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sábado, 17 de agosto de 2013

Mel do Pecado - Romance - Bárbara Leigh

Mel do Pecado
Barbara Leigh

Um romance diferente, do período medieval, com lutas entre guerreiros da
época e o sentimento extranho: - O homossexualismo que, predomina os
ares da história mas, que ao final desmenten-se ao desenrolar normal dos
fatos da narrativa.
Realmente uma história muito boa que prende do início ao fim do livro.
Capítulo I


Inglaterra, 1299
O eco do trovão veio se juntar ao tropel dos cavalos, ligando céu e terra num estrondo uníssono, quando os cavaleiro cavalgaram velozmente rumo aos escombros
fumegantes do castelo Duxton.
Do alto de uma torre, por trás da quase invisível fresta da seteira, um par de olhos dourados e esperançosos presenciava a chegada dos cavaleiros. Eram os olhos
de uma criança que amadurecera em poucos dias, subjugada pelo panorama de terror e destruição que se descortinara nos últimos dias. A criança vira com crescente
desespero as fracas mulheres atirarem desajeitadamente flechas no inimigo, numa vão tentativa de defesa. Vira-as tentar manejar as armas mais pesadas e sucumbir
ao peso delas. Vira-as chorar e gritar de desespero e aflição.
Druanna e o irmão, Garith, haviam sido escondidos num quartinho secreto, oculto atrás da enorme lareira do castelo, numa tentativa de escapar da sanha dos inimigos
que apertavam inexoravelmente o sítio e estavam a ponto de invadir o bastião dos Duxtons. E também para fugir da peste que estendera suas garras negras para apanhar
quem quer que ousasse sobreviver ao ataque.
- Quem vem aí? - perguntou a vozinha fraca de Garith. O menino jazia deitado, magro e doentio, recuperando-se de uma guerra particular que travara com a peste.
- É o senhor nosso pai que vem para nos salvar! - exclamou Druanna, cheia de orgulho.
Ela grudou o olho na flecheira mais uma vez, esforçando-se para distinguir sob o tênue véu da chuva miúda as feições dos cavaleiros que se aproximavam.
- Turlock está com ele! - sussurrou, triunfante, os olhos brilhando de admiração e respeito.
Turlock era um caso especial na vida de Druanna. Paladino de Eduardo I da Inglaterra e aclamado como um dos mais valentes guerreiros do mundo cristão, era um
verdadeiro herói aos olhos da menina. E, embora vivesse ocupado com as guerras, sempre achava alguns momentos para brincar com os dois filhos de seu primo, o duque
de Duxton.
Um grito varreu a noite chuvosa. Druanna recuou, alerta, esperando que o som fosse acompanhado de novo ataque. Não temia muito as flechas, mas tinha pavor das
catapultas. Essas sim, destruíam o que encontrassem pelo caminho. Mas como não ouviu nada mais, voltou ao posto, grudando a vista na fresta.
- Faz um tempão que você está aí, mana - queixou-se Garith. - Acho que não lhe faz muito bem ver essa batalha. É muito violenta!
Druanna sacudiu a cabeça.
- Já estou vendo batalhas há mais de uma semana, Garith. Agora quero ver a vitória. Quando Turlock e papai chegarem, vão dar uma surra nos invasores, e eu não
quero perder essa.
- Damas não devem observar as guerras, é o que mamãe sempre diz. Ela mesma já foi dormir!
- Não sou uma dama, já disse mil vezes! - rebateu ela, batendo o pé. - Nem quero ser nunca!
Do esconderijo, Druanna presenciara quando as mulheres foram arrastadas pelo cabelo e tiveram suas roupas arrancadas brutalmente. Não entendera o que se passara
depois; só sabia que elas gritavam e se debatiam em desespero, enquanto outros soldados riam e bebiam, observando os colegas lutando com as pobres infelizes.
- Essa história de ser mulher não vale a pena, Garith. Eu vou ser um guerreiro, igual a Turlock!
O menino ficou pensativo, absorvendo as palavras da irmã, que no momento lhe pareceram muito naturais. Prostrado pela terrível doença, sentia que sua mente se
tornara confusa e complicada, às vezes, o simples ato de pensar o cansava. Não viu objeção quanto ao fato de ela se tornar guerreira, uma vez que ele próprio também
queria ser armado cavaleiro. E Druanna era mais alta e mais forte, embora fosse um ano mais nova. Satisfeita com a silenciosa aprovação do irmão, a menina voltou
para seu posto de observação. De lá, observou quando o pai deu ordens aos outros cavaleiros e estes se dispersaram, em busca do cruel inimigo que ousara cercar e
ameaçar seus domínios.
Duxton correu os olhos pela terra queimada e ressequida. Uma terra que ele deixara coberta de grama exuberante, havia poucos meses, a fim de se juntar ao exército
de Eduardo I.
0 duque de Duxton era de grande estatura, nos dois sentidos. Tinha os cabelos quase brancos, de tão loiros, o que indicava sangue saxão e viking. Contudo, os
olhos escuros denunciavam também a presença de sangue normando, e essa mistura conferia-lhe beleza e distinção. Mal passara dos trinta, e achava-se em plena força
da maturidade.
- Não quero nenhum prisioneiro! - comandou, manobrando o cavalo para perto dos corpos que jaziam no pátio.
Turlock repetiu a ordem aos oficiais, que deram início à busca de inimigos ainda vivos. Máquinas de guerra, que antes haviam cuspido fogo e morte, repousavam
no campo devastado como brinquedos quebrados. As árvores queimadas erguiam silenciosamente os braços descarnados para o céu. Mas não havia sinal de vida em nenhum
corpo.
- Lady Duxton soube lutar com bravura - comentou Turlock, com admiração. - Deve ter dado um trabalhão aos invasores!
- Se o rei nos tivesse dispensado uma semana mais cedo, teríamos chegado a tempo para ajudá-la!
A voz do duque estava rouca, carregada de remorso e tristeza. Palavras amargas subiram-lhe aos lábios, mas ele as refreou, voltando o rosto para o vento cortante
e frio. As rajadas envolveram-no uivando, como que entendendo sua mágoa e frustração, arrancando-lhe do peito a explosão ardente de ódio e carregando-a para longe,
para além da fronteira.
Outro relâmpago iluminou fugazmente os cavaleiros, que atravessaram a ponte elevadiça e adentraram o pátio do castelo, seguidos pelos soldados.
Sob o véu esgarçado da chuva fininha, o pátio oferecia um quadro de morte e desolação pior que a de fora das muralhas. Os soldados se espalharam, em busca ansiosa
e sofrida.
Às vezes um reconhecia a própria mulher e gemia, tomando-a nos braços carinhosamente, enquanto o duque contemplava a cena com raiva impotente e feroz.
- Malditos! - murmurou, entre dentes.
- Graças a Deus! - exclamou Turlock, emocionado. - A torre principal... está de pé!
A um sinal do duque, todos se aproximaram devagar, um peso de morte nas expressões apreensivas. Cada um se preparava para aceitar o pior, pois eram soldados,
e a morte fazia parte de suas vidas. Mas outra coisa, bastante diferente, era a morte dos entes queridos. Alguns, não obstante já terem perdido as mulheres, alimentavam
a esperança de encontrar irmãos e filhos ainda com vida.
Embora primo do duque, Turlock, grisalho e rude, possuía uma aparência que desmentia seu sangue nobre. Era homem de guerra, afeito ao sol e às agruras de longas
cruzadas. Seu corpo portentoso parecia ter sido talhado num bloco de aço, não obstante a barriga proeminente, devido ao gosto pela boa mesa e pela cerveja. Lutava
para viver e vivia para lutar, nunca nenhum homem o vencera num combate corpo-a-corpo. Contudo, sua mão tremia ligeiramente quando a porta da torre foi aberta.
O saguão parecia um matadouro. Mesas viradas, cadeiras partidas a machadadas e corpos de criados espalhados como folhas secas numa tarde depois da tempestade.
Edmund de Duxton suspirou.
- Cuidem que sejam enterrados como cristãos - falou. Cruzando o salão, subiu pelas escadas, cujas pedras lisas indicavam anos de uso ininterrupto. Os outros
não se moveram, respeitando a busca ansiosa do castelão, rumo aos aposentos de sua mulher. Cada um mantinha-se alerta, as mãos fechadas sobre a empunhadura das espadas,
como que querendo travar combate com o odor de morte que se espalhava, insidioso.
Duxton respirou fundo e abriu a porta com violência. Sua mulher jazia na cama, tendo ao lado o velho capelão, que rezava.
- Não entre! - gritou ele, derrubando o breviário e erguendo-se da cadeira, num gesto instintivo de defesa. - Não há nada aqui além da morte!
Antes de perceber que era o castelão, o capelão caiu de joelhos, tomado de pânico. Mas, ao reconhecer seu senhor, soltou um grito selvagem de vitória:
- Graças ao Santíssimo, que ouviu minhas preces! Seja bem-vindo, meu senhor!
Mas Duxton não respondeu, os olhos fixos e esgazeados em sua mulher. Ela tinha as feições calmas, embora se pudessem ver marcas de privação e sofrimento recentes.
Seus olhos de miosótis, profundos e misteriosos, haviam-se cerrado para sempre. Os cabelos longos e sedosos fechavam-se sobre os ombros delicados como um véu dourado.
Nunca mais conheceria o refúgio e o conforto de seus braços ternos. Em sua curta vida, Gillian igualara-se ao marido em inteligência e coragem. Alta e esguia,
dera-lhe felicidade e um par de filhos saudáveis. O duque deteve os pensamentos, sobressaltado. E seus filhos? Volveu os olhos doridos para o capelão, sem coragem
de perguntar.
- Ela morreu de peste, meu senhor - explicou o clérigo, balançando tristemente a cabeça. - A peste infestou nosso castelo durante o sítio, e não podíamos mandar
chamar ninguém para nos socorrer. Quando os escoceses souberam que havia peste aqui, deixaram esta parte do castelo em paz e fugiram. Foi o que salvou muitos dos
nossos.
- As crianças... - o duque murmurou baixinho, a respiração opressa de medo da verdade.
- O menino ficou doente, mas está melhorando. E nossa Druanna está bem. Nós achamos melhor escondê-los, no caso de os escoceses resolverem atacar também esta
ala.
O velho caminhou coxeando até a grande lareira e se abaixou, tateando a parede enegrecida. Duxton imediatamente entendeu o que o capelão fazia e ajudou-o a empurrar
a pesada pedra, que cedeu com um rangido seco e abriu-se para mostrar os dois pequenos, emagrecidos, mas em bom estado de saúde.
Duxton tomou Garith nos braços, contendo quentes lágrimas de alívio, incapaz de falar. Seu filho, seu herdeiro, estava vivo!
Turlock entrou e, sem dizer palavra, ergueu Druanna no colo, sorrindo-lhe afetuosamente.
- Temos de providenciar enterros decentes para essa gente - anunciou-lhe o duque, em tom seco e incisivo. - E precisamos prestar assistência aos que estão vivos.
- Não há mais alimento para tantos, primo - retrucou Turlock, apontando pela janela os campos devastados.
- Os que puderem viajar seguirão sem demora para meu outro castelo na Umbria do Norte. Os demais ficarão por aqui, com as provisões que conseguirmos arranjar.
Temos de trabalhar o mais depressa possível. Não podemos ficar neste castelo por muito tempo.
Como os saqueadores escoceses, Duxton também temia a peste e não tencionava apanhá-la.
- E os dois inocentes? - indagou o capelão, preocupado.
Duxton pousou os olhos cansados nos filhos. Parecidos como duas ervilhas na vagem, dizia Gillian. A garota, embora mais nova, tinha o mesmo tamanho que o irmão,
e certamente poderia usar as roupas dele e passar por gêmeo de Garith. E o menino começaria a aprender a arte de guerrear ao lado do pai.
O duque tomou a decisão no mesmo instante, já sofrera uma perda preciosa, e não sofreria nenhuma outra.
- Eles irão comigo - anunciou.
- Meu primo! Não pode levá-los! - protestou Turlock.
- Posso e vou! Nunca mais me separo deles! Não haverá mais perigo num campo de batalha que num castelo. Acabamos de ter uma boa prova disso!
- Mas o campo de batalha não é lugar para um garoto de cinco anos! Muito menos para lady Druanna!
- Perdi meus criados, meu lar, minha mulher. A única pessoa que pode cuidar bem dessas crianças sou eu. Não tenho coragem de enviá-los para minha sogra, nem
para nenhum outro parente, Turlock. Quero senti-los vivos à minha volta. Eu não agüentaria viver longe desses dois, entenda!
O gigante suspirou, vencido. Não havia como convencer o teimoso duque - sabia-o melhor que ninguém.
- Muito bem- Vou procurar algumas roupas adequadas para os dois.
- Sim, faça isso. Que meus homens não reparem muito em Druanna, principalmente. Quero-a vestida com roupas de menino e de cabelos cortados.
Turlock assentiu com um gesto. Mas nesse momento jamais lhe passaria pela mente que aquele dia seria o último em que veria Druanna usando um vestido.
Os soldados toleraram com boa vontade a intrusão dos dois precoces filhos do duque no acampamento. Ao fim e ao cabo, haviam chegado à conclusão que a peste fora,
em última análise, uma espécie de bênção às avessas para o castelo de Duxton, pois fora graças à morte da suave lady Gillian que os escoceses, com medo da peste,
haviam fugido sem ter causado maiores estragos. Desse modo, aceitaram sem discutir a tarefa de cuidar dos pequeninos órfãos. Garith era calmo e relativamente bem
comportado, levando a sério seus primeiros deveres de pajem. Quanto a Druanna, fora mantida durante várias semanas em absoluta e severa reclusão; mas, à medida que
a vigilância do duque afrouxava, sua presença começou a se fazer mais constante entre os soldados. Como ela se vestia com as mesmas roupas do irmão, havia muita
confusão em identificar um e outro, pois o duque tratava a garota como um homenzinho, referindo-se sempre aos dois e Druanna aceitou a situação com naturalidade,
não estranhava quando a chamavam de "meu amiguinho" ou de "valente rapazinho".
Cedo, Turlock se arvorou em guardião oficial dos dois pequenos. Foi ele que encurtou o nome de Druanna para Drue; com isso, inadvertidamente, Turlock aos poucos
foi apagando da memória dos guerreiros que ela pertencia ao sexo feminino. E também foi Turlock que insistiu que ambos usassem roupas de couro bem curtido, para
diminuir a chance de receberem uma flechada no peito. Com o passar do tempo, Edmund Duxton foi trocando a soldadesca aos poucos; sua intenção era não manter ninguém
que se lembrasse da identidade feminina de Drue. Cioso de que a presença da filha poderia se tornar, no futuro, uma fonte de problemas, tinha longas conversas com
ela, inculcando-lhe na mente a idéia de que ela devia se considerar um homenzinho enquanto permanecesse no acampamento de guerra.
As crianças dormiram durante anos na tenda do pai, até que Garith completou seu décimo verão e foi considerado com idade suficiente para assumir as funções de
escudeiro. Deram-lhe uma cama e um canto onde ele poderia ficar só. A princípio, tudo correu muito bem, pois o menino ficara evidentemente honrado com a distinção,
mas não tardou para que Turlock pressentisse alguns problemas.
- Drue, vá chamar seu irmão. Está na hora dos treinos com a espada. Céus, esse menino vive sonhando!
- Não, não vive - retorquiu Druanna, belicosamente. - É que hoje ele está cansado, porque não dormiu bem. Teve um pesadelo de novo. Da minha cama eu ouvi os
gritos dele. Pobre maninho!
- Sabe que pesadelos são esses? Vocês já conversaram sobre isso?
Turlock estava apreensivo. Os pesadelos de Garith, longe de diminuir com o tempo, pareciam aumentar de intensidade. Se os soldados ouvissem seus gritos em véspera
de batalha, certamente levariam longe a imaginação supersticiosa. E isso os enfraqueceria perante o inimigo, sem sombra de dúvida-
- Não, ele diz que não consegue se lembrar - respondeu a menina, fitando-o com seus olhos dourados cobertos de espessos cílios da mesma cor.
Turlock pegou-a pela mão e levou-a até a arena, pensando no que aconteceria a Drue quando se tornasse mocinha. Na verdade, ela era meio sem graça e descolorida,
toda em tons de mel - inclusive a roupa. Parecia uma raposinha nova, os cabelos muito curtinhos brincando ao vento.
Ele se abaixou, apoiando-se nos calcanhares, e pousou carinhosamente as enormes mãos peludas nos ombros da menina:
- Escute, Drue. Sem dúvida você já percebeu que nossos guerreiros são bastante valentes, mas supersticiosos, não é?
Ela anuiu solenemente.
- Já. Eles usam santinhos, amuletos e cantam umas músicas que têm letra esquisita. E falam em sinais de desgraça e de sorte que são capazes de decidir uma batalha
antes que ela comece.
- Então preste atenção no que vou lhe dizer. Os pesadelos de seu irmão podem ser considerados um sinal de azar, compreende? Principalmente se ele sonhar na
véspera de um dia de batalha. Se ouvirem os gritos de Garith, nossos homens poderão ficar confusos, sabe como é. E nós não queremos que isso aconteça. Precisamos
dar um jeito de não deixá-lo gritar de noite, mesmo que ele sonhe com o próprio inferno. Sabe como podemos conseguir isso?
Ela mergulhou os olhos dourados nos do enorme Turlock, com ar confiante.
- Garith não grita quando dorme ao meu lado. Quando ele virou escudeiro é que começaram os pesadelos. Acho que vou levar minha cama para perto dele, então.
Para falar a verdade, sinto falta de meu irmão, principalmente nas noites mais frias.
Turlock sorriu e ergueu-se satisfeito, afagando os cabelos sedosos e mal cortados da menina. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça que Drue estava crescendo
e que poderia ter alguns problemas embaraçosos quanto ao fato de os dois dormirem juntos. Na verdade, ele raramente se lembrava da mimosa garotinha que corria nos
campos verdes do castelo de Duxton, atrapalhando-se com as saias volumosas. Turlock era um dos poucos que sabia da verdadeira identidade de Druanna; os soldados
haviam sido trocados aos poucos no correr dos anos, e quase mais nenhum sabia que Drue era, na verdade, uma menina, pois ela se portava como um rapazinho valente
e destemido.
- Venha, Drue. Quer aprender um pouco a manejar a espada também?
Diante de tamanha e inesperada generosidade, os olhinhos dela brilharam intensamente.
- Quero! E você vai continuar a me ensinar enquanto Garith dormir perto de mim? Vai ser meu tutor particular?
- Isso não sei, criança. Seu pai não vai gostar muito disso não.
- Então Garith vai gritar de noite de novo. E papai vai. gostar muito menos.
- Drue, você não está sendo razoável. Isso é chantagem, sabia?
A testa da menina se enrugou, enquanto ela refletia sobre a declaração do amigo. Depois de um silêncio, Druanna rebateu com lógica irrefutável:
- Você me pediu um favor, e eu concordei. Agora eu lhe peço outro favor, e você me diz que eu não estou sendo razoável?
- Mas, Drue - argumentou Turlock, coçando a cabeça - , você é pequeno demais para aprender a lutar! E que história é essa de trocar favores? Favor se faz, não
se barganha.
- Vê? Até você me chama de "pequeno" e se esquece que a palavra adequada seria "pequena". Todos aqui me tratam como rapaz, e eu não me importo com isso, até
gosto. Então, se sou um garoto, posso muito bem aprender esgrima. Garith não está aprendendo?
- É diferente, meu bem. Você é muito novinho. Um ano inteirinho atrás de Garith!
- Pois muito bem, se eu sou pequeno demais para receber favores, também sou pequeno demais para fazer favores. O trato fica desfeito. Durma você com Garith,
pronto! Seus roncos vão servir para abafar os gritos dele. E passe muito bem!
A garotinha girou nos calcanhares, depois de lançar um olhar furioso e desafiante ao indefeso Golias.
Este permaneceu parado, contemplando a figurinha que se afastava pisando duro, admirado com a firmeza precoce que aquela criança já demonstrava. Suspirou, correu
para ela e colheu-a no colo, rindo às gargalhadas.
- Está bem, coração, você ganhou. Mas não pense que vai ser fácil, não senhorzinho! Se quer que eu dispense minha atenção a você, terá que trabalhar duro para
isso, entendido? Os treinos são cansativos, mas eu não vou ter piedade nenhuma, é bom que saiba desde já. Pretendo ensiná-lo muito bem. E no dia em que você bancar
o molenga, nesse dia eu paro minhas lições. Combinado?
- Combinado! - gritou ela, exultante.
- Então vamos começar - anunciou Turlock, colocando-a de volta no chão.
Entregou-lhe uma espada leve e pequena, muito menor que as comuns. A de Turlock era enorme, tão pesada quanto uma laje, mas para ele era como se brandisse uma
pena. Os soldados não se cansavam de admirar sua incrível perícia, e vezes sem conta haviam se reunido para comentar os golpes certeiros e mortais que o gigante
aplicava nos inimigos, que fugiam dele como o diabo da cruz. Em dias de batalha, desde as primeiras horas da madrugada até o lusco-fusco do entardecer, Turlock agitava
furiosamente sua arma, sem dar mostras de cansaço. E era isso que ele iria ensinar à pequena e frágil Drue. Sua intenção era fazê-la ganhar corpo e volume, e tratou
de catequizá-la nesse sentido. Não foi difícil convencê-la; após ouvi-lo com atenção, a pequena Drue logo compreendeu que precisava crescer e engordar, a fim de
agüentar as lutas sem desmaiar ou entrar em colapso.
Por seu turno Turlock decidiu que continuaria a dar aos dois uma ração reforçada de comida. Nada das espartanas refeições que os soldados recebiam! Garith e
Drue eram e como tal continuariam a ser tratados. Instintivamente, Turlock percebia que os nobres costumavam gerar filhos sadios e fortes, e que isso se devia principalmente
à mesa farta. E assim seria com essas duas crianças. Mesmo que morassem num acampamento de soldados e não tivessem o conforto de um castelo, receberiam as ferramentas
necessárias para sobreviver bem.
Drue firmou as pernas abertas na terra fofa e se agachou, como Turlock lhe ensinou, procurando imitá-lo aplicadamente.
Fiel aos seus propósitos, Drue passou a treinar todos os dias. Foi nomeada ''escudeiro" oficial de Turlock, e para deleite deste, executava as tarefas que lhe
confiava com rapidez e habilidade. E embora a compleição de Drue fosse ainda franzina, sua extrema agilidade e inteligência logo despertaram a admiração dos outros.
Drue lembrava-se bem do cruel ataque ao castelo de Duxton e das deploráveis tentativas que as mulheres haviam feito para se defender. Os jovens e inexperientes
pajens a serviço do castelo também tinham sucumbido ao inimigo com a mesma facilidade. Os gritos de angústia e pavor daquela semana fatídica ainda ecoavam em seus
ouvidos, e certamente eram os causadores dos fantásticos pesadelos do irmão. Não, com ela seria muito, muito diferente. Lutaria até encontrar a morte, se preciso,
mas lutaria como homem. Usando armas de homem, desenvolvendo a força de um homem. No fundo, Drue se esquecia freqüentemente que era mulher, e encarava-se simplesmente
como um escudeiro. Seu sexo pouco importava, o que importava era, tão somente, desenvolver músculos e agilidade.
Não que Drue nunca mais fosse passar alguns dias num castelo, seu pai possuía terras tanto na Inglaterra quanto no País de Gales. Mas essas visitas eram rápidas
e agitadas, ela se sentia sufocar num castelo, por maior que fossem seus jardins. Preferia mil vezes a vida vagabunda de cavaleiro, os efêmeros embates com escoceses
nas fronteiras. Na véspera de uma batalha, seu coração costumava saltar no peito, fremente de expectativa. Com quatorze anos, Drue foi admitida como porta-estandarte
do brasão dos Duxtons, coisa que a deixou profundamente orgulhosa.
Naquela noite, haviam todos avistado inúmeras fogueiras acesas nas colinas. Era o sinal, já estabelecido havia um século, para avisar os ingleses que os escoceses
tinham mais uma vez atravessado à fronteira para roubar e saquear. Drue cavalgava ladeada pelo pai e por Turlock, enquanto a distância que os separava dos assaltantes
ia diminuindo gradativamente.
- Estamos quase alcançando os malditos escoceses - comentou o duque. - Eles têm de andar mais devagar por causa do gado que roubaram.
- Não compreendo - tornou Turlock, com ar soturno, coçando a barba grisalha. - Já devíamos tê-los avistado, que diabos! Não estavam tão adiantados assim.
- Sim, é estranho. Quem será o líder deles?
- É aquela raposa do Connaught, aposto! - rosnou Turlock. - O pai enviou-o recentemente a serviço de Robert Bruce, porque a tia de Connaught é Elizabeth de
Ulster, mulher de Bruce. Parece que o pai dele teve de fazer isso, porque Connaught ganhou a ira de todos os pais e maridos do condado irlandês. O grande safado
é tão bom na cama quanto na espada, dizem.
O duque soltou uma risada.
- Ah, eu bem que gostaria de imitá-lo, se tivesse tempo! A gargalhada trovejante de Turlock cortou os ares.
- E eu, se tivesse paciência, desafiaria esse maroto para ver qual dos dois é melhor...
-Na espada? - arriscou Drue, timidamente.
- Não, meu rapaz, na cama!
As risadas estouraram, rascando a noite.
Drue se juntou a elas, mas sua mente analisava as informações que entreouvira no acampamento. Robert Bruce era o novo rei da Escócia, recentemente coroado por
suas próprias mãos, e ainda não fora reconhecido pelo mundo cristão. A astúcia desse homem era lendária, e Drue esperava que jovem Connaught não tivesse aprendido
lições de estratégia com o rei.
- Então esse que vocês chamam de Connaught não é escocês? - perguntou, curiosa.
- Não, é irlandês dos quatro costados. Mas freqüentemente luta sob a bandeira escocesa, e é considerado o paladino de Robert Bruce. Homem valente e temerário,
pelo que dizem.
Drue ruminou a informação, estocando-a cuidadosamente na cabeça. Talvez fosse interessante se defrontar com esse irlandês lendário!

Ao chegarem numa curva fechada da estrada, caíram numa mata fechada, escura e silenciosa. Quando os últimos soldados adentraram o matagal, o estalido de um galho
quebrado. chamou a atenção de Drue, que se virou depressa, gritando:
- Emboscada! Emboscada!
Ouviu-se um brado selvagem de guerra e logo em seguida centenas de soldados inimigos despencaram das árvores como frutos maduros, caindo sobre os ingleses.
A luta tornou-se encarniçada e violenta, sendo quase impossível distinguir aliados de inimigos. Drue manteve-se perto do pai, erguendo alto o estandarte a fim
de que fosse visto pelos ingleses. Era absolutamente imperioso que os aliados tivessem um ponto de reunião e apoio.
Conhecedores experientes da região, os ingleses começaram a formar fileiras organizadas de ataque, desbaratando lentamente os escoceses. Apesar das ameaças e
dos rugidos do chefe, os inimigos acabaram desaparecendo por entre as árvores.
Turlock esporeou o cavalo, destacando-se do grupo aliada
- Sigam-me! - berrou. - Eles estão fugindo! Segundos depois um grito de alarme ecoou na escuridão.
Duxton dirigiu-se velozmente para a direção do grito, que reconhecera como sendo do primo. No instante em que alcançaram a clareira, Drue logo identificou o
inimigo que ameaçava , Turlock, pois ele portava as cores da Irlanda. Connaught! Ela e Duxton viram-no erguer a espada, enquanto Turlock levantava o escudo para
aparar o golpe. O irlandês mudou rapidamente a direção da lâmina, e, baixando o próprio escudo, enfiou sua espada na virilha do homenzarrão. Duxton lançou seu brado
de guerra, avançando em desesperado galope, enquanto Turlock: desabava pesadamente do cavalo. O irlandês ergueu a cabeça. Ao ver que se achava diante de morte certa,
desistiu de dar o golpe final e embrenhou-se como flecha na espessa mata, dissolvendo-se nas trevas da noite.
Drue saltou da montaria e correu para se ajoelhar ao lado de Turlock. A espada atingira fundo, bem entre as costuras de couro e aço que protegiam o gigante.
Ele sangrava abundantemente e sofria como tigre ferido, mas os olhos experientes de Drue logo perceberam que o amigo sobreviveria, caso recebesse cuidados depressa.
Em silêncio, ela jurou que trataria de Turlock com amor e carinho, até vê-lo restabelecido. E, ao mesmo tempo, jurou que procuraria aquele maldito irlandês até os
confins do inferno e o faria pagar pelo ultraje de ter ferido seu grande e querido amigo.
- O rapaz foi esperto demais - explicou Turlock, reclinado numa cama ao lado da tenda - , mas também foi temerário. Ele usou de um velho truque, reservado para
torneios. É o que a gente chama de "largar o ponto''. Finge que vai dar um golpe por cima, baixa a guarda e ataca por baixo. Mas é um truque extremamente perigoso,
e por isso mesmo muito pouco usado. Quando larga o ponto daquele jeito, o homem fica exposto demais. Acho que já estou ficando meio velho, porque quando percebi
foi tarde demais. Da próxima vez ele que se cuide!
- Quantos truques iguais a esse se usam num torneio?
- Ah, está interessado, não é? - sorriu Turlock. - Meu querido protegido está sempre querendo saber mais e mais sobre a arte da espada...
Bem, eu não quero ser apanhado de surpresa. Você, que é experiente, quase foi!
Drue estremeceu involuntariamente. Pela primeira vez na vida, vira Turlock fora de combate, caído no chão. Em inúmeras ocasiões tivera de cuidar de suas feridas
depois de um combate, mas Turlock sempre voltara caminhando, rindo dos arranhões como costumava gracejar.
- Bem, quando eu estiver melhor, vou ensinar a você e a Garith como são esses truques de justa. Vocês terão de treinar com espadas sem gume nem ponta, porque
é perigoso. Pelo menos você me deixará em paz depois disso?
Drue sorriu.
- Sou tão aborrecido assim?
- Nem sempre. Mas últimos tempos você vem me bombardeando com perguntas sobre Connaught, aquele filhote de raposa...
- Porque ele feriu meu melhor amigo - revidou ela, os olhos dourados brilhando. - Quero que me ensine todos os truques que ele sabe, ou pode saber. Depois disso,
prometo que nunca mais toco nesse nome.
Turlock piscou-lhe um olho.
- Cá entre nós, acho que Connaught merecia uma bela lição. E nós o traríamos de volta à Inglaterra, bem amarrado como peru em véspera de Natal.
Drue não acompanhou o riso tonitruante do amigo. Para ela, a captura do homem que aleijara Turlock não era motivo de riso, e sim de obsessão.










CAPÍTULO II


Connaught! Aquele maldito prosélito do demônio que ferira seu amigo e mentor, Turlock. Connaught! O furacão mortal que continuamente atacava as fronteiras, transformando
os soldados ingleses num bando de baratas tontas, fazendo-os marchar em círculo em busca desvairada do inimigo, para no fim apanhar apenas o vento. Connaught, que
não hesitava em lançar mão de truques velhacos para alcançar seus objetivos e passar a perna nos oponentes, Como Drue o odiava! A simples menção desse nome deixava-a
possessa. Como ansiava enfrentá-lo no campo de batalha!
O que mais atormentava Drue era o mal irreparável que Connaught causara em Turlock. Desde aquele encontro na clareira, que acontecera fazia um ano, o bravo e
valente amigo envelhecera. Seu passo, outrora confiante e ágil, tornara-se arrastado; embora ele nunca proferisse uma só queixa, Drue sabia que o golpe fora fundo
demais e o alquebrara para sempre.
Apenas quando montado Turlock reassumia a antiga postura de paladino invencível, e lutava com a mesma bravura. Contudo, se fosse forçado a apear do cavalo, estaria
muitos pontos em desvantagem. Não era justo! Ah, mas Connaught pagaria caro pela estocada traiçoeira! Assim pensando, Drue dirigiu-se ao barril de água e lavou o
suor que pingava de seu rosto em grossas bagas.
- Mais uma? - perguntou, enquanto se enxugava.
- Céus não! - gemeu Garith, deixando-se escorregar para o chão - Você sempre quer lutar mais, mais, mais! apesar de treinar de sol a sol todos os dias. Por
hoje chega, que este calor está torrando meus miolos.
- Ufa, menino! Se eu não me cuidar, você fica mais forte que eu!
- Eu já sou mais forte que você - anunciou Drue, orgulhosa - Turlock não deixa você encarar uma luta romana comigo, por que não ficaria bem,eu, o caçula, ganhar
do futuro duque de Duxton.
Garith se impertigou furioso.
- Mentira!
- É isso aí, irmãozinho - riu Drue, flexionando o braço para mostrar os músculos salientes sob a pele dourada - Olha só que muque. Tão firme e confiável quanto
a minha espada. Não acha que tenho razão?
Garith considerou-a por algum tempo, medindo-a. Os dois tinham a mesma altura e quase o mesmo peso; ele era um pouco mais encorpado.
- Cuide-se, Garith, senão eu sou armado cavaleiro antes de você. Não tem nem um pouquinho de medo que isso aconteça?
Sim, Garith tinha muito medo, mas nada no mundo o faria admiti-lo. Eram raríssimos os casos de um membro da mesma família sagrar-se cavaleiro antes do herdeiro;
e quando isso acontecia, seguiam-se comentários irônicos e maldosos.
- O problema, Garith, é que quando você luta, não põe seu coração na ponta da espada. Você luta para se defender, não para conquistar. Seu sangue não ferve
quando ouve as notas insuportáveis e irritantes das gaitas escocesas. Não, Garith, você se afina mais com tardes bonitas, versos e namoricos. Vamos fazer uma coisa:
você fica com as galanterias, que eu cá fico com minha espada.
Foi no fim daquele verão que a crise estourou. Como uma aparição, o sexo de Drue veio assombrá-la no dia em que seu pai convocou-a para uma reunião na tenda
ducal.
- Ficou decidido que Garith irá servir o duque de Arrundel - anunciou Duxton. - É hora de você também assumir seu espaço na vida e começar a aprender as prenda
próprias de uma mulher.
- Mas que conversa é essa? - protestou Drue, irritada até o âmago da alma. - Nada disso, senhor meu pai! Vou ficar aqui ao seu lado. E ao lado de Turlock.
- Impossível, Drue. Está na hora de aprender a ser feminina. Adiei o quanto pude este momento, mas a verdade é que você ficou tempo demais comigo. Sinto que
estou cumprindo mal meus deveres de pai!
Drue ajoelhou-se e beijou a mão do duque.
- Engana-se, papai. Nenhum homem do mundo poderia dar melhor exemplo que você. E não existem filhos mais orgulhosos que Garith e eu.
O duque fechou os olhos, lutando contra as lágrimas. Sentiria demais a falta dessa criança valente, cuja presença de espírito enchia-o de orgulho.
- Isto não é vida para você, Drue. É hora de pensar num lar, em filhos, num marido. Como dote, prometo-lhe muitas terras, as mais bonitas que tenho.
- Pai, eu vou ganhar minhas terras com minha espada e com minhas lutas. Não quero ser presenteado com terras, mas quero merecê-las, como qualquer cavaleiro
que se preza!
Duxton desviou os olhos para não vê-la tão humilde e implorante. O espetáculo doía-lhe no fundo da alma.
- Não. Você irá para meu castelo na Umbria do Norte, está resolvido. Aliás, era o que eu já devia ter feito há muito tempo!
Drue ergueu-se devagar, tremendo. Nunca enfrentara o pai, mas agora sentia que não havia outra alternativa. Sua própria vida estava em jogo.
- Você deixou que Garith escolhesse o que queria fazer. A mim, nega-me esse direito. Esta é a única vida que conheço papai e não quero outra para mim. Você
favorece Garith porque ele é seu herdeiro. Não é justo.
Duxton cerrou o punho e esmurrou a mesa. - Ousa me desafiar? A mim, seu pai? - trovejou, ainda que seu escondido do coração admirasse a coragem e a ousadia da
moça.
- Não a você, pai, mas se me permitir, gostaria de desafiar Garith. Deixe-me lutar com ele. Se eu perder prometo ir para a Umbria sem reclamar mais. Mas se
eu ganhar, quero sua palavra de que ficarei aqui com você e Turlock.
- Bobagem! Garith é mais velho e mais experiente. Você não teria a menor chance.
Na verdade, o duque usou o frágil argumento porque não gostava da idéia de ver os dois filhos lutando. Muito menos de ver um deles vencido.
- Então seu desejo de que eu vá para a Umbria será satisfeito, meu pai, sem mais protestos de minha parte - declarou Drue espetando o nariz no ar.
- Com protesto ou sem protesto, você iria do mesmo jeito!
- E quando eu chegar lá, vou fugir e me unir a outros, guerreiros. Eles saberão dar valor a um bom espadachim como eu.
- Ninguém se atreverá a lhe dar abrigo contra minha, vontade! - berrou o duque, vermelho como um camarão.? - Não na Inglaterra!
- Pois então eu vou para a Escócia.
O duque ergueu os olhos e as mãos para o céu.
- Então seja! Vá! Lute de uma vez com Garith e acabo com essa choradeira intolerável.
- Não estou chorando.
- Dá no mesmo, maldição. E não se atreva a desmenti seu pai!
- Desculpe.
- Quanto mais depressa terminar essa... essa futilidade inútil, tanto melhor. Quero ver você na Umbria o mais pressa possível!
Drue, com medo de que o pai mudasse de idéia, apressou-se para fora, quase colidindo com o maciço Turlock, que entrava. A piscadela gaiata que o amigo lhe dirigiu
revelou-lhe que ele ouvira toda a conversa.
- Entre, Turlock - comandou Duxton, ainda meio irritado com a discussão. - Comece a arrumar a trouxa Drue. Tudo o que for dele... hã, quero dizer, dela, deve
ser enviado ao castelo da Umbria do Norte. Assim que essa ópera bufa terminar, você leva meu filho Drue... hã, minha filha para lá.
- Então está tão certo assim de que Drue vai perder? - perguntou Turlock, servindo-se de vinho.
Duxton tomou a taça das mãos de Turlock, distraidamente.
- Ei, esse vinho é meu!
- Ha? Oh, desculpe. Onde está o meu?
- Bem à sua frente, primo - riu o outro. - Pelo visto, essa pequena discussão familiar mexeu com seus nervos.
- Que nada, foi uma besteira atrás da outra. Mas respondendo à sua pergunta, é claro que Drue vai perder. Não pode dar outra.
- Bem, acho que no seu lugar eu me prepararia para uma pequena surpresa!
A gargalhada do gigante sacudiu a tenda e ecoou pelas montanhas, como se estas, subitamente, também se pusessem a rir.
Os irmãos se enfrentaram naquela tarde. Embora usassem fortes armaduras protetoras e as armas estivessem envoltas em tiras de couro, ambos sabiam que a luta
seria para valer.
Para Garith, era uma questão de orgulho. Se Drue o vencesse, ele passaria a ser objeto de gozação e ironia entre os pares. Perder esse embate seria o mesmo que
destruir sua carreira de cavaleiro mesmo antes que esta tivesse começado. Para Drue, era questão de sobrevivência. Se não triunfasse, Seria banida da vida que amava,
a única vida que conhecia. Uma vez tomada a decisão, ela resolveu concentrar toda a força e agilidade no torneio, sem dar nem pedir trégua. As espadas se encontraram
com um ruído surdo e seco. Os golpes se sucediam, acompanhados pelos gritos vibrantes das pessoas que apertava o cerco à medida que a luta ficava renhida. Começaram
a surgir apostas de ambos os dois oponentes pareciam medir forças equilibradas, o que aumentava o interesse. À medida que o tempo passava, os golpes foram se espaçando,
mas a força dos dois parecia inesgotável.
A perseverança de Drue nos exaustivos treinos foi o que lhe trouxe a vantagem decisiva. Garith costumava negligenciar os penosos exercícios, que o aborreciam
depois de algumas horas, enquanto Drue nunca se dava por satisfeita. Dessa maneira, depois de algumas horas, Garith principiou a dar sinais evidentes de cansaço,
enquanto a irmã permanecia fresca como uma rosa.
Alarmado, Duxton cutucou Turlock em mudo espanto. O primo abriu um amplo sorriso, que não disfarçava seu orgulho:
- Eu tentei avisar, mas você não acreditou em mim.
Nesse instante, Garith cambaleou na diminuta arena, quase desabando. Drue preparou a espada para dar o golpe de misericórdia, mas o irmão conseguiu se desviar.
Todavia, sua inferioridade agora começava a se tornar mais evidente, pelo menos aos olhos dos mais experientes.
- Turlock, ponha já um fim nisso - rosnou Duxton. - Garith não vai agüentar mais cinco minutos. Declare a luta empatada! E avise a Drue que retiro minhas ordens
por enquanto, até Garith ser sagrado cavaleiro. Depois disso, o futuro de Drue será novamente estudado por mim.
Encantado com o resultado da luta e com a inegável vitória de "seu protegido", Turlock avançou e separou os contendores:
- Vocês pelejaram bravamente - proclamou, com sua voz de leão - e, devido ao limite de tempo, o duque declara que a luta empatou. Parabéns aos dois!
Garith seguiu viagem para Arundel, onde seria treinado para cavaleiro, enquanto Drue continuou no acampamento do pai. Todo o dia ela treinava com afinco e dedicação,
não só nas artes marciais, mas nos exercícios físicos, a fim manter seu corpo em excelentes condições. Os resultados na se fizeram esperar; em pouco tempo seus
braços e pernas tornaram-se fibrosos e bem torneados, enquanto o corpo, apesar de delgado, escondia uma força espantosa. Os treinos deram cabo de todas as gordurinhas
mal localizadas, transformando-as em fibras elásticas. Turlock observava com crescente orgulho os progressos do jovem escudeiro, sentindo seus esforços recompensados.
Drue era o mais audaz e valente entre os seus pares, sem falar na beleza estranha e selvagem que adquirira ao longo dos anos. Quanto ao seu sexo, ninguém mais se
lembrava dele.
Embora alguns guerreiros achassem os modos de Drue um tanto afetados, prudentemente guardavam para si suas impressões, pois ninguém estava disposto a enfrentar
a ira da valente moça, que para eles era um rapaz. Além do mais, considerando que ela era filho de um poderoso senhor, esses modos adamados eram considerados como
naturais.
- Esse rapaz é diferente. Jamais se interessou por mulheres, e nunca nos acompanha quando vamos às noitadas - comentou um soldado, Henry Romsley. - Nunca vai
procurar as prostitutas que rondam nosso acampamento, e está sempre isolado de noite.
- Nada mais natural - rebateu outro. - A educação dele tem sido muito mais severa e dura que a de qualquer um de nós. Acho que é o duque que exige isso, para
não parecer que o protege. Por mim, se tivesse de treinar tanto quanto Drue, ao fim do dia estaria um caco velho.
- Verdade - acudiu um terceiro. - Drue parece feito de ferro! E está sempre ajudando todo o mundo. Só de noite é que gosta de ficar sozinho Não acho errado
que ele tenha uma tenda só para si. Afinal, é filho do duque ou não é?
- Shh, ele vem aí.
Com efeito, Drue se aproximava, montada num belo zaino.
- Como é? Ainda está de mau humor por causa da ausência de seu irmão? - perguntou Henry.
- Nunca fiquei de mal humor, Henry! - protestou Drue ressentida.
- Foi a impressão que nos deu, afinal, você não foi promovida, e continuou no mesmo posto de porta-estandarte. Garith logo mais será sagrado cavaleiro, não é
assim? Ela caiu numa risada gostosa.
- Ora e daí? Ele merece. E meu pai estava tão encanta do com a viagem dele a Arundel, que mal notou minha presença nestes últimos dias.
- Sim, mas você também quer ser sagrado cavaleiro. Estou certo?
- Está, não vou negar. Mas eu me tornarei cavaleiro no momento adequado - disse ela, dando de ombros com indiferença. - E isso só Turlock poderá decidir quando
será.
- Mas, Drue, se você imitasse seu irmão e fosse servil num desses castelos, talvez alcançasse o grau de cavaleiro mais depressa. Aqui no acampamento a coisa
pode demorar muito.
- Mmmf! - fez Drue, torcendo a boca com desgosto. - Não me interessam os jogos da corte. Sou um guerreiro antes de mais nada.
- Cruzes! - gemeu Henry, fazendo uma careta. - Pobre do inimigo que atravessar seu caminho! Você sozinho vale por uma catapulta!
O riso de todos flutuou alegremente no ar frio da manhã, misturando-se ao canto estridente dos pássaros.
Havia dois caminhos para um homem ser sagrado cavaleiro. Um consistia em trabalhar a serviço num castelo qualificado pelo rei durante um determinado período.
Nessa modalidade, o aspirante teria uma vida mais leve e fácil, embora fosse obrigado a treinar todos os dias. Pelo outro caminho atingia-se o grau através de lutas
no campo de batalha o que era mil vezes mais difícil e perigoso, pois o aspirante arriscava seu pescoço quase todo o dia. Drue escolhera segundo caminho sem hesitar,
embora seus pares tentassem convencê-la a seguir o caminho escolhido por Garith.
Nada a excitava mais que uma boa peleja, e ela estava se tornando verdadeira mestra no manejo da espada. Contudo, depois da partida de Garith, muito poucas batalhas
aconteceram. Drue já começava a se entediar, quando Duxton recebeu uma carta do jovem rei Eduardo II, convidando-o para visitá-lo na corte.
- Maçada! - resmungou Turlock, sacudindo a juba grisalha. - Não estou com a menor vontade de ir. - Ora - atalhou Drue, batendo-lhe nas costas afetuosamente
- até que vai ser bom ver você dentro daquele manto de veludo e pele. Vai ficar um pedaço de homem! - Pois eu me dou muito melhor dentro desta pele de lobo - respondeu
ele, mal-humorado, apontando para o colete - Gosto até do cheiro desta roupa, feita por mim, de um animal caçado por mim. Tem muito mais valor que um manto de
ouro.
- E mais cheiro também! - riu ela.
Turlock parou, desconcertado, e cheirou o colete.
- Hum, tem cheiro de lobo mesmo. Que é que há de errado com isso?
_ Nada. Mas às vezes é bom variar.
O rei resplandecia em ouro e arminho quando os recebeu. Mas a irreverente Drue mal conseguiu reprimir o riso quando viu as botas do rei, cujas longas biqueiras
se assemelhavam às de um bobo da corte.
- Shh, essa é a última moda - cutucou-a Turlock, também escondendo o riso com a mãozorra.
- Drue, não me faça me arrepender de tê-lo trazido! - repreendeu-a o duque.
Ah, como seria bom se Garith estivesse ali! Quanto eles ririam diante daquele reizinho efeminado! À noite, sozinhos na tenda, ambos comentariam, às gargalhadas,
os trejeitos e ademanes do homem mais poderoso da Inglaterra. Poucos minutos mais tarde, Piers Gaveston, amigo e conselheiro do rei, entrou com um par de botas cuja
biqueira parecia um fole de dois palmos. Nesse instante, Drue caiu ma gargalhada sufocada, e foi arrastada por um aflito Turlock para fora do salão.
- Sossegue menino! - ralhou ele. - Pode nos deixar em maus lençóis!
- Desculpe, Turlock - volveu ela, rindo a mais não poder. - Mas você viu que ridículo?
- Vi, e também estou querendo rolar no chão de rir. Mas estou conseguindo me controlar. Agora, vá dar uma volta, senão minha ausência vai ser notada. E trate
de se recompor!
Drue obedeceu, se fingido contrita. Afastou-se em direção ao jardim, coberto com um grande toldo de listras vermelhas e brancas, forçando-se a parar de rir.
Seu passo longíguo e ágil logo a levou para mais além, em campo aberto, onde um punhado de cavaleiros exibiam sua perícia diante de outros convidados.
Passado o ataque de riso, Drue acabou se irritando com o rei, cuja aparência bufa tornava-o objeto de graçolas das cortesãs. Afinal, um rei devia se portar como
rei, não como palhaço. Sentiu vontade de socar o ar, de gritar, de fugir dali. Definitivamente, aquele não era seu lugar.
- Ei, rapaz! - chamou um cavaleiro alto e elegante oferecendo-lhe uma espada. - Aceita desafiar nosso campeão?
Ela nem pensou duas vezes, contente de poder desabafar sua raiva em alguma coisa. Apanhou a arma com naturalidade, como se esta fosse um alongamento de seu braçal
- Se ganhar, tem uma moeda de ouro, meu valentão - falou o homem, não sem ironia na voz. - Mas aviso que nosso campeão bate qualquer um aqui.
Ela avaliou os cavaleiros, incluindo o tal campeão, e decidiu que estava diante de um bando de fracotes.
- Pois seja, vale uma moeda de ouro - disse, com desenvoltura. - Mas o campeão não é um cavaleiro a serviço do rei?
- Claro que é! - respondeu o outro, algo ofendido com a pergunta.
- Então, como eu ainda sou aspirante, creio que deveria receber um bônus. Isto é - corrigiu-se depressa, fingir do humildade - , se eu ganhar.
O homem estudou Drue com olho crítico. O rapazinho era muito jovem e tinha corpo delgado, embora parecesse bastante forte. Meio incerto, preferiu não arriscar
uma decisão e gritou alto, chamando a atenção dos outros:
- Que acha, meu senhor? O rapaz merece um prêmio especial se conseguir vencê-lo?
Uma risada reboou no ar.
__ Meu velho, se esse filhinho mimado da corte me vencer, darei a ele o que se costuma dar em desafios verdadeiros: meu cavalo e minha armadura.
- E se ele perder?
Houve um instante de silêncio.
- Ele me servirá como pajem e escudeiro da corte. Turlock chegou a tempo de ouvir a voz de Drue responder, serenamente:
- Aceito o desafio.
Desesperado, correu para a protegida, sacudindo-a pelo ombro.
- Está louco?! - sussurrou entre dentes. - Não sabe que esta corte é um exemplo vivo de corrupção e decadência? Com mil demônios, seu pai nunca devia tê-lo
trazido aqui! Você nunca lutou numa justa como esta, meu filho! Eles vão fazer barba e cabelo de você, um novato! Céus, céus! Se você perder, terá de ficar morando
neste antro imoral!? Não, mil vezes não. Eu lutarei em seu lugar.
- Em primeiro lugar, meu amigo, bem sabe que as regras não permitiriam essa troca agora. Em segundo lugar, tive o melhor treino da Inglaterra e o melhor professor
do mundo. Aprendi todos os truques para derrubar o inimigo sem quebrar as regras da boa honra, não aprendi? Fique sabendo, Turlock, que não tenho a menor intenção
de perder esta justa.
Deixando o velho urso plantado, foi apanhar a armadura.
Quando voltou, Turlock ajudou-a nervosamente a afivelar peitoral enquanto se lamuriava baixinho. Seu pai vai cair na sua pele Ele odeia esse tipo de aposta.
E se você perder então...vai desabar um terremoto por aqui!
- Não vou perder - cortou-o Drue, com frieza.
As notícias sobre o desafio de um novato desconhecido fizeram com que pequena multidão se reunisse em volta da arena. Muitos torcedores eram soldados de Duxton,
e este fizeram tremenda algazarra quando Drue adentrou o peque no círculo de areia. Era ligeiramente mais alta que o oponente, mas bem menos encorpada. Como de praxe
saudaram-se polidamente e esperaram que o lacaio - subitamente investido dos poderes de juiz - lesse a lista de regras. Em seguida recuaram, afastando-se um do outro.
O cavaleiro mal havia assumido posição de combate quando Drue aplicou-lhe um golpe certeiro. Ele rodopiou, incapacitado de fazer mais que se defender do inesperado
assalto Equilibrando-se nas pernas, conseguiu endireitar o corpo mas Drue não lhe deu trégua. Aproveitando-se da vantagem inicial, arremeteu novamente, desferindo
uma saraivada de espadadas a torto e a direito, com tanta fúria e precisão que o cavaleiro caiu de costas, indefeso. Rápida como um relâmpago, Drue encostou a ponta
da espada entre o elmo o peitoral do antagonista, não lhe dando a menor chance
- Rendei-vos? - perguntou o improvisado juiz, atarantado, sem querer acreditar no que via.
O cavaleiro fitou os olhos do vencedor, que se estreitaram ameaçadores. Havia qualquer coisa de mortalmente perigoso naquele olhar, algo que o assustou. A luta
fora mero esporte, um jogo apenas - não uma batalha verdadeira. Rapidamente, aquilatou a possibilidade de lograr o adversário; queria destemperadamente encontrar
uma saída para salvar da humilhação.
Mas Drue leu-lhe os pensamentos. Pressionou a ponta espada no pescoço nu do inimigo e murmurou, com voz implacável:
- Mesmo espadas sem fio podem matar, milorde. Finalmente, o outro largou a arma.
- Eu me rendo - falou, baixinho, fervendo de humilhação, enquanto seus amigos soltavam exclamações pontadas.
Drue deu um passo atrás e ofereceu-lhe a mão, a fim de ajudá-lo a se levantar. Gritos e ovações explodiram em uníssono da multidão, criando ligeira confusão.
Os companheiros de Drue acorreram para abraçá-la, orgulhosos do jovem e promissor amigo, quando uma voz fininha silenciou todas as bocas:
- Impressionante! Sim, senhores, impressionante!
Drue virou-se para o rei, que se aproximava acompanhado de Piers Gaveston e um bando de cortesãos. Inclinou-se profundamente, fechando os olhos para não ver
as inacreditáveis e grotescas botas pontudas.
- Nunca vi tanta agilidade agressiva! - exclamou o rei. - Por acaso você já era inimigo deste homem?
- Não, Majestade. Não o conhecia.
- Então ele disse alguma coisa que o desagradou, com certeza - interveio Piers.
- Não, milorde - volveu Drue, encarando o conselheiro com firmeza. - Foi apenas esporte.
- Bem, se isso é esporte -- falou o vencido, limpando-se da areia - , eu não gostaria de enfrentá-lo numa batalha verdadeira, quando esse rapaz estivesse
realmente zangado.
O rei deu uma risadinha afetada.
- E, sei o que quer dizer. Depois, voltando-se para Drue:
- Costuma brigar sempre com esse vigor?
- Lutar e vencer é viver, Majestade, enquanto perder é morrer - respondeu ela, tom altiva serenidade.
_ Mas por dentro, Drue não pensava no que dizia. Sentia imensa vontade de rir novamente, agora que vira melhor as botinhas do conselheiro - lilás, com um incrível
laçarote verde na longa biqueira! Sabia que era apenas uma questão de segundo para acabar estourando na gargalhada- Sua mente pregou-lhe uma peça naquele momento,
fazendo-a imaginar o duque de Turlock usando aquilo. Mordendo o lábio até senti-lo sangrar, conseguiu manter uma calma aparente, imaginando como poderia fugir dali
sem ser indelicada.
- Bonita frase, meu valente - disse o rei. - Diga-me, seria capaz de defender outra pessoa tão bem como defendeu a si mesmo?
Drue vacilou.
- Se houvesse necessidade, sim. E se a pessoa fosse digna de minha defesa.
O rei riu novamente, divertido, e pousou uma mão lânguida no ombro de Piers, enquanto os cortesãos sorriam nervosamente. Certamente havia um segredo entre o
monarca e seu favorito, desconhecido dos demais.
- Ouviu só, meu caro? Se a pessoa for digna de defesa, diz ele!
- Suponha, meu jovem - falou Piers - , que você esteja a serviço de alguém. Defenderia esse alguém do mesmo modo como lutou agora?
- Certamente, milorde. Porque eu só estaria a serviço de quem eu julgasse digno e honrado.
O rei estudou-a de alto a baixo.
- Você ainda não foi sagrado cavaleiro.
- Não, Majestade.
- E costuma acompanhar o duque de Duxton. Não eram perguntas que o rei fazia, mas afirmações.
- Meu nome é Drue, e sou escudeiro de meu senhor Turlock. O duque de Duxton é meu pai.
O rei coçou o queixo, assentindo com a cabeça.
- Turlock vive nos campos de batalha e gaba-se de não ter castelo. Para onde pretende ir, a fim de completar os treinos e ser sagrado cavaleiro?
- Minha vontade é ganhar minhas esporas combatendo. - disse Drue, utilizando um termo em voga, que significava "ser armado cavaleiro". - Meu irmão foi a Arundel
para aprender as etiquetas da corte, uma vez que ele é o herdeiro de nossa casa. Mas meu lugar é ao lado de meu pai e meu senhor Turlock. Com eles, pretendo lutar
muitas contra os inimigos de Vossa Majestade.
Eduardo II sorriu diante do entusiasmo adolescente.
- E qual de meus inimigos você imaginou ter diante de si quando atacou o pobre Raoul aqui? - perguntou, indicando o recém-deposto campeão.
- Connaught.
O odiado nome explodiu nos lábios de Drue sem um instante de hesitação.
- Ah. Está falando daquele jovem irlandês que serve ao lado de Robert Bruce?
- Sim, Majestade.
- Parabéns pela escolha. É um inimigo formidável e temível.
- Obrigado.
- Gostaria de enfrentá-lo?
- Muito, Majestade.
- Desde que você estivesse defendendo alguém que... como foi mesmo que disse? Ah, sim, alguém que fosse digno de sua defesa.
- Meu senhor Turlock é inteiramente digno.
- E o senhor seu rei? Acha que ele é digno? - perguntou Piers, com voz macia.
- A Inglaterra não é digna, milorde - redargüiu Drue. - Rei e país são uma coisa só.
Pelos olhares de aprovação, viu que acertara na resposta. Mas Turlock parecia preocupado, a enorme testa vincada por um sulco profundo. Drue não fazia idéia
do que aquelas perguntas queriam dizer, mas instintivamente sabia que precisava medir com cuidado cada resposta que desse, pois estava diante de gente poderosa e
astuta.
O rei correu os olhos entre os cortesãos, fixando-os no Pai de Drue, que se aproximava com alguns amigos, parecendo tão preocupado quanto Turlock.
-Duxton, meu amigo, venha cá.
Todos se afastaram para dar passagem ao duque, que se adiantou respeitosamente, detendo-se a distância protocolar. - Decidi favorecer sua nobre casa, meu amigo,
que disfarçou um movimento nervoso, aguardando as palavras do monarca. Se o rei queria honrar sua casa melhor o faria se dirigisse seus favores a Garith, e não a
Drue cujo sexo poderia facilmente se transformar numa fonte problemas.
- Desejo manter seu filho Drue ao meu lado. Quero que ele me acompanhe nas batalhas e carregue minha bandeira.
O duque engoliu em seco, embaraçado. A inesperada distinção constituía, efetivamente, uma honra. Mas era uma honra inoportuna e indesejável. Mudo e espantado,
Duxton não sabia o que responder, receoso de se mostrar indelicado. Drue, porém, não tinha esse tipo de escrúpulo. A se imaginar vestida de bufão, usando botinhas
com laçarotes no bico, abandonou a discrição que vinha mantendo até então.
- Majestade - falou, colocando um joelho no chão - sinto-me realmente grato e honrado. Nada me alegraria mais que levar sua bandeira e enfrentar batalhas a
seu lado. Mas nunca vivi num castelo, em toda a minha vida; acredito que eu me tornaria um foco de aborrecimento para Vossa Graça, pois não conheço as regras da
etiqueta palaciana. Sou rude e selvagem como um gato do mato. Invoco sua real inteligência para permitir que eu permaneça ao lado de meu pai. Vossa Majestade poderá
mandar me chamar quando houver necessidade de meus serviços numa guerra. Atende rei ao chamado no mesmo instante, asseguro-lhe!
Um murmúrio assustado percorreu a audiência. Nunca ninguém se atrevera a recusar um convite feito pelo rei, exceto, talvez, Piers. Duxton, sabendo disso, colocou
uma mão protetora no ombro da filha, enquanto Turlock se adiantava com seu andar de urso. Os dois estavam prontos a enfrentar o que viesse.
Mas, surpreendentemente, a ajuda veio pela mão de Piers Gaveston, Este, com muita argúcia, percebera o fervoroso interesse do rei por Drue, e sentira ameaçada
sua posição de favorito absoluto. Por essa razão, decidira que apoiaria a idéia de Drue.
- Estamos diante de um rapaz sincero e ponderado, Majestade - saudou ele, tomando Drue pela mão e fazendo-a erguer-se. - De fato, quantas vezes nosso rei sofreu
ofendas de guerreiros grosseiros e mal educados? Se o jovem Drue prefere não aprender nossa etiqueta, talvez seja mesmo melhor deixá-lo viver nos acampamentos de
guerra. Pois é lá que ele se tornará mais bravo e forte, e é lá que poderá se tornar ainda mais útil a nosso amado rei. Quanto a mandar chamá-lo quando dele necessitarmos,
esteja certo, meu bom jovem, que o faremos. Com certeza. Eduardo II hesitou um pouco, mas resolveu aceitar as palavras do favorito.
- Seja, então. Contudo, de hoje em diante o duque de Duxton e seus homens deverão me seguir em todas as batalhas que meu exército travar. E o duque será, a partir
de hoje, membro de meu conselho de guerra.
Antes que a atônita platéia se recuperasse, o rei e Piers se afastaram, rumo ao palácio.
Sentada do lado de fora da tenda, na agitada região de Bannockburn, Drue polia suas armas. Seu coração batia forte e compassado, já antecipando o gosto de mergulhar
na batalha iminente. Gotas de suor perlavam-lhe a testa enquanto ela trabalhava em profunda concentração. Dos vinte verões que vivera, este era certamente o mais
quente de todos.
Fazendo uma pausa para enxugar o rosto, Drue alçou a vista para o vulto ominoso e escuro que se desenhava no horizonte, quieto como uma fera antes do bote. O
castelo Stirling! O duque planejava apossar-se dele antes do solstício de verão.
Turlock desabou na cadeira de lona, abanando-se furiosamente. O chão, de tanto sofrer pisoteios e galopes, tornara-se seco e árido como o do deserto. A poeira
se levantava ao menor sopro do vento, cobrindo os soldados de uma fina camada marrom que custava a sair, mesmo com banhos e esfregadelas com seixos rolados. Fiozinhos
brilhantes de suor formavam regatos no rosto do grande guerreiro, insinuando-se sob os fios grisalhos da barba e pingando do queixo para a terra fofa.
- Que horror, estamos no meio de um caldeirão de Lúcifer! Diabos, não sei o que o rei está esperando. Já deveríamos ter atacado os malditos escoceses há tempos.
Ma é um tal de decide daqui, decide dali que não tem mais fim.
- Ele diz que aguarda o momento oportuno - fez Drue torcendo a boca num muxoxo desdenhoso.
- Pois esse maldito momento oportuno já veio e já passou um milhão de vezes, E o rei senta a branca bundinh na tenda, bebe vinho e canta, enquanto seus guerreiros
torram neste sol infernal.
Drue sorriu.
- É assim que gosto de você, Turlock. Sem papas na língua, sem trejeitos efeminados.
- Diga a verdade, Drue. Você não se arrepende de tei recusado o convite do rei? Nem um pouquinho?
- Nem um tiquinho, ora que pergunta. Odeio esse negócio de corte, de reverência pra cá, salamaleque pra lá.
- Sim, mas se você tivesse aceitado, hoje já seria cavaleiro. Ficando conosco, a coisa se torna muito mais dura como é.
- Depende do ponto de vista. Para mim, seria mil veze mais duro bancar o palhaço da corte. Não, muito obrigado! Prefiro continuar a ser seu fiel escudeiro.
- Cuidado com a língua, Drue. Pode falar o que quiser, mas só para meus ouvidos, entendeu? O rei tem você em alta consideração, mas se souber dessas ideias...
nem quero pensar.
- Sossegue, meu amigo. É só para você mesmo que eu confio meus pensamentos. Nem meu pai me conhece como você. Turlock.
- Ainda bem. Porque ele pensa que você é um aspirante perfeito, e nem imagina que Drue Duxton é um diabinho de cabeça quente,
Os dois riram a valer, enquanto uma idéia se insinuava na mente de Turlock, fazendo-o franzir a larga testa
Impossível sagrar Drue cavaleiro. Era contra as leis dos homens, contra as leis da própria natureza. Duxton trouxera duas criancinhas das ruínas do antigo
lar, sendo que uma delas era do sexo feminino. Verdade que pouco havia de femenino e delicado naquele jovem rapazinho que tinha diante de si. O rosto de Drue tinha
força e personalidade, com maçãs salientes e queixo altivo, levemente quadrado. Seus lábios, carnudos e bem desenhados, prontos a sorrir, enquadravam-se admiravelmente
sob os olhos imensamente dourados e expressivos.
Até mesmo o corpo contradizia seu sexo. Bem proporcionado, esbelto e forte, estava longe do corpo branco e lânguido das moças da corte. Os músculos saltavam-lhe
dos bíceps enquanto ela lustrava as armas, e as pernas firmes pareciam enfeixar toda a agilidade e potência do mundo. Era um belo espécime do sexo masculino, decidiu
Turlock. Intrigado, ele examinou com o canto dos olhos o peito de Drue.
- Chato como uma tábua - murmurou, espantado.
- Que foi que disse? - perguntou Drue, distraída.
- Que o dia está muito chato - disfarçou o homenzarrão, pigarreando fortemente. - E quente também.
Mas que diabos, Drue parecia mesmo um homem. Belo, valente e altivo. Certamente, ela enfaixava os seios para que ninguém os percebesse. Ou não? A curiosidade
o espicaçava, mas Turlock jamais tocaria nesse assunto. Taívez Drue nem se lembrasse que nascera mulher, afinal. Talvez Deus a tivesse transformado milagrosamente
num homem.
O velho combatente não estava muito longe da verdade. Drue, de fato, pouco pensava nos problemas de seu sexo, embora tivesse plena consciência de que sua anatomia
era bem diferente da de um homem. Desde pequena, cuidara de jamais se despir diante de terceiros, pois encarava o fato de ter nascido mulher como seu maior inimigo,
o maior empecilho para sua promissora carreira de guerreiro. Agia, pois, como homem. Como os moldados do pai, sentia frio no inverrno, calor no verão e renegava
a época das chuvas. Como eles, comia quando tinha fome e bebia quando tinha sede como eles, de vez em quando apanhava gripe e resfriado Mas, diferente deles, jamais
fazia suas necessidades diante de ninguém, nem mesmo de Turlock. Quando ficara menstruada aos catorze anos, achara aquilo a coisa mais natural do mundo, atribuindo-a
à simples disenteria. Como os soldados costumavam ter também.
Mas logo percebeu que todos os meses era atacada pela mesma disenteria, e resignou-se a permanecer na tenda durante esse período, descansando. Depois saía para
lavar sua roupa no rio mais próximo. Qualquer coisa, porém, avisava-a que aquilo era "coisa de mulher", o que a deixava preocupada e irritadiça.
Certa vez, quando estava descansando na grama, estirada ao lado de um riacho, ouviu vozes femininas. Duas mulheres se aproximavam, portando grandes cestos de
roupa suja. Drue, meio sonolenta, deixou-se ficar por ali mesmo em dar grande atenção às duas tagarelas, que nem nota am sua presença.
- Meu homem vai ficar danado quando souber que já faz dois meses que meu fluxo não desce - comentou uma. - Todos os dias eu examino minhas calcinhas e não vejo
sinal de sangue. Céus, que aborrecimento!
- É sempre assim - riu a outra. - Quando o fluxo vem, uma amolação. E quando não vem, é aquela preocupação de estar grávida. Vida de mulher é assim mesmo, minha
cara.
As palavras entraram como agulhadas no crânio de Drue, então era essa a sua "disenteria" mensal? Teria esse tipo aborrecimento todos os meses, até o fim da vida?
Pelo que ouvira, o natural era ter o fluxo. Sua falha é que podia preocupar.
Drue sentiu um calor súbito e uma onda de vergonha varreu seu corpo. Por quanto tempo conseguiria esconder os fluxos de TurlocK, do irmão e dos outros guerreiros?
Nesse dia, voltara apreensiva para sua tenda. Mas, à medida que os dias passaram, esquecera-se da novidade que aprendera e mergulhara de corpo e alma nos treinos.
Drue fora se aperfeiçoando de tal modo nas lutas que acabara se transformando numa espécie de mascote do acampamento dos Duxtons. Todos queriam lutar com ela, mesmo
os mais velhos, pois consideravam-na um adversário de respeito.
Embora as justas fossem estritamente proibidas para os menores, estes eram encorajados a exibir sua destreza nos arremessos de lança e na quintana. A Quintana
era um poste alto, em cuja extremidade era colocada uma tábua giratória; numa das extremidades dessa tábua achava-se um broquel, ou pequeno escudo; na outra, um
pesado saco de areia. A habilidade consistia em acertar no centro do broquel com um longo chuço, e ao mesmo tempo não ser atingido pelo saco de areia. Era um treino
difícil e exaustivo, porém de resultados altamente compensatórios. Foi numa dessas exibições que Drue se livrou do menstruo, num dia assim que conheceu o filho de
um lorde irlandês que viera visitar o acampamento de Duxton.
A história se passou quando os três - ela, Garith e o jovem visitante - estavam no exercício do arremesso simples de lança. Quando Garith tomou posição para
atirar a sua, o irlandês fez um movimento brusco e a lança passou longe do alvo.
- Falta! - gritou Drue.
- Não - protestou o irlandês - , não foi por minha causa que ele não acertou no alvo! Garith foi muito desastrado, essa é que é a verdade. Se tivesse mantido
o olho no alvo, o arremesso seria certeiro. Foi falta de concentração!
Embora Drue soubesse que o outro tinha razão, jamais admitiria a falha do irmão.
- Concentração! -- imitou, desdenhosamente. - Bem, então vamos ver se você sabe se concentrar. Aceita um desafio?
- Claro.
- Vamos a justa a cavalo. Quem acertar melhor o escudo do outro ganha.
- Feito! - gritou o irlandesinho, já se virando para buscar seu cavalo.
- Turlock proibiu a justa! - sussurrou Garith, assustado.
- Fique quieto e ajude-me a colocar o elmo. Além de que isto é diferente, porque não estamos num campo de verdade. Calma, maninho! Eu sou ótima nesse negócio.
Quanto a isso, Garith não tinha dúvida. A mira e a agilidade de Drue haviam se transformado quase em lenda.;
- E seu cavalo, Drue? Turlock saiu com ele hoje de manhã.
- Empreste-me o seu. Foi com ele que treinei na quintana ainda há pouco.
Garith abriu a boca para protestar mais um pouco contra a desobediência frontal da irmã, mas fechou-a prudentemente quando viu o olhar incisivo e determinado
de Drue
As pontas dos chuços - que eram cegas, para não ma chuçar - foram besuntadas com piche, a fim de que o ponto em que tocassem o escudo ficasse bem à vista, sem
oferecer razão para discussões. Os contendores trocaram as saudações de praxe e foram se postar nos pólos opostos do campo. Quando Garith deu o sinal, ouviu-se o
tropel do galope enquanto se levantava uma nuvem de pó sob o casco dos. cavalos. O primeiro ponto foi de Drue, que atingiu com facilidade o escudo do irlandês.
- Bem no meio do escudo! - gritou ela, triunfante. Vai ser difícil igualar meu golpe!
- É o que veremos - retorquiu o irlandês, cujos olho brilhavam sob o elmo.
De fato, o segundo ponto ficou com ele. Agora, restava o desempate.
No minuto em que, pela terceira vez, Drue enristava o chuço para atingir o adversário, o cavalo se tornou agitado Acostumado ao pulso brando de Garith, o animal
estranho" a rudeza de Drue e se assustou com os gritos que ela soltava. Empinou no momento do embate, o que a fez ergue um braço, a fim de manter o equilíbrio. O
chuço do irlandês atingiu a em cheio, derrubando-a fragorosamente na areia fofa do chão.
Garith foi o primeiro a correr e se ajoelhar ao lado da irmã, aflito.
- Deus, ele não está respirando! - gritou, torcendo as mãos.
O jovem irlandês apeou do cavalo e se aproximou.
- O cavalo empinou na hora do embate. Não tive tempo de recuar, nem de fazer mais nada. Seu irmão levou um golpe e tanto, mas acho que vai sobreviver. Ajude-me
a desafivelar o peitoral, depressa.
Garith batia no rosto pálido da irmã, sacudia-a, chamava-a pelo nome.
- Drue, Drue!
O irlandês tirou o elmo e se ajoelhou. Curvando-se, colou sua boca à de Drue, expirando ar para dentro dos pulmões dela. Repetiu a operação algumas vezes, até
que finalmente os olhos de Drue se abriram, piscando. Quando ela se deu conta do que acontecera, empurrou rudemente o irlandês e tentou se erguer.
- Graças a Deus! - murmurou Garith. Depois, virando-se para o novo amigo, exclamou:
- Você salvou a vida de meu irmão! Como conseguiu?
- Oh, é um tratamento muito antigo que os sarracenos costumam dar aos soldados que desmaiam. Os irlandeses aprenderam com eles quando estiveram na última Cruzada.
Basta respirar com força para dentro da boca do outro. Não é nada de mais.
O rapaz voltou sua atenção para Drue.
- Como é, está bem?
- É, parece que sim, obrigado - respondeu ela, sentando-se na areia e limpando as mangas. - Engraçado, você acaba de salvar minha vida e eu nem sei
seu nome. Costumamos chamá-lo de irlandesinho.
Ele soltou uma risada alegre, estendendo-lhe a mão.
- Sou um irlandês, sim senhor, e com muito orgulho. Sou o primeiro herdeiro de meu pai, e meu nome é ...
Mas Drue, que se firmara na mão estendida para ficar de pé, dobrara o corpo ao meio com um gemido. Não fora Garith acorrer para ampará-la do outro lado, ela
teria desabado novamente.
- Carreguem-me no escudo - brincou ela, numa tentativa de disfarçar a dor. - Sempre achei essa frase bonita. Turlock costuma dizer isso quando volta vitorioso
de uma batalha.
- Seu escudo é pequeno demais - tornou Garith, que não estava com vontade de brincar - , a menos que você fique dobrado do jeito que está. Não estou gostando
nada disso, Drue. Sou o mais velho, e na ausência de papai e de Turlock tudo o que acontecer a você será de minha responsabilidade.
- Nem que eu quisesse conseguiria me endireitar. Isto dói como o diabo!
- Vamos arrastar nosso amigo pelo ombro - propôs o irlandês. - Você pega pelo lado de lá.
Pouco depois Drue era colocada sobre a cama da tenda que ela dividia com Turlock. O irlandês ajeitou o travesseiro e depois falou com naturalidade:
- Se concordar comigo, proponho que seja empate. E, se Não ficar ofendido, ofereço-lhe um conselho de graça: jamais monte um cavalo estranho numa situação como
essa. Você tinha de controlar o animal só com o joelho e o pé; e esse tipo de controle só os cavalos muito acostumados a você aceitam. Menino, se meu chuço não estivesse
cego, você não existiria mais!
- Amém - respondeu Drue. - Não me ofendi com seu conselho; ao contrário, vou segui-lo fielmente. Espero nunca ter de me bater com você de verdade.
- Digo o mesmo, meu caro. Você é um verdadeiro cospe-fogo! Agora, trate de descansar. Espero que Não tenha quebrado nada.
- Não, sou mais firme que a rocha de Gibraltar - retrucou Drue, confiante. - Antes do fim de semana pretendo enfrentá-lo de novo noutra justa.
Porém os vaticínios de Drue não se confirmaram, pois ela levou dias a fio para conseguir montar outra vez. Quando a terrível dor que sentira no ventre passou
de vez, ela retomou seus deveres rotineiros com entusiasmo redobrado, nunca se importou com o fato de que os fluxos mensais haviam cessado repentinamente; na verdade,
até se alegrou por se ver livre daquele incomodo sinal de feminilidade.
Assim se passara, havia anos, a história efêmera das menstruações de Drue.
Quando Turlock entrou mancando, Drue se lembrou pela milésima vez do ágil homenzarrão que ele fora, antes de receber a estocada de Connaught nas virilhas. Irritada,
soltou uma exclamação abafada.
- Êpa, êpa! Que é que você tem, meu rapaz?
- Nada, estava pensando com meus botões. Esse Connaught, será que ele está bancando o idiota lá em Bannockburn, esperando ordens de ataque, como nós aqui? Ah,
se estiver... É bom que se previna. Porque eu tenho toda a intenção de me bater com ele e matá-lo.
E virando um punho erguido na direção de Bannockburn:
- Cuide-se, Connaught! Aqui vou eu, Drue Duxton!
- Ei, espere aí, espere aí, meu galinho! Sua missão é ficar ao lado do rei e carregar sua bandeira bem alto! Se está com idéias de deixar o posto, nem que seja
por alguns instantes, pode botar suas ricas barbinhas de molho. Isso seria considerado alta traição.
- É, tem razão - anuiu ela, baixando a cabeça. - Vou ser obrigado a ficar ao lado do rei. .Enquanto isso, Connaught continua sobrevivendo. Um dia aqui, mais
um dia ali... Ah, ele não perde por esperar.
- Connaught é um irlandês forte e astuto, Drue. Para que tanta pressa? Seu dia chegará, sossegue. A menos que eu o encontre primeiro.
- Pois é precisamente isso que eu não quero que aconteça! É esse medo que me atormenta a vida, Turlock. Que você o pegue antes de mim!
















