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quarta-feira, 15 de junho de 2011

O mundo de Sofia - História da filosofia em forma de literatura

O MUNDO DE SOFIA
Uma Aventura na Filosofia

Jostein Gaarder

O sumário encontra-se no final do livro.

Quem não sabe prestar contas
De três milénios
Permanece nas trevas ignorante,
E vive o dia que passa

JOHANN WOLFGANG GOETHE

9

O JARDIM DO ÉDEN

"...algo teria de surgir a certa altura do nada..."

Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o primeiro troço do caminho. Tinham conversado sobre robôs. Para Jorunn, o cérebro humano era um computador
complexo. Sofia não estava de acordo. Um homem deveria ser algo mais do que uma máquina.
No supermercado, despediram-se. Sofia morava no extremo de um extenso bairro de vivendas e o caminho que tinha de percorrer para a escola era quase o dobro do de
Jorunn. A sua casa parecia ficar no fim do mundo, porque atrás do jardim já não havia casas, apenas floresta.
Meteu para Kõveveien. No fim da rua, havia uma curva estreita, a que chamavam a
"Curva do Capitão", e onde quase só ao fim-de-semana se viam pessoas.
Era o começo de Maio.
Nalguns jardins, os narcisos
formavam coroas de flores sob
as árvores de fruto. As bétulas tinham uma fina penugem
verde.
Não era estranho que nessa
estação do ano tudo começasse
a crescer e a desenvolver-se?
Porque é que essa massa de
plantas verdes podia nascer
da terra inanimada logo que o
tempo ficava mais quente e os
últimos vestígios de neve tinham desaparecido?
Sofia espreitou para a
caixa do correio antes de
abrir o portão do jardim.
Geralmente havia muita publicidade e alguns envelopes
grandes para a sua mãe. Sofia
colocava sempre um monte
de cartas na mesa da cozinha,
indo depois para o quarto fazer os trabalhos de casa.
Para o seu pai chegavam
por vezes cartas do banco,
mas ele também não era um pai
comum. O pai de Sofia era
capitão num petroleiro e estava fora quase todo o ano.
Quando regressava a casa
por poucas semanas, deambulava de chinelos pela casa, e
cuidava de Sofia e da mãe de
uma forma enternecedora. No
entanto, quando estava em
viagem, podia parecer muito
distante.

10
Nesse dia havia apenas uma
pequena carta na grande caixa
do correio, e era para Sofia.
"Sofia Amundsen", estava
escrito no pequeno envelope.
"Klõverveien 3". Era tudo,
sem remetente. A carta nem
sequer tinha selo.
Imediatamente após ter fechado o portão, Sofia abriu
o envelope. Encontrou uma
pequena folha, que não era
maior do que o respectivo envelope. Na folha estava escrito: "quem és tu"?
Mais nada. Não havia assinatura, apenas estas três
palavras escritas à mão, seguidas de um grande ponto de
interrogação.
Observou uma vez mais o
envelope. Sim, a carta era
de facto para si, mas quem é
que a tinha posto na caixa do
correio?
Sofia apressou-se a abrir
a porta da casa vermelha.

Como de costume, o gato
Sherekan saiu furtivamente
dos arbustos, saltou para o
patamar e enfiou-se em casa,
antes de Sofia fechar a porta.
- Bichano, bichano, bichano!

Se, por algum motivo, a
mãe de Sofia estava zangada,
dizia que a sua casa parecia
uma feira de animais. Uma
feira de animais era uma colecção de animais diversos e,
na realidade, Sofia estava
bastante satisfeita com a sua
colecção. No início, tinha
recebido um aquário com os
peixes dourados Caracolinho
Dourado, Capuchinho Vermelho e Diabrete. Mais tarde,
foi a vez dos periquitos Tom
e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente o gato amarelo Sherekan. Todos aqueles
animais eram uma espécie de
compensação pelo facto de a
sua mãe chegar tarde a casa e
de o seu pai estar quase sempre a viajar.
Sofia atirou a mala da escola para um canto e pôs um
prato com comida de gato para
Sherekan. Depois, foi sentar-se num banco da cozinha,
com a misteriosa carta na
mão.
Quem és tu?
Se ela soubesse! Era obviamente Sofia Amundsen,
mas quem era Sofia Amundsen? Ainda não tinha descoberto totalmente.
E se tivesse outro nome?
Anne Knutsen, por exemplo.
Seria então uma outra pessoa?
Subitamente, lembrou-se de
que o seu pai inicialmente
lhe gostaria de ter dado o
nome Synnõve. Sofia procurava imaginar como seria se
cumprimentasse alguém e se se
apresentasse como Synnõve
Amundsen - mas não, não
conseguia. Imaginava sempre
uma outra pessoa.

11
Saltou do banco e, com a
estranha carta na mão, dirigiu-se para o quarto de banho. Colocou-se em frente do
espelho, e olhou-se fixamente
nos olhos.
- Eu sou Sofia Amundsen - disse.
A rapariga do espelho nem
sequer respondeu com uma careta. Aquilo que Sofia fizesse, ela fá-lo-ia exactamente da mesma forma. Sofia
procurava adiantar-se em relação ao espelho com um movimento muito rápido, mas a outra era igualmente rápida.
- Quem és tu? - perguntou Sofia.
De novo não recebeu nenhuma resposta, mas por um breve
momento não soube se tinha
sido ela ou o seu reflexo no
espelho a fazer a pergunta.
Sofia tocou com o indicador no nariz reflectido no
espelho e disse:
- Tu és eu.
Não recebendo resposta alguma, inverteu a frase:
- Eu sou tu.
Sofia Amundsen nunca estivera particularmente satisfeita com a sua figura. Ouvia frequentemente dizer que
tinha uns belos olhos de
amêndoa, mas as pessoas diziam-no, sem dúvida, porque o
seu nariz era demasiado pequeno e a boca um pouco grande. Além disso, as orelhas
estavam demasiado junto aos
olhos. Mas o mais grave eram
os cabelos lisos, difíceis de
tratar. Por vezes, o pai
passava a mão pelos seus cabelos e chamava-lhe "a rapariga dos cabelos de linho",
referindo-se a uma composição
de Claude Debussy. Para
ele era fácil dizê-lo, visto
que não estava condenado para
toda vida a ter cabelos compridos e negros, completamente lisos. Nos cabelos de
Sofia nem o gel nem os
sprays faziam efeito.
Por vezes, achava-se tão
estranha que se perguntava se
não seria disforme de nascença. A sua mãe tinha-lhe falado num parto difícil. Mas
seria possível o nascimento
determinar, de facto, a figura de cada um?
Não era estranho que ela
não soubesse quem era? Não
era absurdo não poder decidir
nada quanto à sua figura?
Tinha simplesmente nascido
consigo. Podia escolher os
seus amigos, mas não se escolhera a si mesma. Nunca tinha decidido que queria ser
um ser humano.

O que era um ser humano?
Sofia observou de novo a
rapariga do espelho.
- Vou mas é fazer os meus
trabalhos de biologia - disse, como que desculpando-se.
Em seguida, estava à entrada
da casa.
- Não, prefiro ir para o
jardim - pensou.
- Bichano, bichano, bichano!
Sofia enxotou o gato para
a escada e fechou a porta.

12
Quando ia pelo caminho de
saibro com a misteriosa carta
na mão, teve uma estranha
sensação. Imaginava-se como
um boneco que, por artes mágicas, se tivesse tornado vivo.
Não era estranho que estivesse no mundo e pudesse tomar parte naquela aventura?
Sherekan saltou elegantemente pelo caminho de saibro
e desapareceu por entre os
espessos arbustos. Um gato
vivo, desde a ponta dos bigodes brancos até à cauda ondulante na extremidade do corpo. Também ele estava no
jardim, mas certamente não
estava tão consciente disso
como Sofia.
Depois de ter pensado um
pouco acerca do facto de
existir, começou também a
pensar que não estaria ali
sempre.
"Neste momento estou no
mundo", pensou, "mas um dia
terei desaparecido".
Haveria uma vida após a
morte? O gato também não tinha a mínima consciência deste problema.
A avó paterna de Sofia
tinha morrido recentemente.
Quase todos os dias, há mais
de meio ano, Sofia pensava
no quanto sentia a sua falta.
Não era injusto que a vida
tivesse sempre um fim?
Sofia parou no caminho de
saibro, cismando. Procurou
concentrar-se no facto de
existir, procurando assim esquecer que não existiria sempre. Mas isso era de todo impossível. Quando se concentrava no pensamento da sua
existência, emergia imediatamente a ideia do fim da vida.
O contrário era igualmente
verdadeiro: só quando se
apercebia que um dia teria
desaparecido, compreendia
claramente que a vida era infinitamente valiosa. Era como as duas faces da mesma
moeda, uma moeda que ela virava constantemente. E quanto maior e mais clara era uma
face da moeda, maior e mais
clara se tornava também a outra. A vida e a morte eram
duas faces do mesmo problema.
Não podemos imaginar que
vivemos sem pensar que temos
de morrer, dizia para consigo. Do mesmo modo, é impossível reflectir sobre o facto
que temos de morrer sem sentirmos simultaneamente que
viver é algo maravilhoso.
Sofia lembrou-se que a
avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. - Só agora tomo
consciência de como a vida é
rica - dissera ela.
Não era triste que a maior
parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer
que a vida era bela? Talvez
tivesse bastado receber uma
carta misteriosa!
Decidiu verificar se teria
chegado algo mais. Sofia
correu para o portão e espreitou para dentro da caixa
do correio. Ficou espantada quando

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encontrou um envelope totalmente idêntico. Mas, será
que verificara, quando retirou a primeira carta, se a
caixa estava, de facto, vazia?
Naquele envelope também
estava escrito o seu nome.
Abriu-o e retirou uma folha
branca, igual à primeira.
"De onde vem o mundo"? -
estava escrito.
Não fazia ideia. Ninguém
sabe tal coisa! E, no entanto, Sofia achou esta pergunta legítima. Pela primeira
vez na sua vida pensou que
era quase impossível viver
num mundo sem perguntar pela
sua origem.
Sofia tinha ficado tão
perturbada com a misteriosa
carta que decidiu ir para a
sua toca. A toca de Sofia
era um esconderijo. Só ia
para lá quando estava muito
irritada, muito triste ou
muito contente. Nesse dia
estava confusa.

A casa vermelha ficava no
meio de um extenso jardim.
Havia aí muitos canteiros,
groselheiras e diversas árvores de fruto, um grande relvado com um baloiço e inclusivamente um pequeno caramanchão que o avô construíra
para a avó, quando a sua primeira filha morreu, poucas
semanas após o nascimento. A
pobre criança chamava-se Marie. Na lápide do seu túmulo
estava escrito: "A pequena
Marie veio ao nosso encontro, acenou-nos e foi-se embora".
Num canto do jardim, por
detrás das framboeseiras, havia uma espessa moita que não
produzia nem flores nem bagas. Na realidade, tratava-se de uma velha sebe, que
fazia fronteira com o bosque,
e que tinha crescido até se
transformar numa moita impenetrável porque, nos últimos
vinte anos, ninguém cuidara
dela. A avó contara que durante a guerra, altura em que
as galinhas corriam livremente pelo jardim, a sebe tinha
tornado um pouco mais difícil
a caça às galinhas, levada a
cabo pelas raposas.
Para os outros, a velha
sebe era tão inútil como as
coelheiras antigas, que ficavam um pouco mais à frente no
jardim. Mas ninguém conhecia
o segredo de Sofia. Tanto
quanto Sofia se conseguia
lembrar, tinha descoberto uma
estreita passagem através da
sebe. Quando a atravessava
de gatas, atingia rapidamente
um grande espaço, que era o
seu esconderijo. Aí, podia
estar completamente segura de
que ninguém a encontraria.
Com os envelopes na mão,
Sofia atravessou o jardim
correndo e rastejou com o
apoio dos braços através da
sebe. A toca era tão grande,
que quase podia ficar de pé,
mas decidiu sentar-se numas
raízes grossas. De dentro
conseguia ver para o exterior, através de dois orifícios minúsculos, por entre
ramos e folhas. Apesar de
nenhuma destas aberturas ser
maior do que uma moeda, ela
tinha o panorama

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de todo o jardim. Quando era
mais pequena, observava divertida a mãe ou o pai à sua
procura, no meio das árvores.
Para Sofia, o jardim tinha sido sempre um mundo à
parte. Sempre que ouvira falar do jardim do Éden na
história da Criação, lembrava-se da sua toca e de como
era estar lá sentada e observar o seu próprio pequeno paraíso.
"De onde vem o mundo?"
Não, ela não o sabia.
Sofia sabia obviamente que a
Terra era apenas um pequeno
planeta no universo imenso.
Mas de onde vinha o universo?
Era possível pensar que o
universo tivesse existido
sempre; sendo assim, não precisava de procurar a resposta
para a pergunta sobre a sua
origem. Mas poderia alguma
coisa ser eterna? Qualquer
coisa nela recusava esta
ideia. Tudo o que existe tem
que ter um começo. Por isso,
o universo tinha de ter surgido de outra coisa.
Mas se o universo tivesse
surgido subitamente de uma
outra coisa, então também
esta outra coisa teria de ter
surgido, a dada altura, de
uma outra. Sofia compreendeu
que apenas diferia o problema. Afinal, alguma coisa teria de ter surgido do nada a
certa altura. Mas seria isso
possível? Este pensamento
não seria tão impossível como
o de o mundo ter sempre existido?
Na aula de religião,
aprendiam que Deus tinha
criado o mundo, e Sofia procurou então tranquilizar-se
com a ideia de que essa era,
no fundo, a melhor solução
para o problema. No entanto,
começou de novo a pensar.
Podia facilmente aceitar que
Deus tivesse criado o universo, mas o que se passava
pensando em Deus? Será que
se tinha criado a si mesmo do
nada? De novo, algo nela
discordava deste pensamento.
Apesar de Deus poder criar
todas as coisas, dificilmente
se poderia criar a si mesmo,
antes de ter um "ele mesmo",
com o qual pudesse criar.
Restava apenas uma possibilidade: Deus existira sempre. Mas ela já pusera de
parte essa possibilidade.
Tudo o que existia tinha de
ter um começo.
- Que diabo!
Abriu de novo os envelopes.
- Quem és tu?
- De onde vem o mundo?
Que perguntas terríveis!
E de onde vinham ambas as
cartas? Isso era igualmente
misterioso.
Quem é que arrancara Sofia à realidade quotidiana e
a confrontara subitamente com
os grandes enigmas do universo?
Pela terceira vez, Sofia
foi à caixa do correio. Só
nesta altura é que o carteiro
tinha trazido a correspondência diária. Sofia retirou um

15
monte de correio com publicidade, jornais e duas cartas
para a mãe. Havia também um
postal, com a fotografia de
uma praia do Sul. Voltou o
postal. Tinha selos noruegueses e o carimbo "Contingente ONU". Seria do seu
pai? Mas ele não estava noutro sítio? De resto, não era
a sua letra.
Sofia sentiu o pulso bater
com mais força à medida que
lia a direcção no postal.
"Hilde Mõller Knag, a/c
Sofia Amundsen, Klõverveien 3..." O resto da morada estava correcto. No
postal estava escrito:

"Querida Hilde! Parabéns
pelos teus 15 anos! Como
compreendes, quero dar-te um
presente, que te ajudará a
crescer. Peço desculpa por
mandar o postal pela Sofia.
Era mais fácil deste modo.

Saudades, do pai"

Sofia correu para casa e
precipitou-se para a cozinha.
Sentia uma tempestade dentro
de si.
Quem era esta "Hilde" que
completava 15 anos um mês
antes do seu aniversário?
Foi buscar a lista telefónica à entrada. Havia muitas
pessoas com o nome Mõller, e
algumas com o nome Knag, mas
em toda a lista telefónica
não havia ninguém com o nome
Mõller Knag.
Examinou de novo o misterioso postal. Sim, era autêntico, com selo e carimbo.
Porque é que um pai enviaria um postal de aniversário
para a morada de Sofia, se
era óbvio que devia ser enviado para outro local? Que
tipo de pai enviaria um postal de aniversário para o endereço errado, impedindo que
a filha o recebesse? Como é
que poderia ser "mais fácil"
deste modo? E sobretudo, como poderia ela encontrar essa
tal Hilde?
Sofia tinha então mais um
problema que se tornava um
quebra-cabeças. Procurou de
novo organizar as ideias na
sua mente.
No decorrer de poucas horas, tinha sido confrontada
com três enigmas. O primeiro
enigma dizia respeito à identidade da pessoa que tinha
posto ambos os envelopes
brancos na sua caixa do correio. O segundo eram as
questões difíceis que estas
cartas colocavam. O terceiro
enigma era quem era Hilde
Mõller Knag e por que motivo Sofia tinha recebido um
postal de aniversário endereçado a esta rapariga desconhecida?
Ela tinha a certeza de que
estes três enigmas estavam de
algum modo relacionados, visto que, até então, vivera uma
existência normal.

16

A Cartola

.. "para nos tornarmos
bons filósofos precisamos
unicamente da capacidade de
nos surpreendermos"...

Sofia calculou que o autor
das cartas anónimas daria de
novo notícias. Decidiu não
contar nada a ninguém acerca
das cartas.
Na escola, tornava-se-lhe
difícil concentrar-se no que
o professor dizia. Achou que
ele falava apenas de coisas
sem importância. Porque é
que ele não falava antes
acerca do que é um ser humano
- ou do que é o mundo, e
qual fora a sua origem?
Experimentava uma sensação
que nunca experimentara antes: na escola e por toda a
parte as pessoas ocupavam-se
apenas com coisas fúteis.
Mas havia questões importantes e difíceis, cuja resposta
era mais importante do que as
disciplinas normais da escola.
Teria alguém respostas
para estes problemas? De
qualquer modo, Sofia achava
mais importante reflectir sobre eles do que aprender de
cor os verbos irregulares.
Quando, após a última
aula, a campainha tocou, ela
saiu tão depressa do pátio da
escola que Jorunn teve de
correr para a alcançar.
Passado um pouco, Jorunn
perguntou:
- Que tal se jogássemos
às cartas hoje à tarde?
Sofia encolheu os ombros.
- Acho que já não estou
muito interessada em jogos de
cartas.
Jorunn pareceu cair das nuvens.
- Não? Jogamos então
badminton?
Sofia olhou fixamente para
o asfalto - e depois para a
amiga.
- Acho que já nem o badminton me interessa.
- Está bem!
Sofia sentiu na voz de
Jorunn um tom de azedume.
- Podes então dizer-me o
que é que passou a ser mais
importante?
Sofia abanou a cabeça.
- Isso... é um segredo.

17
- Já percebi. Estás
apaixonada.
Caminharam juntas algum
tempo em silêncio. Quando
chegaram ao campo desportivo,
Jorunn disse:
- Eu vou pelo campo.
"Pelo campo". Esse era o
caminho mais curto para
Jorunn, mas ela só o fazia
quando tinha que chegar cedo
a casa, porque esperava visitas, ou porque tinha consulta
no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? Que
estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de
onde vinha o mundo e que já
não tinha tempo para jogar
badminton? Será que a sua
amiga teria entendido?
Por que motivo era tão difícil tratar das questões
mais importantes e simultaneamente mais naturais?
Sentiu o coração bater
mais depressa à medida que
abria a caixa do correio.
Primeiro viu apenas uma carta do banco e alguns envelopes amarelos e grandes, para
a sua mãe. Que aborrecimento. Sofia tinha esperado
tanto receber uma nova carta
do remetente desconhecido!
Quando estava a fechar o
portão, encontrou escrito num
dos envelopes grandes o seu
nome. No verso, lia-se:
"Curso de Filosofia. Não
dobrar".
Sofia percorreu o caminho
de saibro e deixou a mala da
escola na escada. Empurrou
as restantes cartas para debaixo do capacho, correu para
o jardim atrás da casa e refugiou-se na toca. A carta
grande tinha de ser aberta
ali.
Sherekan correra atrás
dela, mas contra isso nada
podia fazer. Sofia tinha a
certeza de que o gato não daria à língua.
O envelope continha três
grandes folhas escritas à máquina, unidas com um clipe.
Sofia começou a ler.

O que é a filosofia?

Cara Sofia! Há muitas
pessoas que têm diversos
"hobbys". Algumas coleccionam moedas antigas ou selos,
outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam
quase todo o tempo livre a
uma modalidade desportiva.
Muitos gostam de ler. Mas
aquilo que lemos pode variar
muito. Há quem leia apenas
jornais ou banda desenhada,
outros gostam de romances,
outros ainda preferem livros
sobre os mais variados temas
como a astronomia, a vida
selvagem ou as descobertas
técnicas.

18
Se estou interessado em
cavalos ou pedras preciosas,
não posso exigir que todos os
outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente
à televisão encantado com todos os programas desportivos,
tenho de aceitar que outros
possam achar o desporto aborrecido.
Haverá alguma coisa que
interesse a toda a gente?
Haverá alguma coisa que diga
respeito a todas as pessoas,
independentemente do que são
e do sítio do mundo onde vivem? Sim, cara Sofia, há
questões que dizem respeito a
todos os homens. E neste
curso trata-se precisamente
dessas questões.
Qual a coisa mais importante na vida? Se o perguntarmos a alguém num país com
o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos
esta questão a alguém que esteja com frio, nesse caso a
resposta é: o calor. E se
perguntarmos a uma pessoa que
se sinta muito sozinha a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.
Mas admitindo que todas
estas necessidades estão satisfeitas - será que resta
alguma coisa de que todos os
homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo
eles, o homem não vive apenas
do pão. É evidente que todos
os homens precisam de comer.
Todos precisam de amor e de
atenção, mas há algo mais de
que todos os homens precisam.
Precisamos de descobrir quem
somos e porque é que vivemos.
Interessarmo-nos pela razão da nossa existência não é
um interesse ocasional, como
o interesse em coleccionar
selos. Quem se interessa por
tais problemas, preocupa-se
com tudo aquilo que os homens
discutem desde que apareceram
neste planeta. A questão
acerca da origem do universo,
do globo terrestre e da vida
é mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou
mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.

A melhor maneira de nos
iniciarmos na filosofia é colocar perguntas filosóficas:
Como se formou o mundo?
Haverá uma vontade ou um
sentido por detrás daquilo
que acontece? Haverá vida
depois da morte? Como podemos encontrar resposta para
estas perguntas? E, acima de
tudo, como deveríamos viver?
Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos
homens. Não conhecemos nenhuma cultura que não tenha
perguntado quem são os homens
e de onde vem o mundo.
As perguntas filosóficas
que podemos colocar não são
muitas mais. Já colocámos
algumas das mais importantes.
A história oferece-nos muitas respostas diferentes para
cada uma destas perguntas.

19
Por isso, é mais fácil
formular perguntas filosóficas do que encontrar a sua
resposta.
Mesmo hoje, cada um deve
encontrar as suas respostas
para estas perguntas. Não
podemos saber se Deus existe
ou se há vida depois da morte, consultando a enciclopédia. A enciclopédia não nos diz como devemos viver. Mas
ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma
ajuda, se quisermos formar a
nossa própria concepção da
vida e do mundo.
A busca da verdade pelos
filósofos pode ser talvez
comparada a um romance policial. Alguns pensam que
Andersen é o assassino, outros pensam que é Nielsen ou
Jepsen. Talvez o verdadeiro
mistério deste crime possa
ser um dia esclarecido subitamente pela polícia. Podemos também pensar que a polícia nunca conseguirá resolver o enigma. Mas este
tem, no entanto, uma solução.
Mesmo quando é difícil
responder a uma pergunta, é
possível imaginar que a pergunta possa ter uma - e apenas uma - resposta correcta.
Ou há uma forma de vida após
a morte ou não.
Muitos enigmas antigos foram entretanto resolvidos
pela ciência. Outrora, o aspecto da face oculta da Lua
era um grande mistério. Não
se podia descobrir a resposta
através da discussão, e assim
era deixada à imaginação de
cada um. Mas hoje em dia sabemos exactamente qual é o
aspecto da face oculta da
Lua. Já não podemos acreditar que haja um homem a viver
na lua, ou que ela seja um
queijo.

Segundo um filósofo grego
que viveu há mais de dois mil
anos, a filosofia surgiu da
capacidade que os homens têm
de se surpreender. O homem
acha tão estranho viver, que
as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.
Pensa no que sucede quando
observamos um truque de magia: não conseguimos perceber
como é possível aquilo que
estamos a ver. E perguntamo-nos: como é que o ilusionista conseguiu transformar
dois lenços brancos de seda
num coelho vivo?
Para muitos homens, o mundo parece tão inexplicável
como o coelho que um ilusionista retira subitamente de
uma cartola até então vazia.
No que diz respeito ao
coelho, percebemos claramente
que o ilusionista nos enganou. O que pretendemos descobrir é como nos enganou.
Quando falamos sobre o mundo, a situação é diferente.
Sabemos que o mundo não é
pura mentira, uma vez que nós
estamos na Terra e somos uma
parte do universo. Na verdade, somos o coelho branco que
é retirado da cartola. A diferença entre nós e o coelho
branco é apenas

20
o facto de o coelho não saber
que participa num truque de
magia. Connosco passa-se de
modo diferente. Sentimos que
tomamos parte em algo misterioso, e gostaríamos de esclarecer de que modo tudo
está relacionado.

P.S. No que diz respeito
ao coelho branco, o melhor é
talvez compará-lo com o conjunto do universo. Nós, que
vivemos aqui, somos parasitas
minúsculos que vivem na pele
do coelho. Mas os filósofos
procuram trepar pelos pêlos
finos, de modo a poderem fixar nos olhos o grande ilusionista.

Estás a seguir-me, Sofia?
Receberás a continuação.

Sofia estava exausta. Se
estava a seguir? Já nem sabia se tinha respirado durante a leitura.
Quem tinha trazido a carta? Quem? Quem?
Era impossível que fosse a
mesma pessoa que enviara o
postal de aniversário a
Hilde Mõller Knag, visto
que o postal tinha selo e carimbo, e o envelope amarelo
fora colocado directamente na
caixa do correio exactamente
como os envelopes brancos.
Sofia olhou para o relógio. Eram apenas três menos
um quarto. Só daí a duas horas é que a sua mãe chegaria
do trabalho.
Sofia foi de novo para o
jardim, e correu para a caixa
do correio. Haveria mais alguma coisa?
Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava
escrito o seu nome. Olhou à
sua volta, mas não conseguiu
descobrir ninguém. Correu
para a orla do bosque e olhou
em redor, mas não encontrou
ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais à frente no bosque.
Mas não tinha a certeza ab 20-21
soluta, e não faria sentido
ir no encalço de alguém que
tentava fugir-lhe.
Sofia abriu a porta de
casa com a chave e colocou a
mala da escola e a correspondência para a mãe no chão.
Foi para o quarto, pegou na
grande caixa de biscoitos onde guardava a sua colecção de
pedras, pôs as pedras no chão
e colocou os dois envelopes
grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa
nas mãos, depois de ter dado
de comer a Sherekan.
- Bichano, bichano, bichano!
Sentada de novo dentro da
toca, abriu o envelope e retirou várias folhas escritas
à máquina. Começou a ler.

21
Um ser estranho

Cá estamos de novo. Com
certeza já percebeste que
este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas.
Eis mais algumas observações
introdutórias.
Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é
a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons
filósofos? Se não o disse,
digo-o agora: A CAPACIDADE
DE NOS SURPREENDERMOS É A
ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS
PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
Todas as crianças pequenas
possuem essa capacidade, isso
é ólvio. Com poucos meses de
vida, começam a aperceber-se
de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem,
esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo?
Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta?
Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente
muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não
possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com
curiosidade os objectos no
quarto.
Quando começa a falar, a
criança fica parada cada vez
que vê um cão e chama:
- ão, ão! Começa a agitar-se
no carrinho, e move freneticamente os braços: - \ão,
ão! Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco
à vontade com o entusiasmo da
criança. - Sim, sim, isso é
um ão ão! - dizemos muito sabedores. - Mas agora senta-te. Não estamos assim tão
entusiasmados. Já tínhamos
visto cães antes.
Provavelmente, esta cena
repete-se algumas cem vezes
até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora
de si. Ou por um elefante,
ou por um hipopótamo. Mas
muito antes que a criança
aprenda a falar correctamente
- ou antes que aprenda a
pensar filosoficamente - o
mundo tornou-se para ela algo
habitual.
É pena.
Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te
tornes uma daquelas pessoas
para quem o mundo é evidente.
Para termos a certeza, vamos
fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com
o curso de filosofia propriamente dito.
Imagina que dás um passeio
pelo bosque. De repente,
descobres à tua frente uma
pequena nave espacial. Da
nave espacial, um marciano
desce e olha fixamente para
ti...
O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no
fundo, é indiferente. Mas já
pensaste que tu mesma és também um marciano?

22
Obviamente, não é particularmente provável que alguma
vez dês com uma criatura de
outro planeta. Nem sequer
sabemos se há vida nos outros
planetas. Mas é possível que
tu dês contigo mesma. Pode
acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas
de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio
pelo bosque.
Eu sou um ser estranho,
pensas tu. Sou um animal
misterioso...
Pareces acordar de um sono
de muitos anos como a Bela
Adormecida. Quem sou eu?
perguntas. Sabes que estás
num planeta do universo. Mas
o que é o universo?
Se te descobrires desta
maneira, descobriste algo tão
misterioso como o marciano
que mencionámos anteriormente. Não só descobriste um
extraterrestre mas sentes interiormente que tu própria és
um ser desses.
Ainda me estás a seguir,
Sofia? Vamos fazer mais uma
experiência:
Certa manhã, o pai, a mãe
e o pequeno Tomás, que tem
dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o
pequeno-almoço. De repente,
a mãe levanta-se e vira-se
para o lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a
voar em direcção ao tecto,
enquanto Tomás observa.
O que te parece que Tomás
diz? Provavelmente, aponta
para o pai e diz: - O pai
voa!
Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai
faz coisas tão estranhas que
um pequeno voo acima da mesa
já não tem importância aos
seus olhos. Todos os dias
faz a barba com uma máquina
engraçada, por vezes trepa ao
telhado para orientar a antena da televisão - ou enfia a
cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
Depois, é a vez da mãe.
Ela ouviu o que Tomás disse
e volta-se rapidamente. Como
achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa
da cozinha?
O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão,
começará a gritar de medo.
Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se
ter sentado de novo na cadei 22-23
ra. (Ele já devia ter
aprendido há muito tempo como
se comportar à mesa!).
Porque é que Tomás e a
mãe reagem de forma tão diferente?
É uma questão de hábito.
(Toma nota disto!). A mãe
aprendeu que os homens não
podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
Mas o que dizer do mundo,
Sofia? Achas que o mundo é
possível? Também está suspenso no espaço.
O mais triste é que ao
crescermos não nos habituamos
apenas à lei da gravidade,
habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.

23
Aparentemente, perdemos
durante a nossa infância a
capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com
isso, perdemos algo essencial
- algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós
algo nos diz que a vida é um
grande mistério. Já tivemos
essa sensação muito antes de
termos aprendido a pensar
nisso.

Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a
todos os homens, nem todos os
homens se tornam filósofos.
Por diversos motivos, a
maior parte está presa de tal
forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito
escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e
permanecem lá em baixo para o
resto da vida).
Para as crianças, o mundo
- e tudo o que existe nele
- é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção.
Os adultos não o vêem assim.
A maior parte dos adultos vê
o mundo como qualquer coisa
completamente normal.
Os filósofos constituem
uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para
uma filósofa o mundo é ainda
incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum.
Podes dizer que um filósofo
permanece durante toda a sua
vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso
nunca lhe acontecerá?
Se simplesmente abanas a
cabeça e não te sentes nem
como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste
tão bem ao mundo que este já
não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente.
E por isso te ofereço este
curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de
modo consciente.
Este curso é completamente
grátis. Por isso, também não
te será restituído dinheiro
se não o fizeres. Se a determinada altura quiseres interromper o curso, não há
prollema. Basta deixares-me
uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma rã viva. De qualquer modo, tem de
ser algo verde, pois não queremos assustar o carteiro.
Breve sumário: um coelho
branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um
coelho muito grande, este
truque leva muitos biliões de
anos. Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as
crianças humanas.

24
Por isso, podem surpreender-se com a inacreditável
arte da magia. Mas à medida
que envelhecem, deslizam cada
vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem ali. Lá em baixo estão
tão confortáveis que nunca
mais ousam trepar novamente
pelos pêlos finos. Só os filósofos se atrevem a fazer a
perigosa viagem à procura das
fronteiras extremas da linguagem e da existência. Alguns deles perdem-se pelo caminho, mas outros agarram-se
bem ao pêlo do coelho e chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na pele do
coelho, comem e bebem tranquilamente.
- Senhoras e senhores -
gritam - estamos suspensos
no espaço.
Mas nenhum dos homens em
baixo, na pele, se interessa
pelo ruído que os filósofos
fazem.
- Meu Deus, que barulhentos! - dizem.
E continuam a falar como
até então: - Podes passar-me a manteiga? Como estão as acções hoje? Qual é o
preço do tomate? Já sabes
que Lady Di deve estar de
novo grávida?

Quando, nessa tarde, a mãe
chegou a casa, Sofia estava
quase em estado de choque. A
caixa com as cartas do filósofo misterioso estava bem
escondida na toca. Depois de
ter tentado estudar um pouco,
Sofia ficara a pensar no que
tinha lido.
Tantas coisas sobre as
quais nunca tinha reflectido
antes! Já não era nenhuma
criança - mas também não era
ainda verdadeiramente adulta.
Sofia reconheceu que já tinha começado a penetrar profundamente na pelagem do coelho retirado da cartola negra
do universo. Mas o filósofo
impedira-a. Ele - ou ela?
- agarrara-a firmemente pela
nuca e trouxera-a de novo para o pêlo, no qual brincara
quando era criança. Ali fora, na extremidade do pêlo
fino, tinha visto de novo o
mundo como se fosse pela primeira vez. O filósofo salvara-a da indiferença quotidiana.
Ouvindo a mãe entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e
fê-la sentar numa cadeira.
- Mãe, não achas que é
estranho viver? - começou.
A mãe ficou de tal modo
perplexa que não lhe ocorreu
nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre
sentada a fazer os trabalhos
da escola quando ela chegava a
casa.
- Bom, por vezes é -
disse.
- Por vezes? Quero dizer - não achas estranho que
haja um mundo?
- Mas Sofia, de que é
que estás a falar?

25
- Estou a fazer-te uma
pergunta. Mas provavelmente
achas o mundo completamente
normal?
- Sim. Mas o mundo é
normal. A maior parte das
vezes.
Sofia compreendeu que o
filósofo tinha razão. Para
os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no
sono eterno da vida quotidiana.
- Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que já
não te surpreendes - disse
ela.
- Desculpa, mas eu não
estou a perceber nada.
- Estou a dizer que te
habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: estás completamente embrutecida.
- Não podes falar comigo
desse modo, Sofia.
- Então, vou dizê-lo
doutra maneira. Já te acomodaste na pele do coelho que
neste momento é tirado da
cartola negra do universo. E
agora, vais pôr as batatas a
cozer. Depois, lês o jornal,
e depois de uma soneca de
meia hora vais ver o noticiário na televisão.
No rosto da mãe, esboçou-se uma expressão preocupada.
De facto, foi à cozinha e
pôs as batatas a cozer. Em
seguida, voltou à sala de estar, e aí fez Sofia sentar-se.
- Tenho que falar contigo - começou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que se
tratava de algo sério.
- Não tomaste nenhuma
droga, pois não, miúda?
Sofia não pôde deixar de
se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
- Estás a brincar? perguntou. Com isso ainda se
fica mais apático.
Nessa tarde não se falou
mais em droga nem em coelhos
brancos.

26

OS MITOS

.. "um equilíbrio precário
de poderes entre as forças do
bem e as do mal"...

Na manhã seguinte, não havia nenhuma carta na caixa do
correio. Sofia ficou aborrecida durante todo o tempo de
aulas. Preocupou-se em ser
particularmente simpática com
Jorunn durante os intervalos. Durante o regresso a
casa, fizeram planos para
irem acampar, logo que, na
floresta, o terreno ficasse
menos húmido.
Em seguida, estava de novo
em frente à caixa do correio.
Primeiro, abriu um pequeno
envelope com um carimbo do
México e que continha um
postal do pai. Falava das
saudades e de ter ganho pela
primeira vez ao primeiro oficial no xadrez. De resto, já
quase tinha lido os vinte
quilos de livros que levara
consigo após as férias de
Inverno.
Havia ainda um envelope
amarelo com o seu nome! Sofia trouxe a pasta da escola
e a correspondência para casa
e correu para a toca. Retirou do envelope várias folhas
escritas à mão e começou a
ler.

A concepção mítica do mundo

Olá, Sofia! Há muito para dizer, por isso o melhor é
começarmos imediatamente.
Vemos a filosofia como uma
forma completamente diferente
de pensar, que nasceu aproximadamente em 600 a.C. na
Grécia. Antes disso, as diversas religiões tinham respondido a todas as perguntas
do homem. Essas explicações
religiosas eram transmitidas
de geração para geração por
meio dos mitos.
Um mito é uma narração sobre os deuses que procura explicar a vida nas suas diversas manifestações. As explicações míticas floresceram
durante milénios em todo o
mundo. Os filósofos gregos
procuraram provar que os homens não podiam confiar nelas.

27
Para compreendermos o pensamento dos primeiros filósofos, temos de compreender
igualmente o que significa
ter uma concepção mítica do
mundo. Tomaremos como exemplo algumas concepções míticas da Europa do Norte.
Não é de modo algum necessário irmos muito longe.
Certamente já ouviste falar de Thor e do seu martelo. Antes de o cristianismo
chegar à Noruega, os homens,
aqui no Norte, acreditavam
que Thor viajava pelo céu
num carro puxado por dois bodes. Quando ele brandia o
seu martelo, seguiam-se raios
e trovões. A palavra "trovão" significa originalmente
"retumbar de Thor". Em sueco, "trovão" diz-se "aska" -
originalmente "as-aka" - que
significa a "viagem do deus
pelo céu".
Quando troveja e relampeja, também chove. Isso podia
ser indispensável à vida para
os camponeses da época dos
Vikings. Por isso, Thor
era venerado como deus da
fertilidade.
A resposta mítica à pergunta porque é que chove,
era: Thor brandiu o seu martelo. E quando a chuva vinha, as sementes germinavam e
cresciam nos campos.
Era incompreensível para
os camponeses que as plantas
crescessem e produzissem frutos. Mas em todo o caso, os
camponeses sabiam que isso
estava de alguma forma relacionado com a chuva. Além
disso, todos acreditavam que
a chuva tinha algo a ver com
Thor. Por isso, ele tornou-se um dos deuses mais importantes na Europa do Norte.
Thor era ainda importante
por outro motivo, que estava
relacionado com toda a ordem
universal.
Os Vikings imaginavam o
mundo habitado como uma ilha
que está sempre ameaçada por
perigos exteriores. Eles
chamavam a esta parte do mundo "Midgard", que significa:
o reino que fica no centro.
Em Midgard ficava também
"Asgard", a residência dos
deuses. Em frente a Midgard
ficava "Utgard", ou seja, o
reino do exterior, também
chamado Jotunheimen. Aqui
moravam os perigosos gigantes, que procuravam sempre
destruir o mundo por meio de
truques maldosos. Também podemos definir esses monstros
malignos como "forças do caos". Na religião nórdica e
na maior parte das outras
culturas, os homens tinham a
sensação de que existia um
equilíbrio precário de poderes entre as forças do bem e
as forças do mal.
Uma das possibilidades que
os gigantes tinham para destruir Midgard era raptando
Freyja, a deusa da fertilidade. Quando o conseguiam,
nada crescia nos campos, e as
mulheres já não tinham filhos. Por isso era tão importante que os deuses bons
dominassem os gigantes.
Thor desempenhava também
aí um papel importante: o seu
martelo não produzia apenas
chuva, mas constituía também
uma arma na luta

28
contra as perigosas forças do
caos. O martelo conferia-lhe
um poder quase ilimitado.
Ele podia, por exemplo, lançá-lo contra os gigantes e
matá-los. Também não tinha
que ter medo algum de o perder, porque o martelo era como um "boomerang" e voltava
sempre para ele.
Esta era a explicação "mítica" para o funcionamento da
natureza, e para o facto de
haver uma luta constante entre o bem e o mal. Os filósofos pretendiam refutar essas crenças.
Mas não se tratava apenas
de explicações.
Os homens não podiam ficar
de braços cruzados à espera
que os deuses interviessem
quando certas catástrofes -
como as secas ou as epidemias
- os ameaçavam. Os homens
tinham que participar na luta
contra o mal. Faziam-no
através de todo o tipo de
práticas religiosas ou ritos.
A prática religiosa mais
importante na antiguidade
nórdica era o sacrifício.
Fazer um sacrifício a um
deus significava aumentar o
seu poder. Os homens tinham,
por exemplo, de oferecer vítimas aos deuses para que estes ficassem suficientemente
fortes para vencerem as forças do mal. Nessa altura,
sacrificava-se ao deus um
animal. Pensa-se que a Thor
se ofereciam geralmente bodes. A Odin eram sacrificados também homens.
Conhecemos o mito mais famoso na Noruega através do
poema "Trymskvida". Lemos
nele que Thor estava a dormir e que, quando acordou, o
seu martelo tinha desaparecido. Thor ficou tão furioso
que as suas mãos e a sua barba tremiam. Juntamente com o
seu companheiro "Loki" foi
ter com Freyja e pediu-lhe
emprestadas as suas asas, para que Loki pudesse voar até
Jotunheimen e descobrir se
os gigantes tinham roubdo o
martelo de Thor. Aí, Loki
encontra "Thrym", o rei dos
gigantes, que se gaba imediatamente de ter enterrado o
martelo a oitenta quilómetros
abaixo do solo. E acrescenta
que os deuses só poderiam receber de volta o martelo se
Freyja se casasse com ele.
Estás a seguir-me, Sofia?
Os deuses bons são subitamente confrontados com um
crime montruoso. Os gigantes
têm então em seu poder a mais
importante arma de defesa dos
deuses, e essa situação é absolutamente intolerável. Enquanto os gigantes tivessem o
martelo, possuíam o poder sobre o mundo dos deuses e o
mundo dos homens. Em troca
do martelo, exigem Freyja.
Mas esta troca não é possível: se os deuses entregarem
a deusa da fertilidade - que
protege todo o tipo de vida
- a relva murcha nos campos
e os homens e os deuses têm
de morrer. Não há uma solução para esta situação. Imagina um grupo de terroristas
que ameaça fazer explodir uma
bomba atómica no centro de
Londres ou de Paris se as
suas exigências não forem
atendidas; percebes com certeza o que quero dizer.

29
O mito narra ainda que
Loki regressa a Asgard.
Aí, exorta Freyja a vestir-se e a enfeitar-se como
uma noiva, porque tem de se
casar com o gigante (infelizmente!). Freyja fica furibunda e afirma que as pessoas pensariam que ela estava
louca por homens se se casasse com um gigante.
Então, o deus "Heimdall"
tem uma ideia brilhante.
Propõe que Thor se disfarce
de noiva. Podem prender-lhe
o cabelo e colocar-lhe duas
pedras no peito, para que ele
pareça uma mulher. Thor não
fica muito entusiasmado com a
ideia, mas admite, por fim,
que só dessa forma os deuses
têm a possibilidade de recuperar o martelo. Por fim,
Thor é mascarado de noiva e
Loki acompanha-o como dama
de honor.
- Desta forma, levamos
duas mulheres para os gigantes - afirma Loki.
Se nos quisermos exprimir
de uma forma mais moderna,
podemos caracterizar Thor e
Loki como uma "brigada antiterrorista" dos deuses. Disfarçados de mulheres, têm de
entrar furtivamente no quartel general dos gigantes e
apoderar-se do martelo de
Thor.
Quando se encontram em
Jotunheimen, os gigantes
preparam tudo para as bodas.
Mas durante a festa, a noiva
- ou seja, Thor - come um
boi inteiro e oito salmões.
Bebe também três barris de
cerveja, e Thrym fica atónito. Por pouco, o comando antiterrorista teria sido desmascarado. Mas Loki conseguiu livrá-los desse perigo.
Ele conta que Freyja não
comia há seis noites, por ter
ficado tão entusiasmada com a
ideia de se fixar em Jotunheimen.
Nessa altura, Thrym levanta o véu da noiva para a
beijar, mas recua sobressaltado ao enfrentar o olhar duro
de Thor. Também aqui Loki
salva a situação. Ele conta
que a noiva, devido à alegria
do casamento, não pregara
olho durante oito noites.
Ordena então Thrym que, durante a cerimónia, vão buscar
o martelo para o colocar no
regaço da noiva.
Quando Thor se viu com o
martelo no colo, soltou uma
risada sonora. Primeiro, matou Thrym com o martelo, e,
em seguida, o resto dos gigantes de Jotunheimen. Desta
forma, o horrível drama teve
um fim feliz. Mais uma vez,
Thor - uma espécie de Batman ou James Bond dos deuses - vencera as forças do
mal.
Isto é um mito, Sofia.
Mas o que é que quer dizer
exactamente? Não foi imaginado só por brincadeira, pretende explicar algo. Esta é
uma interpretação possível:
Quando a seca atingia uma
terra, os homens precisavam
de uma explicação para o facto de não chover. Talvez os
gigantes tivessem roubado o
martelo de Thor.
É também possível que este
mito procure compreender a
mudança das estações do ano:
no Inverno, a natureza está
morta porque o martelo

30
de Thor está em Jotunheimen. Mas na Primavera, recupera-o. E assim, os mitos
procuram explicar aos homens
algo incompreensível.
Mas os homens não se deixavam ficar pelas explicações, como vimos. Procuravam
igualmente intervir num acontecimento tão importante para
eles através dos diversos ritos religiosos que estavam
relacionados com os mitos.
Podemos supor que os homens
representassem um drama sobre
o conteúdo do mito, no caso
de uma seca, ou de uma má colheita. Talvez um homem da
aldeia se disfarçasse de noiva - com pedras como seios
- para roubar de novo o martelo aos gigantes. Os homens
podiam, assim, fazer alguma
coisa para que a chuva viesse
e as sementes germinassem nos
campos.
Temos muitos exemplos semelhantes provenientes de outros lugares do mundo: os homens encenavam um "mito das
estações", para acelerar os
processos da natureza.

Passámos o olhar sobre a
mitologia nórdica. Havia
inumeráveis outros mitos sobre "Thor" e "Odin, Freyr"
e "Freyja", Hoder" e "Balder" e sobre muitas outras
divindades. Havia representações míticas como estas em
todo o mundo, antes de os filósofos começarem a criticá-las. Também os Gregos tinham uma concepção mítica do
mundo, quando surgiram os
primeiros filósofos. Durante
séculos, uma geração transmitia à seguinte as histórias
dos deuses. Na Grécia, as
divindades chamavam-se
"Zeus" e "Apolo, Hera" e
"Atena, Dioniso" e "Asclépio, Hércules" e "Hefesto",
para citar apenas alguns.
Cerca do ano 700 a.C.,
"Homero" e "Hesíodo" escreveram grande parte dos mitos
gregos. Esse facto criou uma
situação completamente nova.
Uma vez que os mitos estavam
escritos, era possível falar
acerca deles.
Os primeiros filósofos
gregos criticaram a mitologia
homérica porque, para eles,
os deuses eram demasiado semelhantes aos homens. Na
verdade, eram tão egoístas e
de tão pouca confiança como
nós. Pela primeira vez na
história da humanidade se
afirmou que os mitos eram
apenas fruto da imaginação do
homem.
Encontramos um exemplo
desta crítica aos mitos no
filósofo "Xenófanes", que
nasceu em aproximadamente
570 a.C. Segundo ele, os
homens tinham criado os deuses à sua própria imagem:
"Mas os mortais julgam que
os deuses nasceram e têm aspecto exterior, voz e figura
igual à sua... Os Etíopes
imaginam os seus deuses negros e com o nariz chato, os
Trácios, por sua vez, imaginam-nos ruivos e de olhos
azuis... Se as vacas, os cavalos ou os leões tivessem
mãos e pudessem pintar e
criar obras como os homens,
os cavalos pintariam os seus
ídolos semelhantes a cavalos,
as vacas semelhantes a vacas
e criariam as figuras iguais
a si."

31
Nesta época, os Gregos
fundaram muitas cidades-estado na Grécia e nas suas colónias da Itália meridional
e da Ásia Menor. Aí, os
escravos executavam todo o
trabalho físico, e os cidadãos livres podiam dedicar-se
à poliítica e à cultura. Com
estas condições de vida, a
maneira de pensar dos homens
mudou: cada indivíduo podia
colocar a questão de como a
sociedade devia ser organizada. Do mesmo modo, podia
também colocar perguntas filosóficas, sem ter de recorrer aos mitos tradicionais.
Dizemos que se deu um desenvolvimento de um modo de
pensar mítico para um género
de reflexão baseada na experiência e na razão. O objectivo dos primeiros filósofos
gregos era encontrar explicações naturais para os fenómenos da natureza.
Sofia passeava pelo grande
jardim. Procurava esquecer
tudo o que aprendera na escola. O mais importante era
esquecer o que tinha lido nos
livros de ciências da natureza.
Se tivesse crescido naquele jardim, sem saber mais nada sobre a natureza, como é
que veria a Primavera?
Imaginaria uma explicação
para o facto de, num certo
dia, começar a chover? Inventaria uma explicação para
compreender o facto de a neve
desaparecer e o Sol despontar no céu?
Sim, tinha a certeza disso, e começou a imaginar:
O Inverno envolvera a
terra com um palmo de gelo
porque o malvado Muriat mantinha presa num cárcere frio
a bela princesa Sikita. Mas
certa manhã, chegou o valente
príncipe Bravato e libertou-a. Sikita ficou tão contente que começou a dançar nos
prados, enquanto cantava uma
canção que inventara no cárcere frio. Nessa altura, a
terra e as árvores ficaram
tão comovidas que toda a neve
se transformou em lágrimas.
O Sol surgiu no céu e secou
todas as lágrimas. As aves
imitaram a canção de Sikita
e, à medida que a bela princesa desprendia os seus cabelos dourados, alguns caracóis
caíram no solo, transformando-se em lírios do campo...
Sofia achou que tinha inventado uma bela história.
Se não tivesse nenhuma outra
explicação para a alternância
das estações do ano, teria
com certeza acreditado na sua
história.
Percebeu que os homens tinham tido sempre necessidade
de encontrar explicações para
os fenómenos naturais. Talvez os homens não pudessem
viver sem essas explicações.
Por isso tinham imaginado os
mitos, quando ainda não havia
a ciência.

32
Os Filósofos Da Natureza

"... do nada, nada pode
nascer..."

Quando, nessa tarde, a mãe
chegou a casa do trabalho,
Sofia estava sentada no baloiço e meditava sobre que
relação poderia existir entre
o curso de filosofia e Hilde
Mõller Knag, que não receberia nenhum postal de aniversário do seu pai.
- Sofia! - chamou a mãe
de longe - Há aqui uma carta para ti!
Sofia assustou-se. Ela
tinha recolhido o correio,
por isso a carta tinha de ser
do filósofo. O que havia de
dizer à mãe?
Ergueu-se lentamente do
baloiço e foi ter com a mãe.
- Não tem selo. Provavelmente é uma carta de amor.
Sofia pegou nela.
- Não a queres abrir?
O que é que havia de dizer?
- Já ouviste falar de
pessoas que abrem cartas de
amor quando a mãe, por detrás, espreita de soslaio?
Era preferível que a mãe
acreditasse que se tratava de
uma carta de amor. Era uma
situação extremamente penosa,
visto que Sofia era ainda
bastante nova para receber
cartas de amor; mas seria
ainda mais desagradável se se
viesse a saber que ela recebia, por correspondência, um
curso de um filósofo inteiramente desconhecido que brincava ao gato e ao rato com
ela.
Era um envelope branco,
pequeno. Já no quarto,
Sofia leu as três perguntas
que o envelope continha:
"Haverá um elemento primordial a partir do qual tudo
é gerado?
Será que a água se pode
transformar em vinho?
Como é que a terra e a
água se podem transformar
numa rã viva?"

Sofia achou estas perguntas absurdas, mas andou com
elas na cabeça durante toda a
tarde. Na manhã seguinte, na
escola, reflectiu nas três
perguntas pela ordem apresentada.

33
Haveria um "elemento primordial", a partir do qual
tudo fosse gerado? Mas se
houvesse um elemento a partir
do qual tudo o que está no
mundo fosse produzido, como é
que este elemento poderia
transformar-se de repente num
dente-de-leão ou num elefante?
Passava-se o mesmo com a
pergunta sobre a água: poder-se-ia transformar em vinho? Sofia já tinha ouvido
dizer que Jesus tinha transformado água em vinho, mas
não interpretara esta história literalmente. E se Jesus tinha de facto transformado água em vinho, era um
milagre, algo que normalmente
não era possível. Sofia não
tinha dúvidas sobre o facto
de haver uma grande percentagem de água no vinho e em
muitas plantas e animais.
Mas mesmo que um pepino fosse constituído por noventa e
cinco por cento de água, teria de haver algo mais que
fizesse com que um pepino
fosse um pepino e não apenas
água.
E havia ainda a questão da
rã. O seu professor de filosofia tinha um fraco por rãs.
Sofia poderia eventualmente
aceitar que uma rã fosse feita de terra e água, mas nesse
caso a terra não podia ser
feita de um só elemento. Se
a terra fosse composta de
muitos elementos diversos,
era possível pensar que a
terra juntamente com a água
produzisse uma rã. Se a terra e a água fizessem um desvio pelos ovos da rã e pelos
girinos, bem entendido. É
que uma rã não podia simplesmente crescer numa horta,
mesmo que fosse regada muito
escrupulosamente.
Quando, nessa tarde, regressou a casa da escola, havia uma carta grossa dirigida
a ela na caixa do correio.
Sofia foi para a toca, como
já fizera nos dias anteriores.

O projecto dos filósofos

Eis-nos de novo! É preferível começarmos imediatamente com a lição de hoje, deixando de parte os coelhos
brancos e coisas parecidas.
Vou contar-te em linhas
gerais como é que os homens,
desde a Antiguidade até
hoje, pensaram sobre as questões filosóficas. Tudo por
ordem cronológica.
Visto que a maior parte
dos filósofos viveram numa
outra época - e possivelmente também numa cultura completamente diferente da nossa
- vale a pena interessarmo-nos pelo projecto de cada
filósofo. Quero com isso dizer que temos de tentar compreender os aspectos a que o
filósofo quis dar resposta.
Um filósofo pode perguntar-se como é que as plantas e
os animais surgiram. Um outro pode querer descobrir se
Deus existe, ou se os homens
possuem uma alma imortal.

34
A partir do momento em que
determinámos qual é o projecto de um determinado filósofo, podemos mais facilmente
seguir o seu pensamento. Com
efeito, dificilmente um filósofo se ocupa de todas as
questões filosóficas.
Falei sobre o pensamento
"dele", porque a história da
filosofia foi escrita sobretudo por homens. Isso deve-se à condição de inferioridade frequentemente atribuída
à mulher, tanto no plano físico como no plano intelectual. É grave, na medida em
que, dessa forma, se perderam
muitas experiências. As mulheres só surgem verdadeiramente na história da filosofia neste século.
Não te vou dar trabalhos
de casa - nem trabalhos complicados de matemática. As
flexões dos verbos ingleses
não me interessam. Mas, de
vez em quando, pedir-te-ei
que faças um pequeno exercício. Se aceitares estas condições, continuamos.

Os filósofos da natureza

Os primeiros filósofos
gregos são designados por
"filósofos da natureza", porque se interessaram sobretudo
pela natureza e pelos processos físicos.
Já nos interrogámos sobre
a origem de tudo. Hoje em
dia, muitos homens acreditam
que tudo nasceu do nada em
determinada altura. Este
pensamento não estava muito
difundido entre os Gregos.
Eles acreditavam que "algo"
teria existido sempre.
A questão fundamental não
era, portanto, como é que
tudo poderia surgir do nada.
Em lugar disso, os Gregos
admiravam-se que a água se
pudesse transformar em peixes
vivos, e a terra morta em árvores altas ou flores de cores vistosas. Para não falar
de como um bebé pode nascer
no corpo da mãe!
Os filósofos viam com os
seus próprios olhos que havia
na natureza transformações
constantes. Mas como é que
essas transformações eram
possíveis? Como é que algo
feito de uma substância se
poderia transformar numa coisa completamente diferente?
Era comum entre os primeiros filósofos acreditarem que
havia um elemento primordial
responsável por todas as
transformações. De que forma
teriam chegado a este pensamento não é claro. Sabemos
apenas que ele surgiu da concepção, segundo a qual, teria
de haver um elemento primordial, que daria origem a todas as transformações da natureza.
O mais interessante para
nós não são as respostas que
estes primeiros filósofos encontraram. O mais interessante são as questões que punham e

35
que tipo de respostas procuravam. Para nós, é mais importante saber como é que
eles pensaram do que o que
pensaram.
Podemos constatar que se
questionavam sobre a forma
como aconteciam certas transformações na natureza. Procuravam descobrir algumas
leis naturais eternas. Desejavam compreender os fenómenos da natureza, sem recorrer
aos mitos tradicionais. Acima de tudo, procuravam compreender os processos da natureza através da observação
da própria natureza. Isso é
completamente diferente da
explicação do relâmpago e do
trovão, do Inverno e da
Primavera, por meio da referência aos acontecimentos no
mundo dos deuses.
Desta forma, a filosofia
libertou-se da religião. Podemos afirmar que os filósofos da natureza deram os primeiros passos em direcção a
um modo de pensar "científico". Assim, abriram caminho
a toda a posterior ciência da
natureza.
Quase tudo o que os filósofos da natureza disseram e
escreveram perdeu-se para a
posteridade. O pouco que sabemos encontramo-lo nos escritos de Aristóteles, que
viveu duzentos anos após os
primeiros filósofos. Mas
Aristóteles resume apenas os
resultados a que os filósofos
anteriores tinham chegado. O
que significa que não podemos
saber sempre de que forma é
que chegaram às suas conclusões. Mas sabemos o suficiente para podermos afirmar
que o projecto dos filósofos
gregos consista nas questões
que estavam relacionadas com
o elemento primordial nas
transformações da natureza.

Três filósofos de Mileto

O primeiro filósofo de que
temos notícia é Tales, da
colónia grega de Mileto, na
Ásia Menor. Ele viajava
frequentemente. Diz-se que,
certa vez, teria medido a altura de uma pirâmide no
Egipto, medindo a sombra da
pirâmide no momento em que a
sua própria sombra estava tão
alta como ele. Além disso,
conseguiu prever um eclipse
do Sol no ano 585 a.C.
Para Tales, a água era a
origem de todas as coisas.
Não sabemos exactamente o
que ele queria dizer com
isto. Talvez quisesse dizer
que toda a vida começa na
água - e que toda a vida se
torna de novo água quando se
inicia a degradação.
Quando esteve no Egipto,
viu certamente como os campos
ficavam férteis quando o Nilo abandonava as terras que
constituíam o seu delta.
Talvez tenha visto também
como as rãs e os vermes surgiam à luz do sol depois de
ter chovido.

36
Além disso, é provável que
Tales se tenha questionado
quanto ao modo como a água se
pode tornar gelo e vapor - e
de novo água.
Afirma-se que Tales disse
que "tudo está cheio de deuses". Apenas podemos avançar
hipóteses sobre a interpretação desta frase. Talvez tivesse pensado que a terra era
a origem de tudo, desde as
flores e as sementes, até às
abelhas e baratas. Tinha
chegado à conclusão de que a
terra estava cheia de pequenos "gérmenes da vida" invisíveis. O que é certo é que
não estava a pensar nos deuses homéricos.
O filósofo seguinte de que
temos conhecimento é Anaximandro, que viveu igualmente
em Mileto. Para ele, o nosso mundo é apenas um dos muitos que nascem de algo e perecem em algo que ele denominou o infinito. É difícil
dizer o que queria significar
com o termo infinito, mas sabemos que não pensava, ao
contrário de Tales, numa
substância totalmente determinada. Talvez quisesse dizer que aquilo, a partir do
qual tudo é criado, tem de
ser completamente diferente
de tudo o que é criado. E
visto que tudo o que é criado
é finito, tudo o que lhe é
anterior ou posterior tem de
ser infinito. É claro que o
elemento primordial não podia
ser, assim, simples água.
Um terceiro filósofo de
Mileto era Anaxímenes
(cerca de 570-526 a.
C.). Para ele, o ar era o
elemento primordial de todas
as coisas. Anaxímenes conhecia, naturalmente, a teoria
de Tales sobre a água. Mas
de onde surge a água? Para
Anaxímenes, a água era ar
condensado. Nós sabemos que,
ao chover, a água é condensada a partir do ar. Quando a
água é ainda mais condensada,
torna-se terra, segundo Anaxímenes. Talvez tivesse visto que, quando o gelo se derrete, "expele" terra e areia.
De modo análogo, pensava que
o fogo era ar rarefeito. Segundo Anaxímenes, a terra, a
água e o fogo tinham origem
no ar.
A passagem da terra e da
água às plantas no campo não
era demorada. Talvez Anaxímenes pensasse que a terra, o
ar, o fogo e a água tivessem
de existir para que pudesse
nascer vida. Mas o verdadeiro ponto de partida era o
ar. Ele partilhava, portanto, a concepção de Tales,
segundo a qual um elemento
primordial estava na origem
de todas as transformações na
natureza.

Do nada, nada pode nascer

Os três filósofos de Mileto acreditavam num - e
apenas num elemento primordial, a partir do qual todas
as outras coisas eram criadas. Mas como poderia uma
substância transformar-se de
repente e

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tornar-se uma coisa completamente diferente? Podemos designar este problema pelo
problema do devir.
A partir de aproximadamente 500 a.C. viveram na colónia grega de Eleia, na
Itália meridional, alguns
filósofos, e estes "eleatas"
tratavam destes problemas. O
mais conhecido de entre eles
era Parménides (aproximadamente 540-480 a.C.).
Parménides acreditava que
tudo o que existe, existiu
sempre. Esta ideia estava
bastante difundida entre os
Gregos. Tinham como evidente que tudo o que há no mundo
existiu desde sempre. Do
nada, nada pode nascer, pensava Parménides. E nada do
que existe pode tornar-se
nada.
Mas Parménides foi mais
longe que a maior parte dos
outros. Para ele, não era
possível nenhuma verdadeira
transformação. Uma coisa só
se pode transformar naquilo
que já é.
Parménides não tinha dúvidas de que na natureza se dão
constantemente transformações. Os seus sentidos apercebiam-se do devir das coisas. Mas não conseguia fazer
coincidir o que os seus sentidos registavam, com o que a
razão lhe dizia. Quando foi
obrigado a decidir se devia
confiar nos sentidos ou na
razão, decidiu-se pela razão.
Conhecemos a frase: "Só
acredito naquilo que vejo."
Mas Parménides nem sequer
acreditava no que via. Pensava que os sentidos nos forneciam uma imagem falsa do
mundo, uma imagem que não
coincidia com o que a razão
diz aos homens. Enquanto filósofo, encarava a sua tarefa
como o desmascarar de todas
as formas de "ilusões sensoriais".
Esta forte confiança na
razão humana é designada "racionalismo". Um racionalista
é uma pessoa que tem uma
grande confiança na razão humana, como fonte do nosso conhecimento sobre o mundo.

Tudo flui

"Heraclito", contemporâneo
de Parménides, era originário de Éfeso na Ásia Menor
(aproximadamente 540-480
a.C.). Segundo ele, as
transformações constantes
eram a verdadeira característica da natureza. Podemos
dizer que Heraclito confiava
mais nas impressões dos sentidos do que Parménides.
"Tudo flui", segundo Heraclito. Tudo está em movimento, e nada dura eternamente. Por isso, não podemos
"entrar duas vezes no mesmo
rio". Porque quando entro no
rio pela segunda vez, tanto
eu como o rio estamos mudados.
Heraclito explicou, também, que o mundo é caracterizado por contrários constantes. Se nunca estivéssemos
doentes, não compreenderíamos

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o que é a saúde. Se nunca
tivéssemos fome, não gostaríamos de comer. Se nunca
houvesse guerra, não saberíamos apreciar a paz, e se nunca fosse Inverno, não saberíamos quando chega a Primavera.
Tanto o bem como o mal
ocupam um lugar necessário no
todo, dizia Heraclito. Sem
o jogo permanente entre contrários, o mundo terminaria.
"Deus é o dia e a noite, o
Inverno e o Verão, a guerra
e a paz, a saciedade e a fome", dizia. Ele utiliza aqui
a palavra "Deus", mas não se
refere aos deuses de que falam os mitos. Segundo Heraclito, Deus - ou o divino
- é algo que abrange tudo.
Sim, Deus está patente justamente na natureza, que é
contraditória e está em
transformação constante.
Em vez do termo "Deus",
Heraclito usa frequentemente
a palavra grega "logos", que
significa razão. Mesmo que
nós, homens, não pensemos
sempre de modo igual ou não
tenhamos o mesmo bom-senso,
tem de haver uma espécie de
"razão universal", que governe tudo o que acontece na natureza. Esta razão universal
- ou "lei universal" - é
comum a todos, e todos os homens se devem orientar por
ela. No entanto, a maior
parte deles vive segundo a
sua própria razão particular,
segundo Heraclito. Com
efeito, ele não tinha uma
ideia muito positiva do seu
próximo. As opiniões da
maior parte dos homens eram,
para ele, "jogos de crianças".
Em todas as transformações
e contradições da natureza,
Heraclito via uma unidade ou
totalidade. Aquilo que está
na origem de tudo, era designado por ele "Deus", ou "logos".

Quatro elementos principais

Parménides e Heraclito
tinham, sob um certo ponto de
vista, concepções opostas. A
razão de Parménides defendia
que nada se pode alterar.
Mas as experiências dos sentidos de Heraclito defendiam
que, na natureza, se dão
constantemente transformações. Qual dos dois tinha
razão? Devemos confiar na
razão, ou nos sentidos?
Tanto Parménides como
Heraclito fazem duas afirmações respectivamente:

Parménides afirma que:
a) nada se pode transformar
e que:
b) consequentemente as impressões dos sentidos não podem ser dignas de confiança.

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Heraclito, por seu lado,
afirma que:
a) tudo se transforma
("tudo flui")
e que:
b) as impressões dos sentidos são dignas de confiança.

Dificilmente pode haver um
desacordo maior entre filósofos! Mas qual dos dois tinha
razão? Por fim, Empédocles
(aproximadamente 494-434
a.C.), de Agrigento, haveria de encontrar o caminho
para sair do novelo no qual a
filosofia se tinha emaranhado. Pensava que tanto Parménides como Heraclito tinham razão numa das suas
afirmações, mas que ambos se
enganavam num ponto.
Segundo Empédocles, a
grande discórdia baseava-se
no facto de os filósofos terem pressuposto que apenas
havia um elemento. Se isso
fosse verdade, então o abismo
entre o que a razão diz e o
que recebemos dos sentidos
seria intransponível.
A água não se pode transformar em peixe ou em borboleta. A água não se pode
transformar de todo. A água
pura permanece água pura para
toda a eternidade. Parménides tinha razão em afirmar
que nada se transforma. Simultaneamente, Empédocles
estava de acordo com Heraclito, dizendo que devemos
confiar nas impressões dos
sentidos. Temos que acreditar no que vemos, e vemos
transformações permanentes na
natureza.
Empédocles reconheceu que
a ideia de um único elemento
primordial tinha de ser rejeitada. Nem a água, nem o
ar se podiam transformar numa
roseira ou numa borboleta. A
natureza não podia ter apenas
um elemento constituinte.
Segundo Empédocles a natureza é constituída por quatro elementos primordiais ou
"raízes", que identifica com
a terra, o ar, o fogo e a
água.
Todas as transformações da
natureza resultam do facto de
os quatro elementos se misturarem e se separarem. Tudo é
constituído por terra, ar,
fogo e água, misturados em
proporções variáveis. Quando
uma flor ou um animal morrem,
os quatro elementos separam-se novamente uns dos outros.
Podemos apercebermo-nos destas transformações a olho nu.
Mas a terra, o ar, o fogo e
a água permanecem totalmente
inalterados ou intactos, apesar de todas as misturas em
que estão presentes. Também
não é verdade que "tudo" se
altera. Basicamente, nada se
altera. O que sucede é que
quatro elementos diferentes
se misturam e se voltam a separar - para se misturarem
novamente no futuro.
Podemos fazer uma comparação com um pintor. Se ele
tem apenas uma cor - por
exemplo, o vermelho - não
pode pintar árvores verdes.

40
Mas se tem amarelo, vermelho, azul e preto, pode pintar centenas de cores diferentes, porque mistura as cores em proporções diferentes.
Um exemplo da cozinha mostra-nos o mesmo. Se eu tivesse apenas farinha, tinha
de ser um ilusionista para
fazer um bolo com ela. Mas
se tenho ovos e farinha, leite e açúcar, posso criar variados bolos com os quatro
elementos de base.
Não foi por acaso que para
Empédocles as raízes da natureza eram precisamente a
terra, o ar, o fogo e a água.
Antes dele, outros filósofos
tinham procurado mostrar que
o elemento primordial era a
terra ou a água ou o ar ou o
fogo. Tales e Anaxímenes
tinham insistido em que a
água e o ar eram elementos
importantes na natureza.
Para os Gregos, o fogo também era importante. Por
exemplo, viam a importância
do Sol em toda a vida da natureza e, obviamente, tinham
conhecimento do calor do corpo nos homens e nos animais.
Talvez Empédocles tenha
visto arder um pedaço de madeira. Neste caso, há algo
que se desagrega. Ouvimo-lo
no crepitar da madeira. É a
água. Algo se torna fumo. É
o fogo. E vemos claramente o
fogo. Quando as chamas se
apagam, algo permanece. É a
cinza, ou a terra.
Depois de Empédocles ter
indicado que as transformações da natureza são produzidas através da mistura e separação das quatro raízes, há
ainda uma questão em aberto:
qual é a causa pela qual os
elementos se unem para que
nasça uma nova vida? E o que
é que contribui para que a
"mistura", uma flor, por
exemplo, se desagregue de
novo?
Segundo Empédocles, há na
natureza duas forças diferentes que nela agem. Designava
estas forças por "amor" e
"discórdia". Aquilo que une
as coisas é o amor, o que as
desagrega é a discórdia.
Empédocles faz uma distinção importante entre elemento
e força. É importante notar
isto. Ainda hoje, a ciência
distingue elementos e forças
da natureza. A ciência moderna acredita que todos os
processos da natureza se podem explicar como resultado
dos vários elementos e algumas forças da natureza.
Empédocles também se dedicou à questão do que acontece
quando sentimos algo. Como é
que eu posso, por exemplo,
"ver" uma flor? O que sucede
então? Já alguma vez reflectiste sobre isto, Sofia?
Caso não o tenhas feito,
tens a oportunidade de o fazer agora.
Empédocles pensava que os
nossos olhos, tal como todas
as outras coisas na natureza,
são constituídos por terra,
ar, fogo e água. Por isso, a
terra do meu olho apreende o
que é feito de terra no que é
visto, o ar apreende o que é
feito de ar, o fogo dos olhos
apreende o que é feito de
fogo, e a água o que é feito
de água. Se faltasse no olho
um destes elementos, eu não
poderia ver toda a natureza.

41
Algo de tudo em tudo

Um outro filósofo, Anaxágoras (500-428 a.C.>),
não estava satisfeito com a
conclusão a que se tinha chegado: que um determinado elemento primordial - água, por
exemplo - se pudesse transformar em tudo o que vemos na
natureza. Também não aceitava a concepção segundo a qual
a terra, o ar, o fogo e a
água se transformavam em sangue ou ossos, pele ou cabelo.
Anaxágoras achava que a
natureza era composta por ínfimas partículas que não podiam ser apreendidas pelos
olhos. Segundo ele, tudo se
pode dividir em partes ainda
mais pequenas, havendo nessas
partículas um pouco de tudo.
Se a pele e o cabelo não podem nascer de uma outra coisa, então tem de haver também, segundo ele, pele e cabelo no leite que bebemos e
nos alimentos que comemos.
Dois exemplos modernos
apontam para aquilo em que
Anaxágoras pensou. Com a
técnica "laser" podemos fabricar os chamados "hologramas". Se um holograma representa, por exemplo, um carro
e este holograma é em seguida
fragmentado, veremos ainda a
imagem de todo o carro, mesmo
que já só tenhamos a parte do
holograma que mostrava o pára-choques. Isto sucede porque todo o motivo está presente em cada parte, mesmo a
mais reduzida.
O nosso corpo também é basicamente formado desta maneira. Se eu raspar uma célula da pele do meu dedo, o
núcleo da célula não contém
apenas a descrição da minha
pele. Na mesma célula, há
igualmente a descrição dos
meus olhos, da minha cor de
cabelo, do número e aspecto
dos meus dedos, etc. Em cada
célula do corpo há uma detalhada descrição da constituição de todas as outras células do meu corpo. Em cada
célula há, portanto, "algo de
tudo". A totalidade encontra-se na partícula mais reduzida.
Anaxágoras chamou "sementes" a estes elementos infinitamente divisíveis a partir
dos quais se formam os vários
corpos. Vimos que segundo
Empédocles o amor unia entre
si as várias partes que formavam os corpos na sua globalidade. Também Anaxágoras
imaginava uma espécie de força que, por assim dizer, produzia a ordem e criava homens, animais, flores e árvores. Designava esta força
por "espírito" ou razão.
Anaxágoras é também digno
de nota por ser o primeiro
filósofo em Atenas de que
temos notícia. Era oriundo
da Ásia Menor, mas foi viver para Atenas com cerca de
quarenta anos. Aí, foi acusado de impiedade e teve que
deixar novamente a cidade.
Afirmara, entre outras coisas, que o Sol não era nenhum Deus, mas uma massa incandescente, maior que a península do Peloponeso.

42
Anaxágoras interessava-se
muito por astronomia. Acreditava que todos os corpos
celestes eram feitos da mesma
substância que a terra. Ficou convencido disto após ter
examinado um meteorito. Por
isso, era lícito pensar, segundo ele, que existissem homens noutros planetas. Além
disso, esclareceu que a Lua
não brilhava por si mesma,
mas era iluminada pela terra.
Por fim, explicou a formação
dos eclipses solares.

PS. Obrigado pela atenção, Sofia. Talvez tenhas
que ler este capítulo duas ou
três vezes até compreenderes
tudo. Mas a compreensão implica um pequeno esforço pessoal. Dificilmente admirarias uma amiga que soubesse
tudo se isso não lhe tivesse
custado nada.
A melhor resposta para a
questão do elemento primordial e das transformações na
natureza tem de esperar até
amanhã. Conhecerás então
Demócrito. Não revelo mais
nada!

Sofia estava na toca e espreitava para o jardim. Tinha que tentar ordenar os
seus pensamentos depois de
tudo o que tinha lido.
Era óbvio que a água se
podia tornar gelo ou vapor.
Mas a água não podia transformar-se numa melancia, visto que mesmo uma melancia era
constituída por algo mais que
água. Mas se estava tão certa disso, era porque o tinha
aprendido. Poderia saber que
o gelo era constituído apenas
por água se não o tivesse
aprendido? Nesse caso, teria
que ter observado muito bem
de que modo a água passava a
gelo e como o gelo se derretia.
De novo, Sofia procurava
pensar por si mesma sem aplicar o que tinha aprendido de
outros.
Parménides recusara-se a
aceitar qualquer forma de devir. E quanto mais ela reflectia sobre isso, mais se
convencia de que, de um certo
ponto de vista, ele tinha razão. A sua razão não podia
aceitar que "algo" se transformasse subitamente em "algo" completamente diferente.
Tinha sido muito corajoso da
parte dele dizer isto, porque
tivera de negar todas as alterações na natureza, que todo o homem podia observar.
De certeza que muita gente
se tinha rido dele.
Também Empédocles se tinha mostrado genial ao explicar que o mundo tinha necessariamente de ser constituído
por mais do que um só elemento. Desta forma, todas as
alterações na natureza eram
possíveis, sem que alguma
coisa se transformasse de
facto.
O antigo filósofo grego
tinha descoberto isto com o
simples uso da razão. Naturalmente, tinha observado a
natureza, mas não tivera nenhuma possibilidade de efectuar análises químicas, ao
contrário da ciência moderna.

43
Sofia não sabia se estava
particularmente convencida de
que tudo era constituído por
terra, ar, fogo e água. Mas
o que é que isso importava?
Em princípio, Empédocles
tinha razão. A nossa única
possibilidade de aceitarmos
todas as alterações que os
nossos olhos vêem sem perdermos o juízo, é admitirmos
mais do que uma substância.
Sofia achava a filosofia
particularmente cativante
porque podia seguir todas as
reflexões com o seu próprio
entendimento - sem ter de
recordar tudo o que aprendera
na escola. Verificou que, na
verdade, não se pode aprender
filosofia, mas talvez se pudesse aprender a "pensar" filosoficamente.

44
DEMÓCRITO

"... o brinquedo mais genial
do mundo..."

Sofia fechou a caixa dos
biscoitos que continha todas
as folhas escritas à máquina
do filósofo desconhecido.
Deslizou para fora da toca e
ficou parada durante algum
tempo a observar o jardim.
De repente, lembrou-se do
que acontecera no dia anterior. A mãe fizera troça dela durante o pequeno-almoço
devido à "carta de amor" que
recebera. Sofia correu em
direcção à caixa do correio
para que isso não se repetisse. Receber duas cartas de
amor em dois dias seguidos
equivalia a sentir-se embaraçada duas vezes.
Havia de novo um envelope
branco pequeno! Sofia compreendeu então o sistema de
correspondência: todas as
tardes, encontrara na caixa
do correio um envelope grande
e amarelo. E, enquanto o
lia, o filósofo ia lá às escondidas com uma pequena carta branca.
Isso significava que Sofia podia desmascará-lo facilmente. Ou seria uma filósofa? Se se pusesse à janela
do seu quarto, tinha uma boa
vista para a caixa do correio. Nessa altura, de certeza que descobriria o misterioso filósofo, visto que os
envelopes brancos não podiam
nascer por si mesmos.
Sofia decidiu tomar muita
atenção no dia seguinte. Era
sexta-feira, e teria todo o
fim-de-semana à sua frente.
Foi então para o seu quarto
e abriu o envelope. Nesse
dia, havia apenas uma pergunta na folha, mas em compensação esta pergunta era ainda
mais absurda do que as três
contidas na "carta de amor":

"Porque é que as peças do
Lego são o brinquedo mais
genial do mundo?"

Sofia não estava muito
convencida de que achava as
peças do Lego o brinquedo
mais genial do mundo; de
qualquer modo, já não brincava com elas há muitos anos.
Além disso, não conseguia
compreender o que é que as
peças do Lego teriam a ver
com filosofia.

45
Mas era uma aluna obediente. Remexeu na prateleira
mais alta do seu armário e
encontrou por fim um saco de
plástico com peças de Lego
de variadíssimos tamanhos e
formas.
Há muito tempo que não
construía nada com as pequenas peças de plástico. Começou, então, a fazê-lo. À medida que o fazia, começou a
pensar acerca das peças do
Lego.
É fácil construir com o
Lego, pensou. Apesar de as
peças serem de tamanho e forma diferentes, todas podem
ser montadas umas sobre as
outras. Além disso, não se
estragam facilmente. Sofia
não se conseguia lembrar de
ter alguma vez visto uma peça
partida. Todas pareciam estar ainda tão novas e frescas
como quando as recebera há
muitos anos. E, além disso,
com as peças do Lego podia
construir tudo. Depois, podia desencaixar as peças e
construir algo completamente
diferente.
Que mais se podia exigir?
Sofia verificou que as peças
do Lego podiam, realmente,
ser consideradas o brinquedo
mais genial do mundo.
Mas ainda não percebia o
que é que isso tinha a ver
com filosofia. Em pouco tempo, construiu uma grande casa
de bonecas. Quase não queria
admitir que há muito tempo
não se divertia tanto. Porque é que as pessoas deixavam
de brincar?
Quando a sua mãe chegou a
casa e viu a casa de bonecas
de Sofia, disse de imediato:
- Que bom ver que ainda
consegues brincar como uma
criança!
- Bah! Eu estou a trabalhar em investigações filosóficas complexas.
A mãe suspirou profundamente. Estava certamente a
pensar no coelho e na cartola.
Quando Sofia regressou da
escola no dia seguinte, encontrou um grande envelope
amarelo com muitas folhas.
Foi para o seu quarto. Queria ler tudo imediatamente,
mas nesse dia também queria
ter a caixa do correio debaixo de olho.

A teoria atomista

Aqui estou de novo, Sofia. Hoje vou falar sobre o
último grande filósofo da natureza. Chamava-se Demócrito (aproximadamente 460-370 a.C.>) e vinha da cidade portuária de Abdera, a
norte do Mar Egeu. Se conseguiste responder à pergunta
acerca das peças do Lego,
não te será difícil compreender o projecto deste filósofo.

46
Demócrito concordava com
os seus predecessores ao
afirmar que as transformações
observáveis na natureza não
significavam que algo se alterasse realmente. Admitiu,
portanto, que tudo tinha de
ser composto de elementos pequenos e invisíveis, eternos
e imutáveis. Demócrito designava estas pequenas partículas por átomos.
O termo "átomo" significa
"indivisível". Para Demócrito, era fundamental afirmar que aquilo a partir do
qual tudo é formado não pode
ser dividido em partes cada
vez mais pequenas. Se os
átomos pudessem ser constantemente divididos em partes
cada vez mais pequenas, a natureza teria começado a fluir
como uma sopa cada vez mais
líquida.
Os elementos constitutivos
da natureza tinham ainda de
se conservar eternamente -
porque nada pode nascer do
nada. Nisto, Demócrito estava de acordo com Parménides e os eleatas. Além disso, os átomos eram sólidos e
compactos. Mas não podiam
ser iguais. Porque se os
átomos fossem iguais, não teríamos uma explicação válida
para o facto de poderem ser
combinados de modo a formarem
tudo, desde papoilas e oliveiras a pele de cabra e cabelo humano.
Existe uma quantidade infinita de átomos diferentes
na natureza segundo Demócrito. Alguns são redondos e
lisos, outros são irregulares
e curvos. E precisamente
porque têm formas tão diversas, podem ser combinados
para formarem corpos completamente diversos. Mesmo sendo numerosos e diferentes,
todos são eternos, imutáveis
e indivisíveis.
Quando um corpo - por
exemplo, uma árvore ou um
animal - morre e entra em
decomposição, os seus átomos
dispersam-se e podem ser utilizados de novo em novos corpos. Os átomos movem-se no
espaço vazio e agregam-se
para formar as coisas que vemos à nossa volta.
E agora já percebes o que
eu queria dizer com as peças
do Lego? Elas possuem mais
ou menos as propriedades que
Demócrito atribuiu aos átomos, e precisamente por isso
se pode construir tão bem com
elas. Em primeiro lugar, são
indivisíveis. São diferentes
em forma e em tamanho, são
sólidas e impenetráveis.
Além disso, as peças do Lego têm "ganchos", com os
quais podem ser encaixadas
umas nas outras; por isso podem ser transformadas em todas as figuras possíveis.
Esta combinação pode ser
mais tarde desfeita e depois
construírem-se novos objectos
a partir das mesmas peças.
E foi justamente o facto
de poderem ser sempre usadas
de novo que tornou o Lego
tão popular. Uma e a mesma
peça de Lego pode fazer hoje
parte de um carro, e amanhã
de um palácio. Além disso, é
possível dizer que as peças
do Lego são "imortais". As
crianças de hoje podem brincar com as mesmas peças com
que os seus pais brincaram
quando ainda eram pequenos.

47
Com a plasticina damos
forma a variadíssimas coisas,
mas esta não deve ser usada
constantemente, pois pode
desfazer-se em partes cada
vez mais pequenas, não podendo esses pequenos pedaços serem de novo encaixados para
formarem novos objectos.
Hoje, podemos quase afirmar que a teoria de Demócrito estava certa. A natureza
é de facto formada por diversos átomos, que se combinam
uns com os outros e se separam de novo. Um átomo de hidrogénio que está numa célula
na extremidade do meu nariz
pertenceu, outrora, à tromba
de um elefante. Um átomo de
carbono do meu miocárdio esteve já na cauda de um dinossauro.
Hoje em dia, a ciência
descobriu que os átomos se
dividiam em "partículas elementares" ainda mais pequenas. A essas partículas elementares chamamos protões,
neutrões e electrões. E talvez estas se deixem fraccionar em partículas ainda mais
pequenas. Mas os físicos
concordam em afirmar que tem
de haver um limite. Têm de
existir as partículas mais
pequenas a partir das quais a
natureza é formada.
Demócrito não tinha acesso
aos aparelhos electrónicos do
nosso tempo. O seu único
instrumento era a razão. Mas
a razão não lhe deixava nenhuma alternativa. Se aceitarmos que nada se pode alterar, que nada surge do nada e
que nada desaparece, nesse
caso a natureza tem de ser
formada por elementos constitutivos minúsculos que se
combinam e se separam uns dos
outros.
Demócrito não tinha em
conta uma "força" ou um "espírito" que interviesse nos
processos naturais. As únicas coisas que existem, segundo ele, são os átomos e o
espaço vazio. Dado que ele
só acreditava no que é "material", denominamo-lo materialista.
Nos movimentos dos átomos
não há uma finalidade consciente. Isso não significa
que tudo o que acontece seja
ao "acaso", porque tudo segue
as leis constantes da natureza. Demócrito achava que tudo o que acontece tem uma
causa natural, uma causa que
reside nas próprias coisas.
Teria dito um dia que preferia descobrir uma lei da natureza a tornar-se rei da
Pérsia.
Segundo Demócrito, a teoria atomista esclarecia também as nossas "sensações". A
percepção que temos de alguma
coisa deve-se ao movimento
dos átomos no vazio. Quando
vejo a lua, o que acontece é
que os "átomos lunares" atingem o meu olho.
E a "alma"? Não pode ser
constituída por átomos, por
"coisas" materiais? Para
Demócrito a alma era constituída por "átomos de alma"
redondos e lisos. Quando um
homem morre, os átomos da
alma dispersam-se em todas as
direcções e podem dar vida a
outra alma.

48
Isto significa que o homem
não possui uma alma imortal.
Este é um pensamento partilhado hoje por muitas pessoas. Acreditam, como Demócrito, que a alma está ligada
ao cérebro, e que não podemos
ter nenhuma forma de consciência quando o cérebro se
decompõe.
Com a sua teoria atomista,
Demócrito pôs um ponto final
provisório na filosofia da
natureza grega. Estava de
acordo com Heraclito quando
pensava que, na natureza,
tudo flui; porque as formas
vêm e vão. Mas por detrás de
tudo o que flui, há algo
eterno e imutável que não
flui: os átomos, segundo
Demócrito.

Durante a leitura, Sofia
espreitava frequentemente pela janela para verificar se o
misterioso autor das cartas
aparecia junto à caixa do
correio. Nesse momento,
olhava fixamente para a rua,
enquanto reflectia no que tinha lido.
Segundo Sofia, Demócrito
pensara de um modo simples e
genial. Ele encontrara a solução para os problemas do
"elemento primordial" e do
"devir". Esta questão era
tão complicada que os filósofos tinham trabalhado muito
nela durante várias gerações.
Por fim, Demócrito resolvera todo o problema, tendo
usado simplesmente a sua razão.
Sofia quase se riu. Tinha
de ser verdade que a natureza
era formada por partículas
minúsculas que nunca se alteravam. Ao mesmo tempo, Heraclito tinha razão em afirmar que todas as formas na
natureza "fluem", porque todos os homens e animais morrem, e mesmo uma montanha se
desagrega lentamente. No entanto essa montanha é constituída por partículas pequenas
e indivisíveis que nunca se
quebram.
Demócrito colocara novas
questões. Por exemplo, afirmara que tudo acontece de uma
forma mecânica. Não aceitava
a ideia de forças espirituais
na existência - ao contrário
de Empédocles e Anaxágoras.
Além disso, Demócrito não
acreditava que o homem tivesse uma alma imortal.
Poderia ela ter a certeza
de que ele tinha razão nesse
aspecto?
Não estava tão segura disso. Mas ela também estava
apenas no início do seu curso
de filosofia.

49

O Destino

"... o adivinho procura interpretar algo que, na realidade, é obscuro..."

Sofia tinha mantido o portão da casa debaixo de olho
enquanto lia sobre Demócrito. Decidiu sair em direcção
à caixa do correio, para ter
a certeza.
Quando abriu a porta da
casa, descobriu lá fora, sobre a escada, um pequeno envelope com o seu nome: Sofia
Amundsen.
Era evidente que ele a tinha enganado! Precisamente
nesse dia, em que ela observara atentamente a caixa do
correio, o misterioso filósofo tinha entrado furtivamente
em casa e colocado a carta
nas escadas, antes de se ter
escondido novamente no bosque. Que diabo!
Como é que ele poderia saber que, precisamente nesse
dia, Sofia estava com a caixa do correio debaixo de
olho? Talvez ele (ou ela>)
a tivesse visto à janela. De
qualquer modo, estava contente por ter encontrado o envelope antes de a mãe ter chegado a casa.
Sofia voltou para o seu
quarto e abriu a carta. O
envelope branco estava um
pouco húmido nos bordos e
apresentava também alguns
cortes. Mas porquê? Não
chovia há vários dias.
Na folha estava escrito:

"Acreditas no destino?
Será a doença um castigo
dos deuses?
Quais são as forças que
governam o curso da história?"
Se ela acreditava no destino? Não, na verdade não.
Mas conhecia muitas pessoas
que acreditavam. Por exemplo, muitas das suas colegas
liam o horóscopo nas revistas. E se acreditavam na astrologia, com certeza acreditavam também no destino, porque os astrólogos afirmam que
a posição das estrelas no céu
pode dizer algo sobre a vida
dos homens na terra.

50
Se se acredita que um gato
preto que se atravessa no
nosso caminho significa azar
- sim, nesse caso também se
acredita no destino. Quanto
mais reflectia nisto, mais
exemplos descobria da crença
no destino. Porque é que se
dizia, por exemplo, "bate na
madeira"? E porque é que a
sexta-feira 13 é um dia de
azar? Sofia tinha ouvido dizer que muitos hotéis não tinham nenhum quarto com o número 13. Certamente porque
havia muitas pessoas supersticiosas.
"Superstição" - não era
uma palavra estranha? Quando
se acredita somente em Deus,
isso chama-se apenas "fé".
Mas quando se acredita na
astrologia ou na sexta-feira
13, trata-se imediatamente
de superstição!
Quem tinha o direito de
designar a crença de outras
pessoas como superstição?
Sofia tinha a certeza de
uma coisa: Demócrito "não"
acreditava no destino. Ele
era materialista. Acreditava
apenas nos átomos e no vazio.
Sofia procurava reflectir
sobre as outras perguntas escritas na folha.
"Será a doença um castigo
dos deuses?" Hoje em dia já
ninguém acreditava numa coisa
dessas. Mas depois lembrou-se que muitas pessoas rezavam a Deus para ficarem
boas, e nesse caso tinham de
acreditar que Deus também
determinava quem devia estar
doente e quem devia estar de
boa saúde.
A última pergunta era a
mais difícil. Sofia nunca
tinha pensado no que é que
governaria o curso da história. Deviam ser os homens.
Se fosse Deus ou o destino,
os homens não podiam ter
realmente livre arbítrio.
A questão do livre arbítrio levou Sofia a um pensamento completamente diferente. Porque é que haveria de
aceitar que o misterioso filósofo brincasse com ela ao
gato e ao rato? Porque é que
não lhe escrevia também ela
uma carta? Ele ou ela colocaria seguramente uma nova
carta no correio no decorrer
da noite ou na manhã seguinte. E por isso, ela iria
deixar, no mesmo lugar, uma
carta para o seu professor de
filosofia.
Sofia pôs mãos à obra.
Achou muito difícil escrever
a uma pessoa que nunca tinha
visto. Nem sequer sabia se
estava a escrever a um homem
ou a uma mulher. Também não
sabia se esta pessoa era velha ou nova. E, no fim de
contas, essa pessoa podia inclusivamente ser alguém que
Sofia conhecia.
Em pouco tempo, formulara
uma pequena carta:

"Caro filósofo: aqui em
casa temos em grande apreço o
seu generoso curso de filosofia. Mas também nos preocupa
não saber quem você é. Por
isso lhe

51
pedimos que se apresente com
o nome completo. Em compensação, é convidado para um
café aqui em casa, mas de
preferência quando a mãe não
estiver cá. Ela trabalha de
segunda a sexta das 7.30 às
17.00 horas. Eu própria estou na escola de manhã, mas
estou sempre em casa da parte
de tarde, excepto às quintas-feiras, às 14.15. Além
disso, faço um café muito
bom. Desde já agradeço.

Muitos cumprimentos da sua
atenta aluna, Sofia Amundsen, 14 anos"

No fundo da folha, escreveu: "Solicita-se resposta".
Pareceu-lhe uma carta demasiado cerimoniosa. Mas não
era fácil decidir com que palavras havia de escrever a
uma pessoa sem rosto.
Colocou a carta num envelope cor-de-rosa e fechou-o.
No envelope, escreveu: "Para o filósofo!"
O problema era como colocaria a carta na caixa do
correio sem que a sua mãe a
descobrisse. Tinha que a pôr
lá antes de a mãe chegar a
casa, e não se podia esquecer
de revistar cedo a caixa do
correio, na manhã seguinte,
antes que o jornal chegasse.
Se durante a tarde ou a noite não chegasse mais nenhuma
carta para ela, tinha que ficar de novo com o envelope
rosa.
Porque é que tudo tinha de
ser tão complicado?
Nessa tarde, Sofia foi
cedo para o quarto apesar de
ser sexta-feira. A mãe tentou que ela ficasse, aliciando-a com pizza e com um filme
policial, mas Sofia disse
que estava cansada e que queria ler na cama. Enquanto a
mãe olhava fixamente o ecrã,
Sofia foi sorrateiramente à
caixa do correio.
A mãe estava claramente
preocupada. Falava com Sofia num tom completamente diferente desde a conversa sobre o coelho e a cartola.
Sofia não queria que ela se
preocupasse, mas nesse momento tinha de ir para o quarto
para poder observar a caixa
do correio.
Quando a mãe foi ter com
ela cerca das onze horas,
Sofia estava sentada à janela e olhava fixamente para a
rua.
- Não estás a observar a
caixa do correio, pois não?
- perguntou a mãe.
- E porque não?
- Vejo que estás mesmo
apaixonada, Sofia. Mas se
ele trouxer uma nova carta,
certamente não será a meio da
noite.
Que coisa! Sofia não podia suportar observações sobre a sua suposta paixão.
Mas tinha de deixar a mãe
acreditar nisso.

52
A mãe continuou:
- Foi ele que falou no
coelho e na cartola?
Sofia acenou afirmativamente.
- Ele... ele não se droga, pois não?
Desta vez, Sofia teve
pena dela. Não podia causar-lhe tanta angústia. De
qualquer modo, era uma idiotice completa julgar que pensamentos estranhos tinham
forçosamente algo a ver com
estupefacientes. Por vezes,
os adultos eram mesmo parvos.
Voltou-se e disse:
- Mamã, eu prometo-te que
nunca vou experimentar isso... e "ele" também não toma
drogas. Mas interessa-se
muito por filosofia.
- É mais velho que tu?
Sofia abanou a cabeça.
- É da mesma idade?
Sofia acenou afirmativamente.
- Parece-me um rapaz fantástico. E agora acho que
devias tentar dormir.
Mas Sofia ficou ainda
sentada um bom bocado a observar a rua. Por volta da
uma hora estava tão cansada
que os seus olhos se fechavam
constantemente. Por pouco
não se deitava, mas descobriu
subitamente uma sombra que
vinha do bosque.
Lá fora estava quase totalmente escuro, mas havia
claridade suficiente para que
ela reconhecesse uma silhueta
humana. Era um homem, e pareceu a Sofia bastante velho. Pelo menos, não estava
de forma alguma na sua faixa
etária. Trazia na cabeça uma
bóina, ou algo semelhante.
A certa altura, pareceu
que olhava para cima, para a
casa, mas Sofia não tinha
nenhuma luz acesa. O homem
foi à caixa do correio e introduziu um envelope grande.
Precisamente no momento em
que introduziu o seu envelope, descobriu o envelope de
Sofia. Enfiou a mão na caixa do correio e retirou a
carta. Não tardou muito para
se pôr de novo a caminho do
bosque. Correu e desapareceu
entre as árvores.
Sofia sentiu o coração a
bater. Desejava ter corrido
atrás dele em camisa de noite. Mas não, não arriscava;
não se atrevia a ir no encalço de um homem completamente
estranho a meio da noite.
Mas tinha de ir buscar a
carta, isso era certo.
Passado um pouco, desceu
silenciosamente as escadas,
abriu a porta com cuidado e
foi à caixa do correio. Voltou ao seu quarto com o grande envelope na mão. Sentou-se na cama e reteve a respiração. Passados poucos minutos, nada se movia na casa,
abriu a carta e começou a
ler.

53
Evidentemente, não podia
esperar uma resposta à sua
carta. Essa chegaria de manhã, na melhor das hipóteses.

53

O destino

Mais uma vez, bom dia, cara Sofia! Deixa-me apenas
dizer-te que nunca deves tentar espiar-me. Um dia havemos de nos conhecer, mas serei eu a decidir o momento e
o local.
Agora já sabes: não vais
querer ser desobediente, pois
não?
Regressando aos filósofos.
Vimos de que modo eles tentaram encontrar explicações
naturais para as transformações da natureza. Antes disto, essas transformações eram
explicadas através dos mitos.
Mas noutros campos a superstição antiga também tinha
de ser posta de parte. Vemo-lo não só em relação à saúde
e doença como também na política. Nestes domínios, os
gregos acreditavam no destino.
"Fatalismo" significa a
convicção de que está estabelecido "a priori" aquilo que
irá acontecer. Encontramos
esta ideia em todo o mundo -
tanto hoje como em qualquer
outro momento da história.
Aqui na Europa setentrional
encontramo-la nas antigas sagas islandesas.
Tanto entre os gregos como
noutros povos acreditava-se
que os homens, através de diversos oráculos, podiam estar
ao corrente do seu destino.
Isso significa que o destino
de uma pessoa ou de um Estado se pode prever de diversas
maneiras e que se pode interpretar a partir de determinados "indícios".
Ainda há muitas pessoas
que acham ser possível ler o
destino nas cartas, na palma
da mão ou interpretando as
estrelas.
Uma prática muito difundida na Noruega é também ler
os restos do café. Depois de
se tomar um café fica geralmente no fundo da chávena um
pouco da borra. Talvez a
borra forme uma determinada
imagem ou um desenho - sobretudo se recorrermos um
pouco à imaginação. Quando a
borra se parece com um carro,
isso significa talvez que a
pessoa que bebeu o café irá
em breve fazer uma longa viagem de carro.
Vemos que o "adivinho"
procura interpretar algo que,
na realidade, é obscuro. Isso é típico da arte divinatória. É precisamente porque
aquilo a partir do qual nós
"predizemos" é tão pouco claro que, na maior parte das
vezes, não é fácil de todo
contradizer o adivinho.
Quando erguemos os olhos
para o céu estrelado vemos um
verdadeiro caos de pontinhos
brilhantes. No entanto, muitos homens acreditaram ao
longo da história que as estrelas poderiam dizer-nos
algo acerca da

54
nossa vida na terra. Ainda
hoje há políticos que pedem
conselho aos astrólogos antes
de tomarem decisões importantes.

"O oráculo de Delfos"

Os gregos acreditavam que
o oráculo de Delfos poderia
dar aos homens informação sobre o seu destino. Aí, o
deus Apolo era a divindade
do oráculo, que falava através da sacerdotisa, a Pítia
ou Pitonisa que estava sentada numa trípode sobre uma
fenda aberta no solo. Desta
fenda subiam gases entorpecedores, por meio dos quais a
Pítia ficava em estado de
transe. Só assim podia tornar-se porta-voz de Apolo.
Quem chegava a Delfos tinha primeiro de colocar aos
sacerdotes locais a sua pergunta. Estes iam ter com a
Pítia. Ela dava uma resposta que era tão incompreensível ou tão ambígua que os sacerdotes tinham de "explicar"
essa resposta àquele que a
solicitara.
Desta forma, os gregos podiam servir-se da sabedoria
de Apolo, visto que acreditavam que Apolo sabia tudo
- passado e futuro.
Muitos soberanos não ousavam partir para a guerra ou
tomar decisões importantes
antes de consultarem o oráculo de Delfos. Assim, os sacerdotes de Apolo tornaram-se quase uma espécie de diplomatas e conselheiros que
possuíam um vasto conhecimento do povo e do país.
No templo de Delfos, havia uma inscrição famosa:
CONHECE-TE A TI MESMO!
Isso porque os homens nunca
deviam julgar que eram mais
do que homens - e nenhum homem podia escapar ao seu destino.
Entre os gregos contavam-se muitas histórias acerca
de pessoas que tinham sido
vítimas do seu destino. Com
o decorrer do tempo, foram
escritos vários dramas -
tragédias - acerca destas
personagens "trágicas". O
exemplo mais famoso é a história do Rei Édipo que,
querendo fugir ao seu destino, acabou mesmo por cair nas
suas garras.

"História e medicina"

Não era apenas a vida de
pessoas individuais a ser determinada pelo destino, segundo a opinião dos gregos na
Antiga Grécia. Eles pensavam também que o curso do
mundo era governado pelo destino. Acreditavam, por exemplo, que o desenlace de uma
guerra podia ser atribuído à
intervenção divina. Ainda
hoje, muitos acreditam que
Deus ou outras forças místicas governam os acontecimentos históricos.
Mas enquanto os filósofos
gregos procuravam encontrar
explicações naturais para os
processos da natureza, também
se formava pouco a

55
pouco uma ciência da história, cujo objectivo era encontrar causas naturais para
o curso da história. Já não
se atribuía aos desejos de
vingança dos deuses o facto
de um Estado perder uma
guerra. Os historiadores
gregos mais conhecidos foram
Heródoto (484-424 a.
C.>) e Tucídides (460-400 a.C.>).
Os gregos acreditavam que
os deuses eram responsáveis
pelas doenças. Assim, as
doenças contagiosas eram frequentemente vistas como castigo dos deuses. Em contrapartida, os deuses podiam
tornar os homens saudáveis se
lhes fossem oferecidos os sacrifícios devidos.
Esta ideia não é tipicamente grega. Antes de se
desenvolver, em tempos mais
recentes, a ciência médica
moderna, predominava a opinião segundo a qual cada doença tinha uma causa sobrenatural. A palavra "influenza", que ainda hoje é utilizada, significava originalmente
que alguém estava sob a
"influência" nefasta dos astros.
Muitas pessoas em todo o
mundo ainda pensam que várias
doenças - como, por exemplo,
a sida - são um castigo de
Deus. E muitos acreditam
que um doente pode ser curado
de maneira sobrenatural.
Enquanto os filósofos gregos reflectiam sobre a natureza, desenvolvia-se igualmente na Grécia uma ciência
médica, que procurava encontrar explicações naturais
para a saúde e para a doença.
Esta ciência médica grega
foi supostamente fundada por
"Hipócrates", que nasceu
cerca do ano 460 a.C. na
ilha de Cós.
A protecção mais importante contra a doença residia,
segundo a tradição hipocrática, na moderação e numa vida
saudável. Para um ser humano
é natural estar bem; por
isso, se se adoece, deve-se
procurar o motivo num desequilíbrio físico ou psíquico.
A vida saudável reside na
moderação, na harmonia e em
"uma mente sã num corpo são".
Hoje ainda se fala acerca
de "deontologia médica".
Significa que um médico tem
que exercer a sua profissão
seguindo determinadas normas
éticas. Por exemplo, um médico não pode receitar drogas
a pessoas saudáveis. Um médico está também sujeito a um
segredo profissional que lhe
proíbe contar aquilo que um
paciente lhe revelou sobre a
sua doença. Estas ideias vêm
de Hipócrates. Os seus discípulos tinham de prestar um
juramento ainda hoje conhecido como o juramento hipocrático:

"Juro por Apolo, o médico, por Escolápio, por Higeia e por Panaceia, tomando
por testemunhas todos os
Deuses e todas as Deusas,
que cumprirei com todas as
minhas posses e conforme o
meu saber o seguinte juramento: Considerar e amar como a
meus pais aquele que me ensinou esta arte; viver com ele
e, se necessário for, repartir com

56
ele os meus bens; olhar pelos
seus filhos como se fossem
meus irmãos e ensinar-lhes
esta arte, se assim o pretenderem, sem receber qualquer
pagamento ou promessa escrita; ensinar aos meus filhos,
aos filhos do mestre que me
ensinou e a todos os discípulos que se inscrevam e que
concordem com as regras da
profissão, mas só a estes,
todos os preceitos e conhecimentos. Prescrever aos doentes, segundo as minhas possibilidades e o meu saber, o
regime conveniente para o seu
bem e nunca prejudicar ninguém. Não receitar drogas
perigosas para agradar a quem
quer que seja, nem lhe dar
conselhos que possam causar a
sua morte. Não dar às mulheres meios de abortarem. Conservar a pureza da minha vida
e da minha profissão. Não
fazer operações para tirar
pedras, mesmo nos enfermos em
que a doença seja manifesta,
e deixar esta operação aos
especialistas nessa arte. Em
todas as casas a que eu for,
entrar somente para benefício
dos meus doentes, evitando
qualquer prejuízo intencional
ou qualquer sedução, bem
como, em especial, os prazeres do amor com mulheres ou
com homens, quer sejam livres
ou escravos. Manter secreto
e nunca revelar aos outros
tudo o que possa vir a saber
no exercício da minha profissão, fora da minha profissão
ou na convivência diária com
as pessoas e que não deva ser
divulgado. Se eu mantiver e
observar este juramento com
fidelidade, que possa ter
alegria em viver e praticar a
minha arte, respeitado por
todos os homens e em todos os
tempos, mas se eu me desviar
dele, ou o violar, que me suceda o contrário."

Quando acordou na manhã de
sábado, Sofia sobressaltou-se. Teria apenas sonhado,
ou teria visto, de facto, o
filósofo?
Tacteando, procurou debaixo da cama. Sim - aí estava
a carta que chegara nessa
noite. Tinha lido sobre a
crença no destino, no que dizia respeito aos gregos. Não
podia ser apenas um sonho.
Seguramente que tinha visto o filósofo! E mais - tinha visto com os seus próprios olhos que ele ficara
com a sua carta.
Sofia levantou-se e espreitou para debaixo da cama.
Retirou as folhas escritas.
Mas o que era aquilo? Bem
atrás, junto à parede, estava
uma coisa vermelha. Seria um
lenço?
Sofia enfiou-se debaixo da
cama e retirou um lenço de
seda vermelho. Nunca tinha
visto aquele lenço.
Examinou bem o lenço de
seda e soltou um grito quando
viu que na bainha estava algo
escrito a preto: "Hilde".
Hilde! Mas quem era esta
Hilde? Como era possível
que os seus caminhos se cruzassem desta forma?

57

SÓCRATES

"... a pessoa mais sábia é
aquela que sabe que não
sabe..."

Sofia vestiu um vestido de
Verão e desceu para a cozinha. A mãe estava debruçada
sobre o lava-louça. Sofia
decidiu não dizer nada sobre
o lenço de seda.
- Já foste buscar o jornal? - perguntou Sofia em
voz baixa.
A mãe voltou-se.
- Não queres ser simpática e ir buscá-lo por mim?
Sofia correu pelo caminho
de saibro e espreitou para a
caixa do correio verde.
Apenas jornais. Mas também não podia esperar uma
resposta imediata. Na primeira página do jornal leu
algumas linhas acerca do contingente norueguês da ONU
no Líbano.
Contingente da ONU -
não era o que estava escrito
no postal do pai de Hilde?
Mas tinha um selo norueguês.
Talvez os soldados noruegueses da ONU tivessem uma
caixa de correio apenas para
eles.
Quando voltou à cozinha, a
mãe afirmou ironicamente:
- De repente os jornais
passaram a interessar-te muito.
Felizmente, não disse mais
nada acerca da caixa do correio ou alguma coisa semelhante, nem durante o pequeno-almoço nem durante o resto
do dia. Quando foi às compras, Sofia foi a correr
para a toca com a carta que
falava do destino.
O seu coração deu um pulo
quando encontrou um pequeno
envelope branco junto à caixa
das cartas do seu professor
de filosofia. Sofia julgou
saber quem o tinha colocado
lá.
Este envelope também tinha
os bordos húmidos. E apresentava dois golpes profundos, exactamente como o envelope branco que recebera no
dia anterior.
Teria o filósofo estado
ali? Conheceria ele o seu
esconderijo secreto? Porque
é que os envelopes estavam
molhados?
Sofia ficou atordoada com
todas estas perguntas. Abriu
o envelope e leu o que estava escrito na folha.

58
"Cara Sofia! Li a tua
carta com grande interesse -
e também com muita pena porque não posso aceitar o teu
convite para tomar café em
tua casa. Havemos de nos encontrar um dia, mas, por enquanto, não posso ser visto
na Curva do Capitão.
Devo ainda acrescentar que
já não posso entregar as minhas cartas pessoalmente.
Com o decorrer do tempo,
isso seria demasiado arriscado. O meu pequeno mensageiro
levará as próximas cartas.
Em compensação, as cartas
serão depositadas directamente no teu esconderijo secreto, no jardim. Daqui em diante, podes entrar em contacto comigo quando sentires que
há necessidade disso. Nesse
caso, tens de usar um envelope cor-de-rosa com uma bolacha doce ou com um torrão de
açúcar. Quando o mensageiro
encontrar uma dessas cartas,
não deixará de ma trazer.

