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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Caçada Implacável - David Osborn

Caçada implacável

David Osborn

Tradução de Ruy Jungmann

DISTRIBUIDORA RECORD
RIO DE JANEIRO - SÃO PAULO

Título original norte-americano: OPEN SEASON

Prólogo

O promotor orgulhava-se de ser um homem de razoável sensatez.
Conversando com Alicia Rennick e seus empertigados pais, descobriu, de
súbito, que não podia mais suportar a expressão que via nos encovados
olhos da moça. Não era tanto a dolorosa recordação que ali havia de
horror, nojo e dor; ele vira isso antes em moças que haviam sido
violentadas. Era mais o reflexo amortecido, embotado, de algo bem no
íntimo da moça, de uma crescente percepção de traição total.
Deu-lhe as costas, por isso. E também ao Sr. e Sra. Rennick. Girou a
cadeira forrada de couro e lançou os olhos para além da fotografia
emoldurada do Presidente Eisenhower, que parecia tão bem apessoado e
confiante na parede próxima às altas janelas flanqueadas por cortinas Do
lado de fora, a luz dourada de meados da tarde tocava os olhos que se
erguiam imponentes sobre o gramado verde da praça e os prédios de tijolo
vermelho, de inícios do século XIX, que a cercavam. Mais além e por
entre ramos e folhas, podia-se distinguir vagamente a espiral da igreja
presbiteriana e a torre do relógio da universidade. Mais tarde, ele se
lembraria de ter pensado naquele instante como parecera ironicamente
impotente e hipócrita a bandeira americana, muda e hasteada em um canto
do gabinete, com seu panejamento transformado numa haste vertical
vermelha, branca e azul.
Reinava um silêncio mortal. Era tão grande o silêncio que parecia que as
próprias apaineladas paredes escuras e os grossos tapetes abafavam até
mesmo os pensamentos. Mas ali os havia, sem dúvida. Pensamentos que
precisavam ser traduzidos em palavras e enunciados em voz alta. Havia
fatos que os Rennicks não sabiam e que ele não queria comunicar. Se
fossem enunciados, a moça seria ainda mais magoada do que já fora.
Ao se voltar na cadeira, evitou Alicia e olhou para Rennick, alto,
corpulento, com a prosperidade da meia-idade e os olhos já tornados
pequeninos pela respeitabilidade e por todas as soluções absolutamente
seguras.
Ele sabe, pensou o promotor. Rennick não é estúpido. Mas vai fingir que
não sabe. Assim, poderá continuar a emitir todos os sons apropriados.
Com Rennick, iria ser uma questão de manter aparências totalmente
desnecessárias.
- Não quero que considere a Promotoria pouco simpática, Sr. Rennick.
Estamos aqui para lhe dar, e a Alicia, toda a ajuda possível. Por
simpatia, refiro-me à simpatia oficial, através da ação da Promotoria...
bem, talvez aquele tipo de simpatia que não vai ajudá-la agora. Depois
do que Alicia passou, o senhor pensa, realmente, que ela precise de
publicidade? Não será de silêncio e proteção que ela necessita?
- O que é que o senhor quer dizer com publicidade? - As palavras foram
pronunciadas pela Sra. Rennick. Em tom desafiador. Era uma mulher de uns
empertigados 40 anos, com um corpo ainda vistoso. O rosto cuidadosa e
visivelmente maquilado, porém, constituía uma máscara de virtuoso
caráter. Fora atraente no passado. Seria ainda, caso quisesse aceitar a
idade.
- Ele se refere a um processo - explicou paciente Rennick. - Publicidade
nos jornais.
A indignação, porém, havia-se tornado para ela, de súbito, mais
amargamente agradável do que o bem-estar da silenciosa filha. Sentiu-se
ofendida. E, com ela, todas as mulheres. Ofendida pela conspiração
eterna e privilegiada dos homens. Oh, Deus, como ela abominava a atitude
complacente dos homens!
Explodiu, numa resposta azeda:
- Um processo torna um caso público e pune os culpados. Todos nós
sabemos quem são eles e o que fizeram. Mal consigo pensar que alguém vá
culpar Alicia!
Alicia permaneceu imóvel. Era uma moça de 18 anos, bonitinha de uma
maneira frágil, insegura de si mesma, reprimida. Suas artísticas e
esguias mãos repousavam, mortas e cruzadas, no regaço do vestido de
corte reto que a mãe insistira em que usasse - um vestido de gola muito
alta, como se fosse uma oferenda consumida à feminilidade ultrajada.
O promotor lembrou-se do único leve sorriso que lhe aflorara aos lábios.
Fora o mais suave e mais desolado de quantos já houvera visto. Tentou
outra vez:
- Vamos colocar a questão desta maneira, então, Sra. Rennick. Se me
permite. Vamos encará-la do ponto de vista de um júri. Para começar, a
aparência de espancamento, alguns arranhões, um lábio cortado, um olho
preto... nada disso significa necessariamente estupro. Obrigou-se a um
sorriso alegre e fez um fingimento de leveza. - A Polícia... bem, em
todos os fins-de-semana ela recolhe uma meia dúzia de garotas que têm
essa aparência, após brigas nas fraternidades estudantis. Isso
geralmente acontece quando uma moça tenta apartar uma briga entre dois
rapazes ciumentos.
A tentativa caiu no vazio. A voz surda da Sra. Rennick estalou novamente
sob o largo arco de sua face hostil.
- O senhor está dizendo que Alicia não foi violentada?
- Não não. Mas, por favor, procure compreender. - A sua voz advertia-a,
mais uma vez, para que deixasse morrer o caso, toda aquela horrível
confusão, fosse para casa e esquecesse tudo. Parte de minha
responsabilidade para com a senhora e Alicia consiste em lhes dizer
exatamente quais as possibilidades, se resolverem apresentar uma
acusação. Em todos os julgamentos, por mais simples ou difíceis que
sejam, há possibilidades em um sentido ou em outro.
- Continue. - Fora Rennick quem falara.
Alicia continuou a olhar cegamente para algum ponto no espaço. Seria o
passado? O presente? Ou o futuro? Estaria ela escutando ou vendo alguma
coisa?
Havia vozes e quadros obscuros. A névoa recordada e uma fragmentação de
cenas de embriaguez e culpa.
E recordação de medo, também. O medo prenunciador, ignorado, quando, na
festa, Ken dissera: "Vamos dar uma volta, Alicia." Art rira e piscara o
olho. O medo inesperado quando se vira não apenas com Ken no carro mas
também com Art e Greg. O pânico sempre maior, encharcado de uísque,
quando Greg, do assento traseiro, estendera a mão e a introduzira em sua
blusa e, depois, quando Art fizera a mesma coisa. Ken, no assento do
motorista, havia inesperada e habilmente introduzido a mão sob sua saia.
Começara a lutar e a gritar. Fora nesse momento que Ken a atingira pela
primeira vez? Com as costas da mão. Tinha os lábios ainda inchados e
rachados. E sofrerá um corte nas gengivas. Do primeiro golpe ou dos
demais que se seguiram?
As luzes brilhantes. O motel. Greg e Art prendendoa, longe da vista de
estranhos, no chão do carro. A luz banhando de branco a capota e as
janelas do carro. A escuridão inesperada da sala e o frio bolorento do
desuso. Suas pernas tocando em mobília estranha, punhos batendo e roupas
arrancadas até a nudez completa. A nudez dela, primeiro. Deles, depois.
A estranha sensação de musculosos corpos e cheiros de rapazes. Não de um
só, mas de três. Mãos por toda parte, risos, bocas que a mordiam e lhe
chupavam os seios. Mãos novamente, forçando as suas a fechar-se em volta
de um rígido membro. Depois, de outro. O peso e a pressão dilaceradora
de membros duros como ossos e o seu grito ululante de dor quando Greg,
sob ela, penetrou-a como se fosse uma faca; o peso de Ken em cima,
varando-a profundamente, em um frenesi simultâneo. Os palavrões, o riso,
e ela duplamente empalada e rasgada entre eles. Finalmente, Art,
horrendamente escorregadio e sufocante, todo o sufocante comprimento
dele, rosnante, com os polegares enfiados nos cantos de seus olhos: "Sua
puta, se me morder, arranco-lhe os olhos."
Quando saíra? Por que eles a haviam finalmente deixado ir embora?
Somente pelo fato de terem, por fim, caído no sono da embriaguez? Quando
a Polícia a havia encontrado, vagando à noite pela margem da estrada, o
sargento de serviço ignorando-lhe o desespero?
"- Não, nada me aconteceu. Eu simplesmente bebi demais. Saí para dar um
passeio. Levei uma queda."
"- O nome de seu pai?"
"- Por favor, eu não quero confusão alguma. Por favor. Simplesmente,
deixe que eu vá para casa. O que foi que eu fiz? O senhor está apenas
complicando as coisas."
O telefone tocando, a voz fina de alguém do outro lado do fio, como um
som de destino final. O motel. Três rapazes. Quem é que ia pagar pela
bagunça, a lâmpada, o espelho e a cadeira quebrados, o colchão queimado
por cigarros, os lençóis sujos de sangue? Quando foi investigar, a
Polícia descobriu que ninguém havia visto a moça. O estabelecimento era
respeitável. Ali nunca houvera encrencas. Sim, um tipo chamado Prazer.
Um universitário.
Nesse momento, o promotor girava impaciente o lápis na mão.
- Sra. Rennick...
Ela, porém, não admitia ser interrompida. Seus olhos se cerraram de nojo
daquilo que tinha que dizer e de ódiocontra todos os homens, enquanto
falava:
- Havia ainda traços de sêmen em Alicia, 24 horas depois. Tanto no ânus
como na vagina.
Com uma espécie de resignada finalidade, o promotor deixou cair o lápis
na bandeja. Já estava cheio. Não era possível proteger todas as pessoas.
Não de si mesmas. Tinha outras coisas a fazer. Alicia contava 18 anos e
sobreviveria à experiência. Esse tipo de coisa não matavaninguém.
Em voz fria, disse:
- Sei que Alicia foi examinada, Sra. Rennick. O laudo médico não
declara, contudo, que o ato sexual de que ela participou foi
involuntário.
Custou-lhe apenas um segundo para compreender. Ela olhou-o fixamente e
explodiu:
- Que diabo é que o senhor está insinuando?
- Sinto muito, Sra. Rennick, mas a prática do ato sexual por mocinhas é
hoje quase endêmica. Mesmo garotas de escola secundária. De 14 anos. De
qualquer modo, é isso que o júri levará em consideração.
- Ei, espere aí! - Rennick moveu-se pesadamente na cadeira e começou a
encolerizar-se. Alicia não anda por aí metendo com todo mundo. E nem o
senhor nem qualquer outra pessoa vai me dizer que ela faz isso. Muito
menos aqueles canalhas que a violentaram.
- Ela era virgem! - Era a Sra. Rennick quem falava outra vez.
Isso era verdade, com toda certeza. O laudo não confirmara realmente
isso, mas o médico achara que Alicia dissera a verdade.
- Talvez não sejamos diferentes de outros pais, nem melhores nem piores,
mas conhecemos nossa própria filha.
Isso era o que todos eles diziam.
E a própria Alicia. Mas seria ela, afinal de contas, realmente inocente?
Com toda probabilidade. Ninguém era uma atriz tão boa assim.
- Sr. Rennick, Sra. Rennick, gostem ou não, Ken Prazer, Greg Anderson e
Art Wallace tipificam o que de melhor há na juventude americana. São
rapazes atraentes, filhos de famílias importantes. Não preciso dizer que
todos eles fazem parte de fraternidades universitárias. Anderson é um
herói na universidade. Foi considerado o melhor atleta americano do ano.
- Eles estupraram minha filha! - Voz aguda, descontrolada.
- Art Wallace é presidente da fraternidade a que pertence. Ken Prazer
vai se formar com o grau de Phi Beta Kappa.
- Eu não dou a mínima, se ele for presidente dos Estados Unidos.
- Em simples palavras, o senhor está me pedindo que convença um júri de
que, em uma sociedade permissiva, três viris e populares rapazes
americanos não podem encontrar alívio sexual entre literalmente dezenas
de outras atraentes, e poderia mesmo dizer extremamente desejosas,
colegas de faculdade? O senhor está me pedindo que lhe diga que eles
precisaram procurar sua obscura filha e possuí-la à força?
- Eu quero que eles sejam processados.
Não havia maneira de evitar aquilo. O promotor baixou a voz e disse,
medindo as palavras:
- Muito bem, se é assim que o senhor quer. Mas receio que haja mais uma
coisa que o senhor me obriga a dizer. - Esperou um momento e falou em
seguida, vingativamente, irritado com a atitude desafiadora da Sra.
Rennick: - Acontece que sei, com absoluta certeza, que todos os três
rapazes estão dispostos a dizer sob juramento que a própria Alicia
sugeriu uma festinha. Que ela pediu e aceitou 20 dólares de cada um dos
três para, de livre vontade, executar com eles, individual e
coletivamente, atos antinaturais de grosseira perversão sexual,
incluindo sodomia e felação. - Apanhou na mesa alguns papéis. - Tenho
aqui cópias dos depoimentos deles, prestados sob juramento. E de algumas
testemunhas que lhes corroboram as palavras, incluindo uma das colegas
da irmandade estudantil de Alicia. - Intencionalmente, acrescentou: -
Outra moça.
Após um momento, Rennick falou:
- Muito bem. - Sua voz saiu seca como cascalho e ele se levantou com
dificuldade.
O promotor disparou o último tiro:
- Receio que, se não conseguirmos um veredicto de culpa, o senhor será,
sem dúvida, processado por calúnia. Alicia será passível de perseguição
pela Polícia, por prostituição, má conduta sexual e possível corrupção
da moral de um menor. Ken Prazer não completou ainda 21 anos.
Mais tarde, quando desceram, deixando o edifício de tijolos do Palácio
de Justiça, Alicia e a mãe ficaram à espera enquanto o Sr. Rennick se
afastava para ir buscar o carro, estacionado do outro lado do gramado.
Inesperadamente, em tom de voz comum, a Sra. Rennick perguntou:
- Quando é que você deve ficar menstruada?
Alicia voltou-se devagar para ela. No choque daquelas palavras,
reencontrou a voz e ouviu-se falando como se ela e sua voz fossem
entidades separadas, como se toda a largura do macio gramado do Palácio,
com seus bancos, flores e monumentos à Guerra Civil e o pesado canhão,
as separasse.
- O quê?
- Quando é que você vai ficar menstruada? Ou será que não ficou ainda? -
A mãe sorriu maldosamente. - Ou será que não se lembrou de usar seu
diafragma?
Então, ela o havia achado. Procurara no quarto. Como é que poderia
provar que nunca o usara? Nunca. Quisera, pensara em fazê-lo algum dia,
em alguma ocasião. Mas jamais conseguira reunir coragem suficiente. Como
é que se podia levar alguém a acreditar, quando três 'heróis
universitários iam jurar que a vítima lhes pedira dinheiro? Quando uma
de suas próprias amigas vendia-a para agradá-los? Quando seu próprio
pai, ao se afastar para ir buscar o carro, exibira um rosto parecendo
feito de pedra e não pronunciara uma única palavra? Quando o promotor
lhe evitara os olhos ao se despedir? Quando a mãe a olhava naquele
momento com uma boca que estava reduzida a um cruel traço vermelho de
batom?
- Amanhã você vai dizer a Buddy Não-Sei-o-Que que está disposta a casar
com ele, logo que ele quiser.
- Buddy?
- Aquele rapaz lá da cidade. Aquele que trabalhana garagem.
- Buddy Garner? - Incrédula. - Mas ele é apenasum mecânico. - Havia a
mãe enlouquecido? Ela nem mesmo saíra com Buddy uma única vez. - Mamãe,
eu quase não o conheço.
A Sra. Rennick riu, desagradavelmente.
- Bem, ele é doido por você. Doido demais para fazer perguntas.
- Não. Ele, não!
Havia algo em Buddy, algo frio e profundo, algo diferente das demais
pessoas. Ou seria apenas uma patética ânsia canina que aparecia nos seus
olhos, todas as vezes que ela parava para encher o tanque do carro? Ele
sempre lhe produzira calafrios.
- Eu nem mesmo gosto dele.
- Aprenderá a gostar.
- Mas eu não quero casar. Quero ficar aqui e terminar a faculdade.
Não chore, pelo amor de Deus, não lhe dê essa satisfação.
- Terminar a faculdade? Quer, agora? Depois do que você fez a seu pai e
a mim? - Um momento de silêncio. Em seguida: - O que é que você me diz
das anuidades? Do sustento? Oh, sim, naturalmente, esqueci. Você poderia
ganhar dinheiro, não?
Nesse momento, o sorriso transformou-se em veludo. Mulheres
respeitáveis, que tomavam dinheiro dos homens com quem casavam, podiam
se dar ao luxo de falar em voz agradável com prostitutas.
E ali estava o pai, aparecendo de súbito, conservandoaberta a porta do
carro. A apenas alguns metros.
Era tempo de ir embora.
17 de Junho de 1972

Capítulo 1

SEIS HORAS DA MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA
Ken Prazer, aos 38 anos de idade, era um homem que podia dizer com toda
justificação que vencera na vida. Era vice-presidente de uma grande
agência publicitária em Detroit, estando sob sua responsabilidade a
conta de uma sólida companhia de eletrodomésticos; presidente do Comitê
de Democratas de Michigan em Prol de Nixon e membro da diretoria da
Sociedade Histórica de Ann Arbor; diretor de várias empresas locais,
inclusive de um importante laboratório de pesquisas ligado à
universidade; e possuía amigos em todas as camadas da sociedade. Sua
casa de 70 mil dólares nos subúrbios de Ann Arbor era luxuosamente
cercada por quase um acre de gramados e árvores. Havia uma piscina de
água quente e uma churrasqueira suficientemente discretas para não
provocarem críticas de que eram sentimentalmente americanos ou classe
média. Como o próprio Ken.
Possuía um potente carro esporte europeu, Porsche 9115 de cor
amarelo-vivo, cuidadosamente contrabalançado pela perua, um Ford comum.
Era dono de uma biblioteca de clássicos e de seleções de livros do mês,
alguns dos quais ele e Helen liam, vez por outra. Nas férias sempre
viajavam para lugares interessantes. No ano anterior, haviam passado 10
dias em Budapeste, de preferência à habitual excursão de verão dos
americanos a Paris, Roma e Madri; desde então, o "rosado" de ambos fora
uma piada em todos os jantares. No ano anterior, haviam alugado uma casa
no fabuloso Algarve, em Portugal, onde o grupo local in era
internacionalmente sofisticado e dominado por nobres ingleses, mesmo que
eles fossem antigas personalidades coloniais e refugiados,
principalmente procedentes da Rodésia e do Quênia.
A própria Helen era discretamente elegante e atualizada. Fumaria um
cigarro de maconha se todos fizessem o mesmo, mas traçava uma firme
linha negativa no tocante a troca de esposas e a sexo em grupo. Ela e
Ken haviam tentado isso certa vez e não gostara. Não fora tanto por
causa do seu parceiro, bastante adequado, mas pelo fato de vê-lo, alegre
e sem remorso algum, ficar grandemente excitado com uma antiga colega
dela de faculdade, que sempre tivera uma queda por ele. Ainda assim, não
se importava em nadar ocasionalmente nua em companhia de amigos íntimos.
Se as crianças não estivessem por perto. Era divertido e seguro. Seu
único vício sério era que talvez "bebesse um pouco demais. A bebida
começava a transparecer ligeiramente sob a forma de algumas banhas
frouxas em torno do baixo abdômen, na parte superior das coxas e em uma
pequena papada sob um queixo de outra maneira firme. Mas estava tudo
certo, por ora. Seu corpo era bem 'bonito. Conseguira sem maiores danos
dar à luz e criar .quatro filhos até as idades respectivas de 14, 12, 10
e oito anos. Isto é, conseguira mental e emocionalmente. O tra'balho
monótono da maternidade não era coisa fácil após os anos na
universidade, e uma mulher naqueles dias se perguntava para que servia
um diploma nos momentos em que limpava fraldas na privada ou iniciava,
após o» jantar, mais uma cansativa trabalheira de reunir os brinquedos
espalhados das crianças. Naquele momento, claro, tudo aquilo era coisa
do passado. Enfrentava, agora, os problemas da adolescência. Após uma
série desastrosa de em-pregadas européias, principalmente suíças e
inteiramente aloucadas, Ken conseguira, por milagre, encontrar uma
empregada negra que trabalhava em expediente parcial - um tipo afro,
jovem, insolente e liberado, é verdade, mas o próprio céu, apesar de
tudo. As crianças, fisicamente pelo -menos, cuidavam de si mesmas em
quase tudo. Helen, em conseqüência, tinha tempo para freqüentar suas
aulas de ioga, ser diretora de uma comissão local de defesa a ecologia e
falar sobre a possibilidade de arranjar um emprego na Ford, onde um novo
executivo muito popular oferecia um engodo a membros do Women's Lib,
procurando saber a opinião de mulheres de inteligência acima da media,
como ela mesma, sobre novos modelos e combinações de cores de
automóveis.
Ken podia jactar-se de certas vantagens pessoais. Dificilmente pesava um
quilo a mais do que no tempo em que -estivera na faculdade; era dono
ainda de toda a sua cabeleira e tinha um jeito para brincadeiras a que
podia recorrer todas as vezes em que precisava impressionar seriamente
uma pessoa, com uma exibição de intelecto superior à média e razoável
sofisticação. Era um indivíduo moreno, de olhos azuis, relativamente
alto, um metro e oitenta e três exatamente, e ainda o astro do jogo
anual de beisebol da associação de pais e professores.
Todos esses pensamentos somaram-se numa tranqüila satisfação consigo
mesmo, que fluiu pelo seu íntimo no momento em que acordou. Corria o
primeiro dia de novembro e ainda estava escuro. Se possível, devia ir
apanhar Art Wallace e Greg Anderson antes das sete. Era longa
viagem de carro que os esperava. E estava de ressaca. Na véspera,
domingo, ele e Helen haviam dado um almoço-buffet e bebera demais. Bem,
todos haviam bebido. A desculpa havia sido a festa do dia de Todos os
Santos. Art e Greg, com as esposas Pat e Sue, haviam comparecido,
juntamente com Annie e tom Purcell. além de Bill Carter e a namorada,
Joyce, e um membro relativamente novo da velha turma que eles formavam,
Paul Wolkowski, um cara que valle a pena conhecer, porque possuía os
contatos certos no Congresso e podia dar um jeito em qualquer coisa.
Haviam enfrentado o frio e feito um churrasco, acompanhado por muita
cerveja, além de jogar futebol com as crianças durante toda a tarde;
após um jantar leve e lopo que as crianças foram dormir, começaram a
beber para valer.
As mulheres haviam-se empenhado no habitual blá-blá blá de absurdos, com
os homens discutindo a caçada anual de duas semanas que Ken, Greg e Art
faziam, às margens dos lagos da península norte de Michíçan. Devia
começar no dia seguinte. Interminavelmente, falaram nos animais que
haviam abatido no ano anterior e com os quais não deviam se preocupar
neste ano, e vice-versa. Recontaram velhas histórias sobre quem havia
caçado qual cervo e quando e quem bebera mais bourbon em que noite.
Purcell, Carter e Wolkowski mostraram-se abertamente inveiosos. A cabana
de caça de Ken, Greg e Art, porém, era exclusiva. Durante anos haviam,
entre sorrisos mas cortesmente, resistido aos pedidos de todos os que
queriam ir também com eles.
Bem depois da meia-noite os convidados haviam por fim ido embora. Mais
como despedida tradicional do que por um desejo especial qualquer, Ken
fizera amor com Helen. Ela, no entanto, tornara-se inesperadamente
excitada e quisera mais e assim, ele lhe deu outra rodada. E dormira
como um morto.
Naquele momento, ela se mexeu ao seu lado. Sentiu a nudez completa da
esposa. Ela sempre dormia assim, inteiramente estirada. Um dos seios,
molemente oscilante, repousava sobre seu braço. Posso abrir-lhe as
pernas e penetrá-la antes que ela acorde o suficiente para descobrir que
está cansada demais para querer, pensou ele, e quando eu terminar ela
estará suficientemente desperta para querer mais. Essa é que era a
maneira de deixar a mulher, de modo que ela contasse os dias até a volta
do seu homem, simplesmente para que ele terminasse o que havia começado
quando partira. Mas, após a noite anterior, o esforço parecia grande
demais, e Helen não exibia aquela sua maneira quando desperta, picante e
provocadora. Estava em vez disso, inerte, com a boca entreaberta, o
hálito azedo e os bovinos seios flácidos.
Em silêncio, deixou a cama. Fechou a porta do banheiro e abriu o
chuveiro. A pouco e pouco começou a ressuscitar. Escovou os dentes com
desinfetante bucal e, com um Alka-Seltzer, tirou da boca a maior parte
do gosto de bourbon. Vestiu-se em silêncio. Calças de lona, camisa
grossa, meias de lã e botas de caça de cano alto.
Na noite anterior, Helen dissera que deixaria café feito na cozinha.
Saiu em passos leves do quarto e atravessou a sala de estar, cujos
móveis exibiam contornos fantasmagóricos, naquele momento em que eram
tocados pelos primeiros raios da luz cinzenta da manhã. Em passos
cautelosos passou no corredor pelo quarto onde Petey dormia.
A porta estava aberta. Estaria ele dormindo? Contava Helen que ele quase
nunca fechava os olhos. Dizia que ele simplesmente ficava ali, hora após
hora, olhando para arescuridão, à espera.
De arrepiar, uma coisa daquelas. Bonito, mas imbecil. Dezesseis anos,
mas, mentalmente, apenas um ou três. Pepey era filho de Paul Wolkowski.
Wolkowski era viúvo. Ninguém sabia como falecera sua esposa. Ele jamais
se referia a ela. Contratara uma enfermeira em tempo integral para
cuidar de Petey; nenhuma grande beleza, mas não tão feia que o cara não
alimentasse a esperança de que ela talvez ocasionalmente dormisse com
ele. Não se podia esperar que um tipão como Wolkowski fosse um
celibatário. A enfermeira estava ausente no momento. Todos os outonos,
tirava seis semanas de férias para ir visitar a mãe doente na
Califórnia; se durante sua ausência ele tinha negócios que o obrigavam a
sair da cidade, como naquela semana, pedia a amigos que cuidassem do
garoto.
Na maior parte das vezes, isso cabia a Helen. Isto porque nem Sue
Anderson nem Pat Wallace queriam-no em casa. Diziam que ele poderia
perturbar-lhes os filhos. Talvez ele o fizesse. Ken, porém, não
conseguia realmente acreditar nisso, pois, quando as outras crianças
riam dele e se divertiam à sua custa, tudo o que Petey fazia era sorrir
suavemente. Por trás dos olhos azuis profundamente encravados na
angélica face loura nada mais havia. Quem poderia ser perturbado por
isso?
Ken achou o café, esquentou-o e bebeu-o em goles lentos, sentindo
vontade de estar de volta à cama. Censurou-se por não ter feito amor com
Helen quando ela estava ali, à disposição. Naquele momento, vestido,
sentiu desejo. Uma rápida imagem visual da longa viagem que o aguardava
porém, matou a fantasia. Pôs sem ruído a xícara na máquina de lavar
pratos, apagou as luzes e voltou pra dentro de casa.
O chão do corredor era de pranchas trabalhadas a mão, restos de um
celeiro abandonado de Illinois. O guarda-comida, várias cadeiras e o
banco constituíam autênticas antigüidades americanas. Helen dizia sempre
que aquelas peças contrabalançavam o moderno da sala de estar. Havia
também uma prateleira de armas onde se estendiam, uma sobre a outra,
três carabinas e quatro rifles. Ken tirou um Remington modelo 700,
calibre 25-06, de ação de ferrolho, e encostouo com todo o cuidado junto
à pesada mochila que preparara na noite anterior. Era um rifle de alta
velocidade e para todas as finalidades, bom para caçar tanto alce como
cervos e preciso até 500 metros. Apanhou e pôs na cabeça o boné de caça,
com seu distintivo de licença de caça de cervos pregado de um jeito
devasso no lado direito, botou a mochila às costas e enfiou o rifle sob
um braço. Se tivesse cuidado, poderia sair pela porta da frente sem
acordar ninguém. Exceto talvez, o pobre anormal que dormia do outro lado
do corredor, por trás da porta aberta. Moveu-se em silêncio e, quando
menos esperava, viu o corpo branco de Helen destacando-se na escuridão,
dentro do robe aberto. Ela ainda estava virtualmente adormecida.
- Você não ia dizer adeus?
- Claro que ia. Mas não queria acordá-la. Ela se inclinou e beijou-o no
rosto.
- Divirta-se - disse.
- Tome cuidado com as crianças. - O rifle impediao de abraçá-la direito.
Permaneceu simplesmente ali onde se encontrava.
- Volte logo. - Ela o beijou outra vez, desta vez com a boca aberta,
baixou a mão deliberadamente, passou-a pelo lado esquerdo das calças
dele, conservando-a ali, na maciez cheia do sexo do marido, apenas o
suficiente para sentir que ele, involuntariamente, se aproximava dela.
Depois, ela foi embora.
Piranha, pensou ele. Espere só até que eu volte.
A porta que dava do corredor para a garagem fechou-se sobre ele com um
pequeno estalido que mal se ouviu. Acendeu as luzes, apertou o botão
verde e a grande porta externa da garagem subiu, com um baixo zumbido
elétrico. O bagageiro da capota do Ford estava atulhado. Havia nele dois
motores de popa, dois botes infláveis para seis pessoas, quatro grandes
tanques de gás natural pressurizado, bem como um pedaço de cano e um
abridor de rosca. Comprara o cano poraue a tubulação que servia à cabana
precisava de substituição. Todo o material estava bem amarrado sob um
lençol de borracha. Fizera todos esses preparativos no dia anterior. Mas
procedeu a outra verificação, apenas para ter certeza. Lançou em seguida
a mochila e o rifle no assento traseiro, acendeu as luzes da garagem,
sentou-se atrás do volante e ligou a chave. O motor pegou logo. Saiu
para o alvorecer com os faróis apagados. O gramado, com seus arbustos, e
a silenciosa e fria piscina, cuja mobília fora guardada com a chegada do
inverno, pareciam tristemente solitários. Como um cemitério.
No momento em que tomou a passagem de automóveis em direção à rua, notou
movimento na janela de seu quarto. Helen observava-o. Lembrou-se de um
sonho de algumas noites antes. Estivera guiando como naquele momento e
Helen se postara à janela. Ela lhe dava um adeus final porque ele não
voltaria.
A recordação tornou-o nervoso. Chegou à rua, acendeu um cigarro e
sentiu-se melhor com a primeira tragada do dia. Dirigiu-se para a casa
de Art Wallace. Art em primeiro lugar e, depois, Greg Anderson. Nenhum
dos dois residia a mais de 800 metros de distância. Parecia que eles
haviam vivido sempre assim, muito juntos. Nem o Vietnã conseguira
separá-los. Greg e ele haviam servido na mesma unidade de infantaria;
Art, sozinho, servira em helicópteros, mas sempre entrava em contato
todas as vezes em que podia inventar uma desculpa oficial para "descer",
o que acontecia com freqüência. Haviam-se divertido. Haviam-se divertido
sempre. Ken, pensando nos três, achou que sempre o fariam. Uma diversão
boa, decente, puramente americana, de rapazes crescidos.

Capítulo 2

SETE E TRINTA. O caçador sério deve tomar um cuidado especial com o
equipamento. Uma escolha de materiais de alta qualidade pode salvar-lhe
a vida. Uma escolha de material de qualidade inferior, custar-lhe a
própria. Se quer caçar, digamos, nas densas florestas do norte, no
Maine, Minnesota, Oregon ou Michigan, precisará de botas até a batata da
perna, relativamente resistentes à água e ao frio, e bastante flexíveis
para lhe dar liberdade de movimento, mas ainda suficientemente grossas
para resistir à picada mortal de uma cobra venenosa que ele pode,
inadvertidamente, pisar e tirar de seu estado de semi-hibernação. As
solas não devem ser tão grossas que tornem a caminhada pesada como a de
um mergulhador submarino, mas suficientemente onduladas para"pegar" em
árvores tombadas ou em rochas cobertas de musgo escorregadio.
Deve levar meias absorventes de suor, uma muda de roupa de baixo e uma
muda de camisas. Pela própria natureza de seu trabalho, o caçador está
exposto a potenciais banhos. Em zonas lacustres, há lagos e regatos onde
pode cair. Na eventualidade de uma forma menos dramática de banho -
chuva, granizo ou neve - precisa de uma jaqueta à prova d'água, de neve
e de vento, bem apertada em volta do pescoço, de modo que não possa
entrar nem umidade nem vento.
Se não tem base fixa, precisará de um cantil e tabletes de purificação
de água. Hoje em dia ninguém confia mais naqueles cristalinos regatos
das montanhas. Deve levar rações compactas, balanceadas e desidratadas,
que, numa emergência, não precisem ir ao fogo. Precisa também de um
canivete com vários utensílios, bem como da clássica faca de caça, um
estojo de primeiros socorros, uma caixa de fósforos à prova d'água e um
isqueiro a gás - dois isqueiros, para ser exato, na eventualidade de
perder-se um deles, juntamente com a caixa de fósforos. Constituem
também equipamento-padrão algumas agulhas, um pouco de linha e um ou
dois alfinetes de segurança. O mesmo a respeito de um jogo completo de
ferramentas, com uma chave de parafusos que esconda no cabo um
sortimento de lâminas e sovelas.
Deve também conduzir óculos escuros, para combater o ofuscamento do sol,
e um binóculo, preferivelmente com lentes à prova de choques, dada a
possibilidade de uma queda de mau jeito. Precisa de uma lanterna de foco
ajustável, à prova d'água, pilhas e lâmpadas extras, um relógio à prova
d'água e choques, uma pá de trincheira, mapas topográficos de nylon da
área que vai bater e, claro, um saco de dormir leve, à prova d'água e de
insetos e que possa ser virado pelo avesso para ventilar. Às vezes, é
também útil um rolo de cordas de nylon de alta resistência, leve, de uns
15 metros de comprimento.
Tudo isso e outras coisas mais devem ser arrumadas e embaladas com todo
o cuidado e acondicionadas dentro e fora de uma bolsa de nylon presa a
uma estrutura de alumínio, equipada com correias para os ombros e cinto,
tudo acolchoado.
Precisa igualmente, e isso quase dispensaria dizer, levar uma arma.
Entre a ampla variedade de máquinas de morte clássicas como o arco, a
besta, a faca de arremesso, o machete, o bumerangue, a funda, a
carabina, a pistola e o rifle, este talvez seja a melhor escolha - em
especial se ele planeja caçar a espécie de caça grossa altamente
perigosa conhecida como homem.
O excelente rifle britânico Holland and Holland Magnum, de sete
milímetros, dois canos e carregamento pela culatra, tem, a 300 metros,
uma velocidade de 2,450 pés por segundo e uma força de impacto de 1,660
libras, o suficiente para matar instantaneamente um elefante em
arremetida ou, não apenas fazer cair sobre os joelhos um alce de três
quartos de toneladas, mas erguê-lo inteiramente do chão. É uma arma de
precisão, dependendo do vento, significando dizer que apresenta uma
perda em trajetória, na distância antes mencionada, de apenas cinco
polegadas e meia, isto é, menos do que a distância do tórax ao coração
do homem comum.
Equipado com uma mira telescópica apropriada, com um encaixe baixo,
digamos, uma Leupold aiustável de 10 aumentos, um alvo a 300 metros de
distância fica reduzido ao mesmo tamanho do retrato familiar de cabeça e
ombros que se vê pendurado sobre a cornija de uma lareira.
O homem que se encontrava na cozinha de sua casa, enquanto Ken Greg e
Art iniciavam a viagem, examinou a arma pela última vez. Sabia muito bem
como usá-la, tirando dela a vantagem máxima. Segurando cartuchos de
reserva entre o segundo e o terceiro, e entre o terceiro e o quarto
dedos de ambas as mãos, podia recarregar e disparar com maior rapidez do
que a maioria de atiradores experientes pode acionar uma arma de ação de
ferrolho. Fora um atirador perito quando lutara na Guerra da Coréia com
os fuzileiros e, ao longo dos anos e por treinamento, havia enfiado
pregos em árvores, a bala, a uma distância de 100 metros. Quase nunca
errava um tiro.
Logo depois sairia para caçar, isto é, para realizar o trabalho para o
qual estivera se preparando durante anos. A mochila estava pronta, sobre
a cadeira da cozinha. Logo que saísse e entrasse na garagem contígua,
ninguém entraria na casa até que ele voltasse provavelmente dentro de
uma semana, o mais tardar, a partir de quarta-feira. Ninguém jamais
saberia que ele deixara a cidade levando equipamento de caça e um rifle.
Ninguém.
Assim, nada mais havia a fazer senão partir.
Momentos depois, o seu Mustang deixou em silêncio a garagem. Fechou a
porta e desceu com um leve zumbido a rua. Não estava vestido para caça.
Usava um terno comum, conservador. As roupas de caça encontravam-se na
mochila. Mesmo assim, era duvidoso que tivesse sido notado mesmo pela
mais curiosa das donas-de-casa das vizinhanças. Era a hora em que
geralmente saía para o trabalho. Escolhera a hora da saída em parte
apenas para aquela finalidade. Mas aquilo era, na realidade, apenas o
princípio de tudo. Se fosse visto, isso não faria a menor diferença
real. A mochila, o rifle e as balas letais estavam escondidos em uma
valise na mala do carro. Para sua vizinhança suburbana em particular e
para o mundo em geral ele era simplesmente outro homem que saía para o
trabalho.

Capítulo 3

OITO HORAS. O Denver's Diner situava-se a uns 20 metros da Estrada 23,
sempre atravancada de caminhões, que passava a umas 15 milhas ao norte
de Flint. Era um estabelecimento pequeno, servido e dirigido pelo
próprio Billy Denver. Todos os chamavam de Billy Dee. "Denver" parecia
grande demais para um homem monstruosamente gordo. Quando o Ford de Ken
parou, Billy Dee viu-o e ouviu-o automaticamente no mesmo instante.
Desviou o rosto do fogão, onde aprontava ovos para o único solitário
freguês sentado ao balcão. O grande movimento de entrada nas fábricas
acabara e, com ele, o café da manhã. Os demais fregueses habituais
haviam saído uma meia hora antes. O movimento de transeuntes casuais não
começara ainda. Nem o dos choferes de caminhão que paravam para um café
no meio da manhã. Observou Ken, Greg e Art descerem, com suas jaquetas
de caça sobre camisas quadriculadas verde e preta e vermelha e preta de
madeireiro, e grunhiu para a garçonete.
- Gussie, três estômagos. Apresse-se.
Ela era uma adolescente, desavergonhadamente indolente, porém a melhor
ajuda que podia arranjar nesses dias. "Ajuda" significando não trabalho,
mas algo que atraía um freguês extra. Propositadamente, ela usava
minissaia curta demais, porque gostava dos olhares que provocava, da
expressão visivelmente esfomeada dos olhos de homens que tinham a idade
de seu pai ou eram mais velhos ainda. Era uma maneira de se vingar dos
pais. Ao ouvir a voz de Billy Dee, passou o chiclete de um canto para
outro da boca escarlate e nem se deu ao trabalho de erguer a vista da
mesa de um reservado que limpava no momento.
Entrou com eles uma lufada de ar frio quando cruzaram a porta, rindo de
alguma piada.
Sentaram-se ao balcão.
- Cavalheiros? - Billy Dee reconheceu-os de uma visita no ano anterior.
Inclinou o vasto e mole volume sobre as mãos pousadas no balcão e
esperou que eles se decidissem, recordando, enquanto seus pequenos
olhos, profundamente encravados na face bochechuda e branca como
farinha, saltavam de um lado para outro, observando-os.
Não havia dúvida. Eram os mesmos três do ano passado. Quase no mesmo dia
do mês, na mesma hora. Caçadores. Mentalmente, acrescentou 10 centavos
ao preço de cada ovo que pedissem. Eles tinham dinheiro. Que carro! Todo
aquele equipamento arrumado na capota e somente Deus sabia o que mais em
casa. Esposas com calcinhas cavadas, pernas esguias e cuidadas à custa
de bom dinheiro, roupas elegantes e casacos de peles. A turma da vodca e
tônica. Diabretes de nariz escorrendo, montados em minimotos, correndo
em volta de piscinas. O altão de queixo azulado, todo feito de músculos
e com ombros de um metro de largura, era, sem dúvida, um figurão no
Rotary Club. Ele próprio era sócio e reconheceu-o por uma foto que vira
no boletim mensal, no último verão. Era representante da Caterpillar em
algum lugar. Em metade do Estado, provavelmente. Fora o Atleta do Ano em
Michigan no passado. Diabos o levem, um tipão!
Greg notou o olhar especulativo de Billy Dee e perguntou:
- Como é que estão os ovos?
- Não fui eu que os botei, mas garanto que são frescos. - Billy Dee
sorriu largamente, exibindo dentes brancos e regulares demais para serem
seus. Os ovos eram congelados e. provavelmente, haviam sido postos 10
anos antes na Suécia ou em algum outro lugar.
- Quero dois, virados, bacon e café.
- Torradas?
- Sim, por favor.
Art e Ken fizeram seus pedidos. Billy Dee pôs em movimento a sua
volumosa gordura. Gussie dirigia-se nesse momento para a cozinha,
carregando uma pilha de pratos.
- Deixe isso, pelo amor de Deus. Os cavalheiros estão esperando. - Em
seguida, como se lhe ocorresse um segundo pensamento. - Tire três cafés.
- Tirou a massa das panquecas e os ovos do refrigerador.
Gussie pôs os pratos de lado e, mal-humorada, começou a tirar o café.
Andava com deliberada lentidão, movendo sugestivamente o queixo enquanto
mastigava o chiclete.
- Vamos, Bundoca! Ande com isso!
Era feio. Mas ele perdera a paciência. Ela bateu com força as xícaras
nos pires.
Greg riu. Seus olhos percorreram o corpo da moça e pararam nas suas
nádegas e coxas quase perfeitamente rígidas e, em seguida, subiram até
os ombros levemente arriados e o busto de seios baixos. Era um corpo que
pedia cama e homem, qualquer homem. Mas não quando eles queriam, e sim
quando ela queria. Ela lhe observou o olhar e, deliberadamente,
curvou-se para apanhar um garfo no chão. A saia subiu tanto que ele viu
claramente os contornos da vulva da jovem, bem modelados pela calcinha
elástica, e a escuridão dos pêlos pubianos.
- Mãe - murmurou ele. Art ouviu-o e olhou também. Estava engordando na
cintura e perdendo o cabelo, mas tinha a face lisa e suaves olhos azuis
úmidos, inocentes de qualquer tragédia na vida. Era consultor de
administração, dono de sua própria empresa e, naqueles dias, passava
muito tempo viajando e pagando um bocado de drinques para muitas dessas
moças que decoram os bares dos Hotéis Hilton.
- Perto demais de casa, meu chapa - disse ele a Greg. Mas, apesar disso,
seu tom de voz concordava com a apreciação de Greg sobre Gussie. Ela era
provocante, disso não havia dúvida.
- Esqueçam isso - disse Ken. - Um único olhar fora suficiente para que
ele soubesse que ela significava encrenca, aquela variedade de piranha
do interior. Art desviou a vista, piscando para Billy Dee, que vira tudo
e sorrira profissionalmente.
Greg, porém, não pôde desviar os olhos. Quando ela trouxe o café e
colocou com um estrondo as xícaras sobre o balcão, ele pregou os olhos
no decote semi-abotoado do cardigan barato com tal descaramento que
venceu o dela, fazendo-a qfastar-se defensivamente.
Nesse momento, ele ouviu Billy Dee perguntar a Ken:
- Eu não vi vocês três por aqui no ano passado? Subitamente cauteloso,
Ken respondeu:
- Espere aí, deixe-me ver.
- Nesta mesma época. Na primeira semana da estação de caça de cervos.
Art olhou inocentemente para Billy Dee.
- Sabe de uma coisa, você tem razão.
- Nós saímos muito cedo hoje. Você está nos servindo exatamente na hora
em que tomamos o café da manhã. - Era Ken quem falava. Mas nenhum deles
disse onde moravam. Ou para onde iam.
A memória de Billy Dee, porém, era tão elefantina como seu corpo e ele
tinha orgulho dela. Podia ser gordo, nenhuma mulher decente o levaria
para a cama, mas, graças a Deus, lembrava-se das coisas.
- Exato - disse. - Vocês têm uma cabana na margem de um dos lagos da
península norte. Um pouco a oeste de Schollcraft Gounty. Bom local.
Um olhar rápido passou entre Ken e Art. Apenas um relâmpago de
advertência. Greg fitou atentamente, mais uma vez, as nádegas de Gussie,
enquanto ela, propositadamente, coçava a coxa esquerda, em local
sugestivamente próximo do púbis. Mas o olhar de Greg não revelava mais
interesse. Era despistamento.
Ken chegou à conclusão de que uma manobra evasiva seria mais perigosa do
que dizer a verdade. Sorriu tranqüilamente e respondeu:
- Isso mesmo. Lá onde o diabo perdeu as botas.
- Vocês mesmos a construíram, não?
- Cada tábua.
- Eletricidade?
- Não. Usamos lampiões a querosene. E cozinhamos com gás engarrafado.
Não temos geladeira. Nem precisamos, nesta época do ano. Simplesmente,
um guarda-comida frio. Gelo seco para o que precisa ser conservado
congelado.
Billy Dee notou com todo o cuidado o sotaque de Gen. Educado. Devia ter
freqüentado uma dessas escolas preparatórias grã-finas do Leste.
- Vão pescar? - perguntou.
- Não podia ser melhor. Pesca. Truta do lago. Billy Dee virou os ovos e
lançou no ar as panquecas pedidas por Art. O cheiro saboroso subiu do
fogão e espalhou-se, tornando mais acolhedora a refeição. Todos os
choferes de caminhão por quilômetros em volta lhe conheciam as panquecas
de farinha de trigo.
- As torradas ficam prontas em um minuto. - Pôs algumas fatias na
máquina. - Isso mesmo, vocês foram caçar no ano passado. Exatamente como
agora. Chegaram até o limite?
Greg riu.
- Não houve problema.
- E uns de quebra, hem? - Billy piscou. Todos os caçadores abatiam
sempre um cervo além do limite permitido. Esperava-se que comunicassem o
fato ao Estado, mas ninguém jamais o fazia. Ocorreu-lhe outro pensamento
e, com um olhar a Gussie, aproximou-se do balcão, baixandoa voz: - Bom
lugar para uma farra, acho. Nada de vizinhos abelhudos.
Art sorriu e disse, em voz firme:
- Nunca.
Billy Dee bateu em retirada.
- Nem mesmo mulheres casadas? Numa voz sem expressão. Ken afirmou:
- Especialmente, mulheres casadas.
Billy Dee fitou-os e riu gostosa e silenciosamente. Não acreditava. Três
homens no fim da casa dos 30, talvez no início da dos 40. Possuíam
testículos entre as pernas, não? E membros para acompanhá-los? Deus
todo-poderoso, pensou, eles vão arranjar um trio de mulheres por lá e, à
noite, meter até morrer. Não seriam homens se não o fizessem. Mas não
podia censurá-los se eles se recusassem a admitir o fato. Ele mesmo não
admitiria.
E beber, calculou, desde o cair da noite. Pensou no caso, na caçada, na
bebida, nas mulheres, na cabana transbordante de carne nua e ébria, a
quilômetros de qualquer lugar, e algo bem embaixo das dobras de carne de
seu ventre agitou-se pela primeira vez em meses. Merda, alguns caras,
tinham toda a sorte do mundo!
Serviu as panquecas e os ovos e limpou o suor da testa com o avental.
- De onde são vocês, rapazes?
Greg respondeu por eles:
- De Port Huron.
Bem, aquilo era uma mentira cabeluda, pensou Billy Dee. O boletim do
Rotary Club dissera que o altão morava em Ann Arbor. Mas era uma mentira
inteligente. A distância de Port Huron a Flint era mais ou menos a
mesma. Mas por que mentir absolutamente, afinal de contas? Cautela,
pensou. Se o cara estava enganando a esposa e não era uma besta
completa, cobria cada pista, mesmo uma refeição à beira da estrada.
- Bem - disse ele, fazendo um sumário - está tudo certo, acho, exceto
pelos filhos. Logo que puderem, eles estarão fazendo um barulho danado
para vir também. - Riu inocentemente para Art. - Que idade têm eles,
agora?
- Bem - respondeu Art - eu tenho uma garota de 16 e dois outros de mais
de 10. - Inclinou a cabeça na direção de Ken. - Ele tem quatro, o mais
velho com 15 anos.
- Escutem aqui - interrompeu Greg - os garotos podem muito bem construir
a cabana deles.
- Além disso, na estação de caça eles estão na escola - acrescentou Ken.
Art pronunciou a palavra final:
- Talvez, quando eles terminarem a faculdade. Talvez. Sim, pensou Billy
Dee, dentro de 10 anos, quando vocês tiverem apenas metade do tesão que
têm agora ou quando a velha finalmente fizer finca-pé - uma ou outra
coisa - e se vocês puderem conseguir ainda uma erecção à noite, tudo o
que farão será lembrar com saudade os bons e velhos dias. Riu por
dentro. Certo, eles tinham sorte, mas, de certa maneira, ele tinha ainda
mais. Ninguém pode sentir falta daquilo que nunca teve.
Ainda assim, quando eles saíram e subiram no Ford, com seus gorros
vermelhos de caca parecendo manchas de cor contra o cinzento do nevoeiro
e as fábricas do outro lado da estrada, sentiu uma contorção. Virou-se
no balcão e rosnou para Gussie:
- Vamos, Bundoca, você já teve sua excitação da semana. Agora, comece a
trabalhar.
- Vá tomar naquele lugar - respondeu ela. Era a primeira vez no dia em
que pronunciava uma palavra.
No Ford, disse Ken:
- No ano que vem, iremos a outro lugar.
- Isso mesmo - concordou Art. - Ele é abelhudo.
- Bem, nós não demos exatamente todo o serviço a ele, demos? - perguntou
Greg.
- Ainda assim - comentou Ken.
- Meu Deus, aquela Bundoca, ou o que quer que ele a tenha chamado... -
comentou Greg. Espichou o longo corpo, enchendo todo o assento dianteiro
ao lado de Kent e arrumou alguma coisa dentro da calça.
Art riu.
- Você devia ter mostrado a ela seu tacape indiano, Anderson. Nós
teríamos conseguido mais do que simplesmente café.
Ken entrou na brincadeira. O membro eqüino e extremamente grande de Greg
sempre lhes provocava uma ou duas risadas extras. Art girou no assento
traseiro para ganhar acesso ao bagageiro. Mexeu na mochila e tirou uma
garrafa com um quarto de litro de Jack Daniel.
- Quem é que já está pronto? Greg sorriu largamente.
- Não há nada como o momento presente. - Aceitou a garrafa oferecida e
tomou um grande gole. Ken recusou. Art reclinou-se no assento traseiro
e, num grande gole, acabou o que restava na garrafa.
- Oh, puxa...
Tinham pela frente naquele momento tráfego pesado, de compradores do
interior e dos subúrbios mais distantes, que se dirigiam para Detroit, e
de homens de negócios com encontros marcados para meados da manhã. As
pistas de vinda estavam congestionadas pela confusão de carros em alta
velocidade, enquanto as de ida encontravam-se praticamente vazias.
- Pobres diabos - comentou Ken. Greg riu.
- Eles que se fodam!
Ken apertou a buzina para ultrapassar outro carro. No assento traseiro,
Art começou a cantar. Greg acompanhou-o. O uísque aquecia e ele sentiu
uma onda de descontraída alegria. Outro ano chegara e mais duas semanas
de uma distração danada de boa e o melhor tipo jamais visto de caçada
estendiam-se à frente deles, sem restrições. Deus, como a vida era boa.

Capítulo 4

NOVE HORAS. Uma multidão congestionava o aeroporto de Kent County, em
Grand Rapids. Um vôo procedente de Omaha era aguardado dentro de cinco
minutos e parentes e amigos o esperavam. Um 727 vindo de Bismarck,
Dakota do Norte, aterrara 10 minutos antes, bem como uni Tri-Star em vôo
da vizinha Dês Moines. Passageiros de ambos os vôos já começavam a
encher o saguão principal. Martin Clement espichou a cabeça, tentando
localizar Nancy. Era um tipo esguio e não parecia muito alto entre
alguns dos homens que estavam à espera do avião, naturais do Meio-Oeste,
indivíduos de um metro e oitenta e sete, e mais ainda. No teto, o
serviço de alto-falantes falava em uma algaravia incompreensível;
motores a jato gemiam do lado de fora, enquanto aviões rolavam pela
pista, afastando-se. Martin, nervoso, não viu conhecido algum. Mas tinha
certeza? As possibilidades eram todas contra o encontro de alguém que
conhecesse, mas poderia ter uma certeza de cem por cento?
Inesperadamente, Nancy surgiu ao seu lado, parecendo pálida, tensa e
algo menos atraente do que a mulher de quem se lembrava. Seria porque
seu cabelo de cor indefinida, nem louro nem escuro, estava preso em um
coque na nuca, num penteado de professora? Ou talvez fosse o casaco.
Parecia barato, comparado com o de Jean, embora, ao mesmo tempo, os
sapatos e a bolsa combinando dessem a impressão de caros demais.
Beijou-a no rosto, preocupado, desviando-se jeitosamente quando ela se
colou a ele, oferecendo-lhe a boca. Segurou-lhe a pequena valise.
- Isso é tudo? Ela sorriu.
- Vou apenas passar o fim-de-semana com a mamãe.
- Ela ainda não instalou telefone?
O sorriso dela alargou-se, ao notar sua preocupação.
- Claro que não. Não se preocupe com isso: Saberia ela como ele estava
embaraçado? Procurou conservar a face relaxada e, arriscando tudo,
beijou-a de surpresa e devidamente e, logo em seguida, sentiu-se
apavorado quando ela riu e, feliz, tocou-lhe a face. Suponhamos que
alguém o houvesse visto?
- Vamos - disse ele. - Podemos tomar café no hotel.
- Que hotel?
- No hotel onde fiquei na noite passada. Não havia avião esta manhã e
por isso vim ontem.
- Não podemos tomar café aqui?
- Eu ainda não paguei a conta do hotel.
Levou-a apressado até a saída principal, desejando ao mesmo tempo que
ela parecesse mais bonitinha e mais o tipo de moça que os homens
imaginam quando saem para passar um fim-de-semana fora. Sentiu-se
levemente embaraçado, como se todas as pessoas por quem passavam
soubessem forçosamente que ele não podia se dar ao luxo de algo melhor
do que aquilo.
- Não há problema - disse. - Eu me registrei como Sr. e Sra.
- Mas eles saberão que eu não estive lá na noite passada.
- Quem?
- Não sei. O recepcionista. Martin riu.
- O hotel é muito grande. Tem dezenas de recepcionistas. De qualquer
modo, houve atraso no seu vôo. Issoé crime?
No parque de estacionamento, apanharam o carro que ele alugara. Quando
se dirigiam para a cidade, ele perguntou:
- As crianças estão bem?
- Misty apanhou um resfriado. E os seus?
- Bem, acho.
Ela hesitou, sabendo que não devia perguntar, mas incapaz de controlar a
curiosidade:
- O que foi que você disse a ela?
- Quem? Jean?
- Sim.
- Negócios. - Ficou silencioso durante um momento. Conversar sobre a
maneira como enganava a esposa embaraçava-o, às vezes, mais do que a
própria infidelidade. Longe dela, sentia-se sempre culpado, amedrontado,
como se ela pudesse descobrir a qualquer momento. Em companhia dela e
sofrendo suas frias apoquentações, seu ar de mandona e recusa sexual,
não podia controlar a impaciência para fugir. Noite após noite,
permanecia em claro, sofrendo, fazendo mentalmente amor com todas as
jovens bonitas que vira no dia anterior.
- O banco está me dando cobertura - disse ele.
- O banco? - Nancy arregalou os olhos.
- Meu chefe. Ele mesmo. - Inclinou a cabeça.
- Puxa!
- Contei a ele uma história dizendo que a irmã de Jean estava doente e
que eu não queria que ela soubesse. Assim, se ela telefonar, ele dirá
que viajei a negócios, justamente o que eu disse.a ela.
- Mas, Martin, ele sabe que você não está, o seu chefe. Como foi que
você se arranjou com ele?
Martin abriu-se num sorriso.
- Ele sabe que eu sei de tudo a respeito da pequena dele. - Em seguida,
arrependeu-se de haver falado. Anuviou-se a face da companheira. Ele
havia, talvez, tornado o caso de ambos um pouco sórdido. Acrescentou,
rapidamente: - De qualquer modo, eu tinha direito a alguns dias de
folga. - Segurou-lhe a mão.
Apaziguada, ela pôs a cabeça no seu ombro. Protegido pelo carro e pela
parede de trânsito anônimo em volta, ele se sentiu seguro. O coração lhe
batia forte; desejava-a. Lembrava-se de seu corpo belo e esguio. Na
cama, ela sempre parecia bela, como um modelo da Playboy. Colocou uma
das mãos sobre a coxa de Nancy. A última vez fora com Nancy. Exceto pela
pequena que pagara em Detroit, duas semanas antes, mas isso realmente
não contava. Elas realmente nunca contavam quando não queriam despir-se.
- Você precisa usar toda essa horrível armadura? Todo mundo está
deixando de usar isso. - Soltou um dos seios e começou a chupá-lo. Ela
lhe empurrou a cabeça e recuou, cobrindo o seio.
- Martin...
- O que é que há?
- Estamos no meio da manhã.
- E daí? Não temos que sair até o meio-dia.
- Mas como é que vamos chegar a Sault Sainte Marie, se sairmos tão
tarde?
- Nós chegaremos lá.
- Por favor, Marty. Eu não quero. - Endireitou o vestido. - Agora não,
por favor.
Ele recuou, magoado e zangado.
- Sinto muito - disse ela. - É que... é que eu simplesmente não sinto
vontade neste momento. Acabei de deixar as crianças em casa e... -
Interrompeu-se, sem poder continuar. - Quero dizer, não podemos esperar
até hoje à noite?
Eddie exercera seus direitos naquela manhã e ela não podia suportar o
pensamento de fazer amor com outro homem. Nem mesmo com Martin.
Martin pareceu amargurado.
- Claro. Eu pensei que você talvez me quisesse, também. Já passou mais
de um mês. Quero dizer, acho que não há nada de anormal em uma moça
desejar também um cara, há? Pensei que você ia querer.
Dirigiu-se mal-humorado para o banheiro e, um minuto depois a água
corria na pia. Nancy ouvia- a, com o sangue pulsando nos ouvidos, e
sentiu-se inútil e culpada. Mas por que tinham que fazer amor dentro de
minutos após todos os encontros, logo que ficavam a sós? Na mesma hora.
Era a mesma coisa, todas as vezes. Despir-se e fingir tomar um banho de
banheira ou chuveiro eram a desculpa para tornar a coisa menos óbvia, a
maneira como ele esperava excitá-la e convencê-la a participar, a
maneira de evitar um não antes que ela pudesse pronunciá-lo. E, logo
depois, diretos para a cama.
Ela sabia por que, ou pelo menos pensava que sabia. Era aquele
conhecimento, desolador e deprimente, que todas as mulheres sempre têm a
metade das vezes. E o fato de saber tornava o feio quarto ainda mais
feio e a rua embaixo cinzenta e horrenda, cheia de gente ameaçadora.
Dissera adeus a Eddie e às crianças e descera apressada sua própria rua,
mergulhando no cinzento amanhecer, excitada, com asas nos pés.. A
excitação de fugir, de ser infiel, de estar com Martin. E Martin, de
alguma maneira, estragara tudo com o porquê da necessidade que sentia
dela.
Pois não era a mesma razão por que ela necessitava dele. Na última vez
em que haviam viajado juntos, ela sentira aquilo, imaginara-o, talvez.
Naquele momento teve certeza.
Mas, teria mesmo? Queria-a ele, realmente, e não simplesmente a uma
mulher, qualquer mulher? Subitamente, alimentou esperanças. Um caminhão
de mudanças passou barulhento pela rua, com o nome da companhia, imenso,
em letras vermelhas e douradas no fundo branco. Alguém começando uma
nova vida. Algum dia, talvez, ela e Martin pudessem mudar-se também.
Martin não era Eddie. Era Martin. O desejo dele por ela tinha que ser
permanente. Não por causa de Jean. O amor que um homem fazia com uma
mulher não era tanto uma maneira de demonstrar afeto como uma
necessidade de alívio físico? Lera isso em algum lugar. A maioria dos
homens, de qualquer maneira. Não, Eddie. Eddie simplesmente usava-a e ia
dormir. E somente quando estava bêbado. Ou no princípio da manhã.
Uma porta abriu-se na escuridão de sua mente e surgiu uma fresta de luz
inesperadamente alegre e feliz. A fresta alargou-se, como se alguém
houvesse aberto ainda mais a porta. Embaixo, a rua tornou-se, de súbito,
luminosa e descuidada e cordiais os encontrões dos transeuntes. Ela era
ainda jovem e atraente. Martin fazia a barba e mostravase bondoso e
paciente, nada de insistência. Trouxera calças jeans apertadas, porque
sabia que ele gostava delas, e umas duas suéteres frouxas. O tipo de
coisas que pequenas elegantes usavam até mesmo no Vogue quando iam
passar um fim-de-semana fora com um homem. Deixaria o soutien na cômoda
e, com ele, todas as suas inibições.
O pensamento fê-la soltar uma risadinha. Despiu-se em questão de
segundos. Um rápido olhar ao espelho. Um relâmpago de carne branca e
olhos com sombreado escuro. Não era mais jovem. Tinha 30 anos, mas
possuía ainda um bom corpo. Oh, o diabo levasse Eddie com seu hálito e
suor cheirando a cerveja, o seu pegajoso e egoístico peso sobre ela.
Livre-me dele, Martin. Para sempre, para todo o sempre. Leve-me para
longe.
Dirigiu-se ao banheiro e parou no umbral, esürando-se um pouco sobre as
pontas dos pés para dar ao corpo um comprimento extra, apoiando-se com
um braço no portal, da maneira como vira modelos nus em revistas
masculinas. Martin viu-a pelo espelho e virou-se, devagar.
- Bem... - Sorriu estupidamente, tomado inteiramente de surpresa,
boquiaberto, incapaz de controlar osolhos.
Ela retribuiu o sorriso, satisfeita, entrou no boxe e abriu o chuveiro.
- Vou já para aí junto de você - disse ele. - Não entre em pânico. Vou
agora mesmo.