CAPÍTULO III

A tensão cortava o ar com seu gume afiado enquanto Drue se aprumava na montaria, os olhos dourados escrutando os vultos que se moviam numa dança fantasmagórica
na linha do horizonte nublado.
- Ai, que demora enervante! - protestou ela, impaciente.
- Calma, rapaz - sussurrou Turlock. - Mais alguns instantes e ouviremos os escoceses lamentando a morte do rei.
Drue olhou por trás do ombro. Eduardo achava-se alerta sobre a montaria, pronto para tirar vantagem da situação. Uma hora antes, o rei recebera a notícia de
que o inglês Henry de Bohun surpreendera Robert Bruce em pessoa, na hora em que este fora passar em revista as tropas escocesas. Robert nem se dera ao trabalho de
convocar escolta numerosa, muito menos de vestir a armadura; a revista era rotineira e comum nas vésperas da batalha. Aproveitando-se desse descuido, Henry de Bohun
conseguira atacar de surpresa, o que lhe dera inegável vantagem. Agora o exército inglês esperava a noticia da morte de Robert Bruce a qualquer momento.
- Essa história não me parece muito correta - resmungou Drue entre dentes. - Ataques de surpresa não são dignos da cavalaria inglesa. Tenho certeza que Garith
condenaria esse tipo de estratégia.
- Talvez - concedeu Turlock, em voz baixa, certificando-se de que ninguém o ouvia. - Mas quando surge a chance de ganhar uma batalha inteira com
uma pequena escaramuça, meu rapaz, o jeito é agarrar-se com unhas e dentes à oportunidade. Nesse ponto, não posso deixar de concordar com nosso rei.
- Tem tanta certeza de que Bohun vai sair vitorioso?
- Lógico que tenho, ora esta! Meu amigo Bohun é uma fera, Drue. E o mensageiro disse que Robert Bruce nem armadura tinha. A escolta não passava de um punhado
de escoceses, e até o cavalo que Bruce escolheu não vai ajudá-lo a fugir. O tonto escolheu um palafrém, justamente o menos forte dos cavalos! Essa turminha estava
totalmente despreparada para lutar, ora graças... Uma fatia de pudim num prato de ouro, foi o que Henry encontrou para se banquetear.
- Mas vocês vivem falando que Bruce é um inimigo respeitável.
- É verdade. Respeitável e temível. Mas não é imortal, meu caro. Como poderá enfrentar a peito aberto um cavaleiro todo aparelhado? Não, Drue, creio que não
teremos batalha hoje. Tudo o que temos que fazer é esperar, e depois contar quantas cabeças escocesas rolaram. Eta dia de sorte!
- Pss! - fez Drue, erguendo uma mão. - Estou ouvindo sons de batalha lá longe. Atrás de nós, Turlock.
- Os coitados perderam o rumo e em vez de bater em retirada estão vindo direto para nossos braços. Ótimo, vai ser fácil, fácil!
Drue abriu a boca para retrucar, mas Eduardo II se aproximou, manobrando o altivo cavalo branco.
- Está ouvindo? - perguntou, os olhinhos miúdos brilhando no rosto afogueado.
- Sim, Majestade. Eles vêm vindo para cá.
- Dentro de pouco tempo serei aclamado o grande conquistador do famoso Robert Bruce. O mundo cristão se curvará diante de mim, Turlock. Nem meu pai foi capaz
de realizar semelhante façanha! Meu nome será grafado em letras de fogo na história da humanidade!
- Os escoceses vão se atirar sobre nós como um enxame de abelhas enfurecidas quando souberem que seu rei morreu - Drue aventurou-se a comentar.
- Muito bem observado, meu jovem - sorriu o rei -, mas isso não oferecerá perigo para ninguém. Escoceses sem líder são como ovelhas sem pastor, espalham-se
pelos campos sem saber que direção tomar. Para nós vai ser muito fácil, verá. A Escócia pertencerá à Inglaterra, tão certo quanto dois e dois são quatro. -Deus assim
o quer!
Drue tinha lá suas dúvidas quanto aos desígnios reservados por Deus para o destino da Escócia, principalmente tendo em vista a diferença entre o lânguido Eduardo
II e o valente Robert Bruce. Mas guardou para si essas dúvidas. Não seria tola de externá-las.
Os ruídos foram se aproximando, e Drue se preparou para a batalha.
A neblina enrolava-se em grossos canudos voláteis quando dela emergiu um cavaleiro que se arrojou ao chão, junto às patas do cavalo branco de Eduardo II.
- Ei, homem, tenha mais cuidado! - bramiu Piers, agitando o chicote. - Não sabe que não pode chegar assim perto de nosso rei?
O açoite zuniu no ar, mas Turlock acudiu em tempo, fazendo o pobre recém-chegado se levantar.
- Traz alguma notícia, bom homem? - perguntou, ignorando as exclamações irritadas de Piers.
O estado do cavaleiro assustou-o, trazendo-lhe, pela primeira vez, uma pontada de dúvida. O homem tinha a roupa ensangüentada, e um de seus braços parecia quebrado.
A intensidade ansiosa da voz de Turlock chamou a atenção do rei, que se inclinou para a frente e ergueu uma mão para silenciar a torrente de palavras despejadas
por Piers.
- Henry de Bohun está morto! - balbuciou o pobre homem, que empalidecia a cada instante, prestes a desmaiar. - Aquele escocês é um demônio, eu vos digo! Não
é um mero mortal, impossível! Lutou como louco, a peito nu... Parecia um leopardo, desviando-se dos golpes de Bohun em cima daquele palafrenzinho de nada. A certa
altura, lord Bohun quase consegue atingi-lo...
O homem vacilou, fechando os olhos.
- E então? Desembuche de uma vez, homem de Deus - esganiçou Eduardo II, alheio ao sofrimento do pobre mensageiro.
- Robert Bruce ficou de pé no estribo. Assim, sem armadura, sem escudo... só com uma machadinha na mão. Pois ele ergueu a machadinha e deu um golpe tão formidável
que partiu o crânio de lord Bohun. Com elmo e tudo.
O rei mordeu com força a junta dos dedos esbranquiçados, que tremiam como folhas de papel.
- Majestade, nessa hora os escoceses enlouqueceram! Caíram sobre nós com tamanha fúria, que fomos obrigados a recuar. E, não contentes com nossa retirada, continuaram
a nos perseguir... e vêm vindo aí, destruindo o que podem pelo caminho!
Dizendo isso, o homem tombou, desfalecido, nos braços de Turlock.
- Levem este infeliz daqui! - rugiu ele.
O duque de Duxton se aproximou do rei, apreensivo.
- Precisamos nos reagrupar, Majestade. E depressa!
- Sim, sim - respondeu o rei, aéreo. - Temos de nos reunir e atacar quando a vantagem estiver de nosso lado. Vou voltar ao campo para arquitetar um plano, de
ataque.
Vamos, Piers! E você também, jovem Drue!
Os sons da batalha já estavam bem próximos. Drue ansiava para lutar ao lado de Turlock e do pai, mas seu dever era carregar a bandeira do rei e segui-lo. Na
pressa para se afastar dali, Eduardo não esperou a guarda pessoal; desse modo, apenas os três atravessaram o descampado, a bandeira tremulando altiva através do
ar gelado da manhã.
Mais adiante havia um agrupamento de árvores, quase um pequeno bosque, ilhado no meio do campo. Quando os três se embrenharam nele, um grupo de homens atacou-os,
mal dando a Drue tempo de soltar um brado de alerta.
Piers avançou rugindo, de lança em riste, enquanto o rei soltava um guinchinho aflito e tentava se encolher por dentro da armadura.
Embora os inimigos estivessem a pé, logo Piers foi perdendo espaço. Um golpe certeiro atingiu-o no peito, fazendo-o cambalear sobre a montaria, enquanto os inimigos
soltavam gritos de vitória antecipada.
Ao perceber que o favorito seria morto sem piedade diante de seus próprios olhos, o rei arrancou a bandeira das mãos de Drue.
- Salve Piers, salve-o! - gritou, nervosamente. - Deixe que eu me defendo sozinho!
Drue obedeceu de pronto. Desembainhando a espada, esporeou o cavalo e soltou um brado de guerra.
Com um único golpe preciso, derrubou dois adversários. Um deles ficou agarrado ao toco de braço que lhe restara, uivando; o outro pereceu. Drue incitou o cavalo,
que esmagou em suas patas um terceiro. Agilmente, ela girava a imensa espada de um lado para o outro, acertando em cheio nos que ousavam atacá-la, até que restaram
apenas Piers e dois inimigos, que se aprestavam a matá-lo naquele instante.
Desferindo uma cutilada certeira e ágil, Drue arrancou o elmo de um, e, sem parar para ver se a cabeça do guerreiro saltara junto, enterrou a espada no pescoço
do segundo.
Manobrando com perícia o esgotado cavalo, aproximou-se de Piers e ergueu-lhe a viseira com a ponta da arma. O favorito resfolegava ruidosamente e tinha as faces
cinzentas de dor, mas conseguiu erguer o canto da boca num simulacro de sorriso.
- Obrigado, meu rapaz. Você foi muito valente.
- Não tanto quanto você - replicou Drue, um tanto espantada.
Na realidade, ela nunca imaginara que Piers Gaveston pudesse se comportar com tamanha lisura e valentia. Era um homem da corte, habituado a botinhas de longas
biqueiras; no entanto, mesmo sabendo que enfrentaria a morte certa, não hesitara em avançar e defender o rei com quantas forças tinha. Um desperdício de bom potencial,
decidiu Drue. Com algumas aulas de manejo de espada, ele teria sido um ótimo cavaleiro.
Com um aceno enfraquecido, Gaveston apontou para o rei. Drue virou-se e viu o soberano da Inglaterra dando pancadas frenéticas, com a lâmina da espada, na cabeça
de um inimigo desmaiado. Drue fitou a cena espantada, não sabendo se ria ou chorava. Quem diabos era aquele ridículo reizinho de baralho?
Esporeando o cavalo, aproximou-se de Eduardo II, a fim de tomar-lhe a bandeira. Nesse momento, um vulto caiu de uma árvore sobre a montaria do rei.
Com um brado de alerta, Drue conseguiu agarrar o pulso do inimigo no momento em que este ia enterrar um punhal nas costas de Eduardo. Apertando com garras de
aço o pulso do traiçoeiro adversário, ela esporeou seu cavalo, que se afastou. O outro, sem conseguir se livrar dos dedos fortes de Drue, caiu ao chão. No mesmo
instante, utilizando um golpe que aprendera com Turlock, ela torceu-lhe o braço com violência, deslocando-o. O antagonista, indefeso e batido, deixou-se jazer no
chão, retorcendo-se na agonia da dor.
Nesse momento a guarda real de Eduardo adentrava o pequeno bosque e rodeava os três. Duxton e Turlock vinham logo atrás, a expressão preocupada estampada em
seus rostos afeitos à guerra.
- Aniquilamos o inimigo! - disse Eduardo, ainda nervoso, mas exultante. - Nós três sozinhos desbaratamos todos eles!
Piers conseguiu dirigir sua montaria para perto do rei, e pela primeira vez este percebeu a gravidade do ferimento de seu favorito.
- Por Deus, Piers! O que esses malditos fizeram com você?
Toda a alegria se fora da voz do rei quando este pegou as rédeas do cavalo de Gaveston. E havia lágrimas em seus olhos quando ele se virou para Drue e ordenou
bruscamente:
- Desmonte!
Drue sentiu um baque no coração. Aquele rei era absolutamente imprevisível! Devia pensar que ela falhara em sua missão de salvar o favorito, e agora pretendia
matá-la ali mesmo. Sem dizer palavra, a moça apeou e caiu de joelhos, curvando a cabeça,
O rei começou a falar, mas ela não conseguiu prestar atenção. Sua cabeça rodava em torvelinhos, em meio à exaustão do combate e ao medo da morte iminente. O
rei ergueu a espada, e ela retirou o elmo, aguardando o golpe de misericórdia com resignação. Aérea, espantou-se com um raio de sol que jorrou subitamente por entre
as árvores e veio iluminar-lhe a armadura enlameada, as mãos que ainda seguravam a espada. Como o sol era bonito! E ela não viveria mais para vê-lo brilhar assim...
O mesmo raio fez com que a espada do rei refulgisse por alguns instantes no ar. E depois, como se estivesse dentro de um sonho muito distante, Drue sentiu que
a espada lhe tocava o ombro direito, depois o esquerdo, indo em seguida descansar sobre seus cabelos dourados.
E, do mesmo modo que a neblina se dissipava naquela manhã de verão, as nuvens de sua cabeça se abriram em inesperada clareira iluminada quando o rei pronunciou
as palavras imemoriais:
- Eu vos sagro sir Andrew de Duxton! Levantai-vos, senhor cavaleiro!
Drue submergiu numa tempestade de abraços e aplausos, comprimida entre os pares que se atropelavam para cumprimentar o novo cavaleiro. Devagar, ela foi abrindo
caminho entre os sorridentes amigos, buscando o pai com os olhos. Quando se encontraram, Duxton abraçou-a, mudo e comovido. Fitou-a longamente, e por fim murmurou:
- Ninguém mereceu tanto o título quanto você, Drue. E nenhum pai jamais sentiu o orgulho que estou sentindo agora.
Os olhos de Turlock encheram-se de água. Sem um pingo de vergonha, ele deixou que as lágrimas corressem pelo rosto enrugado, enquanto segurava a protegida pelos
ombros, incapaz de pronunciar mais que uma sílaba estrangulada.
Somente quando Drue e os demais se retiraram atrás do rei é que Duxton buscou a compreensão do grande amigo Turlock. Virando-se para ele, deixou que seus olhos
espelhassem a luta que se travava em seu intimo, entre o orgulho que sentia e a serpente do medo, ambos enroscados num embate mortal.
- Parece que Drue conseguiu o que queria, primo. Nada o fará agora voltar-se para bordados e costuras.
- Não se atormente com isso, Duxton. Ele é um cavaleiro e tanto. Um dos melhores que conheci.
- Não duvido, meu amigo, mas o rei vai armar uma confusão dos demônios quando souber que foi salvo por uma mulher. Pior: quando souber que sagrou essa mulher
cavaleiro do reino!
- É, vai mesmo. Nossas cabeças ficariam em perigo, caso ele descobrisse a verdade. Portanto, bico calado!
- Então está decidido - suspirou o duque, sacando da espada.
Ergueu-a alto, fazendo com que a arma projetasse sua sombra na lona da tenda, como se fosse uma cruz. E pronunciou, com voz. firme:
- De hoje em dia, tenho dois filhos, pela graça de Deus. O fato de Drue ter nascido mulher será esquecido e enterrado.
Estendeu a espada para Turlock, que repetiu mais ou menos as mesmas palavras, a fim de satisfazer a consciência perturbada do primo. Para ele, Drue era um homem
sob todos os pontos de vista; os problemas do duque de há muito haviam sido banidos de seu inconsciente, porque instintivamente sempre soubera que Drue seria um
dos melhores cavaleiros da Inglaterra, senão do mundo.
- Garith! - murmurou o duque. - Acha que ele deve saber o que se passou aqui?
- Em parte. Diga-lhe que Drue foi sagrado cavaleiro, e isso será o suficiente. Sei que ele pensa que Drue é seu irmão. Certa vez, há muitos anos, Garith veio
me perguntar se a irmãzinha que ele tinha havia morrido. Ele se lembra vagamente de uma menina, mas alguma coisa o fez se esquecer do resto. Ora, eu achei melhor
deixá-lo acreditar nessa história. Agora vejo que foi a melhor coisa que fiz.
- Muito bem, então voltemos ao campo. Vamos ter muita celebração por lá. apesar de termos perdido inúmeros soldados.
Eufóricos pela vitória miraculosa de Bruce, os escoceses atacaram antes do fim do dia. Travou-se uma luta feroz, mas o rei inglês se esquivava dos deveres, refugiando-se
em sua tenda.
Em vez de juntar-se aos generais durante a luta, a fim de planejar e orientar a estratégia inglesa, Eduardo não arredava pé da cabeceira do favorito e limitava-se
a distribuir ordens fracas e inconseqüentes. Nem por uma única vez o negligente rei se dera ao trabalho de ir até o campo para se inteirar da situação; teimava em
dar alguns comandos de sua tenda real. O resultado não se fez esperar muito; a armada inglesa viu-se presa de tremenda confusão.
Por vezes, se um general dava ordem de ataque pelo flanco direito, logo vinha uma contra-ordem real - o ataque devia ser pela esquerda. Isto, porque Eduardo
não sabia o que se passava, e expedia ordens a esmo, sem ter idéia da posição de sua armada. A coisa se transformou num verdadeiro pesadelo.
Duxton e outros se reuniram com o rei, a fim de discutir a caótica situação. Mas Eduardo não queria saber de conversa; achava-se por demais preocupado com a
saúde de seu querido Piers. Depois de pronunciar duas ou três frases inócuas, dissolveu a reunião, dizendo que todos precisavam descansar para enfrentar outro dia
de luta penosa.
Quando a noite caiu, os soldados achavam-se esgotados e de ânimo combalido, receosos de ver o dia amanhecer. Na tenda ducal, os ânimos não estavam muito melhores.
- Apronte-se para fazer Gaveston ir embora assim que a aurora surgir - disse Turlock para Duxton. - Se Eduardo não começar a dirigir decentemente nosso exército,
tudo estará perdido. Ou pela mão dos escoceses ou pela de nossos pobres soldados, que estão cheios de ódio no coração.
- Mas o rei não aceitará se afastar de Gaveston, Turlock! - exclamou Drue, preocupada.
- Então, meu jovem, você é que vai tentar convencê-lo.
- Eu!
- Sim, você. Explique-lhe que é melhor remover Gaveston daqui antes que nosso exército seja obrigado a bater em vergonhosa retirada. Porque certamente isso
é o que acontecerá amanhã. Esses escoceses não estão para brincadeira, ao contrário de nosso muito amado rei.
- Mas ele não vai me ouvir!
- Ah, vai sim. Foi você que salvou a vida do queridinho. Nossa única esperança reside na sua capacidade de argumentação, Drue.
- E verdade - acudiu o duque. - Nós tentamos em vão falar com o homem, mas ele só tem olhos para Gaveston. Demônios! Talvez seja melhor que os escoceses o apanhem
de uma vez!
A sacrílega exclamação foi acompanhada de um murro na mesa. Drue e Turlock, porém, compreenderam-na. Fora um desabafo, extraído do fundo de um coração patriótico,
que enxergava impotente a lenta corrosão de seu poderoso império devido à fraqueza do soberano.
- Posso compreender Robert Bruce - continuou Duxton, passando nervosamente os dedos pelos cabelos encanecidos. - Compreendo seu amor pela guerra, seu amor pela
Escócia. Mas não posso, não consigo compreender o amor de Eduardo por esse almofadinha indecente!
- Se os escoceses puserem as mãos nos dois - contrapôs Turlock - ficaremos sem rei.
- Sim, já pensei nisso - sussurrou Duxtons, com ar sombrio. - Acontece, meu caro, que se é ruim com Eduardo, pior sem ele. Sem um rei no trono inglês, o caminho
está aberto para os escoceses se apossarem de nosso pais.
- O fato é um só - comentou Turlock. cruzando os braços sobre o ventre volumoso. - O favorito de Eduardo não pode ficar neste acampamento. Ou tiramos Piers
Gaveston daqui, ou os escoceses conseguirão capturar nosso soberano.
- Sim. E isso será o fim do reinado inglês, que acabará nas mãos de Robert Bruce. Depois do fiasco de hoje, até os nossos vão dar graças a Deus se isso acontecer.
Somente uns poucos mais elucidados, como nós, sabemos que, apesar de tudo, é melhor ficarmos com o rei que temos. Demônios, temos de tirar Gaveston daqui a qualquer
custo! Só assim Eduardo poderá dirigir o exército com alguma dignidade.
Drue se mexeu, inquieta. As palavras do pai eram carregadas de sabedoria. Por mais que os ingleses odiassem Robert Bruce, a verdade é que sua extrema coragem
e competência saltavam aos olhos de todos. Nas mãos dele, o exército escocês transformara-se num verdadeiro gigante bélico.
- Muito bem - disse ela, por fim. - Vou tentar conversar com o rei. Mas não garanto nada, uma vez que ele se recusou a ouvir seus homens mais importantes.
- Tudo dependerá de sua capacidade de argumentação, sir Drue - retrucou Turlock, colocando ênfase especial no título. - A menos que prefira ver a bandeira escocesa
tremulando na Torre de Londres.
Drue se levantou.
- Vou fazer o que puder. Queira Deus que ele me atenda!
- Queira Deus - ecoou Duxton.
O guarda balançou a cabeça.
- Sinto muito, sir. Tenho instruções severas do rei. Ele não quer ser perturbado.
- Eu estava lá quando lord Gaveston foi ferido, soldado. Tudo o que quero é uma rápida entrevista, só para saber como está a saúde dele.
- Lord Gaveston está melhor. Agora, sir, por favor, não insista. Meu senhor não quer ver ninguém.
Nesse momento, o rei correu a cortina da entrada da tenda.
-Sir Drue! Que faz aqui?

Ela se ajoelhou,
- Vim saber a verdade sobre o estado de lord Gaveston. Há muitos rumores no acampamento, e eu fiquei preocupado.
- Bem, se há alguém aqui que mereça saber do estado de Piers, esse alguém é você. Entre, entre e veja com seus próprios olhos.
Drue lançou um olhar triunfante ao guarda antes de penetrar na tenda real. Um cheiro ácido, de medicamentos e compressas pairava no ar, misturado ao de sangue
e pus. Para surpresa de Drue, a tenda estava mobiliada com luxo e requinte. Longas cortinas de veludo azul pendiam do teto, combinando com as finas poltronas estofadas.
Piers estava acordado, e sorriu fracamente para a visitante.
- Meu caro, deixei seu salvador entrar porque achei que não se importaria. Ele está preocupado com os boatos que correm pelo acampamento a seu respeito.
Enquanto falava, Eduardo ajeitava o travesseiro do doente.
- Obrigado, Drue, meu amiguinho - murmurou o doente. - Pouca gente se importa comigo.
Drue fez uma reverência prolongada, admirada com o tom melancólico do almofadinha. Certamente essa franqueza era produto da alta febre.
- Engana-se, meu senhor - disse, num impulso sincero, pois condoera-se do pobre homem. - Embora muitos tenham inveja de sua amizade com o rei, esteja certo
que ninguém lhe deseja mal.
- Ah, Drue, como você é jovem e idealista! Lembra-se como nós éramos assim, senhor meu rei?
- Se lembro! - respondeu Eduardo, suspirando. -- É, não é fácil ser rei. E mais difícil ainda é ser amigo do rei, Piers.
Drue esperou pacientemente que os dois parassem com as saudosas reminiscências. Precisava cumprir sua missão antes que eles a dispensassem. Quando encontrou
ima brecha, inspirou fundo e atacou:
- Majestade, lord Gaveston está correndo perigo inutilmente, ficando aqui. Vossa Majestade devia removê-lo deste acampamento o quanto antes, para um lugar seguro.
- Ora esta, por quê? O lugar mais seguro é exatamente este, no meio de nosso exército. Que outro existe?
- Ele estaria melhor sob cuidados médicos, sem perigo de ameaças inimigas. Nós viemos de Falkirk, e é para lá que aconselho levá-lo de volta. Suplico-lhe que
me escute com atenção, Majestade: os escoceses estão eufóricos com a vitória que obtiveram hoje. Estão contentes e muito belicosos. Se conseguirem furar
nosso bloqueio até aqui, certamente virão buscar lord Gaveston, uma vez que sabem que ele foi seriamente ferido e está incapacitado para se defender. Os escoceses
são astutos demais e não desconhecem sua amizade por lord Gaveston. Tentarão, a todo o custo, capturá-lo e matá-lo, porque sabem que Vossa Majestade sofrerá um golpe
muito sério com isso.
O rei ouviu atentamente, os olhinhos miúdos cheios de assustada surpresa. Era óbvio que não havia pensado nessa possibilidade.
- Doente como está, ele será uma presa fácil para os escoceses, Majestade.
- Mas esses bastardos não conseguirão furar nosso bloqueio, sir Drue! - exclamou o rei, batendo com o punho fechado na palma da mão aberta.
- Vossa Majestade prefere correr o risco? - indagou Drue, com voz macia. ,
- Mas não tenho coragem de me separar de Piers! - gemeu o rei, torcendo as mãos. - Prefiro perder meu exército todo, mas não me separo dele, isso nunca!
- Se Vossa Majestade me permite uma sugestão - aqui, ela reuniu toda a coragem que tinha, sabendo que não possuía credencial nenhuma para dar qualquer sugestão
ao rei da Inglaterra - , por que não vai com ele? Ninguém saberá de nada, cuidarei disso. Nem os escoceses, nem nossos homens. Vossa Majestade poderá voltar antes
que percebam sua breve ausência.
Eduardo coçou o queixo, pensativo.
- Vou pensar nisso.
Nesse momento, o guardião da tenda pediu licença para entrar.
- Que quer agora? - perguntou Eduardo, irritadiço. - Não vê que estou ocupado?
- Desculpa-me, Majestade. É que nossos espiões voltaram e dizem que têm informações preciosas sobre os planos dos escoceses.
- Bem, isso é diferente. Por que não disse logo? - retrucou o rei mal-humorado, indiferente à expressão espantada do guarda. - Drue, faça companhia a Piers
até eu voltar.
- Pois não, Majestade.
Gaveston esperou que o rei saísse para perguntar a Drue:
- Essa preocupação pela minha segurança, Drue. É ela a única causa para vocês me quererem longe do acampamento?
Então o homem percebera a manobra; tanto melhor. Se Piers fosse leal a Eduardo, saberia reconhecer a sabedoria dos conselhos dados ao rei.
- Estamos achando que os escoceses planejam algum ataque mais violento, para revidar a emboscada de Henry de Bohun ontem.
- Henry de Bohun morreu. Não é o bastante para esses açougueiros?
- Ao que tudo indica, não. Os escoceses acreditam que Deus está ao lado deles, porque Bruce derrotou um cavaleiro inglês armado. Lord Gaveston não ignora que
meu soberano está mais indefeso porque insiste em ficar nesta tenda, ao seu lado, em vez de entrar na luta. Em minha opinião, os inimigos tentarão tirar proveito
dessa situação, e não descansarão enquanto não capturarem nosso rei. E, furando nosso bloqueio, nada mais os deterá.
- Mas de que lhes adiantaria capturar Eduardo?
- O infante, filho do rei, não passa de um bebezinho. Se Eduardo II morrer, a rainha será regente. Um pudim para Bruce! A Inglaterra cairá fatalmente nas mãos
dos escoceses.
- O povo... Nosso povo não aceitará um rei escocês!
- Que é que ele pode fazer, milorde? Pense bem. Se os escoceses invadirem uma Inglaterra de trono vazio, com uma regente jovem e um bebê chorão nos braços...
Nosso povo nada poderá fazer senão aturar os escoceses no comando do país.
- E quanto a mim, sir Drue? Está verdadeiramente preocupado comigo?
- Na realidade, esteja o soberano aqui ou não, os escoceses virão atrás de você. E se conseguirem capturá-lo, o rei Eduardo concordará com qualquer condição
escocesa a fim de tê-lo de volta.
- É, você é inteligente, meu rapaz - comentou Gaveston, suspirando. - Bem, vou tentar convencer Eduardo. Você nos acompanhará?
Drue não escondeu seu desapontamento.
- Para ser honesto, milorde, eu gostaria de tomar parte na batalha. Será minha primeira atuação como cavaleiro do reino.
- Nada mais justo. Então não insistirei mais. É o mínimo que posso fazer por alguém que me salvou a vida, não uma, mas duas vezes.
Assim que o rei voltou, Drue pediu licença e se retirou.
Fora, livre da atmosfera sufocante da tenda real, encheu com prazer os pulmões com o ar revigorante da noite fria, sentindo o coração saltar como cabrito. O
pensamento de que iria lutar ao lado do pai, não mais como escudeiro, mas ombro a ombro, deixava-a excitada. Quem sabe, com um pouco de sorte, conseguiria combater
seu demônio particular, o odiado conde de Connaught! E ele não teria como se esquivar, uma vez que seria desafiado por um par do reino.
Contente, abriu os lábios num sorriso, antecipando o triunfo iminente. Todos a veriam lutar com o todo-poderoso Connaught. Que espetáculo seria! Que gosto doce
tinha a vingança!
Desde o dia em que Turlock havia sido ferido pelo insolente irlandês, Drue planejara esse encontro, que agora lhe parecia bem próximo. Nunca confessara sua obsessão
a Turlock, porém sabia que o velho urso tentaria demovê-la da idéia, pois Connaught era tido como o mais bravo e temível guerreiro do mundo cristão. Pois muito bem,
Drue faria sua reputação sobre o cadáver do irlandês. Seria respeitada e temida por todos. E, sobretudo, teria o prazer de se vingar de quem aleijara seu melhor
amigo.
Naquela manhã de verão brilhante, as nuvens se abriram para dar passagem a um sol de luz ofuscante, cujos raios faziam o verde gramado de Bannockburn reverberar
em esmeraldas. Os soldados ingleses, exauridos e suados, não haviam dormido quase nada, devido ao receio de serem atacados de surpresa durante a curta noite estival.
Marchavam sem vontade, obedecendo automaticamente aos berros do general. Sabiam que, mais além, Bruce e seus homens observavam cada manobra com atenção.
Eduardo fora convencido de que os escoceses jamais tomariam a iniciativa do ataque, uma vez que tinham todas as vantagens de seu lado, e havia resolvido a deixar
o acampamento naquela madrugada. Partira secretamente em seu cavalo, trotando ao lado da liteira de Piers, e acompanhado de uma pequena escolta. Embora os homens
não soubessem da ausência do rei, ainda assim mostravam-se desanimados e tinham o moral perto de zero. O fato de terem cercado o Castelo Stirling pouco ou nada adiantava;
nos últimos dias, Eduardo não fortalecera sua posição.
Poucas horas depois, os batedores deram seu alerta: os escoceses começavam a formar longas fileiras do outro lado do descampado.
Todos alçaram a vista, colocando as mãos em pala, e viram os inimigos se ajoelhando para rezar e pedir a ajuda de Deus. Nesse instante, Drue se espantou ao ver
o rei se aproximar, de semblante ansioso.
- Já, Majestade? Sua viagem foi boa?
- Ótima, obrigado. Piers está são e salvo em Falkirk. Achamos que seria melhor para as tropas inglesas se eu estivesse aqui. Pelo visto, cheguei bem em cima
da hora, hein? Os bastardos escoceses estão pensando em se entregar!
- Como assim? - indagou Drue, sem entender.
- Ah! Veja só os bobalhões! Ajoelhados, pedindo nossa misericórdia!
Drue conteve a impaciência como pôde.
- Meu rei, eles estão pedindo misericórdia, mas não a nossa, e sim a de Deus! Desculpe, Majestade, mas daqui a pouco nós estaremos sendo atacados sem dó nem
piedade.
- Oh... - fez Eduardo, disfarçando o desapontamento. - Nesse caso, vou dar ordens de avançar.
Drue refreou a língua. Era de opinião que os ingleses deveriam esperar um pouco mais; contudo, não cabia a ela dar conselhos a um rei. Afastando-se, colocou
o elmo e juntou-se aos pares, decidida a lutar enquanto tivesse uma gota de sangue nas veias.
- Atacar! - bradou Eduardo II.
O conde de Gloucester, um bravo e valoroso paladino inglês, obedeceu de pronto, clamando com voz forte que o seguissem. Um destacamento então se pôs a caminho,
avançando e gritando brados de guerra. Mas o destacamento se deteve diante da formidável muralha humana que os escoceses haviam formado logo adiante. E, diante dos
olhos do rei, o conde de Gloucester foi empalado pela espada inimiga. Sem líder, os guerreiros ingleses se desordenaram. O combate transformou-se em renhido corpo-a-corpo,
enquanto os escoceses apertavam o cerco, fechando-se à volta dos aliados como as tenazes de um gigantesco caranguejo. Quando os arqueiros tomaram posição, o apoio
deles já de nada valia. O poderoso exército inglês submergira num mar de soldados escoceses. Penalizada e angustiada, Drue via os ingleses se entrechocando como
baratas tontas, um se atropelando ao outro, enquanto fileiras de lanceiros escoceses atacavam metodicamente, avançando em paredes incansáveis e indestrutíveis. O
inglês recuava, o escocês avançava.

- Majestade, perdemos o dia - disse Duxton, ofegante, os olhos raiados de sangue pela noite mal dormida. - Vossa Majestade deve fugir daqui!
Eduardo correu os olhos frenéticos pela cena dantesca que se desenrolava diante dele.
- Os arqueiros! - berrou, fora de si. - Dêem ordens de atirar flechas imediatamente!
Mas as flechas conseguiam acertar apenas os aliados, criando confusão ainda maior no exército inglês. Sir Giles d'Argentine manobrou o cavalo agilmente por entre
o tropel da luta, dando ordem de recuar imediatamente, e veio parar em frente do rei.
- Majestade, imploro-lhe que saia daqui. Não podemos mais protegê-lo! Estamos perdidos!
Eduardo contemplou mais uma vez a incrível carnificina, e depois balançou tristemente a cabeça.
- É um triste dia, meu jovem - murmurou, dirigindo-se a um escudeiro de seus dezoito anos, que havia assumido o cargo vago de Drue.
- Temos de suportar com bravura nossos revezes, Majestade - interveio Duxton.
- Se você estiver de acordo, meu bom duque, eu gostaria que seu filho Drue reassumisse o posto de porta-bandeira e me levasse em segurança.
- Eu... eu... - tartamudeou Duxton, confuso.
O rei concedia um favor inesperado a Drue, algo que devia ser considerado como honra. Mas o duque linha a impressão de que Drue odiaria aquela oferta. Por fim,
limpou a garganta:
- Nem tenho palavras para expressar minha gratidão pela grande honra que concede à minha humilde casa, Majestade, mas neste momento sir Drue encontra-se em plena
batalha. Vossa Majestade deve pensar em si mesmo e na nossa Inglaterra. Esteja certo, porém, que eu contarei a Drue sobre o grande favor que acaba de Lhe fazer,
e isso fará com que seu braço se torne ainda mais firme e valente, na defesa de nosso pais.
Havia lágrimas nos olhos do rei quando se inclinou e apertou os ombros de Duxton. Minutos depois, o monarca se afastava com o jovem porta-estandarte.
À vista da real bandeira que se distanciava, os ingleses perderam por completo a confiança, combalidos com adsorção de seu rei. Na verdade, o pai do rei, Eduardo
I, teria lutado até o fim. E era isso o que a maioria dos aliados esperava.
Os escoceses também perceberam a fuga do rei, e trataram de avançar mais depressa, pois seu objetivo era capturá-lo. Ao notar que seu soberano corria grave risco,
Turlock lançou um possante brado de guerra, reunindo os cavaleiros mais graduados. Estes se alinharam diante do inimigo, dando espaço aos guerreiros a pé para recuar
e proteger a retirada do monarca.
A espada de Drue sibilava em golpes giratórios e destruidores, derrubando o que estivesse a seu alcance. Tamanha era sua sanha, que os aliados, mais entusiasmados,
foram se aproximando dela, combatendo com mais fervor. Naquele ponto do campo, os escoceses foram forçados a recuar um pouco, estonteados. Nesse momento, um vulto
escuro emergiu, ominoso e potente. Tinha a cota de malha rasgada em tiras, e parecia um leão furioso. Ele impeliu a montaria para a frente, brandindo a espada enorme
com furor. Seus golpes certeiros produziam feixes de cadáveres por onde passava, e os ingleses caíam à sua volta como galhos secos. E, tão rápido como tinha surgido,
virou a montaria e recuou em desabalada corrida.
Turlock deu um brado de alerta, mas, cercado por um mar de inimigos, não tinha espaço mais para atacar. Drue espetou o último adversário que tinha na frente
e, de espada erguida, partiu ao encalço do leão raivoso. Conseguiu alcançá-lo no instante em que ele atingiu uma clareira, um pouco distanciada do coração da batalha.
A espada da jovem silvou no ar, serpente de prata. O cavaleiro deteve a montaria e voltou-se para enfrentá-la. Antes que ele conseguisse erguer a própria espada
para se defender, Drue desferiu-lhe um golpe no ombro. O homem oscilou na sela, e a moça aproveitou para investir novamente, desta vez no peito. Ele ergueu o escudo
com agilidade, aparando com destreza a estocada que, de outra forma, teria sido fatal.
E revidou com uma espadada forte, fazendo com que ela recuasse. Drue reconheceu que estava diante de um guerreiro respeitável. Os cavalos foram se aproximando
devagar, negaceando, recuando e avançando, numa dança macabra. Os sons da batalha dissolveram-se no nada. Só havia agora os dois valentes guerreiros, cada um alerta
e atento ao menor gesto do outro.
Jamais houve batalha tão feroz quanto aquela que se travou entre eles, mas o resultado já havia sido escrito pelo destino havia muitos séculos. O vencedor acabaria
perdedor, enquanto o perdedor sairia vencedor.
Como dois galos de briga, firmaram-se nos estribos e esticaram os corpos esguios, aguardando um deslize qualquer do adversário. A tensão era cortante, quase
dolorosa. O cavaleiro esporeou o animal, e Drue esperou, o coração batendo. Nesse momento, ela percebeu com a velocidade de um raio que o inimigo baixava um pouco
a guarda e iria tentar atingi-la por baixo, atrás do escudo. Com um brado frenético de vitória antecipada, Drue se aproveitou da perigosa exposição do cavaleiro
e atingiu-o com um golpe potente no pescoço, que se achava momentaneamente indefeso. O inimigo afundou para baixo, quase lentamente, escorregando da sela para o
chão. Rápida como um raio, Drue apeou e plantou-se em frente do vencido antes mesmo que ele caísse por completo. Ela se abaixou e removeu o elmo do cavaleiro, curiosa.
O homem não estava inconsciente, mas encarava-a com um par de olhos inacreditavelmente azuis. Mais azuis que o céu em dia sem nuvens. E francos. E diretos. Os cabelos,
revoltos e negros, reluziam. Uma gota de sangue coagulara-se no canto da boca bem talhada e carnuda. - Valeu, companheiro. - falou, enquanto procurava disfarçar
uma careta de dor. - Morro em mãos competentes.
- Você luta como um campeão!
Drue encostou a ponta da espada no pescoço do vencido. A pele, fina e macia, cedeu suavemente.
- Ande logo, vamos - pediu o homem, forçando um sorriso irônico. - Não prolongue minha agonia.
- Então feche os olhos - engrolou Drue.
- Nada disso, meu valentão. Quando me matar, há de se lembrar para sempre de meus olhos. E os seus serão minha última visão do mundo.
Drue não esperava por essa. Já matara muitos homens numa batalha, mas jamais se defrontara com um guerreiro tão corajoso.
- Se eu o poupar, garante que receberei alguma coisa boa em troca?
- Ora, poupe-o de qualquer modo - falou uma voz grossa.
Drue se virou para ver Turlock, que se aproximava num trote ligeiro.
- Os escoceses não têm muito dinheiro, mas podem nos pagar uma bela soma em troca de nosso prisioneiro - continuou o gigante. - Apreciei a luta, Drue. Eta briguinha
boa! Esse um aí lhe deu um trabalhão, hein? É, Robert Bruce certamente pagará um bom resgate. Ele não deve ter tantos guerreiros iguais a esse, e não pode se dar
ao luxo de perder essa espécie rara.
Drue afastou a espada, inexplicavelmente aliviada. Ao avistar um punhado de ingleses que se aproximavam, ordenou:
- Levem-no. E com cuidado! Os escoceses não pagarão por um refém morto.
Os soldados obedeceram e içaram o vencido para o lombo do cavalo. Os olhos dele eram duas poças de dor.
- Não sei se o fato de me poupar foi uma boa para você, rapaz. De qualquer forma, muito obrigado.
- Não me chame de rapaz! - disparou Drue, erguendo a viseira do elmo a fim de encará-lo bem nos olhos. - Sou sir Andrew Duxton!
Depois, virou-lhe desdenhosamente as costas.
- Levem-no daqui.
Mesmo os ruídos distantes da batalha, que agora se avolumavam em seus ouvidos, serviram para acordar Drue do estranho torpor que a invadia. Era como se aquele
par de olhos azuis, que a fitaram com dor e admiração, tivessem gravado marcas de fogo em sua alma.
- Tomara que ele nos traga um bom dinheiro de resgate - murmurou, os olhos perdidos no grupo que se afastava.
- Ah, mas com certeza! - riu Tmiock. - Esse homem vale algumas pilhas de moedas de ouro, pode estar certo. Ele vale quanto pesa, o danado.
- Ei, você o conhece?
Turlock puxou a rédea do cavalo e parou, fitando-a com ar incrédulo.
- Não vai me dizer que não sabe quem é!
- Não, não sei. A cota de malha estava rasgada, e o brasão cheio de lama e sangue. Mas que coragem, homem! Juro que cheguei a sentir um troço estranho aqui
por dentro. Minha sorte é que ele baixou um pouco a guarda para me atingir por trás do escudo, exatamente como aconteceu com você e...
Foi a vez de Drue puxar a rédea, soltando uma exclamação abafada.
- Era ele! O maldito bastardo, filho do demônio... Connaught! Com mil dragões, Turlock! Por que me aconselhou a não matá-lo?
A risada do gigante reboou como trovão sobre o tumulto da batalha.
- Sim senhor, era Connaught em pessoa! Agora você sabe o que é lutar com alguém de calibre, e aposto que gostou da experiência! Drue, aprenda uma coisa: numa
briga entre contendores de forças iguais não há vencedor nem perdedor.
- Foi isso o que sentiu quando ele acertou sua perna? Foi um golpe traiçoeiro, aquele!
- Igualzinho ao que ele tentou aplicar em você, Drue. E não me parece que você tenha ficado muito aborrecido por isso. A diferença é que você viu o que ele
ia fazer, meu caro. E pôde vencê-lo justamente porque teve um belo golpe de vista.
- Sim, mas se você não tivesse me ensinado esse truque, eu agora estaria feito mingau.
- Drue, Drue, não seja infantil nem teimoso. Connaught prestou-lhe uma homenagem, tentando atingi-lo com esse golpe. Porque ele percebeu que não conseguiria
vencê-lo em destreza e força. Precisou então recorrer à astúcia, exatamente como fez comigo. Isso não é traição, Drue. É sobrevivência, apenas. Connaught tentou
essa cartada quando percebeu que você era igual a ele.
- Igual! - imitou Drue, torcendo a boca com desprezo. - Igual coisa nenhuma! Eu o venci!
E, erguendo o queixo, Drue esporeou o cavalo e se afastou. Turlock deixou-se ficar pensativo, os olhos úmidos de orgulho.
- Espero que sempre seja assim, meu Drue - murmurou. - Que você nunca conheça o sabor amargo da derrota!









CAPÍTULO IV


- Eu devia tê-lo matado! - murmurou Drue entre dentes, enquanto os cavalos cansados prosseguiam avançando devagar, as patas se enterrando no lamaçal.
- Volta inglória, esta - observou Turlock. - Mas, ainda assim, é uma volta. Melhor que ficar naquele inferno!
A indiferença do amigo quanto à sua maior preocupação irritou-a ainda mais. Repetiu bem alto:
- Eu devia tê-lo matado! Qualquer resgate jamais pagará os problemas que esse bastardo vai nos criar!
- Talvez ele nos crie problemas, concordo. Ainda assim, seu valor é alto. Já pensou que Connaught é o único prêmio que conseguimos em nosso infeliz cerco a
Bannockburn? A captura dele vai encher os canecos de Robert Bruce, que será obrigado a nos oferecer uma bela recompensa para devolvê-lo. Ânimo, Drue! Foi ótimo não
ter matado nosso irlandês!
Ela contemplou o "prêmio" por cima do ombro. Ferido e doente, o prisioneiro oscilava sobre a sela, aparentando indiferença a tudo. Mas seus olhos, duas chamas
azuis brilhando sob os cílios negros como carvão, estudavam-na com raiva tão grande quanto à dela mesma.
Mesmo exausto como estava, o intrépido irlandês mantinha os olhos fixos no seu jovem captor, fato que a incomodava um pouco. Estava evidente que o prisioneiro
odiava sua posição, e odiava ter sido vencido por um cavaleiro desconhecido e muito mais novo que ele. Drue não o censurava por isso, mas gostaria que ele desmaiasse.
Porque só assim poderia se ver livre daquelas duas faquinhas azuis que lhe perfuravam o pescoço e pareciam penetrar em fagulhas elétricas pelo seu corpo adentro.
- Já que ele é tão importante assim, Turlock, então me explique uma coisa. Como é que ninguém tentou nos atacar para pegá-lo de volta à força?
- Porque eles ainda estão contando os mortos e nem perceberam que Connaught não está presente. Quando perceberem, virão atrás de nós com certeza, mas a essa
altura já estaremos longe.
- Deus o ouça. No presente momento, a última coisa que desejo na vida é me bater com mais escoceses. Já tive minha cota anual, e chega!
Turlock soltou sua gargalhada tonitruante.
- Ora, quem diria! Nosso Drue não querendo lutar?! Essa é nova!
- Estou cansado, é só isso. Essa coisa de bater em retirada não está certo! Meus homens se descontrolaram, cheios de vergonha e medo de serem capturados. Tive
um trabalhão medonho para mantê-los em linha.
- Eu vi.
- E não foi me ajudar?!
- Não. Eu também estava enfrentando os mesmos problemas. Nessas horas, os soldados parecem ovelhas. Ê preciso tangê-los com a espada o tempo todo, senão se
espalham e entram em pânico.
A chuva recomeçou a cair, aborrecida e incomoda. Drue dobrou-se dentro da grande capa de couro, larga e sem mangas, praguejando contra o tempo inclemente que
só servia para atolar as carroças que comboiavam a retirada. Às vezes o atolamento era tão profundo que não havia como desencalhar os pesados veículos, e os víveres
se perdiam.
- Olhe ai, garoto - falou Turlock, indiferente ao fato de que o "garoto" agora era um Cavaleiro do Reino da Inglaterra -, se quer manter seu troféu de guerra
vivo, sugiro-lhe que lhe dispense um tratamento melhor. Morto, Connaught de nada nos servirá. Dê só uma olhada; o homem mal se mantém na sela.
Drue desmontou e tirou o cantil da cintura, mergulhando os pés na lama até os tornozelos. Quando chegou perto do irlandês, este conseguiu se aprumar e fitá-la,
mas as duas chamas azuis haviam perdido o brilho. Aceitou a água que Drue lhe oferecia, derramando mais do que conseguia beber. - Continuaremos nesse passo até cair
à noite - informou ela, tentando ignorar o breve tremor que suas palavras causaram no ferido - , porque temos de nos distanciar o mais possível de seu tio, Robert
Bruce.
Meio irritada consigo mesma, Drue montou de novo. Droga, para que dar explicações a um prisioneiro? De mais a mais, a culpa era toda dele. Não fora Connaught,
ninguém teria receio de ser perseguido pelos escoceses.
- Que dia dos demônios! - murmurou, irritada.
- Horrível - concedeu Turlock, que pingava água como calha de torre. - E que canseira, santos deuses! Já são dois dias inteiros de chuva e lama... É de arrasar
com a paciência de qualquer um. Meu rico e esbelto corpinho está pedindo por uma boa cama.
- O meu também.
- Mas nunca dê o braço a torcer, Drue. Não na frente de seus homens. Nós ainda temos o privilégio de ir a cavalo. Imagine esses pobres infelizes, a pé, enterrando
os coturnos de feltro nesse caldo nojento de pedra e lama.
- É, eu sei. Nunca esmoreça diante dos soldados, se não quer que eles esmoreçam também.
- Bonita frase. É sua?
- Não, bobalhão - riu Drue. - É sua!
- Mmf - grunhiu Turlock. - Que inteligência rara o mundo está perdendo!
- Por falar em esmorecer, ainda bem que Eduardo concordou em se disfarçar de peregrino.
- Por falar em esmorecer? Estou cheirando aí uma associação de idéias...
- E é mesmo - retrucou Drue.
- Tudo bem, mas não se esqueça que isso deve ficar somente entre nós.
- E Gaveston?
- Nosso almofadinha partiu numa padiola carregada por urna meia dúzia de lacaios. E o rei, naturalmente, seguiu logo atrás. No todo, o disfarce não estava mau.
Parecia mesmo um bando de peregrinos, daqueles bem supersticiosos, e imbecis.
- Bem, quando mais não seja, é uma preocupação a menos - comentou ela, voltando-se na sela para observar o irlandês. - No momento, minha maior preocupação é
esse infeliz.
Mas a voz morreu-lhe na garganta, porque de novo o olhar azul e penetrante parecia perfurá-la. Drue mal conteve uma exclamação contrariada. O maldito fervia
em febre e ainda assim mantinha aquele olhar insolente e atrevido!
A despeito das pragas e dos xingamentos com que mimoseava o cativo, Drue não podia deixar de admirá-lo. Só um guerreiro de muita fibra e valentia conseguiria
se manter sentado na sela, depois de ter perdido rios de sangue. O respeito travava batalha feroz com a animosidade que se instalara em seu coração desde o dia em
que Connaught aleijara Turlock. Na verdade, fora mil vezes mais fácil odiar Connaught enquanto este não passava de um nome.
Ela se virou de novo, e seu olhar encontrou o dele. Foi como se as gotas da chuva que caía se tornassem farpas elétricas, finas e dolorosas.
Drue jamais poderia imaginar que era ela a única coisa que mantinha vivo o prisioneiro. De fato, a visão do corpo do rapaz que tinha à frente, um corpo forte,
ágil e bem proporcionado, alimentava o ódio de Connaught. A cada sacudidela da montaria, a cada ferroada de dor que sentia, o irlandês jurava a si mesmo que acharia
um modo de fazer com que Drue pagasse caro. O fato de ter sido derrotado por um rapazola que parecia mal ter saído dos cueiros fazia seu sangue ferver. A manobra
que utilizara para atacar Drue fora à mesma que usara durante anos de luta. E sempre saíra vitorioso com ela.
Quando se vira acuado na clareira pelo atrevido rapazinho, Connaught planejara livrar-se logo dele, uma vez que seu real objetivo era capturar o rei. Contudo,
Drue se mostrara um oponente mais difícil do que a princípio supusera. Obrigara-o a usar a velha tática de baixar a guarda - e fora justamente aí que perdera a briga.
Se ao menos o insolente adolescente deixasse os ombros cair, se ao menos sua cabeça se curvasse de cansaço, Connaught se sentiria melhor. Mas não! Seu vencedor
mantinha-se como verdadeiro centauro, queixo altivo, parecendo jamais se abater. Isso era o que mais o desesperava. Connaught sentia que precisava também se manter
tão firme quanto aquele que o batera. Lutava bravamente contra a necessidade de dormir, contra as ondas de dor cruciante que lhe fustigavam o corpo, contra a continua
sensação de desmaio. Seus olhos febris fixavam-se obstinadamente nas costas eretas do rapaz, enquanto sua mente suplicava aos céus que mantivessem sua posição tão
reta quanto à do inimigo.
Uma nuvem negra toldou-lhe o cérebro. Connaught sacudiu a cabeça, firmando-se desesperadamente na sela. O quê! Então já era noite? Mas como, se minutos atrás
ainda era dia claro, apesar da chuva intensa? Quem sabe ele tivesse adormecido um pouco... Só um pouco, talvez... Certamente, pois a dor era tamanha e tão violenta
que... que...
Foi Turlock que correu e amparou o corpo de Connaught, que deslizava inconsciente para o chão lamacento.
- Eu bem que avisei, seu teimoso! - resmungava o velho urso, enquanto aplicava mais uma compressa no ombro do irlandês. - O homem estava nas últimas, a gente
podia sentir de longe. O ferimento foi profundo demais. Sorte que esse irlandês tem pescoço de touro! Por pouco você não fez com ele o mesmo que Robert Bruce fez
com nosso Henry de Bohun.
- Pois acho que estaríamos muito melhor se tivesse sido assim. Fomos obrigados a parar por causa desse maldito irlandês, e agora estamos ai, sujeitos ao ataque
de um bando de escoceses, sem falar que esta região está empestada de javalis.
- Ei, calma! Estamos com mais de cem homens para nos defender!
- Dos quais noventa estão feridos.
- E daí? Dez bons ingleses dão conta de javalis.
- Muito bonito! De javalis, concedo. E quanto aos escoceses?
- Eles não virão. Já penetramos fundo demais em território inglês, Drue. Estamos a apenas dois dias de Duxton!
- E daí? Esqueceu-se que foram os escoceses que sitiaram nosso castelo?
- Mas agora seu pai tem vigias espalhados nos quatro cantos de Duxton. Não há chance de os escoceses entrarem nas terras do duque sem serem detectados e forçados
a recuar. Tenha calma, garoto. Estamos em segurança. E com um pouco de sorte, seu precioso troféu de caça viverá o bastante para nos dar uma bela soma em ouro.
Drue encarou o doente com irritação. Connaught era como sal colocado numa chaga aberta, um inseto aborrecido que não cessava de voejar à sua volta. E agora era
forçada a cuidar do homem até que ele ficasse bom de saúde!
- Por que é que ele não pára de se bater, maldito seja?
- Porque está inconsciente e tem febre. Demônios, Drue, você está uma pilha de nervos!
- Não tenho vocação para enfermeiro. Nem para babá.
- Pois trate de arrumar logo esses talentos, meu velho, porque agora você tem a obrigação de velar pela vida de seu prisioneiro. As regras da boa cavalaria
são imutáveis, e foi você quem quis ser sagrado cavaleiro. Poupou o homem para receber o resgate; agora precisa cuidar dele como se fosse de sua família.
- Fui burro! Burro! Burro! - gritou ela, batendo com a cabeça na trave da tenda.
- Até que nem tanto - provocou Turlock. - Olhe só que belo espécime da raça humana você poupou! Esse irlandês nasceu para ser um dos maiores guerreiros da cristandade.
Seria uma pena se ele morresse em suas mãos, não acha?
- Belo espécime da raça... Chega, Turlock! - berrou ela, vermelha até a raiz dos cabelos. - Como consegue falar tanta bobagem de uma só vez?
Na verdade, Drue ficara vermelha porque realmente concordava com Turlock. Para seu imenso desgosto. O gigante soltou uma gargalhada formidável.
- Ei! Não é preciso ficar tão bravo, rapaz! Eu só estava pensando em voz alta. Aliás, para ser honesto, durante nossa cavalgada fiquei imaginando como é que
me portaria caso estivesse ferido como esse irlandês. Será que eu agüentaria tão bem quanto ele?
- Chega, Turlock, chega! Você está me irritando.
- O pior cego é quem não quer ver.
- Ora, vá para o diabo! Você hoje está impossível. Drue pôs-se a passear de cá para lá, louca da vida, porque não podia deixar de dar razão ao velho amigo.
- Seu doente está pronto para a cauterização - anunciou Turlock, erguendo-se para ceder o lugar a Drue. - Eu, como não gosto de sangue, vou dar uma voltinha
por aí.
Qualquer outra pessoa teria urrado de dor. Ou desmaiado. Ou mesmo morrido. Mas não o maldito irlandês! Esse apertara os lábios e agüentara a dor da cauterização
como se estivesse sendo acariciado por uma fada, que a praga o levasse deste mundo!
Drue já tinha grande experiência nesse tratamento, longo e doloroso. Cauterizara inúmeras feridas, e acostumara-se a ver homens barbados chorarem como bebezinhos.
Quando terminou, deixou-se cair exausta ao lado da cama de campanha; fechando os olhos. Era alivio ou cansado o que sentia? Não sabia dizê-lo. Mas sabia que, mesmo
de olhos fechados, ainda via os olhos, os lábios, a expressão determinada do valente irlandês. Instintivamente Drue soube que nunca mais se esqueceria daquelas
feições resolutas e orgulhosas. O rosto de Connaugth gravara-se em marca indelével na sua mente, para o resto da vida. Quando ergueu a cabeça os olhos azuis fitavam-na
cheios de dor. Ele moveu os lábios, num esforço para falar. Drue aguardou pela torrente de pragas e palavrões que se acostumara a ouvir depois das cauterizações
que fazia.
- Obrigado.
A extrema simplicidade da palavra causou-lhe mil vezes mais impacto que qualquer outra, drenando todo o ódio de seu coração. Instintivamente, pousou a mão no
largo peito do irlandês, e sentiu sob os dedos seu coração batendo forte e regularmente.
- Não tem nada que agradecer - cortou ela, seca. - Morto, você não teria o mínimo valor para nós.
- Não estou agradecendo por ter salvo minha vida, mas por ter me dado a chance de voltar a lutar.
Um par de olhos dourados cravou-se nele, com desconfiança.
- Do jeito como estava a ferida, em pouco tempo ela se arruinaria, e certamente isso me faria perder o braço. Oh, há muitos guerreiros que lutam com um braço
só, mas eu nunca mais seria o mesmo.
Com gentileza, Connaught pousou a mão febril sobre a de Drue. O calor do toque fluiu para o corpo dela, aninhando-se no fundo do coração. Tomada de súbita fraqueza,
Drue não teve ânimo de se levantar. Deixou-se ficar ao lado de Connaught, agudamente consciente da tensão que se criara na tenda.
- Depois que pagarem seu resgate, milorde, você voltará ao campo de batalha. E, para minha alegria, perderá novamente de mim em outra disputa.
Uma onda de excitamento varreu-a de alto a baixo. Drue conhecia muito bem esse estado de ânimo; era o mesmo que sentia quando chegava às vésperas de uma batalha.
Apenas não conseguia compreender porque ficava desse jeito perto do irlandês. Também não compreendia como podia se alegrar com a idéia de vê-lo lutando de novo;
certamente isso devia-se ao prazer antecipado de vencê-lo mais uma vez.
Quando se ergueu a fim de recolher os lençóis sujos, Drue sentiu os joelhos fracos, o que atribuiu ao cansaço. Caminhou vagarosamente para fora e dirigiu-se
ao grande caldeirão de água fervente, onde jogou as peças de roupa. Olhou distraída para suas mãos sujas de sangue. O sangue de Connaught parecia vivo e brilhante
à luz bruxuleante da fogueira. E um par de olhos azuis dançavam no meio das chamas. Demônios! Odiara aquele homem por tanto tempo, e agora que o tinha à sua mercê,
descobria que o admirava com a mesma intensidade.
Era uma fraqueza intolerável de sua parte, decidiu. Mas por que maldição ele tinha de ser tão corajoso? Por que não gritara de dor quando fora cauterizado? E
por que ele tinha de ser tão diabolicamente bonito, com aquele par de olhos iguais a um lago tranqüilo? Sobretudo, por que não conseguia mais odiá-lo com a mesma
gana de antes?
Era como se o sangue dele tivesse penetrado em seu coração, amaciando-o. Furiosa, Drue limpou e esfregou as mãos, mas em vão. O sangue de Connaught parecia indelevelmente
impresso em sua alma.
A convalescença foi lenta e gradual. Com muita obstinação, Connaught conseguira se restabelecer com relativa rapidez, mas tentava prolongar o mais possível a
estada dos ingleses naquelas paragens; quanto mais se demorassem, maiores seriam suas chances de ser encontrado. Ou de fugir. - Não agüento mais ficar aqui! - exclamou
Drue, andando de cá para lá na tenda. - Você já foi mimado demais. Agora chega, está ouvindo? Vamos partir amanhã de madrugada.
- Seu amigo Turlock não vai gostar muito - comentou Connaught cruzando placidamente os braços atrás da cabeça. - Você prometeu que ficaria aqui até que ele
voltasse.
- Isso não é de sua conta.
Os raios do sol entravam em jorros generosos na tenda, como que se desculpando dos dias chuvosos, e faziam um ninho brilhante de fios dourados na cabeça de Drue.
Como em todas as coisas daquele estranho rapazinho, também seus cabelos eram diferentes. Não eram castanhos, nem loiros, nem brancos - formavam uma estranha mistura
dos três. Lembravam o mel recém-colhido do favo, e tinham o mesmo tom da pele. O queixo de Drue era quadrado e resoluto, enquanto seus dentes eram absolutamente
perfeitos - coisa rara num guerreiro. Por outro lado, o modo como Drue andava lembrava a Connaught o passo macio de uma pantera, elástico e ágil.
Por trás dos cílios negros, Connaught estudava-a com o canto dos olhos. Diabos! Como fora perder de uma criança como aquela? Pois se ele ainda nem barba possuía!
Quantos anos teria ele? Quinze? Talvez menos, quatorze! Era muita humilhação. O que mais enfurecia Connaught, contudo, era o fato de não conseguir despregar os olhos
do jovem guerreiro. Sentia-se estranhamente fascinado por ele. Mas consolava-se ante a idéia de que essa fascinação inesperada e indesejável se devia ao seu estado
de fraqueza.
- Trate de dormir - ordenou ela, com rudeza. - Vamos cavalgar por muito tempo.
- Tem nada não - ele concordou jovialmente, - Posso dormir sentado na sela.
- Claro que sim, mas não é sempre que Turlock está por perto para ampará-lo.
Connaught ficou vermelho como um tomate. Aquele filhote de lobo vivia lembrando-lhe sua maior vergonha - o humilhante desmaio que sofrera. Fora carregado como
um saco de batatas até aquela cama, de onde só conseguia sair para fazer suas necessidades. Irritado com a lembrança, o irlandês puxou o lençol e virou-se para o
canto.
- Que mil pragas o levem daqui! - rosnou.
- Obrigado, da mesma forma - volveu Drue, amigavelmente.
Connaught atirou longe o lençol e se pôs de pé num salto.
- Aquilo nunca me aconteceu antes, está sabendo? - rugiu, fremente de indignação.
- Ora, sempre há a primeira vez para tudo. Até para sir Connaught ter um chilique. E ser derrotado.
Para surpresa de Drue, Connaught soltou uma risada.
- Que foi? - indagou ela, irritada. - Acho que a febre cozinhou seus miolos.
- Nada disso, meu caro. É que você disse uma coisa sensata: há a primeira vez para tudo. Certamente haverá a primeira vez para você também, e eu fiquei contente
com essa idéia. Porque, sir Andrew Duxton, juro-lhe que estarei perto para vê-lo derrotado.
Drue deu um passo e abriu as pernas, postando-se em atitude desafiadora diante do irlandês. Este era mais alto e largo, no entanto ela não duvidava da força
dos próprios músculos.
- Ora, ora! - fez ela, irônica. - O doentinho já está pensando em me atacar?
- Não. Só quero que paguem meu resgate, para me ver livre daqui.
- Resgate! - cuspiu ela, com desprezo. - Turlock deixou este acampamento há dias, exatamente para apresentar nossas exigências a Robert Bruce, seu bem-amado
tiozinho. E pelo visto ele gosta de você tanto quanto eu.
- Então por que poupou minha vida? Eu estava pronto para morrer naquela clareira.
Drue se esqueceu por completo dos olhos azuis, dos cabelos negros, da coragem do irlandês. Naquele momento, seu coração sentia a velha e conhecida raiva que
vinha alimentando havia anos.
- Muito simples - disparou, os olhos cheios de veneno - , poupei sua vida porque queria que você pagasse com humilhação o que fez a meu amigo Turlock.
- Turlock?! Aquele velhote simpático que cuidou de mim.
- Dobre a língua! - gritou ela, enrubescendo de indignação. - Turlock é o maior guerreiro vivo do mundo cristão, fique sabendo! Pelo menos era, até você aparecer
com aquele truque sujo e traiçoeiro!
O rosto de Connaught ficou branco.
- Sou um lutador honrado! Não uso truques!
- Ha! Ainda por cima, mentiroso!
Connaught segurou-a pelo braço, mas Drue revidou com um soco potente, que o atingiu no ombro ferido. Com um gemido abafado, o irlandês desabou sobre a cama,
contorcendo-se com a dor pungente.
Desconcertada, Drue vacilou. A última coisa que faria no mundo seria atacar um homem ferido; contudo, o maldito irlandês estava sempre despertando nela alguma
coisa de estranho, que a compelia a atos impulsivos.
Finalmente, ajoelhou-se ao lado da cama e desamarrou os pensos da ferida, sentindo-se uma verdadeira imbecil.
- Sossegue, o ferimento não reabriu. Não vou ter o prazer de cauterizá-lo novamente.
O rosto de Connaught ficou quase cinzento, tamanha a dor que sentia. Drue sentiu uma ponta de remorso pela maneira brutal como revidara. Na verdade, ela reagira
contra uma estranha sensação de moleza e doçura que invadira seu corpo no momento em que ele a segurara pelo braço.
Por outro lado, era a Connaught que ela devia sua grande reputação. Por tê-lo capturado e vencido, Drue era o guerreiro mais respeitado da região, e tinha perfeita
consciência disso. Tudo porque Connaught era igualmente conhecido como excelente lutador.
Pela décima vez, ela se perguntou por que não fora negociar o resgate do irlandês em lugar de Turlock. A proximidade com aquele homem transformara-se numa fonte
de confusão em sua mente; ora o admirava, ora o odiava.
Em silêncio, tirou um lenço do bolso e limpou as gotas de suor que escorriam do rosto de Connaught. O olhar dele, como de costume, cravou-se no dela, sustentando-o
enquanto mergulhava em sua alma, sondando, minando-lhe as defesas. Para Drue, o mais assustador era ver-se, pela primeira vez na vida, desejosa de compartilhar seus
próprios pensamentos com alguém que não fosse Turlock.
Foi nesse momento que ela percebeu a tremenda ameaça que o irlandês representava para seu sossego. Com a expressão fechada, Drue se ergueu e deixou a tenda,
disposta a não pensar mais em Connaught.
Turlock exibia um largo sorriso. Com um suspiro satisfeito, parou em frente da tenda que dividia com Drue e o cativo.
- Os escoceses vão pagar o que quisermos para ter Connaught de volta, Drue. No começo, ninguém queria me receber. Bastou eu pronunciar o sagrado nome do irlandês,
e já estavam todos me cercando, fazendo mil perguntas. Jamie Douglas mostrou-se particularmente interessado, imagine só. E quando seu pai percebeu o tesouro que
tinha nas mãos, nem pestanejou e mencionou o triplo da quantia que havíamos planejado. Para encurtar a história, vamos receber, além do ouro, mais dez cavaleiros
ingleses em troca de nosso Connaught. Um negócio da China, foi esse que fizemos! Drue soltou uma gargalhada sonora.
- Dizem que os escoceses são sovinas, mas acho que você está levando a palma! Olhe só para você, entusiasmado como um bebê de brinquedo novo!
- E com razão, ora esta. Acabo de descobrir que sei fazer mais alguma coisa além de lutar: sei negociar, e bem. Porque, meu caro Drue, por mais que eu não queira
admitir, está na hora de eu deixar as armas. Não consigo mais ficar horas e horas em cima de um cavalo, essa é que é a verdade.
- Bobagem! - protestou ela, com veemência. - Temos ainda muitas guerras pela frente, Turlock.
- Sim, muitas - respondeu ele, risonho -, e todas vitoriosas, com certeza! Mas também terei algumas vitórias na mesa de negociações, como desta vez. Menino,
os escoceses estão doidos para ter Connaught de volta!
Enxugando o suor, o gigante desabou sobre um banquinho de três pernas, quase desconjuntando-o com sua massa colossal.
- Cá entre nós, acabamos saindo vitoriosos com nossa derrota. Que irônico, hein? Vamos receber dos escoceses mais do que eles ganharam quando nos venceram.
Êta, situação boa!
- Gosto de saber que sua missão deu certo - falou Connaught, de dentro da tenda.
Drue e Turlock se ergueram e entraram.
- Pensei que estivesse dormindo - falou Turlock. - E sim, nossa missão parece que foi muito boa. Ainda assim, fiquei impressionado com a rapidez com que eles
aceitaram nossas condições. Você deve valer muito para eles.
- Não mais que você vale para os ingleses. Ouvi muitas lendas sobre o grande Turlock, inclusive que deram um castelo em troca de seu resgate.
- Verdade, verdade - concedeu o gigante, apoiando as mãos na barriga. - Mas isso foi há muito tempo, quando eu era paladino do rei.
- Você não é mais o campeão da coroa?
- Não. O título agora foi passado para Piers Gaveston. Connaught soltou uma gargalhada irreverente.
- O quê!? Gaveston, campeão da coroa?
- Ele é um soldado leal e valente - defendeu Drue, empertigando o corpo.
Mas o irlandês respondeu com outra risada sonora, o que a irritou profundamente. Ele era prisioneiro e não tinha nada que estar caçoando do povo que o capturara.
Mas lá estava ele, rindo e tomando parte na conversa como se fosse direito seu. Por mais que se sentisse provocada, porém, Drue gostou de ouvi-lo rir. Era um riso
cristalino, quase melodioso.
Turlock bateu com a mão na testa.
- Céus, essa minha cabeça! Estou ficando velho mesmo - resmungou, enquanto procurava nas dobras da túnica. - Olhe aí, tenho mensagens para os dois!
Dizendo isso, entregou um envelope para cada um.
- É uma carta de Garith! - exclamou Drue.
O irmão lhe dava os parabéns pela captura de Connaught e pelo título de cavaleiro. Contava algumas histórias da corte e terminava dizendo que estava cuidando
com carinho dos bens e propriedades de Drue.
Ela abriu um sorriso complacente quando leu a extensa lista de propriedades em seu nome, e havia crescido consideravelmente desde que se armara cavaleiro do
reino. A lista ficaria maior ainda com o resgate de Connaught.
- Você também, Connaught, parece contente com as notícias que recebeu? - perguntou Turlock.
- É verdade. Minha mulher acaba de me presentear com outro filho.
- Ora, ora! - sorriu o gigante, coçando a barba. - Pois meus parabéns, homem de Deus.
- Obrigado.
- Eu vou dar uma volta lá fora - anunciou Turlock.
- Volto daqui a pouco.
Drue, ao ouvir sobre o filho de Connaught, pensou que tinha sido atingida no peito, tamanho o choque que sentiu. Era uma reação estranha, muito próxima da dor
física, que a assustou pela intensidade. Baixou os olhos para que Connaught não os visse e comentou com voz neutra:
- Não sabia que você era casado.
Que frase mais tola, santo Deus! Claro que Connaught, só podia ser casado. Era um membro importante da família de Bruce, e certamente precisava de herdeiros.
- Já faz algum tempo que sou. Na verdade, Enid e eu tivemos nosso casamento arranjado quando ainda éramos crianças. Mas só vim a conhecê-la nas vésperas do
casamento. É mais ou menos como o seu caso, certamente.
- Eu?! - fez Drue, indignada. - Nunca! Meu irmão Garith é que tem casamento arranjado, pois ele é herdeiro de nossa casa, E, sendo assim, tem obrigação de também
produzir herdeiros. Eu, de minha parte, só tenho obrigações com minha espada.
Mas a curiosidade de Connaught fora espicaçada.
- Você deve ter propriedades. E, como sabe, elas serão devolvidas à coroa, caso não haja herdeiros.
- Meu irmão é meu herdeiro. E não, nada de filhos. Mulheres não me interessam.
O irlandês procurou disfarçar o espanto. Drue, contudo, achou que respondera bem, pois não mentira. Ela realmente não se interessava por mulheres, e isso era
um fato. As poucas que vira pareceram-lhe bobas e afetadas; estavam sempre falando alto e rindo à toa. Jamais trocaria as armas pela monotonia de um castelo, porque,
em seu íntimo, Drue era um soldado perfeito. Sabia que não podia se casar com uma mulher, uma vez que ela mesma era mulher; contudo, julgava-se homem e aprendera
a agir como homem desde a mais tenra infância. Lutara com tanta eficiência contra a idéia de ser mulher, que acabara se convencendo que conseguiria enganar todo
o mundo durante a vida inteira. Mas o tempo se encarregaria de mostrar-lhe que estava totalmente enganada.
Connaught digeriu com dificuldade as palavras de Drue. Lembrou-se da breve impressão de fragilidade e feminilidade que ela lhe passara no momento em que cauterizara
sua ferida, e da espécie de vergonha que sentira quando as mãos dela transmitiram fogo em suas veias.
Com o canto dos olhos, estudou atentamente o semblante de Drue. Era um rosto voluntarioso e firme, sem qualquer traço de fraqueza; o rosto de alguém acostumado
à vida dura do acampamento, o rosto de uma pessoa satisfeita com a vida. Mas havia uma luz diferente nos olhos dourados... Não, não. Ele é que estava vendo coisas!
Algo inquieto, Connaught se perguntou por que não contara a Drue que era casado. Tivera inúmeras oportunidades de fazê-lo; ambos haviam conversado bastante,
jogado xadrez e discutido estratégias de combate. Sacudiu a cabeça, lançando a pergunta para as profundezas do esquecimento.
- Tenho três filhos - falou, com orgulho. - Pairick o mais velho. Ele será um dia o conde de Connaught.
- Então seu primeiro nome é Pairick?
- Exato. Mas só minha velha ama e minha mãe me chamam assim. Você, se quiser ser meu amigo, pode me chamar de Connaught.
- Não sou seu amigo, sou seu captor. Você é meu prisioneiro.
- É, eu vivo me esquecendo disso. Talvez seja porque tenho sido bem tratado.
- Eu poderia ser muito mais rigoroso com você, se quisesse. Todos os outros prisioneiros que fizemos em Bannockburn andam com correntes nas pernas. Se começar
a me provocar, ponho-lhe uma corrente no pescoço e faço-o dançar como um urso domesticado, desses que vemos nas feiras.
- Urso sim. Domesticado, nunca.
- Pode ser. De qualquer modo, tenho de admitir que você se porta como um prisioneiro exemplar. Gostaria que os escoceses que temos aqui fossem assim educados.
- O quê? Eu não sabia que há escoceses aqui - comentou Connaught, os olhos espelhando inocência.
- Uns poucos. A sorte deles é que você não agüentou ,a viagem; a parada forçada salvou-lhes a vida, porque estavam muito feridos.
- Posso falar com eles?
- Não senhor! Basta-lhe saber que estão sendo bem tratados.
Nesse momento, Turlock entrou com uma bandeja, onde se equilibravam perigosamente uma garrafa e três taças cheias de vinho.
- Peguem depressa, senão derrubo tudo! - riu ele. -Vamos beber à saúde do bebê Connaught!
- Que ele viva em prosperidade! - juntou Drue, erguendo a taça. - E seja inteligente o suficiente para jamais atravessar as fronteiras da Inglaterra.
- Tem medo de meu filho? - provocou Connaught, os olhos azuis brilhando intensamente.
- Não tenho medo de ninguém. Mas você sozinho me deu um trabalho dos demônios. Não quero me bater com ninguém de seu sangue, quando estiver velho e acabado.
- Saúde! - gritou Turlock, risonho. - Tem razão, Drue. Um Connaught só já é demais em nossas vidas!
- Vocês me deixam constrangido com esses elogios - gracejou o irlandês. - Saúde! Que eu encontre meu filho antes que ele se veja forçado a vir me livrar de
vocês!
- Quanto a isso, não se preocupe - cortou Drue. - Garanto que queremos vê-lo pelas costas tanto quanto sua mulher quer vê-lo de frente.
Turlock encheu novamente os copos e pôs-se a tagarelar, nenhum dos dois percebendo o repentino silêncio de Drue. De pé, bebericando o vinho, ela se perguntava
por que se sentia infeliz. Na realidade, suas palavras lhe soaram ocas e falsas; não queria ver Connaught pelas costas coisa nenhuma. O irlandês era um bom companheiro,
leal e sincero. Chegou até a sentir remorso por ter recusado a oferta de amizade do prisioneiro.
Seria bom ser amiga de Connaught ou não? Observou as mãos bem talhadas, que se erguiam no ar para acompanhar as palavras. Eram morenas, bonitas, quentes. O corpo
inteiro do irlandês era assim, decidiu, já meio entontecida pela bebida.
E ele era corajoso! Aí estava a qualidade que ela mais admirava. Contudo, entre ela e o prisioneiro havia um abismo enorme. Não só pelo fato óbvio de lutarem
em campos opostos; Drue sentia que Connaught possuía uma força que seria capaz de destruí-la, caso assim quisesse.
"Não, não e não! Esse homem não tem poder nenhum sobre mim. Eu é que tenho sobre ele, pois é meu prisioneiro."
Mas, de algum modo obscuro, Drue percebia que nunca mais se libertaria da lembrança de Connaught. Mesmo que ele se fosse, algum dia, em algum lugar, um cavaleiro
qualquer faria um gesto que lhe traria a recordação do irlandês. Um irlandês que fazia seu sangue correr mais depressa nas veias, para seu desgosto e inquietação.
Praguejando contra o vinho que a fizera alimentar pensamentos tão malucos, atirou os restos da bebida no fogo e, sem dizer boa noite, retirou-se para o canto
mais escuro da tenda.

