PS. Não é nada divertido
recusar o convite de uma jovem. Mas por vezes é necessário.
PS2. Se encontrares um
lenço de seda, quero pedir-te
que o conserves cuidadosamente. Acontece, por vezes, que
os objectos são trocados, sobretudo na escola e em locais
semelhantes, e esta é na verdade uma escola de filosofia.

Cumprimentos cordiais,
Albert Knox"

Sofia já tinha catorze
anos, e já recebera várias
cartas durante a sua breve
existência, pelo menos no
Natal ou nos aniversários.
Mas esta era a carta mais
estranha que alguma vez recebera.
Não trazia selo. Nem sequer tinha estado na caixa do
correio. Esta carta fora depositada directamente no esconderijo supersecreto de
Sofia, junto à antiga sebe.
Também era estranho que a
carta se tivesse molhado, estando um tempo primaveril
seco.
Mas o mais estranho era,
obviamente, o lenço de seda.
O professor de filosofia tinha mais uma aluna. Está
bem! E esta outra aluna tinha perdido um lenço de seda
vermelho. Está bem! Mas como é que conseguira perder o
lenço debaixo da cama de Sofia?
E Alberto Knox... que
nome tão esquisito!
De qualquer forma, esta
carta provara que havia uma
relação entre o professor de
filosofia e Hilde Mõller
Knag. Mas que o pai de
Hilde confundisse as moradas, era completamente incompreensível.
Sofia ficou muito tempo
sentada, questionando-se sobre que relação poderia haver
entre ela própria e Hilde.
Por fim, suspirou, resignada. O professor de filosofia dissera que se encontrariam um dia. Iria ela, nessa
altura, conhecer também
Hilde?

59
Virou a folha. Descobriu
então que havia algumas frases no verso.

"Existe um pudor natural?
A pessoa mais sábia é
aquela que sabe que não sabe.
O verdadeiro conhecimento
vem de dentro.
Quem sabe o que é correcto, age correctamente."

Sofia já sabia que as frases curtas dos envelopes
brancos a iriam preparar para
o conteúdo do envelope grande
que, entretanto, receberia em
seguida. E nesse momento,
teve uma ideia: se o "mensageiro" lhe levava para a toca
o envelope amarelo, Sofia
podia esperar por ele. Ou
por ela? De qualquer modo,
havia de agarrar a pessoa em
questão até que lhe contasse
mais qualquer coisa a respeito do filósofo! Na carta estava escrito que o mensageiro
era pequeno. Tratar-se-ia de
uma criança?
"Existe um pudor natural?"
Sofia sabia que "pudor"
era uma palavra antiquada para designar certas inibições
- por exemplo, deixar-se ver
nu. Mas seria realmente natural ter pudor em relação a
isso? Ser natural equivalia
a dizer que era válido para
todos os homens. Mas em muitos países do mundo era natural estar nu!
Seria a "sociedade" a estabelecer o que era permitido
e o que não era? Quando a
avó era jovem, era completamente impossível tomar banhos
de sol em "topless". Mas
hoje em dia, a maior parte
das pessoas achava isso "natural", apesar de ser totalmente proibido em muitos países. Sofia coçou a cabeça.
Seria isto filosofia?
Depois podia ler-se: "A
pessoa mais sábia é a que
sabe que não sabe".
Mais sábia que quem? Se o
filósofo queria dizer com
isso que uma pessoa que sabia
que não sabia tudo era mais
sábia do que uma que sabia
pouco e que pensava que sabia
muito - sim, nesse caso não
era muito difícil partilhar a
sua opinião. Sofia nunca tinha pensado nisso. Mas quanto mais pensava, mais claro
lhe parecia que, no fundo,
saber que não se sabe é uma
espécie de saber. Ela não
conseguia imaginar nada mais
estúpido do que pessoas que
defendiam opiniões que julgavam irrefutáveis, quando, na
realidade, nada sabiam sobre
isso.
Em seguida, havia a frase
sobre o conhecimento que vinha de dentro. Mas, sem dúvida, todo o conhecimento vinha primeiro do exterior passando depois para a cabeça
das pessoas. Por outro lado,
Sofia lembrava-se bem de situações em que a sua mãe ou
os professores, na escola,
tinham tentado ensinar-lhe
qualquer coisa em que ela não
estava interessada. Se
aprendera de facto alguma
coisa, também tinha,

60
de algum modo, contribuído
para isso. Podia acontecer-lhe compreender algo subitamente - e era isso que era
designado por "saber".
Sim, Sofia achava que tinha resolvido as primeiras
perguntas muito bem. Mas em
seguida vinha uma afirmação
tão estranha que a deixara
perplexa. "Quem sabe o que é
correcto, age correctamente".
Queria isso dizer que um
assaltante de bancos não tinha uma ideia melhor quando
assaltava um banco? Sofia
achava que não. Em vez disso, estava convencida de que
tanto as crianças como os
adultos podiam fazer disparates - dos quais se arrependeriam mais tarde - e que o
faziam tendo plena consciência de que poderiam ter agido
de uma forma mais correcta.
Enquanto ainda estava sentada, ouviu de repente, do
lado da sebe que ia dar ao
bosque, ramos secos a estalarem. Seria o mensageiro?
Sofia sentiu de novo o coração aos pulos. Mas teve ainda mais medo quando se deu
conta de que, o que se aproximava, arfava como um animal.
Logo em seguida, entrou na
toca um cão grande, vindo do
bosque. Devia ser um labrador. Segurava na boca um
grande envelope amarelo que
deixou cair aos pés de Sofia. Tudo se passou tão depressa que Sofia não conseguiu sequer reagir. Passados
poucos segundos, tinha o
grande envelope nas mãos - e
o cão amarelo desaparecera de
novo no bosque. Só depois de
tudo isto se ter passado é
que o choque surgiu. Sofia
pôs as mãos no colo e começou
a chorar.
Não deu por quanto tempo
ficou assim, mas, daí a um
bocado, levantou de novo os
olhos.
Então aquele era o mensageiro! Sofia sentiu-se aliviada. Era por isso que os
envelopes brancos estavam molhados nas bordas. E era por
isso que tinham golpes. Como
é que ainda não pensara nisso? Já fazia sentido que devesse colocar no envelope um
biscoito ou um torrão de açúcar quando quisesse escrever
ao filósofo.
Nem sempre conseguia pensar tão depressa como desejava. No entanto, era bastante
curioso que o mensageiro fosse um cão amestrado. Desta
forma, podia pôr de lado a
ideia de vir a saber pelo
mensageiro o paradeiro de
Alberto Knox.

Sofia abriu o envelope e
começou a ler.

A filosofia em Atenas

Cara Sofia! Quando leres
esta carta, já terás conhecido Hermes. Por precaução,
devo acrescentar que Hermes
é um cão. Mas não tens que

61
te preocupar. Ele é muito
simpático - e, além disso,
tem mais juízo que muitas
pessoas. Pelo menos, não
tenta parecer mais esperto do
que é na realidade.
Já podes perceber que o
seu nome não é fruto do acaso. Hermes era o mensageiro
dos deuses gregos. Era ainda
o deus dos viandantes, mas
por enquanto isso não nos diz
respeito. O importante é que
do nome Hermes deriva o adjectivo "hermético", que significa obscuro e indecifrável. Isso está relacionado
com o facto de Hermes nos
manter afastados um do outro.
Já apresentei o mensageiro. Ele responde pelo seu
nome e, em geral, é bastante
obediente.
Voltemos à filosofia. Já
deixámos a primeira unidade.
Refiro-me à filosofia da natureza, a verdadeira ruptura
com a concepção mítica do
mundo. Vamos conhecer agora
os três principais filósofos
da Antiguidade. Chamam-se
Sócrates, Platão e Aristóteles. Cada um destes filósofos marcou de uma certa maneira a civilização europeia.
Os filósofos da natureza
são também designados por
pré-socráticos, visto que viveram antes de Sócrates. Na
realidade, Demócrito morreu
alguns anos após Sócrates,
mas todo o seu pensamento
pertence à filosofia da natureza pré-socrática. Sócrates
representa uma linha de separação não apenas do ponto de
vista cronológico. Também do
ponto de vista geográfico,
Sócrates é o primeiro filósofo nascido em Atenas, e
tanto ele como ambos os seus
sucessores viveram e exerceram a sua actividade em Atenas. Talvez recordes que
Anaxágoras viveu algum tempo
nesta cidade, tendo, no entanto, sido expulso dela por
defender que o sol era uma
esfera de fogo. (Sócrates
não iria ter um destino melhor!>).
A partir da época de Sócrates, Atenas torna-se o
ponto de encontro da cultura
grega. É ainda mais importante notar que todo o projecto filosófico muda essencialmente, se passarmos dos
filósofos da natureza para
Sócrates. Mas antes de conhecermos Sócrates, vamos
saber um pouco mais acerca
dos chamados sofistas, que
influenciaram o panorama cultural da cidade de Atenas.
O pano vai subir, Sofia!
A história do pensamento é
semelhante a um drama em muitos actos.

"O homem no centro"

Por volta de 450 a.C.,
Atenas tornou-se o centro
cultural do mundo grego. A
filosofia também tomou então
uma orientação nova.

62
Os filósofos da natureza
eram, sobretudo, investigadores do mundo físico. Ocupam
consequentemente um lugar importante na história das ciências. Em Atenas, o interesse concentrou-se então
mais no homem e no seu lugar
na sociedade.
Em Atenas desenvolvia-se
progressivamente uma democracia com assembleias populares
e tribunais. Uma das condições para a instauração da
democracia exigia que os homens recebessem instrução suficiente para poderem participar na vida política. Também nos dias de hoje vemos
que uma jovem democracia precisa do esclarecimento popular. Entre os atenienses
isso significava sobretudo
dominar a retórica.
Vindo das colónias gregas,
um grupo de professores itinerantes e de filósofos
afluiu então a Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra
"sofista" designa uma pessoa
sábia ou erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o
seu sustento ensinando os cidadãos.
Os sofistas tinham uma notável semelhança com os filósofos da natureza, pois também eles eram críticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas, simultaneamente,
os sofistas recusavam tudo o
que lhes parecia ser especulação filosófica desnecessária. Achavam que mesmo que
houvesse resposta para muitas
questões filosóficas, os homens nunca poderiam encontrar
explicações verdadeiramente
seguras para os enigmas da
natureza e do universo. Em
filosofia, este ponto de vista é designado por "cepticismo".
Mas apesar de não podermos
encontrar resposta para todos
os enigmas da natureza, sabemos que somos homens e que
devemos aprender como viver
em comunidade. Os sofistas
interessavam-se pelo homem e
pelo seu lugar na sociedade.
"O homem é a medida de todas as coisas", dizia o sofista Protágoras (cerca de
487-420 a.C.>). Queria
dizer que a justiça e a injustiça, o bem e o mal devem
ser sempre avaliados em função das necessidades dos homens. À pergunta se acreditava nas divindades gregas,
respondeu: "sobre os deuses
nada posso dizer! Porque
muitas coisas nos impedem que
o saibamos: a dificuldade do
problema e a brevidade da
vida humana". Chamamos
"agnóstico" àquele que diz
não poder afirmar com segurança se Deus existe ou não.
Os sofistas faziam com
frequência longas viagens,
tomando assim conhecimento de
vários sistemas de governo.
Os usos e os costumes, e as
leis das cidades-estado variavam muito. Partindo destas
experiências, os sofistas
iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que era estabelecido pela natureza e o
que era imposto pela sociedade. Desta forma, criaram na
cidade-estado de Atenas as
bases para uma crítica social.

63
Podiam, por exemplo, mostrar que uma expressão como
"pudor natural" não era admissível, porque se o pudor
fosse natural, teria de ser
inato. Mas é inato, Sofia,
- ou foi a sociedade que o
criou? Para pessoas que viajaram muito, a resposta tinha
de ser simplesmente: não é
natural - ou inata - a vergonha de se mostrar nu. Pudor - ou a ausência de pudor
- tem a ver sobretudo com os
usos e os costumes numa sociedade.
Como podes compreender, os
sofistas provocavam fortes
discussões na sociedade ateniense, ao afirmarem que não
havia normas absolutas para
estabelecer o que é justo e o
que não é. Sócrates, pelo
contrário, tentou provar que
algumas normas são realmente
absolutas e universalmente
válidas.

"Quem era Sócrates?"

Sócrates (470-399 a.
C.>) é talvez a personagem
mais enigmática de toda a
história da filosofia. Não
escreveu uma única linha.
Apesar disso, pertence ao
número dos que exerceram
maior influência no pensamento europeu. O facto de ser
conhecido, mesmo por quem não
possui muitos conhecimentos
de filosofia, tem provavelmente a ver com a sua morte
trágica.
Sabemos que nasceu em
Atenas e que aí passou a sua
vida, sobretudo nas praças e
nas ruas, onde conversava com
todo o tipo de gente. Achava
que os campos e as árvores
não lhe podiam ensinar nada.
Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexão profunda.
Ainda no seu tempo, era
considerado uma pessoa enigmática e após a sua morte foi
considerado o precursor das
mais diversas orientações filosóficas. E precisamente
por ser tão enigmático e ambíguo, variadíssimas orientações o podiam reivindicar.
Sabe-se que era muito
feio. Era pequeno e gordo, e
tinha olhos salientes e um
nariz achatado. Mas interiormente, dizia-se, era um
homem maravilhoso, nunca se
poderia encontrar alguém
igual a ele.
No entanto, foi condenado
à morte devido à sua actividade filosófica.
Conhecemos a vida de
Sócrates sobretudo através
de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos
maiores filósofos da história.
Platão escreveu muitos
diálogos - ou conversas filosóficas - nas quais faz
participar Sócrates.
Quando Platão põe as palavras na boca de Sócrates,
não podemos dizer com certeza
que Sócrates as tivesse verdadeiramente pronunciado.

64
Por isso, não é fácil distinguir a doutrina de Sócrates da de Platão. Este
problema é válido, também,
para muitas outras personalidades históricas que não deixaram fontes escritas. O
exemplo mais famoso é obviamente Jesus. Não podemos
ter a certeza de que o "Jesus histórico" tenha dito, de
facto, aquilo que Mateus ou
Lucas puseram na sua boca.
Da mesma forma, permanecerá
sempre um enigma aquilo que o
"Sócrates histórico" disse
realmente.
Quem era "realmente" Sócrates não é muito importante. É sobretudo o seu retrato por Platão que inspira os
pensadores ocidentais de há
quase dois mil e quatrocentos
anos.

"A arte do diálogo"
O que distinguia, na verdade, a actividade de Sócrates era o seu desejo de não
ensinar os homens. Em vez
disso, parecia querer ele
mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor
de escola: dialogava.
Mas não se teria tornado
um filósofo famoso se apenas
tivesse escutado os seus interlocutores. Também não teria sido condenado à morte.
E, sobretudo no início, apenas punha questões. Alegava,
humildemente, nada saber. No
decurso do diálogo, levava
frequentemente os outros a
reconhecerem os pontos fracos
das suas reflexões. Podia
suceder então que o interlocutor fosse encostado à parede e tivesse de reconhecer,
por fim, o que era o justo e
o injusto.
Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua actividade à arte da obstetrícia.
Não é a parteira que dá à
luz a criança, ela apenas
está presente e ajuda a mãe.
Sócrates compreendeu também
que a sua tarefa era ajudar
os homens a "parir" o saber
correcto, porque o verdadeiro
saber tem de vir de dentro e
não pode ser enxertado. Só o
conhecimento que vem do interior é a verdadeira "inteligência".
Vou precisar: a capacidade
de dar à luz crianças é uma
faculdade natural. Da mesma
forma, todos os homens podem
compreender as verdades filosóficas, usando simplesmente
a razão. Quando alguém
"recorre à razão", retira
qualquer coisa de si mesmo.
Precisamente por se fingir
ignorante, Sócrates obrigava
as pessoas a usarem a razão.
Sócrates podia simular ignorância ou parecer mais estúpido do que na realidade era:
a famosa "ironia socrática".
Desta forma, ele conseguia
sempre descobrir os pontos
fracos na forma de pensar dos
atenienses. Isto podia passar-se no centro de uma praça, ou

65
seja, em público. Um encontro com Sócrates podia levar
o interlocutor a fazer figura
de estúpido, ou a ser ridicularizado perante uma grande
assistência.
Por isso, não é de espantar que ele se tivesse tornado incómodo e muito irritante
- sobretudo para aqueles que
detinham o poder. Sócrates
dizia que Atenas era como um
cavalo indolente, e ele era
uma espécie de aguilhão que
lhe picava o flanco para o
manter desperto. (O que é
que se faz com o aguilhão,
Sofia? Sabes-mo dizer?>)

"Uma voz divina"

Sócrates picava os seus
próximos no flanco, não tendo, porém, a intenção de os
atormentar. Havia algo nele
que não o deixava agir de outra forma. Repetia frequentemente que ouvia interiormente uma voz divina. Sócrates insurgia-se, por exemplo,
com a condenação de pessoas à
morte. Além disso, recusava-se a denunciar inimigos políticos. Por fim, isso iria
custar-lhe a vida.
No ano de 399 a.C. foi
acusado de "corromper a juventude" e de "inventar novos
deuses". Com uma maioria à
justa, foi declarado culpado
por um júri de 500 membros.
Podia ter pedido o indulto. Poderia, pelo menos, ter
salvo a sua vida, se estivesse disposto a deixar Atenas.
Mas se o tivesse feito, não
teria sido Sócrates, porque
a própria consciência - e a
verdade - eram mais importantes do que a vida. Insistia que só agira para o bem
do Estado, mas, mesmo assim,
foi condenado à morte. Pouco
tempo depois, e em presença
dos seus amigos mais próximos, bebeu uma taça de cicuta.
Porquê, Sofia? Porque é
que Sócrates teve de morrer?
Há muitas pessoas que ainda
fazem esta pergunta. Mas ele
não foi o único na história a
ir até às últimas consequências e a morrer em nome das
suas convicções. Já mencionei Jesus e entre Jesus e
Sócrates há, de facto, muitas afinidades. Vou referir
apenas algumas.
Tanto Jesus como Sócrates eram já considerados pelos seus contemporâneos pessoas enigmáticas. Nenhum deles escreveu a sua mensagem,
por isso estamos completamente dependentes da imagem que
os seus discípulos nos dão
deles. Sabe-se, no entanto,
que ambos eram mestres na
arte de comunicar. Além disso, expressavam-se de uma
forma clara, o que tanto poderia encantar como irritar.
E ambos acreditavam ser portadores de uma mensagem maior
que eles mesmos. Desafiavam
aqueles que detinham o poder
na sociedade porque criticavam todas

66
as formas de injustiça e de
abuso de poder. E ainda: esta actividade custou a ambos
a vida.
Inclusivamente nos processos contra Jesus e Sócrates
vemos claros paralelismos.
Ambos poderiam ter talvez
pedido o indulto e salvo assim as suas vidas. Mas acreditavam estar a trair as suas
convicções se não fossem até
ao fim. E o facto de terem
enfrentado a morte de cabeça
erguida tornou-os dignos da
confiança de todos, mesmo
após a morte.
Se faço este paralelismo
entre Jesus e Sócrates não
é porque os ache semelhantes.
Queria apenas sublinhar que
é impossível dissociar a sua
mensagem da sua coragem.

"Um joker em Atenas"
Sócrates, Sofia! Ainda
não discutimos tudo o que lhe
diz respeito, como compreendeste. Dissemos algumas coisas sobre o seu método. Mas
qual era o seu projecto filosófico?
Sócrates era um contemporâneo dos sofistas. Como
eles, preocupava-se com o homem e com a vida humana, não
com os problemas dos filósofos da natureza. Um filósofo
romano - Cícero - disse
alguns séculos mais tarde que
Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a
introduzira nas cidades e nas
casas e que tinha forçado os
homens a reflectirem sobre a
vida e os costumes, o bem e o
mal.
Mas Sócrates diferia dos
sofistas num ponto importante. Não se considerava um
sofista - uma pessoa instru
ída ou sábia. Ao contrário
dos sofistas, não pedia remuneração pelo seu ensino.
Não, Sócrates denominava-se
filósofo, no sentido mais genuíno do termo. Um "filósofo" é, na realidade, um "amante da sabedoria", alguém que
aspira a adquirir a sabedoria.
Estás a seguir-me, Sofia?
É importante no teu curso
que compreendas a diferença
entre um sofista e um filósofo. Os sofistas eram pagos
pelas suas subtilezas e esses
"sofistas" estiveram presentes durante toda a história.
Refiro-me a todos os mestres-escola ou sabichões que
estão satisfeitos com o seu
pouco saber ou que se gabam
de saber muito acerca daquilo
que, na realidade, não conhecem. Certamente já deparaste, embora sejas jovem, com alguns desses "sofistas". Um
verdadeiro filósofo, Sofia,
é alguém completamente diferente, sim, é exactamente o
contrário.
Um filósofo apercebe-se
bem que, no fundo, sabe muito
pouco. Precisamente por isso
ele procura sempre atingir o
verdadeiro conhecimento.

67
Por isso, Sócrates era um
homem extraordinário. Sabia
claramente que nada sabia
acerca da vida e do mundo. E
mais importante ainda: o facto de saber tão pouco atormentava-o.
Um filósofo é, portanto,
alguém que reconhece que há
muitas coisas que não entende. E isso aflige-o. Deste
ponto de vista, é porém mais
sábio que todos os que se gabam do seu pretenso saber.
"A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe",
como eu disse. O próprio
Sócrates dizia que sabia
apenas uma coisa, isto é, que
nada sabia. Presta atenção a
isto, porque mesmo entre filósofos esta declaração é uma
coisa rara. Além disso, pode
ser perigoso declará-lo publicamente. Aqueles que perguntam são sempre os mais perigosos. Não é perigoso responder. Uma simples pergunta
pode ser mais explosiva do
que mil respostas.
Conheces a história dos
trajes novos do rei, Sofia?
Na realidade, o rei ia nu,
mas nenhum dos seus súbditos
ousou dizê-lo. E, de repente, uma criança exclamou que
o rei estava nu. Era uma
criança corajosa, Sofia.
Deste modo, também Sócrates
ousou esclarecer quão pouco
os homens sabem. Já falámos
acerca da semelhança entre
filósofos e crianças.
Vou ser mais preciso: a
humanidade é confrontada com
questões importantes, para as
quais não encontra facilmente
as respostas correctas. Temos, então, duas alternativas: podemos enganar-nos a
nós mesmos e ao resto do mundo e fingir que sabemos tudo
o que é preciso saber. Ou
podemos fechar os olhos perante as grandes questões e
desistir de uma vez por todas
de ir mais longe. Desta forma, a humanidade divide-se em
duas partes. Em geral, os
homens ora estão totalmente
seguros ou são indiferentes.
(Uns e outros rastejam na
pele do coelho!>) É como as
cartas, quando se divide um
baralho. Colocam-se as cartas pretas num monte e as
vermelhas num outro. Mas de
vez em quando surge um joker
no baralho, que não é copas
nem paus, nem ouros nem espadas. Sócrates era como um
joker em Atenas. Não tinha
certezas absolutas, nem era
indiferente. Sabia apenas
que nada sabia - e isso preocupava-o, por isso se tornou
filósofo - uma pessoa que
não desiste e que procura incansavelmente o saber.
Conta-se que uma vez um
ateniense perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O
oráculo respondeu: Sócrates.
Quando Sócrates soube disso
ficou verdadeiramente admirado. (Acho que ele se riu,
Sofia!>) Foi imediatamente
para a cidade e procurou alguém que fosse tido por ele e
por outros como sábio. Mas
quando se provou que esse homem não conseguia responder
com clareza às suas perguntas, Sócrates reconheceu por
fim que o oráculo tinha razão.

68
Para Sócrates, era importante encontrar um fundamento
seguro para o nosso conhecimento. Acreditava que esse
fundamento residia na razão
humana. Devido à sua forte
convicção na razão humana,
ele era um racionalista.

"O verdadeiro conhecimento
leva a agir correctamente"

Já referi que Sócrates
julgava ouvir dentro de si
uma voz divina, e essa "consciência" dizia-lhe o que estava certo. Quem soubesse o
que era o bem, praticaria o
bem. Segundo ele, o verdadeiro saber leva a agir correctamente. E apenas aquele
que age correctamente se torna um verdadeiro homem.
Quando agimos mal, é porque
não sabemos agir melhor. Por
isso é tão importante alargar
o nosso saber. Para Sócrates, tratava-se especificamente de encontrar definições
totalmente claras e universais para o que é justo e o
que é injusto. Ao contrário
dos sofistas, ele achava que
a faculdade de distinguir o
justo do injusto residia na
razão e não na sociedade.
Talvez não consigas engolir facilmente a última frase, Sofia. Vou tentar mais
uma vez: Sócrates achava impossível que alguém fosse feliz se agisse contra as suas
próprias convicções. E aquele que sabe como atingir a
felicidade vai, certamente,
fazê-lo. Por isso, quem sabe
o que está certo, fará o que
está certo. Ninguém deseja
ser infeliz, pois não?
O que te parece, Sofia?
Podes viver feliz se estiveres sempre a fazer coisas
que, no fundo do coração, não
aches correctas? Há muitas
pessoas que mentem e roubam
constantemente, outras que
lançam calúnias. Pois bem!
Sabem que isso não é correcto - ou justo, se preferires. Mas acreditas que isso
as faz felizes? Sócrates não
acreditava.

Depois de ter lido a carta
sobre Sócrates, Sofia guardou-a rapidamente na caixa e
saiu de gatas para o jardim.
Para se poupar a perguntas
eventuais acerca de onde tinha estado, decidiu estar em
casa antes que a mãe tivesse
regressado das compras. Além
disso, Sofia tinha prometido
lavar a louça.
Mal abriu a torneira, a
mãe entrou com dois enormes
sacos de plástico.
- Ultimamente, andas com
a cabeça nas nuvens, Sofia.
Sofia respondeu sem reflectir:
- Passava-se exactamente
o mesmo com Sócrates!
- Sócrates?

69
A mãe esbugalhou os olhos.
- Que pena ter de o pagar
com a vida - continuou Sofia muito pensativa.
- Sofia! Já não sei o
que hei-de fazer!
- Sócrates também não. A
única coisa que ele sabia era
que não sabia nada. E, no
entanto, era o homem mais sábio de Atenas.
A mãe ficou pura e simplesmente estupefacta. Por
fim, afirmou:
- Aprendeste isso na escola?
Sofia abanou energicamente
a cabeça.
- Aí não aprendemos nada... A grande diferença entre um mestre-escola e um
verdadeiro filósofo é que o
mestre-escola acha que sabe
muito, e procura constantemente meter à força na cabeça
dos alunos aquilo que sabe.
O filósofo procura ir ao
fundo das questões com os
seus alunos.
- Bom, estamos a falar de
coelhos brancos. Mas vou
querer saber com que tipo de
namorado é que tu andas. Se
não, começo a pensar que ele
não é bom da cabeça.
Sofia voltou-se de costas
para o lava-louça, apontando
com a escova para a mãe.
- Ele é bom da cabeça.
Mas é como um aguilhão que
incomoda os outros, para lhes
incutir uma nova maneira de
pensar.
- Pára com isso. Acho
que parece um pouco pretensioso e impertinente.
Sofia inclinou-se de novo
para o lava-loiça.
- Ele não é sábio nem impertinente. Mas procura
atingir o verdadeiro saber.
Essa é a grande diferença
entre um verdadeiro joker e
as outras cartas do baralho.
- Disseste joker?
Sofia acenou afirmativamente.
- Já alguma vez reflectiste no facto de, num baralho, haver muitas copas e ouros? Também há muitas espadas e paus. Mas há apenas um
joker.
- De que coisas tu falas,
miúda!
- Que perguntas tu fazes!
A mãe tinha arrumado todas
as compras. Pegou no jornal
e foi para a sala de estar.
Sofia teve a sensação de que
ela fechara a porta com mais
força do que era habitual.
Quando acabou de lavar a
louça, foi para o quarto.
Pusera o lenço de seda vermelho juntamente com as peças
do Lego, bem no cimo do armário. Retirou-o e observou-o atentamente.
Hilde...

70

Atenas

"... e das ruínas elevaram-se edifícios imponentes..."

Ao fim da tarde, a mãe de
Sofia foi visitar uma amiga.
Mal ela saiu de casa, Sofia
foi para o jardim e depois
para a toca na velha sebe.
Aí encontrou junto à caixa
dos biscoitos um pacote volumoso. Sofia rasgou imediatamente o papel. Era uma cassete de vídeo!
Voltou para casa a correr.
Uma cassete de vídeo! Era
algo completamente novo. Mas
como é que o filósofo podia
saber que eles tinham um leitor de vídeo? E o que é que
haveria no vídeo?
Sofia introduziu a cassete
no leitor. De imediato se
viu uma grande cidade no
ecrã. Sofia concluiu que tinha de se tratar de Atenas,
porque estava a ver a Acrópole em grande plano. Sofia
já tinha visto várias vezes
fotografias daquelas ruínas
antigas. Os turistas, com
roupas leves e máquinas fotográficas ao pescoço, movimentavam-se rapidamente entre o
que restava dos templos.
Ora, não havia um que trazia
mesmo um cartaz? Lá estava
de novo o cartaz. Não tinha
escrito "Hilde"?
Passado um pouco, apareceu
um homem de meia idade à
frente da câmara. Era bastante pequeno, tinha uma barba negra bem tratada e uma
boina azul. Olhou imediatamente para a câmara e disse:
- Bem vinda a Atenas,
Sofia. Com certeza, já calculaste que eu seria Alberto
Knox. Se ainda não tinhas
pensado nisso, repito apenas
que o coelho branco ainda está a ser retirado da cartola
do universo. Estamos na
Acrópole. Esta palavra significa: "cidadela" - ou
propriamente: "a cidade sobre
as colinas". Aqui em cima
viveram homens desde a Idade
da Pedra. Isso está relacionado com a posição privilegiada deste lugar. Era fácil
defender este planalto de
inimigos. Da Acrópole desfrutava-se de um belo panorama sobre um dos melhores portos do Mediterrâneo. À medida que Atenas se expandia
na planície, no sopé do planalto, a Acrópole foi utilizada como fortaleza e como
área dos templos. Na primeira metade do século V a.C.,
rebentou uma guerra sangrenta
contra os persas e, no ano de
480, o

71
rei persa "Xerxes" fez saquear Atenas e incendiar todos os antigos edifícios de
madeira da Acrópole. No ano
seguinte, os persas foram
derrotados, e iniciou-se então o período áureo de Atenas, Sofia.
A Acrópole foi reconstruída - mais imponente e
bela que nunca - e tornou-se
a partir de então exclusivamente zona dos templos.
Precisamente nesta altura,
Sócrates andava pelas ruas e
pelas praças falando com os
atenienses. Desta forma,
pôde observar a reconstrução
da Acrópole e a construção
de todos os edifícios imponentes que aqui vemos. Que
grande terreno de construção!
Por detrás de mim vês o templo maior. Chama-se Parténon - ou "morada das virgens" - e foi construído em
honra da deusa "Atena", a
deusa protectora de Atenas.
Esta grande obra de mármore
não apresenta nenhuma linha
recta, todos os lados apresentam uma ligeira curvatura.
Assim, o edifício teria uma
estrutura mais dinâmica.
Apesar de o templo ser de
grandes dimensões, não parece
tão pesado a quem o vê. Isso
deve-se a uma ilusão óptica.
Mesmo as colunas estão ligeiramente curvadas para dentro e formariam uma pirâmide
de mil e quinhentos metros de
altura se fossem suficientemente compridas para se encontrarem num ponto acima do
templo. A única coisa que
havia no interior deste enorme edifício era uma estátua
de Atena, com doze metros de
altura. Devo ainda acrescentar que o mármore branco, que
estava pintado de cores vivas, foi retirado de uma montanha a dezasseis quilómetros
de distância...
O coração de Sofia batia
desordenadamente. Seria verdadeiramente o seu professor
de filosofia que lhe falava
através do vídeo? Ela apenas
vira uma vez o seu vulto na
escuridão. Mas podia perfeitamente ter sido o mesmo homem que estava agora na
Acrópole em Atenas.
Começou então a percorrer
a parte lateral do templo, e
a câmara seguia-o. Por fim,
dirigiu-se para a beira do
rochedo e apontou para a paisagem. A câmara focou um teatro antigo, abaixo do planalto da Acrópole.
- Aqui vês o antigo teatro de Dioniso - prosseguiu
o homem da boina. - É provavelmente o teatro mais antigo da Europa. Aqui foram
representadas as peças dos
grandes dramaturgos "Ésquilo, Sófocles" e "Eurípides", ainda no período em que
Sócrates viveu. Já mencionei a tragédia do infeliz rei
Édipo. Foi aqui que se estreou. Mas também eram representadas comédias. O comediógrafo mais famoso era
Aristófanes, que entre outras coisas escreveu uma comédia maliciosa sobre Sócrates. Bem ao fundo, vês a parede de pedra em que os actores entravam em cena. Chamava-se
"skenê", e dela deriva
a nossa palavra "cena". A
palavra grega "teatro" deriva
de um termo grego antigo que

72
significava "ver". Mas vamos
voltar rapidamente à filosofia, Sofia. Damos uma volta
ao Parténon e descemos depois pelo lado da entrada...
Aquele homem andou à volta
do grande templo, à direita
do qual havia alguns templos
mais pequenos. Desceu depois
as escadas entre algumas colunas altas. Quando chegou
ao sopé do planalto da Acrópole, subiu para uma pequena
colina e apontou para Atenas:
- A colina sobre a qual
estamos chama-se "Areópago".
Aqui, o supremo tribunal de
Atenas tratava dos casos de
homicídio. Vários séculos
mais tarde, esteve aqui o
apóstolo Paulo e falou aos
atenienses sobre Jesus e o
cristianismo. Mas voltaremos
a falar disto numa outra
oportunidade. Em baixo, à
esquerda, vês as ruínas da
antiga ágora de Atenas. À
excepção do grande templo
originalmente dedicado a
Atena e ao deus Hefesto,
não resta muita coisa. Vamos
descer...
Logo em seguida, ele surgiu de novo entre as ruínas
antigas. Sob o céu - e no
ecrã de Sofia - estava o
grande templo de Atenas sobre a Acrópole. O professor
de filosofia sentou-se em
cima de um bloco de mármore.
Olhou para a câmara e disse:
- Estamos sentados junto
da antiga ágora de Atenas.
Uma vista triste, não é?
Quero dizer, hoje. Mas outrora havia aqui templos imponentes, tribunais e outros
edifícios públicos, lojas, um
auditório e inclusivamente
uma grande palestra. Tudo
isto rodeava esta ágora, uma
praça grande quadrangular...
Neste pequeno terreno foi
lançado o fundamento de toda
a civilização europeia.
Termos como "política" e
"democracia", "economia" e
"história", "biologia" e "física", "matemática" e "lógica", "teologia" e "filosofia", "ética" e "psicologia",
"teoria" e "método", "ideia"
e "sistema" - e muitos outros - provêm de um pequeno
povo cuja vida quotidiana decorria à volta desta praça.
Aqui falava Sócrates com os
homens que o procuravam.
Talvez agarrasse pelo braço
um escravo, que trazia um
cântaro com azeite, e colocasse ao pobre homem uma pergunta filosófica, visto que
Sócrates achava que um escravo possuía a mesma capacidade de raciocinar que qualquer cidadão. Talvez tivesse
uma discussão agitada com um
cidadão - ou estivesse embrenhado numa conversa amena
com o seu jovem discípulo
Platão. É estranho pensar
nisso. Falamos sempre de filosofia "socrática" ou
"platónica", mas é completamente diferente ser Platão
ou Sócrates.
Sofia achou este pensamento estranho. Mas pareceu-lhe
igualmente estranho que o filósofo falasse com ela por
meio de uma gravação de vídeo
que fora trazida por um cão
misterioso para o seu esconderijo secreto no jardim.

73

O filósofo levantou-se então dos blocos de mármore,
onde estivera sentado. Disse
em voz baixa:
- Na verdade, eu queria
ficar por aqui, Sofia.
Queria mostrar-te a Acrópole e as ruínas da antiga
ágora em Atenas. Mas ainda
não sei se percebeste como
este local era imponente em
tempos antigos... senti-me
tentado... a dizer algo mais.
Isto é obviamente contra todas as regras... mas espero
que fique entre nós... bom,
tanto faz, uma rápida vista
de olhos deve ser suficiente...
Não disse mais nada, ficou
no mesmo lugar muito tempo a
olhar para a câmara. Em seguida, surgiu uma imagem completamente diferente no ecrã.
Das ruínas surgiram vários
edifícios altos. Todas as
ruínas antigas estavam reconstruídas como por magia.
No horizonte, Sofia via
ainda a Acrópole, mas desta
vez, a Acrópole e os edifícios em baixo, na ágora, estavam completamente novos.
Eram dourados e pintados de
cores brilhantes. Na grande
praça quadrangular passeavam
homens em trajes de cores vivas. Alguns tinham espadas,
outros um cântaro na cabeça,
e um deles tinha um rolo de
papiro debaixo do braço.
Sofia reconheceu então o
seu professor de filosofia.
Tinha ainda a boina azul na
cabeça mas vestia uma túnica
como os outros homens. Veio
na direcção de Sofia, fixou
a câmara e disse:
- Pois é. Agora encontramo-nos na antiga Atenas,
Sofia. Gostava que tu pudesses estar aqui. Estamos
no ano 402 a.C., apenas
três anos antes da morte de
Sócrates. Espero que saibas
apreciar esta visita que é
exclusiva: foi muito difícil
alugar uma câmara de vídeo...
Sofia começou a ter tonturas. Como é que o misterioso
homem podia estar subitamente
na Atenas de há dois mil e
quatrocentos anos? Como é
que podia ver uma gravação de
vídeo de outra época? Sofia
sabia obviamente que na
Antiguidade não havia vídeo.
Estaria a ver um filme de
ficção? Mas os edifícios de
mármore pareciam autênticos.
Reconstruir toda a antiga
ágora de Atenas e a Acrópole apenas para um filme sairia muito caro. Apresentar
Atenas apenas a Sofia era
pagar um preço demasiado
alto.
O homem com a boina levantou de novo os olhos.
- Estás a ver aqueles
dois homens lá atrás, sob a
arcada?
Sofia descobriu um homem
mais velho, num traje um pouco andrajoso. Tinha uma barba comprida desgrenhada, nariz achatado, olhos azuis penetrantes e faces redondas.
Ao seu lado estava um jovem
muito belo.
- Estás a ver, Sofia?
São Sócrates e o seu jovem
discípulo. Mas vais conhecê-los pessoalmente.

74
O professor de filosofia
foi ter com os dois homens
que estavam sob uma arcada
alta. Quando os alcançou levantou um pouco a boina e
disse algo que Sofia não
compreendeu. Seguramente estava a falar grego. Pouco
depois, olhou de novo para a
câmara e disse:
- Eu contei-lhes que uma
jovem norueguesa desejava conhecê-los. Agora Platão vai
colocar algumas questões sobre as quais tu podes reflectir. Mas temos de nos apressar, para que os guardas não
nos descubram...
Sofia sentiu uma pressão
nas fontes, no momento em que
o jovem, olhando para a câmara, se apresentou:
- Bem vinda a Atenas,
Sofia - disse ele com uma
voz afável. Falava um norueguês muito arranhado -
Chamo-me Platão e quero
dar-te quatro tarefas.
Primeiro, deves reflectir em
como é que um padeiro pode
fazer cinquenta bolos totalmente iguais. Depois podes
perguntar-te como é que todos
os cavalos são iguais. Em
seguida, deves pensar se
acreditas que o homem tem uma
alma imortal. E por fim, deves responder à pergunta: as
mulheres e os homens são
igualmente racionais? Boa
sorte!
De imediato, a imagem desapareceu. Sofia tentou bobinar para a frente e para
trás, mas tinha visto tudo o
que estava no vídeo.
Sofia tentou ordenar os
pensamentos. Mas mal começava a reflectir numa coisa,
surgia uma outra ideia, e a
primeira evaporava-se.
Que o seu professor de filosofia era bastante original, sabia-o há muito tempo.
Mas recorrer a métodos de
ensino que destruíam todas as
leis da natureza conhecidas,
isso era ir longe demais, segundo Sofia.
Teria ela realmente visto
Sócrates e Platão no ecrã?
Era óbvio que não, isso era
totalmente impossível. Mas
afinal, também não era um
filme de desenhos animados.
Sofia retirou a cassete do
leitor e foi para o quarto.
Enfiou-a, então, na prateleira mais alta do armário,
junto às peças do Lego. Em
seguida, caiu esgotada na
cama e adormeceu.
Horas mais tarde, a mãe
entrou no quarto. Foi junto
de Sofia e disse:
- Mas o que é que te deu
agora, Sofia?
- Mmm...
- Deitaste-te vestida!
Sofia mal conseguia abrir
os olhos.
- Estava em Atenas -
disse.
Não disse mais nada; virou-se para o outro lado e
voltou a adormecer.

75

Platão

"... uma saudade de regressar à verdadeira origem..."

Na manhã seguinte, Sofia
acordou sobressaltada.
Passava pouco das cinco, mas
estava tão desperta que se
levantou na cama.
Porque é que estava vestida? Lembrou-se, então, de
tudo. Sofia subiu para um
banquinho e olhou para a prateleira superior do armário.
Sim - estava lá uma cassete
de vídeo. Logo, não fora nenhum sonho, pelo menos uma
parte era verdade.
Não vira realmente Platão
e Sócrates? Mas não queria
pensar mais nisso. Talvez a
mãe tivesse razão ao afirmar
que ultimamente andava com a
cabeça nas nuvens.
De qualquer modo, não conseguia dormir mais. Talvez
devesse verificar na toca se
o cão tinha trazido uma nova
carta.
Sofia desceu sorrateiramente as escadas, calçou as
sapatilhas e saiu.
No jardim tudo estava admiravelmente claro e silencioso. Os pássaros chilreavam
com tal intensidade que
Sofia sorriu. Na erva, o
orvalho caía semelhante a gotas de cristal. De novo percebeu como o mundo era uma
maravilha inexplicável.
A velha sebe também estava
um pouco húmida. Sofia não
encontrou nenhuma nova carta
do filósofo, mas apesar disso
enxugou uma raiz grossa e
sentou-se.
Lembrou-se que o Platão
do vídeo lhe tinha dado algumas tarefas. Primeiro, tinha
de pensar como é que um pasteleiro podia fazer cinquenta
bolos iguaizinhos.
Sofia tinha de reflectir
bem, visto que lhe parecia um
trabalho difícil. Quando a
mãe fazia bolos, o que era
raro, nunca havia dois exactamente iguais. Ela não era
uma pasteleira profissional e
podia fazer muitas coisas erradas, mas os bolos que compravam nas lojas também nunca
eram totalmente iguais. Cada
bolo recebia uma forma diferente nas mãos do pasteleiro.
Subitamente, Sofia sorriu
com uma expressão astuta.
Lembrava-se que estivera uma
vez com o pai na cidade, enquanto a mãe fazia os

76
biscoitos de natal. Quando
regressaram a casa, toda a
mesa da cozinha estava coberta com biscoitos. Mesmo não
estando todos igualmente perfeitos, de certo modo eram
todos iguais. E porque é que
eram iguais? Porque a mãe
tinha usado a mesma forma
para todos os biscoitos, obviamente.
Sofia estava tão contente
por se ter lembrado da história dos biscoitos que deu a
primeira tarefa por terminada. Se um pasteleiro fazia
cinquenta bolos todos iguais,
é porque usava a mesma forma
para todos. E basta!
Depois, o Platão do vídeo
olhara para a câmara e perguntara porque é que todos os
cavalos são iguais. Mas isso
não era verdade. Sofia diria, antes pelo contrário,
que não havia dois cavalos
iguais, da mesma forma que
não podia haver dois homens
iguais.
Estava quase para abandonar a tarefa, mas lembrou-se
do que tinha pensado a propósito dos biscoitos. Também
não havia dois iguais, alguns
eram maiores que outros, outros estavam partidos; no entanto, era claro para toda a
gente que, por assim dizer,
eram "completamente iguais".
Talvez Platão quisesse
perguntar porque é que um cavalo era sempre um cavalo e
não, por exemplo, uma coisa
intermédia entre cavalo e
porco. Porque, apesar de alguns cavalos serem castanhos
como ursos, e outros brancos
como cordeiros, todos os cavalos tinham qualquer coisa
em comum. Sofia nunca vira
um cavalo com seis ou oito
pernas. Mas Platão não podia querer dizer que todos os
cavalos eram iguais por terem
sido moldados a partir da
mesma forma.
Se fosse esse o caso,
Platão tinha, de facto, colocado uma questão complexa.
Terá o homem uma alma imortal? Sofia não se sentiu capaz de responder a essa pergunta. Sabia apenas que um
cadáver era cremado ou enterrado, e que depois nada mais
lhe acontecia. Se o homem
tivesse uma alma imortal, teria que ser constituído por
duas partes diferentes: um
corpo que se decompõe passado
algum tempo - e uma alma que
age mais ou menos independentemente dos processos do corpo. A sua avó dissera uma
vez que, para ela, era como
se apenas o corpo envelhecesse. Interiormente, tinha
permanecido sempre jovem.
A questão da "jovem" levou
Sofia à última pergunta. Os
homens e as mulheres são
igualmente racionais? Neste
ponto, não tinha de todo a
certeza. Dependia do que
Platão entendia por "racional".
Subitamente, lembrou-se
daquilo que o seu professor
de filosofia dissera acerca
de Sócrates. Sócrates explicara que todos os seres
humanos podiam compreender
verdades filosóficas, se
usassem a razão. Ele acreditava também que um escravo
podia resolver questões filosóficas

77
com a mesma facilidade de um
aristocrata. Sofia estava
convencida de que ele também
teria dito que as mulheres e
os homens eram igualmente racionais.
E estando sentada, absorta
nas suas reflexões, apercebeu-se subitamente de um barulho na sebe e ouviu qualquer coisa a ofegar e a arfar
como se de uma máquina a vapor se tratasse. Pouco depois, o cão amarelo infiltrou-se na toca. Trazia um
grande envelope na boca.
- Hermes! - exclamou
Sofia. - Muito obrigada!
O cão deixou cair o envelope no regaço de Sofia; ela
estendeu a mão e afagou-o no
pescoço.
- O Hermes é um cão valente - dizia.
O cão deitou-se e deixou-se acariciar por Sofia.
Passados alguns minutos, levantou-se e, passando com dificuldade pela sebe, regressou pelo caminho por onde viera.
Sofia seguiu-o com o envelope na mão. Rastejou pela
densa sebe e pouco depois estava fora do jardim.
Hermes correu para o bosque e Sofia seguiu-o a alguns metros de distância.
Por duas vezes, o cão voltou-se e rosnou, mas Sofia
não se deixou intimidar.
Agora, queria encontrar o
filósofo, mesmo que tivesse
de correr até Atenas.
O cão correu com mais velocidade e chegou a um pequeno carreiro.
Sofia também começou a
correr mais depressa, mas,
passado pouco tempo, o cão
voltou-se e ladrou como um
cão de guarda. Sofia não desistiu; aproveitou a oportunidade para se aproximar ainda mais dele.
Hermes corria à frente,
pelo carreiro. Até que,
Sofia teve de reconhecer que
não o podia alcançar. Ficou
muito tempo parada, tentando
detectar para onde o cão se
afastava. Por fim, tudo ficou silencioso.
Sofia sentou-se num tronco, junto a uma pequena clareira. Tinha na mão o grande
envelope amarelo. Abriu-o,
retirou várias folhas escritas e começou a ler:

A Academia de Platão

Que bom ver-te, Sofia!
Claro que quero dizer, em
Atenas. Penso ter-me finalmente apresentado, não achas?
E uma vez que também te
apresentei Platão, podemos
começar imediatamente.
Platão (428-347 a.C.>)
tinha 29 anos quando Sócrates teve de beber a taça de
cicuta. Fora discípulo de
Sócrates por muito tempo e
seguiu

78
atentamente o processo instaurado contra ele. Que
Atenas pudesse condenar à
morte o homem mais nobre da
cidade não provocou nele apenas uma impressão indelével;
isso iria determinar a orientação de toda a sua actividade filosófica.
Para Platão, a morte de
Sócrates demonstrou muito
claramente qual é a contradição que pode existir entre as
condições de facto numa sociedade e o que é verdadeiro e
ideal.
Platão, ao transcrever o
discurso da Apologia de Sócrates, desempenhou uma importantíssima tarefa. Aí
narrou tudo o que Sócrates
expôs ao tribunal.
Com certeza recordas ainda
que Sócrates não escreveu
nada pela sua própria mão.
Muitos pré-socráticos haviam-no feito, mas a maior parte dos seus textos não se
conservou para a posteridade.
No que diz respeito a Platão, pensa-se que todas as
suas obras principais se conservaram. (Além da Apologia de Sócrates, escreveu um
conjunto de cartas e mais de
trinta e cinco diálogos filosóficos>). Se estes escritos
se conservaram deve-se ao
facto de Platão ter fundado
perto de Atenas a sua própria escola filosófica, num
pequeno bosque, que tinha o
nome do lendário herói grego
Academo. A escola de filosofia de Platão recebeu assim o nome de Academia.
(Desde então, foram abertas
em todo o mundo milhares de
academias. Falamos ainda de
"académicos" e de "disciplinas académicas">).
Na Academia de Platão
leccionava-se filosofia, matemática e ginástica. Talvez
o termo "leccionar" não seja
o mais adequado. Na Academia de Platão também se usava o diálogo vivo. Não é por
acaso que o diálogo tenha sido a sua forma privilegiada
de escrita.

O verdadeiro, o belo e o
bom eternos

No início deste curso de
filosofia, eu disse-te que,
por vezes, vale a pena perguntar qual o projecto de um
determinado filósofo. E por
isso pergunto agora: o que é
que Platão queria descobrir?
Dito em poucas palavras:
Platão interessava-se por um
lado pela relação entre aquilo que é eterno e imutável e,
por outro, por aquilo que
"flui". (Exactamente como
os pré-socráticos!>)
Dissemos que tanto os sofistas como Sócrates se tinham afastado das questões da
filosofia da natureza e se
tinham interessado mais pelos
homens e pela sociedade. E
isso está certo; mas tanto os
sofistas como Sócrates se
ocupavam também, de certa maneira, da relação que existe
entre o que é eterno e constante - e aquilo que "flui".
Preocupavam-se

79
com esta questão quando se
tratava da moral humana e dos
ideais ou virtudes da sociedade. Os sofistas achavam,
grosso modo, que o conceito
de justiça e de injustiça variava de cidade-estado para
cidade-estado e de geração
para geração. A questão da
justiça e da injustiça seria,
portanto, algo "fluido".
Sócrates não podia aceitar
isto. Acreditava em regras
ou normas eternas e intemporais para o procedimento humano. Quando usamos apenas a
nossa razão, segundo ele, podemos compreender todas essas
normas imutáveis, porque a
razão humana é justamente
algo eterno e imutável.
Estás a seguir-me, Sofia?
E agora vem Platão. Ele
interessa-se tanto por aquilo
que é eterno e imutável na
natureza - como por aquilo
que na moral e na sociedade é
eterno e imutável. Sim, para
Platão trata-se de uma mesma
coisa. Ele procura obter uma
"realidade" própria que seja
eterna e imutável. E na verdade é precisamente para isso
que temos filósofos. Para
eles não se trata de eleger a
mulher mais bela do ano ou a
verdura mais barata. (Por
isso, eles nem sempre são populares!>). Os filósofos
procuram dar pouca atenção a
essas coisas frívolas e efémeras. Procuram mostrar o
que é "verdadeiro" em si,
"belo" em si, e "bom" em Si.
Com isto, temos uma ideia
dos contornos do projecto filosófico de Platão. A partir de agora, consideramos
uma coisa de cada vez. Vamos
tentar compreender a visão
deste pensador que deixou
vestígios profundos em toda a
filosofia europeia posterior.

O mundo das ideias

Empédocles e Demócrito já
tinham mostrado que todos os
fenómenos na natureza
"fluem", mas que apesar disso
há "algo" que nunca se transforma (as "quatro raízes" ou
os "átomos">). Platão confronta-se igualmente com esta
problemática - mas de uma
forma completamente diferente.
Platão achava que tudo o
que podemos tocar e sentir na
natureza "flui". Não há,
portanto, nenhum elemento
eterno. Tudo o que pertence
ao "mundo sensível" é composto por uma matéria que o tempo consome. Mas ao mesmo
tempo, tudo é constituído por
uma forma intemporal que é
eterna e imutável.
Compreendeste?
Porque é que os cavalos
são iguais, Sofia? Talvez
penses que eles não o são de
todo. Mas há algo que é comum a todos os cavalos, algo
que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer
um cavalo.

80
Um cavalo particular
"flui", obviamente. Pode ser
velho e coxo, com o tempo ficará também doente, e morre.
Mas a verdadeira "forma de
cavalo" é eterna e imutável.
Assim, o eterno e imutável
não é nenhum "elemento primordial". O eterno e o imutável são modelos espirituais
ou abstractos, a partir dos
quais se formam todos os fenómenos.
Vou ser mais preciso: os
pré-socráticos tinham dado
uma explicação verdadeiramente útil para as transformações na natureza, sem ter que
pressupor que algo se "transforma" efectivamente. Na natureza há partículas minúsculas, eternas e constantes que
não entram em desagregação,
segundo eles. Pois bem, Sofia! Mas não tinham nenhuma
explicação aceitável para o
modo como estas partículas
minúsculas que eram elementos
constituintes de um cavalo
podiam produzir quatro ou
cinco séculos mais tarde um
cavalo totalmente novo! Ou
talvez um elefante, ou um
crocodilo. Platão quer dizer
que os átomos de Demócrito
nunca se podem tornar um
"crocofonte" ou um "eledilo".
E foi precisamente este o
ponto de partida das suas reflexões filosóficas.
Se já percebes o que quero
dizer, podes saltar esta parte. Por precaução, vou explicar melhor: tens uma caixa
de peças de Lego e constróis
um cavalo. Depois, desmanchas o que fizeste e colocas
novamente as peças na caixa.
Não podes esperar ter um
novo cavalo se apenas agitas
a caixa. Como é que as peças
do Lego conseguiriam produzir por si mesmas um novo cavalo? Não, tu tens de montar
de novo o cavalo, Sofia. E
se o consegues é porque tens
em ti uma imagem do aspecto
do cavalo. O cavalo de Lego
foi portanto formado a partir
de um modelo que se conserva
inalterado de cavalo para cavalo.
Conseguiste resolver a
pergunta acerca dos cinquenta
bolos iguais? Imaginemos
agora que cais do espaço sideral para a terra e que nunca tinhas visto uma pastelaria. Deparas com uma pastelaria atraente - e vês, num
tabuleiro, cinquenta biscoitos em forma de homem, exactamente iguais. Calculo que
coçarias a cabeça e te questionarias como é que podiam
ser todos exactamente iguais.
É fácil de imaginar que a um
falta um braço, um outro perdeu talvez um bocado da cabeça, e o terceiro tem uma barriga demasiado gorda. Mas
depois de uma reflexão fundada chegas à conclusão de que
todos os biscoitos possuem um
denominador comum. Apesar de
nenhum deles ser totalmente
perfeito, tens a ideia de que
têm que ter uma origem comum.
Compreendes que todos os
biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.
E não é tudo, Sofia: terás então o desejo de ver
esta forma. Porque é óbvio
que a forma tem de ser indescritivelmente mais perfeita
- e de certo modo mais bela
- do que uma das suas frágeis
cópias.

81
Se resolveste este problema sozinha, resolveste um
problema filosófico exactamente da mesma forma que
Platão. Como a maior parte
dos filósofos, ele "caiu do
espaço sideral", por assim
dizer. (Ele instalou-se no
cimo de um dos pêlos finos da
pelagem do coelho>). Ele admirou-se como todos os fenómenos na natureza podem ser
tão semelhantes entre si, e
chegou então à conclusão de
que "acima" ou "por detrás"
de tudo o que vemos à nossa
volta há um número limitado
de formas. A estas formas
chamou Platão ideias. Por
detrás de todos os cavalos,
porcos e homens há a "ideia
cavalo", a "ideia porco" e a
"ideia homem". (E por isso,
a referida pastelaria pode
ter, além de biscoitos em
forma de homem, biscoitos em
forma de porco e de cavalo,
visto que uma pastelaria decente tem geralmente variadíssimas formas. Mas para
cada tipo de biscoito é suficiente uma única forma>).
Conclusão: Platão defendia uma realidade própria por
detrás do "mundo sensível".
A esta realidade chamava ele
"o mundo das ideias".
Encontramos aqui os "modelos" eternos e imutáveis,
os "arquétipos" por detrás
dos diversos fenómenos que se
nos deparam na natureza. Designamos esta importante concepção por "teoria das ideias"
de Platão.

Saber seguro

Até agora, seguiste-me,
cara Sofia. Mas terá Platão realmente querido dizer
isto, perguntarás. Queria
ele dizer que estas formas
existem numa realidade completamente diferente?
Ele não o chegou a dizer
explicitamente, mas alguns
dos seus diálogos têm de ser
interpretados desta forma.
Vamos tentar seguir a sua
argumentação.
Um filósofo procura, como
já o dissemos, vir a compreender algo que é eterno e
imutável. Por exemplo, faria
pouco sentido escrever um
tratado filosófico acerca da
existência de uma determinada
bola de sabão. Em primeiro
lugar, dificilmente alguém a
poderia examinar bem antes de
ter rebentado. Em segundo
lugar, seria provavelmente
difícil vender um tratado filosófico acerca de algo que
ninguém viu e que só existiu
durante poucos segundos.
Platão achava que tudo o
que vemos à nossa volta na
natureza, sim, tudo o que podemos agarrar e tocar pode
ser comparado com a bola de
sabão. Porque nada do que
existe no mundo dos sentidos
dura. Tu sabes obviamente
que todos os homens e animais
mais tarde ou mais cedo morrem e entram em decomposição.
Mesmo um bloco de mármore se
desagrega lentamente. (A
Acrópole está a cair em ruínas, Sofia! É

82
escandoloso, mas é assim>).
Para Platão, nunca podemos
ter um saber seguro acerca de
algo que se transforma.
Daquilo que pertence ao mundo sensível - e que nós podemos portanto agarrar e tocar -, temos apenas opiniões
incertas ou suposições. Só
podemos ter um saber verdadeiro daquilo que conhecemos
com a razão.
Sofia, eu vou explicar
isto melhor: um biscoito em
forma de homem pode sofrer
tanto ao ser amassado, ao levedar e ao ser cozido que já
não se possa dizer exactamente o que é. Mas depois de eu
ter visto vinte, trinta biscoitos - que podem ser mais
ou menos perfeitos -, posso
saber com grande segurança
qual é o aspecto da forma dos
bolos. Posso concluí-lo,
mesmo que nunca tenha visto a
própria forma. Nunca é claro
se seria melhor ver a forma a
olho nu, visto que não podemos confiar sempre nos nossos
sentidos. A visão pode variar de homem para homem.
Inversamente, podemos confiar naquilo que a razão nos
diz, visto que a razão é a
mesma em todos os homens.
Quando estás numa sala de
aula com mais trinta alunos,
e o professor pergunta qual é
a cor mais bonita do arco-íris - aí ele tem certamente
muitas respostas diferentes.
Mas se ele perguntar quanto
é três vezes oito, toda a
turma deveria dar a mesma
resposta. Nesse caso, é a
razão que julga, e a razão é
de certo modo exactamente o
contrário do opinar e do sentir. Podemos dizer que a razão é eterna e universal,
precisamente porque se pronuncia apenas acerca de realidades eternas e universais.
Platão interessou-se muito
por matemática, porque as
verdades matemáticas nunca se
alteram. Assim, podemos ter
um saber seguro acerca delas.
Mas agora precisamos de um
exemplo: imagina que encontras na floresta uma pinha
redonda. Talvez digas que
achas que ela parece redonda
- mas Jorunn afirma que ela
é um pouco achatada num dos
lados. (Vocês discutem então!>). Não podem ter um conhecimento seguro acerca do
que vêm com os olhos, mas podem saber com toda a segurança que a soma dos ângulos num
círculo perfaz 360". Vocês
estão a falar de um círculo
"ideal" que não existe na natureza, mas que vêem muito
claramente com a vossa visão
interior. (Vocês falam sobre a forma escondida do bolo
- e não sobre um qualquer
biscoito em cima da mesa da
cozinha>).
Breve resumo: acerca daquilo que percepcionamos ou
sentimos podemos ter apenas
opiniões incertas. Mas acerca daquilo que conhecemos com
a razão, podemos atingir um
conhecimento seguro. A soma
dos ângulos num triângulo
perfaz para toda a eternidade
180". Do mesmo modo, a
"ideia" de que todos os cavalos caminham sobre quatro patas será válida mesmo que todos os cavalos do mundo sensível ficassem coxos.

83
Uma alma imortal

Vimos que, segundo Platão,
a realidade está dividida em
duas partes.

Uma parte é "o mundo sensível" - de que só podemos
atingir um conhecimento impreciso e imperfeito, e onde
usamos os nossos cinco (imprecisos e imperfeitos>) sentidos. A característica do
mundo dos sentidos é que
"tudo flui" e consequentemente nada possui estabilidade.
Nada é no mundo dos sentidos, existe apenas um conjunto de coisas que nascem e perecem.
A outra parte é "o mundo
das ideias" - de que podemos
alcançar um saber certo usando a razão. Este mundo das
ideias não pode ser conhecido
através dos sentidos. Em
compensação, as ideias (ou
formas>) são eternas e imutáveis.

Consequentemente, para
Platão, o homem também é um
ser dividido em duas partes.
Temos um corpo que "flui".
Ele está indissoluvelmente
ligado ao mundo sensível e
sofre o mesmo destino que o
sensível (por exemplo, uma
bola de sabão>). Todos os
nossos sentidos estão ligados
ao corpo e são de pouca confiança. Mas nós possuímos
também uma "alma imortal" -
ela é a sede da razão. Uma
vez que a alma não é material, pode observar o mundo das
ideias.
Bem, já disse quase tudo.
Mas há mais, Sofia: HÁ
MAIS!
Para Platão, a alma já
existia antes de se ter estabelecido no nosso corpo: antigamente, a alma estava no
mundo das ideias. (Estava
junto às formas dos biscoitos
em cima do armário>). Mas
logo que a alma acorda num
corpo humano, esquece-se das
ideias perfeitas. Inicia-se
então um processo espantoso:
quando o homem se apercebe
das formas na natureza, emerge progressivamente na alma
uma vaga recordação. O homem
vê um cavalo - mas um cavalo
imperfeito (sim, um cavalo
em biscoito!>), e isso é o
suficiente para despertar na
alma uma recordação vaga do
cavalo perfeito que a alma
viu outrora no mundo das
ideias. Com isto, surge
igualmente uma saudade, um
desejo da verdadeira sede da
alma. Platão chamava a este
desejo Eros - ou seja amor.
A alma sente, portanto, um
"desejo amoroso" da sua verdadeira origem. A partir
daí, vê o corpo e tudo o que
é sensível como imperfeito e
insignificante. A alma deseja voar "de volta" ao mundo
das ideias nas asas do amor.
Desejaria ser libertada da
prisão do corpo.
Devo sublinhar que Platão
descreve aqui o percurso ideal. Com efeito, nem todos os
homens permitem que a sua
alma inicie a viagem de regresso ao mundo das ideias.
A maior parte dos homens
fixa-se nos

84
"reflexos" das ideias no mundo sensível. Vêem um cavalo
- e outro. Mas não vêem
aquilo de que todos os cavalos são apenas uma cópia.
(Entram de rompante na cozinha e atiram-se aos biscoitos sem perguntar de onde é
que vêm>). Platão descreve
o percurso dos filósofos.
Podemos ler a sua filosofia
como descrição da actividade
de um filósofo. Quando vês
uma sombra, Sofia, pensas
também que há algo que está a
fazer sombra. Vês a sombra
de um animal. Talvez seja um
cavalo, pensas tu, mas não
consegues ter a certeza absoluta. Então, voltas-te e vês
o verdadeiro animal - que é
obviamente de longe mais bonito e nítido nos contornos
do que a sua inconstante sombra. POR ISSO, SEGUNDO
PLATÄO, TODOS OS FENÓMENOS DA
NATUREZA SÄO MERAS SOMBRAS
DAS FORMAS OU IDEIAS ETERNAS. Porém, a maioria das
pessoas está satisfeita com a
sua vida entre as sombras.
Não pensam que há algo que
provoca as sombras. Acham
que as sombras são tudo o que
existe - e por isso não tomam as sombras como sombras.
Deste modo, esquecem também
a imortalidade das suas almas.

A saída da escuridão da
caverna

Platão conta uma alegoria
que ilustra precisamente esta
reflexão. Denominamo-la a
alegoria da caverna. Vou
contá-la com as minhas próprias palavras. Imagina homens que vivem numa caverna
subterrânea. Estão virados
de costas para a entrada,
presos com correntes, pelas
mãos e pelos pés; por isso só
podem olhar para a parede da
caverna. Por detrás deles há
um muro alto, e atrás desse
muro passam por sua vez vultos humanos que levam diversos objectos por cima do
muro. Uma vez que atrás desses objectos arde uma fogueira, eles provocam sombras
trémulas na parede da caverna. A única coisa que os homens da caverna podem ver é
portanto este "teatro de sombras". Estão ali desde que
nasceram e para eles as sombras são tudo o que existe.
Imagina agora que um destes habitantes da caverna
consegue libertar-se da prisão. Primeiro, questiona-se
de onde é que vêm estas imagens na parede da caverna. O
que é que achas que sucede
quando ele se volta para as
figuras que são levadas por
cima do muro? De início,
fica ofuscado pela luz brilhante. A visão dos objectos
com contorno nítido ofusca-o
- até então, ele vira apenas
as suas sombras. Se pudesse
subir pelo muro e passar o
fogo até sair para fora da
caverna, ficaria ainda mais
encandeado. Mas depois de
ter esfregado os olhos veria
também como tudo é belo.
Pela primeira vez, veria cores e contornos nítidos.
Veria animais e flores verdadeiros - dos quais as figuras na caverna

85
eram cópias. Mas nesse momento, perguntar-se-ia de
onde é que os animais e as
plantas vêm. Vê o sol no céu
e compreende que o sol dá vida às flores e aos animais na
natureza, da mesma forma que
o fogo da caverna fazia com
que ele pudesse ver as sombras.
O feliz habitante da caverna poderia sair a correr
para a natureza e alegrar-se
com a sua liberdade recém adquirida. Mas ele pensa em
todos aqueles que ainda estão
na caverna. Por isso, regressa. Logo que chega lá,
tenta explicar aos outros habitantes da caverna que as
sombras na parede são apenas
cópias trémulas de coisas
verdadeiras, mas ninguém
acredita nele. Eles apontam
para a parede da caverna e
afirmam que o que aí vêem é
tudo o que existe. Por fim,
matam-no.
Aquilo que Platão descreve na alegoria da caverna é o
percurso do filósofo, desde
as opiniões confusas até às
ideias reais por detrás da
natureza. Pensa também em
Sócrates, que os "habitantes
da caverna" assassinaram por
destruir as opiniões habituais e por lhes querer mostrar o caminho para o verdadeiro conhecimento. Desta
forma, a alegoria da caverna
torna-se uma imagem da coragem e da responsabilidade pedagógica do filósofo.
Para Platão, a relação
entre a escuridão da caverna
e a natureza lá fora corresponde à relação entre os objectos da natureza e o mundo
das ideias. Ele não queria
dizer que a natureza era escura e triste, mas que ela é
escura e triste em comparação
com a claridade das ideias.
A fotografia de uma rapariga
bonita também não é sombria e
triste, pelo contrário, mas é
apenas uma fotografia.

O Estado dos filósofos

Encontramos a alegoria da
caverna de Platão no diálogo
"A República". Platão descreve nessa obra também o
Estado ideal, isto é, ele
imagina um Estado-modelo -
ou aquilo que designamos por
"Estado utópico". Resumidamente, podemos dizer que, para
Platão, o Estado deve ser
governado por filósofos. Toma
como ponto de partida o homem
individual.
Segundo Platão, o corpo
humano é constituído por três
partes, a saber: a cabeça, o
peito e o abdómen. A cada
uma destas partes corresponde
uma faculdade. À cabeça corresponde a razão, ao peito a
vontade, ao abdómen o prazer
ou a concupiscência. A cada
uma destas faculdades pertence ainda um ideal ou uma virtude. A razão deve procurar
a sabedoria, a vontade deve
mostrar coragem, e a concupiscência deve ser refreada,
para que o homem possua temperança. Só

86
quando as três partes actuam
em consonância temos um homem
harmonioso ou íntegro. Na
escola, as crianças têm de
aprender primeiro a refrear a
sua concupiscência, depois é
desenvolvida a coragem, e por
fim devem desenvolver a razão
e adquirir a sabedoria.
Platão imagina um Estado
que é organizado exactamente
como um homem. Assim como o
corpo possui "cabeça", "peito" e "abdómen", o Estado
possui soberanos, guardiões
(ou soldados>) e os comerciantes (grupo ao qual pertencem, além dos comerciantes, os artesãos e os camponeses>). Torna-se claro que
Platão toma como modelo a
ciência médica grega. Assim
como um homem são e harmonioso apresenta equilíbrio e
temperança, aquilo que caracteriza um Estado justo é o
facto de cada um conhecer o
seu lugar no todo. Tal como
a filosofia de Platão em geral, também a sua filosofia
política está impregnada de
racionalismo. Decisivo para
a criação de um bom Estado é
ele ser dirigido com razão.
Tal como a cabeça dirige o
corpo, são os filósofos que
têm de governar a sociedade.
Faço agora uma apresentação resumida da relação entre
os três componentes do homem
e do Estado:

Corpo Alma
cabeça razão
peito vontade
abdómen concupiscência

Virtude Estado
sabedoria soberano
coragem guardiões
temperança artesãos

O Estado ideal de Platão
pode fazer lembrar o antigo
sistema indiano de castas,
onde cada um tinha a sua função específica para o bem do
todo. Desde o tempo de Platão - e ainda antes - o
sistema indiano de castas conhece exactamente esta tripartição entre a casta governante (ou a casta dos sacerdotes>), a casta guerreira e
a casta dos artesãos.
Hoje diríamos talvez que o
Estado de Platão é um
Estado totalitário. Devemos
reparar que ele era da opinião de que as mulheres poderiam governar o Estado tal
como os homens, precisamente
porque os soberanos devem governar a cidade-Estado em
função da sua razão. Segundo
Platão, as mulheres tinham
tanta racionalidade como os
homens, se recebessem a mesma
formação, e se fossem ainda
libertadas do cuidado das
crianças e das tarefas domésticas. Platão queria abolir
nos soberanos e nos seus
guardiões a família e a propriedade privada. A formação
das crianças era demasiado
importante para ser deixada
aos indivíduos. A educação
das crianças tinha de estar a
cargo do Estado. (Platão
foi o primeiro filósofo que
se pronunciou a favor de jardins infantis e escolas públicas>).

87
Depois de ter tido algumas
desilusões políticas, Platão
escreveu o diálogo As Leis.
Descreve nele o "Estado de
lei" como o segundo melhor
Estado e introduz de novo a
propriedade privada e os laços familiares. Desta forma,
a liberdade das mulheres é
restringida. Mas ele diz
também que um Estado que não
educa e forma mulheres é como
um homem que apenas exercita
o seu braço direito.
Podemos basicamente dizer
que Platão tinha uma opinião
positiva das mulheres - pelo
menos para o seu tempo. No
diálogo "O Banquete" é uma
mulher, Diotima, que revela
a Sócrates o seu saber filosófico.
Isto era Platão, Sofia.
Desde há mais de dois mil
anos, os homens discutem e
criticam a sua singular teoria das ideias. O primeiro
foi seu discípulo na
Academia. Chamava-se
"Aristóteles" - o terceiro
grande filósofo de Atenas.
Mas não digo mais nada por
hoje!

Enquanto Sofia estivera
sentada no tronco, o sol elevara-se a oriente sobre a colina. Espreitara por cima do
horizonte precisamente no momento em que estava a ler sobre o filósofo que saíra da
caverna e piscara os olhos ao
ver a luz brilhante no exterior.
Ela mesma tinha a sensação
de sair de uma gruta subterrânea. Sofia julgava ver a
natureza de um modo completamente novo depois de ter lido
aquilo sobre Platão. Tinha
a sensação de ter sido cega
às cores. Vira talvez sombras, mas não as ideias claras.
Não tinha a certeza de que
Platão tivesse razão em tudo
o que afirmava sobre os arquétipos eternos, mas pareceu-lhe muito bela a ideia de
que todas as coisas vivas
eram apenas uma cópia imperfeita da forma eterna no mundo das ideias. Afinal, era
verdade que todas as flores e
árvores, homens e animais
eram "imperfeitos".
Tudo o que via à sua volta
era tão belo e vivo que Sofia pensou que tinha de esfregar os olhos. Mas nada do
que via era constante. No
entanto, daí a cem anos haveria ali as mesmas flores e
animais. Mesmo que cada animal e cada flor morresse e
fosse esquecido, algo "faria
lembrar" o aspecto de tudo.
Sofia admirava esta obra
maravilhosa quando, subitamente, um esquilo saltou para
o tronco de um pinheiro, rodopiou e desapareceu por entre os ramos. Já te vi por
aqui, pensou Sofia. Sabia
que provavelmente não tinha
visto aquele esquilo - ela
vira, por assim dizer, a mesma "forma". Porque é que
Platão não havia de ter razão ao dizer que ela vira outrora no mundo das ideias o
"esquilo" eterno - muito antes de a sua alma se ter estabelecido num corpo?

88
Seria verdade que ela já
vivera antes? Teria a sua
alma existido antes de ter
recebido um corpo que tinha
agora de arrastar consigo?
Seria verdade que ela tivesse em si um grão de ouro -
uma jóia que o tempo não consumia, uma alma que viveria
depois de o seu corpo envelhecer e morrer?
. linha 19, página a negro 70 a 88 - isilda

89
A Cabana Do Major

"... a rapariga do espelho
piscou ambos os olhos..."

Eram apenas sete e um
quarto. Sofia não tinha de
ir a correr para casa. A mãe
dormiria certamente mais duas
horas; ao domingo era sempre
preguiçosa.
Deveria ela avançar mais
no bosque e tentar encontrar
Alberto Knox? Mas porque é
que o cão rosnara tão furiosamente contra ela?
Sofia levantou-se do tronco e foi pelo carreiro do
bosque através do qual Hermes correra. Trazia na mão o
envelope amarelo com a longa
carta sobre Platão. Por duas vezes o carreiro se bifurcou, mas ela seguiu sempre o
caminho principal.
Os pássaros chilreavam por
toda a parte - nas árvores e
pelo ar, nos arbustos e no
matagal. Estavam diligentemente absortos na sua toilete
matinal. Para eles, não havia distinção entre os dias
da semana e o fim-de-semana.
Mas quem é que ensinara aos
pássaros tudo aquilo? Teria
cada um um pequeno computador
dentro de si, um "programa"
que lhes dizia o que tinham a
fazer?
De início, o caminho conduzia ao cimo de um pequeno
penhasco, depois, descia
abruptamente entre pinheiros
altos. Daí em diante, o bosque era tão denso que as árvores deixavam ver apenas alguns metros adiante.
De repente, descobriu entre os troncos dos pinheiros
qualquer coisa azul. Era um
lago. Nesse lugar, o carreiro seguia noutro sentido, mas
Sofia continuou a andar por
entre as árvores. Não sabia
ao certo porquê, mas os seus
pés conduziam-na naquele sentido.
O lago não era maior do
que um campo de futebol. Defronte a ela, na outra margem, Sofia viu uma cabana
pintada de vermelho numa pequena clareira rodeada de bétulas brancas. Da chaminé
elevava-se um fio de fumo.
Sofia desceu até à água.
O solo estava muito húmido
em quase todos os sítios, mas
descobriu rapidamente um barco a remos. Estava puxado
para terra. Dentro do barco
havia um par de remos.

90
Sofia olhou ao seu redor.
Parecia-lhe impossível, indo
à volta do lago, alcançar a
cabana com os pés secos. Resoluta, dirigiu-se para o
barco e empurrou-o para a
água. Subiu para bordo, colocou os remos nos toletes e
remou através do lago. Depressa atingiu a outra margem. Sofia desceu para terra
e tentou puxar o barco para
um lugar seco. A margem era
aí muito mais íngreme do que
do outro lado.
Sofia olhou uma vez para
trás e depois subiu em direcção à cabana.
Estava assustada consigo
mesma. Como é que ousara fazer isto? Não o sabia; qualquer coisa "estranha" parecia
guiá-la.
Sofia chegou à porta e bateu. Ficou algum tempo à espera, mas ninguém abriu. Girou com cuidado o puxador e a
porta abriu-se.
- Com licença! - disse
- está alguém em casa?
Sofia entrou numa sala
grande. Não se atrevia a fechar a porta.
Era óbvio que alguém morava ali. Sofia ouviu o crepitar de um fogão de lenha.
Logo, alguém estivera lá há
pouco tempo.
Em cima de uma grande escrivaninha, havia uma velha
máquina de escrever, alguns
livros, duas esferográficas e
muito papel. Em frente à janela que dava para o lago,
havia uma mesa e duas cadeiras. De resto, não havia
muitos móveis; apenas uma parede estava coberta com uma
estante cheia de livros. E
acima de uma cómoda branca,
estava pendurado um grande
espelho redondo com uma moldura de latão. Parecia ser
muito antigo.
Numa parede, estavam dois
quadros. Um era uma pintura
a óleo, e representava uma
casa branca que distava alguns metros de uma pequena
enseada com um barracão vermelho para os barcos. Entre
a casa e o barracão havia um
jardim ligeiramente inclinado
com uma macieira, alguns arbustos espessos e rochedos.
As bétulas rodeavam o jardim
como uma coroa. A pintura
chamava-se "Bjerkely".
Ao lado do quadro, havia
um velho retrato de um homem
que estava sentado com um livro no regaço numa cadeira
perto da janela e ao fundo
havia igualmente uma enseada
com árvores e rochedos. A
pintura devia ter alguns séculos - e chamava-se "Berkeley", O pintor do retrato
chamava-se Smibert.
Berkeley e Bjerkely...
não era estranho?
Sofia continuou a olhar em
seu redor na cabana. Da sala
de estar, uma porta conduzia
a uma pequena cozinha. Aí, a
louça fora recentemente lavada. Pires e copos estavam
empilhados sobre um pano de
linho, e alguns pires apresentavam ainda vestígios de
detergente. No chão, havia
uma malga de metal com restos
de comida. Logo, ali vivia
também um animal, um cão ou
um gato.

91
Sofia voltou para a sala
de estar. Uma outra porta
conduzia a um pequeno quarto
de dormir. À frente da cama
estavam dois cobertores amarrotados. Sofia descobriu nos
cobertores alguns pêlos amarelos. Esta era a prova;
Sofia estava totalmente convencida de que Alberto Knox
e Hermes moravam naquela cabana.
Quando voltou à sala de
estar, Sofia aproximou-se do
espelho acima da cómoda. A
superfície do vidro era opaca
e irregular, por isso o seu
reflexo era pouco nítido.
Sofia começou a fazer caretas para si mesma - tal como
o fazia de vez em quando em
casa, na casa de banho. O
seu reflexo no espelho imitava-a em tudo, mas também não
se esperaria outra coisa.
De repente, algo estranho
aconteceu - por um milésimo
de segundo, Sofia viu, muito
claramente, que a rapariga do
espelho piscava ambos os
olhos. Sofia recuou sobressaltada. Se ela própria tivesse piscado os dois olhos
- como é que poderia ter
"visto" a outra a piscar os
olhos? E mais uma vez, a rapariga do espelho parecia
piscar os olhos para Sofia.
Parecia que queria dizer: eu
estou a ver-te, Sofia. Estou aqui do outro lado.
Sofia sentiu o coração
martelar-lhe no peito. Simultaneamente, ouviu ao longe
um cão a ladrar. Era com
certeza Hermes! Tinha de se
ir embora.
Reparou então numa carteira verde sobre a cómoda, por
baixo do espelho de latão.
Sofia levantou-a e abriu-a
cautelosamente. A carteira
continha uma nota de cem coroas, outra de cinquenta e...
um cartão de estudante. No
cartão de estudante havia uma
fotografia de uma rapariga
loira. Abaixo da fotografia
lia-se "Hilde Mõller Knag"
e "Escola de Lillesand".
Sofia sentiu um arrepio
pela espinha. Depois, ouviu
de novo o cão ladrar. Tinha
de sair dali.
Ao passar pela mesa, descobriu um envelope branco entre os numerosos livros e papéis. No envelope estava escrito "Sofia".
Sem reflectir um segundo,
apoderou-se da carta e pô-la
dentro do grande envelope
amarelo, junto à carta sobre
Platão. Precipitou-se para
fora da cabana e fechou a
porta.
Lá fora, ouvia o cão ladrar mais alto. E viu então
que o barco tinha desaparecido. Passados um ou dois segundos, descobriu-o no meio
do pequeno lago. Junto ao
barco flutuava um remo.
Isso acontecera porque ela
não tinha conseguido arrastar
o barco para terra. Ouviu de
novo o cão ladrar, e ouviu em
seguida uma outra coisa que
se mexia entre as árvores, no
outro lado do lago.
Sofia não pensou duas vezes. Com o grande envelope
na mão, correu para os arbustos atrás da cabana. Pouco
depois teve de atravessar

92
um pântano, e por várias vezes se afundou na água até ao
meio da barriga da perna.
Mas tinha mesmo de continuar. Tinha de chegar a
casa.
Passado um pouco, deu com
um caminho. Seria esse o caminho pelo qual viera? Sofia
parou e torceu o vestido. Só
então lhe vieram as lágrimas
aos olhos.
Como é que podia ter sido
tão imbecil? O mais grave de
tudo era a questão do barco.
Não conseguia esquecer a
imagem do barco a remos e do
remo à deriva no lago. Era
tudo tão desagradável, tão
horrível...
Nessa altura, o professor
de filosofia já tinha certamente regressado ao lago.
Ele precisava naturalmente
do barco para chegar a casa.
Sofia sentia-se uma imbecil,
mas não o fizera de propósito.
O envelope! Isso era mais
grave ainda. Porque é que
ela trouxera o envelope?
Porque o seu nome estava escrito nele, obviamente; por
isso, num certo sentido, pertencia-lhe. No entanto, sentiu-se uma ladra. E depois
disso, era óbvio que ela estivera na cabana.
Sofia tirou uma folha do
envelope que tinha escrito:

"O que é que vem primeiro
- a galinha ou a ideia "galinha"?
Terá o homem ideias inatas?
Qual é a diferença entre
uma planta, um animal e um
homem?
Porque é que chove?
Do que é que o homem necessita para viver uma vida
feliz?"

Nesse momento, Sofia não
conseguia reflectir sobre estas perguntas, mas calculou
que tinham a ver com o filósofo seguinte. Não era aquele que se chamava Aristóteles?
Quando, após aquela interminável corrida pelo bosque,
descobriu a sebe, sentiu-se
como um náufrago que alcança
a terra a nado. Era estranho
ver a sebe do outro lado. Só
quando entrou agachada na toca, olhou para o relógio.
Eram dez e meia. Deixou o
envelope grande junto aos outros papéis na caixa dos biscoitos. Enfiou nos "collants" a folha com as novas
perguntas.
Quando Sofia entrou, a
mãe estava ao telefone. Pousou, entretanto, o auscultador.
- Onde é que estavas metida, Sofia?
- Eu... dei um passeio...
no bosque - balbuciou Sofia.
- Estou a ver que sim.
Sofia ficou calada; via
como a água pingava do seu
vestido.
- Tenho que telefonar a
Jorunn...
- Jorunn?

93
A mãe foi buscar algo seco
para ela vestir. Sofia conseguiu a muito custo esconder
a folha do seu professor de
filosofia. Sentaram-se na
cozinha e a mãe preparou o
cacau.
- Estiveste com ele? -
perguntou.
- Com ele?
Sofia pensava apenas no
professor de filosofia.
- Com "ele", sim. Com o
teu... "coelho".
Sofia abanou a cabeça.
- O que é que vocês fazem
quando estão juntos? Porque
é que estás tão molhada?
Sofia estava muito séria e
olhava fixamente para o tampo
da mesa, mas dentro de si não
conseguiu deixar de sorrir.
Pobre mamã, como se preocupava!
Abanou de novo a cabeça.
Vieram então as perguntas em
série.
- Agora, quero ouvir toda
a verdade! Estiveste fora
esta noite? Entraste às escondidas depois de eu ter ido
para a cama? Tu tens apenas
catorze anos, Sofia, quero
saber com quem é que tu andas!
Sofia desatou a chorar e
começou a contar. Ainda tinha medo, e quando se tem
medo diz-se geralmente a verdade. Sofia contou que tinha
acordado cedo, e que tinha
dado um passeio no bosque.
Falou sobre a cabana e o
barco e também sobre o estranho espelho. Mas conseguiu
ocultar tudo o que tinha a
ver com o curso por correspondência. Também não mencionou a carteira verde. Não
sabia bem porquê, mas tinha
de guardar a história de
Hilde para si.
A mãe abraçou-a. Sofia
compreendeu que já acreditava
nela.
- Eu não tenho nenhum namorado - soluçou - Eu só
disse isso para que tu não
tivesses que te preocupar por
causa do coelho branco.
- Então foste mesmo até à
cabana do major... - disse a
mãe com um ar pensativo.
- Até à cabana do major?
- Sofia arregalou os olhos.
- A pequena cabana que tu
descobriste no bosque chama-se a "cabana do major".
Há muitos, muitos anos, viveu aí um velho major. Ele
era um pouco excêntrico. Mas
agora não vamos pensar nisso.
Desde essa altura, a cabana
está desocupada.
- Isso é o que tu pensas.
Agora mora lá um filósofo.
- Não, não comeces de
novo a fantasiar.
Sofia estava sentada no
seu quarto e reflectia sobre
o que lhe acontecera. A sua
cabeça era como um circo barulhento com elefantes pesados e palhaços cómicos, trapezistas ousados e macacos
amestrados. Mas havia uma
imagem que voltava sempre: um
pequeno barco

94
a remos e um remo flutuavam
num lago no meio de um bosque
- e alguém precisava do barco para regressar a casa...
Ela tinha a certeza de que
o professor de filosofia não
lhe queria mal e, quando percebesse que Sofia tinha visitado a cabana, talvez lhe
perdoasse, mas ela não cumprira o prometido. Era assim
que agradecia. Como é que
podia remediar isso?
Sofia agarrou no papel de
carta cor-de-rosa e escreveu:

"Caro filósofo: Estive na
cabana no domingo, de manhã.
Eu queria muito encontrar-te, para discutir melhor alguns problemas filosóficos.
Por enquanto, sou uma fã de
Platão, mas não tenho a certeza se ele tinha razão ao
afirmar que as ideias ou os
arquétipos existem numa outra
realidade. Existem naturalmente na nossa alma, mas isso
é completamente diferente,
segundo a minha opinião actual. Infelizmente, devo também confessar que ainda não
estou suficientemente convencida de que a nossa alma seja
realmente imortal. Pessoalmente, não tenho quaisquer
recordações da minha vida anterior. Se me pudesses convencer de que a alma da minha
falecida avó está bem no mundo das ideias, eu ficaria
muito grata.
Na verdade, não comecei
esta carta, que vou deixar
com um torrão de açúcar, dentro de um envelope cor-de-rosa, por amor da filosofia.
Queria apenas pedir desculpa
por te ter desobedecido.
Tentei puxar o barco para
terra, mas pelos vistos não
tive força suficiente. Além
disso, é possível que uma
onda violenta tenha levado o
barco de volta para a água.
Espero que tenhas chegado
a casa enxuto. Caso contrário, podes consolar-te, sabendo que eu fiquei molhada
até aos ossos e que provavelmente vou apanhar uma forte
constipação, mas sou eu a
culpada por isto ter acontecido.
Não toquei em nada na cabana, mas infelizmente caí na
tentação quando vi o envelope
com o meu nome. Não porque
eu quisesse roubar alguma
coisa, mas uma vez que o meu
nome estava escrito na carta,
fiquei confusa e a pensar durante alguns segundos que a
carta me pertencia. Eu peço
sinceramente as minhas desculpas, e prometo que não te
hei-de desiludir de novo.

PS. Vou reflectir imediatamente sobre todas as perguntas.
PS2. O espelho de latão
sobre a cómoda branca é um
espelho normal, ou é um espelho mágico? Pergunto apenas
porque não estou muito habituada a que o meu reflexo no
espelho pisque os olhos.

Cumprimentos cordiais da
tua aluna dedicada, SOFIA"

95
Sofia leu a carta duas vezes antes de a colocar no envelope. Não era tão cerimoniosa como a anterior. Antes
de ir à cozinha para tirar um
torrão de açúcar, pegou uma
vez mais na folha com os problemas.
"O que é que vem primeiro
- a galinha ou a ideia
'galinha'?" A pergunta era
tão difícil como o velho
enigma acerca da galinha e do
ovo. Sem ovo, não há galinha, mas sem galinha também
não há ovo. Seria realmente
tão difícil descobrir o que é
que existia primeiro, se a
galinha ou a "ideia" galinha?
Sofia sabia o que Platão
teria dito. Ele teria dito
que a ideia "galinha" existira no mundo das ideias muito
antes de haver uma galinha no
mundo sensível. Segundo
Platão, a alma tinha visto a
ideia "galinha" antes de se
ter estabelecido num corpo.
Mas não era precisamente
nesse ponto que Sofia tinha
pensado que Platão poderia
ter-se enganado? Um homem
que nunca viu uma galinha
viva, ou uma imagem de uma
galinha, também não pode ter
nenhuma "ideia" de uma galinha. E com isto, tinha chegado à pergunta seguinte.
"Terá o homem ideias inatas?" Era muito duvidoso,
pensava Sofia. Dificilmente
conseguia imaginar que um
bebé recém-nascido possuísse
muitas ideias. Não se podia
ter a certeza absoluta, porque o facto de não falar não
queria dizer que não houvesse
quaisquer ideias na sua cabeça. Porém, temos de ver as
coisas no mundo, antes que
possamos saber algo sobre
elas.
"Qual é a diferença entre
uma planta, um animal e um
homem?". Sofia compreendeu
imediatamente que havia diferenças bastante claras. Por
exemplo, não acreditava que
uma planta tivesse uma vida
mental muito complexa. Alguma vez ouvira falar de uma
campainha com um desgosto
amoroso? Uma planta cresce,
alimenta-se e produz pequenas
sementes, através das quais
se multiplica. E com isso
estava dito quase tudo acerca da natureza das plantas.
Sofia apercebeu-se de que o
que dissera sobre as plantas
também era válido para os
animais e para os homens.
Mas os animais tinham outras
características. Por exemplo, podiam mover-se (alguma
vez uma rosa teria participado numa corrida de 60 metros?>). Era mais difícil
indicar a diferença entre um
homem e um animal. Os homens
podiam pensar, mas não o conseguiriam igualmente os animais? Sofia estava convencida de que o seu gato Sherekan podia pensar. Pelo menos
conseguia comportar-se de uma
forma calculada. Mas conseguiria reflectir sobre questões filosóficas? Podia o
gato reflectir sobre a diferença entre uma planta, um
animal e um homem? Dificilmente! Um gato podia certamente estar alegre ou triste
- mas questionar-se-ia o
gato sobre a existência de
Deus ou sobre a imortalidade
da alma? Sofia achou isto
extremamente improvável.

96
Neste, eram válidas as mesmas considerações feitas sobre um recém-nascido e sobre
as ideias inatas. Era tão
difícil discutir sobre estas
ideias com um gato como com
um bebé recém-nascido.
"Porque é que chove?" Sofia encolheu os ombros. Certamente porque o mar se evapora e porque as nuvens se
condensam em chuva. Não o
aprendera já na terceira
classe? Também se podia dizer que chovia para que os
animais e as plantas pudessem
crescer. Mas seria verdade?
Um aguaceiro teria uma intenção?
O último problema tinha de
qualquer forma a ver com intenções. "De que é que o homem necessita para viver uma
vida feliz?" O professor de
filosofia já tinha escrito
isso no início do curso. Todos os homens precisam de comida, calor, amor e atenção.
Esta era a condição básica
para uma vida feliz. Em seguida, tinha apontado para o
facto de todos precisarem de
respostas a determinadas
questões filosóficas. Para
isso, era bastante importante
ter um emprego de que se gostasse. Uma pessoa que odiasse o trânsito, dificilmente
seria feliz como condutor de
táxi. E se se detestava o
estudo, ser professor não seria certamente uma escolha
profissional inteligente.
Sofia adorava animais, e por
isso podia facilmente imaginar tornar-se veterinária.
De qualquer modo, não achava
necessário ganhar um milhão
no totoloto para ter uma boa
vida. Antes pelo contrário.
Havia inclusivamente o ditado: "O ócio é a origem de
todos os vícios".
Sofia ficou no quarto, até
que a mãe a chamou para comer. Tinha grelhado costeletas e cozido batatas. Que
delícia! Também tinha acendido uma vela. Como sobremesa, havia creme de amoras.
Conversaram sobre diversos
assuntos. A mãe perguntou
como é que Sofia queria festejar o seu dia de anos.
Faltavam poucas semanas.
Sofia encolheu os ombros.
- Queres convidar alguém?
Quero dizer, desejas fazer
alguma festa?
- Talvez...
- Podemos convidar a
Marta e a Ana Maria... e
Hege... e Jorunn, evidentemente. E talvez Jõrgen...
Mas isso tens de ser tu a
decidir. Sabes uma coisa -
eu lembro-me perfeitamente de
quando fiz os meus quinze
anos. E ainda não me parece
ter sido há muito tempo.
Nesse tempo, já me sentia
adulta, Sofia. Não é estranho? Não acho que me tenha
modificado muito desde essa
altura.
- Tu não te modificaste,
nada se "modifica". Apenas
te desenvolveste, tornaste-te
mais velha...
- Mm... sim, isso soa
muito adulto. Só acho que
passou tudo tão depressa...

97
ARISTÓTELES

"... um homem meticuloso e
metódico que queria pôr em
ordem os conceitos dos homens..."

Enquanto a mãe dormia a
sesta, Sofia foi para a toca. Pôs um torrão de açúcar
no envelope cor-de-rosa e escreveu "Para Alberto".
Não tinha chegado nenhuma
carta nova, mas passados poucos minutos, Sofia ouviu o
cão aproximar-se.
- Hermes! - chamou
Sofia; em seguida, Hermes
entrou na toca, com um grande
envelope amarelo na boca.
Sofia pôs-lhe um braço à
volta; ele arfava e ofegava.
Sofia pegou no envelope cor-de-rosa com o torrão de açúcar e colocou-o na boca de
Hermes. Ele saiu da toca e
desapareceu no bosque.
Sofia estava um pouco nervosa ao abrir o envelope.
Haveria algo acerca da cabana e do barco?
O envelope continha, como
era habitual, folhas juntas
com um clipe. Mas havia também uma folha solta. Na folha estava escrito:

"Cara detective! Ou cara
assaltante, para ser mais
preciso. O incidente já foi
notificado... Não, não estou
muito zangado. Se és assim
tão curiosa quando se trata
de encontrar respostas para
os problemas da filosofia,
isso é muito promissor. A
maçada é que agora tenho de
mudar de casa. Bom, é obviamente por minha culpa. Eu
devia ter sabido que tu és
uma pessoa que quer examinar
as coisas a fundo.

Cumprimentos cordiais do
Alberto"

Sofia respirou fundo. Ele
não estava aborrecido. Mas
porque é que tinha de mudar
de casa?
Pegou nas folhas grandes e
correu para o seu quarto.
Era melhor que estivesse em
casa quando a mãe acordasse.
Pouco depois, já estava confortavelmente estendida na
cama. Queria ler acerca de
Aristóteles.

98
Filósofo e cientista

Cara Sofia! Ficaste certamente espantada com a teoria das ideias de Platão.
Não és a primeira. Não sei
se aceitaste tudo com facilidade ou se fizeste alguns reparos críticos. Mas se fizeste reparos críticos, podes
estar certa de que as mesmas
objecções foram levantadas já
por "Aristóteles" (384-322 a.C.>). Ele foi durante vinte anos aluno na
Academia de Platão.
Aristóteles não era um
ateniense. Era natural da
Macedónia, mas foi para a
Academia quando Platão tinha 61 anos. O pai era um
médico reconhecido - ou seja, um cientista. Este pano
de fundo já nos diz algo sobre o projecto filosófico de
Aristóteles. Aquilo que o
interessava acima de tudo era
a natureza viva. Não foi
apenas o último grande filósofo grego, foi também o primeiro grande biólogo da Europa.
Se quisermos formular tudo
de um modo um tanto exagerado, podemos dizer que Platão
estava tão concentrado nas
formas ou "ideias" eternas
que mal reparava nas transformações da natureza. Aristóteles, pelo contrário, interessava-se precisamente pelas transformações - ou
aquilo que nós hoje designamos por processos físicos.
Se quisermos exagerar ainda mais, podemos dizer que
Platão se afastava do mundo
sensível e só distinguia passageiramente aquilo que vemos
à nossa volta. (Ele queria
sair da caverna! Queria
olhar para o eterno mundo das
ideias!>). Aristóteles fazia
exactamente o inverso: dirigia-se à natureza e estudava
peixes e rãs, anémonas e papoilas.
Podes dizer que Platão
usou apenas o seu entendimento; Aristóteles, por seu
lado, usou também os sentidos.
Até na sua maneira de escrever encontramos claras diferenças. Enquanto Platão
era poeta e criador de mitos,
os textos de Aristóteles são
secos e pormenorizados como
uma enciclopédia. Em compensação, na origem de muitas
coisas acerca das quais ele
escreve, há estudos naturalistas intensivos.
Na Antiguidade são referidos mais de 170 títulos
que Aristóteles terá escrito. Hoje, conservam-se 47
textos. Não se trata de livros acabados. A maior parte
dos textos de Aristóteles
são constituídos por apontamentos para as lições. Mesmo
no tempo de Aristóteles, a
filosofia era sobretudo uma
actividade oral.
A importância de Aristóteles para a cultura europeia
não reside apenas no facto de
ele ter criado a linguagem
técnica que ainda hoje as diversas ciências utilizam.
Ele foi o grande sistemático
que fundou e ordenou as diversas ciências.

99
Como Aristóteles escreveu
sobre todas as ciências, vou
tratar apenas de algumas das
áreas mais importantes.
Dado que falei tanto de
Platão, deves saber primeiro
como é que Aristóteles argumenta contra a teoria das
ideias de Platão. Depois,
vamos ver como é que ele concebe a sua própria filosofia
da natureza. Aristóteles recapitulou aquilo que os filósofos da natureza antes dele
disseram. Vamos ver como é
que ele ordena os nossos conceitos e funda a lógica como
ciência. Por fim, vou falar
ainda um pouco da visão de
Aristóteles acerca do homem
e da sociedade. Se aceitares
estas condições, só precisamos de arregaçar as mangas e
começar.

"Não há ideias inatas"

Tal como os filósofos anteriores, também Platão queria encontrar algo eterno e
imutável no meio de todas as
transformações. Deste modo,
encontrou as ideias perfeitas, que são superiores ao
mundo sensível. Além disso,
para Platão, estas ideias
eram mais reais do que todos
os fenómenos na natureza.
Primeiro, vinha a ideia "cavalo" - em seguida, todos os
cavalos do mundo sensível,
que galopavam como cópias na
parede de uma caverna. Logo,
a ideia "galinha" veio antes
da galinha e do ovo.
Aristóteles achava que
Platão tinha posto tudo às
avessas. Estava de acordo
com o seu professor em que o
cavalo particular "flui", e
que nenhum cavalo vive eternamente. Também estava de
acordo em que a forma do cavalo é em si eterna e imutável. Mas a "ideia" cavalo é,
para ele, apenas um conceito
que nós homens formámos, depois de termos visto um determinado número de cavalos.
Para Aristóteles, a "forma"
cavalo consiste nas características do cavalo - diríamos hoje na "espécie" cavalo.
Vou precisar: pela "forma"
cavalo, Aristóteles designa
aquilo que é comum a todos os
cavalos. E neste caso, a
imagem da forma do biscoito
já não é válida, porque as
formas existem independentemente do biscoito particular.
Aristóteles não acreditava
que essas formas, por assim
dizer, existissem na sua própria prateleira na natureza.
Para Aristóteles, as "formas" residem nas próprias
coisas como qualidades específicas das coisas.
Aristóteles também não
concorda com Platão em que a
ideia "galinha" precede a galinha. Aquilo a que Aristóteles chama a "forma" galinha, reside na forma das qualidades específicas de cada
galinha - por exemplo, pôr
ovos. Assim, a galinha em si
e a "forma" galinha são tão
inseparáveis como a alma e o
corpo.

100
Com isto, dissemos basicamente quase tudo acerca da
crítica de Aristóteles à teoria das ideias de Platão.
Mas deves notar que estamos
a falar de uma viragem drástica no pensamento. Para
Platão, o grau máximo de realidade é o que pensamos com
a razão. Para Aristóteles,
é igualmente evidente que o
grau máximo de realidade é o
que percepcionamos ou sentimos com os sentidos. Segundo
Platão, aquilo que vemos à
nossa volta na natureza é
apenas reflexo de algo que
existe no mundo das ideias -
e consequentemente na alma do
homem. Aristóteles dizia
exactamente o contrário:
aquilo que está na alma do
homem é apenas reflexo dos
objectos da natureza. O mundo real é a natureza, segundo
Aristóteles, enquanto Platão fica preso a uma concepção mítica do mundo que confunde as representações do
homem com o mundo real.
Aristóteles aponta para o
facto de que nada existe na
consciência que não tenha
existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter dito
que não há nada na natureza
que não tenha existido primeiro no mundo das ideias.
Desta forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo Aristóteles. Ele explicara o cavalo particular
recorrendo à ideia "cavalo".
Que tipo de explicação é
esta, Sofia? Isto é, de
onde vem a ideia "cavalo"?
Existirá ainda um terceiro
cavalo - do qual a ideia
"cavalo" é por sua vez apenas
uma cópia?
Aristóteles defendia que
tudo o que temos em pensamentos e em ideias chegou à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Mas
também temos uma razão inata.
Temos uma faculdade inata de
ordenar todas as impressões
sensíveis em diferentes grupos e classes. Assim nascem
conceitos como "pedra",
"planta", "animal" e "homem".
Assim surgem os conceitos
"cavalo", "lagosta" e "canário".
Aristóteles não negava que
o homem tivesse uma razão
inata. Muito pelo contrário:
para Aristóteles, a razão é
precisamente a característica
mais importante do homem.
Mas a nossa razão está completamente "vazia" enquanto
não sentirmos nada. Logo, um
homem não possui "ideias"
inatas.

"As formas são as
qualidades das coisas"

Após ter esclarecido a sua
posição em relação à teoria
das ideias de Platão, Aristóteles afirma que a realidade é constituída por diversas
coisas particulares que apresentam uma unidade de "forma"
e "matéria". A "matéria" é
aquilo a partir do qual a
coisa é feita, enquanto a
"forma" caracteriza as qualidades particulares das coisas. Uma galinha esvoaça à
tua frente, Sofia. A "forma" da galinha é precisamente
o esvoaçar

101
- assim como cacarejar e pôr
ovos. Pela "forma" da galinha são portanto designadas
as qualidades particulares da
sua espécie - ou aquilo que
a galinha faz. Quando a galinha morre e deixa de cacarejar, a "forma" da galinha
também deixa de existir. A
única coisa que permanece é a
"matéria" da galinha (é bastante triste, Sofia!>); mas
já não é uma galinha.
Como já afirmei, Aristóteles estava interessado nas
transformações da natureza.
Na matéria há sempre uma
possibilidade de se atingir
uma determinada forma. Podemos dizer que a matéria se
esforça por realizar uma possibilidade em si inerente.
Cada mudança na natureza é
para Aristóteles uma transformação da matéria da "possibilidade" para a "realidade".
Eu vou explicar isto, Sofia. Vou contar uma história
cómica. Era uma vez um escultor que estava a trabalhar
num enorme bloco de granito.
Todos os dias esculpia e talhava a pedra informe, e certo dia recebeu a visita de um
jovem. - O que é que procuras? - perguntou o jovem. -
Espera - disse o escultor.
Passados alguns dias, o rapaz voltou e nessa altura, o
escultor tinha esculpido um
belo cavalo a partir do bloco
de granito. O rapaz fixou
emudecido o cavalo. Em seguida, voltou-se para o escultor e perguntou: - Como
é que sabias que isso estava
ali?
Sim, como é que ele podia
saber? De certo modo, o escultor tinha visto a forma do
cavalo no bloco de granito,
porque nesse bloco de granito
estava inerente a possibilidade de se tornar cavalo.
Aristóteles achava que em
todas as coisas da natureza
está inerente uma possibilidade de realizar uma forma
determinada.
Voltemos à questão da galinha e do ovo. Num ovo de
galinha está inerente a possibilidade de se tornar galinha. Isto não significa que
todos os ovos de galinha se
tornem galinhas - inclusivamente há alguns que vão parar
à mesa do pequeno-almoço, sob
a forma de ovo estrelado,
omeleta ou ovo mexido, sem
realizarem a forma inerente
ao ovo. Mas também é óbvio
que um ovo de galinha nunca
se pode converter em ganso.
Esta possibilidade não reside no ovo de galinha. A forma de uma coisa indica tanto
as suas possibilidades como
as suas limitações.
Quando Aristóteles fala
de forma e de matéria não
está a pensar apenas em organismos vivos. Tal como a
"forma" da galinha é cacarejar, bater com as asas e pôr
ovos, a "forma" da pedra é
cair ao chão. Tal como a galinha não pode evitar cacarejar, também a pedra não pode
evitar cair ao chão. Obviamente, podes levantar uma pedra e lançá-la ao ar, mas
como a natureza da pedra é
cair ao chão, não a podes
lançar para a lua. (Se fizeres esta experiência, deves
ser um

102
pouco cautelosa, porque a pedra pode facilmente vingar-se. Ela quer regressar à
terra tão rapidamente quanto
possível - e ai daquele que
estiver no seu caminho!>).

"A causa final"

Antes de deixarmos este
género de considerações, segundo as quais todas as coisas animadas e inanimadas têm
uma forma que diz algo acerca
da sua potencialidade, devo
ainda acrescentar que Aristóteles tinha uma visão bastante importante sobre as relações de causalidade na natureza.
Quando, no dia-a-dia, falamos de "causas" que provocam isto ou aquilo, referimo-nos ao modo como algo sucede. A janela parte-se porque o Pedro atirou uma pedra,
um sapato forma-se porque o sapateiro cose algumas
peças de couro. Mas Aristóteles achava que na natureza
havia vários tipos de causa.
É sobretudo importante compreender o que é que ele entendia por causa final.
No caso da janela partida
também é naturalmente oportuno perguntar porque é que
Pedro atirou a Pedra. Perguntamos também qual era a
sua intenção, qual era a sua
finalidade. Não podem subsistir dúvidas de que uma intenção ou um fim têm um papel
importante na produção de um
sapato. Mas Aristóteles
também tinha em vista a mesma
causa final em alguns processos físicos na natureza. Vamos ficar-nos por um exemplo:
Porque é que chove, Sofia? Com certeza já aprendeste na escola que chove
porque o vapor de água das
nuvens arrefece e se condensa
em gotas de água que caem no
solo devido à gravidade.
Aristóteles teria concordado, mas acrescentando que
apenas mencionaste três causas. A causa material é o
facto de o vapor de água actual (as nuvens>) estar presente quando o ar arrefeceu.
A "causa eficiente" é o facto de o vapor de água arrefecer, e a "causa formal" é o
facto de a "forma" ou natureza da água ser cair no solo.
Se não tivesses dito mais
nada, Aristóteles teria
acrescentado que chove porque
as plantas e os animais precisam da água da chuva para
crescerem. Era o que ele designava por "causa final".
Como vês, Aristóteles atribuiu às gotas de água uma espécie de finalidade vital ou
a "intenção".
Nós diríamos ao contrário:
as plantas crescem porque há
humidade. Percebes esta diferença, Sofia? Aristóteles
acreditava que em toda a natureza há uma finalidade.
Chove para que as plantas
cresçam, e as laranjas e as
uvas crescem para que os homens as comam.

103
Hoje, a ciência já não
pensa assim. Dizemos que a
alimentação e a humidade são
condições para que os homens
e os animais possam viver.
Sem estas condições, nós não
existiríamos. Mas não é intenção das laranjas ou da
água alimentarem-nos.
No que diz respeito à sua
teoria das causas, podemos
sentir-nos tentados a afirmar
que Aristóteles se enganou,
mas não nos vamos precipitar.
Muitos homens acham que
Deus criou o mundo para que
homens e animais pudessem viver nele. Perante este cenário, pode-se também afirmar
que a água corre nos rios
porque os homens e os animais
precisam de água para viver.
Mas, nesse caso, falamos do
fim ou da intenção de Deus.
Não são as gotas de chuva ou
a água dos rios que nos querem bem.

"Lógica"

A distinção entre "forma"
e "matéria" também tem um papel importante na descrição
que Aristóteles faz do modo
como o homem conhece os objectos na natureza.
Quando conhecemos algo,
ordenamos as coisas em classes ou grupos distintos. Eu
vejo um cavalo, depois vejo
mais um cavalo - e em seguida mais um. Os cavalos não
são totalmente idênticos mas
há algo que é comum a todos
os cavalos e aquilo que é comum a todos os cavalos é a
"forma" do cavalo. O que é
diferente ou individual pertence à "matéria" do cavalo.
Desta forma, os homens ordenam as coisas e colocam-nas
em locais distintos. Colocamos as vacas no curral, os
cavalos na cavalariça, os
porcos na pocilga e as galinhas no galinheiro. O mesmo
sucede quando Sofia Amundsen arruma o seu quarto. Põe
os livros na estante, mete os
livros da escola na pasta e
as revistas na gaveta da cómoda. Os vestidos são dobrados cuidadosamente - a roupa
interior numa prateleira, as
camisolas noutra e as meias
numa gaveta. Repara que fazemos o mesmo nas nossas cabeças: separamos coisas que
são feitas de pedra, de lã e
de borracha. Distinguimos as
coisas animadas das inanimadas, e subdividimos ulteriormente estas coisas em "plantas", "animais" e "homens".
Estás a compreender, Sofia? Aristóteles queria fazer uma arrumação profunda no
quarto da natureza. Procurou
provar que todas as coisas na
natureza pertencem a diversos
grupos e subgrupos. (Hermes
é um ser vivo, mais exactamente, um animal, mais exactamente, um vertebrado, mais
exactamente, um mamífero,
mais exactamente, um cão,
mais exactamente, um labrador, mais exactamente, um labrador macho>).

