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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Homem que Matou Getúlio Vargas - Jô Soares

JO SOARES
O HOMEM QUE MATOU Getúlio Vargas.

Dimitri Borja Korozec.
Filiação: pai sérvio, mãe brasileira.
Marca de nascença: seis dedos em
cada mão. Ideologia: algo assim co
mo uma espécie de anarquismo. Pro
fissão: assassino. Vítimas preferen
ciais: líderes políticos.
Esta é a biografia fictícia de um
anarquista que se especializa em as
sassinato político e que tem uma
espantosa dificuldade em realizar
as metas que se propõe. Nascido
na Bósnia, Dimitri Borja Korozec
ra errada. E um sujeito que sofre
de uma "propensão natural para a
catástrofe", como diz o narrador.
Sua pontaria é prodigiosa, mas bas
tou mirar que ele mesmo se torna
a primeira vítima.
A vida aventureira desse assassi
no atrapalhado é o fio condutor de
O homem que matou Getúlio Vargas,
um romance em que Jô Soares co
bre um período de quarenta anos
(191454) e conta episódios muito
interessantes da História européia
e brasileira, além de inventar outros
mais interessantes ainda. Misturan
do ficção e realidade, narrando ab
surdos com a cara mais limpa do
mundo, Jô Soares acerta direto no
mau humor: fruto de uma inteligên
cia fina e sempre em estado de aler
ta, sua capacidade de nos fazer rir
não depende em nada do acaso.
Se no Xangô de Baker Street ele
pintou e bordou com o gênero po
licial, desta vez o alvo são as biogra
fias. E aqui também o autor se ar
mou com um longo trabalho de pes
quisa. O arsenal de informações que
ele colecionou cumpre uma função histórica.

PRÓLOGO
OURO PRETO MINAS GERAIS 1897
A CAPITAL DO ESTADO conserva sua importân
xJL cia política e cultural desde os tempos da In
confidência, grito sufocado de liberdade, quando a
cidade ainda se chamava Vila Rica. Sua música sacra é
comparada à européia e a famosa Faculdade de Direi
to, uma das mais tradicionais do Brasil, atrai alunos
de todos os cantos do país.
A rivalidade entre os moradores das várias repú
blicas provoca, como de praxe, atritos e discussões.
São comuns as refregas de estudantes no Bilhar Hele
na, na rua São José, um dos pontos preferidos pelos
rapazes que estudam na cidade.
Os notívagos que ali se reúnem naquela noite chu
vosa de segundafeira, 7 de junho, não demonstram a
costumeira alegria dos boêmios. Apoiados no largo
balcão do bar polido pelos anos, entre uma bebida e
outra eles comentam, em voz baixa, que apesar de
acostumados à agressividade extravasada pelos jovens
universitários, jamais haviam presenciado violência
igual à acontecida um dia antes. ' :
Domingo, tarde da noite, em volta de uma das
mesas, tacos de snookema. mão, três irmãos gaúchos,
filhos de um influente general do Rio Grande, come
çam uma discussão tola com um aluno mineiro. Ou
tro estudante, este paulista, também da faculdade,
vendo o colega de Minas inferiorizado, entra na bri
ga para defendêlo. Atinge especialmente o mais jo
vem, um menino pequeno e franzino, aluno do cur
so de Humanidades, preparatório indispensável para
mais tarde ingressar na faculdade. O garoto, ainda
imberbe, acaba sendo espancado de forma brutal.
Finalmente, os demais freqüentadores conseguem
apartar os rapazes, porém o mal já está feito. Ao sair
trôpego do Bilhar, amparado por seus dois irmãos,
ele jura vingança.
A poucos metros dali. no exato momento em que
os fregueses habituais do Helena relembram o funes
to incidente da véspera, o rapaz de São Paulo que se
envolvera na rixa volta tranqüilamente para sua repú
blica, descendo a rua do Rosário. Xão deu importân
cia ao entrevero da noite anterior. Achou graça nas
ameaças do fedelho. Os gaúchos já o esperam, atrás
de um muro, ocultos pela penumbra. O paulista nem
tem tempo de reagir. É derrubado por nove tiros de
revólver desfechados à queimaroupa. Agoniza por
quatro dias antes de morrer.
Seu nome era Carlos de Almeida Prado Jr., filho
do líder republicano paulista Carlos Vasconcelos de
Almeida Prado. O caso comoveu o país. Os Almeida
Prado desembarcaram na cidade e Carlos foi sepulta
do em Ouro Preto.
Para se avaliar a importância da família do mor
to, basta dizer que o ataúde foi carregado, entre outros,
pelo presidente do estado de Minas, Crispim Jacques
Bias Fortes. Mais de quatro mil pessoas acompanha
ram o féretro.
Quanto aos irmãos gaúchos envolvidos no sinis
tro episódio, Viriato, o mais velho dos três, com dezoi
to anos de idade, assumiu a autoria dos disparos. Pro


BOSNIÀ BANJA LUKA 1897
yT O MESMO INSTANTE em que sucede a tragédia
. ^1 de Ouro Preto, na cidade de Banja Luka. na
Bósnia, às margens do rio Vrbas, nasce Dimitri Borja
Korozec. A história de Dimitri é no mínimo curiosa.
Sua mãe, Isabel, é uma contorcionista brasileira
nascida em São Borja, no Rio Grande do Sul. Filha de
uma bela escrava negra da nação Bantu e de pai
desconhecido, ela vem ao mundo em 28 de setembro
de 1871, já liberta dos grilhões da escravidão, pois.
enquanto nos pampas soava o primeiro berro da
criança, no Rio de Janeiro a princesa Isabel assinava a
Lei do Ventre Livre. A menina recebe, no batismo, o
nome de sua benfeitora e o da cidade onde nasceu.
Como era hábito nesses casos, os alcoviteiros mal
dizentes da cidade juravam que a pequena mestiça era
o fruto ilegítimo de um arroubo carnal do jovem te
nentecoronel Manuel do Nascimento Vargas, poste
riormente pai de Getúlio. Manuel havia se destacado
como herói militar na Guerra do Paraguai e, ainda
solteiro aos vinte e seis anos, em 1870 se instalara como
fazendeiro em São Borja. A insinuação fora negada
veementemente e descartada como alcovitice. No en
tanto, a surpreendente semelhança entre a menina e
o estancieiro estimulava essa aleivosia.
Em 1890, Isabel chegara à Bósnia integrando um
circo italiano. A iovem havia fugido de casa aos ouinze
anos com um clownmalabarista dos Irmãos Tempe
rani, numa das excursões que a famosa trupe circense
fez ao Brasil, em 1886. Xa bagagem, dois presentes
que sua mãe lhe dera: uma fotografia da princesa e o
romance Mota Coqueiro, escrito por José do Patrocí
nio, o herói negro da Abolição.
Em Doboj, a gaúcha abandona os jogos malabares
do palhaço por Ivan Korozec, linotipista sérvio, que,
apaixonado, segue a bela morena brasileira na turnê
pelos Bálcãs. Anarquista empedernido, Ivan é filiado
à cabalística confraria Poluskopzi. Havia, na época,
uma antiga sociedade secreta russa, a Skopzi ou "Os
Castrados da Rússia", cujos participantes se castravam
para atingir a plenitude espiritual. Já os iniciados da
Poluskopzi ou "Meio Castrados", seita ultraradical,
praticam apenas a ablação de um dos testículos: o
direito. O gesto é político. Simboliza que todos os seus
descendentes serão forçosamente de esquerda. A
rigorosa Poluskopzi conta com menos de quarenta
afiliados.
Quiseram o destino e a libido monotesticular de
Ivan que Isabel logo engravidasse. Artista dedicada,
trabalha até a hora do parto. Quando o circo apre
sentase em Banja Luka, após quase nove meses de
excursão, o público se espanta ao ver aquela linda
moça contorcendo sua enorme barriga no picadei
ro. Nos últimos dias, Ivan Korozec teme que a crian
ça nasça ali mesmo, retorcida, em meio a leões e pa
lhaços. Seus temores não se realizam: Dimitri nasce
na carroça de um trapezista búlgaro tendo a mulher
barbada como parteira. É uma criança perfeita, a não
ser por um detalhe: tem um dedo indicador a mais
em cada mão.
Essa anomalia não chega a chocar e é pouco no
tada, pois os doze dedos são absolutamente simétri
cos. O recémnascido é logo banhado nas águas do
rio Yrbas e, sete dias depois, a despeito dos inúteis
protestos de Isabel, como manda o ritual da Polus
kopzi, tem seu testículo direito seccionado e comido
pelo pai. Se fosse adulto, a gônada extirpada seria de
glutida pelo grãomestre da ordem, Boris Kafelnikov,
um obscuro alfaiate de Vladivostok. Para assombro e
orgulho dos semicastrados que participam da cerimô
nia, o bebê não chora.
Desde cedo, Dimitri ou Dimo, como seus pais o
chamam, fala não só servocroata, a língua paterna,
mas também português, que sua mãe lhe ensinara,
lendo e relendo o livro de José do Patrocínio. Isabel
contalhe histórias romanceadas da luta pela liberta
ção dos escravos. O lendário abolicionista assume
proporções quase místicas na cabeça fantasiosa do me
nino. Ele o imagina como um santo guerreiro, dego
lando cabeças de mercadores de escravos. Tem uma
facilidade fora do comum para idiomas e, no mundo
multirracial do circo, logo aprende alemão, francês,
inglês, italiano, russo, albanês e espanhol. Exprimese
sem sotaque em qualquer deles.
Aos oito anos já se percebe nele o homem de rara
beleza no qual se tornará. Herdou os cabelos negros
e encaracolados da mãe, os olhos verdes e a pele alva
do pai. ¦•.•¦'
Nada sabe de seu avô, porém orgulhase do sangue
africano da avó. Encrespase quando os palhaços riem
da sua afirmação de que, sob o corpo branco, é tão
negro quanto um príncipe Watusi. Sua figura lon
gilínea e seus modos naturalmente elegantes encan
tam a todos. Teria, mais tarde, aquilo que as mulheres
chamariam de charme irresistível. É inteligente e es
tudioso. Seu jeito desprotegido de poeta faz com que
gostem dele à primeira vista. Tem um único defeito:
talvez devido às contorções que sofrerá ainda na bar
riga da mãe, Dimo é extremamente desajeitado. Nem
os dois dedos a mais impedem que os objetos escorre
guem das suas mãos. Mesmo com o rigor dos treinos
intensivos a que se dedica, logo se vê que jamais será
um profissional do circo. Possui um dom inato para
escalar o mastro que sustenta a lona ou subir e descer
pelas cordas até o trapézio, contudo faltalhe o equi
líbrio necessário para as acrobacias. Anarquista des
de o berço, aos doze anos, tendo o pai como profes
sor, já havia lido Proudhon, Bakunin e Kropotkin. Acha
Proudhon muito teórico e Bakunin quase um conser
vador. Prefere Kropotkin, que renunciou ao cargo de
secretáriogeral da Sociedade Geográfica da Rússia
em favor do anarquismo. Pensa, porém, que lhe falta
uma certa ousadia. Malgrado a tenra idade, ele é a
favor de métodos violentos. Sonha eliminar todos os
tiranos do mundo.
Em 1912, Isabel é obrigada a abandonar o circo
devido ao deslocamento de uma vértebra. O infeliz
contratempo não ocorre durante suas exibições e sim
num piquenique aos pés do monte Maglic. Enquanto
tenta abrir uma garrafa de vinho branco, Dimitri
tropeça na raiz de uma árvore e o casco escapalhe
das mãos, atingindo a região lombar da mãe.
Depois de meses de tratamentos infrutíferos, Ivan
Korozec mudase com a família para Sarajevo. Graças
a seus contatos, consegue emprego na tipografia de
um velho anarquista, Nicolae Kulenovic. É nos fundos
dessa tipografia que se encontram, tarde da noite, al
guns adeptos da recémcriada Ljedinjenje ili Smrt, a
"União ou Morte", também chamada de Mão Negra,
sociedade secreta terrorista dedicada à unificação do
povo sérvio. Para se ter idéia do clima político reinante
em toda a Bósnia nesse período, convém descrever
algo da história dessa organização e do seu fundador,
o qual terá grande relevância no futuro de Dimitri.
A União ou Morte, a Mão Negra, é formada em 9
de maio de 1911 por um grupo de dez homens. Seu
objetivo: a criação de uma Sérvia unificada, incluindo
a Bósnia e a Herzegovina, livre do domínio austro
húngaro. Os meios para alcançar essa meta vão do
homicídio ao terrorismo.
Em apenas um ano, já contam
com mais de mil ativistas preparados
para tudo. Vários oficiais do Exército
sérvio pertencem ao grupo.
Usam este selo como marca de ,
identificação.
A Mão Negra treina seus homens
em diversos modos de sabotagem e Selo da Mão Nej
assassinatos políticos. É organizada
em células de três ou cinco membros comandadas por
comitês de distritos e as ordens vêm do Comitê Cen
tral, em Belgrado. Para manter essa hierarquia em se
gredo, seus membros só sabem o que é necessário para
a execução das missões.
Ao serem admitidos, os iniciados fazem um jura
mento em reunião solene: 'Juro, diante de Deus, por
minha honra e por minha vida, que obedecerei às
ordens e executarei todas as missões sem vacilar ou
questionar. Juro, também diante de Deus, por minha
. nonra e por mmna vida, que
\ levarei para o túmulo todos
^ os segredos desta organiza
\ ção".
\ O líder fundador da Uje
i dinjenje ili Smrt é o coronel
I "^TutinDimitrijevic.
I I Dragutin tornase especialis
ta; f ta em golpes, conspiração e
ívp / assassinato. Conhecendo a
§ / força da informação, o vee
/ mente patriota permanece
/ sempre nos bastidores do
poder, jamais revelando sua
Dragutin em uniforme . , . . ~ rx 1
de gaia, de penacho verdadeira posição. Dele,
e medalhas disse um amigo ligado à cor
te do rei Pedro da Sérvia:
"Nunca era visto em lugar nenhum, no entanto sabía
mos que ele estava por trás de todas as ações".
Nem todas as conspirações de Dragutin são bem
sucedidas. Um ano antes, ele enviara um assassino a
Viena para eliminar o imperador Francisco José e o
atentado malograra.
Forte e truculento, bigodes de pontas retorcidas
para cima, Dragutin Dimitrijevic enverga de modo im
pecável seu uniforme de oficial. Não fosse ele um
homem tão poderoso, seria simplesmente ridículo.
Quando adolescente, no Liceu de Belgrado, destacara
se como aluno brilhante. Incansável, de uma energia
sem limites, popular entre os colegas, ganha deles o
apelido de Ápis, o touro sagrado dos antigos egípcios.
O cognome irá acompanhálo pelo resto da vida.
Ivan Korozec decide ingressar na nova seita. Crês
cem a admiração e o fervor quase fanático que Dimi
tri dedica ao pai. Este retribui da mesma forma, fasci
nado com a inteligência e a capacidade intelectual do
filho. Dimo parece ter mais que seus quinze anos.
Mede um metro e oitenta e, quando passeia pelas ruas
ae sarajevo, as muineres viramse para observalo com
olhos gulosos.
Xa sextafeira, 20 de dezembro, uma tempestade
de neve cai sobre a cidade. Atendendo às repetidas
súplicas do filho, Ivan leva o rapaz a uma sessão se
creta da União ou Morte. O Touro estará presente,
contrariando as normas por ele mesmo impostas. Pro
cura novos talentos nas fileiras da seita. Dimitri anseia
por esse encontro. O clima é de excitação e entusias
mo cívico. Quase no final da reunião, por volta de duas
horas da madrugada, sem que lhe seja solicitado, Dimo
interrompe um orador que discorre a respeito do
domínio do Império AustroHúngaro sobre a Bósnia
e faz um discurso apaixonado acerca da necessidade
de mais ação e menos falação.
Apis encantase com o impetuoso rapazote. Anos
antes, em 1903, Dragutin chefiara os oficiais cons
piradores que, invadindo o Palácio Real, assassinaram
o detestado rei Alexandre Obrenovic e sua esposa, a
exprostituta Draga. O carisma do coronel também não
passa despercebido a Dimitri, feliz por terem ambos
quase o mesmo nome. *
Como professor de estratégia e tática na Acade
mia Militar, Dimitrijevic exerce enorme influência
sobre seus pupilos, que o seguem até a morte. Dragu
tin resolve acolher Dimo sob sua proteção. Não quer
vêlo aderir à Mlada Bosna, a 'Jovem Bósnia", movi
mento que arrebatava os universitários da época e já
lhe havia custado Gavrilo Princip, estudante com uma
propensão natural para o terrorismo e atirador de eli
te que ele jurara ser o seu trabalho de Pigmalião. Tra
va, então, naquela noite, o seguinte diálogo com Di
mitri e Ivan Korozec:
Ivan, será que teu filho é tão destemido quanto
aparenta ou suas palavras são apenas o eco de uma
cabeça oca, como dizia meu avô? pergunta sorrindo
Dragutin.
Não sei, camarada. Não conheci seu avô.
A verdade é que gostei do que ele disse.
Sem dar mais atenção ao linotipista, o oficial vira
se para Dimitri:
Que idade tens?
Dezoito mente Dimitri.
Quinze corrige Ivan.
Quando se luta por uma causa, quanto mais
jovem melhor clicheteia o coronel.
A falta de idade é a desculpa dos covardes
responde Dimo, com outro clichê.
Todos se divertem com a petulância do rapaz. O
truculento Apis servese de vodca temperada com pi
menta, sua favorita, e declara:
Veremos se possuis mesmo o coração dos
sérvios. Já ouviste falar da Skola Atentatora?
A Escola de Assassinos? É claro. Sempre pensei
que fosse uma lenda.
Pois não é. Fica num antigo convento aban
donado, perto daqui, em Visoko. Se teu pai concor
dar, a partir de agora ocupome da tua educação.
Ivan não sabe o que dizer. Está dividido entre o
orgulho de ter seu filho como protege de Dimitrijevic e
o medo da reação de Isabel. Conhece bem o tem
peramento da mulher. A brasileira não quer ver seu
único filho envolvido com as causas extremadas do
pai. Os eleitos que conseguem ser admitidos na Skola
Atentatora são treinados em todas as técnicas de ter
rorismo e assassinato. Lá, nada é simulado. Muitos
perdem a vida durante os cursos. Antes que possa fa
lar, Dimitri responde por ele:
Desculpe, coronel. Meu pai nada tem a ver com
essa decisão levanta as mãos mostrando os quatro
dedos indicadores , trago, desde o nascimento, a
marca do meu destino.
O grupo pasma diante daquela perfeita im
perfeição. Mesmo o inflexível Apis comovese com o
aparente presságio:
Não há mais dúvidas. És o Escolhido. O dedo
do gatilho duplicado só pode ser o estigma do assas
sino. Ergue o copo num brinde emocionado:
Morte aos tiranos!
Os iniciados presentes àquela reunião histórica
arremessam as taças de encontro ao desgastado prelo
de Nicolae Kulenovic.
Ao voltar para casa aquela noite, Ivan Korozec
receia que, sabendo da notícia, Isabel arranque o soli
tário testículo que lhe resta.
O ano de 1913 é conturbado para os sérvios, mer
gulhados na primeira e segunda guerras balcânicas, e
de grande realização pessoal para Dragutin Dimitrije
vic. O oficial é promovido a chefe de informações do
estadomaior, o que lhe propicia estender as garras da
Mão Negra por toda a Bósnia.
Cresce o movimento servocroata nas universida
des. O Touro a tudo observa. Tem agentes infiltrados
entre os estudantes. O dinheiro entra a rodo. Não lhe
faltam doações de simpatizantes anônimos favoráveis
a uma Sérvia unida e poderosa por meio de uma ação
violenta.
Dragutin desvia essas verbas secretas para uma
conta no Schweizerischer Glücksgeldbank, em Zu
rique.
Os sérvios vencem rapidamente as duas guerras,
segunda contra a Bulgária.
Enquanto isso, distante do mundo e dos conflitos,
Dimitri Borja Korozec passa o ano enclausurado no
velho convento Dusa, em Visoko. O monastério,
circundado por um bosque, ocupa uma área de cem
mil metros quadrados, a alguns quilômetros da
pequena cidade. Arrasado pelos muçulmanos em
1883, fora reerguido pelos iniciados com verbas da
União ou Morte e transformado na Escola de As
sassinos. A fachada do convento permanece par
cialmente destruída e os membros que o freqüen
tam vestemse como monges. Para evitar suspeitas, a
sociedade secreta espalhara que no local funciona
agora um leprosário para frades trapistas. No en
tanto, qualquer curioso que se aventure dentro dos
muros ao redor das terras do mosteiro corre o risco
de morrer ou ficar aleijado por ação das minas es
palhadas pelos jardins da propriedade. Alguns alu
nos mais distraídos também eram vítimas dessas ar
madilhas.
A Skola Atentatora é dirigida de forma implacá
vel pelo major Tankosic, ajudantedeordens do Tou
ro. Os exercícios levam os iniciantes à exaustão. O pró
prio Gavrilo Princip, jovem de saúde precária e meni
na dos olhos de Dragutin Dimitrijevic, abandonara a
escola fazia nove meses por não conseguir acompa
nhar o rigor dos treinos.
Dimo dedicase intensamente aos estudos. Nas
armas brancas, familiarizase com o uso de punhais
de dois gumes e facas curtas. Aprende esgrima, com
florete, espada e sabre. Durante os treinos, seu cor
po é marcado por diversas cicatrizes, fruto de sua
inabilidade natural. Assimila o ofício de armar e de
sarmar bombas, e manuseia, com entusiasmo, explo
sivos como dinamite e nitroglicerina. Seu atabalhoa
mento cria fama entre os outros alunos, que evitam
participar dessas lições. Os que sabem da extração
do seu testículo direito, atribuem, chacoteando, sua
gaucherie ao ritual da Poluskopzi. Um dos professo
res perde a mão ao atirar uma pequena granada pre
parada por ele.
Não obstante o estabanamento, Dimitri tem uma
pontaria incontestável. E capaz de acertar num cigarro
preso aos lábios de alguém a trinta metros de distância.
Como não há voluntários para participar da de
monstração, Dimo coloca o cigarro aceso entre os ga
lhos de um arvoredo distante. Sabe como preparar
poções mortíferas com cianeto, arsênico, estricnina e
outras substâncias tóxicas, porém detesta os venenos.
Consideraos o instrumento dos poltroes. Quer en
frentar o inimigo cara a cara. Distinguese igualmente
nas artes marciais, apesar de raras vezes terminar as
aulas sem uma luxação.
Graças à sua inclinação congênita para o tiro, es
pecializase nas armas de fogo, principalmente as de
\ mão. Sua preferida é
a semiautomática ale
mã BergmannBayard,
. desenhada por Theo
dor Bergmann em
1901. A pistola fora
BergmannBayard 1901 . ,
projetada para uso mi
i litar com o nome de
í Mars. É a primeira a
. U g utilizar projéteis de
nove milímetros, balas
SchuierRefom 1904 de grande poder de
penetração. Mede vin
te e cinco centímetros de comprimento, pesa em tor
no de um quilo, possui um cano de quatro polegadas
e um pente com capacidade para seis balas. Atira com
a velocidade de trezentos e cinco metros por segun
do. Tem um coice formidável, o que não desagrada a
Dimitri.
Além da Mars, Dimo também não abre mão de
carregar consigo uma pequena SchulerReform, mo
delo 1904, com munição de seis milímetros, conside
rada a obraprima do armeiro August Schuler, um
alemão de Suhl, inventor dessa jóia concebida para
disparar quatro tiros consecutivos ou de uma vez só.
Ele a leva sempre amarrada à perna.
Em junho, ao completar dezesseis anos, apaixo
nase pela primeira vez. Ironicamente, o alvo do seu
afeto é a professora de toxicologia, matéria que ele
despreza. Mira Kosanovic é uma bela albanesa servo
croata nascida em Durrés, porto do mar Adriático.
Seu rosto anguloso, talhado a faca, os zigomas pro
nunciados, os olhos negros e amendoados, dãolhe
uma aparência felina, quase selvagem. As roupas lar
gas e descuidadas que usa no convento não con
seguem ocultar a sensualidade do seu corpo. Co
mentase na Skola Atentatora que Mira é ainda mais
perigosa do que imaginam. Na recémterminada pri
meira guerra balcânica, entrava em combate corpo
acorpo contra os turcos e, valendose da surpresa
que causava entre os inimigos, dilaceravalhes a ca
rótida com os dentes. Fica conhecida como Dentes
de Sabre. E oito anos mais velha, porém Dimitri já
parece ser um rapaz de vinte e um, com a palidez e
as olheiras fundas da imagem clássica do poeta ro
mântico. Temse uma idéia da paixão curta e fulmi
nante que envolveu os dois pela carta escrita por
Dimo pouco antes de deixar a Escola de Assassinos,
e que Mira Kosanovic ainda guardava junto ao seio
quando foi encontrada morta em 1937, nos escom
bros da cidade de Guernica, bombardeada pelos ale
mães na Guerra Civil Espanhola. Dizem, inclusive,
que o rosto de mulher à esquerda no famoso painel
de Picasso é o de Mira. O pintor teria tido um affaire
com a anarquista em Paris, em 1923.
0 famoso quadro Guernica de Picasso.
Mira Kosanovic seria a mulher à esquerda
Segue o texto integral da carta.
Minha amada,
Quando encontrares esta mis
siva, em meio aos tubos de ensaio
do teu laboratório, estarei bem lon
ge daqui. Antes mesmo de partir, já
lamento enormemente a tua falta. To
T .7 ¦ davia. é uma decisão sem retomo.
Deixo a Skola Atentatora pre
parado para seguir meu caminho.
Conforme as instruções de meu tu
¦ " tore protetor. Dragutin Dimitrijevic,
a carta nosso líder, nem a ti posso revelar
Lcuucraaa
ra Kosanovic minha primeira tarefa. A bem da ver
dade, não poderia despedirme de ti,
mas não conseguiria viver sem esta pequena desobe
diência. Conhecendo o teu fervor revolucionário, sei
que entenderás. Só posso dizer que esta missão será
vital para nossa causa e um golpe terrível desfechado
contra o tirânico domínio austrohúngaro. Se tudo cor
com Mira Kosanovic
rer como espero, o povo servio se temrjrara de mim para
sempre. Mais importante do que isso é a certeza de que
tu também vibrará" de orgulho ao saber do gesto deste
mido deste a quem tanto instruíste.
Já nem falo da combinação fatal de substâncias
químicas que me ensinaste com paciência. Logo eu,
que odiava os venenos! Fizesteme descobrir o roman
tismo do curare, o lirismo do chá de líriodovale, que,
na dosagem certa, faz com que o coração simplesmente
deixe de bater. A poesia da pomada de rododendro, tão
aromática e no entanto capaz de levar a vítima a es
vairse numa diarréia letal.
Refirome a ensinamentos mais profundos e pes
soais. Falo de amor. Será demasiado burguês falar de
Tu, mestra encantada das noites em branco, me
revelaste as delícias inebriantes do sexo, despertando
o prazer em cada centímetro do meu corpo. Lembraste
da primeira vez? Da minha falta de jeito? Do momento
em que segredaste ao meu ouvido que eras tu. e não
eu, quem deveria abrir as pernas? E como riste quando
imaginei ser um orgasmo a tua crise de asma... Sinto
ainda o calor dos teus seios marcando de forma indelé
vel a palma das minhas mãos. Fecho os olhos e escuto
a tua voz, dentro de mim, dizendome do gozo insólito que
sentias ao ser tocada pelos meus quatro indicadores.
Como esquecer daquele fim de tarde, nos jardins do
mosteiro, em que forçaste minha cabeça de encontro à
doçura do teu ventre e, em vez do púbis perfumado, eu,
amante canhestro, beijava sofregamente a relva?
Sim, mais do que os venenos, tudo o que sei da
vida devo a ti. Neste ano prodigioso, tu. e não as aulas,
transformaste em homem o menino que havia em mim.
Não sei se voltaremos a nos ver. nem se continua
rei vivo depois da perigosa façanha que me aguarda.
Os riscos são grandes. Só sei, com certeza, que levo de
ti a lembrança inesquecível da mulher valente e gene
rosa que me ensinou o amor. , . ,y ~:
~ ' . Adeus,
'1 ¦¦"'"" União ou morte!
Eternamente teu,
SARAJEVO DOMINGO, 28 DE JUNHO DE 1914
)ATA MAIS SAGRADA do calendário histórico dos
sérvios. Celebrase a Batalha de Kosovo, realiza
da há cinco séculos, em que, segundo a mística eslava,
a flor dos Bálcãs foi esmagada pelo barbarismo dos
turcos. Um céu sem nuvens cobre a cidade e o sol ba
nha os telhados das casas enfeitadas com flores e flâ
mulas. É dia de festa. Homens e mulheres ostentando
roupas coloridas e trajes folclóricos comemoram a
ocasião dançando pelas ruas.
o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do tro
no austrohúngaro, antipático ao povo sér\io, escolhe
para visitar Sarajevo. O arquiduque vem observar
manobras militares no acampamento de Filipovic a
convite do governador da Bósnia, general Oskar Po
toirek. Não sabe que, espalhados ao longo do meio
quilômetro que leva da estação ferroviária à prefei
tura, onde haverá uma solenidade, o aguardam pelo
menos vinte e dois conspiradores armados da organi
zação Narodna Odbrana, a "Defesa Nacionalista". Que
rem eliminar aquele símbolo ostensivo da tirania.
Às nove horas da manhã, Dimitri Borja Korozec
entra no Café Zora, na rua Franz Joseph, onde
pretende comer alguma coisa. Traz embaixo do bra
ço o Bosnische Post da véspera, com o roteiro a ser cum
prido por Francisco Ferdinando. Escolhe uma mesa
nos fundos, de onde pode avistar todo o salão. Desde
as cinco perambula pelas ruas de Sarajevo, examinan
do passo a passo o itinerário programado para o ar
quiduque e sua comitiva. Jamais sentiu tamanha exci
tação. Apesar do calor, enverga uma japona escura e
largas calças cinza., de sarja, para melhor ocultar as
armas que carrega. A automática BergmannBayard,
que traz enfiada na cintura, queimalhe a pele. Volta e
meia apalpa a perna para certificarse de que a outra
pistola, a Reform, continua bem fixa dentro da sua
meia. Se tudo der certo, em menos de duas horas o
fato estará consumado. Segundo instruções, depois do
assassinato, ele deve encontrarse com Dragutin em
Belgrado. Repassa o plano mentalmente pela milési
De repente, dois rapazes entram no café. Dimo
reconhece o primeiro: Vaso Cubrilovic. Vaso tem,
como ele, dezessete anos. Muito magro, usa um bigode
fino para demonstrar mais idade. Xão consegue. A
penugem rala indica apenas um menino procurando
parecer mais velho. Os dois estudam juntos no mes
mo ginásio e Dimitri não o vê desde que ingressou na
Skola Atentatora. Dimitri tenta esconderse atrás do
jornal, porém Cubrilovic já o avistara. Aproximase da
mesa com o companheiro, um muçulmano da pro
víncia Herzegovina chamado Mohammed Mehmed
basic. Em janeiro, aos vinte e sete anos, Mohammed
fora recrutado pela Mlada Bosna, a 'Jovem Bósnia",
para assassinar o governador militar da BósniaHerze
govina, general Potoirek. Para felicidade do general,
a polícia faz uma inspeção de rotina no trem que o
leva à capital. Mehmedbasic joga seu punhal e o vene
no pela janela do vagão e desiste do atentado.
Dimitri sente que os dois estão nervosos. Trechos
da conversa entre os três foram posteriormente
anotados por Mohammed e extraídos do seu Cadernos
de um anarquista muçulmano, encontrado numa gave
ta, em 1940, por ocasião da sua morte, na casa onde
ele trabalhava como jardineiro:
Então, por onde andavas? perguntou Cubri
lovic, sentandose ao lado dele.
Logo percebi que o jovem estava incomodado com
a nossa presença. Era quase um menino. Não devia tei
mais do que os dezessete anos de "Vaso.
: •';, Por aí respondeu ele. desconversando.
Pressenti uma certa apreensão no rapaz. Puxei uma
cadeira e instaleime bem na sua frente. Vaso me apre
sentou:
Este é Mohammed Mehmedbasic. Mohammed.
quero que conheças meu amigo Dimitri Borja Korozec.
Estuda comigo no ginásio e posso te garantir que é a
pessoa mais estabanada do mundo disse Cubrilo
vic, rindo nervosamente, sem esconder sua agitação pelo
que iria acontecer em breve.
Volta e meia, olhava para a porta e consultava o
relógio. Não conseguiria guardar segredo sobre o plano
por muito tempo. Ainda tentei leválo dali. mas era tar
de. Contou tudo. olhando Dimitri bem nos olhos:
Daqui a pouco nós vamos assassinar o arqui
duque Francisco Ferdinando.
Dimitri reagiu como se tivesse levado um soco:
Nós quem?
. ..,'.• Nós, a Narodna Odbrana. nós, a Mlada Bosna!
Somos sete: eu, Mohammed. Trifko. Ilic. Nedjelko. Po
povic e Gavrilo. Sete patriotas dispostos a tudo!
vangloriouse o falastrão e. abrindo o paletó, deixou
entrever a bomba que carregava.
Achei que Vaso estava indo longe demais e disse,
Calate! Queres pôr tudo a perder?
\ aso deu uma gargalhada:
Não sejas tolo. Pelas conversas que temos duran
te as aulas sei que Dimo simpatiza com a nossa causa.
Observei o rosto do jovem na minha frente. Seu
olhar não era de medo e sim de ódio. A raiva não era
dirigida ao arquiduque mas a nós. pois o rapaz levan
touse aos berros, estapeando \aso furiosamente:
Como ousam? Ele é meu. entende? E meu! L~
meu!
Arrastei dali o perplexo Cubrilovic. antes que al
gum policial chegasse, atraído pelo tumulto.
Assim que os dois deixam o Zora, Dimitri sente o
perigo a que se expôs. Espantase com sua reação. Não
é dado a esses rompantes. Geralmente é de tempera
mento sereno. No café, todos voltamse intrigados para
olhálo. Se ele sair imediatamente dali a atitude será
mais estranha ainda. Agentes secretos austríacos es
tão infiltrados por toda a cidade. Precisa disfarçar, in
ventar alguma justificativa para que aquela discussão
inútil não levante suspeitas. Ao lembrarse da frase que
gritou, tem uma idéia genial. Volta a repetila, desta
vez em tom lamurioso, dando à voz uma entonação de
falsete: \^r, ; :v
Ele é meu! Só meu! Eu o amo tanto! Ó meu
Deus, faça com que ele não me abandone!
E, fingindo um choro histérico, dirigese com um
andar efeminado para a toalete dos cavalheiros. À sua
passagem, os homens, indignados, viram o rosto e vol
tam a tratar de seus assuntos.
No banheiro, enquanto lava o rosto e as mãos,
Dimo reavalia a situação. Nada está perdido. Nem o
fato de ter outros assassinos à espreita o impedirá de
ser o primeiro a alvejar o arquiduque. O único que
ele teme é Gavrilo Princip. Lembrase bem do jovem
tísico, de olhos fundos, das reuniões estudantis. Não
gosta dele, pois Princip sempre o desprezou como se
Dimitri fosse um pirralho querendo ser gente, mas
respeita sua reputação. Xa Skola Atentatora, diziam
que Gavrilo era bom atirador. Que seja. Basta posicio
narse no melhor lugar, no ponto estratégico, e a pre
sa será sua. Foi preparado para situações mais difíceis
na Escola de Assassinos. Não pode esmorecer diante
do primeiro obstáculo. Sabe exatamente onde colo
carse para esperar o cortejo. É por isso que escolheu
o Café Zora.
Para ir à prefeitura, o séquito virá pelo cais Appel,
que margeia o rio Miljacka, entrará à direita em fren
te à ponte Lateiner, na esquina da Mercearia Schil
ler, pegando então a rua Franz Joseph. O Zora fica
exatamente na outra esquina. Ao lado do Zora, exis
te uma ruela de onde Dimo pretende disparar sua
automática. Em frente à pia, ele examina o pente da
BergmannBayard, engatilhando a arma. Abre a por
ta do sanitário com ânimo renovado e atravessa a sala
em direção à saída. É hora de alojarse no local da
emboscada. Ao passar pelo balcão, vislumbra sua ima
bre a parede do bar. Num gesto raro de vaidade, o
desleixado Dimitri passa os doze dedos pelos cabe
los encaracolados.
SARAJEVO: POSIÇÃO DOS ASSASSINOS
Rua Franz Joseph
Mercearia Schiller
Cais Appel
Ponte Cumburja \
(c) Mehmedbasic
(c) Cabrinovic
(c) Cubrilovic
(4) Popovic
(5) Princip
(6) Grabez
(c) Ilic (sem posição fixa)
(c) Dimitri
Ponte
Lateiner
Bomba de Cabrinovic
Tiros de Princip
" Caminho da prefeitura
Às dez horas, o arquiduque Francisco Ferdinando
acaba de passar a tropa em revista e parte para a prefei
tura a fim de atender à recepção. Sua comitiva é com
posta de seis automóveis. O prefeito Fehim Curcic ao
lado do chefe de polícia dr. Gerde lideram o cortejo.
Logo depois, com a capota arriada, ostentando a flâmu
la austrohúngara dos Habsburgo, seguem Francisco
Ferdinando, sua mulher Sofia e o general Potoirek, sen
tados no banco de trás. O dono do veículo, conde Har
rach, vai ao lado do motorista. O chefe da chancelaria
militar do arquiduque, a dama de companhia da duque
sa e o ajudantedeordens de Potoirek, tenentecoronel
Merizzi, estão no terceiro carro. O quarto e o quinto
levam oficiais da guarnição de Francisco Ferdinando,
juntamente com funcionários bósnios de primeiro esca
lão. Ninguém ocupa o sexto automóvel. É apenas uma
precaução, caso uma das outras cinco viaturas enguice.
A multidão, alienada das questões políticas, se
aglutina ao longo do cais Appel dando vivas ao casal
imperial. Os sete assassinos misturamse a ela. Princip
e Grabez plantamse junto à ponte Kaiser. Ilic, sem
posto fixo, movimentase pela avenida. Popovic per
manece um pouco afastado. Próximos à ponte Cum
burja estão Cabrinovic, Cubrilovic e Mohammed.
Graças à sua posição, Mohammed, o muçulmano, é o
primeiro em condições de ataque. Chega a segurar a
granada, porém hesita. Tem receio de ferir muitas pes
soas inocentes. Enquanto resolve se deve ou não lan
çála, vê o cortejo passar lentamente por ele.
A poucos metros, Vaso Cubrilovic, o conhecido de
Dimitri, mostra que seu discurso é mais explosivo do que
a arma que carrega. Desiste do atentado e afastase atra
vessando a ponte Lateiner. O próximo conspirador é mais
decidido. Tratase de Nedjelko Cabrinovic, filho de um
antigo espião austríaco. Agitador experiente, Nedjelko
veio de Belgrado para participar do assassinato e não
quer perder a viagem. Assim que o séquito passa, des
cendo vagarosamente pela larga avenida, ele tira sua
bomba do bolso do casaco, quebra a cápsula de percus
são de encontro a um poste e atira com firmeza o objeto
fumegante em direção a Francisco Ferdinando.
No curto espaço de tempo que a bomba leva para
percorrer a distância entre a mão de Cabrinovic e o
carro do arquiduque, uma pequena ocorrência muda
drasticamente o gesto mortal do terrorista.
Ao ouvir a sibilação da espoleta sendo ativada de
encontro ao poste, o conde Harrach pensa que um
pneu estourou e ordena ao chofer: "Pare o carro. Só
faltava essa! Furou o pneu", e começa a se levantar
para sair do veículo.
O motorista, que, ao contrário do conde, viu a bom
ba passando pelos ares, faz exatamente o oposto: acelera.
Com a arrancada do automóvel, o conde cai para
trás no banco e por isso o artefato passa sobre sua ca
beça. Francisco Ferdinando, por puro reflexo, levan
ta o braço e também desvia a bomba, que acaba deto
nando no chão, bem no caminho da terceira viatura.
A explosão fere uma dúzia de espectadores e o tenen
tecoronel Merizzi é atingido na nuca. No entanto, o
alvo principal continua intacto. A comitiva segue em
alta velocidade até a prefeitura.
Quando descobre que o arquiduque escapou in
cólume, Cabrinovic bebe um vidro de cianeto e atira
se nas águas do rio Miljacka. Inutilmente: o veneno é
velho e o rio é raso. O frustro assassino passa à Histó
ria como "aquele que falhou".
Francisco Ferdinando entra furioso na prefeitu
ra. Diz ao prefeito, que tenta acompanhar seus largos
passos:
Então, senhor prefeito. Venho visitar a cidade
e sou recebido com bombas? É ultrajante! Ultrajante!
O prefeito, por nervosismo ou inconsciência, co
meça a despejar o discurso previamente preparado,
como se nada tivesse acontecido:
Digníssima Alteza Imperial... nossos corações se
enchem de alegria ao receber tão nobre dignitário...
O absurdo da situação acalma o arquiduque, e
ele encerra a cerimônia agradecendo ao anfitrião pela
cordial acolhida.
Enquanto isso, o quadro de oficiais que acompa
nha Francisco Ferdinando discute a necessidade de
uma imediata mudança de planos. O general Potoi
rek implora ao arquiduque para que deixe a cidade
pelo caminho mais curto. O herdeiro do trono aus
trohúngaro é mais valente do que parece. Recusase
a interromper o roteiro programado:
Ridículo. É preciso mais do que a bomba de
Além da coragem, há um segredo conhecido ape
nas por seus auxiliares mais próximos. Francisco Ferdi
nando conta com uma proteção especial. Usa, sob a
túnica, um novo colete à prova de balas feito de seda
trançada e costurado em tiras oblíquas. Por excesso de
confiança, o arquiduque faz questão de atender ao al
moço na residência do governador e cumprir a visita
marcada ao museu. Ele pensa na segurança da esposa:
Sofia, não é necessário que venhas comigo. O
melhor é partires imediatamente.
Meu caro, se pensas que te livras de mim tão
facilmente, estás muito enganado responde a
duquesa, olhandoo com um misto de apreensão e ter
nura.
Para entender a resolução da duquesa, é preciso
conhecer sua situação diante da corte austríaca. O
imperador jamais aprovou o casamento. Queria a tra
dição que Francisco Ferdinando se casasse com uma
descendente da Casa dos Habsburgo ou de uma das
dinastias reinantes da Europa. Sofia não preenche
os requisitos necessários. A união é aceita, contudo
o casamento é morganático, especificando a condi
O rígido protocolo imperial não permitia que, nas
solenidades, ela andasse na carruagem ao lado do ar
quiduque. Como os dois se amavam profundamente,
ansiavam por esta viagem a Sarajevo, onde, longe da
corte e das vistas do imperador, poderiam aparecer
juntos. ...:.
:; Está certo. Se assim queres, assim será con
corda Francisco Ferdinando.
Os dois descem as escadarias da prefeitura e em
barcam no automóvel que os espera.
0 embarque,
em frente à prefeitura
Dimitri escuta o estrondo e o alvoroço provoca
as direções. Vê policiais discutindo e apontando para
a ponte Cumburja. Apesar de apreensivo, resolve es
perar antes de sair da ruela onde se posicionou, es
condido por uma pilha de barris de cerveja vazios.
Perde a noçáo do tempo. Finalmente, não consegue
mais conter sua curiosidade. Esconde a automática no
bolso e vai andando até a rua Franz Joseph para ten
tar descobrir o que houve. Deduz que um dos sete
homens da Narodna Odbrana atirou uma bomba, mas
não sabe qual o resultado. Apressa o passo em dire
ção ao cais Appel. Quando chega quase à esquina do
cais, bem em frente à Mercearia Schiller, chocase com
um rapaz que acaba de sair da mercearia comendo
um sanduíche. Reconheceo imediatamente. É Gavri
lo Princip. Fingindo surpresa, ele pergunta:
Gavrilo! Há quanto tempo! Que fazes por aqui?
Estou comendo um sanduíche.
Isso eu sei. Não me trates como criança.
Acho que agora não há mal em contar, já que
o atentado falhou responde Princip, de boca cheia.
Que atentado? pergunta Dimitri, aparen
tando ignorância.
Contra o filho do tirano, que ousa vir desfilar
pelas nossas ruas no dia da Batalha de Kosovo. Pena
que o canalha escapou.
Escapou como?
Cabrinovic. O idiota do Cabrinovic não seria capaz de
acertar num elefante deitado e dormindo.
Os elefantes não se deitam para dormir in
forma, distraído, Dimitri, lembrandose do circo.
Não interessa. O fato é que agora é impossível
¦atingilo. O herdeiro covarde já deve ter deixado a
Bósnia escondido embaixo das saias da mulher.
Dimo fica dividido entre a tristeza pelo insucesso
do ataque e a alegria de ainda ter a oportunidade de
matar o arquiduque:
Pode ser que ele continue na cidade diz,
esperançoso.
És um otimista retruca Princip.
Ficam em silêncio, enquanto Gavrilo termina de
comer seu sanduíche e pega no bolso um lenço
encardido para limpar as mãos. Quando ele entrea
bre o paletó para guardar de volta o lenço, Dimitri vê
uma pistola Browning presa ao seu cinto. Sem mais
aquela, Princip muda de assunto, perguntando por
um amigo comum que conhecem das discussões polí
ticas no Café Zeatna Student, "O Estudante Sedento":
Tens visto Milosevic?
Não.
Nem eu. Então, adeus.
Adeus.
Os dois se separam, caminhando em sentidos
opostos: Dimitri Boija Korozec volta à tocaia na ruela,
esperando que Francisco Ferdinando resolva cumprir
o resto da visita programada, e Gavrilo Princip vai de
encontro ao seu destino.
Xa certeza de que o austríaco jamais ousaria conti
nuar em Sarajevo. os outros assassinos também disper
samse no meio da multidão, que comenta o ocorrido.
Indiferente à opinião dos conspiradores, o arqui
duque recomeça o desfile com sua comitiva. Ha um pe
queno desvio no roteiro original. .Antes de ir ao museu,
Francisco Ferdinando pretende visitar as pessoas feridas
no atentado. Só que o responsável por essas variações de
itinerário é justamente o tenentecoronel Merizzi. Atin
gido por um fragmento da bomba, Merizzi também está
internado no Centralna Bolnica, hospital para onde o
arquiduque se dirige. Nenhum dos motoristas foi infor
mado das alterações de percurso. O cortejo percorre uma
vez mais a larga avenida do cais Appel em alta velocida
de, porém, em vez de seguir reto, contornando o rio
Miljacka até o hospital, cumpre o trajeto inalterado, en
trando pela rua Franz Joseph momentos depois que Di
mitri e Gavrilo se separaram. Ao perceber o erro, o gene
ral Potoirek grita para o chofer: "Não é este o caminho!
Tens que seguir pelo cais Appel!".
O motorista, assustado, pisa no freio para iniciar
a marcha à ré, e o veículo do arquiduque pára bem em
frente à esquina da Mercearia Schiller.
Dimitri não acredita ao ver o carro do tirano parado
quase ao seu lado. Daquela distância, não tem como errar.
Saca da cintura a BergmannBayard. Para aprimorar a
pontaria, apoia o braço estendido num dos barris larga
dos na ruela onde se instalou. Sente o coração na boca.
Sua exaltação só é comparável à que experimentava nos
braços de Mira Kosanovic. Prende a respiração e atira. A
culatra não se move. Atira novamente. Nada acontece.
Tem a impressão de que, por algum motivo, seu dedo di
latouse e não consegue pressionar o disparador da arma.
Examina a mão que segura a pistola e vê horrorizado o
que houve. Tamanha era sua vontade de assassinar o her
deiro que, na excitação da hora, por puro reflexo, ele
Tenta arrancálos molhando os dedos com saliva e girando
o objeto como se fosse um anel apertado. Inútil. A auto
mática está presa aos seus dedos. A anomalia que todos
pensavam ser a marca do assassino acaba por malograr
lhe a missão. No instante em que essa ironia lhe ocorre,
Dimo escuta dois disparos. Ergue a cabeça a tempo de ver
uma imagem que povoará seus pesadelos para sempre.
O arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Impé
rio AustroHúngaro, jaz ensangüentado sobre o corpo da
duquesa morta. De pé, a menos de dois metros do automó
vel, está Gavrilo Princip, a Browning fumegante na mão.