CAPÍTULO V


Turlock e Drue haviam chegado à conclusão que seria melhor manter o ilustre prisioneiro na tenda principal, devido ao grave ferimento, que exigia cuidados constantes,
e também porque Connaught poderia tentar fugir. Planejavam chegar ao velho castelo de Duxton no dia seguinte. Desde o ataque sofrido pelos escoceses, quando morrera
a mãe de Drue, o castelo nunca fora reconstruído; restavam a torre principal e parte das muralhas, com o grande pátio interno. Naquela noite, o vento uivava enfurecido,
chicoteando as árvores, partindo galhos e varrendo folhas em rodamoinhos. A tenda inchava, parecendo querer alçar vôo, para em seguida murchar em panos drapejantes,
batidos contra as estacas. Turlock acordou e saiu para inspecionar as demais barracas, menos sólidas, e para acalmar os ânimos dos supersticiosos soldados.
Drue, acostumada à fúria da natureza, dormia sossegada. Súbito, um grito arrancou-a do sono profundo, fazendo-a sentar-se na cama. Como que respondendo aos gemidos
da tempestade que se avizinhava, Connaught se lamentava e gritava, perdido num sonho agitado, lutando contra batalhas desconhecidas e inimigos invisíveis. Sem compreender
direito o que se passava, estremunhada e zonza, Drue arrastou automaticamente sua pequena cama, encostando-a à do irlandês, enquanto repetia como sonâmbula as frases
que tantas vezes dissera a Garith:
- Shh, maninho, calma. Eu estou aqui, do seu lado. Não precisa ter medo.
Ao mesmo tempo, Drue tentava se lembrar se no dia seguinte haveria batalha, se os soldados não acordariam com os gritos do irmão, se aquilo não seria considerado
de mau agouro. Quando, porém, se deitou bem perto de Connaught, seus sentidos se puseram agudamente alertas. Meu Deus, aquele não era Garith! Arregalou os olhos
dourados no escuro e, morta de medo de que o prisioneiro acordasse, Drue se dispôs a arrastar a cama de volta. Mas um gemido torturado paralisou-a.
Se antes ela achara que o simples toque das mãos de Connaught fora atordoante, agora a proximidade do corpo palpitante e quente era equivalente a ver-se atirada
de cabeça numa fogueira - ou metida numa armadura completa em pleno verão. Uma fraqueza brotou insidiosamente de seus membros, enquanto seus ossos pareciam se derreter.
Connaught soltou um brado agoniado e começou a se debater, atirando a cabeça de um lado para o outro. Drue segurou-o pelos ombros, murmurando palavras confortadoras,
acalmando-o gradualmente, até que finalmente ele relaxou, abrindo por breves instantes os olhos - duas chamazinhas azuis na escuridão -- sem tê-la reconhecido. Num
gesto de defesa instintiva, o irlandês se achegou ao corpo vibrante que lhe oferecia conforto, e finalmente deslizou para a abençoada calmaria de um sono tranqüilo.
Drue estava de pé ao primeiro clarão de aurora e atirou-se com vontade aos preparativos para a jornada até Duxton. Quando Connaught acordou, deu com uma pilha
de embrulhos e pacotes a um canto da tenda.
O prisioneiro de nada se lembrava; nem mesmo sabia que houvera uma tempestade à noite. Contudo, recordava-se de ter sonhado com Drue. Com os lábios de Drue,
falando palavras carinhosas. Os lábios de Drue... tão perto, céus, que chegavam a cheirar a mel.
Ele se virou na cama, esfregando os olhos com força, querendo apagar da mente essas lembranças perturbadoras. Mas até a cama parecia cheirar a mel. Ultimamente,
Connaught vinha associando Drue ao líquido dourado e doce - com demasiada freqüência, decidiu. Levantou-se devagar, irritado consigo mesmo, irritado com os ingleses,
irritado com o mundo. E principalmente com Drue, cuja presença timbrou em fingir ignorar. Ela, alheia à tempestade que ia dentro da cabeça do prisioneiro, ia e vinha
na tenda, arrumando os últimos fardos. E cada vez que passava perto, deixava um rastro de perfume de mel silvestre.
Connaught abafou uma exclamação desesperada e arrancou-se dali sem dizer bom dia. Correu ao riacho, livrou-se das roupas e mergulhou na água abençoadamente gelada,
estremecendo de alivio e prazer. Apanhando alguns seixos, esfregou-se furiosamente com eles pelo corpo todo, incluindo o couro cabeludo, como que querendo arrancar
da cabeça as imagens cruéis que teimavam em se aninhar ali sem cerimônia.
Pouco depois, mais revigorado e confiante, o corpo brilhando em pequeninas gotas iridescentes, saltou para a margem.
Um estalido de galho partido fê-lo voltar-se vivamente. Era Drue, que, assustada com a ausência do irlandês, correra à sua procura, com medo de que ele tivesse
tentado fugir. A moça já se habituara a ver os soldados despidos, pois estes, convencidos de que estavam diante de um rapazola, não se acanhavam de se desnudar à
sua frente. Por outro lado, todos achavam natural que ela não se exibisse pelada, uma vez que o próprio duque de Duxton e Garith tinham o mesmo hábito.
Desse modo, Drue estava habituada a ver a soldadesca pelada. Porém, à vista da estupenda virilidade de Connaught, a moça ficou quase sem fôlego. Era-lhe quase
impossível desviar os olhos daquele corpo magnífico, dos ombros quadrados e musculosos, do ventre liso, das pernas moldadas em aço. Drue sempre julgara que Garith
era o melhor exemplo que conhecia da raça masculina, mas agora via que se enganara redondamente.
Silenciosamente, Connaught deu-lhe as costas para apanhar as roupas. Enquanto ele se vestia, Drue aproveitou para contemplar com perversa curiosidade aquele
físico avassalador em sua masculinidade. Pequeninos calafrios percorriam-lhe o ventre em agulhas geladas, enquanto sua cabeça parecia mergulhada num caldeirão fervente.
Uma dor esquisita tomou conta de seu corpo, indo se alojar na boca do estômago.
A contragosto, Drue foi forçada a admitir que tivera muito sorte ao capturar Connaught. O corpo daquele homem era uma verdadeira máquina de guerra, feito para
semear a morte e a destruição entre inimigos. Calada, aborrecida consigo mesma, Drue tentou analisar as estranhas sensações que experimentava. Por que seu coração
batia daquele modo, tão alto que parecia ter um tambor dentro de si? Por que tremia? Por que tinha a boca seca?
Inveja - sentenciou, de si para si. Estava com inveja de Connaught, sem dúvida nenhuma.
O tempo que levou naquele exame não foi mais que alguns segundos, mas a ela pareceu séculos. E a nudez magnífica do irlandês ficaria impressa em sua retina para
sempre, ainda que ela não o desejasse.
- Escapou por pouco de minha espada, irlandês - comentou ela, com voz rouca. - Pensei que tivesse tentado fugir! Por que não me avisou que viria tomar banho?
- Você estava ocupado demais com os preparativos da viagem. Nem me passou pela cabeça que minha ausência poderia ser mal interpretada.
- Acabe de se vestir de uma vez. Vamos a Duxton daqui a pouco.
Connaught obedeceu em silêncio. Estava aturdido e confuso com a reação de seu corpo diante da figura alta e esbelta de Drue. Na realidade, o irlandês tivera
que travar uma luta insana contra a própria imaginação, pois julgara ter experimentado algo muito próximo do desejo físico. Por outro lado, Drue o fitara com uma
expressão esquisita, totalmente diferente e nova. Inveja, talvez. Connaught não ignorava que tinha um físico esplêndido, e estava acostumado a enfrentar olhares
ciumentos dos outros guerreiros.
O prisioneiro exalou profundamente, inspirando em seguida o ar fresco da manhã. Fazia muito tempo que não saciava a carne nos braços de uma mulher, e certamente
isso não lhe estava ajudando em nada. Lembrou-se do amigo Jamie Brown, que costumava dizer, entre gargalhadas:
- Depois de uma guerra especialmente longa, meu caro, até pernas de mesa são atraentes aos olhos de um soldado. Imagine agora um escudeirinho jovem, apetitoso
e bem nutrido de carnes... No fim da guerra, ele se transforma na mulher mais bonita do universo, garanto-lhe!
Mas isso jamais acontecera com Connaught. Até aquele momento, pelos deuses do Olimpo!
Ver o velho e querido castelo foi um bálsamo para Drue. As lembranças se atropelavam em sua mente, à medida que se aproximava, ladeada por Turlock e Connaught.
Devagar, atravessaram o grande fosso pela ponte levadiça, rumo à secular torre, Drue falando pelos cotovelos, descrevendo com entusiasmo como era o castelo antes
do sítio escocês.
No pátio interno, diante do imenso salão principal, estava fresco e agradável. Um javali estava sendo assado no momento, e seu perfume se espalhava pelo ar,
acentuando o apetite dos recém-chegados.
- Isso é obra sua, Turlock? - indagou Drue, apontando para o espeto.
- Não senhor, juro! Mas é uma visão do paraíso, para meus pobres olhos famintos.
- E para meu nariz?. - interveio Connaught, risonho. -Que cheirinho bom, céus!
Os dois homens riram alegremente, enquanto Drue sentia uma inexplicável e incomoda pontinha de ciúme.
- Drue! - grilou uma voz do alto da Torre. - Bem-
vindo, meu querido irmão!
- Garith! - bradou ela, erguendo a vista para a estreita janela. - Cadê você?
- Suba, vamos!
Ela desmontou rapidamente e entrou, subindo os gastos degraus de quatro em quatro.
- Garith! - exclamou, contente. - Como diabos está aqui?
- Fácil, maninho. Aonde mais você iria trazer seu precioso irlandês? Ao nosso velho e querido Duxton! Os outros castelos são luxuosos demais para seu gosto...
E veja só como acertei! Mas vamos descer, vamos celebrar nosso encontro. Quero conhecer esse ilustre prisioneiro... Menino, que fofocagem deu na corte! Ninguém fala
em outra coisa, sabia?
Drue, que se achava no meio da escada com Garith, voltou a vista para Connaught, que entrava com Turlock. Os olhos azuis do irlandês brilhavam como pequeninos
vaga-lumes na semi-obscuridade.
- Não é de admirar. Na corte, pouco mais se faz que fofocar! Enfim, aí está ele, o meu troféu, como diz Turlock.
Connaught dirigiu-se a Turlock, ligeiramente espantado:
- Drue nunca me contou que tinha um irmão gêmeo.
- Como, gêmeo? Ora, há um ano inteirinho de diferença entre os dois!
- Pois não parece. Os dois são como um par de gotas de chuva, de tão iguais.
- A frase não é essa - volveu Turlock. - Lady Duxton costumava dizer "parecidos como duas ervilhas na vagem".
- Mas... que idade têm eles, afinal?
- Garith está chegando aos vinte e um.
Connaught ficou desnorteado.
- Como! Eu pensei que Drue fosse um adolescente ainda!
- Sim, ambos aparentam menos idade do que têm.
- Mas... mas nenhum dos dois tem barba!?
- Caprichos da natureza, meu caro. Nem por isso são menos corajosos. E Garith já tem casamento marcado, praza Deus!
Turlock alçou a vista para apreciar os dois prediletos. De fato, eram quase iguais, embora a vantagem em altura e peso ficasse com Drue. Na realidade, Drue parecia
dez vezes mais guerreiro que Garith, cujo físico não se desenvolvera muito.
- São meus dois amores - falou o gigante, comovido e orgulhoso. - Dois campeões da espada, também.
Turlock balançou a cabeça e coçou o queixo grisalho, perdido em reminiscências.
- Quando Lady Duxton morreu, nós levamos esses pirralhos para o acampamento de guerra. Garith também havia apanhado a peste, eu me lembro bem - mas conseguiu
se recuperar, ora graças.
- Garith - a voz de Drue cortou bruscamente as lembranças de Turlock -, apresento-lhe meu prisioneiro Patrick, conde de Connaught.
O irlandês se adiantou e curvou a cabeça, enquanto avaliava Garith rapidamente. Nem ele nem Drue tinham herdado a compleição robusta e portentosa do duque, mas
Drue ganhara em agilidade e força. Garith era bem diferente de Drue; tinha modos e gestos de um cortesão bem educado, e em seus olhos não brilhava a chama cortante
e belicosa de um cavaleiro.
- Talvez você me ajude a convencer meu irmão a deixar a corte - disse Drue. - Não é muito melhor viver no acampamento?
Connaught soltou uma risada alegre.
- Esquece-se que sou seu prisioneiro? Não posso fazer propaganda de meu modo de vida, uma vez que ele é forçado. Além do mais, sou de opinião que a escolha
de seu irmão foi mais que acertada. Ele me parece muito satisfeito com a vida, da mesma forma que você.
Drue fechou a cara, magoada. Não era essa a resposta que esperava ouvir do valente prisioneiro. Para ela, Garith representava uma parte preciosa de sua vida,
da qual fora separada bruscamente; seus únicos amigos eram Turlock e o irmão. Agora sentia um vazio intolerável no lugar de Garith. E logo outro vazio aconteceria
em sua vida - quando Connaught fosse devolvido aos ingleses. Um vazio que, com esmagadora certeza, sabia que jamais seria preenchido.
Mas Garith gostou do que ouviu e esticou a mão, sorrindo amistosamente. Uma camaradagem quase instantânea se estabeleceu entre os dois, e Drue se viu reduzida
ao silêncio enquanto os dois papagueavam alegremente.
Horas mais tarde, ela conseguiu ficar a sós com o irmão e reprovou-o duramente:
- Como consegue tratar tão bem o homem que aleijou Turlock? E com um golpe baixo, ainda por cima?
- Pelas histórias que circularam por aí, você se aproveitou desse golpe para vencê-lo. Turlock tinha muita experiência quando se defrontou com o irlandês, maninho.
Se não foi rápido o suficiente, a culpa não é de Connaught.
- Foi Turlock quem me ensinou a resposta a esse golpe, não se esqueça, Garith. Não fosse ele, hoje eu estaria comendo grama pela raiz.
- Mas não está. Ao contrário, está muito vivo e bem nutrido, pelo que vejo. Você tem em mãos o guerreiro mais importante de Bruce, e sua reputação sobe a cada
dia. Já ouvi sua história cantada por milhares de trovadores, Drue. Todas as poesias e músicas falam de sua coragem e esperteza... E eu, maninho, sou o irmão mais
orgulhoso deste mundo.
Drue sentiu um nó na garganta. Raramente se faziam elogios num acampamento de guerra, e o que Garith lhe dizia enchia seu coração de alegria.
- Obrigado, Garith.
Do outro lado da sala, o vozeirão de Turlock se fez ouvir:
- Ei, vocês dois aí, que é que estão cochichando? Parecem duas crocheteiras! Venha cá, Drue, vamos conversar um pouco. Este vinho está excelente!
Ela obedeceu, aboletando-se ao lado da mesa, próximo à lareira. Connaught, que esculpia habilidosamente num pedacinho de madeira, fez uma pausa no trabalho e
mergulhou os olhos nos cabelos dourados, iluminados pelas chamas.
Cabelos de mel - pensou, sombriamente. E, com raiva, atacou o indefeso toco de madeira, tirando-lhe grandes lascas. Como prisioneiro, Connaught não tinha direito
a portar arma de espécie nenhuma, mas Drue achara que aquela faquinha indefesa não acarretaria problemas a ninguém.
- Você é um homem de muitos talentos - comentou ela, acompanhando fascinada o trabalho. - Que pretende fazer?
Os dedos fortes e largos do irlandês seguravam com surpreendente delicadeza a pequena peça.
- Um cavalinho para meu caçula. É uma coisa que sempre gostei de fazer, esculpir em madeira.
- Tem algum outro talento escondido? - perguntou ela, não escondendo a ironia.
- Talvez, alguns - revidou ele, no mesmo tom. - Gosto de ter meus segredos. -
-- Pois eu me orgulho de não ter nenhum. Gosto de ser como sou.
- Não gostaria de estar no lugar de seu irmão?
- Nunca. Detesto essa coisa de sombra e água fresca, e não faço a mínima questão de ter um teto sobre a cabeça. Não fosse por você, eu não estaria aqui.
- É, eu já ouvi isso antes - sorriu ele.
Mas Drue não retribuiu o sorriso. Virou-se para o fogo, apoiando o queixo nas mãos.
- O fato de ser diferente de seu irmão não o aborrece nem um pouco?
Ela se voltou vivamente, encarando-o com ar desconfiado. Sim, incomodava-a demais ser diferente de Garith. Mas isso não era da conta desse arrogante! Além do
mais, a expressão compreensiva do cativo não a agradou. Que é que ele havia compreendido? Teria ele desconfiado de sua verdadeira identidade?
- Admito que eu deva me preocupar um pouco mais com minhas propriedades - disse, por fim, disfarçando a inquietação que os olhos penetrantes de Connaught lhe
causavam. - Elas são um peso a mais que jogo nos ombros de Garith. Afinal, meu irmão vai se casar, ter filhos e outras responsabilidades.
- Não concordo, milorde. Você e seu irmão se completam, cada um na sua especialidade. Você fica na guerra, enquanto ele cuida das propriedades - nada mais adequado.
Desse modo, Garith nunca será feito prisioneiro, nunca se verá no meio de inimigos, sonhando com a volta que talvez jamais aconteça...
Havia um toque nostálgico no tom, que a fez adivinhar que Connaught pensava em si mesmo.
- O melhor presente que pode dar a seu irmão é continuar o que é - um dos melhores cavaleiros do reino, pronto a representá-lo no campo, quando preciso. Ele,
de seu lado, fica com as galanterias da corte e com as propriedades.
Drue sentiu-se aliviada. Connaught não desconfiava de nada!
- Não sei... Às vezes penso que estou agindo mal, tomando de Garith o prazer de enfrentar uma batalha.
A risada de Connaught ecoou cristalina. Turlock, que dormitava sobre a mesa, soltou um ronco, acordou, estalou a língua e voltou para o mundo dos sonhos.
- Pode estar certo que não! - respondeu Connaught, rindo ainda. - Por mais que eu goste de uma boa briga, tem dias em que daria meu braço direito para ter um
"Drue" na minha vida. Um irmão que concordasse em batalhar no meu lugar.
Houve um silêncio, marcado pelo som das chamas que crepitavam alegremente.
- Ora, até que a idéia não é má - continuou Connaught, risonho. - Você vai comigo para a Irlanda, assim que meu resgate for pago. E quando eu for convocado
para a guerra, mando sir Andrew Duxton em meu lugar, enquanto me refestelo em minha cama, ao lado de minha mulher. Sem falar que haverá uma vantagem extra - nós
nos veremos muito menos do que se estivermos lutando em campos opostos.
Ela não pôde deixar de rir com a inusitada oferta. Mas a idéia de ver Connaught "refestelado" na cama com a mulher tirou-lhe um pouco da alegria.
- Nunca, milorde. De qualquer forma, encaro essa brincadeira como um elogio à minha capacidade, e por isso lhe sou grato.
À hora de dormir, Garith puxou a irmã de lado: - Fique no quarto principal. Acho que vai lhe fazer bem dormir numa cama de verdade, para variar. Além do mais,
você precisa aprender alguns modos da corte, menino, senão vai fazer papelão no meu casamento. Eu não vou ter barracas de guerra para alojar você, e sim um par de
camas bem macias.
- Drue - interveio Turlock -, é mais seguro se nosso irlandês ficar lá em cima, no quarto principal. Diabos, eu não agüento mais passar a noite dormindo com
um olho só, enquanto o outro vigia os movimentos de Connaught.
- Faz isso porque quer, Turlock - revidou Drue, com alguma secura. - Sei tomar conta dele muito bem, e nunca o larguei um só instante.
- Connaught é um guerreiro experimentado. Ele nunca tentou a fuga porque tem a nós dois em seus calcanhares, como um par de buldogues. Com um só, é capaz que
ensaie alguma tentativa, o que seria uma pena, pois estamos a um passo de receber o resgate.
Drue, de má vontade, foi forçada a concordar.
- Além do mais, estou velho. Quero dormir, dormir, dormir! - gemeu Turlock, imitando a voz de uma velhinho de cem anos.
- Muito bem, então você dorme com o irlandês no quarto principal. Eu fico com Garith.
Garith e Turlock se entreolharam rapidamente. Ambos haviam planejado colocar Drue no quarto só para vê-la dormir numa cama fofa, ao menos uma vez. Nunca lhes
passou pela cabeça que haviam acabado de criar um problema sério a Drue.
Esta e Connaught haviam evitado cuidadosamente qualquer tipo de contacto, desde o minuto em que tinham partido do acampamento. Como numa espécie de acordo tácito,
ambos haviam decidido intimamente que seria melhor não manterem nenhuma proximidade.
A visão do corpo nu de Connaught atormentava-a seguidamente, nos momentos mais inoportunos. Quando vira Garith, Drue ficara aliviada, certa de que sua obsessão
pelo prisioneiro teria um fim; era de opinião que a falta do irmão era a causa indireta dos estranhos anseios que sentia, porém, a presença de Garith não trouxera
os resultados esperados.
- Ah, não senhor! - tornou Turlock. - Eu vou ficar com Garith. O prisioneiro, meu caro, é sua responsabilidade, não minha. De mais a mais, colchões macios fazem
mal para minha coluna.
- Mas...
- Nem mas, nem meio mas. Você agora é um cavaleiro do reino, mas não se esqueça que aprendeu tudo comigo. Você me deve essa, Drue!
Assim, duas horas depois ela se viu instalada na imensa cama ancestral, cujo dossel de veludo descia até o chão. Connaught ficou com o tapete do chão - bem melhor,
diga-se de passagem, que a dura cama de campanha. Apesar do banho calmante que tomara antes de se deitar, Drue não conseguia pregar o olho. Sentia-se afundar naquele
mar de plumas e tinha a impressão de que se deitava sobre o nada. Além do mais, acostumara-se a dormir com as calças e coletes de couro; só com as roupas de baixo,
parecia-lhe estar nua.
Quando Connaught soltou o primeiro gemido - um gemido rouco e atormentado - ela ainda não tinha conseguido pegar no sono. Deslizou da cama quietamente e caminhou
com pés de lã até perto do prisioneiro, observando-o. O luar despejava sua luz leitosa pela janela, transformando o corpo de Connaught numa estátua de mármore. Mas
logo ele começou a se agitar e a bater a cabeça nas almofadas; de sua boca nervosa saíam sons inarticulados.
Drue não queria tocá-lo. Tinha medo de sentir a pele morna e macia sob os dedos, tinha medo das batidas violentas do próprio coração, tinha medo das estranhas
sensações que já havia experimentado.
Alguns escudeiros costumavam se deitar perto de seus senhores, porque, segundo a crença, a força e a coragem do mais velho seria transferida para o corpo dos
auxiliares. Drue nunca dera muita atenção a essa história, e jamais lhe passaria pela cabeça dormir ao lado de Turlock a fim de se tornar mais corajosa. Mas, se
houvesse algum mérito nessa superstição, certamente não haveria nenhum corpo no mundo tão bonito e forte quanto o de Connaught. Drue sentia cada poro de sua pele
implorando para se mesclar ao calor do irlandês, e lutava contra esse desejo insano, que poderia lhe trazer vergonha e desgraça.
Turlock! Sim, ela precisava ir chamar seu velho amigo. Aquela brincadeira estava indo longe demais, e ameaçava transformar-se em pesadelo.
Drue se dirigiu para a porta quando, com um grito selvagem, Connaught ergueu o corpo e levantou os braços, num movimento de defesa contra a espada inimiga. Ela
se atirou sobre o irlandês, cobrindo-lhe a boca com as mãos e forçando-o a se deitar novamente.
- A batalha terminou - sussurrou. - Você está seguro agora, e deve descansar.
O cativo se agarrou desesperadamente àquele corpo vibrante e confortador, como uma criança em busca do carinho materno. Drue sentiu seus seios pressionados contra
os pêlos do peito de Connaught, enquanto mil fagulhas elétricas pareciam correr endoidecidas pelo seu corpo. As pernas dele se entrelaçaram nas dela, força contra
força, potência contra potência. E uma chama quase dolorosa transformou o sangue de Drue em lava candente, percorrendo-lhe as entranhas até explodir
em labareda destruidora.
Através da leve camisola de algodão, Drue sentia os músculos dele tão tensos quanto os seus, tão palpitantes e cheios de vida quanto os seus.
Desesperada, lutando contra si mesma, Drue tentou se livrar do abraço, mas Connaught, mergulhado em sonolência, prendia-a com garras de ferro. Na semi-inconsciência
em que se achava, o irlandês apenas percebia que tinha um corpo maravilhoso nas mãos, um corpo forte e trepidante, que cheirava a sabonete e mel.
Ele mergulhou o rosto nos ombros de Drue, maravilhando-se com aquele presente inesperado dos céus. Sempre procurara encontrar alguém que se igualasse a ele em
força e firmeza nos músculos, e agora que encontrara esse alguém, jamais o deixaria escapar. Mesmo que fosse um sonho, não importava. Enquanto sonho, seria eterno.
Ali estava o prolongamento perfeito de seu próprio eu. Ali estava a resposta à sua eterna e desesperada busca.
Perdido de desejo, Connaught deixou suas mãos vagarem pelo corpo tépido de Drue. E, à medida que seu desejo aumentava, as mãos se tornaram mais exigentes e febris,
deixando um rastro de chumbo derretido por onde passavam. Drue mordeu os lábios para conter um ganido agoniado de prazer. Aquelas mãos, tão fortes, meu Deus, como
conseguiam ser macias e delicadas...
Connaught moldou seu corpo ao dela, com a respiração pressa. O sangue de Drue começou a cantar uma canção mais velha que o grito de guerra imemorial.
A mão dele escorregou por baixo da camisola de algodão, deixando-a amolecida e fraca. Dentro de minutos esse homem a conheceria como ninguém mais no mundo a
conhecera. E seria dono absoluto de sir Andrew Duxton. E teria poderes para acabar com sua carreira de cavaleiro para o resto da vida.
Por um instante, ela brincou perversamente com a idéia de dar-lhe esse poder. Mas seu instinto de sobrevivência e luta foi mais forte e trouxe-a bruscamente
de volta à realidade.
Soltando um grito, misto de raiva e desapontamento consigo mesma, Drue se desvencilhou com um repelão, tremendo da cabeça aos pés, enquanto a mão dele ainda
procurava puxá-la pela camisola.
Subitamente acordado, atônito e incrédulo diante do que imaginava ter acontecido, Connaught deixou tombar a mão como se ela estivesse pegando fogo.
- Você teve um pesadelo. Quando eu vim tentar acordá-lo, você me atacou! Da próxima vez, pode bancar o sonâmbulo pelo castelo todo que eu pouco estou me lixando!
Dizendo isso, Drue virou-lhe as costas e correu para sua cama, morta de vergonha pela mentira que acabara de dizer. Escondeu-se sob o pesado cortinado e deixou-se
cair como um fardo inerte sobre o colchão, não querendo acreditar ainda na peça traiçoeira que seu corpo lhe pregara. Era absolutamente impensável que semelhante
coisa tivesse acontecido! Um verdadeiro cavaleiro jamais se deixaria levar por esse tipo de emoção! Era uma vergonha, uma desgraça inominável, que punha por terra
todos os seus ideais, todos os seus votos, toda a sua vida.
Nunca mais deixaria que semelhante contato acontecesse de novo, nunca mais! Contudo, bem no fundo, a emoção recém-despertada em seu corpo continuava a atormentá-la,
como que rindo das boas intenções. Grandes deuses, mas por que não o acordara antes? Melhor ainda, por que não deixara que seus gritos acordassem o castelo? Qualquer
coisa teria sido melhor que essa agonia de culpa e desejo que agora a assombrava, espectro infernal e celestial a um tempo.
Connaught não tivera culpa, decidiu, ainda que a contragosto. Mergulhado na inconsciência do sono, julgara que Drue era Enid. Mas ela, ela não tinha como se
desculpar. Enterrando a cabeça no travesseiro, Drue sufocou um gemido doloroso.
Mas Connaught sofria as penas do inferno, piores que as de Drue. Podia ainda sentir-lhe as pernas firmes entrelaçadas nas suas, podia ainda sentir o perfume
de mel e sabonete. Sabia perfeitamente que não tentara atacar Drue. Ao contrário, entregara-se a um estado de êxtase e paixão que agora quase o matava de vergonha.
Seu corpo ainda palpitava de sensações alucinantes, e ainda ansiava por sentir a pele de Drue contra a sua. Nunca, nem mesmo sua mulher, ninguém lhe despertara tamanho
desejo. Nunca ansiara com tanto fervor pelo toque de outra pessoa. E nunca se sentira tão humilhado como agora.
Arrasado, virou-se para a parede, plenamente cônscio que atingira as mais tenebrosas profundezas da degradação E lagrimas de pura vergonha escaldaram-lhe o rosto







































CAPÍTULO VI

Durante o café, Drue se manteve distante, calada e carrancuda. Intrigado, Turlock dirigiu um olhar interrogativo a Connaught, e por resposta obteve a caricatura
de um sorriso encimada por um par de olheiras sombrias.
Prudentes, Garith e Turlock não formularam perguntas, mas ambos começaram a acreditar que haviam feito mal em forçar a situação no caso da estada de Drue no
quarto principal. E, assim que se pilhou a sós com Garith, Turlock perguntou baixinho:
- Será que o quarto ainda está infectado com a peste, mesmo depois de tantos anos?
- Não. Mas há fantasmas rondando por lá, fantasmas que só Drue conhece. Pensei que meu irmão não fosse dado a esses medos infantis, mas vejo que me enganei.
De mais a mais, acreditei que a presença de Connaught fosse suficiente para afastar da cabeça de Drue as memórias da meninice.
- Seu irmão e eu estamos acostumados a dormir no chão. Para nós, é difícil descansar sob um teto, presos entre quatro paredes de tijolo, essa é que é a verdade.
Fui egoísta e não pensei no bem-estar de Drue, coitado. E, pelo visto, ele despejou a raiva em cima do prisioneiro. Menino, eu nunca vi Connaught desse jeito; cadavérico
seria um adjetivo delicado para ele neste momento. Nem quando esteve ferido entre a vida e a morte... Quer saber de uma coisa? Hoje vou propor a Drue que eu fique
no quarto principal com o irlandês.
- É uma boa idéia - assentiu Garith.
Quando Turlock comunicou sua decisão a Drue, esta expressou tamanho alívio e gratidão que ele se sentiu até envergonhado. Connaught, incapaz de encarar de frente
o honesto e sincero Turlock, afastou-se o quanto pôde, imerso em culpa e remorso.
Quando Garith se aproximou do irlandês e tentou puxar uma conversa amistosa, este se retraiu, apavorado de experimentar pelo irmão de Drue a mesma angustiante
sensação de desejo. Mas, para seu desafogo, percebeu que tudo o que Garith nele despertava era afeição e camaradagem. Dessa forma, a amizade entre os dois permaneceu
intacta, manchada apenas pelo intolerável sentimento de culpa que continuamente aguilhoava a alma de Connaught.
Pouco a pouco, no decorrer dos dias que se seguiram, o irlandês foi recuperando a confiança em si mesmo. Nas raras vezes em que se via forçado a conversar com
Drue, ambos se mantinham à distância, e, mesmo assim, sempre na presença de um terceiro.
As negociações sobre o resgate do irlandês pareciam correr bem, e certo dia Turlock foi chamado pelo duque de Duxton para acertar o retorno do prisioneiro para
as terras inglesas. Garith se ofereceu a passar as noites no quarto principal, junto com o prisioneiro, com o que prontamente todos concordaram. E, para grande alívio
de Connaught, seus pesadelos diminuíram. Nas raras vezes em que os tinha, Garith acordava-o com gentileza, e ambos ficavam conversando até que os fantasmas fossem
eliminados.
O evidente antagonismo entre Drue e seu prisioneiro não causava espanto a Garith; ele achava mais que natural que Drue não se desse bem com alguém que lutara,
e lutaria ainda, em campo inimigo. Dessa forma, inconscientemente, Garith ajudava os dois a se manterem distantes, pois queria evitar a todo o custo que houvesse
alguma desavença mais séria entre ambos.
Quanto a Drue, remoia-se em vergonha e ressentimento. Odiava-se a si mesma pela fraqueza e falta de caráter; e esse ódio aumentava quando se pilhava rememorando
os momentos loucos que passara nos braços de Connaught. Vezes sem conta vira-se ansiando pelos braços possantes do irlandês. Vezes sem conta sentira os olhos azuis
transpassando-a. E vezes sem conta tivera que lutar com todas as forças para não encará-lo.
Sentia-se depravada e suja, pois traíra seus mais sagrados princípios e atirara pela janela todo o esforço que fizera para não ser mulher. Garith teria vergonha
dela; Turlock jamais acreditaria. E quanto ao duque, seu pai, preferiria morrer a deixá-lo saber do horrendo segredo. Porque para ela, render-se à fraqueza de um
amor feminino era algo como uma doença. Não podia, não queria aceitar o fato de se sentir fisicamente atraída por um homem! Seria o mesmo que renegar sua carreira,
tão arduamente construída. Connaught transformara-se numa espécie de doença em sua vida. Fisicamente, ele era superior a qualquer homem que jamais conhecera, mais
poderoso e hábil nas armas que o próprio Turlock. Por essa razão, Drue deixara-se tomar de admiração e respeito, e chegara mesmo a acalentar a idéia de se tornar
amiga de Connaught. Mas o tempo se encarregara de provar-lhe que essa idéia era falsa e errada; nunca se deveria travar amizade com o inimigo.
Agora, ela pagava caro por aquele impulso generoso, pois a cada dia lhe parecia mais difícil apagar da memória os momentos de loucura que experimentara nos braços
de Connaught. Sentia-se rasgada em duas; uma metade ansiava por estar ao lado dele, enquanto a outra desejava destruí-lo antes que ele a destruísse.
Assim os três passavam os dias, cada um no seu inferno particular. Garith rendera-se incondicionalmente ao irlandês, a quem passara a admirar com fervor; por
isso mesmo, vivia assombrado com a idéia de um dia ter de enfrentá-lo no campo de batalha, o que inevitavelmente aconteceria. Drue, depois de muito brigar consigo
mesma, não conseguira se convencer de que fora realmente atacada pelo irlandês naquela noite fatídica, e fora obrigada a admitir que se rendera num momento de fraqueza.
E Connaught, que não enganava a si mesmo, vivia as penas piores. Sabia que desejara fazer com Drue algo muito diferente de matá-la, e isso o torturava como ferro
em brasa mexendo nas feridas de seu coração.
Apesar dos esforços de Drue no sentido de não ficar só com o prisioneiro, era-lhe fácil arranjar uma desculpa pessoal para vê-lo quando Garith estava por perto;
afinal, queria matar as saudades do irmão. E, a despeito do mal-estar que se apossava dela e de Connaught quando se encontravam, o entusiasmo de Garith ajudava-os
a conversar com naturalidade. Dessa forma, à medida que o tempo passava, nova e cautelosa camaradagem foi se instalando entre os três. Juntos, eles gostavam de treinar
e desafiar um ao outro. Duelavam e justavam quase toda à tarde, usando espadas cegas e chuços sem ponta. E quando os dias começaram a encurtar, as noites compridas
eram passadas em meio a vinho e jogos de xadrez. Vez ou outra, Drue e Garith se animavam a desafiar Connaught na queda de braço, mas jamais conseguiam vencê-lo.
Certa vez, depois de ter perdido fragorosamente, Garith falou com orgulho:
- Mas na luta romana eu até que posso vencer você, irlandês.
- Ha! - caçoou o outro. - Ninguém me vence em luta romana. Posso desafiar os dois juntos, e ainda assim juro que ganho.
- Feito! - disparou Garith, esfregando as mãos. - Nós dois vamos acabar com esse topete, não é, mano?
Irritada com a autoconfiança do prisioneiro, Drue concordou sem vacilar. Modéstia, definitivamente, não estava entre as qualidades do irlandês.
De qualquer forma, ela ficou algo inquieta, por causa de Garith. Não sabia se o irmão havia treinado o suficiente na corte, mas esperava do fundo do coração
que ele ainda soubesse lutar como nos tempos da adolescência. Não duvidava da própria competência, mas precisaria do auxílio de Garith para vencer o possante irlandês
num corpo-a-corpo.
Quando a notícia correu no cutelo, as apostas ficaram altas. E equilibrada, pois os três pareciam ter a mesma coragem e disposição. Na hora marcada, todos os
moradores estavam reunidos em volta do pátio, muita algazarra alegre e ruidosa. Bancos foram trazidos às pressas e armados em palanque. Um torneio digno de nota.
Devido à chuva da noite anterior, o chão do pátio estava liso de lama o Hino. Connaught despiu-se até a cintura e adentrou o círculo da improvisada arena, flexionando
os braços poderosos para a multidão, que quase despencou dos estrados de tanto gritar e bater palmas.
- Seu fanfarrão! - gritou Drue, meio enciumada. Em resposta, Connaught piscou-lhe um olho e flexionou novamente o braço, provocando nova tempestade na platéia.
Drue e Garith preferiram manter o colete de couro, mas ambos tiraram os pesados calções. As pernas da moça, longas e firmes, pareciam feitas de pêssego maduro, os
pêlos finos e dourados brilhando sob a luz difusa do poente.
Garith avançou para atacar, mas Connaught foi mais rápido e pulou com um rugido sobre ele. Ambos rolaram nas poças de lama, cada um procurando o ponto mais fraco
do adversário, Drue não precisou de mais que alguns minutos para perceber que o irmão jamais venceria Connaught. Durante o tempo regulamentar de que dispunha, Drue
observou e estudou rapidamente a tática do irlandês, e depois meteu-se entre os dois contendores. Contente e aliviado, Garith recuou para o lado, respirando pesadamente.
Drue começou a negacear diante de Connaught, forçando-o a avançar. Quando ele vinha, seguro de que a acertaria, Drue se desviava e fazia-o abraçar o ar. Na terceira
tentativa, ela se atirou ao chão e aplicou-lhe violento trança-pernas, derrubando-o.
O irlandês soltou um grito enraivecido, os olhos soltando chispas sob a lama que se acumulava em suas pálpebras. - Não gosta de meu abraço, milorde - troçou
ela. - Ah, mas você usou esse mesmo golpe com meu irmão minutos atrás, não foi?
Connaught contorceu-se entre as pernas de aço, praguejando. Quando conseguiu se livrar, Drue saltou agilmente e se pôs de pé, cedendo o lugar a Garith.
- Fez mal em nos desafiar juntos, Connaught! - mangou Garith, jovialmente. - Somos demais para você!
Drue e Garith iam se revezando cada vez com mais rapidez, e embora o irlandês começasse a dar mostras de cansaço, portou-se como um verdadeiro e imbatível campeão.
De havia muito ele já desistira de saber quem era Garith e quem era Drue; ambos tinham quase a mesma conformação física e achavam-se cobertos de lama.
Finalmente, Drue percebeu que estava na hora de terminar com a brincadeira, pois Garith estava exausto. Seus olhos brilharam de antecipada determinação quando
se adiantou para o último assalto. Enroscando-se em Connaught, conseguiu dar-lhe outro trança-perna por trás, encerrando seu tórax num abraço tão mortal quanto o
de uma cobra.
Para Connaught a dor foi alucinante, mas sua firme determinação foi maior. Impossível perder de dois rapazes cujas idades somadas não chegavam à sua! Isso nunca,
seria humilhação grande demais! Mas Drue enlaçou-o com o braço pelo pescoço, sem afrouxar a tremenda constrição nas pernas. E, devagar, gemendo e sufocando, Connaught
viu-se obrigado a dobrar os joelhos, até tombar sobre a lama.
- Rendei-vos! - o brado protocolar saiu da garganta de Drue, criando um momento de tensão e silêncio entre os assistentes.
Rápida como um raio, ela se pôs de joelhos sobre o corpo de Connaught, imobilizando-o. Finalmente, estendeu-se de comprido sobre o irlandês, impedindo-lhe qualquer
movimento.
- Rendei-vos! - gritou de novo, ofegando.
Só nesse momento Connaught soube que fora Drue quem o vencera. Porque reconheceu a doçura do corpo que agora vibrava sobre o dele. Porque sentiu - céus, que
doce agonia - o mesmo tumulto que sentira naquela noite em que a tivera nos braços.
- Rendei-vos!
Dessa vez a voz de Drue saiu rouca, quase num suspiro. A voz dela transportou Connaught para o quarto principal. O tapete. A camisola de algodão. A pele de Drue.
O corpo de Drue, tão quente, tão suave, tão desejável. E agora esse mesmo corpo estava enrolado no seu, novamente. Liso e gostoso, adoravelmente tentador.
Desesperado com o desejo que latejava em seu sexo, Connaught tentou se livrar do abraço constritor. Mas Drue, excitada pela vitória, não afrouxava. De repente,
Connaught sentiu um ódio enorme, grande como o mundo. Ódio por Drue, que o envergonharia diante do mundo. Porque ele seria forçado a se render, e quando ela saísse
de cima de seu corpo, inevitavelmente o exporia ao ridículo. Todos veriam sua ereção, sua vergonhosa ereção.
- Rendei-vos! - repetiu ela, arquejante.
Com um urro quase animal, Connaught ergueu os braços potentes, tomado de força sobrenatural, e segurou-a pelos ombros. Seus olhos azuis fitaram-na cheios de
dor e angústia por alguns momentos. Tamanha era a intensidade daquela agonia muda, que a alegria e a excitação de Drue sumiram como por encanto.
- Se você tocar em mim mais uma vez - rugiu ele, suspendendo-a no ar e atirando-a com força numa poça que havia ao lado - , juro que o mato!
E imediatamente rolou sobre o corpo, mergulhando sua vergonha na lama, escondendo-a de todos e de si mesmo. Em puro desespero, mergulhou o rosto no lodo imundo,
pensando aereamente que agora sim, agora chafurdava na lama. Como sua alma.
Garith puxou-o pelos cabelos, obrigando-o a levantar a cabeça.
- Connaught! Você está bem?
Exausto, o irlandês percebeu que por pouco Não matara Drue. Matando-a, porém, jamais se livraria daquele insuportável sentimento de culpa e vergonha.
- Estou bem. Cuide de seu irmão, ele é que precisa -mentiu - porque fui mais violento do que pretendia.
Tropegamente, o prisioneiro se arrastou para o castelo. Precisava sair dali o quanto antes, por todos os deuses! Não poderia conviver com seu ignominioso desejo
por outro homem. Era humilhação grande demais para suportar. Escreveria a Robert Bruce agora mesmo, e pediria ao rei que desse tudo, absolutamente tudo o que os
ingleses pedissem em troca de sua libertação. Porque isso libertaria também sua alma imortal de um pecado sem precedentes na história da cavalaria.
Drue pestanejou quando Garith a ajudou a se pôr de pé.
- Que luta, maninho! Deu empate, sem a menor dúvida! Por uns minutos, pensei que havíamos ganhado, mas de repente Connaught virou uma fera. Ele parecia que
ia estrangular você, acredita? Que foi que você disse para ele ficar tão bravo?
- Eu ganhei a luta, e Connaught sabe disso melhor que eu. Tudo o que eu disse foi para ele se render, nada mais. E tem razão, eu pensei que ele fosse me matar
de ódio. Oh, Garith, esse homem não devia ficar aqui! O resgate precisa ser pago o quanto antes, não vê? Vou mandar uma mensagem para papai e implorar-lhe que aceite
o que os escoceses quiserem pagar, nem que seja uma moeda de cobre. Qualquer coisa, menos manter esse irlandês aqui. É um homem perigoso demais!
Perigoso, sim. Connaught era a eptíome do perigo em sua vida. Ele a desafiava com sua mera presença, e Drue sabia que um seria destruído pelo outro. Era tudo
uma questão de tempo. Contudo, só de pensar em Connaught longe, Drue sentia um vazio na alma. O orgulho que conhecera quando o fizera prisioneiro transformara-se
em fascinação, e de fascinação passara a uma chaga dolorosa e intolerável.
A contragosto, mais uma vez ela se viu admirando o indomável sir Patrick Connaught. Física e intelectualmente, esse homem superava qualquer outro cavaleiro que
conhecia. A exceção de Turlock, ninguém conseguiria nem sequer tocá-lo com a espada. Sua captura havia sido um golpe de sorte, sabia-o agora com amarga certeza,
embora jamais o admitisse diante dos outros.
Garith gostava de Connaught, mas não podia deixar de dar razão a Drue. O irlandês quase a matara, essa era uma verdade inconteste. Antes que qualquer desgraça
sucedesse, o melhor seria atender às palavras sensatas da irmã.
- Concordo, mano. Hoje à noite mesmo enviaremos um mensageiro para papai.
O bilhete de Garith alcançou Turlock ao mesmo tempo em que Eduardo II recebia uma mensagem de Robert Bruce dizendo que era tempo de ambos chegarem a um termo
razoável quanto ao resgate de Connaught. Como o rei inglês estava em Chepstow,.ele ordenou que todos os prisioneiros escoceses fossem enviados para lá.
O gosto amargo da derrota havia envenenado os sentimentos de Eduardo II. Sozinho em seu quarto, ele resolveu que daria uma lição nos malditos escoceses de uma
vez por todas. Principalmente em Connaught, o cavaleiro que tantas vezes desafiara e vencera seus homens. Esse sofreria uma humilhação especial. E o jovem sir Drue,
que tanto o detestava, certamente ficaria feliz com o castigo que seu vencido sofreria.
Enquanto Drue fazia os preparativos para a viagem, novas e estranhas sensações se sucediam em seu coração. Pela primeira vez na vida, sentia-se insegura na frente
de um homem. Rememorando o instante de raiva e angústia que vislumbrara nos olhos de Connaught, mantivera-se a distância do prisioneiro, incapaz de compreender o
que se passara com ela e com o homem cuja presença provocava sofrimento e doçura, lembrando-a da própria fraqueza e da tristeza que sentia ao vê-lo partir.
Connaught passava a maior parte do tempo com Garith, e Drue via-se compelida a fazer-Lhes companhia. Nenhum desafio mais fora feito, mesmo durante acaloradas
discussões. No íntimo, Drue sabia que se cruzasse mais uma vez armas com Connaught, isso significaria a morte para um deles.
Algumas vezes pensara em pedir-lhe desculpas, mas achara-se uma perfeita idiota por isso. Desculpas de quê? Que fizera ela, afinal, senão lutar com dignidade
e lisura?
No fundo, vagamente ela percebia que sua admiração pelo irlandês fora a causa involuntária de toda a revolta que agora lia nos olhos azuis. Revolta e tristeza,
uma tristeza tão profunda que chegava a doer em sua própria alma, como se fosse dela também.
Mas como pedir desculpas por admirar aquele físico de impressionante masculinidade? Como explicar a esse homem que sua mera proximidade dava-lhe arrepios de
êxtase? Como lhe dizer que sentia inveja e ciúme de Garith porque este gozava da amizade e da intimidade dele?
Não havia resposta. E se alguém onisciente pudesse explicar o que se passava na cabeça de Drue, ela o chamaria de mentiroso e charlatão. Porque o impossível
e o impensável acabaram de acontecer. Drue estava irremediavelmente apaixonada e ignorava essa doença doce e maravilhosa. Sabia apenas que se sentia a mais miserável
das criaturas quando estava longe de Connaught. Ansiava por ouvir seu riso cristalino, por ver seus olhos brilhando como safiras na semi-escuridão.
Essa ansiedade atordoava-a, confundia-a e deixava-a irritadiça, uma vez que não entendia o que se passava. E guardava para si os sentimentos contraditórios que
experimentava, vendo-se suspensa entre o céu e o inferno.
- Por que não vai para suas terras quando o resgate for pago? - perguntou Drue, enquanto atravessavam um bosque adoravelmente verde, cujas árvores formavam um
arco sobre suas cabeças. - Veja seus companheiros que também serão devolvidos a seu tio. Eles devem estar ansiosos para voltar para suas famílias.
Dizendo isso, ela apontou para o punhado de escoceses que marchavam atrás em passo cadenciado. Eram os prisioneiros inimigos que os haviam acompanhado desde
a captura de Connaught.
- Nem pensar! Bruce está pagando caro pelo meu resgate, e o mínimo que posso fazer para retribuir é permanecer junto dele. E enfrentar mais algumas guerras.
- Mas não pretende voltar para sua mulher e seus filhos? Drue estava assombrada com a própria insistência. Mas, espicaçada pela dor, tinha imperiosa necessidade
de saber se Connaught pretendia voltar para os braços da mulher. Que devia ser bonita e carinhosa.
Ah, se ela fosse ainda pajem ou escudeiro! Talvez se oferecesse para acompanhá-lo, só pelo prazer de tê-lo a seu lado noite e dia.
Quando se deu conta do que estava pensando, ficou vermelha até a raiz dos cabelos. Como podia ela querer estar ao lado daquele inimigo miserável?
A despeito de ralhar consigo, a verdade teimava em emergir das sombras. Sim, ela queria ficar para sempre perto de Connaught. Imaginou-se cuidando das armas
do irlandês, polindo-lhe a armadura, esfregando-lhe as costas com linimento. Como costumava fazer quando era escudeiro de Turlock. Nos delírios da louca imaginação,
via-o voltar cansado das batalhas, via-o repousar a cabeça em seu colo. Chegava a sentir entre os dedos os cabelos negros, a sentir o perfume fresco que agora a
atormentava noite e dia.
Perdida nesses pensamentos, torturada e envergonhada, Drue se perguntava se não estava ficando louca. Pela primeira vez, deixara-se levar a extremos de imaginação
aos quais nunca antes havia dado trégua. Sempre se defendera deles, o espírito sempre alerta. Mas agora deixava-os correr livres, subjugada pela melancolia de vê-lo
partir para sempre.
- Com os ingleses longe da Escócia, não precisarei mais lutar lá. Empregarei minha espada na minha pátria, a Irlanda. É lá que vão precisar mais de mim.
- Por mim, tudo bem. Nada tenho contra a Irlanda, que, aliás, me parece um país encantador.
O fato de saberem que sua proximidade estava chegando ao fim ajudava-os a amenizar a tensão. A conversa prosseguiu mais leve, até que por fim avistaram as altas
torres de Chepstow na bruma cinzenta do horizonte.
Logo, um destacamento de soldados ingleses veio recebê-os, as roupas coloridas drapejando ao vento que soprava, as armaduras brilhando sob os raios da tarde.
Drue ordenou que deixassem os prisioneiros descansar da longa caminhada, antes de serem levados ao castelo de Eduardo II.
Nesse momento, Turlock emergiu das árvores, as imensas sobrancelhas unidas sombriamente como duas taturanas. Drue arfou quando o viu, tomada de um mau pressentimento.
O amigo não eslava em roupas civis, como esperava; ao contrário, vestia uma armadura leve e a eterna pele de lobo de que tanto gostava.
- Turlock! - exclamou Garith, alegre. - Que bom ver você de novo!
- Bom os infernos - trovejou o velho urso, fechando a carranca ainda mais. - Você e Drue vão se arrepender pelo resto da vida por terem trazido os prisioneiros
para cá!
- Como assim, qual é o problema? - interveio Drue.
- As negociações do resgate não deram certo?
- O problema é o rei. E nada pode dar certo com ele, nunca. O maluco mandou trazer correntes, e sabem para quê? Os prisioneiros escoceses serão acorrentados
pelo pescoço e terão de marchar pelas ruas desse jeito. Podem acreditar nisso?!
Connaught ficou lívido.
- Compreende que com essa atitude o acordo do resgate corre o risco de ser anulado, Turlock?
- Meu caro, o que "eu" compreendo não vem ao caso - rosnou Turlock. - Quem manda aqui é o rei, e ele quer assim. Ponto final.
- Então nós vamos voltar com Connaught e... - começou Garith.
Mas sua frase morreu diante do olhar fuzilante de Turlock.
- A corte vem vindo logo atrás de mim. Corri na frente para avisar vocês e para ver se conseguimos impedir esse espalha-brasas - nessa hora Turlock apontou
para Drue - de provocar mais problemas do que os que já temos.
Mas os olhos dourados de Drue já estavam transformados em duas brasas incandescentes. Totalmente alheia ao epíteto pouco elogioso de Turlock, planejou rapidamente
assumir o controle da situação. Nunca permitiria que Connaught, o seu Connaught, fosse acorrentado e tangido como gado pelas ruas. Jamais!
Se a ordem tivesse partido de qualquer outro homem, Drue já o teria desafiado para um duelo. Porém, a ordem partira do próprio rei. E antes que Turlock pudesse
dizer palavra, Drue esporeou o cavalo e correu ao encontro da comitiva real.
Apeando-se, ela se ajoelhou e dirigiu eloqüente súplica ao monarca. O discurso foi comovente, claro e muito lógico. Mas Eduardo II estava decidido a se vingar
da derrota sofrida, e nenhuma palavra o demoveria de sua resolução. Os ingleses arrancaram Connaught da sela e acorrentaram-no. Os olhos do irlandês pareciam duas
lascas frias de gelo, a boca crispada, os punhos esbranquiçados de indignação. Apesar dos apelos desesperados de Drue, os prisioneiros escoceses foram sendo acorrentados
um a um. As grossas cadeias prendiam-nos pelos pulsos, tornozelos e pescoços. Um espetáculo humilhante e degradador, que fazia o sangue de Drue ferver.
A multidão se acotovelava ao longo das ruas quando o triste cortejo deu inicio à aviltante caminhada, rumo ao castelo de Chepstow,
Impotente e incapaz de pronunciar palavra, as entranhas se revolvendo em ódio, Drue observava o gado humano ser tangido pelas ruas. Quando os pobres infelizes
retardavam um pouco o passo, o chicote zunia no ar. Se um deles caía, outros caíam também, embolando-se numa massa
informe. Quando chegaram ao castelo, todos estavam
feridos e ensangüentados. Connaught ia à frente dos colegas, o rosto espelhando revolta, mas de queixo erguido e altivo.
Mais uma vez Drue não se conteve. Assim que o rei entrou majestosamente no grande saguão do castelo, adiantou-se e postou-se ao lado de Connaught. Em seguida
colocou um joelho no chão, baixando a cabeça.
- Majestade, protesto veementemente contra o tratamento dado a esses homens, que ficaram sob minha guarda durante meses seguidos. E humilhante não só para eles,
como também para nós, cavaleiros da Inglaterra!
- Ora, Sir Drue! Não sabia que gostava tento de nossos inimigos. Pelo que entendo, você era o mais temível adverásrio de todos. Mudou tão depressa assim?
- Em nada, Majestade. Quando me defronto cem inimigos na batalha, balo-me com eles como posso e mato quantos consigo. Por isso mesmo, suplico-lhe que aja com
misericórdia. Esses homens sofreram e litaram com bravura. Eles nada mais querem senão voltar para seus lares.
- Pois voltarão, voltarão. Mas como prisioneiros não como um bando de convidados mimados e bem tratados
O astuto rei percebeu o desespero incomum de Drue, e logo desconfiou o que havia por baixo daqueles argumentos. Nesse instante, ela lançava um olhar desesperado
para Connaught, o que fez Eduardo II sorrir. Não havia como negar o físico espetacular do irlandês; na verdade, não fosse a existência de Piers Gaveston, talvez
ele próprio tentasse conhecê-lo melhor. Os olhos de Connaught procuraram os de Drue. O rei imediatamente sentiu que um extraía forças do outro.
Fazendo um gesto afetado, ele se adiantou e falou, com voz macia e baixa, dirigindo-se a ela:
- Vejo em seu rosto o mesmo carinho que costumo ver em Piers Gaveston. Sei que, no fundo de seu coração, você ama este homem do mesmo modo como eu amo Piers.
Não, não sacuda a cabeça, porque sei bem o que estou dizendo. Ah, sim, conheço a fundo o amor que rasga a alma de um homem em duas e o destrói aos olhos de todos
os outros.
E os olhos do rei buscaram os de Piers, com comunhão silenciosa.
Drue sacudiu a cabeça, mas foi um gesto vazio e inútil. Morta de vergonha, só conseguia pensar no pai e em Turlock. Graças a Deus poucos presentes podiam ouvir
os sussurros do rei. Connaught certamente ouvira tudo. Meu Deus, o que ele pensaria agora? Sufocada com a enormidade do vexame, Drue enterrou a cabeça no peito,
não ousando erguê-la.
Eduardo II voltou-se para Connaught, que parecia mais arrasado por suas palavras que pelas correntes.
- E você, irlandês, se fosse tão inteligente quanto corajoso, aceitaria esse presente inesperado que a vida lhe deu. E saberia apreciá-lo como um dom precioso,
um amor que está além da compreensão terrena.
- Vossa Majestade fala de algo que está acima da tolerância humana - contrapôs Connaught, erguendo o queixo. - Uma fraqueza baixa e pervertida, que condena
aqueles que se permitem aceitá-la.
Drue arquejou, sabendo que não teria como impedir o castigo que desabaria sobre a cabeça do prisioneiro.
Os olhos de Eduardo II fizeram-se negros como a noite. Sem dizer mais nada, ele se afastou e fez um sinal quase imperceptível para dois fortes soldados ingleses,
que puxaram as correntes do irlandês, forçando-o a se pôr de pé. Sem condições de defesa, Connaught fechou os olhos e apertou os lábios. Imediatamente um homem da
corte começou a aplicar o castigo secular e tradicional, socando-o furiosamente no tórax nu. Segundo os costumes, quando o primeiro atacante se cansasse, passaria
a tarefa para outro cavaleiro. E assim até matar o insolente que se atrevera a enfrentar o soberano.
Drue soltou um rugido feroz e travou no ar a mão que ia desferindo mais um golpe potente.
- Basta! Esse homem de nada nos valerá se morrer! Ele será trocado por dez cavaleiros ingleses, lembram-se? Se lord Connaught morrer, vocês estarão matando
nossos dez companheiros!
- Mas ele insultou nosso bem-amado rei! - protestou Raoul de Crowley, o mesmo que Drue havia vencido havia anos. Ela aproximou seu rosto feroz do dele, dizendo
baixo:
- Tudo o que ele fez foi dizer o mesmo que você vive dizendo, Raoul de Crowley, só que nas costas do rei. E se você não parar com isso agora, juro-lhe que repetirei
uma a uma cada palavra que ouvi você resmungar contra seu bem-amado, como diz!
Raoul pestanejou.
- Muito bem - disse, fazendo um sinal para os outros se afastarem. - Mas parece que nosso rei tem razão, afinal de contas. Talvez haja mesmo alguma coisa a
mais entre você e esse irlandês.
- E talvez não haja - retrucou ela, os olhos brilhantes e provocadores. - Quer nos desafiar para provar que está certo? Se quiser, estou pronto!
Raoul arregalou os olhos de pânico. Já havia provado uma vez a espada de Drue, e não queria repetir a experiência. Muito menos se bater com o mais famoso e temível
paladino da cristandade, sir Patrick Connaught.
- Eu... retiro a ofensa, sir Drue. É minha opinião que você só está interessado no bem-estar de quem está sob sua responsabilidade. Desculpe se interpretei
mal a situação.
Drue afrouxou o aperto de aço.
- Cuide para que isso nunca mais se repita. Apenas o rei tem o direito de insinuar certas coisas a meu respeito sem incorrer em minha ira.
- Compreendo o que quer dizer. Desculpe mais uma vez. A voz fininha e irritada do rei cortou a breve discussão.
- Transportem Connaught para o calabouço. Ele que leve suas cicatrizes para a Inglaterra, sejam elas da alma ou do corpo.
Assim dizendo, Eduardo II colocou um braço protetor no ombro de Piers e deixou o recinto.
