104
Vai ao teu quarto, Sofia.
Levanta um objecto qualquer
do chão. Seja o que for que
tu levantes, descobrirás que
aquilo em que tocas pertence
a uma ordem. No dia em que
vês algo que não consegues
classificar sofres um choque.
Se, por exemplo, descobrisses uma pequena coisa acerca
da qual não conseguias dizer
com segurança se pertence ao
reino vegetal, animal ou mineral, acho que não te atreverias a tocar-lhe.
Falei de reino vegetal,
reino animal e reino mineral.
Estou a pensar naquele jogo
em que um pobre diabo é enviado para o corredor enquanto
os outros imaginam algo que
ele deve adivinhar quando regressa à sala. Os outros decidem pensar no gato Tareco
que, nesse momento, está sentado no jardim. Em seguida,
o pobre jogador entra de novo
e começa a adivinhar. Os outros só podem responder "não"
ou "sim". Se o jogador é um
bom aristotélico - e nesse
caso não é de modo algum um
pobre diabo, a conversa pode
decorrer mais ou menos assim:
- É concreto? - (Sim!>)
- Pertence ao reino mineral? - (Não!>) - É animado? - (Sim!>) - Pertence ao reino vegetal? -
(Não!>) - É um animal? -
(Sim!>) - É um pássaro?
- (Não!>) - É um mamífero? - (Sim!>) - É todo o
animal? - (Sim!>) - É um
gato? - (Sim!>) - É o
Tareco? (Siiiiiim! Risos...>)
Foi portanto Aristóteles
quem descobriu este jogo.
Por seu lado, a Platão cabe
a honra de ter descoberto "às
escondidas no escuro". A
Demócrito já atribuímos a
honra de ter descoberto o
jogo do Lego.
Aristóteles foi um homem
meticuloso e metódico que
queria pôr em ordem os conceitos dos homens. Por isso,
foi ele quem fundou a "lógica" como ciência. Estabeleceu várias regras precisas
para determinar que conclusões ou que demonstrações são
válidas logicamente. Um
exemplo deve ser suficiente:
se eu afirmo primeiro que
"todos os seres vivos são
mortais" (1.a premissa>), e
afirmo em seguida que "Hermes é um ser vivo" (2.a
premissa>), posso deduzir a
conclusão: "Hermes é mortal>>.
O exemplo mostra que a lógica de Aristóteles trata da
relação entre termos, neste
caso "ser vivo" e "mortal".
Mesmo sendo forçoso admitir
que o silogismo dado é cem
por cento sustentável, temos
de reconhecer que ele não nos
diz propriamente nada de novo. Já sabíamos que Hermes
é "mortal". (Porque é um
cão, e todos os cães são "seres vivos" - logo, "mortais", ao contrário das pedras>). Sim, Sofia, já sabíamos isso. Mas nem sempre
a relação entre grupos ou
coisas nos parece tão evidente. Por vezes, pode ser necessário ordenar os nossos
termos.
Vou contentar-me com um
exemplo: será verdade que
crias de rato podem mamar
leite da mãe como sucede com
as ovelhas ou os porcos?
Isto parece muito estranho,
mas não nos podemos esquecer
de que os ratos não põem
ovos. (Quando é que eu vi
um ovo de rato ultimamente?>).

105
Mas dão à luz crias - tal
como os porcos ou as ovelhas.
Mas os animais que dão à luz
crias são chamados mamíferos
- e os mamíferos mamam o
leite das mães. Com isto,
atingimos o nosso objectivo.
Tínhamos a resposta dentro
de nós, mas foi preciso reflectir primeiro. De momento, tínhamo-nos esquecido de
que os ratos mamam realmente
leite das mães. Talvez seja
porque nunca vimos as crias
dos ratos a mamar, certamente
porque os ratos se envergonham um pouco à frente dos
homens quando têm de alimentar as suas crias.

"A escala da natureza"

Quando Aristóteles quer
"pôr ordem" na existência,
ele aponta primeiro para o
facto de que tudo o que há na
natureza pode ser dividido em
dois grupos principais. Por
um lado, temos as "coisas
inanimadas" - como pedras,
gotas de água e torrões de
terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade
de mudança. Essas coisas
inanimadas só se podem alterar, segundo Aristóteles,
por acção do exterior. Por
outro lado, temos as "coisas
animadas", nas quais é inerente a possibilidade de se
alterarem.
No que diz respeito às
coisas animadas, Aristóteles
salienta que devem ser divididas em 2 grupos - por um
lado o reino vegetal (ou
plantas>) e por outro os seres animados. Por fim, os
seres animados podem dividir-se em subgrupos - nomeadamente os "animais" e os
"homens".
Tens de admitir que esta
classificação, apesar da imprecisão em relação às plantas, é clara e compreensível.
Entre as coisas animadas e
não animadas existe uma diferença essencial. Também entre as plantas e os animais
existe uma diferença essencial, por exemplo, entre uma
rosa e um cavalo. E eu gostaria de pensar também que
existe uma diferença essencial entre um cavalo e um homem. Mas onde é que residem
exactamente essas diferenças?
Consegues responder a isto?
Infelizmente, não tenho
tempo para esperar que escrevas a resposta e a coloques
num envelope cor-de-rosa com
um torrão de açúcar, por isso
respondo eu mesmo imediatamente. Quando Aristóteles
classifica os fenómenos da
natureza em diferentes grupos, parte das qualidades das
coisas, ou, mais exactamente,
do que elas podem fazer ou do
que elas fazem.
Todos os seres vivos
(plantas, animais e homens>)
têm a faculdade de assimilar
a alimentação, de crescer e
de se multiplicar. Os homens
e os animais têm ainda a capacidade de sentir e de se
mover na natureza.

106
Todos os homens têm ainda a
faculdade de pensar - ou,
justamente, de ordenar as suas impressões sensíveis em
diferentes grupos e classes.
Deste modo, não há na natureza limites verdadeiramente definidos. Vemos uma passagem gradual de plantas mais
simples para plantas mais
complexas, de animais simples
para animais complexos. No
cimo desta escala está o homem - que, segundo Aristóteles, reúne toda a vida da
natureza. O homem cresce e
alimenta-se, tal como as
plantas, tem sensações e a
capacidade de se mover, tal
como os animais, mas além
disso tem uma característica
muito particular, que só o
homem possui: a capacidade de
pensar racionalmente.
Deste modo, o homem possui
uma centelha da razão divina,
Sofia. Sim, eu disse "divina". Em alguns passos,
Aristóteles explica que tem
de haver um Deus que deu
origem a todos os movimentos
da natureza. Deste modo,
Deus representa o vértice
absoluto na escala da natureza .
Aristóteles acreditava que
os movimentos das estrelas e
dos planetas regiam os movimentos aqui na terra. Mas
tinha de haver algo que movesse os corpos celestes. A
esse algo chamava Aristóteles "o primeiro motor" ou
Deus. O primeiro motor não
se move, mas é a primeira
causa dos movimentos dos corpos celestes e, consequentemente, de todos os movimentos
na natureza.

"Ética"

Regressemos ao homem, Sofia. A "forma" do homem é,
segundo Aristóteles, possuir
uma "alma vegetativa", uma
"alma sensitiva", como uma
"alma racional". E ele pergunta então: como é que o homem deve viver? De que é que
o homem precisa para viver
bem?
Posso responder em poucas
palavras: o homem só é feliz
quando pode desenvolver e
usar todas as suas faculdades
e capacidades.
Aristóteles acreditava em
três formas de se conseguir
uma vida feliz: a primeira
forma de vida tem a ver com o
desejo e o prazer do corpo.
A segunda como cidadão livre
e responsável. A terceira
como pesquisador e filósofo.
Aristóteles sublinha que
estas três formas se completam para que o homem possa
ter uma vida feliz. Ele recusava portanto qualquer tipo
de parcialidade. Se vivesse
hoje, talvez dissesse que um
homem que apenas cuida do seu
corpo vive tão parcialmente e
tão mal como aquele que apenas usa a cabeça. Ambos os
extremos são expressão de uma
conduta errada de vida.

107
No que diz respeito à relação com o próximo, Aristóteles também aconselha um
"meio termo". Não devemos
ser cobardes nem temerários,
mas corajosos. (Pouca coragem significa cobardia, demasiada coragem significa temeridade>). Também não devemos
ser avarentos nem esbanjadores, mas generosos. (Ser
pouco generoso é avareza, ser
muito generoso é esbanjamento>).
O mesmo é válido para a
alimentação. Comer pouco é
perigoso, mas comer muito
também é perigoso. A ética
de Platão e de Aristóteles
faz recordar a ciência médica
grega: só através da harmonia
e da moderação me torno um
homem feliz ou "harmonioso".

"Política"

A ideia de que o homem não
deve levar nada ao extremo,
na vida, está também patente
na visão aristotélica da sociedade. Aristóteles afirmava que o homem é um "ser social". Na sua opinião, sem a
sociedade à nossa volta não
somos verdadeiros homens. A
família e a cidade satisfazem
as necessidades vitais mais
básicas como a alimentação e
o calor, o casamento e a educação dos filhos. Todavia, a
forma mais elevada de comunidade humana só pode ser, para
Aristóteles, o Estado.
Com isto coloca-se a questão: como é que o Estado deveria ser organizado? (Ainda te recordas do Estado
platónico dos filósofos?>)
Aristóteles menciona várias
formas boas de governo. Uma
delas é a "monarquia" - significa que há um único chefe
supremo do Estado. Para que
esta forma de Estado seja
boa, não pode degenerar em
"tirania", caso em que um
único soberano governa o
Estado em seu próprio proveito. Uma outra forma boa
de Estado é a "aristocracia". A aristocracia é o governo de um grupo restrito de
indivíduos. Esta forma de
Estado tem de se precaver
para não degenerar numa oligarquia, um regime no qual
apenas são salvaguardados os
interesses de poucas pessoas.
Uma terceira forma de Estado é a "democracia". Mas
também esta forma de Estado
tem o seu lado contrário.
Uma democracia pode facilmente degenerar numa "oclocracia" que significa governo
da multidão. (Mesmo que
Hitler não se tivesse tornado chefe de Estado da Alemanha, muitos pequenos nazis
teriam podido estabelecer uma
terrível "oclocracia">).

"A concepção da mulher"

Finalmente, temos de dizer
algo acerca da opinião de
Aristóteles sobre a mulher.
Infelizmente, não era tão
animadora como a de Platão.

108
Aristóteles pensava que algo
faltava à mulher. Ela é um
"homem incompleto". Na reprodução, a mulher é passiva
e receptora, enquanto o homem
é activo e dador. Por isso,
segundo Aristóteles, a criança herdava apenas as características do homem. Todas
as características da criança
estavam contidas no sémen do
homem. A mulher é como o
terreno que recebe e conserva
a semente, enquanto o homem é
o próprio "semeador". Ou,
dito de uma forma verdadeiramente aristotélica: o homem
dá a "forma", a mulher dá a
"matéria". É surpreendente e
lamentável que um homem tão
perspicaz como Aristóteles
se pudesse enganar de tal
forma no que diz respeito à
relação entre os sexos. No
entanto, revelo duas coisas:
em primeiro lugar, Aristóteles não tinha muita experiência prática da vida das mulheres e das crianças; em segundo lugar mostra como nos
podemos enganar quando os homens detêm o poder absoluto
na filosofia e na ciência.
A concepção aristotélica
da mulher é particularmente
grave porque se tornou predominante durante a Idade Média, e não a de Platão.
Deste modo, também a Igreja
herdou uma concepção da mulher para a qual não há justificação nenhuma na Bíblia.
Jesus não era de modo algum
inimigo das mulheres!
Por agora não digo mais
nada! Mas continuarás a ter
notícias minhas.

Após ter lido duas vezes o
capítulo acerca de Aristóteles, Sofia meteu de novo
as folhas no envelope amarelo
e olhou ao seu redor. Viu
logo que estava tudo desarrumado. No chão, havia livros
e "dossiers". Do armário saíam peúgas e camisas, meias e
"jeans". Em cima da cadeira,
junto à escrivaninha, estavam
vestidos sujos, misturados.
Sofia sentiu um impulso
irresistível de "arrumar".
Em primeiro lugar, despejou
todas as gavetas do armário.
Pôs os vestidos no chão.
Era importante começar tudo
do princípio. Assim, deu-se
ao trabalho de dobrar cuidadosamente todas as peças de
vestuário, e de as colocar
nas prateleiras. No armário
havia sete prateleiras. Sofia reservou uma para as cuecas e para as camisolas, outra para meias e "collants" e
uma para calças. Deste modo
encheu por ordem todas as
prateleiras do armário. Nunca teve dúvidas sobre o lugar
de cada peça de roupa. As
coisas que deviam ser lavadas
colocou-as num saco de plástico que encontrara na prateleira do fundo.
Só uma única peça de roupa
lhe dava problemas. Era uma
meia branca comprida, normalíssima. O problema não era
apenas o facto de a segunda
meia faltar. A meia nunca
pertencera a Sofia.

109
Observou a meia branca durante alguns minutos. Não
havia nenhum nome escrito.
Mas Sofia tinha uma forte
suspeita de quem era a dona.
Atirou-a para a prateleira
mais alta juntamente com o
saco de peças de Lego, a
cassete de vídeo e o lenço de
seda vermelho.
Era a vez do chão. Sofia
separou livros e "dossiers",
revistas e cartazes - exactamente como o seu professor
de filosofia tinha descrito
no capítulo sobre Aristóteles. Quando o chão já estava
despachado, fez primeiro a
cama, e em seguida passou à
escrivaninha.
No fim de tudo, pôs as folhas sobre Aristóteles num
monte ordenado. Pegou num
"dossier" vazio e num furador, furou as folhas e juntou-as por ordem no "dossier". Colocou o "dossier"
no armário, junto à meia
branca. Mais tarde, iria à
toca buscar a caixa dos biscoitos.
A partir daí, devia haver
ordem nas coisas. Sofia não
pensava apenas nas coisas do
quarto. Depois de ter lido
acerca de Aristóteles sabia
que era igualmente importante
manter a ordem em conceitos e
ideias. Para estas questões,
tinha reservado a prateleira
especial no cimo do armário.
Era o único ponto do quarto
sobre o qual ela ainda não
tinha controlo total.
Há duas horas que não ouvia a mãe. Desceu ao rés-do-chão. Tinha de dar comida
aos animais antes que a mãe
acordasse.
Na cozinha, debruçou-se
para o aquário dos peixes
dourados. Um dos peixes era
negro, o segundo laranja e o
terceiro branco e vermelho.
Por isso os baptizara de
"Diabrete", "Caracolinho
Dourado" e "Capuchinho
Vermelho". Enquanto espalhava a comida para os peixes
dourados, ia dizendo:
- Vocês pertencem à parte
animada da natureza. Por
isso, conseguem assimilar o
alimento, podem crescer e podem multiplicar-se. Mais
precisamente, vocês pertencem
ao reino animal. Assim, podem movimentar-se e observar
o quarto. Para ser mais precisa, vocês são peixes, por
isso podem respirar com as
guelras e nadar de um lado
para o outro na água da vida.
Sofia fez girar a tampa da
caixa da comida dos peixes
dourados. Estava contente
com a classificação dos peixes dourados na ordem da natureza - e sobretudo com a
expressão "água da vida".
Agora era a vez dos periquitos. Sofia deitou comida nos
comedouros e disse:
- Queridos Tom e Jerry!
Vocês são hoje dois belos
periquitos porque se desenvolveram a partir de pequenos
ovos de periquito, e só porque a "forma" desses ovos era
tornarem-se periquitos vocês
não se tornaram papagaios
palradores.
Sofia foi ao quarto de banho grande, onde estava a indolente tartaruga numa grande
caixa. Quando a mãe de Sofia tomava duche,

110
gritava que um dia havia de
matar aquele animal. Mas até
então, tinha-se ficado por
essa mera ameaça. Sofia tirou uma folha de salada de um
frasco grande e colocou-a na
caixa.
- Querida Govinda - dizia - tu não pertences propriamente ao grupo dos animais mais velozes. Mas és um
animal que pode ter experiência de uma parte minúscula do
grande universo em que vivemos. Consola-te, porque não
és a única que não pode sair
da sua forma.
Sherekan devia estar lá
fora a caçar ratos, porque
essa era a natureza dos gatos. Sofia passou pela sala
de estar para ir ao quarto da
mãe. Na mesa havia um vaso
com narcisos. As flores amarelas pareceram inclinar-se
respeitosamente quando Sofia
passou. Sofia ficou algum
tempo parada e passou dois
dedos pelas corolas.
- Vocês também pertencem
à parte animada da natureza
- disse ela. Deste ponto de
vista, vocês têm um certo
privilégio em relação ao vaso
em que estão. Mas infelizmente, vocês não têm capacidade para o sentir.
Sofia entrou silenciosamente no quarto da mãe. Ela
dormia profundamente, mas
Sofia colocou-lhe uma mão
sobre a cabeça.
- Tu estás entre os mais
felizes de todos - disse. -
Porque não és apenas animada, como os lírios do campo.
E não és apenas um ser vivo,
como Sherekan ou Govinda.
És um ser humano, e por isso
possuis a rara faculdade de
pensar.
- O que estás para aí a
dizer, Sofia?
A mãe despertou mais depressa do que era habitual.
- Estou a dizer que pareces uma tartaruga preguiçosa.
De resto, posso informar-te
de que arrumei o meu quarto.
Pus mãos à obra com um cuidado filosófico.
A mãe sentou-se na cama.
- Eu já vou - disse. -
Podes preparar-me o café?
Sofia sabia fazer o café,
e pouco depois estavam as duas
na cozinha a tomar café, sumo
e cacau. Passado pouco tempo,
Sofia perguntou:
- Já alguma vez pensaste
porque é que vivemos?
- Ah, tu nunca desistes.
- Não, porque desta vez
sei a resposta. Neste planeta vivem homens para que alguém possa dar um nome a todas as coisas.
- Ah, sim? Nunca tinha
pensado nisso.
- Nesse caso tens um grave problema, porque o homem é
um ser racional. Se não pensas, não és um ser humano.
- Sofia!

111
- Imagina que aqui só viviam plantas e animais. Nesse caso, ninguém poderia distinguir "gatos" de "cães",
"lírios" de "arbustos". As
plantas e os animais também
vivem, mas só nós podemos
classificar a natureza em
grupos ou classes.
- Tu és realmente a filha
mais estranha que eu tenho -
disse então a mãe.
- Espero que sim - afirmou Sofia. - Todos os homens são mais ou menos estranhos. Eu sou um ser humano,
por isso sou um tanto ou
quanto estranha. Tu tens só
uma filha, por isso sou a
mais estranha.
- O que eu quis dizer foi
que tu me assustas com esta... conversa.
- Nesse caso, assustas-te
facilmente.
Um pouco mais à tarde,
Sofia regressou à toca.
Conseguiu levar a grande
caixa dos bolos para o quarto, às escondidas da mãe.
Primeiro, juntou todas as
folhas pela ordem correcta,
furou-as e colocou-as no
"dossier" antes do capítulo
sobre Aristóteles. Por fim,
escreveu no canto superior
direito de cada folha o número da página.
Já tinha mais de cinquenta
páginas. Sofia estava quase
a fazer o seu próprio livro
de filosofia. Não o escrevia, mas era escrito de propósito para ela.
Ainda não tivera tempo para pensar de modo algum nos
trabalhos de casa para segunda-feira. Talvez houvesse
teste de religião, mas o professor sempre dissera que,
para ele, o que importava
eram o empenho pessoal e a
reflexão individual. Sofia
tinha a sensação de começar a
ter uma certa preparação para
ambas as coisas.

112

O HELENISMO

.. uma centelha do fogo...

O professor de filosofia
enviava as suas cartas directamente para a sebe, mas, devido a um hábito antigo, na
manhã de segunda-feira, Sofia foi espreitar à caixa do
correio.
Estava vazia, e também não
seria de esperar outra coisa.
Começou a andar por Klõverveien.
De repente, viu no chão
uma fotografia. A fotografia
mostrava um jipe branco com
uma bandeira azul, onde estava escrito "ONU". Seria a
bandeira da ONU?
Sofia voltou a fotografia,
e só então reparou que se
tratava de um postal. Para
"Hilde Mõller Knag, a/c
de Sofia Amundsen...". O
postal tinha um selo norueguês, e o carimbo: Contingente ONU, sexta-feira,
15 de Junho de 1990.
15 de Junho! Era o aniversário de Sofia!
No postal estava escrito:

"Querida Hilde: imagino
que deves estar a festejar o
teu aniversário. Ou já passa
um dia? De qualquer modo,
não faz diferença para o teu
presente; desfrutarás dele
durante toda a tua vida.
Dou-te os parabéns mais uma
vez. Talvez compreendas agora porque é que mando o postal, para a Sofia. Tenho a
certeza de que ela to dará.

PS. A mãe contou-me que
perdeste a carteira. Prometo
reembolsar-te das 150 co-
roas. Receberás certamente
um novo cartão de estudante
na escola antes que ela feche
para o Verão.

Um abraço do pai"

Sofia ficou imóvel, como
colada ao asfalto. Quando é
que o último postal tinha
sido carimbado? Algo lhe dizia que o postal com a praia
tinha um carimbo de Junho -
se bem que ainda faltasse um
mês até lá. Não tinha fixado...

113
Olhou para o relógio e
correu de volta a casa. Nesse dia ia chegar atrasada.
Sofia abriu a porta e foi
apressadamente para o quarto.
Aí, debaixo do lenço de seda
vermelho encontrou o primeiro
postal dirigido a Hilde.
Sim - também tinha o carimbo do dia 15 de Junho, o
aniversário de Sofia e a
véspera das férias de Verão.
Enquanto corria para o supermercado, onde queria encontrar Jorunn, Sofia tinha
muitas perguntas na cabeça.
Quem era Hilde? Como é
que o pai dela achava evidente que Sofia a encontraria?
Não fazia sentido nenhum que
ele lhe enviasse os postais
em vez de os enviar directamente à filha. Era impensável que ele não soubesse o
endereço da filha. Seria tudo uma brincadeira? Quereria
fazer uma surpresa à filha no
seu dia de anos servindo-se
de uma rapariga totalmente
desconhecida como correio?
Seria por esse motivo que
Sofia tinha tido um mês de
antecedência? Servia-se dela
como intermediária porque o
presente de aniversário que
queria dar à filha consistia
numa nova amiga? Era esse o
presente de que "desfrutaria
durante toda a vida"?
Se esse estranho homem estava de facto no Líbano, como é que podia ter descoberto
o endereço de Sofia? Mas
não era tudo: Sofia e Hilde
tinham pelo menos duas coisas
em comum. Se Hilde também
fazia anos a 15 de Junho,
tinham nascido no mesmo dia.
E ambas tinham um pai que
viajava muito.
Sofia sentiu-se arrastada
para um mundo mágico. Afinal, talvez não fosse assim
tão estúpido acreditar no
destino. Mas ela não devia
tirar conclusões apressadas;
tudo aquilo podia ter uma explicação natural. Mas como é
que Alberto Knox podia ter
descoberto a carteira de
Hilde, se Hilde vivia em
Lillesand, que ficava a mais
de cem quilómetros de distância? E porque é que Sofia
encontrara aquele postal no
chão? Teria caído da mala do
carteiro, antes de ter chegado à caixa do correio de Sofia? Porque é que ele perdera precisamente aquele postal?
- Tu és completamente
doida! - exclamou Jorunn,
quando encontrou Sofia no
supermercado.
- Desculpa.
Jorunn fixou-a com um
olhar severo, como uma professora.
- Espero que tenhas uma
boa explicação.
- Tem a ver com a ONU
- respondeu Sofia. - Fui
retida no Líbano por uma milícia inimiga.
- Tu estás é apaixonada.
Correram para a escola tão
rapidamente quanto as suas
pernas lhes permitiram.

114
O teste de religião, para
o qual Sofia não tinha estudado, foi distribuído na terceira hora. Na folha estava
escrito:

Concepção da vida e tolerância

1. Faz uma lista daquilo
que um homem pode saber. Faz
depois uma lista daquilo em
que apenas podemos acreditar.
2. Indica alguns factores
que determinam a concepção de
vida para um homem.
3. O que é que entendemos
por consciência? Achas que é
igual para todos os homens?
4. O que é que se entende
por "prioridade de valores"?

Sofia reflectiu um bom bocado antes de começar a escrever. Poderia aproveitar
alguma coisa do que aprendera
com Alberto Knox? Tinha de
aproveitar, porque há muitos
dias que não olhava para o
livro de religião. Mal tinha
começado a escrever, as frases brotaram.
Sofia escreveu que podemos
saber que a Lua não é um
queijo e que no seu lado
oculto também há crateras,
que tanto Sócrates como Jesus foram condenados à morte,
que todos os homens têm de
morrer mais tarde ou mais cedo, que os grandes templos da
Acrópole foram construídos
cerca do ano 400 a.C. após
as guerras contra os Persas
e que o oráculo grego mais
famoso era o de Delfos. Como exemplos daquilo em que
podemos acreditar, Sofia escreveu que, nos outros planetas, há vida ou não, que
Deus existe ou não, que há
vida após a morte ou não, e
que Jesus era filho de Deus
ou apenas um homem inteligente.
"De qualquer modo, não podemos saber de onde vem o
mundo" escreveu ela, por fim.
"O universo pode ser comparado a um coelho gigantesco
que é retirado de uma grande
cartola. Os filósofos procuram subir para um dos pêlos
finos do coelho, para poderem
fixar nos olhos o grande ilusionista. Se eles o conseguirão algum dia é uma questão em aberto. Mas se um filósofo sobe para as costas de
outro, irão chegando progressivamente mais acima na delicada pelagem do coelho, e então, segundo a minha opinião
pessoal, existe a possibilidade de eles o conseguirem um
dia. PS. Na Bíblia, podemos ler sobre uma coisa que
pode ter sido um dos pêlos
finos na pelagem do coelho.
Esse pêlo é designado por
torre de Babel e foi totalmente destruída porque não
agradava ao ilusionista que
os homens fossem subindo ao
longo dos pêlos do coelho
branco que ele acabara de
criar."

115
Era a vez da pergunta seguinte. "Indica alguns factores que determinam a concepção de vida para um homem." A educação e o ambiente eram obviamente factores
importantes. Os homens que
viviam no tempo de Platão
tinham uma concepção de vida
diferente da dos homens de
hoje, simplesmente porque viviam num outro tempo e num
outro meio. De resto, as experiências adquiridas também
eram importantes. Mas a razão humana também é importante na determinação de uma
concepção de vida. A razão
não era determinada pelo
meio, era comum a todos os
homens. Talvez se pudesse
comparar o meio e as relações
sociais às condições presentes na caverna de Platão.
Por intermédio da razão, o
indivíduo pode tentar sair da
escuridão da caverna. Mas
essa viagem exige uma grande
dose de coragem pessoal. Sócrates era um bom exemplo de
um homem que, com o auxílio
da razão, se conseguiu libertar das concepções predominantes no seu tempo.
No fim, ela escreveu:
"Hoje em dia, homens de países e culturas diferentes têm
um contacto cada vez mais estreito entre si. Por isso,
no mesmo bloco residencial,
podem viver cristãos, muçulmanos e budistas. E nesse
caso é importante tolerar a
crença dos outros em vez de
se perguntar porque é que não
têm todos a mesma crença."
Sim, Sofia achou que com
aquilo que aprendera com o
seu professor de filosofia já
ia bastante longe. Podia
ainda usar uma parte de razão
inata e aquilo que ouvira ou
lera noutros contextos.
Começou a responder à terceira pergunta. "O que é que
entendemos por consciência?
Achas que é igual para todos
os homens?" Sobre isto, tinha-se discutido muito na
aula. Sofia escreveu:
"Consciência é a capacidade
dos homens para reagirem ao
que é justo e ao que é injusto. Segundo a minha opinião
pessoal, todos os homens têm
esta capacidade, ou seja, a
consciência é inata. Sócrates teria dito o mesmo. Mas
aquilo que a consciência diz
pode variar muito de homem
para homem. É necessário
pensar se os sofistas não estavam numa pista importante.
Eles achavam que o meio em
que cada indivíduo cresce,
determina aquilo que ele acha
ser correcto e aquilo que ele
acha ser errado. Sócrates,
pelo contrário, achava que a
consciência era igual em todos os homens. Talvez tivessem todos razão. Apesar de
nem todos os homens se envergonharem de andar nus, a
maior parte arrepende-se
quando trata mal outro homem.
Além disso, temos de sublinhar que uma coisa é ter uma
consciência e outra coisa é
usá-la. Em situações isoladas pode parecer que os homens agem de uma forma totalmente inconsciente, mas, segundo a minha opinião pessoal, também neles há uma
forma de consciência, mesmo
quando está bem escondida.

116
Pode também parecer que alguns homens não têm racionalidade, mas isso deve-se apenas ao facto de não a usarem.
PS. A razão e a consciência podem ser comparadas
a um músculo. Se não se usa
um músculo, ele vai-se tornando mais fraco e flácido."
Faltava apenas uma pergunta. "O que é que se entende
por "prioridade de valores"?
Sobre isto também tinham
discutido muito ultimamente.
Podia, por exemplo, ser importante andar de carro para
nos podermos deslocar depressa de um lugar para outro.
Mas se andar de carro provocasse a morte das florestas e
a poluição da natureza, estava-se perante uma "escolha de
valores". Após uma reflexão
profunda, Sofia achava ter
chegado à convicção de que
florestas saudáveis e uma natureza pura eram mais importantes do que a possibilidade
de chegar depressa ao trabalho. Deu mais exemplos. Por
fim, escreveu: "É minha opinião pessoal que a filosofia
é mais importante do que a
gramática inglesa. Por isso,
seria uma prioridade de valores sensata se a disciplina
de filosofia fosse admitida
no plano de estudos e o horário da aula de inglês fosse
reduzido."
No último intervalo, o
professor chamou Sofia à
parte.
- Já li o teu teste de religião - disse. - Estava
em cima do monte dos testes.
- Espero que tenha gostado.
- Era precisamente sobre
isso que queria falar contigo. Em muitos aspectos, deste respostas muito maduras.
Surpreendentemente maduras,
Sofia. E autónomas. Tinhas
feito os trabalhos de casa?
Sofia começou a torcer as
mãos.
- Mas tinha dito que as
reflexões pessoais são importantes para si.
- Há limites.
Sofia fixou o professor
nos olhos. Achava que o podia fazer depois de tudo o
que tinha vivido nos últimos
dias.
- Eu comecei a estudar
filosofia - afirmou. - É
um bom fundamento para opiniões autónomas.
- Mas não vai ser fácil
classificar o teu trabalho.
Na verdade, só te posso dar
um cinco ou um um.
- Porque respondi tudo
certo ou tudo errado? É isso
que quer dizer?
- Dou-te o cinco. Mas na
próxima vez tens de fazer os
trabalhos de casa.
À tarde, quando Sofia
chegou a casa, vinda da escola, atirou a pasta para a escada e foi imediatamente para
a toca.

117
Havia um envelope amarelo
sobre as raízes grossas. As
bordas estavam quase secas,
portanto Hermes devia ter
estado ali há um bom bocado.
Sofia levou o envelope
consigo e entrou em casa.
Primeiro, deu comida aos
animais e depois foi para o
quarto. Deitou-se na cama,
abriu a carta de Alberto e
leu.

117
O Helenismo

Que bom ver-te, Sofia!
Já te falei dos filósofos da
natureza, Sócrates, Platão
e Aristóteles, e assim conheces o fundamento da filosofia europeia. A partir de
agora, as tarefas de reflexão
que recebeste até hoje em envelopes brancos já não são
importantes. Imagino que tenhas bastantes trabalhos e
testes na escola.
Vou falar-te do extenso
período entre Aristóteles,
no final do século IV antes
de Cristo, e o início da
Idade Média, cerca do ano
400 depois de Cristo. Sabes que escrevemos "antes" e
"depois de Cristo", precisamente porque o cristianismo é
um dos elementos mais importantes e mais singulares deste período.
Aristóteles morreu no ano
322 antes de Cristo e, entretanto, Atenas tinha perdido a sua hegemonia. Isso
deve-se em grande parte às
profundas transformações políticas resultantes das conquistas de "Alexandre Magno" (356-323 a.C>).
Alexandre Magno era rei
da Macedónia. Aristóteles
também vinha da Macedónia, e
durante algum tempo chegou
mesmo a ser professor do jovem Alexandre. Alexandre
alcançou a última e decisiva
vitória sobre os persas e,
através das suas inúmeras
campanhas, criou um império
vastíssimo que compreendia a
Grécia, o Egipto, a Pérsia
e se estendia até à Índia.
Começa então uma época nova na história da humanidade,
caracterizada pelo desenvolvimento de uma comunidade internacional em que a cultura
e a língua gregas desempenham
um papel dominante. Este período, que durou cerca de
três séculos, é denominado
"Helenismo", termo que designa tanto um período histórico como a supremacia da
cultura grega nos três grandes reinos helenísticos - a
Macedónia, a Síria e o
Egipto.
A partir do ano 50 antes
de Cristo, Roma assumiu a
hegemonia política e militar.
A nova potência conquistou,
uns a seguir aos outros, todos os reinos helenísticos e,
a partir de então, a cultura
romana e a língua latina dominaram desde a Espanha, a
ocidente, até ao interior da
Ásia. Começa então o período romano também designado
por "Antiguidade tardia".

Mas deves reparar numa coisa: antes de os Romanos

118
conquistarem o mundo helenístico, Roma tinha-se tornado
uma província cultural grega.
Deste modo, a cultura grega
- e a filosofia grega - teriam ainda um papel importante depois do declínio político da Grécia.

"Religião, filosofia e ciência"

O Helenismo foi marcado
pelo desaparecimento das
fronteiras entre os diversos
países e culturas. Anteriormente, Gregos, Romanos e
Egípcios, Babilónios, Sírios e Persas tinham venerado os seus deuses dentro do
que geralmente chamamos uma
"religião nacional". Nesta
fase as diversas culturas
misturaram-se e fundiram-se
num grande caldeirão que continha ideias religiosas, filosóficas e científicas de
todo o tipo.
Podemos dizer que a ágora
urbana foi substituída pela
arena mundial. Também a ágora antiga foi animada por vozes que ofereciam as suas diversas mercadorias, e diferentes pensamentos e ideias.
A novidade era que as ágoras
eram agora invadidas por mercadorias e ideias de todo o
mundo. Por isso, as vozes
soavam em diversas línguas
diferentes.
Já referimos que as concepções gregas se difundiram
muito para além dos antigos
territórios gregos. A partir
de então, deuses orientais
eram também adorados em toda
a região do Mediterrâneo.
Nasceram várias religiões
novas cujos deuses e concepções religiosas provinham de
diversas culturas antigas.
Este fenómeno é designado
por fusão de religiões ou
"sincretismo".
Anteriormente, os homens
sentiam-se vinculados ao seu
próprio povo e à sua própria
cidade-estado. Como essas
fronteiras e divisões eram
cada vez mais postas de parte, muitos sentiram dúvidas e
insegurança em relação à sua
concepção de vida. A Antiguidade tardia foi marcada,
em geral, pelas dúvidas religiosas, pela desagregação
cultural e pelo pessimismo.
"O mundo está velho", dizia-
-se.
As novas religiões que
surgiram então tinham duas
características em comum:
fundavam-se em doutrinas que
aspiravam a libertar os homens da angústia da morte;
além disso, muitas destas
doutrinas eram secretas. Seguindo os seus preceitos e
participando em determinados
rituais, o homem podia esperar obter a imortalidade da
alma e uma vida eterna. O
conhecimento acerca da verdadeira natureza do universo
podia ser tão importante para
a salvação da alma como os
rituais.
Eram as novas religiões,
Sofia. A filosofia caminhava também no sentido da "salvação" e da serenidade no que
diz respeito à vida. A visão
filosófica não tinha apenas
um valor em si mesma, como
ainda devia libertar os homens da angústia da morte e
do pessimismo. Desta forma,
apagaram-se os limites entre
a religião e a filosofia.

119
De um modo geral, podemos
dizer que a filosofia do Helenismo não foi particularmente original. Não apareceu
nenhum outro Platão ou
Aristóteles. Em vez disso,
os três grandes filósofos
atenienses tornaram-se uma
importante fonte de inspiração para diversas correntes
filosóficas, das quais vou
falar sucintamente.
"A ciência" do Helenismo
também estava influenciada
pela mistura de diversas experiências culturais. A cidade de Alexandria, no
Egipto, tinha um papel chave
como ponto de encontro do
Oriente e do Ocidente. Enquanto Atenas continuava a
ser a capital da filosofia,
com as escolas filosóficas
deixadas por Platão e Aristóteles, Alexandria tornou-se a metrópole da ciência.
Com a sua grande biblioteca,
esta cidade passou a ser o
centro dos estudos de matemática, astronomia, biologia e
medicina.
A cultura helenística pode
ser comparada com o mundo de
hoje. O século XX também é
caracterizado por uma comunidade internacional cada vez
mais aberta, que provocou no
nosso tempo grandes transformações na religião e na concepção de vida. Tal como, no
início da nossa era, podíamos
encontrar em Roma concepções
religiosas gregas, egípcias e
orientais, no final do século
XX podemos encontrar em todas as cidades europeias de
uma determinada extensão concepções religiosas de todas
as partes do mundo.
No nosso tempo, vemos que
uma mistura de religião, filosofia e ciência antigas e
novas pode constituir a base
para novas ofertas no "mercado das concepções do mundo".
Muito deste "novo saber"
é, na realidade, uma herança
antiga cujas raízes remontam
ao Helenismo.
Como já foi mencionado, a
filosofia helenística continuou a ocupar-se dos problemas que tinham sido levantados por Sócrates, Platão e
Aristóteles. Todos desejavam estabelecer como é que o
homem deve viver e morrer da
melhor forma. Deste modo, a
"ética" foi colocada na ordem
do dia. Tornou-se o projecto
filosófico mais importante da
nova comunidade internacional. A questão era esta: em
que consiste a verdadeira felicidade e de que modo pode
ser alcançada?
Vamos analisar quatro dessas correntes filosóficas.

"Os cínicos"

Conta-se que Sócrates parou certo dia em frente de
uma banca onde estavam expostas muitas mercadorias. Por
fim, exclamou: "Vejam só de
quantas coisas os Atenienses
precisam para viver!". Com
isto, queria obviamente dizer
que ele não precisava dessas
coisas.

120
A "filosofia cínica", que
foi fundada por "Antístenes"
cerca do ano 400 a.C. em
Atenas, parte desta atitude
de Sócrates. Antístenes tinha sido discípulo de Sócrates.
Os "cínicos" defendiam que
a verdadeira felicidade não
dependia de coisas exteriores, como o luxo material, o
poder político e uma boa saúde. A verdadeira felicidade
significava não se tornar dependente dessas coisas casuais e efémeras. Precisamente por não repousar sobre
essas coisas, a felicidade
podia ser alcançada por todos. E uma vez alcançada não
se podia voltar a perder.
O cínico mais conhecido
era "Diógenes", um discípulo
de Antístenes. Conta-se que
morava num tonel e que só
possuía um manto, um bastão e
um saco para o pão. (Não
era fácil roubar-lhe a sua
felicidade!>). Certo dia,
estava a tomar um banho de
sol à frente do seu tonel
quando Alexandre Magno o
visitou. Alexandre apresentou-se ao sábio e disse-lhe
que lhe daria o que ele desejasse. Diógenes pediu a
Alexandre que não lhe tapasse o sol. Foi assim que
Diógenes demonstrou que era
mais rico e mais feliz do que
o grande homem. Tinha tudo o
que desejava.
Segundo os cínicos, o homem não se deve preocupar com
a sua saúde, com a dor e com
a morte. Também não se devia
atormentar com a dor dos outros. Hoje, os termos "cínico" e "cinismo" exprimem quase sempre a impassibilidade
perante o sofrimento dos outros.

"Os estóicos"

Os cínicos foram muito importantes para o desenvolvimento da "filosofia estóica"
que surgiu em Atenas cerca
do ano 300 a.C.. O seu
fundador, "Zenão", era
oriundo de Chipre mas juntou-se aos cínicos de Atenas
após um naufrágio. Reunia os
seus ouvintes num pórtico. O
nome estóico vem do termo
grego que designa "pórtico"
("stoa">). O estoicismo
iria adquirir posteriormente
uma grande importância para a
cultura romana.
Tal como Heraclito, os
estóicos achavam que todos os
homens participavam da mesma
razão universal - ou do mesmo "logos". Para eles, cada
homem era um mundo em miniatura, um "microcosmos" que
reflectia o "macrocosmos".
Esta teoria levou à convicção de um direito universalmente válido, o direito
natural. O direito natural
baseia-se na razão intemporal
do homem e do universo, por
isso não se altera no tempo e
no espaço. Neste aspecto, os
estóicos tomavam o partido de
Sócrates contra os sofistas.

121
O direito natural é válido
para todos os homens, inclusivamente para os escravos.
As leis dos diversos Estados eram para os estóicos cópias imperfeitas de um direito que se baseava na própria
natureza.
Assim como os estóicos
aboliam a diferença entre o
indivíduo e o universo, também contestavam uma oposição
entre "espírito" e "matéria".
Segundo eles, há apenas uma
natureza. Esta concepção é
denominada "monismo" (ao
contrário, por exemplo, do
claro dualismo de Platão, a
bipolarização da realidade>).
Como verdadeiros filhos do
seu tempo, os estóicos eram
cosmopolitas. Estavam portanto mais abertos à cultura
contemporânea do que os "filósofos do tonel" (os cínicos>). Segundo eles, a comunidade dos homens devia interessar-se por política, e
muitos estóicos foram estadistas activos, como, por
exemplo, o imperador romano
"Marco Aurélio" (121-180
d.C.>). Contribuíram para
que a cultura e a filosofia
gregas fossem difundidas em
Roma sobretudo graças ao
orador, filósofo e político
"Cícero" (106-43 a.C.>),
que criou o conceito de "humanismo", ou seja, uma concepção do mundo que tem o indivíduo como centro. O estóico "Séneca" (4 a.C.-65 d.C.>) disse alguns
anos mais tarde que o homem
era sagrado para o homem,
afirmação que se tornaria o
mote de todo o humanismo.
Além disso, os estóicos
sublinharam que todos os processos naturais - por exemplo, a vida e a morte - seguiam as leis constantes da
natureza. Por isso, o homem
tem de se reconciliar com o
seu destino. Segundo eles,
nada acontece por acaso.
Tudo acontece por necessidade, e de pouco serve lamentarmo-nos quando o destino
nos bate à porta. Mesmo as
situações felizes da vida devem ser aceites com uma grande serenidade. Esta posição
é semelhante à dos cínicos,
para quem todas as coisas exteriores do mundo eram indiferentes. Ainda hoje falamos
de uma "serenidade estóica",
quando alguém não se deixa
arrebatar pelos seus sentimentos.

"Os epicuristas"

Como vimos, Sócrates queria descobrir como é que o
homem pode viver uma vida feliz. Cínicos e estóicos
afirmavam que o homem se devia libertar do luxo material. Mas Sócrates teve
também um discípulo que se
chamava "Aristipo". Para
Aristipo, a finalidade da
vida era obter o máximo prazer sensível. O supremo bem
era o prazer, e o grande mal
era a dor. Por isso, queria
desenvolver uma arte de viver
que evitasse todas as formas
de dor. (O objectivo que
norteava os cínicos e os estóicos era suportar todas as

122
formas de dor, algo bem diferente de procurar evitá-la
intencionalmente>).
Cerca do ano 300 a.C.,
"Epicuro" (341-270 a.
C.>) fundou em Atenas uma
escola de filosofia. Desenvolveu a ética do prazer de
Aristipo e combinou-a com a
teoria atomista de "Demócrito".
Segundo se diz, os epicuristas reuniam-se num jardim.
Por isso, foram também designados "filósofos do jardim". Por cima do portão do
jardim diz-se que estaria escrito: "Estranho, aqui serás
feliz. Aqui, o prazer é o
bem supremo."
Epicuro esclareceu que o
resultado agradável de uma
acção tem de ser sempre confrontado com os seus eventuais efeitos secundários.
Se alguma vez comeste chocolate a mais, percebes o que
eu quero dizer. Caso o não
tenhas feito, proponho-te o
seguinte trabalho de casa:
pega no teu mealheiro e compra cem coroas de chocolate.
(Suponho que gostas de chocolate.>) Nesta tarefa, o
importante é comeres todo o
chocolate de uma vez. Cerca
de meia hora depois de teres
comido esse excelente chocolate, compreenderás o que é
que Epicuro queria dizer com
"efeitos secundários".
Epicuro pretendia confrontar um resultado agradável a
curto prazo com um prazer
maior, mais duradouro ou intenso a longo prazo. (Podemos, por exemplo, imaginar
que decides não comer chocolate durante um ano porque
preferes poupar todo o teu
dinheiro para uma bicicleta
nova ou para uma viagem ao
estrangeiro.>) Ao contrário
dos animais, o homem tem a
possibilidade de planear a
sua vida, tem a capacidade de
fazer um "cálculo dos prazeres". O chocolate é naturalmente um valor, mas a bicicleta e a viagem para Inglaterra também o são.
Mas Epicuro também sublinhava que "prazer" não era
necessariamente o mesmo que
prazer físico - por exemplo,
chocolate. Também a amizade
e a contemplação de uma obra
de arte podem ser agradáveis.
Uma condição para a fruição
da vida são também antigos
ideais gregos como o autodomínio, a temperança e a serenidade, porque a concupiscência tem de ser refreada.
Deste modo, a serenidade
também nos ajudará a suportar
a dor.
Os frequentadores do jardim de Epicuro, eram sobretudo homens atormentados com
angústias de natureza religiosa. Neste sentido, a teoria atomista de Demócrito
era um remédio útil contra a
religião e a superstição.
Para termos uma vida feliz,
é bastante importante superarmos o medo da morte. Nesta questão, Epicuro recorre
à teoria de Demócrito sobre
os "átomos da alma". Talvez
te lembres que Demócrito não
acreditava na vida além da
morte porque os "átomos da
alma" se dispersavam em todas
as direcções.

123
"Porque é que haveríamos
de ter medo da morte?", perguntava Epicuro. Porque enquanto existimos, a morte não
está aqui, e logo que ela
vem, nós não existimos."
(Com efeito, nunca um homem
se afligiu por estar morto>).
O próprio Epicuro resumia
a sua filosofia libertadora
através daquilo "a que chamou
o remédio quádruplo:
Não precisamos de temer os
deuses. Não precisamos de
nos preocupar com a morte. É
fácil atingir o bem. O mal
suporta-se facilmente".
Na Grécia, não era uma
novidade comparar a tarefa do
filósofo à do médico. Segundo Epicuro, o homem deve munir-se de uma "farmácia portátil filosófica" que, como
dissemos, contém quatro medicamentos importantes.
Ao contrário dos estóicos,
os epicuristas interessavam-se pouco por política e pela
sociedade. "Vive escondido!"
era o conselho de Epicuro.
Podemos talvez comparar o
seu jardim com o modo de viver de algumas comunidades de
hoje. Também no nosso tempo
muitos procuram um lugar onde
se possam refugiar para fugir
à sociedade.
Após a morte de Epicuro,
muitos epicuristas orientaram-se apenas no sentido de
uma busca constante de prazeres. O seu mote passou a
ser: "vive o momento!". O
termo "epicurista" é hoje
aplicado pejorativamente a
uma pessoa que vive apenas
para o prazer.

"O neoplatonismo"

Vimos que cínicos, estóicos e epicuristas se baseavam
na doutrina de Sócrates.
Além disso, recorriam aos
pré-socráticos Demócrito e
Heraclito. Por seu lado, a
mais notável corrente filosófica da Antiguidade tardia
inspirava-se sobretudo na
teoria das ideias de Platão,
sendo por isso, designada por
"neoplatonismo".
O neoplatónico mais importante foi "Plotino" (cerca
de 205-270 d.C.>), que
estudou filosofia em Alexandria, e se transferiu posteriormente para Roma. Devemos notar que ele vinha de
Alexandria, cidade que era
já há muitos séculos o grande
ponto de encontro da filosofia grega e da mística oriental. Plotino levou consigo
para Roma uma doutrina de
salvação que se tornaria uma
séria concorrente do cristianismo que começava a afirmar-se. Mas o neoplatonismo
também haveria de exercer uma
forte influência na teologia
cristã.

124
Lembras-te da teoria das
ideias de Platão, Sofia?
Sabes que ele distinguia o
mundo inteligível do mundo
sensível. Desse modo, também
distinguia claramente a alma
do homem do seu corpo. Assim,
o homem tornou-se um ser duplo: segundo Platão o nosso
corpo é constituído por terra
e pó, tal como todas as outras coisas que pertencem ao
mundo sensível, mas possuímos
também uma alma imortal.
Esta concepção já estava difundida na Grécia muito antes de Platão. Plotino estava também familiarizado com
concepções asiáticas semelhantes.
Plotino via o mundo separado em dois pólos. Num extremo está a luz divina, que
ele designava por "Uno".
Por vezes, chamava-lhe também
"Deus". No outro extremo
reina a escuridão total que a
luz do Uno não alcança. Mas
para Plotino, essa escuridão
não existe de facto. É apenas uma ausência de luz -
sim, não é. A única coisa
que existe é Deus ou o Uno,
mas tal como uma fonte luminosa se perde progressivamente na escuridão, também há um
limite para o alcance dos
raios divinos.
Para Plotino, a luz do
Uno ilumina a alma, ao passo
que a matéria é a escuridão
que na realidade não existe.
Mas as formas da natureza
também possuem um fraco reflexo do Uno.
Imagina uma enorme fogueira que arde de noite, Sofia.
Do fogo jorram centelhas em
todas as direcções. Em redor
da fogueira a noite fica iluminada, e a alguns quilómetros de distância ainda se
pode ver um débil clarão. Se
nos afastarmos ainda mais,
vemos um minúsculo ponto luminoso, como uma lanterna à
noite. E se nos afastarmos
ainda mais da fogueira, deixamos de ver a luz. Os raios
luminosos perdem-se algures
na noite, e quando está totalmente escuro, não vemos
nada. Nessa altura, não há
sombras nem contornos.
Imagina agora a realidade
como se fosse esse fogo. O
que arde é Deus - e a escuridão exterior é a matéria
gelada de que homens e animais são feitos. Junto de
Deus estão as ideias eternas
que são os arquétipos de todas as criaturas. A alma humana é sobretudo uma "centelha do fogo". Mas em toda a
natureza brilha um pouco dessa luz divina. Podemos vê-la
em todos os seres vivos, inclusivamente uma rosa ou um
jacinto têm esse reflexo divino. A terra, a água e as
pedras são os seres mais afastados de Deus.
Em tudo o que vemos há algo do mistério divino. Vemos
que ele cintila num girassol
ou numa papoila. Temos uma
ideia mais clara desse mistério impenetrável numa borboleta que levanta voo de um
ramo - ou num peixe dourado
que nada no seu aquário. Mas
estamos mais próximos de
Deus na nossa própria alma.
Só aí podemos unir-nos ao
grande mistério da vida. Em
momentos raros podemos sentir
que nós mesmos somos esse
mistério divino.

125
As imagens que Plotino
usa fazem-nos recordar a alegoria da caverna de Platão.
Quanto mais nos aproximamos
da entrada da caverna mais
nos aproximamos da origem de
tudo o que existe. Mas, ao
contrário da clara bipartição
da realidade em Platão, o
pensamento de Plotino denota
uma experiência do todo. Tudo é Uno - porque tudo é
Deus. Mesmo as sombras na
caverna de Platão são um
fraco reflexo do Uno.
Plotino experimentou algumas vezes no decurso da sua
vida a fusão da sua alma com
Deus. Damos a isso o nome
de "experiência mística".
Plotino não era o único a
ter essas experiências, que
foram relatadas por homens de
todos os tempos e culturas.
Podem descrever a sua experiência de um modo completamente diferente, mas as suas
descrições apresentam muitas
semelhanças importantes. Vamos analisar algumas dessas
semelhanças.

"Misticismo"

Uma experiência mística é
uma experiência de unidade
com Deus ou com o "mundo espiritual". Muitas religiões
afirmam que entre Deus e a
Criação há um abismo; mas o
místico sente que esse abismo
não existe. Os místicos e as
místicas sentem uma "fusão
com Deus".
Sucede que aquilo a que
geralmente chamamos "eu" não
é o nosso verdadeiro eu. Por
breves momentos, podemos ter
a experiência de uma identificação com um eu maior. Alguns chamam-lhe Deus, outros
"mundo espiritual", "natureza
absoluta" ou "universo". Na
fusão, o místico sente que
"se perde a si mesmo", desaparece ou perde-se em Deus,
tal como uma gota de água "se
perde" quando se mistura no
oceano. Um místico indiano
disse outrora o seguinte:
"Quando eu existia, Deus
não existia. Agora, Deus
existe e eu já não existo."
O místico cristão "Angelus
Silesius" (1624-1677>)
afirmou: "A gota torna-se
oceano quando atinge o oceano, a alma torna-se Deus
quando alcança Deus."
Talvez estejas a pensar
que não é muito agradável "a
ideia de se perder a si mesmo". Compreendo o que pensas, Sofia, mas o importante
é que aquilo que tu perdes é
inferior em relação ao que
ganhas. Perdeste quanto à
forma que possuis de momento,
mas ao mesmo tempo compreendes que na realidade és algo
infinitamente maior. És todo
o universo. És a alma do
mundo, Sofia. És Deus. Se
tens de renunciar a ti mesma
como Sofia Amundsen, podes
consolar-te com a ideia de
que um dia perderás o teu "eu
quotidiano". O teu verdadeiro eu - que só podes descobrir quando consegues libertar-te a ti mesma - é, para
os místicos, um fogo maravilhoso que arde eternamente.

126
Mas uma experiência mística deste género nem sempre
vem por si mesma. Muitas vezes, o místico tem de percorrer uma via de purificação e
de iluminação para poder encontrar Deus. Essa via consiste numa vida simples e na
meditação. De repente, o
místico atinge então a sua
meta e pode exclamar: "eu sou
Deus" ou "Eu sou Tu!".
Encontramos em todas as
grandes religiões correntes
místicas, e aquilo que os
místicos escrevem sobre a sua
experiência mística revela
notáveis semelhanças, apesar
das diferenças culturais. Só
quando o místico tenta dar
uma interpretação religiosa
ou filosófica à sua experiência mística é que o ambiente
cultural se torna manifesto.
Na "mística ocidental" -
ou seja, no judaísmo, no
cristianismo e no islamismo
- o místico afirma sentir o
encontro com um Deus pessoal. Apesar de Deus estar
presente na natureza e na alma humana, está além deste
mundo. Na "mística oriental"
- ou seja, no hinduísmo, no
budismo e na religião chinesa
- o místico experimenta uma
fusão total com Deus ou com
a "alma do mundo". "Eu sou a
alma do mundo", poderá dizer
o místico, ou "eu sou Deus".
Porque Deus não só está
presente no mundo, como não
está em qualquer outro lugar.
Antes de Platão, havia
fortes correntes místicas,
sobretudo na Índia. "Swami
Vivekananda", que contribuiu
para a difusão do hinduísmo
no Ocidente, afirmou: "Tal
como certas religiões do mundo afirmam que um homem que
não acredita num Deus pessoal transcendente é ateu,
nós afirmamos que um homem
que não acredita em si mesmo
é ateu. Não acreditar na
grandeza da própria alma é
aquilo que chamamos ateísmo."
Uma experiência mística
também pode ser importante do
ponto de vista da ética. Um
presidente da Índia, "Radhakrishnan", afirmou um dia:
"Deves amar o teu próximo
como a ti mesmo, porque tu és
o teu próximo. Só uma ilusão
te leva a pensar que o teu
próximo é um outro em relação
a ti mesmo."
Homens que não pertençam a
nenhuma religião também podem
relatar experiências místicas. De repente, vivem algo
a que chamam "consciência
cósmica" ou "sentimento oceânico". Sentem-se arrancados
ao tempo e vêem o mundo "do
ponto de vista da perspectiva
da eternidade".

Sofia sentou-se na cama.
Tinha de verificar se ainda
possuía corpo. Ao ler sobre
Plotino e os místicos, tivera a sensação de flutuar pelo
quarto, sair pela janela e
sobrevoar a cidade. Vira todas as pessoas em baixo, na
praça, voara mais alto sobre
o mar do Norte e a Europa
até ao Sara e às extensas
savanas de África.

127
Todo o globo terrestre se
tornara um ser vivo e esse
ser era Sofia. "Eu sou o
mundo", pensava ela. Todo o
universo, que tantas vezes
lhe parecera insondável e inquietante - era o seu próprio eu. O universo continuava a ser grande e majestoso, mas, nesse momento, ela
sentia-se tão grande como o
universo.
Essa sensação maravilhosa
extinguiu-se rapidamente, mas
Sofia tinha a certeza de que
nunca a esqueceria. Algo parecia ter saído de si e ter-se misturado com tudo, tal
como uma gota de corante pode
tingir um copo de água.
Quando tudo passou, teve a
sensação de que acordava com
dores de cabeça de um sonho
espantoso. Sofia verificou
com uma certa desilusão que
tinha um corpo que tentava
levantar-se da cama. Tinha
dores nas costas por ter estado tanto tempo deitada de
barriga para baixo enquanto
lia a carta de Alberto
Knox. Mas sentira qualquer
coisa de que nunca se esqueceria.
Por fim, conseguiu pôr-se
de pé. Furou as folhas e colocou-as junto às outras lições no "dossier". Depois,
saiu para o jardim.
Os pássaros chilreavam como se o mundo tivesse sido
criado de novo. Atrás das
velhas coelheiras as bétulas
eram de um verde-claro tão
intenso que parecia que o
Criador ainda não terminara
a diluição das cores.
Poderia de facto pensar
que tudo era um Eu divino?
Poderia pensar que possuía
uma alma que era uma "centelha do fogo"? Se assim fosse, ela mesma era um ser divino.

128
OS POSTAIS

.. "eu imponho a mim mesmo
uma severa censura"...

Passaram alguns dias durante os quais Sofia não recebeu mais cartas do seu professor de filosofia. Na
quinta-feira, 17 de Maio,
era o feriado nacional da
Noruega. Também tinha o dia
18 livre.
Na quarta-feira, a caminho
da escola, Jorunn disse de
repente:
- Que tal irmos acampar?
O primeiro pensamento de
Sofia foi recusar por não
poder estar afastada de casa
por muito tempo.
Depois, mudou de ideias.
- Por mim, está bem.
Duas horas mais tarde,
Jorunn chegou a casa de Sofia com uma grande mochila.
Sofia também já tinha metido
a tenda dentro da sua mochila. Levaram ainda consigo
sacos-cama e roupa quente,
colchões de borracha, lanternas, termos grandes com chá e
muita comida saborosa.
Quando a mãe de Sofia
chegou a casa, cerca das cinco horas, fez-lhes muitas recomendações sobre o que deviam fazer e não fazer. A
mãe também queria saber onde
elas pensavam acampar.
Responderam que queriam ir
para Tiurtoppen (Cabeço do
Galo Silvestre>). Talvez
ouvissem o canto do galo silvestre, na manhã seguinte.
Ao escolher aquele local
para acampar, Sofia também
tinha uma segunda intenção.
Se não estava enganada, a
cabana do major não ficava
longe de Tiurtoppen. Algo a
levava a lá voltar, mas também sabia que nunca se atreveria a ir sozinha.
Foram pelo caminho que
saía do parque de estacionamento em frente do portão do
jardim de Sofia. Jorunn e
Sofia conversaram acerca de
Deus e do mundo, e Sofia
achou por bem fazer uma pausa
em relação a tudo o que tinha
a ver com filosofia.

129
Cerca das oito horas, já
tinham montado a tenda num
planalto perto de Tiurtoppen. Tinham preparado o local do acampamento e os sacos-cama. Depois de terem
comido, Sofia perguntou:
- Já alguma vez ouviste
falar da cabana do major?
- A cabana do major?
- Algures neste bosque há
uma cabana... junto a um pequeno lago. Em tempos viveu
lá um major, e por isso lhe
chamam a cabana do major.
- E ainda mora lá alguém?
- Vamos ver?
- Onde é que fica?
Sofia apontou para as árvores.
Jorunn não queria ir, mas
Sofia conseguiu convencê-la.
O sol começava a desaparecer
no horizonte.
Primeiro, caminharam por
entre pinheiros altos, em seguida tiveram de abrir caminho por entre os arbustos e
os silvados. Finalmente,
chegaram a um carreiro. Seria o que Sofia percorrera
na manhã de domingo?
Sim - pouco depois, viu
qualquer coisa cintilar entre
as árvores no lado direito do
caminho.
- Ali está ela - afirmou.
Passados uns instantes,
estavam junto ao pequeno lago. Sofia olhou para a cabana, do outro lado. As portadas das janelas estavam fechadas. A casinha vermelha
parecia totalmente abandonada.
Jorunn olhou em volta.
- Vamos pela água? -
perguntou.
- Não, remamos.
Sofia apontou para o canavial. Lá estava o barco como
da outra vez.
- Já estiveste aqui?
Sofia abanou a cabeça.
Seria demasiado complicado
relatar à amiga a sua última
visita. Como é que seria capaz de não revelar nada acerca de Alberto Knox e do
curso de filosofia?
Gracejavam e riam enquanto
remavam no lago. Na outra
margem, Sofia teve muito
cuidado em puxar bem o barco
para terra. Pouco depois,
estavam à porta. Jorunn rodou a maçaneta, mas a porta
não se abriu. Era óbvio que
não havia ninguém na cabana.
- Fechada, estavas à espera de outra coisa?
- Talvez encontremos uma
chave - afirmou Sofia.
Começou a procurar junto
ao muro.
- O melhor é voltarmos à
tenda - disse Jorunn, passado alguns minutos.

130
Mas, nesse momento, Sofia
exclamou:
- Encontrei-a, encontrei-a!
Mostrou a chave com uma
expressão triunfante. Introduziu-a na fechadura e a porta
abriu-se.
As duas amigas entraram
furtivamente na casa. No interior estava escuro e fazia
frio.
- Não se vê nada - disse
Jorunn.
Sofia também pensara nisso. Tirou uma caixa de fósforos do bolso e acendeu um
fósforo. Antes de o fósforo
se apagar, só conseguiram ver
que a cabana estava vazia.
Sofia acendeu outro e descobriu então uma pequena vela
num candelabro de ferro forjado em cima da lareira.
Acendeu a vela com mais um
fósforo, e a pequena sala ficou de repente tão clara que
podiam ver à sua volta.
- Não é estranho que uma
pequena vela possa iluminar
tanta escuridão? - perguntou
Sofia.
A amiga acenou afirmativamente.
- Mas a luz perde-se algures na escuridão - prosseguiu Sofia. - Na realidade
não existe nenhuma escuridão
em si. É apenas ausência de
luz.
- Credo, que coisas estranhas estás para aí a dizer. Vamos embora...
- Primeiro vamos ver o
espelho. - Sofia apontou
para o espelho de latão que
estava em cima da cómoda,
exactamente como na outra
vez.
- Que bonito...
- Mas isto é um espelho
mágico.
- Espelho, espelho meu,
existe alguém mais belo do
que eu?
- Eu não estou a brincar,
Jorunn. Acho que se pode
ver qualquer coisa no outro
lado do espelho.
- Não disseste que nunca
tinhas estado aqui? E porque
é que te divertes tanto em
assustar-me?
Sofia não podia responder
a estas perguntas.
- Desculpa.
Mas Jorunn descobriu então uma coisa que estava, no
chão, a um canto.
Levantou-a.
- Postais ilustrados -
afirmou.
Sofia sobressaltou-se.
- Não lhes toques! Estás
a ouvir, não podes tocar-lhes!
Jorunn recuou assustada.
Deixou cair a caixa como se
se tivesse queimado. Os postais espalharam-se pelo chão.
Passados uns instantes, desatou a rir.

131
- São apenas postais normalíssimos.
Jorunn agachou-se e pegou
nos postais. Em seguida,
Sofia também se baixou.
- Líbano... Líbano...
Líbano... os postais foram
todos enviados do Líbano -
afirmou Jorunn.
- Eu sei - Sofia quase
soluçava.
- Mas então já estiveste
aqui.
- Sim, estive.
Sofia compreendeu que tudo
seria mais fácil se confessasse que já tinha estado
ali. Também não faria mal
relatar à amiga os acontecimentos misteriosos dos dias
anteriores.
- Era aqui que te queria
contar.
Jorunn tinha começado a
ler os postais.
- São todos endereçados a
uma certa Hilde Mõller
Knag.
Sofia ainda não tocara em
nenhum postal.
- É esse o endereço completo?
Jorunn leu alto:
- Hilde Mõller Knag,
a/c Alberto Knox,
Lillesand, Noruega.
Sofia respirou de alívio.
Receara que nos postais estivesse escrito "a/c Sofia
Amundsen". Só então os observou melhor.
- 28 de Abril... 4 de
Maio... 6 de Maio... 9 de
Maio... foram carimbados há
poucos dias.
- Mas não é tudo. Todos
os carimbos são "noruegueses".
Olha - Contingente ONU!
Os selos também são noruegueses...
- Eu acho que é sempre
assim. Eles têm de ser neutrais, e por isso têm lá uma
estação de correios norueguesa.
- Mas como é que a correspondência é enviada para
casa?
- Em aviões militares,
acho eu.
Sofia pôs a vela no chão.
As duas amigas leram o que
estava nos postais. Jorunn
ordenou-os. Leu em voz alta
o primeiro postal.

"Querida Hilde! Acredita
que estou desejoso de voltar
para casa em Lillesand. Vou
chegar a Kjevik no dia 23
de Junho, à tarde. Gostava
de poder chegar a tempo para
o teu aniversário, mas estou
sob ordens militares. Em
compensação posso prometer-te
que vou escolher com todo o
cuidado um grande presente
que vais receber no dia dos
teus anos.
Beijos daquele que pensa
sempre no futuro da filha

PS. Envio a uma amiga
comum uma cópia deste postal.
Compreende-me, querida Hilde, de momento estou muito
misterioso, mas tu hás-de
compreender".

132
Sofia leu o segundo postal:

"Querida Hilde! Aqui,
temos de viver o dia-a-dia.
Se mais tarde me vier a recordar de alguma coisa relacionada com todos estes meses
no Líbano, será da longa espera. Mas esforço-me ao máximo para te poder dar um
presente tão bonito quanto
possível pelo teu aniversário. Por agora, não posso
dizer mais nada. Imponho a
mim mesmo uma severa censura.

Beijos do pai"

As duas amigas estavam sem
fôlego devido à tensão. Nenhuma delas fazia comentários, apenas liam o que estava nos postais.

"Minha querida filha!
Gostava de te poder enviar
os meus pensamentos com uma
pomba branca. Mas, no Líbano, não há pombas brancas.
Se este país devastado pela
guerra precisa realmente de
alguma coisa, é de pombas
brancas. Se um dia a ONU
pudesse trazer realmente a
paz ao mundo!
PS. Talvez possas partilhar o teu presente de aniversário com uma outra pessoa. Vamos ver, quando eu
chegar a casa. Mas tu ainda
não sabes do que estou a falar.

Muitos beijos de uma pessoa que tem muito tempo para
pensar em nós os dois".

Depois de terem lido seis
postais, só faltava um.

"Querida Hilde! Estou
quase a rebentar com todos os
segredos que têm a ver com o
teu aniversário, e várias vezes por dia tenho de me conter para não telefonar e contar tudo. É uma coisa que
não pára de crescer. E tu
sabes que quando uma coisa
cresce é mais difícil guardá-la para nós.

Beijos do pai

PS. Vais conhecer uma
rapariga chamada Sofia.
Para poderem saber um pouco
uma da outra antes de se conhecerem, comecei a enviar-lhe cópias de todos os postais que te escrevo. Será
que ela já começou a perceber, Hilde? Até agora, não
sabe mais do que tu. Tem uma
amiga chamada Jorunn. Talvez essa te possa ajudar".

Quando Jorunn e Sofia
acabaram de ler o último postal, olharam-se fixamente nos
olhos. Jorunn agarrou no
pulso de Sofia.

133
- Tenho medo - disse.
- Eu também.
- Qual é a data do último
postal?
Sofia observou de novo o
postal.
- 16 de Maio - disse.
- Hoje, portanto.
- Impossível! - ripostou
Jorunn. Estava quase a irritar-se.
Examinaram bem o carimbo,
e não havia erro possível.
Estava escrito "16.05.-
90"
- Mas não é possível -
insistiu Jorunn. - E eu
não consigo compreender quem
é que poderá ter escrito isto. Tem de ser alguém que
nos conhece. Mas como é que
ele pode ter sabido que nós
viríamos hoje aqui?
Jorunn era a que tinha
mais medo. Para Sofia, a
história de Hilde e do pai
já não era novidade.
- Eu acho que isto tem a
ver com o espelho de latão.
Jorunn assustou-se de
novo.
- Não estás a querer dizer que os postais saltam do
espelho no preciso momento em
que são carimbados no Líbano?
- Tens uma explicação melhor?
- Não.
- Mas este não é o único
mistério.
Sofia levantou-se e iluminou com a vela os quadros da
parede. Jorunn inclinou-se
para as pinturas.
- "Berkeley" e "Bjerkely". O que é que isto significa?
- Não faço ideia.
Nesse momento, a vela já
estava quase no fim.
- Vamos embora! - disse
Jorunn. - Anda!
- Eu só quero levar o espelho.
Dito isto, Sofia levantou-se e tirou da parede o
grande espelho de latão que
estava pendurado sobre a cómoda branca. Jorunn tentou
dissuadi-la, mas Sofia não
se deteve.
Quando saíram, estava uma
noite típica de Maio e havia
luz suficiente para poderem
reconhecer os contornos dos
arbustos e das árvores. O
céu espelhava-se no lago. As
duas amigas remaram lentamente para a outra margem.
Nenhuma falou muito enquanto regressavam à tenda,
mas ambas pensavam que a outra reflectia sobre o que tinham visto. De quando em
quando, um pássaro levantava
voo, espantado; ouviram duas
vezes uma coruja.
Quando chegaram à tenda,
enfiaram-se nos sacos-cama.
Jorunn recusou-se a deixar o
espelho entrar na tenda. Antes de adormecerem, pensaram

134
que era inquietante que ele
ficasse à entrada da tenda.
Sofia também trouxera os
postais, que colocou num bolso exterior da mochila.
Na manhã seguinte, acordaram cedo. Sofia foi a primeira a sair do saco-cama.
Calçou as botas e saiu da
tenda. O espelho de latão
estava deitado na relva, coberto de orvalho. Sofia limpou o orvalho com a camisola
e observou o seu reflexo.
Felizmente, não encontrou
nenhum postal recente do
Líbano.
Sobre a planície atrás da
tenda pairava uma neblina matinal esfarrapada como pequenos tufos de algodão. Os
pássaros chilreavam energicamente, mas não conseguia
ver nem ouvir galos silvestres.
As duas amigas vestiram
mais uma camisola e tomaram o
pequeno-almoço diante da tenda. Depressa recomeçaram a
falar da cabana do major e
dos misteriosos postais.
Depois do pequeno-almoço,
desarmaram a tenda e puseram-se a caminho de casa.
Sofia levava o grande espelho de latão debaixo do braço. Por vezes, tinha de fazer uma curta pausa, porque
Jorunn se recusava a tocar
no espelho.
À medida que se aproximavam das primeiras casas, ouviram uns estampidos. Sofia
lembrou-se do que o pai de
Hilde escrevera acerca do
Líbano devastado pela guerra. Compreendeu como era bom
viver num país em paz. Os
estampidos vinham de inocentes fogos de artifício.
Sofia convidou Jorunn
para tomar cacau. A mãe quis
saber logo de onde vinha o
grande espelho. Sofia disse
que o tinham encontrado na
cabana do major. A mãe voltou a afirmar que essa cabana
estava desabitada há muitos
anos.
Depois de Jorunn ter ido
para casa, Sofia vestiu um
vestido vermelho. O resto do
feriado nacional decorreu
normalmente. No telejornal
da noite houve uma reportagem
que mostrava como os soldados
noruegueses da ONU no Líbano tinham festejado o dia.
Sofia olhava fixamente para
o écran. Um dos homens que
ali via podia ser o pai de
Hilde.
A última coisa que Sofia
fez nesse dia 17 de Maio
foi pendurar o grande espelho
de latão no seu quarto. Na
manhã seguinte, encontrou na
toca um novo envelope amarelo. Abriu-o e leu imediatamente o que estava escrito
nas folhas.

135
DUAS CULTURAS

.. "só assim não flutuarás
no vazio"

Já não falta muito para
nos encontrarmos, Sofia.
Calculei que regressarias à
cabana do major, por isso
deixei lá todos os postais do
pai de Hilde. Só assim podem chegar a Hilde.
Mas não precisas de te
preocupar com isso. Até 15
de Junho ainda vai correr
muita água debaixo das pontes.
Vimos como os filósofos do
Helenismo assimilaram os antigos filósofos gregos, e como alguns foram fundadores de
seitas religiosas. Plotino
prestou homenagem a Platão
como se se tratasse de um redentor da humanidade.
Mas, como sabemos, no mesmo período nasceu um outro
redentor fora do âmbito cultural greco-romano. Refiro-me a Jesus de Nazaré. Vamos ver neste capítulo como o
cristianismo foi penetrando
no mundo greco-romano - mais
ou menos como o mundo de
Hilde começou lentamente a
penetrar no nosso mundo.
Jesus era judeu, e os judeus pertencem à cultura semítica. Os gregos e os romanos pertencem à cultura indo-europeia. Podemos constatar
que a civilização europeia
tem duas raízes. Antes de
observarmos melhor como é que
o cristianismo se mistura
lentamente com a cultura greco-romana, vamos tratar dessas duas raízes.
Os indo-europeus.

Designamos por "indo-europeus" todos os países e
culturas onde se falam línguas indo-europeias. Pertencem a este grupo todas as
línguas europeias, excepto as
línguas ugro-fínicas (lapão,
finlandês, estónio e húngaro>>) e basco. A maior parte
das línguas indianas e iranianas pertencem à família linguística indo-europeia.
Há cerca de quatro mil
anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na
região do mar Negro e do mar
Cáspio. Pouco depois, essas

136
tribos indo-europeias começaram a migrar para o Sudeste,
para o Irão e para a índia;
para o Sudoeste, para a
Grécia, Itália e Espanha;
para Oeste, através da Europa Central, para Inglaterra e França; para Noroeste, para a Escandinávia; e
para o Norte, para a Europa
de Leste e Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus
foram-se misturando com as
culturas anteriores, se bem
que a religião e a língua
indo-europeias desempenhassem
um papel dominante.
Tanto os antigos escritos
indianos védicos como a filosofia grega e inclusivamente
a mitologia de "Snorri" estão portanto escritos em línguas aparentadas. Este parentesco não se limita às
línguas. As línguas aparentadas correspondem geralmente
a ideias aparentadas. Por
isso podemos falar de uma
"cultura indo-europeia".
A cultura dos Indo-europeus era sobretudo caracterizada pela crença em vários
deuses diferentes, ou seja,
pelo "politeísmo". Encontramos em toda a área indo-europeia nomes de deuses,
muitos termos religiosos importantes e expressões semelhantes. Vou dar alguns
exemplos:
Os antigos hindus veneravam o deus "Dyaus". Em grego, este deus chama-se
"Zeus", em latim "Júpiter"
(na realidade "Iovpater",
ou seja, "pai Iov">), e em
antigo nórdico "Tyr". Os
nomes Dyaus, Zeus, Iov e
Tyr são portanto diferentes
variantes da mesma palavra.
Talvez ainda te lembres
que os Vikings no Norte da
Europa veneravam deuses a
que chamavam "ases". Também
encontramos este termo para
"deuses" no conjunto do âmbito indo-europeu. Em antigo
hindu (sânscrito>), os deuses chamam-se "asura", em antigo persa "ahura". Uma outra palavra para deus em
sânscrito é "deva", em persa
"daeva", em latim "deus" e em
antigo nórdico "tivurr".
No Norte da Europa havia
ainda um grupo próprio de divindades da fertilidade (por
exemplo, Njõrd, Freyr,
Freyja>). Estas divindades
eram designadas "vanes". Esta palavra é aparentada com o
nome da deusa latina da fertilidade "Vénus". Em sânscrito há o termo aparentado
"vani", que significa "prazer" ou "desejo".
Determinados mitos apresentam em toda a área indo-europeia um claro parentesco. Quando Snorri fala
acerca dos antigos deuses
nórdicos, alguns mitos fazem
recordar mitos hindus que foram narrados dois ou três mil
anos antes. Obviamente, os
mitos de Snorri estão relacionados com a natureza nórdica e os indianos com a natureza indiana. Mas muitos
dos mitos têm um núcleo que
aponta para uma origem comum.
Este núcleo é claramente visível nos mitos sobre as poções da imortalidade e sobre
a luta dos deuses contra as
forças do caos.
Inclusivamente no próprio
pensamento vemos claras conexões entre as culturas indo-europeias. Uma semelhança
típica reside no facto de

137
conceberem o mundo como um
combate eterno entre as forças do bem e as forças do
mal. Por isso, os indo-europeus procuraram predizer qual
seria o futuro do mundo.
Podemos afirmar que não é
por acaso que a filosofia
grega nasceu justamente no
âmbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana,
grega e nórdica apresentam
claros princípios de um pensamento filosófico ou "especulativo". Os indo-europeus
procuravam ter conhecimento
da evolução do mundo. Podemos inclusivamente seguir em
toda a área indo-europeia um
termo preciso para "conhecimento" ou "saber" de cultura
para cultura. Em sânscrito,
este termo é "vidya". Esta
palavra é idêntica à palavra
grega "idea", que como sabes,
desempenha um papel importante na filosofia de Platão.
Do latim conhecemos a palavra "video", que para os romanos significava simplesmente "ver". (Só nos nossos
dias é que "ver" é quase sinónimo de fixar o ecrã da televisão>). Do inglês conhecemos as palavras "wise" e
"wisdom" (sabedoria>), em
alemão "weise" e "Wissen".
Em norueguês temos a palavra
"viten". A palavra norueguesa "viten" tem portanto as
mesmas raízes que a palavra
indiana "vidya", a grega
"idea" e a latina "video".
Em traços largos, podemos
verificar que a visão era o
sentido mais importante para
os indo-europeus. Entre os
indianos e entre os gregos,
entre os iranianos e os germanos, a literatura é caracterizada por grandes visões
cósmicas. (Temos de novo a
palavra "visão", que vem do
verbo latino "video".>) Além
disso era costume nas culturas indo-europeias produzir
pinturas e esculturas dos
deuses e dos acontecimentos
mitológicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma "concepção
cíclica da história". Significa que para eles a história
decorre circularmente - ou
em "ciclos" - tal como as
estações do ano alternam entre Verão e Inverno. Não
há um verdadeiro começo nem
um verdadeiro fim da história. Trata-se de civilizações diversas que nascem e
perecem na alternância constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religiões
orientais - hinduísmo e budismo - são de origem indo-europeia. O mesmo é válido
para a filosofia grega, e vemos claros paralelismos entre
o hinduísmo e o budismo por
um lado e a filosofia grega
por outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo estão fortemente influenciados pela
reflexão filosófica.
Frequentemente se põe em
evidência que no hinduísmo e
no budismo o divino está presente em tudo (panteísmo>) e
que o homem pode alcançar a
unidade com Deus através do
conhecimento religioso. (Tu
lembras-te de Plotino, Sofia!>). Para isso, é geralmente necessária uma grande
concentração e meditação. No
Oriente, a passividade e o
recolhimento são um ideal

138
religioso. Na Grécia, era
frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida
de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua
alma. Alguns elementos da
vida monástica medieval remontam a essas concepções do
mundo greco-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crença na "metempsicose" era também muito
importante; assim, no hinduísmo, o objectivo de cada
crente é ser libertado um dia
da migração das almas. E sabemos que Platão também
acreditava na migração das
almas.

138
"Os semitas"

E agora vamos aos semitas,
Sofia. Trata-se aqui de uma
cultura completamente diferente, com uma língua também
completamente diferente.
Originariamente, os semitas
provinham da península árabe,
mas a cultura semítica expandiu-se igualmente em diversas
regiões do globo. Desde há
mais de dois mil anos, os judeus vivem afastados da sua
pátria original. A história
e a religião semíticas afastaram-se muito das suas raízes geográficas devido ao
cristianismo. Além disso, a
cultura semítica estendeu-se
a todo o mundo através da expansão do islamismo.
As três religiões ocidentais - judaísmo, cristianismo e islamismo - têm uma base semítica. O "Alcorão", o
texto sagrado do islamismo, e
o "Antigo Testamento" estão
escritos em línguas semíticas
aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento
para "Deus" tem a mesma raiz
linguística que o "Alá" dos
muçulmanos. (A palavra
"alá" significa simplesmente
"Deus">).
No cristianismo, o quadro
é mais complicado. O cristianismo também tem uma base
semítica. Mas o "Novo Testamento" foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a
influência das línguas grega
e latina, e consequentemente
da filosofia grega.
Sabemos que os indo-europeus acreditavam em muitos
deuses. Os semitas adoptaram
muito cedo a crença num único
Deus, que é designada por
"monoteísmo". No judeísmo,
no cristianismo e no islamismo a existência de um só
Deus é uma ideia fundamental.
Uma outra característica
semítica é a concepção linear
da história. Significa que a
história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e
nesse momento começou a história, que terminará no dia
do "juízo final", quando
Deus julgar os vivos e os
mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história.
Deus intervém na história e
esta existe apenas para que
Deus realize a sua vontade
no mundo. Tal como outrora

139
Deus conduziu Abraão à
Terra Prometida, dirige a
vida dos homens através da
história até ao dia do juízo,
momento em que todo o mal do
mundo será destruído.
Devido à importância da
acção divina na história, os
semitas ocupam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes
históricas estão no centro
dos seus escritos religiosos.
Ainda hoje, a cidade de
Jerusalém é um importante
centro religioso para judeus,
cristãos e muçulmanos. Isto
diz alguma coisa acerca da
base histórica comum a estas
três religiões. Existem em
Jerusalém importantes sinagogas (judias>>), igrejas
(cristãs>) e mesquitas
(muçulmanas>). Por isso é
tão trágico que esta cidade
se tenha tornado um pomo de
discórdia - que os homens se
matem aos milhares, porque
não conseguem chegar a acordo
acerca de quem deve ter o domínio da "cidade eterna".
Esperemos que a ONU consiga um dia que Jerusalém se
torne um ponto de encontro
religioso das três religiões!
(Sobre esta parte prática
do curso de filosofia não vamos dizer mais nada por enquanto. Deixamos isso ao pai
de Hilde. Tu sabes que ele
é observador da ONU no
Líbano, não é verdade? Para
ser mais preciso, posso revelar-te que ele presta serviço
como major. Se começas a entrever uma relação, é porque
é correcta. Por outro lado,
não quero antecipar o curso
dos acontecimentos>).
Caracterizámos a visão
como o sentido mais importante para os indo-europeus. É
espantoso o importante papel
que a audição desempenha na
área semítica. Não é por
acaso que o acto de fé judaico começa com as palavras
"Ouve, Israel!". No Antigo Testamento, lemos como os
homens "ouviam" as palavras
do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula "assim falou Jeová" (deus>). No
cristianismo, também se dá
importância a "ouvir" a palavra de Deus. As cerimónias
religiosas hebraicas, cristãs
e muçulmanas são caracterizadas sobretudo pela leitura em
voz alta dos textos sagrados.
Mencionei também que os
indo-europeus produziam imagens e esculturas dos seus
deuses. Para os semitas, era
proibido representar Deus.
Isto significa que eles não
podiam produzir imagens ou
esculturas de Deus nem de
tudo o que fosse sagrado.
Também no Antigo Testamento se afirma que os homens
não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma é
ainda hoje válida para o islamismo e para o judeísmo.
No islamismo, existe uma
aversão geral pela fotografia
e pela arte plástica. Os homens não devem competir com
Deus em "criar" algo.
Mas na Igreja Cristã há
muitas imagens de Deus e de
Jesus, talvez estejas a pensar. É verdade, Sofia, e
isso é precisamente um exemplo do facto de o cristianismo ter sido influenciado pelo
mundo greco-romano.

140
(Na Igreja Ortodoxa - ou
seja, na Grécia e na Rússia
- existe ainda uma proibição
de criar imagens esculpidas,
isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica.>)
Ao contrário das grandes
religiões orientais, as três
religiões ocidentais defendem
uma separação entre Deus e a
sua Criação. O fim não é a
libertação da reencarnação,
mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a
vida religiosa baseia-se mais
na oração, no sermão e na
leitura da Bíblia do que na
concentração e na meditação.

"Israel"

Agora, não quero entrar em
concorrência com o teu professor de religião, cara
Sofia, mas vamos ainda observar rapidamente a influência hebraica no cristianismo.
Tudo começou quando Deus
criou o mundo. Podes ler na
primeira página da Bíblia
como isso sucedeu. Mas depois, os homens insurgiram-se
contra Deus. O castigo não
foi apenas a expulsão de
Adão e Eva do paraíso. A
morte também surgiu no mundo.
A desobediência dos hamens
em relação a Deus representa
o fio condutor de toda a
Bíblia. Se continuarmos a
folhear o "Génesis", podemos
ler acerca do dilúvio e da
arca de Noé. Depois lemos
que Deus fez um pacto com
Abraão e o seu povo. Este
pacto estabelecia que Abraão
e o seu povo respeitariam os
mandamentos de Deus. E
Deus prometeu proteger os
sucessores de Abraão. Mais
tarde, este pacto foi renovado, quando "Moisés" recebeu
as Tábuas da Lei no monte
Sinai (a lei mosaica!>).
Isto aconteceu cerca de
1200 a.C. Nessa época, os
israelitas tinham vivido muito tempo no Egipto como escravos, mas com a ajuda de
Deus o povo foi reconduzido
a Israel.
Cerca do ano 1000 a.C.,
muito antes de existir algo
que se chamasse filosofia
grega - ouvimos falar de
três grandes reis em Israel.
O primeiro foi "Saul", seguiu-se-lhe "David", e após
David veio "Salomão". Todo
o povo israelita estava unido
num reino e, sobretudo no
reinado do rei David, viveu
um período de prosperidade
política, militar e cultural.
Quando os reis eram consagrados, eram ungidos pelos
sacerdotes. Por isso, tinham
o título de Messias, que significa "o ungido". No contexto religioso, os reis eram
vistos como intermediários
entre Deus e o povo. Por
isso, os reis podiam ser
igualmente designados por
"filhos de Deus", e o país
por "reino de Deus".
Mas o período de esplendor
não durou muito. O reino foi
dividido em duas partes: o
"reino do Norte" (Israel>)
e o "reino do Sul" (Judeia>). No ano de 722,

141
o reino do Norte foi ocupado
pelos assírios e perdeu toda
a importância política e religiosa. No Sul, as coisas
não correram muito melhor. O
reino do Sul foi conquistado
pelos babilónios no ano 586.
O templo de Jerusalém foi
destruído, e uma grande parte
do povo foi levada para a
Babilónia. Este "cativeiro
babilónico" só terminou no
ano de 539. O povo pôde regressar a Jerusalém e reconstruir o grande templo.
Mas até ao início da nossa
era, os judeus estiveram sempre sob domínio estrangeiro.
Os judeus perguntavam-se
porque é que o reino de David fora destruído e porque é
que desgraças após desgraças
se abatiam sobre o povo.
Deus tinha prometido proteger Israel. Mas o povo também prometera observar os
mandamentos divinos. Por
fim, difundiu-se a ideia de
que Deus castigara Israel
devido à desobediência.
A partir aproximadamente
de 750 a.C. surgiu uma série de "profetas" que anunciaram o castigo de Deus sobre
Israel, porque o povo não
observava os mandamentos do
Senhor. "Um dia, Deus julgará Israel", diziam. Esses
profetas são designados por
"profetas do dia do juízo".
Cedo surgiram também profetas que profetizavam que
Deus salvaria uma parte do
povo e enviaria um "príncipe
da paz", ou um rei da paz, da
estirpe de David. Este
príncipe da paz deveria erigir de novo o antigo reino de
David e assegurar ao povo um
futuro feliz.
"O povo que caminha na escuridão, verá uma grande
luz", afirmou o profeta
Isaías, "aqueles que habitam
na terra da sombra da morte,
sobre eles brilhará a luz".
Esses profetas são designados por "profetas da salvação".
Vou ser mais conciso: o
povo de Israel viveu feliz
sob o reinado do rei David.
Quando as coisas começaram a
correr pior para os israelitas, os profetas profetizaram
a vinda de um novo rei da estirpe de David. Este "Messias", ou "filho de Deus",
havia de "salvar" o povo,
restaurar Israel como potência, e construir um "reino de
Deus".

"Jesus"

Bom, Sofia. Parto do
princípio de que me estejas a
seguir. As palavras-chave
são "Messias", "Filho de
Deus", "salvação" e "Reino
de Deus". De início, tudo
isto tinha um significado político. Mesmo na época de
Jesus, muitos imaginavam o
novo messias como chefe político, militar e religioso do
mesmo calibre que o rei David. O salvador era portanto
visto sobretudo como libertador nacional, o qual poria
fim ao sofrimento dos judeus
sob o domínio romano.

142
Mas também se levantaram
outras vozes. Já dois séculos antes do nascimento de
Cristo, outros profetas tinham anunciado que o messias
prometido seria o redentor de
todo o mundo. Ele não libertaria apenas os israelitas do
jugo estrangeiro, mas libertaria todos os homens do pecado e da culpa - e também
da morte. A esperança numa
salvação neste sentido da palavra também estava difundida
em todo o mundo helenístico.
E veio então Jesus. Ele
não é o único que surge como
o messias prometido e, tal
como outros, usa as palavras
"filho de Deus", "reino de
Deus", "Messias" e "salvação". Deste modo, parte das
antigas profecias. Vai para
Jerusalém e é venerado pelas
massas como salvador do povo.
Assim, faz lembrar os antigos reis que eram entronizados através de um "ritual de
elevação ao trono" característico. Ele também é ungido
pelo povo. "O tempo está
completo", afirma, "o reino
de Deus chegou."
É importante notar tudo
isto. Mas agora tens de
prestar muita atenção: Jesus
distinguia-se dos outros que
se apresentavam como messias
por afirmar muito claramente
não ser um chefe militar ou
político. A sua tarefa era
muito maior. Anunciava a
salvação e o perdão de Deus
para todos os homens, por
isso podia andar entre os homens e dizer: "Os teus pecados são-te perdoados." Pronunciar isto era inaudito.
Por isso, também não foi
preciso muito tempo para os
escribas levantarem protestos
contra Jesus. Por fim, empenharam-se também na preparação do seu suplício.
Vou explicar melhor: muitos homens no tempo de Jesus
esperavam um messias que havia de restabelecer o reino
de Deus com grande poder e
esplendor (isto é, com a espada e com a lança>). A expressão "reino de Deus" está
presente como fio condutor na
mensagem de Jesus - aliás
com um significado muito mais
alargado. Jesus apresentava
o reino de Deus como amor
pelo próximo, solicitude para
com os fracos e perdão para
todos os que erraram.
Encontramos aqui uma modificação drástica no significado de uma expressão antiga
e em parte militar. Os homens esperavam um líder militar que proclamasse o reino
de Deus. Chega então Jesus
de túnica e sandálias e explica que o reino de Deus ou
o "Novo Testamento" significa: "Deves amar o próximo
como a ti mesmo." Além disso, ele afirmou que devemos
amar os nossos inimigos. Se
nos dão uma bofetada, não devemos pagar na mesma moeda,
mas apresentar a outra face.
E devemos perdoar - não
sete vezes, mas setenta vezes
sete.
Durante a sua vida, Jesus
mostrou que não desdenhava
falar com prostitutas, publicanos corruptos e indivíduos
politicamente subversivos.
Mas ele ainda vai mais longe: afirma que um filho que
dissipou toda a herança - ou
um publicano corrupto que extraviou dinheiro - é perante

143
Deus justo desde que se dirija a Ele e peça perdão,
porque tal é a generosidade
de Deus na Sua graça.
Mas ele vai ainda mais
longe - e agora tens de te
segurar: Jesus dizia que esses "pecadores" eram perante
Deus mais justos -, e mereciam preferencialmente o seu
perdão - do que aqueles que
se orgulhavam da sua própria
virtude.
Jesus insistia em que nenhum homem pode julgar por si
se é digno do perdão de
Deus. Não nos podemos salvar a nós mesmos. (Muitos
gregos acreditavam nisto!>).
Quando Jesus apresenta as
suas severas exigências éticas no "sermão da montanha"
não era apenas porque quisesse mostrar a vontade de
Deus. Ele quer também mostrar que nenhum homem é justo
perante Deus. O perdão de
Deus é ilimitado, mas devemos dirigir-nos a ele pela
oração para obtermos o perdão.
Deixo a cargo do teu professor de religião mais esclarecimentos acerca da personalidade de Jesus e da sua
mensagem. Não é uma tarefa
fácil. Espero que ele também
vos possa esclarecer como
Jesus foi um homem único.
De um modo genial, ele usa a
linguagem do seu tempo e dá
simultaneamente às ideias antigas um conteúdo completamente novo e mais vasto. Não
admira que ele tenha sido
crucificado. A sua radical
mensagem de salvação punha a
nu tantos interesses e jogos
de poder que tinha de ser
afastado.
No caso de Sócrates, vimos como pode ser perigoso
apelar à razão dos homens.
No caso de Jesus vemos como
pode ser perigoso pedir um
amor incondicional pelo próximo e um perdão igualmente
incondicional. Ainda hoje
vemos como Estados poderosos
vacilam se são postos perante
pedidos simples de paz, amor
e alimento para os pobres e
perdão para os inimigos do
Estado.
Sabes ainda como Platão
ficou contrariado pelo facto
de o homem mais justo de
Atenas ter de pagar com a
vida. Para o cristianismo,
Jesus é o único homem justo
que alguma vez viveu. Porém,
foi condenado à morte. Para
o cristianismo, ele morreu
pela humanidade. E isso é
frequentemente designado como
a "paixão" de Cristo. Jesus
foi o "servo sofredor" que
assumiu a culpa de todos os
pecados dos homens para nos
reconciliar com Deus e nos
salvar da Sua punição.

"Paulo"

Poucos dias após a crucificação e o enterro de Jesus
surgiram rumores de que ele
havia ressuscitado dos mortos. Deste modo, mostrou que
era mais do que um homem, que
era verdadeiramente "filho de
Deus".

144
Podemos dizer que a Igreja cristã teve início nessa
manhã de Páscoa, com o anúncio da ressurreição de Jesus. Já Paulo esclareceu
isto: "Se Jesus não ressuscitou, então a nossa prédica
é vã, vã a nossa fé."
A partir daquele momento,
todos os homens podiam ter
esperança na ressurreição da
carne. Jesus foi crucificado
para a nossa salvação. E
agora, querida Sofia, tens
de reparar que não se trata
da "mortalidade da alma" ou
de uma forma de reencarnação.
Essa era uma concepção grega
- consequentemente indo-europeia. Mas o cristianismo
ensina que não há nada no homem - por exemplo, nenhuma
"alma" - que fosse imortal
por si. A Igreja acredita
na ressurreição da carne e na
vida eterna, mas é justamente
graças a Deus que somos salvos da morte e da perdição.
Não é nosso mérito, nem se
deve a nenhuma qualidade natural ou inata.
Os primeiros cristãos começaram então a anunciar a
"boa nova" da salvação através da fé em Jesus Cristo.
Com a sua mensagem de redenção, o reino de Deus estava
iminente. Todo o mundo podia
então ser conquistado por
Jesus. (a palavra "Cristo"
é uma tradução grega da palavra hebraica "messias" e significa portanto "o ungido">).
Poucos anos após a morte
de Jesus, o fariseu Paulo
converteu-se ao cristianismo.
Através das suas muitas viagens de missionário por todo
o mundo greco-romano, o cristianismo tornou-se uma religião universal. Tomamos conhecimento disso nos Actos
dos Apóstolos. A pregação
de Paulo e as suas directivas fornecidas aos cristãos
foram também difundidas por
meio das epístolas que enviou
às primeiras comunidades
cristãs.
Esteve também em Atenas.
Caminhava na ágora da capital da filosofia. E estava
indignado, "de tal forma via
a cidade tão idólatra", segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e falou com
os filósofos epicuristas e
estóicos da cidade. Levaram-no ao Areópago. Aí, disseram: "também podemos saber
que doutrina nova é essa que
ensinas? Porque tu trazes
algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaríamos
muito de saber o que é."
Estás a imaginar isto,
Sofia? Aparece um judeu na
ágora de Atenas e fala acerca de um redentor que foi
crucificado e que ressuscitou
dos mortos. Já durante a visita de Paulo a Atenas podemos ter uma ideia do choque
entre a filosofia grega e a
doutrina cristã da salvação.
Mas Paulo conseguiu ser ouvido pelos atenienses. Enquanto está no Areópago -
entre os imponentes templos
da Acrópole - faz o seguinte discurso:
"Atenienses", começa, "eu
vejo que sois em todos os aspectos muito religiosos. Indo a passar, vi os vossos
cultos e encontrei um altar

145
sobre o qual estava escrito:
Ao Deus desconhecido. Agora, anuncio-vos aquele ao
qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e
tudo o que nele há, uma vez
que é o senhor do céu e da
terra, não habita nos templos
feitos pelos homens. Também
não é servido pelas mãos dos
homens, como se precisasse de
alguém, ele que dá a todos a
vida e o alento por toda a
parte.
E de um só fez todo o género humano, para que habitasse em toda a face da terra, e colocou o limite para o
tempo e o lugar da habitação;
para que busquem o Senhor
como que às apalpadelas. E
na verdade, ele não está longe de cada um de nós. Pois
nele vivemos, nos movemos e
existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas:
nós somos da sua linhagem.
Sendo nós da linhagem de
Deus, não devemos pensar que
a divindade é igual às imagens douradas, prateadas e de
pedra feitas pela arte dos
homens. E na verdade, Deus
não teve em conta o tempo da
ignorância; mas ordena a todos os homens, por toda a
parte, que façam penitência,
porque ele estabeleceu um dia
em que há-de julgar o mundo
com justiça através de um homem que escolheu e no qual
todos têm fé, depois de o ter
ressuscitado dos mortos."

Paulo em Atenas, Sofia.
Estamos a falar de como o
cristianismo se infiltra progressivamente no mundo greco-romano, como algo diferente, muito diferente da filosofia epicurista, estóica ou
neoplatónica. Porém, Paulo
encontra nesta cultura um
apoio sólido. Diz que a busca de Deus está presente em
todos os homens, o que não
era uma coisa nova para os
gregos. O que Paulo anuncia
de novo é que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu encontro.
Não é apenas um "Deus filosófico" ao qual os homens podem aspirar com a razão.
Também não se assemelha a
nenhuma imagem de "ouro, prata ou pedra" - já era suficiente o que havia na Acrópole e na ágora. Mas Deus
"não habita em templos feitos
pelos homens". É um Deus
pessoal que intervém na história e morre na cruz pelos
homens.
Depois de Paulo ter feito
o seu discurso no Areópago,
os Actos dos Apóstolos contam que alguns fizeram troça
dele por ele ter contado que
Cristo tinha ressuscitado
dos mortos. Mas alguns ouvintes afirmaram também:
"Queremos que nos voltes a
falar disso." Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristãos. Entre estes estava uma mulher, "Dâmaris", e devemos reparar nisso. Nessa altura, houve muitas
mulheres que se converteram ao cristianismo.
Paulo prosseguiu a sua actividade missionária. Poucas
décadas depois da morte de
Cristo existiam comunidades
cristãs em todas as cidades

146
gregas e romanas mais importantes - em Atenas, Roma,
Alexandria, Éfeso, Corinto. No decorrer de três,
quatro séculos, todo o mundo
greco-romano estava cristianizado.

"A profissão de fé"

Mas a importância de
Paulo para o cristianismo
não se limitou à sua importante actividade missionária.
Dentro das comunidades cristãs também teve uma grande
influência. Havia uma grande
necessidade de instrução espiritual.
Nos primeiros anos após a
morte de Jesus, levantou-se
uma questão: teriam os não-judeus de passar primeiro
pelo judeísmo? Por exemplo,
teria um grego que observar
as leis de Moisés? Paulo
não achava isso necessário.
O Cristianismo era mais do
que uma seita hebraica. Dirigia-se a todos os homens
com uma mensagem universal de
salvação. A Velha Aliança,
entre Deus e Israel, era
substituída pela Nova
Aliança, que Jesus concluíra entre Deus e todos os homens.
Mas o cristianismo não era
a única nova religião daquele
tempo. Vimos que o Helenismo
era caracterizado por uma
mistura de religiões. Por
isso, a Igreja tinha de delinear claramente a doutrina
cristã. Era importante evitar uma cisão na Igreja
Cristã e a demarcação em relação a outras religiões.
Deste modo surgiu a profissão de fé, que teve como objectivo reunir os mais importantes "dogmas" cristãos.
Um desses dogmas afirma
que Jesus foi simultaneamente Deus e homem. Portanto,
ele não foi "filho de Deus"
apenas pelos seus actos. Ele
próprio era Deus, mas foi
também um "verdadeiro" homem
que partilhou a vida dos homens e sofreu verdadeiramente
na cruz.
Isto pode parecer uma contradição. Mas a mensagem da
Igreja afirma então que
Deus se tornou homem. Jesus
não era nenhum "semideus"
(ou seja, meio humano e meio
divino>). A crença em tais
semideuses estava bastante
difundida nas religiões gregas e helenísticas. A Igreja ensinava que Jesus é "inteiramente Deus, inteiramente homem".
"Postscriptum"

Estou a tentar explicar
como todas as coisas estão
relacionadas, cara Sofia. A
entrada do cristianismo no
mundo greco-romano significou
um confronto dramático entre
duas culturas, mas também uma
das grandes transformações
culturais da história.

147
Estamos quase a deixar a
Antiguidade. Desde os primeiros filósofos gregos passaram-se quase mil anos. À
nossa frente está a Idade
Média cristã, que também durou cerca de mil anos.
O poeta alemão "Johann
Wolfgang Goethe" escreveu:

"Quem não sabe prestar contas
de três milénios,
permanece nas trevas ignoran-

te,
e vive apenas o dia que pas sa"

Mas não quero que pertenças a este tipo de pessoas.
Eu esforço-me o máximo para
que conheças as tuas raízes
históricas. Só assim te tornarás um ser humano. Só assim serás mais do que um macaco. Só assim não flutuarás
no espaço vazio.

"Só assim te tornarás um
ser humano. Só assim serás
mais do que um macaco..."
Sofia ficou ainda algum
tempo a olhar fixamente para
o jardim pelos pequenos orifícios da sebe. Nesse momento, começou a perceber como
era importante conhecer as
suas raízes históricas. Pelo
menos, tinha sido importante
para o povo de Israel.
Ela era simplesmente uma
pessoa qualquer. Mas se conhecesse as suas raízes históricas, a sua existência
tornar-se-ia um pouco menos
aleatória. Vivia há poucos
anos no planeta, mas se a
história da humanidade era
também a sua própia história,
tinha num certo sentido muitos milhares de anos.
Sofia juntou todas as folhas e saiu da toca. Saltando alegremente atravessou o
jardim e foi para o seu quarto.

148

A Idade Média

"... percorrer apenas uma
parte do caminho não significa
enganar-se..."

Na semana seguinte, Sofia
não soube nada de Alberto
Knox. Também não recebeu
mais postais do Líbano, mas
continuou a falar com Jorunn
acerca dos postais que elas
tinham encontrado na cabana do
major. Jorunn ficara nervosíssima, mas como depois nada
mais sucedera, o seu medo perdeu-se entre os trabalhos de
casa e o "badminton".
Sofia leu as cartas de Alberto muitas vezes e procurou
uma referência que pudesse explicar a questão de Hilde.
Assim, também podia assimilar
bem a filosofia antiga. Depressa deixou de confundir
Demócrito e Sócrates, Platão e Aristóteles.
Na sexta-feira, dia 25 de
Maio, estava junto ao fogão e
fazia o jantar porque a mãe
não tardaria a chegar a casa
vinda do trabalho. Era o
acordo habitual de sexta-feira. Nesse dia, Sofia cozinhava sopa de peixe com batatas e cenoura. Nada mais fácil.
Lá fora, levantara-se vento. Enquanto mexia a panela,
Sofia voltou-se e olhou pela
janela. As bétulas baloiçavam
como espigas.
De repente, algo bateu contra a vidraça. Sofia voltou-se de novo e descobriu então
um bocado de cartão colado à
janela.
Aproximou-se e viu que se
tratava de um postal ilustrado. Através do vidro, leu:
"Hilde Mõller Knag, a/c de
Sofia Amundsen..."
Pensara imediatamente nisso. Abriu a janela e recolheu
o postal. Teria percorrido o
longo caminho desde o Líbano
transportada pelo vento?
Também este postal tinha a
data: "Sexta-feira, 15 de
Junho".
Sofia tirou a panela do fogo e sentou-se à mesa. No
postal, estava escrito:

"Querida Hilde! Não sei
se ainda estarás a festejar o
teu aniversário quando leres
este postal. Por um lado, espero que sim, de qualquer modo
tenho esperança que ainda não
tenham passado muitos dias.
Que passem

149
uma ou duas semanas para Sofia não significa que suceda o
mesmo connosco. Eu regresso a
casa na noite de S. João.
Nessa altura, ficaremos sentados no baloiço e poderemos
olhar juntos para o mar, Hilde. Temos muito para conversar. Beijos do pai, a quem
por vezes o conflito milenar
entre judeus, cristãos e muçulmanos deprime. Tenho que
estar sempre a lembrar-me que
as três religiões remontam a
Abraão. Mas, nesse caso, não
têm de rezar ao mesmo Deus?
Aqui, a história de Caim e
Abel repete-se todos os dias.

PS. Poderias dar cumprimentos à Sofia? Pobre criança, ela ainda não compreendeu
como as coisas estão relacionadas. Mas talvez tu já tenhas compreendido."

Sofia inclinou-se esgotada
sobre o tampo da mesa. Era
claro que não compreendia como
as coisas se relacionavam.
Será que Hilde compreendia?
Se o pai de Hilde podia
pedir-lhe que apresentasse
cumprimentos à Sofia, era
porque Hilde sabia mais sobre
Sofia do que Sofia sobre
Hilde. Era tudo tão complicado que Sofia preferiu voltar ao fogão.
Um postal que ia bater contra a janela da cozinha. Correio aéreo no verdadeiro sentido da palavra...
Mal Sofia colocou de novo
a panela no fogão, o telefone
tocou.
Se fosse o seu pai! Se ele
voltasse para casa, ela contar-lhe-ia tudo o que lhe
acontecera na semana anterior.
Mas devia ser apenas Jorunn
ou a mãe... Sofia correu para
o telefone.
- Sofia Amundsen.
- Sou eu -, respondeu uma
voz no outro lado da linha.
Sofia tinha a certeza de
três coisas: não era o pai.
Mas era uma voz masculina. E
ela estava convencida de já
ter ouvido uma vez esta voz.
- Quem fala? - perguntou.
- Fala o Alberto.
- Ah...
Sofia não sabia o que havia
de responder. Reconheceu a
voz do vídeo de Atenas. -
Estás boa? - Sim...
- Mas a partir de agora já
não há mais cartas. - Mas eu
não te mandei nenhuma rã!
- Temos de nos encontrar,
Sofia. E depressa, compreendes?
- Mas porquê?
- Estamos quase a ser encurralados pelo pai de Hilde.

150
- Encurralados como?
- Por todos os lados, Sofia. Temos de colaborar.
- Como...?
- Mas infelizmente, só me
podes ajudar quando eu te tiver falado da Idade Média.
Temos ainda de falar do Renascimento e do século XVII.
Além disso, Berkeley desempenha um papel-chave.
- Não havia um retrato dele na cabana do major?
- Sim, exactamente.
Talvez a batalha se trave
justamente por causa da sua
filosofia.
- Falas como se se tratasse de uma espécie de guerra.
- Eu diria que é uma guerra espiritual. Temos de tentar chamar a atenção de Hilde
e trazê-la para o nosso lado,
antes que o seu pai regresse a
Lillesand.
- Não estou a perceber
nada.
- Talvez os filósofos te
abram os olhos. Encontramo-nos amanhã de madrugada às
quatro, na Igreja de Santa
Maria. Mas vem sozinha, minha filha.
- Tenho de ir a meio da
noite?
- ... clic.
- Está?
Que infame! Tinha desligado. Sofia voltou a correr para o fogão. Por pouco a sopa
não tinha vindo por fora. Ela
mexeu os pedaços de peixe e as
cenouras na panela e baixou o
lume.
Na Igreja de Santa Maria? Era uma velha igreja de
pedra da Idade Média. Sofia
achava que ali já só se realizavam concertos e missas muito
especiais. No Verão era
aberta por vezes para os turistas. Mas não estaria fechada a meio da noite?
Quando a mãe voltou para
casa, Sofia tinha posto o
postal do Líbano no armário,
junto às outras coisas de Alberto e de Hilde. Depois do
jantar, foi a casa de Jorunn.
- Temos que ter um encontro um pouco especial - afirmou, quando a amiga abriu a
porta.
Não disse mais nada até terem fechado a porta do quarto
de Jorunn.
- É um bocado complicado
- prosseguiu Sofia.
- Conta!
- Tenho de dizer à minha
mãe que hoje durmo em tua casa.
- Que bom!
- Mas isso é o que eu vou
dizer, compreendes? Vou estar
noutro local.
- Valha-me Deus! Isso
tem alguma coisa a ver com um
rapaz?