De nada valeu ao arquiduque o colete protetor.
O tiro de Gavrilo atingiulhe o pescoço, seccionando
a jugular. Foi impossível tirarlhe a túnica para estan
car o sangue que jorrava empapando a farda, porque,
para evitar dobras no uniforme, o vaidoso herdeiro
tinha o hábito de fazer costurar a túnica ao corpo,
por baixo dos botões dourados.
Apesar de arrasado pelo fracasso, Dimitri Borja Ko
rozec consegue escapar do local do crime enquanto a
multidão se lança sobre o jovem assassino. Lhxase da
pistola SchulerReform alojada na meia. Escondendo a
outra arma, que ainda está incrustada nos indicadores,
no bolso do paletó, ele segue pela rua Franz Joseph em
sentido contrário. Precisa voltar à casa de seus pais, na
Kralja Tomislava, não muito longe dali. Deve pegar a
mala já pronta e seguir para Belgrado, onde Dragutin,
o Touro, aguarda por ele. Não imagina qual será a reação
do coronel, porém não faltará ao encontro marcado.
Em casa, pensam que Dimitri é responsável pela
morte do arquiduque. Ele encontra a mãe angustiada
e o pai radiante. Desfazendo o equívoco, Dimo inver
te a situação: deixa a mãe radiante e o pai angustiado.
E por que falhaste? pergunta Ivan, entris
tecido.
Sem dizer vima palavra, Dimo tira do bolso a mão
com a arma.
Isabel dá um grito ao ver os dedos arroxeados do
filho presos na alça do gatilho. Seu instinto materno
sobrepõese àquela visão grotesca:
Vamos à cozinha. Com manteiga isso deve sair
dos teus dedos.
Usam manteiga, gordura e sabão, mas não conse
guem desprender a automática.
Os indicadores de Dimitri ficam ainda mais intu
mescidos. Isabel tem uma idéia:
Gelo. Tens que deixar a mão no gelo até que
os dedos desinchem.
Não posso, mãe. Tenho que partir imediata
mente. Só vim buscar minha valise e me despedir de
vocês.
Tens apenas dezessete anos! Xão te autorizo a
sair de casa para mais uma dessas loucuras! revolta
se Isabel.
Pois eu autorizo, Isabel. A vida dele não mais
nos pertence e sim à Mão Negra e, desde o berço, à
Poluskopzi! declara Ivan, sempre fiel à seita dos
Meio Castrados.
Sem dar tempo a mais discussões, Dimo entra rapi
damente no seu quarto e sai de lá carregando a maleta.
Beija mãe e pai com ternura e dirigese para a porta.
Espera! Não podes andar por aí com essa pis
tola pendurada preocupase Ivan.
Os três ficam em silêncio, pensando numa solu
e do desespero:
Mãe, quero que tu faças uma atadura enro
unto com a arma.
Estás louco?!
De forma alguma. Assim pensarão que se trata
de um ferimento qualquer. Vai servir, inclusive, para
afastar de mim qualquer suspeita. Sei que andam à
procura de outros estudantes envolvidos no atentado.
Ivan, com a mente obnubilada pela paixão que
nutre pelo filho, acha a idéia extraordinária. Muito a
contragosto, Isabel atende ao pedido do rapaz. Traz do
banheiro bandagens e chumaços de algodão. Com ha
bilidade, transforma punho e arma num único e imen
so curativo. Dimo despedese dos pais e segue para Bel
grado. Da janela, sua mãe acena num triste gesto de
adeus. Não sabe se tornará a vêlo. A última imagem
que guardará da despedida é a de seu filho acenando
de volta, braço estendido e a mão direita envolta no
que parece ser uma enorme luva de boxe branca.
¦ BOSNIA BELGRADO SEGUNDAFEIRA,
29 DE JUNHO DE 1914
BELGRADO AMANHECE abafada por um ne
voeiro vindo do rio Danúbio. Num presságio do
conflito que abalará o mundo, a neblina se estende como
uma mortalha cobrindo a Cidade Branca. Dimitri Bor
ja Korozec, roupa enxovalhada, e abatido derido à noi
te em claro, dirigese para o parque do antigo palácio
da princesa Ljubice. O palácio, uma relíquia em estilo
balcânico, fica próximo à fortaleza Kalemegdan, cons
truída pelos celtas no topo de uma colina em frente à
junção do rio Sava com o Danúbio. É lá que Dimo deve
encontrarse com o coronel Dragutm Dimitrijevic e re
ceber instruções. Está mais confuso do que habitual
mente. A um motorista de táxi curioso que pergunta
sobre as ataduras ele responde que fora atacado por
um leão no jardim zoológico. Uma freira que o vê tro
peçar ao saltar do veículo, notandolhe o cansaço no
rosto e o aparente desmazelo, tenta leválo para a Clíni
Pasterova, a fim de trocar seu gigan
tesco curativo. Dimo desvencilhase daquele ataque de
compaixão e cobre, em passos rápidos, a distância que
o separa da entrada do parque.
Percorrendo os jardins, ele avista finalmente o co
ronel sentado num banco, embaixo de uma árvore. O
Touro não está sozinho. Ao seu lado, de pernas cruza
das, segurando um guardachuva, está Milan Cigano
cedor de armas e explosivos para a Skola Atentatora.
Fora ele quem lhe dera a pequena SchulerReform e a
BergmannBayard que agora era uma extensão do seu
braço. O encontro é descrito em detalhes numa longa
carta de Ciganovic enviada de Bucareste. na Romênia,
em 29 de açrosto de 1914. à sua meiairmã Olga Krupa,
¦y no Xew Hospital for AVomen:
[...] De longe, o coronel fez um gesto para que ele se
aproximasse. Dimo gesticulou de volta com a mão es
tofada. Surpreendemonos com a excêntrica aparência
do rapaz. Dimitri parecia arrasado:
Falhei, coronel.
Dragutin levantouse e aplicoulhe uma violenta
bofetada:
Xunca uses esta palavra. Xossos homens nun
ca falham. Tu não conseguiste. mas Francisco Ferdi
nando está morto. E o que interessa. Olhando o pu
nho enrolado de Dimitri. o coronel perguntou: 0
que significa a atadura, feriste a mão?
Dimitri esclareceu envergonhado:
Não, coronel. Foi o que me fez fa... o que me
impediu de alvejar o arquiduque. Eu estava em posi
ção, com a arma apontada, e na hora do tiro, talvez pela
excitação do momento, enfiei meus dois indicadores
da mão direita no gatilho.
Céus! E tiveste que operar os dedos?
:¦¦ Não. A automática continua pendurada, oculta
pelas bandagens. Foi o único recurso que encontrei, já
que precisava vir a Belgrado de qualquer maneira. Não
foi uma saída engenhosa?
Senti que. por um segundo. Dragutin Dimitrijevic
duvidou da sanidade mental do jovem terrorista. Aca
bou por achar a solução criativa, o que me fez duvidar
da sanidade mental do coronel.
Dimitri Borja Korozec sentouse ao nosso lado e
narrou, com minúcias, o assassinato. 0 coronel deu
me a impressão de estar satisfeito. Notei que ele nutria
uma afeição especial por aquele jovem, quase menino.
Dimitri estava visivelmente perturbado. Perguntou so
bre as conseqüências do episódio. Foi então que pude
apreciar a capacidade de avaliação política do coro
nel. Há exatamente dois meses, naquele 29 de junho,
suas palavras foram proféticas. De olhos semicerrados,
como se estivesse em transe. Dragutin começou a falar
numa voz rouca e distante:
Agora, vai acontecer o que mais desejávamos.
0 imperador enviará um ultimato à Sérvia. Mesmo que
o ultimato seja respeitado, haverá guerra. Em razão das
alianças, em pouco tempo todos os países da Europa
serão envolvidos e veremos finalmente a destruição do
Império AustroHúngaro.
Ouvimos, estáticos, as palavras apocalípticas do
Touro. Depois de algum tempo, o jovem Dimo quebrou
o silêncio:
Mas, enquanto isso. o que eu faço?
0 coronel esbofeteouo de novo:
Como é pressurosa, a juventude! É certo que
eu e o major Tankosic seremos acusados de planejar o
assassinato. Provavelmente não ficarei vivo para ver a
realização do meu sonho. Quanto a ti. terás que apren
der a tomar decisões sozinho. Há uma conta no Schw
eizerischer Glücksgeldbank. em Zurique, em nome de
Ápis. Dei instruções por escrito para que tu possas sa
car e efetuar transferências usando a senha Nêmesis.
Espanteime ao ver a confiança que o Touro depo
sitava no jovem. Até então, somente eu e Tankosic tí
nhamos acesso ao código, mesmo assim sob um contro
le rígido de Dragutin. Eu usava o dinheiro de Zurique
para a compra de armas, e o major, para as despesas da
Skola Atentatora. Xenhum outro membro da Mão Ne
gra sabia da existência da Apis na Suíça. Seu gesto
seguinte assombroume ainda mais. Certificandose de
que ninguém passava pelos jardins, ele desabotoou a
calça do uniforme e retirou o cinto secreto que trazia
sempre junto ao corpo, repleto de moedas de ouro. En
tregou a Dimitri o cinturão de couro com fechadura de
aço galvanizado feito especialmente para ele por um
artesão de Montenegro. Abrindo a túnica, pegou o cor
dão com a chave e passouo pela cabeça do rapaz:
Toma. E uma espécie de
salvavidas que trago comigo ,
desde a fundação da nossa socie / I
dade secreta. São duzentas libras '' *
esterlinas de ouro. cunhadas em
1911 com a efígie do rei Jorge.
Deves trocálas apenas em caso
de extrema necessidade.
n . i~v ¦ Libra esterlina de ouro
Enquanto Dimo, com a mi , , , ",,
n cunhada em 1911 com
nha ajuda, colocava o cinturão a efígie do rei Jorge v
com certa dificuldade a mão com as bandagens li
mitavalhe os movimentos . Dragutin Dimitrijevic
sacou do bolso uma carteira e a guardou no paletó do
jovem:
.":. Acharás aí alguns dinares. mil francos france
ses, um passaporte em teu nome e uma passagem pelo
OrientExpress até Paris. "\ iajas hoje à noite mesmo.
Convém que te escondas enquanto as coisas se acal
mam. Assim que chegares. procura por Gérard Bouche
defeu. E um anarquista amigo que já sabe da tua ida e
te dará guarida. 0 endereço está junto à passagem.
Dimitri tentou retrucar:
Mas. coronel, se houver guerra, eu quero estar
na primeira linha de fogo!
Calate! gritou Dragutin. estapeandoo ou
tra vez. Tens coisas mais importantes a fazer. Xão
te treinei para que desperdices teus talentos em bata
lhas convencionais. Tua função é combater a tirania
em qualquer lugar, em qualquer país. Es o açoite da
Mão Negra!
Entendi, então, que o coronel Dragutin Dimitrije
vic. num momento de descontrole, acabara de modifi
car a missão da L nião ou Morte. Homem de bravura
incontestável, mais cedo ou mais tarde seria condena
do por suas ações. Escondendo os sentimentos que o
abalavam. Dragutin puxou da pasta de documentos uma
câmara:
Quero levar comigo uma lembrança dos dois.
Levantouse e. recuando três passos, tirou uma fo
tografia nossa, da qual te envio esta cópia. Pelo enqua
ramento,
)eras. como en
vidade do desequilíbrio emocional do coronel. Depoií
da foto, beijou Dimitri paternalmente na boca e orde
nou que ele se afastasse
dali, pois era perigoso ser
mos vistos juntos. Dimo
despediuse de nós. visivel
mente nervoso diante do
futuro incerto que o espe
rava. Antes de partir, virou
se para Dragutin:
Coronel, tamanha
é a confiança que o senhor
deposita em mim que nem
sei o que dizer.
Então não digas
nada retrucou o coronel,
desferindolhe um derra
deiro bofetão.
Dimitri com a mão Abracei Dimitri CO
ertlaixada
ao lado de Ciganovic movidamente. Num gesto
reflexo, ele estendeu a mão
enfaixada para Dragutin Dimitrijevic. Também sem pen
sar, o coronel apertou a atadura com força. A pressão
fez o gatilho disparar a arma encoberta pela ligadura.
Mal escutei o som abafado da automática. A bala
nove milímetros estraçalhou a cabeça de uma estátua
de Diana, a Caçadora. bem às nossas costas. Jamais
esquecerei o vulto de Dimitri Borja Korozec afastando
se trôpego pelo parque, balançando o braço com as ban
dagens fumegantes... •:''

1 M 1883, IMPRESSIONADO com os trens que vira
J nos Estados Unidos, Georges Xagemackers, filho
de um rico banqueiro belga de Liège e amigo do rei
Leopoldo, resolve criar a primeira linha européia
transcontinental. Seu entusiasmo contagia a família e
o próprio rei, que apoia o empreendimento. Nasce,
assim, a Compagnie Internationale des WagonsLits
et des Grands Express Européens. O novo trem per
corre mais de três mil quilômetros de estradas de fer
ro ligando Paris a Constantinopla, com paradas em
Estrasburgo, Karlsruhe, Munique, Viena, Budapeste,
Bucareste e Giurgiu, na fronteira molhada do rio
Danúbio entre a Romênia e a Bulgária. De lá, os pas
sageiros atravessam o rio numa balsa e seguem num
trem mais modesto até Varna, no mar Negro, onde
baldeiamse novamente para atingir Constantinopla.
Em 1914, o percurso de três dias já se tornara mais
confortável, com a abertura de novas linhas ligando
Budapeste a Constantinopla através de Belgrado e
Sofia. Os vagões são do mesmo estilo dos criados por
Mortimer Pullman, nos Estados Unidos. Dividemse
em carrosleitos, vagãorestaurante de excelente cozi
nha, wagonfumoirpara os cavalheiros, um vagão parti
cular para as damas, incluindo saletas com lavatório e
espelho, para que as senhoras possam recompor o
penteado e a maquiagem.
Cada compartimento é ricamente decorado em
estilo art nouveau, com tapetes persas, cortinas dra
peadas de veludo, lambris de mogno e poltronas esto
fadas em couro espanhol. A longa viagem atrai a elite
da sociedade européia, inclusive a realeza.
Vista de um
s que Dimitri Bor
ia viaeem a Paris.
Num passo apressado, evitando as ruas principais, Dimo
dirigese à estação ferroviária. O anoitecer torna mais
espessa a névoa que cobre a cidade. No caminho, para
disfarçar o orifício causado pelo tiro no falso curativo,
Dimitri enfia no buraco da bala um ramalhete de flores
do campo comprado a uma ambulante, o que dá ao ar
Na estação, os quiosques trazem edições vesperti
nas especiais com a história do assassinato do arqui
duque. Centenas de passageiros disputam os poucos
jornais restantes para ter o privilégio de ler sobre a
tragédia. As plataformas fervilham de pessoas agita
das, esbarrando umas nas outras por andarem com o
olhar fixo na notícia do atentado. De longe, o abrir e
fechar dos braços da multidão folheando as páginas
fazia lembrar uma revoada de borboletas brancas.
Dimitri finge interessarse pelo exemplar de um
cavalheiro de vastas suíças que caminha ao seu lado.
Ao perceber a intrusão, o homem dobra o diário, es
condendo a informação dos olhos curiosos daquele
abelhudo de atadura florida na mão.
Dimo sobe no trem e instalase na cabine particu
lar de primeira classe que o coronel reservara para ele.
Contempla, quase acuado, o recinto em que está. Xão
é o primeiro a intimidarse diante do luxo ostensivo.
Qualquer passageiro mais humilde que adentra os va
gões pela primeira vez. como as governantas e serviçais
que acompanham seus patrões milionários, experimen
ta a mesma sensação. Mais tarde, o rapaz contará a Bou
chedefeu, em Paris, a vergonha que sentiu ao viajar
cercado por tanto luxo. "O dinheiro gasto num único
vo durante vários meses." Dragutin Dimitrijevic sabe o
dentro daquele fausto sobre rodas.
O chefe da estação, num ritual que se repete há
vários anos, tira do bolso do colete o relógio, trila seu
apito dourado e o trem parte na hora marcada. O va
por da locomotiva envolve as pessoas que vieram se
despedir dos viajantes. O chefe da estação observa
satisfeito o comboio que se afasta lentamente de Bel
grado, contornando a gare como uma imensa serpen
te parda e dourada rastejando pelos dormentes. Co
meça mais uma viagem do legendário OrientExpress.
REP.TCMgCA
O Praga
PARIS ESTRASBURGO SALZBURGO ~X
(tm)"Wr" ¦, O ÁUSTB" hungriaX
FRANÇA Zurique ESLOTÉNl*
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^^ençgbo SOFIA q
'o,, """:' y*CEDÕNiA . "" "¦ ¦ ' Bursa
Linha do OrientExpress
percorrida por Dimitri a partir de Belgrado
No cais de embarque da Hauptbahnhof, em Mu
nique, localizada perto da Karlsplatz, uma mulher es
belta, toda vestida de negro, chapéu emplumado como
o de um dragão da cavalaria, aguarda, impaciente, a
chegada do trem. Ela sabe que o OrientExpress saiu
de Salzburgo no horário previsto. O véu de tule que
esconde seu rosto acrescentalhe um clima de misté
rio. O insólito da cena é reforçado pelo anão indiano
de turbante que carrega sua bagagem.
Apoiada no diminuto oriental, ela se estica na pon
ta dos pés, olhando em direção ao horizonte à procura
da fumaça que indicaria a aproximação da locomotiva.
O nome da mulher é Margaretha Geertruida Zel
le Mac Leod, mais conhecida pelo nome de Mata Hari.
O motivo do inútil disfarce é simples: Mata Hari tenta
viajar incógnita para Paris, a fim de encontrar um an
tigo affaire, o general francês AdolphePierre Messi
my. Não quer despertar as suspeitas do tenente Alfred
Kiepert, outro examante, ligado ao serviço de espio
nagem alemão, com quem ainda tem relações even
tuais. Kiepert, homem de posses, já lhe havia forneci
do vultosas quantias, em diversas ocasiões, para que
ela servisse como agente ocasional. >~~*•"* J
suas turnês pela Europa para usála como elemento
de ligação. Desde que a dançarina voltou a Berlim,
ele a mantém sob rigorosa vigilância.
Mata Hari hospedarase no Hotel Cumberland.
em fevereiro, para se apresentar no Teatro Metrópo
le, com o espetáculo Der Millionendieb. A opereta, po
rém, só estreará em setembro, e a dançarinajá esgota
ra quase todo o dinheiro conseguido com a venda da
mansão em Xeuilly, dos cavalos e dos móveis.
Mata Hari não aparenta sua idade, mas nem o cor
po belo e rijo nem o rosto sem rugas evitam a insegu
rança de uma bailarina que se apresenta nua no palco
aos trinta e oito anos. Num impulso, resolveu fazer essa
viagem secreta. Pretextando uma forte gripe, ela in
terrompeu os ensaios por alguns dias, arrumou rapi
damente duas das suas quarenta e sete malas Louis
Vuitton e veio a Munique aguardar a conexão do Orient
Express para Paris. Sua intuição lhe diz que o assas
sinato do dia 28 em Sarajevo pode, de alguma forma,
vir a melhorar suas finanças. Messimv é ministro da
Guerra. Muito em breve, é possível que os franceses se
interessem por notícias do estadomaior alemão. "E vice
rá no agente duplo mais famoso da Grande Guerra.
A rida tempestuosa de Margaretha Geertruida
Zelle Mac Leod começa na Holanda, em Leeuwarden,
onde ela nasceu em 1876. Aos dezenove anos, seus
dotes de beleza não passam despercebidos ao capitão
Rudolph Mac Leod, um holandês de origem escoce
sa, vinte anos mais velho do que ela. Mac Leod orgu
lhase de sua linhagem. É descendente de Olaf, o Ver
melho, rei de Man. Apesar da diferença de idade, eles
logo se casam e mudamse para Haia. Em 1897, Mac
Leod é transferido para Java. Xo dia 1Q de maio a fa
mília embarca rumo às ilhas holandesas a bordo do SS
Prinses Amalia.
Logo tornase óbvio que a índole esfuziante da
moça não se ajusta à vida pacata da ilha. Acentuase a
incompatibilidade de temperamentos entre os dois.
Após cinco anos, já separada do capitão, Marga
retha retorna para a casa de seu tio, em Ximègue, na
Holanda. Pouco depois faz sua primeira e triunfante
exibição em Paris, a partir da qual passaria a ser cobi
çada em todo o mundo.
De Java, trouxe Motilah, o anão hindu que sem
pre a acompanha, o segredo das danças sensuais da
ilha e o nome: Olho da Manhã. Emjavanês, MataHari.
O longo silvo da locomotiva avisa aos passageiros
na plataforma que o OrientExpress está entrando na
estação.
Mata Hari

¦ ORIENTEXPRESS DE MUNIQUE A PARIS
DECIDIDO A NAO SAIR do trem antes de che
gar a Paris, Dimitri Borja Korozec observa os no
vos passageiros dajanela do seu compartimento. Sua
atenção é despertada pela invulgar figura de mulher
que embarca escoltada pela liliputiana personagem.
Os dois sobem para o vagão. Primeiro, a dama de
negro e depois, com certa dificuldade, o anão. Ele é
tão pequeno que não alcança o primeiro estribo.
Como solução, deita as Louis Vuitton no chão e usa
as malas enfeitadas de letras como um degrau. Es
fregando as mãozinhas, ele sorri contente para sua
ama e senhora, alegre com a saída encontrada para
subir ao carro. Menos satisfeita fica a mulher, pois é
obrigada a descer novamente ao cais para pegar a
bagagem.
Apesar da sua resolução de permanecer na cabine,
Dimitri não resiste ao impulso de ver mais de perto seus
novos companheiros de viagem. Abre a porta e precipi
tase pelo apertado passadiço no exato instante em que
os dois se aproximam em sentido oposto. Como conse
qüência, ele tropeça no anão e cai por cima de Mata
Hari. No tombo, o véu descobrelhe a face, e Dimo fica
mesmerizado pelo belo e enigmático rosto da dançari
na. Ele estica as mãos balbuciando desculpas e a ajuda a
levantarse. Mata Hari é dominada pelo ar desprotegido
o buquê, ela diz, pegando o ramalhete:
Obrigada. Jamais recebi flores de maneira tão
original. ¦. ¦
E eu nunca vi mulher mais bela em toda a mi
nha vida declara Dimitri, esquecendose de sua
paixão por Mira Kosanovic.
Os dois fitamse intensamente e quedamse, es
quecidos do tempo, corpos colados pela estreiteza do
corredor. O momento mágico é quebrado por uma
voz cavernosa, de baixo profundo. Dimitri espantase
ao notar que aquele som cavo vem da garganta do
anão. Motilah aponta, fazendo uma reverência.
Esta é uma das cabines, begum ele informa,
usando o respeitoso título para ama ou senhora, em
urdu.
Fantástico, bem ao lado da minha! avisa
Dimo, abrindo a porta.
Se a begum preferir, pode usar a outra, no co
meço do carro. São iguais. Oferecilhe esta porque,
no meio do vagão, sentese menos o sacolejar do trem.
Não, não! Fico aqui mesmo diz Mata Hari,
lançando um olhar travesso para Dimitri.
m quiser.
: Dimo aproveita a ocasião:
Que descortesia, ainda não me apresentei: Di
mitri Borja Korozec anuncia, beijando a mão da
moça.
Mata Hari exclama ela, esquecendo seu dis
farce.
Pela ausência de reação, Margaretha percebe que
o jovem nunca ouvira falar dela. Olhando para baixo,
a bailarina introduz o homúnculo:
Este é Motilah, meu fiel acompanhante, secre
tário, chofer, mordomo, guardacostas, enfim, meu
Motilah cumprimenta com um aceno de cabeça,
juntando as mãos em estilo indiano.
Dimitri avalia o homenzinho com indiferença:
Guardacostas?
Convém não subestimálo. Muitos homens com
o triplo do tamanho dele já pagaram caro por isso.
Motilah é versado nas artes marciais hindus tão bem
ilustradas na dança kathakali, aliás, uma das minhas
favoritas. Não sei se sabe, mas os dançarinos de ka
thakali têm um controle tão absoluto dos seus múscu
los faciais que conseguem rir com um dos lados do
rosto e chorar com o outro.
Dimitri está subjugado pelo jorro de erudição
inútil:
A senhorita é dançarina?!
Bailarina exótica.
Que coincidência! Minha mãe é contorcionista.
Nunca ouviu falar de mim?
Acabo de abandonar o seminário mente
Dimitri. Vou passar uns tempos em Paris, na casa
de um amigo dominicano, para tomar contato com o
mundo exterior.
Ótimo! Também estou indo para lá. Vamos
aproveitar a viagem para nos conhecermos melhor
diz a vedete, apertandolhe o braço cheia de segundas
intenções.
Encabulado, Dimitri procura mudar de assunto.
Olhando para o anão ele pergunta: ; , • ;
Sendo dessa altura, como é possível que o pe
quenino seja também seu motorista?
Ele recolhe o banco da frente e guia em pé.
Dimitri não sabe se deve levar a sério a esdrúxula
informação. Mata Hari se despede prometendo en
contrálo mais tarde: s ¦¦..,.:
Dimo volta para o seu compartimento, ainda ator
doado pelo encontro.
Um leve sacolejar indica que o trem está deixan
do Munique. Repetese o ritual dos apitos. Aos pou
cos, a locomotiva ganha velocidade, imprimindo nos
trilhos o monótono ruído que acompanhará todo o
percurso.
ÍOil

Na sua cabine, Margaretha Mac Leod, nom degiier
re, Mata Hari, preparase para cativar o jovem impe
tuoso com ares de poeta, seu mais recente companhei
ro de viagem. Ela conjetura a idade de Dimitri. "Não
pode ter mais que dezoito", pressupõe, encantada com
a perspectiva de seduzir o rapaz. A viagem até Paris é
longa, e mais longas ainda são as noites a bordo do trem.
Nua, ela se examina no exíguo espelho vene
ziano do reduzido banheiro. Aprova a imagem que o
espelho lhe oferece. A face lisa, os seios firmes de ma
milos rosados, a pele muito branca, os lábios carnu
dos, enfim, toda a aura de sensualidade que emana
do seu corpo, reafirmam a opinião que tem de si mes
ma: ninguém lhe daria mais de vinte e cinco anos.
Abrindo o nécessaire, inicia, quase mecanicamente, o
ritual da toalete. Primeiro, usando uma dezena de pe
quenas toalhas úmidas embebidas em lavanda, ela es
frega, com a ponta dos dedos, o rosto, as axilas, o pú
bis e cada reentrância do corpo. Depois, com a tampa
do frasco, fricciona perfume no pescoço, nos lóbulos
das orelhas e nos joelhos. Maquia apenas os olhos e a
boca. Volta a vestirse. Está pronta para exercer uma
vez mais a única forma de arte em que é insuperável:
a arte da sedução.
Borja Korozec espera
Xa cabine ao lado, E
a hora de ser seduzido.