CAPÍTULO VII


Drue e Garith foram pedir a ajuda do pai, mas Duxton não era poderoso o suficiente para anular as ordens do soberano. Drue estava tomada de desespero. Não suportava
a lembrança da humilhação e vexame que Connaught sofrera, e ainda certamente sofria, metido num calabouço infecto e tratado como cão. Como recurso final, reuniu
toda a coragem e foi bater à porta dos aposentos do rei, disposta até a se humilhar, se fosse preciso.
Contudo, quem a atendeu foi o favorito, que entreabriu a porta e sussurrou baixinho:
- O rei disse que conversa com você depois do banquete, Drue, Agora ele precisa descansar. Não se preocupe tanto, meu rapaz; ele entende bem sua situação, mais
do que imagina.
Connaught não sofrerá, garanto-lhe com um sorriso que tentava ser apaziguador, Piers Gaveston fechou a porta, deixando-a imersa em pensamentos amargos e sombrios.
Para os Duxtons o banquete foi um verdadeiro desastre. O duque via a desonra bater à sua porta, pois se o pagamento do resgate não se concretizasse, sua palavra
de cavaleiro estaria em jogo. Turlock via ruírem seus sonhos de se aposentar com dignidade para se dedicar à mesa de negociações diplomáticas. Garith decepcionara-se
profundamente com a atitude do rei com relação aos prisioneiros, e pensava até em abandonar de vez sua promissora carreira na corte. E Drue... Drue vivia suas penas.
Quando o batalhão de criados começou a recolher as travessas vazias, Drue viu, com o canto do olho, os pelotiqueiros e acrobatas que se agrupavam no aposento
contíguo, preparando-se para se apresentar em seguida ao banquete. Resolveu agir antes que começasse o espetáculo, pois costumava durar horas seguidas. Levantando-se
de seu lugar, atravessou o imenso e luxuoso salão e ajoelhou-se diante do rei.
- Concedei-me vosso favor! - disse, em voz alta e firme, utilizando o tratamento e as palavras protocolares, tão caras a Eduardo II.
- Falai - condescendeu ele, sorrindo com benevolência.
- Durante os últimos meses, a casa de Duxton vem negociando com a Escócia a libertação de muitos cavaleiros ingleses em troca dos que mantemos prisioneiros.
Depois de muitas discussões, nossa casa conseguiu chegar a bom termo com os escoceses, e eles chegarão aqui amanhã para realizar a troca de reféns.
- Sabemos disso muito bem.
- Majestade, a única condição que nos. foi imposta foi a de entregar nossos prisioneiros em perfeitas condições de saúde. Nossa casa se esmerou em tratá-los
bem; sir Connaught e os companheiros foram bem alimentados e tiveram suas feridas pensadas. Assim, pudemos cumprir nossa parte com lisura, e despachamos mensageiros
à Escócia para informá-los que os prisioneiros estavam passando bem. Bem conheceis o espírito selvagem e belicoso dos escoceses, Majestade. Se eles se ofenderem
com o tratamento dispensado hoje aos prisioneiros, nossa casa não poderá se responsabilizar por isso. A vida dos reféns ingleses depende inteiramente de vós, a partir
de hoje.
Eduardo enrubesceu, enquanto um pesado silêncio descia sobre os convivas. Piers segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido, com o que o soberano pareceu concordar.
Depois, levando às narinas uma bolinha de cera perfumada - última novidade da corte - o rei soltou um risinho condescendente, quase paternal.
- Como sempre, sir Drue, vosso modo de falar é bastante incomum. Esperávamos que fôsseis implorar pelo bem-estar de nosso prisioneiro Connaught, mas dirigir-vos
ao senhor vosso rei e acusá-lo... Isso está fora de nossa compreensão.
- Perdoai-me a insolência, Majestade, mas só faço dizer-vos a verdade. Ouvi, eu vos imploro, as palavras sábias de sir Piers Gaveston. Só ele sabe vos aconselhar
com prudência, embora os outros cavaleiros tentem denegri-lo perante vós.
O favorito e o rei trocaram um olhar cúmplice e risonho.
- Nisso tendes razão, meu jovem. Depois dessa magnífica afirmação, só nos restaria mandar acorrentar-vos ao lado de vosso precioso Connaught. Mas ainda achamos
que descobrimos a razão mais profunda de vossa preocupação, não importa se podeis admiti-la ou não.
Drue abriu a boca para protestar, mas o soberano ergueu uma mão e acenou para o guarda mais próximo.
- Levem o conde de Connaught aos aposentos de sir Andrew Duxton e providenciem alimentos e curativos, se necessário. Que ele esteja em perfeitas condições físicas
amanhã cedo.
Seus olhos penetrantes pousaram nos de Drue, estudando-a.
- Despeça-se do irlandês como melhor lhe convier - acrescentou, deixando de lado o tratamento protocolar.
Essa mudança de tratamento era o sinal de que a audiência terminara. Drue se ergueu aliviada, embora ofendida com as insinuações do soberano.
- Sir Drue - continuou este - , lembre-se que talvez não o veja nunca mais. Se fosse assim comigo e com Piers, certamente nós dois saberíamos aproveitar essas
breves horas.
Ela curvou a cabeça e se retirou, mais vermelha que o imenso rubi que brilhava no dedo do monarca.
A cabeça de Drue girava vertiginosamente enquanto ela aguardava Connaught. Lembrava-se do juramento que ele fizera de matá-la caso ela o tocasse outra vez. Mas
estava resolvida a tratar dele e a pensar-lhe eventuais ferimentos, de modo a que o prisioneiro estivesse em condições razoavelmente decentes na hora do pagamento
do resgate. E a trégua duvidosa que ambos tinham conseguido atingir nos últimos dias ruíra com os acontecimentos daquela tarde.
Mais uma vez indagou-se se não devia chamar Turlock ou Garith; talvez eles soubessem cuidar melhor da situação. E com certeza não enfureceriam o sensível irlandês,
ao contrário dela. E novamente abandonou a idéia. Ela é que cuidaria de Connaught, e mais ninguém. Como bem dissera o rei, aquele seria seu último encontro.
Uma pancada violenta na porta a fez saltar da cadeira.
- Entre!
A porta se abriu devagar, enquanto Drue sentia-se pisando descalça num braseiro vivo. Lá estava ele. Altivo como um deus. Distante como uma estrela. Belo como
um Apolo.
- As chaves, por favor - disse ela, estendendo a mão para o guarda.
O homem obedeceu, inclinando-se respeitosamente.
- Podemos ficar aí fora, caso milorde assim queira.
- Não há necessidade. Este homem foi meu prisioneiro durante muitos meses, e seus modos não me intimidam.
A porta se fechou, e Drue baixou a vista, consciente da falsidade de suas palavras. A mera presença do guerreiro a intimidava.
Ele deu um passo, fazendo as pesadas correntes produzir um ruído triste e lamentoso.
- Chegue mais perto - ordenou ela, com voz mais brusca do que pretendia. - Afinal, quer se ver livre disso ou não?
Ele pareceu hesitar um pouco, mas acabou obedecendo. Quando chegou perto, havia dor e espanto nos seus olhos. Drue lembrou-se de um vitral que havia na antiga
capela de Duxton, um vitral que a fascinava peio calidoscópio de tons azuis. Em dias de sol, o vitral tomava o esplendor mutável de uma cauda de pavão, em cujas
penas tremulavam gotas brilhantes de safira.
Apertando os lábios, ajoelhou-se e começou a soltar as algemas, tratando de se concentrar no trabalho.
- Pelo que vejo, estas correntes são duras de agüentar. Mas não se esqueça que os escoceses têm muitos ingleses prisioneiros também. E eu duvido que eles tenham
recebido melhor tratamento.
Connaught manteve-se em obstinado silêncio, O luxo do quarto incomodava-o. Por que Eduardo II reservara aquele quarto de casal para sir Andrew Duxton? Para acomodá-lo
junto com o amante, foi à resposta que sua mente lhe ofereceu quase que instantaneamente.
Chocado ante a odiosa implicação, Connaught esfregou os pulsos e os tornozelos, finalmente livres da penosa humilhação.
- Agora, a do pescoço - disse ela, fitando-o nos olhos. - Garith me aconselhou a deixar esta como está. Porque os escoceses poderiam voltar atrás no acordo,
e então você seria obrigado a permanecer aqui indefinidamente.
- Você não quer que eu fique aqui. Nem seu irmão,
- Garith gosta de você. Ele poderia ser um bom amigo.
- E você, Drue? O que seria para mim?
Havia uma nota estranha em sua voz que Drue jamais ouvira antes. Parecia conter uma ameaça mortal.
Curiosa, Drue examinou o rosto do cativo, em busca de algum sinal diferente. Mas só encontrou linhas profundas de exaustão física,
- Hoje eu pretendo ser seu escudeiro, ainda que isso me custe alguma humilhação. Se eu tivesse desconfiado do que aconteceria hoje, jamais teria vindo para
Chepstow; teria exigido que a troca de reféns fosse feita em Duxton. Seria mil vezes mais proveitoso e conveniente para todos.
- E menos doloroso também - juntou o irlandês, soltando um suspiro de alívio quando se viu livre da incomoda gargalheira.
Drue deu-lhe as costas e avisou:
- Mandei preparar um banho quente para você. A tina está no outro aposento. E há uma refeição fria sobre a mesa.
Connaught começou a se despir, mas os socos que levara no estômago, aliados ao peso das correntes, haviam entorpecido seus membros.
Ela hesitou um pouco, receando tocá-lo. Lembrava-se vividamente da ameaça que o irlandês lhe fizera no dia da luta romana, e não queria provocar seu mau humor.
Por fim, notando a dificuldade com que ele se movia, aproximou-se em silêncio e começou a ajudá-lo.

Connaught não a deteve; ao contrário, seus olhos fascinados seguiam-lhe as mãos há um tempo delicadas e fortes, que roçavam de leve em sua pele, provocando-lhe
arrepios. Ela não ergueu a vista nem por um instante, porque sabia que isso seria sua perdição. Vaga e instintivamente, Drue não se atrevia a encarar os olhos que
lhe queimavam a pele; de alguma forma obscura, sem encará-los, conseguia fazer de conta que estava cuidando de Turlock. Ou de Garith.
- Você está todo arranhado - conseguiu dizer, por fim. - Algum ferimento mais profundo?
- Não, isso não é nada - respondeu ele, enfiando as pernas na grande tina fumegante.
Aliviada pelo súbito afastamento, Drue recuou alguns passos enquanto ele se sentava devagar, com cuidado para não respingar água.
- Como conseguiu esta preciosidade? - perguntou ele, apontando para a tina. - Não me lembro de nenhuma durante nossa viagem.
- Um oferecimento do rei. Ele percebeu que foi mal aconselhado e pretende amenizar os maus tratos que lhes impingiu. Principalmente a você, é claro. Mas os
outros também estão sendo cuidados.
Ele deu uma risada amarga.
- Esse homem me humilha de todas as formas imagináveis, e agora pretende lavar a humilhação com um pouco de água quente?
- A humilhação foi tanto sua quanto minha - afirmou ela, tomando um pano macio e começando a esfregar com cuidado as crostas de sangue. - Minha casa e meu nome
foram desonrados diante do inimigo, sem falar nas terríveis insinuações do rei diante de meus pares. Você deixará meu país amanhã, enquanto eu serei obrigado a ficar
e agüentar essa vergonha para o resto da vida.
- Você pode vir comigo! - exclamou ele. As palavras brotaram-lhe diretamente da alma, só depois é que o cérebro percebeu o significado delas. - Não posso deixar
meu pai e meu irmão, como sabe. De qualquer forma, agradeço-lhe a oferta generosa.
Connaught mordeu o lábio, praguejando intimamente. Não queria Drue a seu lado, isso seria sua perdição, como sabia muito bem. As palavras do rei, tão próximas
da aterradora verdade, não o deixavam em paz, consumindo-o em torturas insuportáveis.
Céus, como teria preferido permanecer no calabouço, ao lado de ratos e excrementos! Mil vezes isso a passar uma noite inteira em companhia de Drue. A primeira
coisa que teria de fazer era esquecer-se de que esta seria a última noite que passariam juntos. Não podia pensar nisso!
De súbito, Connaught se pôs de pé na tina, determinado a não mais sentir o toque aveludado das mãos de Drue em seu corpo.
Calada, ela lhe ofereceu um roupão.
- O quê! - zombou ele. - Oferta do rei também?
- Não, esse é meu. Agora venha comer. Há carne, vinho e frutas da Espanha. E um pão fresco inteirinho!
- Sinto-me honrado, mas não, obrigado. Não posso aceitar tudo isso, sabendo que meus companheiros padecem com pão mofado e água malcheirosa.
- Garith está cuidando de alimentá-los neste momento, sossegue. Não precisa se preocupar com seus camaradas, eles estão em boas mãos.
- Curativos?
- Sim, todos serão medicados.
Connaught sentou-se em silêncio, digerindo as palavras dela juntamente com a deliciosa refeição. Era mais que óbvio que o rei e Piers Gaveston dispensavam uma
atenção toda especial a Drue. Mas por quê? Teriam eles realmente razão em julgá-lo do mesmo "tipo"? Impossível. Era ele, Connaught, que se sentia obcecado pelo corpo
de Drue, não o contrário. Que Deus se apiedasse de sua pobre alma! Ele, conde de Connaught havia chegado a esse ponto de miséria e degradação!
Quando se deu por satisfeito, Connaught sentiu uma tontura gostosa e calmante. Esvaziara a garrafa de vinho sem sentir; esgotado pelos ferimentos e pela desnutrição,
a bebida operara sua mágica habitual, deixando-o mais alegre e descontraído. Empurrou os maus pensamentos para o fundo da alma, concentrando-se no fato de que aquela
seria sua última noite na Inglaterra. No dia seguinte pediria permissão a Robert Bruce para passar uns dias ao lado de Enid, sua adorável mulher. Sim, precisava
disso urgentemente. A solidão e a falta de contato com uma mulher levava-o a imaginar o inimaginável.
A segunda garrafa desceu tão facilmente quanto a primeira. Com evidente provocação, ele propunha brinde atrás de brinde a Drue, incitando-a a beber também. Ela
bebericava devagar, sem conseguir acompanhá-lo na inesperada e súbita euforia.
Os lacaios vieram para limpar a mesa e retirar a tina de água. Connaught ordenou que trouxessem mais vinho, mas Drue não permitiu.
- Você terá pesadelos de novo - advertiu ela. - Não pretendo passar a noite em claro, porque também estou cansado. Modere sua sede, ou eu o envio de volta ao
calabouço.
- Talvez seja o melhor que tem a fazer - engrolou ele, entre dentes.
- Como disse?
- Nada.
- Venha, está ficando tarde. Amanhã sua viagem será longa e cansativa. Pode ficar com essa cama, que eu não consigo me acostumar com frivolidades e rendas.
Depois de hesitar um pouco, Drue completou:
- Mas antes vou ter de massagear esses edemas com bálsamo. Não vai demorar muito.
Connaught retesou os músculos, alerta. O que Drue pretendia com ele, afinal? Será que esse rapazinho bonito ainda não percebera que seu toque o conduzia direto
para o inferno?
Mas os olhos límpidos de Drue não traíam outra coisa que a inocência. A falha estava dentro dele mesmo! Com uma sensação de pecado, ele baixou o roupão até a
cintura, em movimentos tensos e nervosos. Devido ao calor, Drue não estava com a habitual vestimenta de couro; trajava uma camiseta simples de algodão sem mangas
e calças do mesmo tecido. As chamas da lareira lançavam sombras douradas em sua pele, dando-lhe um matiz suave de mel silvestre. Connaught tentou desviar a vista,
mas viu-se encarando com fascinação pecaminosa os músculos dos braços bem torneados de Drue. Sabia que sentiria saudades daquele inglesinho valente que o destino
colocara à sua frente. Apesar de o corpo de Drue não se igualar ao seu, Connaught admirava-lhe as linhas perfeitas e quase femininas. E gostava de observar a conformação
esbelta, sem um grama de gordura. Gostava de ouvir a voz límpida e clara. Gostava do cheiro de mel.
Fechou os olhos quando as mãos firmes de Drue começaram a massagear-lhe as costas e os ombros, aplacando a dor com o ungüento de cheiro penetrante. Ah, como
gostaria que esse ungüento também aliviasse a dor que lhe ia na alma!
Drue trabalhava devagar, com dedos firmes, macios ou fortes segundo a experiência que adquirira ao longo dos anos. Subjugado, Connaught entregou-se ao prazer
daquele toque suave, tentando relaxar o mais possível os nervos tensos.
Nem de longe ele poderia imaginar o que se passava na cabeça de Drue. A moça, também de olhos fechados, deixava-se levar pela imaginação, arrastada pela angustia
de perdê-lo. Brincava com as brasas da paixão que ameaçavam transformar-se em fogueira incandescente de um minuto para outro. Consumia-se de tristeza, ao pensar
que aquela seria a última vez que o tocaria. A última vez que sentiria sua alma amalgamada à dele.
Connaught penetrava em seus sentidos, embriagando-a com o suave aroma de seu corpo que, apesar do banho, continuava impregnado na pele. Perdida em rodamoinhos
vertiginosos de sensações estranhas, Drue não conseguia se concentrar no que fazia; apenas deixava suas mãos caminharem docemente pelo corpo quente de Connaught,
sentindo com volúpia a maciez de sua pele morena, a aspereza dos pêlos abundantes do peito largo, a lisura do ventre.
Sim, havia verdade no que o rei dissera. De outro modo, não tinha como explicar a fascinação que sentia ao contemplar aquele corpo magnífico, exalando masculinidade
por todos os poros, convidando-a a tocá-lo mais, sempre mais. Sim, era amor o que sentia, certo ou errado, amargo ou doce. Embora queimasse por dentro, não havia
como negá-lo. Esse amor destruíra-lhe a alma e o corpo, pois não mais confiava em si mesma. Não ignorava sua condição de mulher, mas toda a sua vida se dedicara
a tratar de seu corpo como algo assexuado. O fato de não existir cavaleiros de seu sexo ensinara-a a enterrar fundo sua feminilidade, porque de outro modo jamais
seria cavaleiro. E, agora que era um, descobrira que o impensável havia acontecido. Apaixonara-se por esse homem, esse inimigo que tentara matar Turlock e até a
ela mesma.
Pela primeira vez na vida, Drue se sentia indefesa e fraca. Numa batalha daquelas, jamais sairia vencedora. Precisava parar, precisava ganhar fôlego, precisava
fugir dali...
Os dedos de Connaught agarraram-na com brutalidade pelos braços, fazendo-a abrir os olhos. Drue viu-se de imediato tragada por um abismo azul, um abismo que
tinha a cor do céu e os perigos do inferno. Chamas intensas brilhavam nos olhos de Connaught e atingiam seu coração, fazendo-a estremecer de gozo.
- Eu avisei, Drue, que não me tocasse nunca mais - murmurou ele, com voz embargada.
- Eu... eu me lembro.
- O rei tinha razão! Você me arruinou diante de mim mesmo. E só você, ninguém mais. Quando seu irmão me ofereceu amizade, juro que fiquei assustado, pois ele
era por demais parecido com você. Mas descobri que sentia por Garith pura amizade, nada mais. Não fosse isso, Drue, eu teria fechado os olhos e teria deixado que
você me matasse na luta romana. Mil vezes a morte a viver em desonra! Jurei então que nunca mais tocaria em você... e agora você veio me tentar como um demônio saído
de meu inferno particular! Sim, Drue, é um amor além da compreensão humana, bem como disse Eduardo. Mas, que Deus nos ajude, é amor mesmo. Não há outro nome para
o que sinto... para o que ambos sentimos!
Connaught falara de uma só vez, entre desesperado e aliviado. Drue baixou a cabeça, em muda submissão.
Assustado, tremulo, há um tempo querendo e não querendo, Connaught inclinou-se para a frente e juntou sua boca à dela.
Drue abriu os lábios, numa resposta tão natural quanto a própria vida. Mas foi uma experiência devastadora para ela, que nunca sentira um beijo na boca.
Uma sensação inebriante fez com que seu sangue corresse violentamente pelas veias. O coração se abriu para tomar o lugar da razão, e ela se entregou de corpo
e alma à doçura agonizante daquele beijo quase doloroso, de tão intenso. E como num duelo de morte, as línguas se engalfinharam, separaram-se, avaliaram-se mutuamente
para de novo se encontrar, enfurecidas, Drue colou o corpo palpitante ao dele, sentindo-se pequena e frágil, tão frágil que desejou ser subjugada por aquele corpo
magnífico, o corpo do homem que jurara odiar para o resto da vida.
O gosto de vinho nos lábios de Connaught era doce, meu Deus, tão doce. E seu hálito enchia-lhe a boca de um sabor inebriante. Drue mordiscou-lhe os lábios de
leve, numa embriaguez ensandecida, deixando-se também morder. E de novo as bocas se abriram, um sugando a alma do outro, em busca de uma saciedade que não vinha,
que não vinha, pedindo mais, sempre mais. A boca de Connaught exigia, a de Drue dava; dali a pouco os papéis se invertiam. O beijo se aprofundava em abismos de delírio,
torturante, imperioso, obcecante, até que sentiram o gosto salgado de sangue; e ainda assim as bocas não se separavam, famintas e destruidoras em seu abraço mortal.
O mundo passou a girar num vórtice sem controle, sem leme, enquanto os gemidos de Drue se mesclavam às exclamações abafadas de Connaught. E o desejo foi crescendo,
avassalador, trazendo lágrimas de culpa e remorso aos olhos fechados dos dois.
Foi o gosto das lágrimas que os despertou daquele delírio. Bruscamente, tal como haviam começado, separaram-se, ofegantes, cada um ainda sentindo o gosto do
beijo. Um beijo proibido, e justamente por isso, mais desejado e ansiado que nunca.
Connaught ergueu-se de um salto, resfolegando como um touro, os olhos ganhando tons de gelo cortante. Por um longo tempo, os dois ficaram se entrefitando, arfando
ruidosamente, dois duelistas medindo as forças ombro a ombro. Finalmente, ele conseguiu articular loucamente:
- Somos duas almas danadas, Drue. Como o rei e Gaveston.
Enrolando-se no roupão, continuou, num tom de desesperada súplica:
- Pelo amor de Deus. deixe-me voltar para o calabouço, prefiro a miséria do cárcere a viver em pecado.
- Não haverá pecado - murmurou Drue. cansada. - A culpa de tudo é minha própria ignorância. Eu o provoquei sem saber; sou leigo em matéria de sexo. Isso é coisa
que quase não existe em campos de batalha. Por essa razão, percebi o que estava acontecendo quando já era tarde demais. Fique em paz aqui, que eu vou dormir do
outro lado da porta. Juro-lhe que ninguém virá perturbá-lo. Principalmente eu.
Sem coragem para fitá-lo nos olhos, Drue apanhou um cobertor e arrastou-se para fora, fechando a pesada porta e reclinando-se contra ela, os olhos brilhantes
de lágrimas. Deixou-se escorregar para o chão, tomada de solidão e desespero. Assim como acontecia com Connaught do outro lado da porta.
Sozinhos para sempre.






CAPÍTULO VIII


- Drue! Drue! Drue!
O coro da multidão engrossava em entusiasmo e alegria enquanto ela cavalgava devagar ao lado do pai e atravessava as ruas de Chester. Logo atrás vinha Turlock,
cujo rosto se desmanchava em risos de orgulho e prazer. O belíssimo garanhão de Drue cabeceava inquieto, desacostumado ao passo lento e à agitação do povaréu. Drue
controlava-o afetuosamente com os joelhos, uma mão descansando na sela, a outra erguida em permanente saudação.
Fora assim desde que os prisioneiros ingleses haviam sido trocados por sir Connaught. O povo da Inglaterra mostrava-se agradecido, e com razão: a captura de
Drue salvara seu orgulho.
Uma chuva de pétalas de rosa foi atirada de uma janela logo acima, de onde escapavam gritinhos e risinhos aflitos.
- Hum... - fez o duque, piscando um olho para a filha. - Acho que você tem algumas admiradoras por aqui.
- Que nada, é você quem desperta a admiração de tudo quanto é mulher, pensa que não sei? Ainda é um bonitão, se quer saber. Além do mais, está coberto de pétalas,
enquanto em mim só caíram algumas.
À medida que avançavam, a estrada se alargou, e Turlock pôde cavalgar ao lado de Drue.
- Eu ouvi o que você disse - comentou ele, com seu vozeirão alegre - e acho que é bom ficar de olho em seu pai. Caso contrário, o casamento de Garith não será
o único que teremos para festejar.
Alegres, os três continuavam avançando debaixo de vivas e ovações, rumo aos domínios de Willowford, onde Garith se casaria.
Meses antes, Turlock fora ao quarto de Drue para buscar Connaught, e encontrara Drue dormindo profundamente sobre um cobertor, do lado de fora. Achara o fato
natural, pois ele teria feito o mesmo, uma vez que não se dava muito bem com camas macias. E nunca soubera da traumática cena que se desenrolara entre Drue e o irlandês.
Verdade que ela se mostrara irritadiça e mal-humorada, mas isso também era normal, uma vez que o rei havia maltratado o prisioneiro e ofendido sua honra. Todos
compreenderam e silenciaram; os poucos que haviam escutado as palavras do rei acharam mais prudente não comentá-las, por duas razões: primeiro, o soberano era fofoqueiro;
segundo, se abrissem a boca seriam desafiados imediatamente por sir Andrew Duxton. O que significava morte certa.
Depois de algum tempo, Willow Castle ergueu-se diante deles, um castelo encantador, rodeado de extensos gramados onde pastavam ovelhas branquinhas, flocos de
algodão brincando sobre veludo verde. Para Drue e Turlock, aquele local encantador parecia uma fonte de bocejos e tédio, e ambos começaram a brincar a respeito.
Mas, para surpresa deles, o duque pensava bem diferente.
- Eu gostaria de me casar com a herdeira disso tudo. Penduraria minha espada e me aposentaria para viver uma vida pacata e bucólica.
Turlock aprontou-se para soltar sua célebre gargalhada, mas ao ver a expressão séria de Duxton, mexeu-se inquieto na sela.
- Está brincando, meu primo!
- Nem um pouco. Sempre planejamos ter um castelo parecido com este, eu e minha querida mulher. Quantas vezes nos sentamos ao pé do fogo para planejar juntos!
Sonhávamos em ter uma residência assim, em vez dos eternos castelos fortificados, protegidos por fossos e muralhas... Eu Prometia que um dia cuidaria disso, e vivia
com medo de Correr em combate antes de cumprir sua vontade. Mas Deus de outro modo, e levou minha Gillian antes de mim.
Drue lançou-lhe um olhar de esguelha, espantada. A seus olhos, o duque sempre fora um guerreiro completo e acabado. E jamais ouvira uma confissão tão simples
de desejos escondidos sob a pesada armadura bélica.
- Mas, papai! Como pode trocar uma boa e honesta luta por uma vida sem graça como essa?
- Antes eu pensava como você, meu Drue. Mas o tempo passa, os ossos vão ficando envelhecidos e começam a dar sinais de cansaço... Nem Turlock aprecia mais uma
briga como antes. Não é verdade, meu velho?
- Não nego que ando um pouco mais cansado, primo. Mas jamais trocaria a excitação da véspera da batalha, tendo as estrelas por teto, pelo palácio mais luxuoso
da Inglaterra.
- Muito bem! - exclamou Drue, triunfante. - Papai, se você quiser, pode ficar morando com Garith. Turlock e eu continuaremos como sempre!
- Ah, é assim? Quer dizer que você pode passar muito bem sem mim?
Drue dirigiu-lhe um olhar carinhoso.
- Você me educou bem, pai. Posso sobreviver sozinho em qualquer lugar, desde que tenha minha espada e um exército capaz para comandar.
Enquanto falava, a voz de Drue tremeu. Seu coração apertava-se de saudades de Connaught. Era como se este tivesse levado consigo metade dela, deixando apenas
um vácuo escuro. Sentia-se insegura e triste. Não tinha mais certeza do que era, diante da enormidade do sentimento que nutria pelo amado prisioneiro. Sobreviveria
sem ele? Sem dúvida, mas apenas sobreviveria. Ou vegetaria, melhor dizendo. Viver, nunca mais. Viver como, sabendo que existia entre eles um amor tão impossível
quanto inextinguível?
Duxton apertou-lhe o ombro:
- Bem dito, meu filho. Será que Garith tem a mesma segurança que você?
- Sem dúvida - interveio Turlock. - Seu herdeiro está muito satisfeito com a vida que Leva. Agora, chega dessa conversa mole, que está me dando nos nervos.
É tempo de comer e beber, não dessa bobagem de mudar de vida.
A região recebeu-os festivamente, engalanada com as hastes franjadas de um sol radioso.
- Parece até que estamos nos festejos de maio - comentou Turlock, virando-se na sela para apreciar um bando de moças coloridas e risonhas.
A armadura de Drue reluzia em pratas, mas seu cavalo não fora enfeitado com arreios coloridos, como fazia a maioria dos cavaleiros em dia de festa. Sua única
condescendência resumira-se em polir todos os metais da brida e da própria armadura.
Trombetas soaram alegremente no instante em que os três transpuseram os portões do castelo. Garith esperava-os no jardim florido, ao lado de um pequeno lago
juncado de nenúfares.
O rapaz voou para abraçar longamente o pai. Com Turlock houve os tradicionais tapinhas nas costas; e quando chegou a vez de Drue, esta se limitou a segurar-lhe
os braços por alguns instantes.
- Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, Garith - disse, com simplicidade.
"Uma felicidade que jamais conhecerei, meu irmão" - completou em pensamento, sentindo os olhos arderem, prontos para chorar.
Essa era outra fraqueza que descobrira em si mesma desde a partida de Connaught. Drue jamais se dera ao luxo de chorar, a não ser quando bem pequena - e assim
mesmo, em ocasiões muito especiais. Agora, vivia em pânico de desatar no choro diante dos outros, atitude impensável para um cavaleiro do reino.
- Entrem, venham conhecer minha noiva - disse Garith, sem esconder o orgulho. - Quero que você goste dela como gosta de mim. Drue. Espero que fiquem muito amigos,
porque eu já expliquei a ela que, caso alguma coisa me aconteça, você me substituirá em tudo.
- Obrigado pela confiança que tem em mim, meu irmão. Prometo que cuidarei de sua mulher e de suas terras como se fossem minhas. Sempre, e com toda a minha dedicação.
Ouviu-se uma exclamação abafada, e Drue alçou a vista para a jovem que esperava no alto da escada. O vento batia era seus cabelos castanhos, emoldurando um rosto
oval e delicado. Tinha os olhos azuis e meigos e sorria quando começou a descer os degraus. Garith correu ao seu encontro e puxou-a pela mão, os olhos brilhando
de entusiasmo.
- Allyson, meu amor, você se lembra de papai, não é? Este é Turlock, primo de papai, e grande amigo nosso. E este é Drue!
Galante, o duque curvou-se para beijar a mão da moça. Turlock ensaiou uma reverência desajeitada e antiquada. Drue, por sua vez, também beijou a mão fina e delicada
de Allyson. Esta fitou o reluzente cavaleiro com admiração, sorrindo-lhe levemente.
Ali estava o noivo de seus sonhos. Um cavaleiro de verdade, um verdadeiro paladino, muito mais bonito que Garith. Quem não ouvira falar de sua mais recente façanha,
a captura do temível campeão irlandês? Sem falar que ele desafiara o próprio rei e conseguira com isso um tratamento melhor para seus prisioneiros. Que homem admirável!
Como seria bom sentir-se entre aqueles braços fortes e musculosos! Certamente, muito melhor que o abraço delicado e terno de Garith. Tremula, Allyson descansou a
mão esquerda no braço de Drue, a direita no de Garith. E murmurou, encantada:
- Vamos entrar para conhecer minha família. Mas ficou ligeiramente decepcionada quando Drue não demonstrou mais que polido e superficial interesse.
Drue deu pouca atenção à futura cunhada nos dias que se seguiram. O castelo estava em polvorosa por causa dos preparativos para o grande dia que se aproximava,
e cabia aos cavaleiros ir à floresta e caçar quantos animais pudessem, a fim de prover mesa farta para os inúmeros convidados. Corriam rumores de que o próprio rei
estaria presente, o que fazia crescer a agitação para um estado de frenesi. Na véspera da chegada dos convidados, Allyson desceu as escadas quase correndo quando
viu Drue passeando impaciente no salão.
- sir Drue! - gritou, excitada. - Pensei que tivesse saído com os outros cavaleiros, como fez todos esses dias!
- Já há caça o suficiente na cozinha. Hoje, como é o costume, estarei à sua disposição. Isto é, se precisar de mim.
- Mas é claro que preciso de você - assegurou a moça, nadando em felicidade.
Allyson chegara a pensar que Drue não gostara dela, mas as palavras do cavaleiro vinham provar-lhe que se enganara. Ora graças!
- Que é que você faz no castelo enquanto os homens estão fora? - perguntou Drue.
- Ora, que pergunta encantadora! É claro que deve estar interessado, pois Garith me contou que vocês perderam sua mãe muito cedo, não foi assim? É natural que
se interesse pela vida no castelo. Venha comigo, eu vou lhe mostrar como é.
Dizendo isso, a entusiasmada moça pegou Drue pela mão e levou-a a todos os cantos do castelo - desde a sala onde se batia a manteiga diariamente até as grandes
ameias do terraço superior. E tagarelava sem cessar:
- Faço o que toda a mulher faz: tomo conta dos empregados, dos jardins, da despensa. De tudo, enfim. Bordo, canto, toco alaúde...
Drue ouvia com polida atenção. Às vezes a cunhada se interrompia para dar ordens curtas e secas, que eram prontamente atendidas.
Quando ouviram soar as trombetas, anunciando a volta caçadores, Allyson soltou um gritinho aflito:
- Ai, meu Deus! Tão cedo! Preciso correr para me arrumar, sir Drue. Com licença!
- Então é assim a vida de castelo - murmurou baixinho Drue, afundando numa cadeira.
Seus lábios se curvaram num sorriso divertido. Allyson correra de uma ponta a outra do castelo como corriam as galinhas logo depois de terem a cabeça decepada!
E de cada vez que se sentava abria uma cestinha toda engomada, de onde tirava uma costura que, segundo ela mesma, era "simplesmente interminável, um horror".
Que vida! Como alguém conseguia viver assim sem morrer de tédio? A moça dissera que se sentia "plenamente realizada". Mas como, trabalhando mais que as próprias
camareiras? Claro, era até muito bom que Garith tivesse achado uma moça tão prestimosa. Mas como seu irmão se conformava em casar com uma empregada de luxo?
Drue balançou a cabeça. Allyson não passava de um simples pajem naquele castelo. Tinha por única função agradar ao marido e executar todos os desejos dele rapidamente.
Naquela tarde, embora os olhos da cunhada a seguissem a todo instante, Drue fez o possível para evitá-la. Só muito mais tarde, quando os cavaleiros já se haviam
retirado, é que Allyson logrou se aproximar.
- Pretende ir caçar amanhã cedo? - perguntou ela, disfarçando a ansiedade,
Na realidade, ela adorara passar aquelas horas ao lado de Drue. Mais do que admitia a si própria.
- Sim, pretendo - respondeu Drue, levantando-se de imediato, como cabia a um cavaleiro bem educado.
- Ah, mas que pena! Minhas amigas e eu estávamos planejando falcoar. Gostaria tanto que nos acompanhasse!
Drue se interessou imediatamente. Ah, então era essa a recreação feminina! Mas não se sentia disposta a acompanhar um bando de gralhas.
- Milady devia convidar Garith, não eu - disse, curvando-se.
- Oh, mas... seria uma honra ter em nossa companhia sir Drue. Seu nome está no repertório de todos os trovadores, sabia?
Algumas jovens se aproximaram, saltitantes.
- É verdade, sir Drue! Venha, por favor!
- Sim, queremos ouvir suas histórias!
- Diga, é verdade que seu pai, o duque de Duxton, é um dos homens mais bonitos da Inglaterra?
- No passado - respondeu Drue, rindo. - Agora meu irmão Garith pegou a coroa dele.
As moças soltaram risinhos nervosos por trás da mão. Garith e Drue pareciam-se muito e, de fato, o herdeiro era bastante bonito. Mas se fosse para escolher entre
os dois irmãos, as preferências pendiam para Drue. Havia qualquer coisa de especial com o irmão de Garith, algo que nenhuma delas saberia precisar bem. Talvez fosse
exatamente o pouco interesse que elas conseguiam despertar no misterioso cavaleiro, belo e arredio.
- Mas você ainda não nos contou nada sobre seu prisioneiro, o célebre sir Connaught. Só sabemos sobre ele através de canções e poesias, e mesmo assim elas pouco
falam sobre o irlandês. Quase todos os versos falam apenas de você. Deve haver muitas histórias interessantes sobre esse lendário inimigo!
- É, dizem que ele é um homem muito bonito.
- Eu daria metade da minha vida para tê-lo como prisioneiro - comentou outra, batendo os cílios langorosamente.
- Lady Edith! - repreendeu-a Allyson.
- Ora, o que é que tem? - revidou a outra, petulante. - Estou dizendo aquilo que todas as mulheres da Inglaterra pensam, mas não têm coragem de admitir.
E, voltando os olhos brilhantes de excitação para Drue:
- Diga, sir Drue, é verdade que o irlandês é um homem alto e forte? Que seu corpo lembra o dos deuses do Olimpo?
Drue apertou os lábios, a expressão endurecida.
- É um cavaleiro honrado e valente, milady. Se não fosse meu inimigo, tentaria fazer dele meu amigo.
Drue tinha vontade de sair correndo e se enterrar nalgum lugar longe dali. Só de ouvir falar em Connaught, sentia uma dor pungente atravessando-lhe a alma. Sua
memória voltou para o que lhe parecia séculos atrás, mostrando-lhe com incrível nitidez a imagem de Connaught saindo nu do riacho, o corpo glorioso coberto de gotinhas
brilhantes. Ah, sim, um deus do Olimpo. Que a enfeitiçara para sempre.
- Mas e o físico dele? - insistiu outra, enquanto as demais se comprimiam à sua volta.
Drue lembrou-se de ter encontrado um bando de periquitos naquela manhã. Eles faziam uma algazarra endiabrada e ensurdecedora em volta de uma fatia de pão molhado
que caíra sobre a grama. Drue se aproximara cautelosamente, observando as avezinhas saltitantes que brigavam por uma migalha, recuavam, arrastavam as asas, atacavam,
tornavam a se afastar. Depois de algum tempo, cansara-se de observá-las e batera com os pés no chão, agitando os braços. Os periquitos se dispersaram, apavorados.
E se ela batesse os pés e agitasse os braços agora? Certamente aquele bando de gralhas também se dispersaria...
- O corpo de Connaught tem cicatrizes - disse, por fim - , mas tem bons músculos também. Considero um golpe de sorte tê-lo capturado.
- Mas você também o venceu numa luta romana, não foi? Chama a isso de sorte também?
Drue vacilou. Sentia seu coração sangrando.
- Eu não o venci, milady. Foi um empate. E sim, creio que também foi um golpe de sorte.
- É muito modesto, sir Drue.
- Sou realista, milady. Sei reconhecer um inimigo respeitável.
- Sir Drue - falou uma jovem loira, com expressão sonhadora -, os olhos de sir Connaught são mesmo como fogo azul?
Era como se elas tivessem planejado revolver-lhe as feridas com ferro em brasa. Drue crispou as mãos sobre o espaldar de uma cadeira, querendo erguê-la no ar
e esmagar as moças uma por uma. Um par de olhos azuis assombrou-lhe o pensamento. Sim, havia fogo naqueles olhos.
- Não tenho vocação para poeta, milady, e não sei como o fogo pode ser azul. Contudo, quando ele ficava bravo, talvez fosse essa a melhor descrição - fogo azul.
- E os cabelos dele? Eram pretos mesmo?
- Sim, senhora.
- Oh, por favor, conte-nos mais alguma coisa sobre sir Connaught - implorou a loira. - Esteve tanto tempo com ele, deve saber mais coisas!
- A tia dele é Elizabeth de Ulster, mulher de Robert Bruce da Escócia. É casado, senhora - sinto dar-lhes essa notícia - e tem três filhos de quem muito se
orgulha. E é tudo o que sei sobre Connaught, desculpem.
E antes que houvesse mais perguntas, Drue escapuliu rapidamente.
Ganhando os solenes jardins, Drue começou a passear na relva, alheia à beleza da paisagem que a rodeava. As damas haviam despertado memórias que conseguira a
muito custo enterrar no fundo da mente. O rosto de Connaught não saía de sua cabeça, ora sorridente, ora triste, ora sério... A pior e mais dolorosa recordação era
a do olhar que ele lhe lançara pouco antes de partir. Sobre a multidão que se apinhava no pátio, os olhos de Connaught fitaram-na torturados e infelizes, paralisando-a
no chão. Espelhavam tamanha angústia e luta interna, que Drue se sentira coberta de lama. Nessa hora, sentira uma vergonha imensa, sepulcral. Vergonha maior do que
quando o beijara, maior do que quando seu corpo fraco correspondera com ardor aos apelos do corpo de Connaught. Naquele momento, seus olhos haviam se enchido de
lágrimas, e ela fora obrigada a voltar-lhe as costas, lutando desesperadamente para não deixá-las correr. A dor diminuíra com o passar do tempo, mas permanecia latente,
como doença insidiosa. E, à simples menção do nome de Connaught, emergia um dragão furioso das águas revoltas da memória contida, atacando-a sem piedade. As perguntas
descuidadas das tagarelas mocinhas haviam despertado a fera adormecida, que agora urrava e se retorcia dentro de suas entranhas. Foi com imenso alívio que ouviu
a voz alegre de Garith.
- Estava preocupado com você, Drue. Allyson me contou que as moças estavam lhe fazendo perguntas sobre Connaught, e que de repente você as deixou sozinhas.
- Se quiser, posso pedir desculpas a elas, Garith. Sou um cavaleiro do campo, e não estou acostumado a fofocas da corte.
- Nada disso. Elas é que perderam a compostura. Esse assunto deve encher sua paciência, e com razão.
- Coitadas! Também, com essa vida aborrecida que levam, o mínimo que podem fazer é se divertir com histórias sobre cavalaria. Essas damas só fazem servir os
homens. É uma humilhação sem fim, esse tipo de vida!
- Elas não pensam assim, Drue. Foram educadas para esse fim, desde menininhas.
- E para se divertir, comentam sobre a vida dos outros!
- Que diabos, Drue, largue mão de ser tão rabugento. É natural que elas fiquem curiosas de vez em quando.
- Você nem imagina as perguntas que me fizeram! Garith caiu na risada.
- Imagino sim senhor! Você é que nem sabe o que me perguntaram a seu respeito, quando souberam que meu famoso irmão viria ao casamento! Ficaram excitadas, mano!
E para mim, garanto-lhe que foi meio humilhante, porque fui obrigado a admitir que você era mais forte e mais alto que eu.
- Ora, somos quase do mesmo tamanho. Até Connaught se impressionou com nossa semelhança.
- Olhe aí, se eu tentar vestir sua armadura, ficarei dançando dentro dela mais que badalo de sino. Seria o mesmo que você tentar usar a roupa de papai. Mas
nada mais natural. Se fosse o contrário, você estaria aqui noivando com Allyson, enquanto eu estaria nos acampamentos de guerra.
- Deus me livre!
Drue respondera de modo tão espontâneo, fazendo uma careta de tamanho desgosto, que Garith caiu na gargalhada.
- Acho que você será um solteirão incorrigível, daqueles nem ranzinzas. Como Turlock.
- Turlock não é ranzinza.
- Só quando está pelejando. Aqui no castelo ele se enfia no quarto e só sai para caçar. E bebe tonéis de vinho para acalmar a impaciência. Vamos entrar, mano?
Prometo que as moças não vão mais incomodá-lo com perguntas indiscretas.
Mas agora isso não linha mais importância para Drue. O mal já tinha sido feito, as lembranças haviam-lhe reaberto a ferida no coração, e a vida parecia escorrer-lhe
das veias para a terra, deixando-a vazia e seca. Subitamente, sentiu uma sede descomunal. Não sede de água ou vinho e sim dos lábios de Connaught. A vergonhosa descoberta
deixou-a tão entontecida que Drue cambaleou um pouco quando ela e Garith entraram.
- Que foi, mano? Está tudo bem?
- Está. Eu devia ter ido a caça junto com os amigos; passei um dia morno demais, tedioso demais.
- Hum. Esse é o Drue que eu conheço. Está doido por uma boa briga, não é assim?
- Não peço tanto - riu Drue. - Basta não ficar enjaulado muito tempo aqui dentro. Diga uma coisa, Garith, será que mamãe também levava essa vida de castidade?
- Acho que sim. As mulheres costumam fazer sempre as mesmas coisas, e acho que tem sido assim há séculos.
- Mas como conseguem? Eu não compreendo! É sem graça demais, ocioso demais!
- Elas não conhecem outro tipo de vida, jamais experimentaram alguma coisa diferente. Como os falcões amestrados, vivem para ajudar o dono. E ganham dele um
capuz protetor também, só que invisível. Experimente só soltar um falcão amestrado, mano. Ele morreria de inanição em poucos dias. É o mesmo que acontece com as
mulheres; elas não saberiam o que fazer se tivessem liberdade. De minha Parte, eu gosto de proteger Allyson, e não acho que ela seja aborrecida nem irritante. É
a noiva ideal, e creio que seremos felizes. Um dia, Drue, você também achará seu par, alguém com quem compartilhar sua vida. Nesse dia você entenderá o que estou
querendo dizer.
- Impossível - resmungou Drue. - Eu jamais gastaria meus dias ao lado de uma pessoa que eu não conseguisse compreender. Estou achando que isso nunca acontecerá,
mano. Vou viver de batalha em batalha até o fim de meus dias. Nasci para a espada, e não conheço outra forma de amor.
- Nunca diga nunca. Talvez um dia você se apaixone, e nesse dia você mudará de idéia. Até lá, lute o quanto quiser. De qualquer forma, lembre-se que eu e você
somos diferentes, e ainda assim conseguimos nos amar muito!
- Isso é diferente - sorriu Drue. - Escute, Garith, você me desculpa diante das moças? Estou com uma dor de cabeça infernal. Gostaria de ir para meu quarto.
- Fique tranqüilo, vá. Suba pela escada secundária, senão elas começam a voar como borboletas à sua volta.
Drue obedeceu, as palavras do irmão girando na cabeça. "Um dia você se apaixonará. É bom ter alguém com quem compartilhar a vida. Um dia você achará seu par."
Um sorriso amargo brincou-lhe nos lábios, enquanto seus passos decididos ressoavam nos corredores desertos. Ela já havia encontrado essa pessoa, e com ela adoraria
passar o resto da vida. Encontrara Connaught, e fora obrigada a deixá-lo, porque uma vida a dois seria vergonhosa e pecaminosa. Seu corpo doía de saudades e seus
lábios queimavam ainda daquele beijo que a conduzira ao céu e ao inferno ao mesmo tempo. Connaught! Que a praga o levasse! Ele representava sua condenação, sua desgraça.
Porque nunca mais poderia pensar em outra pessoa.
Furiosa consigo mesma, com Connaught e com a vida, fechou-se no quarto. Seu corpo todo parecia queimar de febre, num torvelinho de ansiedade que lhe era totalmente
desconhecido. Arrancando a roupa com impaciência, olhou-se na fina folha de latão encerado que servia de espelho. Por que era tão diferente de Connaught, de Turlock
e dos outros cavaleiros que conhecia? Até de Garith!
Essa diferença dava-lhe uma inexplicável sensação de inferioridade, que não admitia para mais ninguém senão a si mesma. Ah, por que não nascera homem? Sentia-se
presa dentro do próprio corpo, que passara a quase odiar. Esse corpo que, além de negar-lhe a identidade masculina, gostava de pregar peças, enchendo-se de desejo
por outro homem... Mas afinal de contas, que lhe importava? Ela era um cavaleiro do reino, sagrada pelo rei em pessoa em pleno campo de batalha. Nunca se sujeitaria
a outro tipo de vida, nunca seria como Allyson. Nunca, nunca!
Surpresa, Drue se perguntou por que ultimamente vinha pensando em seu sexo. Estaria ela estudando a possibilidade de confessar a Connaught que era mulher?
Não! Nunca! Melhor esquecer tudo, e bem depressa. Enterrar o fato como sempre enterrara, a vida ioda. Era um guerreiro e um cavaleiro. E jamais aceitaria outro
tipo de existência.
Mas o olhar torturado e envergonhado de Connaught continuava a assaltá-la como um mosquito impertinente. E se ela fosse à Irlanda e lhe contasse que era mulher?
Se lhe dissesse que ele não precisava mais se atormentar com a idéia de pecado, pois o amor que sentiam um pelo outro nada mais era que o curso normal da natureza?
Qual seria a reação dele? Ficaria zangado por ter sido enganado? Ou a tomaria nos braços e a beijaria, dessa vez sem o terrível aguilhão de culpa que envenenava
a ambos?
Lançou um olhar ao espelho, desgostosa. Definitivamente, não tinha jeito de mulher. Sua semelhança com lady Allyson era a mesma que havia entre uma lebre e um
veado. Allyson era branca e macia, tinha braços roliços, seios exuberantes, cintura fina. Drue era morena, crestada de sol, e seu corpo era musculoso e forte. Nada
havia de macio nela, nada de fofo nem roliço.
E Connaught era casado! Certamente, Enid parecia-se com Allyson. Mesmo que Drue se humilhasse a ponto de ir ter Connaught, seria recebida com uma gargalhada
irônica. Não, era loucura pensar nisso! Admitira considerar a possibilidade num instante de fraqueza, mas agora afastaria de sua cabeça essa idéia maluca. Ora, se
nem mesmo Garith se lembrava que ela era mulher! Ela própria conseguia se esquecer com freqüência, pelo menos até a hora em que... em que tivera Connaught nos braços.
Maldito Connaught, que a fazia duvidar de ter escolhido a vida certa!
Com um soluço, Drue meteu-se na roupa de dormir e enfiou-se na cama. Mas o sono não vinha. Rolou na cama até tarde, inquieta. Quando conseguiu dormir, sonhou
com Connaught. Mas mesmo em sonhos, Drue não conseguia idealizar seu relacionamento com ele da mesma forma que Allyson e Garith. Era-lhe tão ridículo se imaginar
no lugar de Allyson, soltando risotas e falando de forma afetada, quanto imaginar dois cavaleiros apaixonados.
Não, não havia esperança para aquele amor. Então, Drue não teria seu par na vida. Tudo o que podia fazer era continuar a ser o que era. E se alguma vez seu segredo
fosse revelado, então sua vida estaria perdida.
O casamento foi luxuoso, festivo e movimentado. Após as cerimônias, sucederam-se dois dias de torneios e justas. Como todos esperavam, Drue abocanhou a grande
maioria dos prêmios, tendo lutado como campeão de lady Allyson. Todas as honras ficaram na importante casa dos Duxtons; Garith assistiu aos torneios ao lado da jovem
esposa, contente de ver o irmão brilhar.
Depois de uma luta particularmente cansativa, Garith foi à tenda de Drue.
- Turlock me disse que você tem aceitado todos os desafios, Drue.
- Claro. Não gosto de fugir de desafios, você me conhece bem. Além disso, todo mundo está satisfeito, incluindo sua mulher, minha patrona.
- Mas você não está aproveitando a festa. Não o convidei para vê-lo lutar com a espada nem rolar no chão.
- Essa é a melhor parte da festa, mano. Prefere que eu me sente no meio dessas dondocas, segurando uma flor na mão?
Garith enrubesceu. Não fazia muito, Drue havia-o encontrado com uma flor na mão, pronto a dá-la a Allyson.
- Então acho que vou desafiá-lo - revidou, zangado.
- Não. Porque eu o venceria sem dó nem piedade, não duvide. Aceitei a honra de ser campeão de lady Allyson exatamente para que você não me desafiasse. De que
lado ela ficaria, homem de Deus? Não, Garith, deixe as coisas como estão, Será melhor para todos nós.
Quando Garith deixou a tenda, havia uma tensão inexplicável entre os dois.
Perdida em seus próprios problemas, Drue não se apercebera dos olhares que a cunhada lhe lançava. O que começara como simples curiosidade e admiração transformara-se
em adoração, e embora Garith desconhecesse a extensão do problema, não duvidava que havia alguma coisa no ar. Por outro lado, parecia estranho a Garith que Drue
prestasse tanta atenção em Allyson e a observasse com tanta insistência.
Garith sacudiu a cabeça. Bobagem! O próprio Drue dissera que a vida de Allyson era uma fonte de bocejos! Então, talvez fosse ciúme da parte de Drue. Sim, era
isso!
Aliviado, ele voltou para a mulher e deu-lhe um beijo. Quando encontrasse Drue de novo, diria a ele que ninguém se interporia entre os dois irmãos. Ninguém,
nem mesmo sua mulher.
Drue observava a etérea silhueta da cunhada, que esvoaçava no jardim como borboleta colorida, a enorme saia inchada ao vento como asas transparentes. Seus sapatinhos
eram tão pequenos e delicados, que Drue se perguntava, espantada, se eles não se gastariam naquele ir-e-vir incessante entre as flores.
E o cabelo, misericórdia! Allyson devia ter gastado horas e horas empilhando aqueles cachos. As mãos, pequenas e muito brancas, certamente jamais tinham pegado
sequer num punhal.
Drue percebeu que o dia já começava a alongar as sombras. Ficara grande parte da tarde observando a cunhada, e tudo o que esta fizera fora colher um buquê de
flores. E, ainda por cima, um buquê bem pequenininho! Era demais!
- Ah, Drue, andei procurando você por toda a parte! - exclamou Garith, entrando na sala. - Imagine só que um mensageiro veio hoje com um presente de casamento
para mim. Adivinhe de quem?
- Papai Noel - riu ela.
- De Connaught, mano!
Drue baixou os olhos, porque sabia que eles deviam estar brilhando como duas estrelas.
- Não diga. E qual é o presente?
- Uma peça inteira de renda irlandesa, tão macia como nuvem. Minha mulher está enlouquecida de alegria. Ele também mandou um tonel de uísque para nós dois.
No bilhete que recebemos, aliás muito simpático, ele lhe manda cumprimentos e agradece pelo modo como foi tratado enquanto prisioneiro.
- Tratei-o como trataria qualquer outro cavaleiro vencido.
- Mesmo assim ele está agradecido. Venha, vamos abrir o tonel e beber à saúde de Connaught!
Dizendo isso, puxou a irmã pelo braço e começou a tagarelar, alheio à expressão de sofrimento que de repente se instalara no rosto dela.
Drue lembrava-se da última vez em que brindara com Connaught. Fora naquela noite fatídica, em que ele esvaziara duas garrafas de vinho como se fossem dois dedais.
E depois... depois ambos haviam se entregado aos delírios de uma paixão impossível. A lembrança do beijo voltou, aguda e dolorosa. Com raiva, ela espantou seus demônios
soltando uma risada forçada, em resposta a uma piada que Garith fizera.
- Um drinque vai nos fazer bem - disse ele.
- É, acho que sim.
Talvez fosse bom tomar uma bebedeira. Pelo menos os fantasmas que a perseguiam também se embriagariam e se retirariam para dormir.
O primeiro gole desceu asperamente, transformando suas vísceras em fogo. O sangue circulou mais rápido e quente em suas veias. Como Connaught fazia quando a
tocava.
- Epa, esse negócio é forte! - falou Garith.
- É, danado de bom - replicou ela, estendendo a taça vazia. - Faz o sangue ferver.
Mas esquecer Connaught era difícil. Nem que ela tomasse o barril inteiro de uma vez. Assim mesmo, resolveu seguir adiante. Pelo menos, se encheria com a bebida
que "ele" enviara.
Horas depois, lágrimas de autopiedade escorriam pelo rosto de Drue. Mas não havia ninguém para vê-la; Garith não agüentara acompanhar o ritmo da irmã e apagara
minutos antes.
Drue deu um último gole e ergueu-se, oscilando perigosamente. Agarrou o irmão e jogou-o no ombro, caminhando com passos trôpegos, enquanto cantarolava uma velha
canção de guerra. Ora, que mulher realizaria uma façanha igual àquela? Só ela. O pensamento a fez parar de cantar e soltar uma gargalhada.
O riso ecoou pelas paredes do castelo adormecido. Era um riso triste, amargo e solitário. O riso de um espírito atormentado que erra pelo mundo sem esperança
de redenção por ter cometido um pecado grande demais para ser perdoado...
Mas Drue não queria perdão. Porque, para obter perdão, era preciso haver arrependimento. E Drue não se arrependia de nenhum momento que partilhara com Connaught.
Ao contrário, agarrava-se à sua memória naquele momento, como nunca tivera coragem. A memória de Connaught era a única migalha que receberia do banquete da vida.


































