer a boujilabaisse?
Era a garota de Beauxbatons que rira durante a fala de Dumbledore.
Finalmente retirara o xale. Uma longa cascata de cabelos louro-prateados caía
quase até sua cintura. Tinha grandes olhos azul profundos e dentes muito brancos
e iguais. Rony ficou púrpura. Olhou para a garota, abriu a boca para responder,
mas não saiu nada a não ser um fraco gargarejo.
- Pode levar - respondeu Harry, empurrando a terrina para a garota.
- Vocês já se serrvirram?
- Já - disse Rony sem fôlego. - Estava excelente.
A garota apanhou a terrina e levou-a cuidadosamente até a mesa da
Corvínal. Rony continuou com os olhos grudados nela como se nunca tivesse visto
uma garota na vida. Harry começou a rir. O som das risadas pareceu sacudir Rony
daquele transe.
- É uma veela! - exclamou com a voz rouca para Harry.
- Claro que não! - retrucou Hermione mordazmente. - Não vejo mais
ninguém olhando para ela de boca aberta como um idiota!


Mas não era bem verdade. Quando a garota atravessou o salão, muitas
cabeças de garotos se viraram, e alguns pareciam ter ficado temporariamente sem
fala, exatamente como Rony.
- Estou dizendo, não é uma garota normal! - disse Rony, curvando-se para
um lado para poder continuar a vê-la sem ninguém na frente. - Não fazem garotas
assim em Hogwarts!
- Fazem garotas legais em Hogwarts - respondeu Harry, sem pensar. Cho
Chang, por acaso, estava sentada a poucos lugares da garota de cabelos
prateados.
- Quando vocês dois repuserem os olhos dentro das órbitas - disse
Hermione com energia - poderão ver quem acaba de chegar.
Ela apontou para a mesa dos funcionários. As duas cadeiras que estavam
vazias acabavam de ser ocupadas. Ludo Bagman sentou-se agora do outro lado
do Prof. Karkaroff enquanto o Sr. Crouch, chefe de Percy, ficou ao lado de
Madame Maxime.
- Que é que eles estão fazendo aqui? - indagou Harry surpreso.
- Eles organizaram o Torneio Tribruxo, não foi? - disse Hermione. - Imagino
que quisessem vir assistir à abertura.
Quando o segundo prato chegou, os garotos repararam que havia diversos
pudins desconhecidos, também. Rony examinou um tipo esquisito de manjar
branco mais atentamente, depois o deslocou com cuidado alguns centímetros
para a direita, de modo a deixá-lo bem visível para os convidados à mesa da
Corvínal. Mas a garota que lembrava uma veela parecia ter comido o suficiente e
não veio até a mesa apanhá-lo.
Depois que os pratos de ouro foram limpos, Dumbledore se levantou mais
uma vez. Neste momento, uma agradável tensão pareceu invadir o salão. Harry
sentiu um tremor de excitação só de imaginar o que viria a seguir. A algumas
cadeiras de distância, Fred e Jorge se curvaram para a frente, observando
Dumbledore com grande concentração.
- Chegou o momento - disse Dumbledore, sorrindo para o mar de rostos
erguidos. ­ O Torneio Tribruxo vai começar. Eu gostaria de dizer algumas
palavras de explicação antes de mandar trazer o escrínio...
- O quê? - murmurou Harry. Rony deu de ombros.
- Apenas para esclarecer as regras que vigorarão este ano. Mas,
primeiramente, gostaria de apresentar àqueles que ainda não os conhecem o Sr.
Bartolomeu Crouch, Chefe do Departamento de Cooperação Internacional em
Magia - houve vagos e educados aplausos -, e o Sr. Ludo Bagman, Chefe do
Departamento de Jogos e Esportes Mágicos.
Houve uma rodada mais ruidosa de aplausos para Bagman do que para
Crouch, talvez por sua fama de batedor ou simplesmente porque ele parecia muito
mais simpático. Ele agradeceu com um aceno jovial. Bartolomeu Crouch não
sorriu nem acenou quando seu nome foi anunciado. Ao lembrar-se dele vestido
com um terno bem cortado na Copa Mundial de Quadribol, Harry achou que
parecia estranho naquelas vestes de bruxo.
Seu bigode à escovinha e a risca exata nos cabelos pareciam muito
esquisitos ao lado dos longos cabelos e barbas de Dumbledore.


- Nos últimos meses, o Sr. Bagman e o Sr. Crouch trabalharam
incansavelmente na organização do Torneio Tribruxo ­ continuou Dumbledore - e
se juntarão a mim, ao Prof. Karkaroff e à Madame Maxime na banca que julgará
os esforços dos campeões.
A menção da palavra "campeões", a atenção dos estudantes que ouviam
pareceu se aguçar. Talvez Dumbledore tivesse notado essa repentina imobilidade,
porque ele sorriu e disse:
- O escrínio, então, por favor, Sr. Filch.
Filch, que andara rondando despercebido um extremo do salão, se
aproximou então de Dumbledore, trazendo uma arca de madeira, incrustada de
pedras preciosas. Tinha uma aparência extremamente antiga. Um murmúrio de
interesse se elevou das mesas dos alunos. Denis Creevey chegou a subir na
cadeira para ver direito mas, por ser tão miúdo, sua cabeça mal ultrapassou a dos
outros.
- As instruções para as tarefas que os campeões deverão enfrentar este
ano já foram examinadas pelos Srs. Crouch e Bagman - disse Dumbledore,
enquanto Filch depositava a arca cuidadosamente na mesa à frente do diretor -, e
eles tomaram as providências necessárias para cada desafio. Haverá três tarefas,
espaçadas durante o ano letivo, que servirão para testar os campeões de
diferentes maneiras... sua perícia em magia, sua coragem, seus poderes de
dedução e, naturalmente, sua capacidade de enfrentar o perigo.
A esta última palavra, o salão mergulhou num silêncio tão absoluto que
ninguém parecia estar respirando.
- Como todos sabem, três campeões competem no torneio ­ continuou
Dumbledore calmamente -, um de cada escola. Eles receberão notas por seu
desempenho em cada uma das tarefas do torneio e aquele que tiver obtido o
maior resultado no final da terceira tarefa ganhará a Taça Tribruxo. Os campeões
serão escolhidos por um juiz imparcial... o Cálice de Fogo.
Dumbledore puxou então sua varinha e deu três pancadas leves na tampa
do escrínio. A tampa se abriu lentamente com um rangido. O bruxo enfiou a mão
nele e tirou um grande cálice de madeira toscamente talhado. Teria sido
considerado totalmente comum se não estivesse cheio até a borda com chamas
branco-azuladas, que davam a impressão de dançar.
Dumbledore fechou o escrínio e pousou cuidadosamente o cálice sobre a
tampa, onde seria visível a todos no salão.
- Quem quiser se candidatar a campeão deve escrever seu nome e escola
claramente em um pedaço de pergaminho e depositá-lo no cálice - disse
Dumbledore. - Os candidatos terão vinte e quatro horas para apresentar seus
nomes. Amanhã à noite, Festa das Bruxas, o cálice devolverá o nome dos três
que ele julgou mais dignos de representar suas escolas. O cálice será colocado no
saguão de entrada hoje à noite, onde estará perfeitamente acessível a todos que
queiram competir.
- Para garantir que nenhum aluno menor de idade ceda à tentação,
continuou Dumbledore, traçarei uma linha etária em volta do Cálice de Fogo
depois que ele for colocado no saguão. Ninguém com menos de dezessete anos
conseguirá atravessar a linha.


- E, finalmente, gostaria de incutir nos que querem competir, que ninguém
deve se inscrever neste torneio levianamente. Uma vez escolhido pelo Cálice de
Fogo, o campeão ficará obrigado a prosseguir até o final do torneio. Colocar o
nome no cálice é um ato contratual mágico. Não pode haver mudança de idéia,
uma vez que a pessoa se torne campeã. Portanto, procurem se certificar de que
estão preparados de corpo e alma para competir, antes de depositar seu nome no
cálice. Agora, acho que já está na hora de irmos nos deitar. Boa-noite a todos.
- Uma linha etária! - exclamou Fred Weasley, os olhos brilhando, enquanto
atravessavam o salão rumo às portas que se abriam para o saguão de entrada.
- Bom, isso deve ser contornável com uma Poção para Envelhecer, não? E
depois que o nome estiver no cálice, a gente vai ficar rindo, ele não vai saber dizer
se você tem ou não dezessete anos!
- Mas eu acho que ninguém abaixo de dezessete anos terá a menor chance
­ disse Hermione - ainda não aprendemos o suficiente...
- Fale por você - disse Jorge rispidamente. - Você vai tentar entrar, não vai,
Harry?
Harry pensou brevemente na insistência de Dumbledore de que nenhum
menor de dezessete anos submetesse o nome, mas então a maravilhosa visão de
si mesmo ganhando a Taça Tribruxo invadiu mais uma vez sua mente... ele
pensou no quanto Dumbledore ficaria zangado se algum menor de dezessete
anos descobrisse uma maneira de atravessar a linha etária...
- Onde está ele? - perguntou Rony, que não estava ouvindo uma só palavra
dessa conversa, e examinava a aglomeração de alunos para ver que fim levara
Krum. - Dumbledore não disse onde o pessoal de Durmstrang vai dormir, disse?
Mas sua pergunta foi respondida quase instantaneamente; os garotos
estavam passando pela mesa da Sonserina naquele momento e Karkaroff se
apressava em chegar aos seus alunos.
- Voltamos ao navio, então - foi ele dizendo. - Vítor, como é que você está
se sentindo? Comeu o suficiente? Devo mandar buscar um pouco de quentão na
cozinha?
Harry viu Krum sacudir negativamente a cabeça e tornar a vestir as peles.
- Professor, eu gostaria de beber um pouco de vinho - disse outro garoto de
Durmstrang esperançoso.
- Eu não ofereci a você, Poliakoff - retorquiu Karkaroff, seu caloroso ar
paternal desaparecendo instantaneamente. - Vejo que derramou comida nas
vestes outra vez, moleque porcalhão...
Karkaroff lhe deu as costas e conduziu os alunos para fora, chegando à
porta no mesmo momento que Harry, Rony e Hermione.
Harry parou para deixá-lo passar primeiro.
- Obrigado - disse Karkaroff, olhando distraído para o garoto.
E então o bruxo estacou. Tornou a virar a cabeça para Harry e encarou-o
como se não pudesse acreditar no que via. Atrás do diretor, os alunos de
Durmstrang pararam também. Os olhos de Karkaroff percorreram lentamente o
rosto de Harry e se detiveram na cicatriz. Os alunos de Durmstrang miraram Harry
cheios de curiosidade, também. Pelo canto do olho, o garoto viu que alguns
faziam cara de terem finalmente entendido. O garoto que sujara as vestes de


comida cutucou uma colega ao seu lado e apontou abertamente para a testa de
Harry.
- É, é o Harry Potter, sim - disse alguém com um rosnado às costas deles.
O Prof. Karkaroff virou-se completamente. Olho-Tonto Moody se achava
parado ali, apoiado pesadamente na bengala, o olho mágico encarando sem
piscar o diretor de Durmstrang. A cor se esvaiu do rosto de Karkaroff enquanto
Harry observava a cena. Uma expressão terrível, em que se misturavam a fúria e
o medo, perpassou o rosto do homem.
- Você! - exclamou ele, encarando Moody como se duvidasse de que
realmente o via.
- Eu - disse Moody sério. - E a não ser que tenha alguma coisa a dizer a
Potter, Karkatoff, você talvez queira continuar andando. Está bloqueando a porta.
Era verdade, metade dos estudantes no salão aguardava atrás deles,
espiando por cima dos ombros uns dos outros para ver o que o que estava
causando o engarrafamento. Sem dizer mais uma palavra, o Prof. Karkaroff
arrebanhou seus alunos e saiu. Moody observou-o desaparecer de vista, seu olho
mágico fixando as costas do bruxo, uma expressão de intenso desagrado em seu
rosto mutilado.
Como o dia seguinte era sábado, normalmente a maioria dos estudantes
teria tomado o café da manhã mais tarde. Harry, Rony e Hermione, porém, não
foram os únicos a se levantarem muito mais cedo do que costumavam nos fins de
semana. Quando desceram para o saguão, viram umas vinte pessoas andando
por ali, alguns comendo torrada, todos examinando o Cálice de Fogo. A peça fora
colocada no centro do saguão sobre o banquinho que era usado para o Chapéu
Seletor. Uma fina linha dourada fora traçada no chão, formando um círculo de uns
três metros de raio.
- Alguém já depositou o nome? - perguntou Rony, ansioso, a uma aluna do
terceiro ano.
- Todo o pessoal da Durmstrang - respondeu ela. - Mas ainda não vi
ninguém de Hogwarts.
- Aposto como tem gente que depositou ontem à noite depois que fomos
todos dormir ­ disse Harry. - Eu teria feito isso se fosse eles... não iria querer
ninguém me olhando. E se o cálice cuspisse o meu nome de volta na hora?
Alguém riu às costas de Harry. Ao se virar, ele viu Fred, Jorge e Lino
Jordan correndo escada abaixo, os três parecendo excitadíssimos.
- Resolvido - disse Fred num cochicho vitorioso a Harry, Rony e Hermione. -
Acabamos de tomá-la.
- Quê? - exclamou Rony.
- A Poção para Envelhecer, cabeça-de-bagre - disse Fred.
- Uma gota cada um - acrescentou Jorge, esfregando as mãos de alegria. -
Só precisamos envelhecer alguns meses.
- Vamos dividir os mil galeões entre os três se um de nós vencer - disse
Lino, com um largo sorriso.
- Não tenho muita certeza de que isso vai dar certo - disse Hermione em
tom de aviso.
- Tenho certeza de que Dumbledore terá pensado nessa possibilidade.
Fred, Jorge e Lino não lhe deram atenção.


- Pronto? - perguntou Fred aos outros dois, tremendo de excitação. - Vamos
então, eu vou primeiro...
Harry observou, fascinado, quando Fred tirou do bolso um pedaço de
pergaminho com as palavras "Fred Weasley - Hogwarts".
O garoto foi direto à linha e parou ali, balançando-se nas pontas dos pés
como um mergulhador se preparando para um salto de quinze metros. Depois,
acompanhado pelo olhar de todos que estavam no saguão, ele respirou fundo e
atravessou a linha.
Por uma fração de segundo, Harry achou que a coisa dera certo - Jorge
certamente pensara o mesmo, porque soltou um berro de triunfo e correu atrás de
Fred -, mas no momento seguinte, ouviram um chiado forte e os gêmeos foram
arremessados para fora do círculo dourado, como bolas de golfe. Eles
aterrissaram dolorosamente, a dez metros de distância no frio chão de pedra e,
para piorar a situação, ouviram um forte estalo e brotaram nos dois longas barbas
brancas e idênticas.
O saguão de entrada ecoou de risadas. Até Fred e Jorge riram depois de se
levantar e dar uma boa olhada nas barbas um do outro.
- Eu avisei a vocês - disse uma voz grave e risonha, ao que todos se
viraram e deram com o Prof. Dumbledore saindo do Salão Principal. Ele examinou
Fred e Jorge, com os olhos cintilando. - Sugiro que os dois procurem Madame
Pomfrey. Ela já está cuidando da Srta. Fawcett da Corvinal e do Sr. Summers da
Lufa-Lufa, que também resolveram envelhecer um pouquinho. Embora eu deva
dizer que as barbas deles não são tão bonitas quanto as suas.
Fred e Jorge seguiram para a ala hospitalar acompanhados por Lino, que
rolava de rir, e Harry, Rony e Hermione, também às gargalhadas, foram tomar o
café da manhã.
A decoração no Salão Principal estava mudada essa manhã. Como era o
Dia das Bruxas, uma nuvem de morcegos vivos esvoaçava pelo teto encantado,
enquanto centenas de abóboras esculpidas riam-se em cada canto. Harry, à frente
dos três, foi até Dino e Simas, que discutiam quais alunos de Hogwarts com
dezessete anos ou mais estariam se inscrevendo.
- Corre um boato que Warrington se levantou cedo e depositou o nome no
cálice - disse Dino a Harry. - Aquele grandalhão da Sonserina que parece uma
preguiça.
Harry, que jogara quadribol contra Warrington, sacudiu a cabeça,
desgostoso.
- Não podemos ter um campeão da Sonserina!
- E todo o pessoal da Lufa-Lufa está falando em Diggory - disse Simas com
desprezo. - Eu não teria imaginado que ele fosse querer arriscar aquele belo
físico.
- Escutem! - disse Hermione de repente.
As pessoas estavam aplaudindo no saguão de entrada. Todos se viraram
nas cadeiras e viram Angelina Johnson entrando no salão, sorrindo meio
encabulada. Uma garota alta, que jogava como artilheira no time de quadribol da
Grifinória, Angelina se aproximou dos colegas, sentou-se e disse:
- Bom, está feito! Depositei o meu nome!
- Você está brincando! - disse Rony, parecendo impressionado.


- Então você já fez dezessete? - perguntou Harry.
- Claro que sim. Você está vendo alguma barba? - respondeu Rony.
- Fiz anos na semana passada - disse Angelina.
- Fico feliz que alguém da Grifinória esteja concorrendo - comentou
Hermione. ­ Espero sinceramente que você seja escolhida, Angelina!
- Obrigada, Hermione - agradeceu Angelina, sorrindo para ela.
- É, é melhor você do que o Zé Bonitinho Diggory - disse Simas, fazendo
vários alunos da Lufa-Lufa que passavam pela mesa amarrarem a cara para ele.
- Então, que é que vocês vão fazer hoje? - perguntou Rony a Harry e
Hermione, quando saíam do salão depois do café.
- Ainda não fomos visitar o Hagrid - lembrou Harry.
- OK, desde que ele não nos peça para doar uns dedos aos explosivins.
Uma expressão de grande excitação surgiu de repente no rosto de
Hermione.
- Acabei de me tocar, ainda não pedi ao Hagrid para se alistar no F.A.L.E.! -
disse ela animada. - Me esperem aqui enquanto dou uma corrida lá em cima para
apanhar os distintivos.
- Qual é a dela? - exclamou Rony, exasperado, quando Hermione saiu
correndo escada acima.
- Ei, Rony - disse Harry de repente. - É a sua amiga...
Os alunos de Beauxbatons entravam no castelo, vindo dos jardins, entre
eles a garota veela. O pessoal aglomerado à volta do cálice se afastou para deixá-
los passar, observando-os ansiosos. Madame Maxime entrou atrás dos alunos e
organizou-os em fila. Um a um eles atravessaram a linha etária e depositaram
seus pedaços de pergaminho nas chamas branco-azuladas. A cada nome inscrito
o fogo se avermelhava e faiscava por um breve instante.
- Que é que você acha que acontece com os que não são escolhidos? ­
murmurou Rony para Harry, quando a garota veela deixou cair seu pedaço de
pergaminho no Cálice de Fogo. - Você acha que voltam para a escola ou ficam por
aqui para assistir ao torneio?
- Não sei - disse Harry. - Ficam por aqui, suponho... Madame Maxime vai
ficar para julgar, não é?
Depois que os alunos de Beauxbatons se inscreveram, Madame Maxime
levou-os de volta aos jardins.
- Onde é que eles estão dormindo, então? - perguntou Rony chegando até
as portas de entrada e acompanhando-os com o olhar.
Um ruído de chocalho às costas dos dois anunciou a reaparição de
Hermione com a caixa de distintivos do F.A.L.E.
- Ah, bom, vamos logo - disse Rony e desceu aos saltos os degraus de
pedra, mantendo os olhos fixos na garota veela, que a essa altura já estava no
meio do jardim com a diretora.
Ao se aproximarem da cabana de Hagrid na orla da Floresta Proibida, o
mistério do dormitório dos alunos de Beauxbatons se esclareceu. A enorme
carruagem azul-clara em que haviam chegado fora estacionada a menos de
duzentos metros da porta da cabana de Hagrid, e eles estavam embarcando nela.
Os cavalos elefânticos que puxavam a carruagem pastavam agora em um
picadeiro improvisado montado a um lado.


Harry bateu na porta de Hagrid e os latidos retumbantes de Canino
responderam imediatamente.
- Até que enfim! - saudou-os Hagrid, quando abriu a porta e viu quem batia.
- Achei que vocês tinham esquecido onde eu morava!
- Estivemos realmente ocupados, Hag... - Hermione começou a dizer, mas
parou de chofre, encarando Hagrid, aparentemente sem saber o que dizer.
Hagrid estava usando seu melhor (e horroroso) terno de tecido marrom
peludo, com uma gravata amarela e laranja. Mas isto não era o pior, ele
evidentemente tentara domesticar os cabelos, usando uma grande quantidade de
um produto que parecia graxa para eixo de rodas. Estavam agora alisados em
dois molhos - talvez ele tivesse tentado fazer um rabo-de-cavalo como o de Gui,
mas descobrira que tinha cabelo demais. O penteado realmente não combinava
nadinha com Hagrid. Por um instante, Hermione mirou-o de olhos arregalados,
depois, obviamente decidindo não fazer comentários disse:
- Hum, onde estão os explosivins?
- Lá fora no canteiro de abóboras - respondeu Hagrid alegre.
- Estão ficando uns bichões, quase um metro de comprimento agora. O
único problema é que começaram a se matar uns aos outros.
- Ah, não, sério? - exclamou Hermione, lançando um olhar de censura a
Rony, que olhava sem disfarçar o penteado esquisito de Hagrid, e acabara de
abrir a boca para dizer alguma coisa.
- É - disse Hagrid com tristeza. - Mas tudo bem, eles agora estão em caixas
separadas. Ainda sobraram uns vinte.
- Isso é que foi sorte! - disse Rony. Mas Hagrid não percebeu a ironia.
A cabana de Hagrid tinha um único cômodo, e a um canto havia uma cama
gigantesca coberta com uma colcha de retalhos. Uma mesa igualmente enorme
com cadeiras ficava diante da lareira, sob uma quantidade de presuntos curados,
e aves mortas que pendiam do teto. Os garotos se sentaram à mesa enquanto
Hagrid preparava o chá e logo se deixaram absorver por mais uma discussão
sobre o Torneio Tribruxo. Hagrid parecia tão excitado com o assunto quanto eles.
- Aguardem - disse ele, sorrindo. - Aguardem só. Vocês vão ver uma coisa
que nunca viram antes. A primeira tarefa... ah, mas eu não posso contar.
- Vamos, Hagrid! - insistiram Harry, Rony e Hermione, mas ele apenas
sacudiu a cabeça, rindo.
- Não quero estragar a surpresa. Mas vai ser espetacular, isso eu posso
dizer. Os campeões vão ter tarefas escolhidas sob medida. Nunca pensei que ia
viver para ver organizarem novamente um Torneio Tribruxo!
Os garotos acabaram almoçando com Hagrid, embora não comessem
muito - ele disse que preparara um picadinho de carne, mas quando Hermione
encontrou uma garra no dela, os três perderam um pouco o apetite. Mas se
divertiram tentando fazer Hagrid contar as tarefas que haveria no torneio,
especulando quais dos inscritos seriam provavelmente escolhidos para campeões,
e imaginando se Fred e Jorge já teriam perdido as barbas.
Uma chuva leve começara a cair lá pelo meio da tarde, foi muito gostoso
sentarem ao pé da lareira e escutar as gotas de chuva tamborilando de leve na
janela, vendo Hagrid cerzir suas meias enquanto discutia com Hermione sobre os


elfos domésticos - porque ele se recusou terminantemente a entrar para o F.A.L.E.
quando a garota lhe mostrou os distintivos.
- Seria fazer a eles uma maldade, Hermione - disse sério enquanto
trabalhava com uma enorme agulha de osso enfiada com uma linha de cerzir
amarela. Faz parte da natureza deles cuidar dos seres humanos, é disso que eles
gostam, entende? Você os faria infelizes se tirasse o trabalho deles e os insultaria
se tentasse lhes pagar um salário.
- Mas Harry libertou o Dobby e ele foi à lua de tanta felicidade! - disse
Hermione. ­ E ouvimos dizer que ele está exigindo salário agora!
- Tudo bem, tem aberrações em toda espécie da natureza. Não estou
dizendo que não haja elfo esquisito que aceite a liberdade, mas você jamais
convenceria a maioria deles a concordar com isso, não, nada feito, Hermione.
Hermione pareceu ficar realmente contrariada e guardou a caixa de
distintivos no bolso da capa. Lá pelas cinco horas começou a escurecer, e Rony,
Harry e Hermione decidiram que já era hora de voltar ao castelo para a festa do
Dia das Bruxas - e, o que era mais importante, para o anúncio de quem seriam os
campeões das escolas.
- Vou com vocês - disse Hagrid, deixando o cerzido de lado. - Me dêem um
segundo.
Ele se levantou, foi até a cômoda ao lado da cama e começou a procurar
alguma coisa nas gavetas. Os garotos não prestaram muita atenção, até que um
fedor realmente horrível chegou às suas narinas. Tossindo, Rony perguntou:
- Hagrid, que é isso?
- Eh? - exclamou Hagrid, virando-se com um enorme frasco na mão. - Você
não gostou?
- Isso é loção de barba? - perguntou Hermione, com um tom de voz
levemente chocado.
- Hum... eau-de-Cologne - murmurou Hagrid. Ele ficou vermelho. - Talvez
seja um pouco demais - disse meio impaciente. - Vou tirar, esperem aí...
Ele saiu desajeitado da cabana e os garotos o viram lavar-se
vigorosamente no barril de água do lado da janela.
- Eau-de-Cologne? - repetiu Hermione surpresa. - Hagrid?
- E qual é a explicação para os cabelos e o terno dele? - perguntou Harry
em voz baixa.
- Olhem lá! - exclamou Rony de repente, apontando para fora da janela.
Hagrid acabara de se aprumar e se virara. Se ficara vermelho antes, não
era nada comparável ao que estava acontecendo agora. Levantando-se muito
cautelosamente, para que Hagrid não os visse, Harry, Rony e Hermione espiaram
pela janela e viram que Madame Maxime e os alunos de Beauxbatons tinham
acabado de sair da carruagem, obviamente para irem à festa também. Os garotos
não conseguiam ouvir, mas Hagrid estava falando com a diretora com os olhos
embaçados e uma expressão de arrebatamento, que Harry só notara nele uma
única vez - quando admirava o filhote de dragão Norberto.
- Ele está indo com ela para o castelo! - disse Hermione indignada. - Pensei
que ele estava nos esperando!


Sem lançar sequer um olhar à cabana, Hagrid foi subindo pelo gramado
com Madame Maxime, e os alunos de Beauxbatons seguiam em sua cola, quase
correndo para acompanhar os passos enormes dos dois.
- Ele está caído por ela! - comentou Rony incrédulo. - Bom, se eles tiverem
filhos, vão marcar um recorde mundial, aposto como um bebê deles iria pesar uma
tonelada.
Os três saíram da cabana sozinhos e fecharam a porta ao passar. Estava
surpreendentemente escuro do lado de fora. Puxando as capas para mais junto do
corpo, eles subiram pelos gramados da propriedade.
- Ah, são eles. Olhem lá! - sussurrou Hermione.
A delegação de Durmstrang seguia do lago para o castelo. Vitor Krum
caminhava ao lado de Karkaroff e os outros os acompanhavam em pequenos
grupos. Rony observou Krum excitado, mas o jogador nem olhou para os lados ao
alcançar as portas do castelo um pouco à frente de Hermione, Rony e Harry,
andando sempre reto.
Quando os três amigos entraram, o salão iluminado por velas estava quase
cheio. O Cálice de Fogo fora mudado de lugar; agora se encontrava diante da
cadeira vazia de Dumbledore, à mesa dos professores. Fred e Jorge - novamente
de cara lisa - pareciam ter aceitado o desapontamento muito bem.
- Espero que seja Angelina - disse Fred, quando Harry, Rony e Hermione se
sentaram.
- Eu também! - disse Hermione sem fôlego. - Bom, vamos saber daqui a
pouco!
A festa das bruxas pareceu durar muito mais do que habitualmente. Talvez
porque fosse o segundo banquete em dois dias, Harry não pareceu interessado na
comida preparada com extravagância tanto quanto das outras vezes. Como todas
as pessoas no salão, a julgar pelas constantes espichadas de pescoços, as
expressões impacientes nos rostos, o desassossego de todos que se levantavam
para ver se Dumbledore já acabara de comer, Harry simplesmente queria que os
pratos fossem retirados e os nomes dos campeões anunciados.
Depois de muito tempo, os pratos voltaram ao estado de limpeza inicial,
houve um aumento acentuado no volume dos ruídos no salão, que caiu quase
instantaneamente quando Dumbledore se ergueu. A cada lado dele, o Prof.
Karkaroff e Madame Máxime pareciam tão tensos e ansiosos quanto os demais.
Ludo Bagman sorria e piscava para vários alunos. O Sr. Crouch, porém, parecia
bastante desinteressado, quase entediado.
- Bom, o Cálice de Fogo está quase pronto para decidir - disse Dumbledore.
­ Estimo que só precise de mais um minuto. Agora, quando os nomes dos
campeões forem chamados, eu pediria que eles viessem até este lado do salão,
passassem diante da mesa dos professores e entrassem na câmara ao lado - ele
indicou a porta atrás da mesa -, onde receberão as primeiras instruções.
Ele puxou, então, a varinha e fez um gesto amplo, na mesma hora todas as
velas, exceto as que estavam dentro das abóboras recortadas, se apagaram,
mergulhando o salão na penumbra. O Cálice de Fogo agora brilhava com mais
intensidade do que qualquer outra coisa ali, a brancura azulada das chamas que
faiscavam vivamente quase fazia os olhos doerem. Todos observavam à espera...
alguns consultavam os relógios a todo momento...


- A qualquer segundo agora - sussurrou Lino Jordan, a dois lugares de
distância de Harry.
As chamas dentro do Cálice de repente tornaram a se avermelhar.
Começaram a soltar faíscas. No momento seguinte, uma língua de fogo se ergueu
no ar, e expeliu um pedaço de pergaminho chamuscado - o salão inteiro prendeu
a respiração.
Dumbledore apanhou o pergaminho e segurou-o à distância do braço, de
modo a poder lê-lo à luz das chamas, que voltaram a ficar branco-azuladas.
- O campeão de Durmstrang - leu ele em alto e bom som - será Vítor Krum.
- Grande surpresa! - berrou Rony, ao mesmo tempo que uma tempestade
de aplausos e vivas percorreu o salão. Harry viu Vítor Krum se levantar da mesa
da Sonserina e se encaminhar com as costas curvas para Dumbledore, ele virou à
direita, passou diante da mesa dos professores e desapareceu pela porta que
levava à câmara vizinha.
- Bravo, Vítor! - disse Karkaroff com a voz tão retumbante que todos
puderam ouvi-lo apesar dos aplausos. - Eu sabia que você era capaz!
Os aplausos e comentários morreram. Agora todas as atenções tornaram a
se concentrar no Cálice de Fogo, que, segundos depois, tornou a se avermelhar.
Um segundo pedaço de pergaminho voou de dentro dele, lançado pelas chamas.
- O campeão de Beauxbatons é Fleur Delacour!
- É, ela, Rony! - gritou Harry, quando a garota que parecia uma veela
levantou-se graciosamente, sacudiu a cascata de cabelos louro-prateados para
trás e caminhou impetuosamente entre as mesas da Corvínal e da Lufa-Lufa.
- Ah, olha lá, eles estão desapontados - disse Hermione sobrepondo sua
voz ao barulho e indicando com a cabeça o resto da delegação de Beauxbatons.
"Desapontados" era dizer pouco, pensou Harry. Duas das garotas que não tinham
sido escolhidas debulhavam-se em lágrimas e soluçavam, com as cabeças
deitadas nos braços.
Quando Fleur Delacour também desapareceu na câmara vizinha, todos
tornaram a fazer silêncio, mas desta vez foi um silêncio tão pesado de excitação
que quase dava para sentir seu gosto. O campeão de Hogwarts é o próximo...E o
Cálice de Fogo ficou mais uma vez vermelho; jorraram faíscas dele; a língua de
fogo ergueu-se muito alto no ar e de sua ponta Dumbledore tirou o terceiro pedaço
de pergaminho.
- O campeão de Hogwarts - anunciou ele - é Cedrico Diggory!
- Não! - exclamou Rony em voz alta, mas ninguém o ouviu exceto Harry; a
zoeira na mesa vizinha era grande demais. Cada um dos alunos da Lufa-Lufa
ficou de pé, gritando e sapateando, quando Cedrico passou por eles, um enorme
sorriso no rosto, e se encaminhou para a câmara atrás da mesa dos professores.
Na verdade, os aplausos para Cedrico foram tão longos que passou algum tempo
até que Dumbledore pudesse se fazer ouvir novamente.
- Excelente! - exclamou Dumbledore feliz, quando finalmente o tumulto
serenou. - Muito bem, agora temos os nossos três campeões. Estou certo de que
posso contar com todos, inclusive com os demais alunos de Beauxbatons e
Durmstrang, para oferecer aos nossos campeões todo o apoio que puderem,
torcendo pelo seus campeões, vocês contribuirão de maneira muito real...


Mas Dumbledore parou inesperadamente de falar, e tornou-se óbvio para
todos o que o distraira. O fogo no cálice acabara de se avermelhar outra vez.
Expeliu faíscas. Uma longa chama elevou-se subitamente no ar e ergueu mais um
pedaço de pergaminho. Com um gesto aparentemente automático, Dumbledore
estendeu a mão e apanhou o pergaminho.
Ergueu-o e seus olhos se arregalaram para o nome que viu escrito.
Houve uma longa pausa, durante a qual o bruxo mirou o pergaminho em
suas mãos e todos no salão fixaram o olhar em Dumbledore. Ele pigarreou e leu...
- Harry Potter!


- CAPITULO DEZESSETE -
Os quatro campeões

Harry ficou sentado ali, consciente de que cada cabeça no Salão Principal
se virara para ele. Sentia-se atordoado. Entorpecido. Sem dúvida estava
sonhando. Não ouvira direito.
Não houve aplausos. Um zunido, como o de abelhas enraivecidas,
começou a encher o salão, alguns estudantes ficaram em pé para ter uma visão
melhor de Harry, sentado ali, imóvel, em sua cadeira.
Na mesa principal, a Profª Minerva se levantara e passara por Ludo
Bagman e pelo Prof. Karkaroff para cochichar urgentemente com o Prof.
Dumbledore, que inclinara a cabeça para ela, franzindo ligeiramente a testa.
Harry se virou para Rony e Hermione, mais além, viu toda a longa mesa da
Grifinória observando-o, boquiaberta.
- Eu não inscrevi meu nome - disse Harry sem saber o que dizer. - Vocês
sabem que não.
Os dois apenas olharam para ele também, sem saber o que responder.
Na mesa principal, o Prof. Dumbledore se aprumou, acenando a cabeça
afirmativamente para a Profª Minerva.
- Harry Potter! - tornou ele a chamar. - Harry! Aqui, se me faz o favor!
- Anda - murmurou Hermione, dando um leve empurrão em Harry.
O garoto ficou de pé, pisou na barra das vestes e tropeçou brevemente.
Saiu pelo espaço entre as mesas da Grifinória e da Lufa-Lufa. Teve a impressão
de estar fazendo uma longuíssima caminhada, a mesa principal parecia não
chegar mais perto e ele sentia centenas de olhos fixos nele, como se cada um
fosse um refletor. O zunzum não parava de crescer. Depois do que lhe pareceu
uma hora, o garoto chegou diante de Dumbledore, sentindo fixos nele os olhares
dos professores.
- Bom... pela porta - disse Dumbledore. O diretor não sorria.
Harry passou pela mesa dos professores. Hagrid estava sentado bem no
fim. Mas não piscou para Harry, nem acenou nem fez qualquer dos sinais
habituais para cumprimentá-lo. Parecia inteiramente perplexo e olhou para Harry
quando este passou, como os demais, O garoto passou pela porta e se viu em um
aposento menor, com as paredes cobertas de retratos a óleo de bruxas e bruxos.
Um belo fogo rugia na lareira em frente.


Os rostos nos retratos se viraram para olhá-lo quando ele entrou.
Surpreendeu uma bruxa encarquilhada passando rapidamente da moldura do
próprio retrato para a moldura vizinha, que enquadrava um bruxo de bigodes de
morsa. A bruxa encarquilhada começou a cochichar no ouvido do colega.
Vítor Krum, Cedrico Diggory e Fleur Delacour estavam reunidos em torno
da lareira. Pareciam estranhamente imponentes, recortados contra as chamas.
Krum, curvado e pensativo, apoiava-se no console da lareira, ligeiramente
afastado dos outros. Cedrico estava parado com as mãos às costas,
contemplando o fogo. Fleur Delacour virou a cabeça quando Harry entrou e jogou
para trás a cascata de cabelos longos e prateados.
- Que foi? - perguntou ela. - Querrem que a jante volte ao salon?
Pensava que ele viera trazer um recado. Harry não sabia como explicar o
que acabara de acontecer. Ficou ali parado, olhando para os três campeões.
Percebeu de repente como eram altos.
Houve um ruído de passos apressados atrás de Harry, e Ludo Bagman
entrou na sala. Segurou o garoto pelo braço e levou-o até os outros.
- Extraordinário! - murmurou, apertando o braço de Harry. ­ Absolutamente
extraordinário! Senhores... senhora - acrescentou, aproximando-se da lareira e
falando aos outros três. - Gostaria de lhes apresentar, por mais incrível que possa
parecer, o quarto campeão do Torneio Tribruxo.
Vítor Krum se empertigou. Seu rosto carrancudo nublou-se ao examinar
Harry. Cedrico fez cara de estupefação. Olhou de Bagman para Harry e de volta
como se tivesse certeza de que ouvira mal o que o bruxo acabara de dizer. Fleur
Delacour, porém, sacudiu os cabelos, sorriu e disse:
- Que grrande piada, Senhorr Bagman.
- Piada? - repetiu Bagman, confuso. - Não, não, não é não! O nome de
Harry acaba de sair do Cálice de Fogo!
As grossas sobrancelhas de Krum se contraíram ligeiramente. Cedrico
continuou a parecer educadamente surpreso. Fleur franziu a testa.
- Mas evidaman houve um engano - disse a Bagman com desdém. - Ele
non pode competirr. É jovem demais.
- Bom... é surpreendente - concordou Bagman, esfregando o queixo liso e
sorrindo para Harry. - Mas, como sabem, o limite de idade só foi imposto este ano
como medida suplementar de precaução. E como o nome dele saiu do Cálice de
Fogo... quero dizer, acho que a essa altura não podemos fugir à
responsabilidade... somos obrigados... Harry terá que se esforçar o máximo que...
A porta às costas deles se abriu e um grande grupo de pessoas entrou: o
Prof. Dumbledore, seguido de perto pelo Sr. Crouch, o Prof. Karkaroff, Madame
Maxime, a Profª McGonagall e o Prof. Snape. Harry ouviu o zunzum de centenas
de estudantes do outro lado da parede, antes da Profª McGonagall fechar a porta.
- Madame Maxime! - chamou Fleur na mesma hora, indo ao encontro de
sua diretora. ­ Eston dizando que esse garrotinho vai competirr tambá!
Sob o seu atordoamento e incredulidade, Harry sentiu uma crispação de
raiva. Garrotinho?
Madame Maxime se empertigara até o limite de sua considerável altura. O
cocuruto da bela cabeça roçou o lustre repleto de velas, e seu imenso peito
coberto de cetim negro se estufou.


- Que significa isso, Dumbly-dorr? - perguntou imperiosamente.
- Eu também gostaria de saber, Dumbledore - disse o Prof. Karkaroff. Em
seu rosto havia um sorriso inflexível e seus olhos azuis eram duas lascas de gelo.
- Dois campeões de Hogwarts? Não me lembro de ninguém ter me dito que a
escola que sediasse o torneio poderia ter dois campeões, ou será que não li o
regulamento com a devida atenção?
Ele deu um sorrisinho maldoso.
- Imposível - exclamou Madame Maxime, cujas enormes mãos com
numerosas e soberbas opalas descansavam no ombro de Fleur. - Ogwarts não
pode terr dois campeons. Serria muito injusto.
- Tivemos a impressão de que a sua linha etária deixaria de fora os
competidores mais jovens, Dumbledore - disse Karkaroff, o sorriso inflexível ainda
no rosto, embora seus olhos estivessem mais frios que nunca. - Do contrário,
teríamos, naturalmente, trazido uma seleção de candidatos mais ampla de nossas
escolas.
- Não é culpa de ninguém, exceto de Potter, Karkaroff - falou Snape
suavemente. Seus olhos negros brilharam de malícia. - Não saia culpando
Dumbledore pela determinação de Potter de desobedecer às regras. Ele não tem
feito nada exceto transgredir limites desde que chegou aqui...
- Muito obrigado, Severo - disse Dumbledore com firmeza, e Snape se
calou, embora seus olhos continuassem a brilhar maldosamente por trás da
cortina de cabelos negros e oleosos.
O Prof. Dumbledore olhou então para Harry, que o encarou, tentando
perceber a expressão dos olhos do diretor por trás dos oclinhos de meia-lua.
- Você depositou seu nome no Cálice de Fogo, Harry? - perguntou
Dumbledore calmamente.
- Não - respondeu Harry. Estava consciente de que todos o olhavam com atenção.
Nas sombras, Snape fez um barulhinho impaciente de descrença.
- Você pediu a um estudante mais velho para depositá-lo no Cálice de Fogo para
você? - tornou o
diretor, sem dar atenção a Snape.
- Não - disse Harry com veemência.
- Ah, mas é clarro que ele está mentindo - exclamou Madame Maxime.
Snape agora sacudia a cabeça, a boca crispada.
- Ele não poderia ter atravessado a linha etária - interpôs a Profª Minerva
energicamente. ­ Tenho certeza de que todos concordamos nisso...
- Dumbly-dorr deve terr se enganado ao traçarr a linha - concluiu Madame
Maxime, encolhendo os ombros.
- É claro que isto é possível - respondeu Dumbledore polidamente.
- Dumbledore, você sabe muito bem que não se enganou! - exclamou a
Profª Minerva, aborrecida. - Francamente, que tolice! Harry não poderia ter
cruzado a linha pessoalmente, e como o Prof. Dumbledore acredita que ele não
convenceu um colega mais velho a fazer isso por ele, decerto isto deveria bastar
para todos nós!
Ela lançou um olhar muito zangado ao Prof. Snape.


- Sr. Crouch... Sr. Bagman - começou Karkaroff, a voz mais uma vez
untuosa -, os senhores são os nossos... hum... juizes objetivos. Certamente os
senhores concordarão que isto é extremamente irregular?
Bagman enxugou o rosto redondo e infantil com o lenço e olhou para o Sr.
Crouch, que estava parado fora do círculo das chamas da lareira, o rosto semi-
oculto pelas sombras. Parecia um pouco sobrenatural, a obscuridade fazia-o
parecer muito mais velho, emprestando-lhe quase uma aparência de caveira.
Quando falou, porém, foi em seu tom habitualmente seco.
- Devemos obedecer ao regulamento e o regulamento diz claramente que
as pessoas cujos nomes saírem do Cálice de Fogo devem competir no torneio.
- Bom, Bartô conhece os regulamentos de trás para diante - disse Bagman,
sorrindo, e se voltou para Karkaroff e Madame Maxime como se o assunto
estivesse definitivamente encerrado.
- Eu insisto em tornar a submeter os nomes do restante dos meus alunos -
disse Karkaroff. Ele agora deixara de lado seu tom untuoso e o sorriso. Seu rosto
tinha uma expressão realmente feia. - Vocês prepararão novamente o Cálice de
Fogo e continuaremos a depositar nomes até cada escola ter dois campeões.
Seria o justo, Dumbledore.
- Mas Karkaroff, a coisa não funciona assim - comentou Bagman. - O Cálice
de Fogo se apagou, e não voltará a arder até o inicio do próximo torneio...
- ... no qual Durmstrang, com toda a certeza, não irá competir! - explodiu
Karkaroff - Depois de tantas reuniões e negociações e tantos compromissos, eu
não esperava que acontecesse uma coisa desta natureza! Tenho até vontade de
me retirar agora mesmo!
- Uma ameaça inútil, Karkaroff - rosnou uma voz próxima à porta. - Você
não pode abandonar o seu campeão agora. Ele tem que competir. Todos têm que
competir. Um ato contratual mágico, conforme disse Dumbledore. Conveniente,
não é mesmo?
Moody acabara de entrar na sala. Encaminhou-se, mancando, até a lareira,
e a cada passo que dava, ouvia-se uma batidinha.
- Conveniente? - perguntou Karkaroff. - Receio não estar entendendo,
Moody.
Harry percebeu que o bruxo tentava parecer desdenhoso, como se não
valesse a pena dar atenção ao que Moody dissera, mas suas mãos o traíam,
tinham se fechado em punhos.
- Não mesmo? - perguntou Moody em voz alta. - É muito simples Karkaroff.
Alguém depositou o nome de Harry naquele cálice sabendo que o garoto teria que
competir se saísse o seu nome.
- Evidaman algém que querria oferrecer a Ogwarts duas oporrtunidades de
vancerr! ­ comentou Madame Maxime.
- Eu concordo, Madame Maxime - disse Karkaroff, com uma reverência. ­
Vou reclamar com o Ministério da Magia e a Confederação Internacional dos
Bruxos...
- Se alguém tem razão para reclamar é o Potter - rosnou Moody -, mas... o
que é engraçado... não estou ouvindo ele dizer uma única palavra...
- Por que ele irria reclamar? - disse Fleur Delacour de repente, batendo o
pé. ­ Ele tam a chance de competirr, não é? Durrante semanas vivemos a


esperrança de serr escolhidos! A honrra de nossas escolas! Mil galeões de
prrêmio, é uma chance pela qual muita jante morrerria!
- Talvez alguém tenha esperança de que Harry morra - disse Moody, com
um leve vestígio de rosnado na voz.
Seguiu-se um silêncio extremamente tenso às suas palavras.
Ludo Bagman, que parecia de fato muito ansioso, balançou-se nervoso e
disse:
- Moody, meu caro... que coisa para você dizer!
- Todos sabemos que o Prof. Moody considera a manhã perdida se não
descobrir seis conspirações para assassiná-lo antes do almoço - disse Karkaroff
em voz alta. - Pelo visto, agora está ensinando a seus alunos o medo de serem
assassinados, também. Uma estranha qualidade para um professor de Defesa
Contra as Artes das Trevas, Dumbledore, mas com toda a certeza você tem suas
razões.
- Será que estou imaginando coisas? Vendo coisas? - rosnou Moody. - Foi
um bruxo ou uma bruxa habilitada que pôs o nome do garoto naquele cálice...
- Ah, que prrova há disso? - exclamou Madame Maxime, erguendo as
enormes mãos.
- Porque enganou um objeto mágico de grande poder! - disse Moody. -
Seria preciso um Feitiço para confundir excepcionalmente forte para mistificar
aquele cálice a ponto de fazê-lo esquecer que apenas três escolas competem no
torneio... Estou imaginando que alguém tenha inscrito Potter em uma quarta
escola, para garantir que ele fosse o único de sua categoria...
- Você parece ter pensado muito no assunto - disse Karkaroff com frieza -, e
não deixa de ser uma teoria criativa, embora, é claro, eu tenha ouvido dizer que
recentemente você meteu na cabeça que um dos seus presentes de aniversário
continha um ovo de basilisco ardilosamente disfarçado e o fez em pedaços antes
de se dar conta de que era um relógio de trem. Então você compreenderá se não
o levarmos inteiramente a serio...
- Há pessoas que usam ocasiões inocentes em proveito próprio - retrucou
Moody num tom ameaçador. - o meu trabalho é pensar como os bruxos das trevas
pensariam, Karkaroff, como você deve se lembrar...
- Alastor! - exclamou Dumbledore em tom de aviso. Harry se perguntou por
um momento com quem ele estaria falando, mas logo percebeu que "Olho-Tonto"
não poderia ser o verdadeiro nome de Moody. Este se calou, embora ainda
observasse Karkaroff com satisfação, o rosto de Karkaroff estava em brasa.
- Como foi que essa situação surgiu, não sabemos - disse Dumbledore
dirigindo-se às pessoas reunidas na sala. - Parece-me, no entanto, que não temos
alternativa alguma senão aceitá-la. Os dois, Cedrico e Harry, foram escolhidos
para competir no torneio. E, portanto, é o que farão...
- Ah, mas Dumbly-dorr...
- Minha cara Madame Maxime, se a senhora tiver uma alternativa, ficarei
encantado em ouvi-la.
Dumbledore aguardou, mas Madame Maxime não disse nada, apenas o
fitou de cara amarrada. E não foi a única, tampouco. Snape parecia furioso,
Karkaroff, lívido. Bagman, porém, parecia bastante excitado.


- Bom, vamos agilizar isso, então? disse, esfregando as mãos e sorrindo
para os presentes. - Temos que dar nossas instruções aos campeões, não é
mesmo? Bartô, quer fazer as honras da casa? O Sr. Crouch pareceu despertar de
um profundo devaneio. - concordou -, instruções. E... a primeira tarefa...
Encaminhou-se, então, para a claridade das chamas. De perto, Harry achou
que ele parecia estar passando mal. Havia sombras escuras sob seus olhos e sua
pele enrugada tinha uma aparência frágil que lembrava papel, traços que não
estavam ali durante a Copa Mundial de Quadribol.
- A primeira tarefa destina-se a testar o arrojo dos campeões - disse ele a
Harry, Cedrico, Fleur e Krum -, por isso não vamos lhes dizer qual é. A coragem
diante do desconhecido é uma qualidade importante em um bruxo... muito
importante...
- A primeira tarefa terá lugar, em vinte e quatro de novembro, perante os
demais estudantes e a banca de juizes. É proibido aos campeões pedirem aos
seus professores, ou aceitarem deles, ajuda de qualquer tipo para realizar as
tarefas do torneio. Os campeões enfrentarão o primeiro desafio armados apenas
de varinhas. Receberão informações sobre a segunda tarefa quando a primeira
estiver concluída. Por força da natureza árdua e demorada do torneio, os
campeões estão dispensados dos exames do fim do ano letivo.
O Sr. Crouch virou-se para encarar Dumbledore.
- Acho que é só isso, não é, Alvo?
- Acho que sim - respondeu Dumbledore, que observava o Sr. Crouch com
uma leve preocupação. - Você tem certeza de que não quer pernoitar em
Hogwarts, Bartô?
- Não, Dumbledore, preciso voltar ao Ministério. Estamos passando um
momento muito movimentado e muito difícil... Deixei o jovem Weatherby
responsável pelo departamento... muito entusiasmado... um pouquinho demais,
para dizer a verdade...
- Você vai pelo menos tomar um drinque antes de partir? - convidou
Dumbledore.
- Vamos, Bartô, eu vou ficar! - disse Bagman animado. - As coisas estão
acontecendo em Hogwarts agora, sabe, está muito mais excitante aqui do que no
escritório!
- Acho que não, Ludo - respondeu Crouch, com um toque de sua antiga
impaciência.
- Prof. Karkaroff, Madame Maxime, um último drinque antes de nos
recolhermos? ­ perguntou Dumbledore.
Mas Madame Maxime já passara um braço pelos ombros de Fleur e a
conduzia rapidamente para fora da sala. Harry ouviu as duas conversarem muito
depressa em francês, ao atravessarem o Salão Principal. Karkaroff fez sinal para
Krum e eles, também, agitados, saíram em silencio.
- Harry, Cedrico, sugiro que vocês vão se deitar - disse Dumbledore,
sorrindo para os dois. - Tenho certeza de que Grifinória e Lufa-Lufa estão
aguardando vocês para comemorar e seria uma pena privar seus colegas desta
excelente desculpa para fazerem muito barulho e confusão.
Harry olhou para Cedrico, que concordou com a cabeça, e juntos saíram da
sala.


O Salão Principal agora estava deserto; as velas já estavam pequenas,
dando aos sorrisos serrilhados das abóboras um ar misterioso e bruxuleante.
- Então - disse Cedrico com um sorrisinho. - Vamos jogar um contra o outro
novamente!
- Acho que sim - respondeu Harry. Na realidade ele não conseguiu pensar
no que dizer. Dentro de sua cabeça parecia haver uma desordem total, como se o
seu cérebro tivesse sido saqueado.
- Então... me conta... - disse Cedrico, quando chegaram ao saguão de
entrada, que estava agora iluminado por archotes, na ausência do Cálice de Fogo.
- No duro, como foi que você conseguiu inscrever seu nome?
- Não inscrevi - disse Harry erguendo os olhos para o colega. - Não pus o
meu nome lá. Falei a verdade.
- Ah... tá - respondeu Cedrico. Harry percebeu que Cedrico não acreditara
nele. - Bom... a gente se vê, então!
Em vez de subir a escadaria de mármore, Cedrico rumou para a porta à
direita. Harry ficou parado escutando-o descer os degraus de pedra, depois,
lentamente, começou a subir os de mármore.
Será que mais alguém além de Rony e Hermione acreditaria nele ou iriam
todos pensar que se inscrevera no torneio? Contudo, como é que alguém podia
pensar uma coisa dessas, quando ele ia enfrentar competidores que tinham mais
três anos de educação mágica - quando ia enfrentar tarefas que não somente
pareciam perigosas, mas que deveriam ser executadas diante de centenas de
pessoas? E, ele pensara nisso... devaneara sobre isso... mas fora brincadeirinha,
verdade, uma espécie de sonho descomprometido... jamais considerara
seriamente se inscrever, verdade...
Mas alguém considerara isso... alguém quisera vê-lo no torneio, e tomara
providências para tanto.
Por quê? Para lhe fazer um gosto? Tinha a impressão que não...
Para vê-lo fazer papel de bobo? Bom, provavelmente ia ter o seu desejo
satisfeito... Mas, para vê-lo morto? Moody estaria agindo com a sua paranóia
habitual? Alguém não poderia ter posto o nome de Harry no Cálice de Fogo de
brincadeira, para pregar uma peça? Será que alguém queria realmente vê-lo
morto?
Essa pergunta Harry pôde responder na hora. Sim, alguém queria vê-lo
morto, alguém queria vê-lo morto desde que tinha um ano de idade... Lord
Voldemort.
Mas como é que o bruxo conseguira providenciar para que o nome de Harry
fosse posto no Cálice de Fogo? Estava supostamente muito longe, em algum país
distante, escondido, sozinho... fraco e impotente...
No entanto naquele sonho que tivera, pouco antes de acordar com a cicatriz
doendo, Voldemort não estava sozinho... estava falando com Rabicho...
conspirando para matar Harry...
Harry levou um choque ao se descobrir diante da Mulher Gorda. Mal
reparara aonde seus pés o levavam. Foi também uma surpresa ver que ela não
estava sozinha na moldura. A bruxa encarquilhada, que passara para o quadro
vizinho quando ele fora se reunir aos campeões na sala embaixo, agora estava
sentada, toda cheia de si, ao lado da Mulher Gorda. Devia ter corrido pelos forros


de todos os quadros de setes escadas para chegar ali antes dele. As duas, ela e a
Mulher Gorda, o miravam com o maior interesse.
- Ora muito bem - disse a Mulher Gorda -, Violeta acaba de me contar tudo.
Então quem foi afinal o escolhido para campeão da escola?
- Asnice - disse Harry sem emoção.
- Certamente que não é! - protestou a bruxa pálida, indignada.
- Não, não, Vi, é a senha - explicou a Mulher Gorda para acalmá-la, e rodou
nas dobradiças para deixar Harry entrar na sala comunal.
O estardalhaço que feriu os ouvidos de Harry quando o retrato girou quase
o derrubou de costas. A próxima coisa de que teve consciência foi que estava
sendo arrastado para dentro da sala por uns doze pares de mãos, diante dos
alunos da Grifinória em peso, que gritavam, aplaudiam e assobiavam.
- Devia ter nos avisado de que tinha se inscrito! - berrou Fred parecia meio
aborrecido e meio impressionado.
- Como foi que você fez isso, sem ficar barbudo? Genial - rugiu Jorge.
- Não fiz - disse Harry. - Não sei como foi que...
Mas Angelina agora se atirava em cima dele.
- Ah, se não pôde ser eu, pelo menos foi alguém da Grifinória...
- Você vai poder dar o troco ao Diggory por aquela última partida de
quadribol, Harry! - gritou a voz fina de Katie BelI, outra artilheira da Grifinória.
- Temos comida, Harry, venha comer alguma coisa...
- Não estou com fome, comi bastante no banquete...
Mas ninguém quis ouvir falar de sua falta de apetite, ninguém quis saber
que ele não pusera o nome no Cálice de Fogo, ninguém parecia ter notado que
ele não estava com a menor disposição de comemorar... Lino Jordan desencavara
uma bandeira da Grifinória em algum lugar, e insistia em enrolá-la em Harry como
uma capa.
Harry não conseguiu fugir; sempre que tentava escapulir até a escada dos
dormitórios, os colegas à sua volta cerravam fileiras e o forçavam a aceitar mais
uma cerveja amanteigada, metendo salgadinhos e amendoins nas mãos dele...
todos queriam saber como é que ele fizera aquilo, como ludibriara a linha etária de
Dumbledore e conseguira depositar o nome no Cálice de Fogo...
- Não fui eu - repetia ele sem parar -, não sei como foi que aconteceu.
Mas pela pouca atenção que os colegas lhe davam, os protestos do garoto
não faziam a menor diferença.
- Estou cansado! - berrou ele finalmente depois de quase meia hora. - Não,
é sério, Jorge, vou me deitar...
A coisa que ele mais queria era encontrar Rony e Hermione para buscar um
pouco de sanidade, mas nenhum dos dois parecia estar na sala comunal.
Insistindo que precisava dormir, e quase achatando os irmãozinhos Creevey
quando tentaram desviá-lo ao pé da escada, Harry conseguiu se livrar de todo
mundo e subiu para o dormitório o mais depressa que pôde.
Para seu grande alívio, encontrou Rony, ainda vestido, deitado na cama de
um dormitório em que não havia mais ninguém. Ele ergueu os olhos quando Harry
entrou batendo a porta.
- Por onde você andou? - perguntou Harry.
- Ah, olá - respondeu Rony.


Sorria, mas parecia um sorriso muito estranho e tenso. Harry, de repente,
se deu conta de que ainda vestia a bandeira vermelha da Grifinória que Lino
amarrara nele. Apressou-se em despi-la, mas o nó estava muito apertado. Rony
continuou deitado na cama sem se mexer, apreciando os esforços de Harry para
retirar a bandeira.
- Então - disse ele, quando Harry finalmente conseguiu remover e atirar a
bandeira a um canto. - Meus parabéns.
- Que é que você quer dizer com parabéns? - perguntou Harry encarando-o.
Decididamente havia alguma coisa esquisita no jeito com que Rony sorria, parecia
mais um esgar.
- Bom... ninguém mais conseguiu atravessar a linha etária. Nem mesmo
Fred e Jorge. Que foi que você usou, a Capa da Invisibilidade?
- A Capa da Invisibilidade não teria me ajudado a atravessar aquela linha ­
disse Harry lentamente.
- Ah, certo. Achei que você teria me contado se fosse a capa... porque ela
poderia cobrir nós dois, não é mesmo? Mas você encontrou outro jeito, não foi?
- Escuta aqui. Eu não depositei meu nome naquele cálice. Deve ter sido
outra pessoa.
Rony ergueu as sobrancelhas.
- Por que alguém faria uma coisa dessas?
- Não sei. - Harry achou que seria muito melodramático dizer para me
matar. Rony ergueu as sobrancelhas tão alto que elas correram o risco de
desaparecer sob seus cabelos.
- Tudo bem, a mim você pode contar a verdade. Se você não quer que o
resto do pessoal saiba, ótimo, mas não sei por que está se dando ao trabalho de
mentir, você nem ficou mal por isso, não é? A amiga da Mulher Gorda, a tal da
Violeta, já contou a todo mundo que Dumbledore vai deixar você competir. Mil
galeões de prêmio, hein? E nem vai precisar prestar os exames de fim de ano...
- Eu não pus o meu nome naquele cálice! - disse Harry começando a se
aborrecer.
- Ah, tá - retorquiu Rony com o mesmíssimo tom cético de Cedrico. - Só que
ainda hoje de manhã você disse que teria posto à noite passada sem que ninguém
o visse... eu não sou burro, sabe?
- Pois está parecendo - disse Harry com rispidez.
- Ah, é? - respondeu Rony, mas agora não havia nenhum vestígio de
sorriso em seu rosto amarelo ou de qualquer cor. - Você está querendo se deitar,
Harry, imagino que vai precisar se levantar cedo amanhã para a sessão de
fotografias ou seja lá o que for.
E fechou com força as cortinas em torno de sua cama de colunas, deixando
Harry parado ali à porta, encarando as cortinas de veludo vinho, que agora
escondiam uma das poucas pessoas que ele contara que fosse acreditar nele.


- CAPÍTULO DEZOITO -
A pesagem das varinhas

Quando Harry acordou no domingo de manhã, levou algum tempo para se
lembrar da razão pela qual se sentia tão infeliz e preocupado. Então, a lembrança
da noite anterior o engolfou. Ele se sentou e afastou as cortinas da cama, com a
intenção de falar com Rony, forçar Rony a acreditar nele ­ mas encontrou a cama
do amigo vazia; obviamente já fora tomar o café da manhã.
Harry se vestiu e desceu a escada circular para a sala comunal. No instante
em que apareceu, os colegas que já haviam terminado o café, mais uma vez,
prorromperam em aplausos. A perspectiva de chegar no Salão Principal e encarar
o restante dos colegas da Grifinória, todos tratando-o como uma espécie de herói,
não era nada convidativa, mas era isso ou ficar ali encurralado pelos irmãos
Creevey, que lhe acenavam freneticamente para que fosse se juntar a eles.
Assim, dirigiu-se resolutamente ao buraco do retrato, abriu-o, passou por ele e deu
de cara com Hermione.
- Olá - exclamou ela, estendendo uma pilha de torradas que carregava em
um guardanapo. - Trouxe para você... quer dar uma volta?
- Boa idéia - respondeu Harry agradecido.
Os dois desceram, atravessaram depressa o saguão, sem olhar para o
Salão Principal, e pouco depois estavam caminhando pelos jardins em direção ao
lago, onde o navio de Durmstrang, ancorado, se refletia na água. Fazia uma
manhã fria e os dois amigos não pararam de andar, comendo as torradas,
enquanto Harry contava a Hermione exatamente o que acontecera depois que
deixara a mesa da Grifinória, na noite anterior. Para seu imenso alívio, Hermione
aceitou sua história sem duvidar.
- Bem, é claro que eu sabia que você não tinha se inscrito - disse a garota
quando ele terminou de contar a cena na câmara vizinha ao Salão Principal.
- A cara que você fez quando Dumbledore o chamou! Mas a pergunta é,
quem inscreveu você? Porque, Moody tem razão, Harry... acho que nenhum
estudante teria sido capaz de fazer isso... nunca teria sido capaz de enganar o
Cálice de Fogo nem de anular o feitiço de Dumbledore...
- Você viu o Rony? - interrompeu-a Harry.
Hermione hesitou.
- Hum... vi... estava tomando café.
- Ele ainda acha que eu me inscrevi?
- Bem... não, acho que não... não para valer - disse ela sem jeito.
- Que é que você está querendo dizer com esse não para valer?
- Ah, Harry, não está na cara? - respondeu Hermione desesperada. - Ele
está com ciúmes!
- Com ciúmes?- repetiu o garoto sem acreditar. - Com ciúmes de quê? Será
que ele quer fazer papel de babaca na frente da escola inteira?
- Olha - disse Hermione pacientemente -, é sempre você que recebe todas
as atenções, você sabe que é. Sei que não é sua culpa - acrescentou ela
depressa, vendo Harry abrir a boca, indignado. - Sei que você não quer isso...
mas, bem... sabe, Rony tem todos aqueles irmãos competindo com ele em casa, e


você é o melhor amigo dele e é realmente famoso, Rony é sempre deixado de
lado quando as pessoas vêem você, e ele agüenta isso sem reclamar, mas acho
que mais essa vez foi demais...
- Ótimo - disse Harry com amargura. - Realmente ótimo. Diga a ele que
troco de lugar quando ele quiser. Diga a ele que o meu lugar está às ordens...
gente olhando de boca aberta para a minha cicatriz para todo lado que vou...
- Não vou dizer nada a ele - falou Hermione com rispidez. - Diga você
mesmo, é o único jeito de resolver isso.
- Não vou correr atrás dele para fazer ele crescer! - disse Harry, tão alto que
várias corujas pousadas em uma árvore próxima levantaram vôo assustadas. -
Talvez ele acredite que não estou me divertindo quando me partirem o pescoço
ou...
- Isso não tem graça - disse Hermione baixinho. - Não tem a menor graça. ­
Ela parecia extremamente ansiosa. - Harry, estive pensando... você sabe o que
precisamos fazer, não sabe? Depressa, assim que voltarmos ao castelo?
- Sei, tacar no Rony um bom chute na b...
- Escrever a Sirius. Você tem que contar a ele o que aconteceu. Ele pediu
para você o manter informado de tudo que estivesse acontecendo em Hogwarts...
é quase como se ele esperasse que uma coisa dessas fosse acontecer. Trouxe
pergaminho e uma pena comigo...
- Corta essa! - exclamou Harry, olhando à volta para verificar se havia
alguém ouvindo, mas os jardins estavam muito desertos. - Ele voltou ao país só
porque a minha cicatriz doeu. Provavelmente invadiria o castelo furioso se eu
contasse que alguém me inscreveu no Torneio Tribruxo...
- Sirius iria gostar que você contasse a ele - disse Hermione com
severidade. ­ Ele vai descobrir de qualquer jeito...
- Como?
- Harry isso não vai poder ser abafado - disse ela seriamente. - Esse torneio
é famoso e você é famoso. Eu ficaria realmente surpresa se já não tiver saído
alguma coisa no Profeta Diário sobre a sua entrada no torneio... você já aparece
em metade dos livros que tratam do Você-Sabe-Quem, sabia. e Sirius iria preferir
saber por você, eu sei que sim.
- OK, OK, vou escrever - disse Harry atirando o último pedaço de torrada no
lago. Os dois ficaram parados observando o pão flutuar por um instante, antes de
um grande tentáculo emergir e engoli-lo por baixo. Depois disso retornaram ao
castelo.
- Vou usar a coruja de quem? - perguntou Harry, quando subiam as
escadas. ­ Ele me disse para não usar Edwiges outra vez.
- Pergunte ao Rony se você pode pedir emprestada...
- Não vou pedir nada ao Rony - disse o garoto decidido.
- Bom, então peça uma das corujas da escola, qualquer pessoa pode pedir
- disse Hermione.
Os dois subiram até o corujal. Hermione deu a Harry um pedaço de
pergaminho, uma pena e um tinteiro, depois saiu percorrendo as longas filas de
poleiros, examinando as diferentes corujas, enquanto Harry se sentava encostado
à parede e escrevia a carta.

" Caro Sirius,

Você me disse para mantê-lo informado do que está acontecendo em Hogwarts,
então aqui vai: não sei se você já sabe, mas vão realizar um Torneio Tribruxo este
ano e, na noite de sábado, fui escolhido para ser o quarto campeão. Não sei quem
pôs o meu nome no Cálice de Fogo, mas não fui eu.
O outro campeão de Hogwarts é Cedrico Diggory da Lufa-Lufa."

Ele parou nesse ponto, pensativo. Teve vontade de dizer alguma coisa
sobre a imensa carga de ansiedade que parecia ter se instalado em seu peito
desde a noite anterior, mas não conseguiu descobrir como traduzir isso em
palavras. Então, ele simplesmente molhou mais uma vez a pena no tinteiro e
escreveu:

"Espero que você esteja OK, e Bicuço também.
Harry"

- Terminei - disse ele a Hermione, levantando-se e sacudindo a palha das
vestes. Ao fazer isso, Edwiges veio voando para o seu ombro e estendeu a perna.
- Não posso usar você - disse Harry a ela, correndo o olhar pelas corujas da
escola ao redor. - Tenho que usar uma dessas...
Edwiges soltou um pio muito alto e levantou vôo tão inesperadamente que
suas garras cortaram o ombro do garoto. E ficou de costas para Harry enquanto
ele tentava prender a carta a uma grande coruja-de-igreja. Depois que a coruja
partiu, Harry estendeu a mão para acariciar Edwiges, mas ela estalou o bico,
furiosa, e voou para os caibros do telhado fora do seu alcance.
- Primeiro Rony, e agora você - disse Harry aborrecido. - Não é minha
culpa.
Se Harry pensou que as coisas iam melhorar uma vez que se acostumasse
à idéia de ser campeão, o dia seguinte lhe provou que estava enganado. Ele não
poderia evitar o resto da escola quando voltasse às aulas - e era visível que o
resto da escola, tal como seus colegas da Grifinória, achava que Harry se
inscrevera para o torneio.
Ao contrário dos garotos de sua Casa, porém, os outros não pareciam estar
bem impressionados. Os da Lufa-Lufa, que normalmente conviviam em excelentes
termos com os alunos da Grifinória, tinham se tornado bastante frios. Uma aula de
Herbologia foi suficiente para demonstrar isso.
Ficou claro que os alunos da Lufa-Lufa achavam que Harry roubara a glória
do seu campeão, um sentimento talvez exagerado pelo fato de que a Lufa-Lufa
raramente conquistava alguma glória, e Cedrico era um dos poucos que lhe dera
alguma, tendo uma vez derrotado a Grifinória no quadribol. Ernesto MacMilLan e
Justino Finch-Fletchley, com quem Harry habitualmente se dava tão bem, não
falaram com ele, embora os três estivessem re-envasando bulbos saltadores na
mesma caixa - embora tivessem rido de modo bem desagradável quando um dos
bulbos saltadores escapuliu da mão de Harry e bateu com força no rosto do
garoto.


Tampouco Rony estava falando com Harry. Hermione se sentou entre os
dois, procurando a custo manter uma conversa, e embora os dois lhe
respondessem normalmente, evitavam se olhar. Harry achou que ate a Profª
Sprout parecia estar distante com ele - mas, afinal, ela era a diretora da Lufa-Lufa.
Em circunstâncias normais, o garoto teria ficado ansioso para ver Hagrid,
mas a aula de Trato das Criaturas Mágicas significava também rever os alunos da
Sonserina a primeira vez que estaria cara a cara com eles desde que se tornara
campeão.
Previsivelmente, Malfoy chegou à cabana de Hagrid com o conhecido
sorriso desdenhoso atarraxado no rosto.
- Ah, olha só, pessoal, é o campeão - disse ele a Crabbe e a Goyle no
instante em que se aproximou de Harry o bastante para ser ouvido. Trouxeram os
cadernos de autógrafos? É melhor pedir um agora porque duvido que a gente vá
vê-lo por muito tempo... metade dos campeões do Torneio Tribruxo morreram...
quanto tempo você acha que vai durar, Potter? Aposto que só os primeiros dez
minutos da primeira tarefa.
Crabbe e Goyle deram risadas para agradá-lo, mas Malfoy teve que parar
por aí, porque Hagrid surgiu dos fundos da cabana, segurando uma torre instável
de caixas, cada uma contendo um enorme explosivim. Para horror da turma,
Hagrid começou a explicar que a razão pela qual os bichos tinham andado se
matando era o excesso de energia acumulada, e que a solução era cada aluno pôr
uma coleira em um bicho e levá-lo para passear um pouco. A única vantagem
desse plano foi distrair Malfoy completamente.
- Levar essa coisa para passear um pouco? - repetiu ele enojado, olhando
para dentro de uma das caixas. - E onde exatamente você quer que a gente
amarre a coleira? No ferrão, no rabo explosivo desse treco?
- No meio - respondeu Hagrid, fazendo uma demonstração. - Hum... é,
vocês talvez queiram calçar as luvas de couro de dragão, assim como uma
precaução a mais. Harry, vem até aqui me ajudar com esse grandalhão...
A verdadeira intenção de Hagrid, no entanto, era falar com Harry longe do
restante da turma. Ele esperou até todos terem se afastado com os explosivins,
depois se virou para o garoto e disse, muito sério:
- Então... você vai competir, Harry. No torneio. Campeão da escola.
- Um dos campeões - corrigiu-o Harry.
Os olhos de Hagrid, negros como besouros, pareciam muito ansiosos sob
as sobrancelhas desgrenhadas.
- Não faz idéia de quem o meteu nessa fria, Harry?.
- Você acredita então que não fui eu que me inscrevi? - perguntou Harry,
escondendo com esforço o arroubo de gratidão que sentiu ao ouvir as palavras de
Hagrid.
- Claro que acredito - resmungou Hagrid. - Você diz que não foi você e eu
acredito em você, e Dumbledore acredita em você.
- Eu bem gostaria de saber quem foi - disse o garoto com amargura.
Os dois olharam para os jardins, a turma agora andava espalhada por lá,
toda ela em grande apuro. Os explosivins tinham alcançado uns noventa
centímetros de comprimento e se tornado extremamente fortes. Já não eram sem


casca e descolorados, tinham desenvolvido uma espécie de escudo acinzentado
grosso e reluzente.
Pareciam uma cruza de enormes escorpiões com caranguejos alongados -
mas ainda não possuíam cabeças ou olhos reconhecíveis. Tinham-se tornado
imensamente fortes e difíceis de controlar.
- Parece que eles estão se divertindo, não acha? - comentou Hagrid
alegremente.
Harry presumiu que ele estivesse se referindo aos explosivins, porque seus
colegas certamente não estavam, de vez em quando, com um alarmante
estampido, a cauda de um deles explodia, fazendo-o saltar vários metros à frente
e mais de um aluno estava sendo arrastado de bruços enquanto tentava
desesperadamente se levantar.
- Ah, eu não sei, Harry - suspirou Hagrid de repente, voltando a encará-lo,
com uma expressão preocupada no rosto. - Campeão da escola... parece que
tudo acontece com você, não é?
O garoto não respondeu. É, parecia que tudo acontecia com ele... era mais
ou menos o que Hermione dissera quando andavam pela margem do lago, e essa
era a razão, segundo ela, pela qual Rony deixara de falar com ele.
Os dias que se seguiram foram alguns dos piores que Harry passara em
Hogwarts. O mais próximo que ele chegara desse sentimento fora durante aqueles
meses, no segundo ano, em que grande parte da escola suspeitara que era ele
que atacava os colegas. Mas, então, Rony ficara do seu lado. Harry achava que
poderia suportar a atitude do resto da escola se ao menos pudesse ter Rony outra
vez como amigo, mas não ia tentar persuadi-lo a voltarem a se falar se ele não
queria. Contudo, estava solitário com tanta animosidade ao redor dele.
Harry podia entender a atitude do pessoal da Lufa-Lufa, mesmo que não lhe
agradasse, tinham um campeão próprio para apoiar. Não esperara menos do que
agressões verbais dos alunos da Sonserina - era muito impopular entre eles e
sempre o fora, pois ajudara a Grifinória a derrotá-los muitas vezes, tanto no
quadribol quanto no Campeonato Intercasas. Mas alimentara a esperança de que
os colegas da Corvínal tivessem a bondade de apoiá-lo tanto quanto a Cedrico.
Mas se enganara. A maioria dos alunos daquela Casa parecia pensar que estivera
desesperado para conquistar um pouco mais de fama fazendo o Cálice de Fogo
aceitar seu nome.
Depois, havia ainda o fato de Cedrico se enquadrar muito melhor no papel
de campeão do que ele. Excepcionalmente bonito, nariz reto, cabelos escuros e
olhos cinzentos, era difícil dizer quem era o alvo de maior admiração ultimamente,
se Cedrico ou Vitor Krum. Harry chegou a presenciar as mesmas garotas do sexto
ano que se empenharam tanto para obter um autógrafo de Krum, suplicando a
Cedrico para assinar suas mochilas na hora do almoço.
Entrementes não havia resposta de Sirius, Edwiges se recusava a se
aproximar dele, a Profª Sibila Trelawney andava predizendo sua morte com uma
certeza ainda maior do que de costume, e ele estava se saindo tão mal nos
Feitiços Convocatórios na aula do Prof. Flitwick que recebera dever de casa
suplementar - a única pessoa a receber, à exceção de Neville.
- Na realidade não é tão difícil assim - Hermione tentou tranqüilizá-lo
quando saíam da sala de Flitwick, a garota fizera os objetos dispararem pela sala


em sua direção a aula inteira, como se ela fosse uma espécie de ímã exótico para
espanadores, cestas de papel e lunascópios. - Você simplesmente não se
concentrou como devia...
- E por que teria sido isso? - perguntou Harry sombriamente, quando
Cedrico Diggory passou por eles, cercado por um grande grupo de garotas que
sorriam debilmente e olharam para Harry como se ele fosse um explosivim
particularmente grande.
- Mesmo assim, deixa para lá, não é? Dois tempos de Poções à espera da
gente hoje à tarde...
A aula de Poções sempre fora uma experiência terrível, mas ultimamente
chegava quase a ser uma tortura. Ficar trancado em uma masmorra durante uma
hora e meia com Snape e os alunos da Sonserina, todos decididos a castigar
Harry o máximo por se atrever a ser campeão da escola, era a coisa mais
desagradável que ele poderia imaginar. Já aturara uma sexta-feira, com Hermione
sentada ao seu lado, entoando entre dentes "Não ligue, não ligue, não ligue", e ele
não conseguia ver por que esta seria melhor.
Quando ele e a amiga chegaram à porta da masmorra de Snape depois do
almoço, encontraram os alunos da Sonserina esperando à porta, cada um deles
usando um distintivo no peito. Por um instante delirante, Harry pensou que fossem
distintivos do F.A.L.E. - mas logo viu que todos continham a mesma mensagem
em letras vermelhas luminosas, que brilhavam vivamente no corredor subterrâneo
mal iluminado.
Apóie CEDRICO DIGGORY o VERDADEIRO campeão de Hogwarts.
- Gostou, Potter? - perguntou Malfoy em voz alta, quando Harry se
aproximou. - E isso não é só o que eles fazem, olha só!
E apertou o distintivo contra o peito, a mensagem desapareceu e foi
substituida por outra, que emitia uma luz verde:
POTTER FEDE
Os alunos da Sonserina rolaram de rir. Cada um deles apertou o distintivo
também, até que a mensagem POTTER PEDE estivesse brilhando vivamente a
toda volta do garoto. Ele sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço e o rosto.
- Ah, engraçadíssimo - disse Hermione com sarcasmo a Pansy Parkinson e
sua turma de garotas da Sonserina, que riam mais gostosamente do que
quaisquer outros -, é realmente engraçado.
Rony estava parado encostado à parede com Dino e Simas. Ele não estava
rindo, mas tampouco defendia Harry.
- Quer um, Granger? - perguntou Malfoy, oferecendo um distintivo a
Hermione. - Tenho um monte. Mas não toque na minha mão agora, acabei de
lavá-la, sabe, e não quero que uma sangue ruim a suje.
Uma parte da raiva que Harry vinha sentindo havia dias pareceu romper um
dique em seu peito. Ele apanhou a varinha antes que conseguisse pensar no que
estava fazendo. As pessoas em volta se afastaram correndo, recuaram pelo
corredor.
- Harry! - gritou Hermione em tom de aviso.
- Anda, Potter, usa - disse Malfoy em voz baixa, puxando a própria varinha.
­ Moody não está aqui para proteger você agora, use, se tiver peito...


Por uma fração de segundos, eles se encararam nos olhos, depois,
exatamente ao mesmo tempo, os dois agiram.
- Furnunculus!- berrou Harry.
- Densaugeo! - berrou Malfoy.
Feixes de luz saíram de cada varinha, colidiram em pleno ar e
ricochetearam em ângulo - o de Harry atingiu Goyle no rosto e, o de Malfoy,
Hermione. Goyle berrou e levou as mãos ao nariz, de onde começaram a brotar
furúnculos enormes e feios ­ a garota, chorando de dor, apertou a boca.
- Mione! - Rony correu para ela para ver o que acontecera.
Harry se virou e viu Rony tirando a mão de Hermione do rosto. Não era uma
visão agradável. Os dentes da frente da garota - que já eram maiores do que o
normal - cresciam agora a um ritmo assustador, a cada minuto a garota se parecia
mais com um castor, pois seus dentes se alongavam, ultrapassavam o lábio
inferior em direção ao queixo - tomada de pânico, ela os apalpou e soltou um grito
aterrorizado.
- E que barulheira é essa? - perguntou uma voz suave e letal. Snape
chegara. Os alunos da Sonserina gritavam tentando dar explicações. Snape
apontou um dedo longo e amarelado para Malfoy e disse:
- Explique.
- Potter me atacou, professor...
- Atacamos um ao outro ao mesmo tempo! - gritou Harry.
- ... e ele atingiu Goyle, olhe...
Snape contemplou Goyle, cujo rosto agora lembrava a ilustração de um
livro doméstico sobre cogumelos venenosos.
- Ala hospitalar, Goyle disse o professor calmamente.
- Malfoy atingiu Hermione! - disse Rony. - Olhe!
O garoto obrigou Hermione a mostrar os dentes a Snape ­ ela se esforçava
ao máximo para escondê-los com as mãos, embora isso fosse difícil, porque agora
tinham ultrapassado o seu decote. Pansy Parkinson e as outras garotas da
Sonserina se dobravam de rir em silêncio, apontando para Hermione pelas costas
de Snape. Snape olhou friamente para Hermione e disse:
- Não vejo diferença alguma.
Hermione deixou escapar um lamento, seus olhos se encheram de
lágrimas, ela deu meia-volta e correu, correu pelo corredor afora e desapareceu.
Foi uma sorte, talvez, que Harry e Rony tenham começado a gritar com
Snape ao mesmo tempo, sorte que suas vozes tenham ecoado tão forte no
corredor de pedra, porque, na confusão de sons, ficou impossível o professor ouvir
exatamente os nomes de que o xingaram. Mas ele captou o sentido.
- Vejamos - disse, na voz mais suave do mundo. ­ Cinqüenta pontos a
menos para a Grifinória e uma detenção para cada um, Potter e Weasley. Agora,
entrem ou será uma semana de detenções.
Os ouvidos de Harry zumbiram. A injustiça daquilo o fez desejar amaldiçoar
Snape, desintegrá-lo em mil pedacinhos nojentos. Ele passou pelo professor e se
dirigiu com Rony para o fundo da masmorra, largando com força a mochila sobre a
carteira. Rony tremia de raiva, também - por um instante, pareceu que tudo voltara
ao normal entre os dois, mas, em vez disso, Rony se virou e se sentou entre Dino
e Simas, deixando Harry sozinho na carteira.


Do lado oposto da masmorra, Malfoy deu as costas para Snape e
comprimiu o distintivo, rindo-se, O POTTER PEDE lampejou mais uma vez pela
sala.
Harry se sentou e ficou encarando Snape quando a aula começou,
visualizando coisas horríveis acontecendo ao professor... se ao menos ele
soubesse executar uma Maldição Cruciatus... atiraria Snape no chão, de costas,
como aquela aranha, contorcendo-se e estrebuchando.
- Antídotos! - disse Snape, abrangendo a turma toda com o olhar, seus
olhos negros e frios, brilhando de forma desagradável. - Vocês já tiveram tempo
de pesquisar suas fórmulas. Quero que as preparem cuidadosamente e depois
vamos escolher alguém em quem experimentar...
Os olhos de Snape encontraram os de Harry e o garoto percebeu o que
vinha a caminho. O professor ia envenená-lo. Harry se imaginou agarrando o
caldeirão, correndo até a frente da turma e tacando o caldeirão na cabeça oleosa
de Snape... Então uma batida na porta da masmorra invadiu os pensamentos de
Harry.
Era Colin Creevey; o garoto entrou discretamente na sala, sorrindo para
Harry, e dirigiu-se à escrivaninha de Snape diante da turma.
- Que foi? - perguntou Snape com rispidez.
- Por favor, professor, me mandaram levar Harry Potter lá em cima.
Do alto do seu nariz de gancho, Snape baixou os olhos para Colin, cujo
sorriso desapareceu do seu rosto pressuroso.
- Potter tem mais uma hora de Poções para completar - disse Snape
friamente. - Subirá quando a aula terminar.
Colin corou.
- Professor, o Sr. Bagman é quem está chamando - disse nervoso. - Todos
os campeões têm que ir, acho que querem tirar fotos...
Harry teria dado tudo que possuía para impedir Colin de dizer aquelas
últimas palavras. Arriscou um relanceio para Rony, mas o amigo contemplava o
teto decidido.
- Muito bem, muito bem - retorquiu Snape. - Potter deixe o seu material,
quero que volte aqui depois para testar o seu antídoto.
- Por favor, professor, ele tem que levar o material - disse Colin com uma
vozinha esganiçada. - Todos os campeões...
- Muito bem! - disse Snape. - Potter, apanhe sua mochila e desapareça da
minha frente!
Harry atirou a mochila por cima do ombro, se levantou e se encaminhou
para a porta. Ao passar pelas carteiras dos alunos da Sonserina, o POTTER
FEDE lampejou para ele de todas as direções.
- É fantástico, não é, Harry? - disse Colin, começando a falar no instante em
que Harry fechou a porta da masmorra depois de passarem. - Mas não é? Você
ser campeão?
- É, realmente fantástico - disse Harry, desalentado, quando começaram a
subir a escada para o saguão de entrada. - Para que é que eles querem fotos,
Colin?
- O Profeta Diário, acho!


- Ótimo - disse Harry, sem emoção. - exatamente do que estou precisando.
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- Boa sorte! - disse Colin, quando chegaram à sala certa. Harry bateu na
porta e entrou.
Era uma sala de aula relativamente pequena; a maior parte das carteiras
fora afastada para o fundo do aposento, deixando um amplo espaço no meio; três
delas, no entanto, tinham sido enfileiradas lado a lado, diante do quadro-negro e
cobertas com uma toalha de veludo. Cinco cadeiras tinham sido arrumadas atrás
das mesas cobertas de veludo e Ludo Bagman estava sentado em uma delas
conversando com uma bruxa que Harry nunca vira antes e que usava vestes
carmim.
Vítor Krum estava em pé, pensativo, a um canto, como de costume, sem
falar com ninguém. Cedrico e Fleur estavam entretidos conversando, a garota
parecia muito mais feliz do que Harry a vira até então, não parava de jogar a
cabeça para trás de modo que os cabelos longos e prateados refletiam a luz.
Um homem barrigudo, segurando uma grande máquina fotográfica que
soltava uma leve fumaça, observava Fleur pelo canto do olho.
Bagman de repente viu Harry, levantou-se depressa e foi ao encontro do
garoto.
- Ah, aqui está ele. O campeão número quatro! Entre Harry, entre... não tem
com o que se preocupar, é apenas a cerimônia de pesagem das varinhas, os
outros juizes estão chegando...
- Pesagem das varinhas? - repetiu Harry, nervoso.
- Temos que verificar se as varinhas estão em perfeitas condições de
funcionamento, sem problemas, entende, porque são os instrumentos mais
importantes nas tarefas que vocês têm pela frente - disse Bagman. ­ O perito está
lá em cima com Dumbledore, agora. E depois vai haver uma pequena sessão de
fotos. Esta é Rita Skeeter - acrescentou, indicando com um gesto a bruxa de
vestes carmim -, está escrevendo um pequeno artigo sobre o torneio para o
Profeta Diário...
- Talvez não seja tão pequeno assim, Ludo - disse ela, com os olhos em
Harry.
Os cabelos da repórter estavam arrumados em cachos caprichosos e
curiosamente rígidos que contrastavam estranhamente com seu rosto de queixo
volumoso. Ela usava óculos com aros de pedrinhas. Os dedos grossos que
seguravam uma bolsa de couro de crocodilo terminavam em unhas de cinco
centímetros de comprimento, pintadas de escarlate.
- Gostaria de saber se poderia dar uma palavrinha com Harry antes de
começarmos? - pediu ela a Bagman, mas ainda com os olhos fixos em Harry. ­ O
campeão mais novo, entende... para dar um toque pitoresco?
- Certamente! - exclamou Bagman. - Isto é, se Harry não fizer objeção?
- Hum... - disse Harry.
- Beleza - respondeu Rita Skeeter e, num segundo, seus dedos com garras
vermelhas tinham segurado com surpreendente firmeza o braço do garoto,
conduziam-no para fora da sala e abriam uma porta próxima.
- Não queremos ficar lá dentro com todo aquele barulho, disse ela. -
Vejamos... ah, sim, aqui está bom e aconchegante.


Era um armário de vassouras. Harry arregalou os olhos para a bruxa.
- Vamos querido, certo, ótimo - repetiu outra vez, encarapitou-se
precariamente sobre um balde virado de boca para baixo, fez Harry sentar -se em
uma caixa de papelão e fechou a porta, mergulhando-os na escuridão. - Vejamos
agora...- Rita abriu a bolsa de crocodilo e tirou um punhado de velas, que acendeu
com um aceno da varinha, e colocou-as suspensas no ar, de modo a iluminar o
que faziam. - Você não se importa, Harry, se eu usar uma pena de repetição
rápida? Assim fico livre para conversar com você normalmente...
- Uma o quê? - perguntou Harry.
O sorriso de Rita se abriu. Harry contou três dentes de ouro.
Mais uma vez ela meteu a mão na bolsa e tirou uma pena comprida verde-
ácido e um rolo de pergaminho, que abriu entre os dois em cima de uma caixa de
Removedor Mágico Multiuso da Sra. Skower. Ela levou a ponta da pena verde à
boca, chupou-a por um instante com cara de quem estava gostando, depois
colocou-a em pé sobre o pergaminho, onde a pena ficou equilibrada tremendo
ligeiramente.
- Teste... meu nome é Rita Skeeter, repórter do Profeta Diário. Harry olhou
depressa para a pena. No momento em que Rita falara, ela começou a escrever,
deslizando sobre o pergaminho. - A atraente Rita Skeeter, 43 anos, cuja pena
infrene já esvaziou muitas reputações infladas...
- Beleza - disse Rita Skeeter, mais uma vez, e rasgou a parte escrita do
pergaminho, amassou-a e meteu-a na bolsa. Inclinou-se então para Harry e disse:
- Então, Harry... o que fez você decidir entrar no Torneio Tribruxo?
- Hum... - disse Harry outra vez, mas foi distraído pela pena. Embora não
estivesse falando, ela continuava a correr pelo pergaminho e seguindo-a o garoto
pôde ler uma nova frase:
Uma feia cicatriz, lembrança de um passado trágico, desfigura o rosto, de
outra forma encantador, de Harry Potter, cujos olhos...
- Não dê atenção à pena, Harry - disse Rita Skeeter com firmeza. Relutante,
Harry ergueu os olhos para ela. - Agora, por que decidiu entrar para o torneio,
Harry?
- Eu não entrei - disse Harry. - Não sei como foi que o meu nome foi parar
no Cálice de Fogo. Eu não o pus lá.
A repórter ergueu a sobrancelha fortemente delineada.
- Ora, Harry, não precisa ter medo de entrar numa fria. Todos sabemos que
você não deveria ter se inscrito. Mas não se preocupe com isso. Os nossos
leitores adoram rebeldias.
- Mas eu não me inscrevi - repetiu Harry. - Não sei quem...
- Como é que você se sente com relação às tarefas que o aguardam? -
perguntou Rita Skeeter. - Excitado? Nervoso?
- Ainda não pensei realmente... é, nervoso, suponho - disse Harry. Ao falar
suas entranhas reviraram desconfortavelmente.
- Houve campeões que morreram no passado, não é? ­ disse Rita com
eficiência. - Você chegou a pensar nisso?
- Bom... dizem que vai ser muito mais seguro este ano.
A pena correu veloz pelo pergaminho entre os dois, para a frente e para
trás, como se estivesse patinando.


- Naturalmente, você já viu a morte cara a cara antes, não é? - perguntou
ela, observando-o atentamente. - Como você diria que isso o afetou?
- Hum - disse Harry uma terceira vez.
- Você acha que o trauma do passado o deixou desejoso de se pôr à
prova? De fazer jus ao seu nome? Você acha que talvez tenha se sentido tentado
a se inscrever no Torneio Tribruxo porque...
- Eu não me inscrevi - disse Harry, começando a se sentir irritado.
- Você tem alguma lembrança dos seus pais? - perguntou Rita Skeeter,
abafando a resposta do garoto.
- Não.
- Como você acha que eles se sentiriam se soubessem que você ia
competir no Torneio Tribruxo? Orgulhosos? Preocupados? Zangados?
Harry estava se sentindo realmente aborrecido agora. Como é que ele ia
saber o que seus pais estariam sentindo se fossem vivos? Percebeu que a
jornalista o observava muito atentamente. De cara amarrada, ele evitou seu olhar
e baixou os olhos para as palavras que a pena acabara de escrever.
As lágrimas marejaram aqueles olhos espantosamente verdes quando a
nossa conversa se voltou para os pais de quem ele mal se lembra.
- Eu NÃO estou com lágrimas nos olhos! - disse Harry em voz alta.
Antes que Rita Skeeter pudesse dizer uma palavra, a porta do armário de
vassouras se escancarou. Harry olhou à volta, piscando para a claridade. Alvo
Dumbledore estava parado ali, contemplando os dois apertados no armário.
- Dumbledore!- exclamou Rita Skeeter, parecendo encantada, mas Harry
reparou que a pena e o pergaminho tinham repentinamente desaparecido da caixa
de Removedor Mágico e os dedos da jornalista com garras nas pontas fechavam
apressadamente a bolsa de crocodilo. - Como vai? - disse ela, erguendo-se e
estendendo uma das mãos grandes e masculinas a Dumbledore. - Espero que
tenha visto o meu artigo durante o verão sobre a conferência da Confederação
Internacional dos Bruxos?
- Encantadoramente maldoso - respondeu o diretor com os olhos cintilantes.
­ Gostei principalmente da descrição que fez de mim como um debilóide
ultrapassado.
A repórter não pareceu sequer remotamente desconcertada.
- Eu só estava tentando mostrar que algumas de suas idéias são um tanto
antiquadas, Dumbledore, e que muitos bruxos nas ruas...
- Ficarei encantado de ouvir o raciocínio que fundamentou a grosseria, Rita
­ disse Dumbledore, com uma reverência cortês e um sorriso -, mas receio que
tenhamos de discutir esse assunto mais tarde. A pesagem das varinhas vai
começar e não pode ser realizada se um dos campeões estiver escondido em um
armário de vassouras.
Satisfeitíssimo de se afastar de Rita Skeeter, Harry correu de volta à sala.
Os outros campeões estavam agora nas cadeiras junto à porta, e ele se sentou
depressa ao lado de Cedrico, com os olhos na mesa coberta de veludo, onde
agora havia quatro dos cinco juizes - o Prof. Karkaroff, Madame Maxime, o Sr.
Crouch e Ludo Bagman. Rita Skeeter se acomodou a um canto; Harry a viu tirar
discretamente o pergaminho da bolsa, abri-lo sobre um joelho, chupar a ponta da
pena de repetição rápida e equilibrá-la mais uma vez sobre o pergaminho.


- Gostaria de lhes apresentar o Sr. Olivaras - disse Dumbledore, ocupando
seu lugar à mesa dos juizes, e se dirigindo aos campeões. - Ele vai verificar suas
varinhas para garantir que estejam em boas condições antes do torneio.
Harry olhou para os lados e, com um choque de surpresa, viu um velho
bruxo com grandes olhos azul-claros parado discretamente à janela. Harry já
encontrara o Sr. Olivaras antes - era o fabricante de quem Harry comprara a
própria varinha, havia mais de três anos no Beco Diagonal.
- Mademoiselle Delacour, poderia vir até aqui primeiro, por favor? - disse o
Sr. Olivaras postando-se no espaço vazio no centro da sala. Fleur Delacour fez o
que o bruxo pedia e lhe entregou a varinha.
- Humm... - disse ele.
O Sr. Olivaras girou a varinha entre os dedos longos como se fosse um
bastão, e ela emitiu várias faíscas rosas e douradas. Depois aproximou-a dos
olhos e a examinou atentamente.
- É - disse baixinho -, vinte e quatro centímetros... inflexível... jacarandá... e
contém... meu Deus...
- Um fio de cabelos de veela - disse Fleur. - Uma das minhas avós.
Então Fleur era em parte veela, pensou Harry, anotando a informação
mentalmente para contar a Rony... depois se lembrou de que Rony não estava
falando com ele.
- Confere - disse o Sr. Olivaras -, confere, eu nunca usei cabelo de veela,
naturalmente. Acho que produz varinhas temperamentais.. . no entanto, o seu a
seu dono, se ela lhe serve...
O Sr. Olivaras correu os dedos pela varinha, aparentemente a procura de
arranhões ou saliências; então murmurou "Orchideous!" e saiu um ramo de flores
da ponta da varinha.
- Muito bem, muito bem, está em ótimas condições de funcionamento -
disse o Sr. Olivaras, recolhendo as flores e oferecendo-as a Fleur juntamente com
a varinha. - Sr. Diggory, agora o senhor.
Fleur retornou delicadamente à sua cadeira e sorriu para Cedrico quando o
garoto passou.
- Ah, esta é uma das minhas, não? - disse o Sr. Olivaras, com muito mais
entusiasmo, quando Cedrico lhe entregou a varinha. - É, lembro-me bem dela.
Contém um único pêlo da cauda de um unicórnio macho particularmente belo...
devia ter um metro e setenta, quase me deu uma chifrada quando lhe arranquei
um fio da cauda. Trinta centímetros...freixo... agradavelmente flexível. Está em
boas condições... o senhor cuida dela periodicamente?
- Lustrei-a à noite passada - disse Cedrico sorrindo.
Harry olhou a própria varinha. Dava para ver marcas de dedos em toda a
extensão. Ele agarrou um bocado de pano das vestes na altura dos joelhos e
tentou limpá-la discretamente. Várias faíscas douradas voaram de sua ponta.
Fleur Delacour lhe lançou um olhar condescendente e ele desistiu.
O Sr. Olivaras disparou uma seqüência de anéis de fumaça prateada pela
sala da ponta da varinha de Cedrico, declarando-se satisfeito e, em seguida,
disse:
- Sr. Krum, por favor.


Vítor Krum, com o corpo curvado, os ombros redondos e os pés para fora,
levantou-se e foi até o Sr. Olivaras. Entregou a varinha e ficou parado, de cara
fechada e mãos nos bolsos das vestes.
- Humm - disse o Sr. Olivaras -, é uma criação de Gregorovitch, a não ser
que eu esteja enganado. Um excelente fabricante de varinhas, embora o estilo
nunca seja bem o que eu... contudo...
Ergueu a varinha e examinou-a minuciosamente, revirando-a varias vezes
diante dos olhos.
- É... bétula e corda de coração de dragão? - perguntou a Krum, que
confirmou com a cabeça. - Um pouco mais grossa do que se vê normalmente...
bastante rígida... vinte e seis centímetros... Avis!
A varinha de bétula produziu um estampido como o de uma pistola e um
bando de passarinhos chilreantes saiu voando de sua ponta, pela janela aberta,
em direção ao sol desbotado.
- Ótimo - exclamou o Sr. Olivaras, devolvendo a varinha a Krum. - Resta
agora...o Sr. Potter.
Harry se levantou e passou por Krum para chegar ao Sr. Olivaras. E
entregou sua varinha.
- Aaah, sim - disse o perito, seus olhos azul-claros repentinamente
brilhando. - Sim, sim, sim. Lembro-me muito bem.
Harry se lembrava também. Lembrava-se como se tivesse sido ainda
ontem... Há quatro verões, no seu décimo primeiro aniversário, ele entrara na loja
do Sr. Olivaras com Hagrid para comprar uma varinha. O homem tirara suas
medidas e em seguida começara a lhe dar varinhas para experimentar. Harry teve
a impressão de que desprezara todas as varinhas da loja, até finalmente encontrar
a que lhe servia - aquela, que era feita de azevinho, vinte e oito centímetros e
continha uma única pena da cauda de uma fênix. O Sr. Olivaras se mostrara muito
surpreso que Harry fosse tão compatível com essa varinha.
- Curioso - dissera ele - ... curioso - somente quando o garoto perguntou o
que era curioso o bruxo explicara que a pena de fênix na varinha de Harry viera do
mesmo pássaro que fornecera a alma da varinha de Lord Voldemort.
Harry nunca compartira essa informação com ninguém. Gostava muito de
sua varinha e, por ele, a afinidade dela com a varinha de Voldemort era algo
imutável - do mesmo jeito que não podia mudar o fato de ser parente da tia
Petúnia. Contudo, ele realmente desejou que o Sr. Olivaras não fosse contar isso
aos presentes.
Tinha a estranha sensação de que a pena de repetição rápida de Rita
Skeeter poderia explodir de excitação se isso acontecesse.
O Sr. Olivaras passou mais tempo examinando a varinha de Harry do que a
dos demais. Por fim, porém, fez jorrar uma fonte de vinho da varinha e devolveu-a
a Harry, anunciando que o objeto continuava em perfeitas condições.
- Muito obrigado a todos - disse Dumbledore, levantando-se da mesa dos
juizes. - Vocês podem voltar às suas aulas agora, ou talvez seja mais rápido
descerem logo para jantar, já que elas estão prestes a terminar...
Achando que finalmente alguma coisa dera certo naquele dia, Harry se
levantou para sair, mas o homem com a máquina fotográfica preta deu um pulo da
cadeira e pigarreou.


- Fotos, Dumbledore, fotos - exclamou Bagman, excitado.
- Todos os juizes e campeões. Que é que você acha, Rita?
- Hum... certo, vamos fazer essas primeiras - respondeu a repórter, cujos
olhos estavam fixos em Harry outra vez. - E depois talvez umas fotos individuais.
As fotos consumiram muito tempo. Madame Maxime deixava todos na
sombra sempre que se levantava e o fotógrafo não conseguia recuar o suficiente
para enquadrá-la; por fim, ela teve que se sentar e os demais se postarem ao seu
redor. Karkaroff não parava de torcer o cavanhaque com o dedo para lhe
acrescentar mais um cacho, Krum, que Harry imaginaria estar acostumado a esse
tipo de coisa, procurava se esconder atrás do grupo. O fotógrafo parecia
interessadíssimo em colocar Fleur na frente, mas Rita corria a toda hora e
arrastava Harry para lhe dar maior destaque. Depois, ela insistiu que se fizessem
fotos separadas dos campeões. E, finalmente, todos foram liberados.
Harry desceu para jantar. Hermione não estava lá - ele supôs que a amiga
continuasse na ala hospitalar consertando os dentes. Ele comeu sozinho na ponta
da mesa, depois voltou à Torre da Grifinória, pensando em todos os deveres
suplementares sobre Feitiços Convocatórios que precisava fazer. Em cima no
dormitório, encontrou Rony.
- Você recebeu uma coruja - disse ele bruscamente, no instante em que
Harry entrou. Apontou para o travesseiro do amigo. A coruja-de-igreja da escola
esperava-o ali.
- Ah... certo - disse Harry.
- E temos que cumprir as detenções amanhã à noite na masmorra do
Snape.
Saiu, então, do quarto sem olhar para Harry. Por um instante o garoto
refletiu se devia ir atrás do amigo - não tinha bem certeza se queria falar com ele
ou lhe dar um soco, as duas opções pareciam igualmente atraentes - mas a
tentação de ler a resposta de Sirius foi mais forte. Harry aproximou-se da coruja,
soltou a carta da perna da ave e abriu-a.