Um passageiro sentese totalmente à vontade no
estreito espaço do vagãoleito: o anão indiano Motilah
Bakash. Para ele. o compartimento ganha dimensões
palacianas. A não ser pela altura da pia no banheiro,
tudo parece ter sido feito de encomenda para as suas
medidas. Ele sentase, de tanga e turbante, em posição
de lótus. Olhos semicerrados, Motilah repete sem ces
sar o mantra secreto dos adoradores de Kali, a deusa
negra da destruição. Segundo eles, o universo nasceu
do sêmen infinito de Shiva, despejado em sua vagina
cósmica, gerando todo o universo. Motilah Bakash tem
na sua frente, cercada de incenso, uma estatueta de
Kali. É terrível a imagem da deusa. Seu rosto desfigura
do está coberto de sangue. A boca se abre num esgar
monstruoso, repulsivo, mostrando a língua protuberan
te e os dentes pontiagudos. Três das suas quatro mãos
empunham uma espada, um escudo e um laço de en
forcar. A quarta mão aparece estendida num gesto in
terpretado como uma bênção pelos seus seguidores.
Kali revelase nua, ostentando um cinturão de crânios
humanos e uma guirlanda de cabeças decepadas.
Aos poucos, Motilah entra em transe. Atinge o
satori, a iluminação interior que leva ao nirvana. Sen
tese com dois metros de altura. Não é mais o anão
factótum da dançarina, mas um gigante onipotente.
Ninguém sabe que Motilah Bakash é remanescente
da seita Thug. A temível fraternidade de assassinos fora
exterminada na índia pelos ingleses em 1837, mas os
pais de Bakash conseguiram fugir para a ilha de Java. O
homenzinho havia sido educado segundo a tradição
da irmandade, aprendendo o culto Yamakara, o tan
trismo da mão esquerda, em que os adeptos alcançam
a plenitude por meio de práticas sexuais. Várias vezes,
os iniciados chegam ao orgasmo, sem se tocar, pela for
ça da meditação. Estudou ramasi, o jargão Thug, e os
sinais que seus membros usam para se identificar. Ago
ra esses ensinamentos parecem inúteis, já que Motilah
¦_¦¦¦.. Motilah não despreza, todavia, a doutrina que o
transformou num mestre do estrangulamento. Sua
arma, de aparência inofensiva, é o roomal, echarpe
sagrada que traz sempre em volta do pescoço. Entre
os pequeninos dedos, o suave lenço de seda se transfi
gura num laço fatal. Em seus delírios causados pelo
haxixe, Motilah se vê como a Sistrurus miliarus, a silen
te cascavelpigméia de apenas trinta centímetros de
comprimento, porém de peçonha tão mortífera quan
to as outras.
Os admiradores que se aproximam de Mata Hari
não sabem o risco que correm, pois o anão nutre, em
segredo, uma paixão obsessiva pela bailarina. Quando
o minúsculo asiático julga que, de alguma maneira, o
pretendente pode ser nefasto à sua ama, ele elimina
silenciosamente o infausto galanteador. Um rastro de
crimes insolúveis deixado pelas cidades onde a vede
te se apresenta comprova a eficiência de Bakash.
Infelizmente, Dimitri Borja Korozec não caiu nas
a o momento
oportuno para livrarse daquele intruso. Por isso ele
invoca a inspiração de Kali, a deusa dos assassinos. A
cadência do mantra repetido mesclase ao ranger da
locomotiva.
Desconhecendo o perigo que corre, Dimo, com
a ansiedade da adolescência, procura prepararse para
encontrar aquela mulher misteriosa. Xunca ouvira
falar em Mata Hari, mas intui que se trata de alguma
celebridade tentando viajar sem ser reconhecida. Or
dena ao camareiro que lhe traga óleo, um balde com
gelo e sabonete. O criado o atende sem pestanejar,
acostumado que está a pedidos bem mais exóticos no
OrientExpress. Dimitri desenrola o falso curativo e
permanece com a mão e a automática dentro do reci
piente. Uma dormência sobelhe pelo braço. Não sente
mais os dedos arroxeados pelo gelo. mas nota que os
dois indicadores presos ao gatilho começam a desin
char. Pega o sabonete, aplica sobre eles uma grossa ca
mada de espuma e massageia o local com óleo. Depois,
encaixa a arma na maçaneta da entrada e, apoiando
o pé na porta, usa a perna como alavanca, empur
randose com força para trás. Como resultado, arran
ca a maçaneta e estatelase no chão do carro. Conse
gue, no entanto, realizar seu objetivo. Finalmente a
BergmannBayard desprendese dos dedos. Dimo
massageia a mão até restaurar completamente a cir
culação e a seguir lança pelajanela a automática. Não
quer correr riscos ao atravessar a severa fronteira fran
cesa. Jura para si mesmo que jamais se atrapalhará de
novo por causa do indicador suplementar. "Nem que
tenha de amputálo", pensa, drasticamente. Verifica
se o cinturão com as moedas continua bem fixo, apal
pa a chave por cima da camisa e arruma as roupas em
desalinho.
Um criado do vagãorestaurante passa pelo cor
redor anunciando, em francês, a última chamada:
"Dernier service! Dernier service!".
Dimitri confere mais uma vez sua aparência e se
gue, exultante, para o encontro marcado.
\>; Dimo encontra Mata Hari e Motilah Bakash já
instalados numa mesa de canto do luxuoso carro.
Impressionase com a louça Limoges, os cristais Bac
carat e as finas toalhas de linho, todos com monogra
Xo restaurante, os comensais, apropriadamente
vestidos a rigor, discutem os dramáticos acontecimen
tos, excitados pela perspectiva de um conflito:
Ouvi dizer que existem altos oficiais sérvios
envolvidos!
Pobre Sofia! Que morte horrível, foi alvejada
no abdômen!
Parece que as últimas palavras do arquiduque
foram: "Sofia, meu amor! Não morras! Tens de viver
para cuidar dos nossos filhos!".
Será que todos os assassinos foram presos?
Numa das mesas, um cavalheiro de vastos bigo
des em uniforme de gala coberto de medalhas é o cen
tro das atenções. Tratase do general português Acá
cio Galhardo, a bordo do OrientExpress em \iagem
de férias. O general passou para a reserva há muitos
anos, porém a farda emprestalhe um indiscutível aval
¦gunta:
Então, general? Haverá guerra?
O general Acácio faz uma pausa dramática e res
ponde com ar grave, para perplexidade geral:
Se calhar, haverá. Caso não, veremos.
Em outras circunstâncias, Dimitri se intromete
ria calorosamente em discussões como aquela. Xo
entanto, com o entusiasmo dos jovens, nesse instante
ele só pensa em Mata Hari. Esquece a luta de classes
e que é um dos principais implicados na conspira
ção. Quer aproveitar a viagem com a extraordinária
mulher que o acaso colocou no mesmo trem. Ele se
aproxima da mesa, sorrindo embevecido. Tendo
Motilah a seu lado, Mata Hari faz sinal para que Dimo
se instale em frente a ela. Estão bebericando um kir
royal, e a dançarina pede ao garçom que traga um
para Dimitri.
O jantar, regado a champanhe Cristal 1910, a fa
vorita do tzar, começa por uma Salade Aida, uma es
pecialidade do chef. Em uma terrina com folhas de
chicória, filetes de pimentão verde formam uma es
pécie de cúpula. Ao redor da cúpula, intercalamse
gomos de clara de ovo cozido e tiras de tomate e de
fundos de alcachofra. As gemas picadas do ovo com
plementam a elegância da receita. O maitred'hôtel
mistura, diante dos passageiros, o molho feito com
azeite, vinagre, mostarda, sal e pimentadoreino, e o
deita na salada. Mata Hari, Dimitri e até o ascético
anão devoram o primeiro prato e terminam a primei
ra garrafa de champanhe. Após a salada, é oferecido
rituais do vagãorestaurante. E mais champanhe. De
pois é a vez do consome apresentado numa sopeira
de porcelana inglesa e derramado sobre pão tostado
na manteiga. E mais champanhe. A pièce de résistan
ce é o RoastBeef avec de Ia Moutarde à Ia Menthe.
Vários gourmets embarcavam no trem apenas para se
deliciar com o sabor inigualável que a mostarda de
menta emprestava à carne. Para acompanhar a igua
ria, eles pedem outra Cristal. Não há como recusar a
sobremesa, um levíssimo Creme de Thé, o pudim de
chá que é servido com purê de frutas silvestres. Só
então é hora do café turco e dos licores, porém os três
jWfn i~i m o n m fci~ijf rjfTtf^ffii'. ^j*^^
Quando o trem deixa a estação de Karlsruhe, os
três ainda estão no vagãorestaurante, bastante em
briagados. Amolecido, Motilah Bakash, que tem o cos
tume mórbido de colecionar fotografias de suas ví
timas, quedase silencioso, planejando o ataque. Sua
resistência ao vinho é proporcional ao seu tamanho. Sen
te as pálpebras pesadas, em meio a visões macabras,
enevoadas pelo álcool, nas quais a carantonha negra
da deusa Kali fundese no alvo rosto de Mata Hari.
Dimitri e a dançarina, muito íntimos, entabulam
uma animada conversa. Alguns trechos foram regis
trados cuidadosamente por Tartarin Charboneau, um
garçom com veleidades literárias, o único a reconhe
cer a artista. Posteriormente, Charboneau tentou ven
der as anotações à imprensa, mas seus apontamentos
Foto de Dimitri e Mata Hari tirada
por Motilah bêbado.
Ponto de vista do anão
jamais ganharam credibilidade, nem mesmo junto à
sua família e aos colegas do trem. Segue o trecho do
diáloeo ouvido oor Tartarin:
MATA hari: ...Dimitri Borja Korozec. Que estranho
nome tens! 0 que faz este Borgia. no meio de dois no
mes eslavos? E italiano?
dimitri: Não é Borgia. é Borja. Minha mãe é brasi
leira. Naturalmente, nem sabes onde fica o Brasil.
mata hari {sorrindo): Aí é que te enganas, meu caro
Dimitri. Um dos meus admiradores mais fervorosos é
um brasileiro que conheci ano passado em Paris. José
do Patrocínio Filho. Sabes quem é?
DIMITRI (espantado): Não sabia que José do Patro
cínio tinha um filho. *'r'' ''"¦': ¦¦'.¦'.
MATA hari: Pois tem, e adora contar histórias do
pai. (curiosa) Então já tinhas ouvido falar do negro
que ajudou a derrubar a escravatura no país da tua
0 jovem encaroua fixamente e fez uma declara
ção que atribuí aos vapores do vinho, pois contrastava
com a alvura da sua pele.
DIMITRI: Minha mãe deve a ele sua liberdade. Eu
sou neto de uma escrava africana.
Mata Han deume a impressão de estar tão incré
dula quanto eu. porém preferiu não entrar em detalhes.
MATA HARi: Pois bem. o filho desse libertador é um
dos homens mais divertidos que encontrei. É jornalis
ta, escritor e adido do consulado do Brasil.
DIMITRI: Entendo que tenhas ficado entusiasmada.
Além de tudo. ele deve ter herdado a beleza altaneira
MATA hari: Ao contrário! Tem um charme e uma
imaginação fora do comum, mas é mirrado e baixinho.
Pouco maior que Motilah.
0 anão bêbado das Mil e uma noites que os
acompanhava deixou escapar um leve grunhido. pro
vavelmente irritado com a comparação.
mata HARI: Às vezes, aproveitava a pele escura para
passar por um príncipe hindu. Um dia me contou que,
por causa de uma mulher, havia se batido secretamen
te em duelo, no Bois de Boulogne. com o rei Alberto da
Bélgica. Confesso que sucumbi aos encantos latinos
desse brasileiro cheio de fantasias... Mas e tu? Como
foi que vieste parar na Europa?
DIMITRI: Nunca estive na terra da minha mãe. Nas
ci em Banja Luka. na Bósnia. Quem sabe? Pode ser
que um dia o destino me leve ao Brasil.
Por alguns instantes, o jovem pareceume perdi
do nos próprios pensamentos. Então perguntou:
DIMITRI: Como foi que o conheceste?
MATA HARi: Quem? José? Foi durante a primavera.
Eu estrelava a comédia musical Le minarei, no teatro
de Ia Renaissance, com enorme sucesso. Xotei logo um
homenzinho pardo instalado toda noite na primeira fila
e que me jogava rosas no final da peça. Troquei de espe
táculo no verão. Passei para o FoliesBergère. apresen
tando um número de danças espanholas que conquis
tou crítica e público. Percebi que o mesmo homenzinho
me havia acompanhado desde a estréia. Finalmente,
na última noite no Folies, ele foi ao meu camarim e me
convidou para cear. Não pude recusar. Daí nasceu nos
sa amizade. Até hoje continuamos bons amigos.
0 rapaz chamado Dimitri. quase um menino, che
gouse mais para perto dela.
DIMITRI: Espero conhecêlo algum dia.
mata hari: Se ficares por uns tempos em Paris, fre
qüentando os cafés, certamente o encontrarás.
Foi quando Mata Hari me observou de soslaio e
compreendeu que eu estava escutando a conversa. Ela
levantouse, puxando o jovem pela mão.
MATA hari: Está ficando tarde. É melhor voltarmos
para as nossas cabines.
Nada mais ouvi. Ambos saíram, seguidos pelo trô
Ao deixar o vagãorestaurante, Dimitri Borja Ko
rozec começa a sentir mais intensamente o efeito das
bebidas. Não está acostumado a ingerir tanta quanti
dade de álcool. Ele se apoia na bailarina, passando o
braço pela sua cintura. O trio avança pelo corredor:
Dimo abraçado a Mata Hari, e Motilah Bakash mais
atrás, esgueirandose junto às janelas. Ele espera ape
nas que a dançarina se recolha ao leito para seguir
Dimitn e estrangulalo silenciosamente em seu com
partimento. Kali, a devoradora, terá mais uma vez a
fome saciada. Os acontecimentos seguintes mostram
a Motilah que seus planos terão de ser modificados.
Quando chegam à cabine de Mata Hari, ela puxa o
jovem para dentro e fecha a porta. Bakash está per
plexo. Jamais vira a begum entregarse a alguém no
primeiro encontro. Não importa. Ele sabe esperar. A
paciência é tributo dos Thugs. Ele oculta seu peque
no corpo nas sombras do carro e entra em contem
plação, mãos cruzadas sobre o roomal enrodilhado em
seu pescoço. Em poucos minutos dorme em pé, rígi
do como um blackamoor.
Na cabine, Mata Hari não perde tempo. Suga os
lábios de Dimitri num longo beijo. Sua língua expe
riente explora a boca do jovem. As mãos, treinadas
nas formas mais requintadas de caricias, percorrem
lhe o corpo trêmulo de desejo. Cola suas coxas vigo
rosas de dançarina ao membro túrgido do rapaz. Ele
quase lhe rasga o vestido, na ânsia de lhe afagar os
seios firmes. Molha os dedos na própria saliva e acari
cialhe levemente os mamilos. Ela quase desmaia de
prazer. Havia anos não desfrutava de um amante tão
jovem. Deitase no beliche arrancando o resto de suas
roupas enquanto Dimitri joga longe o casaco e desa
botoa, devagar, a camisa. Ele lambe com o olhar aque
la mulher nua, deslumbrante, que se oferece. Seus
olhos demoramse sobre o púbis, e a cabeça de Dimo
gira, num torvelinho. São duas, quatro, oito Mata Haris
que se entregam, num caleidoscópio erótico que ele
não consegue deter. Talvez não devesse ter bebido tan
to. Súbito, lhe sobe do estômago uma náusea irresistí
vel. Para não quebrar a atmosfera de sensualidade que
os envolve, ele suplica:
Meu amor, espera! Não te mexas. Vou ao toa
lete me purificar para ti.
Não! Quero te cheirar todo, assim, como es
tás! Farejar o teu membro como uma cadela no cio!
Tarde demais. Dimo já saiu da cabine e parte
como um raio pelo corredor à procura do banheiro.
Justiça seja feita. O fato que ocorre a seguir se
deve muito mais ao enjôo inadiável causado pela em
briaguez do que à contumaz falta de jeito de Dimitri.
As salas de banho dos vagões do OrientExpress ficam
nas extremidades dos carros. Ele poderia ter se alivia
do na pequena pia da cabine, mas, como seu compar
timento é contíguo ao de Mata Hari, não quer que a
artista sofra os rumores do seu engulho. Dominado
pela náusea, Dimo corre até o sanitário e abre a por
ta. Sentado impassível sobre o vaso. farda impecável e
calças arriadas, está o general Acácio Galhardo, que
se esquecera de puxar o trinco. O velho soldado lança
um brado angustiado de batalha:
Ocupado! Ocupado!
É inútil. Dimitri já não controla seus engulhos.
Não vê que está ocupado?! continua a ber
rar, alucinado, o general. : ¦¦,.
Perdão, general, perdão! replica Dimo, in
capaz de controlar as golfadas que jorram sobre as
medalhas reluzentes.
Finalmente aliviado do enjôo, ele fecha a porta
atrás de si e dispara em direção à sua cabine. Quer
refrescarse antes de reencontrar Mata Hari. Ao lon
ge, ainda escuta os gritos lancinantes do pobre militar
em vilegiatura:
Mas eu avisei que estava ocupado!...

Motilah Bakash desperta com o alvoroço. Sem
entender o que está acontecendo, vê Dimitri voltar
apressado ao seu compartimento. Retirando a echar
pe do pescoço, Motilah aproximase sem fazer ruído.
Pela porta entreaberta. observa os movimentos de
Dimitri. Agarra entre os dedos o lenço de seda, pre
Na cabine, Dimo debruçase na janela, deixando o
ar fresco da noite revigorarlhe o físico. Sentese melhor.
Lava o rosto e gargareja com água e algumas gotas de
loção dentifrícia do dr. Pinot. Em segundos estará jun
to a Mata Hari. O pensamento excitao novamente.
Quando vai sair para retomar aos braços da amada, ele
tropeça nos cordões desatados da sua botina. Sem per
der tempo, ajoelhase para amarrar os cadarços sol
tos. Precisamente nesse momento, Motilah Bakash to
ma impulso e pula sobre ele para enrolar o laço mortal
da echarpe sagrada em seu pescoço. A cena seguinte
poderia ter sido coreografada por um dos saltimban
cos do antigo circo de Isabel. Como Motilah não pre
vira o repentino abaixar de Dimitri, passa direto por so
bre as costas do rapaz e some pela janela aberta. Não
tendo consciência de que quase fora estrangulado, o jo
vem pensa que o salto acrobático de Bakash devese à
embriaguez e corre à janela para ver se ainda é possí
vel ajudálo. Dimo pensa estar sofrendo uma alucina
ção, pois Motilah Bakash está do lado de fora do trem,
voando ao lado do vagão. Olhando melhor, Dimo nota
que uma das pontas da echarpe do indiano engan
chouse numa saliência do carro. Motilah segurase
firmemente à outra ponta. Dimitri inclinase e come
ça a puxálo para dentro. Bakash demonstra sinais de
fraqueza:
Não esmoreças! Estás quase fora de perigo!
grita Dimo, recolhendo aos poucos o lenço de seda.
Curvase mais ainda, arriscando a própria vida, e
pega as mãos crispadas de Motilah. Quando acha que
vai conseguir salválo, seus dedos escorregam nas pal
mas úmidas de suor do pequeno assassino. As últimas
palavras que escuta do anão imprimemse para sem
pre em sua memória:
Vou cair.
Dimitri Borja Korozec contempla, silenciosamen
te, a exígua silhueta de Motilah Bakash perderse nas
trevas, sem saber que quase se transformara em mais
uma vítima do último dos Thugs.
Em estado de choque, ele não tem idéia de quan
to tempo permanece olhando pela janela. O apito do
trem o traz de volta à realidade. O OrientExpress aca
ba de entrar na estação de Estrasburçro.
Outrora francesa, Estrasburgo é agora a última ci
dade alemã antes da fronteira. Neste início de madru
gada, o cais de embarque, iluminado pelos lampiões,
mostra um movimento inusitado para aquele horário.
Um jovem tenente hussardo e quatro soldados do
Exército alemão conversam com o chefe da gare.
Dimitri entra, esbaforido, na cabine de Mata Hari.
Não sabe como dar à vedete a notícia do desapareci
mento de Motilah. Prefere aguardar um momento
mais oportuno. Mata Hari, cansada de esperar pelo
regresso do novo amante, tornou a se vestir. Está visi
velmente aborrecida:
Pensei que tivesses caído do trem.
Eu?! responde Dimitri, dando uma garga
lhada exagerada.
¦ Aproximase buscando um beijo. Mata Hari o afas
ta, impaciente:
Agora não.
r Por quê?
v É melhor esperar que o trem atravesse a frontei
ra. Não vejo a hora de entrarmos em território francês.
A conversa é interrompida por batidas na porta.
Dimitri afastase dela, sobressaltado. Imagina que já
descobriram o acidente com o anão indiano.
Quem é?
A porta se abre e o tenente que estava na plata
forma entra, dirigindose a Mata Hari:
j e Madame Margaretha Mac Leod?
Acho que está havendo um equívoco, meu caro.
Nem conheço essa senhora.
Perdão, madame, mas temos ordens expressas
do tenente Alfred Kiepert para convidála a sair do
trem e acompanhála de volta a Berlim.
Já lhe disse que não sou eu! insiste ela, ner
vosa diante da perspectiva de ser forçada a interrom
per a viagem.
O jovem hussardo vacila, em dúsida pelo impasse
criado: •¦ ¦ •."'¦"..¦¦:^;>:
Mas temos a informação segura de que mada
me é. de fato, Margaretha Mac Leod.
Dimitri se intromete, querendo ajudar:
Posso lhe garantir, tenente, que esta senhora não
se chama Margaretha Mac Leod. Seu nome é Mata Hari!
ele diz, enchendo a boca e deitando tudo a perder.
O tenente virase com elegância para a adversária
vencida:
Vamos, madame?
Mata Hari, resignada, preparase para deixar o
trem:
Preciso de alguns minutos para chamar meu
secretário. Por onde andará Motilah?
Vi quando ele desceu do vagão. Deve estar lá
embaixo, em algum lugar balbucia Dimitri, pro
nunciando uma meia verdade.
Não temos muito tempo, madame. A conexão
de volta nos aguarda no outro cais apressa o hus
sardo.
Ah, os serviçais. Nunca estão por perto quan
do precisamos deles! reclama Margaretha. Di
mitri. se o vires, diga que ele retorne imediatamente a
Berlim. Não posso esperar por ele.
Os soldados a ajudam a fechar as malas e saem car
regando as bagagens. Mata Hari beija Dimo nos lábios e
despedese dele com um tapinha afetuoso no rosto:
Quel dommage... quem sabe, algum dia, nossos
caminhos não se cruzam novamente?
Aguardo, ansioso, por esse reencontro afir
ma Dimitri, beijandolhe a mão, ainda arrasado pela
gafe cometida.
Ela virase para o tenente: =
Vejo que subestimei a competência do serviço
secreto alemão. Só gostaria que esse desagradável in
cidente fosse mantido no mais absoluto sigilo. Prefe
ria que esta escapade não se transformasse em mais um
escândalo.
Quanto a isso, madame pode ficar tranqüila.
O tenente Kiepert deu ordens para que tudo fosse
conduzido com a maior discrição. Jamais será re
gistrado que a senhora tentou viajar incógnita para
Paris.
A pequena comitiva deixa o vagão, escoltando
Margaretha Geertruida Zelle Mac Leod, aliás, Mata
Hari.
Dimo volta, desconsolado, para sua cabine. Não
se perdoa por haver revelado a identidade da dança
rina. Não fossem as palavras desastradas, e ele a teria
agora em seus braços. Consolase ao pensar que nin
guém imaginaria uma exótica Mata Hari com um
nome tão prosaico como Margaretha. Afinal, quem
seria essa misteriosa mulher? Que influência teria ela
nos destinos da Alemanha para ser retirada de manei
ra tão peremptória do trem? Arriscouse muito ao in
terferir por ela? Afasta esses pensamentos quando um
funcionário da fronteira vem inspecionar seus papéis.
Feito o exame rotineiro, Dimitri deitase, exausto, no
beliche. Ainda faltam mais de oito horas de viagem e
precisa chegar com as forças renovadas. Ele adorme
ce rapidamente. Nem percebe quando o OrientEx
press deixa Estrasburgo para cumprir a derradeira
etapa, em direção à Gare de 1'Est.