Capítulo 5

MAIS OU MENOS ÀS SEIS DA NOITE, Ken paroua perua Ford à porta de um novo
motel, a algumas milhas além da Mackinac Bridge, a cavaleiro da ilha de
Mackinac, o Lago Huron a sudeste. A oeste, estendia-se o Lago Michigan
e, a 50 milhas ao norte, do outro lado da península,, as praias ermas do
Lago Superior. Encontravam-se a apenas63 milhas de Sault Sainte Marie e
do Canadá. A noite estava clara e estrelada. Fazia um frio cortante, num
prenuncio do inverno que chegava com o fim do outono. No dia seguinte, o
chão estaria congelado e branco de geada.
O motel era moderno e atraente e, para a estação, encontrava-se
relativamente cheio. Havia certo número decaçadores, voltando para casa
após o encerramento da temporada de caça aos ursos. No bar, um negro
tocava um piano bastante razoável. Na acolhedora sala de jantar, jovens
locais bem apessoados esperavam em suas mesas, algoembaraçados, sob a
supervisão fria de uma maítresse grisalha de meia-idade. Todas as
cabanas contavam com televisão, serviço rápido e havia garagens
individuais, com cadeados, que davam diretamente para os quartos. Mais
importante ainda: devido a essa organização, todos os quartos eram
isolados uns dos outros. Podia-se fazer tanto barulhoquanto se quisesse.
Ken pensou nisso no momento em que Art sugeriu umas pequenas. O que mais
queriam era não chamar a atenção. Basicamente, encontravam-se ali para
caçar, não para farrear. Bem, se as pequenas chegassem bem cedo após o
jantar, quando a maioria dos hóspedes encontrava-se no bar, de onde
saíam tarde, as possibilidades eram de que ninguém soubesse de coisa
alguma.
Alugaram uma suíte, um quarto com duas camas e uma sala de estar com um
sofá-cama. Kent levantou o telefone da mesa de coquetel de tampo de
vidro, discou e esperou. Vinte dólares haviam levado o garçom do bar a
fornecer o desejado número, enquanto tomavam uns drinques após se
registrarem. O garçom certificou-se primeiro de que eles não eram
policiais estaduais.
O telefone ronronou, chamando Sault Sainte Marie. Respondeu uma voz de
mulher. Uma voz jovem. Ken calculou uns 18 anos, ou menos, e sentiu uma
estranha excitação.
- Sandy?
- Sim? - Voz levemente cautelosa.
- Estou no Trilake com dois amigos. Quarto 28. Mais cautela ainda:
- Quem foi que lhe disse para telefonar?
- O garçom do bar. Aquele de bigode mexicano.
- Você quer jogar bridge? - perguntou ela. Uma declaração simples. Era
um código.
Ken continuou a falar, da maneira como o garçom havia ensinado, gostando
do tom de voz infantilmente macio e ébrio da moça.
- Isso mesmo - concordou. Imaginou-a morena, esguia, de boca rasgada
cabelos longos e busto pequeno e firme. O garçom dissera que ela não era
uma verdadeira profissional, ela e as amigas. Estavam na escola
secundária, eram filhas de boas famílias e faziam amor ocasionalmente,
apenas quando queriam um novo vestido ou adquirir outra coisa. Os pais
pensavam que ganhavam dinheiro tomando -conta de bebês por hora.
Ela hesitou:
- São necessários apenas quatro para formar uma mesa de bridge. Já há
três de vocês.
Ele pensou durante um instante que ela ia desligar. Compreendeu então
que ela fazia uma pergunta e ele teria de responder. Ela tinha razão,
claro. Uma pequena seria suficiente para os três. E preferível para ela
porque, dessa maneira, ganharia mais. Mas ele não estava disposto a
esperar sua vez. Não, naquela noite. Não, naquele momento, de qualquer
maneira. Ou para dividir mulher. Isso poderia acontecer depois.
- Nós gostaríamos de uma festinha de seis pessoas. Pensamos que cada
dois de nós faria uma jogada. Tornaria o jogo mais animado. E manteria
os perus longe do jogo.
Houve uma pausa. Sentiu que ela pensava. Sentiu o primeiro leve
desapontamento da moça e, em seguida, o sorriso. Retribuiu
silenciosamente o sorriso e pensou: "Deus, está resolvido."
Após um momento, ela voltou ao telefone:
- Qual é o seu nome?
- Ken.
- A que horas, Ken?
Ele lançou um olhar ao relógio. Sete horas. Terminariam o jantar lá
pelas nove.
- Nove e trinta?
- Muito bem. Qual é mesmo o número do quarto?
- Vinte e oito.
- Muito bem. Tem baralhos em números suficientes?
- Tenho três. - Fora isso que lhe haviam dito que dissesse. Dizer a ela
que tinha três baralhos e não admitir que ela pechinchasse, pedindo
mais. Há 52 cartas num baralho. Isso significava 52 dólares para cada
pequena. Pela noite. Bastante justo. Poderiam trocá-las uns com os
outros se elas fossem boas, e conseguir quilometragem extra pelo
dinheiro. Para certificar-se, acrescentou: - São para jogarmos a noite
inteira.
Ela compreendeu, murmurou um protesto vagamente mal-humorado e disse,
outra vez:
- Muito bem. Nove e trinta, Ken. - E desligou. Ken despiu-se e serviu-se
de uma bebida. O serviço de quarto trouxera duas garrafas de Jack
Daniel's, um pouco de gelo e ginger ale, juntamente com batatas frias e
amendoim. Uma das garrafas já estava pela metade. Precisava pedir outra
para a festinha.
Vindo do banheiro, onde tomara um banho de chuveiro, entrou Greg, alto,
musculoso, envolvido numa toalha que parecia ridiculamente pequena em
contraste com seus largos e maciços ombros. O espesso cabelo preto que
subia em leque de seu estômago chato para o peito proeminente ainda
brilhava com gotas d'água. Os pés deixavam pegadas úmidas no tapete.
Quando bebeu, não se preocupou com gelo ou copo; tomou o gole
diretamente no gargalo da garrafa, virando a cabeça para trás.
- Como é que vai a coisa?
- Tudo combinado. - Ken, involuntariamente, olhou para o membro pendente
de Greg, da grossura de um punho. Jesus, ele era realmente um anormal!
Como era que Sue conseguia agüentar aquilo? Ou qualquer outra mulher,
por falar nisso? Com um esforço, desviou o olhar.
Greg pôs a garrafa ao lado, enxugou a boca com as costas do antebraço e
começou a esfregar o cabelo com a toalha.
- Ela pareceu boa?
- Uns doces 16 anos. E vai trazer uma amiga especial para você. Quer ser
domada por um cavalo.
Greg riu inocentemente e bebeu um pouco mais.
Art entrou, vindo do outro quarto. Já havia tomadoum banho de chuveiro e
parecia respeitável, de camisa e gravata, calça de flanela e paletó de
tweed, de corte inglês. Tirava o rifle da bainha, examinando-o.
Greg correu-o de alto a baixo e perguntou:
- Sente-se melhor? - Art havia emborcado um quartilho inteiro na viagem
até ali, um frasco de meio quartilho pela manhã e um segundo no começo
da tarde. Dormira em seguida, acordando de ressaca ao anoitecer.
- Estou vivo. - Lançou um olhar a Kent e, em seguida, a Greg. - Merda
qualquer um pensaria que vocês são frescos, ou coisa parecida. Guardem
um pouco para as pequenas.
- Você vai terminar com um olho inchado. Art riu.
- Escute, amigo, eu estou com fome.
- Paciência, irmão. - Greg afastou-se para se vestir.
- Comporte-se bem, ou diremos à sua pequena para mordê-lo.
Art permaneceu sério e respondeu:
- Bem, eu talvez goste disso.
Ken soltou um assovio imoral, entrou no banheiro e abriu o chuveiro.
Fora um dia agradável. Desde começos da manhã, a clareza do tempo
prometia que ele se conservaria bom pelo menos durante uma semana,
talvez até mais. Greg, excitado pela piranha do Denver's Diner, entrara
em maré de contar histórias e regalara Art com o Vietnã e a batalha em
terra, que Art não conhecera. Falou sobre as pequenas que haviam
arrancado de acampamentos suspeitos de ligações com o Vietcong e a quem
haviam ensinado algumas coisas, preparando-as para os esfomeados caras
da unidade que viriam em seguida; os aldeões nativos que haviam
arrebanhado em fossos para serem exterminados a granada; a maneira como
obrigavam prisioneiros terroristas a falar - podia-se fazer qualquer
pessoa falar, usando nada mais letal do que uma caixa de fósforos e uma
mangueira de jardim com água em alta pressão, e quem é que ia saber? Ou
se importar? Que diabo, aqueles nativos eram uma espécie de gente
subumana, não? Não importava o que os bonzinhos e os cientistas
dissessem. Eles eram iguais aos negros e chineses. Não eram capazes dos
mesmos sentimentos que os brancos. Todo mundo sabia disso.
Melhor que tudo, não tinha havido Helen nem as crianças. Ken deixou que
o jato quente descesse pelo rosto e pensou. Era muito mais divertida
quando o cara era solteiro, aí estava a simples verdade. Solteiro, podia
fazer o que quisesse. Podia fazer todas as coisas que a maioria das
mulheres topava apenas para fisgar o cara quando o conhecia, mas que
poucas continuavam a tolerar e a maioria final e furiosamente se
recusava a fazer depois. Não apenas sexo, mas um bocado de outras
coisas. Como lugares que se queria conhecer e amigos que se queria
fazer. Elas faziam o que o cara queria e levavam-no a pensar que
adoravam aquilo, até que o conduziam ao altar e davam à luz um número
suficiente de filhos, para ter certeza do que o que fora pronunciado no
altar ia valer. Em seguida, era à maneira delas, ou não absolutamente.
Mas, apesar de tudo, o casamento era uma instituição necessária.
Gostasse ou não, o cara tinha de aceitá-lo. A sociedade exigia esoosas,
insistia em que o cara vivesse legal e respeitavelmente durante toda a
vida adulta com mulheres como a sua Helen ou a Sue de Greg, que, de
certa maneira, tinha mais culhões do que Greg e Cristo todo-poderoso -
isso era dizer alguma coisa; e a Pat de Art, cuja boca se tornara um
traço amargo nos últimos anos e que, dizia Helen, estava passando a
gostar de mulheres porque nem Art nem qualquer outro homem podia dar-lhe
o que ela queria na vida, o que quer que isso fosse. Pat nem mesmo
conhecia-se a si mesma. Nascera insatisfeita.
Graças a Deus, Helen não era tão complicada assimr pensou. Mas por outro
lado, talvez fosse aí que ela errasse. Talvez ela não fosse
suficientemente complicada. Era simplesmente a mulher comum que entrava
na meia-idade, perdendo aos poucos a boa aparência e, para compensar,
fingindo que sabia um bocado de coisas a respeito de um bocado de
coisas. Bem, ela provavelmente sabia, mas, ainda assim, não possuía
intelecto e jamais o possuiria. O que aprendia na vida com a leitura, a
conversação ou as viagens era algo aprendido apenas academicamente, como
a química na escola, e não se aplicava à realidade de si mesma e de sua
própria experiência. Ela não podia compreender, por exemplo, que talvez
fosse melhor viver com alguém sofisticado como ele mesmo, alguém que
podia pensar, do que um Greg, um bom e autêntico calhorda, que ganhava
bom dinheiro, é fato, mas que, a menos que o cara estivesse
compartilhando de mulheres com ele, caçando, rindo de seu membro
acavalado ou escutando suas histórias de guerra e sobre quantas marcas
fizera no fuzil, não demonstrava qualquer afinidade com os amigos. Helen
não podia compreender isso. Para ela, Greg era igual a ele. Se tivesse
casado com Greg, teria sido igualmente feliz. Ela tampouco podia
perceber a diferença entre ele e Art. Não porque Art estivesse ficando
careca, barrigudo ou porque bebesse demais e, no fundo, fosse um tipo
anormal - anormal de alguma maneira - mas porque Art nunca fazia, sentia
ou pensava em coisa alguma sem se sentir obrigado a discutir e a
dissecar. Deus, se fosse mulher, ele não teria casado com Art nem que
todas as contas de publicidade nos Estados Unidos estivessem à procura
de uma nova agência.
Para Helen, na verdade, todas as pessoas eram iguais. Eram simplesmente
porta-vozes de cumprimentos. Quando preparava uma refeição, e era uma
excelente cozinheira, não o fazia para agradar aos amigos, ao marido ou
aos filhos. Fazia-o apenas para perpetuar o mito de que era a melhor
cozinheira da cidade. Acontecia o mesmo na cama. Andava excitada a maior
parte do tempo, ou fingia estar. Mas não era para fazê-lo feliz, sabia
Ken, ou porque realmente gostasse de fazer amor. Era para manter uma
reputação junto a ele e, em última análise, junto a todas as pessoas,
pois todos os homens que têm uma mulher ardente bravateiam-se disso,
mais cedo ou mais tarde.
Ken fechou o chuveiro e enxugou-se. Com Helen, ele era apenas mais uma
alavanca necessária para elevar a imagem dela e ajudá-la a superar as
demais pessoas.
Depois, pensou: diabos o levem, deixe de queixar-se. Era muito mais
feliz do que a maioria. Podia fugir todos os anos. Fugir, fazer uma
farra danada, e ninguém sabia de coisa alguma. Podia bancar o pai babado
e o marido paciente e tirar proveito disso nos negócios e, depois,
durante três semanas por ano mais ou menos, soltar-se e fazer todas as
coisas concebíveis em que outros homens apenas vagamente pensam, nas
suas mais loucas e passageiras fantasias.
Podia ser uma vez por ano o que todos os homens realmente são,
geneticamente, instintivamente, forçado pelas monótonas cadeias da
sociedade e também pela irritante histeria das mulheres emancipadas
psicologicamente. Podia ser um selvagem animal predador, um selvagem
animal sexual e, simultaneamente, um homem moderno, disfarçado,
deformado, complexo, livre para espojar-se sem pudor na doença de
qualquer perversão que lhe pudesse acudir à fantasia.
Organizara sua vida dessa maneira. O mesmo haviam feito Art e Greg.
Desde o dia em que se haviam conhecido na faculdade. Era esse o elo
férreo que os unia. Podiam beber até adoecer, trocar entre si
adolescentes nãomuito mais velhas do que suas próprias filhas e caçar
com uma selvageria sonhada, mas jamais tentada por outros homens.
Saiu do banheiro e disse:
- Muito bem, muito bem. - E desafiando Helen, toda a sua maldita vida
social, seu chefe na agência e todos os demais calhordas virtuosos de
sua cidade, postou-se de pernas abertas, nu, meio excitado como ficara
Greg, e tomou dois goles profundos de bourbon no gargalo da garrafa.
Vestiu-se em seguida e foram todos jantar.

Capítulo 6

O RELÓGIO MARCAVA TRÊS E DEZ quando Nancy acordou. Ao seu lado, a
respiração calma e rítmica de Martin dizia-lhe que o sono dele era
profundo e tranqüilo. Haviam viajado muito desde o meio-dia sem sequer
se deterem para o almoço e já era noite quando cruzaram o Mackinac
Straits. Ela não conseguira ver coisa alguma e ficara profundamente
desapontada. Preferiram hospedar-se no Triíake Motel a continuar até
Sault Sainte Marie. Martin prometera que viajariam pela manhã e iriam
mesmo até o Canadá. A sala de estar estava quase vazia quando se
sentaram para jantar. Mais tarde, Nancy sentira desejo de dar um passeio
no frio ar da noite, conhecer o lago e voltar ao bar para escutar o
pianista negro, que tocava bem. Martin, porém, somente conseguia pensar
em cama. E ela lhe havia feito a vontade.
Naquele momento, o corpo lhe doía da insistente e mecânica técnica
amorosa de Martin, que ele estragara, no que lhe interessava, pela
freqüência com que, em triunfo, exigia uma confirmação de sua
capacidade. Estava tudo bem, ela estava gostando - sabia quanto tempo
haviam demorado daquela vez? Era uma espécie de exibicionismo do tipo
sair-com-os-rapazes, e ela achou que estava sendo usada. Na última vez,
ele levara uma eternidade e, quando finalmense conseguira, caíra
adormecido sobre ela. Mas não fora o desapontamento provocado pela
atitude dele, crê seu corpo machucado ou do suor de ambos que custava a
secar que a conservara acordada. Era o medo de ser descoberta traindo o
marido. Durante toda a noite seu coração havia batido em disparada, numa
espécie de sofredora cadência que se transformara em insistentes e
confusas visões.
Os seus filhos estariam bem, ou seria essa a ocasião em que um deles
poderia sofrer um acidente bastante sério para que Eddie telegrafasse à
sua mãe e descobrisse que ela não estava lá? Talvez até já soubesse.
Havia ele desconfiado ou lhe percebido as mentiras antes que ela saísse
de casa? Em certo momento, ouviu um pequeno ruído do lado de fora e seu
coração saltou com mais força ainda. Teria Eddie enviado detetives?
Teriam sido ela e Martin seguidos? Dentro de um momento arrombariam a
porta, com as câmaras fotográficas relampejando, rindo, puxando lençóis.
A face de Eddie dançou à sua frente, com um brilho assassino nos olhos
apertados e um largo sorriso nos grossos lábios. Por que havia casado
com ele, aquele estranho completo? Por incrível que parecesse, ele devia
tê-la feito sentir alguma espécie de amor no passado, ou fora somente a
solidão que a convencera? Obscuramente, mesmo naquele momento,
lembrou-se do sofrimento de noites solitárias em um quarto mobiliado em
Detroit, de sanduíches e café em lanchonetes ofuscantemente iluminadas;
de noites de verão, olhando para ruas quase vazias, todo mundo viajando;
de noites de inverno lendo revistas, uma após outra. Saíra da escola
secundária aos 17 anos diretamente para trabalhar na General Motors.
Moças menos inibidas haviam conquistado os melhores homens, até que ela
entrara em desespero a ponto de julgar que qualquer homem serviria.
E, naquele momento, Martin, que dificilmente se poderia chamar um homem
bonitão e, menos ainda, um vencedor na vida - não em comparação com um
bocado de homens da mesma idade. Amava Martin. Amava, realmente? Ou
seria ele um refúgio, como fora Eddie; alguém que poderia ajudá-la a
fugir outra vez? Era uma questão em que não ousava sequer pensar, e
menos ainda responder.
Às três e trinta, afastou-se de Martin, dirigiu-se ao banheiro e acendeu
um cigarro. O espelho refletiu uma face pálida, uma cabeleira castanha
despenteada, que já não parecia viçosa, e seios longos que haviam
perdido muito da firmeza da juventude. Apagou furiosa o cigarro,
espalhando fagulhas pelo chão de mosaico, queimando o peito do pé,
odiando-se por não apreciar a si mesma. Não era tão má assim. Eram os
homens e os maus-tratos intermináveis a que a submetiam que a levavam a
odiar-se a si mesma. O sexo não era tão importante assim. O importante
era casar. Martin dissera que queria. Neste caso, por que não podiam
fugir, desta vez? Fugir realmente. Deixar Eddie, deixar Jean e iniciar
um processo de divórcio? Cinco dias livres estendiam-se diante deles,
nos quais podiam fazer um rompimento completo e final, planejar jamais
voltar para casa.
Concordaria ele? Ou Jean o prenderia? Ela o tinha encurralado, isso era
certo. Por quê? Não deixava que ele a procurasse, ou pelo menos era isso
o que ele dizia. Não cozinhava e era péssima mãe, a casa vivia em
desordem, não gostava de nenhum dos amigos dele, flertava com outros
homens - e, com toda probabilidade, era mesmo infiel - zombava do seu
emprego e vivia lhe dizendo que era um fracassado e que jamais
conseguiria alguma coisa na vida.
Nancy vira-a uma única vez. Numa festa, na mesma noite em que conhecera
Martin. Era uma mulher de boa aparência, cabelos cor de mel, roupas
certas, boca de mulher decepcionada e uma expressão dura e arrogante,
mesmo quando fazia brincadeiras com outros homens. Fazia com que as
demais mulheres se sentissem imediatamente inferiores. Fora esse o
motivo por que concordara em tomar um café com Martin quando ele
telefonara no dia seguinte.
Haviam, sem querer, iniciado um caso. No início, um ou outro almoço
secreto. Depois, certa tarde, uma hora num motel. Em seguida, mentiras a
Eddie e mentiras a Jean, e um nervoso fim-de-semana - Martin
temerariamente insistente quando a desejava e dilacerado pela
preocupação e pela culpa, cada vez que gozava. A situação não podia
continuar assim. Finalmente, resolveram dar o caso por encerrado. Até o
mês passado, quando Martin encontrou-a por acaso na rua e lhe disse que
não podia viver sem ela.
Com um choque, notou Nancy que estivera sentada no banheiro durante
muito tempo. Eram cinco e trinta. Apagou a luz e, cansadamente, voltou
para a cama. Martin acordaria logo depois e a desejaria, da maneira como
os homens geralmente fazem quando acordam. Tenteou pela escuridão
desconhecida do quarto e ouviu vozes abafadas do lado de fora e um riso
reprimido. Por curiosidade, entreabriu a cortina e olhou. Três moças
saíam nesse momento do quarto ao lado, onde estavam hospedados aqueles
jovens tão bonitões, aqueles que tinham uma perua entulhada de
equipamento de camping. Na noite passada, durante o jantar, ela os havia
examinado de soslaio, notado as suas roupas caras e sofisticados
maneirismos. Em algum lugar, eles eram de propriedade de felizes
mulheres. A maitresse pairara em volta deles como se fosse uma escolar,
e as garçonetes correram para servi-los, enrubescendo todas. Tinham
dinheiro e davam essa impressão. Bem sucedidos na vida. Profissionais
que haviam vencido em Detroit ou em Chicago. Tinham que ser.
Por isso mesmo, as pequenas constituíram um choque para ela. Em primeiro
lugar, o fato de, simplesmente, ter havido pequenas. Homens como aqueles
precisariam delas? Por certo, suas esposas eram atraentes e fariam
qualquer coisa para conservá-los e a vida de luxo que eles lhes
proporcionavam.
Em seguida, a idade das moças, a rápida impressão que deram, ao passarem
em passos rápidos por baixo do cone de luz amarela da lâmpada, de jovens
corpos esguios, quase de rapazes, crianças. A lourinha não podia ter nem
15 anos.
A escuridão morta de antes do alvorecer, aureolada por um fraco nevoeiro
noturno, fechou-se em volta delas. Ouviu um som distante de motor de
carro e, em seguida, silêncio.
Na cama Martin murmurou no sono e virou-se. Nancy esperou. Logo depois,
o ruído da respiração disse-lhe que ele dormia profundamente mais uma
vez.
Voltou ao banheiro e fechou a porta. Tremia. Sentia vontade de vomitar e
tinha a pele arrepiada. Sem poder resistir, abriu o chuveiro, entrou e
ensaboou-se uma vez após outra, tentando lavar a horrível sujeira que
sentira ao olhar pela janela. Sujeira e raiva. Seria o sexo a única
coisa em que os homens pensavam, ou queriam? Não podia ser. O homem
construía também monumentos, dirigia governos e escrevia grandes livros
e grande música. Ia aos supermercados e lojas de departamento com as
esposas, aju dava a criar os filhos, comparecia às reuniões da
associação de pais e professores, freqüentava jogos de futebol e
segurava polidamente na mão copos de bebidas enquanto fazia observações
graves sobre a vida, em refinadas festas. Um homem amava uma mulher, uma
mulher amava um homem, casavam, compravam uma casa, faziam amor e
criavam filhos, sim, mas faziam também mais do que isso - criavam algo
juntos, uma unidade, de importância muito maior do que amor furtivo em
motéis. Mesmo motéis caros como aquele.
Uma parada de humanidade desfilou ante os olhos de Nancy, sob o jato
prateado da água do chuveiro. Romanticamente, como em livros infantis
ilustrados, viu homens e mulheres a caminho de escritórios na cidade,
cuidando de campos e pastagens, voando por céus azuis, cruzando verdes
mares. Crianças, em um imenso número de escolas, marcharam pelo
horizonte de sua mente. E bibliotecas, edifícios públicos, hospitais,
universidades. Ouviu bem no íntimo os tons sérios de professores,
políticos e sacerdotes falando em microfones, tribunas e púlpitos.
Quando fechou a torneira e secou-se, sentiu-se melhor. Talvez aquilo que
os três homens no quarto vizinho devem ter forçosamente feito na noite
anterior fosse somente um pequeno episódio em suas vidas. Era bem
possível que eles vissem a vida da mesma perspectiva que ela. Se assim,
então eles não eram obstinados por atos vergonhosos e poderiam ser
perdoados, e o que ela vira jamais alegado contra eles. Tinha que ser
assim. Eram indivíduos respeitáveis, o tipo de pessoas que todos
tentavam imitar.
Enrolou-se numa toalha e aconchegou-se, na escuridão, em uma cadeira
acolchoada, esperando que Martin acordasse, tomando o cuidado de repelir
todas as intrusões de pensamentos baixos, por mais passageiros fossem,
mantendo-se pura.
Martin a amava. E ela gostava de Martin. Não era importante que, na
cama, não sentisse muita coisa com ele; nunca sentira com homem algum.
Ele era um homem bom e era normal que a desejasse e que quisesse que ela
se orgulhasse de seu desempenho. Pediriam divórcio a Eddie e a Jean e
casariam. Às crianças ficariam bem. Nos dias atuais, as crianças se
ajustavam; eram jovens e acordos podiam ser feitos. Mentalmente,
entreviu advogados, gabinete, uma vara de família e um juiz.
- Ei. - Era Martin, sentando-se na cama. Raiara o dia e a luz do sol
enchia de cinzento o quarto. - O que é que você está fazendo aí?
Ela se aproximou.
- Olá.
Quando pôs os braços em volta dele, Martin exalava cheiro de sono e do
amor feito na noite anterior. Embora relutante, não resistiu. Tomou um
segundo banho de chuveiro com ele, pediram café no quarto e planejaram o
que fazer durante o dia.
- Vamos ao Canadá. Por favor.
- Canadá?
Notou-lhe a hesitação na voz. Na noite anterior, ele dissera que sim.
Mas na noite anterior ele estivera bebendo.
- Eu nunca estive no Canadá.
- Bem, eu não disse que não.
Aumentara a hesitação. O sorriso era falso. Ele sabia o que ela tinha em
mente quando falava no Canadá, e sentia medo.
- Oh, Martin, vamos fazê-lo. Agora. Vamos deixar de conversar sobre isso
e agir.
- Nancy, não é tão simples assim.
- Mas é. Seria duro para as crianças durante um mês, certo, talvez uns
dois meses. Depois, todos se acalmariam e se acostumariam. Eddie
arranjará uma nova esposa e Jean dará um jeito. Não se preocupe com
isso. - Amargura insinuou-se em sua voz. - Oh, ela dará um jeito, sim.
Ele, sentado à beira da cama, parecia um menino sendo castigado,
semivestido, esfregando nervoso as mãos. Ela continuou, insistente:
- O que eu quero dizer é: qual a grande dificuldade? Quase todo mundo se
divorcia. Três em cada quatro casados.
- Ela descontaria isso nas crianças - explodiu ele. - Você não a
conhece. Ela não é como as outras mulheres. Matará as pobres crianças.
- Mas você não compreende que é justamente isso o que ela quer que você
pense? Marty?
Não houve resposta. Sentou-se ao lado dele e sacudiuo com força.
Ele continuou calado. Sentindo-se como morta, ela se dirigiu para a
penteadeira, passou a escova pelos cabelos e desistiu.
- Você não quer realmente deixá-la, não é? Não, realmente!
- O diabo, que não quero!
Mas a voz o traiu. Havia alívio nela, porque sabia que havia desistido e
que, pelo menos por ora, não ia insistir. Podia, agora, dar-se ao luxo
de negar.
Ela revolveu a verruma pela última vez. Era um direito que lhe assistia:
- Aí é que está o problema real. - Se realmente quisesse, você o faria.
Caiu um silêncio. Ele se voltou tranqüilo, sentindo uma nova segurança.
- Nancy, você quer me ouvir? Há tempo para tudo. Nós não podemos
simplesmente fugir... sem mais nada. Jean tomaria todos os meus bens e
seria preciso tempo e um bocado de dinheiro para organizar tudo
novamente. Você sabe disso. Com toda probabilidade, eu perderia o
emprego. É assim que são os bancos. Se acham que o cara é imoral, não o
querem porque pensam que isso significa que ele não é estável. Õ que
pensariam os clientes? - Matutou um pouco e continuou: - Eddie seria a
parte injuriada, não você. Você não receberia coisa alguma. Nem mesmo a
guarda das crianças.
Ela olhou fixamente para o vazio em frente. Logo en seguida, ele se
aproximou, agachou-se aos seus pés e tomou-lhe a mão.
- Nancy, não vamos brigar. Não, agora, por favor. Surdamente, ela
respondeu:
- Martin, eu quero lhe perguntar uma coisa.
- Pois, pergunte.
Era algo que ela precisava saber e que tinha o direito de saber. Havia a
menor esperança? Olhou firme para ele.
- Você me ama?
Esperou, observando-o, tentando ler-lhe os olhos, ver se ele estremecia.
As mãos dele seguraram firmes as suas.
- Você sabe que a amo. - A voz era cálida.
Ele me ama, pensou ela. Eu sou tudo o que ele tem. À sua covarde
maneira, ele me ama. Talvez o suficiente para deixar Jean algum dia. Mas
não agora. Teve, assim, um momento de esperança. O mesmo tipo de
esperança que luzira por um instante, pouco antes do amanhecer. A
esperança lhe daria tempo. E o tempo lhe daria oportunidade de prendê-lo
e mais e mais intimamente, da maneira como Jean o fazia.
Ergueu-lhe a face e beijou-lhe suavemente os lábios.
- Não podemos ir mesmo ao Canadá?
- Claro que podemos. - Ele encolheu os ombros e sorriu. Ela o fitou, não
como se ele fosse um homem magro, infeliz e cansado, mas como se fosse
um de seus próprios filhos.
Beijou-o outra vez. Fizeram as malas, puseram-nas no carro e partiram.
No momento em que se afastavam, ela viu os três homens tirando a perua
da garagem. Suas camisas de caça eram manchas brilhantes de cor no
começo da manhã. Lembrou-se, então, das meninotas e do nojo que sentira.
Algo que abafara, algo que chegara a esconder de si mesma, enquanto
lavava no chuveiro aquilo que vira, subiu naquele momento à superfície.
Durante o mais curto dos momentos, apresentou-se com cristalina clareza.
Pensar em três homens e três prostitutas infantis no mesmo quarto, nuas,
fazendo publicamente, uma na frente da outra" e em frente dos homens, o
que as prostitutas sempre faziam, esse pensamento- em si não a havia
revoltado. O que arevoltara fora que, durante um instante, ficara
excitada com aquela visão e quisera, desesperadamente, ter estado ali
com elas.

Capítulo 7

ACENDER UMA FOGUEIRA em uma zona densamente arborizada constitui uma
revelação letal de que há gente por ali. Se alguém - o guarda florestal
que passa por acaso, o bombeiro agrícola ocasional, o caçador ou
excursionista casuais, ou mesmo um aviador - vê aquilo de uma posição
privilegiada qualquer, com toda probabilidadedescobre imediatamente a
presença de outrem, pois poucos são os homens com conhecimentos
suficientes ou habilidade bastante para acender uma fogueira capaz de
lançar para o alto colunas de quente ar incolor inteiramente livres de
qualquer uma daquelas pequenas mas traiçoeiras partículas de materiais
carboníferos, geralmente conhecidos como fumaça.
A ocasião de acender uma fogueira, então, é à noite. Mas isso cria outro
problema - o brilho dos carvões ou o bruxulear das chamas - pois até a
menor das fogueiras produz alguma espécie de luz.
Em vista disso, ele tomara todo o cuidado na noite anterior. Não era que
estivesse aproximandose do covil de sua presa eventual; esta ainda
estava inocentemente distante. Era para evitar a menor possibilidade de
encontrar alguém que poderia, algum dia, em circunstâncias totalmente
imprevistas, lembrar-se dele e somar dois e dois. Nãoia arriscar-se.
Tirou inteiramente da água a canoa de alumínio e cobriu-a cuidadosamente
com folhas secas e ramos caídos tão cuidadosamente que um mateiro
experiente teria tropeçado nela, mesmo em dia claro. Apagou todos os
sinais nas moitas à beira da água e entrou uns 100 metros na floresta
densa, até encontrar um terreno rochoso, relativamente mais alto do que
o terreno circundante, com uma depressão em forma de prato, de modo que
uma fogueira não pudesse ser vista de baixo. Para ficar completamente
certo, cobriu o fogo com uma grande pedra chata, apoiada em três outras
do mesmo feitio, que formaram uma parede sem frestas em torno do fogo. O
quarto lado, o lado aberto, dava para uma grande faia. Sentaria de
costas para ela enquanto estivesse preparando a refeição.
Sabia exatamente onde se encontrava. Conhecia todas as árvores, todos os
arbustos, todas as rochas. No ano passado, viera e estudara o local
durante o dia, traçando um mapa exato. Nos meses intervenientes viera a
conhecer o local melhor do que sua própria sala de estar.
Na noite fria e escura como tinta, reuniu rapidamente, sem problema
algum, um número suficiente de pequenos galhos e raspou bastante cavacos
para obter as brasas de que precisaria para cozinhar. O isqueiro a gás
lançou uma longa e fina língua de chamas nas folhas secas
semipulverizadas. Uma pequena coluna de fumaça subiu e dispersouse na
noite, antes de chegar a um metro de altura. Penetrou outra vez nas
trevas, a uns três metros do fogo, e esperou paciente e em completo
silêncio. Excluindo o alto murmúrio ocasional dos últimos grilos do
outono e o leve som cascateante do rio, nada mais ouviu. Havia silêncio
na noite. Nenhuma brisa fazia estalar as árvores, cuja seiva se
congelava.
Voltou à fogueira e tirou um pouco de sopa desidratada da mochila.
Derramou o conteúdo num caneco, lançou o pacote de papel às chamas e
adicionou água tirada do cantil. Com a longa faca de caça, reuniu
algumas brasas, quentes ao branco, e pôs o caneco sobre elas. Fizera a
fogueira com madeira de lei e haveria pouca fuligem nofundo da caneca
para lavar, mais tarde.
Logo que a sopa esquentou, bebeu-a e limpou o caneco com algumas folhas,
que tomaram o mesmo caminho de desaparecimento do pacote de sopa. Tirou
outro pacote da mochila. Era maior e envolvido em papel impermeável,
Pesava mais ou menos meio quilo. Um bife. Aquela noite seria
provavelmente a última em que faria uma refeição -quente durante dias.
Queria tirar o maior proveito dela.
Enfiou a carne num espeto fino, atiçou o fogo, transformou-o numa cama
de brasas e colocou o bife em cima. Pensara com todo o cuidado no único
risco que não podia evitar. O cheiro. Resolvera arriscar-se. Em uns 10
segundos poderia puxar a pá de trincheira, abrir uma cova na terra mole
ao pé da árvore e enterrar a carne denunciadora. Em outros cinco
segundos, o fogo poderia ser apagado. Era algo que havia ensaiado e
sabia. Havia a possibilidade remota, contudo, de que o odor atraísse um
animal errante, um lobo ou, mais precisamente, um coiote. Mas um ou
outro teria medo demais para se aproximar. O único perigo seria um urso.
Se isso acontecesse, poderia meter-se numa encrenca, pois o urso, embora
também tímido, é curioso e, se ele fosse obrigado a deixar o
acampamento, o animal, em alguns minutos de curiosa escavação por ali,
poderia espalhar cinzas suficientes para obrigá-lo a uma preciosa 'hora
de limpeza pela manhã. O urso poderia também ficar por ali forcando-o a
retirar-se para um local menos confortável e seguro durante a noite.
Eram possibilidades em que havia pensado' e que decidira enfrentar.
Continuou a assar a carne. Após algum tempo, tirou o bife do fogo,
quebrou e queimou o pontudo espeto e, logo que a carne esfriou, cortou-a
com os dentes e engoliu os saborosos pedaços como se fosse um predador
qualquer.
Fora longo e extenuante o dia. Inicialmente, planejara roubar uma canoa
em um dos muitos locais de acampamentos ao longo das praias do Lago
Huron, entre a Mackinac "Bridge e a Saint Martinis Bay. O roubo teria
acarretado certo risco, mas as percentagens teriam sido em seu favor.
Nessa época do ano, as garagens de barcos já estavam fechadas, mas
poucas eram bem guardadas. Canoas não eram o tipo de coisas roubadas em

princípios do inverno. Um reconhecimento cuidadoso no ano anterior lhe
revelara a existência de uma canoa, que uma criança poderia ter levado
sem que ninguém notasse.
Teoricamente.
A garagem do barco localizava-se ao fim de uma estreita estrada de
areia, a uns 300 metros da casa do seu proprietário, e era alcançada a
partir da estrada principal. Suficientemente longe para que, com os
faróis apagados, o ruído do motor não chamasse a menor atenção. O mais
incrível era que apenas uma porta guardava confiantemente 25 canoas
leves de metal e isso apenas com argola e cadeado, este último tão fraco
que podia ser quebrado com um único golpe seco de martelo. E não havia
cão de guarda.
Ainda assim, existia sempre aquela possibilidade em mil de que alguma
coisa saísse errada. Fora essa possibilidade que o levara a pensar,
quando passara pela loja de artigos esportivos no centro comercial, pela
manhã, e vira uma dúzia de lustrosas canoas à venda, a 50 dólares cada.
De súbito, em meio aos planos mais cuidadosamente traçados, surgia uma
inesperada contingência, e uma decisão precisava ser tomada.
Roubar ou comprar uma canoa barata?
De qualquer maneira, havia o risco de ser preso como ladrão, pois o
carro que guiava fora também roubado.
Naquela manhã, quando saíra de casa, dirigira-se para uma grande estação
ferroviária que servia Detroit. Deixara a valise, que continha a mochila
e o rifle desmontado, em um compartimento alugado e levara o carro a uma
garagem local, onde pedira que fizessem revisão nos freios e válvulas.
Voltara à estação, apanhara a valise e escolhera um carro no enorme
pátio de estacionamento, depois de certificar-se da ausência de seu
proprietário - um homem que observara tomar o trem, com uma pasta de
documentos e um jornal dobrado sob o braço, dizendo casuais olás para
outros passageiros, isso de uma maneira que indicava que ele devia ter
dito bom dia àquela gente mais de mil vezes. Parecia, assim, um
autêntico escravo do horário, da manhã até o fim da tarde. Não sentiria
falta do carro até a noite e, quando notificasse a Polícia e esta
comunicasse o número às subestações, ele já se teria livrado do veículo.
Em vista disso, quando viu as canoas à venda, a questão do risco passou
a resumir-se em tomar a estrada levando a canoa sobre a capota do carro.
Poderia, possivelmente, ser detido por algum zeloso miliciano estadual
ansioso para certificar-se de que a carga estava bem amarrada. Quando o
número de carro roubado fosse divulgado nas 36 horas seguintes, o
miliciano poderia lembrar-se dele. Tempos depois, isso poderia ser
embaraçoso. Em retrospecto, um miliciano inteligente poderia
possivelmente ligá-lo a algo mais do que a um roubo de carro. Poderia
ligá-lo aassassinato.
Não seria isso, então, mais perigoso do que o planejado roubo?
Os concentrados 10 minutos que gastara tomando uma decisão foram mais
cansativos do que um dia inteiro de trabalho árduo. Enquanto houvera
antes finalidade e decisão, agora surgira indecisão. Era um atoleiro e
amaldiçoou-se por ter caído nele. Não devia nunca ter sido tão imbecil.
Quando se tem um bom plano inicial, deve-se segui-lo à risca. E foi isso
o que, por fim, resolveu fazer. Mais de um ano antes vetara a idéia de
comprar uma canoa especialmente para o trabalho. Por que,
inesperadamente, complicar naquele momento a decisão? Nervosismo. A
única explicação possível.
Apesar de tudo, durante toda a viagem na via expressa para o norte
perguntou-se se havia agido certo. Não pôde reprimir o espanto, pois,
estranhamente, à medida que as horas passavam lentamente e os
quilômetros rolavam sob o capo do carro roubado, não viu nenhum
policial. Nem uma única vez durante todo o dia. Nem um único.
Caiu a noite. Chegou à garagem dos barcos e esperou, pensando. Agora,
vou ver um policial. Justamente no momento em que quebrar o cadeado, um
deles vai aparecer. Pela primeira vez, em cinco anos. É assim que as
coisas acontecem sempre.
Mas tudo correu sem o menor problema.
O cadeado cedeu sem dificuldade. A canoa foi rapidamente colocada na
capota do carro e presa por uma rede de cordas. Entrou na estrada
principal com a mesma facilidade com que dela saíra. Duas horas depois,
chegou a um ponto a 100 metros do rio, onde poderia esconder a canoa e a
mochila.
Mas eram 10 horas e sentia-se extenuado. Apesar de tudo, precisava
trabalhar ainda durante várias horas, antes de sequer pensar em dormir.
Fez uma curva em U e voltou à estrada por quatro milhas sem ver outro
carro ou sinal de vidas. Entrou na floresta por uma trilha de bombeiros
agrícolas, preta como breu e que levava a um pântano. Ao chegar quase à
beira da água, apagou os faróis, desligou o motor, saiu do carro e
esperou. Tenso com o desejo de desaparecer silenciosamente na floresta,
ficou à
escuta de alguns sons que indicassem que alguém o vira ou ouvira descer
até ali. Mas não ouviu nem percebeu coisa alguma. Sem reacender os
faróis, baixou as janelas dianteiras do carro, soltou o freio de mão,
recuou e esperou, deixando que o declive natural da trilha fizesse o
resto. O carro deslizou para a frente. Cinco segundos depois, com um
chiado baixo, mergulhou na água. Começaram nesse momento as borbulhas.
No início, explodiram com um som baixo na superfície; logo depois, se
tornaram mais zangadas e mais ruidosas. Pareciam uma pequena trovoada.
Arriscou-se e acendeu a lanterna que tirara da mochila. O estreito feixe
mostrou-lhe apenas a capota do carro à superfície do limo escuro e-
agitado do pântano. Momentos depois, o carro desapareceu.
No ano passado medira a profundidade do local. Precisara mergulhar, na
água e na lama do fundo, cinco metros e meio de vara telescópica de
agrimensor, antes de encontrar algo mesmo moderadamente sólido. Apagou a
lanterna, passou uns 10 minutos apagando as marcas dos pneumáticos à
beira do pântano e voltou a meio trote para a estrada principal.
Chegando junto à canoa, precisou mergulhar apenas duas vezes na mata. A
estrada era plana e teve bastante aviso da aproximação de dois carros,
muito antes que seus faróis pudessem enquadrá-lo.
Levou em seguida, nos ombros, a canoa até o rio, remou cinco silenciosas
milhas floresta adentro e armou acampamento. O relógio marcava duas e
meia da manhã quando enterrou as últimas brasas quentes do fogo e
estirou-se no saco de dormir.
Coisa alguma lhe perturbou o sono.
Acordou ao amanhecer. Logo que clareou, enterrou as pedras que haviam
protegido o fogo e, com todo o cuidado, recolocou folhas e ramos sobre
toda a área do acampamento. Ao terminar o trabalho, teve certeza de que
ninguém, salvo um homem que houvesse passado a vida nas florestas,
saberia que ele havia estado ali. E de que, após alguns dias, nem mesmo
esse homem jamais desconfiaria.
Ia ser assim todos os dias e todas as noites, até que seu trabalho
estivesse terminado. Ninguém jamais saberia de coisa alguma.

Capítulo 8

DA SALA DE ESTAR DA SUÍTE NO MOTEL, Greg observou a partida de Martin e
Nancy.
- Eles não são casados, isto é certo.
- Como é que você sabe? - Art, espichado numa cadeira, contemplava as
primeiras borbulhas de uma dose de três comprimidos de Álka-Seltzer.
Sentia-se mal. O seu consumo de álcool nas últimas 24 horas fora mais do
suficiente para todos os três.
Greg encolheu os ombros.
- A gente sabe - respondeu. Falava com um ar de desdenhosa certeza. -
Talvez a maneira como ela olhou em volta quando entrou no carro.
- Pareceu que olhava ou olhou em volta?
- Olhou em volta. Como se não quisesse ser vista. - Pensou um pouco e
acrescentou: - Talvez devêssemos ternos apresentado. Ela não era tão má
assim.
Ken, com os olhos vermelhos de falta de sono, saiu ao banheiro e ouviu
as palavras do companheiro.
- Você está louco. Os dois.
- Por quê? - Greg estava alegre. Era o único que se sentia bem. Sempre
se sentia assim depois de uma extenuante noite de amor. Não importava o
quanto bebesse.
- Você estava na janela olhando para eles, não? - perguntou agressivo
Ken. - Quantas outras pessoas estavam fazendo a mesma coisa?
- Podíamos ter ido ao quarto deles, um de nós, e seguido no carro com
eles.
- Certo, certo. Vamos escolher alguém em plena Prefeitura. - Ken parou e
olhou para Greg, com visível incredulidade. - -Você não teve o bastante,
ontem à noite? - Vagamente lembrouse de que, quando haviam terminado de
trocar de garotas, Greg iniciara uma sessão para valer com a pequenina
chamada Sandy, e que a cama dele estalara sem cessar durante horas, até
que a garota, que antes não conseguira obter o suficiente, começara a
choramingar e a pedir que ele parasse.
Greg riu e deixou a janela, lembrando-se da expressão preocupada de
Nancy. Mulheres com aquele tipo de expressão geralmente cediam: estavam
sempre ansiosas para agradar. Tirou o copo com a Alka-Seltzer quase
dissolvida da mão de Art e bebeu-a de um gole. Art abriu espantado a
boca.
- Anderson, seu anormal!
Greg riu novamente e, de brincadeira, beijou o cocuruto da cabeça calva
de Art. Ken estava cheio de ambos. Desde que eles haviam acordado, a
única coisa que haviam feito fora conversar, discutir e fazer palhaçada.
- Vamos - disse - vamos. Ainda temos de ir aosupermercado.
- Aqui! - disse ele a Art. - A última. - Estendeu a garrafa de bourbon.
Havia ainda uma dose.
- Vá pró inferno! - disse Art. Dirigiu-se para o banheiro em busca de
mais Alka-Seltzer, ignorando o grande sorriso de Greg, tentando reunir
os quadros fragmentários da noite anterior e com eles formar uma
seqüência que fizesse sentido. Mas em vão. A cabeça recusava-se a
funcionar. Não conseguia lembrar-se de como eram as moças, e ainda menos
com qual delas fizera amor e quantas vezes.
Tomou um banho de chuveiro gelado e, quando se vestiu, Ken e Greg já
haviam arrumado as malas e estavam prontos para a partida. Greg tinha
mais uma vez nas mãos a garrafa de Jack Daniel's.
- Estou falando sério. Você vai sentir-se como novo.
Art olhou-o atentamente e, em seguida, aceitou a garrafa, enquanto Greg,
com expectante respeito, observou-o esvaziá-la.
O bourbon, talvez um meio copo queimou e repuxouIhe a garganta e o
estômago, fazendo-o engasgar-se. Quando chegaram ao carro, sentiu-se
meio bêbado outra vez. Mas também melhor. Um bocado melhor.
Percorreram cinco milhas da via expressa à procura de um desvio, saíram
da estrada e penetraram numa pequena -cidade próxima onde havia um
supermercado. Era ainda cedo demais para a maioria dos clientes, e
ficaram como donos do lugar. Observando todos aqueles alimentos e
pensando em todas as boas refeições que os esperavam, ficaram alegres.
Greg deu um salto inesperado para um corredor e enviou num passe longo
uma caixa cilíndrica de aveia a Ken. Ken apanhou-a no ar e passou-a numa
manobra lateral a Art. A gerente soltou um grito agudo. Era uma mulher
de ar maternal, de cabelo azulado, e durante um instante pensou que se
tratasse de três lunáticos. Eles continuaram com a brincadeira e, meio
minuto depois, ela ria com eles.
A conta subiu a 346 dólares, mas havia uma quantidade suficiente de
bourbon, acrescentada aos comestíveis, para embriagá-los e mantê-los
assim durante semanas. De qualquer modo, valia a pena. Levaram três
grandes caixotes e meia dúzia de sacos de papel para a perua. Deixando a
gerente convencida de que eram os três cavalheiTOS mais perfeitos a
leste das Montanhas Rochosas, dirigiram-se para uma barraca de beira de
estrada, encimada por um cartaz com a palavra "Amo". Haviam passado por
um Trocado delas, desde Ann Arbor. Eram barracas modestas, que
floresciam em todas as estações de caça. Art e Greg compraram, cada um,
duas caixas de cartuchos 25S para suas Remingtons de repetição. Em
seguida, foram até ao posto de gasolina para encher o tanque. Greg foi o
primeiro a ver Martin.
- Não olhe agora, mas temos companhia - observou, com voz baixa.
- Quem? - Ken falou de trás do volante.
- Levante a janela - disse Greg.
Ken obedeceu. A janela subiu com um zumbido e fechou.
- Aquele casal que estava no motel na noite passada - explicou Greg. - É
aquele cara.
- Tem certeza? - Ken olhou cauteloso. Sozinho junto à bomba de gasolina,
Martin pagava ao empregado. Nancy não estava à vista.
- Claro que tenho certeza. Reconheci-o e reconheci a placa do carro.
- Onde é que está a mulher? - perguntou Art.
- Ali. - Com um gesto de cabeça, Greg indicou a rua. Nancy vinha andando
com um pequeno embrulho na mão. Parou, introduziu uma moeda numa maquina
automática de vender café, tirou duas xícaras e continuou até o posto de
gasolina. Calças geans apertadas modelavam-lhe as pequenas nádegas.
Usava uma suéter frouxa, sem soutien por baixo. O cabelo lhe caía macio
em volta dos ombros.
- Foi como eu disse - continuou Greg. - Ela não é tão má assim.
Ken concordou, mas não ia admitir isso depressa demais.
- Certo - disse - mas ela não vai exatamente ganhar o concurso de Miss
América.
- Ouça, ela tem um par de mamas de bom tamanho e uma bunda bonitinha -
insistiu Greg. - É isso que conta.
- De Qualquer modo, ela é boa demais para ele - comentou Art.
- Pode repetir isso - concordou Greg. - Ele parece o tipo do cara que
pensa que só há um lugar para botar o membro. - Soltou uma risada. Até
Ken sorriu.
Observaram enquanto Nancy entregava a xícara a Martin. O empregado
terminara de encher o tanque de Martin e dirigia-se para eles.
- Eles nos viram - avisou Ken. - Vamos fingir que eles não existem. -
Baixou a janela e disse ao empregado para encher o tanque. Mas teve
tempo de notar que Nancy lançava um furtivo olhar para eles.
Logo depois, ela e Martin entraram no carro e se afastaram.
- Para onde é que você pensa que eles estão indo? - perguntou Greg.
- Canadá.
- Por que o Canadá?
- Por que não? - respondeu Ken. - Se você saísse com uma mulher para um
fim-de-semana furtivo e estivesse agui, não iria ao Canadá? Para
aumentar um pouco o seu cartaz?
- Talvez.
Ouviram o ruído da tampa do tanque, fechado com força. O empregado deu a
volta em torno do carro para receber o pagamento. Ken deu-lhe uma nota
de 20 e esperou pelo troco.
- Pergunte a ele - sugeriu Greg. - Talvez eles tenham dito alguma coisa.
- Não seja tão estúpido assim - replicou seco Ken. - Quer que ele se
lembre de nós? - Às vezes, Greg era um idiota. O seu excesso de
confiança podia tornar-se perigoso. Ele precisava ser sempre observado.
- Se eles voltarem para a via expressa - dizia Art - não vai ser fácil.
Ele tinha razão, pensou Ken. Precisavam tentar uma área de repouso.
Naquela hora do dia e nessa época do ano talvez uma delas estivesse
vazia.
- Vamos agir de acordo com as circunstâncias - disse.
Recebeu o troco e deu partida ao carro. Greg estava preocupado:
- Eles têm quase cinco minutos de vantagem.
- Três - corrigiu-o Art.
- Se ele for a 90, isso significa que teremos que correr pelo menos a
140 para alcançá-lo.
Ken encolheu os ombros.
- Não excite tanto assim os culhões. Ele esteve tomando café, lembre-se.
O Ford girou uma curva em U. Ken tomou cuidadopara que os pneumáticos
não guinchassem alto demais. Mas, logo que se afastaram do posto, pisou
no acelerador até a tábua. Atingiram 155 e emparelharam com Nancy
eMartin justamente depois que eles entraram na via expressa.
Art fez uma observação sensata:
- Para começar, eu gostaria de saber por que elesdeixaram a estrada. Se
é que vão para o Canadá.
Ken lembrou-se do embrulho que Nancy trazia quando descera a rua.
- Farmácia - disse, de palpite. Em seguida: - Olhe para ali! Zona de
repouso. - Apontou para um cartaz que anunciava uma zona de descanso,
três quilômetros à frente. - Façam figa.
- Bem, não se aproxime muito dele. Ele pode começar a desconfiar.
Seria difícil não fazê-lo. Martin guiava devagar, a apenas 80
quilômetros. Ken diminuiu a pressão no acelerador e conservou-se a uma
distância de uns 400 metros.
À frente, porém, Nancy já os havia visto e estava curiosa.
- Marty, são aqueles três caras.
- Que três caras?
- Os que estão atrás de nós.
- O que é que têm eles?
- Os que estavam no posto de gasolina.
- E daí? - Lançou um olhar casual para o espelho retrovisor.
- Eles estavam também no motel. - Virou-se no assento. O Ford havia
momentaneamente desaparecido por trás de uma elevação. Martin riu.
- Detetives particulares? - Pôs a mão na coxa da companheira.
- Bem, poderiam ser - disse, em tom defensivo.
- Ora, Nancy. - Martin falava com visível zombaria. - Detetives
particulares custam 20 dólares a hora. Cada um deles. Eddie tem esse
dinheiro todo?
Claro que não. E Jean tampouco poderia ter economizado o suficiente com
o que Martin lhe dava. A menos que tivesse um rico namorado
desconhecido. Além disso, que detetives particulares usavam roupas de
caça e levavam botes e motores na capota de seus carros?
Nancy acalmou-se e lembrou-se das pequenas que vira no começo da manhã.
- Martin?
- O que é, agora?
- Na noite passada eles tiveram companhia de mulheres.
- E daí?
- Bem, o que eu quero dizer é... num motel alinhado como aquele...
mulheres. Fiquei surpresa.
- Como é que você sabe?
- Eu as vi. Bem cedo pela manhã. Quando elas foram embora.
- Piranhas?
- O que é uma piranha? Ele riu.
- Essa não.
- Desconfio do que seja - disse, arreliando-o. - Você andou com alguma
delas.
Imediatamente embaraçado, ele hesitou:
- Uma única vez.
- Somente uma vez?
Desta vez ele não respondeu. Ela se encostou nele e soltou uma
risadinha.
- Não me importo - disse. E pensou: "Os homens são tão engraçados às
vezes sobre seus segredos. Pobre Marty; naturalmente que ele tinha que
pagar para fazer amor, tendo uma mulher como Jean." Os homens não eram
como as mulheres, que podiam passar sem aquilo. Se um homem não
conseguia alívio uma vez por outra, tornava-se mentalmente deformado,
deprimido, mal-humorado. Não se importava se ele houvesse procurado
prostitutas. Não era fácil para um homem, quando casado, ter uma boa
namoradinha. Apertou-se mais contra ele e disse:
- Comprei um novo tipo de perfume. Gosta? - Aproximou o rosto dele. Ele
lhe cheirou os cabelos.
- É bom - disse.
- Sério?
- Sim. Sério. Gosto, realmente.
Ela se recostou no assento e ao fazê-lo, olhou para trás novamente. O
Ford estava perto.
- Martin.
Falou em voz seca. Ele voltou a cabeça, observou-lhe os olhos
preocupados e, dessa vez não zombou. Talvez alguma coisa estivesse
errada. Ele mesmo olhou para trás.
Inesperadamente pensou: "Ela tem razão. Encontrar uma pessoa duas vezes
da noite para o dia, está certo. Mas, três vezes? Em um Estado do
tananho de Michigan?" Aqueles caras deviam estar indo para o Canadá. Era
a única explicação. Um bocado de caçadores fazia isso.
Mas havia algo mais. Ele não acreditou em si mesmo quando disse:
- Escute, relaxe-se. Um bocado de pessoas vai ao Canadá. - Sentiu um
súbito medo.
Nesse momento, ouviu-se um chiado, o Ford emparelhou com eles, Greg
inclinou-se para fora da janela, exibiu um distintivo e apontou para o
lado da estrada. O Ford disparou à frente com a luz de sinalização da
direita piscando, dizendo a Martin para segui-lo até a área de descanso.
Nancy falou, em voz estridente:
- Você viu? Polícia. Eu lhe disse.
- Escute aqui, acalme-se. Nós não fizemos coisa alguma. - Martin começou
a reduzir a marcha. O Ford havia parado. Do lado de fora do carro, Greg
esperava.
- Nós nos registramos como Sr. e Sra.
- A Polícia não prende ninguém por isso.
- É ilegal. Eddie vai descobrir. Eu sei.
- Quer calar a boca, pelo amor de Deus?
- Ele vai descobrir. - A voz dela era, nesse momento, quase um grito.
Martin parou. Não havia outros carros em volta. Mexeu no porta-luvas.
- O que é que você quer? - A voz tremia em lágrimas, mas ela havia
recuperado parte do controle.
- Os documentos.
Encontrou-os e desceu do carro. Greg vinha na direção deles, carrancudo,
seguido por Art. Martin tirou a carteira do bolso e abriu-a, para ter à
mão os documentos de habilitação.
- O que é que há, guarda?
Greg tomou-lhe a carteira, lançou um olhar à carta de habilitação e
enfiou-a no bolso, juntamente com os documentos do carro. Fez um gesto
para trás com o polegar.
- Para a perua.
- Mas, o que foi que eu fiz?
- Escute, moço, não discuta comigo ou vai passar uma semana no xadrez.
- Mas eu não fiz coisa alguma.
Greg fechou o punho. Uma mão imensa agarrou Martin pelo cangote; a outra
desceu para entre as pernas dele e agarrou-lhe no mesmo movimento
braguilha e os órgãos genitais. A mão de cima puxou para a frente e a de
baixo ergueu e puxou para trás. Martin foi posto na ponta dos pés em um
segundo e empurrado na direção do Ford. Estava completamente inerme.
Virou a cabeça e viu que a porta de Nancy era aberta e que Art se
curvava para lhe falar, exibindo um distintivo.
Em seguida, foi lançado como um saco no assento traseiro do Ford. Greg
subiu depois e disse a Ken:
- Eis aqui o Romeu. Manso como um cordeiro.
Ken soltou uma gargalhada. Nancy apareceu choramingando com a dor do
braço que Art lhe torcia às costas. Ele sorriu largamente.
Greg estendeu a mão e puxou-a para junto dele e de Martin com um gesto
tão brusco que ela perdeu o fôlego e, durante um momento, não pôde
falar. Art bateu com força a porta. Greg trancou-a.
- Primeira saída - berrou Ken para Art.
Art inclinou a cabeça e voltou ao carro de Martin. Martin recuperou a
voz.
- Escutem, querem dizer-nos o que é que está acontecendo?
- Cale o bico.
- Nós temos o direito de saber, não temos?
- Eu disse, feche essa matraca! - Ken girou no assento do motorista.
Tinha os olhos dilatados e os lábios contraídos em uma careta que
parecia uma máscara.