"Harry,
Não posso dizer tudo que gostaria em uma carta, é arriscado demais se a coruja
for interceptada - precisamos conversar cara a cara. Você pode dar um jeito de
estar junto à lareira na Torre da Glifinória à uma hora da manhã, no dia 22 de
novembro?
Sei melhor do que ninguém que você é capaz de se cuidar e, enquanto estiver
perto de Dumbledore e Moody, acho que ninguém conseguirá lhe fazer mal.
Porém, parece que alguém está tendo algum sucesso. Inscrever você nesse
torneio deve ter sido muito arriscado, principalmente debaixo do nariz de
Dumbledore.
Fique vigilante, Harry. Continuo querendo saber de tudo que acontecer de
anormal. Mande uma resposta sobre o dia 22 de novembro o mais cedo que
puder.
Sirius"

- CAPITULO DEZENOVE -
O Rabo-Córneo húngaro

A perspectiva de conversar cara a cara com Sirius foi só o que sustentou
Harry nos quinze dias seguintes, o único ponto luminoso em um horizonte que
nunca lhe parecera mais escuro. O choque de se ver no papel de campeão da
escola agora já diminuira um pouquinho, e o medo do que o aguardava estava
começando a penetrar fundo em sua mente. A primeira tarefa se aproximava, o
garoto tinha a sensação de que ela estava de tocaia logo ali, como um monstro
aterrorizante, barrando o seu avanço. Nunca se sentira tão nervoso, ultrapassava
muito qualquer sentimento que tinha experimentado antes de uma partida de
quadribol, até mesmo a última contra a Sonserina, que decidira quem ganharia a
Taça de Quadribol.
Harry estava achando difícil pensar no futuro, sentia que a sua vida inteira o
conduzira à primeira tarefa e nela terminaria...
Assim sendo, não via como Sirius ia fazê-lo se sentir melhor com relação à
realização de uma tarefa mágica difícil e perigosa, diante de centenas de pessoas,
mas a simples visão de um rosto amigo já seria alguma coisa neste momento.
Harry respondeu a Sirius, dizendo que estaria ao pé da lareira da sala
comunal à hora que o padrinho sugerira, e que ele e Hermione tinham passado
muito tempo revendo planos para obrigar os retardatários a abandonar a sala na
noite em questão. Na pior das hipóteses, iam detonar um pacote de bombas de
bosta, mas esperavam não ter recorrer a isso - Filch os esfolaria vivos.
Entrementes, a vida se tornou ainda pior para Harry dentro dos limites do
castelo, pois Rita Skeeter publicara seu artigo sobre o Torneio Tribruxo, que afinal
não fora tanto uma notícia sobre o torneio, mas uma versão da vida de Harry
extremamente pitoresca.
Quase toda a primeira página fora ocupada por uma foto de Harry; o artigo
(que continuava nas páginas dois, seis e sete) só falava no garoto, os nomes dos
campeões da Beauxbatons e Durmstrang (errados) tinham sido espremidos na
última linha do artigo, e Cedrico sequer fora mencionado.
O artigo saíra havia dez dias e Harry ainda era assaltado por uma ardência
de náusea e vergonha no estômago todas as vezes que pensava nele. Rita
Skeeter pusera em sua boca uma porção de coisas que ele sequer lembrava ter
dito na vida, muito menos no armário de vassouras.
"Acho que herdo a minha força dos meus pais, sei que eles teriam muito
orgulho de mim se me vissem agora... é, às vezes à noite ainda choro a perda
deles, não tenho vergonha de admitir... que nada me acontecerá de mal durante o
torneio, porque eles estarão me protegendo..."
Mas Rita fizera mais do que transformar os "hums" dele em frases longas e
piegas: entrevistara outras pessoas para saber o que pensavam dele.
"Harry finalmente encontrou carinho em Hogwarts. Seu amigo íntimo, Colin
Creevey diz que o garoto raramente é visto sem companhia de Hermione Granger,
uma linda menina nascida trouxa que, como Harry, é uma das primeiras alunas da
escola.
Do momento em que o artigo apareceu, Harry teve que aturar colegas -
principalmente os da Sonserina - que o citavam, caçoando, quando ele passava.


- Quer um lencinho, Potter, caso comece a chorar na aula de
Transformação?
- Desde quando você é um dos primeiros alunos da escola, Potter? Ou será
que a escola é uma escola que você e o Longbottom fundaram?
- Ei... Harry!
- É, verdade, sim - Harry viu-se gritando, ao se virar no corredor, já cheio. -
Morri de chorar pela morte da minha mamãezinha, e estou indo chorar um pouco
mais...
- Não... foi só que... você deixou cair a pena.
Era Cho. Harry sentiu o rosto corar.
- Ah... certo... desculpe - murmurou recebendo a pena.
- Hum... boa sorte na terça-feira - disse a garota. - Espero sinceramente
que você se dê bem.
O que fez Harry se sentir extremamente idiota.
Hermione também ganhara sua quota de aborrecimentos, mas ainda não
começara a berrar com gente inocente, de fato, Harry enchia-se de admiração
pela maneira com que a amiga estava enfrentando a situação.
- Linda? Ela?- gritara Pansy Parkinson com a voz esganiçada, a primeira
vez que encontrou Hermione, depois que o artigo da Rita Skeeter fora publicado. -
Qual foi o padrão de beleza, um esquilo?
- Não liga - disse Hermione com dignidade, erguendo a cabeça no ar e
passando pelas garotas da Sonserina que zombavam, como se não as ouvisse. ­
Simplesmente não liga, Harry.
Mas Harry não conseguia se desligar. Rony não falara com ele desde o dia
do recado sobre as detenções de Snape. Harry alimentara uma certa esperança
de que fizessem as pazes durante as duas horas em que foram forçados a
preparar conservas de miolos de ratos na masmorra, mas isto fora no dia em que
o artigo de Rita Skeeter aparecera, o que parecia confirmar a crença de Rony de
que Harry estava realmente gostando de toda aquela atenção.
Hermione estava furiosa com os dois, ia de um para outro, tentando forçá-
los a se falarem, mas Harry permanecia inflexível, só voltaria a falar com Rony se
o amigo admitisse que ele não pusera o nome no Cálice de Fogo, e pedisse
desculpas por tê-lo chamado de mentiroso.
- Não fui eu que comecei - disse Harry teimosamente. - O problema é dele.
- Você sente falta dele! - tornou Hermione impaciente. - E eu sei que ele
sente falta de você...
- Sinto falta dele? Eu não sinto falta dele...
Mas isto era uma mentira deslavada. Harry gostava muito de Hermione,
mas ela não era o mesmo que Rony. Havia muito menos risos e muito mais visitas
à biblioteca quando Hermione era sua melhor amiga. Harry ainda não conseguira
dominar os Feitiços Convocatórios, parecia ter desenvolvido uma espécie de
bloqueio com relação a eles, e Hermione insistia que aprender a teoria ajudaria.
Conseqüentemente, passavam mais tempo lendo livros durante a hora do
almoço. Vítor Krum passava um tempão na biblioteca, também, e Harry ficava
imaginando o que é que ele andava fazendo. Estaria estudando ou procurando
coisas que o ajudassem na primeira tarefa?


Hermione muitas vezes se queixava de Krum estar ali - não que ele jamais
os incomodasse, mas porque aparecia sempre um grupo de garotas dando
risadinhas bobas para espioná-lo atrás das estantes, e Hermione achava que
aquele barulho a distraía.
- Ele nem ao menos é bonito! - murmurava ela aborrecida, mirando de cara
amarrada o perfil adunco de Krum. - Elas só gostam dele porque é famoso! Não
olhariam duas vezes se ele não fosse capaz de fazer aquele tal de Fingimento
Wonky...
- Finta de Wronski - corrigiu Harry entre dentes. Sem contar que o garoto
gostava que dissessem corretamente os termos do quadribol, sentia uma pontada
só de imaginar a expressão de Rony se ele pudesse ouvir Hermione falando de
Fingimentos Wonky.
É uma coisa estranha, mas quando se está com medo de alguma coisa, e
se daria tudo para retardar o tempo, ele tem o mau hábito de correr. Os dias que
faltavam para a primeira tarefa pareciam passar como se alguém tivesse ajustado
os relógios para trabalharem em velocidade dobrada. A sensação de pânico mal
controlado que Harry tinha acompanhava-o para onde fosse, sempre presente
como os comentários depreciativos sobre o artigo do Profeta Diário.
No sábado que antecedeu a primeira tarefa, todos os estudantes do terceiro
ano, e acima, tiveram permissão para visitar o povoado de Hogsmeade. Hermione
disse a Harry que lhe faria bem sair um pouco do castelo e o garoto não precisou
de muita persuasão.
- Mas e o Rony? Você não quer ir com ele?
- Ah... bem... - Hermione ficou ligeiramente vermelha. Pensei que a gente
podia se encontrar com ele no Três Vassouras...
- Não - disse Harry em tom definitivo.
- Ah, Harry, isso é tão bobo...
- Eu vou, mas não quero me encontrar com o Rony, e vou usar a minha
Capa da Invisibilidade.
- Ah, tudo bem, então... - retorquiu Hermione -, mas odeio falar com você
naquela capa, nunca sei se estou olhando para você ou não.
Então Harry vestiu a Capa da Invisibilidade no dormitório e tornou a descer
e, juntos, ele e a amiga seguiram para Hogsmeade.
- Harry se sentiu maravilhosamente livre sob a capa, observou os
estudantes que passavam por eles na entrada do povoado, a maioria usando
distintivos Apóie CEDRICO DIGGORY, mas, para variar, ninguém atirou piadas
horríveis para ele nem citou aquele artigo idiota.
- As pessoas não param de olhar para mim agora - reclamou Hermione, ao
saírem mais tarde da Dedosdemel, comendo uma grande quantidade de bombons
recheados de creme. - Acham que estou falando sozinha.
- Então não mexa tanto os lábios.
- Ah vai, por favor, tira um pouco a sua capa. Ninguém vai incomodar você
aqui.
- Ah, é? Então olha para trás.
Rita Skeeter e seu amigo fotógrafo acabavam de sair do bar Três
Vassouras. Conversavam em voz baixa e passaram por Hermione sem olhar para
a garota. Harry se encostou à parede da Dedosdemel para evitar que Rita Skeeter


batesse nele com a bolsa de crocodilo. Quando os dois se afastaram, Harry
comentou:
- Ela está hospedada no povoado. Aposto como vai assistir à primeira
tarefa.
Ao dizer isso, seu estômago foi inundado por uma onda de pânico derretido.
Mas não disse nada, ele e Hermione não tinham discutido muito o que o
aguardava na primeira tarefa; tinha a sensação de que a amiga não queria pensar
no assunto.
- Ela já foi embora - disse Hermione olhando através de Harry em direção à
rua principal. ­ Por que não vamos tomar uma cerveja amanteigada no Três
Vassouras? Está um pouco frio, não está? Você não precisa falar com o Rony! -
acrescentou com irritação, interpretando corretamente o silêncio dele.
O Três Vassouras estava lotado, principalmente com alunos de Hogwarts
que aproveitavam a tarde livre, mas também com uma variedade de gente mágica
que Harry raramente via em outro lugar. Ele imaginava que sendo Hogsmeade o
único povoado inteiramente mágico da Grã-Bretanha constituía uma espécie de
refúgio para gente como as bruxas, que não gostavam tanto de se disfarçar
quanto os bruxos.
Era difícil caminhar entre muita gente com a Capa da Invisibilidade, pois se
pisasse em alguém sem querer, poderia provocar perguntas embaraçosas. Harry
dirigiu-se com cautela a uma mesa vazia a um canto e Hermione foi comprar as
bebidas. Quando atravessava o bar, Harry viu Rony sentado com Fred, Jorge e
Lino Jordan. Resistindo ao impulso de dar um bom tranco na cabeça de Rony, ele
finalmente chegou à mesa escolhida e se sentou. Hermione não demorou a se
juntar a ele e lhe passou a cerveja por baixo da capa.
- Pareço uma idiota sentada aqui sozinha - resmungou ela. - Por sorte
trouxe alguma coisa para fazer.
E a garota puxou um caderno em que andava mantendo um registro dos
participantes do F.A.L.E.
Harry viu os nomes dele e de Rony no alto de uma pequena lista. Parecia
que fora há muito tempo que tinham se sentado para fazer aquelas predições,
juntos, e Hermione aparecera e os nomeara secretário e tesoureiro.
- Sabe, talvez eu deva tentar fazer alguns habitantes do povoado
participarem do F.A.L.E. ­ disse Hermione pensativa, dando uma olhada no bar.
- É, certo. - Harry tomou um gole da cerveja amanteigada embaixo da capa.
- Hermione quando é que você vai desistir dessa história de F.A.L.E.?
- Quando os elfos domésticos tiverem salários decentes e condições de
trabalho! - sibilou ela em resposta. - Sabe, eu estou começando a achar que
chegou a hora de partir para uma mais direta. Como será que a gente chega à
cozinha da escola?
- Não faço idéia, pergunte ao Fred e ao Jorge - disse Harry.
Hermione mergulhou num silêncio pensativo, enquanto Harry bebia a
cerveja amanteigada, observando as pessoas no bar. Todas pareciam animadas e
descontraídas.
Ernesto MacMillan e Ana Abbott trocavam figurinhas dos Sapos de
Chocolate em uma mesa próxima, os dois usando os distintivos Apóie CEDRICO
DIGGORI nas capas. Perto da porta, Harry viu Cho e um grande grupo das


colegas da Corvinal. Mas ela não usava o distintivo... isto o animou um
pouquinho... O que ele não daria para ser uma daquelas pessoas que riam e
conversavam, sem nenhuma preocupação no mundo exceto o dever de casa!
Imaginou como estaria se sentindo ali se o seu nome não tivesse sido escolhido
pelo Cálice de Fogo. Primeiro não estaria usando a Capa da Invisibilidade,
segundo, Rony estaria sentado com ele. Os três provavelmente estariam felizes
imaginando que tarefa mortalmente perigosa os campeões das escolas iriam
enfrentar na terça-feira. Ele estaria realmente ansioso para chegar a hora de
assistir ao que quer que fosse... torcendo por Cedrico com todos os outros,
sentado são e salvo no alto das arquibancadas...
Harry ficou imaginando como estariam se sentindo os outros campeões.
Todas as vezes que via Cedrico ultimamente, o garoto estava cercado de
admiradores e parecia nervoso, mas excitado. De vez em quando Harry via Fleur
Delacour de relance nos corredores, tinha a mesma aparência de sempre,
arrogante e imperturbável.
E Krum simplesmente ficava sentado na biblioteca, examinando livros.
Harry pensou em Sirius, e o nó apertado e tenso em seu peito pareceu
afrouxar um pouquinho. Estaria falando com o padrinho em pouco mais de doze
horas, pois aquela era a noite em que iam se encontrar na sala comunal -
presumindo que nada saísse errado, como tudo o mais ultimamente...
- Olha, é Hagrid! - disse Hermione.
As costas da enorme cabeça peluda de Hagrid - graças a Deus ele
abandonara o novo penteado - sobressaía na aglomeração. Harry se perguntou
por que não o teria visto logo, já que seu amigo era tão grande, mas se levantando
cautelosamente, viu que Hagrid estivera curvado, conversando com o Prof.
Moody. Tinha o costumeiro canecão diante dele, mas Moody bebia da garrafa de
bolso. Madame Rosmetta, a bonita dona do bar, não parecia estar gostando muito
disso; olhava enviesado para Moody enquanto recolhia os copos das mesas ao
redor dos dois homens. Talvez achasse que aquilo era um insulto ao seu quentão,
mas Harry sabia a explicação. Moody contara à turma na última aula de Defesa
contra as Artes das Trevas que ele sempre preferia preparar sua comida e bebida,
pois era muito fácil para bruxos das trevas envenenarem um copo
momentaneamente descuidado.
Enquanto Harry observava, viu Hagrid e Moody se levantarem para sair. Ele
acenou, depois se lembrou de que o amigo não podia vê-lo. Moody, porém, parou,
seu olho mágico virado para o canto em que Harry estava. Ele deu um tapinha no
meio das costas de Hagrid (não conseguindo alcançar seu ombro), murmurou
alguma coisa e, em seguida, os dois tornaram a atravessar o bar em direção à
mesa de Harry e Hermione.
- Tudo bem, Hermione? - disse Hagrid em voz alta.
- Olá - respondeu a garota sorrindo.
Moody contornou a mesa mancando e se abaixou, Harry pensou que ele
estava lendo o caderno do F.A.L.E., até ele murmurar:
- Bela capa, Potter.
Harry encarou-o espantado. O pedaço que faltava do nariz de Moody era
particularmente visível à curta distância. Moody sorriu.
- O seu olho... quero dizer, o senhor pode...?


- Claro, ele vê através de Capas da Invisibilidade - disse Moody baixinho. -
E, às vezes, isso me tem sido útil, pode acreditar.
Hagrid estava sorrindo para Harry, também. Este sabia que o amigo não
podia vê-lo, mas Moody obviamente dissera a Hagrid que o garoto estava ali.
Hagrid se abaixou sob o pretexto de ler o caderno do F.A. L.E. também, e
disse num sussurro tão baixo que somente Harry pôde ouvir.
- Harry, me encontre hoje à meia-noite na minha cabana. Use a capa.
Erguendo-se, falou em voz alta:
- Que bom ver você, Hermione - piscou e saiu. Moody acompanhou-o.
- Por que será que ele quer que eu vá encontrá-lo à meia-noite? - perguntou
Harry muito surpreso.
- Ele quer? - disse Hermione, parecendo espantada. - Que será que ele
está aprontando? Não sei se você deve ir, Harry... - Ela espiou para os lados
nervosamente e sibilou: - Talvez você se atrase para ver Sirius.
Era verdade que descer pelos jardins à meia-noite até a casa de Hagrid
significava voltar em cima da hora para o encontro com Sirius, Hermione sugeriu
que ele mandasse Edwiges a Hagrid para dizer que não podia ir - sempre supondo
que a coruja consentisse em levar o bilhete, é claro -, Harry, porém, achou melhor
ir ver rapidamente o que o amigo queria. Estava muito curioso com o que poderia
ser, Hagrid nunca pedira a Harry para visitá-lo tão tarde da noite.
Ás onze e meia daquela noite, Harry, que fingira ir se deitar mais cedo,
jogou a Capa da Invisibilidade por cima do corpo e saiu sorrateiramente pela sala
comunal. Ainda havia muitos colegas lá.
Os irmãos Creevey tinham conseguido pôr as mãos em uma pilha de
distintivos Apóie CEDRICO DIGGORY e estavam tentando enfeitiçá-los para fazê-
los dizer, ao invés, Apóie HARRY POTTER. Até ali, porém, só tinham conseguido
fazer os distintivos enguiçarem em POTTER FEDE. Harry passou por eles em
direção ao buraco e do retrato e esperou um minuto mais ou menos, de olho no
relógio. Depois, Hermione abriu a Mulher Gorda pelo lado de fora conforme tinham
planejado. Ele passou pela amiga murmurando "Obrigado!", e saiu pelo castelo.
Os jardins estavam muito escuros. Harry desceu os gramados em direção
às luzes que brilhavam na cabana de Hagrid. O interior da enorme carruagem da
Beauxbatons também estava aceso, Harry podia ouvir Madame Maxime falando lá
dentro, quando bateu na porta de Hagrid.
- É você aí, Harry? - sussurrou Hagrid, abrindo a porta e espiando para os
lados.
- Sou - disse Harry, entrando na cabana e tirando a capa de cima da
cabeça. - Que é que está havendo?
- Tenho uma coisa para lhe mostrar.
Havia um ar de enorme excitação em Hagrid. Ele usava uma flor que
lembrava uma alcachofra exagerada na botoeira. Parecia que tinha abandonado o
uso da graxa de eixo, mas certamente tentara pentear os cabelos - dava para
Harry ver os dentes partidos do pente presos neles.
- Que é que você vai me mostrar? - disse Harry cauteloso, se perguntando
se os explosivins teriam posto ovos ou se Hagrid teria conseguido comprar outro
enorme cão de três cabeças de algum estranho no bar.


- Venha comigo, fique quieto e coberto com a capa - disse Hagrid. - Não
vamos levar Canino, ele não vai gostar...
- Olhe, Hagrid, não posso demorar... Tenho que estar de volta no castelo
porque à uma hora...
Mas Hagrid não estava ouvindo, estava abrindo a porta da cabana e saindo.
Harry correu para acompanhá-lo, mas descobriu, para sua grande surpresa, que
Hagrid o levava para a carruagem da Beauxbatons.
- Hagrid que...?
- Psiu! - disse ele ao bater três vezes na porta com varinhas de ouro
cruzadas.
Madame Maxime abriu-a. Usava um xale de seda envolvendo os ombros
maciços. Ela sorriu quando viu Hagrid.
- Ah, Agrrid... já está na horta?
- Bom suar - disse Hagrid, sorrindo para ela e estendendo a mão para
ajudá-la a descer os degraus dourados. Madame Maxime fechou a porta, Hagrid
lhe ofereceu o braço, e os dois saíram contornando o picadeiro que guardava os
gigantescos cavalos alados de Madame Maxime, e Harry; totalmente perplexo,
correu para acompanhá-los. Será que Hagrid queria lhe mostrar Madame
Maxime? Poderia vê-la quando quisesse... ela não era exatamente uma pessoa
que passasse despercebida...Mas parecia que Madame Maxime ia ter a mesma
surpresa que Harry porque, passado algum tempo, ela disse em tom de
brincadeira:
- Aonde é que você está me levando, Agrid?
- Você vai gostar - disse Hagrid rouco. - Vale a pena ver, confie em mim. Só
que não pode sair por aí contando que eu lhe mostrei, certo? Não era para
ninguém saber.
- Claro que não - disse Madame Maxime, batendo as longas pestanas
negras.
E eles continuavam a caminhar, Harry cada vez mais irritado enquanto
corria no encalço dos dois, consultando o relógio de quando em quando. Hagrid
tinha algum plano biruta em mente, que talvez o fizesse perder o encontro com
Sirius. Se não chegassem depressa aonde iam, ele ia dar meia-volta e rumar
direto para o castelo, deixando Hagrid aproveitar o passeio ao luar com Madame
Maxime...
Mas então - quando tinham se distanciado tanto ao longo da perímetro da
Floresta que o castelo e o lago desapareceram de vista
- Harry ouviu alguma coisa. Havia homens gritando adiante... depois
ouviram um rugido ensurdecedor, de rachar os tímpanos...
Hagrid fez Madame Maxime dar a volta a um arvoredo e parou. Harry
correu a se juntar aos dois - por uma fração de segundo achou que estava vendo
fogueiras e homens que corriam em torno delas -, então seu queixo caiu.
Dragões.
Quatro dragões adultos, enormes, de aspecto feroz enpinavam-se nas
patas traseiras, dentro de um cercado feito com grossa pranchas de madeira,
rugindo e bufando - torrentes de fogo erguiam quinze metros para o céu escuro de
suas bocas abertas cheias de dentes, no alto de pescoços esticados. Havia um
azul prateado com chifres longos e pontiagudos, que rosnava para os bruxos no


chão e tentava mordê-los, outro de escamas lisas e verdes, que se contorcia e
batia as patas com toda a força, um vermelho, com uma estranha franja de belas
pontas de ouro ao redor do focinho, que soprava para o ar nuvens de fogo em
forma de cogumelo, e um último negro e gigantesco, mais parecido com um
lagarto do que os demais, que era o mais próximo.
No mínimo uns trinta bruxos, sete ou oito para cada dragão, tentavam
controlá-los, puxando correntes presas a grossas tiras de couro em volta dos
pescoços e das pernas dos bichos. Hipnotizado, Harry olhou bem para o alto e viu
os olhos do dragão negro, com pupilas verticais como as de um gato, arregalados
de medo ou de fúria, não saberia dizer qual... fazia um barulho terrível, um uivo
penetrante...
- Fique aí, Hagrid! - berrou um bruxo junto à cerca, puxando com força a
corrente que segurava. - Eles podem cuspir fogo a uma distância de seis metros,
sabe! Já vi este Rabo-Córneo chegar a doze!
- Ele não é lindo? - perguntou Hagrid baixinho.
- Não adianta! - berrou outro bruxo. - Feitiço Estuporante quando eu contar
três!
Harry viu cada um dos guardadores de dragões puxar a varinha.
- Estupore! - gritaram eles em uníssono, e os feitiços dispararam pela
escuridão como foguetes chamejantes, explodindo em chuvas de estrelas sobre
os couros escamosos dos dragões...
Harry observou o mais próximo deles balançar nas pernas traseiras, as
mandíbulas se escancararam em um súbito uivo silencioso, as narinas
subitamente se apagaram, embora ainda fumegassem - depois, muito lentamente,
o bicho caiu -, várias toneladas de dragão negro, musculoso, coberto de escamas,
desabaram no chão com um baque que, Harry poderia jurar, fizera as árvores
atrás dele estremecerem.
Os guardadores de dragões baixaram as varinhas e avançaram até os
bichos caídos, cada um destes do tamanho de um morro. Os bruxos se
apressaram a esticar as correntes e a prendê-las firmemente em estacas de ferro,
que eles enterraram bem fundo no chão, com suas varinhas.
- Quer dar uma olhada de perto? - Hagrid perguntou excitado à Madame
Maxime.
Os dois se aproximaram da cerca e Harry os acompanhou. O bruxo que
alertara Hagrid para não se aproximar se virou e Harry viu quem era, Carlinhos
Weasley.
- Tudo bem, Hagrid? - ofegou ele, aproximando-se para falar.
- Devem estar OK agora, demos a eles uma poção para dormir durante a
viagem, achei que seria melhor acordarem quando estivesse escuro e tranqüilo,
mas, como você viu, eles não ficaram felizes, não ficaram nada felizes...
- Que raças você tem aqui, Carlinhos? - perguntou Hagrid, examinando o
dragão mais próximo, o negro, com uma atitude próxima à reverência. Os olhos do
bicho ainda estavam ligeiramente abertos.
Harry pôde ver um risco amarelo e brilhante sob a pálpebra enrugada e
escura.


- E um Rabo-Córneo húngaro - informou Carlinhos. - Tem um Verde-Galês
comum lá adiante, o menor deles, um Focinho Curto sueco, aquele cinzento
azulado e o Meteoro-Chinês, aquele outro vermelho.
Carlinhos olhou para o lado, Madame Maxime estava caminhando ao longo
do cercado, examinando os dragões estuporados.
- Eu não sabia que você ia trazer ela, Hagrid - disse Carlinhos franzindo a
testa. - Os campeões não podem saber o que os espera, ela com certeza vai
contar à campeã de Beauxbatons, não vai?
- Só achei que ela gostaria de ver os dragões - respondeu Hagrid
encolhendo os ombros, ainda contemplando embevecido os dragões.
- Um encontro realmente romântico, Hagrid - comentou Carlinhos
balançando a cabeça.
- Quatro... - contou Hagrid - então é um para cada campeão? Que é que
eles vão ter de fazer, lutar com eles?
- Só passar por eles, acho. Estaremos por perto se a coisa ficar feia,
prontos para lançar Feitiços de Extinção. Pediram dragões em época de
nidificação, não sei o porquê... mas vou lhe dizer uma coisa, eu não invejo o
campeão que pegar o Rabo-Córneo. Bicho feroz. A extremidade de trás é tão
perigosa quanto a da frente, olha Carlinhos apontou para o rabo do dragão e Harry
viu que, em intervalos de uns poucos centímetros, havia chifrinhos compridos cor
de bronze.
Cinco dos colegas guardadores de Carlinhos cambaleavam até o Rabo-
Córneo naquele momento, transportando, juntos, uma ninhada de ovos em um
cobertor. Depositaram sua carga, cuidadosamente, do lado do Rabo-Córneo.
Hagrid deixou escapar um gemido de saudade.
- Eu contei todos, Hagrid - disse Carlinhos com severidade. Depois
perguntou: - Como vai o Harry?
- Ótimo - respondeu Hagrid. Continuava a admirar os ovos.
- Faço votos de que continue ótimo depois de enfrentar esses bichos - disse
Carlinhos muito sério, contemplando o cercado dos dragões. - Não tive coragem
de contar à mamãe qual vai ser a primeira tarefa dele, ela já está tendo gatinhos
por antecipação... - Carlinhos imitou a voz ansiosa da mãe: - "Como eles puderam
deixá-lo entrar nesse torneio, ele é criança demais! Pensei que estivessem todos
seguros, pensei que ia haver um limite de idade!" Ela está se acabando de chorar
por causa daquele artigo do Profeta Diário. - "Ele ainda chora a perda dos pais!
Ah, que Deus o abençoe, eu não sabia!"
Para Harry já era o bastante. Confiando que Hagrid não sentiria falta dele,
com os dragões e Madame Maxime para ocupar sua atenção, ele se virou
silenciosamente e começou a caminhar de volta ao castelo.
Não sabia se estava ou não contente de ter visto o que o esperava. Talvez
assim fosse melhor. O primeiro choque passara agora. Talvez se visse os dragões
pela primeira vez na terça-feira, tivesse caído duro diante de toda a escola... mas
quem sabe desmaiaria assim mesmo... estaria armado com a varinha - que neste
momento lhe parecia apenas uma ripinha de madeira - contra um dragão de
quinze metros de altura, coberto de escamas e chifres, que cuspia fogo. E
precisava passar pelo bicho. Com todo mundo olhando. Como?


Harry se apressou, contornando a orla da floresta, tinha menos de quinze
minutos para chegar à lareira e falar com Sirius, e não se lembrava de ter jamais
sentido maior vontade de falar com alguém do que naquele momento - quando,
sem aviso, bateu em alguma coisa muito sólida.
Harry caiu de costas, os óculos tortos, apertando a capa em torno do corpo.
Uma voz próxima exclamou:
- Ai! Quem está aí?
Harry verificou depressa se a capa o cobria inteiramente e ficou imóvel,
olhando espantado para a silhueta do bruxo com quem colidira. Reconheceu a
barbicha... era Karkaroff.
- Quem está aí? - tornou a perguntar Karkaroff, olhando muito desconfiado
para os lados, no escuro. Harry continuou imóvel e calado. Passado pouco mais
de um minuto, Karkaroff pareceu ter concluído que batera em algum bicho, olhava
para baixo da cintura, como se esperasse ver um cachorro.
Depois tornou a procurar, sorrareiramente, a sombra das árvores, e rumou
para o local em que se encontravam os dragões.
Muito lenta e cautelosamente, Harry se levantou e continuou seu caminho,
o mais rápido que pôde, sem fazer muito barulho, correndo pela escuridão de volta
a Hogwarts.
Não tinha a menor dúvida do que Karkaroff ia fazer. Tinha saído escondido
do navio para tentar descobrir qual seria a primeira tarefa, Talvez até tivesse visto
Hagrid e Madame Maxime rumando para a Floresta juntos - não era nada difícil
identificá-los à distância... e agora só o que Karkaroff precisava fazer era seguir o
ruído das vozes e ele, tal como Madame Maxime, saberia o que aguardava os
campeões. Pelo jeito, o único campeão que ia enfrentar o desconhecido na terça-
feira era Cedrico.
Harry alcançou o castelo, passou despercebido pelas portas de entrada e
começou a subir os degraus de mármore; estava muito ofegante, mas não se
atrevia a diminuir o passo... tinha menos de cinco minutos para chegar à lareira...
- Asnice! - ofegou ele para a Mulher Gorda, que tirava um cochilo na
moldura do quadro que encobria o buraco.
- Se você assim diz - murmurou ela sonolenta, sem abrir os olhos, e o
quadro girou para a frente para admitir o garoto. Harry entrou. A sala comunal
estava deserta e, a julgar pelo fato de que tinha o cheiro de sempre, Hermione não
precisara soltar nenhuma bomba de bosta para garantir que ele e Sirius tivessem
alguma privacidade.
Harry tirou a Capa da Invisibilidade e se largou em uma poltrona diante da
lareira. A sala estava na penumbra e as chamas eram a única fonte de luz.
Próximo, sobre uma mesa, os distintivos Apóie CEDRICO DIGGORY que os
Creevey tinham tentado melhorar brilhavam à claridade da lareira. Agora diziam
POTTER REALMENTE FEDE. Harry tornou a voltar sua atenção para chamas e
levou um susto.
A cabeça de Sirius flutuava sobre as chamas. Se Harry não tivesse visto o
Sr. Diggory fazer exatamente o mesmo na cozinha do Weasley, teria se
apavorado. Em vez disso, seu rosto se iluminou com o primeiro sorriso que dava
em dias, ele deixou a poltrona, foi se agachar diante da lareira e disse:
- Sirius, como é que você vai indo?


Sirius tinha a aparência diferente da que Harry se lembrava. Da outra vez,
quando se despediram, o rosto do padrinho estava magérrimo e fundo,
emoldurado por uma juba de cabelos compridos, negros e embaraçados - mas
seus cabelos estavam curtos e limpos agora, o rosto mais cheio e ele parecia mais
jovem, e mais semelhante à única fotografia que Harry tinha dele, e que fora tirada
no casamento dos Potter.
- Eu não sou importante, como vai você? - perguntou Sirius sério.
- Estou... - Por um segundo, Harry tentou dizer "ótimo", mas não conseguiu.
Antes que pudesse se refrear, estava falando mais do que falara em dias, que
ninguém acreditava que não tinha se inscrito no torneio voluntariamente, que Rita
Skeeter publicara mentiras sobre ele no Profeta Diário, que não podia andar pelos
corredores sem caçoarem dele, e que seu amigo Rony não acreditava nele, e
tinha ciúmes... e agora Hagrid acabou de me mostrar qual vai ser a primeira
tarefa, e são dragões, Sirius, e estou perdido", terminou ele desesperado.
Sirius observava o garoto com os olhos cheios de preocupação, que ainda
conservavam a expressão que Azkaban lhes dera - aquela expressão
fantasmagórica e mortiça. Deixara Harry terminar de falar sem interrupção, mas
agora disse:
- Dragões a gente pode dar um jeito, Harry, mas falaremos disso em um
minuto, não posso me demorar muito aqui... arrombei uma casa de bruxos para
usar a lareira, mas eles podem voltar a qualquer momento. Tem coisas de que
preciso alertá-lo.
- Quais? - perguntou Harry, sentindo seu ânimo afundar alguns pontos...
com certeza não poderia haver nada pior do que dragões à espera?
- Karkaroff - disse Sirius. - Harry, ele era um dos Comensais da Morte. Você
sabe o que é isso, não sabe?
- Sei, ele... quê?
- Ele foi apanhado, esteve em Azkaban comigo, mas foi libertado. Aposto o
que quiser que foi essa a razão de Dumbledore querer ter um autor em Hogwarts
este ano, para ficar de olho nele. Moody foi quem pegou Karkaroff. Foi o primeiro
que trancafiou em Azkaban.
- Karkaroff foi libertado? - perguntou o garoto lentamente, seu cérebro
parecia estar lutando para absorver mais uma informação chocante. - Por que foi
que libertaram ele?
- Ele fez um acordo com o Ministério da Magia - disse Sirius amargurado. ­
Ele fez uma declaração admitindo que errara e então revelou nomes... e mandou
uma porção de outras pessoas para Azkaban em lugar dele... ele não é muito
popular por lá, isso eu posso afirmar. E desde que saiu, pelo que sei, tem
ensinado Artes das Trevas a cada estudante que passa pela escola dele. Por isso
tenha cuidado com o campeão de Durmstrang também.
- OK - disse Harry devagar. - Mas... você está dizendo que Karkaroff pôs
meu nome no Cálice? Porque se fez isso, ele é realmente um bom ator. Parecia
furioso com o acontecido. Queria me impedir de competir.
- Sabemos que ele é um bom ator - respondeu Sirius - porque convenceu o
Ministério da Magia a libertá-lo, não é? Agora, tenho acompanhado o Profeta
Diário, Harry...
- Você e o resto do mundo - disse o garoto com amargura.


- ... e lendo nas entrelinhas do artigo que aquela tal de Skeeter publicou no
mês passado, Moody foi atacado na véspera de se apresentar para trabalhar em
Hogwarts. É, sei que ela diz que foi mais um alarme falso - acrescentou Sirius
depressa, ao ver Harry fazer menção de falar -, mas tenho a impressão de que
não foi. Acho que alguém tentou impedi-lo de chegar a Hogwarts. Acho que
alguém sabia que seria muito mais difícil agir com ele por perto. E ninguém vai
investigar muito. Olho-Tonto andou ouvindo estranhos, vezes demais. Mas isto
não significa que tenha se tornado incapaz de identificar a coisa verdadeira.
Moody foi o melhor auror que o Ministério já teve.
- Então... que é que você está me dizendo? - perguntou o garoto hesitante.
- Karkaroff vai tentar me matar? Mas... por quê?
Sirius hesitou.
- Tenho ouvido coisas muito estranhas - disse pausadamente. - Os
Comensais da Morte parecem andar um pouco mais ativos do que o normal
ultimamente. Mostraram-se publicamente na Copa Mundial de Quadribol, não foi?
Alguém projetou a Marca Negra no céu... e, além disso, você ouviu falar na bruxa
do Ministério da Magia que está desaparecida?
- Berta Jorkins?
- Exatamente... ela desapareceu na Albânia, e sem dúvida foi lá que diziam
ter visto Voldemort pela última vez... e ela saberia que ia haver um Torneio
Tribruxo, não é?
- É, mas... não é muito provável que ela tivesse dado de cara com
Voldemort, ou é?
- Ouça, eu conheci Berta Jorkins - disse Sirius sério. - Esteve em Hogwarts
no meu tempo, alguns anos mais adiantada do que seu pai e eu. E era uma idiota.
Muito bisbilhoteira, mas completamente desmiolada. Não é uma boa combinação,
Harry. Eu diria que ela poderia ser facilmente atraída para uma arapuca.
- Então... então Voldemort poderia ter descoberto tudo sobre o torneio? É
isso que você quer dizer? Você acha que Karkaroff poderia estar aqui por ordem
dele?
- Não sei - disse Sirius lentamente. - Não sei... Karkaroff não me parece o
tipo que voltaria para Voldemort a não ser que soubesse que o lorde teria poder
suficiente para protegê-lo. Mas quem pos o seu nome no Cálice de Fogo fez isso
de caso pensado, e não posso deixar de achar que o torneio seria uma boa
ocasião para atacar você e fazer parecer que foi um acidente.
- Até onde posso ver, parece um plano muito bom - disse Harry desolado. ­
Só precisam sentar­se e esperar que os dragões façam o serviço por eles.
- Certo... esses dragões - disse Sirius, falando agora muito rapidamente. -
Tem um jeito, Harry. Não ceda à tentação de usar um Feitiço Estuporante, os
dragões são fortes, e têm demasiado poder mágico para serem nocauteados por
um único feitiço. É preciso meia dúzia de bruxos para dominar um dragão...
- É, eu sei, acabei de ver - disse Harry.
- Mas você pode dar conta sozinho - disse Sirius. - Tem um jeito e só
precisa de um feitiço simples. Basta...
Mas Harry ergueu a mão para silenciá-lo, seu coração disparara
subitamente como se quisesse explodir. Ouvira passos que desciam a escada
circular às costas dele.


- Vá! - sibilou Sirius. - Vá! Tem alguém chegando!
Harry levantou-se depressa, escondendo as chamas com o corpo - se
alguém visse o rosto de Sirius entre as paredes de Hogwarts, faria um
estardalhaço dos diabos - o Ministério seria chamado, ele, Harry, seria interrogado
sobre o paradeiro de Sirius...
O garoto ouviu um estalido nas chamas atrás dele e soube que Sirius se
fora - observou a escada circular -, quem teria resolvido dar um passeio a uma
hora da manhã e impedira Sirius de lhe dizer como passar por um dragão?
Era Rony. Vestido com seu pijama marrom estampado de plumas, ele
parou de chofre ao ver Harry do lado oposto da sala e olhou para os lados.
- Com quem você estava falando? - perguntou.
- E isso é da sua conta? - rosnou Harry. - Que é que você está fazendo aqui
embaixo a essa hora da noite?
- Fiquei imaginando onde você... e parou, encolhendo os ombros. - Nada,
vou voltar para a cama.
- Achou que poderia vir bisbilhotar, não foi? - gritou Harry. Ele sabia que
Rony sequer fazia idéia do que encontraria, sabia que não fizera de propósito,
mas não estava ligando, naquele momento ele odiou tudo em Rony, até o pedaço
de tornozelo que aparecia por baixo das calças do pijama.
- Sinto muito - disse Rony, ficando vermelho de raiva. - Eu devia ter
percebido que você não queria ser perturbado. Vou deixar você continuar
praticando em paz para a próxima entrevista.
Harry apanhou um dos distintivos POTTER REALMENTE FEDE da mesa e
atirou-o com toda a força para o outro lado da sala. O distintivo acertou Rony na
testa e ele cambaleou.
- Toma - disse Harry. - Uma coisa para você usar na terça-feira. Quem sabe
você até arranja uma cicatriz agora, se tiver sorte... É o que você quer, não é?
E atravessou a sala, decidido, em direção à escada, de certa forma esperou
que Rony o detivesse, teria até gostado que ele lhe tivesse dado um soco, mas ele
ficou parado ali naquele pijama demasiado pequeno e Harry, tendo subido a
escada furioso, ficou deitado na cama sem dormir, por muito tempo, mas não
ouviu Rony vir se deitar.


- CAPÍTULO VINTE -
A primeira tarefa

Harry levantou-se na manhã de domingo e se vestiu tão distraidamente que
levou algum tempo para perceber que estava tentando calçar o chapéu no pé em
vez da meia.
Quando finalmente conseguiu pôr cada peça de roupa na parte certa do
corpo, saiu correndo à procura de Hermione, encontrando-a à mesa da Grifinória
no Salão Principal, onde ela tomava café da manhã com Gina. Sentindo-se
demasiado enjoado para comer, Harry esperou até Hermione terminar a última
colherada de mingau de aveia, depois a arrastou para darem outro passeio. Nos
jardins, contou-lhe tudo sobre os dragões e tudo sobre o que Sirius dissera,
durante o longo passeio à volta do lago.


Mesmo alarmada com o que ouvia sobre os avisos de Sirius a respeito de
Karkaroff, a garota continuou achando que os dragões eram o problema mais
premente.
- Vamos só tentar manter você vivo até a noite de terça-feira - disse
desesperada -, depois podemos nos preocupar com Karkaroff.
Deram três voltas no lago, tentando pensar em um feitiço simples para
dominar o dragão. Nada, porém, lhes ocorreu, de modo que se recolheram à
biblioteca. Ali, Harry baixou cada livro que conseguiu encontrar sobre dragões e os
dois começaram a pesquisar uma grande pilha de livros.
- O corte mágico de unhas... o tratamento da podridão de escamas... isto
não serve, isto é para gente biruta feito o Hagrid que quer criar dragões
saudáveis...
- Os dragões são extremamente difíceis de matar, graças à magia muito
antiga que impregna seu grosso couro, que nenhum, exceto os feitiços mais
poderosos são capazes de penetrar... mas Sirius disse que um feitiço simples
funcionaria...
- Vamos tentar alguns livros de feitiços simples, então, disse Harry,
deixando de lado Homens aficionados por dragões.
Ele voltou à mesa com uma pilha de livros de feitiços, descansou-os e
começou a folhear um a um, com Hermione cochichando sem parar ao seu lado.
- Bom, tem Feitiços de Substituição... mas qual é a vantagem de substituir
um dragão? A não ser que a pessoa substitua as presas dele por gengivas ou
outra coisa qualquer para torná-las inofensivas... o problema é que, como diz o
livro, muito pouca coisa atravessa o couro de um dragão... Eu diria: transfigure o
bicho, mas com uma coisa daquele tamanho, a gente realmente não tem a menor
esperança, duvido até que a Profª Minerva... a não ser que a pessoa lance o
feitiço nela mesma? Talvez dar a si mesma poderes extraordinários? Mas isso não
é um feitiço simples, quero dizer, ainda não estudamos nenhum desses em aula,
só sei que existem porque ando fazendo provas simuladas para os N.O.M"s...
- Hermione - disse Harry entre dentes -, quer calar a boca um instante, por
favor? Estou tentando me concentrar.
Mas só o que aconteceu quando a garota se calou foi que o cérebro de
Harry se encheu com uma espécie de zumbido indistinto, que parecia não deixar
espaço para concentração. Ele olhou desalentado para o índice de Azarações
básicas para os ocupados e aflitos: escalpos instantâneos... mas dragões não
tinham cabelos... bafo de pimenta... isso provavelmente aumentaria o poder de
fogo do dragão... língua de espinhos... exatamente o que ele precisava, dar ao
dragão mais uma arma...
- Ah, não, lá vem ele outra vez, por que é que ele não pode ler naquele
navio idiota - exclamou Hermione irritada, quando Vítor Krum entrou daquele seu
jeito curvado, lançou um olhar carrancudo para os dois e se sentou num canto
distante com uma pilha de livros. - Vamos, Harry, vamos voltar para a sala
comunal...o fã clube dele não vai demorar, chilreando sem parar...
E não deu outra, quando iam saindo da biblioteca, um grupo de garotas
passou por eles nas pontas dos pés, uma delas usando um lenço da Bulgária
amarrado à cintura.


Harry mal chegou a dormir àquela noite. Quando acordou na manhã de
segunda-feira, ele pensou seriamente, pela primeira vez na vida, em fugir de
Hogwarts. Mas quando correu o olhar pelo Salão Principal, na hora do café da
manhã, e pensou no que significava abandonar o castelo, compreendeu que não
poderia fazer isso. Era o único lugar em que fora feliz... bem, ele supunha que
devia ter sido feliz em companhia dos pais, também, mas não seria capaz de
lembrar.
Por alguma razão, a consciência de que preferia estar ali e ter de encarar
um dragão a voltar à rua dos Alfeneiros com Duda foi uma coisa boa, e fez com
que se sentisse ligeiramente mais calmo.
Terminou de comer o bacon com esforço (a garganta não estava
funcionando muito bem), e quando se levantou com Hermione, ele viu Cedrico
Diggory deixando a mesa da Lufa-Lufa.
Cedrico ainda não sabia dos dragões... o único campeão que não sabia, se
Harry estivesse certo em pensar que Maxime e Karkaroff teriam informado a Fleur
e Krum...
- Mione, vejo você nas estufas - disse ele, tomando uma decisão ao ver
Cedrico saindo do salão. - Vai andando, eu alcanço você.
- Harry você vai se atrasar, a sineta já vai tocar...
- Eu alcanço você, OK?
Quando Harry chegou ao pé da escadaria de mármore, Cedrico já estava
no topo. Ia acompanhado de um monte de amigos do sexto ano. Harry não queria
falar com o campeão na frente deles, faziam parte do grupo que andara citando o
artigo de Rita Skeeter, em voz alta, todas as vezes que ele se aproximava.
Seguiu, então, Cedrico à distância e viu que o garoto ia em direção ao corredor da
classe de Feitiços. Isto deu a Harry uma idéia. Parando a uma certa distância
deles, puxou a varinha e mirou com cuidado.
- Diffindo!
A mochila de Cedrico se rompeu. Pergaminhos, penas e livros se
espalharam pelo chão. Vários tinteiros se quebraram.
- Não se preocupem - disse Cedrico em tom irritado, quando os amigos se
abaixaram para ajudá-lo -, digam a Flitwick que estou chegando, vão indo...
Isto era exatamente o que Harry esperava que acontecesse. Ele tornou a
guardar a varinha nas vestes, esperou até que os amigos de Cedrico
desaparecessem na sala de aula e entrou depressa no corredor, agora vazio,
exceto por ele e Cedrico.
- Oi - disse Cedrico, apanhando um exemplar de Um guia de transformação
avançada, manchado de tinta. - Minha mochila simplesmente se rompeu... nova
em folha...
- Cedrico - disse Harry -, a primeira tarefa vão ser dragões.
- Quê? - exclamou Cedrico, erguendo a cabeça.
- Dragões - disse Harry depressa, caso o Prof. Flitwick saísse pala ver onde
andava Cedrico. ­ São quatro, um para cada um de nós, e vamos ter que passar
por eles.
Cedrico arregalou os olhos. Harry viu um pouco do pânico que andara
sentindo desde o sábado à noite passar pelos olhos cinzentos do colega.
- Tem certeza? - perguntou numa voz abafada.


- Absoluta. Eu vi.
- Mas como foi que você descobriu? Não devíamos saber...
- Não importa - disse Harry depressa, sabia que Hagrid estaria em apuros
se ele dissesse a verdade. - Mas eu não sou o único que sabe. Fleur e Krum a
essa hora também já sabem, Maxime e Karkaroff viram os dragões, também.
Cedrico se levantou, os braços cheios de penas, pergaminhos e livros sujos
de tinta, a bolsa rasgada pendurada em um ombro. Fitou Harry atentamente e
havia uma expressão intrigada, quase desconfiada em seus olhos.
- Por que é que você está me dizendo isso? - perguntou.
Harry olhou-o sem acreditar. Tinha certeza de que Cedrico não faria uma
pergunta dessas se ele próprio tivesse visto os dragões. Harry não teria deixado
seu pior inimigo despreparado para enfrentar aqueles monstros - bom, talvez
Malfoy ou Snape...
- Não seria... justo, não acha? - disse ele a Cedrico. - Agora todos
sabemos... estamos em pé de igualdade, não é?
Cedrico continuava a olhar o garoto com um ar ligeiramente desconfiado
quando Harry ouviu um conhecido toque-toque as suas costas. Virou-se e viu
Olho-Tonto Moody saindo de uma sala próxima.
- Venha comigo, Potter - rosnou o professor. - Diggory, pode ir andando.
Harry olhou preocupado para Moody. Será que o professor ouvira os dois?
- Hum... Professor, eu devia estar na aula de Herbologia...
- Esqueça, Potter. Na minha sala, por favor...
Harry acompanhou-o, se perguntando o que iria lhe acontecer agora. E se
Moody quisesse saber como ele descobrira a respeito dos dragões? Será que iria
procurar Dumbledore e denunciar Hagrid ou simplesmente transformar Harry
numa doninha? Bom, seria mais fácil passar por um dragão se ele fosse uma
doninha, pensou Harry sem emoção, ficaria bem menor, muito mais difícil de
enxergar de uma altura de quinze metros...
Harry acompanhou Moody à sua sala. O professor fechou a porta ao
passarem e se virou para encarar Harry, o olho mágico fixo nele ao mesmo tempo
que o olho normal.
- Foi uma coisa muito decente o que você acabou de fazer, Potter - disse
Moody baixinho. O garoto não soube o que responder; não era a reação que
esperara.
- Sente-se - disse o professor, e o garoto se sentou, espiando para os
lados. Visitara essa sala na época dos seus dois ocupantes anteriores. Na do Prof.
Lockhart, as paredes eram cobertas de fotos em que o professor sorria e piscava
um olho. Quando Lupin a ocupara, era mais provável a pessoa deparar com um
espécime fascinante de alguma criatura das trevas que ele arranjara para os
alunos estudarem em aula. Agora, no entanto, a sala estava apinhada com um
número excepcional de objetos estranhos que, supunha Harry, Moody usara na
época em que fora auror.
Sobre a escrivaninha havia algo que parecia um grande pião de vidro
rachado; Harry reconheceu imediatamente o bisbilhoscópio, porque ele próprio era
dono de um, embora muito menor do que o de Moody. A um canto, sobre uma
mesinha, havia um objeto que lembrava uma antena dourada de televisão e não
parava de girar. Zumbia levemente. Havia algo que lembrava um espelho


pendurado na parede oposta a Harry, mas não refletia a sala. Vultos escuros se
moviam por ele, nenhum realmente em foco.
- Gosta dos meus detectores de presença das trevas? - perguntou Moody,
que observava Harry atentamente.
- Que é aquilo? - perguntou o garoto, apontando para a antena dourada de
televisão.
- Sensor de segredos. Vibra quando detecta alguma coisa oculta ou falsa...
não funciona aqui, é claro, há interferência demais, estudantes para todos os
lados mentindo para justificar por que não fizeram os deveres. Anda zumbindo
desde que cheguei. Tive que desligar o meu bisbilhoscópio porque ele não parava
de apitar. É extra-sensível, capta qualquer coisa num raio de um quilômetro e
meio. Naturalmente, poderia estar captando mais do que mentiras infantis -
acrescentou com um rosnado.
- E para que serve o espelho?
- Ah, é o meu Espelho-de-Inimigos. Está vendo eles ali, rondando? Não
estou realmente em perigo até enxergar o branco dos olhos deles. É aí que abro o
meu baú.
Ele soltou uma gargalhada breve e rouca e apontou para um grande baú
sob uma janela. Tinha sete fechaduras alinhadas. Harry ficou imaginando o que
haveria ali, até que a pergunta seguinte do professor o trouxe bruscamente à terra.
- Então... descobriu a respeito dos dragões?
Harry hesitou. Receara isso - mas não contara a Cedrico e certamente não
iria contar a Moody que Hagrid infringira o regulamento.
- Tudo bem - disse Moody, sentando-se e esticando a perna de pau com
um gemido. - Tradicionalmente trapacear sempre fez parte do Torneio Tribruxo.
- Eu não trapaceei - disse Harry com veemência. - Foi... descobri meio por
acaso.
Moody sorriu.
- Não estou acusando-o, menino. Venho dizendo a Dumbledore, desde o
começo, que ele pode ter os princípios elevados que quiser, mas pode apostar
que o velho Karkaroff e Maxime não os terão. Devem ter dito aos seus campeões
tudo o que puderam. Querem ganhar. Querem vencer Dumbledore. Gostariam de
provar que ele é apenas humano.
Moody deu aquela sua risada rouca e seu olho mágico girou tão rápido que
fez Harry se sentir tonto só de ver.
- Então... já tem alguma idéia de como vai conseguir passar pelo dragão? -
perguntou Moody.
- Não.
- Bom, eu não vou lhe dizer - afirmou o professor com rispidez -, não
demonstro favoritismos, eu. Mas vou-lhe dar uns bons conselhos de ordem geral.
O primeiro é: explore os seus pontos fortes.
- Não tenho pontos fortes - disse Harry, antes que pudesse se conter.
- Perdão - rosnou Moody -, você tem pontos fortes se eu digo que os tem.
Pense um pouco. Que é que você sabe fazer melhor?
Harry tentou se concentrar. No que é que ele era melhor?
Bom, isso era realmente fácil...
- Quadribol - disse sem emoção - é uma grande ajuda...


- Certo - disse Moody mirando-o com muita severidade, o olho mágico mal
se mexendo. - Você é um grande piloto, pelo que ouvi falar.
- É, mas... - Harry encarou-o. - Mas não posso usar a vassoura, só tenho a
varinha...
- Meu segundo conselho de ordem geral - disse Moody em voz alta,
interrompendo-o - é usar um feitiço bom e simples que lhe permita conseguir o
que precisa.
Harry olhou para ele sem entender. Do que é que precisava?
- Vamos, moleque... - sussurrou Moody. - Some dois mais dois... não é tão
difícil assim...
E fez-se a luz. O que ele fazia melhor era voar. Precisava passar pelo
dragão pelo ar. Para isso, precisava da Firebolt. E para ter a Firebolt ele
precisava...
- Mione - murmurou Harry, depois de correr para a estufa três minutos mais
tarde, e balbuciar uma desculpa ao passar pela Profª Sprout -, Mione, preciso de
sua ajuda.
- Que é que você acha que estive tentando fazer, Harry? - murmurou ela
em resposta, os olhos arregalados de ansiedade por cima de um agitado arbusto
tremulante que estava podando.
- Mione, preciso aprender a fazer um Feitiço Convocatório corretamente até
amanhã de tarde.
E assim os dois treinaram. Não almoçaram, em vez disso foram para uma
sala de aula vazia, onde Harry tentou com todo o empenho fazer vários objetos
voarem pela sala até ele. Ainda não estava bom. Os livros e penas continuavam a
perder o embalo no meio da sala e cair como pedras no chão.
- Concentre-se, Harry, concentre-se...
- Que é que você acha que eu estou tentando fazer? - perguntou Harry
zangado. - Uma porcaria de um dragão não pára de aparecer na minha cabeça,
sei lá o porquê... OK, Mione, tenta outra vez...
Ele queria faltar à aula de Adivinhação para continuar treinando, mas
Hermione se recusou categoricamente a matar a aula de Aritmancia, e não
adiantava ficar lá sem ela. Portanto, Harry teve que aturar mais de uma hora a
Profª Sibila Trelawney, que passou metade desse tempo dizendo a todos que a
posição de Marte com relação a Saturno, naquele momento, significava que as
pessoas nascidas em julho corriam um grande perigo de sofrer uma morte súbita e
violenta.
- Que bom - disse Harry em voz alta, a raiva levando a melhor -, desde que
não seja demorada, porque não quero sofrer.
Por um momento pareceu que Rony ia rir; sem dúvida seu olhar encontrou
o de Harry pela primeira vez em dias, mas este continuava muito magoado com o
amigo para se importar. Harry passou o resto da aula tentando atrair, com a
varinha, pequenos objetos para si, por baixo da mesa. Conseguiu fazer uma
mosca disparar direto para a sua mão, embora não tivesse total certeza de que
aquilo resultasse de sua perícia com os Feitiços Convocatórios - talvez a mosca
fosse apenas burra.
Ele forçou um pouco de jantar para dentro depois da aula de Adivinhação, e
em seguida voltou à sala vazia com Hermione, usando a Capa da Invisibilidade


para evitar os professores. Os dois continuaram a treinar até depois da meia-noite.
Teriam demorado mais, mas Pirraça apareceu e, fingindo achar que Harry queria
que lhe atirassem coisas, começou a arremessar cadeiras pela sala. Os dois
garotos tiveram que sair depressa antes que o barulho atraísse Filch, e voltaram à
sala comunal da Grifinória, que àquela hora felizmente estava vazia.
Às duas da manhã, Harry estava ao pé da lareira, cercado por uma
montanha de objetos - livros, penas, várias cadeiras viradas, um velho jogo de
bexigas e o sapo de Neville, Trevo. Somente na última hora ele, realmente, pegara
o jeito dos Feitiços Convocatórios.
- Está melhor, Harry, está muito melhor - disse Hermione, parecendo
exausta, porém muito satisfeita.
- Bom, agora sabemos o que fazer na próxima vez que não conseguirmos
lançar um feitiço ­ disse Harry, atirando um dicionário de runas para Hermione,
para que pudesse tentar mais uma vez -, me ameace com um dragão. Certo... -
Ele ergueu a varinha novamente. - Accio dicionário!
O pesado livro voou da mão de Hermione, atravessou a sala e Harry o
aparou.
- Harry, sinceramente acho que você pegou o jeito! - exclamou a garota,
encantada.
- Desde que funcione amanhã - disse Harry. - A Firebolt vai estar muito
mais longe do que essas coisas aqui, vai estar no castelo e eu vou estar lá fora
nos jardins...
- Não faz diferença - disse Hermione com firmeza. - Desde que você se
concentre para valer, realmente para valer, ela chega lá. Harry, é melhor
dormirmos um pouco... você vai precisar estar descansado.
Harry se concentrara com tanto empenho para aprender os Feitiços
Convocatórios aquela noite que parte do seu pânico irracional o deixara. Voltou,
contudo, com força total, na manhã seguinte. A atmosfera na escola era de grande
tensão e excitação. As aulas iam ser interrompidas ao meio-dia, dando a todos os
estudantes tempo para descer até o cercado dos dragões - embora, é claro, eles
ainda não soubessem o que encontrariam lá.
Harry se sentiu estranhamente isolado de todos à sua volta, tanto dos que
lhe desejavam boa sorte quanto dos que o vaiavam.
- Vamos levar uma caixa de lenços de papel, Potter - diziam ao passar.
Era um nervosismo tão intenso que ele ficou imaginando se poderia perder
a cabeça quando tentassem conduzi-lo ao dragão e ele começasse a xingar todo
mundo que estivesse à vista.
O tempo estava mais esquisito que nunca, transcorria em grandes lapsos,
de modo que num momento Harry estava sentado assistindo à primeira aula,
História da Magia, e, no momento seguinte, saindo para almoçar... depois (aonde
fora a manhã? As últimas horas sem dragão?) a Profª Minerva corria para ele no
Salão Principal. Um montão de gente estava olhando.
- Potter, os campeões têm que descer para os jardins agora... você tem que
se preparar para a primeira tarefa.
- OK - disse Harry, se levantando e deixando cair o garfo no prato, com
estrépito.
- Boa sorte - sussurrou Hermione. - Você vai se sair bem!


- Ah, vou! - exclamou Harry, com uma voz que nem parecia a dele.
O garoto deixou o Salão Principal com a Profª Minerva, que também não
parecia a pessoa de sempre, de fato, parecia quase tão ansiosa quanto Hermione.
Ao conduzi-lo pelos degraus de pedra para a fria tarde de novembro, ela pôs a
mão no ombro do garoto.
- Agora, não entre em pânico - disse ela -, mantenha a cabeça fria... temos
bruxos à mão para resolver a situação se ela se descontrolar... o principal é você
fazer o melhor que puder e ninguém vai passar a pensar mal de você por isso...
você está bem?
- Estou - Harry ouviu-se dizendo. - Estou ótimo.
Ela o conduzia ao lugar onde estavam os dragões, margeando a Floresta,
mas quando se aproximaram do arvoredo por trás do qual o cercado estaria
claramente visível, Harry viu que haviam armado uma barraca, com a entrada
voltada para quem chegava, que impedia a visão dos dragões.
- Você deve entrar aí com os outros campeões - disse a Profª McGonagall,
com a voz um tanto trêmula - e esperar a sua vez, Potter. O Sr. Bagman está aí
dentro... ele lhe dirá como... proceder... boa sorte.
- Obrigado - disse Harry, numa voz distante e sem emoção. A professora o
deixou à entrada da barraca. Ele entrou.
Fleur Delacour estava sentada a um canto, em um banquinho baixo de
madeira. Não parecia nem de longe a garota habitualmente composta, parecia um
tanto pálida e suada. Vítor Krum parecia ainda mais carrancudo do que de hábito,
o que fez Harry supor que aquela era a sua maneira de demonstrar nervosismo.
Cedrico andava para lá e para cá. Quando Harry entrou, ele deu ao garoto um
breve sorriso, que Harry retribuiu, sentindo os músculos do rosto fazerem muita
força como se não soubessem mais sorrir.
- Harry! Que bom! - exclamou Bagman alegremente, virando-se para olhá-
lo. - Entre, entre, fique à vontade!
Bagman por alguma razão parecia um personagem de quadrinhos grande
demais, parado ali entre os campeões pálidos. Trajava as antigas vestes do Wasp.
- Bom, agora estamos todos aqui, hora de dar a vocês informações mais
detalhadas! - disse ele animado. - Quando os espectadores acabarem de chegar,
vou oferecer a cada um de vocês este saco ­ ele mostrou um saquinho de seda
púrpura e sacudiu-o diante dos garotos -, do qual vocês irão tirar uma miniatura da
coisa que terão de enfrentar! São diferentes... hum... as variedades, entendem. E
preciso dizer mais uma coisa... ah, sim... sua tarefa será apanhar o ovo de ouro!
Harry olhou à sua volta. Cedrico acenou a cabeça para indicar que
compreendera as palavras de Bagman, e então recomeçara a andar pela barraca,
parecia ligeiramente esverdeado. Fleur Delacour e Krum não tiveram a menor
reação. Talvez achassem que iriam vomitar se abrissem a boca, sem dúvida essa
era a sensação do próprio Harry.
Mas pelo menos os outros tinham se voluntariado para ser campeões...E
pouco depois, ouviram-se centenas e mais centenas de pés passando pela
barraca, seus donos excitados, dando risadas e fazendo piadas... Harry se sentiu
tão isolado da multidão como se pertencesse a uma espécie diferente. Então - lhe
pareceu que transcorrera apenas um segundo - Bagman estava abrindo a boca do
saquinho púrpura.


- Primeiro as damas - disse ele, oferecendo-o a Fleur Delacour. Ela enfiou a
mão trêmula no saquinho e retirou uma minúscula e perfeita figurinha de dragão -
um Verde-Galês. Tinha o número "dois" pendurado ao pescoço. E Harry percebeu,
pelo fato de Fleur não ter demonstrado o menor sinal de surpresa, mas, ao
contrário, uma decidida resignação, que ele concluíra certo: Madame Maxime
contara à garota o que a aguardava.
O mesmo se aplicava a Krum. Ele tirou o Meteoro-Chinês vermelho. Tinha o
número "três" pendurado ao pescoço. Ele sequer piscou, apenas olhou para o
chão.
Cedrico enfiou a mão no saquinho e retirou o Focinho-Curto sueco cinza-
azulado, o número um pendurado no pescoço. Sabendo o que sobrara, Harry
meteu a mão no saquinho de seda e tirou o Rabo-Córneo húngaro e o número
"quatro". O dragão abriu as asas quando o garoto o olhou e arreganhou os dentes
minúsculos.
- Bom, então está decidido! - disse Bagman. - Cada um de vocês sorteou o
dragão que irá enfrentar e a ordem em que cada um fará isso, entendem? Agora,
vou precisar deixá-los por um momento, porque vou fazer a irradiação. Sr. Diggory
o senhor é o primeiro, só o que tem a fazer é entrar no cercado quando ouvir o
apito, certo? Agora... Harry... Posso dar uma palavrinha com você? Lá fora?
- Hum... sim senhor - disse Harry sem emoção e se levantou e saiu da
barraca com Bagman, que andou uma pequena distância - até o arvoredo e se
virou, então, para o garoto com uma expressão paternal no rosto.
- Está se sentindo bem, Harry? Posso buscar alguma coisa para você?
- Quê? Não... não, nada.
- Você tem um plano? - disse Bagman, baixando a voz como se
conspirasse. - Porque não me importo de lhe dar algumas dicas. se quiser, sabe.
Quero dizer - continuou Bagman baixando ainda mais a voz - você é a vítima aqui,
Harry... qualquer coisa que eu puder fazer para ajudar...
- Não - disse Harry, tão depressa que percebeu imediatamente que
parecera grosseiro - não... eu... eu já decidi o que vou fazer, obrigado.
- Ninguém iria saber, Harry - disse Bagman com uma piscadela.
- Não, estou ótimo - respondeu o garoto se perguntando porque não parava
de dizer isso a todo mundo e se algum dia estivera tão longe do ótimo. - Já tenho
um plano, eu...
Um apito soou em algum lugar.
- Meu bom Deus, tenho que correr! - disse Bagman assustado. e saiu com
pressa.
Harry voltou à barraca e viu Cedrico saindo, mais verde que nunca. Harry
tentou desejar boa sorte quando ele passou, mas o que saiu de sua boca foi uma
espécie de rosnado rouco.
Harry voltou para a companhia de Fleur e Krum. Segundos mais tarde,
ouviu os berros dos espectadores, o que significava que Cedrico entrara no
cercado, e agora estava cara a cara com o modelo vivo de sua figurinha...
Foi pior do que Harry poderia ter imaginado, ficar sentado ali escutando. A
multidão gritava... urrava... exclamava como uma entidade única de muitas
cabeças, enquanto Cedrico fazia o que quer que estivesse fazendo para tentar
passar pelo Focinho-Curto sueco. Krum continuava a olhar para o chão.


Fleur agora passara a refazer os passos de Cedrico, dando voltas na
barraca. E os comentários de Bagman tornavam tudo muito pior... imagens
horrendas se formaram na mente de Harry, quando ele ouviu: "Aaah, por um triz,
por muito pouco"... "Ele está se arriscando, o campeão!"... "Boa tentativa - pena
que não deu resultado!"
Então, uns quinze minutos depois, Harry ouviu um urro ensurdecedor que
só poderia significar uma coisa: Cedrico conseguira passar pelo dragão e se
apoderara do ovo de ouro.
- Realmente muito bom! - gritou Bagman. - E agora as notas dos juizes!
Mas ele não irradiou as notas, Harry supôs que os juizes estivessem
erguendo as notas no alto para mostrá-las à multidão.
- Um a menos, faltam três! - berrou Bagman, quando o apito tornou a tocar.
- Senhorita Delacour, queira fazer o favor!
Fleur tremia da cabeça aos pés, Harry sentiu mais simpatia por ela do que
sentira até então, quando a viu deixando a barraca com a cabeça erguida e a mão
apertando a varinha. Ele e Krum ficaram a sós, em lados opostos da barraca,
evitando se olhar. Recomeçou o mesmo processo...
- Ah, não tenho muita certeza se isto foi sensato! - os dois ouviam Bagman
dizer animadamente. - Ah... quase! Cuidado agora... meu bom Deus, pensei que já
tinha apanhado!
Dez minutos depois, Harry ouviu a multidão prorromper em aplausos mais
uma vez... Fleur devia ter sido bem-sucedida também. Uma pausa, enquanto os
juizes mostravam as notas de Fleur... mais palmas... então, pela terceira vez, o
apito.
- E aí vem o Sr. Krum! - exclamou Bagman e o garoto saiu curvado,
deixando Harry completamente só. Sentia-se muito mais consciente do seu corpo
do que normalmente; consciente de que seu coração batia acelerado e seus
dedos formigavam de medo... mas, ao mesmo tempo, ele parecia estar fora do
próprio corpo, vendo as paredes da barraca e ouvindo a multidão, como se
estivesse muito longe...
- Muito ousado! - berrava Bagman e Harry ouviu o Meteoro Chinês soltar
um poderoso e terrível urro, enquanto a multidão prendia a respiração em
uníssono.
- Que sangue-frio ele está demonstrando... e... sim, senhores, ele apanhou
o ovo!
Os aplausos romperam o ar invernal como se espatifassem uma vidraça,
Krum terminara - seria a vez de Harry a qualquer momento.
Harry se levantou, reparando vagamente que suas pernas pareciam feitas
de marshmalow. Ele aguardou. Então ouviu o apito tocar. Cruzou, então, a entrada
da barraca, o pânico se avolumando dentro dele. E agora, estava passando pelas
árvores e atravessando uma abertura na cerca.
O garoto via tudo diante de si como em um sonho berrantemente colorido.
Havia centenas e mais centenas de rostos nas arquibancadas que o olhavam, que
tinham se materializado desde a última vez que ele estivera naquele lugar. E havia
o Rabo-Córneo do outro lado do cercado, deitado sobre sua ninhada de ovos, a
asas meio fechadas, os olhos amarelos e malignos fixos nele, um lagarto negro,
monstruoso e coberto de escamas, sacudindo com força o rabo de chifres, que


deixava marcas de um metro de comprimento escavadas no chão duro. A multidão
fazia uma barulheira infernal, mas se era simpática ou não a ele, Harry não sabia
nem importava. Era hora de fazer o que tinha de fazer... focalizar a mente, inteira
e absolutamente, na coisa que era sua única chance...
Ele ergueu a varinha.
- Accio Firebolt!- gritou.
Então, esperou, cada fibra de seu corpo desejando, pedindo... se não
funcionasse... se não estivesse a caminho... ele parecia contemplar as coisas à
sua volta através de uma barreira transparente luminosa, como uma névoa de
vapor quente, que fazia as centenas de rostos que o rodeavam flutuar
estranhamente...
Então ele a ouviu, cortando o ar às suas costas; ele se virou e a Firebolt
disparando em sua direção, começando a sobrevoar a floresta, chegando ao
cercado e estacando imóvel no ar, aguardando que ele a montasse. A multidão fez
ainda mais estardalhaço.. Bagman gritou alguma coisa... mas os ouvidos de Harry
não estavam mais ouvindo bem... ouvir não era importante...
Ele passou a perna por cima da vassoura e deu impulso contra o chão. Um
segundo depois, uma coisa milagrosa aconteceu... À medida que ele ganhava
altura, à medida que o vento passava rumorejando entre seus cabelos, à medida
que os rostos da multidão se transformavam em meros pontinhos cor-de-carne lá
em baixo e o Rabo-Córneo se reduzia ao tamanho de um cão, ele percebeu que
deixara atrás de si, não somente o chão, mas também medo... ele estava de volta
ao lugar a que pertencia...
Era apenas mais uma partida de quadribol, nada mais... apenas mais uma
partida de quadribol, e aquele dragão era apenas mais um time adversário
indigesto...
Ele olhou para a ninhada de ovos e localizou o ovo de ouro brilhando entre
os demais cor de cimento, agrupados em segurança entre as pernas dianteiras do
bicho.
- OK - Harry disse a si mesmo -, uma tática diversiva... vamos...
E mergulhou. A cabeça do Rabo-Córneo o acompanhou, o garoto sabia o
que ia fazer, e se recuperou do mergulho bem na hora, um jorro de fogo fora
cuspido exatamente no ponto em que ele estaria se não tivesse se desviado...
mas Harry não se importou... aquilo era o mesmo que se desviar de um balaço...
- Nossa, como ele sabe voar! - berrou Bagman, enquanto a multidão gritava
e exclamava. ­ O senhor está assistindo a isso, Sr. Krum?
Harry voou mais alto descrevendo um círculo, o Rabo-Córneo continuava
acompanhando o progresso do garoto, sua cabeça girava sobre o longo pescoço ­
se continuasse a fazer isso, ia ficar bem enjoadinho -, mas era melhor não insistir
muito ou o bicho iria recomeçar a cuspir fogo...
Harry se deixou afundar rapidamente na hora em que o dragão abriu a
boca, mas desta vez teve menos sorte - ele escapou das chamas, mas o bicho
chicoteou o rabo para o alto ao seu encontro, e quando ele virou para a esquerda,
um dos longos chifres arranhou seu ombro, rasgando suas vestes...
Harry sentiu o ombro arder, ouviu os gritos e gemidos da multidão, mas o
corte não parecia ser muito fundo... agora, ao passar veloz pelas costas do Rabo-
Córneo ocorreu-lhe uma possibilidade...


O dragão não parecia estar querendo voar, estava demasiado preocupado
em proteger os ovos. Embora se contorcesse e abrisse e fechasse as asas sem
tirar aqueles medonhos olhos amarelos de Harry, tinha medo de se afastar demais
de sua ninhada... mas o garoto precisava persuadi-lo a fazer isso ou jamais
chegaria perto deles... o truque era fazer isso cautelosamente, gradualmente...
Harry começou a voar, primeiro para um lado, depois para o outro,
suficientemente longe para o bafo do bicho não o perfurar, mas, ainda assim,
oferecendo uma ameaça suficientemente forte para o dragão não tirar os olhos
dele. A cabeça do bicho virava para um lado e para o outro, vigiando o garoto com
aquelas pupilas verticais, as presas à mostra...
Harry voou mais alto. A cabeça do Rabo-Córneo se ergueu com ele, o
pescoço agora esticava-se ao máximo, ainda se movendo, como uma serpente
diante do seu encantador...
O garoto subiu mais alguns palmos, e o bicho soltou um rugido de
exasperação. Harry era uma mosca para ele, uma mosca que o bicho gostaria de
amassar, seu rabo tornou a chicotear, mas Harry estava demasiado alto para que
pudesse alcançá-lo... o dragão cuspiu fogo para o ar, Harry se desviou... as
mandíbulas do bicho se escancararam...
- Anda - sibilou Harry, fazendo voltas irresistíveis no alto -, anda, vem me
pegar... levanta, agora...
Então o dragão se empinou, abrindo finalmente as poderosas asas negras
de couro, grandes como as de uma avioneta - e Harry mergulhou. Antes que o
dragão percebesse o que ele fizera, ou onde desaparecera, o garoto estava
voando a toda velocidade para o chão em direção aos ovos, agora sem a proteção
das patas com garras do dragão - Harry soltou as mãos da Firebolt -, agarrou o
ovo de ouro...
E, com um grande arranco, tornou a subir e parou no ar, sobre as
arquibancadas, o pesado ovo bem preso sob o braço bom, e era como se alguém
tivesse acabado de aumentar o volume do som ­ pela primeira vez ele tomou
realmente consciência do barulho da multidão, que gritava e aplaudia com tanto
estardalhaço quanto os torcedores dos irlandeses na Copa Mundial...
- Olhem só para isso! - berrava Ludo Bagman. - Por favor olhem para isso!
Nosso campeão mais jovem foi o mais rápido a apanhar o ovo! Bom, isto vai
diminuir a desvantagem do Sr. Potter!
Harry viu os guardadores de dragões se adiantarem correndo para dominar
o bicho, e lá na entrada do cercado, a Profª McGonagall, o Prof. Moody e Hagrid
corriam ao seu encontro, todos acenando para que fosse ter com eles, seus
sorrisos visíveis mesmo àquela distância. Ele tornou a sobrevoar as
arquibancadas, a algazarra da multidão batucando seus tímpanos, e desceu
suavemente para pousar, o coração mais leve do que estivera em semanas...
conseguira cumprir a primeira tarefa, sobrevivera...
- Foi excelente, Potter! - exclamou a Profª McGonagall quando ele
desmontou a Firebolt, o que vindo dela era um elogio extravagante. Harry reparou
que a mão da professora tremia quando apontou para o seu ombro. - Vai precisar
procurar Madame Pomfrey antes que os juizes anunciem sua nota... ali, ela já teve
que fazer um curativo em Diggory...


- Você conseguiu, Harry! - exclamou Hagrid rouco. - Você conseguiu! E
ainda por cima contra o Rabo-Córneo e, sabe, o Carlinhos disse que esse era o
pior...
- Obrigado, Hagrid - disse Harry em voz alta, para que o bruxo não se
atrapalhasse e acabasse revelando que, na véspera, mostrara ao garoto os
dragões.
O Prof. Moody parecia muito satisfeito, também. Seu olho mágico dançava
na órbita.
- Devagar se vai ao longe, Potter - rosnou ele.
- Certo então, Potter, para a barraca de primeiros-socorros, por favor... -
disse a Profª Minerva McGonagall.
Harry saiu do cercado ainda ofegante e viu Madame Pomfrey parada à
entrada da segunda barraca com ar preocupado.
- Dragões! - exclamou ela com a voz desgostosa, puxando Harry para
dentro. A barraca era dividida em cubículos, ele viu a silhueta de Cedrico através
da lona, mas o campeão não parecia muito machucado, pelo menos estava
sentado.
Madame Pomfrey examinou o ombro de Harry, falando nervosamente, sem
parar, o tempo todo.
- No ano passado foram os dementadores, este ano são os dragões, que é
mais que vão trazer para a escola? Você teve muita sorte... o corte é bem
superficial... mas será preciso limpá-lo antes de fechar...
Ela limpou o corte com uma pelota de algodão molhada em liquido púrpura
que fumegava e ardia, mas depois tocou o ombro dele com a varinha e o garoto
sentiu o corte se fechar instantaneamente.
- Agora se sente quieto um minuto, sente-se! Depois pode ir receber a sua
nota.
A enfermeira saiu apressada da barraca e ele a ouviu entrar na porta
vizinha e dizer:
- Como é que você está se sentindo agora, Diggory?
Harry não queria ficar sentado imóvel, continuava cheio de adrenalina.
Levantou-se, querendo ver o que estava acontecendo lá fora, mas antes que
chegasse à entrada da barraca, duas pessoas entraram em disparada - Hermione,
seguida de perto por Rony.
- Harry, você foi genial! - exclamou Hermione em voz alta e fina. Tinha
marcas de unhas no rosto, que ela andara apertando de medo. - Você foi
fantástico! Realmente foi!
Mas Harry tinha os olhos em Rony, que estava muito branco e olhava
fixamente para o amigo como se visse um fantasma.
- Harry - disse ele muito sério -, quem quer que tenha posto o seu nome
naquele cálice, eu... eu reconheço que estava tentando acabar com você!
Foi como se as últimas semanas jamais tivessem acontecido - como se
Harry estivesse encontrando Rony pela primeira vez, logo depois de ter sido
escolhido campeão.
- Entendeu, foi? - disse Harry com frieza. - Demorou.


Hermione estava parada e nervosa entre os dois, olhando de um para
outro. Rony abriu a boca, inseguro. Harry sabia que ele ia se desculpar e, de
repente, descobriu que não precisava ouvir desculpas.
- OK - disse, antes que Rony pudesse falar. - Esquece.
- Não - disse Rony -, eu não devia ter...
- Esquece.
Rony riu nervoso para Harry e este retribuiu o sorriso. Hermione caiu no
choro.
- Não tem motivo para chorar - disse Harry espantado.
- Vocês dois são tão burros! - exclamou ela, batendo o pé no chão, as
lágrimas caindo nas vestes. Então, antes que qualquer dos dois pudesse impedi-
la, a garota os abraçou e saiu correndo, agora decididamente aos berros.
- Maluca - concluiu Rony, balançando a cabeça. - Harry, anda, eles vão
anunciar as suas notas...
Recolhendo o ovo de ouro e a Firebolt, sentindo-se mais eufórico do que
teria acreditado possível uma hora atrás, Harry se abaixou para sair da barraca,
Rony a seu lado, falando depressa.
- Você foi o melhor, sabe, ninguém foi páreo para você. Cedrico fez uma
coisa estranha, transfigurou uma pedra no chão... transformou-a em cachorro...
estava tentando fazer o dragão avançar no cachorro e não nele. Bem, foi uma
transfiguração legal, e até funcionou, porque ele apanhou o ovo, mas ele também
se queimou, o dragão mudou de idéia no meio do caminho e decidiu que preferia
pegar ele em vez do labrador, Cedrico escapou por um triz. E a tal Fleur tentou
uma espécie de feitiço, acho que estava querendo fazer o dragão entrar em
transe, bom, isso também funcionou, o bicho ficou sonolento, mas aí soltou um
ronco e cuspiu um grande jorro de chamas e a saia dela pegou fogo, ela apagou
com um pouco de água tirada da varinha. E Krum, você não vai acreditar, mas ele
nem pensou em voar! Mas, provavelmente, foi o melhor depois de você. Atacou o
dragão com um feitiço bem no olho. Só teve um problema, o bicho saiu andando
agoniado e amassou metade dos ovos de verdade, ele perdeu pontos por causa
disso, Krum não devia ter danificado a ninhada.
Rony respirou fundo quando os dois chegaram ao cercado. Agora que o
Rabo-Córneo fora levado, Harry pôde ver onde os cinco juizes estavam sentados -
bem na outra extremidade, em assentos altos cobertos de tecido dourado.
- Cada um dá notas de um a dez - explicou Rony, e Harry, apurando os
olhos na direção do campo, viu o primeiro juiz, Madame Maxime, erguer a varinha
no ar. Dela saiu uma comprida fita prateada que desenhou um grande oito no ar.
- Nada mal! - disse Rony, enquanto a multidão aplaudia. - Suponho que
tenha descontado pontos pelo seu ferimento no ombro...
O Sr. Crouch foi o seguinte. Lançou um número nove no ar.
- Está indo bem! - berrou Rony, batendo nas costas de Harry.
Depois, Dumbledore. Ele também projetou um nove. A multidão aplaudia
com mais entusiasmo que nunca. Ludo Bagman - dez.
- Dez? - disse Harry incrédulo. Mas... eu me machuquei... qual é a dele?
- Harry, não reclama! - berrou Rony excitado.
E agora Karkaroff erguia a varinha. Parou um momento e em seguida saiu
um número de sua varinha também - quatro.


- Quê?- bradou Rony furioso. - Quatro? Seu bosta desonesto, você deu dez
ao Krum!
Mas Harry não se importou, não teria se importado se Karkaroff lhe desse
zero, a indignação de Rony por sua causa valia uns cem pontos para ele. Não
disse isso ao amigo, é claro, mas seu coração estava mais leve do que o ar
quando ele deu meia volta para se retirar do cercado. E não foi apenas Rony...
não foram apenas os alunos da Grifinória que aplaudiram no meio da multidão.
Quando chegara a hora, quando viram o que Harry precisava enfrentar, a maioria
da escola tinha ficado do seu lado e do de Cedrico também... ele não se importava
com os alunos da Sonserina, podia suportar o que quer que lhe dissessem.
- Vocês estão empatados no primeiro lugar, Harry! Você e Krum! ­ disse
Carlinhos Weasley, correndo ao encontro deles quando os garotos voltavam à
escola. - Escutem, tenho que correr, tenho que mandar uma coruja à mamãe, jurei
que contaria a ela o que acontecesse, mas foi inacreditável! Ah, foi, e me
mandaram lhe avisar que você precisa ficar por aqui mais uns minutinhos...
Bagman quer falar com você na barraca dos campeões.
Rony disse que esperaria, de modo que Harry tornou a entrar na barraca,
que, de algum modo parecia diferente agora, simpática e hospitaleira. Ele lembrou
a sensação que tivera no momento que procurava fugir do Rabo-Córneo e
comparou-a à longa espera antes de sair para enfrentá-lo... não havia
comparação, a espera fora imensuravelmente pior.
Fleur, Cedrico e Krum entraram juntos.
Um lado da cabeça de Cedrico estava coberto com uma grossa pasta
laranja, que presumivelmente estava curando sua queimadura. Ele sorriu para
Harry ao vê-lo:
- Foi legal, Harry.
- Você também - disse o garoto retribuindo o sorriso.
- Muito bons, todos vocês! - disse Ludo Bagman, entrando lépido na
barraca e parecendo satisfeito como se ele próprio tivesse iludido a guarda de um
dragão. - Agora, só umas palavrinhas. Vocês têm um bom intervalo até a segunda
tarefa, que terá lugar às nove e meia da manhã de 24 de fevereiro, mas vamos
lhes dar alguma coisa em que pensar durante esse tempo! Se examinarem os
ovos de ouro que estão segurando, verão que eles se abrem... estão vendo as
dobradiças? Vocês precisam decifrar a pista que está dentro do ovo, porque ela
dirá qual vai ser a segunda tarefa e permitirá que se preparem! Ficou claro? Têm
certeza? Podem ir, então!
Harry deixou a barraca, tornou a se juntar a Rony e os dois recomeçaram a
andar costeando a floresta, conversando animados, Harry queria saber com
maiores detalhes o que os outros campeões tinham feito. Depois, quando
contornavam o arvoredo, atrás do qual Harry ouvira os dragões rugirem pela
primeira vez, uma bruxa saltou do meio das árvores.
Era Rita Skeeter. Usava hoje vestes verde-ácido; a pena-de-repetição-
rápida na mão se mesclava perfeitamente com as vestes.
- Parabéns, Harry! - disse ela, rindo radiante para o garoto. Será que você
pode me dar uma palavrinha? Como foi que você se sentiu enfrentando aquele
dragão? Como é que você se sente agora quanto à lisura das notas?
- Posso dar uma palavrinha, sim - disse Harry com selvageria - Tchau.


E saiu com Rony em direção ao castelo.


- CAPÍTULO VINTE E UM -
A Frente de Liberação dos Elfos Domésticos

Harry, Rony e Hermione foram ao corujal naquela noite à procura de
Pichitinho para Harry poder enviar uma carta a Sirius, contando-lhe que
conseguira passar ileso pelo dragão. No caminho, Harry pôs Rony a par de tudo
que Sirius lhe informara sobre Karkaroff. Embora, de início, Rony tivesse se
chocado em saber que o bruxo fora um Comensal da Morte, na altura em que
chegaram ao corujal ele já estava dizendo que os três deviam ter desconfiado
disso o tempo todo.
- Se encaixa direitinho, não é! - disse ele. - Você se lembra do que Malfoy
disse no trem, que o pai dele era amigo de Karkaroff? Hora a gente já sabe onde
se conheceram. Provavelmente estavam correndo mascarados na Copa Mundial...
Mas vou dizer uma coisa, Harry, se foi Karkaroff que pôs o seu nome no Cálice de
Fogo, ele agora vai estar se sentindo muito idiota, não acha? Não funcionou, não
é? Você só levou um arranhão! Vem até aqui, eu faço isso...
Pichitinho estava demasiado excitado com a idéia de fazer uma entrega,
voava sem parar à volta da cabeça de Harry, piando continuamente. Rony agarrou
a coruja no ar e segurou-a quieta para que o amigo pudesse prender a carta à
perna da ave.
- Acho que não é possível que as outras tarefas sejam tão perigosas. Como
poderiam ser? - prosseguiu Rony enquanto levava Pichitinho até a janela.
- Sabe de uma coisa? Acho que você poderia vencer esse torneio, Harry,
estou falando sério.
Harry sabia que Rony só estava dizendo isso para compensar o seu
comportamento nas últimas semanas, mas assim mesmo gostou. Hermione, no
entanto, encostou-se à parede do corujal, cruzou os braços e amarrou a cara para
Rony.
- Harry tem um longo caminho a percorrer até o fim do torneio - disse ela
séria. - Se essa foi a primeira tarefa, nem quero pensar qual vai ser a próxima.
- Você é um raio luminoso de sol, não é não? Você e Profª Sibila deviam se
reunir um dia desses.
E, dizendo isso, Rony lançou Pichitinho pela janela. A ave mergulhou quase
quatro metros antes de conseguir se sustentar; a carta amarrada a sua perna era
muito mais comprida e pesada que o normal - Harry não pôde resistir à tentação
de contar a Sirius, lance a lance, exatamente como voara para cá e para lá,
circulara e se desviara do Rabo-Córneo.
Os três acompanharam Pichitinho desaparecer na noite, e então Rony
falou:
- Bom, é melhor descermos para a sua festa surpresa, Harry, a esta altura,
Fred e Jorge já devem ter pilhado comida suficiente das cozinhas.
Não deu outra. Quando entraram, a sala comunal da Grifinória explodiu de
vivas e gritos outra vez. Havia montanhas de bolos e garrafões de suco de
abóbora e cerveja amanteigada em cima de cada móvel, Lino Jordan soltara


alguns dos seus Fogos Fabulosos do Dr. Filibusteiro Sem Fumaça Nem Calor, por
isso o ar estava denso de estrelas e faíscas e Dino Thomas, que era muito bom
em desenho, tinha pendurado magníficos galhardetes novos, a maioria dos quais
mostrava Harry voando na Firebolt em volta da cabeça do dragão, embora
houvesse uns dois que mostravam Cedrico com os cabelos em chamas.
Harry se serviu da comida, quase esquecera como era se sentir realmente
faminto, e se sentou com Rony e Hermione. Não conseguia acreditar na felicidade
que sentia, recuperara o apoio de Rony, dera conta da primeira tarefa e só teria
que enfrentar a segunda dali a três meses.
- Putz, isso é pesado - comentou Lino Jordan, levantando o ovo dourado,
que Harry deixara em cima de uma mesa, e pesando-o nas mãos. - Abra, Harry,
vamos! Vamos ver o que tem dentro!
- Ele tem que decifrar a pista sozinho - disse Hermione depressa. - É a
regra do torneio...
- Eu devia arranjar um jeito de passar pelo dragão sozinho, também -
murmurou Harry, de modo que somente Hermione o ouvisse, e ela deu um sorriso
culpado.
- É, anda, Harry, abra! - fizeram coro vários colegas.
Lino passou o ovo a Harry e o garoto enfiou as unhas no sulco que corria a
toda volta do objeto, forçando o ovo a abrir. Estava oco e completamente vazio -
mas no momento em que Harry o abriu, um som terrível, alto e agudo com um
agouro, encheu a sala. A coisa mais próxima àquilo que Harry já ouvira fora a
orquestra fantasma na festa do aniversário de morte de Nick Quase Sem Cabeça,
em que todos os componentes tocavam um serrote musical.
- Fecha isso! - berrou Fred, as mãos tampando os ouvidos.
- Que é isso? - perguntou Simas Finnigan, olhando o ovo enquanto Harry
tornava a fechá-lo com um estalo. - Parecia um espírito agourento... quem sabe
você vai ter que passar por um deles da próxima vez, Harry!
- Era alguém sendo torturado! - arriscou Nevilie, que ficara muito pálido e
largara os pães de salsicha no chão. - Você vai ter que enfrentar a Maldição
Cruciatus!
- Deixa de ser babaca, Nevilie, isso é ilegal - disse Jorge. - Não usariam a
Maldição Cruciatus contra os campeões. Achei que lembrava um pouco o Percy
cantando... quem sabe você vai ter que atacar ele quando estiver debaixo do
chuveiro, Harry.
- Quer uma tortinha de geléia, Mione? - ofereceu Fred.
Hermione olhou com ar de dúvida para o prato que o garoto lhe estendia.
Fred sorriu.
- Pode se servir. Não fiz nada com elas. É com os cremes de caramelo que
você tem de se cuidar...
Nevilie, que acabara de encher a boca de creme, se engasgou e o cuspiu
fora. Fred deu uma risada.
- É só uma brincadeirinha, Nevilie...
Hermione apanhou uma tortinha de geléia. Depois perguntou:
- Você apanhou tudo isso na cozinha, Fred?
- Foi - respondeu ele sorrindo para a garota. Ele fez uma voz de falsete e
imitou um elfo doméstico: - "O que pudermos lhe arranjar, meu senhor, qualquer


coisa!" São superprestativos... me arranjariam um boi assado se eu dissesse que
estava faminto.
- Como é que você entra lá? - perguntou Hermione com uma voz
inocentemente desinteressada.
- É fácil, tem uma porta escondida atrás da pintura de uma fruteira. É só
fazer "cosquinha" na pêra, ela ri e... - Ele parou olhou desconfiado para a garota. -
Por quê?
- Nada - apressou-se Hermione a dizer.
- Vai tentar liderar uma greve de elfos domésticos, é? Vai desistir dos
folhetos e incitar os caras a se revoltarem?
Algumas pessoas riram. Hermione não respondeu.
- Não vai perturbar os elfos dizendo que têm que pedir roupas e salários! -
avisou-a Fred. ­ Vai desviar os caras do preparo da comida!
Nesse instante, Neville provocou uma ligeira distração transformando-se em
um grande canário.
- Ah... me desculpe, Neville - gritou Fred, abafando as risadas.
- Me esqueci... foram os cremes de caramelo que enfeitiçamos... Um minuto
depois, Neville entrava na muda e quando as penas acabaram de cair ele
reapareceu tal qual era. E até engrossou o coro de gargalhadas.
- Cremes de Canários! - anunciou Fred para os alunos facilmente
excitáveis. - Jorge e eu inventamos, sete sicles cada, pechincha!
Era quase uma hora da manhã quando Harry finalmente foi para o
dormitório em companhia de Rony, Neville, Simas e Dino. Antes de fechar as
cortinas de sua cama, o garoto colocou a miniatura do Rabo-Córneo húngaro em
cima da mesa-de-cabeceira onde o dragão bocejou, se enroscou e fechou os
olhos. Para ser sincero, pensou Harry, ao correr as cortinas da cama, Hagrid tinha
uma certa razão... eles eram realmente legais, os dragões...
O começo de dezembro trouxe chuva e neve granulada a Hogwarts. Mesmo
cheio de correntes de ar como costumava ser o castelo no inverno, Harry se sentia
grato por suas lareiras e paredes grossas todas as vezes que passava pelo navio
de Durmstrang no lago, jogando com os ventos fortes, as velas negras enfunadas
contra o céu escuro. Ocorreu-lhe que a carruagem de Beauxbaton provavelmente
era bem fria também. Hagrid, reparou ele, estava mantendo os cavalos de
Madame Maxime bem abastecidos do uisque que preferiam, os vapores que
subiam do cocho a um picadeiro eram suficientes para deixar tonta a classe inteira
de Trato das Criaturas Mágicas. Isto não ajudava nada, porque os garotos
continuavam cuidando dos horrorosos explosivins e precisavam ficar sóbrios.
- Não tenho bem certeza se eles hibernam ou não - disse Hagrid, na aula
seguinte, à classe que tremia de frio na horta de abóboras varrida pelo vento. -
Achei que devíamos tentar ver se os bichos querem tirar uma soneca... Vamos
colocá-los nessas caixas...
Agora só restavam dez, aparentemente ainda não haviam se fartado de se
matar uns aos outros. Cada um agora chegava quase a um metro e oitenta
centímetros de comprimento. A carapaça grossa e cinzenta, as perninhas curtas
em movimento, as caudas que expeliam fogo, os ferrões e os sugadores se
somavam para tornar os explosivins as coisas mais repugnantes que Harry já vira.


A turma olhou desanimada para as enormes caixas que Hagrid trouxera, todas
forradas com almofadas e cobertores macios.
- Vamos levá-los para as caixas - disse Hagrid -, tampá-las, e ver o que
acontece.
Mas os explosivins, pelo que se viu, não hibernavam, e não gostavam de
ser enfiados à força em caixas forradas com almofadas com uma tampa por cima.
Hagrid logo começou a gritar:
- Não entrem em pânico, não entrem em pânico! - Enquanto os bichos
desembestavam pela horta de abóboras agora juncada com os restos de caixas
fumegantes.
A maioria da turma, Malfoy, Crabbe e Goyle à frente, tinha fugido para a
cabana de Hagrid pela porta dos fundos e se barricara lá dentro, Harry, Rony e
Hermione, no entanto, estavam entre os alunos que tinham ficado do lado de fora
tentando ajudar o professor. Juntos, conseguiram dominar e prender nove dos
explosivins, embora ao custo de vários cortes e queimaduras, finalmente, faltou
apenas uma das criaturas.
- Não vão assustá-lo! - gritou Hagrid, enquanto Rony e Harry usavam as
varinhas para lançar fagulhas no bicho, que avançava ameaçadoramente para os
garotos, o ferrão nas costas estremecendo em riste. - Tentem passar a corda pelo
ferrão para ele não poder atacar os outros.
- Ah, é, nós nem íamos querer uma coisa dessas! - gritou Rony zangado,
enquanto ele e Harry recuavam contra a parede da cabana de Hagrid, ainda
mantendo o explosivin afastado com fagulhas.
- Ora, ora, ora... isso parece realmente divertido!
Rita Skeeter estava debruçada na cerca do jardim de Hagrid, apreciando a
confusão. Usava uma grossa capa carmim com uma gola de peles e trazia a bolsa
de crocodilo no braço.
Hagrid se atirou em cima do bicho que acuava Harry e Rony e achatou-o,
um jorro de fogo disparou de sua cauda, queimando os pés de abóbora mais
próximos.
- Quem é a senhora? - perguntou Hagrid à jornalista, enquanto passava a
corda no ferrão do explosivin e apertava o laço.
- Rita Skeeter, repórter do Profeta Diário - respondeu a moça, sorrindo para
ele. Seu dente de ouro brilhou.
- Pensei ter ouvido Dumbledore dizer que a senhora não podia mais entrar
na escola? ­ disse Hagrid erguendo ligeiramente as sobrancelhas enquanto saía
de cima do bicho achatado e começava a arrastá-lo para junto dos companheiros.
Rita fez de conta que não ouviu o que Hagrid acabara de dizer.
- Como é o nome dessas criaturas fascinantes? - perguntou ela, com um
sorriso ainda maior.
- Explosivins - resmungou Hagrid.
- Sério? - disse ela, parecendo vivamente interessada. - Nunca ouvi falar
deles antes... e de onde é que eles vêm?
Harry notou uma vermelhidão subir da barba negra e desgrenhada de
Hagrid e sentiu um súbito desânimo. Onde é que Hagrid arranjara aqueles bichos?
Hermione que parecia estar pensando mais ou menos a mesma coisa, disse
depressa:


- Eles são muito interessantes, não é mesmo? Não são, Harry?
- Quê? Ah, são... ai... interessantes - disse o garoto quando a amiga pisou
seu pé.
- Ah, você está aqui, Harry! - exclamou Rita olhando para o lado. - Então
você gosta da aula de Trato das Criaturas Mágicas? Uma de suas matérias
preferidas?
- É - disse Harry corajosamente. Hagrid lhe deu um grande sorriso.
- Que beleza! - disse Rita. - Realmente uma beleza. Está ensinando isso há
muito tempo? - perguntou ela a Hagrid.
Harry reparou que os olhos da jornalista corriam de Dino (que recebera um
corte feio no rosto) para Lilá (cujas vestes estavam bastante chamuscadas), para
Simas (que estava cuidando de vários dedos queimados), e dele para as janelas
da cabana, onde se encontrava a maior parte da turma, de nariz colado na
vidraça, esperando ver se era seguro sair.
- Este é o meu segundo ano - respondeu o professor.
- Que beleza... O senhor não gostaria de dar uma entrevista? Contar sua
experiência com criaturas mágicas? O Profeta publica uma coluna zoológica toda
quarta-feira, como o senhor com certeza já sabe. Nós poderíamos falar desses...
hum...estouradins?
- Explosivins - apressou-se a corrigir Hagrid. - Hum... claro, por que não?
Harry teve uma sensação ruim sobre o convite, mas não havia como se
comunicar com Hagrid sem Rita ver, por isso ele foi obrigado a ficar em silêncio
observando Hagrid e Rita combinarem se encontrar no Três Vassouras para uma
longa entrevista, mais para o fim da semana. Então a sineta tocou no castelo,
anunciando o fim da aula.
- Bem, tchau, Harry! - gritou Rita alegremente para o garoto, enquanto ele
se afastava com Rony e Hermione. - Até sexta-feira à noite, então, Hagrid!
- Rita vai distorcer tudo que ele disser - comentou Harry baixinho.
- Desde que ele não tenha importado aqueles explosivins ilegalmente nem
nada do gênero ­ disse Hermione desesperada. Eles se entreolharam, era
exatamente o tipo de coisa que Hagrid seria capaz de fazer.
- Hagrid já se meteu em montes de confusão antes e Dumbledore nunca o
despediu - disse Rony em tom de consolo. - O pior que pode acontecer é Hagrid
ter que se livrar dos bichos. Desculpe... eu disse o pior? Quis dizer o melhor.
Harry e Hermione caíram na gargalhada e, sentindo-se mais animados,
foram almoçar.
Harry gostou imensamente da aula de Adivinhação naquela tarde, a turma
ainda estava fazendo mapas e predições, mas agora que ele e Rony tinham
voltado a ser amigos a coisa recuperara a antiga graça. A Profª Sibila, que andara
tão satisfeita com os garotos quando eles estiveram predizendo mortes horrendas
para si mesmos, não tardou a se irritar quando os dois ficaram de risadinhas na
hora em que ela explicava as várias maneiras com que Plutão era capaz de
desorganizar a vida diária.
- Seria de pensar - disse ela, num sussurro místico que não ocultava seu
óbvio aborrecimento - que alguns de nós - e olhou significativamente para Harry -
seriam um pouquinho menos frívolos se tivessem visto o que vi quando consultei a
minha bola de cristal ontem à noite. Eu estava sentada bordando, muito absorta,


quando fui tomada por um impulso de consultar a bola. Levantei-me e me sentei
diante dela e contemplei suas profundezas cristalinas... e o que acham que vi
olhando para mim?
- Uma morcega velha com os óculos maiores do que a cara? - cochichou
Rony.
Harry fez muita força para ficar com a cara séria.
- A morte, meus queridos.
Parvati e Lilá levaram as mãos à boca, fazendo cara de horror.
- Sim, senhores - disse a professora, acenando a cabeça de modo
impressionante -, ela está se aproximando, cada vez mais, descrevendo círculos
no céu como um urubu, cada vez mais baixa... sempre mais baixa sobre o
castelo...
Ela olhou diretamente para Harry, que bocejou com a boca escancarada e
de maneira óbvia.
- Teria sido mais impressionante se ela não tivesse anunciado isso oito
vezes antes - disse Harry, quando finalmente recuperaram o ar fresco na escada
sob a sala de Sibila. ­ Mas se eu caísse duro toda vez que ela diz que vou cair, eu
seria um milagre da medicina.
- Seria uma espécie de fantasma super-concentrado - disse Rony rindo, ao
passarem pelo Barão Sangrento que ia em sentido contrário, um olhar
sinistramente fixo nos olhos enormes. - Pelo menos ela não passou dever de
casa. Espero que a Profª Vector tenha passado um monte para Hermione, adoro
ficar à toa quando ela está ocupada...
Mas a garota não apareceu para jantar, nem estava na biblioteca quando
eles foram procurá-la. A única pessoa que estava lá era Vítor Krum. Rony ficou
parado um tempo atrás das estantes, observando Krum e discutindo aos
cochichos com Harry se deveria pedir um autógrafo - mas então percebeu que
havia umas seis ou sete garotas rondando entre as estantes ao lado, discutindo
exatamente a mesma coisa, e perdeu o entusiasmo pela idéia.
- Onde será que ela se meteu? - indagou Rony quando os dois rumavam
para a Torre da Grifinória.
- Sei lá... Asnice.
Mas a Mulher Gorda mal começara a girar para a frente quando o ruído de
alguém correndo às costas dos garotos anunciou a chegada de Hermione.
- Harry! - ofegou ela, derrapando até parar ao lado dele (a Mulher Gorda
olhou para a garota, com as sobrancelhas erguidas).
- Harry, você tem de vir comigo... tem de vir, aconteceu a coisa mais
fantástica... por favor...
Ela agarrou o braço de Harry e tentou arrastar o garoto de volta ao
corredor.
- Que é que aconteceu? - perguntou Harry.
- Eu mostro a você quando a gente chegar lá, ah, anda logo, depressa...
Harry olhou para Rony; este olhou para Harry intrigado.
- OK - disse Harry, começando a retroceder pelo corredor com Hermione,
Rony correndo para acompanhá-los.