¦ PARIS JULHO DE 1914
T~> IMITRI BORJA KOROZEC apaixonase pela ci
dade assim que vislumbra as imponentes estru
turas de ferro da Gare de FEst. Como acontece com
muitos viajantes que ali de
sembarcam pela primeira vez,
ele tem a nítida impressão de
que já viveu em Paris. Acolhi
do por Gérard Bouehedefeu,
conforme fora acertado por
Dragutin, Dimo se instala na
mansarda do número 18 da
rua de 1'Échiquier.
Bouehedefeu tem seten
ta anos, mas conserva intacta
a vitalidade dos vinte. Ainda
exerce o delicado ofício de ta
xidermista. Como trabalha
em casa, O pequeno aparta Gérard Bouehedefeu
mento é um misto de mora
dia e laboratório. Vários animais empalhados, como
gatos, cachorros, aves, cobras e lagartos, pertencentes
a fregueses que não pagaram suas contas, decoram o
local. Logo na entrada, uma coruja de asas abertas e
olhos eternamente arregalados assusta os visitantes que
se aventuram pela primeira vez naquele zoológico sem
mddL. Magro, um metro e oitenta de altura, longas bar
bas brancas, sempre vestido de preto e com uma in
defectível boina na cabeça. Gérard Bouchedefeu é a
caricatura viva do velho anarquista. Perito em falsifi
cações, prática que aprendera com um antigo corre
ligionário, Bouchedefeu cria para Dimitri documen
tos com o prosaico nome de Jacques Dupont. Deixao
com dezoito anos, idade mínima para que o jovem
possa exercer a profissão de motorista de táxi, empre
go que ele consegue graças às relações do embalsa
mador. Xos primeiros dias, Bouchedefeu anda junto
com o rapaz, mapa da cidade em punho, treinando
Dimitri na nova profissão. Saem cedo, percorrendo
as ruas no clássico carro vermelho escuro, cor tradicio
nal dos carros de praça de Paris.
Em duas semanas Dimitri reúne conhecimentos
suficientes para atender a clientela, enfrentando a ran
zinzice eventual de algum passageiro. Como às vezes
trabalha até altas horas da madrugada, leva sentado
mado, verdadeira obraprima realizada pelo velho em
1895. Bouchedefeu costuma brincar dizendo que o
cão é mais velho do que Dimitri. Em pouco tempo
Gérard passa a nutrir uma sincera afeição pelo jovem.
O entusiasmo de Dimo pela causa lembralhe os anos
de juventude, quando optou pela bandeira negra do
anarquismo. Ensinalhe tudo o que pode. A noite, nos
bistrôs do bairro, os dois travam longas discussões com
grupos de anarquistas e de refugiados sérvios.
O forte verão dos últimos dias de julho esquenta
os ânimos e os acontecimentos. Conforme o coronel
Apis previra, no dia 23 o Império AustroHúngaro en
viara um ultimato à Sérvia. Todos sabem que é apenas
um pretexto para as hostilidades começarem. A Rússia
já havia decretado a mobilização de treze batalhões
contra a Alemanha e o Kaiser Guilherme n proclamara
o Kriegsgefahrzustand, ou seja, pusera o país em "estado
de perigo de conflagração". A Inglaterra, apesar de
apresentarse como possível mediadora, está pronta para
agir. Dimitri anseia por esse momento. Acredita, inge
nuamente, como Dragutin, que é a única maneira de
ver a Bósnia libertada. A França é a favor da luta arma
da, pois assim terá a oportunidade de reaver a Alsácia
Lorena, que os alemães lhe conquistaram em 1871. É a
hora da revanche. Em Paris, jovens estudantes passam
pelos bulevares lançando gritos de ''Marchemos a Ber
lim! Morte ao Kaiser!" e cantando a Marselhesa. Jornais
como LeFigaroe L'Écho de Paris publicam artigos incen
tivando a guerra, "[...] onde tudo se refaz [...] é preciso
abraçála em toda a sua selvagem poesia...".
Em todo o país, apenas uma voz se levanta contra
a insensatez dessas propostas: a do jornalista e depu
tado Jeanjaurès. Da trincheira isolada do UHumanité,
ele tenta despertar o bom senso dos seus compatrio
tas. Tudo em vão. Por mais que o jornal se empenhe
numa campanha diária em favor da paz e dos seus
veementes discursos na tribuna do Parlamento mos
trando o absurdo da guerra que se aproxima, os fran
ceses estão decididos. Chegam ao cúmulo de chamar
o extraordinário patriota socialista de traidor.
No Parismidi. Léon Daudet sugere sem meias pa
lavras: ""[...] não queremos instigar ninguém ao assas
sinato político, porém que o senhor Jaurès estremeça
ao pensar nessa possibilidade. Seu artigo é capaz de
sugerir o desejo a algum energúmeno".
Na Sociale, Urbain Gohier escreve estas impensá
veis palavras: "[...] Se a França tivesse um chefe, o se
nhor Jaurès seria colado ao muro junto com os editais
de mobilização".
Pacifista convicto, Jaurès não se deixa abalar por
esses ataques. O líder do Partido Socialista é um ho
mem corajoso.
Aos cinqüenta e quatro anos, gordo, ostentan
do uma barba que deixou crescer não por elegân
cia e sim para não ter que fazêla todos os dias, Jean
Jaurès é, sem dúvida, o deputado mais mal vestido
da Câmara. A absurda gravata preta de nó pronto
comprada numa liquidação do Bon Marche mais
parece um trapo velho e lustroso pendurado ao
pescoço. No inverno, sobre o velho terno, veste um
casaco escuro, de cor indefinida pelo uso, a maior
parte do tempo abotoado de través. Um chapéu
coco várias vezes restaurado completa a indumen
tária. No verão, um palheta desbotado que já vira
melhores tempos cobrelhe a cabeça. Jean Jaurès
ignora as pequenas vaidades.
Sua voracidade é lendária. Um correligionário
comentou durante uma campanha no momento em
que comemoravam a vitória do candidato do Partido
Socialista: "Que apetite tem o nosso Jaurès! Deglutiu
uma sopa bem gorda, meio ganso, um patê inteiro,
uma omelete, e acariciou a barriga dizendo: 'Como
eu gosto dessas comidinhas entre as refeições!'".
Se a gula é seu único pecado, sua vida é o L'Hu
manité, fundado por ele em 1904. Quando, em
1911, recebeu cento e vinte mil francos para reali
zar uma série de conferências pela América do Sul,
utilizou integralmente o dinheiro para aliviar os
problemas financeiros do jornal. Apesar do receio
da mulher, da filha e dos amigos, que temem por
sua vida, não muda uma vírl iál
campanha pela paz. Se depender dele, não haverá
guerra.
Tornase óbvio para Dimitri Borja Korozec que
Jean Jaurès deve ser eliminado. Bouchedefeu não é
da mesma opinião. Quer convencer o jovem da inuti
lidade do gesto. Procura explicar a Dimo que um con
flito dessas proporções mergulhará o mundo num
banho de sangue sem precedentes e que, de qualquer
forma,, o assassinato de Jaurès dificilmente contribui
rá para precipitar os acontecimentos. Conversam ho
ras a fio, madrugada adentro, contudo Dimitri não se
rende aos argumentos do anarquista. Metodicamen
te, segue o político panfletário até estabelecer uma
rotina. Jaurès é um homem de hábitos simples. Deixa
cedo sua residência na rua de Ia Tour, passa no jor
naleiro, com quem troca dois dedos de prosa. Com
pra o Daily Mail, para saber notícias da Inglaterra.
Como não tem automóvel, pega o metrô até o L'Hu
manité, no 142 da rua Montmartre. Na hora do almo
ço, gosta de ir ao Coq d'Or. acompanhado de alguns
amigos, porém freqüenta mais assiduamente o Café
du Croissant, por sua localização bem ao lado do
jornal. A tarde, vai ao Parlamento e. feitos os discur
sos inflamados, volta para a redação.
Certa vez, Dimo teve a oportunidade de leválo
em seu táxi, mas resistiu à tentação. Na última sema
na do mês, Dimitri está pronto. Sabe, exatamente,
como eliminará o obstinado pacifista. Se tudo correr
bem, Jaurès, artífice de uma paz tão guerreada, não
festejará seu próximo aniversário.
PARIS RUA DE L'ECHIQUIER
SEXTAFEIRA, 31 DE JULHO 15H
71 NQUANTO VAGUEL\ pela reduzida mansarda,
i Dimitri Borja Korozec recolhe os poucos acessó
rios necessários à sua empreitada. O esquema é sim
ples. Estudou minuciosamente o Café du Croissant e
sabe onde fica a entrada dos fundos, utilizada pelos
fornecedores. Com o auxílio de um molde de cera,
tirado após o fechamento, de madrugada, confeccio
nou uma chave que lhe dará acesso ao local no mo
mento oportuno. Retira, agora, essa chave da boca de
um lagarto mumificado e a guarda no bolso, junto ao
bigode e cavanhaque falsos adquiridos numa loja de
artigos teatrais na rua Lepic. perto do Moulin Rouge.
Separa o avental branco, o colete e a jaqueta preta,
que completarão o disfarce.
Não terá dificuldade para entrar no restaurante tra
vestido de garçom e aproximarse da mesa do deputado.
Só então lançará mão da bomba caseira cuidadosamen
te manufaturada em seu quarto. Xão a bomba conven
cional dos anarquistas, mas uma deliciosa bomba de
chocolate, envenenada. Nos cursos de envenenamento
ministrados por Mira Kosanovic na Skola Atentatora
aprendera a metamorfosear materiais comuns de limpe
za doméstica em armas letais. Sabe, por exemplo, que a
naftalina, encontrada em qualquer lugar para matar tra
ças, ministrada na dose certa, pode ser tão tóxica e ful
minante quanto o cianeto. Seus cristais destroem as cé
lulas vermelhas do sangue, causando danos irreversíveis
e levando o indivíduo ao coma. Os sintomas, como náu
seas, febre e hematúria, começam no máximo vinte mi
nutos após a ingestão da substância, mas o melhor é que
a vítima não morre na hora, nem tem idéia do que está
se passando. Utilizando um pilão de farmácia, Dimiui
mói cinqüenta dessas esferas brancas até transformálas
num pó fino como açúcar.
Com um estilete, ele abre o doce comprado numa
elegante confeitaria da rua de Rivoli e mistura o vene
no ao delicioso creme da pâtisserie. Fecha novamen
te a bomba, disfarçando o corte com uma camada
extra de chocolate, preparado por ele mesmo na cozi
nha de Bouchedefeu. Fica por alguns segundos ob
servando a obra de arte culinária que pretende servir
a Jaurès esta noite. Glutão como é, o gordo tribuno
não resistirá à tentação. Engolirá tudo de uma só vez,
sem nem mesmo sentirlhe o gosto.
Sentado na sua frente. Bouchedefeu resmunga de
saprovando, enquanto se ocupa em emprenhar com pa
lha o ventre de um gato angorá de olhos azuis de \idro.
Dimo não lhe dá atenção. Sorri ao pensar na ironia do
que está para acontecer em poucas horas. Já que é co
nhecido pela oratória brilhante e pelo apetite inesgotá
vel, Jean Jaurès morrerá como \iveu: pela boca."
PARIS RUA D'ASSAS SEXTAFEIRA,
31 DE JULHO 15H jjoí^vv. : >¦
O QUE DIMO IGNORA é que não é o único a
desejar tão ardentemente a morte do jornalista.
Xo quarto abafado de um hotel da rua d'Assas, Raoul
Villain, um rapaz louro, estudante de egiptologia no
Louvre, pouco mais velho que Dimitri, deixase cair
sobre a velha cama junto à parede. As molas, gastas
pela pressão dos corpos de centenas de hóspedes ao
longo dos anos, rangem sob seu peso. Mãos cruzadas
atrás da cabeça, ele contempla os dois revólveres ne
gros pousados em cima da cômoda. Pretende usálos
em breve como ferramentas para extirpar da pátria
Jaurès, o infame Judas.
Há uma diferença fundamental entre os dois jo
vens assassinos. Ao contrário de Dimitri, que vê a eli
minação de Jean Jaurès apenas como uma tarefa a ser
cumprida, Villain desenvolveu um rancor quase pato
lógico pelo deputado. Nunca lera uma linha do que o
jornalista escrevera. Detesta sem conhecer. Odeia ce
gamente o homem e tudo o que ele representa.
Filho de mãe louca e pai alcoólatra, Raoul se afas
tara da família e filiarase cedo à Associação dos Ami
gos da AlsáciaLorena. Lá aprendera a execrar Jaurès.
Numa viagem à fronteira, sonha em matar o Kai
ser. Como o sonho se revela impossível, terá de con
tentarse em matar o traidor. Xa véspera, quando vi
giava a entrada do UHumanité, viu cinco homens que
saíam do jornal. Alguém que passava comentou com
um amigo:
Olha lá. É Jaurès!
Villain perguntou:
Perdão, senhores. Poderiam me dizer qual
deles?
Os dois olharam espantados para Raoul, sem acre
ditar que houvesse era Paris alguém que não reconhe
cesse o célebre panfletário da paz:
Aquele do meio, é claro!
Raoul agradeceu e seguiu o grupo até o Café du
Croissant. Fingindose de socialista, perguntou ao ge
rente: ;
O cidadão Jaurès vem muito aqui?
Quase todas as noites, depois do fechamento
do jornal respondeu, orgulhoso, o gerente. Foi
quando Villain resolveu que o último dia do mês seria
também o último dia da vida de Jean Jaurès.
Raoul Villain virase na cama e pega na mesade
cabeceira um livro gasto pelo manuseio. É O pássaro azul.
de Maeterlinck. Não sabe bem por quê, mas. ao ler a
peça do escritor belga sobre a busca da felicidade no
mundo, sentese sempre calmo como um monge zen.
PARIS PRAÇA DO PANTHEON SEXTAFEIRA,
31 DE JULHO' 15H
^ OXSTRUIDO EM 1764 no monte SainteGene
<^A riève. no quinto arrondissement, o monumento
fora concebido inicialmente como uma igreja dedi
cada à padroeira de Paris. Mais tarde, a Revolução
Francesa transformara a construção num majestoso
mausoléu para abrigar os restos mortais de homens
ilustres, mudandolhe o nome para Panthéon. Com a
volta da monarquia e do Segundo Império, apressa
ramse em alterar novamente a edificação, voltando o
Panthéon a ser igreja.
Dezenove anos depois, Léon Gambetta proclama
a Terceira República. As mudanças políticas requerem
II
também mudanças alegóricas. O Pantheon torna a ser o
último repositório dos notáveis da França. É preciso agora
reinaugurálo com todas as pompas. A ocasião se apre
senta em 1885, quando morre um dos mais famosos es
critores do mundo: Victor Hugo. Exilado por defender
os ideais republicanos, Hugo é mais do que um homem
de letras. É um símbolo. Suas cinzas são transportadas
ao Pantheon num cortejo fúnebre que comove o país.
É ao lado deste túmulo que dois homens man
têm a meia voz uma conversa sigilosa. Um deles é o
diretor da Polícia Municipal, Xavier Guichard. O ou
tro, um obstinado inspetor de primeira classe cha
mado Victorien Javert. Alto, o rosto talhado a faca,
maxilares largos, a testa coberta por uma mecha de
cabelos, nariz achatado de largas narinas, olhar frio
e perfurante, aos trinta e seis anos Javert é o retrato
cuspido e escarrado de seu avô.
Este, também policial, era uma verdadeira lenda
na polícia francesa, pela persistência com que dedi
cou sua vida à perseguição de um certo Jean Valjean.
Diziam dele: "Quando está sério, parece um cão de
caça; quando ri. um tigre".
¦ A mesma descrição caberia ao neto. Apesar da insis
tência do pai para que seguisse a profissão de telegrafís
ta, desde menino Javert tem verdadeira fixação no avô.
Seu nome abrelhe as portas da Academia de Polícia, e
logo fica bem claro que a semelhança entre o antigo
inspetor e o atual não é apenas física. O neto herdara
. lhe também a dedicação e a tenacidade quase fanáticas.
Victorien Javert pergunta ao diretor:
Desculpe a impertinência, monsieur le directeur,
mas poderia me explicar a razão de tanto segredo e o
porquê desta reunião num lugar tão afastado?
Guichard olha em volta, certificandose de que
os dois não estão sendo observados:
O motivo é simples, meu caro Yictorien. Que
ro encarregálo de uma missão nada popular. Nem
meus superiores sabem o que vou lhe pedir.
As ordens, monsieur le directeur aquiesce Ja
vert, sem titubear.
Guichard acende o cachimbo e explica:
O senhor já deve ter percebido a revolta que o
deputado Jeanjaurès vem despertando na população,
com suas declarações contra a guerra.
Certamente, monsieur le directeur responde
Javert, embora não fosse leitor do UHumanité, nem se
interessasse por política.
Pois bem, temo que algum exaltado atente
contra sua vida. As ameaças são constantes. É preciso
evitar uma catástrofe. Por isso, ordeno que o senhor
sigajaurès como um sabujo, sem que ele saiba, e pro
Javert quedase pensativo por um momento:
Monsieur le directeur, claro que sua confiança
muito me honra, mas por que eu? Sou lotado na dele
gacia do Châtelet, não era melhor usar alguém da rua
du Mail, no segundo arrondissemenf:
policiais do bairro. Assim que notar que está sendo
seguido, ficará furioso. O homem vem recusando tei
mosamente qualquer forma de proteção.
Se é o que monsieur le directeur deseja, assim
será conclui Javert.
Xavier Guichard reacende o cachimbo e, pater
nal, coloca o braço sobre os ombros do inspetor:
Ótimo. Saiba que esta escolha não foi feita
de maneira aleatória. Conheço a sua pertinácia e
sei de quem a herdou. Quando eu não passava de
um jovem gendarme, ainda se falava com admira
ção do velho Javert. Pena que tenha morrido de
forma tão trágica.
Obrigado, monsieur le directeur diz, constran
gido, o policial, que não gostava de relembrar o suicí
dio do avô.
: Guichard retorna ao tom de comando:
Parta imediatamente para a Câmara dos De
putados. É lá que ele se encontra. A partir de agora,
quero que Javert se transforme na própria sombra de
Jaurès.
O inspetor de primeira classe afastase a passos
largos, decidido a cumprir o encargo que lhe foi con
fiado ou morrer tentando cumprilo.
PARIS REDAÇÃO DO L'HUMANITE
SEXTAFEIRA, 31 DE JULHO 19H30
NO JORNAL DA RUA Montmartre, o nervosismo
é quase palpável. Lembrando Zola, Jaurès resol
ve escrever um libelo no estilo àefaccuse. Assistentes
de redação passam carregando arquivos de artigos
anteriores. Circulando entre as diversas mesas, o de
putado, que ocupou a tribuna a maior parte da tar
de discursando contra a guerra, pergunta ao chefe de
redação se há novas notícias sobre a posição da Ingla
Por enquanto, nada. O primeiroministro As
quith deve fazer uma declaração na Câmara dos Comuns.
Antes das nove não saberemos nada de inte
ressante. O discurso de Asquith pode ter uma tremen
da influência. Vou esperar. Não quero começar a es
crever sem tomar conhecimento dele.
Então que tal ir jantar antes? A noite promete
ser longa. ; :>
Alguém sugere:
No Coq d'Or?
Não. Lá tem música, mulheres, muita distra
ção. É melhor comer alguma coisa aqui ao lado, no
Croissant resolve Jaurès. Examina as anotações ra
biscadas em vários pedaços amassados de papel que
traz espalhados pelos bolsos: Vamos, senhores. A
noite promete ser dramática.
¦ PARIS CHEZ POCCARDI SEXTAFEIRA,
31 DE JULHO 19H30
ERTO DALI, SENTADO a uma mesa junto àjane
. Ia do restaurante, Raoul Villain acaricia o nó da
gravata lavallière. Tem um sorriso fixo nos lábios. Sele
cionou, no menu, a refeição mais cara. Escolheu uma
garrafa de chianti para acompanhar o pedido, apesar
do sommelier ter torcido o nariz. Terminada a refeição,
ele pede um café e um conhaque. Raramente se dá ao
luxo de uma refeição tão dispendiosa. A mesada de
cento e vinte francos que recebe de seu pai, escriturá
rio da Justiça em Reims, não permite tais extravagân
cias. Está calmo. O álcool e o peso dos dois revólveres
que carrega nos bolsos internos do paletó transmitem
lhe uma confiança pouco habitual. Acha que o papel
de justiceiro lhe cai como uma luva.
Termina a bebida, paga a refeição de sete fran
cos, deixando ao garçom uma gorjeta generosa, e di
rigese ao banheiro. Penteia cuidadosamente os cabe
los louros, lava as mãos não como Pilatos e sai
pela rua de Richelieu, em direção ao bulevar Mont
martre. Sentese leve como um anjo. Um anjo exter
minador. Villain matará o vilão.
PARIS RUA DE L'ECHIQUIER
SEXTAFEIRA, 31 DE JULHO 19H30
^ OZINHO NA MANSARDA, vestido de garçom, Di
) mitri Borja Korozec acaba de dar os últimos reto
ques no disfarce. Aplica o bigode e o cavanhaque, e
examinase no espelho. O resultado não é dos melho
res. Os pêlos postiços contrastam com seu rosto de
rapaz. Não dá importância ao fato. Evitando os pas
santes, ele pretende esgueirarse pelas ruas, de cabeça
baixa, até o Croissant. Não fica distante, o Café. Já es
colheu o itinerário a percorrer: irá pela rua dHaute
ville até o bulevar Poissonnière, descerá a rua du Sen
tier e dobrará à direita na des Jeúneurs, ganhando
logo a Montmartre.
Coloca a bomba de chocolate envenenada num
prato de sobremesa e embrulha o arranjo num fino
papel corderosa, tendo o cuidado de não amassar a
pâtisserie. Gérard Bouchedefeu, irritado desde o iní
cio com o projeto, saiu para jogar xadrez com um
amigo basco em Pigalle. Dimitri não se incomoda. Até
prefere ficar sozinho para os preparativos finais. Tem
certeza de que o velho debocharia do seu visual. Cer
tificase de que a chave dos fundos do restaurante está
bem guardada no bolso e sai, levando a morte nas
PARIS RUA MONTMARTRE, 142
SEXTAFEIRA, 31 DE JULHO 19H30
,ESDE QUE JAURES voltou à redação, o inspe
tor Javert postouse discretamente, perto da en
trada do edifício. Obedecendo às instruções de
Guichard, seguiu o jornalista desde o Parlamento,
acautelandose para não ser visto. É hábil na arte de
espreitar sem ser notado. No quiosque da esquina com
pra, pela primeira vez, um exemplar do UHuntanité.
Jamais se interessou pelos socialistas e por suas idéias
progressistas. Para ele, todo movimento que procure
mudar a ordem vigente não passa de subversão. A
exemplo de seu avô, que não chegou a conhecer pes
soalmente, pauta sua vida por dois sentimentos sim
ples: ódio a qualquer forma de rebeldia e um inabalá
Suas mãos enormes folheiam o jornal, que ele usa
para ocultarse dos passantes. Horrorizase com o que
lê. Como pode o governo permitir que tais absurdos
sejam postos nas bancas, ao alcance de qualquer ho
mem do povo? Sua indignação cresce a cada página.
Quase duas horas se passam sem que ele se dê conta.
Repentinamente, sua atenção é despertada por
um jovem garçom que passa por ele segurando, com
todo o cuidado, um embrulho corderosa. Pelo modo
desajeitado como leva o pacote, não parece ter muita
prática em carregar bandejas. Seu instinto de perdi
gueiro lhe diz que também há algo estranho na fisio
nomia do rapaz. O bigode e o cavanhaque não com
binam. Dãolhe a aparência de um valete de baralho.
Pensa se deve interpelálo, contudo não quer descon
centrarse da incumbência que lhe foi confiada.
Enquanto não se decide, uma turma barulhenta sai
do prédio, dobrando à esquerda na rua Montmartre.
Entre eles, falando mais alto do que os outros, estajean
Jaurès. O jovem virase e. ao ver que o grupo caminha
em direção à esquina, apressa o passo. Javert detecta um
certo nervosismo no olhar daquele bisonho persona
gem. Deixa seu posto de vigília e sai nos calcanhares de
Jaurès, sem perder de vista o rapaz de cavanhaque.
O jovem dobra numa ruela escura, e os jornalis
tas vão para o café na esquina. Javert lê o nome na
fachada: '"Café Restauram du Croissant". Fica indeci
so por um momento. Deve perseguir o garçom ou
colarse em Jaurès como lhe foi expressamente orde
nado? A obediência cega incutida durante anos de
serviço fala mais alto. O inspetor de primeira classe
Javert guarda o jornal no bolso e entra no restaurante
atrás de Jean Jaurès.
PARIS PORTARIA DO L'HUMANITÉ
SEXTAFEIRA, 31 DE JULHO 21H20
T M MOÇO LOURO de boas maneiras e gravata
^J lavallière aproximase de madame Dubois, a re
cepcionista do jornal. Sorrindo para a velha senhora,
ele tira o chapéu e pergunta respeitosamente:
Perdão, minha senhora. O deputado Jaurès
está?
Acostumada à falta de modos do pessoal da reda
ção, ela se encanta com o jeito educado do rapaz:
Não, monsieur. Foram todos jantar aqui per
to, na esquina.
Obrigado, madame. Desculpe incomodála.
Foi um prazer, monsieur.
Raoul Villain recoloca seu chapéu, apalpa os dois
revólveres por sobre o paletó e caminha sereno para
o Le Croissant.
¦ PARIS LE CROISSANT SEXTAFEIRA,
31 DE JULHO 21H30
TÃO HA MAIS nenhuma mesa livre no Café Res
_ S taurant du Croissant. Em meio à alegre agitação
habitual, garçons e garçonetes passam despejando ha
bilmente pratos de comida na frente dos fregueses. O
calor aumenta ainda mais a sede da clientela. No bar,
um funcionário serve a cerveja de pressão com a re
gularidade de uma máquina. Os copos passam sob o
sifão como peças na linha de montagem de uma fá
brica. Instalado atrás do caixa, Albert, o gerente, a tudo
supervisiona com seu mau humor costumeiro.
O pessoal do UHumanité e a cúpula do Partido
Socialista ocupam três mesas no fundo, à esquerda da
entrada. Jaurès come, participando da animada con
versa. Volta e meia, o grupo se dirige em voz alta aos
jornalistas do Bonnet Rouge, sentados mais distantes.
O assunto, é claro, gira em torno da possibilidade de
haver guerra. Alguém argumenta que o UHumanité
perdeu uma boa ocasião de engajarse numa causa
popular ao não exigir o retorno da AlsáciaLorena ao
domínio francês. Jaurès responde de boca cheia: "Se
há quarenta anos suportamos essa situação para man
ter a paz, não vejo por que entrar nessa briga por cau
Diversos conhecidos
se de
têm por um momento para trocar idéias. Os jornalis
tas terminam o prato principal. Alguns, como Jaurès,
pedem uma sobremesa; outros, somente café. Têm
pressa de voltar à redação.
Em pé junto à porta, o inspetor Javert finge que
aguarda uma mesa. Não tira os olhos de Jaurès. Nem
nota quando um rapaz louro cruza por ele, esbarran
do em seu ombro. O jovem desculpase e aproximase
do bar. Javert nem responde. Seu olhar continua fixo
no jornalista. Subitamente, vindo de trás do salão, o
mesmo garçom de bigode e cavanhaque que ele avis
tara pouco antes na rua entra no seu campo de visão.
Avança parajaurès trazendo, num prato, uma bomba
de chocolate. O instinto do inspetor lhe diz que há
algo errado naquela situação. Num relance, ele per
cebe o que é: o suor causado pelo intenso calor come
ça a descolar os apliques no rosto do garçom. "São
falsos!", pensa Javert. O bigode quase desprendese,
pendendo dos lábios, e a barbicha escorrega lenta
mente para
ce nao no
tar que seu disfarce está derretendo. Avizinhase de
Jaurès, estendendolhe o prato. Javert precipitase para
interceptálo, porém vários passos o separam dos dois.
Ele afasta um casal que se despede do gerente e quase
tropeça numa garçonete. O inspetor quer impedir que
o rapaz chegue até Jaurès. Fareja o atentado, sente
que a vida do jornalista corre perigo. Antes que consi
ga se mexer, ouvese o estrondo ensurdecedor de ura
tiro e a bala passa raspando pela sua orelha. Jean Jau
rès tomba ferido mortalmente, o rosto caído por so
bre a mesa. Javert custa a entender o que se passa. De
onde veio o disparo? Não viu o desajeitado garçom
com a bomba de chocolate puxar uma arma. Só en
rase e ve o
) que ac
por ele, revólver fumegante na mão, sendo subjuga
do pelos outros jornalistas. O estupor bloqueialhe o
raciocínio.
Alguém sai para a rua gritando: "Mataram Jau
rès! Mataram Jaurès!". ¦¦¦:" '
Dimitri Boija Korozec, a barbicha falsa dependu
rada no queixo, não acredita no que aconteceu. Lívi
do, fita, como que hipnotizado, o corpo ensangüen
tado do panfletista. Alguém chama por um médico.
Um farmacêutico que jantava no local toma o pulso
do socialista. Balança a cabeça em desalento. Apoiada
no balcão da entrada, uma pequena florista chora
convulsivamente. Dimo não consegue desviar os olhos
do cadáver. Seu espírito perdese em pensamentos de
frustração e derrota. Depois de toda a preparação, al
guém usurparalhe o direito de liquidar o inimigo.
Segura, boquiaberto, o doce que envenenara com
tanto desvelo, enquanto é afastado pelos amigos dejau
rès. Um deles, sem se dar conta, esbarra com força no
seu cotovelo. O empurrão enfia a bomba mortífera na
boca entreaberta de Dimitri. Desatento, ele mastiga a
Logo na primeira dentada, o gosto acre da nafta
lina traz o desastrado terrorista de volta à realidade.
Sente o tóxico queimarlhe a garganta e o esôfago.
Amaldiçoa a própria distração. Se não encontrar um
hospital em poucos minutos, certamente morrerá.
Tomado de pavor, ele joga no chão o resto do doce e
dirigese cambaleando para a porta dos fundos.
;.r O inspetor Javert recuperase do choque. Possuí
do por um ódio intenso, acompanha os passos de Di
mitri. Não fosse por ele, teria salvado ávida dejaurès.
Fora o atrapalhado garçom que desviara sua atenção.
Pela primeira vez em sua carreira de inspetor de pri
meira classe falhara ao seu dever. E numa missão re
comendada pelo diretor da Polícia Municipal. Jamais
se perdoará. Ele recolhe o resto da pâtisserie. Não pre
cisa cheirála duas vezes para saber que está envene
nada. Enrola o resto do éclair no lenço e o guarda no
bolso. Vários gendarmes das redondezas já cercaram
o assassino. Raoul Villain, semblante sereno, pronun
cia com a solenidade dos estúpidos: "O que fiz, fiz pela
pátria".
Javert nada mais pode fazer por Jaurès, mas sabe
que não sossegará enquanto não levar à Justiça o ou
tro jovem, o quasehomicida. Seria um cúmplice? Ob
cecado, ele atravessa a cozinha derrubando panelas e
sai como um louco no encalço de Dimitri.
Porta do Croissant
logo após o atentado
Ganhando novamente a rua Montmartre, Dimo
roendolhe as entranhas.
Arranca o resto do disfarce que ainda traz pen
durado no rosto e segue, veloz,, pela calçada, empur
rando os transeuntes que lhe barram o caminho.
Conhece uma clínica particular bem próxima, o
Hospital Lachaparde, na rua de Paradis com a d'Hau
teville. Atravessa uma esquina movimentada desvian
dose dos carros e corre pela rua de Trévise. Chega à
rua Richer, bem em frente ao FoliesBergère.
7sr\
(T) Chez Poccardi
(c) Jornal L'Humanité
(3) Café du Croissant
@ Apartamento de Bouchedefeu
Pensa estar sendo vítima de algum delírio provo
cado pela naftalina: na porta do teatro, a figura de
Mata Hari seminua baila na sua frente. Sacode a cabe
ça e percebe que não se trata de um devaneio. O que
ele vê é o cartaz do verão passado, quando a bailarina
se apresentara no Folies, no espetáculo de danças es
panholas.
Afastase e entra na rua des Petites Ecuries. Tro
peçando e apoiandose nas paredes, Dimitri alcança
finalmente a rua de Paradis e desmaia, balbuciando,
nos braços de uma mulher, em frente à porta do Hos
pital Lachaparde.
A duas esquinas dali. resfolegando pela corrida,
o inspetor Javert tem tempo de ver sua presa, ao lon
ge, ser recolhida por dois enfermeiros para dentro do
edifício.
Trecho extraído do caderno incompleto
de Dimitri Borja Korozec, intitulado
Memórias e lapsos Apontamentos
para uma autobiografia, encontrado
em novembro de 1954 num dos esconderijos
da seita Confraria Muçulmana,
era Alexandria, no Egito
PARIS, 31 DE JULHO DE 1914 SEXTAFEIRA
À NOITE NO HOSPITAL LACHAPARDE rv*
Despertei numa enfer
maria vazia do primeiro an
dar. Ao meu lado. apenas
outro leito era ocupado por
um paciente que aguarda
va, sedado, algum procedi
mento. A notícia da morte
de Jaurès espalharase ra
pidamente pelo estabeleci
mento. Internos e atenden
tes cochichavam, nervosos,
pelos cantos, e os corredo
• . i Caderno de Dimiti
res estavam mais agitados ,
p encontrado
do que 0 habitual, \oltei a :v ¦_ em Alexandria, no E
mim, alheio àquela movi
mentação. De pronto, eu não sabia ao certo se estava
acordando ou se havia chegado ao paraíso: o rosto belo e
tacandose sobre a í
o paraíso: o rosto belo e
avame docemente, des
paredes do quarto. Ela
aparentava meiaidade e vestiase com discrição. Usava
uma longa saia cinza, plissada, e uma blusa branca lisa,
de gola alta, presa ao pescoço por uma fita larga de ve
ludo negro ostentando um camafeu. Seus cabelos cas
tanhos e encaracolados enrodilhavamse num coque
displicente. Lembrome de ter pensado que a efígie do
camafeu pareciase com minha mãe. Um suave sorriso
iluminavalhe os lábios. 0 que mais me impressionou
foram seus olhos. Olhos que me perfuravam com uma
expressão de intensa curiosidade. Ela dirigiu o olhar para
os meus seis dedos erispados em volta do seu pulso. Só
então notei que estava segurando firmemente a mão da
mulher entre as minhas. Tentei levantarme, mas ela
impediu, sentandose na cama e dizendo com firmeza:
Calma, meu jovem. Ainda estás muito fraco.
Basta o trabalho que deste aos enfermeiros na hora da
lavagem.
Lavagem? espanteime.
Lavagem estomacal. Não te lembras? Antes de
desmaiar, dissesteme que havias engolido naftalina.
Bombearam teu estômago com bicarbonato de sódio e
te deram um diurético para proteger os rins. Não cor
res mais perigo. Posso ter minha mão de volta?
Relaxei a pressão dos dedos e perguntei:
A senhora é médica?
A mulher sorriu, enigmática:
'J Xão, mas digamos que meu trabalho é ligado à
medicina.
'¦¦ Sei. enfermeira afirmei tolamente.
A jovem senhora respondeu, divertida:
Não podes estar mais longe da verdade. Sou
Marie Curie.
Mesmo conhecendo história e política como pou
cos rapazes naquela idade, minha cultura em outros
assuntos ainda deixava bastante a desejar. Confesso
que. até então, nunca ouvira falar da cientista, já con
sagrada por dois prêmios Nobel: o primeiro de Física,
em 1903, e o segundo de Química, em 1911. Disfar
çando minha brutal ignorância, beijeilhe a mão arre
batadamente:
Madame. devolhe a vida.
Madame Marie Curie achou graça do meu arroubo:
Não me eleves nada. Foi apenas o acaso que fez
com que caísses nos meus braços quando eu saía do
hospital.
Meu encontro com a famosa física não poderia ter
sido mais fortuito. Marie Curie contoume que passara
no hospital ao cair da tarde para ver o professor Aristi
des Grimot. diretor do centro cirúrgico do Lachaparde.
Disseme que Grimot, membro da Académie des
Sciences, ficara mais conhecido por sua extraordiná
ria pesquisa na área de transplantes de órgãos. No
seu laboratório, uma galinha poedeira dos Pireneus
sobrevivera quase vinte minutos com o coração de um
frango legorne. Mantinha estreito contato com Alexis
Cairei, que realizara a primeira operação cardíaca num
cão, no Rockefeller Institute for Medicai Research,
em Nova lork.
Preocupada com a guerra iminente, madame
Curie queria o apoio de Grimot junto aos fabricantes
de materiais radiológicos. para criar postos de raio X em
todos os hospitais da região de Paris. Ela mesma puse
ra à disposição toda a aparelhagem de seu laboratório.
Desejava também recrutar, entre professores e técni
cos, voluntários especializados que pudessem operar
aqueles equipamentos. .¦.¦¦ vr/. '
Como o professor se atardara devido a várias ci
rurgias de emergência, quis o destino que madame
Marie Curie se chocasse comigo, quando já deixava o
local, depois da reunião com Grimot. Mesmo desmaia
do, eu não largara sua mão desde a chegada e, comovi
da, Marie providenciara o tratamento, comandando os
dois enfermeiros com sua eficiência característica. Não
fosse o respeito que sua posição impunha, certamente
não me atenderiam com tanta presteza e eu morreria.
•'¦*¦¦ Talvez para pouparme, no início ela não disse uma
palavra sobre o assassinato de Jaurès. Nem poderia
supor que acabara de salvar a vida de um assassino
frustrado. Apesar de muito fraco, eu sabia que precisa
va sair logo daquele lugar:
Madame. tenho que voltar para casa. Minha
mãe deve estar preocupada menti.
Não convém que saias neste estado, há uma
multidão pelas ruas.
Multidão a essa hora? Por quê? perguntei,
fingindome de inocente.
A fim de não me causar um choque maior, ela he
sitou entre dizerme a verdade e inventar uma história
qualquer. Concluiu que um rapaz tão jovem não se in
teressaria por acontecimentos políticos:
Não sabes ainda, mas mataram Jaurès. A França
está de luto. Não será mais possível deter os vendi
lhões da guerra disse ela. triste, seus pensamentos
provavelmente tomados por visões de morte. Jamais
imaginaria que a guerra era o que eu mais desejava.
Procurei convencêla a deixarme partir:
Moro perto, madame. Não se preocupe.
Madame Curie nem me deu atenção. Perguntou,
mudando de assunto:
Ainda não me disseste como conseguiste co
Foi uma brincadeira do meu irmão pequeno. En
fiou as bolinhas em bombons de chocolate inventei.
Como te chamas?
Jacques. Jacques Dupont menti outra vez.
Pois bem, Jacques. Prometes que não sairás
daqui antes de uma boa noite de sono?
Prometo respondi, mentindo de novo.
Percebi que seria obrigado a fugir daquele hospi
tal e que não poderia fazêlo enquanto ela não se fosse
dali. Bocejei longamente e fingi adormecer.
Poucos instantes depois, vi. com os olhos semi
cerrados. que ela se dirigia na ponta dos pés para a
saída da enfermaria. Como uma sombra benfazeja.
ganhou o corredor fechando a porta atrás de si. Foi a
última visão que tive da minha salvadora, a descobri
dora da radioatividade, madame Marie Curie.
PARIS RUA DE PARADIS SEXTAFEIRA,
31 DE JULHO 23H
^^ OM A PACIÊNCIA dos abutres, um vulto de ne
k^>< gro aguarda na penumbra à entrada do Hospital
Lachaparde. O inspetorJavert não tem pressa. Viu quan
do Dimitri Borja Korozec foi recolhido ao hospital. Seu
ângulo de visão permite observar também os portões
laterais do prédio. Ele sabe que o rapaz suspeito não tem
por onde escapar. Teria ido no seu encalço, não fosse o
inoportuno aparecimento de madame Curie e toda a
agitação que se seguiu. "Mulheres...", pensa ele, "deviam
é ficar em casa em vez de bisbilhotar nos laboratórios.
Daqui a pouco também vão querer entrar para a polí
cia..." Arrependese, na hora, do pensamento irreve
rente. Javert nutre um respeito quase doentio pelas
instituições e, afinal de contas, madame Curie é uma
instituição. Só lhe resta esperar. "Afinal, ele entrou no
hospital e, respeitando as leis da física, tudo o que en
tra, sai", conclui Javert, sem humor. De repente, ele
avista madame Curie à porta do edifício. Seu coração
se sobressalta. Terá coragem de interrogála? Ele apro
ximase, compelido pelo profundo sentido do dever.
Obsequioso, chapéu na mão, a esquálida figura aborda
a Prêmio Nobel:
¦ " Madame Curie?
y:: Sim?
Inspetor de primeira classe Javert. Perdoeme
a ousadia, madame, mas gostaria de colher algumas
informações sobre o rapaz que a senhora teve a gene
rosidade de atender.
Marie abespinhase. Desde cedo, na Polônia, sem
pre se rebelou contra a arbitrariedade:
Em nome de quê?
Em nome da investigação que faço sobre a
Pareceme que suas investigações estão um pou
co atrasadas. Soube que o assassino foi preso em fla
grante.
Sei disso, madame. Porém, minha intuição me
diz que talvez o jovem esteja implicado no crime. Gos
taria de...
Ela o interrompe:
Sua intuição é ridícula, meu amigo. Ele não
passa de um menino. Nem barba tem.
Mas tinha. É que caiu afirma Javert, puxando
do bolso a barbicha postiça que recolhera no ca
minho.
Marie Curie assustase ao ver o monte de pêlos na
mão do inspetor. Não sabe se está realmente diante
de um policial ou de um degenerado. Recompondo
se, ela diz, alteando a voz:
" Não tenho explicações a lhe dar. Saia já do meu
caminho. É o cúmulo! Envolver uma criança nesta tra
gédia! Fique certo de que relatarei sua impertinência
ao ministro da Justiça! Boa noite, monsieur.
Madame Curie afastase em direção ao carro que
a espera, enquanto Javert, suando muito, pronuncia
o suor lhe colara na palma da mão.
Dimitri Borja Korozec espera alguns minutos para
certificarse de que sua inesperada benfeitora não vol
tará. Seus ouvidos não escutam mais nenhuma ativi
dade no corredor. Ele se levanta com a intenção de
pegar suas roupas jogadas no encosto de uma cadei
ra. Tinha razão Marie Curie, ele não tem noção do
quanto ainda está fraco. Assim que dá dois passos,
sente a cabeça girar. Tenta voltar para deitarse, mas
dado, que é seu único companheiro de quarto, em
Com o impulso do tombo, o pobre homem rola
para debaixo de outro leito. Num movimento quase
sincronizado, assim que o homem desaparece sob a
cama, dois enfermeiros apressados, trazendo uma
maça, entram na enfermaria:
Vamos logo com isso que o dr. Grimot e sua
equipe estão aguardando diz o primeiro.
Não sei o que deu no homem hoje. Três cirur
gias seguidas comenta o segundo.
Não te metas nisso. São casos que não podem
esperar completa o primeiro.
Pegando Dimo pelas extremidades, jogam o ra
paz na maça. O segundo enfermeiro observa o rosto
de Dimitri:
Estranho, quando o trouxemos para cá, pare
cia bem mais velho. Não achas?
O outro responde sem lhe dar muita trela:
Sei lá. pode ser efeito da doença. O que é que
tu entendes de medicina? Depois, só pode ser ele.
Estás vendo mais algum doente aqui dentro? Chega
de conversa. Sabes que o professor Grimot odeia es
Os dois saem céleres, levando Dimitri, incons
ciente, para a sala de operações.
Dimo volta a si sob a intensa luz do centro cirúr
gico, cercado de homens e mulheres enluvados e ves
tidos de branco. Do rosto, só lhes vê os olhos, pois
uma peça retangular de pano cobrelhes a boca e o
nariz. Ele indaga aflito:
O que houve? Onde estou?
Dr. Grimot, o chefe da equipe, procura tranqüili
Calma, meu jovem. Não há motivos para preo
cupação. Logo estarás dormindo.
i Dormindo!?
'êí Evidente. Ou pensavas que íamos extrairte um
rim acordado?
Um terror abissal apoderase de Dimitri e ele
ameaça levantarse, porém três membros do grupo o
seguram com firmeza:
Queres saber mais do que os médicos? per
gunta Grimot, virandose para uma enfermeira que
segura uma máscara de borracha contendo um chu
maço encharcado de éter por onde passará o gás de
oxido nitroso. Vamos logo com essa anestesia.
Antes que Dimitri possa dizer alguma coisa, seu
nariz é coberto pela máscara e a enfermeira libera o
tubo que permite a passagem do gás. Grimot continua:
Apesar de indigente, tens a sorte de te benefi
ciares da última palavra em anestésicos, a combina
ção de éter com oxido nitroso, mais conhecido pelos
leigos como gás hilariante.
O efeito da mistura é quase imediato. Dimo tenta
explicar o equívoco, mas o que sai da sua boca é uma
grande gargalhada. Suas palavras são entremeadas de
um riso histérico:
Vão me tirar um rim? Ha! Ha! Ha! Ha! Em vez
de doze dedos, teria sido melhor nascer com quatro rins!
Ha! Ha! Ha! Ha! Eu garanto que os senhores estão
enganados! Meu rim está ótimo! Ha! Ha! Ha! Ha!
Depois do grotesco desvario, Dimitri Borja Koro
zec perde a consciência sob o olhar perplexo dos
médicos:
O que os senhores presenciaram foi apenas um
ligeiro delírio causado pelo oxido nitroso. Apesar desse
efeito colateral observado em alguns pacientes, é muito
mais eficiente que o clorofórmio pontifica o profes
sor Grimot para seus pupilos, enquanto executa com
perícia uma longa incisão no corpo inerte de Dimitri.
Até a paciência dos abutres tem limite. Cansado
de esperar, o inspetor Javert resolve prosseguir a bus
ca dentro do hospital. Bate à porta do prédio e é aten
dido por um plantonista noturno:
Pois não? pergunta o atendente sonolento.
" Inspetor Javert. Estou à procura de um rapaz
que deu entrada aqui há aproximadamente duas ho
ras identificase, mostrando os documentos.
: O nome?
Já disse. Inspetor Javert.
¦¦¦; O nome do rapaz explica o atendente.
" Não sei, mas foi a última pessoa a ser recolhi
da. Vi quando desmaiou na porta e foi ajudado por
madame Curie e dois enfermeiros.
Deve ser o jovem com intoxicação. Está de re
pouso na enfermaria do primeiro andar, mas isso não
são horas de visitas. Se o senhor voltar amanhã de...
Estou aqui fazendo uma investigação em caráter
oficial corta, ríspido, Javert, brandindo novamente
sua carteira de polícia. Onde. no primeiro andar?
Segunda porta à direita no corredor res
ponde o enfermeiro.
Javert afastao do caminho e sobe rapidamente a
escada.
O paciente sedado que aguardava cirurgia acorda
debaixo da cama para onde rolara empurrado por
Dimitri, Não tem idéia do que aconteceu. Ainda ton
to, ele volta ao seu leito com dificuldade, cobrindose
com os lençóis, no momento em que Javert entra no
recinto. Na penumbra, o inspetor enxerga apenas um
vulto deitado e atirase sobre ele:
A mim tu não tapeias! Sei muito bem que
querias Jaurès! Só que teu cúmplice foi mais rápido!
Vamos! Confessa! berra Javert. desvairado, sacudin
do o coitado pelo pescoço.
Com muito custo, o enfermo consegue afastar o
lençol que lhe cobre o rosto. Ao ver a sinistra figura
de negro que quase o estrangula, um grito esganado
lhe sai da garganta:
Socorro!
Javert se dá conta do erro que cometeu e pula da
cama assustado:
Desculpe, senhor. Eu o confundi com um en
venenador.
O pobre paciente aterrorizado ainda tem forças
para apertar a campainha chamando a enfermeira,
antes de tombar fulminado por um ataque cardíaco.
É a vez de Javert entrar em pânico. Sua vasta expe
riência lhe diz que o homem está morto. Se for en
contrado ali, certamente será acusado de homicídio.
Tudo não passou de um lamentável engano, porém
ele sabe perfeitamente que sua posição de inspetor
de primeira classe não permite equívocos. Sai para o
corredor esgueirandose pelas sombras, corre até a pri
meirajanela que encontra e, num salto, alcança a rua
e se perde na escuridão.
PARIS MADRUGADA DE SÁBADO, 1? DE AGOSTO
3ELA PRIMEIRA VEZ em sua carreira, Javert sen
,_ tese completamente desorientado. Confuso, está
dividido entre o dever e a vergonha. Sabe, como pro
fissional impecável, que tem a obrigação de entregar
se e confessar o monstruoso desacerto, responsável
pela morte de um inocente. Ao mesmo tempo, não
suportará a humilhação e a desonra acarretadas pelo
seu gesto precipitado. O nome Javert, quase uma ins
tituição para a polícia da França, graças à lendária car
reira do avô, ficará manchado para sempre. Dilacera
do pela dúvida, há horas ele perambula pelas ruas de
Paris, perdido em pensamentos aterradores, longe do
tempo e do espaço.
Por volta das quatro da madrugada, contorna a
praça do Châtelet, em frente à sua delegacia. Ao ver
diante de si o prédio que simboliza para ele o respeito
absoluto à autoridade, toma, enfim, uma decisão: en
tra no edifício e dirigese como um autômato à sua
escrivaninha, sem nem mesmo responder à continên
cia do sargento de plantão. Sentase muito ereto, pega
caneta e papel, e escreve com mão firme:
Ao Ilustríssimo Senhor Xavier Guichard.
diretor da Polícia Municipal
Prezado senhor:
Sou obrigado a lhe informar, com imenso desgosto.
não ter s
sucesso a
Vossa Excelência teve a generosidade de me delegar.
Minha falta de atenção levou a duas tragédias ir
reparáveis. A primeira culminando com o assassinato
do deputado Jaurès, a
quem eu deveria prote
ger com a própria vida.
e a segunda redundan
do no infeliz passamen
to de um inocente no
Hospital Lachaparde.
morto de susto devido à
minha precipitação.
Com plena cons
ciência de que um fun
LJ'c*. •IíLc:
ça policial não tem o ^rj^t/y. '&?
direito de se enganar, e
muito menos duas ve " , .,
racsimiie
zes. rogo a \ossa Exce da carta de Javert
lência a bondade de
aceitar minha demissão em caráter irrevogável, para
que os atos imperdoáveis do neto não venham a macu
lar o nome irreproehável do avô.
Respeitosamente,
Inspetor de primeira classe \ ictorien Javert.
lotado no Châtelet.
Paris, 1Q de agosto de 1914
Ele coloca cuidadosamente a carta dobrada num
envelope. Dirigese ao sargento de plantão e ordena que
esta seja entregue em mãos ao diretor, logo pela manhã.
Sai da delegacia e atravessa a praça em direção ao
quai. Debruçase no parapeito e observa as águas re
voltas do rio. Ali, as correntes subterrâneas criam rede
moinhos mortíferos. Ele tira o chapéu e o pousa na
borda do parapeito do cais. Depois, num salto ágil,
jogase no rio Sena, desaparecendo no mesmo local
onde, havia precisamente oitenta e dois anos, suicida
rase seu idolatrado avô.
Xo começo de setembro, apenas um mês após o
início da guerra, o Exército alemão avança em terri
tório francês como uma avalanche. Paris se apronta
para a invasão. As onze da noite do dia 2, o governo
segue para Bordeaux pela estação do Quai cVOrsay
para evitar cair nas mãos do inimigo, que se aproxima
perigosamente. Os ministros temem um ataque aéreo.
O subsecretário de BelasArtes leva, numa pasta de
couro, as jóias da Coroa, habitualmente expostas na
Galeria Apoio, do Louvre. Dezenas de caminhões saem
Banco da França, as obras mais importantes dos mu
seus e os arquivos do Estado.
O presidente Poincai é partira antes, num trem es
pecial, saindo da Gare d"Auteuilceinture. Além do êxo
do oficial, vários parisienses deixam a capital em todos
os trens que vão para o sul do país. Para defender a cida
de, fora convocado, algumas semanas antes, o generalJo
seph Gallieni, herói da Gueixa FrancoPrussiana. Gallie
ni sai da reserva para assumir a ingrata tarefa. Militar de
grande engenhosidade, o novo comandante está dispos
to a cumprir suas ordens a qualquer preço. Antes que o
alto escalão do governo embarque para Bordeaux, ele
diz, com firmeza, a Millerand, novo ministro da Guerra:
O senhor sabe o que isso significa, ministro?
Talvez a destruição da Torre Eiffel, de todas as pontes
de Paris, inclusive a de Ia Concorde, das fábricas e das
indústrias importantes, para que nada fique em po
der dos alemães.
Faça o que for necessário responde seca
mente o ministro, antes de partir.
Ao sair do hospital com dois quilos a mais e um
rim a menos, Dimitri Borja Korozec se depara com
esse clima de desânimo e tristeza. A perda do órgão
fora compensada por uma alimentação sadia e refei
ções regulares, benesses que ele não usufruía desde
que deixara a casa de seus pais. Durante o longo pe
ríodo de recuperação, seu ar desprotegido de meni
no conquistara todas as enfermeiras, que o mimavam
com petiscos.
O professor Grimot não dera o braço a torcer
quanto à inutilidade da cirurgia e ia visitálo como
se tivesse lhe salvado a vida, trazendo alunos e dis
correndo sobre o caso. Dimo conformarase com sua
Assim que pôde receber visitas, mandou um re
cado para Bouchedefeu por um dos funcionários, que
o encontrou transtornado, pois fazia vários dias que o
velho anarquista não tinha notícias suas.
Abominando toda forma de governo, Gérard che
gara a pensar que Dimitri havia sido preso secretamen
te durante o atentado ajaurès e torturado até a morte
Bouchedefeu passava as tardes no hospital, falando
sobre sua nova paixão: o estudo dos bidês através dos
tempos e sua influência na liberação da classe operária.
Segundo o velho, o bidê era o símbolo da decadência e
responsável, cedo ou tarde, pelo enfraquecimento da
classe dominante. Ele explicava entusiasmado:
Se bem que existam registros de instrumentos
semelhantes na Idade Média, foi durante o reinado
de Luís xv, em 1739, que o ebanista Rémy Pèverie criou
o primeiro objeto especificamente destinado à higie
ne íntima. O nome bidê vem do verbo bider, que em
francês arcaico queria dizer "trotar", devido à posição
de cavaleiro que a pessoa assume ao utilizálo.
Eu pensava que trotar vinha, de trottoir zom
bou Dimitri.
'¦":¦¦ Bouchedefeu fingiu não ouvir:
Em 1742, Petri, um obscuro poeta florentino,
chegou a compor um soneto em que chamava as pros
titutas de "Le amazzone dei bidet", "As amazonas do
bidê". O sucesso junto à corte foi imediato. Madame
Du Barrv chegou a possuir um. com as bordas forra
das de marroquim.
Foi por isso que o rei Luís se apaixonou?
cortou Dimitri, com ar de mofa.
Bouchedefeu prosseguiu:
Em 1785, o próprio Voltaire encomendou um
ao abade Moussinot, que cuidava de suas finanças,
dizendo numa carta: "Meu eu. ciumento da beleza dos
meus móveis, pede um belo acento perfurado com
grandes bacias sobressalentes".
E o que tem isso a ver com o enfraquecimento
das classes dominantes? perguntou, divertido, Di
mitri.
Xão percebes?! retrucou, furioso, Bouche
defeu. Este conforto higiênico leva à ociosidade e
à decadência. Para mim, o bidê foi o grande respon
sável pela Revolução Francesa, e, depois, pelo declí
nio dessa mesma revolução. O próprio Marat morreu
apunhalado no bidê.
Foi na banheira corrigiu Dimo.
É o que dizem os livros de história. Para mim,
a verdade é bem outra... insinuou o anarquista, com
ares de quem tem informações secretas sobre o fato.
Finalmente, trinta e quatro dias depois de ter dado
entrada no Hospital Lachaparde, Dimitri circula de novo
pelas ruas quase vazias de Paris a bordo de seu táxi da
Xo dia 3 de setembro, quando os soldados do i
Exército alemão, comandado pelo general Von Klu
ck, estão a apenas trinta quilômetros de Paris, uma
desobediência muda o fado da História.
Em vez de invadir a cidade, como lhe fora or
denado, o general ruma para Meaux, na região dos
rios Ourcq e Marne. Com essa manobra, ele pretende
aproveitar o espaço deixado pelas tropas inglesas em
retirada e surpreender, pela retaguarda, todos os exér
citos franceses do general Joffre. Seu propósito é ani
quilálos numa única e definitiva batalha. A desguar
necida CidadeLuz pode esperar.
O que Yon Kluck ignora é que Gallieni conseguira
reagrupar o \i Exército em Paris, sob o comando do ge
neral Maunoury. Por não esperar nenhum ataque \indo
daquela direção, ele deixa seu flanco direito, composto
do 4a Regimento germânico, totalmente desprotegido.
Em três dias de sucessos consecutivos, Maunoury
chega ao Marne.
É quando a situação muda de figura. Apesar de
enfrentar ao sul uma contraofensiva dos exércitos de
Joffre, Von Kluck desiste da estratégia de envolver todo
o Exército francês e volta com toda a carga em auxílio
de seus homens. Desbaratar o plano de Gallieni tor
Maunoury resiste, porém necessita desesperada
mente de reforços para salvar Paris. Esses reforços
existem. São os homens da 7 Divisão Colonial, do
general Trentinian, que chegaram à capital vindos de
Verdun. Estão exaustos, mas dispostos a tudo para
impedir o avanço de Von Kluck.
Só existe um problema, aparentemente incontor
nável: não há comboios militares suficientes para le
var os seis mil soldados até o Marne.
As nove horas da noite do dia 6 de setembro, no
seu gabinete do Liceu VictorDuruv, onde instalara seu
og. o criativo general Gallieni tem uma idéia inusitada.
Manda chamar às pressas o capitão Jacquot, oficial
encarregado das requisições. O jovem capitão tem plena
confiança no seu comandante. Sente por ele uma afeição
quase filial. Entra na sala e perfilase numa saudação:
As ordens, meu general.
Jacquot. acho que encontrei a maneira de trans
portar a tropa para o campo de batalha informa o
general, os olhos brilhando de excitação.
O capitão animase ante a perspectiva. Há dois
dias não dorme, imaginando sua bela cidade invadi
Tinha certeza de que o general encontraria
uma solução.
Gallieni levantase da mesa e aproximase de
Jacquot:
Quero que o senhor requisite todos os táxis de
Paris.
Jacquot pensa que não ouviu direito:
Os táxis?
Sim, os táxis e os seus motoristas.
O capitão se espanta:
Mas, general, os motoristas de táx:
E então?
a participaram de operações mi
litares.
Há sempre uma primeira vez para tudo. Ou o
senhor prefere ver Paris cair nas mãos dos alemães?
Jacquot recompõese imediatamente:
Claro que não, meu general. Qualquer coisa é
melhor do que isso. Até mesmo ir à guerra de táxi.
Então, mãos à obra. É preciso que a primeira
caravana parta esta noite mesmo. Xão se esqueça de
que tudo deve ser feito no mais absoluto sigilo.
O capitão Jacquot bate uma continência entu
siasmada e sai para cumprir a extravagante missão.
Deve acionar todos os policiais da cidade e a Guarda
Republicana. Da sua sala, liga para a Préfecture de
Police, esbravejando ao telefone:
É isso mesmo! Táxis! Todos os táxis com os
motoristas! São ordens do governador militar, gene
ral Joseph Gallieni!
E assim, com seiscentos táxis, Gallieni vai possibi
litar a vitória francesa na Batalha do Marne e introdu
zir na História o transporte automotivo das tropas de
infantaria. : . ¦¦¦ ¦
Xo apartamento da rua de 1'Échiquier, Dimitri
Borja Korozec bebe vinho e disputa uma partida de
gamão com Gérard Bouchedefeu, sem ter a menor
idéia de que, nesta mesma hora, alguém lançou os
dados de outro jogo, no qual ele será uma pequena
pedra do tabuleiro: o jogo da guerra.
Na tarde do dia 8 de setembro, Dimitri dirige seu
carro pelas ruas de Paris à procura de passageiros, cada
vez mais escassos. Quando entra na rua de Rivoli, perto
pare. jjimo encosta o taxi, aDorreciao com aquela inter
rupção. Já aprendera o tom irritado dos taxistas de Paris:
O que foi, agora? O que fiz de errado?
Nada, meu rapaz. Só que você e seu calhambe
que foram requisitados.
Por quem?
Pelo governador militar, general Gallieni.
Para levar tropas até Meaux responde o
guarda, entrando no carro. Vamos logo com isso.
Há um destacamento saindo em alguns minutos da
esplanada des Invalides.
Mas antes eu preciso passar em casa, trocar de
roupa!
Essa serve. Xão é hora de se preocupar com
elegâncias.
Quando chegam aos Invalides, uma imensa fila
de táxis repletos de soldados está deixando o local.
Um tenente se aproxima:
Tenente Alexandre Lefas, da Divisão de Trans
portes. Quantos homens achas que cabem na tua car
Quantos o tenente mandar responde Dimo,
já mordido pela aventura.
Se apertarmos, uns seis avalia o tenente.
Se apertarmos bem, uns oito exagera Dimitri.
É muito. Não quero que quebres pelo cami
nho diz Lefas, ordenando que um grupo de solda
dos da infantaria ocupe o veículo. Entrega um mapa
nas mãos de Dimitri. Toma. Está assinalada a rota
para Meaux, saindo pela porta de Ia Villette.
Xão se preocupe, tenente. Sei muito bem qual
é o caminho.
De qualquer forma não há como errar. Basta
seguir os que vão na frente. Boa sorte despedese o
tenente, saindo, atarefado, na direção de outro carro.
Tentando um gracejo, Dimo \irase para os farda
dos passageiros que se espremem no carro e. abaixan
do a bandeira do taxímetro, pergunta:
Então, cavalheiros, aonde vamos?
Os soldados respondem em uníssono:
Ao Marne!
Dimitri engrena a marcha e juntase ao cortejo
armado que parte para o front.
"Ao Marne!" 0
Por volta das oito horas da noite, o destino inter
vém mais uma vez na vida atribulada de Dimitri.
, Ao passar por uma vala oculta pelas sombras, es
toura o pneu dianteiro esquerdo do carro. Os solda
dos saltam para ajudar, enquanto vêem a fila dos ou
tros automóveis que se estende à sua frente perderse
na escuridão. O tempo que levam trocando o pneu
faz com que eles se vejam sozinhos, separados da co
luna. Os valentes infantes se preocupam: não querem
perder a batalha. Dimitri tranqüilizaos:
Não se aflijam. Conheço essa área como a pal
ma da minha mão. Logo ali há um atalho por onde
nós vamos recuperar o tempo perdido. Meaux fica a
menos de vinte quilômetros daqui.
\bltam novamente ao táxi e Dimitri entra por uma
trilha à direita da estrada principal.
Três horas se passam antes que Dimo resolva con
fessar que está completamente perdido.
Depois de andar em círculos, examinar o mapa e
atropelar uma vaca. eles se aproximam, enfim, de uma
cidade. A escuridão é total e o silêncio pesado. Nin
guém circula pelas ruas. Saltam do táxi, esticam as per
nas e procuram reconhecer o lugar. Dimitri afirma:
Pronto. Chegamos.
Os seis soldados entreolhamse como se estives
sem diante de um idiota. Um deles, o cabo Fouchard,
homenzinho atarracado e de poucos amigos, indaga:
É óbvio que chegamos. Mas onde?
A Meaux, é claro garante Dimitri.
Bernadet, outro dos passageiros, de vastos bigo
des, afirma nervoso:
Não é Meaux. Já estive em Meaux. Aqui não é
Meaux. É maior que Meaux.
Então onde estamos? pergunta Delesserd,
o mais alto de todos. ¦¦¦_ ¦¦,¦¦
Em qualquer lugar menos Meaux conclui
Bernadet.
Picardin, mecânico de bicicletas na vida ci\il e o
mais prático de todos, sugere:
O melhor é entrar na cidade e perguntar.
Pegam outra vez o táxi e aproximamse cautelosa
mente do centro. Poirot e Balardin. que por serem
calouros na tropa ainda não se manifestaram, gritam
ao mesmo tempo, apontando uma casa de esquina
para a esta
nelas:
Olha lá, .Albergue du Yieux Cochon!
Dimitri dá uma freada brusca fazendo os passa^
ros do banco traseiro se esparramarem no chão do car
ro. Ele estaciona o veículo e todos se diriw
lagem. Fouchard, com a autoridade que o posto de cabo
lhe confere, puxa a corda da campainha. Uma senhora
gorda entreabre a porta, assustada:
Quem é?
É o Exército francês! exagera Fouchard.
Que susto! Pensei que fossem os prussianos
desabafa a gorda senhora. Entrem, entrem. O que
fazem aqui a esta hora? Toda a cidade dorme.
Estávamos indo para Meaux e nos desviamos
do caminho explica Delesserd. "
E como se desviaram! Meaux fica a cinqüenta
quilômetros ao norte.
Então aqui não é Meaux? insiste Dimitri,
sob o olhar furioso dos soldados. ¦ ¦
Claro que não. Vocês pegaram à direita em vez
de seguirem à esquerda responde a estalajadeira.
Desolados e exaustos, os homens sentamse a uma
mesa no canto do salão.
E que cidade é essa? pergunta Balardin.
Melun.
Melun? Mas é aqui que fazem o melhor queijo
brie do mundo! diz Poirot, que sonha um dia ser
chefe de cozinha num grande restaurante.
;;¦" Bernadet cofia os bigodes com a autoridade de
quem entende do assunto:
Ah. não! O melhor brie do mundo é justamen
te o brie de Meaux. Xem há como comparar o brie de
Meaux com o brie de Melun.
Só quem nunca provou o brie de Melun pode
afirmar tamanha tolice teima Poirot.
A crosta do brie de Meaux é mais uniforme. A
matriz formada pelo fungo deixa o brie de Meaux
muito mais cremoso pontifica Bernadet.
Mas tiralhe o sabor retruca Poirot. O
que não acontece com o brie de Melun. que amadu
rece em três dias. ao contrário do brie de Meaux, que
leva quatro para amadurecer.
Balelas desdenha Bernadet.
Eu prefiro o PontTEvêque intrometese
Fouchard.
E alguém te perguntou alguma coisa? corta
Bernadet.
Não, mas também tenho direito a minha opi
nião. Estou no Exército há mais tempo do que tu. Ou
te esqueces que sou cabo?
Balardin resolve entrar na discussãot
Concordo com Fouchard. Fui criado na Xorman
dia e o PontL'Évêque é incomparável. Mesmo sendo um
queijo pequeno, tem um aroma de dar água na boca.
Aroma por aroma fico com o Bleu d'Au\ ergne
resmunga Picardin, metendose na arenga.
E o roquefort? Ninguém defende o roquefort?
Queijo dos reis e dos papas? O favorito de Carlos Mag
no? grita, indignado, Delesserd.
Balardin, que estava quieto, virase para Dimitri:
E tu, o que achas?
Sou civil. Sendo queijo, eu como responde
Dimo, não querendo tomar partido.
Poirot retoma a palavra:
Não me interessa, agora, o sabor dos outros quei
jos. O que eu afirmava era que o brie de Melun é me
Sfi
Foto dos seis tirada por madame
Bourdon. Sentados, Poirot e Bernadet.
Dimitri tinha ido buscar mais vinho
lhor que o brie de Meaux. .Aliás, é fácil provar o que eu
estou dizendo. Virandose para a proprietária, ele per
gunta: Perdão, madame. Como é o seu nome?
Marguerite Bourdon, e concordo com o se
nhor. Nosso brie é muito melhor.
Pois, para tirar a dúvida, traga um dos seus
deliciosos queijos e uma garrafa de vinho tinto or
dena Poirot.
Traga logo duas. Estamos morrendo de sede
pede Dimitri.
Doze garrafas e quatro queijos mais tarde, Dimi
tri, os seis soldados e a gorda estalajadeira continuam
discutindo, bebendo e comendo, sem chegar a uma
conclusão.
À mesma hora, a cinqüenta quilômetros dali, o
Exército francês ganha a batalha surpreendendo os
alemães num fulminante ataque noturno. Dos táxis
de Gallieni, apenas um não chegou: o de Dimitri Bor
ja Korozec.
Na manhã seguinte, todos ainda dormem abra
çados embaixo da mesa. O cantar de um galo des
perta o cabo Fouchard, com a boca seca e o olhar
esgazeado. Ele acorda Dimo, que dorme como um
anjo sobre a imensa barriga de madame Bourdon:
Sabes o que eu acho, meu rapaz? diz Fou
chard, a voz rouca, tonto de sono e vinho.
Não faço idéia responde Dimitri, bocejan
do e esfregando os olhos.
Jamais chegaremos ao Mame conclui ele.
Depois arrota, e volta a dormir o sono dos justos.
PARIS.
O itinerário certo do comboio de táxis
O caminho errado de Dimitri
Medalha prussiana
cunhada prematuramente,
comemorando a vitória
das tropas alemãs
em Paris
Trecho extraído do manuscrito incompleto
Memórias e lapsos Apontamentos
para uma autobiografia, de Dimitri Borja
Korozec, encontrado em novembro de 1954
num esconderijo da seita Confraria Mu
çulmana, em Alexandria, no Egito
PARIS, 7 DE JUNHO DE 1917
Hoje, faço vinte anos. Aproveito a calma desta tar
de chuvosa para registrar as inquietações que me açu
Iam a mente. Na sala, Bouchedefeu está terminando de
empalhar um camundongo preso em nossa ratoeira. Pre
tende presentearme, nesta data. com o delicado animal.
A quietude vespertina, contrapõese a matança ineon
trolável dos campos de batalha. A guerra, que ambos os
lados previam curta e sem muitas perdas, já se estende
por quase três anos. Depois da Batalha do Mame. da
qual me vi alijado por circunstâncias alheias à minha
vontade, tanto alemães como aliados cavaram linhas de
trincheiras sinuosas, protegidas por arame farpado.
Essas trincheiras se estendem por mil quilômetros, da
Suíça ao mar do Norte, e assemelhamse a imensos for
migueiros. Os soldados passaram a exercer uma vida
subterrânea. Verdadeiras cidades foram construídas em
baixo do solo. com postos de comando, depósitos de su
primentos, enfermarias, cozinhas e latrinas. As linhas
são equipadas estrategicamente com metralhadoras, para
evitar ataques inimigos, e com abrigos subterrâneos,
para proteger os homens dos bombardeios aéreos. Em al
gumas áreas esses abrigos chegam a ter mais de cinqüen
ta metros de profundidade. Soube por uma carta de Poi
rot, de quem fiquei amigo, que o cabo Fouchard morreu
atingido por uma bomba. 0 artefato não chegou a explo
dir, mas caiu por acaso precisamente sobre a sua cabeça.
No banheiro, lugar a que sempre me recolho
quando pretendo meditar, sentado no vaso sanitário,
anoto meticulosamente estas considerações. Fazendo
uma avaliação da minha vida como assassino treinado
pela União ou Morte, reconheço que os meus dotes ain
da não puderam ser aproveitados em toda a sua pleni
tude. Espero, no entanto, que a perícia adquirida na
Skola Atentatora não seja desperdiçada. Talvez o futu
ro me reserve projetos maiores. Mesmo assim, sinto
me frustrado ao pensar que. na minha idade. Alexan
dre da Macedônia já havia conquistado a Pérsia.
Duas notícias me deprimem em especial. A pri
meira veio numa carta de meu pai. Em Salonica está
ocorrendo o julgamento da Mão Negra, e é dada como
certa a cor
senti
rei falta dos conselhos do Apis. 0 que deve fazer um
assassino solitário em tempos de guerra, quando mi
lhares morrem diariamente e os tiranos comandam o
banho de sangue a salvo, longe do front? A segunda
ocupa a primeira página dos jornais: Mata Hari foi de
tida como espiã e aguarda julgamento diante do 39 Con
selho de Guerra na prisão de \incennes. Sem dúvida
será fuzilada.
Minha mãe também escreveu. Parece preocupada
com o desenrolar dos acontecimentos e sinto, pela ma
neira como se expressa, que ela tem a impressão de que
jamais tornarei a vêla. Pela primeira vez, fez questão de
revelar o nome de meu avô brasileiro, um certo general
Manuel do Nascimento Vargas, de quem ela seria filha
bastarda. Esse segredo sempre foi guardado a sete cha
ves, o que para mim nunca fez sentido algum. Que im
portância pode ter na minha vida saber seu nome? Or
gulhome muito mais do sangue negro da minha avó. Ela
também quer que eu faça o juramento solene de um dia
conhecer sua terra natal. Sempre que me escreve toca
no assunto. Essa vontade está se transformando numa
verdadeira obsessão. Enfim, coisas de mãe.
Li que madame Curie. minha salvadora, havia
criado unidades radiológicas móveis, com verbas levan
tadas pela Union des Femmes de France. Os franceses
chamam carinhosamente as caminhonetes equipadas
por ela de Les Petites Curies. Cheguei a me apresentar
como voluntário para dirigir uma das viaturas, porém
fui recusado no exame físico, devido aos meus dedos.
Os tacanhos médicos militares acharam que essa in
significante anomalia poderia prejudicar minha habi
lidade como motorista.
Os americanos entraram na guerra. A França se
prepara para recebêlos. Os primeiros contingentes
devem chegar na próxima semana. Apesar do conflito.
Paris retoma as atividades artísticas e culturais. Os
teatros voltam a abrir suas salas. Livros e espetáculos
enaltecem a coragem dos soldados.
Algumas atitudes chegam a atingir um exagerado
chauvinismo. La Parisienne. de Henry Becque, saiu de
cartaz com casas lotadas, só porque conta a história de
uma mulher casada que tem dois amantes. Não que
rem que o inimigo se aproveite para denegrir a imagem
das francesas. Tola patriotada. Havia uma berlinense.
professora de alemão em Sarajevo, que tinha quatro.
Interrompo agora minhas reflexões, pois Gérard
bate à porta querendo usar o banheiro. Mais tarde sai
remos para comemorar meu aniversário. Bouchedefeu
conseguiu com um amigo anarquista, contraregra no
Casino de Paris, dois convites para assistir aos ensaios
da nova revista Laisseles tomber. Excitame a perspec
tiva de ver as belas coristas nuas desfilando empluma
das pelo palco. Depois, jantaremos na Brassene Lipp,
onde hoje em dia se reúne a fina flor dos artistas, polí
ticos e intelectuais da cidade.
Quem sabe, ao completar vinte anos. encontrarei
lá alguém que mudará o rumo da minha existência? A
noite é promissora e a vida é um hóspede inesperado.
A Brasserie Lipp está superlotada a despeito do
adiantado da hora. O aroma de havanas da melhor
qualidade impregna o ambiente. Famosa por sua cer
veja, salsichas e chucrutes, a brasserie foi fundada por
Léonaid Lipp em 1870 e preserva todo o charme da
Belle Époque. Os espelhos art nouveau das paredes
A um canto do restaurante, bebendo garrafas de
Brouillv num alegre alarido, estão Pablo Picasso, o
poeta Guillaume Apollinaire, Jean Cocteau, o com
positor Erik Satie e Modigliani, um jovem artista plás
tico italiano muito querido pelo grupo. A discussão
gira em torno da crítica publicada por Jean Poueigh
no Carnet de Ia Semaine, a respeito do bale Parade, cria
ção de Cocteau com música de Satie, cenários e figu
rinos de Picasso. Apollinaire escreveu uma apresenta
ção para o programa. Grandiloqüente. Modigliani lê
o texto quase ofensivo:
"Malgrado a propaganda e a balbúrdia orga
nizadas em torno do nome de Picasso, o argumento e
a música do bale Parade têm de igualmente graves a
idiotice de um e a banalidade da outra. Colocando
a nu sua imaginação, MM. Jean Cocteau e Erik Satie
nos mostraram isso claramente. As vezes é divertido
constatar a que níveis a incompetência pode chegar."
bochando: O que pretendem os meus amigos fazer
a respeito desta ignomínia? Se fosse comigo iria à re
dação e obrigaria o verme a engolir a página inteira.
És um italiano passional. Maior não responde a
menor... afirma Cocteau, com sua fleuma habitual.
Xo fundo, todos se divertem com a reação causa
da. Era justamente o que pretendiam. Paradeíoi feito
com o intuito de sacudir as convenções, arrepiar os
espíritos conservadores. Nada melhor do que escan
dalizar a pequena burguesia.
Apollinaire, que, mesmo afastado da batalha por
um ferimento na cabeça, ainda enverga a farda de
oficial da artilharia, puxa do bolso da túnica uma car
ta amarrotada e virase para Picasso:
Também tenho novidades. Não havia comen
tado contigo, mas o alto comando resolveu seguir os
teus conselhos.
Que conselhos? pergunta o pintor.
Se me permites, quero ler isto para os outros.
Vejam só a carta que o nosso querido Pablo me en
viou no dia 7 de fevereiro de 1915.
Tirando a folha amassada do envelope, começa a
ler com inflexões falsamente pomposas:
'Vou lhe dar uma ótima sugestão para a arti
lharia. Mesmo quando pintados de cinza, a artilharia,
os canhões, podem ser avistados pelos aviões, porque
mantêm suas formas. Em vez disso, devem ser pinta
dos com cores bem brilhantes, partes em vermelho,
amarelo, cinza, azul, branco, como um arlequim."
Cocteau comenta jocoso:
Fantástico, conseguiste levar tua obsessão pe
los arlequins até a frente de batalha! Devias propor a
mesma mistura para os uniformes dos soldados. Já os
generais se vestiriam de pierrô, e as enfermeiras, de
colombina.
Erik Satie aproveita a deixa:
Ótima idéia. Assim, a guerra se transformaria
numa grande commedia deli'arte.
O grupo cai numa gostosa gargalhada. Virando
se para Picasso, Apollinaire continua no mesmo tom:
Nunca se sabe como funciona a cabeça dos
militares. Quem sabe não inventaste sem querer um
novo tipo de disfarce? J¥ vf ^ ^V , M~
Modigliani põese de pé, solene, taça na mão:
Saúdo a Pablo Picasso. O inventor da arte da
camuflagem!
Todos se levantam e sorvem suas bebidas, rindo
se a valer do disparate.
O que logo chama a atenção de Dimitri ao en
trar com Gérard Bouchedefeu na Lipp após a ex
traordinária revista do Casino de Paris é o mesmo
homenzinho de pele escura que gritava "bravos"
ensaio. Sentase à mesa oposta à de uma roda de boê
mios, provavelmente artistas, que acabam de erguer
um brinde a alguém.
Brasserie Lipp. Seta indica mesa ocupada
por Dimitri e Bouchedefeu dentro do restaurante
O pequeno homem lembra um elfo dos contos
de fadas que povoavam sua infância. A despeito de
sua estranha aparência, possui um charme indiscutí
vel. Fuma um cigarro preso à longa piteira de ébano e
vestese com esmero. Usa bengala de castão, luvas e
polainas. Uma gravataborboleta de bolas destacase
sobre o colarinho de ponta virada. Notase que suas
roupas já viram melhores dias. Contudo, os punhos
puídos não abalam sua pose aristocrática. Dãolhe,
ao contrário, um ar romântico de nobreza falida. As
lindas mulheres que o acompanham parecem fasci
nadas por ele. Dimo reconhece as moças ainda farta
mente maquiadas. São três das mais belas coristas do
espetáculo a que acabaram de assistir: uma loura, uma
ruiva e uma morena. Bebem champanhe e conversam
animadamente.
Atraído pelo insólito personagem, Dimitri faz si
nal para que Bouchedefeu instalese com ele na mesa
mais próxima. Pedem cerveja, pés de porco e batatas
fritas. Quando o garçom se afasta, Dimo passa a ouvir
a história que o elfo de piteira está contando para as
bailarinas, num francês quase sem sotaque:
porada na Amazônia e havia treinado um casal de pa
pagaios para gritar bem alto o meu nome: "Viva José
do Patrocínio Filho!". Um dia, as aves fugiram, o que
me deixou bastante aborrecido. Esqueci o incidente
e embarquei para a Europa. Anos mais tarde, eu esta
va de volta caçando na mesma floresta. Depois de aba
ter duas onças enormes, sentei num tronco à beira do
rio para descansar. Estava quase cochilando, quando ouvi
um grande alarido vindo dos céus. Levantei a cabeça
e notei que o céu estava literalmente coberto por uma
nuvem de papagaios. Eles voavam em bando em volta
de mim e repetiam em coro: 'VivaJosé do Patrocínio
Filho! Viva José do Patrocínio Filho!". Tinham apren
dido a saudação com os meus dois louros fujões.
Ao escutar aquele nome, Dimitri intrometese na
conversa, falando em português:
Desculpe o meu atrevimento, cavalheiro. Mas
a coincidência é por demais extraordinária. Será que
tenho a honra de estar ao lado do filho do grande
José do Patrocínio?
O homenzinho espantase e retruca na mesma lín
gua:
Exatamente, meu jovem. O próprio Zeca. Ou
Zeca Pato, para os íntimos. Volta a falar em fran
cês, em atenção às coristas e a Bouchedefeu: Mas
como ouviu falar de mim e do meu pai?
Dimitri narra rapidamente sua história e suas ori
gens, íaia do orguino que sente üe sua avo negra e ao
quanto o velho Patrocínio representava para sua mãe.
Zeca espantase, pois a pele alva de Dimo em nada
revela a raça de que tanto se orgulha. Ele evita apenas
relatar tudo o que diz respeito às suas atividades como
anarquista. Termina contando seu encontro inolvidá
vel com Mata Hari e como a dançarina sagrada do
rito hindu havia se referido a ele, Patrocínio.
Patrocínio Filho confessa em voz baixa: i
Que mulher! Saiba, meu rapaz, que por ela
um homem é até capaz de se embrenhar no mundo
da espionagem... ele deixa escapar, misterioso, dan
do uma longa tragada na piteira.
A ruiva pendurase no seu braço: :,
José! Não me digas que és espião?
Não digo que sim nem que não... de qualquer
forma, abandonei por uns dias meu cargo no consu
lado em Amsterdam para tentar burlar a vigilância da
guarda em Yincennes e visitar Mata Hari na prisão.
Talvez organizar uma fuga. não sei... tudo em nome
do passado...
E valeria o risco? pergunta Dimitri.
O que é o risco para um homem como eu, que
já se bateu em duelo no Bois de Boulogne com o rei
Alberto da Bélgica pelo amor de uma mulher?
.,.í E o senhor fez isso?
Claro! Mas poupeilhe a vida. Não tive cora
gem de privar a Bélgica de seu soberano. Jorge me
lhe deixei quando arrebateilhe o florete numa curta
estocada.
Que Jorge? quer saber Bouchedefeu.
Jorge v da Inglaterra.
Bouchedefeu não parece dar crédito àquelas proe
zas:
Em todo caso, Mata Hari deve estar muito bem
trancada.
~ Patrocínio entusiasmase novamente ao lembrar
da bailarina:
Que mulher! Louca de amor por mim. Infe
lizmente, era uma situação insustentável. Sabia que
alguém pagava pelo seus luxos e caprichos porque
eu não tinha como arcar com tantas despesas. Por
isso, às vezes, ciumento e revoltado contra mim mes
mo, eu a insultava. Erguia os punhos para a esmagar.
Ela sorria, vinha como uma gata e murmurava:
"Baby...".
Baby? repete Bouchedefeu, avaliando o elfo.
Era assim que ela me chamava. Baby... Havia