- Ele está falando sério - disse Greg.
O Ford acelerou e partiu. Tudo aquilo havia acontecido em menos de um
minuto.
Nancy lutou para combater uma histeria crescente, recuperou o fôlego e
tentou dar um tom paciente à voz:
- Por favor, moço. Nós queríamos apenas ter uma idéia do que foi que nós
fizemos.
Greg não respondeu. Ken observou-a pelo espelho e falou, em voz fria:
- Você, também.
Ela ignorou o aviso. Insistiu:
- Por favor. Nós não tivemos má intenção. O que quer que tenha sido. Por
favor.
Ken lançou outro olhar ao espelho retrovisor, desta vez para a estrada.
Art vinha bem perto. Ninguém mais. Chegara a ocasião. Manteve o Ford em
movimento com a mão esquerda, virou-se pela metade no assento e, com as
costas da mão direita, atingiu Nancy na boca.
Foi uma rápida e dura cutelada que lhe esmagou os lábios macios contra
os dentes, cortou as gengivas e tirou sangue. Antes que o grito lhe
saísse todo da garganta, Greg entrou em ação. Pôs uma mão tão grande em
cima da boca da moça que lhe cobriu quase todo o rosto. No momento em
que Martin se ergueu com ar protetor, enfiou-lhe o cotovelo no plexo
solar. Martin soltou um baixo som e, em seguida, um alto grunhido, como
um porco, após o que, se dobrou em dois e vomitou. Greg soltou a boca de
Nancy, agarrou-a pelo cabelo, puxou-lhe a cabeça para trás, segurando-a
firme para que o pescoço não se curvasse para um lado e quebrasse, e
esbofeteou-a duas vezes, com força, mas não o suficiente para partir-lhe
o queixo. Lágrimas encheram os olhos de Martin.
- Seu canalha!
- O quê?
- Seu filho da puta nojento.
Nesse momento, Greg estendeu a mão para o assento dianteiro, onde Art
deixara pronto o rifle. Levantou o pesado 35 como se fosse uma pena e
enfiou o cano sob o queixo de Martin, prendendo-lhe a cabeça contra a
janela. O seu dedo curvou-se em volta do gatilho.
- Do que foi que você me chamou? Martin não conseguiu falar.
- Vamos. Diga novamente. Vamos!
Ken virou o Ford para uma saída da via expressa.
- Carros - disse, em voz calma. Aproximavam-se de uma estrada asfaltada
de duas pistas
que corria sob a via expressa e desaparecia na direção do oeste,
mergulhando na floresta virgem da península norte. Mas havia um posto de
gasolina, algumas lojas e tráfego no cruzamento.
- Mais uma palavra de qualquer um de vocês - disse Greg - e vão acabar
numa confusão dos diabos. Compreenderam? - Colocou o rifle entre as
pernas, onde não seria visto, e pôs um braço em volta dos ombros de
Martin e o outro em volta de Nancy.
Pararam. Art passou e parou o carro de Martin num estacionamento
público. Fechou-o, voltou, sentou-se ao lado de Ken no assento dianteiro
do Ford e entregou as chaves a Martin.
- Não se esqueça de onde o deixou - disse.
O Ford partiu mais uma vez. Dentro de segundos haviam deixado para trás
todo o movimento e a estrada, mais uma vez, esvaziou-se. Encontravam-se
na Estrada 28, que corria até Wisconsin sem qualquer parada importante,
com exceção de Marquette, a 250 quilômetros de distância, na margem sul
do Lago Superior. A meio caminho estendia-se o Schoolcraft County, uma
das mais selvagens, ermas, virgens e belas regiões da América do Norte.
Por ali ainda havia lobos.
- Muito bem - disse Ken. Exalou devagar, aliviado. Tudo correra bem.
Greg desmanchou o cabelo de Martin com a mão e beijou o alto da cabeça
de Nancy, gostando do perfume que ela desprendia e parando por um
momento para senti-lo um pouco. Tirou então a carteira do bolso de
Martin, entregou-a a Art e piscou o olho:
- É mesmo o Martin Clement.
Art sorriu largamente, folheou o conteúdo da carteira e assoviou:
- Deus seja louvado - disse. - Quantos cartões de seguro obrigam a
pessoa a levar. Simplesmente para perfurar uma fita de computador num
nojento banco. - Fechou a carteira finalmente com um som seco e
devolveu-a a Greg, que, alegre, enfiou-a no bolso de Martin.
Martin permaneceu imóvel.
- Muito bem, Martin - disse Art. - Você é inocente.
Ken lançou um olhar para trás.
- Talvez seja a hora de nós nos apresentarmos. Eu sou Ken, este aqui é
Art e ele é Greg. Ken, Greg e Art. Certo?
Greg acariciava suavemente o cabelo de Nancy. Desceu a mão pelos ombros
dela, sentindo com os dedos o começo de seu longo músculo peitoral.
- Qual é o seu nome, meu bem? - Ela se conservou calada. Perguntou a
Martin: - Qual é o nome de sua namorada?
Rouco, Martin respondeu:
- Nancy.
- Nancy de quê?
Martin mordeu os lábios. Greg agarrou outra vez o cabelo de Nancy,
virou-lhe o rosto e puxou-o para bem juntodo seu. Outro centímetro e
seus lábios se teriam tocado.
- Nancy de quê?
- Stillman. Nancy Stillman. - O hálito quente da moça chegou-lhe à boca.
Ele a deixou cair para trás.
- Muito bem - disse. - Ótimo.
- Nancy. Gosto do nome - disse Ken, em tom tranqüilizador. Lançou-lhe um
rápido olhar. - Combina com você. Não tenha medo, Nancy. Nós não vamos
lhe fazer mal. Simplesmente fique aí sentadinha, olhando a paisagem..
Greg olhou para a face de Martin branca como um lençol, emitiu um som
zombeteiro e desmanchou-lhe o cabelo.
- Marty pensa que nós somos psicopatas ou coisa parecida.
- Talvez fosse melhor contar a ele alguma coisa a nosso respeito -
sugeriu Art. - Isso o tranqüilizaria.
- Marty - começou Ken - todos nós somos respeitáveis homens casados.
Temos filhos, todos nós. Eu tenho quatro, Greg tem quatro e Art tem
três. Trabalho em publicidade, Art é consultor de empresa e Greg está no
comércio. Maquinaria de remoção de terra. Nós somos, bem...
- Pareceu pensar durante um momento, procurar as palavras certas. - Bem,
acho que você poderia dizer que nós somos exatamente americanos típicos,
suburbanos, de classe média. Como você mesmo, mas talvez com um pouco
mais de dinheiro. Nós todos tivemos muita sorte. Somos bem sucedidos na
vida. Eu acabei de...
Interrompeu-se no momento em que Greg prorrompia num rosário de
palavrões. Olhou para trás e viu uma expressão de ultrajada
incredulidade espalhar-se pelo largo rosto do amigo.
- O que foi que houve? - Automaticamente, diminuiu a velocidade do Ford.
Nancy estava enroscada cobrindo o rosto com as mãos, de cabeça baixa.
Greg, meio fora do assento, erguia as nádegas, encurvando as costas.
Art notou o assento empapado e as calças molhadas de Greg. Começou a
rir, balançando-se para a frente e para trás, com os olhos cheios de
lágrimas.
- Nancy teve um pequeno acidente - disse.
- Jesus Cristo! - comentou Ken, impressionado. Começou a rir. Em
seguida, Greg riu também. Pôs um braço em volta de Nancy e puxou-a bem
para junto de si.
Ken voltou a pisar no acelerador e o Ford ganhou novamente velocidade.

Capítulo 9

DEVORARAM CENTO E SESSENTA QUILÔMETROS da solitária estrada da península
norte, entre a via expressa de Sault Sainte Marie a Marquette um pouco
mais do que o mesmo número de minutos. Havia pouco tráfego, densas
florestas de cada lado da estrada e apenas as cidadezinhas de Raço,
Hulbert Corners, Soo Junction, McMillan e Seney para causar alguma
preocupação. Ao passarem por elas, baixaram para o limite de velocidade
legal. Ninguém sabia nunca onde um carro de patrulha poderia estar à
espreita, com os milicianos bem aquecidos no interior do veículo,
escutando o metralhar ocasional de mensagens no rádio, fumando, mascando
chiclete e, com toda probabilidade, acabando com meio quartilho de
uísque.
Bem dentro do centro do Schoolcraft County, Ken deixou a Estrada 28. Um
momento depois, o Ford era engolido pelas moitas fechadas de uma
estreita estrada de areia.
Art sentiu um profundo alívio. Ao contrário de Ken e Greg, não
conseguira relaxar-se. Não gostava da expressão de Martin. Havia nele
aquele tipo de casmurrice que podia, inesperadamente, explodir no
imprevisível. Isso era parte do jogo, certo, mas, ainda assim,
preocupava-o. Teria preferido um valentão que poderiam surrar, ou um
covarde completo - um ou outro. Após alguns olhares a Martin e a Nancy,
não voltara a encará-los. Teria também preferido uma pequena mais jovem
e mais viva, menos timidamente feminina. Não que realmente fizesse muita
diferença no que lhe importava. Quando pensava realmente em mulheres,
elas eram apenas outros tantos anônimos pedaços de ser humano. A única
com quem sempre fizera algum contato fora Pat. A despeito de toda
amargura e desprezo mal disfarçado dela, ela era real. Entre ambos havia
a realidade quase tangível do ódio, e assim, nas raras ocasiões em que
ela deixava, havia pelo menos a excitação provocada pela hostilidade.
Mentalmente, sem que ela soubesse, podia castigá-la, desfrutando do nojo
experimentado pela esposa a cada movimento de seu curto ritmo sexual.
Com outra mulher, contudo, não havia contato, e ele simplesmente lhe
usava o corpo para penetrar em um mundo imaginário de segredos, de outra
maneira inadmissíveis. Isto porque o amor com uma mulher estranha
permitia-lhe, no mais íntimo do seu ser, imaginar que estava com um
homem. Se por acaso fosse uma mulher que estivesse compartilhando com
Ken e Greg, havia a agridoce vicariedade adicional, enquanto eles a
possuíam, de imaginar-se no lugar dela. Havia algum deles desconfiado,
em qualquer ocasião? E isso importava? O relatório Kinsey e os
psiquiatras - que Pat ocasionalmente insistia em que ambos consultassem
- não garantiam que seus sentimentos eram inteiramente normais e
compartilhados por muitos outros homens? De qualquer modo, nunca notara
a mínima suspeita na face de Ken ou de Greg, nem ouvira a mais remota
insinuação na menor coisa que diziam.
Chegaram a um portão. Desceu do carro e abriu-o. O Ford entrou devagar.
Fechou o portão e subiu novamente no carro. Ninguém pronunciou palavra.
Nancy e Martin estavam pálidos e silenciosos. Greg havia-se enxugado
depois do acidente de Nancy e suas calças estavam quase secas.
Á estrada continuava por mais 1200 metros e desembocava em um velho
campo de turistas, fechado no inverno. Havia uma cerca enferrujada, uma
casa de tábuas, com a pintura despelando, e uma meia dúzia de modestas
cabanas de um único cômodo, igualmente esquálidas. Ninguém cortara a
grama desde agosto. Ao longo da margem da estrada, a erva crescia por
toda parte, parda e pendente com as geadas de novembro, enroscando-se em
árvores de galhos nus, que pareciam igualmente dispersas e abandonadas.
Ken fez a volta em torno de uma garagem em ruínas. As portas estavam
trancadas. Puxou o freio de mão e desligou o motor.
- Tem a chave?
Art tirou-a do bolso da camisa de caça e desceu outra vez do carro.
Ken dirigiu-se a Nancy e a Martin:
- Agora, escutem, vocês dois. Vejam se compreendem uma coisa. Nós todos
vamos acampar. Temos que tirar tudo aquilo que está ali em cima da
capota inflar dois botes de borracha e pôr neles todo o material. Temos
motores, ninguém precisa remar, mas vai ser uma longa viagem até em
casa.
- O que ele está querendo dizer - interrompeu-o Greg - é que vocês dois
serão muito mais felizes se cooperarem.
- Precisamente. - Ken olhou atento para Martin. - Martin, o pensamento
óbvio que você pode ter é o de fugir. Bem, meu conselho é que não tente
isso.
- Nancy, você não vai fugir, não é? - perguntou Greg. - Envolveu-lhe o
ombro com o braço e riu quando ela se encolheu, afastando-se.
- Certo? - perguntou Ken. - Estamos entendidos? Martin recuperou a voz:
- Escute moço, vocês cometeram um erro. Nós não temos dinheiro.
Havia um tom de perplexidade na voz de Greg quando ele falou:
- Amigo, todo mundo tem dinheiro.
- Nós não temos. Entre nós dois, não poderíamos reunir nem 10 mil
dólares.
- Por favor - disse baixinho Nancy. - Eu tenho filhos.
- Ainda não é tarde demais para nos soltar - disse Martin. - Nós não
sabemos os sobrenomes de vocês. Não sei o número de seu carro. Não o vi.
Greg simplesmente fitou-o. Ken sorriu de leve.
- Eu não vi - suplicou Martin. - Juro por Deus. Nancy conseguiu dizer,
num último sussurro:
- Por favor, por favor. Vivamente disse Ken:
- Muito bem, vamos trabalhar. - Desceu do carro. Greg abriu a porta do
lado de Nancy, empurrou-a de leve e seguiu-a para fora.
- Por aqui - disse a Martin. Martin deslizou pelo assento e seguiu-o.
Greg indicou a capota do carro com um gesto da cabeça. - Em primeiro
lugar, as cordas. Cuidado, se uma delas correr.
- Diabos os levem, vocês são loucos? - berrou Martin. O agradável
sorriso desapareceu dos lábios de Greg. Martin, porém, continuou a
berrar:
- Que diabo é que vocês querem de nós? Greg respondeu, em voz tranqüila:
- Escute, o que foi que combinamos na última vez em que você me criou um
caso?
Os olhos de Martin encontraram os de Nancy. A cabeça dela moveu-se
imperceptivelmente e seus olhos embotadamente suplicaram: "Não." Ele se
calou e começou a ajudar a desfazer os nós das cordas estiradas e, em
seguida, dobrar o lençol de borracha que cobria a carga. Nancy voltou-se
para ajudá-lo. Nesse momento, ouviu um som forte de água, bem ao lado.
Olhou. Totalmente indiferente, como se ela não existisse, Greg havia
posto o rifle sob o braço, descido o fecho da calça e começado a urinar.
Incapaz de acreditar nos próprios olhos, Nancy permaneceu ali,
paralisada, hipnotizada. Não era o tamanho imenso do membro. Aquilo em
si era irreal demais para que acreditasse. Nunca imaginara que um homem
pudesse ser assim. Era, sim, o puro ultraje do comportamento dele.
Horrorizada, continuou a olhar até que o puro impacto de estar realmente
observando atingiu-a. Afastou-se e deu as costas a Martin, fazendo um
esforço para não ouvir. A cabeça começou a girar-lhe e toda a
resistência escoou-se de seus membros deixando-a impotentemente fraca.
Quando Greg terminou e veio ajudar, ela sentiu um horror total pela
presença assim tão próxima dele e não conseguiu fitá-lo.
Dentro de minutos, tiraram toda a carga e levaram para os botes de
borracha, os dois motores de popa, acondicionados em sacos de lona, os
quatro pesados cilindros de gás pressurizado e os canos que Ken trouxera
para o poço.
Greg abriu a porta traseira da perua.
- Aqui. Vamos começar com estes, Nancy? - Entregou-lhe um pesado caixote
de comestíveis. Inclinou a cabeça em direção a um caminho que penetrava
na floresta. - Por ali.
Martin e Ken já haviam partido, com o segundo à frente. Cinqüenta metros
mais além, chegaram a um rio cor de ardósia, de uns 50 metros de
largura. Corria lento e profundo. A floresta de sempre-vivas do outro
lado parecia uma sólida parede. Nancy seguiu-os, enquanto Art fechava a
retaguarda. Greg permaneceu junto ao carro.
A trilha era estreita. Martin pensou em mergulhar nas moitas do lado,
mas não ousou. Ao longo de todo o caminho do rio até a perua ele ficaria
visível. Art e Greg estavam vigiando-o. Diminuiu a marcha para que Nancy
se emparelhasse com ele, mudando um cilindro de gás de um ombro para
outro. O aço pesado arranhou-o, implacável e dolorosamente.
Bem perto de suas costas, ela murmurou:
- Martin, o que é que eles querem?
- Não sei. Alguma coisa a ver com o banco. - Falou; sem virar a cabeça.
- Tente escapar.
- E você?
- Você precisa escapar. Precisamos arranjar ajuda. Martin fez um esforço
para pensar onde poderia buscar ajuda. Mas tudo o que sua mente podia
abranger era a fita solitária da estrada, uns 400 metros atrás, do outro
lado da floresta. Que distância em cada direção até uma casa ou uma
aldeia? Fez um esforço para lembrar-se. Uns 15 quilômetros atrás não
houvera uma encruzilhada, um bar e uma loja de comestíveis?
Se conseguisse chegar à estrada, estaria pelo menos em campo aberto.
Passavam carros a cada poucos minutos e eles não ousariam segui-lo.
Chegaram à margem do rio. Pôs o garrafão de gás no chão e ajudou Nancy a
descarregar a caixa. Art aproximou-se vindo de trás. Ken falou:
- Eu fico aqui. Que tal trazer logo depois os botes, para que eu possa
carregá-los imediatamente?
Muito bem - concordou Art. Acenou com o cano do rifle para o carro
distante como se tudo aquilo fosse uma festa amiga e, bem-humorado,
cutucou Martin com a coronha da arma. - Vamos. Dê a volta.
Martin viu inesperadamente sua oportunidade. Empurrou Nancy suavemente,
para que ela o precedesse na trilha. Quando haviam percorrido uns 20
metros, ele parou deliberadamente.
- Ande, ande - disse Art.
Martin arrastou-se mais alguns centímetros, virou-se e disse:
- Escute aqui...
- Quer andar ou não?
- Estou com uma horrível dor de estômago. Art sorriu.
- Quando você terminar de descarregar, nós o levaremos para a floresta e
deixaremos que você faça alguma coisa a esse respeito.
Cutucou-o novamente com o rifle. Martin notou que ele não tinha o dedo
no gatilho. O coração pesava-lhe, como se fosse feito de pedra. Um
aperto no peito e na garganta cortou-lhe a respiração. Havia um som
trovejante em seus ouvidos e uma névoa cinzenta entre ele e Art.
- Qual é o seu problema? - O sorriso frouxo de Art desaparecera,
substituído por uma leve expressão de preocupação nos olhos.
Martin agarrou o cano do rifle e empurrou-o para cima e para a face de
seu algoz. Por uma fração de segundo longa demais, conservou-o assim
enquanto Art recuperava a consciência e tentava empurrá-lo para longe e
fechar o dedo em torno do gatilho. O estrondo próximo do tiro foi
ensurdecedor.
Nancy girou sobre si mesma e viu Martin e Art engalfinhados, lutando.
Deu-lhes as costas e notou que Greg deixava cair o bote de borracha que
levava nos braços e apanhava o rifle, que se encontrava encostado na
porta do Ford. Deu outra volta e viu Ken, mais além de Art e Martin,
emoldurado por duas árvores à margem do rio. Começava a correr nesse
instante.
Passou-se um momento. Inesperadamente, Art caiu de costas no chão,
segurando ainda o rifle, enquanto Martin corria cegamente para a mata,
serpenteando entre raízes e moitas. Em um segundo, desapareceu por trás
de uma das cabanas de veraneio. O tiro de Ken tirou uma lasca da tábua
da esquina da cabana e chiou alto.
No outro lado da cabana as moitas rareavam. Uma distância de 30 metros
separava-o da casa. Martin correu a toda velocidade para lá e colocou-se
entre a casa e a garagem, onde Greg se encontrava, ao lado da perua. O
coração lhe batia descompassado e os pulmões lhe queimavam. Parecia-lhe
que vinha correndo havia uma vida inteira. Atrás, ouviu Ken aos gritos
dizer alguma coisa a Art, que começou a correr atrás dele. Por trás da
casa estendia-se a floresta. Martin evitou um monte de lixo, um carro
que se enferrujava ao relento, uma casinha de cachorro, um incinerador
e, logo em seguida, as árvores se fecharam em volta dele. Continuou a
correr e ouviu o som de água. O som vinha de um lugar bem perto à
direita e era o rio. Continuou a correr, desembocou em uma clareira e
compreendeu que escapara apenas para cair em uma armadilha.
No local onde se encontrava, o rio fazia uma curva em laço, quase
voltando sobre si mesmo. A casa às suas costas situava-se perto do
pescoço estreito ou base do laço. Quando disparara para a floresta,
estivera, sem saber, a curta distância do rio tanto para a direita como
para a esquerda. Naquele momento, estava dentro do laço e não havia
outro caminho senão seguir em frente. Ouviu Art e Ken conversando às
suas costas, a apenas alguns metros um do outro. Não havia possibilidade
de voltar sem ser visto.
Imediatamente à frente, na margem do rio, distinguiu uma pequena garagem
de bote. Encontrou a porta fechada. Sem plano ou idéia de como isso
poderia ajudá-lo, quebrou cegamente uma pequena janela e içou-se sobre o
peitoril. Subitamente, pareceu-lhe que qualquer lugar serviria como
refúgio. Caiu pesadamente, de rosto, sobre um chão de concreto coberto
de sujeira. Erguendo-se, sentiu gosto de sangue na boca. O sangue corria
de um corte no nariz, produzido por vidro, e mais sangue ainda imanava
de um grande arranhão no queixo. Olhou em volta. Na semi-escuridão, viu
botes a remo, uma meia dúzia deles, e uma velha canoa. Do lado do rio
existia uma porta dupla, fechada por um barrote. Puxou o barrote do
encaixe e lançou-se à porta. As dobradiças gemeram; a parte inferior das
portas raspou asperamente o concreto, mas elas cederam e pela abertura
entraram a luz e o som do rio.
Empurrou a canoa e procurou um remo curto, mas não viu nenhum por ali.
Apanhou um remo comprido, em meio de uma dúzia de outros num canto, e
empurrou a proa da canoa por uma curta rampa até o rio, subindo nela.
Fincando o remo na rampa, retesou-se e empurrou para longe. A canoa
inclinou-se fortemente e desceu de lado para o rio.
Nesse momento viu Ken e Art. Encontravam-se ambos a não menos de 10
metros da garagem, observando-o, com os rifles indolentemente enfiados
na curva dos braços. Teve certeza de que eles haviam estado ali durante
todo o tempo em que procurara abrir as portas e tirar a canoa para fora.
Simplesmente ali, à espera.
- Bem, você é o cara que botou toda a merda a perder, Artie. Ele é seu.
Na gélida eternidade que se seguiu, Martin observou Art fazer pontaria,
não o vendo realmente, mas somente o obsceno buraco preto que era o
orifício do cano do rifle. A arma apontava diretamente para ele. Em um
instante, saindo daquele buraco, algo viria com tanta velocidade e força
que ele nunca o veria. Sentiria um horrível choque e mergulharia na
escuridão. O mais horrendo era ser tarde demais para fazer alguma coisa.
O momento de morrer era aquele. Sentiu que soluçava por dentro, mas
nenhum som passou pelos seus lábios.
Começou então o troar dos tiros. Um depois do outro, com a rapidez com
que Art podia disparálos. E um violento e súbito puxão sob os seus pés.
Voaram lascas de madeira e algo frio imediatamente lambeu-lhe os
tornozelos. Continuou ali, sentado, paralisado, voltando à realidade. O
casco da canoa foi quase todo levado pelas balas; o rio penetrou. Em
menos de um minuto a canoa descansava maciamente em 60 centímetros de
água enlameada do fundo do rio.
Ken soltou uma gargalhada, sacudiu a cabeça e deu-lhe as costas. Art
esperou, sério, que Martin viesse chapinhando, embotado, até a margem.

Capítulo 10

AO ANOITECER CHEGARAM AO FIM DA VIAGEM. O rio alargava-se nesse ponto e
se transformava numa espécie de lago, de um quarto de milha de largura
por uma milha de comprimento. Em seguida estreitava-se mais uma vez e
começava a serpentear para longe, por entre as infindáveis massas
ondulantes da floresta silenciosa.
A área fora extremamente desmaiada antes do início do século. A
vegetação crescera outra vez, com a adição de bordos, freixos, faias e
carvalhos silvestres aos mais comuns pinheiros brancos que haviam
renascido e alcançado desenvolvimento maduro. Durante esse esquecido
tempo, uma pequena e improvisada serraria surgira no que fora outrora
uma pequena península rochosa, que se projetava como uma língua lago
adentro. Aí, as toras, que vinham boiando pelo lago ou pela corrente,
haviam sido reunidas, descascadas e cortadas em tábuas rústicas segundo
um tamanho uniforme, antes de serem levadas no inverno, em trenós, até
um ramal ferroviário desde muito abandonado, a algumas milhas de
distância, e daí finalmente para as novas cidadezinhas progressistas das
planícies do Meio-Oeste.
Atualmente, devido à diligência de gerações de castores, subira o nível
do lago. O baixo e estreito pescoço da península desaparecera,
transformando o terreno mais alto da própria península em uma ilha,
separada da margem por várias centenas de metros de água que dava pelos
ombros e, aqui e ali, extensões de grama dos pântanos e ocasionais
troncos desgalhados de árvores, que se projetavam a intervalos como
mastros de navios afundados.
A serraria podia ser vista ainda entre as árvores, com sua chaminé de
tijolo em ruínas, seu rústico telhado cheio de buracos, enegrecido em
vários lugares pelo musgo, e paredes de tábuas descarnadas por décadas
de granizo do norte e curtos períodos de sol escaldante em julho e
agosto.
Não muito longe da serraria, afastada do lago por uma clareira,
erguia-se a cabana de caça de Ken, Greg e Art.
Martin viu-a quando subiram o lago, naquele momento um lençol de água
cor de violeta, imóvel como um espelho, sob um céu apenas um pouco mais
claro e do qual os últimos dedos tenteantes de um pôr de sol
setentrional desapareciam rapidamente.
Cutucou Nancy. Tremendo de frio, ela olhou furtivamente. Seus olhos
semicerrados varreram rapidamente o lago e pousaram de leve nas rochas
escuras da margem, nas sempre-vivas pendentes e na vegetação densa,
marcada aqui e ali pela carcaça prateada de uma árvore há muito caída e
retorcida pela ação do tempo do gelo e da água do lago.
Notou, não sem dificuldade, pois ela se aninhava perfeitamente no
ambiente, quase a ponto de fundir-se com ele, uma bem construída cabana,
com paredes externas de troncos cuidadosamente calafetados. Possuía um
baixo telhado inclinado, que se estendia, do lado do lago, sobre um
largo terraço fronteiro de tábuas, a uma boa altura do chão, e que era
alcançado por dois degraus. As janelas de cada lado da porta principal
estavam bem fechadas, para evitar qualquer invasão. O efeito da cabana,
conquanto fosse de certa maneira convidativo era também sinistro.
Conseqüência do seu total isolamento. Observando-a, Nancy sentiu a
sensação do prisioneiro que, depois de julgado e sentenciado, ouve
finalmente a porta da cela fechar-se às suas costas. Teve uma sombria
premonição de que, sem dúvida alguma, um novo pesadelo inimaginado logo
depois começaria.
Ken reduziu a aceleração do motor. Um momento depois, o chão de borracha
do bote inflável raspou suavemente o terreno de areia grossa da praia do
lago em frente à cabana.
- Lar, doce lar - disse Ken.
Haviam viajado durante quatro horas, a uma boa velocidade, através da
líquida estrada que cortava a floresta. Seis horas haviam passado desde
o seqüestro. Aquele período de tempo pareceu-lhe uma vida inteira.
Ken voltara da caçada a Martin e, logo depois, Art, acompanhado do pobre
Martin, em cujos olhos transparecia medo e esperança perdida. Antes de
subirem aos botes, Art castigou-o publicamente. Sorrindo, declarou que
mascar chiclete elevaria a dosagem de adrenalina de Martin e, com isso,
sua animação. Tirara da boca um bolo de chiclete semimastigado e o
empurrara à força por entre os dentes de Martin, ordenando-lhe que
dissesse que adorava aquilo. Quando Martin recusou, Art enfiou
violentamente o cano de seu 35 entre as pernas dele, fazendoo dobrar-se
em dois com a dor. Em seguida, engatilhou a carabina e apontou-a para os
seus órgãos genitais, ameaçando-o.
- Diga: "É gostoso Art."
- É gostoso.
- Art.
- Art.
- Especialmente porque não escovei os dentes esta manhã.
- Especialmente... especialmente porque não escovei os dentes esta
manhã.
- Desde que vomitei o bourbon que bebi na noite passada.
- Desde que vomitei o bourbon que bebi na noite passada.
Martin começara a chorar como uma criança.
- Mastigue, seu merdinha. - Uma violenta cutucada com o cano do rifle.
Martin gritou e mastigou.
Nancy jamais esqueceria seu próprio, embora menor, sofrimento. Menor,
mas sofrimento, apesar de tudo. Ao ser terminado o exaustivo trabalho de
carregar os botes infláveis, ela e Martin foram embarcados a meia-nau em
um deles, ficando Ken a cargo do motor. Greg e Art, no outro bote,
conservavam-se bem perto. Partiram e, logo depois, Ken começou a
interrogá-la sobre sua vida particular. Suavemente. Tão suave e
cortesmente que, às vezes, era impossível lembrar-se de quem era ele. E,
ao mesmo tempo, implacável e incansavelmente. Insistiu nas respostas. E
se ela não as dava por si mesma, ele astutamente fazia-a tropeçar em um
inexorável interrogatório cruzado.
Como o marido dela fazia, quantas vezes fazia... Por que estava tendo
aquele fim-de-semana furtivo com Martin? Simplesmente por uma farra na
cama ou estavam apaixonados? Tivera ela outros casos? E antes de ter-se
casado? Haviam sido eles amantes melhores do que Martin, ou não tão
bons? E como era a esposa de Martin? Conhecia-a? Martin estava sendo
apenas infiel, ou pensava seriamente em deixar Jean?
Os olhos de Ken haviam sorrido e penetrado nela até o fundo, trazendo à
tona as mentiras e meias mentiras que ele percebia, transformando todo o
caso entre ela e Martin em algo sórdido, barato, desonesto. Nunca,
anteriormente, sentira-se ela tão nuamente vulnerável. Não ousara olhar
para Martin.
Uma ou duas vezes viram um cervo. Uma raposa fora surpreendida
observando-os de algumas rochas. Entreviram um castor. Mas nenhuma casa
ou o menor sinal de vida humana.
Nesse momento, Greg e Art atracaram também e olharam em volta,
satisfeitos por estarem em casa. Ken, em voz tranqüila, dava ordens para
descarregar os comestíveis e as bebidas. E que fizessem isso depressa.
- Vamos, Martin, pelo amor de Deus. Estou quase morrendo de fome. - Era
Greg falando, imenso e alegre. Colocou uma caixa de bourbon nas costas
de Martin. Ken ergueu outra e dirigiu-se abruptamente pela clareira, em
direção à cabana. Greg riu novamente e deu uma alegre palmada nas
nádegas de Nancy, bem apertadas na calça jeans. - Seria melhor que você
fosse uma boa cozinheira - disse e entregou-lhe uma caixa de
comestíveis, empurrando-a ao mesmo tempo para a frente. Ele e Art
seguiram-nos com os bujões de gás. Havia pressa em tudo aquilo. Meia
hora depois cairia a noite.
Ken foi o primeiro a chegar à cabana. Chaves reuniram e, um momento
depois, a porta foi aberta.
- Esperem aí - disse, e desapareceu no interior escuro. Greg e Art
depositaram no chão os bujões e voltaram aos botes. Nancy e Martin
esperaram obedientemente, sem forças para falar. Martin não vira mais
oportunidade de fugir e sabia que, se naquele momento se abrisse súbita
e miraculosamente algum caminho que pudesse tomar, não conseguiria
correr 50 metros pelo mato antes que suas pernas cedessem e ele caísse
de boca na grama congelada da floresta.
- Aqui estamos - exclamou Ken. O isqueiro brilhou na escuridão e quase
imediatamente surgiu a brilhante e cegante luz de um lampião Aladin.
Nancy e Martin entraram. Pairava no ar um cheiro bolorento e velho de
local fechado durante muito tempo.
- Gostam? - perguntou Ken, com um orgulhoso torn de proprietário.
Encontravam-se em uma grande sala com uma lareira aberta num canto,
sobre a qual havia uma cabeça empalhada de cervo e dois antigos rifles
de caça de esquüos, do tipo de carregar pela boca.
A cabana era confortavelmente mobiliada e de bom gosto; havia uma longa
mesa de refeições de madeira de lei, polida, um velho guarda-comida de
pinho, com pratos nas prateleiras e xícaras em ganchos, algumas cadeiras
estofadas e um sofá junto ao fogo, bancos com almofadas sob as janelas
de duas paredes que se encontravam num canto iluminado pelo lampião,
formando estantes de livros, e um chão de tábuas, coberto aqui e ali por
tapetes de algodão feitos a mão. O teto era formado pelo próprio
telhado, com isolamento entre as vigas toscas e não tão alto que tirasse
a impressão de amplitude do cômodo. Logo à entrada, um umbral sem porta,
à direita, abria para a cozinha. No fundo da sala, dois degraus
conduziam para uma espécie de arcada aberta, onde havia um banheiro
moderno, com chuveiro, e um quarto com três camas. Tudo aquilo estava
coberto por uma fina camada de pó; insetos encurralados no verão cobriam
o chão e a mobília.
Logo depois de acender o lampião Ken levou Nancy e Martin para a
cozinha, onde acendeu outro lampião, pendente do teto por uma velha
armação vitoriana.
- Aqui está você, Nancy. Acho que deve começar a cozinhar imediatamente.
- Lançou automaticamente um olhar ao relógio e abriu a janela que ficava
por cima de uma larga pia dupla de aço inoxidável, deixando entrar os
últimos raios cor de malva do crepúsculo. - Hoje à noite, o que for mais
fácil para você. Espaguete seria ótimo. - Indicou com um gesto o fogão
de quatro bocas. - Nós conservamos os bujões de gás do lado de fora.
Deve haver ainda gás suficiente no que está ligado agora. - Abriu as
portas de um guarda-comida em cima e embaixo de um balcão de fórmica. -
Comida enlatada e bebida aqui embaixo - disse. - Comidas secas e
embrulhos na parte de cima. Este guarda-comida é insulado e tem entalhes
na parte de trás para deixar entrar o ar. Conservamos aqui a carne e os
gêneros perecíveis com o gelo seco que você viu. - Fechou as portas do
guarda-comida e abriu a torneira sobre a pia. Saiu um jato de ar. - Greg
providenciará a água corrente dentro de alguns minutos. Nós a bombeamos
de um velho poço que abriram quando andaram desmatando esta área. É água
boa. Mas deixe que ela corra um pouco para tirar a ferrugem do cano. -
Virou-se para Martin e disse, em tom menos cordial: - Bem, vamos. Você
atrasou nossa partida. Pelo menos em meia hora. Fazer de noite o que
poderíamos ter feito antes do anoitecer vai nos levar duas vezes mais
tempo. Inesperadamente, Nancy falou:
- O que é que o leva a pensar que eu vou cozinhar para vocês?
Ken pareceu inicialmente surpreso, mas depois sorriu:
- Mas você cozinhará.
Ela respondeu, com deliberada lentidão:
- Não, não cozinharei. Quando você voltar ao lago, vou sair por aquela
porta e nunca mais me verá. - Olhava sem ver para a pia. Não se movera
desde que pusera no chão a caixa de comestíveis.
Ken continuou a falar em tom gentil:
- Ora, Nancy, não seja assim.
- Como é que você quer que ela seja? - explodiu Martin. - Que comece a
cantar e dançar?
Ken voltou-se lentamente para ele e toda a expressão desapareceu de seus
olhos. Falou, em voz baixa:
- Ouça com atenção, Martin. Eu não vou repetir isto. Na próxima vez,
deixarei que Art fale com você. Certo? A coisa é desse modo. Temos que
viver juntos por algum tempo e esta cabana não é tão grande assim. Uma
das primeiras coisas que você vai aprender é polidez. Dessa maneira,
todo mundo evita irritar os nervos do outro. Entendeu? - Sorriu outra
vez e voltou-se para Nancy. - Você é uma pequena inteligente. Vai pensar
um pouco e resolver cozinhar. - Curvou-se de súbito e, de sob a pia,
tirou uma longa corrente presa à parede de tronco. Havia uma argola para
perna na ponta da corrente. Em um rápido movimento rotativo, fechou-a em
torno do esguio tornozelo de Nancy.
Continuou então a falar, uma vez mais em voz agradável, como se coisa
alguma houvesse acontecido. - Mas não se preocupe em fazer o molho. Aí
no guarda-comida há molho à bolonhesa em lata. Simplesmente, esquente-o.
Do lado de fora chegou o inesperado rosnado de um pequeno motor a gás. O
ruído despedaçou o silêncio da noite.
Ken ergueu a voz:
- É a água. Leva 15 minutos para chegar até aqui. É bombeada para os
tanques no telhado. - Apontou para o teto que, diferentemente do que
cobria a saída principal, era de tábuas planas e baixo. - Geralmente,
enchemos os tanques todas as manhãs.
Segurou o braço de Martin para levá-lo pela porta. Martin soltou-se
violentamente e recuou, com um salto.
- Você a acorrentou! - Estava incrédulo.
Nancy não se movera ainda. Naquele momento, olhou para a corrente e seus
olhos, estranhamente, não estavam mais cegos e vazios. Estavam
focalizados, com uma aguda e súbita compreensão.
- Como um cão - gritou Martin. - Você a acorrentou!
- Não dói - disse Nancy. Parecia quase aliviada, como se houvesse tomado
qualquer grande decisão.
- Vamos, Martin. - Ken segurou-lhe outra vez o braço. Com força. Martin
obedeceu, passando devagar pela porta, com os olhos ainda presos na
corrente e na argola.
Do lado de fora, revoltou-se mais uma vez.
- Mas, por que ela? É atrás de mim que vocês andam. A corrente é para
mim, não?
- Talvez - respondeu Ken. - Mas foi ela quem disse que ia dar um
passeio.
Recusou-se a explicar mais. Depois de escoltado durantequase metade do
caminho até o lago, Martin desistiu. Carregou os suprimentos por meia
hora, até que os botes ficaram vazios. Foram em seguida puxados para
longe do alcance de qualquer onda eventualmente levantada por uma
tempestade.
Ao voltar para a cabana, Martin notou dois queimadores acesos no fogão.
O lugar estava aquecido e cheirava a arroz fervente. Cabeças de alho
haviam sido esmagadas. Aquilo constituiu um choque. Ela estava
cozinhando, apesar de tudo. Por quê? Quando lhe notou a surpresa, ela
sorriu,, irônica:
- Quer saber de uma coisa? Esta é a primeira vez que cozinho para você.
- Não seja engraçadinha.
- Mas é verdade.
Ele não conseguiu entender-lhe a calma, a quase alegria. Em desespero,
continuou a perguntar-se o que a levara a resolver cozinhar. Por alguma
razão que não conseguiu compreender, teve medo de perguntar. Mas achou
que, de alguma maneira, ela traíra a ambos. Sentiu ressentimento e
obrigou-se a perguntar:
- O que é que você quer que eu faça para ajudar? - Com todo o cuidado,
evitou olhar para baixo. Ela se encontrava de pé junto ao fogão e ele
sabia que todo o chão da cozinha podia ser atravessado pelo comprimento
da corrente. Achou que não conseguiria olhar para aquela cadeia.
- Eles não precisam mais de você lá fora?
- Mandaram que eu viesse para aqui.
- Você pode abrir algumas latas. Estas. - Empurrou algumas delas pela
mesa da cozinha. - Paella, essas duas. Esta é de pêssegos. Para a
sobremesa. Essa é de alcachofra e a outra, de ervilha. O abridor está
ali.
Martin olhou. Havia um abridor preso à parede, junto à porta. Levou a
lata até o abridor, enquanto Nancy derramava óleo numa larga frigideira
e borrifava-a liberalmente com pimenta e cheiro verde picado.
Em voz baixa, disse Martin:
- Eles bebem um bocado.
Nancy permaneceu calada. Estava ocupada esquentando» o óleo, virando a
frigideira para que o líquido corresse das bordas para a parte central
mais alta.
- Diabo, será que ninguém consegue fazer uma frigideira direito? -
Lançou no óleo o alho pisado.
- Talvez esta seja a solução - observou Martin. - Fazer com que eles
bebam até perderem os sentidos.
- Onde está a minha paella?
Ele lhe entregou a lata aberta. Continha apenas a parte de peixe,
cogumelos e verduras secas picadas. Nancy derramou o conteúdo da lata na
frigideira e espalhou-o com um garfo.
- Onde está a outra?
Os nervos de Martin não agüentaram.
- Você precisa dar a impressão de que está gostando?
- Gostando de quê?
- De cozinhar.
- Eu adoro cozinhar.
- Estou falando em cozinhar para eles. - A sua voz vibrava, de tão
tensa. Agarrou-lhe rudemente o braço. - Que diabo é que você está
pretendendo fazer? O que é que "há com você?
Ela se soltou.
- Martin, o que é que você quer que eu faça?
- Você não precisa dar a impressão de que está gostando disto!
- Eu não estou. - Durante um momento, toda a coragem desapareceu de seus
olhos e ela pareceu perdida, semidestruída, como estivera no carro.
- Então acabe com isso!
Ela recuperou o controle com visível esforço.
- É a nossa refeição., também - disse. - Nós não vamos conseguir coisa
alguma brigando com eles. Nós não podemos. Temos que fazer o jogo deles,
quer queiramos quer não. Até que saibamos o que é que está acontecendo.
É a única maneira.
Ela tinha razão e ele sabia disso. Mas tinha vontade -de vomitar ao
simples pensamento de olhar para um deles. A única coisa em que
conseguia pensar era agarrar uma carabina e passar fogo neles. Mas não
estivera no exército. O que sentiria a pessoa ao puxar um gatilho, ouvir
o estrondo, observar um homem tombar e, um momento depois, ver a vida
tornar-se um objeto totalmente inerte, morto? A pessoa noderia
curvar-se, sacudi-lo, dirigir-lhe a palavra e ele nunca se moveria ou
responderia. O coração bateu pesado de medo em seu peito.
Abriu a segunda lata de paella. Nancy escorreu o arroz e adicionou-o ao
conteúdo da lata na frigideira. Ao fazê-lo, impulsivamente segurou-lhe
os braços e beijou-lhe o rosto, sorrindo, tímida:
- Nós descobriremos uma maneira - disse. - Sei que descobriremos.
Greg apareceu à porta nesse momento.
- Cristo, Nancy, como isso cheira bem. Quando é que vai ficar pronto? -
O sorriso era inteiramente cordial. Tirou uma garrafa de bourbon da
parte inferior do guardacomida e destorceu a tampa.
- Dentro de uns 10 minutos - respondeu Nancy.
Ele estendeu a garrafa e, inteiramente inconsciente de si mesmo, coçou
os testículos:
- Quer um drinque?
Ela fingiu não ver o gesto e respondeu:
- Sim, obrigada.
Casualmente, aceitou a garrafa, serviu-se de uma dose de uns dois dedos
em um copo e adicionou um pouco de água da bica. Era formal sem ser
rude, mas o estômago de Martin revolveu-se e ele sentiu sangue pulsando
nos ouvidos.
Em seguida, Nancy anunciou, calmamente:
- Dez minutos, e vá embora. Você me põe nervosa. Empurrou Greg na
direção da porta.
Ele pareceu surpreso, sorriu, agitou a garrafa em uma vaga continência e
perguntou a Martin:
- E você? Quer um drinque?
Martin não respondeu. Não conseguiria falar. Olhou para o chão, rígido e
inamovível.
Greg encolheu os ombros e lançou um último olhar a Nancy que sacudiu a
frigideira para evitar que o arroz grudasse no fundo e mudou a posição
da paella sobre os grãos que escureciam.
Ele saiu. Martin olhou fixamente para as costas que se retiravam e
depois para Nancy. Ela tomou um gole da bebida e voltou a cozinhar.
Martin olhou para a corrente. Era obscena, horrenda, uma longa serpente
preta, enroscando-se e deslizando enquanto ela se movia de um lado para
o outro. Ela havia colocado uma esponja de lavar pratos do lado de
dentro da argola para evitar que lhe arranhasse o tornozelo.
Do cômodo contíguo chegou o som de gargalhadas e de estalidos do fogo na
lareira. Art tocava baixinho uma gaita de boca.
Aquilo não podia ser verdade, nada daquilo. Noite passada, naquela hora,
lembrou-se Martin, estivera cruzando a Mackinac Bridge e tudo em que
pensava fora levar Nancy para jantar, despila e caírem na cama.
Mecanicamente, começou a abrir as demais latas.