CAPÍTULO IX

- Drue!
A palavra saiu num grito áspero da garganta de Connaught, sacudindo a noite, ecoando pelas paredes do castelo silencioso.
Minutos depois lady Enid entrava nervosa, os cabelos caindo em espessos rolos negros sobre os ombros. Pequenina e pálida, dava a impressão de uma aparição do
outro mundo surgindo da escuridão. Seus olhos denunciavam espanto e medo.
Connaught sentou-se na cama e pestanejou diante da aparência fantasmagórica da mulher.
- Leve essa lamparina para o outro quarto - pediu ele, amaciando um pouco a voz - e depois volte para cá. Perdi o sono. Se não se importa, gostaria que ficasse
um pouco comigo.
O brilho de alegria que viu no rosto de Enid encheu-o de remorso. Maldição, ela o amava, queria-o como marido e amante, e no entanto Connaught não conseguia
tocá-la sem sentir pungente saudade de Drue.
Desde que voltara, a situação fora se deteriorando aos poucos, a ponto de se tornar intolerável. A voz aguda de Enid irritava-o, a pele muito branca, quase transparente,
e os longos cabelos negros faziam-no desviar o rosto. O perfume dos óleos que ela usava embrulhava-lhe o estômago, e sua leveza quase etérea dava-lhe a impressão
de que vivia ao lado de uma nuvem, em vez de um ser de carne e osso.
Deus, como queria uma mulher! Seu corpo ardia de desejo por uma mulher. Mas seria mesmo disso que precisava? De uma mulher?
Virou a cabeça para a parede quando sentiu que a esposa voltava.
- Que fizeram com você? - Enid perguntou, a voz tremula. - Que lhe aconteceu? Por que vive tão triste, a ponto de não encontrar prazer ao lado de seus filhos
nem de sua esposa? Deus, você deve ter sido torturado... É a única explicação que encontro...
- Não, Enid, não fui torturado. Fui tratado com bondade e respeito.
- Sei... Vi bondosos vergões e respeitáveis hematomas em seu corpo, Até sua boca tinha um corte tão grande que nem ousei beijá-lo. Bondade e respeito, pois
sim!
Connaught passou a mão nos lábios quase com veneração. Aquele corte não fora infligido por uma espada, mas pela boca de outra pessoa. Uma boca maravilhosamente
carnuda e macia, mas que sabia ser dura e voraz como jamais provara outra. Céus, como gostaria de esquecer aquele louco interlúdio de paixão proibida! Como gostaria
de voltar atrás alguns anos e desviar-se do curso que sua vida tomara! Contudo, isso era impossível. Assim como era impossível esquecer aquele beijo roubado num
momento de loucura. Mais impossível ainda era aceitar a verdade: estava desesperadamente apaixonado por Drue!
- Já expliquei antes, Enid. O rei inglês quis demonstrar sua raiva diante da derrota que sofreu em Bannockburn. E descontou em mim, que por acaso estava mais
perto dele. Mas eu fui bem tratado, repito.
- Então houve alguém mais em sua vida. Uma mulher. Talvez seja ela a razão de você não mais vir me procurar no leito à noite... É isso, não é?
- Juro-lhe, Enid, que não há outra mulher em minha vida além de você. Enquanto fui prisioneiro, não vi mais Que uma ou duas mulheres, e assim mesmo de longe.
E elas eram simples criadas. Nem a própria rainha estava presente, quando estive com o rei.
Enid soltou um suspiro. Conhecia bem Connaught e sabia que ele jamais lhe mentiria. Aliviada, começou a contar ao marido as últimas travessuras dos filhos, os
problemas que tivera com os criados naquele dia, a manteiga que desandara quando estava quase no ponto...
Connaught fingia ouvir, a mente a quilômetros de distância. Ainda bem que ela não insistira muito no incomodo assunto! De qualquer forma, jamais passaria pela
cabeça de Enid que existia outro alguém, sim, mas não uma mulher. Um homem!
Ele passou-os dedos pelos olhos raiados de sangue, testemunhas silenciosas de noites e noites mal dormidas. Observou a mulher que não parava de falar e achou-a
insignificante. Enid pôs-se a ajeitar os lençóis enquanto contava sobre o corselete de veludo de lady McBloedell, sobre o penteado de lady Carey, sobre o filho bastardo
de um cocheiro... e continuava alheia ao exame crítico do marido. Mesmo seu modo de jogar a cabeça de um lado para o outro irritava-o sobremaneira, lembrando-lhe
um pardal - pequeno, cinzento e comum.
Bem que tentara conversar com ela, mas fora o mesmo que falar com uma parede. Histórias de batalhas enfadavam-na, Enid mal sabia a diferença entre um cutelo
e uma catapulta, e orgulhava-se disso.
Mesmo quando ouvia falar na coragem do marido, Enid não mostrava mais que um interesse morno, bastava-lhe saber que ele estava vivo e ao seu lado. E mudava de
assunto quase sem o perceber, deixando-o frustrado e irritado. Certo dia, após infrutíferas tentativas de interessá-la com o que lhe acontecera, Connaught atacara
de outro flanco:
- Que tal irmos falcoar juntos amanhã?
- Oh, Patrick, bem sabe que não posso ver sangue. Aliás, desde o nascimento de Kyle nunca mais montei, a não ser em casos de extrema necessidade.
Connaught aceitara as desculpas com algum alívio, na realidade, não sentia a menor vontade de levá-la junto. Mesmo porque Enid era incapaz de montar cavalos
mais velozes ou maiores que seu palafrém - um corcel de pequeno porte, elegante e lento, especialmente treinado para desfiles e passeios sociais.
Apesar de seu casamento ter sido arranjado desde que eram crianças, Enid e Connaught conseguiram levá-lo adiante sem maiores aborrecimentos. Ela lhe trouxera
um excelente dote em terras e dinheiro; ele retribuíra com seus títulos de nobreza e com uma relativa fidelidade durante todos aqueles anos. Em respeito à competência
que Enid demonstrara como mãe e castelã, Connaught não tomara amante, tendo se contentado com alguns encontros fortuitos e desprovidos de interesse.
Recentemente, porém, Connaught começara a pensar com bastante freqüência que sua vida com Enid carecia daquele "algo mais" que poderia torná-la menos tediosa.
Agora, por exemplo, ansiava por alguém que se interessasse pelo excelente mergulho que ensinara a seu falcão, ou pelo tamanho do javali que caçara naquela tarde.
Queria ao lado uma pessoa que não se pusesse a tremer só de ouvir falar em ferimentos. Que não o importunasse com intermináveis histórias sobre as camareiras.
Enid fora educada ciosamente dentro das regras comuns; aprendera a cozinhar, bordar, dirigir empregados. Suas mãos nunca levantaram peso maior que o de uma agulha,
e sua mente não compreendia nada que se pagasse fora do castelo. Quando soubera que Connaught estava para voltar, mandara lustrar os móveis, arear as panelas, esfregar
o chão. Providenciara que os lençóis fossem lavados com uma mistura de cinzas e soda até se tornarem brancos como neve e pessoalmente cuidara de espalhar ervas perfumadas
sobre o chão do quarto, a fim de mantê-lo seco e perfumado, mas quando Connaught chegara, não deva a menor importância a esses cuidados: parecera a Enid que estava
diante de outro homem, tal a indiferença e distância com que a tratara.
Magoada, Enid se fechara em mutismo e resignação. Nem mesmo Patrick, o herdeiro, conseguia arrancar Connaught de seus estranhos devaneios. Patrick crescera bastante
e sua altura quase igualava a de sua mãe não que isso fosse alguma vantagem, pois Enid era muito baixinha e franzina. Tão baixa que, se Connaught esticasse um braço
para a frente, ela poderia passar por baixo sem que sua cabeça roçasse na mão do marido. Por causa disso, Enid se empenhava em produzir penteados altos e elaborados,
ainda que lhe custasse tempo e cansaço.
Agora, ela se perguntava se valia a pena tanto trabalho. Connaught não lhe parecia nem um pouco interessado em seus penteados e em seus luxuosos vestidos. Contudo,
logo no início do casamento, ele lhe confiara que achava a diferença de tamanho entre os dois "encantadora". Agora Enid tinha sinceras dúvidas. De qualquer modo,
ela lhe dera filhos sadios e fortes, mesmo tendo um corpo franzino e doentio.
E era sobre eles que Enid ainda falava quando notou que o marido, lutando contra o sono, piscava pesadamente. Ela se levantou e despejou vinho numa taça de prata.
- Tome, Patrick. Isto o ajudará a dormir em paz. Mal pronunciou a frase, recuou, assustada diante do olhar sombrio que ele lhe lançou, como se quisesse atirar-lhe
a taça na cabeça. Contudo, Connaught não fez nada disso limitou-se a aceitar a bebida, esvaziando-a de um só gole.
Enid recebeu a taça vazia e tartamudeou, algo nervosa:
- Tente dormir. Ficarei aqui sentada, a menos... a menos que você prefira que eu me deite ao seu lado.
A voz tremeu no final da frase, mas Connaught não a ouviu. Sua mente trabalhava com o que Enid dissera: "Isto o ajudará a dormir em paz".
Que Deus se apiedasse dele, pois outra coisa não queria. Mas não haveria mais paz para sir Connaught, pois tinha a alma enegrecida pelo pecado de estar apaixonado
por Drue. Paz! Nunca mais encontrara a tão procurada paz, nem no fundo de um barril de rico vinho tinto, nem num tonel de cerveja espumante. Até o consolo que costumava
encontrar na sua bebida predileta, o uísque irlandês, fora-lhe negado. O generoso líquido cor de ouro, que sempre lhe trouxera visor e vontade de cantar, agora só
lhe causava melancolia e solidão. Enviara um tonel de uísque para Garith, em honra ao seu casamento. Teria ele recebido?
E Drue, teria experimentado o gosto de seu presente? Teria sentido a mesma sensação de fogo líquido ao tomar o primeiro gole? Teria se lembrado dele, Connaught,
quando bebera?
- Que dia é hoje? - perguntou, abruptamente.
- É a festa de São Gregório - respondeu Enid, olhando-o com espanto.
Connaught não lhe deu atenção. Fechou os olhos e imaginou que o uísque já deveria ter chegado às mãos dos Duxtons. Talvez Drue e Garith estivessem bebendo agora,
naquele instante. Em sua mente passou a imagem de uma mão ágil e forte, cor de mel, segurando a taça entre os dedos. A imagem foi ganhando corpo, um corpo sensível,
alto, quase feminino de tão perfeito. Tentaria Drue afogar as saudades na bebida, como ele mesmo tantas vezes tentara em vão?
- Traga uísque, por favor. Este vinho não traz alívio para meus problemas; preciso de algo mais forte.
Enid obedeceu sem fazer perguntas. Quando voltou ao quarto, trazia uma cuia cheia até a borda de uísque.
- Não beba tão depressa como fez com o vinho - disse ela, com uma nota de preocupação na voz. - Pode lhe fazer mal.
Ele fez uma pausa antes de tomar o primeiro gole.
- Bebo à saúde de meus captores, que certamente estão celebrando e bebendo também. Bebo à saúde de meus inimigos, e digo que minha alma se junta à deles para
brindarmos juntos. Que sejam felizes!
A cada frase, Connaught sorvia largo trago, estalando a língua.
- Por favor, meu marido, vá mais devagar!
Atordoada e impotente, Enid contemplava o olhos torturados do marido. Tinha a impressão que ele caminhava deliberadamente para a autodestruição, levado pior
um instinto perverso.
O álcool subiu depressa. Piscando como coruja em noite escura, Connaught engrolou:
- Estou apenas celebrando com meus amigos. Eles estão bebendo meu uísque, brindando ao casamento de Garith, e eu bebo com eles, nada mais. E como se eu estivesse
lá, ao lado deles.
Ergueu a cuia outra vez, como se com ela tocasse uma taça invisível.
- À saúde da noiva! Que ela seja tão obediente e eficiente como minha querida Enid.
Bebeu, observando a face de Enid sorrir-se de prazer.
- À saúde de Garith! Que ele viva muitos anos e tenha muitos filhos!
A cuia se esvaziava depressa. Enid tentou tirá-la das mãos trêmulas de Connaught, mas ele a afastou.
- Chega, Patrick. Não se esqueça que Jaime Douglas virá vê-lo amanhã cedo!
- E daí? - desafiou-a Connaught, os olhos com uma sombra escura que Enid ainda não conhecia. - A saúde de Drue, que me venceu lealmente, me teve cativo e ainda
me tem.
Lady Enid não conteve um gesto de surpresa ante a frase enigmática.
- Para você, Drue - disse sem notar a reação da esposa, erguendo bem alto a cuia. - Nós dois vamos ficar com a borra da bebida, meu caro. Às vezes este uísque
se torna mais doce que o mais doce dos vinhos, e também mais mortal que cicuta. Tem gosto de lágrimas e tristeza, de lembranças e remorso, de amor e ódio. Não há
cura, não há esquecimento! Mesmo depois da morte, eu sempre me lembrarei... sempre!
Assustada, Enid se ajoelhou ao lado da cama. tirando delicadamente a cuia vazia das mãos do marido.
- Do que está falando, Patrick? Do que é que vai se lembrar sempre?
Não compreendia os fantasmas que levavam o marido a beber com aquela sofreguidão, mas leu em seus olhos azuis um brilho inequívoco de amor. Pensando que era
amor por ela, deitou a cabeça no peito largo e poderoso.
- Lembra-se das noites que passávamos juntos antes que você começasse a lutar ao lado de seu tio Robert? Lembra-se de como éramos felizes então?
Não, Connaught de nada se lembrava. Sua memória parecia ter congelado no dia em que conhecera os olhos dourados de Drue. Porque Drue possuía tudo o que Connaught
admirava num homem - coragem, determinação, força, lealdade, e... e... mais, muito mais...
Sem notar o que fazia, Connaught envolveu a cabeça da mulher entre os braços. Sentia o sangue latejar como os tambores escoceses chamando-o para a batalha. O
rosto de Drue flutuou diante dele, tomou corpo, invadiu o quarto com seu cheiro de mel silvestre. Sem nada ver, sem se importar com nada, voltou-se para quem lhe
oferecia, sem resistência, algum alívio para seu corpo torturado de desejo. Fez amor com quase desespero, numa tentativa de despejar, junto com seu sémen, toda a
angústia e a podridão que lhe ia na alma.
Só mais tarde percebeu que não destruíra o fantasma de Drue, mas apenas parte de si mesmo. Vagarosamente, ergueu-se do corpo macio e etéreo de Enid, sentindo-se
imundo. Vestiu o roupão e,subiu para o terraço de ameias em busca de ar, mais uma vez convencido de que jamais se livraria de Drue. Seu corpo tornou-se frio, enquanto
os dedos gelados do medo apertavam-lhe o coração numa constrição sufocante. Assinara sua condenação eterna quando admitira que amava um homem!
Incoerentemente, começou a praguejar e a rezar entre soluços secos, em busca de uma resposta para seu dilema. Mas as orações caíam no vazio, e as pragas conseguiam
apenas ecoar entre as paredes frias do castelo. A única resposta que recebeu foi à lembrança do rosto de Drue quando a vira pela última vez, em meio às despedidas.
Naquele momento, entendera a magnitude de seu pecado, porque soubera que seu amor desenfreado também manchara Drue.
E se deixasse seu castelo, sua mulher, seus filhos? Se voltasse à Inglaterra e confessasse seu amor a Drue? Certamente seria bem aceito na corte, pois o próprio
rei abertamente amava Piers Gaveston. Connaught e Drue seriam motivo de chacotas para todo o mundo, mas seriam tolerados.
Obscurecida pela bebida, a mente do irlandês trabalhava tortuosamente. Sim, iria até Drue e abriria o coração para mostrar a enorme chaga que crescera dentro
de si. E os dois viveriam juntos, para sempre... O castelo ficaria com Patrick, seu herdeiro legal. Depois, como cavaleiro errante, ficaria livre para lutar pela
melhor oferta em dinheiro. Tantos faziam isso - por que não ele? Estaria livre para amar Drue. Drue, Drue!
A manhã ia alta quando um guarda veio acordá-lo, e os primeiros raios de sol batiam em cheio em sua cabeça dolorida. Connaught arrastou-se devagar escada abaixo,
rumo ao quarto, sem ter entendido direito como fora parar nas ameias da torre mais alta do castelo.
Pouco a pouco, sua mente cansada foi juntando as memórias. E quando viu a cama desarrumada, sentiu o perfume irritante de Enid e se lembrou de tudo. Soltou uma
praga e deu um soco na parede, furioso consigo mesmo. Usara Enid como... como latrina de seus próprios detritos! Enid, sua terna e doce mulher, que lhe dera filhos
e fidelidade!
- Imbecil! Fraco! Covarde! - murmurava, enquanto se vestia rapidamente. - Preciso pedir-lhe desculpas depressa... Como pude agir assim com ela?
Nesse momento a porta se escancarou e uma gloriosa Enid correu para seus braços, sorridente e feliz.
- Patrick, Jaime Douglas acaba de chegar. Está lá embaixo no saguão, à sua espera.
- Enid, eu - começou, sem graça.
Mas ela o beijou ternamente, silenciando-o.
- Falaremos sobre isso hoje à noite... de novo, meu amor! Connaught susteve a respiração, assombrado. Quase não se lembrava de nada da véspera; apenas deixara-se
levar pelas memórias de Drue e, perdido de paixão e desejo, fizera de conta que estava possuindo o jovem guerreiro. Mesmo sabendo que deixara Enid feliz, Connaught
ainda assim se reprovava intimamente. Em silêncio, ofereceu o braço a Enid para juntos irem receber o ilustre visitante.
- Está tudo em paz por enquanto - dizia Jaime Douglas, ao final do lauto almoço, ainda se deliciando com nata batida e framboesas recém-colhidas, - Mas insisto:
por enquanto, meu velho. Porque o maluco do Eduardo vai de novo provocar Robert Bruce; é uma questão de tempo. Logo verá como tenho razão!
- Talvez seja conveniente treinar secretamente nosso exército. Está pensando nos velhos e antiquados ataques na fronteira com a Inglaterra?
- Não, penso em guerra mesmo. Soube que o conselho inglês anda apertando o rei para declarar guerra à Escócia. Só alguns nobres não concordam com isso - os
Duxtons, Pembroke e, pelo que ouvi dizer, o próprio Gaveston.
- Como é que é?! Os Duxtons não querem guerra? Não acredito.
- Pois é verdade. O velho duque tem se enterrado nos castelos e diz que está querendo se aposentar. O mais novo, Drue, esse de vez em quando ainda se mete numa
ou outra escaramuça. Ele e o primo distante, aquele urso grisalho... Como se chama mesmo?
- Turlock.
- Isso mesmo. Como vê, a calma anda reinando por lá. Mas insisto que é por pouco tempo. De qualquer forma, as escaramuças que ainda acontecem não dizem respeito
a você, uma vez que suas terras ficam aqui na Irlanda.
- Nem todas. Bruce me deu um castelo escocês, com cidade e tudo. Antes de vir para cá, fui conhecê-lo, mas não gostei. Muito distante, muito árido.
Drue também era uma pessoa árida e distante. Alguém feito para combater. A imaginação de Connaught começou correr ao lado de Drue, a sentir seu cheiro de mel,
a ver os cabelos curtinhos dançando ao vento em mil tons de ouro.
Perdido em lembranças, Connaught de repente notou que Jaime Douglas conversava com Patrick, enquanto o pequeno Devin ouvia solenemente a conversa.
- O que você quer ser quando crescer?
- Tomarei conta de todos os castelos. Como meu pai e meu avô.
- E você, Devin?
O pequeno não pensou duas vezes. Seus olhinhos brilhavam de orgulho quando respondeu:
- Eu vou ser igualzinho a papai.
O coração de Connaught se confrangeu, apertando-se dolorosamente.
"Não sabe o que está dizendo, meu filho!", protestou em silêncio.
- Papai é o melhor guerreiro do mundo cristão - sentenciou Patrick. - Ele sempre ganha, e nunca ninguém o venceu!
- Puxa, é mesmo? - perguntou Jaime Douglas, piscando para Connaught por cima da mesa. - Ei, meu velho, está se sentindo bem? Parece que viu um fantasma!
- Não é nada - volveu Connaught, impaciente. Depois, voltando-se para o herdeiro:
- Fui vencido uma vez, Patrick, quando me fizeram prisioneiro.
- Essa não conta - retrucou o garoto, teimoso. - Você estava cercado de inimigos. Eram cem contra um!
- Quem lhe disse isso?
- Mamãe me disse que...
- Pois ela se enganou. Eu não estava cercado. Fui feito prisioneiro por sir Andrew Duxton numa luta leal.
Os garotos se entreolharam, desapontados. Patrick tocou de leve na manga do pai:
- Você precisou se entregar?
- Não, meu filho. Eu me entreguei... porque quis... algum tempo depois.
Os meninos procuraram socorro nos olhos de Jaime Douglas, mas nem este entendeu a estranha charada. Percebendo que havia alguma coisa por trás das palavras amargas
do amigo, deu um soco na mesa, dizendo alegremente:
- Por que não vamos passear a cavalo um pouco? Que tal uma boa caça com falcões?
Os meninos pularam de alegria e saíram em disparada para dar ordens na estrebaria. Quando se viu a sós com Connaught, Jaime falou em voz baixa e afetuosa:
- Pensei que ia encontrá-lo feliz por estar cercado pela família, mas vejo na minha frente um homem amargurado e triste. Se não está gostando destas férias,
meu caro, garanto-lhe que Bruce terá muito prazer em recebê-lo em sua corte novamente.
Connaught balançou a cabeça.
- Por enquanto não, obrigado. Devo ficar e dar uma chance a Enid... e a mim mesmo também. Precisamos aprender a nos conhecer de novo, e isso não está sendo
muito fácil.
- Acho que compreendo o que quer dizer, mas você está levando muito longe esse problema de ter sido feito prisioneiro. Todos nós já passamos por essa experiência;
até Robert Bruce já esteve preso. Não há nada de vergonhoso em ser capturado, homem de Deus! Você não fez nada de errado!
- Digamos que é um capricho de meu orgulho, de minha natureza de homem. Mas não se preocupe, Jaime. Ainda hei de me safar desta, de uma forma ou de outra,
- Tenho certeza que sim. Tudo o que precisa é de sossego e do amor de uma boa mulher, e pelo que vi, você tem as duas coisas.
- Tem razão - anuiu Connaught, apertando a taça de estanho com tanta força que as bordas cederam, formando um bico.
Irritado, empurrou-a para o lado e voltou os olhos para os admiráveis gramados de suas terras, que se estendiam a perder de vista. Não, não tinha sossego de
espírito, nem o amor de quem lhe assombrava a mente a cada minuto. Como confessá-lo a Jaime?
Este observou o amigo por algum tempo; depois se ergueu e pousou as mãos afetuosamente em seus ombros.
- Connaught, não sei que demônios andam atormentando sua alma. Mas se precisar de um amigo, conte comigo.
- Obrigado, sei disso. Não creio que você possa fazer qualquer coisa por mim ou por minha alma. Nem você, nem ninguém.
- Por que não procura a ajuda de um padre? Meu confessor costuma viajar comigo, e ele está aqui agora.
- Está louco? - exclamou Connaught, soltando um riso amargo. - O coitado sairia voando do confessionário com o que eu teria para contar...
Douglas riu jovialmente, embora sentisse imensa pena da tortura que adivinhava por trás dos olhos azuis do amigo.
- Duvido que ele fique mais chocado com os seus pecados que com os meus. Por que não experimenta?
Confessar seu colossal pecado a alguém, mesmo a um padre, era coisa que nem passava pela cabeça de Connaught:.
- Vou pensar nisso - prometeu, evasivo.
A decisão foi tomada de repente. Voltando da caça, Patrick e Devin riam e tagarelavam sem parar.
- Você viu que incrível? - dizia Patrick, os olhos úmidos de admiração. - O javali caiu com uma só estocada! Foi pá-pum!
- Papai é o maior caçador do mundo - afirmou Devin, com a encantadora certeza das crianças. - Quando eu crescer, vou ser igualzinho a ele.
Connaught desviou os olhos; a expressão embevecida dos pequenos fazia-lhe mal.
- Não queira ser parecido com nenhum homem, meu filho. Seja você mesmo, e não se arrependerá. Apenas cuide para ser corajoso e o melhor de todos.
- Então! - exclamou Devin, triunfante. - Exatamente como você!
- Não! Você não deve querer ser como eu!
As palavras saíram bruscas e ásperas, cortando a tarde em tons desafinados.
Devin baixou a cabeça, lutando contra duas lágrimas traiçoeiras:
- Eu... eu obedeço, meu pai.
Mas Connaught já se arrependera. Seu filho acabara de lhe prestar a maior de todas as homenagens, e ele retribuía com gritos! Manobrando o cavalo, chegou perto
do garoto e segurou-lhe a mão com brandura.
- Perdoe meu mau gênio, filho. Estou honrado de você me ter em tão alta consideração, embora ache que não a mereça. Mas fique certo de uma coisa: sou o pai
mais orgulhoso do mundo.
Comovido, inclinou-se e abraçou os dois garotos que cavalgavam a seu lado. Céus, ele precisava exorcizar seus fantasmas, pelo bem desses dois inocentes. Pelo
bem de Kyle, o bebê que ainda não tivera coragem de pegar no colo. tão forte era a lembrança da noite em que Drue e ele haviam brindado pelo nascimento do caçula.
Pelo bem de Enid, que o servira fielmente ao longo dos anos, embora o visse raramente entre uma e outra batalha. E pelo bem dele mesmo, que vivia para digerir a
maldição que lhe consumia as entranhas. Sim, iria se confessar com o padre. Pediria perdão a Deus, e talvez conhecesse a bênção da redenção.
Padre David viajara milhas e milhas com Jaime Douglas, e nessas andanças ouvira diversas confissões. Palavras espontâneas que saíam da boca de um moribundo,
de um ferido, de um jovem escudeiro. Mas nunca encontrara homem tão atormentado quanto o conde de Connaught.
Com a experiência de anos de confessor, o padre observara-o aproximar-se devagar, a contragosto, para logo em seguida se afastar imediatamente, como que picado
por uma vespa. Finalmente, padre David achou que cabia a ele mesmo tomar alguma iniciativa, ainda que com discrição. Assim, aguardou um momento em que o conde estava
sozinho e falou, com gentileza:
- Meu senhor, Jaime Douglas diz que partiremos amanhã cedinho. Permiti-me agradecer-vos a hospitalidade generosa.
- Não precisa agradecer a mim, mas a lady Enid, eu passarei o recado a ela. E estou certo que ela gostaria que eu retribuísse esses agradecimentos dizendo que
minha casa é sua, padre.
- Gostei muito do castelo e da região. Estou contente porque fostes devolvido ao seio da família, que aliás é encantadora, de fato, a inteligência e a vivacidade
dos garotos é impressionante! Eles certamente crescerão para vos dar muitas alegrias ainda.
- Sim, são dois rapazinhos de têmpera.
Houve um silêncio, durante o qual o padre rezou em silêncio para que aquele homem torturado finalmente criasse coragem.
- Padre, eu gostaria de lhe confessar meus pecados,
- Não a mim, sir Connaught, mas a Deus. Não passo de um instrumento para perdoar em Seu nome.
- E se não houver perdão?
O padre mergulhou os olhos cinzentos e aguados nos do belo conde, vende ali uma angústia tão imensa quanto o mundo. Se lhe fosse permitido pelas leis da Igreja,
teria dado naquele instante a absolvição, poupando assim Connaught da vergonha de se confessar para outro homem.
- Deus perdoa tudo e Todos. Tudo o que nos cabe é reconhecer a culpa e prometer que nos emendaremos.
- Ah, se fosse tão simples assim! - soluçou Connaught. - Padre, eu peco a cada vez que me lembro. Peco quando sonho, Peco quando penso.., Não. não há perdão
para mim. Nem paz! Sofro com a admiração de meus filhos, de minha mulher... Não posso encontrar em meu coração o amor que tive outra hora por lady Enid, padre.
- Vinde, sir Connaught. Vamos até a capeia, onde só Ele vos ouvirá.
Alguns minuto depois, padre David abençoava dava absolvição a alma destroçada do mais valente guerreiro da cristandade.
- Ouvi-me um instante. Vosso pecado está apenas em vossa mente, pois ele não se consumou. Vós estais sob forte depressão física, mas ouso afirmar que, se vísseis
esse jovem outra vez, certamente o veríeis de outro modo. A corte inglesa é um ninho de decadência e corrupção, e o pecado corre solto lá. Não admira que fôsseis
infectado pelo germe da tentação. Esperai e dai tempo, meu senhor. O tempo lavará o veneno de vossa memória e o purgará de vosso coração. A vontade de Deus será
feita, não duvideis. Alentai para o que vos digo: o tempo do ajuste de contas está próximo. Não só para esse jovem que vos tenta com tanta astúcia, mas para toda
a corte inglesa. Sim, o ajuste de contas se aproxima!
- Mas como é que vou saber quando...
- Sabereis quando vos virdes face a face com a tentação e conseguirdes superá-la! Ide em paz, com as bênçãos do Senhor!
- E minha penitência?
- Não vos preocupeis com isso. Lembrai-vos que Deus escreve reto por linhas tortas.
Durante muito tempo Connaught permaneceu ajoelhado no genuflexório, digerindo com dificuldade as palavras do padre. Pouco a pouco, porém, começou a sentir o
espírito mais leve. Havia muita verdade no que padre David dissera, principalmente no que se referia à corte inglesa. E, se o ajuste de contas estava próximo, então
ele se empenharia de corpo e alma em ajustá-la?, mesmo que para isso tivesse de entregar a própria vida.
Quando voltou ao castelo, o profundo vinco que trazia há dias na testa desapareceram. Os meninos correram para abraçá-los e ele os acolheu com um riso alegre,
quase feliz, que iluminou a alma de lady Enid. Ela voltou os olhos agradecidos para o padre David, que se postara num canto discreto. Padre David dirigiu-lhe um
sorriso encorajador, e ela correu para misturar sua felicidade à dos três.
Connaught observou a mulher, tão pequena, tão frágil. Que Deus o ajudasse, mas decididamente não a amava. Nem a desejava com o mesmo ardor com que ansiava por
Drue, mas jamais demonstraria a frieza de seus sentimentos. Ao contrário, deixaria que Enid acreditasse que tudo voltara ao que era antes. Ela merecia.
Agora entendia a sabedoria de padre David quando este não lhe impusera castigo nem penitência. Enid seria sua penitência, e talvez sua salvação.
Abraçando comovidamente sua pequena família, Connaught jurou que levaria a melhor naquela batalha mortal que travava consigo mesmo. Jurou que se libertaria daquele
amor indesejável. E, com a ajuda de Deus, com o amor dos seus, esqueceria que um dia existira no mundo alguém que se chamava Drue.




CAPITULO X

- Rapaz, entramos demais em território escocês! - resmungou Turlock, voltando mais uma vez o corpanzil na sela. - Daqui a pouco seremos caçados como faisões,
é o que digo. Se escaparmos vivos desta, podemos nos dar por felizes.
- Talvez você prefira dar meia-volta? - ironizou Drue, que estava disposta a vender a alma em troca de uma boa batalha.
- Mesmo que eu preferisse, você não me acompanharia. E eu não volto sem você.
- Ora, já briguei sozinho antes. Não preciso de babás segurando minha mão.
- Mas precisa de um médico para examinar sua cabeça, que só tem parafusos soltos. Você não faz outra coisa senão arriscar seu pescoço! Mete-se nas batalhas
como se não se importasse com a própria vida... Alguma coisa está errada com você.
- Nada disso. Continuo lutando como sempre, e do jeito que você me ensinou. O que pretende, Turlock? Me deixe em paz, homem de Deus!
- Há muito tempo desisti de chamá-lo ao bom senso, Drue. Mas parece que está procurando metodicamente sua morte. Não é normal lutar desse jeito, não é saudável.
E está me cheirando a autodestruição, se quer saber.
Antes que Drue retrucasse, um soldado se aproximou galopando, de mão erguida.
- Alguma novidade? - perguntou Turlock.
- Escoceses! Um regimento dos grandes, esperando do outro lado.
Drue estudou o íngreme caminho em que se achavam, perto do alto pico, cujo flanco salpicado de flocos brancos indicava a recente nevasca. O céu, escuro e cinzento,
ameaçava nova tormenta, e não lhe parecia conveniente forçar o encontro com o inimigo antes da neve.
- Vamos fazer um reconhecimento antes - sugeriu Turlock. - Depois decidiremos o que fazer.
O mensageiro conduziu-os até um ponto de onde eles pudessem descortinar o vale todo. Gelado e sombrio, o desfiladeiro fervilhava de inimigos, trazendo uma sensação
desagradável de maus presságios.
- O rei pretende vir ao nosso encontro - comentou Turlock. - Ele virá por aquele estreito do lado sul.
- Precisamos achar o local mais conveniente para nós e forçar os escoceses a nos atacar lá.
- Perca as esperanças - respondeu Turlock, apontando para baixo. - Veja só ali, o próprio Robert Bruce está entre eles. Esse homem é uma raposa velha, Drue.
Não conseguiremos enganá-lo de jeito nenhum! Pelo visto, a vantagem está do lado de lá de novo. E a vitória também.
Mas Drue não ouvia, mergulhada numa sensação aguda de emoção e ansiedade. Acabara de ver a bandeira de Connaught tremulando ao vento.
- Ei, você viu a bandeira de nosso amigo Connaught? -- perguntou Turlock. -Isso é mau. Temos de ficar longe dele, Drue, principalmente você. O irlandês quase
se fez nosso amigo durante o tempo em que foi nosso prisioneiro, e eu sou de opinião que um homem ou é amigo ou inimigo. Não há meio termo, não pode haver! Muito
menos no campo de batalha, concorda?
- Concordo - respondeu ela, num fio de voz. Seus olhos buscavam aflitos a silhueta maciça e atlética de Connaught, detendo-se em cada cabeça morena, como se
daquela distância lhe fosse possível distingui-lo.
- Vamos - disse Turlock, virando o cavalo. - Vamos daqui.
As horas seguintes foram permeadas de fogo e gelo.
Drue. Embora ardesse de vontade de rever Connaught, ainda que fosse por breves instantes, sabia que um confronto entre ambos seria inevitável. E ela não tinha
a menor intenção de se bater com ele. Pela primeira vez na vida sentiu inveja de Garith, refestelado em segurança em seu belo castelo. Ah, se por um milagre ela
pudesse voar dali para bem longe, onde não haveria perigo de terçar armas com Connaught!
A imagem dele voltou-lhe à lembrança, viva e nítida. Uma imagem que conseguira enterrar fundo no coração, exceto quando sonhava em suas noites solitárias. O
rosto de Connaught, a chama candente dos olhos azuis, o som de sua risada. O corpo grandioso e nu, ostentando sua força... Por Deus, precisava afastar essas memórias
da cabeça, ou elas poderiam causar sua derrota.
Repentinamente, decidiu que ficaria no acampamento e coordenaria a batalha de sua tenda. Odiava essa tática e nunca a colocava em prática, mas qualquer saída
serviria para escapar da situação de encontrá-lo face a face. Antes, porém, que pudesse anunciar o plano a Turlock, soaram trombetas de alarme.
- Que foi? - perguntou ela, entrando na tenda de comando.
- Ora, que foi! - resmungou Turlock, irritado. - Eduardo II, é claro! O mais irritante calo que tenho no meu pé é nosso rei. O imbecil deixou tudo a perder!
- Fale logo, Turlock - pediu Drue, sentando-se pesadamente. - Não estou para charadas.
- Ele atacou os escoceses por trás, certo de que os apanharia de surpresa. Mas é aí que o rei se engana redondamente; Bruce não é burro, e sabe que estamos
aqui. Certamente estava esperando um lance desses. Maldição!
- Bem, não adianta lamentar o que já foi. Que vamos fazer?
Turlock fez um gesto de desalento e resignação.
- Você ataca pelo flanco da direita e eu fico com o da esquerda. Vamos ver se conseguimos atrair a atenção, enquanto nosso rei ganha tempo para recuar.
- Agora?
- Não, já. Ou prefere fazer um pouco de croché? Drue meteu-se rapidamente dentro da pesada armadura e correu para o cavalo, gritando para seus homens com entusiasmo:
- Vamos, meus bravos! Abaixo os escoceses! Viva a Inglaterra!
Acompanhada de seus homens, desceu rapidamente a encosta, cuidando para não fazer barulho. Com o canto dos olhos, vigiava os movimentos de Turlock, esperando
o momento adequado. Era necessário que ambos atacassem ao mesmo tempo, para enfraquecer o inimigo.
Quando viu o braço de Turlock erguido, deu o sinal de ataque, e enristou a lança. Baixou o elmo e investiu, seguida de seu pequeno contingente de guerreiros,
todos leais e corajosos.
Mas a situação estava pior do que imaginava. Embora o grosso do exército escocês estivesse empenhado na luta contra os homens de Eduardo II, os que restaram
ainda formavam número suficiente para enfrentá-los e resistir por muito tempo. Drue soltou seu brado de guerra, e o de Turlock respondeu do outro lado do desfiladeiro,
como num eco poderoso e destruidor.
Da mesma forma como já haviam feito inúmeras vezes, Drue e Turlock varriam com a espada os inimigos, ceifando-os, obrigando-os a recuar. A armada do rei formou
então uma cunha portentosa, que tentava dividir a armada escocesa em duas.
A cunha foi se estreitando até se transformar numa linha reta. Os escoceses tropeçavam uns nos outros, pisoteando-se. esmagando-se como maçãs maduras apertadas
num saco, na vã tentativa de impedir que os três líderes inimigos - Turlock, Drue e Eduardo II - se encontrassem. Drue, percebendo que se avizinhava da armada do
rei, deu voz de ordem para que seus homens saíssem de linha e dessem início ao corpo-a-corpo. Em pouco minutos o desfiladeiro transformou-se numa babel infernal.
À medida que a luta esquentava, Drue se viu separada novamente de Turlock. Era quase impossível distinguir aliados de inimigos; a lama, a dor e o sangue contribuíam
para aumentar a confusão reinante. De repente, o espírito alerta e experiente de Drue avisou-a de que havia perigo iminente no ar. Seus olhos buscaram Turlock freneticamente,
mas ele não estava em perigo. Ao contrário, vibrava a machadinha no ar, girando-a com tamanha rapidez que não havia quem conseguisse se aproximar de seu cavalo.
Finalmente, Drue enxergou um magote de cavaleiros que se preparava para desferir o golpe mortal num inimigo solitário. E, apesar do ar gelado e cortante, ela
sentiu gotas de suor correram em grossas bagas de sua testa. Retesando-se na sela, partiu como raio para cima dos cavaleiros, rugindo:
- Esse é meu!
Sem se preocupar com o que poderia acontecer, arremeteu o cavalo em cima dos pares ingleses, abrindo caminho à força. Por um segundo, pensou ter reconhecido
um lampejo azul por trás da estreita fenda do elmo, seguido de um instante de hesitação do inimigo. Foi o suficiente para que os cavaleiros ingleses erguessem suas
espadas com um brado de vitória.
Connaught aparou o primeiro golpe com destreza, mas o segundo abateu-se sobre ele, derrubando-o da sela, deixando-o inteiramente à mercê da sanha inglesa.
Com um urro animal, Drue percebeu que o homem que amava acima de tudo no mundo seria abatido como rês no matadouro, diante de seus próprios olhos. Atirando-se
como louca no meio dos pares, cobriu o corpo de Connaught com o seu. E, no mesmo instante em que recebia um golpe portentoso, que pareceu parti-la em duas, ainda
teve forças para gritar:
- Esse é meu!
Sua própria voz pareceu perder-se em distâncias desconhecidas, enquanto seu corpo deslizava para as trevas do inconsciente.
Connaught prosseguiu lutando. Seus braços se moviam automaticamente, distribuindo a morte com força surpreendente, enquanto sua mente forcejava para esquecer
os acontecimentos dos últimos instantes.

Bruce havia-lhe assegurado que os Duxtons tinham se recusado a tomar parte naquela invasão disparatada e insolente. Por isso Connaught estava ali; ele jamais
se permitiria defender a Escócia, caso soubesse que qualquer um dos Duxtons estaria lutando também. Contudo, lá estavam eles. Turlock continuava a lutar com sua
velha e inacreditável agilidade, enquanto Drue... Drue jazia em alguma parte do campo.
Então, seu amor não era unilateral! O sacrifício fora exigido, e Drue recebera sem hesitar o golpe fatal. A garganta de Connaught parecia fechada, coberta de
serragem, sufocando-o de raiva e frustração. Girava e brandia a espada com selvageria frenética, enquanto o sangue bombeava dolorosamente em suas veias, pedindo-lhe
um alívio que não existia.
Era então essa a vontade de Deus? Era este o momento do ajuste de contas prometido pelo padre David? Se assim fosse, mil vezes preferia ter vivido as penas do
inferno a ver Drue perecer no campo, na tentativa de salvar-lhe a vida.
Sem dar trégua à consciência, Connaught continuava a atacar com desespero dobrado, sentindo nas profundezas da alma que o pior inimigo que tinha era ele mesmo.
Seu braço doía, sua cabeça rodava; mesmo assim, ele continuava, inteiramente alheio aos problemas do corpo. As pernas adormecidas continuavam automaticamente a controlar
o cavalo, e o clangor irritante de aço contra aço perfurava-lhe a cabeça. Mas Connaught nada via, nada sentia. Sua mente estava possuída do grito angustiado de Drue:
"Esse é meu!".
Repentinamente, Connaught soltou um grito agoniado e virou o cavalo, resolvido a procurá-la e a achá-la a qualquer preço. Desesperado, passou a esquadrinhar
pedra por pedra do campo, graveto por graveto, vala por vala. Apenas algumas escaramuças continuavam teimosamente seu curso, enquanto gemidos e lamentos escapavam
dos corpos feridos. Ignorando as súplicas que lhe dirigiam, Connaught virava metodicamente cada corpo no chão, murmurando palavras desconexas. Sentia suas lágrimas
correndo quentes por dentro do elmo, lágrimas que jamais supusera ser capaz de derramar.
À medida que se aproximava da área onde Drue fora abatida, notou que os abutres aumentavam de número e mais se encarniçavam em seu tenebroso banquete. Ao mesmo
tempo, um bando de salteadores penetrara sorrateiramente no campo, em busca de objetos de valor e armas. Indignado, Connaught enxotou-os com ódio:
- Corja de abutres! - berrou, fora de si. - Saiam já daqui, seus pestilentos! E nunca mais voltem, ou juro que estripo um por um com minha espada!
Abutres e saqueadores, irmanados no mesmo temor daquele gigante enlouquecido, dispersaram-se em segundos.
Connaught prosseguiu na busca obstinada, incansável. Precisava encontrá-la, precisava saber se ela ainda vivia. Agarrava-se à tênue esperança de ainda mais uma
vez ver o brilho dos magníficos olhos dourados que tanto o haviam atormentado.
A cada passo que dava, ouvia a voz de Drue. A cada passo, o medo terrível de perdê-la crescia, lançando garras de aço em volta de seu coração, ameaçando explodi-lo
em mil estilhaços. A cada passo, as palavras ecoavam em seu cérebro até que ganharam espaço no campo desolado, enchendo-o com a dor única e insuportável da verdade
que encerravam:
- Esse é meu!
O saqueador sorriu. Ali estava uma espada que devia valer um bom dinheiro!
Abaixou-se e tentou puxá-la, mas o braço do cavaleiro pendia inerte sobre a arma. Apesar dos esforços que fez, o saqueador não conseguiu afastar o braço, que
parecia feito de ferro. Nesse instante, um bramido o fez tremer feito geléia.
- Saia daí, seu cretino, se não quiser experimentar o fio de minha espada!
Atarantado, o homem largou todos os pertences e bateu em retirada, espavorido, indo se esconder no matagal ali próximo.
Connaught curvou-se com um soluço seco, o coração batendo descompassadamente. Drue!
De seu esconderijo, o saqueador observou com curiosidade o gigantesco guerreiro erguer nos braços o corpo sem vida. Estranho, minutos atrás tivera a impressão
de que eles lutavam em campos opostos! Mas certamente se enganara; pelo jeito, o grandão chorava a morte do irmão mais novo.
Ou... quem sabe... Sim, era isso! O caído era inglês; o outro era aquele irlandês famoso, de quem todos contavam histórias fantásticas... Agora o reconhecia
pelas cores dos penachos, embora estivessem sujos de lama. O irlandês, sem dúvida, pensava em receber algum resgate dos ingleses. Por isso se empenhava em fazer
reviver o inimigo... Mas o guerreiro caído ainda havia pouco tinha tentado salvar o irlandês. Agora ele se lembrava bem do que acontecera, se bem que não compreendia
nada. Céus, que confusão!
De seu esconderijo, o homem observava com crescente interesse os movimentos do grandalhão, que encostou a boca na do outro, como se quisesse beijá-lo. Mas o
homem sabia do que se tratava, um método para reanimar quem estava agonizando.
Nossa, esse inglês devia ser muito importante! O saqueador tomou uma decisão súbita. Tentaria também receber um quinhão da recompensa. No fim do dia se apresentaria
no campo inglês e relataria detalhe por detalhe de tudo o que vira. Talvez ganhasse algumas moedas de prata... Não, de ouro!
- Drue está com eles! - gemeu Turlock, o rosto lívido com o choque da recente descoberta.
Sua voz, sempre alegre e despreocupada, pesou como chumbo na comitiva real.
- Como pode ter certeza? - indagou Piers. - O corpo de Drue ainda não foi encontrado, mas nossos homens Não terminaram a busca. Sir Drue nunca foi capturado.
É esperto demais para os escoceses!
- Tenho provas - anunciou Turlock, enquanto empurrava rudemente um homenzinho corcunda para o centro. - Este rato casposo veio me contar uma história. Vamos,
seu verme maldito, repita para eles o que me disse!
Tremendo, o homem começou a amassar o chapéu nas mãos, enquanto observava com espanto o grupo que o cercava. O rei inglês descansava um braço no ombro de outro
homem; os demais membros da corte tinham a aparência de aves do paraíso, tal a profusão de cores e plumas. O único que destoava daquele bando de pavões era o grandalhão
que o trouxera ali.
O corcunda, embora não gostasse de Robert Bruce, admirava-lhe a força e a agilidade, Robert Bruce era um homem, assim como era um homem o urso grisalho que o
levara à presença da corte inimiga. Também ele, Tam MacBurgh, era um homem. O resto daquela corte colorida... não eram homens. Não no seu modo de pensar.
Revoltado por ter de falar com aquele efeminado que chamavam de rei, o homenzinho pensou em esquecer tudo e fugir. Mas sua cobiça falou mais alto.
- Majestade, vi com estes olhos o que aconteceu com o mais bravo e valente de vossos guerreiros.
- Como sabe quem é esse guerreiro?
- Não sei, Majestade. Mas antes que eu conseguisse ajuda para trazê-lo para vós, um guerreiro muito alto e muito forte me empurrou como quem empurra um brinquedo
e carregou vosso guerreiro nos braços. Como se ele fosse um bebê. Contudo, momentos antes, eu mesmo não tinha conseguido erguer-lhe sequer a mão, de tão pesada que
era!
- Essa história não me interessa, escocês. É muito comum carregar os feridos depois de batalhas.
- Majestade, não sou guerreiro. Ganho meu dinheiro honestamente, ajudando a transportar os feridos.
Piers soltou uma gargalhada sonora.
- Honestamente, pois sim! O que você faz é pilhar os cadáveres, seu infeliz!
Tam baixou a cabeça, escondendo a crescente irritação contra aquele bando de almofadinhas.
- Os dois estavam lutando em campos opostos, Majestade. O que foi ferido caiu porque tentou salvar a vida do grandão.
Turlock sacudiu o corcunda como se este fosse um saco de folhas secas.
- Mentiroso!
- Juro-vos, meu senhor! Por isso ousei vir até vós. Se vosso cavaleiro estiver vivo, ficai sossegado, pois ele certamente está sendo bem tratado. O homem que
ele salvou voltou para buscá-lo. Se eu não soubesse que eram inimigos, juraria que eram irmãos.
- Sabe o nome do estranho que carregou meu cavaleiro? - perguntou o rei, subitamente interessado.
- Esse eu sei, Majestade. Na verdade, não foi um escocês, mas é quase a mesma coisa, uma vez que ele luta do lado da Escócia. É o conde Connaught!
O rei bateu palmas de alegria.
- Então era Drue mesmo! Amigos, não precisamos nos preocupar. Ele será muitíssimo bem tratado, estou certo disso!
Enquanto falava, tirou um saquinho de veludo de dentro da manga e atirou algumas moedas de ouro ao corcunda escocês, cujos olhos brilharam.
- Se sir Drue estiver vivo, você ganhará mais um pouco- prometeu.
Tom curvou-se profundamente e escapuliu o mais depressa que pôde. Era óbvio que acertara; os ingleses tinham se mostrado muito contentes com a notícia. Todos,
menos um, exatamente o velho javali, que os outros chamavam de Turlock. Esse permanecera carrancudo e enraivecido. Por que seria?
- Ora, e o que você tem de ver com isso. Tam MacBurgh Preocupe-se com esse dinheiro bem-vindo e como vai gastá-lo! O resto... pode ir para o inferno!
Assim resmungando, o corcunda guardou as. moedas, no bolso, enquanto desaparecia nas sombras.
Vagarosamente, arrancando-se aos poucos da inconsciência, Drue começou a voltar a si. E, à medida que voltava, sentiu uma onda de vergonha varrê-la de alto a
baixo. Por que não morrera? Agira como desvairada, metendo-se entre seus pares, expondo-se a ser morta... por causa de um inimigo! Ah, como se odiava pelo que fizera!
O que não diria Turlock, por todos os deuses do Olimpo?
Adiava como podia o momento de abrir os olhos e enfrentá-lo. Como explicaria ao velho amigo seu ato impulsivo? Melhor fingir mais um pouco que ainda estava desmaiada.
Quase sorrindo, Drue se lembrou das inúmeras vezes em que Turlock a carregara daquele mesmo jeito, havia muitos anos. Bom e querido Turlock, sempre quente e protetor!
Dentro de seus braços desconhecia o medo e o perigo.
Mas dali a pouco teria de enfrentar a ira de Turlock, e não seria fácil! Pior que tudo, teria de explicar a ele a razão de seu gesto tresloucado e precipitado.
Como, meu Deus?
Súbito, Drue imaginou Turlock carregando-a nos braços como um bebê. Como?! Se ela usava armadura completa, e além disso pesava um bocado? Turlock jamais a agüentaria
por tanto tempo, e com passo tão decidido. Ela mesma carregara Garith num dia de bebedeira, mas ele era muito mais leve. E não estava de armadura.
Ouviu outras vozes e concentrou-se. Eram inequivocamente escocesas, com seu sotaque gutural, quase rascante. Cautelosa, Drue se animou a abrir os olhos.
Era difícil e doloroso focalizá-los, mas nem foi preciso. Mesmo através do borrão difuso que dançava diante da vista, foi-lhe fácil reconhecer as feições de
Connaught, as mesmas que a vinham atormentando havia tanto tempo. Os olhos famintos de Drue cravaram-se no rosto moreno, nos cabelos pretos e revoltos, na franja
de cílios onde se escondia um par de safiras brilhantes, no nariz reto, nos lábios que sabiam ser ternos e suaves, no queixo desafiador, no pescoço forte. Mais que
isso ela não ousou explorar.
Mas, à medida que ia compreendendo o que se passara, começou a sentir uma dor quase suave penetrando-a como ponta de flecha, uma dor que encheu sua alma de raiva
e impotência. Fora uma rematada imbecil salvando esse homem da morte certa! Agora ele retribuía tomando-a como prisioneira, e levava-a para o campo inimigo, à vista
de todos... Mil vezes imbecil
- Maldito seja, Connaught! - explodiu, vermelha de raiva. - Ponha-me no chão imediatamente, seu verme irlandês! Prefiro ser arrastado com cordas a ser carregado
como um bebezinho!
Connaught levou tamanho susto que quase a derrubou. Depositou-a no chão com cuidado, e depois enxugou a testa.
- Na verdade, estou contente de me ver livre desse fardo. Ufa! Acho que meu cavalo é mais leve que você.
- Demônios o levem! Por que não me deixou no campo? Meus pares iriam me recolher. Além disso, você não me capturou lealmente, e não foi sua espada que me derrubou!
Apesar da torrente de repreensões, Drue viu-se obrigada a se apoiar em Connaught, enquanto sentia a terra girando vertiginosamente sob os pés.
- Nada disso, você foi deixado como morto. Ora, havia até um saqueador tentando roubá-lo quando eu cheguei, está sabendo? Só fiz recolher seu corpo, pensando
que seria uma boa idéia enviá-lo a Garith, para que tivesse um enterro decente. Porque, para mim, você estava morto.
Enquanto falava, Connaught se espantava com a frieza da própria voz. Desde que encontrara Drue, soubera no mesmo instante que ela não estava morta. Empenhara-se
em carregá-la nos braços e não jogá-la no lombo do cavalo, como se costumava fazer com guerreiros feridos. Tudo porque quisera senti-la nos braços mais uma vez.
Tudo porque ansiava pelo momento em que ela acordaria e falaria com ele. Tudo porque o indesejável amor que sentia ameaçava submergi-lo novamente numa vaga tempestuosa.
A dor que sentira quando pensara que ela estava morta fora algo de monstruoso e indescritível, tão avassalador que ele julgara que morreria ali também. Viver
sem Drue era tolerável; mas viver num mundo onde ela não existisse era uma idéia tão aterrorizante que Connaught nem ousava imaginar.
Mas ele não disse nada do que lhe ia na alma. Contentou-se em perguntar, com polida indiferença:
- Acha que pode caminhar?
- É lógico que sim! Não sou maricas!
Lutando bravamente contra a dor que a assaltava de todos os lados, Drue ergueu o queixo e conseguiu dar alguns passos cambaleantes, para logo em seguida parar,
respirando ruidosamente.
- É melhor se amparar em mim, inglês.
- Não.
- Muito bem, então vou levá-lo nos ombros. É mais cômodo para mim.
Drue achou melhor reconsiderar a situação. Achava-se enfraquecida demais para enfrentar uma briga com o irlandês, e ver-se carregada até o acampamento inimigo
nem por sombras conseguiria admitir. Engoliu a raiva e resmungou, entre dentes:
- Está bem, eu me apoio em você.
O corpo de Connaught queimava-a através da pesada armadura que os separava. Uma armadura que soubera protegê-la dos golpes inimigos, mas não conseguia dar-lhe
proteção contra o desejo que crescia, insidioso e envolvente, deixando-a amolecida e fraca.
Instintivamente, achegou sua cabeça dourada ao ombro dele, aspirando o familiar e delicioso cheiro dele. Céus, como sonhara com essa proximidade gloriosa e doce!
Mas jamais he diria o quanto sentira sua falta, jamais. Assim como nunca lhe contaria seu segredo; contar-lhe seria o mesmo que cometer suicídio.
Brincou uns instantes com a idéia de que ele a salvara porque a amava, mas logo descartou-a. Connaught trouxera-a por causa do resgate que receberia pela sua
devolução, nada mais. Talvez houvesse uma ponta de amizade na história, mas apenas amizade. Certamente, o irlandês já havia se esquecido daquela noite em que seus
corpos tinham palpitado de desejo irrefreável, de paixão devastadora. Sim, ele se esquecera do beijo inesquecível, roubado num ímpeto de loucura e embriaguez. Claro,
ele devia ter enterrado tudo no passado, do qual agora sem dúvida se arrependia.
Na verdade, Drue acertara parcialmente. Porque Connaught tentava forçar as mesmas lembranças para o fundo da alma, para um recanto onde ele mesmo não tivesse
acesso. Com toda a sinceridade, Connaught esperava que as palavras do padre David se concretizassem. Esperava ansiosamente o momento em que fitaria Drue nos olhos
sem sentir mais que uma leve vergonha. E o fato de que ela tivesse voltado pareceu-lhe um sinal de que as profecias do padre seriam cumpridas. Contudo, as sombras
da dúvida persistiam, picando-lhe o cérebro como agulhas. Por que seu coração batia apressado, apesar de tudo? Por que sentia o corpo enlanguescido só de sentir
o calor de Drue sob a armadura? Por que a voz rouca e macia de Drue lembrava-lhe as campânulas azuis ciciando ao vento? Acima de tudo, por que ficara fraco depois
de ter encostado novamente sua boca na de Drue, na tentativa de incutir-lhe a vida?
Mais uma vez, Connaught retomou em silêncio a interminável luta contra a fera que supusera adormecida dentro de si. Uma fera que, se não fosse subjugada, representaria
a destruição de ambos. Na Escócia não havia lugar para semelhante amor; se alguém deles suspeitasse, ainda que de leve, Connaught seria desonrado e desterrado. E
sua família viveria em vergonha.
Não, isso não podia acontecer nunca! Ele lutaria contra essa fera até vencê-la de uma vez por todas. E, como padre David prometera, encontraria um modo de se
libertar desse amor intruso que ameaçava sua vida e sua alma com o fogo do inferno.
Resoluto, Connaught se refugiou na anestesia do esquecimento. E arrastou-se penosamente, arrastando consigo a causa maior de sua vida, sua bênção e sua maldição.






























CAPITULO XI


O relacionamento entre Drue e Connaught tornara-se tenso e difícil. Nada havia daquela camaradagem alegre que outrora existira entre ambos, no tempo do cativeiro
do irlandês. Os escoceses mostravam-se hostis e arredios, tratando-a com aberta desconfiança. Por outro lado, Drue sabia que havia outros prisioneiros ingleses,
mas nunca conseguia encontrá-los. Connaught cuidava de não deixá-la sozinha nem por um instante, embora isso fosse eterna fonte de problemas para ele.
- Juro que às vezes não sei qual de nós dois é o prisioneiro - declarou ele certa vez. - Cá estamos num castelo escocês, dentro de meus aposentos... Ainda assim,
tenho a impressão de que eu é que sou o prisioneiro. Não posso arredar daqui, para tomar conta de você.
- Ótimo - fez Drue, com ar travesso -, assim você compreende melhor os problemas que eu tive quando a situação era inversa.
- Era diferente. Turlock tomava conta de mim quando você se cansava.
- Mentira! Eu nunca me cansei e nunca o deixei, como sabe muito bem!
- É... sei, sim.
- Se quiser sair para espairecer um pouco, fique à vontade. Basta me acorrentar ao pé da cama.
- Duvido. Você daria um jeito de bater as asas.
- Isso não seria tão terrível assim.
Os olhos de Drue buscaram os dele. e Connaught sentiu-se perdido nas profundezas douradas, como se olhasse para o próprio sol. Tudo o mais desaparecia à sua
volta; ofuscava-se e queimava-se nos olhos de Drue, e ainda assim queria se ofuscar e se queimar mais. Sim, seria terrível se a perdesse mais uma vez! Mas como confessar-lhe
a verdade? Como lhe dizer que temia mais do que a própria morte a hora em que ela fosse resgatada? Será que ela sentira a mesma coisa enquanto esperava o resgate
dele ser pago?
Não. Drue sempre demonstrara que preferia vê-lo pelas costas. Mesmo naquela noite maravilhosa em que a beijara, Drue conseguira evidenciar alguma dignidade ao
retirar-se do quarto.
Connaught desviou a vista, jurando mais uma vez que não descansaria enquanto não acabasse com o torturante teste que se propusera seguir até o fim. Perseguiria
incansavelmente a paz de espírito, tão necessária à sua alma. Mais uma vez jurou que se livraria desse amor intruso que o atormentava dia e noite, impedindo-o até
de respirar. Precisaria manter Drue a seu lado e esvaziar o cálice amargo da penitência até a última gota.
E Drue parecia tão distante, tão alheia aos problemas que o corroíam por dentro! Era como se Connaught não existisse para ela. Verdade que algumas vezes ele
a surpreendera observando-o, mas isso nada queria dizer. Ou melhor, indicava-lhe que Drue aguardava o momento propício para fugir. Mas ele não lhe daria essa chance
de escapar, não enquanto não recuperasse a almejada paz de espírito. Ficaria com Drue até que não mais sentisse a boca seca cada vez que ouvia o som rouco e macio
de sua voz. Ficaria com ela até deixar de sentir aquele estonteante aroma de mel silvestre que seu corpo emanava. Ficaria com ela até que seu coração cessasse de
disparar em louco tropel quando a fitava nos olhos. Ficaria com ela até o dia em que se esquecesse por completo do gosto de sangue e mel que provara quando a beijara.
Observou-a à luz bruxuleante das chamas, amando-a e odiando-a intensamente. Drue conservava-se, como sempre, serena e distante, os olhos placidamente pousados
num ponto distante, certamente sentindo saudades da Inglaterra.
Mas Drue não se sentia serena nem distante. Apenas, tinha consciência de que Connaught a observava, e isso a forçava a manter uma expressão neutra. Podia sentir
os olhos azuis cravados nela como imãs, atraindo-a irresistivelmente, acariciando-a de longe. Sentia vontade de erguer a mão e tocá-lo uma vez, uma única vez. Inventava
mil desculpas para roçar de leve nas mãos fortes e poderosas de Connaught, quando jogavam xadrez, ela fingia derrubar uma peça, e as mãos se tocavam de leve. Quando
estudavam um mapa, ela aproximava a cabeça até sentir os cabelos de Connaught brincando no seu rosto. Quando cavalgavam, dava sempre um jeito de manobrar seu cavalo
de forma a roçar a coxa na dele. Eram esses seus momentos mais ternos e mais caros - quando lograva tocá-lo, ainda que de leve. Sabia que não havia esperança para
seu amor, sabia que ele nunca o retribuiria. Ainda assim, contentava-se com suas migalhas, não ousando desejar mais.
Connaught jamais se referira ao fato de que Drue o salvara da morte certa; aparentemente, ele não percebera nada do que se passara. Para Drue, o irlandês só
pensava no resgate que exigiria em troca dela. Por essa razão, ele a vigiava com tanta persistência; para não deixar escapar dos dedos a pequena fortuna que receberia.
Drue fechou os olhos, cansada. Tinha de parar de pensar em Connaught! Essa obsessão exauria-lhe as forças, tirava-lhe o prazer de viver, tornava-a lassa e confusa.
Tinha a obrigação de trancar a sete chaves o desejo de provar mais uma vez o gosto daqueles lábios, cujo efeito era o de uma droga poderosa e venenosa.
E se contasse a ele agora, naquele instante, que nascera mulher? E se pusesse um fim naquela farsa? Será que ele a tomaria nos braços e a beijaria? Ou se zangaria
e a acusaria pelo mal que ela lhe fizera, deixando-o acreditar que beijara um homem? Pouco importava, afinal. Eram perguntas que jamais teriam resposta, pois Drue
sabia que nunca abriria a boca para contar-lhe a verdade. Se o fizesse, estaria condenada a uma vida que lhe era totalmente estranha. A uma vida de eterna prisioneira,
encerrada entre quatro paredes, bordando e costurando. A alma de um guerreiro presa num corpo de mulher. Drue nunca mais provaria o gosto de uma batalha, e tudo
isso aconteceria por um instante de prazer nos braços de Connaught... Nunca! Alguém bateu à porta, arrancando-os dos devaneios.
- Chegou uma mensagem, milorde - disse o soldado que entrava, entregando-lhe um envelope lacrado.
De pé num canto do quarto, Drue observou a expressão de Connaught enquanto lia a carta. Ele apertou os lábios, enquanto seus dedos tremeram.
- Obrigado, Sham. Pode ir - ordenou, voltando-se para Drue. - É de Enid, minha mulher.
Drue arquejou e recuou, como se uma lança a tivesse atravessado.
- Ela... perdeu o bebê. E está passando muito mal - . acrescentou ele, a voz isenta de qualquer emoção. - Quer que eu vá vê-la imediatamente.
Um bebê! Drue sentiu-se traída e amargurada. Então Connaught saíra diretamente de seus braços para os da mulher! Angustiada, viu-se forçada a admitir que Connaught
entregara seu amor a outra mulher que não ela mesma. Pouco importava se ele desconhecia sua natureza feminina; o veneno do ciúme instalou-se em seu sangue, cegando-a
de dor. Sem pensar em mais nada, ela explodiu em desespero:
- Você me deixou e voltou para ela sem pensar sequer um minuto em mim! Quase morri com sua partida, Connaught... Porque as coisas entre nós ficaram suspensas
no ar, sem terem sido resolvidas, passei noites em claro, agonizando de tristeza e saudade. Mas agora vejo que era um sentimento unilateral, só experimentado por
mim. É bem como você disse - foi um momento de fraqueza, que nunca mais deverá se repetir!
As palavras escaparam de sua boca num jato, permeadas de amargura e ressentimento, Palavras que ela nunca julgara capaz: de formular em voz alta. Para Drue,
Connaught pertencia-lhe, e a mais ninguém, mas aparentemente ele não pensava assim. Louca de dor e vergonha, fechou os olhos para não ver a expressão atônita e surpresa
de Connaught. Este procurou ignorar a súbita onda de felicidade que o varreu. Então Drue também o amava! Também ela sofrera com a separação! Enlouquecido de alegria,
mas ainda chocado com a repentina revelação de Drue, Connaught não encontrou as palavras certas para convencê-la que a amava.
- Não foi bem assim, Drue. Enid era minha mulher muito antes de eu o conhecer. Aonde mais eu poderia ir?
Mas Drue, absorta na própria dor, não lhe deu ouvidos. Agora que começara, iria até o fim.
- Senti-me a mais ínfima e miserável das criaturas por sua causa, roendo-me de culpa e remorso. Quase fui até a Escócia, para... para...- instinto de preservação
a fez interromper a frase que a condenaria a uma vida que não poderia viver. Parou, ofegante, os olhos brilhando. Por pouco não revelara tudo a um homem que não
se interessava por ela! Um homem que não hesitaria em espalhar seu segredo aos quatro ventos!
- ...para oferecer meus serviços ao rei escocês, a fim de estar mais perto de você - arrematou.
Connaught reuniu todas as forças para não se entregar à estranha e doce felicidade que o invadia. Então Drue o amava! Seu coração cantava vitórias e conquistas
que jamais ousara imaginar, enchendo-lhe o peito até quase arrebentá-lo. Assustado consigo próprio, escondeu as mãos nas costas, para não ceder à tentação de arrebatar
Drue nos braços, de trazê-la junto a si. Naquele instante, a alegria era tamanha que nada mais lhe interessava no mundo. Mesmo a culpa e a vergonha do pecado foram
varridas de sua mente, ocupada apenas com o fato de que Drue o amava.
- Comigo foi à mesma coisa, acredite. Fiz o que pude Para esquecer, para afastar você de minhas memórias, mas tudo em vão. Seu rosto, Drue, aparecia diante
de mim de dia, aonde quer que eu fosse. Sofri como um cão saudades de você, e me desprezei por isso, pois não podia, não conseguia cumprir meus deveres de marido
e pai. Tudo o que eu fazia era pensar em você. Foi só depois que me confessei com padre David que consegui um pouco de alivio, pois ele me garantiu que tudo estava
nas mãos de Deus e que tudo se acertaria com o tempo.
- Pois esse padre estava errado! Deus estava errado! O que houve entre nós nunca será acertado, não vê? Por tudo o que há de mais sagrado, Connaught, deixe-me
ir. Juro-lhe que levantarei seu resgate e enviarei o dinheiro a você, mas, por favor, deixe-me ir embora!
Connaught fitou-lhe os olhos magníficos, onde lia desespero e tortura. Drue estava perto demais, perigosa demais. Não, o demônio ainda não fora purgado; ao contrário,
achava-se mais presente que nunca, enfiando as pontas do tridente em suas entranhas. Precisava lutar até subjugá-lo, até destruí-lo. Não, Drue não poderia ir. Teria
de ficar a seu lado até que ele se visse livre do amor que o aniquilava a cada vez que baixava a guarda. Sentiu seus lábios pairando sobre os dela, suas mãos ardendo
para tocá-la. Podia quase experimentar o gosto do hálito de mel...
- Drue... Deus me ajude! - gemeu roucamente, enquanto lutava desesperadamente para não se deixar vencer pela onda de paixão e desejo.
Connaught sabia que não havia como aplacar sua sede sem condenar sua alma para as profundezas do inferno, mas ainda assim.., ainda assim...
- Não posso - murmurou, os olhos torturados, a voz apagada. - Você não pode ir embora!
Drue voltou a sentar-se diante do fogo, entre aliviada e desapontada. Se ele a tivesse beijado naquele momento, certamente teria revelado seu segredo sem pestanejar.
Contudo, uma vez ciente, Connaught exigiria que ela desempenhasse o papel de mulher. E isso ela jamais faria por nenhum preço do inundo.
Minutos mais tarde, Drue percebeu que estava sozinha no quarto. Connaught se fora, sem se despedir. Ele iria para Enid, deixando-a no meio de inimigos. Em silêncio,
ela resolveu fugir daquele castelo escocês o mais depressa possível, antes que ele voltasse. Porque o futuro de ambos parecia negro e miserável, sem sombra de esperança.
Drue era um cavaleiro, e cavaleiro permaneceria até o fira de seus dias.
- Turlock envia-lhe lembranças.
A frase foi dita em voz tão baixa que Drue acreditou ser fruto de sua imaginação. Quem diabos poderia lhe dar semelhante recado num castelo escocês, onde era
mantida prisioneira?
Mesmo assim, virou-se devagar. À sua frente surgiu um homenzinho baixo e corcunda, de rosto vulgar e sorriso desdentado.
- Como conhece meu amigo Turlock?
- Conheci-o no dia em que você foi capturado. Fui eu quem levou a notícia a ele.
Drue mirou-o de alto a baixo, desdenhosa.
- Se o que diz é verdade, então talvez saiba como andam as negociações de meu resgate.
- Não haverá resgate, porque Connaught até agora não apresentou nenhuma proposta.
Enquanto falava, Tam MacBurgh estudava com olhinhos argutos o belo cavaleiro. Seu instinto dizia-lhe que havia alguma coisa no ar, algo que não conseguia apreender.
Os olhos que o miravam eram como raios de sol, límpidos e honestos. Não, esse cavaleiro não era da mesma laia que o rei da Inglaterra.
- Acha que pode levar uma mensagem a Turlock? - indagou Drue.
- Bem, há alguma possibilidade, embora seja bastante perigoso para mim.
- Turlock será generoso com você, sossegue. Mas minha mensagem precisa alcançá-lo antes que Connaught volte.
- Muito bem. O que devo dizer a seu amigo?
- Prefiro escrever.
- Não - cortou o corcunda. - Não levarei nada escrito. Se me apanharem com uma carta na mão, serei degolado na mesma hora.
Drue hesitou.
- Como vou ter certeza que você não passará a mensagem aos escoceses?
- Simples. Como é um recado verbal, você pode negar que o passou para mim. Seria sua palavra, a palavra de um cavaleiro, contra a minha.
Drue considerou as ponderações do homem, que não careciam de razão. Afinal, esse corcunda era sua única chance de fugir.
Segundo os costumes, um prisioneiro mantido para resgate habitualmente dava sua palavra de honra de que não tentaria fugir. Por essa razão, era-lhe permitido
passear à vontade dentro das muralhas, mesmo na ausência de Connaught. Prudentemente, Drue permanecera nos limites do castelo, e nunca tentara transpor os portões;
em vez disso, fora aos calabouços visitar os outros prisioneiros ingleses. Os guardas haviam achado esse gesto natural, e não fizeram objeção às constantes visitas
de Drue, imaginando que ela apenas tentava ser humana e gentil com os companheiros. Alguns guardas menos informados chegavam a pensar que ela era um escocês, uma
vez que a haviam visto inúmeras vezes passeando em companhia de Connaught. Acreditando que Drue ia apenas levar conforto aos presos, nem mesmo se davam ao trabalho
de ouvir o que os ingleses conversavam; limitavam-se a balançar a cabeça quando as gargalhadas reboavam nas paredes da prisão.
Mas Drue instruíra os companheiros a rir e a fingir que contavam piadas; enquanto isso, ela ia formulando os plenos de fuga, discutindo-os ardorosamente com
os outros prisioneiros, dia após dia.
Um dia, Drue acordou em meio a uma confusão geral. Soldados e vassalos trabalhavam febrilmente, derrubando parte das grandes muralhas do castelo de Stirling.
- Que está acontecendo aqui? - perguntou a um escocês ruivo e sai dento.
- Ordens de nosso rei, Robert Bruce. Ele quer que a muralhas sejam postas abaixo.
- Isso eu posso ver. Mas por quê?
- Estratégia de guerra, acho. Sem muros, o castelo não pode ser sitiado pelos ingleses, como aconteceu antes da batalha de Bannockburn. Mas eu não discuto com
Robert Bruce; ele sabe muito bem o que faz. Bem diferente daquele reizinho efeminado, Eduardo II...
Drue não respondeu, sabendo que o escocês não conhecia sua nacionalidade. Tanto melhor; quanto menos conhecida no campo inimigo, maiores as chances de fugir
na hora apropriada.
Nesse dia, o corcunda veio procurá-la.
- Turlock virá esperá-lo do lado de fora do portão norte, como o combinado. Na primeira noite de lua nova.
Tam não gostava da idéia de ver o belo cavaleiro voltando para a corte inglesa, ninho de corrupção e licenciosidade. Muito melhor ser um honrado prisioneiro
dos escoceses! Além disso, o velho urso, Turlock, mostrara-se um avarento e não lhe dera mais que umas poucas moedas de prata. Talvez até prestasse a sir Drue um
favor, se fosse cochichar uns segredos para Jaime Douglas. Sem dúvida os escoceses seriam mais generosos!
Não havia notícias de Connaught, e Drue não esperava recebê-las tão cedo. Continuou, pois, com seu plano de fuga, preparando os homens cuidadosamente. Embora
ela não confiasse muito em Tam MacBurgh, não havia como verificar as informações que ele lhe trazia; o remédio era acreditar na sorte.
De repente, seu coração deu um salto violento e foi parar no fundo do estômago. Gaitas de fole e tambores anunciavam a chegada de alguém muito importante; quem
seria? Esperava que não fosse Connaught, pois o momento era o pior possível. Era dia de lua nova, e Turlock iria esperá-la no local combinado. Ansiosa, Drue correu
para o pátio, teimosamente recusando-se a admitir que sentia saudades de Connaught. e que parte de seu ser desejava revê-lo, mesma que isso significasse a ruína
dos planos de fuga.
Mas foi Robert Bruce em pessoa que atravessou os imponentes portões. Drue sorriu animada, imaginando os festejos e as celebrações que aconteceriam à noite. Perfeito
para o plano!
Os vultos avançavam nas sombras silenciosamente, com passos de gato. Pilhas de pedras ajudavam a ocultar os movimentos de Drue e do bando de camaradas que a
seguia. - Quando alcançarmos o portão norte, Turlock estará lá - cochichou ela, rememorando o plano mais uma vez. - Haverá cavalos à nossa espera, escondidos na
floresta. Lembrem-se, o único perigo que corremos de ser vistos é depois de atravessarmos os portões, até atingirmos a floresta. Mantenham-se perto das pedras e
não façam barulho.
Mas Drue sentia-se inquieta e insegura. Cada vez que pensava em Tam MacBurgh, seu coração se confrangia em desconfiança e temor. O corcunda jurara que Turlock
já havia chegado, e depois sumira como poeira na estrada. Achava esse fato estranho, pois um homem cobiçoso como Tam ficaria por perto, a fim de receber a ambicionada
recompensa em dinheiro.
Afastando esses pensamentos negativos, Drue começou a enviar os homens através do espaço aberto nas muralhas, um por um. Seu coração batia descompassado a cada
vez que um vulto corria pelo pátio vazio, mas à medida que eles conseguiam passar, sua confiança voltava. Liberdade, afinal! Do castelo vinham sons confusos de risadas
e de pratos tilintando. Quanto mais bebessem, melhor! Os escoceses não se lembrariam de descer ao calabouço naquela noite. E no dia seguinte, quando os vapores do
álcool estivessem dissipados, encontrariam seus camaradas amordaçados e atrás das grades, no lugar dos ingleses. Mas aí seria tarde demais para sair no encalço do
inimigo.
Uma dorzinha aguda e perniciosa insinuou-se no peito de Drue quando ela se lembrou que talvez nunca mais visse Connaught. De seu lado, sabia que jamais se colocaria
em posição de enfrentá-lo numa batalha. Connaught era a maldição de sua vida, o poder destrutivo capaz de persuadi-la a desistir da própria identidade só com a magia
de seus beijos. E aí estava uma coisa que não podia acontecer, nunca!
- Vamos, sir Drue! - sussurrou Tam MacBurgh, que se materializara como que por encanto atrás dela. - Só falta você e eu. Os demais já atingiram o portão norte.
Ela acenou em silêncio e esgueirou-se depressa pelo espaço vazio, deslizando como sombra através dos portões e mergulhando na noite. Podia ver os últimos companheiros
desaparecendo entre as árvores enquanto corria velozmente, os pés parecendo ganhar asas.
Nesse instante, ouviu um brado de alerta escapar de uma das torres. Com o coração querendo saltar da boca, Drue acelerou a corrida, as pernas dando passadas
descomunais, ao mesmo tempo que cuidava para não escorregar e cair. Quando alcançou a floresta, voltou a cabeça. Os escoceses fervilhavam ao lado do portão, parecendo
um enxame de abelhas enfurecidas. Maldito Tam MacBurgh! Como imaginara, o imundo corcunda os traíra, afina!. Mas o inimigo estava um tanto retardado; nem tudo estava
perdido.
- Drue! - o vozeirão de Turlock se fez ouvir por trás das árvores. - Por aqui, depressa!
Minutos depois os dois se abraçavam à moda dos cavaleiros, um apertando os braços do outro, sem se aproximar muito.
- Pensei que nunca mais o veria, demônios. Connaught não quer saber de resgate nenhum, imagine só!
- Não fosse Por Tam...
- Tam nos traiu, o verme piolhento! Os escoceses estão nos nossos calcanhares, Turlock. Temos que escapar logo daqui!
Turlock voltou vivamente o rosto para o castelo de Stirling, o semblante carregado. Desembainhando a espada, soltou uma praga e gritou para os demais, com a
velha Autoridade de guerreiro experimentado e valente:
- Fujam daqui! Nós iremos na retaguarda!