um anão hindu que sempre a acompanhava. Não sei
por onde andará, agora que Maty foi presa.
Matv? lança Bouchedefeu, quase agressivo.
Um apelido amoroso que lhe dei. Era Matv,
Baby, Baby, Mau...
Dimitri abaixa a cabeça, incomodado pela lem
brança de Motilah Bakash voando pela janela do
OrientExpress.
Patrocínio olha para as três constas, sonhador, e
serve mais uma rodada de bebida. Bouchedefeu ain
da tem dúvidas quanto à veracidade da história:
Será que é da mesma Mata Hari que estamos
falando?
Da única! Uma vez, desvairado de ciúmes, ati
reia de encontro a um canapé e a esbofeteei alucina
damente.
A morena, excitada, quer saber:
§ E ela revidou?
Ao contrário. Só estendeu os braços numa sú
plica repetindo: "Babv... Baby...". Rolei com ela pelo
assoalho, como um louco, possuindoa mais uma vez.
Que mulher insaciável! Eram sete. oito vezes por noite.
Todas consigo? indaga, cético e meio em
briagado, Bouchedefeu.
Patrocínio Filho lançalhe um olhar de desdém
e, virandose para Dimitri, muda de assunto:
Precisas conhecer o Brasil. *H :\ ¦•".... ; 5
É o que minha mãe não se cansa de repetir.
Talvez, depois da guerra.
Se queres um conselho, vaite daqui agora. Não
fazes parte deste conflito. O Brasil é o país do futuro;
lá, tudo está por fazer. Que idade tens?
Faço vinte anos hoje. ,. : ^c:^ ; .
, .;. ¦, ."..,¦ •,,"",]