151
- Não, tem a ver com
Hilde.
Jorunn assobiou baixo.
Sofia olhou fixamente para
ela.
- Venho cá hoje à noite -
disse - mas tenho de sair por
volta das três. Tens de me
encobrir até que eu esteja de
volta.
- Mas onde vais? Qual é o
teu plano?
- Desculpa. Não posso dizer nada.

Dormir em casa de Jorunn
não era problema, pelo contrário. Sofia tinha por vezes a
sensação de que a mãe gostava
de ter a casa para si.
- Mas vens amanhã para o
pequeno-almoço? - foi a única
pergunta que fez quando Sofia
saiu.
- Caso não venha, tu sabes
onde estou.
Porque é que dissera aquilo? Era esse precisamente o
ponto fraco do seu plano.
A visita de Sofia começou
como a maior parte das visitas
quando se dorme fora de casa,
com conversas íntimas até alta
noite. A diferença é que desta vez Sofia pôs o despertador para as três e um quarto
quando elas se deitaram por
fim, cerca da uma.
Jorunn acordou quando Sofia desligou o despertador
duas horas mais tarde.
- Tem cuidado - pediu
ela.
Sofia saiu para a rua e
pôs-se a caminho. A Igreja
de Santa Maria ficava a alguns quilómetros de distância,
mas apesar de ter dormido apenas duas horas, sentia-se extremamente desperta. Por cima
das colinas, a oriente, o céu
estava vermelho.
Quando ela chegou à entrada
da velha igreja de pedra, eram
quase quatro. Sofia empurrou
a porta pesada. Estava aberta!
A igreja estava deserta e
imersa num profundo silêncio.
Através dos vitrais penetrava
uma luz azulada que tornava
visíveis milhares de particulazinhas de pó que andavam no
ar. O pó parecia concentrar-se em raios espessos que
atravessavam a nave da igreja.
Sofia sentou-se num banco,
no centro. Observou o altar e
um velho crucifixo de cores
desmaiadas.
Passaram-se alguns minutos.
Subitamente, o órgão começou
a tocar. Sofia não se atrevia
a voltar-se. Parecia uma melodia muito antiga; certamente, medieval.
Pouco depois, voltou o silêncio. Ouviu então passos
atrás de si que se aproximavam. Deveria olhar para trás?
Preferiu continuar a fixar
Cristo na cruz.

152
Os passos passaram ao lado
dela, e viu então uma figura
avançar pela igreja. O vulto
trazia um hábito castanho de
monge. Sofia podia ter jurado
que se tratava de um monge medieval.
Tinha medo, mas não ficou
em pânico. O monge fez uma
curva em frente à balaustrada
do altar e subiu ao púlpito.
Inclinou-se sobre o parapeito, olhou para Sofia e disse
em latim:
- Gloria Patri et Filio
et Spiritui Sancto. Sicut
erat in principio et nunc et
semper in saecula saeculorum.
Amen.
- Fala em norueguês, imbecil! - exclamou Sofia.
As suas palavras ressoaram
na antiga igreja de pedra.
Ela sabia que o monge tinha
de ser Alberto Knox. Apesar
disso, arrependeu-se de se ter
exprimido de uma forma tão irreverente numa igreja antiga.
Mas tivera medo e, quando se
tem medo, é por vezes reconfortante quebrar todos os tabus.
- Silêncio!
Alberto levantou uma mão,
como um sacerdote que pede à
comunidade para se sentar.
- Que horas são, filha? -
perguntou.
- Cinco para as quatro -
respondeu Sofia, que já não
tinha medo.
- Então já é a hora. Agora começa a Idade Média.
- A Idade Média começa
às quatro horas? - perguntou
Sofia surpreendida.
- Sim, cerca das quatro.
Depois eram cinco, seis e
sete. Mas o tempo parecia parado. Passaram as oito, as
nove e as dez. Mas estava-se
ainda na Idade Média, compreendes? Tempo, talvez penses, de nos levantarmos para
um novo dia. Eu percebo o que
queres dizer. Mas é fim-de-semana, se me entendes, um
longo fim-de-semana. Passaram
as onze, doze e treze. Chamamos a esta época a baixa Idade Média. Foram então construídas as grandes catedrais
na Europa. Só cerca das catorze horas cantou aqui e ali
um galo. E só nessa altura
começou o seu declínio.
- Então a Idade Média
durou dez horas - concluiu
Sofia.
Alberto lançou a cabeça para a frente espreitando pelo
capuz do hábito de monge, e
olhou para a sua comunidade,
que naquele momento era constituída apenas por uma rapariga de catorze anos.
- Se uma hora dura cem
anos, sim. Podemos pensar que
Jesus nasceu à meia-noite.
Paulo iniciou as suas viagens
missionárias pouco antes da
meia noite e meia e morreu um
quarto de hora mais tarde, em
Roma. Até às três horas, a
Igreja Cristã era mais ou
menos proibida, e no ano de
313 o cristianismo foi reconhecido como

153
religião no Império Romano.
Isso sucedeu sendo imperador
Constantino, que só foi baptizado anos mais tarde no leito de morte. No ano de 380,
o Cristianismo tornou-se a
religião do Estado de todo o
Império Romano.
- Mas o Império Romano
não entrou em decadência nessa
altura?
- Sim, já estava a ruir
por todos os lados. Estamos
perante uma das mais importantes transformações culturais
da história. No século IV,
Roma foi ameaçada tanto pelas
tribos que se aproximavam vindas do Norte como por conflitos internos. No ano de 330,
o imperador Constantino
transferiu a capital do Império Romano para Constantinopla, cidade que ele próprio
fundara à entrada do mar
Negro. A nova cidade foi
considerada a partir de então
como a "segunda Roma". No
ano de 395, o Império Romano foi dividido - passou a
haver o "Império Romano do
Ocidente", com Roma no centro, e o "Império Romano do
Oriente", cuja capital era a
cidade de Constantinopla. Em
410, Roma foi saqueada por
tribos bárbaras, e em 476 todo o Império Romano do Ocidente caiu. O Império Romano do Oriente conservou-se
até ao ano de 1453, quando os
turcos conquistaram Constantinopla.
- E desde então, a cidade
chama-se Istambul?
- Correcto. Uma outra data que devemos fixar é o ano
de 529. Nesse ano, a Academia de Platão em Atenas foi
encerrada. E nesse mesmo ano,
foi fundada a Ordem Beneditina, a primeira grande ordem
monástica. Deste modo, o ano
de 529 foi o ano em que a
Igreja Cristã impediu a expansão da filosofia grega. A
partir dessa altura, os conventos detinham o monopólio do
ensino, da reflexão e da meditação. A hora avançava para
as cinco e meia...
Sofia já percebera há muito
tempo o que Alberto queria
dizer com as diversas horas.
A meia noite era o ano 0, a
uma era o ano 100 d.C., as
seis eram o ano 600 d.C., e
as catorze horas eram o ano de
1400 d.C...
Alberto prosseguiu:
- Por "Idade Média", entendemos na realidade o tempo
que medeia entre duas outras
épocas. Esta expressão surgiu
no Renascimento. Nessa época, a Idade Média era tida
como uma longa "noite de mil
anos" que tinha obscurecido a
Europa entre a Antiguidade e
o Renascimento. Ainda hoje
utilizamos a expressão "medieval" pejorativamente para tudo
o que nos parece dogmático e
retrógrado. Mas houve também
quem tivesse visto a Idade
Média como o "crescimento milenar". Foi na Idade Média,
por exemplo, que se formou o
ensino público. Muito cedo
surgiram as primeiras escolas
nos mosteiros.

154
No século XII, nasceram as
escolas nas catedrais, e a
partir do século XIII foram
fundadas as primeiras universidades. Ainda hoje, as disciplinas estão divididas em
diversos grupos ou "faculdades", como na Idade Média.
- Mas mil anos é muito
tempo.
- O cristianismo precisava
de tempo para ser aceite pelo
povo. Além disso, durante a
Idade Média nasceram as diferentes nações - com cidades
e castelos, a música e a poesia populares. O que seriam
as lendas e as canções populares sem a Idade Média? Sim,
o que seria a Europa sem a
Idade Média? Uma província
romana? Mas a ressonância de
nomes como Noruega, Inglaterra ou Alemanha reside precisamente no abismo extraordinário a que chamamos Idade
Média. Nesta profundidade há
muitos peixes graúdos, mesmo
que não os possamos encontrar.
Mas Snorri era um homem da
Idade Média. E Olaf, o
Santo. E Carlos Magno.
Para não falar de Romeu e
Julieta, os Nibelungos, a
Branca de Neve ou os gigantes das florestas norueguesas.
E ainda um conjunto de príncipes esplêndidos e reis majestosos, cavaleiros corajosos
e belas donzelas, anónimos
pintores de vitrais e geniais
construtores de órgãos. E não
mencionei os monges, os cruzados e as bruxas.
- Também ainda não falaste
dos sacerdotes.
- Tens razão. O cristianismo só chegou à Noruega
após a viragem do milénio, mas
seria um exagero se afirmássemos que a Noruega se tornou
um país cristão após a batalha
de Stiklestad. Antigas concepções pagãs coexistiam com a
doutrina cristã, e muitos destes elementos pré-cristãos
misturavam-se com os costumes
cristãos. Nas festas de Natal norueguesas, por exemplo,
coabitam ainda hoje costumes
cristãos e costumes nórdicos
antigos. Subsiste a antiga
norma segundo a qual os cônjuges tendem a assemelhar-se
cada vez mais. Apesar disso,
temos de sublinhar que o cristianismo se tornou por fim a
religião dominante, pelo que,
a Idade Média é considerada
um período dominado por uma
"cultura unitária cristã".
- Então não foi apenas um
período obscuro e triste?
- Os primeiros cem anos a
seguir ao ano 400 trouxeram,
de facto, uma decadência cultural. A época romana foi notável pelo seu alto grau de
civilização, com grandes cidades que dispunham de redes públicas de esgotos, termas públicas e bibliotecas. Para
não falar da arquitectura
grandiosa. Toda esta cultura
se desmoronou durante os primeiros séculos da Idade Média. O mesmo sucedeu com o
comércio e a economia baseados
na moeda. Na Idade Média, a
economia de subsistência e o
pagamento em géneros surgiram
de novo. O feudalismo

155
caracterizou a economia. Feudalismo significa que alguns
grandes senhores possuíam a
terra que os camponeses tinham
de cultivar para ganhar o seu
sustento. Durante o primeiro
século, a densidade populacional também baixou fortemente.
Roma fora na Antiguidade uma
cidade com mais de um milhão
de habitantes. Já no século
VII, a população da antiga
metrópole estava reduzida a
quarenta mil habitantes. Uma
população modesta caminhava
entre os restos dos opulentos
edifícios da época áurea da
cidade. Quando os homens precisavam de materiais de construção, havia suficientes ruínas antigas de que se podiam
servir, motivo de grande desgosto para os arqueólogos
actuais, que teriam preferido
que os homens da Idade Média
tivessem deixado em paz os monumentos antigos.
- À medida que o tempo
passa, sabe-se sempre mais.
- A época de Roma como
potência política terminara
por volta de finais do século
IV. Mas depressa o bispo de
Roma se tornou o chefe de
toda a Igreja católica romana. Recebeu o nome de "papa"
- ou "pai" - e, por fim, foi
considerado o representante de
Jesus na terra. Por isso,
durante quase toda a Idade
Média, Roma foi a capital da
Igreja. E não havia muitas
pessoas que ousassem "elevar a
sua voz contra Roma". Mas,
pouco a pouco, os reis e os
príncipes dos novos Estados
nacionais ganharam tanto poder
que alguns deles tinham coragem para se oporem ao forte
poderio da Igreja.
Sofia fixava o erudito monge.
- Disseste que a Igreja
encerrou a Academia de Platão em Atenas. Os filósofos
gregos foram todos esquecidos
posteriormente?
- Só em parte. Havia quem
conhecesse alguns escritos de
Aristóteles, e quem conhecesse alguns de Platão. Mas o
antigo Império Romano dividiu-se progressivamente em
três espaços culturais distintos. Na Europa Ocidental
difundiu-se uma cultura cristã
de língua latina, com a capital em Roma. Na Europa
Oriental, formou-se uma cultura cristã de língua grega,
com a capital em Constantinopla. Mais tarde, Constantinopla recebeu o nome grego
de Bizâncio. Falamos portanto da "Idade Média bizantina", por oposição à "Idade
Média católica romana". Mas
também o Norte de África e o
Médio Oriente tinham pertencido ao Império Romano. Estas regiões desenvolveram na
Idade Média uma cultura muçulmana de língua árabe. A
seguir à morte de Maomé, no
ano de 632, o Médio Oriente
e o Norte de África foram
conquistados para o Islão.
Em seguida, também a Espanha
foi anexada ao domínio cultural islâmico. O Islão obteve
por exemplo os seus lugares
sagrados em Meca, Medina,
Jerusalém e Bagdad. Do ponto de vista histórico-cultural
é importante

156
reparar que os árabes também
tomaram a antiga cidade helenística de Alexandria. Herdaram, assim, uma grande parte
da ciência grega. Durante toda a Idade Média, os árabes
detiveram o papel cimeiro em
ciências como a matemática, a
química, a astronomia e a medicina. Ainda hoje utilizamos
"algarismos árabes". Em algumas áreas, a cultura árabe era
superior à cultura cristã.
- Eu gostava de saber o
que é que se passou com a filosofia grega.
- Consegues imaginar um
rio que por algum tempo se reparte em três cursos distintos
antes de se juntarem novamente
numa grande corrente?
- Estou a imaginar.
- Então também consegues
imaginar como a cultura greco-romana foi transmitida, em
parte, através da cultura católica romana no Ocidente, em
parte através da cultura romana no Oriente e em parte
através da cultura árabe, no
Sul. Mesmo que simplifiquemos muito, podemos dizer que o
neoplatonismo sobreviveu no
Ocidente, Platão no Oriente
e Aristóteles no Sul, entre
os árabes. É importante o
facto de todos os três cursos
terem confluído numa corrente
no final da Idade Média, no
norte de Itália. Na Espanha, os árabes contribuíam com
influências árabes, a Grécia
e Bizâncio com influências
gregas. E começa então o Renascimento, inicia-se o "renascer" da cultura antiga. De
certo modo, a cultura antiga
sobrevivera à longa Idade
Média.
- Compreendo.
- Mas não nos devemos antecipar ao curso dos acontecimentos. Primeiro, vamos conversar um pouco acerca da filosofia da Idade Média, minha filha. E não te vou falar
mais do púlpito. Vou descer.
Sofia sentia os olhos pesados de sono. Ao ver o estranho monge descer do púlpito da
Igreja de Santa Maria, parecia-lhe estar a sonhar.
Alberto dirigiu-se para a
balaustrada do altar. Primeiro, olhou para o altar com o
velho crucifixo. Depois, voltou-se para Sofia, foi ter
com ela a passos lentos e sentou-se ao seu lado no banco.
Era estranho estar tão perto dele. Sob o capuz, Sofia
viu dois olhos castanhos de um
homem de meia-idade, de cabelos escuros e pêra.
Quem és tu? pensou ela.
Porque é que apareceste na
minha vida?
- Havemos de nos conhecer
melhor - afirmou ele, como se
lhe tivesse lido os pensamentos.
Enquanto ali permaneciam, a
luz que entrava na igreja
através dos vitrais tornava-se
cada vez mais clara. Alberto
Knox começou então a falar da
filosofia medieval.

157
- Os filósofos medievais
aceitaram como um dado adquirido que o cristianismo era a
verdade - começou ele. - As
questões principais eram outras: temos simplesmente que
acreditar na revelação cristã
ou podemos também chegar às
verdades cristãs com o auxílio
da razão? Como era a relação
entre os filósofos gregos e as
doutrinas da Bíblia? Existia
uma contradição entre a Bíblia e a razão, ou a fé e o
saber estavam de acordo? Quase toda a filosofia medieval
girava em torno desta questão.
Sofia acenou a cabeça com
impaciência. Já respondera a
esta questão da fé e do saber
no seu trabalho de religião.
- Vamos ver como esta problemática se situa nos filósofos mais importantes da Idade
Média e podemos começar com
Santo Agostinho, que viveu
entre 354 e 430. Na vida
deste homem podemos estudar a
passagem da Antiguidade tardia ao início da Idade Média. Santo Agostinho nasceu
na vila de Tagaste, no norte
de África, mas com dezasseis
anos foi estudar para Cartago. Mais tarde, visitou Roma
e Milão e passou os últimos
anos da sua vida como bispo de
Hipona, a trinta ou quarenta
quilómetros a oeste de Cartago. Mas ele não foi sempre
cristão. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosóficas e religiosas antes de
se converter ao cristianismo.
- Podes dar-me exemplos?
- Durante algum tempo, foi
"maniqueu". Os maniqueus pertenciam a uma seita típica da
Antiguidade tardia. Proclamavam uma teoria da salvação
em parte religiosa e em parte
filosófica. Dividiam o mundo
em bem e mal, luz e trevas,
espírito e matéria. Através
do seu espírito, os homens podiam elevar-se acima do mundo
material e deste modo criar a
base para a salvação da sua
alma. Mas a rigorosa separação entre o bem e o mal não
dava descanso a Santo Agostinho. O jovem Agostinho
ocupava-se sobretudo com aquilo a que costumamos chamar "o
problema do mal". Por este
problema, devemos entender a
questão da origem do mal.
Durante algum tempo, ele foi
influenciado pela filosofia
estóica, e os estóicos negavam
uma separação clara entre o
bem e o mal. Mas acima de tudo, Santo Agostinho foi influenciado por uma outra corrente filosófica importante da
Antiguidade tardia - o neoplatonismo, que defendia que
tudo o que existia era de natureza divina.
- E tornou-se então um
bispo neoplatónico?
- Sim, talvez o possas dizer assim. Primeiro que tudo,
tornou-se cristão, mas o cristianismo de Santo Agostinho
é, em grande parte, influenciado pelo pensamento platónico. E por isso, Sofia, não
há uma ruptura dramática com a
filosofia grega quando entramos na Idade

158
Média cristã. Boa parte da
filosofia grega foi levada
para a nova época por padres
da Igreja como Santo Agostinho.
- Queres dizer que Santo
Agostinho era cinquenta por
cento cristão e cinquenta por
cento neoplatónico?
- Ele achava-se obviamente
cem por cento cristão. Mas
não via nenhuma contradição
profunda entre o cristianismo
e a filosofia platónica. Os
paralelismos entre a filosofia
de Platão e a doutrina cristã
pareciam-lhe tão evidentes que
se questionava se Platão não
poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento, o que é naturalmente
muito duvidoso. Podemos, pelo
contrário, afirmar que Santo
Agostinho "cristianizou"
Platão.
- Pelo menos não rejeitou
tudo o que tinha a ver com filosofia, apesar de acreditar
no cristianismo?
- Mostrou que há limites
para o alcance da razão em
questões religiosas. O cristianismo é também um mistério
divino ao qual só podemos chegar através da fé. Mas quando
acreditarmos no cristianismo,
Deus "iluminará" a nossa
alma, e então obteremos uma
espécie de saber sobrenatural
acerca de Deus. O próprio
Santo Agostinho sentira que
a filosofia não podia ser ilimitada. A sua alma só encontrou descanso quando ele se
tornou cristão. "Agitado está
o nosso coração, enquanto não
repousa em Ti" escreveu.
- Eu não compreendo bem
como é que a teoria das ideias
de Platão se pôde conciliar
com o cristianismo - objectou
Sofia. - O que é que sucede
às ideias eternas?
- Santo Agostinho explica
que Deus criou o mundo do nada, e isso é uma ideia bíblica. Os gregos inclinavam-se
mais para a ideia de que o
mundo existira sempre. Mas,
segundo S. Agostinho, antes
de Deus ter criado o mundo as
"ideias" existiam no pensamento de Deus. Ele atribuiu as
ideias eternas a Deus e salvou deste modo a concepção
platónica da ideia eterna.
- Muito inteligente!
- Mas isso também mostra
como Santo Agostinho e muitos outros padres da Igreja
se esforçaram por conciliar o
pensamento grego e o hebraico.
De certo modo, eram cidadãos
de duas culturas. Na sua concepção do mal, também recorre
ao neoplatonismo. Achava, como Plotino, que o mal consistia na "ausência" de Deus. O
mal não tem uma existência
própria, é algo que não é,
porque a Criação de Deus é
apenas boa. O mal surge através da desobediência dos homens, segundo Santo Agostinho. Ou, usando as suas próprias palavras: a "boa vontade" é "obra de Deus", a "má
vontade" é a "negação da obra
de Deus".

159
- Também acreditava que o
homem possui uma alma imortal?
- Sim e não. Santo Agostinho explica que entre Deus
e o mundo existe um abismo insuperável. Baseia-se no fundamento bíblico e rejeita a
teoria de Plotino, segundo a
qual tudo é uno. Mas Santo
Agostinho também salienta que
o homem é um ser espiritual.
Possui um corpo material -
que pertence ao mundo físico e
é corrompido pelos agentes naturais -, mas ele também tem
uma alma que pode conhecer
Deus.
- O que é que acontece à
alma quando morremos?
- Segundo Santo Agostinho, toda a geração humana foi
condenada após o pecado original. Apesar disso, Deus decidiu que alguns homens deviam
ser poupados à condenação
eterna.
- Mas então também podia
ter decidido que ninguém devia
estar condenado - objectou
Sofia.
- Mas, nesse ponto, Santo
Agostinho nega que o homem
tenha direito a criticar
Deus. Sustenta o que Paulo
escreveu na sua "Epístola aos
Romanos": "Ó homem, quem és
tu para disputares com Deus?
Acaso uma obra também diz a
quem a fez: porque é que me
fizeste assim? Porventura um
oleiro não tem poder para fazer da mesma massa um vaso
para bom uso e outro para uso
vil?"
- Então Deus está no céu
e brinca com os homens? Quando alguma coisa daquilo que
ele mesmo criou não lhe serve,
deita-a imediatamente fora?
- É que, para Santo
Agostinho, nenhum homem é
digno da salvação de Deus.
No entanto, Deus escolheu
alguns que devem ser salvos da
condenação. Para ele, não é
pois um segredo quem é que
deve ser salvo e quem é que
deve ser condenado. Isso está
determinado previamente. Logo, nós somos barro nas mãos
de Deus. Estamos completamente dependentes da Sua graça.
- Então ele voltou de certo modo à antiga crença no
destino.
- Talvez tenhas razão nisso. Mas Santo Agostinho não
retira ao homem a responsabilidade pela sua própria vida.
Segundo o seu ponto de vista,
nós devemos viver de modo a
podermos saber que pertencemos
ao número dos eleitos. Não
nega que tenhamos livre arbítrio. Só que Deus já "previu" como é que vamos viver.
- Isso não é um pouco injusto? - perguntou Sofia -
Sócrates acreditava que todos
os homens tinham as mesmas
possibilidades por partilharem
a mesma razão. Mas Santo
Agostinho separava os homens
em dois grupos. Um dos grupos
é salvo, o outro é condenado.
- Sim, com a teologia de
Santo Agostinho afastamo-nos
do humanismo de Atenas. Mas
não era Santo Agostinho que
dividia a

160
humanidade em dois grupos.
Ele baseia-se na doutrina da
Bíblia acerca da salvação e
da condenação. Na sua grande
obra A Cidade de Deus, explica-o mais exactamente.
- Conta!
- A expressão "cidade de
Deus" ou "reino de Deus" vem
da Bíblia e da mensagem de
Jesus. Santo Agostinho
acreditava que a história trata do modo como o combate entre a "cidade de Deus" e a
"cidade terrena" é conduzido.
Estas duas cidades não são
Estados políticos distintos
um do outro. Lutam pelo poder
em cada homem. A cidade de
Deus está presente na Igreja
e a cidade terrena nos Estados políticos - por exemplo,
no Império Romano, que começou a desagregar-se precisamente na época de Santo
Agostinho. Esta concepção
tornou-se cada vez mais evidente à medida que a Igreja e
o Estado lutavam pelo poder
durante toda a Idade Média.
"Não há salvação fora da
Igreja", dizia-se. A cidade
de Deus de Santo Agostinho
era inclusivamente comparada à
Igreja como instituição. Só
durante a Reforma, no século
XVI, se levantou um protesto
contra a ideia de que o homem
tinha que percorrer o caminho
da Igreja para obter a graça
divina.
- Já não era sem tempo.
- Também podemos notar que
Santo Agostinho foi o primeiro dos nossos filósofos a
incluir a história na sua filosofia. A aceitação de um
combate entre o bem e o mal
não era nada de novo. A novidade em Santo Agostinho é
que este combate é disputado
na história. Deste ponto de
vista, não encontramos nele
muito platonismo. Em vez disso, apoia-se firmemente na
concepção linear da história
que encontramos no Antigo
Testamento. É que para Santo Agostinho Deus precisa de
toda a história para erigir a
sua "cidade de Deus". A história é necessária para instruir os homens e destruir o
mal. Em certo passo, Santo
Agostinho afirma que a providência divina dirige a história da humanidade desde Adão
até ao fim da história, tal
como a história de um único
homem que se vai desenrolando
progressivamente desde a infância até à velhice.
Sofia olhou para o relógio.
- Já são oito horas -
afirmou - tenho de ir.
- Mas primeiro, vou falar-te do segundo grande filósofo da Idade Média. Vamos
sentar-nos lá fora?
Alberto levantou-se do banco. Juntou as palmas das mãos
e avançou pela nave. Parecia
rezar ou meditar em verdades
espirituais. Sofia seguia-o;
parecia-lhe não ter outra escolha.

161
Lá fora, uma fina camada de
neblina cobria ainda o solo.
O Sol nascera há muitas horas, mas ainda não conseguira
dissolver a neblina matinal.
A igreja de Santa Maria ficava junto ao bairro antigo.
Alberto sentou-se num banco
em frente da igreja. Sofia
pensou no que sucederia se alguém passasse naquele momento.
Já era bastante estranho estar ali sentada num banco, às
oito da manhã; e o facto de
ter por companhia um monge da
Idade Média ainda era mais
estranho.
- São oito horas - começou ele. - Desde Santo
Agostinho passaram quatro séculos, e agora começa o longo
dia de escola. Até às dez horas, os mosteiros detêm o monopólio do ensino. Entre as
dez e as onze, são estabelecidas as primeiras escolas nas
catedrais, e cerca das doze
horas são fundadas as primeiras universidades. Além disso, são construídas as grandes
catedrais. Esta igreja também
foi construída cerca das doze
horas - ou na chamada baixa
Idade Média. Aqui, nesta
cidade, não podiam construir
catedrais maiores.
- Também não era preciso
- interrompeu Sofia. - Detesto ver as igrejas vazias.
- Mas as grandes catedrais
não foram construídas apenas
para acolherem grandes multidões. Foram erigidas em honra
de Deus e tinham por si só
uma espécie de função religiosa. Mas na baixa Idade Média sucedeu uma outra coisa
que é muito interessante para
filósofos como nós.
- Conta!
Alberto prosseguiu:
- Nessa altura, a influência dos árabes era dominante
na Espanha. Os árabes tinham
conservado viva durante toda a
Idade Média uma tradição
aristotélica e, a partir aproximadamente de 1200, eruditos
árabes foram para o Norte de
Itália a convite dos príncipes locais. Assim, muitos dos
seus escritos foram divulgados
e por fim traduzidos do grego
e do árabe para o latim. E
isso, por seu lado, criou um
novo interesse no que diz respeito às ciências da natureza.
Além disso, foi de novo equacionada a relação entre a revelação cristã e a filosofia
grega. Nas questões das ciências naturais, todos os caminhos passavam por Aristóteles. Mas quando é que se devia escutar o "filósofo" - e
quando é que se devia ater exclusivamente à Bíblia? Ainda
estás a seguir?
Sofia acenou vivamente que
sim e o monge prosseguiu:
- O maior e mais importante filósofo da baixa Idade
Média foi "S. Tomás de
Aquino", que viveu entre
1225 e 1274. Era natural da
pequena vila de Aquino entre
Roma e Nápoles, mas ensinou
em Paris. Eu chamo-lhe filósofo, mas ele era igualmente
teólogo. Nessa

162
altura, não havia uma verdadeira separação entre filosofia e teologia. Muito resumidamente, podemos dizer que S.
Tomás "cristianizou" Aristóteles, da mesma forma que
Santo Agostinho o fizera com
Platão no início da Idade
Média.
- Não era um pouco estranho cristianizar filósofos que
tinham vivido tantos séculos
antes de Cristo?
- Sim, mas por "cristianização" dos dois grandes filósofos gregos entendemos que
eles foram interpretados e entendidos de forma a não constituírem uma ameaça para a
doutrina cristã. Acerca de
S. Tomás de Aquino, diz-se
que "agarrou o touro pelos
cornos".
- Eu realmente não sabia
que a filosofia tinha alguma
coisa a ver com tourada.
- S. Tomás de Aquino fazia parte daqueles que queriam
conciliar a filosofia de
Aristóteles com o cristianismo. Dizemos que ele realizou
a grande síntese entre fé e
saber. E conseguiu-o porque
partiu da filosofia de Aristóteles e a tomou à letra.
- Ou pelos cornos. Infelizmente, esta noite quase não
dormi e por isso receio que
tenhas de me explicar isso melhor.
- S. Tomás de Aquino não
acreditava numa contradição
inevitável entre o que a filosofia ou a razão, por um lado,
e a revelação cristã ou a fé,
por outro, nos dizem. Frequentemente, o cristianismo e
a filosofia dizem-nos o mesmo.
Por isso, podemos examinar
com a ajuda da razão as mesmas
verdades que lemos na Bíblia.
- Mas como é que isso é
possível? Pode a razão dizer-nos que Deus criou o mundo
em seis dias? Ou que Jesus
era filho de Deus?
- Não, só podemos ter
acesso a essas "verdades de
fé" através da fé e da revelação cristã. Mas S. Tomás de
Aquino achava que havia também uma série de "verdades
teológicas naturais", ou seja,
verdades que podem ser alcançadas tanto através da revelação cristã como através da
nossa razão inata ou "natural". Uma verdade dessas é,
por exemplo, dizer-se que
Deus existe. S. Tomás acreditava portanto em dois caminhos que levam a Deus. Um
dos caminhos passa pela fé e
pela revelação, o outro pela
razão e pelos sentidos. Das
duas vias, a que passa pela fé
e pela revelação é a mais segura, porque podemos facilmente errar se confiarmos apenas
na razão. Mas para S. Tomás
não é preciso haver nenhuma
contradição entre a doutrina
cristã e um filósofo como
Aristóteles.
- Então podemos confiar
tanto em Aristóteles como na
Bíblia?
- Não, não. Aristóteles
só percorre uma parte do caminho, porque não conheceu a revelação cristã. Mas percorrer
apenas uma parte do caminho
não significa enganar-se. Por
exemplo, não é falso dizer

163
que Atenas fica na Europa.
Mas também não é muito preciso. Quando um livro apenas te
informa que Atenas é uma cidade europeia, devias consultar ainda um atlas. E aí ficas a saber toda a verdade:
Atenas é a capital da Grécia, um pequeno país no sudeste da Europa. Se tiveres
sorte, talvez fiques ainda a
saber alguma coisa sobre a
Acrópole. Para não falar de
Sócrates, Platão e Aristóteles.
- Mas a primeira informação acerca de Atenas também
estava correcta.
- Exacto! S. Tomás quer
mostrar que há apenas uma verdade. Quando Aristóteles
apresenta algo que reconhecemos como verdadeiro por intermédio da razão, isso não entra
em contradição com a doutrina
cristã. Podemos obter uma
parte da verdade com a ajuda
da razão e da observação - e
Aristóteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o reino vegetal
e o reino animal. Uma segunda
parte da verdade foi-nos revelada por Deus através da
Bíblia. Mas as duas partes
da verdade coincidem em muitos
pontos importantes. Há algumas perguntas a que a Bíblia
e a razão nos respondem exactamente da mesma maneira.
- Por exemplo, que Deus
existe?
- Exacto. A filosofia de
Aristóteles também pressupunha que Deus existe - ou uma
primeira causa que põe em movimento todos os processos naturais. Mas não descreve
Deus mais detalhadamente.
Aí, temos de nos basear na
Bíblia e na mensagem de Jesus.
- Mas é mesmo verdade que
Deus exista realmente?
- Isso é obviamente discutível. Mas, ainda hoje, a
maior parte das pessoas admitiria que pelo menos a nossa
razão não pode provar que
Deus não existe. S. Tomás
foi mais longe. Acreditava
poder provar a existência de
Deus com base na filosofia de
Aristóteles.
- Nada mau!
- Segundo ele, com a razão
também podemos reconhecer que
tudo tem de ter uma "primeira
causa". Deus, para S. Tomás, revelou-se aos homens por
meio da Bíblia e por meio da
razão. Logo, há uma teologia
"revelada" e uma teologia "natural". O mesmo se passa no
domínio da moral. Podemos ler
na Bíblia como é que devemos
viver segundo a vontade de
Deus. Mas Deus também nos
dotou de uma consciência que
nos habilita a distinguir o
justo do injusto numa base
"natural". Também existem
"duas vias" para a vida moral.
Podemos saber que não devemos
maltratar os outros mesmo que
não tenhamos lido na Bíblia
que devemos tratar os outros
como gostaríamos de ser tratados por eles. Mas, também
neste caso, os mandamentos da
Bíblia são a norma mais segura.

164
- Acho que estou a perceber - disse então Sofia. -
Da mesma forma, podemos saber
que há uma trovoada quando vemos o relâmpago e ouvimos o
trovão.
- É isso. Mesmo que sejamos cegos, podemos ouvir o
trovão. E mesmo que sejamos
surdos, podemos ver a trovoada. É óbvio que o melhor é
poder ver e ouvir. Mas não há
nenhuma contradição entre
aquilo que vemos e o que ouvimos. Pelo contrário - as
duas impressões enriquecem-se
mutuamente.
- Compreendo.
- Deixa-me dar mais um
exemplo. Quando lês um romance - por exemplo "Vitória"
de Knut Hamsun... (")
- De facto, já o li...
- ... não descobres também
alguma coisa acerca do autor,
só porque lês o romance escrito por ele?
- Pelo menos posso partir
do princípio de que há um autor que escreveu o livro.
- Podes saber algo mais
acerca dele?
- Acho que tem uma concepção bastante romântica do
..................
"Knut Hamsun (1859-1952) - Escritor norueguês, autor de "Fome"
(1890), "Pan" (1894),
"Vitória" (1898) e "Frutos da Terra" (1917).
Recebeu em 1920 o Prémio
Nobel da Literatura.
amor.
- Ao leres esse romance -
uma criação de Hamsun -,
também ficas a saber qualquer
coisa acerca do próprio Hamsun. Mas não podes esperar
informações muito pessoais sobre o autor. Podes, por exemplo, saber através de "Vitória" que idade tinha o autor
quando o escreveu, onde morava
ou quantos filhos tinha?
- Claro que não.
- Mas uma biografia acerca
de Knut Hamsun fornece-te
esse tipo de informações. Só
numa biografia - ou autobiografia - podes conhecer melhor a pessoa do autor.
- Sim, é verdade.
- A relação entre a Criação de Deus e a Bíblia é
mais ou menos assim. Se observarmos a natureza, podemos
saber que Deus existe. Pode
mos ver que ele gosta de flores e de animais, de outra
forma não os teria criado.
Mas só encontramos informações acerca de Deus na Bíblia - ou seja, na autobiografia de Deus.
- Esse é um exemplo inteligente.
- Mm...
Pela primeira vez, Alberto
mergulhou nos seus pensamentos
e não deu resposta.

165
- Isso tem alguma coisa a
ver com Hilde? - perguntou
Sofia.
- Nós nem sequer sabemos
se Hilde existe.
- Mas descobrimos aqui e
ali vestígios dela. Postais e
um lenço de seda, uma carteira
verde, uma meia...
Alberto acenou afirmativamente.
- E parece depender do pai
de Hilde o número de pistas
que quer deixar. Mas, até
agora, só sabemos que existe
uma pessoa que escreve os postais. Acho que ele devia também escrever qualquer coisa
acerca de si mesmo. Mas ainda
havemos de voltar a falar sobre isso.
- São doze horas. Eu tenho mesmo de voltar para casa
antes do fim da Idade Média.
- Vou concluir dizendo em
poucas palavras como é que S.
Tomás de Aquino adoptou a
filosofia de Aristóteles em
todos os domínios que não colidiam com a teologia da
Igreja. Isso é válido para a
sua lógica, a sua filosofia do
conhecimento e ainda para a
sua filosofia da natureza.
Ainda te lembras do modo como
Aristóteles descreveu uma escala ascendente da vida, desde
as plantas e os animais, até
ao homem?
Sofia acenou afirmativamente.
- Já Aristóteles acreditava que esta escala remetia
para um Deus que representava
uma espécie de vértice máximo
da existência. Este esquema
era facilmente adaptável à
teologia cristã. S. Tomás
acreditava num grau de existência crescente, desde as
plantas e os animais até aos
homens, dos homens até aos anjos, e dos anjos até Deus. O
homem, tal como os animais,
possui um corpo com órgãos dos
sentidos, mas o homem também
possui uma razão que pensa.
Os anjos não têm corpo nem
órgãos dos sentidos, mas em
vez disso têm uma inteligência
directa e imediata. Não precisam de "discorrer", como os
homens, não precisam de fazer
deduções. Sabem tudo o que os
homens podem saber, mas não
precisam de avançar progressivamente às apalpadelas como
nós. Uma vez que os anjos não
têm corpo, nunca vão morrer.
Não são eternos como Deus,
visto que também eles foram
criados por Deus, mas não têm
um corpo do qual poderiam ser
separados, e por isso nunca
hão-de morrer.
- Isso soa maravilhosamente.
- Mas acima dos anjos reina Deus, Sofia. Ele pode
ver e saber tudo numa única
visão de conjunto.
- Nesse caso, também nos
está a ver agora.
- Sim, talvez nos esteja a
ver. Mas não "agora". Para
Deus, o tempo não existe como
para nós. O nosso "agora" não
é o "agora" de Deus. O facto
de passarem algumas semanas
para nós não significa que
também passem para Deus.

166
- Mas isso é inquietante!
- exclamou Sofia, colocando
a mão na boca. Alberto olhou
para ela, e Sofia explicou:
- Recebi novamente um postal do pai de Hilde. Escreveu qualquer coisa assim: "Se
passa uma semana ou duas para
Sofia, não significa que passe o mesmo tempo para nós." É
quase o mesmo que disseste sobre Deus!
Sofia viu que o rosto no
capuz castanho se contorceu
num veemente trejeito.
- Ele devia ter vergonha!
Sofia não percebeu o que
Alberto queria dizer com
aquilo. Talvez fosse apenas
uma maneira de falar. E prosseguiu:
- Infelizmente, S. Tomás
de Aquino também adoptou a
concepção aristotélica da mulher. Talvez ainda te lembres
que, para Aristóteles, a mulher era uma espécie de homem
imperfeito. Ele achava ainda
que os filhos apenas herdavam
as características do pai,
porque a mulher era passiva,
enquanto o homem era activo.
Segundo S. Tomás, estas reflexões estavam de acordo com
as palavras da Bíblia - onde
está escrito, por exemplo, que
a mulher foi criada da costela
do homem.
- Que disparate!
- Talvez seja importante
acrescentar que os mecanismos
de ovulação nos mamíferos só
foram descobertos em 1827.
Por isso, talvez não fosse de
surpreender que o homem fosse
considerado aquele que fornece
a forma e dá a vida na reprodução. Podemos também notar
que para S. Tomás a mulher
só era inferior ao homem enquanto criatura física. Para
ele, a alma da mulher é tão
importante como a do homem.
No céu, há igualdade entre os
sexos, muito simplesmente porque já não há diferenças corporais entre os sexos.
- Mas isso é um fraco consolo. Na Idade Média não
havia filósofas?
- Na Idade Média, a
Igreja era fortemente dominada pelos homens. Mas isso não
significa que não tenha havido
pensadoras. Uma delas era
"Hildegard von Bingen"...
Sofia arregalou os olhos:
- Ela tem alguma coisa a
ver com Hilde?
- Que perguntas fazes!
Hildegard viveu entre 1098 e
1179 como freira na Renânia.
Era mulher, mas no entanto
foi pregadora, escritora, médica, botânica e cientista.
Foi um exemplo de que na
Idade Média as mulheres eram
frequentemente mais práticas
- e mesmo mais científicas -
que os homens.
- Eu perguntei se ela tem
alguma coisa a ver com Hilde!

167
- Existe uma antiga concepção cristã e hebraica segundo a qual Deus não é apenas homem. Ele também tem um
lado feminino ou "natureza maternal". Porque também a mulher foi criada à imagem de
Deus. Em grego, este lado
feminino de Deus chamava-se
"Sophia". "Sophia" ou "sofia" significa "sabedoria".
Sofia abanou a cabeça perplexa. Porque é que nunca
ninguém lho dissera? E porque
é que nunca fizera perguntas
acerca disso?
Alberto prosseguiu:
- Entre os Judeus e na
Igreja grega ortodoxa, "sophia" - ou a natureza maternal de Deus - desempenhou um
papel determinado durante a
Idade Média. No ocidente
caiu em esquecimento. Mas depois veio Hildegard. Ela
conta que Sofia lhe apareceu
em visões. Tinha uma túnica
dourada enfeitada de pedras
preciosas...
Nesse momento, Sofia levantou-se bruscamente do banco. Sophia mostrara-se a
Hildegard em visões...
- Talvez eu também apareça
a Hilde.
Voltou a sentar-se. Pela
terceira vez, Alberto colocou-lhe a mão no ombro.
- Isso é o que temos de
descobrir. Mas é quase uma
hora. Tens de ir para casa
almoçar e nós temos à nossa
frente uma nova época. Vou
marcar-te um encontro no Renascimento. Hermes irá buscar-te ao jardim.
E com isto o estranho monge
levantou-se e caminhou em direcção à igreja. Sofia ficou
sentada pensando em Hildegard
e Sophia, Hilde e Sofia.
De repente, sentiu um calafrio na espinha. Levantou-se
de um pulo e chamou pelo professor de filosofia disfarçado
de monge.
- Na Idade Média havia
algum Alberto?
Alberto retardou um pouco
os seus passos, virou a cabeça
e disse:
- S. Tomás de Aquino
teve um professor de filosofia
famoso. Chamava-se "Alberto
Magno"!
Com isto, inclinou a cabeça
e desapareceu na entrada da
igreja de Santa Maria.
Sofia não se deu por satisfeita. Voltou também à igreja. Mas esta estava completamente vazia. Ter-se-ia ele
afundado no chão?
Ao deixar a igreja, o seu
olhar poisou numa imagem de
Nossa Senhora. Aproximou-se
e examinou-a com minúcia. De
repente, descobriu uma gota de
água por baixo de um dos olhos
da imagem. Seria uma lágrima?
Sofia precipitou-se para
fora da igreja e correu para
casa de Jorunn.

168
O Renascimento
"... ó estirpe divina em
vestes humanas..."

Jorunn estava em frente à
casa amarela quando, por volta
da uma e meia, Sofia chegou
esbaforida ao portão do jardim.
- Estiveste fora mais de
dez horas - exclamou Jorunn.
Sofia abanou a cabeça.
- Estive fora durante mais
de mil anos.
- Onde é que estiveste?
- Tive um encontro com um
monge da Idade Média. Uma
pessoa estranha.
- Estás doida. A tua mãe
telefonou há meia hora.
- E o que é que lhe disseste?
- Disse que tinhas ido ao
quiosque.
- O que é que ela respondeu?
- Disse que telefonasses
quando voltasses. Com os meus
pais, o caso foi mais grave.
Cerca das dez horas, levaram-nos o pequeno-almoço. E
nessa altura, uma das camas
estava vazia.
- O que é que disseste?
- Foi extremamente desagradável. Disse que nos tínhamos zangado e que tu tinhas
voltado para casa.
- Nesse caso, temos de fazer rapidamente as pazes. E
durante alguns dias os teus
pais não podem falar com a minha mãe. Achas que vamos conseguir?
Jorunn encolheu os ombros.
Em seguida, o pai dela apareceu no jardim com um carrinho
de mão. Trazia um fato-macaco. Tinha decidido limpar do
jardim a folhagem que caíra no
último ano.
- Então, de novo unha com
carne? - perguntou - Já não
há uma única folha em frente à
janela da cave.
- Que bom - respondeu
Sofia. - Assim, podemos tomar lá o cacau em vez de o tomarmos na cama.
:,

169
O pai fez um sorriso forçado e Jorunn estremeceu. Na
casa de Sofia nunca se dera
tanta atenção a uma linguagem
cuidada como na casa do conselheiro financeiro Ingebrigtsen e da sua esposa.
- Desculpa, Jorunn. Mas
achava que também tinha de entrar na história.
- Vais contar-me alguma
coisa?
- Se me levares a casa. A
história não diz respeito a
conselheiros financeiros ou a
Barbies crescidas.
- Tu és horrível. Achas
que um casamento falhado que
leva uma das partes à vida do
mar é melhor?
- Claro que não. Esta
noite quase não dormi. E começo a perguntar-me se Hilde
não estará ver tudo o que fazemos.
Caminharam lentamente para
Klõverveien.
- Achas que ela é vidente?
- Talvez sim. Ou talvez
não.
Era evidente que Jorunn
começava a fartar-se de todos
aqueles segredos.
- Mas isso não explica
porque é que o pai lhe envia
postais sem sentido para uma
cabana abandonada no bosque.
- Admito que esse seja um
ponto fraco.
- Não me queres contar
onde estiveste?
Sofia contou. Falou também
do seu curso de filosofia secreto. Para isso, obteve de
Jorunn a promessa solene de
que tudo ficaria entre elas.
Caminharam algum tempo em
silêncio lado a lado.
- Não estou a gostar disto
- disse Jorunn, à medida que
se aproximavam de
Klõverveien, 3. Parou em
frente do portão do jardim e
voltou para trás.
- Ninguém te pediu que
gostasses. Mas a filosofia é
importante. Trata de quem somos e de onde viemos.
Aprendemos alguma coisa acerca disso na escola?
- Mas ninguém pode responder a essas perguntas.
- Nós nem sequer aprendemos a pôr estas questões.
Quando Sofia entrou na cozinha, o almoço já estava na
mesa. Não se falou acerca do
facto de não ter telefonado da
casa de Jorunn.
Depois do almoço, quis fazer uma sesta. Confessou não
ter dormido quase nada em casa
de Jorunn. Mas isso não era
estranho para uma visita de
uma noite.
Antes de ir para a cama,
colocou-se em frente ao grande
espelho de latão que pendurara
na parede. Primeiro, apenas
viu o seu próprio

170
rosto cansado e pálido. Mas
em seguida - por detrás do
seu próprio rosto, pareciam
emergir subitamente os contornos débeis de um outro rosto.
Sofia respirou profundamente. Desta vez não podia estar
a imaginar nada. Em contornos
nítidos, via o seu rosto pálido, que os cabelos negros
emolduravam, cabelos que apenas serviam para fazer o penteado "cabelos lisos" naturais. Mas por baixo ou por
detrás deste rosto aparecia o
rosto de uma outra pessoa.
De repente, a rapariga estranha do espelho piscou energicamente os olhos. Parecia
querer avisar que estava, de
facto, do outro lado do espelho. Poucos segundos depois,
desapareceu.
Sofia sentou-se na cama.
Tinha a certeza de ter visto
o rosto de Hilde no espelho.
Uma vez, durante alguns segundos, vira a fotografia de
Hilde num cartão da escola,
na cabana do major. Tinha de
ser a mesma rapariga que surgira agora no espelho.
Não era estranho que estas
coisas misteriosas lhe sucedessem sempre quando estava
exausta? Por isso se interrogava depois se não tinha sido
uma fantasia.
Sofia colocou a roupa sobre
a cadeira e enfiou-se na cama.
Adormeceu imediatamente.
Teve um sonho extremamente
intenso e claro.
Sonhou que estava num grande jardim que dava para um
barracão para barcos, vermelho. Na doca, junto ao barracão, estava sentada uma rapariga loira que olhava para o
lago. Sofia foi ter com ela e
sentou-se ao seu lado. Mas a
rapariga desconhecida não pareceu notar a sua presença.
Sofia apresentou-se. "Eu
chamo-me Sofia." Mas a desconhecida não a conseguia ver
nem ouvir. "Deves ser surda e
muda", afirmou Sofia. E a
desconhecida era na realidade
surda às palavras de Sofia.
De repente, Sofia ouviu uma
voz a chamar: "Hilde!". A
rapariga saltou da doca e correu em direcção à casa. Era
evidente que não podia ser
cega nem surda. Um homem de
meia-idade foi em direcção a
ela. Vestia um uniforme e
trazia uma bóina azul. A desconhecida atirou-se ao pescoço
do homem e ele andou com ela à
roda. Sofia encontrou então à
beira da doca, onde a rapariga
se sentara, um colar com um
pequeno crucifixo de ouro.
Apanhou-o e manteve-o na mão.
Depois, acordou.
Sofia olhou para o relógio.
Tinha dormido duas horas.
Sentou-se na cama e reflectiu
sobre aquele estranho sonho.
Tinha sido tão intenso e claro como um acontecimento verdadeiro. Sofia tinha a certeza de que a casa e a doca do
seu sonho existiriam algures.
Não havia uma semelhança com
o quadro que vira na cabana do
major? De qualquer modo, tinha a certeza de que a rapariga do seu sonho era

171
Hilde Mõller Knag e o homem
o pai dela que voltava do
Líbano. No sonho, ele fazia
lembrar um pouco Alberto
Knox...
Quando Sofia se levantou
para fazer a cama descobriu
debaixo do travesseiro um colar com um crucifixo de ouro.
No lado de trás do crucifixo
estavam gravadas três letras:
"HMK".
Não era a primeira vez que
Sofia encontrava um tesouro
num sonho, mas nunca tinha
conseguido transportar um tesouro de um sonho para a realidade.
- Que diabo! - exclamou
alto para si mesma.
Estava tão furiosa que
abriu violentamente a porta do
armário e atirou o belo colar
para junto do lenço de seda, a
meia branca e os postais do
Líbano.
No domingo de manhã, Sofia
foi acordada para tomar um
grande pequeno-almoço com torradas, sumo de laranja, ovos e
salada. Aos domingos, a mãe
raramente se levantava antes
de Sofia. E quando isso
acontecia, era para ela uma
questão de honra preparar um
suculento pequeno-almoço de
domingo antes de acordar Sofia.
Ao pequeno-almoço, a mãe
disse:
- Está um cão desconhecido
no jardim. Andou à volta da
sebe velha toda a manhã. Tens
ideia de onde possa ter vindo?
- Sim, claro - exclamou
Sofia, e mordeu imediatamente
os lábios com força.
- Já esteve aqui outras
vezes?
Sofia já se tinha levantado
e ido à janela da sala de estar. Exacto - Hermes sentara-se à entrada da toca.
O que haveria de dizer agora? Não conseguiu imaginar
nenhuma resposta antes de a
mãe já estar ao seu lado.
- Disseste que ele já esteve aqui outras vezes?
- Deve ter enterrado um
osso ali. E agora quer recuperar o seu tesouro. Os cães
também têm memória...
- Sim, talvez, Sofia. Tu
tens mais experiência com animais do que eu.
Sofia pensou um pouco.
- Eu levo-o a casa - disse então.
- E sabes onde ele vive?
Sofia encolheu os ombros.
- Deve ter o endereço escrito na coleira.
Dois minutos mais tarde,
Sofia corria através do jardim. Quando Hermes a descobriu, pôs-se a correr, abanou
a cauda desenfreadamente e
saltou para ela.

172
- Valente cão, Hermes -
disse Sofia.
Ela sabia que a mãe estava
à janela. Oxalá o cão não
corresse para dentro da toca!
Mas ele percorreu o caminho
de saibro em frente à casa, e
correu pelo pátio e em direcção ao portão do jardim.
Depois de fecharem o portão, Hermes continuou a correr, dois metros à frente de
Sofia. Seguiu-se uma longa
caminhada pelas ruas do quarteirão. Sofia e Hermes não
eram os únicos na rua.
Famílias inteiras passeavam;
Sofia sentiu uma ponta de inveja.
Por vezes, Hermes farejava
um outro cão ou alguma coisa
que encontrava na sarjeta,
mas, logo que Sofia o chamava, voltava imediatamente para
ela.
Pouco depois, já tinham
passado o jardim, o grande
campo de jogos e um recinto de
recreio. Chegaram a uma zona
mais frequentada. Aí, uma rua
larga calcetada e com trilhos
de eléctrico seguia em direcção à cidade.
Quando chegaram ao centro
da cidade, Hermes conduziu
Sofia pela praça principal e
pela rua da igreja. Chegaram
ao bairro antigo com os seus
edifícios de fim de século.
Era quase uma e meia.
Encontravam-se então na outra extremidade da cidade.
Sofia não estivera ali muitas
vezes. Quando era pequena,
visitara uma vez uma velha tia
algures naquela zona.
Pouco depois, chegaram a
uma pequena praça entre as casas antigas. A praça chamava-se "Nytorget" - "Praça
Nova", apesar de parecer muito velha. A própria cidade
era muito antiga; fora fundada
na Idade Média.
Hermes dirigiu-se para a
entrada da casa com o número
14, parou, e esperou que
Sofia abrisse a porta. Ela
sentiu o seu coração bater
mais depressa.
No vão da escada, havia uma
série de caixas de correio
verdes. Sofia descobriu um
postal que estava colado a uma
das caixas. Um carimbo do
carteiro declarava que o destinatário era desconhecido. A
destinatária era:
"Hilde Mõller Knag,
Nytorget 14..." O postal
tinha o carimbo de 15 de
Junho. Até essa data faltavam ainda duas semanas, mas
era óbvio que o carteiro não
reparara nisso.
Sofia arrancou o postal da
caixa do correio e leu.

"Querida Hilde: Agora,
Sofia está a entrar na casa
do professor de filosofia. Em
breve fará quinze anos, enquanto o teu aniversário já
foi ontem. Ou será hoje,
Hilde? Se for hoje, já deve
ser muito tarde. Mas os

173
nossos relógios nem sempre andam a par. Uma geração envelhece, enquanto outra geração
cresce. Entretanto, a história segue o seu curso. Já alguma vez pensaste que a história da Europa pode ser comparada à vida de uma pessoa? A
Antiguidade é a infância da
Europa. Vem depois a longa
Idade Média - é a idade escolar da Europa. E depois
chega o Renascimento.
Termina o longo período escolar, e a jovem Europa quer
lançar-se finalmente na vida.
Talvez possamos designar o
Renascimento como o décimo
quinto aniversário da Europa.
Estamos a meio de Junho, minha filha - e "que bom estar
aqui! Oh quão bela é a vida!"
PS. Sinto muito que tenhas perdido o teu crucifixo
de ouro. Tens mesmo de prestar mais atenção às tuas coisas.

Beijos do pai - que regressará muito em breve"

Hermes já estava a subir as
escadas. Sofia, levando o
postal, seguiu-o. Tinha de
correr para acompanhar o cão
que abanava vigorosamente a
cauda. Passaram o primeiro, o
segundo, o terceiro e o quarto
andar. A partir daí só uma
escada estreita seguia para
cima. Com certeza, não iriam
para o telhado! Mas Hermes
continuou a correr. Parou em
frente de uma porta estreita e
arranhou-a com a pata.
Em seguida, Sofia ouviu
passos de alguém que se aproximava do outro lado. A porta
abriu-se e Alberto Knox estava à sua frente. Ele tinha
mudado de roupa, mas nesse dia
também estava disfarçado.
Trazia meias brancas altas,
calções vermelhos largos e uma
jaqueta amarela com chumaços
grossos. Fazia lembrar a Sofia um "joker" de um baralho
de cartas. Se não estava enganada, tratava-se de um traje
típico do Renascimento.
- Que palhaço! - exclamou
Sofia, afastando-o para o lado, e entrou na residência.
Ainda estava perturbada pelo
postal que encontrara no vão
da escada.
- Calma, minha filha -
afirmou então Alberto, e fechou a porta atrás dela.
- Aqui está o correio -
disse Sofia, e deu-lhe o postal, como se ele fosse o responsável.
Alberto leu a carta de pé e
abanou a cabeça.
- Está cada vez mais insolente. Digo-te que ele nos
usa como uma espécie de entretenimento para o aniversário
da filha.
Ele rasgou o postal e deitou os pedaços no cesto dos
papéis.
- Estava escrito no postal
que Hilde tinha perdido um
crucifixo de ouro - afirmou
Sofia.

174
- Eu li isso.
- Mas eu encontrei precisamente esse crucifixo hoje,
na minha cama. Como é que
achas que poderá ter chegado
lá?
Alberto fixou-a seriamente
nos olhos.
- Talvez tenha um efeito
persuasivo. Mas é apenas um
truque fácil, que não lhe custa nada. É melhor concentrarmo-nos no grande coelho que é
retirado da cartola do universo.
Entraram na sala de estar,
e Sofia nunca vira uma sala
de estar tão estranha.
Alberto morava numa grande
casa nas águas-furtadas, com
tecto inclinado. Neste tecto,
havia uma janela que deixava
entrar a luz penetrante directamente do céu. Mas o quarto
tinha também uma janela com
vista para a cidade. Através
desta janela, Sofia podia ver
os telhados das muitas casas
antigas.
Mas o que mais surpreendeu
Sofia foi o recheio da grande
sala de estar. A sala estava
cheia de móveis e objectos das
mais variadas épocas. Um sofá
devia ser dos anos 30, uma
escrivaninha antiga do final
de século, e uma das cadeiras
devia ter vários séculos. Mas
os móveis eram apenas uma parte daquela maravilha! Nas estantes e nas prateleiras havia
bibelôs antigos, relógios e
jarros, almofarizes e retortas, facas e bonecas, penas e
encostos para livros, octantes
e sextantes, bússolas e barómetros. Uma parede inteira
estava coberta de livros, mas
não era o tipo de livros que
se encontram numa livraria. A
biblioteca também parecia uma
selecção da produção de livros
ao longo de muitos séculos.
Nas paredes, estavam pendurados desenhos e quadros.
Alguns seriam certamente de
décadas mais recentes, mas
muitos deviam ser muito antigos. Nas paredes havia também
alguns mapas antigos. Um dos
mapas representava o fiorde de
Sogne entre a região de
Trõndelag e o fiorde de
Trondheim, que ficam a quase
300 quilómetros para norte
daquele.
Sofia ficou parada alguns
minutos, sem fala. Voltou-se
e não parou até ter visto a
sala de todos os ângulos.
- Tu coleccionas muita
tralha - afirmou por fim.
- Bem, bem. Imagina quantos séculos de história estão
guardados nesta sala. Eu não
lhe chamaria tralha.
- Tens uma loja de antiguidades, ou alguma coisa do
género?
Alberto fez uma expressão
triste.
- Nem todos podem deixar-se levar pela corrente da
história, Sofia. Alguns têm
de se deter e conservar o que
fica nas margens do rio.
- Dizes isso de uma forma
tão estranha!

175
- Mas é a verdade, minha
filha. Nós não vivemos apenas
na nossa própria época. Também transportamos a nossa história connosco. Não te esqueças de que tudo o que vês aqui
foi outrora novo em folha.
Esta pequena boneca de madeira do século XVI talvez tenha sido feita para o quinto
aniversário de uma menina.
Talvez pelo seu velho avô...
Depois, chegou à adolescência, Sofia. Depois, tornou-se adulta e casou-se. Talvez
ela própria tenha tido uma filha que herdou esta boneca.
Depois, envelheceu, e um dia
morreu. Talvez tenha tido uma
vida longa, mas deixou de
existir. E nunca mais regressará. No fundo, ela fez aqui
apenas uma curta visita. Mas
a boneca está na estante.
- Tudo se torna tão triste
e sério quando falas assim.
- Mas a vida é triste e
séria. Entramos num mundo
lindíssimo, encontramo-nos
aqui, apresentamo-nos uns aos
outros - e caminhamos juntos
mais um pouco. Depois, perdemo-nos e desaparecemos tão
súbita e inexplicavelmente
como viemos.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- Já não brincamos às escondidas.
- Porque é que foste morar
para a cabana do major?
- Para que não estivéssemos muito longe um do outro
quando nos comunicávamos apenas por carta. Eu sabia que a
velha cabana estava vazia.
- E foste simplesmente
para lá?
- Fui simplesmente para
lá.
- Então talvez possas também explicar como é que o pai
de Hilde soube que moravas
lá.
- Se não estou em erro,
ele sabe quase tudo.
- Mas continuo sem perceber como é que ele conseguiu
convencer o carteiro a ir entregar correspondência no meio
do bosque.
Alberto esboçou um sorriso
astuto.
- Mesmo isso é apenas uma
ninharia para o pai de Hilde.
Charlatanice barata, um jogo
desprezível. Talvez vivamos
sob a mais apertada vigilância.
Sofia reparou que estava a
ficar irritada.
- Se ele passar alguma vez
no meu caminho, arranco-lhe os
olhos.

Alberto dirigiu-se para o
sofá e sentou-se. Sofia seguiu-lhe o exemplo e afundou-se numa poltrona.
- A filosofia pode levar-nos mais perto do pai de
Hilde - afirmou Alberto -
Hoje, vou falar-te acerca do
Renascimento.
- Começa.
- Poucos anos após a morte
de S. Tomás de Aquino, a
unidade cultural cristã começou a apresentar fissuras. A
filosofia e a ciência

176
libertavam-se cada vez mais da
teologia cristã, e isso proporcionou também à religião
uma relação mais livre com a
razão. Cada vez mais pensadores acentuaram que nós não podemos compreender Deus com o
entendimento, porque Deus é
sempre inconcebível para o
nosso pensamento. Para os homens, o importante não é compreender o mistério cristão,
mas submeterem-se à vontade
divina.
- Compreendo.
- O facto de a religião e
a ciência terem desenvolvido
uma relação mais livre entre
si levou a um novo método científico e a um novo fervor
religioso. Deste modo, lançaram-se as bases para duas importantes revoluções dos séculos XV e XVI, a saber, o
"Renascimento" e a
"Reforma".
- Vamos ver uma de cada
vez.
- Pelo termo
Renascimento, entendemos um
período histórico de grande
prosperidade cultural que teve
início por volta do final do
século XIV. Começou em
Itália mas difundiu-se rapidamente para norte. Aquilo
que devia renascer eram a arte
e a cultura da Antiguidade.
Também se fala frequentemente
de "humanismo" renascentista,
porque o homem voltou a ser o
centro de tudo, após a longa
Idade Média, em que todos os
aspectos da vida tinham sido
interpretados à luz de Deus.
O mote era: "Regresso às
fontes!", e a fonte mais importante era o humanismo da
Antiguidade. Tornou-se quase
um desporto popular desenterrar esculturas e manuscritos
da Antiguidade. Também se
tornou moda aprender grego, o
que levou a um interesse renovado pela cultura grega. O
interesse pelo humanismo grego
tinha também uma finalidade
pedagógica: o estudo das disciplinas humanísticas proporcionava uma "formação clássica" que fomentava o desenvolvimento das "qualidades humanas". "Os cavalos nascem",
dizia-se, "mas os homens não
nascem, formam-se".
- Temos então de ser
"educados" para sermos seres
humanos?
- Sim, pensava-se assim
naquela época. Mas antes de
observarmos mais de perto as
ideias do humanismo renascentista vamos falar do pano de
fundo político e cultural do
Renascimento.
Alberto levantou-se e começou a dar voltas pela sala.
Depois parou e apontou para
um instrumento muito antigo
numa estante. - O que é
isto? - perguntou.
- Parece uma bússola antiga.
- Certo.
Apontou então para uma espingarda antiga na parede,
acima do sofá.
- E isto?

177
- É uma espingarda antiga.
- Está certo - e isto?
Alberto tirou um grande livro da estante.
- Isso é um livro antigo.
- Para ser mais preciso,
um incunábulo.
- Um incunábulo?
- A palavra significa na
realidade "berço". Assim se
chamam os livros que foram impressos na infância da tipografia. Isto é, antes de
1500.
- É assim tão antigo?
- Sim, muito antigo. E
precisamente estes três inventos que vemos à nossa frente
- bússola, pólvora e tipografia -, são importantes condições para a nova época a que
chamamos Renascimento.
- Tens de me explicar isso
melhor.
- A bússola facilitava a
navegação. Era, noutras palavras, uma importante condição
para as grandes viagens de
descobrimento. O que também
era válido para a pólvora. As
novas armas trouxeram aos europeus superioridade em relação às culturas americanas e
asiáticas, mas a pólvora também teve uma grande importância na Europa. E a tipografia era importante para difundir as novas ideias do Renascimento. Ela contribuiu
inclusivamente para que a
Igreja perdesse o seu antigo
monopólio como propagadora do
saber. Posteriormente, seguiram-se novos instrumentos e
novos recursos. Um importante
instrumento era por exemplo o
telescópio. Criou condições
completamente novas para a astronomia.
- E, por fim, vieram os
foguetões e as naves espaciais
que nos permitiram chegar à
Lua?
- Agora estás a avançar um
pouco depressa de mais. Mas,
no Renascimento, iniciou-se
um processo que havia de levar
finalmente os homens à Lua,
embora também a Hiroshima e a
Chernobyl. Mas primeiro houve uma série de transformações
no domínio cultural e económico. Um pressuposto fundamental foi a passagem de uma economia de subsistência para uma
economia monetária. No final
da Idade Média, desenvolveu-se nas cidades uma sólida
manufactura e um comércio activo de novas mercadorias que
levaram a uma notável circulação de dinheiro e à criação de
um sistema bancário. Deste
modo, surgiu uma burguesia que
alcançara pelo trabalho uma
certa independência das condições impostas pela natureza.
Aquilo que era necessário
para viver comprava-se com dinheiro. Este desenvolvimento
fomentou a iniciativa, a fantasia e a criatividade do indivíduo, ao qual foram colocadas exigências novas.

178
- Isso faz lembrar um pouco o aparecimento das cidades
gregas dois mil anos antes.
- Talvez, sim. Falei do
modo como os filósofos gregos
se tinham libertado da concepção mítica do mundo relacionado com a cultura rural. Do
mesmo modo, os burgueses começaram a libertar-se dos senhores feudais e do poder da
Igreja. Simultaneamente, a
cultura grega foi redescoberta
devido a um contacto mais estreito com os árabes na Espanha e a cultura bizantina no
Oriente.
- Os três rios da
Antiguidade confluíram numa
única grande corrente.
- Tu és uma discípula
atenta. Portanto isto deve
ser o suficiente como pano de
fundo do Renascimento. Vou
falar-te agora acerca do novo
modo de pensar.
- Despacha-te, porque tenho de ir para casa à hora do
jantar.
Só então é que Alberto se
sentou de novo, fixando Sofia
nos olhos.
- Antes de mais, o Renascimento trouxe consigo uma nova "concepção do homem". Os
humanistas renascentistas tinham uma confiança totalmente
nova no homem e no seu valor,
o que estava em nítido contraste com a Idade Média, na
qual se realçara apenas a natureza pecaminosa do homem. O
homem foi então visto como um
ser infinitamente grande e
precioso. Uma das figuras
principais do Renascimento
foi "Marsilio Ficino". Ele
exclamou: "Conhece-te a ti
mesma, ó estirpe divina em
vestes humanas!". Outro,
"Giovanni Pico della Mirandola", escreveu uma oração
sobre a "dignidade do homem".
Uma coisa deste género teria
sido impensável na Idade Média. Durante todo o período
medieval, tudo se movia em
torno a Deus. O ponto de
partida para os humanistas do
Renascimento foi o próprio
homem.
- Mas isso já os filósofos
gregos tinham feito.
- Por isso falamos também
de um "renascimento" do humanismo antigo. No entanto, o
humanismo do Renascimento estava mais marcado pelo
"individualismo" do que o humanismo da Antiguidade. Não
somos apenas homens, somos
também indivíduos únicos.
Esta ideia deu origem a uma
veneração do génio. O ideal
tornou-se aquilo a que chamamos o "homem renascentista",
ou seja, um homem que se ocupa
com todos os domínios da vida,
da arte e da ciência. A nova
concepção do homem também estava patente no interesse pela
anatomia do corpo humano. Tal
como na Antiguidade, começou-se a dissecar cadáveres para
se descobrir como o corpo é
constituído. Isso foi importante tanto para a medicina
como para a arte. Na arte,
tornou-se novamente habitual
representar o homem nu. Pode
dizer-se

179
que isto sucedeu passados
mil anos de pudor. O homem
ousou de novo ser ele mesmo,
já não tinha nada de que se
envergonhar.
- Isso parece ter sido um
período de grande entusiasmo,
- comentou Sofia, apoiando-se na mesinha que estava entre ela e o seu professor de
filosofia.
- Sem dúvida. A nova imagem do homem levou a uma "concepção de vida" totalmente nova. O homem não existia apenas para Deus. Deus também
criara o homem em função do
homem. Por isso, o homem podia alegrar-se com a vida presente. E uma vez que o homem
se podia desenvolver livremente, tinha possibilidades ilimitadas. O seu objectivo era
ultrapassar todos os limites,
o que também era diferente do
humanismo da Antiguidade. Os
humanistas antigos tinham insistido na serenidade, temperança e autodomínio.
- Mas os homens do Renascimento perderam o autodomínio?
- Pelo menos, não foram
particularmente moderados.
Tinham a sensação de que o
mundo despertara de novo.
Surgiu então a consciência da
época contemporânea e foi introduzida a designação "Idade
Média" para o período entre a
Antiguidade e a sua própria
época. Iniciou-se uma época
única de desenvolvimento em
todos os domínios, na arte e
na arquitectura, na literatura
e na música, na filosofia e na
ciência. Vou dar um exemplo
concreto. Nós falamos da Roma da Antiguidade, que tinha
epítetos imponentes como "cidade das cidades", e "centro
do mundo". No decurso da
Idade Média, a cidade entrou
em decadência e, em 1417, a
antiga cidade de mais de um
milhão de habitantes tinha
apenas dezassete mil.
- Pouco mais do que
Lillesand.
- Para os humanistas, reconstruir Roma era um objectivo cultural e político. A
grande Basílica de S. Pedro
foi erigida então sobre o túmulo do apóstolo Pedro. E no
caso da Basílica de S.
Pedro, não se pode mesmo falar de moderação. Vários nomes importantes do Renascimento se empenharam no maior
projecto arquitectónico do
mundo. Os trabalhos começaram
no ano de 1506 e duraram cento e vinte anos, e só após outros cinquenta anos, ficava
terminada a grande Praça de
S. Pedro.
- Deve ser uma igreja muito grande.
- Tem mais de duzentos metros de comprimento e cento e
trinta de altura e uma superfície de dezasseis mil metros
quadrados. Mas com isto, já
falei o suficiente sobre a ousadia dos homens do Renascimento. Também foi muito importante o facto de o Renascimento ter levado a uma nova
"concepção da natureza", de o
homem sentir alegria em viver
- e de não ver a vida na
Terra apenas como preparação
para a

180
vida no céu. Isso deu origem a uma posição totalmente
nova em relação ao mundo físico. A natureza era já tida
como positiva. Muitos acreditavam também que Deus estava
presente na Criação. Ele é
infinito e, nesse caso, também
tem de estar em toda a parte.
Esta concepção é designada
por "panteísmo". Os filósofos
da Idade Média tinham apontado reiteradamente para o
abismo insuperável entre Deus
e a Criação. Agora, a natureza podia ser caracterizada
como divina - sim, inclusivamente como "manifestação de
Deus". Estas novas ideias
nem sempre foram acolhidas com
simpatia pela Igreja. O destino de "Giordano Bruno"
mostrou-o de forma dramática.
Ele não afirmava apenas que
Deus estava presente na natureza, defendia que o universo
era infinito. Por isso, foi
severamente punido.
- Como?
- Morreu na fogueira no
ano de 1600, no mercado das
flores em Roma...
- Isso é terrível - é estúpido. É a isso que chamas
humanismo?
- Não, isso não. Bruno
era o humanista, não os seus
carrascos. Mas durante o Renascimento também se desenvolveu uma coisa a que podemos
chamar "anti-humanismo", isto
é, um poder autoritário da
Igreja e do Estado. Durante
o Renascimento, também houve
processos contra bruxas e autos de fé, magia e superstição, guerras de religião sangrentas - e ainda a conquista
brutal da América. O humanismo sempre teve um lado brutal. Nenhuma época é apenas
boa ou apenas má. O bem e o
mal são como dois fios que
atravessam toda a história da
humanidade. Frequentemente,
entrelaçam-se. Isso é ainda
válido para a nossa próxima
palavra-chave. Vou falar do
modo como o Renascimento desenvolveu um "novo método
científico".
- Foram construídas também
as primeiras fábricas?
- Ainda não. Mas uma condição para todo o desenvolvi
mento técnico que se iniciou
após o Renascimento foi o novo método científico. Este
método consiste numa nova atitude em relação à natureza da
ciência. Os frutos técnicos
do novo método surgiram pouco
a pouco.
- Em que é que consistia
esse novo método?
- Sobretudo, tratava-se de
investigar a natureza com os
sentidos. Já desde o início
do século XIV, cada vez mais
pessoas criticavam a confiança
cega nas autoridades antigas.
Essas autoridades eram tanto
os dogmas da Igreja como a
filosofia natural de Aristóteles. Também se negou que um
problema se pudesse resolver
apenas por reflexão. Essa
confiança exagerada na importância da razão predominara
durante toda a Idade Média.
Dizia-se que a investigação

181
da natureza tinha de se basear
na observação, na experiência
e na experimentação. É o chamado método "empírico".
- O que é que significa?
- Significa simplesmente
que obtemos o conhecimento das
coisas através de experiências
nossas - e não de pergaminhos
poeirentos ou fantasias. Na
Antiguidade, também se fez
ciência empírica, e Aristóteles fez muitas experiências
importantes para o conhecimento da natureza. Mas "experimentações" sistemáticas eram
algo completamente novo.
- Não havia instrumentos
técnicos como hoje, pois não?
- Obviamente não havia máquinas de calcular nem balanças electrónicas. Mas havia a
matemática e havia balanças.
Foi particularmente realçada
a importância de exprimir as

observações científicas numa
linguagem matemática exacta.
"Deve medir-se aquilo que
pode ser medido, e tornar mensurável o que não pode ser medido", segundo "Galileu
Galilei", um dos cientistas
mais importantes do século
XVII. Ele afirmou também
que o livro da natureza estava
escrito em caracteres matemáticos.
- E através de muitas experimentações e medições estava aberto o caminho para novas
invenções?
- A primeira fase foi um
novo método científico, que
possibilitou a revolução técnica, e o desenvolvimento técnico possibilitou todas as invenções que se realizaram desde então. Podemos dizer que
os homens começaram a libertar-se das imposições da natu
reza. O homem já não era apenas uma parte da natureza. A
natureza era uma coisa que podia ser usada e explorada.
"Saber é poder", afirmou o
filósofo inglês "Francis Bacon". Com isso, chamava a
atenção para a utilidade prática do saber - e isso era
algo novo. Os homens começavam a intervir na natureza e a
dominá-la.
- Mas isso não foi apenas
positivo, pois não?
- Não, e assim estamos de
novo na questão do fio bom e
do fio mau que se estão sempre
a entrelaçar em tudo o que fazemos. O desenvolvimento técnico que se iniciou no Renascimento deu origem à máquina
de fiar e ao desemprego, a medicamentos e a novas doenças,
ao desenvolvimento da agricultura e à destruição da natureza, a novos recursos práticos
como máquinas de lavar e frigoríficos, mas também à poluição do meio ambiente e ao problema dos resíduos. industriais. Vendo hoje que o nosso ambiente está terrivelmente
ameaçado, muitos vêem a própria revolução técnica como um
afastamento perigoso das condições de vida que nos são dadas pela natureza. Nós homens, devido a esta concepção,
pusemos em marcha um

182
processo que já não conseguimos controlar. Os optimistas
acreditam que ainda vivemos na
infância da técnica. A civilização técnica, segundo eles,
tem de facto as suas doenças
infantis, mas, por fim, os homens hão-de aprender a dominar
a natureza sem a ameaçar de
morte.
- O que é que tu pensas?
- Que talvez ambos os pontos de vista estejam certos.
Em alguns domínios, os homens
já não devem intervir na natureza, noutros, podemos fazê-lo
com confiança. O certo é que
nenhum caminho nos leva de
volta à Idade Média. Desde
o Renascimento, o homem já
não é uma mera parte da Criação. O homem intervém na natureza e forma-a segundo as
suas próprias ideias. Isso
diz-nos alguma coisa acerca da
admirável criatura que é o homem.
- Já fomos à Lua. Nenhum
homem da Idade Média achou
isso possível?
- Não, podes ter a certeza. E isso leva-nos à "nova
concepção do mundo". Durante
toda a Idade Média, os homens olharam para o Sol e para a Lua, estrelas e planetas. Mas ninguém duvidara de
que a Terra fosse o centro do
universo. Nenhuma observação
introduzira a dúvida de que a
Terra estava imóvel e os
"corpos celestes" circulavam
em seu redor. Chamamos a esta
concepção a "teoria geocêntrica do universo". A ideia
cristã de que Deus governa
todos os corpos celestes também contribuiu para que esta
concepção do universo se mantivesse.
- Eu gostaria que fosse
assim tão simples.
- Mas, no ano de 1543,
foi publicada uma obra intitulada "Seis livros sobre as
revoluções das esferas celestes", escrita pelo astrónomo
polaco "Copérnico" que morreu
no próprio dia em que foi publicada a sua revolucionária
obra. Copérnico afirmava que
não era o Sol que girava à
volta da Terra, mas a Terra
à volta do Sol. Achava-o
possível com base nas observações dos corpos celestes que
havia até então. Se os homens
tinham acreditado que o Sol
girava à volta da Terra, era,
segundo ele, apenas porque a
Terra girava sobre o seu próprio eixo. Ele apontou para o
facto de todas as observações
dos corpos celestes serem muito mais fáceis de compreender
se se pressupuser que a Terra
e os outros planetas se movem
em trajectórias circulares à
volta do Sol. Chamamos a
esta concepção "teoria heliocêntrica do universo", que
significa que tudo gira em
volta do Sol.
- E essa teoria está certa?
- Não totalmente. O postulado mais importante de
Copérnico - o facto de a
Terra girar à volta do Sol
- está obviamente correcto.
Ele pensava que o Sol era o
centro do universo. Hoje, sabemos que o

183
Sol é apenas uma entre inumeráveis estrelas - e que todas as estrelas à nossa volta
constituem apenas uma entre
muitos milhões de galáxia.
Copérnico acreditava também
que a Terra e os outros planetas se moviam em trajectórias circulares em torno do
Sol.
- E isso não está certo?
- Não, ele não tinha nenhuma prova para os movimentos
circulares além da antiga
ideia segundo a qual os corpos
celestes eram redondos como
esferas e descreviam trajectórias circulares apenas porque
eram "celestes". Já desde o
tempo de Platão, a esfera e o
círculo eram considerados as
figuras geométricas mais perfeitas. Mas no início do século XVII, o astrónomo alemão "Johannes Kepler" conseguiu apresentar os resultados
de observações pormenorizadas
que provavam que os planetas
se moviam em trajectórias
elípticas - ou ovais - à
volta do Sol como um dos focos. Ele provou também que os
planetas se movem tanto mais
rapidamente quanto mais próximos estão do Sol. Finalmente, provou ainda que um planeta se move tanto mais lentamente quanto mais afastado
está do Sol. Só através de
Kepler se tornou claro que
a Terra é um planeta como todos os outros. Kepler sublinhou ainda que as mesmas leis
físicas são válidas para todo
o Universo.
- Como é que ele tinha a
certeza disso?
- Tinha a certeza porque
investigou os movimentos dos
planetas com os seus próprios
sentidos, em vez de confiar
cegamente na tradição da
Antiguidade. O famoso cientista italiano "Galileu
Galilei" viveu aproximadamente na mesma altura que
Kepler. Também ele observava
os corpos celestes com o telescópio. Estudou as crateras
na Lua e verificou que lá
existem montes e vales tal
como na terra. Galileu descobriu também que o planeta
Júpiter tem quatro luas.
Logo, a Terra não era o único planeta com Lua. Mas o
mais importante foi o facto de
Galileu ter descoberto a chamada "Lei da Inércia".
- E o que é que diz essa
lei?
- "Todos os corpos conservam o estado de repouso ou de
movimento constante em trajecto rectilíneo desde que não
sejam constrangidos por forças
exteriores a alterar esse estado". Mas ele ainda não o
formulara assim. Quem o fez,
posteriormente, foi "Isaac
Newton".
- Está bem.
- Desde a Antiguidade, um
dos mais importantes argumentos contra a ideia de que a
terra girava em torno do seu
próprio eixo dizia que, nesse
caso, a terra teria de se mover tão rapidamente que uma
pedra lançada ao ar na vertical cairia a muitos metros de
distância.
- E por que é que não é
assim?

184
- Quando estás no comboio
e deixas cair uma maçã, a maçã
não cai longe de ti pelo facto
de o comboio estar em movimento. Ela cai em linha recta ao
teu lado. Isso deve-se à lei
da inércia. A maçã conserva a
mesma velocidade que tinha antes de tu a teres deixado
cair.
- Acho que estou a perceber.
- Mas no tempo de Galileu
não havia comboios. Mas se
tu, de repente, fazes rolar
uma esfera pelo chão...
.. continua a rolar...
.. porque a velocidade se
mantém mesmo depois de teres
largado a esfera.
- Mas no fim ela pára,
caso a sala seja suficientemente grande.
- Isso é porque outras
forças travam a velocidade, em
primeiro lugar, o pavimento, e
sobretudo soalhos de madeira
não tratada. Mas a força da
gravidade também provoca a paragem da esfera mais cedo ou
mais tarde. Espera, vou mostrar-te uma coisa.
Alberto levantou-se e dirigiu-se para a velha escrivaninha. Retirou uma coisa de uma
gaveta, e colocou-a na mesa do
sofá. Era simplesmente uma
placa de madeira que numa das
extremidades tinha alguns milímetros de espessura e na outra era muito fina. Junto à
placa de madeira, que cobria
quase toda a mesa, ele colocou
um berlinde.
- Chama-se a isto "plano
inclinado" - afirmou então.
- O que te parece que vai
acontecer se eu largar o berlinde aqui em cima, onde a
placa é mais espessa?
Sofia suspirou.
- Aposto dez coroas em
como rola para a mesa e vai
cair no chão.
- Vamos ver.
Alberto largou o berlinde,
e este portou-se exactamente
como Sofia anunciara. Rolou
para a mesa, continuou a rolar
sobre o tampo da mesa, tocou
no solo com um ruído surdo e
por fim foi de encontro ao limiar da porta.
- Impressionante - afirmou Sofia.
- É, não é? E Galileu
fez estas experiências.
- Ele era assim tão parvo?
- Não te precipites. Ele
queria investigar tudo com os
próprios sentidos, e nós mal
começámos. Diz-me primeiro
porque é que o berlinde rola
para baixo no plano inclinado.
- Ele começa a rolar porque é pesado.
- Está bem. E o que é
verdadeiramente o peso?
- Agora estás mesmo a fazer perguntas parvas.

185
- Eu não estou a fazer
perguntas parvas se tu não
consegues responder. Porque é
que o berlinde rolou para o
chão?
- Por causa da força da
gravidade.
- Exactamente - ou da
"gravitação", como também se
diz. Logo, o peso tem algo a
ver com a força da gravidade.
E foi esta força que pôs o
berlinde em movimento.
Alberto levantara o berlinde do chão e curvou-se sobre o
plano inclinado.
- Agora, vou tentar fazer
rolar o berlinde pelo plano
inclinado na diagonal - afirmou - observa bem como ele se
move.
Ele curvou-se e apontou o
berlinde. Depois, fê-lo rolar
pelo plano inclinado. Sofia
viu que o berlinde se desviou
imediatamente e rolou para
baixo.
- O que é que aconteceu?
- Ele fez um desvio porque
se trata de um plano inclinado.
- Vou pintá-lo com uma caneta de feltro... depois talvez possamos ver exactamente o
que tu querias dizer com
"desvio".
Pegou numa caneta de feltro
e pintou o berlinde de preto.
Depois, fê-lo rolar de novo.
Sofia podia ver exactamente o
trajecto do berlinde no plano
inclinado, visto que deixara
um traço negro.
- Como é que descreverias
o movimento deste berlinde? -
perguntou Alberto.
- Como uma curva... parece
uma parte de um círculo.
- Acertaste em cheio!
Alberto olhou para ela e
ergueu as sobrancelhas.
- Apesar de não ser exactamente um círculo. Esta figura chama-se parábola.
- Sim.
- Mas porque é que a esfera se move exactamente assim?
Sofia reflectiu um pouco.
Por fim, afirmou:
- Visto que a placa tem
uma inclinação, a esfera é arrastada para o chão pela força
da gravidade.
- É, não é? Isso é sensacional. Eu trago uma rapariga
qualquer a minha casa e, após
uma única experiência, ela
chega imediatamente à mesma
conclusão que Galileu.
Alberto bateu palmas, e
Sofia receou por um momento
que ele pudesse ter perdido o
juízo. Ele prosseguiu:
- Viste o que sucede quando "duas forças" actuam simultaneamente sobre o mesmo objecto. Galileu descobriu que
isto também é válido, por
exemplo, para uma bala de canhão. Ela é disparada para o
ar e continua a voar. mas por
fim também é atraída para o
solo. E descreve

186
então uma trajectória que
corresponde à do nosso berlinde no plano inclinado. E isso
foi verdadeiramente uma nova
descoberta no tempo de
Galileu. Aristóteles acreditava que um projéctil lançado
ao ar descreveria primeiro uma
ligeira curva e cairia depois
no solo em linha recta. Mas
isso não era verdade, e só se
poderia saber que Aristóteles
estava errado quando fosse demonstrado.
- Está bem. Mas isto é
mesmo importante?
- Se é importante! É de
uma importância cósmica, minha
filha. De todas as descobertas científicas na história da
humanidade esta é uma das mais
importantes.
- Então calculo que me
vais explicar imediatamente
porquê.
- Mais tarde, veio o físico inglês Isaac Newton, que
viveu entre 1642 e 1727.
Devemos-lhe a descrição definitiva do sistema solar e dos
movimentos dos planetas. Ele
não conseguiu apenas descrever
como os planetas se movem à
volta do Sol, conseguiu ainda
explicar exactamente "porque"
é que o fazem. Conseguiu-o
através, entre outras coisas,
dos estudos de Galileu e da
sua lei da inércia, que ele,
como sabemos, formulou definitivamente.
- E os planetas são berlindes num plano inclinado?
- Mais ou menos, sim. Mas
espera mais um pouco, Sofia.
- Não tenho outra escolha.
- Já Kepler apontara para
o facto de que tem de haver
uma força que provoque a
atracção "entre" os planetas.
Do Sol, por exemplo, tem de
partir uma força que mantenha
os planetas nas suas órbitas.
Essa força também pode explicar porque é que os planetas
na proximidade do Sol se movem mais depressa do que os
mais distantes do Sol.
Kepler defendia também que a
maré baixa e a maré alta, ou
seja, a subida e a descida da
superfície do mar - estão dependentes de uma força da
Lua.
- Isso também está certo.
- Sim, está certo. Mas
Galileu contestou isso. Ele
fazia troça de Kepler e da
sua ideia fixa de que "a Lua
domina o mar". Galileu contestou a hipótese de que essas
forças pudessem ter efeito a
uma grande distância e consequentemente entre os planetas.
- Nisso, ele estava errado.
- Sim, neste ponto ele estava errado. E isso é quase
cómico, visto que ele se preocupou muito com a força da
gravidade da Terra e a queda
dos corpos ao solo. Além disso, ele mostrou como diversas
forças podem dirigir os movimentos de um corpo.
- Mas tu falaste de
Newton.
- Sim, em seguida veio
Newton. Ele formulou a chamada lei da Gravitação
Universal. Esta lei afirma
que qualquer objecto atrai outro

187
objecto com uma força que aumenta em proporção com o tamanho dos objectos e que diminui
com o crescente distanciamento
entre eles.
- Acho que estou a perceber. Entre dois elefantes,
por exemplo, existe uma maior
força de atracção do que entre
dois ratos. E entre dois elefantes no mesmo jardim zoológico há maior força de atracção do que entre um elefante
indiano na Índia e um elefante africano em África.
- Nesse caso compreendeste
tudo. E agora, vem o mais importante. Newton sublinhou
que esta força de atracção -
ou gravitação - é universal.
Quer dizer que é válida em
toda a parte, inclusivamente
no espaço entre os corpos celestes. Diz-se que ele chegou
a esta conclusão certo dia,
quando estava sentado debaixo
de uma macieira. Ao ver uma
maçã cair da árvore, deve ter
perguntado a si mesmo se a
Lua é atraída para a Terra
pela mesma força e se, consequentemente, a Lua gira à
volta da Terra para toda a
eternidade.
- Isso foi inteligente,
mas não muito inteligente.
- Como não, Sofia?
- Se a Lua fosse atraída
para a Terra pela mesma força
que faz cair a maçã, a Lua
acabaria por cair na Terra,
em vez de andar à volta.
- Agora, estamos a aproximar-nos da lei dos movimentos
dos planetas de Newton.
Naquilo que dizes acerca do
modo como a força da gravidade
da Terra atrai a Lua, tens
apenas cinquenta por cento de
razão. Porque é que a Lua
não cai sobre a Terra,
Sofia? A força da gravidade
da Terra atrai a Lua com uma
força poderosa. Pensa bem
como são necessárias forças
potentes para fazer subir o
mar um ou dois metros durante
a maré alta.
- Não, isso eu não entendo.
- Pensa no plano inclinado
de Galileu. O que é que sucedeu quando eu fiz rolar para
baixo o berlinde no plano inclinado?
- Mas então há duas forças
diferentes que agem sobre a
Lua?
- Exacto. No aparecimento
do sistema solar, a Lua foi
lançada da órbita com muita
força - logo, para longe da
Terra. Esta força continuará
a agir para toda a eternidade,
dado que a Lua se move sem
resistência no vácuo...
- Mas é simultaneamente
atraída para a Terra pela
força da gravidade desta?
- Exacto. Ambas as forças
são constantes, e ambas agem
simultaneamente. Por isso, a
Lua vai continuar a girar à
volta da Terra.
- Isso é assim tão simples?

188
- É muito simples, e justamente esta "simplicidade"
era para Newton o mais importante. Ele também provou que
algumas leis físicas, tal como
a lei da inércia, são válidas
para todo o universo. E nos
movimentos dos planetas, ele
aplicou apenas duas leis da
natureza, que Galileu já indicara: a lei da inércia e a
que afirma que um corpo no
qual agem simultaneamente duas
forças se moverá numa trajectória elíptica, tal como o
mostravam as esferas de
Galileu no plano inclinado.
- E com isso, Newton conseguiu explicar porque é que
todos os planetas giram à volta do Sol.
- Exacto. Todos os planetas giram à volta do Sol em
órbitas elípticas, devido a
dois movimentos diferentes:
primeiro, o movimento rectilíneo que eles seguiram durante
o aparecimento do sistema solar, e em segundo lugar um movimento em direcção ao Sol
devido à gravitação.
- Muito inteligente.
- Bem podes dizê-lo.
Newton provou que as mesmas
leis para os movimentos dos
corpos são válidas em todo o
universo. Com isto, ele destruiu também antigas concepções medievais, segundo as
quais "no céu" são válidas
leis diferentes das nossas na
terra. A teoria heliocêntrica
teve a sua confirmação e a sua
explicação definitiva.
Alberto levantou-se e voltou a pôr o plano inclinado na
gaveta. Baixou-se e levantou
o berlinde do chão, mas colocou-o na mesa, entre ele e
Sofia. Ela achou inacreditável o quanto tinham retirado
de uma placa de madeira inclinada e de um berlinde. Ao observar agora o berlinde verde
- que ainda estava parcialmente negro de tinta -, pensou imediatamente no globo
terrestre. Perguntou:
- E os homens tiveram de
se conformar com o facto de
viverem num planeta ao acaso
no Universo?
- Sim, e a nova teoria era
em muitos aspectos um duro
golpe. Talvez possa ser comparado com a situação em que
Darwin provou que o homem
descende dos animais. Em ambos os casos, o homem perdeu
algo da sua posição especial
na Criação. Em ambos os casos, a Igreja opôs-se energicamente.
- Isso eu consigo perceber. Onde é que fica Deus em
toda esta história? De certo
modo, tudo era mais fácil
quando a Terra estava no centro e Deus e todos os corpos
celestes viviam um piso acima.
- Mas isso ainda não era o
maior desafio. Quando Newton
provou que as mesmas leis físicas eram válidas para todo o
Universo, podia ter-se pensado que ele perdera a fé na omnipotência de Deus. Mas a fé
pessoal de Newton não foi
abalada. Ele via as leis da
natureza

189
como prova da grandeza e omnipotência de Deus. O mais
grave era a questão da imagem
que os homens tinham de si
próprios.
- O que queres dizer com
isso?
- Desde o Renascimento, o
homem tivera que se habituar à
ideia de viver num planeta ao
acaso no Universo. Mas eu
não sei se nos habituámos completamente a isso. Já no
Renascimento havia quem afirmasse que o homem passara a
ocupar uma posição mais central do que anteriormente.
- Não compreendo.
- Anteriormente, a Terra
tinha sido o centro do mundo.
Mas quando os astrónomos explicaram que no Universo não
há nenhum centro absoluto,
concluiu-se que eram tantos os
centros quantos os homens.
- Compreendo.
- O Renascimento também
trouxe consigo uma nova "concepção de Deus". À medida
que a filosofia e a ciência se
separavam da teologia, surgiu
uma nova religiosidade cristã.
Começou então o Renascimento
com a sua nova concepção do
homem, e isso também foi importante para a prática religiosa. Mais importante do que
a relação com a Igreja como
instituição, tornou-se a relação pessoal do indivíduo com
Deus.
- A oração da noite, por
exemplo?
- Sim, isso também. Na
Igreja Católica da Idade
Média, a liturgia latina da
Igreja e as suas orações tinham formado a verdadeira coluna vertebral do culto religioso. Apenas sacerdotes e
monges liam a Bíblia, porque
esta só existia em latim. Mas
durante o Renascimento a
Bíblia foi traduzida do hebraico e do grego para as línguas populares. Isso foi importante para a "Reforma"...
- "Martinho Lutero"...
- Sim, Lutero foi importante, mas ele não foi o único
reformador. Também havia reformadores da Igreja que,
apesar de pertencerem à
Igreja Católica Romana,
queriam agir. Um deles foi
"Erasmo de Roterdão".
- Lutero rompeu com a
Igreja Católica porque não
queria pagar indulgências?
- Sim, também, mas tratava-se de algo muito mais importante. Para Lutero, o homem não precisava de fazer o
desvio pela Igreja ou pelos
seus sacerdotes para obter o
perdão de Deus. E o perdão
de Deus não estava dependente
de uma quantia para a indulgência paga à Igreja. O chamado tráfico de indulgências
também foi proibido na Igreja
Católica em meados do século
XVI.

190
- De certeza que Deus se
alegrou com isso.
- Lutero distanciou-se de
um modo geral de muitos costumes religiosos e dogmas que a
Igreja desenvolvera na Idade
Média. Ele queria voltar ao
cristianismo original tal como
o encontramos no Novo Testamento. "Apenas as Escrituras" - afirmava ele. Com
este mote, Lutero queria regressar "às fontes" do cristianismo, tal como os humanistas
do Renascimento queriam voltar às fontes antigas da arte
e da cultura. Ele traduziu a
Bíblia para o alemão e criou
assim a base para a língua escrita do alemão padrão. Cada
qual poderia ler a Bíblia e,
de certo modo, ser o seu próprio pastor.
- Como assim? Isso não
vai demasiado longe?
- Ele achava que os sacerdotes não ocupam nenhuma posição privilegiada em relação a
Deus. As comunidades luteranas também empregavam pastores
por razões práticas, e eles
celebravam o serviço religioso
e realizavam as tarefas religiosas diárias. Mas ele achava que o homem não alcança o
perdão de Deus e a remissão
dos seus pecados pelos rituais
eclesiásticos. A salvação é
dada ao homem totalmente "grátis", apenas através da fé,
afirmava ele. Ele chegara a
esta conclusão por meio da sua
leitura da Bíblia.
- Lutero também era um homem típico do Renascimento?
- Sim e não. Um traço típico do Renascimento era a
importância que se dava ao indivíduo e à sua relação pessoal com Deus. Ele aprendeu
grego com trinta e cinco anos
e lançou-se à morosa tarefa de
traduzir a Bíblia para o alemão. O facto de a língua popular substituir o latim também era típico do Renascimento. Mas Lutero não era um
humanista como Ficino ou
Leonardo da Vinci. Alguns
humanistas, como Erasmo de
Roterdão, criticaram-no devido à sua concepção demasiado
negativa do homem. Lutero
sublinhou nomeadamente que o
homem estava completamente
corrompido pelo pecado original e a humanidade só podia
ser salva através da graça divina. Porque a recompensa do
pecado é a morte.
- Isso é realmente um pouco triste.
Alberto Knox levantou-se.
Tirou o berlinde da mesa e
pô-lo no bolso do peito.
- Já passa das quatro! -
exclamou Sofia.
- E a próxima grande época
na história da humanidade é o
Barroco. Mas vamos guardar
isso para um outro dia, querida Hilde.
- O que é que disseste?
Sofia levantou-se de um
pulo.
- Querida "Hilde" foi o
que tu disseste.

191
- Então foi um lapso.
- Mas os lapsos têm sempre
um motivo.
- Talvez tenhas razão.
Certamente o pai de Hilde já
nos anda a colocar palavras na
boca. Acho que ele se aproveita da situação quando nós
estamos cansados. Nessa altura, não podemos defender-nos
com tanta facilidade.
- Tu disseste que não és o
pai de Hilde. Juras-me que
isso é verdade?
Alberto acenou afirmativamente.
- Mas então eu sou Hilde?
- Estou cansado, Sofia.
Tens de compreender. Já estamos aqui há mais de duas horas e eu falei durante quase
todo o tempo. Não tens de ir
para casa jantar?
Sofia teve a sensação de
que ele a queria pôr na rua.
A caminho da saída, perguntava-se incessantemente porque é
que ele tivera aquele lapso.
Alberto vinha atrás dela.
Debaixo de uma pequena fila
de cabides, onde estavam pendurados muitos fatos estranhos
que pareciam trajes de teatro,
Hermes estava deitado e dormia. Alberto apontou com a
cabeça para o cão e afirmou:
- Ele vai buscar-te.
- Obrigada pela lição de
hoje - disse Sofia.
Ela pôs-se nos bicos dos
pés e abraçou Alberto.
- Tu és o professor mais
competente e mais querido que
eu já tive.
Em seguida, abriu a porta.
Antes de fechar a porta,
Alberto afirmou:
- Ver-nos-emos em breve,
Hilde.
E com estas palavras deixou
Sofia entregue a si mesma.
De novo, Alberto tivera um
lapso, aquele patife. Sofia
teria batido de novo à porta,
mas algo a impediu de o fazer.
Na rua, lembrou-se de que
não tinha dinheiro nenhum.
Deste modo, tinha que fazer a
pé todo o caminho para casa.
Que diabo! A mãe ia ficar
furiosa e preocupada se não
conseguisse chegar a casa às
seis.
Mas alguns metros adiante,
descobriu de repente no passeio uma moeda de dez coroas.
Um bilhete de transbordo custava exactamente dez coroas.
Sofia foi para a paragem e
esperou pelo autocarro seguinte para a praça principal. De
lá, partia um outro que ia
quase até sua casa.

192
Só na praça principal reflectiu na sorte que tivera em
encontrar a moeda de dez coroas precisamente no momento
em que precisava tanto dela.
O pai de Hilde nunca poderia tê-la colocado ali. Mas
ele era sem dúvida um mestre
na arte de colocar todo o género de coisas nos lugares
mais estranhos.
Mas como é que o conseguia,
se estava no Líbano?
E porque é que Alberto tivera aqueles lapsos? Não apenas uma vez, mas duas de seguida.
Sofia sentiu um calafrio
percorrer-lhe as costas.

193
O Barroco

"... da mesma matéria de que
são feitos os sonhos..."

Durante alguns dias, Sofia
não teve mais notícias de Alberto, mas procurou por Hermes no jardim várias vezes ao
dia. Dissera à mãe que o cão
fora sozinho para casa, e o
seu dono, um velho professor
de física, a convidara para
tomar café. Ele falara a Sofia acerca do sistema solar e
da nova ciência que nascera no
século XVI.
Contou mais a Jorunn. Falou-lhe da sua visita a Alberto, do postal no vão da escada e da moeda de dez coroas
que encontrara no caminho para
casa. Mas guardou para si o
sonho com Hilde e a história
do crucifixo de ouro.
Na terça-feira, dia 29 de
Maio, Sofia estava na cozinha e enxugava a louça, enquanto a mãe via as notícias
na sala de estar. Quando a
música de abertura esmoreceu,
Sofia ouviu na cozinha que um
major do contingente norueguês
da ONU fora morto por uma
granada.
Sofia deixou cair o pano da
louça no lava-louça e correu
para a sala de estar. Durante
alguns segundos tremeluziu uma
fotografia do soldado da
ONU no ecrã - depois, as
notícias continuaram.
- Oh, não! - exclamou
Sofia.
A sua mãe voltou-se.
- Sim, a guerra é terrível...
Sofia desfez-se em lágrimas.
- Mas, Sofie. Não é assim tão grave.
- Disseram o nome dele?
- Sim... mas já não me recordo. Ele era de Grimstad.
- Isso não é o mesmo que
Lillesand?
- Não, estás a brincar?
- Mas quando se é de
Grimstad, também se pode ir à
escola em Lillesand.
Já não chorava. Por sua
vez, a mãe reagiu. Levantou-se e desligou o televisor.
- Mas que excessos são estes, Sofia?

194
- Ah, nada...
- Sim, tem de haver alguma
coisa! Tu tens um namorado, e
eu começo a acreditar que ele
é muito mais velho que tu.
Responde-me agora: conheces
algum homem no Líbano?
- Não, não é bem isso...
- Conheces o filho de alguém que esteja no Líbano?
- Não, ouve. Eu nem sequer conheço a filha dele!
- De quem é que estás a
falar?
- Não tens nada a ver com
isso.
- Ah, não?
- Talvez devesse ser antes
eu a interrogar. Porque é que
o pai nunca está em casa?
Talvez porque vocês sejam demasiado cobardes para se separarem? Terás um namorado do
qual o pai e eu nada sabemos?
E assim por diante. Ambas
temos as nossas perguntas.
- De qualquer modo, acho
que temos de conversar uma com
outra.
- Talvez. Mas agora estou
tão cansada que prefiro ir para a cama. E além disso estou
com o período.
Saiu da sala a correr com
um nó na garganta.
Mal saíra da casa de banho
e se enfiara nos lençóis, a
mãe entrou no quarto.
Sofia fingiu que dormia,
apesar de saber que a mãe não
acreditava. Também sabia que
a mãe sabia que Sofia sabia
que ela não acreditava nisso.
No entanto, a mãe fez como se
Sofia já estivesse a dormir.
Sentou-se ao canto da cama e
acariciou-lhe a cabeça.
Sofia pensou como era difícil levar uma vida dupla.
Começava a alegrar-se com o
fim do curso de filosofia.
Talvez terminasse até ao dia
dos seus anos - ou pelo menos
até à noite de S. João,
quando o pai de Hilde regressasse do Líbano...
- Eu queria fazer uma festa no meu aniversário - afirmou então.
- É uma boa ideia. E quem
queres convidar?
- Muitas pessoas... posso?
- Claro. Temos um jardim
grande. E talvez o bom tempo
se mantenha.
- Mas, de preferência, eu
gostaria de festejar só na
noite de S. João.
- Está bem, então fazemos
isso.
- É um dia importante -
afirmou Sofia, e não estava a
pensar apenas no seu aniversário.
- Ah...
- Acho que me tornei tão
adulta nos últimos tempos.

195
- Sim, não é bom?
- Não sei.
Sofia mantivera a cabeça
enterrada na almofada enquanto
falavam. A mãe sondou então:
- Mas Sofia, tens de me
contar porque é que... porque
é que agora estás tão desequilibrada.
- Tu não eras assim com
quinze anos?
- Certamente. Mas tu sabes o que quero dizer.
Sofia voltou-se para a mãe.
- O cão chama-se Hermes
- afirmou.
- Sim?
- Pertence a um homem chamado Alberto.
- Ahá.
- Ele mora na parte antiga
da cidade.
- Foste tão longe atrás do
cão?
- Mas não é perigoso.
- Tu disseste que o cão já
tinha estado aqui outras vezes.
- Sim!
Sofia tinha de reflectir.
Ela queria revelar o máximo
que lhe era possível, mas não
podia contar tudo.
- Tu quase nunca estás em
casa - começou.
- Não, estou muito ocupada.
- Alberto e Hermes já estiveram aqui muitas vezes.
- Mas porquê? Também já
estiveram dentro de casa?
- Podes fazer uma pergunta
de cada vez? Eles não estiveram na casa. Mas vão frequentemente passear no bosque.
Achas isso estranho?
- Não, isso não é nada estranho.
- Como todos os outros,
passam pelo nosso portão ao
passearem. Uma vez em que eu
vinha da escola, Hermes farejava aqui à volta. Foi deste
modo que eu conheci o Alberto.
- E quanto ao coelho branco e todas as outras coisas?
- Foi o Alberto que falou
nisso. É que ele é um verdadeiro filósofo. Falou-me dos
filósofos.
- Assim por cima da vedação do jardim?
- Não, sentámo-nos. Mas
ele também me escreveu cartas,
bastantes. Por vezes, vieram
pelo correio, outras vezes ele
pô-las na nossa caixa do correio ao passar.
- Essas eram então as
"cartas de amor" de que falámos.
- Só que não eram cartas
de amor.
- Ele só escreveu sobre
filósofos?

196
- Sim, imagina tu. E já
aprendi mais com ele do que em
oito anos de escola. Já ouviste falar, por exemplo, de
Giordano Bruno, que morreu
na fogueira em 1600? Ou da
lei da gravitação de Newton?
- Não, há muita coisa que
eu não sei...
- Se bem te conheço, nem
sequer sabes porque é que a
Terra gira à volta do Sol, e
não o contrário.
- Que idade é que ele tem,
aproximadamente?
- Não faço ideia. Pelo
menos cinquenta.
- E o que é que ele tem a
ver com o Líbano?
Isso era mais complicado.
Sofia pensou em dez respostas
possíveis ao mesmo tempo. Depois escolheu a única que lhe
parecia credível:
- O irmão do Alberto é
major na ONU. E ele é de
Lillesand. Deve ter morado a
certa altura na cabana do major.
- Alberto não é um nome um
pouco estranho?
- Talvez.
- Soa a italiano.
- Eu sei. Quase tudo o
que é importante vem da Grécia ou da Itália.
- Mas ele fala norueguês?
- Sim, fluentemente.
- Sabes o que acho, Sofia? Acho que devias convidar
o Alberto para nossa casa.
Nunca estive com um verdadeiro filósofo.
- Vamos ver.
- Talvez o possamos convidar para a tua grande festa.
É divertido misturar as gerações. E nessa altura, eu podia estar também presente. Eu
poderia servir à mesa. Achas
uma boa ideia?
- Sim, se ele quiser. De
qualquer modo, é muito mais
interessante conversar com ele
do que com os rapazes da minha
turma. Mas... nesse caso, todos acharão que o Alberto é o
teu namorado.
- Então, dizes-lhes que
isso não é verdade.
- Vamos ver.
- Sim, vamos ver. E Sofia - é verdade que nem tudo
foi fácil entre mim e o pai.
Mas eu nunca tive um namorado...
- Agora, quero dormir.
Tenho uma dor de barriga horrível.
- Queres uma aspirina?
- Está bem.
Quando a mãe voltou com um
comprimido e um copo de água,
Sofia já tinha adormecido.
O dia 31 de Maio era uma
quinta-feira. Sofia esteve
preocupada durante as últimas
aulas. Em algumas disciplinas
tinha melhorado desde que o
curso de Filosofia começara.
Na maioria das disciplinas

197
estivera sempre entre "bom" e
"muito bom"; mas nos últimos
meses tinha conseguido um
"muito bom" num trabalho escrito de ciências humanas e
numa composição de casa. Na
matemática as coisas não estavam tão bem...
Na última aula, o professor
entregou uma composição que
tinha corrigido. Sofia tinha
escolhido o tema "O homem e a
técnica". Escrevera sobre o
Renascimento e o desenvolvimento científico, sobre a nova
visão da natureza, sobre
Francis Bacon, que afirmara
"saber é poder", e sobre o novo método científico.
Explicara detalhadamente que
o método empírico era mais antigo do que as invenções técnicas. Escrevera depois o que
lhe ocorrera acerca das desvantagens da técnica. Tudo o
que os homens faziam podia resultar no bem ou no mal, escrevera no fim. Bem e mal
eram como um fio branco e um
fio preto que se estavam sempre a entrelaçar. Por vezes,
ambos os fios estão tão unidos
que é impossível separar um do
outro.
Ao entregar as composições,
o professor olhou para Sofia
e piscou-lhe o olho.
Teve um cinco, e o professor perguntou: - Como é que
sabes isso tudo?
Sofia agarrou numa caneta
de feltro e escreveu em maiúsculas na folha: "Eu Estudo
Filosofia".
Ao fechar o livro de exercícios, algo caiu das páginas
do meio. Era um postal ilustrado do Líbano.
Sofia debruçou-se sobre a
mesa e leu:

"Querida Hilde: Quando
leres isto, já teremos falado
ao telefone acerca da trágica
morte ocorrida aqui. Por vezes, pergunto-me se a guerra e
a violência não poderiam ser
evitadas se os homens pudessem
pensar de outro modo. Talvez
o melhor meio contra a guerra
e a violência fosse um pequeno
curso de filosofia. Que tal
um "Pequeno livro de filosofia da ONU" - de que cada
novo cidadão do mundo receberia um exemplar na língua materna? Vou expor esta ideia
ao secretário-geral.
Ao telefone, contaste que
agora já prestas mais atenção
às tuas coisas. Isso é bom,
porque és realmente a maior
cabeça de vento que eu conheço. Depois, disseste que desde a nossa última conversa
apenas perdeste uma moeda de
dez coroas. Farei o possível
para te compensar. Eu estou
muito longe de casa, mas ainda
tenho uma mão amiga na velha
pátria. (Se encontrar a moeda de dez coroas, junto-a ao
teu presente de aniversário.)