- Ah, não se incomodem comigo! - gritou a Mulher Gorda irritada para os
garotos. Não peçam desculpas por terem me incomodado! Vou continuar
pendurada aqui, aberta, até vocês voltarem, não é isso?
- É, obrigado - gritou Rony por cima do ombro.
- Hermione, onde é que estamos indo? - perguntou Harry, depois que a
garota os fizera descer seis andares e já estavam na escadaria de mármore do
saguão de entrada.
- Você vai ver, você vai ver já, já! - disse Hermione excitada.
Ela virou à esquerda ao pé da escada e correu para a porta que Cedrico
cruzara na noite seguinte ao Cálice de Fogo ter regurgitado o seu nome e o de
Harry.
O garoto jamais passara ali antes. Ele e Rony acompanharam Hermione,
desceram um lance de escadas de pedra, mas em vez destas terminarem em uma
sombria passagem subterrânea, como a que levava à masmorra do Snape, os
garotos se viram em um corredor de pedra, largo, muito bem iluminado com
archotes, e decorado com alegres pinturas, na maioria, de comida.
- Ah, espera aí... - disse Harry lentamente, a meio caminho do corredor. ­
Espera um instante, Hermione...
- Quê? - Ela se virou para olhá-lo, o rosto que era só expectativa.
- Já sei do que se trata - disse Harry.
O garoto cutucou Rony e apontou para o quadro logo atrás de Hermione.
Era a pintura de uma enorme fruteira de prata.
- Hermione! - exclamou Rony, entendendo. - Você não está tentando nos
pegar a laço para aquela história do fale outra vez!
- Não, não, não estou! - apressou-se ela a dizer. - E não é fale, Rony...
- Você mudou o nome? - perguntou Rony, franzindo a testa.
- Que somos então? A Frente de Liberação dos Elfos Domésticos? Não vou
invadir a cozinha para fazer eles pararem de trabalhar, não vou fazer isso...
- Não estou lhe pedindo isso! - disse Hermione impacientemente. - Desci
aqui agora há pouco para conversar com eles e encontrei... ah, anda, Harry, quero
lhe mostrar!
A garota tornou a agarrá-lo pelo braço, puxou-o para diante do quadro da
fruteira, esticou o dedo indicador e fez cócegas na enorme pêra verde. A fruta
começou a se contorcer e rir e, de repente, transformou-se em uma grande
maçaneta verde. Hermione segurou-a, abriu a porta e empurrou Harry pelas
costas, com força, obrigando-o a entrar.
O garoto teve apenas uma breve visão de um amplo aposento de teto alto,
grande como o Salão Principal acima, repleto de tachos e panelas de latão
empilhados ao redor das paredes de pedra, um grande fogão de tijolos no extremo
oposto, quando alguma coisa pequena se precipitou do meio do aposento ao
encontro dele, guinchando:
- Harry Potter, meu senhor! Harry Potter!
No segundo seguinte todo o ar dos seus pulmões foi expelido, o elfo, aos
guinchos, colidiu com ele na altura do diafragma, abraçando-o com tanta força que
o garoto pensou que suas costelas iam partir.
- D-Dobby? - ofegou Harry.


- Dobby, meu senhor, é sim! - guinchou a voz na altura do seu umbigo. ­
Dobby teve muita esperança de ver Harry Potter, meu senhor, e Harry Potter veio
ver ele, meu senhor!
Dobby soltou o garoto e recuou alguns passos, sorrindo para Harry de
orelha a orelha, seus enormes olhos verdes, redondos como bolas de tênis, se
enchendo de lágrimas de felicidade. Tinha quase exatamente a mesma aparência
com que Harry o conhecera: o nariz fino e reto, as orelhas de morcego, as mãos e
os pés compridos - exceto pelas roupas, que eram muito diferentes.
Quando Dobby trabalhara para os Malfoy, sempre usara a mesma fronha
velha e imunda. Agora, porém, vestia a combinação mais extravagante de roupas
que Harry já vira na vida; fizera uma escolha de peças pior do que a dos bruxos na
Copa Mundial. Usava um abafador de chá à guisa de chapéu, no qual estavam
presos vários distintivos coloridos, uma gravata com estampa de ferraduras de
cavalo sobre o peito nu, calções que pareciam os de uma criança jogar futebol e
meias desaparelhadas. Uma delas, Harry reparou, era a preta que ele tirara do
próprio pé e induzira o Sr. Malfoy a jogar para Dobby, e ao fazer isso, libertara-o.
A outra era listrada de rosa e laranja.
- Dobby, que é que você está fazendo aqui? - perguntou Harry surpreso.
- Dobby veio trabalhar em Hogwarts, meu senhor! - guinchou o elfo
excitado. ­ O Prof. Dumbledore deu emprego a Dobby e Winky meu senhor!
- Winky? - exclamou Harry. - Ela também está aqui?
- Está, sim, senhor, está! - disse Dobby, e agarrando a mão de Harry
puxou-o para dentro da cozinha entre quatro longas mesas de madeira que
estavam ali. Cada uma das mesas, o garoto notou ao passar, estava colocada
exatamente embaixo das quatro mesas das Casas em cima, no Salão Principal.
Naquele momento não havia comida nelas, o jantar já terminara, mas ele
supôs que uma hora antes estivessem carregadas de travessas que então eram
mandadas pelo teto para as suas correspondentes no andar superior.
No mínimo uns cem elfos estavam parados pela cozinha, sorrindo,
inclinando a cabeça e fazendo reverências quando Dobby passou com Harry por
eles. Todos usavam o mesmo uniforme, uma toalha de chá estampada com o
timbre de Hogwarts e amarrada como uma toga, como a de Winky.
Dobby parou diante do fogão de tijolos e apontou.
- Winky, meu senhor! - disse ele.
Ela estava sentada em um banquinho junto ao fogo. Ao contrário de Dobby,
obviamente não saíra catando roupas. Usava uma saia e uma blusa comportadas,
e um chapéu azul combinando, com aberturas laterais para suas orelhonas. Mas,
enquanto cada peça da estranha coleção de roupas de Dobby estava
impecavelmente limpa e bem cuidada, pois até pareciam novas em folha, era
visível que Winky não estava cuidando das próprias roupas. Havia manchas de
sopa na blusa e um chamuscado na saia.
- Olá, Winky - cumprimentou Harry.
Os lábios de Winky tremeram. Então ela rompeu em lágrimas, que
transbordaram dos seus grandes olhos castanhos e caíram pela roupa,
exatamente como acontecera na Copa Mundial de Quadribol.
- Ah meu Deus! - exclamou Hermione. Ela e Rony tinham seguido Harry e
Dobby até o fundo da cozinha. - Winky, não chore, por favor, não...


Mas Winky chorava com mais vontade que nunca. Dobby, por outro lado,
sorria radiante para Harry.
- Harry Potter gostaria de tomar uma xícara de chá? - guinchou ele alto,
abafando os soluços de Winky.
- Hum... ah, OK - disse o garoto.
Instantaneamente, uns seis elfos domésticos vieram correndo atrás dele,
trazendo uma grande bandeja de prata com um bule de chá, xícaras para Harry,
Rony e Hermione, uma jarrinha de leite e um grande prato de biscoitos.
- Serviço de primeira! - exclamou Rony, com admiração na voz. Hermione
franziu a testa para ele, mas os elfos pareciam encantados da vida, fizeram uma
grande reverência e se retiraram.
- Há quanto tempo está aqui, Dobby? - perguntou Harry, quando o elfo
serviu o chá para todos.
- Só uma semana, Harry Potter, meu senhor! - respondeu Dobby
alegremente. - Dobby veio ver o Prof. Dumbledore, meu senhor. Sabe, meu
senhor, é muito difícil um elfo doméstico que foi dispensado arranjar outro
emprego, meu senhor, muito difícil, mesmo...
Ao ouvir isso, Winky chorou ainda mais alto, seu nariz de tomate amassado
pingando pela frente da blusa, embora ela não fizesse o menor esforço para
estancar essa pingadeira.
- Dobby viajou pelo país durante dois anos, meu senhor, tentando encontrar
trabalho! Mas Dobby não encontrou nada, meu senhor, porque agora ele quer
receber ordenado!
Os elfos domésticos por toda a cozinha, que estavam escutando e
observando com interesse, desviaram os olhos ao ouvirem isso, como se Dobby
tivesse dito alguma coisa grosseira e constrangedora. Hermione, porém,
exclamou:
- Assim é que se faz, Dobby!
- Muito obrigado, senhorita! - disse o elfo, dando a ela um sorriso que era só
dentes. - Mas a maioria dos bruxos não quer um elfo doméstico que exige
ordenado, senhorita. "Isto não é próprio de um elfo doméstico", dizem eles e
batem a porta na cara de Dobby! Dobby gosta de trabalhar, mas quer se vestir e
quer receber ordenado, Harry Potter... Dobby gosta de ser livre!
Os elfos domésticos de Hogwarts agora começaram a se afastar
discretamente de Dobby, como se ele tivesse alguma doença contagiosa. Winky,
no entanto, continuou onde estava, embora se notasse um decidido aumento no
volume do seu choro.
- E, então, Harry Potter, Dobby vai visitar Winky e descobre que ela foi
libertada, também! - conta Dobby com satisfação.
Ao ouvir isso, Winky se atirou para a frente e caiu do banquinho, de rosto
no chão de lajotas, batendo os pequenos punhos e positivamente urrando de
infelicidade.
Hermione imediatamente se ajoelhou ao lado dela e tentou consolá-la, mas
nada que dissesse produzia a menor diferença. Dobby continuou sua história,
guinchando alto para abafar o choro estridente de Winky.
- Então Dobby teve a idéia, Harry Potter, meu senhor! "Por que Dobby e
Winky não procuram um trabalho juntos?" Onde é que existe trabalho suficiente


para dois elfos domésticos?", pergunta Winky. E Dobby pensa e se lembra, meu
senhor! Hogwarts! Então Dobby e Winky vieram ver o Prof. Dumbledore, meu
senhor e o professor nos contratou!
Dobby sorriu muito animado e lágrimas de felicidade brotaram, mais uma
vez, dos seus olhos.
- E o Prof. Dumbledore diz que vai pagar a Dobby, meu senhor, se Dobby
quer pagamento! E, assim, Dobby é um elfo livre, meu senhor, e Dobby recebe um
galeão por semana e um dia de folga por mês!
- Isso é muito pouco! - exclamou Hermione indignada, ainda curvada para
os gritos incessantes e os murros no chão de Winky.
- O Prof. Dumbledore ofereceu a Dobby dez galeões por semana e folgas
nos fins de semana - disse Dobby, estremecendo de repente como se a
perspectiva de tanto lazer e riqueza o assustasse -, mas Dobby fez ele baixar a
oferta, senhorita... Dobby gosta da liberdade, senhorita, mas não quer tanto assim,
senhorita, ele gosta mais do trabalho.
- E quanto é que o Prof. Dumbledore está pagando a você Winky? -
perguntou Hermione bondosamente.
Se a garota achou que isso ia animar Winky, estava delirando. Winky
realmente parou de chorar, mas, quando se sentou, ficou encarando Hermione
com seus imensos olhos castanhos, seu rosto lavado de lágrimas e
inesperadamente furioso.
- Winky é um elfo em desgraça, mas Winky ainda não está aceitando
pagamento - guinchou ela. - Winky não decaiu a esse ponto! Winky está
devidamente envergonhada de ter sido libertada!
- Envergonhada? - perguntou Hermione perplexa. - Mas... Winky, espera aí!
É o Sr. Crouch que devia estar envergonhado e não você! Você não fez nada
errado, ele é que foi realmente horrível com você...
Mas ao ouvir isso, Winky levou as mãos às aberturas laterais do chapéu e
achatou as orelhas para não poder ouvir nem mais uma palavra e guinchou:
- A senhorita não vai insultar o meu amo! A senhorita não vai insultar o Sr.
Crouch! O Sr. Crouch é um bruxo bom, senhorita! O Sr. Crouch fez bem em
mandar a feia Winky embora!
- Winky está tendo dificuldades para se adaptar, Harry Potter - guinchou
Dobby confidencialmente. - Winky se esquece que não está mais presa ao Sr.
Crouch, que pode dizer o que pensa agora, mas não quer fazer isso.
- Os elfos domésticos não podem dizer o que pensam dos amos, então? -
perguntou Harry.
- Ah, não, não meu senhor - disse Dobby repentinamente serio. - Faz parte
da escravidão do elfo doméstico, meu senhor. Guardamos silêncio e os segredos
dos amos, meu senhor, defendemos a honra da família e nunca falamos mal dela,
embora o Prof. Dumbledore tenha dito a Dobby que não faz questão disso. O Prof.
Dumbledore disse que a gente é livre para... para...
Dobby pareceu subitamente nervoso e chamou Harry mais para perto.
Harry se inclinou para ele. Dobby cochichou:
- Disse que a gente é livre para chamar ele de... de velho caduco se quiser,
meu senhor! Dobby deu uma risadinha assustada. - Mas Dobby não quer, Harry
Potter - disse ele voltando a falar normalmente e balançando a cabeça de modo


que suas orelhas abanavam. ­ Dobby gosta muito do Prof. Dumbledore, meu
senhor, e tem orgulho de guardar os segredos dele.
- Mas você pode dizer o que quiser sobre os Malfoy agora? - perguntou
Harry sorrindo.
Um olhar de temor surgiu nos olhos imensos de Dobby.
- Dobby... Dobby poderia - disse cheio de dúvida. Aprumou então seus
ombrinhos. ­ Dobby poderia dizer a Harry Potter que seus antigos amos eram...
eram... bruxos malvados das trevas!
Dobby ficou parado um instante, o corpo todo tremendo, horrorizado com a
sua própria coragem - então correu até a mesa mais próxima e começou a bater a
cabeça nela, com força, guinchando:
- Dobby mau! Dobby mau!
Harry agarrou o elfo por trás da gravata e afastou-o da mesa.
- Obrigado, Harry Potter, obrigado - disse Dobby sem fôlego, esfregando a
cabeça.
- Você só precisa de um pouco de prática - disse Harry.
- Prática! - guinchou Winky furiosa. - Você devia era ter vergonha, Dobby,
falando desse jeito dos seus amos!
- Eles não são mais meus amos, Winky! - disse Dobby em tom de desafio. -
Dobby não se importa mais com o que eles pensam!
- Ah, você é um elfo mau, Dobby! - lamentou-se Winky, as lágrimas
escorrendo mais uma vez pelo seu rosto. - O coitadinho do meu Sr. Crouch, que é
que ele está fazendo sem a Winky? Está precisando de mim, está precisando da
minha ajuda! Eu cuidei dos Crouch a vida inteira e minha mãe fez isso antes de
mim e minha avó antes dela... ah, o que elas diriam se soubessem que Winky foi
libertada? Ah, que vergonha, que vergonha! - Ela escondeu o rosto na saia e abriu
um berreiro.
- Winky - disse Hermione com firmeza -, tenho certeza de que o Sr. Crouch
vai indo muitíssimo bem sem você. A gente o viu, sabe...
- A senhorita tem visto o meu amo? - perguntou Winky sem fôlego,
erguendo o rosto manchado de lágrimas da saia, mais uma vez, e arregalando os
olhos para Hermione. - A senhorita tem visto ele aqui em Hogwarts?
- Tenho. Ele e o Sr. Bagman são juizes no Torneio Tribruxo.
- O Sr. Bagman vem também? - guinchou Winky e, para grande surpresa de
Harry (e de Rony e Hermione também, pela expressão no rosto deles), ela
pareceu novamente zangada. - O Sr. Bagman é um bruxo malvado! Um bruxo
muito malvado! Meu amo não gosta dele, ah, não, nem um pouquinho!
- Bagman... malvado? - exclamou Harry.
- Ah é - disse Winky, acenando furiosamente com a cabeça. - Meu dono
contou a Winky umas coisas! Mas Winky não vai repetir... Winky... Winky guarda
os segredos do amo...- E mais uma vez ela se debulhou em lágrimas; os garotos a
ouviam soluçar escondida na saia. - Coitado do meu amo, coitado do meu amo,
não tem mais a Winky para ajudar!
Os garotos não conseguiram extrair de Winky nem mais uma palavra que
fizesse sentido. Deixaram-na chorar e terminaram o chá, enquanto Dobby
tagarelava alegremente sobre sua vida de elfo liberto e seus planos para o seu
ordenado.


- A próxima coisa que Dobby vai comprar é um suéter sem mangas, Harry
Potter! - disse ele alegremente, apontando para o peito nu.
- Vou lhe dizer o que vou fazer -. disse Rony, que parecia ter se afeiçoado
muito ao elfo. ­ Vou lhe dar o suéter que minha mãe tricotar para mim este Natal,
eu sempre ganho um. Você não tem nada contra a cor marrom, tem?
Dobby ficou encantado.
- Talvez a gente tenha que dar uma encolhida nele para caber em você,
mas vai combinar bem com o seu abafador de chá.
Quando se preparavam para ir embora, muitos elfos que os cercavam se
aproximaram, oferecendo lanchinhos para os garotos levarem. Hermione recusou,
com uma expressão constrangida, ao ver a maneira com que os elfos
continuavam a se curvar e fazer reverências, mas Harry e Rony encheram os
bolsos com bolos e tortas.
- Muito obrigado! - disse Harry aos elfos, que tinham se agrupado em torno
da porta para lhes desejar boa noite. - Até à vista, Dobby.
- Harry Potter... Dobby pode ir ver o senhor de vez em quando, meu
senhor? - perguntou Dobby tenteando.
- Claro que pode - disse o garoto e o elfo abriu um sorriso.
- Sabe de uma coisa? - disse Rony, depois que ele, Hermione e Harry
haviam deixado a cozinha para trás e já estavam subindo as escadas para o
saguão de entrada. - Todos esses anos sempre fiquei realmente impressionado
com a capacidade de Fred e Jorge pegarem comida na cozinha, ora não é nada
difícil, não é mesmo? Os caras mal podem esperar para dar a comida!
- Acho que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a esses elfos,
sabe ­ disse Hermione seguindo à frente para subir a escadaria de mármore. -
Dobby ter vindo trabalhar aqui, quero dizer. Os outros elfos vão ver como ele está
feliz, depois de libertado, e devagarinho vão se lembrar de desejar a mesma coisa!
- Vamos esperar que eles não prestem muita atenção na Winky - disse
Harry.
- Ah, ela vai se animar - disse Hermione, embora parecesse meio em
dúvida. - Depois que passar o choque e ela se acostumar a Hogwarts, vai ver que
está muito melhor sem o tal do Crouch.
- Mas ela parece que ama o cara - disse Rony com a voz engrolada
(acabara de morder o bolo).
- Mas ela não tem uma boa opinião do Bagman, não é - comentou Harry. -
Que será que Crouch diz dele em casa?
- Provavelmente diz que Bagman não é um bom chefe de departamento ­
disse Hermione -, e vamos ser sinceros... ele tem razão, não acham?
- Mesmo assim, eu preferia trabalhar para ele do que para o velho Crouch ­
disse Rony. ­ Pelo menos Bagman tem senso de humor.
- Não deixa o Percy escutar você dizendo isso - falou Hermione, dando um
sorrisinho. - É, Percy não iria querer trabalhar para ninguém que tivesse senso de
humor, não é mesmo? - disse Rony, agora começando a comer a bomba de
chocolate.
- Percy não reconheceria uma piada nem que ela dançasse pelada na
frente dele, usando só o abafador de chá do Dobby na cabeça.

- CAPÍTULO VINTE E DOIS
A tarefa inesperada

- Potter! Weasley! Querem prestar atenção?
A voz irritada da Profª McGonagall estalou como um chicote pela aula de
Transformação de quinta-feira, os dois garotos levaram um susto e ergueram a
cabeça.
A aula chegava ao fim, eles tinham terminado a tarefa dada: as galinhas-da-
guiné que tentavam transformar em porquinhos-da-índia já estavam trancadas em
uma grande gaiola sobre a escrivaninha da professora (o porquinhos-da-índia de
Neville ainda conservava as penas), tinham copiado do quadro-negro o dever de
casa ("Descreva, com exemplos, como os Feitiços de Transformação devem ser
adaptados ao se fazerem trocas cruzadas entre espécies").
A sineta devia tocar a qualquer momento -e Harry e Rony, que andavam
travando uma luta de espadas com umas varinhas falsas de Fred e Jorge, no
fundo da sala, ergueram a cabeça, Rony agora segurando um papagaio de lata e
Harry, um hadoque de borracha.
- Agora que Potter e Weasley tiveram a bondade de parar com as
criancices - disse a professora, lançando um olhar feio aos dois no momento em
que a cabeça do hadoque de Harry se pendurou para o lado e caiu
silenciosamente no chão, o bico do papagaio de Rony se partira momentos antes -
, tenho um aviso para dar a todos. O Baile de Inverno está próximo, é uma
tradição do Torneio Tribruxo e uma oportunidade para convivermos socialmente
com os nossos hóspedes estrangeiros. Agora, o baile só será franqueado aos
alunos do quarto ano em diante, embora vocês possam convidar um aluno mais
novo se quiserem...
Lilá Brown deixou escapar uma risadinha aguda. Parvari Patil deu-lhe uma
cutucada nas costelas com força, o rosto contraindo-se furiosamente enquanto
ela, também, lutava para não rir feito boba. As duas viraram a cabeça para olhar
Harry. A professora fingiu não vê-las, o que Harry achou que era uma nítida
injustiça, pois acabara de chamar a atenção dele e de Rony.
- O traje é a rigor - continuou a professora -, e o baile, no Salão Principal,
começará às oito horas e terminara a meia-noite, no dia de Natal. Então...
A Profª McGonagall olhou deliberadamente para a turma.
- O Baile de Inverno naturalmente é uma oportunidade para todos nós...
hum... para nos soltarmos - disse ela em tom de desaprovaçao.
Lilá deu mais risadinhas que nunca, tampando a mão com a boca para
abafar o som. Dessa vez Harry pôde entender qual era a graça: a Profª
McGonagall, com os cabelos presos, não tinha jeito de que algum dia fosse se
soltar em nenhum sentido.
- Mas isto não significa - continuou ela - que vamos relaxar os padrões de
comportamento que se espera dos alunos de Hogwarts. Ficarei seriamente
aborrecida se, de alguma maneira, um aluno da Grifinória envergonhar a escola.
A sineta tocou e ouviram-se os costumeiros ruídos de gente guardando o
material nas mochilas e atirando-as por cima dos ombros.
A professora chamou, sobrepondo-se ao barulho geral:
- Potter, uma palavrinha, por favor.


Supondo que fosse alguma coisa relacionada com o hadoque de borracha
decapitado, Harry dirigiu-se, com ar de desânimo à escrivaninha da professora. A
Profª McGonagall esperou até o resto da turma sair e então disse:
- Potter, os campeões e seus pares...
- Que pares? - perguntou Harry.
A professora olhou desconfiada para o garoto, como se achasse que ele
estava querendo ser engraçado.
- Os pares para o Baile de Inverno, Potter - explicou ela com frieza. - Os
pares de dança.
As entranhas de Harry pareceram se enroscar e murchar.
- Pares de dança?
Ele sentiu que estava corando.
- Eu não danço - disse depressa.
- Ah, dança sim, senhor - disse a professora irritada. - É o que estou lhe
dizendo. Tradicionalmente os campeões abrem o baile com os seus pares.
Harry teve uma súbita visão de si mesmo, de casaca e cartola,
acompanhado por uma garota com aquele tipo de vestido de babadinhos que a tia
Petúnia sempre usava nas festas de negócios do tio Valter.
- Eu não vou dançar.
- É a tradição - disse a Profª Minerva com firmeza. - Você é um dos
campeões de Hogwarts e vai fazer o que se espera de você como representante
de sua escola. Portanto providencie um par, Potter.
- Mas eu... não...
- Você me ouviu, Potter - disse ela, em tom de quem encerra a conversa.
Há uma semana, Harry teria dito que arranjar um par para dançar era
moleza se comparado a enfrentar um Rabo-Córneo húngaro. Mas agora que
cumprira aquela tarefa e se confrontava com a perspectiva de convidar uma
garota para o baile, ele achou que preferia enfrentar mais uma rodada com o
dragão.
Harry nunca vira tanta gente inscrever os nomes para passar o Natal em
Hogwarts, ele sempre se inscrevia, naturalmente, porque sua alternativa, em
geral, era regressar à rua dos Alfeneiros, mas até agora ele sempre fora minoria.
Este ano, porém, todo mundo do quarto ano para cima parecia querer ficar, e
todos pareciam a Harry obcecados pelo tal baile - ou, pelo menos, todas as
garotas estavam, e era espantoso quantas garotas Hogwarts de repente parecia
abrigar; ele nunca reparara muito bem nisso.
Garotas que davam risadinhas e cochichavam pelos corredores, garotas
que riam alto quando os garotos passavam por elas, garotas que comparavam
informações, excitadas, sobre o que iam usar na noite de Natal...
- Por que é que elas têm que andar em bandos? - perguntou Harry a Rony,
quando uma dúzia de garotas passou por eles, rindo e olhando para Harry. -
Como é que se vai encontrar uma sozinha para se convidar?
- Que tal laçar uma - sugeriu Rony. - Já tem idéia de quem é que você vai
tentar convidar?
Harry não respondeu. Sabia perfeitamente quem é que ele gostaria de
convidar, mas arranjar coragem para fazê-lo era outra conversa... Cho era um ano


mais velha do que ele; era muito bonita, era uma boa jogadora de quadribol e
também muito popular.
Rony parecia saber o que se passava na cabeça de Harry.
- Escuta, você não vai ter nenhuma dificuldade. Você é campeão. Acabou
de derrotar o Rabo-Córneo húngaro. Aposto como elas vão fazer fila para ir com
você.
Em homenagem à amizade recém-remendada entre os dois, Rony procurou
deixar um mínimo absoluto de amargura transparecer em sua voz. Além disso,
para sua surpresa, Harry descobriu que o amigo tinha razão.
Uma terceiranista da Lufa-Lufa, de cabelos crespos, com quem Harry
jamais falara na vida, convidou-o para ir ao baile com ela, logo no dia seguinte. Ele
ficou tão surpreso que respondeu "não" antes mesmo de parar para refletir sobre o
convite.
A garota se afastou parecendo bem magoada, e Harry teve que aturar as
piadas de Dino, Simas e Rony sobre ela durante toda a aula de História da Magia.
No dia seguinte, mais duas garotas o convidaram, uma do segundo ano e (para
seu horror) uma do quinto ano, que parecia ser capaz de nocauteá-lo se ele
recusasse.
- Ela era bem jeitosa - disse Rony querendo ser justo, depois que parou de
dar risadas.
- Ela era bem uns trinta centímetros mais alta que eu - disse Harry, ainda
nervoso. - Imagina com que cara eu ia ficar tentando dançar com ela.
As palavras de Hermione a respeito de Krum não paravam de lhe voltar à
lembrança: "Elas só gostam dele porque ele é famoso!" Harry duvidava muito que
as garotas que até então o haviam convidado para ser seu par iriam querer
acompanhá-lo ao baile se ele não fosse campeão da escola. Depois se perguntou
se isto o incomodaria se fosse Cho que o convidasse.
Mas, de modo geral, Harry teve que admitir que, mesmo com a perspectiva
constrangedora de abrir o baile dali a uns dias, a vida decididamente melhorara
desde que ele cumprira a primeira tarefa.
Não atraía mais tantos comentários desagradáveis no corredor, no que ele
suspeitava que havia dedo de Cedrico - tinha a impressão de que o campeão
talvez tivesse dito ao pessoal da Lufa-Lufa para deixar Harry em paz, em gratidão
pela dica que recebera sobre os dragões. Parecia haver menos Apóie CEDRICO
DIGGORY pela escola, também. Draco Malfoy, naturalmente, continuava a citar o
artigo de Rita Skeeter para ele sempre que encontrava oportunidade, mas cada
dia arrancava menos risadas - e só para melhorar a sensação de bem-estar de
Harry, não aparecera história alguma sobre Hagrid no Profeta Diário.
- Ela não parecia muito interessada em criaturas mágicas, para lhe dizer a
verdade ­ contou Hagrid, quando Harry, Rony e Hermione lhe perguntaram como
correra sua entrevista com a jornalista na última aula de Trato das Criaturas
Mágicas do trimestre. Para grande alívio dos garotos, Hagrid desistira do contato
direto com os explosivins, e os alunos tinham simplesmente se abrigado nos
fundos da cabana, sentados a uma mesa de cavalete, para preparar uma seleção
fresca de alimentos com os quais tentar os bichos.
- Ela só queria que eu falasse sobre você, Harry", continuou Hagrid em voz
baixa. - Bem, eu contei que somos amigos desde que fui buscá-lo na casa dos


Dursley. Nunca teve que ralhar com ele em quatro anos?", ela perguntou. "Nunca
fez bagunça na sua aula?" Eu disse que não e parece que ela não gostou nem um
pouco da resposta. Acho que queria que eu dissesse que você era uma dor de
cabeça, Harry.
- Claro que queria - disse Harry, atirando pedaços de fígado de dragão
numa grande tigela de metal e apanhando a faca para continuar a cortar. ­ Ela
não pode continuar a escrever que sou um heroizinho trágico, vai acabar ficando
chato.
- Ela quer um novo ângulo - comentou Rony sensatamente enquanto
descascava ovos de salamandra. - Queria que você dissesse que Harry era um
delinqüente doidão!
- Mas ele não é! - exclamou Hagrid parecendo sinceramente chocado.
- A Rita devia ter entrevistado Snape - disse Harry sério. - Ele teria dado o
serviço completo sobre mim sem pestanejar. Potter tem transgredido limites desde
que chegou a esta escola...
- Ele disse isso, foi? - perguntou Hagrid enquanto Rony e Hermione davam
risadas. - Você pode ter atropelado algumas regras, Harry, mas sinceramente
você é um bom menino, não é?
- Obrigado, Hagrid - disse Harry rindo.
- Você vai a esse tal baile no dia de Natal, Hagrid? - perguntou Rony.
- Pensei em dar uma passada lá - respondeu ele com impaciência. - Vai ser
legal, acho. Você vai abrir o baile, não é, Harry? Quem é que você vai levar?
- Por enquanto ninguém - respondeu o garoto, sentindo que estava
corando.
Hagrid não insistiu no assunto.
A última semana do trimestre foi ficando cada vez mais animada à medida
que os dias passavam. Corriam boatos sobre o Baile de Inverno por todo lado,
embora Harry não acreditasse nem na metade - por exemplo, que Dumbledore
comprara oitocentos barris de quentão de Madame Rosmetta. Mas parecia ser
verdade que ele contratara as Esquisitonas. Exatamente quem ou o quê eram as
Esquisitonas o garoto não sabia, pois nunca tivera acesso à rádio bruxa, mas
deduzia, pela excitação gerada nos garotos que haviam crescido ouvindo a RRB
(Rede Radiofônica dos Bruxos), que eram um famoso grupo musical.
Alguns professores, como o nanico Prof. Flitwick, desistiram de tentar
ensinar aos garotos alguma coisa quando suas cabecinhas estavam tão
visivelmente longe dali, ele os deixou fazerem jogos durante a aula de quarta-feira,
e passou a maior parte do tempo conversando com Harry sobre maneiras de
aperfeiçoar o Feitiço Convocatório que ele usara durante a primeira tarefa do
Torneio Tribruxo. Outros professores não foram tão generosos. Nada poderia
jamais desviar o Prof. Binns, por exemplo: continuou a dar as revoltas dos
duendes - como Binns não permitira sequer que a própria morte o impedisse de
continuar ensinando, os garotos supunham que uma bobagem feito o Natal não
fosse perturbá-lo. Era espantoso como o professor conseguia fazer até as revoltas
mais sangrentas e encarniçadas parecerem tão tediosas quanto o relatório de
Percy sobre os fundos dos caldeirões.
Os professores McGonagall e Moody também fizeram os garotos trabalhar
até o último segundo de aula, e quanto a Snape, seria mais fácil ele adotar Harry


do que deixar seus alunos fazerem jogos durante a aula. Contemplando a turma
com um ar malvado, informou-a de que aplicaria um teste sobre antídotos a
venenos na última aula do trimestre.
- Perverso é o que ele é - disse Rony, com amargura, àquela noite na sala
comunal da Grifinória. - Dar um teste no último dia. Estragar o finalzinho do
trimestre com um monte de revisões.
- Hum... mas não se pode dizer que você esteja se matando de estudar,
não é? ­ comentou Hermione, olhando para o garoto por cima dos seus
apontamentos sobre Poções. Rony estava entretido construindo um castelo de
cartas com o baralho de Snap Explosivo, um passatempo muito mais interessante
do que o que se faz com o baralho dos trouxas, dada a possibilidade da coisa toda
explodir a qualquer instante.
- É Natal, Hermione disse Harry cheio de preguiça, o garoto estava relendo
Voando com os Cannons, pela décima vez, numa poltrona ao lado da lareira.
Hermione lhe lançou, também, um olhar severo.
- Pensei que você estaria fazendo alguma coisa construtiva, Harry, mesmo
que não queira aprender os antídotos!
- Como o quê? - perguntou Harry, enquanto acompanhava Joey Jenkins
dos Cannons rebater violentamente um balaço contra o artilheiro do Ballycastle
Bats.
- Aquele ovo! - sibilou Hermione.
- Ah, vai, Hermione, tenho até o dia vinte e quatro de fevereiro - respondeu
o garoto.
Harry guardara o ovo de ouro em seu malão no dormitório e não o abrira
desde a festa de comemoração da primeira tarefa. Afinal, ainda faltavam dois
meses até que lhe exigissem o significado daquele grito de agouro.
- Mas pode levar semanas para você chegar a uma conclusão! Você vai
parecer um perfeito idiota se os outros campeões souberem a resposta para a
próxima tarefa e você não.
- Deixa ele em paz, Mione, ele conquistou o direito de tirar uma folga - disse
Rony enquanto colocava as duas últimas cartas no topo do castelo e a coisa toda
explodia chamuscando suas sobrancelhas.
- Ficou legal, Rony... vai combinar bem com as suas vestes a rigor, ah, isso
vai. Eram Fred e Jorge. Sentaram-se à mesa com os três garotos enquanto Rony
apalpava o rosto para avaliar o estrago.
- Rony, podemos pedir Pichitinho emprestado? ­ perguntou Jorge.
- Não, ele está fora entregando uma carta. Por quê?
- Porque Jorge quer convidar sua coruja para ir ao baile - disse Fred
sarcasticamente.
- Porque nós gostaríamos de mandar uma carta, seu panacão - disse Jorge.
- Para quem é que você tanto escreve, hein? - perguntou Rony.
- Não mete o nariz, Rony, ou vou queimar ele para você, também - disse
Fred, acenando a varinha num gesto de ameaça. - Então... vocês já arranjaram
par para o baile?
- Não - respondeu Rony.
- Então é melhor andarem depressa, companheiros, ou todas as garotas
legais vão estar ocupadas - disse Fred.


- Com quem é que vocês vão, então?
- Angelina - disse Fred prontamente, sem o menor constrangimento.
- Quê? - disse Rony espantado. - Você já a convidou?
- Bem lembrado - disse Fred. E virando a cabeça gritou para o outro
extremo da sala comunal: - Oi! Angelina!
Angelina, que estava conversando com Alicia Spinnet perto da lareira, olhou
para o garoto.
- Que foi? - perguntou em resposta.
- Quer ir ao baile comigo?
Angelina lançou um olhar a Fred como se o avaliasse.
- Tudo bem - disse ela e tornou a se virar para Alicia para retomar a
conversa, com um sorrisinho no rosto.
- Pronto - disse Fred a Harry e Rony -, moleza.
Levantou-se, então, se espreguiçou e disse:
- É melhor usarmos uma coruja da escola, então, Jorge, vamos...
Os dois saíram. Rony parou de apalpar as sobrancelhas e olhou para Harry
por cima dos restos fumegantes do seu castelo de cartas.
- A gente devia começar a se mexer, sabe... convidar alguém. Ele tem
razão. Não queremos acabar com um par de trasgos.
Hermione deixou escapar uma exclamação de indignação.
- Com licença... um par do quê?
- Bom... sabe - respondeu Rony, encolhendo os ombros -, eu prefiro ir
sozinho do que com... com Heloisa Midgeon, digamos.
- A acne dela melhorou à beça ultimamente, e ela é bem legal!
- Tem o nariz fora de esquadro.
- Ah, entendo - disse Hermione, encrespando. - Então, basicamente, você
vai levar a garota mais bonita que aceitar você, mesmo que ela seja
completamente intragável?
- Hum... é, é por aí - disse Rony.
- Eu vou dormir - retorquiu Hermione e saiu num repelão em direção à
escada para o dormitório das garotas, sem dizer mais nada.
Os funcionários de Hogwarts, demonstrando um constante interesse em
impressionar os visitantes de Beauxbatons e Durmstrang pareciam decididos a
mostrar o castelo em sua melhor forma neste Natal.
Quando armaram as decorações, Harry reparou que eram as mais
fantásticas que ele já vira no interior da escola. Pingentes de gelo perene tinham
sido presos nos balaústres da escadaria de mármore, as doze árvores de Natal
que sempre eram montadas no Salão Principal estavam enfeitadas com tudo,
desde frutinhas vermelhas luminosas até corujas douradas vivas que piavam, e as
armaduras tinham sido enfeitiçadas para cantar canções tradicionais de Natal
quando alguém passasse por elas. Era impressionante ouvir "O vinde adoremos"
cantado por um elmo vazio que só sabia metade da letra.
Várias vezes, Filch, o zelador, teve que retirar Pirraça de dentro da
armadura, onde ele pegara a mania de se esconder, preenchendo as lacunas das
canções com palavras de sua própria invenção, todas muito grosseiras.
E Harry ainda não convidara Cho para o baile. Ele e Rony estavam ficando
muito nervosos agora, embora Harry lembrasse que o amigo pareceria muito


menos idiota sem par do que ele, Harry teria que abrir o baile com os outros
campeões.
- Imagino que sempre tem a Murta Que Geme - disse Harry desanimado,
referindo-se ao fantasma que assombrava o banheiro das garotas no segundo
andar.
- Harry, a gente só tem que cerrar os dentes e mandar ver - disse Rony na
sexta-feira pela manhã, num tom que sugeria que os dois estavam planejando
tomar de assalto uma fortaleza inexpugnável. - Quando voltarmos ao salão
comunal hoje à noite, teremos arranjado dois pares, topa?
- Hum... OK - disse Harry.
Mas todas as vezes que ele viu Cho naquele dia - no intervalo das aulas,
depois do almoço, e uma vez a caminho da aula de História da Magia - ela estava
cercada de amigas. Será que a garota nunca ia a lugar algum sozinha? Será que
ele talvez pudesse surpreendê-la quando estivesse entrando no banheiro?
Mas não ­ parecia até que ela entrava ali também com um séqüito de
quatro ou cinco colegas. Contudo, se ele não a convidasse logo, quando o fizesse
ela já teria sido convidada por outro.
Harry achou difícil se concentrar no teste de Snape sobre antídotos e, em
conseqüência, esqueceu de acrescentar um ingrediente básico - o benzoar -, o
que significou que recebeu uma nota baixa. Mas ele não se incomodou, estava
ocupado demais reunindo coragem para o que pretendia fazer. Quando a sineta
tocou, ele agarrou a mochila e correu para a porta da masmorra.
- Encontro vocês na hora do jantar - disse a Rony e Hermione, e saiu
correndo escada acima. Teria que pedir a Cho uma palavrinha em particular, só
isso... assim, saiu apressado pelos corredores apinhados procurando a garota e
encontrou-a (mais cedo do que esperava), saindo da aula de Defesa contra as
Artes das Trevas.
- Hum... Cho? Posso dar uma palavrinha com você?
Risadinhas deviam ser proibidas por lei, pensou Harry furioso, quando as
garotas à volta de Cho começaram a rir. Mas ela não. Respondeu:
- OK - e acompanhou-o até ficarem fora do alcance dos ouvidos das
colegas. Harry virou-se para olhá-la e seu estômago afundou de um jeito esquisito,
como se ele tivesse descido dois degraus de uma vez, sem querer.
- Hum - começou ele.
Não podia convidá-la. Não podia. Mas tinha que convidá-la.
Cho ficou parada ali com uma expressão intrigada, olhando para ele. As
palavras saíram antes que Harry conseguisse tirar a língua do caminho.
- Quer ir ao baile comigo?
- Desculpe, não ouvi - disse Cho.
- Você quer... você quer ir ao baile comigo? - disse Harry. Por que tinha que
ficar vermelho justamente agora? Por quê?
- Ah! - exclamou Cho, corando também. - Ah, Harry, sinceramente sinto
muito - e seu rosto parecia confirmar isso. - Eu já disse que iria com outro garoto.
- Ah - disse Harry.
Era estranho, um momento antes suas entranhas estavam revirando como
cobras, mas de repente ele parecia não ter mais entranhas.
-Ah, OK, não faz mal.


- Sinto muito mesmo - repetiu a garota.
- Tudo bem.
Eles ficaram ali parados se olhando, então Cho disse:
- Bom...
-É - disse ele.
- Então, tchau - disse a garota ainda muito vermelha. E se afastou.
Harry chamou-a antes que pudesse se conter.
- Com quem é que você vai?
- Ah... Cedrico. Cedrico Diggory.
- Ah, certo.
As entranhas dele tinham voltado ao lugar. Pareciam ter-se enchido de
chumbo durante a ausência. Esquecendo-se completamente do jantar, ele subiu
devagarinho a escada para a Torre da Grifinória. A voz de Cho ecoava em seus
ouvidos a cada passo. "Cedrico... Cedrico Diggory". Harry tinha até começado a
gostar de Cedrico - se dispusera a esquecer o fato de que o garoto o derrotara no
quadribol, e era bonito e popular, e era praticamente o campeão favorito da
escola. Agora, de repente, ele se dava conta de que Cedrico era na realidade um
garoto bonito e inútil que não tinha cérebro suficiente para encher um oveiro.
- Luzes encantadas - disse secamente à Mulher Gorda, a senha fora
trocada na véspera.
- Com certeza, meu querido! - chilreou ela, acertando a faixa de lantejoulas
nos cabelos ao girar para a frente para admitir o garoto.
Ao entrar na sala comunal, Harry correu os olhos pelo aposento, e para sua
surpresa, viu Rony sentado, de rosto branco, num canto distante. Gina estava ao
seu lado conversando, aparentemente numa voz baixa de quem consola.
- Que aconteceu, Rony? - perguntou Harry se juntando aos dois.
Rony ergueu os olhos para Harry, uma expressão de horror no rosto.
- Por que fiz aquilo? - perguntou ele enlouquecido. - Não sei o que me
obrigou a fazer aquilo!
- O quê?
- Ele... hum... convidou Fleur Delacour para ir ao baile - disse Gina. Parecia
que estava fazendo força para não rir, mas continuou a dar palmadinhas no braço
de Rony, demonstrando sua solidariedade.
-Você o quê?
- Não sei o que me obrigou a fazer aquilo! - exclamou Rony outra vez. -
Quem é que eu estava fingindo que era? Havia gente, a toda volta, fiquei maluco,
todo mundo olhando! Eu estava passando por ela no saguão de entrada, Fleur
estava parada conversando com Diggory, e uma coisa parece que se apoderou de
mim, e convidei!
Rony gemeu e enterrou o rosto nas mãos. Ele não parava de falar embora
fosse difícil distinguir o que dizia.
- A garota olhou para mim como se eu fosse um verme ou coisa parecida.
Nem me respondeu. E então... não sei... parece que recuperei o juízo e me
mandei dali.
- Ela é parte veela - disse Harry. - Você tinha razão, a avó dela era veela.
Não foi sua culpa, aposto como você passou na hora em que ela estava jogando


charme para Diggory e você foi atingido, mas ela está perdendo tempo. Ele vai
levar Cho.
Rony levantou a cabeça.
- Eu acabei de convidá-la para ir comigo - disse Harry sem emoção -, e ela
me contou.
Gina de repente parara de sorrir.
- Isso é uma piração - disse Rony -, somos os únicos que não têm ninguém,
bem, tirando o Neville. Ei, adivinha quem ele convidou? Mione!
- Quê! - exclamou Harry, completamente distraído pela surpreendente
notícia.
- É, eu sei! - disse Rony, um pouco de cor voltando ao seu rosto quando ele
começou a rir. - Neville me contou depois da aula de Poções! Disse que ela
sempre foi muito legal, que o ajudava nos estudos, mas Mione falou que já estava
indo com alguém. Ha! Como se fosse! Ela só não queria ir com o Neville... quero
dizer, quem iria querer?
- Não! - disse Gina aborrecida. - Não ria...
Naquele instante Hermione vinha passando pelo buraco do retrato.
- Por que vocês dois não foram jantar? - perguntou ela, vindo se reunir ao
grupo.
- Porque... ah, parem de rir, vocês dois... porque as garotas que eles
convidaram acabaram de recusar o convite! - disse Gina.
Isso fez os dois calarem a boca.
- Obrigado, Gina - disse Rony azedo.
- Todas as garotas bonitas já estão ocupadas, Rony? - perguntou Hermione
com um ar superior. - A Heloisa Midgen está começando a parecer bem bonita,
agora, não está não? Bem, tenho certeza de que vocês vão encontrar em algum
lugar alguém que queira vocês.
Mas Rony estava encarando Hermione como se, de repente, a visse sob
uma luz totalmente nova.
- Hermione, Neville tem razão, você é uma garota...
- Bem observado - respondeu ela com azedume.
- Então... você poderia acompanhar um de nós!
- Não, não poderia - retorquiu Hermione.
- Ah, vai - disse ele impaciente -, precisamos de pares, vamos fazer um
papel realmente idiota se não tivermos nenhum, todos os outros têm...
- Não posso ir com vocês - disse Hermione, agora corando -, porque já
estou indo com uma pessoa.
- Não, não está! - disse Rony. - Você só disse isso para se livrar de Neville!
- Ah, foi? - Os olhos de Hermione faiscaram perigosamente. - Só porque
você levou três anos para reparar, Rony, não significa que mais ninguém tenha
percebido que eu sou uma garota!
Rony arregalou os olhos para ela. Depois tornou a sorrir.
- OK, OK, sabemos que você é uma garota. Satisfeita? Você vai com a
gente agora?
- Eu já falei! - disse Hermione muito zangada. - Estou indo com outra
pessoa!
E saiu decidida em direção à escada para o dormitório das garotas.


- Ela está mentindo - sentenciou Rony, acompanhando-a com o olhar.
- Não está, não - disse Gina baixinho.
- Quem é a pessoa, então?
- Não vou dizer, não é da sua conta.
- Certo - disse ele, que parecia ofendido -, essa história está ficando idiota.
Gina você pode ir com o Harry e eu vou...
- Não posso - respondeu Gina, e ela ficou vermelha também.
- Estou indo com... com Neville. Ele me convidou quando Hermione disse
não e eu achei... bem... de outro jeito eu não poderia ir, não estou no quarto ano. -
Ela parecia infelicíssima. - Acho que vou descer para jantar - e dizendo isso, se
levantou e saiu pelo buraco do retrato, de cabeça baixa.
Rony ficou olhando abobado para Harry.
- Que será que deu nelas? - perguntou.
Mas Harry acabara de ver Parvati e Lilá entrando pelo buraco do retrato.
Chegara a hora de tomar atitudes drásticas.
- Espere aqui - disse ele a Rony, se levantou, saiu numa linha reta até
Parvati e disse:
- Parvati? Quer ir ao baile comigo?
Parvati teve um acesso de risinhos. Harry esperou que ela terminasse, os
dedos cruzados dentro do bolso das vestes.
- Tudo bem - disse por fim a garota, corando furiosamente.
- Obrigado - disse Harry, aliviado. - Lilá, você quer ir com o Rony?
- Ela vai com o Simas - respondeu Parvati e as duas tiveram outro acesso
de risinhos ainda mais forte.
Harry suspirou.
- Sabem de alguém que pudesse ir com o Rony? - disse ele, baixando a voz
de modo que o amigo não o ouvisse.
- Que tal a Hermione Granger? - sugeriu Parvati.
- Ela está indo com outra pessoa.
A garota fez cara de espanto.
- Aaaah... quem? - perguntou interessada.
Harry encolheu os ombros.
- Não faço idéia. Então, e o Rony?
- Bem... - disse Parvati lentamente. - Imagino que minha irmã talvez...
Padma, sabe... da Corvinal. Eu pergunto a ela se você quiser.
- Quero, seria ótimo. Me avisa, está bem?
E ele voltou para onde Rony estava, com a sensação de que esse tal baile
dava muito mais trabalho do que merecia, e desejou que o nariz de Padma Patil
fosse bem centrado no rosto.


- CAPITULO VINTE E TRÊS -
O Baile de Inverno

Apesar da pesada carga de deveres de casa que os alunos do quarto ano
tinham recebido para as férias, Harry não estava com a menor vontade de estudar
quando o trimestre terminou, e passou a semana que antecedeu o Natal
divertindo-se o máximo possível como todos os outros alunos. A Torre da
Grifinória não parecia mais vazia agora do que estivera durante o tempo de aulas,
parecia até ter encolhido ligeiramente, porque seus moradores estavam muito
mais barulhentos do que o normal.
Fred e Jorge fizeram grande sucesso com os seus Cremes de Canário e,
nos primeiros dois dias de férias, as pessoas não paravam de explodir em penas
por todo o lado. Não tardou muito, porém, todos os alunos da Grifinória
aprenderam a olhar a comida que outras pessoas ofereciam com extrema cautela,
para a eventualidade de ter Creme de Canário escondido no meio e Jorge
confidenciou a Harry que ele e Fred agora estavam trabalhando em outra
invenção.
Harry fez uma anotação mental para, no futuro, jamais aceitar sequer uma
batata frita de Fred e Jorge. Ele ainda não esquecera Duda e o Caramelo Incha-
Língua.
Caía muita neve sobre o castelo e seus terrenos agora. A carruagem azul-
clara da Beauxbatons parecia uma enorme abóbora coberta de gelo ao lado da
casinha de bolo glaçado que era a cabana de Hagrid, enquanto as escotilhas do
navio de Durmstrang estavam foscas e o cordame branco de gelo. Os elfos
domésticos na cozinha se desdobravam para preparar pratos nutritivos,
ensopados que aqueciam e sobremesas deliciosas, e somente Fleur Delacor
parecia ser capaz de encontrar de que reclamar.
- É pesada demais, essa comida de Ogwarts - ouviram-na reclamar mal-
humorada, quando, certa noite, deixavam a Salão Principal atrás dela (Rony
escondendo-se atrás de Harry, cuidando para não ser visto por Fleur). - Não vou
caberr nas minhas vestes de baile!
- Aaah, mas que tragédia - comentou Hermione na hora em que Fleur ia
chegando ao saguão de entrada. - Ela realmente se acha muito importante, essa
aí, não é?
- Hermione, com quem você vai ao baile? - perguntou Rony.
O garoto não parava de assediá-la com essa pergunta, na esperança de
fazê-la responder sem querer ao ser perguntada quando menos esperasse. No
entanto, Hermione meramente franzia a testa e dizia:
- Não vou lhe contar porque você iria caçoar de mim.
- Você está brincando, Weasley? - disse Malfoy às costas deles. - Você
está dizendo que alguém convidou isso para ir ao baile? Não foi o sangue-ruim de
molares compridos, foi?
Harry e Rony se viraram na mesma hora, mas Hermione disse em voz alta,
acenando para alguém por cima do ombro de Malfoy:
- Olá, Prof. Moody!
Malfoy ficou pálido e pulou para trás, procurando Moody com um olhar
alucinado, mas o professor ainda estava à mesa, terminando seu ensopado.


- Que doninha nervosinha você é, hein? - comentou Hermione
demonstrando desprezo, e ela, Rony e Harry subiram a escadaria de mármore
dando boas risadas.
- Hermione - disse Rony, olhando para ela de esguelha e, de repente,
franzindo a testa -, os seus dentes...
- Que têm eles?
- Bem, estão diferentes... acabei de notar...
- Claro que estão, você esperava que eu ficasse com aquelas presas que
Malfoy me deu?
- Não, quero dizer, eles estão diferentes do que eram antes de ele lançar o
feitiço em você... estão... retos e... do tamanho normal.
Hermione de repente sorriu muito travessamente, e Harry também reparou:
era um sorriso diferente do que ele lembrava.
- Bem... quando fui procurar Madame Pomfrey para consertar os dentes, ela
segurou um espelho e me disse para mandar ela parar quando os dentes
voltassem ao tamanho normal. E eu deixei ela demorar um pouco mais. -
Hermione deu um sorriso ainda maior.
- Papai e mamãe não vão ficar muito satisfeitos. Estou tentando convencer
os dois a me deixar reduzir os dentes há séculos, mas eles queriam que eu
continuasse com o aparelho. Sabe, eles são dentistas, daí acharem que dentes e
magia não devem... olhem lá! Pichitinho voltou!
A corujinha de Rony piava feito louca no alto da balaustrada enfeitada de
pingentes de gelo, um rolo de pergaminho amarrado à perna. As pessoas que
passavam apontavam e riam, e um grupo de alunas do terceiro ano parou para
comentar: "Ah, olha só que corujinha mínima! Não é uma gracinha?"
- Seu penoso babaca! - sibilou Rony correndo escada acima e agarrando
Pichitinho. ­ Você entrega as cartas direto ao destinatário! Não fica por aí se
exibindo! Pichitinho piou alegremente, a cabeça espichando por cima da mão
fechada de Rony. As garotas do terceiro ano pareceram muito chocadas.
- Caiam fora! - disse Rony rispidamente, sacudindo a mão que segurava a
coruja, que piou ainda mais alegremente ao sair voando pelos ares. - Aqui, toma,
Harry - acrescentou Rony em voz baixa, enquanto as garotas saíam correndo com
o ar escandalizado. Ele puxou a resposta da perna de Pichitinho, Harry embolsou-
a e os três correram a lê-la na Torre da Grifinória.
Todos na sala comunal estavam demasiado ocupados extravasando a
agitação das férias para observar o que alguém mais estivesse fazendo. Harry,
Rony e Hermione se sentaram afastados dos colegas, junto a uma janela escura
que lentamente se cobria de neve e Harry leu em voz alta.

"Caro Harry,
Parabéns por conseguir passar pelo Rabo-Córneo, quem pôs o seu nome naquele
cálice não deve estar se sentindo muito feliz no momento! Eu ia sugerir um Feitiço
Conjunctivitus, porque os olhos do dragão são o seu ponto mais fraco...

- Foi o que Krum usou! - murmurou Hermione.

Mas do seu jeito foi melhor, estou impressionado.


Porém, não fique se sentindo muito satisfeito consigo mesmo, Harry. Você só deu
conta de uma tarefa, quem o inscreveu no torneio vai ter muitas outras
oportunidades se quer realmente lhe fazer mal.
Mantenha os olhos abertos - particularmente quando a pessoa de quem já falamos
estiver por perto - e se concentre em não se meter em confusões.
Mande notícias, contínuo querendo saber de qualquer coisa anormal.
Sirius"

- Ele está falando exatamente a mesma coisa que Moody - disse Harry em
voz baixa, guardando a carta dentro das vestes. - "Vigilância constante!" Parece
até que eu ando por aí com os olhos fechados, ricocheteando nas paredes...
- Mas ele tem razão, Harry - disse Hermione -, você ainda tem duas tarefas
a cumprir. Devia realmente dar uma olhada naquele ovo, sabe, e começar a
estudar o que significa...
- Hermione, ainda faltam séculos! - disse Rony com rispidez.
- Quer jogar uma partida de xadrez, Harry?
- OK - disse Harry. Depois, vendo a expressão de Hermione. - Vamos,
como é que vou me concentrar nessa barulheira? Não vou conseguir nem ouvir o
ovo com essa turma berrando.
- Ah, imagino que não - suspirou ela, se sentando para assistir à partida,
que terminou num excitante xeque-mate de Rony, envolvendo dois peões
corajosos mas imprudentes e um bispo muito violento.
Harry acordou, de repente, na manhã de Natal. Imaginando o que teria
causado o seu abrupto retorno à consciência, ele abriu os olhos e viu uma coisa
de olhos muito grandes, verdes e redondos que o encarava na escuridão, tão
próximo que a coisa e ele estavam quase nariz contra nariz.
- Dobby!- berrou Harry, afastando-se do elfo tão depressa que quase caiu
da cama. - Não faz isso!
- Dobby sente muito, meu senhor! - esganiçou-se o elfo com a voz cheia de
ansiedade, saltando pra trás com os longos dedos cobrindo a boca. ­ Dobby só
está querendo desejar a Harry Potter "Feliz Natal" e lhe trazer um presente, meu
senhor! Harry Potter disse que Dobby podia vir vê-lo um dia desses, meu senhor!
- Tudo bem - disse Harry, ainda respirando muito acelerado, enquanto seu
coração voltava ao normal. - Da próxima vez é só me cutucar ou outra coisa
assim, não se debruça sobre mim desse jeito...
Harry afastou as cortinas da cama, apanhou os óculos na mesa de
cabeceira e colocou-os. Seu berro acordara Rony, Simas, Dino e Neville. Os
quatro estavam espiando entre as cortinas de suas camas, as pálpebras pesadas
e os cabelos desmanchados.
- Alguém está atacando você, Harry? - perguntou Simas sonolento.
- Não, é só o Dobby - resmungou Harry. - Pode voltar a dormir.
- Ah... presentes! - exclamou Simas, vendo a montanha aos pés de sua
cama.
Rony, Dino e Neville resolveram que, uma vez que estavam acordados, era
melhor começarem a abrir os presentes, também. Harry se voltou para Dobby, que
agora estava de pé, nervoso, ao lado de sua cama, ainda com o ar preocupado


por ter perturbado o garoto. Havia um enfeite de Natal preso à argola do seu
abafador.
- Dobby pode dar o presente dele a Harry Potter? - perguntou ele hesitante.
- Claro que pode. Hum... também tenho uma coisinha para você.
Era mentira; não comprara nada para Dobby, mas abriu depressa o seu
malão e tirou um par de meias enrolado, e particularmente cheias de bolotinhas.
Eram suas meias mais velhas e piores, amarelo-mostarda e, tempos atrás, tinham
pertencido ao tio Valter. A razão por que estavam tão emboloradas é que Harry as
usava para embrulhar o bisbilhoscópio. Ele desembrulhou o objeto e entregou as
meias a Dobby, dizendo:
- Desculpe, me esqueci de embrulhar...
Mas Dobby ficou absolutamente encantado.
- As meias são as peças favoritas, favoritas mesmo, de Dobby, meu senhor!
­ disse o elfo rasgando as meias velhas que calçava e pondo as do tio Valter.
- Agora tenho sete, meu senhor... mas, meu senhor... - disse ele
arregalando os olhos, depois de puxar as meias até onde pôde, de modo que elas
chegaram à bainha dos seus shorts - eles se enganaram na loja, Harry Potter, lhe
venderam duas meias iguais!
- Ah, não, Harry, como foi que você não viu isso! - exclamou Rony, rindo lá
de sua cama, que agora estava juncada de papel de embrulho. - Vou dizer o que
vou fazer, Dobby, aqui, tome mais duas e você pode combiná-las como deve ser.
E aqui está seu suéter.
O garoto atirou para Dobby um par de meias roxas que acabara de
desembrulhar e o suéter tricotado à mão que a Sra. Weasley lhe mandara.
Dobby não coube em si de contentamento.
- Meu senhor, o senhor é muito bondoso! - guinchou ele com os olhos
transbordantes de lágrimas, fazendo profundas reverências para Rony. - Dobby
sabia que o senhor devia ser um grande bruxo, porque é o maior amigo de Harry
Potter, mas Dobby não sabia que também era tão grande em generosidade de
alma, tão nobre, tão sem egoísmo...
- São apenas meias - disse Rony, cujas orelhas coraram ligeiramente,
embora ele parecesse muito satisfeito. - Uau, Harry - ele acabara de abrir o
presente de Harry, um boné do Chudley Cannon. - Maneiro! - Enfiou o boné na
cabeça, onde a cor se chocou violentamente com os seus cabelos.
Dobby em seguida entregou um pacotinho a Harry, que continha nada
menos que... meias.
- Dobby fez elas com as próprias mãos, meu senhor! - disse o elfo
alegremente. - Comprou a lã com o ordenado dele, meu senhor!
A meia esquerda era vermelho-berrante e tinha uns desenhos de
vassouras, a direita era verde, com um desenho de nós.
- Elas são... elas são realmente... ah, muito obrigado, Dobby - disse Harry e
calçou-as, fazendo os olhos de Dobby marejarem novamente de felicidade.
- Dobby precisa ir agora, meu senhor, já estamos preparando o almoço de
Natal na cozinha! ­ E saiu apressado do dormitório, acenando um adeus para
Rony e os outros garotos ao passar.
Os outros presentes de Harry foram muito mais satisfatórios do que as
meias desparelhadas de Dobby - com exceção óbvia do presente dos Dursley,


que consistia em uma única folha de papel absorvente, o mais pobre que já
recebera, Harry supôs que eles, também, deviam estar se lembrando do Caramelo
Incha-Língua.
Hermione dera a Harry um livro intitulado Os times de quadribol da Grã-
Bretanha e da Irlanda, Rony, uma grande sacola de bombas de bosta, Sirius, um
canivete maneiro com acessórios para abrir qualquer porta e desfazer qualquer nó
e Hagrid, uma enorme caixa de doces com todos os que Harry mais gostava -
Feijõezinhos de Todos os Sabores Bertie Botts, Sapos de Chocolate, Chicles de
Baba-Bola e Delícias Gasosas. Ganhara, também, é claro, o pacote habitual da
Sra. Weasley, incluindo um novo suéter (verde com a estampa de um dragão -
Harry imaginou que Carlinhos lhe contara tudo sobre o Rabo-Córneo) e uma
grande quantidade de tortas caseiras de frutas secas.
Harry e Rony se encontraram com Hermione na sala comunal e desceram
juntos para tomar o café da manhã. Os três passaram a maior parte da manhã na
Torre da Grifinória, onde todos se divertiam com os presentes recebidos, depois
voltaram ao Salão Principal para um almoço magnífico, que incluía no mínimo uns
cem perus e pudins de Natal e montanhas de Bolachas Mágicas de Cribbage.
Os garotos saíram para os jardins à tarde, a neve estava intocada, exceto
pelas valas fundas feitas pelos estudantes de Durmstrang e Beauxbatons a
caminho do castelo. Hermione preferiu assistir à batalha de bolas de neve de
Harry com os Weasley, em vez de tomar parte nela e, às cinco horas, disse que ia
subir para se preparar para o baile.
- Quê, você precisa de três horas? - perguntou Rony, olhando para ela
incrédulo e pagando por esse lapso de concentração: uma enorme bola, atirada
por Jorge, atingiu-o com força do lado da cabeça. - Com quem é que você vai? -
gritou ele para Hermione, mas a garota apenas acenou e desapareceu pela
escada de acesso ao castelo.
Não houve o chá de Natal àquela tarde porque o baile incluía um banquete,
de modo que às sete horas, quando ficou difícil fazer pontaria direito, os garotos
abandonaram a batalha de bolas de neve e marcharam de volta ao salão comunal.
A Mulher Gorda estava sentada em sua moldura com a amiga Violeta do andar de
baixo, as duas extremamente tontas, caixas vazias de bombons recheados de
licor amontoadas sob o quadro.
- Lutas de Covil é isso aí! - riu-se ela quando os garotos disseram a senha,
e ela girou o quadro para a frente para deixá-los passar.
Harry, Rony, Simas, Dino e Neville trocaram a roupa por vestes a rigor no
dormitório, todos se sentindo muito constrangidos, mas nenhum tanto quanto
Rony, que se examinou no comprido espelho a um canto, com cara de desgosto.
Não havia como contornar o fato de que as vestes dele pareciam mais um vestido
do que qualquer outra coisa. Numa tentativa desesperada de fazê-las parecer
mais masculinas, ele usou um Feitiço de Corte nos babados do decote e das
mangas. Funcionou bastante bem, pelo menos se livrara das rendas, embora não
tivesse feito um trabalho muito caprichado, e as barras ainda parecessem
lastimavelmente esfiapadas quando eles desceram.
- Eu ainda não consigo entender como foi que vocês dois ficaram com as
garotas mais bonitas do ano - murmurou Dino.


- Magnetismo animal - disse Rony deprimido, puxando fiapos das bainhas
dos punhos.
O salão comunal estava com um ar estranho, cheio de gente usando
diferentes cores em lugar da massa negra de sempre. Parvati esperava Harry ao
pé da escada. Estava realmente muito bonita, com vestes rosa-choque, sua longa
trança negra entrelaçada com ouro e pulseiras de ouro reluzindo nos braços.
Harry se sentiu aliviado de ver que ela não estava dando risadinhas.
- Você... hum... está bonita - disse ele sem jeito.
- Obrigada. Padma vai se encontrar com você no saguão de entrada ­
acrescentou para Rony.
- Certo - disse Rony, olhando à volta. - Cadê Hermione?
Parvati deu de ombros.
- Vamos descer, então, Harry?
- OK- concordou o menino, desejando poder continuar no salão comunal.
Fred piscou para ele ao passar pelo buraco do retrato.
O saguão de entrada também estava apinhado de estudantes, todos
andando por ali à espera de que dessem oito horas, quando as portas para o
Salão Principal seriam abertas. As pessoas que iam encontrar pares de outras
Casas procuravam atravessar a aglomeração, tentando localizar uns aos outros.
Parvati encontrou a irmã Padma e levou-a até Harry e Rony.
- Oi - cumprimentou Padma, que estava tão bonita quanto Parvati, de
vestes turquesa-forte. Mas não parecia muito entusiasmada com a idéia de ter
Rony como par, seus olhos escuros se demoraram nas mangas e no decote
esfiapados das vestes do garoto quando o examinou de alto a baixo.
- Oi - disse Rony sem olhar para ela, mas espiando os convidados. - Ah,
não...
Ele dobrou ligeiramente os joelhos para se esconder atrás de Harry, porque
Fleur Delacour ia passando, absolutamente fantástica com suas vestes de cetim
cinza-prateado, acompanhada pelo capitão do time de quadribol da Corvinal,
Rogério Davies. Quando os dois desapareceram, Rony se endireitou e ficou
examinando as cabeças das pessoas que estavam de costas.
- Cadê a Hermione? - indagou outra vez.
Um grupo de alunos da Sonserina vinha subindo as escadas do seu salão
comunal na masmorra.
Malfoy à frente; usava vestes de veludo negro com a gola alta, que na
opinião de Harry o faziam parecer um padre. Pansy Parkinson estava agarrada ao
braço de Malfoy, com vestes rosa-claro cheias de babadinhos. Crabbe e Goyle
vinham de verde, pareciam pedregulhos cobertos de limo e nenhum dos dois,
Harry ficou satisfeito de constatar, conseguira encontrar um par.
As portas de carvalho da entrada se abriram e todos se viraram para olhar
os alunos de Durmstrang entrarem com o Prof. Karkaroff. Krum vinha à frente da
delegação, acompanhado por uma garota bonita, de vestes azuis, que Harry não
conhecia.
Por cima das cabeças do grupo, ele viu que a área do gramado logo à
entrada do castelo fora transformada em uma espécie de gruta cheia de luzes
encantadas - ou seja, centenas de fadinhas vivas encontravam-se sentadas nas


roseiras que tinham sido conjuradas ali e esvoaçavam sobre as estátuas que
pareciam representar Papai Noel e suas renas.
Então a voz da Profª Minerva McGonagall chamou:
- Campeões aqui, por favor!
Parvati ajeitou as franjas, sorridente, ela e Harry disseram "Vemos vocês
daqui a pouco", para Rony e Padma, e se adiantaram, a aglomeração de pessoas
que conversavam se abriu para deixá-los passar. A professora, que trajava vestes
a rigor de tartan vermelho, e enfeitara a aba do chapéu com uma guirlanda bem
feiosa de cardos - a flor nacional da Escócia -, mandou-os esperar a um lado das
portas, enquanto os demais entravam. Eles deviam entrar no Salão Principal em
cortejo, quando os outros estudantes se sentassem. Fleur Delacour e Rogério
Davies pararam mais próximos às portas. Davies parecia tão aturdido com a sua
sorte de ter Fleur como par que mal conseguia desgrudar os olhos dela.
Cedrico e Cho ficaram ao lado de Harry, o garoto desviou o olhar para não
precisar conversar com eles. Em lugar disso, seu olhar recaiu sobre a garota ao
lado de Krum. Seu queixo caiu.
Era Hermione.
Mas ela não parecia nadinha com a Hermione. Fizera alguma coisa com os
cabelos, não estavam mais lanzudos, mas lisos e brilhantes e enrolados num
elegante nó na nuca. Estava usando vestes feitas de um tecido etéreo azul-
pervinca, e tinha uma postura um tanto diferente - ou talvez fosse meramente a
ausência dos vinte e tantos livros que ela normalmente carregava às costas. E
sorria - um sorriso um pouco nervoso, era verdade - mas a redução no tamanho
dos dentes da frente era mais visível que nunca.
Harry não conseguia compreender como não a vira antes.
- Oi, Harry! - disse ela. - Oi, Parvati!
Parvati mirava Hermione com depreciativa incredulidade. E não era a única,
tampouco, quando as portas do Salão Principal se abriram, o fã-clube de Krum
que fazia ponto na biblioteca passou, lançando a Hermione olhares de profundo
desprezo. Pansy Parkinson boquiabriu-se ao passar com Malfoy, e mesmo ele não
pareceu capaz de encontrar uma ofensa para atirar a Hermione. Rony, porém,
passou direto por ela sem sequer olhar.
Depois que estavam todos sentados no salão, a Profª Minerva mandou os
campeões e seus pares formarem um cortejo, de dois em dois, e a seguiram. Os
garotos obedeceram e todos no salão aplaudiram, quando eles entraram e se
dirigiram a uma grande mesa redonda no fundo do salão, onde estavam sentados
os juizes.
As paredes do salão estavam cobertas de gelo prateado e cintilante, com
centenas de guirlandas de visco e azevinho cruzando o teto escuro salpicado de
estrelas.
As mesas das Casas haviam desaparecido; em lugar delas havia umas cem
mesinhas iluminadas com lanternas, que acomodavam, cada uma, doze pessoas.
Harry se concentrou em não tropeçar nos próprios pés. Parvati parecia
estar se divertindo, sorria radiante para todos, conduzindo Harry com tanta firmeza
que ele teve a sensação de que era um cachorrinho de concurso que ela estava
ensinando a desfilar. Ele avistou Rony e Padma ao se aproximar da mesa


principal. Rony observava Hermione passar com os olhos apertados. Padma
parecia chateada.
Dumbledore sorriu feliz quando os campeões se aproximaram da mesa
principal, mas Karkaroff tinha uma expressão parecidíssima com a de Rony ao ver
Krum e Hermione se aproximarem.
Ludo Bagman, esta noite de vestes roxo-berrante, com grandes estrelas
amarelas, batia palmas com tanto entusiasmo quanto qualquer estudante e
Madame Maxime, que trocara o uniforme costumeiro de cetim negro por um
vestido rodado de seda lilás, os aplaudia educadamente. Mas o Sr. Crouch, Harry
percebeu de súbito, não estava presente. A quinta cadeira à mesa estava ocupada
por Percy Weasley.
Quando os campeões e seus pares chegaram à mesa, Percy puxou uma
cadeira vazia ao seu lado, olhando significativamente para Harry. Harry entendeu
a deixa e se sentou ao lado do garoto, que trajava vestes a rigor azul-marinho,
novíssimas, e exibia uma expressão de grande presunção.
- Fui promovido - disse Percy, antes mesmo que Harry lhe perguntasse e,
pelo seu tom, parecia estar anunciando sua eleição para Supremo Dirigente do
Universo. - Agora sou assistente pessoal do Sr. Crouch, e estou aqui para
representá-lo.
- Por que é que ele não veio? - perguntou Harry. Não se sentia nada
ansioso para passar o jantar ouvindo uma aula sobre o fundo dos caldeirões.
- Receio que o Sr. Crouch não esteja passando bem, nada bem. Não tem
estado bem desde a Copa Mundial. O que não chega a surpreender, excesso de
trabalho. Já não é tão jovem quanto era, embora continue genial, é claro, a cabeça
continua brilhante como sempre foi. Mas a Copa Mundial foi um fiasco para todo o
Ministério, e depois, o Sr. Crouch sofreu um grande choque pessoal com o mau
comportamento do seu elfo doméstico, Blinky, ou sei lá que nome tinha.
Naturalmente ele a dispensou em seguida, mas, bem, como disse, meu chefe está
ficando velho, precisa de alguém para cuidar dele, e acho que seu conforto em
casa sofreu um decidido baque desde que o elfo foi embora. Depois, então,
tivemos que organizar o torneio, e o rescaldo da Copa Mundial para resolver,
aquela nojenta da Skeeter xeretando por toda parte, não, coitado, ele está
passando um tranqüilo e merecido Natal. Só fico satisfeito por ele saber que tem
alguém de confiança para substituí-lo.
Harry teve muita vontade de perguntar se o Sr. Crouch já parara de chamar
Percy de "Wearherby", mas resistiu à tentação. Ainda não havia comida nas
travessas de ouro, apenas pequenos menus diante de cada conviva. Harry
apanhou o dele hesitante e espiou para os lados - não havia garçons.
Dumbledore, no entanto, examinou atentamente o próprio menu, depois ordenou
muito claramente ao seu prato:
- Costeletas de porco!
E as costeletas de porco apareceram. Entendendo a idéia, os demais
ocupantes da mesa também fizeram os pedidos aos seus pratos. Harry olhou para
Hermione a ver o que ela achava desse novo e complicado método de jantar -
certamente significava muito mais trabalho para os elfos domésticos! -, mas, ao
menos uma vez na vida, Hermione não parecia estar pensando no F.A.L.E. Estava


profundamente absorta conversando com Vítor Krum e parecia nem notar o que
estava comendo.
Agora ocorria a Harry que ele nunca chegara a ouvir Krum falar antes, mas
sem dúvida o garoto estava falando agora e, pelo visto, com muito entusiasmo.
- Pom, temos um castelo também, non é ton grrande quanto este, nem ton
conforrtável, acho ­ ia ele dizendo a Hermione. - Temos só quatro andarres, e as
larreirras só são acesas parra finalidades mágicas. Mas a prroprriedade em que
ecstá a escola é ainda maiorr do que esta, emborra no inverrno a gente tenha
muito pouca luz solarr, porr isso não aprroveitamos muito os jarrdins. Mas no
verrão todo o dia sobrrevoamos os lagos e montanhas...
- Ora, ora, Vítor! - disse Karkaroff, com uma risada que não se estendeu
aos seus olhos frios. -. Não vá contar mais nada, agora, ou a nossa encantadora
amiga vai saber exatamente onde nos encontrar!
Dumbledore sorriu, seus olhos cintilando.
- Igor, tanto segredo... a pessoa poderia até pensar que você não quer
visitas.
- Bom, Dumbledore - disse Karkaroff, mostrando os dentes amarelos -,
todos protegemos os nossos domínios, não? Todos não guardamos zelosamente
os templos de saber que nos foram confiados? Não estamos certos em nos
orgulhar de que somente nós conhecemos os segredos de nossas escolas, e,
mais uma vez, certos em protegê-las?
- Ah, eu nunca sonharia em presumir que conheço todos os segredos de
Hogwarts, Igor ­ disse Dumbledore amigavelmente. - Ainda hoje de manhã, por
exemplo, a caminho do banheiro, virei para o lado errado e me vi em um aposento
de belas proporções que eu nunca vira antes, e que continha uma coleção
realmente magnífica de penicos. Quando voltei para investigá-lo mais de perto,
descobri que o aposento desaparecera. Mas preciso ficar atento para reencontrá-
lo. É possível que só esteja acessível às cinco e meia da manhã. Ou talvez só
apareça com a lua em quartil ou quando quem procura está com a bexiga
excepcionalmente cheia.
Harry riu para dentro do prato de gulache. Percy franziu a testa, mas Harry
poderia jurar que Dumbledore lhe dera uma piscadela quase imperceptível.
Entrementes, Fleur Delacour criticava as decorações de Hogwarts com Rogério
Davies.
- Isse non é nada - disse ela contemplando as paredes cintilantes do Salão
Principal com ar de pouco caso. - No Palace de Beauxbatons, tems esculturres de
gelo em volta da sala de jantarr no Natall. eles não derretem, é clarro... parrecem
enorrmes estátues de diamante, faiscande pela sala. E a comida é simplesman
superrbe. E temes corres de ninfes das mates, cantando serrenatas enquanto
comemes. Não temes essas armadurras feies nos corrredorres e se um dia um
polterrgeisr entrrasse em Beauxbatons, serria expulso assim. - E ela bateu a mão
com impaciência na mesa.
Rogério Davies observava a garota falar com uma expressão aturdida no
rosto e a toda hora errava ao levar o garfo à boca. Harry teve a impressão de que
o garoto estava ocupado demais admirando Fleur para escutar uma única palavra
do que ela dizia.


- Absolutamente certa - disse ele depressa, batendo com a própria mão na
mesa como fizera Fleur. - Assim. É claro.
Harry correu os olhos pelo salão. Hagrid estava sentado a uma das mesas
reservadas aos professores, voltara a vestir o seu horrível terno peludo marrom, e
tinha os olhos fixos na mesa principal.
Harry o viu dar um discreto aceno e, ao olhar para os lados, viu Madame
Maxime retribuir o aceno, suas opalas faiscando à luz das velas. Hermione agora
ensinava Krum a pronunciar seu nome corretamente; ele não parava de chamá-la
de Hermy-on.
- Her-mi-o-ne - dizia ela lenta e claramente.
- Herm-on-nini.
- Está bastante parecido - disse ela, encontrando os olhos de Harry e
sorrindo.
Quando toda a comida fora consumida, Dumbledore se levantou e pediu
aos estudantes que fizessem o mesmo. Então, a um aceno de sua varinha, as
mesas se encostaram às paredes, deixando o salão vazio, em seguida ele
conjurou uma plataforma ao longo da parede direita. Sobre ela foram colocados
uma bateria, alguns violões, um alaúde, um violoncelo e algumas gaitas de foles.
As Esquisitonas subiram, então, no palco sob aplausos delirantemente
entusiásticos, eram todas extremamente cabeludas, trajavam vestes negras que
haviam sido artisticamente rasgadas. Apanharam seus instrumentos e Harry, que
estivera tão interessado em observá-las que quase esqueceu o que viria a seguir,
de repente percebeu que as lanternas de todas as outras mesas tinham se
apagado e que os outros campeões e seus pares estavam em pé.
- Anda! - sibilou Parvati. - Temos que dançar!
Harry tropeçou nas vestes ao se levantar. As Esquisitonas tocaram uma
música lenta e triste, Harry entrou na pista de dança bem iluminada, evitando
cuidadosamente o olhar dos colegas (ele viu Simas e Dino acenarem para ele
entre risinhos), e no momento seguinte, Parvati agarrara suas mãos, colocara uma
em torno da própria cintura e segurava a outra na dela. Não foi tão mal como
poderia ter sido, pensou Harry, girando lentamente no mesmo lugar (Parvati o
conduzia). Mantinha os olhos fixos sobre as cabeças das pessoas que assistiam,
mas dali a pouco muitas delas também vieram para a pista de dança, de modo
que os campeões deixaram de ser o centro das atenções. Neville e Gina
dançavam próximos a ele - Harry via Gina fazer freqüentes caretas sempre que
Neville pisava seus pés - e Dumbledore valsava com Madame Maxime. Ficava tão
pequeno junto a ela que a ponta do seu chapéu cônico mal roçava o queixo da
bruxa, no entanto, Madame Máxime se movia graciosamente para uma mulher
daquele tamanho.
Olho-Tonto Moody estava seguindo um compasso de dois tempos
extremamente desajeitado com a Profª Sinistra, que nervosamente evitava a
perna de madeira do seu par.
- Belas meias, Potter - rosnou Moody ao passar, seu olho mágico espiando
através das vestes de Harry.
- Ah... são, Dobby, o elfo doméstico, tricotou-as para mim - disse Harry,
sorrindo.


- Ele dá arrepios! - sussurrou Parvati, quando Moody se afastou batendo a
perna de pau. ­ Acho que não deviam permitir aquele olho dele!
Harry ouviu a última nota trêmula da gaita de foles com alívio. As
Esquisitonas pararam de tocar, os aplausos encheram mais uma vez o Salão
Principal e Harry soltou Parvati.
- Vamos sentar um pouco?
- Ah... mas... agora vem uma realmente boa! - disse Parvati, ao ouvir as
Esquisitonas começarem uma nova música, que era muito mais movimentada.
- Não, não gosto dessa - mentiu Harry e conduziu a garota para fora da
pista de dança, passando por Fred e Angelina, que dançavam com tanta
exuberância que as pessoas à volta deles se afastavam com medo de se
machucar, e se dirigiram à mesa em que Rony e Padma estavam sentados.
- Como é que vocês estão indo? - perguntou Harry a Rony, se sentando e
abrindo uma garrafa de cerveja amanteigada.
Rony não respondeu. Olhava feio para Hermione e Krum, que dançavam ali
perto. Padma estava sentada com os braços e as pernas cruzadas, um pé
balançando ao ritmo da música. De vez em quando ela lançava um olhar
aborrecido a Rony, que a ignorava completamente. Parvati se sentou do outro
lado de Harry, cruzou os braços e as pernas também e, minutos depois, foi
convidada a dançar por um garoto da Beauxbatons.
- Você se importa, Harry? - perguntou Parvati.
- Quê? - disse Harry, que estava observando Cho e Cedrico.
- Ah, nada - retrucou Parvati e saiu com o garoto da Beauxbatons. Quando
a música terminou, ela não voltou. Hermione apareceu e se sentou na cadeira
vazia de Parvati. Estava com o rosto um pouco afogueado de dançar.
- Oi - disse Harry. Rony não disse nada.
- Está quente, não acham? - disse ela se abanando com a mão. - Vítor foi
apanhar alguma coisa para a gente beber. Rony lhe lançou um olhar irritado.
- Vítor?- disse ele. - Ele ainda não lhe pediu para chamá-lo de Vitinho?
Hermione olhou para o garoto surpresa.
- Que é que há com você?
- Se você não sabe - disse ele sarcasticamente -, não sou eu que vou lhe
dizer.
Hermione encarou-o demoradamente, depois Harry, mas este sacudiu os
ombros.
- Rony, que é...
- Ele é da Durmstrang - vociferou Rony. - Está competindo contra o Harry!
Contra Hogwarts! Você... você está... ­ Rony obviamente estava procurando
palavras suficientemente fortes para descrever o crime de Hermione -
confraternizando com o inimigo, é isso que você está fazendo!
Hermione ficou boquiaberta.
- Não seja tão burro! - respondeu ela após um momento. - O inimigo!
Francamente, quem é que ficou todo excitado quando viu o Krum chegar? Quem é
que queria pedir um autógrafo a ele? Quem é que tem um modelinho dele no
dormitório?
Rony preferiu ignorar as perguntas.


- Suponho que ele a tenha convidado para vir com ele quando os dois
estavam na biblioteca?
- Isso mesmo - disse Hermione, as manchas rosadas em seu rosto se
intensificando. - E daí?
- Que aconteceu, estava tentando convencê-lo a participar do fale, é?
- Não, não estava, não! Se você quer realmente saber, ele... ele disse que
estava indo todos os dias à biblioteca para tentar falar comigo, mas não conseguia
reunir coragem.
Hermione disse isso muito depressa e corou tanto que ficou quase da
mesma cor do vestido de Parvati.
- E, é... isto é o que ele conta - disse Rony em tom desagradável.
- E o que é que você quer dizer com isso?
- É óbvio, não é? Ele é aluno do Karkaroff não é? E sabe que você anda em
companhia do... ele só está tentando se aproximar do Harry, tirar informações
sobre ele ou até chegar perto bastante para azarar ele...
Hermione pareceu ter sido esbofeteada por Rony. Quando falou, tinha a voz
trêmula.
- Para sua informação, ele não me fez uma única pergunta sobre o Harry,
nem umazinha...
Rony mudou o rumo da conversa com a velocidade da luz.
- Então está na esperança de você o ajudar a decifrar a mensagem do ovo!
Suponho que tenham andado juntando as cabeças durante aquelas sessõezinhas
íntimas na biblioteca...
- Eu nunca o ajudaria com aquele ovo! - exclamou Hermione, com ar de
indignação. - Nunca. Como é que você pode dizer uma coisa dessas... eu quero
que Harry vença o torneio. Harry sabe disso, não sabe, Harry?
- Você tem um jeito engraçado de demonstrar isso - desdenhou Rony.
- O torneio é justamente para se conhecer bruxos estrangeiros e fazer
amizade com eles! ­ disse Hermione com voz aguda.
- Não é, não. É para se ganhar!
As pessoas estavam começando a olhar para eles.
- Rony - disse Harry em voz baixa -, eu não tenho nada contra Hermione vir
com o Krum...
Mas Rony não deu atenção a Harry tampouco.
- Por que você não vai procurar o Vitinho, ele deve estar se perguntando
aonde é que você anda - disse Rony.
- Pare de chamá-lo de Vitinho!- Hermione ficou de pé e saiu decidida pela
pista de dança, desaparecendo na multidão.
Rony acompanhou-a com uma expressão no rosto que misturava raiva e
satisfação.
- Você não vai me convidar para dançar? - perguntou Padma a ele.
- Não - disse Rony, ainda olhando feio para as costas de Hermione.
- Ótimo - retrucou Padma se levantando e indo se juntar a Parvati e ao
garoto de Beauxbatons, que conjurou um amigo para se reunir a eles tão depressa
que Harry seria capaz de jurar que chamara o amigo com um Feitiço
Convocatório.
- Onde está Hermi-o-nini? - perguntou uma voz.


Krum acabara de chegar à mesa segurando duas cervejas amanteigadas.
- Não faço idéia - disse Rony emburrado, erguendo os olhos. - Perdeu ela,
foi?
Krum ficou mais uma vez carrancudo.
- Pom, se focê a virr, diga que apanhei as bebidas - disse ele se afastando
curvado.
- Fez amizade com Vítor Krum, Harry?
Percy apareceu animado, esfregando as mãos e com um ar extremamente
pomposo.
- Excelente! Essa é a idéia, sabe, da Cooperação Internacional em Magia.
Para contrariedade de Harry, Percy imediatamente ocupou a cadeira que
Padma deixara livre. A mesa principal agora estava vazia; o Prof. Dumbledore
dançava com a Profª Sprout, Ludo Bagman com a Profª McGonagall, Maxime com
Hagrid abriam uma estrada pela pista de dança ao valsar entre os estudantes, e
Karkaroff não estava à vista. Quando a música seguinte terminou, todos
aplaudiram mais uma vez e Harry viu Ludo Bagman beijar a mão da Profª
McGonagall e refazer seu caminho entre os dançarinos, momento em que Fred e
Jorge o assediaram.
- Que é que eles acham que estão fazendo, importunando um funcionário
do primeiro escalão do Ministério? - sibilou Percy, observando os gêmeos,
desconfiado. - Que falta de respeito...
Mas Ludo Bagman se desvencilhou dos garotos muito rapidamente e, ao
ver Harry, acenou e se aproximou da mesa.
- Espero que meus irmãos não o tenham incomodado, Sr. Bagman! - disse
Percy na mesma hora.
- Quê? Ah, não, de modo algum, de modo algum! Não, eles estavam me
dizendo mais alguma coisa sobre aquelas varinhas falsas que inventaram.
Queriam saber se eu podia sugerir como comercializá-las. Prometi colocá-los em
contato com alguns conhecidos na Zonko"s...
Percy não pareceu nada feliz com a resposta e Harry podia apostar que o
irmão iria correndo contar à Sra. Weasley no minuto em que chegasse em casa.
Pelo visto, os planos dos gêmeos haviam se tornado mais ambiciosos
ultimamente, se estavam pensando em vender seus produtos no varejo.
Bagman abriu a boca para perguntar alguma coisa a Harry, mas Percy o
distraiu.
- Como é que o senhor acha que o torneio está correndo, Sr. Bagman? O
nosso departamento está bastante satisfeito, o probleminha com o Cálice de Fogo
- ele lançou um olhar a Harry - foi lamentável, naturalmente, mas as coisas
parecem ter corrido muito bem até agora, o senhor não acha?
- Ah, sim - respondeu Bagman animado -, tem sido um grande divertimento.
Como anda o velho Bartô? Que pena que ele não pôde vir.
- Ah, tenho certeza de que o Sr. Crouch não vai tardar a melhorar e voltar
ao trabalho ­ disse Percy cheio de importância -, mas, nesse meio tempo, estou
preparado para cobrir a lacuna. Claro que não é somente comparecer a bailes -
ele deu uma breve risada -, ah, não, tenho precisado cuidar de problemas de todo
o tipo que surgem na ausência dele, o senhor ouviu falar que Ali Bashir foi
apanhado contrabandeando um carregamento de tapetes voadores para dentro do


país? E que temos tentado persuadir a Transilvânia a assinar uma sanção
internacional aos duelos, tenho uma reunião com o chefe da cooperação em
magia transilvano no próximo ano...
- Vamos dar uma volta - murmurou Rony para Harry -, sair de perto de
Percy...
Fingindo que queriam se reabastecer de bebidas, Harry e Rony saíram da
mesa, contornaram a pista de dança e seguiram para o saguão de entrada. As
portas estavam abertas de par em par e as fadinhas luminosas no roseiral
piscavam e cintilavam quando os garotos desceram os degraus da entrada e se
viram cercados de plantas que formavam caminhos serpeantes e de grandes
estátuas de pedra. Harry ouviu um rumorejo de água caindo, que lhe pareceu uma
fonte. Aqui e ali as pessoas estavam sentadas em bancos entalhados. Os dois
garotos tomaram um dos caminhos que passava pelo roseiral, mas tinham dado
apenas alguns passos quando ouviram uma voz desagradável e conhecida.
- ... não vejo com o que tem de se preocupar, Igor.
- Severo, você não pode fingir que isto não está acontecendo! - a voz de
Karkaroff era baixa e ansiosa como se cuidasse para ninguém os ouvir. - Tem se
tornado cada vez mais nítida nos últimos meses. Estou começando a me
preocupar seriamente, não posso negar...
- Então, fuja - disse a voz de Snape secamente. - Fuja, eu apresentarei
suas desculpas. Eu, no entanto, vou permanecer em Hogwarts.
Os dois professores contornaram um canto. Snape levava a varinha na mão
e ia estourando roseiras, com a expressão mal-humoradíssima. Ouviam-se
gritinhos em muitos arbustos e vultos escuros saiam correndo para fora deles.
- Dez pontos a menos para Lufa-Lufa, Fawcett! - rosnou Snape, quando
uma garota passou correndo por ele. - E dez para Corvinal, também, Stebbins! -
quando um garoto passou no encalço dela. - E que é que vocês dois estão
fazendo? - acrescentou ele, avistando Harry e Rony mais adiante no caminho.
Karkaroff, percebeu Harry, pareceu ligeiramente desconfortável ao vê-los
parados ali. Levou a mão nervosamente à barbicha e começou a enrolá-la com o
dedo.
- Estamos passeando - respondeu Rony secamente. - Não é contra a lei, é?
- Então continuem passeando! - rosnou Snape, e passou roçando por eles,
sua longa capa negra se abrindo como uma vela enfunada às suas costas.
Karkaroff apressou-se em alcançar o colega. Os dois garotos continuaram a
descer pelo caminho.
- Que será que deixou o Karkaroff tão preocupado? - murmurou Rony.
- E desde quando ele e Snape estão se chamando pelo nome de batismo?
­ indagou Harry lentamente.
Os garotos tinham chegado a uma enorme rena de pedra agora, por cima
da qual avistaram o jorro cintilante de um alto chafariz. Avistaram também,
sentadas em um banco de pedra, as silhuetas escuras de duas pessoas, que
contemplavam a água ao luar. Então Harry ouviu a voz de Hagrid.
- O momento em que vi você, eu soube - ia ele dizendo, numa voz
estranhamente rouca.
Harry e Rony se imobilizaram. Por alguma razão aquilo não parecia o tipo
de cena que eles deviam interromper... Harry virou-se para olhar o caminho e viu


Fleur Delacour e Rogério Davies parados, meio escondidos por uma roseira
próxima. Bateu no ombro de Rony e acenou a cabeça para o lado dos dois,
querendo indicar que ele e Rony poderiam facilmente sair por ali sem serem
notados (Fleur e Davies pareceram a Harry muito ocupados), mas Rony, os olhos
se arregalando de terror ao ver Fleur, sacudiu a cabeça com vigor e puxou Harry
para mais junto das sombras atrás da rena.
- Que é que você soube, Agrrid? - perguntou Madame Maxime, com um
audível ronronar na voz baixa.
Harry decididamente não queria escutar aquilo, sabia que Hagrid iria odiar
ser entreouvido numa situação daquelas (ele teria sentido o mesmo) - se fosse
possível, o garoto teria enfiado os dedos nos ouvidos e cantarolado alto, mas isto
não era realmente uma opção. Em lugar disso, tentou se interessar por um
besouro que rastejava pelo dorso da rena, mas o besouro simplesmente não era
interessante o bastante para bloquear as palavras seguintes de Hagrid.
- Eu simplesmente soube... soube que você era como eu... puxou ao seu
pai ou à sua mãe?
- Eu... eu não sei o que você querr dizerr com isso, Agrrid...
- Puxei à minha mãe - disse Hagrid em voz baixa. - Ela foi uma das últimas
na Grã-Bretanha. Claro, eu não consigo me lembrar muito bem dela... ela foi
embora, entende. Quando eu tinha uns três anos. Não era um tipo muito maternal.
Bem... não e natureza delas, não é mesmo? Não sei o que aconteceu com ela,
pode até ter morrido pelo que sei...
Madame Maxime não respondeu. E Harry, contra sua vontade, tirou os
olhos do besouro e espiou por cima dos chifres da rena, escutando... ele nunca
ouvira Hagrid falar da infância antes.
- Meu pai ficou com o coração partido quando ela foi embora. Um cara
miudinho, o meu pai era. Quando cheguei aos seis anos podia levantar e colocar
ele em cima da cômoda quando me contrariava. Costumava fazer ele rir... - A voz
grave de Hagrid quebrou. Madame Maxime o escutava, imóvel, aparentemente
contemplando o chafariz de prata. - Papai me criou... mas ele morreu é claro, logo
depois que entrei para a escola. Meio que tive de abrir o meu caminho sozinho
depois disso. Mas veja, Dumbledore foi uma grande ajuda. Muito bom para mim,
ele foi...
Hagrid puxou um grande lenço de seda encardido e assoou o nariz com
força.
- Então... em todo o caso... chega de falar de mim. E você? De que lado
você herdou?
Mas Madame Maxime repenrinamente se pusera de pé.
- Está frio - disse ela. Mas fosse qual fosse a temperatura que fazia, não
chegava nem de longe à frieza na voz dela. - Acho que vou entrar agora.
- Eh? - disse Hagrid sem entender. - Não, não vá, nunca encontrei alguém
igual a mim antes!
- Alguém exatamente como? - perguntou Madame Maxime, num tom de voz
cortante.
Harry poderia ter dito a Hagrid que era melhor não responder; ficou parado
ali nas sombras, cerrando os dentes, desejando por tudo no mundo que o amigo
não respondesse - mas não adiantou nada.


- Alguém meio gigante, é claro - disse Hagrid.
- Como é que você se atreve? - gritou Madame Maxime. Sua voz explodiu
na noite tranqüila como uma buzina de nevoeiro, às costas deles, Harry ouviu
Fleur e Roger despencarem da roseira em que estavam. - Nunca fui mais
insultada na vida! Meio gigante? Moi? Eu tenho... eu tenho os ossos grraúdos!
Ela saiu intempestivamente, grandes enxames de fadinhas multicoloridas
se ergueram no ar quando ela passou, empurrando arbustos para os lados. Hagrid
continuou sentado no banco, acompanhando-a com o olhar parado. Estava escuro
demais para distinguir a expressão do seu rosto.
Depois, passado um minuto, ele se levantou e se afastou, mas não voltou
ao castelo, saiu pelos jardins escuros em direção à sua cabana.
- Anda - disse Harry muito baixinho a Rony. - Vamos embora...
Mas Rony não se mexeu.
- Que é que está havendo? - perguntou Rony olhando para o amigo.
Rony se virou para Harry, a expressão realmente muito séria.
- Você sabia? - sussurrou. - Que Hagrid era meio gigante?
- Não - disse Harry, sacudindo os ombros. - E daí?
Harry percebeu imediatamente pelo olhar de Rony que, mais uma vez,
estava revelando sua ignorância sobre o universo da magia. Criado pelos Dursley,
havia muita coisa que os bruxos aceitavam naturalmente e que eram verdadeiras
revelações para Harry, mas essas surpresas tinham se tornado menos freqüentes
à medida que ele progredia na escola. Agora, porém, ele percebia que a maioria
dos bruxos não teria dito "E daí?" ao descobrir que um amigo tivera uma giganta
por mãe.
- Eu lhe explico lá dentro - disse Rony baixinho. - Vamos...
Fleur e Rogério Davies tinham desaparecido, provavelmente em uma moita
de arbustos com mais privacidade. Harry e Rony voltaram ao Salão Principal.
Parvati e Padma agora estavam sentadas a uma mesa distante com um grande
grupo de garotos da Beauxbatons, e Hermione estava mais uma vez dançando
com Krum. Harry e Rony se sentaram a uma mesa bem longe da pista de dança.
- Então? - perguntou Harry a Rony. - Qual é o problema de ser gigante?
- Bom, eles... eles... não são muito legais - terminou Rony sem graça.
- Quem se importa? - exclamou Harry. - Não há nada errado com Hagrid!
- Eu sei que não tem, mas... caracas, não admira que ele fique na moita ­
disse Rony, balançando a cabeça. - Eu sempre achei que ele talvez tivesse ficado
no caminho de um Feitiço de Ingurgitamento ruim quando era criança ou outra
coisa do gênero. E não gostasse de mencionar isso...
- Mas qual é o problema da mãe dele ter sido uma giganta? - perguntou
Harry.
- Bem... ninguém que o conhece vai se importar, porque sabe que ele não é
perigoso - disse Rony lentamente. - Mas... Harry eles são apenas gigantes cruéis.
É como Hagrid disse, é da natureza deles, são como os trasgos... gostam de
matar, todo mundo sabe disso. Mas hoje não tem mais gigantes na Grã-Bretanha.
- Que foi que aconteceu com eles?
- Bem, eles estavam acabando mesmo, então um monte deles foi morto
pelos aurores. Mas dizem que há gigantes no exterior... a maioria escondida em
montanhas...


- Não sei quem é que a Maxime pensa que está enganando - disse Harry,
observando a bruxa sentada sozinha à mesa dos juizes, com o ar muito sério.
- Se Hagrid é meio gigante, decididamente ela também é. Ossos graúdos...
a única coisa que tem ossos maiores do que ela é um dinossauro.
Harry e Rony passaram o resto do baile discutindo gigantes a um canto,
nenhum dos dois com a menor inclinação para dançar. Harry tentou não olhar
para Cho e Cedrico, sentiu uma enorme vontade de chutar alguma coisa.
Quando as Esquisitonas terminaram de tocar à meia-noite, receberam mais
uma rodada de aplausos estrepitosos e começaram a sair em direção ao saguão
de entrada. Muitas pessoas expressaram o desejo de que o baile pudesse
continuar por mais tempo, mas Harry estava absolutamente satisfeito de ir se
deitar, e, se alguém quisesse saber, a noite não fora lá essas coisas.
Já no saguão de entrada, Harry e Rony viram Hermione se despedindo de
Krum antes do garoto se retirar para o navio de Durmstrang. Ela lançou a Rony
um olhar gelado, e passou por ele a caminho da escadaria de mármore sem falar.
Os dois amigos a seguiram, mas, no meio da escada, Harry ouviu alguém que o
chamava.
- Ei... Harry!
Era Cedrico Diggory. Harry viu que Cho ficara à espera dele no saguão.
- Que foi? - respondeu Harry com frieza, quando o garoto correu escada
acima ao seu encontro. Cedrico fez cara de quem não queria dizer o que viera
dizer na frente de Rony, que encolheu os ombros, parecendo aborrecido, e
continuou a subir as escadas.
- Escuta... - Cedrico baixou a voz quando Rony desapareceu. - Eu lhe devo
um favor por ter me falado dos dragões. Sabe o ovo de ouro? O seu solta um grito
agourento quando você o abre?
- Solta.
- Então... toma um banho, OK?
-Quê?
- Tome um banho e... hum, leve o ovo junto e... hum, rumina um pouco a
coisa debaixo da água quente. Vai ajudar você a pensar... acredite em mim.
Harry ficou olhando para ele.
- Vou lhe dizer uma coisa - disse Cedrico -, use o banheiro dos monitores.
Quarta porta à esquerda daquela estátua de Bons, o Pasmo, no quinto andar. A
senha é Frescor de Pinho. Tenho que ir... quero dizer boa-noite...
Ele tornou a sorrir para Harry e desceu depressa as escadas para se juntar
a Cho. Harry voltou para a Torre da Grifinória sozinho. Recebera um conselho
estranhíssimo. Por que um banho o ajudaria a descobrir o significado do ovo que
gritava?
Será que Cedrico estava gozando a cara dele? Será que estava tentando
fazer Harry parecer bobo, para que, ao comparar os dois, Cho gostasse ainda
mais dele?
A Mulher Gorda e sua amiga Vi estavam tirando um cochilo no quadro que
cobria a entrada da Casa. Harry teve que berrar Luzes Encantadas! para que elas
acordassem, e ao fazer isso, as duas ficaram muitíssimo irritadas. Quando entrou
na sala comunal, encontrou Rony e Hermione tendo uma briga daquelas.