Zeca alça o cálice:
Ora, viva! És jovem demais para perder tempo
por aqui.
Jovem e simpático completa a bela moça
loura, dando um beijo no rosto de Dimo, estimulada
pelo champanhe e pelas histórias de Patrocínio.
Como te chamas? pergunta Dimitri, inte
ressado, beijandoa de volta.
Anette. Xão sou nenhuma Mata Hari, mas acho
que mereces um mimo de aniversário...
Levantase, puxando Dimo pelo braço antes que
ele possa reagir.
A julgar pela aparência do rapaz, acho que tu é
que vais ser regalada diz, rindo, Patrocínio. Tira um
cartão do bolso do colete, rabisca um nome e o entrega
a Dimitri: Se resolveres ir ao Brasil, aqui está o nome
de um grande amigo do Ooyd Brasileiro. Acaba de ga
nhar o comando de um navio e em breve deve chegar a
Marselha. Se quiseres, basta procurares por ele.
Obrigado, senhor. Xão sei como expressar a
honra e o privilégio que tive em conhecêlo.
Nem penses nisso! Feliz aniversário. Anette,
cuida bem do menino. Pobre de mim! Esta noite vou
ter que me contentar com duas... declara o herdei
ro do grande abolicionista.
E foi assim que Dimitri Borja Korozec tomou
conhecimento da existência de José do Patrocínio
Filho, mulato inzoneiro de indiscutível talento, poli
glota, auxiliar de consulado, poeta e jornalista, cuja
mitomania quase o levou à forca em Londres, meses
depois, como espião.
Mesmo já estando completamente alcoolizado,
Gérard Bouchedefeu percebe que Dimitri está para
de Patrocínio
Filho sem efeitos
de iluminação
Foto de
Patrocínio Filho
clareada por efeitos
de iluminação
se retirar. Ressabiado como todos os bêbados, ele res
munga:
Pelo menos não te esqueças do presente que
preparei para ti cora tanto carinho. E. enfiando a
mão no paletó, ele joga para Dimo o camundongo
empalhado.
O rapaz não consegue segurar o pequeno animal,
que acaba caindo na mesa ao lado. no colo de Jean
Cocteau. Cocteau dá um berro e sobe na cadeira:
Uma ratazana!
Instalase, na hora, um pandemônio no restau
rante. As mulheres gritam, os homens reclamam, os
garçons correm em desatino. Dimitri aproveita a con
fusão para recolher a pequena prenda embalsamada,
que fora parar no copo vazio de Modigliani. Ele pede
desculpas, muito sem jeito, e sai às pressas, arrastando
a loura Anette pela mão. Apollinaire e Satie socorrem
o poeta quase em choque, enquanto Picasso se espar
rama no chão às gargalhadas.
Anos depois, o pintor ainda riria ao se lembrar
do episódio e daquele jovem atabalhoado saindo da
Lipp, segurando pelo rabo um pequeno rato morto.
guardanapo da Brasserie Lipp
PARIS SEGUNDAFEIRA, 15 DE OUTUBRO
DE 1917
PESAR DA EUFORIA dos franceses com as vitó
Lrias em Verdun, pela primeira vez em sua rida Di
mitri Korozec encontrase em profunda depressão. Con
forme prefira, Dragutin fora fuzilado como traidor, e a
execução de Mata Hari acabara de ocorrer em Yincen
nes, de manhã; o Tribunal do 3e Conselho de Guerra
negara seu último apelo. Dimo passou a noite em claro
pensando no triste fim da dançarina. A vitória dos bol
cheviques na Revolução Russa tumultua ainda mais seus
pensamentos. Seria o terrorismo político a opção corre
ta ou todo o seu treinamento fora uma inutilidade que
apenas o transformara num assassino sem vitimas? Passa
dias inteiros no quarto, sem sair da cama, mergulhado
em seus livros, relendo Bakunin e Kropotkin.
Gérard Bouchedefeu o encontra nesse estado de
espírito, exatamente cinco horas após a morte de Mata
Hari. A sombria mensagem que o velho anarquista traz
por intermédio de um antigo camarada vindo de Sa
rajevo irá agravar ainda mais a melancolia do seu jo
vem companheiro. Os pais de Dimitri faleceram numa
epidemia de tifo. Mesmo tendo passado a vida lidan
do com a morte, o empalhador não sabe como anun
ciar tamanho infortúnio. Lembrase que, na Antigüi
dade, os reis mandavam matar os portadores de más
notícias. Ele se aproxima de Dimitri e arranca da cama
o edredom que o cobre:
Estive pensando. Não há motivo para sentires
tamanho abatimento. Quero te contar uma fábula ja
ponesa que certamente vai melhorar teus ânimos.
Dimo recostase na cama curioso e Bouchedefeu
sentase ao seu lado:
Um monge voltou ao convento depois de anos
de peregrinação. Assim que atravessou os portões, per
cebeu que os bárbaros haviam ateado fogo ao templo
e destruído os jardins. Em desespero, o pobre homem
lançouse ao chão rasgando as vestes e bradando aos
céus: "Parto em busca de sabedoria e resignação e
quando retorno é isto que encontro? Qual o sentido
desta provação?". Nesse momento, um outro monge,


velho e cego, chegouse a ele e disse: "Então de nada
serviu tuajornada? Não aprendeste que, por mais ter
rível que seja o infortúnio, algo pior sempre poderia
ter ocorrido?". O jovem monge retrucou com impaciên
cia: "Não sejas estúpido, velho cego. Que haveria de
acontecer que me entristecesse mais do que isto?". E
o velho respondeu: "Tu é que és parvo. Pois estás aí a
chorar pelas plantas do jardim e pelas pedras do tem
plo sem saber que teu pai e tua mãe morreram de tifo".
:i:>: Dimitri olha por um instante para Bouchedefeu
e desanda a rir:
Gérard, tu é que estás mais maluco que esse
velho cego. Que tenho eu a ver com monges e con
ventos?
>.;. Xada. Mas teu pai e tua mãe morreram de
tifo.
Dimo leva um tempo até se dar conta da enormi
dade que acabara de ouvir:
O que estás dizendo?
Já disse. Teu pai e tua mãe morreram de tifo.
Sinto muito, meu rapaz. Se te serve de algum confor
to, eu também sou órfão.
Dimitri Borja Korozec chora silenciosamente a
perda irreparável. Sentese só e desamparado. Bou
chedefeu, angustiado, não sabe o que dizer:
Tu vais ver. Um dia, este sofrimento, que jul
gas insuportável, acaba. Como diz o provérbio: "Quan
to maior a dor, maior o alívio".
Dimitri, que jamais ouvira provérbio tão estúpi
do, segue num pranto convulsivo. Bouchedefeu aca
ricia, sem jeito, o rosto do rapaz, e sai, fechando a
porta. O consolo não é a virtude mais eficaz dos ve
lhos anarquistas. r^ ;
SÜÈià
Depois de um banho gelado e de um leve almoço
comido às pressas, Dimitri Borja Korozec sai de casa às
duas horas da tarde disposto a mudar radicalmente sua
vida. O choque da perda dos pais o desperta do estado
quase letárgico em que se achava. Cumprirá a promes
sa feita à mãe. É hora de agir. Parte para o Brasil no
primeiro navio disponível. Nem pensa em usar o car
tão oferecido por José do Patrocínio Filho. Não viajará
de favor. Tem à sua disposição os fundos da Mão Ne
gra, depositados no Scrnveizerischer Glücksgeldbank,
de Zurique, em nome de Ápis. Para movimentálos, bas
ta usar a senha que Dragutin lhe fornecera. Até então
nunca havia lançado mão desse recurso, porém acha
que o momento é chegado. Basta de apatia. Chega des
sa rida miserável. Tem, inclusive, de aprender a gastar
dinheiro. A agência francesa do Glücksgeldbank fica
na rua Tronchet. Ele resolve que não irá ao banco de
metrô. Faz sinal para um táxi parado em frente ao pré
dio. O veículo não se move. Nem poderia. É o dele.
Num gesto de rebeldia decide que também não irá
guiando, e chama um companheiro que passa pela rua
de 1'Échiquier: "Táxi!".
O grito comum tem para ele um sabor especial
de liberdade.
Lamento, senhor, mas esta conta foi fechada
em setembro de 1914, logo no começo da guerra
explica mais uma vez o caixa de pincenê e cabelos
divididos ao meio.


Dimitri insiste:
Deve estar havendo alguma confusão. Talvez
eu não tenha escrito corretamente o código de aces
so. É Nêmesis. Pode verificar de novo?
Já verificamos cinco vezes. Não quer falar
com o diretor da nossa sucursal? Ele gostaria de re
cebêlo.
Dimo é conduzido à presença de monsieur La
Fortune. A sala imensa é decorada sobriamente, como
convém a um banqueiro suíço. La Fortune, alto, físi
co de atleta, recebeo de pé. Parece já ter conheci
mento do problema. Fala com os dentes cerrados, não
por descortesia mas por discrição:
Sinto muito, cavalheiro, mas devo repetir o que
meu funcionário lhe explicou. Infelizmente, também
para nós, a conta Apis. código de acesso Xêmesis, foi
encerrada há três anos. Pedi para vêlo porque tenho
aqui a cópia de um documento que foi enviada a to
das as nossas sucursais. Temos instruções para passá
la às mãos de quem quer que venha movimentar a
conta.
Dimo recebe com dedos trêmulos um envelope
pardo e sai, atordoado, deixando o diretor com a mão
estendida.
Assim que sai do banco, Dimitri entra num café
da rua Auber. Pede um pastis e lê a cópia quase apa
gada do texto, cuja tradução foi feita, anos mais tarde,
por um monge português do mosteiro de São Bento
em Viana do Castelo:

A QUEM POSSA INTERESSAR
Escrevo estas linhas em agosto do anno
do Senhor de 1914 para dar fé de sua infi
nita bondade e misericórdia. Quiz o Todo
Foderoso fazerme instrumento de sua bon
dade, por intermédio de meu meioirmão
MUan Giganovie, anarehista noctório que
muitos malles deve ter perpectrado contra
seus semelhantes, pois, desde cedo, mostra
va uma tendência para a destruição. Sen
do sua meiairmã, é com pezar que reco
nheço sua malignidade e, várias vezes, em
Londres, depois da minha conversão, me
ditei sobre a Vontade Celestial de me fazer?
vir ao mundo no seio de família tão pouco
temente a Deus. Sabia, no entanto, que tudo
deveria fazer parte dos projectos do Gran
de Arquitecto do Universo.
Ao receber, mez passado, uma carta de
Giganovie, o piedoso plano divino estam
pouseme, finalmente, diante dos olhos,
com a clareza insofismável de um milagre.
Sem saber que tive a "Revelação" através
das irmãs do Dispensário St. Mary, Milan
narroume um encontro com o famigerado
coronel Dragutin, cuja alma certamente ar
dera no inferno, e, por descuido, escreveu m
me o nome do código, da conta e do banco §"
onde eram depositadas as vultosas somas
que financiavam suas actividades assassi
nas e sanguinárias. Pude assim lançar mão
de todos esses fundos para a creação de
uma illuminada instituição de caridade que
elevará ainda mais nas alturas o nome do
Creador: o "Lar da Chapeleira Mãe Solteira
e Abandonada Olga Krupa". Espero que o
Senhor não tome como vaidade o facto de
ter eu ligado meu humilde nome a essa obra
%de sagrada inspiração.
f Hosana nas alturas! Misteriosos são os
caminhos do Senhor, pois Elle escreve cer
to por linhas tortas. ¦
í Sei que a ereatura que estiver a ler,
neste momento, estas palavras, e a quem
já considero patrono e bemfeitor da nossa
fundação, se unirá a mim a bradar aos céus:
Graças a Deus! Graças a Deus! Graças
a Deus!
Irmã Olga Krupa.
DiretoraPresidente do Lar
da Chapeleira Mãe Solteira e
Abandonada Olga Krupa.
Londres, 15 de agosto de 1914
letó. Chama o garçom e pede mais um pastis. Está de
cidido a não se deixar abater pelos acontecimentos.
Ainda lhe resta o cinto com as moedas de ouro. po
rém decide guardálas para emergências maiores. Irá
ao Brasil. Patrocínio Filho tinha razão. Nada o detém
no Velho Mundo. Encara o revés da fortuna como um
desafio. Examina o cartão que o brasileiro lhe deixou
e resolve partir à noite mesmo para Marselha. O gar
çom volta trazendo mais bebida. Seus pensamentos
estão tão distantes que ele, sem se dar conta, agrade
ce em português: "Obrigado".
Dimo bebe o líquido esverdeado de um só trago.
RIO GRANDE DO SUL SAO BORJA
OUTUBRO DE 1917
3 HOMEM DE BOMBACHAS segurando a cuia
de chimarrão instalase na rede do terraço. É
pequeno em estatura, mas sua aparência serena trans
mite uma segurança invulgar. Sentese nele a força e
o carisma do líder nato. Sua filha pequena segueo
de perto e sentase no chão ao seu lado. Não desgru
da os olhos do pai, por quem tem verdadeira adoração.
Os dois ficam em silêncio, contemplando o crepús
culo. Vênus surge no céu e o sol começa a desapa
recer no horizonte, colorindo de laranja o teto das
casas. O homem está cansado. Deputado estadual
pelo Partido Republicano desde 1909, acaba de par
ticipar da campanha para se reeleger pela terceira
vez. Sempre se emociona ao visitar a velha fazenda
onde cresceu em meio aos peões. Sente saudade das
longas cavalgadas pelos descampados e dos churras
cos preparados na brasa da fogueira improvisada.
Ainda guarda a primeira faca longa, presente de um
velho capataz.
O homem está intrigado com uma carta que o
esperava na estância. Vem de longe, a missiva. De Sa
rajevo. berço do conflito que abala a Europa há três
anos. Puxa mais uma vez do bolso o envelope desgas
tado por tanto manuseio. Olha de novo o texto escri
to com letra tremida, de quem não tem mais forças
para segurar a pena. A mulher que o escreveu conta
que agoniza de tifo e que tem poucos dias de vida. No
seu desvario, afirma
nascida quan
do seu pai, o velho general, ainda era solteiro. Fala de
um filho nascido na Bósnia, que seria seu sobrinho e
portanto neto de seu pai.
e se casado com um anarquista sérvio. Teme pela
vida do filho, pois o rapaz parece seguir a incerta
trilha dos terroristas. A história é por demais rocam
bolesca para ser verdadeira. Descreve fatos de terras
longínquas que ele só conhece pelas notícias de jor
nal. O homem atribui aquela narrativa quase sem
nexo à alucinação da febre. Decide não dar mais im
portância ao episódio. "Provavelmente é mais uma
pobre coitada que perdeu o juízo com a guerra",
pensa ele. Tem uma campanha pela frente com que
se preocupar. Sua reeleição é dada como certa, po
rém, na política, a certeza de hoje pode ser a derro
ta de amanhã. '
O homem puxa um fósforo e põe fogo na carta.
Acende um longo charuto Santa Damiana. Afilha, que
segue fascinada cada um de seus gestos, pergunta:
Que papel é esse?
Não é nada, Alzirinha responde o homem,
Ge túlio Vargas, afagandolhe a cabeça e dando uma
longa baforada no charuto.
êrêêê'


MARSELHA OUTUBRO DE 1917
~A EPOIS DE INSTALARSE num velho hotel per
VJ to da estação, Dimitri percorre La Canebière, a
larga avenida que desce até o antigo porto da cidade.
O escritório do Lloyd fica não muito distante do cais.
É para lá que se dirige, a fim de procurar fazer conta
to com a pessoa que lhe fora indicada por Patrocínio.
Geralmente o outono é uma estação de chuvas
em Marselha, mas o dia está quente e ensolarado, con
trastando com as folhas mortas das árvores, que se
meiam a calçada.
Ele sobe o Quai des Belges e o Quai du Port até a
rua de Ia Coutellerie, e após caminhar mais algum
tempo avista, logo na esquina, o pequeno prédio da
companhia marítima. Xa frente, em letras apagadas,
está escrito o nome da empresa: Lloyd Brasileiro. A
dos seus sessenta anos recostado no balcão. O velho
funcionário come uma bouillabaisse de um prato pou
sado no fundo de uma gaveta, enquanto lê um núme
ro antigo do Jornal do Commerdo. Dimitri bate no \idro
e chama o servidor em português:
Por favor, daria para o senhor me atender?
O homem levanta os olhos e grita:
Está fechado. Hoje é ponto facultativo.
Dimitri domina a língua com perfeição, porém
jamais ouvira aquela expressão antes:

Ponto facultativo. É uma espécie de feriado.
Aqui?
> Não. No Brasil. É o Dia Nacional do Guarda
livros.
Por favor, meu senhor. Eu só preciso de uma
informação.
Muito a contragosto, o velho servidor vai até a
balcão e, visivelmente contrariado por aquela inter
rupção, fecha a gaveta com o prato. Puxa um cotoco
de lápis de trás da orelha e palita os dentes com ele.
Boceja e pergunta:
Qual é a urgência?
Estou procurando o capitãodelongocurso
Saturnino Furtado de Mendonça. Ele está em Mar
selha?
O velho afasta o jornal:
Quem quer saber?
O capitão não me conhece. Meu nome é Di
mitri Borja Korozec. venho da parte de um amigo co
mum explica ele, mostrando o cartão que Patrocí
nio lhe dera.
O velho coca a cabeça com o mesmo lát>ispalito
e devolve o cartão com seu polegar impresso em gor
dura:
Ele chegou ontem e embarca hoje à noite para
E como faço para achálo?
Sei lá. Se quiser pode procurar no cais.
O cansado servidor público dá o assunto por
encerrado. Volta a ler o jornal e, abrindo a gaveta,

cabeça de peixe e começa a sugála ruidosamente,
enquanto resmunga entre os poucos dentes que lhe
restam:
Não respeitam mais nem ponto facultativo. É
o cúmulo.
Documento encontrado no arquivo morto da
Marinha Imperial alemã anexo ao diário
de bordo do SS Macau
USS Macau" 17de outubro de 191.
ítei.xamos Marselha às vinte horas de ter
çafeira, na preamar. com destino ao porto de
jÇeixões. em Portugal, primeira escala na nos
sa volta ao fijo de Janeiro, .jlttendendo à so
licitação do excellentissimo senhor José do Pa
trocínio Jilho. mui digno addido consular do
Êrasil em.jlmsterdam. acolhi a bordo, como
passageiro, o jovem Dimitri Êorja Xorozec. se
gundo consta, cidadão refugiado da Êósnia, po
rém de mãe brasileira. Devido às suas creden
ciais, não vi inconveniente algum em attender
o pedido de tão illustre funcionário, sobretudo
por causa da belligeráncia que occorre no con
tinente europeu. .^¦¦^,;.': ;¦¦¦ "¦"¦;¦ ii ^ ¦¦,¦¦
O rapaz parece ter instrucçao superior e
falia correntemente vários idiomas, inclusive o
português, que. explicoume, apprendeu com
sua genitora.
£stá em perfeitas condições de saúde, toda
via colloco dúvidas quanto a sua adaptação à
vida no navio durante a travessia. Presumo que
o jovem deve ter tido o seu equilíbrio phisico
abalado pelos deslocamentos da embarcação,
pois. em pouco tempo, conseguiu quebrar, na
minha cabine. um sextante magnífico, presen
te de meu pai quando me formei na Escola de
^larinha Mercante, sólido instrumento que já
havia resistido a várias tempestades.
Qiiebrou ainda três pratos e uma travessa
de batatas no refeitório, onde também feriu, sem
querer, com o garfo, a mão do primeiro piloto
yiagalhães; depois partiu o balaústre do tom
badiüio. quase precipitandose no oceano, e.
numa breve visita ao passadiço. teria estilha
çado com o cotovêllo a cúpula de vidro que
prótese a agulha magnética, não fosse a pron
ta intervenção do immediato í{pdrigues. Certa
mente não possui, como dizem os franceses em
jargão náutico, o "pé marítimo", é provável que
não seja tão desastrado em terra firme.
Executamos a travessia do estreito de Gi
braltar com relativa tranquillidade e seguimos
navegando em mar calmo, sob céu estreüado.
a uma velocidade de nove nós.
.Jíá uma certa apprehensão por parte dê al
guns tripulantes em virtude do afundamento
dos navios "Tijuea". "Paraná" e "Xapa" apesar
do estado de neutralidade por nós declarado, o
Império do Xaiser. Outra aggressão á nossa
frota certamente levará o Êrasil a entrar na
guerra ao lado dos.illliados.
J\a verdade, o official de quarto Souza e o
despenseiro Santos já me confidenciaram se
sentirem pouco à vontade pelo facto deste car
gueiro ser o ex"Palatia". apprehendido aos ger
mânicos quando fundeado em nossos portos.
jllém disso, os dois relataramme notícias co
lhidas em Marselha de que a região estaria in
festada por submarinos allemães. \ão sei se
devo dar crédito a essas informações ou se não
passam de superstição, como a lenda das se
Qiianto a mim. creio que alcançaremos o
porto de Xei.xões. amanhã, ao anoitecer, sem
maiores transtornos.
Saturnino furtado de Mendonça,
CapitãodejCongoCurso.
No dia seguinte, a duzentas milhas do cabo Finis
terra, na Espanha, o capitão Wilhelm Kurtz, do U932
da frota imperial, sente uma pontada no coração ao
ver a presa de três mil quinhentos e cinqüenta e sete
toneladas de porte bruto delinearse nitidamente no
seu periscópio. Nascera em Bremen, filho de um cons
trutor naval, e fascinado pela Marinha desde criança,
estava no porto quando aquele cargueiro fora lança
do ao mar, em 1914. Sua tristeza era maior ainda por
que seu pai ajudara a construir aquela embarcação.
Não importa que os brasileiros tivessem lhe mudado
o nome. Para ele, seria sempre o 55 Palatia. Wilhelm
afasta as lembranças sentimentais e concentrase na
mira. Afinal, aqueles pensamentos nostálgicos não fi
cam bem a um dos oficiais mais condecorados da
Marinha imperial. Aos vinte e três anos, já pôs a pique
doze cargueiros e cinco cruzadores.
Abatido e pálido pelos longos períodos confina
do dentro dos UBoot, aparenta mais do que a idade
que tem. Os submarinos são projetados visando ex
clusivamente à eficiência no combate, sem levar em
conta o conforto da tripulação.
Os homens dormem ao lado dos torpedos, com a
roupa do corpo, que é a mesma do início ao fim da
viagem. Os beliches são mais estreitos do que um ca
tre de convento. Passam semanas sem tomar banho,
já que utilizam a água apenas para beber. Usam gaso
lina para livrarse da eterna graxa que envolve cada
peça do submergível, reservando um pouco da água
apenas para limpar o rosto e as mãos.
rios, pois o ruído da descarga pode ser detectado pe
los sonares inimigos. Depois de doze horas, o ar tor
nase quase irrespirável e, para poupar oxigênio, nem
os mais viciados se atrevem a acender um cigarro.
Tudo isso contribui para reforçar a solidariedade
entre os homens. Mais do que as patentes, são os valo
res pessoais que definem as lideranças. As vezes, o pe
queno espaço daquele tubarão de metal leva a tensão
das relações entre os companheiros aos limites do hu
manamente possível. Mesmo assim, nem Wilhelm nem
seus homens escolheriam outro tipo de existência.
Aproximarse sorrateiramente da caça por baixo das
águas e surpreendêla no oceano é sua paixão maior.
De quando em quando, pensa, envergonhado, que o pra
zer de afundar o navio inimigo é maior do que o que
encontra nos braços de uma mulher.
Essa sensação o acomete agora, ao ordenar ao
oficial Berminghaus que lance os torpedos. Os dois
artefatos deixam os tubos de lançamento e singram
silenciosamente para o alvo.
Apoiado na borda falsa do convés superior, Dimi
tri observa o mar. Seguindo as ordens do comandan
te, que teme outro acidente, um oficial o vigia de lon
ge, recostado no segundo mastro. De repente, Dimo
virase para ele apontando as ondas: í:Ví::}'/
Venha ver que lindo! Dois golfinhos nadam
por baixo d'água em nossa direção. Incrível como são
rápidos e conseguem manter sempre a mesma distân
cia um do outro. Parece uma coreografia.
O oficial aproximase, debruçandosejunto com ele.
Não é uma manifestação deslumbrante da na
tureza? pergunta Dimitri, embevecido. , ; x ;