Beijos do pai, que tem a
sensação de já ter iniciado a
longa viagem de regresso."

198
Sofia acabara de ler o postal quando a aula terminou.
De novo se desencadeou uma
forte tempestade de pensamentos na sua mente.
No pátio da escola, Jorunn
esperava por ela como sempre.
A caminho de casa, Sofia
abriu a sua pasta da escola e
mostrou à amiga o postal.
- De quando é o carimbo?
- perguntou Jorunn.
- De certeza que é de 15
de Junho...
- Não, espera... aqui está
30-5-1990.
- Isso foi ontem... ou seja, no dia a seguir à tragédia
no Líbano.
- Não acredito que um postal leve apenas um dia do Líbano até à Noruega - reflectiu Jorunn.
- Pelo menos não com esta
direcção: Hilde Mõller
Knag, a/c Sofia Amundsen,
Escola Secundária Furulia...
- Achas que veio pelo correio? E o professor meteu-o
simplesmente no livro?
- Não faço ideia. E também não sei se me atrevo a
perguntar.
Não falaram mais acerca do
postal.
- Na noite de S. João,
vou fazer uma grande festa no
jardim - contou Sofia.
- Com rapazes?
Sofia encolheu os ombros.
- Não precisamos de convidar os mais parvos.
- Mas vais convidar Jõrgen?
- Se quiseres. Talvez
convide o Alberto Knox.
- Deves estar doida.
- Eu sei.
Não falaram mais, e separaram-se no supermercado.
A primeira coisa que fez
quando chegou a casa foi procurar Hermes no jardim. E
nesse dia, ele andava de facto
entre as macieiras.
- Hermes!
O cão ficou parado por um
momento. Sofia sabia exactamente o que se iria passar
nesse segundo. O cão ouvira-a
chamar, reconhecera a sua voz
e decidira verificar se ela
estava ali, e de onde viera o
ruído. Só então a descobriu e
decidiu correr para ela. As
suas quatro pernas desataram a
agitar-se.
Era de facto muito para um
só segundo.
Foi ter com ela a correr,
abanou a cauda energicamente e
saltou para ela.
- Bonito cão, Hermes!
Não... não, pára de lamber,
estás a ouvir? Senta... assim, sim!

199
Sofia abriu a porta de casa. Sherekan surgiu então dos
arbustos. O animal estranho
era um pouco sinistro para o
gato. Mas Sofia colocou comida no prato dele, pôs sementes no comedouro dos pássaros,
deixou à tartaruga uma folha
de alface e escreveu um bilhete à mãe.
Escreveu que queria levar
Hermes para casa e que telefonaria caso não pudesse estar
em casa antes das sete.
Depois, puseram-se a caminho pela cidade. Desta vez,
Sofia tinha trazido dinheiro.
Pensou em apanhar o autocarro
com Hermes, mas depois lembrou-se que Alberto podia não
estar de acordo.
Ao andar atrás de Hermes,
começou a pensar no que era um
animal. Qual era a diferença
entre um cão e um homem? Ela
ainda sabia o que Aristóteles
dissera a esse respeito. Afirmara que homens e animais
eram seres vivos com muitas
semelhanças importantes. Mas
havia também uma diferença essencial entre um homem e um
animal, a razão.
Como é que ele tinha a certeza desta diferença?
Demócrito, por seu lado,
não vira uma grande diferença
entre homens e animais, visto
que ambos são compostos por
átomos. Também não acreditava
que homens ou animais tivessem
almas imortais. Acreditava
que a alma era formada por pequenos átomos que se separavam
em todas as direcções quando
as pessoas morriam. Para ele,
a alma do homem estava indissociavelmente ligada ao cérebro.
Mas como é que a alma podia
ser constituída por átomos? É
que a alma não podia ser tocada, ao contrário de todas as
outras partes do corpo. Era
algo "espiritual".
Tinham atravessado a praça
principal e aproximavam-se da
parte antiga da cidade. Quando chegaram ao local onde
Sofia encontrara a moeda de
dez coroas, o seu olhar dirigiu-se instintivamente para o
chão. E ali - precisamente
ali, onde já se inclinara uma
vez para apanhar uma moeda de
dez coroas - estava agora,
com a fotografia virada para
cima, um postal ilustrado. A
fotografia mostrava um jardim
com palmeiras e laranjeiras.
Sofia baixou-se e apanhou o
postal. Simultaneamente,
Hermes começou a rosnar. Parecia não gostar que Sofia
tivesse agarrado no postal.

No postal estava escrito:

"Querida Hilde! A vida
consiste numa cadeia interminável de coincidências. Não é
totalmente inverosímil que as
dez coroas que perdeste tenham
chegado aqui. Talvez uma senhora idosa, que esperava pelo

200
autocarro para Kristiansand,
a tenha encontrado na praça
principal de Lillesand. Em
Kristiansand, apanhou o comboio para visitar os seus netos, e muitas horas mais tarde
pode ter perdido aqui a moeda
de dez coroas. Em seguida, é
possível que essa moeda tenha
sido apanhada mais tarde por
uma rapariga que precisava de
dez coroas para poder ir para
casa de autocarro. Nunca se
pode saber, Hilde, mas se foi
mesmo assim temos de nos questionar de facto se não há uma
providência divina por trás de
tudo.
Beijos do pai que em pensamento já está sentado na doca
em Lillesand.

PS. Eu bem disse que ia
ajudar-te a procurar as dez
coroas."

Como endereço, estava escrito no postal: "Hilde Mõller Knag, a/c de uma transeunte acidental..." O postal
tinha o carimbo do dia 15 de
Junho.
Sofia subiu os degraus
atrás de Hermes. Quando Alberto abriu a porta, disse:
- Sai do caminho, velhote.
Aqui vem o correio!
Ela achava que naquele preciso momento tinha uma boa razão para estar um pouco irritada.
Ele deixou-a entrar. Hermes deitou-se debaixo dos cabides, como na vez anterior.
- O major deixou um novo
cartão de visita, minha filha?
Sofia olhou para Alberto.
Só então descobriu que ele
trazia um traje novo.
Reparou primeiro numa comprida peruca encaracolada.
Além disso, trazia um fato
comprido largo com muitas rendas. À volta do pescoço tinha
um vistoso lenço de seda e sobre o fato uma capa vermelha.
Trazia meias brancas e, nos
pés, elegantes sapatos de verniz, com laços. No conjunto,
fazia lembrar aqueles quadros
representando a corte de Luís
XIV que Sofia já tinha visto.
- Que pavão! - comentou,
entregando-lhe o postal.
- Hm... e tu encontraste
de facto as dez coroas precisamente no local onde o postal
estava hoje?
- Precisamente ali.
- Ele está cada vez mais
atrevido. Mas talvez isto seja bom.
- Porquê?
- Assim será mais fácil
desmascará-lo. Esta encenação
é realmente empolada e repugnante. Cheira a perfume barato.
- Perfume?

201
- Tem um efeito indiscutivelmente elegante, mas é apenas uma brincadeira. Vês como
ele ousa comparar os seus fracos métodos de vigilância com
a providência divina?
Ergueu o postal. Depois
rasgou-o em pedaços tal como o
anterior. Para não perturbar
ainda mais o seu estado de espírito, Sofia não mencionou o
postal que encontrara no livro
da escola.
- Vamos sentar-nos na sala
de estar, cara discípula. Que
horas são?
- Quatro.
- Hoje vamos falar sobre o
século XVII.
Foram para a sala que tinha
o tecto inclinado e a clarabóia. Sofia reparou que Alberto substituíra alguns objectos desde a última vez.
Na mesa via-se um antigo
cofre com uma colecção de diversas lentes. Ao lado, estava um livro aberto. Era muito
antigo.
- O que é isto? - perguntou Sofia.
- É uma primeira edição do
famoso livro de "René Descartes", "O Discurso do Método". É do ano de 1637 e é
um dos meus objectos mais estimados.
- E o cofre...
- ... contém uma colecção
exclusiva de lentes - ou vidros ópticos. Foram polidos
por volta de meados do século
XVII pelo filósofo holandês
"Espinosa". Ficaram-me caras, mas também são das minhas
preciosidades mais valiosas.
- Eu compreenderia sem dúvida melhor o valor do livro e
do cofre se soubesse alguma
coisa sobre Descartes e Espinosa.
- Claro. Mas vamos tentar
primeiro familiarizar-nos um
pouco com a sua época.
Sentemo-nos.
E sentaram-se como na vez
anterior, Sofia numa poltrona
grande e Alberto no sofá.
Entre eles estava a mesa com
o livro e o cofre. Quando se
sentaram, Alberto tirou a peruca e pô-la na escrivaninha.
- Vamos falar agora sobre
o século XVII - ou a época
que é designada por "Barroco".
- Barroco? Não é um nome
estranho?
- A designação "barroco"
provém de uma palavra que significa na realidade "pérola
irregular". Típico da arte do
Barroco eram as formas exuberantes e com muitos contrastes, ao contrário da arte do
Renascimento, mais simples e
harmoniosa. O século XVII é
caracterizado pela tensão entre opostos inconciliáveis.
Por um lado, continuava a haver a visão optimista do mundo
como no Renascimento - por
outro, muitos se agarraram ao
extremo oposto e levavam uma
vida de recusa do mundo e retiro religioso. Na arte e na
vida real encontramos uma

202
ostentação pomposa de vida.
Simultaneamente, surgiram os
movimentos monásticos que renunciavam ao mundo.
- Palácios imponentes e
mosteiros escondidos, portanto.
- Sim, podes dizê-lo assim. Um chavão do Barroco
era o provérbio latino "carpe
diem" - que significa: "goza
o dia!". Um outro provérbio
latino muito evocado diz: "memento mori" - e significa:
"Recorda que tens de morrer!". Na pintura, o mesmo
quadro podia mostrar simultaneamente uma grande exuberância enquanto num canto inferior estava pintada uma caveira.
Em muitos aspectos, o Barroco caracteriza-se pela "frivolidade" e a "afectação", mas
também pela consciência da
"efemeridade" de todas as coisas, ou seja, pelo facto de
que tudo o que é belo tem de
perecer e decompor-se um dia.
- É verdade, mas é uma
ideia triste pensar que nada é
estável.
- Nesse caso, pensas exactamente como muitas pessoas no
século XVII. No domínio político, o Barroco também foi
a época de grandes conflitos.
Primeiro, a Europa foi devastada por guerras. A mais
grave foi a Guerra dos Trinta Anos, que assolou quase
toda a Europa de 1618 a
1648. Na realidade, consistiu em muitas guerras pequenas, que atingiram sobretudo a
Alemanha. Como consequência
da Guerra dos Trinta Anos,
a França tornou-se pouco a
pouco a potência dominante na
Europa.
- Porque é que eles combatiam?
- Era sobretudo uma guerra
entre protestantes e católicos. Mas também se tratava do
poder político.
- Mais ou menos como no
Líbano.
- Além disso, o século
XVII estava marcado por
enormes diferenças de classes.
Com certeza já ouviste falar
da nobreza francesa e da corte
de Versalhes. Não sei se
também estudaste a miséria do
povo. Mas toda a ostentação
do luxo assenta sobre a ostentação do poder. Diz-se que a
situação política do Barroco
pode ser comparada com a arte
e a arquitectura contemporâneas. Os edifícios do Barroco estavam sobrecarregados de
volutas, estuques e decorações. E a política estava
cheia de assassínios, intrigas
e tramas.
- Não houve um rei sueco
que foi assassinado no teatro
nessa altura?
- Estás a pensar em Gustavo III, e tens aí um verdadeiro exemplo daquilo a que
me refiro. O assassínio de
Gustavo III deu-se já no
ano de 1792, mas em circunstâncias muito barrocas. Ele
foi assassinado num grande
baile de máscaras.
- E eu pensava que tinha
sido no teatro.

203
- O baile de máscaras teve
lugar na Ópera. O Barroco
sueco, no fundo, só terminou
com o assassínio de Gustavo
III. Durante o seu reinado
dominou o despotismo esclarecido, mais ou menos como quase
cem anos antes com Luís
XIV. Além disso, Gustavo
III era um homem muito frívolo, que adorava todas as cerimónias e cortesias francesas. E repara que também gostava muito de teatro...
- E isso foi-lhe fatal.
- Mas o teatro no Barroco
era mais do que uma mera forma
artística. Era o símbolo mais
importante da sua época.
- E o que é que simbolizava?
- A vida, Sofia. Não sei
quantas vezes se disse durante
o século XVII: "A vida é
teatro". Certamente muitas
vezes. E foi durante o barroco que surgiu o teatro moderno
- com a sua maquinaria e cenografia. No teatro, punha-se
em cena uma ilusão - que era
desmascarada como mera ficção.
Deste modo, o teatro tornou-se a imagem da vida humana em
geral. O teatro podia mostrar
que "quanto mais alto é o voo,
maior é a queda", oferecendo
uma representação impiedosa da
fragilidade humana.
- "William Shakespeare"
viveu no período do Barroco?
- Ele escreveu os seus
grandes dramas por volta do
ano de 1600. Desse modo, tem
um pé no Renascimento e o outro no Barroco. Mas já em
Shakespeare se encontram muitas reflexões sobre a vida como teatro. Gostarias de ouvir
alguns exemplos?
- Sim, muito.
- No drama "As You Like
It", ele afirma:

"O mundo é um palco e todos
os homens e mulheres meros actores. Entram e saem de cena,
e cada um representa muitos
papéis no seu tempo..."

E em "Macbeth" diz-se:

"A vida é apenas uma sombra

inconstante;
Um pobre comediante que se
pavoneia e se agita
Durante a sua hora em cena, e

depois nada mais
Se ouve dele; é uma história,

contada
Por um idiota, cheia de som e
de fúria,
Que nada significa."

- Isso é mesmo pessimista.
- Mas a brevidade da vida
preocupou-o. Provavelmente já
ouviste a mais famosa citação
de Shakespeare:

204
- Ser ou não ser - eis a
questão.
- Sim, foi Hamlet que o
disse. Num dia estamos na
terra - no dia seguinte desaparecemos.
- Obrigada, isso eu já
compreendi.
- Quando não comparam a
vida com o teatro, os escritores barrocos comparam-na com
um sonho. Já Shakespeare
afirmava, por exemplo: "Somos
feitos da mesma matéria que os
sonhos, e esta breve vida
abrange um sono..."
- Que poético.
- O poeta espanhol
"Calderón", que nasceu por
volta de 1600, escreveu um
drama com o título "A vida é
sonho". Aí afirma "O que é a
vida? Loucura! O que é a vida? Uma ilusão, uma sombra,
uma ficção. E o maior dos
bens tem pouco valor, pois a
vida é um sonho."
- Talvez ele tenha razão.
Nós lemos uma peça na escola.
Chamava-se "Jeppe de Bjerget".
- De "Ludvig Holberg",
sim. Aqui no Norte uma grande figura de transição entre o
Barroco e o Iluminismo.
- Jeppe adormece num fosso
de estrada... e depois acorda
na cama do barão. E pensa ter
sonhado ser apenas um pobre
camponês. Depois, é levado de
volta para o fosso, a dormir
- e acorda de novo. E acha
nessa altura ter sonhado que
estivera deitado na cama do
barão.
- Holberg retirou este motivo de Calderón, como Calderón o fizera a partir dos
contos árabes das "Mil e Uma
Noites". Mas a comparação
entre vida e sonho é ainda
mais antiga, e encontramo-la
inclusivamente na Índia e na
China. Já o antigo sábio
chinês "Tchuang Tsu (cerca
de 350 a.C.) sonhou uma vez
que era uma borboleta e, após
ter acordado perguntou se era
um homem que sonhara ser uma
borboleta ou uma borboleta que
estava nesse momento a sonhar
que era um homem.
- De qualquer modo, é impossível provar qual está certo.
- Na Noruega tivemos um
poeta barroco típico, de nome
"Petter Dass". Viveu entre
1647 e 1707. Por um lado,
queria retratar a vida como é
realmente, por outro sublinhava que apenas Deus é eterno e
constante.
- Deus é Deus, mesmo se
tudo fosse deserto, Deus é
Deus, mesmo se todos estivessem mortos...
- Mas no mesmo hino ele
descreve também a cultura norueguesa - escrevendo sobre
todos os tipos de peixe que se
encontram nesta zona. Isso é
típico do Barroco. Num mesmo
texto é descrito o terreno,
imanente - e o celestial,
transcendente. O conjunto
pode

205
fazer-nos lembrar a separação
platónica entre o mundo sensível concreto e o mundo imutável das ideias.
- E a filosofia?
- Também a filosofia era
caracterizada por duras lutas
entre modos de pensar contraditórios. Como já ouvimos,
para alguns filósofos, a realidade era fundamentalmente de
natureza mental ou espiritual.
Designamos essa perspectiva
por "idealismo". A concepção
oposta é o "materialismo", uma
filosofia que defende que a
realidade se reduz a substâncias materiais concretas. O
materialismo também teve no
século XVII muitos defensores. O mais influente talvez
tenha sido o filósofo inglês
"Thomas Hobbes". Segundo
ele, todos os seres - logo,
também homens e animais -
consistem exclusivamente em
partículas de matéria. Mesmo
a consciência do homem - ou a
alma humana - nasce através
do movimento de partículas minúsculas no cérebro.
- Então ele pensava o mesmo que Demócrito dois mil
anos antes.
- Idealismo e materialismo
são como fios condutores através de toda a história da filosofia. Mas muito raramente
as duas concepções surgiram
tão claramente numa mesma época como no Barroco. O materialismo consolidou-se progressivamente através das novas ciências da natureza.
Newton mostrou que as mesmas
leis para o movimento são válidas em todo o universo, e
que as leis da gravitação e
dos movimentos dos corpos são
responsáveis por todas as
transformações na natureza -
tanto na terra como no espaço.
Portanto, tudo é governado
com a mesma regularidade constante - ou com a mesma mecânica. Assim, em princípio,
podemos calcular qualquer
transformação na natureza com
exactidão matemática. Deste
modo, Newton forneceu os últimos elementos para a chamada
"concepção mecanicista do mundo".
- Ele imaginava o mundo
como uma grande máquina?
- Exactamente. O termo
"mecânico" provém da palavra
grega "mêchanê", que significa
máquina. Mas devemos ter em
atenção que nem Hobbes nem
Newton viam uma contradição
entre uma concepção mecanicista do mundo e a crença em
Deus. Isto não é válido para
todos os materialistas dos séculos XVIII e XIX. O médico e filósofo francês "La
Mettrie" escreveu em meados
do século XVIII um livro com
o título "L'homme machine".
Significa: "o homem máquina".
Tal como a perna tem músculos
para andar, assim o cérebro,
escreveu ele, tem "músculos"
para pensar. Posteriormente,
o matemático francês "Laplace" exprimiu com o seguinte
pensamento uma concepção mecanicista extrema: se uma inteligência conhecesse a posição
de todas as

206
partículas de matéria num certo momento, nada seria incerto, e tanto o futuro como o
passado seriam evidentes. Estaria "nas cartas" o que haveria de suceder. Designamos
esta concepção por "determinismo".
- Nesse caso, o homem não
pode ter livre arbítrio.
- Não, tudo é produto de
processos mecânicos - inclusivamente os nossos pensamentos e sonhos. No século
XIX, materialistas alemães
afirmaram que os processos de
pensamento se comportam em relação ao cérebro tal como a
urina em relação aos rins e a
bílis em relação ao fígado.
- Mas a urina e a bílis
são materiais. Os pensamentos
não.
- Estás a dizer uma coisa
importante. Posso contar-te
uma história que diz o mesmo.
Certa vez, um cosmonauta e um
neurocirurgião russos discutiam sobre religião. O cirurgião era cristão, o cosmonauta
não. "Eu já estive várias vezes no espaço", gabava-se o
cosmonauta, "mas não vi nem
Deus nem anjos". "E eu já
operei muitos cérebros inteligentes", respondeu o cirurgião, "e também não encontrei
em lado algum um único pensamento".
- O que não significa que
os pensamentos não existam.
- Não. Apenas esclarece
que os pensamentos são algo
completamente diferente de
tudo o que pode ser amputado
ou dividido em partes cada vez
mais pequenas. Por exemplo,
não é fácil remover uma alucinação com uma operação. Um
importante filósofo do século
XVII, chamado "Leibniz",
referiu que a grande diferença
entre tudo o que é feito de
"matéria" e tudo o que é feito
de "espírito" consiste precisamente no facto de a matéria
poder ser dividida em partes
cada vez mais pequenas. Mas a
alma não pode ser cortada em
pedaços.
- Pois não, que tipo de
faca se usaria?
Alberto abanou a cabeça.
Depois, apontou para a mesa
entre ambos e afirmou:
- Os dois filósofos mais
importantes do século XVII
foram Descartes e Espinosa.
Também eles se preocuparam
com questões como a relação
entre alma e corpo. Vamos observar mais pormenorizadamente
estes filósofos.
- Conta. Mas, se não estivermos despachados até às
sete, tenho de telefonar à minha mãe.

207

Descartes

"... ele queria remover todos os velhos materiais do
terreno de construção..."

Alberto levantara-se e despira a capa vermelha. Pô-la
numa cadeira e voltou a sentar-se confortavelmente no
sofá.
- "René Descartes" nasceu
em 1596 e viveu em vários
países da Europa ao longo da
vida. Já na sua juventude,
sentia o forte desejo de tomar
conhecimento da natureza do
homem e do universo. Mas depois de ter estudado filosofia
tornou-se consciente sobretudo
da sua própria ignorância.
- Mais ou menos como Sócrates?
- Sim, mais ou menos assim. Tal como Sócrates, estava convencido de que só a
razão nos pode dar conhecimento seguro. Nunca podemos confiar no que está escrito em
livros antigos. Nem sequer
podemos confiar no que os nossos sentidos nos transmitem.
- Platão era da mesma opinião. Ele achava que só a razão nos pode dar um saber sólido.
- Exacto. De Sócrates e
Platão, através de S. Agostinho, há uma linha directa
até Descartes. Todos eles
eram racionalistas convictos.
Para eles, a razão era a única fonte segura de conhecimento. Após muitos estudos,
Descartes reconheceu que não
era forçoso confiar no saber
transmitido na Idade Média.
Podes fazer uma comparação
com Sócrates, que não confiava nas concepções mais difundidas com que se defrontava na
ágora em Atenas. E o que é
que se faz neste caso, Sofia?
Sabes responder-me?
- Começa-se a filosofar
por si mesmo.
- Exacto. Descartes decidiu então viajar pela Europa
- tal como Sócrates, que
passou a vida em diálogo com
homens de Atenas. Ele próprio relata que a partir dessa
altura só queria procurar o
saber que podia encontrar em
si mesmo ou "no grande livro
do mundo". Por isso, entrou
para o exército e pôde permanecer em diversos locais da
Europa Central. Mais tarde,
passou alguns anos em Paris.
Em Maio

208
de 1629, viajou para os Países Baixos, onde viveu durante quase vinte anos, enquanto
trabalhava nos seus escritos
filosóficos. Em 1649, a rainha Cristina convidou-o a viver na Suécia. Mas esta estadia "no país dos ursos, do
gelo e dos rochedos", como ele
lhe chamou, provocou-lhe uma
pneumonia, e morreu no Inverno de 1650.
- Então só tinha 54 anos!
- Mas ainda havia de ser
muito importante para a filosofia, mesmo após a sua morte.
Sem exagero, podemos dizer
que Descartes foi o fundador
da filosofia da época moderna.
Depois da imponente redescoberta do homem e da natureza
no Renascimento, surgiu de
novo a necessidade de reunir
todas as ideias contemporâneas
num único "sistema filosófico"
coerente. O primeiro grande
construtor de sistema foi
"Descartes", e seguiram-se-lhe "Espinosa" e "Leibniz",
"Locke" e "Berkeley",
"Hume" e "Kant".
- O que é que entendes por
"sistema filosófico"?
- Entendo uma filosofia
construída desde a base e que
procura encontrar uma resposta
para todas as questões filosóficas importantes. A Antiguidade teve grandes construtores de sistemas como Platão
e Aristóteles. A Idade Média teve S. Tomás de Aquino, que queria fazer uma ponte
entre a filosofia de Aristóteles e a teologia cristã.
Veio depois o Renascimento
- com uma mistura de velhas e
novas ideias sobre a natureza
e a ciência, Deus e os homens. Só no século XVII a
filosofia tentou de novo pôr
em sistema as novas ideias. O
primeiro a fazer esta tentativa foi Descartes. Ele deu o
sinal de partida para aquilo
que se tornaria o projecto filosófico mais importante para
as gerações seguintes. Antes
de mais, preocupava-o o que
nós podemos saber, ou seja, a
questão da "solidez do nosso
conhecimento". A segunda
grande questão que o preocupava era a "relação entre corpo
e alma". Estas duas problemáticas determinariam a discussão filosófica dos cento e
cinquenta anos seguintes.
- Então ele estava adiantado em relação à época.
- Mas as questões já andavam no ar na época. Na questão de como podemos alcançar
saber seguro, alguns exprimiram o seu total "cepticismo"
filosófico. Achavam que os
homens tinham de se conformar
com o facto de nada saberem.
Mas Descartes não se conformou com isso. Se o tivesse
feito, não teria sido um verdadeiro filósofo. De novo,
podemos fazer um paralelismo
com Sócrates, que não se contentou com o cepticismo dos
sofistas. Justamente na época
de Descartes, a nova ciência
da natureza desenvolvera um
método que havia de fornecer
uma descrição totalmente segura e exacta dos processos naturais. Descartes interrogou-se se não havia um método
igualmente seguro e exacto
para a reflexão filosófica.

209
- Entendo.
- Mas esse era apenas um
dos problemas. A nova física
colocara também a questão sobre a natureza da matéria, ou
seja, sobre o que determina os
processos físicos na natureza.
Cada vez mais pessoas defendiam uma compreensão materialista da natureza. Mas quanto
mais o mundo físico era concebido de forma mecanicista,
mais urgente se tornava a
questão da relação entre corpo
e alma. Antes do século
XVII, a alma fora descrita
geralmente como uma espécie de
"espírito vital" que percorria
todos os seres vivos. Aliás,
o significado original de
"alma" e "espírito" é também
"sopro vital" ou "respiração".
É esse o caso em quase todas
as línguas europeias. Para
Aristóteles, a alma é algo
que está presente em todo o
organismo como "princípio vital" desse organismo - e que
é inconcebível separada do
corpo. Por isso também podia
falar de uma "alma vegetativa"
e de uma "alma sensitiva".
Foi só no século XVII que
os filósofos estabeleceram uma
separação radical entre alma e
corpo, porque todos os objectos físicos - também um corpo
animal ou humano - eram explicados como processos mecânicos. Mas a alma humana não
podia ser uma parte desta
"máquina fisiológica"? O que
era então? Tinha que se esclarecer como é que algo "espiritual" podia dar origem a
um processo mecânico.
- Essa é realmente uma
ideia bastante estranha.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu decido levantar o meu
braço - e o braço eleva-se.
Ou eu decido correr para o
autocarro e imediatamente as
minhas pernas começam a mover-se. Por vezes, penso numa
coisa triste: as lágrimas
vêm-me logo aos olhos. Assim,
tem de haver alguma ligação
misteriosa entre o corpo e a
consciência.
- Foi precisamente este
problema que levou Descartes
a reflectir. Tal como Platão, ele estava convencido de
que há uma divisão rígida entre espírito e matéria. Mas
Platão não conseguiu dar resposta ao problema de como o
espírito influencia o corpo,
ou a alma o corpo.
- Eu também não, por isso
estou desejosa de saber o que
Descartes descobriu.
Ouçamos as suas próprias
reflexões.
Alberto indicou o livro que
estava entre eles na mesa e
prosseguiu:
- Neste pequeno livro,
"Discurso do Método", Descartes levanta a questão de
qual o método filosófico que
um filósofo deve utilizar para
resolver um problema filosófico. As ciências da natureza
já tinham desenvolvido o seu
novo método...
- Já falaste nisso.

210
- Descartes explica em seguida que não podemos dar nada
como verdadeiro enquanto não
tivermos reconhecido claramente que é verdadeiro. Para
conseguirmos isso, temos que
decompor um problema complexo
em tantas partes simples quanto possível. Podemos começar
então pela ideia mais simples.
Talvez se possa dizer que cada ideia é "pesada e medida"
- mais ou menos do mesmo modo
que Galileu queria medir tudo
e tornar mensurável o não mensurável. Descartes achava que
o filósofo podia prosseguir do
simples para o complexo. Deste modo poderia ser construído
um novo conhecimento. Até ao
final, é necessário verificar
que não se omitiu nada, por
meio de um controlo e de uma
verificação constantes. Só
assim se pode atingir conclusões filosóficas.
- Isso parece um problema
matemático.
- Sim, Descartes queria
aplicar o "método matemático"
à reflexão filosófica. Queria
provar verdades filosóficas
aproximadamente do mesmo modo
que um teorema matemático.
Queria usar exactamente o
mesmo instrumento que usamos
ao trabalhar com números, a
"razão", porque só a razão nos
fornece conhecimento seguro.
Não estabelece de modo algum
que se possa confiar nos sentidos. Já referimos a sua
afinidade com Platão. Também
este dissera que a matemática
e as relações numéricas fornecem conhecimento mais seguro
do que os testemunhos dos nossos sentidos.
- Mas é possível responder
desse modo a questões filosóficas?
- Voltemos ao raciocínio
de Descartes. O seu objectivo é portanto obter conhecimentos seguros acerca da natureza da realidade, e ele torna
claro em primeiro lugar que no
início devemos duvidar de tudo. Ele não queria edificar o
seu sistema filosófico sobre
areia.
- Porque se o fundamento
cede, toda a casa se desmorona.
- Obrigado pela ajuda,
Sofia. Descartes não achava
sensato duvidar de tudo, mas
pensava que, em princípio, podemos duvidar de tudo. Em
primeiro lugar, não é certo
que façamos progressos na nossa busca filosófica pela leitura de Platão ou Aristóteles. Talvez alarguemos
com isso o nosso saber histórico, mas não descobrimos
mais acerca do mundo. Descartes achava importante lançar
ao mar o património intelectual antigo antes de iniciar a
sua própria investigação filosófica.
- Ele queria remover todos
os velhos materiais do terreno
de construção, antes de iniciar a construção da nova casa?
- Sim, para ter a certeza
de que o novo edifício de
ideias era estável, ele queria
usar apenas material de construção novo e sólido. Mas as
dúvidas de Descartes vão ainda mais longe. Segundo ele,

211
nunca podemos confiar no que
os nossos sentidos nos transmitem, porque podemos ser enganados por eles.
- Como é que isso é possível?
- Mesmo quando sonhamos,
acreditamos estar a viver uma
situação real. E haverá alguma coisa que distinga as nossas sensações, quando estamos
despertos, das sensações "sonhadas"? "Quando reflicto
cuidadosamente nesta questão,
não encontro nenhum indício
pelo qual possa distinguir com
segurança a vigília do sono",
escreve Descartes. E ele
prossegue: "São ambos tão semelhantes que eu fico totalmente perplexo e não sei se
não estarei a sonhar neste momento".
- Jeppe também achava que
tinha sonhado ter estado deitado na cama do barão.
- E enquanto estava deitado na cama do barão achava que
a sua vida como camponês pobre
era um sonho. Assim, Descartes duvida de tudo. Muitos
filósofos antes dele já tinham
terminado as suas reflexões
filosóficas neste ponto.
- Nesse caso, não foram
muito longe.
- Mas Descartes tentou
continuar a trabalhar a partir
do zero. Ele chegou à conclusão de que duvidava de tudo e
que isso é a única coisa de
que se pode ter uma certeza
absoluta. E em seguida, há
algo que se lhe torna claro:
há um facto, do qual ele pode
ter toda a certeza: duvida.
Mas se duvida, tem que concluir que pensa, e se pensa
tem de concluir que é um ser
pensante. Ou, como ele próprio diz: "cogito, ergo sum".
- E o que significa?
- Penso, logo existo.
- Não me surpreende que
ele tenha chegado a essa conclusão.
- Está bem. Mas não te
esqueças com que certeza intuitiva ele se concebe subitamente como um eu pensante.
Talvez ainda te lembres que
para Platão é mais real o que
compreendemos com a razão do
que o que obtemos dos sentidos. Com Descartes, passava-se exactamente o mesmo. Ele
não compreende apenas que é um
eu pensante, entende simultaneamente que este eu pensante
é mais real do que o mundo físico, que apreendemos com os
sentidos. E a partir daqui,
ele prossegue, Sofia. Ainda
não concluiu de modo algum a
investigação filosófica.
- Prossegue tu também com
calma.
- Descartes interrogou-se
então sobre se havia algo mais
que ele pudesse apreender com
a mesma evidência intuitiva,
além do facto de ser um ser
pensante. Ele descobre que
tem também uma ideia clara e
nítida de um ser perfeito.
Teve sempre essa ideia e,
para Descartes, é

212
evidente que essa ideia não
pode provir dele mesmo. A
ideia de um ser perfeito não
pode provir de um ser imperfeito. Por isso, a ideia de
um ser perfeito tem de provir
desse mesmo ser perfeito -
por outras palavras, de Deus.
Que Deus existe é deste modo
tão imediatamente evidente
para Descartes como o facto
de alguém que pensa ter de ser
um eu pensante.
- Agora, acho que ele precipita um pouco as conclusões.
E era tão atento no princípio!
- Sim, houve quem afirmasse ser este o ponto mais fraco
de Descartes. Mas tu estás a
falar de deduções. Na verdade, não se trata aqui de uma
demonstração. Descartes queria apenas dizer que todos nós
temos uma ideia de um ser perfeito, e que esta ideia implica que este ser perfeito existe. Porque um ser perfeito
não seria perfeito se não
existisse. Além disso, não
teríamos a ideia de um ser
perfeito se esse ser não existisse. Nós somos imperfeitos
e, por isso, a ideia do perfeito não pode provir de nós.
A ideia de um Deus é, segundo Descartes, uma ideia inata
que nos foi implantada ao nascermos - "tal como a marca
que o artista imprimiu na sua
obra", como ele escreve.
- Mas mesmo que eu tenha
uma ideia de um crocofante,
isso não significa que existam
crocofantes.
- Descartes teria dito que
o conceito de "crocofante" não
implica que ele exista. Mas o
conceito de "ser perfeito" implica que este ser exista.
Para Descartes isto é tão
certo como o facto de a ideia
de círculo implicar que todos
os pontos do círculo estão à
mesma distância do centro do
círculo. Logo, não podes falar de um círculo se ele não
preenche estes requisitos. E
também não podes falar de um
ser perfeito se lhe falta a
mais importante de todas as
qualidades, a existência.
- É um modo de pensar muito especial.
- Isto é um modo de pensar
claramente "racionalista".
Tal como Sócrates e Platão,
Descartes via uma conexão entre pensamento e existência.
Quanto mais evidente uma coisa é para o pensamento, mais
certa é a sua existência.
- Até aqui, ele reconheceu
que é um ser pensante, e que
existe um ser perfeito.
- E, a partir destas certezas, prossegue. Todas as
ideias que temos da realidade
exterior - por exemplo, Sol
e Lua -, podiam também ser
apenas visões oníricas. Mas a
realidade exterior também tem
algumas características que
podemos conhecer com a razão.
Por exemplo, as relações matemáticas, ou seja, aquilo que
pode ser medido,

213
o comprimento, a altura e a
profundidade. Estas "propriedades quantitativas" são tão
claras para a razão como o
facto de eu ser um ser pensante. "Propriedades qualitativas" como cor, cheiro e sabor
estão por seu lado relacionadas com os nossos sentidos e
não descrevem nenhuma realidade exterior.
- Então afinal a natureza
não é um sonho?
- Não. E, neste ponto,
Descartes recorre novamente à
nossa ideia de um ser perfeito. Se a nossa razão conhece
algo muito clara e distintamente - que é o caso das relações matemáticas na realidade exterior - é porque é
assim mesmo. Um Deus perfeito não faria pouco de nós.
Descartes recorre a Deus
como garantia de que aquilo
que conhecemos com a nossa razão corresponde a uma coisa
real.
- Está bem. Ele descobriu
que é um ser pensante, que
Deus existe e ainda que existe uma realidade exterior.
- Mas entre a realidade
exterior e a realidade das
ideias há uma diferença essencial. Descartes pressupõe que
existem duas formas diferentes
de realidade - ou duas "substâncias". Uma substância é o
"pensamento" ou a alma, a outra a "extensão" ou a matéria.
A alma é apenas consciente,
não ocupa espaço e, por isso,
também não pode ser dividida
em partes mais pequenas. A
matéria, por seu lado, é extensa, ocupa espaço e pode ser
dividida em partes cada vez
mais pequenas - mas não é
consciente. Descartes afirma
que ambas as substâncias provêm de Deus, porque apenas
Deus existe independentemente
de todas as outras coisas.
Mas mesmo provindo pensamento
e extensão de Deus, as duas
substâncias são completamente
independentes uma da outra. O
pensamento é livre na sua relação com a matéria - e vice-versa: os processos materiais
operam de forma totalmente independente do pensamento.
- E assim, a Criação ficou dividida em dois.
- Exacto. Dizemos que
Descartes é "dualista", e
isso significa que ele traça
uma clara linha de separação
entre a realidade espiritual e
a realidade em extensão. Por
exemplo, apenas o homem tem
alma. Os animais pertencem
totalmente à realidade em extensão. A sua vida e os seus
movimentos são puramente mecânicos. Descartes via os animais como uma espécie de autómatos complexos. Em relação à
realidade em extensão, ele tem
dela uma concepção mecanicista
- tal como os materialistas.
- Mas eu duvido muito que
Hermes seja uma máquina ou um
autómato. Certamente, Descartes nunca gostou de um animal. E em relação a nós?
Também somos autómatos?

214
- Sim e não. Descartes
chegou à conclusão de que o
homem é um ser duplo que pensa
e ocupa espaço. O homem tem
uma alma e um corpo extenso.
S. Agostinho e S. Tomás de
Aquino já tinham afirmado algo semelhante. Acreditavam
que o homem tem corpo tal como
os animais, mas também espírito como os anjos. Para Descartes, o corpo é um mecanismo
muito sofisticado. Mas o homem tem também alma que pode
operar independentemente do
corpo. Os processos corporais
não têm essa liberdade, seguem
as suas próprias leis. Mas
aquilo que pensamos com a razão não acontece no corpo.
Acontece na alma, que é independente da realidade extensa.
Eu posso ainda acrescentar
que Descartes não queria excluir a possibilidade de também os animais pensarem. Mas,
se possuírem essa faculdade,
também tem de existir neles a
mesma divisão entre pensamento
e extensão.
- Já falámos sobre isso.
Quando eu decido correr para
o autocarro, todo o "autómato"
se põe em movimento. E se
perco o autocarro, vêm-me as
lágrimas aos olhos.
- Nem Descartes podia
contestar que existe sempre
esse efeito recíproco entre
alma e corpo. Enquanto a alma
está no corpo, segundo ele,
está ligada ao corpo através
de um órgão do cérebro muito
especial, uma glândula, na
qual se dá uma reacção constante entre o espírito e a matéria. Deste modo, segundo
Descartes, a alma pode ser
permanentemente confundida com
os sentimentos e sensações que
têm a ver com as necessidades
do corpo. O objectivo é
transmitir à alma a ordem:
Seja qual for a gravidade das
minhas dores de barriga, a
soma dos ângulos num triângulo
é sempre cento e oitenta
graus. Deste modo, o pensamento pode elevar-se acima das
necessidades do corpo e proceder "racionalmente". Deste
ponto de vista, a alma é totalmente independente do corpo. As nossas pernas podem
ficar velhas e fracas, as nossas costas tortas, e os nossos
dentes podem cair - mas dois
mais dois serão sempre quatro,
enquanto ainda houver razão em
nós. Porque a razão não fica
velha e caduca. Os nossos
corpos é que envelhecem. Para
Descartes, a própria razão é
a alma. Paixões e humores inferiores como a concupiscência
e o ódio estão estreitamente
ligados às funções corporais
- e consequentemente à realidade extensa.
- Eu não me conformo com o
facto de Descartes ter comparado o corpo com uma máquina
ou um autómato.
- O motivo da comparação é
o facto de as pessoas, no tempo de Descartes, estarem completamente fascinadas com as
máquinas e os mecanismos dos
relógios, que aparentemente
funcionavam por si mesmos. A
palavra "autómato" designa
precisamente algo que se

215
move por si mesmo. Mas eles
moverem-se por si era apenas
uma ilusão. Por exemplo, os
homens construíram nessa época
um relógio astronómico e deram-lhe corda. Descartes
acentua que estes mecanismos
artificiais são compostos muito simplesmente por poucas
partes, em comparação com as
quantidades de ossos, músculos, nervos, artérias e veias
que compõem os corpos de homens e animais. Mas porque é
que Deus não havia de produzir um corpo animal ou humano
com base nas leis mecânicas?
- Hoje fala-se muito de
"inteligência artificial".
- Estás a pensar nos nossos autómatos actuais. Construímos máquinas que por vezes
nos podem convencer realmente
da sua inteligência. Essas
máquinas teriam certamente
posto Descartes em pânico.
Talvez ele se interrogasse se
a razão humana é realmente tão
livre e autónoma como ele tinha pensado. Há filósofos que
pensam que a vida espiritual
humana é tão pouco livre como
os processos corporais. A
alma de um homem é infinitamente mais complexa do que
qualquer programa de computador, mas há também quem pense
que em princípio somos tão
pouco livres como esses programas. Mas olha para aqui,
Sofia. Quero mostrar-te uma
coisa.
Alberto indicou então uma
grande secretária no outro extremo da sala. Havia ali um
pequeno ecrã. Ele levantou-se
e foi até lá, seguido por Sofia.
Alberto ligou o computador
e em breve apareceu escrito no
canto superior c:. Ele escreveu "Laila" e disse:
- Este é um programa avançado de conversação.
Em seguida apareceu um texto no ecrã:
- Olá, eu chamo-me Laila.
Estás comodamente sentada?
Sofia escreveu três letras:
"Sim", apesar de ainda não se
ter sentado. Alberto empurrou
uma cadeira para ela.
"Como te chamas?", estava
agora escrito no ecrã.
"Sofia Amundsen", escreveu
Sofia, e o computador respondeu:
"Klõverveien 3. É um prazer conhecer-te, Sofia. Estás entusiasmada com o teu
aniversário?"
Sofia sobressaltou-se. Alberto colocou-lhe a mão no ombro e disse:
- Eu apenas dei a Laila o
teu nome, a tua morada e a tua
data de nascimento. É como
quando alguém se apresenta a
um novo amigo. Gostamos de
saber antecipadamente alguns
dados sobre o outro.
"Bem" - escreveu então
Sofia.
- Sim, estás mesmo bem,
Sofia? Tens de tentar conversar com frases completas.
"Obrigada, estou muito bem.
Posso fazer-te uma pergunta?"

216
"Por favor, faz uma pergunta".
"Que idade tens?" - perguntou Sofia.
"Fui construída em Atlanta
a 8 de Agosto de 1988, e
traduzida para norueguês a 28
de Março de 1990 na Escola
Superior Técnica Norueguesa."
"Bolas!"
"Eu disse que tinhas de falar com frases completas".
"Eu disse: bolas".
"Não percebo calão. Conheço mais de cem mil palavras,
mas a palavra "bolas" só conheço em relação a bola. De
que é que estás a falar exactamente?"
"Não sei".
"Não saber alguma coisa é
em geral um estádio na via
para um novo conhecimento".
"Sócrates teria certamente
dito o mesmo. Ou Descartes".
"Sócrates era um filósofo
grego que viveu entre 470 e
399 antes de Cristo. Se
queres saber mais, toca em
F7. Descartes era um filósofo francês que viveu entre
1596 e 1650. Se quiseres
saber mais toca em F8".
"Obrigada, é suficiente.
Posso perguntar-te outra coisa?"
"Pergunta outra coisa".
Alberto sorria. Sofia escreveu:
"Quem é Hilde Mõller
Knag?"
"Hilde Mõller Knag mora
em Lillesand e tem a mesma
idade que Sofia Amundsen".
"Como é que sabes isso?"
"Eu não sei como sei, mas
encontrei-o no meu disco rígido".
Sofia sentiu uma mão sobre
o ombro.
- Eu dei-lhe o pouco que
sabemos sobre Hilde.
"Sabes mais alguma coisa
sobre Hilde?" - escreveu
Sofia.
"O pai de Hilde é observador da ONU no Líbano. É
major e envia postais à filha.
"Quero que o encontres".
"Não consigo. Não o encontro em nenhum arquivo, e não
estou ligada a mais nenhum
terminal".
"Eu disse para o encontrares!!!!!!!"
"Estás irritada, Sofia?
Tantos pontos de exclamação
são um indício de sentimentos
violentos".
"Eu quero falar com o pai
de Hilde!"
"Tens problemas em controlar a tua vontade. Se quiseres falar sobre a tua infância, toca em F9".

217
Alberto colocou de novo a
mão no ombro de Sofia.
- Ela tem razão. Isto não
é nenhuma bola de cristal, minha filha. Laila é apenas um
programa de computador.
"Cala o bico" - escreveu
Sofia.
"Como queiras, Sofia. As
nossas relações duraram apenas
treze minutos e cinquenta e
dois segundos. Vou recordar
tudo o que nós dissemos. Agora, vou interromper o programa."
De novo, surgiu o sinal c:
no ecrã.
- Agora, podemos voltar ao
trabalho - disse Alberto.
Mas Sofia já tinha escrito
mais algumas letras. Escrevera "Knag". No momento seguinte, apareceu a seguinte
informação no ecrã:
- Aqui estou!
Alberto estremeceu.
"Quem és tu?" - escreveu
Sofia.
"Major Albert Knag, às
ordens. Venho directamente do
Líbano. O que ordenam os senhores"?
- Nunca me aconteceu nada
tão terrível - gemeu Alberto. - Agora, o malvado já se
introduziu no disco rígido.
Afastou Sofia da cadeira e
sentou-se em frente ao teclado.
"Como diabo entraste no meu
PC?", escreveu ele.
"Isto não é nada, caro colega. Eu estou exactamente
onde desejo estar."
"Seu vírus de computador
repugnante!"
"Então, então! De momento,
apresento-me como vírus de
aniversário. Posso enviar uma
saudação muito especial?"
"Obrigado, já temos que
cheguem".
"Mas eu vou ser rápido:
tudo acontece apenas em tua
honra, querida Hilde. Eu
dou-te os parabéns pelo teu
aniversário. Tens de perdoar
as circunstâncias, mas gostaria que as minhas felicitações
te seguissem por toda a parte
onde estejas. Beijos do pai
que gostaria tanto de te ter
nos braços!"
Antes de Alberto poder escrever mais, apareceu de novo
o c: no ecrã.
Alberto escreveu "dir
knag"."" e obteve a seguinte
informação:

knag.lib 147.643 15-06-90
1247
knag.lil 326.439 23-06-90
2234

Escreveu "erase knag"."" e
desligou o computador.
- Agora, apaguei-o -
afirmou, - mas é impossível
dizer onde surgirá de novo.

218
Olhou fixamente para o
ecrã, depois acrescentou: -
O mais grave é o nome. Albert Knag... Sofia só então
se apercebeu da semelhança dos
nomes. Albert Knag e Alberto Knox. Mas Alberto estava
tão irritado, que ela não se
atreveu a abrir a boca. Sentaram-se novamente à mesa.

219

ESPINOSA

"... Deus não é um titereiro..."

Já estavam sentados em silêncio há algum tempo. Por
fim, Sofia disse, apenas para
distrair Alberto:
- Descartes deve ter sido
um homem estranho. Ele era
famoso?
Alberto respirou fundo por
duas vezes com dificuldade antes de responder:
- Ele obteve progressivamente uma grande influência.
A mais importante foi talvez
a exercida noutro grande filósofo. Estou a pensar no filósofo holandês "Baruch Espinosa", que viveu entre 1632 e
1677.
- Também vais falar sobre
ele?
- Sim, tinha essa intenção. E não nos vamos deixar
atrasar por provocações militares.
- Sou toda ouvidos.
- Espinosa pertencia à comunidade judaica de Amesterdão, mas foi excomungado devido às suas supostas heresias.
Poucos filósofos da época moderna foram tão escarnecidos e
perseguidos por causa dos seus
pensamentos como este homem.
Tentaram inclusivamente assassiná-lo, só por ter criticado a religião oficial. Ele
achava que apenas dogmas rígidos e rituais exteriores mantinham o cristianismo e o judaísmo vivos. Foi o primeiro
a fazer uma interpretação
"histórico-crítica" da Bíblia.
- Tens que explicar isso
melhor.
- Ele contestou que a
Bíblia fosse inspirada por
Deus até à mais pequena palavra. Quando lemos a Bíblia,
segundo ele, temos de ter em
conta a época em que teve origem. Esta leitura "crítica"
permite-nos reconhecer uma série de contradições entre os
diversos Livros e Evangelhos
da Bíblia. Sob a superfície
dos textos do Novo Testamento encontramos Jesus, o qual
podemos designar por porta-voz
de Deus. A mensagem de Jesus significava precisamente
uma libertação

220
do judaísmo rígido. Jesus
anunciou uma "religião racional", para a qual o amor era o
valor mais elevado. Espinosa
refere-se aqui tanto ao amor a
Deus como ao amor ao próximo.
Mas também o cristianismo se
cristalizara rapidamente em
dogmas e rituais rígidos.
- Eu compreendo que essas
ideias fossem muito indigestas
para as igrejas e para as sinagogas.
- Quando a situação se
tornou mais grave, Espinosa
foi inclusivamente abandonado
pela família. Queriam deserdá-lo por heresia. O paradoxo
disto era que poucas pessoas
tinham defendido tão energicamente a liberdade de opinião e
a tolerância religiosa como
Espinosa. As numerosas oposições com que teve de lutar
levaram-no por fim a escolher
uma vida tranquila, inteiramente dedicada à filosofia.
Ganhava o seu sustento a polir vidros ópticos. Algumas
destas lentes, como disse, foram adquiridas por mim.
- Impressionante.
- O facto de ele viver de
polir lentes é quase simbólico. Os filósofos devem ajudar
os homens a ver a realidade
segundo uma perspectiva nova.
E é fundamental para a filosofia de Espinosa o desejo de
ver as coisas sob a "perspectiva da eternidade".
- A perspectiva da eternidade?
- Sim, Sofia. Achas que
poderias conseguir ver a tua
própria vida num contexto cósmico? Nesse caso, terias de
certo modo de te ver a ti mesma e à tua vida com os olhos
semicerrados...
- Hm... não é fácil.
- Pensa que és apenas uma
partícula minúscula de toda a
vida da natureza. Fazes parte
de um todo muito grande.
- Acho que percebo o que
queres dizer.
- Também consegues entender isso? Consegues abarcar
toda a natureza de uma só vez
- sim, todo o universo - num
único relance?
- Depende. Talvez eu precise de um par de vidros ópticos.
- E eu não estou apenas a
pensar no universo infinito.
Penso também num espaço de
tempo infinito. Há trinta mil
anos vivia um menino na Renânia. Era uma partícula minúscula de toda a natureza,
um pequeno encrespar num mar
infinitamente grande. Assim,
também tu vives uma parte minúscula da vida da natureza.
Entre ti e esse jovem não há
nenhuma diferença.
- Em todo o caso, eu vivo
agora.
- Pois, era sobre isso que
eu queria que reflectisses.
Mas quem és tu daqui a trinta
mil anos?
- Isso é que era a heresia?

221
- Bom, Espinosa não disse
apenas que tudo o que existe é
natureza. Ele colocou também
um sinal de igual entre Deus
e a natureza. Ele via Deus
em tudo o que existe e tudo o
que existe em Deus.
- Então era panteísta.
- Sim. Para Espinosa,
Deus não é alguém que criou
outrora o mundo e está desde
então junto à sua Criação.
Não, Deus "é" o mundo. Ele
refere o discurso de Paulo no
areópago. "Porque nele vivemos, nele nos movemos e existimos" dissera Paulo. Mas
vamos prosseguir no pensamento
de Espinosa. A sua obra mais
importante chama-se "A Ética
Demonstrada Segundo o Método Geométrico".
- Ética... e método geométrico?
- Isso soa talvez um pouco
estranho aos nossos ouvidos.
Por ética, os filósofos entendem a teoria de como devemos conduzir-nos para termos
uma vida feliz. Neste sentido, falamos por exemplo acerca
da ética de Sócrates ou de
Aristóteles. Apenas na nossa
época a ética foi de certo
modo reduzida a algumas regras
segundo as quais podemos viver
sem pisarmos os pés dos nossos
próximos.
- Porque pensarmos na nossa própria felicidade é tido
como egoísmo?
- É mais ou menos assim.
Quando Espinosa utiliza a
palavra ética, ela pode ser
traduzida igualmente por arte
de viver ou conduta moral.
- Mas então... "Arte de
viver demonstrada segundo o
método geométrico"?
- O método geométrico diz
respeito à linguagem ou à forma de exposição. Ainda te
lembras que Descartes queria
aplicar o método matemático à
reflexão filosófica. Por
isso, ele entendia uma reflexão filosófica que é formada a
partir de deduções exactas.
Espinosa situa-se na mesma
tradição racionalista. Na sua
ética, queria demonstrar como
a vida humana é dirigida pelas
leis da natureza. Para isso,
temos de nos libertar dos nossos sentimentos e sensações,
porque só assim podemos encontrar a tranquilidade e sermos
felizes, segundo ele.
- Mas nós não somos apenas
governados pelas leis da natureza, pois não?
- Bom, Espinosa não é fácil de compreender, Sofia.
Ainda tens presente que Descartes achava que a realidade
era constituída por duas substâncias claramente separadas
uma da outra, o pensamento e a
extensão.
- Como é que eu poderia
ter esquecido isso?
- A palavra "substância"
pode ser traduzida aproximadamente do seguinte modo: aquilo
em que uma coisa consiste, o
que é no

222
fundo, ou a que pode ser reduzida. Tudo é ou pensamento ou
extensão, segundo ele.
- Não era preciso repetir.
- Mas Espinosa não aceitou esta separação. Ele acreditava que havia uma única
substância. Tudo o que existe
pode ter origem na mesma coisa, segundo ele. E designou-a
simplesmente por "substância".
Noutras passagens chama-lhe
"Deus" ou "natureza".
Portanto, Espinosa não tem
uma concepção dualista da realidade como Descartes.
Dizemos que é "monista".
Significa que, segundo ele,
toda a realidade se reduz a
uma única substância.
- Dificilmente poderiam
estar menos de acordo um com o
outro.
- Mas a diferença entre
Descartes e Espinosa não é
tão profunda como se diz muitas vezes. Descartes também
aponta para o facto de só
Deus existir por si mesmo.
Só quando Espinosa põe no
mesmo plano Deus e a natureza
- ou Deus e a Criação - é
que se afasta consideravelmente de Descartes e também da
concepção hebraica e cristã.
- Porque aí, a natureza
"é" Deus, e basta.
- Mas quando Espinosa usa
o termo "natureza", não está
apenas a pensar na natureza
extensa. Como substância,
Deus ou a natureza, entende
tudo o que existe, incluindo
tudo o que é espiritual.
- Então, tanto pensamento
como extensão.
- Tal qual! Segundo Espinosa, nós homens conhecemos
duas das qualidades ou manifestações de Deus. Espinosa
designa estas qualidades por
"atributos" de Deus, e estes
dois atributos são justamente
o pensamento e a extensão de
Descartes. Deus, ou a natureza, surge portanto ou como
pensamento ou como uma coisa
no espaço. É possível que
Deus possua ainda outras qualidades além do pensamento e
da extensão, mas os homens conhecem apenas estes dois atributos.
- Sim, mas ele exprime-se
de um modo bastante complicado.
- Sim, quase precisamos de
martelo e cinzel para penetrarmos na linguagem de Espinosa. Podemos consolar-nos ao
encontrar no fim uma ideia que
é tão cristalina como um diamante.
- Estou à espera.
- Tudo o que há na natureza, é ou pensamento ou extensão. Os fenómenos particulares, com que deparamos na vida
quotidiana - por exemplo, uma
flor ou um poema de "Henrik
Wergeland" (") -, são diversos "modi" dos atributos
pensamento e extensão. Com
"modus"

223
plural "modi" - entendemos um
determinado modo no qual a
substância, Deus ou a natureza, se manifestam. Uma flor é
..................
(") Henrik WERGELAND
(1808-1845) - Poeta no rueguês, defensor de uma cul tura especificamente norue guesa foi um dos fundadores
da literatura do seu país.
um modo do atributo extensão,
e um poema sobre a mesma flor
um modo do atributo pensamento. Mas no fundo, ambos são
expressão da mesma coisa: a
substãncia, Deus ou a natureza.
- Meu Deus, que complicação!
- Mas em Espinosa só a
linguagem é realmente complicada. Sob as suas formulações
rígidas esconde-se um conhecimento admirável, que é tão
simples que a linguagem quotidiana não o consegue traduzir.
- Mas eu acho que prefiro
a linguagem quotidiana.
- Está bem. Então vou começar justamente por ti.
Quando tens dores de barriga,
quem é que tem dores de barriga?
- Tu próprio o dizes. Eu.
- Certo. E quando mais
tarde pensas que tiveste dores
de barriga, quem é que pensa?
- Eu, também.
- Porque tu és uma pessoa
que pode ter hoje dores de
barriga e amanhã estar dominada por outro estado de espírito. E Espinosa pensava do
mesmo modo que todas as coisas
físicas que nos rodeiam ou sucedem à nossa volta manifestam
Deus ou a natureza. Isso é
também válido para todos os
pensamentos que são pensados.
Assim, todos os pensamentos
que são pensados são os pensamentos de Deus ou da natureza. Porque tudo é uno.
Existe apenas um Deus, uma
natureza ou uma substância.
- Mas quando eu penso em
alguma coisa, então sou "eu"
que penso. E quando me mexo,
sou "eu" que me mexo. Porque
é que queres meter Deus no
assunto?
- O teu entusiasmo agrada-me. Mas tu quem és? És a
Sofia Amundsen, mas és também expressão de algo infinitamente maior. Bem podes dizer que "tu" pensas, ou que
"tu" te mexes, mas não podes
afirmar também que a natureza
pensa os teus pensamentos e
que a natureza se move em ti?
É já uma questão das lentes
com que queres ver o problema.
- Queres dizer que eu não
disponho de mim mesma?
- Bom, talvez tenhas uma
espécie de liberdade de mover
o teu polegar como desejas.
Mas o polegar só se pode mover de acordo com a sua natureza. Não pode saltar da tua
mão e correr pela sala. E
deste modo tens o teu lugar no
todo, minha filha. És a Sofia, mas és também um dedo no
corpo de Deus.
- Então Deus determina
tudo o que eu faço?

224
- Ou a natureza, ou as
leis da natureza. Para Espinosa, Deus, ou as leis da
natureza, são a "causa imanente" de tudo o que acontece.
Não é uma causa exterior,
porque Deus manifesta-se
através das leis da natureza,
e apenas através delas.
- Não sei se estou a ver a
diferença.
- Deus não é um titereiro,
que mexe os fios e determina o
que sucede. Um titereiro dirige os fantoches de fora e é
assim a "causa exterior". Mas
Deus não dirige o mundo deste
modo. Deus governa o mundo
por meio das leis da natureza.
Assim, Deus - ou a natureza
- é a causa "imanente" de
tudo o que sucede. Isso quer
dizer que tudo na natureza
acontece necessariamente.
Espinosa tinha uma concepção
determinista da vida natural.
- Acho que já uma vez disseste uma coisa parecida.
- Estás a pensar nos "estóicos". Eles também afirmaram que tudo sucede por necessidade. Por isso era tão importante para eles encarar todos os acontecimentos com
uma
"serenidade estóica". O homem
não se devia deixar arrebatar
pelos seus sentimentos. É o
que diz também a ética de
Espinosa, se a quisermos explicar muito sinteticamente.
- Acho que percebo o que
ele quer dizer. Mas não me
agrada a ideia de não escolher
por mim mesma.
- Regressemos a este jovem
da Idade da Pedra, que viveu
há trinta mil anos. Quando
ele cresceu, caçou animais,
amou uma mulher, que se tornou
a mãe dos seus filhos, e podes
ter a certeza de que ele adorava os deuses dos seus antepassados. Em que é que estás
a pensar quando afirmas que
ele decidiu tudo isto por si
mesmo?
- Não sei.
- Ou imagina um leão em
África. Achas que escolhe
uma vida de animal predador?
É por isso que ele se atira a
um antílope fraco? Será que
ele devia ter escolhido uma
vida de vegetariano?
- Não, o leão vive de
acordo com a sua natureza.
- Ou de acordo com as leis
da natureza. Tu também o fazes, Sofia, porque tu também
és natureza. Agora, podes naturalmente - com base em
Descartes - objectar afirmando que o leão é um animal e
não um homem com faculdades
mentais livres. Mas pensa
numa criança recém-nascida.
Ela chora e agita-se, e quando não recebe leite chucha no
dedo. Esta criança tem livre
arbítrio?
- Não.
- E quando é que esta criança tem livre arbítrio? Com
dois anos, esta criança corre
por todo o lado e aponta para
tudo o que vê. Com três anos
choraminga, e com quatro tem
repentinamente medo do escuro.
Onde é que está a liberdade,
Sofia?

225
- Não sei.
- Com quinze anos está em
frente ao espelho e experimenta cosméticos. Está a tomar
as suas decisões pessoais e
faz o que quer?
- Eu percebo o que queres
dizer.
- Ela é a Sofia Amundsen, está certa disso. Mas
também vive de acordo com as
leis da natureza. Mas não o
reconhece porque, por detrás
de cada coisa que faz, escondem-se causas numerosas e complexas.
- Acho que não quero ouvir
mais.
- Mas tens de responder a
uma última pergunta: duas árvores da mesma idade crescem
num grande pomar. Uma das árvores está num local com muito
sol e recebe água e está num
solo com muitos nutrientes. A
outra árvore cresce na sombra
e em solo de má qualidade.
Qual destas árvores produz
mais frutos?
- Obviamente aquela que
tem melhores condições para
crescer.
- Segundo Espinosa, esta
árvore é livre. Tinha toda a
liberdade de desenvolver todas
as possibilidades que lhe eram
inerentes. Mas, se se trata
de uma macieira, não tem a
possibilidade de produzir pêras ou ameixas. Passa-se
exactamente o mesmo com os homens. Por exemplo, certas
condições políticas podem pôr
obstáculos ao nosso desenvolvimento e ao nosso crescimento
pessoal. Circunstâncias exteriores podem constituir obstáculos. Só quando podemos desenvolver livremente as capacidades que possuímos é que
vivemos como homens livres.
Mas, apesar disso, somos dirigidos por aptidões interiores e condições exteriores tal
como o jovem da Idade da Pedra na Renânia, o leão em
África ou a macieira no pomar.
- Acho que daqui a pouco
não suporto mais.
- Espinosa afirma que apenas um único ser é totalmente
"causa de si mesmo" e pode
agir com toda a liberdade. Só
Deus ou a natureza apresentam
este desenvolvimento livre e
"não-acidental". Um homem
pode ansiar por liberdade para
poder viver sem obrigação exterior. Mas nunca alcançará o
"livre arbítrio". Não determinamos tudo o que se passa no
nosso corpo, porque o nosso
corpo é um modo do atributo
extensão. E também não "escolhemos" os nossos pensamentos.
Logo, o homem não possui uma
alma livre. Ela encontra-se
presa num corpo mecânico.
- É isso que é um pouco
difícil de compreender.
- Espinosa achava que as
paixões humanas - por exemplo, a ambição e a cobiça -
nos impedem de atingir a verdadeira felicidade e harmonia.
Mas, quando reconhecemos que
tudo acontece por necessidade,
podemos obter um conhecimento
intuitivo da natureza como

226
totalidade. Podemos ter uma
experiência muito clara de que
tudo está relacionado, de que
tudo é uno. O nosso objectivo
é compreender tudo o que existe numa visão de conjunto coerente. Espinosa chamava a
isto: ver tudo "sub specie
aeternitatis".
- E o que é que significa?
- Ver tudo "sob a perspectiva da eternidade". Não foi
por aí que começámos?
- E é por aí que temos de
terminar. Tenho de ir para
casa agora, sem falta.
Alberto levantou-se e foi
buscar uma grande fruteira à
estante. Colocou a fruteira
na mesa.
- Não queres comer alguma
coisa antes de te ires embora?
Sofia tirou uma banana.
Alberto escolheu uma maçã
verde.
Ela partiu o pé da banana e
começou a descascá-la.
- Há aqui qualquer coisa
- disse.
- Onde?
- Aqui, dentro da casca da
banana. Parece escrito com
caneta de feltro preta.
Sofia inclinou-se para
Alberto e mostrou-lhe a banana. Ele leu alto:
"Aqui estou de novo, Hilde. Estou por toda a parte,
minha filha. Parabéns pelo
aniversário!"
- Muito estranho - afirmou Sofia.
- Está cada vez mais refinado.
- Mas isto é... completamente impossível. Sabes se se
cultivam bananas no Líbano?
Alberto abanou a cabeça.
- Seja como for, não a vou
comer.
- Então deixa-a ficar aí.
Uma pessoa que envia os parabéns pelo aniversário à filha
no interior de uma banana por
descascar tem de estar mentalmente perturbada. Mas, ao
mesmo tempo, deve ser muito
esperta.
- Tens razão em ambas as
coisas.
- Podemos então declarar
que Hilde tem um pai esperto?
Ele é tudo menos parvo.
- Eu já tinha dito isso.
Do mesmo modo, pode ter-te
obrigado a chamares-me Hilde.
É bem possível que ele nos
ponha todas as palavras na
boca.
- Não podemos excluir
nada. Mas também temos de duvidar de tudo.
- Porque toda a realidade
pode ser um sonho.

227
- Não nos devemos precipitar. Afinal, também pode haver uma explicação mais simples.
- De qualquer modo, tenho
mesmo de ir agora para casa.
A minha mãe está à espera.
Alberto levou Sofia à porta. Quando ela se ia embora,
ele disse:
- Até à próxima, querida
Hilde!
Em seguida, a porta fechou-se atrás dela.

228

LOCKE

.. "tão vazia como um quadro antes de o professor entrar na sala de aula"...

Sofia chegou a casa às oito
e meia. Uma hora e meia mais
tarde do que o combinado. Na
verdade não tinham combinado
nada. Sofia tinha simplesmente saltado a refeição e escrito à mãe numa folha que estaria em casa às sete, o mais
tardar.
- Isto não pode continuar
assim, Sofia. Tive de telefonar para as informações e
perguntar se havia um Alberto
no bairro antigo. Riram-se na
minha cara.
- Não foi fácil vir-me embora. Acho que nos falta pouco para a resolução de um
grande mistério.
- Que disparate.
- Não, isto é mesmo verdade.
- Convidaste-o para a festa no jardim?
- Não, esqueci-me.
- Mas agora eu quero conhecê-lo sem falta. E já amanhã. Não é bom para uma rapariga nova encontrar-se tão
frequentemente com um homem
mais velho.
- Mas não precisas de ter
medo do Alberto. O pai de
Hilde é que é talvez mais perigoso.
- Qual Hilde?
- A filha daquele que está
no Líbano. Esse parece ser
um grande patife. Talvez controle o mundo inteiro...
- Se não me apresentas
imediatamente esse Alberto,
não te deixo encontrares-te
mais com ele. Não tenho descanso enquanto não souber pelo
menos qual é o seu aspecto.
Sofia teve uma ideia.
Correu para o quarto.
- O que é que te deu? -
gritou-lhe a mãe.
Pouco depois, Sofia entrava de novo na sala de estar.
- Podes ver imediatamente
qual é o aspecto dele. Mas
espero que depois me deixes em
paz.

229
Acenou com a cassete de vídeo que trazia na mão e foi
para junto do leitor de cassetes.
- Ele ofereceu-te uma cassete de vídeo?
- De Atenas...
Em breve surgiram as imagens da Acrópole no ecrã. A
mãe estava muda de espanto
quando Alberto se apresentou
e falou directamente para Sofia.
E, nessa altura, Sofia viu
uma coisa em que já tinha reparado da primeira vez, mas de
que se esquecera: no meio de
um dos grupos de turistas na
Acrópole, um pequeno cartaz
estava erguido - e no cartaz
estava escrito "HILDE"...
Alberto avançava pela
Acrópole. Em seguida, estava
no Areópago, onde o apóstolo
Paulo falara aos Atenienses.
E da antiga ágora, Alberto
dirigia-se a Sofia.
A mãe comentava o vídeo com
breves interjeições:
"Inacreditável... "este" é o
Alberto?... Lá está de novo
o coelho... mas, sim, ele está
mesmo a falar contigo, Sofia... Eu nem sabia que Paulo esteve em Atenas...
O vídeo aproximava-se do
ponto em que a antiga Atenas
se erguia subitamente das ruínas. No último segundo, Sofia parou a cassete a tempo.
Já tinha mostrado Alberto à
mãe, e não tinha de lhe apresentar também Platão. A sala
ficou completamente silenciosa.
- Não achas que ele tem um
ar distinto? - disse Sofia
num tom de provocação.
- Mas deve ser uma pessoa
muito estranha, se se faz filmar em Atenas só para enviar
o vídeo a uma rapariga que mal
conhece. E quando é que ele
esteve lá?
- Não faço ideia.
- Mas há mais...
- Sim?
- Ele é parecido com o major que morou durante alguns
anos na pequena cabana do bosque.
- Talvez seja ele mesmo,
mamã.
- Ninguém o vê há mais de
quinze anos.
- Talvez se tenha mudado
várias vezes. Para Atenas,
por exemplo.
A mãe abanou a cabeça.
- Quando o vi uma vez nos
anos 70, não parecia nem um
bocadinho mais velho do que
este Alberto no vídeo. Tinha
um apelido estrangeiro...
- Knox?
- Sim, talvez, Sofia.
Talvez se chamasse Knox.
- Ou Knag?

230
- Não, realmente já não
sei... De que Knox ou Knag
estás a falar?
- Um é Alberto, o outro é
o pai de Hilde.
- Estou a ficar completamente confusa.
- Ainda há alguma coisa
para comer?
- Podes aquecer as almôndegas.
Depois disto, passaram-se
exactamente duas semanas sem
Sofia ter notícias de Alberto. Recebeu mais um postal de
aniversário para Hilde, mas,
apesar de o dia se aproximar,
não veio nenhuma felicitação
para ela.
Numa tarde, Sofia foi ao
bairro antigo e bateu à porta
de Alberto. Ele não estava
em casa, mas na porta estava
pendurada uma pequena folha,
onde se lia:

"Parabéns, Hilde! Agora,
o grande momento está à porta.
O momento da verdade, minha
filha. Todas as vezes em que
penso nisso rio-me tanto que
quase não consigo parar. Tem
a ver com Berkeley, segura-te
bem"!

Sofia arrancou a folha e
enfiou-a na caixa do correio
de Alberto ao sair do prédio.
Que diabo! Teria ido novamente para Atenas? Como podia deixar Sofia sozinha com
todas as perguntas por responder?
Quando chegou da escola na
quinta-feira, dia 14 de Junho, Hermes vadiava pelo jardim. Sofia correu para ele e
ele saltou para ela. Pôs o
braço à sua volta, como se o
cão pudesse resolver todos os
mistérios.
De novo escreveu um bilhete
para a mãe, mas indicou também
o endereço de Alberto.
Enquanto andavam pela cidade, Sofia pensava no dia seguinte. Não pensava tanto no
seu aniversário, que só seria
verdadeiramente festejado na
noite de S. João. Mas, no
dia seguinte, Hilde fazia
anos. Sofia estava convencida
de que nesse dia sucederia
qualquer coisa de completamente insólito. Em todo o caso,
as muitas felicitações do Líbano tinham que terminar.
Depois de atravessarem a
praça principal e quando se
aproximavam do bairro antigo,
passaram por um parque com um
campo de jogos. Aí, Hermes
parou em frente de um banco;
parecia querer que Sofia se
sentasse nele.
Ela sentou-se e acariciou o
cão amarelo no pescoço, enquanto o olhava nos olhos. De
imediato, um forte estremecimento percorreu o cão. "Vai
começar a ladrar", pensou Sofia.

231
As suas maxilas começaram a
vibrar, mas Hermes não rosnava nem ladrava. Abriu a boca
e disse:
- Parabéns, Hilde!
Sofia ficou petrificada. O
cão tinha realmente falado com
ela?
Não, devia ter imaginado,
por estar sempre a pensar em
Hilde. Mas, no fundo do coração, ela estava convencida
de que Hermes pronunciara
aquelas duas palavras, num tom
grave, sonoro.
Em seguida, tudo estava
como antes. Hermes ladrou
duas vezes - como que para
disfarçar que acabara de falar
com voz humana - e continuou
a andar em direcção à casa de
Alberto. Durante todo o dia
tinha estado bom tempo, mas
nesse momento concentravam-se
nuvens pesadas ao longe.
Quando Alberto abriu a
porta, Sofia disse:
- Por favor, não quero
discursos. Tu és um imbecil e
sabe-lo muito bem.
- O que é que aconteceu,
minha filha?
- O major ensinou Hermes
a falar!
- Meu Deus! As coisas já
chegaram a esse ponto?
- Sim, imagina tu.
- E o que disse?
- Adivinha.
- Ele deve ter dito
"parabéns!", ou uma coisa do
género.
- Acertaste.
Alberto deixou Sofia entrar em casa. Nesse dia, tinha-se mascarado de novo. Não
estava muito diferente da última vez, mas o seu traje quase não apresentava laços, fitas e rendas.
- Mas não é tudo - afirmou então Sofia.
- O que queres dizer?
- Não encontraste a folha
na caixa do correio?
- Ah, isso - deitei-a
fora imediatamente.
- Por mim, ele pode rir-se
sempre que pensa em Berkeley.
Mas o que tem este filósofo
que provoque isso?
- Vamos ver já.
- Mas vais falar dele
hoje, não vais?
- Hoje, sim.
Alberto acomodou-se.
Depois disse:
- Na última vez que estivemos aqui, falei sobre Descartes e Espinosa.
Concordámos que têm uma coisa
importante em comum, são ambos
racionalistas típicos.
- E um racionalista é uma
pessoa que acredita na importância da razão.

232
- Sim, um racionalista
acredita na razão como fonte
do saber. Acredita frequentemente em certas ideias inatas
do homem - que existem no homem independentemente de qualquer experiência. E quanto
mais clara é essa ideia ou
concepção, mais certo é que
corresponda a um dado real.
Ainda te lembras que Descartes tinha uma ideia clara e
nítida de um "ser perfeito".
A partir desta ideia, ele
conclui que Deus existe realmente.
- Eu não sou uma pessoa
esquecida.
- Este pensamento racionalista era típico da filosofia
do século XVII. Na Idade
Média, também estava fortemente implantado e conhecemo-lo ainda de Platão e de
Sócrates. Mas, no século
XVIII, foi exposto a uma
crítica cada vez mais forte.
Vários filósofos defenderam a
ideia de que não temos conteúdos na consciência, enquanto
não temos nenhuma experiência
sensível. Esta ideia é designada por "empirismo".
- E tu queres falar hoje
sobre estes empiristas?
- Vou tentar. Os empiristas mais importantes foram
"Locke, berkeley e Hume",
todos eles britânicos. Os
principais racionalistas do
século XVII foram o francês
"Descartes", o holandês "Espinosa" e o alemão "Leibniz".
Por isso, costumamos fazer a
distinção entre o "empirismo
inglês" e o "racionalismo continental".
- Por mim, está bem, mas
são muitas palavras. Podes
repetir o que é que se entende
por empirismo?
- Um empirista defende que
todo o saber acerca do mundo
provém daquilo que os sentidos
nos transmitem. A formulação
clássica de uma posição empirista provém de Aristóteles,
que afirmava que nada estava
na consciência que não tivesse
estado primeiro nos sentidos.
Esta ideia contém uma crítica
clara a Platão, que defendia
que o homem trazia ideias inatas do mundo das ideias.
Locke repete as palavras de
Aristóteles e, quando Locke
as utiliza, é contra Descartes.
- Não há nada na consciência que não tenha estado primeiro nos sentidos?
- Não temos ideias ou concepções inatas sobre o mundo.
Não sabemos absolutamente
nada sobre o mundo em que somos postos antes de o termos
"percepcionado". Quando temos
uma opinião ou uma ideia que
não podemos relacionar com dados percepcionados, trata-se
de uma ideia falsa. Quando,
por exemplo, usamos palavras
como "Deus", "eternidade" ou
"substância", a nossa razão
move-se no vazio. Porque nunca ninguém percepcionou Deus,
a eternidade, ou aquilo a que
os filósofos chamam "substância". Assim se escrevem tratados eruditos que no fundo
não contêm nenhum conhecimento

233
novo. Essa filosofia reflectida com rigor pode impressionar, mas é apenas devaneio.
Os filósofos dos séculos
XVII e XVIII tinham herdado muitos desses tratados eruditos. Agora, eram examinados
à lupa. Era necessário excluir deles as ideias vazias.
Podemos comparar isso à lavagem do ouro. A maior parte é
areia e argila, mas de vez em
quando encontramos uma pepita.
- E essas pepitas são experiências verdadeiras?
- Ou pelo menos ideias que
podem ser relacionadas com as
experiências. Para os empiristas britânicos era importante examinar todas as opiniões humanas para verificar se
podem ser comprovadas com verdadeiras experiências. Mas
vamos falar de um filósofo de
cada vez.
- Fala.
- O primeiro foi o inglês
"John Locke", que viveu entre 1632 e 1704. A sua obra
mais importante chama-se "An
Essay Concerning Human
Understanding, Ensaio Sobre
o Entendimento Humano", e
foi publicada em 1690. Nessa
obra, ele procura esclarecer
duas questões. Em primeiro
lugar, pergunta de onde é que
os homens recebem os seus pensamentos e ideias. Em segundo
lugar, se podemos confiar naquilo que os nossos sentidos
nos dizem.
- É um grande projecto!
- Vamos tratar de um problema de cada vez. Locke está
convencido de que todos os
nossos pensamentos e ideias
são apenas um reflexo daquilo
de que já tivemos sensações.
Antes de sentirmos alguma
coisa, a nossa consciência é
como uma "tabula rasa" - uma
"ardósia em branco".
- Podes deixar o latim!
- Antes de sentirmos alguma coisa, a nossa consciência
está tão vazia como um quadro
antes de o professor entrar na
sala de aula. Locke compara
também a consciência a uma
sala não mobilada. Mas, depois, vêm as nossas sensações.
Vemos o mundo à nossa volta,
cheiramos, saboreamos, tacteamos e ouvimos. E ninguém o
faz de forma mais intensiva do
que as crianças pequenas.
Deste modo, surgem ideias
simples. Mas a consciência
não recebe estas impressões
exteriores passivamente. Na
consciência também sucede alguma coisa. As ideias simples
são trabalhadas por meio de
reflexão e meditação, crença e
dúvida. Deste modo, surge
aquilo a que Locke chama
ideias reflexivas. Ele distingue portanto "sensação" e
"reflexão", porque a consciência não é apenas um receptor
passivo. Ordena e trabalha
todas as sensações que recebe.
E é precisamente aqui que devemos estar alerta.
- Alerta?

234
- Locke sublinha que através dos sentidos recebemos
unicamente "sensações simples". Quando, por exemplo,
como uma maçã, sinto toda a
maçã numa única sensação simples. Na realidade, recebo
toda uma série dessas sensações simples - que uma coisa
é verde, cheira bem, é suculenta e tem um sabor ácido.
Só depois de eu ter comido
muitas maçãs é que penso: agora, estou a comer "uma maçã".
Locke afirma que nós formámos
então uma "ideia complexa" de
uma maçã. Quando éramos pequenos e comemos pela primeira
vez uma maçã, não tínhamos
essa ideia complexa. Mas víamos uma coisa verde, provávamos uma coisa fresca e suculenta, ... bom, também era um
pouco ácida. A pouco e pouco,
ligamos muitas sensações e
formamos conceitos como "maçã", "pêra" e "laranja". Mas
devemos aos nossos sentidos
todo o material para o nosso
saber sobre o mundo. O conhecimento que não tem na origem
impressões sensíveis simples é
portanto falso conhecimento e
deve ser rejeitado.
- Pelo menos podemos ter a
certeza de que aquilo que vemos e ouvimos, cheiramos e
provamos é tal como o percepcionamos.
- Sim e não. Essa é a segunda questão a que Locke
procura dar resposta. Ele explicou em primeiro lugar de
onde retiramos as nossas
ideias e opiniões. Mas, em
seguida, pergunta também se o
mundo é realmente tal como o
percepcionamos. É que isso
não é nada evidente, Sofia.
Não devemos precipitar-nos.
É a única coisa proibida a um
verdadeiro filósofo.
- Estou muda como um peixe.
- Locke fazia a distinção
entre o que designava por qualidades "primárias" e "secundárias". Reconhecia assim a
sua dívida perante os grandes
filósofos - incluindo Descartes - que o tinham precedido.
- Explica-me isso!
- Por "qualidades primárias", ele entende a dimensão,
o peso, a forma, o movimento e
o número das coisas. Nestas
qualidades, podemos ter a certeza de que os sentidos reproduzem as qualidades reais das
coisas. Mas também percepcionamos outras qualidades das
coisas. Dizemos que uma coisa
é doce ou amarga, verde ou
vermelha, quente ou fria. A
isto, Locke chama "qualidades
secundárias". E essas impressões sensíveis - como cor,
cheiro, sabor ou som - não
reproduzem qualidades reais
que residem nas próprias coisas. Reproduzem apenas o
efeito das qualidades exteriores nos nossos sentidos.
- Justamente, gostos não
se discutem.
- Exacto. Sobre as qualidades primárias - como extensão e peso - podemos estar
todos de acordo, porque residem nas próprias coisas.

235
Mas as qualidades secundárias
- como cor e sabor - podem
variar de animal para animal e
de pessoa para pessoa, dependendo da natureza das sensações de cada indivíduo.
- Quando Jorunn come uma
laranja, faz exactamente a
mesma cara que outras pessoas
quando comem um limão.
Geralmente, nunca consegue
comer mais do que um gomo. "É
ácida", diz ela. E, normalmente, eu acho que exactamente
a mesma laranja é doce e saborosa.
- E nenhuma das duas tem
razão, mas também nenhuma está
errada. Vocês descrevem apenas o efeito desta laranja nos
vossos sentidos. O mesmo se
passa com a experiência das
cores. Admitamos, por hipótese, que um certo tom de vermelho não te agrada. Se Jorunn
tiver comprado um vestido justamente dessa cor, talvez devesses guardar a tua sensibilidade para ti mesma. Vocês
têm uma sensibilidade diferente em relação a esta tonalidade, mas o vestido não é bonito
nem feio.
- Mas todos estão de acordo em que uma laranja é redonda.
- Sim, se tens uma laranja
redonda, não a podes ver como
se fosse cúbica. Podes achá-la doce ou ácida, mas não podes "achar" que pesa oito quilos se pesa apenas duzentas
gramas. Podes talvez "acreditar" que pesa vários quilos,
mas, nesse caso, estás completamente enganada. Quando várias pessoas têm de adivinhar
o peso de um objecto, há sempre uma que está mais perto da
verdade do que as outras.
Isso também se aplica ao número de coisas. Ou há novecentas e oitenta e seis ervilhas no frasco ou não. O mesmo se passa com o movimento.
O carro está em movimento, ou
está parado.
- Compreendo.
- No que diz respeito à
"realidade extensa", Locke
tem a mesma opinião que Descartes, isto é, ela apresenta
certas qualidades que o homem
pode compreender com o seu entendimento.
- Estar de acordo com isso
também não é difícil.
- Em outros domínios,
Locke também admite o que designa por conhecimento "intuitivo" ou "demonstrativo". Ele
considerava, por exemplo, que
certas regras fundamentais da
ética são dadas a todos.
Assim ele defende a chamada
"concepção do direito natural"
e isso é uma característica
racionalista. Uma outra característica racionalista clara é o facto de Locke achar
que é inerente à razão humana
saber que Deus existe.
- Talvez tivesse razão.
- Em quê?
- Em dizer que Deus existe.

236
- Sim, é concebível. Mas
ele não deixa que isso seja
simplesmente uma questão de
fé. Ele acha que o conhecimento que o homem tem de Deus
tem origem na razão humana.
"Isso" é uma característica
racionalista. Devo acrescentar que ele defendia a liberdade de opinião e a tolerância. Defendia também a igualdade de direitos de ambos os
sexos. Segundo ele, a posição
subordinada da mulher tinha
sido criada pelos seres humanos. E, por isso, podiam
transformá-la.
- Estou totalmente de
acordo.
- Locke foi um dos primeiros filósofos da época moderna
que se preocupou com a questão
dos papéis dos sexos. Ele foi
posteriormente muito importante para o seu homónimo John
Stuart Mill, que por sua vez
foi muito importante na luta
pela igualdade de direitos entre os sexos. Locke manifestou muito cedo ideias liberais
que foram retomadas durante o
Iluminismo francês do século
XVIII. Por exemplo, foi ele
o primeiro a defender o chamado "princípio da separação dos
poderes"...
- Isso significa que o poder do Estado está repartido
em diversas instituições.
- Ainda te lembras de que
instituições se trata?
- Há o poder legislativo,
ou o parlamento. Depois há o
judicial, ou os tribunais.
Por fim, há o executivo, ou o
governo.
- Essa tripartição provém
do filósofo iluminista francês
"Montesquieu". Locke realçara que o poder legislativo e o
executivo tinham de estar separados se se quisesse evitar
a tirania. Ele foi contemporâneo de Luís XIV, que reunira todo o poder em si. "Eu
sou o Estado", afirmou ele.
Era um monarca absoluto, e
hoje diríamos que governava de
modo arbitrário. Locke defendia, pelo contrário, que para
garantir um Estado de direito, os representantes do povo
têm de criar leis, que são em
seguida implementadas pelo rei
e pelo governo.

237

Hume

.. então lançai-o à fogueira...

Alberto olhava fixamente
para a mesa entre os dois.
Por fim voltou-se e olhou
pela janela.
- O céu está a ficar nublado - afirmou Sofia.
- Sim, está carregado.
- Vais falar agora de
Berkeley?
- Ele foi o segundo dos
três empiristas britânicos.
Mas uma vez que em muitos aspectos ele é um caso à parte,
vamos concentrar-nos primeiro
em David Hume, que viveu entre 1711 e 1776. A sua filosofia é hoje tida como a
mais importante filosofia empírica. Ele também foi de importância essencial por ter
inspirado o grande filósofo
Immanuel Kant para a sua
própria filosofia.
- E não tem importância o
facto de a filosofia de Berkeley me interessar muito
mais?
- Isso não tem importância, não. Hume cresceu perto
de Edimburgo, na Escócia, e
a família queria fazer dele um
jurista. Mas ele afirmava
sentir "uma insuperável aversão a tudo menos à filosofia e
ao conhecimento em geral".
Viveu, como os grandes pensadores franceses "Voltaire" e
"Rousseau", em plena época do
Iluminismo e realizou longas
viagens pela Europa, antes de
se fixar novamente em Edimburgo. A sua obra mais importante, Tratado Sobre a Natureza Humana, foi publicada
quando Hume tinha vinte e
oito anos. Ele mesmo afirmou
que já tivera a ideia para
esse livro aos quinze anos.
- Estou a ver que tenho de
me apressar.
- Já falta pouco.
- Mas se fizer a minha
própria filosofia, será completamente diferente de tudo o
que ouvi até agora.
- Sentes a falta de alguma
coisa em particular?
- Primeiro, todos os filósofos dos quais ouvi falar até
agora eram homens. E os homens parecem viver no seu próprio mundo. A mim interessa-me mais o mundo real. Flores, animais e crianças que

238
nascem e crescem. Os teus filósofos estão constantemente a
falar do homem, e está sempre
a aparecer um tratado sobre a
natureza do ser humano. Mas
este ser humano parece ser
quase sempre um homem de
meia-idade. Afinal, a vida
começa com a gravidez e o nascimento. Acho que até agora
não houve suficientes fraldas
e gritos de crianças. Talvez
também tenha havido muito pouco amor e amizade.
- Aí, tens toda a razão.
Mas talvez Hume seja justamente um filósofo que pensa de
forma um pouco diferente.
Mais do que qualquer outro,
ele tem como ponto de partida
o mundo quotidiano. Acho que
Hume tinha um sentido muito
apurado para o modo como as
crianças - ou seja, os novos
cidadãos do mundo - vivem a
realidade.
- Eu vou conter-me.
- Enquanto empirista,
Hume via como sua tarefa a
supressão de todos os conceitos e construções especulativas pouco claros que os teus
homens tinham concebido até
então. Nessa altura, estava
em circulação na escrita e em
conversas todo o tipo de conceitos da Idade Média e dos
filósofos racionalistas do século XVII. Hume queria regressar à sensibilidade humana
original do mundo. Segundo
ele, nenhuma filosofia pode
alguma vez ignorar as experiências quotidianas ou dar-nos regras de comportamento
diferentes daquelas que obtemos por meio da nossa reflexão
sobre a vida quotidiana.
- Até agora isso parece
aliciante. Podias dar exemplos?
- Na época de Hume, estava muito difundida a ideia de
que existem anjos. Por anjo,
entendemos uma figura humana
com asas. Alguma vez viste um
ser desses, Sofia?
- Não.
- Mas já viste uma figura
humana?
- Que pergunta tão parva.
- E também já viste asas?
- Claro, mas nunca num homem.
- Segundo Hume, os "anjos" são uma ideia complexa.
Esta ideia é constituída por
duas experiências diferentes
que não estão juntas na realidade, mas foram ligadas na
fantasia humana. Por outras
palavras, a ideia é falsa e
deve ser rejeitada. Do mesmo
modo, temos de fazer uma arrumação em todos os nossos pensamentos e ideias. Tal como
Hume afirmou: "Pegando ao
acaso em qualquer volume acerca de teologia ou filosofia da
escola, devemos perguntar:
Contém algum raciocínio abstracto acerca da grandeza ou
dos números? Não. Contém algum raciocínio sobre factos e
sobre a realidade

239
baseado na experiência? Não.
Então, lançai-o à fogueira
porque só contém ilusão e aparência."
- Bastante drástico.
- Mas há o mundo, Sofia.
Mais fresco e nítido nos seus
contornos do que anteriormente. Hume queria regressar ao
modo como uma criança vê o
mundo - antes de ideias e reflexões ocuparem espaço na
mente. Não disseste que muitos filósofos, dos quais ouviste falar, vivem no seu próprio mundo e que o mundo real
te interessa mais?
- Sim, mais ou menos isso.
- Hume poderia ter dito
exactamente o mesmo. Mas observemos mais exactamente o
seu raciocínio.
- Estou a ouvir.
- Hume verifica em primeiro lugar que o homem possui
por um lado "impressões", e
por outro "ideias". Por impressão, ele entende a sensação imediata da realidade exterior. Por ideia ele entende
a recordação dessa sensação.
- Exemplos, por favor.
- Se te queimas num fogão
quente, tens uma impressão
imediata. Mais tarde, podes
recordar que te queimaste. É
a isso que Hume chama ideia.
A diferença é que a impressão
é mais forte e viva do que a
recordação posterior da impressão. Podes dizer que a
impressão sensível é o original e a ideia ou recordação a
cópia pálida. Porque, afinal,
a impressão é a causa directa
da ideia que é conservada na
mente.
- Até agora estou a acompanhar bem.
- Mais adiante, Hume sublinha que tanto uma impressão
como uma ideia podem ser ou
"simples ou complexas". Ainda
te lembras que em Locke falámos de uma maçã. A experiência imediata de uma maçã é
também uma impressão complexa.
Assim, a ideia de uma maçã é
também uma ideia complexa.
- Desculpa a interrupção,
mas isso é muito importante?
- Se é! Apesar de os filósofos se terem preocupado
com uma série de problemas
aparentes, não podes agora desistir quando se trata de
construir um raciocínio. Hume
teria certamente dado razão a
Descartes quanto à importância de se construir um raciocínio a partir da base.
- Rendo-me.
- Para Hume, a questão é
que, por vezes, podemos juntar
coisas sem que exista um objecto composto correspondente
na realidade. Assim, surgem
ideias falsas de coisas que
não existem na natureza. Já
mencionámos os anjos. E, antes disso, já se tinha falado
de crocofantes.

240
Um outro exemplo é o Pégaso,
um cavalo com asas. Em todos
estes exemplos, temos de reconhecer que a nossa mente fez
uma construção no vazio. Retirou as asas de uma impressão
e os cavalos de outra. Todos
os elementos foram percepcionados uma vez e por isso entraram no palco da mente como
impressões verdadeiras. No
fundo, a mente não inventou
nada. A mente agarrou na tesoura e na cola e construiu
ideias falsas.
- Entendo. E agora também
compreendo que isso pode ser
importante.
- Ainda bem. Hume quer
examinar cada ideia e descobrir se ela é composta de um
modo que não encontramos na
realidade. Ele pergunta: em
que impressões tem origem esta
ideia? Em primeiro lugar, ele
tem que determinar de que
ideias simples é composto um
conceito. Deste modo, obtém
um método crítico para analisar as ideias humanas. E é
assim que quer organizar os
nossos pensamentos e ideias.
- Tens um ou dois exemplos?
- Na época de Hume, muitas pessoas tinham uma ideia
clara do paraíso. Talvez ainda te lembres que Descartes
explicara que ideias claras e
evidentes em si podiam ser uma
garantia de que existe uma
correspondência na realidade.
- Como já disse, não sou
esquecida.
- É-nos imediatamente claro que "paraíso" é uma ideia
extremamente complexa. Vou
referir apenas alguns elementos: no "paraíso" há um "portão de pérolas", há "estradas
de ouro" e "exércitos de anjos" - e assim por diante.
Mas ainda não examinámos tudo
nos seus elementos particulares. Porque também "portão de
pérolas", "estradas de ouro" e
"exércitos de anjos" são
ideias compostas. Só quando
verificamos que a nossa ideia
complexa de paraíso é constituída por ideias simples como
"pérola", "portão", "estrada",
"ouro", "figura vestida de
branco" e "asa", é que podemos
perguntar se já tivemos de
facto alguma vez "impressões
simples" correspondentes.
- E temos. Mas depois
montámos todas as impressões
simples numa ilusão.
- Sim, exacto, porque
quando sonhamos, usamos, por
assim dizer, tesoura e cola.
Mas Hume sublinha que toda a
matéria, a partir da qual formamos as nossas ilusões, chega
à nossa mente na forma de impressões simples. Uma pessoa
que nunca tenha visto ouro
também não poderá imaginar nenhuma estrada de ouro.
- Ele é muito esperto. E
quanto a Descartes e a sua
ideia clara de Deus?

241
- Hume também tem uma resposta para isso. Digamos que
imaginamos Deus como um ser
infinitamente inteligente, sábio e bom. Temos então uma
ideia complexa que é constituída por algo infinitamente
sábio, infinitamente inteligente e infinitamente bom. Se
nunca tivéssemos tido a experiência da inteligência, sabedoria e bondade, nunca poderíamos ter esse conceito de
Deus. Talvez a nossa ideia
de Deus implique que ele seja
um pai severo, mas justo - ou
seja, uma ideia que é composta
por "severo", "justo" e "pai".
A partir de Hume, muitos
críticos da religião apontaram
precisamente para este facto:
a saber, que esta ideia de
Deus pode provir do modo como
víamos o nosso próprio pai
quando éramos crianças. A
ideia de um pai teria levado à
ideia de um pai do céu, conforme dizem alguns.
- Talvez seja verdade.
Mas eu nunca aceitei que
Deus fosse forçosamente um
homem. Em compensação, a minha mãe diz por vezes "Graças
a Deusa", ou uma coisa do género.
- Hume quer atacar todas
as concepções e ideias que não
provêm de impressões sensíveis
correspondentes. Ele afirmava
que queria afugentar a algaraviada sem sentido que dominara
durante tanto tempo o pensamento metafísico e o desacreditara. Mas também usamos
conceitos complexos no quotidiano sem nos questionarmos se
possuem de facto legitimidade.
É o caso da ideia de um eu ou
de um núcleo da personalidade.
Esta ideia constituía o fundamento da filosofia de Descartes. Era a ideia clara e
evidente sobre a qual edificou
toda a sua filosofia.
- Espero que Hume não tenha negado que eu sou eu. Senão falava por falar.
- Sofia, se há uma coisa
que eu quero que tu aprendas
neste curso de filosofia, é
que não podes tirar conclusões
precipitadas.
- Continua.
- Não, tu podes usar o método de Hume para analisares
o que entendes pelo teu "eu".
- Então tenho de perguntar
primeiro se a ideia do eu é
simples ou complexa.
- E a que conclusão chegas?
- Tenho de admitir que me
sinto bastante complexa. Por
exemplo, sou bastante bem humorada. É difícil decidir-me
em relação a certas coisas.
Além disso, posso gostar e
não gostar da mesma pessoa.
- Nesse caso, a tua ideia
do eu é complexa.
- Está bem. Agora tenho
de perguntar se tenho uma impressão complexa correspondente a eu. E tenho-a mesmo?
Tenho-a sempre?
- Não tens a certeza?

242
- Estou sempre a mudar.
Hoje já não sou a mesma que
há quatro anos. A minha disposição e a minha ideia de mim
própria mudam de minuto para
minuto. Por vezes, sinto-me
de repente uma pessoa totalmente nova.
- Então a sensação de se
ter um núcleo de personalidade
inalterável é uma ideia falsa.
A nossa ideia do eu consiste
numa longa série de impressões
particulares que tu nunca experimentaste "simultaneamente". Hume fala de um "conjunto de diversos conteúdos da
consciência que se seguem uns
aos outros com uma rapidez
inacreditável e estão constantemente em fluxo e movimento".
A nossa consciência seria
"uma espécie de teatro", em
que esses diversos conteúdos
"entram em cena uns a seguir
aos outros, vão e vêm e se
misturam entre si numa variedade infinita de situações e
disposições". Para Hume não
temos qualquer personalidade
de base formada em que essas
opiniões e disposições vêm e
vão. É como as imagens numa
tela de cinema: pelo facto de
mudarem tão depressa, não vemos que o filme é composto por
imagens individuais. Na realidade, estas imagens não estão ligadas, ou seja, na realidade, o filme é um conjunto
de instantes.
- Acho que desisto.
- Isso quer dizer que desistes da ideia de teres um
núcleo de personalidade imutável?
- Sim, significa isso.
- E ainda há pouco tinhas
uma opinião completamente diferente! Tenho de acrescentar
ainda que a análise de Hume
da consciência humana e a sua
negação de um núcleo imutável
da personalidade já tinham sido expostas dois mil e quinhentos anos antes no outro
extremo do planeta.
- Por quem?
- Por "Buda". É quase
inquietante a semelhança do
modo como ambos se exprimem.
Buda via a vida humana como
uma série ininterrupta de processos mentais e físicos que
alteram o homem a cada instante. O bebé não é o mesmo que
o adulto, e eu não sou o mesmo
que ontem. Buda afirmava:
"Nada há de que eu possa dizer "isto é meu", nada de que
possa dizer "isto sou eu".
Não há, portanto, nenhum eu
nem nenhum núcleo constante da
personalidade."
- Sim, isso tem uma semelhança surpreendente com
Hume.
- Como continuação da
ideia de um eu imutável, muitos racionalistas tinham por
evidente que o homem tem uma
alma imortal.
- Mas essa também é uma
ideia falsa?
- Pelo menos é o que dizem
Hume e Buda. Sabes o que se
conta que Buda disse aos seus
discípulos imediatamente antes
da sua morte?

243
- Não, como é que posso
saber?
- "Todas as coisas compostas estão sujeitas à corrupção." Hume poderia ter dito o
mesmo. Ou Demócrito. Sabemos que Hume recusou qualquer
tentativa de provar a imortalidade da alma ou a existência
de Deus. Isso não significa
que achasse ambas as coisas
impossíveis, mas achava um absurdo racionalista acreditar
que é possível provar a fé religiosa com a razão humana.
Hume não era cristão; mas
também não era um ateu convicto. Ele era um homem a quem
chamamos "agnóstico".
- E o que significa isso?
- Um agnóstico é uma pessoa que não sabe se Deus
existe. Ao receber a visita
de um amigo no leito de morte,
o amigo perguntou-lhe se acreditava na vida após a morte.
Diz-se que Hume respondeu
que também era possível que um
bocado de carvão atirado ao
fogo não ardesse.
- Ah...
- A resposta foi típica da
sua incondicional ausência de
preconceitos. Ele apenas
aceitava como verdade aquilo
de que tinha experiências sensíveis seguras. Deixava todas
as outras possibilidades abertas. Ele não rejeitou nem a
crença em Cristo nem a crença
em milagres. Mas em ambos os
casos se trata justamente de
"fé" e não de "razão". Podes
dizer que a última ligação entre fé e saber foi desfeita
com a filosofia de Hume.
- Disseste que ele não negou categoricamente os milagres.
- Mas isso também não
significa que tenha acreditado
em milagres. Ele sublinha que
os homens têm uma forte necessidade de acreditar naquilo a
que hoje chamaríamos "acontecimentos sobrenaturais". Mas
todos os milagres que se narram aconteceram muito longe de
nós ou há muito tempo. Hume
recusava os milagres simplesmente porque não tinha visto
nenhum. Mas ele também não
viu que não pode haver milagres.
- Tens que ser mais preciso.
- Hume caracteriza um milagre como uma ruptura das
leis da natureza. Mas também
não podemos afirmar que "percepcionámos" as leis da natureza. Vemos que uma pedra cai
no chão quando a largamos, e
se não caísse também o veríamos.
- Eu chamaria a isso um
milagre - ou algo sobrenatural.
- Acreditas então em duas
naturezas, uma natureza e uma
"natureza" sobrenatural. Não
estarás a voltar ao absurdo
nebuloso dos racionalistas?
- Talvez, mas acho que a
pedra cai sempre ao chão quando a largamos.

244
- E porquê?
- Estás a ser insistente.
- Eu não sou insistente,
Sofia. Para um filósofo,
nunca é errado fazer perguntas. Talvez estejamos a falar
do ponto mais importante da
filosofia de Hume. Responde
agora: como é que podes ter
tanta certeza de que a pedra
cai sempre ao chão?
- Eu vi-o tantas vezes que
tenho a certeza.
- Hume diria que viste
muitas vezes uma pedra cair ao
chão, mas nunca viste que
"cairá sempre". Normalmente
diz-se que a pedra cai ao chão
devido à lei da gravitação.
Mas nós nunca vimos essa lei.
Só vimos que as coisas caem.
- Não é a mesma coisa?
- Não é bem a mesma coisa.
Disseste que achas que a pedra vai cair ao chão porque
viste isso muitas vezes. É
precisamente esse o problema
de Hume. Estás tão habituada
a que uma coisa se siga à outra que esperas que, cada vez
que deixas cair uma pedra, suceda o mesmo. Deste modo,
surgem ideias daquilo a que
chamamos "leis constantes da
natureza".
- Ele quer dizer que se
pode pensar que a pedra não
caia ao chão?
- Ele estava tão convencido como tu de que a pedra vai
cair ao chão sempre, mas diz
que não percepcionou "porque é
que" é assim.
- Não nos afastámos das
crianças e das flores?
- Não, muito pelo contrário. Podes consultar as
crianças como testemunhas para
as asserções de Hume. Quem
te parece que ficaria mais
surpreendido se uma pedra ficasse no ar uma ou duas horas
- tu ou uma criança de um
ano?
- Eu ficaria mais surpreendida.
- E porquê, Sofia?
- Provavelmente porque eu
compreendo melhor do que uma
criança pequena que isso não
seria natural.
- E porque é que a criança
não entenderia?
- Porque ainda não aprendeu o que é a natureza.
- Ou porque a natureza não
se tornou para ela uma coisa
habitual.
- Eu percebo o que queres
dizer. Hume queria levar as
pessoas a tomarem mais atenção.
- Agora, dou-te a seguinte
tarefa: se tu e uma criança
pequena vêem juntas um grande
ilusionista - que por exemplo
põe alguma coisa suspensa no
ar -, qual das duas se divertiria mais durante o espectáculo?
- Eu diria que era eu.

245
- E porquê?
- Porque eu compreenderia
o que estava errado.
- Está bem. A criança não
se alegra por ver as leis da
natureza violadas porque ainda
não as conhece.
- Também podes dizê-lo
dessa maneira.
- Ainda estamos a tratar
do cerne da filosofia empírica
de Hume. Ele teria acrescentado que a criança ainda não
se tornou escrava das suas expectativas. A criança pequena
tem menos preconceitos que tu.
Resta saber se a criança não
é também o maior filósofo.
Uma criança não tem opiniões
preconcebidas. E isso, minha
querida Sofia, é a primeira
virtude em filosofia. A
criança vive o mundo tal como
ele é, sem acrescentar às coisas mais do que o que vê.
- Eu nunca gosto de ter
preconceitos.
- Quando Hume trata do
poder do hábito, refere-se à
chamada "lei da causalidade".
Esta lei diz que tudo o que
acontece tem que ter uma causa. Hume usa como exemplo
duas bolas de bilhar. Se lanças uma bola de bilhar preta
contra uma bola branca parada,
o que é que acontece à bola
branca?
- Quando a preta toca na
branca, esta move-se.
- Sim, e porque é que faz
isso?
- Porque foi atingida pela
bola preta.
- Neste caso, dizemos que
o choque da bola preta é a
"causa" do movimento da bola
branca. Mas não podemos esquecer que só podemos dizer
que uma coisa é totalmente
certa quando a experienciámos.
- Eu já experienciei isso
várias vezes. Jorunn tem uma
mesa de bilhar na cave.
- Hume afirma que tu apenas viste que a bola preta
atinge a branca e que a branca
rola pela mesa. Tu não conheceste pela experiência a causa
pela qual a bola branca rola.
Conheceste pela experiência
que um acontecimento se segue
ao outro temporalmente, mas
não que o segundo acontecimento sucede "por causa" do primeiro.
- Isso não é um pouco sofístico?
- Não, é importante. Hume
sublinha que a expectativa de
que uma coisa se siga à outra
não está nos objectos, mas na
nossa consciência. Uma criança pequena não teria esbugalhado os olhos se uma bola tivesse atingido a outra e ambas
ficassem totalmente imóveis.
Quando falamos de "leis da
natureza", ou de "causa e
efeito", estamos na realidade
a falar dos hábitos humanos e
não do que é racional. As
leis da natureza não são nem
racionais nem irracionais,
"são", simplesmente. A expectativa de a bola de bilhar
branca ser posta em movimento
quando a preta choca contra
ela, não é uma ideia inata.
Nós nascemos

246
sem quaisquer expectativas sobre o mundo ou sobre o comportamento das coisas. O mundo é
como é e nós apreendemo-lo
progressivamente pela experiência.
- Tenho de novo a sensação
de que isso não é assim tão
importante.
- Pode ser importante se
as nossas expectativas nos levam a conclusões precipitadas.
Hume não contesta que há leis
da natureza constantes, mas
uma vez que não podemos ter
experiência das leis da natureza, podemos tirar as conclusões erradas.
- Podes dar-me exemplos?
- O facto de eu ver um
conjunto de cavalos pretos não
significa que todos os cavalos
sejam pretos.
- Tens toda a razão.
- E mesmo que durante toda
a minha vida tenha visto apenas corvos pretos não significa que não haja corvos brancos. Para um filósofo e para
um cientista, pode ser importante provar que não existem
corvos brancos. Quase podes
dizer que a caça ao corvo
branco é a tarefa mais importante da ciência.
- Compreendo.
- Quando se trata da relação de causa e efeito, muitos
imaginam o relâmpago como causa do trovão, porque o trovão
se segue sempre ao relâmpago.
Este exemplo não é muito diferente do das bolas de bilhar. Mas será o relâmpago
realmente a causa do trovão?
- Não, na realidade relampeja e troveja exactamente ao
mesmo tempo.
- Porque relâmpago e trovão são efeitos de uma descarga eléctrica. Mesmo que vejamos sempre que o trovão se segue ao relâmpago, não significa que o relâmpago seja
a causa do trovão. Na realidade há
um terceiro factor que provoca
os dois.
- Compreendo.
- Um empirista do nosso
século, "Bertrand Russell",
deu um exemplo um pouco mais
grotesco: um pintainho que tem
a experiência de receber todos
os dias comida quando o avicultor passa pela capoeira,
tirará a conclusão de que há
uma relação entre a passagem
do avicultor pela capoeira e a
comida no comedouro.
- Mas um dia o pintainho
não é alimentado, pois não?
- Um dia, o avicultor passa pela capoeira e torce-lhe o
pescoço.
- Que horror!
- O facto de as coisas se
seguirem umas às outras no
tempo não significa necessariamente que exista um nexo
causal. Impedir os homens de
tirar conclusões precipitadas
é uma das tarefas mais

247
importantes da filosofia.
Além disso, conclusões precipitadas podem levar a muitas
formas de superstição.
- Como assim?
- Vês um gato preto andar
pela rua. Um pouco mais tarde
nesse dia tropeças e partes um
braço. Mas isso não significa
que haja um nexo causal entre
os dois acontecimentos. Em
contextos científicos também é
importante não se tirar conclusões muito rápidas. Apesar
de muitas pessoas ficarem sãs
depois de terem tomado um determinado remédio, isso não
significa que o remédio as curou. Por isso, precisamos de
um grande grupo de controlo de
pessoas que acreditam receber
o mesmo remédio quando na realidade recebem farinha com
água. Se estas pessoas são
curadas, tem de haver um terceiro factor que as cura -
por exemplo, a confiança na
eficácia deste remédio.
- Acho que começo a perceber o que é o empirismo.
- Em relação à ética e à
moral, Hume também se opôs ao
pensamento racionalista. Os
racionalistas achavam que era
inerente à razão humana a distinção entre o justo e o injusto. Esta concepção do direito natural apareceu-nos em
muitos filósofos de Sócrates
a Locke. Mas Hume não acredita que seja a razão a determinar aquilo que dizemos e fazemos.
- Então é o quê?
- Os nossos "sentimentos".
Quando decides ajudar um necessitado, são os teus sentimentos que te levam a isso,
não a tua razão.
- E se eu não tiver vontade nenhuma de ajudar?
- Também nesse caso tudo
depende dos teus sentimentos.
Não ajudar um necessitado não
é racional nem irracional, mas
pode ser maldoso.
- Mas tem de haver um limite algures. Toda a gente
"sabe" que não é correcto matar uma pessoa.
- Segundo Hume, todos os
homens têm sensibilidade para
o bem-estar dos outros. Temos
portanto uma capacidade de
compaixão. Mas nada disso tem
a ver com razão.
- Não sei se estou de
acordo.
- Nem sempre é assim tão
irracional assassinar uma pessoa, Sofia. Quando se quer
atingir alguma coisa, pode até
ser uma grande ajuda.
- Isso é demais! Eu discordo!
- Nesse caso, podes tentar
explicar-me porque é que não
se deve matar uma pessoa importuna.
- A outra pessoa também
ama a vida. Por isso não a
podes matar.
- Isso é uma demonstração
lógica?