Mantendo uma distância de três metros, os dois vociferavam um com o outro, as
caras vermelhas como pimentões.
- Ora, se você não gosta, então sabe qual é a solução, não sabe? - berrava
Hermione, agora seus cabelos iam se soltando do elegante coque, e seu rosto se
contraía de raiva.
- Ah, é? - berrava Rony em resposta. - Qual é?
- Da próxima vez que houver um baile, me convide antes que outro garoto
faça isso, e não como último recurso!
A boca de Rony ficou mexendo sem emitir som algum como a de um peixe
de aquário fora da água, enquanto Hermione virava as costas e subia batendo os
pés a escada do dormitório das garotas para se deitar. Rony se virou para Harry.
- Bom - balbuciou, completamente abismado -, bom, isso prova que ela não
entendeu nada...
Harry não respondeu. Estava gostando demais de ter feito pazes com o
amigo para dizer o que estava pensando naquele momento - mas, em todo o
caso, ele achava que Hermione entendera melhor do que Rony.


CAPITULO VINTE E QUATRO
O furo jornalístico de Rita Skeeter

Todos acordaram tarde no dia seguinte ao Natal, que é feriado na Grã-
Bretanha. A sala comunal da Grifinória estava muito mais sossegada do que
ultimamente, muitos bocejos pontuavam as conversas ociosas. Os cabelos de
Hermione tinham voltado a ficar crespos e cheios, ela confessou a Harry que
usara quantidades generosas de Poção Capilar Alisante para ir ao baile, "mas é
muita mão-de-obra fazer isso todo dia", disse ela sem emoção, coçando atrás das
orelhas do ronronante Bichento.
Rony e Hermione aparentemente tinham chegado a um acordo sub-
entendido de não mencionarem a discussão que tinham tido. Estavam até sendo
simpáticos um com o outro, embora estranhamente formais. Rony e Harry não
perderam tempo para contar à garota a conversa entre Madame Maxime e Hagrid
que tinham ouvido, mas Hermione não pareceu achar a novidade de que Hagrid
era meio gigante tão chocante quanto Rony.
- Bem, achei que devia ser - disse ela, encolhendo os ombros.
- Eu sabia que ele não poderia ser todo gigante, porque os gigantes têm
uns seis metros de altura. Mas, francamente, por que toda essa histeria por causa
dos gigantes? Nem todos devem ser horríveis... É o mesmo tipo de preconceito
que as pessoas têm com relação aos lobisomens... é muita cegueira, não é,não?
Rony fez cara de quem gostaria de dar uma resposta desdenhosa, mas
talvez não quisesse outra briga, porque se contentou em sacudir a cabeça
incrédulo quando Hermione não estava olhando. Agora era hora de pensar nos
deveres de casa que eles tinham posto de lado na primeira semana de férias.
Todos pareciam estar se sentindo pouco entusiasmados, agora que o Natal
terminara ­ todos exceto Harry, isto é, que estava começando (mais uma vez) a
ficar ligeiramente nervoso.


O problema era que o dia vinte e quatro de fevereiro parecia bem mais
perto, uma vez passado o Natal, e ele ainda não se mexera para decifrar a pista
que havia no ovo de ouro. Portanto, ele passou a tirar o ovo do malão todas as
vezes que subia ao dormitório, abria -o e escutava com atenção, na esperança de
que daquela vez o grito fizesse mais sentido. Harry se esforçou para descobrir o
que o som lhe lembrava, além dos trinta serrotes musicais, mas nunca ouvira nada
que se parecesse com aquilo. Fechou o ovo, sacudiu-o vigorosamente, reabriu-o
para ver se o som mudara, mas nada. Tentou fazer perguntas ao ovo, berrando
para abafar seu lamento, mas nada aconteceu. Chegou mesmo a atirar o ovo do
outro lado do quarto - embora não esperasse realmente que isso resolvesse.
Harry não esquecera da dica que Cedrico lhe dera, mas seus sentimentos
pouco amigáveis com relação ao campeão, naquele momento, significavam que
ele não estava interessado em aceitar ajuda de Cedrico se pudesse. Em todo o
caso, achava que se o garoto tivesse realmente querido dar uma mãozinha a ele,
teria sido muito mais claro. Harry dissera a Cedrico exatamente o que o esperava
na primeira tarefa - mas a idéia que o outro fazia de uma troca justa fora lhe dizer
para tomar um banho. Bem, ele não precisava desse tipo de ajuda inútil - pelo
menos, não de alguém que ficava andando para cima e para baixo pelos
corredores de mãos dadas com Cho.
Assim, chegou o primeiro dia do novo trimestre e Harry foi para as aulas,
sobrecarregado de livros, pergaminhos e penas, como de costume, mas também
com essa preocupação a lhe pesar no estômago, como se o ovo fosse mais um
peso a carregar para todo o lado com ele.
A neve continuava alta nos jardins e as janelas da estufa estavam cobertas
por um vapor tão denso que não era possível enxergar através delas na aula de
Herbologia. Ninguém estava ansioso para ir à aula de Trato das Criaturas Mágicas
com um tempo desses, embora, como disse Rony, era provável que os explosivins
deixassem os alunos bem aquecidos, quer fazendo-os correr atrás deles, quer
expelindo fogo pelo rabo com tanta força que a cabana de Hagrid pegaria fogo.
Quando os garotos chegaram lá, porém, encontraram uma bruxa mais
velha, com os cabelos grisalhos muito curtos e um queixo muito saliente, parada
diante da porta da frente do professor.
- Vamos, andem, a sineta já tocou há cinco minutos ­ vociferou ela, quando
os viu caminhando pela neve com dificuldade ao seu encontro.
- Quem é a senhora? - perguntou Rony, mirando-a. - Aonde foi o Hagrid?
- Meu nome é Profª Grubbly-Plank - disse ela com eficiência. Sou a
professora temporária de Trato das Criaturas Mágicas.
- Aonde foi o Hagrid? - repetiu Harry em voz alta.
- Não está se sentindo bem - respondeu ela secamente.
Uma risada breve e desagradável chegou aos ouvidos de Harry. Ele se
virou, Draco Malfoy e o resto dos alunos da Sonserina estavam vindo se reunir à
turma.
Tinham um ar satisfeito, e nenhum pareceu surpreso de ver a Profª Grubbly
-Plank.
- Por aqui, por favor - disse a professora e saiu contornando o picadeiro
onde os enormes cavalos da Beauxbatons tremiam de frio. Harry, Rony e


Hermione a seguiram, olhando para trás, por cima do ombro, para a cabana de
Hagrid. Todas as cortinas estavam corridas. Será que Hagrid estava ali, sozinho e
doente?
- Que é que o Hagrid tem? - perguntou Harry, apressando o passo para
alcançar a professora.
- Não é da sua conta - disse ela, como se achasse que o garoto estava
sendo intrometido.
- Mas é da minha conta - disse Harry com veemência. - Que aconteceu com
ele?
A Profª Grubbly-Plank continuou como se não o ouvisse. Conduziu-os além
do picadeiro dos cavalos da Beauxbatons, todos agrupados tentando se proteger
do frio, e em direção a uma árvore na orla da Floresta, onde encontraram
amarrado um grande e belo unicórnio. Muitas garotas soltaram exclamações de
admiração ao ver o unicórnio.
- Ah, é tão bonito! - murmurou Lilá Brown. - Como será que ela conseguiu?
Dizem que são realmente difíceis de apanhar!
O unicórnio era tão branco que fazia a neve ao redor parecer cinzenta.
Pateava o chão nervoso com seus cascos dourados e atirava para trás a cabeça
com um só chifre.
- Meninos fiquem afastados! - gritou secamente a professora, estendendo
um braço e, com isso, batendo com força em Harry na altura do peito.
- Eles preferem o toque das mulheres, os unicórnios. Meninas a frente, e se
aproximem com cuidado. Vamos, devagar...
Ela e as meninas se adiantaram devagarinho até o bicho, deixando os
garotos parados junto à cerca do picadeiro, assistindo. No instante em que a
professora ficou fora do alcance de suas vozes, Harry se virou para Rony.
- Que é que você acha que aconteceu com ele? Acha que pode ter sido um
explosivin...?
- Ah, ele não foi atacado, Potter, se é o que você está pensando - disse
Malfoy suavemente. - Não, ele só está envergonhado demais para mostrar a cara.
-Que é que você quer dizer com isso? -perguntou Harry com rispidez.
Malfoy meteu a mão no bolso interno das vestes e puxou uma folha
dobrada de jornal.
- Já vem você - disse ele. - Detesto ser eu a lhe dar a notícia, Potter...
Malfoy deu um sorriso afetado quando Harry pegou o jornal, desdobrou-o e
leu-o com Rony, Simas, Dino e Neville que espiava por cima do ombro deste. Era
um artigo encimado pela foto de Hagrid com uma cara extremamente sonsa.

"O MAIOR ERRO DE DUMBLEDORE

Alvo Dumbledore, o excêntrico diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts,
nunca teve medo de fazer nomeações controvertidas para o corpo docente,
escreve Rita Skeeter, nossa correspondente especial. Em setembro deste ano, ele
contratou Alastor "Olho- Tonto" Moody, o notório ex-auror que vê feitiços por toda
parte, para ensinar Defesa contra as Artes das Trevas, uma decisão que fez muita
gente erguer as sobrancelhas no Ministério da Magia, dado o conhecido hábito


que Moody tem de atacar qualquer um que faça um movimento repentino em sua
presença.
Olho-Tonto, porém, parece responsável e bondoso, em contraste com o indivíduo
meio humano que Dumbledore emprega para ensinar Trato das Criaturas
Mágicas.
Rúbeo Hagrid, que admite ter sido expulso de Hogwarts no terceiro ano, e desde
então exerce na escola a função de guarda-caça, um emprego que Dumbledore
lhe arranjou. No ano passado, no entanto, usou sua misteriosa influência sobre o
diretor da escola para obter o cargo suplementar de professor de Trato das
Criaturas Mágicas, preterindo muitos candidatos com melhores qualificações.
Um homem assustadoramente grande e de ar feroz, Hagrid tem usado sua recém
adquirida autoridade para aterrorizar os alunos ao tratar de uma coleção de seres
horripilantes. Enquanto Dumbledore faz vista grossa, Hagrid já feriu vários alunos
durante uma série de aulas que muitos admitem "dar muito medo".
"Eu já fui atacado por um hipogrifo e meu amigo, Vicente Crabbe, levou uma
dentada fria de um verme" - declarou Draco Malfoy, um aluno do quarto ano.
"Todos odiamos Hagrid, mas temos receio demais para dizer qualquer coisa".
Mas Hagrid não tem a menor intenção de desistir de sua campanha de
intimidação. Em conversa com a repórter do Profeta Diário, no mês passado, ele
admitiu que cria uns bichos a que chama de "explosivins " uma cruza
extremamente perigosa de manticore com caranguejo-de-fogo. A criação de novas
raças é, naturalmente, uma atividade em geral acompanhada de perto pelo
Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. Hagrid, ao
que parece, considera-se acima dessas restrições pouco importantes.
"Eu só estava me divertindo um pouco" - disse ele, antes de mudar rapidamente
de assunto.
E como se isso não bastasse, o Profeta Diário agora encontrou provas de que
Hagrid não é ­ como sempre fingiu ser - um bruxo puro-sangue. De fato, não é
sequer um ser humano puro. Sua mãe, podemos revelar com exclusividade, não é
outra senão a giganta Fridwulfa, cujo paradeiro é atualmente desconhecido.
Sedentos de sangue e brutais, os gigantes chegaram à extinção com as guerras
que promoveram entre si no século passado. Os poucos sobreviventes se
alistaram nas fileiras d'Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado,e foram responsáveis
por alguns dos piores massacres de trouxas durante o seu reino de terror.
Embora muitos gigantes que serviram Àquele-Que-NãoDeve-Ser-Nomeado
tenham sido mortos por aurores que combatiam o partido das trevas, Fridwulfa
não foi um deles.
É possível que tenha fugido para uma das comunidades de gigantes que ainda
existem em montanhas no exterior. Mas se as extravagâncias de Hagrid durante
as aulas de Trato das Criaturas Mágicas puderem servir de medida, o filho de
Fridwulfa parece ter herdado sua natureza brutal.
Mas, bizarramente, dizem que Hagrid criou uma grande amizade pelo garoto que
provocou a queda de Você-Sabe-Quem - e com isso obrigou a própria mãe, bem
como os demais seguidores do bruxo das trevas, a procurar um refugio. Talvez
Harry Potter não tenha conhecimento da desagradável verdade sobre seu grande
amigo ­ mas não resta dúvida de que Alvo Dumbledore tem obrigação de


providenciar para que Harry Potter, bem como seus colegas, sejam informados
dos perigos de se associarem com meios gigantes."

Harry terminou a leitura e ergueu os olhos para Rony, cujo queixo estava
caído.
- Como foi que ela descobriu isso? - sussurrou ele.
Mas não era isso que estava incomodando Harry.
- Que foi que você quis dizer com "todos detestamos Hagrid"? - perguntou
Harry irritado a Malfoy. - Que bobagem é essa de que esse cara aí ­ e indicou
Crabbe - levou uma mordida feia de um verme? Eles nem têm dentes!
Crabbe dava risadinhas, aparentemente muito satisfeito consigo mesmo.
- Bom, acho que isso deve encerrar a carreira desse caipirão - disse Malfoy,
os olhos brilhando. - Meio gigante... e eu pensando que ele engolira um frasco de
Esquelesce quando era criança... nenhum pai nem mãe vai gostar nem um pouco
dessa notícia... vão ficar preocupados que o gigante devore os filhinhos deles, ha,
ha...
-Seu...
- Vocês estão prestando atenção aqui na frente?
A voz da Profª Grubbly-Plank chegou até eles, as garotas agora estavam
agrupadas em torno do unicórnio, acariciando-o. Harry sentia tanta fúria que o
artigo do Profeta Diário tremia em sua mão quando ele se virou maquinalmente
para o unicórnio, cujas muitas propriedades mágicas a professora começava a
enumerar em voz alta, para que os garotos pudessem ouvir também.
- Espero que ela continue, essa mulher! - disse Parvati Patil quando
terminaram e todos seguiram para o castelo para almoçar.
- A aula ficou mais parecida com o que eu imaginei que seria o Trato das
Criaturas Mágicas...criaturas normais como unicórnios, não monstros...
- E Hagrid? - perguntou Harry zangado, quando subiam as escadas.
- Que é que tem ele? - perguntou Parvati, com a voz inflexível. - Ele pode
continuar como guarda-caça, não pode?
Parvati andava tratando Harry com frieza desde o baile. Ele supôs que
devia ter dado mais atenção à garota, mas ela parecia ter se divertido mesmo
assim. Com certeza estava contando a todo mundo que quisesse ouvir que
combinara encontrar-se com o garoto de Beauxbatons em Hogsmeade no próximo
fim de semana seguinte.
- Foi uma aula realmente boa - disse Hermione, quando eles entraram no
Salão Principal. - Eu não sabia metade das coisas que a Profª Grubbly-Plank falou
sobre os uni...
- Olhe isso aqui! - rosnou Harry sacudindo o artigo do Profeta Diário no
nariz de Hermione.
O queixo de Hermione foi caindo à medida que lia. Sua reação foi
exatamente a mesma que a de Rony.
- Como foi que aquela Skeeter horrorosa descobriu isso? Você acha que
Hagrid contou a ela?
- Não - respondeu Harry, se adiantando para a mesa da Grifinória, e se
atirando numa cadeira, furioso. - Hagrid nunca disse isso nem à gente, não é?


Acho que ela ficou tão aborrecida porque ele não quis contar os meus podres, que
saiu fuçando para se vingar dele.
- Talvez ela tenha escutado a conversa dele com Madame Maxime no baile
- arriscou Hermione baixinho.
- Nós a teríamos visto nos jardins! - disse Rony. - Em todo o caso, ela não
tem permissão para tornar a entrar na escola, Hagrid disse que Dumbledore a
proibiu...
- Talvez ela use uma Capa da Invisibilidade - disse Harry, servindo uma
concha de caçarola de frango em seu prato e derramando-a por todo o lado, tal
era a sua raiva. - É o tipo de coisa que ela faria, não é, se esconder atrás de
moitas para escutar as conversas dos outros.
- Como você e Rony fizeram? - perguntou Hermione.
- Não estávamos querendo ouvir! - disse Rony indignado. - Não tivemos
opção! O panaca começou a falar da mãe giganta num lugar em que todo mundo
podia ouvir!
- Temos que ir visitar Hagrid - disse Harry. - Hoje à noitinha, depois da aula
de Adivinhação. Dizer que o queremos de volta...Você quer ele de volta, não
quer? - O garoto disparou a pergunta à Hermione.
- Bem... não vou fingir que a mudança não foi legal, ter uma aula decente
de Trato das Criaturas Mágicas para variar, mas eu quero que Hagrid volte, é claro
que quero! - acrescentou Hermione depressa, fraquejando diante do olhar furioso
de Harry.
Então, naquela noite, depois do jantar, os três saíram do castelo, mais uma
vez, e atravessaram os jardins congelados até a cabana de Hagrid. Bateram e os
latidos retumbantes de Canino responderam.
- Hagrid, somos nós! - gritou Harry, socando a porta. - Abra!
Não houve resposta. Os garotos ouviram Canino arranhar a porta, mas ela
não se abriu. Bateram mais uns dez minutos, Rony até bateu em uma das janelas,
mas não houve resposta.
- Para que é que ele está evitando a gente? - perguntou Hermione quando
finalmente desistiram e já iam voltando para a escola. - Com certeza ele não acha
que nos importamos que ele seja meio gigante?
Mas pelo jeito Hagrid se importava. Os garotos não viram nem sinal dele a
semana inteira. Não apareceu à mesa dos professores na hora das refeições, nem
foi visto pela propriedade cuidando de suas tarefas de guarda-caça, e a Profª
Grubbly-Plank continuou a dar as aulas de Trato das Criaturas Mágicas. Malfoy se
gabava a cada oportunidade possível.
- Com saudades do seu amiguinho mestiço? - ele não parava de murmurar
para Harry sempre que havia um professor por perto, de modo a ficar a salvo de
uma reação. - Com saudades do seu homem elefante?
Houve uma visita a Hogsmeade na metade de janeiro. Hermione ficou muito
surpresa que Harry pretendesse ir.
- Pensei que você ia aproveitar a tranqüilidade do salão comunal. Olha que
você realmente precisa trabalhar naquele ovo.
- Ah, eu... eu acho que agora já tenho uma boa idéia do que se trata ­
mentiu Harry.
- Já tem, é? - exclamou Hermione, parecendo impressionada.


- Muito bem!
As entranhas de Harry deram uma revirada de culpa, mas ele fingiu não ter
sentido. Afinal ainda lhe restavam cinco semanas para descobrir a pista do ovo e
isso era uma eternidade... e se ele fosse a Hogsmeade, talvez desse de cara com
Hagrid e tivesse uma chance de convencê-lo a voltar.
No sábado ele, Rony e Hermione deixaram o castelo, juntos, e
atravessaram os jardins frios e úmidos em direção aos portões. Ao passar em pelo
navio de Durmstrang ancorado no lago, viram Vítor Krum saindo para o convés,
trajando apenas calções de banho. Ele era muito magro, mas bem mais forte do
que parecia, porque trepou na amurada do navio, esticou os braços à frente e
mergulhou direto no lago.
- Ele é doido! - comentou Harry, observando a cabeça escura de Krum
reaparecer no meio do lago. - Deve estar congelando, estamos no meio de janeiro!
- É muito mais frio no lugar de onde ele vem - disse Hermione. - Imagino
que ele sinta até um calorzinho aqui.
- É, mas ainda tem a lula gigante - lembrou Rony. Sua voz não revelava
ansiedade, se revelava alguma coisa, era esperança. Hermione reparou no tom de
voz dele e franziu a testa.
- Ele é realmente legal, sabe. Não é nada do que se poderia pensar de
alguém que vem de Durmstrang. Ele me disse que gosta muito mais daqui.
Rony não fez comentários. Não mencionara Vítor Krum desde o baile, mas
Harry encontrara a miniatura de um braço embaixo da cama do amigo, no dia
seguinte ao Natal, que dava a impressão de ter sido arrancado do modelinho com
as vestes de quadribol da Bulgária.
Harry ficou de olhos muito atentos à procura de um sinal de Hagrid por todo
o caminho até a enlameada rua Principal e sugeriu uma visita ao Três Vassouras
depois de se certificar de que Hagrid não estava nas outras lojas.
O bar estava apinhado como sempre, mas uma olhada rápida pelas mesas
informou a Harry que Hagrid não se encontrava ali. Desanimado, dirigiu-se ao
balcão com Rony e Hermione, pediu à Madame Rosmetta três cervejas
amanteigadas e pensou, deprimido, que afinal teria feito melhor se tivesse ficado
na escola escutando o lamento do ovo.
- Será que ele nunca vai ao escritório? - cochichou Hermione de repente. ­
Olha lá!
Ela apontou para o espelho atrás do bar e Harry viu, refletido ali, Ludo
Bagman, sentado em um canto mais escuro com um grupo de duendes. O bruxo
falava muito rápido, e em voz baixa, com os duendes, que tinham os braços
cruzados e uma expressão assustadora no rosto.
Era realmente estranho, pensou Harry, que Bagman estivesse ali no Três
Vassouras, num fim de semana, quando não havia nenhum evento do torneio, e,
portanto, nenhuma atividade do seu júri. Ele observou o bruxo pelo espelho.
Bagman parecia tenso, tão tenso quanto naquela noite na floresta antes da Marca
Negra aparecer. Mas neste momento Bagman olhou para o bar, viu Harry e se
levantou.
- Um momento, um momento! - Harry o ouviu dizer bruscamente para os
duendes e atravessar o bar em direção a ele, o sorriso juvenil de sempre no rosto.


- Harry!, exclamou ele. - Como vai? Tinha esperança de encontrá-lo! Está
tudo correndo bem?
- Ótimo, obrigado!
- Será que eu podia dar uma palavrinha rápida com você, em particular? -
disse ele pressuroso. - Vocês poderiam nos dar licença um momento, por favor?
- Hum... OK - concordou Rony, e ele e Hermione saíram à procura de uma
mesa. Bagman levou Harry para o canto mais afastado do bar de Madame
Rosmetta.
- Bom, achei que gostaria de cumprimentá-lo outra vez por seu esplêndido
desempenho contra o Rabo-Córneo, Harry ­ disse Bagman. - Foi realmente
soberbo!
- Obrigado - disse o garoto, mas sabia que não devia ser só isso que
Bagman queria dizer, porque poderia ter dado os parabéns diante de Rony e
Hermione. Mas o bruxo parecia não ter pressa alguma de dizer o que era. Harry o
viu olhar para o espelho do bar na direção dos duendes que os observavam em
silêncio, com aqueles olhos escuros e puxados.
- Absoluto pesadelo - disse Bagman a Harry entre dentes, reparando que
Harry também observava os duendes. - O inglês deles não é muito bom... parece
até que estou de volta à Copa Mundial de Quadribol com todos aqueles búlgaros...
mas pelo menos eles usavam gestos que todo ser humano era capaz de
reconhecer. Essa turma fica algaraviando em grugulês... e só conheço uma
palavra de grugulês. Bladvak. Significa "picareta". Não gosto de usá-la para eles
não pensarem que estou ameaçando-os. ­ E soltou uma gargalhada breve, mais
retumbante.
- Que é que eles querem? - perguntou Harry, notando que os duendes
continuavam a observar Bagman com muita atenção.
- Hum... bem... - disse Bagman, parecendo subitamente nervoso. - Eles...
hum... estão procurando Bartô Crouch.
- Por que é que estão procurando por ele aqui? - perguntou Harry. - Ele não
está no Ministério em Londres?
- Hum... para falar a verdade, não faço a menor idéia de onde esteja.
Vamos dizer que tenha parado de comparecer ao trabalho. Já está ausente há
umas duas semanas. O jovem Percy, assistente dele, diz que ele está doente.
Aparentemente tem enviado instruções via coruja. Mas se importa de não
comentar isso com ninguém, Harry? Porque a Rita Skeeter continua bisbilhotando
por todo lado que pode e eu seria capaz de apostar que ela poderia transformar a
doença de Bartô em algo sinistro. Provavelmente dizer que ele está desaparecido
como Berta Jorkins.
- O senhor teve notícias da Berta Jorkins? - perguntou Harry.
- Não - respondeu Bagman, parecendo outra vez tenso. - Tenho gente
procurando, é claro... - (Já não era sem tempo, pensou Harry) - e é tudo muito
estranho. Sem a menor dúvida chegou na Albânia, porque se encontrou lá com
uma prima em segundo grau. Depois deixou a casa da prima dizendo que ia ao sul
visitar uma tia... e parece ter desaparecido no caminho, sem deixar vestígios. O
diabo é quem sabe onde ela pode ter se metido... não parece ser do tipo que foge
para casar, por exemplo... contudo... mas por que é que estamos falando de


duendes e de Berta Jorkins? O que eu realmente queria perguntar a você e... - e
aqui ele baixou a voz - como é que você vai indo com o ovo de ouro?
- Hum... nada mal - disse Harry ocultando a verdade.
Bagman pareceu perceber que o garoto não estava sendo honesto.
- Escute, Harry - disse ele (ainda em voz muito baixa). - Eu me sinto muito
mal a respeito dessa coisa toda... você foi empurrado para o torneio, você não se
voluntariou... e se - (aqui sua voz ficou tão baixa que Harry precisou chegar mais
perto para escutar) - ... se tiver alguma coisa que eu possa fazer... um
empurrãozinho na direção certa... acabei me afeiçoando a você... o jeito com que
você passou pelo dragão!... Bem, é só dizer.
Harry olhou para o rosto rosado e redondo, e para os grandes olhos azul-
celeste de Bagman.
- Devemos decifrar as pistas sozinhos, não é? - disse ele, tomando cuidado
para manter a voz displicente e não parecer que estava acusando o chefe do
Departamento de Jogos e Esportes Mágicos de infringir o regulamento.
- Bem... bem, é verdade - disse Bagman impaciente -, mas... vamos, Harry,
todos queremos a vitória de Hogwarts, não é mesmo?
- O senhor ofereceu ajuda a Cedrico? - perguntou Harry.
A mais leve das rugas vincou o rosto liso de Bagman.
- Não, não ofereci. Eu... bem, como disse, me afeiçoei a você. Por isso
pensei em oferecer...
- Bem, obrigado - disse Harry -, mas acho que estou quase chegando lá...
mais uns dois dias e resolvo o problema do ovo.
Ele não tinha muita certeza da razão pela qual estava recusando a ajuda de
Bagman, exceto que o bruxo era quase um estranho para ele, e aceitar sua ajuda
lhe parecia muito mais desonesto do que pedir conselhos a Rony, Hermione ou
Sirius.
Bagman pareceu quase afrontado, mas não pôde dizer muito mais, porque
Fred e Jorge apareceram naquele momento.
- Olá, Sr. Bagman - disse Fred animado. - Podemos lhe oferecer uma
bebida?
- Hum... não - disse Bagman, com um último olhar desapontado para Harry
-, não, muito obrigado, garotos...
Fred e Jorge pareciam quase tão desapontados quanto Bagman, que
mirava Harry como se o garoto o tivesse deixado na mão.
- Bem, preciso correr - disse ele. - Foi bom ver vocês. Boa sorte, Harry.
E saiu apressado do bar. Os duendes deslizaram para fora das cadeiras e
saíram atrás de Bagman. Harry foi se reunir a Rony e Hermione.
- Que é que ele queria? - perguntou Rony, no instante em que Harry se
sentou.
- Ele se ofereceu para me ajudar com o ovo de ouro.
- Ele não devia estar fazendo isso! - exclamou Hermione, parecendo muito
chocada. - Ele é um dos juizes! E em todo o caso, você já decifrou sozinho, não
foi?
- Hum... quase.
- Bem, eu acho que Dumbledore não gostaria de saber que Bagman andou
tentando convencer você a ser desonesto! ­ disse Hermione ainda com uma


expressão de profunda reprovação. - Espero que ele esteja tentando ajudar
Cedrico também!
- Não, não está. Eu perguntei a ele - informou Harry.
- Quem é que se importa se Cedrico está recebendo ajuda? - disse Rony.
Harry, intimamente, concordou.
- Aqueles duendes não pareciam muito simpáticos - comentou Hermione,
bebericando a cerveja amanteigada. - Que é que eles estavam fazendo aqui?
- Procurando Crouch, segundo informou Bagman. Ele continua doente. Não
tem ido trabalhar.
- Quem sabe Percy está envenenando ele? - sugeriu Rony. -
Provavelmente acha que se Crouch apagar ele vai ser nomeado chefe do
Departamento de Cooperação Internacional em Magia.
Hermione lançou a Rony um olhar do tipo não-brinque-com-essas-coisas e
comentou:
- Engraçado, duendes procurando o Sr. Crouch... eles normalmente se
dirigem ao Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas.
- Mas Crouch sabe falar um monte de línguas diferentes - lembrou Harry. ­
Talvez eles precisem de um intérprete.
- Agora está se preocupando com os coitadinhos dos duendes, é? ­
perguntou Rony a Hermione. - Está pensando em lançar um S.P.D.F. ou outra
coisa do gênero? Uma Sociedade Protetora dos Duendes Feios?
- Ha, ha, ha - exclamou Hermione sarcasticamente. - Duendes não
precisam de proteção. Você não tem prestado atenção ao que o Prof. Binns vem
nos contando sobre as revoltas dos duendes?
- Não - disseram Harry e Rony juntos.
- Pois é, eles têm plena capacidade de enfrentar os bruxos - disse
Hermione, tomando mais um golinho de cerveja amanteigada. - Eles são muito
inteligentes. Não são como os elfos domésticos, que nunca se unem para se
defender.
- Ah - exclamou Rony, com os olhos fixos na porta. Rita Skeeter acabara de
entrar. Estava usando vestes amarelo banana, tinha as unhas longas pintadas de
rosa-choque e vinha acompanhada do seu fotógrafo barrigudo. Ela comprou
bebidas, e os dois abriam caminho entre as pessoas e as mesas até uma mesa
próxima. Harry, Rony e Hermione amarraram a cara para ela ao veremque estava
se aproximando. Ela falava depressa e parecia muito satisfeita com alguma coisa.
- ... não parecia muito interessado em falar com a gente, você também não
acha, Bozo? E por que você acha que não estava? E o que é que ele estava
fazendo com uma matilha de duendes na cola? Mostrando os pontos pitorescos
do povoado... que absurdo... ele sempre foi um mau mentiroso. Você acha que ele
está escondendo alguma coisa? Acha que devíamos fuçar um pouco? Ludo
Bagman, o desacreditado ex-Chefe dos Esportes Mágicos... é uma boa abertura,
Bozo, agora só precisamos encontrar uma história para usá-la...
- Tentando estragar a vida de mais alguém? - perguntou Harry em voz alta.
Algumas pessoas viraram a cabeça. Os olhos de Rita Skeeter se
arregalaram por trás dos óculos de pedrinhas quando viu quem falara.
- Harry! - exclamou ela sorridente. - Que ótimo? Por que você não vem se
sentar conosco...?


- Eu não chegaria perto da senhora nem com uma vassoura de três metros
­ disse Harry furioso. - Por que a senhora fez aquilo com o Hagrid, hein?
Rita Skeeter ergueu as sobrancelhas acentuadas com lápis grosso.
- Os nossos leitores têm o direito de saber a verdade, Harry estou
meramente fazendo o meu...
- Quem se importa que ele seja meio gigante? - gritou Harry. - Não há nada
errado com ele!
O bar inteiro ficou em silêncio. Madame Rosmetta acompanhava de olhar
fixo por trás do balcão, aparentemente esquecida de que a garrafa que estava
enchendo de quentão começara a transbordar.
O sorriso de Rita Skeeter estremeceu levemente, mas ela o firmou quase
no mesmo instante, abriu a bolsa de crocodilo com um estalido, tirou a pena-de-
repetição-rápida e disse:
- Que tal me dar uma entrevista sobre o Hagrid que você conhece, Harry?
O homem por trás dos músculos? A improvável amizade que tem por ele e as
razões para tê-la? Você o chamaria de um pai substituto?
Hermione se levantou abruptamente, a cerveja amanteigada apertada na
mão como se fosse uma granada.
- Sua mulher horrorosa - disse ela, entre dentes -, a senhora não se
importa, não é, qualquer coisa vira artigo, e qualquer pessoa serve, não é? Até
Ludo Bagman...
- Sente-se, menininha boba e não fale do que não entende - disse Rita
Skeeter com frieza, seu olhar endurecendo ao pousar em Hermione. - Sei de
coisas sobre Ludo Bagman que deixariam você de cabelos em pé... Não que eles
precisem de ajuda - acrescentou, mirando os cabelos lanzudos de Hermione.
- Vamos embora - disse Hermione. - Anda, Harry, Rony...
Os garotos saíram, muita gente ficou olhando para eles enquanto se
retiravam. Harry virou a cabeça ao alcançar a porta. A pena-de-repetição-rápida
estava em posição, corria para a frente e para trás no pedaço de pergaminho
sobre a mesa.
- Você vai ser a próxima que ela vai perseguir, Mione - disse Rony, numa
voz baixa e preocupada quando tornavam a subir a rua.
- Ela que experimente! - disse a garota com voz aguda, tremia de raiva. ­
Vou mostrar a ela! Menininha boba, é? Ah, vai ter troco, primeiro Harry, agora o
Hagrid...
- Você não vai querer se indispor com a Rita Skeeter - disse Rony nervoso.
­ Estou falando sério, Mione, ela vai desenterrar alguma coisa sobre você...
- Meus pais não lêem o Profeta Diário, ela não pode me apavorar e me
fazer esconder! ­ disse Hermione, agora caminhando tão depressa que Harry e
Rony mal conseguiam acompanhá-la. A última vez que Harry vira Hermione com
tanta raiva assim, ela metera a mão na cara de Draco Malfoy. ­ E Hagrid não vai
se esconder mais! Ele nunca deveria ter deixado aquela imitação de ser humano o
perturbar! Andem!
Desatando a correr, ela levou os garotos de volta à estrada, cruzou os
portões ladeados por javalis alados e atravessou os jardins até a cabana de
Hagrid.


As cortinas ainda estavam corridas, mas eles ouviram os latidos de Canino
quando se aproximaram.
- Hagrid! - chamou Hermione, batendo com força na porta da frente. -
Hagrid, pode parar com isso! Sabemos que você está aí dentro! Ninguém liga a
mínima se sua mãe era uma giganta, Hagrid! Você não pode deixar aquela
Skeeter nojenta fazer isso com você! Hagrid, vem aqui fora, você está sendo...
A porta se abriu. Hermione disse:
- Já não era...! - e se calou, de repente. porque se viu cara a cara, não com
Hagrid, mas com Alvo Dumbledore.
- Boa-tarde - disse ele agradavelmente, sorrindo para os garotos.
- Nós... hum... nós gostaríamos de ver o Hagrid - disse Hermione baixinho.
- Claro, imaginei isso - disse Dumbledore, os olhos cintilando. - Por que não
entram?
- Ah... hum... OK..
Ela, Rony e Harry entraram na cabana. Canino se atirou sobre Harry no
instante em que o garoto entrou, latindo feito louco e tentando lamber as orelhas
dele. Harry afastou Canino e olhou à volta. Hagrid estava sentado à mesa, onde
havia duas canecas de chá. Estava pavoroso. O rosto manchado, os olhos
inchados e tinha passado ao outro extremo em termos de cabelos, em lugar de
tentar amansá-los, deixara-os agora parecidos com uma peruca de arame
embaraçado.
- Oi, Hagrid - disse Harry.
Hagrid ergueu os olhos.
- Alô - disse ele, com a voz rouca.
- Mais chá, acho - disse Dumbledore, que fechou a porta depois que Harry,
Rony e Hermione entraram, puxou a varinha e girou-a, apareceu no ar uma
bandeja giratória de chá acompanhado por um prato de bolos.
Ainda por magia, Dumbledore levou a bandeja até a mesa e todos se
sentaram. Houve uma ligeira pausa e então o diretor disse:
- Você por acaso ouviu o que a Srta. Granger estava gritando, Hagrid?"
Hermione corou ligeiramente, mas Dumbledore sorriu para ela e continuou.
- Hermione, Harry e Rony parecem que ainda querem continuar a conhecer
você, a julgar pela maneira com que tentavam derrubar a porta.
- Claro que ainda queremos conhecer você! - exclamou Harry fitando
Hagrid. ­ Você não acha que alguma coisa que aquela vaca da Skeeter...
desculpe professor - acrescentou ele depressa, olhando para Dumbledore.
- Fiquei temporariamente surdo e não faço idéia do que foi que você disse,
Harry ­ disse Dumbledore, girando os polegares e olhando para o teto.
- Hum... certo - disse Harry envergonhado. - Eu só quis dizer, Hagrid, como
é que você pôde pensar que ligaríamos para o que aquela "mulher" escreveu
sobre você?
Duas grossas lágrimas saltaram dos olhos de Hagrid, negros como
besouros, e caíram lentamente sobre sua barba desgrenhada.
- A prova viva do que estive lhe dizendo, Hagrid - disse Dumbledore, ainda
contemplando atentamente o teto. - Já lhe mostrei as cartas dos inúmeros pais
que se lembram de você do tempo em que estiveram aqui, dizendo em termos
bastante claros que se eu o despedisse eles não iriam ficar calados...


- Nem todos - disse Hagrid rouco. - Nem todos querem que eu fique...
- Francamente, Hagrid, se você está esperando obter aprovação universal,
receio que vá ficar trancado na cabana muito tempo - disse o diretor, agora
olhando severamente por cima dos oclinhos de meia-lua. - Ainda não houve uma
semana, desde que me tornei diretor desta escola, em que eu não recebesse ao
menos uma coruja reclamando da maneira com que eu a dirijo. Mas o que é que
eu deveria fazer? Me entrincheirar no escritório e me recusar a falar com as
pessoas?
- Mas... mas o senhor não é meio gigante! - crocitou Hagrid.
- Hagrid, olha só quem são os meus parentes! - disse Harry furioso. - Olha
só os Dursley!
- Muito bem lembrado! - disse o diretor. - Meu próprio irmão, Aberforth, foi
acusado de praticar feitiços impróprios em um bode. Apareceu em todos os
jornais, mas ele se escondeu? Não, não se escondeu! Manteve a cabeça erguida
e continuou a trabalhar como sempre! Naturalmente, não tenho muita certeza de
que ele saiba ler, por isso talvez não tenha tido tanta coragem assim...
- Volte a ensinar, Hagrid - disse Hermione em voz baixa -, por favor volte,
nós realmente sentimos sua falta.
Hagrid engoliu em seco. Mais lágrimas escorreram por suas bochechas e
penetraram a barba embaraçada. Dumbledore se levantou.
- Eu me recuso a aceitar o seu pedido de demissão, Hagrid, e espero que
esteja de volta ao trabalho na segunda-feira - disse ele. - Você tomará café em
minha companhia às oito e meia no Salão Principal. Nada de desculpas. Boa-tarde
para todos vocês.
Dumbledore se retirou da cabana, parando apenas para dar uma coçada
atrás da orelha de Canino. Quando a porta se fechou atrás dele, Hagrid começou
a soluçar com o rosto nas mãos do tamanho de uma tampa de lata de lixo.
Hermione deu palmadinhas em seu braço e finalmente Hagrid ergueu a
cabeça, os olhos de fato muito vermelhos e disse:
- Um grande homem o Dumbledore...
- Grande homem... - concordou Rony. - Posso comer um desses bolos,
Hagrid?
- Sirva-se - disse ele, enxugando os olhos nas costas da mão. - Arre, ele
tem razão, é claro, vocês têm razão... tenho sido idiota... meu velho pai teria se
envergonhado do meu comportamento nesses últimos dias... - Mais lágrimas
escorreram, mas ele as enxugou com mais firmeza e continuou: - Nunca mostrei a
vocês uma foto do meu velho pai, não é? Olhem...
Hagrid se levantou, foi até a cômoda, abriu a gaveta e tirou uma foto de um
bruxo baixinho com os mesmos olhos negros rodeados de rugas do filho, sentado
sorridente no ombro dele. Hagrid tinha bem uns dois metros mais do que o pai, a
julgar pela macieira ao lado deles, mas seu rosto era imberbe, jovem, redondo e
liso - parecia não ter mais que uns onze anos de idade.
- Foi tirada logo depois que vim para Hogwarts - disse Hagrid rouco. ­
Papai morreu muito feliz... achava que eu talvez não fosse bruxo, entende, porque
mamãe.... bem, em todo o caso... claro que, sinceramente, nunca fui grande coisa
em magia... mas pelo menos ele não me viu ser expulso. Morreu, entende, eu
estava no segundo ano... Dumbledore foi quem me apoiou depois que meu pai


morreu. Me arranjou o lugar de guarda caça...confia nas pessoas, ele. Dá uma
segunda oportunidade... é isso que diferencia ele de outros diretores, entendem.
Aceita qualquer pessoa em Hogwarts, que tenha talento. Sabe que as pessoas
podem ser legais mesmo que as famílias delas não tenham sido... bem... tão
respeitáveis assim. Mas tem gente que não entende isso. Tem gente que sempre
usa a família contra a pessoa... tem até gente que finge que tem ossos grandes
em lugar de se levantar e dizer "eu sou o que sou e não me envergonho disso".
"Nunca se envergonhe", meu velho pai costumava dizer, "tem gente que vai usar
isso contra você, mas não vale a pena se preocupar com eles." E ele tinha razão.
Fui um idiota. Não vou me incomodar mais com ela, prometo a vocês. Ossos
graúdos, eu vou mostrar a ela os ossos graúdos."
Harry, Rony e Hermione se entreolharam nervosos, Harry preferia levar
cinqüenta explosivins para passear do que admitir para Hagrid que entreouvira a
conversa dele com Madame Maxime, mas Hagrid continuava falando,
aparentemente inconsciente de que tivesse dito alguma coisa estranha.
- Sabe de uma coisa, Harry? - disse ele tirando os olhos da foto do pai, os
olhos muito brilhantes. - Quando o conheci, você me lembrou um pouco de mim.
Mãe e pai desaparecidos e você sentindo que não ia se adaptar a Hogwarts,
lembra? Não tinha muita certeza de que estava à altura... e agora, olha só você,
Harry! Campeão da escola!
Ele fitou o garoto um instante e então disse, muito sério:
- Sabe o que eu adoraria, Harry? Eu adoraria ver você vencer, realmente
adoraria. Você iria mostrar a eles todos... não é preciso ser puro-sangue para
fazer isso. Você não tem que se envergonhar do que é. Mostraria a eles que
Dumbledore é quem tem razão quando deixa qualquer um entrar desde que seja
capaz de fazer mágica. Como é que você está indo com aquele ovo, Harry?
- Ótimo - disse Harry. - Realmente ótimo.
O rosto infeliz de Hagrid se abriu num grande sorriso lacrimoso.
- O meu garoto... Mostre a eles, Harry, mostre a eles. Derrote eles todos.
Mentir para Hagrid não era bem o mesmo que mentir para outras pessoas.
Harry voltou para o castelo mais no finzinho da tarde com Rony e Hermione, sem
ter coragem de varrer a expressão de felicidade do rosto barbudo de Hagrid ao
imaginá-lo vencendo o torneio. O ovo incompreensível pesou mais que nunca na
consciência de Harry naquela noite, e quando finalmente se deitou já tomara uma
decisão - estava na hora de guardar o orgulho na prateleira e ver se a dica de
Cedrico valia alguma coisa.

- CAPITULO VINTE E CINCO -
O ovo e o olho

Uma vez que Harry não fazia idéia de quanto tempo deveria gastar no
banho para decifrar o segredo do ovo de ouro, ele resolveu tomá-lo à noite,
quando poderia demorar o quanto quisesse. Embora relutasse em aceitar mais
favores de Cedrico, ele resolveu também usar o banheiro dos monitores-chefe,
muito menos gente tinha permissão de entrar lá, por isso era muito menos
provável que ele fosse incomodado.
Harry planejou sua excursão cuidadosamente, porque já fora uma vez
apanhado por Filch, o zelador, no meio da noite, fora da cama e dos limites
estabelecidos, e não tinha vontade de repetir a experiência. A Capa da
Invisibilidade seria, naturalmente, essencial, e como precaução extra, Harry
pensou em levar o Mapa do Maroto, que, depois da capa era o recurso mais útil
para infringir regulamentos que Harry possuía.
O mapa mostrava toda a propriedade de Hogwarts, inclusive seus muitos
atalhos e passagens secretas e, o que era mais Importante, mostrava as pessoas
no interior do castelo como minúsculos pontinhos identificados por legendas que
se deslocavam pelos corredores, de modo que Harry seria alertado se alguém se
aproximasse do banheiro.
Na noite de quinta-feira, ele subiu discretamente ao dormitório, vestiu a
capa, voltou à sala, e, exatamente como fizera na noite em que Hagrid lhe
mostrara os dragões, esperou que o buraco do retrato se abrisse. Desta vez foi
Rony quem esperou do lado de fora para dar a senha à Mulher Gorda (Pastéis de
Banana.
- Boa sorte - murmurou Rony, entrando pelo buraco comunal na mesma
hora em que Harry saía. Estava incômodo andar coberto pela capa hoje, porque
Harry levava debaixo de um braço o ovo de ouro e, com o outro, segurava o mapa
diante do nariz.
No entanto, os corredores banhados de luar estavam desertos e
silenciosos, e, consultando o mapa a intervalos estratégicos, Harry pôde ter
certeza de não encontrar ninguém que quisesse evitar. Quando chegou à estátua
de Bons, o Pasmo, um bruxo com cara de desorientado com as luvas nas mãos
trocadas, ele localizou a porta certa, encostou-se nela e murmurou a senha
Frescor de Pinho, conforme Cedrico o instruíra.
A porta se abriu com um rangido. Harry entrou, trancou-a ao passar e
despiu a Capa da Invisibilidade, olhando ao redor.
Sua reação imediata foi que valia a pena ser monitor-chefe só para poder
usar aquele banheiro. Tinha uma iluminação suave fornecida por um esplêndido
lustre de muitas velas e tudo era feito de mármore branco, inclusive o que parecia
ser uma piscina retangular e vazia rebaixada no meio do piso.
Tinha umas cem torneiras de ouro em volta da borda, cada uma com uma
pedra preciosa de cor diferente engastada na parte superior. Havia também um
trampolim. Longas cortinas de linho protegiam as janelas, havia uma montanha de
toalhas brancas e macias a um canto e um único quadro com moldura de ouro na
parede. Era uma sereia loura, profundamente adormecida sobre um rochedo,
cujos longos cabelos esvoaçavam sobre o rosto toda vez que ela ressonava.


Harry pôs a capa, o ovo e o mapa de lado e avançou, olhando para os
lados, seus passos ecoando nas paredes. Por mais magnífico que o banheiro
fosse - e por mais desejoso que estivesse de experimentar algumas daquelas
torneiras -, agora que estava ali, ele não pôde reprimir de todo a sensação de que
Cedrico podia estar gozando a cara dele. Como é que aquilo poderia ajudá-lo a
resolver o mistério do ovo?
Mesmo assim, ele deixou uma das toalhas macias, a capa, o mapa e o ovo
a um lado da banheira - que mais parecia uma piscina -, depois se ajoelhou e
abriu algumas torneiras.
Percebeu imediatamente que havia diferentes tipos de espuma de banho
misturados à água, embora não fosse um banho de espuma que Harry já tivesse
experimentado.
Uma torneira jorrava bolhas rosas e azuis do tamanho de bolas de futebol,
outra, uma espuma branca gelada tão densa que Harry achou que poderia
sustentar seu peso se ele a quisesse experimentar, uma terceira despejava
nuvens perfumadíssimas na superfície da água. Harry divertiu-se durante algum
tempo abrindo e fechando torneiras, curtindo particularmente o efeito de uma, cujo
jorro ricocheteava na superfície da água e subia em grandes arcos. Então, quando
a piscina funda se encheu de água, espuma e bolhas (que considerando seu
tamanho duravam pouquíssimo tempo), Harry fechou todas as torneiras, despiu o
pijama, os chinelos e o roupão e entrou na água.
Era tão funda que seus pés mal tocavam o piso, e ele chegou a nadar duas
vezes o comprimento da piscina antes de voltar à borda, pingando água, e
examinar atentamente o ovo. Por mais prazeroso que fosse nadar na água quente
e espumosa com nuvens de vapor de cores variadas fumegando a toda volta,
nenhuma intuição genial lhe ocorreu, nenhum súbito clarão de compreensão.
Harry esticou os braços, ergueu o ovo nas mãos molhadas e abriu-o. O som
agudo do choro encheu o banheiro, ecoou, ressoou no mármore, mas continuou a
lhe parecer tão incompreensível quanto antes, se não até mais incompreensível
com todos os ecos que produzia. Ele tornou a fechá-lo com um estalido,
preocupado que o som pudesse atrair Filch, se perguntando se aquilo não teria
sido o que Cedrico planejara - e então, alguém falou, dando-lhe um susto tão
grande que ele deixou cair o ovo que saiu quicando pelo chão do banheiro.
- Eu tentaria colocá-lo dentro da água, se fosse você.
Harry engoliu uma quantidade considerável de bolhas com o choque. Ficou
em pé, cuspindo água, e viu o fantasma de uma garota de aspecto muito tristonho
sentado de pernas cruzadas em cima de uma das torneiras. Era a Murta Que
Geme, cujos soluços em geral eram ouvidos na tubulação de um vaso sanitário
em um banheiro três andares abaixo.
- Murta! - exclamou Harry indignado. - Eu... eu não estou usando nada!
A espuma era tão densa que isso não fazia a menor diferença, mas ele teve
a sensação desagradável de que a Murta o estivera espionando de uma das
torneiras desde que ele chegara.
- Fechei os olhos quando você entrou - disse ela, pestanejando para ele por
trás dos grossos óculos. - Faz séculos que você não vai me ver.


- Tá... bem... - disse Harry, dobrando ligeiramente os joelhos, só para ter
certeza absoluta de que Murta não pudesse ver nada além da sua cabeça. - Não
posso ficar entrando no seu banheiro, não é? É de garotas.
- Você não costumava se importar - respondeu a Murta, infeliz. - Você
costumava passar um tempão lá.
Era verdade, mas apenas porque ele, Rony e Hermione tinham descoberto
que o banheiro interditado da Murta era um lugar conveniente para preparar em
segredo a Poção Polissuco - uma poção proibida que transformara Harry e Rony
em réplicas vivas de Crabbe e Goyle durante uma hora, para que eles pudessem
entrar escondidos na sala comunal da Sonserina.
- Fui repreendido por entrar lá - disse Harry, o que era uma meia verdade,
certa vez Percy o apanhara saindo do banheiro da Murta. - Depois disso, achei
melhor não voltar.
- Ah... entendo... - disse a Murta, cutucando uma pinta no queixo de um
jeito tristonho. - Bom... em todo o caso... eu experimentaria pôr o ovo na água. Foi
o que Cedrico Diggory fez.
- Você andou espionando ele também? - indignou-se Harry. - Que é que
você faz, entra aqui à noite para ver os monitores tomarem banho?
- As vezes - disse a Murta com um ar sonso -, mas nunca apareci para falar
com ninguém antes.
- Que grande honra - disse Harry aborrecido. - Fica de olhos fechados!
Ele verificou se Murta tampara bem os óculos antes de se içar para fora do
banho, enrolando bem a toalha no corpo e indo apanhar o ovo. Depois que ele
entrou de novo na água, a Murta espiou entre os dedos e disse:
- Anda, então... abre ele debaixo da água!
Harry mergulhou o ovo sob a superfície espumosa e abriu-o... e desta vez,
não ouviu nenhum grito. Saía dele um som gorgolejante, uma música cujas
palavras ele não conseguia distinguir através da água.
- Você precisa mergulhar a cabeça também - disse a Murta, que parecia
estar adorando a idéia de dar ordens ao garoto. - Anda!
Harry tomou fôlego e escorregou para dentro da água - e agora, sentado no
fundo da banheira de mármore cheia de espuma, ouviu um coro inquietante de
vozes que cantavam para ele e que vinham do ovo em suas mãos:

Procure onde nossas vozes parecem estar,
Não podemos cantar na superfície,
E enquanto nos procura, pense bem:
Levamos o que lhe fará muita falta,
Uma hora inteira você deverá buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos,
Mas passada a hora - adeus esperança de achar.
Tarde demais, foi-se, ele jamais voltará.

Harry soltou o corpo e emergiu à superfície espumosa, sacudindo os
cabelos para longe dos olhos
- Ouviu? - perguntou a Murta.


- Ouvi... "Procure onde nossas vozes parecem estar..." e se eu precisar que
me convençam... agüenta aí, preciso ouvir de novo...- Ele voltou a afundar na
água.
Foi preciso ouvir a música do ovo mais três vezes para decorá-la, depois
Harry caminhou um pouco dentro da piscina, concentrando o pensamento,
enquanto a Murta continuava sentada a observá-lo.
- Preciso procurar pessoas que não podem usar a voz na superfície... -
disse o garoto lentamente. - Hum... quem poderia ser?
- Você é meio devagar, não é não?
Harry nunca vira a Murta tão animada, a não ser no dia em que a dose da
Poção Polissuco de Hermione deixara a garota com a cara coberta de pêlos e um
rabo de gato.
Harry deixou seu olhar vagar pelo banheiro, refletindo... se as vozes só
podiam ser ouvidas embaixo da água, então fazia sentido que pertencessem a
criaturas sub-aquáticas. Ele passou essa teoria para Murta que riu dele.
- Bem, isso foi o que o Diggory pensou. Ficou deitado aí falando sozinho um
tempão. E põe tempão nisso... quase até a espuma toda desaparecer...
- Sub-aquáticas... - disse Harry lentamente. - Murta... quem mais mora no
lago, além da lula gigante?
- Ah, todo o tipo de coisa. As vezes eu vou até lá... às vezes não tenho
escolha, quando alguém puxa a descarga do meu vaso sem eu estar esperando...
Fazendo força para não pensar na Murta Que Geme descendo veloz por
um cano até o lago, misturada ao conteúdo de um vaso, Harry falou:
- Bem, alguma coisa lá tem voz humana? Calma aí...
Os olhos de Harry tinham pousado sobre o quadro da sereia sonolenta na
parede.
- Murta, tem sereias lá?
- Aaah, muito bem - disse ela, com os grossos óculos cintilando. - Diggory
levou muito mais tempo para sacar! E olha que ela estava acordada - a Murta
acenou com a cabeça em direção à sereia, com uma expressão de grande
desagrado no rosto tristonho - dando risadinhas, se exibindo e fazendo cintilar as
barbatanas...
- É isso então, não é? - perguntou Harry excitado. - A segunda tarefa é ir
procurar as sereias no lago e... e...
Mas ele subitamente percebeu o que estava dizendo e sentiu a excitação
se esvair como se alguém tivesse acabado de puxar uma tomada de sua barriga.
Ele não era bom nadador; nunca pudera praticar muito. Duda recebera aulas
quando os dois eram menores, mas tia Petúnia e tio Valter, sem dúvida na
esperança de que Harry um dia se afogasse, não tinham se incomodado de lhe
ensinar. Nadar duas vezes essa banheira não era problema, mas aquele lago era
muito grande e muito fundo... e as sereias com certeza viviam lá em baixo...
- Murta - perguntou Harry, lentamente -, como é que eu vou respirar?
Ao ouvir isso, os olhos da Murta se encheram de lágrimas inesperadas.
- Que falta de tato! - resmungou ela, procurando um lenço nas vestes.
- Que é que é falta de tato? - perguntou Harry espantado.


- Falar de respirar na minha frente! - disse ela com uma voz aguda que
ecoou muito alta pelo banheiro. - Quando eu não posso... quando eu não respiro...
há séculos... - Ela escondeu o rosto no lenço e fungou alto.
Harry se lembrou como a Murta sempre fora sensível com essa questão de
estar morta, mas nenhum dos outros fantasmas que ele conhecia criava caso por
isso.
- Desculpe - disse com impaciência. - Eu não quis... me esqueci...
- Ah, é, é muito fácil esquecer que a Murta está morta ­ disse ela, engolindo
em seco e fitando o garoto com os olhos inchados. - Ninguém nunca sentiu falta
de mim, nem quando eu estava viva. Levou horas para encontrarem o meu corpo,
eu sei, fiquei sentada lá dentro esperando alguém aparecer. Olívia Hornby entrou
no banheiro e perguntou: "Você está aí emburrada outra vez, Murta? Porque o
Prof. Dippet me pediu para a procurar... Ai ela viu o meu corpo... aaaah, isso ela
não esqueceu até o dia da morte, eu fiz questão de garantir... eu a seguia para
todo o lado para lembrar, me lembro de que no dia do casamento do irmão dela...
Mas Harry não estava escutando, voltara a pensar na musica das sereias:
"Levamos o que lhe fará muita falta ." Pelo jeito elas iam roubar alguma coisa dele,
alguma coisa que ele ia precisar recuperar. Que é que elas iam levar?
- ... então, é claro, ela foi ao Ministério da Magia para me obrigar a parar de
persegui-la, então tive que voltar para cá, viver no meu banheiro.
- Ótimo - disse Harry vagamente. - Bem, já cheguei bem mais longe do que
estava... quer fechar os olhos outra vez, eu vou sair da água.
Ele apanhou o ovo no fundo da banheira, saiu, se enxugou e tornou a vestir
o pijama e o roupão.
- Você vai vir um dia desses me visitar no meu banheiro? - perguntou a
Murta Que Geme em tom lamurioso, quando Harry apanhou a Capa da
Invisibilidade.
- Hum... vou tentar - prometeu Harry, embora intimamente pensasse que a
única maneira de tornar a visitar o banheiro da Murta seria se os outros banheiros
do castelo estivessem interditados. ­ Até outro dia, Murta... obrigado pela ajuda.
- Tchauzinho - disse ela tristonha, e quando Harry se cobriu com a capa ele
a viu disparar de volta à torneira.
Já do lado de fora no corredor escuro, Harry examinou o Mapa do Maroto
para verificar se o caminho continuava livre. Sim, os pontinhos que pertenciam a
Filch e à Madame Norra estavam seguros na sala do zelador... nada mais parecia
estar se mexendo à exceção do Pirraça, que andava saltitando pela sala de
troféus no andar de cima... Harry acabara de dar o primeiro passo de volta à Torre
da Grifinória, quando uma outra coisa no mapa chamou sua atenção... uma coisa
decididamente estranha.
Pirraça não era a única coisa que estava se mexendo. Um pontinho isolado
esvoaçava por uma sala no canto inferior à esquerda - a sala de Snape. Mas o
ponto não estava identificado como "Severo Snape"... era Bartolomeu Crouch.
Harry arregalou os olhos para o ponto. Todos supunham que o Sr. Crouch
estava doente demais para trabalhar ou vir ao Baile de Inverno - então, que é que
ele estava fazendo secretamente em Hogwarts à uma hora da manhã? Harry
observou com atenção o ponto se mexer para um lado e outro da sala, detendo-se
aqui e ali...


O garoto hesitou, pensando... então, sua curiosidade levou a melhor. Ele
deu meia-volta e saiu na direção oposta, para a escada mais próxima. Ia ver o que
Crouch andava aprontando. Harry desceu as escadas o mais silenciosamente que
pôde, embora os rostos em alguns quadros se virassem cheios de curiosidade ao
ouvir o rangido do soalho, o atrito do pijama no seu roupão. Ele seguiu, sorrateiro,
pelo corredor, empurrou uma tapeçaria mais ou menos a meio caminho, e desceu
por uma escada estreita, um atalho que o levaria dois andares abaixo. Harry
mantinha os olhos no mapa, pensando... não parecia coisa do Sr. Crouch, um
homem correto e cumpridor das leis andar xeretando a sala de alguém a essa
hora da noite...
Então, no meio da escada, sem pensar no que estava fazendo, sem se
concentrar em nada exceto no estranho comportamento do Sr. Crouch, sua perna
de repente afundou pelo degrau defeituoso que Neville sempre se esquecia de
pular. Ele se desequilibrou, e o ovo de ouro, ainda molhado do banho, escorregou
de baixo do seu braço - ele se atirou à frente para tentar agarrá-lo, mas tarde
demais: o ovo caiu pela longa escada batendo e ecoando como um tambor em
cada degrau - a Capa da Invisibilidade escorregou - Harry agarrou-a mas o Mapa
do Maroto escapuliu de sua mão e escorregou seis degraus, onde, com a perna
enterrada até o joelho, o garoto não pôde alcançá-lo.
O ovo de ouro atravessou a tapeçaria ao pé da escada, se abriu e soltou o
seu lamento alto no corredor em baixo. Harry puxou a varinha e se esticou para
bater com ela no Mapa do Maroto, para apagá-lo, mas o pergaminho estava fora
do seu alcance...
Cobrindo-se de novo com a capa, Harry se endireitou, escutando com
atenção, os olhos apertados de medo... e, quase imediatamente...
- PIRRAÇA!
Era o inconfundível grito de Filch caçando o poltergeist. Harry ouviu os
passos rápidos e arrastados se aproximarem cada vez mais, a voz asmática
berrando de fúria.
- Que estardalhaço é esse? Quer acordar o castelo inteiro? Vou pegar você
Pirraça, vou pegar, você vai... e o que é isso?
Os passos de Filch pararam, ouviu-se um estalido metálico e o lamento
parou ­ Filch apanhara o ovo e o fechara. Harry ficou muito quieto, a perna ainda
entalada no degrau mágico, à escuta. A qualquer momento agora, Filch iria afastar
a tapeçaria, esperando ver Pirraça... e não haveria Pirraça algum... e se ele
subisse as escadas, encontraria o Mapa do Maroto... e com ou sem Capa da
Invisibilidade, o mapa mostraria "Harry Potter" parado exatamente onde estava.
- Ovo? - exclamou Filch baixinho ao pé da escada. - Minha queridinha! ­
Madame Norra obviamente o acompanhava. ­ Isto é uma pista do Tribruxo! Isto
pertence a um campeão de escola!
Harry se sentiu enjoado, seu coração batia forte e depressa...
- PIRRAÇA! - rugiu Filch com satisfação. - Você andou furtando!
O zelador empurrou a tapeçaria embaixo e Harry viu seu rosto balofo e feio,
seus olhos claros esbugalhados espiarem para o alto da escada escura (e para
Filch) deserta.


- Se escondendo, é? - perguntou baixinho. - Estou indo pegar você,
Pirraça... você foi roubar uma pista do Tribruxo, Pirraça... Dumbledore vai expulsar
você daqui por isso, seu poltergeist gatuno e mau caráter...
Filch começou a subir a escada, a gata magricela, cor de serragem, em
seus calcanhares. Os olhos de Madame Norra iguais a lanternas, tão semelhantes
aos do dono, estavam fixos diretamente em Harry. O garoto já tivera antes ocasião
de se perguntar se a Capa da Invisibilidade funcionava para os gatos... doente de
apreensão, ele observou Filch se aproximar cada vez mais, trajando seu velho
roupão de flanela - tentou desesperadamente soltar a perna entalada, mas só
conseguiu que ela afundasse mais alguns centímetros -, a qualquer segundo
agora, Filch iria ver o mapa ou pisar bem em cima dele...
- Filch? Que é que está havendo?
O zelador parou a poucos degraus abaixo de Harry e se virou. Ao pé da
escada estava a única pessoa que poderia piorar a situação de Harry - Snape.
Estava usando um longo camisão cinzento e parecia lívido.
- É o Pirraça, professor - murmurou Filch maldosamente. - Ele atirou este
ovo escada abaixo. Snape galgou depressa os degraus e parou ao lado de Filch.
Harry cerrou os dentes, convencido de que as marteladas do seu coração o
denunciariam a qualquer minuto...
- Pirraça? - exclamou Snape baixinho, olhando para o ovo nas mãos de
Filch. - Mas Pirraça não poderia ter entrado na minha sala...
- Esse ovo estava na sua sala, professor?
- Claro que não - retorquiu Snape. - Ouvi batidas e lamentos...
- Foi, professor, isso foi o ovo...
- ... vim investigar...
- ... Pirraça atirou o ovo, professor...
- ... e quando passei pela minha sala, vi que os archotes estavam acesos e
a porta de um armário estava entreaberta! Alguém o andou revistando!
- Mas Pirraça não poderia...
- Eu sei que não poderia, Filch! - respondeu Snape com rispidez. - Lacro a
minha sala com um feitiço que somente um bruxo poderia desfazer! ­ Snape olhou
para o alto da escada, diretamente através de Harry, depois para o corredor
embaixo.
- Quero que você venha me ajudar a procurar o intruso, Filch.
- Eu... claro, professor... mas...
Filch mirou as escadas, o olhar desejoso atravessando Harry, e o garoto
percebeu claramente que o homem relutava em deixar passar uma oportunidade
de encurralar Pirraça. Vai, suplicou Harry a ele silenciosamente, vai com o
Snape... vai... Madame Norra espiava em volta das pernas do dono... Harry teve a
nítida impressão de que a gata o farejava... por que ele enchera aquela banheira
com tanta espuma perfumada?
- A questão, professor, é que - disse Filch com voz queixosa - o diretor vai
ter que me escutar desta vez, Pirraça andou furtando de um estudante, talvez seja
a minha chance de o ver expulso do castelo para sempre...
- Filch, estou me lixando para esse desgraçado desse poltergeist, é a minha
sala que...
Toque. Toque. Toque.


Snape parou de falar muito abruptamente. Ele e Filch, os dois, olharam
para o pé da escada. Harry viu Olho-Tonto Moody aparecer mancando pela
estreita abertura entre as cabeças deles. Moody estava usando sua velha capa de
viagem por cima do camisão e se apoiava na bengala como sempre.
- É uma festa em que todos vão de pijama? - rosnou ele para os dois na
escada.
- O Prof. Snape e eu ouvimos ruídos, professor - informou Filch
imediatamente. - Pirraça, o poltergeist, atirando coisas pelo castelo, como sempre,
e Prof. Snape descobriu que alguém tinha invadido a sala...
- Cale a boca! - sibilou Snape.
Moody deu mais um passo em direção à escada. Harry viu seu olho mágico
passar por Snape e, depois, inconfundivelmente, por ele. O coração de Harry deu
um solavanco horrível. Moody via através das Capas da Invisibilidade...somente
ele era capaz de apreender toda a estranheza da cena... Snape de camisão, Filch
agarrado ao ovo e ele, Harry, entalado na escada às costas dos dois. A boca torta
e rasgada de Moody se abriu com a surpresa.
Por alguns segundos ele e Harry se encararam nos olhos. Então, Moody
fechou a boca e tornou a virar seu olho azul para Snape.
- Eu ouvi isso direito, Snape? - perguntou ele lentamente. - Alguém invadiu
sua sala?
- Não tem importância - disse Snape com frieza.
- Muito ao contrário - rosnou Moody -, é muito importante. Quem iria querer
invadir sua sala?
- Um estudante, eu diria. - Harry podia ver uma veia latejar medonhamente
na têmpora gordurosa de Snape. - Já aconteceu antes. Desapareceram
ingredientes para poções do meu estoque particular... sem dúvida estudantes
tentando fazer misturas ilegais...
- Acha que eles andavam atrás de ingredientes para poções, eh? -
perguntou Moody. - Não está escondendo mais nada em sua sala, está?
Harry viu o contorno do rosto macilento de Snape ficar cor de tijolo, a veia
em sua têmpora pulsar mais rápida.
- Você sabe que não estou escondendo nada, Moody ­ respondeu ele em
um tom de voz suave e perigoso -, porque você revistou pessoalmente a minha
sala, e exaustivamente.
O rosto de Moody se contorceu em um sorriso.
- Privilégio de Auror, Snape. Dumbledore me mandou ficar vigilante...
- Acontece que Dumbledore confia em mim - disse Snape por entre os
dentes cerrados. ­ Recuso-me a acreditar que tenha dado ordens para revistar
minha sala!
- Claro que Dumbledore confia em você - rosnou Moody. - Ele é um homem
de boa fé, não é? Acredita em dar uma segunda oportunidade. Mas eu... eu digo
que certos traços de uma pessoa não mudam nunca, Snape. Traços que não
mudam nunca, entende o que eu quero dizer?
Snape subitamente fez uma coisa muito estranha. Segurou o braço
esquerdo convulsivamente com a mão direita, como se alguma coisa nele o
incomodasse.Moody deu uma risada.
- Volte para a cama, Snape.


- Você não tem autoridade para me mandar a lugar algum! - sibilou Snape,
soltando o braço como se estivesse zangado consigo mesmo. - Tenho tanto direito
de andar por esta escola depois do anoitecer quanto você!
- Então ande o quanto quiser - disse Moody, mas sua voz estava carregada
de ameaça. ­ Espero um dia desses encontrá-lo num corredor escuro... a
propósito, você deixou cair uma coisa...
Com uma pontada de horror, Harry viu Moody apontar para o Mapa do
Maroto, que continuava caído na escada, uns seis degraus abaixo dele. Quando
Snape e Filch se viraram para olhar, Harry mandou para o ar toda a cautela,
ergueu os braços por baixo da capa e acenou furiosamente para atrair a atenção
de Moody, falando sem emitir nenhum som: "E meu! Meu!" Snape estendera a
mão para apanhar o mapa, uma medonha expressão de compreensão se
desenhando em seu rosto...
- Accio pergaminho!
O mapa voou para o alto, escapando dos dedos estendidos de Snape, e
mergulhou em direção à mão de Moody.
- Me enganei - disse ele calmamente. - É meu, devo ter deixado cair hoje
mais cedo...
Mas os olhos negros de Snape correram do ovo nos braços de Filch para o
mapa na mão de Moody e Harry percebeu que o professor estava somando dois
mais dois, como só ele era capaz de fazer...
- Potter - disse ele baixinho.
- Que foi que você disse? - perguntou Moody calmamente, dobrando o
mapa e embolsando-o.
- Potter! - rosnou Snape e ele chegou mesmo a virar a cabeça para o lugar
em que Harry estava, como se de repente pudesse vê-lo. - Esse ovo é o ovo de
Potter. Esse pergaminho pertence ao Potter. Já o vi antes e estou reconhecendo!
Potter está aqui! Potter está coberto pela Capa da Invisibilidade!
Snape estendeu as mãos para a frente como um cego e começou a subir a
escada; Harry poderia jurar que as narinas enormes do professor estavam se
dilatando, tentando farejá-lo - com a perna presa, o garoto se deitou para trás,
tentando evitar as pontas dos dedos de Snape, mas a qualquer momento...
- Não há nada aí, Snape! - disse Moody com rispidez. - Mas terei prazer em
contar ao diretor como os seus pensamentos rapidamente voaram para Harry
Potter!
- Está querendo dizer o quê com isso? - rosnou Snape, voltando-se mais
uma vez para encarar Moody, as mãos ainda estendidas, a centímetros do peito
de Harry.
- Quero dizer que Dumbledore está muito interessado em saber quem é que
está querendo acabar com aquele garoto! - respondeu Moody, mancando mais
para junto da escada. - E eu também estou, Snape... muito interessado... - A luz
dos archotes iluminou brevemente seu rosto mutilado, de modo que as cicatrizes e
o pedaço que faltava do seu nariz pareceram mais fundos e mais escuros que
nunca.
Snape estava olhando para baixo, para Moody, e Harry não pôde ver a
expressão do seu rosto. Por um instante, ninguém se mexeu nem disse nada.
Então Snape lentamente baixou as mãos.


- Eu meramente pensei - disse Snape, com uma voz de forçada calma - que
se Potter anda outra vez passeando por aí a altas horas da noite... é um hábito
indesejável que ele tem... deviam obrigá-lo a parar. Para... para sua própria
segurança.
- Ah, entendo - disse Moody brandamente. - Você sempre tem em mente o
que é melhor para Potter, não é mesmo?
Houve uma pausa. Snape e Moody continuaram a se encarar.
Madame Norra miou alto, ainda espiando por trás das pernas de Filch,
procurando a fonte do banho de espuma de Harry.
- Acho que vou voltar para a cama - disse Snape secamente.
- A melhor idéia que você já teve esta noite - comentou Moody. - Agora
Filch, se me fizer o favor de me entregar este ovo...
- Não - exclamou Filch agarrando o ovo como se fosse um filho primogênito.
- Prof. Moody, ele é a prova do comportamento traiçoeiro do Pirraça!
- É a propriedade do campeão de quem ele o roubou - disse Moody. -
Entregue-o, agora.
Snape desceu com arrogância e passou por Moody sem dizer mais nada.
Filch fez um som de chilreio para Madame Norra, que continuou vidrada em Harry
por mais alguns segundos antes de se virar para acompanhar o dono. Ainda
ofegando, Harry ouviu Snape se afastar pelo corredor; Filch entregou o ovo a
Moody e também desapareceu de vista, resmungando para a gata:
- Tudo bem, doçura... veremos Dumbledore amanhã de manhã...
contaremos a ele o que o Pirraça andou fazendo...
Uma porta bateu. Harry ficou olhando para Moody, que apoiou a bengala no
primeiro degrau da escada e começou a subida em direção ao garoto,
penosamente, uma batida surda a cada segundo passo.
- Essa foi por pouco, Potter.
- Foi... eu... hum... obrigado - disse Harry com a voz fraca.
- Que é isso? - perguntou o professor, tirando o Mapa do Maroto do bolso e
desdobrando-o.
- Mapa de Hogwarts - respondeu o garoto, desejando que Moody não
demorasse muito a soltá-lo da escada, sua perna estava realmente doendo.
- Pelas barbas de Merlin! - sussurrou Moody, examinando o mapa, seu olho
mágico endoidando. - É um senhor mapa, Potter!
- É, é... muito útil. - Os olhos de Harry estavam começando a marejar de
dor. - Hum... Prof. Moody, o senhor acha que poderia me dar uma mãozinha...?
- Quê? Ah! É... claro...
Moody segurou os braços de Harry e puxou-o, a perna do garoto se soltou
do degrau defeituoso e ele subiu para o degrau acima. Moody continuou
observando o mapa.
- Potter... - perguntou ele lentamente - não lhe aconteceu, por acaso, ver
quem invadiu a sala de Snape? Neste mapa, quero dizer?
- Hum... vi, vi sim... - admitiu Harry. - Foi o Sr. Crouch.
O olho mágico de Moody perpassou toda a superfície do mapa. De repente
ele pareceu assustado.
- Crouch? Você... você tem certeza, Potter ?
- Absoluta.


- Bem, ele não está mais aqui - disse o professor, seu olho ainda
percorrendo o mapa. - Crouch... isso é muito... muito interessante...
O professor ficou calado quase um minuto, ainda fitando o mapa. Harry
percebeu que aquela notícia significava alguma coisa para Moody, e quis muito
saber o quê. Ficou em dúvida se teria coragem de perguntar. Moody lhe dava um
pouco de medo... no entanto, acabara de ajudá-lo a evitar uma grande confusão...
- Hum... Prof. Moody... por que o senhor acha que o Sr. Crouch queria dar
uma olhada na sala de Snape?
O olho mágico de Moody abandonou o mapa e se fixou, trêmulo, em Harry.
Era um olhar penetrante e o garoto teve a impressão de que Moody o avaliava,
pensando se deveria lhe responder ou o quanto lhe dizer.
- Vamos pôr a coisa desta maneira, Potter - murmurou ele finalmente -,
dizem que o velho Olho-Tonto é obcecado em apanhar bruxos das trevas... mas
Olho-Tonto não é nada, nadinha comparado a Bartô Crouch.
Ele continuou a examinar o mapa. Harry estava ardendo de vontade de
ouvir mais.
- Prof. Moody? - perguntou ele outra vez. - O senhor acha... isso poderia ter
alguma ligação com... talvez o Sr. Crouch pense que tem alguma coisa
acontecendo...
- O quê, por exemplo? - perguntou Moody energicamente.
Harry se perguntou o quanto se atreveria a dizer. Não queria que Moody
adivinhasse que tinha uma fonte de informação fora de Hogwarts; isto poderia
levar a perguntas perigosas sobre Sirius.
- Não sei - murmurou Harry -, tem coisas estranhas acontecendo
ultimamente, não é? Tem saído no Profeta Diário... A Marca Negra na Copa
Mundial, os Comensais da Morte e todo o resto...
Os dois olhos desiguais de Moody se arregalaram.
- Você é um menino perspicaz, Potter. - Seu olho mágico voltou a percorrer
o Mapa do Maroto. - Crouch poderia estar pensando mais ou menos nesse sentido
­ disse ele lentamente. - Muito possível...tem havido boatos esquisitos circulando
por aí ultimamente, com a ajuda de Rita Skeeter, é claro. Eu reconheço que isso
está deixando muita gente nervosa. - Um sorriso amargo torceu sua boca
enviesada. - Ah, se tem uma coisa que detesto - murmurou ele, mais para si
mesmo do que para Harry, e seu olho mágico se fixou no canto inferior esquerdo
do mapa - é um Comensal da Morte que continuou em liberdade...
Harry encarou o professor. Seria possível que Moody estivesse dizendo o
que Harry achava que estava dizendo?
- E agora sou eu que quero fazer a você uma pergunta, Potter - disse
Moody, num tom mais profissional.
Harry sentiu o coração encolher; tinha achado que aquilo não iria demorar.
Moody ia perguntar onde ele arranjara o mapa, que era um objeto mágico muito
duvidoso - e a história de como o mapa viera ter às suas mãos incriminava não
somente a ele, mas ao seu próprio pai, a Fred e Jorge Weasley e ao Prof. Lupin,
seu professor anterior de Defesa contra as Artes das Trevas. Moody agitou o
mapa diante de Harry, que se preparou...
- Posso pedir isso emprestado?


- Ah! - exclamou Harry. Gostava muito do mapa, mas, por outro lado,
sentia-se extremamente aliviado de que Moody não estivesse perguntando onde o
obtivera e não havia dúvida de que ele ficara devendo um favor ao professor. -
Claro, tudo bem.
- Bom menino - rosnou Moody. - Posso fazer bom uso disso... pode ser
exatamente do que eu estava precisando... certo, para a cama, Potter, vamos,
agora...
Os dois subiram juntos a escada, Moody ainda examinando o mapa como
se fosse um tesouro como ele jamais vira igual. Seguiram em silêncio até a porta
da sala de Moody, onde o professor parou e encarou Harry.
- Você já pensou em seguir a carreira de auror, Potter?
- Não - respondeu Harry surpreso.
- Devia pensar nisso - disse Moody, acenando a cabeça e mirando Harry
pensativo. - Sem dúvida devia... e incidentalmente... estou achando que você não
estava simplesmente levando esse ovo para passear hoje à noite?
- Hum... não - respondeu Harry sorrindo. - Estive tentando decifrar a pista.
Moody piscou para o garoto, seu olho mágico endoidando outra vez.
- Nada como um passeio noturno para se ter idéias, Potter... vejo você
amanhã de manhã... ­ E entrando na sala, voltou sua atenção para o Mapa do
Maroto e fechou a porta ao passar.Harry caminhou lentamente até a Torre da
Grifinória, perdido em pensamentos sobre Snape, Crouch e o que significava tudo
aquilo... Por que Crouch estava fingindo estar doente, se podia vir a Hogwarts
quando quisesse? Que é que ele achava que Snape estava ocultando no
escritório?
E Moody achando que ele, Harry, devia ser auror! Que idéia interessante...
mas quando Harry se enfiou silenciosamente em sua cama de colunas, dez
minutos mais tarde, o ovo e a capa já guardados em segurança em seu malão, por
alguma razão ele achou que gostaria de ver se os outros aurores também eram
cheios de cicatrizes, antes de escolher essa carreira.


- CAPÍTULO VINTE E SEIS -
A segunda tarefa

- Você disse que já tinha decifrado a pista daquele ovo! - exclamou
Hermione indignada.
- Fala baixo! - disse Harry aborrecido. - Só preciso... dar uns retoques, tá
bem?
Ele, Rony e Hermione estavam no fundo da classe de Feitiços dividindo
uma mesa. Deviam estar praticando o oposto do Feitiço Convocatório - o Feitiço
Expulsório.
Em vista do elevado potencial de acidentes graves, pois os objetos não
paravam de voar pela sala, o Prof. Flirwick entregara a cada aluno uma pilha de
almofadas com as quais praticarem, baseado na teoria de que não machucariam
ninguém se errassem o alvo. Era uma boa teoria, mas não estava funcionando
muito bem. A mira de Neville era tão ruim, que a toda hora ele atirava


acidentalmente pela sala objetos bem mais pesados - o Prof. Flirwick, por
exemplo.
- Esqueçam o ovo um minuto, está bem? - sibilou Harry, quando o professor
passou voando resignadamente e foi aterrissar no alto de um grande armário.
- Estou tentando contar a vocês sobre o Snape e o Moody...
Essa aula era ideal para disfarçar uma conversa particular, porque todos se
divertiam demais para dar atenção ao que eles faziam. Harry passou a última meia
hora narrando suas aventuras aos cochichos e em prestações.
- Snape disse que Moody tinha revistado a sala dele também? - sussurrou
Rony, seus olhos brilhando de interesse enquanto usava a varinha para expulsar
uma almofada (ela subiu no ar e derrubou o chapéu de Parvati). - Quê?... então
você acha que o Moody está aqui para ficar de olho no Snape e no Karkaroff?
- Bem, não sei se foi isso que Dumbledore pediu a ele para fazer, mas não
tenho dúvida de que é isso que ele está fazendo - disse Harry agitando a varinha
sem prestar muita atenção, ao que sua almofada executou uma estranha
cambalhota antes de se erguer da mesa. - Moody falou que Dumbledore só deixa
o Snape continuar aqui porque está dando a ele uma segunda chance ou uma
coisa assim...
- Quê? - exclamou Rony, arregalando os olhos, e sua almofada seguinte
rodopiou bem alto no ar, ricocheteou no lustre e caiu pesadamente sobre a
escrivaninha de Flitwick. - Harry... vai ver Moody acha que foi Snape quem pôs o
seu nome no Cálice de Fogo!
- Ah, Rony - disse Hermione, sacudindo a cabeça ceticamente -, já
achamos que Snape estava tentando matar o Harry e acabou que estava tentando
salvar a vida dele, lembra?
Hermione expulsou uma almofada que saiu voando pela sala e aterrissou
dentro da caixa para a qual todos deviam estar mirando. Harry olhou para a
amiga, pensando... era verdade que Snape uma vez salvara sua vida, mas o
estranho era que Snape decididamente o detestava, da mesma forma que
detestara o pai de Harry quando freqüentaram a escola juntos. Snape adorava
descontar pontos de Harry e certamente jamais perdera uma oportunidade de
castigá-lo ou até de sugerir que ele fosse suspenso da escola.
- Não importa o que Moody diz - continuou Hermione -, Dumbledore não é
burro. Teve razão em confiar no Hagrid e no Prof. Lupin, mesmo que um monte de
gente não quisesse dar emprego aos dois, então por que não estaria certo a
respeito de Snape, mesmo que Snape seja um pouco...
- ... maligno - completou Rony prontamente. - Ora vamos, Hermione, então
por que todos esses captores de bruxos das trevas estão revistando a sala dele?
- Por que o Sr. Crouch está fingindo que ficou doente? - perguntou
Hermione, não dando atenção a Rony. - É meio estranho, não é, que ele não
consiga comparecer ao Baile de Inverno, mas possa vir aqui no meio da noite
quando dá na telha?
- Você não gosta do Crouch por causa daquele elfo doméstico, Winky ­
disse Rony, fazendo a almofada voar pela janela.
- Você quer pensar que Snape está armando alguma coisa - disse
Hermione, mandando a almofada bem no fundo da caixa.


- Eu só queria saber o que foi que Snape fez com a primeira chance, se
agora está na segunda - disse Harry sério, e, para sua grande surpresa, a
almofada saiu voando pela sala e aterrissou bem em cima da de Hermione.
Harry, obedecendo ao desejo de Sirius de saber de qualquer coisa anormal
que acontecesse em Hogwarts, lhe mandou, naquela noite, por uma coruja
marrom, uma carta explicando toda a história da invasão da sala de Snape pelo
Sr. Crouch, e a conversa entre Moody e Snape. Depois, com seriedade, voltou sua
atenção para o problema mais urgente que tinha diante de si, como sobreviver
uma hora debaixo d"água no dia vinte e quatro de fevereiro.
Rony gostou da idéia de usar outra vez um Feitiço Convocatório - Harry lhe
falara dos aqualungs, e Rony não via razão para o amigo não convocar um
equipamento desses da cidade trouxa mais próxima.
Hermione arrasou o plano mostrando que, no caso improvável de Harry
conseguir aprender como operar um aqualung dentro da hora concedida, ele
certamente seria desqualificado por violar o Código Internacional de Segredo em
Magia - era demais esperar que nenhum trouxa visse o aqualung sobrevoando os
campos a caminho de Hogwarts.
- Claro, a solução ideal seria você se transfigurar em submarino ou outra
coisa assim - disse ela. - Se ao menos já tivéssemos dado Transformação
Humana! Mas acho que só vamos ter essa matéria no sexto ano, e o resultado
pode ser catastrófico se a pessoa não souber o que está fazendo...
- É, acho que não vou gostar de andar por aí com um periscópio saindo da
cabeça - disse Harry. - Imagino que sempre é possível atacar alguém na frente de
Moody, e, quem sabe, ele fizesse isso por mim...
- Mas acho que Moody não iria deixar você escolher a coisa em que quer
ser transformado - comentou Hermione séria. - Não, acho que a sua melhor
chance é usar algum feitiço.
Então, Harry, achando que logo, logo iria tomar um cansaço tão grande de
biblioteca que ia durar para o resto da vida, enterrou-se mais uma vez entre os
livros empoeirados, à procura de um feitiço que permitisse a um ser humano
sobreviver sem oxigênio. Mas, embora ele, Rony e Hermione procurassem nas
horas de almoço, noites e fins de semana inteiros - embora Harry pedisse a Profª
McGonagall uma permissão escrita para usar a Seção Reservada, e chegasse até
a pedir ajuda à irritável Madame Pince, a bibliotecária que lembrava um urubu -,
os garotos não encontraram nadinha que permitisse a Harry passar uma hora
embaixo d"água e sobreviver para contar a história.
Episódios já familiares de pânico estavam começando a perturbar o garoto
agora e, mais uma vez, ele sentia dificuldade de se concentrar nas aulas. O lago,
que Harry sempre encarara como mais um elemento na paisagem dos jardins,
atraía seu olhar sempre que ele se aproximava da janela de uma sala de aula,
uma grande massa cinza-grafite de água friissima, cujas profundezas sombrias e
enregelantes começavam a parecer distantes como a lua.
Do mesmo jeito que acontecera antes, quando ele precisara enfrentar o
Rabo-Córneo, o tempo estava correndo como se alguém tivesse enfeitiçado os
relógios para andarem em alta velocidade. Faltava somente uma semana para o
dia vinte e quatro de fevereiro (ainda havia tempo)... faltavam cinco dias (logo ele


ia achar alguma coisa)... faltavam três dias (por favor, tomara que eu ache alguma
coisa... por favor...).
Faltando apenas dois dias, .Harry começou a perder o apetite. A única
coisa boa do café da manhã de segunda-feira foi o regresso da coruja marrom que
ele enviara a Sirius. Harry soltou o pergaminho, desenrolou-o e viu a menor carta
que o padrinho já lhe escrevera.
Mande dizer a data do próximo fim de semana em Hogsmeade pela mesma
coruja.
Harry virou e revirou o pergaminho, e olhou o verso na esperança de ver
mais alguma coisa, mas estava em branco.
- Sem ser este, o próximo fim de semana - cochichou Hermione, que lera a
carta por cima do ombro de Harry. - Toma aqui a minha pena e manda logo essa
coruja de volta.
O garoto rabiscou a data no verso da carta de Sirius, amarrou-a na perna
da ave e observou-a levantar vôo. Que é que ele tinha esperado? Conselhos para
sobreviver debaixo d'água? Estivera tão preocupado em contar a Sirius o que
havia acontecido entre Snape e Moody, que se esquecera completamente de
mencionar a pista do ovo.
- Para que é que ele quer saber a data do próximo fim de semana de
Hogsmeade? ­ perguntou Rony.
- Não sei - respondeu Harry sem emoção. A felicidade momentânea que
lampejara em seu peito ao ver a coruja se apagara. - Vamos... Trato das Criaturas
Mágicas.
Fosse porque Hagrid estava tentando compensar o fiasco dos explosivins
ou porque agora só restavam dois bichos, ou ainda porque ele estava tentando
provar que era capaz de fazer tudo que a Profª Grubbly-Plank fazia, o fato é que
ele deu continuidade às aulas dela sobre unicórnios, desde sua volta ao trabalho.
Os alunos ficaram sabendo que Hagrid conhecia tanto a respeito de unicórnios
quanto de monstros, embora ficasse evidente que parecia desapontado que os
bichos não tivessem presas envenenadas.
Para hoje, ele conseguira capturar dois filhotes de unicórnio. Ao contrário
dos animais adultos, estes eram absolutamente dourados. Parvati e Lilá tiveram
arroubos de prazer ao vê-los, e até Pansy Parkinson teve que se esforçar para
esconder o quanto gostava dos filhotes.
- Mais fáceis de localizar que os adultos - disse Hagrid à turma. - Eles ficam
prateados aí pelos dois anos de idade e ganham chifres por volta dos quatro. Só
ficam branco-puro quando atingem a idade adulta, aí pelos sete anos. São um
pouco mais confiantes quando filhotes... não se incomodam tanto com os
garotos... vamos, cheguem mais perto para poderem fazer carinho neles se
quiserem... dêem a eles alguns torrões de açúcar...
- Você está bem, Harry? - murmurou Hagrid, afastando-se um pouco para o
lado, enquanto a maioria dos alunos se aglomerava em torno dos bebês -
unicórnios.
-Tô.
- Só nervoso, não é?
- Um pouco.


- Harry - disse Hagrid, fechando a mão maciça no ombro do garoto, fazendo
seus joelhos cederam sob aquele peso -, estive preocupado antes de ver você
enfrentar aquele Rabo-Córneo, mas agora sei que está à altura. Você vai se dar
bem. Já decifrou a nova pista, não?
Harry confirmou com a cabeça mas, ao fazer isso, se apoderou dele uma
vontade louca de confessar que não tinha a menor idéia como iria sobreviver no
fundo do lago durante uma hora. Ele ergueu os olhos para Hagrid - quem sabe o
amigo precisava entrar no lago algumas vezes para cuidar das criaturas que
viviam lá? Afinal, ele cuidava de todo o resto na propriedade...
- Você vai vencer - rosnou Hagrid, dando mais algumas palmadinhas no
ombro de Harry que chegou a sentir que afundara alguns centímetros no chão
lamacento.
- Sei disso. Posso até sentir. Você vai vencer, Harry.
Harry simplesmente não teve coragem de apagar o sorriso feliz e confiante
do rosto de Hagrid. Fingindo que estava interessado nos filhotes de unicórnio,
forçou um sorriso para o amigo e se adiantou para acariciar os animais com os
colegas.
Na noite que antecedeu a segunda tarefa, Harry já se sentia como se
estivesse paralisado por um pesadelo. Tinha plena consciência que se
conseguisse, mesmo por milagre, encontrar um feitiço que servisse, seria um
trabalho de Hércules aprendê-lo da noite para o dia. Como podia ter deixado isto
acontecer? Por que não começara a trabalhar na pista do ovo mais cedo? Por que
deixara seus pensamentos vagarem durante as aulas ­ e se um professor tivesse
mencionado como respirar debaixo d'água?
Ele, Rony e Hermione estavam sentados na biblioteca quando o sol se pôs
lá fora, virando febrilmente páginas e mais páginas de feitiços, escondidos um do
outro por pilhas maciças de livros em cima das mesas de cada um. O coração de
Harry dava um enorme salto cada vez que ele via a palavra "água" em uma
página, mas um número bem maior de vezes era apenas "Meça um litro de água,
duzentos e cinquenta gramas de folhas de mandrágora picadas e pegue um
tritão..."
- Acho que não é possível - disse a voz de Rony do lado oposto da mesa. ­
Não tem nada. Nadinha. O mais próximo que chegamos foi aquela coisa para
secar poças e poços, aquele Feitiço Secante, mas nem de longe teria potência
para secar o lago.
- Tem que haver alguma coisa - murmurou Hermione, trazendo uma vela
para mais perto. Seus olhos estavam tão cansados que ela estava lendo as
letrinhas miúdas de Feitiços e encantos caídos no olvido com o nariz a dois
centímetros da página. - Nunca teriam proposto uma tarefa que fosse inviável.
- Pois propuseram - disse Rony. - Harry, amanhã, vá até o lago, meta a
cabeça dentro dele e grite para os sereianos devolverem o que afanaram, e vê se
eles mandam a coisa de volta. É o melhor que você tem a fazer, companheiro.
- Existe uma maneira de fazer! - disse Hermione zangada. - Simplesmente
tem que existir!
Ela parecia estar tomando como ofensa pessoal o fato de a biblioteca não
ter informações úteis sobre o assunto, a biblioteca jamais lhe falhara antes.


- Eu sei o que deveria ter feito - disse Harry, descansando a cabeça sobre o
livro Truques marotos para marotos de truz. - Eu devia ter aprendido a virar um
animago como Sirius.
- É, você poderia se transformar num peixinho dourado sempre que
quisesse! - exclamou Rony.
- Ou num sapo - bocejou Harry. Estava exausto.
- Leva anos para alguém virar um animago, depois ele tem que se registrar
e tudo o mais ­ disse Hermione vagamente, agora espremendo os olhos para ler o
índice de Estranhos dilemas da magia e suas soluções. - A Profª McGonagall falou
para a gente, lembram... a pessoa tem que se registrar na Seção de Prevenção do
Uso Indevido da Magia... dizer em que animal se transforma, quais as marcas
características, por isso não pode abusar...
- Mione, eu estava brincando - disse Harry exausto. - Eu sei que não tenho
a menor chance de me transformar em sapo até amanhã de manhã...
- Ah, isto aqui não adianta nada - exclamou Hermione, fechando o livro com
violência. - Quem é que vai querer que os pêlos do nariz cresçam em cachinhos?
- Eu não me importaria - disse a voz de Fred Weasley. - Seria um grande
tópico para estimular conversas, não acham não?
Harry, Rony e Hermione levantaram a cabeça. Fred e Jorge tinham
acabado de sair de trás de umas estantes.
- Que é que vocês dois estão fazendo aqui? - perguntou Rony.
- Procurando vocês - disse Jorge. - McGonagall quer ver você, Rony. E
você Mione.
- Por quê? - perguntou a garota, parecendo surpresa.
- Sei lá... mas estava com a cara meio fechada - informou Fred.
- Disse que era para levarmos vocês à sala dela - disse Jorge.
Rony e Hermione olharam para Harry, que sentiu o estômago despencar.
Será que a Profª McGonagall ia brigar com Mione e Rony? Talvez ela tivesse
notado que os dois o estavam ajudando à beça, quando ele devia estar
procurando sozinho uma solução para realizar a tarefa?
- Encontramos você na sala comunal - disse Hermione a Harry, ao se
levantar para acompanhar Rony, os dois pareciam muito ansiosos. - Leva o maior
número de livros que puder, OK.?
- OK. - disse Harry inquieto.
Lá pelas oito horas, Madame Pince apagara as luzes e apareceu para
expulsar Harry da biblioteca. Cambaleando sob o peso do maior número de livros
que pôde carregar, Harry voltou à sala comunal da Grifinória, puxou uma mesa
para um canto e continuou a busca. Não havia nada em Mágicas malucas para
bruxos doidões... nada em Um guia para a feitiçaria medieval, para não mencionar
as proezas submarinas na Antologia de feitiços do século XVIII, ou em Habitantes
medonhos das profundezas ou Poderes que você desconhecia possuir e o que
fazer com eles agora que os descobriu.
Bichento subiu ao colo de Harry e se enroscou ronronando profundamente.
A sala comunal foi se esvaziando aos poucos a volta de Harry. As pessoas não
paravam de lhe desejar boa sorte para a manhã seguinte, com vozes animadas e
confiantes como a de Hagrid, todos aparentemente convencidos de que ele estava
prestes a fazer outra fantástica demonstração como a da primeira tarefa. Harry


não conseguia responder aos colegas, simplesmente acenava com a cabeça, com
a sensação de que havia uma bola de golfe entalada em sua garganta. Por volta
da meia-noite, ele ficou sozinho na sala com Bichento. Procurara em todos os
livros restantes e Rony e Hermione não tinham voltado.
Terminou tudo, disse ele a si mesmo. Você não vai dar conta.
Simplesmente terá que ir até o lago de manhã e dizer aos juizes...
Imaginou-se explicando que não seria capaz de executar a tarefa.
Visualizou os olhos de Bagman arregalados de surpresa, o sorriso cheio de dentes
amarelos de Karkaroff expressando sua satisfação. Conseguiu até ouvir Fleur
Delacour comentar:
- Eu sabia... ele é jóvan demais, é apenes uma crriança.
Ele viu Malfoy fazendo o distintivo POTTER FEDE lampejar sentado bem
na frente dos espectadores, viu o rosto incrédulo e cabisbaixo de Hagrid...
Esquecido de que Bichento estava em seu colo, Harry se levantou muito de
repente, o gato bufou zangado ao aterrissar no chão, lançou ao garoto um olhar
de desagrado e se retirou com o rabo de escova de garrafa no ar, mas Harry já ia
correndo escada acima para o dormitório... apanharia a Capa da Invisibilidade e
voltaria à biblioteca, ficaria lá a noite inteira se fosse preciso...
- Lumus - sussurrou ele quinze minutos depois, ao abrir a porta da
biblioteca. A ponta da varinha acesa, ele andou ao longo das estantes, apanhando
mais livros - livros de azarações e feitiços, livros sobre sereianos e monstros
aquáticos, livros sobre bruxas e bruxos famosos, sobre invenções mágicas, sobre
qualquer coisa que pudesse incluir uma referência passageira à sobrevivência
debaixo d'água.
Carregou-os para uma mesa, então pôs mãos à obra, examinando-os com
o feixe de luz fino de sua varinha, ocasionalmente consultando seu relógio...
Uma hora da manhã... duas horas... a única maneira de continuar era dizer
a si mesmo, repetidamente: Próximo livro... no próximo... no próximo...
A sereia no quadro do banheiro dos monitores-chefe estava dando risadas.
Harry flutuava como uma rolha na água borbulhante próximo ao rochedo do
quadro, enquanto ela agitava a Firebolt dele na mão.
- Venha buscá-la! - riu a sereia maliciosamente. - Anda, salta!
- Não posso - ofegou Harry, tentando arrebatar a Firebolt ao mesmo tempo
que lutava para não afundar. - Me dá a vassoura!
Mas a sereia apenas o cutucava dolorosamente do lado do corpo com o
cabo da vassoura, caçoando dele.
- Isso dói, sai para lá, ai...
- Harry Potter precisa acordar, meu senhor!
- Pára de me cutucar...
- Dobby tem que cutucar Harry Potter, meu senhor, ele tem que acordar!
Harry abriu um olho. Ainda estava na biblioteca, a Capa da Invisibilidade
escorregara de sua cabeça e ele adormecera, e um lado do seu rosto estava
colado na página de Onde há uma varinha, há uma saída. Ele se sentou, ajeitou
os óculos, piscando para a intensa claridade do dia.
- Harry Potter precisa se apressar! - guinchou Dobby. - A segunda tarefa vai
começar dentro de dez minutos e Harry Potter...
- Dez minutos? - grasnou Harry. - Dez... dez minutos?


Ele olhou para o relógio de pulso. Dobby tinha razão. Eram nove e vinte.
Um enorme peso morto pareceu escorregar do peito de Harry para o seu
estômago.
- Depressa, Harry Potter! - guinchou Dobby, puxando a manga do garoto. ­
O senhor devia estar lá embaixo no lago como os outros campeões, meu senhor!
- Tarde demais, Dobby - disse Harry sem esperanças. - Não vou fazer a
tarefa, não sei como...
- Harry Potter vai fazer a tarefa! Dobby soube que Harry não encontrou o
livro certo, então Dobby encontrou para ele!
- Quê? - exclamou Harry. - Mas você não sabe qual é a segunda tarefa...
- Dobby sabe, meu senhor! Harry Potter tem que entrar no lago e procurar o
Wheezy dele...
- Procurar o meu o quê?
- ... e recuperar o Wheezy dele que está com os sereianos!
- O que é um Wheezy?
- O seu Wheezy, meu senhor, o seu Wheezy, Wheezy que dá a Dobby o
suéter!
Dobby deu uns puxões no suéter marrom, que fora encolhido, e que ele
estava usando por cima dos calções.
- Quê!- ofegou Harry. - Eles estão... eles estão com o Rony?
- A coisa que mais fará falta a Harry Potter, meu senhor! - guinchou Dobby.
­ Mas passada a hora... - adeus esperança de achar - recitou Harry,
arregalando os olhos para o elfo, horrorizado. ­ Tarde demais, foi-se, jamais
voltara... Dobby, o que é que eu tenho que fazer?
- O senhor tem que comer isto, meu senhor! - guinchou o elfo, e levando a
mão ao bolso dos calções retirou uma bola que parecia feita de rabos de rato,
viscosos e verde-acinzentados. - Na hora em que for entrar no lago, meu senhor...
guelricho!
- Que é que isso faz? - perguntou Harry olhando para a erva.
- Vai fazer Harry Potter respirar embaixo d'água, meu senhor!
- Dobby - disse Harry histérico - escuta aqui, você tem certeza?
O garoto não esquecera de todo que a última vez que Dobby tentara
"ajudá-lo", ele acabara sem ossos no braço direito.
-... Absoluta certeza, meu senhor! - disse o elfo sério. Dobby escuta coisas,
meu senhor, ele é um elfo doméstico, anda por todo o castelo quando acende as
lareiras e limpa os pisos. Dobby ouviu a Profª McGonagall e o Prof. Moody na sala
de professores, conversando sobre a próxima tarefa... Dobby não pode deixar
Harry Potter perder o Wheezy dele!
As dúvidas de Harry desapareceram. Pondo-se em pé de um salto, ele
despiu a Capa da Invisibilidade, guardou-a na mochila, agarrou o guelricho,
enfiou-o no bolso e saiu correndo da biblioteca com Dobby nos calcanhares.
- Dobby devia estar na cozinha, meu senhor! - guinchou o elfo quando
desembestavam pelo corredor. - Vão dar falta de Dobby, boa sorte, Harry Potter,
meu senhor, boa sorte!
- Vejo você depois, Dobby! - gritou Harry, e saiu desembalado pelo
corredor, descendo as escadas três degraus de cada vez.