Capítulo 11

QUANDO O JANTAR FOI SERVIDO, eles já estavam quase embriagados. Depois
de elogiarem as habilidades culinárias de Nancy, começaram a fazer
brindes. O primeiro a ela, à cozinheira. E a Martin que não bebia porque
tinha suspeita de úlcera e permanecera de lado como uma sombra de mau
agouro. Greg intimidou-o e obrigou-o a tomar meio copo de bourbon puro
e, em seguida, outro.
Mais tarde, depois que eles foram dormir e a cabana caiu no silêncio e
na escuridão, ele vomitou. Uma segunda corrente com argola, presa à
parede da sala de estar, sob um dos bancos acolchoados que se
encontravam no canto da estante, fizera seu aparecimento. Dessa vez,
destinada a Martin.
- A virtude é recompensada - disse Ken, soltando Nancy. O que ele queria
realmente dizer era que ela não teria coragem para fugir sozinha à noite
pela gelada floresta. Ele sabia disso. Ela sabia, também. Era tanto
prisioneira acorrentada quanto sem corrente.
Martin, porém, não era Nancy. Naquele momento, encontrava-se no
alpendre, curvado sobre o corrimão, vomitando em seco, tendo nas narinas
e dentes o mau cheira agridoce e causticante de bourbon e de bile,
enquanto a argola da corrente, estirada em todo o seu comprimento,
mordia-lhe o tornozelo.
Dentro de casa, Nancy, enrolada em um cobertor, aconchegada em um dos
bancos, esperava. Mantivera uma fisionomia impassível durante toda a
noite, desde que resolvera fazer o jogo deles. Tinha a mente vazia, a
cabeça vertiginosa com o esforço e sentia um aperto no peito, como se
fosse uma mão de ferro, bem dentro das costelas e em volta dos pulmões.
Era a dor de horas e horas de tensão. Por coisa alguma poderia ter-se
erguido para ir ajudar Martin. Haviam ambos alcançado um ponto, sabia,
em que nenhum deles era mais capaz de preocupar-se com o outro. Embora
se encontrassem juntos, estava cada um deles entregue inteiramente aos
seus próprios meios.
Durante todo o jantar esperara ser estuprada. Isso forçosamente ia
acontecer. Havia-se preparado mentalmente; coisa alguma podia ser pior
do que Eddie. Sem protestar, deixaria que eles se revezassem; uma mulher
não morria de fazer amor. Apenas engravidava. Mas rezou para que não lhe
batessem.
Ela e Martin haviam sido obrigados a sentar-se à mesa. "Uma grande e
feliz família", dissera Art. Fora colocada entre Ken e Greg. Uma vez,
Greg roçara deliberadamente as costas de sua grande mão sobre seus
seios, ao apanhar alguma coisa. Teve certeza de que fora um gesto
deliberado. Uma mulher sempre sabe. Mas nada dissera. Finalmente, Art
perdera os sentidos de tanto beber sendo levado para a cama por Ken e
Greg. Ken voltou e mostroulhe e a Martin onde ficava o banheiro, fazendo
companhia a Martin enquanto ele usava o toalete e escovava os dentes,
mas deixando-a sozinha e mesmo lhe mostrando como fechar a porta. Era
uma cena de pesadelo, ele fazendo o papel de cordial dono de casa e eles
simplesmente de hóspedes bem-vindos, que ali passavam o fim-de-semana.
Mais tarde, trouxera cobertores e travesseiros para ambos, acorrentara
Martin, atiçara o fogo na lareira, colocara uma última tora e fora
embora. A porta do quarto fora cerrada sem ruído. Minutos depois,
desaparecera a réstia de luz que saía por baixo da porta.
Embotadamente, ela preparou duas camas, deitou-se na dela e apagou a
luz. Ken lhe deixara cigarro. Fumou. Eles viriam logo. Provavelmente
Greg em primeiro lugar e, depois, Ken. De qualquer maneira, estaria
livre de Art naquela noite. Oh, Cristo, se iam usá-la, que o fizessem
logo e acabassem com aquilo.
Ninguém apareceu.
Logo depois, Martin começou a sentir-se mal.
Voltou naquele momento, deixou-se cair exausto no< banco, puxou a
coberta e começou a tremer incontrolavelmente. Ela se sentou e colocou a
mão na testa dele. Fria e úmida. Enrolou-se ainda mais no cobertor e
sentou-se ao lado dele.
- Está bem, agora? - murmurou.
- Estou. Jesus, como é que uma pessoa pode beber aquilo?
Ela apagou o cigarro e acendeu outro, tentando encontrar coragem para
dizer o que queria dizer. As palavras não se haviam formado ainda em sua
mente e, assim, disse outra coisa:
- Custa nove dólares a garrafa. - Era uma observação estúpida, sabia,
mas precisava começar de algum lugar.
Ouviu a mudança no ritmo da respiração dele, irritação, talvez.
Continuou, rapidamente:
- Não quero dizer que é bom se a pessoa não consegue agüentar bebida
forte. Eu estava simplesmente pensando em quanto dinheiro eles têm.
Gente rica simplesmente bota dinheiro fora.
- Quanto foi que custou o jantar? - perguntou Martin. Havia um tom
desagradável em sua voz. Surpresa, pensou Nancy: "Ele está ainda
perturbado simplesmente porque eu cozinhei. Talvez mesmo zangado."
- Eu lhe disse por que cozinhei - explicou ela. - Você poderia ter-se
recusado.
- Não haveria nenhum proveito nisso - replicou ela. - Pensei que você
compreenderia. Eu tentei explicar. - A estranha força que sentira no
começo da noite, o sensode aceitação e decisão, voltou ainda mais forte.
Algo havia acontecido. Ela era uma estranha para si mesma. O medo de ser
descoberta em companhia de Martin, a brutal irrealidade de Eddie, do seu
lar e dos filhos, de alguma forma tudo isso perdera importância. Tudo
aquilo havia desaparecido quando desceram o rio através da floresta.
Nela vivia naquele momento uma nova e temerária mulher que nãoconhecia,
alguém que, da maneira inteiramente inesperada, tornara-se mortalmente
cansada de uma existência de defesa e de fuga. Voltou à cama, sentou-se
nela, dura e de pernas cruzadas.
Ouviu Martin falando novamente, em voz baixa. Não» compreendeu o que ele
disse, mas, logo em seguida, entendeu, quando ele continuou:
- Três safados aparecem vindos não se sabe de onde, seqüestram-nos,
espancam-me, trazemnos para uma cabana nas florestas do Norte, só Deus
sabe onde, e você prepara para eles uma refeição cordan-bleu.
Era incrível pensou ela. Ele não ia nem mesmo fazer um esforço para
compreender. Alguma espécie de orgulhoso machismo não lhe permitiria
isso. No mesmo instante, ela teve a horrenda suspeita de que não era nem
mesma machismo, mas infantilidade. Ele se comportava como um menino
mimado. A ocasião não admitia aquilo.
Martin continuou:
- Você não apenas lhes preparou uma refeição deliciosa, mas sentou-se
com eles e bebeu com eles. - Desta vez, mostrou-se menos mal-humorado.
Havia uma nota realmente ofendida em seu tom de voz. - Você não tinha
que beber! - Ficou calado durante um momento e, depoisr acrescentou: -
Eu vou dizer o que vai lhe acontecer. Se não tiver cuidado, você vai ser
currada.
O tom de voz era vingativo. Nancy notou que lutava para controlar o
riso. Ele se tornava mais incrível, mais irreal a cada momento.
- Você acha isso? - perguntou. - Você acha que é isso o que me reservam?
O que, finalmente, levou-o a uma conclusão tão brilhante? - Se ele podia
mostrar-se vingativo, ela podia mostrar-se também sarcástica.
Ele não respondeu e as palavras que ela tentara formar antes brotaram
sem esforço algum:
- E você? - perguntou. - O que é que eles reservam para você? O banco? -
Continuou: - Você pensa que seqüestraram você e que o banco vai pagar o
resgate? É isso o que você pensa, não? Talvez meio milhão de dólares.
Como os diplomatas e as pessoas que são seqüestradas na América do Sul.
É isso o que você pensa. Quero dizer, o banco não poderia deixar de
pagar o resgate por você, não é? E a imagem pública dele? E eu... eu
simplesmente estava por acaso com você, e agora eles estão entalados com
uma mulher, mas enquanto a conservam em seu poder bem que podem usá-la.
- A voz saiu áspera, com uma amargura contida. - Cozinhar, limpar e
meter, as mulheres são sempre úteis para essas coisas! - Falou como 'que
cuspindo as palavras.
- Muito bem, muito bem! - disse Martin. Desaparecera de sua voz o tom
arrogante e ofendido. Ela atacara e ele recuara. Com uma pontada, ela
compreendeu que a maioria das crianças mimadas era também grosseirona.
Por que não havia jamais visto esse lado de Martin? A descoberta
arruinava tanta coisa entre eles. Um momento como esse, uma centelha de
revelação e as coisas nunca mais eram as mesmas entre pessoas.
- O que é que faz você pensar que a corrente era para você? - perguntou
ela. Aí estava. Dissera finalmente o que tinha querido dizer. Tivera
vontade de dize-lo -desde que Ken passara a argola em torno de seu
tornozelo.
Ele ficou calado no início, sem entender bem. Depois, perguntou, seco:
- O que é que você quer dizer com isso? Deliberadamente, ela se recusou
a responder. Ele se sentou de súbito, espicaçado. O cigarro era uma
mancha de luz vermelha quando ela o tirou dos lábios e casualmente
soprou a fumaça, esperando.
- Diabos a levem, Nancy, o que é que você quer dizer com isso?
Ela notou o medo e a suspeita na voz dele e perguntou-se como ele pudera
ser tão cego, incapaz de ver até que ela lhe abrira os olhos.
- Quero dizer, eu acho que não somos as primeiras pessoas que foram
usadas - disse.
- Quem mais?
- Não sei. Eles vêm aqui todos os anos, não? Quase que podia ouvi-lo
pensando. E, imediatamente,
rejeitando. O pensamento era insuportável demais. Ele não podia
enfrentá-lo.
Ele disse em voz sem expressão:
- Não, não houve ninguém mais.
- Nós não sabemos isso. - Ela puxou uma profunda tragada. - Você não
pode dizer que não houve.
- Seqüestro não é uma coisa que alguém tente duas vezes. É arriscado
demais. - Voltou a deitar-se. - Tem cigarro aí? - Ele se havia recusado,
redonda e totalmente, a ver a realidade.
- Tenho - disse ela. Acendeu-o para ele e colocou-o entre seus dedos. Ao
fazer isso, tomou uma decisão. Era a de ser compassiva e deixar que ele
enfiasse a cabeça na terra. Era a única coisa que poderia fazer por ele.
E talvez, a longo prazo', fosse a única coisa que pudesse fazer por
ambos, embora não houvesse pensado nisso egoisticamente.
- Eu simplesmente não consigo compreender - disse Martin. - A menos que
esta seja a maneira como eles ganham dinheiro. Três caras com lares,
esposas e filhos. Pelo menos, disseram que são casados e têm filhos.
Três caras que venceram na vida. Cheios de dinheiro. Uma cabana de caça
nas florestas do Norte, tudo. O sonho de todo mundo. E nada disso é
autêntico. Não combina. Simplesmente não combina. Quero dizer, não
combina com eles. Eles não parecem bandidos. Não falam como se fossem. -
Sentou-se outra vez. - Escute - disse de súbito, excitada por um
pensamento - talvez eles tenham seqüestrado as pessoas erradas.
Nancy não respondeu.
- Quero dizer, se são da CIA ou de alguma outra organização e saíram
para capturar algum franco-canadense por motivos políticos. E cometeram
um erro.
Era ridículo. Histórias de James Bond. Lembrou-se da aparente
familiaridade de Art com o nome e a formação de Martin, quando lhe
examinara a carteira e a identificação. Art soubera que ele trabalhava
em um banco.
Soubera mesmo? Ou teria sido simplesmente um blefe?
Logo depois, Martin tentou não pensar, em absoluto. Voltou a deitar-se.
No dia seguinte, pensaria em alguma coisa. Eles não eram super-homens.
Eram falíveis, exatamente como ele. Em algum momento durante o dia, eles
cometeriam um erro. E quando o fizessem, ele estaria pronto.
- Não temos maneira alguma de reagir - disse Nancy. - Exceto eu.
Falava em voz firme. Ele não respondeu. Eles deviam estar dormindo.
Precisariam de todo descanso que pudessem obter.
- Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi.
- Compreendeu o que eu quis dizer?
O que havia ela mesmo dito? Tentou lembrar-se, mas o esforço foi grande
demais.
- Ken gosta de mim - acrescentou ela.
- E daí?
- Ele continua olhando para mim, conversando comigo. E Greg continua a
me bolinar.
Nesse instante, ele começou a perceber.
- Que diabo está você tentando dizer?
- Que eu talvez seja a única maneira que temos para reagir, Marty.
Estamos numa enrascada. Numa verdadeira enrascada.
- Quer deixar de falar em círculos?
- Quer que eu diga por escrito? Esfou tentando dizer que talvez eu deva
usar meu sexo.
Silêncio. Incredulidade forçada para dar realce à raiva.
- Você está brincando. Você tem que estar brincando. - A hostilidade
reapareceu forte na voz.
- Antes que todas as minhas opções acabem e eu não seja mais útil para
nós. Eu ser mulher, quero dizer.
- Você quer dizer... que faria com um deles?
- Eles vão me possuir de qualquer maneira, não vão? - Continuou,
impetuosa! - Eu talvez pudesse descobrir o que pretendem fazer conosco.
Ou talvez lançar um contra o outro.
Martin, porém, recusou-se a cooperar, a pensar.
- Um daqueles psicopatas safados que estão lá dentro? Você abriria
voluntariamente as pernas para eles?
Nessa ocasião, ela finalmente compreendeu por que ele estivera zangado
durante toda a noite. Estava com ciúme. Não tanto ciúme dela, mas um
ciúme diferente, mais furiosamente masculino por ter sido rebaixado.
Estava ciumento da força e liberdade de Ken, Greg e Art. Era demais para
ela. Incrivelmente estúpido demais, egoísta demais. Ou fora Martin
sempre assim e ela estivera cega?
Furiosa, disse, em uma voz baixa:
- Você tem alguma idéia melhor?
Ele não conseguiu encontrar resposta. Não podia pensar em Ken, Greg, Art
e sexo sem que o horror o subisse no seu íntimo. Se e quando currassem
Nancy, não o molestariam também? Sabia exatamente o que eles fariam,
revezando-se, dois deles prendendo-o para o terceiro. E havia coisas
piores que poderiam fazer. Poderiam apontar uma arma para sua cabeça e
obrigálo a fazer coisas para eles.
- Jesus - dizia Nancy - da maneira como fala, você deve pensar que é
alguma coisa que eu quero.
Ele não conseguiu articular palavra.
- Martin? . Silêncio.
- Você não compreende? Martin, você precisa compreender. Talvez dentro
de um ou outro dia eu não tenha escolha alguma. A qualquer minuto agora,
mesmo hoje à noite, eu não terei mais poder de barganha. Nem para mim
mesma.
Bruscamente, ele virou o rosto para a parede, deixando-a. A rejeição fez
efeito. A recém encontrada força de Nancy começou a ruir e cair aos
pedaços. Fazendo um esforço para não ver, visualizou-se encorajando os
avanços de Ken, talvez de Greg, também. Lembrou-se de Greg naquela
tarde, não tanto de seu tamanho grotesco, como de sua arrogância
inumana. Uma mulher podia suportar dor, mas não ser cuspida. Pensou em
Art, enfiando o cano da carabina nos órgãos genitais de Martin,
obrigando-o a mascar o chiclete, e de seu risinho cruel. Aconchegada na
escuridão, com o cobertor bem apertado em volta do corpo,,
inesperadamente perdeu toda a coragem recentemente descoberta. Estava
inteiramente sozinha; queria Martin de volta. Ele era um homem;
encontraria uma maneira, se ela o ajudasse. Escapariam e depois ele a
levaria para longe de Eddie. Em voz alquebrada, disse:
- Se você disser que não, eu não farei isso. Foi apenas uma idéia.
Logo depois, ela ouviu uma nova mudança em sua respiração. Rítmica e
aprofundando-se. Ele a havia deixado. Estava dormindo. Oh, diabos o
levem, diabos o levem. Por que não queria ele ajudá-la? Martin,
ajude-me, por favor, estou com medo.
Acendeu outro cigarro. Permaneceu sentada durante longo tempo na
escuridão, olhando às vezes fixamente para o fogo moribundo, outras
vezes para as sombras mutáveis no teto. Do lado de fora fazia frio, e um
ar gelado insinuava-se pela cabana.
Ela sabia para o que estavam ali ela e Martin. E Martin, com toda
probabilidade, sabia também, apenas não queria enfrentar a verdade. Ou
não podia, o que era a mesma coisa. Não podia sequer admiti-lo em seu
ser mais profundo.
Quando Ken tirara o grilhão do seu tornozelo, ela examinara a parte
interna. Havia manchas marrom-escuras no metal, e eram de sangue.

Capítulo 12

KEN, GREG E ARche TOMARAM O DESJEJUM logo que raiou o dia e saíram para
caçar. Acorrentaram Martin na cozinha, num local perto da pia, e
deixaram-lhe um pequeno urinol de plástico. Não haveria coisa alguma
para ele fazer durante o dia, exceto talvez ler, e assim deixaram-lhe
também uns dois livros de bolso.
Levaram Nancy para caçar com eles. Art queria ficar sozinho e, assim,
Ken e Greg tiraram a sorte para ver quem ficava com ela. Ken ganhou e
vestiu-a com roupas quentes, grandes demais, e encheu um velho par de
botas com jornais para que elas não caíssem quando ela andasse.
Ela parecia um palhaço e todos eles soltaram gostosas gargalhadas. Nancy
obrigou-se a sorrir. Estava achando a coisa mais fácil. Se fizesse uma
grande força para não pensar no fato de que eles não a deixariam ir
embora, de que Martin estava acorrentado e de que se ela fugisse eles
podiam baleá-la, podia considerá-los como três homens que qualquer
pequena teria prazer em conquistar. Ken era atraente, de olhos claros,
inteligentes, de boas maneiras. Havia nele um ar de tranqüilidade e
calma. A si mesma perguntou-se como seria a esposa dele. E Greg. Até
mesmo sua imensa arrogância parecia diferente naquele dia. Tornava-se
menos humilhante quando se sabia que ela era tão-somente um animal
incapaz de pensar. Se aceito assim, podia-se compreender o que Ken e Art
viam nela. Ele podia mesmo fazer as pessoas rirem.
Art apanhou um dos botes e saiu logo. Quando ela, Greg e Ken deram
partida, o som do motor de Art já era um meio sussurro a oeste do
continente, onde a ilha começara certa vez sob a forma de península. Em
seguida, cruzaram para a margem oposta do lago e se separaram. Ken
seguiu para o norte com ela; Greg tomou a direção sul. Combinaram
encontrar-se às quatro da tarde.
Em voz agradável, mas com olhos sérios, onde havia um aviso, disse Ken:
- Nancy, se você quiser tentar fugir, está legal, mas eu terei que ir
atrás de você e isso estragará todo o nosso dia.
Ela o seguiu humildemente. Mesmo que quisesse arriscar-se à carabina e à
perseguição dele, para onde poderia fugir? Não tinha a menor idéia da
direção de onde haviam vindo inicialmente. Nunca fora muito boa em
questão de orientação.
Às nove horas, Ken abateu um cervo. Haviam subido uma profunda ravina,
atravancada de árvores tombadas e com um chão úmido da água de fontes
próximas. Era duro passar por cima e por baixo de troncos e de calhaus
cobertos de musgo, afastar para os lados espinheiros e moitas, e Nancy
perguntou-se quanto tempo mais poderia agüentar. As pernas não queriam
obedecer, e a respiração lhe saía em dolorosos haustos. A ravina acabava
logo depois e eles subiram uma íngreme ladeira em direção a uma elevação
onde a floresta era menos densa. Ken parou de súbito, levantando a mão
em um aviso. Ergueu em silêncio a carabina e Nancy viu o cervo. Olhava
diretamente para eles, imóvel, de cabeça alta. Era jovem e a galhada
apenas se dividia em duas. E belo, pernas como os mais esguios dos
caniços, e ombros altos.
Nancy nunca vira antes um animal silvestre no seu ambiente. Seu coração
bateu forte com a terrível iminência do que ia acontecer.
Quando o tiro estalou na floresta, o ruído foi muito maior do que ela
jamais teria pensado. Simultaneamente, o cervo estremeceu e sua carne
tremeu do pescoço até as ancas. Suas pernas como que desmoronaram. Deu a
volta, balançando-se de um lado para o outro, caminhando, de cabeça
baixa, tentando fugir. Ken atirou novamente e o animal caiu.
Ele baixou a carabina, sorrindo, de olhos muito escuros.
Aves voaram para longe, piando. A floresta recaiu no silêncio.
Nancy conseguiu recuperar a voz:
- Está morto?
- Acho que sim. - Soprou a boca do cano do rifle, numa espécie de curto
beijo ritual, e recarregou a arma com dois cartuchos. - Na primeira vez,
atingi-o nos rins. A arma puxou um pouco para a direita. Corrigirei isso
depois do próximo.
- A licença não é para apenas um animal?
- É isso o que dizem. - Piscou para ela. - Vamos. - Virou-se e começou a
descer para a ravina.
- E o cervo?
- O que é que tem ele?
- Não vai levá-lo com você?
Ele mediu com os olhos a distância até o animal.
- Conseguiremos um mais perto de casa, a uma distância menor para
carregá-lo.
Inesperadamente, de muito longe, veio o som de um tiro. Um estalo e
depois o eco, afastando-se com um som oco.
- É Art - disse Ken. Quase imediatamente, ouviram outro tiro, seguido de
um terceiro. - Está se divertindo um bocado - disse, rindo. -
Provavelmente, aves. Ele as odeia.
- Aves?
- Eu não sei por quê. Acho que ele pensa que uma delas lhe atacará o
rosto algum dia.
Voltaram pelo emaranhado fundo da ravina, galgaram um de seus lados,
cruzaram uma parte plana da floresta e desceram para outra ravina.
- O lago fica à nossa esquerda - explicou Ken. Ela se perguntou como é
que ele sabia.
Chegaram a uma lagoa e, dessa vez, a caça foi de castores. Ken abateu
dois deles, um ao lado do outro, e com tanta rapidez que o segundo não
teve tempo de fugir ao som do tiro que matou o primeiro. Mergulharam
ambos, o lago fechou-se sobre eles, morrendo aos poucos as ondulações, e
a água borbulhou vermelho-escura, tornando-se rosa mais adiante.
102
O rifle de Greg começou a troar. O som vinha de muito mais perto do que
o dos tiros de Art, o estrondo era mais forte e o eco mais curto. Ele se
encontrava a apenas meia milha de distância e o que quer que fosse que
alvejava não errava. Nunca havia um segundo tiro. A arma ladrava e não a
ouviam mais por outros 10 minutos.
Ken abateu outro cervo. Uma fêmea. Ele encolheu os ombros:
- É estúpido esse negócio de não matar as fêmeas. Quero dizer, a teoria
é de que se pode matar alguns machos e que os que sobrarem podem fazer
todo o serviço que precisa ser feito. Dessa maneira, os cervos não se
reproduzem demais nem morrem todos de fome. Mas por que não abater ambos
os sexos, se há tantos deles? - Sorriu de modo encantador para ela. - O
que é que há de tão sagrado sobre as fêmeas? Por que um bocado de machos
tem que morrer para que ela possa comer?
A distância, o rifle de Art ecoou mais uma vez.
Sobre uma pequena elevação fizeram um almoço de biscoitos secos, uma
lata de carne de porco, um pouco de picles e cerveja. A floresta
estendia-se por milhas em volta deles, vasta e desabitada, interrompida
aqui e ali pela prata dos lagos e dos lentos rios.
- É lá a cabana - disse Ken, e apontou para um ponto faiscante que
parecia do tamanho de uma moeda. - Bem, não exatamente. Aquilo ali é
simplesmente a ponta do lago. A cabana fica mais perto do meio. Está
escondida pela colina.
Nancy visualizou a cabana e, pela primeira vez em horas, lembrou-se de
Martin. E da corrente e do grilhão, daquilo que significavam, e do que
Ken realmente era. Havia quase esquecido.
Comeu em silêncio, sentindo um súbito frio. O vento soprava suavemente
em volta deles, levando para longe as folhas secas. Ouviu a voz de Ken,
de uma grande distância:
- Não há nada que se compare à caça - dizia ele. - É uma coisa natural
ao homem. É isso que está errado com meio mundo hoje em dia. O homem é
um animal caçador, assassino, e nunca tem oportunidade de se realizar.
Oh, certo, talvez uma facada nas costas de alguém no escritório, uma vez
por outra, mas não uma boa morte todos os dias, não a coisa real.
Ela se voltou devagar para ele e ele aparentemente leulhe os
pensamentos.
- Eu sei, você vai dizer, e a guerra? Bem., diabo, um bocado de caras
nunca consegue ir para a guerra. E entre os que conseguem, poucos são os
que se metem numa fuzilaria de verdade, e metade deles tem tão
entranhado na cabeça que aquilo é errado que não consegue prazer algum.
Não foram condicionados à morte quando eram jovens, compreendeu o que
quero dizer? Veia o caso dos gregos antigos, dos espartanos. Eles eram
ensinados a matar desde o momento em que podiam engatinhar. Quando
conseguiam realmente espetar alguém com suas lanças, isso lhes parecia a
coisa mais natural do mundo. Não perdiam tempo sentindo-se culpados. -
Interrompeu-se e apontou para um ponto distante da clareira. - Olhe! -
disse.
Na baixa elevação próxima havia uma árvore tombada, desgalhada, com a
casca despelando, quase branca contra o verde da floresta. Sobre ela,
silhuetado contra o céu, um gavião, marrom sobre o azul que escurecia,
pois o sol já começava a cair.
Ken pôs-se de bruços, sussurrando:
- Agora, você vai ver como se atira. O que é que você quer apostar? -
Ajustou a alça de mira. - Acho que está a uns 300. Não há vento. -
Passou o braço pela bandoleira de lona do rifle e firmou a coronha
contra o ombro e o rosto.
Nancy foi tomada por uma espécie de terror, pior do que na ocasião em
que ele abatera o primeiro cervo. O gavião mal era visível. Girava a
cabeça como se ela estivesse num encaixe. Por que matá-lo? Qual o
proveito disso? O gavião não podia, em hipótese alguma, saber da
existência deles. Era uma ave. Aves não sabem que podem ser atacadas por
alguma coisa situada a centenas de metros, por algo no chão. Aves
conhecem a morte no chãoapenas quando elas mesmas estão no chão, e uma
raposa, um lobo ou um lince arremetem de súbito de uma moita enquanto
elas despedaçam sua própria vítima. Ou conhecem o grito de uma ave
maior, uma águia o chiado de suas asas e o cruel corte de seus esporões
quando ela mergulha para roubar a carne recém-abatida.
Mas não de uma arma a 300 metros de distância. E de um pequeno cone de
aço voando a tal velocidade que nem se pode ouvi-lo. Vindo de onde?
104
- Não! - exclamou. - Por favor, não! Ken apertou devagar o gatilho.
Ela se lançou sobre ele, mas era tarde demais. O tiroestalou. O gavião
permaneceu erecto e imóvel durante uma fração de segundo. Em seguida,
como se em câmara lenta, penas soltaram-se devagar de seu pescoço e a
cabeça, desapareceu. O corpo derreou-se sobre si mesmo; as garras
afrouxaram; a ave caiu como se fosse um pano úmido.
Foi assim o resto da tarde. Tudo que era visto era baleado. Art e Greg
atiravam ainda mais, a depreender-se da saraivada. Ecoava sem cessar o
som de suas carabinas.
Nancy ficou enojada no início. No fim, não conseguiu mais importar-se
com os animais, abatidos ou mutilados. Quando se dirigiram para a margem
do lago ao encontro de Greg, ela estava consciente apenas da silenciosa
masculinidade de Ken, que seguia ao seu lado, fisicamente atraente e
dominador. Achou que sempre o havia conhecido, sempre o havia seguido. A
face, o corpo, o cheiro e o som dele eram totalmente familiares. Martin
era outra pessoa,, em uma outra vida.
Greg riu quando se encontraram. Tinha as mãos manchadas de sangue e suas
roupas pareciam as de um açougueiro. Com o polegar, indicou a floresta
às costas.
- A última que derrubei está apenas a uns 50 metros daqui. Uma raposa.
Deixei algumas peles ao lado dela.
Ken sorriu e disse:
- Nós esperaremos.
Greg desapareceu. Ouviram-lhe os passos pesados através das moitas. Ken
acendeu dois cigarros e deu a Nancy um deles, ainda com a umidade de
seus lábios. O gesto pareceu normal a ela, o tipo de coisa casual que se
compartilha com amigos.
Antes de ter fumado metade do cigarro, Greg voltou com um pesado molho
de peles sangrentas sobre o ombro. Colocaram-nas no bote e partiram
exatamente no momento em que o sol tombava por trás de alguns pinheiros.
Brilhou durante um momento, fragmentando-se seus raios, e depois
apagou-se.
Nancy observou a cabana aproximando-se cada vez mais. À medida que isso
acontecia, parte do seu senso de protegido isolamento começou a
desaparecer. Onde houvera apenas ela e Ken, a floresta e os tiros, havia
agora Greg e, logo depois, Martin, Art e um novo terror.
Art recebeu-os no terraço da cabana.
- Que festa! Como se foram vocês? - Ria de orelha a orelha e estava
vermelho devido à exposição de um dia inteiro ao sol.
- Legal - disse Ken.
- Eu peguei um gato do mato. Olhem aqui. - Art ergueu-o, uma massa
impotente e estirada, com uma mancha escura de sangue coagulado em torno
do focinho semiarrancado pela bala.
Abatera também um gavião, seis castores e uns dois pequenos pássaros.
- Não sei onde diabo estavam eles. - Dois cervos, alguns esquilos e uns
corvos, três guaxinins e, melhor que tudo, um coiote. - Peguei o safado
no momento em que se afastava de um cervo que abati antes. Isso lhe
ensinou uma lição. - O sorriso desapareceu nesse momento e ele
acrescentou: - E, oh, sim. Esperem só até saberem de tudo a respeito de
Júnior. - Referia-se a Martin, e levou todos para ver.
Em alguma ocasião durante o dia, Martin colocara uma cadeira sobre a
mesa da cozinha e abrira a clarabóia no teto que dava para os tanques de
água. Nos detritos em volta encontrara uma lâmina quebrada de serra,
deixada ali anos antes, quando haviam instalado os encanamentos. Descera
e atacara a corrente, quebrando a lâmina pela segunda vez, arranhando-se
e cortando as mãos, mas persistindo.
E havia quase conseguido cortar o metal. Art chegara justamente em
tempo.
- Precisa ser soldada - disse. - Eu não podia fazer isso e manter ele
debaixo de mira ao mesmo tempo.
Entraram na cozinha, onde encontraram Martin sentado numa cadeira, com
um ar de derrota completa na face, o corpo derreado. Seus olhos mudos
encontraram os de Nancy e ela viu neles o desespero.
- Eu não o castiguei ainda - disse Art.
- Esqueça isso - disse Ken. - Ele teve todo o castigo que merecia
simplesmente no fato de você tê-lo surpreendido. Certo, Marty? - Riu e
olhou para as mãos de Martin. - Ele vai precisar de primeiros socorros,
ou vai sujar tudo isto aqui de sangue. Nancy, o estojo está no banheiro.
Ela saiu e foi buscá-lo. Enquanto enfaixava as mãos de Martin, Greg
trouxe um conjunto portátil de oxiacetileno. Ken abriu uma garrafa de
bourbon e, quando Greg terminou de soldar a argola, eles quase a haviam
acabado. Ken sentava-se ao lado de Nancy na mesa da cozinha, com um
braço passado frouxamente sobre seus ombros. Ela não pôde mais olhar
para Martin. Achou que, se o fizesse, qualquer vago senso de segurança
que lhe vinha através de Ken desapareceria imediatamente e que ela não
mais seria nem mesmo ligeiramente uma parte dele, e que se desvaneceria
a última margem de segurança obtida na caçada daquele dia. Ela seria
mais uma vez a antiga Nancy, parte de Martin, seqüestrada.
Greg soltou Martin nesse momento e mandou-o carregar lenha. Ken,
relaxado e meio embriagado, resolveu dar uma lição de culinária a Nancy,
enquanto Art sentava-se junto ao fogo e lia. O oferecimento deu-lhe nova
centelha de esperança e ela conseguiu sorrir.
- Não é nada especial. Apenas um molho para carne que aprendi na França.
- Examinou os cinco grandes bifes congelados que tirara do gelo seco da
geladeira naquela manhã. - Muito bem. Perfeito. - Serviu-se de mais um
drinque, preparou outro para Nancy e continuou: - Eu estava em Cannes e
parei à noite, a caminho de Paris, ao norte de Dijon, numa aldeia
chamada Vitteaux. Lá há um pequeno restaurante-taverna. O chef me
ensinou como fazer o molho.
Apanhou uma grande frigideira e pôs Nancy a trabalhar, explicando-lhe
como fazer o molho à base de vinho. A sua voz e presença eram
calidamente íntimos. Demorou algum tempo e ficaram muito juntos no
fogão. Ken terminou a bebida, abriu outra garrafa e pôs um pouco no copo
dela, também, mas logo que o nível subiu a dois dedos ela empurrou a
garrafa, sacudindo a cabeça. O calor da última bebida já estava descendo
devagar pelos seus membros. Não queria ficar embriagada demais. Queria
saber o que estava fazendo.
Nesse momento, ele pôs um braço em volta dela e, de súbito, inclinou a
face para ela. Nancy sentiu um imediato júbilo. Estava em segurança,
afinal de contas. Fora aceita. Fazia parte. Abriu a boca para ele, no
inicio explorando a dureza úmida e doce da língua dele com a sua e,
depois, com mais força. Somente por um momento pensou em seus lábios
machucados, e que fora ele quem a machucara.
Ele riu e deu-lhe uma palmadinha nas nádegas, cobertas pelas pesadas
calças de caça.
Eu gosto mais de você quando está de jeans - disse. Segurou um de seus
seios durante um momento, avaliando-lhe o peso e sentindo-lhe os
contornos pendentes por baixo da grossa camisa de caça. Ela não o
deteve. Parecia natural que ele fizesse isso.
Então era isso, pensou ela. Sexo, afinal de contas. Mas não estupro.
Sexo da maneira como devia ser, com calor, emoção e contato. Mas, por
que Martin? Seria ele para sexo também? E para quem? Art? Para todos
eles? Nestes dias de hoje nunca se sabe mais de coisa alguma a respeito
de pessoa alguma.
Por um rápido momento, voltou parte do velho pavor, tornando-a mais
controlada. Não era preciso seqüestrar um homem e uma mulher para fazer
amor. Havia mulheres, e homens também, que fariam qualquer coisa que a
mente humana pudesse conceber e nem mesmo pediriam dinheiro. Fariam
apenas pelo prazer, porque era isso que queriam fazer.
E a argola e a corrente? Houvera realmente alguém no ano anterior? Que
mulher? Onde se encontrava ela naquele momento? E que homem? Ou seriam
as manchas marrom-escuras outra coisa, não sangue, e ela simplesmente
imaginara coisas? Ou sangue, sim, mas então por que eles não haviam
querido cooperar?
De muito longe, ouviu Ken explicando como era feito o molho, mexendo,
falando em voz tranqüilizadora, como se coisa alguma houvesse
acontecido.
A sensação de segurança voltou em turbilhão. Ela estava bem, tudo ia
correr bem. O que quer que eles quisessem, ela estaria bem. Era a única
maneira. Naquela noite, ela faria com que ele desejasse jamais ter
conhecido outra mulher que não ela. E Greg, também, se tivesse de
fazê-lo. Seu júbilo subiu às alturas. Estava livre, havia conseguido.
Inesperadamente, não se importou mais em ficar bêbada. Terminou de um
gole o bourbon e, quando Ken voltou a servi-la, não empurrou a garrafa.
Sorriu e, antes de beber, ela mesma beijou-o outra vez, com seu esbelto
corpo colado fortemente contra o dele.

Capítulo 13

DURANTE TODO O DIA, SEGUIU-LHES OS MOVIMENTOS DE UM LADO PARA OUTRO
através da floresta, produzindo os tiros do rifle de cada um som
diferente, um mais explosivo e mais profundo e outro mais seco e mais
alto. Art batera toda a parte norte-sul do lago, para cima e para baixo,
usando uma espingarda leve de calibre 20. Em seguida, voltara-se
diretamente para o lado da terra e do oeste e a partir daí, por uma
distância de duas milhas, usara a Remington 35. Ao meio-dia, tomara mais
uma vez a direção norte e em meados da tarde havia descrito um triângulo
quase perfeito, voltando diretamente para o leste e o lago, na sua
extremidade norte e seguindo pela praia até o ponto de partida. Atirara
mais na zona dos alagados. De tempos em tempos, haviam esvoaçado nuvens
de aves migratórias, ouvindo-se vagamente seus pios mesmo àquela
distância.
Ken, sabia ele, cruzara o lago em companhia de Greg e da mulher e fora
inicialmente para o nordeste, depois para o leste e finalmente, para o
sudoeste, numa longa etapa de volta em forma de triângulo que lhe tomara
o dia inteiro e o levara ao ponto de encontro com Greg. Certa ocasião,
vira Ken quando saía da ravina, como uma formiga seguida por outra.
Dessa maneira, soube que Ken levara a moça com ele e, conhecendo-o, e
também a Greg e Art, sabia também que Art na certa não a queria e que
Ken e Greg provavelmente haviam feito um jogo para saber quem ficaria
com ela, tirando a sorte.
O sistema de caçada de Greg fora inteiramente diferente dos demais.
Errático. Claramente, apenas vaguear pela floresta sem um único
pensamento na mente, exceto seguir até onde o levasse a fantasia ou
talvez perseguir caça que pusesse a correr para salvar a vida. Bem, tal
era o caráter de Greg, certo. Movera-se com grande rapidez, ainda assim.
A certa altura, seus tiros pareciam vir de uma distância de pelo menos
três milhas e o terreno por ali era acidentado. Mas Greg era fisicamente
um bruto poderoso, que se conservava em soberbas condições.
De seu ponto de observação sobre uma escarpa rochosa por cima da velha
serraria, vira mais tarde Greg, Ken e a moça voltarem ao anoitecer,
estudando-os de perto através de um binóculo de 12 aumentos e, uma vez,
através da mira telescópica Leupold do seu rifle Holland and Holland de
cano duplo. Observara-os sem ser visto ou notado, da mesma maneira que
observara o prisioneiro através da janela da cabana quando ele subira ao
sótão e descera, num esforço para ganhar a liberdade.
Era uma pena a respeito dele. Basicamente, tratava-se de um coelho que
nem tinha a astúcia nem a força de vontade necessárias para salvar-se,
quanto mais salvar a moça. Tendo falhado, provavelmente perdera toda a
coragem.
A moça, contudo, parecia diferente. Chegara como um cordeiro e estava
mostrando sinais de comportamento de leoa. Isso com freqüência acontecia
com as pessoas. A adversidade gera às vezes coragem, astúcia, tenacidade
e sombria determinação. Fora caçar com eles, agüentara o dia inteiro e,
voltando no bote de borracha, encontrara coragem para rir. Tinha uma
chance, ao passo que acabara a sorte do homem. Saberia ela o que a
aguardava? Provavelmente. Ela se mostrara bastante ansiosa e
desconfiada, o que indicava pessoa inteligente. Naquela noite, deveria
ir para a cama com eles. Para aquele ritual pervertido, quase
homossexual, que eles praticavam.
Durante um curto momento, não muito antes, vira, no campo da mira
telescópica, pernas vestidas de calças na sala principal, no chão e
emolduradas pela escura janela da cozinha e pela porta. Projetavam-se de
algum lugar próximo à sala de jantar. Em seguida, a moça misturou-se com
elas e, depois, com as de outro homem, com toda probabilidade Greg. Por
fims as pernas de Art apareceram de pé, observando os demais, que
procuravam se soltar. Mais tarde, os três corpos rolaram e apareceram,
emaranhados, fazendo cócegas um no outro como se fossem crianças, rindo
incontrolavelmente. Quando tentou erguer-se, a moça caiu. Ela estava,
isso era claro, inteiramente embriagada.
Naquela posição dura e incômoda, lutou contra o crescente nojo físico.
Tomou uma profunda respiração e firmou o torso estendido no chão,
apoiado nos cotovelos, enquanto movia ligeiramente as pernas para
aliviar a rigidez dos quadris sem mover os braços, que formavam dois
pontos em um suporte de três para o seu H e H, com a mira telescópica
montada baixa. O terceiro ponto, a empunhadura dianteira do cano, estava
mergulhado na delgada camada de marga entre as duas velhas rochas que
lhe formavam o abrigo. Encontrava-se na parte mais alta da escarpa.
Naquele momento, a luz da sala principal da cabana apagou-se subitamente
no centro da mira e tudo que conseguiu ver foi o brilho fraco da lareira
moribunda.
Esperou com toda a paciência. Não havia mais perigo. Fora apenas o
treinamento que o fizera assim, a disciplina que se impusera durante
anos. As possibilidades de que desconfiassem de sua presença era de um
contra mais de um milhão. Mas um tiro em um contra um milhão podia matar
uma pessoa com a mesma facilidade que a de um contra cinco ou, por falar
nisso, em igualdade de condições.
Os minutos arrastaram-se; a terra esfriou e tornou-se mais hostil. O
vento soprou forte e as estrelas pareceram cabeças de alfinete de gelo,
zombeteiras. Não houve mais movimentos na cabana. Nenhuma sugestiva
sombra destacou-se da escuridão da porta principal ou de uma janela na
parte posterior da casa.
Rolou devagar para longe da posição onde se encontrava. Foi cruel a dor
da circulação que se restabelecia. Sentou-se, esfregou os tornozelos e
as coxas, ajudando o sangue a correr. Apalpou em seguida a mochila,
procurando as rações de campo, o biscoito duro, a carne seca, os cubos
de comestível vegetal e o cantil. Ao encontrá-los, deteve-se. Não, seria
melhor não comer ali. Somente onde pudesse ter certeza de destruir todas
as possíveis pistas. Com todo o cuidado, alisou o chão, apagando
pegadas, rearrumando, com mão prática na escuridão de breu, as folhas, a
grama seca e a marga que havia deslocado. Ergueu o rifle, dobrou o
suporte do cano, desatarraxou a mira, enfioua com todo o cuidado na
bainha de nylan e recolocou-a na mochila. Não precisaria dela por outras
12 horas pelo menos, possivelmente por mais tempo. O binóculo tomou o
mesmo caminho que a mira. De rifle na mão, ergueu-se e começou a descer
em silêncio a escarpa, em direção à floresta pantanosa da margem norte
da ilha.
Andava bem devagar, lembrando-se dos indicadores de trilha que
visualizara no dia anterior. Um calhau com a face coberta de musgo, as
cabeludas raízes secas de uma árvore arrancada em alguma tempestade de
verão, uma muda de tronco macio e uma moita baixa abraçada por um
sufocante espinheiro.
Logo depois, deixou o lado posterior relativamente estéril da costa e
entrou na floresta. Parou, à escuta. Não ouviu som algum, salvo o de um
grilo. À sua frente, uma sólida parede de grossas árvores, de uns 100
metros de largura e, logo depois a velha serraria, a parcial clareira em
volta dela e, por fim, outro trecho de moitas entre ela e a cabana.
Tirou a lanterna do bolso interno da jaqueta de caça e acendeu-a,
orientando o feixe branco para bem baixo no chão à frente, a fim de que
ela não tirasse reflexos dos ramos altos. Havia percorrido aquela trilha
pela manhã. Naquele ponto, um ramo curvava-se, sustentado por outro;
alguns metros mais adiante havia uma ou duas rochas estrategicamente
colocadas. Era um caminho tão escondido e natural que somente um esculca
treinado em guerra na selva poderia têlo descoberto. Seguiu-o, afastando
ramos, tirando rochas do caminho. Cinco minutos depois, o feixe da
lanterna tirou reflexos de água parada. Chegara à praia norte. Acendeu
mais uma vez, rapidamente a lanterna e tenteou com cuidado as moitas.
Seus dedos tocaram em algo duro e metálico mas oco ao mesmo tempo. Era a
proa da canoa. Deu dois passos medidos para a frente, em direção à popa,
agachou-se e tenteou outra vez. A mão penetrou em um baixo túnel entre
as moitas. Tirou a mochila, empurrou-a pelo túnel e, em seguida, com
todo o cuidado, penetrou nele, conservando o rifle a pouca distância do
chão duro. Foi preciso tempo e paciência, mas, cinco minutos depois,
teve a recompensa, quando se estendeu a fio comprido sob a canoa
camuflada, descansando a cabeça sobre a mochila. Puxou para o lado as
rações de campo e o cantil e saboreou o primeiro alimento e bebida desde
o amanhecer.
Agira bem, pensou. A canoa impediria que a geada da noite o molhasse e
em seguida se congelasse em suas roupas. Ocultaria também qualquer
momentânea luz que resolvesse acender. Amassou o papel da ração,
enfiou-o num bolso da mochila e tirou um pequeno recipiente contendo
cinco cigarros, juntamente com o isqueiro a gás. O isqueiro pegou e
acendeu-se com luz brilhante, bem perto de seus olhos. Puxou uma longa
tragada do cigarro sem filtro. Trouxera cigarros sem filtros porque os
filtros não se destroem logo por si mesmos e, mais tarde, podem ser
encontrados por alguém que ande com um pente fino à procura de provas.
Por outro lado, o papel comum de cigarro e o fumo não consumido podem
ser esmagados ou ser levados pelo vento para os quatro pontos cardeais
com as primeiras rajadas do inverno, ou ainda ser destruídos pela neve,
em questão de dias.
O isqueiro e a cigarreira voltaram para a mochila. Fumou em silêncio,
deitado de costas, passando em revista as atividades do dia seguinte.
Era difícil fazer planos: não se podia passar inteiramente a perna nas
pessoas. Mas podiase fazer uma idéia geral e relembrar locais seguros
onde se esconder e posições de emergência no caso de alguém não se
enquadrar nos palpites e aparecer acidentalmente à frente.
Logo depois terminou o cigarro. Apagou-o no chão ao lado. No dia
seguinte, daria fim à ponta. Pôs o mostrador luminoso do relógio junto
do rosto e acertou o ponteiro despertador para as seis. Seria ainda
escuro nessa ocasião. Ninguém na cabana estaria de pé antes das sete, no
mínimo. Isso lhe daria tempo para comer, sair de sob a canoa e reparar
qualquer dano que porventura houvesse cometido quando se arrastara ali
para dentro, e seguir para o novo ponto de observação do dia.
Aquela noite seria a última em que poderia estirar-se e realmente
dormir. Na manhã seguinte, restabeleceria sua base, seu esconderijo, em
primeiro lugar como medida de segurança necessária, pois logo depois
seria perseguido, e perseguido desesperadamente; em segundo, para
facilitar movimentos rápidos em muitas direções diferentes. Isso
porque, a partir do dia seguinte, a menos que tivesse muita sorte,
talvez não dormisse novamente por, pelo menos, 72 horas.
Levantou a gola da jaqueta, rolou sobre um lado e, escutando a água
tranqüila do lago lambendo as rochas aos seus pés, caiu num sono
profundo e sossegado.

Capítulo 14

O FRIO COMEÇOU A ACORDAR NANCY - o frio, uma dor de cabeça dilacerante e
a forte náusea do excesso de bebida. No início, apenas
semi-inconsciente, tentou esquentar-se nas longas costas nuas de Greg,
mas não foi suficiente. As cobertas haviam caído de cima de ambos para o
chão. Teria que subir por cima dele para apanhálas e estava enjoada
demais. Art e Ken estiravam-se nas outras camas, em sono profundo.
O medo, em seguida, despertou-a ainda mais. A protetora escuridão da
noite desaparecera e, com ela, a cega confiança e a histeria sem freios
que livremente se permitira. Sentia-se vulnerável e tomada de horrível
nojo e sentimento de culpa pelo seu próprio lembrado prazer. Pior que
tudo, era uma sensação persistente que rapidamente crescia no seu
íntimo: tendo ido com eles até o fim do caminho, não lhe sobravam mais
armas, nenhum mistério feminino com que pudesse atraí-los.
Pois fora até o fim. Fizera íntimo e proibido amor com Ken e Greg,
ignorando Art, que os observava, de boca mole e olhos em fogo. Deixara,
em seguida, que cada um deles tivesse sua vez com ela, enquanto
continuava com o outro. Isso fora apenas o início. Insaciáveis,
haviam-na procurado novamente, juntos. Ela, inteiramente solta e, nessa
ocasião, igualmente insaciável, seguira-lhes as risonhas instruções,
seus esforços e canhestras tentativas de bêbados, os dolorosos e
confusos enredamentos de membros quando tentavam colocá-la em posição
até que, finalmente, foi tarde demais para parar, ao perceber a
realidade da situação - a longa e dilacerante agonia quando Ken lhe
penetrou no ânus, simultaneamente com as imaginavelmente enormes e
brutais arremetidas de Greg em sua vagina, até que ambos se enterraram
profundamente nela, duros, um contra o outro. A dor passou e o sexo
reafirmou sua primazia. O seu corpo esmagado e encharcado de suor subia
e descia, desejoso, acompanhando o profundo e experiente ritmo de ambos.
A boca deles procurou a sua, quentes e úmidas, berrando vilezas e
obscenidades que ela alegre repetiu, até que Art entrou no jogo,
inicialmente como um estranho, sufocante, até que ela, finalmente, o
quis mais do que queria Ken e Greg, e até que todo o universo nela e
neles explodiu e saciou-lhe a fome incontrolável.
Pobre Martin, pensou ela, ali escutando. Mais tarde, Art sentou-se
deliberadamente diante dele, numa cadeira, grotescamente nu e insolente.
Ouviu as palavras engrolaclas de bêbado de Art, zombeteiras e pegajosas,
contando em detalhe a Martin tudo o que ela fizera. Em seguida, ele
começara a remexer nas calças de Martin.
Fora à cozinha tomar uma bebida e se encostara semidesperta na porta,
com a garrafa de bourbon na mão; enquanto o doce fogo da bebida lhe
escorria pelos cantos da boca, escutara, fascinada, Art procurando uma
nova excitação. Martin vira-a à luz da lareira, nua, e tentara virar-se
para a parede. Mas Art prendera-o com força, remexendo nas calças dele,
acariciando-o, zombando. Ela voltara a Greg e a Ken, encontrando-os
acordados e à espera.
Naquele momento seu estômago revoltou-se; combateu a náusea com um
esforço, afastou-se de Greg e pulou da cama. O corpo lhe doía de uma
maneira que jamais julgara fosse possível. Permaneceu ali no quarto,
dilacerada, alquebrada, tremendo incontrolavelmente. Descobiu em seguida
as calças e a camisa que usara no dia anterior e as grossas meias de
caça que Ken lhe dera para servir como chinelas. Reuniu-as, dirigiu-se
ao banheiro e vestiu-se. Quando saiu, encontrou Martin acordado. Ouviu o
ligeiro chocalhar da corrente. Ele estava sentado à beira do banco, de
olhos pesadamente encapuzados, cheios de incredulidade ante a presença
dela e o que lhe havia acontecido. Tinha o corpo rígido em um arco de
exaustão, os antebraços sobre os joelhos, e as mãos pendendo frouxas.
Ele era um estranho completo. Mas, apesar de tudo, era ainda Martin. Uma
recordação relampejou em sua mente: o encontro de ambos no aeroporto, a
timidez dele quando o beijara. Quando? Quem era ele?
Ele permaneceu calado. Ela passou por ele e, sem ruído, tirou o barrote
da porta da cabana e saiu.
O sol começava a nascer. Seus raios quebravam-se numa disposição
irregular através do topo das árvores da floresta, em frente ao lago.
A água tinha uma tonalidade prata-vermelha. Curvouse e mergulhou a mão
na água. A mão ficou dormente. Na véspera, Ken dissera que dentro de
alguns dias a água se transformaria em gelo. Ouviu-lhe nesse momento a
gargalhada. Voltou-se. Ele deixara a cabana e vinha andando pelo chão
branco de geada, nu, com uma toalha em volta dos ombros, o corpo
estranhamente branco em contraste com os pêlos escuros da virilha.
Pensou como era estranha a nudez dos homens, tão estreita nos ombros, de
pernas finas. Exceto Greg. E logo depois veio Greg, também. E Art.
- Ei, Nancy!
Ken soltou um grito, lançou para longe com um pontapé os mocassins e sem
se dar uma oportunidade de mudar de idéia, deu três passos gigantescos
chapinhando na água gelada e mergulhou. Subiu com um berro provocado
pelo choque da água.
Greg chegou ao seu lado e começou a desabotoar-lhe a blusa.
- Você vai também, garota.
Ignorou-lhe os gritos. Ken, uivando de tanto rir, saiu da água e
puxou-lhe a calcinha com mãos tão frias que queimavam. Greg segurou-lhe
os punhos, enquanto Ken lhe prendia os tornozelos. Levaram-na assim,
estirada, e contaram até três, balançando-a cada vez mais alto.
A pancada do lago penetrou, como se fosse formada de agulhas, em toda a
extensão de suas costas. A água fechou-se em volta dela como um imenso
bloco de algo esmagadoramente pesado, tão pesado que lhe cortou a
respiração. Abriu por fim os olhos e viu um mundo marrom nevoento, o
fundo coberto de folhas do lago e, acima, o brilho prateado da luz do
dia.
Pôs-se de pé e a aurora pareceu um acolhedor casaco quente. Ken e Greg
chapinharam ao seu lado, rindo e, logo depois, Art.
- Bom dia, Nancy. - Era Greg quem falava. - Como é que vai a nossa
pequena?
- Por que não nos acordou? - perguntou Ken.
- Oh, puxa! Que noite! - Greg pôs as mãos maciças em volta das suas
nádegas e puxou-a fortemente contra si, com os olhos dançando. - Você é
uma coisa, é mesmo. Puxa!
Beijou-a, ergueu-a alto sobre a água e deu-lhe uma forte palmada no
traseiro. Depois, saiu berrando em direção à margem:
- Puxa! Está-me congelando os culhões! Jeeesssus! Ken saiu mais devagar,
com um braço em torno dos ombros dela.
- Isso mesmo, aquilo foi grande, Nance. - Riu. - Não me sobrou nada. E
você?
Ela sorriu, tímida. Ele a apertou mais.
- Gostou, não? Você deve ter gozado umas 20 vezes. Isso é bom.
Riu, procurou-lhe a boca, beijou-a profundamente e puxou-a para fora da
água. Subitamente, havia o calor e a intimidade dele; havia Art, azul de
frio, mas sorridente, entregando-lhe uma toalha quando se aproximou
dele, com uma espécie de expressão reveladora da intimidade especial que
ambos haviam compartilhado; havia Greg, esfregando seu grande corpo e
dizendo piadas sobre o quanto a água gelada o havia encolhido, e Ken,
enxugando-a como enxugaria uma menina, uma de suas próprias filhas.
Aquela outra profunda frieza que havia nele começou a desvanecer-se. Ela
fazia parte ainda e podia enfrentá-los à luz do dia calma e sem medo.
Seus próprios olhos desceram para a linha esguia do próprio corpo, para
os hemisférios gêmeos dos seios, contraídos pelo banho, para o estômago
plano e para as gotas de água que ainda brilhavam nos seus enroscados
pêlos pubianos, para a esbeltez de suas coxas e pernas. Eles a
desejariam logo depois, não apenas porque era mulher, mas porque era a
própria e particular Nancy deles.
Voltaram à cabana. Ela segurava a mão de Ken; Greg punha casualmente o
braço em volta de seus ombros. Art seguia-os, dando alegres chicotadas
com a toalha nos traseiros dos três.
As gargalhadas encheram a sala principal quando entraram e ninguém
prestou mais atenção a Martm, depois que Greg o acorrentou na cozinha e
lhe disse que preparasse o desjejum.
- Diabo, rapaz, por que é que você está parecendo tão deprimido assim?
Você provavelmente gozou também na noite passada, simplesmente ouvindo.
- Era o tipo de grosseira e insultuosa observação que somente Greg podia
fazer. Ken e Art riram. A própria Nancy teve que sorrir. Ken desafiou-a
a tomar a primeira bebida da manhã.
- Você deve estar brincando! - disse Greg.
- Por que não? - exclamou Art.
Ela bebeu. O bourbon puro queimou como fogo e ela quase vomitou. Mas,
uma vez bebido, fez bom efeito. Soltaram todos altas gargalhadas. Greg
deu-lhe outra forte palmada no traseiro nu; Ken deu-lhe um beijo.
Vestiram-se todos em frente à lareira. Em seguida, Ken mandoua até a
cozinha para apanhar outra garrafa e ver se podia ajudar Martin.
Martin encontrava-se à pia, preparando massa de panqueca. Sentindo-se
profundamente embaraçada, Nancy ignorou-o no princípio. Encheu o bule no
aparelho de fazer café do fogão e colocou-o sobre a mesa da cozinha. Em
seguida, achou que tinha que dizer alguma coisa. Em voz baixa, pediu:
- Por favor, não me odeie, Martin. - Fez uma pausa e continuou: - Mas
você me odeia. Sei que me odeia. Eu não tenho o direito de lhe pedir que
não me odeie, não é?
Ele não respondeu imediatamente. Quando o fez, foi cruelmente.
- Onde está a chave?
A chave? Que chave? Fez um esforço para não lhe dar as costas. Como se
fosse uma sensação animal, sentialhe a hostilidade. Era transmitida
fisicamente, atacando-a. Pôs algumas xícaras sobre a mesa.
- Onde está? - perguntou ele outra vez. - Agarroulhe o braço para que
ela o olhasse de frente.
- Que chave, Martin?
- Toda aquela farra e você não pensou nisso nem uma vez, não foi? Da
garagem. Para que eu possa tirar o carro da família e dar um passeio
domingueiro. - Aproximou dela a face escarninha, com os olhos dilatados
de ódio. - Isto. - Ergueu o tornozelo e bateu na argola.
Ele tinha razão. Ela não se lembrara. Nem mesmo pensara nisso.
Abominou-o subitamente, abominou-o por não compreender e por lembrar-lhe
que ele não escapara da maneira como ela o havia feito.
- Martin, procure lembrar-se de onde estamos.
- Lembrar-me? - Ele riu, asperamente. - Você está pedindo que eu me
lembre?
- No que nos aconteceu. Por que eu fiz aquilo.
- Devo lembrar também de quanto você gostou? E não me diga que não
gostou. Eu ouvi você. Oh, como ouvi você!
Não havia maneira de evitá-lo. Era horrível. Tentou pensar, com todo o
cuidado. Mentir a ele não adiantaria. Ele perceberia a mentira. Teria
que contar a verdade, mas de uma maneira que não o inflamasse ainda
mais. De alguma maneira.
- Quando eu resolvi fazer aquilo - disse - não sabia que ia gostar.
Ele a ignorou.
- Nenhuma mulher faz um barulho daqueles à toa - disse ele. -
Especialmente uma puta frígida como você.
Deus, pensou ela. Então era isso. Na noite passada ele descobrira,
finalmente, que nunca a havia satisfeito, nunca poderia fazê-lo. O seu
orgulho não podia suportar aquilo. Era um chauvinismo de homem que o
fazia sentirse fracassado porque não conseguia levar uma mulher a gozar,
como outro o fizera. Era simples assim. Uma ferida mortal. Muito pior do
que qualquer outra baixeza que Art tivesse feito com ele. Ele não
mencionara isso.
Em voz suave, disse:
- Marty, querido, acredite em mim, por favor. Eu não consegui evitar.
Talvez eu estivesse simplesmente bêbada e louca. Por favor, compreenda.
Eu não sabia! Eu não sabia que terminaria gostando. Eu não queria
gostar. - E acrescentou, quase chorando por ele: - Eu gostaria de não
ter gostado.
Ele lhe deu as costas e mexeu barulhento na pia.
- Gostou. Gostou mesmo. - Voltou-se para ela.
Se houvesse um lugar para um quarto cara enfiar o membro, você o teria
recebido também.
Era puro ódio. Algo rompeu-se nela nessa ocasião. Algo que retroagia a
uma verdade que ela sempre soubera, a um desespero que sempre ocultara.
Martin nunca se preocupara senão em usála. E toda a sua desesperada
esperança de fugir de Eddie fora simplesmente isso - esperança e
auto-ilusão. Martin a tornara suja, pervertida, exatamente como fazia
com as mulheres que pagava para dormir com ele. Pior, porque a enganara
ao mesmo tempo. E, pior ainda, porque, em desespero, ela mentira a si
mesma e deixara que ele a enganasse.
A amargura de tudo. aquilo, o ódio a si mesma, a bofetada que lhe deu,
tudo isso foi quase tanto como uma bofetada em si mesma. A bofetada soou
como um tiro depistola e o seu inesperado grito de fúria pareceu-lhe o
grito de uma mulher totalmente estranha.
- Seu safado! Seu merda. Você teve sua oportunidade. Não descarregue o
seu despeito em cima de mim.
Ele a fitou, incrédulo, apalpando com os dedos os vergões vermelhos que
ela lhe deixara no rosto. Seus olhos se tornaram subitamente brancos e
ele a atacou.
O golpe lançou-a até a metade da cozinha, espalhando o café fervente
pelas paredes. A garrafa de bourbon espatifou-se. Num som terrível e
vibrante, ela lhe ouviu os gritos.
- Puta suja!
Sentiu gosto de sangue na boca e seus olhos se focalizaram. A corrente
se enroscara em torno da mesa da cozinha, mantendo-o a distância. Ele se
encontrava na ponta da corrente como se fosse um cão e ela fora de seu
alcance, quase mas não inteiramente. Ele lhe agarrou obraço e seu lábio
superior encrespou-se sobre os caninos. Dos cantos da boca saía espuma.
Foi puxada para juntodele.
Greg entrou, viu o que estava acontecendo e soltou uma gargalhada.
Arrancou os dedos de Martin do braço dela e, como se ele fosse uma
criança, ergueu-o do chão, lançou-o contra a pia e deu-lhe um forte
pontapé. Martin caiu, com um grito agudo, segurando a coxa.
- Minha perna. Você quebrou minha perna!
- Quebrou, uma ova. Limpe isso. - Com os pés, empurrou os cacos da
garrafa na direção dele. - Tudo bem, Nance?
Ela se ergueu, levando a mão à boca sangrenta. Ken e Art apareceram no
umbral da forta. O primeiro disse a Martin:
- Seu merda! Por que diabo fez isso? - E a Nancy: - Como foi que você
conseguiu arranjar esse cara?
Soluçando, Nancy dirigiu-se a Martin.
- Seu covarde. Qual foi a última vez em que você bateu em Jean?
Ele se levantou.
- Não meta Jean nessa história, sua puta nojenta. - Seus olhos ficaram
brancos outra vez. Deu um mergulho na direção dela. Desta vez, Ken
deteve-o.
- Escute aqui. Basta.
- As crianças eram simplesmente uma desculpa, não? - perguntou Nancy. -
Tudo que você sempre quis foi passar os fins-de-semana comigo. Metidas
gratuitas.
- Puta mentirosa - berrou Martin. - Hipócrita. Como se eu não fosse sua
maneira de se livrar de Eddie. Você também esteve me usando.
- Eu disse, calma aí - interveio seco Ken. Empurrou novamente com força
Martin contra a pia e toda a coragem subitamente se desvaneceu dele. - O
mesmo se aplica a você, Nancy.
Levou-a de volta para a sala. Greg disse a Martin que continuasse a
preparar o desjejum e arrumasse aquela desordem. Apanhou outra garrafa e
saiu atrás de Ken. Art, porém, permaneceu por um momento, observando
divertido Martin.
- Martin - disse ele - qual é o motivo de sua irritação? Alguns caras
dão pontapés em mulheres, outros não. Você deve saber disso. Não precisa
levar o negócio tão a sério.
Na sala, tomaram todos outro gole diretamente na garrafa e esperaram por
Martin. Após algum tempo, ele entrou, trazendo ovos e mais café. Comeram
em silêncio. Aquela atmosfera que houvera anteriormente desaparecera.
Martin havia arruinado alguma coisa. Nancy sentiu a mudança. Ele matara
o calor e a intimidade e, embotadamente, ela teve certeza de que talvez
o houvesse feito para sempre. E com aquilo, sabia também, ele dissera a
verdade. Sobre ela e sobre ele. Durante todo o tempo em que o acusara,
ela fora igualmente culpada.
Observou Greg olhando para a separação entre seus seios e deu-se conta
de que nem por um momento abotoara a blusa. Ele sorriu, mas foi um
sorriso diferente de antes. Desejava-a, mas apenas para se aliviar.
- Muito bem, chefão - disse ele a Ken. - O que é que você quer fazer
agora? Voltar para a cama e brincar um pouco mais, ou começar a
trabalhar?
Ken pensou um momento e disse:
- O que é que vocês acham?
Greg olhou outra vez para Nancy e coçou-se, de modo sugestivo.
- Bem, foi um bocado curta a sessão de ontem à noite. Um pouco de tama
não faria mal a ninguém.
- Esqueçam isso - interveio frio Art. - Aquele monstrinho lá dentro
representa encrenca. Vamos dar o dia por terminado.
- Concordo com Art - disse Ken. - Além disso, é contra as regras.
- Nós podíamos mudá-las. Fazer uma votação.
- Não. Nós as elaboramos por bons motivos. Lembrase? Não nos deixarmos
envolver.
Greg pensou um pouco e concordou, de má vontade.
- Certo. Você tem razão. Timidamente, perguntou Nancy:
- Que regras?
- Simplesmente, regras - respondeu Ken. Não olhou para ela.
- Como?
Não houve resposta, e a característica do silêncio dele era de
preocupar. Havia algo errado. Ele se tornara furtivo. Uma cortina havia
descido.
- Martin! - gritou ele. - Venha até aqui. - Tirou do bolso a chave da
argola. Ela percebeu o gesto e notou que Greg olhava novamente para seus
seios. Ele também percebeu que ela o observava, estendeu a mão e colocou
a palma sob um dos seios, erguendo-o e deixando-o cair. Riu. Uma espécie
de desesperada esperança nasceu forte nela. Talvez pudesse fazer com que
tudo corresse bem novamente. Estendeu a mão para as calças dele,
buscando-o, e imediatamente sentiu-o endurecer-se.
Ken percebeu e fechou a cara.
- Vamos, Greg. Pelo amor de Deus! - Havia violenta fúria em sua voz.
Greg recuou.
- Muito bem, muito bem. - Afastou a mão de Nancy, tirando-a de cima de
seu membro.
Martin entrou e ficou à espera. Ken correu-o de altoa baixo, devagar.
- O que é que há? - perguntou Martin, muito pálido.
- Tome um drinque, Marty - disse Ken. Serviu uns dois dedos num copo e
estendeu-o a Martin, que o recebeu sem protestos, com os seus olhos
escuros movendo-se de um para o outro homem.
Depois de ele ter bebido, Ken recolheu o copo. Martin não se movera. Se
alguma coisa houvera, estava mais pálido, mas uma espécie de profunda
inteligência aparecera na máscara de sua face e havia uma certa
expressão na sua boca que não estivera ali antes.
Ken notou o fato e disse:
- O que foi que você fez com ele, Greg?
- Nada - protestou Greg, sem compreender. - Deilhe um pontapé Na coxa.
Você sabe, de maneira como nos ensinaram no exército.
Art examinou Martin com toda a atenção.
- Não é isso - disse. - Ken tem razão. Ele sentiu a coisa. Não é um
reconhecimento intelectual, compreenda, mas uma sensação instintiva.
Como um animal. Isso é interessante. - Sorriu. - Bem, talvez não. Ele é
um animal, afinal de contas.
Ken continuou a fitá-lo, pensativo.
- Isso mesmo - concordou. - Você tem razão, Artie. Perigo. Ele sentiu o
cheiro de perigo. - E, voltando-se para Martin: - Aqui. É toda sua. -
Entregou a Martin a chave da argola.
Martin desviou os olhos pousados em Art.
- Pegue-a, pegue-a - insistiu Ken. Deixou cair a chave no bolso do peito
da camisa de Martin.
Martin falou, em voz lenta:
- Que vantagem vocês vão nos dar?
- Viu? - perguntou triunfante Art. - Eu não lhe disse?
Confusa, Nancy falou:
- Ken, eu não compreendo.
- Não há problema - riu Greg. - Vamos soltar vocês.
- Vocês têm 20 minutos - disse Ken a Martin.
Art apanhou um pequeno embrulho que estava em cima de um dos bancos.
- Vocês podem levar isto. Há aqui rações para três dias, fósforos, um
estojo de primeiros socorros, tudo que vocês podem precisar.
Nancy explodiu:
- Alguém quer, por favor, me dizer o que é que está acontecendo?
- Eu lhe disse - respondeu Greg. - Adeus.
A coisa não soava direito. Ela se voltou para Martin. Ele sorria
desagradavelmente.
- Você sabe tão bem como eu o que é que está acontecendo.
E, naturalmente, ela sabia, bem dentro de si mesma. Da mesma forma que
Martin. Soubera e reconhecera o fato muito antes que ele. Tudo em que
pensara depois fora apenas uma vaga esperança e auto-ilusão, algo
nascido do desespero. Perguntou-se quando fora que Martin resolvera
enfrentar a verdade. No dia anterior? Quando haviam ido caçar? Ou na
noite passada? Pouca diferença fazia. Era ainda impossível de acreditar.
A morte estava inextricavelmente misturada com a rejeição, no pequeno
abrigo que ela construíra em volta de si mesma. Minutos antes haviam
estado nus, rindo juntos. Os braços de Greg haviam-lhe enlaçado os
ombros e ele a beijara. O mesmo fizera Ken. Na noite passada haviam
compartilhado de tudo. Eram amigos.
Não conseguiu falar.
Calmamente, Martin abriu a argola e aceitou o embrulho oferecido por
Art.
- Quantos outros houve antes de nós? - perguntou. Ken hesitou um pouco e
depois respondeu:
- Seis.
- Seis casais - disse Art, em voz seca.
- Tão simples assim? - perguntou Martin. - Todos os anos vocês tiram
férias, seqüestram alguém, divertem-se um pouco, soltam-nos e depois
fazem um torneio de tiro ao alvo. Tão simples assim?
Falou em um tom de voz absolutamente natural. Ken e Art trocaram um
olhar.
- Escute, Marty, vamos colocar a questão desta maneira. Há uma grande
floresta do lado de lá. Qualquer coisa pode acontecer.
Art sorriu, tortuosamente.
- Quem sabe? Você pode terminar nos matando.
- Com quê? - explodiu Martin. Durante um instante perdeu o controle. -
Com isto? - Estendeu as mãos, com as palmas para cima.
Ninguém respondeu. Alucinado, ele olhou de um para o outro:
- Eu disse isto antes. Vocês são loucos. Todos vocês. Loucos varridos.
Ouçam, isto aqui não é o Vietnã ou outro lugar qualquer. Nós não somos
nativos ou negros. Somosbrancos. Como vocês. Eu trabalho num banco. Sou
um homem respeitável. Sou casado. Tenho filhos.
Ken acertou o botão do seu relógio-tacômetro.
- O seu tempo começa agora mesmo. Martin, porém, não se deixou
interromper.
- Pelo amor de Deus, querem me escutar? Muito bem, o prazer de vocês é
caçar gente. Mas isto não é caçada. Há caça quando um animal tem
oportunidade de fugir ou reagir. Por que nos deixa ir? Por que não nos
fuzila agora mesmo?
- Sabe - disse Greg - as pessoas me deixam espantado. Há meia hora, tudo
que ele conseguia pensar era como se livrar dessa corrente.
"Simplesmente, solte-me", era tudo o que ele pedia. - Havia uma fingida
e magoada perplexidade em sua voz.
Ken ignorou-a e respondeu a Martin:
- Você pode ficar aqui se quiser, claro. Pode fazer café ou chá,
sentar-se e esperar. Mas não acho que você faça isso. Oh, quase
esqueci... - Tirou do bolso uma bússola. - Diretamente a oeste daqui, a
umas duas milhas e meia, há o que restou de um velho ramal ferroviário.
Simplesmente vestígios. Se o seguir para o sul, chegará à Estrada 28. -
Empurrou a bússola pela mesa, na direção de Martin.
Martin apanhou-a.
- Você tem uma certeza danada de si mesmo não? - perguntou ele. - Bem,
deixe que eu lhe diga uma coisa, seu figurão. Vou sair daqui com a pele
inteira e imagine só o que isso significa para você.
Greg voltou-se para Art.
- O que é que você acha disso! Parece que, desta vez, pegamos um cara
realmente vivo.
Art sorriu.
- Você talvez tenha razão. - Voltou-se para Martin. - Martin, você é um
ser humano. Homo sapiens. Com um cérebro potencialmente muito mais letal
como arma do que qualquer rifle. Nós corremos tanto perigo como você.
Boa sorte. Que vença o melhor.
- Posso levar um pouco de água? - perguntou Martin. Mostrava-se
friamente prático mais uma vez.
Ken ergueu-se e, em silêncio, entregou-lhe um pequeno cantil que tirou
de um gancho na parede. Martin recebeu-o e recuou lentamente em direção
à porta.
Nancy ouviu finalmente a própria voz:
- Ken, não! - Começou a chorar.
- Vá, Nancy - disse Greg. - Caia fora. - Ele dava a impressão, e sua voz
também, de estar um tanto embaraçado.
- Ken! Na noite passada eu não estava tentando fugir. Eu podia ter
roubado a chave da corrente e não a roubei, não foi? Foi daquele jeito
porque eu quis. - Voltou-se para Greg e Art procurando vê-los através
das lágrimas. - E, vocês, também. Ambos. Ambos. Eu quis, na noite
passada.
Greg encolheu os ombros.
- Claro. Foi divertido.
- Poderia haver outras noites. Eu não diria coisa alguma. De volta para
casa, eu estaria à disposição de vocês, todas as vezes que me quisessem.
- Agarrou-se a Ken. - Ken, ouça-me.
Ele se soltou dos braços que o enlaçavam e disse:
- Agora, escute aqui, Nancy. A coisa é assim e não adianta perder seu
tempo. Eu não vou mudar de idéia. Greg não vai. Nem Art.
Brutalmente, Art interveio:
- Escute, mocinha, quer a coisa por escrito? Você foi alimentada e
fodida. Agora, caia fora.
- Ken! - Ela pôs novamente os braços em volta dele. O pavor era algo
muito escuro e frio e ele parecia estar a uma grande distância dela.
Ouviu a voz de Art subir, aguda, com uma paciência que terminara:
- Ken, quer fazer o favor de botar para fora essa puta estúpida?
- Vamos, Nancy. Caia fora.
Quando se deu conta, ela estava do lado de fora. "Martin, também, a meio
caminho dos degraus que desciam do terraço. Poderia ele ajudá-la? De
alguma maneira? Por que andava ele de modo tão calmo?
- Martin!
Ele não olhou para trás. Continuou a atravessar a clareira, aumentando o
tamanho das passadas. Não corria ainda. Não queria dar-lhes essa
satisfação.
Art apareceu ao lado de Ken. Tinha o rifle na mão. Ela não conseguiu
levantar-se. Tentou, mas os joelhos não a sustentaram. Rastejou até
Ken. Se ele apenas a deixasse "beijar-lhe os pés.
- Ken, eu farei qualquer coisa. Ouviu-lhe a resposta:
- Diabos a levem, ande! - Irritado.
Art caiu sobre ela nesse momento, aos pontapés, fazendo-a rolar pelo
chão batendo As pedras macias dos degraus do terraço machucaram-lhe as
costas. Ela se sentou, meio estonteada.
O rifle de Art troou, num som de arrebentar tímpanos. Algo chicoteou-a e
picou-lhe o couro cabeludo. As coisas Centraram em foco. Ken olhando
para ela, com gelo e fúria na boca. Art rindo, numa careta doentia.
Atirara no chão, junto à sua cabeça. O sangue inundou as pequenas
lascas de osso sob seu cabelo. Greg apareceu à porta e introduziu um
cartucho na culatra do rifle.
Eram os mesmos três estranhos que a haviam detido e a Martin, ordenando
que subissem na perua.
Ergueu-se abruptamente. As coisas todas voltaram de uma grande
distância, com uma clareza de cristal.
- Rebotalhos humanos - disse ela. - Eu não sei como vocês pagarão por
isso. Mas pagarão. Todos os três. Vocês nada mais são do que
rebotalhos.
Cuspiu nos degraus de pedra.
Deu-lhes as costas e correu atrás de Martin. O rifle de Greg explodiu,
mas ela não se encolheu. Sabia que eles não a baleariam. Não, ainda.
Era simplesmente a populaça apavorando o negro antes de usar a corda, a
gasolina e os fósforos. Soaram outros tiros e a areia subiu e bateu-lhe
nas pernas, cortando-lhe a carne.
Continuou a andar.