248
- Não faço ideia.
- O que tu fizeste foi, de
uma "frase descritiva" - "a
outra pessoa também ama a vida" deduzir uma "frase normativa" - "por isso não a podes
matar". Do ponto de vista puramente lógico, isso é um absurdo. Poderias da mesma forma deduzir, do facto de muitas
pessoas fugirem aos impostos,
que tu também devias fazer o
mesmo. Hume explicou que nunca se pode deduzir "proposições de dever" de "proposições
de realidade". Contudo, isso
sucede com muita frequência -
inclusivamente em artigos de
jornais, programas de partidos
e discursos no parlamento.
Queres que dê alguns exemplos?
- Sim.
- "Cada vez mais pessoas
preferem viajar de avião. Por
isso, é preciso construir mais
aeródromos." Achas este argumento convincente?
- Não, isso é um disparate. Temos que pensar também
no ambiente. Eu acho que devíamos antes construir novas
vias férreas.
- Ou então, diz-se: "a ampliação dos campos petrolíferos aumentará o nível de vida
do país em dez por cento. Por
isso, temos que explorar o
mais depressa possível novos
campos petrolíferos".
- Que absurdo! Nesse caso, também temos que pensar no
ambiente. Além disso, o nível
de vida na Noruega já é suficientemente elevado.
- Por vezes, diz-se também: "Esta lei foi deliberada
pelo parlamento, e por isso
todos os cidadãos do país têm
que agir de acordo com ela."
Mas muitas vezes, seguir essas leis vai contra as convicções mais profundas de um povo.
- Compreendo.
- Verificámos portanto que
não podemos provar com a nossa
razão o modo como devemos proceder. Um comportamento consciente da responsabilidade não
significa que temos de apurar
a nossa razão, mas que temos
de apurar os nossos sentimentos pelo bem-estar dos outros.
Para Hume, não era irracional preferir a destruição de
todo o mundo a uma arranhadela
no dedo.
- Que afirmação horrível!
- É ainda mais horrível se
baralhares as cartas. Sabes
que os nazis assassinaram milhões de judeus. O que é que
dirias que não estava certo
nestes homens, a razão ou os
sentimentos?
- Antes de mais, alguma
coisa estava errada com os
seus sentimentos.
- Muitos deles tinham uma
ideia muito clara do que estavam a fazer. Por detrás das
resoluções sem sentimentos
pode justamente

249
ocultar-se um calculismo extremamente frio. Depois da
guerra, muitos nazis foram
condenados, mas não por terem
sido irracionais. Foram condenados pela sua crueldade.
Sucede também que pessoas que
não sabem bem o que estão a
fazer são absolvidas apesar do
seu crime. Dizemos que "não
estão em plena posse das faculdades mentais no momento do
crime" ou "não estão em plena
posse das faculdades por tempo
ilimitado". Mas ainda ninguém
foi absolvido por falta de
sentimentos.
- Pois não, era melhor!
- Mas não precisamos sequer de recorrer aos exemplos
mais grotescos. Quando, após
uma cheia, muitos homens precisam de ajuda, são os nossos
sentimentos que decidem se intervimos. Se nós fôssemos insensíveis e deixássemos esta
decisão à "razão fria", talvez
reflectíssemos que é bom se
alguns milhões de homens morressem, num mundo que sofre já
de excesso demográfico.
- Fico furiosa com o facto
de alguém poder pensar assim.
- E nesse caso não é a tua
razão que fica furiosa.
- Obrigada, já chega.

250

Berkeley

"... como um planeta que gira vertiginosamente à volta de
um sol incandescente..."

Alberto pôs-se à janela que
dava para a cidade e Sofia
foi ter com ele. Passado um
pouco viram um pequeno avião a
hélice aparecer por cima dos
telhados. Uma longa faixa estava presa ao avião.
Sofia esperava publicidade
a um grande concerto ou uma
coisa do género na faixa que
esvoaçava ao vento como uma
grande cauda atrás do avião.
Mas quando este se aproximou,
ela viu que o que estava escrito era completamente diferente:
"PARABÉNS PELO TEU ANIVERSÁRIO, HILDE!"
- Importuno - foi o único
comentário de Alberto.
Nuvens escuras revolviam-se
nas colinas a sul em direcção
à cidade. O pequeno avião desapareceu numa destas nuvens
pesadas.
- Receio que haja um temporal - afirmou Alberto.
- Nesse caso, eu vou de
autocarro para casa.
- Se ao menos o major não
estivesse por detrás do temporal!
- Mas ele não é omnipotente, pois não?
Alberto não deu resposta.
Voltou para junto da mesa e
sentou-se na cadeira.
- Temos que falar ainda um
pouco de Berkeley - disse
ele.
Sofia já voltara a sentar-se. Deu-se então conta de
que tinha começado a roer as
unhas.
- "George Berkeley" era
um bispo irlandês que viveu
entre 1685 e 1753 - começou
Alberto, e em seguida calou-se por muito tempo.
- Berkeley era um bispo
irlandês... - Sofia retomou
o fio.
- Mas também era filósofo...
- Sim?
- Ele acreditava que a filosofia e a ciência do seu
tempo constituíam uma ameaça
para a concepção cristã do
mundo. Além disso, via o materialismo, cada vez mais difundido, como uma ameaça à
crença cristã de que Deus
cria e mantém vivas todas as
coisas na natureza.
:,

251
- Sim?
- Ao mesmo tempo Berkeley
era um dos empiristas mais
coerentes.
- Ele achava que não podemos saber mais acerca do mundo
do que o que sentimos?
- Não apenas isso. Berkeley achava que as coisas no
mundo são exactamente como nós
as sentimos mas não são "coisas".
- Tens de explicar isso
melhor.
- Ainda te lembras que
Locke tinha apontado para o
facto de nós não podermos dizer nada sobre as "qualidades
secundárias" das coisas. Não
podemos afirmar que uma maçã é
verde e ácida. Somos "nós"
que sentimos essa maçã desse
modo. Mas Locke dissera também que as "qualidades primárias" - como solidez, peso e
gravidade - pertencem de facto à realidade exterior à nossa volta. Esta realidade exterior tem portanto uma "substância" física.
- Eu continuo a ter uma
memória boa. E pensava que
Locke tinha apontado uma diferença importante.
- Ah, Sofia, se fosse só
isso!
- Continua!
- Para Locke - como para
Descartes e Espinosa - o
mundo físico era uma realidade.
- Sim?
- E é precisamente isso
que Berkeley põe em dúvida e
para isso ele recorre a um empirismo consequente. Ele
afirma que a única coisa que
existe é o que nós sentimos.
Mas não sentimos "matéria" ou
"substância". Não sentimos as
coisas como "coisas" palpáveis. Quando pressupomos que
aquilo que sentimos tem uma
"substância" subjacente, estamos a tirar conclusões precipitadas. Não temos nenhuma
prova empírica para essa afirmação.
- Que disparate! Observa
isto.
Sofia bateu com o punho na
mesa.
- Au! - exclamou, tal foi
a força com que bateu - Isto
não é uma prova de que a mesa
é uma mesa verdadeira e é matéria ou substância?
- O que é que sentiste?
- Uma coisa dura.
- Tiveste uma clara percepção sensível de uma coisa
dura, mas não sentiste a verdadeira "matéria" da mesa. Da
mesma forma, podes sonhar que
bates em algo duro, mas no teu
sonho não há nada duro, pois
não?
- No sonho não.
:,

252
- Além disso uma pessoa
pode ser persuadida de que
"sente" todas as coisas. Uma
pessoa pode ser hipnotizada e
sentir calor e frio, carícias
suaves e socos duros.
- Mas se não era a mesa
que era dura, o que me levou a
senti-la?
- Segundo Berkeley, é a
"vontade" ou "espírito". Ele
também achava que todas as
nossas ideias têm uma causa
exterior à nossa consciência,
mas que esta causa não é de
natureza material. Ela é, segundo Berkeley, espiritual.
Sofia voltou a roer as
unhas. Alberto prosseguiu.
- Segundo Berkeley, a minha alma pode ser causa dos
meus pensamentos - como quando sonho -, mas só uma outra
vontade ou espírito pode ser
causa das ideias que constituem o nosso mundo material.
Tudo vem do espírito, "que
realiza tudo em tudo e através
do qual tudo subsiste", afirma
ele.
- E que espírito é esse?
- Berkeley está naturalmente a pensar em Deus. Ele
achava que nós poderíamos
afirmar que sentimos a existência de Deus mais claramente do que a de qualquer homem.
- Mas não é óbvio que
existimos?
- Bom... tudo o que vemos
e sentimos é, segundo Berkeley, um efeito do poder de
Deus. É que Deus está intimamente presente na nossa
consciência e provoca nela
toda a multiplicidade de
ideias e sensações às quais
estamos constantemente expostos. Toda a natureza à nossa
volta e toda a nossa existência residem em Deus. É a
única causa de tudo o que
existe.
- Para dizer a verdade,
estou espantada.
- "Ser ou não ser" não é
toda a questão. A questão é
também "o que" nós somos.
Somos realmente pessoas de
carne e osso? O nosso mundo é
constituído por coisas reais
- ou estamos apenas rodeados
pela consciência?
Sofia começou mais uma vez
a roer as unhas. Alberto
prosseguiu:
- Berkeley não põe apenas
a realidade material em dúvida. Ele duvida também de que
o tempo e o espaço tenham uma
existência absoluta ou autónoma. Mesmo a experiência do
tempo e do espaço pode residir
apenas na nossa consciência.
Uma ou duas semanas para nós
não têm de ser uma ou duas semanas para Deus...
- Disseste que para Berkeley este espírito, no qual
tudo repousa, é o Deus cristão.
- Sim, foi o que eu disse.
Mas para nós...

253
- Sim?
- ... para nós esta vontade
ou espirito que realiza tudo
pode ser também o pai de Hilde.
Sofia emudeceu. A sua expressão parecia um grande ponto de interrogação. E, simultaneamente, uma coisa tornou-se-lhe clara.
- Acreditas nisso? - perguntou.
- Não consigo ver nenhuma
outra possibilidade. Esta é
talvez a única explicação possível para tudo o que presenciámos. Estou a pensar nos
diversos postais e notícias
que surgiram nos mais diversos
locais. Estou a pensar no
facto de Hermes falar de repente e estou a pensar nos
meus lapsos involuntários.
- Eu...
- A ideia de eu te ter
chamado Sofia, Hilde! Eu
sempre soube que tu não te
chamavas Sofia.
- O que estás a dizer?
Estás a enlouquecer de vez!
- Sim, tudo gira e gira,
minha filha. Como um planeta
que gira vertiginosamente à
volta de um sol incandescente.
- E esse sol é o pai de
Hilde?
- Podes dizer isso.
- Achas que ele se tornou
uma espécie de deus para nós?
- Para ser sincero, sim.
Mas devia ter vergonha!
- E quanto a Hilde?
- Ela é um anjo, Sofia.
- Um anjo?
- É a ela que se dirige
este "espírito".
- Achas que Alberto Knag
fala a Hilde sobre nós?
- Ou escreve sobre nós.
Nós não podemos sentir a matéria da qual a nossa realidade é feita. Pelo menos foi o
que aprendemos. Não podemos
saber se a nossa realidade exterior é constituída por ondas
sonoras ou por papel e letras.
Segundo Berkeley, só podemos
saber que somos feitos de espírito.
- E Hilde é um anjo...
- É um anjo, sim. E com
isto, terminámos por hoje.
Parabéns, Hilde!
Uma luz azulada invadiu então a sala. Passados poucos
segundos, ouviram um trovão a
ribombar, e a casa foi abalada.
Alberto estava com um olhar
ausente.
- Tenho de ir para casa -
disse Sofia. Levantou-se de
um pulo e correu em direcção à
porta de entrada. Ao abrir
violentamente a

254
porta, Hermes, que dormia debaixo dos cabides, acordou.
Quando Sofia saiu, parecia
dizer:
- Adeus, Hilde!
Sofia desceu as escadas
precipitadamente e correu para
a rua. Aí, não se via ninguém. Entretanto chovia a
cântaros.
Dois carros passaram pelo
asfalto molhado, mas Sofia
não conseguia encontrar um autocarro. Correu até à praça
principal e continuou a correr
pela cidade. Enquanto isso,
um único pensamento se revolvia na sua cabeça.
"Amanhã faço anos", pensava
ela. E não era extremamente
duro ter de reconhecer, um dia
antes de fazer quinze anos,
que a vida é um sonho? Era
como sonhar ter ganho um milhão e, pouco antes de o grande prémio ser pago, compreender que tudo fora apenas um
sonho.
Sofia correu pelo campo de
jogos molhado. Nessa altura
viu uma pessoa a correr na sua
direcção. Era a mãe. Relâmpagos potentes rasgavam o céu.
A mãe abraçou Sofia.
- O que se passa connosco,
minha filha?
- Não sei - Sofia chorava. - É como um pesadelo.

255

Bjerkely

"... um espelho mágico antigo que a bisavó comprara a uma
cigana..."

Hilde Mõller Knag acordou
na mansarda na antiga moradia
do capitão perto de Lillesand. Olhou para o relógio;
eram apenas seis horas. Porém, já era de dia. Uma larga
faixa de sol matinal iluminava
o quarto.
Hilde levantou-se e foi à
janela. A caminho, inclinou-se para sua escrivaninha e
para uma folha do calendário
da mesa. Quinta-feira, 14 de
Junho de 1990. Amarrotou a
folha e deitou-a no cesto dos
papéis.
"Sexta-feira, 15 de Junho
de 1990" era o que estava escrito no calendário; o algarismo brilhava para ela. Já
em Janeiro escrevera nesta
folha do calendário "15
anos". Achava que fazer quinze anos num dia quinze fazia
um efeito especial. Nunca haveria de viver isso de novo.
Quinze anos! Não era o seu
primeiro dia na sua vida
"adulta"? Ela não conseguia
voltar para a cama; além disso, era o último dia de aulas
antes das férias. Nesse dia
os alunos só tinham de ir à
igreja à uma. E além disso,
dentro de uma semana o seu pai
regressaria do Líbano. Ele
prometera estar em casa para a
noite de S. João.
Hilde assomou à janela e
olhou para o jardim, para a
pequena ponte e para o barracão vermelho dos barcos. O
barco à vela ainda não fora
arranjado para a época do
Verão, mas o velho barco a
remos estava amarrado à doca.
Não se podia esquecer de tirar a água, depois da forte
chuvada.
Enquanto observava a pequena enseada, lembrou-se de que
uma vez, com seis ou sete
anos, trepara para o barco a
remos e remara sozinha no fiorde. Em seguida, caíra à
água e só a custo conseguira
voltar a terra. Arrastara-se
por entre os espessos arbustos
completamente molhada. Ao
chegar ao jardim em frente à
casa, a mãe veio a correr.
Vira o barco e os remos flutuarem lá fora no fiorde.

256
Hilde ainda sonhava por vezes
com o barco, que boiava lá
fora às voltas, completamente
abandonado. Tinha sido uma
experiência horrível.
O jardim não era nem particularmente frondoso nem cuidado. Mas era grande e pertencia a Hilde. Uma macieira
maltratada pelas intempéries e
algumas groselheiras que já
quase não produziam frutos tinham sobrevivido às violentas
tempestades do Inverno.
Entre os rochedos e o matagal estava o velho baloiço, no
relvado. À brilhante luz matinal parecia completamente
abandonado. Parecia mais
triste porque as almofadas estavam em casa. A mãe de Hilde saíra precipitadamente à
tarde para as salvar do temporal.
Todo aquele grande jardim
estava rodeado de bétulas.
Deste modo, ficava um pouco
protegido das rajadas de vento
mais fortes. Devido a estas
árvores - bjõrketreer -, o
terreno recebera o nome de
Bjerkely há mais de cem anos.
O bisavô de Hilde mandara
construir a casa pouco antes
da viragem do século. Ele
fora capitão de um dos últimos
grandes navios à vela. Ainda
hoje, muita gente chamava à
casa a "moradia do capitão".
Nessa manhã, ainda se notava pelo jardim que na tarde
anterior chovera violentamente. Hilde fora acordada várias vezes por trovões. Mas
agora já não se via uma única
nuvem no céu.
Após os aguaceiros estivais, o tempo ficava sempre
bastante fresco. Nas últimas
semanas, o tempo estivera
quente e seco, e as bétulas
tinham ficado com feias manchas amarelas na parte exterior da folhagem. Agora, o
mundo parecia lavado de fresco. Nessa manhã, toda a sua
infância parecia também ter-se
extinguido com o trovão.
"Claro, dói quando os botões desabrocham..." Não fora
uma poetisa sueca que dissera
uma coisa do género? Ou fora
uma finlandesa?
Hilde pôs-se em frente do
espelho de latão que estava
pendurado sobre a velha cómoda
da avó.
Era bonita? Pelo menos não
era feia... Estava talvez no
meio termo...
Tinha longos cabelos loiros. Hilde tinha sempre desejado ter os cabelos mais claros ou mais escuros. Esta cor
de cabelo intermédia não tinha
graça. Mas gostava dos seus
caracóis suaves. Muitas das
suas amigas tratavam dos cabelos para conseguirem ondulações, mas Hilde nunca precisara disso. Também gostava
dos seus olhos verdes, de um
verde esmeralda. "São de facto verdes?", perguntavam sempre as tias e os tios quando
se inclinavam para ela.
Hilde reflectiu sobre se a
imagem que estava a examinar
era o reflexo de uma rapariga
ou de uma jovem mulher. Chegou à conclusão de que não era
nenhuma das duas. O seu corpo
já se assemelhava

257
muito ao de uma mulher; o rosto, pelo contrário, fazia lembrar uma maçã ainda verde.
Algo no velho espelho fazia
Hilde pensar no pai. Anteriormente, tinha estado pendurado em baixo, no atelier. O
atelier ficava por cima do
barracão dos barcos e servia
ao pai de biblioteca, local de
inspiração para escrever e um
refúgio para se isolar quando
estava irritado. Albert, como
Hilde lhe chamava quando ele
estava em casa, quisera sempre
escrever uma grande obra.
Tentara uma vez um romance,
mas tinha-se ficado pela tentativa. Alguns poemas e descrições inspiradas na paisagem
que o rodeava tinham sido publicados regularmente no jornal local. Hilde ficava quase
tão orgulhosa como ele quando
via o seu nome impresso. Alberto Knag. Pelo menos em
Lillesand, este nome tinha
uma ressonância especial. O
bisavô também se chamava Albert.
O espelho, sim. Há muitos
anos, o seu pai dissera na
brincadeira que talvez fosse
possível piscar os olhos para
si mesma no espelho, mas com
ambos os olhos isso não seria
possível de todo. A única excepção era este espelho de latão por ser um espelho mágico
antigo que a bisavó comprara a
uma cigana logo a seguir ao
seu casamento.
Hilde tentara durante muito
tempo, mas piscar ambos os
olhos para si mesma era tão
difícil como fugir da sua própria sombra. Por fim, recebera de presente a velha peça
herdada. Durante toda a sua
infância, tentara esta habilidade impossível regularmente.

Não admirava que estivesse
um pouco pensativa nesse dia.
Não admirava que pensasse só
em si. Quinze anos...
Só então deitou um olhar à
sua mesa de cabeceira. Estava
lá um grande embrulho. Com
papel de um lindíssimo azul
celeste e uma fita de seda
vermelha. Devia ser um presente de aniversário!
Seria esse o "presente"?
Seria o grande PRESENTE do
seu pai, o presente à volta do
qual fizera tanto mistério?
Nos seus postais do Líbano,
ele fizera repetidamente alusões estranhas. Mas submetera-se a si mesmo a "uma censura rigorosa".
Era um presente que crescia, escrevera ele. E depois
fizera alusões a uma rapariga
que havia de conhecer em breve
- e à qual ele enviara uma
cópia de cada postal. Hilde
procurara saber pela mãe o que
queria ele dizer com aquilo,
mas ela também não fazia
ideia.
O mais estranho de tudo tinha sido a indicação de que o
presente podia talvez ser partilhado com outras pessoas.
Não era por acaso que trabalhava na ONU: se o pai de
Hilde tinha uma ideia fixa -
e ele tinha muitas -, então
era a de que a ONU devia
assumir a seu cargo

258
uma espécie de responsabilidade governativa em todo o mundo. "Possa a ONU um dia
aproximar de facto a humanidade". escrevera ele num postal.
Poderia ela abrir o embrulho antes de a mãe subir com
pão de passas e limonada, a
canção dos parabéns e a bandeira norueguesa? Podia, certamente, por isso é que estava
ali.
Hilde atravessou o quarto
de mansinho e levantou o embrulho da mesa de cabeceira.
Era pesado! Tinha um cartão:
"Para Hilde, do pai, pelos
seus quinze anos."
Ela sentou-se na cama e
desfez com cuidado o nó da fita de seda vermelha. Em seguida, já podia remover o papel.
Era um grande "dossier".
Era este o presente? Era
este o presente para o seu
aniversário do qual se falara
tanto? Era este o presente
que crescera e que além disso
podia ser partilhado com outros?
Um olhar rápido mostrou que
o "dossier" estava cheio de
folhas escritas à máquina.
Hilde reconheceu o tipo de
letra da máquina de escrever
que o seu pai levara consigo
para o Líbano.
Teria ele escrito um livro
para ela?
Na primeira folha estava
escrito à mão, em maiúsculas:
O MUNDO DE SOFIA
Um pouco mais abaixo
lia-se, em letra de máquina:

AQUILO QUE A LUZ DO SOL É
PARA A TERRA FÉRTIL É O VERDADEIRO SABER PARA OS AMIGOS DA
TERRA
N. F. S. Grundtvig

Hilde folheou o "dossier".
No cimo da página seguinte
começava o primeiro capítulo.
O título dizia: "O jardim do
Éden". Sentou-se comodamente
na cama, apoiou o "dossier"
nos joelhos e começou a ler:

Sofia Amundsen regressava
da escola. Percorrera com
Jorunn o primeiro troço do
caminho. Tinham conversado
sobre robôs. Para Jorunn, o
cérebro humano era um computador complexo. Sofia não estava de acordo. Um homem deveria ser algo mais do que uma
máquina.

Hilde continuou a ler, e
pouco depois esqueceu-se de
todas as outras coisas; esqueceu-se inclusivamente de que
fazia anos. De vez em quando,
uma ideia ainda conseguia introduzir-se entre as linhas:

259
Teria o pai escrito um romance? Teria retomado a tentativa de escrever o grande romance e queria terminá-lo no Líbano? Tinha-se queixado tanto
de que o tempo demorava a passar.
Sofia também viajava na
história universal. Era com
certeza a rapariga que Hilde
devia conhecer...

Só quando se apercebia que
um dia teria desaparecido,
compreendia claramente que a
vida era infinitamente valiosa... De onde vem o mundo?...
Afinal, alguma coisa teria de
ter surgido do nada a certa
altura. Mas seria isso possível? Este pensamento não seria tão impossível como o de o
mundo ter sempre existido?

Hilde continuou a ler, e
sentiu-se surpresa ao saber
que Sofia Amundsen recebera
um postal do Líbano. "Hilde
Mõller Knag, a/c Sofia
Amundsen. Klõverveien 3..."

Querida Hilde! Parabéns
pelos teus 15 anos! Como
compreendes, quero dar-te um
presente, que te ajudará a
crescer. Peço desculpa por
mandar o postal pela Sofia.
Era mais fácil deste modo.

Saudades, do pai

Este malvado! Hilde sempre
achara o seu pai um maroto,
mas nesse dia surpreendeu-a
completamente. Em vez de colocar o postal no embrulho,
escrevera-o no próprio presente.
Pobre Sofia! Estava totalmente perplexa.

Porque é que um pai enviaria um postal de aniversário
para a morada de Sofia, se
era óbvio que devia ser enviado para outro local? Que tipo
de pai enviaria um postal de
aniversário para o endereço
errado, impedindo que a filha
o recebesse? Como é que poderia ser "mais fácil" deste
modo? E sobretudo, como poderia ela encontrar Hilde?

Não, como é que Sofia havia de conseguir? Hilde virou
a folha e começou a ler o segundo capítulo. Chamava-se
"A cartola". Pouco depois,
chegou a uma longa carta que
essa pessoa misteriosa escrevera a Sofia. Hilde reteve a
respiração.

Interessarmo-nos pela razão
da nossa existência não é um
interesse ocasional, como o
interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por

260
tais problemas, preocupa-se
com tudo aquilo que os homens
discutem desde que apareceram
neste planeta...

"Sofia estava exausta".
Hilde também. O pai não lhe
escrevera apenas um livro para
o aniversário; ele escrevera
um livro muito estranho e misterioso.
Breve sumário: um coelho
branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um
coelho muito grande, este truque leva muitos biliões de
anos.
Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as crianças
humanas. Por isso, podem admirar-se com a inacreditável
arte da magia. Mas à medida
que envelhecem, deslizam cada
vez mais para a pele do coelho. E permanecem ali...

Não era só Sofia a ter a
sensação de ter estado à procura de um lugar para si muito
em baixo na pelagem do coelho
branco. Nesse dia, Hilde fazia quinze anos. Também ela
tinha a sensação de ter de se
decidir quanto à orientação a
seguir.
Leu acerca dos filósofos da
natureza gregos. Hilde sabia
que o pai se interessava por
filosofia. Escrevera no jornal que a filosofia tinha de
ser introduzida como disciplina escolar. "Porquê inserir a
filosofia nos programas escolares?", era o título do artigo. O pai até levara o tema à
discussão na reunião dos pais
e professores da turma de
Hilde. Para Hilde, isso
fora extremamente embaraçoso.
Olhou então para o relógio.
Já eram sete e meia. Mas a
mãe só subiria daí a uma hora
com o pequeno-almoço. Felizmente, porque Hilde estava
completamente concentrada em
Sofia e nas questões filosóficas. Leu o capítulo sobre
Demócrito. Primeiro, Sofia
tinha de reflectir acerca de
uma questão: "Porque é que as
peças do Lego são o brinquedo
mais genial do mundo?". Em
seguida, encontrou "um grande
envelope amarelo" na caixa do
correio.

Demócrito concordava com os
seus predecessores ao afirmar
que as transformações observáveis na natureza não significavam que algo se alterasse
realmente. Admitiu, portanto,
que tudo tinha de ser composto
de elementos pequenos e invisíveis, eternos e imutáveis.
Demócrito designava estas pequenas partículas por átomos.

Hilde inquietou-se quando

Sofia encontrou o seu lenço
de seda vermelho debaixo da
cama. Então era ali que fora
parar? Mas como é que um lenço podia cair numa história?
Tinha de estar noutro lugar...

261
O capítulo sobre Sócrates
começava com Sofia a ler num
jornal "algumas linhas sobre o
contingente norueguês da
ONU no Líbano". Típico do
pai! Ele tinha muita pena que
as pessoas na Noruega se interessassem tão pouco pelo
trabalho dos soldados da
ONU de conservar a paz. E
se mais ninguém se preocupava
com isso, pelo menos Sofia
devia fazê-lo. Deste modo,
era possível atrair a si uma
certa atenção dos "media".
Hilde não pôde deixar de
sorrir quando leu na carta do
professor de filosofia endereçada a Sofia um "PS2".

PS2. Se encontrares um
lenço de seda, quero pedir-te
que o conserves cuidadosamente. Acontece, por vezes, que
os objectos são trocados, sobretudo na escola e em locais
semelhantes, e esta é na verdade uma escola de filosofia.

Hilde ouviu passos na escada. Devia ser a mãe com o pequeno-almoço do dia de anos.
Antes de ela bater à porta,
Hilde leu ainda que Sofia
tinha encontrado um vídeo de
Alberto no seu esconderijo no
jardim.
- Parabéns a você, nesta
data querida...
A mãe começara a cantar nas
escadas.
- Muitas felicidades...
- Entra! - disse Hilde.
Estava a ler sobre o professor de filosofia que falava a
Sofia directamente da Acrópole. Ele era fisicamente
muito parecido com o pai de
Hilde - com uma "barba negra
bem tratada" e uma bóina azul.
- Parabéns, Hilde!
- Mmm...
- Hilde?
- Deixa-o aí.
- Não queres...
- Não vês que estou ocupada?
- Pensa que já tens quinze
anos!
- Já estiveste em Atenas,
mamã?
- Não, porquê?
- É bastante estranho que
os templos antigos ainda estejam de pé. Têm dois mil e
quinhentos anos. O maior chama-se "Parténon".
- Abriste o embrulho do
pai?
- Que embrulho?
- Olha para mim, Hilde!
Estás completamente nas nuvens!
Hilde deixou cair o grande
"dossier" nos joelhos.

262
A mãe inclinou-se para a
cama. No tabuleiro havia velas, sanduíches e sumo de laranja. Havia também um pacote. Mas a mãe só tinha duas
mãos e por isso tinha entalado
a bandeira norueguesa debaixo
do braço.
- Muito obrigada, mamã. É
muito amável da tua parte, mas
não tenho mesmo tempo.
- Só tens de estar na
igreja à uma.
Hilde só nesse momento se
apercebeu onde estava. A mãe
pôs o tabuleiro na mesa de cabeceira.
- Desculpa. Estava tão
concentrada nisto...
Hilde mostrou o "dossier" e
prosseguiu:
- Isto é do pai...
- Mas o que é que ele escreveu, Hilde? Estou tão curiosa como tu. Há meses que
não se lhe ouve uma palavra
sensata.
Por algum motivo, Hilde
sentiu-se subitamente embaraçada.
- Ah, é apenas uma história.
- Uma história?
- Sim, uma história. E
também um livro de filosofia,
mais ou menos.
- Não queres abrir o meu
pacote?
Hilde achava que não podia
fazer distinção entre os presentes e por isso abriu também
o da mãe. Era uma pulseira de
ouro.
- Que bonita! Muito obrigada!
Hilde deu um beijo à mãe.
Conversaram um pouco.
- Agora tens de ir embora
- disse Hilde depois. -
Ele está mesmo no cimo da
Acrópole, percebes?
- Quem?
- Bom, não faço ideia, e a
Sofia também não. O problema
é esse.
- Eu tenho de ir para o
escritório. Tens de comer
qualquer coisa. O teu vestido
está lá em baixo.
Por fim, a mãe foi-se embora. E o professor de filosofia de Sofia fez o mesmo;
desceu as escadas da Acrópole
e subiu para a elevação do
Areópago, para aparecer pouco
depois na antiga ágora de
Atenas. Hilde sobressaltou-se ao ler que os antigos edifícios se elevavam subitamente
das ruínas. O pai tinha a
ideia fixa de que todos os
países da ONU deviam fazer
em conjunto uma cópia fiel da
antiga ágora de Atenas. Aí
se poderia trabalhar em questões filosóficas e hipóteses
de desarmamento. Um projecto
gigantesco desses havia de
unir a humanidade, segundo
ele.

263
Em seguida leu sobre Platão. "A alma deseja voar nas
asas do amor de 'volta' ao
mundo das ideias. Deseja ser
libertada da 'prisão do corpo...'"
Sofia tinha passado através
da sebe e seguira Hermes, mas
perdera-o de vista depois.
Após ter lido sobre Platão,
caminhou pelo bosque e chegou
a uma cabana vermelha junto a
um pequeno lago. Havia ali
uma fotografia de Bjerkely.
Pela descrição, era evidente
que tinha de se tratar de
Bjerkely de Hilde. E ali
estava também um retrato de um
homem chamado Berkeley.
"Berkeley e Bjerkely... Não
era estranho?"
Hilde pousou o volumoso
"dossier" na cama, foi à estante e consultou a enciclopédia em três volumes que recebera de presente quando fizera
catorze anos. Berkeley... lá
estava!

Berkeley, George, 1685-1753, filósofo anglo-saxónico, bispo de Cloyne. Nega
a existência de um mundo material exterior à consciência
humana. As nossas percepções
sensoriais provêm de Deus.
B. é também famoso pela sua
crítica às ideias universais
abstractas. Obra principal:
"A Treatise Concerning the
Principles of Human Knowledge" - Tratado Sobre os
Princípios do Conhecimento
Humano (1710).

Sim, era estranho. Hilde
ficou alguns segundos parada e
pensativa, antes de voltar à
cama e ao "dossier".
Teria sido o pai a pendurar
aqueles dois quadros? Poderia
haver uma outra relação além
da semelhança entre os nomes?
Berkeley era um filósofo
que negara a existência de um
mundo material exterior à
consciência humana. Era possível fazer-se muitas afirmações estranhas, mas nem sempre
era fácil invalidar essas
afirmações. Essa descrição
prestava-se ao mundo de Sofia. As suas "sensações" eram
provocadas pelo pai de Hilde.
Mas saberia mais se continuasse a ler. Hilde levantou
os olhos do "dossier" e riu-se
ao ler que Sofia vira o reflexo de uma rapariga no espelho que piscava os dois olhos.
"A rapariga do espelho parecia piscar os olhos para Sofia. Parecia querer dizer: eu
estou a ver-te, Sofia. Estou
aqui do outro lado."
Lá, encontrou também a carteira verde - com dinheiro e
o resto! Como teria ido lá
parar?
Que disparate! Por um ou
dois segundos, Hilde acreditara que Sofia tinha encontrado de facto a carteira.
Mas mesmo depois, tentou compreender como tudo acontecia
do ponto de vista de Sofia.
Devia ser muito insondável e
misterioso.
:,

264
Pela primeira vez, Hilde
sentiu um forte desejo de conhecer Sofia pessoalmente.
Gostaria de discutir com ela
a relação entre todas as coisas.
Mas agora, Sofia tinha de
sair da cabana se não queria
ser surpreendida em flagrante.
Era óbvio que o barco andava
à deriva no lago. Ele não resistira a referir a velha história do barco.
Hilde bebeu um gole de sumo
e trincou uma sanduíche com
salada de maionese e camarão
enquanto lia sobre Aristóteles, que criticara a teoria
das ideias de Platão.

Aristóteles aponta para o
facto de que nada existe na
consciência que não tenha
existido primeiro nos sentidos. Platão poderia ter dito
que não há nada na natureza
que não tenha existido primeiro no mundo das ideias. Desta
forma, Platão duplicou o número de coisas, segundo Aristóteles.

Hilde não sabia que fora
Aristóteles a inventar o jogo
do "reino vegetal, reino animal, reino mineral".

Aristóteles queria fazer
uma arrumação profunda no
quarto da natureza. Procurou
provar que todas as coisas na
natureza pertencem a diversos
grupos e subgrupos.

Ao ler a concepção de
Aristóteles sobre a mulher,
ficou simultaneamente admirada
e irritada. Como é que alguém
pode ser um filósofo tão competente e ao mesmo tempo um
ignorante!
Sofia deixara-se inspirar
por Aristóteles ao arrumar o
seu próprio quarto. E aí, no
meio do caos completo, encontrou a meia branca que desaparecera há um mês do armário de
Hilde. Sofia reunira todas
as folhas que Alberto lhe escrevera num "dossier". "Agora
já tem mais de cinquenta páginas". Hilde, por seu lado, já
tinha chegado à página cento e
setenta e oito, porque ainda
tinha de ler, além das cartas
filosóficas de Alberto Knox,
toda a história de Sofia.
O capítulo seguinte chamava-se "O Helenismo". Nesse
capítulo, Sofia encontrava um
postal com a fotografia de um
jipe da ONU. O postal tinha o carimbo do contingente
da ONU do dia 15 de Junho. Mais um "postal" dirigido a Hilde que o pai integrara no "dossier" em vez de o
enviar pelo correio.

"Querida Hilde: imagino
que deves estar a festejar o
teu aniversário. Ou já passa
um dia? De qualquer modo, não
faz diferença para o teu

265
presente; desfrutarás dele durante toda a tua vida. Dou-te
os parabéns mais uma vez.
Talvez compreendas agora porque é que mando o postal para
a Sofia. Tenho a certeza de
que ela to dará.
PS. A mãe contou-me que
perdeste a carteira. Prometo
reembolsar-te das 150 coroas.
Receberás certamente um novo
cartão de estudante na escola
antes que ela feche para o
Verão.

Um abraço do pai"

Nada mau, pensou Hilde,
com isso tinha ficado com mais
cento e cinquenta coroas. Ele
achava com certeza que um presente de fabrico caseiro não
era suficiente.
Descobriu que o dia 15 de
Junho era também o dia de
aniversário de Sofia. Mas o
calendário de Sofia ainda estava na primeira metade de
Maio. Nessa altura, o pai de
Hilde devia ter acabado de
escrever esse capítulo e dera
uma data posterior ao "postal
de aniversário" para Hilde.
Entretanto, a pobre Sofia
corria para o supermercado,
onde Jorunn esperava por ela.

Quem era Hilde? Como é
que o pai dela achava evidente
que Sofia a encontraria? Não
fazia sentido nenhum que ele
lhe enviasse os postais em vez
de os enviar directamente à
filha...

Também Hilde se sentira
suspensa no ar enquanto estava
a ler acerca de Plotino.

Em tudo o que vemos há algo
do mistério divino. Vemos que
ele cintila num girassol ou
numa papoila. Temos uma ideia
mais clara desse mistério impenetrável numa borboleta que
levanta voo de um ramo - ou
num peixe dourado que nada no
seu aquário. Mas estamos mais
próximos de Deus na nossa
própria alma. Só aí podemos
unir-nos ao grande mistério da
vida. Em momentos raros podemos sentir que nós mesmos somos esse mistério divino.

Até então, isto era do mais
vertiginoso que ela tinha
lido. Mas era ao mesmo tempo
o mais fácil. Tudo é uno, e
este "uno" é um mistério divino no qual todos participam.
Não era nada que fosse difícil de acreditar. É assim,
pensava Hilde. E depois,
cada um pode acrescentar a palavra "divino", ou o que lhe
agradar.

266
Folheou rapidamente o "dossier" para chegar ao capítulo
seguinte. Sofia e Jorunn
queriam ir acampar na noite de
17 de Maio. E depois foram
para a cabana do major...
Hilde ainda não lera muitas
páginas quando saltou da cama
agitada e deu alguns passos
pelo quarto com o "dossier"
nos braços.
Raramente vira um truque
tão descarado como aquele! Na
pequena cabana do bosque o pai
fez com que ambas as raparigas
encontrassem cópias de todos
os postais que enviara a Hilde na primeira metade de
Maio. E as cópias eram autênticas. Hilde tinha lido
várias vezes todos os postais
do pai. Reconheceu cada palavra:

"Querida Hilde! Estou
quase a rebentar com todos os
segredos que têm a ver com o
teu aniversário, e várias vezes por dia tenho de me conter
para não telefonar e contar
tudo. É uma coisa que não
pára de crescer. E tu sabes
que quanto mais uma coisa
cresce mais difícil é guardá-la para nós..."

Sofia recebeu uma nova lição de Alberto. Tratava de
Judeus e Gregos e das duas
grandes culturas. Hilde ficou
contente com esta ampla panorâmica da história. Na escola, nunca tinham aprendido
nada assim. Eram só pormenores e mais pormenores. Quando
acabou de ler a carta, o pai
transmitira-lhe uma perspectiva completamente nova de Jesus e do Cristianismo. Gostou da citação de Goethe:
"Quem não sabe prestar contas
de três milénios, permanece
nas trevas ignorante, vive
apenas o dia que passa."
O capítulo seguinte começava com um bocado de cartão que
ficara colado na janela da cozinha de Sofia. Era obviamente mais uma felicitação
para Hilde.

"Querida Hilde! Não sei
se ainda estarás a festejar o
teu aniversário quando leres
este postal. Por um lado, espero que sim, de qualquer modo
tenho esperança que ainda não
tenham passado muitos dias.
Que passem uma ou duas semanas para Sofia não significa
que suceda o mesmo connosco.
Eu regresso a casa na noite
de S. João. Nessa altura,
ficaremos sentados no baloiço
e poderemos olhar juntos para
o mar, Hilde. Temos muito
para conversar..."

Em seguida, Alberto telefona a Sofia e ela ouve a sua
voz pela primeira vez.

"Falas como se se tratasse
de uma espécie de guerra."
"Eu diria que é uma guerra
espiritual. Temos de tentar
chamar a atenção de Hilde e
trazê-la para o nosso lado,
antes que o seu pai regresse a
Lillesand."

267
E depois, Sofia encontra-se com Alberto Knox disfarçado de monge da Idade Média
numa antiga igreja de pedra do
século XII.
Numa igreja, sim. Hilde
olhou para o relógio. Um
quarto para a uma. Tinha-se
esquecido completamente do
tempo.
Talvez não fosse tão grave
faltar à escola no seu dia de
anos, mas havia uma coisa que
a enervava nesse aniversário.
Os colegas não festejariam
com ela. Bom, no fundo não
houvera falta de felicitações.
Em seguida, Hilde teve de
ouvir um longo sermão.
Alberto não parecia ter grandes problemas em pisar o púlpito. Ao ler sobre Sophia,
que se mostrara a Hildegard
em visões, teve de recorrer
novamente à enciclopédia. Mas
não encontrou nem Hildegard
nem Sophia. Era típico.
Quando se tratava de mulheres
ou de alguma coisa relativa a
mulheres, a enciclopédia era
tão omissa como uma cratera da
Lua. Haveria uma comissão de
homens a censurar as enciclopédias?
Hildegard von Bingen tinha
sido pregadora, escritora, médica, botânica e cientista. E
além disso era um "exemplo de
que na Idade Média as mulheres eram frequentemente mais
práticas - e mesmo mais científicas - que os homens".
Mas na enciclopédia não havia
uma única sílaba sobre ela.
Que vergonha!
Hilde nunca ouvira dizer
que Deus também tinha "um
lado feminino", ou uma "natureza maternal". E esse lado
chamava-se Sophia - mas também não valia um grama de tinta para os autores da enciclopédia.
O mais próximo que encontrou foi a igreja Hagia
Sophia em Constantinopla.
"Hagia Sophia" queria dizer
"santa sabedoria". Uma capital e inúmeras rainhas eram
conhecidas por esta "sabedoria", mas na enciclopédia não
vinha nada a dizer que tal sabedoria fosse feminina. Se
aquilo não era censura...
Hilde continuou a ler e
achou que Sofia lhe "aparecia" de facto. Achava poder
ver à sua frente a rapariga de
cabelos negros...
Quando Sofia chegou a
casa, depois de ter passado
quase toda a noite na igreja
de Santa Maria, pôs-se em
frente do espelho de latão que
trouxera da cabana no bosque.

Em contornos nítidos, via o
seu rosto pálido, que os cabelos negros emolduravam, cabelos que apenas serviam para
fazer o penteado "cabelos lisos" naturais. Mas por baixo
ou por detrás deste rosto aparecia o rosto de uma outra
pessoa.
De repente, a rapariga estranha do espelho piscou energicamente os olhos. Parecia
querer avisar que estava, de
facto, do outro lado do espelho. Poucos segundos depois,
desapareceu.

268
Quantas vezes Hilde já tinha estado em frente ao espelho como se procurasse a imagem de outra? Mas como é que
o pai podia saber isso? Não
procurara com os olhos uma rapariga de cabelos negros? A
sua bisavó tinha comprado o
espelho a uma cigana...
Hilde sentiu que as suas
mãos tremiam ao segurar no volumoso "dossier". Estava convencida de que Sofia existia
de facto algures "no outro lado".
Depois, Sofia sonhava com
Hilde e Bjerkely. Hilde não
a conseguia ver nem ouvir, mas
em seguida Sofia encontrou na
doca o crucifixo de ouro de
Hilde. E este crucifixo, com
as iniciais de Hilde - estava na cama de Sofia quando
ela acordou do sonho.
Hilde tinha que reflectir.
Não podia ter perdido também
o seu crucifixo de ouro. Foi
à cómoda e tirou a sua caixa
de jóias. O crucifixo de ouro
- que a avó lhe dera de presente pelo seu baptizado -
tinha desaparecido!
Então tinha mesmo perdido a
jóia! Bom! Mas como é que o
pai podia saber se nem ela reparara nisso?
E mais: Sofia tinha sonhado que o pai de Hilde regressara do Líbano. Mas até lá
faltava uma semana inteira.
Teria Sofia tido um sonho
profético? Pensava o pai que,
quando chegasse a casa, Sofia
também estaria presente? Ele
tinha escrito uma coisa a respeito de ela encontrar uma
nova amiga...
Numa visão clara mas também
extremamente breve, Hilde teve a convicção de que Sofia
era mais do que papel e tinta.
Ela "existia"!

269
O Iluminismo

"... desde a produção de
agulhas até à fundição de canhões..."

Hilde começara com o capítulo sobre o Renascimento,
mas ouviu então a mãe entrar
em casa. Olhou para o relógio. Eram quatro horas.
A mãe subiu as escadas precipitadamente e abriu a porta
com violência.
- Não estiveste na igreja?
- Sim, claro.
- Mas... o que é que tinhas vestido?
- O mesmo que agora.
- A tua camisa de noite?
- Mmm... eu estive na
igreja de Santa Maria.
- Na igreja de Santa
Maria?
- É uma igreja medieval de
pedra.
- Hilde!
Hilde deixou cair o "dossier" nos joelhos e levantou
os olhos para a mãe.
- Eu esqueci-me totalmente
do tempo, mamã. Desculpa, mas
vê se compreendes, estou a ler
uma coisa empolgante.
A mãe não pôde deixar de
sorrir.
- Isto é um livro mágico
- acrescentou Hilde.
- Está bem, pronto. E
mais uma vez: parabéns, Hilde!
- Não sei se consigo suportar mais felicitações.
- Mas eu não... Olha, vou
só descansar um bocadinho e
depois faço um jantar óptimo.
Comprei morangos.
- E eu vou continuar a
ler.
A mãe desapareceu novamente, e Hilde continuou a ler.
Sofia passeava com Hermes
pela cidade. No vão da escada
de Alberto encontrou novamente um postal do Líbano. Também tinha o carimbo de 15 de
Junho.
Só então compreendeu o sistema de todas as datas: os
postais que eram datados de
antes de 15 de Junho eram
"cópias" de postais que

270
Hilde já recebera. Os que
eram datados de 15 de Junho
só os recebia pelo "dossier".

"Querida Hilde: Agora,
Sofia está a entrar na casa
do professor de filosofia. Em
breve fará quinze anos, enquanto o teu aniversário já
foi ontem. Ou será hoje,
Hilde? Se for hoje, já deve
ser muito tarde. Mas os nossos relógios nem sempre andam
a par..."

Hilde leu o que Alberto
contara a Sofia acerca do
Renascimento e da nova ciência, sobre os racionalistas do
século xvii e o empirismo britânico.
Sobressaltou-se várias vezes quando chegavam novos postais e felicitações que o pai
incluíra na história. Fizera-as cair de um livro, fizera-as surgir no interior da
casca de uma banana, e fizera
inclusivamente com que se introduzissem num computador.
Sem o mínimo esforço, conseguia levar Alberto a "ter
lapsos" e a chamar Hilde a
Sofia. Mas o cúmulo de tudo
era ter posto Hermes a dizer:
"Parabéns, Hilde!".
Hilde estava de acordo com
Alberto em que o pai estava a
ir um pouco longe demais ao
comparar-se com Deus e com a
providência divina. Mas com
quem é que ela estava de acordo? O pai colocara estas palavras repreensivas - ou autocríticas - na boca de Alberto! Ela reconheceu que a
comparação com Deus talvez
não fosse tão estúpida. O pai
era para o mundo de Sofia uma
espécie de Deus omnipotente.
Quando Alberto ia falar de
Berkeley, Hilde estava tão
empolgada como Sofia. O que
aconteceria a partir daí? Já
se previa há muito tempo que
algo de extraordinário sucederia quando chegasse a vez deste filósofo, que negara a
existência de um mundo material exterior à consciência
humana, como Hilde já vira na
enciclopédia.
Começava com Alberto e
Sofia à janela a verem o pai
de Hilde enviar um avião com
uma longa faixa com felicitações. Simultaneamente, nuvens
escuras avançavam em direcção
à cidade.
- "Ser ou não ser" não é
toda a questão. A questão é
também "o que" nós somos.
Somos realmente pessoas de
carne e osso? O nosso mundo é
constituído por coisas reais
- ou estamos apenas rodeados
pela consciência?
Não admirava que Sofia começasse a roer as unhas. Hilde nunca tivera esse hábito,
mas também ela estava muito
nervosa.

271
E veio o momento em que
Alberto disse que, para eles,
a vontade ou o espírito que
realizava tudo podia ser o pai
de Hilde.

- Achas que ele se tornou
uma espécie de deus para nós?
- Para ser sincero, sim.
Mas devia ter vergonha!
- E quanto a Hilde?
- Ela é um anjo, Sofia.
- Um anjo?
- É a ela que se dirige
este "espírito".

Depois disso, Sofia correra para a chuva. Mas nunca
podia ter sido o mesmo temporal que se abatera na noite
anterior sobre Bjerkely -
alguns segundos depois de
Sofia ter corrido pela cidade!

"Amanhã faço anos", pensava
ela. E não era extremamente
duro ter de reconhecer, um dia
antes de fazer quinze anos,
que a vida é um sonho? Era
como sonhar ter ganho um milhão e, pouco antes de o grande prémio ser pago, compreender que tudo fora apenas um
sonho.
Sofia correu pelo campo de
jogos molhado. Nessa altura
viu uma pessoa a correr na sua
direcção. Era a mãe. Relâmpagos potentes rasgavam o céu.
A mãe abraçou Sofia.
- O que se passa connosco,
minha filha?
- Não sei - Sofia chorava. - É como um pesadelo.

Hilde sentiu que os olhos
se lhe tinham humedecido. "To
be, or not to be - that is
the question".
Hilde atirou o "dossier"
para os pés da cama e levantou-se de um pulo. Andou de
um lado para o outro no quarto. Por fim, pôs-se em frente
do espelho de latão e ficou
parada, até que a mãe a chamou
para comer. Quando ela bateu
à porta, Hilde não fazia
ideia de há quanto tempo já
estava ali. Mas tinha a certeza, toda a certeza, de que o
reflexo do espelho lhe piscara
ambos os olhos.

Durante a refeição, Hilde
procurou ser uma aniversariante grata. Mas estava sempre a
pensar em Sofia e Alberto.
O que seria deles agora,
que sabiam que o pai de Hilde
determinava tudo? Mas - sabiam-no realmente? Era provavelmente um absurdo acreditar
que soubessem o que quer que
fosse. Era o pai de Hilde
que fazia com que soubessem
alguma coisa. Porém, o problema era
:,

272
sempre o mesmo: quando Sofia
e Alberto conhecessem toda a
verdade, estariam de certo
modo no fim da viagem.
Hilde quase ficara engasgada com um grande bocado de batata na garganta quando se
apercebeu de que a mesma hipótese podia ser válida para o
seu próprio mundo. Os homens
tinham sem dúvida chegado cada
vez mais longe na compreensão
das leis da natureza. Mas poderia a história continuar
quando a filosofia e a ciência
tivessem colocado as últimas
peças do "puzzle" no local
respectivo? Ou a história da
humanidade aproximar-se-ia do
fim? Não haveria uma relação
entre o desenvolvimento do
pensamento e da ciência por um
lado, e realidades como o
efeito de estufa e as florestas tropicais desarborizadas
por outro? Talvez não fosse
estúpido designar o desejo de
conhecimento do homem por
"pecado original".
A questão era tão importante e tão assustadora que Hilde tentou esquecê-la. Além
disso, compreenderia mais se
continuasse a ler o presente
de aniversário do seu pai.
- Minha querida, queres
mais? - disse a mãe, depois
de terem comido gelado com morangos italianos. - Agora
fazemos aquilo que te apetecer.
- Eu sei que parece estranho, mas o que eu gostaria de
fazer era continuar a ler o
presente do papá.
- Não podes deixar que ele
te dê volta ao juízo.
- Não, não.
- Podemos descongelar uma
"pizza" e ver o "Derrick" na
televisão...
- Sim, pode ser.
Hilde lembrou-se de como
Sofia falara com a mãe. O
pai atribuíra certamente à outra mãe algo da sua. Por precaução, decidiu não dizer nada
sobre o coelho branco que é
retirado da cartola do universo, pelo menos não nesse
dia...
- Ah, a propósito - disse, ao levantar-se.
- Sim?
- Não consigo encontrar o
meu crucifixo de ouro.
A mãe olhou para ela com
uma expressão enigmática.
- Encontrei-o há semanas
lá em baixo na doca. Deves
tê-lo deixado lá, minha tonta!
- Contaste isso ao papá?
- Deixa cá ver. Sim, contei...
- E onde está agora?
- Espera.

273
A mãe levantou-se e, pouco
depois, Hilde ouviu um grito
de admiração vindo do quarto.
Depois, a mãe voltou à sala
de estar.
- De momento não o consigo
encontrar.
- Já estava à espera disso.
Hilde deu um beijo à mãe e
correu novamente para a sua
mansarda. Finalmente - agora
podia continuar a ler sobre
Sofia e Alberto. Deitou-se
na cama e apoiou o pesado
"dossier" sobre os joelhos.

Sofia acordou de manhã,
quando a mãe entrou no quarto,
trazendo nas mãos um tabuleiro
cheio de presentes. Tinha
posto uma bandeira numa garrafa de limonada vazia.
- Parabéns, Sofia!
Sofia esfregou os olhos.
Tentou lembrar-se do que
acontecera no dia anterior.
Mas tudo se assemelhava às
peças soltas de um puzzle.
Uma peça era Alberto, outra
Hilde e o major. Uma era
Berkeley, outra Bjerkely. E
a mais escura era o terrível
temporal. Sofia quase ficara
em estado de choque. A mãe
enxugara-a e metera-a na cama
depois de lhe ter levado uma
caneca de leite quente com
mel. Sofia adormecera imediatamente.
- Acho que estou viva -
balbuciou então.
- Claro que estás viva. E
hoje fazes quinze anos.
- Tens a certeza absoluta?
- Tenho a certeza absoluta, sim. Achas que uma mãe
não sabe quando nasceu a única
filha? Foi no dia 15 de
Junho de 1975, às... à uma e
meia. Foi sem dúvida o momento mais feliz da minha vida.
- Tens a certeza de que
tudo isto não é apenas um sonho?
- Seja como for, tem que
ser um bom sonho, se acordas
com pão de passas, limonada e
presentes de aniversário.
Ela pousou o tabuleiro com
os presentes numa cadeira e
saiu do quarto por pouco tempo. Quando voltou, trazia
mais um tabuleiro com pão de
passas e limonada. Pousou-o
aos pés da cama de Sofia.
Seguiu-se uma manhã normal
de aniversário a abrir os presentes, enquanto a mãe lhe
falava das dores de parto há
quinze anos. Da mãe, Sofia
recebeu uma raquete de ténis.
Nunca tinha jogado ténis, mas
havia um campo a dois minutos
de Klõverveien. O pai enviara-lhe um minitelevisor e um
rádio de ondas curtas. O ecrã
não era maior do que uma fotografia normal. Havia ainda
presentes de velhas tias e
amigos da família.
Por fim, a mãe disse:
- Achas que hoje devo tirar folga?
- Não, porquê?

274
- Ontem estavas bastante
transtornada. Se isto continua assim, acho que devemos
marcar uma consulta para um
psicólogo.
- Deixa estar.
- Foi apenas o temporal -
ou esse Alberto também tem
algo a ver com isto?
- E o que é que se passa
contigo? Tu perguntaste passa
connosco, minha filha?".
- Eu estava a pensar no
facto de andares pela cidade
para te encontrares com gente
estranha. Talvez seja culpa
minha...
- Não é "culpa" de ninguém
eu fazer um curso de filosofia
no meu tempo livre. Vai para
o escritório. Tenho de estar
na escola às dez. Hoje entregam as notas, e depois ficamos
livres.
- Já sabes que notas vais
ter?
- Em todo o caso, mais
cincos do que no último semestre.
Pouco depois de a mãe se
ter ido embora, o telefone tocou.
- Sofia Amundsen.
- Daqui fala Alberto.
- Oh...
- Ontem o major não poupou
nas munições.
- Não percebo o que queres
dizer.
- A trovoada, Sofia.
- Não sei em que é que devo acreditar.
- Essa é a primeira virtude de uma verdadeira filósofa.
Estou orgulhoso por teres
aprendido tanto em tão pouco
tempo.
- Tenho medo que nada disto seja real.
- Isso chama-se angústia
existencial, e em geral é apenas uma fase no caminho para
uma nova tomada de consciência.
- Acho que preciso de uma
pausa no curso.
- Há muitas rãs no teu
jardim nesta altura?
Sofia sorriu. Alberto
prosseguiu:
- Eu acho que devemos continuar. A propósito, parabéns! Temos de terminar o
curso até à noite de S.
João. É a nossa última esperança.
- A nossa última esperança
de quê?
- Estás bem sentada? Isto
vai levar o seu tempo, percebes? Ainda te lembras de
Descartes?
- "Penso, logo existo".
- No que diz respeito à
nossa dúvida metódica, estamos
de mãos vazias. Nem sequer
sabemos se pensamos. Talvez
se venha a verificar que nós
"somos" pensamentos, e isso é
completamente diferente de nós
mesmos pensarmos. Pelo menos
temos todo o motivo para supor
que o
:,

275
pai de Hilde nos criou, que
representamos uma espécie de
entretenimento de aniversário
para a Filha do major em
Lillesand. Estás a acompanhar-me?
- Sim...
- Mas também há uma contradição nisso. Se somos inventados, não temos o direito
de supor o que quer que seja.
Nesse caso, toda esta conversa ao telefone é pura ilusão.
- E nós não temos nem um
bocadinho de livre arbítrio.
Nesse caso, o major planeia
tudo o que dizemos ou fazemos.
Assim, podíamos até desligar.
- Não, estás a simplificar
demasiado.
- Explica-te!
- Queres afirmar que as
pessoas planeiam tudo o que
sonham? Pode ser verdade que
o pai de Hilde "saiba" exactamente tudo o que fazemos.
Fugir à sua omnisciência é
tão difícil como fugirmos da
nossa própria sombra. Mas -
e eu comecei a elaborar um
plano - não é claro que o major tenha decidido previamente
tudo o que vai acontecer.
Talvez ele o decida só no último momento - no instante da
criação, portanto. Precisamente nessa altura, pode-se
pensar que temos uma iniciativa própria que determina o que
dizemos e fazemos. Essa iniciativa é muito fraca em comparação com o enorme poder que
o major exerce. Talvez estejamos indefesos em relação a
coisas exteriores importunas
como cães que falam, aviões a
hélice, mensagens em bananas e
trovoadas por encomenda. Mas
não devemos excluir termos a
nossa própria vontade, embora
fraca.
- Mas como é que isso seria possível?
- O major sabe tudo do
nosso pequeno mundo, mas isso
não quer dizer que também seja
omnipotente. Pelo menos, temos de tentar viver como se
ele não o fosse.
- Acho que percebo onde
queres chegar.
- O truque seria conseguirmos fazer alguma coisa sozinhos, em segredo, uma coisa
que o major não conseguisse
descobrir.
- Mas como é que isso é
possível, se não existimos?
- Quem diz que não existimos? A questão não é se existimos, mas "o que" nós somos e
"quem" somos. Mesmo que se
verificasse que somos apenas
impulsos na mente dividida do
major, isso não significa que
não tenhamos nenhuma consciência.
- E também não nos retira
o nosso livre arbítrio?
- Estou a trabalhar no
caso, Sofia.
- Mas o pai de Hilde deve
ter plena consciência de que
tu "estás a trabalhar no caso".
:,

276
- Sem dúvida. Mas ele não
conhece o meu plano. Estou a
tentar encontrar um ponto de
Arquimedes.
- Um ponto de Arquimedes?
- "Arquimedes" era um cientista do período helenístico. Ele afirmou - "Dêem-me
um ponto fixo e eu moverei a
terra". Temos de encontrar um
ponto como esse para sermos
lançados para fora do universo
interior do major.
- Não será fácil.
- Tens razão. E só podemos escapar-nos quando tivermos terminado o curso de filosofia. Até lá, ele controla-nos. É obvio que decidiu
que eu te devo orientar através dos séculos até à nossa
época. Mas só faltam poucos
dias, depois ele senta-se num
avião algures no Médio
Oriente. Se não nos tivermos
libertado da sua pegajosa fantasia antes de ele chegar a
Bjerkely estamos perdidos.
- Estás a assustar-me...
- Em primeiro lugar, tenho
de te contar o indispensável
acerca do Iluminismo francês.
Depois, temos de tratar a filosofia de "Kant" em traços
gerais, antes de podermos falar do Romantismo. E, para
nós, "Hegel" é uma ajuda importante. Ao tratarmos dele,
não podemos ignorar a crítica
indignada de "Kierkegaard" à
filosofia hegeliana. Temos de
falar um pouco sobre "Marx,
Darwin e Freud". Se conseguirmos ainda algumas observações finais sobre "Sartre" e
o Existencialismo, podemos
pôr o nosso plano em prática.
- É muita coisa para uma
semana.
- Por isso temos de começar imediatamente. Podes vir
até cá agora?
- Tenho de ir à escola.
Temos uma pequena festa de
turma, e depois recebemos os
diplomas.
- Esquece a festa! Se somos mera imaginação, então é
pura ilusão que limonada e doces saibam bem.
- Mas o diploma...
- Sofia, ou vives num universo extraordinário de um pequeno planeta numa de centenas
de milhões de galáxias - ou
és apenas um punhado de impulsos electromagnéticos na consciência de um major. E perante esta situação falas-me de
um diploma! Devias ter vergonha!
- Desculpa.
- Mas podes passar pela
escola antes de vires ter comigo. Poderia exercer uma má
influência em Hilde tu faltares ao último dia de aulas.
Ela vai certamente à escola
mesmo no dia de anos, porque é
um anjo.
- Então eu vou logo a seguir à escola.
- Podemos encontrar-nos na
cabana do major.
- Na cabana do major?
- ... clic!

277

"""???

Hilde deixou o "dossier"
cair nos joelhos. O pai tinha
feito com que ela se sentisse
de facto um pouco arrependida
por ter faltado ao último dia
de aulas. Que maroto!
Ficou algum tempo sentada,
tentando imaginar que plano
Alberto iria tramar. Deveria
ver a última página do "dossier"? Não, isso era batota;
devia antes despachar-se a
ler.
Ela estava convencida de
que Alberto tinha razão num
ponto fundamental. Uma coisa
era o seu pai ter uma ideia
geral do que sucedia a Sofia
e a Alberto, mas, enquanto
escrevia, não sabia certamente
tudo o que ia suceder. Talvez
escrevesse a grande velocidade
alguma coisa por descuido, que
só descobrisse muito mais tarde. E era justamente neste
"descuido" que Sofia e Alberto tinham uma certa liberdade.
Mais uma vez, Hilde tinha
quase a nítida sensação de que
Sofia e Alberto existiam
realmente. Mesmo quando o mar
está calmo, isso não significa
que nas profundezas não suceda
alguma coisa, pensou.
Mas porque é que pensava
assim?
Em todo o caso, não era um
pensamento claro.

Na escola, Sofia recebeu
felicitações e foram-lhe cantados os parabéns, como é habitual quando se trata de uma
aniversariante. Talvez recebesse muita atenção porque,
diante dos diplomas e da limonada, todos estavam agitados.
Depois de o professor se
ter despedido dela com votos
de um bom Verão, Sofia correu para casa. Jorunn procurou retê-la, mas Sofia gritou-lhe que tinha de tratar de
uma coisa sem falta.
Na caixa do correio encontrou dois postais do Líbano.
Em ambos estava escrito:
"Happy Birthday - 15
Years". Eram postais de aniversário comprados.
Um dos postais vinha dirigido a "Hilde Mõller Knag,
a/c Sofia Amundsen...". O
outro, pelo contrário, era
mesmo para Sofia. Ambos os
postais tinham o carimbo:
"Contingente da Onu, 15 de
Junho".
Sofia leu primeiro o seu
próprio postal:

"Cara Sofia Amundsen!
Hoje também quero felicitar-te pelo teu aniversário.
Muitos parabéns, Sofia!
Muito obrigado por tudo o que
fizeste até agora por Hilde.

Cumprimentos,

Albert Knag, major"

278

"""""""

Sofia não sabia bem como
havia de reagir ao facto de o
pai de Hilde lhe ter finalmente enviado um postal. De
certo modo, achou isso comovente.
No postal de Hilde estava
escrito:

"Querida Hilde! Não sei
nem que dia é nem que horas
são agora em Lillesand. Mas,
como disse, isso não é muito
importante. Se bem te conheço, não estou muito atrasado
para uma última ou pelo menos
penúltima felicitação. Mas
também não podes levantar-te
muito tarde! O Alberto vai
falar-te dentro em pouco do
pensamento do Iluminismo
francês, concentrando-se em
sete pontos. Esses pontos
são:
1. Revolta contra as autoridades
2. Racionalismo
3. Pensamento do iluminismo
4. Optimismo cultural
5. Regresso à natureza
6. Cristianismo humanista
7. Direitos humanos"

Era evidente que o major os
tinha debaixo de olho.
Sofia abriu a porta de casa
e pôs o diploma com muitos
cincos na mesa da cozinha. Em
seguida, enfiou-se pela sebe e
correu para o bosque.
Novamente, teve de remar no
pequeno lago. Alberto estava
sentado na soleira da porta
quando ela chegou e fez-lhe
sinal para ela se sentar ao
seu lado.
Estava bom tempo, mas do
pequeno lago subia uma corrente de ar fresco e cortante em
direcção a eles. O lago parecia não ter recuperado ainda
do temporal.
- Vamos directamente ao
assunto - começou Alberto.
- Após Hume, o alemão Kant
foi o grande sistemático seguinte. Mas também a França
teve no século XVIII muitos
pensadores importantes. Podemos dizer que, na primeira metade do século XVIII, o centro filosófico da Europa estava em Inglaterra, a meio do
século na França, e cerca do
final do século na Alemanha.
- Uma deslocação de oeste
para leste.
- Exacto. Vou apresentar
resumidamente algumas ideias
que eram comuns a muitos filósofos franceses do Iluminismo, nomes importantes como
"Montesquieu, Voltaire,
Rousseau" e muitos, muitos
outros. Concentrei-me em sete
pontos principais.

279
- Obrigada. Infelizmente,
já sei.
Sofia deu-lhe o postal do
pai de Hilde. Alberto suspirou profundamente.
- Não era preciso isto...
Um primeiro mote é portanto a
revolta contra as autoridades.
Vários filósofos franceses do
Iluminismo tinham visitado
Inglaterra, que em alguns aspectos era mais liberal do que
a sua pátria. A ciência da
natureza inglesa fascinava-os,
sobretudo Newton e a sua física universal. Mas os filósofos ingleses também os inspiravam, sobretudo Locke e a
sua filosofia política. De
volta a França, começaram a
opor-se a pouco e pouco às velhas autoridades. Achavam importante mostrar cepticismo em
relação a todas as verdades
herdadas, e pensavam que o indivíduo tinha de encontrar por
si mesmo a resposta para todas
as perguntas. Neste ponto, a
influência de Descartes era
evidente.
- Porque ele construiu
tudo a partir da base.
- Exacto. A insurreição
contra as velhas autoridades
dirigia-se também contra o poder da Igreja, do rei e da
nobreza. Estas instituições
eram, no século XVIII, muito
mais poderosas em França do
que em Inglaterra.
- E depois veio a Revolução.
- Em 1789, sim. Mas as
novas ideias vieram mais cedo.
A próxima palavra chave é o
"racionalismo".
- Eu julgava que o racionalismo tivesse desaparecido
com Hume.
- Hume só morreu em 1776,
cerca de vinte anos depois da
morte de Montesquieu e apenas
dois anos antes da morte de
Voltaire e Rousseau, em
1778. Talvez te lembres que
Locke não era um empirista
radical. Ele achava, por
exemplo, que a fé em Deus e
certas normas morais eram elementos constituintes da razão
humana. Esse é também o cerne
da filosofia iluminista francesa.
- Também disseste que os
franceses foram sempre um pouco mais racionalistas do que
os britânicos.
- Essa diferença remonta à
Idade Média. Quando os ingleses falam de "common sense", os franceses falam de
"évidence". A expressão inglesa pode ser traduzida por
"senso comum", a francesa por
"evidência".
- Compreendo.
- Tal como os humanistas
da Antiguidade - como Sócrates e os estóicos - a
maior parte dos iluministas
tinham uma fé inabalável na
razão humana. Essa característica era tão marcada que
muitos também designam a época
do Iluminismo francês simplesmente por "racionalismo".
A nova ciência da natureza
tinha mostrado que a natureza
estava organizada racionalmente. Para os filósofos do
Iluminismo, a sua tarefa

280
era criar um fundamento para a
moral, a ética e a religião
que estivesse de acordo com a
razão imutável do homem. E
isso conduziu ao verdadeiro
pensamento do "Iluminismo".
- O nosso terceiro ponto
- Em primeiro lugar, dizia-se, amplos estratos do
povo tinham de ser "iluminados". Isso era a condição absoluta para uma sociedade melhor. Mas o povo era dominado
pela ignorância e pela superstição. Foi, portanto, dada
muita atenção à educação. Não
é por acaso que a pedagogia
como ciência tenha sido fundada na época do Iluminismo.
- Então a noção de escola
provém da Idade Média, e a
pedagogia do Iluminismo.
- Podes dizer isso. O
grande monumento do Iluminismo é uma enciclopédia. Estou
a pensar na "Enciclopédia",
que foi publicada entre 1751
e 1772, em vinte e oito volumes, com contributos de todos
os grandes filósofos iluministas. "Aqui há de tudo", dizia-se, "desde a produção de
agulhas até à fundição de canhões".
- O ponto seguinte é o optimismo cultural.
- Podes pôr de lado esse
postal enquanto eu falo, por
favor?
- Desculpa.
- Só quando razão e saber
fossem difundidos, segundo os
iluministas, é que a humanidade faria grandes progressos.
Era apenas uma questão de
tempo, e o irracionalismo e a
ignorância desapareceriam, e
haveria uma humanidade esclarecida. Esta ideia era dominante na Europa Ocidental
até há algumas décadas. Hoje
já não estamos tão convencidos
de que mais saber leve a condições de vida melhores.
Aliás, esta crítica da "civilização" já tinha sido apresentada pelos filósofos franceses do Iluminismo.
- Nesse caso, talvez devêssemos tê-los ouvido.
- "Regresso à natureza!"
era o lema da crítica da civilização. Mas, por natureza,
os filósofos do Iluminismo
entendiam quase o mesmo que
por razão. Porque a razão é
dada ao homem pela natureza -
ao contrário da Igreja ou da
civilização. Dizia-se que os
"povos primitivos" viviam de
uma forma mais saudável e feliz do que os europeus, justamente porque não tinham civilização. O estribilho "regresso à natureza!" provém de
Jean-Jacques Rousseau. Ele
explicou que a natureza era
boa e por isso o homem também
era bom "por natureza". Todo
o mal residia na sociedade civilizada que afastava o homem
da sua natureza. Por isso,
Rousseau queria também deixar
viver as crianças no seu estado "natural" de inocência tanto tempo quanto possível. Podemos dizer que a ideia de um
valor próprio da infância provém do tempo do Iluminismo.
Antes disso, a infância era
vista sobretudo como preparação para a vida

281
de adulto. Mas nós somos seres humanos e já estamos a viver quando somos crianças.
- É o que eu acho.
- E, finalmente, para os
Iluministas era importante
uma religião "natural".
- O que queriam dizer com
isso?
- A religião também tinha
de ser posta em harmonia com a
"razão natural" dos homens.
Muitos lutavam por aquilo a
que podemos chamar um "cristianismo humanista", e este é
o sexto ponto da lista. Naturalmente, havia também materialistas coerentes que não
acreditavam em Deus e se reconheciam como ateus. Mas a
maior parte dos filósofos iluministas achavam irracional
pensar num mundo sem Deus.
Consideravam que o mundo tinha uma ordem demasiado racional. Também Newton, por
exemplo, defendera o mesmo
ponto de vista. Da mesma forma, a crença na imortalidade
da alma era para eles racional. Tal como para Descartes, para os iluministas, a
questão da imortalidade da
alma humana era mais uma questão de razão do que uma questão de fé.
- É justamente isso que me
admira um pouco. Para mim,
isso é um exemplo típico daquilo em que se pode acreditar, mas não saber.
- Tu não vives no século
XVIII. Os iluministas queriam libertar o cristianismo
dos dogmas irracionais que, no
decorrer da história da Igreja, tinham sido enxertados na
mensagem simples de Jesus.
- Então entendo-os.
- Muitos professavam o
chamado "deísmo".
- Explica-te!
- Por "deísmo" entendemos
uma concepção segundo a qual
Deus criou o mundo há muito
tempo, mas não se revela ao
mundo desde então. Deste
modo, Deus é o Ser supremo
que se dá a conhecer aos homens apenas por meio da natureza e das suas leis - mas
que não se revela de modo sobrenatural. Este "Deus filosófico" já nos aparecia em
Aristóteles. Para ele, Deus
era a primeira causa ou o primeiro motor do universo.
- Agora, já só nos resta
um ponto, os "direitos humanos".
- Mas, em compensação, esse é talvez o mais importante.
Podes dizer de um modo geral
que a filosofia iluminista
francesa tinha uma orientação
mais prática do que a inglesa.
- Tiraram as consequências
da sua filosofia e agiram de
forma coerente com ela?
- Sim, os filósofos franceses do Iluminismo não se
contentaram com concepções teóricas sobre o lugar do homem
na sociedade. Lutavam activamente por aquilo a que chamavam os "direitos naturais" dos

282
cidadãos. Tratava-se sobretudo da luta contra a censura -
ou seja, pela liberdade de imprensa. Em relação à religião, moral e política tinha
de se assegurar ao indivíduo o
direito de pensar livremente e
de exprimir livremente as suas
ideias. Além disso, lutou-se
contra a escravatura, e por um
tratamento mais humano dos
criminosos.
- Acho que estou de acordo
com quase tudo.
- O princípio da "inviolabilidade do indivíduo" culminou finalmente na "Declaração
dos Direitos do Homem e do
Cidadão", que foi adoptada em
1789 pela Assembleia Nacional Francesa. Esta Declaração dos Direitos Humanos foi
uma base importante para a
nossa Constituição Norueguesa de 1814.
- Mas ainda há muitos homens que têm de lutar por esses direitos.
- Sim, infelizmente. Mas
os filósofos iluministas queriam estabelecer determinadas
leis a que todos os homens tinham direito simplesmente por
serem homens. Era o que entendiam por direitos "naturais". Falamos ainda hoje de
"direito natural", que pode
estar em contradição com as
leis oficiais de qualquer
país. Ainda vemos indivíduos
- ou populações inteiras -
que reivindicam a escravatura
e a opressão para estes "direitos naturais", quando se
defendem contra a anarquia.
- E o que é que se passava
com os direitos das mulheres?
- A Revolução de 1789
estabeleceu uma série de direitos que deviam valer para
todos os cidadãos. Mas, no
fundo, só os homens eram considerados cidadãos. Porém,
justamente durante a Revolução Francesa, vemos os primeiros exemplos de um movimento feminista.
- E não era sem tempo.
- Já em 1787, o filósofo
iluminista Condorcet publicou
um tratado sobre os direitos
da mulher. Nele concedia às
mulheres os mesmo direitos naturais que aos homens. Durante a Revolução de 1789, as
mulheres participaram activamente na luta contra a aristocracia. Por exemplo, foram as
mulheres que dirigiram as manifestações que obrigaram o
rei a abandonar o seu palácio
em Versalhes. Em Paris,
formaram-se diversos grupos de
mulheres. Além dos mesmos direitos políticos que os homens, as mulheres exigiam também novas leis do matrimónio e
outras condições de vida.
- Obtiveram esses direitos?
- Não. Como veio a suceder tantas vezes mais tarde, a
questão dos direitos das mulheres foi levantada com uma
revolução. Mas logo que tudo
voltou a acalmar com um novo
regime, o velho domínio dos
homens foi restabelecido.
- É típico.

283
- Uma das mulheres que
mais lutou pelos direitos das
mulheres durante a Revolução
Francesa foi Olympe de Gouges. Em 1791 - ou seja,
dois anos após a Revolução -
publicou uma declaração dos
direitos das mulheres. A declaração dos direitos dos cidadãos não dedicara propriamente muitos parágrafos aos
direitos naturais das mulheres. Olympe de Gouges exigia
para as mulheres exactamente
os mesmo direitos que para os
homens.
- E qual foi o resultado?
- Foi decapitada. As mulheres foram proibidas de ter
qualquer actividade política.
- Que horror!
- Só no século XIX é que
o feminismo começou verdadeiramente - na França e por
toda a Europa. E, muito lentamente, essa luta começou
também a produzir frutos. Mas
na Noruega, por exemplo, as
mulheres só obtiveram o direito de voto em 1913. E em
muitos países, as mulheres lutam ainda pela igualdade de
direitos.
- Podem contar com o meu
apoio.
Alberto olhou para o pequeno lago. Passado um pouco,
disse:
- Acho que era tudo o que
eu tinha a dizer sobre a filosofia do Iluminismo.
- O que queres dizer com
"acho"?
- Não me parece que haja
mais alguma coisa.
Enquanto ele dizia isto,
algo sucedeu subitamente no
meio do lago. A água borbulhava vinda do fundo. E, em
seguida, uma criatura enorme e
monstruosa ergueu-se acima da
superfície da água.
- Uma serpente marinha! -
exclamou Sofia.
O escuro monstro contorceu-se várias vezes para a
frente e para trás, depois
mergulhou de novo. E o lago
ficou tão calmo como anteriormente.
Alberto desviara a vista.
- Vamos entrar - disse.
Levantaram-se e entraram na
cabana.
Sofia parou em frente às
imagens de Berkeley e Bjerkely. Apontou para o quadro
de Bjerkely e afirmou:
- Acho que Hilde mora algures nesta imagem.
Entre as imagens estava
agora pendurado um bordado
onde se lia: Liberdade,
Igualdade, Fraternidade.
Sofia voltou-se para Alberto.
- Foste tu que penduraste
isto aqui?
Ele abanou a cabeça com uma
expressão triste.

284
Sofia encontrou então um
envelope na consola da lareira. "Para Hilde e Sofia",
estava escrito. Sofia compreendeu imediatamente quem era o
remetente. Abriu o envelope e
leu alto:

"Minhas queridas Hilde e
Sofia! O professor de filosofia da Sofia devia ter ainda sublinhado como a filosofia
francesa do Iluminismo foi
importante para os ideais e
princípios sobre os quais assenta a ONU. Há duzentos
anos, o slogan "Liberdade,
Igualdade, Fraternidade"
ajudou a unir a nação francesa. Hoje, estas palavras têm
de unir todo o mundo. A humanidade é hoje uma grande família como nunca foi antes. Os
nossos descendentes são os
nossos filhos e netos. Que
tipo de mundo herdam de nós?"

A mãe de Hilde chamou-a,
porque "Derrick" começava
dentro de dez minutos e ela
pusera a "pizza" no forno.
Hilde sentia-se esgotada por
ter lido tanto. Já estava a
pé desde as seis horas.
Decidiu passar o resto da
tarde a festejar o aniversário
com a mãe. Mas, antes de tudo, tinha de consultar a enciclopédia.
Gouges... não. De Gouges?
Também não. Talvez Olympe
de Gouges? Não havia nada!
A enciclopédia não escrevera
uma única palavra sobre a mulher que fora decapitada devido à actividade política a favor das mulheres. Não era escandaloso?
Seria apenas uma invenção
do pai de Hilde?
Hilde correu para o piso
térreo para consultar a enciclopédia maior.
- Tenho de ver uma coisa
rapidamente - explicou à mãe,
que a olhava estupefacta.
Retirou o volume de Forv a
Gp e correu de novo para o
quarto com ele.
Gouges... lá estava!

"Gouges", Marie Olympe
(1748-93), escritora francesa, teve um papel importante
durante a Revolução francesa,
através de numerosos opúsculos
sobre questões sociais e uma
série de peças de teatro. Defendeu a opinião de que os direitos humanos também deviam
ser válidos para as mulheres e
publicou em 1791 "A Declaração dos Direitos das Mulheres". Decapitada em 1793
por ter ousado defender Luís
XVI e criticado Robespierre. (Lit: L. Lacour: "Les
Origines du féminisme contemporain", 1900).

285

Kant
.. "o céu estrelado acima de
mim e a lei moral dentro de
mim"...

O major Albert Knag só
telefonou para casa por volta
da meia noite, para dar os parabéns a Hilde.
A mãe de Hilde atendeu o
telefone.
- Para ti, Hilde.
- Está?
- Aqui é o pai.
- Diz - Já é quase meia-noite!
- Eu só te queria dar os
parabéns...
- Tens feito isso todo o
dia.
.. mas eu queria telefonar
só quando o dia já tivesse
passado.
- Porquê?
- Não recebeste o "presente"?
- Ah, isso! Sim, muito
obrigada!
- Não me aflijas. O que
dizes?
- É fantástico. Não comi
nada quase todo o dia.
- Tens de comer.
- Mas é tão excitante.
- Até onde já chegaste?
- Eles foram para dentro
de casa porque tu brincavas
com uma serpente marinha...
- O Iluminismo.
- E Olympe de Gouges.
- Então não me enganei.
- O que queres dizer com
isso?
- Acho que só falta uma
felicitação. Mas essa tem música, em compensação.
- Eu vou continuar a ler
até adormecer.
- Então estás a compreender?

286
- Hoje aprendi mais coisas
do que... em toda a minha
vida. É inacreditável que não
tenha passado um único dia
desde que Sofia chegou a casa
e encontrou a primeira carta.
- É estranho o pouco tempo
que é necessário...
- Mas eu tenho alguma pena
dela.
- De quem?
- Da Sofia, obviamente.
- Ah...
- Ela está completamente
confusa, a pobrezinha.
- Mas ela é apenas... quero dizer...
- Queres dizer que foste
tu que a criaste.
- Sim, mais ou menos isso.
- Eu acho que a Sofia e o
Alberto existem.
- Falaremos sobre isso
quando eu voltar para casa.
- Sim.
- E desejo-te uma boa noite.
- O que disseste?
- Boa noite!
- Boa noite!
Quando Hilde foi para a
cama, meia hora mais tarde, lá
fora havia ainda tanta claridade que podia ver o jardim e
a enseada. Nessa estação do
ano, não escurecia.
Divertia-a a ideia do que
seria viver num quadro pendurado na parede de uma pequena
cabana no bosque. Poderia
sair da imagem e observar o
que havia cá fora?
Antes de adormecer, leu
mais algumas páginas do grande
"dossier".

Sofia voltou a pôr a carta
do pai de Hilde na consola da
lareira.
- O que ele diz sobre a
ONU pode ser importante -
afirmou Alberto - mas não
gosto que ele interfira na minha exposição.
- Acho que não devias preocupar-te tanto com isso.
- A partir de agora, não
vou dar atenção a qualquer fenómeno extraordinário como
serpentes marinhas e coisas
semelhantes. Vamo-nos sentar
à janela, e eu falo-te sobre
Kant.
Sofia reparou num par de
óculos que estava numa pequena
mesa entre duas poltronas.
Também reparou que as lentes
eram vermelhas. Seriam óculos
de sol fortes?
- São quase duas - disse
ela. - Tenho de estar em
casa o mais tardar às cinco.
A minha mãe tem provavelmente
planos para o meu dia de anos.

287
- Então temos três horas.
- Começa.
- Immanuel Kant nasceu em
1724 em Kõnigsberg, uma cidade da Prússia Oriental, e
era filho de um seleiro.
Passou aí quase toda a sua
vida até morrer com a idade de
oitenta anos. Vinha de uma
família extremamente cristã.
A sua fé cristã foi uma base
importante para a sua filosofia. Tal como Berkeley, também ele queria salvar as bases
da fé cristã.
- Eu sei o bastante sobre
Berkeley, obrigada.
- Kant foi também o primeiro dos filósofos que tratámos que leccionava filosofia
numa universidade. Era professor de filosofia.
- Professor?
- A palavra "filósofo" é
usada hoje em dois sentidos
diferentes. Por filósofo, entendemos primeiro que tudo uma
pessoa que procura encontrar
as suas próprias respostas
para as questões filosóficas.
Mas um filósofo pode também
ser um conhecedor da história
da filosofia, sem desenvolver
necessariamente uma filosofia
própria.
- E Kant era um conhecedor?
- Era ambas as coisas. Se
ele tivesse sido apenas um
professor brilhante - ou
seja, um conhecedor das ideias
dos outros - nunca teria tido
um lugar tão importante na
história da filosofia. Mas
também é importante o facto de
Kant ter conhecido realmente
a tradição filosófica como nenhum outro. Ele estava tão
familiarizado com racionalistas como Descartes e Espinosa como com empiristas como
Locke, Berkeley e Hume.
- Já te disse que parasses
de falar de Berkeley.
- Sabemos que os racionalistas consideravam que o fundamento de todo o conhecimento
humano residia na razão. E
sabemos ainda que os empiristas achavam que todo o conhecimento sobre o mundo provinha
da experiência sensível. Hume
tinha apontado para o facto de
existirem claros limites no
que diz respeito às conclusões
a que podemos chegar com a
ajuda das nossas impressões
sensíveis.
- E com quem é que Kant
estava de acordo?
- Ele achava que todos tinham de certa forma razão, mas
também que todos estavam parcialmente errados. A questão
que os preocupava era aquilo
que podemos saber sobre o mundo. Esse foi o projecto filosófico comum a todos os filósofos depois de Descartes.
Estavam em debate duas possibilidades: o mundo é exactamente como o percepcionamos -
ou como a nossa razão o representa?
- E o que achava Kant?
- Kant achava que tanto as
sensações como a razão tinham
um papel importante no nosso
conhecimento do mundo. Ele
defendia que os racionalistas

288
davam demasiada importância à
razão e que os empiristas defendiam de forma parcial a experiência sensível.
- Se não me deres imediatamente um bom exemplo, fica
tudo no ar.
- Kant está de acordo com
Hume e com os empiristas ao
defender que devemos todos os
nossos conhecimentos às sensações. Mas - e nisto concorda
com os racionalistas - na
nossa razão também há condições importantes para o modo
como compreendemos o mundo à
nossa volta. Por conseguinte,
há certas condições em nós
mesmos que contribuem para a
nossa concepção do mundo.
- E isso é que é um exemplo?
- Vamos antes fazer uma
pequena experiência. Podes
trazer os óculos daquela mesa?
Isso. Agora, põe-os.
Sofia pôs os óculos. Tudo
o que estava à sua volta se
tornou vermelho. As cores
claras ficaram vermelho claro,
as escuras vermelho escuro.
- O que é que vês?
- Vejo exactamente o mesmo
que antes, mas agora é tudo
vermelho.
- Isso deve-se ao facto de
as lentes determinarem o modo
como vês a realidade. Tudo o
que vês é uma parte de um mundo exterior a ti mesma; mas o
modo como a vês está relacionado com as lentes. Não podes
dizer que o mundo é vermelho,
mesmo que te pareça vermelho.
- Não, claro que não...
- Se tu andasses agora
pelo bosque - ou se estivesses em casa na Curva do
Capitão -, verias tudo aquilo que sempre viste. Mas tudo
o que visses seria vermelho.
- Desde que eu não tirasse
os óculos, sim.
- Os óculos são a condição
do modo como vês o mundo. E
do mesmo modo, segundo Kant,
também existem condições na
nossa razão que influenciam
todas as nossas experiências.
- De que condições é que
estamos a falar?
- Tudo o que vemos, é visto primeiro como fenómeno no
tempo e no espaço. Segundo
Kant, o tempo e o espaço eram
as duas "formas da intuição"
do homem. E ele sublinha que
estas duas formas na nossa
consciência são anteriores a
qualquer experiência. Isso
significa que podemos saber,
antes de percepcionarmos alguma coisa, que a vamos ver como
fenómeno no tempo e no espaço.
Não conseguimos, por assim
dizer, tirar os óculos da razão.
- Então ele considerava
que compreender as coisas no
tempo e no espaço era uma propriedade inata em nós.
- De certo modo, sim. O
que vemos depende ainda de
termos crescido na Índia ou
na Gronelândia. Mas em toda
a parte a nossa experiência do

289
mundo é de uma coisa no tempo
e no espaço, e sabemo-lo antecipadamente.
- Mas o tempo e o espaço
não existem fora de nós?
- Não. Kant explica que o
tempo e o espaço pertencem à
própria condição humana. Tempo e espaço são sobretudo
propriedades da nossa consciência e não propriedades do
mundo.
- Isso é um modo de ver
completamente diferente.
- A consciência do homem
não é, portanto, uma "cera"
passiva que apenas regista as
sensações exteriores. É uma
instância que se exerce criativamente. A própria consciência contribui para determinar a nossa concepção do
mundo. Podes comparar com o
que se passa quando deitas
água num jarro de vidro. A
água toma a forma do jarro.
Do mesmo modo, as nossas sensações ajustam-se às nossas
"formas da intuição".
- Acho que percebo o que
queres dizer.
- Kant afirma que não é
apenas a consciência que se
adapta às coisas. As coisas
também se adaptam à consciência. O próprio Kant chamava
a isto a "revolução copernicana" na questão do conhecimento
humano. Com isso, queria dizer que esta ideia é tão nova
e diferente em relação à tradição como a afirmação de Copérnico de que a terra gira à
volta do sol e não o inverso.
- Agora entendo o que ele
queria dizer ao afirmar que
tanto os racionalistas como os
empiristas tinham uma parte da
razão. Os racionalistas tinham esquecido a importância
da experiência, e os empiristas não queriam admitir que a
nossa razão influencia a nossa
concepção do mundo.
- Também a lei da causalidade - que, segundo Hume, os
homens não podiam percepcionar
- é para Kant um elemento da
razão humana.
- Explica-me isso!
- Ainda te lembras que
Hume afirmou que apenas vemos
um nexo causal necessário por
detrás de todos os fenómenos
da natureza devido ao hábito.
Hume achava que não podemos
ver que a bola de bilhar preta
é causa do movimento da bola
branca. Por isso, também não
podemos provar que a bola preta provoque sempre o movimento
da bola branca.
- Ainda me lembro disso.
- Mas justamente aquilo
que segundo Hume não podemos
provar é visto por Kant como
uma propriedade da razão humana. A lei da causalidade é
sempre e absolutamente válida
pelo facto de a razão humana
ver tudo o que acontece como
relação entre causa e efeito.

290
- De novo, eu diria que a
lei da causalidade está na natureza e não no homem.
- Kant diz que está em
nós. Ele está de acordo com
Hume em não podermos saber
com segurança o que o mundo é
"em si". Apenas podemos saber
como o mundo é "para mim" -
logo, para todos os homens. A
distinção que Kant faz entre
as "coisas em si" e as "coisas
para nós" é o seu contributo
mais importante para a filosofia. Nunca podemos saber com
segurança como as coisas são
"em si". Em compensação, podemos, sem qualquer experiência, dizer como as coisas são
compreendidas pela razão humana.
- E é mesmo assim?
- Antes de saíres de casa
de manhã, não podes saber o
que vais ver nesse dia. Mas
podes saber que apreenderás
como fenómenos no tempo e no
espaço tudo aquilo que vires.
Além disso, podes ter a certeza de que a lei da causalidade é válida porque faz parte
da tua consciência.
- Mas também podíamos ter
outra estrutura?
- Sim, podíamos ter uma
outra estrutura sensível. E,
nesse caso, podíamos ter também uma outra percepção do
tempo e do espaço, ou ser
constituídos de tal modo que
não procurássemos as causas
dos fenómenos.
- Podes dar um exemplo?
- Imagina um gato que está
deitado no chão da sala.
Imagina que uma bola rola
para dentro do quarto. O que
faz o gato nessa altura?
- Eu já experimentei isso
várias vezes. O gato vai a
correr atrás da bola.
- Sim. E agora imagina
que tu estás na sala em vez do
gato. Se vês de repente uma
bola que vem a rolar, também
corres imediatamente atrás
dela?
- Em primeiro lugar, volto-me para ver de onde vem a
bola.
- Sim, por seres um ser
humano, procurarás forçosamente a causa de cada acontecimento. A lei da causalidade
faz parte do que te constitui.
- E é de facto assim?
- Hume diria que não podemos sentir nem provar as leis
da natureza, mas Kant não se
conformava com isso. Acreditava poder provar a validade
absoluta das leis da natureza
ao mostrar que na realidade
estamos a falar de leis do conhecimento humano.
- Uma criança pequena também voltaria a cabeça para saber quem tinha tocado na bola?
- Talvez não. Mas Kant
afirma que a razão não está
completamente desenvolvida
numa criança porque ainda não
pôde trabalhar com material

291
sensível. Por um lado, temos
as condições exteriores, das
quais nada podemos saber antes
de as termos percepcionado.
Podemos dizer que são a matéria do conhecimento. Por outro lado, temos as condições
interiores no próprio homem -
por exemplo, vermos tudo como
fenómenos no tempo e no espaço
e também como processos que
seguem uma lei causal imutável. Podemos dizer que isso é
a forma do conhecimento.
Alberto e Sofia ficaram um
tempo parados olhando pela janela. De repente, Sofia viu
surgir uma rapariga por entre
as árvores, na outra margem do
lago.
- Olha! - disse Sofia.
- Quem é?
- Não faço ideia.
Viram a rapariga durante
mais alguns segundos, mas depois desapareceu. Sofia reparara que ela trazia um chapéu
vermelho.
- De qualquer modo, não
nos podemos distrair.
- Continua.
- Kant também apontou para
o facto de existirem claros
limites para o que os homens
podem conhecer. Podes dizer
que os óculos da razoo nos impõem limites.
- Como assim?
- Talvez ainda recordes
quais foram as verdadeiras
"grandes" questões filosóficas
dos filósofos anteriores a
Kant: se o homem possui uma
alma imortal; se Deus existe;
se a natureza é constituída
por partes indivisíveis; e se
o universo é finito ou infinito.
- Sim.
- Kant achava que o homem
nunca poderia atingir um conhecimento seguro destas questões. Isso não quer dizer que
não se preocupasse com estes
problemas. Muito pelo contrário. Se ele tivesse simplesmente rejeitado estas perguntas, dificilmente lhe poderíamos chamar filósofo.
- E então o que é que ele
fez?
- Tens de ter um pouco de
paciência. Kant achava que
nestas grandes questões filosóficas, a razão operava fora
dos limites daquilo que o homem pode conhecer. Por outro
lado, era inerente à natureza
humana, ou à razão humana, a
necessidade de colocar essas
questões. Quando, por exemplo, perguntamos se o universo
é finito ou infinito, perguntamos sobre um todo do qual
nós mesmos somos uma parte extremamente pequena. E nunca
podemos conhecer este todo
completamente.
- Porque não?
- Quando puseste os óculos
vermelhos, nós sabíamos que,
segundo Kant, há dois elementos que contribuem para o nosso conhecimento.
- Experiência sensível e
razão.

292
- Sim, recolhemos a matéria para o nosso conhecimento
através dos sentidos, mas esta
matéria também se ajusta às
características da nossa razão. Por exemplo, é inerente
à nossa razão perguntarmos
quais as causas de um fenómeno.
- Por exemplo, porque é
que uma bola rola pelo chão.
- Sim. Mas quando nos
questionamos sobre de onde vem
o mundo - e discutimos respostas possíveis -, a razão
move-se de certo modo no vazio. Nessa altura, não pode
"trabalhar" nenhuma matéria
dos sentidos; não tem experiências às quais se possa agarrar, porque nunca tivemos experiência da realidade total
da qual somos uma pequena parte.
- É como se fôssemos uma
ínfima parte da bola que rola
pelo chão. E por isso não podemos saber de onde vem.
- Mas reside na razão humana a necessidade de perguntar de onde vem esta bola.
Por isso, perguntamos constantemente e esforçamo-nos
para encontrar respostas às
grandes questões. Mas como
não temos matéria concreta com
que possamos trabalhar, nunca
obtemos respostas seguras porque a razão discorre no vazio.
- Obrigada, conheço bem
essa sensação.
- Nas grandes questões,
que dizem respeito à realidade
no todo, haverá sempre dois
pontos de vista exactamente
opostos, igualmente prováveis
e improváveis.
- Dá-me exemplos, por favor.
- Faz tanto sentido dizer
que o mundo tem um começo no
tempo como dizer que não tem
começo. A razão não pode decidir entre as duas possibilidades; por isso não pode afirmá-las. Podemos naturalmente
afirmar que o mundo existiu
sempre - mas pode alguma coisa ter existido sempre sem ter
tido começo algum? E consideremos o ponto de vista oposto,
dizendo que o mundo tem de ter
um início - nesse caso, o
mundo tem de ter surgido do
nada, porque de outro modo
apenas poderíamos falar de uma
passagem de um estado para outro. Pode alguma coisa vir do
nada, Sofia?
- Não, ambas as possibilidades são problemáticas. Mas
uma tem de ser verdadeira e a
outra falsa.
- E sabes que Demócrito e
os materialistas tinham explicado que a natureza era constituída por partículas minúsculas, de que tudo é composto.
Outros - por exemplo, Descartes - defendiam que a
realidade extensa era divisível em partes cada vez mais
pequenas. Qual deles tinha
razão?
- Ambos... nenhum.
- Muitos filósofos tinham
também afirmado que a liberdade do homem era um dos seus
mais importantes atributos.
Ao mesmo tempo,

293
deparámos com filósofos - por
exemplo, os estóicos e Espinosa -, que explicavam que
tudo no mundo acontecia apenas segundo as leis necessárias da natureza. Também neste ponto, Kant achava que a
razão não podia pronunciar um
juízo seguro.
- Ambos os pontos de vista
são plausíveis.
- E, por fim, também não
podemos provar com a nossa razão a existência de Deus.
Nesta questão, os racionalistas - por exemplo, Descartes
- tinham tentado provar que
Deus existe porque temos a
ideia de um ser perfeito.
Outros - por exemplo, Aristóteles e S. Tomás de Aquino - eram da opinião que
Deus tinha de existir porque
tudo tem de ter uma primeira
causa.
- E o que é que Kant pensava?
- Ele rejeitou ambas as
provas da existência de Deus.
Nem a razão nem a experiência
têm um fundamento seguro para
afirmarem que Deus existe.
Para a razão é tão provável
como improvável que Deus
exista.
- Mas tu disseste primeiro
que Kant queria defender as
bases da fé cristã.
- Sim, e ele deixa de facto espaço para a religião, a
saber, onde a nossa experiência e a nossa razão não alcançam, a religião pode preencher
este espaço.
- E foi assim que ele salvou o Cristianismo?
- Podes dizer isso. Mas
temos de ter em conta que
Kant era protestante. Desde
a Reforma, o ênfase na fé foi
uma das características do
Cristianismo protestante. A
Igreja Católica, pelo contrário, confiara mais na razão
como um pilar da fé, desde o
início da Idade Média.
- Estou a ver.
- Mas Kant fez mais do
que verificar que estas questões importantes tinham de ser
deixadas no domínio da fé.
Para ele, a suposição de que
o homem tem uma "alma imortal", que Deus existe e que o
homem tem "livre arbítrio" era
uma condição imprescindível
para a moral.
- É quase como em
Descartes. Primeiro, é muito
crítico em relação àquilo que
podemos compreender. E depois
faz entrar novamente Deus e o
resto pela porta traseira.
- Mas, ao contrário de
Descartes, Kant sublinha expressamente que não foi a razão que o levou até aí, mas a
fé. Ele mesmo afirmava que a
crença numa alma imortal e inclusivamente a crença na existência de Deus e no livre arbítrio do homem eram "postulados práticos".
- O que significa isso?
- Postular significa afirmar uma coisa que não pode ser
provada. Por postulado prático, Kant entende algo que tem
de ser afirmado para a "praxis" do homem, ou seja, para a
sua acção e por conseguinte
para a

294
sua moral. "É moralmente necessário pressupor a existência de Deus" afirmou.

Subitamente, alguém bateu à
porta. Sofia levantou-se imediatamente, e como Alberto
ficasse sentado impassível,
disse:
- Não devíamos abrir a
porta?
Alberto encolheu os ombros,
mas acabou por se levantar
também. Sofia abriu a porta,
e lá fora estava uma rapariga
novinha com um vestido branco
de Verão e um pequeno capuz
vermelho. Era a mesma que
Sofia vira na outra margem do
lago. Reparou que trazia um
cesto com comida.
- Olá - disse Sofia. -
Quem és tu?
- O Capuchinho Vermelho,
não vês?
Sofia olhou para Alberto e
este acenou afirmativamente.
- Estou à procura da casa
da minha avó - explicou a pequena. Ela está velha e doente, mas eu levo-lhe comida e
vinho.
- Não é aqui - disse
Alberto. - Portanto, segue
o teu caminho.
Ao dizer isto, fez um gesto
com a mão como se estivesse a
enxotar uma mosca.
- Mas eu também tenho de
entregar uma carta - explicou
a rapariga do capuz vermelho.
Tirou um pequeno envelope
da algibeira e entregou-o a
Sofia. Feito isto, retomou o
seu caminho.
- Tem cuidado com o lobo!
- exclamou Sofia.
Alberto já ia novamente a
caminho da sua poltrona. Sofia seguiu-o e sentou-se à sua
frente como anteriormente.
- O Capuchinho Vermelho,
imagina - disse Sofia abanando a cabeça.
- E não faz sentido avisá-la. Ela vai para casa da
avó e lá será comida pelo lobo. Não aprende nada; tudo se
repete para toda a eternidade.
- Mas eu nunca ouvi dizer
que ela tivesse batido à porta
de outra cabana quando ia ter
com a avó.
- Isso é uma ninharia,
Sofia.
Só então olhou Sofia para
o envelope. Nele estava escrito: "Para Hilde". Abriu
o envelope e leu alto:

"Querida Hilde! Mesmo que
o cérebro humano fosse tão
simples que nós o pudéssemos
compreender, seríamos mesmo
assim tão estúpidos que não o
compreenderíamos.

Um beijo do pai"

295
Alberto acenou afirmativamente.
- Tem toda a razão. E eu
acho que Kant poderia ter
dito uma coisa semelhante.
Não podemos esperar compreender o que somos. Talvez possamos compreender realmente
uma flor ou um insecto, mas
nunca nós mesmos. E muito menos podemos esperar compreender todo o universo.
Sofia teve de ler a estranha frase várias vezes antes
de Alberto prosseguir:
- Não nos podemos deixar
distrair por serpentes marinhas e artifícios semelhantes.
Antes de terminarmos por
hoje, ainda te vou falar da
ética de Kant.
- Então despacha-te, tenho
de ir para casa.
- O cepticismo de Hume em
relação ao que a razão e os
sentidos nos podem transmitir
realmente obrigou Kant a reflectir mais uma vez sobre
muitas das mais importantes
questões da vida. Isso também
era válido para o campo da moral.
- Hume não disse que não
podemos provar o que é justo e
o que é injusto, porque não
podemos concluir frases normativas de frases descritivas?
- Hume considerava que nem
a nossa razão nem as nossas
experiências estabelecem a diferença entre o justo e o injusto, só os nossos sentimentos. Este fundamento parece a
Kant demasiado fraco.
- Sim, eu compreendo bem
isso.
- Kant tinha desde o princípio a forte impressão de que
a diferença entre o justo e o
injusto tinha de ser mais do
que uma questão de sentimentos. Nesse aspecto ele estava
de acordo com os racionalistas, que tinham explicado que
era inerente à razão humana
distinguir o justo do injusto.
Todos os homens sabem o que é
justo e o que não é, e nós sabemo-lo não apenas porque o
aprendemos mas também porque é
inerente à nossa razão. Kant
achava que todos os homens tinham uma "razão prática" que
nos diz sempre o que é justo e
o que é injusto no domínio da
moral.
- Então é inata?
- A capacidade de distinguir o justo do injusto é tão
inata como todos os outros
atributos da razão. Todos os
homens vêem os fenómenos como
determinados causalmente - e
também têm acesso à mesma lei
moral universal. Esta lei moral tem a mesma validade absoluta que as leis físicas da
natureza. Isso é tão fundamental para a nossa vida moral
como é fundamental para a nossa vida racional que tudo tenha uma causa, ou que sete
mais cinco sejam doze.
- E o que é que diz essa
lei moral?

296
- Uma vez que precede
qualquer experiência, é "formal". Significa que não está
relacionada com possibilidades
morais de escolha determinadas. É válida para todos os
homens em todas as sociedades
e em todos os tempos. Logo,
não diz que tens de fazer isto
ou aquilo nesta ou naquela situação. Diz como te deves
comportar em todas as situações.
- Mas que sentido tem uma
lei moral, se não nos diz como
nos devemos comportar numa situação determinada?
- Kant formula a lei moral
como imperativo categórico.
Por isto, ele entende que a
lei moral é "categórica", quer
dizer, é válida em todas as
situações. Além disso, é um
"imperativo" e consequentemente uma "ordem" e absolutamente
inevitável.
- Hm...
- Aliás, Kant formula o
seu imperativo categórico de
diversas formas. Primeiro,
diz: "devíamos agir sempre de
tal forma que pudéssemos desejar simultaneamente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei universal".
- Quando faço alguma coisa, tenho de ter a certeza de
que desejo que todos façam o
mesmo na mesma situação.
- Exacto. Só nessa altura
ages de acordo com a tua lei
moral interior. Kant também
formulou o imperativo categórico da seguinte forma: devemos tratar os outros homens
sempre como um fim em si e não
como um meio para alguma outra
coisa.
- Não podemos portanto
"explorar" os outros para obtermos benefícios.
- Não, porque todos os homens são um fim em si. Mas
isso não é válido apenas para
os outros, mas também para nós
mesmos. Também não nos devemos explorar como meio para
alcançar algo.
- Isso faz-me lembrar a
"regra dourada": não faças aos
outros o que não queres que te
façam a ti.
- Sim, e isso é uma norma
formal que abrange basicamente
todas as possibilidades éticas
de escolha. Podes afirmar que
essa regra dourada exprime
aproximadamente aquilo a que
Kant chamou lei moral.
- Mas isso é apenas conversa. Hume tinha razão ao
dizer que não podemos provar
com a razão o que é justo e o
que é injusto.
- Para Kant, a lei moral
era tão absoluta e universalmente válida como, por exemplo, a lei da causalidade.
Também não pode ser provada
pela razão, mas é incontornável. Nenhum homem a contestaria.
- Começo a ter a sensação
de que estamos realmente a falar da consciência, porque todos os homens têm uma consciência.
- Sim, quando Kant descreve a lei moral, descreve a
consciência humana. Não podemos provar o que a consciência
diz, mas sabemo-lo.