No saguão de entrada havia uns poucos retardatários, todos saindo do
Salão Principal depois do café em direção às portas duplas de carvalho da
entrada, para ir assistir à segunda tarefa. Ficaram olhando Harry passar correndo
e mandar Colin e Denis Creevey pelo ar ao saltar os degraus de acesso aos
jardins ensolarados e frios.
Enquanto corria pelos gramados, viu que as arquibancadas que tinham
rodeado o picadeiro dos dragões em novembro agora estavam dispostas ao longo
da margem oposta do lago, quase explodindo de tão lotadas, e que se refletiam
nas águas embaixo; a algazarra excitada dos espectadores ecoava
estranhamente pela superfície das águas enquanto Harry corria pela outra
margem do lago em direção aos juizes, sentados a uma mesa coberta com tecido
dourado. Cedrico, Fleur e Krum estavam parados ao lado da mesa, observando
Harry se aproximar correndo.
- Estou... aqui... - ofegou Harry, derrapando na lama ao parar e,
acidentalmente, sujando as vestes de Fleur.
- Onde é que você esteve? - disse uma voz autoritária censurando-o. - A
tarefa vai começar. Harry olhou para os lados. Percy Weasley estava sentado à
mesa dos juizes - o Sr. Crouch mais uma vez não comparecera.
- Ora, vamos, Percy! - disse Ludo Bagman, que parecia extremamente
aliviado de ver Harry. - Deixe-o recuperar o fôlego!
Dumbledore sorriu para Harry, mas Karkaroff e Madame Maxime não
pareceram nem um pouco satisfeitos de vê-lo... Era óbvio, pela expressão dos
seus rostos, que tinham pensado que o campeão não ia aparecer.
Harry dobrou o corpo, as mãos nos joelhos, procurando respirar; sentia uma
pontada do lado do corpo que lhe dava a sensação de ter uma faca enfiada nas
costelas, mas não havia tempo para se livrar dela, Ludo Bagman agora andava
entre os campeões, espaçando-os pela margem a intervalos de três metros. Harry
ficou bem no fim da fila, ao lado de Krum, que estava de calções de banho e
segurava a varinha em posição.
- Tudo bem, Harry? - sussurrou Bagman, afastando Harry um pouco mais
de Krum. - Sabe o que é que tem de fazer?
- Sei - ofegou o garoto, massageando as costelas.
Bagman lhe deu um breve aperto no ombro e voltou à mesa dos juizes,
depois apontou a varinha para a própria garganta como fizera na Copa Mundial,
disse "Sonorus!" e sua voz reboou sobre as águas escuras até as arquibancadas.
- Bem, os nossos campeões estão prontos para a segunda tarefa, que
começará quando eu apitar. Eles têm exatamente uma hora para recuperar o que
foi tirado deles. Então, quando eu contar três. Um...dois... três!
O apito produziu um som agudo no ar frio e parado, as arquibancadas
explodiram em vivas e palmas, sem se virar para ver o que os outros campeões
estavam fazendo, Harry descalçou os sapatos e as meias, tirou um punhado de
guelricho do bolso, meteu-o na boca e entrou no lago.
O lago estava tão frio que ele sentiu a pele das pernas arder como se
estivesse no fogo e não na água, à medida que ele foi se aprofundando no lago,
agora a água lhe batia pelos joelhos, e seus pés, que rapidamente perdiam a
sensibilidade, escorregavam pelo lodo e as pedras chatas e limosas. Harry


mastigou o guelricho com mais força e pressa que pôde, era borrachudo e viscoso
como tentáculos de polvo.
Com a água gélida pela cintura ele parou, engoliu a erva e esperou que
alguma coisa acontecesse. Ouviu os espectadores rirem e concluiu que devia
estar com cara de idiota, entrando no lago sem dar sinal algum de poder mágico.
A parte do seu corpo ainda seca se encheu de arrepios, semi-imerso na água
gelada, uma brisa impiedosa levantando seus cabelos, Harry Potter começou a
tremer violentamente.
Evitou olhar para as arquibancadas; as risadas estavam mais altas e ele
ouvia assovios e vaias de alunos da Sonserina...
Então, inesperadamente, Harry teve a sensação de que uma almofada
invisível estava cobrindo sua boca e seu nariz. Ele tentou respirar, mas isto fez
sua cabeça girar; seus pulmões se esvaziaram e ele sentiu uma dor súbita e
lancinante dos dois lados do pescoço...
Harry levou as mãos à garganta e sentiu duas grandes aberturas abaixo
das orelhas abanando no ar frio... ganhara guelras. Sem parar para pensar, ele fez
a única coisa que lhe pareceu ajuizada - se atirou no lago.
O primeiro gole de água gelada do lago lhe pareceu um sopro de vida. Sua
cabeça parou de girar, ele tomou mais um gole e sentiu-o passar suavemente
pelas guelras e bombear oxigênio para o seu cérebro. Ele estendeu as mãos para
a frente e olhou-as. Pareciam verdes e fantasmagóricas debaixo d'água e haviam
nascido membranas entre os dedos. Ele se contorceu para ver os pés descalços -
tinham se alongado e igualmente ganho membranas, parecia também que saíam
nadadeiras do seu corpo.
A água não parecia mais gelada, tampouco... pelo contrário, se tornara
agradavelmente fresca e muito leve... Harry recomeçou a bracejar, admirando-se
como seus pés com nadadeiras o impeliam pela água e registrando que estava
enxergando com muita clareza e não sentia mais necessidade de piscar.
Logo nadara uma distância tão grande em direção ao meio do lago que
deixara de ver seu leito. Deu uma cambalhota e mergulhou em suas profundezas.
O silêncio pesou em seus ouvidos ao nadar por uma paisagem estranha, escura e
enevoada. Só conseguia ver três metros ao redor, por isso à medida que se
deslocava novos cenários pareciam surgir repentinamente da escuridão à sua
frente, florestas ondulantes de plantas emaranhadas e escuras, extensões de lodo
coalhadas de pedras lisas e brilhantes. Ele nadava cada vez mais para o fundo e
para o centro do lago, os olhos abertos, espiando, através da misteriosa claridade
cinzenta que iluminava as águas, rumando para as sombras além, em que as
águas se tornavam opacas.
Pequenos peixes passavam velozes por ele como flechas prateadas. Uma
ou duas vezes ele viu um vulto maior nadando mais - adiante, mas quando se
aproximou, descobriu que era apenas um grande tronco enegrecido ou uma moita
densa de plantas. Não viu sinal algum dos outros campeões, nem dos sereianos,
nem de Rony - nem, graças a Deus, da lula gigante.
Plantas verde-claras se estendiam à sua frente até onde sua vista podia
alcançar, como um prado coberto de relva muito crescida. Harry olhava para a
frente sem piscar, tentando discernir as formas na obscuridade... e então, sem
aviso, alguma coisa agarrou seu tornozelo.


Harry se virou e viu um grindylow, um pequeno demônio aquático de
chifres, que saía do meio das plantas, seus dedos compridos apertando a perna
de Harry, as presas pontiagudas à mostra - o garoto enfiou a mão palmada
depressa dentro das vestes e procurou a varinha, até conseguir apanhá-la, mais
dois grindylows tinham emergido das plantas, agarrado as vestes de Harry e
tentavam arrastá-lo para o fundo.
- Relaxo! - disse ele, só que não produziu som algum... uma grande bolha
saiu de sua boca, e sua varinha, em vez de atirar faíscas contra os grindylows,
golpeou-os com algo que pareceu um jato de água fervendo, pois onde os atingiu
surgiram manchas muito vermelhas em sua pele verde. Harry livrou o tornozelo do
aperto dos demônios e nadou o mais rápido que pôde, ocasionalmente
disparando, a esmo, mais jatos de água quente por cima do ombro, de vez em
quando ele sentia um grindylow prender novamente seu pé e o chutava com força,
por fim, seu pé fez contato com um crânio chifrudo e, olhando para trás, ele viu um
grindylow se afastar boiando, vesgo, enquanto seus companheiros sacudiam os
punhos para Harry e tornavam a submergir entre as plantas.
Harry diminuiu um pouco a velocidade, guardou a varinha nas vestes e
olhou ao redor, apurando os ouvidos. Fez uma volta completa na água, o silêncio
pesava mais que nunca em seus tímpanos. Sabia que devia estar bem mais
fundo, mas nada se mexia exceto as plantas ondulantes.
- Como é que você está indo?
Harry achou que estava tendo um ataque cardíaco. Virou-se depressa e viu
a Murta Que Geme flutuando difusamente diante dele, fitando-o através dos
grossos óculos perolados.
- Murta! - Harry tentou gritar, porém, mais uma vez, não saiu nenhum som
de sua boca, apenas uma grande bolha. A Murta Que Geme chegou a dar
risadinhas abafadas.
- Você vai precisar experimentar para aquele lado lá! - disse ela apontando.
- Não vou acompanhar você... não gosto muito deles, sempre me perseguem
quando me aproximo demais...
Harry levantou o polegar à guisa de agradecimento, e recomeçou a nadar,
tendo o cuidado de se colocar um pouco acima das plantas para evitar mais
grindylows que por acaso estivessem escondidos ali.
Ele continuou a nadar por uns vinte minutos ou assim lhe pareceu.
Atravessava agora grandes extensões de lodo escuro, que redemoinhavam
sujando a água agitada por ele. Então, finalmente, ouviu um trecho da música
misteriosa dos serejanos.
Uma hora inteira você deverá buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos...
Harry nadou mais rápido e não tardou a ver um grande penhasco
emergindo na água lodosa à frente. Nele havia pinturas de sereiano, carregavam
lanças e caçavam algo que parecia ser a lula gigante. Harry deixou o penhasco
para trás seguindo a música dos sereianos, já se passou meia hora, por isso não
tarde ou o que você busca apodrecerá aqui...
Um punhado de casas toscas de pedra, manchadas de algas, tomou forma
de repente no lusco-fusco que rodeava o garoto. Aqui e ali, às janelas escuras,


Harry viu rostos... rostos que não tinham qualquer semelhança com o quadro da
sereia no banheiro dos monitores-chefe...
Os sereianos tinham peles cinzentas e longos cabelos desgrenhados e
verdes. Seus olhos eram amarelos, como seus dentes quebrados, e eles usavam
grossas cordas de seixos no pescoço. Lançaram olhares desconfiados quando
Harry passou. Um ou dois saíram das tocas para examiná-lo melhor, seus fortes
rabos de peixe prateados golpeando a água, as lanças nas mãos.
Harry continuou a nadar veloz, olhando para os lados, e logo as casas se
tornaram mais numerosas: havia jardins de folhagens ao redor de algumas, e ele
chegou a ver um grindylow amarrado a uma estaca do lado de fora de uma porta.
Os sereianos apareciam por todos os lados agora, observando-o ansiosos,
apontando para suas mãos palmadas e guelras, falando entre si, com a mão
encobrindo a boca.
Harry virou um canto e deparou com uma cena estranha.
Um grande número de sereianos flutuava diante de casas enfileiradas que
pareciam uma versão local de uma praça de povoado. Um coro cantava no centro,
chamando os campeões e, por trás, erguia ­se uma estátua tosca, um gigantesco
sereiano esculpido em um pedregulho. Quatro pessoas estavam firmemente
amarradas à cauda da estátua.
Rony estava amarrado entre Hermione e Cho Chang. Havia ainda uma
garota que não aparentava ter mais de oito anos e cujas nuvens de cabelos
prateados deu a Harry a certeza de que era irmã de Fleur Delacour. Os quatro
pareciam profundamente adormecidos. Suas cabeças balançavam molemente
sobre os ombros e um fluxo contínuo de pequenas bolhas saía de suas bocas.
Harry correu em direção aos reféns, meio que esperando os sereianos
baixarem as lanças para o atacarem, mas eles nada fizeram. As cordas que
atavam os reféns à estátua eram grossas, viscosas e muito fortes. Por um instante
fugaz ele pensou no canivete que Sirius lhe presenteara no Natal - guardado em
seu malão no castelo a uns quatrocentos metros de distância, não tinha a menor
utilidade.
Harry olhou ao redor. Muitos sereianos que cercavam os reféns seguravam
lanças. O garoto nadou rápido para um deles, com uns dois metros de altura, uma
longa barba verde e uma gargantilha de dentes de tubarão, e tentou, por meio de
mímica, pedir a lança emprestada. O sereiano riu e sacudiu a cabeça.
- Não ajudamos - disse ele numa voz áspera e rouca.
- Ora vamos! - disse Harry com ferocidade (mas apenas bolhas saíram de
sua boca), e ele tentou tirar a lança do sereiano, que a puxou para si, ainda
sacudindo a cabeça e rindo.
Harry deu uma volta completa no corpo, olhando. Alguma coisa afiada,
qualquer coisa...
Havia muitas pedras no leito do lago. Ele mergulhou e apanhou uma de
aspecto afiado e voltou à estátua. Começou, então, a golpear a corda que prendia
Rony e, depois de alguns minutos de esforço, elas se romperam. Rony flutuou,
inconsciente a alguns centímetros do leito do lago, acompanhando o movimento
da água.


Harry correu o olhar à volta. Não viu sinal dos outros campeões. De que é
que estavam brincando? Por que não se apressavam? Ele se virou para
Hermione, ergueu a pedra afiada e começou a golpear as cordas dela também...
Na mesma hora, vários pares de fortes mãos cinzentas o seguraram. Meia
dúzia de sereianos começaram a afastá-lo de Hermione, balançando as cabeças
de cabelos verdes e dando risadas.
- Você leva o seu refém - disse um deles. - Deixe os outros...
- Nem pensar! - respondeu Harry indignado, mas apenas duas bolhas
saíram de sua boca.
- Sua tarefa é resgatar o seu amigo... deixe os outros...
- Ela é minha amiga, também! - berrou Harry, gesticulando em direção a
Hermione, uma enorme bolha prateada desprendendo-se silenciosamente dos
seus lábios.
- E tampouco quero que os outros morram!
A cabeça de Cho descansava no ombro de Hermione, a garotinha de
cabelos prateados parecia pálida e fantasmagoricamente esverdeada. Harry lutou
para afastar os sereianos, mas eles riam com mais vontade que nunca,
empurrando-o para trás. O garoto olhou alucinado para os lados. Onde estavam
os outros campeões? Será que ele teria tempo de levar Rony até a superfície e
voltar para buscar Hermione e as outras?
Será que ele conseguiria encontrá-las de novo? Consultou o relógio para
ver quanto tempo lhe sobrava - o relógio parara de trabalhar.
Mas, então, os sereianos que o rodeavam começaram a apontar excitados
para alguma coisa acima da cabeça dele. Harry ergueu os olhos e viu Cedrico
nadando em direção ao grupo. Havia uma enorme bolha em torno de sua cabeça,
que fazia suas feições parecerem estranhamente largas e esticadas.
- Me perdi! - disse ele silenciosamente, com uma expressão de pânico. -
Fleur e Krum estão vindo agora!
Sentindo-se imensamente aliviado, Harry viu Cedrico puxar uma faca do
bolso e libertar Cho. Ele a puxou para cima e desapareceu de vista. Harry olhou
para os lados, aguardando. Onde estavam Fleur e Krum? O tempo ia se
esgotando e, segundo a música, os reféns jamais voltariam...
Os sereianos começaram a guinchar excitados. Os que seguravam Harry
afrouxaram o aperto, olhando para trás. Harry se virou e viu algo monstruoso
cortando as águas em direção a eles: um corpo humano de calções de banho com
uma cabeça de tubarão... Era Krum. Parecia ter se transformado ­ mas de
maneira incompleta.
O homem-tubarão nadou direto para Hermione e começou a puxar e a
morder as cordas que a prendiam, o problema é que os novos dentes de Krum
estavam posicionados de forma imprópria para morder qualquer coisa menor do
que um golfinho, e Harry tinha quase certeza de que se Krum não tivesse cuidado,
ia cortar Hermione ao meio. Correndo para ele, Harry bateu com força em seu
ombro e estendeu a pedra afiada. Krum agarrou-a e começou a libertar Hermione.
Em segundos, ele terminou: agarrou Hermione pela cintura e, sem ao
menos olhar para trás, começou a subir rapidamente com a garota para a
superfície.


- E agora?", pensou Harry desesperado. Se ele pudesse ter certeza de que
Fleur estava a caminho... Mas não havia nem sinal. Não havia jeito...
Ele agarrou a pedra que Krum largara, mas os sereianos voltaram a se
aproximar de Rony e da garotinha, balançando a cabeça para Harry.
O garoto puxou a varinha.
- Saiam da frente!
Somente bolhas voaram de sua boca, mas ele teve a nítida impressão de
que os sereianos o haviam entendido, porque subitamente pararam de rir. Seus
olhos amarelos se fixaram na varinha de Harry e eles revelaram medo. Eram
muitos e Harry era apenas um, mas o garoto percebeu, pela expressão dos seus
rostos, que os sereianos conheciam tanta magia quanto a lula gigante.
- Vocês têm até três! - gritou Harry; um grande jorro de bolhas saiu de sua
boca, e ele ergueu três dedos para ter certeza de que os sereianos tinham
entendido a mensagem. "- Um... - (ele ergueu um dedo) - dois... - (ergueu o
segundo)...
Eles se dispersaram. Harry se adiantou depressa e começou a golpear as
cordas que prendiam a garotinha à estátua e finalmente libertou-a. Ele a agarrou
pela cintura, agarrou a gola das vestes de Rony e deu impulso para a superfície.
Foi uma subida muito lenta. Ele já não podia usar as mãos palmadas para
se impulsionar, bateu as nadadeiras furiosamente, mas Rony e a irmã de Fleur
eram verdadeiros sacos de batatas que o arrastavam para o fundo... Harry firmou
a vista em direção ao céu, embora soubesse que ainda devia estar muito fundo,
as águas acima estavam tão escuras...
Os sereianos o seguiram na subida. Harry os via rodando à sua volta sem
esforço, vendo-o lutar para vencer a força das águas... será que o puxariam de
volta às profundezas quando seu tempo se esgotasse? Será que comiam seres
humanos? As pernas de Harry se moviam lentamente com o esforço de nadar,
seus ombros doíam horrivelmente com o esforço de arrastar Rony e a garota...
Ele inspirava com extrema dificuldade. Voltou a sentir a dor dos lados do
pescoço... aos poucos foi se tornando consciente da umidade da água em sua
boca... mas decididamente a obscuridade estava raleando agora... já conseguia
ver a luz do dia no alto...
Bateu as nadadeiras com força e descobriu que já não havia nada além de
pés... a água entrava aos borbotões em sua boca e invadia seus pulmões... ele
estava começando a sentir tonteira, mas sabia que a luz e o ar estavam a apenas
três metros acima... tinha que chegar lá... tinha que...
Harry sacudiu as pernas com tanta força e rapidez que teve a sensação de
que seus músculos gritavam em protesto, o próprio cérebro parecia encharcado
de água, ele não conseguia respirar, precisava de oxigênio, tinha que continuar,
não podia parar...
Então sentiu sua cabeça varar a superfície do lago, um ar maravilhoso, frio,
claro, fez seu rosto molhado arder, ele o engoliu, tendo a sensação de que jamais
o respirara antes como devia e, ofegante, puxou Rony e a menininha com ele. A
toda volta, cabeças com cabelos verdes emergiram da água, mas sorriam para
ele.
Os espectadores nas arquibancadas faziam um estardalhaço, gritavam,
berravam, todos pareciam estar de pé, Harry teve a impressão de que pensavam


que Rony e a menininha poderiam estar mortos, mas tinham se enganado... os
dois tinham aberto os olhos, a menina parecia apavorada e confusa, mas Rony
meramente expeliu um grande jato de água, piscou para a claridade, virou-se para
Harry e comentou:
- Um bocado molhado, não? - Depois viu a irmã de Fleur. - Para que foi que
você trouxe a garota?
- Fleur não apareceu. Eu não podia largar ela lá - ofegou Harry.
- Harry, seu débil - disse Rony. - Você não levou aquela música a sério,
levou? Dumbledore não teria deixado nenhum de nós morrer afogado!
- Mas a música dizia...
- Só para garantir que você voltasse dentro do prazo dado! Espero que
você não tenha perdido tempo lá embaixo bancando o herói!
Harry se sentiu no mesmo instante idiota e chateado. Estava tudo muito
bem para Rony, ele estivera adormecido, não sentira como era fantasmagórico lá
no lago, cercado por sereianos armados de lanças com cara de que eram bem
capazes de matar.
- Vamos - disse Harry com rispidez -, me ajude com a garota, acho que ela
não sabe nadar muito bem.
Os dois puxaram a irmã de Fleur pela água, até a margem, onde os juizes
aguardavam de pé observando-os, vinte sereianos acompanhavam os garotos
como uma guarda de honra, cantando aquelas horríveis músicas agudas.
Harry viu Madame Pomfrey cuidando de Hermione, Krum, Cedrico e Cho,
todos enrolados em grossos cobertores. Dumbledore e Ludo Bagman estavam
parados na margem, e sorriram para Harry e Rony quando eles se aproximaram,
mas Percy, que parecia muito pálido e, por alguma razão, mais jovem do que era,
saiu espalhando água ao encontro deles. Entrementes, Madame Maxime tentava
conter Fleur Delacour, que estava muito nervosa, lutando com unhas e dentes
para voltar à água.
- Gabrielle! Gabrielle! Ela está viva? Ela está machucada?
- Ela está ótima! - Harry tentou lhe dizer, mas se sentia tão exausto que mal
conseguia falar, quanto menos gritar.
Percy agarrou Rony e saiu arrastando-o para a margem ("Sai pra lá, Percy,
eu estou bem!"), Dumbledore e Bagman ergueram Harry, Fleur se desvencilhara
de Madame Maxime e abraçava a irmã.
- Forram os g-rrindylows... eles me atacarron... ah, Gabrrielle, pensei...
pensei...
- Venha aqui, você - ouviu-se a voz de Madame Pomfrey, ela agarrou Harry
e levou-o até Hermione e os outros, embrulhou-o num cobertor tão apertado que
ele se sentiu preso numa camisa de força, e empurrou uma dose de uma poção
muito quente pela garganta do garoto. Saiu vapor por suas orelhas.
- Muito bem, Harry! - exclamou Hermione. - Você conseguiu, você
descobriu como conseguir, sozinho!
- Bem... - disse Harry. Ele teria contado a ela sobre Dobby, mas acabara de
notar que Karkaroff o observava. Era o único juiz que não abandonara a mesa, o
único juiz que não dava sinais de satisfação nem alívio que Harry, Rony e a irmã
de Fleur tivessem voltado sãos e salvos. - É, é verdade ­ disse Harry, levantando
ligeiramente a voz para Karkaroff poder ouvi-lo.


- Você tem um besourro-d"água prreso nos cabelos, Hermi-ônini - disse
Krum.
Harry teve a impressão de que Krum estava tentando fazer a garota voltar
sua atenção para ele, talvez para lembrá-la que ele acabara de resgatá-la do lago,
mas Hermione sacudiu o besouro para longe com impaciência.
- Mas você ultrapassou muito o tempo dado, Harry... Você levou muito
tempo para nos encontrar?
- Não... encontrei vocês logo...
A sensação de burrice de Harry foi crescendo. Agora que estava fora da
água, pareceu-lhe perfeitamente claro que as precauções de segurança tomadas
por Dumbledore não teriam permitido a morte de um refém porque o campeão não
aparecera. Por que ele simplesmente não apanhara Rony e viera embora? Teria
sido o primeiro a voltar...
Cedrico e Krum não tinham perdido tempo se preocupando com mais
ninguém, não tinham levado a música dos sereianos a serio...
Dumbledore se encontrava agachado à beira da água, absorto em conversa
com alguém que parecia ser o chefe dos sereianos, uma fêmea particularmente
selvagem, de aspecto feroz. Emitia o mesmo tipo de guinchos que o de seus
companheiros quando estavam embaixo da água, era óbvio que Dumbledore
sabia falar serêiaco. Finalmente ele se ergueu, virou-se para os demais juizes e
disse:
- Acho que precisamos conversar antes de dar as notas.
Os juizes se agruparam. Madame Pomfrey tinha ido salvar Rony dos
abraços de Percy; ela o levou para onde estavam os outros garotos, deu-lhe um
cobertor e um pouco de Poção Estimulante, depois foi buscar Fleur e a irmã. Fleur
tinha muitos cortes no rosto e nos braços, e suas vestes estavam rasgadas, mas
ela não parecia se importar, nem queria deixar Madame Pomfrey tratá-la.
- Cuide da Gabrrielle - disse a garota virando-se para Harry. - Você salvou
minha irrmá ­ disse ofegante. - Mesmo ela não sendo sua rrefém.
- Foi - disse Harry, que agora desejava de todo o coração ter deixado as
garotas amarradas à estátua. Fleur se abaixou, beijou Harry nas duas bochechas
(ele sentiu o rosto queimando e não ficaria surpreso se estivesse pondo vapor
pelas orelhas outra vez), em seguida disse a Rony:
- E você, também... você ajudou...
- Foi - disse ele parecendo extremamente esperançoso -, foi, um
pouquinho...
Fleur se curvou para ele, também, e o beijou. Hermione pareceu
simplesmente furiosa mas, naquele instante, a voz magicamente ampliada de
Ludo Bagman reboou ao lado deles, pregando-lhes um susto e fazendo os
espectadores nas arquibancadas mergulharem num grande silêncio.
- Senhoras e senhores, já chegamos a uma decisão. A chefe dos sereianos,
Murcus, nos contou exatamente o que aconteceu no fundo do lago e, portanto, em
um máximo de cinqüenta, decidimos atribuir a cada campeão, as seguintes
notas...
" A Srta. Fleur Delacour, embora tenha feito uma excelente demonstração
do Feitiço Cabeça-de-bolha, foi atacada por grindylows ao se aproximar do alvo e
não conseguiu resgatar sua refém. Recebeu vinte e cinco pontos."


Aplausos das arquibancadas.
- Eu merrecia zerro - disse Fleur com uma voz gutural, sacudindo a
magnífica cabeça.
- O Sr. Cedrico Diggory, que também usou o Feitiço Cabeça-de-bolha, foi o
primeiro a voltar com a refém, embora tenha chegado um minuto depois da hora
marcada. - Ouviram-se grandes aplausos dos alunos da Corvinal entre os
espectadores, Harry viu Cho lançar um olhar feio a Cedrico. - Portanto, recebeu
quarenta e sete pontos.
O ânimo de Harry despencou. Se Cedrico ultrapassara o limite de tempo,
com certeza ele fizera o mesmo.
- O Sr. Vítor Krum usou uma forma de transformação incompleta, mas ainda
assim eficiente, e foi o segundo a voltar com a refém. Recebeu quarenta pontos.
Karkaroff bateu palmas com especial entusiasmo, fazendo ar de
superioridade.
- O Sr. Harry Potter usou guelricho com grande eficácia - continuou
Bagman. - Ele voltou por último e ultrapassou em muito o prazo de uma hora.
Contudo, a chefe dos sereianos nos informou que o Sr. Potter foi o primeiro a
chegar aos reféns, e o atraso na volta se deveu à sua determinação de trazer
todos os reféns à segurança e não apenas o seu.
Rony e Hermione Lançaram a Harry olhares meio exasperados, meio
penalizados.
- A maioria dos juizes - e aqui Bagman olhou com muita indignação para
Karkaroff- acha que tal atitude revela fibra moral e merece o número máximo de
pontos. Mas... o Sr. Potter recebeu quarenta e cinco pontos.
O estômago de Harry deu um solavanco - agora ia disputar o primeiro lugar
com Cedrico. Rony e Hermione, apanhados de surpresa, olharam para Harry,
começaram a rir e a aplaudir com entusiasmo com o resto dos espectadores.
- Lá vai você, Harry! - gritou Rony sobrepondo-se ao tumulto. - Afinal você
não agiu como débil, revelou fibra moral!
Fleur também o aplaudia freneticamente, mas Krum não pareceu nada feliz.
Tentou puxar conversa com Hermione outra vez, mas ela estava ocupada demais
aplaudindo Harry para lhe dar ouvidos.
- A terceira e última tarefa será realizada ao anoitecer do dia vinte e quatro
de junho ­ continuou Bagman. - Os campeões serão informados do que os espera
exatamente um mês antes. Agradecemos a todos o apoio dado aos campeões.
Terminou, pensou Harry atordoado, quando Madame Pomfrey começou a
arrebanhar os campeões e reféns em direção ao castelo para trocarem roupas
secas... terminara, ele conseguira... não precisava se preocupar com coisa alguma
agora até o dia vinte e quatro de junho...
Da próxima vez que estivesse em Hogsmeade, resolveu ele, ao subir os
degraus de pedra do castelo, ia comprar para Dobby um par de meias para cada
dia do ano.

CAPITULO VINTE E SETE -
A volta de Almofadinhas

Uma das melhores conseqüências da segunda tarefa foi que todo mundo
ficou muito interessado em saber os detalhes do que acontecera no fundo do lago,
o que significou que, uma vez na vida, Rony estava conseguindo dividir as luzes
da ribalta com Harry. Este reparou que a versão do seu amigo sobre os
acontecimentos mudava sutilmente cada vez que ele os contava. A princípio, Rony
narrava o que parecia ter sido a verdade, pelo menos batia com a história de
Hermione - Dumbledore havia mergulhado os reféns em um sono encantado na
sala da Profª McGonagall, depois de garantir a todos que estariam seguros e que
despertariam quando voltassem à superfície da água. Uma semana mais tarde, no
entanto, Rony já estava contando uma história emocionante de seqüestro, em que
ele lutara sozinho contra cinqüenta sereianos armados até os dentes que
precisaram dominá-lo a pancada antes de amarrá-lo.
- Mas eu levei a minha varinha escondida na manga ­ Rony tranqüilizou
Padma Parvat, que parecia bem mais interessada agora que o garoto andava
recebendo tanta atenção, e fazia questão de falar com ele todas as vezes que se
encontravam nos corredores. - Eu poderia ter enfrentado aqueles sereidiotas a
qualquer hora que quisesse.
- Que é que você ia fazer, atacar os caras a roncos? ­ perguntou Hermione
alfinetando-o. Tinham caçoado tanto dela por ser a coisa de que Vítor Krum mais
sentiria falta que ela andava meio mal humorada.
As orelhas de Rony ficaram vermelhas e dali em diante ele reverteu à
versão do sono encantado. Quando março começou, o tempo ficou mais seco,
mas ventos cortantes esfolavam o rosto e as mãos todas as vezes que as pessoas
saíam aos jardins. Havia atrasos no correio porque o vento não parava de tirar as
corujas da rota. A coruja marrom que Harry enviara a Sirius com a data do fim de
semana em Hogsmeade apareceu na hora do café da manhã de sexta-feira com
metade das penas viradas pelo avesso, Harry mal acabara de desprender a
resposta de Sirius, a coruja levantou vôo, visivelmente receosa de que fosse ser
despachada outra vez.
A carta de Sirius era quase tão curta quanto a anterior.

Esteja nos degraus no fim da estrada que sai de Hogsmeade (depois da Dervixes
& Bangues) às duas horas da tarde de sábado. Traga o máximo de comida que
puder.

- Ele não voltou a Hogsmeade? - perguntou Rony, incrédulo.
- O que parece, não é? - disse Hermione.
- Não dá para acreditar - disse Harry tenso. - Se ele for apanhado...
- Mas até agora não foi, não é? - disse Rony. - E agora o lugar nem está
mais infestado de dementadores.
Harry dobrou a carta, pensativo. Se fosse honesto consigo mesmo admitiria
que queria realmente rever Sirius. Seguiu, portanto, para a última aula da tarde -
os dois tempos de Poções - sentindo-se muitíssimo mais animado do que era o
seu normal quando descia as escadas para as masmorras.


Malfoy, Crabbe e Goyle estavam parados à porta da sala de aula com o
grupinho de garotas da Sonserina que andava com Pansy Parkinson. Todas
estavam olhando alguma coisa que Harry não pôde ver e davam risadinhas
animadas. A cara de buldogue de Pansy espiava excitada por trás das largas
costas de Goyle quando Harry, Rony e Hermione se aproximaram.
- Eles vêm vindo aí, eles vêm vindo aí! - disse ela entre risadinhas e o
ajuntamento de alunos da Sonserina se desfez. Harry viu que Pansy tinha nas
mãos uma revista - o Semanário das Bruxas. A foto animada na capa mostrava
uma bruxa de cabelos crespos, com um sorriso cheio de dentes, que apontava
com a varinha para um grande bolo de claras.
- Talvez você encontre aí uma coisa de seu interesse, Granger! - disse
Pansy em voz alta e atirou a revista para Hermione, que a aparou, fazendo cara
de espanto. Naquele momento, a porta da masmorra se abriu e Snape fez sinal
para todos entrarem. Hermione, Harry e Rony se dirigiram a uma mesa no fundo
da sala como de costume.
Quando Snape deu as costas à turma para escrever no quadro-negro os
ingredientes da poção do dia, Hermione folheou rapidamente a revista, por baixo
da mesa. Finalmente, nas páginas centrais, ela encontrou o que estava
procurando. Harry e Rony se aproximaram. Uma foto colorida de Harry encimava
uma pequena notícia intitulada:

"A MAGOA SECRETA DE HARRY POTTER":
Um garoto excepcional, talvez - mas um garoto que sofre todas as dores comuns
da adolescência, escreve Rita Skeeter. Privado do amor desde o trágico
falecimento dos pais, Harry Potter, catorze anos, pensou que tinha achado
consolo com sua namorada firme em Hogwarts, a garota nascida trouxa,
Hermione Granger. Mal sabia que em breve estaria sofrendo mais um revés
emocional numa vida afligida por perdas pessoais.
A Srta. Granger, uma garota sem atrativos mas ambiciosa, parece ter uma queda
por bruxos famosos que somente Harry não basta para satisfazer. Desde que Vitor
Krum, o apanhador búlgaro e herói da última Copa Mundial de Quadribol, chegou
em Hogwarts a Srta. Granger tem brincado com as aflições dos dois rapazes.
Krum, que está visivelmente apaixonado pela dissimulada Srta. Granger, já a
convidou para visitá-lo na Bulgária nas férias de verão e insiste que "nunca se
sentiu assim com nenhuma outra garota.
Contudo, talvez não tenham sido os duvidosos encantos naturais da Srta. Granger
que conquistaram o interesse desses pobres rapazes.
"Ela é realmente feia" diz Pansy Parkinson, uma estudante bonita e viva do quarto
ano, "mas é bem capaz de preparar uma Poção do Amor, tem bastante
inteligência para isso. Acho que foi isso que ela fez."
As poções do amor são naturalmente proibidas em Hogwarts, e sem dúvida Alvo
Dumbledore irá querer apurar essas afirmações. Entrementes, os simpatizantes
de Harry Potter fazem votos que, da próxima vez, ele entregue seu coração a uma
candidata que o mereça.

- Eu disse a você! - sibilou Rony para Hermione que continuava a olhar o
artigo abobada. ­ Eu disse pra você não aborrecer Rita Skeeter! Ela fez você
parecer uma espécie de... Jezabel!
Hermione desfez o ar perplexo e soltou uma risada abafada.
- Jezabel! - repetiu ela, sacudindo o corpo de tanto conter o riso e olhando
para Rony.
- O que mamãe diz que elas são - murmurou Rony, suas orelhas tornando a
corar.
- Se isso é o melhor que Rita é capaz de escrever, então ela está perdendo
o jeito ­ disse Hermione, ainda dando risadinhas e atirando o Semanário das
Bruxas em uma cadeira vazia do lado. - Que monte de lixo.
Hermione olhou para os colegas da Sonserina, que observavam ela e Harry
com atenção, do outro lado da sala, para ver se tinham se chateado com o artigo.
A garota deu um sorriso irônico e acenou para o grupinho. Em seguida ela, Harry
e Rony começaram a desempacotar os ingredientes que iriam precisar para a
Poção da Sagacidade.
- Mas tem uma coisa engraçada - disse Hermione dez minutos depois,
segurando o pilão suspenso sobre uma tigela de escaravelhos. - Como é que a
Rita Skeeter poderia ter sabido...?
- Sabido o quê? - perguntou Rony depressa. - Você não andou preparando
Poções de Amor, andou?
- Deixe de ser retardado - retorquiu Hermione, recomeçando a pilar os
escaravelhos. - Não, é só que... como foi que ela soube que Vítor me convidou
para visitá-lo no verão?
Hermione ficou escarlate ao dizer isso e deliberadamente evitou os olhos de
Rony.
- Quê? - exclamou Rony, deixando cair o pilão com estrépito.
- Ele me convidou logo depois de ter me tirado do lago - murmurou
Hermione. - Assim que se livrou da cabeça de tubarão. Madame Pomfrey nos deu
cobertores e então ele meio que me puxou para longe dos juizes, para eles não
ouvirem, e me perguntou, se eu não estivesse fazendo nada no verão, se eu
gostaria de...
- E o que foi que você respondeu? - perguntou Rony, que apanhara o pilão
e estava amassando a mesa, a bem quinze centímetros do caldeirão, porque não
tirava os olhos de Hermione.
- E ele realmente disse que nunca se sentira desse jeito com nenhuma
garota - continuou ela, tão vermelha agora que Harry até podia sentir o calor que
emanava do corpo dela -, mas como é que Rita Skeeter poderia ter ouvido? Ela
não estava lá... ou estava? Vai ver ela tem uma Capa da Invisibilidade, vai ver
entrou escondida na propriedade para assistir à segunda tarefa...
- E que foi que você respondeu? - repetiu Rony, batendo o pilão com tanta
força que fez uma mossa na mesa.
- Bem, eu estava tão ocupada vendo se você e Harry estavam OK. que...
- Por mais fascinante, sem dúvida, que seja sua vida social, Srta. Granger -
disse uma voz gélida bem atrás deles -, devo lhe pedir para não discuti-la em
minha aula. Dez pontos a menos para Grifinória.


Snape havia deslizado silenciosamente até a mesa dos garotos enquanto
eles conversavam. A turma inteira agora foi se virando para olhá-los, Malfoy
aproveitou a oportunidade para lampejar o POTTER FEDE lá do outro lado da
masmorra.
- Ah... e lendo revistas embaixo da mesa? - acrescentou Snape, agarrando
o exemplar do Semanário das Bruxas. - Outros dez pontos a menos para
Grifinória... ah, mas naturalmente... - os olhos negros de Snape brilharam ao recair
sobre o artigo de Rita Skeeter.
- Potter tem que manter em dia os seus recortes de jornais e revistas sobre
ele...
A masmorra ecoou as risadas dos alunos da Sonserina, e um sorriso
desagradável crispou a boca fina de Snape. Para fúria de Harry, o professor
começou a ler o artigo em voz alta:
- A mágoa secreta de Harry Potter... ai, ai, ai, Potter, onde é que está
doendo agora? Um garoto excepcional, talvez...
Harry sentia o rosto arder agora. Snape parava ao fim de cada frase para
permitir aos alunos da Sonserina rirem à vontade. O artigo parecia dez vezes pior
lido pelo professor.
- Os simpatizantes de Harry Potter fazem votos que, da próxima vez, ele
entregue seu coração a uma candidata que o mereça. Que coisa comovente ­
debochou Snape, enrolando a revista ao som das gargalhadas dos garotos da
Sonserina. - Bem, acho melhor separar vocês três, para que possam se
concentrar nas poções em lugar dos desencontros de suas vidas primorosas.
Weasley, fique onde está. Srta. Granger, lá, ao lado da Srta. Parkinson. Potter,
naquela carteira em frente à minha escrivaninha. Mexam-se. Agora.
Furioso, Harry jogou seus ingredientes e a mochila no caldeirão e arrastou-
o até uma mesa vazia na frente da sala. Snape o acompanhou, sentou-se à
própria escrivaninha e observou Harry descarregar o caldeirão. Decidido a não
olhar para Snape, Harry retomou a tarefa de pilar os escaravelhos, imaginando
que cada um deles tinha a cara do professor.
- Toda essa atenção da imprensa parece ter inchado a sua cabeça que já é
demasiado grande, Potter - disse Snape em voz baixa, depois que o restante da
turma se aquietou.
Harry não respondeu. Sabia que o professor estava tentando provocá-lo, já
fizera isso antes. Sem dúvida esperava ter uma desculpa para descontar
cinqüenta pontos redondos da Grifinória antes do fim da aula.
- Você talvez esteja vivendo a ilusão de que o mundo da magia inteiro está
impressionado com você - continuou Snape, em voz tão baixa que mais ninguém
podia ouvi-lo (Harry continuou a pilar os escaravelhos, embora já os tivesse
reduzido a um pó muito fino) -, mas eu não me impressiono com o número de
vezes que sua foto aparece nos jornais. Para mim, Potter, você não passa de um
menininho mau caráter que acha que está acima dos regulamentos.
Harry virou os escaravelhos pulverizados no caldeirão e começou a cortar
as raízes de gengibre. Suas mãos tremiam levemente de raiva, mas ele mantinha
os olhos baixos, como se nem ouvisse o que Snape dizia.


- Portanto, eu vou lhe dar um aviso, Potter - continuou o professor, num tom
de voz mais suave e perigoso - seja você uma celebridade mirim ou não, se eu o
apanhar invadindo a minha sala outra vez...
- Eu não cheguei nem perto da sua sala! - disse Harry com raiva,
esquecendo sua fingida surdez.
- Não minta para mim sibilou Snape, seus abissais olhos negros perfurando
os de Harry. - Ararambóia. Guelricho. Ambos saíram do meu estoque particular e
eu sei quem foi que os roubou.
Harry sustentou o olhar de Snape, decidido a não piscar, nem fazer cara de
culpado. Na verdade, ele não roubara nenhuma das duas coisas de Snape.
Hermione tirara a ararambóia no segundo ano - tinham precisado dela para a
Poção polissuco -, e embora Snape suspeitasse de Harry na ocasião, nunca
pudera comprovar sua suspeita. Dobby, naturalmente, roubara o guelricho.
- Não sei do que o senhor está falando - mentiu Harry com frieza.
- Você estava fora da cama na noite em que a minha sala foi invadida! ­
sibilou Snape. - Eu sei disso, Potter! Agora talvez Olho-Tonto Moody tenha
entrado para o seu fã-clube, mas eu não vou tolerar o seu comportamento! Mais
um passeio noturno à minha sala, Potter, e você vai me pagar!
- Certo! - respondeu Harry calmamente, voltando sua atenção para as
raízes de gengibre. ­ Me lembrarei disso se algum dia sentir um impulso de entrar
lá.
Os olhos de Snape faiscaram. Ele mergulhou a mão nas vestes negras. Por
um segundo delirante Harry pensou que ele ia puxar a varinha e amaldiçoá-lo ­
então viu que o professor tirara um frasquinho de cristal com uma poção
totalmente cristalina. Harry ficou olhando fixamente para o frasco.
- Sabe o que é isso, Potter? - perguntou Snape, com os olhos mais uma vez
brilhando perigosamente.
- Não - respondeu Harry desta vez com absoluta honestidade.
- E Veritaserum, uma Poção da Verdade tão potente que três gotas fariam
você confessar os seus segredos mais íntimos para a turma inteira ouvir - disse
Snape maldosamente. - Agora, o uso desta poção é controlado por rigorosas
diretrizes do Ministério. Mas a não ser que você tome cuidado com o que faz, vai
acabar descobrindo que a minha mão pode escorregar sem querer - ele sacudiu
de leve o frasquinho de cristal - bem em cima do seu suco de abóbora da noite.
Então, Potter... então descobriremos se você esteve ou não na minha sala.
Harry não respondeu. Voltou mais uma vez sua atenção para as raízes de
gengibre, apanhou uma faca e começou a cortá-las. Não gostou nem um pouco
daquela história de Poção da Verdade, nem duvidou que Snape fosse capaz de
ministrá-la furtivamente. Conteve um tremor ao pensar no que poderia sair sem
querer de sua boca se tomasse a poção... sem falar que deixaria um bocado de
gente em apuros - Hermione e Dobby, para começar -, havia ainda todo o resto
que ele estava escondendo... como o fato de estar em contato com Sirius... e -
suas entranhas reviraram só de pensar - seus sentimentos por Cho... O garoto
acrescentou as raízes de gengibre ao caldeirão e se perguntou se deveria, se
guiar pela cartilha de Moody e começar a beber apenas de um frasco de bolso só
seu.
Houve uma batida na porta da masmorra.


- Entre - disse Snape, com a sua voz habitual.
A turma olhou quando a porta se abriu. O Prof. Karkaroff entrou. Todos o
observaram se dirigir à escrivaninha de Snape. Estava enrolando o dedo na
barbicha outra vez e parecia agitado.
- Precisamos conversar - disse Karkaroff abruptamente, ao chegar perto de
Snape.
Parecia tão decidido a não deixar ninguém ouvir o que estava dizendo que
mal abria a boca, era como se fosse um ventríloquo medíocre. Harry manteve os
olhos nas raízes de gengibre, mas apurou os ouvidos.
- Falarei com você quando terminar a aula, Karkaroff.. - murmurou Snape,
mas o colega o interrompeu.
- Quero falar agora, que você não pode fugir, Severo. Você tem me evitado.
- Depois da aula - retrucou Snape com rispidez.
Sob o pretexto de erguer uma xícara graduada e ver se medira suficiente
bile de tatu, Harry arriscou um olhar de esguelha para os dois. Karkaroff parecia
extremamente preocupado e Snape, aborrecido.
Karkaroff ficou rondando atrás da escrivaninha de Snape durante o resto da
aula. Parecia decidido a impedir que o colega escapulisse no fim da aula.
Interessado em ouvir o que Karkaroff queria dizer, Harry derrubou
intencionalmente um frasco de bile de tatu dois minutos antes de tocar a sineta, o
que lhe deu uma desculpa para se agachar atrás do caldeirão e limpar o chão,
enquanto o restante da turma se deslocava ruidosamente para a porta.
- Que é que é tão urgente assim? - o garoto ouviu Snape sibilar para
Karkaroff.
- Isto - disse Karkaroff, e Harry, espiando por cima do caldeirão, viu o bruxo
levantar a manga esquerda das vestes e mostrar a Snape alguma coisa do lado
interno do antebraço. - Então?, disse Karkaroff, ainda fazendo esforço para não
mexer a boca. - Está vendo? Nunca esteve tão nítida assim, nunca desde...
- Cubra isso! - rosnou Snape, seus olhos negros percorrendo a sala.
- Mas você deve ter reparado - começou Karkaroff com a voz agitada.
- Podemos conversar mais tarde, Karkaroff - vociferou Snape. - Potter! Que
é que você está fazendo?
- Limpando a minha bile de tatu, professor - disse o garoto inocentemente,
se erguendo e mostrando o trapo encharcado que tinha nas mãos.
Karkaroff deu meia-volta e saiu da masmorra. Parecia ao mesmo tempo
preocupado e aborrecido. Não querendo ficar sozinho com um Snape
excepcionalmente raivoso, Harry atirou os livros e os ingredientes para dentro da
mochila e saiu bem depressinha para contar a Rony e Hermione o que acabara de
presenciar.
Os três saíram do castelo ao meio-dia no dia seguinte e depararam com um
jardim iluminado por um sol fraco. O tempo estava mais ameno do que estivera o
ano inteiro e na altura em que chegaram a Hogsmeade os garotos já haviam
despido as capas e jogado-as sobre os ombros. A comida que Sirius pedira para
eles trazerem ia na mochila de Harry; tinham surrupiado uma dúzia de coxas de
galinha, uma fôrma de pão e uma garrafa de suco de abóbora da mesa do almoço.
Foram até a Trapobelo Moda Mágica comprar um presente para Dobby,
onde se divertiram escolhendo as meias mais espalhafatosas que conseguiram


encontrar, inclusive um par com estrelas douradas e prateadas que piscavam, e
outro que berrava quando ficava fedorento demais. Então, à uma e meia eles
subiram a rua Principal, passaram a Dervixes & Bangues e saíram em direção aos
arredores do povoado.
Harry nunca fora para aqueles lados antes. A estradinha serpeante os levou
para os campos sem cultivo em torno de Hogsmeade. As casas ficavam mais
espaçadas ali e os jardins maiores, os garotos caminhavam em direção ao morro
a cuja sombra se situava Hogsmeade. Então fizeram uma curva e viram a escada
no fim da estradinha.
À espera deles, as patas dianteiras apoiadas no degrau mais alto, havia um
enorme cão preto, que segurava alguns jornais na boca e parecia bastante
familiar...
- Olá, Sirius - disse Harry, quando chegaram mais perto.
O cachorro farejou, ansioso, a mochila de Harry, abanou uma vez o rabo,
depois deu as costas e começou a se afastar atravessando o mato ralo que subia
ao encontro do sopé rochoso do morro.
Os garotos subiram os degraus e seguiram o cachorro. Sirius levou-os
exatamente para o sopé do morro, onde o terreno era coberto de pedras e
pedregulhos. Era fácil para ele com suas quatro patas, mas os garotos logo
ficaram sem fôlego.
Continuaram a acompanhar Sirius, que começou a subir o morro
propriamente dito. Durante quase meia hora escalaram uma trilha íngreme,
serpeante e pedregosa, atrás de Sirius que abanava o rabo, suando ao sol, as
tiras da mochila de Harry cortando os ombros do garoto.
Então, finalmente, Sirius desapareceu de vista, e quando eles chegaram ao
lugar em que ele desaparecera, viram uma fenda estreita na rocha. Espremeram-
se por ela e se viram em uma caverna fresca e fracamente iluminada. Preso a um
canto, uma ponta da corda passada em volta de um pedregulho, estava Bicuço, o
hipogrifo.
Metade cavalo cinzento, metade enorme águia, os olhos ferozes e
alaranjados do animal brilharam ao ver os visitantes. Os três fizeram uma
profunda reverência para Bicuço que, depois de fitá-los, imperiosamente, por um
momento, dobrou o joelho escamoso e permitiu que Hermione corresse para
acariciar o seu pescoço coberto de penas. Harry, porém, observava o cachorro
preto que acabara de se transformar em seu padrinho.
Sirius estava usando vestes cinzentas rasgadas; as mesmas que usava
quando deixara Azkaban.
Os cabelos negros estavam mais compridos do que da última vez que
aparecera na lareira, e novamente malcuidados e embaraçados. Parecia muito
magro.
- Galinha! - exclamou, rouco, depois de tirar os exemplares do Profeta
Diário da boca e atirá-los ao chão da caverna. Harry abriu depressa a mochila e
lhe entregou o embrulho de coxas de galinha e pão.
- Obrigado - disse Sirius, abrindo-o, agarrando uma coxa, sentando-se no
chão da caverna e cortando um bom pedaço com os dentes. - Quase que só tenho
comido ratos. Não posso roubar muita comida de Hogsmeade; chamaria atenção
para mim.


Ele sorriu para Harry mas o garoto relutou a retribuir o sorriso.
- Que é que você está fazendo aqui, Sirius? - perguntou.
- Cumprindo minhas obrigações de padrinho - disse Sirius, mordendo o
osso de galinha de um jeito muito canino. - Não se preocupe comigo, estou
fingindo ser um adorável cão vadio.
Ele ainda sorria, mas, ao ver a ansiedade no rosto de Harry, continuou com
mais seriedade:
- Quero estar em cima do lance. A sua última carta... bem, digamos que as
coisas estão começando a cheirar pior. E tenho roubado jornais todas as vezes
que alguém joga um fora e, pelo que parece, eu não sou o único que está ficando
preocupado.
Ele indicou com a cabeça os exemplares amarelados do Profeta Diário no
chão da caverna, e Rony apanhou uns e abriu-os. Harry, no entanto, continuou a
encarar o padrinho.
- E se eles pegarem você? E se virem você?
- Vocês três e Dumbledore são os únicos por aqui que sabem que eu sou
um animago ­ disse Sirius sacudindo os ombros e continuando a devorar a
galinha.
Rony cutucou Harry e lhe passou os exemplares do Profeta Diário. Havia
dois, o primeiro tinha a manchete Doença misteriosa de Bartolomeu Crouch, e o
segundo, Bruxa do Ministério continua desaparecida - o Ministério da Magia agora
está pessoalmente envolvido.
Harry correu os olhos pelo artigo sobre Crouch. Frases soltas destacaram-
se sob seus olhos: não é visto em público desde novembro... casa parece
deserta...O Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos não quer
comentar... Ministério se recusa a confirmar os boatos sobre doença grave...
- Estão fazendo parecer que ele está morrendo - disse Harry lentamente. -
Mas não deve estar se conseguiu vir até aqui...
- Meu irmão é assistente pessoal de Crouch - informou Rony a Sirius. - Ele
diz que o cara está sofrendo de estresse.
- Veja bem, ele realmente parecia doente na última vez que eu o vi de perto
­ disse Harry devagar, ainda lendo o artigo. - Na noite que o meu nome foi
escolhido pelo Cálice...
- Está recebendo o que merecia por despedir Winky, não? - comentou
Hermione friamente. Ela acariciava Bicuço, que mastigava os ossos de galinha
deixados por Sirius. - Aposto como gostaria de não ter feito isso, aposto como
sente a diferença agora que ela não está mais lá para cuidar dele.
- Mione está obcecada por elfos domésticos - murmurou Rony para Sirius,
lançando à garota um olhar aborrecido.
Sirius, no entanto, pareceu interessado.
- Crouch despediu o elfo doméstico dele?
- Despediu na Copa Mundial de Quadribol - disse Harry e começou a contar
a história do aparecimento da Marca Negra, de Winky ter sido encontrada com a
varinha de Harry na mão e da fúria do Sr. Crouch.
Quando Harry terminou, Sirius se levantou novamente e começou a andar
para cima e para baixo na caverna.


- Deixe-me entender isso direito - disse ele depois de algum tempo,
brandindo mais uma coxa de galinha. - Primeiro você viu o elfo no camarote de
honra. Estava guardando um lugar para Crouch, certo?
- Certo - disseram Harry, Rony e Hermione juntos.
- Mas Crouch não apareceu para assistir ao jogo?
- Não - confirmou Harry. - Acho que ele disse que esteve ocupado demais.
Sirius deu outra volta na caverna em silêncio. Então disse:
- Harry, você procurou sua varinha nos bolsos depois que deixou o
camarote de honra?
- Hum... - Harry se concentrou. - Não - respondeu finalmente. - Não precisei
usá-la até chegarmos à floresta. Então meti a mão no bolso e só encontrei o meu
onióculo. - Ele olhou para Sirius. - Você está dizendo que quem conjurou a Marca
furtou minha varinha no camarote de honra?
- É possível - disse Sirius.
- Winky não furtou a varinha! - protestou Hermione com voz aguda.
- O elfo não era o único ocupante do camarote - disse Sirius, enrugando a
testa e continuando a andar. - Quem mais estava sentado atrás de você?
- Um monte de gente - respondeu Harry. - Uns ministros búlgaros...
Cornélio Fudge... os Malfoy...
- Os Malfoy! - exclamou Rony subitamente, tão alto que sua voz ecoou
pelas paredes da caverna o que fez Bicuço agitar a cabeça nervosamente. ­
Aposto como foi o Lúcio Malfoy!
- Mais alguém? - perguntou Sirius.
-Não.
- Ah, sim, tinha o Ludo Bagman - lembrou Hermione a Harry.
-Ah, foi...
- Não sei nada sobre o Bagman, exceto que costumava bater para os
Wimbourne Wasps ­ disse Sirius, ainda andando. - Que tal é ele?
- OK. - disse Harry. - Fica o tempo todo se oferecendo para me ajudar no
Torneio Tribruxo.
- Fica, é? - perguntou Sirius, aprofundando as rugas na testa.
- Por que será que ele faria isso?
- Disse que se afeiçoou a mim.
- Hum - murmurou Sirius pensativo.
- Nós o vimos na floresta pouco antes da Marca Negra aparecer ­ contou
Hermione a Sirius. - Vocês lembram? - perguntou ela a Harry e Rony.
- Lembramos, mas ele não ficou na floresta, não foi? - disse Rony. - Assim
que falamos do tumulto, ele saiu para o acampamento.
- Como é que você sabe? - disparou Hermione. - Como é que você sabe
para onde foi que ele desaparatou?
- Pode parar - disse Rony incrédulo -, você está dizendo que acha que Ludo
Bagman conjurou a Marca Negra?
- É mais provável que ele tenha feito isso do que Winky - retrucou a menina
teimosamente.
- Eu lhe disse - falou Rony dando um olhar significativo para Sirius -, eu lhe
disse que ela está obcecada por elfos...
Mas Sirius ergueu a mão para calar Rony.


- Depois que a Marca Negra foi conjurada e o elfo descoberto segurando a
varinha de Harry, que foi que o Crouch fez?
- Foi procurar no meio das moitas - disse Harry -, mas não havia mais
ninguém lá.
- Claro - murmurou Sirius andando para cima e para baixo -, claro, ele teria
querido pôr a culpa em qualquer um menos no próprio elfo... e então o despediu?
- Foi - disse Hermione num tom acalorado -, despediu, só porque ela não
tinha ficado na barraca esperando ser pisoteada...
- Hermione, será que você pode dar um tempo com esse elfo? - pediu
Rony.
Mas Sirius balançou a cabeça e disse;
- Ela avaliou Crouch melhor do que você, Rony. Se você quer saber como
um homem é veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais.
O bruxo passou a mão pelo rosto barbudo, evidentemente se concentrando.
- Todas essas ausências de Bartô Crouch... ele se dá ao trabalho de
garantir que seu elfo guarde um lugar para ele na Copa Mundial de Quadribol,
mas não se importa de ir assistir. Ele trabalha com afinco para restabelecer o
Torneio Tribruxo, e em seguida pára de comparecer também... isto não se parece
nada com o Crouch. Se ele alguma vez tiver faltado ao trabalho por causa de
doença, eu como o Bicuço.
- Você conhece o Crouch, então? - perguntou Harry.
O rosto de Sirius ficou sombrio. Inesperadamente pareceu tão ameaçador
quanto na noite em que Harry o viu pela primeira vez, quando o garoto ainda
acreditava que o padrinho fosse um assassino.
- Ah, eu conheço Crouch, sim - disse ele em voz baixa. - Foi quem deu a
ordem para me mandar para Azkaban, sem julgamento.
- Quê?- exclamaram Rony e Hermione juntos.
- Você está brincando! - disse Harry.
- Não, não estou - respondeu Sirius, enchendo a boca de galinha. ­ Crouch
costumava ser chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, vocês não
sabiam?
Harry, Rony e Hermione balançaram as cabeças.
- Previa-se que ele fosse o próximo Ministro da Magia. Ele é um grande
bruxo, Bartô Crouch, de grande poder mágico, e de grande fome de poder. Ah,
nunca foi partidário de Voldemort - acrescentou, ao ver a expressão no rosto de
Harry. - Não, Bartô Crouch sempre foi abertamente contra o partido das trevas.
Mas, por outro lado, muita gente que era contra o lado das trevas... bem, vocês
não entenderiam...são muito jovens...
- Foi isso que papai me disse na Copa Mundial - disse Rony, com um quê
de irritação na voz. - Experimente nos contar.
Um sorriso perpassou o rosto magro de Sirius.
- Está bem, vou experimentar...
Ele andou até um lado da caverna, voltou e então disse:
- Imaginem que Voldemort detivesse o poder agora. Vocês não sabem
quem são os partidários dele, não sabem quem está e quem não está trabalhando
para ele, vocês sabem que ele é capaz de controlar as pessoas para que façam
coisas terríveis sem conseguir se conter. Vocês próprios estão apavorados, suas


famílias e amigos, também. Toda semana vocês têm notícias de mais mortes,
mais desaparecimentos, mais torturas... o Ministério da Magia está
desestruturado, não sabe o que fazer, tenta ocultar dos trouxas o que está
acontecendo, mas nesse meio tempo os trouxas estão morrendo também. Terror
por toda parte... pânico... confusão... era assim que costumava ser.
- Bem, tempos assim fazem vir à tona o que alguns têm de melhor e o que
outros têm de pior. Os princípios de Crouch podem ter sido bons no início - eu não
saberia dizer. Ele subiu rapidamente no Ministério e começou a mandar executar
medidas muito severas contra os partidários de Voldemort. Os aurores receberam
novos poderes - para matar em vez de capturar, por exemplo. E eu não fui o único
a ser entregue diretamente aos dementadores sem julgamento. Crouch combateu
violência com violência e autorizou o uso das Maldições Imperdoáveis contra os
suspeitos. Eu diria que ele se tornou tão impiedoso e cruel quanto muitos do lado
das trevas.
- Ele tinha os seus partidários, me entendam - muita gente achava que ele
estava tratando o problema corretamente, e havia bruxas e bruxos exigindo que
ele assumisse o Ministério da Magia.
- Quando Voldemort sumiu, pareceu que era apenas uma questão de tempo
para Crouch assumir o posto maior no Ministério. Mas então aconteceu uma
infelicidade... Sirius sorriu amargurado. - O único filho de Crouch foi apanhado
com um grupo de Comensais da Morte que tinham conseguido sair de Azkaban
contando uma boa história. Aparentemente pretendiam encontrar Voldemort para
reconduzi-lo ao poder.
- O filho de Crouch foi apanhado? - exclamou Hermione.
- Foi - disse Sirius, atirando o osso de galinha para Bicuço, e voltando a se
sentar ao lado da fôrma de pão, que ele cortou ao meio. - Imagino que tenha sido
um choque e tanto para o velho Bartô. Deveria ter passado mais tempo em casa
com a família, não acham? Deveria ter saído do escritório mais cedo um dia...
procurado conhecer o filho.
Sirius começou a devorar grandes bocados de pão.
- O filho dele era mesmo um Comensal da Morte? - perguntou Harry.
- Não faço idéia - respondeu o padrinho, enfiando mais pão na boca. - Eu
próprio estava em Azkaban quando o trouxeram. Descobri a maior parte do que
estou contando depois que saí. O rapaz foi sem a menor dúvida apanhado em
companhia de gente que, posso apostar minha vida, era Comensal da Morte, mas
ele talvez estivesse no lugar errado na hora errada, como esse elfo doméstico.
- Crouch tentou e conseguiu livrar o filho? - sussurrou Hermione.
Sirius deu uma risada que pareceu muito mais um latido.
- Crouch livrou o filho? Achei que você o tinha avaliado corretamente,
Hermione. Qualquer coisa que ameaçasse manchar a reputação dele precisava
ser afastada, ele dedicou a vida inteira a chegar a Ministro da Magia. Vocês viram
ele dispensar um dedicado elfo doméstico porque o associou com a Marca Negra,
isso não diz a vocês que tipo de pessoa ele é? O máximo a que sua afeição
paternal chegou foi dar ao filho um julgamento e, é voz geral, que isso não passou
de uma desculpa para Crouch mostrar como detestava o rapaz... depois mandou-
o direto para Azkaban.


- Ele entregou o próprio filho aos dementadores? - perguntou Harry em voz
baixa.
- Isso mesmo - disse Sirius e ele não parecia estar achando graça alguma
então. - Eu vi os dementadores trazerem o rapaz preso, observei-os pelas grades
da porta da minha cela. Não devia ter mais de dezenove anos. Foi encarcerado
em uma cela perto da minha. Ao cair da noite ele já estava gritando pela mãe.
Mas, depois de alguns dias, se calou... no fim todos se calam... exceto quando
gritam durante o sono...
Por um momento, a expressão mortiça nos olhos de Sirius se tornou mais
acentuada que nunca, como se as janelas tivessem se fechado por trás deles.
- Então ele ainda está em Azkaban? - perguntou Harry.
- Não - disse Sirius sem emoção. - Não, ele não está mais lá. Morreu um
ano depois de o levarem para lá.
- Morreu?
- Ele não foi o único - disse Sirius com amargura. - A maioria enlouquece lá,
e muitos param de comer quando se aproximam do fim. Perdem a vontade de
viver. A gente sempre sabia quando a morte estava próxima, porque os
dementadores pressentiam e ficavam excitados. O rapaz tinha um ar bem doentio
quando chegou.
- Por ser um importante funcionário do Ministério, Crouch e a mulher
receberam permissão para visitá-lo no leito de morte. Foi a última vez que vi Bartô
Crouch, meio que carregando a mulher ao passar no corredor diante da minha
cela. Parece que ela também morreu pouco depois. Tristeza. Definhou como o
filho. Crouch nunca foi buscar o corpo do rapaz. Os dementadores o enterraram
do lado de fora da fortaleza, eu fiquei assistindo.
Sirius pôs de lado o pão que acabara de levar à boca e, em lugar disso,
apanhou a garrafa de suco de abóbora e a esvaziou.
- Então o velho Crouch perdeu tudo, quando achou que chegara ao topo -
continuou ele, limpando a boca com as costas da mão. - Num momento, um herói,
pronto a se tornar Ministro da Magia... no momento seguinte, o filho morto, a
mulher morta, o nome da família desonrado e, pelo que ouvi desde que fugi, uma
grande queda na popularidade. Depois que o rapaz morreu, as pessoas
começaram a sentir um pouco mais de simpatia por ele, e começaram a indagar
como é que um rapaz de boa família tinha entortado daquele jeito. A conclusão foi
de que o pai nunca se preocupara muito com ele. Então Cornélio Fudge ganhou o
lugar de ministro e Crouch foi deslocado para o Departamento de Cooperação
Internacional em Magia.
Houve um longo silêncio. Harry ficou pensando no jeito com que os olhos
de Crouch tinham saltado quando ele encarou o elfo desobediente lá na floresta,
no final da Copa Mundial de Quadribol.
Isto então devia ter sido a razão da reação exagerada de Crouch ao saber
que Winky fora encontrada embaixo da Marca Negra. A cena lhe trouxera
lembranças do filho, do antigo escândalo e de sua queda no Ministério.
- Moody diz que Crouch é obcecado para caçar bruxos das trevas - disse
Harry a Sirius.
- É, ouvi falar que se tornou uma espécie de mania nele - disse Sirius
concordando com a cabeça. - Se você quer saber a minha opinião, ele ainda acha


que pode recuperar a antiga popularidade capturando mais um Comensal da
Morte.
- E ele veio escondido a Hogwarts para revistar a sala de Snape! -
exclamou Rony com ar de triunfo, olhando para Hermione.
- É, e isso não faz o menor sentido - disse Sirius.
- Claro que faz! - disse Rony excitado.
Mas Sirius balançou a cabeça.
- Escute aqui, se Crouch quisesse investigar Snape, por que então não tem
ido julgar o torneio? Seria a desculpa ideal para fazer visitas regulares à escola e
ficar de olho em Snape.
- Então você acha que Snape pode estar aprontando alguma? - perguntou
Harry, mas Hermione os interrompeu.
- Olhem, eu não acredito no que vocês estão dizendo, Dumbledore confia
em Snape...
- Ah, corta essa, Hermione - disse Rony impaciente. - Eu sei que
Dumbledore é genial e tudo o mais, mas isto não significa que um bruxo das
trevas realmente inteligente não possa enganar ele...
- Por que foi, então, que Snape salvou a vida de Harry no primeiro ano? Por
que simplesmente não o deixou morrer?
- Não sei, vai ver pensou que Dumbledore lhe daria um chute...
- Que é que você acha Sirius? - perguntou Harry em voz alta, e Rony e
Hermione pararam de discutir para escutar.
- Acho que os dois têm uma certa razão - disse Sirius, olhando pensativo
para Rony e Hermione. - Desde que descobri que Snape estava ensinando na
escola, tenho pensado por que Dumbledore o contratou. Snape sempre foi
fascinado pelas artes das trevas, era famoso por isso na escola. Um garoto
esquivo, seboso, os cabelos gordurosos - acrescentou Sirius, e Harry e Rony se
entreolharam rindo. ­ Snape conhecia mais feitiços quando chegou na escola do
que metade dos garotos do sétimo ano e fazia parte de uma turma da Sonserina,
que, na maioria, acabou virando Comensal da Morte.
Sirius ergueu a mão e começou a contar nos dedos.
- Rosier e Wilkes, os dois foram mortos por aurores um ano antes da queda
de Voldemort. Os Lestranges se casaram, estão em Azkaban. Avery pelo que ouvi
dizer livrou a cara dizendo que tinha agido sob o efeito da Maldição Imperius,
continua solto. Mas até onde sei, Snape nunca foi acusado de ser Comensal da
Morte, não que isto signifique grande coisa. Muitos deles jamais foram presos. E
Snape certamente é muito inteligente e astuto para conseguir ficar de fora.
- Snape conhece Karkaroff muito bem, mas não quer divulgar isso - disse
Rony.
- É, você devia ver a cara de Snape quando Karkaroff apareceu na aula de
Poções ontem! ­ disse Harry depressa. - Karkaroff queria falar com Snape, disse
que o professor andava evitando ele. Karkaroff parecia realmente preocupado.
Mostrou a Snape alguma coisa no braço, mas não pude ver o que era.
- Ele mostrou a Snape alguma coisa no braço? - exclamou Sirius,
parecendo sinceramente espantado. Passou os dedos, distraído, pelos cabelos
imundos, depois encolheu os ombros. - Bem, não faço idéia do que possa ser...


mas se Karkaroff está genuinamente preocupado, procurou Snape para obter
respostas...
Sirius ficou olhando para a parede da caverna, depois fez uma careta de
frustração.
- Mas ainda temos o fato de que Dumbledore confia em Snape, sei que
Dumbledore confia no que muita gente não confiaria, mas não consigo vê-lo
deixando Snape ensinar em Hogwarts se algum dia tivesse trabalhado para
Voldemort.
- Então por que Moody e Crouch estão tão interessados em entrar na sala
de Snape? ­ insistiu Rony.
- Bem - respondeu Sirius lentamente -, eu não duvidaria que Olho-Tonto
tivesse revistado as salas de todos os professores quando chegou em Hogwarts.
Ele leva a sério a Defesa contra as Artes das Trevas. Não tenho certeza de que
ele confie em alguém, e depois das coisas que tem visto, isto não é surpresa. Mas
vou dizer uma coisa a favor do Moody, ele nunca matou ninguém se pudesse
evitar. Sempre capturou as pessoas vivas, quando era possível. Ele é durão mas
nunca desceu ao nível dos Comensais da Morte. Já Crouch é outra conversa... ele
está mesmo doente? Se está, por que fez o esforço de se arrastar até o escritório
de Snape? E se não está... o que é que ele anda tramando? Que é que ele estava
fazendo de tão importante durante a Copa Mundial que não apareceu no camarote
de honra? Que é que ele está fazendo enquanto devia estar julgando o torneio?
Sirius caiu em silêncio, ainda fitando a parede da caverna. Bicuço fuçava o
chão empedrado à procura de ossos que pudesse ter deixado passar. Finalmente
Sirius ergueu os olhos para Rony.
- Você disse que seu irmão é assistente pessoal do Crouch? Você tem jeito
de perguntar se ele tem visto Crouch ultimamente?
- Posso tentar - disse Rony em dúvida. - Mas é melhor não parecer que
desconfio que Crouch esteja fazendo alguma coisa escondido. Percy adora
Crouch.
- E poderia, ao mesmo tempo, tentar descobrir se encontraram alguma pista
da Berta Jorkins - disse Sirius, apontando para o segundo exemplar do Profeta
Diário.
- Bagman me disse que não tinham - informou Harry.
- É, ele é citado no artigo do Profeta. Alardeando que a memória de Berta é
bem ruizinha. Bem, talvez ela tenha mudado desde que eu a conheci, mas a Berta
que conheci não era nada desmemoriada, muito ao contrário. Era um pouco
obtusa, mas tinha uma excelente memória para fofocas. Isso costumava metê-la
em muita confusão, nunca sabia quando ficar de boca calada. Posso entender que
representasse um certo risco para o Ministério da Magia... talvez tenha sido por
isso que Bagman não se importou de procurar por ela tanto tempo...
Sirius deu um enorme suspiro e esfregou os olhos contornados de sombras
escuras.
- Que horas são?
Harry consultou o relógio, então se lembrou de que não estava funcionando
desde que passara uma hora dentro do lago.
- São três e meia - informou Hermione.


- É melhor vocês voltarem para a escola - disse Sirius, se levantando. -
Agora, escutem aqui... ­ E olhou mais insistentemente para Harry. - Não quero
vocês saindo escondidos da escola para me ver, certo? Me mandem bilhetes para
cá. Continuo querendo saber de qualquer coisa estranha. Mas vocês não devem
sair de Hogwarts sem permissão, seria uma oportunidade ideal para alguém
atacá-los.
- Até agora ninguém tentou me atacar, exceto o dragão e uns dois
grinelylows - disse Harry.
Mas Sirius amarrou a cara para ele.
- Não quero saber... Vou respirar outra vez em paz quando esse torneio
terminar, o que não vai acontecer até junho. E não se esqueçam, se estiverem
falando de mim entre vocês, me chamem de Snuffles, OK.?
Ele devolveu a Harry a garrafa e o guardanapo vazios e foi dar uma
palmadinha de despedida em Bicuço.
- Acompanho vocês até a entrada do povoado - disse Sirius -, vou ver se
consigo catar mais um jornal.
Ele se transformou no enorme cão preto antes de deixarem a caverna, e
juntos desceram a encosta do morro, atravessaram o terreno pedregoso e
voltaram à escada. Ali ele deixou cada um dos garotos lhe acariciar a cabeça e,
em seguida, virou as costas e saiu correndo pela periferia do povoado.
Harry, Rony e Hermione voltaram para Hogsmeade e dali para Hogwarts.
- Será que o Percy conhece toda essa história sobre o Crouch? - comentou
Rony quando subiam a estrada do castelo. - Mas vai ver ele não se importa...
provavelmente ia admirar o Crouch ainda mais. É, o Percy adora regulamentos. Ia
dizer que o Crouch se recusou a infringir os regulamentos em favor do próprio
filho.
- Percy não atiraria nenhuma pessoa da família dele aos dementadores ­
disse Hermione com severidade.
- Não sei, não - respondeu Rony. - Se achasse que estávamos
atrapalhando a carreira dele... Percy é realmente ambicioso, sabem...
Eles subiram os degraus de pedra e entraram no saguão do castelo, onde
vieram ao seu encontro os cheiros gostosos do jantar no Salão Principal.
- Coitado do velho Snuffles - disse Rony inspirando profundamente. - Ele
deve realmente gostar de você, Harry... imagine ter que comer ratos para
sobreviver.


- CAPITULO VINTE E OITO -
A loucura do Sr. Crouch

No domingo, Harry, Rony e Hermione subiram ao corujal depois do café da
manhã, para enviar uma carta a Percy, perguntando, conforme Sirius sugerira, se
ele tinha visto o Sr. Crouch ultimamente.
Usaram Edwiges, porque fazia muito tempo que ela não recebia uma tarefa.
Depois que a viram desaparecer no horizonte pela janela do corujal, desceram à
cozinha para dar a Dobby as meias novas. Os elfos domésticos receberam os
garotos com grande alegria, fazendo mesuras e reverências e se apressando em
preparar um chá. Dobby ficou extasiado com o presente.
- Harry Potter é bom demais para Dobby! - guinchou ele, secando as
grossas lágrimas que marejavam seus olhos enormes.
- Você salvou minha vida com aquele guelricho, Dobby, verdade - disse
Harry.
- Alguma chance de terem sobrado bombas de creme? - perguntou Rony,
olhando para os elfos sorridentes e cheios de mesuras.
- Você acabou de tomar café! - exclamou Hermione irritada, mas uma
grande travessa de prata contendo bombas de creme já vinha voando na direção
do garoto, trazida por quatro elfos.
- Devíamos arranjar alguma coisa para mandar a Snuffles - murmurou
Harry.
- Boa idéia - aprovou Rony. - Dar a Píchi o que fazer. Vocês poderiam nos
dar um pouco mais de comida? - perguntou Rony aos elfos que os rodeavam, e
eles se inclinaram prazerosamente e correram a apanhar alguma coisa.
- Dobby, onde está Winky? - perguntou Hermione, olhando para os lados.
- Winky está ali adiante junto ao fogo, senhorita ­ respondeu Dobby em voz
baixa, suas orelhas caindo ligeiramente.
- Essa, não! - exclamou Hermione ao localizar Winky.
Harry também olhou para o fogo. Winky estava sentada no mesmo
banquinho que da última vez, mas ficara tão imunda que não se conseguia
distingui-la imediatamente dos tijolos enegrecidos de fumaça atrás dela. Suas
roupas estavam rasgadas e sujas.
Segurava uma garrafa de cerveja amanteigada e cambaleava um pouco no
banquinho, olhando fixamente para as chamas do fogão. Enquanto eles a
observavam, ela soltou um imenso soluço.
- Winky está entornando seis garrafas por dia agora - Dobby cochichou a
Harry.
- Bem, não é uma bebida muito forte - ponderou Harry. Mas Dobby sacudiu
a cabeça.
- É forte para um elfo doméstico, meu senhor.
Winky soltou outro soluço. Os elfos que tinham trazido as bombas de creme
lançaram a ela um olhar de censura antes de voltarem aos seus afazeres.
- Winky está definhando, Harry Potter - disse Dobby tristemente. - Winky
quer ir para casa. Winky ainda acha que o Sr. Crouch é o amo dela, meu senhor, e
nada que Dobby diga consegue convencer ela de que o Prof. Dumbledore é o
novo amo da gente.


- Oi, Winky - disse Harry, tomado de súbita inspiração, indo até o fogão e se
abaixando para falar com ela -, você por acaso saberia me dizer o que é que o Sr.
Crouch pode estar fazendo? Porque ele parou de aparecer para julgar o Torneio
Tribruxo.
Os olhos de Winky pestanejaram. Suas enormes pupilas focalizaram Harry.
Ela cambaleou ligeiramente e perguntou:
- M-meu amo parou, hic, de vir?
- Foi - confirmou Harry -, não o vemos desde a primeira tarefa. O Profeta
Diário diz que ele está doente.
Winky balançou mais um pouco, encarando Harry com os olhos baços.
- M-meu amo, hic, doente?
O lábio inferior do elfo começou a tremer.
- Mas não temos certeza de que seja verdade - acrescentou Hermione
depressa.
- Meu amo está precisando da, hic, Winky dele! ­ choramingou o elfo. - Meu
amo não, hic, sabe, hic, se cuidar sozinho...
- Outras pessoas conseguem fazer o trabalho de casa sozinhas, sabe,
Winky - lembrou Hermione com severidade.
- Winky, hic, não faz só, hic, trabalho de casa para o Sr. Crouch! ­ guinchou
Winky indignada, cambaleando mais que nunca e derramando cerveja
amanteigada na blusa já bastante suja. - Meu amo, hic, confiou a Winky, hic, o
segredo dele, hic, mais importante, o mais secreto...
- Quê? - exclamou Harry.
Mas Winky sacudiu a cabeça com força, derramando mais cerveja
amanteigada pela roupa.
- Winky guarda, hic, os segredos do amo dela - disse com rebeldia,
oscilando fortemente para os lados agora, franzindo a testa para Harry com os
olhos vesgos. - Você está, hic, bisbilhotando, está sim.
- Winky não deve falar assim com Harry Potter! - disse Dobby aborrecido. -
Harry Potter é corajoso e nobre e Harry Potter não é bisbilhoteiro!
- Ele está metendo o nariz, hic, nos segredos e particulares, hic, do meu
amo, hic, Winky é um bom elfo doméstico, hic, Winky fica calada, hic, gente
querendo, hic, tirar informações, hic... ­ As pálpebras de Winky se fecharam e, de
repente, sem aviso, ela escorregou do banquinho e caiu no fogão, roncando alto.
A garrafa vazia de cerveja amanteigada rolou pelo chão lajeado.
Meia dúzia de elfos domésticos se adiantaram correndo, com ar de
repugnância. Um deles apanhou a garrafa, os outros cobriram Winky com uma
grande toalha xadrez de mesa e prenderam os lados e pontas por baixo do corpo
para escondê-la de vista.
- A gente lamenta que os senhores e a senhorita tenham que assistir a isso!
- guinchou um elfo próximo, balançando a cabeça e parecendo muito
envergonhado. - A gente espera que os senhores não julguem a gente pela Winky!
- Ela está infeliz! - exclamou Hermione exasperada. - Por que vocês não
tentam animar Winky em vez de a esconder?
- Me perdoa, senhorita - disse um elfo fazendo uma grande reverência -,
mas elfos domésticos não têm o direito de ficar infelizes quando têm trabalho a
fazer e amos para servir.


- Ora, francamente! - exclamou Hermione enraivecida. - Escutem aqui,
vocês todos! Vocês têm tanto direito de se sentir infelizes quanto os bruxos! Vocês
têm direito a salário, férias e roupas decentes, não têm que fazer tudo o que
mandam, olhem só o Dobby!
- Senhorita, por favor, deixa o Dobby fora disso - murmurou o elfo, com uma
expressão amedrontada. Os sorrisos alegres desapareceram dos rostos dos elfos
na cozinha. De repente fitaram Hermione como se ela fosse louca e perigosa.
- A gente separou a comida extra! - guinchou um elfo ao cotovelo de Harry
empurrando um grande presunto, uma dúzia de bolos e umas frutas nos braços do
garoto. - Tchau.
Os elfos domésticos se aglomeraram ao redor de Harry, Rony e Hermione e
começaram a levar os garotos lentamente para fora da cozinha, muitas mãozinhas
os empurraram pela cintura.
- Obrigado pelas meias, Harry Potter! - gritou Dobby desalentado lá do
fogão, onde se achava parado ao lado da toalha que cobria as formas de Winky.
- Você não podia ter ficado calada, não é, Mione? - exclamou Rony
enraivecido quando a porta da cozinha se fechou às costas deles. - Agora eles
não vão querer receber visitas nossas! Poderíamos ter tentado extrair de Winky
mais alguma coisa sobre o Crouch!
- Ah, como se você se importasse com isso! - desdenhou Hermione. - Você
só gosta de vir aqui embaixo para comer!
Foi um dia meio irritante depois disso. Harry ficou tão cansado de Rony e
Hermione se agredirem durante o dever de casa, na sala comunal, que, naquela
noite, levou sozinho a comida de Sirius para o corujal.
Pichitinho era demasiado pequeno para transportar sozinho um presunto
inteiro até a montanha, por isso Harry recrutou a ajuda de mais duas corujas-das-
torres. Quando o grupo de aves saiu pelo crepúsculo, parecendo esquisitíssimo
com aquele enorme pacote entre elas, Harry se apoiou no parapeito da janela
para contemplar os jardins ao anoitecer, as copas farfalhantes das árvores da
Floresta Proibida, as velas enfunadas no navio de Durmstrang. Um mocho
atravessou a serpentina de fumaça que saía da chaminé de Hagrid, voou em
direção ao castelo, contornou o corujal e desapareceu de vista.
Olhando para baixo, Harry viu Hagrid cavando energicamente a terra diante
de sua cabana. E se perguntou o que o amigo estaria fazendo, parecia estar
preparando mais um canteiro de hortaliças. Enquanto ele observava, Madame
Máxime saiu da carruagem da Beauxbatons e se dirigiu a Hagrid. Pelo jeito estava
tentando puxar conversa. Hagrid se apoiou na pá, mas não pareceu estar muito
interessado em prolongar o diálogo, porque a bruxa voltou à carruagem pouco
depois.
Sem vontade de voltar à Torre da Grifinória e ouvir Rony e Hermione
rosnarem um para o outro, o garoto ficou observando Hagrid cavar até a escuridão
engoli-lo e as corujas ao seu redor começarem a acordar, passarem por ele e
desaparecerem na noite.
No dia seguinte, à hora do café da manhã, o mau humor de Rony e
Hermione já se desgastara e, para alívio de Harry, as previsões sombrias de Rony
de que os elfos domésticos mandariam comida de qualidade abaixo do normal


para a mesa da Grifinória, porque Hermione os ofendera, se provaram falsas, o
bacon com ovos e o peixe defumado estavam bons como sempre.
Quando o correio-coruja chegou, Hermione ergueu os olhos, ansiosa;
parecia estar à espera de alguma coisa.
- Ainda não deu tempo para Percy responder - disse Rony. - Só
despachamos a Edwiges ontem.
- Não, não é isso - falou Hermione. - Fiz outra nova assinatura do Profeta
Diário, estou cheia de descobrir o que acontece pela boca da turma da Sonserina.
- Bem pensado! - exclamou Harry, também erguendo os olhos para as
corujas. - Ei, Mione acho que você está com sorte...
- Uma coruja cinzenta vinha descendo em direção à garota.
- Mas ela não está trazendo nenhum jornal - comentou Hermione, com ar
de desapontamento. - Mas para seu espanto, a coruja cinzenta pousou diante do
seu prato acompanhada de perto por mais quatro corujas de igreja, uma coruja
parda e uma avermelhada.
- Quantas assinaturas você fez? - perguntou Harry agarrando a taça de
Hermione antes que ela fosse derrubada pelo ajuntamento de corujas, todas se
empurrando para chegar mais perto e entregar as cartas que traziam primeiro.
- Que diabo...? - exclamou Hermione, tirando a carta da coruja cinzenta e
abrindo a para ler. - Ora francamente!, disse ela com veemência, corando.
- Que é? - perguntou Rony.
- É, ora que ridículo... - A garota empurrou a carta para Harry, que observou
que não era manuscrita mas composta por letras aparentemente recortadas do
Profeta Diário.

Você não PresTA. HaRRy PottEr meREce umA gaRotA melhoR Volte paRa o seu
lugAR trOUxa.

- São todas iguais! - exclamou Hermione desesperada, abrindo uma carta
atrás da outra.
"Harry Potter pode arranjar uma namorada melhor do que alguém da sua laia..."
"Você merece ser cozida com ovas de rã..." Ai!

Hermione abrira o último envelope e um líquido verde-amarelado, que
cheirava fortemente a gasolina, derramou-se em suas mãos, fazendo irromper
nelas grandes tumores amarelos.
- Pus de bubotúbera puro! - disse Rony, apanhando, desajeitado, o
envelope e cheirando-o.
- Ai! - exclamou Hermione, as lágrimas enchendo seus olhos quando tentou
limpar as mãos em um guardanapo, mas seus dedos agora estavam tão cobertos
de feridas dolorosas que ela parecia até estar usando um par de grossas luvas
com bolotas.
- É melhor você ir depressa à ala hospitalar - disse Harry, quando as
corujas ao redor da amiga levantaram vôo -" diremos à Profª Sprout aonde é que
você foi...
- Eu avisei a ela! - disse Rony quando Hermione saiu correndo do Salão
Principal aninhando as mãos no colo. - Avisei a ela para não aborrecer Rita


Skeeter! Olhe só esta aqui... - Ele leu uma das cartas que Hermione tinha deixado
para trás.

"Li no Semanário das Bruxas como você está enganando o Harry Potter, um
garoto que já teve uma vida bastante atribulada, por isso no próximo correio vou
lhe mandar um feitiço, é só eu encontrar um envelope suficientemente grande."

- Caracas, é melhor ela se cuidar!
Hermione não apareceu na aula de Herbologia. Quando Harry e Rony
deixaram a estufa para a aula de Trato das Criaturas Mágicas, viram Malfoy,
Crabbe e Goyle descendo os degraus da entrada do castelo. Pansy Parkinson
cochichava e ria atrás deles com a turminha de garotas da Sonserina. Ao avistar
Harry, ela gritou:
- Potter, você já brigou com a sua namorada? Por que ela estava tão
perturbada no café da manhã?
Harry ignorou-a, não queria dar a Pansy a satisfação de saber quanto mal o
artigo do Semanário das Bruxas causara.
Hagrid, que avisara na aula anterior que haviam terminado com os
unicórnios, estava aguardando os alunos à frente da cabana, com um estoque
recém-chegado de caixotes, abertos aos seus pés. O ânimo de Harry afundou ao
avistar os caixotes ­ com certeza não era outra ninhada de explosivins? -, mas
quando se aproximou o suficiente para ver dentro, deparou com uma quantidade
de bichos peludos e negros com longos focinhos. As patas dianteiras eram
curiosamente chatas como pás, e eles erguiam os olhos piscando para a classe,
parecendo educadamente intrigados com toda aquela atenção.
- São pelúcios - anunciou Hagrid, quando a turma se agrupou ao seu redor.
­ São encontrados principalmente em minas. Gostam de coisas brilhantes... aí
vêm eles, olhem. Um dos bichos tinha saltado repentinamente e tentado arrancar
o relógio de ouro de Pansy Parkinson do pulso. Ela gritou e deu um pulo para trás.
- São bastante úteis para procurar pequenos tesouros - disse Hagrid
satisfeito. - Achei que podíamos nos divertir com eles hoje. Estão vendo ali
adiante?
- Ele apontou para um terreno em que a terra fora recentemente revolvida e
que Harry o vira preparar da janela do corujal. - Enterrei ali algumas moedas de
ouro. Tenho um prêmio para quem apanhar o pelúcio que encontrar mais moedas.
Guardem as coisas valiosas que estiverem usando, escolham um bicho e se
preparem para soltá-lo.
Harry tirou o relógio que ele continuava usando só por hábito, porque não
funcionava mais, e enfiou-o no bolso. Depois apanhou um pelúcio. O bicho enfiou
o longo focinho na orelha de Harry e cheirou-a entusiasmado. Era realmente muito
fofo.
- Esperem um instante - disse Hagrid olhando para dentro do caixote -, tem
um pelúcio sobrando aqui... quem está faltando? Onde está Hermione?
- Ela precisou ir à ala hospitalar - informou Rony.
- A gente explica mais tarde - murmurou Harry; Pansy Parkinson estava
escutando.


Foi sem dúvida a maior diversão que já tinham tido em Trato das Criaturas
Mágicas. Os pelúcios entravam e saiam da terra como se fossem água, cada qual
correndo de volta ao aluno que o soltara e cuspindo ouro em suas mãos. O de
Rony foi particularmente eficiente, não tardou a encher seu colo de moedas.
- Pode se comprar um desses como bicho de estimação, Hagrid? -
perguntou o garoto excitado, quando o pelúcio dele tornou a mergulhar no solo
sujando suas vestes de lama.
- Sua mãe não iria ficar feliz, Rony - disse Hagrid sorrindo -, eles destroem
uma casa, esses pelúcios. Calculo que agora eles já encontraram tudo que
enterrei - acrescentou, andando pelo terreno, enquanto os bichos continuavam a
mergulhar. - Só enterrei cem moedas. Ah, aí está você, Hermione!
A garota vinha atravessando o gramado em direção à turma. Tinha as mãos
enfaixadas e parecia bem infeliz. Pansy Parkinson a observou com desconfiança.
- Bem, vamos verificar como foi que vocês se saíram! - disse Hagrid. ­
Contem suas moedas! E não adianta tentar roubar nenhuma, Goyle ­ acrescentou
ele, estreitando os olhos negros de besouro. ­ É ouro de duende irlandês, de
leprechaun. Desaparece depois de algumas horas.
Goyle esvaziou os bolsos, emburradissimo. O resultado final foi que o
pelúcio de Rony tinha sido o mais bem-sucedido, então Hagrid entregou ao garoto
o prêmio: uma enorme barra de chocolate da Dedosdemel. A sineta ecoou pelos
jardins anunciando o almoço, o restante da turma saiu em direção ao castelo, mas
Harry Rony e Hermione ficaram para ajudar Hagrid a guardar os pelúcios nos
caixotes. Harry notou que Madame Maxime os observava da janela da carruagem.
- Que foi que você fez com as suas mãos, Mione? - perguntou Hagrid, com
o ar preocupado.
A garota lhe contou sobre as cartas anônimas que recebera àquela manhã
e sobre o envelope cheio de pus de bubotúberas.
- Aaah, não se preocupe - disse Hagrid brandamente, fitando-a. - Recebo
cartas assim desde que a Rita escreveu sobre minha mãe. "Você é um monstro e
devia ser morto." "Sua mãe matou gente inocente e se você tivesse alguma
decência se atiraria no lago."
- Não! - exclamou Hermione chocada.
- Sim! - respondeu Hagrid, erguendo os caixotes de pelúcios para guardá-
los junto à parede da cabana. - É gente que não bate bem, Mione. Não abra mais
cartas quando as receber. Jogue todas direto na lareira.
- Você perdeu uma aula realmente boa - comentou Harry com Hermione
quando regressavam ao castelo. - São legais, os pelúcios, não são Rony?
Rony, porém, estava franzindo a testa para o chocolate dado por Hagrid.
Parecia absolutamente desapontado com alguma coisa.
- Que foi? - perguntou Harry. - Sabor errado?
- Não - disse Rony com rispidez. - Por que você não me falou do ouro?
- Que ouro? - perguntou Harry.
- O ouro que lhe dei na Copa Mundial de Quadribol - disse Rony. - O ouro
de leprechaun que lhe paguei pelos meus onióculos. No camarote de honra. Por
que você não me contou que ele desapareceu?
Harry teve que pensar um instante para entender do que é que Rony estava
falando.


- Ah... - disse, quando finalmente se lembrou. - Não sei... nunca reparei que
tinha desaparecido. Eu estava mais preocupado com a minha varinha, não era?
Os três subiram os degraus para o saguão de entrada e foram para o Salão
Principal almoçar.
- Deve ser legal - falou Rony abruptamente, depois que se sentaram e
começaram a se servir de rosbife e pudim de Yorkshire, massa assada embaixo
de carne sangrenta. - Ter tanto dinheiro que nem se repara que os galeões
guardados no bolso desapareceram.
- Escuta aqui, eu tinha outras preocupações na cabeça aquela noite! ­
retrucou Harry com impaciência. - Todos tínhamos, lembra?
- Eu não sabia que ouro de leprechaun desaparecia - murmurou Rony. -
Achei que estava lhe pagando. Você não devia ter me dado aquele boné do
Chudley Cannon no Natal.
- Esquece isso, tá? - disse Harry.
Rony espetou uma batata assada com o garfo e ficou olhando para ela.
Depois disse:
- Detesto ser pobre.
Harry e Hermione se entreolharam. Nenhum dos dois sabia realmente o
que dizer.
- É uma droga - disse Rony, ainda encarando a batata. - Não posso culpar o
Fred e o Jorge por tentarem ganhar um dinheirinho extra. Gostaria de saber fazer
o mesmo. Gostaria de ter um pelúcio.
- Bem, então já sabemos o que comprar para você no próximo Natal ­ disse
Hermione animada. Mas vendo que o amigo continuava chateado, acrescentou:
- Vamos Rony, podia ser pior. Pelo menos os seus dedos não estão cheios
de pus. ­ Hermione estava encontrando muita dificuldade para usar os talheres,
de tão inchados e duros que seus dedos estavam. - Odeio aquela Skeeter! -
explodiu a garota com raiva. - Vou me vingar dela nem que seja a última coisa que
eu faça!
As cartas anônimas continuaram a chegar para Hermione nas semanas
seguintes e, embora ela tivesse seguido o conselho de Hagrid e parado de abri-
las, vários remetentes odiosos mandaram berradores, que explodiam à mesa da
Grifinória gritando-lhe ofensas que o salão inteiro podia ouvir. Até as pessoas que
não liam o Semanário das Bruxas agora sabiam tudo sobre o suposto triângulo
Harry-Krum-Hermione. Harry estava ficando farto de explicar a todo mundo que
Hermione não era sua namorada.
- Mas isso vai passar - disse ele à amiga -, é só a gente ignorar... as
pessoas já acharam um tédio o último artigo que ela escreveu sobre mim...
- Quero saber como é que ela está conseguindo escutar conversas
particulares se supostamente foi banida dos terrenos da escola! - disse Hermione
zangada.
Ela continuou na sala quando terminou a aula seguinte de Defesa contra as
Artes das Trevas para fazer uma pergunta ao Prof. Moody. O restante da turma
estava ansioso para sair, o professor lhes dera uma prova tão difícil sobre
deflexão de feitiços que alguns alunos estavam cuidando de pequenos ferimentos.
Harry teve um caso grave de Comichão nas Orelhas e precisou tampá-las com as
mãos ao sair da sala.


- Bem, decididamente Rita não está usando uma Capa da Invisibilidade! ­
ofegou Hermione ao alcançar Harry e Rony cinco minutos mais tarde, no saguão
de entrada, e puxar a mão de Harry para afastá-la de uma orelha que se contorcia
sozinha, para que o garoto pudesse ouvi-la. - Moody disse que não viu Skeeter
nas proximidades da mesa dos juizes no dia da segunda tarefa, nem em lugar
algum perto do lago!
- Hermione, será que adianta lhe dizer para deixar isso para lá? - perguntou
Rony.
- Não! - exclamou a garota teimosamente. - Quero saber como foi que ela
me ouviu falando com o Vítor! E como foi que ela descobriu a história da mãe de
Hagrid!
- Talvez ela tenha posto um grampo em você - disse Harry.
- Um grampo? - perguntou Rony sem entender. - O quê... pôs um
prendedor no cabelo dela ou outra coisa assim?
Harry começou a explicar os microfones escondidos e os equipamentos de
gravação. Rony ficou fascinado, mas Hermione os interrompeu.
- Será que vocês nunca vão ler Hogwarts." uma história?
- Para quê? - respondeu Rony. - Você conhece o livro de cor, é só a gente
lhe perguntar.
- Todas as alternativas para a magia que os trouxas usam, eletricidade,
computadores, radar, etecétera, entram em pane perto de Hogwarts, tem magia
demais no ar. Não, Rita está usando magia para escutar conversas, se eu ao
menos conseguisse descobrir o que é... aah, se for ilegal, eu pego ela...
- Será que a gente já não tem bastante preocupação? - perguntou Rony à
amiga. - Temos que começar também uma vendeta contra a Rita?
- Não estou pedindo a você para ajudar! - retrucou Hermione. - Vou fazer
isso sozinha!
E subiu a escadaria de mármore sem sequer olhar para trás. Harry tinha
certeza absoluta de que ela estava indo à biblioteca.
- Quer apostar que ela volta com uma caixa cheia de distintivos Odeio Rita
Skeeter?!
Hermione, porém, não pediu a Harry e Rony para ajudá-la a se vingar de
Rita Skeeter, pelo que os dois ficaram muito gratos, porque a carga de deveres
dos garotos aumentou muito nos dias que antecederam as férias da Páscoa. Harry
ficou maravilhado que Hermione pudesse pesquisar métodos mágicos para a
pessoa escutar sem ser vista e ainda dar conta de todas as tarefas que tinha que
fazer. Ele mesmo estava trabalhando sem descanso só para conseguir terminar
todos os deveres, embora fizesse questão de mandar, regularmente, pacotes de
comida para a caverna de Sirius, no morro, depois das férias de verão Harry ainda
não esquecera o que era ficar continuamente esfomeado. Incluía neles bilhetes a
Sirius informando que não acontecera nada de extraordinário e que continuavam
aguardando uma resposta de Percy.
Edwiges só voltou no fim das férias da Páscoa. A carta de Percy veio
acompanhando um pacote de ovos de Páscoa enviado pela Sra. Weasley. Os de
Harry e Rony eram do tamanho de ovos de dragão e cheios de caramelos
caseiros. O de Hermione, porém, era menor do que um ovo de galinha. A garota
ficou desapontada ao recebê-lo.


- Por acaso sua mãe lê o Semanário das Bruxas, Rony? - perguntou ela
baixinho.
- Lê - disse Rony, que tinha a boca cheia de caramelos. - Tem assinatura
por causa das receitas de comida.
Hermione ficou olhando tristemente o ovinho recebido.
- Não quer ver o que Percy escreveu? - perguntou Harry a ela, depressa.
A carta de Percy era curta e irritada.

"Conforme canso de dizer ao Profeta Diário, o Sr. Crouch está tirando um
merecido descanso. Ele me manda, regularmente, corujas trazendo instruções.
Não, na realidade não o tenho visto, mas acho que podem acreditar que conheço
a caligrafia do meu superior. Tenho muito que fazer no momento, sem precisar
estar desmentindo esses boatos ridículos. Por favor, não me incomodem mais a
não ser que seja para alguma coisa importante.
Feliz Páscoa."

O início do trimestre de verão normalmente significava que Harry estaria
treinando com vontade para a última partida de quadribol da temporada. Este ano,
porém, era para a terceira e última tarefa do Torneio Tribruxo que ele precisava se
preparar, mas o garoto ainda não sabia qual ia ser. Finalmente, na última semana
de maio, a Profª McGonagall o reteve depois da aula de Transformação.
- Você deve ir ao campo de quadribol hoje à noite, às nove horas, Potter ­
disse ela. - O Sr. Bagman vai estar lá para falar aos campeões sobre a terceira
tarefa.
Então, às oito e meia da noite, Harry deixou Rony e Hermione na Torre da
Grifinória e desceu a escada. Quando atravessou o saguão de entrada, Cedrico
vinha subindo da sala comunal da Corvinal.
- Que é que você acha que vai ser? - perguntou ele a Harry, quando
desciam juntos os degraus para o jardim e para a noite nebulosa. - Fleur não pára
de falar em túneis subterrâneos, acha que vamos ter que encontrar um tesouro.
- Isso não seria nada mau - comentou Harry, pensando que bastaria pedir a
Hagrid um pelúcio para realizar sua tarefa.
Eles caminharam pelos gramados escuros até o estádio de quadribol,
atravessaram uma abertura sob as arquibancadas e saíram no campo.
- Que foi que fizeram com o campo? - exclamou Cedrico indignado,
parando de chofre.
O campo de quadribol deixara de ser plano e liso. Parecia que alguém
andara construindo por todo ele muretas longas, que seguiam em meandros e o
cruzavam em todas as direções.
- São sebes! - exclamou Harry, se curvando para examinar a mais próxima.
- Alô, vocês aí! - gritou uma voz animada.
Ludo Bagman estava parado no meio do campo em companhia de Krum e
Fleur. Harry e Cedrico procuraram chegar até o grupo, saltando por cima das
sebes. Fleur abriu um grande sorriso para Harry quando ele se aproximou. Sua
atitude para com o garoto mudara completamente desde que ele tirara sua irmã do
lago.


- Bem, que é que vocês acham? - perguntou Bagman alegre, quando Harry
e Cedrico transpuseram a última sebe. - Estão crescendo bem, não? Dêem mais
um mês e Hagrid vai fazê-las alcançar cinco metros de altura. Não se preocupem -
acrescentou ele ao ver as expressões pouco satisfeitas no rosto de Harry e
Cedrico -, vocês vão ter o seu campo de quadribol normal depois que terminarem
a tarefa! Agora, imagino que podem adivinhar o que estamos fazendo aqui?
Ninguém falou por um momento. Depois...
- Labirinto - resmungou Krum.
- Acertou! - disse Bagman. - Um labirinto. A terceira tarefa na realidade é
muito simples. A taça do Torneio Tribruxo será colocada no centro do labirinto. O
primeiro campeão que puser a mão nela recebe a nota máxima.
- Temes samplement que atravessar o labirinto? - perguntou Fleur.
- Haverá obstáculos - disse Bagman alegremente, balançando-se sobre a
sola dos pés. ­ Hagrid está providenciando algumas criaturas... e haverá também
feitiços que vocês precisarão desfazer... essas coisas que vocês já conhecem.
Agora, os campeões que estão liderando a contagem de pontos entrarão primeiro
no labirinto.
- Bagman sorriu para Harry e Cedrico. - Depois entrará o Sr. Krum... depois
a Srta. Delacour. Mas todos terão a mesma possibilidade de vencer, dependendo
da perícia com que superarem os obstáculos. Será divertido, não acham?
Harry, que sabia muito bem que tipo de criaturas Hagrid iria arranjar para
um evento de tal porte, achou muito improvável que fosse divertido. Contudo,
concordou educadamente com a cabeça, como os demais campeões.
- Muito bem... se não tiverem nenhuma pergunta a fazer, vamos voltar para
o castelo, está meio frio...
Bagman apressou-se a caminhar ao lado de Harry quando começaram a
deixar o labirinto em crescimento. O garoto teve a impressão de que o bruxo ia
começar a oferecer ajuda novamente, mas nesse instante, Krum bateu em seu
ombro.
- Posso falarr com focê?
- Claro que sim - disse Harry ligeiramente surpreso.
- Focê pode andarr um pouco comigo?
- OK. - disse o garoto curioso.
Bagman pareceu ligeiramente perturbado.
- Esperarei por você, Harry, está bem?
- Não, está tudo OK., Sr. Bagman - disse Harry contendo um sorriso. - Acho
que posso encontrar o caminho para o castelo sozinho, obrigado.
Harry e Krum saíram juntos do estádio, mas Krum não tomou o rumo do
navio de Durmstrang. Em vez disso, dirigiu-se à Floresta.
- Para que estamos indo nesta direção? - perguntou Harry, ao passarem
pela cabana de Hagrid e a carruagem iluminada da Beauxbatons.
- Non querro que me ouçam - disse o rapaz secamente.
Quando finalmente chegaram a um trecho sossegado, a poucos passos do
picadeiro dos cavalos da Beauxbatons, Krum parou à sombra de um grupo de
árvores e se virou para encarar Harry.
- Querro saberr - disse ele amarrando a cara - que é que há entre focê e
Hermi-ô-nini.