Capítulo 15

Art TIROU CAFÉ da máquina e disse:
- Acho que você não devia ter-lhes dado 10 minutos extras. - Havia-lhes
trazido as xícaras e sentavam-se todos nos degraus, saboreando o calor
do sol que se erguia. Ia fazer outro belo dia. Alguns corvos discutiam
na serraria próxima; gaios azuis conversaram; o lago tinha a cor do céu
e refletia em sombrios detalhes a parede de semprevivas na praia do
leste. Muito alto sobre a floresta, um gavião descrevia círculos no ar.
- Por que não? - perguntou Ken.
- Porque o cara não é tão estúpido como parecia. Ken pensou nessas
palavras. Talvez Art tivesse razão.
Houvera algo nos olhos de Martin inteiramente estranho ao idiota inerme
que haviam encontrado no posto de gasolina e mais tarde seqüestrado no
acostamento da via expressa. O homem de antes fora fraco, um tipo que
vacilaria sempre e seria dilacerado pela indecisão. O homem de agora
era resoluto.
Uma espécie de prazer físico apossou-se de Ken, ao pensamento de
matá-lo. O prazer insinuou-se sexualmente pelas suas virilhas e subiu
até a base da espinha. Era a mesma sensação que sentia quando uma
mulher que queria olhava-o de uma certa maneira, como a dizer que ela
também o desejava e que tudo valia. Era a expectativa da coisa
proibida.
- Não se preocupe - respondeu. - Nós o pegaremos, Greg inclinou-se para
trás, com os cotovelos plantados nas tábuas gastas do terraço. Soltou
uma gargalhada.
- O que é que me diz daquela Nancy?
- A melhor que já tivemos. - Lembrou-se da boca úmida e expressiva de
Nancy e acrescentou: - Cem por cento.
Ken pensou em Nancy, nos sons selvagens que ela havia emitido, no seu
quente e violento pélvis, nas suas mãos de unhas afiadas. Mas,
principalmente, lembrava-se da maneira carinhosa com que ela começara a
olhá-lo. E ela sentira aquilo, realmente.
- Não sei - disse, pensativo. - Qual era o nome daquela mulher de há
três anos?
- A morena?
- Sim. A de busto chato.
- Você se refere a Ellen. O caso dela foi há quatro anos.
- Quatro? É isso mesmo.
- Sim, talvez - concordou Greg.
Ken tentou lembrar-se e comparar. Após certo tempo, à medida que a
pessoa envelhece, é difícil recordar como» diferentes mulheres se
comportaram.
- Mas aquele sujeito dela - dizia Art. - Ele era uma coisa diferente.
Ken tentou pensar também no homem. Durante momentos, uma confusa
combinação de faces flutuou à sua frente, focalizou-se em seguida e
tornou-se um jovem um pouco gordo, começando a ficar calvo, de olhos
azuis úmidos e lábios grossos e moles. Uma carranca formou-se na face de
Ken e, à medida que ela se intensificava, na sua memória a face quase
desintegrou em câmara lenta quando a bala penetrou pela clavícula
direita e subiu até o nariz, levando metade da cabeça.
- Stewart - disse ele.
- Isso mesmo - concordou Greg. - Ele se recusou a correr.
- Tivemos de amarrá-la lá fora - acrescentou Art. Lembram-se? Ali mesmo.
- Apontou para um ponto na clareira.
- Claro - disse Ken. - Lembro-me muito bem dele. O estúpido safado
borrou-se todo.
E mesmo morto ele causara problema. O corpo ficara preso numa armadilha
sob a água, nos restos de um tronco, quando, amarrado com um pedaço
pesado e enferrujado de ferro da maquinaria abandonada da serraria,
havia sido lançado juntamente com a mulher na profunda água pantanosa,
na ponta norte da ilha, para que a carne de ambos fosse arrancada pelos
peixes e tartarugas na primavera e os ossos rapidamente apodrecessem na
lama ácida em que haviam mergulhado.
- Escutem aqui - interrompeu Greg. - A melhor que tivemos foi aquela
pequena da faculdade.
- Alicia?
- Essa mesma.
- Para sexo? - Art parecia incrédulo.
- Foi o mais perto do que nós chegamos - observou Ken.
- Bem, é isso mais ou menos o que eu quero dizer - interveio Ken. Mas
não queria realmente dizer isso. Adorara a maneira como a haviam
forçado e a maneira como ela mordera, dera pontapés, gritara, arranhara
e reagia. Quando a mulher não queria, isso era metade da brincadeira.
- Diabo, do que é que você está falando? - Art estava indignado. - Ela
nem mesmo conta. Nós não a caçamos.
- Nós o teríamos feito se vocês não se tivessem acovardado. - Ken riu.
- Vocês estavam pensando em fazer isso? No centro de Ann Arbor?
Era exatamente ali onde imaginara fazer aquilo, pensou Ken. Currá-la no
carro, não em um motel, e depois soltá-la em uma rua residencial. Dessa
maneira, nunca se teriam metido em encrenca. Pensou no revólver 38,
comprado com tanto cuidado e jamais usado. A frustração daquilo e o
perigo de terem ido a um motel, idéia de Greg e Art, haviam plantado as
sementes de uma isolada cabana de caça. Fora o começo.
Art mexeu o café.
- O que sempre me fascina é como os caras pensam logo que foram
seqüestrados para pagar um resgate e como todas as pequenas acham que
podem escapar se toparem fazer amor.
- Isso combina - disse Ken. - É psicologia fundamental macho-fêmea, se a
gente pensa bem no caso.
- O que me fascina - sugeriu Greg - é que nunca se sabe como é que eles
correm. Vejam o caso daquela Marina. Pensamos que ela morreria de medo
antes de chegar à metade do caminho até a serraria, não?
- Você tem razão. - Ken lembrou-se de Marina, loura baixinha,
corpulenta, rosto bonito de criança inocente. Ela havia literalmente
rastejado até a borda da clareira, apavorada demais para se levantar.
Depois, não a haviam encontrado por três dias. Durante três noites,
frenéticos, não haviam dormido. Ela simplesmente desaparecera.
Inicialmente, passaram um pente fino na praia principal do lago.
Espalharam-se depois, andando ligeiro, traçando retângulos sempre
menores na floresta, 10 milhas terra adentro e em direção ao sul. Ken,
Greg e Art haviam finalmente cruzado para a outra margem do lago.
Dois dias e duas noites disso não haviam revelado sinais de vida humana.
Concluíram que ela voltara à ilha ou talvez nunca a houvesse deixado e,
por mais 24 horas, um dia e uma noite inteiros, vasculharam os bosques
próximos, do alto da escarpa para baixo, o alagado na ponta norte, toda
a praia e a serraria.
Pela primeira vez desde que haviam construído a cabana, chegaram às
beiras do pânico. Discutiram a possibilidade de fugir do país, achando
que, mesmo que ela escapasse, eles ainda teriam tempo. Exatamente o
suficiente. Especularam sobre o mínimo exato de horas que ela levaria
para chegar à Polícia ou às autoridades do serviço florestal e voltar,
se houvesse fugido deles na primeira hora do primeiro dia.
Somente Ken se opusera firmemente à fuga. E tivera razão. No fim, a
própria Marina havia-se denunciado, ao gemer durante o sono no
aconchegado ninho que fizera no centro mesmo da cozinha, de onde,
levantando uma tábua frouxa, podia sair toda noite para procurar comida
e água.
Fora por um triz. O único caso parecido fora o do homem que, dois anos
antes dela, voltara à cabana para roubar uma carabina. Ferira levemente
Greg na perna antes de ser encurralado e rapidamente dominado, pois o
imbecil não levara munição suficiente.
Ken lançou um olhar ao relógio.
- Eles têm mais 15 minutos.
- Eu bem que podia tomar um drinque - grunhiu Greg.
- Você não vai tomar nenhum.
A regra dizia que não se bebia no dia de caça e já haviam derrubado
quase meia garrafa com Nancy. Greg fez uma cara de contrariedade.
Pensativo, disse Art:
- Sabe, divertimo-nos um bocado com isto aqui nos últimos sete anos,
divertimo-nos um bocado, mas, pêlo que penso, estamos começando a
cometer nosso primeiro erro.
- Que erro?
- Levar uma coisa boa longe demais - disse Art.
- Você quer dizer que quer desistir? - Greg estava indignado, quase
incrédulo.
- Claro que não. Simplesmente uma mudança de sistema, talvez.
- Lá vamos nós outra vez - comentou Greg.
Ken sabia ao que ele se referia. Era a campanha anual de Art para
transferir a caçada da floresta e dos ermos do norte, dos quais não
gostava especialmente, e estabelecê-la na cidade. Art era basicamente
um ser urbano. Greg era um animal primitivo, mais à vontade no mato do
que em qualquer outro lugar. Jamais chegariam a um acordo.
- Agora, esperem um pouco - disse Art. Levantou insistente as mãos.
Queria explicar o seu argumento. - Há umas duas coisas. A primeira é
que algum dia alguém vai começar a somar dois e dois e achar quatro.
Algum estúpida policial entediado, sem ter o que fazer. É assim que
sempre acontece, não?
- Que dois mais dois?
- Não vamos nos desviar do assunto.
- Eu quero saber - insistiu Greg.
Art tomou uma profunda respiração de sofredora impaciência.
- Muito bem, muito bem. O fato de que todos os anos, ao mesmo tempo, um
homem e uma mulher, sempre um casal, desaparecem... Alguém vai acabar
lidando isso com a estação de caça. Isso é o primeiro passo para
ligá-lo a caçadores. E o passo seguinte...
Não teve oportunidade de terminar. Greg grunhiu e assoviou ao mesmo
tempo.
- Ah, acabe com isso! - disse. - Você deve estar brmcando.
Ken sorriu por dentro. Greg tinha razão, no particular. Sempre haviam
tomado o cuidado de seqüestrar casais de todo o Estado. Certa vez,
haviam ido mesmo a Wisconsin para conseguir um deles. Ninguém jamais os
ligaria com a estação de caça ou com determinados caçadores ou, mesmo
por falar nisso, com a península norte.
- Eu disse que havia umas duas coisas - insistiu Art. - Poderíamos
cobrir antigos vestígios e...
Greg interrompeu-o, desta vez irritado:
- Que antigos vestígios? Frustrado, Art ergueu a voz:
- Escute aqui, não seja propositadamente estúpido. Tivemos até agora
aqui 14 pessoas. Eu não sou um especialista em medicina legal, mas eles
devem ter deixado alguma pista, cabelos, impressões digitais ou alguma
outra coisa.
- Certo - concordou sarcástico Greg. - Assim, o que é que você sugere?
Uma monumental limpeza na primavera? Ou acharia melhor demolir a
cabana?
- Por que não? - perguntou Art. - Nós sempre poderíamos construir outra.
- Você poderia. Quanto a mim, estou de fora.
Art tomou outra profunda respiração e continuou. Começou a listar os
méritos, um após outro, da caçada urbana. Nova York, num ano. Chicago,
em outro. San Francisco, no terceiro. Poderiam mesmo tentar a sorte no
exterior. Paris, Londres, Roma. Seguir pessoas na hora do rush, em
clubes noturnos, em escritórios.
Greg replicou com seus argumentos habituais. E a Polícia? A presa
precisaria apenas correr para a delegacia mais próxima ou pegar um
telefone.
Art contestou, como sempre fazia. Escolheriam pessoas que não poderiam
ir à Polícia, não ousariam.
Ken desligou-se inteiramente da conversação. Nem Greg nem Art tinham
imaginação ou coragem para ampliar o jogo. Nunca se dera ao trabalho de
mencionar o que ele achava que deviam fazer, e que era agir o ano
inteiro. Escolher um casal de seu próprio nível, gente superurbana como
eles, com dinheiro e posição social; atraí-lo aos poucos para uma
situação de chantagem através do sexo, que poderia continuar durante
semanas, em todas as formas concebíveis; devagar e sutilmente
enredá-los em tal teia que eles não ousassem procurar ajuda em parte
alguma. Isso seria o seu passo número um. Levaria meses. Em seguida, o
passo número dois, isto é, não apenas deixar que a presa 'soubesse que
ia ser caçada, mas, na verdade, dizer-lhe a ocasião e o local da morte,
a ocasião e o local exatos. Eles não acreditariam no início, mas a
suspeita e, depois, a certeza surgiriam aos poucos. Um deles sempre
compreenderia antes do outro. Haveria discussões e brigas, súplicas e
entreveres, e as intermináveis hostilidades e antagonismos pessoais,
desde muito tempo sepultados, subiriam à superfície antes que o
desespero produzisse uma ofendida e embaraçosa reconciliação em face do
inimigo comum.
Para os caçadores, o prazer seria múltiplo: o exaustivo trabalho mental
e o planejamento; o lento envolvimento das vítimas nas mais baixas e
humilhantes perversões sexuais imagináveis, perversões que elas
aprenderiam a apreciar e querer avidamente; a observação, em seguida,
das contorsões do homem e da mulher quando tentassem, de maneiras
diferentes, de acordo com cada sexo, desvencilhar-se de um destino que
instintivamente sabiam ser inexorável, mas ao mesmo tempo se recusavam
a reconhecer como tal. E, por fim, o extermínio - não tanto o ato mas a
aceitação e compreensão finais pelas próprias vítimas de que era assim,
de que o fim era inevitável e imediato e de que coisa alguma jamais
viria em seu socorro. Se tudo fosse feito corretamente, talvez houvesse
mesmo um dividendo extraordinário em atormentar de tal modo as vítimas,
que elas literalmente suplicassem a própria execução.
Como modo de caçar, sabia Ken, nada se lhe compararia. Embora as
sensações fossem basicamente as mesmas que naquele momento, seriam
muito mais sofisticadas e muito mais satisfatórias. Seria, em certo
sentido, um progresso sobre o presente, como o rifle sobre o arco e a
flecha.
Lançou um olhar ao relógio. Mais cinco minutos. Pensou em Nancy. Ela
fora a melhor que haviam tido. De longe. Quando realmente se pensava
nela. E não se podia deixar de gostar dela. Naquela manhã, nadando no
lago gelado, um pensamento rápido lhe passara pela cabeça. Apanhar
Nancy e ir embora com ela. Deixar Greg e Art para continuar com a coisa,
abandonar Helen, ir talvez para a América do Sul e começar lá uma vida
inteiramente nova. Podia-se levar uma pequena como Nancy a fazer
qualquer coisa. Para começar, ela não seria como Helen, que era
contra sexo em grupo. Queria desesperadamente ser amada e aceita.
Possuía um bom corpo, um rosto bonito, e uma obcecada característica
neurótica que lhe dava estilo. Algumas roupas e ela poderia competir
com as melhores. E, que diabo, um cara tinha que passar a vida inteira
com uma única mulher? Helen tivera o melhor dele. E estava cometendo o
erro fatal de todas as mulheres - subestimar o marido. Senão por outro
motivo, por esse ela já merecia ser abandonada.
Levantou-se, indeciso e levou a xícara de café para dentro de casa.
- Mais ou menos três minutos - anunciou.
Pôs a xícara na pia e ao fazê-lo, seu pé arrastou a corrente. Ela
chocalhou no chão. Olhou-a. Houvera realmente 14 pessoas presas àquela
argola? Haviam sete anos passadotão rápidos assim? Nesse momento, teve
certeza de que se enganava a respeito de Nancy. Ela sabia demais. Teria
sempre uma arma contra ele. Isto porque, não importava quão insegura
estivesse agora, não faria ela, no fim, o que ele acabara de pensar a
respeito de Helen e das demais mulheres? Não acabara ele de dizer
exatamente isso a si mesmo? Depois de algum tempo, Nancy, como as
demais, começaria a subestimá-lo. E no que interessava a Nancy, quando
esse dia chegasse ela se tornaria perigosa. Ela precisava morrer.
Apanhou o rifle e vestiu a jaqueta de caça, sentindo-se subitamente bem.
Era bom tomar uma decisão sobre uma pessoa como Nancy. Dizia-se a
palavra final sobre elas. Não Deus, nem o destino, nem elas próprias,
nem qualquer uma dessas merdas. Somente o próprio cara.
Saiu e interrompeu a discussão entre Art e Greg.
- Bem - disse, olhando para o relógio - vamos pegá-los.

Capítulo 16

NANCY VIU O BOTE antes de Martin. Flutuava silencioso a uns 20 metros da
praia, meio camuflado pelos tufos aquáticos aos quais estava preso.
Durante um momento, pensou se lhe contava ou não. Haviam saído do
fechado bosque pantanoso do lado da ilha que dava para terra. Nancy
seguia-o teimosamente, sentindo a dor dos dois fortesgolpes que ele lhe
havia aplicado. O primeiro, quando se emparelhara com ele na praia de
desembarque, em frente à cabana. A idéia dele fora apanhar um dos dois
botes de borracha, mas, naturalmente, ambos haviam desaparecido. O
segundo fora aplicado quando atravessavam o escuro chão coberto de musgo
da velha serraria, onde, no telhado, muitoalto em cima deles, gaios e
chapins piavam e brigavam.
O apavorante fora que, em ambas as vezes, ele se mostrara geladamente
calmo. Não houvera emoção alguma em sua face. Nem na voz. Ele falara de
maneira bastante razoável, como se fossem virtuais estranhos que
acabavam de encontrar-se e conversassem sobre outra pessoa.
- Eu não a quero - disse ele. - Compreendeu? Eu quero viver e você está
me atrapalhando. Você vai acabar me matando. - Fechara o punho e a
atingira.
Os golpes haviam sido na face. Ela já sentia a inchação latejante de um
olho que se fechava. O outro lhe havia rasgado a orelha que, como o
pescoço, estava coberta de sangue coagulado e do sangue que correra do
corte no couro cabeludo. Mas nem os golpes de Martin nem as moitas e
espinheiros, que quase haviam rasgado pela metade e arrancado do seu
corpo a camisa de lã de Ken, haviam produzido uma dor comparável à dor
do pavor. Literalmente físico, o medo irradiava-se para fora a partir
do diafragma, como uma faca, cortando para cima até o coração e os
pulmões, sufocando-lhe a respiração e descendo em golpes que lhe
revolveram as entranhas.
Continuou a olhar desamparada para o bote. Pensou que, se não contasse a
Martin, poderia usá-lo ela mesma. Poderia deixá-lo atrás para distrair
os perseguidores, pois certamente Ken, Greg e Art cairiam sobre eles a
qualquer momento. Haviam desperdiçado já muito tempo, ou pelo menos
Martin o havia feito. Havia inicialmente cortado um caminho absurdo até
a extremidade norte da ilha, depois subido até metade da trilha que
levava à escarpa que a dominava e, finalmente, saído pela serraria até
a praia oeste, à qual, se iam correr como Martin queria, deviam ter ido
em primeiro lugar. Ficava a apenas algumas centenas de metros da terra
e daí era simplesmente uma questão de saber quem podia correr mais. Mas
Martin, sabia ela, pensava que o fato de Ken lhe ter dado uma bússola e
falado sobre o ramal diretamente a oeste era uma armadilha e que fizera
isso deliberadamente para que tomasse aquela direção. Ele queria,
inicialmente explorar outras possibilidades e não encontrara nenhuma
que lhe agradasse.
Para começar, a amargura de Nancy era que jamais se houvesse apegado a
Martin. Que cego instinto feminino, pensou, ou força do hábito, havia-a
enganado para que confiasse no julgamento dele, e não no seu? Afinal,
desde o início pensara em esconder-se na própria ilha, talvez na
serraria. Esconder-se realmente até a noite. Nessa ocasião, se não fosse
possível roubar uma arma quando Ken, Greg e Art estivessem dormindo,
pois teriam que dormir, haveria pelo menos a negra discrição da noite
para ajudá-la.
Pela última vez, disse a Martin:
- Nós congelaremos antes de chegar lá. Ainda temos tempo de nos
escondermos por aqui.
Ele a ignorou, empurrando o limo para longe com o corpo, à medida que
chapinhava mais profundamente na água. Ele ainda não vira o bote. Não
estava a mais de 20 metros de distância.
Se „ lhe contasse, não poderia ele toma-lo apenas para 5i mesmo? Mas ele
era ainda Martin, enfurecido, apavorado «ou não. Era ainda humano, não
um monstro como seus perseguidores. E ela era ainda uma mulher. O
instinto, quando não outra coisa, o levaria a protegê-la. Decidiu-se.
- Martin, olhe! - Apontou. Ele não se virou. Continuou a vadear firme e
teimosamente pela água.
O motor do bote brilhava mortiço à luz do sol. Poderia ela dar-lhe
partida? Tudo que Ken fizera naquele outro «dia fora puxar uma corda. E
havia uma alavanca com os dizeres "rápido" e "lento". Se funcionara
para ele, por que ,não para ela?
- Martin.
Ele continuou calado. Estava a uma distância de uns 15 metros naquele
momento, entrando resoluto na água, meio nadando, meio pulando em
grandes saltos quando seus pés entravam em contato com o fundo.
Meu Deus, pensou ela, quanto tempo resta? Com um olhar para ele, entrou
até o fundo na água gelada. As botas tocaram em algo que se moveu.
Horrorizada, começou a nadar. Nadou de lado, até que bateu com a cabeça
na amurada de borracha da pequena embarcação. Içou-se até que seus
cotovelos repousaram no lado arredondado do bote. Tentou subir para
dentro dele. O bote afastou-se e ela espadanou na água. Tentou
novamente, entrando em pânico.
Martin ouviu-a chapinhando dessa vez e voltou-se. Durante um momento
fitou-a estupidamente, registrando o que ela fazia, que havia um bote.
Mas somente durante um segundo. Voltou-se inteiramente e foi vadeando
com dificuldade para junto dela. Ela acabara de cair de cara no fundo
do bote, arquejando e cuspindo água, quando ele chegou batendo os
braços.
Ela lhe notou a expressão de ódio.
- Eu o chamei, Martin. Você não respondeu. Chamei-o duas vezes.
Ele continuou a fitá-la, ajoelhou-se e olhou da praia para a ilha e de
volta.
- Onde foi que o encontrou?
- Aqui mesmo! Olhe! - Mostrou-lhe a corda amarrada em volta de umas
moitas.
Ele olhou outra vez para a ilha. l
- Você pode dar partida ao motor? - perguntou ela. Nenhuma resposta.
- Martin?
- Cale a boca. - Os seus olhos frios viraram-se rapidamente de um lado
para outro. - Eles o colocaram aqui como uma armadilha - disse. - Devem
ter feito isso.
- Mas você ia para a praia de qualquer maneira. Ele se decidiu.
- Puxe aquela corda.
Desajeitada, Nancy soltou o cabo dos ramos das moitas.
- Agora, caia fora daqui.
- O quê?
- Eu disse, caia fora. Eu lhe disse uma vez. Você éum peso. - Falava no
mesmo tom calmo, razoável.
- Martin.
- Estou falando sério.
Ficou de pé e ergueu um dos curtos remos do bote. Ela não acreditou no
que ele ia fazer. O primeiro golpe atingiu-lhe as costelas desprotegidas
e ergueu uma coluna de fogo pelas suas costas. Gritou, e o remo desceu
novamente, desta vez sobre os braços e, em seguida, sobre o lado da
cabeça. Escorregou e caiu no fundo do bote, enquanto ele lhe dava
fortes pontapés no rosto. Quando tentou rolar para longe, sentiu as mãos
dele empurrando-a e ela desmoronando pela borda. Fechou-se sobre ela
nesse instante o alívio abençoado cinza-escuro da água gelada e ela
mergulhou para a fétida lama do fundo. A água queimou-lhe os pulmões,
num grande hausto de agonia antes que se lembrasse de que podia
afogar-se e lutasse para encontrar apoio para os pés e, finalmente, o ar
em cima.
Agarrou-se estonteada à moita. Martin deu partida ao< motor, com a
primeira puxada da corda. O motor rugiu e o cano de escape explodiu em
seu rosto; as lâminas da hélice giraram a centímetros de seu peito e a
água subiu do seu estômago ao rosto, em rápidos e furiosos golpes.
Logo depois, ele se afastou, em direção à praia, com omotor à toda
força.
- Martin.
Uma onda de água rosada cobriu-lhe o rosto e ela provou o gosto de seu
próprio sangue. Ficou olhando para Martin, até que ouviu o motor de
outro bote.
Vinha contornando a extremidade da ilha, trazendo a bordo Ken, Greg e
Art. Desenvolvia grande velocidade,, abrindo um sulco com a proa.
Dirigia-se diretamente para a praia da terra firme, em um curso
paralelo ao de Martin,. a um quarto de milha de distância e mais outro
Quarto de milha atrás.
Devagar, Nancy recuou alguns metros para trás da moita. Quando o fez, a
água fria apertou-lhe subitamente o estômago como se fosse uma roupa de
borracha e ela vomitou em silêncio, provando o próprio vómito. Ninguém
no bote viu-a ou voltou-se. Soltou a moita e devagar e com dificuldade
voltou para a ilha. Fazendo um esforço imenso, -arrastou-se para a praia
e para dentro da vegetação.
Durante um momento ou dois, mergulhou a face em folhas secas e
enrugadas, que lhe arranharam a pele. Não conseguiu mover-se. Ouviu
quando parava o motor do bote de Martin e rolou devagar sobre um dos
lados, para ver melhor. Parecendo muito pequeno, e a uma grande
distância, ele deixava apressadamente o bote. O segundo bote dirigia-se
para uma praia de terra não muito longe dele. Abafando o som do motor,
ouviu-se uma seca pancada explosiva. Ajoelhado, Greg firmava o rifle
sobre o ombro -de Art. Em que atirava ele? Em Martin. Naturalmente, em
Martin.
Ouviu mais estalos. Água subiu em torno dos pés de Martin. Mas a mataria
fechou-se em volta dele e Greg "baixou o rifle.
E se tivessem matado Martin naquela ocasião? - pensou ela. Eu teria
visto um homem ser assassinado. A coisa que se vê em filme, mas nunca
na vida real. Alguém com uma arma e alguém caindo. E, depois, pessoas
em volta, olhando para o corpo, sem expressão alguma no rosto. Ou
levando-o pelos braços e pés, com a cabeça pendente, raspando e batendo
em coisas.
Ele conseguiu escapar, pensou ela.
Começou a rastejar. Logo que alcançou os restos apodrecidos de um toco,
usou-o para pôr-se de pé. Fez um exame de seus ferimentos, contando os
golpes que recebera de Martin, nas costelas e no rosto, os que foram
produzidos pelas moitas cortantes pela água e pelo bote.
E pelo medo.
Alguém lhe falou bem dentro de sua cabeça, alguém com uma apavorada e
insistente voz que ela não conhecia: "Ande. Antes que eles a vejam."
Fez um esforço para obedecer. Um pé adiantou-se como se fosse de chumbo
preso à lama. O outro seguiu-o. Um pé, depois outro, o direito, o
esquerdo. Gosto de vómito e sangue na boca. Dentes quebrados. Dor
dilacerante por todo o corpo.
As mãos caíram à sua frente. Por que era tão doloroso, justamente à
frente do rosto? Por que havia aquele cheiro forte e sufocante de
madeira velha? E lascas cortando-lhe as palmas das mãos? Devagar,
focalizou os olhos. Estava agarrada à parede de madeira da serraria, com
os braços estendidos para não cair. Voltaram as recordações,, todas
elas. Ken, Greg e Art na praia, em perseguição de Martin; ela mesmo,
sozinha na ilha. Ocorreu-lhe a idéia de procurar uma arma antes que
eles voltassem. Havia quantotempo acontecera aquilo? Dispunha ainda de
tempo? Escutou. Ouviu a briga de alguns gaios azuis. Nenhum outro som.
Afastou-se da serraria, devagar para não doer muito. Tinha a cabeça
clara nesse momento e movia um pé após o outro, através das moitas
fechadas. Penetrou na clareira, em frente à cabana. Encontrou a porta
aberta; fumaça saía: devagar em longas fumarolas pela chaminé.
Não havia ninguém ali, sabia. Começou a correr. Caiu,, levantou-se e
cambaleou novamente para a frente. Chegouà cabana, subiu com esforço os
degraus de pedra, entrou e passou à cozinha. Agarrou uma garrafa aberta
de bourbon e tomou um longo gole no gargalo. Sufocou e vomitou outra
vez em seco. Não mais havia nela coisa alguma que pudesse subir à
garganta. Encostou-se depois, por algum tempo, à beira da mesa, apanhou
um copo, encheu-o de água da torneira, bebeu-a e colocou-o de lado.
Voltou à sala e dirigiu-se à prateleira das armas. Fechada. Mas havia um
machado, não? Greg não cortara lenha? Encontrou-o do lado de fora,
trouxe-o para casa cquebrou a prateleira. Quando as barras cederam e
pôde abri-las, apanhou uma espingarda. Era algo que reconhecia. Eddie
possuía uma delas. Havia uma caixa verde. Seria a munição? Pouco sabia
sobre armas. Rasgou a caixa e descaíram, pequenos e grossos cilindros
verdes, com extremidades chatas e base de latão. Como os que Eddie
usava para caçar patos. Havia carregado a arma para ele; podia carregar
aquela. E ele deixara uma vez que ela atirasse. Sabia como. Enfiou o
cartucho na câmara, depois outro, e mais outro. A câmara tinha
capacidade para cinco. Colocou uma dúzia mais de cartuchos no bolso da
camisa e voltou à cozinha para tomar outro drinque. Suponhamos que
ficasse justamente do lado de dentro da porta? Pegaria um deles
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quando voltasse. Mas, provavelmente, apenas um. E suponhamos que caísse
no sono?
Precisava de água. Encontrou um cantil, encheu-o e apanhou uma caixa de
biscoito e outra de passas. Do lado de fora, permaneceu indecisa por
algum tempo, ouvindo o som longínquo dos corvos e dos gaios azuis. E as
batidas fortes do próprio coração.
Fazia calor e as moitas e bosques cheiravam a outono.
Para onde iria? Onde seria seguro? Não poderia ser um local muito longe.
Uma dor subiu e desceu por trás de seus olhos, entrou e saiu de seu
corpo em profundas e penetrantes ondas. Foi obrigada a deitar-se. Sabia
que estava com algumas costelas quebradas.
Desceu os degraus sem cair, deixou tombar o cantil, apanhou-o e
atravessou devagar a clareira em direção às moitas.
Em algum lugar da serraria? Não havia por lá pilhas de velhas toras?
Talvez entre elas? Ou atrás da maquinaria comida pela ferrugem?
Soprou uma rajada de vento, não forte, mas o suficiente para levar o
calor do sol. Provocou um murmúrio das últimas folhas marrons de outono
que se apegavam ainda às árvores e curvou os topos dos abetos e
pinheiros. Dentro da serraria era abrigado e silencioso. Uma luz pálida
filtrava-se através das rachaduras e buracos no telhado e descia para as
pranchas arruinadas e o pó de serra há muito tempo apodrecido. À
frente, viu a maciça e escura silhueta de maquinaria a vapor
pertencente a uma outra época e há muito tempo1 destituída de tudo que
tinha valor. Foi tropeçando até ela, passou por baixo de uma gigantesca
roda livre de raios de ferro e penetrou no círculo de luz criado por um
buraco no telhado. Nos beirais, tordos pipilavam. Voltou para a sombra
e viu o pequeno poço quadrado junto à chaminé. Descia por ele uma velha
escada de ferro e havia na base da chaminé uma porta enferrujada de
ferro. Desceu com todo o cuidado. Por que se metia em uma armadilha?
Não era aquele exatamente o tipo de lugar onde eles procurariam
primeiro? Nesse momento, viu uma segunda porta em frente ao poço.
Dirigiu-se para ela e empurrou-a. Resistiu, mas finalmente cedeu.
Entrou em um cómodo escuro, cheio de lixo. Por sobre a cabeça viu o
interior destripado da maquinaria. Subiu por cima de vigas caídas e
tijolos e, inesperadamente, sentiu-se em segurança. Foi obrigada a
deitar-se. Não podia continuar. Com um esforço que lhe consumiu o resto
das forças, subiu numa plataforma de pedra no fundo do cômodo e penetrou
num espaço estreito que se abria entre as vigas que sustentavam o
assoalho, em cima. Introduziu primeiro os pés e deslizou para trás, na
escuridão sempre maior. Alguma coisa rosnou, protestando; um esquilo,
pensou. Havia ali folhas amassadas e um cheiro de roedores. E uma
sensação geral de presença de aranhas.
Não se importava mais. Estava protegida de perigo vindo das costas e de
cima, a menos que eles soltassem as pranchas do chão. Poderia dormir e
recuperar-se.
Pôs a espingarda no chão, apontada para a pálida luz cinza que vinha de
sob a maquinaria. Puxou o cantil até junto do rosto para destorcer-lhe
a tampa de metal. Mas não conseguiu fazê-lo. Antes, perdeu a
consciência.

Capítulo 17

QUANDO VIU O JATO DE ÁGUA levantado pelo primeiro tiro de Greg, Martin
não compreendeu. Ocorreulhe logo o pensamento de que um peixe subira à
superfície. Uma segunda coluna de água, porém, irrompeu imediatamente à
frente e tão perto da praia que levantou também lama. Compreendeu,
nesse momento. Ouviu o troar atrasado e distante do primeiro tiro
ecoando pela água vítrea do lago e, depois, o segundo.
Voltou-se parcialmente e viu o bote em que vinham Ken, Greg e Art. Um
violento espasmo involuntário contraiu-lhe o corpo e lançou-o para
dentro das moitas. Pequenas árvores açoitaramno e fecharam-se em volta
dele; ouviu o som surdo de uma bala que penetrava numa árvore e o alto
silvo produzido por uma pedra aos seus pés, quando atingida. Mais uma
vez, o rifle troou na água, às suas costas.
Abandonando toda a cautela e a necessidade de silêncio na mata, disparou
em louca e frenética corrida até que seus pulmões arderam, as pernas se
transformaram em borracha e foi obrigado a parar. Ajoelhado, agarrou-se
a uma árvore. Recuperando-se, tentou orientar-se.
Nancy desaparecera; para todos os efeitos estava morta, encurralada na
ilha. Eles não precisavam preocupar-se com ela durante algum tempo.
Apenas com ele. E eles deviam estar desembarcando, se é que já não
estavam em terra. Mas, onde estavam? Em alguma parte atrás dele, claro.
O quanto havia ele andado? Em que direção? Diminuindo a disparada do
coração, começou a escutar. Inicialmente, silêncio; depois, algumas aves
dos pântanos, o pio áspero de um tordo' e, bem alto, o chamado de um
pato amedrontado. Em seguida, às suas costas, o som distante de um motor
de popa ligeiramente abafado ao pegar.
Começou a andar para a frente mais uma vez. Devia ter vindo da praia em
linha reta, pensou. Provavelmente, andara uns 100 metros. Precisava
apenas continuar a andar. Era a sua velocidade contra a deles. O que
importava o lugar aonde chegasse? Quando a noite descesse, haveria algum
lugar para dormir, alguma árvore tombada com folhas por baixo ou um
nicho numa rocha, onde poderia dormir protegido contra o vento. Se as
suas roupas não congelassem antes no corpo.
Começou a sentir o intenso frio, tão forte que parecia começar de dentro
e irradiar-se para fora. Os pés úmidos começaram a incomodá-lo nos
sapatos encharcados. Logodepois, sentiu os calcanhares em carne viva.
Parou de súbito. As moitas rareavam ali. Diretamente a frente
estendia-se uma grande área descampada, cuja grama curvava-se sob a
força do vento. Era um pântano. Havia pelo menos 100 metros de pântano
antes que pudessechegar à escura parede da floresta fechada em frente,
eele se estendia à direita até que se curvava para reencontrar a praia
do lado e, à esquerda, desaparecido por fim em um labirinto de moitas de
sumagre.
Dessa forma, o que estivera atravessando não era a floresta do
verdadeiro continente, mas uma espécie de franja, uma falsa praia. Seria
mole o chão à frente? Poderia andar sobre ele? Deu um passo à frente e
mergulhou logoaté os joelhos em limo absorvente. Água gelada apareceu em
torno de suas pernas, formando poças escuras. Deu outro passo e
mergulhou ainda mais. Recuou, agarrandose a uma pequena árvore para
içar-se. Não poderia continuar para a frente, então. Teria que ir para a
direita, para a esquerda, ou recuar.
Era um desastre. Se contornasse o pântano para a esquerda ou para a
direita, transformar-se-ia em um alvo perfeito. Eles poderiam
simplesmente penetrar nas moitas, e esperar, escutando com toda a
cautela para lhe localizar a posição - um trabalho fácil, se ele fosse
imprensado contra essa fronteira pantanosa intransponível. A única coisa
a fazer era voltar sobre os próprios passos.
Fez a volta e deu os primeiros cautelosos passos, fazendo um grande
esforço para não agitar as mudas ou provocar estalos na vegetação
rasteira. Um plano começou a tomar forma em sua mente. Eles esperariam
que ele fugisse. Suponhamos que ele não o fizesse. Suponhamos que
voltasse ao lago, se possível mesmo à ilha. Se pudesse fazêlo sem ser
visto, poderia armar-se. Da maneira como Nancy dissera. Mas agora isso
fazia sentido, porque eles não se encontravam lá; estavam ali e não
estariam à sua procura na ilha.
Enquanto não fosse visto, arriscaria. Agachou-se rasteiro, movendo-se
sobre as mãos e os joelhos, parando a cada poucos centímetros para
escutar. Onde diabo se encontravam eles? Poderia ele alimentar a
esperança de localizá-los através da vegetação densa, mesmo nessa época
do ano? Ou haveria um terrível momento em que um deles literalmente
tropeçaria nele, riria e ele teria apenas um único último apavorado
segundo antes da escuridão tonitruante?
Permaneceu absolutamente imóvel. Estariam também à espera? Deixando que
ele fizesse o primeiro falso movimento? Deviam saber que ele chegara ao
pântano e que não poderia atravessá-lo. Sabiam que ele teria que seguir
para a direita ou para a esquerda, ou voltar. Da mesma maneira que
deviam conhecer cada centímetro do terreno, por milhas em volta.
Nessa ocasião, viu mover-se o topo de um pé de sumagre. Talvez a uns
nove metros de distância. Um movimento leve, o tremor quase
insignificante de um caule esguio. Uma ave? Esperou. Teria sido aquilo
algum som?
Subitamente, soube o que fazer. Seus dedos procuraram tranqüilos entre
as folhas caídas, encontraram uma pequena pedra e soltaram-na de sua
cama semicongelada. Mirou com todo cuidado o pântano, em uma linha que
passava por trás de si mesmo e à frente de quem quer que se escondesse
por trás dos pés de sumagre. Atirou então a pedra para cima e para
longe.
O som produzido pela pedra ao cair na vegetação baixa, a 20 metros de
distância, foi audível e natural. Exatamente o tipo de som que um homem
produziria se tropeçasse ou deslocasse alguma coisa.
Era o tipo de som que qualquer homem faria se não estivesse deitado,
imóvel como um cadáver, colado à terra e lutando pela vida. Ken, Art,
Greg, ou quem quer que houvesse roçado pelo sumagre, teria que pensar em
uma de duas coisas: acreditaria no som e iria investigá-lo, caso em que
ele estaria livre para chegar à praia; ou não acreditaria no som,
chegaria à conclusão de que era um engodo deliberado e voltaria ao lago,
esperando com razão que ele se houvesse retirado para lá. E, se assim
fosse, ele estaria à espera deles o animal encurralado, mais cauteloso
do que o caçador; o porco ferido na moita, à espera da ocasião de
arremeter e fincar os colmilhos antes que um tiro pudesse ser disparado.
Isso, se houvesse ali apenas um deles, e não dois. Mas certamente eles
deviam ter-se separado. Um deles estaria no bote; os outros dois teriam
deixado a praia, guardando, talvez, uma distância de 100 ou 200 metros
entre si. Quem enfrentava nessa ocasião? E, precisamente, onde estava
ele nesse momento?
Martin moveu-se com uma lentidão deliberada e mortalmente silenciosa. O
tempo não importava. Pestanejou e virou com todo o cuidado a cabeça de
um lado para o outro, examinando as moitas. Nada. Exceto, no fim, a água
calma do lago. A apenas um metro mais ou menos à frente. No lago, no
bote de borracha, Greg navegava devagar para a frente e para trás, entre
a ilha e o continente. Significava isso que seu perseguidor era Art ou
Ken.
Martin prendeu a respiração e esperou. Rezou para que quem quer que
fosse cometesse um erro.
Viu nesse momento o pé calçado de bota. Ao alcance de sua mão estendida.
Uma bota amarrada com cadarço e uma grossa meia de caça dobrada sobre o
cano. Chegara ali sem que ele ouvisse coisa alguma. Quase o havia
pisado. Sobre ela haveria uma perna, um corpo e um cérebro humano para
dizer ao dedo que puxasse o gatilho.
Justamente ali.
Não estava preparado para aquilo. Não era justo. Súbitas, incontroláveis
e frustradas lágrimas prenderam-lhe a respiração, sufocaram-no começaram
a produzir um som audível em seu peito. Nesse momento, algo se rompeu e
o soluço transformou-se em grito. Levantou as mãos, agarrou as botas, os
joelhos, e ergueu-se do chão. Um cano de rifle desceu violento sobre a
sua cabeça e ele ouviu um rugido esmagador, mas não era ele, não fora
baleado. As coisas entraram em foco. Acima, viu Ken, de olhos
esbugalhados com o choque por ter sido surpreendido, lutando para evitar
que o rifle lhe fosse arrancado das mãos.
Lá fora no lago, Greg, de pé no bote, tentava ver o que acontecia.
E ele rasgando e malhando a face de Ken com as mãos; Ken caindo, ele por
cima, empurrando cegamente o rifle para longe de seu próprio rosto.
Finalmente, os vulneráveis órgãos genitais de Ken e ele batendo, uma,
duas, três vezes, mais e mais vezes.
Ken soltou um agudo e sufocante grito. Soltou o rifle, contorceu-se para
escapar. Num segundo, o rifle ficou livre, Martin girou-o no ar para
atirar, puxando-o com força para soltá-lo de uma pequena árvore que
havia entre ele e Ken. Mas já era tarde demais. Ken, com os olhos
brancos de medo e dor, recuou em um longo e cego mergulho e atingiu o
lago. Mergulhou no momento em que Martin atirou. Subiu à superfície.
Martin atirou outra vez, apressado demais. Ken desapareceu pela segunda
vez, dando fortes braçadas.
Aves piaram. Martin ouviu acima o som de uma bala despedaçando o
sumagre, assoviando, e logo depois o som dos tiros de Greg e o eco
rolando sobre o lago. Outra bala e mais outra. Greg levantava uma
cortina de fogo para proteger Ken e seus tiros eram naquele momento um
único rugido reverberante.
Martin voltou a mergulhar nas profundidades das moitas. Ken voltou à
tona e guinchou:
- Art! Cuidado. Ele está com o meu rifle. Art!
Pare, pelo amor de Deus. Pare e pense. Não entre em pânico e revele sua
posição. Agarrou-se a uma bétula para recuperar o fôlego. Sentiu uma dor
lancinante na mão, no ponto em que metera o punho no joelho de Ken,
freneticamente erguido numa manobra defensiva. Pensou: Jesus, se ele
estivesse nu, eu poderia ter-lhe arrancado os colhões, até mesmo tê-los
cortado com os dentes. Safado, congele nessa água, seu safado nojento.
Com os testículos amassados. A selvageria subiu nele num grito de
triunfo, num grito desegurança. Queria arrancar olhos, machucar, atirar.
Tinha os safados nas mãos. Um deles estava fora de combate, o outro no
bote. Isso deixava apenas o terceiro entre ele e a segurança. E estava
armado.
Onde estava Art, para que pudesse matá-lo, aquele fresco nojento?
Esperou e mordeu os lábios para tranqüilizar o rugido da respiração. A
floresta estava em silêncio; o motor de popa funcionava em marcha lenta,
à espera. Onde quer que estivesse Ken, por trás de alguma rocha na água,
com toda probabilidade ele não se movia.
Obrigou-se a pensar com clareza. Se fosse serpenteando novamente pelas
moitas, poderia pôr tudo a perder. Fora assim que quase acontecera com
Ken. Que perigo havia corrido. De qualquer maneira, as moitas eram
baixas. Ken teria oportunidade de recuperar-se e segui-la. Se voltasse
na direção do pântano para esconder-se de Greg e tomasse o rumo sul,
passando pelo centro da falsa praia, não seria isso o que Art estaria
esperando que ele fizesse? Isto porque somente um tolo usaria a própria
praia, inteiramente exposta ao fogo de Greg, que se encontrava no lago.
Somente um tolo. Era isso o que eles pensariam.
Tomou uma profunda respiração, manteve o ruído no mínimo e voltou em
diagonal para o lago. Parou a alguns centímetros da praia, justamente
antes de mostrar-se. Nenhum sinal de Ken. Escondendo-se atrás de uma
pedra, certamente, ou de uma árvore morta. Mas Greg se encontrava em um
ponto a uns 50 metros além do local onde deixara Ken.
Martin tomou a direção oposta, descendo a margem do lago. Perto da água.
Como antes, as moitas eram esparsas.
Fez um jogo consigo mesmo, repetindo: "Um metro, você tem sorte; dois
metros você tem sorte; três metros, você vai conseguir." E repetiu: "Um
metro, você tem sorte; dois metros, você tem sorte..."
Até que chegou a um local formado de serrilhadas rochas escorregadias.
Mais adiante, mudava o caráter da praia. À beira da água havia uma
estreita faixa de xisto argiloso machucado, que se estendia a intervalos
irregulares por algumas centenas de metros. Olhou para trás.
Milagrosamente, Greg não o havia visto ainda.
Cruzou o aglomerado de rochas, chegou ao xisto argiloso e começou a
correr, em passadas desajeitadas e interrompidas, meio agachado para
evitar a praia coberta de uma vegetação que se erguia à altura do peito
de um homem sobre a água.
"um metro, você tem sorte; dois metros, você tem sorte, três metros,
você vai conseguir."
O choque da primeira bala foi muito próximo. Seguiram-se um estrondo
quase simultâneo e o som rolante das ondas sonoras do tiro disparado por
Greg.
Mais outro, mas nessa ocasião a água espadanou imediatamente à sua
frente.
Continue a correr aconteça o que acontecer. Transforme-se num alvo
difícil. Não se esqueça, ele está num bote e um bote não fica parado.
Não se esqueça, ele está a uns 200 metros de distância. Não entre em
pânico. Continue a correr. Mais ligeiro. "Um metro, você tem sorte; dois
metros, você tem sorte." Diga isso 30 vezes mais e ficará em segurança.
Para sempre. "Um metro, você tem sorte..."
Outro tiro, dessa vez alto, produzindo um som de coisa rachada ao
arrancar a casca de um bordo.
Nesse trecho havia mais folhas pendentes. Espigou-se ligeiramente.
Aproveite a oportunidade. Corra, corra, corra. "Um metro, você tem
sorte; dois metros... você vai conseguir." O xisto argiloso tornou-se
mais plano e transformou-se em areia dura. Entrou no ritmo nesse
momento. Se pelo menos seus pulmões continuassem a aguentar.
Estalo de tiro e o eco rolante uma vez mais, apenas, desta vez, nenhum
som próximo de bala.
Abafando sua respiração ouviu o motor de popa aumentar as rotações. Greg
pusera de lado o rifle.
Vencera, vencera, vencera. "Um metro, você tem sorte; ... três metros,
você vai conseguir."
Meia distância da longa praia ainda para percorrer, agora apenas um
quarto, terra mais larga, árvores mais altas. Uma língua de terra
projetava-se 20 metros adentro de um trecho de água coberta de cascos
escuros e ossos contorcidos de madeira flutuante. Por trás, uma floresta
fechada de sempre-vivas, à margem de um pequeno regato. Cruze o regato e
não pare até o anoitecer. Estava livre, conseguira. Ken estava na água,
Greg dirigindo o bote, e Art perto do pântano batendo a floresta errada.
Livre, livre, livre. Os seus pés velozes tocaram o regato, a água gelada
e clara. Com os olhos, procurou lugares seguros para pisar. Não podia
cair. A meio caminho, nesse instante. E a floresta escura justamente à
frente.
- Martin! Jesus, Deus.
- Martin. Ei!
De onde vinha aquela voz? Virou-se um pouco, no momento em que Art se
ergueu a uns seis metros de distância, por trás de um grande calhau em
meio ao regato.
Sorria por cima do obsceno orifício negro do cano do rifle.
- Você vai morrer agora, Martin. E deixar de existir. Foi terrível o
choque, uma explosão de luz, e Martin começou a cair dentro de um longo
corredor sempre mais escuro.
Os primeiros dois tiros atingiram-lhe o queixo e a bochecha esquerda,
arrancando-lhe a maior parte do rosto. As pernas deram mais alguns
passos trôpegos por força da inércia e se abriram. Caiu de bruços no
regato. A cabeça mergulhou na água. A água tornou-se vermelha e, mais
longe, rosada. As pernas continuaram a sacudir-se.
Art aproximou-se, colocou a boca do rifle na nuca de Martin, apontando
para o cérebro, e apertou outra vez o gatilho. As pernas pararam de
bater. Art sentou-se e acendeu um cigarro.
Pensou consigo mesmo: "Deve haver alguma maneira de convencer Greg e Ken
a fazer uma tentativa nas grandes cidades." Poderiam inventar alguma
nova deformação sexual para fazer Greg feliz. Logo que se acostumasse ao
novo estilo de caça, ele se perguntaria por que não haviam abandonado a
maldita floresta anos antes. Com toda a sua fácil previsibilidade. Como
aquele palhaço caído ali. Todos os caras nos últimos quatro anos -
aquele já era o quinto ano - haviam morrido exatamente no mesmo lugar.
Todos eles pensavam exatamente da mesma maneira. Ou o esqueciam
inteiramente ou pensavam que ele fora diretamente para o pântano. Era a
praia que fazia isso. Era hipnótica. Todos eles chegavam à conclusão de
que, se pudessem correr, estariam em segurança.
Greg apareceu com o bote.
- Ken está bem?
- Acho que sim.
- Vamos levá-lo para o bote.
- A mesma coisa que no ano passado.
- Eu estava pensando justamente nisso. E no ano anterior. - Art falou de
forma tão intencional quanto ousava. Uma coisa era discutir com Greg
quando Ken estava presente; outra, quando estavam a sós. Greg era um
tipo caprichoso. Sem a presença de Ken para controlá-lo emocionalmente,
ele poderia tornar-se de súbito brutal. Mesmo com um amigo.
Art tirou um lençol plástico da proa do bote e estendeu-o. Era para
evitar que o sangue e a massa encefálica se espalhassem por toda parte.
Greg agarrou os punhos de Martin, levantou-o e viu-lhe a cabeça.
- Nada mau, hem? - disse Art.
- Ótimo. Você o pegou direitinho. - Tiraram o corpo do regato e
colocaram-no sobre o lençol plástico. Art começou a enrolar Martin.
- Como foi que você errou o tiro? - perguntou.
- O que é que você quer dizer com isso? - Greg tornou-se imediatamente
agressivo.
- Diabo, você estava a apenas 200 metros dele - respondeu Art, com um
sorriso e um inofensivo tom de brincadeira.
Greg olhou calmo para ele e respondeu:
- Bem, para começar, ele corria como um coelho com um ferro de soldar no
rabo; depois, ele estava na sombra e a luz descia em raios pelas
árvores, fazendo a silhueta mexer-se; por fim, eu me encontrava numa
bosta de bote que subia e descia.
Art resolveu abandonar o assunto. O tom da voz de Greg era perigoso. Ele
baixou o fecho das calças e começou a urinar, enviando à água do lago um
jato da grossura de um dedo. Seu safado doentio, pensou Art, com seu
monstruoso membro de cavalo e testículos que parecem bolas de beisebol.
Você pensa que isso é tudo de que as mulheres gostam, de tamanho. E de
todos os seus malditos músculos e peito cabeludo. Sai fora. Uma mulher
inteligente não deixaria que você a tocasse. Ela vomitaria.
- Onde é que está a moça? - perguntou.
- Nancy? - retrucou Greg. - Não sei. Deu volta à ilha, acho.
- Metida naquele buraco de rato.
- Com toda probabilidade. Dormindo para se recuperar. -
Intencionalmente, Greg correu o dedo pelo membro, de cima para baixo,
para se secar, enfiou-o com dificuldade nas calças e subiu o fecho.
- Tem um cigarro, amiguinho? Esqueci de trazer os meus. Estive fazendo
círculos, meio adoidado, lá no lago.
Art cedeu-lhe um cigarro.