Não. São dois torpedos alemães responde o
oficial, correndo para a ponte de comando.
Antes que chegue à escada, as duas ogivas explo
dem de encontro ao casco de ferro.
Nem as sirenes de alarme conseguem encobrir o
tumulto. Homens vestindo apressadamente coletes sal
vavidas correm para as baleeiras. Da torre de coman
do, Saturnino Furtado de Mendonça grita ordens que
não são mais escutadas e o primeiro piloto procura
manter o navio flutuando. Seus esforços são inúteis.
Um dos torpedos atingira as caldeiras do cargueiro.
A sólida embarcação de cento e onze metros co
meça a adernar a bombordo com a fragilidade de uma
canoa. Alguns dos vinte e seis tripulantes em pânico
atiramse nas águas. Os outros abaixam os escaleres e
recolhem os que saltaram. Como convém à tradição
da Marinha, Saturnino de Mendonça é o último a
embarcar nas baleeiras, juntamente com o despensei
ro Arlindo. Saturnino leva consigo o diário e todos os
papéis de bordo. Uma intensa neblina começa a co
brir a superfície, misturandose à fumaça causada pelo
incêndio das caldeiras.
O comandante lembrase de seu único passageiro
e procura em vão localizálo nos botes que já se afastam
do naufrágio. Não o vê em parte alguma. A névoa tol
dalhe a visão. O Macau leva dezesseis minutos para
perderse no fundo do Atlântico. Súbito, a poucos me
tros dos barcos, rompendo a cerração, o UBoot 932
surge das águas como uma baleia de aço. O capitão
Wilhelm é o primeiro a despontar pela escotilha. Logo
a seguir um marinheiro aparece no estreito convés do
submarino, dirigese rapidamente para a metralhado
ra da popa e aponta a arma para os escaleres.
Kommandant, schnell hier gekommen! Schnell!
berra Wilhelm, gesticulando para que o capitão Sa
turnino venha a bordo.
A baleeira com o capitão brasileiro encosta no
submarino. Saturnino tenta entregar o diário e os
Nein!Mit den Papieren! Sie müssen die Papiere brin
gen! acena novamente o alemão, ordenando que
ele traga os papéis.
Saturnino está para subir, quando o despenseiro
Arlindo segurao pelo braço:
Sozinho o senhor não vai. Aonde o senhor for,
eu vou também.
Ignorando os protestos dos alemães, eles ganham
o deque do submergível. O capitão manda que um
dos homens armados os levem para baixo.
Com a mesma rapidez que surgiu, o UBoot 932
desaparece da superfície, carregando em seu bojo os
dois brasileiros. Essa é a última visão de que se tem
registro do capitãodelongocurso Saturnino Furtado
de Mendonça e de seu fiel e corajoso despenseiro Ar
lindo Dias dos Santos.
Horas depois, um contratorpedeiro espanhol re
colhe os vinte e quatro náufragos das águas do Atlân
tico. Ninguém se lembra de procurar pelo estouvado
passageiro embarcado em Marselha. u
Devido à sua notável desorientação, Dimitri pulou
pelo outro lado do navio. Enquanto todos se atiravam
a bombordo, Dimo, executando um salto perfeito, atin
ge as águas a boreste, ficando fora das vistas de brasilei
ros e alemães. Receando ser recolhido pelo submari
no, ele aguarda, protegido pelo fog, agarrado a um dos
largos destroços de madeira do tombadilho transfor
mado em bóia, até o barco mergulhar novamente.
Quando resolve chamar por auxílio, seus apelos
são encobertos pelos gritos de incentivo dos outros
sobreviventes aos colegas remadores. Da sua jangada
improvisada, Dimo observa, impotente, as baleeiras
afastaremse do local. Exausto e entorpecido pela per
manência nas águas geladas, ele acaba adormecendo
à deriva, oculto em meio às brumas.
Duas horas após o torpedeamento do Macau, Di
mitri Borja Korozec é despertado por vozes estriden
tes, falando português com uma pronúncia que ele
jamais ouvira. São pescadores de sardinha da cidade
do Porto, que já recolheram suas redes. Ele vê a trai
neira aproximarse rapidamente.
Olá! Olá! chama um deles, um pescador de
nome Joaquim, mais conhecido como Quim.
Ó Quim, és parvo? Então não vês que o gajo
está morto? diz um segundo.
Não me venhas com patranhas, Nicolau, que
eu o vi a mexerse garante Quim.
Num esforço sobrehumano, Dimitri levanta um
dos braços, sinalizando que continua vivo. Os portugue
te e conseguem recolher o sobrevivente desmaiado.
O estado de saúde do jovem preocupa os pescado
res. Arrancamlhe fora o terno encharcado, sem dar
maior atenção ao largo cinto de couro e ao cordão com
a chave que Dimo, mesmo semiconsciente, segura com
firmeza. Vestemlhe roupas quentes, cada um deles con
tribuindo com uma peça do vestuário. Quim passalhe
umas calças largas de brim, Nicolau um suéter grosso
de gola rulê e um terceiro, chamado Raul, oferecelhe
umajapona. Cobremno com um grosso cobertor de lã
e uma capa impermeável típica dos pescadores. A in
dumentária é completada por um gorro que lhe en
fiam até tapar as orelhas. Alguém derramalhe goela
abaixo um caldo verde bem quente que quase queima
a garganta de Dimitri. Mesmo assim, o novo Moisés sal
vo das águas continua tremendo. Nicolau constata que
ele está ardendo em febre. Obriga Dimo a beber uma
caneca de bagaceira. Finalmente pergunta:
Estás melhor?
Dimitri assente com a cabeça, porém a tonalida
de azulada da sua pele desmente a afirmação.
Como te chamas?
Jacques Dupont responde Dimitri, com
medo de revelar sua verdadeira identidade.
Que raio de nome é esse? Então não és portu
guês, pois não? Falas com um sotaque esquisito.
Dimitri segue inventando:
Não, sou francês. Aprendi a falar português
com um amigo brasileiro.
Os pescadores aceitam sem problemas a explica
ção de Dimo. Nicolau quer saber o que aconteceu:
Podes nos contar o que houve? A: v
Dimitri toma mais um gole de bagaceira e passa a
narrar o naufrágio. Depois de escutálo, Nicolau, que
parece ser o chefe do grupo, pergunta:
Só não explicas como te perdeste dos botes
salvavidas. " v;~r^ ' ¦¦ ."""¦: ¦¦ ¦ ;v; r~
:> navio.
novamente.
Fica claro para os pescadores que Dimo necessita
urgentemente de repouso e de vim atendimento mais
efetivo. Resolvem leválo para Viana do Castelo, porto
mais próximo de onde eles se encontram. Um dos
portugueses questiona:
E onde é que o pomos? Não pode ficar aqui
em cima ao relento. e nossos beliches são muito aper
tados. Com o movimento do barco, é capaz de ser lan
çado ao chão.
Nicolau resolve o problema. Faz uma trouxa com
as vestes molhadas de Dimitri para que nada se perca
e a prende entre os braços do rapaz, comandando:
Quim e Raul. Coloquem o gajo no porão dei
tado sobre as sardinhas.
Ravü pára um momento e indaga:
Mas, Nico, e o cheiro?
Não sejas burro, Raul. Sardinha morta não sen
te cheiros.
É noite. Dimitri é despertado em meio aos peixes
pela sirene da traineira entrando no cais. Pela escoti
lha ele avista as autoridades portuárias. Não quer se
arriscar a ser deportado ou detido. Tira da roupa
molhada os documentos empapados, enxugaos o
melhor que pode e, rasgando um pedaço da capa
impermeável, enrola nele os papéis, guardandoos
dentro do gorro. Usa as forças que lhe restam para
esgueirarse pela pequena abertura e desliza silencio
samente para o mar, contornando o barco.
Quando os pescadores vêm buscálo, dele encon
tram apenas o velho terno molhado. Num dos bolsos,
esquecida pela pressa, acham a carta de Olga Krupa
em inglês, que entregam aos policiais. Enquanto se
perguntam, intrigados, se o misterioso personagem
seria na verdade um espião a soldo dos alemães ou
simplesmente um náufrago desastrado, Dimo ganha
terra por um embarcadouro mais distante e desapa
rece de vista pelas ruas tortuosas do porto, deixando
atrás de si um rastro almiscarado de sardinha.
:Ji§tc

E OUTUBRO DE 1917 até setembro do ano se
guinte, perdese praticamente o paradeiro de Di
mitri. Sabese que em março de 1918, em Coimbra,
utilizando o nome falso de Amadeu Ferreira, ele ga
nha o primeiro lugar num concurso de datilografia
promovido pela Remington. Temse conhecimento
dessa proeza pela anotação nos livros da empresa mos
trando que os organizadores o desclassificaram poste
riormente, 'já que o indivíduo vencedor possuía doze
dedos, o que lhe dava uma injusta superioridade so
bre os demais concorrentes".
OUTROS REGISTROS DE ORIGEM APÓCRIFA SOBRE
DIMITRI BORJA KOROZEC NESSE PERÍODO
Uma fotografia de suas mãos aparece na coluna "Acre
dite se quiser" de Robert Ripley. no Aerc York Globe,
com a legenda "0 incrível homem dodecadigital".
Lm anarquista inglês assegura que Dimitri teve um
envolvimento passional com a ativista Sylvia Pankhurst
em Londres, na primavera de 1918, tendo participado
de várias manifestações pelo direito de voto para as
mulheres com mais de trinta anos, disfarçado de sufra
lillf


Um informante espanhol jura que em 10 de junho de
1918, quando Dimitri já teria completado vinte e um
anos. um certo Korozec foi rejeitado numa clínica de
nova droga, a ergonovina. que usada em pequenas do
ses provoca o aborto.
• Há quem afirme têlo visto na mesma época em
Coimbra, participando de uma reunião dos Catalães
Loucos, grupo anarcoterrorista português independente
que planeja o assassinato do presidente Sidônio Pais.
1 Em agosto do mesmo ano. o militante bolchevique
Gregori Propof pensa identificar Dimitri como o homem
que tropeça em Fanya Kaplan. quando ela dispara por
duas vezes sua arma. no atentado que quase mata A ladi
mir Ilitch Lenin depois de um comício em Moscou.
imaòutra. re
colhida imediatamente de circulação, dedica um capí
tulo aos prazeres conseguidos por um homem com dois
indicadores adicionais conhecido pela alcunha de II
Manusturbatore.
Um médico alemão chamado Kurt Schlezinger ga
rante que tratou de um homem com doze dedos aco
metido de ergotismo. infecção que matou milhares de
pessoas no vale do Reno. transmitida pelo fungo Clavi
ceps purpura. que transforma o pão comum num aluci
Sua presença é finalmente assinalada com segu
rança nos primeiros dias de setembro de 1918 em Lis

boa, numa sessão esotérica em casa do poeta Fer
nando Pessoa, na rua Santo Antônio dos Capuchos.
Presente à reunião o famoso ocultista inglês Aleister
Crowley, de quem Pessoa posteriormente traduziria o
poema "Hymn to Pan". Nesse encontro, Crowley ga
rante que Dimitri é a reencarnação do sumo sacerdo
te egípcio Ankhfnkhonsu, da xxm dinastia. Ankhf
nkhonsu caiu em desgraça quando o faraó Psamtik n
percebeu que o desequilíbrio constante do sacerdote
era causado pelo fato de ele ter doze artelhos.
Em setembro de 1918, faz escala em Lisboa o va
por inglês SSDemerara, proveniente de Liverpool. com
quatrocentos passageiros a bordo. Construído pelo es
taleiro Harland and Wolff. em Belfast, na Irlanda do
Norte, o barco parte para o Rio de Janeiro, porém deve
antes aportar em Tenerife, território da Espanha nas
ilhas Canárias, para se reabastecer de água e carvão e
trocar parte dos marinheiros por uma tripulação espa
nhola. E nesse navio que Dimitri Borja Korozec conse
Fora apresentado ao comandante por Manoela
Craveiro, obscura cantora de fados de um cabaré do
porto, com quem ambos mantinham esporádicas re
lações amorosas. Só por insistência de Manoela o co
mandante aceita o engajamento de Dimitri, pois o
rapaz está acometido de um resfriado que o deixa
em permanente estado febril. Sua fragilidade é ates
tada por este fragmento delirante extraído de seu
caderno:
[...] Custame entender a constante preocupação do
marujo ignóbil que comanda este barco. Evitame
como se a tosse que me aflige os brônquios fosse uma
anunciação de hemoptise. Merda de marujo. Mijo no
mar sujo. Xa vaga a nave voga e navega. Sinto sede.
muita sede. mas querem me dar água salgada. Malta
safada. Lm vulto voa em volta da viga. E o pelicano.
Preciso sugar a bolsa úmida do seu bico para apagar
este fogo que me ofusca os olhos. Afastate de mim,
Velha Ceifadeira. minha hora ainda não é chegada!
Mamãe me chamava de Malidimo. Pequeno Dimo.
Malidimo. Mal e Dimo. Em algum lugar do navio al
guém murmura o meu nome. 0 eomplô se adensa como
um nevoeiro; antes, porém, cortarei as garras do opres
sor. Será noite? Certamente é noite. Ou então é o dia
que vestiuse de trevas. Sinto no estômago o calor
sufocante das caldeiras. 0 portaló! Por que não abrem
o portaló? Nunca tive bilboquê. Se fosse menina, cer
tamente teriam me dado uma boneca. Bilboquê. nun
ca. Ao meu lado, um velho agonizante resmunga uma
oração. Que horas são? [...]
Dias depois, ao se afastarem do cais de Tenerife,
que se dirigem ao Novo Mundo em busca de uma vida
melhor, já estão contaminados pela estranha consti
pação que aflige Dimo.
A viagem do Demerara pelo Atlântico se trans
forma numa aventura dantesca. O comandante sen
tese como o barqueiro Caronte cruzando o rio Esti
ge em direção aos infernos. Só falta a mitológica
moeda na boca dos enfermos para pagar a travessia.
O tossir constante dos emigrantes nos porões da ter
ceira classe sobrepõese ao fragor cavernoso das má
quinas. O germe fora contraído por Dimitri de um
batalhão de soldados americanos, de Kansas Citv, com
quem ele confraternizara em Bolonha. Xo entanto,
devido ao período de incubação. todos atribuem er
roneamente a influenza à chegada dos marinheiros
espanhóis recémembarcados. De seus catres, os me
nos atingidos lançam gritos enrouquecidos pela fe
bre: "Foram os espanhóis! Pegamos esta maldita gri
pe dos espanhóis!".
E, assim, é Dimitri BorjaKorozec quem deixa, no
Rio de Janeiro, a gripe espanhola. :.;.,...._ . v
As precárias condições higiênicas e sanitárias do
Rio de Janeiro, nos idos de 1918, facilitam a expansão
da pandemia. Fechamse as escolas, numa tentativa de
deter a praga. Depois, é o comércio que cerra as por
tas. Os remédios conhecidos são de pouco ou nenhum
efeito. .Alguns vendedores Ínescrupvüosos oferecem
elixires exóticos como a cura milagrosa. As pessoas
não saem de casa temendo a contaminação, porém
nada parece diminuir a virulência que invade a cida
de e, por extensão, o país.
Os mortos são tantos, que não há mais tempo de
colocálos em caixões. Os corpos são lançados em va
las comuns e cobertos apressadamente cora terra e
cal. Logo pela manhã, carroças mortuárias percor
rem as ruas recolhendo os defuntos. O Cemitério São
enterros num único dia. E tão grande a carência de
jazigos que. por falta de espaço, muitas vezes os encar
regados se limitam a trocar sua carga fúnebre por ca
dáveres mais frescos.
A peste se espalha por todo lado, levada pelos imi
grantes contaminados e. em pouco tempo, mais de
trezentas mil pessoas falecem. O pânico toma conta
da população e falase do perigo iminente de um sur
to de cóleramorbo.
Sem o saber, Dimitri faz sua primeira vítima po
lítica perpetrando um involuntário atentado bioló
gico: o presidente Rodrigues Alves morre em janei
ro, assassinado pelo germe que ele introduzira no
Brasil.
A tudo isso Dimitri escapa incólume. A longa con
vivência com o vírus crialhe um anticorpo que o trans
forma num portador do germe, sem afetar sua saúde.
Não é, também, dessa vez, que Dimo consegue
conhecer a terra da mãe. Quando tenta desembarcar

no Rio, os médicos da alfândega detectam nele uma
irrupção tardia de sarampo. Posto em quarentena, é
obrigado a seguir viagem até San Francisco, nos Esta
dos Unidos, sua próxima parada.


HOLLYWOOD CULVER CITY ESTÚDIOS
DA MGM 3 DE OUTUBRO DE 1925
MAIS FIGURANTES! Preciso de mais figurantes!
grita Irving Thalberg, o todopoderoso pro
dutor da Metro.
Aos vinte e seis anos, Thalberg é considerado o
meninoprodígio da indústria, homem de confiança
do estúdio criado por Louis Mayer.
O assistente J. J. Cohn aproximase atarefado:
Vai ser difícil conseguir mais figurantes às oito
horas da manhã.
Quantas pessoas tem aí?
Umas quatro mil.
Quero o dobro insiste Thalberg.
O dobro!? Como é que eu faço?
Manda pegar gente na rua.
Sob o sol quente da Califórnia, será realizada nes
te sábado a grande cena da corrida de quadrigas de
BenHur. O projeto já custou quatro milhões de dólares
e praticamente nada do que havia sido filmado na Itá
lia foi aproveitado. Thalberg tomara as rédeas da pro
dução. Trouxera a equipe de volta a Holhvvood. troca
ra o roteiro, o diretor e a estrela, colocando o novo
ator Ramon Novarro no papel principal. Outras seqüên
cias mais trabalhosas, como a do vale dos leprosos e a
batalha naval entre romanos e piratas, tinham ocorri
do sem grandes percalços. Agora, restava o grandfinak.
Aboletados nos lugares de honra da imensa répli
ca cio uircus Aiaximus estão os convidados que vieram
especialmente para assistir ao evento. Sentamse ali,
como meros espectadores, vestindo túnicas romanas,
entre outras celebridades, Douglas Fairbanks, Mary
Pickford, Lillian Gish e Marion Davies. As últimas
câmeras são escondidas estrategicamente em volta da
arena, atrás das estátuas enormes, em escavações espa
lhadas ao longo do percurso, sobre trilhos e no meio
da multidão. Todas devem obedecer ao mesmo coman
do. Bigas e quadrigas alinhamse para a partida.
O choque entre os dois rivais fora preparado meti
culosamente pelo Departamento de Efeitos Especiais.
Vários carros e cavalos se envolveriam no desastre, que
terminaria com a roda da quadriga de BenHur ar
rancando a do carro de Messala. Há uma certa tensão
no ar. Na experiência anterior, feita na locação roma
na, vários cavalos tinham morrido no acidente simu
O experimentado diretor Fred Niblo dá as últi
mas ordens aos assistentes pelo megafone. Os gastos
são exorbitantes. A cena precisa ser filmada de pri
meira.
Ao lado de um extra em trajes de gladiador, atrás
da primeira curva da pista, vestido de centurião, en
contrase Dimitri Borja Korozec.
Desde sua chegada aos Estados Unidos, consegui
ra ligarse a vários grupos anarquistas, e há mesmo o
boato absurdo de que ele seria o verdadeiro atirador
no caso Sacco e Yanzetti. Conhecendo a pertinácia
com que se dedica à sua causa, é pouco provável que
não tivesse assumido o assassinato se fosse o real res
ponsável, i.....;.: rVv;
Sabese que ele participou de vários movimentos
operários, tendo quase feito abortar a famosa greve
dos trabalhadores das minas de carvão, em 22, con
fundindo os mineiros cobertos de fuligem com os
negros da organização ultraradical Volta à África.
Em 1924, suas andanças o levam para Nova York,
onde visita assiduamente os malafamados dancings
do Hell's Kitchen. Em breve, está ganhando a vida
como dançarino profissional. Num desses salões de
baile Dimitri conhece um certo George Raft. também
dançarino, ligado a perigosos elementos do submun
do. Raft, que já foi pugilista e acaba de ganhar o duvi
doso título de "o mais rápido bailarino de charleston
do mundo", é o protótipo do amante latino, com sua
pele morena e os cabelos lisos sempre impecavelmen
te fixos com gomalina. Tem o hábito de lançar ao alto
uma pequena moeda e aparála sem olhar. Dimitri
passa a imitálo, inclusive na maneira de vestir e de
emplastrar a cabeleira. Uma sólida amizade nasce
imediatamente entre os dois. Dimo chega a fazer dele
seu confidente, revelando sua verdadeira identidade
e seus projetos políticos ainda irrealizados. Conta até
mesmo a malbaratada participação no atentado ao
arquiduque em Sarajevo, o que faz Raft dar boas gar
galhadas. Dimitri surpreendese, incapaz de ver o lado
cômico de sua desventura.
Ambos fazem sucesso com as mulheres e já que,
por mimetismo, Dimo acaba se assemelhando ao dan
çarino, George costuma apresentálo como seu irmão
caçula.
Após um ano de convívio, não vendo maiores
oportunidades em Nova York, George Raft convence
Dimitri a mudaremse para Holhvvood, onde tenta
riam ingressar no cinema. Dimo aceita o convite, cer
to de que seus objetivos políticos não serão traídos.
Está persuadido de que a indústria cinematográfica
é uma criadora de mitos perigosos a serviço da bur
guesia e a melhor maneira de destruíla é infiltrarse
Pois é justamente George Raft que está agora ao
seu lado, vestido de gladiador. Dimo conserva sua apa
rência romântica de poeta desprotegido, e os trinta
anos do ator parecem muito mais do que os vinte e
oito de Dimitri.
George Raft ajeita o capacete, nervoso. Ao con
trário do amigo, pretende fazer carreira e não quer
ser prejudicado por alguma falha:
Tem certeza de que entendeu o que o assisten
te de direção mandou fazer?
Claro garante Dimitri, seguro de si, agar
rando uma grossa corda semioculta pela areia.
Então me diz.
Dimitri revira os olhos com impaciência. Está ali
muito mais pela merenda do que pela ínfima partici
pação:
¦¦ r Eu espero passar as duas quadrigas princi
pais e puxo esta corda escondida no chão. Os cava
los das bigas que vêm no encalço tropeçam na cor
da. Simples.
Seu jeito displicente não tranqüiliza Raft totalmen
te. Qualquer pessoa que tenha convivido com Dimitri
conhecelhe a propensão natural para a catástrofe:
É melhor que eu mesmo faça isso. Me passa a
corda.
Dimo irritase:
. ¦: George, não sou nenhuma criança.
Me passa a corda.
Para Dimitri, a discussão vira uma questão de
honra:
Fui escalado para puxar a corda e vou puxar.
Furioso, George Raft lançase sobre ele. Os dois
rolam pela arena disputando a dúbia primazia de cau
sar o desastre. Dimitri lançalhe ao rosto um punhado
de areia e saca a espada de centurião. George levanta
se segurando o tridente e procura envolver Dimo com
a rede que faz parte da sua indumentária. Não são
mais figurantes. Transformamse em dois gladiadores
lutando ferozmente com armas de madeira.
Do alto de uma grua, Fred Xiblo, alheio ao inci
dente, grita ao megafone:
Ação!
Eles nem sequer escutam os berros enlouquecidos
do diretorassistente suplicando que puxem a corda. Os
cavalos das bigas mais leves, que deveriam cair, se proje
tam em louca disparada de encontro às duas quadrigas
da frente, logo depois da curva. Com o choque, a lateral
ca estátua de Netuno. Subitamente, é todo o cenário que
vem abaixo em efeito cascata.
O silêncio se abate sobre o estádio destruído. De
pé, em meio às ruínas, George Raft e Dimitri Borja
Korozec seguem se batendo como se disso dependes
sem suas vidas. Conhecendo o frágil estado de saúde
de Irving Thalberg, Mary Pickford e Douglas Fairbanks
temem que seu coração não resista. O entrevero aca
ba de encarecer em um milhão de dólares a produ
ção de BenHur.
fff?


Felizmente para George Raft, o capacete que lhe
cobre o rosto evita que ele seja identificado, e o ex
dançarino pôde continuar interpretando pequenas
pontas até ser revelado no fil
me Scarface, em 1932, vivendo
o gângster Guido Rinaldo, ao
lado de Paul Muni.
Seu jeito de atirar uma
moeda para cima e pegála
sem olhar, adquirido no Hell's
Kitchen, se transformaria em
marca registrada.
Bem antes dessa fama, to
Foto de George Raft daria, a amizade entre os dois
e Dimitri feita ficara seriamente abalada. Raft
por um iniciante para . • 1 1
uma agência receava que alguém na cidade
de figurantes do cinema os visse juntos e asso
ciasse seu nome à hecatombe.
Três anos se passam e fica cada vez mais evidente
que os antigos laços que os uniam em Nova York estão
para ser desfeitos. Além do pequeno quarto que divi
dem numa pensão de segunda, os dois pouco têm em
com vim. Enquanto Raft consegue cada vez mais me
lhores papéis, Dimo se desencanta dia a dia com a
Meca do cinema. Tirando algumas aventuras passa
geiras com starlets que se tornariam mais tarde gran
des estrelas e cujo nome não é de interesse expor, não
vê nada de útil na sua permanência na Califórnia. Raft
acha ridículas as aspirações políticas do anarquista.
Em dezembro de 1928, no começo do inverno,
George Raft não agüenta mais Dimitri Boija Korozec.
Querendo livrarse definitivamente da incômoda par
ceria, entabula com ele uma conversa da qual toma


nota para eventual publicação num livro sobre Hol
lywood. Essas anotações foram encontradas por ho
mens de Fidel Castro, em 1959, quando fecharam o
cassino do Hotel Capri, que, segundo consta, George
Raft, em fim de carreira, gerenciava como testade
ferro para o crime organizado.
O Capri tinha, como atração suplementar, uma
piscina de fundo transparente na cobertura, e quem
estivesse no bar do andar de baixo podia deleitarse
vendo garotas que nadavam nuas.
se segue, excessivamente literal e por vezes incom
preensível, foi feita por um escritor brasileiro, anônimo
e alcoólatra, especialista em novelas policiais baratas:
[...] realmente eu não sabia mais o que fazer com aquele
sujeito. Depois do episódio de BenHur. ser visto junto
com ele ei"a veneno. Seu único assunto era a "revolu
ção", e de como a verdadeira meta do anarquismo era
eliminar todos os tiranos. Como ficamos muito ligados.
confiava em mim e contava vantagens. Queria me fazer
acreditar que era um terrorista treinado na Europa e mais
uma porção de lorotas. Já não agüentava mais sua pre
sença no pequeno quarto alugado que partilhávamos
numa hospedaria perto de La Cienega. Tive então uma
idéia brilhante de como fazer para vêlo pelas costas.
Estávamos jantando no Cavalo Doido, uma espe
lunca freqüentada por figurantes e assistentes de pro
dução. Como sempre ele repetia a mesma bosta de boi
sobre política quando o interrompi:
Dimo. isso é bosta de boi. \ou lhe dizer uma
coisa, velho amigo. Os verdadeiros revolucionários são
o pessoal do submundo, ^eja como assaltam os ban
cos. Você quer maior símbolo do capitalismo do que
um banco?
Você poder dizer isso de novo respondeu
ele.
Senti que o pacóvio estava fisgado pela minha con
versa rápida, e continuei:
Mas em matéria de anarquia ninguém supera a
Cosa Mostra.
Cosa Mostra? ele perguntou, arregalando os
olhos.
Os caras espertos.
Caras espertos? repetiu ele.
É como chamamos a turma da Máfia.
Corte minhas pernas e chameme de pequeni
no se estou entendendo disse Dimitri.
Claro que o otário nunca tinha ouvido falar neles.
Passei a explicar:
Homens que vivem do crime. Destroem mui
to mais as instituições do que qualquer anarquista
com uma bomba. São a verdadeira ameaça ao siste
ma. Mão respeitam a ordem, não pagam impostos e
fazem suas próprias leis com uma 45 ou uma sub
metralhadora Thompson na mão. \eja como usaram
a Lei Seca a seu favor. Em Chicago, aproveitaram a
Proibição para montar um negócio milionário. Fatu
ram mais de sessenta milhões de dólares por ano e
eliminam à bala qualquer pascácio que se meta em
seu caminho. Têm os tiras e os juizes em seus bolsos
forrados de dinheiro.
Você conhece essa gente? perguntoume.
Dei uma longa baforada no meu Lucky Strike para
criar um clima de mistério:
Talvez...
Pare de rodar em volta da moita, George. Co
nhece ou não conhece? impacientouse ele.
Acho que posso dizer que sim. Agora que
Johnny Torrio aposentouse, quem está tomando conta
dos negócios é um rapaz com quem convivi no Hell's
Kitchen em Nova lork. Se você tem interesse em co
nhecer o verdadeiro anarquismo, pessoas que agem em
vez de falar, que dominam o contrabando de uísque, as
boates onde se vendem bebidas ilegais, o jogo e a pros
tituição, posso escrever uma carta de apresentação para
ele. Se você é mesmo tudo o que diz. tenho certeza de
que ele vai apreciar os seus dotes melhor do que qual
quer um em Hollywood.
Vi seus olhos brilharem de excítação. Percebi que
minha proposta o havia atordoado como um soco sob o
cinturão. Suplicoume, agitado, que escrevesse logo a
carta. Pedi papel e uma caneta à garçonete e comecei a
coisa ali mesmo, no Cavalo Doido. Sabendo que Dimi
tri falava várias línguas e podia passar perfeitamente
por italiano, escrevi mais ou menos o seguinte: "Caro
Alphonse. o portador desta é um homem cujos talentos
certamente lhe serão de grande utilidade...".
Não me recordo bem do resto, mas foi assim que
finalmente me livrei daquele que era para mim uma
Apresentei Dimitri ao meu velho conhecido Al Ca
poucas horas. Antes de deixar a Califórnia para sem
pre, Dimitri Borja Korozec resolve despedirse da ci
dade. Anda sem destino pelas ruas ao cair da tarde,
embalado pelo vento frio do inverno, que varre as
calçadas como um lixeiro inesperado.
Atravessa uma rua quase deserta e entra no Hol
lywood Boulevard. Xa esquina ele pára para obser
var uma mancha de óleo deixada pela limusine de
alguma estrela. Os últimos raios de sol que cobrem a
avenida dão à mancha uma multitude de cores. "Um
arcoíris morto", ele pensa, quase poeta. Deixase
tomar por uma certa nostalgia. Lembrase da distan
te Banja Luka, onde nasceu, de seus pais. de Dragu
tin e de Bouchedefeu. Como andará seu inestimável
amigo de Paris? Xa última carta que dele recebeu,
há mais de dois anos. o velho anarquista contava que
havia se casado com a gorda concierge do prédio e
que estavam muito felizes, morando na Xormandia.
A pedido da esposa, tinha abandonado a taxidermia
e era agora o próspero proprietário da L'Excrément
Agile, uma pequena empresa especializada em lim
peza de fossas.
Com seu entusiasmo habitual, aproveitava a carta
para discorrer sobre sua nova tarefa. Eram páginas cheias
de detalhes a respeito dos esgotos da Grécia antiga, dos
penicos de ouro encontrados na tumba de Ranisés i,
morto treze séculos antes de Cristo, e de como a forta
leza feudal de Marcoussy na Idade Média tinha as la
trinas construídas num ângulo inclinado, o que permi
tia aos dejetos escorregarem diretamente até as fossas
localizadas fora dos muros. Os soldados podiam re
sistir por meses ao cerco inimigo sem contaminar com
montes de fezes os alojamentos do castelo. Assim era
Bouchedefeu. Fosse lá qual fosse sua profissão, amava
o que fazia.
Dimitri lembrase também, com carinho, de Mira
Kosano\ic, seu primeiro e único amor, aquela que o
iniciara nos prazeres do sexo na Skola Atentatora. Ti
vera várias mulheres, aventuras passageiras, porém suas
andanças pelo mundo não haviam deixado espaço para
um relacionamento mais sério. Não se queixava. Sabia
o quanto era solitária a vida de um assassino anarquis
ta. "Assassino sem vítimas", pensou, melancólico.
Repentinamente, percebe que está diante do
maior símbolo de Hollywood. O Chinese Theater. O
gigantesco cinema fora construído um ano antes e na
sua frente estendese a Calçada onde os grandes as
tros imprimem no cimento as palmas de suas mãos.
Acha ridícula a idéia, no entanto, como nunca havia
passado por ali, aproximase curioso.
Horas antes, uma estrela tinha deixado ali suas
impressões, provavelmente durante alguma solenida
de grotesca.
Ele nota que a argamassa ainda está fresca. Olha
para os dois lados da rua e abaixase como se fosse
amarrar os sapatos. Antes que alguém o impeça, pres
siona com força as próprias mãos sobre a marca re
cente feita no cimento.
Só quem olhar atentamente perceberá que agora
Pola Negri tem doze dedos.
Dimo afastase satisfeito, ânimo renovado pelo que
considera ser um corajoso ato de terrorismo. Não nota
o pequeno vulto vestido de Papai Noel que o observa
com atenção, duas esquinas atrás, escondido pelas
sombras do anoitecer. Quando Dimitri cruza a aveni
da, o vulto sai silenciosamente no seu rastro.

CHICAGO JANEIRO DE 1929
^ OM O MESMO fósforo que usara para acender
<^J o caro charuto cubano, o homem gordo de lá
bios grossos com uma cicatriz no rosto põe fogo na
carta que acabara de ler:
George tem você em alta conta. Como vai ele?
Bem. Cada vez consegue participações maio
res nos filmes responde Dimitri.
A carta foi escrita em dezembro. Por que não
me procurou antes?
Bem que eu tentei. Estive várias vezes à sua
procura no Lexington Hotel, mas seus homens não
A conversa acontece à noite entre Dimitri Borja
Korozec e Al Capone, no Four Deuces, da avenida Wa
bash, ao mesmo tempo cabaré, bordel e cassino clan
destino. Dizem também que nos porões desse antigo
escritório de Johnnv Torrio vários membros das qua
drilhas rivais passaram suas últimas horas de vida. Ca
pone impressiona pela aparência. Veste roupas caras,
feitas sob medida, e um anel com um diamante de
onze quilates e meio faísca no seu dedo mínimo. Numa
mesa dos fundos, Frank Nitti, John Scalise, Albert An
selmi e "MachineGun" Jack McGurn jogam cartas,
sempre de olho no chefe.
: A razão pela qual Dimitri ainda não havia pro
curado Scarface, apelido de Al desde que um jovem
delinqüente, ainda em Nova York, rasgara o lado es
bar, era bem outra.
Antes do encontro, ele passa um mês trancado
num quarto de hotel vagabundo perto da Union Sta
tion, indo à biblioteca e devorando avidamente tudo
o que acha sobre os gangsteres nos arquivos do Chica
go Tribune.
Faz amizade com um velho engraxate siciliano que
trabalha na porta do hotel e, derido ao dom inato para
línguas, aperfeiçoa o dialeto aprendido anos atrás com
um engolidor de fogo no circo da sua infância. Assi
mila também com o engraxate os hábitos daquela ter
ra distante.
Pelos artigos do repórter de polícia James
O'Donnell Berinett, fica sabendo da disputa entre gan
batalha. Lê sobre o Cadillac com blindagem especial
estacionado na porta do Four Deuces. O carro, feito
de encomenda ao custo de vinte mil dólares, exorbi
tante para a época, tem carroceria de aço e vidros à
prova de bala. As fechaduras das portas e do capo têm
segredo, como um cofre, para que ninguém consiga
plantar bombas no automóvel.
Xa verdade, a violência começara com o assassina
to de Dion CBanion, gângster de origem irlandesa que
pretendia ampliar seu território. O herdeiro de CBa
nion, outro irlandês, conhecido como George "Bugs"
Moran, jurara vingança e a guerra se tornara mais acir
rada com o atentado a Johnnv Torrio, exchefão de
Chicago. Como Torrio passara todos os negócios a Ca
pone, achava que sua aposentadoria lhe dava completa
imunidade. Circulava desarmado e sem guardacostas.
Certo dia, ao voltar das compras, Torrio é sur
preendido em plena rua por "Bugs" Moran e alguns
de seus capangas. É alvejado duas vezes. Quando já
está caído no chão, Moran acercase dele e, com o
intuito de destruir sua masculinidade, enfialhe tam
bém uma bala na virilha. Depois encosta a automáti
ca na cabeça de Torrio e aperta o gatilho para o tiro
de misericórdia. Ouve apenas um clique metálico: a
pistola está vazia. Percebendo que várias pessoas se
avizinham alertadas pelos disparos. Moran e seus
homens correm dali, deixando Johnny Torrio, um
gângster adepto da nãoviolência, agonizando na
calçada. Em poucos minutos, uma ambulância o leva
para o Jackson Park Hospital, onde ele se recupera
ria milagrosamente.
Só quando se acha devidamente preparado é que
Dimo se dirige a Al "Scarface" Capone para entregar
lhe a carta escrita por George Raft.
Capone acende de novo o charuto que insiste em
apagar. Avalia Dimitri de cima a baixo e pergunta:
Como é mesmo o seu nome?
Dim. Dim Corozimo inventa Dimitri.
Siciliano?
Sim, mas vim para cá ainda menino. Sou de
uma pequena aldeia da província de Palermo.
Que aldeia?
Corleone.
Capone analisa o rosto e os cabelos encaracola
dos de Dimitri. Parece mais siciliano do que ele.
Lembralhe Little Albert, seu irmão mais jovem.
¦ Como foi que veio parar aqui?
Me enviaram para a América quando meu pai
morreu assassinado a tiros.
Para testálo, Capone começa a falar em dialeto
siciliano:
Tuu patri?
Dimitri responde à altura:
Si. I miu patrí é mortu ammazzatu cu'n sparo
di lupara. ¦¦>¦"¦".',
Cussi sei veramente sicilianu? .. :,;¦..".y ¦". ¦<;'¦,
Sangu du nostru sangu. :': S
E comm è Corleone?
Eru picciriddu, non mi ricordu cchiú. Ex
plicando que era pequeno e não se lembra mais da
aldeia onde nasceu, Dimitri muda de assunto: Sonu
un uomo di rispettu, un uomo donuri. Fammi truvari
un travagghio nella sua famigghia.
Capone resolve acolhêlo:
Bene. Stai attentu, peró, chi'i testi di mafiusi
non ei rrumpunu mai.
Grazie, don Alfonso, bacio le manni agra
dece Dimitri, beijando a mão gorda de Al Capone.
Antes de ter total confiança em Dimo. Scarface
resolve verificar suas aptidões. Ele pergunta em inglês:
Você é bom mesmo?
Sou treinado em qualquer tipo de assassinato,
com qualquer tipo de arma gabase Dimitri.
Capone acha graça da bravata:
Dizem que a palavra Máfia vem do árabe, de
quando os mouros ocuparam a Sicília. Em árabe é
mouaffa, que quer dizer "boca fechada'". Vamos ver se
você não está falando demais. Chama Xitti, Scalise.
Anselmi e MachineGun: Este moço aqui quer tra
balhar comigo. Diz que tem boa pontaria e conhece
tudo sobre armas.
Albert Anselmi, considerado juntamente com
Scalise um dos mais perigosos pistoleiros do grupo,
ror que nao vamos ate o porão para ver como
ele se sai com a Tommv?