Harry, que pela maneira sigilosa de Krum esperara algo muito mais sério
que aquilo, ergueu os olhos para Krum, admirado.
- Nada - disse ele. Mas Krum amarrou a cara, e Harry, mais uma vez
admirado com o tamanho de Krum, explicou melhor. - Somos amigos. Ela não é
minha namorada nem nunca foi. Aquela tal da Skeeter está inventando coisas.
- Hermi-ô-nini fala muito de focê - disse Krum, olhando desconfiado para
Harry.
- Claro, porque somos amigos.
Ele não estava conseguindo acreditar muito bem que estivesse tendo
aquela conversa com Vítor Krum, o famoso jogador internacional de quadribol. Era
como se o Krum, com seus dezoito anos, achasse que ele, Harry, fosse seu igual -
um rival de verdade...
- Focê nunca... focê non...
- Não - disse Harry com firmeza.
Krum pareceu um pouco mais feliz. Fitou Harry durante alguns segundos,
depois disse:
- Focê foa muito bem. Fiquei assistindo a você durante a primeira tarefa.
- Obrigado - disse Harry com um grande sorriso, se sentindo subitamente
muito maior.
- Vi você na Copa Mundial de Quadribol. Naquela Finta de Wronski, você
realmente...
Mas alguma coisa se mexeu às costas de Krum, entre as árvores, e Harry,
que tinha alguma experiência com coisas que rondam a Floresta, instintivamente
agarrou Krum pelo braço e o puxou para um lado.
- Que foi?
Harry balançou a cabeça, examinando com atenção o lugar em que
percebera o movimento. Meteu a mão dentro das vestes à procura da varinha.
No momento seguinte um homem saiu cambaleando de trás de um alto
carvalho. Por um instante Harry não o reconheceu... depois percebeu que era o
Sr. Crouch.
Tinha a aparência de quem estava viajando há dias. Os joelhos de suas
vestes estavam rasgados e ensangüentados, seu rosto estava arranhado e ele,
barbudo e cinzento de exaustão. Os cabelos e bigodes sempre impecáveis
estavam precisando de um xampu e de um corte. Sua estranha aparência, porém,
não era nada comparada à maneira com que estava agindo. Resmungava e
gesticulava, parecia estar falando com alguém que somente ele conseguia ver.
Lembrava a Harry vividamente um velho vagabundo que o garoto vira quando fora
às compras com os Dursley. O tal homem também conversava, alterado, com o
vento, tia Petúnia agarrara Duda pela mão e o arrastara para o outro lado da rua
para evitar o homem, tio Valter então brindara a família com um longo discurso
sobre o que gostaria de fazer com mendigos e vagabundos.
- Ele non erra um dos juizes? - perguntou Krum de olhos arregalados para o
Sr. Crouch. - Non é do seu ministérrio?
Harry confirmou com um aceno de cabeça, hesitou por um instante, depois
se dirigiu lentamente ao Sr. Crouch, que não olhou para ele, mas continuou a falar
com uma árvore próxima:


- ... e depois que fizer isso, Wearherby, mande uma coruja a Dumbledore
confirmando o número de estudantes de Durmstrang que virão ao torneio,
Karkaroff acabou de mandar uma mensagem dizendo que serão doze...
- Sr. Crouch? - chamou Harry cautelosamente.
- ... e depois mande outra coruja à Madame Maxime, porque ela talvez
queira aumentar o número de estudantes que vai trazer, agora que Karkaroff
arredondou para uma dúzia... faça isso, Wearherby, por favor? Por favor? Por... -
Os olhos do Sr. Crouch estavam saltados. Ele continuou encarando a árvore,
resmungando silenciosamente para ela. Então, cambaleou para os lados e caiu de
joelhos.
- Sr. Crouch? - chamou Harry em voz alta. - O senhor está bem?
Os olhos de Crouch reviravam nas órbitas. Harry olhou para os lados
procurando Krum, que o seguira até as árvores e olhava para Crouch assustado.
- Que é que ele tem?
-Não faço idéia - murmurou Harry. - Escuta aqui, é melhor você ir buscar
alguém...
- Dumbledore! - arquejou o Sr. Crouch. Ele esticou a mão e agarrou com
firmeza as vestes de Harry e arrastou-o para perto, embora seus olhos estivessem
olhando por cima da cabeça de Harry. - Preciso... ver... Dumbledore.
- OK - disse Harry -, se o senhor se levantar, Sr. Crouch, podemos ir até...
- Fiz... uma... idiotice... - murmurou o Sr. Crouch. Parecia completamente
demente. Revirava os olhos esbugalhados e um fio de saliva escorria pelo seu
queixo. Cada palavra que ele dizia parecia custar um esforço terrível. - Preciso...
falar... Dumbledore...
- Levante, Sr. Crouch - disse Harry em alto e bom som. - Levante e eu levo
o senhor a Dumbledore!
Os olhos de Crouch giraram focalizando Harry.
- Quem é você? - sussurrou o bruxo.
- Sou aluno da escola - disse Harry, olhando para Krum à procura de ajuda,
mas o outro mantinha-se um pouco afastado, parecendo extremamente nervoso.
- Você não é... dele? - sussurrou Crouch, deixando o queixo cair.
- Não - respondeu Harry, sem ter a menor idéia do que Crouch estava
falando.
- De Dumbledore?
- Isso mesmo - disse Harry.
Crouch puxou o garoto mais para perto, Harry tentou soltar a mão do bruxo
que agarrava suas vestes , mas ele era demasiado forte.
- Avise... Dumbledore...
- Vou buscar Dumbledore se o senhor me largar - disse Harry. - Me largue,
Sr. Crouch, e eu vou buscar o diretor...
- Obrigado, Weatherby, e quando você terminar isso, eu gostaria de tomar
uma xícara de chá. Minha mulher e meu filho vão chegar daqui a pouco, vamos
assistir a um concerto hoje à noite com o Sr. e a Sra. Fudge. - Crouch voltara a
falar fluentemente com a árvore e parecia completamente despercebido da
presença de Harry, o que surpreendeu o garoto de tal modo que ele nem reparou
que Crouch o soltara.


- Meu filho recentemente obteve doze N.O.M"s com boas notas, obrigado,
claro, realmente muito orgulhosos. Agora se você puder me trazer aquele
memorando do Ministério da Magia de Andorra, acho que terei tempo de preparar
uma resposta...
- Você fica aqui com ele! - disse Harry a Krum. - Eu vou buscar
Dumbledore, faço isso mais rápido, sei onde é o escritório dele...
- Ele está doido - disse Krum hesitante, olhando para Crouch, que ainda
tagarelava com a árvore, aparentemente convencido de que falava com Percy.
- Só precisa ficar aqui com ele - falou Harry começando a se levantar, mas
seu movimento pareceu disparar outra mudança súbita no Sr. Crouch, que o
agarrou com força pelos joelhos e o puxou de volta ao chão.
- Não... me... deixe! - sussurrou ele, os olhos se esbugalhando outra vez. -
Eu... fugi... preciso avisar... preciso contar... ver Dumbledore... minha culpa... tudo
minha culpa... Berta... morta... tudo minha culpa... meu filho... minha culpa... diga a
Dumbledore... Harry Potter... o Lord das Trevas... mais forte... Harry Potter...
- Vou buscar Dumbledore se o senhor me deixar ir, Sr. Crouch! - disse
Harry. Ele olhou indignado para Krum. ­ Quer me ajudar, por favor?
Com um ar extremamente apreensivo, Krum se adiantou e se acocorou ao
lado do Sr. Crouch.
- Não deixa ele sair daqui - disse Harry se desvencilhando do Sr. Crouch. -
Eu volto com Dumbledore.
- Non demorre, por favorr - Krum gritou quando Harry se afastou correndo
da Floresta e já ia subindo os gramados na escuridão. Estavam desertos,
Bagman, Cedrico e Fleur haviam desaparecido.
Harry galgou aos saltos os degraus da entrada, passou pelas portas de
carvalho e continuou pela escadaria de mármore acima em direção ao segundo
andar. Cinco minutos depois precipitava-se em direção a uma gárgula de pedra
que ficava no meio de um corredor vazio.
- Sorvete de limão!- ofegou ele.
Essa era a senha para a escada oculta que levava ao escritório de
Dumbledore - ou pelo menos tinha sido dois anos atrás. Porém, a senha
evidentemente mudara, porque a gárgula de pedra não criou vida nem saltou para
o lado, mas continuou imóvel encarando Harry com malevolência.
- Mexa-se! - Harry gritou para o ornamento. - Anda!
Mas nada em Hogwarts jamais se mexia só porque alguém mandava, ele
sabia que não adiantava. Olhou para um lado e outro do corredor. Quem sabe
Dumbledore estaria na sala dos professores? Ele começou a correr o mais rápido
que pôde em direção à escada...
- POTTER!
Harry parou derrapando e olhou para trás.
Snape acabara de emergir da escada oculta atrás da gárgula de pedra. A
parede ia outra vez se fechando atrás dele, na hora exata em que mandou Harry
voltar.
- Que é que você está fazendo aqui, Potter?
- Preciso ver o Prof. Dumbledore! - disse Harry, correndo de volta, e
novamente derrapando até parar diante de Snape. - É o Sr. Crouch... ele acabou
de aparecer... está na Floresta... está pedindo...


- Que tolice é essa? - exclamou Snape, seus olhos negros faiscando. - Do
que é que você está falando?
- O Sr. Crouch - gritou Harry. - Do Ministério! Ele está doente ou outra coisa
qualquer, está na Floresta, quer ver Dumbledore! Me diga qual é a senha para
entrar...
- O diretor está ocupado, Potter - informou Snape, sua boca fina se
crispando num sorriso desagradável.
- Tenho que informar a Dumbledore! - berrou Harry.
- Você não escutou o que eu disse, Potter?
Harry podia perceber que Snape estava se divertindo intensamente em
recusar o que ele queria ao vê-lo em pânico.
- Olhe - disse Harry com raiva -, Crouch não está bem... ele está... ele está
delirando... diz que precisa prevenir...
A parede de pedra às costas de Snape se abriu. Dumbledore surgiu à
entrada, trajando longas vestes verdes e tinha uma expressão de curiosidade no
rosto.
- Algum problema? - perguntou ele, olhando de Harry para Snape.
- Professor! - disse Harry, dando um passo para o lado antes que Snape
pudesse responder. - O Sr. Crouch está aqui, está lá na floresta, diz que quer falar
com o senhor!
Harry esperava que Dumbledore fizesse perguntas, mas, para seu alívio,
ele não fez nada disso.
- Leve-me até lá - disse o diretor prontamente, e saiu para o corredor
acompanhando Harry e deixando Snape parado ao lado da gárgula com uma cara
duas vezes mais feia.
- Que foi que o Sr. Crouch disse, Harry? - perguntou Dumbledore enquanto
desciam apressados a escadaria de mármore.
- Disse que quer prevenir o senhor... disse que fez uma coisa horrível...
mencionou o filho... e Berta Jorkins... e... e Voldemort... alguma coisa sobre
Voldemort estar ficando mais forte...
- De fato - disse Dumbledore e apertou o passo quando saíram para a
escuridão de breu.
- Ele não está agindo normalmente - disse Harry correndo ao lado de
Dumbledore. - Parece que não sabe onde está. Fala o tempo todo como se
achasse que Percy Weasley está lá e depois muda e diz que precisa ver o senhor.
Deixei-o com Vítor Krum.
- Deixou? - exclamou Dumbledore com severidade e começou a dar
passadas ainda maiores, de modo que Harry precisou correr para acompanhá-lo.
­ Você sabe se mais alguém viu o Sr. Crouch?
- Não - respondeu Harry. - Krum e eu estávamos conversando, o Sr.
Bagman tinha acabado de nos falar sobre a terceira tarefa, ficamos para trás e
então vimos o Sr. Crouch saindo da Floresta...
- Onde é que eles estão? - perguntou Dumbledore ao ver a carruagem da
Beauxbatons emergir da escuridão.
- Ali na frente - disse Harry adiantando-se ao diretor Dumbledore e
mostrando o caminho entre as árvores. Ele não ouvia mais a voz de Crouch, mas


sabia aonde estava indo, não era muito além da carruagem... em algum lugar por
aqui...
- Vítor? - chamou Harry.
Ninguém respondeu.
- Deixei os dois aqui - disse Harry a Dumbledore. - Decididamente estavam
em algum lugar por aqui...
- Lumus - ordenou Dumbledore, acendendo sua varinha e erguendo-a.
O feixe fino de luz se deslocou de um tronco a outro, iluminando o chão.
Então recaiu sobre dois pés.
Harry e Dumbledore acorreram. Krum estava estatelado no chão da
Floresta. Parecia ter perdido os sentidos. Não havia nem sinal do Sr. Crouch.
Dumbledore se curvou para Krum e gentilmente ergueu uma de suas pálpebras.
- Estuporado - comentou baixinho. Seus oclinhos de meia-lua cintilaram à
luz da varinha quando ele examinou as árvores que os rodeavam.
- O senhor quer que eu vá buscar alguém? - perguntou Harry. - Madame
Pomfrey?
- Não - disse Dumbledore na mesma hora. - Fique aqui.
O diretor ergueu a varinha e apontou-a para a cabana de Hagrid. Harry viu-a
disparar uma coisa prateada que voou entre as árvores como um pássaro
fantasmagórico. Então Dumbledore tornou a se curvar para Krum, apontou a
varinha para o rapaz e murmurou:
- Enervate.
Krum abriu os olhos. Parecia atordoado. Quando viu Dumbledore, tentou se
sentar, mas o diretor pousou a mão no ombro dele e o fez continuar deitado.
- Ele me atacou! - murmurou Krum, levando a mão à cabeça. - O velho
doido me atacou! Eu estava olhando parra os lados parra verr onde Potterr tinha
ido e ele me atacou pelas costas!
- Fique deitado um pouco - mandou Dumbledore.
Um reboar de fortes passadas chegou aos ouvidos do grupo e Hagrid
apareceu ofegante com Canino nos calcanhares. Trazia o arco.
- Prof. Dumbledore! - disse ele arregalando os olhos. - Harry que dia...?
- Hagrid, preciso que você vá buscar o Prof. Karkaroff - disse Dumbledore.
­ O aluno dele foi atacado. Quando terminar, por favor, alerte o Prof. Moody...
- Não é necessário, Dumbledore - ouviu-se um rosnado asmático -, já estou
aqui. - Moody vinha mancando em direção a eles, apoiado na bengala, a varinha
acesa.
- Porcaria de perna - reclamou furioso. - Teria chegado mais rápido... que
foi que houve? Snape me disse alguma coisa sobre Crouch...
- Crouch? - repetiu Hagrid sem entender.
- Karkaroff, por favor, Hagrid! - disse Dumbledore energicamente.
- Ah, sim... certo, professor... - disse Hagrid e, dando as costas,
desapareceu entre as árvores escuras, Canino trotando ao seu lado.
- Não sei aonde foi parar Bartô Crouch - disse Dumbledore a Moody -, mas
é essencial que o encontremos.
- Já estou indo - rosnou Moody e, puxando a varinha, saiu coxeando pela
Floresta. Nem Dumbledore nem Harry tornaram a falar até ouvirem os sons


inconfundíveis de Hagrid e Canino voltando. Karkaroff seguia apressado atrás
deles. Usava suas elegantes peles prateadas e parecia pálido e agitado.
- Que é isso? - exclamou, quando viu Krum no chão, e Dumbledore e Harry
ao lado do rapaz. - Que é que está acontecendo?
- Fui atacado! - informou Krum, agora se sentando e esfregando a cabeça. -
O Sr. Crrouch ou que nome tenha...
- Crouch o atacou? Crouch atacou você? O juiz do Tribruxo?
- Igor - começou a falar Dumbledore, mas Karkaroff se erguera puxando as
peles para perto do corpo, o rosto lívido.
- Traição! - urrou ele apontando para Dumbledore. - É uma conspiração!
Você e o seu Ministro da Magia me atraíram até aqui sob falsos pretextos,
Dumbledore! Isto não é uma competição honesta! Primeiro você sorrateiramente
inscreve Potter no torneio, embora ele seja menor de idade! Agora um dos seus
amigos do Ministério tenta pôr o meu campeão fora de ação! Estou farejando
falsidade e corrupção nesse torneio todo e você, Dumbledore, você, com a sua
conversa de estreitar os vínculos entre os bruxos estrangeiros, de refazer velhos
laços, de esquecer as velhas diferenças, isto é o que penso de você!
Karkaroff cuspiu no chão aos pés de Dumbledore. Com um movimento
rápido, Hagrid agarrou o bruxo pela gola das peles, ergueu-o no ar e empurrou-o
contra uma árvore próxima.
- Peça desculpas! - rosnou Hagrid, enquanto Karkaroff tentava respirar com
aquele punho maciço em sua garganta, seus pés balançando no ar.
- Hagrid, não! - gritou Dumbledore com os olhos faiscando.
Hagrid soltou a mão que prendia Karkaroff contra a árvore, o bruxo
escorregou pelo tronco e desmontou numa massa informe aos seus pés, alguns
gravetos caíram em sua cabeça.
- Tenha a bondade de acompanhar Harry até o castelo, Hagrid - disse
Dumbledore energicamente. Respirando ruidosamente, Hagrid lançou a Karkaroff
um olhar carrancudo.
- Talvez seja melhor eu ficar aqui, diretor...
- Você vai levar Harry de volta ao castelo, Hagrid - repetiu Dumbledore com
firmeza. - Leve-o diretamente à Torre da Grifinória. E Harry, quero que fique lá.
Qualquer coisa que queira fazer, corujas que queira despachar, pode esperar até
de manhã, está me entendendo bem?
- Hum, sim, senhor - aquiesceu Harry, com os olhos no diretor. Como
Dumbledore soubera que naquele exato momento ele estava pensando em
mandar Pichitinho direto a Sirius para lhe contar o que acontecera?
- Vou deixar Canino com o senhor, diretor - disse Hagrid, ainda olhando
ameaçadoramente para Karkaroff, que continuava caído ao pé da árvore enredado
em peles e raízes. - Parado, Canino. Vamos, Harry.
Eles passaram em silêncio pela carruagem da Beauxbatons e subiram em
direção ao castelo.
- Como é que ele se atreve - rosnou Hagrid, quando margeavam o lago. -
Como é que ele se atreve a acusar Dumbledore. Como se Dumbledore fosse
capaz de uma coisa dessas. Como se Dumbledore quisesse que você participasse
do torneio, para começar. Preocupado! Não me lembro de ter Visto Dumbledore
mais preocupado do que tem estado ultimamente. E você! - disse Hagrid voltando-


se zangado para Harry, que ergueu os olhos para ele, espantado. - Que é que
você estava fazendo andando por aí com esse desgraçado do Krum? Ele é aluno
de Durmstrang, Harry! Podia ter azarado você ali mesmo, não podia? Será que
Moody não lhe ensinou nada? Imagina deixar ele afastar você dos outros...
- Krum é legal! - interrompeu-o Harry, quando subiam os degraus para o
saguão de entrada. ­ Ele não estava tentando me azarar, só queria conversar
comigo sobre a Mione...
- Eu é que vou ter uma conversinha com ela - falou Hagrid mal-humorado,
subindo os degraus com estrondo. - Quanto menos vocês tiverem contato com
esses estrangeiros, melhor vão ficar. Não se pode confiar em nenhum deles.
- Você parece que está se dando muito bem com a Madame Maxime ­
respondeu Harry, aborrecido.
- Não fale dela comigo! - disse Hagrid, e naquele instante parecia
assustador. - Agora já sei quem ela é! Tentando voltar às minhas boas graças
para eu contar a ela qual vai ser a terceira tarefa. Ah! Não se pode confiar em
nenhum deles!
Hagrid estava tão mal-humorado que Harry ficou feliz de se despedir dele
diante do quadro da Mulher Gorda. Passou pelo buraco do retrato, desembocando
na sala comunal e correu direto para o canto em que Rony e Hermione estavam
sentados, para narrar aos dois o que acontecera.


- CAPITULO VINTE E NOVE -
O sonho

- A coisa se resume no seguinte - disse Hermione esfregando a testa -, ou o
Sr. Crouch atacou Vítor ou outra pessoa atacou os dois, quando Vítor não estava
olhando.
- Deve ter sido o Crouch - disse Rony na mesma hora. - por isso que ele já
tinha desaparecido quando Harry e Dumbledore chegaram lá. Deu no pé.
- Acho que não - disse Harry balançando a cabeça. - Ele parecia realmente
fraco, acho que não tinha forças para desaparatar nem nada.
- Ninguém pode desaparatar nas terras de Hogwarts, já não disse isso a
vocês um montão de vezes? - reclamou Hermione.
- OK.... então que tal esta outra teoria - propôs Rony excitado:
- Krum atacou Crouch, não, perai, então se estuporou!
- E o Sr. Crouch se evaporou, não é mesmo? - disse Hermione com frieza.
- Ah, é...
O dia estava amanhecendo. Harry, Rony e Hermione tinham saído muito
cedo dos seus dormitórios e corrido até o corujal, juntos, a despachar um bilhete
para Sirius. Agora estavam parados contemplando os jardins cobertos de névoa.
Os três estavam pálidos, os olhos inchados, porque ficaram conversando até tarde
sobre o Sr. Crouch.
- Vamos recapitular, Harry - disse Hermione. - Que foi que o Sr. Crouch
realmente disse?
- Já falei que ele não estava fazendo muito sentido - repetiu Harry. - Disse
que queria prevenir Dumbledore sobre alguma coisa. Tenho certeza de que ele


mencionou Berta Jorkins e parecia achar que ela estava morta. Não parava de
repetir que muita coisa era culpa dele... mencionou o filho.
- Bem, isso foi culpa dele - disse Hermione irritada.
- Ele estava delirando - continuou Harry. - Metade do tempo dava a
impressão de acreditar que a mulher e o filho ainda estavam vivos, e ele não
parava de falar com Percy sobre serviço e de lhe dar instruções.
- E... o que foi mesmo que ele disse sobre Você-Sabe-Quem? perguntou
Rony inseguro.
- Eu já contei - respondeu Harry chateado. - Disse que ele está ficando mais
forte.
Houve uma pausa. Então Rony num tom de falsa segurança disse:
- Mas ele estava delirando, conforme você falou, portanto metade disso
provavelmente era só delírio...
- Ele ficava mais sensato quando tentava falar de Voldemort disse Harry,
não dando atenção à careta de Rony. - Estava realmente com dificuldade para
formar frases, mas isso era quando parecia que sabia onde estava e o que queria
fazer. Ele não parava de dizer que queria ver Dumbledore.
Harry se afastou da janela e olhou para os caibros do telhado. Metade dos
numerosos poleiros estava vazia, de vez em quando, mais uma coruja entrava
voando por uma das janelas, voltando de uma caçada noturna com um rato no
bico.
- Se Snape não tivesse me atrasado - comentou Harry-, talvez a gente
tivesse chegado lá a tempo.
"O diretor está ocupado Potter... que tolice é essa, Potter?" Por que ele
simplesmente não saiu do caminho?
- Talvez não quisesse que vocês chegassem lá! - disse Rony depressa. -
Talvez, calma aí, com que rapidez você acha que ele poderia ter ido até a
Floresta? Você acha que ele podia ter chegado lá antes de você e Dumbledore?
- Não, a não ser que ele seja capaz de se transformar num morcego ou
outra coisa do gênero.
- Eu não duvido nada - murmurou Rony.
- Precisamos ver o Prof. Moody - disse Hermione. - Precisamos descobrir
se ele encontrou o Sr. Crouch.
- Se tivesse Levado o Mapa do Maroto com ele, teria sido fácil - disse Harry.
- A não ser que Crouch já tivesse saído de Hogwarts - lembrou Rony -,
porque o mapa só mostra o que está dentro dos limites, não...
- Psiu! - exclamou Hermione de repente.
Alguém estava subindo a escada para o corujal. Harry ouviu duas vozes
discutindo, cada vez mais próximas.
- ... isso é chantagem, é o que é, e poderíamos nos meter em uma baita
enrascada por causa disso... tentamos ser gentis, está na hora de jogar sujo com
o cara. Ele não ia gostar que o Ministério da Magia soubesse o que ele fez...
- Estou falando, se você puser isto por escrito, será chantagem!
- É, mas você não ia reclamar se conseguíssemos um bom pagamento por
isso, ia?
A porta do corujal se abriu com estrondo. Fred e Jorge apareceram no
portal e em seguida congelaram ao verem Harry, Rony e Hermione.


- Que é que vocês estão fazendo aqui? - perguntaram Rony e Fred ao
mesmo tempo.
- Despachando uma carta - responderam Harry e Jorge em uníssono.
- Quê, a esta hora? - se admiraram Hermione e Fred. Fred sorriu.
- Ótimo, nós não perguntamos o que vocês estão fazendo, se vocês não
nos perguntarem ­ disse ele.
Ele segurava um envelope fechado na mão. Harry deu uma olhada, mas
Fred, fosse por acaso ou de propósito, escorregou a mão, tampando o nome do
destinatário.
- Bem, não se prendam por nós - disse ele, fazendo uma reverência cômica
e indicando a porta. Rony não se mexeu.
- Quem é que vocês estão chantageando? - perguntou.
O sorriso desapareceu do rosto de Fred. Harry viu Jorge olhar Fred de
relance antes de sorrir para Rony.
- Não seja idiota, eu só estava brincando - disse ele à vontade.
- Não parecia - insistiu Rony.
Fred e Jorge se entreolharam. Então Fred disse abruptamente:
- Já lhe avisamos antes, Rony, não meta o nariz se gosta do feitio que ele
tem. Não vejo por que você iria meter, mas...
- Mas é da minha conta se vocês estiverem chantageando alguém. Jorge
tem razão, vocês poderiam acabar numa baita enrascada.
- Já lhe disse, eu estava brincando - disse Jorge. Ele foi até Fred, tirou a
carta das mãos do irmão e começou a prendê-la à perna da coruja-de-igreja mais
próxima. - Você está começando a falar como o nosso querido irmão mais velho,
sabe, Rony. Continue assim e vai acabar monitor -chefe.
- Não, não vou, não! - protestou Rony indignado.
Jorge levou a coruja até a janela e deixou-a levantar vôo. Ele se virou e
sorriu para Rony.
- Bem, então pare de dizer às pessoas o que fazer. Até mais tarde.
Ele e Fred saíram do corujal. Harry, Rony e Hermione ficaram se
entreolhando.
- Vocês não acham que eles sabem alguma coisa dessa história toda,
acham? ­ sussurrou Hermione. - Do Crouch e todo o resto?
- Não - disse Harry. - Se fosse uma coisa séria assim eles contariam a
alguém. Contariam a Dumbledore.
Rony, no entanto, estava com um ar constrangido.
- Que foi? - perguntou Hermione.
- Bem... - respondeu Rony lentamente - não sei se contariam. Eles...
ultimamente estão obcecados com a idéia de fazer dinheiro, notei isso quando
estava andando com eles, quando... vocês sabem...
- Nós dois não estávamos nos falando - Harry terminou a frase para ele. - É,
mas chantagem...
- É essa idéia deles de abrirem uma loja de logros. Pensei que estivessem
falando nisso só para aborrecer mamãe, mas estão realmente falando sério,
querem abrir uma loja. Só falta um ano para eles terminarem Hogwarts, eles não
param de falar que está na hora de pensar no futuro e papai não pode ajudá-los,
precisam de ouro para começar um negocio.


Agora era Hermione que estava com um ar constrangido.
- Sei, mas... eles não fariam nada contra a lei para conseguir ouro. Fariam?
- Se fariam? - disse Rony com uma expressão de ceticismo. - Não sei...
eles não se importam muito de desrespeitar o regulamento, não é mesmo?
- É, mas estamos falando da Lei - disse Hermione, parecendo
amedrontada. ­ Não é de um simples regulamento de escola... vão receber mais
que detenção por uma chantagem! Rony... talvez seja melhor contar ao Percy...
- Você ficou maluca? - exclamou Rony. - Contar ao Percy? Ele
provavelmente ia fazer como o Crouch, e entregaria os dois. - Ele ficou olhando a
janela por onde partira a coruja de Fred e Jorge, depois disse: - Vamos gente,
vamos tomar café.
- Vocês acham que é muito cedo para procurar o Prof. Moody? - perguntou
Hermione quando desciam a escada circular.
- Acho - respondeu Harry. - Ele provavelmente nos detonaria pela porta se
nós o acordássemos com o dia nascendo. Ia pensar que estamos querendo atacá-
lo dormindo. Vamos esperar até a hora do intervalo.
A aula de História da Magia jamais transcorrera tão lentamente. Harry não
parava de consultar o relógio de Rony, tendo finalmente jogado fora o seu, mas o
do amigo estava andando tão devagar que ele poderia jurar que parara de
funcionar também. Os três garotos estavam tão cansados que teriam gostado de
descansar as cabeças nas carteiras e dormir; nem Hermione estava fazendo as
anotações de costume, sentava-se com a cabeça apoiada na mão, mirando o
Prof. Binns com os olhos fora de foco.
Quando a sineta finalmente tocou, eles saíram correndo pelo corredor em
direção à sala de Defesa das Artes das Trevas e encontraram o Prof. Moody de
saída. Ele parecia tão cansado quanto os três se sentiam. A pálpebra do seu olho
normal estava caída, dando ao seu rosto uma aparência ainda mais torta do que a
habitual.
- Prof. Moody? - chamou Harry, enquanto atravessavam o ajuntamento de
alunos até o professor.
- Olá, Potter - rosnou Moody. Seu olho mágico acompanhou uns alunos de
primeiro ano que iam passando e que aceleraram o passo demonstrando
nervosismo, depois o olho girou para a nuca do professor e observou-os virar o
canto, só então ele voltou a falar:
- Entrem.
Afastou-se, então, para deixá-los entrar em sua sala de aula vazia, entrou
em seguida mancando, e fechou a porta.
- O senhor o encontrou? - perguntou Harry sem preâmbulos.
- O Sr. Crouch?
- Não - respondeu Moody. Ele foi até a escrivaninha, sentou-se, esticou a
perna de pau com um breve gemido e puxou um frasco de bolso.
- O senhor usou o mapa? - perguntou Harry.
- Naturalmente - disse o professor tomando um gole do frasco. - Fiz
igualzinho a você, Potter. Convoquei o mapa do meu escritório para a Floresta. O
homem não estava em lugar algum.
- Então ele desaparatou? - perguntou Rony.


- Não se pode desaparatar nos terrenos da escola, Rony! - disse Hermione.
­ Não existem outras maneiras que ele poderia ter usado para desaparecer,
existem, professor?
O olho mágico de Moody estremeceu ao pousar em Hermione.
- Você é outra que poderia pensar numa carreira de auror - disse ele à
garota. - Sua cabeça funciona na direção certa, Granger.
Hermione corou de prazer.
- Bem, ele não estava invisível - falou Harry -, o mapa mostra pessoas
invisíveis. Então ele deve ter deixado Hogwarts.
- Mas com as próprias pernas? - perguntou Hermione ansiosa. - Ou alguém
o fez deixar?
- É, alguém poderia ter feito isso, montar o Grouch numa vassoura e levar
ele embora, não poderia? - perguntou Rony depressa, olhando esperançoso para
Moody, como se também quisesse ouvir que tinha talento para auror.
- Não podemos excluir um sequestro - rosnou Moody.
- Então - disse Rony - o senhor acha que ele está em algum lugar de
Hogsmeade?
- Poderia estar em qualquer lugar - respondeu Moody balançando a cabeça.
­ A única coisa de que temos certeza é que ele não está aqui.
O professor deu um grande bocejo, suas cicatrizes se esticaram e sua boca
torta deixou entrever que lhe faltavam vários dentes. Então disse:
- Agora, Dumbledore me contou que vocês três se imaginam
investigadores, mas não há nada que possam fazer por Crouch. O Ministério vai
procurá-lo agora, Dumbledore já mandou uma notificação. Potter, e você se
concentre na terceira tarefa.
- Quê? - disse Harry. - Ah, sim...
Ele ainda não parara um instante sequer para pensar no labirinto desde que
deixara Krum na noite anterior.
- Deve ser bem a sua praia, essa - disse o professor, erguendo os olhos
para Harry e coçando o queixo barbado e cheio de cicatrizes. - Pelo que
Dumbledore me contou, você já conseguiu fazer coisas parecidas muitas vezes.
Venceu uma série de obstáculos que guardavam a Pedra Filosofal no primeiro
ano, não foi?
- Nós ajudamos - disse Rony depressa. - Eu e Mione ajudamos.
Moody se riu.
- Bem, então ajude-o a treinar para esse e ficarei muito surpreso se ele não
vencer. Nesse meio tempo... vigilância constante, Potter. Vigilância constante. -
Ele tomou mais um longo gole do frasco de bolso e seu olho mágico girou para a
janela. Por ali via-se a vela principal do navio de Durmstrang.
- Vocês dois - seu olho normal estava posto em Rony e Hermione ­ fiquem
colados no Potter, sim? Eu estou de olho nas coisas, mas assim mesmo... nunca
há olhos demais para se vigiar.

Sirius devolveu a coruja dos garotos na manhã seguinte. Ela esvoaçou ao
lado de Harry no mesmo instante em que uma coruja castanho-amarelada pousou
diante de Hermione, trazendo um exemplar do Profeta Diário no bico. Ela apanhou
o jornal, deu uma olhada nas primeiras páginas e disse:


- Ela não ouviu falar do Crouch! - comentou antes de se juntar a Rony e
Harry para ler o que Sirius mandara dizer sobre os misteriosos acontecimentos da
antevéspera.

"Harry - que brincadeira é essa de sair para a Floresta Proibida com Vítor Krum?
Quero que você jure, na volta deste correio, que não vai sair andando com mais
ninguém à noite. Há alguém perigosíssimo em Hogwarts. Para mim está muito
claro que esse alguém queria impedir Crouch de ver Dumbledore e você
provavelmente esteve a poucos passos dele no escuro. Poderia ter sido morto.
O seu nome não foi parar no Cálice de Fogo por acaso. Se alguém está tentando
atacá-lo, essa é a última chance. Fique perto de Rony e Hermione, não saia da
Grifinória tarde da noite e se prepare para a terceira tarefa. Pratique
estuporamento e desarmamento. Algumas azarações viriam a calhar. Não há
nada que você possa fazer por Crouch. Não se exponha e se cuide. Estarei
esperando a carta em que me dará sua palavra de que não vai mais ultrapassar
os limites da escola.
Sirius"

- Quem é ele para me fazer sermão por ultrapassar os limites da escola? -
disse Harry ligeiramente indignado enquanto dobrava a carta de Sirius e a
guardava no bolso interno das vestes. - Depois de tudo que ele aprontou na
escola!
- Ele está preocupado com você! - lembrou Hermione com rispidez. - E o
mesmo se aplica a Moody e Hagrid! Por isso escute o que eles estão lhe dizendo!
- Ninguém nem tentou me atacar este ano - disse Harry. - Ninguém nem me
fez absolutamente nada...
- Exceto colocarem o seu nome no Cálice de Fogo - disse Hermione. - E
devem ter tido um bom motivo para isso, Harry. Snuffles tem razão. Talvez
estejam esperando a hora certa. Talvez a terceira tarefa seja a que vão pegar
você.
- Olhem - disse Harry impaciente -, digamos que Snuffles tenha razão e
alguém estuporou Krum para seqüestrar Crouch. Bem, ele estaria escondido entre
as árvores perto de nós, certo? Mas esperou eu estar fora do caminho para agir,
não foi? Portanto não está parecendo que eu seja o alvo deles, não é?
- Eles não poderiam fazer parecer um acidente se tivessem matado você na
Floresta. Mas se você morresse durante a tarefa...
- Eles não se importaram de atacar Krum, não foi? Por que não
aproveitaram para acabar comigo também? Poderiam ter feito parecer que Krum e
eu tínhamos duelado ou outra coisa qualquer.
- Harry, eu também não entendo - disse Hermione desesperada. - Só sei
que há um monte de coisas estranhas acontecendo e que não estou gostando
nada...
Moody está certo, Snuffles está certo, você tem que começar a treinar logo
para a terceira tarefa. E não se esqueça de responder a Sirius e prometer que não
vai sair por aí sozinho outra vez.
Os jardins de Hogwarts nunca pareceram mais convidativos do que quando
Harry foi obrigado a permanecer no castelo. Nos dias que se seguiram ele passou


quase todo o tempo livre na biblioteca com Hermione e Rony, consultando livros
sobre azarações ou então em salas de aula desocupadas, em que eles entravam
às escondidas para praticar. Harry se concentrou no Feitiço Estuporante, que ele
nunca usara antes. O problema era que sua prática exigia certos sacrifícios de
Rony e Hermione.
- Não podíamos seqüestrar Madame Norra? - sugeriu Rony durante a hora
de almoço na segunda-feira, ainda deitado de barriga para cima no meio da sala
de Feitiços, onde acabara de ser estuporado e reanimado por Harry pela quinta
vez seguida. - Vamos estuporar a gata para variar. Ou quem sabe você podia usar
o Dobby, Harry, aposto que ele faria qualquer coisa para ajudar você. Não estou
reclamando nem nada - o garoto se levantou esfregando as costas -, mas estou
todo doído...
- Bem, você sempre sai de cima das almofadas, não é? - disse Hermione
com impaciência, rearrumando a pilha de almofadas usadas para o Feitiço
Expulsório que Flitwick deixara guardadas em um armário. - Experimente cair de
costas!
- Quando a gente está sendo estuporado, não consegue mirar muito bem,
Hermione! - defendeu-se Rony aborrecido. - Por que você não experimenta uma
vez?
- Bem, acho que Harry já pegou o jeito - disse a garota apressada. - E não
precisamos nos preocupar com o desarmamento, porque ele já sabe fazer isso há
séculos... Acho que hoje à noite devíamos começar algumas azarações.
A garota percorreu com os olhos a lista que tinham feito na biblioteca.
- Gosto da cara desta aqui - disse ela -, da Azaração de Impedimento. Deve
retardar qualquer coisa que esteja tentando atacar você, Harry. Vamos começar
por ela.
A sineta tocou. Apressadamente eles enfiaram as almofadas no armário de
Flitwick e saíram com cautela da sala de aula.
- Vejo vocês no jantar! - disse Hermione e foi para a aula de Arítmancia,
enquanto Harry e Rony seguiam para a aula de Adivinhação na Torre Norte.
Grandes feixes de sol, radiosamente dourados, vindos das altas janelas,
cortavam o corredor. O céu lá fora estava tão intensamente azul que parecia
esmaltado.
- Vai estar uma sauna na sala da Trelawney, ela nunca apaga aquela lareira
­ comentou Rony, quando começaram a subir a escada circular que levava à
escada prateada e ao alçapão.
E ele estava certo. A sala mal iluminada estava incomodamente quente. A
fumaça da lareira perfumada estava mais densa que nunca. Harry sentiu a cabeça
tontear ao se dirigir a uma das janelas de cortinas corridas. Enquanto a Profª
Sibila estava olhando para o outro lado, tentando soltar o xale de um abajur, ele
abriu a janela uns dois dedinhos e tornou a se sentar em sua cadeira forrada de
chintz, de modo que uma brisa suave correu pelo seu rosto. Ele se sentiu
muitíssimo confortável.
- Meus queridos - disse a professora, sentando-se em sua bergere diante
da turma e percorrendo-a com seus olhos estranhamente aumentados -, estamos
quase no fim dos nossos estudos sobre adivinhação planetária. Hoje, no entanto,
teremos uma excelente oportunidade de examinar os efeitos de Marte, porque ele


está em uma posição muitíssimo interessante neste momento. Se vocês todos
olharem para cá, eu vou diminuir a luz...
Ela acenou com a varinha e as luzes se apagaram. A lareira ficou sendo a
única fonte de claridade. A Profª Sibila se curvou e tirou de baixo da poltrona um
modelo do sistema solar, protegido por uma redoma de vidro. Era uma bela peça,
cada uma das luas cintilantes estavam dispostas em torno dos nove planetas e do
sol esbraseado, todos suspensos no ar sob o vidro. Harry acompanhou
indolentemente a professora começar a apontar o ângulo fascinante que Marte
formava com Netuno.
A fumaça muito perfumada o envolveu e a brisa vinda da janela brincou
pelo seu rosto. Ele ouviu um inseto zumbir suavemente em algum lugar atrás da
cortina. Suas pálpebras começaram a pesar...
Ele estava cavalgando às costas de um corujão, voando por um claro céu
azul em direção a uma casa velha e coberta de hera, situada no alto de uma
encosta.
Eles foram voando cada vez mais baixo, o vento passando agradavelmente
pelo rosto de Harry, até chegarem a uma janela escura e desmantelada no
primeiro andar da casa, pela qual entraram. Agora estavam voando por um
corredor sombrio e chegaram a um quarto bem no final... cruzaram a porta
entraram nesse quarto escuro cujas janelas estavam pregadas...
Harry desmontara das costas do corujão... e observou-o esvoaçar pelo
quarto e pousar em uma poltrona virada de costas para ele... havia duas formas
escuras no chão ao lado da cadeira... as duas se mexiam... Uma era uma enorme
cobra... a outra, um homem... um homem baixo, meio careca, um homem com
olhos aquosos e um nariz pontudo... ele arfava e soluçava no tapete diante da
lareira...
- Você está com sorte, Rabicho - disse uma voz fria e aguda do fundo da
poltrona em que o corujão pousara. - Você tem de fato muita sorte. O seu erro não
chegou a arruinar tudo. Ele está morto.
- Milorde! - ofegou o homem no chão. - Milorde, estou... estou tão
satisfeito... e tão arrependido...
- Nagini - disse a voz fria -, você está sem sorte. Afinal, não é hoje que vou
lhe dar Rabicho para comer... mas não se incomode, não se incomode... ainda
tem o Harry Potter...
A cobra sibilou. Harry viu a língua dela se agitar.
- Agora, Rabicho - disse a voz fria -, talvez mais um lembrete de por que
não vou tolerar mais nenhum erro seu...
- Milorde... não... eu suplico...
A ponta de uma varinha ergueu-se do fundo da poltrona. Mirou Rabicho.
- Crucio - disse a voz fria.
Rabicho berrou, berrou como se cada nervo do seu corpo estivesse em
fogo, os berros encheram os ouvidos de Harry, ao mesmo tempo que a cicatriz em
sua testa queimou de dor; ele estava berrando, também... Voldemort iria ouvi-lo,
saberia que ele estava ali...
- Harry! Harry.
Harry abriu os olhos. Estava caído no chão da sala da Profª Sibila, cobrindo
o rosto com as mãos. Sua cicatriz ardia com tanta intensidade que seus olhos


chegavam a lacrimejar. A dor fora real. A turma inteira estava parada à volta dele,
e Rony se ajoelhara de um lado, com uma expressão de terror no rosto.
- Você está bem? - perguntou.
- É claro que não está! - disse a professora, parecendo alvoroçadíssima.
Seus grandes olhos miraram Harry, ameaçadores. - Que foi, Potter? Uma
premonição? Uma aparição? Que foi que você viu?
- Nada - mentiu Harry. Ele se sentou. Sentia os próprios tremores. Não
conseguia parar de olhar para todo lado, para as sombras às suas costas. A voz
de Voldemort soara tão próxima...
- Você estava apertando sua cicatriz! - disse a professora. - Você estava
rolando no chão, apertando sua cicatriz! Ora vamos, Potter, eu tenho experiência
nesses assuntos!
Harry levantou a cabeça para olhá-la.
- Preciso ir à ala hospitalar, acho. Dor de cabeça muito forte.
- Meu querido, sem dúvida você foi estimulado pelas extraordinárias
vibrações premonitórias da minha sala! Se você sair agora, poderá perder a
oportunidade de ver mais longe do que jamais...
- Eu não quero ver nada, a não ser um remédio para minha dor de cabeça.
Harry se levantou. A turma recuou. Todos pareciam nervosos.
- Vejo você mais tarde - murmurou ele para Rony e, apanhando a mochila,
rumou para o alçapão, sem dar atenção à Profª Sibila, que revelava no rosto uma
grande frustração, como se alguém a tivesse privado de um prazer real.
Quando Harry chegou ao fim da escada, porém, não rumou para a ala
hospitalar. Não tinha a menor intenção de ir até lá. Sirius lhe dissera o que fazer
se a cicatriz tornasse a doer e ele ia seguir o conselho do padrinho: ir direto ao
escritório de Dumbledore. Ele atravessou os corredores, decidido, pensando no
que vira no sonho... fora tão vivido como o outro que o despertara na rua dos
Alfeneiros...ele repassou mentalmente os detalhes, procurando se certificar de que
não os esqueceria... ouvira Voldemort acusar Rabicho de cometer um erro... mas
a coruja trouxera boas notícias, o erro fora consertado, alguém estava morto... por
isso Rabicho não ia servir de alimento para a cobra... em seu lugar, Harry é quem
iria...
O garoto passou direto pela gárgula que guardava a entrada do escritório
de Dumbledore sem reparar. Ele piscou, olhou em volta, percebeu a distração,
refez seus passos e parou diante do ornato. Então se lembrou que não conhecia a
senha.
- Sorvete de limão? - experimentou.
A gárgula não se moveu.
- OK. - disse Harry encarando-a. - Drops de pêra. Varinha. alcaçuz. Delícia
gasosa. Chicle de baba-bola. Feijõezinhos de todos os sabores... ah, não, ele não
gosta desses, ou gosta?... Ah, abra logo, será que não pode? - exclamou o garoto
aborrecido. - E realmente preciso ver o diretor, é urgente!
A gárgula continuou imóvel.
Harry chutou-a, mas não conseguiu nada, exceto sentir uma dor
excruciante no dedão do pé.


- Sapo de chocolate! - berrou com raiva, parado num pé só. - Pena de
açúcar! Torrão de barata! A gárgula ganhou vida e saltou para o lado. Harry piscou
os olhos.
- Torrão de barata! - exclamou admirado. - Eu estava só brincando...
Ele passou depressa pela abertura nas paredes e pisou no patamar de uma
escada em espiral, que se deslocou lentamente para o alto, ao mesmo tempo em
que as portas se fechavam às suas costas, levando-o até uma porta de carvalho
polido com uma maçaneta de latão. Ele ouviu vozes no escritório. Saltou da
escada em movimento e hesitou, escutando.
- Dumbledore, receio não ver a relação, não a vejo mesmo! - Era a voz do
Ministro da Magia, Cornélio Fudge. - Ludo diz que Berta é perfeitamente capaz de
se perder. Concordo que era de esperar que, a esta altura, ela já tivesse sido
encontrada, mas mesmo assim, não temos evidência alguma de crime,
Dumbledore, nenhuma. Quanto ao desaparecimento dela estar ligado ao de Bartô
Crouch!
- E o que é que o senhor acha que aconteceu com Bartô Crouch, ministro? -
perguntou Moody num rosnado.
- Vejo duas possibilidades, Alastor - disse Fudge. - Ou Crouch finalmente
enlouqueceu, o que é muito provável e tenho certeza de que você concorda, dada
a sua história pessoal, perdeu o juízo e saiu vagando por aí...
- Ele vagou muitíssimo depressa, se esse for o caso, Cornélio ­ comentou
Dumbledore calmamente.
- Ou então, bem... - Fudge pareceu constrangido. - Bem, não vou julgar até
depois de ver o local onde ele foi encontrado, mas você diz que foi um pouco além
da carruagem da Beauxbatons? Dumbledore, você sabe quem é aquela mulher?
- Considero-a uma diretora competente e uma excelente dançarina ­
acrescentou Dumbledore rapidamente.
- Ora, vamos Dumbledore! - disse Fudge irritado. - Você não acha que pode
estar predisposto a favorecê-la por causa de Hagrid? Nem todos eles são
inofensivos, se é que se pode chamar Hagrid de inofensivo, com aquela fixação
monstruosa que ele tem...
- Tenho tantas suspeitas de Madame Maxime quanto tenho de Hagrid -
disse Dumbledore com a mesma calma. - Acho que é possível que você esteja
predisposto a condená-la, Cornélio.
- Será que podemos fechar esta discussão? - rosnou Moody.
- Sim, sim, vamos descer aos jardins, então - disse Cornélio impaciente.
- Não, não é isso - falou Moody -, é que Potter quer dar uma palavra com
você, Dumbledore. Ele está aí do outro lado da porta.

- CAPITULO TRINTA -
A Penseira

A porta do escritório se abriu.
- Olá, Potter - disse Moody. - Então, entre.
Harry entrou. Já estivera uma vez no escritório de Dumbledore, era uma
bela sala circular, coberta de retratos de diretores e diretoras que o antecederam
em Hogwarts, os quais dormiam a sono solto, o peito arfando suavemente.
Cornélio Fudge estava em pé do lado da escrivaninha de Dumbledore,
usando sua habitual capa listrada e segurando seu chapéu-coco verde-limão.
- Harry! - cumprimentou o ministro jovialmente, adiantando-se. - Como vai?
- Ótimo - mentiu Harry.
- Estávamos justamente falando da noite em que o Sr. Crouch apareceu
nos terrenos da escola - disse Fudge. - Foi você quem o encontrou, não foi?
- Foi - confirmou Harry. Depois sentindo que não adiantava fingir que não
escutara o que eles estavam dizendo, acrescentou: - Mas não vi Madame Máxime
em lugar nenhum, e ela teria uma trabalheira para se esconder, não?
Dumbledore sorriu para Harry pelas costas de Fudge, com os olhos
cintilantes.
- Bem, teria - respondeu Fudge constrangido -, íamos sair para dar uma
volta pelos terrenos da escola, Harry, se você nos der licença... quem sabe você
volta às suas aulas...
- Eu queria falar com o senhor, professor - disse Harry depressa, olhando
para Dumbledore, que lhe lançou um olhar breve e penetrante.
- Espere por mim aqui, Harry - disse. - Nosso exame da propriedade não vai
demorar.
Os três passaram por ele em silêncio e fecharam a porta. Mais ou menos
um minuto depois, Harry ouviu o toque-toque da perna de pau de Moody
desaparecendo no corredor embaixo. Olhou para os lados.
- Alô, Fawkes - cumprimentou ele.
Fawkes, a fênix de Dumbledore estava parada em seu poleiro de ouro ao
lado da porta. Do tamanho de um cisne, uma magnífica plumagem vermelha e
dourada, a ave balançou sua longa cauda e piscou bondosamente para Harry.
Harry se sentou em uma cadeira diante da escrivaninha de Dumbledore.
Durante vários minutos, ficou sentado contemplando os velhos diretores e
diretoras cochilando em seus quadros, pensando no que acabara de ouvir e
acariciando a cicatriz. Parara de doer agora.
O garoto se sentia muito mais calmo agora que se achava no escritório de
Dumbledore, pois em breve estaria lhe contando seu sonho. Harry ergueu os
olhos para as paredes atrás da escrivaninha. O Chapéu Seletor, remendado e
esfiapado, estava pousado em uma prateleira. Ao seu lado, uma redoma protegia
uma magnífica espada de prata, com o punho cravejado de grandes rubis, em que
Harry reconheceu a que ele próprio tirara do Chapéu Seletor no segundo ano. A
espada pertencera outrora a Godrico Gryffindor, fundador da Casa de Harry. Ele a
examinava, lembrando como a espada viera em seu auxílio em um momento em
que pensara que não havia mais esperanças, quando notou uma malha de luz
prateada que dançava e refulgia sobre a redoma. Ele procurou a fonte da luz e viu


uma nesga de luz branco-prateada que saía de um armário escuro às suas costas,
cuja porta não fora bem fechada. Harry hesitou, olhou para Fawkes, depois se
levantou, atravessou a sala e escancarou a porta do armário.
Havia ali uma bacia de pedra rasa, com entalhes estranhos na borda, runas
e símbolos que Harry não reconheceu. A luz prateada vinha do conteúdo da bacia,
que não lembrava nada que Harry tivesse visto antes. Ele não sabia dizer se a
substância era líquida ou gasosa. Era brilhante, branco-prateada e se movia sem
cessar; sua superfície se encapelava como água sob a ação do vento e, então,
como uma nuvem, se dividia e girava lentamente. Parecia luz liquefeita - ou vento
solidificado -, Harry não conseguia decidir.
Teve vontade de tocá-la, de descobrir como era ao tato, mas quase quatro
anos de experiência no mundo da magia lhe diziam que meter a mão em uma
bacia cheia de uma substância desconhecida era uma grande burrice. Ele,
portanto, puxou a varinha de dentro das vestes, lançou um olhar nervoso pelo
escritório, tornou a olhar para o conteúdo da bacia e tocou-a. A superfície da
substância prateada dentro da bacia começou a girar muito depressa.
Harry se curvou mais para perto, enfiando a cabeça no armário. A
substância prateada se tornara transparente, parecia vidro. Ele espiou dentro dela,
esperando ver o fundo de pedra da bacia - mas, em vez disso, viu uma sala
enorme sob a superfície da misteriosa substância, uma sala para a qual ele
aparentemente espiava por uma janela circular no teto.
A sala era mal iluminada; o garoto achou que talvez fosse subterrânea, pois
não havia janelas, apenas archotes presos às paredes como os que iluminavam
Hogwarts.
Baixando o rosto de modo a ficar com o nariz a apenas dois centímetros da
substância vítrea, Harry viu que havia filas e mais filas de bruxos e bruxas
sentados ao redor das paredes no que lhe pareceram bancos escalonados. Uma
cadeira vazia fora colocada bem no centro da sala. Alguma coisa nela produziu
em Harry um mau pressentimento.
Havia correntes envolvendo seus braços, como se quem a ocupasse
sempre estivesse preso a ela. Onde seria esse lugar? Certamente não era em
Hogwarts, ele nunca vira uma sala igual àquela no castelo. Além do mais, as
pessoas reunidas na misteriosa sala no fundo da bacia eram, em sua maioria,
adultos e Harry sabia que não havia tantos professores assim em Hogwarts. E
pareciam estar aguardando alguma coisa e, embora o garoto só pudesse ver a
ponta dos seus chapéus cônicos, todos davam a impressão de estar olhando para
o mesmo lado e ninguém falava com ninguém.
Uma vez que a bacia era redonda e a sala que ele observava, circular,
Harry não conseguia divisar o que estaria acontecendo nos cantos. Ele se curvou
para mais perto ainda, inclinou a cabeça, procurou enxergar...
A ponta do seu nariz tocou a estranha substância que ele estava mirando.
O escritório de Dumbledore deu um tremendo solavanco - Harry foi
projetado para a frente e mergulhou de cabeça na substância da bacia...
Mas a cabeça do garoto não bateu no fundo de pedra. Ele foi caindo por
alguma coisa gelada e escura, era como se estivesse sendo sugado por um
redemoinho negro...


E inesperadamente ele se viu sentado em um banco no fundo da sala
dentro da bacia, um banco mais acima dos outros. Ergueu os olhos para o alto
teto de pedra, esperando ver a janela circular pela qual estivera espiando, mas
não havia nada lá exceto a pedra sólida e escura.
Respirando com força e depressa, Harry olhou ao seu redor. Nenhum dos
bruxos nem bruxas na sala (e havia pelo menos uns duzentos) estava olhando
para ele.
Nenhum deles parecia ter reparado que um garoto de catorze anos acabara
de cair do teto no meio da reunião. Harry se virou para o bruxo mais próximo no
banco e soltou um grito de surpresa que ecoou pela sala silenciosa. Sentara-se
bem ao lado de Alvo Dumbledore.
- Professor! - exclamou Harry, numa espécie de sussurro estrangulado. -
Sinto muito, não tive intenção, estava apenas olhando dentro da bacia no seu
armário, eu... onde estamos?
Mas Dumbledore não se mexeu nem falou. Ignorou Harry completamente.
Como os demais bruxos sentados nos bancos, o diretor tinha os olhos fixos no
canto mais afastado da sala, onde havia uma porta.
Harry olhou, confuso, para Dumbledore, depois para os bruxos atentos e
silenciosos, e tornou a olhar para Dumbledore. Então compreendeu...
Já tinha havido uma vez em que Harry se vira em um lugar em que
ninguém podia velo ou ouvi-lo. Naquela ocasião, ele entrara nas páginas de um
diário enfeitiçado, diretamente na memória de alguém... e, a não ser que estivesse
muito enganado, alguma coisa assim estava acontecendo de novo...
Harry ergueu a mão direita, hesitou, depois agitou-a energicamente diante
do rosto de Dumbledore. O diretor não piscou nem olhou para ele e tampouco se
mexeu de modo algum. E isso, na opinião de Harry, resolvia a questão.
Dumbledore não o ignoraria daquela maneira. Ele estava dentro de uma
lembrança e aquele não era o Dumbledore atual. Contudo, não poderia ter sido há
muito tempo... o Dumbledore sentado ao seu lado tinha cabelos prateados,
igualzinho ao Dumbledore dos dias de hoje.
Mas que lugar era este? Que é que todos aqueles bruxos estavam
aguardando? Harry olhou para os lados mais detidamente. A sala, como ele
suspeitara quando a observara do alto, era quase certamente subterrânea - mais
uma masmorra do que uma sala, pensou o garoto. A atmosfera era desolada e
hostil naquele lugar; não havia quadros nas paredes, nem decorações, apenas as
filas de bancos, que subiam em níveis escalonados ao redor da sala, dispostos de
maneira a proporcionar uma visão clara da cadeira com correntes nos braços.
Antes que Harry pudesse chegar a alguma conclusão sobre o lugar em que
se encontravam, ele ouviu passos. A porta no canto da masmorra se abriu e três
pessoas entraram - ou pelo menos um homem, ladeado por dois dementadores.
As entranhas de Harry gelaram. Os dementadores, altos, encapuzados, os
rostos ocultos, deslizaram lentamente em direção à cadeira no centro da sala,
cada um segurando um braço do homem com suas mãos de cadáver, de aspecto
podre. O homem entre os dois parecia prestes a desmaiar e Harry não poderia
culpá-lo... sabia que os dementadores não poderiam tocá-lo dentro de uma
lembrança, mas se lembrava muito bem do poder que tinham. Os bruxos se


encolheram ligeiramente quando os dementadores sentaram o homem na cadeira
com correntes e deslizaram para fora da sala. A porta se fechou ao passarem.
Harry olhou para o homem que agora estava sentado na cadeira e viu que
era Karkaroff. Ao contrário de Dumbledore, Karkaroff parecia muito mais novo,
seus cabelos e barba eram negros. Não estava vestido com peles elegantes, mas
com vestes ralas e esfarrapadas. Tremia. Bem na hora em que Harry o observava,
as correntes nos braços da cadeira produziram um reflexo dourado e se
enroscaram pelos seus braços, prendendo-os ali.
- Igor Karkaroff- disse uma voz ríspida à esquerda de Harry. O garoto olhou
e viu o Sr. Crouch se levantar no meio do banco ao lado. Seus cabelos eram
escuros, seu rosto muito menos enrugado, ele parecia em boa forma e lúcido. -
Você foi trazido de Azkaban para prestar depoimento ao Ministério da Magia. Você
nos deu a entender que tem importantes informações para nos dar.
Karkaroff se endireitou o melhor que pôde, firmemente preso à cadeira.
- Tenho, sim senhor - respondeu ele e embora sua voz soasse muito
temerosa, Harry pôde perceber o quê de untuosidade que tão bem conhecia. ­
Quero ser útil ao Ministério. Quero ajudar. Sei que o Ministério está tentando
prender os últimos seguidores do Lord das Trevas. Estou ansioso para cooperar
de todas as maneiras que puder...
Um murmúrio percorreu os bancos. Alguns bruxos e bruxas examinaram
Karkaroff com interesse, outros com acentuada desconfiança. Então Harry ouviu,
muito claramente, do outro lado de Dumbledore, uma voz rosnada e familiar
exclamar "Gentalha".
Harry se curvou à frente para poder ver além de Dumbledore. Olho-Tonto
Moody estava sentado ali - embora houvesse uma nítida diferença em sua
aparência.
Ele não tinha um olho mágico, mas dois normais. Ambos fixavam Karkaroff
e ambos estavam apertados revelando intenso desagrado.
- Crouch vai soltá-lo - murmurou Moody baixinho a Dumbledore. - Fez um
trato com ele. Levei seis meses para caçá-lo e Crouch vai soltá-lo se ele tiver um
número suficiente de nomes novos. Vamos ouvir suas informações, digo eu, e
atirá-lo de volta aos braços dos dementadores.
Dumbledore fez um barulhinho de discordância pelo nariz longo e torto.
- Ah, eu ia me esquecendo... você não gosta de dementadores, não é
mesmo, Alvo? - disse Moody com um sorriso sardônico.
- Não - respondeu Dumbledore calmamente. - Receio que não. Há muito
tempo venho achando que o Ministério faz mal em se aliar a essas criaturas.
- Mas para uma gentalha dessas... - disse Moody baixinho.
- Você diz que tem nomes para nos informar, Karkaroff- recomeçou o Sr.
Grouch. - Por favor, queremos ouvi-los.
- O senhor deve compreender - disse Karkaroff na mesma hora - que
Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado sempre operou no maior sigilo... ele preferia
que nós, quero dizer, seus seguidores, e me arrependo agora, profundamente, de
ter-me incluído entre eles...
- Ande logo com isso - disse Moody com desdém.
- ... nunca soubemos os nomes de todos os seus seguidores, somente ele
sabia exatamente quem éramos...


- O que era uma atitude sensata, não é, pois impedia que alguém como
você, Karkaroff, entregasse todos ­ murmurou Moody.
- Contudo, você diz que tem alguns nomes para nos informar? - disse o Sr.
Crouch.
- Tenho... tenho - respondeu Karkaroff sem fôlego. - E note que eram
seguidores importantes. Gente que eu vi com os meus próprios olhos cumprindo
as ordens dele. Presto estas informações como prova de minha total renúncia a
ele, e de que estou tão roído de remorsos que mal...
- Os nomes são? - tornou o Sr. Crouch com rispidez.
Karkaroff inspirou profundamente.
- Antônio Dolohov. Vi-o torturar inúmeros trouxas e... não seguidores do
Lord das Trevas.
- E ajudou-o a fazer isso - murmurou Moody.
- Já prendemos Dolohov - disse Crouch. - Foi capturado pouco depois de
você.
- Verdade? - admirou-se Karkaroff arregalando os olhos. - Fico... fico
satisfeito em saber!
Mas não parecia nada satisfeito. Harry percebeu que a notícia fora um
verdadeiro golpe para ele. Esse nome era, portanto, inútil.
- Mais algum? - perguntou Crouch friamente.
- É claro que sim... havia Rosier - acrescentou Karkaroff depressa. - Evan
Rosier.
- Rosier está morto. Foi capturado pouco depois de você, também. Preferiu
lutar do que aceitar a prisão, e foi morto ao resistir.
- Mas levou um pedaço de mim com ele - sussurrou Moody, à direita de
Harry O garoto virou mais uma vez a cabeça para olhá-lo e viu que ele apontava o
pedaço que lhe faltava no nariz para Dumbledore.
- Era... era o que Rosier merecia! - disse Karkaroff, agora com uma
perceptível nota de pânico na voz. Harry percebeu que ele estava começando a se
preocupar que nenhuma de suas informações tivesse utilidade para o Ministério.
Os olhos de Karkaroff correram para a porta no canto, atrás da qual sem dúvida os
dementadores continuavam parados à espera.
- Mais algum? - perguntou Crouch.
- Sim! Havia o Travers, ele ajudou a assassinar os McKinnons! Mulciber,
era especialista na Maldição Imperius, forçou inúmeras pessoas a fazerem coisas
horrendas! Rookwood, que era espião e passava Àquele-Que-Não-Deve-Ser-
Nomeado informações úteis de dentro do Ministério!
Harry percebeu que, desta vez, Karkaroff encontrara ouro. Todos os bruxos
presentes começaram a murmurar ao mesmo tempo.
- Rookwood? - disse o Sr. Crouch à bruxa que estava sentada à sua frente
e que começou a tomar notas em um pergaminho. - Augusto Rookwood do
Departamento de Mistérios?
- Esse mesmo - confirmou Karkaroff pressuroso. - Creio que ele usava uma
rede de bruxos bem colocados, tanto dentro quanto fora do Ministério, para colher
informações...
- Mas Travers e Mulciber nós já prendemos. Muito bem Karkaroff, se são só
esses, você será reconduzido a Azkaban enquanto decidimos...


- Ainda não! - gritou Karkaroff, parecendo bastante desesperado. - Espere,
tenho mais!
Harry observou que ele suava à luz dos archotes, sua pele branca
contrastava fortemente com o negro dos cabelos e da barba.
- Snape! - exclamou ele. - Severo Snape!
- Snape já foi inocentado por este conselho - disse Crouch friamente. -
Dumbledore testemunhou em favor dele.
- Não! - gritou Karkaroff, forçando as correntes que o prendiam à cadeira. -
Garanto ao senhor! Severo Snape é um Comensal da Morte!
Dumbledore se erguera.
- Eu já prestei depoimento sobre esse caso - disse calmamente. - Severo
Snape foi de fato um Comensal da Morte. Porém, voltou para o nosso lado antes
da queda de Lord Voldemort e virou nosso espião, se expondo a grande perigo.
Hoje ele é tão Comensal da Morte quanto eu.
Harry se virou para olhar Olho-Tonto Moody. Revelava no rosto uma
expressão de profundo ceticismo, por trás de Dumbledore.
- Muito bem, Karkaroff- disse Crouch friamente -, você ajudou. Vou rever o
seu caso. Entrementes voltará para Azkaban...
A voz do Sr. Crouch foi morrendo. Harry olhou para os lados, a masmorra
estava desaparecendo gradualmente como se fosse feita de fumaça, tudo estava
desaparecendo, ele só conseguia ver o próprio corpo, todo o resto era um
redemoinho de escuridão...
Então, a masmorra reapareceu. Harry estava sentado em outro lugar; ainda
no banco mais alto, mas agora à esquerda do Sr. Crouch. A atmosfera parecia
bem diferente, descontraída, quase animada. As bruxas e bruxos ao redor
conversavam entre si, quase como se estivessem assistindo a um evento
esportivo. Uma bruxa no meio dos bancos defronte a Harry chamou a atenção do
garoto. Tinha cabelos louros e curtos, usava vestes magenta, e chupava a ponta
de uma pena verde-ácido. Era, inconfundivelmente, uma Rita Skeeter mais moça.
Harry olhou para os lados, Dumbledore estava outra vez sentado ao seu lado,
usando outras vestes. O Sr. Crouch parecia mais cansado, mais feroz, mais
descarnado... O garoto compreendeu. Era uma lembrança diferente, um dia
diferente... um julgamento diferente.
A porta ao canto se abriu e Ludo Bagman entrou na sala. Não era, porém,
um Ludo Bagman envelhecido, mas um Ludo Bagman que visivelmente se achava
no auge de sua forma de jogador de quadribol. Seu nariz não estava quebrado,
ele era alto, magro e musculoso. Bagman parecia nervoso quando se sentou na
cadeira com as correntes, mas elas não o prenderam, como haviam feito com
Karkaroff, e Bagman, talvez animado por isso, correu os olhos pelos bruxos
reunidos, acenou para alguns e até deu um sorrisinho.
- Ludo Bagman, você foi trazido perante o Conselho das Leis da Magia para
responder às acusações relacionadas com as atividades dos Comensais da Morte
- disse o Sr. Crouch. - Já ouvimos as provas contra você e estamos prestes a
alcançar um veredicto. Você tem algo mais a acrescentar ao seu depoimento
antes de lavrarmos a sentença?
Harry não conseguiu acreditar no que estava ouvindo. Ludo Bagman, um
Comensal da Morte?


- Apenas que - respondeu o bruxo, sorrindo sem graça -, bem, sei que
estive agindo como um idiota...
Uns espectadores nos bancos sorriram com indulgência. O Sr. Crouch não
parecia compartir esse sentimento. Encarou Ludo Bagman com uma expressão de
grande severidade e desagrado.
- Você nunca disse nada mais verdadeiro, moleque - murmurou alguém
secamente a Dumbledore, atrás de Harry. Ele virou a cabeça e viu Moody sentado
ali de novo. - Se eu não soubesse que ele sempre foi débil, eu diria que alguns
balaços devem ter afetado permanentemente o cérebro dele...
- Ludovico Bagman, você foi apanhado passando informações aos
seguidores de Lord Voldemort - disse o Sr. Crouch. - Por isso, proponho que
cumpra sentença de prisão em Azkaban com uma duração mínima de...
Ouviram-se protestos zangados para todos os lados. Vários bruxos e
bruxas se levantaram, balançando a cabeça e até mesmo erguendo os punhos
contra o Sr. Crouch.
- Mas eu já declarei que não fazia idéia! - disse Bagman com veemência,
sobrepondo-se à balbúrdia vinda dos bancos, arregalando seus redondos olhos
azuis.
- Nenhuma! O velho Rookwood era amigo do meu pai... jamais me passou
pela cabeça que ele estivesse com Você-Sabe-Quem! Pensei que estava
colhendo informações para o nosso lado! E Rookwood falava o tempo todo em me
arranjar um emprego no Ministério mais tarde... quando terminassem meus dias
de quadribol, sabem... quero dizer, não podia ficar levando balaços o resto da
vida, podia?
Ouviram-se risinhos nervosos entre os presentes.
- Vou levar isso à votação - disse o Sr. Crouch friamente. E, virando-se para
o lado direito da masmorra. - Jurados, por favor, ergam a mão... os que forem a
favor da prisão...
Harry olhou para a direita da masmorra. Ninguém levantou a mão. Muitos
bruxos e bruxas nos bancos começaram a bater palmas. Uma das bruxas no júri
se levantou.
- Pois não? - ladrou Crouch.
- Gostaríamos de cumprimentar o Sr. Bagman por seu esplêndido
desempenho no jogo de quadribol da Inglaterra contra a Turquia no sábado
passado - disse a bruxa ofegante.
O Sr. Crouch fez uma cara furiosa. A masmorra agora ressoava de
aplausos. Bagman se levantou e fez uma reverência, sorrindo.
- Desprezível - vociferou o Sr. Crouch para Dumbledore, sentando-se na
hora em que Bagman saía da masmorra. - Rookwood ia lhe arranjar um emprego,
francamente... o dia que Ludo Bagman se juntar a nós será um dia muito triste
para o Ministério...
E a masmorra tornou a se dissolver. Quando reapareceu, Harry olhou para
os lados. Ele e Dumbledore continuavam sentados ao lado do Sr. Crouch, mas a
atmosfera não poderia ser mais diferente. Havia um silêncio absoluto, interrompido
apenas pelos soluços de uma bruxa miudinha ao lado do Sr. Crouch. Apertava um
lenço contra a boca com as mãos trêmulas. Harry ergueu os olhos para Crouch e


viu que ele parecia mais descarnado e grisalho que nunca. Um nervo tremia em
sua têmpora.
- Pode trazê-los - disse, e sua voz ecoou pela masmorra silenciosa.
A porta no canto abriu-se mais uma vez. E desta, entraram seis
dementadores, ladeando um grupo de quatro pessoas. Harry viu os bruxos
presentes erguerem os olhos para o Sr. Crouch. Alguns cochicharam entre si.
Os dementadores sentaram cada uma das quatro pessoas nas quatro
cadeiras de braços com correntes agora no centro da masmorra. Havia um
homem corpulento que fixava Crouch com o olhar parado, outro mais magro e
mais nervoso, cujos olhos percorriam ligeiros a assembléia, uma mulher, com
cabelos espessos e brilhantes e olhos grandes e semi cerrados, sentada à cadeira
como se esta fosse um trono e um rapaz adolescente, que parecia no mínimo
petrificado. Ele tremia, tinha os cabelos cor de palha espalhados pelo rosto, a pele
sardenta e branca como o leite. A bruxa miudinha ao lado de Crouch começou a
se balançar para a frente e para trás no banco, abafando o choro com um lenço.
Crouch se levantou. Olhou para os quatro prisioneiros e havia ódio absoluto
em seu rosto.
- Vocês foram trazidos aqui perante o Conselho das Leis da Magia - disse
ele com clareza ­ para serem julgados por um crime tão hediondo...
- Pai - disse o rapaz de cabelos cor de palha. - Pai... por favor...
-... de que raramente se ouviu falar neste tribunal - disse Crouch, alteando a
voz, abafando as palavras do filho. - Ouvimos as provas contra vocês. E vocês
foram acusados de capturar o auror, Frank Longbottom, e de submetê-lo à
Maldição Cruciatus, acreditando que ele tivesse conhecimento do paradeiro atual
do seu amo exilado, Aquele -Que- Não-Deve-Ser-Nomeado...
- Pai, eu não fiz isso! - gritou o rapaz acorrentado à cadeira. - Eu não fiz
isso, pai, não me mande de volta aos dementadores...
- Vocês são ainda acusados - berrou o Sr. Crouch - de usar a Maldição
Cruciatus contra a mulher de Frank Longbottom, quando ele se recusou a dar
informações. Vocês planejaram reconduzir Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado
ao poder e de retomar a vida de violência que presumivelmente levavam quando
ele detinha o poder. Agora peço aos jurados...
- Mãe! - gritou o rapaz, e a bruxa miudinha ao lado de Crouch começou a
soluçar, se balançando para a frente e para trás. - Mãe, faça ele parar, mãe, eu
não fiz isso, não fui eu!
- Eu agora peço aos jurados - gritou o Sr. Crouch - que levantem as mãos
se acreditarem, como eu, que estes crimes merecem uma sentença de prisão
perpétua em Azkaban.
Unânimes, as bruxas e bruxos do lado direito da masmorra ergueram as
mãos. A assembléia ao redor começou a aplaudir como fizera no julgamento de
Bagman, seus rostos expressavam selvagem triunfo. O rapaz começou a gritar.
- Não! Mãe, não! Eu não fiz isso, eu não fiz isso, eu não sabia! Não me
mande para lá, não deixe o pai me mandar!
Os dementadores voltaram a deslizar pela sala. Os três companheiros do
rapaz se levantaram silenciosamente das cadeiras, a mulher de olhos grandes e
semi cerrados olhou para Crouch e gritou:


- O Lord das Trevas voltará a se erguer, Crouch! Joguem-nos em Azkaban,
nós esperaremos! Ele se reerguerá e virá nos buscar e nos recompensará mais
que aos seus outros seguidores! Somente nós permanecemos fiéis! Somente nós
tentamos encontrá-lo.
Mas o rapaz procurava se desvencilhar dos dementadores, embora Harry
percebesse que o desumano poder de sugar energia daquelas criaturas começava
a afetá-lo. Os bruxos presentes riam e caçoavam, alguns de pé, enquanto a
mulher saía majestosamente da masmorra e o rapaz continuava a se debater.
- Sou seu filho! - berrava ele para Crouch. - Sou seu filho!
- Você não é meu filho! - berrou o Sr. Crouch, os olhos saltando
subitamente das órbitas. ­ Não tenho filho!
A bruxa miudinha ao lado de Crouch ficou sem ar e desabou na cadeira.
Desmaiara, o marido pareceu não ter notado.
- Levem-nos embora! - berrou para os dementadores, o cuspe saltando de
sua boca. - Levem-nos embora, que eles apodreçam lá!
- Pai, eu não estava envolvido! Não! Não! Pai, por favor!
- Acho, Harry, que já é hora de voltar ao meu escritório - disse baixinho uma
voz ao ouvido do garoto. Ele se assustou. Olhou para um lado. Depois para o
outro.
Havia um Alvo Dumbledore sentado à sua direita, observando o filho de
Crouch sair arrastado pelos dementadores - e havia um Alvo Dumbledore à sua
esquerda, olhando bem para ele.
- Venha - disse o Dumbledore à sua esquerda, segurando o cotovelo de
Harry. O garoto sentiu que o erguiam no ar, a masmorra desapareceu à sua volta;
por um momento tudo ficou escuro, então teve a impressão de que estava dando
uma cambalhota em câmara lenta e, repentinamente caiu de pé, no que concluiu
ser a claridade ofuscante do escritório do diretor. A bacia de pedra tremeluzia no
armário à sua frente e Alvo Dumbledore estava parado ao seu lado.
- Professor - exclamou Harry -, eu sei que eu não devia ter... não tive
intenção, a porta do armário estava entreaberta e...
- Eu compreendo - disse Dumbledore. E erguendo a bacia, levou-a até a
escrivaninha, pousou-a sobre sua superfície reluzente e se sentou na cadeira à
escrivaninha. Fez sinal ao garoto para que se sentasse defronte dele.
Harry obedeceu, com os olhos postos na bacia de pedra. O conteúdo
voltara ao seu estado original branco-prateado girando e ondulando ao seu olhar.
- Que é isso? - perguntou Harry trêmulo.
- Isso? Chama-se Penseira, às vezes eu acho, e tenho certeza de que você
conhece a sensação, que simplesmente há pensamentos e lembranças demais
enchendo minha cabeça.
- Hum - fez Harry, que não podia realmente dizer que já tivesse sentido
nada igual.
- Nessas ocasiões - continuou Dumbledore indicando a bacia de pedra -
uso a Penseira. Escôo o excesso de pensamentos da mente, despejo-os na bacia
e examino-os com calma. Assim fica mais fácil identificar padrões e ligações,
compreende, quando estão sob esta forma.
- O senhor quer dizer... que isso aí são os seus pensamentos? - disse
Harry, olhando a substância branca que redemoinhava na bacia.


- Sem dúvida. Deixe-me mostrar.
Dumbledore puxou a varinha de dentro das vestes e pousou sua ponta
sobre seus cabelos prateados, próximos à têmpora. Quando afastou a varinha, os
cabelos pareciam estar grudados nela ­ mas Harry viu que eram, na realidade,
fios brilhantes da mesma substância estranha e branco-prateada que enchia a
Penseira. Dumbledore acrescentou novos pensamentos à bacia, e Harry,
espantado, viu seu próprio rosto boiando na superfície da substância.
Dumbledore colocou suas longas mãos dos lados da Penseira e sacudiu-a,
como faria um garimpeiro à procura de pepitas de ouro... e o garoto viu o próprio
rosto se transformar suavemente no de Snape, que abriu a boca, e falou para o
teto, fazendo sua voz ecoar levemente: Está voltando... a de Karkaroff também...
mais clara e forte que nunca...
- Uma ligação que eu teria feito sem ajuda de ninguém - suspirou
Dumbledore -, mas não faz mal.
- Por cima dos seus oclinhos de meia-lua, ele mirou Harry, que
acompanhou boquiaberto o rosto de Snape girar continuamente na bacia. ­ Eu
estava usando a Penseira quando o Sr. Fudge chegou para a reunião e guardei-a
apressado. Com certeza não fechei o armário direito. É natural que ela tenha
atraído sua atenção.
- Me desculpe - murmurou Harry.
Dumbledore balançou a cabeça.
- A curiosidade não é um pecado - disse ele. - Mas devemos ser cautelosos
com a nossa curiosidade... sem dúvida...
Enrugando ligeiramente a testa, o diretor tornou a empurrar seus
pensamentos para dentro da bacia com a ponta da varinha. Instantaneamente,
emergiu dela um vulto, uma menina gordinha de cara mal-humorada de uns
dezesseis anos, que começou a girar lentamente, com os pés ainda na bacia. Ela
não prestou a menor atenção a Harry nem ao Prof. Dumbledore. Quando falou,
sua voz ecoou como fizera a de Snape, como se viesse das profundezas da bacia
de pedra: "Ele me azarou, Prof. Dumbledore, e eu só estava brincando, só disse
que o tinha visto beijando Florência atrás das estufas na quinta-feira passada..."
- Mas por que, Berta - disse Dumbledore tristemente, fitando a menina que
agora girava silenciosamente -, por que você teve que segui-lo, para começar?
- Berta? - sussurrou Harry, olhando para a garota. - Ela é... era a Berta
Jorkins?
- Era - disse Dumbledore mais uma vez revolvendo os pensamentos na
bacia, Berta voltou a afundar neles, e tudo se tornou mais uma vez prateado e
opaco. - É a Berta como me lembro dela na escola.
A claridade prateada da Penseira iluminou o rosto de Dumbledore e ocorreu
a Harry, repentinamente, que o diretor parecia velhíssimo. Ele sabia, era claro,
que Dumbledore estava envelhecendo, mas por alguma razão nunca pensara no
diretor como um velho.
- Então, Harry - disse Dumbledore baixinho. - Antes de se perder nos meus
pensamentos, você queria me contar alguma coisa.
- Verdade. Professor, eu estava na aula de Adivinhação agorinha e... hum...
cochilei.


Ele hesitou neste ponto, imaginando se iria levar uma bronca, mas
Dumbledore apenas disse:
- Muito compreensível. Continue.
- Bem, eu tive um sonho. Um sonho com Lord Voldemort. Ele estava
torturando Rabicho... o senhor sabe quem é Rabicho...
- Sei - disse Dumbledore, prontamente. - Por favor, continue.
- Voldemort recebeu uma carta levada por uma coruja. E falou uma coisa
mais ou menos assim: que o erro de Rabicho tinha sido reparado. Falou que
alguém estava morto. Depois falou que ia atirar Rabicho para servir de comida à
cobra, tinha uma cobra ao lado da poltrona dele. Falou também que em vez do
Rabicho, ele ia jogar a mim. Depois lançou a Maldição Cruciatus em Rabicho, e a
minha cicatriz doeu. Doeu tanto que me acordou.
Dumbledore apenas fitou Harry.
- Hum, foi só isso - disse Harry.
- Entendo - disse Dumbledore em voz baixa. - Agora, a sua cicatriz já doeu
alguma outra vez este ano, além daquela em que o acordou durante as férias de
verão?
- Não, eu... como foi que o senhor soube que ela me acordou no verão? -
perguntou Harry espantado.
- Você não é o único que se corresponde com Sirius - disse Dumbledore. -
Também tenho estado em contato com ele desde que fugiu de Hogwarts no ano
passado. Fui eu quem sugeriu a caverna na encosta da montanha como o lugar
mais seguro para ele se esconder.
Dumbledore se levantou e começou a andar para cima e para baixo atrás
da escrivaninha. De vez em quando, levava a varinha à têmpora, retirava mais um
pensamento prateado e o acrescentava à Penseira. Os pensamentos dentro dela
começaram a girar tão rápido que Harry não conseguia distinguir nada muito
claramente, apenas um borrão de cor.
- Professor? - disse Harry baixinho, depois de uns minutos.
Dumbledore parou de andar e encarou Harry.
- Perdão - disse ele em voz baixa. E tornou a se sentar em sua cadeira.
- Professor, o senhor sabe por que minha cicatriz dói?
O diretor fitou Harry com muita atenção por um momento, depois disse:
- Eu tenho uma teoria, não é nada mais que isso... Acredito que a sua
cicatriz dói quando Lord Voldemort anda por perto ou quando tem um assomo
particularmente intenso de ódio.
- Mas... por quê?
- Porque você e ele estão ligados pelo feitiço que falhou. Isto não é uma
cicatriz comum.
- Então o senhor acha... esse sonho... ele realmente aconteceu?
- É possível. Eu diria, provavelmente, Harry, você viu Voldemort?
- Não - respondeu Harry. - Somente as costas da poltrona dele. Mas... não
haveria muita coisa que ver, haveria? Quero dizer, ele não tem corpo, tem? Mas...
mas por outro lado como é que ele poderia ter segurado a varinha? - disse Harry
lentamente.
- Como, não é mesmo? - murmurou o diretor. - Como mesmo...


Nem Dumbledore nem Harry falaram por algum tempo. O diretor tinha o
olhar perdido no outro lado da sala, de vez em quando apoiava a ponta da varinha
na têmpora e acrescentava mais um pensamento de prata refulgente à massa que
fervilhava na Penseira.
- Professor - disse Harry finalmente -, o senhor acha que ele está ficando
mais forte?
- Voldemort? - indagou ele, olhando para o garoto por cima da Penseira.
Era o olhar penetrante e característico que Dumbledore já lhe dera em
outras ocasiões, e sempre fizera o garoto ter a sensação de que o diretor estava
enxergando através dele, de uma maneira que nem o olho mágico de Moody seria
capaz. ­ Mais uma vez, Harry, só posso expressar suspeitas. Dumbledore
suspirou outra vez e seu rosto pareceu mais velho e mais cansado que nunca.
- A ascensão de Voldemort ao poder - disse ele - foi marcada por
desaparições. Berta Jorkins desapareceu sem deixar vestígio no lugar em que se
sabe que Voldemort esteve por último. O Sr. Crouch, também, desapareceu... aqui
nos terrenos da escola. E houve uma terceira desaparição, uma que o Ministério,
lamento dizer, não considera ser importante, porque diz respeito a um trouxa.
O nome dele era Franco Bryce, vivia na aldeia em que o pai de Voldemort
se criou, e os habitantes do lugar não o vêem desde agosto. Como vê, leio os
jornais dos trouxas, ao contrário da maioria dos meus amigos do Ministério.
Dumbledore encarou Harry muito sério. - Essas desaparições me parecem estar
interligadas. O Ministério discorda, como você deve ter ouvido, enquanto esperava
do lado de fora do meu escritório.
Harry confirmou com a cabeça. Fez-se novo silêncio entre os dois,
Dumbledore extraindo pensamentos de quando em quando. Harry achou que
estava na hora de ir, mas sua curiosidade o segurava sentado.
- Professor? - falou ele outra vez.
- Sim, Harry?
- Hum... será que eu posso perguntar ao senhor sobre... aquela cena do
tribunal em que eu estive na... Penseira?
- Pode - disse Dumbledore com um peso no coração. - Estive presente
muitas vezes, mas alguns julgamentos voltam à lembrança mais claramente que
outros... particularmente agora...
- O senhor sabe, o senhor sabe o julgamento em que me encontrou? O do
filho de Crouch? Bem... era dos pais de Neville que eles estavam falando?
Dumbledore lançou um olhar muito sagaz a Harry.
- Neville nunca lhe contou por que foi criado pela avó? Harry balançou a
cabeça, imaginando ao mesmo tempo, porque jamais perguntara isso a Neville em
quase quatro anos de conhecimento.
- Era, estavam falando dos pais de Neville. O pai, Frank, era auror como o
Prof. Moody. Ele e a mulher foram torturados para darem informações sobre o
paradeiro de Voldemort depois que ele perdeu os poderes, conforme você ouviu.
- Então estão mortos? - perguntou Harry baixinho.
- Não - disse Dumbledore, a voz cheia de uma amargura que Harry nunca
ouvira nele antes -, enlouqueceram. Os dois estão no Hospital St. Mungus para
Doenças e Acidentes Mágicos. Creio que Neville os visita, com a avó, durante as
férias. Os pais não o reconhecem.


Harry ficou sentado ali, horrorizado. Nunca soubera... nunca, em quatro
anos, se preocupara em descobrir...
- Os Longbottom eram um casal muito querido ­ disse Dumbledore. - Os
ataques a eles começaram depois da queda de Voldemort, quando todos
pensavam que estavam a salvo. Os ataques causaram uma onda de fúria nunca
vista. O Ministério ficou sob grande pressão para capturar quem tinha feito aquilo.
Infelizmente, o depoimento dos Longbortom não foi, dada a condição em que
estavam, nada confiável.
- Então, talvez o filho do Sr. Crouch não estivesse envolvido? - perguntou
Harry lentamente.
Dumbledore balançou a cabeça.
- Quanto a isso não faço idéia.
Harry ficou em silêncio mais uma vez, observando o conteúdo da Penseira
redemoinhar. Havia mais duas perguntas que estava em cócegas para fazer...
mas diziam respeito à culpa de gente viva...
- Hum - começou ele -, o Sr. Bagman...
- ... nunca mais foi acusado de nenhuma atividade maligna deste então ­
disse Dumbledore calmamente.
- Certo - apressou-se Harry a dizer, fitando novamente o conteúdo da
Penseira, que girava mais lentamente agora que Dumbledore parara de lhe
acrescentar pensamentos. - E... hum...
Mas a Penseira parecia estar fazendo a pergunta por ele. O rosto de Snape
apareceu novamente flutuando à superfície. Dumbledore olhou para dentro da
bacia e depois ergueu os olhos para Harry.
- Tampouco o Prof. Snape - disse.
Harry fitou os olhos azul-claros de Dumbledore e a coisa que realmente
queria saber escapou de sua boca antes que ele pudesse se refrear.
- Que foi que levou o senhor a pensar que ele realmente parou de apoiar
Voldemort, professor?
Dumbledore sustentou o olhar de Harry por alguns segundos e então disse:
- Isto, Harry, é um assunto entre mim e o Prof. Snape.
Harry percebeu que a entrevista terminara; Dumbledore não parecia
zangado, contudo havia um tom conclusivo em sua voz que informou ao garoto
que era hora de se retirar. Ele se levantou e o diretor também.
- Harry - disse ele, quando o garoto chegou à porta. - Por favor, não
comente sobre os pais de Neville com mais ninguém. Ele tem o direito de informar
às pessoas quando estiver preparado para isso.
- Sim senhor, professor - disse Harry virando-se para ir embora.
-E...
Harry virou a cabeça para trás.
Dumbledore estava parado diante da Penseira, seu rosto iluminado pelos
pontos de luz prateada, parecendo mais velho que nunca. O diretor fitou Harry por
um momento e em seguida disse:
- Boa sorte na terceira tarefa.

- CAPITULO TRINTA E UM
A terceira tarefa

- Dumbledore também acha que Você-Sabe-Quem está se fortalecendo
outra vez? ­ sussurrou Rony.
Tudo que Harry vira na Penseira, e quase tudo que Dumbledore lhe contara
e mostrara depois, ele agora estava dividindo com Rony e Hermione - e, é claro,
com Sirius, a quem Harry enviara uma coruja assim que saíra do escritório do
diretor. Mais uma vez os três garotos ficaram acordados até tarde na sala
comunal, discutindo os acontecimentos até que a cabeça de Harry começou a
rodar, até que ele compreendeu o que Dumbledore quisera dizer quando falara em
uma cabeça ficar tão cheia de pensamentos que era um alívio esvaziá-la.
Rony ficou olhando fixamente para as chamas na lareira.
Harry achou que o viu estremecer levemente, embora a noite não estivesse
fria.
- E ele confia em Snape? - tornou a perguntar Rony. - Confia realmente em
Snape, mesmo que o cara tenha sido um Comensal da Morte?
- Sim - disse Harry.
Hermione não falava havia dez minutos. Estava sentada com a testa
apoiada nas mãos, fitando os joelhos. Harry pensou que ela também faria bom
uso de uma Penseira.
- Rita Skeeter - murmurou ela finalmente.
- Como é que você pode estar preocupada com ela agora? - indagou Rony,
incrédulo.
- Não estou preocupada com ela - respondeu Hermione para os próprios
joelhos. - Só estou pensando... lembra o que ela me disse no Três Vassouras?
"Sei coisas sobre Ludo Bagman que a deixariam de cabelo em pé." Era a isso que
ela estava se referindo, não é? Ela fez a cobertura do julgamento, sabia que ele
tinha passado informações para os Comensais da Morte. E Winky, também,
lembra O Sr. Bagman é um bruxo malvado." O Sr. Crouch provavelmente ficou
furioso quando Bagman se livrou da prisão, e comentou isso em casa.
- É, mas Bagman não passou informações de propósito, passou? Hermione
deu de ombro.
- E Fudge acha que Madame Maxime atacou Crouch? - perguntou Rony se
virando para Harry outra vez.
- É - respondeu Harry - mas só está dizendo isso porque o Sr. Crouch
desapareceu perto da carruagem da Beauxbatons.
- Nunca pensamos nela, não é mesmo? - disse Rony, lentamente. - E
olhem que ela positivamente tem sangue de gigante, e não quer nem admitir...
- Claro que não - disse Hermione secamente, erguendo os olhos. - Olha só
o que aconteceu com o Hagrid quando a Rita descobriu quem era a mãe dele.
Olha só o Fudge tirando conclusões apressadas sobre ela, só porque a mãe é
meio giganta. Quem precisa desse tipo de preconceito? Eu provavelmente diria
que tinha ossos grandes se soubesse o que me esperava por dizer a verdade.
Hermione consultou seu relógio de pulso.


- Não praticamos nada! - exclamou, chocada. - Vamos fazer a Azaração de
Impedimento! Amanhã temos que meter as caras nela pra valer! Vamos Harry
você precisa descansar.
Os dois garotos subiram lentamente para o dormitório. Enquanto vestia o
pijama, Harry olhou para a cama de Neville. Fiel à palavra dada a Dumbledore,
não falara a Rony e Hermione sobre os pais do garoto. Depois que tirou os óculos
e se meteu na cama, ficou imaginando como devia ser a pessoa ter pais vivos,
mas incapazes de reconhecê-la. Ele sempre despertava simpatia nos estranhos
por ser órfão, mas ao escutar os roncos de Neville, concluiu que o colega a
merecia mais do que ele.
Deitado no escuro, Harry sentiu um assomo de raiva e ódio contra as
pessoas que haviam torturado o Sr. e a Sra. Longbottom... lembrou-se dos risos e
caçoadas dos espectadores quando o filho de Crouch e os companheiros foram
arrastados para fora do tribunal pelos dementadores... compreendeu o que
sentiram... então lembrou-se do rosto extremamente branco do garoto que gritava
e percebeu, com um sobressalto, que ele morrera no ano seguinte...
Fora Voldemort, pensou Harry fitando, no escuro, o dossel da cama, tudo
acabava apontando para Voldemort... ele é quem tinha separado aquelas famílias,
quem tinha arruinado todas aquelas vidas...
Rony e Hermione precisavam estar revisando as matérias para os exames,
que terminariam no dia da terceira tarefa, em lugar disso, estavam devotando
todas as energias a ajudar Harry a se preparar.
- Não se preocupe - disse Hermione brevemente, quando Harry comentou
isso com eles, e disse que não se importava de continuar a praticar sozinho.
- Pelo menos vamos tirar notas máximas em Defesa contra as Artes das
Trevas, nunca teríamos descoberto tantas azarações em aula.
- Bom treinamento para quando formos aurores - comentou Rony excitado,
experimentando uma Azaração de Impedimento em uma vespa que entrara
zumbindo na sala, e fazendo-a estacar no ar.
Quando entrou o mês de junho, a atmosfera do castelo se tornou mais uma
vez elétrica e tensa. Todos aguardavam com ansiedade a terceira tarefa, que se
realizaria uma semana antes do fim do trimestre. Harry praticava azarações em
todos os momentos de folga. Sentia-se mais confiante com relação a esta tarefa
do que a qualquer das anteriores. Mas, apesar de difícil e perigosa, como
certamente seria, Moody tinha razão.
Harry conseguira passar por criaturas monstruosas e atravessar barreiras
mágicas antes, e desta vez, recebera aviso, tivera a chance de se preparar para
aquilo que o aguardava.
Cansada de surpreendê-los por toda a escola, a Profª Minerva dera a Harry
permissão para usar a sala de Transformação vazia na hora do almoço. Ele não
tardou a dominar a Azaração de Impedimento, um feitiço para retardar e obstruir
atacantes, o Feitiço Redutor lhe permitiria explodir objetos sólidos em seu
caminho, o Feitiço dos Quatro Pontos, uma descoberta útil de Hermione que faria
sua varinha apontar para o norte, permitindo-lhe, assim, verificar se estava se
deslocando na direção certa dentro do labirinto.
Mas ele ainda estava tendo problemas com o Feitiço Escudo. Este lançava
uma parede temporária e invisível em torno dele e o protegia de pequenos feitiços,


Hermione conseguiu desfazê-la com uma bem colocada Azaração das Pernas
Bambas. Harry bambeou pela sala uns bons dez minutos, até a garota ter tido
tempo para achar a contra-azaração.
- Mas você continua se saindo realmente bem - disse Hermione
encorajando Harry e consultando a lista que fizera para riscar o que ele já
aprendera. - Alguns desses devem ser uma mão na roda.
- Venham só dar uma espiada nisso - disse Rony que estava parado junto à
janela. Contemplava os jardins. - Que será que o Malfoy está aprontando?
Harry e Hermione foram ver. Malfoy, Crabbe e Goyle estavam parados à
sombra de uma árvore lá embaixo. Crabbe e Goyle pareciam estar vigiando
alguma coisa, os dois abafavam risinhos. Malfoy tampava a boca com a mão e
falava para dentro dela.
- Parece até que ele está usando um walkie-talkie - disse Harry curioso.
- Não pode estar - lembrou Hermione. - Já disse a vocês dois que esse tipo
de coisa não funciona em Hogwarts. Vamos, Harry - acrescentou ela
energicamente, dando as costas à janela e voltando ao meio da sala - vamos
experimentar outra vez o Feitiço Escudo.

Sirius agora mandava corujas diariamente. Do mesmo modo que Hermione,
ele parecia querer se concentrar em fazer Harry concluir a última tarefa, antes de
se preocupar com outra coisa. Em cada carta ele lembrava ao afilhado que fosse o
que fosse que acontecesse fora dos muros de Hogwarts não era responsabilidade
do garoto, nem estava em seu poder influenciar nada.
Se Voldemort está realmente voltando a se fortalecer (escreveu ele), minha
prioridade é garantir a sua segurança. Ele não pode sequer alimentar esperanças
de pegá-lo enquanto você estiver sob a proteção de Dumbledore, mas mesmo
assim, não corra riscos: concentre-se em atravessar esse tal labirinto em
segurança, depois poderemos voltar nossa atenção para outros assuntos.
O nervosismo de Harry foi crescendo à medida que o dia vinte e quatro de
junho se aproximava, mas nem tanto quanto nas tarefas anteriores. Por um lado,
ele se sentia confiante de que, desta vez, fizera tudo que pudera para se preparar
para a tarefa. Por outro, esse era o último esforço e, independentemente de se dar
bem ou mal, o torneio enfim terminaria, o que seria um enorme alívio. O café foi
uma reunião barulhenta à mesa da Grifinória, na manhã da terceira tarefa. O
correio coruja apareceu, trazendo para Harry um cartão de boa sorte de Sirius.
Era apenas um pedaço de pergaminho, dobrado com a impressão de uma
pata enlameada, Harry gostou assim mesmo. Uma coruja-das-torres chegou
trazendo para Hermione seu exemplar do Profeta Diário, como habitualmente. Ela
abriu o jornal, deu uma olhada na primeira página, cuspiu a boca cheia de suco de
abóbora, sujando todo o jornal.
- Que foi? - exclamaram Harry e Rony juntos, olhando para garota.
- Nada - disse Hermione depressa, tentando esconder o jornal, mas Rony
agarrou-o.
Ele arregalou os olhos para a manchete e disse:
- Nem pensar. Hoje não. Essa vaca velha.
- Que foi? - perguntou Harry. - Rita Skeeter de novo?


- Não - respondeu Rony, e do mesmo modo que Hermione, tentou esconder
o jornal.
- Fala de mim, não é? - perguntou Harry.
- Não - disse Rony, num tom que não convencia ninguém.
Mas antes que Harry pudesse pedir para ver o jornal, Draco Malfoy gritou lá
da mesa da Sonserina, do outro lado do salão.
- Ei, Potter! Potter! Como é que está a sua cabeça? Você está se sentindo
legal? Tem certeza de que não vai endoidar para cima da gente?
Malfoy segurava um exemplar do Profeta Diário, também. Os alunos ao
redor da mesa da Sonserina deram risadinhas e se viraram nas cadeiras para ver
a reação de Harry.
- Me deixa ver isso - pediu Harry a Rony. - Me dá isso aqui.
Com muita relutância Rony entregou o jornal. Harry virou-o e deparou com
a própria foto, sob uma gigantesca manchete.

HARRY POTTER "PERTURBADO E PERIGOSO"

O garoto que derrotou Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado encontra-se instável
e possivelmente perigoso, escreve nossa repórter especial Rita Skeeter. Há
poucos dias vieram à luz provas assustadoras do estranho comportamento de
Harry Potter, que lançam dúvidas sobre suas qualificações para competir em um
torneio rigoroso como o Tribruxo, ou até mesmo para freqüentar a Escola de
Hogwarts.
O Profeta Diário está em condições de afirmar, com exclusividade, que Potter
regularmente desmaia na escola, e com freqüência se queixa de dor na cicatriz
que tem na testa (relíquia de um feitiço com que Você-Sabe-Quem tentou matá-
lo). Na última segunda-feira, no meio de uma aula de Adivinhação, a repórter do
Profeta Diário presenciou a saída intempestiva de Potter da sala de aula, dizendo
que sua cicatriz o incomodava em demasia para que pudesse continuar em
classe.
É possível dizem os maiores especialistas do Hospital St. Mungus para Doenças e
Acidentes Mágicos, que o cérebro de Potter tenha sido afetado pelo ataque que
sofreu de Você-Sabe-Quem, e que sua insistência em dizer que a cicatriz continua
a doer seja uma expressão de sua arraigada confusão.
"Talvez até esteja fingindo": opinou um especialista, "o que poderia ser um
mecanismo para receber atenção."
O Profeta Diário, no entanto, descobriu fatos preocupantes sobre Harry Potter, -
que Alvo Dumbledore, diretor de Hogwarts, tem cuidadosamente ocultado do
público bruxo.
"Potter é ofldioglota" revela Draco Malfoy, um quartanista de Hogwarts. "Há uns
dois anos, houve uma série de ataques a estudantes, e quase todos pensaram
que Potter era o responsável depois que o viram perder a cabeça em um Clube de
Duelos e açular uma cobra contra um colega. O episódio foi abafado. Mas ele
também faz amizade com lobisomens e gigantes. Achamos que ele é capaz de
qualquer coisa para ter algum poder."
Ofidioglossia, ou a capacidade de conversar com as cobras, é tradicionalmente
considerada uma Arte das Trevas. Com efeito, o ofidioglota mais famoso dos


nossos tempos não é outro senão Você-Sabe-Quem. Um membro da Liga de
Defesa contra as Artes das Trevas, que prefere se manter anônimo, declarou que
consideraria qualquer bruxo ofidioglota "merecedor de investigação.
Pessoalmente, eu encararia com muita suspeita qualquer pessoa que
conversasse com cobras, pois esses animais em geral são usados nos piores
tipos de magia negra e historicamente, são associados com bruxos malignos"! Da
mesma forma "qualquer um que procure a companhia de criaturas selvagens
como lobisomens e gigantes me parece ter inclinação para a violência":
Alvo Dumbledore deveria, sem dúvida, refletir se um garoto desses pode
realmente competir no Torneio Tribruxo. Há quem receie que Potter possa apelar
para as Artes das Trevas em seu desespero de vencer o torneio, cuja terceira
tarefa será realizada hoje à noite.