297
- Por vezes, sou muito
simpático para com os outros
simplesmente porque é vantajoso para mim. Desse modo, posso ser popular.
- Mas quando és simpática
para com os outros apenas para
seres popular, não estás a
agir de acordo com a lei moral. Talvez não estejas a observar a lei moral. Talvez
estejas a agir numa espécie de
acordo superficial com a lei
moral - e isso já é alguma
coisa -, mas uma acção moral
tem de ser o resultado de uma
superação de ti mesma. Só
quando fazes algo porque achas
ser teu "dever" seguir a lei
moral é que podes falar de uma
acção moral. Por isso, a ética de Kant é frequentemente
chamada "ética do dever".
- Eu posso achar ser meu
dever juntar dinheiro para a
Cruz Vermelha ou a Caritas.
- Sim, e o importante é tu
fazeres uma coisa porque a
achas correcta. Mesmo quando
o dinheiro que tu juntaste se
extravia ou nunca alimente as
pessoas que devia alimentar,
tu cumpriste a lei moral.
Agiste com a atitude correcta
e, segundo Kant, a atitude é
decisiva para podermos dizer
que uma coisa é moralmente
correcta. Não são as consequências de uma acção que são
decisivas. Por isso, também
dizemos que a "ética de Kant
é uma ética da boa vontade".
- Porque é que era tão importante para ele saber quando
é que agimos por respeito à
lei moral? Não é mais importante que aquilo que fazemos
ajude os outros?
- Sim, Kant concordaria,
mas só quando sabemos que agimos por respeito à lei moral é
que agimos em "liberdade".
- Só obedecendo a uma lei
é que agimos em liberdade?
Isso não é estranho?
- Segundo Kant, não.
Talvez ainda te lembres que
ele "postulou" o livre arbítrio do homem. Esse é um ponto importante, porque Kant
achava que todas as coisas seguem a lei da causalidade.
Como é que podemos ter livre
arbítrio assim?
- Não me perguntes.
- Aqui, Kant divide o homem em duas partes, e nisso
faz lembrar Descartes, que
afirmava que o homem era um
ser duplo visto que tem corpo
e razão. Enquanto seres sensíveis, estamos completamente
sujeitos às leis imutáveis da
causalidade, segundo Kant.
Não decidimos o que sentimos;
as sensações surgem necessariamente e influenciam-nos,
quer queiramos quer não. Mas
o homem não é apenas um ser
sensível. Somos também seres
racionais.
- Explica-me isso!
- Enquanto seres sensíveis, pertencemos à ordem da
natureza. Por isso estamos
sujeitos à lei da causalidade.
Deste ponto de vista, não

298
temos livre arbítrio. Mas enquanto seres racionais, participamos no mundo "em si" - ou
seja, no mundo independente
das nossas sensações. Só
quando seguimos a nossa "razão
prática" - que nos possibilita fazer uma escolha moral -,
temos livre arbítrio. Se obedecermos à lei moral, somos
nós que fazemos a lei pela
qual nos orientamos.
- Sim, isso está certo.
Eu digo - ou alguma coisa em
mim diz - que eu não devo ser
má para os outros.
- Se decides não ser má -
mesmo quando ages contra o teu
próprio interesse - então estás a agir livremente.
- Pelo menos, não somos
livres e autónomos quando seguimos apenas os nossos instintos.
- Podemos fazer-nos escravos de tudo. Sim, podemos inclusivamente ser escravos do
nosso próprio egoísmo. Para
nos elevarmos acima dos nossos
instintos e vícios é necessário autonomia - e liberdade.
- E quanto aos animais?
Eles seguem só os seus instintos e necessidades. Não
têm essa liberdade de seguir
uma lei moral?
- Não, é justamente esta
liberdade que nos torna seres
humanos.
- Estou a ver.
- Para concluir, podemos
dizer que Kant conseguiu mostrar a saída para o impasse no
qual a filosofia caíra com a
disputa entre racionalistas e
empiristas. Com Kant, termina também uma época na história da filosofia. Ele morreu
em 1804 - no começo da época
a que chamamos Romantismo.
No seu túmulo, em Kõnigsberg, está uma das suas frases
mais citadas: "duas coisas
preenchem o meu espírito com
uma admiração e respeito sempre novos e crescentes, quanto
mais o pensamento se ocupa delas: o céu estrelado acima de
mim e a lei moral dentro de
mim".
Alberto recostou-se na sua
poltrona.
- E isto - afirmou. -
Acho que era o mais importante sobre Kant.
- E já quatro e um quarto.
- Mas há mais. Por favor,
espera um momento!
- Eu nunca me vou embora
antes de o professor dar a
aula por terminada.
- Eu também disse que, segundo Kant, não temos liberdade se vivermos apenas como
seres sensíveis.
- Sim, mais ou menos isso.
- Mas quando seguimos a
razão universal, somos livres
e autónomos. Eu também disse
isso?
- Sim, porque é que estás
a repetir?

299
Alberto inclinou-se para
Sofia e olhou-a profundamente
nos olhos e sussurrou:
- Não te deixes enganar
por tudo o que vês, Sofia.
- O que é que queres dizer?
- Olha para o outro lado.
- Não estou a perceber nada.
- Dizemos frequentemente:
"só acredito quando vir". Mas
também não podes acreditar no
que vês.
- Já disseste uma vez uma
coisa semelhante.
- Sobre Parménides, sim.
- Mas ainda não compreendo
o que queres dizer.
- Bom, nós sentámo-nos na
soleira da porta e conversámos. E, de repente, uma serpente marinha começou a andar
às voltas na água.
- Não foi estranho?
- De modo algum. E depois, o Capuchinho Vermelho
bate à nossa porta. "Estou à
procura da casa da minha avó".
Isto é embaraçoso, Sofia.
Mas todas estas coisas são
apenas os truques do major.
Tal como a carta na banana e
a trovoada absurda.
- Achas que...
- Estou a dizer que tenho
um plano. Desde que sigamos a
razão, ele não nos pode pregar
partidas. Nisso, somos de
certo modo livres. Ele pode
fazer-nos "experienciar" todas
as coisas e nada disso me surpreenderia. Se ele em seguida
obscurecer o céu com elefantes
que voam, no máximo sorrio.
Mas sete mais cinco são doze.
Isso é um facto que sobrevive
a todos estes efeitos de banda
desenhada. A filosofia é o
contrário da fábula.
Sofia olhou para ele admirada.
- Agora podes ir-te embora
- disse por fim. - Volto a
telefonar-te para um encontro
sobre o Romantismo. Ficas a
saber alguma coisa sobre Hegel e Kierkegaard. Mas já só
falta uma semana para o major
regressar à Noruega. Até lá,
temos de nos libertar das suas
fantasias de mau gosto. É tudo por hoje, Sofia. Mas quero que saibas que estou a trabalhar num plano fantástico
para nós.
- Então vou-me embora.
- Espera - se calhar, esquecemo-nos do mais importante.
- O quê?
- A canção dos parabéns,
Sofia. Hilde faz hoje quinze
anos.
- Eu também.
- Tu também, sim. Cantemos.
Ambos se levantaram e cantaram:

300
- Parabéns a você, nesta
data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Hoje é dia de festa, cantam as
nossas almas, para a menina
Hilde, uma salva de palmas.

Eram quatro e meia. Sofia
desceu em direcção ao lago e
remou para a outra margem.
Empurrou o barco para o canavial e correu pelo bosque.
Quando chegou ao carreiro,
viu subitamente uma coisa que
se movia entre os troncos.
Sofia pensou no Capuchinho
Vermelho, que tinha ido sozinho pelo bosque para a casa da
avó, mas este vulto entre as
árvores era muito mais pequeno.
Aproximou-se. O vulto não
era maior do que uma boneca;
era castanho, mas trazia uma
camisola vermelha.
Sofia ficou petrificada
quando se apercebeu que era um
urso de peluche. Que alguém
tivesse esquecido um urso de
peluche no bosque não era estranho, mas este urso de peluche estava vivo e parecia muito preocupado com alguma coisa.
- Olá - disse Sofia.
A pequena figura voltou-se.
- Eu sou Winnie the Pooh
- disse - e infelizmente
perdi-me no bosque, senão seria um bom dia. Mas nunca te
vi.
- Talvez eu nunca tenha
estado aqui - disse Sofia.
- Estamos perto de tua casa,
no Bosque de Cem Acres?
- Essa pergunta é demasiado difícil. Não te esqueças
que eu sou um urso pouco inteligente.
- Já ouvi falar de ti.
- Então chamas-te Alice.
Christopher Robin falou uma
vez sobre ti, deve ter sido
assim que nos conhecemos. Bebeste tanto de uma garrafa
que ficaste cada vez mais pequena. Mas depois bebeste uma
outra garrafa e voltaste a
crescer. Temos de ter muito
cuidado com aquilo que levamos
à boca. Eu próprio comi tanto
uma vez que fiquei preso na
toca de um coelho.
- Eu não sou Alice.
- Não é importante quem
nós somos. O mais importante
é o que nós somos. E o que
diz a coruja e ela é muito inteligente. "Sete mais quatro
são doze", disse num dia de
sol. O burro e eu estávamos
muito embaraçados; é tão difícil calcular os números.
Calcular o tempo é muito mais
fácil.
- Eu chamo-me Sofia.
- É um prazer conhecer-te,
Sofia. Acho, como disse, que
és nova por aqui. Mas agora o
pequeno urso tem de se ir embora. Tenho de tentar

301
encontrar o leitão. Fomos
convidados para uma grande
festa ao ar livre com Bugs
Bunny e os seus amigos.
Acenou com uma pata. Só
então Sofia descobriu que ele
segurava uma folha na outra
pata.
- O que tens aí? - perguntou.
Winnie the Pooh levantou a
folha e disse:
- Foi por causa disto que
me enganei no caminho.
- Mas é apenas uma folha.
- Não, isto não é "apenas
uma folha". É uma carta para
Hilde - por-trás-do-espelho.
- Oh, então eu posso levá-la.
- Mas tu não és a rapariga
do espelho, pois não?
- Não, mas...
- Uma carta deve sempre
ser entregue pessoalmente.
Foi Christopher Robin que
me explicou isso ontem.
- Mas eu conheço Hilde.
- Isso não tem importância. Mesmo quando conhecemos
alguém muito bem, nunca devemos ler as suas cartas.
- Eu estou apenas a dizer
que lha posso entregar.
- Isso é completamente diferente. Faz o favor, Sofia.
Só quando me livrar desta
carta encontrarei o caminho
para ir ter com o leitão.
Para encontrar Hilde do espelho, precisas primeiro de
ter um grande espelho, mas
isso não é fácil aqui.
O pequeno urso deu a Sofia
a folha que segurara na pata e
deitou a correr com os seus
pequenos pés. Quando ele desapareceu, Sofia desdobrou a
folha e leu:
"Querida Hilde! É uma
vergonha que Alberto não tenha falado a Sofia sobre o
facto de Kant se ter pronunciado a favor da fundação de
uma sociedade das nações". Na
obra "A paz perpétua", de
1795, ele escreveu que todos
os países deviam unir-se numa
sociedade das nações, que asseguraria a coexistência pacífica das diversas nações.
Aproximadamente cento e vinte
e cinco anos após a publicação
desta obra - imediatamente a
seguir à Primeira Guerra
Mundial - esta Sociedade
das Nações foi realmente fundada. Após a Segunda Guerra
Mundial, foi substituída pela
ONU. Podes dizer que Kant
foi uma espécie de padrinho da
ideia da ONU. A ideia de
Kant era que a "razão prática" dos homens obrigasse os
Estados a abandonar um estado
de natureza" que causa sempre
novas guerras, e criasse um
sistema jurídico internacional
que evitasse as guerras. Apesar de ser longo o percurso
até à fundação de uma sociedade das nações que

302
funcione verdadeiramente, é
nosso dever tratar de assegurar a paz universal. Para
Kant, o estabelecimento de
uma sociedade como esta era um
objectivo distante, quase o
objectivo último da filosofia.
Eu mesmo me encontro de momento no Líbano.

Beijos do pai"

Sofia pôs a carta no bolso
e prosseguiu o seu caminho
para casa. Alberto prevenira-a de encontros no bosque.
Mas ela não podia deixar o
pequeno urso às voltas numa
busca interminável de Hilde
do espelho.

303
O Romantismo

"... o caminho misterioso
conduz ao interior..."

Hilde deixou cair o grande
"dossier" nos joelhos. Depois, deixou-o escorregar para
o chão.
No quarto, já havia mais
claridade do que quando fora
para a cama. Olhou para o relógio. Eram quase três. Voltou-se e fechou os olhos. Ao
adormecer, questionou-se por
que razão o seu pai fizera
aparecer subitamente o Capuchinho Vermelho e Winnie the
Pooh.
Dormiu até às onze da manhã. Em seguida, teve a sensação de que sonhara intensamente durante toda a noite,
mas não se conseguia lembrar
do que sonhara.
Desceu as escadas e fez o
pequeno-almoço. A mãe vestira
o fato-macaco. Queria ir para
o barracão dos barcos e reparar o barco. Mesmo que não
fosse para a água, tinha de
estar pronto para navegar
quando o pai voltasse do Líbano.
- Vens ajudar-me?
- Primeiro tenho de ler um
pouco. Queres que te leve chá
e alguma coisa para comer a
meio da manhã?
- Qual meio da manhã?
Depois de ter comido,
Hilde voltou para o seu quarto, puxou a coberta da cama e
sentou-se com o grande
"dossier" sobre os joelhos.

Sofia passou através da sebe e viu-se no grande jardim
que comparara outrora com o
jardim do Éden...
Via que havia ramos e folhas por toda a parte devido
ao temporal do dia anterior.
Entre o temporal e os ramos
soltos, por um lado, e os seus
encontros com o Capuchinho
Vermelho e Winnie the Pooh,
por outro, parecia haver uma
relação.
Sofia afastou as agulhas de
pinheiro e os ramos do baloiço. Era bom o facto de o baloiço ter almofadas de plástico que não era preciso levar
para casa cada vez que chovia.
Sofia entrou em casa. A mãe
acabara
:,

304
de chegar. Arrumava garrafas
de limonada no frigorífico.
Na mesa da cozinha havia um
bolo de chocolate com um aspecto delicioso.
- Estás à espera de visitas? - perguntou Sofia, que
quase se esquecera do seu aniversário.
- Eu pensei que apesar da
festa ao ar livre no sábado
devíamos festejar hoje.
- Como assim?
- Convidei Jorunn e os
pais.
Sofia encolheu os ombros.
- Por mim está bem.
Os convidados chegaram pouco antes das sete e meia. A
atmosfera estava um pouco formal porque a mãe de Sofia não
se encontrava frequentemente
com os pais de Jorunn.
Sofia e Jorunn subiram
logo para o quarto de Sofia
para escreverem os convites
para a festa ao ar livre.
Visto que queria convidar
também Alberto Knox, Sofia
teve a ideia de convidar as
pessoas para uma "festa de
jardim filosófica". Jorunn
concordou. Afinal era a festa
de Sofia e nessa altura essas
"festas com temas" eram muito
populares.
Até terem escrito o texto,
passaram mais de duas horas e
as duas raparigas não conseguiam parar de rir.

"Caro...
Convidamos-te para uma festa de jardim filosófica no sábado, dia 23 de Junho (noite de S. João) às 19 horas
em Klõverveien 3. No decurso da noite esperamos resolver
o mistério da vida. Traz um
casaco quente e ideias inteligentes que possam contribuir
para uma resolução dos enigmas
da filosofia. Devido ao grande perigo de incêndio florestal, infelizmente não podemos
fazer fogueiras, mas as chamas
da fantasia podem arder livremente. Entre os convidados
encontra-se pelo menos um verdadeiro filósofo. Por isso, o
convívio vai ser privado nesta
festa. Membros da imprensa
não serão admitidos!
Com os nossos melhores cumprimentos,

Jorunn Ingebrigtsen (comissão organizadora)
e Sofia Amundsen (anfitriã)"

Depois foram ter com os
adultos que já estavam a falar
mais à vontade. Sofia deu à
mãe o convite que escrevera
com uma caneta caligráfica.
- Dezoito fotocópias, por
favor - disse. Já tinha pedido outras vezes à mãe para
lhe fazer fotocópias no escritório.

305
A mãe leu rapidamente o
convite e passou-o depois ao
pai de Jorunn.
- Estão a ver? Ela perdeu
completamente a cabeça.
- Mas isto parece mesmo
interessante - disse o pai de
Jorunn enquanto passava a folha à esposa.
- Estou pasmada! - disse
esta. - Também podemos vir,
Sofia?
- Então vinte cópias -
disse Sofia.
- Deves estar maluca -
disse Jorunn.
Antes de ir para a cama
nessa noite, Sofia ficou muito tempo a olhar pela janela.
Lembrou-se como uma vez vira
a sombra de Alberto na escuridão. Já passara mais de um
mês. Nesse momento também era
de noite, mas era uma noite
clara de Verão.
Alberto só voltou a dar notícias suas na manhã de terça-feira. Telefonou logo depois
de a mãe de Sofia ter ido
trabalhar.
- Sofia Amundsen.
- Alberto Knox.
- Era o que eu estava a
pensar.
- Peço desculpa por telefonar só agora, mas estive a
trabalhar intensivamente no
nosso plano. Só quando o major se concentra completamente
em ti é que tenho descanso e
posso trabalhar sem ser perturbado.
- Estranho.
- Posso esconder-me, percebes? Mesmo o melhor serviço
secreto do mundo tem as suas
limitações, se tem apenas um
agente... Recebi um postal
teu.
- Um convite, queres dizer.
- Arriscas mesmo?
- Porque não?
- Nunca se sabe o que pode
suceder numa festa destas.
- Vens?
- Claro que vou. Mas há
mais uma coisa. Já pensaste
que o pai de Hilde regressa
do Líbano nesse mesmo dia?
- Não, não tinha pensado
nisso.
- É impossível ser obra do
acaso que ele te faça organizar uma festa filosófica justamente no dia em que regressa
a Bjerkely.
- Como disse, não tinha
pensado nisso.
- Mas ele pensou. Bom,
ainda vamos falar sobre isso.
Podes ir hoje de manhã à cabana do major?
- Eu tenho que tirar a erva daninha de alguns canteiros.
- Então às duas. Pode
ser?
- Lá estarei.

306
Desta vez, Alberto Knox
também estava sentado na soleira da porta quando Sofia
chegou.
- Senta-te aqui - disse
- e foi directo ao assunto.
- Até agora falámos sobre o
Renascimento, o Barroco e o
Iluminismo. Hoje vamos falar
sobre o Romantismo, ao qual
podemos chamar a última grande
época cultural da Europa.
Estamos a aproximar-nos do
fim de uma longa história, minha filha.
- O Romantismo durou tanto tempo?
- Começou em finais do século Xviii e durou até meados
do século passado. Mas a partir de 1850 já não faz sentido falar de épocas completas
que abranjam do mesmo modo
poesia e filosofia, arte,
ciência e música.
- Mas o Romantismo foi
ainda uma dessas épocas?
- Sim, e como disse, a última na Europa. Teve início
na Alemanha, como reacção ao
culto da razão no Iluminismo.
Após Kant e a sua fria filosofia racional, os jovens na
Alemanha pareciam respirar
fundo.
- E o que é que colocaram
no lugar da razão?
- Os novos "slogans" eram
"sentimento", "fantasia", "vivência" e "nostalgia". Alguns
pensadores do Iluminismo também tinham apontado para a importância dos sentimentos -
por exemplo, Rousseau - e
criticado a insistência exclusiva na razão. Esta corrente
secundária tornou-se a corrente principal da vida cultural
alemã.
- Então Kant não foi popular por muito tempo?
- Sim e não. Muitos românticos viam-se como herdeiros de Kant. Kant afirmara
que havia limites para aquilo
que podemos conhecer. Por outro lado, mostrara como era
importante o contributo do eu
para o conhecimento. E agora,
no Romantismo, o indivíduo
tinha, por assim dizer, livre
curso para a sua interpretação
pessoal da existência. Os românticos professavam um culto
quase desenfreado do eu. Por
isso, a essência da personalidade romântica é também o génio artístico.
- Havia muitos génios naquela época?
- Alguns. "Beethoven",
por exemplo. Na sua música,
encontramos uma pessoa que exprime os seus próprios sentimentos e nostalgias. Deste
modo, Beethoven era um artista "livre" - ao contrário dos
mestres do Barroco como Bach
e Haendel que compunham as
suas obras para glória de
Deus e geralmente segundo regras rigorosas.
- Eu conheço apenas a sonata "Ao luar" e a "Quinta
sinfonia".
- Mas vês como é romântica
a sonata "Ao luar" e como
Beethoven se exprime de forma
dramática na "Quinta sinfonia".
- Disseste que os humanistas do Renascimento também
eram individualistas.

307
- Sim, há muitos paralelismos entre o Renascimento e
o Romantismo. Um desses paralelismos é, por exemplo, o
grande valor dado à importância da arte para o conhecimento humano. Também neste aspecto, Kant tinha aberto caminho para o Romantismo. Na
sua estética ele investigara o
que sucede quando somos dominados por uma coisa bela, uma
obra de arte, por exemplo.
Quando vemos uma obra de arte
sem outro interesse que o de
"vivê-la" tão intensamente
quanto possível, ultrapassamos
o limite daquilo que podemos
conhecer, ou seja, o limite da
nossa razão.
- Isso quer dizer que o
artista nos proporciona algo
que o filósofo não pode proporcionar-nos?
- Era assim que Kant pensava, e juntamente com ele os
românticos. Segundo Kant, o
artista joga livremente com a
sua faculdade de conhecer. O
poeta "Friedrich Schiller"
desenvolveu a ideia de Kant.
Ele achava que a actividade
do artista era como um jogo e
só quando o homem jogava era
livre, porque fazia as suas
próprias leis. Os românticos
acreditavam que apenas a arte
nos podia aproximar do "indizível". Alguns foram até às
últimas consequências e compararam o artista com Deus.
- Porque o artista cria a
sua própria realidade, tal
como Deus criou o mundo.
- Dizia-se que o artista
tinha uma espécie de imaginação criadora de universos. No
seu arrebatamento artístico,
conseguia experimentar o desaparecimento da fronteira entre
sonho e realidade. O poeta
"Novalis", um dos jovens génios da Alemanha, afirmou:
"O mundo torna-se sonho, o
sonho mundo". Ele escreveu um
romance medieval com o título
"Heinrich von Ofterdingen",
que ainda estava incompleto
quando o autor morreu em
1801, mas que teve grande importância para o Romantismo.
Nele lemos que o jovem Heinrich procurava a "flor azul",
que vira uma vez em sonhos e
da qual se finava de saudades
desde então. O poeta romântico inglês Coleridge exprimiu
a mesma ideia do seguinte
modo:

"What if you slept? And
what if, in your sleep, you
dreamed? And what if, in your
dream, you went to heaven and
there plucked a strange and
beautiful flower? And what
if, when you awoke, you had
the flower in your hand? Ah,
what then?
(E se adormecesses? E se,
no teu sono, sonhasses? E se,
no teu sonho, subisses aos
céus e ali colhesses uma estranha e bela flor? E ainda
se, ao acordares, tivesses a
flor na tua mão. Ah, como seria, então?)"
:,

308
- Que bonito!
- Este desejo de algo longínquo e inatingível era típico dos românticos. Eles também podiam ter a nostalgia de
um mundo desaparecido - por
exemplo, a Idade Média, que
no Iluminismo fora tida pela
idade das trevas e era agora
revalorizada. Ou tinham nostalgia de culturas distantes,
por exemplo, o "Oriente" com
a sua mística. E sentiam-se
atraídos pela noite, por ruínas antigas e pelo sobrenatural. Preocupavam-se com aquilo a que chamamos o lado nocturno da vida, ou seja, o obscuro, o lúgubre e místico.
- Acho que parece uma época excitante. Mas quem eram
então esses românticos?
- O romantismo foi sobretudo um fenómeno urbano. Na
primeira metade do século passado, a cultura urbana viveu
uma época áurea em muitas regiões da Europa, em especial
na Alemanha. Os "românticos"
típicos eram jovens, frequentemente estudantes - apesar
de nem sempre serem muito dedicados ao estudo. Tinham uma
atitude declaradamente anti-burguesa e chamavam a mortais
vulgares como policias, por
exemplo, ou às senhorias, "filisteus", ou simplesmente
"inimigos".
- Então eu nunca alugaria
um quarto a um romântico.
- A primeira geração de
românticos era ainda muito jovem por volta do ano 1800.
Deste ponto de vista, podemos
dizer que o movimento romântico foi a primeira revolta juvenil da Europa. Há um claro
paralelismo com a cultura
"hippie" cento e cinquenta
anos depois.
- Flores e cabelos compridos, tocar a guitarra e não
fazer nada?
- Sim, dizia-se que o ócio
era o ideal do génio e a inércia a primeira virtude romântica. Era dever do romântico
viver a vida - ou afastar-se
dela, sonhando. Os filisteus
é que deviam preocupar-se com
os assuntos do dia-a-dia.
- Houve românticos na
Noruega?
- "Wergeland" e "Welhaven" foram dois deles. Wergeland defendeu também muitos
ideais do Iluminismo, mas a
sua vida foi típica de um romântico. Ele entusiasmava-se,
estava apaixonado, mas - e
este também era um traço romântico típico - Stella, a
quem ele dedicou os seus poemas de amor, estava tão distante e tão inacessível como a
"flor azul" de Novalis. O
próprio Novalis ficou noivo
de uma rapariga que tinha apenas catorze anos. Ela morreu
quatro dias após ter feito
quinze anos, mas Novalis
amou-a durante toda a vida.
- Ela morreu mesmo quatro
dias após ter feito quinze
anos?
- Sim...
- Eu tenho hoje quinze
anos e dez dias.
-Tens razão...

309
- Como é que se chamava?
- Chamava-se Sophie.
- O que estás a dizer?
- Sim, chamava-se Sophie...
- Estás a assustar-me!
Será um acaso?
- Não faço ideia, Sofia.
Mas ela chamava-se Sophie.
- Continua!
- O próprio Novalis morreu com apenas vinte e nove
anos. Muitos românticos morreram jovens, geralmente de
tuberculose. Alguns suicidaram-se...
- Meu Deus!
- E aqueles que chegaram a
velhos, normalmente deixavam
de ser românticos quando atingiam os trinta anos. Alguns
tornavam-se mais tarde burgueses e conservadores.
- Então passaram-se para o
campo do inimigo.
- Sim, talvez. Mas estávamos a falar sobre a paixão
romântica: a grande obra sobre
o amor inacessível é o romance
epistolar de amor, de "Goethe", "Die Leiden des jungen
Werthers" (As mágoas do
Jovem Werther), que foi publicado em 1774. Termina com
o suicídio do jovem Werther
por não poder ter aquela que
ama...
- Ele não terá ido demasiado longe nisso?
- Os seus contemporâneos
podiam compreender muito bem
estes sentimentos. Pelo menos, por toda a parte em que o
romance foi publicado, o suicídio aumentou rapidamente.
Por isso, o livro foi proibido durante algum tempo na Dinamarca e na Noruega. Não
era totalmente inofensivo
ser-se romântico, estavam em
jogo sentimentos muito fortes.
- Quando dizes "romântico", eu penso em grandes pinturas de paisagens. Vejo florestas misteriosas e a natureza selvagem... envolvidas em
névoa.
- Aos traços mais característicos do Romantismo pertenciam efectivamente a nostalgia pela natureza e uma
verdadeira mística natural.
Era um fenómeno urbano, como
disse - uma coisa deste género não surge no campo. Sabes
que o estribilho "Regresso à
natureza!" provém de Rousseau. Só então, no Romantismo, é que este mote recebeu
um verdadeiro impulso. O romantismo era também uma reacção à concepção mecanicista do
mundo do Iluminismo. Com razão se afirmou que o Romantismo trouxe consigo um Renascimento do antigo pensamento da totalidade.
- Explica-me isso!
- Significa que a natureza
foi vista novamente como unidade. Os românticos recorreram a "Espinosa", mas também
a "Plotino" e a filósofos do

310
Renascimento como "Jakob
Boehme" e "Giordano Bruno".
Todos eles tinham visto na
natureza um "Eu" divino.
- Eram panteístas...
- Descartes e Hume tinham
traçado uma fronteira nítida
entre o eu e a realidade "extensa". Também Kant tinha
colocado uma separação clara
entre o eu como sujeito e a
natureza "em si". Agora, a
natureza era tida como único
grande "eu". Os românticos
usavam também expressões como
"alma do mundo", ou "espírito
do mundo".
- Compreendo.
- O filósofo mais influente do Romantismo foi "Friedrich Wilhelm Schelling", que
viveu entre 1775 e 1854.
Ele procurou eliminar a separação entre "espírito" e "matéria". Toda a natureza -
tanto a alma do homem como a
realidade física - era expressão de um Deus ou do "espírito do mundo", segundo ele.
- Sim, isso faz lembrar
Espinosa.
A natureza era o espírito
visível, o espírito a natureza
invisível, segundo Schelling.
Pois em toda a natureza pressentimos um espírito ordenador, estruturante. Via a matéria como uma espécie de inteligência adormecida.
- Tens de explicar isso
melhor.
- Schelling via na natureza um espírito do mundo, mas
também via este espírito do
mundo na consciência do homem.
Deste ponto de vista, a natureza e a consciência humana
são na verdade expressão da
mesma coisa.
- Sim, porque não?
- Podemos procurar o espírito do mundo tanto na natureza como no nosso próprio espírito. Deste modo, Novalis
podia dizer que o "caminho
misterioso" conduzia ao interior. Ele achava que o homem
trazia em si todo o universo e
que por isso podia experienciar melhor o mistério do mundo se penetrasse dentro de si.
- É uma ideia bonita.
- Para muitos românticos,
a filosofia, a investigação
natural e a poesia formavam
uma unidade. Quer se estivesse no quarto de estudo e escrevesse poemas inspirados,
quer se investigasse a vida
das plantas ou a composição
das pedras - tratava-se apenas de duas faces da mesma moeda, porque a natureza não era
um mecanismo morto, mas um espírito vivo.
- Se contares mais coisas,
eu torno-me imediatamente romântica.
- O naturalista norueguês
"Henrik Steffens" - a quem
Wergeland chamava "desaparecida folha de louro norueguesa", por ele ter ido viver
para a Alemanha - foi em
1801 para Copenhaga, para
dar aulas

311
sobre o Romantismo alemão.
Ele caracterizou o movimento
romântico com as seguintes palavras: "cansados das tentativas eternas para forçarmos o
caminho pela matéria rude, escolhemos um outro caminho e
procurávamos atingir o infinito. Entrámos em nós mesmos e
criámos um novo mundo".
- Como é que sabes tudo
isso de memória?
- Uma ninharia, Sofia.
- Continua!
- Schelling via também um
desenvolvimento na natureza,
desde as pedras até à consciência humana, referindo-se a
transições progressivas desde
a natureza inanimada até formas de vida mais complexas. A
visão romântica da natureza
estava marcada pela concepção
da natureza como um organismo,
ou seja, como unidade, que
através dos tempos desenvolve
as suas potencialidades inerentes. A natureza é como uma
flor, que desenvolve as suas
folhas e pétalas. Ou como um
poeta, que cria os seus poemas.
- Isso não faz lembrar um
pouco Aristóteles?
- Sim, claro. A filosofia
romântica apresenta tanto traços aristotélicos como traços
neoplatónicos. Aristóteles
tinha uma concepção mais orgânica dos processos naturais do
que os materialistas mecanicistas.
- Estou a ver.
- Também encontramos
ideias semelhantes numa nova
visão da história. O filósofo
da história "Johann Gottfried Herder" que viveu entre
1744 e 1803 teve uma grande
importância para os românticos. Segundo ele, o curso da
história era o resultado de um
processo teleológico. Justamente por isso designamos a
sua visão da história como
"dinâmica". Os iluministas
tinham uma visão "estática" da
história. Para eles, havia
apenas uma razão universal, e
que podia estar ora mais ora
menos presente, consoante as
diferentes épocas. Herder
mostrou, pelo contrário, que
cada época da história tinha o
seu próprio valor, e cada povo
tinha o seu carácter especial,
a sua própria "alma do povo".
A questão era apenas se e
como nos podíamos identificar
com outros tempos e culturas.
- Da mesma maneira que nos
temos de identificar com a situação de outra pessoa para a
entendermos melhor, também temos de nos identificar com outras culturas para as conhecermos.
- Hoje, isso tornou-se
quase evidente. Mas, durante
o Romantismo, era um conhecimento novo. O Romantismo
contribuiu para fortalecer o
sentimento da identidade própria de cada nação. Não é por
acaso que também aqui na Noruega a luta pela independência nacional se tenha desenvolvido justamente em 1814.

312
- Compreendo.
- Uma vez que o Romantismo trazia consigo uma nova
orientação em tantos domínios,
é frequente distinguir duas
formas de Romantismo. Por
Romantismo entendemos, por um
lado, aquilo a que podemos
chamar "Romantismo universal". Estamos a pensar nos
românticos que se preocupavam
com a natureza, a alma universal e o génio artístico. Esta
forma de Romantismo foi a
primeira e floresceu sobretudo
na cidade alemã de Jena por
volta do ano 1800.
- E a outra forma de Romantismo?
- Era o chamado "Romantismo nacional". Surgiu um
pouco mais tarde e o seu centro era em Heidelberg. Os
românticos nacionais interessavam-se sobretudo pela história do povo, a sua língua e
por toda a cultura "popular".
O povo também era visto como
um organismo que desenvolve as
capacidades que lhe são inerentes - exactamente como a
natureza e a história.
- Diz-me com quem andas e
dir-te-ei quem és.
- Aquilo que ligava as
duas formas de romantismo era
sobretudo a palavra-chave
"organismo". Todos os românticos viam tanto uma planta
como um povo, inclusivamente
uma obra de poesia, como um
organismo vivo. Por isso, não
há uma fronteira nítida entre
as duas formas. O espírito do
mundo estava tão presente no
povo e na cultura popular como
na natureza e na arte.
- Compreendo.
- Já Herder reunira canções populares de muitos países e deu à sua colecção o expressivo título "Vozes do povo". Ele dizia que a poesia
popular era a "língua materna
dos povos". Em Heidelberg,
começou-se a reunir canções
populares e contos populares.
Já ouviste falar dos contos
dos Irmãos Grimm?
- Claro que sim - a
"Branca de Neve", o "Capuchinho Vermelho", a "Gata
Borralheira" e "Haensel e
Gretel"...
- E muitos, muitos outros.
Na Noruega tivemos "Asbjõrnsen" e "Moe", que viajavam pelo país, para recolherem
a "Poesia do povo". Era a
colheita de um fruto suculento, que se reconheceu subitamente ser saboroso e nutritivo. E era urgente - o fruto
já caía das árvores. "Landstad" recolheu canções populares e "Ivar Aasen" recolheu
por assim dizer a própria língua norueguesa. Também os mitos e as sagas da época pagã
foram redescobertos em meados
do século xix. Em toda a Europa, os compositores utilizavam canções populares nas suas
composições. Procuravam assim
fazer uma ponte entre a música
erudita e a música popular.
- Música erudita?

313
- A música erudita é composta por uma pessoa determinada - por exemplo, Beethoven. A música popular não foi
criada por uma pessoa específica, mas pelo próprio povo.
Por isso, também não sabemos
exactamente de quando é cada
canção. Do mesmo modo distinguimos contos populares e contos eruditos.
- O que significa um conto
erudito?
- É um conto que um escritor imaginou, por exemplo,
"Hans Christian Andersen".
O género do conto foi cultivado com grande ardor pelos
românticos. Um dos mestres
alemães foi "E. T. A.
Hoffmann".
- Acho que já ouvi falar
dos "Contos de Hoffmann".
- O conto era o ideal literário dos românticos - mais
ou menos como o teatro era a
forma artística do Barroco.
Dava ao escritor a possibilidade de jogar com o seu próprio poder criativo.
- Ele podia representar o
papel de Deus para um mundo
imaginado.
- Exacto. E agora, é necessário uma espécie de resumo.
- Faz favor.
- Os filósofos do Romantismo compreendiam aquilo a
que chamavam "alma do mundo"
como um "eu", que cria as coisas no mundo num estado mais
ou menos de sonho. O filósofo
"Johann Gottlieb Fichte"
afirmou que a natureza provinha de uma actividade imaginativa elevada, inconsciente.
Schelling afirmava explicitamente que o mundo estava "em
Deus". Deus estaria consciente de alguma coisa, segundo ele, mas havia também aspectos da natureza que representavam o inconsciente de
Deus. Pois Deus tinha também uma "face obscura".
- Essa ideia é simultaneamente assustadora e fascinante. Faz-me lembrar Berkeley.
- A relação entre o escritor e a sua obra era vista
aproximadamente desse modo. O
conto dava ao escritor a possibilidade de jogar com a sua
imaginação criativa. E o acto
criador nem sempre era muito
consciente. O escritor podia
ter a sensação de que a história que ele escrevia surgia de
uma força interior. Ele quase
podia escrever como que hipnotizado.
- Sim?
- Mas em seguida também
podia romper a ilusão de repente. Podia intervir na história através de pequenos comentários irónicos para o leitor, e este lembrar-se-ia de
que o conto era apenas um conto.
- Compreendo.
- Deste modo, o escritor
podia também fazer recordar o
leitor que a sua existência
era fictícia. Esta forma de
destruir a ilusão é designada
por ironia romântica. O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen põe uma das personagens da
sua peça Peer Gynt a dizer:
"Não se pode morrer no meio
do quinto acto."

314
- Compreendo que essa fala
é um pouco estranha. Com isso, ele está simultaneamente a
dizer que é apenas um personagem de fantasia.
- Esta fala é tão paradoxal que devíamos terminar com
ela um parágrafo.
- O que queres dizer com
isso?
- Ah, nada, Sofia. Lembras-te de que a noiva de
Novalis se chamava Sofia
como tu, e além disso morreu
com quinze anos e quatro
dias...
- Ainda não percebeste que
eu fiquei assustada?
O olhar de Alberto endureceu. Prosseguiu:
- Tu não tens que ter medo
de vir a sofrer o mesmo destino da amada de Novalis.
- Porque não?
- Porque ainda faltam muitos capítulos.
- O que estás a dizer?
- Digo que todos os que
lêem a história de Sofia e
Alberto, sentem nas pontas
dos dedos que ainda faltam
muitas páginas da história.
Ainda só chegámos ao Romantismo.
- Estou a ficar mesmo confusa com a tua conversa.
- Na realidade, o major
tenta pôr Hilde confusa. Não
achas isso maldoso, Sofia?
Novo parágrafo!
Alberto não terminara ainda
a sua frase quando um rapaz
veio a correr do bosque. Trazia vestes árabes e um turbante. Tinha uma lamparina na
mão.
Sofia agarrou no braço de
Alberto.
- Quem é este? - perguntou.
Mas o jovem respondeu por
si mesmo.
- Eu chamo-me Aladino e
venho do Líbano.
Alberto examinou-o severamente.
- O que tens na tua lamparina, rapaz?
O rapaz esfregou a lamparina - e dela subiu um fumo espesso. Do fumo formou-se a
figura de um homem. Tinha uma
barba negra como a de Alberto
e trazia uma bóina azul. Flutuava no ar sobre a lamparina
e disse:
- Estás a ouvir-me, Hilde? Venho certamente demasiado tarde para novas felicitações. E agora quero apenas
dizer que Bjerkely e o sul da
Noruega me parecem quase um
sonho. Lá nos veremos dentro
de poucos dias.
A figura masculina voltou a
desaparecer em fumo - e toda
a nuvem foi sugada para dentro
da lamparina. O rapaz com o
turbante pôs a lamparina debaixo do braço, correu para o
bosque e desapareceu.

315
- Isto... isto é inacreditável. - afirmou Sofia.
- Uma bagatela, minha filha.
- O génio falou exactamente como o pai de Hilde.
- Era o seu génio...
- Mas...
- Eu e tu, e tudo o que
sucede à nossa volta - tudo
isso se passa no fundo da mente do major. É noite avançada
no sábado, dia 28 de Abril;
à volta do major desperto dormem todos os soldados da
ONU, e ele também já está
muito sonolento. Mas tem de
terminar o livro que quer oferecer a Hilde pelo seu aniversário. Por isso tem de
trabalhar, Sofia, por isso o
pobre homem não tem descanso.
- Acho que desisto!
- Novo parágrafo!
Sofia e Alberto olhavam
fixamente para o pequeno lago.
Alberto estava como que petrificado. Passado um pouco,
Sofia atreveu-se a dar-lhe um
toque no ombro.
- Perdeste a fala?
- Ele interveio directamente, sim. Os últimos capítulos foram inspirados por ele
até às mais pequenas letras.
Devia ter vergonha. Mas assim também se traiu, deu-se a
conhecer completamente. Agora
sabemos que vivemos a nossa
vida num livro que o pai de
Hilde lhe envia pelos anos.
Tu ouviste o que eu disse,
não ouviste? - Apesar de na
realidade não ter sido "eu"
quem disse isso.
- Se isso é verdade, vou
tentar fugir do livro e seguir
o meu próprio caminho.
- É exactamente esse o meu
plano secreto. Mas primeiro,
temos que tentar falar com
Hilde. Ela lê todas as palavras que estamos a dizer. E
quando tivermos fugido daqui
tornar-se-á muito mais difícil
retomar o contacto com ela.
- O que havemos de dizer?
- Acho que o major adormece sobre a sua máquina de escrever. Os seus dedos percorrem ainda o teclado com uma
pressa febril.
- Um pensamento estranho.
- Mas, justamente agora,
ele pode escrever coisas de
que se venha a arrepender. E
não tem corrector, Sofia.
Este é um elemento importante
do meu plano. Ai daquele que
der ao major Albert Knag um
corrector!
- De mim ele não leva sequer papel nem corrector!
- Exorto neste momento a
pobre rapariga a rebelar-se
contra o seu pai. Ela devia
ter vergonha por se divertir
com o seu jogo ridículo de

316
sombras. Se ele estivesse
aqui, o senhor major sentiria
a nossa irritação no corpo.
- Mas ele não está aqui.
- O seu espírito e a sua
alma estão aqui, mas ele está
no Líbano. Tudo o que vemos
à nossa volta é o "eu" do major.
- Mas ele é mais do que
isso.
- Nós somos apenas sombras
na sua alma. Não é fácil para
uma sombra atacar o seu mestre, Sofia. Para isso, é necessário coragem e uma reflexão madura. Mas nós temos a
possibilidade de influenciar
Hilde. Só um anjo se pode
insurgir contra um deus.
- Nós podemos incitar
Hilde a dizer-lhe das boas
logo que ele chegue a casa.
Ela pode dizer-lhe que acha
que ele é um trapaceiro. Pode
estragar-lhe o barco - ou
pelo menos destruir as luzes
de bordo.
Alberto acenou afirmativamente. Em seguida, disse:
- E ela pode fugir dele.
É mais fácil para ela do que
para nós. Pode deixar a casa
do major e não pôr lá mais os
pés. Isso seria justo para o
major, que brinca à nossa custa com a sua imaginação.
- Já estou a imaginar: o
major viaja pelo mundo à procura de Hilde, mas Hilde desapareceu sem deixar rasto
porque não quer viver com um
pai que faz troça de Sofia e
Alberto.
- Ele faz troça, sim. Era
o que eu queria dizer com o
facto de nos utilizar como entretenimento de aniversário.
Mas ele devia ter cuidado,
Sofia. E Hilde também.
- O que queres dizer?
- Estás bem sentada?
- Desde que não venham
mais génios, sim.
- Tenta imaginar que tudo
o que vivemos se passa na
consciência de uma outra pessoa. Nós somos essa consciência. Não temos uma alma própria, somos a alma de um outro. Até agora encontramo-nos
em solo filosófico familiar
Berkeley e Schelling arrebitariam as orelhas.
- Sim?
- E podemos imaginar que
esta alma é o pai de Hilde
Mõller Knag. Ele está no
Líbano e escreve à filha um
livro de filosofia para o seu
aniversário. Quando Hilde
acordar no dia 15 de Junho,
encontrará o livro na mesa de
cabeceira e então ela e outras
pessoas podem ler sobre nós.
Ele já disse há muito tempo
que o "presente" pode ser partilhado com outros.
- Eu sei.
- E Hilde lê aquilo que
te estou a dizer depois de o
pai ter estado em dada altura
no Líbano e ter imaginado que
eu te conto que ele está no
Líbano... imaginando que eu
te conto que ele está no Líbano...

317
De repente, tudo se voltou
na cabeça de Sofia. Tentou
lembrar-se do que ouvira sobre
Berkeley e os românticos. E
Alberto prosseguiu:
- Mas por isso eles não
deviam estar tão convencidos.
E sobretudo não se deviam
rir, porque podem engasgar-se
com esse riso.
- Quem?
- Hilde e o pai. Não é
deles que estamos a falar?
- Mas porque é que eles
não deviam estar convencidos?
- Porque não é um pensamento totalmente impossível
eles serem também apenas consciência.
- Como é que isso é possível?
- Se era possível para
Berkeley e para os românticos, também tem de ser possível para eles. Talvez o major
seja um fantasma num livro que
trata dele e de Hilde, mas
também de nós, que somos uma
pequena parte da sua vida.
- Isso seria ainda mais
grave. Assim, seríamos apenas
sombras de sombras.
- Mas podemos pensar que
um outro autor está em algum
lado e escreve um livro que
trata deste major da ONU,
Albert Knag que escreve um
livro para a sua filha Hilde.
Este livro trata de um certo
Alberto Knox que começa subitamente a enviar modestas
lições de filosofia a Sofia
Amundsen, em Klõverveien 3.
- Acreditas nisso?
- Apenas estou a dizer que
é possível. Para nós, este
autor seria um Deus oculto,
Sofia. Apesar de tudo o que
dizemos e fazemos vir dele,
porque nós somos ele, nunca
poderemos saber algo sobre
ele. Estamos arrumados na
caixa mais interior.
Sofia e Alberto ficaram
calados muito tempo. Sofia
quebrou por fim o silêncio:
- Mas se existe realmente
um escritor que imagina a história sobre o pai de Hilde no
Líbano exactamente como imaginou a história sobre nós...
- Sim?
- ... nesse caso podemos
pensar que ele também não se
devia gabar demasiado.
- O que queres dizer com
isso?
- Ele está lá, e algures
no fundo da sua mente estão
Hilde e eu. Mas não se pode
imaginar que ele também viva
numa consciência ainda mais
elevada?
Alberto acenou afirmativamente com a cabeça.
- É evidente, Sofia.
Também isso é possível. E se
é assim, ele fez-nos ter esta
conversa filosófica para indicar essa possibilidade. Assim, quer

318
sublinhar que também é uma
sombra indefesa e que este livro, em que Hilde e Sofia
vivem, é na realidade um manual de filosofia.
- Um manual?
- Porque todas as conversas que tivemos, todos os diálogos, Sofia.
- Sim?
- São na realidade um monólogo.
- Agora, tenho a sensação
de que tudo se dissolve em
consciência e em espírito.
Estou contente por ainda haver alguns filósofos. A filosofia, que começou tão bem com
Tales, Empédocles e
Demócrito, não pode encalhar
aqui?
- Claro que não. Eu vou
falar-te de Hegel. Foi o
primeiro filósofo que tentou
salvar a filosofia depois de o
Romantismo ter dissolvido
tudo em espírito.
- Estou ansiosa.
- Para não sermos interrompidos por outros génios ou
sombras, vamos para dentro,
está bem?
- Está um pouco frio, de
qualquer modo.
- Próximo capítulo!

319

Hegel

"... o que é racional é
real..."

Hilde deixou cair o grande
"dossier" no chão com um estampido. Ficou deitada na
cama e a olhar fixamente para
o tecto. Tudo parecia andar à
roda. O seu pai tinha conseguido efectivamente que ela
ficasse tonta. Que pirata!
Como é que ele podia fazer
isto?
Sofia tinha tentado falar
directamente com ela. Exortara Hilde a rebelar-se contra
o pai. E tinha realmente conseguido inculcar uma ideia em
Hilde. Um plano...
Sofia e Alberto não podiam
tocar num cabelo do seu pai,
isso era claro. Mas Hilde
podia! E através de Hilde,
Sofia também.
Hilde estava de acordo com
Sofia e Alberto no facto de
o seu pai ter ido longe demais
com o jogo das sombras. Apesar de ter concebido Sofia e
Alberto, havia limites para a
demonstração do seu poder.
Pobre Sofia, pobre Alberto! Estavam tão indefesos em
relação à fantasia do pai de
Hilde como uma tela está indefesa em relação ao projec-
cionista.
Hilde queria dar-lhe um
raspanete quando ele chegasse
a casa. Em contornos nítidos,
ela via nesse mesmo instante o
esboço de um golpe astuto.
Foi para a janela e olhou
para a enseada. Eram quase
duas horas. Abriu a janela e
gritou em direcção ao barracão
dos barcos:
- Mãe!
Pouco depois, a mãe apareceu.
- Daqui a uma hora levo-te
umas sanduíches. Está tudo
bem?
- Sim.
- Ainda tenho que ler um
pouco sobre Hegel.

Sofia e Alberto sentaram-
-se na poltrona em frente à
janela que dava para o pequeno
lago.

320
- "Georg Wilhelm Friedrich Hegel" era um verdadeiro
filho do Romantismo - começou Alberto. - Quase podes
dizer que ele seguiu fielmente
o desenvolvimento do espírito
alemão. Nasceu em Estugarda
em 1770 e iniciou um curso de
teologia em Tubinga com dezoito anos. A partir de 1799
trabalhou com Schelling em
Iena, onde o movimento romântico estava no apogeu. Depois
de ter sido docente em Iena,
recebeu uma cátedra em Heidelberg - o centro do Romantismo nacional alemão. Finalmente, tornou-se professor em
Berlim em 1818 - exactamente na época em que esta cidade
começava a tornar-se um centro
espiritual da Europa. Em
Novembro de 1831, morreu de
cólera, mas nessa altura o
"hegelianismo" já tinha grupos
de discípulos em quase todas
as universidades alemãs.
- Então ele apanhou o
principal.
- Sim, e isso também é válido para a sua filosofia.
Hegel uniu nela quase todas
as ideias que se tinham desenvolvido com os românticos e
sintetizou-as. Mas ele era
também um forte crítico da filosofia de Schelling, por
exemplo.
- O que é que criticou nela?
- Schelling e os outros
românticos tinham visto o mais
profundo fundamento da realidade no chamado espírito do
mundo. Hegel também emprega o
conceito "Weltgeist", mas
dá-lhe outro significado.
Quando Hegel fala de espírito do mundo ou de "razão do
mundo", quer dizer a soma de
todas as manifestações humanas, pois só o homem tem espírito. Nesta acepção, ele também fala do percurso do espírito do mundo através da história. Não podemos esquecer
que ele fala da vida, dos pensamentos e da cultura dos homens.
- Então este espírito é
menos assustador. Já não está
à espreita como uma inteligência adormecida em pedras e árvores.
- E tu sabes ainda que
Kant tinha falado da "coisa
em si". Apesar de negar que
os homens pudessem ter um conhecimento claro dos segredos
mais íntimos da natureza, ele
apontou para uma espécie de
verdade inatingível. Segundo
Hegel, esta verdade era fundamentalmente subjectiva - e
negou que pudesse haver uma
verdade acima ou além da razão
humana. Todo o conhecimento é
conhecimento humano.
- Ele queria trazer a filosofia de volta à terra?
- Sim, talvez possas dizer
isso. Mas a filosofia de Hegel é tão abrangente e diversificada que temos de nos contentar por agora com a clarificação de alguns dos pontos
mais importantes. É difícil
dizermos que Hegel tinha uma
filosofia própria. Aquilo a
que chamamos a filosofia de
Hegel é sobretudo um método
para compreender a evolução da
história. Por isso, quase não
podemos falar sobre Hegel sem
mencionarmos

321
a evolução da história. A filosofia de Hegel não nos ensina realmente nada sobre a
"natureza profunda da vida",
mas pode ensinar-nos a pensar
de um modo frutífero.
- E isso também é muito
importante.
- Todos os sistemas filosóficos anteriores a Hegel
tinham tentado estabelecer
critérios eternos para aquilo
que o homem pode saber acerca
do mundo. Isso sucede em
Descartes e Espinosa, Hume
e Kant. Qualquer deles queria investigar qual era o fundamento de todo o conhecimento
humano. Mas todos tinham falado sobre os pressupostos intemporais para o conhecimento
do mundo.
- Não é esse o dever do
filósofo?
- Hegel achava impossível
encontrar esses pressupostos
intemporais. Segundo ele, as
bases do conhecimento humano
mudam de geração para geração.
Por isso, também não há para
ele "verdades eternas". Não
há razão intemporal. O único
ponto fixo em que o filósofo
se pode basear é a própria
história.
- Não, tens de me explicar
isso. A história altera-se
constantemente, como é que pode ser um ponto fixo?
- Um rio também se altera
constantemente. Mas isso não
significa que não possas falar
sobre esse rio. Mas não podes
perguntar em que parte do vale
o rio é mais verdadeiro.
- Não, porque o rio é em
toda a parte igualmente rio.
- Para Hegel, a história
era como o curso de um rio. O
mais pequeno movimento na água
num ponto determinado do rio é
na realidade determinado pela
queda da água e pela agitação
da água mais acima. Mas também é importante que pedras e
curvas há no rio no ponto em
que tu estás e o observas.
- Acho que estou a perceber.
- A história do pensamento
- ou da razão - é como o
curso desse rio. Contém todas
as ideias que gerações de pessoas pensaram antes de ti e
que determinam o teu pensamento do mesmo modo que as condições de vida da tua época.
Por isso, não podes afirmar
que uma determinada ideia é
eternamente verdadeira. Mas
essa ideia pode ser verdadeira
onde tu estás.
- Mas isso não significa
que tudo é falso - ou que tudo é verdadeiro, pois não?
- Não, uma coisa só pode
ser verdadeira ou falsa em relação a um contexto histórico.
Se argumentas a favor da escravatura no ano de 1990 tornas-te ridícula, na melhor das
hipóteses. Há dois mil e quinhentos anos não era tão ridículo, apesar de já nessa época
haver vozes progressistas que
defendiam a abolição da escravatura. Mas podemos

322
tomar um exemplo mais próximo.
Há apenas cem anos ainda não
era irracional queimar extensas áreas de floresta para se
obter terreno arável. Mas hoje é extremamente irracional.
Nós temos condições completamente diferentes - e melhores
- para julgarmos.
- Agora compreendi.
- Também a razão, diz
Hegel, é algo dinâmico, é um
processo. E a "verdade" é
apenas este processo. Não há
critérios exteriores ao processo histórico que possam decidir o que é mais verdadeiro
ou racional.
- Exemplos, por favor.
- Não podes examinar diversas ideias da Antiguidade
ou da Idade Média, do Renascimento ou do Iluminismo e
dizer que isto estava certo e
aquilo errado. Por isso, também não podes dizer que Platão estava errado ou que
Aristóteles tinha razão.
Também não podes dizer que
Hume estava errado enquanto
Kant ou Schelling tinham razão. Isso é um modo de pensar
anti-histórico.
- Pois, não me parece bem.
- Não podes arrancar nenhuma filosofia nem nenhuma
ideia do seu contexto histórico. Mas, e agora estou a falar de um aspecto novo, uma
vez que os homens compreendem
sempre coisas novas, a razão é
"progressiva". Significa que
o conhecimento humano está
constantemente em expansão e
em progresso.
- Assim, a filosofia de
Kant seria um pouco mais correcta do que a de Platão?
- Sim. O "espírito do
mundo" desenvolveu-se no tempo
que medeia entre Platão e
Kant. Se regressarmos à nossa imagem do rio podes dizer
que agora leva mais água. Entre as duas épocas passaram
mais de dois mil anos. Kant
não pode pretender que as suas
"verdades" fiquem na margem
como pedras imóveis. As suas
ideias também não são a última
conclusão da sabedoria e a geração seguinte criticá-las-ia
seriamente. Foi exactamente o
que se passou.
- Mas este rio do qual estás a falar...
- Sim?
- Para onde corre?
- Hegel explicou que o espírito tem cada vez mais consciência de si mesmo. Os rios
são cada vez mais largos quanto mais se aproximam do mar.
Segundo Hegel, na história,
o espírito do mundo desperta
lentamente para a consciência
de si mesmo. O mundo existiu
sempre, mas, através da cultura e do desenvolvimento do homem, o espírito fica cada vez
mais consciente do seu valor
intrínseco.
- Como é que ele podia ter
tanta certeza disso?

323
- Para ele era uma realidade histórica, não era de
modo algum uma mera profecia.
Para quem estuda a história,
segundo ele, torna-se claro
que a humanidade caminha em
direcção a um autoconhecimento
e a um autodesenvolvimento cada vez maiores. A história
mostra um inequívoco desenvolvimento no sentido de uma racionalidade e liberdade progressivamente maiores. Naturalmente, tem todo o tipo de
hesitações, mas em geral avança de modo imparável. Para
Hegel, a história dirige-se a
um fim.
- Então estamos sempre a
desenvolver-nos. Que bom,
nesse caso ainda há esperança.
- A história é para Hegel
uma longa cadeia de pensamentos, cujos elos não se ajustam
ao acaso, mas segundo leis determinadas. Quem estuda a
história pormenorizadamente
há-de reparar que geralmente
uma nova ideia é exposta com
base noutra anteriormente expressa. Mas se uma nova ideia
é apresentada, será forçosamente contestada por outra
nova ideia. Deste modo, surgem duas formas de pensar
opostas e entre elas uma tensão. Esta tensão é superada
quando uma terceira ideia que
preserva o melhor dos dois
pontos de vista precedentes é
apresentada. Hegel chama a
isto o processo "dialéctico".
- Tens um exemplo?
- Talvez ainda te lembres
que os pre-socráticos tinham
discutido a questão do elemento primordial e do devir.
- Sim.
- E os eleatas declararam
que qualquer transformação era
impossível. Por isso, tinham
de negar todas as alterações,
mesmo que as sentissem com os
sentidos. Os eleatas tinham
exposto uma perspectiva, e
Hegel chama a essa perspectiva uma "tese".
- Sim?
- Mas cada vez que uma
perspectiva é apresentada,
surge uma perspectiva contrária. Hegel chama-lhe "negação". A negação da filosofia
dos eleatas era a filosofia de
Heraclito, que afirmava que
"tudo flui". Surgiu então uma
tensão entre duas formas de
pensar diametralmente opostas.
Mas esta tensão foi "suprimida" quando Empédocles afirmou
que ambos estavam parcialmente
certos e parcialmente errados.
- Sim, começo a compreender...
- Os eleatas tinham razão
em dizer que por princípio nada se altera; mas não era verdade que não podemos confiar
nos nossos sentidos. Heraclito tinha razão ao dizer que
podemos confiar nos nossos
sentidos; mas não tinha razão
ao dizer que "tudo" flui.
- Porque existe mais do
que um elemento primordial. A
composição altera-se, mas os
elementos não.

324
- Exacto. O ponto de vista de Empédocles, que medeia
entre os pontos de vista opostos, é designado por Hegel a
"negação da negação".
- Meu Deus!
- Ele também chamava aos
três estádios do conhecimento
"tese, antítese" e "síntese".
Podes dizer que o racionalismo de Descartes é a tese - o
qual foi depois criticado pela
antítese empírica de Hume.
Mas esta oposição, a tensão
entre duas formas de pensamento opostas foi superada pela
síntese de Kant. Kant deu
razão por um lado aos racionalistas, por outro aos empiristas. Ele mostrou também que
ambos estavam errados em pontos importantes. Mas a história não termina com Kant. A
síntese de Kant tornou-se o
ponto de partida para uma nova
cadeia de pensamentos tripartida ou "tríade". Porque a
síntese também se torno tese e
segue-se uma nova antítese.
- Mas isso é extremamente
teórico.
- Sim, é teórico. Mesmo
que isto pareça verdade, Hegel não queria de modo algum
espartilhar a história num esquema. Ele achava poder retirar este modelo dialéctico da
própria história. Estava fortemente convicto de ter encontrado leis para o desenvolvimento da razão - ou para a
evolução do espírito através
da história.
- Compreendo.
- Mas a dialéctica de Hegel não se aplica apenas à
história. Mesmo quando discutimos - ou debatemos - pensamos dialecticamente. Tentamos detectar os erros de uma
forma de pensar. Hegel chamou-lhe "pensamento negativo".
Mas quando tivermos descoberto os erros de uma forma de
pensar conservamos ainda o que
estava correcto nela.
- Exemplos, por favor!
- Quando um socialista e
um conservador se reúnem para
resolver um problema social,
será logo patente uma tensão
entre ambas as maneiras de
pensar. Mas isso não quer dizer que um tem toda a razão e
o outro está completamente errado. É perfeitamente pensável que ambos estejam parcialmente certos e parcialmente
errados. No decurso da discussão conservar-se-ão, se
eles são inteligentes, os melhores argumentos de ambos os
lados.
- Esperemos que sim.
- Se estamos no meio de
uma discussão destas, infelizmente nem sempre é fácil verificar o que é mais racional.
No fundo, é a história que
tem de mostrar o que é verdadeiro e o que é falso. O que
é racional é real, segundo
Hegel.
- Isso quer dizer que o
que sobrevive está certo?
- Ou ao contrário: o que
está certo sobrevive.

325
- Não tens um pequeno
exemplo? Isso parece tudo tão
abstracto.
- Há cento e cinquenta
anos muitos lutavam pela
igualdade de direitos para as
mulheres. E muitos lutavam
encarniçadamente contra a
igualdade. Se hoje examinarmos os argumentos de ambos os
lados, não é difícil reconhecer quais eram os mais racionais. Mas não podemos esquecer que posteriormente sabemos
sempre mais. Provou-se que
aqueles que lutaram pela
igualdade de direitos tinham
razão. Muitas pessoas teriam
certamente vergonha se tivessem de ler o que o seu avô
disse acerca deste tema.
- Sim, percebo. O que é
que Hegel achava?
- Sobre a igualdade?
- Sim, não é disso que estamos a falar?
- Queres ouvir uma citação?
- Sim.
- "A diferença entre homem
e mulher é a mesma que entre o
animal e a planta" - escreveu
ele. "O animal corresponde
mais ao carácter do homem, a
planta mais ao da mulher, pois
o seu desenvolvimento é mais
tranquilo, e o princípio que
lhe está subjacente é sobretudo a unidade indeterminada do
sentimento. Se as mulheres
estão no topo do poder, o governo está em perigo, porque
elas não agem de acordo com as
exigências da universalidade,
mas de acordo com uma inclinação e opinião arbitrárias. A
formação das mulheres dá-se,
por assim dizer, na atmosfera
da imaginação, mais através da
vida do que da aquisição de
conhecimentos. Enquanto o homem atinge o seu lugar apenas
através da aquisição das
ideias e de muito empenho técnico."
- Obrigada, já chega.
Prefiro não ouvir mais citações dessas.
- Mas a citação é um exemplo brilhante de que a nossa
noção do que é "racional" se
altera constantemente. Mostra
também que Hegel era um filho
do seu tempo - tal como nós.
Muito do que nos parece hoje
"evidente" não passará o teste
da história.
- Tens um exemplo?
- Não, não tenho.
- Porque não?
- Porque eu apenas poderia
falar do que já está em vias
de transformação. Eu não poderia, por exemplo, dizer que
andar de carro será tido um
dia como algo terrivelmente
estúpido porque destrói a natureza. Hoje, já muita gente
pensa assim. Por isso, seria
um mau exemplo. Mas a história vai mostrar que muito do
que todos nós temos por evidente não passará o teste da
história.
- Compreendo.

326
- E podemos reparar ainda
noutra coisa: o facto de os
homens no tempo de Hegel fazerem estas afirmações extremas sobre a inferioridade da
mulher apenas acelerou o desenvolvimento do feminismo.
- Como assim?
- Os homens apresentaram
- como teria dito Hegel -
uma tese. A razão pela qual
eles achavam isso importante
era obviamente o facto de as
mulheres já terem começado a
insurgir-se. Não é preciso
ter uma opinião tão decidida
sobre uma coisa com a qual todos estão de acordo. Quanto
mais eles discriminavam as mulheres, mais forte se tornava
a antítese ou negação.
- Acho que estou a compreender.
- Podes dizer que adversários enérgicos são o melhor
que pode acontecer a uma
ideia. Quanto mais extremistas melhor, porque mais forte
será a reacção a que terão de
fazer face. Sob o ponto de
vista puramente lógico ou filosófico existe também uma
tensão dialéctica entre dois
conceitos.
- Exemplos, por favor!
- Quando reflicto sobre o
conceito "ser", tenho também
que introduzir o conceito
oposto "não-ser". É impossível pensarmos que existimos
sem nos lembrarmos em seguida
que não existiremos sempre. A
tensão entre "ser" e "não-ser"
é resolvida no conceito "devir". O processo do devir
significa de certo modo que
uma coisa é e não é.
- Compreendo.
- A razão de Hegel é uma
razão dinâmica. Uma vez que a
realidade é caracterizada por
antíteses, uma descrição da
realidade também tem que ser
contraditória. Vou dar-te um
exemplo: diz-se que o físico
dinamarquês "Niels Bohr"
pendurou uma ferradura sobre a
porta da sua casa.
- Diz-se que traz sorte.
- Mas isso é apenas superstição, e Niels Bohr era
de facto tudo menos supersticioso. Quando, certa vez, um
amigo o visitou, perguntou-
-lhe: - "Não acreditas numa
coisa dessas, pois não?".
"Não", respondeu Niels
Bohr, "mas disseram-me que
resulta".
- Não tenho palavras.
- A resposta foi bastante
dialéctica; alguns diriam que
é contraditória. Niels Bobr
era conhecido, bem como o poeta norueguês Vinje, por uma
visão dialéctica do mundo.
Ele afirmou certa vez que
existem dois tipos de verdade,
as superficiais, cuja antítese
era incontestavelmente falsa,
mas também as profundas, cuja
antítese era tão verdadeira
como elas próprias.
- Que tipo de verdades
eram essas?

327
- Se, por exemplo, digo
que a vida é curta...
- Eu estou de acordo.
- Numa outra ocasião posso
abrir os braços e dizer que a
vida é longa.
- Tens razão. De certo
modo, também é verdade.
- Para terminar vou dar-te
ainda um exemplo de como uma
tensão dialéctica pode provocar uma acção espontânea que
leva a uma mudança súbita.
- Diz!
- Imagina uma rapariga que
diz sempre: "Sim, mamã",
"Claro, mamã", "Como queiras, mamã", "Sim, vou já fazer isso, mamã!".
- Sinto um calafrio nas
costas.
- Certo dia, a mãe irrita-se por a filha ser sempre
tão obediente e grita enervada: "Não sejas tão obediente!", e a filha responde:
"Sim, mamã!"
- Nesse caso, eu dava-lhe
uma bofetada.
- É, não é? Mas o que farias se ela tivesse respondido: "Não, eu quero ser obediente".
- Seria uma resposta estranha. Talvez lhe desse à
mesma uma bofetada.
- Por outras palavras, estamos num impasse. A tensão
dialéctica agravou-se tanto
que tem de haver uma mudança.
- Referes-te à bofetada?
- Temos de mencionar ainda
um último aspecto da filosofia
de Hegel.
- Sou toda ouvidos.
- Lembras-te que caracterizámos os românticos como individualistas?
- O caminho misterioso
conduz ao interior.
- Justamente este individualismo encontrava na filosofia de Hegel a sua "negação".
Hegel dava um grande peso
àquilo a que chamava "poderes
objectivos", isto é, a família
e o Estado. Podes dizer que
Hegel não perdeu o indivíduo
de vista; apenas o via sobretudo como um elemento orgânico
da comunidade. A razão, ou o
espírito, são visíveis sobretudo na colaboração entre homens, segundo Hegel.
- Explica-te!
- A razão manifesta-se sobretudo na língua. E a língua
é algo no qual nascemos. A
língua norueguesa passa bem
sem o senhor Hansen, mas o
senhor Hansen não pode viver
sem a língua norueguesa. Não
é o indivíduo que forma a língua, mas a língua que forma o
indivíduo.
- Sim, podes dizer isso.

328
- Assim como o indivíduo
nasce numa língua, também nasce no seu contexto histórico.
E ninguém tem uma relação
"livre" com esse contexto.
Quem não encontra o seu lugar
no Estado é uma pessoa anti-histórica. Talvez te lembres ainda que esta ideia também era importante para os
grandes filósofos de Atenas.
O Estado é tão inconcebível
sem cidadãos como os cidadãos
sem o Estado.
- Compreendo.
- Para Hegel, o Estado é
"mais" do que o cidadão individual. E é mais do que a soma de todos os cidadãos. Hegel acha impossível que alguém
se despeça, por assim dizer,
da sociedade. Quem encolhe os
ombros em relação à sociedade
em que vive e prefere "encontrar-se a si mesmo" é, segundo
ele, um louco.
- Não sei se estou de
acordo, mas está bem.
- Para Hegel, não é o indivíduo que se encontra a si
mesmo, mas o espírito.
- O espírito encontra-se a
si mesmo?
- Hegel tentou mostrar que
o espírito regressa a si em
três estádios, ou seja, torna-se consciente de si mesmo
em três estádios.
- Continua!
- Em primeiro lugar, o espírito toma consciência de si
no indivíduo, o que Hegel designa "espírito subjectivo".
O espírito atinge uma consciência mais elevada de si na
família, na sociedade, e no
Estado, que Hegel designa
por "espírito objectivo", porque é uma razão que se manifesta na interacção entre os
homens. Mas há ainda um terceiro estádio...
- Estou ansiosa.
- A forma mais elevada de
autoconhecimento é atingida
pelo espírito no "espírito absoluto". E este espírito absoluto é a arte, a religião e
a filosofia. Dentre estas, a
filosofia é a forma mais elevada da razão, pois na filosofia o espírito reflecte sobre
o seu papel na história. Só
na filosofia é que o espírito
se encontra a si mesmo. Deste
ponto de vista, poderíamos dizer que a filosofia é o espelho do espírito.
- Isso parece tão misterioso que tenho que assimilá-
-lo com calma. Mas a última
coisa que disseste agradou-me.
- Eu disse que a filosofia
é o espelho do espírito.
- Isso é bonito. Achas
que isso tem alguma coisa a
ver com o espelho de latão?
- Sim, já que perguntas.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu penso que este espelho de latão tem uma importância especial, uma vez que está
sempre a vir à baila.
- Então também tens uma
ideia de qual é a importância
dele?

329
- Não, não. Eu apenas
disse que o espelho não seria
mencionado tantas vezes se não
tivesse uma importância especial para Hilde e o seu pai.
Mas só Hilde pode revelar
qual é a sua importância.
- Isto foi ironia romântica?
- É uma pergunta sem esperança, Sofia.
- Porquê?
- Nós não podemos ser irónicos. Somos vítimas indefesas dessa ironia. Quando uma
criança desenha alguma coisa
numa folha de papel, não podes
perguntar ao papel o que representa o desenho.
- Deixas-me arrepiada.

330
KIERKEGAARD

.. "a Europa está a caminho
da bancarrota"...

Hilde olhou para o relógio.
Já passava das quatro. Pôs o
"dossier" na escrivaninha e
desceu a correr para a cozinha. Tinha de ir para o barracão dos barcos com as sanduíches antes que a mãe desistisse de esperar. Ao sair,
lançou um olhar ao espelho de
latão.
Com toda a pressa, pôs ao
lume a água para o chá e barrou alguns pães.
Sim, havia de pregar uma
partida ao pai. Hilde via-se
cada vez mais como aliada de
Sofia e Alberto. Ele já devia estar a partir de
Copenhaga...
Desceu para o barracão com
um grande tabuleiro nas mãos.
- Faça favor, a refeição!
A mãe tinha um grande pedaço de lixa na mão. Limpou da
fronte os cabelos, cinzentos
devido ao pó de esmeril.
- Mas assim, saltamos o
almoço.
Sentaram-se na doca e comeram.
- Quando é que chega o
pai? - perguntou Hilde passado um pouco.
- No sábado. Mas tu sabes
isso.
- Mas quando? Não disseste que ele tem de fazer transbordo em Copenhaga?
- Sim...
A mãe mastigava uma sanduíche com chouriço e pepino.
- ... ele chega a
Copenhaga por volta das cinco. O avião parte em seguida
às oito e um quarto para
Kristiansand. Acho que ele
chega às nove e meia.
- Então fica algumas horas
em Copenhaga.
- Sim. Porquê?
- Ah... eu só queria saber
qual era o percurso.
Continuaram a comer.
Quando Hilde achou que já
tinha passado tempo suficiente, perguntou:
- Tens ouvido falar de
Anne e Ole ultimamente?

331
- Sim, às vezes telefonam.
Vêm cá em Julho, de férias.
- Não vêm antes disso?
- Não, acho que não.
- Então estão em
Copenhaga esta semana...
- Hilde, o que é que se
passa?
- Nada. Sobre alguma coisa temos que falar.
- Mas já falaste duas vezes sobre Copenhaga.
- A sério?
- Falámos sobre o facto de
o pai passar por lá...
- E depois lembrei-me de
Anne e Ole de repente.
Depois de terem comido,
Hilde colocou os pratos e as
chávenas no tabuleiro.
- Tenho de continuar a
ler, mamã...
- Suponho que sim...
Haveria nesta resposta uma
ligeira censura? Tinham dito
que queriam ter o barco preparado até ao regresso do pai.
- O pai quase me fez prometer que eu teria o livro
terminado quando ele chegasse.
- Não sei se acho isso
bem. Uma coisa é ele estar
fora tantas vezes, mas dirigir
ao longe tudo o que se passa
aqui em casa...
- Se tu soubesses tudo o
que ele dirige - disse Hilde
misteriosamente. - E nem podes calcular como ele gosta
disso.
Foi para o quarto e continuou a ler.

Sofia ouviu alguém bater à
porta. Alberto lançou-lhe um
olhar severo. - Não queremos
ser incomodados.
Bateram com mais força.
- Vou falar-te sobre um
filósofo dinamarquês que se
irritou muito com a filosofia
de Hegel - disse Alberto.
Mas estavam a bater com
tanta força que a porta tremia.
- É óbvio que o major nos
enviou de novo alguma personagem fantástica para ver se
caímos na armadilha - explicou Alberto. - Não lhe custa nada.
- Mas se não abrirmos e
virmos quem é, também não lhe
custa nada deitar a casa abaixo.
- Talvez tenhas razão.
Vamos abrir.
Foram à porta. Uma vez que
tinham batido com tanta força,
Sofia esperava uma pessoa
grande. Mas lá fora estava
uma rapariga novita com um
vestido florido e cabelos loiros compridos. Tinha duas pequenas garrafas nas mãos. Uma
era vermelha, a outra azul.

332
- Olá - disse Sofia -
quem és tu?
- Eu chamo-me Alice -
disse a rapariga, e fez uma
mesura acanhada.
- Já estava à espera -
afirmou Alberto. - É a
Alice no País das
Maravilhas.
- Mas como é que ela encontrou o caminho?
Alice respondeu por Sofia:
- O País das Maravilhas
é um país totalmente ilimitado. Significa que está em
toda a parte - mais ou menos
como a ONU. O País das
Maravilhas devia por isso
tornar-se sócio honorário da
ONU. Devíamos ter representantes próprios em todas as
comissões.
- Ah, aquele major! -
disse Alberto, sorridente.
- O que te traz aqui? -
perguntou Sofia.
- Tenho de entregar estas
garrafas de filosofia.
E entregou a Sofia as pequenas garrafas. Ambas eram
de vidro brilhante, mas numa
encontrava-se um líquido vermelho, na outra um líquido
azul. Na garrafa vermelha estava escrito: BEBE-ME!, na
azul: BEBE-ME TAMBÉM!
Em seguida, passou um coelho branco a correr pela cabana. Andava direito sobre as
patas traseiras e trazia colete e casaco. Em frente da cabana, tirou um relógio do bolso do colete e disse:
- Não, agora estou demasiado atrasado.
Depois, desatou a correr.
Alice correu atrás dele. Ao
afastar-se, fez mais uma vénia
e disse:
- Lá começa tudo de novo!
- Tens de cumprimentar
Dina e a rainha! - gritou-lhe Sofia.
E Alice desapareceu.
Alberto e Sofia ficaram parados na escada e observaram
as garrafas.
- BEBE-ME! E BEBE-ME
TAMBÉM! - leu Sofia alto.
- Não sei se me atrevo. Se
calhar é veneno.
Alberto encolheu os ombros.
- As garrafas vêm do major, e tudo o que vem do major
é apenas consciência. É apenas sumo imaginário.
Sofia tirou a rolha da garrafa vermelha e levou-a à boca
com cuidado. O sumo tinha um
sabor doce e estranho.
Imediatamente, aconteceu algo
com o mundo à sua volta: primeiro, as imagens do lago, do
bosque e da cabana pareciam
convergir. Em seguida, Sofia
julgou estar a ver apenas uma
pessoa e esta pessoa era ela
própria. Quando finalmente
olhou para Alberto, este também parecia ter-se tornado uma
parte de si mesma.
- Que estranho - afirmou.
- De repente, tudo o que eu
vejo parece estar relacionado.

333
Tenho a sensação de que tudo
é apenas uma consciência.
Alberto acenou afirmativamente - mas Sofia teve a
sensação de estar a acenar
para si mesma.
- Isso é o panteísmo ou a
filosofia da unidade - disse
Alberto. - É o espírito dos
românticos. Eles viram tudo
como um único grande "eu".
Também é Hegel - que por um
lado não descurou o indivíduo,
e por outro lado entendia tudo
como expressão de uma razão
universal.
- Será que devo beber da
outra garrafa?
- É o que está escrito.
Sofia tirou a rolha da garrafa azul e bebeu um grande
gole. Este sumo tinha um sabor mais fresco e amargo do
que o vermelho, mas também se
deu uma mudança súbita com
tudo à sua volta: num segundo
desapareceu o efeito da bebida
vermelha; e tudo voltou ao lugar. Alberto era de novo
Alberto, as árvores eram de
novo árvores e a água parecia
de novo um lago. Isso durou
apenas um segundo, e em seguida tudo o que Sofia via deslizou afastando-se. O bosque
já não era um bosque, a mais
pequena árvore parecia-lhe um
mundo à parte, o mais pequeno
ramo um conto sobre o qual se
podiam contar mil histórias.
O pequeno lago parecia-lhe um
mar infinito - não por ser
muito fundo ou extenso, mas
devido aos seus milhares de
pontos cintilantes e formas
variadas de ondas. Sofia compreendeu que podia observar
este mar até ao resto da sua
vida - e contudo ele havia de
lhe parecer sempre um mistério
insondável.
Sofia elevou o olhar em direcção à copa de uma árvore.
Aí, três pequenos pardais faziam um jogo divertido. Já
estavam na árvore quando
Sofia bebera da garrafa vermelha, mas Sofia não os tinha
visto bem. A garrafa vermelha
tinha apagado todos os contrastes e todas as diferenças
individuais.
Sofia desceu da laje sobre
a qual estava e ajoelhou-se na
relva. E aí encontrou um novo
mundo - mais ou menos como se
tivesse mergulhado e abrisse
os olhos no fundo do mar pela
primeira vez. Entre tufos de
relva e caules de plantas formigavam seres vivos. Sofia
viu uma aranha que se arrastava pelo musgo com energia e
segurança, um pulgão vermelho
que corria para cima e para
baixo numa haste, e todo um
exército de formigas trabalhando em conjunto. Mas cada
formiga movia as pernas à sua
maneira.
O mais estranho sucedeu
quando Sofia se levantou e
olhou para Alberto, que ainda
estava à soleira da porta. De
repente, viu nele um ser completamente estranho, qualquer
coisa como um homem de um outro planeta - ou como uma figura encantada de um conto de
fadas. E viu-se também como

334
um indivíduo único: não era
apenas uma pessoa, não era
apenas uma rapariga de quinze
anos - era Sofia Amundsen,
e só ela o era!
- O que estás a ver? -
perguntou Alberto.
- Vejo que és um pássaro
estranho.
- A sério?
- Acho que nunca vou compreender como é ser uma outra
pessoa. Não há duas pessoas
iguais em todo o mundo.
- E o bosque?
- Já não parece o mesmo.
É todo um universo de contos
fantásticos.
- Era o que eu suspeitava.
A garrafa azul é o individualismo. Foi a reacção de
Sõren Kierkegaard ao idealismo dos românticos. O contista Hans Christian
Andersen não foi contemporâneo de Kierkegaard por acaso.
Ele tinha o mesmo olho apurado para a infinita riqueza de
pormenores da natureza.
Leibniz já o possuíra cem
anos antes e reagiu à filosofia da unidade de Espinosa
tal como Kierkegaard a
Hegel.
- Estou a ouvir o que dizes, mas soa tão estranho que
tenho vontade de rir.
- Compreendo. Nesse caso
bebe um gole da garrafa vermelha. E depois sentamo-nos
aqui na escada. Temos de dizer alguma coisa sobre
Kierkegaard antes de terminarmos por hoje.
Sentaram-se e Sofia bebeu
um gole da garrafa vermelha.
As coisas confluíram de novo,
inclusivamente um pouco demais, pois Sofia tinha novamente a sensação de que nenhuma diferença tinha qualquer
importância. Tocou no gargalo
da garrafa azul com a língua e
o mundo ficou mais ou menos
como estava antes de Alice
ter trazido as garrafas.
- Mas isto é "verdadeiro"?
- perguntou então Sofia. -
É a garrafa vermelha ou a
azul que nos proporciona a
verdadeira experiência do que
o mundo é na realidade?
- Ambas, Sofia. Não podemos dizer que os românticos
estavam errados. Mas talvez
fossem um pouco parciais.
- E a garrafa azul?
- Acho que Kierkegaard
deve ter bebido alguns fortes
goles dessa. Ele tinha um
olho extremamente apurado para
o significado do indivíduo.
Mas nós também não somos apenas "filhos do nosso tempo".
Cada um de nós é igualmente
um indivíduo único que apenas
vive uma vez.
- Aparentemente, Hegel
não estava particularmente interessado nisso?
- Não, ele preocupava-se
sobretudo com as grandes linhas da história. E foi justamente isso que irritou
Kierkegaard. Ele achou que a
filosofia da unidade dos românticos e o "historicismo" de
Hegel tinham retirado ao

335
indivíduo a responsabilidade
pela sua própria vida. Para
Kierkegaard, Hegel e os românticos eram talhados exactamente na mesma pedra.
- Consigo compreender que
ele se tenha irritado.
- Sõren Kierkegaard nasceu em 1813 em Copenhaga e
foi educado pelo pai de uma
forma muito severa. Dele herdou também a melancolia religiosa.
- Isso não é bom.
- Não. Devido a melancolias, sentiu-se forçado a romper um noivado quando era jovem, o que não foi nada bem
aceite pela burguesia de
Copenhaga. Ele tornou-se
muito cedo uma pessoa excluída
e escarnecida. Bom, com o
tempo, aprendeu a reagir. Com
o tempo, tornou-se aquilo que
Ibsen descreveu mais tarde
como "inimigo do povo".
- Tudo isso por causa de
um noivado desfeito?
- Não, não apenas por
isso. Sobretudo por volta do
final da sua vida, tornou-se
um crítico cada vez mais acérrimo de toda a cultura europeia. Ele achava que a
Europa estava a caminho da
bancarrota. Julgava viver
numa época sem paixão nem empenho, e vociferava contra a
atitude tíbia e desleixada da
Igreja. A sua crítica ao
chamado "Cristianismo de domingo" era tudo menos delicada.
- Hoje devíamos falar antes de "Cristianismo do crisma". A maior parte das crianças só são crismadas por causa
dos presentes.
- Sim, tens razão. Para
Kierkegaard, o Cristianismo
era ao mesmo tempo tão grandioso e tão irracional que só
podia haver um ou/ou. Era
impossível, segundo ele,
ser-se "um pouco" cristão ou
cristão "até um certo grau".
Ou Jesus ressuscitou no
Domingo de Páscoa - ou não.
E se Ele ressuscitou verdadeiramente dos mortos, se Ele
morreu verdadeiramente por
nós, isso é tão grandioso que
"tem" de determinar toda a
nossa vida.
- Compreendo.
- Kierkegaard sentia que a
Igreja e a maior parte dos
cristãos do seu tempo tinham
uma posição francamente pedante em relação às questões religiosas. Para ele, isso era
impensável. Religião e razão
eram para ele como fogo e
água. Não era suficiente ter
o cristianismo por
"verdadeiro", segundo ele. Fé
cristã significava seguir o
exemplo de Jesus.
- E o que é que isso tinha
a ver com Hegel?
- Oh! Se calhar começámos
pela ponta errada.
- Então proponho que metas
a marcha atrás e comeces do
princípio.
- Kierkegaard iniciou os
estudos de teologia com dezassete anos, mas começou a interessar-se cada vez mais por
questões filosóficas. Com
vinte e oito anos fez o seu
doutoramento com a dissertação
O "conceito de ironia, sobre

336
tudo em Sócrates". Nela fez
contas com a ironia romântica
e o jogo descomprometido dos
românticos com a ilusão.
Confrontou a ironia romântica
com a "ironia socrática".
Sócrates também se tinha servido do efeito da ironia, mas
apenas para ensinar aos seus
interlocutores as verdades
fundamentais sobre a vida.
Sócrates era para Kierkegaard, ao contrário dos românticos, um pensador existencial,
ou seja, um pensador que tem
totalmente em conta a sua
existência na sua reflexão filosófica. Ele acusou os românticos de não o fazerem.
- Ah!
- Depois de ter desfeito o
seu noivado, Kierkegaard foi
para Berlim em 1841, onde
assistiu às lições de
Schelling.
- Encontrou-se com Hegel
lá?
- Não, Hegel morrera dez
anos antes, mas as ideias de
Hegel predominavam ainda em
Berlim e muitas partes da
Europa. O seu "sistema" era
usado como uma espécie de explicação multi-usos para todas
as questões filosóficas possíveis. Kierkegaard tomou a posição radicalmente oposta e
explicou que as "verdades objectivas" com as quais a filosofia hegeliana se ocupava
eram completamente irrelevantes para a existência do indivíduo.
- Quais são então as verdades relevantes?
- Mais importante do que a
busca da Verdade com letra
maiúscula era, para
Kierkegaard, a busca das verdades importantes para a vida
do indivíduo. Importante era,
segundo ele, encontrar a
"verdade para mim". Ele confrontava o "sistema" com o indivíduo. Segundo
Kierkegaard, Hegel esquecera-se de que ele próprio era
apenas um homem. Ele fazia
troça do tipo de professor hegeliano que vive num castelo
de nuvens e, enquanto explica
toda a realidade, se esquece,
na sua distracção, do próprio
nome e de que é um homem, simplesmente um homem, não um parágrafo subtil.
- E o que é um homem para
Kierkgaard?
- Não se pode responder a
isso de uma forma tão geral.
Uma descrição universalmente
válida da natureza humana ou
do "ser" humano é totalmente
desinteressante para
Kierkegaard. Importante é a
"existência" do indivíduo. E
o homem não vive atrás de uma
escrivaninha. Só quando agimos - e sobretudo quando fazemos uma "escolha" importante
-, agimos em relação à nossa
existência. Uma história sobre Buda pode ilustrar o que
Kierkegaard tinha em mente.
- Sobre Buda?
- Sim, porque a filosofia
de Buda também tem como ponto
de partida a existência humana. Era uma vez um monge que
achava que Buda dava respostas pouco claras sobre questões importantes, por exemplo,

337
o que é o mundo ou o que é um
homem. Buda respondeu contando a história de uma pessoa
que tinha sido ferida por uma
flecha envenenada. Este homem
nunca perguntaria por puro interesse teórico de que material é feita a flecha, em que
veneno foi embebida ou a partir de que ponto ele fora
atingido.
- Ele havia de querer que
alguém lhe tirasse a flecha e
tratasse a ferida.
- É, não é? Isso seria
existencialmente importante.
Buda e Kierkgaard sentiam
que existiam por um curto espaço de tempo. E como eu disse: nesse caso, não nos sentamos a uma escrivaninha a especularmos sobre o espírito.
- Compreendo.
- Kierkegaard disse também
que a verdade é "subjectiva".
Não queria afirmar que é indiferente o que pensamos ou
aquilo em que acreditamos.
Queria dizer que as verdades
realmente importantes são
"pessoais". Só essas verdades
são "verdades para mim".
- Podes dar-me um exemplo
de uma verdade subjectiva desse tipo?
- Uma questão importante
é, por exemplo, se o Cristianismo é a verdade. Segundo
Kierkegaard, não podemos ter
uma posição teórica ou académica em relação a essa questão. Para alguém que se vê
como ser existente, é uma
questão de vida ou de morte.
Não se discute sobre isso
apenas por amor da discussão.
É uma coisa com que nos preocupamos muito.
- Compreendo.
- Se cais à água, não tens
uma atitude teórica em relação
à questão se te vais afogar ou
não. Nesse caso, não é interessante nem desinteressante
saber se há crocodilos na
água. É uma questão de vida
ou de morte.
- Sim, sem dúvida!
- Por isso temos de fazer
a distinção entre a questão
filosófica sobre a existência
de Deus e a relação do indivíduo com a mesma questão.
Qualquer indivíduo está completamente só perante essas
questões. Além disso, só podemos aceder a elas pela "fé".
As coisas que podemos compreender com a nossa razão não
são importantes para
Kierkegaard.
- Tens de explicar isso.
- Oito mais quatro são
doze, Sofia. Podemos ter a
certeza disso. É um exemplo
de verdades da razão, de que
todos os filósofos desde
Descartes falaram. Mas vamos
incluí-las na nossa oração da
noite? E vamos quebrar a cabeça com elas no leito de morte? Não, essas verdades podem
ser "objectivas" e
"universais", mas justamente
por isso são indiferentes para
a existência do indivíduo.

338
- E quanto à fé?
- Não podes saber se uma
pessoa te perdoou por lhe teres feito algo de mal. Mas
justamente por isso é importante para ti existencialmente. É uma questão com a qual
tens uma relação viva. Também
não podes saber se alguém gosta de ti. Só podes acreditar
ou esperar que goste. No entanto, isso é mais importante
para ti do que o facto indiscutível de a soma dos ângulos
de um triângulo perfazer cento
e oitenta graus. Enfim, também não se pensa na lei da
causalidade ou nas formas kantianas da intuição quando se
dá o primeiro beijo.
- Não, isso seria estranho.
- A fé é o mais importante
quando se trata de questões
religiosas. Kierkegaard pensa
que se posso compreender Deus
objectivamente, não acredito,
mas justamente porque não posso compreender, tenho de acreditar. E se quero conservar a
minha fé, tenho de ter em
atenção não esquecer que estou
na incerteza, e no entanto
acredito.
- Isso é um pouco complicado.
- Antigamente, muitos tentaram provar a existência de
Deus - ou pelo menos compreendê-la com a razão. Mas se
nos contentamos com essas provas da existência, ou argumentos racionais, perdemos a fé
- e consequentemente também o
sentimento religioso. Porque
o essencial não é o cristianismo ser verdadeiro, mas ser
verdadeiro "para mim". Na
Idade Média a mesma ideia
foi expressa através da fórmula "credo quia absurdum".
- O quê?
- Significa: "creio porque
é absurdo". Se o cristianismo
tivesse apelado à razão - e
não a outros aspectos nossos,
não seria uma questão de fé.
- Compreendi isso agora.
- Vimos então o que
Kierkegaard entendia por
"existência", "verdade subjectiva" e "fé". Estes três conceitos foram formulados como
uma crítica à tradição filosófica e sobretudo a Hegel.
Mas havia neles toda uma
"crítica da civilização".
Segundo Kierkegaard, na sociedade urbana moderna, o homem tornara-se "público", e a
primeira característica da
multidão era a "tagarelice"
irrelevante. Hoje usaríamos
talvez o termo "conformismo",
ou seja, todos "pensam" e
"defendem" as mesmas coisas,
sem que ninguém tenha uma relação apaixonada com isso.
- Eu pergunto-me o que é
que Kierkegaard teria dito
dos pais de Jorunn.
- De qualquer modo, não
era muito tolerante com os
seus próximos. Ele tinha uma
pena afiada e podia ser irónico de uma forma mordaz.
Escreveu, por exemplo: "a
multidão é a falsidade".
Explicou também que a maior

339
parte das pessoas tinham uma
atitude demasiado superficial
em relação à existência.
- Uma coisa é coleccionar
Barbies. Ser uma Barbie é
mais grave ainda...
- Isso leva-nos à teoria
de Kierkegaard dos três estádios da vida.
- O que disseste?
- Segundo Kierkegaard,
existiam três possibilidades
de existência. Ele próprio
usa o termo "plano". Chama a
estas possibilidades o "plano
estético", o "plano ético" e o
"plano religioso". Ao escolher o termo "plano" quer
mostrar que podemos viver num
dos dois inferiores e fazer
subitamente o "salto" para um
mais elevado. Mas muitos homens passam toda a sua vida no
mesmo plano.
- Aposto que vem aí uma
explicação. E além disso estou curiosa para saber em que
plano me encontro.
Quem vive no "plano estético", vive no momento e procura
sempre o prazer. O que é bom
é o que é belo, interessante
ou agradável. Assim, essa
pessoa vive completamente no
mundo dos sentidos. O esteta
torna-se joguete dos seus próprios prazeres e disposições.
Tudo o que é monótono é negativo, como se diz hoje.
- Eu conheço essa atitude.
- O típico romântico é esteta, porque não se trata apenas de prazer sensual. Uma
pessoa com uma atitude contemplativa em relação à realidade
- ou por exemplo em relação à
arte ou à filosofia, com que
se preocupa - vive no estádio
estético. Mesmo em relação à
aflição e ao sofrimento nos
podemos comportar de um modo
estético ou "contemplativo".
É a frivolidade que reina.
Ibsen descreveu o retrato de
um esteta típico em "Peer
Gynt".
- Acho que percebo o que
Kierkegaard queria dizer.
- Conheces alguém assim?
- Não totalmente assim.
Mas acho que faz lembrar um
pouco o major.
- Sim, talvez, Sofia -
apesar de isso ser novamente
um exemplo da sua ironia romântica de mau gosto. Devias
levar pimenta na língua!
- O que disseste?
- Bom, não é culpa tua.
- Continua.
- Quem vive no plano estético está exposto aos sentimentos de angústia e de vazio.
Se sente estes sentimentos,
ainda há esperança. Para
Kierkegaard, a "angústia" é
algo quase positivo. É um sinal de que alguém se encontra
numa "situação existencial".
O esteta pode decidir
que quer fazer o "salto" para
um estádio mais elevado. Ou
consegue, ou não consegue.
Não serve de nada ter quase
saltado, quando não salta

340
de facto. "Ou/ou". E ninguém pode fazer o salto por
nós. Temos de decidir e saltar por nós próprios.
- É o mesmo quando alguém
quer deixar a bebida ou as
drogas.
- Sim, talvez. Quando
Kierkegaard fala sobre esta
decisão, faz lembrar um pouco
Sócrates, que explicara que
qualquer conhecimento verdadeiro vem de dentro. A escolha que leva um homem a saltar
de uma visão da vida estética
para uma visão ética ou religiosa também tem que vir de
cada um. É exactamente isso
que Ibsen descreve em "peer
Gynt". Uma outra descrição
magistral de uma escolha existencial que surge da necessidade e desespero interiores
encontramo-la num romance do
escritor russo "Dostoievski".
Chama-se "Crime e Castigo"
e, quando tivermos terminado o
curso, tens de lê-lo sem falta.
- Vamos ver. Então
Kierkgaard pensa que quando
alguém é sério deve escolher
uma outra forma de vida?
- E começa a viver no
"plano ético". Este caracteriza-se pela seriedade e decisões coerentes com critérios
morais. Faz lembrar a ética
do dever de Kant, que também
exige que procuremos viver de
acordo com a lei moral. Tal
como Kant, também
Kierkegaard dirige a sua
atenção em primeiro lugar para
a sensibilidade humana. Não é
importante o que alguém considera verdadeiro ou falso. O
importante é que alguém se decida a ter uma opinião em relação ao que é correcto ou
falso. O esteta interessa-se
apenas pelo que é divertido ou
aborrecido.
- Mas não nos podemos tornar "demasiado" sérios se vivermos assim?
- Sim, claro. Mas o plano
ético não satisfaz
Kierkegaard. O homem ético
também se cansa de ser apenas
consciente do dever. Muitas
pessoas vivem essa fase de enfado e cansaço quando são
adultos. E alguns recaem então na vida leviana do plano
estético. Mas outros fazem um
novo salto para o novo plano,
o "plano religioso". Ousam
fazer o verdadeiro grande salto na profundidade da fé.
Preferem a fé ao gozo estético e às leis da razão. E apesar de poder ser assustador
"cair nas mãos do Deus vivo",
como Kierkegaard afirmou, só
então o homem se pode reconciliar com a sua vida.
- Pelo Cristianismo, portanto.
- Para Kierkegaard o estádio religioso era o
Cristianismo. Mas, a sua filosofia influenciou pensadores
não-cristãos. No nosso século
nasceu mesmo uma filosofia
existencial fortemente inspirada por ele.
Sofia olhou para o relógio.
- São quase sete. Tenho
de ir para casa, senão a minha
mãe endoidece.
Acenou com a mão ao seu
professor de filosofia e desceu a correr para o lago e
para o barco.

341

MARX

.. "um fantasma assombra a
Europa" ...

Hilde levantara-se da cama
e assomou à janela que dava
para a enseada. Tinha começado o sábado a ler sobre o aniversário de Sofia. No dia
anterior fora o seu próprio
aniversário. Se o pai calculara que ela já tivesse chegado até aí no aniversário de
Sofia, sobrestimara-a. No
dia anterior, ela de facto
"só" tinha lido! Por outro
lado, recebera só mais uma felicitação: quando Alberto e
Sofia tinham cantado os parabéns. Isso fora embaraçoso
para Hilde.
Sofia tinha convidado amigos para uma "festa filosófica
ao ar livre" no dia em que o
seu pai voltava do Líbano.
Hilde estava convencida de
que nesse dia sucederia qualquer coisa de que nem ela nem
o pai tinham uma ideia clara.
Uma coisa era certa: antes
de o pai voltar para Bjerkely, devia receber um pequeno
raspanete. Era o mínimo que
ela podia fazer por Alberto e
Sofia, pensou Hilde. Eles
tinham-lhe pedido ajuda...
A mãe ainda estava no barracão. Hilde desceu silenciosamente para o piso de baixo e
dirigiu-se ao telefone.
Procurou o número de Anne e
Ole em Copenhaga e marcou.
- Anne Kvamdal.
- Olá, é a Hilde.
- Que simpática! Como vão
as coisas em Lillesand?
- Muito bem, estou de férias. E agora falta apenas
uma semana para o pai voltar
do Líbano.
- Vai ser bom, não achas,
Hilde?
- Claro, estou ansiosa. E
sabes, é justamente por isso
que te estou a telefonar...
- Ah, sim?
- Acho que ele chega no
dia 23 a Kastrup, por volta
das cinco da tarde. Vocês vão
estar em Copenhaga?
- Acho que sim.
- Queria saber se me podiam fazer um favor.

342
- É claro que podemos.
- Mas é um favor um pouco
especial. Não sei sequer se é
possível.
- Estou a ficar curiosa.
Hilde contou. Falou sobre
o "dossier", sobre Alberto e
Sofia e tudo o resto. Teve
de recomeçar várias vezes porque ela e a tia desatavam a
rir. Mas, quando desligaram,
o plano de Hilde estava decidido.
Em casa também tinha de fazer certos preparativos. Bom
- não havia pressa.
Hilde passou o resto da
tarde e a noite com a mãe.
Acabaram por ir de carro a
Kristiansand e foram ao cinema, como uma espécie de substituição de festa de anos,
visto que no dia anterior não
tinham festejado verdadeiramente. Quando passaram pelo
desvio para o aeroporto, Hilde juntou mais algumas peças
ao grande "puzzle" em que pensara ininterruptamente desde
manhã.
Só quando foi para a cama
nessa noite continuou a ler o
grande "dossier".

Quando Sofia entrou pelo
carreiro, eram quase oito. A
mãe estava a trabalhar nos
canteiros à entrada, quando
ela apareceu.
- Donde é que vens?
- Da sebe.
- Da sebe?
- Não sabes que há um caminho do outro lado?
- Onde é que estiveste,
Sofia? Não vieste para o
jantar, sem me informares.
- Desculpa. O tempo estava tão bom. Dei um grande
passeio.
A mãe levantou-se e olhou
para ela.
- Por acaso não te encontraste de novo com esse filósofo?
- Sim, encontrei-me. Eu
contei-te que ele gosta de
passear.
- Mas ele vem à festa?
- Sim, claro, está ansioso.
- Eu também, Sofia.
Conto os dias.
Não havia um tom severo na
sua voz? Por precaução, Sofia disse:
- Estou contente por ter
convidado também os pais de
Jorunn. De outro modo, seria
um pouco embaraçoso.
- Bom... pelo menos, vou
falar com esse Alberto de
adulto para adulto.
- Vocês podem ir para o
meu quarto. Tenho a certeza
de que vais gostar dele.
- Espera. Chegou uma carta para ti.

343
- Ah...
- No carimbo está escrito:
"Contingente da ONU"
- Então é do irmão do Alberto.
- Acho que já é de mais,
Sofia.
Sofia reflectiu febrilmente
e, passado alguns segundos,
lembrou-se de uma resposta
adequada. Um espírito solícito parecia tê-la inspirado.
- Eu disse a Alberto que
colecciono selos raros. Podes
ver para que servem os irmãos.
Com esta resposta, conseguiu acalmar a mãe.
- O jantar está no frigorífico - disse ela, num tom
um pouco mais amigável.
- Onde está a carta?
- Em cima do frigorífico.
Sofia correu para a cozinha. A carta tinha o carimbo
de 15-6-1992. Abriu o envelope e retirou uma folha
bastante pequena:
"Então que vale a eterna
criação?
Coisas criadas ao nada reduzir!"

Não, para esta pergunta,
Sofia não tinha resposta.
Antes de comer, juntou a folha a todas as outras coisas
que reunira no armário nas semanas anteriores. Haveria de
saber na altura devida por que
motivo esta pergunta lhe fora
feita.
Na manhã seguinte, Jorunn
visitou-a. Primeiro, jogaram
"badminton", depois ocuparam-se novamente com a planificação da festa filosófica.
Precisavam de algumas surpresas para o caso de não haver a
atmosfera desejada.
Quando a mãe de Sofia veio
do trabalho, ainda estavam a
falar sobre a festa. A mãe
estava sempre a repetir uma
frase: "Não, não vamos poupar
em nada." Não o dizia ironicamente.
Ela parecia estar fortemente convencida de que uma festa
filosófica era exactamente o
que Sofia precisava para pôr
novamente os pés na terra,
após tantas semanas de lições
intensivas de filosofia.
Por fim, chegaram a acordo
sobre tudo - desde as tortas
e lampiões nas árvores até ao
questionário filosófico com um
livro de filosofia para jovens
como prémio. Caso houvesse um
livro desse tipo. Sofia não
tinha a certeza.
Na quinta-feira, dia 21 de
Junho - apenas dois dias antes da noite de São João,
Alberto voltou a telefonar.
- Sofia.

344
- Alberto.
- Como estás?
- Muito bem. Acho que encontrei a solução.
- Solução para quê?
- Tu sabes. Para a prisão
espiritual em que vivemos há
demasiado tempo.
- Ah, isso...
- Mas eu só posso falar
sobre o plano quando tudo estiver em curso.
- Não é muito tarde? Tenho que saber no que me estou
a envolver.
- Estás a ser ingénua.
Sabes bem que somos espiados
sempre e em toda a parte. O
mais sensato seria guardarmos
silêncio...
- É assim tão grave?
- Claro. O mais importante sucede quando não falamos
um com o outro.
- Oh...
- Vivemos a nossa vida
numa realidade fictícia, por
detrás das palavras de uma
longa história. Cada letra é
batida pelo major numa máquina
de escrever portátil barata.
Nada do que é escrito pode
escapar à sua atenção.
- Não, eu compreendo. Mas
como nos podemos esconder
dele?
- Chiu!
- O quê?
- Nas entrelinhas também
acontecem coisas. É justamente aí que procuro agir com
toda a minha astúcia.
- Ah...
- Temos de nos encontrar
hoje e também amanhã. No sábado acontece tudo. Podes vir
imediatamente?
- Vou já.
Sofia pôs comida aos pássaros e aos peixes, deu a Govinda uma folha de alface e
abriu uma lata de comida para
Sherekan. Ao sair colocou o
prato com a comida na escada.
Depois, enfiou-se pela sebe e
saiu para o caminho do outro
lado. Após ter andado um bocado descobriu no meio da urze
uma grande escrivaninha.
Atrás da escrivaninha estava
sentado um homem velho.
Parecia concentrado a fazer
contas. Sofia foi ter com ele
e perguntou-lhe o nome.
- Scrooge - disse e voltou a debruçar-se sobre os
seus papéis.
- Eu chamo-me Sofia. És
um homem de negócios?
Ele acenou afirmativamente.
- E podre de rico. Não se
pode desperdiçar nem um centavo. Por isso, tenho de me
concentrar na minha contabilidade.

345
- Como é que aguentas?
Sofia acenou-lhe com a mão
e prosseguiu. Mas não andara
muito quando viu uma rapariga
sentada sozinha debaixo de uma
árvore grande. A pequena estava vestida com andrajos e
parecia pálida e doente.
Quando Sofia passou, enfiou
a mão num pequeno saco e tirou
uma caixa de fósforos.
- Queres comprar fósforos?
- perguntou.
Sofia procurou no seu bolso. Ainda tinha uma coroa.
- Quanto custam?
- Uma coroa.
Sofia deu a coroa à pequena
e ficou imóvel com a caixa de
fósforos nas mãos.
- És a primeira pessoa que
me compra alguma coisa há mais
de cem anos. Às vezes, passo
fome, às vezes, fico com frio.
Sofia pensou que não era de
admirar que a pequena não conseguisse vender fósforos no
meio do bosque. Mas lembrou-se do homem de negócios
rico. A rapariga não tinha
necessidade de passar fome, se
ele tinha tanto dinheiro.
- Vem comigo - disse
Sofia.
Pegou na mão da pequena e
levou-a consigo para junto do
homem rico.
- Tens de fazer com que
esta rapariga tenha uma vida
melhor - afirmou.
O homem levantou os olhos
dos seus papéis e declarou:
- Isso custa dinheiro, e
eu já te disse que não se pode
desperdiçar um centavo sequer.
- Mas é injusto que tu sejas tão rico e ela tão pobre
- insistiu Sofia.
- Que disparate! Só há justiça entre iguais.
- O que queres dizer com
isso?
- Eu venci pelo trabalho e
o trabalho deu os seus frutos.
Chama-se a isso progresso.
- Vejam só!
- Se não me ajudas, eu
morro - disse a rapariga pobre.
O homem de negócios voltou
a levantar os olhos dos papéis. Depois, atirou com a
pena para a mesa num gesto impaciente.
- Tu não fazes parte da
minha contabilidade. Por
isso, vai para o asilo.
- Se não me ajudas, incendeio o bosque - disse a rapariga pobre.
O homem só então se levantou da sua escrivaninha, mas a
rapariga já tinha acendido um
fósforo. Levou-o a alguns tufos de erva seca que se incendiaram imediatamente.

346
O homem rico agitava freneticamente os braços.
- Socorro - gritou. - Fogo!
A rapariga olhou para ele com um sorriso malicioso.
- Certamente não sabias
que eu era comunista.
No momento seguinte, a rapariga, o homem de negócios e
a escrivaninha tinham desaparecido. Sofia estava ali sozinha, enquanto a erva ardia
cada vez mais. Tentou apagar
as chamas com o pé e, passado
pouco tempo, conseguiu.
Graças a Deus! Sofia
olhou para os tufos de erva
negros. Segurava na mão uma
caixa de fósforos. Não teria
sido ela a deitar o fogo?

Quando encontrou Alberto
em frente à cabana, contou-lhe
o que tinha sucedido.
- Scrooge é um capitalista
avarento em "Um Conto de
Natal" de Charles Dickens.
A rapariga com os fósforos
conhece-la certamente do conto
de Hans Christian Andersen.
- Mas não é estranho que
eu os tenha encontrado aqui no
bosque?
- Não, de modo algum.
Este não é um bosque normal.
E uma vez que vamos falar de
"Karl Marx" é bom que tenhas
visto um exemplo das enormes
lutas de classes em meados do
século passado. Mas vamos lá
para dentro. Apesar de tudo,
estamos um pouco mais protegidos do major.
Sentaram-se à mesa junto da
janela que dava para o lago.
Sofia ainda se lembrava bem
como vira o pequeno lago depois de ter bebido da garrafa
azul. Nesse momento, a garrafa vermelha e a garrafa azul
estavam sobre a consola da lareira. Na mesa havia uma reprodução em miniatura de um
templo grego.
- O que é isto? - perguntou Sofia.
- Cada coisa de sua vez,
minha filha.
E Alberto começou a falar
sobre Marx:
- Quando Kierkegaard foi
para Berlim em 1841, talvez
tenha estado sentado ao lado
de Marx nas lições de Schelling. Kierkegaard escreveu
uma tese sobre Sócrates e
Karl Marx escreveu na mesma
altura uma tese sobre Demócrito e Epicuro - ou seja,
sobre o materialismo na Antiguidade. Assim, já tinham
definido o curso futuro da sua
filosofia.
- Porque Kierkegaard se
tornou um existencialista e
Marx materialista?
- Marx é definido como um
materialista histórico. Mas
ainda vamos voltar a esse ponto.
- Continua!
- Seja Marx, seja Kierkegaard, tiveram como ponto de
partida a filosofia de Hegel.
Ambos foram influenciados
pelo seu modo de pensar,

347
mas também ambos se distanciaram da ideia de Hegel de um
espírito do mundo - ou daquilo a que chamamos o
"idealismo" de Hegel.
Isso era um pouco vago.
Exacto. De um modo geral,
dizemos que a época dos grandes sistemas filosóficos terminou com Hegel. Depois
dele, a filosofia segue uma
orientação completamente nova.
Em lugar de grandes sistemas
especulativos surgem as chamadas "filosofias da existência", ou também "filosofias da
acção". Em relação a isto,
Marx dizia que até então os
filósofos apenas tinham interpretado o mundo, em vez de o
transformar. Estas palavras
caracterizam um ponto de viragem importante na história da
filosofia.
- Depois de ter encontrado
Scrooge e a rapariguinha dos
fósforos, não tenho dificuldade em compreender o que Marx
tinha em mente.
- O pensamento de Marx
tinha uma finalidade prática
- e política. Devemos também
reparar que ele não era apenas
filósofo. Era também historiador, sociólogo e economista.
- E foi inovador em todos
esses domínios?
- Pelo menos, nenhum outro
filósofo teve tanta importância para a política prática.
Por outro lado, temos que nos
precaver de identificar com o
seu pensamento tudo o que foi
designado por "marxista".
Diz-se que Marx se tornou
"marxista" por volta de 1845;
mas ele não gostou da designação durante toda a vida.
- Jesus era cristão?
- Isso também é discutível.
- Continua.
- Desde o início, o seu
amigo e colega "Friedrich
Engels" contribuiu para aquilo que mais tarde foi designado por marxismo. No nosso século, "Lenine, Estaline e
Mao" desenvolveram o marxismo. Nos países de Leste falava-se de "marxismo-leninismo", a partir de Lenine.
- Então eu proponho que
nos limitemos a Marx.
Disseste que era um "materialista histórico"?
- Não era um materialista
filosófico como os atomistas
da Antiguidade e os materialistas mecanicistas do século
XVII e XVIII. Segundo
ele, são antes de mais as condições materiais de vida numa
sociedade que determinam o
nosso pensamento e a nossa
consciência. Estas relações
materiais são também determinantes para o desenvolvimento
histórico.
- Isso parece totalmente
diferente do "espírito" de
Hegel.
- Hegel defendera que o
desenvolvimento histórico derivava da tensão entre os
opostos, que desapareciam por
meio de mudança súbita - e
com eles a tensão. Marx achou
correcta esta ideia. Mas considerava que Hegel tinha colocado tudo de pernas para o
ar.