Capítulo 18

RECOLHERAM O SEGUNDO BOTE, que estava à deriva, e em seguida Ken, que
exausto e tremendo de frio procurava aliviar a dor na virilha. Art e
Greg começaram a brincar com ele, mas logo depois se calaram. A
humilhação de Ken era demais e ele não suportaria aquilo. E havia o
medo. O tipo de pancada que ele levara podia ser perigoso para um homem.
Às vezes, um câncer começava assim. Havia a possibilidade de que tivesse
de cancelar a última semana de férias e voltar para casa.
Costearam a ponta sul da ilha, seguindo para o lado leste, e atracaram
em frente à cabana. Dirigiram-se para ela em passos lentos, ajudando
Ken, que teve que parar uma ou duas vezes para combater a náusea e
firmar-se sobre os pés. Greg dirigiu-se em seguida para a serraria, em
busca de alguns pesos de ferro para ancorar o corpo de Martin no fundo
do lago. Art serviu a Ken café escaldante, preparou-lhe um chuveiro
quente, tomou um furtivo gole de bourbon e voltou aos botes.
A serraria estava mergulhada em silêncio. Ela está aí, pensou Greg, sob
as pranchas do assoalho, no buraco de rato, dormindo. Talvez ela acorde
e me ouça. Depois, pensou: "Se eu for procurá-la agora, ninguém lhe
ouvirá os gritos. Eu poderia até dar uma metida. Ela lutaria como um
tigre e, depois, ficaria excitada contra a vontade e subiria por cima
de mim, mesmo sabendo que eu iria matála depois. Jesus." Teve uma
erecção, mas se afastou. Tinham regras e se alguém um dia as quebrasse,
eles estariam liquidados. Ken jurara que cairia fora e nunca mais
haveria diversão alguma. Não valia a pena, nem mesmo por Nancy.
Encontrou dois êmbolos de pistão enferrujados no lugar onde os deixara
um ano antes, quando organizara uma pilha de pesos. Pesavam 35 quilos
cada. Era fácil: um para Martin, naquele momento, e o outro para Nancy,
depois. Ergueu-os, perturbando um ninho de formigas vermelhas que se
haviam estabelecido ali para passar o inverno. Corram, seus insetos,
pensou, metam-se por entre as tábuas ali em cima e dêem uma provada da
bunda de Nancy; é grande. Esmagou-as com o calcanhar e continuou a
girá-lo sobre o ninho umas duas vezes, até que achou que havia matado a
maioria das formigas. Saiu em seguida.
Ken tomara um banho de chuveiro e se enrolara num grosso cobertor.
Encontrava-se no terraço. Lançou um rolo novo em folha de corda de
nylon, de um quarto de polegada de grossura e uns oito metros de
cumprimento, na direção de Greg. A corda caiu aos seus pés.
- Você esqueceu uma coisa. - E, em seguida: - Ouviu movimentos?
Greg apanhou a corda.
- Não. - O tom de voz de Ken dizia-lhe que ele estava recuperando-se
rapidamente.
- Está dormindo ainda.
- Talvez - disse Ken. - Eu não levaria a coisa longe demais.
- Nós não demoraremos.
- Não temos certeza absoluta de que ela está lá, naturalmente.
Foda-se, pensou Greg. Recuperou-se, disso não há dúvida. O suficiente
para voltar a ser mandão. Portanto, seus culhões não estão tão
machucados assim. Muitas vezes sentia ressentimento contra Ken. Como
naquele momento. Sempre dizendo a última palavra a respeito de tudo. E
Art, também, que punha em dúvida todas as coisas, como se todo mundo
fosse idiota. Por que não podiam eles aceitar a vida justamente como ela
era? Trabalho mental não ia mudar coisa alguma. E a caçada devia
permanecer como sempre fora, simplesmente metendo, atirando e deixando
as coisas assim.
- As possibilidades são muito boas - disse ele.
- Ela poderia estar na praia - insistiu Ken. - Na que dá para a terra.
- Poderia.
- Bem, de qualquer maneira ela tem uma espingarda.
- Você está brincando. - Por dentro, Greg praguejou por ter deixado Ken
levar a melhor.
- E uma dúzia de cartuchos. Chumbo calibre quatro.
- Nancy? - Tomado de autêntico prazer, Greg esqueceu o ressentimento.
Quem é que pensaria, aquela putinha de seios caídos! Ela havia vindo
furtivamente e se armara.
- Danado de quente - disse ele. - Espere só até que eu diga a Art.
Talvez ela meta uns chumbos na bunda dele.
- Vou me vestir - disse Ken. - Vou tomar o bote, dar a volta em torno da
ilha para me certificar de que ela não tentará vadear até a terra.
- Certo.
- Já agüentei demais por um dia. Vamos pegá-la. - Ken voltou para a
cabana.
Greg ergueu mais uma vez os dois pesados pistões e continuou seu caminho
para a praia. Art esperava-o no "bote, fumando, olhando para o plástico
encharcado de sangue que continha os restos de Martin. Indicou-os, com
um movimento da cabeça.
- Amarrei-o por baixo das axilas para que nada escorresse.
- Ele está mesmo um bagaço. - Com todo o cuidado, Greg pôs o pistão no
bote, apoiando-o no corpo de Martin. Que tipo estranho, pensou. A
excitação de Art não era caçar, nem mesmo matar, realmente. A excitação
era olhar -para o que sobrava.
- Ela tem uma arma - disse casualmente, e observou a reação de Art, com
uma espécie de exultação.
- Nancy? - A face de Art tornou-se sem expressão e perdeu um pouco da
cor.
- É o que diz Ken. E alguns cartuchos calibre quatro. Putinha suja,
pensou Art. Ela faria mesmo uma coisa dessas. Era justamente o tipo. Ela
e o cara. Se a decisão tivesse sido sua, nunca os teriam seqüestrado.
Homens covardes e magrelos eram sempre perigosos. Fora culpa deGreg,
que tivera uma erecção ao ver o traseiro dela, quando a haviam
conhecido, e convencera Ken. Fora aí o erro. Greg nunca devia ter
direito de escolha. A escolha devia ser sempre dele e de Ken.
Deu uma puxada na corda e o motor pegou.
- Trouxe uma garrafa?
Greg sacudiu a cabeça e Art praguejou em voz baixa. Alimentara a
esperança de que Greg houvesse infringido a regra que proibia bebidas.
Contornaram a parte norte da ilha e embicaram por entre os caniços e a
vegetação aquática, que, vistos da praia, pareciam inocentes, mas que se
tornavam mais profundos e densos até chegarem a uns 50 metros do próprio
lago, em meio a uma fechada floresta cercada pelo pântano.
Art parou o motor.
- Onde está a corda?
- Aqui.
Deixaram a cabeça de Martin pender pela borda e puxaram o corpo do
lençol plástico, que Art enxaguou, dobrou com todo o cuidado e guardou.
Greg tirou o rolo de corda do cinto e amarrou o pistão ao corpo,
passando onylon em torno dos braços, pernas e cintura, em uma série de
complicados nós que haviam inventado anos antes, para que a corda não
deslizasse do esqueleto antes de desaparecida toda carne. Dessa maneira,
coisa alguma jamais flutuaria até a superfície e os ossos ficariam no
fundo, onde seriam sugados e enterrados para sempre na lama ou
apodreceriam inteiramente.
- Muito bem, pessoal, lá vai um novo garoto - disse Greg. - Segure os
pés dele, Art.
Art agarrou os tornozelos de Martin e começaram a descer o corpo para a
água, que já estava escarlate de sangue.
- Na próxima vez, atire no corpo, sim? - queixouse Greg. - Olhe para
isso. - Apontou.
Art olhou e viu um pouco da massa encefálica de Martin grudada aos
caniços.
- Os ratos de banhado acabarão com isso até o fim da semana - disse. -
Se não se diluir inteiramente antes.
- Espero que sim. - Greg soltou o peso e Martin desapareceu quase no
mesmo instante. Subiu um bocado de bolhas durante um momento, alguns
gravetos deslocados flutuaram e giraram na água sangrenta. Depois, as
bolhaspararam.
Art ligou outra vez o motor e cruzaram devagar os densos caniços e a
vegetação aquática, de volta ao lagoaberto.
- Teremos sorte se não botarmos a coisa a perder - disse Art. - Devíamos
ter esperado até termos pegado a moça. Isso nos economizaria uma segunda
viagem.
- Não sei - respondeu Greg. - Nós sempre dissemos que o melhor era nos
livrarmos deles logo que possível.
Art sabia que ele tinha razão. Por que deixar corpos à vista? A pequena
poderia ser mais sabida do que eles pensavam e não ser apanhada
facilmente. Havia sempre a possibilidade remota de que outro caçador
pudesse aparecer. Era o único risco que sempre haviam temido.
Desembarcaram e notaram que o segundo bote havia desaparecido. Ken já
devia encontrar-se no lado da ilha que dava para o continente,
vigilante. Puxou o motor para dentro do bote.
- O que é que você vai fazer? - indagou Greg.
- O que é que você acha? Quer usá-la, talvez? - Art puxou o motor para a
terra e, ao mesmo tempo, ouviu o primeiro profundo silvo do ar saindo
das câmaras de flutuação, quando Greg tirou a válvula e o bote começou a
arriar sobre si mesmo. Obviamente, desta vez Greg concordava e não ia
discutir.
Esperaram e penduraram em seguida o bote numa árvore, transformando-o
numa massa negra de borracha, absolutamente inútil.
- Bem, vamos caçar - disse Greg.
- Certo. E tomar cuidado. Eu posso pensar em coisas melhores do que em
uma mulher armada.
Greg riu.
- Eu também. Em uma mulher desarmada. Art continuou sério e disse:
- Tomarei o lado norte, se você concordar. Você toma o lado sul.
- Certo comigo.
Referiam-se ambos à própria serraria. Era ela um longo retângulo que se
estendia para o leste e o oeste. Tinha a chaminé plantada na direção do
canto nordeste. Ambos a flanqueariam, mantendose como sempre, à margem
das moitas que delimitavam a clareira em volta. Não havia motivo para
pensar que Nancy se comportasse de modo diferente das outras mulheres. O
padrão, como no caso dos homens, haviase tornado tediosamente
previsível. As mulheres escolhiam a serraria para se esconder e
recuperar as forças e, ao escolhê-la, quase sempre se enfiavam pela
terra. Todas elas ignoravam a enferrujada porta de ferro na base da
enorme chaminé e escolhiam a sala de máquinas, que em si não parecia
muito segura, de modo que geralmente rastejavam para o fundo, entre os
ratos que colonizavam e abundavam a úmida e bolorenta zona do pó de
serra sob as pranchas apodrecidas. Logo que dormiam um pouco e
recuperavam as forças, tornavam-se conscientes dos ratos, grandes,
barulhentos e feias criaturas. Isso as expulsava, levando-as, com o novo
pavor, à conclusão de que poderiam chegar sem obstáculos a terra firme e
à liberdade.
Mais ou menos por essa hora, pensou Art. Lançou um -olhar ao relógio.
Exatamente por essa hora. Uma e trinta. Fora apenas seis horas antes que
haviam saído meio cegos da cama e mergulhado nas águas geladas do lago?
Parecia muito mais tempo.
Ouviu o baixo assovio de uma ave do outro lado da serraria. Devia ser
Greg, dando-lhe a posição e dizendo que ia deitar-se ali por um momento.
Abrigou-se por trás de algumas bétulas e escutou. Ken havia parado o
motor de popa. Estava tudo em sossego.
Logo depois, dentro da serraria, ouviu um som muito baixo, uma espécie
de arrastar distante. Algo se movia; um rato saiu da parede corroída
pelo tempo, meio apodrecida, que descia sobre as rochas do alicerce.
Talvez ela houvesse morrido ali embaixo, e isso seria o fim. Teriam que
penetrar naquelas profundidades e tirar o corpo, com ratos e tudo, ela
provavelmente já devorada pela metade, até que conseguissem remover as
pranchas.
Ouviu novamente o som de coisa arrastada. Não, era ela mesma. E estava
saindo. Mas o que estava fazendo aquele ruído? Pensou no caminho tomado
por ela a partir do buraco dos ratos. Teria que ter ido até a porta da
sala de máquinas. Devia tê-la fechado pela metade quando entrara e
naquele momento, tinha que abri-la outra vez. Fazia-o devagar e com todo
o cuidado, prendendo a respiração, com medo de ser ouvida,
parecendo-lhe a porta duas vezes mais barulhenta do que era realmente.
Para ela pareceria que estava demolindo o prédio.
Art sorriu e respondeu ao assovio de Greg para informar sua posição.
Provavelmente, Greg também a ouvira. Se não, acabaria desconfiando,
pela resposta assoviada, de que deveria ficar onde estava, porque a
presa se movimentava.
E quanto à maldita espingarda, que diabo iam fazer? Se Nancy chegasse a
uma distância de tiro, puxasse o gatilho e disparasse um ou dois
cartuchos, Cristo! Ali em volta da serraria tudo era perto demais. Não
se podia errar a 15 metros, com chumbo calibre quatro. A sete metros era
possível arrancar a cabeça de um homem. A metade, pelo menos.
O som de arrastamento parara. Ela abriu a porta. Ele esperou. Começou a
suar. Reinava um silêncio mortal. Subitamente, ouviu o som baixo de
metal batendo em metal. Ela batera com o cano da arma num dos degraus
da escada. Escorregara, com toda probabilidade. Isso a apavoraria. Ela
ficaria imóvel durante algum tempo. Olhou novamente para o relógio. Uma
e trinta e cinco. O que ele devia fazer era entrar na serraria logo e
baleá-la quando ela saísse do poço. Enquanto estivesse ainda pela
metade na escada e não pudesse responder aos tiros. Dizer apenas: "'Boa
tarde, menina, que tal foi seu sono reparador?" e começar a atirar.
Tentaria ela fugir? Voltar para o poço? Ou simplesmente cairia por
terra, suplicando? Nunca se podia saber, com uma mulher.
Mas era perigoso entrar na serraria. Ele próprio poderia ficar
encurralado. Pelo que sabiam, ela era a própria Annie Oakley. Era
melhor esperar do lado de fora.
Esperou, em vista disso. De qualquer maneira, ela já -estaria fora do
poço por esse momento. E, provavelmente, movendo-se ao longo do lado
escuro do interior da serraria, onde ficava toda a maquinaria,
escutando. Chegaria à conclusão de que estava em segurança e sairia pela
rampa de terra em ligeiro declive, por onde outrora haviam deslizado as
tábuas recém-cortadas para a parede de pedra que dava para o local onde
as juntas de bois esperavam, um metro e oitenta abaixo. Ele e Ken
haviam removido as grandes portas duplas daquele local quando
construíram a cabana, e o madeirame delas era agora parte do terraço da
cabana e do maior trecho do teto da cozinha.
Assoviou outra vez, duas vezes. Conservando-se bem dentro das moitas,
dirigiu-se para a extremidade oeste da serraria e para a clareira entre
a rampa e a parede, um espaço aberto de uns 30 metros. Sentiu
subitamente que precisava apressar-se, pois ela poderia ser do tipo
temerário e simplesmente correr para a segurança. Nesse jogo não se
deixava a iniciativa aos outros caras. Fazia-se ao máximo o que se
tinha que fazer. Dessa maneira, nunca haviam perdido uma vítima.
, Os segundos arrastaram-se e transformaram-se em minutos. Ele suou mais
forte. Suor frio. Por fim, a clareira surgiu através da cortina de
moitas, que ele afastou suavemente. Do outro lado da clareira, o fundo
da serraria com suas portas duplas escancaradas.
Não havia sinal dela.
Espere. Sim. Ela estava lá. Uma pequena e vivida figura nas sombras.
Naturalmente, vestia aquela camisa quadriculada preta e vermelha de
Ken, as grandes botas, dele e tinha as calças amarradas por uma velha
correia de couro.
Estava armada, certo. Tinha a arma sob o braço, imóvel, à escuta,
avaliando as suas probabilidades.
Olhou e viu Greg do outro lado da clareira, oculto atrás: do grosso
tronco de uma faia. Apontava o rifle para o chão, junto ao corpo, para
tornar mais esguia a silhueta. Greg sorriu-lhe e fez um pequeno sinal
com a mão. Ele a vira, também.
Bem, deixaria que ela saísse e se colocaria por trás, com Greg pela
frente, para que ela ficasse entre os dois. Maldita espingarda, poderia
ela usá-la ou não? Não tinha importância, ela não podia voltar-se para
duas direções ao mesmo tempo.
Ela se encontrava naquele momento junto à porta. Podia tentar um tiro.
Caso errasse, no entanto, ela recuaria para dentro e teriam que montar
um cerco, o que significaria vigília durante a noite e somente Deus
sabia o que mais. Além disso, onde é que estava a graça, quando se os
pegava sem que eles o soubessem? Mesmo aquele palhaço, Martin, tivera
um ou dois segundos. Simplesmente, a última fração de um segundo,
quando ele compreendera que pusera tudo a perder.
Ela saiu devagar, um passo de cada vez, e depois, passou a andar com
maior rapidez. Uma distância de uns 30 metros separava-a da parede,
mais outros 30 até o bosque. Isto é, se ela andasse em linha reta. Se
se virasse para qualquer dos lados, a distância seria menor. Ela
resolveu seguir em linha reta, virando-se duas vezes para olhar para a
serraria e, finalmente, começando a correr.
A 25 metros do lado da estação de descarga, Art saiu do esconderijo e
disparou um tiro de aviso. A bala atingiu o solo imediatamente à frente
dela. Ela deu um salto de uns 30 centímetros de altura, girou
alucinada, tentando olhar para todos os lugares ao mesmo tempo, e
finalmente imobilizou-se, não ousando mover-se mais.
Art saiu das moitas e correu furtivo para a serraria,, numa corrida
agachada lateral que lhe permitia mantê-la sob observação. Não
precisava preocupar-se com a arma dela. Não, por alguns segundos. Ela
estava surpresa demais no momento para erguê-la e Greg lhe daria
cobertura. Quando se lembrasse dela, quando a tirasse do braço, ele já
estaria à sombra escura e protetora da serraria, a zona de segurança
que ela acabara de deixar.
Nesse momento, Greg disse:
- Nancy! Ei, meu bem! - E afastou-se preguiçosamente da faia, pronto
para recuar se ela atirasse. - Você não vai tentar atirar em mim? -
Permaneceu ali, espicaçando-a, e disparou um tiro casual para o lado
dela.
Ela estava uma ruína, com as roupas rasgadas e sangrentas, a face
transformada em uma coisa inumana, machucada, preta-azulada. O sangue
que por acaso lhe restava correu todo para o estômago com o choque da
reação e seus lábios tornaram-se brancos como giz.
- Vamos, Nance. Lute um pouco. Você pode pegar um de nós.
Greg apertou novamente o gatilho e Nancy explodiu. Ergueu a arma e seu
dedo endureceu-se. Art, porém, atirou também. Ela girou ao ouvir-lhe o
tiro e atirou para a escuridão da serraria, em vez de atirar em Greg.
Acionou o ferrolho e girou outra vez para visar Greg. Tarde demais.
Atirou mas apenas atingiu moitas e troncos de árvores. Greg pulara para
trás da faia.
Art saiu das sombras, perguntando-se por que ela não corria para a
plataforma e saltava. A plataforma a teria protegido parcialmente.
Greg saiu para o claro também.
- Bem, não fique tão apavorada assim, Nancy. Você tem aí uma boa arma. É
de Ken. Ele a usa para caçar gansos. Isso aí é chumbo calibre quatro e
você pode cortar um homem quase pela metade com ele.
- Como é que foram os ratos? - perguntou Art. - A pequena de dois anos
atrás trazia-os ainda pendurados no corpo quando saiu.
- Isso mesmo. O que é que há com vocês todas, mulheres? - perguntou
Greg. - Escondendo-se sempre no mesmo imundo lugar. Por que isso?
Ela falou, subitamente. A voz combinava com a cor da face, pensou Art.
Isso era interessante.
- Por favor, deixem-me ir embora.
- Ora, Nancy, nós não estamos detendo-a - respondeu Greg.
- Por favor.
- Vá em frente.
- Eu nunca fiz coisa alguma contra vocês. Qualquer um de vocês. Nada. Há
uma semana eu nem sabia que vocês existiam. Por favor, eu tenho duas
meninas. Eu sou mãe. Por favor.
Art atirou. A bala assoviou inocentemente sobre a cabeça dela, exato
como ele queria.
Ela saltou e atirou. Para coisa alguma. A escuridão do interior da
serraria era uma sólida parede protetora.
Ela se descontrolou nesse momento e começou a correr. Deixou cair a
espingarda e correu em pânico, às cegas, na direção da parede.
Greg observou-lhe os movimentos e moveu-se com grande rapidez. Ela havia
quase chegado à parede quando ele lhe tomou a frente, fazendo-a
chocar-se contra si antes que compreendesse que ele estava ali e podia
detê-la. Seguroua com força, rindo, prendendo-a com um braço,
conservando o rifle a distância para que ela não pudesse agarrá-lo, se
lhe ocorresse esse pensamento.
Art apareceu.
Sua ou minha? - Não sorriu. Havia desprezo em sua voz e impaciente
irritação.
- Poderíamos nos divertir um pouco.
- Acabe com isso. Nós não almoçamos ainda.
Greg olhou para Nancy e para a camisa de caça de Ken, aberta. Lembrou-se
do calor úmido dela e sentiu uma ponta de pena. Diabos, ela fora uma
boa pequena. Pen sou na bala de sua arma rasgando-a, transformando em
frio o calor dela. Era excitante, mas, ao mesmo tempo, quase uma
vergonha.
- Eu acabarei com ela - disse.
Continuou a segurá-la, sorrindo. Art subitamente soube por quê. Greg
conservava Nancy colada ao seu corpo, estava tendo uma rápida erecção e
suas nádegas já começavam a contrair-se em espasmos.
Agarrou o braço de Nancy e puxou-a para longe, furioso.
- Seu safado estúpido - berrou para Greg. - Esqueça isso.
- Por favor. - Ela caiu de joelhos, erguendo as mãos, rezando. Art
deu-lhe um pontapé nas costelas e ela começou a gritar. Deu-lhe outro
pontapé na boca, enfiando com força a bota. Ela caiu. Ele apontou o
rifle.
Greg empurrou-o rudemente para o lado. Não estava sorrindo.
- Escute, amiguinho. Eu disse que esta era minha.
- Bem, então, pelo amor de Deus, acabe com isso.
- Certo. E feche os olhos. - Encostou o rifle na cabeça de Nancy.
Seus olhos giraram e, num horrível e convulso espasmo, ela se ajoelhou,
inclinada para trás. O rifle acompanhou-lhe o movimento e quando Nancy
se pôs de joelhos, Greg desceu o cano da arma para a sua garganta e
puxou o gatilho. Com o estrondo do tiro, ela foi erguida do chão como
se fosse uma boneca de trapos e caiu de costas. As pernas tremeram;
sentou-se convulsamente, com um buraco escancarado aberto na nuca.
Mexeu a boca e seus olhos disseram alguma coisa. Grep; baleou-a mais
duas vezes no peito e, quando o corpo continuou ainda sentado, com as
palmas das mãos erguidas, ainda suplicando, deulhe outro tiro na cabeça,
ao nível do nariz. A força da bala lançou-a para trás e ela deu uma
cambalhota final, em uma grande convulsão de nervos, e caiu da parede
até o chão, embaixo.
Foram até a borda e olharam. Ela estava de costas, pernas ligeiramente
abertas, braços estendidos. Os olhos mortos olhavam fixamente para
cima.
- Menino, ela era dura - disse Greg.
Em tom de voz desagradável, Art comentou:
- Seu último tiro devia ter sido o primeiro.
- Vá tomar naquele lugar - respondeu Greg. E sorriu.
- Bem, vamos indo - disse Art. - Vamos nos livrar dela.
- Certo. E, goste Ken ou não, desta vez não vamos esquecer a garrafa. Eu
quase morri...
Jamais terminou a frase.
A respiração faltou-lhe, inesperadamente, como se ele houvesse engolido
todo o ar. Art olhou vivamente para ele. Um buraco redondo do tamanho
de uma moeda, tornando-se rosado nas bordas, abrira-se exatamente no
centro da testa de Greg. Enquanto continuava a olhar com total
incredulidade pelo que pareceu uma eternidade, mas que foi apenas um
segundo, Art ouviu o eco quase simultâneo do tiro e, imediatamente
depois compreendeu que o som nada tinha a ver com ele, Greg ou o
assassinato de Nancy.
Nesse momento, Greg, ainda com um meio sorriso nos lábios, os olhos
ainda sorridentes, desmoronou-se e caiu da plataforma sobre Nancy,
expulsando-lhe o ar dos pulmões mortos e fazendo-a arquejar
audivelmente. E ele ficou ali, em cima dela, entre as suas pernas
abertas, com as nádegas tremendo, em uma horrenda e final imitação da
vida.

Capítulo 19

O SEGUNDO TIRO ATINGIU Art NO BRAÇO.
Num momento, ele olhava fixamente para Greg e, no seguinte, sentia um
violento golpe acima do bíceps, tão violento que quase o derrubou.
Sabia que fora atingido e sabia que devia estar morto ou que morreria,
se não começasse a correr a toda velocidade em busca de abrigo.
Dificultaria a pontaria do atirador emboscado. Quem quer que fosse,
fá-lo-ia apertar o gatilho depressa demais.
Ouviu o terceiro tiro, o assovio de um ricochete e, abafado, o estrondo.
As escancaradas portas duplas da serraria estavam a apenas alguns
metros de distância. Os tiros vinham de longe.
Nada disso foi produto de raciocínio. Foi uma reação cega. A sua mente
quase se dissolveu quando alcançou a sombra protetora, tropeçou e caiu
de cara no chão. Ergueu-se freneticamente, deu mais alguns cambaleantes
passos e caiu pela segunda vez. Permaneceu deitado, sentindo na boca a
greda ácida do pó de serra que apodrecia. Nesse momento, começou a
pensar conscientemente. Estava oculto do atirador, tinha que estar.
Ignorando a frenética cacofonia da própria respiração e pulsações, fez
um esforço para compreender.
Nancy, baleada. Em seguida, Greg morto, com uma bala entre os olhos.
Ele, baleado no braço. Mas, quem seria o atirador? Ken? Enlouquecera
ele? Resolvera cair fora sem deixar prova alguma?
Isso era inconcebível. Levou os dedos ao braço. Sentiu um calor
escorrendo. Era sangue e lhe encharcava a camisa. Qual a gravidade do
ferimento? Podia mover ainda o braço e, assim, não havia osso quebrado.
E o sangue não esguichava, o que significava que nenhuma artéria fora
atingida. Mas, Jesus, a dor. Prendeu a respiração para combatê-la. Após
algum tempo, a dor pararia de latejar; simplesmente arderia.
A cabeça se lhe clareou um pouco. Precisava sair dali. Se fosse Ken,
viria atrás dele. Não podia simplesmente ficar ali exposto. Levante-se!
Ergueu-se devagar, surpreso por descobrir que podia pôr-se de pé.
Começara, exceto pelo ferimento, a achar que podia reagir. Sentiu uma
espécie de desafiadora fúria, que quase lhe dominou o medo. Apanhou o
rifle e tirou um pouco de pó de serra que se infiltrara pelo cano.
Muito bem, atire em mim, seu safado. Você vai receber o troco.
Simplesmente, mostre-se.
Estava vazia a clareira na extremidade leste da serraria. Um tordo
passou como um relâmpago e subiu para o alto do telhado, numa mancha
preta e vermelha. Art postou-se cauteloso em uma fresta na parede sul
da serraria, varrendo com os olhos as moitas à frente. Estas se
prolongavam até o bosque; logo depois, começava o lago. Sairia da
serraria, correria o risco de cruzar a lareira e refaria os passos até
a cabana.
Por cima do ombro, olhou para dentro da serraria. Não viu ninguém, não
conseguiu ouvir som de nmguém. Ninguém estava emoldurado pelas grandes
portas duplas. Atrás delas estava Greg, morto, em cima de Nancy.
Atravessou a fresta, olhou para a esquerda e para a direita e seguiu a-
parede devagar até a esquina. Ninguém ainda. Ainda nenhum som. Alguns
gaios guincharam, não amedrontados, apenas discutindo.
Nada havia a fazer senão correr. Não poderia permanecer para sempre
colado à parede da serraria. Mesmo que seu perseguidor estivesse
emboscado, escondido nas moitas em frente, teria muito trabalho para
acertá-lo novamente. Não é coisa fácil atingir um homem que corre a toda
velocidade.
Agachou-se e correu da maneira como lhe haviam ensinado no exército,
erguendo e abaixando o corpo e mudando rapidamente de direção. Não
parou até que uma onda de moitas cortantes abriu-se e açoitou-o,
fechando a clareira às suas costas.
Mergulhou rente ao solo, não ousando mover-se. Girou a cabeça. Havia
alguém por perto? A dor latejou, novamente e ele teve vontade de
vomitar. Ouviu nesse momento o motor de popa fazendo a volta pela ponta
sul da ilha. O significado disso, o alívio, inundou-o como se fossem
ondas. O motor significava Ken, que não podia ter sido ele o tocaieiro.
Não havia traição e ele não estava sozinho. Tinha Ken, e eram dois
contra um. Bem, talvez: vários, quem é que sabia? Descobririam isso
logo. Lutou para controlar a dor e a náusea e começou a rastejar
diagonalmente pelas moitas, em direção ao desembarcadourono lago. Ken
precisava ser avisado.
Conservou baixo o corpo mas não se importou se agitava ou não as moitas.
Bétulas e pés de sumagre podiam ondular sobre a sua cabeça, mas ninguém
podia acertar-lhe um tiro através da densa vegetação rasteira e dos
espinheiros.
Ken apareceu, dirigindo o bote para o ponto de desembarque. Desligou o
motor e deixou que o bote se aproximasse com o impulso. Tinha o rifle
sobre os joelhos ehavia uma expressão preocupada em seu rosto.
Em voz calma, Art avisou:
- Cuidado. Há alguém atirando em nós.
- Fique onde está - respondeu Ken. No momento em que o nariz do bote
raspou os seixos da praia, ele rolou por um lado e, numa súbita
explosão- de energia, puxou-o para fora da água e correu para dentro
das moitas..
Reuniram-se.
- Que diabo foi que aconteceu? - Notou o braço deArt, a manga empapada
de sangue escuro e a mão molhada e estriada de vermelho. - Cristo,
atingiu o osso?
- Não. Está okay.
- Quem foi?
- Diga você.
- Ouvi três tiros. Grosso calibre. De cima da escarpa.
Então era ali que ele se havia escondido. Em seguida, Ken perguntou,
nervoso:
- Onde está Greg?
- Está morto - respondeu Art.
- Está o quê? Greg?
Art explicou o que havia acontecido. Quando chegou à morte de Greg,
lembrou-se do buraco na testa; Greg subitamente morto no meio de uma
frase. A cena reapareceu vívida e ele teve, outra vez, vontade de
vomitar. Ele mesmo chegara perto. Podia estar agora caído sobre aquela
puta da moça. Como Greg. E não sabia de coisa alguma.
- Precisamos chegar à cabana - disse Ken.
- Talvez ele desça da escarpa.
- Nós não podemos ficar aqui neste maldito mato. Não, não podiam.
Precisavam abrigar-se e a cabana era a escolha viável. Havia o estojo
de primeiros socorros, bebida, e uma cama para dormir. Podiam se
revezar, montando guarda. Até a noite.
- Vamos, então - disse Art.
- Ficarei imediatamente atrás de você. Quando começar a correr, não
perca tempo. Eu lhe darei cobertura.
Começaram a rastejar e chegaram a um ponto perto da cabana. Art
agachou-se. Erguendo ligeiramente a cabeça, podia ver o telhado da
serraria, acima e atrás as rochas cinzentas da escarpa. Não havia sinal
de movimentos, nenhum sinal do atirador de tocaia.
- Vá! - gritou Ken. - Agora!
Art concentrou-se e correu para a cabana. Era uma distância de apenas 50
metros, mas, a meio caminho, sentiu que as pernas começavam a ceder.
Cairia e se transformaria num patinho. Uma escuridão desceu sobre seus
olhos e uma voz berrou: "Levante-se, vamos, levante-se!" Sentiu algo
úmido na face e tentou sentar-se. Encontrava-se em um dos bancos da
cabana e Ken passava um pano úmido em sua testa.
- Calma. Procure não se mover.
Art recostou-se e seus olhos focalizaram-se sobre coisas conhecidas.
Tentou lembrar-se de como conseguira chegar ali.
- Um drinque lhe fará bem - disse Ken. Dirigiu-se à cozinha e voltou com
uma garrafa fechada de bourbon. Rasgou o rótulo do gargalo, puxou a
rolha e serviu-lhe uma forte dose num copo. - Tome. - Empurrou o copo
para boca de Art, que bebeu, regurgitando, sentindo a bebida revolver
em seu estômago. Teve vontade de vomitar, mas depois a vontade passou,
subitamente. Sentiu-se muito melhor.
Ken sorriu.
- Você terminou caído no chão.
- Sinto muito.
- Não houve problema. Ninguém atirou. Mas eu thiha certeza de que o
fariam. Você ficou simplesmente ali, estendido no chão.
- Obrigado.
- Não há de quê. Eu não o amo. Preciso de você.
- A intenção do sorriso e da piscadela era transformar a frase em
pilhéria, fazer com que as palavras dissessem justamente o contrário.
Somente Art sabia que o que Ken dissera era, de fato, o que ele
realmente pensava e sentia. Ken não dava a mínima bola para pessoa
alguma. Mas naquele exato momento Ken precisava dele e ele de Ken. Eram
vitais um para o outro.
- Quem diabo é? - perguntou ele, em desespero.
- Quem?
- Eu não estou lhe escondendo coisa alguma - respondeu Ken.
- Quantos você acha que sejam?
- Os tiros que ouvi vieram da mesma arma. Art fez um esforço para
pensar.
- Se houvesse dois, eu estaria ali agora com Greg - disse.
Isso fazia sentido. Ficaram ambos em silêncio. A anônima identidade do
tocaieiro tornava ainda mais séria a situação. Súbita e
inesperadamente, um rifle falara e toda a situação havia-se invertido.
Um momento antes, tudo valia e era divertido: liquidar Martin, caçar
Nancy, quase prontos para darem o dia por terminado e começarem a beber
para valer. Talvez um jogo de Monopólio naquela noite, uma boa maneira
de relaxar os nervos, e no dia seguinte voltar à caçada legítima.
Agora havia alguém caçando-os e eles estavam em fuga.
Ken levantou-se, olhou cauteloso pela janela da cozinha e voltou.
- Nada - disse. - Sentou-se longe da porta da frente, aberta, e tomou
outro drinque.
- O que é que você acha que devemos fazer? - perguntou Art.
- Bem - disse Ken - quem quer que seja e o quequer que ele queira, nós
temos de pegálo. Ele nos viu. Você, com certeza; eu, com toda
probabilidade.
- Há uma coisa mais importante para fazer em primeiro lugar - disse Art.
- Sim?
- Desfazer-nos dos corpos.
- Não. Ele. Ele é mais importante.
- Escute aqui - insistiu Art - ninguém pode acusar ninguém de
assassinato se não há vítima. Não me importo com quem tenha visto o
quê. O importante é que não haja nenhum cadáver, e é a palavra dele
contra a nossa.
- Talvez ele tenha tirado fotos. Art encolheu os ombros.
- Eu corro esse risco.
Ken pensou no caso e acendeu um cigarro.
- Muito bem - disse. - Nancy, sim.
- Greg, também - insistiu Art. Vamos lançá-lo na água com ela. Diremos
que ele se perdeu.
- E Sue vem até aqui. só Deus sabe com quem, e começa a procurá-lo. -
Havia autêntico desespero na voz de Ken.
Art irritou-se.
- E daí?
- E se alguém começar a fazer perguntas?
- Quem é que vai dar as respostas?
- Quem, dabo, se importa com isto? Para começar, eu não quero perguntas.
Você quer?
Não havia maneira de rebater esse argumento. Art tentou, mentalmente, e
não a encontrou. Ken tinha razão. Chegaria Sue em primeiro lugar,
depois a Polícia Estadual, o Serviço Florestal e uma imensa rede de
homens, cães e helicópteros. E ele e Ken fingindo ajudar e tentando
certificar-se de que não diziam coisa alguma, que era melhor calar,
perguntando-se o tempo todo se alguém encontrara o carro estacionado de
Martin e, por alguma louca chance, estava tentando somar dois e dois. E
se encontrassem um pouco do sangue de Nancy, o analisassem e
descobrissem que era de mulher, ou o que quer que o pessoal da medicina
legal pudesse concluir?
Art tomou um longo gole de bourbon.
- Muito bem - disse. Sentiu um vago alívio. A coisa começava a fazer
sentido. Os dois resolveriam o caso, de alguma maneira. Eram dois
contra um e eram bons caçadores. E tinham uma grande vantagem.
Conheciam o terreno. Ninguém poderia possivelmente conhecê-lo tão bem
como eles. Ninguém.
Ken falava nesse momento:
- Vamos cuidar de Nancy. Depois, daquele calhorda. Da mesma maneira, no
mesmo lugar. Em seguida, levamos Greg para casa com a bala na cabeça.
Foi um acidente. Algum caçador. Ouvimos o tiro, mas não conseguimos
vê-lo.
- Exceto por uma coisa. A bala atravessou Greg de lado a lado.
- Mesmo?
Art lembrou-se da parte de trás da cabeça de Greg, arrancada
inteiramente, um grande ponto aberto onde não "havia mais cabelo, vazio
de cérebro, quase como a metade oca de um coco.
- Sim - respondeu.
Ken encolheu os ombros. Respondeu à pergunta que sabia que torturava
Art. Se não havia bala, alguém poderia pensar que eles haviam
assassinado Greg.
- Balisticamente, haverá chumbo suficiente espalhado por lá - replicou -
para provar que não foi uma de nossas balas.
Esperaram até o anoitecer, observando o lago refletir o céu, primeiro em
rosa-vivo, depois escarlate e, finalmente, malva e cinzento, até que
toda a luz desapareceu e a noite desceu sobre a floresta, preta como
tinta, silenciosa, pontilhada de estrelas frias e solitárias.
Passaram o tempo de espera cortando a camisa de Art, borrifando
desinfetante no talho aberto, onde a bala cortara profundamente carne e
músculo, e aplicando pó de sulfa. Ken deu-lhe também uma injeção de
penicilina.
- Quem sabe que diabo de germes andam por aqui? Perimentos são
ferimentos. Melhor tomá-la agora do que precisar dela depois. - Fizera
um bom trabalho de enfaixamento e Art ajudara, tomando alguns
analgésicos e mais uns dois drinques. Mas não demais, porque precisava
ter a cabeça clara.
Tudo isso tomara tempo. Quando terminaram, Art vestiu uma camisa limpa e
cerrou os dentes para combater o latejamento da ferida. Ken preparou
uma refeição ligeira. Queimaram uma rolha e escureceram o rosto e as
mãos.
Quem quer que estivesse atrás deles poderia estar também vagueando pela
noite. Precisavam ficar tão escuros quanto possível.
- Fechamos a cabana?
- Se não o fizermos, ele não terá certeza se estamos aqui ou não. Isso o
despistará.
- Sim, mas o safado pode vir enquanto estamos fora e esperar por nós.
No fim, resolveram deixar a cabana aberta. Fechar não ia deter ninguém
que quisesse realmente entrar.
Prepararam dois embrulhos contendo tudo aquilo de que poderiam
necessitar durante um ou dois dias: uma mudança de ataduras para Art,
rações secas de campo, que guardavam havia seis anos no guarda-comida,
para o caso de uma emergência, meias extras, isqueiros, cigarros.
Armaram-se com as facas de caça e verificaram se elas saíam facilmente
da bainha. Levaram cantis, um deles com água, que poderiam reencher a
qualquer tempo no lago ou num regato, e ao outro com bourbon. Faria
frio ao anoitecer e precisariam esquentar-se.
Às oito horas apagaram as luzes e, meia hora depois, saíram em silêncio.
Ken, pela janela da cozinha; Art, pela do quarto. Combinaram
encontrar-se no canto sudoeste da serraria, a extremidade com as portas
duplas. O sinal era um estalo seco de dedos; a resposta, a mesma coisa.
Decidiram separar-se a caminho do local para dar menor alvo ao caçador,
se ele ainda andasse por ali. Possivelmente, ele nem mesmo atiraria, se
compreendesse que estava atrás de um único homem e ficasse temeroso de
atrair um contraataque do outro.
Ken esperou alguns minutos e afastou-se da cabana, cruzando a escura
clareira, orientando-se pela vaga silhueta das moitas que corriam entre
a cabana e a serraria. Logo depois, sentiu pequenos galhos à frente da
mão estendida e começou a abrir um cauteloso caminho pela vegetação
rasteira, amaldiçoando os ramos que lhe açoitavam o rosto frio e o
homem, quem quer que fosse, que tornava tudo isso necessário.
Livrou-se finalmente das moitas e havia apenas o trecho final até o
canto da serraria. Esperou, à escuta, mas nada ouviu. Estaria isso
certo? Não deveria pelo menos haver ruído de patas em disparada e
grunhidos de ratos? Estremeceu e estalou uma vez os dedos.
A resposta de Art veio de tão perto que se sobressaltou. Dirigiu-se para
a fonte do som, ouviu um leve movimento e sentiu a presença de alguém.
Art? - perguntou, em um sussurro.
- Sim.
- Okay!
Nenhum problema. Ouviu alguma coisa?
- Nada.
- Vamos, então.
Saíram para o campo aberto, chegaram à esquina da serraria, escutaram, e
continuaram a caminhar em direção à parede. Art chegou ao local onde
deveriam estar Qreg e Nancy. Lançou um olhar para o cume do telhado da
serraria. Com todo o cuidado, deslizou pela parede em direção ao chão,
odiando o pensamento de lhes tocar o corpo com os pés. Eles deveriam
estar em rigor mortis naquele momento, duros como tábuas, ambos, dois
pedaços rígidos como pedra, de carne empilhada junta, sangue congelado.
Moveu-se, cauteloso.
- Chegou a eles?
- Ainda não.
Continuou por mais cinco metros ao longo da parede, seguindo-o Ken à
altura do ombro. Nada havia. Parou.
- O que é que há?
- Não sei. - Art recuou sobre os próprios pés, voltando ao ponto de
partida. Tomou a direção oposta, abrindo o pé em arco, mais descuidado
nesse momento.
Havia alguma coisa errada.
- Que diabo é que está havendo? - Era Ken, falando outra vez, e no seu
sussurro havia a mesma pavorosa suspeita, que ele também começara a
sentir.
- Eles não estão aqui - disse Art, finalmente.
- Mas têm que estar.
- Escute, eu lhe digo, eu tenho certeza do lugar onde aquilo aconteceu.
Eu estava junto dele.
Era apavorante. Nancy e Greg haviam sido retirados dali.
Subitamente, Ken disse:
- Vamos cair fora daqui.
- Espere. - A lanterna de Art varreu o chão. Ken estendeu a mão, tomou-a
e apagou-a. - Você está louco? - Agarrou o braço de Art e ouviu-o
arquejar. Era o braço ferido. Soltou um palavrão, amaldiçoou Art,
amaldiçoou-se a si mesmo, amaldiçoou todo mundo. Devido à luz, toda a
sua visão noturna desaparecera. E quem quer que estivesse atrás deles
poderia tê-los localizado naquele momento. Todo o silêncio deles tinha
sido em vão.
Ajudou Art a subir a parede, nada mais disse e puxou-o asperamente para
as moitas. Quando as alcançaram, explodiu, feroz:
- Seu idiota de merda.
- É você. Pelo menos,, temos certeza de que eles não estão lá. Pelo
menos, sabemos. - Apesar de tudo, Art falava com ar culpado.
Ken recuperou parte da visão. Distinguiu as silhuetas dos cumes de
algumas árvores gigantes contra o céu. Controlou a fúria.
- Vamos - disse.
- Para onde?
- Para os botes.
- Fugir? Agora você está louco.
- Não para fugir. Dormir. Art pensou.
- Poderíamos nos revezar na cabana - sugeriu.
- Eu, não. - Ken dirigiu-se em passos firmes para o lago. Após alguns
metros, ouviu Art, seguindo-o. Em alguma parte na escuridão de tinta em
volta, tocaiava-os uma presença inumana. Alguém que matara Greg e lhe
levara o corpo e o de Nancy. Por quê? Para amedrontá-los? Como prova?
Para usar Nancy contra eles, enquanto escondia seus próprios
assassinatos?
E quem?
E onde? Ali, mas onde?
Ouvm movimento outra vez. Era Art, passando por ele, inesperadamente, em
direção à área de desembarque, tomando a frente entrando em pânico, não
se importando mais em fazer ruído. Havia aceito a idéia do bote e,
naquele momento, seu único pensamento era subir nele e sair para o
lago, onde havia segurança.
- Espere! - silvou Ken. Art, porém, continuou a andar pesadamente.
Maldito idiota, pensou Ken. Seguiu-o e por sobre o ruído tentou ouvir
alguma coisa que pudesse estar acontecendo às suas costas.
Art chegou à margem do lago e ouviu um som diferente. Bastaram a Ken urn
ou dois segundos para compreender. Art choramingava. Era um baixo ruído
animal, de desesperado terror. Encontrou-o na abertura entre as árvores
que era o ponto de desembarque, delineado contra o céu estrelado e
refletido na superfície do lago. Estava de joelhos à beira da água, de
cabeça curvada.
Ken soube por que, imediatamente. Não precisou que lhe dissessem. Mas,
apesar disso, cutucou a coisa com o pé. O bote que haviam ancorado ali
antes estava completamente vazio, transformado em tiras inúteis de
borracha rasgada. Passou por Art e foi até a árvore onde Art e Greg
haviam pendurado o outro bote. Tocou-o com a mão e uma longa tira de
borracha caiu em volta de seus braços, como se fosse uma serpente.
Eles não iam a parte alguma no lago. Não, em um bote de borracha. Não,
naquela noite. Não, no dia seguinte.