- Acho que ela está deixando de gostar de mim, não? - comentou Harry
despreocupado, dobrando o jornal.
Na mesa da Sonserina, Malfoy, Crabbe e Goyle riam-se dele, davam
pancadinhas na cabeça, faziam caretas grotescas imitando loucos e agitavam as
línguas como cobras.
- Como foi que ela soube que a sua cicatriz doeu na aula de Adivinhação? -
perguntou Rony. - Não havia como ela ter estado presente, não havia como poder
ter ouvido...
- A janela estava aberta - disse Harry. - Eu a abri para respirar.
- Você estava no alto da Torre Norte - lembrou Hermione. - Sua voz não
podia ter sido ouvida lá embaixo nos jardins!
- Bem, você é quem anda pesquisando métodos mágicos de grampear! ­
disse Harry. - Me diga você como foi que ela conseguiu!
- Estou tentando - defendeu-se Hermione. - Mas eu... mas...
Uma expressão estranha e sonhadora subitamente apareceu no rosto de
Hermione. Ela ergueu uma das mãos e correu os dedos pelos cabelos.
- Você está legal? - perguntou Rony, erguendo as sobrancelhas para a
amiga.
- Estou - respondeu Hermione sem fôlego. Ela tornou a correr os dedos
pelos cabelos e levou a mão à boca, como se estivesse falando para um walkie-
talkie invisível. Harry e Rony se entreolharam.
- Tive uma idéia - disse Hermione, olhando para o espaço. - Acho que sei...
porque desse jeito ninguém poderia ver... nem Moody... e ela poderia ter chegado
até o peitoril da janela... mas isso é proibido... decididamente é proibido... acho
que a pegamos! Me dêem dois segundinhos na biblioteca, só para ter certeza!
Dizendo isso, Hermione agarrou a mochila e saiu correndo do Salão
Principal.
- Oi! - gritou Rony para ela. - Temos exame de História da Magia dentro de
dez minutos! Caracas - disse o garoto tornando a se virar para Harry -, ela deve
realmente odiar aquela Skeeter para se arriscar a perder o início do exame. Que é
que você vai fazer na sala do Binns, reler livros?
Dispensado dos testes de fim de trimestre por ser campeão no torneio, até
ali Harry se sentara no fundo das salas de exame, pesquisando novas azarações
para a terceira tarefa.


- Acho que sim - respondeu Harry para Rony; mas nesse instante a Profª
Minerva vinha contornando a mesa da Grifinória em direção a ele.
- Potter, os campeões vão se reunir na câmara vizinha ao salão depois do
café - anunciou ela.
- Mas a tarefa só vai ser à noite! - exclamou Harry, derramando, sem
querer, ovos mexidos na roupa, receoso de que tivesse se enganado na hora.
- Eu sei disso, Potter. As famílias dos campeões foram convidadas para
assistir à última tarefa, entende. É apenas uma oportunidade para você
cumprimentá-los.
Ela se afastou. Harry acompanhou-a com o olhar, boquiaberto.
- Ela não está esperando que os Dursley apareçam, está? - perguntou a
Rony sem entender.
- Sei lá. Harry, é melhor eu me apressar ou vou chegar tarde na sala de
Binns. A gente se vê depois.
Harry terminou o café da manhã num salão que ia lentamente se
esvaziando. Viu Fleur Delacour se levantar da mesa da Corvinal e se juntar a
Cedrico, na hora em que o rapaz atravessava o salão para entrar na câmara.
Krum saiu daquele seu jeito curvado para se reunir a eles logo depois. Harry
continuou onde estava. Na realidade não queria entrar na câmara. Não tinha
família - ou pelo menos nenhuma família que fosse aparecer para vê-lo arriscar a
vida. Mas no instante em que começou a se levantar, pensando que seria melhor
ir à biblioteca reler mais algumas azarações, a porta da câmara se abriu e Cedrico
pôs a cabeça para fora.
- Harry, anda, eles estão esperando por você!
Absolutamente perplexo, Harry se levantou. Não era possível que os
Dursley estivessem ali, era? O garoto atravessou o salão e abriu a porta que
levava à câmara. Cedrico e os pais estavam logo à entrada. Vitor Krum, a um
canto, falava muito depressa em búlgaro com o pai e a mãe de cabelos escuros.
Herdara o nariz adunco do pai. Do outro lado da sala, Fleur algaraviava em
francês com a mãe. Sua irmãzinha, Gabrielle, segurava a mão da mãe. Ela
acenou para Harry, que retribuiu o aceno. Então ele viu a Sra. Weasley e Gui
parados diante da lareira, sorrindo para ele.
- Surpresa! - disse animada a Sra. Weasley, quando Harry, todo sorriso, se
encaminhou para eles.
- Pensamos em vir ver você, Harry! - Ela se curvou e lhe deu um beijo na
bochecha.
- Você está bem? - cumprimentou Gui, sorrindo para o garoto e apertando
sua mão. ­ Carlinhos queria vir, mas não pôde tirar licença. Ele me contou que
você esteve incrível na tarefa com o Rabo-Córneo húngaro.
Fleur Delacour, Harry notou, espiava Gui, com grande interesse, por cima
do ombro da mãe. O garoto percebeu que ela não fazia objeção alguma a cabelos
compridos e brincos com dentes pendurados.
- Foi muita gentileza da senhora - murmurou Harry à Sra. Weasley. - Pensei
por um momento... os Dursley...
- Hum - resmungou a Sra. Weasley contraindo os lábios. Ela sempre se
abstinha de criticar os Dursley diante de Harry mas seus olhos faiscavam sempre
que eles eram mencionados.


- Estou achando o máximo voltar aqui - comentou Gui, correndo os olhos
pela câmara (Violeta, a amiga da Mulher Gorda, piscou para ele lá do seu quadro).
- Não revejo a escola há cinco anos. Aquele quadro do cavaleiro doidão ainda está
por aí? Sir Cadogan?
- Ah, está - respondeu Harry, que conhecera Sir Cadogan no ano anterior.
- E a Mulher Gorda? - indagou Gui.
- Ela já estava aqui no meu tempo - comentou a Sra. Weasley.
- Ela me passou um carão daqueles uma noite em que eu vinha voltando
para o dormitório às quatro horas da manhã...
- E o que é que a senhora estava fazendo fora do dormitório as quatro
horas da manhã? - perguntou Gui olhando a Sra. Weasley, admirado.
Ela sorriu, os olhos cintilando.
- Seu pai e eu saímos para dar um passeio à noite. Ele foi pego por
Apolíneo Pringle, era o zelador naquela época, seu pai ainda tem as marcas.
- Quer fazer o tour da escola com a gente, Harry? - perguntou Gui.
- Ah, OK. - disse Harry e os três se dirigiram à porta que levava ao Salão
Principal. Ao passarem por Amos Diggory, o bruxo se virou.
- Aí está você, não é? - disse ele, olhando Harry de alto a baixo. - Aposto
como não está se sentindo tão cheio de si agora que Cedrico superou a sua
pontuação, não?
- Quê? - exclamou Harry.
- Não dê atenção a ele - pediu Cedrico a Harry, em voz baixa, erguendo as
sobrancelhas para o pai. - Ele anda aborrecido desde o artigo da Rita Skeeter
sobre o Torneio Tribruxo, sabe, porque ela fez de conta que você era o único
campeão de Hogwarts.
- Mas ele não se deu ao trabalho de corrigi-la, não é? - disse Amos Diggory,
em voz suficientemente alta para Harry ouvir quando ia se encaminhando para a
porta com a Sra. Weasley e Gui. - Mas... você vai mostrar a ele, Cedrico. Já o
venceu uma vez, não foi?
- Rita Skeeter sai do caminho dela para provocar confusões, Amos! - disse
a Sra. Weasley zangada. - Era de se esperar que você soubesse disso, já que
trabalha no Ministério!
O Sr. Diggory pareceu que ia dizer alguma coisa, irritado, mas sua mulher
pôs a mão em seu braço e ele simplesmente encolheu os ombros e virou as
costas.
Harry teve uma manhã muito agradável passeando pela propriedade
ensolarada com Gui e a Sra. Weasley, mostrando-lhes a carruagem de
Beauxbatons e o navio de Durmstrang. A Sra. Weasley se mostrou intrigada com
o Salgueiro Lutador, que fora plantado depois que ela terminara a escola, e
lembrou-se longamente do guarda-caça antes de Hagrid, um homem chamado
Ogg.
- Como vai o Percy? - perguntou Harry, quando davam a volta às estufas.
- Nada bem - respondeu Gui.
- Ele está muito aborrecido - disse a Sra. Weasley, baixando a voz e
olhando para os lados. ­ O Ministério quer abafar o desaparecimento do Sr.
Crouch, e Percy foi convocado para um interrogatório sobre as instruções que o
Sr. Crouch tem-lhe mandado. Aparentemente o Ministério pensa que elas talvez


não tenham sido escritas por Crouch. Percy está sob uma enorme tensão. Não
vão deixá-lo substituir o chefe, como quinto juiz, hoje à noite. Cornélio Fudge virá
fazer isso.
Os três voltaram ao castelo para almoçar.
- Mamãe... Gui! - exclamou Rony, fazendo cara de espanto, ao se reunir à
mesa da Grifinória. - Que é que vocês estão fazendo aqui?
- Viemos assistir à última tarefa do Harry! - disse a Sra. Weasley animada. ­
Devo confessar, é uma bela mudança não ter que cozinhar. Como foi o seu
exame?
- Ah... OK.. Não consegui me lembrar dos nomes de todos os duendes
rebeldes, por isso inventei alguns. Tudo bem - acrescentou servindo-se de um
pastel galês, sob o olhar severo da mãe -, todos eles têm nomes tipo Bodrode o
Barbudo, Urgue o Impuro, não foi difícil.
Fred, Jorge e Gina vieram fazer companhia a eles também e Harry se
divertiu tanto que quase se sentiu de volta à Toca, esquecera-se de se preocupar
com a tarefa da noite e somente quando Hermione apareceu, já na metade do
almoço, foi que ele se lembrou de que a garota tivera uma idéia sobre Rita
Skeeter.
- Vai nos contar...?
Hermione balançou a cabeça num aviso e olhou para a Sra. Weasley.
- Olá, Hermione - disse a Sra. Weasley muito mais formalmente do que de
costume.
- Olá - respondeu a garota, seu sorriso hesitante diante da expressão fria no
rosto da senhora. Harry olhou para as duas, em seguida disse:
- Sra. Weasley, a senhora não acreditou naquele besteirol que a Rita
Skeeter escreveu no Semanário das Bruxas, acreditou? Porque Mione não é
minha namorada.
- Ah! - exclamou a Sra. Weasley. - Não... é claro que não!
Mas ela se tornou bem mais calorosa para com Hermione depois disso.
Harry, Gui e a Sra. Weasley passaram a tarde em um longo passeio ao redor do
castelo, depois voltaram ao Salão Principal para o banquete da noite. Ludo
Bagman e Cornélio Fudge haviam se sentado à mesa dos professores. Bagman
parecia bem animado, mas Cornélio Fudge, ao lado de Madame Maxime, estava
sério e calado. Madame Maxime se concentrava no prato a sua frente, e Harry
achou que seus olhos pareciam vermelhos. Hagrid não parava de olhar para os
lados dela na mesa.
Havia mais pratos do que de costume, mas o garoto, que estava
começando a se sentir realmente nervoso, não comeu muito. Quando o teto
encantado no alto começou a desbotar de azul para um violáceo crepuscular,
Dumbledore se ergueu à mesa dos professores e fez-se silêncio.
- Senhoras e senhores, dentro de cinco minutos, vou pedir a todos que se
encaminhem para o estádio de quadribol para assistir à terceira e última tarefa do
Torneio Tribruxo. Os campeões, por favor, queiram acompanhar o Sr. Bagman ao
estádio agora.
Harry se levantou. Todos os colegas da Grifinória o aplaudiram, os Weasley
e Hermione lhe desejaram boa sorte e ele se dirigiu à porta do Salão Principal com
Cedrico, Fleur e Krum.


- Está se sentindo bem, Harry? - perguntou Bagman, quando desciam os
degraus da entrada para os jardins. - Confiante?
- Estou OK.. - Era um pouco verdade; estava nervoso, mas não parava de
repassar mentalmente todas as azarações e feitiços que praticara enquanto
andavam, e a idéia de que era capaz de lembrar de todos eles o fazia se sentir
melhor.
Os campeões entraram no estádio de quadribol, que estava totalmente
irreconhecível. Uma sebe de seis metros corria a toda volta. Havia uma abertura
bem diante deles: a entrada para o imenso labirinto. A passagem além parecia
escura e sinistra.
Cinco minutos mais tarde, as arquibancadas começaram a se encher, o ar
vibrou com as vozes excitadas e o ruído dos pés de centenas de estudantes que
ocupavam seus lugares. O céu se tornara azul profundo e límpido, e as primeiras
estrelas começavam a surgir. Hagrid, o Prof. Moody, a Profª Minerva e o Prof.
Flitwick entraram no estádio e se aproximaram de Bagman e dos campeões.
Usavam grandes estrelas vermelhas e luminosas nos chapéus, todos, exceto
Hagrid, que carregava a dele nas costas do colete de pele de toupeira.
- Vamos patrulhar o lado externo do labirinto - disse a professora aos
campeões. - Se estiverem em apuros, e quiserem ser socorridos, disparem faíscas
vermelhas para o ar e um de nós irá buscá-los, entenderam?
Os campeões confirmaram com um aceno de cabeça.
- Podem começar, então! - disse Bagman, animado, para os quatro
patrulheiros.
- Boa sorte, Harry - sussurrou Hagrid, e os quatro saíram em diferentes
direções para se postar em torno do labirinto. Bagman, então, apontou a varinha
para a garganta e murmurou "Sonorus", e sua voz magicamente amplificada
ressoou pelas arquibancadas.
"Senhoras e senhores, a terceira e última tarefa do Torneio Tribruxo está
prestes a começar!
"Deixe-me lembrar a todos o placar atual! Empatados em primeiro lugar,
com oitenta e cinco pontos cada - o Sr. Cedrico e o Sr. Harry Potter, os dois da
Escola de Hogwarts!"
Os vivas e as palmas fizeram os pássaros saírem voando da Floresta
Proibida para o céu crepuscular.
"Em segundo lugar, com oitenta pontos - o Sr. Vítor Krum, do Instituto
Durmstrang!" Mais aplausos. "E, em terceiro lugar - a Srta. Fleur Delacour, da
Academia de Beauxbatons!"
Harry conseguiu apenas reconhecer a Sra. Weasley, Guy, Rony e
Hermione aplaudindo Fleur educadamente, mais ou menos no meio das
arquibancadas. Ele acenou para os amigos que retribuíram o aceno, sorrindo.
"Então... quando eu apitar, Harry e Cedrico!", anunciou Bagman. "Três -
dois - um..."
O bruxo soprou com força o apito e Harry e Cedrico correram para a
entrada do labirinto. As sebes altaneiras lançavam sombras escuras sobre a trilha
e, talvez porque fossem tão altas e densas ou porque fossem encantadas, o
barulho dos espectadores que as cercavam silenciou no instante em que os


rapazes entraram no labirinto. Harry quase se sentiu novamente embaixo da água.
Puxou a varinha, murmurou: Lumus" e ouviu Cedrico fazer o mesmo atrás dele.
Depois de andarem uns cinqüenta metros, os garotos chegaram a uma
bifurcação. Entreolharam-se.
- Até mais - disse Harry e tomou a trilha da esquerda, enquanto Cedrico
tomou a da direita.
Harry ouviu o apito de Bagman uma segunda vez. Krum acabara de entrar
no labirinto. Harry se apressou. A trilha que escolhera parecia completamente
deserta.
Ele se virou à direita e continuou depressa, mantendo a varinha acima da
cabeça, tentando ver o mais longe possível. Mesmo assim, não havia nada à vista.
O apito de Bagman soou ao longe uma terceira vez. Todos os campeões agora
estavam no interior do labirinto.
Harry não parava de olhar para trás. Tinha a sensação familiar de que
alguém o vigiava. O labirinto foi ficando mais escuro a cada minuto que se
passava, porque o céu no alto ia ganhando um matiz azul-marinho. Ele chegou a
uma segunda bifurcação.
- Me oriente - sussurrou ele à varinha, segurando-a deitada na palma da
mão.
A varinha fez um giro completo e apontou para a direita, para a sebe
maciça. Para ali ficava o norte, e ele sabia que precisava seguir para noroeste
para chegar ao centro do labirinto. Faria melhor se tomasse a trilha da esquerda e
tornasse a seguir para a direita assim que pudesse.
A trilha à frente também estava vazia e quando Harry chegou a uma curva à
direita e entrou por ela, encontrou mais uma vez o caminho livre. Harry não sabia
o porquê, mas a falta de obstáculos começava a deixá-lo nervoso. Com certeza já
deveria ter encontrado algum a essa altura? Tinha a impressão de que o labirinto
o estava induzindo a uma falsa sensação de segurança. Então ouviu um
movimento bem atrás dele. Ergueu a varinha, pronto a atacar, mas seu facho de
luz recaiu sobre Cedrico, que acabara de sair correndo da trilha do lado direito.
Cedrico parecia gravemente abalado. A manga de suas vestes fumegava.
- Os explosivins de Hagrid! - sibilou ele. - Estão enormes, escapei por um
triz!
Cedrico sacudiu a cabeça e desapareceu de vista por outra trilha.
Interessado em guardar uma boa distância entre ele próprio e os explosivins,
Harry retomou depressa o seu caminho. Então, ao fazer uma curva ele viu...
Um dementador deslizava em sua direção. Três metros e meio de altura, o
rosto oculto pelo capuz, as mãos podres e cobertas de feridas estendidas à frente,
ele avançava às cegas, tateando em direção ao garoto. Harry ouviu sua
respiração vibrante, sentiu um frio pegajoso se apoderar dele, mas sabia o que
precisava fazer...
Chamou à mente o pensamento mais feliz que pôde, se concentrou com
todas as forças no pensamento de sair do labirinto e comemorar com Rony e
Hermione, ergueu a varinha e exclamou:
Expecto Patronum!


Um veado prateado irrompeu da ponta da varinha de Harry e avançou à
galope para o dementador, que recuou e tropeçou na barra das vestes... Harry
nunca vira um dementador tropeçar.
- Espere ai! - gritou ele, avançando na cola do seu patrono prateado. - Você
é um bicho-papão! Ridikulus!
Ouviu-se um grande estalo e o transformista explodiu, deixando atrás
apenas uma fumacinha. O veado prateado desapareceu de vista. Harry desejou
que ele tivesse podido ficar, seria agradável ter uma companhia... mas continuou o
seu caminho o mais depressa e silenciosamente que pôde, apurando os ouvidos,
a varinha, mais uma vez, erguida no alto.
Esquerda... direita... novamente à esquerda... em duas ocasiões ele foi dar
em trilhas sem saída. Harry executou o Feitiço dos Quatro Pontos mais uma vez e
descobriu que se afastara demais para leste.
Retrocedeu, tomou a trilha à direita e viu uma estranha névoa dourada
flutuando mais adiante. Aproximou-se cautelosamente, apontando para a névoa o
facho de luz da varinha. Parecia algum tipo de encantamento. Ele se perguntou se
seria capaz de explodi-la para desimpedir o caminho.
- Reducto!- ordenou.
O feitiço atravessou a névoa, deixando-a intacta. O garoto concluiu que
devia ter sabido: o Feitiço Redutor só servia para objetos sólidos. Que aconteceria
se ele atravessasse a névoa? Valeria a pena arriscar ou deveria retroceder?
Ele ainda hesitava, quando um grito rompeu o silêncio.
- Fleur? - berrou Harry.
Silêncio. Ele olhou para todos os lados. Que acontecera com a garota? Seu
grito parecia ter vindo de algum lugar à frente. O garoto inspirou profundamente e
atravessou a névoa encantada.
O mundo virou de cabeça para baixo. Harry ficou pendurado no chão, os
cabelos em pé, os óculos balançando fora do nariz, ameaçando cair no céu
infinito.
Ele os segurou na ponta do nariz e continuou pendurado, aterrorizado.
Tinha a sensação de que seus pés estavam grudados na grama, que agora se
transformara em teto. Abaixo, o céu pontilhado de estrelas se estendia
infinitamente. Harry sentiu que se tentasse mexer um pé, despencaria da terra de
vez. Pense, disse a si mesmo, enquanto todo o seu sangue afluía à cabeça,
pense...
Mas nenhum dos feitiços que praticara se destinava a combater uma
repentina inversão de terra e céu. Ousaria mexer um pé?
Ele ouviu o sangue latejar com força em seus ouvidos. Tinha duas opções -
tentar se mexer ou disparar faíscas vermelhas e ser socorrido e desqualificado da
tarefa.
Harry fechou os olhos para evitar contemplar o espaço infinito abaixo dele e
puxou o pé direito com toda a força que pôde do teto gramado. Imediatamente o
mundo se endireitou. Harry caiu para a frente de joelhos num chão
maravilhosamente sólido. Sentiu-se por algum tempo mole de susto. Inspirou
profundamente para se firmar, então tornou a se levantar e avançou correndo,
lançando olhares para trás por cima do ombro, enquanto fugia da névoa dourada,
que piscou para ele inocentemente ao luar.


O garoto parou na junção de duas trilhas e olhou para os lados à procura de
algum sinal de Fleur. Tinha certeza de que fora a garota que ouvira gritar. Com
que será que ela deparara? Estaria bem?
Não havia faíscas vermelhas no alto - será que isto significava que
conseguira se livrar do problema ou estaria em tal apuro que nem conseguira
apanhar a varinha? Harry tomou a trilha à direita com uma sensação de crescente
inquietação... mas, ao mesmo tempo, não conseguiu deixar de pensar, menos um
campeão...
A Taça estava em algum lugar ali perto e, pelo jeito, Fleur não estava mais
competindo. Ele chegara até ali, não chegara? E se, de fato, conseguisse vencer?
Por um instante fugaz, e pela primeira vez desde que se fora feito campeão, ele
reviu aquela imagem de si mesmo, erguendo a Taça do Tribruxo diante do resto
da escola...
Por uns dez minutos não encontrou nada, exceto trilhas sem saída. Duas
vezes tomou a mesma trilha errada. Finalmente encontrou um novo caminho e
começou a andar depressa por ele, a luz da varinha oscilando, fazendo sua
sombra bruxulear e se distorcer pelos lados da sebe. Então ele virou mais uma
vez e deu de cara com um explosívín.
Cedrico tinha razão - era enorme. Três metros de comprimento, lembrava
mais um escorpião gigante do que qualquer outra coisa. Seu longo ferrão estava
revirado para trás. A grossa armadura refulgia à luz da varinha, que Harry
apontava para ele.
- Estupefaça !
O feitiço bateu no escudo do explosívín e ricocheteou; Harry se abaixou
bem a tempo, mas sentiu cheiro de cabelos queimados, chamuscara o alto da
cabeça. O explosívín soltou um jorro de chamas da cauda e voou para cima do
garoto.
- Impedimenta!- berrou Harry. O feitiço bateu mais uma vez no escudo do
explosivim e voltou; Harry cambaleou alguns passos para trás e caiu.
- IMPEDIMENTA!
O explosívín estava a centímetros dele quando se imobilizou - o garoto
conseguira atingi-lo na barriga carnuda e sem escudo. Ofegando, Harry se impeliu
para longe e correu, com todas as forças, na direção oposta - a Azaração de
Impedimento não era permanente, o explosívín recobraria o uso das pernas a
qualquer momento.
Harry seguiu pela trilha da esquerda e não encontrou saída, seguiu pela da
direita e tampouco encontrou saída, obrigando-se a parar, com o coração
acelerado, ele executou mais uma vez o Feitiço dos Quatro Pontos, retrocedeu e
escolheu uma trilha que o levasse para noroeste.
Já ia caminhando apressado pela nova trilha havia alguns minutos, quando
ouviu alguma coisa na trilha paralela à sua, que o fez estacar.
- Que é que você está fazendo? - berrou a voz de Cedrico. - Que diabo
você pensa que está fazendo?
E então Harry ouviu a voz de Krum.
- Crucio!
O ar se encheu repentinamente com os gritos de Cedrico. Horrorizado,
Harry avançou correndo por sua trilha, tentando encontrar uma passagem para a


de Cedrico. Quando não apareceu nenhuma, ele tentou novamente o Feitiço
Redutor. Não foi eficiente, mas queimou um buraquinho na sebe, pelo qual Harry
enfiou a perna, chutando os galhos emaranhados até eles cederem deixando uma
abertura, com esforço Harry a atravessou, rasgando as vestes e, ao olhar para a
direita, viu Cedrico se debatendo e se contorcendo no chão, sob o olhar de Krum.
Harry se endireitou e apontou a varinha para Krum na hora em que o rapaz
ergueu a cabeça. Krum deu as costas e começou a correr.
- Estupefaça!- berrou Harry.
O feitiço atingiu Krum pelas costas; ele parou instantaneamente, caiu de borco e
ficou imóvel, com a cara na grama. Harry correu para Cedrico, que parara de se
contorcer mas continuava deitado no chão arfando, as mãos cobrindo o rosto.
- Você está bem? - perguntou Harry rouco, agarrando Cedrico pelo braço.
- Estou - ofegou ele. - É... eu não acredito... ele se aproximou de mim pelas
costas... eu o ouvi e, quando me virei, ele estava empunhando a varinha apontada
para mim...
Cedrico se levantou. Ainda tremia. Ele e Harry olharam para Krum.
- Eu não acredito... achei que ele era legal - comentou Harry, contemplando
Krum.
- Eu também.
- Você ouviu Fleur gritar há algum tempo?
- Ouvi. Você acha que Krum a pegou também?
- Não sei - disse Harry lentamente.
- Vamos deixá-lo aqui? - perguntou Cedrico.
- Não - disse Harry. - Acho que devíamos disparar faíscas vermelhas.
Alguém virá apanhá-lo... do contrário ele provavelmente será comido por um
explosívín.
- E seria bem merecido - murmurou Cedrico, mas ainda assim, ergueu a
varinha e disparou uma chuva de faíscas vermelhas para o ar, que pairaram sobre
Krum, marcando o local em que ele se encontrava.
Harry e Cedrico ficaram ali no escuro por um momento, olhando a toda
volta. Então Cedrico falou:
- Bem... suponho que seja melhor a gente ir...
- Quê? Ah... sim... certo...
Foi um momento estranho. Ele e Cedrico unidos por breves instantes contra
Krum - agora o fato de serem adversários ocorria a ambos. Eles continuaram pela
trilha escura sem falar, então Harry virou-se para a esquerda e Cedrico para a
direita. O ruído dos passos do rapaz não tardou a desaparecer.
Harry seguiu caminho, continuando a usar o Feitiço dos Quatro Pontos,
para se certificar de que caminhava na direção correta. Agora a competição
estava entre ele e Cedrico. O desejo de chegar à Taça primeiro ardia em seu peito
como nunca antes, mas ele não conseguia acreditar no que acabara de ver Krum
fazer. O uso de uma Maldição Imperdoável em um ser humano significava uma
sentença de prisão perpétua em Azkaban, fora o que Moody dissera. Krum com
certeza não poderia ter desejado a Taça Tribruxo tanto assim... Harry se
apressou.
De vez em quando ele chegava a trilhas sem saída, mas a escuridão
crescente lhe dava a certeza de que estava se aproximando do centro do labirinto.


Então, quando seguia por uma trilha longa e reta, ele mais uma vez percebeu um
movimento, e a luz de sua varinha incidiu sobre uma criatura extraordinária, uma
que ele só vira sob a forma de ilustração no seu Livro monstruoso dos monstros.
Era uma esfinge. Tinha o corpo de um enorme leão, grandes patas com
garras e um longo rabo amarelado que terminava em um tufo de pêlos castanhos.
A cabeça, porém, era de mulher. Ela virou os olhos amendoados para Harry
quando ele se aproximou.
O garoto ergueu a varinha hesitante.
A esfinge não estava agachada como se fosse saltar, mas andava de um
lado para outro da trilha, bloqueando seu avanço. Então falou, com uma voz
profunda e rouca:
- Você está muito próximo do seu objetivo. O caminho mais rápido é
passando por mim.
- Então... então será que a senhora podia se afastar, por favor? - disse
Harry, sabendo qual seria a resposta.
- Não - disse ela, continuando a sua patrulha. - Não, a não ser que você
decifre o meu enigma. Se acertar de primeira, deixo-o passar. Se errar, eu o
ataco. Permaneça em silêncio, e eu o deixarei partir ileso.
O estômago de Harry escorregou alguns centímetros. Hermione é que era
boa nesse tipo de coisa e não ele. O garoto avaliou suas chances. Se o enigma
fosse muito difícil, ele podia se calar, ir embora sem se machucar e tentar
encontrar um caminho alternativo para o centro.
- OK. - respondeu ele. - Pode me dizer o enigma?
A esfinge se sentou nos quartos traseiros, bem no meio da trilha e recitou:
- Primeiro pense no lugar reservado aos sacrifícios, Seja em que templo for.
Depois, me diga que é que se desfolha no inverno e torna a brotar na primavera?
E finalmente, me diga qual é o objeto que tem som, luz e ar e flutua na superfície
do mar? Agora junte tudo e me responda o seguinte, Que tipo de criatura você não
gostaria de beijar?
Harry encarou-a boquiaberto.
- Podia, por favor, repetir... mais devagar? - pediu hesitante.
A esfinge pestanejou, sorriu e repetiu o enigma.
- Todas as pistas levam ao nome da criatura que eu não gostaria de beijar?
­ perguntou Harry.
A esfinge meramente sorriu, aquele sorriso misterioso. Harry interpretou-o
como um "sim". Começou a pensar. Havia muitos animais que ele não gostaria de
beijar, seu pensamento imediato foi um explosívín, mas alguma coisa lhe disse
que não era a resposta correta. Ele teria que tentar decifrar as pistas...
- O lugar reservado aos sacrifícios - murmurou Harry, encarando a esfinge -
, seja em que templo for... hum... seria... um altar. Não, esta não seria a minha
resposta! Uma... ara? Vou voltar a isso depois...poderia me dar a pista seguinte,
por favor?
O animal fabuloso repetiu as linhas seguintes do enigma.
- A última coisa a desaparecer no inverno e a reaparecer na primavera nas
árvores da floresta - repetiu Harry. - Hum... não faço idéia... árvores... galhos...
rama... pode me dizer o último trecho outra vez?
Ela repetiu as últimas quatro linhas.


- O objeto que tem som, luz e ar e flutua na superfície do mar... - disse
Harry. - Hum.... isso seria... hum... espere aí, uma bóia?
A esfinge sorriu.
- Ara... hum... ara... rama... - disse Harry, agora era ele quem estava
andando para lá e para cá. - Uma criatura que eu não gostaria de beijar... uma
ararambóla!
A esfinge abriu um sorriso maior. Levantou-se, esticou as pernas dianteiras
e então se afastou para um lado e o deixou passar.
- Obrigado! - disse Harry e, admirado com a própria genialidade, prosseguiu
correndo.
Tinha que estar perto agora, tinha que estar... a varinha lhe dizia que estava
na direção exata, desde que não deparasse com nada horripilante, ele poderia ter
uma chance... À frente precisou escolher entre duas trilhas.
- Me oriente! - sussurrou mais uma vez à varinha, e ela deu um giro e
apontou para a da direita.
Harry saiu correndo por ela e viu uma luz adiante.
A Taça Tribruxo brilhava num pedestal a menos de cem metros a sua
frente. Harry mal saira correndo quando um vulto escuro se precipitou sobre a
trilha à sua frente.
Cedrico ia chegar primeiro. O rapaz estava correndo o mais rápido que
podia em direção à Taça, e Harry percebeu que nunca o alcançaria, Cedrico era
muito mais alto, tinha pernas muito mais compridas...
Então, Harry viu um vulto imenso por cima da sebe à sua esquerda,
deslocando-se ligeiro pela trilha que cortava a sua, ia tão depressa que Cedrico
estava prestes a colidir com ele, e com os olhos na Taça, o rapaz não vira o
vulto...
- Cedrico! - berrou Harry. - À sua esquerda!
O garoto virou a cabeça em tempo de se atirar para além vulto e evitar
colidir com ele, mas, em sua pressa, tropeçou. Harry viu a varinha voar da mão
dele, ao mesmo tempo que uma enorme aranha entrava na trilha e começava a
avançar para o rapaz.
- Estupefaça! - berrou Harry, o feitiço atingiu o gigantesco corpo da aranha,
negro e peludo, mas produziu tanto efeito quanto se o garoto tivesse atirado uma
simples pedra nela, a aranha estremeceu, virou-se e correu para Harry.
- Estupefaça! Impedimenta! Estupefaça!
Mas não adiantou - a aranha ou era demasiado grande ou tão mágica que
os feitiços só conseguiam irritá-la -, Harry viu de relance, horrorizado, oito olhos
negros e brilhantes e pinças afiadas como navalhas, antes que a aranha estivesse
sobre ele.
O inseto ergueu-o no ar com as patas dianteiras, debatendo-se como louco,
Harry tentou chutá-lo, sua perna fez contato com as pinças e no momento
seguinte ele sentiu uma dor excruciante ­ ouviu Cedrico gritar "Estupefaça!"
também, mas o feitiço do rapaz produziu tanto efeito quanto o de Harry ­ o garoto
ergueu a varinha quando a aranha tornou a abrir as pinças e gritou "Expeiliarmus!"
Funcionou - o Feitiço para Desarmar fez a aranha largá-lo, o que significou
que Harry caiu três metros e tanto sobre uma perna já machucada, que se dobrou
sob seu corpo. Sem parar para pensar, ele mirou bem alto sob a barriga da


aranha, como fizera com explosívín, e gritou "Estupefaça!" na mesma hora em que
Cedrico gritava o mesmo.
Os dois feitiços combinados fizeram o que um sozinho não conseguira - a
aranha tombou de lado, achatando uma sebe próxima, e espalhando na trilha um
emaranhado de pernas peludas.
- Harry! - ele ouviu Cedrico gritar. - Você está bem? Ela cai em cima de
você?
- Não! - gritou Harry em resposta. Ele examinou a perna. Sangrava muito.
Ele viu uma secreção grossa e pegajosa que saíra das pinças da aranha em suas
vestes rasgadas. Então, tentou se levantar, mas a perna tremia demais e se
recusava a sustentar seu peso. Ele se apoiou na sebe, tentando recuperar o
fôlego e olhou para os lados.
Cedrico estava a pouquíssima distância da Taça Tribruxo que refulgia às
suas costas.
- Pegue a Taça, então - disse Harry arfante para Cedrico. - Pegue logo.
Você chegou ao centro.
Mas Cedrico não se mexeu. Continuou parado olhando para Harry. Em
seguida virou-se para olhar a Taça. Harry percebeu a expressão desejosa no rosto
do rapaz à luz dourada do objeto. Cedrico se virou mais uma vez para Harry que
agora se amparava na sebe para se manter de pé. Cedrico inspirou
profundamente.
- Você pega. Você é que deveria vencer. Você salvou minha vida duas
vezes neste labirinto.
- Não é assim que a coisa deve funcionar - disse Harry. Sentiu raiva, sua
perna doía muito, seu corpo doía inteiro do esforço para se desvencilhar da
aranha e, apesar de tudo isso, Cedrico o vencera, da mesma forma que o vencera
na hora de convidar Cho para o baile. - Quem chegar à Taça primeiro ganha os
pontos. E foi você. Estou lhe dizendo, não vou vencer nenhuma corrida com essa
perna assim.
Cedrico deu alguns passos em direção à aranha estuporada, afastando-se
da Taça e balançou a cabeça.
- Não - disse.
- Pare de ser nobre - retrucou Harry irritado. - Pegue logo a Taça para a
gente poder ir embora daqui.
Cedrico observou Harry se aprumar, segurando-se com força na sebe.
- Você me falou dos dragões - disse Cedrico. - Eu teria perdido a primeira
tarefa se você não tivesse me prevenido sobre o que me esperava.
- Tive ajuda nisso - retorquiu Harry, tentando enxugar a perna
ensangüentada com as vestes. - Você me ajudou com o ovo, estamos quites.
- Eu tive ajuda com o ovo para começar - disse Cedrico.
- Continuamos quites - repetiu Harry, experimentando a perna, desajeitado,
ela tremeu violentamente quando o garoto se apoiou nela, tinha torcido o tornozelo
quando a aranha o largara.
- Você devia ter ganho mais pontos na segunda tarefa - teimou Cedrico. ­
Você ficou para trás para salvar todos os reféns. Eu é que deveria ter feito isso.
- Eu fui o único campeão suficientemente burro para levar aquela música a
sério! - disse Harry com amargura. - Pegue a Taça!


- Não.
Cedrico pulou por cima do emaranhado de pernas da aranha para se juntar
a Harry, que o encarou. Cedrico falava sério. Estava dando as costas a uma glória
que a Casa da Lufa-Lufa não experimentava havia séculos.
- Anda - disse o rapaz. Dava a perceber que aquela atitude estava lhe
custando cada centímetro de determinação que possuía, mas havia firmeza em
seu rosto, cruzara os braços, parecia decidido.
Harry olhou de Cedrico para a Taça. Por um momento fulgurante ele se viu
saindo do labirinto, segurando-a. Viu-se erguendo a Taça Tribruxo no alto, ouviu
os berros dos espectadores, viu o rosto de Cho iluminado de admiração, mais
claramente do que jamais o vira... e então a imagem se dissolveu e ele se viu
encarando o rosto teimoso e sombrio de Cedrico.
- Os dois - disse Harry.
-Quê?
- Levamos a Taça ao mesmo tempo. Ainda é uma vitória Hogwarts.
Empatamos.
Cedrico encarou Harry. Descruzou os braços.
- Você... você tem certeza?
- Tenho. Tenho... nós nos ajudamos, não foi? Nós dois chegamos aqui.
Vamos levá-la, juntos.
Por um instante, Cedrico pareceu que não conseguia acreditar no que
estava ouvindo, então seu rosto se abriu num sorriso.
- Negócio fechado. Venha até aqui.
Ele agarrou o braço de Harry pela axila e ajudou-o a mancar até o pedestal
onde estava a Taça.
Quando a alcançaram, os dois estenderam a mão para cada uma das asas.
- Quando eu disser três, certo? - disse Harry - Um... dois... três...
Ele e Cedrico apertaram as asas.
Instantaneamente, Harry sentiu um solavanco dentro do umbigo. Seus pés
deixaram o chão. Ele não conseguiu soltar a mão da Taça Tribruxo, ela o puxava
para diante, num vendaval colorido, Cedrico ao seu lado.


- CAPITULO TRINTA E DOIS -
Osso, carne e sangue

Harry sentiu seus pés baterem no chão, a perna machucada cedeu e ele
caiu para a frente, por fim, sua mão soltou a Taça Tribruxo. Ele ergueu a cabeça.
- Onde estamos? - perguntou.
Cedrico sacudiu a cabeça. Levantou-se, ajudou Harry a ficar de pé e os
dois olharam a toda volta. Estavam inteiramente fora dos terrenos de Hogwarts,
era óbvio que tinham viajado quilômetros - talvez centenas de quilômetros -
porque até as montanhas que rodeavam o castelo haviam desaparecido.
Em lugar de Hogwarts, os garotos se viam parados em um cemitério escuro
e cheio de mato; para além de um grande teixo à direita podiam ver os contornos
escuros de uma igrejinha. Um morro se erguia à esquerda. Muito mal, Harry


conseguia discernir a silhueta escura de uma bela casa antiga na encosta do
morro.
Cedrico olhou para a Taça Tribruxo e depois para Harry.
- Alguém lhe disse que a Taça era uma Chave de Portal? - perguntou.
- Não. - Harry examinou o cemitério. Estava profundamente silencioso e
meio fantasmagórico. - Será que isto faz parte da tarefa?
- Não sei - respondeu Cedrico. Sua voz revelava um certo nervosismo. ­
Varinhas em punho, não acha melhor?
- É - disse Harry, satisfeito de que Cedrico tivesse sugerido isso por ele.
Os dois puxaram as varinhas. Harry não parava de olhar para todo lado.
Tinha, mais uma vez, a estranha sensação de que estavam sendo observados.
- Vem alguém aí - disse de repente.
Apertando os olhos para enxergar na escuridão, eles divisaram um vulto
que se aproximava, andando entre os túmulos sempre em sua direção. Harry não
conseguia distinguir um rosto, mas pelo jeito que o vulto caminhava e mantinha os
braços, dava para ver que estava carregando alguma coisa. Fosse quem fosse,
era baixo e usava um capuz que lhe cobria a cabeça e sombreava o rosto. E...
vários passos depois, a distância entre eles sempre mais curta - Harry viu que a
coisa nos braços do vulto parecia um bebê... ou seria meramente um fardo de
vestes?
Harry baixou ligeiramente a varinha e olhou para Cedrico ao seu lado. O
rapaz lhe respondeu com um olhar intrigado. Os dois tornaram a se virar para
observar o vulto que se aproximava. Ele parou ao lado de uma lápide alta, a uns
dois metros. Por um segundo, Harry, Cedrico e o vulto baixo apenas se
entreolharam.
Então, inesperadamente, a cicatriz de Harry explodiu de dor. Foi uma
agonia tão extrema como jamais sentira na vida; ao levar a mão ao rosto, a
varinha lhe escapou dos dedos, seus joelhos cederam,ele caiu ao chão e não viu
mais nada, sua cabeça pareceu prestes a rachar.
De muito longe, acima de sua cabeça, ele ouviu uma voz fria e aguda dizer:
- Mate o outro.
Um zunido, e uma segunda voz que arranhou o ar da noite:
- Avada Kedavra!
Um relâmpago verde perpassou as pálpebras de Harry e ele ouviu alguma
coisa pesada cair no chão ao seu lado, a dor de sua cicatriz atingiu tal intensidade
que ele teve ânsias de vomitar, em seguida diminuiu, aterrorizado com o que iria
ver, ele abriu os olhos ardidos.
Cedrico estava estatelado no chão ao seu lado, os braços e pernas abertos.
Morto.
Por um segundo que continha toda a eternidade, Harry fitou o rosto do
colega, seus olhos cinzentos abertos, vidrados e inexpressivos como as janelas de
uma casa deserta, a boca entreaberta num esgar de surpresa. Então, antes que a
mente de Harry pudesse aceitar o que seus olhos viam, antes que pudesse sentir
alguma coisa além de atônita incredulidade, ele sentiu que alguém o levantava.
O homem baixo de capa pousara o fardo que carregava no chão, acendeu
a varinha e saiu arrastando Harry em direção à lápide de mármore. O garoto viu o


nome ali gravado faiscar à luz da varinha, antes de ser virado e atirado contra a
pedra.
TOM RIDDLE
O homem da capa agora estava conjurando cordas para prender Harry com
firmeza, amarrando-o à lápide, do pescoço aos tornozelos. O garoto ouviu uma
respiração rápida e rasa saindo do fundo do capuz, ele se debateu e o homem lhe
deu uma bofetada ­ uma bofetada com uma mão à que faltava um dedo. E Harry
percebeu quem estava sob o capuz. Era Rabicho.
- Você! - exclamou ele.
Mas Rabicho, que acabara de conjurar as cordas, não respondeu; estava
ocupado verificando se estavam bem apertadas, seus dedos tremendo
descontrolados, apalpando os nós. Uma vez convencido de que Harry estava
amarrado à lápide sem a menor folga e que não conseguiria se mexer, Rabicho
tirou um pano preto de dentro das vestes e enfiou-o com violência na boca de
Harry; depois, sem dizer palavra, virou as costas e se afastou depressa, o garoto
não podia emitir som algum nem ver aonde fora Rabicho, não podia virar a cabeça
para ver além da lápide, só podia ver o que estava diretamente em frente.
O corpo de Cedrico se encontrava a uns seis metros de distância. Mais
adiante, refulgindo à luz das estrelas, jazia a Taça Tribruxo. A varinha de Harry
ficara caída no chão aos pés do rapaz. O fardo de roupas que Harry imaginara
que fosse um bebê continuava ali perto, junto à lápide. Parecia estar se mexendo
incomodado.
O garoto observou-o e sua cicatriz queimou de dor... e, de repente, ele
concluiu que não queria ver o que estava naquelas roupas... não queria que o
fardo se abrisse...
Harry ouviu, então, um ruído aos seus pés. Baixou os olhos e viu uma cobra
gigantesca deslizando pelo capim, circulando em torno da lápide a que ele fora
amarrado. A respiração asmática e rápida de Rabicho estava se tornando mais
ruidosa agora. Parecia que arrastava alguma coisa pesada pelo chão. Então ele
tornou a entrar no campo de visão de Harry e o garoto pôde ver que o bruxo
empurrava um caldeirão de pedra para perto do túmulo. Continha alguma coisa
que parecia água - Harry a ouviu sacudir - e era maior do que qualquer outro
caldeirão que Harry já tivesse usado; sua circunferência era suficientemente
grande para caber um adulto sentado.
A coisa embrulhada no fardo de vestes no chão se mexeu com mais
insistência, como se estivesse tentando se desvencilhar. Agora Rabicho estava
mexendo com uma varinha no fundo externo do caldeirão. De repente surgiram
chamas sob a vasilha. A enorme cobra deslizou para longe mergulhando nas
sombras.
O líquido no caldeirão parecia estar esquentando bem rápido. Sua
superfície começou não somente a borbulhar, mas também a atirar para o alto
faíscas incandescentes, como se estivesse em chamas. O vapor se adensou e
borrou a silhueta de Rabicho que cuidava do fogo. Seus movimentos sob a capa
se tornaram mais agitados. E Harry ouviu mais uma vez a voz aguda e fria.
- Ande depressa!
Toda a superfície da água estava iluminada pelas faíscas. Parecia
cravejada de diamantes.


- Está pronta, meu amo.
- Agora... - disse a voz fria.
Rabicho abriu o fardo de vestes no chão, revelando o que havia nele, e
Harry deixou escapar um grito que foi estrangulado pelo chumaço de pano que
arrolhava sua boca.
Era como se Rabicho tivesse virado uma pedra e deixado à mostra algo
feio, pegajoso e cego - mas pior, cem vezes pior. A coisa que Rabicho andara
carregando tinha a forma de uma criança humana encolhida, só que Harry nunca
vira nada que se parecesse menos com uma criança. Era pelada, de aparência
escamosa, de uma cor preta avermelhada e crua. Os braços e pernas eram finos
e fracos e o rosto ­ nenhuma criança viva jamais tivera um rosto daqueles - era
plano e lembrava o de uma cobra, com olhos vermelhos e brilhantes.
A coisa tinha uma aparência quase desamparada, ela ergueu os braços
magros e passou-os pelo pescoço de Rabicho e este a ergueu, Ao fazer isso, seu
capuz caiu para trás e Harry viu, à claridade do fogo, a expressão de repugnância
em seu rosto fraco e pálido, enquanto transportava a criatura para a borda do
caldeirão.
Por um instante o garoto viu o rosto plano e maligno iluminar-se com as
faíscas que dançavam na superfície da poção. Então Rabicho a depositou dentro
do caldeirão, ouviu-se um silvo, e ela submergiu. Harry escutou aquele corpinho
frágil bater no fundo do caldeirão com um baque suave.
Tomara que se afogue, pensou o garoto, a cicatriz doendo mais do que era
possível suportar, por favor... tomara que se afogue...
Rabicho estava falando. Sua voz tremia, ele parecia assustadíssimo.
Ergueu a varinha, fechou os olhos e falou para a noite.
- Osso do pai, dado sem saber, renove filho!
A superfície do túmulo aos pés do garoto rachou. Horrorizado, Harry
observou um fiapo de poeira se erguer no ar à ordem de Rabicho, e cair
suavemente no caldeirão.
A superfície diamantífera da água se dividiu e chiou; disparou faíscas para
todo o lado e ficou um azul vivido e peçonhento.
Rabicho choramingou. Tirou um punhal longo, fino e brilhante de dentro das
vestes. Sua voz quebrou em soluços petrificados.
- Carne... do servo... dada de bom grado... reanime... o seu amo.
Ele esticou a mão direita à frente - a mão em que faltava um dedo. Segurou
o punhal com firmeza na mão esquerda e ergueu-o.
Harry percebeu o que Rabicho ia fazer um segundo antes acontecer -
fechou os olhos com toda força que pôde, mas não conseguiu bloquear o grito que
cortou a noite, e que o atravesso como se ele tivesse sido apunhalado também.
Ouviu alguma coisa cair ao chão, ouviu a respiração ofegante e aflita de Rabicho,
depois o ruído nauseante de alguma coisa tombar dentro do caldeirão. Harry não
suportou olhar... mas a poção ficou vermelho-vivo e sua claridade atravessou suas
pálpebras fechadas...
Rabicho ofegava e gemia de agonia. Somente quando Harry sentiu sua
respiração aflita no próprio rosto é que percebeu que o bruxo estava bem diante
dele.
- S-sangue do inimigo... tirado à força... ressuscite... seu adversário.


Harry nada pôde fazer para impedir isso, estava muito bem amarrado...
procurando ver mais embaixo, lutando inutilmente contra as cordas que o
prendiam, ele viu o punhal de prata reluzente tremer na mão de Rabicho que
restava. Sentiu a ponta da arma furar a dobra do seu braço direito e o sangue fluir
pela manga de suas vestes rasgadas.
Rabicho, ainda ofegando de dor, apalpou o bolso à procura de um
frasquinho que ele aproximou do corte de Harry para recolher o sangue.
O bruxo cambaleou de volta ao caldeirão com o sangue do garoto.
Despejou-o ali. O líquido no caldeirão ficou instantaneamente branco
ofuscante. Concluída a tarefa, Rabicho se ajoelhou ao lado do caldeirão, depois
deixou-se cair de lado e ficou deitado no chão, aninhando o toco sangrento de
braço, arquejando e soluçando.
O caldeirão foi cozinhando, disparando faíscas em todas as direções, um
branco tão branco que transformava todo o resto num negrume aveludado. Nada
aconteceu...
Tomara que tenha se afogado - pensou Harry, tomara que tenha dado
errado...
E então, de repente, as faíscas que subiam do caldeirão se extinguiram.
Uma nuvem de vapor branco se ergueu, repolhuda e densa, tampando tudo que
havia na frente de Harry, impedindo-o de continuar a ver Rabicho, Cedrico ou
qualquer outra coisa exceto o vapor pairando no ar... pensou... se afogou...
tomara... tomara que tenha morrido...
Mas, através da névoa à sua frente, ele viu, com um assomo gelado de
terror, a silhueta escura de um homem, alto e esquelético, emergindo do caldeirão.
- Vista-me - disse a voz aguda e fria por trás do vapor, e Rabicho,
soluçando e gemendo, ainda aninhando o braço mutilado, correu a apanhar as
vestes negras no chão, levantou-se, ergueu o braço e colocou-as apenas com a
mão existente por cima da cabeça do seu amo.
O homem magro saiu do caldeirão, com o olhar fixo em Harry... e o garoto
mirou aquele rosto que assombrava seus pesadelos havia três anos. Mais branco
do que um crânio, com olhos grandes e vermelhos, um nariz chato como o das
cobras e fendas no lugar das narinas...
Lord Voldemort acabara de ressurgir.


- CAPITULO TRINTA E TRÊS
Os Comensais da Morte

Voldemort desviou o olhar de Harry e começou a examinar o próprio corpo.
Suas mãos eram como aranhas grandes e pálidas, seus longos dedos brancos
acariciaram o próprio peito, os braços, o rosto, os olhos vermelhos, cujas pupilas
eram fendas, como as de um gato, brilhavam ainda mais no escuro. Ele ergueu as
mãos e flexionou os dedos com uma expressão arrebatada e exultante. Não deu a
menor atenção a Rabicho, que continuou tremendo e sangrando no chão, nem à
enorme cobra, que reapareceu em cena e recomeçou a descrever círculos em
torno de Harry, sibilando. Voldemort enfiou um dos dedos anormalmente longos
em um bolso fundo e tirou uma varinha.


Acariciou-a gentilmente também, depois ergueu-a e apontou-a para
Rabicho, e ela o guindou do chão e atirou contra a lápide a que Harry estava
amarrado, o bruxo caiu aos pés da lápide e ficou ali, encolhido, chorando.
Voldemort voltou seus olhos vermelhos para Harry e soltou uma risada, aquela
sua risada aguda, fria e sem alegria.
As vestes de Rabicho agora estavam manchadas de sangue brilhante, o
bruxo enrolara nelas o toco de braço.
- Milorde... - disse ele com a voz embargada - milorde... o senhor
prometeu... o senhor prometeu...
- Estique o braço - disse Voldemort indolentemente.
- Ah, meu amo... obrigado, meu amo...
Rabicho esticou o toco sangrento, mas Voldemort deu uma gargalhada.
- O outro braço, Rabicho.
- Meu amo, por favor... por favor...
Voldemort se curvou e puxou o braço esquerdo de Rabicho; empurrou a
manga das vestes do servo acima do cotovelo e Harry viu que havia uma coisa na
pele, uma coisa que lembrava uma tatuagem vermelho-vivo - um crânio, com uma
cobra saindo da boca -, a mesma imagem que aparecera no céu na Copa Mundial
de Quadribol: a Marca Negra. Voldemort examinou-a demoradamente, sem dar
atenção ao choro descontrolado de Rabicho.
- Reapareceu - comentou ele baixinho -, todos deverão ter notado... e
agora, veremos... agora saberemos...
Ele comprimiu a marca no braço do servo com seu longo indicador branco.
A cicatriz na testa de Harry ardeu com uma dor aguda e Rabicho deixou
escapar um uivo. Voldemort afastou o dedo da marca em Rabicho e Harry viu que
ela se tornara muito preta. Com uma expressão de cruel satisfação no rosto,
Voldemort se endireitou, atirou a cabeça para trás e começou a examinar o escuro
cemitério.
- Quantos terão suficiente coragem para voltar quando sentirem isso? -
sussurrou ele, fixando seus olhos vermelhos e brilhantes nas estrelas. - E quantos
serão bastante tolos para ficar longe de mim?
Ele começou a andar de um lado para outro diante de Harry e Rabicho,
seus olhos percorrendo o cemitério todo o tempo. Decorrido pouco mais de um
minuto, ele tornou a olhar para Harry, um sorriso cruel deformando seu rosto
viperino.
- Você está em pé, Harry Potter, sobre os restos mortais do meu pai -
sibilou ele baixinho. ­ Um trouxa e um idiota... muito parecido com a sua querida
mãe. Mas os dois tiveram sua utilidade, não? Sua mãe morreu tentando defendê-
lo quando criança... e eu matei meu pai e veja como ele se provou útil, depois de
morto...
Voldemort soltou outra gargalhada. Para cima e para baixo ele andava,
olhando para os lados, e a serpente continuava a circular no meio do capim.
- Você está vendo aquela casa lá na encosta do morro, Potter? Meu pai
morava ali. Minha mãe, uma bruxa que vivia no povoado, se apaixonou por ele.
Mas foi abandonada quando lhe contou o que era... ele não gostava de magia,
meu pai...


- Ele a abandonou e voltou para os pais trouxas antes de eu nascer, Potter,
e ela morreu me dando à luz, me deixando para ser criado em um orfanato de
trouxas... mas eu jurei encontrá-lo... vinguei-me dele, desse idiota que me deu seu
nome... Tom Riddle...
E andava sem parar, seus olhos correndo de um túmulo para outro.
- Me vejam só recordando minha história de família... - comentou ele
baixinho. - Ora, ora, estou ficando muito sentimental... Mas veja, Harry! A minha
família verdadeira está chegando...
O ar se encheu repentinamente com o rumor de capas esvoaçantes. Entre
os túmulos, atrás do teixo, em cada espaço escuro, havia bruxos aparatando...
Todos usavam capuzes e máscaras. E um por um, eles se adiantaram...
lentamente, cautelosamente, como se mal conseguissem acreditar no que viam.
Voldemort ficou parado em silêncio, esperando-os. Então um Comensal da Morte
se prostrou de joelhos, arrastou-se até Voldemort, e beijou a barra de suas vestes
negras.
- Meu amo... meu amo...
Os Comensais da Morte que vinham atrás o imitaram, um por um, eles se
aproximaram de joelhos para beijar as vestes de Voldemort para depois recuar e
se levantar, formando um círculo silencioso em torno do túmulo de Tom Riddle,
Harry Voldemort e o monte de vestes que soluçava e sacudia, que era Rabicho.
Mas eles deixaram espaços vazios no círculo, como se esperassem mais gente.
Voldemort, porém, não parecia esperar mais ninguém. Olhou os rostos
encapuzados ao seu redor e, embora não houvesse vento, um rumorejo pareceu
percorrer o círculo como se perpassasse por ele um arrepio.
- Bem-vindos, Comensais da Morte - disse Voldemort em voz baixa. - Treze
anos... treze anos desde que nos encontramos pela última vez. Contudo, vocês
atendem ao meu chamado como se fosse ontem... então continuamos unidos sob
a Marca Negra! Ou será que não?
Ele retomou sua expressão ameaçadora e farejou, dilatando as narinas em
forma de fenda.
- Sinto cheiro de culpa - disse ele. - Há um fedor de culpa no ar. Um
segundo surto de arrepios percorreu o circulo, como se cada membro tivesse o
desejo, mas não a coragem, de se afastar dali.
- Vejo todos vocês, inteiros e saudáveis, com os seus poderes intactos, tão
desenvoltos!, e me pergunto... por que esse bando de bruxos nunca foi socorrer
seu amo, a quem jurou lealdade eterna?
Ninguém falou. Ninguém se mexeu exceto Rabicho, que continuava no
chão, chorando, o braço ensangüentado.
- E eu próprio respondo - sussurrou Voldemort -, porque devem ter
acreditado que eu estava derrotado, pensaram que eu acabara. Voltaram a se
misturar com os meus inimigos e alegaram inocência, ignorância e bruxaria...
- E então eu me pergunto, mas como é que vocês podem ter acreditado que
eu não me reergueria? Vocês, que conheciam as providências que eu tomara, há
muito tempo, para me proteger da morte humana? Vocês que tiveram provas da
imensidão do meu poder, na época em que fui mais poderoso do que qualquer
bruxo vivente?


- E eu mesmo respondo, talvez acreditassem que poderia haver um poder
ainda maior, um poder capaz de derrotar até Lord Voldemort... talvez vocês agora
prestem lealdade a outro... talvez àquele campeão da plebe, dos trouxas e
sangue-ruins, Alvo Dumbledore?"
À menção do nome de Dumbledore, os membros do circulo se inquietaram,
alguns murmuraram e negaram sacudindo a cabeça.
Voldemort ignorou-os.
- Um desapontamento para mim... confesso que estou desapontado...
Um dos bruxos se atirou subitamente à frente, rompendo o círculo.
Tremendo da cabeça aos pés, prostrou-se aos pés de Voldemort.
- Meu amo! - exclamou. - Meu amo, me perdoe! Nos perdoe todos!
Voldemort começou a rir. Ergueu a varinha.
- Crucio!
O Comensal da Morte no chão contorceu-se e gritou, Harry teve certeza de
que o som se propagava até as casas vizinhas...Tomara que a polícia chegue,
desejou ele desesperado... alguém... .alguma coisa...
Voldemort ergueu a varinha. O Comensal da Morte torturado se estatelou
no chão, arfando.
- Levante-se, Avery - disse Voldemort baixinho. - Ponha-se de pé. Você
está me pedindo perdão? Eu não perdôo. Eu não esqueço. Treze longos anos...
Quero um pagamento por esses treze anos antes de perdoar-lhes. Rabicho aqui já
pagou parte da dívida, não foi, Rabicho?
Ele baixou os olhos para o bruxo mutilado, que continuava a soluçar.
- Você voltou para mim, não por lealdade, mas por medo dos seus antigos
amigos. Você merece sentir dor, Rabicho. Você sabe disso, não sabe?
- Sei, meu amo - gemeu Rabicho -, por favor, meu amo... por favor...
- Contudo você me ajudou a recuperar meu corpo - disse Voldemort
friamente, observando o servo soluçar no chão. - Mesmo inútil e traiçoeiro como é,
você me ajudou... e Lord Voldemort recompensa quem o ajuda...
Voldemort tornou a erguer a varinha e girou-a no ar. Um fio que parecia
feito de prata liquefeita prolongou-se da varinha e pairou no ar. Momentaneamente
informe, o fio se agitou e em seguida se transformou na réplica brilhante de uma
mão humana, clara como o luar, que saiu voando e foi se prender ao pulso
sangrento de Rabicho.
Os soluços do bruxo pararam abruptamente. Com a respiração rascante e
falha, ele levantou a cabeça e fitou, incrédulo, a mão prateada, agora ligada sem
costura ao seu braço, como se ele estivesse usando uma luva luminosa. O bruxo
flexionou os dedos reluzentes, depois, trêmulo, apanhou um graveto no chão e
pulverizou-o.
- Milorde - sussurrou ele. - Meu amo... é linda... muito obrigado... muito
obrigado...
Ele avançou de joelhos e beijou a barra das vestes de Voldemort.
- Que a sua lealdade jamais volte a vacilar, Rabicho - disse Voldemort.
- Não, milorde... nunca, milorde...
Rabicho se levantou e tomou posição no círculo, sem tirar os olhos da mão
nova e poderosa, seu rosto lavado de lágrimas. Voldemort se aproximou então do
homem à direita de Rabicho.


- Lúcio, meu ardiloso amigo - murmurou ele se detendo diante do bruxo. -
Ouço dizer que você não renunciou aos seus hábitos antigos, embora para o
mundo você apresente uma imagem respeitável. Acredito que continue pronto
para assumir a liderança de uma torturazinha de trouxas? No entanto você nunca
tentou me encontrar, Lúcio... as suas aventuras na Copa Mundial de Quadribol
foram engraçadas, devo dizer... mas será que suas energias não teriam sido
melhor empregadas em procurar ajudar seu amo.
- Milorde, sempre estive constantemente alerta - ouviu-se na mesma hora a
voz de Lúcio Malfoy saindo por baixo do capuz. - Se tivesse havido algum sinal do
senhor, algum rumor sobre seu paradeiro, eu teria ido imediatamente para o seu
lado, nada teria me detido...
- Contudo, você correu da minha marca, quando um leal Comensal da
Morte a projetou no céu no verão passado - comentou displicentemente
Voldemort, e o Sr. Malfoy parou abruptamente de falar. - É, sei de tudo que
aconteceu, Lúcio... você me desapontou... espero serviços mais leais no futuro.
- Naturalmente, milorde, naturalmente... o senhor é misericordioso,
obrigado...
Voldemort continuou a andar e parou, reparando no espaço -
suficientemente grande para duas pessoas - que separava Malfoy do comensal
seguinte.
- Os Lestrange deveriam estar aqui - disse Voldemort baixinho. - Mas estão
enterrados vivos em Azkaban. Foram fiéis. Preferiram ir para Azkaban a renunciar
a mim... quando Azkaban for aberta, os Lestrange receberão honras que
ultrapassarão todos os seus sonhos. Os dementadores se unirão a nós...são
nossos aliados naturais... chamaremos de volta os gigantes banidos... todos os
meus servos devotados me serão devolvidos e um exército de criaturas que todos
temem...
Ele continuou sua caminhada. Passou por alguns comensais em silêncio,
mas parou diante de outros para lhes falar.
- Macnair... eliminando animais perigosos para o Ministério da Magia agora,
segundo me conta Rabicho. Breve você terá melhores vítimas, Macnair. Lord
Voldemort irá providenciá-las...
- Obrigado, meu amo... obrigado - murmurou Macnair.
- E aqui - Voldemort prosseguiu dirigindo-se aos dois maiores vultos
encapuzados ­ temos Crabbe... você vai trabalhar melhor desta vez, não vai,
Crabbe? E você, Goyle?
Os dois fizeram uma reverência desajeitada, murmurando com uma certa
lentidão:
- Sim, meu amo...
- Trabalharemos, meu amo...
- O mesmo se aplica a você, Nott - disse Voldemort baixinho, ao passar
pelo vulto curvado à sombra do Sr. Goyle.
- Milorde, eu me prostrei diante do senhor, sou o seu mais fiel...
- Basta - disse Voldemort.
Ele chegou, então, à maior lacuna no círculo, e parou contemplando-a com
seus olhos parados e vermelhos, como se pudesse ver pessoas em pé ali.


- E aqui temos seis Comensais da Morte ausentes... três mortos a meu
serviço. Um demasiado covarde para voltar... ele me pagará. Um que eu acredito
ter me deixado para sempre... este será morto, é claro... e um que continua sendo
meu mais fiel servo, e que já reingressou no meu serviço.
Os Comensais da Morte se agitaram, Harry viu que eles se entreolhavam
por trás das máscaras.
- Ele está em Hogwarts, esse servo fiel, e foi graças aos seus esforços que
o nosso jovem amigo chegou aqui esta noite... Sim, disse Voldemort, um sorriso
crispando sua boca sem lábios, quando os olhares do círculo convergiram para
Harry. - Harry Potter teve a gentileza de se reunir a nós para comemorar a minha
ressurreição. Poderíamos até chamá-lo de meu convidado de honra.
Fez-se silêncio. Em seguida o Comensal da Morte à direita de Rabicho deu
um passo à frente, e a voz de Lúcio Malfoy falou por baixo da máscara.
- Meu amo, é grande o nosso desejo de saber... suplicamos que nos
conte... como foi que o senhor conseguiu este... milagre... como conseguiu voltar
para nós...
- Ah, que história extraordinária, Lúcio! - disse Voldemort. - E ela começa...
e termina... com o meu jovem amigo aqui.
Ele caminhou descansadamente e parou ao lado de Harry, fazendo com
que os olhos de todo o círculo se voltassem para os dois. A cobra continuava a
rastejar em círculos.
- Vocês sabem, naturalmente, que muitos chamam este garoto de minha
perdição! ­ disse Voldemort baixinho, os olhos fixos em Harry, cuja cicatriz
começou a arder tão ferozmente que ele quase gritou de agonia. - Vocês todos
sabem que na noite em que perdi meus poderes e o meu corpo, tentei matá-lo. A
mãe dele morreu, tentando salvá-lo, e, sem saber, o resguardou com uma
proteção que, devo admitir, eu não havia previsto... Eu não pude tocar no rapaz.
Voldemort ergueu um longo dedo branco e levou-o até próximo do rosto de
Harry.
- A mãe deixou nele os vestígios do seu sacrifício... isto é magia antiga, de
que eu devia ter me lembrado, foi uma tolice tê-la esquecido... mas isso não
importa. Eu agora posso tocá-lo.
Harry sentiu a ponta fria do longo dedo branco tocá-lo, e pensou que sua
cabeça ia explodir de dor. Voldemort riu de mansinho na orelha do garoto, depois
afastou o dedo e continuou a se dirigir aos Comensais da Morte.
- Eu calculei mal, meus amigos, admito. Minha maldição foi refratada pelo
tolo sacrifício da mulher e ricocheteou contra mim. Ah... a dor que ultrapassa a
dor, meus amigos, nada poderia ter me preparado para aquilo. Fui arrancado do
meu corpo, me tornei menos que um espírito, menos que o fantasma mais
insignificante... mas, ainda assim, continuei vivo. Em que me transformei, nem eu
mesmo sei... eu que cheguei mais longe do que qualquer outro no caminho que
leva à imortalidade. Vocês conhecem o meu objetivo, vencer a morte. E agora fui
testado, e aparentemente uma, ou mais de uma, das minhas experiências foi bem-
sucedida... pois eu não morri, embora a maldição devesse ter me matado.
Contudo, fiquei tão impotente quanto a mais fraca criatura viva e sem meios de
ajudar a mim mesmo... pois não possuía mais corpo, e qualquer feitiço que
pudesse ter me ajudado exigia o uso da varinha...


- Só me lembro de me obrigar, sem dormir, sem cessar, segundo a
segundo, a existir... fui morar em um lugar distante, numa floresta e esperei...
certamente um dos meus fiéis Comensais da Morte tentaria me encontrar... um
deles viria e realizaria por mim a mágica necessária para eu recuperar meu
corpo... mas esperei em vão...
O arrepio tornou a perpassar o círculo de atentos Comensais da Morte.
Voldemort deixou o silêncio espiralar de modo terrível antes de prosseguir:
- Só me restara um poder. Eu podia me apossar do corpo de outros. Mas eu
não me atrevia a ir aonde viviam muitos humanos, pois eu sabia que os aurores
continuavam a viajar pelo exterior à minha procura. Por vezes eu habitava
animais, as cobras, é claro, eram minhas preferidas, mas eu não ficava muito
melhor dentro delas do que como puro espírito, porque seus corpos eram mal
equipados para realizar mágicas... e apossar-me delas encurtava suas vidas,
nenhuma delas sobreviveu muito tempo...
- Então... há quatro anos... os meios para o meu retorno me pareceram
garantidos. Um bruxo, jovem, tolo e crédulo, cruzou o meu caminho na floresta em
que eu vivia. Ah, ele parecia exatamente a chance com que eu sonhara... porque
era professor na escola de Dumbledore... era dócil à minha vontade... e me trouxe
de volta a este país e, pouco depois, me apoderei do seu corpo para vigiá-lo de
perto enquanto cumpria minhas ordens. Mas meu plano fracassou. Não consegui
roubar a Pedra Filosofal.
= Não pude obter a vida eterna. Fui impedido... fui impedido, mais uma vez,
por Harry Potter...
Novamente o silêncio, nada se movia, nem mesmo as folhas do teixo. Os
Comensais da Morte permaneceram muito quietos, os olhos cintilantes em suas
máscaras fixos em Voldemort e Harry.
- Meu servo morreu quando abandonei seu corpo, e fiquei mais fraco do
que jamais estive. Voltei ao meu esconderijo distante, e não vou fingir que não
receei então que talvez jamais recuperasse meus poderes... sim, aquela talvez
tenha sido a hora mais negra da minha vida... Eu não poderia esperar que caísse
do céu outro bruxo para eu me apoderar... e já perdera as esperanças de que
algum Comensal da Morte se importasse com o que me acontecera...
Uns dois bruxos mascarados no círculo se mexeram constrangidos, mas
Voldemort não lhes deu a menor atenção.
- Então, há menos de um ano, quando eu praticamente abandonara toda
esperança, aconteceu... um servo voltou para mim, o Rabicho aqui, que simulara a
própria morte para fugir à justiça, foi forçado a se expor por aqueles que no
passado tinham sido seus amigos, e resolveu voltar para o seu amo. Ele me
procurou no campo onde houvera boatos de que eu estaria escondido... ajudado,
naturalmente, pelos ratos que encontrou em seu caminho. Rabicho tem uma
curiosa afinidade por ratos, não é mesmo, Rabicho? Seus imundos amiguinhos lhe
contaram que havia um lugar, no meio de uma floresta albanesa que eles
evitavam, onde pequenos animais como eles encontravam a morte pelas mãos de
um vulto escuro que os possuía...
- Mas a viagem de regresso não correu tranqüilamente para mim, não é,
Rabicho? Certa noite, esfomeado, na orla da floresta em que esperava me
encontrar, ele parou, tolamente, em uma estalagem para comer alguma coisa... e


quem ele haveria de encontrar lá, se não Berta Jorkins, uma bruxa do Ministério
da Magia?
- Agora vejam como o destino favorece Lord Voldemort. Isto poderia ter sido
o fim de Rabicho e da minha última chance de regeneração. Mas Rabicho ­
revelando uma presença de espírito que eu jamais esperaria dele - convenceu
Berta Jorkins a acompanhá-lo em um passeio noturno. Ele a dominou... e a trouxe
até mim. E Berta Jorkins, que poderia ter posto tudo a perder, em vez disso
provou ser uma dádiva que superou as minhas expectativas mais extravagantes...
pois, com um nadinha de persuasão, tornou-se uma verdadeira mina de
informações.
- Ela me contou que este ano seria realizado um Torneio Tribruxo em
Hogwarts. E que conhecia um Comensal da Morte fiel que teria muito prazer em
me ajudar, se eu o procurasse. Ela me contou muitas coisas... mas os meios que
usei para romper o Feitiço da Memória que a dominava foram fortes, e depois que
extrai dela toda informação útil, sua mente e seu corpo ficaram irrecuperavelmente
danificados. Servira sua finalidade. Mas eu não poderia me apossar do seu corpo.
Descartei-a.
Voldemort sorriu, aquele sorriso medonho, seus olhos vermelhos vidrados e
cruéis.
- O corpo de Rabicho, naturalmente, era pouco próprio para uma
possessão, já que todos o presumiam morto e ele atrairia demasiada atenção se
fosse visto. Contudo, era o servo fisicamente válido de que eu precisava. E,
embora fosse um bruxo medíocre, foi capaz de seguir as instruções que lhe dei e
que me devolveriam um corpo rudimentar e fraco porém meu, um corpo que eu
poderia habitar enquanto esperava os ingredientes essenciais para uma
verdadeira ressurreição... uns feitiços de minha própria invenção... uma
ajudazinha de Nagini - os olhos de Voldemort se voltaram para a cobra que
circulava a Lápide sem parar -, uma poção feita com sangue de unicórnio, veneno
de cobra fornecido por Nagini... e logo eu recuperei uma forma quase humana e
suficientemente forte para viajar.
- Não havia mais esperanças de roubar a Pedra Filosofal, pois eu sabia que
Dumbledore teria tomado providências para destruí-la. Mas eu estava disposto a
abraçar mais uma vez a vida mortal antes de perseguir a imortal. Estabeleci
objetivos mais modestos...Aceitei ter o meu antigo corpo e a minha antiga força de
volta.
- Eu sabia que para obter isso, que é uma velha peça de Magia Negra a
poção que me reanimou hoje à noite, eu precisaria de três poderosos ingredientes.
Bem, um deles já estava à mão, não é mesmo, Rabicho? A carne doada por um
servo...
- O osso do meu pai, naturalmente, significava que eu teria que vir até aqui,
onde ele estava enterrado. Mas o sangue de um inimigo... Rabicho queria que eu
usasse um bruxo qualquer, não foi, Rabicho? Um bruxo qualquer que tivesse me
odiado... como tantos ainda odeiam. Mas eu sabia do que precisava, se era para
me reerguer mais poderoso do que tinha sido antes da queda. Eu queria o sangue
de Harry Potter. Eu queria o sangue daquele que tinha me despojado do poder há
treze anos, porque a proteção duradoura que a mãe dele tinha lhe dado circularia
em minhas veias também...


- Mas como apanhar Harry Potter? Porque ele foi protegido muito mais do
que acho que ele sabe, protegido de várias maneiras criadas por Dumbledore há
muito tempo, quando recebeu o encargo de cuidar do futuro do garoto.
Dumbledore invocou uma mágica antiga para garantir a proteção ao garoto
enquanto estivesse aos cuidados dos parentes. Nem mesmo eu posso tocá-lo em
casa deles... depois, naturalmente houve a Copa Mundial de Quadribol... achei
que a proteção dele enfraqueceria ali, longe dos parentes e de Dumbledore, mas
eu ainda não estava suficientemente forte para tentar seqüestrá-lo em meio a uma
horda de bruxos do Ministério. Depois, o garoto retornaria a Hogwarts, onde vive
debaixo do nariz torto daquele tolo, amante de trouxas, de manhã à noite. Então,
como poderia capturá-lo?
- Ora... aproveitando as informações de Berta Jorkins, é claro. Usando o
meu fiel Comensal da Morte, baseado em Hogwarts, para garantir que o nome do
garoto fosse inscrito no Cálice de Fogo. Usando o meu Comensal da Morte para
garantir que o garoto ganhasse o torneio - que tocasse a Taça Tribruxo primeiro,
Taça que o meu Comensal da Morte havia transformado em uma Chave de Portal
para trazê-lo aqui, longe do socorro e proteção de Dumbledore, até o aconchego
dos meus braços abertos para recebê-lo. E aqui está ele... o garoto que vocês
todos acreditaram que tinha sido minha ruína...
Voldemort avançou lentamente e se virou para encarar Harry.
Ergueu a varinha.
- Crucio!
Foi uma dor que superou qualquer coisa que Harry já sofrera, seus próprios
ossos pareciam estar em fogo, sua cabeça, sem dúvida alguma, estava rachando
ao longo da cicatriz, seus olhos giravam descontrolados em sua cabeça, ele
queria que tudo terminasse... que perdesse os sentidos... morresse...
Então passou. Ele ficou pendurado nas cordas que o prendiam à lápide do
pai de Voldemort, olhando aqueles brilhantes olhos vermelhos através de uma
espécie de névoa. A noite ressoava com o estrépito das risadas dos Comensais
da Morte.
- Estão vendo a tolice que foi vocês suporem que este garoto algum dia
pudesse ser mais forte que eu? - ponderou Voldemort. - Mas eu não quero que
reste nenhum engano na mente de ninguém. Harry Potter me escapou por pura
sorte. E vou provar o meu poder matando-o, aqui e agora, diante de todos vocês,
onde não há Dumbledore para ajudá-lo nem mãe para morrer por ele. Vou dar a
Harry uma oportunidade. Ele poderá lutar, e vocês não terão mais dúvida alguma
sobre qual de nós é mais forte. Espere mais um pouquinho Nagini - sussurrou ele,
e a cobra se afastou, deslizando pelo capim, até o local em que os Comensais da
Morte estavam parados observando.
- Agora, desamarre-o Rabicho, e devolva sua varinha.

- CAPITULO TRINTA E QUATRO -
Priori Incantatem

Rabicho aproximou-se de Harry, que tentou se aprumar para sustentar o
corpo antes que as cordas fossem desamarradas. Rabicho ergueu a nova mão
prateada, puxou o chumaço de pano que amordaçava Harry e então, com um
único movimento, cortou as cordas que prendiam o garoto à lápide.
Houve talvez uma fração de segundo em que Harry poderia ter pensado em
fugir, mas sua perna machucada estremeceu sob o peso do corpo quando ele
firmou os pés no túmulo malcuidado, ao mesmo tempo que os Comensais da
Morte cerraram fileiras, apertando o círculo em torno dele e de Voldemort, e os
claros que seriam dos Comensais da Morte ausentes se fecharam. Rabicho saiu
do círculo e foi até onde jazia o corpo de Cedrico, e voltou trazendo a varinha de
Harry, que ele enfiou com brutalidade na mão do garoto sem sequer olhá-lo.
Depois, Rabicho retomou seu lugar no círculo de comensais que observavam.
- Você aprendeu a duelar, Harry Potter? - perguntou Voldemort
suavemente, seus olhos vermelhos brilhando no escuro.
Ao ouvir a pergunta Harry se lembrou, como se pertencesse a uma vida
anterior, do Clube dos Duelos em Hogwarts que ele freqüentara brevemente há
dois anos... a única coisa que aprendera tinha sido o Feitiço para Desarmar,
"Expelliarmus?... e de que adiantaria isso, mesmo que ele pudesse privar
Voldemort de sua varinha, quando ele estava rodeado de Comensais da Morte e
em desvantagem de, no mínimo, trinta a um? Ele jamais aprendera nada que o
tivesse preparado minimamente para uma situação dessas. Sabia que estava
enfrentando aquilo contra o qual Moody sempre o alertara... a Maldição Avada
Kedavra, impossível de bloquear - e Voldemort tinha razão -, desta vez a mãe de
Harry não estava ali para morrer por ele... não contava com proteção alguma...
- Nos cumprimentamos com uma curvatura, Harry - disse Voldemort, se
inclinando ligeiramente, mas mantendo o rosto de cobra erguido para Harry. -
Vamos, as boas maneiras devem ser observadas...Dumbledore gostaria que você
demonstrasse educação... curve-se para a morte, Harry...
Os Comensais da Morte deram novas gargalhadas. A boca sem lábios de
Voldemort riu. Harry não se curvou. Não ia deixar o bruxo brincar com ele antes de
matá-lo... não ia lhe dar essa satisfação...
- Eu disse, curve-se - repetiu Voldemort, erguendo a varinha, e Harry sentiu
sua coluna se curvar como se uma mão enorme e invisível o empurrasse
impiedosamente para a frente, e os Comensais da Morte riram com mais gosto
que nunca.
- Muito bem, disse Voldemort suavemente, e quando ele baixou a varinha a
pressão que empurrava Harry se aliviou também. - Agora você me enfrenta, como
homem... de costas retas e orgulhoso, do mesmo modo que seu pai morreu...
Agora... vamos ao duelo.
O bruxo ergueu a varinha antes que Harry pudesse fazer alguma coisa para
se defender, antes que pudesse sequer se mexer, e ele foi atingido pela Maldição
Cruciatus. A dor foi tão intensa, e tão devoradora, que Harry já nem sabia onde
estava... facas em brasa perfuravam cada centímetro de sua pele, sua cabeça,


sem dúvida alguma, ia explodir de dor, ele gritava mais alto do que jamais gritara
na vida...
Então tudo parou. Harry se virou e tentou ficar em pé; tremeu
descontrolado, como fizera Rabicho quando decepara a própria mão, cambaleou
para os lados na direção dos Comensais da Morte ao redor, e eles o empurraram
de volta a Voldemort.
- Uma pequena pausa ­ disse o bruxo, as narinas de cobra se dilatando de
excitação - uma pequena pausa... isso doeu, não foi Harry? Você não quer que eu
faça isso outra vez, quer?
Harry não respondeu. Ia morrer como Cedrico, era o que aqueles olhos
vermelhos e cruéis estavam lhe dizendo... ia morrer, e não havia nada que
pudesse fazer para evitá-lo... mas não ia facilitar. Não ia obedecer a Voldemort...
não ia suplicar...
- Perguntei se quer que eu faça isso outra vez ­ disse Voldemort
gentilmente. - Responda! Império!
E Harry teve, pela terceira vez em sua vida, a sensação de que todos os
pensamentos tinham se apagado de sua mente... ah, foi uma felicidade, não
pensar, foi como se estivesse flutuando, sonhando...apenas responda "não"!...
diga "não"!.. apenas responda "não"!.
Não direi, falou uma voz mais forte no fundo de sua cabeça, não
responderei... Apenas responda "não"!..
Não vou responder, não vou dizer isso...
Apenas responda "não "!.
- NÃO VOU RESPONDER!
E essas palavras explodiram da boca de Harry, ecoaram pelo cemitério, e o
estado onírico em que mergulhara se dissolveu repentinamente como se tivessem
lhe atirado um balde de água fria ­ renovaram-se as dores que a Maldição
Cruciatus deixara por todo o seu corpo - renovou-se a consciência de onde
estava, do que estava enfrentando...
- Não vai? - disse Voldemort suavemente, e agora os Comensais da Morte
não estavam rindo. - Não vai dizer "não"? Harry, a obediência é uma virtude que
preciso lhe ensinar antes de você morrer...talvez mais uma dosezinha de dor?
Voldemort ergueu a varinha, mas desta vez Harry estava preparado, com
os reflexos nascidos da prática de quadribol, ele se atirou para um lado no chão,
rolou para trás da lápide de mármore do pai de Voldemort e a ouviu rachar quando
o feitiço errou o alvo.
- Não estamos brincando de esconde-esconde, Harry - disse a voz suave e
fria de Voldemort, aproximando-se, enquanto os Comensais da Morte riam. - Você
não pode se esconder de mim. Será que isso significa que já se cansou do nosso
duelo? Será que significa que você prefere que eu o encerre agora, Harry? Saia
daí, Harry... saia e venha brincar, então... será rápido... talvez até indolor... Eu não
saberia dizer... eu nunca morri...
Harry continuou agachado atrás da lápide e percebeu que chegara o seu
fim. Não havia esperança... nenhuma ajuda de ninguém. Quando ouviu Voldemort
chegar ainda mais perto, ele soube apenas uma coisa que transcendeu o medo e
a razão - ele não ia morrer agachado ali como uma criança brincando de esconde
-esconde; não ia morrer ajoelhado aos pés de Voldemort... ia morrer de pé como


seu pai, e ia morrer tentando se defender, mesmo que não houvesse defesa
alguma possível...
Antes que Voldemort pudesse meter a cara viperina atrás da lápide, Harry
se levantou... agarrou a varinha com força, empunhou-a à frente e saiu rápido
detrás da lápide para encarar Voldemort.
O bruxo estava pronto. Quando Harry gritou "Expeliarmus!", Voldemort
gritou "Avada Kedavra!"
Um jorro de luz verde saiu da varinha de Voldemort na mesma hora em que
um jorro de luz vermelha disparou da de Harry - e os dois se encontraram no ar - e
de repente, a varinha de Harry começou a vibrar como se uma descarga elétrica
estivesse entrando por ela, sua mão estava presa à varinha, ele não teria podido
soltá-la se quisesse - e um fino feixe de luz agora ligava as duas varinhas, nem
vermelha nem verde, mas um dourado intenso e rico -, e Harry, acompanhando o
feixe com o olhar espantado, viu que os dedos longos e brancos de Voldemort
também agarravam uma varinha que sacudia e vibrava.
E então - nada poderia ter preparado Harry para isso - ele sentiu seus pés
se elevarem do chão. Ele e Voldemort estavam sendo erguidos no ar, as varinhas
ainda ligadas por aquele fio de luz dourada e tremeluzente. Os dois estavam se
afastando do túmulo do pai de Voldemort e por fim pousaram num trecho de
terreno limpo e sem túmulos... Os Comensais da Morte gritavam, pedindo
instruções a Voldemort; se aproximavam e se reagrupavam em um círculo em
volta dos dois, a cobra em seus calcanhares, alguns bruxos sacando as varinhas...
O fio dourado que ligava Harry e Voldemort se fragmentou: embora as
varinhas continuassem ligadas, mil outros fios brotaram e formaram um arco sobre
os dois, e foram se entrecruzando a toda volta, até encerrá-los em uma teia
dourada como uma redoma, uma gaiola de luz, para além da qual os Comensais
da Morte rondavam como chacais, seus gritos estranhamente abafados...
- Não façam nada! - gritou Voldemort para os Comensais da Morte, e Harry
viu os olhos vermelhos do bruxo se arregalarem para o que estava acontecendo,
viu-o lutar para romper o fio de luz que continuava ligando sua varinha à de Harry;
o garoto apertou a varinha com mais força, com as duas mãos, e o fio dourado
continuou inteiro.
- Não façam nada a não ser que eu mande! - gritou Voldemort para os
Comensais da Morte.
Então um som belo e sobrenatural encheu o ar...vinha de cada fio de luz da
teia que vibrava em torno de Harry e Voldemort. Era um som que o garoto
reconhecia, embora só o tivesse ouvido uma vez na vida... a canção da fênix...
Era o som da esperança para Harry... o mais belo e mais bem-vindo que ele
já ouvira na vida... o garoto teve a sensação de que o som estava dentro dele e
não apenas à sua volta... era o som que ele associava a Dumbledore, e era quase
como se um amigo estivesse falando em seu ouvido...
Não rompa a ligação.
Eu sei, Harry disse à música, eu sei que não devo... mas mal acabara de
dizer isso, e a coisa se tornou muito mais difícil de fazer. Sua varinha começou a
vibrar mais violentamente do que antes... e agora o fio de luz entre ele e
Voldemort mudou também... era como se grandes contas de luz estivessem
deslizando para a frente e para trás no fio que ligava as varinhas - Harry sentiu a


sua estremecer com força, quando as contas de luz começaram a deslizar lenta e
continuamente em sua direção... agora o movimento do feixe de luz vinha de
Voldemort para ele, e ele sentiu a varinha vibrar de indignação...
Quando a conta de luz mais à frente se aproximou da ponta da varinha de
Harry, a madeira em seus dedos esquentou de tal forma que o garoto receou que
ela fosse romper em chamas. Quanto mais perto chegava a conta, mais
violentamente a varinha de Harry vibrava, ele tinha certeza de que sua varinha
não sobreviveria a um contato direto com a conta, ela parecia prestes a se
esfacelar sob seus dedos...
Harry concentrou cada partícula de sua mente em obrigar a conta a voltar
para Voldemort, seus ouvidos tomados pela canção da fênix, seus olhos furiosos,
fixos... e lentamente, muito lentamente, as contas estremeceram e pararam, e em
seguida, de forma igualmente lenta, começaram a se deslocar para o lado
oposto... e foi a varinha de Voldemort que começou a vibrar com muita violência...
Voldemort que parecia perplexo e quase temeroso...
Uma das contas de luz estremecia a centímetros da ponta da varinha de
Voldemort. Harry não entendia por que estava fazendo aquilo, não sabia o que
obteria... mas começou a se concentrar, como nunca fizera na vida, em forçar
aquela conta de luz a voltar à varinha de Voldemort... e lentamente...muito
lentamente... ela foi se deslocando pelo fio dourado... estremeceu por um
momento... e então fez contato...
Na mesma hora, a varinha de Voldemort começou a emitir gritos
ressonantes de dor... depois... os olhos vermelhos do bruxo se arregalaram de
choque ­ uma mão, densa e fumegante voou da ponta da varinha e
desapareceu... o fantasma da mão que ele fizera para Rabicho... mais gritos de
dor... e então algo muito maior começou a brotar da ponta da varinha de
Voldemort, algo imenso e acinzentado, algo que parecia ser feito da mais sólida e
densa fumaça... era uma cabeça, depois um peito e os braços... o tronco de
Cedrico Diggory.
Se em algum momento Harry pudesse ter soltado a varinha de susto, teria
sido então, mas o instinto o fez continuar segurando-a com força, de modo que o
fio de luz dourada permaneceu intacto, embora o fantasma cinzento e denso de
Cedrico Diggory (seria um fantasma? Parecia tão sólido) emergisse em sua
inteireza da ponta da varinha de Voldemort, como se estivesse se espremendo
para fora de um túnel muito estreito... e esta sombra de Cedrico ficou em pé e
examinou o fio de luz dourada de uma ponta a outra e falou.
- Agüenta firme, Harry.
Era uma voz distante como um eco, Harry olhou para Voldemort... os olhos
vermelhos e arregalados do bruxo ainda expressavam choque... tal qual Harry, ele
não esperara uma coisa daquelas... e, muito indistintamente, Harry ouviu os gritos
amedrontados dos Comensais da Morte, rodeando a redoma dourada...
Novos gritos de dor da varinha... então mais uma coisa surgiu em sua
ponta... a sombra densa de uma segunda cabeça, rapidamente seguida de braços
e tronco... um velho que Harry vira uma vez em sonho tentava agora sair da ponta
da varinha do mesmo modo que Cedrico o fizera... e seu fantasma, ou sua
sombra, ou o que fosse, caiu ao lado do de Cedrico, examinou Harry e Voldemort,


a teia dourada e as varinhas que se tocavam, levemente surpreso, apoiando-se
em uma bengala...
- Então ele era um bruxo de verdade? - perguntou o velho, com os olhos em
Voldemort. ­ Me matou, esse aí... enfrenta ele, moleque...
Mas já, outra cabeça vinha surgindo... e esta, grisalha como uma estátua de
fumaça, era de uma mulher... Harry os dois braços trêmulos com o esforço para
manter a varinha parada, viu a mulher cair ao chão e se aprumar como tinham
feito os outros, examinando tudo com atenção...A sombra de Berta Jorkins
contemplou a luta diante dela de olhos arregalados.
- Não solte! - exclamou, e sua voz ecoou como a de Cedrico, como se
viesse de muito longe. - Não deixe ele pegar você, Harry, não solte a varinha!
Ela e as outras duas sombras começaram a rodear as paredes da teia
dourada ao mesmo tempo que os Comensais da Morte se moviam rapidamente
pelo lado de fora... e, enquanto rodeavam os duelistas, as vítimas de Voldemort
sussurravam palavras de estímulo a Harry e sibilavam outras, que Harry não podia
ouvir, para Voldemort.
Agora, outra cabeça vinha emergindo da ponta da varinha do bruxo... e
Harry soube, ao vê-la, quem seria... ele sabia, como se esperasse isso desde o
momento em que Cedrico saíra da varinha... soube porque a mulher que apareceu
era aquela em quem ele pensara mais do que em qualquer outra pessoa esta
noite...
A sombra esfumaçada de uma mulher jovem de cabelos longos caiu no
chão como fizera Berta, se endireitou e olhou para ele... e Harry, com os braços
tremendo loucamente agora, retribuiu o olhar do rosto fantasmagórico de sua mãe.
- Seu pai está vindo... - disse ela baixinho. - Ele quer ver você... vai dar tudo
certo... agüente firme...
E ele veio... primeiro a cabeça, depois o corpo... alto, os cabelos rebeldes
como os de Harry, a sombra esfumaçada de Tiago Potter brotou da ponta da
varinha de Voldemort, caiu ao chão e se levantou como havia feito sua mulher. Ele
se aproximou de Harry fitando o filho, e falou na mesma voz distante e ressonante
como os demais, mas em tom baixo, de modo que Voldemort, agora com o rosto
lívido de medo ao ver suas vítimas a rodeá-lo, não pudesse ouvir...
- Quando a ligação for interrompida, permaneceremos apenas uns
momentos... mas vamos lhe dar tempo... você precisa chegar à Chave do Portal,
ela o levará de volta a Hogwarts... entendeu, Harry?
- Entendi - ofegou Harry, lutando para manter firme a varinha, que agora
começava a escapar e a escorregar sob seus dedos.
- Harry... - sussurrou a figura de Cedrico - por favor, leva o meu corpo com
você? Leva o meu corpo para os meus pais...
- Levo - prometeu Harry, seu rosto contraído com o esforço de agüentar a
varinha.
- Faça isso agora - sussurrou seu pai. - Prepare-se para correr... faça isso
agora...
- AGORA! - berrou Harry; de qualquer modo, ele não achava que pudesse
continuar segurando a varinha nem mais um instante, ergueu-a no ar, com um
puxão violento, e o fio dourado se rompeu, a gaiola de luz desapareceu, a música


da fênix silenciou, mas as sombras das vítimas de Voldemort não desapareceram,
avançaram para o bruxo, escondendo Harry do seu olhar...
E Harry correu como nunca correra na vida, derrubando dois Comensais da
Morte abobados ao passar, depois ziguezagueou por trás de lápides, sentindo
maldições acompanharem-no, ouvindo-as bater nas lápides - evitou maldições e
túmulos, correndo em direção ao corpo de Cedrico, sem sequer sentir a perna
doer, todo o seu ser se concentrando no que precisava fazer...
- Estupore-o!- ele ouviu Voldemort gritar.
A dez passos de Cedrico, Harry mergulhou atrás de um anjo de mármore
para evitar os jorros de luz vermelha e viu a ponta da asa do anjo desmoronar ao
ser atingida pelos feitiços. Apertando com mais força a varinha, ele saiu ligeiro de
trás do anjo...
- Impedimenta!- berrou ele, apontando a varinha de qualquer jeito por cima
do ombro na direção geral dos Comensais da Morte que corriam em seu encalço.
Por um grito abafado que ouviu, ele achou que conseguira fazer parar pelo
menos um, mas não havia tempo para se deter e olhar, ele saltou por cima da
Taça e mergulhou ao ouvir mais explosões saírem das varinhas às suas costas,
mais jorros de luz voaram por cima de sua cabeça quando ele caiu, esticando a
mão para agarrar o braço de Cedrico...
- Afastem-se! Eu o matarei! Ele é meu! - gritou a voz aguda de Voldemort.
A mão de Harry se fechou no pulso de Cedrico, havia uma lápide entre ele
e Voldemort, mas Cedrico era demasiado pesado para carregar, e a Taça estava
fora do seu alcance...
Os olhos vermelhos de Voldemort chispavam no escuro. Harry viu a boca
do bruxo se crispar num sorriso e viu-o erguer a varinha.
- Accio! - berrou Harry, apontando a própria varinha para a Taça Tribruxo.
A Taça voou pelo ar em sua direção - Harry agarrou-a pela asa...
Ele ouviu o grito de fúria de Voldemort no mesmo instante em que sentiu o
solavanco no umbigo que significava que a Chave do Portal fora acionada... ele se
afastou em alta velocidade num turbilhão de vento e cor, levando Cedrico junto...
os dois estavam voltando...


CAPITULO TRINTA E CINCO
Veritaserum

Harry sentiu que caía chapado no chão, seu rosto comprimiu a grama, cujo
cheiro invadiu suas narinas. Ele fechara os olhos enquanto a Chave do Portal o
transportava, e os mantinha fechados até aquele momento. Não se mexeu.
Todo o ar parecia ter sido expulso dos seus pulmões, sua cabeça rodava
tanto que ele sentia o chão balançar sob seu corpo como se fosse o convés de um
navio.
Para se firmar, apertou com mais força as duas coisas que continuava a
segurar - a asa lisa e fria da Taça Tribruxo e o corpo de Cedrico. Tinha a
sensação de que ia deslizar para a escuridão que se formava na periferia do seu
cérebro se largasse qualquer das duas.


O choque e a exaustão o mantiveram no chão, inspirando o cheiro de
grama, esperando... esperando que alguém fizesse alguma coisa... que alguma
coisa acontecesse... e, todo o tempo, sua cicatriz ardia surdamente em sua testa...
Uma enxurrada de sons o ensurdeceu e confundiu, havia vozes por toda
parte, passos, gritos... ele continuou onde estava, o rosto contraído contra o
barulho, como se aquilo fosse um pesadelo que ia passar...
Então duas mãos o agarraram com uma certa violência e o viraram de
barriga para cima.
- Harry! Harry!
O garoto abriu os olhos.
Estava olhando para o céu estrelado e Alvo Dumbledore se debruçava
sobre ele. As sombras escuras das pessoas que se aglomeravam ao seu redor se
aproximavam, Harry sentiu o chão sob sua cabeça vibrar com a aproximação dos
seus passos.
Ele voltara ao exterior do labirinto. Via as arquibancadas no alto, os vultos
das pessoas que se movimentavam nelas, as estrelas no céu. Harry largou a
Taça, mas segurou Cedrico mais junto dele e com mais força. Ergueu a mão livre
e agarrou o pulso de Dumbledore, enquanto o rosto do bruxo saía de foco e
tornava a entrar.
- Ele voltou - sussurrou Harry - Ele voltou. Voldemort.
- Que está acontecendo? Que está acontecendo?
O rosto de Cornélio Fudge apareceu invertido sobre Harry; parecia pálido e
perplexo.
- Meu Deus, Diggory! - murmurou. - Dumbledore, ele está morto!
Essas palavras foram repetidas, as sombras que se comprimiam ao redor
deles as exclamaram para as mais próximas... depois outras as gritaram ­
guincharam - para a noite "Ele está morto!" "Ele está morto!" "Cedrico Diggory!
Morto!"
- Harry, solte-o - ele ouviu Fudge dizer, e sentiu dedos que tentavam forçar
os seus a se abrirem para soltar o corpo inerte de Cedrico, mas Harry resistiu.
Então o rosto de Dumbledore, que continuava borrado e difuso, se aproximou.
- Harry, você não pode mais ajudá-lo. Terminou. Solte-o.
- Ele queria que eu o trouxesse de volta - murmurou Harry, pareceu-lhe
importante explicar isso. - Ele queria que eu o trouxesse de volta para os pais...
- Certo, Harry... agora solte-o...
Dumbledore se curvou e, com uma força extraordinária para um homem tão
velho e magro, ergueu Harry do chão e o pôs de pé. Harry oscilou. Sua cabeça
latejava com força. Sua perna machucada não queria mais sustentar o seu peso.
As pessoas aglomeradas ao redor se acotovelavam, tentando chegar mais
próximo, empurrando sombriamente.
- Que foi que houve?
- Que aconteceu com ele?
- Diggory está morto!
- Ele precisa ir para a ala hospitalar! - dizia Fudge em voz alta.
- Ele está mal, está ferido, Dumbledore, os pais de Diggory estão aqui,
estão nas arquibancadas...
- Eu levo Harry, Dumbledore, eu o levo...


- Não, eu prefiro... que deve lhe contar... antes que ele veja...?
- Dumbledore, Amos Diggory está correndo... está vindo para cá. - Harry,
fique aqui...
Garotas gritavam, soluçavam, histéricas... a cena lampejava estranhamente
diante dos olhos de Harry...
- Está tudo bem, filho, estou com você... vamos... ala hospitalar...
- Dumbledore disse para eu ficar - disse Harry com a fala pastosa, a
palpitação na cicatriz fazendo-o sentir vontade de vomitar, sua visão mais borrada
que nunca.
- Você precisa se deitar... vamos, agora...
Alguém maior e mais forte do que ele, meio que o puxou, meio que o
carregou entre os espectadores assustados, Harry ouvia as pessoas exclamarem,
gritarem e berrarem à medida que o homem que o segurava abria caminho por
elas, levando o garoto para o castelo. Atravessaram o gramado, passaram o lago
e o navio de Durmstrang, Harry não ouvia nada, exceto a respiração ruidosa do
homem que o ajudava a caminhar.
- Que aconteceu, Harry? - perguntou o homem finalmente, erguendo-o para
galgar os degraus de pedra da entrada. Toque. Toque. Toque. Era Olho-Tonto
Moody.
- A Taça era uma Chave de Portal - disse Harry ao atravessarem o saguão
de entrada. - Nos levou para um cemitério... e Voldemort estava lá... Lord
Voldemort...
Toque. Toque. Toque. Escadaria de mármore acima...
- O Lord das Trevas estava lá? Que aconteceu depois?
- Matou Cedrico... mataram Cedrico...
- E então?
Toque. Toque. Toque. Pelo corredor...
- Preparou uma poção... recuperou o corpo dele...
- O Lord das Trevas recuperou o corpo? Ele voltou?
- E os Comensais da Morte vieram... depois nós duelamos...
- Você duelou com o Lord das Trevas?
- Escapei... minha varinha... fez uma coisa engraçada... vi meu pai e minha
mãe... eles saíram da varinha dele...
- Aqui dentro, Harry... aqui dentro, e sente-se... você vai ficar bom agora...
beba isso... Harry ouviu uma chave girar na fechadura e sentiu que empurravam
um copo em suas mãos.
- Beba isso... você vai se sentir melhor... vamos Harry, preciso saber
exatamente o que aconteceu...
Moody ajudou a virar a poção na boca de Harry; o garoto tossiu, um gosto
apimentado queimou sua garganta. A sala de Moody entrou em foco, bem como o
próprio Moody... ele parecia tão pálido quanto Fudge, e seus dois olhos estavam
fixos, sem piscar, no rosto de Harry.
- Voldemort voltou, Harry? Você tem certeza de que voltou? Como foi que
ele fez isso?
- Ele apanhou uma coisa no túmulo do pai dele, depois do Rabicho e de
mim. - Sua cabeça estava clareando, sua cicatriz já não doía tanto, agora


conseguia ver o rosto de Moody nitidamente, embora a sala estivesse escura.
Ainda se ouviam berros e gritos vindos do distante campo de quadribol.
- Que foi que o Lord das Trevas tirou de você? - perguntou Moody.
- Sangue - respondeu Harry erguendo o braço. A manga estava rasgada no
lugar em que o punhal de Rabicho a cortara. Moody deixou escapar um assobio
longo e baixo.
- E os Comensais da Morte? Voltaram?
- Voltaram. Montes deles...
- Como foi que ele os tratou? - perguntou Moody baixinho. - Ele lhes
perdoou?
Mas Harry de repente se lembrou. Devia ter contado a Dumbledore, devia
ter dito logo de saída...
- Tem um Comensal da Morte em Hogwarts! Tem um Comensal da Morte
aqui, ele pôs o meu nome no Cálice de Fogo, certificou-se de que eu chegasse até
o fim...
Harry tentou se levantar, mas Moody o obrigou a sentar-se outra vez.
- Eu sei quem é o Comensal da Morte - disse ele em voz baixa.
- Karkaroff? - disse Harry agitado. - Onde é que ele está? O senhor o
pegou? Ele está preso?
- Karkaroff? - disse Moody com uma risada estranha. - Karkaroff fugiu esta
noite, quando sentiu a Marca Negra arder no braço. Ele traiu um número grande
demais de seguidores fiéis do Lord das Trevas para querer reencontrá-los... mas
duvido que chegue muito longe. O Lord das Trevas tem maneiras de seguir seus
Inimigos.
- Karkaroff foi embora? Fugiu? Mas então... ele não pôs o meu nome no
Cálice de Fogo?
- Não - disse Moody lentamente. - Não, não pôs. Fui eu quem pôs. Harry
ouviu, mas não acreditou.
- Não, o senhor não pôs. O senhor não fez isso... não pode ter feito...
- Garanto a você que fiz - disse Moody e seu olho mágico deu uma volta
completa e se fixou na porta, e Harry percebeu que ele estava se certificando de
que não havia ninguém do lado de fora. Ao mesmo tempo, Moody puxou a varinha
e apontou-a para o garoto.
- E ele lhes perdoou, então? Os Comensais da Morte continuaram livres?
Os que escaparam de Azkaban?
- Quê? - exclamou Harry.
Ele olhou a varinha que Moody apontava para ele. Aquilo era uma piada de
mau gosto, tinha que ser.
- Eu lhe perguntei - disse Moody calmamente - se ele perdoou a ralé que
jamais foi procurá-lo. Aqueles traidores covardes que sequer arriscaram ser
mandados para Azkaban por ele. Os porcos desleais e imprestáveis que tiveram
coragem suficiente para desfilar de máscaras na Copa Mundial de Quadribol, mas
fugiram ao ver a Marca Negra quando eu a projetei no céu.
- O senhor projetou... do que é que o senhor está falando...?
- Eu já lhe disse, Harry.. Eu já lhe disse. Se tem uma coisa que eu detesto
mais no mundo é um Comensal da Morte que foi absolvido. Viraram as costas ao
meu amo quando ele mais precisava deles. Eu esperei que ele os castigasse.