O tamborilar de centenas de cascos ressoou na floresta quando os fugitivos saíram no galope. Turlock e Drue montaram e seguiram atrás dos companheiros.
De repente, do alto das árvores despencaram centenas de inimigos. Cavalos relinchavam, galhos se partiam, gritos e lamentos ecoavam lúgubres na noite espessa.
- Cuidado, sir Drue! - gritou um soldado, ao vê-la se aproximar. - Uma emboscada!
Desolada, Drue presenciou por instantes o odioso espetáculo. Robert Bruce não deixara por menos; permitira a fuga para fazê-los cair na armadilha mortal. Seus
homens lutavam desesperadamente, pois sabiam que seriam mortos caso fossem recapturados. As espadas zuniam enfurecidas, enquanto cadáveres começaram a surgir aqui
e ali.
- A eles, Drue! - gritou Turlock, arremetendo com furor.
- Dispersar! - urrou ela. - Dispersar!
Os homens, acostumados a obedece-la cegamente, não pensaram duas vezes. Desvencilharam-se dos escoceses e debandaram floresta adentro, deixando Drue e Turlock
sozinhos no meio dos numerosos inimigos.
Drue não tinha armadura e defendia-se apenas com a espada e o escudo. Qualquer golpe mais certeiro significaria seu fim, e ela tinha plena consciência do perigo
que corria. Turlock auxiliava-a como podia, atraindo para si o maior número de ataques, numa tentativa de protegê-la. Ambos giravam com a mesma destreza e habilidade
suas potentes armas, ceifando a vida de incontáveis escoceses. Estes recuavam por alguns minutos, mas voltavam com vigor redobrado, sabendo que a vitória era quase
certa, uma vez que havia apenas dois inimigos.
Mas que inimigos, santos céus! Ai de quem deles se aproximasse muito!
Drue e Turlock pareciam extrair força da própria fraqueza; pelo fato de serem dois contra muitos, redobravam a atenção e a vigilância, enquanto seus braços se
faziam mais vigorosos e mortíferos. À medida que recuavam, os dois tentavam se aproximar da fronteira entre a Inglaterra e a Escócia. A noite escura ajudava-os a
driblar os inimigos. Incansáveis, as duas espadas sibilavam e derrubavam metodicamente.
Porém, a madrugada começou a avançar, trazendo no bojo os primeiros raios de luz. Através da folhagem espessa, foi ficando cada vez mais fácil para os escoceses
enxergarem os dois valentes, e isso os animou. Fagulhas saltavam no ar como fogos-fátuos, no embate de aço contra aço. Drue mantinha-se alerta, cuidando para não
fazer uma única pausa. A certa altura, ouviu um grito de vitória que fez seu coração se apertar. Turlock caíra!
Endoidecida de dor, Drue transformou-se num animai destruidor. Distribuindo golpes para todos os lados, derrubando sem piedade aqueles que ousavam abordá-la,
deixando um rastro de sangue e morte por onde passava, foi abrindo caminho até chegar perto do amigo caído. Sem pensar em si, cega de ódio, desmontou e se ajoelhou,
os lábios apertados, os dentes trincados.
- Turlock! - conseguiu balbuciar, ao ver a seriedade dos ferimentos.
Inclinou-se para o amigo, colocando a cabeça em seu colo, enquanto uma nuvem toldava-lhe o cérebro.
- Turlock.
Dessa vez, sua voz saiu quebrada e baixa. O velho urso pestanejou, forcejando para conseguir respirar.
- É assim que deve ser, Drue - murmurou ele, com esforço sobre-humano. - Sempre quis que fosse assim. Morrer lutando... ao seu lado. Você é meu orgulho, minha
obra-prima. Acima de tudo, você é a pessoa a quem mais amei na vida.
- Não, Turlock, você não vai morrer! Eles vão ajudá-lo a viver, verá! Seu resgate vale cem vezes mais que o meu! Turlock! Não me deixe!
- Sempre que lutar, Drue, lembre-se... eu estarei... a seu lado... sempre...
Um escocês agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar.
- Turlock! - o grito lancinante cortou a madrugada dolorosamente. - Turlock!
Mas seus olhos permaneceram secos, pois as almas não choram. E era sua alma que sofria.
- Poupem sir Drue - ordenou uma voz autoritária.
- E o outro?
- Deixem-no aí mesmo. Os ingleses virão buscar seu corpo daqui a pouco. Turlock foi um homem corajoso e bom, um dos melhores do mundo. Eu gostaria que o resultado
desta noite tivesse sido outro.
Drue deixou-se conduzir como autômato, de olhos vazios e expressão ausente. Vagamente, como de muito longe, reconheceu a voz de Robert Bruce. E nem se apercebeu
que ele lhe poupara a vida, pois tinha a alma esfrangalhada pela magnitude do golpe que acabava de sofrer.







CAPITULO XII

- Você gozou de plena liberdade neste castelo! Mesmo depois que Connaught partiu, meus homens lhe deram passagem livre em meus domínios. E, em troca dessa prova
de generosidade, você nos traiu. Quebrou sua palavra e tentou fugir!
Drue deixou que as palavras escorressem sobre ela, sem se deixar contaminar. Como linho embebido em óleo, fez-se impermeável à enxurrada de repreensões que Robert
Bruce lhe dirigia. Mantinha a cabeça obstinadamente baixa, os olhos fixos nos intricados desenhos do tapete oriental. Tinha os pulsos atados por fortes correias
de couro, e seus braços começavam a adormecer nessa incomoda posição, mas para ela nada importava no momento.
- Onde está sua honra de cavaleiro, eu lhe pergunto? - insistiu o rei escocês, com severidade.
- No mesmo lugar que a vossa - revidou ela, com voz firme, mas sem erguer a cabeça. - Dizeis que sou mantido aqui como refém, porém não houve uma única negociação
sequer. Os ingleses não receberam ainda nenhuma proposta para meu resgate.
- Quem andou enchendo sua cabeça com essas mentiras? - bradou Robert Bruce. - Está tentando jogar a culpa nos outros, sir Drue? Connaught é homem de bem e honrado!
A ele cabia negociar seu resgate, e sei que ele o fez tão logo o trouxe para minha corte!
- Se assim é, Majestade, explicai-me por que razão Turlock achou necessário sacrificar a própria vida para me libertar.
Bruce considerou as palavras de Drue, furioso. Já havia visto bravos guerreiros sucumbirem ao choque de perder grandes amigos, e a atitude de sir Drue não lhe
dava margem de dúvida; a voz neutra, o olhar ausente, o total desinteresse pelo que acontecia à sua volta, tudo isso indicava que estava diante de uma pessoa estressada
e indiferente ao que lhe acontecesse. Era como se metade de Drue tivesse morrido junto com Turlock. Maldição! Por que lady Enid adoecera numa hora tão inoportuna?
O resultado fora uma fuga em massa, um refém em estado de choque e a morte de um dos melhores cavaleiros da cristandade. Um cavaleiro que, embora fosse seu ferrenho
inimigo, Bruce admirava como poucos. O rei sabia que sir Drue era a pupila dos olhos de Turlock, e por essa razão não só lhe poupara a vida, como ainda tinha intenção
de dispensá-la depois de lhe aplicar um castigo leve. Talvez fosse melhor aguardar a volta de Connaught; ele que resolvesse o problema.
Jaime Douglas entrou, curvando-se respeitosamente.
- Quase todos os prisioneiros ingleses conseguiram fugir, Majestade. Recuperamos apenas dez deles. Tentamos acossá-los para além da fronteira, mas o duque de
Duxton nos rechaçou com seu exército. Eles nos perseguiram, e só desistiram quando encontraram o corpo de Turlock.
Pensativo, o rei coçou a barba, cravando os olhos em Drue.
- Não sei o que faço com esse aqui. Pelas leis da cavalaria, tenho direito de enforcá-lo, mas não estou com vontade de exercer esse direito. Ao que tudo indica,
sir Drue é tão valente quanto Turlock. Para mim, a perda de um bravo é suficiente por ora.
- Se me permite, Majestade, sugiro que espere a volta de sir Connaught - falou Jaime Douglas.

- De jeito nenhum! - bramiu Connaught, fazendo as estreitas paredes do corredor estremecei. - Drue é meu prisioneiro, e de mais ninguém. Não dou permissão para
isso, em absoluto!
Jaime Douglas corria esbaforido atrás do irlandês, esforçando-se para acompanhar-lhe as longas passadas.
- Por Deus, homem, seja razoável! Sir Drue liderou fuga humilhante para nossa coroa! Mais de trinta prisioneiros ingleses conseguiram voltar, sem que tivéssemos
recebido uma mísera moeda de cobre em troca!
- Turlock está morto, e isso já é castigo mais que ciente para a Inglaterra. Cuidarei para que Drue seja resgatado o mais breve possível!
Jaime agarrou-o pela manga, obrigando-o a parar.
- Pense um pouco, homem! Pelas leis da cavaleiro Drue não é mais seu prisioneiro, e sim de Bruce. Foi quem o recapturou, não você. Ele pode fazer com o prisioneiro
o que quiser!
- Não! - vociferou Connaught, fora de si. Jaime Douglas hesitou, espantado com a veemência teimosia do irlandês.
- Sei que esse rapaz é seu amigo, Connaught, mas a ordem do rei não é tão terrível assim. Ora, ele podia perfeitamente ter mandado esquartejar o inglês, e não
o fez. Robert Bruce decidiu que daria a sir Drue o mesmo tratamento a corte inglesa dispensou a nossos próprios prisioneiro pouco tempo, e eu considero esse castigo
muito apropriado.
- Apropriado!? - gritou o irlandês. - Meter um do de seres humanos numa gaiola estreita e pendurá-lo: alto da torre!
- Foi isso o que os ingleses fizeram com os nossos.
- Os ingleses não têm escrúpulos nem consideração com seres humanos. Vocês, escoceses, nunca agiram assim! que querem começar agora?
- Tenha calma, homem!
Connaught não conseguia conter a fúria e a indignação. Assim que chegara, soubera da tentativa de fuga e do igminioso castigo que Robert Bruce escolhera para
Drue e os dez companheiros. Pendurados numa jaula apertada, como animais, eles deviam aguardar o pagamento do resgate naquela posição humilhante, sujeitos a pedradas
e a chacota de quantos passassem por baixo.

Jaime tinha razão; o castigo não era tão severo, e certamente Drue sobreviveria. Mas à custa de ter seu orgulho estraçalhado. Drue, seu sonho dourado, suspenso
numa gaiola, sujeito às zombarias do populacho? Imaginou os músculos tensos brilhando de suor, crestando-se sob o sol impiedoso. Imaginou os lábios rachados de sede,
os olhos fenecendo e perdendo a cor sob a luz ofuscante do dia. Imaginou-a franzida de frio, tiritando nas noites geladas. E ele, Connaught, nada podendo fazer senão
morrer aos poucos na agonia de vê-la sofrer!
Decidido, Connaught retomou as largas passadas rumo aos aposentos do rei escocês. Pediria a devolução da custódia de Drue, a qualquer preço. Sua mente buscava
febrilmente uma boa razão para apresentar ao rei. Ainda não sabia o que diria, e isso o agoniava de apreensão. Talvez sugerisse ao rei que ele e Drue combatessem
na arena; aí estava uma coisa que Bruce não lhe recusaria. E se fosse preciso, venceria a luta, disso não duvidava. Ou talvez pedisse para ser acorrentado ao lado
de Drue; ou talvez se oferecesse para chicoteá-la na frente do rei. Qualquer coisa, qualquer coisa! Menos ver aquele corpo maravilhoso alquebrado e vencido, exposto
aos olhos dos soldados. Drue lhe pertencia, e a mais ninguém. Era a sua metade, e com tamanha intensidade, que Connaught mal conseguira dar um enterro decente a
Enid, tamanha fora sua ansiedade em voltar para Stirling.
A sensação de culpa pungia-lhe a alma mais que nunca. Por sua culpa, Drue viera a Stirling. Por sua culpa, Drue tentara a fuga. Por culpa de sua negligência
em tratar do resgate, Turlock morrera. E agora não podia permitir que Drue fosse maltratada por causa de sua incúria; seria culpa demais a pesar-lhe nos ombros.
No fundo, Connaught não tentava proteger Drue, mas a própria integridade mental.
Connaught lembrava-se bem demais dos braços dourados de Drue apoiados em seus ombros quando ela estava ferida, das pernas roliças e bem torneadas salpicadas
de lama durante a luta romana, das mãos decididas e esguias movendo as peças de xadrez. Do toque mágico de Drue, por onde fluía uma torrente de vida. Da massagem
que ela lhe fizera naquela última noite na Inglaterra, transmitindo-lhe a um tempo força e amolecimento, ateando fogo em suas veias até o momento em que ele explodira
em desejos proibidos. Do beijo roubado em paixão arrebatada, o beijo que assombraria seus dias e suas noites até os confins da eternidade.
Não, apesar das promessas do padre David, sua memória continuava nítida, agudamente dolorosa. E Drue não sofreria por sua causa.
Jaime Douglas correu à sua frente:
- Pelo amor de Deus, ao menos deixe-me entrar antes, como mandam as regras. Pedirei uma audiência para você em caráter de urgência, mas não entre agora!
- Seja - concedeu o irlandês. - Mas não demore, senão eu entro mesmo,
- Espere aqui.
- Acho que não ouvi bem, Connaught - disse Bruce, entre indignado e incrédulo ante a ousadia do irlandês. - Você "exige" que a custódia de sir Drue lhe seja
devolvida?!
- Sim, porque ele é meu prisioneiro.
- Não mais! Você o deixou aqui e deu-lhe uma oportunidade de escapar. Sir Drue agora é meu prisioneiro!
- Majestade - Connaught pôs um joelho em terra, coisa que não costumava fazer nem mesmo diante de seu senhor - , Drue salvou minha vida em pleno campo de batalha.
O problema foi que nós... nós tivemos uma pequena discussão, pouco antes de eu ir ter com minha mulher. Não fosse por isso, sei que ele jamais tentaria escapar daqui!
Robert Bruce franziu a testa.
- Vocês discutiram? Brigaram?
Enredado nas própria palavras, Connaught buscou depressa uma razão para ter discutido com Drue - sem ser a verdadeira, é claro. Como dizer ao rei que Drue ficara
com ciúmes de Enid?
- É que eu ainda não havia enviado nenhum pedido de resgate. Drue ficou muito zangado e jurou que tentaria fugir.
- Então sir Drue não mentiu - comentou o rei, pensativo. - Ele me disse que não havia nenhuma negociação de resgate ainda.
- E estava correto, Majestade,
- Sim, mas de qualquer forma ele faltou com a palavra , de cavaleiro, não foi? Certamente você o obrigou a jurar que não tentaria escapar, de acordo com o código
de honra!
- Não, Majestade. Sir Drue estava inconsciente quando eu o trouxe; na verdade, cheguei a pensar que ele estava morto. Minha idéia era enviá-lo ao irmão Garith,
a fim de que fosse enterrado em suas terras. Mais tarde, nem pensei em exigir o juramento de praxe, pois Drue se tornara meu amigo pessoal. Achei que nossa amizade
bastaria para mantê-lo aqui, como de fato aconteceu até... até que brigamos. - Sim, eles haviam discutido. E como aquela discussão permanecia enredada nos fios de
suas memórias! Eram fios de luz e felicidade, pois Drue confessara que o amava. Um inexplicável sentimento de júbilo se apossou dele, enchendo-o de alegria. Sim,
Drue o amava, exatamente como ele a amava. Exatamente como sempre e sempre a amaria.
- Se me deixar falar com Drue, tentarei extrair dele o juramento de que nunca mais tentará fugir. Ao mesmo tempo, prometo fazer o possível para apressar as negociações
do resgate, Majestade.
Os olhos de Bruce cruzaram com os de Jaime. Connaught era um aliado leal e valoroso, e jamais lhes dera motivo de desconfiança. Douglas acenou imperceptivelmente,
dando-lhe a entender que compartilhava seus sentimentos. Embora os dois escoceses não compreendessem a ansiedade do irlandês, ambos tinham todo o interesse em manter
Connaught de seu lado nas batalhas. E a melhor maneira seria atendê-lo no que pudessem.
- Muito bem - aquiesceu Robert Bruce, levantando-se.
- Fale com sir Drue. Vamos ver se ele concorda com seus termos, meu amigo.
Uma centelha brilhou fugazmente nos olhos de Drue quando ela reconheceu Connaught, que entrava na apertada cela compartilhada por ela e os dez camaradas. Quando
soubera que um terrível castigo a esperava, Drue julgara que nunca mais voltaria a ver Connaught, pois estava disposta a se matar. Qualquer que fosse o castigo prescrito
por Bruce, com certeza seria cruel, a julgar pelos comentários cochichados entre os guardas. Mil vezes menos penoso seria tirar a própria vida.
- Majestade, se me permite a ousadia, prefiro falar a sós com o prisioneiro - disse Connaught.
- Seja - concedeu Robert Bruce. - Guardas, levem sir Drue para a sala da guarda. Os outros ingleses devem ser preparados para a punição, que deverá ser exemplar.
Quando a conversa entre o prisioneiro e sir Connaught terminar, levem-no ao terraço da torre sul.
O terraço da torre sul? O coração de Drue deu um salto no peito. Então era esse o castigo! Aquela torre ficava no alto de imensas escarpas, em cujas rochas pontiagudas
muitos prisioneiros haviam encontrado a morte. Sem dúvida, ela e os camaradas seriam atirados de lá de cima e teriam seus corpos despedaçados em questão de segundos.
Triste fim para um guerreiro! Triste e humilhante!
- Prefiro ir com meus camaradas - anunciou ela com toda calma.
- Mais tarde - cortou o rei, com rispidez. - Agora, obedeça a sir Connaught e vá com ele.
O irlandês apanhou a corrente que lhe prendia os pulsos e puxou-a para fora. Manietada e indefesa, Drue não teve como resistir; limitou-se a erguer o queixo
e a caminhar devagar, arrastando as pesadas correntes entre os pés.
A sala da guarda estava vazia, de acordo com o pedido de Connaught. Este conduziu Drue até um banco comprido, fazendo-a sentar-se. As correntes produziam um
som sinistro e triste, como que num lamento pelo destino da valente guerreira.
- Se eu conseguir ter sua custódia de volta, Drue, você me dá sua palavra de cavaleiro que permanecerá aqui e que não irá tentar fugir outra vez? Naturalmente,
só enquanto resgate não estiver em nossas mãos. Depois disso, estará livre para voltar à Inglaterra.
Drue não respondeu. Ergueu os olhos para fitar Connaught, surpreendendo-se mais uma vez com a incrível beleza do contraste entre seus olhos de safira e a tez
morena Percorreu o corpo do irlandês, detendo-se nas mãos grandes e calosas. Mãos que sabiam ser mortíferas e doces. Depois estudou seus lábios, grandes, carnudos.
Lábios que um dia foram seus, pelos quais sua alma suspirava. Lábios que nunca mais a tocariam.
- Prefiro ter o mesmo destino que meus homens.
- Está louco!
- Melhor morrer a viver em solidão.
- Eu... sinto muito por Turlock.
A frase não podia ser mais inoportuna, mas foi a única que Connaught achou para dizer, diante do mudo desespero que sentia emanar da alma de Drue. Tinha ímpetos
de embalá-la nos braços, como embalara os filhos quando Enid morrera. Seu corpo ansiava por se aproximar do calor terno e suave de Drue. Inadvertidamente, Connaught
ergueu a mão e aproximou-a do rosto da prisioneira, hesitante. Céus, como amava aquele rosto de ouro e mel!
Ante aquele gesto de carinho, o coração carente de Drue reagiu antes que sua mente pudesse ordenar-lhe outra coisa. Mesmo com os pulsos atados, Drue pegou-lhe
a mão desajeitadamente e encostou-a na boca, beijando-a com fervor. No corpo de ambos desencadeou-se em ondas avassaladoras toda a fúria de uma tempestade de verão,
subjugando-os com sua força brutal.
- Por favor, milorde, vamos terminar com esta farsa. Não tenho medo da morte, mas do futuro. Não há vida para mim, com ou sem você. Deixe-me ir, eu lhe suplico.
Só assim podemos pôr um fim nesta existência de fingimento.
Ele se ajoelhou, cobrindo-lhe as mãos de beijos quentes. Eram mãos duras, afeitas às armas e à fúria da natureza.
Grandes, fortes, quase tão calosas quanto as suas; não eram mãos brancas e delicadas de uma mulher. Drue era uma extensão de si mesmo, decidiu, espantado com
a própria descoberta.
As mãos dela se fecharam sobre as dele, num gesto de resignação e entrega.
- Não adianta, milorde. Não há futuro para nenhum de nós, não compreende?
Connaught não conseguia mais pensar claramente; para ele agora só havia um objetivo na vida. Só uma coisa importava... Drue.
- Perdi minha mulher, Drue. Se você jurar fidelidade a Bruce, ele deixará que fique na Escócia. Nós poderemos ficar juntos.
Mesmo enquanto falava, Connaught sentia-se humilhado e degradado. O amor por Drue levava-o a cometer loucura após loucura, conduzindo-o inexoravelmente aos últimos
abismos da degradação. Ao ver os olhos dourados se arregalarem de surpresa, Connaught ergueu-se de um salto, puxando-a para si.
Drue encarou-o, atônita, um lampejo de esperança iluminando-lhe as idéias. Era pura loucura, mas... E se ela lhe dissesse agora que não era homem? Se pudesse
fazê-lo compreender o dilema de sua vida inteira, então talvez houvesse alguma esperança para eles. Ela juraria lealdade a Robert Bruce e permaneceria lutando ao
lado de Connaught, sem que ninguém mais soubesse do terrível segredo.
Era uma idéia arriscada. Se Connaught, em nome da lealdade ao rei, não a deixasse mais lutar, alegando que não poderia mentir, então tudo estaria perdido. Drue
respirou fundo. Sim, iria tentar. Que Deus a ajudasse! No instante em que abriu os lábios para falar, a boca de Connaught colheu-os vorazmente, sugando-lhe as palavras,
a alma, o amor. Soltando um gemido de prazer, Drue entregou-se à delícia do beijo, transpondo barreiras que só ela conhecia, sentindo-se mulher até a raiz dos cabelos.
Em seu coração, a enorme batalha terminara. Seu sangue se dissolveu como lava, seus músculos derreteram, seu corpo amoldou-se ao dele. submisso e dócil. Era mulher,
mulhe... mulher! E iria conhecer as delícias da entrega total, sem reservas, liberta das correntes que haviam aprisionado seu corpo por tantos anos.
O amor avassalador, há tanto reprimido, ocupou pela primeira vez o lugar mais importante no coração de Drue. Tremula de felicidade, preparou-se para entregar
a Connaught o mais precioso dom que possuía - o segredo de sua feminilidade. Não lhe importava mais qual seria a reação dele; agora confiava no amor de Connaught.
Ele a protegeria com seu silêncio e sua compreensão!
Afastando-se um pouco, Drue fitou-o com paixão por uns instantes. Seus olhos brilhavam quando finalmente murmurou:
- Connaught... Connaught! Quero ser sua mulher!
Mas, para seu espanto e horror, viu-se diante de uma súbita muralha de ódio e rejeição. Nunca ocorrera a Drue que Connaught poderia não entender o sentido de
suas palavras. Atônito e chocado com as palavras de Drue, Connaught subitamente acordara para a realidade, que para ele se afigurava terrível. Morto de vergonha
e desespero, empurrou-a brutalmente, e Drue, indefesa por causa das correntes, caiu pesadamente no chão.
Connaught plantou-se de pé, as mãos na cintura, encarando-a. Seus olhos espelhavam humilhação e desprezo por si mesmo.
- Isso não pode mais acontecer, maldição das maldições! Não permitirei que você destrua minha alma, Drue. Quer ter o mesmo destino que seus amigos, não é? Pois
assim será!
Com duas largas passadas, Connaught escancarou a porta.
- Guardas! Levem sir Drue para o terraço imediatamente!
Minutos depois, seus passos vibravam fortemente no corredor.
Antes que os guardas chegassem, Drue conseguiu se erguer penosamente e arrastar-se até a mesa, onde se encostou. Os acontecimentos daquela manhã haviam se sucedido
de maneira tão vertiginosa que ela ainda se sentia meio tonta. Experimentara uma série de emoções violentas demais, que sua alma não conseguira absorver de todo.
Só se lembrava da boca quente de Connaught sobre a sua... e do olhar de ódio que ele lhe lançara, um ódio tão forte que nem a suavidade dos olhos azuis foi capaz
de atenuar.
Como fora estúpida e ingênua! Deixara-se levar pela ânsia de amar e ser amada, e agora não recebia mais que o merecido. Pensara que Connaught se desmancharia
em felicidade quando tomasse conhecimento do precioso segredo; no entanto, sua reação fora clara e insofismavelmente de rejeição é desgosto. Durante alguns instantes
ele a desejara, disso tinha certeza. Mas logo depois, quando ouvira suas palavras amorosas, afastara-se incapaz de esconder a aversão. Deus, como fora imbecil!
Acreditara que seu amor seria retribuído com generosidade... e enganara-se redondamente. Como sempre, quando se tratava de Connaught.
Baixou os olhos para as mãos que se crispavam Sobre a mesa. Mãos grandes e desajeitadas, tão ásperas quanto a mesa. Calosas, avermelhadas, cheias de marcas dos
incontáveis treinos com a espada e o machado. Seus pulsos machucados ardiam sob as algemas, tão justas que a magoavam. Essas mesmas algemas teriam escorregado facilmente
pelas mãos diáfanas de uma dama da corte, sem lhe causar nenhum dano.
Mas claro que Connaught jamais a aceitaria como mulher! Até as prostitutas de campo possuíam mais atrativos que ela, grande e desajeitada, sem um pingo de feminilidade.
Um homem rico e influente como Connaught podia escolher entre uma multidão de mulheres, todas ansiosas por tornaram-se a lady Connaught. Drue tinha consciência disso,
mas poderia jurar, diante de Deus, que Connaught retribuíra seu amor de modo inequívoco. Agora que era obrigada a admitir seu engano, o golpe lhe parecia pior que
todos que recebera em batalha, mil vezes mais doloroso e cruel. Sem o amor de Connaught, nada mais lhe restava a não ser a escuridão e a morte.
O tempo que passara com Connaught fora maravilhoso e rico, tendo aberto novos horizontes em sua vida cinzenta e monótona. A amizade criara raízes, crescera e
florescera num amor intenso, tão intenso que quase mata a ambos - pelo menos, acreditava nisso até então. Agora, tomada de vergonha, Drue constatava que havia amor
apenas de sua parte. O dele só existira na imaginação.
Louca! Louca! O castigo que a esperava era merecido por sua inacreditável asnice. Connaught não só a rejeitara como demonstrara aversão total à idéia de tê-la
como mulher. Perdera-o para sempre! Nunca mais sentiria seu toque mágico, o gosto de sua boca, o calor de seu corpo. Nunca mais ouviria seus gemidos enlouquecidos
de desejo, o som de sua risada sonora, os brados de vitória que ele soltava quando caçava.
Deus, que agonia! Jamais amara alguém como Connaught, e jamais amaria. Com ele, sentira-se mulher pela primeira vez na vida, e gostara da experiência. Para amar,
Drue precisava respeitar, antes de tudo. E quem mais ela respeitaria tanto quanto Connaught? Ninguém, nem mesmo Turlock!
Oh, por que não silenciara? Pelo menos a amizade entre ambos teria sido preservada. A lembrança do olhar cheio de ódio envenenava-a como pão embebido em cicuta.
Como pudera se enganar daquele modo, acreditando que ele a amava também? Mas se ele mesmo dissera, com suas próprias palavras, que sentira tantas saudades quanto
ela! Contudo, no fundo Drue sabia que entre sentir saudades e amar havia uma grande diferença.
Quando se oferecera para se tornar sua mulher, Drue estava certa de que ambos queriam isso, não apenas ela. Ousara acreditar que ele se enterneceria com o dilema
em que ela vivera a vida inteira! Que ele entenderia como lhe era difícil revelar um segredo que poderia destruir sua vida e sua carreira, sem falar no duque de
Duxton, cuja honra seria posta em dúvida para sempre!
Talvez a reação de Connaught fosse outra, caso ela tivesse explicado soa situação antes de se oferecer. Mas, levada pelo desejo e pelo arrebatamento dos beijos
trocados, Drue nem pensara em outra coisa; sua única vontade era entregar-se de corpo e alma àquele homem que lhe tirava o fôlego e era sua alegria de viver.
Talvez a oferta tivesse sido feita de maneira precipitada, logo após a morte de Enid. Seria isso? No entanto ela também sofria com a perda de Turlock, talvez
até mais que ele com a morte da esposa. Não, Drue não conseguia compreender a razão de semelhante mudança de atitude da parte de Connaught.
Perdida nesse mundo de pensamentos desencontrados, Drue conheceu, pela primeira vez na vida, o gosto amargo da derrota total. Sua cabeça girava, seus joelhos
tremiam. Grossas gotas de suor desciam-lhe pelo rosto. Tomada de fraqueza e desespero, percebeu que ia cair. Agarrou-se à mesa, derrubando uma cesta de frutas frescas.
Distraída, Drue olhou para as maçãs e pêras espalhadas no chão. Uma pequena faca achava-se espetada numa ameixa, pronta para descascá-la. Certamente um guarda
havia-a deixado ali, na pressa de atender ao chamado de Robert Bruce. Rapidamente, Drue conseguiu se abaixar e apanhá-la, escondendo-a na manga no exato minuto em
que um soldado entrava.
Os outros prisioneiros achavam-se em fila ao longo das ameias do alto terraço, acorrentados uns aos outros. Drue, desacostumada à luz do sol, mal conseguiu focalizá-los.
- Você e Connaught chegaram a algum acordo? -perguntou Bruce, enquanto Drue era forçada a se ajoelhar à sua frente.
- Não há acordo possível entre nós - respondeu ela, erguendo o queixo em desafio.
Robert Bruce encarou-a. Alguma coisa acontecera, algo escapava de sua compreensão. O rosto de Drue estava inchado e parecia ferido.
- Tragam Connaught até aqui - ordenou. - Temos resolver esse assunto de uma vez por todas.
Dois soldados desapareceram pela saída. Bruce voltou às atenções para os outros prisioneiros.
- Vamos começar com o castigo imediatamente. Tirem a roupa desses ingleses e joguem-nos dentro das jaulas. Depois, pendurem as jaulas para fora desta torre,
baixando as cordas o mais possível, para que eles fiquem à vista de todos. Aí ficarão, até que o resgate nos chegue da Inglaterra. Veremos como nossos bravos ingleses
se portam sofrendo o mesmo castigo infligido aos escoceses! Comecem a despir os prisioneiros, vamos!
Drue sentiu como se alguém a tivesse socado violentamente na boca do estômago. Conhecia bem demais esse tipo de tortura, e não tinha medo do frio que a gelaria
à noite, nem do calor que a faria arder durante o dia. Mas o costume era deixar os prisioneiros nus, para aumentar a humilhação. Deus, o que fazer agora? Se lhe
arrancassem a roupa, sua identidade de mulher seria imediatamente reconhecida. Na melhor das hipóteses, Connaught a mataria no mesmo instante. Na pior, ela seria
estuprada pelos odiosos ratos escoceses.
Ao ouvir a voz de Connaught que se aproximava, Drue fechou os olhos. Não havia mais esperança, e ele nada faria para ajudá-la.
- Sir Drue concordou em dar sua palavra de honra de que não fugiria? - inquiriu o rei.
- Majestade, sir Drue não tem honra! Connaught falara com tamanha raiva e desprezo, que até o monarca se espantou.
- Então sir Drue deve ser punido com os outros?
As mãos de Connaught fecharam-se, as unhas enterrando-se na palma até quase sangrarem. Talvez fosse esse o ajuste de contas prometido pelo padre David. Talvez
perdesse o desejo que sentia pelo corpo de Drue se o visse nu e miserável, no meio dos outros ingleses. Connaught já vira muitos homens nus, e este não devia ser
diferente. Um corpo era um corpo, nada mais. O de Drue, apesar de mexer tanto com teu sangue, seria igual a milhares de outros. Ainda assim, Connaught não conseguia
proferir as palavras que deixariam Drue exposta à curiosidade pública.
- Demônios, Connaught! - exclamou o rei, impaciente. - É seu desejo ou não que sir Drue acompanhe os outros?
Com o canto dos olhos, ela seguia os movimentos do homem que amava. Ele a odiava; podia sentir a raiva e a frustração ferindo-a com mil punhais, gelados coma
o inverno. Connaught tinha o rosto quase cinzento, o queixo endurecido numa máscara de gesso, os punhos crispados. Não, o irlandês jamais a ajudaria. Quando revelara
seu segredo, ele demonstrara piedade e raiva. Como agora...
Devagar, cuidando para não ser notada, Drue retirou o pequeno punhal de dentro da manga. Fez com que deslizasse para a palma da mão tremula, no momento em que
Connaught, incapaz de falar, balançou afirmativamente a cabeça, num gesto maquinal.
- Muito bem, dispam o prisioneiro e atirem-no na jaula! - ordenou Bruce, um tanto desapontado.
No momento em que um guarda avançou, Drue mergulhou o punhal no peito. Embora a correia de couro retardasse seus movimentos, Drue soube que conseguira seu intento.
Um choque doloroso pareceu percorrê-la de alto a baixo. Um choque rápido e silencioso, porém mortal.
- Cuidado! - gritou alguém. - Ele tem um punhal! Mas era tarde demais. Drue deixou-se deslizar devagar para a abençoada escuridão da inconsciência, um sorriso
triste brincando em seus lábios descorados.
- Drue! - O grito saiu dilacerado, arrancado de uma alma torturada. - Drue, não!
Abrindo furiosamente caminho entre os soldados, Connaught se ajoelhou e virou rapidamente o corpo imóvel.
- Drue!
Ela adivinhou mais que ouviu o chamado angustiado do amado. Abrindo os olhos com esforço, tentou focalizar as feições de Connaught. Queria levar para a eternidade
a lembrança daqueles olhos azuis que tanto amara.
Concentrou-se no homem que a acariciava, perdida no brilho de safira dos olhos azuis, mergulhando na tempestade que adivinhava existir por trás de seu olhar
torturado. Ecos do passado esgueiraram-se da memória e atravessaram a nuvem de inconsciência que a arrastava de volta ao mundo desconhecido. E ela repetiu as palavras
que haviam selado seus destinos havia muito, muito tempo:
- Seus olhos serão minha última visão do mundo.





































CAPÍTULO XXV

Os passos vigorosos e firmes de Connaught ressoavam nas abóbadas. Com os lábios apertados numa prece muda, ele levava Drue nos braços. Criados acorriam, curiosos,
perguntando-se uns aos outros o que acontecera nas ameias do castelo.
Robert Bruce seguia-o, os olhos astutos observando-o, tentando penetrar naquela mente que adivinhava perturbada.
- Não entendo por que sir Drue fez isso - repetiu Jaime Douglas pela terceira vez. - O castigo não era tão severo assim, nem tão doloroso. Sir Drue é um cavaleiro
e sabia que outra punição podia ter sido escolhida, muito mais severa que essa!
- Bem, se ele viver, terá de responder a essas perguntas - afirmou o monarca, estugando o passo para acompanhar o de Connaught. - Mandou chamar meu médico?
- Sim, Majestade. Ele já está esperando no quarto de Connaught, conforme suas ordens.
O corpo inerte de Drue fazia-se ainda mais pesado que de costume, mas mesmo assim Connaught não permitira que ninguém o ajudasse. Cego pela dor de perdê-la,
observava o rosto dourado com ansiedade, buscando qualquer sinal de vida. Ao chegar diante da porta de seu quarto, Connaught abriu-a com um pontapé. E com os calcanhares
fechou-a com estrondo na cara de Robert Bruce e Jaime Douglas. Ambos recuaram, assombrados. Jaime ensaiou uma desculpa, gaguejando:
- Majestade, eu...
- Não se preocupe, Douglas. Se sir Drue viver, será interrogado oportunamente. Se morrer, Connaught deverá ficar sozinho com sua tristeza. Já vi muitos entes
queridos morrerem, Jaime. Meu irmão Edward, rei da Irlanda... William Wallace... Não é fácil perder um companheiro de armas, seja amigo ou inimigo. Quando eu encontrar
a morte, gostaria que você estivesse ao meu lado. Não conheci ninguém tão leal e dedicado, Jaime.
Os dois se afastaram, perdidos em pensamentos melancólicos, alheios ao drama que se desenrolava atrás da porta.
O médico retirou a faca com movimentos brutos, balançando a cabeça.
- Que loucura! Um punhal de cozinha, quase uma faca cega... E ainda por cima enferrujada. Pouco há que fazer aqui. Esse homem já está praticamente morto. Estou
perdendo tempo!
Connaught tocou de leve, quase com reverência, a surrada veste de couro de Drue. A mesma que ela usava quando os dois riam e brincavam em Duxton. A mesma que
ela usava quando jogavam xadrez, quando lutavam juntos, quando...
- Use isto para cortar essa roupa de couro - disse o médico, com alguma impaciência. - Ande depressa, por favor. Tenho outras coisas mais importantes que fazer,
e não me agrada nada tratar de prisioneiros suicidas.
A mão de Connaught fechou-se sobre a do doutor.
- Pois vá cuidar das coisas mais importantes. Não preciso de você aqui. Drue pode morrer em paz sem seus cuidados.
- Mas o rei mandou...
- E eu ordeno que suma daqui, antes que eu enterre esta faca nessa sua barriga odiosa.
O doutor levantou a vista, assustado. Havia loucura nos olhos de Connaught. Sem dizer mais nada, o médico se retirou do quarto.
- Fora daqui, todos vocês! - berrou Connaught, fora de si, para a turma de curiosos que se acotovelava do lado de fora do corredor. - Fora!
Quando todos se dispersaram como baratas tontas, Connaught trancou a porta, respirando ruidosamente.
Com esforço sobre-humano, alçou os olhos para examinar Drue. Seu rosto pálido retorcia-se de dor, mas a força que Connaught aprendera a amar e a admirar permanecia
latente, poderosa, sob a pele dourada.
Por mais que tentasse, não conseguia compreender a razão daquele gesso insano. Teria sido por causa da imensidão do pecado que ambos estavam por cometer? Ou
por causa da rejeição de Connaught, quando ela simplesmente se rendera à enormidade do amor que os unia, pronunciando as palavras fatídicas que ainda ressoavam em
sua cabeça como punhais de cem pontas? "Quero ser sua mulher" dissera ele. E a culpa continuava a ser dele, sabia-o bem. Fora ele quem forçara a situação, fora ele
quem dera o primeiro passo. Tentara e torturara Drue, até que finalmente, como era natural, o mais novo dos dois perdera controle da situação. Connaught quebrara
todos os votos sagrados da cavalaria, um por um. Seu amor impossível tornara o próprio casamento uma farsa, a ponto de ele considerar a morte de Enid um alívio e
uma bênção!
Deus, a que ponto chegara! Fizera de outro ser humano um joguete, em nome do amor... E depois o pusera de lado, justamente quando esse amor era retribuído com
a mesma intensidade! Como castigo, passaria o resto da vida num mundo escuro e morto, porque Drue era sua luz... Drue era seu sol, seu calor, seu amor...
E antes que a noite caísse, Drue não mais tingiria de dourado sua vida, mas de vermelho. Vermelho de sangue, o sangue de Drue, que ainda corria quente e brilhante
do ferimento.
Arrastando-se como se tivesse botas de chumbo, Connaught ajeitou melhor a tira de linimento, pressionando-a com força, numa tentativa de estancar o sangue. Na
pressa, o insensível médico nem se dera ao trabalho de tirar a roupa de Drue, enfaixando-a por cima do colete de couro. Melhor seria despi-la e depois pensar-lhe
a ferida.
Connaught hesitou, confuso. O calor de Drue envolveu-o, ainda palpitante de vida. Como tocar nesse corpo que lhe despertara paixão e desejos inconfessáveis?
Não, melhor seria chamar os criados. Eles cuidariam de Drue.
Mas antes de se mover. Connaught já sabia que não faria nada disso. Não suportaria que outras mãos tocassem em Drue. Ela era dele, só dele. Só seus olhos veriam,
em sua esplendorosa nudez, o corpo de quem amava acima de todas as coisas.
Com mãos trêmulas, começou a desatar os nós da pesada indumentária. Virando-a de lado, conseguiu livrá-la da primeira peça, depois da segunda, desnudando-lhe
o tórax. Sua mão roçou de leve na pele dourada e macia. Surpreendentemente macia.
Deus! Drue precisava viver! Não era possível que esse corpo maravilhoso, cheio de vida, se transformasse em pó dali a poucos dias! Concentrando-se na horrenda
ferida, Connaught não prestou atenção em mais nada. Precisava curá-la! Lembrando-se dos primeiros socorros que aprendera havia muitos anos, começou a limpar o local.
Somente quando terminou seu minucioso e paciente trabalho, e somente depois de ter enfaixado a região afetada, e que Connaught se permitiu descansar um pouco.
A respiração de Drue tornara-se regular, e seu rosto já não se retorcia de dor. A menos que a febre subisse muito, havia uma tênue esperança de que ela sobrevivesse.
Connaught fixou os olhos no peito de Drue, observando-o subir e descer num ritmo regular e tranqüilo. Não desviava a atenção, temeroso de que a respiração parasse;
era como se seus olhos forçassem Drue a se manter viva.
Foi muito tempo depois que, inadvertidamente, Connaught teve um ligeiro vislumbre de compreensão, que penetrou num lampejo de raio momentâneo em sua consciência.
Assombrado, firmou a vista. Embora o peito de Drue fosse cheio e musculoso, não era o peito de um homem. Acima das ataduras apertadas, a diferença entre o torso
de Drue e o dele próprio se acentuava mais. Atordoado, Connaught esfregou os olhos, incapaz de acreditar no que via.
Não podia ser! Tudo não passava de fruto da imaginação. Era a exaustão que o transtornava!
Mas agora sua mente se esmerava em pregar-lhe peças. Assim começou a achar que o peito de Drue cada vez mais se assemelhava aos seios de uma mulher. O sol se
punha no horizonte, e o quarto começou a se encher de sombras. Era isso, sem dúvida! A fraca claridade fazia-o ver coisas! Drue... Drue era um homem! Não o capturara
lealmente numa batalha? Não lutara com ele na lama? Como então duvidar agora da masculinidade desse valente cavaleiro? Muitos outros haviam tentado se bater com
ele, Connaught, e o único que o vencera fora exatamente Drue. Ainda assim, a comparação entre o corpo diante de si e o seu próprio deixava-o cheio de dúvida,
Mais de dez vezes Connaught esticou a mão para tocaia, e outro tanto recuou-a. Finalmente, muito de leve, encostou a ponta do dedo no seio firme de Drue. Não
era igual ao luxuriante seio de Enid, mole e branco; contudo, faltava-lhe a dureza e a resistência que sentia no próprio peito. Atónito, Connaught enfiou a mão por
baixo do colete, apalpando-se. Depois tocou-a de novo,
Sim, havia uma diferença! Embora não fosse o seio de uma mulher, pelo menos como os conhecera ao longo da vida, definitivamente não estava tocando no peito de
um homem! Drue era firme e musculosa no resto do corpo, menos ali, naquela região, onde a pele cedia facilmente, fofa e lisa.
Novamente as palavras de Drue ecoaram em sua mente, desta vez com uma força que o entonteceu. Gotas de transpiração formaram-se em suas sobrancelhas. Não podia
ser, céus! Vivera ao lado de Drue meses a fio, e nem de leve desconfiara de nada! Ele teria percebido, sem dúvida! A única coisa mais estranha fora a imensa atração
que um sentia pelo outro.
"Quero ser sua mulher!"
Connaught tapou os ouvidos, desesperado. Estaria ela tentando revelar-lhe esse sagrado segredo naquela hora?
Mais uma vez, esticou a mão. Dessa Vez, ela tremia incontrolavelmente respirou fundo, criando coragem para o que ia fazer. Com um repelão firme, as demais peças
de roupa deslizar para o chão.
Incredulidade, espanto, raiva, êxtase, todas as emoções do mundo varreram-lhe o corpo numa onda impetuosa. As coxas estreitas, o estômago liso, o ventre musculoso,
as pernas bem roliças. E entre aquelas pernas masculinas não havia um membro viril e sim a flor da feminilidade.
- Deus todo poderoso - sua voz soando solitária e desgarrada no quarto solitário.
Mas em seguida a enormidade de sua descoberta emudeceu-o.
Ele fora vencido mais de uma vez, por uma mulher! Naquele momento, o fato de que seu amor não era pecado e sim uma resposta normal da natureza pouco ou nenhum
alívio lhe trouxe.
Ele, Patrick Connaught, o paladino da Irlanda e da Escócia, fora capturado e mantido prisioneiro por uma mulher!
Aprendera a admirar a Corça e a agilidade de um guerreiro excepcional, que no final das contas não passava de uma simples mulher!
Estudou longamente o corpo de Drue, Não conseguia descobrir nenhuma beleza verdadeiramente feminina nas linhas esguias e firmes. Nem mesmo no rosto! Examinou
detidamente os olhos largos e grandes, franjados de cílios dourados. Onde a tão decantada e etérea fragilidade feminina? As maçãs do rosto, salientes e quadradas,
realçavam o nariz reto, talvez um pouco proeminente demais. E os lábios... Deus, como se lembrava bem do êxtase e do arrebatamento que o possuíra quando beijara
aquela boca rasgada, onde não havia nenhuma docilidade, onde os trejeitos que conhecia numa mulher jamais tiveram um minuto de existência! Eram lábios que nunca
haviam se repuxado num muxoxo, nunca haviam "feito beicinho", como se costumava dizer. Eram lábios que riam e mostravam uma fileira de dentes brancos e sadios, livres
de cárie. Lábios que falavam de guerra e soltavam de vitória. Lábios que um dia haviam falado de amor.
Seu olhar vagou pelo corpo de Drue. A pele dourada e crestada de sol, o corpo bem proporcionado e forte, as pernas musculosas -, livres de gordura indesejáveis,
as mãos calosas e ágeis. Tudo nela negava a prova da feminilidade que acabara de descobrir.
Padre David dissera a verdade, afinal. O ajuste de contas chegara ao fim. Tudo se encaixava com perfeição, o irresistível fascínio pelo jovem guerreiro, os
beijos que haviam trocado furtivamente, as palavras de Drue quando lhe revelara seu segredo. E a reação suprema que ela tivera quando descobrira qual seria sua punição.
Se os soldados a tiverem despido. Connaught não podia - nem queria - imaginar o que aconteceria em seguida. Vira, muitas vezes, mulheres eram estupradas e violentadas.
Esse era um direito dos soldados, quase sagrado e consolidado ao longo aos séculos.
Medo e alivio mesclaram-se no coração de Connaught, que se inclinou para abraçá-la, mas em seguida se afastou como se tivesse se queimado numa fogueira. Apesar
de tornar-se dono de uma verdade que só ele conhecia, ainda assim sentia-se pouco à vontade diante daquele corpo masculino.
Mesmo nos delirantes acessos de febre que teve naquela noite, Drue mostrou-se malcriada e pouco receptiva. Seu corpo de repente se enrijecia, cada fibra alerta,
como se aguardasse o comando para entrar na batalha. Cuspia os goles de água com mel e láudano que Connaught tentava pacientemente lhe ministrar, a fim de aplacar-lhe
a dor, e debatia-se ferozmente a cada vez que ele ajeitava os pensos. Mas Connaught não desistia, porque sua esperança de vê-la viver crescia. Chegava mesmo a desejar
que ela se debatesse, pois isso era uma prova irrefutável que a vida de Drue não se escoava entre seus dedos. Como amava essa mulher, santo Deus! Sempre a amara,
e sempre a amaria, até o fim da eternidade.


Drue gemeu baixinho, os olhos abertos fixos no vazio. Connaught ergueu-se e pegou-lhe a mão escaldante pressionando-a contra o rosto amorosamente.
- Sim, Drue, eu compreendo. Ninguém saberá de seu segredo, juro. Você está segura comigo, e eu a protegerei agora e sempre. E minha consciência estará em paz.
Não há pecado em nosso amor, e eu posso proclamar em alta voz o que sinto por você. Você viverá, meu amor, porque eu preciso de seu calor, de seu corpo, de suas
mãos.
À medida que falava, Connaught ia aumentando o volume de voz, estonteado de felicidade. Era a primeira vez que aceitava sem conflitos seu amor por Drue; era
a primeira vez que ousava verbalizar o que sentia no coração. Drue viveria, alimentada apenas por seu amor e carinho. Ele a perdoaria por tê-lo vencido, por ter-se
passado por homem, por tê-lo enganado. Ele a perdoaria por tê-lo deixado agonizar noites em claro, debatendo-se em agonias de uma culpa inexistente. A farsa terminara.
Agora, exigiria de Drue o cumprimento da promessa que ouvira de seus próprios lábios, uma frase que ainda ecoava fone em seu coração. E faria dela sua mulher!
Através das trevas densas da dor e da inconsciência, Drue ouviu vagamente as frases de amor de Connaught. Sua voz penetrava-lhe fundo na alma, obrigando-a a
travar uma luta feroz contra o torpor do corpo.
Precisava contar tudo. Agora! Ela era sir Drue, cavaleiro do reino da Inglaterra! Não precisava da proteção de ninguém, nem mesmo dele! Contudo, as mãos dele
lhe traziam conforto e segurança... O som da voz de Connaught parecia acordá-la para a vida, arrancá-la das garras frias da morte.
Finalmente, foi a raiva e a frustração que conseguiram despertá-la por algum tempo. Raiva por ter-se traído, por ter-se revelado num momento de fraqueza, por
ter-se enredado na armadilha das próprias palavras,
Abrindo as pálpebras com esforço, empenhou-se em focalizar o rosto distante de Connaught, mas só conseguiu envergar um borrão indistinto.
- Você sabe...
Connaught se inclinou para ela, afagando-lhe os cabelos curtos.
- Sim, sei. E eu te amo, Drue! Sempre te amei. mas não tinha coragem de admitir. Você será minha mulher, minha eterna mulher. Vou levá-la para meu castelo,
onde você viverá comigo e para mim. Para sempre, Drue...
Ela fechou os olhos cansados. Como Connaught conseguia imaginá-la desempenhando os deveres de uma castelã? A lembrança de Allyson, a afetada noivinha de Garith,
passou pela sua mente em quadros rápidos e sucessivos. Saltitante. Esvoaçante. Bordando. Agitando o leque. Fazendo biquinho. Os delicados sapatinhos. Os incríveis
penteados. E, acima de tudo, o eterno ócio, o onipresente não-fazer-nada. Meu Deus, como viver assim? Impossível imaginar-se colhendo flores, à espera que Connaught
voltasse da guerra!
Tão impossível quanto se ver metida num daqueles ridículos e estufados vestidos, cheios de babados e penduricalhos. A idéia lhe parecia tão grotesca que chegava
a dar-lhe vontade de rir, não fora a dor que sentia. Contudo, Connaught falara a sério, com expressão grave e compenetrada. O que sempre temera estava acontecendo,
afinal. Connaught acreditava honestamente que ela passaria o resto da vida presa entre quatro paredes, fazendo às vezes de castelã... não, de escrava... submetendo-se
a tudo em nome do amor!
Sentiu que mergulhava novamente no mundo da inconsciência. Antes, porém, deixou que toda a sua revolta ganhasse vida e corpo, através de uma frase curta, que
poderia assinalar sua condenação à eterna solidão neste e no outro mundo:
- Prefiro a morte.
























CAPITULO XVI

Connaught podia sentir os olhos de Drue cravados em sua nuca, acompanhado-lhe os movimentos. Ele ia e vinha empacotando coisas e expedindo ordens secas aos criados.
- Partiremos amanhã- anunciou alto, tanto para os servos quanto para a calada Drue. - Vou me mudar para meu novo castelo escocês, em Loch Morrill, onde meus
filhos irão ao meu encontro.
paulinhogeller
Enquanto falava, Connaught observou com o canto dos olhos a reação de Drue. Ela pestanejou à menção das crianças, mas não deu sinal de interesse, e muito menos
de contentamento. Ele achou que tivera uma inspiração quando pensara em apresentá-la aos filhos. Diabos, as mulheres adoravam crianças! Contudo, Drue permanecia
com o mesmo ar ausente e desinteressado.
Quando a movimentação dos preparativos amainou, Connaught dispensou os criados e sentou-se numa cadeira, chegando-a bem perto da cabeceira.
- Quantos dias de viagem até Loch Morrill? - perguntou ela.
- Uns cinco ou seis dias. Por quê?
- Eu vou a cavalo. Poderemos chegar lá em dois dias apenas.
- Você vai na carroça, e nós levaremos cinco dias inteirinhos para chegar! Era só o que faltava, você morrer de exaustão depois de todo o esforço que fiz!
Ele lhe dirigiu um sorriso carinhoso, mas Drue não o retribuiu.
- Não quero ir pendurada numa carreta como posta inútil de carne.
- E eu não quero cuidar de seu enterro no meio do caminho. Além do mais, quero que conheça o pedaço de terra que Robert Bruce me deu. É cheio de montanhas, bastante
isolado. Acho que é o lugar ideal para sua convalescença.
- Já estou bem o suficiente para que meu resgate seja pago. Por que ainda não providenciou minha volta à Inglaterra?
- Não sabe a razão, Drue?
Os olhos azuis buscaram os dela; Mas Drue desviou a vista.
Sim, que Deus a ajudasse, ela sabia muito bem a razão. Connaught descobrira seu segredo, e agora esperava que ela se submetesse docilmente, como cabia a uma
mulher bem comportada. Drue apostara alto e perdera. Não uma, mas duas vezes!
Na sala da guarda, subjugada pela enormidade do amor que a arrebatava, Drue cedera à magia de Connaught e se traíra miseravelmente. As palavras que dissera
então lhe martelavam a mente noite e dia. Pronunciara a própria sentença de morte! Porque Connaught interpretara-a como qualquer homem interpretaria, julgando que
ela, Drue, se transformaria numa dócil e submissa imbecil. Mas isso era uma violência contra sua pessoa, seu credo, sua vida.
Em seu desespero, Drue se viu traída até por Turlock. Turlock seu amigo, seu instrutor e mentor. O único homem que a aceitara tal como era e nunca questionara
sua opção! Agora, esse homem havia morrido, deixando-a sozinha para se defrontar com o impossível.
- Vou enviar uma carta a Garith, informando que a irmã dele é minha hóspede de honra.
Drue ficou rígida.
- Ele não saberá de quem você está falando. Garith de há muito se esqueceu que teve uma irmã. Na verdade, quando ele tinha uns dez anos, nós dois andamos atrás
de uma sepultura, a de nossa irmã, como dizia ele. Alguns moradores de Duxton haviam lhe contado sobre mim. Achamos a sepultura de mamãe apenas, e eu disse a Garith
que nossa irmãzinha havia sido enterrada junto com ela. Como de fato foi o que aconteceu.
- Como é?
- Todos que estavam com meu pai durante o sítio esqueceram da garotinha. Os que não esqueceram foram sendo trocados aos poucos por novos soldados, por que papai
não queria que ninguém soubesse de minha identidade. Assim, na cabeça de todos, papai levou para o campo, dois meninos.
- Mas e o duque?
- Papai já se resignou há muito tempo com minha vocação. Sou um cavaleiro! Fui sagrado cavaleiro pelo próprio rei, em pleno campo de batalha. A única pessoa,
fora ele, que conhecia minha condição era Turlock, e Turlock agora... agora já não vive mais.
Com um estremecimento, Drue rematou:
- Eu gostaria de estar com ele agora, onde quer que fosse.
Connaught pousou a mão no braço dourado, sentindo-o enrijecer imediatamente.
- Não diga isso, Drue. Turlock não gostaria que você morresse agora, estou certo disso. Ele quer que você viva, tanto quanto eu quero. Isto não é o fim, é apenas
o começo para nós. O começo de uma vida nova!
Drue suspirou, balançando a cabeça. Como convencer esse homem teimoso?
- Não quero vida nova, Connaught. Quero a velha!
- Tem certeza, Drue?
- Claro que tenho, ora essa!
- Você gostava das noites que passava em claro, seu corpo ansiando pelo meu? Divertia-se com meu tormento quando eu acordava em desespero, tomado de pesadelos
sem fim? Nunca quis quebrar seu voto de silêncio e admitir que era uma mulher e me amava, como eu a amava? Nunca teve pena de minha agonia, quando eu julgava que
me entregava a uma paixão proibida por Deus e pela própria natureza?
- Sou um cavaleiro! E um cavaleiro não pode amar outro, isso sim é que é pecado contra Deus e a natureza, como diz! Nunca pensei em mim como mulher, nem mesmo
agora. Se me ama, Connaught, precisa me aceitar como sou. De outra forma, não existirá amor verdadeiro entre nós.
- Ele já existe, Drue, queira ou não queira. Um amor como nunca houve nem haverá neste mundo. Sou capaz até de trair meus votos de cavalaria e o próprio rei,
se for necessário, para proteger você. Eu te amo, mais que a própria vida... mais que minha alma... mais que minha honra.
Drue suspendeu a respiração.
- Então deixe-me partir para a Inglaterra - disse, com voz. firme, sem implorar nem se rebaixar. - Tão certo como dois e dois são quatro, nós nos destruiremos
um ao outro se ficarmos juntos.
De alguma forma, Connaught compreendeu o desesperado apelo de Drue. Se ela ficasse na Escócia como cavaleiro, ambos se desgraçariam em pouco tempo, mesmo que
tomassem todo o cuidado do mundo. E seriam desonrados, transformando-se no escândalo inesquecível do mundo cristão. Como sair desse impasse, pelos deuses do Olimpo?
- Você mesma me pediu para ser minha mulher! - protestou fracamente.
- É verdade, e me penitencio por isso. Não posso ser sua mulher, Connaught. Nem mesmo viver com você como seu escudeiro. Não há futuro para nós!
- Você está errada! Tudo mudou depois que eu soube da verdade, Drue!
Connaught sacudiu-a levemente pelos ombros, aproximando o rosto. Sua voz saiu quase num soluço:
- Agora, mais que nunca, não posso deixá-la fugir de mim!
- Agora, mais que nunca, eu devo deixá-lo. Pelo seu bem e pelo meu.
- Não! - bramiu ele, como num grito de guerra. - Você é minha! Você é meu desafio, meu amor, minha mulher!
Os olhos de Drue cravaram-se nos dele. Mergulhou voluptuosamente naquele brilhante mar de safiras, adorando-o em silêncio. Depois, inconscientemente, desligou
o olhar para a boca de Connaught. Ele falava sem cessar, mas Drue não conseguia se concentrar nas palavras que ouvia. Só tinha consciência da proximidade dos lábios
de Connaught. Deus, como amava aquela boca! Como que impelida por uma força desconhecida, Drue soergueu o busto, chegando mais perto, aspirando com volúpia o hálito
doce, querendo fundir sua boca com a dele. Só de pensar nisso, seus nervos formigavam. Seu corpo se enrijeceu com calma antecipação do prazer que a esperava, saboreando
os breves instantes de expectativa. Entreabriu os lábios úmidos, oferecendo-se para o assalto que certamente não demoraria.
Ele murmurava palavras ternas de amor. Palavras que nada significavam para Drue, cuja atenção se concentrava no beijo que queria receber. Suas mãos tocaram de
leve nos braços fortes de Connaught, acariciando-os, enquanto seu corpo era varrido por um calor desconhecido.
Connaught emudeceu. Sua boca encostou levemente no rosto de Drue, como um roçar de asas. E desceu para o pescoço, com a mesma leveza e ternura. Drue fechou os
olhos, alheia a tudo o mais. Só lhe interessava Connaught, esse homem que sabia despertar seu corpo como ninguém. Nunca ela se sentira tão cheia de vida, nunca conhecera
esse encantamento de flutuar sobre o fogo.
Os dois corpos magníficos, poderosos, se moldaram num só, em busca da realização plena e total, da quebra da última barreira.
Connaught apertou-a nos braços potentes, fazendo-a soltar um grito. Imediatamente ele a soltou, acariciando-lhe a testa úmida de suor.
- Desculpe, meu amor. Como sou egoísta! Não consegui me controlar, mesmo sabendo que você ainda sofre dores.
- Mas eu não gritei de dor! - protestou ela. - Gritei de amor!
Ele beijou-lhe a testa.
- A palidez de seu rosto me conta outra história. Mesmo assim, eu te amo ainda mais pelo que me disse.
- Connaught - começou ela.
Ma? ele a silenciou com um beijo tão terno e doce que a fez perder a respiração.
- Connaught - repetiu, num sussurro extasiado.
- Descanse agora, meu amor - disse ele, baixando os braços dela e depositando-os com gentileza sobre a macia pele de vicunha que cobria a cama. - Partiremos
para Loch Morrill um pouco antes do amanhecer, quando estiver mais fresco. E um lugar selvagem e bravio, parecido com Duxton. Você vai conhecer meus filhos, e gostará
deles, com certeza. Eles precisam do amor de uma mãe, assim como eu preciso do amor de uma mulher.
Instantaneamente, a imagem de Allyson surgiu como um fantasma na mente de Drue. Fechando os olhos, ela ergueu um dedo para silenciá-lo, na tentativa de impedi-lo
de dizer coisas mais danosas à sua alma. Mas ele beijou-lhe os dedos um por um, passando a língua quente nas palmas calosas.
- Um dia, Drue, sua mão ficará macia. Um dia estes calos sumirão. Quando você for minha rainha e senhora.
Drue desviou a vista, tomada de tristeza. Havia tanto amor nos olhos azuis e cristalinos que ela não criou ânimo para responder. Sentiu o coração dolorosamente
apertado quando pensou na decepção e na mágoa de Connaught quando tivesse de rejeitá-lo definitivamente. Mas era preciso não enganá-lo.
Como cavaleiro que era, seu golpe foi rápido e leal.
- Nunca! - murmurou, cansada.
Mas não percebeu que Connaught, em sua euforia, não a ouvira.
- Não vou viajar de camisola - anunciou ela. Connaught estudou-a, perguntando-se se valia a pena discutir.
- Muito bem, concordo. Mas você vai na carreta, goste ou não da idéia. Não estou para ampará-la a cada momento que você se sentir mal.
- Não fui eu que desmaiei enquanto estava montado - lembrou-lhe Drue, referindo-se à vez em que o havia capturado.
- Tem razão. E quero que continue assim - riu ele, sem se importar com o tom belicoso. Agora venha aqui. Eu vou ajudá-la a se vestir.
- Connaught... Quero lhe pedir um favor.
- O quê! Minha valente guerreira pedindo favores?! Deve ser alguma coisa muito importante mesmo.
- E é, pelo menos para mim. Por favor, trate-me como homem... como um cavaleiro. Pelo menos na frente dos outros. Agora você põe tudo no feminino, e isso me
deixa confuso.
- Mas, Drue... Não acha que está na hora de ir se acostumando?
- Não! - cortou ela, os olhos chispando. - Se você não me atender, juro-lhe que não saio daqui. Estou falando sério, Connaught.
Ele ergueu as mãos para o céu.
- Dai-me paciência! Pois muito bem, seja, concordo, prometo. Tudo o que quiser! Venha se vestir, ande.
Embora a ferida já estivesse se fechando, Drue tinha bastante dificuldade para mover os braços. Estava grata a Connaught pela oferta de ajudá-la na incomoda
tarefa de vestir a pesada roupa de couro. Por uma fração de segundo, Drue hesitou antes de tirar a camisola, seguindo o velho hábito de jamais se despir na frente
dos outros. Quando se lembrou que "ele" sabia, sorriu e deslizou para fora da camisola.
Mas sentiu o corpo arder em fogo quando os olhos de Connaught a varreram de alto a baixo. Uma sensação gostosa fez a ponta de seus seios endurecerem, numa doce
tortura que só Connaught podia atenuar. Sentiu vontade de pegar a mão dele e colocá-la no seio. Imaginou-o acariciando-lhe o corpo nu, um corpo que sempre se escondera,
que sempre se furtara aos prazeres da carne.
Ele estendeu-lhe o colete, em silêncio. Em silêncio, ela esticou o braço para recebê-lo. E, em silêncio, Connaught deixou o colete escorregar para o chão antes
que ele apanhasse. Devagar, muito calado. Connaught avançou colocou as mãos nos seios de Drue. Fitando-os com adoração. Ela arquejou, deliciada com o toque mágico
e aveludado. Esqueceu a dor, as pontadas que costumava sentir quando se movia, para se concentrar no êxtase de se ver acariciada e desejada. A tensão de seu corpo
transformou-se em calor a dor em enlevo. Cobriu com suas mãos as de Connaught pedindo mais.
Devagar, ele inclinou a cabeça, beijando-a no pescoço. Os ombros. nos seios. Sua boca buscou sequiosamente o contorno do seio firme, lambendo-o suavemente,
amolecendo umedecendo-o. Drue arfou em doce arrebatamento.
Suas mãos buscaram o pescoço, os cabelos de Connaught Apertava-o contra o corpo, sempre querendo mais, numa ânsia de se saciar. Mas a saciedade não vinha. Ao
contrario, foi tomada de uma sensação de insatisfação que não conseguia compreender. Sentia-se queimar por dentro, presa de uma emoção diferente e selvagem, totalmente
desconhecida. Colou-se ao corpo de Connaught, sentindo-lhe a tensão, pedindo mais.
Ele largou-a, fitando-a intensamente. Um suspiro escape lhe da boca quando ele se abaixou para pegar a veste de couro. Para Drue, era óbvio que Connaught travava
uma luta difícil consigo mesmo. E não compreendia o motivo batalha.
Não quis pegar a roupa. Manteve-se orgulhosamente ereta, o queixo erguido, os olhos dourados em muda interrogação. A pergunta não foi formulada, mas pairou sobre
ele como espectro.
Connaught explicou, as palavras caindo como bolinhas de chumbo no coração de Drue:
- Se eu continuasse, seria para ir até o fim. O que temos agora é precioso demais para ser vivido de indigna, Drue. Vou esperar até você ser minha mulher.
Ao ver que Drue virava o rosto, ele interpretou o gesto como alívio de não ser desvirginada por enquanto. Tomo-a nos braços com ternura, obrigando-a a encará-lo.
- Juro que nada farei para deixá-la infeliz - sussurrou.
"Então por que parou?" queria perguntar ela. A questão chegou até a ponta da língua, mas foi engolida juntamente com o fel da decepção. Talvez fosse melhor
assim. Menos complicado... e mais incompreensível que nunca.
Durante os momentos de paixão irrefreada talvez ela tivesse se entregado sem reservas a esse homem, depositando-lhe nas mãos sua virgindade. Mas agora, á luz
fria da razão, sabia que isso não poderia acontecer. As próprias palavras de Connaught haviam-lhe tirado toda a esperança. Se ele esperava que Drue renunciasse à
cavalaria para se tornar sua mulher, então que esperasse sentado.
Contudo, não era tão simples assim, uma vez que também o desejava. Desejava-o desesperadamente, em cada fibra de seu ser. E não descansaria enquanto seus corpos
não se unissem para a realização plena.
Na tarde do segundo dia de viagem, desabou uma violenta tempestade sobre suas cabeças. O sol, que surgira tímido naquela manhã, escondeu-se novamente atrás das
nuvens, como que pedindo licença para dormir. Imediatamente o céu se fez quase negro e a chuva desabou, açoitando e varrendo tudo o que encontrava.
Não havia trégua naquele embate temível dos elementos. O vento chicoteava impiedosamente soldados e animais, forçando a chuva gelada a penetrar nas mantas mais
espessas. As carroças afundavam-se na lama até mal se verem as rodas, retardando o avanço da pequena caravana.
Numa dessas paradas, Drue perdeu a paciência e saltou da carroça, dirigindo-se com passos resolutos até Connaught.
- Arrume um cavalo para mim. Se tenho de morrer, não quero estar deitado no fundo de uma carroça, encharcado até os ossos. Não agüento mais essa leseira, demônios.
Ele estendeu-lhe a mão:
- Monte comigo.
- Nada disso! - revidou, embora gostasse da idéia de sentir o corpo de Connaught próximo ao sou. - Não fica bem dois cavaleiros na mesma sela.
- Não acha que já está na hora de acabar com esta farça?
- Não há farsa nenhuma, diabos o levem! Trate de me arrumar um cavalo ou eu pego um desses pangarés que estão puxando minha carroça.
Para alívio de Drue, Connaught não retrucou e obedeceu prontamente. Na verdade, ela sentiu as forças sumindo. Teria sorte se conseguisse montar sem a ajuda de
ninguém! Mas não queria dar o braço a torcer. Ela era um cavaleiro, um verdadeiro cavaleiro do reino inglês, e iria mostrar a esse bando de escoceses o quanto valia
a determinação de um inglês.
Quando o cavalo chegou, Drue sentiu o olhar de Connaught observando-a preocupado. Instigada pela raiva de se ver mimada como uma criança, e determinada a não
se envergonhar diante dos outros, Drue saltou para a sela agilmente.
Imediatamente sentiu o calor do animal entre os joelhos e suspirou, satisfeita. Agora sim, estava no seu meio. Incitando o cavalo com os joelhos, foi juntar-se
a Connaught, na frente dos demais. Lado a lado, ambos seguiram em frente, baixando a cabeça para enfrentar a fúria da tempestade.
- Milorde - o escudeiro puxou as rédeas, detendo-se ao lado de Connaught - , há um mosteiro abandonado a menos de uma légua daqui. Creio que servirá de abrigo
para nós.
Connaught voltou a cabeça. Seus homens estavam ensopados e exaustos. Evitou interrogar Drue, pois já sabia de antemão qual a resposta que receberia - "por mim,
vamos em frente", diria ela. Mas estava ciente de que Drue se mantinha firme na sela devido à inacreditável força de vontade que possuía. O desejo de levá-la ao
castelo de Loch Morrill, onde ela seria tratada e bem cuidada, havia causado apenas cansaço e dor a Drue. Observou as mãos dela, apertando o santo antônio. Drue
guiava o cavalo com as pernas e por puro instinto. Sim, eles precisavam descansar um pouco. Devia isso a Drue.
- Vá na frente, então - ordenou. - Sabe o caminho?
- Sei, milorde.
As torres do mosteiro ofereceram uma visão acolhedora para os exauridos soldados quando sua silhueta emergiu das brumas cinzentas. Embora estivesse em grande
parte arruinado, a construção ainda oferecia algumas salas e quartos em bom estado, incluindo a velha capela e parte da cozinha. Em uma hora, o aroma de carne assada
e pão quente espalhava-se no ambiente.
Drue sentou-se diante da lareira, enrolada em si mesma. E não se moveu quando percebeu que Connaught se aproximava.
- Os homens ficaram com a cozinha. Nós ficaremos aqui, ao lado da capela, por causa da lareira.
Drue permaneceu em silêncio, fitando o fogo. Rolos de vapor elevavam-se, chiando, de sua roupa encharcada.
- Você vai se sentir melhor se livrar dessa manta molhada.
Unindo o gesto à palavra, Connaught desafivelou a pesada peça e tirou-a, jogando-a num carcomido genuflexório de madeira que havia ao lado. Depois fez o mesmo
com a própria capa, estirando os braços preguiçosamente.
- Assim que a comida estiver pronta, trago um pouco para você. Enquanto isso, enrole-se nesta pele. É a peça mais seca que pude encontrar.
Drue obedeceu calada, mas a pele não conseguiu esquentá-la, uma vez que sua roupa estava molhada. Com gestos cansados, Drue despiu-se e enrolou a pele no corpo
nu, sentindo-se um pouco melhor. Poucos minutos depois, adormeceu.
Connaught não quis acordá-la, mas deixou a tigela de sopa de aveia ao lado da lareira, junto com um pedaço de carne. Depois de atiçar o fogo, despiu-se e enrolou-se
num cobertor.
O vento assobiava, forçando passagem pelas frestas e pelas janelas quebradas, fazendo o vidro tilintar. Ecos da tempestade vinham reboar nas altas paredes, mesclando-se
às pedras antigas como velhos fantasmas lamentando a vida passada. Semelhavam-se a lúgubres vozes do além, cujo tom baixo fazia coro com o uivo cortante e agudo
do vento.
Em meio à névoa dos sonhos, Drue ouviu essas vozes. A voz carinhosa da mãe, pedindo-lhe que fosse valente e boa, seguida do grito lacerado do primeiro guerreiro
que Drue matara. Mais uma vez viveu o terror que sentira ao tirar a vida de um ser humano, a agonia de ver o sangue escorrendo, a terra tinta de vermelho vivo. Ouviu
o clangor de espadas enquanto lutava ao lado de Turlock. A vida era boa! Ah, como gostava das batalhas, do relincho dos cavalos, como gostava de se bater ao lado
de Turlock! Ouviu seus passos claudicantes, seu grito de guerra que sacudia as árvores. E ouviu sua voz insegura, quase apagada, perdendo-se na noite fria.
"Estarei sempre a seu lado, Drue! Sempre..."
E de repente a voz dele silenciou. Mas o grito que se formou na garganta de Drue não pôde ser silenciado. Explodiu de seus lábios e rasgou a noite, lancinante.
Connaught precipitou-se para ela.
- Seu ferimento...! Drue! Você está bem?
Drue abriu os olhos, fitando-o em silêncio. Todos os que mais amara na vida haviam se afastado, um a um. A mãe, uma fugaz lembrança de ternura; Garith, que agora
pertencia a outra mulher; Turlock, cuja morte despedaçava ainda seu coração quando dele se lembrava. Perderia também Connaught, o homem que jurara amá-la para sempre?
As chamas da lareira faziam jogo de sombras no rosto dele, transformando-o num sátiro, os olhos brilhando como carvões de flamas azuladas na claridade ambígua.
Drue ergueu a mão e acariciou-lhe os lábios com dedos trêmulos. - Eu estou bem. Acho que tive um pesadelo. Connaught escorregou para dentro da pele que a envolvia.
O corpo de Drue, desprovido da maciez feminina a que estava acostumado, era musculoso, mas quente e sensual. Ele percorreu com a mão as linhas da cintura, a curva
dos quadris nus, o ventre liso.
- Não haverá mais pesadelos para nós.
Nessa noite, Drue pensou muito e chegou a suprema decisão. Desejava Connaught, desejava-o como nunca desejara outro homem em sua vida, Queria unir seu corpo
ao dele para que fundissem em um só, tinha absoluta consciência que nunca conheceria um amor tão completo como o que sentia por ele. Sem Connaught, Drue jamais se
realizaria.
Aninhou-se nos braços fortes de Connaught , encostando-se por inteiro, deliciando-se com o toque áspero e doce de sua pele morena. Mesmo dormindo ele respondeu
instantaneamente apertando-a amorosamente contra si, murmurando palavras doces e desconexas.
Os músculos de Drue se amoldaram-se aos dele como aço se amalgama ao aço quando submetidos ao calor intenso. As mãos de Connaught moveram-se delicadamente,
acariciando-lhe os braços nus enquanto seus lábios provocaram tremores.