Capítulo 20

A UNS TRÊS METROS DE DISTÂNCIA, com a faca na mão, ele observou Ken
colocar Art de pé. Ouviu-lhes os sussurros e seguiu-os durante um curto
espaço de tempo, do lago até as moitas. Era perigoso demais tentar
matá-los, a faca ou a bala. Não, quando estavam juntos. Na escuridão,
as possibilidades eram que pegasse apenas um, errasse o outro, este o
atacasse. Não podia dar-se ao luxo desse tipo de erro. Ou, por falar
nisso, mais erros de qualquer tipo. Cometera os únicos dois que se
permitiria: o primeiro errar o tiro em Art porque tivera cuidado em
excesso com a pontaria e porque deixara que ele começasse a se mover. O
segundo, piorando as coisas disparar outra vez, como um noviço nervoso.
Ninguém podia acertar com uma mira telescópica em um homem a correr, e
não houvera tempo para desmontá-la.
Que se fossem. Eles se esconderiam em algum lugar entre as moitas para
passar a noite, talvez em uma ilhota no pântano, que era o local lógico
e seguro. Isso seria profundamente irônico. Teriam por companhia a
pobre moça, bem próxima no fundo, juntamente com o homem. Qual o nome
deles? Verificara a carteira do homem. Martin. Martin Clement. E na
véspera ouvira Ken, ou Greg, berrando o nome dela - Nancy. Simplesmente
isso. O sobrenome não importava. Não importava o de ninguém. Naquela
manhã ela ainda estivera viva, quente, respirando, consciente, animada
ainda de esperança. Martin, também. Agora estavam despedaçados, cheios
de água, frios como gelo, em cima quem sabe de atormentados demônios do
ano anterior. Ossos e os últimos restos de tendões e cartilagem, podres
talvez. Ou, se haviam sido sugados até uma profundidade suficiente no
fundo da lama para serem preservados, jaziam por ali como soldados num
campo de batalha, uns sobre outros, alguns sozinhos.
Pobre Nancy. Pobre Martin. Deixara-os morrer, quando poderia tê-los
salvo. Mas não podia admitir testemunhas e, se os houvesse deixado
viver, possivelmente para voltar à civilização, certamente eles logo
voltariam com a Polícia, e ele ainda não estava pronto para isso. Não,
ainda. Antes de preparar-se para a Polícia, teria ainda muita limpeza a
fazer. Não haveria uma migalha de prova, nem uma única gota de sangue,
nem uma única folha fora do lugar, nem uma única impressão digital ou
fio de cabelo. O pessoal da Polícia Técnica obteria resultado zero.
Voltou à serraria, pensando em Ken e Art. Observara Art correr como um
louco à procura de abrigo, depois que o atingira, e vira Ken ancorar o
barco de borracha e juntar-se a ele. Houvera um momento em que Art
caíra na clareira e pensara que podia pegar ambos. Mas Ken fora rápido
demais. Um tiro a 400 metros através de uma mira telescópica consome
tempo. Não tinha importância. Livrara-se de Greg o único que talvez não
houvesse sido capaz de liquidar se fosse obrigado a fazê-lo numa luta
corpo a» corpo.
Assim, descera da escarpa e se aproximara da cabana ao escurecer.
Pensara em atirar pela janela da cozinha, masdesistiu pela mesma razão
que resolvera não pegá-los nas moitas. Se o sujeito queria agir com
absoluta segurança e ter certeza de vencer, não podia em absoluto se
arriscar. Esperaria até que se separassem e não pudessem ajudar-se
mutuamente. Pegaria, então, um de cada vez.
Ao chegar à serraria, sentiu alguma coisa roçar-lhe o pé. Ouviu um ruído
desafiador e algo amedrontado. Ratos. Entrou e contou os passos com
todo o cuidado. Vinte e dois. Parou, estendeu a mão e tocou em ferro
frio. Até então,, ótimo.' Conservando a mão na maquinaria, deu cinco
passos comuns para a esquerda e meio passo à frente. Ergueu primeiro a
perna esquerda e, em seguida, a direita sobre uma longa biela. Certa
vez ela estivera viva e silvando com vapor; naquele momento era apenas
uma barra enferrujada de ferro morto. Tenteou através da estreita
fenda, tocou a parte superior dos degraus da escada do poço com o pé e
desceu para a base da chaminé.
Como estivera perto de Nancy quando ela se escondera sob o assoalho,
pensou. Se ela houvesse aberto a porta de ferro, tê-lo-ia visto. Nesse
caso, ele teria sido obrigado a matá-la com a faca. Tivera sorte. E
fora estúpido ao mesmo tempo. Deveria ter imaginado que ela escolheria a
serraria como esconderijo, especialmente aquele local. A moça do ano
anterior fizera exatamente a mesma coisa. As pessoas reagiam de
idêntica maneira ao perigo. Corriam, entravam em pânico, como Martin.
Ou se emburacavam pela terra adentro. Para a mulher, era mais instintivo
procurar um ninho. As mulheres não eram psicologicamente feitas para
fugir.
Estava em segurança e podia acender uma luz. Tirou a esguia lanterna e
com o fino feixe focalizou a porta enferrujada no fundo da chaminé. No
ano anterior, havia-a experimentado. Colocara uma luz mais forte no
chão, apontada para a porta. Depois, fizera uma volta em torno da
serraria para ver se escapava alguma réstia. Nenhuma.
No ano passado, na noite anterior à caçada feita por eles, colocara-se
também debaixo da janela da cabana e escutara. Não pudera fazer o mesmo
este ano. O que o som nele evocava era doloroso demais. Esperara
naquela vez na escuridão e no frio, junto à janela, e lhes escutara o
rito anual. Ouvira as gargalhadas de Ken e Greg, as obscenidades e os
gritos da moça, finalmente silenciada por Art. Ficara ali, escutando, e
os anos haviam retroagido, até que era Alicia que estava ali com eles,
não uma mulher estranha que iam matar na manhã seguinte. Os gritos, o
terror, o nojo e a dor que Alicia devia ter sentido eram evocados.
Ouviu e lembrou-se do medo nos olhos dela todas as vezes em que a
desejava; de seus gemidos em pesadelos durante anos, como os de Petey,
o filho dela, quando a sua mente vazia se enchia de pavor. Filho dela,
não dele. De Ken, provavelmente. Ele tinha a boca e o nariz de Ken.
Engraçado que Helen nunca houvesse notado.
Naquele momento, todos os sons se fundiram mais uma vez em sua mente. E,
compassivamente, morreram quando se dirigiu para a escada coberta de
fuligem dentro da chaniné, onde madeireiros há muito mortos haviam
penetrado com longas vassouras, limpando. O ferro fora bem plantado.
Após 90 anos, mesmo que meio corroído pela ferrugem, ainda se mantinha
firme no tijolo podre. Subiu cada vez mais alto na escuridão e no frio.
A 15 metros de altura, alcançou a estreita plataforma de madeira que
construíra no ano anterior, depois que Ken, Art e Greg haviam ido
embora. Pregara grampos de montanhista no tijolo e os ligara com arames
às velhas vigas da serraria. Encontrava-se a três metros da parte do
cume e, se colasse o olho num dos vários pequenos orifícios que abrira
nos tijolos, podia varrer toda a ilha.
Estendeu a mão para o saco de dormir. Havia-o pendurado ao amanhecer,
bem seguro, sobre outros grampos imediatamente acima. Preso daquela
maneira, não precisava preocupar-se. Enfiou-se nele; tenteou em volta
em busca da mochila, apanhou um cigarro e acendeu-o.
Petey estaria na cama também, pensou, talvez pedindo o gole de água que
queria todas as noites naquela hora, emitindo estranhos e
incompreensíveis sons e voltando a angélica face inexpressiva para a
porta, quando Helen entrasse. Estaria dormindo no quarto de hóspedes da
casa de Ken e ainda estaria lá na noite seguinte, ou no outro dia,
quando Ken estivesse morto. Seria tudo a mesma coisa, exceto que não
teria mais pai, mas apenas o homem que casara com sua mãe e cuidara
dele como sempre fizera, desde que ela se suicidara.
Mas Ken não sabia. Estava lá fora entre as frias moitas, em companhia de
uma quase bicha de mente suja, chamada Art Wallace. Mas ele saberia.
Amanhã, ou no dia seguinte, antes de morrer, ele saberia de toda a
história. E teria um ou dois momentos para pensar nela.
Tirou mais uma ou duas tragadas e, com todo o cuidado, esmagou o cigarro
sobre uma viga, colocando a ponta no bolso para rasgá-la no dia
seguinte, transformar o papel numa minúscula bola e lançá-la em algum
ponto da floresta.
Não dormiu. Fortalecera os nervos até alcançar o máximo de consciência.
Podia apenas ficar deitado ali, usando as horas mortas da noite para
relaxar um pouco, procurando combater as recordações. Ainda assim, elas
continuavam a persegui-lo. Ouviu a voz sussurrada do psiquiatra,
dizendona audiência do legista que Petey não era filho dele, explicando
que os pais de Alicia haviam-na forçado a casar-se com ele, falando na
culpa que ela sofrera durante anos até que sua mente não mais
resistira. Alicia, que ele sempre amara, a suave e bela Alicia,
internada no isolamento de um sanatório e, finalmente, livre apenas
quando um tolo, ou um anjo, esquecera-a durante um momento e deixara
atrás a correia de couro que a continha e com a qual ela se suicidara.
O pairar dos ratos insinuou-se subitamente pelo silêncio; bem embaixo,
eles lhe haviam sentido o cheiro e dos alimentos, tentavam encontrar
uma maneira de subir pela parte interna lisa da chaminé e caíam.
Os ratos desviaram-lhe a mente do passado e ele ficou a escutá-los, até
que soou o despertador de pulso. Quase sete horas e ainda estava
escuro. Puxou a mochila, tirou as rações de campo e comeu-as,
mastigando devagar, e com todo o cuidado, os biscoitos desidratados e
sem gosto seguidos de água do cantil. Sentiu frio. O frio penetrara
como uma dor surda bem dentro de seus ossos e não havia maneira de lhe
fugir. Mas aqueles dois safados lá fora teriam rsentido frio também e,
pior ainda, estariam com medo.
Logo depois, notou os primeiros sinais do amanhecer. "No buraco
escancarado em cima, delineado pela borda superior da chaminé, a noite
negra se tornara de súbito de um cinzento bem visível. Lembrou-se de
que não vira estrelas durante algum tempo e perguntou-se se o tempo
estaria nublado ou claro. Até que o dia se tornasse mais claro e
houvesse luz suficiente para ver o céu enrubescer a manhã ou delinear
os movimentos turbulentos das nuvens, não saberia. Melhor seria se
estivesse nublado. Faria frio, mas não haveria possibilidade de o sol
ofuscá-lo, se tivesse que atirar de frente para ele, ou de tirar
reflexo do cano do rifle
quando estivesse apontando.
Arrumou as coisas, examinou o rifle e enfiou a longa mira telescópica no
estreito bolso especial que costurara na parte posterior da perna
esquerda das calças. Colou o olho a um dos buracos do tijolo poeirento,
para observar o mundo embaixo e em volta. O tempo mudara de fato,
finalmente. O outono acabara. Um cirro-estrato alto e uniforme toldava
o céu. Dentro de dias, as nuvens desceriam e cairia neve. O inverno
chegaria.
Manteve o olho pregado ao buraco. O campo de visão »era horizontal, com
um arco de 90 graus e um arco vertical da mesma extensão. Abrangia a
cabana, a clareira em volta até o lago e o cinturão de moitas entre ela
e a serraria. Imediatamente abaixo ficava o telhado quebrado e coberto
de musgo da serraria. Não viu sinal de movimento humano. Alguns patos
passaram voando baixo, chiando no ar, e desapareceram. Eram os últimos
da grande onda migratória virtualmente encerrada naquele ano.
Cauteloso, cruzou a precária plataforma até o lado oposto da chaminé.
Olhou por outro buraco. Abarcava a floresta e a escarpa ao norte, de
onde na véspera atirara em Greg. Não havia ninguém ali, mas haveria
antes de meados da manhã. Se não o houvessem feito ainda, chegariam logo
à conclusão de que a escarpa era o local de onde ele os tocaiara. A
curiosidade os levaria até ali. Subiriam e verificariam se deixara
algum indício. Encontrariam o cartucho vazio que enfiara numa fenda de
uma rocha. Apanhá-lo-iam, o que não seria fácil, e descobririam que era
um dos deles mesmos, que apanhara na floresta. No início, pensariam que
ele usava o mesmo calibre que eles. Logo depois, porém, lembrar-se-iam
do som profundo dos tiros que haviam ouvido. E as recordações lhes
diriam que seus olhos mentiam. Saberiam que ele os colocara ali para
apavorálos. Fingiriam que isso não fora conseguido, mas o dano estaria
feito.
Encontrariam também a ponta de cigarro. Um dos próprios cigarros de Ken,
que apanhara na cigarreira de prata na sala de estar, quando deixara
Petey com eles. Mas Ken não saberia disso, nem desconfiaria. Nem o
faria Art. No início, pensariam que ele fumava a mesma marca. Mais
tarde, ambos se perguntariam se ele não estaria zombando deles. A
incerteza mergulharia fundo. Deformaria, atormentaria e desfocaria a
concentração deles na sobrevivência. Quem era o caçador que lhes
conhecia os hábitos tão bem, seus rifles, seus cigarros? O que mais
sabia ele? Haviam cometido algum erro ao longo da linha, sem se darem
conta? Havia algo no passado de um deles, desconhecido dos outros, que
poderia ter desencadeado uma vingança pessoal? Olharse-iam
furtivamente, ficariam em dúvida, explorariam todas as pistas e não
chegariam a parte alguma. E, por causa disso, não reagiriam como
poderiam.
Mas, antes de escalar a escarpa, voltariam à cabana. Art estava ferido.
Devia ter levado remédios com ele, mas a sua necessidade instintiva de
segurança o levaria a pensar em qualquer desculpa para convencer Ken a
voltar para lá. Art era um homem de cidade e, emocionalmente, as
quatroparedes da cabana lhe pareceriam uma fortaleza e lhe reforçariam o
moral.
Cruzou novamente o espaço no interior da chaminé, colou o olho à parede
e esperou.
Não demorou muito. De súbito, no canto extremo direito de sua visão,
tremeu o cocuruto de prata de umamoita de bétula. Ken apareceu próximo
ao fundo da cabana, agachado, com o rifle junto ao quadril, pronto'
para atirar. Permaneceu ali talvez 10 segundos e, em seguida, mergulhou
para a maior segurança da parede da cabana. Recuperou fôlego e fez um
aceno com a cabeça. Art apareceu, igualmente cauteloso, com o braço
ferido na tipóia, prendendo com o outro o rifle contra o corpo.
Reuniu-se a Ken e ficou de guarda, enquanto o amigo subia pela janela.
Entregoulhe em seguida o rifle e, com a ajuda de Ken, esgueirou-se
apressado para dentro.
Esperou. Se tivesse ousado abrir um orifício suficientemente grande no
tijolo para que pudesse fazer pontaria, poderia ter pegado ambos sem
usar a mira telescópica. Mas abandonara a idéia de um buraco daquele
tamanho no ano anterior. Correria o perigo de ser notado. A chaminé era
boa apenas para observação.
Um quarto de hora depois, o ar acima da chaminé da cozinha começou a
formar miragens. Era calor e o calor significava que estavam fervendo
água, talvez cozinhando. Assim, ficariam por ali durante algum tempo.
Sentou-se, fumou um cigarro e esvaziou a mente, deliberadamente,
proibindo-se de passar em revista planos de contingência, eventualidades
potenciais. O indivíduo poderia pensar demaise mergulhar em um estado
de antecipação em que perdia a eficiência. Era preciso deixar algumas
coisas para serem improvisadas ao sabor do momento.
E evitou pensar em Alicia, como fizera na noite anterior; combateu o
embotamento de sentir-se apaixonado em todas as ocasiões em que
mentalmente lhe via os olhos, vivos com algo compartilhado e belo em um
raro momento de riso. Muito tempo antes deixara de vê-la morta, de
recordar-se de sua face deformada e estrangulada na estéril luz fria do
necrotério do sanatório, de lembrar-se da lenta percepção impotente de
que era tarde demais para fazer alguma coisa, de que nem mesmo poderia
mais tentar ajudá-la. Fizera todo o possível? Não saber era a pior de
todas asdores.
Ergueu-se, inquieto. Mas esperou até quase as nove horas, antes de ser
recompensado.
Saíram outra vez, Art pela porta da frente e Ken pela dos fundos. Haviam
feito a barba e tomado banho; Art mudara de roupa.
Pareciam aptos e prontos. Era espantoso o que um pouco de comida, uma
bebida e um desjejum quente podiam fazer por um homem que não devia ter
dormido absolutamente na noite anterior. Podia fazer a mesma coisa,
pensou. Diabo, por que não? Tinha um bocado de coisas a fazer. Ia
passar o dia mais frio e, com toda probabilidade, o mais exaustivo de
sua vida em alerta permanente. Por que nãoum pequeno conforto inicial?
Observou-os se separarem nobosque e desaparecerem. Continuou a
observar. Logo depois, Ken reapareceu no lado ocidental da serraria, no
local onde Nancy e Greg haviam morrido. Estava verificando se a
experiência da noite anterior não fora algum horrendo engano.
Não conseguiu ver Art, mas continuou a observar atentoKen até que ele se
dirigiu para a escarpa, como esperara.
Desceu nesse momento pela escada da chaminé. Corria um risco por não ter
localizado primeiro Art, mas desconfiava que ele flanqueara a serraria
pela sua extremidade leste e se reuniria a Ken no bosque do norte. Em
primeiro lugar, contudo - porque era o que todas as pessoas, menos, os
tolos, planejariam - ele permaneceria entre as moitas, cobrindo Ken e
vigiando a serraria. Seria apenas uma formalidade, uma manobra. Apenas
isso. Mas Art não permaneceria de vigia durante muito tempo, pois muito
provavelmente o ferimento estaria provocando-lhe uma ligeira febre e
ele perderia a paciência com formalidades do tipo militar. Uma curta
espera e ele subiria também a escarpa. Custar-lhe-ia mais tempo do que
a Ken, pelo menos 30 minutos. Ambos se sentiriam seguros lá em cima e
lá passariam uma hora. Assim, ele dispunha de todo o tempo do mundo.
Na base da chaminé, fechou com todo o cuidado a enferrujada porta e
apagou as pegadas no pó de serra coberta de musgo. Subiu até a serraria
e parou entre as máquinas enferrujadas para olhar em volta. Ninguém.
Ken e Art não haviam desconfiado da sua presença na serraria e preparado
uma armadilha. Não muito longe, na parede norte, havia uma passagem
entre os restos de uma porta parcialmente aberta. Postou-se a certa
distância dela para não ser descoberto e quase no mesmo instante viu
Art. Encontrava-se exatamente onde ele pensara, junto da mesma faia que
escondera Greg de Nancy, e observava a serraria, sem qualquer intenção
ou cautela real.
Voltou à parede sul da serraria, saiu por uma fresta no madeirame e
dirigiu-se para as moitas. Moveu-se cautelosamente, mas não se deu ao
trabalho de agachar-se. Ken estaria olhando para o alto da escarpa, de
costas viradas, e a própria serraria o ocultaria de Art.
Dirigiu-se até a cabana e experimentou a porta da frente. Aberta.
Entrou, fechou-a e aferrolhou-a, por cautela. Na cozinha, acendeu o
bico de gás e começou a preparar café.
Trinta minutos depois tomou banho, barbeou-se e foi descansar na sala
principal da cabana, bebericando café e comendo presunto frito e ovos
desidratados mexidos.
Uma ou duas vezes foi até a cozinha e apontou o rifle e a mira
telescópica para a escarpa. Distinguiu movimentos ocasionais, mas nada
em que pudesse atirar. Eles se mantinham agachados, mas se moviam,
apesar de tudo. Quando saíssem finalmente, quereria saber, pois, quando
começassem a descer, teria que se mover com grande rapidez. Teria um
bocado de terreno a cobrir antes que eles chegassem à base da escarpa.

Capítulo 21

Ao CHEGAREM Ao ALTO DA ESCARPA, o braço de Art era um latejante mar de
dor e seus olhos ardiam de febre. Ken sabia que tinham de encontrar
logo o seu perseguidor, matá-lo e levar Art a um médico. A penicilina
não estava fazendo absolutamente efeito.
Rastejaram entre as rochas e calhaus que se espalhavam pelo cume da
escarpa e se arriaram num lugar onde, caso se mantivessem agachados,
não poderiam ser vistos da floresta, embaixo. Descansaram, recuperando
o fôlego. Art tirou o estojo de primeiros socorros e tomou um
analgésico. Bebeu uma forte dose de bourbon e passou o cantil a Ken.
Ken sacudiu a cabeça.
- É melhor você ir devagar com esse troço. - Na cabana, Art havia bebido
meio copo.
Ele respondeu, querendo discutir:
- Talvez a bebida lhe afete de modo diferente do que faz comigo. - Mas,
apesar disso, guardou o cantil.
Ken começou a examinar o solo.
- Vamos começar - disse. Art acompanhou-o. Naquela manhã haviam trocado
palavras ásperas. Art não quisera escalar a escarpa. Ken defendera essa
idéia. - Temos que encontrar alguma coisa.
- O quê?
- Um cartão de visitas com o nome dele e endereço,, gravados em ouro.
Como diabo é que eu posso saber?
Ele mesmo não tinha exatamente certeza do que esperava encontrar. Talvez
esperasse achar apenas prova tangível de que o tocaieiro era humano e,
como eles, vítima das mesmas fraquezas 'humanas. Havia também, sempre,
a possibilidade remota de que daquele ponto alto tivessem a sorte de
vê-lo. Haviam trazido binóculos justamente para esse fim.
Em primeiro lugar, porém, ergueram com cuidado as folhas e seus dedos
sondaram relva seca e procuraram em fendas na rocha. Foi Art quem
encontrou a ponta de cigarro. Ergueu-a no ar.
- Olhe para isto. - O nome da marca estava escrito em cursivo na ponta
do cigarro, para dar-lhe status, como a dizer que o fumo era diferente
e melhor do que qualquer outro.
- O mesmo que eu fumo - comentou Ken.
- Talvez ele tenha vindo durante a noite e furtado alguns do seu bolso.
- Engraçadinho.
Procuraram ainda mais e Art foi o vencedor pela segunda vez. Tiveram que
usar ambas as facas para soltar o cartucho, tão fundo estava enfiado
entre duas pedras. Ken cheirou-o. O cheiro acre de pólvora
recém-queimada ainda permanecia no interior do cartucho. Fora disparado
recentemente.
- Remington 25. O mesmo que o meu - disse Art.
- E de Greg.
- Isso mesmo.
- Talvez não seja dele - sugeriu Ken.
- O que é que você quer dizer com isso?
- Talvez seja seu.
- Quer dizer que eu subi até aqui, atirei em Gregr desci correndo e
atirei em mim mesmo. - Art falava em voz realmente sarcástica.
Ken conservou a paciência.
- Quero dizer que alguém apanhou seus cartuchos em algum lugar e
enfiou-o aqui para fazernos pensar que é o cartucho que ele usa. -
Lembrou-se então do profundo trovão explosivo do rifle. A menos que a
memória o enganasse, era algo muito mais pesado do que um 25-06. - Ou
apenas para nos pôr nervosos - acrescentou. - O que eu ouvi não foi um
25.
Art olhou para a ponta de cigarro.
- Não, não foi - respondeu, devagar. - Pensando inisso - continuou - o
mesmo se aplica ao cigarro.
- Se é assim - retrucou Ken - ele conhece muito bem nossos hábitos
pessoais.
- Bem demais.
Ficaram silenciosos, ambos com o mesmo pensamento. (Quem era ele? Quem
assim tão cuidadoso, com um plano? Ou, devido ao pânico, estariam eles
julgando mal a situação? Estavam eles, de fato, sendo caçados e
tocaiados não por um frio assassino, mas simplesmente por um maníaco
descuidado, que poderia ter disparado aqueles três tiros e fugido? E,
por zombaria, levado os corpos de Greg e Nancy para algum lugar? O
mesmo tipo de zombaria representado pelo cartucho vazio e pela ponta de
cigarro?
Ou havia ainda outra possibilidade? Não seria simplesmente alguém como
eles, alguém que descobrira o que era realmente a grande sensação?
Inesperadamente, Art falou:
- Quando esteve há dois anos no sul, no Mississippi, "Greg tomou parte
no fuzilamento de um negro. Ou pelo menos foi o que ele disse.
- O quê?
- Um grupo de caras embriagou-se no Country Club certa tarde e convenceu
o delegado local a ceder-lhes uma dupla de negros condenados a longas
penas, para fazer certo trabalho. Soltaram-nos num pântano, juntamente
com duas piranhas que haviam apanhado e fodido antes. Talvez um dos
parentes deles tenha andado atrás de Greg.
- Esqueça isso - disse Ken. - Aquilo foi no Mississippi e eles eram
negros.
- Sim, acho que sim - concordou Art.
Ficaram calados novamente. Ken sentia uma sensação de frio que não o
abandonava. Descera pelas costas, gelando-lhe os rins, e naquele
momento subia pelas coxas e arrastava-se para cima. Continuava a pensar
na ponta de cigarro e no cartucho. Haviam sido deixados ali
deliberadamente, quanto a isso não havia dúvida. Sensato ou insensato,
havia alguém tentando propositadamente desnorteá-los, fazendo-os pensar
da maneira como ele mesmo pensava naquele momento, levando-os a perder
de vista o que tinham que fazer ie preocupar-se com coisas
irrelevantes, caçar as próprias -caudas em um círculo. Que diferença
fazia quem era o calhorda ou por quê Motivação, uma merda! Desça,
encurrale o filho da puta num canto e lhe estoure os miolos. Não lhe dê
nem mesmo chance de falar. Simplesmente, atire. E dê uns pontapés na
sua maldita cabeça, quando ele estiver morto.
Lançou um olhar a Art, que, através de uma fenda nas rochas, varria com
o binóculo a água aberta entre a ilha e o continente. Art olhou para
trás, viu-lhe os olhos e leu-lhe os pensamentos.
- Nós cometemos algum erro, alguma vez? - perguntou. - Tem certeza?
- Não - respondeu Ken, e acreditava no que dizia. - E se cometemos -
acrescentou - que diferença faz issoagora?
Mas, a despeito de sua resolução, não conseguiu esquecer a pergunta.
Quando chegou sua vez com o binóculo, tentou pensar no que poderia ter
acontecido. Durante aqueles sete anos - Greg, Art ou ele mesmo -. um
deles poderia ter cometido um erro. Tomado um pileque certa noite,
talvez, e dito alguma coisa. Ou falado durante o sono, tendo a esposa
escutado. E a esposa dissera alguma coisa a outra esposa, que repetira
o que para ela era coisa totalmente inocente, mas que para alguém mais
era, por coincidência, da maior importância. E esse alguém somara dois e
dois e achara quatro. Era assim que os deslizes sempre aconteciam. A
partir das coisas mais insignificantes.
Mas, de volta ao começo! Quem? Que pessoa? Por que não haviam eles
simplesmente ido à Policia? Era loucura, um poço sem fundo. Precisava
deixar de matutar naquilo.
Ao acender um cigarro, porém, teve a desalentadora certeza de que não
conseguiria. A especulação o atenazaria, o contorceria e impulsionaria,
a ele e a Art, até quase a loucura. E quando houvessem liquidado quem
quer que ele fosse, continuariam a especular e nunca saberiam, por que,
quem quer que fosse, estaria morto e incapaz de forneceros detalhes.
Art ouviu o estalo do isqueiro, sentiu o cheiro de fumaça e virou-se
bruscamente.
- Você enlouqueceu?
- Jesus! - Ken lembrou-se de onde estava e apagou o cigarro. Para um
homem de vigia na escarpa, armado com binóculos, investigando a ilha
embaixo, a menor fumaça de cigarro seria uma mortal indicação.
Art voltara a examinar o lago.
- Eu gostaria de saber o que foi que ele fez com o bote dele - disse.
- Por que é que você pensa que ele tem um bote?
- Ninguém em seu juízo perfeito vadearia o lago até aqui. Não, neste
tipo de tempo.
- Apenas se ele estivesse em fuga - concordou Ken.
- Sim. Em desespero.
Como nós, pensou Ken. Mas não diga isso. Não deixe que Art saiba como
você realmente se sente. Art entraria em pânico. E por ora, enquanto
ele puder atirar, precisará dele.
Mas, bem no fundo, ocorreu-lhe um pensamento. Estudou-o atentamente.
Teria que ter muito cuidado. Disse:
- Sabe, nós temos uma alternativa.
- Qual?
Ken ficou calado. Art ficaria menos amedrontado' se pensasse nela ele
mesmo. Não lhe custou muito tempo.
- Fugir do país?
- Não seria tão duro assim - disse Ken. Depois de um momento, disse Art:
- E nossas mulheres?
O que diabo tinham elas? - pensou Ken. Todo mundo sabia o que Art
pensava de Pat. Em voz alta, respondeu:
- A minha sobreviveria. As crianças, também. - Lembrou-se. Art não
mencionara as crianças.
- Para onde iríamos? - perguntou Art.
- Para começar, Canadá. Depois, para a América do Sul,
- E quando chegarmos lá, faremos o quê? Ficaremos nas esqumas, com a mão
estendida?
Ken fitou-o, lembrando-se de como as perguntas negativas de Art sempre
irritavam Greg. Conservou a paciência.
- Posso transferir dinheiro para o Canadá. Um bocado de dinheiro. Sem
que pessoa alguma saiba. - Sabia que Art poderia também fazer a mesma
coisa. Continuou: - Greg disse que a América do Sul é um campo
inexplorado. Comercialmente falando.
Art parecia ainda em dúvida.
- Nós não temos nem mesmo certeza se ele ainda está por aqui - disse. -
De qualquer modo, não uma certeza de cem por cento.
Em voz lenta, Ken respondeu:
- Bem, se ele não está, será melhor apressarmo-nos. Ou você quer confiar
no senso de discrição dele?
Após alguns minutos, Art murmurou:
- Vamos esperar mais 24 horas. Ele não é Deus. "Vamos trabalhar, na
premissa de que ele ainda está aqui, -e tentar pegá-lo primeiro.
- Você acha que agüenta?
- Acho que sim. Vou ter que agüentar, não?
- Muito bem - disse Ken. - Vamos procurar o bote dele, então.
A boca de Art abriu-se num frouxo sorriso.
- Esta foi a melhor idéia que você teve durante todo o dia.
- Fique por perto - respondeu Ken. Olhou para "baixo e para a ponta
norte da ilha. Podiam começar ali, e trabalhar separadamente em volta
da praia. Mas seria melhor ficarem próximos; um deles vasculharia a
praia e o outro ficaria na mata, talvez a uns 25 metros de distância,
flanqueando e protegendo. Dessa maneira, reduziriam o risco de uma
emboscada.
Explicou a Art o que pensava.
- Faz sentido - concordou Art. Tirou o cantil e tomou um pouco de
bourbon.
Seu calhorda, pensou Ken, você vai fazer com que nós -dois sejamos
baleados. Beberá demais e perderá a cautela.
- Você vai pela praia - disse. - Será mais fácil para você. Eu lhe darei
cobertura.
- De onde começamos?
- Da ponta leste do pântano. Aquele ponto rochoso.
- Vamos, então.
- Não seria melhor nos separarmos, até chegar lá? Ele tinha razão,
pensou Ken. Metade da escarpa era
descampada ou coberta de arbustos. Dois homens juntos podiam ser vistos.
Indicou o oeste com o polegar.
- Você desce por aquele lado. Eu, por este. Encontrarei você naquele
ponto.
- Estalo de dedo?
- Piado de ave. Gaio. Uma vez, espera, e segunda vez.
- Tenha cuidado.
- Você, também.
Art tirou o braço ferido da tipóia e atravessou agachado a parte
superior da escarpa, mantendo baixas a cabeça e as costas. Um minuto
depois chegou à íngreme vertente coberta de moitas que descia para a
floresta fechada. Ken observou-o até que ele desapareceu.
Ele é um merda, pensou Ken, e um chato, mas tem coragem. Lembrou-se de
que Art provocava nojo em algumas pequenas e sorriu por dentro. Art
certamente tinha a fórmula para virar as costas às mulheres. Ele e Greg
haviam tido razão em incluí-lo. Houvera um bocado de risadas nos
últimos anos.
Rastejou para a borda oposta da escarpa. Por uns 100 metros, ela se
inclinava suavemente para leste, o lado mais desprovido de vegetação.
Era um caminho ruim. Devia ter pensado em usar a mesma rota que tomara
ao subir pela vertente sul. Mas naquele momento era tarde demais. Art
poderia ser forçado a contornar para o sul por algum motivo, ou ficar
cansado e resolver fazer um atalho. Ele o ouviria e talvez ficasse
nervoso. Dessa maneira, eles se eliminariam e poupariam o trabalho ao
caçador. Se ele ainda estivesse por ali. E isso era algo que saberiam
quase com certeza por volta de meados da manhã.
Escolheu uma ravina rasa, com uma profundidade apenas suficiente para
ocultá-lo. Seria duro para seu estômago, mas sobreviveria. Lançou um
último olhar em volta, achatou-se no chão e começou, esforçando-se para
não pensar no perigo, mas apenas no trabalho à frente e na segurança
relativa da floresta, ao fim do rastejamento.

Capítulo 22

Ao CHEGAR Ao SOPÉ DA ESCARPA, Art teve de sentar-se para não vomitar.
Ondas de náusea rolaram sobre ele. A floresta silenciosa dançou ante
seus olhos. Continuou a repetir para si mesmo: "Não ponha tudo a
perder, agora. Você praticamente conseguiu. Não ponha tudo a perder,
agora."
A náusea finalmente diminuiu, deixando-o fraco e suado. Mover-se
custava-lhe um violento esforço e tinha à frente talvez uma meia hora
de árdua atividade. Lançou um olhar ao relógio. Dez e cinco. Começara a
descer a escarpa às nove e meia. Onde estaria Ken? Provavelmente,
chegando ao sopé, justamente nesse momento. O caminho tomado por Ken
fora mais difícil. Seria melhor continuar a andar, pensou, porque seria
naquele momento ou nunca mais.
Isto porque decidira fugir. Em algum momento, conversando com Ken no
alto da escarpa, percebera inesperadamente como a situação era fácil.
Se deixasse Ken na ilha como chamariz, e se dirigisse ao continente sem
ser visto pelo caçador, passaria muito tempo antes que fosse notado seu
desaparecimento. Se fosse Ken talvez suspeitasse de que fora traído, mas
seria igualmente forçado a supor que o perseguidor o matara em
silêncio, a caminho da ponta norte, e depois se livrara do corpo. Ken
não podia deixar de pensar assim. Mas o que não faria pelo menos durante
24 horas seria ele mesmo abandonar o barco. Disso tinha certeza. Não o
faria por medo de parecer vencido se ele, Art, acabasse sobrevivendo.
Tudo dependia do local onde se encontrava o matador. Ou seria que isso
importava? A menos que um binóculo estivesse constantemente apontado
para o trecho de água que separava a ilha do continente - e por que
deveria estar? - eram relativamente remotas as possibilidades de ser
notado. Remotas, certamente, para justificar a tentativa.
Mas o tempo era de alta importância. Conservando-se agachado, começou a
dirigir-se com a maior rapidez possível para a praia oeste. A floresta
era relativamente rala nesse ponto. Parando ocasionalmente para
observar os flancos e o caminho à frente, poderia reduzir o risco de uma
emboscada.
Precisamente às dez e trinta e cinco chegou ao lago, que se estendia à
frente - várias centenas de metros de água cinzenta limosa, pontilhada
de ocasionais pedras cobertas de vegetação ou árvores mortas, com sua
temperatura quase no ponto de congelamento. Bem, não inteiramente, mas
um pouco menos de dois graus.
Destorceu a tampa do cantil e, em desafio, tomou mais uma forte dose de
bourbon puro. O diabo levasse Ken, pensou, e sua maldita atitude
superior em relação à bebida, muda mas bastante clara no que exprimia.
Por dentro, riu, zombeteiro. Quem sabe se Ken não tinha uma melhor
idéia para se conservar aquecido? Fechou o cantil e chegou à conclusão
de que seria naquele momento ou nunca mais. Por mais frio que sentisse,
poderia combatê-lo, correndo, quando chegasse no outro lado. Pernas
solicitadas aqueciam de baixo para cima. Pelo continente, ao longo da
velha trilha das juntas de bois até a velha linha férrea, eram apenas
três milhas e meia. Tudo o que teria a fazer era conservar a calma até
alcançar os enferrujados trilhos, agüentar mais treze milhas e chegar à
estrada de rodagem. No ano passado caçara ali e a vegetação na trilha
era esparsa e fácil de transpor. A linha férrea fora construída sobre um
leito de cinzas e, a despeito dos anos, a floresta não se enraizara o
suficiente para ocupá-la toda. Uma vez fora da zona do lago, não teria
que enfrentar um tipo de moitas que lhe retardariam seriamente a marcha.
Despiu-se, conservando apenas as botas, fez uma trouxa das roupas e
amarrou-a ao rifle. Penetrou na água.
O frio inesperado atingiu-lhe as pernas e provocou uma inesperada dor.
Oh, Jesus, não assim, não tão frio assim. Esperou um momento. Não se
acostumou. Entrou na água até a cintura, os pés dormentes, procurando
não espadanar. Parou por um momento e olhou para a floresta às suas
costas. Nenhum movimento. Apenas um ou outro gaio ou tordo, saltitando
nos galhos nus, piando. Só isso.
Pelo amor de Deus, não perca a coragem. Ande. Agora. Você não vai ficar
mais aquecido e, assim, acabe com isso. Mergulhou até o peito, rolou
sobre um lado, contraiu todos os músculos para resistir ao choque e,
conservando o rifle fora da água, iniciou uma forte e rítmica braçada
lateral.
Aos poucos, a praia foi ficando para trás. Após algum tempo, sentiu a
grama áspera de uma ilhota tocar-lhe os dedos. Arriou os pés e
colocou-se sobre a proteção da pedra, empurrando para os lados a espuma
verde escorregando no que deve ter sido um tronco submerso. Esperou.
Começou a tremer de frio, o corpo inteiro. Não apenas a tremer, mas a
sacudir-se de forma incontrolável. Aconchegou-se na proteção da grama
da ilhota. No princípio, achou quente o ar. Subitamente, pareceu-lhe
mais frio do que a água. Tirou o cantil do ombro. Cristo, para que
diabo estava lhe economizando o conteúdo? Bebeu o bourbon restante,
furiosamente, sem respirar. Meio copo, pelo menos. O choque de tanta
bebida queimou-o e sufocou-o. Empurrou para o lado a espuma do lago e
levou um pouco de água à boca, dizendo a si mesmo o que dissera quando
começara: "Vamos, é agora ou nunca." Voltou a mergulhar na gélida água
e pensou em Martin: "Se aquele merdinha pôde agüentar, eu também posso."
Um vermezinho miserável como aquele. Conseguira atravessar toda aquela
extensão e ainda espancara Ken quando lá chegara.
Continuou a nadar, chegou a uma segunda ilhota e resolveu ignorá-la. A
ilha começara a ficar mais distante. Isso significava que chegara à
metade do caminho, talvez mais. Ritmou a respiração com as braçadas e
combateu a -dor no braço, nesse momento transformada em fogo pelo frio.
Ou seria o esforço de manter o rifle fora da água? Deveria lançá-lo
fora? Não, conserve-o. Nunca se poderia saber. Poderia encontrar um
urso ou uma matilha de cães tornados selvagens, que haviam visto
perseguindo cervos no ano anterior. E, de qualquer maneira, suas roupas
estavam amarradas a ele.
Uma braçada, mais uma, mais outra, respire. Repita tudo. Tocou numa
ilhota e parou um momento, arquejando. O esforço, além do bourbon,
trouxera de volta a náusea. Subitamente, incontrolavelmente, começou a
vomitar.- Adocicado e nauseante, o bourbon subiu-lhe à garganta e ao
nariz, bourbon quente e bile. Conseguiu engolir um pouco, cerrando os
dentes para não fazer muito barulho. Depois, não conseguiu mais
resistir. Continuou a vomitar até que suas costelas se transformaram em
pura agonia. Agarrou-se à ilhota com todas as forças, para não deslizar
para debaixo da água.
Estranhamente, foi nesse momento que percebeu através dos olhos toldados
pelas lágrimas que lhe restava cobrir apenas mais 50 metros. Soltou-se
da ilhota, mas estava fraco demais para permanecer de pé. Mergulhou
imediatamente, com rifle e tudo, diretamente para o fundo até que suas
mãos tocaram com força em lodo e rocha aguda. Recuperou o equilíbrio sob
a água, conseguiu-se pôr-se de pé e o cinzento do lago mudou para o
cinzento ofuscante do ar. Sufocando deu um impulso em direção à praia.
Mergulhou mais três vezes. Perdeu o rifle e encontrou-o outra vez.
Sofreu um grande corte no joelho em uma pedra submersa. Ao chegar
finalmente à praia, caíra de cabeça sobre o argilito duro e esperou que
alguém saísse das moitas e o matasse. Esperou o tiro e tentou imaginar
o que sentiria. Resistiria o cérebro apenas o suficiente para que uma
pessoa compreendesse onde fora atingida? Talvez apenas meio segundo,
para que pudesse examinar-se e saber que o tiro fora mortal e que não
teria tempo para mais coisa alguma antes da eternidade, exceto,
possivelmente, um último e impotente terror? Ninguém voltara para
contar como era. Feridos que haviam ficado inconscientes mesmo por
segundos, jamais conseguiram recordar-se. Mas o cérebro deles poderia
ter esquecido com o choque.
Um pato esvoaçou no pântano mais além, voou sobre as moitas e desceu no
lago às suas costas. Não conseguiu vê-lo, mas pôde ouvi-lo, a água
abrindo-se com o movimento de seus pés palmados quando atingiu a
superfície, batendo as asas como um coração enlouquecido.
Lentamente, começou a sentir outra vez o frio. Esquecera-o durante um
momento. Voltara a doer, centímetro por centímetro, como um vento
cortante.
Levante-se e ande. Você conseguiu. Você conseguiu. Ande. Se o fizer,
você viverá.
Sentou-se e examinou o grande ferimento no joelho. Olhou para a carne
rasgada, com o primeiro sangue lavado pela água e o novo sangue ainda
não coagulado. Começava a ficar dormente. Não havia tempo para se
vestir. Não ali, de qualquer maneira. Não ali, exposto. Quando chegasse
ao regato e à floresta, então se vestiria. Ao chegar lá, se enxugaria.
Começou a percorrer a praia, a pouca distância da água e meio escondido
pelas moitas. A princípio, coxeando, acostumando-se ao joelho ferido;
depois, com maior rapidez. Parou uma vez e olhou de volta para a ilha.
Alguns corvos desceram nas proximidades do lado ocidental, o mais perto
do continente, e num fácil esvoaçar descreveram círculos e pousaram em
várias árvores. Próximo a ele, um tordo ergueu-se da grama e, pousando
num ramo de faia, chamou outro.
Chegou ao trecho de argilito que logo depois se transformava em uma
estreita faixa de terra. As botas úmidas feriram-lhe os pés. Teria que
espremer as meias quando se vestisse. Continuou a andar, com rapidez
sempre maior, em direção às prateadas árvores tombadas, que assinalavam
o ponto além do regato onde atirara em Martin. Apenas alguns metros
depois começava a trilha dos bois. Não podia correr, mas começou a
mover-se no que era um meio salto e um meio andar apressado. Surtiu
efeito e a praia rolou sob seus pés; a despeito de sua nudez, sentiu-se
mais aquecido e começou a exultar. Ande, ande, ande. Chegue à trilha,
vista-se e seque os pés. Em seguida, até os trilhos. Você não morrerá
por passar uma noite na floresta. Não morrerá de envenenamento de
sangue antes de achar um médico. Pense depois no que fará para conseguir
dinheiro e abrigo. Alguma coisa acontecerá. A boa vida. Canadá e América
do Sul, onde poderia ser ele mesmo, não ter que fingir mais. Onde não
haveria Pat alguma. Poderia fazer o que lhe agradasse. Simplesmente,
ande, ande, ande!
Chegou ao pequeno regato. Martin morrera ali, o safadinho estúpido,
porque não tivera cérebro suficiente para calcular que haveria alguém à
espera. Martin espadanara na água, ouvira o seu nome e se virara. As
primeiras duas balas lhe haviam literalmente arrancado metade da face.
As <luas seguintes, rasgado o coração e pulmões em centenas de pedaços.
Martin não possuía cérebro para jogar a cartada em segurança por mais
algumas centenas de metros. E morrera por isso.
Escorregando, saltando, sacudindo a perna ferida, chegou à margem
oposta.
- Art!
Um som seco e alto.
Um meio passo à frente. Involuntariamente, virou-se. Um segundo, dois.
Desespero total.
Permaneceu imóvel no regato. Não conseguiu moverse ou falar.
Alguém que conhecia bem, um corpulento homem de cabelo escuro, vestido
de caçador, saiu de trás de um calhau. O mesmo calhau de onde havia
atirado em Martin. Trazia nas mãos um rifle Holland and Holland de 7
milímetros, Magnum, de cano duplo, à altura do quadril, apontado.
- Fim da linha, Art - disse ele, e sorriu. Os seus olhos eram um
profundo cinzento imóvel.
Viu o sorriso, o rosto sombrio os olhos, o rifle, a floresta por trás
dele, o regato gorgolejante em torno de seus pés, um quadro emoldurado
pela intensidade do olhar fixo e da surpresa total com a identidade do
perseguidor.
Em seguida, o nada.
Paul Wolkowski acertou-o no pescoço, exatamente sob o queixo, levemente
na vertical. A bala abriu caminho pela base do crânio e arrancou-lhe a
parte posterior, juntamente com as duas vértebras superiores da coluna.
Art foi erguido literalmente da água e caiu de costas sobre a praia que
quase alcançara.
Wolkowski relaxou o dedo que apertava o gatilho. Guardou no bolso os
dois outros cartuchos que habilmente segurava entre os dedos indicador
e médio e entre este e o anular da mão esquerda, e que podia carregar
com tanfa rapidez com que outro homem acionava o ferrolho de um rifle
de repetição. Não precisaria recarregar. Um único tiro fora suficiente.
Já havia sujeira bastante para limpar. A cabeça de Art caíra sobre a
grama e havia sangue por todo lado. O cérebro se espalhara sobre os
troncos de duas árvores. E o tempo estava frio. O inverno praticamente
chegara e não havia insetos ou moscas para limpar aquilo. Havia ganho
meia hora de trabalho inesperado. Praguejou ao pensar na ironia do
fato. Um dos motivos por que se emboscara ali fora justamente para
evitar tal trabalho.
Agarrou uma das pernas de Art e puxou-o para dentro do regato. Melhor. A
cabeça sangraria na água e o frio ajudara a coagulação. Ele tinha os
olhos abertos, numa expressão infantil, como se tentasse compreender
alguma coisa. Wolkowski empurrou-lhe o rosto com o pé e prendeu-o com
uma pesada pedra para conservá-lo submerso. Os olhos continuaram a
fitá-lo sob a água. Pensou em seguida em Ken. Teria ouvido o tiro e
poderia dirigir-se à praia do oeste da ilha para olhar. Apanhou outra
pesada pedra e colocou-a sobre o estômago de Art. O corpo mergulhou na
corrente tornando-se invisível a distância.
Apanhou-lhe o rifle e a trouxa encharcada ainda presa a ele e tirou do
bolso alguns duros biscoitos. Ocultou-se, sentado contra uma árvore,
sentindo a fadiga que começava a surgir com o desaparecimento da
tensão. Dois liquidados e um aimda a matar. O mais difícil.
Deixara a cabana no momento em que notara que eles começavam a descer a
escarpa. Tivera um palpite, não saberia nunca por que, de que um dos
dois entraria em pânico. Ken não era o tipo de fazer coisa alguma que
não fosse cuidadosamente planejada, pelo menos enquanto houvesse outras
pessoas em quem pudesse mandar. Seria, então Art; teria que chegar ao
continente antes que ele chegasse à costa oeste da ilha, e
surpreendê-lo. Cruzou rapidamente a floresta e apanhou a canoa, sabendo
que corria um enorme risco. Podia apenas imaginar quanto tempo Art
demoraria descendo da escarpa. O braço ferido lhe retardaria a marcha.
Mas era um risco que valia a pena correr.
Quanto maior a distância entre os dois quando matasse o primeiro, menor
o risco para si mesmo.
Instilou a energia de uma corrida de 15 quilómetros em curtas remadas.
Chegando à praia, puxou a canoa imediatamente para as moitas e, em
outra e final explosão de energia dirigiu-se sem parar para o pântano,
50 metros mais. além. Cobrira a canoa como pudera e voltara para
observar o lago. Conseguira, justamente em tempo. Art já se encontrava
na praia da ilha, preparando-se para vadear a água até o continente.
Esperou, pensando. Art seria um patinho quando saísse da água. Poderia
ser morto sem jamais saber o que o atingira.
Mas havia desvantagens. Seria difícil, mesmo por pouco tempo, ocultar o
corpo nessa parte do lago sem pesos para amarrá-lo e perigoso tentar
mantê-lo ao largo da praia com rochas apanhadas ao acaso, pois ele
poderia soltar-se e flutuar para longe. E gostaria de ocultar o corpo na
água, se possível, pois se fosse puxado para terra e sangrasse muito,
haveria muita limpeza a fazer. Além do mais, ficaria visível a Ken, se
ele aparecesse ao ouvir o tiro. Considerando tudo isso, lembrara-se do
regato onde Martin morrera. Naturalmente. O local ideal. Atiraria em
Art no meio do regato. O corpo cairia na corrente onde poderia ser
fácil e rapidamente ocultado. Poderia matá-lo, esconder o corpo e
infiltrar-se nas moitas antes que Ken pudesse vê-lo. O serviço de
limpeza, se algum, poderia esperar até o anoitecer.
Afinal, não tivera a menor dúvida de que Art seguiria nas pegadas de
Martin. Pensaria exatamente como Martin. Por que abrir caminho entre
moitas quando poderia correr por uma praia? O pântano impedia o cammho
direto para oeste. O caminho de bois, a rota óbvia, começava justamente
próximo ao regato. Se estava cometendo uma traição, desejaria colocar
tanto espaço quanto possível entre ele, Ken e o tocaieiro até o
anoitecer. Dirigir-se-ia para a liberdade pelo caminho mais curto.
Wolkowski examinou a ilha através de um túnel nas moitas. Nenhum sinal
de vida. Ken, porém, poderia estar oculto, como realmente estava e
vigilante. A vantagem que tinha sobre Ken era que saberia se ele,
tolamente, decidisse cruzar o lago. Se o fizesse, morreria antes de
fazê-lo. Mas enquanto Densava, teve certeza de que Ken não seria tão
estúpido assim. Conservar-se-ia oculto, pensando no tiro que ouvira,
tirando conclusões, obrigando-se a enfrentar a dolorosa verdade de que
Art estava morto, de que não poderia chamá-lo com um estalar de dedos e
pios de aves; reunindo forças para compreender que estava finalmente
sozinho sem ninguém para ajudá-lo.
Mais uma vez, havia desvantagens. Sozinho, compreendendo que seria o
próximo, Ken se tornaria mais perigoso do que antes. Um animal
encurralado é astuto e imprevisível e aceita riscos que normalmente
evita.
Pensou. O último terço de sua missão seria duas vezes mais difícil do
que os dois primeiros.
Introduziu-se um pouco numa moita e puxou com as -mãos algumas folhas
para cima de si. Fazia frio. Era longa a espera até o anoitecer. Olhou
para o relógio. Onze e vinte e cinco. Acertou o despertador para onze e
trinta e cinco. Dez minutos. Fechou os olhos. Podia dormir assim durante
todo o dia, 10 minutos de cada vez, 10 minutos de sono, 10 minutos para
vigiar o lago, a fim de certificar-se de que Ken, numa estupidez de um
contra um milhão, não ia atravessá-lo.
Mais pensamentos. Tinha tanto a fazer ainda e, pela aparência cinzenta
do céu, muito pouco tempo. Havia Art e a limpeza subsequente, seguida
do ocultamento do corpo. E Greg. E, finalmente, Ken. Estava cansado,
mais cansado do que deveria estar nessa fase. Subestimara o fator
fadiga, num perigoso erro de cálculo. Devia estar realmente na ilha
naquele instante, caçando Ken, terminando com aquilo. O inesperado,
porém, acontecera. Art havia fugido. Bem, pelo menos lhe passara a
perna e estivera preparado. Assim pensando, adormeceu.