Esperei que ele os torturasse. Me diga que ele os machucou, Harry... ­ O rosto de
Moody se iluminou de repente com um sorriso demente. - Me diga que ele disse a
todos que eu, somente eu, permaneci fiel... preparado para arriscar tudo para
entregar em suas mãos o que ele mais queria... você.
- O senhor não fez... isso, não pode ser o senhor...
- Quem pôs o seu nome no Cálice de Fogo com o nome de uma escola
diferente? Fui eu, sim. Quem afugentou cada pessoa que julguei que poderia
machucá-lo ou impedir que você ganhasse o torneio? Fui eu, sim. Quem
encorajou Hagrid a lhe mostrar os dragões? Fui eu, sim. Quem fez você ver a
única maneira de vencer o dragão? Fui eu, sim.
O olho mágico de Moody se desviou então da porta. Fixou-se em Harry.
Sua boca torta ria mais desdenhosa e abertamente que nunca.
- Não foi fácil, Harry, orientá-lo durante aquelas tarefas sem despertar
suspeitas. Tive de usar cada grama de astúcia que possuo para não deixar
transparecer o meu dedo no seu sucesso. Dumbledore teria ficado
desconfiadíssimo se você conseguisse tudo com muita facilidade. Desde que você
entrasse no labirinto, de preferência com uma boa dianteira, então, eu sabia que
teria uma chance de me livrar dos outros campeões e deixar o seu caminho
desimpedido. Mas tive também de lutar contra a sua burrice. A segunda tarefa...
foi a que tive mais medo que você fracassasse. Eu fiquei vigiando-o, Potter. Eu
sabia que você não tinha decifrado a pista do ovo, por isso tive que lhe dar mais
uma sugestão...
- O senhor não deu - disse Harry rouco. - Cedrico me deu a pista...
- Quem disse a Cedrico para abrir o ovo dentro da água? Fui eu. Confiei
que ele passaria a informação a você. Gente decente é tão fácil de manipular,
Potter. Eu tinha certeza de que Cedrico iria querer retribuir o favor de tê-lo
informado sobre os dragões, e foi o que ele fez. Mas, mesmo assim, Potter,
parecia que você ia fracassar. Fiquei vigiando-o o tempo todo... todas aquelas
horas na biblioteca.
- Você não percebeu que o livro de que precisava estava no seu dormitório
o tempo todo? Eu o coloquei lá mais cedo, dei-o ao garoto Longbottom, não se
lembra? Plantas mediterrâneas e suas propriedades mágicas. Ele teria lhe
informado tudo que você precisava saber sobre o guelricho. Eu esperava que você
pedisse ajuda a qualquer um e a todos. Longbottom teria lhe dito na mesma hora.
Mas você não pediu... você não pediu... você tem um traço de orgulho e
independência que poderia ter estragado tudo.
- Então o que é que eu podia fazer? Mandar-lhe a informação por
intermédio de outra fonte inocente. Você me contou no Baile de Inverno que um
elfo doméstico, chamado Dobby, lhe dera um presente de Natal. Eu chamei o elfo
à sala dos professores para apanhar umas vestes para lavar. Encenei uma
conversa em voz alta com a Profª McGonagall sobre os reféns que seriam usados
na tarefa e se Potter pensaria em comer guelricho. E o seu amiguinho elfo correu
direto para o armário de Snape e foi depressa procurar você...
A varinha de Moody continuava apontada diretamente para o coração de
Harry. Por cima do ombro do professor, sombras indistintas se moviam no
Espelho-de-Inimigos pendurado na parede.


- Você ficou tanto tempo no lago, Potter, que eu pensei que tinha se
afogado. Mas, por sorte, Dumbledore tomou a sua burrice por nobreza e lhe deu
uma nota alta. Eu respirei mais uma vez aliviado.
- Esta noite, você teve uma tarefa mais fácil no labirinto do que deveria, é
claro, disse Moody. - Isto foi porque eu estava patrulhando do lado de fora, e podia
ver as sebes mais externas, e pude destruir muitos obstáculos no seu caminho. Eu
estuporei Fleur Delacour quando ela passou. Lancei a Maldição Imperius em Krum
para ele acabar com Diggory e deixar o seu caminho livre até a Taça.
Harry encarava Moody. Não conseguia entender como podia ser aquilo... o
amigo de Dumbledore, o famoso auror... aquele que capturara tantos Comensais
da Morte... não fazia sentido... nem um pingo...
As sombras no Espelho-de-Inimigos se acentuavam, se tornando mais
nítidas. Harry via, por cima do ombro de Moody, o contorno de três pessoas, que
se aproximavam cada vez mais. Mas o professor não as vigiava. Seu olho mágico
estava fixo em Harry.
- O Lord das Trevas não conseguiu matá-lo, Potter, e ele queria tanto! ­
sussurrou Moody. - Imagine a recompensa que me dará, quando descobrir que fiz
isso por ele. Entreguei-o a ele, a coisa de que ele mais precisava para se
regenerar, e depois matei-o para ele. Vou receber mais honrarias do que todos os
outros Comensais da Morte. Serei seu seguidor mais querido, mais chegado...
mais próximo do que um filho...
O olho normal de Moody estava esbugalhado, o olho mágico fixo em Harry.
A porta continuava trancada e Harry sabia que jamais pegaria a própria varinha a
tempo...
- O Lord das Trevas e eu - disse Moody, e agora parecia completamente
enlouquecido, agigantando-se sobre Harry, olhando-o com desdém - temos muito
em comum. Nós dois, por exemplo, tivemos pais que nos desapontaram muito...
multo mesmo. Nós dois sofremos a indignidade, Harry, de receber o nome desses
pais. E nós dois tivemos o prazer... o imenso prazer... de matar nossos pais para
garantir a ascensão contínua da Ordem das Trevas!
- O senhor enlouqueceu - disse Harry, o garoto não conseguiu se conter -,o
senhor enlouqueceu!
- Enlouqueci, eu? - a voz de Moody se alteou descontrolada. - Veremos!
Veremos quem enlouqueceu, agora que o Lord das Trevas voltou, comigo ao seu
lado! Ele voltou, Harry Potter, você não o derrotou, e agora, eu derroto você!
Moody ergueu a varinha, abriu a boca, Harry mergulhou a mão nas vestes...
- Estupefaça! - Houve um lampejo ofuscante de luz vermelha, e, com
grande fragor de madeira estilhaçada, a porta da sala de Moody rachou ao meio...
Moody foi atirado de costas ao chão. Harry, ainda fitando o lugar em que
estivera o rosto de Moody, viu Alvo Dumbledore, o Prof. Snape e a Profª
McGonagall mirando-o do Espelho-de-Inimigos.
O garoto virou-se para os lados e viu os três parados à porta, o diretor à
frente, a varinha em punho. Naquele momento, Harry compreendeu totalmente,
pela primeira vez, por que as pessoas diziam que Dumbledore era o único bruxo
que Voldemort temia. A expressão no rosto dele quando olhou para a forma
inconsciente de Olho-Tonto Moody era mais terrível do que Harry poderia jamais
imaginar.


Não havia sorriso bondoso no rosto do diretor, não havia cintilação nos
olhos atrás dos óculos. Havia uma fúria gelada em cada ruga daquele rosto velho,
ele irradiava uma aura de poder como se Dumbledore desprendesse um calor de
brasas vivas.
O diretor entrou na sala, enfiou um pé sob o corpo inconsciente de Moody e
virou-o de barriga para cima, de modo que seu rosto ficasse visível. Snape entrou
em seguida, olhando o Espelho-de-Inimigos, no qual seu próprio rosto ainda era
visível, examinando a sala. A Profª McGonagall dirigiu-se imediatamente a Harry.
- Vamos, Potter - sussurrou ela. A linha fina de seus lábios tremia como se
ela estivesse à beira das lágrimas. - Vamos... ala hospitalar...
- Não - disse Dumbledore energicamente.
- Dumbledore, ele precisa, olhe só para ele, já sofreu bastante esta noite...
- Ele fica, Minerva, porque precisa compreender - respondeu o diretor
secamente. - Compreender é o primeiro passo para aceitar, e somente aceitando
ele pode se recuperar. Precisa saber o que o fez passar pela provação desta noite
e o porquê.
- Moody - disse Harry. Ele continuava num estado da mais completa
descrença. - Como pode ter sido Moody?
- Este não é Alastor Moody - disse Dumbledore em voz baixa. - Você jamais
conheceu Alastor Moody. O verdadeiro Moody não teria retirado você das minhas
vistas depois do que aconteceu hoje à noite. No instante em que ele o levou, eu
compreendi, e o segui.
Dumbledore se curvou para a forma inerte de Moody e meteu a mão nas
vestes do bruxo. Tirou o frasco de bolso de Moody e uma penca de chaves numa
argola. Depois se voltou para a Profª McGonagall e Snape.
- Severo, por favor, vá buscar a Poção da Verdade mais forte que você
tiver, depois vá à cozinha e me traga aqui o elfo doméstico chamado Winky.
Minerva, por favor, desça à casa de Hagrid, onde você encontrará um enorme cão
preto sentado no canteiro de abóboras. Leve o cão ao meu escritório, diga-lhe que
irei vê-lo daqui a pouco, depois volte aqui.
Se Snape ou Minerva acharam essas instruções estranhas, eles ocultaram
sua confusão. Os dois se viraram na mesma hora e saíram da sala. Dumbledore
aproximou-se do malão com as sete fechaduras, enfiou a primeira chave na
fechadura e abriu-o. O malão continha uma profusão de livros de feitiços. Em
seguida o diretor fechou-o, enfiou a segunda chave na segunda fechadura e
tornou a abrir o malão.
Os livros de feitiços haviam desaparecido, desta vez o malão continha uma
variedade de bisbilhoscópios, algumas folhas de pergaminho e penas, e algo que
lembrava uma Capa da Invisibilidade.
Harry observou, espantado, Dumbledore enfiar a terceira, quarta, quinta e
sexta chaves nas fechaduras e reabrir o malão que, a cada vez, revelava
conteúdos diferentes. Por fim, enfiou a sétima chave na fechadura, escancarou a
tampa e Harry deixou escapar um grito de assombro.
O garoto deparou com uma espécie de poço, uma sala subterrânea e,
deitado no chão, bem um metro abaixo, aparentemente em sono profundo, magro
e de aparência faminta, encontrava-se o verdadeiro Olho-Tonto Moody. Faltava-
lhe a perna de pau, e a órbita em que deveria estar o olho mágico parecia vazia


sob a pálpebra e lhe faltavam chumaços de cabelos grisalhos. Harry correu os
olhos arregalados e perplexos do Moody que dormia no malão para o Moody
inconsciente caído no chão da sala.
Dumbledore entrou no malão, desceu o corpo e caiu de leve no chão ao
lado do Moody adormecido. Curvou-se para ele.
- Estuporado, controlado pela Maldição Imperius, muito fraco. - disse. -
Naturalmente, precisariam mantê-lo vivo. Harry me atire a capa do impostor,
Alastor está congelando. Madame Pomfrey precisara examiná-lo, mas ele não
parece correr perigo imediato.
Harry fez o que o diretor lhe pediu, Dumbledore cobriu Moody com a capa,
prendeu-a em volta do corpo do bruxo e tornou a sair do malão. Em seguida
apanhou o frasco de bolso que estava sobre a escrivaninha, tirou a tampa e virou-
o. Um líquido espesso e viscoso se espalhou pelo chão da sala.
- Poção Polissuco, Harry. Vê a simplicidade e a genialidade da coisa.
Porque Moody jamais bebe nada a não ser do frasco de bolso, todo mundo sabe
disso. O impostor precisou, é claro, manter o verdadeiro Moody por perto para
poder continuar a preparar a poção. Está vendo os cabelos dele... - Dumbledore
olhou para o Moody no malão. - O impostor andou cortando-os o ano inteiro, está
vendo as falhas? Mas acho que, na excitação de hoje à noite, o falso Moody talvez
tenha esquecido de tomar a poção com a necessária freqüência... na hora certa...
a cada hora... veremos.
Dumbledore puxou a cadeira atrás da escrivaninha e se sentou, os olhos
fixos no Moody inconsciente no chão. Harry também ficou olhando. Os minutos se
passaram em silêncio...
Então, diante dos olhos de Harry, o rosto do homem no chão começou a
mudar. As cicatrizes foram desaparecendo, a pele foi se tornando lisa, o nariz
mutilado ficou inteiro e começou a diminuir de tamanho. A longa juba de cabelos
grisalhos foi se retraindo para o couro cabeludo e se alourando. De repente, com
um forte baque, a perna de pau caiu e uma perna normal apareceu em seu lugar;
no momento seguinte, o olho mágico saltou do rosto do homem e um olho
verdadeiro o substituiu, o olho mágico saiu rolando pelo chão e continuou a girar
em todas as direções.
Harry viu caído à sua frente um homem de pele muito clara, ligeiramente
sardento, com cabelos bastos e louros. O garoto sabia quem era. Vira-o na
Penseira de Dumbledore, assistira a ele ser retirado do tribunal pelos
dementadores, tentando convencer o Sr. Crouch de que era inocente... mas agora
tinha rugas em torno dos olhos, e parecia bem mais velho...
Ouviram-se passos apressados no corredor. Snape retornava com Winky
em seus calcanhares. A Profª McGonagall vinha logo atrás.
- Crouch! - exclamou Snape, parando de chofre à porta. - Bartô Crouch!
- Nossa! - exclamou a Profª McGonagall, parando de chofre ao ver o
homem no chão. Imunda, descabelada, Winky espiou por entre as pernas de
Snape. Ela abriu uma boca enorme e deixou escapar um grito esganiçado.
- Menino Bartô, menino Bartô, que é que o senhor está fazendo aqui?
Ela se atirou ao peito do rapaz.
- Vocês mataram ele! Vocês mataram ele! Vocês mataram o filho do meu
amo!


- Ele está apenas estuporado, Winky - disse Dumbledore. - Afaste-se, por
favor. Severo, trouxe a poção?
Snape entregou a Dumbledore um pequeno frasco com um líquido muito
transparente, o Veritaserum que o professor ameaçara fazer Harry beber na sala
dele. Dumbledore se levantou, se debruçou sobre o homem e o aprumou contra a
parede sob o Espelho-de-Inimigos, no qual as imagens de Dumbledore, Snape e
McGonagall continuavam a observar tudo. Winky permaneceu de joelhos,
tremendo, as mãos cobrindo o rosto. Dumbledore abriu a boca do homem à força
e despejou nela três gotas da poção. Depois, apontou a varinha para o peito do
homem e disse:
- Enervate!
O filho de Crouch abriu os olhos. Seu rosto estava flácido, seu olhar
desfocado. Dumbledore se ajoelhou diante dele, de modo que seus rostos
ficassem no mesmo plano.
- Você está me ouvindo? - perguntou o diretor em voz baixa.
Os olhos do homem piscaram.
- Estou - murmurou.
- Gostaria que nos dissesse - pediu Dumbledore - como veio parar aqui.
Como fugiu de Azkaban?
Crouch inspirou profundamente, estremecendo, e em seguida começou a
falar numa voz sem inflexões nem emoção.
- Minha mãe me salvou. Ela sabia que estava morrendo. Convenceu meu
pai a me tirar de lá como um último favor. Ele a amava como nunca me amara. E
concordou. Os dois foram me visitar. Me deram uma dose da Poção Polissuco,
contendo um fio de cabelo de minha mãe. Ela tomou uma dose da poção,
contendo um fio de cabelo meu. Assumimos a forma um do outro.
Winky balançava a cabeça, tremendo.
- Não diga mais nada Menino Bartô, não diga mais nada, você está
metendo seu pai em confusão!
Mas Crouch inspirou mais uma vez profundamente e continuou com a
mesma voz sem emoção.
- Os dementadores são cegos. Eles perceberam uma pessoa saudável e
uma pessoa doente entrando em Azkaban. Depois, perceberam uma pessoa
saudável e uma pessoa doente deixando a prisão. Meu pai me contrabandeou
para fora, disfarçado de minha mãe, para o caso de algum prisioneiro estar
observando da cela.
- Minha mãe morreu pouco depois em Azkaban. Teve o cuidado de beber a
Poção Polissuco até o fim. Foi enterrada com o meu nome e a minha aparência.
Todos acreditaram que ela era eu.
As pálpebras do homem piscaram.
- E o que foi que seu pai fez com você, quando chegaram em casa? ­
perguntou Dumbledore.
- Encenou a morte de minha mãe. Um enterro discreto e íntimo. Aquele
túmulo está vazio. O elfo doméstico cuidou de mim até eu ficar bom. Depois tive
que ser escondido. Tive que ser controlado. Meu pai teve que usar vários feitiços
para me dominar. Quando recuperei a saúde, só pensei em encontrar o meu
amo... em voltar para o seu serviço.


- Como foi que seu pai o dominou? - perguntou Dumbledore.
- A Maldição Imperius. Fiquei sob o domínio do meu pai. Fui forçado a usar
uma Capa da Invisibilidade dia e noite. Sempre em companhia do elfo doméstico.
Era ela quem me cuidava e guardava. Tinha pena de mim. Convenceu meu pai a
me dar regalias ocasionais. Prêmios pelo meu bom comportamento.
- Menino Bartô, Menino Bartô - soluçou Winky entre os dedos. - Você não
devia contar a eles, está nos metendo em apuros...
- Alguém descobriu que você continuava vivo? - perguntou Dumbledore
brandamente. ­ Alguém sabia disso, além do seu pai e do elfo doméstico?
- Sabia. - Suas pálpebras tornaram a piscar. - Uma bruxa do escritório do
meu pai, Berta Jorkins. Ela veio um dia em casa trazer papéis para o meu pai
assinar. Ele não estava. Winky mandou-a entrar e voltou para a cozinha, para
mim. Mas Berta Jorkins ouviu o elfo conversando comigo. Foi investigar. Ouviu o
suficiente para adivinhar que eu estava escondido sob uma Capa da Invisibilidade.
Meu pai chegou em casa. Ela o confrontou. Ele lançou nela um Feitiço da
Memória fortíssimo para fazê-la esquecer o que descobrira. Forte demais. Ele
disse que danificou permanentemente a memória dela.
- Por que ela foi bisbilhotar os negócios particulares do meu amo? ­
soluçou Winky. - Por que não deixou a gente em paz?
- Fale-me sobre a Copa Mundial de Quadribol - ordenou Dumbledore.
- Winky convenceu meu pai - disse Crouch, ainda com a mesma voz
monótona. - Passou meses persuadindo-o. Eu não saía de casa havia anos. Eu
adorava quadribol. "Deixe o rapaz ir", dizia ela. "Ele vai usar a Capa da
Invisibilidade." "Ele pode assistir. Deixe ele tomar um pouco de ar fresco uma vez."
Ela disse que minha mãe teria gostado disso. Disse ao meu pai que minha mãe
morrera para me devolver a liberdade. Não me salvara para viver preso. No fim ele
concordou.
- Foi tudo cuidadosamente planejado. Meu pai subiu comigo e Winky ao
camarote de honra mais cedo no dia do jogo. Winky devia dizer que estava
guardando o lugar para o meu pai. Eu devia ficar sentado ali, invisível. Quando
todos tivessem deixado o camarote, nós sairíamos. Winky iria parecer que estava
sozinha. Ninguém jamais saberia.
- Mas Winky não sabia que eu estava bem mais forte. Estava começando a
resistir à Maldição Imperius lançada por meu pai. Havia horas em que eu quase
voltava a ser eu mesmo. Havia breves lapsos em que eu parecia me libertar do
controle dele. Isto aconteceu lá, no camarote de honra. Foi como se eu estivesse
saindo de um longo sono. Eu me vi em público, no meio de um jogo, e vi uma
varinha saindo do bolso de um garoto na minha frente. Eu não tinha licença de
usar uma varinha desde antes de Azkaban. Eu a roubei. Winky não viu. Ela tem
medo de alturas. Ficou com o rosto tampado.
- Menino Bartô, que menino danado! - sussurrou Winky, as - Então você se
apoderou da varinha - disse Dumbledore - e o que foi que fez com ela? Lágrimas
escorrendo entre seus dedos.
- Voltamos à barraca. Então ouvimos os gritos. Ouvimos os Comensais da
Morte. Os que nunca tinham ido para Azkaban. Os que nunca tinham sofrido pelo
meu amo. Os que tinham lhe virado as costas. Não estavam presos como eu.
Estavam livres para ir procurá-lo, mas não fizeram isso. Estavam simplesmente se


divertindo com os trouxas. As vozes deles me acordaram. Minha mente estava
mais clara do que estivera em anos. Senti raiva. Tinha a varinha. Queria atacá-los
pela deslealdade que fizeram ao meu amo. Meu pai saíra da barraca, tinha ido
libertar os trouxas. Winky teve medo quando me viu tão furioso. Usou seu próprio
tipo de mágica para me prender a ela. Me tirou da barraca, me levou para a
floresta, para longe dos Comensais da Morte. Eu tentei impedi-la. Queria voltar
para o acampamento. Queria mostrar àqueles Comensais da Morte o que
significava lealdade ao Lord das Trevas, e puni-los por não a terem. Usei a varinha
roubada para projetar a Marca Negra no céu.
- Os bruxos do Ministério chegaram. Lançaram Feitiços Estuporantes para
todo lado. Um dos feitiços atravessou as árvores até onde eu e Winky estávamos.
O vínculo que nos unia se partiu. Nós dois caímos estuporados.
- Quando descobriram Winky, meu pai entendeu que eu devia estar por
perto. Me procurou no mato em que ela fora encontrada e me descobriu caído no
chão. Ele esperou até os outros funcionários do Ministério deixarem a floresta.
Tornou a me sujeitar com a Maldição Imperius, e me levou para casa. Despediu
Winky. Traíra a confiança dele. Me deixara arranjar uma varinha. Quase me
deixara fugir.
Winky deixou escapar um grito de desespero.
- Agora havia apenas meu pai e eu, sozinhos em casa. E, então... - a
cabeça de Crouch girou molemente e um sorriso demente se espalhou por seu
rosto. ­ Meu amo veio me buscar. Apareceu lá em casa tarde da noite, nos braços
do servo dele, Rabicho. Meu amo descobrira que eu continuava vivo. Tinha
capturado Berta Jorkins na Albânia. Torturou-a. Ela lhe contou muita coisa. Contou
sobre o Torneio Tribruxo. Contou que o antigo auror Moody ia ensinar em
Hogwarts. Ele a torturou até conseguir romper o Feitiço da Memória que meu pai
lançara nela. Berta contou que eu fugira de Azkaban. Contou que meu pai me
mantinha prisioneiro para me impedir de procurar meu amo. Então meu amo
soube que eu continuava a ser um servo fiel - talvez o mais fiel de todos. Meu amo
concebeu um plano baseado nas informações que Berta lhe dera. Precisava de
mim. Chegou em nossa casa por volta da meia-noite. Meu pai atendeu a porta.
O sorriso no rosto de Crouch se alargou, como se ele recordasse o
momento mais doce de sua vida. Os olhos castanhos e vidrados de Winky eram
visíveis entre seus dedos. Ela parecia assombrada demais para falar.
- Foi muito rápido. Meu amo colocou meu pai sob a Maldição Imperius.
Agora meu pai era o prisioneiro, o controlado. Meu amo o forçou a continuar a vida
como sempre, a agir como se não houvesse nada errado. E eu fui libertado.
Acordei. Voltei a ser eu mesmo, vivo, como não me sentia havia anos.
- E o que foi que Lord Voldemort lhe pediu para fazer? - perguntou
Dumbledore.
- Ele me perguntou se eu estava disposto a arriscar tudo por ele. Eu estava.
Era o meu sonho, minha maior ambição, servi-lo, me pôr à prova. Ele me disse
que precisava colocar um servo fiel em Hogwarts. Um servo que orientasse Harry
Potter durante o Torneio Tribruxo sem parecer que estava fazendo isso. Um servo
que vigiasse Harry Potter. Que garantisse que o garoto chegasse à Taça Tribruxo.
Que transformasse a Taça em uma Chave de Portal, que levasse a primeira
pessoa a tocá-la ao meu amo. Mas primeiro...


- Você precisava de Alastor Moody - disse Dumbledore. Seus olhos azuis
faiscando, embora sua voz permanecesse calma.
- Rabicho e eu fizemos isso. Preparamos antes uma Poção Polissuco.
Viajamos até a casa do auror. Moody resistiu. Houve uma grande confusão.
Conseguimos dominá-lo a tempo. Nós o enfiamos à força no malão mágico.
Tiramos alguns fios de cabelo e acrescentamos à poção. Eu a bebi e me
transformei no duplo de Moody. Apanhei sua perna e seu olho. Estava pronto para
enfrentar Arthur Weasley quando ele viesse resolver o caso com os trouxas que
ouviram o estardalhaço. Espalhei as latas de lixo pelo quintal. Contei a Arthur
Weasley que tinha ouvido intrusos em volta da casa, e que pusera as latas de lixo
em movimento. Então reuni as roupas e os detectores das trevas de Moody,
guardei tudo no malão e parti para Hogwarts.
- Conservei-o vivo, dominado pela Maldição Imperius. Queria poder
interrogá-lo. Descobrir o passado dele, aprender seus hábitos, de modo a enganar
Dumbledore. Precisava também do cabelo dele para a Poção Polissuco. Os outros
ingredientes foram fáceis de encontrar. Roubei pele de ararambóia das
masmorras. Quando o Prof. de Poções me encontrou na sala dele, eu disse que
tinha ordens para revistá-la.
- E o que aconteceu com Rabicho depois que vocês atacaram Moody?
- Rabicho voltou para cuidar do meu amo, lá em casa, e para vigiar meu
pai.
- Mas o seu pai fugiu - disse Dumbledore.
- Fugiu. Depois de algum tempo ele começou a resistir à Maldição Imperius,
exatamente como eu tinha feito. Havia períodos em que ele sabia o que estava
acontecendo. Meu amo achou que não era mais seguro o meu pai sair de casa.
Forçou-o, então, a mandar cartas para o Ministério. Fez meu pai escrever dizendo
que estava doente. Mas Rabicho não cumpriu seus deveres direito. Não o vigiou o
bastante. Meu pai fugiu. Meu amo adivinhou que ele estaria vindo para Hogwarts.
Ia admitir que me contrabandeara para fora de Azkaban.
- Meu amo mandou me avisar da fuga do meu pai. Mandou que eu o
detivesse a qualquer custo. Então esperei e fiquei vigiando. Usei o mapa que
pedira emprestado a Harry Potter. O mapa que quase pusera tudo a perder.
- Mapa? - perguntou Dumbledore imediatamente. - Que mapa é esse?
- O mapa que Potter tem de Hogwarts. Potter me viu nele. Potter me viu
roubando ingredientes para a Poção Polissuco da sala de Snape certa noite.
Achou que eu era meu pai porque temos o mesmo nome. Apanhei o mapa de
Potter naquela mesma noite. Disse a ele que meu pai odiava bruxos das trevas.
Potter acreditou que eu estava atrás de Snape.
- Durante uma semana esperei meu pai aparecer em Hogwarts. Finalmente,
uma noite, o mapa me indicou que ele estava entrando na propriedade. Vesti a
minha Capa da Invisibilidade e desci ao encontro dele. Ele estava andando pela
orla da Floresta. Então chegaram Potter e Krum. Esperei. Não podia machucar
Potter, meu amo precisava dele. Potter foi correndo buscar Dumbledore. Eu
estuporei Krum. Matei meu pai.
- Nããão!- gritou Winky. - Menino Bartô, menino Bartô, o que é que você
está dizendo?


- Você matou seu pai - repetiu Dumbledore, no mesmo tom brando. - Que
foi que você fez com o corpo?
- Levei-o para a Floresta. Cobri-o com a Capa da Invisibilidade. Tinha o
mapa comigo. Acompanhei Potter entrar correndo no castelo. Ele encontrou
Snape. Dumbledore se juntou aos dois. Acompanhei Potter deixar o castelo com
Dumbledore. Saí da Floresta, dei a volta por trás deles e fui reencontrá-los. Disse
a Dumbledore que Snape me informara aonde vir.
- Dumbledore me mandou ir procurar meu pai. Voltei para onde deixara o
corpo dele. Fiquei observando o mapa. Quando todos tinham ido embora,
transformei o corpo do meu pai. Transformei-o em osso... e, sempre vestindo a
Capa da Invisibilidade, eu o enterrei na terra fofa diante da cabana de Hagrid."
Fez-se um silêncio profundo, exceto pelos soluços contínuos de Winky.
Então Dumbledore falou:
- E hoje à noite...
- Eu me ofereci para levar a Taça Tribruxo para o labirinto antes do jantar -
sussurrou Bartô Crouch. - Transformei-a em uma Chave de Portal. O plano do
meu amo deu resultado. Ele voltou ao poder e eu vou receber honrarias que
ultrapassam os sonhos de qualquer bruxo.
O sorriso demente iluminou mais uma vez suas feições e sua cabeça
pendeu para o ombro, enquanto Winky continuava a se lamentar e a soluçar ao
seu lado.


- CAPITULO TRINTA E SEIS
Os caminhos se separam

Dumbledore ficou em pé. Contemplou Bartô Crouch por um momento com
uma expressão de desgosto. Então ergueu sua varinha mais uma vez e dela
voaram cordas, cordas que se prenderam em torno do bruxo, amarrando-o
apertado. Ele se dirigiu, então, à Profª McGonagall.
- Minerva, posso pedir a você que fique de guarda aqui enquanto levo Harry
para cima?
- Naturalmente. - Ela parecia ligeiramente nauseada, como se tivesse
acabado de ver alguém vomitar. Contudo, quando puxou a varinha e a apontou
para Bartô Crouch, sua mão estava bem firme.
- Severo - virou-se Dumbledore para Snape - por favor, peça a Madame
Pomfrey para vir até aqui. Precisamos levar Alastor Moody para a ala hospitalar.
Depois desça aos jardins, procure Cornélio Fudge e traga-o para esta sala. Com
certeza ele vai querer interrogar Crouch pessoalmente. Diga-lhe que estarei na ala
hospitalar dentro de meia hora, caso precise de mim.
Snape concordou silenciosamente com um aceno de cabeça e saiu da sala.
- Harry? - chamou Dumbledore gentilmente.
Harry se levantou e cambaleou; a dor na perna, que ele mal sentira todo o
tempo em que estivera ouvindo Crouch, agora voltava com força total. O garoto
também percebeu que estava tremendo.
Dumbledore segurou-o pelo braço e ajudou-o a sair para o corredor escuro.


- Quero que venha primeiro ao meu escritório, Harry - disse ele baixinho,
enquanto seguiam pelo corredor. - Sirius está nos esperando lá.
Harry concordou com a cabeça. Uma sensação de dormência e de total
irrealidade se apoderara dele, mas o garoto não ligou, ficou até feliz com isso. Não
queria ter que pensar em nada que acontecera desde que pusera a mão, pela
primeira vez, na Taça Tribruxo. Não queria ter que examinar as lembranças,
frescas e nítidas como fotografias, que não paravam de lampejar em sua mente.
Olho-Tonto Moody dentro do malão, Rabicho caído no chão, aninhando o
toco do braço. Voldemort ressurgindo do caldeirão fumegante. Cedrico... morto...
Cedrico pedindo para ele levar seu corpo para os pais...
- Professor - murmurou Harry -onde estão o Sr. e a Sra. Diggory?
- Estão com a Profª Sprout. - A voz de Dumbledore que estivera tão calma
durante o interrogatório de Bartô Crouch tremeu levemente pela primeira vez.
- Ela é a diretora da Casa de Cedrico e o conhecia melhor.
Tinham chegado à gárgula de pedra. Dumbledore disse a senha, ela saltou
para o lado, e o diretor e Harry subiram a escada rolante circular até a porta de
carvalho. Dumbledore abriu-a. Sirius estava parado ali. Seu rosto branco e ossudo
como estivera quando fugira de Azkaban. Num átimo, ele atravessou a sala.
- Harry, você está bem? Eu sabia... eu sabia que uma coisa assim... que
aconteceu?
As mãos dele tremiam ao ajudar Harry a se sentar em uma cadeira diante
da escrivaninha.
- Que aconteceu? - perguntou, mais pressuroso.
Dumbledore começou a contar a Sirius tudo que Bartô Crouch dissera.
Harry ouvia apenas com metade de sua atenção. Tão cansado que cada osso do
seu corpo doía, ele só tinha vontade de ficar sentado ali, sossegado, durante
horas e horas, até adormecer e não precisar mais pensar nem sentir nada. Ouviu-
se um leve rumorejo de asas. Fawkes, a fênix, deixara o poleiro, voara pela sala e
pousara no joelho de Harry.
- Alô, Fawkes - disse o garoto de mansinho. E alisou a bela plumagem
vermelha e dourada da ave. Fawkes piscou sem medo para ele. Havia um certo
consolo em seu peso morno.
Dumbledore parara de falar. Sentou-se diante de Harry, à escrivaninha.
Encarou o menino, que procurou evitar os seus olhos. Dumbledore ia interrogá-lo.
Ia fazer Harry desabafar tudo.
- Preciso saber o que foi que aconteceu depois que você tocou a Chave de
Portal no labirinto, Harry - disse o diretor.
- Podemos esperar até de manhã para isso, não Dumbledore? - disse Sirius
com aspereza. Ele pousou a mão no ombro de Harry. - Deixe o garoto dormir.
Deixe-o descansar.
Harry sentiu um assomo de gratidão com relação ao padrinho, mas
Dumbledore não deu atenção às palavras de Sirius. Curvou-se para Harry. De má
vontade, o garoto ergueu a cabeça e encarou aqueles olhos azuis.
- Se eu achasse que poderia ajudá-lo - disse Dumbledore brandamente -,
mergulhar você em um sono encantado e permitir que adiasse o momento em que
terá de pensar no que aconteceu esta noite, eu faria isso. Mas sei que não posso.
Amortecer a dor por algum tempo apenas a tornará pior quando você finalmente a


sentir. Você demonstrou uma coragem acima da que eu poderia ter esperado.
Estou pedindo que a demonstre mais uma vez. Estou pedindo que nos conte o
que aconteceu.
A fênix deixou escapar uma nota branda e trêmula. A nota estremeceu no
ar, e Harry sentiu como se uma gota de líquido morno tivesse descido por sua
garganta até o estômago, aquecendo-o e lhe dando forças.
Ele inspirou profundamente e começou a contar. Enquanto falava, visões de
tudo que se passara àquela noite pareciam desfilar diante de seus olhos, ele viu a
superfície borbulhante da poção que revivera Voldemort, viu os Comensais da
Morte aparatando entre os túmulos em volta deles, viu o corpo de Cedrico, caído
no chão ao lado da Taça.
Uma ou duas vezes, Sirius emitiu um som como se fosse falar alguma
coisa, sua mão ainda apertando o ombro do afilhado, mas Dumbledore ergueu a
mão para fazê-lo calar, e Harry se sentiu grato por isso, porque era mais fácil
continuar agora que já começara. Era até um alívio, o garoto teve a sensação de
que alguma coisa venenosa estava sendo extraída dele, custava-lhe toda a
determinação que possuía continuar falando, contudo, ele percebia que uma vez
que tivesse terminado, iria se sentir melhor.
Quando Harry contou que Rabicho espetara seu braço com o punhal,
porém, Sirius deixou escapar uma exclamação veemente e Dumbledore se
levantou tão depressa que Harry se assustou. O diretor deu a volta à escrivaninha
e pediu a Harry que esticasse o braço. O garoto mostrou aos dois o lugar em que
suas vestes estavam rasgadas e o corte sob as mesmas.
- Ele falou que o meu sangue o tornaria mais forte do que se usasse o de
outro - disse Harry a Dumbledore. - Falou que a proteção que minha... minha mãe
tinha deixado em mim, seria dele, também. E estava certo, ele pôde me tocar sem
se machucar, ele tocou o meu rosto.
Por um instante fugaz, Harry viu um brilho que lembrava triunfo nos olhos
do diretor. Mas no segundo seguinte teve certeza de que imaginara, porque
quando Dumbledore voltou à cadeira atrás da escrivaninha, pareceu velho e
cansado como Harry jamais o vira.
- Muito bem - disse ao se sentar. - Voldemort superou esta barreira.
Continue, Harry, por favor. Harry prosseguiu, explicou como Voldemort emergira
do caldeirão, e repetiu para eles tudo que conseguiu se lembrar do discurso do
lorde aos Comensais da Morte. Então contou como Voldemort o desamarrara,
devolvera sua varinha e se preparara para duelar.
Mas quando chegou à parte do raio de luz dourada que ligara sua varinha à
de Voldemort, ele descobriu que estava com a garganta embargada. Harry tentou
continuar falando, mas as lembranças do que saíra da varinha do bruxo
inundavam sua mente. Reviu Cedrico saindo, o velho, Berta Jorkins... sua mãe...
seu pai...
Ele ficou feliz quando Sirius rompeu o silêncio.
- As varinhas se ligaram? - perguntou ele, olhando de Harry para
Dumbledore. - Por quê?
Harry tornou a erguer os olhos para Dumbledore, em cujo rosto havia uma
expressão tensa.
- Prioni Incantatem - murmurou.


Seus olhos fitaram os de Harry e foi quase como se um raio invisível de
compreensão passasse entre os dois.
- A reversão do feitiço? - perguntou Sirius alerta.
- Exatamente - disse Dumbledore. - A varinha de Harry e a de Voldemort
têm o mesmo cerne. Cada uma contém uma pena da cauda da mesma fênix. Com
efeito, desta fênix - acrescentou ele, apontando para a ave vermelha e dourada,
empoleirada tranqüilamente no joelho de Harry.
- A pena da minha varinha veio de Fawkes? - perguntou Harry, admirado.
- Veio - disse Dumbledore. - O Sr. Olivaras me escreveu dizendo que você
comprara a segunda varinha, no instante em que você saiu da loja dele, há quatro
anos.
- Então o que acontece quando uma varinha encontra sua irmã? -
perguntou Sirius.
- Elas não funcionam bem uma contra a outra. Se, no entanto, o dono de
uma das varinhas forçar uma luta entre as varinhas... produzirá um efeito muito
raro. Uma das varinhas forçará a outra a regurgitar os feitiços que realizou, na
ordem inversa. O mais recente primeiro... depois os que o antecederam...
O diretor olhou interrogativamente para Harry e o garoto confirmou com a
cabeça.
- O que significa - disse Dumbledore lentamente, seus olhos no rosto de
Harry - que alguma forma de Cedrico deve ter reaparecido.
Harry tornou a confirmar.
- Diggory voltou à vida? - perguntou Sirius abruptamente.
- Nenhum feitiço pode ressuscitar os mortos - disse Dumbledore em tom
sentencioso. - Só o que pode ocorrer é uma espécie de eco inverso. Uma sombra
do Cedrico vivente teria emergido da varinha...estou certo, Harry?
- Ele falou comigo - disse Harry. De repente o garoto voltou a tremer. - O...
o fantasma de Cedrico, ou o que seja, falou.
- Um eco - disse Dumbledore - que reteve a aparência e o caráter de
Cedrico. Imagino que outras formas semelhantes tenham aparecido... vítimas
menos recentes da varinha de Voldemort...
- Um velho - respondeu Harry, com um aperto na garganta. - Berta Jorkins.
E...
- Seus pais? - perguntou Dumbledore calmamente.
-Foi.
A mão de Sirius no ombro de Harry agora o apertava com tanta força que
chegava a doer.
- As últimas mortes executadas pela varinha - confirmou Dumbledore com
um aceno de cabeça. - Na ordem inversa. Mais teriam aparecido, é claro, se vocês
continuassem a manter a ligação. Muito bem, Harry, esses ecos, essas sombras...
que foi que elas fizeram?
O garoto descreveu como as figuras que haviam saído da varinha tinham
ficado rondando o interior da teia dourada, como Voldemort pareceu temê-las,
como a sombra do pai de Harry lhe disse o que fazer, como a de Cedrico fizera
um último pedido.
Neste ponto, Harry descobriu que não conseguiria continuar. Olhou para
Sirius e viu que o padrinho segurava o rosto nas mãos.


Harry de repente tomou consciência de que Fawkes deixara seu joelho. A
ave voara para o chão. E descansou a bela cabeça na perna machucada do
menino, grossas lágrimas peroladas caíram dos seus olhos sobre a ferida feita
pela aranha. A dor desapareceu. A pele se recompôs. A perna ficou boa.
- Vou repetir mais uma vez - disse Dumbledore, quando a fênix levantou
vôo e tornou a se acomodar em seu poleiro junto à porta. - Esta noite você revelou
uma bravura que ultrapassou o que eu teria esperado de você, Harry. Revelou
uma bravura igual à daqueles que morreram combatendo Voldemort no auge do
seu poder. Você carregou o fardo de um bruxo adulto e esteve à altura dele, e
você agora nos deu tudo o que temos direito a esperar. Você vai me acompanhar
à ala hospitalar. Não quero que volte para o dormitório esta noite. Uma Poção do
Sono e algum sossego...
- Sirius, você gostaria de ficar com ele?
Sirius confirmou com a cabeça e se levantou. Tornou a se transformar no
enorme cachorro preto e saiu com Harry e Dumbledore do escritório,
acompanhando-os por um lance de escadas até a ala hospitalar.
Quando o diretor empurrou a porta, Harry viu a Sra. Weasley, Gui, Rony e
Hermione reunidos em torno de uma atarantada Madame Pomfrey. Pareciam estar
exigindo saber onde estava Harry e o que lhe acontecera.
Todos se viraram rapidamente quando Harry, Dumbledore e o cachorro
preto entraram, e a Sra. Weasley deixou escapar um grito abafado:
- Harry! Ah, Harry!
Ela fez menção de correr para o garoto, mas Dumbledore se colocou entre
os dois.
- Molly - disse ele, erguendo a mão -, por favor, ouça-me um momento.
Harry passou uma provação terrível esta noite. Acabou de desabafá-la comigo. Do
que ele precisa agora é de sono, paz e silêncio. Se ele quiser que vocês todos
fiquem com ele ­ acrescentou o diretor, abrangendo com o olhar Rony, Hermione
e Gui -, vocês podem ficar. Mas não quero que lhe façam perguntas até que ele
esteja pronto para respondê-las e, certamente, não será hoje à noite.
A Sra. Weasley concordou com a cabeça. Estava muito pálida. Ela se virou
para Rony, Hermione e Gui, como se eles estivessem fazendo barulho, e sibilou:
- Vocês ouviram? Ele precisa de silêncio!
- Diretor - disse Madame Pomfrey, encarando o cachorro preto que era
Sirius -, posso perguntar o que...
- Este cachorro vai ficar com Harry por algum tempo - disse Dumbledore
com simplicidade. - Posso lhe assegurar que ele é muitíssimo bem treinado. Harry,
vou esperar até você se deitar.
Harry sentiu uma inexprimível gratidão a Dumbledore por pedir aos outros
que não lhe fizessem perguntas. Não é que não os quisesse ali, mas a idéia de
explicar tudo mais uma vez, de reviver tudo mais uma vez, era mais do que ele
poderia suportar.
- Voltarei para vê-lo assim que estiver com Fudge, Harry - disse
Dumbledore. - Gostaria que você ficasse aqui amanhã também, até eu me dirigir à
escola. E saiu.


Quando Madame Pomfrey levou Harry a uma cama próxima, ele avistou o
verdadeiro Moody deitado imóvel em uma cama no fundo da enfermaria. Sua
perna de pau e o olho mágico estavam pousados na mesa-de-cabeceira.
- Ele está bem? - perguntou Harry.
- Ele vai ficar bom - respondeu Madame Pomfrey, entregando ao garoto um
pijama e colocando os biombos à sua volta. Ele despiu as vestes, pôs o pijama e
entrou na cama. Rony, Hermione, Gui, a Sra. Weasley e o cachorro preto
contornaram o biombo e se sentaram em cadeiras dos lados da cama. Rony e
Hermione espiaram o amigo quase cautelosamente, como se sentissem medo
dele.
- Eu estou bem - disse Harry a eles. - Só cansado.
Os olhos da Sra. Weasley se encheram de lágrimas quando alisou as
cobertas da cama sem a menor necessidade. Madame Pomfrey, que acabara de
sair apressada de sua sala, voltou segurando uma taça e um frasquinho contendo
uma poção púrpura.
- Você vai precisar beber tudo isso, Harry. É uma poção para dormir sem
sonhar.
O garoto tomou o cálice e bebeu alguns goles. Sentiu-se sonolento na
mesma hora. Tudo ao seu redor ficou enevoado, as luzes na enfermaria
pareceram piscar para ele de um jeito simpático através do biombo que
circundava sua cama; ele teve a sensação de que seu corpo afundava cada vez
mais no calor do edredom de penas. Antes que pudesse terminar a poção, antes
que pudesse dizer mais alguma coisa, sua exaustão o adormeceu.
Harry acordou, tão quentinho, tão sonolento, que nem abriu os olhos,
sentindo vontade de adormecer outra vez. A enfermaria continuava fracamente
iluminada, acreditava que ainda era noite e tinha a impressão de que não poderia
ter dormido muito tempo. Então ouviu cochichos à sua volta.
- Vão acordá-lo se não calarem a boca!
- Por que é que estão gritando? Não pode ter acontecido mais nada ou
pode?
Harry abriu os olhos borrados. Alguém tirara seus óculos. Viu os contornos
difusos da Sra. Weasley e de Gui ali perto. A bruxa estava em pé.
- É a voz de Fudge - sussurrou ela. - E a outra é da Minerva McGonagall,
não é? Mas por que estão discutindo?
Agora Harry os ouvia também, gente gritando e correndo em direção à ala
hospitalar.
- Lamentável, mas mesmo assim, Minerva... - dizia o ministro em voz alta.
- O senhor nunca deveria tê-lo trazido para o interior do castelo! - berrou a
professora. ­ Quando Dumbledore descobrir...
Harry ouviu as portas da enfermaria se escancararem. Sem as pessoas ao
redor de sua cama notarem, pois fixaram o olhar na porta quando Gui afastou os
biombos, Harry se sentou e tornou a colocar os óculos.
Fudge entrou em grandes passadas pela enfermaria. Os Profs. McGonagall
e Snape vinham em seus calcanhares.
- Onde está Dumbledore? - Fudge interpelou- a Sra. Weasley.
- Não está aqui - disse a senhora zangada. - Isto é uma enfermaria,
ministro, o senhor não acha que faria melhor...


Mas a porta se abriu e Dumbledore entrou decidido.
- Que aconteceu? - perguntou energicamente, olhando de Fudge para
McGonagall.
- Por que estão incomodando estas pessoas?
Minerva, você me surpreende, eu lhe pedi para ficar vigiando Bartô
Crouch...
- Não há necessidade de vigiá-lo mais, Dumbledore! - gritou ela. - O
ministro já providenciou isso!
Harry nunca vira a professora se descontrolar daquele jeito.
Havia manchas vermelhas de raiva em seu rosto, as mãos estavam
fechadas em punhos, ela tremia de fúria.
- Quando informei ao Sr. Fudge que tínhamos apanhado o Comensal da
Morte responsável pelos acontecimentos desta noite - disse Snape, em voz baixa -
parece que ele achou que sua segurança pessoal estava ameaçada. Insistiu em
chamar um dementador para acompanhá-lo até o castelo. Levou-o para a sala em
que Bartô Crouch...
- Avisei a ele que você não concordaria, Dumbledore! - vociferou a Profª
Minerva. - Avisei a ele que você não permitiria que dementadores entrassem no
castelo, mas...
- Minha cara senhora! - rugiu Fudge, que parecia igualmente mais zangado
do que Harry jamais o vira. - Como Ministro da Magia, sou eu quem decide se
quero trazer uma proteção pessoal quando vou entrevistar alguém possivelmente
perigoso...
Mas a voz da Profª McGonagall abafou a de Fudge.
- No momento em que aquela... aquela coisa entrou na sala - berrou ela,
apontando para Fudge, o corpo todo tremendo ­ o dementador avançou para
Crouch e... e...
Harry sentiu um frio no estômago, enquanto a professora procurava
encontrar palavras para descrever o que acontecera. Harry não precisou que ela
terminasse a frase. Sabia o que o dementador devia ter feito. Aplicara o beijo fatal
em Bartô Crouch. Sugara a alma do rapaz pela boca. Ele estava pior do que
morto.
- Pelo que todos dizem, não se perdeu nada! - vociferou Fudge. - Ele
parece ter sido responsável por várias mortes!
- Mas ele agora não pode prestar depoimento, Cornélio - disse Dumbledore,
encarando Fudge com insistência, como se o visse direito pela primeira vez.
- Ele não pode testemunhar por que matou essas pessoas.
- Por que ele as matou? Ora, isso não é mistério, é? - esbravejou o ministro.
- Ele é doido de pedra! Pelo que Severo e Minerva me disseram, ele
parecia pensar que tinha feito tudo isso seguindo instruções de Você-Sabe-Quem!
- É ele estava seguindo instruções de Lord Voldemort, Cornélio ­
respondeu Dumbledore. ­ A morte dessas pessoas foi apenas um produto
secundário do plano para restaurar as forças de Voldemort. O plano foi bem-
sucedido. Voldemort recuperou seu corpo.
Fudge parecia ter levado uma pancada violenta no rosto. Atordoado e
piscando, ele olhou para Dumbledore como se não conseguisse acreditar no que
acabara de ouvir. Começou a balbuciar, ainda de olhos arregalados para o diretor.


- Você-Sabe-Quem... retornou? Absurdo. Ora, vamos, Dumbledore...
- Conforme Minerva e Severo sem dúvida lhe contaram, ouvimos Bartô
Crouch confessar. Sob a influência do Veritaserum, ele nos disse como foi
contrabandeado para fora de Azkaban e como Voldemort, tendo sabido por Berta
Jorkins que ele continuava vivo, foi libertá-lo da guarda do pai, e usou-o para
capturar Harry. O plano funcionou, posso lhe garantir. Crouch ajudou Voldemort a
retornar.
- Olhe aqui, Dumbledore - disse Fudge, e Harry ficou espantado de ver o
sorrisinho que apareceu no rosto do ministro -, você... você não acredita
seriamente nisso. Você-Sabe-Quem voltou? Ora, vamos, ora vamos... com
certeza Crouch deve ter acreditado que estava agindo sob as ordens de Você-
Sabe-Quem, mas aceitar a palavra de um doido daqueles, Dumbledore...
- Quando Harry tocou na Taça Tribruxo esta noite, ele foi transportado
diretamente até Voldemort - disse Dumbledore com firmeza. - Ele presenciou o
renascimento de Lord Voldemort. Explicarei tudo a você se quiser vir ao meu
escritório.
Dumbledore olhou para Harry e viu que o garoto estava acordado, mas
sacudiu a cabeça e disse:
- Receio que não possa permitir que você interrogue Harry hoje. O curioso
sorriso de Fudge perdurou.
Ele também olhou para Harry, depois se voltou para Dumbledore:
- Você está... hum... disposto a aceitar a palavra de Harry neste caso,
Dumbledore?
Houve um momento de silêncio, interrompido por um rosnado de Sirius.
Tinha os pêlos do pescoço em pé e seus dentes se arreganharam para Fudge.
- Certamente que acredito em Harry - disse Dumbledore. Seus olhos
brilharam de fúria. - Ouvi a confissão de Crouch e ouvi o relato de Harry sobre o
que aconteceu quando ele tocou a Taça Tribruxo, as duas histórias fazem sentido,
explicam tudo que tem acontecido desde que Berta Jorkins desapareceu no verão
passado.
Fudge ainda conservava aquele sorriso estranho no rosto. Olhou mais uma
vez para Harry antes de responder.
- Você está disposto a acreditar que Lord Voldemort voltou, porque assim
dizem um assassino louco e um garoto que... bem... Fudge lançou a Harry mais
um olhar, e o garoto subitamente compreendeu.
- O senhor tem andado lendo Rita Skeeter, Sr. Fudge - disse ele
calmamente.
Rony, Hermione, a Sra. Weasley e Gui, todos se assustaram. Nenhum
deles percebera que Harry estava acordado. Fudge corou ligeiramente, mas
surgiu em seu rosto uma expressão de desafio e obstinação.
- E se tiver? - perguntou, fitando Dumbledore. - E se descobri que você me
tem ocultado certos fatos sobre o garoto? Ofidioglota, é? E tem desmaios
esquisitos a toda hora?...
- Presumo que você esteja se referindo às dores que Harry tem sentido na
cicatriz? ­ perguntou Dumbledore friamente.
- Você admite que ele tem tido dores, então? - perguntou Fudge depressa.
­ Dores de cabeça? Pesadelos? Possivelmente... alucinações?


- Escute aqui, Cornélio - disse Dumbledore dando um passo para perto de
Fudge, e mais uma vez parecendo irradiar aquela indefinível aura de poder que
Harry sentira quando estuporou o jovem Crouch.
- Harry é tão mentalmente são quanto eu ou você. Aquela cicatriz na testa
não afetou o cérebro dele. Acredito que doa quando Lord Voldemort está por perto
ou experimente sentimentos assassinos.
Fudge se afastara meio passo de Dumbledore, mas não parecia menos
obstinado.
- Você vai me perdoar, Dumbledore, mas ouvi falar em uma cicatriz deixada
por um feitiço funcionar como uma campainha de alarme antes...
- Olhe, eu vi Voldemort ressurgir! - gritou Harry. Ele tentou novamente se
levantar da cama, mas a Sra. Weasley forçou-o a deitar. - Eu vi os Comensais da
Morte! Posso dar os nomes! Lúcio Malfoy...
Snape fez um movimento repentino, mas quando Harry se virou, o olhar do
professor retornara a Fudge.
- Malfoy foi inocentado! - disse Fudge visivelmente afrontado.
- Uma família muito antiga, doações para causas excelentes...
- Mcnair! - continuou Harry.
- Também inocentado! Agora trabalha para o Ministério!
- Avery, Nott, Crabbe, Goyle.
- Você está apenas repetindo os nomes dos que foram absolvidos da
acusação de serem Comensais da Morte há treze anos! - disse Fudge zangado. -
Poderia ter achado esses nomes em relatórios antigos sobre os julgamentos! Pelo
amor de Deus, Dumbledore, o garoto esteve com a cabeça cheia de histórias
malucas no fim do ano passado, também, as invencionices dele estão cada vez
mais mirabolantes, e você continua a engoli-las, o garoto é capaz de falar com
cobras, Dumbledore, e você ainda acha que ele merece confiança?
- Seu tolo! - exclamou a Profª McGonagall. - Cedrico Diggory! O Sr. Crouch!
Estas mortes não foram o trabalho aleatório de um doido!
- Não vejo nenhuma evidência em contrário! - gritou Fudge, agora
equiparando sua raiva à da professora, o rosto roxo. ­ Parece-me que vocês estão
decididos a começar uma onda de pânico que irá desestabilizar tudo pelo que
trabalhamos nesses últimos treze anos!
Harry não conseguiu acreditar no que estava ouvindo. Sempre pensara em
Fudge como uma pessoa bondosa, um pouco espalhafatosa, um pouco pomposa,
mas de índole essencialmente boa. Mas agora via à sua frente um bruxo baixo e
furioso, que se recusava terminantemente a aceitar a perspectiva de um
esfacelamento do seu mundo confortável e ordeiro - a acreditar que Voldemort
pudesse ter ressurgido.
- Voldemort retornou - repetiu Dumbledore. - Se você aceitar imediatamente
este fato, Fudge, e tomar as medidas necessárias, talvez ainda possamos salvar a
situação. O primeiro passo, e o mais essencial, é retirar Azkaban do controle dos
dementadores...
- Que despropósito! - gritou outra vez Fudge. - Retirar os dementadores! Eu
seria chutado do Ministério se sugerisse uma coisa dessas! Metade da população
só se sente segura quando se deita à noite porque sabe que os dementadores
estão guardando Azkaban!


- A outra metade não dorme tão bem, Cornélio, porque sabe que você
deixou os seguidores mais perigosos de Lord Voldemort aos cuidados de criaturas
que irão se juntar a ele no momento em que ele pedir! - retorquiu Dumbledore. -
Eles não irão permanecer leais a você, Fudge! Voldemort pode oferecer um
espaço muito maior para os poderes e prazeres deles do que você! Com os
dementadores a apoiá-lo, e a volta dos seus antigos seguidores, você vai ter muita
dificuldade para impedi-lo de reconquistar o poder que tinha há treze anos!
Fudge abria e fechava a boca como se não tivesse palavras para expressar
sua indignação.
- A segunda medida que você precisa tomar, e imediatamente - continuou
Dumbledore -, é mandar enviados aos gigantes.
- Enviados aos gigantes! - gritou o ministro em tom agudo, afinal
recuperando a fala . ­ Que loucura é essa?
- Estenda-lhes a mão da amizade, agora, antes que seja tarde demais ou
Voldemort irá persuadi-los, como já fez antes, que somente ele entre os bruxos
concederá aos gigantes direitos e liberdade!
- Você... você não pode estar falando sério! - exclamou Fudge, sacudindo a
cabeça e se afastando um pouco mais de Dumbledore. - Se a comunidade mágica
ouvir falar que eu procurei os gigantes, as pessoas os odeiam, Dumbledore... a
minha carreira termina...
- Você está cego de amor - disse Dumbledore, sua voz elevando-se agora,
a aura de poder palpável ao seu redor, seus olhos mais uma vez em brasas - pelo
cargo que ocupa, Cornélio! Você atribui demasiada importância, como sempre fez,
à chamada pureza do sangue! Você não consegue reconhecer que não faz
diferença quem a pessoa é ao nascer, mas o que ela vai ser ao crescer! O seu
dementador acabou de destruir o último membro de uma família de sangue puro
tão antiga quanto a de outros, e veja em que foi que ele transformou a própria
vida! Digo-lhe agora, tome as medidas que sugeri e você será lembrado, no cargo
ou fora dele, como um dos Ministros da Magia mais corajosos e sábios que já
conhecemos. Não faça nada, e a história irá lembrá-lo como o homem que se
omitiu e permitiu que Voldemort tivesse uma segunda oportunidade de destruir o
mundo que tentamos reconstruir!
- Está demente - sussurrou Fudge, ainda se afastando. - Enlouqueceu...
E então, todos se calaram. Madame Pomfrey estava postada, imóvel aos
pés da cama de Harry, as mãos cobrindo a boca. A Sra. Weasley continuava
curvada para Harry, a mão no ombro do garoto para impedi-lo de se levantar. Gui,
Rony e Hermione tinham os olhos arregalados para Fudge.
- Se a sua determinação de fechar os olhos levou você a esse ponto,
Cornélio - disse Dumbledore -, chegou o momento em que os nossos caminhos se
separam. Você fará o que acha que deve. E eu agitei como acho que devo.
A voz de Dumbledore não continha sequer uma sugestão de ameaça,
parecia fazer uma simples constatação, mas Fudge se encrespou como se
Dumbledore estivesse avançando para ele com a varinha em punho.
- Agora, escute aqui Dumbledore - disse sacudindo o dedo na cara do
diretor. - Eu sempre o deixei agir livremente. Tenho muito respeito por você. Posso
não ter concordado com algumas de suas decisões, mas fiquei calado. Não existe
muita gente que deixaria você contratar lobisomens ou manter Hagrid ou decidir o


que ensinar aos seus alunos, sem consultar o Ministério. Mas se você vai
trabalhar contra mim...
- A única pessoa contra quem pretendo trabalhar é Lord Voldemort. Se você
é contra ele, então continuamos, Cornélio, do mesmo lado.
Aparentemente Fudge não conseguiu pensar que resposta dar a
Dumbledore. Balançou-se para a frente e para trás sobre os pés diminutos por um
momento, girando o chapéu-coco nas mãos. Finalmente, disse, com um quê de
súplica na voz:
- Ele não pode estar de volta, Dumbledore, simplesmente não pode...
Snape se adiantou, passou por Dumbledore, ao mesmo tempo em que
levantava a manga esquerda de suas vestes. Esticou o braço e mostrou-o a
Fudge, que se retraiu.
- Olhe - disse Snape asperamente. - Olhe. A Marca Negra. Não está tão
nítida quanto estava há pouco mais de uma hora, quando ficou realmente negra,
mas o senhor ainda pode vê-la. O Lord das Trevas marcou com este sinal todos
os Comensais da Morte. Era uma maneira de nos reconhecermos e um meio de
nos convocar à presença dele. Quando ele tocava a Marca de qualquer comensal,
devíamos desapararar e apararar instantaneamente ao seu lado. A Marca se
tornou mais nítida durante esse ano. A de Karkaroff também. Por que o senhor
acha que o professor fugiu esta noite? Nós dois sentimos a Marca queimar. Nós
dois sabíamos que ele havia voltado. Karkaroff teme a vingança do Lord das
Trevas. Ele traiu muitos companheiros comensais para ter ilusões de ser bem
recebido no seio do rebanho.
Fudge recuou para longe de Snape, também. Sacudiu a cabeça. Não
parecia ter absorvido uma única palavra do que Snape dissera. Olhava,
aparentemente repugnado, para a feia Marca no braço de Snape, depois ergueu
os olhos para Dumbledore e murmurou:
- Não sei do que você e seus professores estão brincando, Dumbledore,
mas já ouvi o bastante. Não tenho nada a acrescentar. Entro em contato com você
amanhã para discutirmos a administração da escola. Preciso voltar ao Ministério.
Já chegara quase à porta quando parou. Virou-se, voltou para a enfermaria
e se deteve junto à cama de Harry.
- Seu prêmio - disse brevemente, tirando uma grande bolsa de ouro do
bolso e largando-a na mesa-de-cabeceira do garoto. - Mil galeões. Deveria ter
havido uma cerimônia de premiação, mas nas circunstâncias...
E enfiando seu chapéu-coco na cabeça, ele saiu da enfermaria, batendo a
porta ao passar. No instante em que desapareceu, Dumbledore se voltou para o
grupo ao redor da cama de Harry.
- Temos trabalho a fazer - disse. - Molly... estou certo em pensar que posso
contar com você e Arthur?
- Claro que pode - disse a Sra. Weasley. Estava pálida até nos lábios, mas
parecia decidida. ­ Ele sabe quem Fudge é. É a afeição de Arthur por trouxas que
o tem mantido no Ministério todos esses anos. O ministro acha que falta a ele o
orgulho que espera de um bruxo.
- Então preciso mandar uma mensagem a ele - disse Dumbledore. - Todos
os que pudermos persuadir da verdade devem ser avisados imediatamente, e


Arthur está bem colocado para entrar em contato com as pessoas no Ministério
que não sejam tão míopes quanto o Cornélio.
- Vou procurar papai - disse Gui, levantando-se. - Vou agora.
- Excelente - exclamou Dumbledore. - Diga-lhe o que aconteceu. Diga-lhe
que entrarei em contato com ele em breve. Mas que ele precisa ser discreto. Se
Fudge achar que estou interferindo no Ministério...
- Pode deixar comigo - disse Gui.
O rapaz deu uma palmadinha no ombro de Harry, beijou a mãe no rosto,
vestiu a capa e saiu rapidamente da enfermaria.
- Minerva - disse Dumbledore virando-se para a Profª McGonagall -, quero
ver Hagrid no meu escritório o mais depressa possível. E também, se ela
concordar em vir, Madame Maxime.
A professora aquiesceu com um aceno de cabeça e saiu sem dizer nada.
- Papoula - disse Dumbledore a Madame Pomfrey -, será que você me faria
a gentileza de ir à sala do Prof. Moody, onde acho que encontrará lá um elfo
doméstico chamado Winky em grande sofrimento? Faça o que puder por ela e
leve-a de volta à cozinha. Acho que Dobby cuidará dela para nós.
- Claro... claro que sim - respondeu a enfermeira parecendo espantada, e
ela também saiu.
Dumbledore certificou-se de que a porta estava trancada e que o ruído dos
passos de Madame Pomfrey tinha morrido na distância, antes de tornar a falar.
- E agora - disse ele - está na hora de duas pessoas deste grupo se
reconhecerem pelo que são. Sirius... se puder retomar sua forma habitual.
O cachorrão preto ergueu a cabeça para o diretor, depois, num segundo,
voltou a ser homem. A Sra. Weasley gritou e se afastou da cama.
- Sirius Black! - tornou a gritar ela com voz aguda, apontando para o bruxo.
- Mamãe, cala a boca! - berrou Rony. - Está tudo bem!
Snape não gritara nem saltara para trás, mas a expressão do seu rosto era
uma mescla de fúria e horror.
- Ele! - rosnou o professor, arregalando os olhos para Sirius, cujo rosto
exprimia igual desagrado.
- Que é que ele está fazendo aqui?
- Está aqui a meu convite - disse Dumbledore, olhando para ambos - como
você, Severo. Confio nos dois. Está na hora de porem de lado as velhas
diferenças e confiarem um no outro.
Harry achou que Dumbledore estava pedindo quase um milagre. Sirius e
Snape se entreolhavam com a maior repugnância.
- Aceitarei, a curto prazo - disse Dumbledore, com uma certa impaciência
na voz -, que suspendam as hostilidades ostensivas. Os dois apertem as mãos.
Estão do mesmo lado agora. O tempo é curto e, a não ser que os poucos de nós
que conhecem a verdade se mantenham unidos, não haverá esperança para
ninguém.
Muito devagar - mas ainda se olhando feio como se não desejassem um ao
outro se não o mal - Sirius e Snape se aproximaram e apertaram as mãos. Mas as
soltaram bem rápido.
- Já é o bastante para começar - disse o diretor se interpondo aos dois
homens mais uma vez. - Agora tenho trabalho para cada um de vocês. A atitude


de Fudge, embora não seja inesperada, muda tudo, Sirius. Preciso que você
comece imediatamente. Alerte Remo Lupin, Arabella Figg, Mundungo Fletcher, a
turma antiga. Fique escondido com Lupin por enquanto, entrarei em contato com
você lá.
- Mas... - começou Harry.
O garoto queria que Sirius ficasse. Não queria dizer adeus novamente tão
depressa.
- Você voltará a me ver em breve, Harry - disse Sirius, virando-se para o
afilhado. - Prometo. Mas preciso fazer o que posso, você compreende, não?
- Claro. Claro... que sim.
Sirius apertou a mão de Harry brevemente, se despediu de Dumbledore
com um aceno da cabeça, voltou a se transformar em cachorro preto e correu
para a porta, cuja maçaneta abriu com a pata. Então desapareceu.
- Severo - disse Dumbledore, voltando-se para Snape -, você sabe o que
preciso lhe pedir para fazer. Se estiver disposto... se estiver preparado...
- Estou - disse Snape.
O professor parecia um pouco mais pálido do que o habitual, e seus olhos
frios e negros brilharam estranhamente.
- Então, boa sorte - e o diretor acompanhou, com uma certa apreensão no
rosto, Snape partir em seguida a Sirius sem dizer palavra. Passaram-se vários
minutos até Dumbledore tornar a falar.
- Preciso ir lá embaixo - disse finalmente. - Preciso ver os Diggory. Harry,
tome o resto da sua poção. Verei todos vocês mais tarde.
Harry se deixou cair nos travesseiros enquanto Dumbledore desaparecia.
Hermione, Rony e a Sra. Weasley ficaram olhando para o garoto. Nenhum deles
falou durante muito tempo.
- Você tem que tomar o resto da sua poção, Harry - disse finalmente a Sra.
Weasley. Ao apanhar o frasco e a taça, ela bateu com a mão no saco de ouro à
mesa-de-cabeceira.
- Durma bastante. Tente pensar em outra coisa por um tempo... pense no
que vai comprar com o seu prêmio!
- Não quero esse ouro - falou Harry com a voz sem emoção. - Pode ficar
com ele. Qualquer um pode ficar com ele. Eu não deveria ter ganho. Deveria ter
sido de Cedrico.
A coisa contra a qual ele estivera lutando intermitentemente, desde que
saíra do labirinto, ameaçava engolfá-lo. Sentiu uma ardência, um formigamento
nos cantos internos dos olhos. Ele piscou e ficou encarando o teto.
- Não foi sua culpa, Harry - sussurrou a Sra. Weasley.
- Eu disse a ele que apanhasse a Taça comigo.
Agora a sensação de ardência passara à garganta, também. Ele desejou
que Rony olhasse para outro lado.
A Sra. Weasley deixou a poção em cima da mesinha, abaixou-se e passou
os braços em volta de Harry. O garoto não tinha lembrança de jamais ter sido
abraçado assim, como faria uma mãe. Todo o peso do que vira aquela noite
pareceu desabar sobre ele quando a Sra. Weasley o apertou contra o peito. O
rosto de sua mãe, a voz de seu pai, a visão de Cedrico morto no chão, tudo
começou a girar em sua cabeça até ele não conseguir mais agüentar, até seu


rosto se contrair todo para conter o uivo de infelicidade que lutava para escapar de
dentro dele.
Ouviu-se uma pancada e a Sra. Weasley e Harry se separaram. Hermione
estava parada junto à janela. Apertava alguma coisa com força na mão.
- Desculpem - sussurrou.
- Sua poção, Harry - disse a Sra. Weasley depressa, enxugando os olhos
com as costas da mão.
Harry bebeu a poção de um só gole. O efeito foi instantâneo. Ondas
pesadas e irresistíveis de sono sem sonhos o envolveram, ele tombou sobre os
travesseiros e não pensou mais.


- CAPITULO TRINTA E SETE -
O começo

Quando relembrou os acontecimentos, mesmo um mês depois, Harry
descobriu que havia pouco a se lembrar dos dias que se sucederam. Era como se
ele tivesse passado por coisas em excesso para poder absorver mais alguma. As
lembranças que guardara eram muito dolorosas. A pior talvez tivesse sido o
encontro com os Diggory, que ocorreu na manhã seguinte.
Eles não o culparam pelo que acontecera; pelo contrário, ambos lhe
agradeceram por ter trazido o corpo do filho de volta. O Sr. Diggory soluçou a
maior parte da entrevista. A dor da Sra. Diggory parecia ter ultrapassado o consolo
das lágrimas.
- Ele sofreu pouco, então - disse ela, depois que Harry lhe contou como
Cedrico havia morrido. - Afinal, Amos... ele morreu no momento em que venceu o
torneio. Devia estar muito feliz.
Ao se levantarem, ela olhou para Harry e disse:
- Cuide-se bem.
Harry apanhou o saco de ouro na mesa-de-cabeceira.
- Podem levar - murmurou para a senhora. - Deveria ter sido de Cedrico, ele
chegou à Taça primeiro, levem...
Mas ela se afastou dele.
- Ah, não, é seu, querido, não poderíamos... fique para você.
Harry voltou à Torre da Grifinória na noite seguinte. Pelo que Hermione e
Rony lhe contaram, Dumbledore se dirigira à escola naquela manhã, ao café.
Pedira apenas que deixassem Harry em paz, que ninguém lhe fizesse perguntas
nem o aborrecesse pedindo que contasse o que acontecera no labirinto. A maioria
dos colegas, reparou Harry, estava lhe dando distância nos corredores, evitando
olhá-lo. Alguns cochichavam tampando a boca com as mãos quando o garoto
passava. Ele imaginou que muitos teriam acreditado no artigo de Rita Skeeter
sobre sua perturbação mental e a possibilidade de ser perigoso.
Talvez estivessem formulando as próprias teorias sobre a morte de Cedrico.
Ele descobriu que não fazia muita diferença. Gostava mais quando estava com
Rony e Hermione e conversavam de outras coisas ou então eles o deixavam ficar
calado enquanto jogavam xadrez. Sentia que os três haviam chegado a um
entendimento que não precisava ser expresso com palavras, que cada um estava


à espera de um sinal, uma palavra, sobre o que estava acontecendo fora dos
muros de Hogwarts - e que era inútil especular até que soubessem de alguma
coisa ao certo. A única vez em que tocaram no assunto foi quando Rony contou a
Harry sobre o encontro que a Sra. Weasley tivera com Dumbledore antes de voltar
para casa.
- Ela foi perguntar ao diretor se você poderia ir direto para nossa casa no
verão. Mas o diretor quer que você vá para a casa dos Dursley, pelo menos no
começo.
- Por quê - perguntou Harry.
- Ela disse que Dumbledore tem lá as razões dele - explicou Rony,
balançando a cabeça sombriamente. - Suponho que temos de confiar nele, não é?
A única pessoa além de Rony e Hermione com quem Harry se sentia capaz de
falar era Hagrid. E como não havia mais professor de Defesa contra as Artes das
Trevas, tinham o tempo dessa aula livre.
Usaram o da tarde de quinta-feira para visitar Hagrid em casa. Fazia um dia
claro e ensolarado, Canino saltou pela porta aberta quando eles se aproximaram,
latindo e abanando o rabo feito louco.
- Quem está aí? - perguntou Hagrid chegando até a porta. - Harry!
E saiu ao encontro dos garotos, puxando Harry para um abraço com uma
das mãos e despenteando os cabelos dele com a outra disse:
- Que bom ver você companheiro. Que bom ver você.
Os três viram duas xícaras do tamanho de baldes sobre a mesa de madeira
diante da lareira quando entraram na cabana.
- Tomando uma xícara de chá com Olímpia - disse Hagrid -, ela acabou de
sair.
- Quem? - perguntou Rony curioso.
- Madame Maxime, é claro! - explicou Hagrid.
- Vocês dois fizeram as pazes, então? - perguntou Rony;
- Não sei do que você está falando - disse Hagrid com displicência, indo
buscar mais xícaras na cômoda. Depois de preparar o chá e oferecer um prato de
biscoitos massudos, ele se sentou e examinou Harry mais de perto com aqueles
seus olhos de besouros negros.
- Você está bem?, perguntou rouco.
-Claro.
- Não, não está. Claro que não está. Mas vai ficar.
Harry não respondeu nada.
- Eu sabia que ele ia voltar - disse Hagrid, e Harry, Rony e Hermione
olharam para ele chocados. - Sei há anos, Harry. Sabia que estava lá fora,
esperando a hora. Tinha que acontecer. Bom, agora aconteceu, e vamos ter de
conviver com isso. Vamos lutar. Talvez a gente consiga deter o homem antes que
ele se firme. Pelo menos esse é o plano de Dumbledore. Grande homem.
Dumbledore. Enquanto contarmos com ele, não estou muito preocupado.
Hagrid ergueu as sobrancelhas espessas ao ver a expressão de
incredulidade nos rostos dos garotos.
- Não adianta a gente ficar sentado se preocupando. O que tiver que ser
será, e nós o enfrentaremos quando vier. Dumbledore me contou o que você fez,
Harry.


O peito de Hagrid inchou ao fitar Harry.
- Você fez tanto quanto o seu pai teria feito e não posso lhe fazer elogio
maior.
Harry retribuiu o sorriso do amigo. Era a primeira vez que sorria em dias.
- Que foi que Dumbledore lhe pediu para fazer, Hagrid? - perguntou o
garoto. - Ele mandou a Profª Minerva convidar você e Madame Maxime para irem
à sala dele... naquela noite.
- Tem um trabalhinho para mim durante o verão - disse Hagrid. - Mas é
segredo. Não tenho licença para falar, nem para vocês. Olímpia, Madame Máxime
para vocês, talvez vá comigo. Acho que irá. Acho que a convenci.
- Tem ligação com Voldemort?
Hagrid fez uma careta ao ouvir aquele nome.
- Talvez - respondeu evasivamente. - Agora... quem gostaria de visitar o
último explosívín comigo? Brincadeirinha, brincadeirinha! ­ acrescentou ele
depressa, ao ver a cara dos garotos.
Foi com uma opressão no peito que Harry arrumou seu malão no
dormitório, na véspera do seu regresso à rua dos Alfeneiros. Estava com medo da
Festa de Despedida, que normalmente era motivo de comemoração, pois nela
anunciavam o vencedor do campeonato entre as Casas. Ele andava evitando o
Salão Principal quando estava cheio, desde que deixara a ala hospitalar, dando
preferência a comer quando ficava quase vazio, para evitar os olhares dos
colegas.
Quando ele, Rony e Hermione entraram no salão, notaram imediatamente
que não havia as decorações de costume. O Salão Principal em geral era
enfeitado com as cores da Casa vencedora na Festa de Despedida. Esta noite, no
entanto, havia panos pretos na parede ao fundo onde ficava a mesa dos
professores. Harry percebeu instantaneamente que eram um sinal de respeito por
Cedrico. O verdadeiro Olho-Tonto Moody estava à mesa, a perna de pau e o olho
mágico nos lugares. Mostrava-se extremamente inquieto e assustadiço todas as
vezes que alguém lhe falava. Harry não pôde culpá-lo, o medo que Moody tinha
de ser atacado com certeza havia crescido depois de ficar preso no seu próprio
malão durante dez meses. O lugar do Prof. Karkaroff estava vazio. Harry se
perguntou, ao sentar-se com os colegas da Grifinória, onde andaria o bruxo, se
Voldemort já o teria alcançado.
Madame Maxime continuava em Hogwarts. Estava sentada ao lado de
Hagrid. Falavam entre si baixinho. Mais adiante na mesa, ao lado da Profª
McGonagall, estava Snape.
Seus olhos se demoraram em Harry por um momento quando o garoto
olhou em sua direção. Sua expressão era difícil de traduzir. Parecia tão
amargurado e desagradável como sempre. Harry continuou a observá-lo muito
depois do professor ter desviado o olhar.
Que será que Snape fizera por ordem de Dumbledore, na noite em que
Voldemort ressurgira? E por que... por que... Dumbledore tinha tanta convicção de
que Snape estava realmente do lado deles? Espionara para eles, dissera
Dumbledore na Penseira. "Snape espionara Voldemort correndo grandes riscos
pessoais." Seria essa a tarefa que retomara? Teria feito contato com os
Comensais da Morte, talvez? Fingira que jamais se passara realmente para o lado


de Dumbledore, que estivera, a exemplo do próprio Voldemort, aguardando sua
hora?
As indagações de Harry foram interrompidas pelo Prof. Dumbledore, que se
levantou à mesa dos professores. O Salão Principal, que por sinal tinha estado
menos barulhento do que costumava ser em uma Festa de Despedida, ficou muito
silencioso.
- O fim - disse Dumbledore olhando para todos - de mais um ano.
Ele fez uma pausa e seu olhar pousou na mesa da Lufa-Lufa. A mais
silenciosa de todas antes do diretor se levantar, e continuava a ser a mais triste e
de rostos mais pálidos do salão.
- Há muita coisa que eu gostaria de dizer a todos vocês esta noite mas,
primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa, que deveria estar
sentado aqui - ele fez um gesto em direção à mesa da Lufa-Lufa -, festejando
conosco. Eu gostaria que todos os presentes, por favor, se levantassem e
fizessem um brinde a Cedrico Diggory.
Todos obedeceram; os bancos se arrastaram e os alunos no salão se
levantaram e ergueram seus cálices e ouviu-se um eco uníssono, alto, grave e
ressonante: Cedrico Diggory.
De relance, Harry viu Cho entre os colegas. Havia lágrimas silenciosas
correndo pelo seu rosto. Ele baixou os olhos para a própria mesa quando todos
tornaram a se sentar.
- Cedrico era o aluno que exemplificava muitas das qualidades que
distinguem a Casa da Lufa-Lufa - continuou Dumbledore. - Era um amigo bom e
leal, uma pessoa aplicada, valorizava o jogo limpo. Sua morte nos afetou a todos,
quer vocês o conhecessem bem ou não. Portanto, creio que vocês têm o direito de
saber exatamente como aconteceu.
Harry ergueu a cabeça e encarou Dumbledore.
- Cedrico Diggory foi morto por Lord Voldemort.
Um murmúrio de pânico varreu o Salão Principal. As pessoas olharam para
Dumbledore incrédulas, horrorizadas. Ele parecia perfeitamente calmo ao
observar os presentes até pararem de murmurar.
- O Ministro da Magia - continuou Dumbledore - não quer que eu lhes diga
isto. É possível que alguns pais se horrorizem com o que acabo de fazer, ou
porque não acreditam que Lord Voldemort tenha ressurgido ou porque acham que
eu não deva lhes informar isto por serem demasiado jovens. Creio, no entanto,
que a verdade é, em geral, preferível às mentiras, e qualquer tentativa de fingir
que Cedrico Diggory morreu em conseqüência de um acidente ou de algum erro
que cometeu é um insulto à sua memória.
Atordoados e temerosos, cada rosto no salão voltava-se para Dumbledore
agora... ou quase todos. Na mesa da Sonserina, Harry viu Draco Malfoy cochichar
alguma coisa para Crabbe e Goyle. O garoto sentiu no estômago um espasmo
nauseante e quente de raiva. Forçou-se a olhar para Dumbledore.
- Há mais alguém que deve ser mencionado com relação à morte de
Cedrico ­ continuou Dumbledore. - Estou me referindo, naturalmente, a Harry
Potter.
Um murmúrio atravessou o salão e algumas cabeças se viraram em direção
ao garoto antes de tornarem a fitar Dumbledore.


- Harry Potter conseguiu escapar de Lord Voldemort. E arriscou a própria
vida para trazer o corpo de Cedrico de volta a Hogwarts. Ele demonstrou, sob
todos os aspectos, uma bravura que poucos bruxos jamais demonstraram diante
de Lord Voldemort e, por isso, eu o homenageio.
Dumbledore virou-se solenemente para Harry e ergueu sua taça mais uma
vez. Quase todos os presentes no Salão Principal seguiram seu exemplo. E
murmuraram seu nome, conforme tinham murmurado o de Cedrico, e beberam em
sua homenagem. Mas, por uma brecha entre os que estavam de pé, Harry viu que
Malfoy, Grabbe, Goyle e muitos alunos da Sonserina, num gesto de desafio,
tinham permanecido sentados, os cálices intocados. Dumbledore, que afinal de
contas não possuía olhos mágicos, não os viu. Quando todos se sentaram mais
uma vez, o diretor continuou:
- O objetivo do Torneio Tribruxo era aprofundar e promover o entendimento
no mundo mágico. À luz do que aconteceu, o ressurgimento de Lord Voldemort,
esses laços se tornam mais importantes do que nunca.
O olhar do diretor foi de Madame Maxime e Hagrid a Fleur Delacour e seus
colegas de Beauxbatons, daí para Krum e os alunos de Durmstrang à mesa da
Sonserina. Krum, Harry observou, parecia preocupado, quase temeroso, como se
esperasse Dumbledore dizer alguma coisa desagradável.
- Cada convidado neste salão - disse o diretor e seu olhar se demorou nos
alunos de Durmstrang - será bem-vindo se algum dia quiser voltar para cá. Repito
a todos, à Luz do ressurgimento de Lord Voldemort, seremos tão fortes quanto
formos unidos e tão fracos quanto formos desunidos.
- O talento de Lord Voldemort para disseminar a desarmonia e a inimizade
é muito grande. Só podemos combatê-lo mostrando uma ligação igualmente forte
de amizade e confiança. As diferenças de costumes e língua não significam nada
se os nossos objetivos forem os mesmos e os nossos corações forem receptivos.
- Creio - e nunca tive tanta esperança de estar enganado - que estamos
diante de tempos negros e difíceis. Alguns de vocês, neste salão, já sofreram
diretamente nas mãos de Lord Voldemort. As famílias de muitos já foram
despedaçadas. Há apenas uma semana, um aluno foi levado do nosso meio.
- Lembrem-se de Cedrico Diggory. Lembrem-se, se chegar a hora de terem
de escolher entre o que é certo e o que é fácil, lembrem-se do que aconteceu com
um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord
Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory.

O malão de Harry estava pronto, Edwiges, presa na gaiola em cima do
malão. Harry, Rony e Hermione aguardavam no saguão de entrada lotado, com os
demais alunos do quarto ano, as carruagens que deviam levá-los à estação de
Hogsmeade. Fazia mais um belo dia de verão. Harry supôs que a rua dos
Alfeneiros estaria quente e cheia de folhas, os canteiros de flores em uma
profusão de cores, quando ele chegasse lá à noite. O pensamento não lhe trouxe
prazer algum.
- Arry!
Ele olhou. Fleur Delacour vinha entrando no castelo correndo. Para além da
garota, lá longe no jardim, Harry viu Hagrid ajudando Madame Maxime a atrelar os
cavalos à carruagem. A carruagem de Beauxbatons estava prestes a partir.


- Nos verremes utrra vez, esperro - disse Fleur, que estendeu a mão
quando o alcançou. ­ Estou querrendo arranjar um emprrego aqui para melhorrar
o meu inglês.
- Já é bastante bom - disse Rony com a voz meio estrangulada. Fleur sorriu
para ele, Hermione amarrou a cara para o amigo.
- Adeus, Arry - disse Fleur, virando-se para ir embora. - Foi um prrazer
conhecerr você!
O estado de ânimo de Harry não pôde deixar de melhorar um pouquinho ao
observar Fleur correr pelos gramados de volta a Madame Maxime, seus cabelos
prateados ondeando ao sol.
- Como será que os alunos de Durmstrang vão voltar para casa? - indagou
Rony. - Vocês acham que eles são capazes de comandar aquele navio sem o
Karkaroff?
- Karkaroff non comandou - disse uma voz ríspida. - Ficou na cabine e
deixou o trrabalho conosco. - Krum viera se despedir de Hermione. - Posso lhe
darr uma palavrrinha? - pediu ele.
- Ah... claro... tudo bem - respondeu a garota, e parecendo ligeiramente
afobada acompanhou. Krum pela aglomeração de alunos até desaparecer de
vista.
- É melhor você se apressar! - gritou Rony para ela. - As carruagens vão
chegar a qualquer momento!
Mas ele deixou com Harry a tarefa de vigiar a chegada das carruagens e
passou os minutos seguintes esticando o pescoço por cima dos colegas para
tentar ver o que Krum e Hermione poderiam estar fazendo. Os dois voltaram bem
depressa, mas o rosto da garota estava impassível.
- Eu gostava de Diggory - disse Krum abruptamente a Harry.
- Erra semprre educado comigo. Semprre. Mesmo eu sendo de
Durrmstrrang, com Karkaroff- acrescentou ele, fechando a cara.
- Vocês já têm um novo diretor? - perguntou Harry.
Krum sacudiu os ombros. Depois estendeu a mão, como fizera Fleur,
apertou a de Harry e em seguida a de Rony. Rony parecia estar sofrendo um
doloroso conflito interior.
Krum já começara a se afastar quando ele falou de supetão.
- Pode me dar seu autógrafo?
Hermione se virou rindo para as carruagens sem cavalos, que agora
vinham sacolejando pelo caminho, quando Krum, com ar de surpresa, mas muito
satisfeito, assinou um pedaço de pergaminho para Rony.
O tempo não poderia estar mais diferente na viagem de volta a King's Cross
do que estivera na vinda para Hogwarts, em setembro. Não havia uma única
nuvem no céu.
Harry, Rony e Hermione tinham conseguido uma cabine só para eles.
Pichitinho mais uma vez viajava escondida sob as vestes a rigor de Rony para não
ficar piando continuamente. Edwiges cochilava, a cabeça debaixo de uma asa, e
Bichento se enroscara em um lugar vazio como uma grande almofada peluda cor
de gengibre. Harry, Rony e Hermione conversaram mais longa e livremente do
que haviam feito durante toda a semana, enquanto o trem os levava para o sul.
Harry teve a impressão de que o discurso de Dumbledore na Festa de Despedida


de alguma forma o desbloqueara. Tornara-se menos doloroso para ele falar sobre
o que acontecera. Os amigos somente interromperam a conversa sobre as
medidas que Dumbledore poderia estar tomando naquele instante para deter
Voldemort, quando o carrinho de comida chegou.
Ao voltar do carrinho, Hermione guardou o troco na mochila e apanhou um
exemplar do Profeta Diário que levava ali. Harry olhou para o jornal, pouco seguro
se realmente gostaria de saber o que dizia, mas Hermione, vendo-o olhar, disse
calmamente:
- Não tem nada aqui. Pode ver por você mesmo, não tem nada aqui. Estive
verificando todos os dias. Só uma pequena noticia no dia seguinte à terceira
tarefa, dizendo que você ganhou o torneio. O jornal sequer mencionou Cedrico.
Nenhum comentário sobre nada. Se vocês me perguntarem, acho que Fudge está
obrigando o jornal a se calar.
- Ele jamais faria Rita se calar - disse Harry. - Não sobre uma história
dessas.
- Ah, Rita não tem escrito nada desde a terceira tarefa - disse Hermione,
com uma voz estranhamente contida. - Aliás - acrescentou, agora com a voz
ligeiramente trêmula -, Rita Skeeter não vai escrever nadinha por algum tempo. A
não ser que queira que eu ponha a boca no trombone sobre ela.
- Do que é que você está falando? - perguntou Rony.
- Descobri como é que ela fazia para escutar conversas particulares já que
estava proibida de entrar nos terrenos da escola - explicou a garota depressa.
Harry teve a impressão de que Hermione andava há dias doidinha para
contar a eles, mas se contivera por conta de tudo o mais que havia acontecido.
- Como é que ela fazia? - perguntou Harry na mesma hora.
- Como foi que você descobriu? - perguntou Rony, olhando admirado para a
amiga.
- Bom, na realidade foi você, Harry, quem me deu a idéia.
- Eu? - exclamou Harry perplexo. - Como?
- Grampo - disse a garota satisfeita.
- Mas você disse que não funcionava...
- Ah, não um grampo eletrônico. Não, sabe... Rita Skeeter - a voz de
Hermione tremeu de silencioso triunfo - é um animago clandestino. Ela pode se
transformar...
Hermione tirou um frasco lacrado de dentro da mochila.
- ... em besouro.
- Você está brincando - exclamou Rony. - Você não... ela não esta...
-. Ah, está - respondeu Hermione com ar de felicidade, mostrando o frasco
para os amigos. Dentro havia uns gravetos e folhas e um grande e gordo besouro.
- Nunca... você está brincando... - sussurrou Rony, erguendo o frasco à
altura dos olhos.
- Não, não estou - disse Hermione, com um largo sorriso. - Apanhei-a no
peitoril da janela da enfermaria. Olhe com atenção e você vai notar as marcas em
volta das antenas exatamente iguais as daqueles óculos horrorosos que ela usa.
Harry olhou e viu que a garota tinha razão. E ele também se lembrou de uma
coisa.


- Havia um besouro em cima da estátua na noite em que ouvimos Hagrid
falando com Madame Maxime sobre a mãe dele!
- Exatamente - confirmou Hermione. - E Vítor tirou um besouro dos meus
cabelos quando estávamos conversando na beira do lago. E, a não ser que eu
esteja muito enganada, Rita estava no peitoril da janela da classe de Adivinhação
no dia em que sua cicatriz doeu. Ela andou besourando pela escola o ano inteiro.
- Quando vimos Malfoy debaixo daquela árvore... - lembrou Rony
lentamente.
- Ele estava falando com a Rita segura na mão - disse Hermione. - Ele
sabia, é claro. Foi assim que ela fez aquelas entrevistas simpáticas com os alunos
da Sonserina. Aqueles garotos não ligariam se ela estivesse fazendo uma coisa
ilegal, desde que pudessem contar barbaridades sobre Hagrid e nós.
Hermione apanhou o frasco da mão de Rony e sorriu para o besouro, que
zuniu irritado contra o vidro.
- Já avisei a ela que só vou soltá-la quando chegarmos a Londres. Lancei
um Feitiço Antiquebra no frasco, entendem, para ela não poder se transformar. E
avisei, também, que vai ter que guardar a pena só para ela durante um ano.
Vamos ver se ela não perde o hábito de escrever mentiras horríveis sobre as
pessoas.
Sorrindo serenamente, Hermione tornou a guardar o besouro na mochila. A
porta da cabine se abriu.
- Muito esperta, Granger - exclamou Draco Malfoy.
Crabbe e Goyle vinham atrás dele. Os três pareciam mais satisfeitos com
eles mesmos, mais arrogantes e mais ameaçadores, do que Harry jamais os vira.
- Então - disse Malfoy, entrando lentamente na cabine e olhando para os
três, um sorrisinho brincando em seus lábios. - Vocês apanharam uma repórter
patética, e Potter voltou a ser o aluno favorito de Dumbledore. Grande coisa.
Seu sorriso se alargou. Crabbe e Goyle fizeram cara de desdém.
- Estamos tentando não pensar naquilo, é? - disse ele calmamente,
continuando a se dirigir aos três. - Tentando fingir que não aconteceu?
- Dá o fora - disse Harry
Ele não chegava perto de Malfoy desde que o vira cochichando com
Crabbe e Goyle durante o discurso de Dumbledore sobre Cedrico. Sentiu uma
espécie de zumbido nos ouvidos. Sua mão agarrou a varinha sob as vestes.
- Você escolheu o lado perdedor, Potter! Eu lhe avisei! Eu lhe disse que
devia escolher com quem anda com mais cuidado, lembra? Quando nos
encontramos no trem, no primeiro dia de Hogwarts? Eu lhe disse para não andar
com ralé desse tipo! - Ele indicou Rony e Hermione com a cabeça. - Tarde demais
agora, Potter! Eles serão os primeiros a ir, agora que o Lord das Trevas voltou!
Sangue-ruins e amantes de trouxas primeiro! Bom, em segundo lugar, Diggory foi
o pr...
Foi como se alguém tivesse explodido uma caixa de fogos na cabine pelo
clarão dos feitiços que voaram em todas as direções, surdo pela série de
estampidos, Harry piscou olhando para o chão. Malfoy, Crabbe e Goyie estavam
caídos inconscientes à porta.
Ele, Rony e Hermione estavam de pé, depois de cada um ter usado um
feitiço diferente. E não tinham sido os únicos a fazer isso.


- Achamos que devíamos dar uma olhada no que os três iam aprontar -
disse Fred factualmente, pisando em cima de Goyle, no que foi imitado por Jorge,
que teve o cuidado de pisar em Malfoy ao entrar com o irmão na cabine.
- Que efeito interessante! - exclamou Jorge, olhando para Crabbe. - Quem
usou o Feitiço Furunculus?
- Eu - respondeu Harry.
- Que estranho! - disse Jorge descontraído. - Eu usei o das Pernas-
Bambas. Parece que não se deve misturar os dois. Brotaram pequenos tentáculos
pela cara dele toda. Bom, não vamos deixar os três aqui, eles não contribuem
nada para a decoração.
Rony, Harry e Jorge chutaram, rolaram e empurraram os inconscientes
Malfoy, Crabbe e Goyle - cada um com a aparência pior, dada a mistura de feitiços
com que tinham sido atingidos - até o corredor, depois voltaram para a cabine e
fecharam a porta.
- Alguém topa um Snap Explosivo? - convidou Jorge puxando um baralho.
Já estavam no meio da quinta partida quando Harry resolveu fazer a eles a
pergunta.
- Então vão nos contar? - dirigiu-se ele a Jorge. - Quem é que vocês
estavam chantageando?
- Ah - disse Jorge misteriosamente. - Aquilo.
- Vamos deixar pra lá - disse Fred, balançando a cabeça impaciente. - Não
foi nada importante. Pelo menos a essa altura.
- Desistimos - disse Jorge encolhendo os ombros.
Mas Harry, Rony e Hermione continuaram insistindo e finalmente Fred
falou:
- Está bem, está bem, se vocês querem mesmo saber... era Ludo Bagman.
- Bagman? - disse Harry na mesma hora. - Vocês estão dizendo que ele
estava envolvido...
- Não - disse Jorge desanimado. - Nada a ver. Um debilóide. Não teria
cérebro para tanto.
- Então, quem?
Fred hesitou,.depois disse:
- Vocês se lembram da aposta que fizemos com ele na Copa Mundial de
Quadribol? Que a Irlanda ia ganhar, mas Krum capturaria o pomo?
- Lembro - disseram Harry e Rony lentamente.
- Bom, o babaca nos pagou com aquele ouro de leprechaun que os
mascotes da Irlanda tinham jogado.
-E daí?
- E daí - disse Fred impaciente - desapareceu, não é? Na manhã seguinte,
tinha desaparecido!
- Mas... deve ter sido sem querer, não? - perguntou Hermione.
Jorge riu muito amargurado.
- É, foi o que nós pensamos a princípio. Achamos que se escrevêssemos a
ele e disséssemos que tinha havido um engano, ele nos pagaria direito. Mas nada
feito. Nem deu bola para a nossa carta. Continuamos tentando falar com ele sobre
isso em Hogwarts, mas estava sempre arranjando uma desculpa para se afastar.


- No fim ele começou a engrossar - comentou Fred. - Disse que éramos
muito jovens para apostar em jogos de azar e que ele não ia nos dar nada.
- Então pedimos a ele que devolvesse o nosso dinheiro - disse Jorge
amarrando a cara.
- Ele não teve a coragem de recusar! ­ exclamou Hermione.
- Acertou na primeira - disse Fred.
- Mas eram todas as economias de vocês! - disse Rony.
- Me conta uma novidade - disse Jorge. - Claro que acabamos descobrindo
o que estava rolando. O pai de Lino Jordan também tinha tido um trabalho danado
para receber algum dinheiro de Bagman. O caso é que ele estava encalacrado até
o pescoço com os duendes. Tinha pedido emprestado a eles uma montanha de
dinheiro. Uma turma encurralou Bagman na floresta depois da Copa Mundial e
tirou todo o ouro que ele levava nos bolsos, mas ainda não era suficiente para
cobrir as dividas. Os duendes o seguiram até Hogwarts para ficar de olho nele. O
cara tinha perdido tudo no jogo. Não tinha mais nem dois galeões para esfregar
um no outro. E sabe como foi que o idiota tentou pagar aos duendes?
- Como? - perguntou Harry.
- Apostou em você companheiro - disse Fred. - Fez uma aposta enorme
que você ganharia o torneio. Apostou com os duendes.
- Então foi por isso que ele ficou tentando me ajudar a ganhar! - disse
Harry. - Bom, e eu ganhei, não é mesmo? Então ele já pode pagar o ouro de
vocês!
- Não - respondeu Jorge, balançando a cabeça. - Os duendes jogaram sujo
com ele. Disseram que você ganhou com Diggory, e Bagman tinha apostado que
você ganharia sozinho. Então Bagman teve que se mandar para salvar a pele. E
foi o que fez logo depois da terceira tarefa.
Jorge deu um profundo suspiro e começou a dar as cartas outra vez.
O resto da viagem foi bem agradável, Harry na verdade desejou que ela
pudesse ter continuado pelo verão afora, e que nunca chegassem a King"s
Cross... mas como aprendera a duras penas aquele ano, o tempo não
desacelerava quando alguma coisa desagradável estava à espera da gente, e
logo, logo o Expresso de Hogwarts estaria entrando na plataforma nove e meia. O
barulho e a confusão de sempre encheram os corredores do trem quando os
alunos começaram a desembarcar. Rony e Hermione lutaram para passar com as
malas ao largo de Malfoy, Crabbe e Goyle. Harry, no entanto, ficou parado.
- Fred, Jorge, esperem aí.
Os gêmeos se viraram. Harry abriu o malão e tirou a bolsa com o prêmio do
Torneio Tribruxo.
- Para vocês - disse ele, e enfiou a bolsa nas mãos de Jorge.
- Quê? - exclamou Fred, aparvalhado.
- Para vocês - repetiu Harry com firmeza. - Eu não quero.
- Você pirou - disse Jorge, tentando empurrar a bolsa de volta para o
garoto.
- Não, não pirei. Fiquem com ele e continuem inventando. É para a loja de
logros.
- Ele pirou - disse Jorge, com assombro na voz.


- Escutem - disse Harry decidido. - Se vocês não aceitarem eu vou jogar
fora. Não quero o ouro e não preciso dele. Mas dar umas boas gargalhadas bem
que ajudaria. Tenho a impressão de que vamos precisar delas mais do que de
costume e não vai demorar muito.
- Harry - disse Jorge sem muita convicção, pesando a bolsa de dinheiro nas
mãos -, deve ter uns mil galeões aqui.
- Tem - disse Harry sorrindo. - Pensem quantos Cremes de Canário vão
poder fabricar.
Os gêmeos ficaram olhando para ele.
- Só não contem à sua mãe onde arranjaram o ouro... embora, pensando
bem, ela talvez não esteja mais querendo tanto que vocês entrem para o
Ministério...
- Harry - começou Fred, mas o garoto empunhou a varinha.
- Olhem - disse em tom de quem não admite contestação -, ou levam ou
azaro vocês. Conheço umas boas azarações agora. Mas me façam um favor,
OK.? Comprem umas roupas a rigor diferentes para Rony e digam que é presente
de vocês.
Harry deixou a cabine antes que os gêmeos pudessem dizer mais alguma
coisa, pulando por cima de Malfoy, Crabbe e Goyle, que continuavam caídos no
chão, cobertos de feitiços.
Tio Valter estava aguardando do outro lado da barreira. A Sra. Weasley
muito próxima dele. Ela deu um abraço apertado em Harry quando o viu e
cochichou em seu ouvido:
- Acho que Dumbledore vai deixar você ficar conosco mais para o fim do
verão. Fique em contato, Harry.
- A gente se vê, Harry - disse Rony lhe dando uma palmadinha nas costas.
- Tchau, Harry! - disse Hermione e fez uma coisa que nunca fizera antes,
deu-lhe um beijo na bochecha.
- Harry, obrigado - murmurou Jorge, enquanto Fred concordava animado
acenando com a cabeça, ao lado do irmão.
Harry piscou para os dois, virou-se para o tio Valter e o acompanhou
silenciosamente para fora da estação. Não adiantava começar a se preocupar,
disse a si mesmo, quando embarcou no banco traseiro do carro dos Dursley.
Conforme dissera Hagrid, o que tiver de ser, será... e ele teria que enfrentar
o que fosse quando viesse.

Fim!

Gostaram? Temos mais um a seguir.

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