Para ela, parecia que sua mente pairava sobre seu corpo, como se este estivesse morto. Seria isso uma forma de morte? Aceitando a condição feminina, rendendo-se
às imperiosas exigências da carne, não estaria morrendo um pouco? Não destruiria o bravo e valente guerreiro que sempre fora?
Connaught acordou e sorriu, apoiando-se num cotovelo. Drue fechou os olhos, temerosa de demonstrar o fogo que a consumia. Mas o calor de Connaught, a pele de
Connaught contra a sua, o peso das pernas sobre suas coxas, obrigaram-na a descerrar as pálpebras devagar.
O vento mudou de direção, lançando rajadas furiosas pelas janelas quebradas, que acabaram se escancarando com estrondo. As lufadas alcançaram as labaredas da
lareira, avivando-as, ao mesmo tempo em que o fogo dos dois corpos crescia e explodia num desejo impossível de deter.
Connaught mergulhou nos olhos dourados de Drue, fitando-a com adoração. Drue não era uma mulher frágil e feminina; tinha corpo forte e esplendidamente bem talhado,
queixo decidido, boca rasgada. Não havia como descrever sua beleza de deusa romana, única no mundo. Para Connaught, ela era mais desejável e sensual que qualquer
mulher que conhecera. Drue era perfeita, feita sob medida para ele. Sim, Drue seria sua mulher e a mãe de seus filhos! Aspirou o perfume de mel silvestre até a embriaguez,
tomado de arrebatamento.
Drue rentiu as vibrações palpitantes do corpo de Connaught. enquanto silenciosamente se arrependia de "Não ter aprendido mais sobre o ato sexual". Quando os
companheiros se sentavam para conversar Sobre o assunto, ela sempre dava um jeito de escapar pela tangente, pois não viu o menor interesse. Agora sentia-se canhestra
e desajeitado: e embora quisesse proporcionar prazer a Connaught, não sabia nem por onde começar.
O dedo de Connaught traçou uma linha sinuosa em seu braço, despertando-a para uma sensação deliciosa. Decidiu então que copiaria os gestos do amado. O que Connaught
fizesse, Drue faria também. E quando as mãos dele tomaram-lhe os seios, ela prontamente retribuiu o gesto. Connaught quase gritou de prazer, o corpo convulso, as
entranhas em fogo.
Ele buscou os mamilos firmes e intumescidos com a boca, sugando-os suavemente, ébrio de mel e paixão. Sem hesitar, Drue fez o mesmo, com a mesma delicadeza e
vagar.
Ao perceber o jogo de Drue, ele sentiu o corpo vibrar de excitação nova, pois havia um mundo de possibilidades para explorar. Continuou brincando docemente com
o corpo dela, para depois experimentar a suave sensação de ser retribuído com o mesmo carinho e ardor. O jogo começou quase como uma brincadeira. Mas, à medida que
o desejo crescia e os arrebatava, as mãos tornaram-se mais exigentes, as bocas mais imperiosas. Os corpos magníficos, estuantes de energia, entrelaçavam-se, mordiam-se,
reconheciam-se, tomados de êxtase e paixão.
Todos os segredos do amor foram sendo revelados um a um, como se Connaught erguesse a ponta de inúmeros véus.
A cada gesto, Drue tinha a impressão de que mergulhava em mundos diferentes, plenos de promessas de realização. A cada gesto, Drue conhecia o desconhecido, deslumbrada.
E Connaught, à medida que dava, também recebia, pois Drue seguia-lhe os passos com a mesma ternura e paixão, dando e recebendo na mesma medida.
Achavam-se agora além da razão, além da consciência terrena, e vagavam entre estrelas incandescentes, numa busca incessante do infinito e do eterno. Todas as
promessas foram postas de lado, pois ambos sabiam que a espera e o desejo haviam sido longos demais, torturantes demais. A vontade tornou-se inebriante, avassaladora
e imediata.
Drue ajeitou-se sob o corpo de Connaught, palpitante de desejo e entrega, e ele se colocou em posição, fitando-a com paixão. Rápida como um raio, a lembrança
de que Drue era virgem alertou-o para que fosse gentil e delicado.
Porém, Drue girou o corpo e o fez deitar-se de costas. E devagar, muito devagar, montou sobre o corpo magnífico de Connaught, envolvendo-o com suas pernas a
um tempo subjugadoras e dóceis. Emudecido, vencido e apaixonado, Connaught perdeu-se nas profundezas douradas dos olhos de Drue, enquanto ela se ajoelhava e encaixava
o corpo de deusa na firme ereção, fazendo-o gemer de gozo.
Sem se importar com a dor pungente que a dilacerou por alguns momentos, Drue sorriu, murmurando baixinho, perdida em doce prazer:
- Connaught!
E, sentindo-o dentro de si, começou a mover-se sensualmente, langorosamente, seguindo os ritmos ditados pelo coração e pelo desejo.
O vento batia em seus cabelos dourados, chicoteando-os, quando ela começou sua cavalgada selvagem através dos vales da paixão. Como valquíria, galopou por entre
nuvens de ouro, os seios altos, a cabeça atirada para trás, o corpo reluzindo em gotas de ouro. Mas foi Connaught quem gritou quando ambos atingiram o auge do prazer.







CAPÍTULO XV

Os dois garotos esperavam no pátio, ao lado da alta escadaria, muito eretos e compenetrados, os olhinhos vivos espelhando curiosidade e espanto pela súbita ordem
paterna para serem levados àquelas paragens estranhas e desconhecidas.
Connaught desmontou e acenou alegremente, mas eles não se moveram. Bem educados e obedientes, aguardaram que o pai fosse ao seu encontro.
O irlandês correu para abraçá-los. Seus rostinhos se iluminaram, e os três logo começaram uma conversa animada.
- Quem é esse cavaleiro, papai? - perguntou o menor, cravando os olhos em Drue, que se preparava para desmontar também.
- Este é... meu amigo, Drue Duxton. Ele ficará conosco por algum tempo.
Os meninos não notaram a breve hesitação do pai e voltaram-se para ela. Drue sorriu, satisfeita. O fato de ter sido apresentada como Drue Duxton constituía uma
vitória, uma vitória suada e difícil. Mas a verdadeira guerra ainda estava por vir, tinha certeza disso.
Uma mulher magra e seca desceu rapidamente os degraus e, sem cerimônia, ordenou aos meninos que subissem e fossem para dentro. Depois, ergueu-se nas pontas dos
pés e segurou o rosto de Connaught entre as mãos ossudas.
- Patrick! - exclamou, afetuosa. - Você está bem mais disposto que da última vez. Mais descansado e bonito, isso é um bom sinal.
Ela já ia se voltando para subir quando Connaught a deteve.
- Mãe Graham, este é nosso hóspede Drue.
A velha cruzou as mãos no regaço, varrendo a recém-chegada de alto a baixo.
- E o mesmo Drue que costumava provocar aqueles medonhos pesadelos em você? Aqueles pesadelos que faziam você acordar berrando no meio da noite e despertavam
toda a Irlanda?
Connaught deu um risinho desconcertado.
- Ele mesmo.
Depois, voltando-se para Drue:
- Mãe Graham foi minha babá na infância, e até hoje acha que tem direitos sobre mim... Agora ela cuida dos garotos.
Drue inclinou-se ligeiramente, sentindo uma leve pontada de ciúme. Então Mãe Graham cuidara de Connaught, dera-lhe banho, ninara-o nos braços. E o chamava de
Patrick. Ah, como gostaria de tê-lo conhecido criança ainda! Entregue as rédeas para um cavalariço, virou-se para ajudar a descarregar as carroças, mas seu pé falseou,
perdeu o equilíbrio e a fez cair. Para seu imenso alívio, Connaught não esboçou nenhum gesto para ajudá-la. Desde que haviam deixado o mosteiro, ambos tinham entremeado
a jornada com caçadas e disputas amigáveis. A força de Drue voltara; somente no fim do dia admitia que estava um pouco cansada. Mas não o bastante para não passar
noites adoráveis nos braços do amado.
As carretas estavam atulhadas de caça fresca e provisões; a carroça de Drue servira para transportar a carcaça de um enorme veado. Rindo e conversando juntos,
Drue e Connaught subiram as escadas, mas quando chegaram em cima foram atropelados no meio do caminho por algo . arredondado que saiu rolando pela porta e chocou-se
nas pernas de Drue.
Ela levou alguns momentos para entender que era uma criança. Um rostinho espantado ergueu os olhos, vivos e castanhos, que a fitaram com inocente curiosidade.
O narizinho..arrebitado se franziu, salpicado de sardas. Ele sacudiu os cabelos crespos, muito vermelhos, e fez uma careta.
Drue devolveu-lhe a careta e abaixando-se, fez o garoto se sentar sobre sua perna. Mas quando ergueu a vista, chocou-se com a expressão de desgosto e reprovação
de Connaught.
- Esse é Kyle, meu caçula - disse, com brusquidão. - Não sei como Mãe Granam deixou-o escapar do berçário. O sorriso que se desenhava no rostinho sardento evaporou-se
imediatamente, dando lugar a uma expressão medrosa e tímida. Os olhinhos vivos foram de Drue para Connaught, desconfiados. Era óbvio que o garoto não reconhecia
nenhum dos dois.
Duas lágrimas se formaram nos olhinhos escuros, mas o garoto lutou bravamente para não deixá-las correr. Nesse instante, Mãe Graham surgiu na porta.
- Ah, meu fujão! - exclamou, o rosto suavizado pela ternura. - Aposto que veio conhecer seu pai, não é assim? Pois aí está ele, do jeito que eu prometi.
Dizendo isso, Mãe Graham ergueu a criança e depositou-a no colo de Connaught. Pai e filho se olharam com mútua desconfiança, desconfortáveis.
- Então - incitou Mãe Graham - , você não diz nada? O menino se mexeu, tentando escapar dos braços enormes e desconhecidos. Quando viu que não conseguiria fugir,
optou por esconder o rosto no pescoço do pai.
Drue examinou o menino com aberta curiosidade. Nunca, em sua turbulenta infância, ela estivera no colo do duque, muito menos de Turlock, a não ser quando adormecia
fora da cama. Imaginou-se escondendo o rosto no pescoço de Turlock e quase riu alto. O que os outros soldados teriam feito então?
Para sua surpresa, Kyle espiou-a por cima do ombro de Connaught. Drue fez-lhe outra careta, esticando a língua, e o menino sorriu. Sentindo-se apoiado,
ele arriscou baixinho:
- Bem-vindo, papai.
Mãe Graham sorriu, satisfeita.
- Esse menino aprende depressa. Logo poderá dormir com os irmãos e deixar o berçário. Tem três anos.
- Eu me lembro - disse Drue num impulso- , quando soubemos que ele tinha nascido.
Connaught ergueu o garoto e o colocou sentado nos ombros, lançando-lhe um olhar significativo.
- Eu também me lembro.
As portas colossais se abriram para acolher os viajantes. Loch Morrill achava-se quase despido de móveis, mas Drue gostou do castelo. Havia alguns quadros velhos
e desbotados nas paredes, representando cenas de cavalaria. Era um castelo pequeno e sem luxo nenhum, coisa que para Drue não fazia a menor diferença. Ao contrário,
ela se sentiu bem no instante em que entrou. A paisagem agreste da região adaptava-se bem ao seu feitio, bem como à excelente caça que existia nos arredores. Mesmo
a comida, frugal e simples, parecia-lhe sempre saborosa e bem-vinda.
As semanas seguintes voaram. Drue caçava e acompanhava Connaught na inspeção das terras, que pareciam não ter fim. O pedaço de terra que Robert Bruce dera a
seu paladino era muito maior do que ela e Connaught imaginavam.
Certa tarde, Drue preparava-se para ir falcoar sozinha quando Connaught, num momento em que não havia mais ninguém por perto, falou:
- Preciso falar com você.
Ela franziu a testa. Os dois estavam sempre juntos; compartilhavam as refeições, as caças e até a cama. Connaught tivera inúmeras oportunidades de conversar
a sós com ela. Um sinal de alerta soou em sua mente, e ela cruzou os braços sem aceitar a cadeira que Connaught lhe ofereceu. Aguardou em silêncio, apreensiva.
- Gostaria que você começasse a usar roupas mais adequadas. Pretendo contar a meus filhos quem você é, e acho que está na hora de experimentar usar um vestido.
Drue encarou-o por uns instantes, incrédula. Depois deu risada.
- Isso é piada, não é? Não pode estar falando sério!
- Não, Drue. Nunca falei tão sério em minha vida. Ela se imaginou cheia de babadinhos e badulaques, os pés enormes metidos dentro de sapatinhos de veludo bordado,
e, mais de nervosismo que de outra coisa, desabou na gargalhada.
- Pelo amor de Deus, Drue, controle-se! Não há motivo nenhum de riso. Nós somos amigos, somos amantes, e meus filhos precisam de uma mãe. Não posso admitir
que minha mulher ande por aí de armadura e aljava nas costas!
- Não estou de armadura agora, e não sou sua mulher! Os garotos vão pensar que você enlouqueceu e jamais acreditarão na sua história. Esqueça essa idéia maluca,
porque não estou com disposição para brincadeiras.
Drue virou-se para sair, mas com um passo ele se plantou diante da porta e segurou-a pelos ombros com firme gentileza.
- Você me ama, Drue, e isso não é uma brincadeira.
Ela mergulhou os olhos dourados nos dele, muito quieta. Sim, amava-o, sem esperança de algum dia poder esquecê-lo. Adorava-o.
Fitou-lhe os olhos azuis, céu e mar. Visão que ele lhe ofertava todos os dias. Como Connaught era bonito, Deus! Tez morena, cheiro agreste. Madeixas negras,
constantemente descompostas pelo vento. Lábios bem delineados, francos e carnudos. E o corpo... o corpo que todas as noites a matava devagar, para logo em seguida
despertá-la para novos arroubos de paixão desvairada.
Connaught completava-a, era uma prolongação de si mesma. Em Drue, sobrava destreza e agilidade; nele, a força de um touro. Connaught era tudo o que ela não era.
Sim, ela o amava, e como! Respeitava-o como o melhor guerreiro vivo, admirava-o como líder inconteste no campo de batalha. Mas nem por isso desistiria de sua identidade,
nem mesmo por ele, nem mesmo em nome do grande amor que os unia. Fizera nome e reputação às custas de muito suor, muito trabalho, muita dedicação. Conseguira algo
precioso demais para ser desprezado. No instante em que o mundo soubesse que Drue era uma mulher, sua credibilidade de cavaleiro estaria destruída.
Connaught puxou-a suavemente, quase encostando a boca na dela. Seus olhos buscaram os dela, em ansiosa expectativa. Esperava que ela cedesse, para depois recompensá-la
com mais um de seus beijos mágicos, que faziam seu sangue correr loucamente pelas veias do corpo inteira.
- Meu amor por você não está em jogo, Connaught - disse ela, muito quieta. - É o seu amor por mim que deve ser questionado.
- Por Deus, Drue! Sabe muito bem que não quero outra coisa no mundo! Só existe você para mim!
- Sim, desde que seja dentro de suas condições. Você quer uma mulher e uma mãe para seus filhos. Quer alguém que cuide da casa e que esteja sempre às suas ordens.
Pois bem, eu não sou esse alguém, e enquanto você não me aceitar como sou, não existirá amor verdadeiro de sua parte. Você ama quem eu posso ser, não quem eu sou!
Connaught soltou-a, e ela se sentiu repentinamente desamparada e sozinha. Por um instante, desejou ser outra pessoa. Mas não havia como mudar sua personalidade,
da qual, no fundo, se orgulhava.
Connaught tomou a ofensiva:
- Se algum de nós dois não sabe amar, esse alguém é você, Drue! Quero que seja minha mulher, céus! Nada mais natural, não acha?
- E que diferença faz para você se eu de repente me transformar numa mulher? O que me oferece em troca?
- Minha vida, ora! Tudo o que é meu passaria a ser seu! Eu lhe daria meu amor e minha proteção!
- Mas eu não preciso de sua proteção, Connaught. Já divido minha vida com você, e tenho terras e propriedades tão grandes quanto as suas! Você não está me oferecendo
nada, se quer saber. Por outro lado, como sua mulher, eu estaria atirando pela janela tudo o que consegui na vida, incluindo minha identidade! Seu pedido é egoísta
e ridículo!
Dor e raiva refletiram-se no semblante de Connaught. Ele era orgulhoso e não estava gostando dessa história de implorar para que alguém concedesse em se casar
com ele. Desde que Enid morrera, inúmeras propostas de casamento haviam sido feitas através de Robert Bruce, cada uma mais atraente que a outra, pelo menos levando-se
em conta fortuna e posição. Agora essa moça pouco feminina, grande e alta, desdenhava seu pedido!
Drue não era nenhum modelo de beleza feminina. Contudo, aquele corpo dourado transformara-se na razão de sua vida. Quando estavam juntos, não havia limites para
o prazer. O apetite sexual de ambos superava as fantasias mais eróticas que Connaught jamais ousara imaginar. Drue não tinha inibição, era livre como um pássaro,
agressiva como um tigre, selvagem como um javali. Dava e retribuía as carícias sem reservas, sempre pronta a deixá-lo enlouquecido de desejo e paixão. Da mesma forma
que ele, era incansável nas batalhas. E da mesma forma que ele, era incansável na cama.
Não, Connaught nunca mais se satisfaria com outra mulher, fosse no amor, fosse na amizade. Contudo, ele acabara de lhe oferecer tudo o que tinha, e recebera
em troca uma negativa seca e ríspida. Francamente, era demais!
- Não adianta, Connaught. Enquanto não me aceitar como sou, não posso acreditar que me ama.
Vermelho de raiva e frustração, ele retrucou:
- Veremos quem aceita quem por aqui! Veremos!
Drue manteve-se afastada de Connaught nos dias que se seguiram. À noite ia ter com ele, pois sentia-se incapaz de resistir aos apelos do intenso desejo que Connaught
lhe despertava. Passavam horas de paixão frenética, mas evitavam cuidadosamente tocar no delicado assunto. Por outro lado, ela sabia que mais cedo ou mais tarde
Connaught seria pressionado para negociar seu resgate, e com isso ambos se separariam para sempre. A idéia de se encontrar com ele numa batalha, lutando em campos
opostos, era algo impensável.

Decidira que jamais o enfrentaria novamente, pois um dos dois morreria. de que valeria o mundo sem Connaught?
Certo dia, Drue estava polindo as armas quando viu pela janela Patrick e Devin treinando no pátio. Seguravam desajeitadamente as espadas e seus movimentos eram
inexperientes, o que a fez se lembrar de quando ela e Garith tinham começado o difícil aprendizado das artes bélicas. O pequeno Kyle apenas observava, e também empunhava
uma espada diminuta. Mesmo de longe, Drue percebeu um brilho de orgulho e determinação nos olhinhos vivos.
Tomando uma decisão súbita, largou o que fazia e desceu para se juntar às crianças.
- Não, não, não! - gritou, interpondo sua imensa espada entre os dois garotos.
Eles ergueram os rostos, entre atônitos e admirados.
- Vocês parecem duas velhas brandindo agulhas de tricô! Seu pai não ensinou como é que se luta? Olhe só seu escudo, Patrick! A única coisa que você está protegendo
é seu pintinho. E eu lhe garanto que ele será de pouca valia se lhe cortarem o pescoço!
Patrick olhou para baixo, vermelho como um tomate maduro. Devin soltou um risinho maroto, mas logo arregalou os olhos quando Drue se voltou para ele:
- E você, meu jovem, de que é que está rindo? Não pense que é muito melhor que Patrick, não senhor! Você usa a espada como se fosse cortar uma fatia de pão
com ela. Pretende matar seus inimigos ou prefere acreditar que sua espada é uma varinha mágica?
Devin deixou cair a cabeça.
- Eu... não quero machucar meu irmão - explicou, tímido.
- E nem precisa. Onde estão as caneleiras e as joelheiras? Vocês devem enrolar as pernas com estamenha e tiras de couro para se proteger dos golpes. Não, assim
não dá, meninos! Desse jeito vocês nunca aprenderão, nem aqui, nem na China. Desistam!
- Mas eu quero ser um grande cavaleiro - protestou Devin. - Como meu pai!
- O que certamente acontecerá, mas não assim. É preciso tomar uns cuidados para treinar, senão vocês se machucam. Olhem, eu tive uma idéia. Vamos para dentro
arranjar material de proteção. Depois eu ensino vocês a treinar como gente grande. Que tal?
Patrick examinou-a com desconfiança.
- Mas você sabe lutar? Tão bem como meu pai? Drue se pôs de cócoras.
- Lembra-se quando seu pai foi capturado pelos ingleses?
- Isso nunca aconteceu! - exclamou Devin.
-- Aconteceu sim - interveio Patrick. -- Já faz muito tempo, acho. Foi quando Kyle nasceu,
- Exatamente - concordou Drue. - Faz tempo. Mas fui eu quem conseguiu pegar seu pai. E agora, acham que eu sirvo de professor ou não?
Os três se entreolharam. Drue devia ser o máximo! Três pares de olhos admirados se voltaram para cima, suplicantes.
- Serve sim - sentenciou Kyle.
- Por favor, sir Drue! - pediu Devin.
- Será uma honra aprender com você - arrematou Patrick, que por ser o mais velho achou-se no dever de falar como um cavaleiro.
Drue sorriu, esquecida do tédio que começava a ameaçar sua estada em Loch Morrill. Ergueu-se e deu a mão para os dois garotos:
- Então não vamos mais perder tempo.
Já estavam começando a andar quando Drue notou algo macio que rolava silenciosamente por trás.
- Epa, quase ia me esquecendo de você, Kyle. Também quer ser cavaleiro?
Ele balançou a cabecinha ruiva, fazendo-a cair na risada.
- Então venha. Você pode se sair melhor que seus irmãos, sabia? Gente que tem sarda é mais briguenta que os outros. Em frente, marche! Um, dois, um, dois!
Drue saiu com os dois maiores na frente, marcando o passo cadenciado. Nos calcanhares dos três, uma bolinha ruiva saltava e rolava na grama.
Em dois dias Drue fabricou armaduras de couro para os meninos e preparou três espadas leves e pequenas, enrolando-as em tiras de feltro e couro, tal como havia
aprendido com Turlock havia anos. Passou a dar lições diariamente, três horas de manhã e duas à tarde. O local preferido era o pátio; em dias de chuva, treinavam
no grande saguão do castelo.
Connaught não fez comentários sobre a novidade, limitando-se a observar de longe a crescente amizade que se desenvolvia entre Drue e os garotos. Embora gostasse
de vê-los juntos e em perfeita camaradagem, perturbava-se com o rumo que essa amizade tomava. Os meninos admiravam Drue e respeitavam-na como professor e cavaleiro.
De qualquer modo, esse relacionamento amistoso era preferível à hostilidade. Talvez as crianças aceitassem de mais boa vontade a futura madrasta, uma vez passado
o choque que certamente teriam quando soubessem a verdade.
Ocupado com as novas terras, Connaught costumava se ausentar do castelo durante o dia, e muitas vezes Drue preferia não acompanhá-lo para treinar as crianças.
O entusiasmo dos quatro crescia dia a dia, e às vezes era difícil convencer as crianças a voltar para casa e estudar.
Certo dia, surgiu uma disputa mais acirrada a respeito de um pedaço de terra nas fronteiras de Connaught, e este se viu obrigado a reunir alguns soldados e partir
para uma pequena batalha. Drue acompanhou-o, presa de excitação e expectativa por ir à batalha ao lado de Connaught, experiência nova para ela.
Alguns dias depois voltaram vitoriosos e cansados, debaixo de uma violenta tempestade. Estavam tirando as mantas encharcadas no saguão do castelo quando os três
garotos irromperam pela porta.
- Papai! - exclamou Patrick, ofegante. - Antes da chuva nós treinamos no pátio. Eu emprestei meu escudo a Kyle, e ele lutou com Devin!
O pequeno irrompeu na sala como catapulta.
- Eu ganhei. Pá, eu ganhei! - gritou ele, excitado.
O sorriso que começara a se formar no rosto de Connaught transformou-se num esgar de reprovação e aborrecimento quando o garoto se abraçou nas pernas de Drue,
repetindo:
- Ganhei de Devin, Pá!
Drue, entre surpresa e feliz, notou que Kyle a chamava de Pá, apelido que as crianças daquela região costumavam dar geralmente ao pai. Sorrindo, entregou a manta
a um criado e pediu:
- Vá buscar sua espada, Kyle, e mostre para mim como fez.
O ruivinho não esperou nova ordem e saiu, feliz como um passarinho. Os mais velhos dançavam de excitação e entusiasmo, descrevendo repetidas vezes a luta.
Quando Kyle voltou, Drue pôs um joelho no chão e puxou o punhal, que era quase do mesmo tamanho da espada do garoto:
- Vamos lá, sir Kyle, mostre como é que foi!
O menino, sem hesitar, ergueu a espada e deu uma estocada que surpreendeu Drue. Ela aparou o golpe e ordenou:
- Mais uma vez, Kyle.
O garoto não repetiu o golpe, mas aplicou outro, tão ágil e rápido quanto o primeiro.
- É o bastante, Kyle. Meus parabéns! Que acha, Connaught? Vamos levar sir Kyle conosco em nossa próxima batalha?
Connaught engrolou uma resposta ininteligível, mas seu rosto traía profundo aborrecimento. Acreditando que isso se devia ao desaponto em ver o menor vencer Devin,
Drue se voltou para este:
- Mostre para mim como é que você se defendeu do ataque de Kyle, Devin.
O segundo se adiantou, hesitante e algo envergonhado. Finalmente, ergueu a espada e entrou em ação. Depois de algumas arremetidas, Drue o interrompeu.
- Aí está seu erro. Levante a espada assim, nesta posição quando o inimigo atacar por aqui. Experimente. Devin precisou repetir os movimentos várias vezes até
Drue se dar por satisfeita. Finalmente, Connaught saiu do mutismo:
- Agradeçam a Drue pela lição extra e vão se deitar. Tivemos um dia cansativo e queremos repousar agora.
Os meninos obedeceram de má vontade. Os dois maiores se inclinaram respeitosamente e saíram, mas Kyle permaneceu ao lado de Drue, os olhinhos vivos brilhando
no rosto sardento. A um olhar mais severo do pai, ele abraçou Drue, que ainda estava ajoelhada.
- Boa noite, Pá - murmurou.
Connaught contraiu os músculos. Então o menino não falara por engano. Ele, de fato, enxergava Drue como um pai! Demônios, isso tinha de ser mudado a qualquer
preço!
Na manhã seguinte, Connaught chamou Mãe Graham.
- Preciso de um vestido. Que não seja muito enfeitado, mas elegante.
Mãe Graham sorriu de satisfação. Connaught precisava mesmo de uma mulher! Ela não desconhecia o fato de que todas as noites o patrão se fechava no quarto com
Drue, e nem ousava pensar no que poderia estar acontecendo por trás da porta. Cuidara de Patrick desde que ele nascera e o idolatrava como se fosse seu filho; amamentara-o
quando bebê e fora uma enfermeira incansável quando ele tivera as doenças próprias da infância. Não queria nem podia acreditar no que seus olhos e ouvidos lhe diziam.
- Há muitos vestidos nos baús do castelo, Patrick. Serve um deles?
- Não. Precisa ser bem grande!
- De que tamanho?
- Mais ou menos assim - mostrou ele. - E comprido o bastante para alguém de minha altura.
Mergulhado nos próprios pensamentos, Connaught nem notou a expressão de puro pasmo de Mãe Graham. Pasmo e decepção. Quem seria essa misteriosa grandalhona?
Contudo, Mãe Graham achou melhor não fazer mais perguntas. Comentou apenas que seria necessário costurar um vestido daquele tamanho, e que demoraria alguns dias.
- Não tem importância, mas procure ser rápida. Contrate uma costureira, se for preciso.
Uma semana depois, Mãe Graham apresentou-lhe um vestido simples, encimado por um corpete de pele. Connaught segurou-o diante do próprio corpo, a fim de avaliar
seu tamanho, e ensaiou alguns passos de dança, fazendo a saia rodopiar.
- E, acho que serve - disse, satisfeito. Horrorizada, a velha ama encarou-o em silêncio e saiu correndo da sala, indo se refugiar entre seus potes e panelas.
Estava bestificada com o que vira. Não, não ele, "seu bebê"!
Agoniada com a perspectiva da desgraça que ameaçava desonrar seu ídolo, Mãe Graham deixou queimar o assado e se esqueceu de tirar o pudim do grande forno de
pedra, além de ter jogado batatas inteiras, sem descascar, no caldo que fervia no tacho de cobre.
- Que aconteceu com você hoje, Mãe Graham? - perguntou Innes, o mordomo, que trabalhava na família havia anos. - Está quieta e distraída como nunca vi. As crianças
estão bem?
- Estão, Innes. O problema é o pai.
- Sir Connaught? Que é que há com e!e? A velha suspirou.
- Sir Drue está tomando o lugar do patrão no coração das crianças.
"Sem falar no coração de sir Connaught", completou em pensamento. "E na alma dele também."
Depois continuou, em voz alta:
- Mas bem posso ver que nosso hóspede anda cansado daqui. Afinal, ele é um prisioneiro, e já devia ter sido resgatado há muito tempo!
Innes mostrou-se espantado.
- O quê, então sir Drue é prisioneiro? Ora essa, e eu que não sabia! Os dois parecem tão... - ia dizer "íntimos", mas preferiu usar outro termo - tão bons amigos!
- Ah, isso lá eles são, sim. O patrão considera sir Drue um irmão mais novo. Mas acho que a estada prolongada desse homem aqui não vai dar bons resultados.
Sir Drue devia voltar para a Inglaterra, isso é o que eu sinto. E não duvido que daqui a pouco ele tente fugir daqui. Talvez seja uma ótima solução, afinal.
Balançou a cabeça com tristeza, observando Innes corri o canto do olho. E arrematou, com ar inocente:
- Aposto todas as minhas economias que haverá uma bela recompensa para quem quiser ajudar sir Drue a fugir para a Inglaterra. Parece que ele é riquíssimo.
O mordomo engoliu isca, anzol e vara de uma vez.
- Será? Mas e se sir Drue não quiser fugir? Aí seria a ruína de quem tentasse ajudá-lo, mulher.
- Oh, não tem perigo. O coitado pensa que não tem chance de escapar, porque é vigiado noite e dia. Claro, a viagem até a fronteira é muito longa e perigosa.
Nenhum de nós teria coragem de acompanhá-lo. Coitado!
Innes ficou um longo tempo ruminando a informação.
- Bem, conheço um homem que poderia ajudar. Ele é novo por estas bandas, mas parece que precisa de dinheiro. Vou conversar com ele um dia destes.
Mãe Graham sorriu e areou o tacho com mais vigor. A idéia fora lançada, e parecia que tinha pegado. Agora era esperar. E rezar para que não fosse tarde demais!





































CAPÍTULO XVI


A tênue luminosidade da madrugada filtrava-se mansamente pelo cortinado do grande dossel quando Connaught deslizou para fora da cama. Sem fazer barulho, apanhou
todas as peças de roupa que foi encontrando no chão, sorrindo da desordem. Todas as noites a cena se repetia; na ânsia de fazerem amor, um despia o outro enquanto
iam para a cama. E no dia seguinte, surpreendiam-se ao encontrar o quarto numa balbúrdia infernal.
Minutos depois, todas as peças haviam sido recolhidas, tanto as dele quanto as de Drue. Sorrindo na penumbra, esticou cuidadosamente o vestido sobre o sofá,
de forma a que ela o visse assim que acordasse.
Depressa, guardou tudo no fundo de um antigo baú. Hesitou um pouco quando chegou a vez da velha vestimenta de couro, a roupa de Drue que tão bem conhecia, sentindo-se
um pouco culpado. Mas enfim, um dia ela iria compreender, pelo menos assim esperava! Um dia... se Drue não o matasse primeiro.
Sem pensar mais, trancou o baú, vestiu-se de qualquer jeito e correu para baixo, um sorriso malicioso brincando em seus lábios. Só quando chegou no saguão deu-se
conta de que, na pressa, calçara sapatos leves de couro. As botas haviam sido esquecidas no quarto! Mas não havia mais tempo; Drue certamente já estava se levantando.
- Não vou usar esse negócio ai nunca! - gritou Drue, tão enfurecida que parecia soltar fumaça pelo nariz.
Mãe Graham depositou a bandeja sobre a mesa, em silêncio, voltando-se depois para encará-la. Drue enrolara o corpo nu num cobertor e dava longas passadas irritadas
no quarto, pés dançando grotescamente dentro das botas que Connaught esquecera.
- Minhas almas, misericórdia! - sussurrou a velha, atônita. - Que foi que Patrick aprontou agora?
Bem, pelo menos o vestido não era para ele, e sim para sir Drue. Mas, pelo visto, Drue parecia não estar gostando nem um pouco da novidade.
- Traga alguma roupa decente para mim, Mãe Graham, por favor! Certamente você está vendo que não posso usar essa coisa indecente e humilhante!
Enquanto falava, Drue cuidava de cobrir o corpo da melhor maneira possível. Se a velha descobrisse seu segredo, sem dúvida não acharia a idéia nada indecente,
e muito menos humilhante.
- Eu... vou ver o que posso fazer - gaguejou Mãe Graham. - Mas acho que suas coisas estão trancadas agora, e só lorde Connaught tem a chave. Ah, esse Patrick!
Desta vez acho que ele passou dos limites! Não compreendo, não consigo compreender que demônio se apossou dele, sir Drue. Patrick é um homem bom e generoso! Como
agora se põe a tratar desse modo um pobre prisioneiro, humilhando-o em frente de todos? Sinceramente, não vejo explicação para semelhante atitude. Que vexame, meu
Deus!
A velha estava realmente preocupada. Patrick estava à beira da danação eterna, sem sombra de dúvida! Perdera a cabeça por causa de sir Drue!
- Pobrezinho! - exclamou, balançando a cabeça, enquanto se dirigia para a porta. - Deve estar louco para voltar para a sua Inglaterra, não é mesmo? Mas não
perca a fé, sir Drue. Prometo que vou fazer o possível para ajudá-lo a fugir daqui!
Pronto, acabara de plantar outra semente! Agora dependia de sir Drue regá-la e fazê-la germinar. Assim pensando, a boa velha deixou o quarto.
Drue declarou-se em estado de sítio e recusou-se a deixar Connaught entrar no quarto. Ao mesmo tempo, naturalmente, recusou-se a pôr o nariz para fora da porta.
Enrolada numa manta macia que Mãe Graham lhe dera, postou-se em frente da lareira, fervendo e espumando de indignação.
Na verdade, Drue não estava "louca para voltar à sua Inglaterra". Se Connaught fosse mais flexível, até que ela gostaria de passar o resto da vida a seu lado,
mas dentro de suas condições. Mais uma vez estudou o odiado vestido e chutou-o com raiva. Por que Connaught fizera essa maldade? Sentia saudades dos treinos com
os garotos! Mãe Graham informara que Connaught avisara os filhos que sir Drue não se sentia muito bem e ficaria no quarto por algum tempo.
Ah, mas isso não podia ficar assim! Connaught dessa vez fora longe demais! O remédio era abandonar Loch Morrill e a idéia de transformar os três pequenos em
jovens escudeiros. No entanto, Drue já começava a sentir saudades deles, especialmente de Kyle, que a chamara de Pá de um modo que a emocionara. Era óbvio que Connaught
mal via o caçula e pouco se importava com ele; Kyle conhecia tão pouco o próprio pai que preferira dar o apelido a Drue. Para ele, Connaught era o pai, algo inacessível
e longínquo. Mas "Pá" ele preferira ligar à figura de Drue, porque fora dela que recebera carinho e atenção.
Brincou com a idéia de levar o pequeno consigo quando fugisse. Já que Connaught não se importava com ele, talvez até estivesse fazendo um favor... Não, a idéia
não era das melhores, reconheceu, com alguma relutância. Kyle seria apenas um paliativo para sua vida solitária. Por outro lado, Mãe Graham prometera ajudá-la, mas
essa promessa com certeza não
incluía o rapto de Kyle.
Tomada de súbita inspiração criativa, Drue rasgou os lençóis em tiras e enrolou-se nelas, fabricando uma roupa estranhíssima e bem distante dos padrões da moda.
Em todo o caso, servia para esconder o corpo dos olhares curiosos dos criados.
Acabava de se "vestir'' quando Mãe Graham bateu à porta.
- Trouxe uma tina de água para seu banho, sir Drue.
A explicação era absolutamente inútil, pois ela entrou arquejando, o corpo pendido ao peso da enorme tina fumegante.
Drue aproximou-se tanto para examinar Mãe Graham, que esta recuou, engasgada de pânico.
- O senhor não atacaria uma velha, não é? - balbuciou, - Acho que isso não ficaria bem para um nobre cavaleiro!
- Não, suponho que não. Mas nobres cavaleiros não fazem o que Connaught me fez! Acha que ele fez bem em me trancar só para satisfazer o capricho pervertido
de me ver usando essa... essa tralha aqui?
Drue deu novo chute no indefeso vestido, que a essa altura já estava quase desmanchado.
- Não, eu já disse que não entendo - apressou-se a dizer a velha. - Não sei o que deu na cabeça de Patrick!
- Parece que você é a única amiga que tenho por aqui - disse Drue, amaciando a voz como podia. - É a única que compreende minha vontade de voltar para meu país,
para minha gente. Sabe que meu pai daria uma recompensa muito generosa a quem me ajudasse?
- De resgate, o senhor quer dizer? - arriscou Mãe Graham, muito aflita por estar traindo o patrão.
Sabia que poderia pagar com a vida pela traição, mas o que sir Connaught estava tentando forçar sir Drue a fazer era bem pior. E o castigo dele seria a danação
eterna! É, não havia outra escolha.
- Chame como quiser, Mãe Graham. Eu gostaria de fugir daqui. Conhece alguém que pode me ajudar?
A velha fechou os olhos, pedindo perdão a Deus.
- Vou pedir ao mordomo, Innes, para vir falar com o senhor. Acho que posso convencê-lo, desde que é por uma boa causa.
- Também acho que pode, Mãe Graham.
Em pouco tempo os planos já estavam traçados. Mãe Graham e Innes estavam ansiosos para que Drue se fosse - cada um por razões diferentes - mas a ansiedade dela
mesma superava muito a dos dois.
Precisava de tão pouco para ficar! Bastava uma palavra de Connaught, uma só, e não haveria força no mundo que a fizesse arredar o pé de Loch Morrill. Mas ele
não parecia disposto a pronunciar essa palavra.
Todas as noites ele batia à porta e implorava para Drue deixá-lo entrar, e todas as noites era obrigado a se recolher sozinho ao outro andar. Mas, para sua surpresa,
nessa noite Drue respondeu do outro lado:
- Muito bem, pode entrar. A porta está destrancada.
Connaught abriu com cautela, certo de que ela lhe preparara alguma armadilha. Mas, entre chocado e feliz, deu com Drue de pé ao lado da lareira, metida no maltratado
vestido.
- Então, Não vai me dizer como estou linda? Diga com honestidade, Connaught, eu não ofereço uma visão que ultrapassa a mais imaginativa idéia de beleza feminina?
Na verdade, Drue parecia mais um saco de batatas que outra coisa. Connaught não queria mentir diretamente, e por isso ficou em silêncio, estudando-a de longe.
Por fim, achou uma boa saída:
- Para mim você é bonita de qualquer jeito, Drue. Essa era a pura verdade, e Drue sabia que ele não mentira.
Um nó formou-se em sua garganta, dando-lhe vontade de se atirar nos braços de Connaught, de implorar-lhe que a deixasse ficar ao seu lado e viver em paz a única
vida que conhecia:
Connaught aproximou-se, tomando-a nos braços.
Drue abandonou o corpo no dele, a mente girando em torvelinhos quando sentiu as mãos fortes acariciando-lhe a nuca, os cabelos, o pescoço. Como a mulher se torna
frágil nos braços de um homem, pensou ela, maravilhada. O vestido tornava os prazeres do amor mais fáceis ainda, dando livre acesso aos segredos mais íntimos do
corpo feminino. Drue resolveu que, sendo aquela a última vez que estaria com Connaught, daria a ele a memória de uma noite especial e inesquecível.
Quando despertara Drue para as alegrias do sexo, Connaught não se dera conta que, enquanto explorava as maravilhas de seu corpo, ela, por sua vez, aprendera
a conhecer todos os pontos de erotismo enlouquecedor do parceiro, deixando-o em embriagador estado de euforia e desejo. Drue agia por puro instinto, sem dar atenção
consciente aos movimentos.
Agia pelo simples prazer de dar prazer ao homem que amava, entregando-se às artes do amor com a mesma dedicação com que aprendera as artes da guerra.
Ele começou a beijá-la com sofreguidão, mas Drue se afastou.
- Hoje temos vinho - anunciou.
- Meu vinho é você - respondeu ele, com voz. rouca, tentando agarrá-la.
Mas Drue se esquivou e atravessou o quarto com largas passadas, as bolas ressoando no chão.
- Acha que essas botas são adequadas para você?
- Claro. Bem mais que esse negócio complicado aqui - revidou ela, já com um brilho belicoso nos olhos dourados.
Mas Drue se lembrou em tempo que não devia provocá-lo. Conseguiu dirigir-lhe um sorriso malicioso, dando a entender que apenas brincara.
- Venha comemorar comigo - disse ela, servindo-lhe uma taça cheia até a borda de rico vinho tinto. - Faz tempo que não conversamos um pouco. Veja, mandei vir
pão e queijo também.
- É, estou vendo. Não sabia que você tinha talento para dona de casa...
Drue fez uma careta desgostosa, mas transformou-a em seguida num simulacro de sorriso.
- Aprendi muita coisa enquanto fui pajem e escudeiro, milorde. Tenho certeza que sei servir e cumprir ordens muito bem, Creio que poderei lhe dar muita satisfação,
meu senhor.
- Não duvido - murmurou Connaught, muito sério. Era um jogo estranho aquele, estranho e perigoso, pois um sairia perdedor, enquanto o outro não sabia quais
as chances de vencer. Drue oferecia vinho, mas Connaught queria beber mel naquela noite, o mel da pele de Drue, dourada e tentadora sob as pregas do vestido.
Fazia quase uma semana que não tocava em Drue, e agora seu corpo doía de desejo.
Ela compreendeu que não conseguiria levar adiante o plano sem antes aplacar a fome e a sede que lia nos olhos azuis.
Seu grande receio era não ter coragem de fugir depois ele ter feito amor com ele. Como continuar a viver sem o calor de seu toque, sem a magia de seus lábios,
sem o milagre daquele amor eterno?
Drue deixou escapar um soluço, estendendo-lhe os braços, as palmas voltadas para cima, como numa súplica silenciosa. Connaught, hipnotizado, tomou-lhe as mãos
e levou-a para o tapete de pele defronte à lareira, onde a deitou.
- Primeiro, isto - disse ela, levantando a longa perna e indicando-lhe a bota.
Connaught sorriu e se ajoelhou, puxando o incomodo calçado. Em seguida, acariciou-lhe a perna, cuja penugem brilhou em reflexos de ouro à luz das chamas. Drue
sentiu um calor gostoso, novo e diferente, quando a mão de Connaught mergulhou por baixo da saia. Era uma sensação que ainda não experimentara, a de ser amada com
roupas de mulher, A mão dele, quente e aveludada, passeava com volúpia por baixo da saia. Dessa vez, Drue não tinha como retribuir o carinho. Simplesmente, deixou-se
embalar pela magia do toque de Connaught, abandonando-se as caricias. Sentiu-se mole e desejosa. E sentiu medo. - Tenho outra perna, Connaught. E outra bota... Prontamente
ele a atendeu. Dessa vez, Drue acariciou-lhe o peito com o pé nu, em movimentos circulares, tentando alcançar a pele de Connaught por baixo do colete de veludo.
Quando a segunda bota foi retirada, ele deu início ao mesmo ritual. E de novo ela se deixou acariciar, quieta e abandonada. Quando Connaught ergueu a saia do vestido,
soltou um gemido rouco diante da visão esplendorosa das pernas nuas, livres e prontas para o assalto que não tardaria.
Ergueu-se para se livrar da própria roupa, sem tirar os olhos do corpo dourado que o esperava, convidativo e tentador, Drue acariciava-o com os pés nus, devagar,
tomada de nova sensualidade. Estonteado, Connaught se desnudou diante dela, deixando-se acariciar de longe. Quando tentava se aproximar, Drue o afastava com as pernas,
e novamente retomava as carícias, percorrendo-lhe o peito com os pés, as pernas firmes, as coxas, a ereção incipiente. Num gesto inconscientemente feminino, ela
baixou a saia novamente, seus movimentos permitindo apenas aqui e ali uma breve visão dourada de pele vibrante.
Assombrado, Connaught viu-se diante de uma nova e tentadora mulher. Aquela não era a Drue que conhecia tão bem! Havia algo de diabólico e angelical nos movimentos
sensuais dela, algo que o deixava ensandecido de vontade. A tênue claridade da lareira o corpo de Drue adquiriu um brilho suave e cremoso que ele ainda não conhecia.
Um brilho convidativo e tentador, insinuando promessas novas e maravilhosas. De novo ele tentou se aproximar, e de novo foi rechaçado. Era um jogo estonteante de
tentações, em que ela o envolvia nas pernas, entrelaçava-se docemente, e logo depois fugia, esquiva.
Finalmente, Drue cedeu e deixou-o penetrá-la com toda a energia de sua virilidade. Ao senti-lo dentro do ventre, gemeu baixinho, também estonteada de prazer
e desejo.
Não havia como negar. O sexo com Connaught era bom de qualquer jeito, mesmo usando aquele vestido horroroso que lhe tolhia os movimentos. Sentia-se como uma
mosca indefesa presa nas teias do tecido, mas ainda assim era bom. Ah, Deus, como era bom...
Quando se sentiu saciado, Connaught despiu-a por completo, livrando-a da incomoda teia. O corpo de Drue brilhou em ouros misteriosos, lambido pelas sombras dançantes
das chamas.
- Drue! - murmurou ele, mergulhando o rosto entre os seios firmes, cobrindo-os de beijos.
Ela fechou os olhos, acariciando-lhe a orelha, a nuca, os cabelos. Procurava memorizar cada cicatriz, cada músculo daquele corpo adorado, pois daquele dia em
diante só teria a lembrança. Seguiria seu caminho solitário, sem amor e sem filhos. Não mais teria o prazer de sentir os bracinhos de Kyle à volta das pernas. Não
mais. Aquela noite não teria mais fim, porque não existiria mais o amanhã para ela.
Quando mais uma vez os dois atingiram o êxtase, Drue teve a nítida sensação de que sua vida se extinguia devagarzinho.

Sentia-se cair num vácuo semelhante ao que caíra quando Connaught lhe devolvera a vida através da respiração boca-a-boca aplicada no campo de batalha. Ai dela!
Melhor fora ter morrido então, porque a dor da separação agora era infinitamente maior e mais agoniante.
Preguiçosamente, ela se soltou do abraço e ficou alguns minutos estirada no fofo tapete, sentindo-se lânguida e perdida ao lado de Connaught, igualmente exausto.
Por fim, soltando um suspiro, pôs-se de pé e foi servir nova dose de vinho. Cuidando para não ser vista, despejou na taça de Connaught o pó que Mãe Graham lhe havia
dado, sentindo-se miserável e infeliz. Mas não havia escolha possível. Connaught assim decretara.
Ele aceitou a taça e bebeu todo o conteúdo, estalando a língua.
- Você bebeu tudo, seu esganado! - riu. - Preciso encher de novo para mim!
- Pois encha bem, que eu quero mais - volveu ele. Drue obedeceu, sentindo a morte na alma. Voltou para o tapete e abraçou-se a Connaught, aspirando pela última
vez o cheiro de seu corpo.
Minutos depois ele adormeceu pesadamente. Drue tentou se desvencilhar, mas Connaught aconchegou-a mais contra si, apertando-a com força, como se adivinhasse
o que estava para acontecer.
- Você está fria - engrolou ele. - Ponha o vestido de novo.
E voltou a ressonar, sem ter percebido que aquela frase assinalara a decisão de Drue.
Ela se afastou com cuidado, prendendo a respiração, enquanto o fitava com quase espanto. Era como se houvesse duas entidades dentro dela, ambas engalfinhadas
numa luta de morte pela sobrevivência. Uma era a Drue que ela conhecia, a Drue guerreira, que aprendera a arte de amar e os segredos do sexo, sem subterfúgios ou
reservas. A outra era a Drue que acabara de ser, a Drue mulher, que quase gostara do papel que desempenhara ao lado de Connaught. Uma Drue diferente, feminina e
frágil, que brincara de esconde-esconde nos prazeres da cama, que se deixara acariciar sem dar nada em troca. E que usara de todas as artimanhas para conseguir seu
intento.
Essa segunda Drue assustou-a, pois lhe pareceu mais tentadora, mais fácil, mais... mais mulher!
Era uma Drue inimiga, que se não fosse contida poderia destruir-lhe a vida. Não, essa Drue não podia viver. Nesse momento, a decisão foi tomada. Era preciso
fugir de Connaught, para o bem de ambos.
A poção surtira efeito, sem sombra de dúvida. Drue banqueteou-se com a visão do corpo esplêndido de Connaught, ao mesmo tempo em que vestia a roupa dele.
Innes prometera arranjar-lhe um cavalo e um guia, que lhe mostraria a estrada mais segura para chegar até a fronteira. Mas isso de nada adiantaria se Connaught
despertasse logo; Drue não tinha muita confiança nos efeitos do pó de Mãe Graham. Não podia se arriscar!
Sorrindo com a idéia que acabara de ter, Drue apanhou o amaldiçoado vestido e se aproximou do vulto imóvel de Connaught.
Innes já a esperava no portão dos fundos, segurando as rédeas de um cavalo altivo e bonito.
- O guia estará à sua espera na praça principal da aldeia. Ele conhece bem toda a região, pode estar descansado.
- Obrigado, Innes. O dinheiro da recompensa será entregue a você por intermédio dele.
- Não, por favor. Se puder, prefiro que mande através de um mensageiro. Se sir Connaught descobrir o que fiz, pode ser que eu tenha de fugir daqui. Nesse caso,
o dinheiro servirá para proteger minha família, que ficará sem mim.
Drue não replicou, mas percebeu que Innes de modo algum confiava no guia. Guardou bem a informação na memória e montou.
- Vá com Deus, milorde.
Drue incitou o cavalo com o joelho e saiu a passo lento, para não fazer nenhum ruído. Mas quando ia deixando para trás o portão, ouviu um som baixo. Rápida como
um raio, desembainhou a espada e girou o corpo na sela, todos os nervos alertas. Uma cabecinha ruiva surgiu, fazendo-a exalar o ar que prendera nos pulmões.
- Kyle! Que está fazenda aqui a essa hora?
O garotinho se aproximou e segurou-a pela perna.
- Eu estou pronto, Pá.
- Pronto para o quê?
- Para caçar. Você me prometeu, não se lembra?
A vozinha aguda quebrou-se em desapontamento e frustração.
- Claro que me lembro. Mas hoje a caçada será diferente, Kyle.
"Muito diferente. Porque eu é que serei a caça desta vez."
- Mas você prometeu, você prometeu! Eu fiquei todos os dias, todas as noites, vigiando seu quarto, esperando você melhorar. Agora eu vi você saindo e quero
ir também.
Talvez ela devesse levar o garotinho consigo, afinal. Mas se Connaught algum dia a perdoasse pela fuga, jamais a perdoaria por levar-lhe o filho.
O tempo voava, e Drue viu-se às voltas com o espectro de um guia não muito confiável e com aquela bolinha vermelha e teimosa. Precisava decidir depressa!
Resoluta, Drue desmontou e agachou-se, encarando Kyle -como encararia um homem feito.
- Eu não vou caçar, Kyle. Vou voltar para meu país, e seu pai ficará zangado e magoado com isso. Acho que você deve ficar com ele.
Duas lágrimas brilharam no lusco-fusco da madrugada alta. O garotinho olhou para as paredes do castelo e depois voltou a encarar Drue, as lágrimas correndo livremente
pelo rostinho vivo e sardento.
- Eu quero ir com você, Pá - disse, com enorme esforço. - Posso ser seu pajem, você mesmo me disse que eu posso! Por favor, Pá, eu quero ficar ao seu lado!
Drue fechou os olhos. Deus do céu, Connaught daria um grito que seria ouvido até na China! Mas ganhasse ou perdesse naquela aposta com o destino, Drue viu-se
tentada a aceitar o desafio. O que aconteceria depois... bem, depois ela veria.
Com um gesto decisivo, colocou Kyle na sela e montou atrás.
- Seja o que Deus quiser! - murmurou para a noite. - A sorte está lançada... .
O homem esperava no local combinado, embuçado numa longa capa escura. Era baixo e feio; seu rosto pareceu vagamente familiar a Drue, mas ela não deu maior atenção
ao caso.
- Fui contratado para levar só uma pessoa - resmungou ele, farejando mais dinheiro.
- Agora somos dois.
- Então vai custar o dobro.
- Feito - concedeu Drue, sem disposição para discutir.
Os primeiros raios de sol começavam a despontar timidamente no horizonte, tingindo-o de rosa. Dali a pouco, Connaught acordaria. E ainda bem que ela não estaria
por perto para enfrentar sua fúria!
Drue sorriu, imaginando a cena. Não só ela fugira, como ainda lhe levara o filho! Se o guia soubesse da história toda, certamente cobraria o triplo - e adiantado.
As árvores desgalhadas avançavam, como querendo pegar os viajantes. Drue sentiu que Kyle se mexia inquieto na sela, e lembrou-se dos pesadelos que costumavam
atormentar as noites de Connaught.
- Tem medo da noite, Kyle?
- Não, porque você está comigo - respondeu prontamente o garoto, voltando para ela os olhinhos plenos de admiração.
Garras de ferro cravaram-se no coração de Drue.
- Isso é bom, garotão - respondeu baixinho.
Céus, o que fizera? Onde estaria Connaught agora? Já teria acordado? Ficaria mais bravo por causa dela ou do menino? Drue sabia que Connaught não apreciava muito
o caçula, mas mesmo assim seu coração se aguilhoava em apreensões. Lembrou-se das últimas horas que passara com ele, cheia de remorso e amargura. Havia usado Connaught
como nunca julgara capaz de fazer. Utilizara-se de seus encantos... femininos para subjugá-lo e dominá-lo. E havia conseguido seu intento. Mas seu coração não cantava
vitória.
- Acorde, Patrick. Por Deus, acorde!
A voz de Mãe Granam chegou de muito longe, sacudindo-o de um torpor difícil de superar. Engrolando palavras ininteligíveis, Connaught virou-se preguiçosamente
para o outro lado.
A velha, aflita e preocupada, não conseguira resistir à tentação de ver como estava o patrão. O sol já ia alto e brincava no teto do quando, iluminando a figura
grotesca de Connaught, metido no vestido que ela mesma costurara.
Mãe Granam sacudiu a cabeça. Sir Drue Não precisava ter-se vingado daquele modo! Contudo, a idéia não fora de todo má, pois sir Connaught levaria algum tempo
para se vestir decentemente.
- Moço esperto! - murmurou ela, sorrindo. Bem, tudo iria voltar ao normal, com a ajuda de Deus. Os três meninos acordariam dali a pouco, e a vida retornaria
ao seu velho curso. Melhor deixar o patrão dormir mais um pouco, antes de saber o que acontecera. Sorrindo ainda, a velha saiu na ponta dos pés.





