Capítulo 23

NO MOMENTO EM QUE OUVIU O TIRO no continente, Ken soube o que
acontecera. A profundidade e a força do som disseram-lhe que não era a
arma de Art. Compreendeu que o amigo o havia traído e que seu
adversário levara a melhor. Sabia também que Art estava morto. O
perseguidor errara uma vez, no que interessava a Art. Não cometeria um
segundo erro. Não um homem que podia abrir um buraco na testa de Greg a
300 metros de distância. Era uma mente fria e um brilhante atirador. E
ter chegado ali sem que percebessem, surpreendido a ele e a Art no
momento em que estavam mais alertas significava que era também um
mateiro de grande habilidade e experiência.
Oculto em um bosque de abetos ao pé da escarpa, sentiu um formigamento
na base da espinha e um calafrio subir-lhe pelas pernas e braços. De
qualquer modo, por quanto tempo aquele calhorda estivera por ali? Viera
no ano anterior para conhecer a terra? Num reconhecimento frio? Pois era
claro que ele caçava com diabólico método. Como se cada movimento
houvesse sido ensaiado. Duas noites antes, quando haviam currado Nancy,
estivera à escuta, esperando que acabassem para iniciar a matança no
dia seguinte? Havia uma única resposta segura. Sim. E havia uma única
resposta para o motivo por que ele não salvara Martin e Nancy. Não
queria testemunhas. Com uma inevitabilidade apavorante, esperara.
Esperara que terminassem a curra, esperara que matassem Martin, esperara
que Nancy morresse. O caminho se abrira então para ele e começara a
traçar seu próprio curso. Em primeiro lugar, Greg; depois, Art,
calculadamente, deliberadamente, como uma maldita máquina.
E naquele momento, ele, o próximo e o último. Em seguida, o safado, quem
quer que fosse, pensaria em apagar os rastros, obliterar todos os
traços do que fizera e desaparecer. Helen, Pat e Sue procurariam a
Polícia quando os maridos não voltassem. A Polícia viria à ilha de
helicóptero, com o pessoal do Serviço Florestal, cães e, mais. tarde a
polícia técnica e virariam o local de cabeça para baixo.
Por essa altura, teria nevado. A única coisa que poderiam encontrar
seria algum indício na cabana, da presença de uma mulher. Não haveria
reveladoras pontas de cigarro, nem cartuchos vazios, nem sangue,
nenhuma corrente e argola, nenhum ramo ou folha de grama fora do lugar.
Os botes de borracha seriam amarrados em volta de seus pesados motores,
atados juntos e lançados no pântano, juntamente com qualquer corpo
restante, o seu incluído, onde mergulharia na lama profunda, como tudo
mais que ali fora lançado fora do alcance de qualquer anzol de busca ou
sonda, em que algum policial curioso poderia pensar.
Um corvo começou a piar roucamente no alto de um pinheiro. Ken, porém,
não o ouviu. Para ele, o tempo parara. Restava-lhe apenas continuar
imerso na completa clareza lógica de sua horrível visão. Coisa alguma
teria acontecido, pensou, exceto que três homens, Greg, Art e ele,
haviam ido caçar, como faziam todos os anos, acabaram desaparecendo sem
deixar vestígios. Duas outras pessoas desapareceriam também, Martin
Clement e Nancy Sillman, de Gary, Indiana, a centenas de quilômetros de
distância. Ninguém jamais os ligaria a Greg, Art e a ele. Nem mesmo
quando encontrassem o carro de Martin.
Era um plano à prova de enganos. Ia ser assassinado como Greg e Art, e
ele próprio fizera todo o trabalho preliminar para que o assassino
escapasse impune. A ironia do caso trouxe-o de volta à realidade, com
um choque. Subitamente, ouviu o corvo, viu-o no alto do pinheiro,
tornou-se consciente da sua própria respiração e das batidas do
coração, de um leve sussurrar do vento. Voltou à vida e, mecanicamente,
fez o que achava que devia ser feito. Dirigiu-se à praia oeste da ilha
e, conservando-se bem dentro das árvores, observou o continente.
Sentado durante algum tempo entre as moitas, tentou pensar no que havia
feito o matador de Art. Desconfiara que Art procuraria escapar. Cruzara
o lago em direção ao continente, na noite anterior ou enquanto desciam
a escarpa. Dirigira-se à praia onde Art sempre abatera suas vítimas
junto ao regato que desembocava no lago, bem próximo da trilha de bois
que lhe teria dado um caminho livre até os trilhos e a segurança.
Situava-se ali o melhor local para abater um homem, praticamente
oculto, e era ali que todos eles baixavam a guarda. Fora o própro Art
quem sempre dissera isso.
Cristo, teria havido alguma coisa em que ele não houvesse pensado?
Em silêncio, voltou a cruzar a floresta, cauteloso, mas apenas em
deferência à sua situação. Estava convencido de que o caçador
encontrava-se ainda no continente.
Dirigiu-se à cabana. Descobriu que o chuveiro fora usado, juntamente com
seu próprio aparelho de barbear. Na cozinha, encontrou uma frigideira
suja, uma xícara de café, um prato, garfo e faca. E um bilhete, dizendo
apenas: "Obrigado. Até a vista."
Apanhou uma garrafa cheia de bourbon e tomou um longo drinque. A nota
perturbou-o mais do que qualquer outra coisa. Quem quer que fosse, ele
estava tão seguro de si mesmo que não pensava que Ken pudesse levar
aquela nota, escrita a mão, à Polícia.
Seguro demais, talvez? Não estaria ele tão danadamente confiante que
poderia ser enganado? Ou talvez ele mesmo cometesse um erro?
Deu tratos à bola. Reagir ou fugir? O que fora que dissera Art, aquele
traiçoeiro idiota? "Vamos esperar 24 horas." Muito bem, esperaria. Art
dissera também: "Ele não é Deus." Muito bem, não era. Era humano e
talvez não mais inteligente, não melhor atirador e não mais experiente
caçador do que ele mesmo. Podia ser combatido e caçado como qualquer
outra pessoa. As possibilidades de uma vida sem preocupações eram muito
superiores à fuga eterna, para a América do Sul ou não.
Mas não poderia permanecer na cabana após o anoitecer. Seria como se
ficasse num aquário, especialmente por que precisava dormir. A coisa a
fazer era sair e voltar a ilhota no pântano, onde ele e Art haviam
passado a última noite e onde, a menos que por alguma inacreditável má
sorte tivessem sido vistos, estaria provavelmente mais seguro do que em
qualquer outro lugar. Pela manhã, as possibilidades eram de que seu
perseguidor voltasse à cabana. Era assim que pessoas confiantes demais
se comportavam. Esqueciam-se "de que podiam correr perigo também.
Quantos caçadores, após balear um porco do mato ou um leão, perderam-no
de vista, e, pensando que ele fugira, arriscaram-se a voltar no dia
seguinte, caindo numa emboscada? Sabia que dispunha de tempo. O homem
permaneceria no continente até o anoitecer. Barbeou-se, esquentou um
pouco de água, tomou banho, preparou uma refeição quente, mudou de
roupa, colocou na mochila alguns cobertores, e uma jaqueta extra,
limpou o rifle, apanhou o cantil, a mira telescópica, a faca e tudo
mais que julgou que precisaria, incluindo uma tenda de nylon para um
único ocupante, que, dobrada, reduzia-se ao tamanho de um sapato de
tênis.
Saiu ao fim da tarde, dessa vez trancando as janelas, por dentro com
barrotes, fechando a porta e levando a chave. Se o calhorda quisesse
entrar, que fizesse força.
Andando com o máximo de cautela, voltou ao pântano. Na pouca luz
restante, distinguiu a árvore morta, lançada na água por alguma
tempestade. Montou nela e, quando ela submergiu, continuou a mover-se
com os tornozelos na água, até que ela mergulhou subitamente para baixo
e ele soube que se encontrava diretamente à frente e a um metro de uma
grande ilhota. Verificou se as botas estavam bem presas à escorregadia
plataforma submersa e saltou nas trevas. Esparramou-se, mas o chão era
seco e seguro. Ficou à espera. Na floresta em volta, ouviu apenas o
murmúrio baixo do vento noturno. Mas continuou à espera e à escuta por
mais 20 minutos, até ter certeza. Em silêncio desenrolou a tenda e
armou-a. Cobriu-a de relva do pântano e de caniços, para que não
pudesse ser vista de qualquer ângulo, e rastejou para dentro.
Ninguém poderia atingi-lo na escuridão, mesmo que acendesse uma luz. Nem
mesmo se tivesse idéia do local onde ele se encontrava o que era
noventa e nove por cento improvável. Na noite anterior, Art e ele
haviam escavado depressões para seus corpos, que se situavam em nível
mais baixo do que a ilhota. Se alguém quisesse matá-lo naquela noite,
teria que vir de barco ou sobre um tronco e, de qualquer maneira, ele o
ouviria. Sentindo-se seguro, caiu em um sono de exaustão.
Perto do amanhecer, sonhou com Helen. Ela o encontrava e acusava-o
irritada. Sua face tornara-se pontuda e feia como um focinho de rato,
com os dentes salientes e os olhos muito pequeninos. Falava em uma
algaravia incompreensível, tornando-se mais e mais parecida com um
rato, saltava sobre Greg, também presente, e começava a copular
violentamente com ele. Greg gritava e ele ouvia o estalo súbito de um
tiro distante. Um pequeno orifício aparecia entre os olhos de Greg.
Acordou com o coração em disparada, em meio à fraca luz do amanhecer. A
noite terminara. No lado oeste da ilha os corvos prorromperam em
algazarra.
Fora acaso real o tiro do sonho?
Rapidamente, desarmou a tenda e enrolou-a. Haveria dois homens? Teria um
atirado no outro? Fora um acidente? Estaria seu perseguidor à procura
de intrusos?
Ou fora aquilo outro movimento em uma guerra psicológica? Tirá-lo a
tiros da cama, despedaçar-lhe os nervos enquanto dormia?
Arrumou as coisas, enterrou a mochila na grama e, com toda cautela, saiu
do pântano. Dirigiu-se para a praia. Ao chegar ao ancoradouro do lago,
de onde podia em segurança ver a cabana, era dia claro.
O céu estava mais uma vez cinzento, coberto por nuvens baixas,
altos-estratos. Soprava um vento fraco. A porta da cabana, escancarada,
abria-se e fechava-se com ruído. O seu perseguidor arrombara ou forçara
a fechadura. Estaria lá dentro?
Rastejou para mais perto, colado ao chão. Encontrava-se dentro do
cinturão de moitas, situado entre a clareira da cabana e a serraria.
Não parou até chegar suficientemente perto para ouvir o som queixoso das
dobradiças da porta quando ela se abriu e fechou outra vez.
A compreensão ocorreu-lhe subitamente. Fora aquele tiro. Destruindo a
fechadura. Podia vê-la nesse momento, despedaçada. Esperou. Uma ave
pousou no terraço, indiferente, bicando alguma coisa deixada ali. Mas
isso não significava coisa alguma. Alguém poderia estar sentado
bemlonge da porta, na escuridão do quarto, por exemplo. Eu< vim aqui
para surpreendê-lo, pensou Ken, mas ele me passou a perna novamente.
Soltou uma praga, mordeu os lábios e tentou formar um plano. De que
modo fazer o feitiço virar contra o feiticeiro? Aquilo não era uma
guerra. Não se podia chamar a artilharia.
Nesse momento ouviu a voz, firme e alta, no interior da cabana.
- Bom dia, Ken. Este é o fim da linha, acho. Quem atirou fui eu. Achei
que podíamos acabar logo com a coisa e terminar esta confusão.
Lembra-se da faculdade? De Alicia Rennick? Bem, eu sou o cara com quem
a obrigaram a casar.
A voz interrompeu-se. Ken resistiu a um impulso involuntário para
levantar-se e escutar. A voz continuou, sem maldade, natural. Quem quer
que fosse, ele não tinha medo.
- Naturalmente, eu pensei que o filho que tivemos fosse meu. Quando
descobrimos que ele era irremediavelmente retardado, Alicia não pôde
suportar a culpa ou olhar mais para mim. Sua mente começou a
dissolver-se aos poucos até que, anos depois, ela cometeu suicídio.
Tive que esperar um pouco até chegar a sua vez. A sua, de Greg e de Art.
- A voz riu, tranqüila. - Ninguém se livra de calhordas como vocês com
essa facilidade toda e, ao mesmo tempo, conserva-se oculto. Tive que me
mudar de meu Estado para a sua zona conhecê-los socialmente, estudar a
vida e os hábitos de vocês.
Uma dor lanceou a mão direita de Ken. Segurava o rifle com tanta forca
que provocara uma cãibra. Quem, diabo, era ele? Alicia Rennick fora uma
aventura de muitos anos antes. E não a haviam assassinado. Certo, o
sexo em grupo não era para ela. Tentara processá-los, mas voltara
finalmente para casa. Aquele cara estava louco. Não se assassina ninguém
apenas por se descobrir que a esposa foi currada antes de se casar.
A voz continuou:
- No ano passado, consegui finalmente descobrir o que eram essas suas
férias de caça. Segui-os até aqui e observei o que fizeram com o rapaz
louro e a moça. E descobri que vocês continuavam com a mesma velha
mania. Alicia, de novo. A caçada como uma forma de sensação adicional.
Vocês simplesmente não podiam resistir à tentação, não?
Ken sentiu um grito subir-lhe aos lábios.
"Nós não matamos Alicia. Ela cometeu suicídio." Mas ficou em silêncio.
Havia naquela voz um timbre de que se recordava. Uma familiaridade
irritantemente próxima. Ouvira-a antes. Quando? Recentemente?
A voz continuou, ainda em tom de conversação:
- Engraçado, não? A primeira vez em que vocês fizeram aquilo foi a vez
que finalmente os perdeu. - Interrompeu-se e disse, em seguida: -
Agora, você vai morrer pelo que fez. Como Greg e Art morreram. Vou
matá-lo. - Em seguida, calou-se.
Uma lufada de vento fechou a porta da cabana. A ave voou para longe.
Outra lufada e a porta se abriu outra vez.
Ken sentiu nas costas suadas o mesmo vento. Então, sabia agora o motivo.
E ele estava ali, na escuridão da cabana, quem quer que houvesse
falado.
Inesperadamente, a voz recomeçou:
- Bom dia, Ken. Este é o fim da linha, acho. Quem atirou fui eu. Achei
que podíamos acabar logo com a coisa e terminar esta confusão.
Lembra-se da faculdade? De Alicia Rennick.
A coisa foi tão natural que prosseguiu ainda por algum tempo, antes que
Ken compreendesse que era uma gravação. Em alguma parte da cabana, na
escuridão, uma máquina falava. Não um homem, mas um gravador. Um
gravador usado para lhe atrair a atenção, distraí-lo do próprio homem.
Deus todo-poderoso, onde estava ele, então?
Ali. Exatamente às suas costas. Alguém com um rifle que lhe tocava a
cabeça. Um soluço, que não conseguiu sufocar, rompeu no peito de Ken,
que se voltou bruscamente:
- Não!
Não havia ninguém às suas costas, nenhum homem, nenhuma arma, apenas um
ramo que o cutucava. Na cabana, a voz continuou, quase alegre.
- Tive que esperar um pouco até chegar a sua vez. A sua, de Greg e de
Art. Ninguém se livra de calhordas como vocês com essa facilidade toda
e, ao mesmo tempo, conserva-se oculto...
Caia fora. isso é tudo. Não lhe dê tempo para vir. Simplesmente, caia
fora.
Começou a mover-se rapidamente, fazendo um esforço para se lembrar de
conservar-se agachado e virando a cabeça. Poderia ser vítima de uma
emboscada a qualquer momento, ser baleado de qualquer lugar. Ficara ali
como um escoteiro, escutando, deixando que o tocaieiro usasse o tempo
para se preparar, abrir a armadilha. Estúpido idiota! Estúpido!
Onde, diabo, estava ele?
Chegou ao lago e parou. As palavras eram indistinguíveis naquele
momento, mas ouvia ainda a voz gravada, interrompida a cada momento
pelo vento moribundo que agitava as folhas e sacudia os ramos nus.
Mas onde estava o próprio homem?
Dentro da cabana? Atrás dela? Do outro lado da clareira, entre as
moitas?
Novamente no alto da escarpa?
Muito bem. Dois homens podiam jogar a mesma partida. Uma desafiadora e
férrea determinação varreu-lhe o medo. Com todo o cuidado, iniciou um
longo rastejamento pelas moitas, em direção à serraria.
Ao chegar ao ponto mais próximo da parede leste, esperou, olhando para
trás a fim de certificarse de quenão fora seguido. Tomou uma profunda
respiração, ergueuse e correu.
Não houve disparo de tiro, nenhuma dor cortante, nenhuma mão gigantesca
de bala para derrubálo. Milagrosamente, chegou à serraria e achatou-se
no chão, junto à. áspera soleira de pedra. Não conseguiu acreditar.
Tivera razão. Não houvera nenhuma emboscada ali. Estava em segurança.
Pelo menos, no momento.
Colou o olho numa fenda na velha parede de madeira. Nada viu. Somente a
extensão plana do chão podre er no canto distante, o volume escuro da
enferrujada e desusada máquina a vapor.
Era ali que queria estar, entre aquele ferro todo. Ondepoderia vigiar e
esperar. Onde tinha uma pequena fortaleza de onde poderia sair de
tempos em tempos para inspecionar as clareiras vizinhas e, depois bater
em retirada.
Talvez tivesse que passar uma noite na sala de máquinas, onde as
mulheres sempre se escondiam. Agüentaria os ratos.
Tentou as tábuas mais próximas, dando-lhes um pequeno puxão. Poderia
quebrá-las, mas o som lhe revelaria a posição. Teria que dar a volta
até a porta mais próxima, que ficava na parede norte.
Não tinha importância. Conhecia a serraria e conhecia a ilha, cada
centímetro de ambas. Essa era uma arma que seu torturador não possuía.
Continuou colado ao solo, observando as moitas do outro lado da
clareira.
Chegou ao canto nordeste e examinou o interior. A serraria permanecia
silenciosamente vazia. Ergueu-se e, agachado, fez a volta em torno da
esquina, com o rifle em posição, pronto para atirar. Se houvesse alguém
ali, atiraria primeiro.
E, enquanto se movia e pensava, atirou, porque havia alguém ali, afinal
de contas.

Capítulo 24

O HOMEM SE ENCONTRAVA A SETE METROS de distância e a uns dois metros da
parede da serraria.
O rifle de Ken explodiu com tanta rapidez como ele podia mover o
ferrolho e, em cega fúria, despejou sete tiros em igual número de
segundos naquele torso. No terceiro tiro, ouviu sua própria voz gritando
em desafio. Pedaços de carne voaram e a espinha dorsal abriu-se por
baixo da camisa rasgada e das costelas levadas pelos tiros.
Parou de atirar. Esgotara o pente. O grito transformou-se em riso alto,
zombeteiro e vingativo. Teve vontade de dar pontapés no corpo, cuspir
nele, profaná-lo, atirar ainda mais na carne despedaçada. Aquele ódio
era a coisa mais doce que jamais provara.
Deu um passo para a frente, recarregando. Parou subitamente. Uma voz
interior transformou seu triunfo em pavor, disse-lhe o que os olhos
haviam visto mas que ele se recusara a acreditar.
O corpo continuava de pé.
Dirigiu-se vagaroso para ele, esquecendo a retaguarda, os flancos e todo
o silencioso arco da clareira e das moitas em volta. Soube quem era no
exato momento em que viu a corda que descia do beiral da serraria,
prendendo o corpo pelas axilas.
Greg tinha os oíhos abertos. Aberta também estava a boca, um feio buraco
maior do que uma boca - devia ser porque os lábios haviam sido comidos
pelos ratos. A camisa e as calças haviam sido deliberadamente abertos e
os ratos haviam-lhe atacado as vísceras. Azul-opaco misturado com
pedaços amarelados de gordura pendente. E lhe haviam atacado o pênis,
que desaparecera, substituído por um obsceno derramamento de entranhas
dilaceradas.
Havia dois ratos aos pés do cadáver. Estavam se banqueteando quando
atirara e haviam sido atingidos. Um deles perdera de todo a cabeça.
Ken olhou fixamente e, por fim, lembrando-se de uma emboscada, chegou à
porta e caiu no interior da serraria. Chorava e tentou calar-se, porque
se lembrou que fazia barulho e estava inerme.
Após um tempo que pareceu durar para sempre, conseguiu recuperar o
controle. Greg continuava do lado de fora. Via-lhe os pés. A serraria
permanecia vazia e silenciosa. Levantou-se, trêmulo, sentindo uma sede
violenta e quase dolorosa. Tinha a língua e a boca inteiramente secas. E
deixara o cantil no pântano, pensando em beber água do lago.
Precisava baixar Greg. Precisava subir de alguma maneira até o beiral ou
encontrar um ponto de apoio e cortar a corda. Não podia suportar aquela
visão. Era suficiente para enlouquecer uma pessoa. E aquilo que os ratos
haviam feito, oh, Jesus, era isso o que acontecia com os mortos. Sua
face, com seus lábios, teria um ar debochado igual à de Greg, como se
soubesse que estava morto, sendo comido, e que isso não importava. Os
ratos mastigariam os olhos, as entranhas e os testículos, e a pessoa
continuaria a sorrir.
Escutou e ouviu novamente os ratos. Haviam recomeçado a grunhir. Um
deles saiu de uma prancha frouxa do chão, correu para a soleira podre e
saltou para fora.
Quando fora Greg pendurado ali? Enquanto estivera pouco antes, do lado
de fora da cabana? Ou na noite passada? E por quê? Para lhe atrair o
fogo e obrigá-lo a revelar sua posição? Ambas as manobras haviam tido
sucesso. Enxugou o suor e praguejou, em voz baixa. Estava inteiramente
fora de seu juízo. Quase se deixara matar. Por que não o fizera ele?
Onde estava seu perseguidor? Onde?
Na escuridão da sala de máquinas? Ali entre o ferro frio, o ferrugem e o
pó de serra podre?
De súbito, a voz gravada falou outra vez, quebrando explosivamente o
silêncio:
- Bom dia, Ken. Este é o fim da linha, acho. Quem atirou fui eu. Achei
que podíamos acabar logo com a coisa e terminar esta confusão. Lembra-se
da faculdade? De Alicia Rennick? Bem...
Sem pensar, atirou. Localizou o gravador com tanta rapidez que sua mente
não registrou o que vira. Como acontecera com Greg, vira e atirara sem
que a mente tomasse conhecimento. Sem pensar que coisa alguma. Em outra
possível emboscada, nos seus nervos em frangalhos, na sua estupidez em
deixar-se ser dobrado pela vontade de alguém que queria matá-lo.
Simplesmente assim. Ao som de uma voz.
O gravador encontrava-se no chão, no centro da vasta sala da serraria.
Era pequeno, compacto, caro e reproduzia a voz quase com perfeição, sem
som mecânico ou chiado de transistores.
O primeiro tiro rompeu a madeira podre por baixo do aparelho, erguendo-o
no ar. Os dois seguintes atmgiram-no quando caiu no chão, falando ainda,
e transformou-o numa massa de metal inútil, retorcido. Um nada de aço
inoxidável e plástico.
Girou e enviou uma segunda saraivada contra a massa silenciosa da
maquinaria a vapor.
- Seu calhorda, saia para cá. Vou matá-lo.
Morreu o estrondo dos tiros e os pássaros silenciaram nos ramos.
Ninguém respondeu.
- Saia para cá!!!
Ouviu um som baixo. Um rato, afastando-se apavorado de Greg, mergulhou
sob as pranchas do assoalho. Ken disparou o último tiro no buraco por
onde o rato havia desaparecido. E recarregou.
Maldito lugar fantasmagórico. Saia logo daqui. Você enlouquecerá. Mas
não vá para onde Greg se encontra. Espere. Qual era a idéia? Obrigá-lo a
enfrmíar uma chuva de balas dirigidas contra as grandes portas duplas
abertas?
É pena, moço. Eu sou estúpido, mas não tão estúpido assim.
Correu em silêncio para o canto sudeste da serraria e, com um violento
pontapé, arrancou uma tábua da parede! Passou por ela e caiu sobre o
solo congelado. Em seguida, dolorido com a queda, cheio de arranhões nos
joelhos, cotovelos e face, levantou-se rápido e correu para as moitas.
Conseguiu e permaneceu longo tempo numa cama de folhas, à espera,
recuperando o fôlego, escutando, tentando pôr em ordem os pensamentos.
Entrara em pânico. Muito bem, todo mundo cometia erros. Mas, agora, as
coisas seriam diferentes. Teriam que ser. A;nal, coisa alguma poderia
ser pior do que o que acabara de acontecer. Não poderia haver mais
horror. Vira Greg. Isso fora o pior. Exceto, talvez, o gravador. Alguém
o tirara da cabana e o colocara na serraria. E estivera ali o tempo
todo, sem que ele o visse ou ouvisse.
Em primeiro lugar, precisava deixar de tremer, acalmar-se. Ficaria ali
alguns minutos, sentado, pensando no caso. Não se deixaria apavorar.
Desafiaria. E o primeiro gesto de desafio seria recuperar a cabana. Por
Deus, era sua, não? Ele a construíra e pagara por ela. Seria ele quem
entraria e sairia quando desejasse, e não algum maníaco que resolvera
matá-lo. Seria ele quem dormiria ali à noite, tremendo, se resolvesse, e
não seu perseguidor.
Olhou para o céu. Cor de chumbo. O vento diminuíra de força, as árvores
estavam imóveis e nus os seus ramos. As aves, os gaios brigões, os
tordos e os chapins guardavam também silêncio. Nevaria logo. Precisaria
apenas resistir por mais algum tempo e tudo correria bem.
Isto porque, em algum desvão de sua mente, um pensamento confortador
começara a dançar. Se o pior acontecesse, se não conseguisse matar seu
torturador, se tivesse que fugir havia ainda esperança. Quem quer que
houvesse assassinado Art e Greg deveria estar tão ansioso em ocultar
suas façanhas como ele. Em ocultar Nancy, Martin e todos os demais.
Agora que Art e Greg estavam mortos, poderia mentir, e mentir sem medo.
Não havia possibilidade de que a Polícia pudesse obrigá-lo a fazer
declarações conflitantes, que o incriminassem. Seria a sua palavra
contra a de outro homem. Não poderia dizer, então, que ele, Greg e Art
haviam visto o homem matar Nancy, mas que não sabiam o que ele fizera
com o corpo? Não poderia ameaçar seu perseguidor, como ele o estava
ameaçando? Dar-lhe-iam crédito, não? Um homem casado, pai de quatro
filhos? Haviam acreditado nele no caso de Alicia Rennick.
Começou a rastejar de volta para a cabana. Atravessou a clareira em uma
corrida rápida e agachada, disparando, dois tiros de cobertura para as
sombras da sala principal, no momento em que mergulhou pela porta.
Do lado de dentro, lançou-se a um canto, com o rifle em posição.
Não ouviu som algum. Não havia ninguém ali. Lentamente, baixou o rifle e
acendeu um cigarro. Estava banhado em suor.
Nesse momento, ouviu a voz na cozinha.
- Bom dia, Ken. Este é o fim da linha, acho. Quem atirou fui eu. Achei
que podíamos acabar com a coisa e terminar esta confusão. Lembra-se da
faculdade? De Alicia Rennick? Bem...
A surpresa deixou-o paralisado. A voz continuou ainda por um momento,
antes que compreendesse que não se tratava do primeiro gravador, que
acabara de destruir. Era outro, com outra fita.
Ou seria a própria pessoa?
- Venha cá para fora. A voz prosseguiu:
- ... Alicia não pôde suportar a culpa ou olhar mais para mim. Sua mente
começou a dissolver-se aos poucos até que, anos depois, ela cometeu
suicídio...
O estrondo de mais dois tiros e, em seguida, ele avançou temerariamente.
Encontrou o gravador, idêntico ao primeiro, sobre a mesa da cozinha.
- .. .Tive que me mudar de meu Estado para a sua zona, conhecê-los
socialmente, estudar a vida e os hábitos de vocês...
Quem, diabo, era ele? Devia ter estado ali minutos antes.
Fez um esforço para reconhecer a voz. Sabendo que a conhecia. Mas, onde,
quando? A porta da cabana estalou ao vento. Girou, erguendo o rifle. Não
havia ninguém. Voltou ao gravador.
Casualmente, a máquina terminou em tom natural a mensagem. Disse:
- .. .Engraçado, não? A primeira vez em que vocês fizeram aquilo foi a
vez que finalmente os perdeu. Agora,
você vai morrer pelo que fez. Como (Greg e Art morreram. Vou matá-lo.
Tirou o gravador da mesa e apertou o botão para desligá-lo, percebendo
no mesmo momento que poderia haver uma armadilha nele. Cometera outra
cilada.
Silêncio.
Passou o resto do dia na cabana, à espera, olhando ocasionalmente por
orifícios nas janelas, que abrira a bala.
No fim da tarde, quando começou a escurecer, fez uma barricada na porta
da frente, utilizando uma cama que tirou do quarto, um guarda-roupa e a
pesada mesa de jantar, que empilhou peça sobre peça. Ao terminar,
retirou-se para longe de qualquer possível linha de fogo, com o rifle em
posição, e enrodilhou-se sobre uma pilha de almofadas.
Foi uma noite muito longa, a mais longa de que conseguia recordar-se.
Cochilou sobressaltado, jamais se permitindo dormir profundamente. Em
certo momento, acordou pensando que já amanhecia. Mas eram apenas sete
horas.
Teve outro pesadelo. Ele, Greg e Art curravam Sandy no motel, quando ela
se transformou em um homem sorridente, que agitava um rifle diante deles
e, em seguida, levantava a saia para mostrarlhe um escancarado buraco
preto, comido pelos ratos, onde haviam estado os órgãos genitais. Art
rira muito e dissera: "É por isso que gosto da coisa à minha maneira!"
Em momentos de inteira consciência, escutava o baixo movimento do vento
na noite, a água lambendo a praia do lago e o rangido ocasional de
madeira que se contraía. Tentou formar um plano definido e cada vez
pensou menos em caçar seu torturador. Mais e mais pensava em como
conseguir chegar à praia. Dirigir-se para a América do Sul, para casa ou
diretamente para a Polícia e blefar era uma decisão que poderia tomar
mais tarde. No momento, de que modo poderia cruzar, sem ser baleado, a
barreira de água gelada? O seu perseguidor desconfiaria e estaria à
espera no barco, com lanterna elétrica e rifle de grosso calibre à mão.
E ele encurralado na água, como um rato de banhado ou um pato de asa
quebrada.
Subitamente, outra pergunta. Onde deixara ele o barco? Se deixasse a
cabana, desse uma busca séria, não poderia acaso encontrá-lo? Assim
pensando, sentiu uma sensação inesperada de segurança. Caiu em sono
profundo.
Quando acordou, a luz do dia filtrava-se por frestas e buracos nas
janelas fechadas e por baixo da barricada da porta. Sentiu-se muito
doente. E fazia frio. Mas chegara a uma conclusão. Não podia agüentar
mais. Procuraria o barco. Se não o houvesse encontrado até a tarde,
arriscarse-ia a cruzar o lago à noite. Não ia mais tentar combater o
matador. Ia fugir. Acima de tudo, não esquecia que podia nevar a
qualquer momento. A neve significava que não poderia mover-se sem deixar
pegadas. Precisava fugir antes que isso acontecesse.
Puxou a mobília que barricava a porta, abnu-a com um movimento brusco e
recuou para as sombras, a fim de observar. Não viu sinal de pessoa
alguma. Ninguém perto do lago, ninguém entre as moitas. E a escarpa?
Colocando-se no canto direito da porta, podia vê-la. Era impossível
saber. Alguém podia estar ali, como ele e Art haviam estado. Deitado,
oculto pela rocha e a relva. Com uma mira telescópica centrada nele, se
deixasse de correr por um único segundo. Quem quer que fosse, ele havia
aberto um orifício entre os olhos de Greg.
Reuniu forças para correr.
Nesse momento viu a mochila.
Encontrava-se à beira do terraço, próxima à porta. Durante a noite fora
retirada da ilhota secreta no pântano e colocada ali.
Era pior do que a voz gravada. Era pior do que Greg.
Significava que todos os movimentos que fizera haviam sido acompanhados
ou o perseguidor lhe previra as ações.
Olhou para a mochila, hipnotizado, com vontade de vomitar. Por que fora
posta ali? Enlouquecêlo, essa seria a única razão. Levá-lo até tal
estado de imprevidência que ficaria inerme como um patinho. Como na
véspera. O gravador fizera seu trabalho. Outra tentativa. Qualquer
coisa. Enquanto acreditasse não haver local onde pudesse esconder-se,
nem esperança.
Um calafrio subiu pela sua virilha e espinha e chegou à nuca. Enquanto
fosse mantido assim tão ocupado, não correria e seria tarde demais.
Poderia ser isso, também.
Muito bem. Teria que encontrar o barco. Não ousava cruzar a extensão
aberta de água sem ele. Tentou pensar claramente, combater o pânico. O
barco. Não deveria permitir que sua mente corresse em círculos. O barco.
Não deveria pensar em nada mais.
Se a pessoa escondesse, realmente escondesse, um barco leve e portátil,
onde o colocaria? Compreendeu, subitamente, onde ele estaria. Não na
praia, onde poderia ser encontrado, mas no último lugar onde alguém
esperaria descobri-lo. Na serraria. No poço de cinzas ou no buraco de
ratos, talvez. Em algum local realmente seguro. Ou no outro lado da
porta de ferro, na base da chaminé. Pela primeira vez em dois dias, a
boca de Ken abriu-se num leve sorriso. A confiança começou a voltar.
Resolveu deixar a mochila. Dirigiu-se à cozinha e juntou biscoitos duros
e rações de campo, em quantidade suficiente para se alimentar durante
vários dias. Prendeu um cantil à cintura e encheu a jaqueta com
fósforos, cigarros, uma bússola e meias limpas. Amarrou uma camisa de
caça de lã limpa em volta da cintura, enrolando-a como se fosse um
grosso cinto. Tinha bolsos laterais nas calças. Encheu-os de cartuchos.
Cruzou as moitas espessas entre a clareira em volta da cabana e a
serraria sem o menor incidente. Um grupo de corvos pousados numa árvore
próxima ao lago olhou para baixo, sem se mexer. Um deles voou
pesadamente e pousou no telhado da serraria.
Eles irão atrás de Greg muito breve se ele ainda estiver lá, se os ratos
houverem deixado alguma coisa.
O corvo observou-o correr para a parede leste da serraria, como fizera
na véspera, e finalmente alarmado bateu as asas para longe, emitindo
pios de aviso para os demais.
Colou o olho na mesma fresta de antes. A serraria continuava
inofensivamente silenciosa e vazia. Entrou contorcendo-se, usando a
tábua que soltara a pontapés na véspera. E permaneceu de pé,
agressivamente. Parecia mais frio ali do que do lado de fora, um frio
úmido e bolorento. O seu hálito congelou.
Um chapim voou pela porta e pousou com um bater de asas na velha
maquinaria. Não poderia haver ninguém ali.
Ainda assim, colou-se às paredes, primeiro na direção leste e depois na
direção norte. Em meio à parede norte havia a porta aberta. Na véspera,
imediatamente do lado de fora, vira Greg. Abafou com horror a recordação
e, antes de chegar ao corpo, olhou pelas frestas nas grossas tábuas.
Viu os pés de Greg, calçados de botas, com a putrefação da carne
enchendo-lhe as pernas. Então, Greg continuava lá. Um rato saiu correndo
de sob as pranchas do assoalho, cheirando vida por perto, e correu de
volta. Ken, engasgou-se e continuou.
Na própria porta, hesitou, olhando para a floresta mais além. Deu um
pequeno passo para trás. Molduras de portas abertas eram perigosas.
Podia ser visto ao atravessá-las e ser baleado. Por alguém à espera
entre as moitas. Um único aperto de gatilho.
Contraiu-se para saltar.
A voz falou.
- Bom dia, Ken. Este é o fim da linha. Agora, você vai morrer pelo que
fez. Como Greg e Art morreram.
Silêncio. Em alguma parte, um som como um trovão, uma ave esvoaçando em
torno da cumeeira do telhado.
A voz não era gravada. Dessa vez era real. Real e irreal. Real porque o
momento finalmente chegara, irreal porque a realidade estava
simultaneamente imersa no trovão provocado pela pequena ave e no bater
forte de seu coração. A realidade transformou-se de súbito na imagem
indistinta, diáfana de uma sensação distante de sonho.
- Em menos de dois minutos - disse claramente a voz - vou matá-lo.
Ken disparou. Acionou furiosamente o ferrolho do rifle e enviou bala
após bala contra as paredes da serraria, balas que rompiam as velhas
tábuas como se elas fossem de papel, ricocheteando na floresta mais
além.
Não havia ninguém na serraria. Ele forçosamente teria que estar do lado
de fora.
Caiu um silêncio. Em seguida:
- Digamos, mais um minuto, agora, Ken.
Em cima, no beiral, era lá onde ele estava. Não embaixo. Não havia coisa
alguma embaixo, salvo Greg e ratos. E se estivesse no beiral, teria que
estar numa posição difícil. Não seria fácil, lá em cima, girar e apontar
uma arma. Isso levaria tempo.
- Trinta segundos, Ken. Não é muito, não? Trinta segundos para que você
deixe de existir. E sobrar apenas carniça para os ratos.
Saiu de cabeça pela porta, atingiu o chão em um rolamento, ergueu-se
sobre um joelho, com o rifle apontado para cima, atirando mesmo antes de
ter um alvo.
Nenhum tiro em resposta. Não havia ninguém ali.
Ninguém, com exceção de Greg, frouxo na corda, a cabeça balançando, de
costas, graças a Deus, escondendo a face horrenda.
- Quinze segundos.
- Você não vai me matar, seu calhorda?
- Dez segundos.
Passou correndo por Greg, em direção à extremidade oeste da serraria.
Atirou numa sombra. Não havia tampouco ninguém ali. Ninguém. Exceto
Greg, às suas costas.
E, em seguida, a terrível compreensão de que Greg não estava
absolutamente ali. Não Greg. Soube antes de voltar-se.
A face que se encontrava no lugar de Greg sorriu-lhe e o Holland and
Holland de grosso calibre surgiu da posição vertical que o ocultava
contra o corpo maciçamente vivo.
Ken reconheceu quem era, a grande ossatura, o rosto conhecido, o
sorriso. Tentou erguer o rifle. Não conseguiu. Tentou falar. Não
conseguiu. Não conseguiu mover-se.
Embotado, observou o inevitável. Os canos gêmeos do rifle, devagar e
deliberadamente, apontaram para suas coxas. Estava séria naquele
instante a face por trás deles.
Em voz baixa, disse Wolkowski:
- Cinco segundos. Atirou.
Ken sentiu um terrível golpe na coxa esquerda, que o lançou para trás e
para o chão. Em seguida, a dor inimaginável. Cobriu-lhe com uma nuvem
cinzenta os olhos, mas através dela viu Wolkowski escorregar do laço.
Observou cair sem esforço no chão e vir em sua direção, extraindo o
cartucho disparado e recarregando a arma em um único, rápido e
experimentado movimento.
Pela última vez, Ken tentou erguer o rifle. Mas a dor era forte demais,
toldava-lhe o cérebro; seus braços se recusaram a tentar outra vez.
Wolkowski aproximou-se e apontou os dois canos do Holland and Holland
para a sua virilha. Observou-o sorrir, sentiu o movimento duro do rifle
nas profundidades de seus órgãos genitais e viu o indicador de Wolkowski
acariciar os dois gatilhos.
Ouviu alguém gritando:
- Por favor, Deus, por favor! Eu não a toquei, PauL Foram Art e Greg,
não eu.
De uma cinzenta distância, Wolkowski perguntou:
- Quem é o pai de Petey, então?
- Eu não sou. Eu estava no motel, mas não fui eu. Por favor. Eu farei
qualquer coisa. Qualquer coisa.
Um som inacreditável em seguida. E nada mais, exceto escuridão.
Até que a escuridão se tornou vermelha e ele soube que olhava para si
mesmo e que o sangue que lhe empapava as calças escorria dali, de onde
ele fora outrora homem.
Até que os canos duplos fossem erguidos subitamente e enfiados entre
seus dentes, quentes e acres contra o fundo de sua garganta,
sufocando-o.
Ouviu então Alicia, chorando e lutando, e as risadas de Greg e Art. E
alguém mais. Ele mesmo? Sombras de passado e o quente, nu e úmido calor
do corpo de Alicia, tentando fugir do seu.
Ouviu o seu grito continuar, meio sufocado pelo rifle:
- Muito bem, se quer isso. Eu a currei também. Nós éramos crianças.
Apenas crianças. Não queríamos fazer aquilo.
Viu Alicia, o seu macio cabelo preto, o corpo esbelto de longas pernas.
Viu-lhe o sorriso.
Depois, viu mais alguém, a face pétrea de Paul Wolkowski, os seus olhos
castanho-escuros e a boca impiedosa.
Foi a última coisa que viu.

Capítulo 25

CUSTOU-LHE O RESTO DO DIA, e o dia seguintetambém, completar o trabalho.
Em primeiro lugar, o corpo de Ken para lançar no pântano, depois de
removidas asmanchas de sangue. Não fora fácil. A mesma coisa com Art,
Nancy e Greg. Foi obrigado a raspar grama e areia congeladas, arrancar
moitas, lançá-las no lago, nivelar novamente o solo. Precisou procurar
pesos, escolhendo os quenão deixassem traços de algo desaparecido. A
máquina avapor na serraria fora já totalmente pilhada e, assim, acabou
escolhendo algumas pedras longas e finas que havia na extremidade da
parede onde Nancy morrera. Usou a corda por onde pendurara Greg - e
depois a si mesmo - para amarrá-las.
Havia também a cabana. Arrumou-a, limpou-a com cuidado e finalmente
passou a esfregar o que poderia ter acidentalmente tocado nas duas vezes
em que tirara as luvas. Pensou durante algum tempo em outras impressões
digitais, de Nancy e Martin, talvez de outros casais sacrificados. Muito
antes chegara à conclusão de que nelas não poderia dar um jeito.
Havia-as por toda parte. Mas não fazia a menor diferença. Quando
chegasse a ocasião de serem verificadas, se o fossem algum dia,
revelariam apenaspessoas desaparecidas, mas nunca o assassino.
Ao terminar, repôs a mobília nos seus lugares, a cama, o guarda-roupa e
a mesa de jantar. Recolocou uma fechadura idêntica, bem usada, que
trouxera consigo. Verificara qual o tipo no ano anterior.
Passou um pente fino na floresta, lenta e metodicamente, em busca de
algo que pudesse ter deixado cair. Apagou todos os vestígios da presença
de Ken no pântano, apanhou a mochila dele e espalhou a maior parte do
conteúdo na cabana, como fizera com as de Greg e Art.
Precisou de horas para desmontar a plataforma na chaminé e limpar os
fragmentos de tijolos e pó de tijolo que desceram para a base. Recolocou
as velhas vigas e tábuas onde as encontrara, removeu os grampos de
segurança e encheu com musgo e teias de aranha os orifícios. Demorou
muito para varrer do interior e das imediações da serraria todos os
traços de suas pegadas, mesmo que houvesse envolvido as botas em
aniagem.
Tempo e paciência. E recordações. Tomara nota de todos os tiros que
havia disparado quando e em que direção, e extraiu mais de 16 balas em
árvores, no chão, no solo e nas paredes de tábuas da serraria. Havia
ainda cinco balas a extrair de soleiras de porta e paredes internas da
cabana. Eram as que Ken havia disparado quando o gravador lhe provocara
pânico.
Por fim, havia os botes, inúteis tiras de borracha preta, como
impotentes serpentes enroladas. Passou-as com cuidado em torno dos
motores, que seguiram o corpo de Ken no pântano. Os restos putrefatos de
Greg acompanharam-nos, servindo como peso.
Foi trabalho árduo porque estava mortalmente cansado e havia ainda muito
a fazer. E era duplamente difícil também, porque algo pelo qual vivera
durante anos chegara finalmente ao término. Sentiu-se emocionalmente
exausto com a excitação e ia ser difícil viver sem ela no futuro.
Ao terminar, e quando nada mais havia a fazer senão partir, sentou-se
durante algum tempo nos degraus da cabana. Olhou para a superfície fria
e cinzento-ardósia do lago e para a parede da escura floresta do outro
lado. Pensou em Ken em Greg e em Art e no que eles haviam feito e em
como finalmente se vingara, embora isso lhe houvesse custado 11 anos.
Mentalmente, passou em revista toda sua intrincada camuflagem, as falsas
pistas e trilhas que deixara para a Polícia, se ela algum dia fosse
chamada, os roubos
inatribuíveis, as fraudes e falsificações que lhe davam uma cobertura
completa. Obtivera cópia oficial de sua certidão de casamento com
Alicia, fora do Estado, e a destruira. Fizera o mesmo com as certidões
de nascimento sua e de Petey e com todos os documentos relativos à sua
mudança oficial de nome, em outro Estado, após a morte de Alicia.
Falsificara novas certidões de nascimento para si mesmo e para Petey. Na
capital do Estado, Lansing. Eram ambos Wolkowski, agora. De nascimento.
Ninguém poderia jamais ligá-lo a Alicia Rennick. Nem a Petey, tampouco.
Nem a Alicia, casada, seu nome mudado para Garner. Nem a si mesmo,
George Garner, conhecido localmente na cidade onde moravam os Rennicks
como Buddy. Nenhum deles vivia mais. Nem mesmo existiam cópias das
impressões digitais de Buddy. Surripiara-as também. Havia apenas ele,
Paul Henry Wolkowski, e Peter Wolkowski. Trabalhar para o Estado fora
útil. Mas não fora coincidência. Entrara para o serviço do Estado com a
finalidade de, após ter sepultado Alicia, realizar todos esses planos.
Seu cargo oficial lhe será ainda mais útil no futuro.
Pensou em Ken, em Greg e Art e no puro prazer de caçá-los e matá-los, na
sensação de realização. Tivera uma melhor caçada ironicamente, do que
qualquer um deles jamais tivera. E lhes dera o castigo que o Estado não
mais podia dar - a morte.
Pensou em Alicia, em sua suavidade, no desespero remoto de seus olhos, e
lembrou-se de quando ela não mais sorria - simplesmente fitava em
macambúzio horror algo lembrado no seu íntimo.
Sentiu nesse momento algo frio picar-lhe a face e ergueu os olhos.
Começara a nevar, flocos bem finos que prometiam uma estação bem precoce
de nevascas e, naquele lugar, um longo e duro inverno. Isso era bom. Se
por qualquer remota chance houvesse esquecido algo, a natureza se
encarregaria do caso. O pântano muito breve congelaria, selando a tumba
aquática, e bem antes que o gelo houvesse desaparecido os peixes e
tartarugas limpariam os ossos e os esqueletos mergulhariam mais fundo na
lama e seriam irrecuperáveis. E as chuvas da primavera levariam tudo
mais.
Foi à procura da canoa no esconderijo coberto de moitas na praia oeste
da ilha, que dava para o continente. Pôs nela a mochila e o rifle e
remou sob a neve forte até o acúmulo de toras e o regato onde Martin e
Art haviam morrido. Aí, a água era profunda, mais de 10 metros, e a
praia descia verticalmente para o lago. Encontrou um local coberto por
um forte ramo. Tirou a mochila e o rifle e, com a faca, abriu o fundo da
canoa, que mergulhou, enquanto ele se içava para a praia.
Fumou um cigarro, ofereceu a ponta ao lago e iniciou a jornada de 15
milhas que o aguardava. Trotou sem parar pela trilha de bois e ao longo
dos abandonados trilhos. Em meados da tarde, chegou à Estrada 28. Pôs
óculos para se disfarçar, desmontou o rifle e guardou-o na mochila,
juntamente com a mira telescópica. Pediu carona num caminhão de fora do
Estado. Conservou erguida a gola e deu um timbre rouco à voz,
queixando-se do forte resfriado que contraíra na caçada.
Pediu ao motorista que o deixasse a 30 milhas, em uma encruzilhada
deserta. No momento em que o caminhão desapareceu, penetrou na floresta
até um pântano semicongelado. Havia ali oito polegadas de neve e vento.
Era um local horrível para mudar de roupa, tendo que ficar nu e descalço
mas o seu triunfo crescia lentamente, transformando-se numa quase
excitação. E tornava o frio suportável.
Guardou a roupa de caça, as calças, a jaqueta, o boné, tudo enfim, na
mochila, depois de haver tirado dela um terno de passeio cinza, sapatos
de verniz com galochas, chapéu amassado e uma pequena pasta. O terno
estava muito amassado, mas dormir a noite inteira num trem desculparia
isso.
Colocou um pesado calhau na mochila, apertou o nó e lançou-a na parte de
água limpa do pântano, observando-a mergulhar na lama. Se e quando
alguém a encontrasse, o rifle e a mira seriam uma massa enferrujada,
incapaz da menor identificação. E tudo mais que poderia revelar
impressões digitais, como o cantil ou a caixa de fósforos à prova de
água, havia sido esfregado e, de qualquer maneira, estará inteiramente
corroído.
Em uma encruzilhada pediu outra carona, dessa vez a uma bem intencionada
dona-de-casa, que levava quatro filhos no assento traseiro da perua. Ia
conduzindo-os da escola para casa e tinha esperança de chegar sem ser
detida pela tempestade. Fora com prazer que encontrara um homem de
aparência respeitável, que poderia ser útil. Quis saber por que ele se
encontrava ali. Contoulhe uma história de carro quebrado e de um chofer
de caminhão que o abandonara naquele local deserto. Ela flertou. O
marido estava viajando. As crianças eram jovens e iam para a cama cedo.
Ele se sentiu tentado, precisava relaxar os nervos. Não andava com
mulher havia muito tempo e ela era atraente. Mas, polidamente recusou.
Quando saltou na estação ferroviária de Raco, ela bateu a porta,
zangada, afastando-se a toda velocidade, em meio à neve.
Não houve dificuldade para apanhar um trem. Dormiu durante toda a viagem
de volta a Ann Arbor. O sono dos mortos.
Chegou ao escritório às nove da manhã do dia em que era esperado de uma
viagem de negócios a Memphis, onde preparara muito antes um álibi à toda
prova. Nevara também no sul de Michigan, mas apenas três polegadas. Às
nove e trinta, telefonou para Helen Prazer, informou que havia
regressado e agradeceu-lhe por haver tomado conta de Petey. Disse que
iria buscá-lo à noite e não recusou o convite para jantar. Quanto mais
confiança as esposas tivessem nele, melhor. Ken só era esperado dentro
de quatro dias. Talvez houvesse mais de um jantar com Helen. E talvez
descobrisse algo que poderia ser útil. Nunca se sabia, embora estivesse
cem por cento certo de que nada deixara que pudesse incriminá-lo. Em
nenhuma ocasião e em lugar algum, ao longo de toda a linha.
A sangue frio havia caçado três homens que mereciam ser mortos, e os
matara. E saíra impune.
Epílogo
A NEVE COBRIA OS RELVADOS E OS TERRENOS DA CASA SUBURBANA DE KEN PRAZER
com um suave manto obliterante. Era difícil imaginar o calor que as
flores e arbustos teriam na primavera e verão. A piscina encontrava-se
mudamente vazia e a rede de ténis fora guardada. A churrasqueira de
tijolo, sob a camada branca, era tão indistinguível que poderia ser
tomada por uma moita de cedro. A cerca viva retangular fora margeada por
estacas e coberta cuidadosamente com aniagem, os canteiros revirados e
os bulbos retirados e guardados na garagem pela duração do inverno. Tudo
fora feito pelos mesmos três homens que chegavam mensalmente com
máquinas especiais para efetuar uma limpeza na casa. Naquele ano,
haviam-se diversificado pelos jardins e, na última semana, imediatamente
antes da caída da neve, chegaram certo dia às nove horas e partiram às
cinco, eliminando a limpeza anual do outono que, no passado, consumira a
Ken e Helen mais de quatro fins-de-semana completos.
Eram três e trinta da tarde; as crianças continuavam na escola. Havia um
carro da Polícia Estadual estacionado à porta da frente. O miliciano
elegantemente uniformizado, com o seu chapéu de abas largas ligeiramente
puxado para a testa, lia a página de esportes do Detroit News,
conservando um ouvido vagamente sintonizado no rádio do carro que
naquele momento e anonimamente prorrompeu em jargão policial.
O miliciano era sargento e estava à espera de seu chefe. Tudo aquilo
tinha relação com os três moradores de Ann Arbor que haviam
desaparecido. O jornal estampava um artigo de primeira página sobre
eles, acompanhado de fotos. Eram cidadãos importantes; o tal Wallace
poderia ter entrado na chapa republicana para o legislativo estadual no
ano seguinte. Falava-se em um massacre de quadrilhas, ou coisa de
maníacos. A imprensa entregava-se a todos os tipos de especulação que a
mente podia conceber. Mas até aquele momento, sabia o sargento, a
Polícia não dispunha da menor pista e seu chefe estava disposto a dar o
caso por encerrado. Não havia prova de ato criminoso. Os três haviam
aparentemente deixado a cabana de caça, na zona norte do Estado, duas
semanas antes, sem mochilas, qualquer tipo de suprimentos, um deles
mesmo sem o rifle. E não haviam voltado. Era simples assim. A Polícia e
o Serviço Florestal, empregando cães, tratores de neve, helicópteros, e
com o auxílio da infantaria da Guarda Nacional, bem como de um grupo de
reconhecimento aéreo, procurara-os e aos seus botes de borracha numa
área que cobria dois municípios inteiros. Resultado: nenhum. Encontraram
o carro onde o haviam deixado, em um campo fechado de turistas, guardado
na garagem. Fora descoberto que uma mancha no assento traseiro era
urina, mas era tarde demais para que o laboratório a identificasse como
de mulher ou homem. Uma canoa fora roubada e afundada no rio, com a proa
amassada. Poderia ter ligação com o desaparecimento. Ou não.
Apostava-se na Chefatura de Polícia que jamais seriam encontrados os
tais rapazes. A Polícia Técnica descobrira impressões digitais na
cabana, dezenas delas. Algumas de homens, e anônimas. A maioria, de
mulheres, de várias mulheres diferentes, uma delas desaparecida três
anos antes. Obviamente, houvera mais animação na isolada cabana do que
simples caçadas. A Polícia, porém, por respeito às famílias, nada disso
contara à imprensa. Era um beco sem saída, de qualquer maneira.
Impressões digitais apenas não significavam muita coisa.
Outro item tampouco fora comunicado à imprensa. Um dos homens, Anderson,
estivera negociando com uma firma na Argentina e viajara duas vezes para
Buenos Aires no ano anterior. A Polícia de lá estava cooperando e
dissera que ele fora freqüentemente visto em companhia de modelos
epequenas estrelas de cinema.
Aproximou-se um carro. O sargento observou-o disfarçadamente. Não era a
imprensa. Ela havia chegado e idoembora na véspera e, atendendo a um
pedido específico, mantinha-se longe - por causa das crianças. Havia um
carrodo Detroit News, porém, estacionado discretamente a uns 75metros
rua abaixo, à espera, caso acontecesse alguma coisa.
Pat Wallace saltou. Viu o sargento, hesitou e inclinou friamente a
cabeça para ele. Ele guardou o jornal, fingiu, atenção e retribuiu o
cumprimento. Pensou: "Se eu fosse casado com uma dessas piranhas do
Women's Lib, como ela, eu desapareceria também."
Pat entrou.
Helen Prazer ouviu o toque de campainha e veio até o saguão, deixando um
murmúrio de vozes na sala de estar. Vestia-se discretamente, não usava
maquilagem e parecia tensa. Beijou Pat e, ao notar o olhar interrogativo
da amiga, sacudiu a cabeça, deixando que o volume exato de lágrimas lhe
subisse aos olhos. Em seguida, fez um pequeno fingimento de enxugá-las,
irritada.
Pat conservou-se calada. Entraram na sala, onde SueAnderson se
encontrava em companhia de dois homens, sentada junto à lareira. Um
deles era um jovem tenente da Polícia Estadual, uniformizado. O outro,
um capitão da mesma corporação, usando um bem cortado terno de passeio.
Era alto, excepcionalmente musculoso, olhos cinzentoescuros e uma face
que parecia granito áspero.
Ao ver Pat, ergueu-se.
- Olá, Pat.
Ela lhe endereçou o seco e contraído sorriso que reservava para todos os
homens muito masculinos e estendeu-lhe rapidamente a mão.
- Conhece o Tenente Randall, nosso especialista da Polícia Técnica?
Tenente, a Sra. Wallace.
Pat perguntou ao tenente como estava.
- Pat - disse o Capitão Paul Wolkowski - estive contando a Helen e Sue
as únicas notícias que tenho.
- São boas - explicou Helen.
- Bem, como quer que você encare o caso - continuou Wolkowski - eu fui
encarregado das diligências. Recebemos a aprovação do Governador esta
manhã.
- Oh, como estou contente - disse Pat. E estava, realmente. Sabia que,
se alguém poderia chegar ao fundo de toda aquela confusão, seria aquele
homem. A sua reputação como oficial de carreira era quase lendária. E
ele ia subir até os mais altos escalões da política. Dizia-se que, algum
dia, seria mesmo Governador.
Engoliu uma onda de ódio crescente contra o marido e conservou a face
impassível. Não daria demonstração alguma. Todos sabiam, provavelmente,
mas não se espera que uma pessáa faça demonstrações, especialmente numa
ocasião como aquela. As crianças precisariam de Art durante mais alguns
anos, financeiramente pelo menos. Essa era a única razão para lhe
lamentar a falta.
Wolkowski continuou:
- Para ser honesto, e sei que todas as três querem que eu o seja, até
agora não chegamos a parte alguma. O Tenente Randall não tem coisa
alguma a comunicar.
- Demos uma busca no local com um pente fino - disse Randall. Era jovem
e entusiástico. Concordara logo Wolkowski em nada dizer sobre visitantes
femininos à cabana. Nada havia nessa notícia, salvo sofrimento. -
Continuou: - A cabana de caça e toda a ilha. Isso inclui a velha
serraria que existe lá. Desmontamo-la, praticamente. - Olhou para
Wolkowski, recebeu um leve aceno para que continuasse e disse: - Não
encontramos coisa alguma que indicasse violência, de qualquer natureza.
Tanto quanto sabemos, temos que supor que os três saíram de lá vivos.
- Bem, isso é alguma coisa, de qualquer maneira - disse Pat. Endereçou a
Wolkowski outro sorriso seco, fazendo seu papel. Sabia que ninguém
encontraria Art. Ou Greg e Ken, por falar nisso. Haviam fugido e isso
era claro como o dia. Incrível, mas fora isso o que haviam feito. Sabia
porque conhecia o caráter de Art. Covarde e dissimulado. E sabia também,
pelo que depreendera de palavras dele durante anos, de uma palavra
ocasional solta aqui e ali, que tal era igualmente o caráter de Ken e
Greg. Para os três, uma mulher não era alguém a ser amada, mas um objeto
sexual necessário, para ser explorado e usado.
Olhou para Helen, sentada bem perto de Wolkowski nesse momento, com as
mãos calmamente postas no regaço. Pensaria Helen a mesma coisa? Se
pensava, concluiu Pat, e se coisa alguma não houvesse já acontecido
entre ela e Wolkowski, isso logo ocorreria. Havia uma inconsciente
similaridade animal entre eles que dizia: "Cama.",Bem, por que não? Ele
era muito mais conveniente para Helen do que Ken fora, e podia tolerar
Petey. Durante um momento, perguntouse o que faria com sua própria vida.
Iria trabalhar, talvez. Califórnia. Conhecera uma moça que tinha uma
firma de decoração e lhe oferecera sociedade. Uma sociedade. Sentiu uma
leve excitação. Poderia haver mais nela, se quisesse, mais do que
negócios.
Wolkowski inclinou-se gentilmente para a frente, com a imensa mão em
volta do vodca e tônica que Helen lhe servira. Estudava Sue Anderson.
Ela dissera apenas:
- Mas eu não compreendo, Paul. Se estão vivos, onde estão?
Wolkowski hesitou e disse, em seguida:
- Sue, a viagem de Greg à América do Sul no ano passado.
- Sim? - concordou ela, numa voz sem expressão.
- Eu faltaria a minhas responsabilidades para com você, como amigo, se
não lhe dissesse que, oficialmente, nos sentimos obrigados a estudar
esse ângulo.
- Naturalmente - concordou ela. - Você precisa.
Retribuiu-lhe corajosamente o olhar. Mas se traíra. Houvera dureza em
seu tom de voz. Ele teve certeza disso. Mais tarde a interrogaria
particularmente e a convenceria de que Greg fugira com outra mulher. Não
achava que isso fosse difícil. O instinto lhe dizia que ela não se
importaria muito e, no passado, seu instinto sobre mulheres sempre
acertara. Mas pensou: "Sinto muito, mocinha, mas você vai ter que
esperar, apesar de tudo, pelo prazo estatutário, antes que possa receber
o seguro e casar outra vez. Da mesma maneira que Pat. Da mesma maneira
que Helen. Mas você sobreviverá. Você, especialmente. Você é uma gata
sexual nata. Isso está escrito em todo o seu corpo. Foi por isso que
pôde suportar Greg. E, assim, você encontrará agora outro cara com um
bocado de sexo e dinheiro, fá-lo-á esperar e valerá a pena para ele."
Às três esposas, disse:
- Isto tudo é muito estranho e perturbador. Todos nós reconhecemos isso.
Quero dizer, o fato de que parece que os três fugiram juntos. Mas, por
outro lado, eles eram amigos íntimos havia muito tempo. Poderíamos mesmo
dizer que inseparáveis.
- Sim - concordou Helen. Sorriu de leve, falou em voz tolerante, mas sua
boca contraiu-se e seus olhos esfriaram. - Às vezes, a amizade deles não
era fácil para qualquer uma de nós. Quero dizer, Pat, Sue e eu. -
Hesitou e prosseguiu: - Acho que posso falar por nós três. Era como se
Ken, Greg e Art fossem casados entre si e nós fôssemos apenas piranhas
convenientes.
Sue e Pat permaneceram caladas. Não o olharam nos olhos, nem a Helen.
Olharam para o tapete ou para o fogo na lareira.
Então, era assim. Não seriam chorosas viúvas. Aceitavam, quase com
alívio, o fato de que haviam sido abandonadas. Da mesma maneira que a
Polícia. Mas, por que não? Fora esse o caminho pelo qual ele os levara a
todos, o seu próprio chefe, o Secretário do Interior, o Governador,
mesmo a imprensa. As pessoas acreditavam naquilo que se lhes dizia.
Especialmente se era a maneira mais fácil. Se lhes diziam que três
americanos comuns de classe média e meia-idade, aparentemente bem
casados, haviam fugido e abandonado esposas e filhos, virado as costas
para lares aparentemente felizes e fugido para local desconhecido,
engoliam a história. Especialmente se não havia prova em sentido
contrário.
Assim, ia ser América do Sul até o fim. A Argentina, em primeiro lugar,
e depois, talvez, a Bolívia. Ken ia mesmo ser visto uma vez.
Paul Wolkowski lançou um olhar para Helen. Gostava da aparência dela,
gostava de sua voz, de seu corpo e de seus olhos. E ela estava
desempenhando belamente seu papel. Enganara Sue. Mas estaria enganando
Pat Wallace? Achou que não. Mas Pat não se importaria se Helen estivesse
pensando em ter um caso com ele. Ela era complicada demais e odiava os
homens.
Permaneceu sentado ali, olhando-as alternativamente, observando-lhes as
roupas elegantes, as faces confiantes e mimadas, os corpos bem
alimentados e cuidados, as personalidades. Avaliou-as fria e
profissionalmente. O vodca aqueceu e aumentou-lhe a sensação de
bem-estar.
Do lado de fora, o miliciano respondeu a uma pergunta de rotina vinda
pelo rádio, sobre o paradeiro de seu chefe. O Capitão Wolkowski
continuava na casa?
Fim do livro

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