348
- Não para todo o sempre,
espero?
- Hegel chamava à força
que faz avançar a história
"espírito do mundo" ou "razão
do mundo". Segundo Marx,
esta perspectiva invertia a
verdade. Ele queria provar
que as transformações das condições materiais são determinantes para a história. Não
são as condições espirituais
numa sociedade que levam a alterações materiais, mas o inverso: as relações materiais
determinam em última análise
as espirituais. São sobretudo
as forças económicas numa sociedade que provocam as transformações em todos os outros
domínios e dirigem a história.
- Podes dar-me um exemplo?
- A filosofia e a ciência
da Antiguidade tinham um fim
puramente teórico. Não interessava aos filósofos da Antiguidade que o seu saber teórico implicasse quaisquer vantagens práticas.
- Ah, sim?
- Isso tinha a ver com o
modo como as sociedades em que
viviam estavam organizadas. A
vida e a produção de bens nas
sociedades antigas eram baseadas sobretudo na mão-de-obra
escrava. Por isso, os cidadãos não achavam necessário
melhorar a produção por meio
de inventos práticos. Isso é
um exemplo do modo como as relações materiais numa sociedade podem nela influenciar o
pensamento filosófico.
- Compreendo.
- Marx designava estas relações materiais, económicas e
sociais como a base da sociedade. O modo como se pensa
numa sociedade as suas instituições políticas, as suas
leis, e também a sua religião,
a moral, a arte, a filosofia e
a ciência eram designados por
Marx a sua "superestrutura".
- Base e superestrutura,
portanto.
- E agora, podes-me passar
o templo grego?
- Faz favor.
- É uma cópia em miniatura
do antigo Parténon na Acrópole. Na realidade já o viste.
- Em vídeo, queres tu dizer.
- Vês que o templo tem um
telhado elegante e com muitos
ornamentos. Talvez seja o telhado e o frontão que atraem
primeiro a atenção. É isto
que poderíamos designar por
superestrutura. Mas o telhado
não fica suspenso no ar.
- É sustentado por colunas.
- Todo o edifício precisa
de um fundamento sólido, uma
base que sustente toda a construção. Segundo Marx, as relações materiais sustentam de
certo modo todos os pensamentos e ideias que há na sociedade. Significa que a superestrutura de uma sociedade é
um reflexo da sua base material.

349
- Queres dizer com isso
que a teoria das ideias de
Platão é apenas um reflexo da
olaria daquela época e da viticultura ateniense?
- Não, também não é assim
tão simples, e Marx chamou a
atenção para isso. Naturalmente, a estrutura e superestrutura de uma sociedade influenciam-se reciprocamente.
Se Marx tivesse negado isso,
teria sido um "materialista
mecanicista", mas uma vez que
admitiu que entre a estrutura
e a superestrutura existia
também uma relação recíproca,
uma tensão, dizemos que Marx
é um "materialista dialéctico". Ainda te lembras do que
Hegel entendia por desenvolvimento dialéctico. E além
disso podes reparar que Platão não era nem oleiro nem viticultor.
- Compreendo. Queres dizer mais alguma coisa sobre o
templo?
- Sim. Observando bem a
base, podes fazer-me uma descrição dela?
- As colunas estão sobre
um fundamento constituído por
três níveis ou degraus.
- Analogamente, podemos
distinguir três níveis na base
da sociedade. Em baixo está
aquilo que Marx designa por
condições de produção de uma
sociedade. Por isto, entende
as condições e recursos naturais de uma sociedade, ou seja, o tipo de vegetação, o
clima, as matérias primas, as
riquezas do solo, entre outras
coisas. Constituem os verdadeiros alicerces de uma sociedade, e estes alicerces estabelecem limites claros para o
tipo de produção possível na
sociedade. Desse modo, estabelecem também claros limites
para o tipo de sociedade e
cultura que podem existir num
local.
- No Sara é impossível a
pesca do arenque. E na
Lapónia é impossível o cultivo de tâmaras.
- Entendeste perfeitamente. Mas numa cultura nómada,
os homens pensam de um modo
completamente diferente do de
uma aldeia de pescadores no
norte da Noruega. O nível
seguinte é constituído pelas
forças produtivas de uma sociedade. Marx refere-se à
mão-de-obra humana, mas também
aos seus utensílios, aos seus
instrumentos e às suas máquinas, os chamados meios de produção.
- Antigamente pescava-se
em barcos a remos, hoje o peixe é apanhado por arrastões
enormes.
- E, desse modo, chegas ao
terceiro nível da base de uma
sociedade. Torna-se mais complicado, porque diz respeito a
quem possui os meios de produção numa sociedade e ao modo
como o trabalho é nela organizado, ou seja, diz respeito às
relações de propriedade e à
divisão do trabalho. Marx
chama-lhes as relações de produção numa sociedade.
Constituem o terceiro nível.
- Compreendo.

350
- Até agora, podemos pois
verificar que, segundo Marx,
o modo de produção numa sociedade determina as relações políticas e ideológicas que encontramos nela. Não é um acaso o facto de pensarmos hoje
de um modo diferente - e termos uma moral um pouco diferente - da dos membros de uma
sociedade feudal.
- Então Marx não acreditava num direito natural válido eternamente?
- Não, a resposta à pergunta do que é moralmente correcto era para Marx um produto da base social. De facto
não é por acaso que numa antiga sociedade camponesa os pais
decidiam com quem os filhos
iriam casar. Era um problema
ligado à herança da terra.
Numa grande cidade moderna,
as relações sociais são diferentes e por isso as pessoas
também escolhem os seus companheiros de um modo diferente.
Podemos conhecer os nossos
futuros companheiros numa festa ou na discoteca, se estamos
bastante apaixonados vamos morar juntos.
- Eu não aceitaria que os
meus pais me escolhessem o marido.
- Não, porque tu és filha
do teu tempo. Marx acentua
ainda que geralmente é a classe dominante numa sociedade
que determina o que é falso e
o que é correcto, porque toda
a história, segundo ele, é a
história da "luta de classes",
ou seja, de lutas para decidir
quem possuirá os meios de produção.
- Então os pensamentos e
as ideias dos homens não contribuem para mudar a história?
- Sim e não. Marx sabia
que as relações na superestrutura de uma sociedade influenciam a sua base; mas negava
que a superestrutura tivesse
uma história independente.
Aquilo que faz a história
progredir desde a sociedade da
Antiguidade baseada na "escravidão" até à sociedade industrial foi acima de tudo,
segundo ele, transformações na
estrutura.
- Sim, já disseste isso.
- Em todas as fases da
história existia, segundo
Marx, uma oposição entre duas
classes sociais dominantes.
Na "sociedade esclavagista"
da Antiguidade, havia a oposição entre os cidadãos livres
e os escravos, na sociedade
feudal da Idade Média entre
os senhores feudais e os servos e, mais tarde, entre nobres e burgueses. Mas mesmo
no tempo de Marx, numa sociedade burguesa ou capitalista,
a oposição existia sobretudo
entre capitalistas e trabalhadores ou proletários - ou
seja, entre aqueles que detinham os meios de produção e
aqueles que não os possuíam.
E visto que a classe dirigente nunca cederia o seu poder
voluntariamente, só por meio
de uma revolução poderia haver
mudança.
- E quanto à sociedade comunista?

351
- Marx preocupava-se sobretudo com a questão da passagem de uma sociedade capitalista para uma sociedade
"comunista". Ele faz uma análise detalhada do modo de produção capitalista. Mas, antes
de tratarmos disso, temos de
falar um pouco sobre a sua
concepção do trabalho humano.
- Diz.
- Antes de se tornar comunista, o jovem Marx tinha-se
interessado pelo que sucede
verdadeiramente com os homens
quando trabalham. Hegel também o tinha analisado e vira
um efeito recíproco ou "dialéctico" entre o homem e a natureza. O jovem Marx defendeu a mesma tese: quando o homem modifica a natureza, o
próprio homem é modificado.
Ou, dito de outra forma:
quando o homem trabalha, intervém na natureza e influencia-a; mas neste processo de
trabalho a natureza também intervém no homem e influencia o
seu modo de pensar.
- Diz-me que trabalho fazes e dir-te-ei quem és.
- Exacto. Marx achava que
o modo como trabalhamos influencia a nossa consciência, e
que a nossa consciência também
influencia o modo como trabalhamos. Podes dizer que existe uma relação recíproca entre
"mão" e "cabeça". Deste modo,
o conhecimento do homem está
estreitamente relacionado com
o seu trabalho.
- Então deve ser terrível
ser-se desempregado.
- Sim, quem não tem trabalho sente-se de certo modo vazio. Já Hegel falara neste
aspecto. Para Hegel e Marx,
o trabalho é uma coisa positiva, que diz respeito à natureza, que tem a ver com o ser
humano.
- Então é positivo ser-se
trabalhador?
- Sim. Mas, justamente
nesse ponto, Marx faz uma
crítica demolidora ao modo de
produção capitalista.
- Diz!
- No sistema capitalista,
o trabalhador trabalha para
outra pessoa. E assim, o trabalho torna-se exterior a ele
- ou uma coisa que não lhe
pertence. O trabalhador torna-se estranho ao seu próprio
trabalho - e consequentemente, a si mesmo. Ele perde a
sua dignidade humana. Marx,
usando uma expressão hegeliana, fala de alienação.
- Eu tenho uma tia que embrulha bombons numa fábrica há
mais de vinte anos, e por isso
percebo perfeitamente o que
queres dizer. Ela diz que
odeia quase todos os dias ir
para o trabalho.
- E se ela odeia o trabalho, Sofia, tem de se odiar a
si mesma.
- Pelo menos odeia bombons.
- Na sociedade capitalista, o trabalho está organizado
de tal forma que um trabalhador executa na realidade um
trabalho de escravo para

352
uma outra classe social.
Deste modo, o trabalhador não
"aliena" apenas a sua
mão-de-obra, mas toda a sua
natureza humana.
- É assim tão grave?
- Estamos a falar do modo
como Marx via as coisas. Por
isso, temos de ter como ponto
de partida as relações nas sociedades europeias em meados
de 1850. E aí, a resposta
tem de ser um sim. Os trabalhadores tinham um dia de catorze horas em recintos gelados. O salário era tão baixo
que até crianças e parturientes tinham de trabalhar, o que
deu origem a condições sociais
indescritíveis. Muitas vezes,
uma parte do salário era paga
em aguardente barata e muitas
mulheres tinham de se prostituir, e os seus clientes eram
os melhores senhores da cidade: exactamente aquilo que devia dignificar o homem, o trabalho, fazia do trabalhador um
animal de carga.
- Isso põe-me furiosa.
- Também Marx se enfureceu. Ao mesmo tempo, os filhos da burguesia podiam tocar
violino em salas grandes e
quentes após terem tomado um
banho refrescante.
- Que injustiça!
- Marx também pensava assim. No ano de 1848, publicou juntamente com Friedrich
Engels o famoso "Manifesto
do Partido Comunista". A
primeira frase neste manifesto
diz: "Um espectro assombra a
Europa - o espectro do comunismo."
- Estou a ficar assustada.
- Foi o que se passou com
os burgueses, porque os proletários começaram a sublevar-se. Queres ouvir como o
"manifesto" termina?
- Sim.
- "Os comunistas rejeitam
ocultar as suas opiniões e intenções. Declaram publicamente que os seus objectivos apenas podem ser alcançados pelo
derrube violento de toda a organização social existente.
As classes dominantes que
tremam perante uma revolução
comunista. Os proletários não
têm nada a perder senão as
suas correntes. Têm um mundo
a ganhar. "Proletários de todos os países, uni-vos!"".
- Se as relações eram de
facto tão más como disseste,
eu também subscreveria isso.
Mas hoje são diferentes, não
são?
- Na Noruega, sim, mas
não em toda a parte. Ainda
hoje muitos homens vivem em
condições desumanas. Ao mesmo
tempo, produzem mercadorias
que tornam os capitalistas
cada vez mais ricos. A isso
chama Marx "exploração".
- Podes explicar um pouco
melhor essa palavra?
- Quando o trabalhador
produz uma mercadoria, esta
mercadoria tem um certo valor
de venda.

353
- Sim.
- Se tu retirares ao preço
de venda do produto o salário
do trabalhador e outros custos
de produção, sobra uma quantia. A esta soma chama Marx
mais-valia ou lucro. Significa que o capitalista se apodera de um valor que na verdade
foi o trabalhador a produzir.
E a isso chama Marx exploração.
- Compreendo.
- Nesse caso, o capitalista pode investir uma parte do
lucro em novo capital - por
exemplo, na modernização das
instalações de produção, na
expectativa de poder produzir
artigos ainda mais baratos e,
consequentemente, aumentar
ainda mais o seu lucro no futuro.
- Sim, é lógico.
- Pois, pode parecer lógico, mas sob este aspecto e
ainda sob outros, Marx previa
que, a longo prazo, as coisas
não se passam como o capitalista imagina.
- O que é que isso significa?
- Segundo Marx, o modo de
produção capitalista era contraditório em si. O capitalismo era um sistema económico
autodestrutivo, porque lhe
faltava um governo racional.
- De certo modo, é um bem
para os oprimidos.
- Pode-se dizer isso.
Marx estava certo de que o
sistema capitalista caminhava
para a ruína devido às suas
contradições. O capitalismo
era "progressivo" - ou seja,
orientado para o futuro -,
mas apenas porque era um estádio necessário a caminho do
comunismo.
- Podes dar-me um exemplo
do facto de o capitalismo ser
autodestrutivo?
- Sim. Falámos do capitalista que tem muito dinheiro
de sobra e moderniza a sua empresa com uma parte deste excesso; Ao mesmo tempo, tem de
pagar as lições de violino dos
filhos e além disso a esposa
adquiriu certos hábitos caros.
- Sim?
- Mas isso não é tão importante neste contexto. Ele
moderniza, ou seja, compra novas máquinas e por isso não
precisa de tantos empregados.
Fá-lo para aumentar o poder
concorrencial.
- Compreendo.
- Mas não é o único a pensar assim. Significa que o
conjunto da produção num ramo
é constantemente racionalizado. As fábricas são cada vez
maiores e pertencem a menos
pessoas. E o que acontece então, Sofia?
- Hm...

354
- É preciso menos mão-de-obra. E cada vez mais trabalhadores ficam desempregados.
Por isso, há problemas sociais cada vez maiores e essas
crises, segundo Marx, são um
indício de que o capitalismo
se aproxima do declínio. Mas
o capitalismo tem ainda mais
características autodestruidoras. Se há cada vez mais lucro com os meios de produção
sem se criar simultaneamente
mais-valia suficiente para
manter a produção a preços
concorrenciais... Sim? O que
faz o capitalista nessa altura? Sabes-me dizer?
- Não, não sei mesmo.
- Mas imagina que tinhas
uma fábrica, e não consegues
atingir os teus objectivos.
Temes a falência. E agora
pergunto-te: de que modo podes
poupar dinheiro?
- Talvez baixando os salários.
- Esperta! Sim, isso é o
mais inteligente que podes fazer. Mas se todos os capitalistas são tão inteligentes
como tu - e são-no - os trabalhadores ficam tão pobres
que já não te podem comprar
nada. Dizemos então que o poder de compra numa sociedade
diminui. E caímos num círculo
vicioso. Para a propriedade
particular capitalista é a
hora fatal, porque nos encontramos numa situação que se
torna revolucionária.
- Compreendo.
- Para resumir: Marx
acreditava que, por fim, os
proletários se sublevariam e
se apoderariam dos meios de
produção.
- E depois?
- Segundo Marx, há por
algum tempo uma nova sociedade
de classes, na qual os proletários submetem a burguesia
pela força. A esta fase de
transição chamava Marx "ditadura do proletariado". Em
seguida a ditadura do proletariado era substituída por uma
sociedade sem classes, o "comunismo". E seria uma sociedade em que os meios de produção pertencem "a todos" - ou
seja, ao povo. Nessa sociedade cada um trabalharia "segundo a sua capacidade" e "receberia de acordo com as suas
necessidades". O trabalho
pertenceria ao povo e por isso
deixaria de haver alienação.
- Isso soa muito bem, mas
o que se passou de facto?
Deu-se a revolução?
- Sim e não. Hoje, os
economistas podem provar que
Marx errou em vários pontos
importantes, inclusivamente na
sua análise das crises do capitalismo. Marx também não
teve em conta a exploração da
natureza que hoje é cada vez
mais perigosa. Mas - porque
há um grande mas...
- Sim?

355
- O marxismo levou a grandes transformações. Não há
dúvida de que o socialismo,
que se baseia em Marx na sua
luta por justiça social, mesmo
que não o siga em tudo e recuse por exemplo a ditadura do
proletariado, conseguiu vencer
na luta por uma sociedade mais
humana. Sem dúvida vivemos
hoje na Europa numa sociedade
mais justa e solidária do que
no tempo de Marx. E devemo-lo também a todo o movimento
"socialista".
- Podias explicar mais
exactamente o que é o movimento socialista?
- Depois de Marx, esse
movimento dividiu-se em duas
correntes principais: de um
lado a "social-democracia", de
outro o "leninismo". A social-democracia, que queria
seguir uma via progressiva e
pacífica para uma organização
mais justa, tornou-se dominante na Europa ocidental. Podemos dizer que esta via consiste numa revolução lenta. O
leninismo, que continuava a
acreditar que apenas a revolução podia combater a antiga
sociedade de classes, foi importante para a Europa de
Leste, Ásia e África. Cada
um destes movimentos, à sua
maneira, lutou contra a miséria e a opressão.
- Mas não se criou uma
nova forma de opressão? Por
exemplo, na União Soviética
e na Europa de Leste?
- Sem dúvida. E aqui vemos novamente que tudo aquilo
em que o homem toca se torna
uma mistura de bem e de mal.
Seria errado responsabilizar
Marx pelos erros e pelos aspectos negativos dos países
socialistas cento e cinquenta
anos após a sua morte. O que
se pode dizer é que ele reflectiu pouco sobre o facto de
que mesmo o comunismo, se viesse a existir, não seria levado a cabo sem os homens - e
os homens cometem erros. Por
isso, acho difícil imaginar um
paraíso na terra. Os homens
arranjarão sempre novos problemas.
- Claro.
- E com isto, terminamos
com Marx.
- Um momento! Não disseste que apenas há justiça entre
iguais?
- Não, foi Scrooge que
disse isso.
- Como é que sabes que ele
disse isso?
- Bom, nós dois temos o
mesmo escritor. Deste modo,
estamos muito mais estreitamente ligados do que possa parecer a uma observação superficial.
- Maldita ironia!
- Dupla, Sofia, foi uma
ironia dupla.
- Mas voltemos a essa
questão da injustiça. Disseste que, para Marx, o capitalismo era uma sociedade injusta. Como definirias uma sociedade justa?

356
- Um filósofo moral de
inspiração marxista, "John
Rawls", tentou dar uma definição, servindo-se deste exemplo: imagina que eras membro
de um conselho supremo que tem
de fazer todas as leis de uma
sociedade futura.
- Consigo muito bem imaginar-me num conselho desses.
- Eles têm de pensar em
tudo, porque mal estiverem de
acordo e tiverem subscrito todas as leis, morrem.
- Que horror!
- E segundos mais tarde
acordarão na sociedade cujas
leis fizeram. O truque é o
facto de não fazerem ideia de
onde acordarão nessa sociedade, ou seja, qual será a sua
posição nela.
- Compreendo.
- Uma sociedade destas seria uma sociedade justa. Cada
um estaria entre iguais.
- E cada "uma" entre
iguais.
- É evidente. Porque no
jogo de Rawls também não saberíamos se íamos acordar como
homem ou como mulher. E uma
vez que a probabilidade é de
cinquenta para cinquenta, a
sociedade seria organizada de
forma igual para mulheres e
homens.
- Isso parece fascinante.
- Diz-me então. A Europa
no tempo de Marx era uma sociedade assim?
- Não!
- Então talvez me possas
indicar uma sociedade semelhante no mundo de hoje.
- Bem...
- Reflecte sobre isso.
Terminámos com Marx.
- O que é que disseste?
- Fim de capítulo!

357

Darwin

"... um barco que atravessa
a vida com uma carga de genes..."

Na manhã de domingo, Hilde
acordou com um estrondo. O
"dossier" caíra ao chão. Tinha lido até tarde sobre Sofia e Alberto, que falavam
sobre Marx. Depois adormecera meio sentada, com o "dossier" sobre a coberta. A lâmpada tinha ficado acesa toda a
noite.
O despertador na mesa de
cabeceira indicava em números
verdes as 8.59.
Hilde sonhara com fábricas
gigantescas e cidades enegrecidas pela fuligem. A um canto de uma rua uma miudita vendia fósforos. Pessoas bem
vestidas, com casacos compridos, passavam sem prestar
atenção.
Quando Hilde se levantou,
lembrou-se dos legisladores
que haviam de acordar numa sociedade organizada por eles
mesmos. Hilde estava contente
por acordar em Bjerkely.
Gostaria de acordar na Noruega sem saber exactamente
onde e quando? Na Idade Média, por exemplo - ou numa
sociedade da Idade da Pedra
há dez mil anos? Hilde procurou imaginar como seria estar
sentada à entrada duma caverna. Talvez estivesse a raspar
uma pele. Como teria vivido
uma rapariga de quinze anos
antes de ter existido qualquer
coisa como a civilização? Como pensaria, se fosse essa rapariga de quinze anos?
Hilde vestiu um pulóver,
levantou o "dossier" do chão e
sentou-se na cama com ele para
continuar a ler o que o pai
escrevera.

Mal Alberto dissera "Fim
de capítulo!", alguém bateu à
porta da cabana do major.
- Não temos outra escolha,
pois não? - perguntou Sofia.
- Não - resmungou Alberto.
Lá fora estava um homem
muito velho com cabelos compridos e barba. Na mão direita trazia um bordão de viandante, na esquerda um
:,

358
grande cartaz que mostrava um
barco. No barco havia animais
de todo o género.
- E quem é este senhor? -
perguntou Alberto.
- O meu nome é Noé.
- Já imaginava.
- Teu antepassado, meu rapaz. Mas já não está na moda
lembrarmo-nos dos antepassados, pois não?
- O que tens aí na mão?
- Uma imagem de todos os
animais que foram salvos do
Dilúvio Universal. Toma,
minha filha, isto é para ti.
Sofia pegou no grande cartaz e o velho disse:
- E agora tenho que ir
para casa, regar as videiras.
Deu um pequeno salto, bateu
os calcanhares no ar e foi a
saltitar em direcção ao bosque, como só os homens muitos
velhos e com bom humor sabem
fazer.
Sofia e Alberto voltaram
para dentro e sentaram-se.
Sofia olhou para o grande
cartaz, mas ainda não vira
muito quando Alberto lho arrancou das mãos.
- Primeiro, temos de nos
concentrar nas grandes linhas.
- Então começa.
- Esquecemo-nos de referir
que Marx passou os últimos
trinta e quatro anos da sua
vida em Londres. Mudou-se em
1849 para Londres e lá morreu em 1883. Durante todo
este tempo, "Charles Darwin"
também viveu nos arredores de
Londres. Morreu em 1882 e
foi sepultado com todas as
honras na abadia de Westminster como um dos grandes
filhos da Inglaterra. Mas
não foi apenas no tempo e no
espaço que os caminhos de
Marx e Darwin se cruzaram.
Marx quis dedicar a edição
inglesa da sua grande obra,
"O Capital", a Darwin, mas
este recusou. Quando Marx
morreu, um ano após Darwin, o
seu amigo Friedrich Engels
disse: "Tal como Darwin descobriu a lei da evolução da
natureza orgânica, também
Marx descobriu a lei da evolução da história humana."
- Compreendo.
- Um outro pensador importante que também pode ser relacionado com Darwin é o psicólogo "Sigmund Freud".
Também ele passou, mais de
meio século mais tarde, os
seus últimos anos de vida em
Londres. Freud apontou para
o facto de a teoria da evolução, tal como a sua psicanálise terem ofendido os homens no
seu "ingénuo amor próprio".
- São nomes a mais. Vamos
falar de Marx, Darwin ou
Freud?
- Num sentido lato, podemos falar também de uma "corrente naturalista" que se estendeu de meados do século
XIX até ao nosso. Por
"naturalismo" entendemos uma
concepção da realidade que não
aceita nenhuma

359
outra realidade além da natureza e do mundo sensível. Um
naturalista, consequentemente,
vê também o homem como uma
parte da natureza. Primeiro
que tudo, um investigador naturalista parte apenas dos
factos dados pela natureza -
logo, não parte nem de especulações racionalistas nem de
qualquer forma de revelação
divina.
- E isso é válido tanto
para Marx como para Darwin e
para Freud?
- Exacto. Em meados do
século XIX, as palavras-chave eram "natureza", "ambiente", "história", "evolução" e
"crescimento". Marx tinha referido que a consciência humana era um produto da base material de uma sociedade. Darwin provou que o homem é o resultado de uma longa
evolução
biológica, e o estudo de
Freud do inconsciente revelou
que as acções do homem se devem frequentemente a certos
impulsos ou instintos "animais" que residem na sua natureza.
- Acho que compreendo mais
ou menos o que queres dizer
com naturalismo. Mas não devíamos falar de um de cada
vez?
- De Marx já falámos.
Falemos então sobre Darwin.
Talvez ainda te lembres de
que os pre-socráticos queriam
encontrar "explicações naturais" para os processos da natureza. Do mesmo modo, para
isso tinham de se libertar de
antigas explicações mitológicas, Darwin teve de se libertar da doutrina cristã vigente
sobre a criação do homem e dos
animais.
- Mas ele era um filósofo?
- Darwin era biólogo e naturalista. Foi o cientista
que nos últimos tempos fez vacilar a visão bíblica do lugar
do homem na Criação, mais do
que qualquer outro.
- Então vais falar sobre a
teoria da evolução de Darwin.
- Vamos começar pelo próprio Darwin. Nasceu em
Shrewsbury em 1809. O seu
pai, o doutor Robert Darwin,
era um médico conhecido e foi
muito severo na educação do
filho. Quando Charles frequentava a escola superior de
Shrewsbury, o reitor descreveu-o como um rapaz que vadiava e dizia disparates, sem fazer nada de útil. Por útil,
entendia ele o estudo dos verbos gregos e latinos. E quando falava de vadiar pensava no
facto de Charles coleccionar
todo o tipo de coleópteros.
- Deve ter-se arrependido
dessas palavras.
- Ainda durante o seu curso de teologia, Darwin já se
interessava mais por aves e
insectos que pelos estudos.
Por isso, não fez nenhum exame em teologia com boa nota.
Mas, paralelamente ao curso
de teologia, conseguiu obter
uma certa fama como naturalista. Interessava-se também por
geologia, que era naquela época a ciência mais em expansão.
Depois de ter feito o seu
exame final de teologia em
Cambridge, em Abril de
1813, viajou pelo Norte do
País de Gales, para estudar
formações rochosas e procurar
fósseis. Em Agosto do mesmo

360
ano, com apenas vinte e dois
anos, recebeu uma carta que
havia de ser determinante para
toda a sua vida...
- O que estava escrito
nessa carta?
- A carta era do seu amigo
e professor John Steven
Henslow. Escreveu que lhe
tinham pedido para dar o nome
de um naturalista que pudesse
viajar com o capitão Fitzroy,
o qual recebera da parte do
governo o encargo de desenhar
uma carta geográfica da ponta
meridional da América do
Sul, e que achava Darwin a
pessoa mais qualificada para
essa tarefa. Não sabia nada
sobre o salário para o investigador procurado, mas a viagem duraria dois anos...
- Como consegues fixar
tudo de memória?
- Nada mais fácil, Sofia.
- E ele aceitou?
- Ele tinha uma grande
vontade de aproveitar a oportunidade, mas naqueles tempos
os jovens não faziam nada sem
o consentimento dos pais.
Darwin perguntou ao pai, que
concordou depois de muita hesitação - e ainda pagou a
viagem do filho. No que diz
respeito ao salário, viu-se
logo que não estava previsto...
- Ah...
- O navio pertencia à Marinha Inglesa e chamava-se
"H. M. S. Beagle". Largou
de Plymouth a 27 de Dezembro de 1831 em direcção à
América do Sul e só regressou a Inglaterra em Outubro
de 1836. Os dois anos passaram a cinco e a viagem à América do Sul tornou-se uma
volta ao mundo. E estamos a
falar da viagem de investigação mais importante da época
moderna.
- Eles viajaram mesmo à
volta do mundo?
- No verdadeiro sentido da
palavra, sim. A partir da
América do Sul, a viagem
prosseguiu pelo Pacífico em
direcção à Nova Zelândia,
Austrália e África do Sul.
Daqui, navegaram novamente
para a América do Sul para
regressarem finalmente a Inglaterra. O próprio Darwin
afirmou que a viagem com o
Beagle fora o acontecimento
mais importante de toda a sua
vida.
- Não devia ser fácil ser
naturalista no mar, pois não?
- Durante o primeiro ano,
o "Beagle" navegou de um lado
para o outro ao longo costa
sul-americana. Isso deu a
Darwin a oportunidade de se
familiarizar em terra com o
continente. De importância
decisiva foram também os numerosos desembarques nas ilhas
Galápagos no oceano Pacífico, a oeste da América do
Sul. Deste modo, ele recolheu material precioso que era
progressivamente enviado para
o seu país. Guardou para si
as numerosas reflexões que fez
sobre a natureza e a evolução
da vida. Quando regressou a
casa. com apenas vinte e sete
anos, era já um famoso natura

361
lista. E secretamente tinha
já uma ideia clara daquilo que
seria a sua teoria da evolução. No entanto, passaram
muitos anos até ele publicar a
sua obra principal. Porque
Darwin era um homem cauteloso, Sofia, e assim deve ser
sempre um naturalista.
- Como se chama essa obra
principal?
- Bom, houve várias. Mas
o livro que desencadeou em
Inglaterra os debates mais
acesos foi "A Origem das
Espécies", publicado em
1859. O seu título completo
era "On the Origin of Species by Means of Natural
Selection or the Preservation of Favoured Races in
the Struggle for Life". Este título comprido é basicamente um resumo da teoria de
Darwin.
- Então devias traduzi-lo
para mim.
- Isso não é fácil, porque
os conceitos que aparecem nele
foram traduzidos de diversos
modos desde então. Uma tradução actual poderia ser: "Sobre a Origem das Espécies
por Meio de Selecção Natural ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela
Vida".
- É um título muito rico
em conteúdo.
- Vamos analisá-lo parte
por parte. Na "Origem das
Espécies", Darwin apresentou
duas teorias ou teses principais: primeiro, partiu do
princípio de que todas as
plantas e animais existentes
hoje descendem de formas anteriores primitivas. Pressupôs
também uma evolução biológica.
Em segundo lugar, afirmou que
esta evolução se devia à "selecção natural".
- Por que motivo são os
mais fortes que sobrevivem?
- Vamos concentrar-nos
primeiro na ideia de evolução.
Isso por si só não era particularmente original. Em certos meios, a aceitação de uma
evolução biológica já estava
muito difundida cerca do ano
1800. O zoólogo francês
"Jean de Lamarck" já dera o
tom. Ainda antes dele, o avô
de Darwin, "Erasmus Darwin", apresentara a teoria segundo a qual plantas e animais
tinham evoluído a partir de
algumas espécies primitivas.
Mas ninguém tinha fornecido
uma explicação aceitável para
o modo como essa evolução se
tinha dado. E, por isso, também não eram adversários muito
perigosos para a Igreja.
- Ao contrário de Darwin?
- Sim, e havia um motivo
para isso. Tanto os religiosos como muitos cientistas seguiam a doutrina bíblica segundo a qual as diversas espécies vegetais e animais são
imutáveis. Partiam do princípio de que cada espécie animal
tinha nascido de uma vez para
sempre através de um único
acto criador. E, além disso,
esta concepção cristã estava
de acordo com a de Platão e
Aristóteles.
- Como assim?

362
- A teoria das ideias de
Platão pressupunha que todas
as espécies animais eram imutáveis, uma vez que eram criadas segundo o arquétipo da
respectiva ideia ou forma. O
facto de as espécies animais
serem imutáveis era também um
ponto assente na filosofia de
Aristóteles. Mas justamente
no tempo de Darwin, fizeram-se algumas observações e descobertas que punham em risco
esta concepção tradicional.
- Que tipo de observações
e descobertas foram?
- Em primeiro lugar, descobriram-se cada vez mais fósseis e em segundo lugar descobriram-se grandes fósseis dos
ossos de animais extintos. O
próprio Darwin se admirou
ainda com o facto de se terem
encontrado fósseis de animais
marinhos em montanhas. Ele
mesmo fizera essas descobertas
nos Andes, na América do
Sul. Mas o que faziam animais marinhos nos Andes,
Sofia? Sabes responder-me?
- Não.
- Havia quem achasse que
homens ou animais os tinham
deixado aí. Outros achavam
que Deus tinha criado esses
fósseis de animais marinhos
para induzir em erro os incrédulos.
- E o que pensava a ciência?
- A maioria dos geólogos
seguia uma "teoria da catástrofe", segundo a qual a Terra fora assolada várias vezes
por grandes cheias, terramotos
e outras catástrofes que tinham destruído todas as formas
de vida. Uma catástrofe desse
género é descrita na Bíblia:
o Dilúvio Universal, devido
ao qual Noé construiu a sua
arca. Após cada catástrofe,
Deus teria renovado a vida na
Terra criando plantas e animais novos - e mais perfeitos.
- Nesse caso, os fósseis
seriam as marcas de todas as
formas de vida anteriores que
tinham sido exterminadas por
essas catástrofes gigantescas?
- Exacto. Dizia-se, por
exemplo, que os fósseis eram
as marcas de animais que não
tiveram lugar na arca. Mas
quando Darwin partiu com o
Beagle, levou consigo o primeiro volume da obra "Principles of Geology" do geólogo
inglês "Charles Lyell". Ele
achava que a geografia actual
da Terra - com montanhas altas e vales profundos - era o
resultado de uma evolução muito longa e lenta e afirmava
que alterações muito pequenas
podiam provocar grandes alterações geográficas se se tivesse em consideração grandes
espaços de tempo.
- Em que tipo de mudanças
estava ele a pensar?
- Nas mesmas forças que
ainda hoje actuam: o tempo e o
vento, degelos, terramotos e
desabamentos. Diz-se que o
gotejar constante fura a pedra, não pela sua força mas
pela sua acção contínua.
Lyell defendia que essas
transformações pequenas e progressivas podiam alterar

363
completamente a natureza num
grande espaço de tempo. Darwin compreendeu que esta ideia
não podia explicar só por si o
motivo pelo qual encontrara
nos Andes fósseis de animais
marinhos. Mas nunca se esqueceu, durante toda a sua vida
de investigador, que "mudanças
pequenas e progressivas" podem
levar a alterações dramáticas
se pensarmos no factor tempo.
- Ele pensava que uma explicação semelhante podia ser
aplicada à evolução dos animais?
- Sim, e fez a si mesmo
essa pergunta. Mas, como eu
disse, Darwin era um homem
prudente. Ponderava longamente as questões antes de ousar
dar as respostas. Deste modo,
usava o método de todos os
verdadeiros filósofos, que
afirma: é importante perguntar
mas não é preciso pressa para
responder.
- Compreendo.
- Um factor decisivo na
teoria de Lyell era a idade
da terra. No tempo de Darwin
estava muito difundida a opinião de que Deus tinha criado
a Terra há cerca de seis mil
anos. Tinha-se calculado este
número contando todas as gerações desde Adão e Eva até ao
presente.
- Que ingenuidade!
- Sabemos sempre mais posteriormente. Darwin estimou a
idade da Terra em trezentos
milhões de anos. Uma coisa
era clara: nem a teoria de
Lyell da evolução biológica
progressiva nem a própria teoria da evolução de Darwin faziam sentido se não se tinha
em conta períodos muito extensos.
- Qual é a idade da Terra?
- Hoje sabemos que a Terra tem alguns milhares de milhões de anos.
- Já é suficiente...
- Até agora, concentrámo-nos num dos argumentos de
Darwin a favor de uma evolução biológica, o da "presença
estratificada de fósseis" nas
várias formações rochosas. Um
outro argumento era a "distribuição geográfica" das espécies vivas. A viagem de pesquisa de Darwin forneceu material novo e extremamente
rico. Ele vira com os próprios olhos que as diversas
espécies animais de uma região
se podiam distinguir entre si
graças a diferenças mínimas.
Fez algumas observações interessantes sobretudo nas ilhas
Galápagos, a oeste do Equador.
- Conta!
- Trata-se de um grupo de
ilhas vulcânicas muito próximas entre si. Por isso não
havia grandes diferenças na
flora e fauna. Mas Darwin
estava interessado justamente
nas pequenas diferenças. Em
todas as ilhas encontrou grandes tartarugas gigantes, que
diferiam sempre um

364
pouco de ilha para ilha. Teria Deus realmente criado uma
raça específica de tartarugas
gigantes para cada ilha?
- É pouco provável.
- Mais importante ainda
foi o que Darwin observou na
vida das aves das ilhas Galápagos. De ilha para ilha variavam as espécies de tentilhões - sobretudo na forma do
bico. Darwin demonstrou que
estas variações estavam intimamente relacionadas com o
modo como os tentilhões se
alimentavam nas diversas
ilhas. O tentilhão de bico
afiado vivia de pinhões, o
tentilhão pequeno vivia de insectos, o tentilhão de bico
mais grosso alimentava-se de
insectos que viviam nos troncos e nos ramos. Cada uma
destas espécies tinha um bico
que se ajustava perfeitamente
ao modo de se alimentar. Poderiam todos estes tentilhões
descender de uma mesma espécie
de tentilhão? Essa espécie
tinha-se adaptado de tal forma
ao seu ambiente nas diversas
ilhas, com o decurso dos anos,
que tivessem surgido finalmente novas espécies de tentilhões?
- Foi essa a conclusão a
que ele chegou?
- Foi. E provavelmente
Darwin só se tornou um "darwinista" nas ilhas Galápagos.
Ocorreu-lhe também que a fauna nesse pequeno arquipélago
apresentava grandes semelhanças com muitas espécies que
ele vira na América do Sul.
Tinha Deus criado de uma vez
por todas estes animais ligeiramente diferentes uns dos outros - ou teria havido uma
evolução? Teve cada vez mais
dúvidas de que as espécies
fossem imutáveis. Mas faltava-lhe ainda uma boa explicação para o modo como poderia
suceder uma evolução ou uma
adaptação ao mundo. O que ele
possuía era um argumento a favor do parentesco entre todos
os animais na Terra.
- Qual era?
- Era o desenvolvimento
dos fetos nos mamíferos. Se
comparares os fetos do cão,
morcego, coelho e homem no
mesmo estádio primitivo, quase
não vês diferenças. Só num
estádio muito mais tardio do
desenvolvimento dos fetos podes distinguir fetos de homens
e de coelhos. Seria isso um
indício de que somos parentes
afastados?
- Mas ele ainda não tinha
encontrado uma explicação para
o modo como a evolução para
espécies diferentes se tinha
dado?
- Ele continuava a reflectir sobre a teoria de Lyell
acerca das pequenas transformações que tinham grandes
efeitos com o decorrer do tempo. Mas não encontrou uma explicação que pudesse servir
como princípio universal. Conhecia a teoria de Lamarck,
que reconhecera que as diversas espécies animais tinham
desenvolvido exactamente aquilo de que precisavam. E considerara que as girafas tinham
um pescoço muito comprido por
se terem esticado durante muitas gerações para chegar às

365
folhas das árvores. Lamarck
achava portanto que as características que um indivíduo
adquire através do próprio esforço são legadas à descendência. Mas a teoria de que as
"características adquiridas"
eram hereditárias foi recusada
por Darwin - precisamente
porque Lamarck não podia provar as suas teses ousadas.
Porém havia outra coisa - e
muito mais próxima - na qual
Darwin pensava cada vez mais.
Podes dizer que o verdadeiro
mecanismo da evolução das espécies estava à frente do seu
nariz.
- Estou muito curiosa.
- Preferia que descobrisses esse mecanismo por ti.
Por isso, pergunto: Se tens
três vacas, mas apenas comida
suficiente para duas, o que
fazes?
- Tenho de abater uma
vaca.
- Exacto... e que vaca havias de abater?
- Aquela que dá menos leite.
- Estás a falar a sério?
- Sim, é lógico.
- É exactamente isso que
os homens fazem desde há milénios. Mas ainda sobram duas
vacas. Partindo do princípio
que queres fazer reprodução
com uma, qual é que escolhes?
- A que dá mais leite.
Nesse caso, a vitela será
também uma boa vaca leiteira.
- Preferes boas vacas leiteiras às más? Então, só nos
falta uma tarefa. Se gostas
de caçar e tens dois cães de
caça, mas tens de dar um deles, que cão conservarias para
ti?
- Ficaria com aquele que
tivesse melhor faro para a
caça.
- Preferirias portanto o
melhor cão de caça, sim. E é
assim, Sofia, que os homens
criam os animais há mais de
dez mil anos. As galinhas nem
sempre puseram cinco ovos por
semana, as ovelhas não tiveram
sempre tanta lã e os cavalos
não foram sempre tão fortes e
rápidos como são hoje. Os homens fizeram uma "selecção artificial". Isso também é válido para o reino vegetal.
Não plantamos batatas más se
queremos ter renovos melhores.
Não nos damos ao trabalho de
ceifar espigas sem grãos. Segundo Darwin, não há duas vacas, duas espigas, dois cães e
dois tentilhões iguais. A natureza apresenta uma enorme
variedade. Nem na mesma espécie há dois indivíduos totalmente iguais. Tu mesma te
apercebeste disso quando bebeste o líquido azul.
- Podes ter a certeza!
- Darwin tinha que pôr a
questão: poderia haver também
na natureza um mecanismo análogo? Seria possível que a
natureza também fizesse uma
"selecção natural" dos indivíduos que devem sobreviver?

366
E poderia esse mecanismo a
longo prazo provocar o aparecimento de espécies vegetais e
animais completamente novas?
- Aposto que a resposta é
sim.
- Darwin ainda não conseguia imaginar exactamente como
essa selecção natural podia
dar-se. Mas em Outubro de
1838 - passados exactamente
dois anos depois do seu regresso com o Beagle - veio-lhe às mãos por acaso um pequeno livro do economista
"Thomas Malthus". O livro
tinha o título "An Essay on
the Principle of Population". O americano "Benjamin
Franklin", que tinha inventado entre outras coisas o pára-raios, dera a Malthus a
ideia de escrever esse livro.
Franklin referira que na natureza também tem de haver
factores limitantes, porque,
de outro modo, uma única espécie vegetal ou animal ter-se-ia difundido em todo o planeta. Só por existirem muitas
espécies diversas é que elas
se equilibram umas às outras.
- Compreendo.
- Malthus desenvolveu esta
ideia e aplicou-a à situação
demográfica da Terra. Explicou que a capacidade de procriação do homem é tão grande
que nasciam sempre mais crianças do que as que podiam sobreviver. E uma vez que a
produção de alimento nunca
pode andar a passo com o crescimento populacional, um grande número de pessoas está condenado a sucumbir na luta pela
existência. Conseguirão sobreviver - e consequentemente
assegurar a subsistência da
sua família - só aqueles que
melhor se impuserem na luta
pela sobrevivência.
- Parece lógico.
- E era justamente esse o
mecanismo universal de que
Darwin estivera à procura.
De repente, tinha uma explicação para o modo como decorria a evolução: a "selecção
natural" na luta pela sobrevivência, graças à qual quem
está melhor adaptado ao ambiente continuará a viver e a
reproduzir-se. Era a segunda
teoria por ele proposta no seu
livro "A Origem das Espécies". Ele escreveu: "O elefante reproduz-se mais lentamente do que todos os outros
animais, e eu tive o cuidado
de calcular o mínimo provável
da sua reprodução natural.
Podemos ter como bastante seguro que ele inicia a reprodução aos trinta anos e a mantém
até ao nonagésimo ano de vida,
e que durante este período
gera seis crias e vive até aos
cem anos. Neste caso, ao cabo
de 740 a 750 anos haveria
cerca de 19 milhões de elefantes descendentes de um primeiro casal."
- Para não falar dos milhares de ovos de um único bacalhau.
- Darwin explicou ainda
que a luta pela sobrevivência
entre as espécies mais semelhantes é frequentemente mais
dura, porque lutam pelo mesmo
tipo de alimento. E, nessa
altura, são as pequenas diferenças

367
- as pequenas vantagens em
relação à média - que são determinantes. Quanto mais dura
é a luta pela sobrevivência
mais rapidamente se dá o desenvolvimento de novas espécies. Só os indivíduos mais
bem adaptados ao ambiente sobrevivem: todos os outros se
extinguem.
- Então, quanto menos alimento e quanto mais descendência há, mais rápida é a evolução?
- Não se trata apenas de
alimento. Também pode ser importante não se ser devorado
por outros animais. Pode ser
uma vantagem ter uma certa cor
de camuflagem, poder correr
rapidamente, aperceber-se da
presença de animais inimigos
- ou pelo menos ter mau sabor. Um veneno que mate um
predador é também importante.
Não é por acaso que muitos
cactos são venenosos, Sofia.
No deserto, quase só crescem
cactos. E por isso estão particularmente expostos aos ataques dos animais herbívoros.
- Além disso, a maior parte dos cactos têm picos.
- A capacidade de reprodução tem também uma importância
fundamental. Darwin estudou
bem a polinização. As plantas, com os seus perfumes e as
suas cores, atraem os insectos
que contribuem para a difusão
do pólen. O canto dos pássaros também é importante para a
reprodução. Um touro lento e
melancólico, que não se interessa por vacas, não é importante para a história da sua
espécie. A única tarefa do
indivíduo é atingir a maturidade sexual e reproduzir-se,
para conservar a espécie. É
como uma longa estafeta, em
que aqueles que, por algum motivo, não conseguem transmitir
os genes são sempre excluídos.
Deste modo, a raça melhora
progressivamente. A resistência às doenças também é uma
característica que se conserva
nas variantes que sobrevivem.
- Então tudo melhora progressivamente?
- A selecção contínua faz
com que aqueles que estão
adaptados a um determinado ambiente - ou a um determinado
nicho ecológico - sobrevivam
nesse ambiente. Mas aquilo
que é uma vantagem num ambiente pode não sê-lo noutro. Para alguns dos tentilhões das
ilhas Galápagos, a capacidade
de voar era muito importante,
mas não se o alimento tem que
ser escavado do solo e não
existem animais predadores.
Justamente porque na natureza
há tantos nichos é que se desenvolveram tantos animais com
o decurso do tempo.
- Mas há apenas uma espécie humana.
- Sim, porque os homens
possuem uma capacidade fantástica de se adaptar às mais diversas condições de vida.
Darwin ficou impressionado
quando viu como os índios da
Terra do Fogo conseguiam sobreviver num clima tão frio.
Se os homens junto ao equador
têm uma pele mais escura

368
do que os habitantes das regiões setentrionais é porque a
pele escura protege da luz solar. Homens de pele branca
que se expõem demasiado ao sol
estão mais sujeitos ao cancro
de pele.
- A pele branca também é
uma vantagem quando se vive
num país a norte?
- Claro, senão os homens
teriam por toda a parte a pele
escura. Mas a pele branca tem
mais facilidade em produzir um
certo tipo de vitaminas - do
grupo D -, e isso é muito
importante nas regiões que têm
pouco sol. Hoje, isso tem
pouca importância porque tomamos vitaminas através da alimentação, mas nada é casual na
natureza: tudo se deve àquelas
pequenas variações que actuaram por um número infinito de
gerações.
- Isso é uma ideia fantástica.
- É, não é? Podemos agora
resumir a teoria de Darwin
deste modo...
- Despacha-te!
- ... dizendo que: a matéria-prima responsável pela
evolução da vida na Terra são
as contínuas "variações" entre
indivíduos dentro de uma mesma
espécie. E é a alta "taxa de
natalidade" que permite que
uma pequena percentagem deles
consiga sobreviver. O mecanismo na base da evolução é a
"selecção natural" na luta
pela sobrevivência. Esta selecção faz com que apenas os
mais fortes ou os que se adaptam melhor consigam sobreviver.
- Parece lógico. Como foi
recebido o livro sobre a origem das espécies?
- Desencadeou uma grande
celeuma. A Igreja protestou
fortemente e o meio científico
inglês dividiu-se. No fundo,
estas reacções não eram estranhas, uma vez que Darwin eliminara em parte Deus do acto
criador. Mas algumas pessoas,
mais iluminadas, disseram que
era obra muito maior criar alguma coisa que contivesse em
si as possibilidades de desenvolvimento do que criar todas
as coisas de uma vez por todas, determinadas nos mínimos
detalhes.
De repente, Sofia levantou-se de um pulo do seu sofá.
- Olha, ali! - exclamou.
Apontava para a janela.
Junto ao lago, um homem e uma
mulher passeavam de mão dada.
Estavam completamente nus.
- São Adão e Eva -
afirmou Alberto. - Mais
tarde ou mais cedo, tinham de
compartilhar a mesma irrealidade do Capuchinho Vermelho
e da Alice. Por isso apareceram aqui.
Sofia foi à janela para ver
melhor, mas o par desapareceu
rapidamente entre as árvores.
- Porque, segundo Darwin,
o homem evoluiu dos animais?

369
- Em 1871, publicou "The
Descent of Man", "A Descendência do Homem", no qual
evidencia as semelhanças existentes entre os homens e os
animais, e defende que os seres humanos e os símios antropóides devem ter-se desenvolvido a partir de um antepassado comum. Entretanto, tinham-se encontrado os primeiros
fósseis de crânios de um tipo
humano extinto, primeiro numa
pedreira no Rochedo de Gibraltar e alguns anos mais
tarde em Neandertal, na Renânia. Por estranho que pareça, houve menos reacção em
1871 do que em 1859, o ano
em que Darwin publicara "A
Origem das Espécies", se bem
que, de facto, a tese de que o
homem descendia de animais já
estava implícita no primeiro
livro. E como eu já disse,
quando morreu em 1882, Darwin foi sepultado com muitas
honras como um pioneiro da
ciência.
- E obteve no fim fama e
glória?
- No fim, sim. Mas antes
disso chamaram-lhe o homem
mais perigoso de Inglaterra.
- Meu Deus!
- "Esperemos que não seja
verdade, mas se é esperemos
que não se venha a saber",
disse uma senhora da alta sociedade. Um cientista conhecido disse uma coisa semelhante: "uma descoberta humilhante, e quanto menos se falar
dela, melhor."
- Desse modo, quase demonstraram que o homem é aparentado com a avestruz!
- Sim, bem podes dizer
isso. Mas é fácil para nós
criticar. Muitas pessoas se
sentiram forçadas a rever a
sua opinião sobre a narração
bíblica da Criação. O jovem
autor "John Ruskin" exprimiu-o do seguinte modo: "Se
os geólogos pudessem deixar-me
em paz! No fim de cada versículo da Bíblia ouço as suas
marteladas."
- E as marteladas eram as
dúvidas quanto à palavra de
Deus?
- Era isso que ele queria
dizer, porque não foi apenas a
interpretação literal da descrição bíblica a ser abalada.
A teoria de Darwin afirmava
também que variações totalmente "casuais" tinham criado o
homem. E mais, Darwin reduziu o ser humano a um produto
de uma coisa tão "desprezível"
como a luta pela existência.
- Darwin explicou o modo
como nascem essas "variações
casuais"?
- Estás a tocar no ponto
mais frágil da sua teoria.
Darwin tinha apenas ideias
muito vagas sobre a hereditariedade. Alguma coisa desaparece no cruzamento. Um casal
nunca tem dois filhos exactamente iguais e isso já representa uma certa variação. Por
outro lado, dificilmente surge
alguma coisa verdadeiramente
nova. Além disso, há plantas
e animais que se reproduzem
através de germinação ou simples divisão

370
celular, logo sem cruzamentos.
Para explicar como se criam
estas variações viria depois o
chamado neodarwinismo, que
completou a teoria de Darwin.
- Conta!
- Toda a vida e toda a reprodução andam à volta da divisão celular. Quando uma célula se divide em dois, formam-se duas células exactamente iguais com o mesmo material
genético. Por divisão celular
entendemos portanto que uma
célula se copia a si mesma.
- Sim?
- Mas, por vezes, há erros
minúsculos neste processo - e
por isso a célula copiada não
é totalmente igual à célula
mãe. Este fenómeno é chamado
"mutação" na biologia moderna.
As mutações podem ser insignificantes ou, pelo contrário,
levar a transformações evidentes nas características do indivíduo. Podem ser directamente prejudiciais e, neste
caso, os "mutantes" são constantemente eliminados. Muitas
doenças também se devem a mutações. Mas, por vezes, uma
mutação pode fornecer ao indivíduo precisamente aquela característica positiva da qual
precisa para se poder impor na
luta pela sobrevivência.
- Um pescoço mais comprido, por exemplo?
- A explicação de Lamarck
para o longo pescoço das girafas era que as girafas tinham
esticado constantemente o pescoço para comerem as folhas
das árvores. Mas, segundo
Darwin, as características
adquiridas pelo hábito não podiam ser transmitidas. Para
Darwin, o pescoço comprido
das girafas era uma variação
natural dos pescoços dos seus
antepassados. O neodarwinismo
completa esta tese indicando a
causa de tais variações.
- As mutações.
- Sim. Algumas mutações
casuais no material genético
deram a alguns antepassados
das girafas um pescoço ligeiramente mais longo do que a
média. Variação que se pode
ter tornado positiva e importante num período de escassez
de alimento: quem chegava aos
ramos mais altos das árvores
conseguia sobreviver melhor.
Podemos ainda imaginar que
algumas destas "primeiras girafas" desenvolveram a capacidade de esgravatar alimento do
solo. Passado muito tempo,
uma espécie animal pode ter-se
dividido em duas novas espécies animais.
- Compreendo.
- Vou dar exemplos mais
recentes do mecanismo da selecção natural. O princípio é
muito simples.
- Diz.
- Em Inglaterra há uma
espécie de borboleta que vive
nos troncos claros das bétulas. Se recuarmos ao século
XIII, podemos verificar que

371
a maior parte destas borboletas eram de um tom cinzento-claro. Porquê, Sofia?
- Para não serem vistas
pelos pássaros.
- De quando em quando,
nasciam exemplares mais escuros e isso devia-se a mutações
casuais. O que te parece que
aconteceu às variantes escuras?
- Eram mais visíveis, e
por isso presa fácil dos pássaros.
- De facto, nesse ambiente, ou seja, nos troncos claros das bétulas, a cor escura
não era uma característica favorável, razão pela qual as
borboletas de cor clara se
multiplicaram muito. Mas, em
seguida, aconteceu uma coisa
no ambiente: com a industrialização, em muitas localidades, os troncos brancos tornaram-se mais escuros por causa
da fuligem. O que aconteceu
então a estas borboletas?
- Foi a vez de os exemplares escuros se desenvencilharem melhor.
- Precisamente, e não foi
necessário muito tempo para o
seu número aumentar. De 1848
a 1948 a quantidade dos exemplares escuros passou, em algumas zonas, de um a noventa e
nove por cento. O ambiente
tinha mudado, e não era uma
vantagem ter-se cor clara, pelo contrário! Os exemplares
brancos eram imediatamente
eliminados pelos pássaros mal
pousavam nos troncos. Mas
houve uma nova transformação
do ambiente: um uso mais limitado do carbono e melhores
instalações de filtragem tornaram nos últimos anos o ambiente mais limpo.
- Então agora os troncos
das bétulas são novamente
brancos?
- Por esse motivo as borboletas estão a voltar à cor
branca. É o que chamamos
"adaptação" e estamos a falar
de uma lei da natureza. Há
também outros exemplos que
mostram como os seres humanos
intervieram no ambiente.
- A que é que te referes?
- Tentou-se eliminar animais nocivos recorrendo a várias substâncias venenosas.
De início, o resultado foi
positivo, mas quando pulverizamos um campo ou um pomar com
insecticidas, provocamos na
realidade uma pequena catástrofe ecológica para os elementos nocivos que queremos
exterminar. E devido a mutações contínuas, pode desenvolver-se um grupo de factores
nocivos mais resistentes contra o veneno usado. Estes
"vencedores" têm mais possibilidades de sobreviver e tornam-se cada vez mais difíceis
de eliminar justamente porque
o ser humano tentou destruí-los. São as variantes mais
resistentes que sobrevivem.
- Terrível!
- Mesmo no nosso corpo
tentamos eliminar parasitas
nocivos: refiro-me às bactérias.
- Usamos a penicilina ou
antibióticos.

372
- Uma cura à base de penicilina representa realmente
uma "catás trofe ecológica"
para estes hóspedes indesejados, mas, pouco a pouco, algumas bactérias resistem inclusivamente à penicilina. Temos
de recorrer a doses cada vez
maiores, e no fim...
- No fim saem-nos pela boca, talvez tenhamos de começar
a disparar contra elas.
- Isso seria talvez um
pouco exagerado. Mas é evidente que a medicina moderna
criou um sério dilema. Não se
trata apenas do facto de as
bactérias se terem tornado
mais resistentes do que eram.
Antigamente, muitos bebés
morriam destas doenças, e sobreviviam muito poucos. Num
certo sentido, a medicina moderna eliminou a selecção natural. Mas aquilo que ajuda o
indivíduo pode a longo prazo
enfraquecer a capacidade de
resistência da humanidade às
doenças. Quer dizer que, a
longo prazo, a capacidade hereditária dos homens de resistir a doenças sérias torna-se
mais fraca.
- É uma perspectiva terrível.
- Mas um filósofo tem de
referir isso. Uma questão
completamente diferente é a de
saber quais são as suas consequências. Tentemos fazer um
pequeno resumo.
- Faz favor!
- Podemos dizer que a vida
é uma grande lotaria onde apenas vemos os bilhetes vencedores.
- O que queres dizer?
- Aqueles que perderam na
luta pela existência, desapareceram. Por detrás de cada
espécie animal e vegetal sobre
a face da Terra, há milhões
de anos de extracções de "bilhetes perdedores". Todas as
espécies animais e vegetais
presentes hoje no mundo devem
ser consideradas, pelo menos
por enquanto, "vencedoras" na
grande lotaria da vida.
- Porque apenas os melhores sobrevivem.
- Podemos dizer isso. E
agora vamos ver o cartaz que
Noé te deu.
Sofia passou-lhe o cartaz.
De um lado, havia a imagem da
arca de Noé, noutro estava
desenhada a árvore genealógica
de todas as diferentes espécies animais. Era esse o lado
que Alberto lhe queria mostrar.
- O esquema mostra a subdivisão das diferentes espécies animais e vegetais: podes
ver como cada espécie pertence
a diversos grupos e classes.
- Sim, estou a ver.
- O homem pertence, juntamente com os símios, aos chamados primatas. Todos os primatas são mamíferos e todos os
mamíferos pertencem ao grupo
dos vertebrados, que por sua
vez pertence ao grupo dos animais pluricelulares.

373
- Faz lembrar Aristóteles.
- É verdade. Mas o esquema não mostra apenas qual é a
subdivisão das espécies modernas. Também diz algo sobre a
história da evolução. Podes
ver, por exemplo, que os pássaros se separaram dos répteis, que por sua vez se separaram dos anfíbios, que por
sua vez se separaram dos peixes.
- Sim, é muito claro.
- Cada vez que uma destas
linhas se divide, é porque
houve mutações que levaram à
formação de novas espécies.
Deste modo, no decurso de milhões de anos formaram-se os
diversos grupos e classes de
animais. Mas este esquema é
muito simplificado: na realidade hoje existe mais de um
milhão de espécies animais, e
este milhão é apenas uma pequena parte de todas as espécies animais que viveram na
Terra. Como vês, um grupo
animal como o dos trilobites
extinguiu-se completamente.
- E em baixo temos os animais unicelulares.
- Alguns desses não mudaram provavelmente desde há alguns milhões de anos. Vês
também uma linha que vai desde
estes organismos unicelulares
até ao reino vegetal porque,
muito provavelmente, as plantas provêm da mesma célula
primordial que os animais.
- Estou a ver, mas agora
tenho uma pergunta.
- Sim?
- Donde vem essa célula
primordial? Darwin deu uma
resposta?
- Eu disse-te que era um
homem prudente, mas neste aspecto especulou um pouco. Ele
escreveu: "Se (e que se!)
pudéssemos imaginar uma pequena poça de água quente, onde
todo o tipo de sais de amónio
e fósforo, a luz, o calor, a
electricidade estivessem presentes, e onde se tivesse
criado um composto proteico,
apto a sofrer mutações ainda
mais complexas..."
- Sim, e então?
- Darwin estava a imaginar
de que modo a primeira célula
viva se podia ter formado da
matéria inorgânica. E mais
uma vez acertou no alvo. A
ciência de hoje pensa que a
primeira forma de vida nasceu
numa "pequena poça de água
quente" tal como Darwin a
imaginara.
- Continua!
- Um esboço sumário deve
ser o suficiente. Lembra-te
de que estamos a deixar Darwin e a dar um salto para as
mais recentes investigações
sobre a origem da vida na terra.
- Isso põe-me um pouco
nervosa. Ninguém sabe como a
vida surgiu?
- Talvez não, mas cada vez
mais peças do quadro se ajustam para formar a imagem de
como a vida pode ter surgido.

374
- Continua!
- Devemos primeiro que
tudo ter presente que toda a
forma de vida na terra, vegetal ou animal, é constituída
pelas mesmas substâncias. A
definição mais simples da vida
é: cada ser vivo possui um metabolismo e reproduz-se autonomamente. Este processo é
dirigido por uma substância a
que chamamos ADN. Desta
substância são feitos os cromossomas, ou seja, o material
genético que se encontra em
qualquer célula viva. O
ADN é uma molécula, ou melhor, uma macromolécula, muito
complexa. A pergunta é: como
nasceu a primeira molécula de
ADN?
- Como?
- A Terra foi criada
quando se formou o sistema solar há cerca de 4'500 milhões
de anos. Inicialmente era uma
massa incandescente, mas pouco
a pouco, a crusta terrestre
arrefeceu. E, segundo a ciência moderna, a vida surgiu há
cerca de três a quatro mil milhões de anos.
- Parece inacreditável.
- Só podes dizer isso depois de teres ouvido o resto.
Antes de mais, deves reparar
que a Terra era muito diferente do que é hoje. Visto
que não havia nenhuma forma de
vida, nem sequer havia oxigénio na atmosfera. O oxigénio
livre só foi criado com a fotossíntese das plantas. O
facto de não existir oxigénio
era importante: é impossível
que os fundamentos da vida,
que podem dar origem ao
ADN, tivessem nascido numa
atmosfera rica em oxigénio.
- Porquê?
- Porque o oxigénio é uma
substância muito reactiva: antes de poderem formar complicadas moléculas de ADN, estes tijolos da molécula de
ADN ter-se-iam oxidado.
- Está bem.
- Por isso sabemos com segurança que hoje não pode nascer nenhuma forma nova de vida, nem uma bactéria ou vírus.
Por isso, toda a vida na
Terra deve ter a mesma idade.
Um elefante tem uma árvore
genealógica tão longa como a
da mais simples bactéria. Podemos dizer que um elefante,
ou um homem, é na realidade
uma colónia de animais unicelulares porque em cada célula
do nosso corpo temos exactamente o mesmo material genético. A receita pela qual somos
o que somos está em cada célula do nosso corpo.
- É estranho.
- Um dos grandes mistérios
da vida é que todavia as células dos animais pluricelulares
têm a capacidade de se especializarem numa função particular, porque as diversas características hereditárias não
estão activas em todas as células. Algumas destas características, ou genes, estão
"activadas", outras "desactivadas". Uma célula hepática

375
produz proteínas diferentes
das de uma célula nervosa ou
de uma célula da pele. Mas em
todas encontramos a mesma molécula de ADN que contém
toda a receita do organismo de
que estamos a falar.
- Continua!
- Quando não havia oxigénio na atmosfera, não havia
sequer, à volta do globo terrestre, uma camada protectora
de ozono. Isso significa que
não havia nada a deter as radiações provenientes do espaço. Isto também é importante
porque, muito provavelmente,
estas últimas tiveram um papel
decisivo na formação das primeiras moléculas complexas.
Uma radiação cósmica foi a
energia que uniu as diversas
substâncias químicas presentes
na Terra para formar macromoléculas complexas.
- Está bem.
- Vou recapitular: para
que se possam constituir as
moléculas complexas de que se
forma a vida, pelo menos duas
condições têm de ser satisfeitas: "não pode existir oxigénio na atmosfera e não deve
haver obstáculo às radiações
provenientes do espaço".
- Compreendo.
- Na pequena "poça de água
quente" - ou "sopa primordial", como lhe chama a ciência moderna, formou-se a dada
altura uma macromolécula muito
complexa, que tinha a estranha
capacidade de se poder dividir. E com isto se iniciou a
longa evolução, Sofia. Se
quisermos simplificar um pouco, diremos que já podemos falar do primeiro material genético, do primeiro ADN ou da
primeira célula viva. Ela
continuou a dividir-se; desde
o primeiro momento sucederam
mutações constantes. Depois
de um espaço de tempo muito
longo, sucedeu que os organismos unicelulares se uniram
para constituir organismos
pluricelulares mais complexos.
Do mesmo modo, teve início a
fotossíntese das plantas, e
assim se formou uma atmosfera
rica em oxigénio. Este acontecimento teve um efeito duplo: antes de mais, a atmosfera permitiu que se pudessem
desenvolver animais aptos a
respirar com os pulmões. Além
disso, a atmosfera protegeu a
vida das radiações nocivas
provenientes do espaço. Na
realidade, estas radiações,
importantes "centelhas" para a
criação da primeira célula,
são também prejudiciais para
toda a vida animada.
- Mas a atmosfera não se
formou da noite para o dia.
Como conseguiram sobreviver
as primeiras formas de vida?
- A vida nasceu primeiro
no oceano, aquilo a que chamamos a "sopa primordial". Aí,
as primeiras formas de vida
puderam desenvolver-se protegidas das radiações perigosas.
Só muito mais tarde, quando a
vida no oceano criou a atmosfera, é que os primeiros anfíbios subiram para terra. Já
falámos do resto. Estamos
aqui sentados numa cabana de
um bosque e olhamos em retrospectiva para um processo que
durou

376
três ou quatro mil milhões de
anos. E foi justamente em nós
que este processo teve consciência de si mesmo.
- Mas achas que foi tudo
mero acaso?
- Não disse isso. O cartaz de Noé mostra-nos que a
evolução tinha uma direcção.
Durante milhões de anos desenvolveram-se animais dotados
de um sistema nervoso cada vez
mais complexo e com um cérebro
cada vez maior. Pessoalmente
não acho que tenha sido um
acaso. O que é que tu pensas?
- O olho humano não pode
ter surgido por mero acaso.
Não achas que haja um significado por detrás do facto de
podermos ver o mundo que nos
rodeia?
- A evolução do olho também surpreendeu Darwin. Não
conseguia imaginar que uma
coisa tão bela e delicada pudesse ter nascido devido à selecção natural.
Sofia olhou para Alberto.
Pensou como era estranho ela
estar a viver naquele momento,
o facto de viver apenas aquela
vez e de não tornar a viver.
De repente, exclamou:
- "Então que vale a eterna
criação? Coisas criadas ao
nada reduzir!"
Alberto fixou-a severamente:
- Não podes falar assim,
minha filha. Essas são as palavras do diabo.
- Do diabo?
- Ou de Mefistófeles -
no "Fausto" de Goethe.
- O que querem dizer exactamente estas palavras?
- Enquanto Fausto morre,
e olha retrospectivamente para
a sua longa vida - diz num
tom triunfante:

"És tão belo, demora-te! Por

séculos
E séculos de meus terrenos

dias
Não se apaga o vestígio Agora mesmo,
Somente em pressentir tanta

delícia,
Gozo ditoso o mais celeste

instante."

- Que bonito!
- Mas agora é a vez do
diabo. Mal Fausto morre exclama:

377
"Acabou-se! Palavra sem sen tido!
Acabou-se porquê? Acabou e

nada,
É tudo a mesma coisa! Então

que vale
A eterna criação? Coisas

criadas
Ao nada reduzir! "Está aca bado!..."
Que quer isto dizer? É exac tamente
Como se nunca fosse, e toda via
Circula, como tendo inda

existência!
Preferira ao que acaba o vá cuo eterno." (")
..................
(") J. W. Goethe,
Fausto. Tradução de Agos tinho de Ornellas - nova
edição ao cuidado de Paulo
Quintela. Por ordem da
Universidade de Coimbra,
1953.
- Que pessimismo. Gostei
mais da primeira citação.
Apesar de a sua vida ter terminado, Fausto viu um significado nos vestígios que deixou atrás de si.
- Não é uma consequência
da teoria da evolução de Darwin sentirmo-nos parte de alguma coisa de grande onde a
mais pequena forma de vida tem
um significado na totalidade?
Nós somos o planeta vivo,
Sofia! Somos a grande embarcação que navega à volta de
um sol ardente no universo.
Mas cada um de nós é também
um barco que atravessa a vida
com uma carga de genes. Quando a tivermos transportado
até ao porto seguinte, não
teremos vivido em vão. Bjornstjerne Bjornson exprimiu a
mesma ideia no poema "Salmo
II":
"Louva o eterno na nossa vida
que criou todas as coisas!
Na manhã da ressurreição o

mínimo é dado,
apenas as formas se perdem.
A estirpe gera a estirpe,
e alcança poderes crescentes;
a espécie gera a espécie
em milhões de anos
Mundos morrem e nascem.
Na alegria de viver, tu, a

quem foi concedido
ser uma flor desta primavera,
goza um dia em honra do eterno
na condição de homem;
oferece o teu óbolo
até ao surgir do eterno,
respira num único e
imperceptível fôlego
o dia eterno!"

378
- Que bonito!
- Mas agora vamos terminar. Digo apenas: fim de capítulo!
- Pára com essa tua ironia!
- Fim de capítulo, disse
eu. Presta atenção ao que eu
te digo!

379

FREUD
"...um desejo horrível, egoísta, emergira nela..."

Hilde Mõller Knag saltou
da cama com o grande "dossier"
nos braços. Deixou-o na mesinha de cabeceira, correu com a
roupa para a casa de banho,
tomou duche em dois minutos e
vestiu-se a toda a pressa. Em
seguida, desceu as escadas a
correr.
- Pequeno-almoço, Hilde?
- Antes tenho de remar um
pouco.
- Mas, Hilde!
Hilde saiu a correr da casa
para o jardim. Desamarrou o
barco da doca e saltou para
dentro dele. Depois, começou
a remar. Remou sem direcção
pela enseada, primeiro com
golpes enfurecidos, depois começou a acalmar-se. "Nós somos o planeta vivo, Sofia!
Somos a grande embarcação que
navega à volta de um sol ardente no universo. Mas cada
um de nós é também um barco
que atravessa a vida com uma
carga de genes. Quando a tivermos transportado até ao
porto seguinte, não teremos
vivido em vão..."
Hilde sabia-o de cor: afinal tinha sido escrito para
si. Não para Sofia, mas para
si. Tudo o que estava escrito
no "dossier" era uma carta do
pai para ela.
Retirou os remos dos toletes e pô-los dentro do barco,
que começou a balouçar para
cima e para baixo. As ondas
batiam levemente no fundo.
Tal como o pequeno barco se
movia na água de uma pequena
enseada em Lillesand, também
ela era uma casca de noz na
superfície da vida.
Onde estavam Sofia e
Alberto neste quadro? Sim,
onde estavam Sofia e Alberto?
Não conseguia aceitar a
ideia de que fossem apenas
"impulsos electromagnéticos"
no cérebro do pai. Não fazia
sentido que fossem apenas papel e tinta de uma fita da máquina de escrever do pai.
Nesse caso poderia dizer que
ela própria era uma aglomeração de ligações

380
proteicas que se tinham reunido outrora "numa pequena poça
quente". Mas ela era mais do
que isso. Ela era Hilde
Mõller Knag!
O "dossier" era, de facto,
um presente de aniversário
fantástico. E o pai soubera
fazer ressoar nela uma corda
nova. Mas o tom impertinente
com o qual escrevia sobre Sofia e Alberto não lhe agradava.
O major havia de levar um
raspanete no regresso a casa.
Ela devia-o àqueles sobre os
quais estava a ler. Hilde já
estava a ver o pai a andar de
um lado para o outro como um
garoto no aeroporto de Copenhaga.
Hilde tinha-se acalmado.
Remou novamente até à doca e
amarrou o barco. Depois tomou
o pequeno-almoço com a mãe.
Gostaria de poder dizer que o
ovo estava muito bom, mas na
realidade estava um pouco
mole.
À noite, voltou a pegar no
"dossier". Já não faltavam
muitas páginas.

Voltaram a bater à porta.
- Tapamos as orelhas? -
perguntou Alberto. - Talvez
parem.
- Não, eu quero ver quem
é.
Quando foi à porta,
Alberto foi atrás dela.
Lá fora estava um homem nu.
Pusera-se numa postura muito
solene, mas a única coisa que
trazia vestida era uma coroa
na cabeça.
- Então? - perguntou. -
O que pensam os senhores das
novas vestes do rei?
Alberto e Sofia ficaram
mudos de perplexidade, mas
isso não fez diferença para o
homem nu.
- Vós nem vos inclinais!
- exclamou.
Alberto ganhou coragem:
- É verdade, mas o rei
está completamente nu.
O homem manteve a mesma posição solene. Alberto inclinou-se para Sofia e sussurou-lhe ao ouvido:
- Julga ser uma pessoa
muito distinta.
O homem fez uma expressão
carrancuda.
- Esta casa exerce algum
tipo de censura? - perguntou.
- Infelizmente - respondeu Alberto. - Aqui estamos
completamente despertos e em
plena posse das nossas faculdades mentais. Na condição
vergonhosa em que se encontra
não lhe é permitido passar a
soleira desta pequena casa.
Sofia achou aquele homem,
pomposo mas nu, tão cómico que
desatou a rir. Como se isso
fosse o sinal secreto, o homem
com a coroa na cabeça deu-se
subitamente conta de não ter
nada vestido. Cobriu-se com
ambas as mãos, correu para o
bosque e desapareceu. Talvez

381
se encontrasse com Adão e
Eva, Noé, Capuchinho Vermelho e Winnie the Pooh.
Alberto e Sofia ficaram à
porta. Finalmente, Alberto
disse:
- Talvez seja melhor voltarmos a entrar. Vou falar-te
de Freud e da sua teoria sobre o inconsciente.

Sentaram-se em frente à janela. Sofia olhou para o relógio e disse:
- Já são duas e meia, e
ainda tenho que fazer muita
coisa para a festa do jardim.
- Eu também. Vamos falar
rapidamente sobre Sigmund
Freud.
- Era um filósofo?
- Podemos defini-lo como
um filósofo da cultura. Freud
nasceu em 1856 e estudou medicina na universidade de
Viena, cidade em que passou a
maior parte da sua vida, justamente no período em que a
vida cultural de Viena estava
no apogeu. Especializou-se no
ramo da medicina que se chama
neurologia. Em finais do século passado - e durante a
primeira metade deste século
- elaborou a sua "psicologia
analítica" ou "psicanálise".
- Espero que expliques
isso melhor.
- Por psicanálise entendemos quer uma descrição da psicologia humana em geral quer
um método para a cura das doenças nervosas e psíquicas.
Não tenho intenção de te fornecer um quadro completo nem
de Freud nem da sua actividade, mas a sua doutrina do inconsciente é fundamental para
compreendermos o que é um ser
humano.
- Já conseguiste despertar
o meu interesse. Fala!
- Segundo Freud, existe
sempre uma tensão entre um ser
humano e o ambiente que o rodeia. Mais precisamente, trata-se de uma tensão, ou de um
conflito, entre as pulsões e
necessidades do homem e as
exigências do mundo externo.
Não é exagerado afirmar que
foi Freud a descobrir a vida
instintiva do homem, e isto
torna-o um expoente das correntes naturalistas, dominantes no final do século.
- O que queres dizer com
"vida instintiva" do homem?
- Nem sempre a razão domina as nossas acções: o homem
não é apenas um ser racional
como os racionalistas do século XVIII pensavam. Muitas
vezes, são os impulsos irracionais que determinam o que
pensamos, o que sonhamos e fazemos. Estes impulsos irracionais podem ser expressão de
pulsões profundas ou de necessidades. Tão importante como
a necessidade de sucção do recém-nascido é o impulso sexual
do homem.
- Compreendo.
- Em si, talvez não fosse
uma verdadeira descoberta, mas
Freud mostrou que as necessidades deste género podem ser
"camufladas" ou

382
"transformadas" e dominar assim as nossas acções sem que
tenhamos consciência disso.
Mostrou ainda que mesmo as
crianças têm a sua forma de
sexualidade. Esta constatação
da sexualidade infantil provocou na burguesia culta vienense uma reacção de repulsa que
tornou Freud muito impopular.
- Não é de admirar.
- Estamos a falar da chamada época vitoriana, quando
tudo o que tinha a ver com a
sexualidade era considerado
tabu. Freud tinha chegado às
suas conclusões sobre a sexualidade infantil através da sua
prática como psicoterapeuta,
logo, as suas afirmações tinham um fundamento empírico.
Ele tinha também verificado
que muitas formas de doenças
psíquicas podiam ser reconduzidas a conflitos na instância. Gradualmente, desenvolveu um método de cura que podemos definir como uma espécie
de "arqueologia psíquica".
- O que queres dizer com
isso?
- Um arqueólogo procura
encontrar vestígios de um passado longínquo escavando os
diversos estratos culturais:
encontra uma faca do século
XVII, um pouco mais abaixo
descobre um pente do século
XIV e ainda mais abaixo um
vaso do século IV.
- E então?
- Da mesma forma, um psicólogo pode "escavar" na consciência do seu paciente com a
ajuda deste, para trazer à luz
as experiências que estão na
origem dos sofrimentos psíquicos. Segundo Freud, conservamos dentro de nós todas as
recordações do passado.
- Agora compreendo.
- E por vezes encontra uma
experiência dolorosa que o paciente tentou sempre esquecer,
mas que permaneceu no fundo e
destrói a sua resistência.
Quando essa "experiência
traumática" é trazida à consciência - e apresentada ao
paciente - ele pode "libertar-se" dela e curar-se.
- Parece lógico.
- Mas fui demasiado rápido. Vamos primeiro ver como
Freud descreve a mente humana. Já alguma vez viste um
recém-nascido?
- Eu tenho um primo de
quatro anos.
- Quando vimos ao mundo,
vivemos de modo directo e sem
constrangimento as nossas necessidades físicas e psíquicas. Se não nos dão leite,
choramos e gritamos. Fazemo-lo também quando as fraldas
estão molhadas. E exprimimos
directamente o nosso desejo de
contacto físico e de calor humano. Freud chama a este
"princípio de prazer" "id".
Quando somos bebés somos quase apenas "id".
- Continua!

383
- O "id" está presente em
nós durante toda a vida, mas
pouco a pouco aprendemos a
controlar os nossos desejos e
a adequar-nos às circunstâncias. Aprendemos a adaptar as
pulsões instintivas ao "princípio de realidade". Freud
diz que construímos um eu (ou
ego) que tem esta função reguladora. Mesmo se desejamos
algo, não podemos simplesmente
pôr-nos a gritar até que os
nossos desejos ou necessidades
sejam satisfeitos.
- Claro que não.
- Pode acontecer desejarmos algo intensamente e simultaneamente o mundo não o aceitar. Nesse caso, temos de
"reprimir" os nossos desejos,
ou seja, tentamos afastá-los
ou esquecê-los.
- Compreendo.
- Freud tem ainda em conta
uma terceira instância na mente humana: desde a infância
confrontamo-nos constantemente
com as obrigações morais impostas pelos pais e pelo mundo
exterior. Quando fazemos alguma coisa errada, os pais dizem: "Isso não!", ou "Que
vergonha!". Mesmo na idade
adulta trazemos connosco um
eco dessas obrigações morais e
dessas condenações. As convenções morais do mundo externo parecem ter penetrado em
nós e terem-se tornado parte
de nós. A isso chama Freud
"super-ego".
- Queria dizer consciência?
- Num passo, Freud diz
efectivamente que o Super-ego
se coloca perante o Eu como
consciência moral. Mas aquilo
que importa a Freud é que em
primeiro lugar o super-ego nos
dá sinal de si quando temos
desejos "indecorosos" ou "inconvenientes", sobretudo se se
trata de desejos eróticos ou
sexuais. E, como dissemos,
Freud afirmou que esse tipo
de desejos já estão presentes
num estádio precoce da infância.
- Explica-te!
- Hoje sabemos e vemos que
as crianças pequenas gostam de
tocar nos órgãos genitais.
Podemos observar isso em
qualquer praia. No tempo de
Freud, crianças de dois ou
três anos levavam uma palmada
nos dedos por isso. Nesse
tempo, as crianças ouviam
constantemente: "Que vergonha!", ou "Está quieto!", ou
"As mãos quietas".
- Isso está mal.
- Deste modo, cria-se um
sentimento de culpa, e uma vez
que este sentimento de culpa
se conserva no Super-ego,
muitas pessoas, - segundo
Freud a maior parte - têm um
sentimento de culpa em relação
ao sexo. Mas os desejos e as
necessidades sexuais são uma
componente natural e fundamental do homem. E então, minha
cara Sofia, surge um conflito
entre prazer e culpa que durará toda a vida.

384
- Não achas que esse conflito se atenuou desde o tempo
de Freud?
- Certamente. Mas muitos
dos pacientes de Freud viviam-no tão intensamente que
desenvolviam aquilo a que
Freud chamou "neurose". Uma
das suas pacientes, por exemplo, estava apaixonada pelo
cunhado. Quando a irmã morreu
devido a uma doença, ela pensou: "Agora ele está livre e
podemos casar!" Este pensamento entrou naturalmente em
contradição com o super-ego.
Era tão monstruoso que ela o
recalcou, como diz Freud.
Quer dizer que ela o empurrou
para o inconsciente. Essa rapariga adoeceu e apresentou
graves sintomas histéricos, e
quando Freud se encarregou da
cura, verificou-se que ela se
tinha esquecido completamente
da cena junto ao leito de morte da irmã e do desejo horrível, egoísta, que emergira
nela. Mas durante o tratamento recordou-o, reproduziu
aquele momento patogénico e
ficou curada.
- Agora compreendo melhor
o que queres dizer com
"arqueologia psíquica".
- Então vou tentar fazer
uma descrição geral de mente
humana. Após uma longa experiência na cura dos doentes,
Freud chegou à conclusão de
que a "consciência" constitui
apenas uma pequena parte da
mente humana. A parte consciente é comparável à ponta de
um iceberg que vemos sobressair da água. Sob a superfície da água, - ou sob o limiar da consciência - há o "inconsciente".
- Então o inconsciente é
tudo aquilo que está em nós
mas que esquecemos ou não recordamos?
- Não temos sempre presentes na consciência todas as
nossas experiências, mas tudo
o que pensámos ou vivemos e
que nos vem à mente se "pensarmos um pouco", foi designado por Freud "preconsciente".
O termo inconsciente foi usado por Freud apenas para
aquilo que recalcámos, ou
seja, as coisas que queremos
esquecer por serem desagradáveis, indecentes ou repugnantes. Se temos desejos ou
vontades que são intoleráveis
para a nossa consciência - ou
para o super-ego, - empurramo-los para o rés-do-chão.
Fora com eles!
- Compreendo.
- Este mecanismo funciona
em todas as pessoas sãs, mas
manter longe da consciência os
pensamentos desagradáveis ou
proibidos exige tal esforço
que provoca problemas nervosos. Aquilo que é recalcado
tenta reemergir por si na
consciência, de forma que cada
vez mais energia tem de ser
usada para manter os impulsos
desse género longe da consciência. Quando Freud deu
lições sobre a psicanálise em
1909 nos EUA, explicou com
um exemplo simples o funcionamento deste mecanismo de recalcamento.
- Conta!

385
- Ele disse aos ouvintes:
"Imaginemos que nesta sala se
encontra um indivíduo que me
perturba e distrai rindo de um
modo insolente, falando e batendo com os pés. Declaro que
assim não posso continuar a
conferência e, nessa altura,
alguns homens robustos levantam-se e depois de uma breve
luta lançam fora o importuno.
Ele é assim "removido" e eu
posso continuar. Para que não
haja mais distúrbios, caso o
indivíduo tente entrar novamente na sala, os homens que
executaram a minha vontade
põem as suas cadeiras à porta,
feita a remoção, e ficam lá
como "resistência". Se imaginarmos a sala como o consciente e o corredor como o inconsciente temos uma boa imagem do
processo de recalcamento."
- Eu também acho que é uma
boa imagem.
- Mas o indivíduo quer
voltar a entrar, Sofia. Isto
é o que acontece, pelo menos
com os pensamentos e os impulsos recalcados: vivemos sob
uma "pressão" constante devido
aos pensamentos recalcados que
tentam emergir do inconsciente. Por esse motivo, dizemos
ou fazemos frequentemente coisas sem querer e, deste modo,
as reacções inconscientes dominam os nossos sentimentos e
as nossas acções.
- Podes dar-me um exemplo?
- Freud descreve muitos
destes mecanismos. Por exemplo, aqueles a que chamou
"actos falhados", quando dizemos ou fazemos coisas que tentámos recalcar. Ele dá o
exemplo de um empregado que ia
brindar ao seu chefe, que não
era muito popular. Ele era
aquilo a que se pode chamar
"um sacana".
- E o que aconteceu?
- O empregado levantou-se,
elevou o seu copo solenemente
e disse: "Convido-vos a arrotarem pelo nosso chefe."
- Não tenho palavras.
- O empregado também não.
Na realidade tinha apenas
dito aquilo que pensava sem a
intenção de o dizer. Esta expressão involuntária de sinceridade era um lapso, ou seja,
uma troca de palavras devido à
semelhança. Em alemão - não
te esqueças de que Freud era
vienense - o verbo "anstossen", "beber à saúde",
é muito semelhante a "aufstossen" que significa entre outras coisas "arrotar". Queres ouvir outro exemplo?
- Sim.
- A família de um pastor,
que tinha muitas filhas boas e
amáveis, esperava a visita de
um bispo. Acontece que este
bispo tinha um nariz extremamente grande e por isso foi
imposto às raparigas não fazerem comentários sobre o seu
nariz. Porém, acontece muitas
vezes que as crianças deixem
escapar alguma coisa, porque o
seu mecanismo de recalcamento
ainda não está muito desenvolvido.

386
- E então?
- O bispo chegou e as raparigas esforçaram-se o máximo
para não dizerem nada sobre o
nariz. E mais ainda: tentaram
nem sequer olhar para o nariz;
tinham de tentar esquecê-lo.
E pensavam nisso o tempo todo. Mas quando uma das filhas
mais pequenas serviu o açúcar
para o café, pôs-se em frente
do austero bispo e disse-lhe:
"Quer um pouco de açúcar no
nariz?"
- Embaraçoso.
- Por vezes, também
"racionalizamos", ou seja, damos a nós e aos outros, para
justificarmos aquilo que fazemos, motivos diferentes da
verdadeira causa, precisamente
porque a causa real é desagradável.
- Um exemplo, por favor.
- Eu posso hipnotizar-te e
fazer com que abras a janela.
Ordeno-te portanto que te levantes e abras a janela quando
eu bater com os dedos na mesa.
Depois pergunto-te por que
razão abriste a janela. Talvez me respondas que abriste a
janela porque achaste que estava calor. Mas esse não é o
verdadeiro motivo: não queres
admitir para ti mesma que fizeste uma coisa por minha ordem, sob hipnose. Neste caso
estás a racionalizar, Sofia.
- Compreendo.
- Quase todos os dias
acontece comunicarmos, por assim dizer, com sentido duplo.
- Eu falei do meu primo de
quatro anos. Não me parece
que tenha muitas crianças com
quem jogar, pelo menos fica
muito contente quando o vou
ver. Uma vez disse-lhe que
tinha de me apressar para voltar a casa e sabes o que me
respondeu?
- Diz!
- "Ela é estúpida", disse
ele.
- Sim, isso é verdadeiramente um exemplo do que entendemos por racionalização: o
rapaz queria dizer que segundo
ele era estúpido que tivesses
que te ir embora, mas não queria admiti-lo. Por vezes,
acontece também que "projectamos".
- Traduz.
- Quando projectamos,
transferimos para outros características nossas que tentamos recalcar. Uma pessoa
muito avara, por exemplo, está
inclinada a dizer que os outros são avaros. Uma outra
pessoa que não quer admitir
para si mesma ter interesse
por sexo, será talvez a primeira a irritar-se porque os
outros têm fixação pelo sexo.
- Compreendo.
- Segundo Freud, a nossa
vida quotidiana apresenta numerosos exemplos de acções inconscientes. Acontece frequentemente esquecermos o

387
nome de uma pessoa, remexermos
na roupa enquanto falamos ou
mudarmos o sítio dos objectos,
aparentemente por acaso, na
sala. Além disso, podemos
tropeçar nas palavras e enganarmo-nos a falar, acções que
poderiam parecer totalmente
incautas. Mas, para Freud,
os lapsos nem sempre são tão
casuais nem tão inocentes como
acreditamos, devem ser vistos
como sintomas. Actos falhados
deste tipo ou "acções casuais"
podem revelar os segredos mais
íntimos.
- A partir de agora vou
reflectir bem antes de dizer
uma palavra.
- Mas não conseguirás fugir aos teus impulsos inconscientes. A arte reside em não
nos esforçarmos em empurrar
demasiadas coisas desagradáveis para o inconsciente. É
o mesmo que querermos tapar o
buraco de uma toupeira.
Podemos consegui-lo, mas também podemos ter a certeza de
que a toupeira aparecerá numa
outra parte do jardim. O mais
saudável é deixar entreaberta
a porta entre consciente e inconsciente.
- Se fechamos a porta podemos ter distúrbios psíquicos?
- Sim, um neurótico é justamente uma pessoa que despende demasiada energia para
afastar da consciência aquilo
que é desagradável.
Frequentemente, são experiências particulares que esta
pessoa quer recalcar: Freud
chamou-lhes "traumas". A palavra é grega e significa "ferida".
- Compreendi.
- Na cura do paciente, foi
importante para Freud tentar
abrir com cautela esta porta
fechada, ou talvez abrir uma
nova. Com a colaboração do
paciente tentava trazer à luz
as experiências recalcadas. O
paciente não tem consciência
daquilo que recalca, mas pode
desejar que o médico (ou
"analista" como se diz na psicanálise) o ajude a encontrar
os traumas escondidos.
- Como procede o psicanalista?
- Freud chamou-lhe a técnica da "associação livre".
Fazia o paciente deitar-se
descontraído e deixava-o falar
sobre o que lhe vinha à cabeça
nesse momento, independentemente de poder parecer insignificante, casual, desagradável ou embaraçoso. O analista
parte do princípio de que, naquilo que o paciente associa
no divã, estão sempre contidas
referências aos seus traumas e
às resistências que impedem
que eles se tornem conscientes. É que os pacientes preocupam-se com os seus traumas
sempre - mas não conscientemente.
- Quanto mais nos esforçamos por esquecer alguma coisa,
mais pensamos inconscientemente nisso?
- Exacto. Por isso é importante tomar atenção aos sinais que provêm do inconsciente. O caminho certo para penetrar no inconsciente reside,
segundo Freud, nos sonhos.
Um dos seus livros mais importantes foi de

388
facto "A Interpretação dos
Sonhos", publicado em 1900.
Nessa obra ele afirmou que
aquilo que sonhamos não é casual: através dos sonhos os
pensamentos inconscientes tornam-se manifestos à consciência.
- Continua!
- Depois de muitos anos de
experiência com os pacientes,
e depois de ter analisado os
seus próprios sonhos, Freud
afirmou que todos os sonhos
são a "satisfação" de um desejo. Podemos observar isto nas
crianças, afirmou. Sonham com
gelados e cerejas. Mas, nos
adultos, os desejos que o sonho quer realizar são frequentemente camuflados, porque,
mesmo quando dormimos, há uma
censura relativamente àquilo
que podemos ou não podemos fazer. Mesmo se durante o sono
essa censura, ou mecanismo de
recalcamento, está enfraquecida em relação ao nosso estado
de vigília, é suficientemente
forte para deformar os desejos
que não queremos reconhecer.
- É por isso que os sonhos
têm de ser interpretados?
- Freud defende que devemos distinguir o sonho como o
recordamos de manhã do seu
verdadeiro significado. Chamou às imagens oníricas ou
seja, ao "filme" que sonhamos,
o "conteúdo manifesto" do sonho. Este conteúdo manifesto
tem por motivo acontecimentos
que se deram recentemente,
muitas vezes no dia anterior.
Todavia, o sonho tem também
um significado mais profundo e
oculto à consciência. Freud
chamou-lhe "conteúdo onírico
latente". Estes pensamentos
ocultos, de que o sonho trata,
podem dizer respeito a um tempo passado, por exemplo, a
primeira infância.
- Então temos de analisar
o sonho para compreendermos do
que se trata.
- Sim, e quando são pessoas doentes, é interpretado
com o terapeuta. Mas não é o
mé-dico que interpreta sozinho
o sonho: só o pode fazer com a
ajuda do paciente. Nesta situação, o psicanalista desempenha a função de uma parteira
socrática que está presente e
ajuda durante a interpretação.
- Compreendo.
- A transformação que se
dá na passagem dos pensamentos
oníricos latentes ao conteúdo
manifesto é chamada por Freud
"trabalho onírico". Podemos
falar de um camuflamento ou de
uma codificação do verdadeiro
significado do sonho; através
da sua interpretação, deve-se
percorrer um processo inverso
para desmascarar ou descodificar o motivo do sonho, para
descobrir o verdadeiro tema do
sonho.
- Podes dar-me um exemplo?
- Nos livros de Freud há
muitos desses exemplos. Mas
nós podemos imaginar um muito
freudiano e simples. Quando
um jovem sonha que a sua prima
lhe envia dois balões...

389
- Sim?
- Não, tens que tentar interpretá-lo sozinha.
- Hmm... o "conteúdo manifesto" do sonho é exactamente
aquilo que disseste: recebe
dois balões da sua prima.
- Continua!
- Disseste que o material
contido pode ter a ver com
algo recentemente vivido...
No dia anterior, ele estava
numa feira popular ou viu a
fotografia de dois balões no
jornal.
- Sim, é possível, mas
bastava-lhe ter visto a palavra "balão" algures ou uma
coisa que lhe fizesse recordar
um balão.
- Mas quais são os pensamentos oníricos latentes, ou
seja, o verdadeiro significado
do sonho?
- Tu és a analista.
- Talvez desejasse apenas
dois balões.
- Não, isso é pouco provável. É verdade que o sonho é
a realização de um desejo, mas
um homem adulto não pode desejar ardentemente ter dois balões. E mesmo que isso fosse
um desejo seu, não teria necessidade de sonhar com isso.
- Então, acho que na realidade ele desejava a sua prima, e os dois balões são os
seus seios.
- Sim, é uma explicação
provável, sobretudo se esse
desejo é um pouco embaraçoso
para ele, de tal forma que não
goste de o admitir no estado
de vigília.
- Então os nossos sonhos
falam numa linguagem que é
preciso descodificar?
- Sim. Segundo Freud, o
sonho é uma realização camuflada de desejos recalcados.
Aquilo que nós hoje camuflamos pode ter mudado muito desde que Freud era médico em
Viena, mas o mecanismo de camuflagem do conteúdo onírico é
o mesmo.
- Compreendo.
- A psicanálise de Freud
teve uma grande importância
nos anos 20, sobretudo na
cura de pacientes que sofriam
de distúrbios psíquicos. Mas
a teoria do inconsciente foi
também muito importante para a
arte e para a literatura.
- Queres dizer que os artistas começaram a interessar-se mais pela vida inconsciente da mente?
- Exacto. Se bem que esse
interesse já se tivesse manifestado na literatura nos últimos dez anos do século passado, ou seja, antes de a psicanálise de Freud ser conhecida. Isso significa
que não
foi por acaso que a psicanálise de Freud surgiu nessa época.
- Queres dizer que fazia
parte do espírito do tempo?

390
- Freud foi o primeiro a
afirmar que não fora ele a inventar fenómenos como o recalcamento, os actos falhados e a
racionalização, mas simplesmente o primeiro a levar essas
experiências humanas à psiquiatria. Freud foi muito hábil
a servir-se de exemplos literários para ilustrar a sua
teoria. Mas, como dissemos, a
partir dos anos 20 a psicanálise influencia mais directamente a arte e a literatura.
- Como?
- Os poetas e os pintores
procuraram servir-se das forças inconscientes no seu trabalho de criação. Isto é válido para os chamados surrealistas.
- E quem eram?
- "Surrealismo" é uma palavra de origem francesa e
significa literalmente "além
da realidade". Em 1924,
"André Breton" publicou um
"manifesto surrealista" no
qual afirmou que a arte devia
provir do inconsciente, pois
só assim o artista podia obter
as suas imagens oníricas com
inspiração livre e tender para
uma "suprarrealidade", na qual
as diferenças entre sonho e
realidade são suprimidas. De
facto, também pode ser importante para um artista destruir
a censura da consciência, para
que as palavras e as imagens
possam fluir livremente.
- Compreendo.
- De certo modo, Freud
tinha mostrado que todos os
homens são artistas: um sonho
é uma pequena obra de arte e
todas as noites criamos sonhos. Para interpretar os sonhos dos seus pacientes,
Freud tinha de atravessar uma
floresta de símbolos, mais ou
menos como sucede quando interpretamos um quadro ou um
texto literário.
- E sonhamos todas as noites?
- Investigações recentes
mostram que sonhamos cerca de
vinte por cento do tempo em
que dormimos, ou seja, duas a
três horas por noite. Se somos perturbados durante o
sono, tornamo-nos nervosos e
irritáveis. Isto significa,
entre outras coisas, que todos
os homens têm uma necessidade
inata de dar expressão artística à sua situação existencial, e o sonho trata de nós.
Somos os realizadores, somos
nós que imaginamos o enredo,
somos nós que desempenhamos
todos os papéis. Uma pessoa
que afirma não entender nada
de arte conhece-se mal.
- Compreendo.
- Freud também mostrou que
a consciência humana é fantástica. O seu trabalho com os
pacientes convenceu-o de que
conservamos em algum local
profundo da mente tudo aquilo
que vimos e que vivemos e todas estas impressões podem ser
trazidas à superfície. Quando
temos um "vazio mental" e depois temos isso "na ponta da
língua" e por fim "nos veio à
mente", estamos a falar de algo que estava no inconsciente
e que de repente

391
se torna manifesto passando
por uma porta entreaberta.
- Mas, por vezes, isso demora muito tempo.
- Todos os artistas têm
consciência disso, mas, subitamente, todas as portas e gavetas dos arquivos parecem
abrir-se. Tudo flui por si, e
podemos escolher exactamente
as palavras e as imagens de
que precisamos. Isso sucede
quando abrimos um pouco mais a
porta para o inconsciente.
Também podemos chamar a isso
"inspiração", Sofia. Temos
então a sensação de que aquilo
que desenhamos ou escrevemos
não vem de nós mesmos.
- Deve ser uma sensação
maravilhosa.
- Certamente já a experimentaste. Podemos observar
esse estado em crianças muito
cansadas. Por vezes, as crianças estão tão cansadas que
agem de forma totalmente desperta. De repente começam a
falar, e é como se descobrissem palavras que ainda não
aprenderam. Mas apredram-nas.
Essas palavras e pensamentos
estavam latentes na consciência, porém só naquele momento,
quando devido ao cansaço o
cuidado diminui e já não há
censura, é que elas vêm à luz.
Para um artista a situação é
diferente. Mas para ele também é importante que a razão e
a reflexão não controlem aquilo que se desenvolve melhor de
uma forma livre, espontânea e
inconsciente. Posso contar-te
uma pequena fábula que ilustra
o que eu disse?
- De bom grado.
- É uma fábula muito séria
e muito triste.
- Começa!
- Era uma vez uma centopeia que com as suas cem pernas era muito boa a dançar.
Quando dançava, os animais
reuniam-se no bosque para a
admirar e todos estavam muito
impressionados pela sua habilidade. Só um animal não podia suportar que a centopeia
dançasse, um sapo...
- Certamente tinha inveja.
- "Como é que posso impedi-la de dançar", pensou o sapo. Não podia dizer que não
gostava da dança nem que era
melhor a dançar do que a centopeia, seria um absurdo. Por
fim, tramou um plano diabólico.
- Fala!
- Escreveu uma carta à
centopeia: "Ó incomparável
centopeia! Sou um devoto admirador da tua requintada dança. Gostaria de saber como te
moves a dançar. Levantas primeiro a perna esquerda número
22 e depois a perna direita
número 59? Ou começas por
levantar a tua perna direita
número 26 antes de levantares
a tua perna esquerda número
44? Aguardo ansiosamente uma
resposta tua. Saudações cordiais, o sapo."
- Que horror!

392
- Quando a centopeia recebeu esta carta, reflectiu pela
primeira vez na sua vida no
que fazia quando dançava. Que
perna movia em primeiro lugar?
E que perna vinha a seguir?
O que te parece que aconteceu
depois?
- Acho que a centopeia não
voltou a dançar.
- Sim, foi o fim. É justamente isso que pode suceder
quando a fantasia é sufocada
pela razão.
- É uma história mesmo
triste.
- Para um artista pode ser
importante "deixar-se ir". Os
surrealistas tentaram atingir
um estado no qual tudo fluísse
por si. Sentavam-se em frente
a uma folha em branco e começavam a escrever sem pensarem
no que estavam a escrever.
Chamaram-lhe "escrita automática". A expressão provém do
espiritismo, onde um médium
acreditava que a caneta era
guiada pelo espírito de um defunto. Mas voltaremos a falar
destas coisas amanhã.
- Está bem.
- O artista surrealista
também é de certo modo um médium, o médium do seu inconsciente. Mas talvez esteja
presente um elemento inconsciente em qualquer processo
criativo. Porque, o que é na
realidade aquilo a que chamamos "criatividade"?
- Não é o facto de se
criar uma coisa nova?
- Sim, e isso sucede quando existe uma colaboração entre fantasia e razão.
Demasiadas vezes, a razão sufoca a fantasia e isso é uma
coisa grave, porque sem fantasia nunca nasce algo verdadeiramente novo. Eu vejo a fantasia como um sistema darwiniano.
- Desculpa, mas não compreendi isso.
- O darwinismo mostra que
na natureza nascem mutantes
uns a seguir aos outros, mas a
natureza só precisa de alguns.
Só alguns têm a possibilidade
de sobrevivência.
- Sim?
- O mesmo sucede quando
pensamos, quando estamos inspirados e temos muitas ideias.
Um "pensamento mutante" surge
a seguir a outro na nossa
consciência, se não nos submetemos a uma censura demasiado
severa. Mas só alguns destes
pensamentos podem ser utilizados. Neste ponto a razão ocupa o seu lugar, porque também
tem uma função importante.
Quando a caça do dia está na
mesa, não podemos esquecer-nos
de ser selectivos.
- É uma boa comparação.
- Imagina que tudo aquilo
que nos impressionou, ou seja,
toda a nossa fonte de inspirações, passasse pelos nossos
lábios! Ou abandonasse o bloco de notas ou a gaveta da escrivaninha. O mundo afogar-se-ia num mar de ideias
acidentais e não haveria qualquer escolha, Sofia.

393
- E é a razão que selecciona todas as ideias?
- Sim, ou achas que não?
Talvez seja a fantasia que
cria uma coisa nova, mas não é
responsável pela escolha. Não
é a fantasia que "compõe": uma
composição, e qualquer obra de
arte é uma composição, surge
de uma colaboração admirável
entre fantasia e razão, ou entre sensibilidade e pensamento. Há sempre algo de casual
num processo criativo e, numa
certa fase, é importante não
fechar a porta a essas ideias
casuais. É preciso soltarmos
as ovelhas antes de começarem
a pastar.
Alberto ficou em silêncio
algum tempo a olhar pela janela. Sofia seguiu o seu olhar
e viu uma grande multidão de
personagens de Walt Disney
de todas as cores na margem do
pequeno lago.
- Olha o Pateta - disse.
- E o Pato Donald e os sobrinhos... e a Margarida... e
o Tio Patinhas. Vês o Tico
e o Teco? Não ouves o que eu
digo, Alberto? Lá em baixo
estão também o Rato Mickey e
o Pardal!
Ele voltou-se para ela:
- Sim, isto é triste, minha filha.
- O que queres dizer com
isso?
- Estamos aqui sentados,
vítimas impotentes das ovelhas
postas em liberdade pelo major. Mas é culpa minha, fui
eu a falar do jogo livre da
fantasia.
- Não tens nada a censurar-te.
- Queria dizer que a fantasia também é importante para
nós filósofos. Para pensarmos
uma coisa nova, temos de ter a
coragem de nos deixarmos ir.
Mas eu exprimi-me de um modo
um pouco vago.
- Não te preocupes.
- Eu queria dizer alguma
coisa sobre a importância da
reflexão silenciosa. E ele
vem-nos com estas doidices coloridas. Devia ter vergonha!
- Estás a ser irónico?
- "Ele" está a ser irónico, eu não. Mas tenho uma
consolação, a verdadeira pedra
angular do meu plano.
- Já não estou a perceber
nada.
- Falámos sobre sonhos:
nisso há uma pequena ponta de
ironia! O que somos senão as
imagens oníricas do major?
- Ah...
- Mas ele esqueceu-se de
uma coisa.
- O quê?
- Talvez tenha consciência
do seu sonho, sabe tudo o que
fazemos e o que dizemos, tal
como o sonhador recorda o conteúdo onírico manifesto. É
ele que o escreve. Mas mesmo
que se lembre de tudo o que
dizemos um ao outro, não está
completamente desperto.

394
- O que queres dizer com
isso?
- Não conhece os pensamentos oníricos latentes, Sofia.
Esquece-se de que também este
é um sonho disfarçado.
- Falas de um modo tão estranho...
- O major também pensa assim. E é assim porque não
compreende a sua própria linguagem onírica. Devíamos alegrar-nos com isso, porque nos
dá um mínimo de espaço para
agirmos. Com esta liberdade
conseguiremos escapar à sua
consciência lamacenta como um
arganaz que num dia quente de
sol sai da sua toca.
- Achas que conseguimos?
- Temos de conseguir.
Dentro de dois dias dar-te-ei
um novo horizonte, e nessa altura o major já não saberá onde estão os arganazes e onde
vão aparecer.
- Mesmo que sejamos apenas
imagens oníricas, eu sou à
mesma uma filha. São cinco
horas. Tenho que ir para casa
preparar a festa de jardim.
- Mmmm... podes fazer-me
um pequeno favor enquanto vais
para casa?
- O quê?
- Tenta atrair a atenção.
Tenta fazer com que o major
não te perca de vista durante
todo o caminho para casa.
Tenta pensar nele quando chegares a casa - assim, ele
também pensará em ti.
- Para quê?
- Desse modo, posso trabalhar no meu plano sem ser perturbado. Mergulharei nas profundezas do inconsciente do
major, Sofia, e ficarei lá
até nos voltarmos a ver.

395
O NOSSO TEMPO
.. "o homem está condenado
à liberdade"...

O despertador indicava
23.55. Hilde olhava para o
tecto. Tentava deixar fluir
as associações livres que lhe
vinham à mente. Cada vez que
o curso dos pensamentos se interrompia, tentava compreender
por que motivo não conseguia
avançar.
Seria algo que tentava recalcar?
Se conseguisse eliminar
toda a censura, talvez começasse a sonhar estando desperta, pensamento que a assustava
um pouco.
Quanto mais tentava descontrair-se e abrir-se aos seus
pensamentos e imagens, mais
tinha a sensação de estar na
cabana do major junto ao lago,
no bosque.
O que estaria Alberto a
maquinar? Bom, na verdade era
o pai dela que decidira que
Alberto maquinasse qualquer
coisa. Mas saberia exactamente o quê? Talvez estivesse a
tentar afrouxar tanto as rédeas que Alberto o surpreendesse por fim?
Faltavam poucas páginas:
deveria dar uma olhadela à última? Não, isso não seria
correcto. Mas não era só
isso: Hilde não tinha a certeza de que já estivesse decidido o que sucederia na última
página.
Não era uma ideia estranha?
O "dossier" estava ali, e o
pai não podia acrescentar mais
nada. No máximo Alberto, se
conseguisse. A surpresa...
Mas Hilde haveria de tratar de algumas surpresas por
si mesma. O major Knag não
tinha controlo sobre ela. Mas
teria ela controlo sobre si
mesma?
O que era a consciência?
Não seria um dos maiores mistérios do universo? O que era
a memória? O que é que faz
com que "recordemos" tudo o
que vimos e vivemos? Que tipo
de mecanismo nos faz criar sonhos fabulosos noite após noite? Enquanto reflectia sobre
estas questões, Hilde fechava
por vezes os olhos. Depois
abria-os de