CAPÍTULO XVII

Connaught escancarou a porta do quarto com tamanha violência que a camareira soltou um gritinho abafado e recuou ante a imagem viva de furor estampada no semblante
sombrio. No minuto seguinte, porém, a moça arregalou ainda mais os olhos, entre chocada e embasbacada, sem conseguir reprimir um riso nervoso.
Louco da vida, Connaught rasgou o vestido que o cobria de um golpe só, de alto a baixo. A pobre moça soltou outro grito, erguendo o avental para esconder o rosto
afogueado. Sem lhe dar a menor atenção, Connaught atravessou o corredor completamente nu e gritou do alto da escadaria para os criados:
- Onde está Drue? Onde está esse demônio?
Os criados ergueram a cabeça, abobalhados diante da indescritível visão do patrão nu, berrando como um condenado do alto da escada.
Na cozinha, Mãe Graham suspirou. Chegara a tão temida hora! Limpando as mãos no avental, correu para o saguão e enxotou dali a criadagem boquiaberta. Então subiu
a escada depressa. Nem queria imaginar a tempestade que desabaria dali a instantes sobre sua cabeça, quando contasse a Patrick o complô que tramara. Porque já decidira
revelar tudo ao patrão, pois o plano acabara em desastre. Kyle, o caçula, também sumira, e ela não tinha dúvida de que Drue o levara consigo. Nunca ocorrera à velha
ama que a amizade entre Drue e o carente garotinho pudesse crescer a esse ponto. De certo modo, porém, Mãe Granam achava que Connaught tinha alguma culpa, uma vez
que raramente se aproximava de Kyle.
Com o instinto próprio dos que amam lealmente, Mãe Graham logo percebera o desinteresse de Patrick pelo caçula. Kyle nascera num momento difícil, quando o pai
se achava prisioneiro entre os ingleses. Quando voltara para casa, Connaught viera diferente, mal-humorado e taciturno. Nunca se aproximara do berço do garoto, que
àquela altura já sabia rir e brincar.
Da mesma maneira, Mãe Graham intuíra a grande afeição que nascera entre Kyle e Drue, Era apenas natural que o menino se sentisse atraído por alguém que sabia
retribuir suas primeiras manifestações de carinho. Alguém que o tratara como homenzinho e lhe ensinara os rudimentos da espada.
De qualquer modo, sir Drue agira muito mal. Por que fizera isso? Teria intenção de virar a mesa e manter o garoto como refém?
Sim, Patrick precisava conhecer a verdade, e depressa. Antes que sir Drue atravessasse a fronteira!
O frio cortante transformara-se em chuva copiosa e gelada, penetrando fundo nos ossos dos viajantes. Tom MacBurgh agradeceu aos céus a chuva providencial; graças
a ela, poderia manter o capuz enterrado até os olhos, de forma a que Drue não o reconhecesse. De sua parte, Tam logo a identificara, embora ficasse espantado com
a presença do menino, pois nunca soubera que sir Drue tivesse um filho. Mas só podia ser isso, pois o menino vivia dizendo "Pá" e parecia em permanente adoração
filial.
O corcunda conhecia bem o perigo de ser reconhecido, uma vez que fora ele que arruinara o plano de fuga do castelo Stirling. Por isso, não tirava a manta das
costas, a fim de esconder a feia protuberância das costas. E dava graças a Deus por ter deixado crescer a barba, que lhe disfarçava o rosto.
Quando a noite desceu, Drue resolveu fazer uma pausa.
- Acho mais prudente continuarmos - aventurou Tam, afundando dentro da capa.
- Não. O garoto está muito cansado - ela cortou, seca. Desmontou e pegou Kyle no colo. - Ninguém está nos seguindo. Acho que podemos descansar algumas horas.
Drue abriu o farnel que Mãe Graham preparara e serviu carne e queijo ao menino, depois de deixar os cavalos pastarem mais adiante. Tam manteve-se a distância,
tomando todas as precauções para não ser reconhecido. Se isso acontecesse, adeus recompensa!
Kyle estava bem abrigado numa espessa manta de lã que, embora molhada, protegia-o bem da chuva incessante. Mas a noite esfriaria muito, e ela não queria arriscar
a saúde do garoto. Resolveu acender uma fogueira, apesar do perigo de ser vista de longe. De vez em quando, observava o guia, mas este parecia distante e esquivo.
- Está pensando em lorde Connaught, Pá?
- Não, Kyle. Estou pensando em meu pai. Acho que ele vai ficar muito contente quando me encontrar.
- Será que ele vai gostar de mim?
- Claro que sim, garotão - respondeu ela, acariciando a cabecinha ruiva. - Nós dois vamos dar uma volta em minhas terras, e depois vamos ao encontro de meu
pai no campo de batalha. Acho que ele está precisando de mim.
Sim, sem dúvida o duque precisava da ajuda de Drue, ainda mais depois que Turlock se fora.
Os olhos de Kyle brilharam intensamente.
- Seu pai é um grande cavaleiro, aposto!
- É sim. Um dos melhores do reino. E meu amigo Turlock era campeão do rei.
- Eu vou conhecer esse Turlock?
- Não. Turlock morreu.
- No meio de uma batalha?
- Sim. Morreu tentando me salvar.
O menino se aconchegou mais, em busca do calor de Drue.
- Você me conta histórias de Turlock? Por favor?
Ela sorriu, lembrando-se de como gostava de ouvir histórias de cavalaria. Turlock nunca se recusava a contar-lhe a história do rei Artur da Távola Redonda, a
de Orlando, as dele mesmo. E ela nunca se cansava de ouvi-las.
Inquieta, correu os olhos em volta. Era tarde, e eles deviam prosseguir caminho, mas a tentação foi muito forte. A noite estava escura e chuvosa; certamente
ninguém se atreveria a procurá-los com aquele tempo; seria uma busca cega. Encostando-se num tronco de árvore caído, Drue começou a embalar Kyle com histórias sobre
Turlock, o campeão do rei da Inglaterra.
- Juro-vos, meu senhor, não sei de mais nada - repetiu Innes nervoso, escarvando a terra com a ponta gasta da botina. - Sir Drue queria fugir e ofereceu uma
recompensa generosa. Quando o escocês se ofereceu para guia, eu achei que era um presente de Deus.
- Presente de Deus! - repetiu Connaught entre dentes. - Quando eu resolver o que fazer com você, ai sim, terá um bom motivo para pedir um presente a Deus!
Mãe Graham se aproximou, triste e alquebrada. Quando admitira sua culpa a Connaught, este imediatamente a dispensara da guarda dos dois outros garotos, além
de dirigir-lhe palavras duras e ásperas. Por fim, resolvera que baniria a velha de volta para a Irlanda.
Que mais poderia lhe acontecer? Mãe Graham já fora castigada o suficiente. Connaught não poderia fazer mais nada, exceto mandar matá-la - e isso para ela seria
agora uma bênção, não um castigo.
Foi assim que ela se animou a interceder em favor do velho mordomo.
- Milorde, a idéia não foi de Innes, e sim, minha - declarou, pondo-se de joelhos diante do patrão. - Perdoe-me, Patrick, mas não suportei ver o que estava acontecendo
com meu patrãozinho. Você estava forçando aquele pobre rapaz a ser uma coisa que ele não é! Pode me matar, ande! Ainda assim, esta pobre velha tem uma ou duas coisas
para dizer. Foi só depois que você mandou sir Drue usar o vestido... só depois disso ele resolveu falar com Innes e pediu minha ajuda. Mais uma vez peço perdão pela
insolência, mas acho que você tem tanta culpa quanto eu. Ou quanto Innes, ou qualquer outro que tenha se envolvido nessa história.
- Você está metendo o nariz em assuntos que não conhece, velha! Você não sabe de nada!
Connaught ficara surpreendido com as palavras de Mãe Graham, e à medida que ela falava, acabara compreendendo o terrível engano que a boa velha cometera. Contudo,
nem mesmo para acalmar aquele pobre coração poderia revelar o segredo de Drue.
- Não quero ouvir mais desculpas, velha. Só quero saber que rumo eles tomaram, com todos os demônios!
Mãe Graham baixou a cabeça, abatida. Patrick nem mais a chamava de Mãe Graham!
Connaught correu a mão pelos cabelos revoltos, preso de agitação.
- Innes, há mais de uma dúzia de estradas para a fronteira. Não tem nenhuma pista, nada que me indique qual delas sir Drue tomou?
O mordomo se encolheu.
- Tam falou qualquer coisa sobre alguns amigos em Kendal. Talvez ele...
Mas não pôde continuar. Connaught agarrara-o pelo gasganete, sacudindo-o com raiva.
- Tam? Que Tam? Qual é o nome inteiro desse miserável? Diga logo, homem, antes que eu arranque fora seu pescoço!
- Tam MacBurgh, milorde - conseguiu dizer Innes, a voz sufocada. - Pelo menos foi o que ele disse, juro-vos!
O mordomo desabou pesadamente no chão quando Connaught o soltou.
- Deus do céu! Drue sabe com quem foi se meter?
- Isso eu não sei dizer, milorde - gaguejou o pobre homem, erguendo-se penosamente. - Sir Drue foi encontrá-lo na aldeia, mas eu não o acompanhei.
- Então você não tem certeza que Kyle estava junto?
- Não, milorde, eu...
- O garoto adora sir Drue, Patrick - interveio Mãe Graham. - Kyle mal dormia à noite, sempre vigiando o quarto, à espera que sir Drue melhorasse. Esperou a
semana inteira para ir caçar com ele. Kyle deve ter visto sir Drue sair, e foi ter com ele.
- E você, velha? Não tinha obrigação de cuidar de Kyle?
- Nunca imaginei que sir Drue o levaria consigo.
- Isso não é resposta. O que interessa é que Drue levou o menino, e se o que vocês estão me contando é verdade, o guia deles é o responsável direto pela morte
do melhor amigo de Drue.
- Misericórdia! - gemeu Mãe Graham, lívida.
- É, misericórdia, velha! Porque esse Tam MacBurgh é muito capaz de assassinar Drue e Kyle a fim de salvar o pescoço.
Mãe Graham prendeu a respiração ante o impacto daquelas palavras. E depois falou, num fio de voz:
- Talvez não, Patrick. Lembre-se que só se paga recompensa quando a pessoa está viva. Eles viverão, cora a ajuda de Deus.
Apesar de ir contra seus princípios de cavalaria, Drue decidira que seguiriam em passo mais lento por causa de Kyle. O garoto jamais se queixava, mas era óbvio
que ficava exausto no fim do dia. Na verdade, Kyle ansiava pelo momento em que adormeceria nos braços de Drue, embalado pelas histórias que ela lhe contava. Às vezes
ela contava histórias do pai, outras de Turlock, outras dela mesma. Destas últimas o garoto gostava mais, e foi numa delas que ele a interrompeu para perguntar:
- Meu pai é o melhor guerreiro que você já conheceu,não é?
- Sem dúvida que é.
- Quando viu meu pai pela primeira vez? Conte como foi a luta que você venceu! Ela riu.
- É uma história comprida, Kyle. Há séculos que a Escócia briga com os ingleses, e assim será ainda por muitos anos. E foi numa dessas batalhas que eu tive
de enfrentar seu pai.
Imersa nas recordações, Drue começou a relatar o primeiro encontro com Connaught, deliciando-se em pronunciar seu nome repetidas vezes. Nem notou que o guia
se acercava sorrateiramente para ouvir o que conversavam.
Quando ela acabou, Kyle perguntou:
- Você vai lutar com ele de novo um dia?
- Espero que não. Porque se um dia isso acontecer, será para um de nós dois morrer.
- Mas você gosta de meu pai tanto quanto gostava de Turlock, não é mesmo? A gente não mata uma pessoa de quem gosta.
- Isso é verdade. Mas seu pai quer que eu mude, e isso eu não posso fazer. Além do mais, ele nunca vai me perdoar por ter trazido você comigo, Kyle.
- Meu pai não gosta muito de mim.
- Talvez. De qualquer forma, você é filho dele, e eu o roubei para mim.
Kyle ficou pensativo.
- Um dia, quando eu for cavaleiro, vou voltar para fazer as pazes com papai. E ele ficará muito orgulhoso de mim, porque eu serei tão valente quanto você e
Turlock.
- E Connaught, seu pai.
- Sim, e meu pai.
O vulto encapuçado se esgueirou, mergulhando nas sombras. Então o menino não era filho de sir Drue, afinal, mas de Connaught! Não havia dúvida que o irlandês
viria ao encalço deles, se é que já não estava perto. O encontro entre ele e sir Drue ia ser um barulho dos diabos. Se sir Drue fosse morto, não haveria recompensa
nenhuma. Por outro lado, se o garotinho fosse entregue são e salvo, certamente Tam receberia uma bela fortuna em ouro.
- Aí está, Tam MacBurgh - murmurou entre dentes, contendo uma gargalhada. - Há mais de uma maneira de pelar um gato, e você conhece todas!

Depois disso, Tam passou a se ausentar cada vez mais, dizendo que ia caçar.
- Você leva mais tempo para caçar um coelho que eu para pegar um javali - reclamou Drue.
O homem sorriu por trás da barba, que crescera a ponto de torná-lo irreconhecível. Já não tinha medo de ser desmascarado, a não ser pela corcunda; essa ele ainda
mantinha cuidadosamente escondida.
- Não duvido, milorde. Porém o perigo para nós será bem menor se ficarmos com uma lebre, em vez de javali. O pessoal desta região é belicoso e pode se ofender
se tentardes caçar em terras alheias.
Já estavam a apenas um dia da fronteira quando Tam MacBurgh viu seus esforços recompensados. A menos de uma hora de Drue e Kyle, ele viu sinais de um pequeno
exército que se aproximava. Certo de que era Connaught, Tam voltou para Drue e sugeriu que acampassem.
- Se for de vosso agrado, sir, podemos acampar aqui. O menino está cansado, e amanhã teremos tempo firme. Isso nos ajudará a recuperar o tempo que perdermos
hoje. Amanhã à noite estaremos todos dormindo no Castelo Kendal, onde sois aguardado.
-- Eu não estou cansado! - exclamou o garoto, erguendo o queixo.
- Mas eu estou - respondeu Drue.
Assim, acamparam na orla de um pequeno bosque.
Pouco antes de anoitecer, Tam avisou que iria caçar o jantar, e sumiu. Drue e Kyle dedicaram-se ao ritual diário de treino, que agora passara a ser uma obrigação
quase religiosa para ambos. O menino adaptara-se à diminuta espada que Drue lhe arranjara, e progredia com rapidez espantosa, aprendendo em poucos minutos o que
os irmãos levavam horas para entender. Como Drue, ele não se cansava e queria sempre prolongar as horas de treinamento. Nesse fim de tarde não foi diferente; os
dois mergulharam com vontade nos exercícios, e Drue ensinava a Kyle com orgulho, repetindo as mesmas palavras que. ouvira de Turlock havia muito tempo.
Estavam tão compenetrados que nem perceberam a prolongada ausência de Tam. Só quando ouviram o som inconfundível de cavalos galopando puseram-se alertas, farejando
perigo.
Drue ergueu a cabeça, todos os sentidos aguçados. Sabia que o momento do temido confronto chegara, e que Connaught não se prestaria a brincadeiras. Quando o
deixara metido naquele vestido, não pretendera mais que demonstrar-lhe que para ela, tanto quanto para ele, aquele tipo de roupa não era nem um pouco adequado. Mas,
no fundo, reconhecia que insultara a masculinidade de Connaught, sem falar na própria fuga e no rapto de Kyle.
- Vá para trás das árvores - orientou. - E não saia de lá antes que a briga termine, seja de que modo for.
Kyle ficou pálido, o beicinho trêmulo. Era óbvio que estava morto de medo, mas ainda assim ele conseguiu dizer:
- Não, Pá. Eu vou ficar e lutar a seu lado. Lágrimas queimaram as pálpebras de Drue quando ela repetiu o que ouvira de Turlock:
- A primeira lição de um bom pajem é obedecer sem discutir. Mesmo que aprenda a manejar muito bem a espada, você nunca poderá ser cavaleiro se não souber obedecer,
antes de mais nada. Agora vá, depressa!
Kyle enlaçou-a pelo pescoço, sem se importar com a armadura que os separava.
- Eu gosto de você, Pá. Não importa o que aconteça, eu gosto de você!
Antes que ela pudesse responder, o garoto deu-lhe as costas e correu para as árvores.
Drue observou a minúscula silhueta desaparecer entre as árvores, sabendo bem o que Kyle queria dizer. No coraçãozinho dele, Kyle não acreditava que Connaught
pudesse sair vencido - e talvez tivesse razão.
Drue plantou-se de pé diante das labaredas da fogueira, ereta e altiva, pronta a aceitar o desafio. Connaught vinha à frente de quatro cavaleiros e vários soldados.
- Onde está Kyle? - gritou ao desmontar.
Sem se aproximar, Connaught admirou mais uma vez a figura magnífica de Drue, cujo olhar sereno não baixou nem uma vez. Parte dele queria simplesmente pegar o
filho e sumir dali, mas essa parte fora silenciada pelos conselhos dos amigos e pelos risinhos de chacota dos soldados. Drue era, antes de mais nada, sua prisioneira,
e como tal devia voltar a Loch Morrill.
- Eu perguntei onde está Kyle! - bradou.
- Ele está bem e a salvo - replicou ela, com voz cortante.
Bem como Drue imaginara, agora iria travar-se um duelo de morte entre os dois, porque ela jamais se deixaria levar viva. A espada de aço de Connaught lhe daria
uma morte doce, porém. Quantas vezes não morrera em seus braços, trespassada pelo desejo? Sim, porque aquela era uma forma de morrer também, quando o universo parava
para render homenagem ao êxtase daquele amor único. Um amor que enchera o mundo de luz e ofuscara as estrelas - exatamente como a enchia agora de luz, impedindo-a
de desembainhar a espada e atacar o homem que amava. Seus olhares se cruzaram, embeberam-se e fundiram-se em perfeita comunhão, pois os pensamentos de ambos eram
os mesmos.
Como era a mesma a fria determinação de não ceder um milímetro no compromisso que ambos haviam assumido. Drue não desistiria de sua carreira de cavaleiro, assim
como Connaught jamais a aceitaria caso ela não desistisse.
- Como nos encontrou? - perguntou Drue, já sabendo de antemão a resposta; a ausência de Tam MacBurgh dispensava explicações.
- Seu guia achou que minha causa era mais justa que a sua, E mais vantajosa.
A raiva de Connaught aumentou diante do sereno silêncio da antagonista.
- Pensei que fosse mais sensato, sir Drue. Como pôde confiar em alguém como Tam MacBurgh?
O nome atingiu como raio o cérebro de Drue. Na verdade, notara qualquer coisa de familiar no homenzinho, mas não ligara muito para isso. O guia lhe dissera que
seu nome era Thomas qualquer-coisa, e ela, imbecil, acreditara.
- Tam MacBurgh! - repetiu, incrédula. - O homem que me traiu e causou a morte de Turlock?
- O próprio - confirmou Connaught, sabendo qual seria a próxima pergunta.
- Onde está esse verme?
- Morto! Economizei para você esse pequeno trabalho. Agora você só precisa se vingar de mim, de mais ninguém.
Connaught quase estremeceu ao se lembrar de Tam MacBurgh, a quem torcera o pescoço como quem torce uma peça de roupa molhada. Cego de ódio, perdera a cabeça
quando o corcunda viera vender-lhe a alma de Drue por algumas moedas. Não se sentia orgulhoso nem vitorioso pelo que fizera, mas de alguma forma achava que livrara
o mundo de um rato asqueroso.
Agora estava ali, e via-se obrigado a lutar com alguém que só lhe dera prazer e alegria de viver. Quando vira a silhueta esguia de Drue recortada contra as labaredas
da fogueira, quase correra até ela para torná-la nos braços, esquecido de tudo e de todos. Mas a fria realidade estava ali, entre os dois. Céus, como estavam próximos!
E como estavam distantes!
Drue prendeu a respiração quando ele deu um passo para a frente. Quantas vezes vira esse rosto cheio de desejo e paixão? Quantas vezes nadara nas águas cristalinas
daqueles olhos azuis? Por que então continuavam a se agredir daquele modo? Por que persistiam em causar tanta dor um ao outro?
- Leve Kyle e deixe-me atravessar a fronteira - disse Drue, a contragosto. - Dou-lhe minha palavra de cavaleiro que nunca mais me verá.
- Não. Você é meu prisioneiro e vai voltar comigo.
Connaught sabia que não poderia aceitar a proposta de Drue sem se desmoralizar por completo diante dos pares.
- Entregue-se em paz, Drue. É o melhor que posso oferecer.
O coração de Drue gritava e se comprimia em seu peito, ordenando-lhe que aceitasse a oferta. Sim, ela queria voltar para Connaught, só Deus sabia quanto. Mas
tinha de ser sob suas condições, não as dele.
- Você me leva como guerreiro e cavaleiro? Connaught aproximou-se mais, para não ser ouvido pelos companheiros.
- Ofereço-lhe meu nome e meu amor, Drue. Pare com essa loucura e volte para Loch Morrill comigo.
- Seu nome, seu amor, suas condições e seu amaldiçoado vestido! - cuspiu ela, com altivo desdém.
Raiva e humilhação perpassaram os olhos de Connaught, agora frios como aço.
- O vestido está arruinado, mas não se preocupe. Posso arranjar outro.
- Só se for para me servir de mortalha!
Com um gesto rápido e preciso, Drue desembainhou a espada e desferiu o primeiro golpe. Connaught aparou-o com a mesma destreza.
O esperado e temido duelo começara.


























CAPITULO XVIII

Lutaram com suas imensas espadas, tão pesadas que só podiam ser manejadas com as duas mãos. O fragor de metal contra metal ressoava no ar da noite, abafando
com seu estrondo os brados de incentivo dos pares de Connaught de um lado, e os brandos soluços infantis do outro.
Connaught surpreendera-se com o poder de ataque de Drue. Na realidade, havia alimentado a esperança de que ela compreendesse seu erro e voltasse para Loch Morrill
para ser sua mulher, como era a ordem natural das coisas. Em vez disso, ela tomara a ofensiva, deixando bem claro que tencionava matá-lo, caso não fosse desarmada.
E desarmar Drue Duxton era tarefa difícil, se não impossível. Achava-se combatendo um dos melhores cavaleiros da cristandade, e não o ignorava. O fato de ele ser
mulher era uma incongruência, uma verdadeira aberração da natureza.
A certa altura, o pé de Connaught falseou. Foi o bastante para que a espada veloz da adversária passasse raspando pelo seu ombro esquerdo, quase ferindo-o. Os
olhos de Connaught chisparam de indignação. Onde já se ouvira falar de uma mulher que lutasse bem assim? Drue era mulher, maldição! Não tinha o direito de manejar
a espada como homem!
Mas ela parecia não concordar com esse pensamento, pois continuava a atacar impiedosamente, forçando-o a recuar. Que humilhação retroceder diante dos pares!
Trincando os dentes para afastar a vergonha, Connaught ergueu a espada para bloquear os ferozes ataques, que agora desciam em saraivada,
Drue percebeu que Connaught sofria, mas empurrou para o fundo seus pensamentos, pressionando-o. Sabia que não podia se deixar levar pela imaginação nem pelo
amor que tinha por Connaught, pois de outro modo estaria perdida. Mas uma pergunta martelava-lhe a mente com insistência exasperante: se surgisse uma oportunidade
de desferir um golpe mortal em Connaught, teria a coragem necessária para tanto? Seu coração dizia-lhe que não, e isso a deixava desnorteada. Se não conseguisse
matá-lo, seria obrigada a voltar para Loch Morrill e sujeitar-se aos caprichos de Connaught. Seria sua eterna prisioneira, ou sua mulher. Não, mil vezes não! Melhor
seria deixar-se matar ali mesmo, então. Preferia essa morte gloriosa a morrer um pouco cada dia.
Drue não temia a morte do corpo, mas tinha pavor da morte do espírito. E seu espírito era o de um guerreiro. Esse espírito não morreria jamais, porque ela não
o permitiria. Nem o amor nem a lâmina de uma espada seriam capazes de destruí-lo!
A dor do cansaço, sua velha conhecida, começou a se insinuar em suas carnes. Connaught não poupava os golpes, nem ela. Cada um dos combatentes agora sentia o
poder da fadiga, e os primeiros efeitos começavam a aparecer. Os golpes tornaram-se menos rápidos, mas não menos mortais.
- Se eu vencer, Drue, você voltará comigo - gritou ele, ofegante, os olhos azuis quase negros pelo tremendo esforço.
- Só meu cadáver voltará, Connaught!
Mais uma vez ele aparou um golpe de Drue. As espadas permaneceram por alguns instantes no ar, formando uma cruz brilhante de aço.
Ele mergulhou seus olhos nos dela, como fizera tantas vezes:
- Que pretende, Drue? Matar-se?
- Não - respondeu ela, arquejando. - Sua espada é que vai me libertar.
- De quê? De meu amor por você?
- De sua teimosia!
Os dois se afastaram, avaliando-se mutuamente, movendo-se em pequenos círculos. Connaught lembrou-se do medo que sentira quando soubera que Tam MacBurgh era
o guia de Drue e Kyle. Medo, sim. Contudo, agora estava disposto a vê-la matar-se! Drue fizera-o entender a palavra "medo" por um outro prisma, talvez mais assustador.
No entanto, lá estava ela, sem traço de medo nas belas feições, pronta a aceitar os desígnios do destino, quaisquer que fossem. Drue, imbatível e arrojada. O coração
de Connaught encheu-se de admiração. E amor.
Novamente as pesadas espadas se embateram com fragor, despedindo faíscas efêmeras com a violência do choque.
- Por Deus do céu, Drue, desista! Eu te amo!
O grito foi tão pungente que ela vacilou. Sua voz mesclou-se com o tinido sibilante da espada e o crepitar das labaredas que se alteavam na fogueira:
- E Enid, você amava também? Sentia saudades dela? Tinha prazer com o corpo dela? Acaso você respeitava as opiniões de Enid? Gostava de ouvi-la falar?
Drue movera-se para trás da fogueira, interpondo-a entre os dois. As chamas iluminavam-lhe os olhos de ouro, argutos como os de uma pantera. Ela ergueu a espada,
magnífica deusa romana da justiça.
- Responda, Connaught! - bradou ferozmente.
- Não! - respondeu ele, desesperado. - Não, para todas as perguntas!
- Então, em nome de tudo o que é mais sagrado, como ousa me pedir que eu tome o lugar dela?
Desnorteado pela pergunta, Connaught imobilizou-se. Ela tinha razão, com mil demônios! Não havia outra igual a Drue, nunca houve, nunca haveria. Apaixonara-se
loucamente por aquela mulher diferente, única. Não podia compará-la com ninguém, e ela não poderia substituir ninguém no mundo, muito menos Enid. Drue era um enigma,
um mistério insondável. E por isso mesmo a amava tanto.
Dando dois passos para trás, Connaught baixou a espada.
- Diante de Deus, você tem razão. Não posso fazer esse pedido!
O coração de Drue deu um salto violento, incrédula, ouviu-o de muito longe, como se Connaught de repente estivesse a léguas de distância:
- Aceito suas condições, sir Drue,
- Todas?
- As que você considera mais importantes. Reservo-me apenas o direito de exigir uma coisa, mas essa é pequena. Não vou falar nisso por enquanto.
Ela baixou a espada lentamente, enquanto Connaught soltava um suspiro de alívio.
- O vestido? - perguntou Drue.
- Nunca mais, juro! Se quer saber, não gostei nada da experiência de usar um... Prefiro enfrentar meus inimigos nu em pêlo!
A gargalhada de Drue ecoou na arena silenciosa, e Connaught imitou-a. Cavaleiros e soldados escoceses, percebendo que a luta terminara e que uma trégua havia
sido acordada, uniram-se na súbita alegria dos dois contendores. Contentes, ergueram as armas nas mãos, soltando gritos de aprovação. Drue era quase uma lenda, e
nenhum deles queria vê-la morta.
Por causa das condições impostas por Drue, Connaught não pôde tomá-la nos braços e enchê-la de beijos, como lhe ordenava o coração. Contentou-se, pois, em se
aproximar e pousar a mão enluvada nos ombros fortes da querida inimiga. Assim ficaram, adorando-se à distância, um vendo o paraíso nos olhos do outro.
- Eu te amo, Drue.
- Acredito em você, Connaught. Também te amo.
A um sinal de Drue, Kyle saiu do esconderijo e caminhou até onde os dois se achavam. Seus passos curtos já não eram mais trôpegos, mas firmes e altivos. Drue
sorriu, orgulhosa. Suas aulas já começavam a surtir efeito no pequeno aluno!
Como verdadeiro cavaleiro em miniatura, o garoto inclinou-se respeitosamente, primeiro diante do pai, como mandavam as regras da boa educação, e depois diante
de Drue.
- Não se zangue com sir Drue, senhor meu pai - disse ele.
Sua vozinha aguda tremia ligeiramente, mas Kyle manteve-se ereto, enfrentando o pai pela primeira vez. Drue sentia-se explodir de orgulho.
- Sir Drue não queria me trazer, mas eu insisti para vir - arrematou ele.
Connaught fitou o filho com severidade.
- É tarde, Kyle. Temos de voltar para Loch Morrill.
- Nem pense em castigar o menino - interveio Drue, os olhos já começando a brilhar perigosamente. - Se for preciso, eu o defenderei!
- Ele já foi castigado. Dispensei os serviços de Mãe Graham. Os mais velhos não precisam mais de babá, e quanto a Kyle, decidi que ele ficará sob sua responsabilidade,
Drue. Satisfeita?
O sorriso dela iluminou a noite, mas Connaught já estava pensando em recompensas maiores e mais doces. Quando concordara com as condições de Drue, mencionara
uma única exigência, e tencionava apresentá-la logo depois de receber a merecida recompensa. Primeiro, faria amor com Drue. E depois diria que ainda planejava se
casar com ela.
Quando chegaram a Loch Morrill, encontraram o castelo em polvorosa. À luz brilhante do sol a pino, o pátio estava lotado de cavalos e escudeiros, que jogavam
dados e bebiam. Quando viram Connaught e Drue chegar, calaram-se.
Lionel Perth foi encontrá-los no pátio, tomado de agitação.
- Há qualquer coisa no ar, milorde, mas não consegui descobrir o que é. O castelo está fervilhando de emissários ingleses e escoceses. Ninguém quis me dizer
do que se tratava. Insistem que têm de falar pessoalmente com você ou com sir Drue.
Drue manteve-se impassível. Assim que chegara, reconhecera as armas da Inglaterra em vários escudeiros, e logo soubera que havia ingleses no castelo, certamente
para pagar seu resgate. Fosse como fosse, resgate ou não resgate, guerra ou não guerra, ela não arredaria pé de Loch Morrill. Seu lugar era ali, ao lado de Connaught.
Agora e sempre.
O irlandês entregou as rédeas para o cavalariço, respondendo com voz sumida:
- Estarei com eles num instante. Avise-os que sir Drue e eu os receberemos por ordem de chegada.
Depois, voltando-se para um oficial, ordenou:
- Leve Kyle para junto dos irmãos. Providencie comida e banho para ele e faça-o dormir, pois a viagem para cá foi muito puxada para o garoto.
Connaught subiu a escadaria de pedras, lado a lado com Drue. Ambos precisaram de algum tempo para ajustar a vista à fresca penumbra, que contrastava violentamente
com a luz ofuscante do dia. Altos, magníficos e impressionantes, os dois caminharam até o pequeno estrado que havia no canto do saguão, onde alguém colocou imediatamente
duas cadeiras.
- Estupendos! - sussurrou Henry de Romsley para o escocês ao lado. - Com razão dizem que eles são os dois melhores cavaleiros do mundo! Que músculos, céus!
- São nossa única esperança. Se unirmos nossas forças, certamente sairemos vitoriosos!
Os dois não ignoravam a importância daquele momento histórico. Sir Drue possuía vastas propriedades e chefiava um exército respeitável do lado inglês. Sir Connaught
ombreava-se com sir Drue, mas do lado escocês. Henry de Romsley fora instruído a oferecer uma soma mais que generosa pelo resgate de sir Drue, se não houvesse outra
saída; contudo, pelo bem das duas pátrias irmãs, esperava-se que isso não fosse necessário.
Lionel aproximou-se do estrado, apequenando-se diante dos dois famosos cavaleiros:
- Sir Henry chegou primeiro, milorde.
Drue adiantou-se para cumprimentá-lo. Apertou-lhe os braços com afeição, sorrindo:
- Bem-vindo, Henry! Tem notícias de minha família? E de meu irmão Garith?
- Sim, muitas. Mas antes preciso levar a cabo minha missão.
Drue não estava nem um pouco interessada em ouvir a oferta de resgate; fosse ela qual fosse, tinha toda a intenção de recusá-la. E sabia que sua decisão espantaria
a todos os presentes, causando desconforto e mal-estar.
- Pode falar - disse.
- Os espanhóis uniram-se aos franceses e estão para invadir nosso litoral. Acredito que a invasão acontecerá em menos de um mês.
Drue relanceou o olhar para Connaught, em muda interrogação. Mas a surpresa dele era tão grande quanto a sua.
- Continue, Henry.
- O rei pede-lhe que volte para a Inglaterra a fim de preparar seu exército para a guerra.
- Onde está meu pai? - perguntou ela, com secura. - Meus homens estão sob o comando dele agora, como sabe. E meu pai está sempre pronto para a guerra, como
eu também.
- Duxton está à sua espera, sir Drue. Quer que você lute lado a lado com ele. Eu trouxe o pagamento de seu resgate.
Antes que Drue respondesse, a voz de Connaught soou vibrante no saguão apinhado de cavaleiros:
- Obrigado, sir Henry. Agora que já ouvimos sua mensagem, creio que o mais justo será ouvirmos o enviado do rei da Escócia. Sir Graham, por favor, aproxime-se.
Graham MacHugh era um homem bem mais velho que a média, com anos de experiência na difícil arte da diplomacia internacional. Sua intuição avisou-o que Drue e
Connaught desfrutavam de uma amizade incomum, e que nada os faria se separar. Baseado nessa intuição, o velho alterou ligeiramente as ordens de Robert Bruce, amoldando-as
à premente necessidade do momento:
- Meus senhores - começou, inclinando a respeitável juba branca - , minha mensagem é muito similar à de meu prezado colega inglês, exceto pelo fato que meu
rei ficaria muito honrado se sir Drue consentisse em unir suas forças às de sir Connaught. Uma vez que os dois sabem lutar com bravura e coragem um contra o outro,
meu rei acredita que, lutando no mesmo campo, a vitória contra o inimigo será certa.
Os dois cavaleiros se entre fitaram por uma fração de segundo, mas foi o suficiente para MacHugh compreender que acertara no alvo.
- Permitam-me objetar, cavaleiros! - interveio Henry de Romsley. - O exército de sir Drue foi convocado pelo rei da Inglaterra!
- E por que razão julga que enviarei meus homens para morrer e lutar pela causa inglesa? - Connaught levantara-se da cadeira, muito alto e rígido. - Vezes sem
conta a França e a Espanha se uniram para atacar a Inglaterra. Por que devo acreditar que minhas terras estão sendo ameaçadas? Estamos na Escócia, sir Romsley!
- Robert Bruce não teria me enviado aqui se não existisse essa ameaça - interpôs Graham MacHugh. - Meu rei crê que se dermos uma demonstração de força, os invasores
perderão a confiança em si mesmos. Talvez até acabem voltando para seus países, depois de jogar a culpa um no outro!
- A idéia é boa - concedeu Connaught. -- Com um pouco de sorte, talvez a guerra não passe de uma boa e saudável escaramuça. E de fato, nem a França nem a Espanha
sonhariam em nos ver unidos. Seria um golpe de muita força, não nego!
Um murmúrio percorreu a pequena assembléia, que se engrossara com a presença até dos curiosos escudeiros. Houve um começo de balbúrdia, que Drue logo cortou.
- Basta! - gritou, erguendo a mão. - Trarei meus homens para a fronteira. Connaught e eu defenderemos as costas, desde a Umbria do Norte até o Estuário de Forth.
Quando o inimigo desembarcar, os outros exércitos se unirão aos nossos.
- Você deve voltar para a Inglaterra, Drue! - a voz de Henry era cortante como a lâmina de uma espada. - Tenho certeza que Eduardo II concordará com seu plano,
mas ele é seu rei e senhor. Antes de levar seus homens para a fronteira você deve obter a permissão do rei!
Drue virou-se para Connaught:
- Acha que podemos ir para Duxton e voltar em tempo para preparar seu exército?
Connaught calou-se, pensativo. Os presentes supuseram que ele estava calculando o tempo de jornada, mas na realidade seu pensamento estava centrado em coisa
bem diferente. Connaught queria se casar com Drue, e depressa. E o lugar melhor para realizar esse plano seria exatamente o local de nascimento de Drue.

Garith não se achava em Duxton quando Drue e Connaught chegaram, mas veio encontrá-los poucos dias depois.
- Nós nos demoramos por causa da bagagem - explicou ele, ajudando sua jovem mulher a desmontar.
Allyson gastara a manhã toda se enfeitando para Drue. Ela nunca se esquecera do suposto cunhado, e ainda se enervava ao se lembrar da pouca atenção que Drue
lhe dispensara por ocasião de seu casamento.
Depois de trocarem polidos cumprimentos, Drue voltou a atenção para Garith, mas Allyson, tendo decidido que o "cunhado" era o homem mais bonito da terra, assestou
todas as baterias de suas graças femininas em Drue, não lhe dando espaço para falar com mais ninguém. Matraqueava e borboleteava à volta de Drue, flertando-a abertamente
diante de todos.
Drue mal se apercebeu da presença da moça, mas Connaught era mais experiente no assunto e logo reconheceu os sinais de amor não correspondido nos aflitos olhares
da suave mariposa. Entre consternado e divertido, Connaught seguia os inúteis esforços de Allyson, a custo reprimindo a vontade de rir. Mas a vontade de rir sumiu
quando viu a expressão de desgosto e enfado no rosto de lady Duxton na hora em que a ama entrou com um pacotinho azul nos braços. Allyson se lhe afigurou então não
como objeto de riso, mas de repulsa.
- Drue e Connaught - disse Garith, cheio de orgulho- apresento-lhes meu filho, Andrew Duxton!
Os dois passaram a concentrar a atenção no pequenino pacote, em cujo topo surgia uma cabecinha loira como os trigais. Allyson foi deixada de lado, o que a fez
retirar-se despeitada, fumegando de raiva e frustração.
Quando Connaught se viu sozinho com Drue no quarto - o mesmo onde ele a tivera nos braços quase por acaso, depois de um terrível pesadelo - abordou com cuidado
o assunto do casamento.
- Nós podemos nos casar escondidos, Drue. O velho capelão está cego e não perceberá sua roupa masculina. Minha idéia é que você se apresente a ele como Druanna,
filha do duque de Duxton, dizendo-lhe que quer se casar comigo, mas deseja manter o casamento em segredo. Não haverá nenhum problema, garanto-lhe! Assim teríamos
nossa união abençoada por Deus.
- Por que insiste nesse assunto, Connaught?
- Porque nós nos amamos!
Com melancolia, Connaught observou os músculos tensos de Drue, seu corpo elástico pronto a reagir diante de qualquer movimento que a desagradasse. Demônio de
mulher teimosa! Dali a pouco ele a teria nos braços, amorosa e terna. Dali a pouco Drue se transformaria diante de seus olhos naquilo que ninguém nem de leve sonhava...
seria sua mulher, seu amor, sua vida. Mas não era suficiente! Enquanto não se casassem, essa união conservaria um gosto amargo que não cessava de atormentá-lo.
- Isso não vem ao caso. Que diferença fará nosso casamento, se não podemos torná-lo público? Não haverá festejos nem torneios, não haverá sequer
um único cumprimento, nenhum voto de felicidade... Nada! Diante de Deus, juro que não vejo razão para nos casarmos!
Impaciente, Drue postou-se diante da lareira, a magnífica .silhueta recortada por dentro da camisola simples e longa. Connaught cumprira a palavra e nunca mais
insistira que ela assumisse o papel de mulher, mas sua persistência na idéia do casamento deixava-a perturbada. Esposas costumam ter filhos; as que não o conseguissem
eram geralmente consideradas amaldiçoadas por Deus. E Drue sabia que não trazia maldição nenhuma dentro de si, mesmo não podendo ter filhos.
- Diante de Deus estaremos casados, e é tudo o que me interessa. Quero ficar a seu lado nesta e na outra vida.
- Você já foi casado - revidou ela, embora as palavras de Connaught tivessem tocado fundo em seu coração. - Enid está à sua espera, onde quer que seja.
- Justamente, Drue! É com você que eu quero compartilhar a vida eterna, não vê?
- Também quero, Connaught. Mas não como sua mulher.
Connaught se aproximou de braços estendidos.
- Não, não me toque! E não me peça mais isso, porque não posso lhe dar filhos! E, se quer saber, mesmo que eu pudesse ter um filho, jamais lhe daria um!
Connaught não ignorava que o corpo de Drue não funcionava como o de uma mulher comum. Convivera com ela o suficiente para perceber que não existiam os fluxos
mensais. No começo, chegara a acreditar que Drue estava grávida, e alimentara então a esperança de que ela se veria forçada a aceitar a condição de mulher. Mas o
tempo passara, forçando-o a aceitar a realidade. Connaught nunca teria o prazer de receber um filho de Drue. Para sua surpresa, essa revelação não o aborreceu; antes,
pelo contrário, avivou seu amor. Como já se repetira inúmeras vezes, Drue era única no mundo. Queria-a assim, tal como Deus a fizera, seu par perfeito.
- Não faz mal, já tenho filhos em número suficiente para alegrar nossa velhice.
Drue fitou os olhos angustiados de Connaught. Enfim, tudo o que ele dizia era verdade; por que não satisfazer esse capricho do homem que amava?
- Seja - disse, por fim, pondo as mãos na cintura. - Se faz tanta questão, concedo. Em troca, quero um favor de você.
- Qualquer coisa, meu amor.
- Mande chamar Mãe Granam. Se vamos nos casar, precisaremos de testemunhas. A pobre velha sofreu o diabo pensando que você estava apaixonado por outro homem.
Acho que está na hora de revelar-lhe nosso segredo; a coitada merece.
Connaught tomou-a nos braços, arrebatado de felicidade.
- Ah, Drue, Drue, como eu te amo! Sim, claro que sim! Já imaginou o susto de Mãe Graham quando souber a verdade?
Os dois puseram-se a rir.
- Vai ser divertido!
- Ela terá de jurar não revelar nosso segredo a ninguém. Mas confio plenamente em Mãe Graham. Ela não nos trairá, e fará tudo para nos proteger de falatórios.
Só que precisaremos de outra testemunha, Drue, de acordo com as regras da Igreja.
- Pensaremos nisso mais tarde, meu amor. Agora temos assuntos muito mais importantes para tratar...
Os olhos de Connaught brilharam. Dentro de instantes, Drue cavaleiro desapareceria, dando lugar a Drue mulher. Drue, sua mulher, sua fêmea. Era um momento mágico
e maravilhoso, que sempre o deixava assombrado. Como nas histórias de feitiçaria que conhecera na infância, um nobre cavaleiro se transformaria numa mulher selvagem
e apaixonada. Uma mulher capaz de saciar-lhe cada sentido, cada fantasia, cada desejo. Seu coração deu um salto quando a camisola de Drue deslizou para o chão.
Lady Allyson fervia de impaciência. O pai de Garith, seu sogro, Não se casara novamente, e ela não tinha nenhuma companhia feminina a não ser as rudes camponesas
que serviam no castelo. Garith só tinha olhos para Drue e Connaught, ou então gastava horas brincando com o nenê. Os homens não faziam outra coisa senão falar de
guerras e ataques, assunto que a enervava ao extremo. Nunca tinham tempo para cantar, dançar ou simplesmente conversar frivolidades. Passavam o dia dando instruções
aos soldados, e à noite ficavam até altas horas discutindo estratégias infindáveis de ataque.
Raramente via Garith agora, até mesmo à noite. De vez em quando, era presenteada com uma ou duas palavras mais atenciosas do "cunhado", que logo depois voltava
a atenção para Connaught e Garith. Na verdade, Drue tinha pena de Allyson. De todas as mulheres que existiam no castelo, Allyson era a única com quem ela nunca nem
sonharia em trocar de lugar.
Infelizmente, a bondade de Drue foi mal interpretada. Leitora voraz de contos de amor, Allyson acabou metendo na cabeça que as pequenas atenções de Drue eram
um indício de amor secreto. Lady Duxton sentia-se atraída pela beleza e pela força dos músculos de Drue, e costumava pegar no bordado para fingir que trabalhava,
enquanto devorava o belo cunhado com os olhos. Havia qualquer coisa de selvagem e enigmático no olhar dourado de Drue, um mistério que mexia com suas entranhas.
Garith não tinha mistério nenhum; era um livro aberto, enfadonho e sem graça. Seu marido só se interessava em aumentar o rebanho de ovelhas, ou em cruzar uma vaca
com um touro premiado a fim de aumentar a produção de leite do castelo. Quando ia a Londres, jamais levava a mulher, embora Allyson se desfizesse em súplicas e lamúrias.
Garith alegava que ela devia ficar para cuidar do bebe, e acabava partindo sozinho para a corte, deixando-a só e frustrada.
Agora, no momento em que obtinha um sorriso amistoso de Drue, Allyson começou a formar um plano para se vingar da indiferença do marido.
Não era simplesmente o caso de atiçar ciúmes em Garith; se fosse assim, ela se atiraria nos braços de Connaught, que, além de viúvo, tinha fama de mulherengo
e namorador. Drue era querido e admirado por todos, sendo inclusive o cavaleiro favorito de Eduardo II, segundo ouvira. E agora que deixara crescer o cabelo, seguindo
a moda lançada por Piers Gaveston, Drue se fizera mais bonito ainda.
As noites transformaram-se numa fonte de aborrecimento para Drue e de divertida surpresa para Connaught. Os sorrisos langorosos de Allyson, o modo como ela olhava
para Drue batendo os cílios, os risinhos inoportunos que soltava - todo jogo foi ficando cada vez mais aberto e audacioso, a ponto de incomodar terrivelmente Garith.
Todas as noites Allyson se recolhia cada vez mais despeitada. Drue não só a ignorava como ainda dava a entender que considerava as sutis ofertas da cunhada uma
mera brincadeira infantil! E aquele imbecil do Connaught só fazia rir alto de seus esforços!
Certa noite, por fim, Allyson resolveu que se vingaria. Nessa noite Drue se mostrara particularmente distante e indiferente, o que a decepcionara mais que de
hábito. Allyson não saberia dizer quem a enfurecera mais - se Drue, Connaught ou Garith. Este, então, ordenara-lhe que se recolhesse ao quarto, como se ela fosse
uma garotinha de cinco anos! Ah, ela se vingaria, ora se não! Aqueles três insolentes iriam pagar caro!
Ao ouvir o choro solitário do filho no quarto ao lado, Allyson concebeu um plano antes de adormecer. Sim, eles pagariam caro pelo atrevimento de não lhe darem
a devida atenção. E aquele bebezinho esquálido e sem graça, de quem Garith tinha tanto orgulho, seria o principal instrumento de sua vingança.
Connaught brincava com o pequeno Andrew, equilibrando-o sobre os joelhos.
- Veja como ele é gordinho, Drue. Parece-se um pouco com Kyle, não acha?
- Não muito - respondeu ela, desinteressada. - Para mim todos os bebês são iguais. Kyle é muito mais velho, além de ser ruivo.
Nesse momento, Allyson entrou na sala, os olhos vermelhos, as faces pálidas e inchadas. Era óbvio que passara uma noite péssima e mal dormida.
Movida por um sentimento de piedade e remorso, Drue lhe dirigiu um sorriso afetuoso. Foi o bastante para a cunhada ganhar forças para pôr em prática o plano
perverso. Com voz aguda e ferina, falou bem alto:
- Vejo que pouco se interessa por crianças, meu caro cunhado.
- Tem razão, milady - concordou Drue. - Entendo pouco de bebês. Para mim eles só demonstram interesse quando começam a treinar para pajens.
- Ah, mas você devia se interessar mais por esse dai - persistiu Allyson, apontando o garotinho que sorria para Connaught, alheio e inocente.
Ela se curvou para apanhar o filho no colo, virando-o para Drue. Era uma criança gorducha, de cabelos loiros e olhos castanhos, tão claros quanto os de Drue.
- Não acham os senhores que meu filho se parece com alguém que vocês conhecem bem?
- Claro, milady - respondeu Connaught, algo inquieto, com um pressentimento ruim no coração. - Ele se parece com Garith, é claro. Muito mais que com a linda
mamãe, sinto dizê-lo. Mas esse é um bom sinal, porque o menino é um macho. Geralmente as mulheres consideram a semelhança dos filhos com o pai um presente de Deus.
Drue e Garith riram, mas Allyson permaneceu séria, os olhos tomados de um brilho estranho, vizinho à loucura.
- Sim, ele é parecido com Garith. Mas nem por isso precisa ser filho dele!
A voz da jovem castelã parecia descer como agulhas de gelo na sala subitamente silenciosa.
- Olhem bem, senhores. Andrew lembra sir Drue tanto quanto Garith, não é verdade?
- Lógico - acudiu Garith - , uma vez que Drue é meu irmão, e tio do garoto.
Connaught sorriu. Drue tinha razão quando afirmara que mesmo Garith havia se esquecido que ela nascera mulher.
- Drue é mais que tio de meu filho - desferiu Allyson, o rosto se transfigurando pelo esgar de triunfo. - Ele é o verdadeiro pai de Andrew!
Garith pulou da cadeira como que picado por uma lança pontiaguda. Drue ficou paralisada, incapaz de proferir sequer uma exclamação de protesto. Mas Connaught,
dessa vez, não agüentou. Durante dias observara as manobras ridículas de Allyson e sempre contivera o riso, mas agora a situação assumira proporções grotescas e
inacreditáveis.
Atirando a cabeça para trás, ele começou a rir incontrolavelmente. O riso foi crescendo até se transformar numa gargalhada tonitruante. O corpo de Connaught
tremia convulsivamente, tomado pelo acesso de riso, lágrimas escorrendo de seus olhos.
- Quando foi isso? Como? - indagou Garith, lívido.
- Depois do casamento, pouco antes de Drue partir com Turlock. Fizemos amor, e agora posso afirmar sem medo que Andrew é filho de Drue, não seu!
Dizendo isso, Allyson lançou um olhar fulminante de indignação a Connaught, que agora despencava devagarzinho da cadeira, perdido de riso. Como podia esse imbecil
rir diante de uma revelação tão dramática?
Mas ele não conseguia se conter, por mais que quisesse. Cada palavra aumentava o ridículo da situação, a ponto de torná-la hilariante. Não pôde parar de rir
quando Drue sacudiu-o pelo ombro, pedindo-lhe socorro com os olhos dourados. E não pôde parar nem mesmo quando viu Garith desembainhar a espada e desafiar Drue para
um duelo mortal.





















CAPITULO XIX

A espada tremia na mão de Garith. Bem que ele se lembrava agora de como Drue acompanhara Allyson pelo castelo todo! Lembrava-se de como Drue parecia estudar
a cunhada, de como Drue a observava da janela, vendo-a colher flores... Uma pouca-vergonha, uma desgraça, uma desonra para sua família! Em sua fúria cega, Garith
nem pensou no fato de que Drue o esmagaria com a mesma facilidade com que esmagava nozes entre os dedos possantes. Nem pensou na possibilidade de Allyson estar mentindo.
Nada via pela frente, apenas a desgraça que se abatera sobre ele.
- Pegue sua espada agora! Ou eu o mato aí mesmo onde você está, maldito!
As palavras do irmão fizeram-na despregar os olhos de Allyson, que a encarava com expressão triunfante. Percebendo que Garith falava sério, Drue desembainhou
a espada, disposta a apenas aparar os golpes, mas nunca a atacar.
- Allyson está mentindo, mano. Pelo amor de Deus, você não pode acreditar que eu pudesse traí-lo, nem em pensamento!
- Allyson não mente! Em guarda, sir Drue!
As espadas tiniram, reboando pelas altas torres do castelo senhorial. Allyson soltou um guincho estridente e fugiu correndo, cornada de súbito remorso.
Garith lutava com desespero, empenhando-se em matar quem ousara manchar sua honra. Seus golpes eram ditados pela amargura, pela decepção de se ver traído pelo
próprio sangue. Drue percebeu que ele conseguiria feri-la, caso não pusesse um fim naquela loucura toda.
- Estou lhe dizendo que Allyson mentiu, Garith! - bradou ela, sem se importar mais com o segredo de sua vida, pois a dor que lia nos olhos do irmão trespassava-a
dolorosamente. - Pergunte a Connaught! Ele confirmará o que digo!
Atraídos pelos ruídos, os criados foram se aproximando, curiosos. Ao verem a luta, julgaram que se tratava de uma inocente brincadeira entre irmãos, e começaram
a gritar e a incentivar de um lado e de outro. As gargalhadas de Connaught confirmavam a impressão de que a luta não era séria.
- Connaught! Connaught! Diabos, homem, pare de rir e diga a este imbecil que a mulher dele mentiu! Connaught, onde está você? - berrava ela, recuando e aparando
como podia os golpes ferozes de Garith.
- Eu juro... eu juro... - Connaught conseguiu gritar, entre soluços de riso - pela minha honra de cavaleiro... que Drue não pode ser o pai de Andrew!
De novo Connaught deixou-se vencer pelo riso convulso, golpeando a mesa com os punhos, o corpanzil sacudido de alto a baixo pelas gargalhadas incontroláveis.
Mas Garith não achava graça nenhuma na situação.
- Que sabe você disso? - gritou ele, arremetendo com ódio redobrado contra Drue. - Você não estava lá!
Connaught enxugou as lágrimas, tentando recuperar o fôlego.
- Eu sei, Garith. Dou-lhe minha palavra! Sua mulher está mentindo!
Garith prosseguiu atacando, enquanto sua mente girava num turbilhão de pensamentos desconexos. Teria Drue feito voto de castidade? Mas por quê? Como cavaleiro,
ele tinha direito de provar sua masculinidade como bem lhe aprouvesse. Não, Connaught deixara-se enganar pela aparente honestidade de Drue, tanto quanto ele próprio!
Novamente sua espada sibilou no ar.
Confusamente, fragmentos de uma memória esquecida formaram-se em sua cabeça, pedaços partidos de um caleidoscópio antigo. Ele deitado num cubículo estreito.
A febre. A sede. Drue espiando pela fresta da seteira. A mãe.
A dor. Drue espiando pela seteira...
As espadas se encontraram de novo no ar, cuspindo fogo.
A voz de Drue.
"Eu vou ser um cavaleiro, como Turlock!"
A febre. O sol batendo nos cabelos dourados de Drue. No vestido de Druanna. Druanna! Sua irmã Druanna!
A espada caiu da mão de Garith, tilintando. Aturdido demais para falar, ele só pôde abrir e fechar a boca, encarando o estranho cavaleiro que lhe devolvia um
olhar sereno.
Connaught pôs-se sério de repente e correu para Garith, amparando-o.
- Depressa, Drue! Ajude-me a levar seu irmão para nosso quarto. Temos um bocado para conversar!
Antes que Garith pudesse falar qualquer coisa, Drue e Connaught carregaram-no da sala.
- Nunca mais me lembrei dessa história! - Garith percorria o quarto de cá para lá, quase histérico. - Que inferno, Drue sempre foi o exemplo máximo de cavaleiro
para mim! Ele... ela... você podia ter me matado lá em baixo!
- Exatamente - disse Connaught. - Por isso mesmo, pedimos em troca que você guarde segredo. Drue quer continuar como é.
Garith sacudiu a cabeça, ainda não compreendendo a súbita reviravolta do destino.
- Mas por que Allyson teria inventado essa história?
- Na verdade, meu velho, acho que você anda meio esquecido de sua bela mulher desde que a trouxe para Duxton. Ela deve ter ciúme do tempo que você gasta comigo
e com sua irmã. Se vocês tivessem um bom par de olhos nessas cabecinhas, teriam notado as desesperadas tentativas de Allyson no sentido de flertar com Drue. Mas
qual! Os dois pareciam mais cegos que um par de morcegos velhos! Como ela não conseguiu chamar sua atenção, acabou arranjando essa mentira para ser notada.
- Não seja muito duro com ela, Garith - pediu Drue, esticando as longas pernas num tamborete. - Na verdade, sem querer, Allyson acabou resolvendo um problema
e tanto para mim. Garith acabou se sentando, cansado de tanto andar.
- Que problema?
- Connaught e eu queremos nos casar, e precisamos de mais uma testemunha. Uma que seja discreta e jure não contar a ninguém que sir Drue se casou com o conde
de Connaught.
Garith ergueu os olhos para o céu.
- Deus, chega de tanta novidade! Eu acabo ficando maluco!
Os olhos de Connaught pousaram em Drue. "Connaught e eu queremos nos casar", dissera ela. Extasiado, ele sorriu para Garith.
- É verdade, velho. Será um casamento secreto, é claro, apenas para formalizar nossa união diante de Deus. Drue continuará cavaleiro, porque esse é o desejo
dela. Só você, Drue, minha babá Mãe Graham e eu sabemos a verdade, e assim deverá ser até nossa morte.
- E papai?
- Já conversei com ele. Foi fácil fazê-lo concordar em nos ajudar, pois ele está preocupado com o rei. Se Eduardo II descobrir que me sagrou em campo, a mim,
uma mulher, é capaz de destruir a casa de Duxton num acesso de raiva.
Garith aquiesceu em silêncio, mergulhado em lembranças. Quantas vezes Drue o vencera nos treinos! Sim, Drue não poderia jamais ser outra coisa que não cavaleiro
do reino.
Suspirando, apanhou uma faca de cima da mesa e cortou um naco de carne fria, espetando-o no ar.
- Vocês têm certeza do que vão fazer?
O olhar de Drue buscou o de Connaught.
- Temos - respondeu o irlandês, com simplicidade.
- E você já percebeu que Drue jamais seria uma simples dona de casa.
- É um homem sagaz, Garith. Claro que percebi! Amo sua irmã como ela é, e nem sonho com outra coisa. Não pretendo vê-la mudada, porque Drue é única, mas quero
que ela seja minha mulher diante de Deus. Ainda que diante do mundo ela continue sendo meu melhor companheiro de batalha.
- E amiga - juntou Drue.
- E amiga - repetiu Connaught, fitando-a amorosamente.
Garith enxergou um amor profundo que ele ainda não conseguira absorver de todo.
- Bem que eu gostaria de ter me casado com uma companheira e amiga. Em vez disso, achei alguém ciumenta, mimada e cheia de caprichos...
- Andei observando Allyson mais do que imagina, mano - falou Drue, com gentileza. - Acho que a ela só falta um pouco de atenção. Por que não experimenta? Talvez
ela venha a ser uma ótima amiga e companheira.
- Qual! - fez Garith, mastigando furiosamente o naco de carne. - Allyson só entende de bordados e intrigas. Não posso imaginá-la discutindo estratégias guerreiras
comigo.
- Poucos homens têm a felicidade de encontrar seu par - admitiu Connaught, sonhador. - Eu senti a mesma coisa quando me casei com Enid. Ela me deu terras, riqueza
e filhos. Mesmo assim, não havia diálogo entre nós.
Ele sorriu e bateu nas costas de Garith.
- Pelo menos, meu velho, Allyson nunca o desafiará para uma luta, como vive acontecendo comigo... Drue é fogo!
- E não há perigo de Allyson vencer o marido - provocou Drue, soltando uma gargalhada.
- Verdade - aquiesceu Garith, cortando outra fatia de carne. - Já chega o que apanhei de meu irmão... não, de minha irmã... diabos, já não sei como dizer!
Os três riram e Connaught levantou-se para abrir uma garrafa de vinho.
- Estou tentando dizer que apanhei a vida toda de Drue, e para mim isso já é o bastante. Imaginaram se Allyson começasse a treinar e acabasse melhor que eu
na espada? Deus, não quero nem pensar!
Connaught encheu três taças de estanho, servindo-as.
- A nossa!
- À nossa! - repetiu Garith. - Que nossa amizade seja selada neste dia glorioso, em que quase fiz papel de palhaço...
A risada dos três ecoou, cheia de cumplicidade e compreensão.
- Quando pretendem se casar, afinal?
- Mãe Graham chegou hoje de manhã - informou Connaught.
- Bem - disse Garith, pondo-se de pé - , então vou falar com nosso velho capelão. Pretendo convencê-lo a celebrar o casamento de minha irmã sem necessidade
de correr os proclamas, mas acho que isso não será difícil. Tenho dois ótimos argumentos: um, o pequeno tempo que nos resta antes da guerra, e dois, uma larga e
generosa contribuição em ouro para a Igreja.
- O segundo é bem mais convincente que o primeiro - riu Drue, erguendo-se também.
Garith contemplou-a longamente. Nada havia de frágil e feminino em sua irmã, mas sua beleza era impressionante e desafiava os limites do sexo. Parecia-lhe que
Deus havia se enganado quando os fizera. Sim, porque não podia negar que ele era menor, mais franzino e menos afeito à guerra. A idéia deixou-o desconcertado.
- Para mim, você ainda é o exemplo mais perfeito de cavaleiro que conheço, Drue - disse, com a voz embargada. _ Estou contente porque Connaught teve o bom senso
de não tentar mudá-la.
Ela dirigiu um sorriso cúmplice ao irlandês, um sorriso que encerrava um pequeno segredo entre ambos. Não fora bem assim como Garith pensava, mas não havia necessidade
de revelar as dificuldades que Drue enfrentara para conseguir convencer Connaught.
O crepúsculo descia mansamente quando as pesadas portas da capela se abriram. O capelão aguardava em frente ao altar trajando seus melhores paramentos. Ao ver
o que lhe pareceu ser três enormes cavaleiros, ficou desnorteado. Seus olhos cobertos por um véu de catarata distinguiam apenas uma cabeça morena e duas loiras,
mas qual seria Druanna, a linda menina que vira partir de Duxton?
Esfregou as pálpebras enrugadas e firmou a vista, mas de nada adiantou. Poderia jurar que tinha diante de si dois homens, um moreno e um loiro! Aflito, tentou
se guiar pela tiara engalanada que as noivas costumavam colocar nos cabelos, mas nada encontrou. Ao contrário, pareceu-lhe que tanto o noivo quanto a noiva usavam
túnicas masculinas, orladas de enfeites brilhantes. Sem saber o que fazer, o pobre velho tentou ganhar tempo, pigarreando longamente.
- Como eu já expliquei, meu bom padre - a voz de Garith foi fácil de reconhecer - minha irmã Druanna quer se casar com o conde de Connaught. Por causa da guerra
iminente, a cerimônia precisa se realizar imediatamente, e em segredo. Pode começar?
O pobre velho deu início às orações, gaguejando e tropeçando nas palavras. Pouco a pouco, porém, sua confiança foi aumentando. Fosse como fosse, era-lhe grato
celebrar o casamento da pequenina Druanna.
De repente ele notou uma figura que lhe pareceu ser feminina. Aliviado, pensou que fosse a noiva e esperou que ela tomasse o lugar ao lado do noivo. Contudo,
não foi isso o que aconteceu. Garith murmurou:
- Continue, padre. Os noivos estão impacientes!
O velho seguiu até o fim, sem mais tropeçar. Lembrando-se que Druanna era loira, optou por fazer de conta que o "cavaleiro loiro" era ela. E acertou, como era
óbvio.
- Druanna Duxton e Patrick Connaught - anunciou, lendo os nomes que Garith havia escrito em letras garrafais num pedaço de papel -, eu os declaro marido e mulher.
Que Deus proteja os dois e os faça muito felizes!
Para sua surpresa, não houve troca de beijos, e sim tapinhas nas costas. Bem, talvez fosse costume irlandês.
Garith ajudou-o a registrar no grande volume da capela que naquele dia lady Druanna Duxton havia contraído matrimônio com Patrick, conde de Connaught. Testemunhas:
Garith Duxton e uma tal de Bridget Graham.
- Obrigado, padre - falou Garith, soltando um suspiro de alívio e passando-lhe um saquinho pesado de moedas de ouro.
- Eu que agradeço, meu filho - murmurou o padre.
Ardendo de curiosidade, mas sem coragem de ser indiscreto, o padre observou os três "cavaleiros" atravessarem a nave e sair pela porta. Por mais que tentasse,
não foi capaz de dizer qual era Druanna. Mesmo assim, gritou do altar:
- Felicidades, Druanna, minha pequena!
Mas, frustrado e consternado, obteve como resposta um alegre aceno... dos três. Seu pequeno truque para descobrir quem era a noiva falhara!
O jantar daquela noite foi servido na sala principal do castelo. As cozinheiras haviam recebido ordens de caprichar especialmente, e a desculpa dada fora a iminência
da partida dos dois ilustres hóspedes.
- Ainda não entendo -- protestou Allyson, intrigada. - Drue e Connaught deixarão Duxton amanhã cedo diretamente para o campo de batalha. O costume é celebrar
depois da vitória, não antes!
Garith dirigiu-lhe um sorriso. Graças a Deus Allyson não desconfiara de nada! Logo que deixara Drue e Connaught, Garith se trancara com Allyson no quarto e conseguira
extrair dela a informação que já conhecia. Com tato e delicadeza, sem brigar nem se alterar, a fez confessar a mentira em prantos. Depois das desculpas de praxe,
Allyson se fizera terna e amorosa, e naquela tarde Garith conhecera as doçuras de um amor que supunha perdido. Sim, talvez Allyson viesse a ser uma amiga e companheira,
como Drue sugerira.
Já se preparava para dar uma explicação qualquer, quando Drue entrou na conversa.
- Connaught e eu lutaremos pela primeira vez como aliados. Que razão melhor para celebrarmos?
Garith mandou abrir um tonel do seu melhor vinho, e numerosos brindes foram erguidos pelos convidados, em homenagem à aliança Drue-Connaught. Ninguém suspeitou
que bebia em honra a um casal de noivos. Garith, feliz como nunca de compartilhar o grande segredo, e de se ver amado por Allyson, foi um anfitrião perfeito e incansável.
Quando os criados recolheram os últimos pratos, as grandes mesas de carvalho foram afastadas para dar lugar às danças e aos malabaristas contratados por Garith.
Aproveitando-se da confusão, Drue anunciou baixinho ao marido:
- Assinei alguns documentos que deixei com Garith. Se alguma coisa me acontecer, minhas propriedades serão herdadas por Kyle.
Connaught não a tocou, mas acariciou-a com um olhar mais eloqüente que mil gestos.
- Acha que eu seria capaz de viver se alguma coisa lhe acontecesse?
- Não temos escolha entre a vida e a morte, Connaught. Somos cavaleiros! De qualquer modo, enquanto vivermos, estaremos sempre juntos.

Drue e Connaught aguardavam em silêncio sob o céu sem estrelas. As silhuetas negras de inúmeros navios pontilhavam o horizonte da costa da Umbria do Norte. A
um sinal de Connaught, os soldados avançaram devagar sob a proteção da noite escura, rumo à praia.
Novo sinal, desta vez de Drue. Imediatamente toda a costa, de ponta a ponta, foi iluminada por milhares de fogueiras, como um colar vivo enfeitando a gola das
praias.
Centenas de arqueiros se ajoelharam e enviaram suas flechas para as águas, soltando brados de vitória que riscavam a noite junto com as setas sibilantes. Dentro
de poucos minutos, a frota inimiga recuava desordenadamente. Não haveria desembarque naquela noite, o que os ajudaria a ganhar tempo. Mas Drue e Connaught não se
deixaram enganar. Sabiam que os navios haviam partido em busca de reforços, e que dali a poucos dias voltariam, muito mais numerosos. E Não haveria então força capaz
de deter a invasão inimiga.
- Parece que marcamos um ponto hoje - murmurou Connaught, contente. - Precisamos avisar nossos reis.
- Vou ter com Eduardo II - replicou Drue - e voçe vai falar com seu tio, Robert Bruce. Se Deus quiser, estaremos juntos novamente quando a batalha terrestre
começar.
- Vá com Deus, minha Drue - sussurrou Connaught, beijando-a com os olhos.
Mesmo sob o comando de dois respeitáveis cavaleiros - Duxton e Bruce - os grandes exércitos não conseguiam se mover com a rapidez suficiente para interceptar
o inimigo. Quando Drue voltou, os homens de Connaught já se preparavam para o ataque.
- Bruce? - perguntou ela, correndo os olhos em volta.
Seu exército, somado ao de Connaught, parecia-lhe pequeno e indefeso diante das imensas legiões que eram despejadas continuamente do mar.
- Iniciou a marcha assim que o deixei, mas está uns dois dias atrasado, por causa da artilharia pesada e dos soldados da infantaria.
- A mesma coisa aconteceu comigo. Papai também se move devagar, e pelas mesmas razões. Meus homens estão exaustos, porque só conseguimos chegar às custas de
marcha acelerada. Céus, a praia parece um formigueiro! Já nos atacaram alguma vez?
- Só algumas escaramuças, por enquanto. Eles ainda estão em processo de formação, como os nossos.
Os dois subiram numa colina e escrutaram a costa. Parecia-lhes impossível deter as numerosas hostes inimigas com seu pequeno exército. Entreolharam-se, compreendendo
a enormidade da tarefa que tinham diante de si.
- Suas ordens, milorde - falou Drue com modéstia.
- Somos do mesmo nível, Drue. Que sugere?
Ela ficou pensativa, sentindo o tempo se escoar com rapidez. Não havia soluções mágicas, porém.
- Não teremos chance de sobreviver a um ataque frontal. Creio que o melhor é atacar em pontos isolados e recuar em seguida.
- Como nos velhos tempos, nas fronteiras entre a Escócia e a Inglaterra - disse Connaught, concordando com a cabeça. - Foi assim que nos conhecemos, Drue.
Impulsivamente, ele colocou as mãos nos ombros da amada.
- Como eu gostaria que Turlock estivesse aqui! Drue engoliu o nó que se formou em sua garganta ressequida.
- Quando as gaitas de fole começarem a soar, Connaught, ele estará entre nós. Foi o que ele me prometeu, pouco antes de morrer.
Como que em resposta, trombetas soaram, chamando os soldados para se reunirem. O som cortante e agudo das gaitas escocesas riscou os ares, indicando que os foles
começavam a se encher de ar para o toque de batalha.
Montaram, conhecendo muito bem o perigo que deveriam enfrentar dali a pouco tempo. Os comandantes franceses e espanhóis, se descobrissem o plano simples, poderiam
atacar em massa e liquidá-los facilmente. Contudo, não havia alternativa. Drue e Connaught precisavam manter o inimigo o mais próximo possível da costa marinha,
até que os exércitos aliados chegassem para ajudá-los.
Drue esporeou o cavalo e reuniu seus homens, gritando palavras de incentivo para encorajá-los. Lançando hurras e brados de vitória entusiasmados, eles a acompanharam.
Era breve, os soldados de Drue misturavam-se aos de Connaught.
- Por Deus, Drue, confesso que pela primeira vez estou com medo.
- Eu também, Connaught.
Entreolharam-se em mútua compreensão. Nenhum dos dois temia morrer, mas um temia a morte do outro. Se um dos dois perecesse, automaticamente a vida do outro
estaria acabada para sempre. Os olhos de Drue brilharam, como que irradiando vida e sol de suas profundezas.
- Venceremos, Connaught. Tenho Turlock do lado esquerdo, em espírito. E tenho você, em carne e osso, do direito.
Mas Connaught não pôde se livrar do terrível medo de perder Drue. Drue, essa deusa romana, nascida para uma vida de sol e luz, que agora tinha a vida ameaçada.
- Drue, volte! - implorou, angustiado. - Espere a chegada de Eduardo e Bruce! Prometo encontrá-la em Dumfries dentro de quinze dias.
- Bruce é seu tio, não meu. Você é que devia ir, nesse caso. De minha parte, não pretendo perder esta emocionante batalha! Nem deixar que você fique com todos
os louros da vitória, seu esganado!
- Ordeno-lhe que volte! - comandou ele, em voz alta. Os soldados entreolharam-se, espantados.
- Quem é você para me dar ordens? - volveu ela, no mesmo tom. - Somos do mesmo nível, sir Connaught. E meu exército não é menor que o seu. Iremos juntos!
Connaught apertou os dentes.
- Temos poucos soldados, Drue. Você pode morrer!
- Tanto quanto você.
O medo secreto viera à tona, finalmente. Pairou sobre os dois, tão intangível quanto a luz do sol, tão sagrado como uma prece, tão eterno quanto as terras que
ambos iriam defender dali a instantes.
Connaught queria beijá-la, sentir seus lábios colados aos dele, aspirar-lhe o perfume de mel e sol.
Drue fitou-o, dando-lhe a entender que compreendera tudo. E seus olhos dourados explicaram, com infinita ternura, tudo o que lhe ia na alma. Disseram que, diferente
das outras esposas, ela não se despediria do marido com um soluço terno; ao contrário, acompanharia seu homem e lutaria com ele ombro a ombro.
Quando sentiu que Connaught também a compreendera, estendeu o braço e ele o segurou, no gesto tradicional de amizade entre companheiros de guerra. Desembainharam
as espadas e baixaram os elmos, enquanto os porta-estandartes de cada um se aproximavam. As trombetas soaram em uníssono, enquanto um brado uníssono se erguia
da garganta de cada soldado, ecoando através dos ares.
As gaitas escocesas ergueram seu canto, enquanto os tambores começaram a rufar. De repente, Connaught teve certeza de que ambos voltariam triunfantes daquela
guerra. Tomado de entusiasmo e vigor, gritou-lhe por cima do ombro:
- Para nossa vitória!
- Você é minha vitória! - respondeu Drue, baixinho, sabendo que ele a compreendia. - Porque tendo seu amor, jamais poderei sair vencida!
Depois, com voz vibrante, gritou-lhe de volta:
- Até já!
Ambos avançaram juntos, em busca do desafio. Avançaram em busca das alturas, em busca do sol, sabendo que o alcançariam.



FIM