Era assim que chamavam a submetralhadora
concebida pelo generaldebrigada John Taliaferro
Thompson.
Submetralhadora Thompson
A Thompson era capaz de disparar oitocentas
balas calibre 45 por minuto a uma distância de qua
trocentos e cinqüenta metros.
O pente era redondo, dandolhe um visual sui
generis. O único problema é que era impossível usá
la com precisão. Os tiros saíam em rajadas, varrendo
a área na sua frente. O coice sempre deixava marcas
roxas nas axilas do atirador.
Um anúncio publicado no Xew York Herald quan
do a arma fora lançada garantia "uma defesa segura
contra criminosos e bandidos organizados". Ironica
mente, eram justamente estes que mais a utilizavam.
Numa sala à prova de som construída no porão
onde o bando pratica tiro ao alvo, entregam uma
Thompson a Dimitri. Ele olha a pequena máquina
fascinado:
" ; Nunca tinha xisto uma dessas antes. Gosto mais
de atirar com pistola.
Os homens de Capone entreolhamse sorrindo.
Pensam que Dimo está com medo. Frank Nitti su
gere:
Se quiser, posso pedir a pistola de água do meu
filho. ;c:
Eles caem na gargalhada, fazendo outros comen
tários do gênero. Scarface interrompe a brincadeira
e dirige um olhar gelado para Dimitri:
Chegou a hora de mostrar se você está men
tindo ou não. Ninguém que tenha tentado me enga
nar saiu daqui com vida.
Dimo nem hesita. Virase rapidamente e, sem se dar
ao trabalho de fazer pontaria, estraçalha com quatro ra
jadas curtas, sem pestanejar, o miolo dos alvos pregados
na parede dos fundos. Um silêncio de respeito seguese
ao estrondo da metralhadora. Dimitri abaixa a arma ain
da fumegante. "MachineGun" Jack McGurn, um espe
cialista, aproximase dele e declara com reverência:
Rapaz, nunca conheci quem manejasse uma
Tommy com tanta segurança. Como conseguiu em
punhar essa fera com tanta firmeza?
Dimitri, o único que não protegeu suas orelhas
com tampões contra o ensurdecedor estrépito da
Thompson, não escuta direito:
O que foi que disse?
MachineGun ri e repete quase aos gritos:
Como é que você agüentou o repuxo?
Dimitri explica com falsa modéstia:
Não sei. Talvez seja por causa dos meus doze
dedos diz ele, mostrando suas mãos.
Scarface observa, espantado, a anomalia:
O que é isso?
Dimitri responde prontamente, ainda com um zum
bido nos ouvidos:
Já nasci com eles. E uma marca do destino. I
fatu, don Alfonso.
Impressionado, Al Capone aceita na hora a en
trada de Dimo na organização.
A partir daquela noite fria de inverno, no porão
do Four Deuces, ele juntase à gangue de Scarface.
Conta a lenda que jamais alguém superou no manu
seio da Thompson um desconhecido gângster batiza
do por Al Capone de "Fingers" Corozimo.
': Xo início de fevereiro. Capone decide dar um fim
aos constantes ataques de "Bugs" Moran. Numa reu
nião na suíte do Lexington Hotel, onde ocupa vários
andares, ele encarrega McGurn, grande articulador,
de planejar uma operação que liquide, de uma só vez,
Moran e toda a sua equipe. McGurn resolve contratar
capangas de outras cidades para que não sejam reco
nhecidos e pretende usar Dimitri, rosto novo na re
gião. Continua impressionado com a pontaria certei
ra do novo integrante do grupo.
O plano de MachineGun é simplesmente genial.
Quatro pistoleiros os irmãos Keywell, de Detroit,
Fred ""Killer" Burke. de Saint Louis, eJoseph Lolordo,
de Xova York . acompanhados por Dimitri, se apre
sentarão disfarçados de policiais na garagem onde
Moran conduz seus negócios. Dois vestirão uniformes,
e Dimo e os outros irão à paisana.
Após o tiroteio, os falsos detetives com roupas
civis sairão com os braços erguidos, como se estives
sem sendo presos pelos homens fardados. Para com
pletar a manobra, encarrega Claude Maddox, um
auxiliar de Capone, de roubar um carro da polícia.
Para ter certeza da presença de todos no local, ele
faz com que um contrabandista desconhecido na
área marque um encontro com Moran para vender,
por um preço irrecusável, um carregamento de uís
que vindo do Canadá.
Romântico incorrigível. McGurn escolhe 14 de
fevereiro, dia de São Valentino, data dedicada aos
namorados, para realizar o extermínio. Fica combi
nado que eles se verão às dez e meia da manhã.
O único problema é que como os matadores vêm
de fora, apenas viram "Bugs" Moran em fotografias.
Dimitri, que também só o conhece pelas pesquisas que
fez nosjornais, arrisca uma pequena mentira para cres
cer aos olhos de Capone:
Eu sei bem quem ele é. Já cruzei com Bugs em
vários bares da North Clark, onde ele tem sua gara
gem.
Ótimo diz Scarface. dandolhe um tapa
Mesmo assim, quero que os irmãos Keywell
tenham fotos dele caso alguma coisa dê errado in
siste Jack McGurn, sempre meticuloso.
Pode confiar em mim, Jack. Tudo vai dar cer
to afirma Dimitri com uma convicção não muito
condizente com o seu passado.
O amor à verdade leva a reconhecer que às vezes
o fado conspira contra Dimitri Borja Korozec.
Gerardo Machado y Morales, general vitorioso da
revolução cubana de 1898, havia sido reeleito presi
dente de Cuba pouco antes. Nesse mesmo mês de
fevereiro, ele está enfrentando o frio inverno de Chi
cago em busca de investimentos estrangeiros para pro
mover as
ante a
campanha eleitoral. Sua viagem não é oficial. Os en
contros com os magnatas devem ser sigilosos para não
contrariar os nacionalistas cubanos. Por isso, o gene
ralpresidente hospedase anonimamente com seus
assessores num modesto hotel da cidade. O mesmo
estabelecimento é habitado por outro hóspede me
nos ilustre: George "Bugs" Moran.
Como Dimitri nunca viu Moran pessoalmente nem
sabe onde fica a garagem, não quer pôr sua missão de
reconhecimento em perigo. Postase à entrada do hotel
desde as nove horas da manhã. Leu, nas suas pesquisas,
que Moran costuma percorrer a pé a pequena distân
cia que separa o hotel da garagem. Para identificálo,
conta apenas com uma fotografia recortada de um jor
nal. Logo que Bugs sair, Dimo planeja seguilo até onde
os assassinos disfarçados de policiais aguardam, escon
didos dentro do caiTO roubado da polícia. O automóvel
já estaria estacionado perto do local. Assim que passas
sem pelo carro, Dimitri apontaria o gângster, entraria
no veículo e partiria junto com eles rumo à garagem.
Precisamente às dez e quinze, sai do hotel Ma
chado y Morales, o presidente de Cuba. Tem encontro
marcado com o magnata Samuel Insull, exsecretário
particular de Thomas Edison e agora presidente da
Insull viria a perder tudo, meses depois, com o crack
da Bolsa de Nova York; porém, no momento, é um
dos homens mais ricos do país. Quando Morales che
ga à calçada acompanhado por dois de seus assesso
res, é reconhecido por um casal de cubanos em lua
demel que justamente nesse momento cruzam pela
portaria. Os dois saúdam o general cubano em voz
alta, repetindo seu nome: "Morales! Morales!".
O presidente acena de volta e segue na direção
oposta ao caminho percorrido diariamente por "Bugs"
Moran. ' ; , ::^w
Como a audição de Dimitri ainda está ligeiramen
te prejudicada pelos disparos da metralhadora no
porão do Four Deuces, em vez de "Morales! Morales!",
ele entende "Moran! Moran!". Confere a foto de Bugs
que trouxe consigo. A semelhança entre o general e o
gângster é quase nenhuma. Como ambos, contudo,
estão de chapéu, Dimo atribui as diferenças à péssima
qualidade da fotografia esmaecida e sai no encalço de
Morales, do outro lado da rua. O coração do anar
quista começa a bater mais forte. A adrenalina per
corre todo o seu corpo e ele sente que desta vez não
porá nada a perder.
Duas esquinas mais longe, há uma viatura da po
lícia que faz a ronda da região, estacionada em frente
a uma lanchonete. Os policiais haviam parado para
comprar café e rosquinhas. Dimo pensa que se trata
do carro roubado e que os policiais verdadeiros são
os assassinos contratados. Abre a porta traseira de su
petão, jogandose no automóvel ao lado de um imen
so tira irlandês. Batendo no ombro do guarda que está
ao volante e mostrando o general cubano, ele diz. ra
pidamente:
Vamos, rapazes! Lavai ele!
Ao entrar atabalhoadamente no carro, Dimitri
derramou sobre o gigante irlandês todo o café que
este estava bebendo. O policial ao volante, com o tapa
nas costas, engasgouse com a rosquinha.
Ele quem? pergunta o terceiro polícia, sen
tado no banco da frente.
Ele! Ele!

O tira irlandês, quase enlouquecido pelo banho
de café quente, o empurra para baixo e enfialhe as
algemas.
Só então Dimitri percebe que entrou no carro
errado. Ainda procura disfarçar, apontando o presi
dente de Cuba:
Aquele ali não é o cantor Bing Crosby? Sou
doido por ele. Será que vocês não me conseguem um
O enorme irlandês responde calcando suas boti
nas sobre as costas de Dimitri:
Não. Você é que vai deixar o seu lá no distrito.
E ordena virandose para o guardamotorista:
Vamos levar este maluco para a delegacia.
: Depois de passar a noite numa cela junto com
cinco bêbados, Dimo lê nos jornais da manhã sobre o
massacre do dia de São Valentino, quando sete ho
mens da gangue de "Bugs" Moran foram trucidados.
Massacre no dia de São Valentino,
dia dos Namorados. Arquivos do Chicago Historical Society
Sem o auxílio de Dimitri, os irmãos Keywell ha
viam confundido Al Weinshank, outro membro da gan
gue que entrou na garagem às dez e meia, com Bugs.
Os dois eram realmente muito parecidos e não era a
primeira vez que tal engano ocorria. Moran, que dor
mira demais e chegara atrasado para o encontro, es
capara ileso.
Quanto ao presidente Machado y Morales, voltou
são e salvo para Cuba, sem conseguir, porém, seu pre
cioso empréstimo.
Só por dois motivos Al "Scarface" Capone perdoa
o deslize involuntário de Dimitri. Primeiro, com seu
bando desbaratado e com medo de morrer noutro
atentado, "Bugs" Moran deixa de ser uma ameaça.
Quando um jornalista pergunta quem teria elimina
do seus homens, ele responde sem pestanejar: "Só
Capone mata desse jeito".
Depois, sabedor da paixão de Scarface pela ópe
ra, Dimo inventa um interesse incomum pelo canto
lírico, decorando árias, aprendendo tudo sobre a
vida de Caruso, ídolo maior do gângster de Chi
cago. Os dois passam noites bebendo e cantando
trechos de Rigoletto, obra preferida de Al. Pouco a
pouco, tornamse inseparáveis. É Dimo quem guia
o carro, por sorte blindado, o que evita que as ligei
ras batidas provocadas pela inabilidade do motoris
ta amassem a carroceria. Enfim, o anarquista se
transforma numa sombra discreta do homem mais
temido da América.
A não ser por uma fotoerrafia onde se vê Dimo
escoltando Capone e seu filho Sonny num jogo de
beisebol, quase não existem registros dessa convivên
cia. Scarface prefere preserválo como uma arma se
creta. A amizade entre os dois chega a causar ciúme
nos membros mais antigos da gangue, como Frank
Nitti e Frankie Rio, mas ninguém ousa nenhum co
mentário desabonador na presença do cappo.
Capone e seu filho num jogo
de beisebol. Mais à direita, a seta
indica Dimitri parcialmente
encoberto pelo jornal
Após o sangrento dia de São Valentino, a situa
ção de Capone começa a deteriorarse. A opinião pú
blica, que até então o considerava, como ele próprio
dizia, "apenas um simpático comerciante de bebidas
proibidas", revoltase com a violência da carnificina.
Era tão horripilante o estado das vítimas retalha
das a metralhadora e a tiros de espingarda de cano cur
to no chão da garagem que o legista, ao chegar, não
conseguira examinar os corpos no local, para saber, pelo
calibre, se as balas haviam sido disparadas por armas
da polícia. Um jovem repórter sensacionalista do City
News, ávido por um furo jornalístico, usara a serra do
médico para abrir pessoalmente o tampo do crânio dos
cadáveres e tentar recolher os projéteis.
O governo sente que é hora de uma ação imedia
ta. É criado um órgão especial na Secretaria dajusti
rci o rtenartamento da Lei Seca. Homens desse de
partamento preparam um dossiê para processar e
prender Al Capone por sonegação fiscal. Entre eles,
há um obscuro agente chamado EUiotNess, por sinal,
alcoólatra.
O novo método de combater o gangsterismo por
meio do imposto de renda é visto como uma verda
deira revolução. É o que acontece no começo de no
vembro de 1930, em Chicago.
Na mesma época, a quase dez mil quilômetros
dali, no Brasil, um outro tipo de revolução acaba de
levar ao poder Getúlio Dornelles Vargas. O tio desco
nhecido de Dimitri Borja Korozec.
CHICAGO 17 DE OUTUBRO DE 1931
DESTINO DE AL CAPONE
SERÁ DECIDIDO HOJE
INSTALADO A MESA de uma caie teria na rua Aaams,
ao lado do Federal Buüding, Dimitri lê, mais uma vez,
a manchete do Chicago Tribune. Um longo sobretudo
negro oculta a pesada sacola de lona que traz a tiracolo.
Ele amassa a notícia aziaga e pede à garçonete ruiva que
lhe sirva um copo de leite sem açúcar. O excesso das
condimentadas comidas sicilianas e os últimos acon
tecimentos desenvolveram nele uma úlcera estomacal
que desperta raivosa em momentos de grande tensão.
Depois de dez dias, o júri irá se recolher para de
bater sobre a sorte de Scarface. A maioria do público
não tem dúvidas quanto à condenação. As especula
ções giram em torno da pena a ser estabelecida. Al
guns lances teatrais agitam o julgamento. Logo no
primeiro dia, o juiz Wilkerson, ao entrar na sala, or
dena ao meirinho: "O juiz Edwards tem um processo
que também começa a ser julgado hoje. Peça que ele
troque comigo todo o painel de jurados".
Com essa medida invulgar, Wilkerson evita a pos
sibilidade de que os doze homens escolhidos tenham
sido comprados pelos auxiliares de Capone.
Outro episódio dramático ocorre quando o juiz
nota que Philip d"Andrea, um dos guardacostas de
Al, está armado e lança olhares ameaçadores em dire
ção ao júri, deixando entrever a automática 38 sob o
paletó. Mesmo apresentando um porte de armas emi
tido pela prefeitura, D'Andrea é detido sob custódia:
"É um desacato entrar aqui com uma pistola", senten
cia o juiz.
No sábado, finalmente, a promotoria conclui seu
caso após apresentar dezenas de testemunhas e docu
mentos comprovando que Al Capone, um homem que
acumulara uma fortuna ilícita de mais de cem milhões
de dólares, deixara de pagar impostos desde 1925.
Impecavelmente vestido, Scarface mostrase en
fastiado diante dos depoimentos. Aparenta uma cal
ma que surpreende os espectadores e jornalistas pre
sentes ao tribunal.
Tão logo os jurados se retiram para decidir seu
destino, Al faz um sinal quase imperceptível para
Frankie Rio, outro guardacostas que aguarda em pé,
junto à porta. Frankie aquiesce com um ligeiro gesto
de cabeça e deixa o recinto. Capone e seus advogados
voltam para o Lexington Hotel, a fim de aguardar o
resultado do julgamento. Ele exibe um sorriso enig
mático que os repórteres tomam por empáfia. Não
sabem que o rei do submundo ainda planejajogar uma
última cartada.
A idéia de realizar uma operação audaciosa para
salvar Scarface parte de Dimitri. Lembrandose da fa
cilidade com que subia pelos cordames do circo, su
gere a Capone que Frankie Rio suba ao último andar
do Federal Building e lance de lá uma longa corda
até o chão. Dimo subirá por ela até o andar onde os
homens deliberam trancados a sete chaves. Forçará a
janela, ganhando acesso à sala, e subornará o júri.
Xa pesada sacola escondida sob o casaco leva a
proposta irrecusável: seis milhões de dólares. Quinhen
tos mil para cada jurado. Depois de absolvido, Al pro
mete pagar mais quinhentos mil por cabeça e, em
Chicago, sua palavra é lei. Em caso de traição, sabese
o que acontecerá, porém o risco não existe. Ninguém
trai Capone.
As duas e meia da tarde, Frankie Rio, no topo do
edifício, avista Dimo na viela escondida entre a rua
Dearborn e a Adams. Lancalhe a corda colocada ali

na véspera por um guarda do tribunal a soldo de Ca
pone. Dimitri inicia sua escalada pela face sul do pré
dio e, em lances rápidos, alcança o pavimento onde
está sendo debatido o futuro de Scarface.
Dimo se encosta na parede, segurandose no para
peito, e pelos vidros da janela fechada observa os doze
cidadãos em volta da mesa. Não é possível escutar o
que dizem, mas parecem discutir veementemente. To
mando impulso, ele usa a corda como balanço e lança
se pela janela, arrebentando o trinco com os pés. Os
homens levantamse assustados pela invasão repentina.
Antes que possam dizer alguma coisa, Dimitri faz
um gesto pedindo silêncio. Começa a falar baixo, qua
se num sussurro:
Se sabem o que é bom, fiquem sentados e es
cutem. Ele abre a grossa sacola de lona e esparra
ma na mesa os pacotes de dinheiro cuidadosamente
amarrados: Isto é para vocês. Aqui tem quinhentos
mil dólares para cada um. Amanhã, depois de termi
nado o julgamento, vão receber em casa mais quinhen
tos mil. Tudo o que têm a fazer é voltar lá dentro com
um veredicto de inocente.
Enquanto fala, Dimo vai separando a quantia em
doze parcelas iguais e empurrando os montes na di
reção dos homens estupefatos. Nunca viram tanto di
nheiro junto. Olhos arregalados, começam a guardar
a pequena fortuna nos paletós, nas calças e por den
tro das camisas. Alguns colocam nas meias os maços
que não cabem mais nos bolsos. Dois ou três ainda
hesitam, mas são demovidos por um pastor adventis
ta. Outro, mais idoso, cola o ouvido na porta para cer
tificarse de que os guardas postados do lado de fora
não estão escutando aquela negociação. O jurado mais
próximo de Dimo, um corretor de seguros, tenta di
zer algo:
Afinal de contas...
Não há tempo a perder interrompe Dimi
tri. Façam exatamente o que eu estou mandando.
Não é todo dia que se ganha um milhão de dólares
por uma absolvição. Acho que estamos sendo genero
sos demais.
Guardando a sacola vazia, ele volta a sair por onde
entrou, pendurandose na balaustrada. Antes de fe
char a janela, ainda repete:
Lembremse: a decisão tem que ser unânime.
Todos concordam felizes com aquela fortuna
caída do céu e preparamse para voltar ao tribunal.
Com a elegância de um trapezista, ele se deixa
escorregar pela corda até a calçada e desaparece rapi
damente pelas ruas, satisfeito com a perfeita execu
Só vim pequeno detalhe impede que o plano para
inocentar o mafioso funcione.
Devido à sua desorientação congênita, Dimitri
subira um andar a mais e acabara invadindo a sala onde
deliberavam sobre o caso de uma senhora míope que,
guiando sem óculos, atropelara o cachorro peqviinês
de um coronel reformado. Fora a estes jurados que
ele entregara o dinheiro de Scarface.
Enquanto a velhinha canicida volta livre e con
tente para casa, o outro júri condena Al Capone a onze
anos de prisão. ? v .•. o

FÁCIL IMAGINAR que, depois do infeliz equí
j voco ocorrido no julgamento de Al Capone, o
clima de Chicago não seja dos mais salubres para Di
mitri Borja Korozec. Ele deixa de freqüentar os luga
res habituais, muda de endereço e só ousa sair à noi
te, esgueirandose pelas ruas. Passa os dias no quarto,
lendo revistas e jornais.
ma sua atenção. No Brasil, o presidente Vargas, empos
sado um ano antes por uma revolução, ordenara a quei
ma de milhões de sacas de café. Com a destruição do
estoque, ele tenciona manter em alta os preços no
seu avo.
tesco com esse
homem?", ele reflete, intrigado. Volta a pensar em co
nhecer aquele país, cumprindo a promessa feita à mãe.
Na sextafeira, 22 de outubro, aproveitando uma
forte neblina que cobre a cidade, faz as malas e segue
direto para a Union Station. Pretende ir para Miami,
bem longe dali, e ponto mais próximo da América do
Sul, caso resolva viajar para o Brasil. ' : *"
Compra a passagem e sentase num banco perto
do portão de embarque, escondendo o rosto com um
jornal. Sabe que em Chicago sua vida corre perigo.
Frank Nitti, braço direito de Capone, colocou sua ca
Além do quê, Dimitri tem a impressão de que está
sendo seguido por um pequeno vulto que surge de
forma inesperada em qualquer lugar que vá. Mal Dimo
o avista, ele desaparece misteriosamente pelos cantos
mais escuros das ruas. Imagina ser algum pistoleiro
contratado para eliminálo. Enganase.
A estranha figura que o observa das sombras é a
mesma que, três anos antes, em Los Angeles, vestida
de Papai Noel, o acompanhava pelo Hollywood Bou
levard. Tratase de um espectro ameaçador vindo do
passado. O insólito personagem que o espreita sorra
teiramente é Motilah Bakash, o anão assassino.
O homunculo indiano escapara com \ida ao de
saparecer, anos antes, pela janela do OrientExpress.
Desmaiara ao rolar pelas pedras ao lado dos trilhos;
seu tamanho, porém, amortecera milagrosamente a
violência da queda.
Ficara desacordado até a manhã seguinte, sen
do então recolhido por uma caravana de ciganos.
Motilah só retomaria a consciência três dias depois,
graças às infusões preparadas por Zulima, uma ve
lha feiticeira, espécie de matriarca dos nômades.
Perdera, todavia, qualquer recordação do passado.
Lembrase apenas de que seu nome é Motilah e de
que é anão.
A trupe de zíngaros acolhe Bakash como se fosse
um talismã. Cercamno de zelos, dãolhe roupas típi
cas, emprestadas às crianças da tribo, ensinamlhe o
dialeto romani, a quiromancia e a prática do taro.
Como a índia é também a antiga origem daquele
povo, em pouco tempo Motilah Bakash sentese tão
cigano quanto eles.
Por três anos, durante o conflito que assola o Ve
lho Continente, eles vagueiam pelos países em guerra
evitando os campos de batalha.
Em meados de outubro de 1917, a caravana passa
por Paris. Motilah vê, num jornal, a foto de Mata Hari
e a notícia do fuzilamento. O choque brutal faz com
que ele recupere instantaneamente a memória. Ras
ga a página e dobra com cuidado a foto. guardandoa
no bolso. A imagem odiada de Dimitri Borja Korozec
surge nítida em sua mente. Jura vingança. Caso Dimo
torne a cruzar seu caminho, encontrará a morte nas
pequeninas mãos do último dos Thugs.
No início dos anos 20, os ciganos emigram para a
América, deixando para trás uma Europa devastada.
Desembarcam no Canadá em pleno inverno, e des
cem pelas estradas geladas com destino ao sul. Pas
sam pela fronteira com suas carroças, atravessando os
Estados Unidos em busca do sol dourado da Cali
fórnia.
A obsessão transforma radicalmente Motilah
Bakash. Não se diverte mais ao passear pelas ruas com
as crianças em busca de fregueses para as ledoras da
buenadicha. Procura o rosto de Dimitri em cada ho
mem que encontra.
Em 1928, chegam a Los Angeles, onde a caravana
planeja se estabelecer por algum tempo. Os ciganos
Passeando pelas ruas de Hollywood, Motilah é
abordado por um assistente de direção à procura de
tipos exóticos para participar de O circo, próximo fil
me de Charlie Chaplin. Ele fica encantado com Moti
lah. Jamais vira um anão tão perfeito e ainda por cima
cigano! Pede que o homenzinho o encontre no dia
seguinte, na United Artists. 'W : x. :•¦<¦¦:'..v^. '•"

Quando Motilah Bakash aproximase dos estú
dios na hora combinada, receia, por um instante, que
a idéia fixa de revanche tenha lhe tolhido os sentidos.
Na esquina em frente, caminhando ao lado de um
homem que mais tarde ele viria a saber chamarse
George Raft, está Dimitri Borja Korozec.
Motilah despreza, de imediato, o encontro mar
cado e passa a seguilo como um perdigueiro. Xo mo
mento oportuno, Kali, a deusa devoradora de homens,
irá se embriagar com o sangue de Dimitri.
A oportunidade tão esperada não surge na Cali
fórnia. Bakash não tem pressa. Já preparou outro roo
malàe seda, a echarpe sagrada dos estranguladores, e
o guarda sempre no bolso, junto com todo o dinheiro
que amealha em companhia dos ciganos. Quer ter
fundos disponíveis para qualquer emergência, caso a
perseguição o obrigue a viajar repentinamente.
No mês de dezembro, Dimo parte de Hollywood
para Chicago. Motilah, que o seguia oculto nos trajes
de Papai Noel, embarca às pressas atrás dele, sem nem
mesmo despedirse de sua família cigana.
Em Chicago, o comivio de Dimo com Capone e
seus homens impede que Bakash execute com rapi
dez o golpe exterminador. Ele não se importa. Para
doxalmente, o anão possui uma paciência gigantesca.
Matar o desafeto se transforma no projeto sagrado de
sua vida.
A noite, sonha com Mata Hari, paixão inconfes
sável. É atormentado por um pesadelo em que vê a
bailarina sendo executada. Todos os soldados do pe
lotão de fuzilamento têm o rosto de Dimitri.
Após o julgamento de Al Capone, Motilah Bakash
sente que é chegada a hora da vingança. Nota que

Dimitri se esconde dos homens do bando e passa a
observálo mais de perto. Utiliza disfarces diferentes
para não ser identificado. Quando Dimo se dirige à
Union Station, Motilah o acompanha a poucos me
tros de distância.
Enquanto aguarda nervoso a hora do embarque,
Dimitri vigia a entrada da estação. Não quer ser sur
preendido por um dos assassinos a soldo de Frank
Nitti.
O altofalante anuncia a partida do expresso para
Miami. Aliviado, Dimitri ganha a plataforma e entra
rapidamente no trem. Nem repara quando um meni
no de mochila escolar, vestido de marinheiro e com o
rosto parcialmente encoberto por um enorme piruli
to sobe para o mesmo vagão. O menino vestido de
marinheiro é Motilah Bakash.
Sem ter conhecimento do perigo que corre, Di
mitri instalase num dos confortáveis compartimen
tos do trem. A viagem é longa e ele deseja recuperar o
sono perdido na semana anterior. Passara noites a fio
praticamente de olhos abertos, temendo que os ho
mens de Capone o encontrassem. Agora, quanto mais
o longo comboio se afasta da cidade, mais sentese em
segurança. Tranca a porta unicamente por precaução
e porque não deseja ser incomodado.
Sobroulhe algum dinheiro, já que Scarface era
generoso com seus asseclas. Leva na bagagem uma
biografia recémlançada de Emma Goldman, uma
anarquista russa expulsa dos Estados Unidos logo de
pois da guerra. Tira o livro da mala e começa a ler.
Antes de terminar o primei
fundamente.
já dorme pro
Motilah Bakash fechase no banheiro ao lado da
cabine de Dimitri no final do vagão. Livrase do piru
lito e da roupa de marinheiro. Da mochila saca uma
faixa de tecido negro e uma túnica indiana dourada
adquirida no Marche aux Puces, em Paris. Nele, a cur
ta túnica se transforma em veste sacerdotal. Com a
habilidade desenvolvida por anos de prática, enrola o
pano negro na cabeça formando um turbante. Guar
da no bolso da túnica a carteira e a foto amarelada de
Mata Hari recortada anos atrás do jornal. Do fundo
da sacola, puxa o roomal o laço sagrado de seda dos
estranguladores Thugs. Coloca na mochila o disfarce
infantil e o pirulito. Abrindo a janela, lança tudo lon
ge, no campo que costeia os trilhos. Passa, afinal, a
echarpe em volta do pescoço, enquanto faz a breve
oração dos assassinos dedicada à deusa Kali.
Antes de cumprir sua missão de vingança, experi
menta uma breve sensação de frivolidade. Quer ter a
certeza de que paramentouse corretamente. Sobe no
vaso e inclinase sobre a pia para conseguir se olhar
no espelho.
Neste exato momento, um gordo caixeiroviajan
te do Texas que já bebeu mais de três litros de cerveja
força a fechadura do banheiro arrebentando o trin
co. Com o impulso do seu vasto corpo, a porta arrom
bada lança Motilah janela afora.
Decididamente, as forças cósmicas das estradas
de ferro têm influências nefastas no karma do anão
indiano. O gordo nem se dá conta do que acaba de
ocorrer. Abre a braguilha e, suspirando, alivia a bexi
ga dilatada. :
O grito estridente de Motilah Bakash confunde
se com o silvo da locomotiva. ¦. ,
Pouco se conhece das atividades de Dimitri Borja
Korozec nos seus dois primeiros anos em Miami. Pode
se, no entanto, ter uma idéia de sua instabilidade emo
cional pelas diversas profissões que ele exerce nesse
curto período. Primeiro, presta serviços como balco
nista numa farmácia, de onde viria a ser despedido
por receitar, equivocadamente, óleo de rícino para
uma senhora que sofria de gases.
Depois, por alguns meses, vende, sem sucesso, as
piradores de pó de porta em porta. Para demonstrar
o aparelho, acaba por limpar de graça as residências
de centenas de donas de casa agradecidas.
Em meados de 1932, Adrian Marlev, um baterista
jamaicano, convence Dimitri ajuntos fabricarem uma
pomada para alisar cabelos. O empreendimento é in
terrompido quando suas vidas são ameaçadas por dois
Trabalha, a seguir, como motorista de caminhão.
Participa das assembléias do Teamsters Union, o sindi
cato dos caminhoneiros, até levar uma surra por furar,
por engano, uma greve que ele mesmo articulara.
Arranja, finalmente, um lugar de vigia noturno
numa fábrica de calçados. É quando se une a uma
seita secreta formada por pedreiros anarquistas, a Liga
do Tijolo Negro. Numa das sessões da Liga, em janei

ro de 33, Dimo conhece um italiano desempregado
de nome Giuseppe Zangara.
Zangara atrai de imediato a atenção de Dimitri.
Ele identificase com sua aparência de menino perdi
do, os cabelos crespos, o olhar vago e os gestos estaba
nados. Ambos também sofrem de úlcera e a de Giu
seppe o incomoda constantemente.
Na noite de segundafeira, 13 de fevereiro de 1933,
há uma reunião da Tijolo Negro, onde discutem sobre
a terrível depressão econômica que se abatera sobre o
país desde o crack da Bolsa, em 29. Terminado o en
contro, os dois vão tomar sopa num pequeno restau
rante do Biscavne Boulevard. Pela conversa, Dimo nota
que Zangara divaga mais do que de costume:
O Opressor... depois de amanhã... murmu
ra Giuseppe, entre dentes.
O que disse?
Ele... vai estar aqui... depois de amanhã...
Ele quem?
O Opressor... vem das Bahamas... num iate...
Dimitri entende imediatamente a quem Zangara
se refere. Leu nos jornais que na quartafeira, termi
nando um passeio pelas Bahamas, chega a Miami o
presidente eleito Franklin Delano Roosevelt.
Está falando de Roosevelt? ele pergunta.
Zangara confirma com a cabeça.
O presidente Roosevelt é o Opressor?
Todos os presidentes são opressores... odeio to
dos os presidentes, todos os governantes e todos os
ricos... Puxa do bolso uma pistola barata calibre 32,
comprada numa loja de penhores. Haverá um
Opressor a menos nesta quartafeira...
Dimitri o obriga a esconder a arma:
Giuseppe, guarde isso. Ainda é segunda.
No fundo, Dimo pensa mais ou menos da mesma
forma. Fora treinado para livrar o mundo dos tiranos.
Apenas nunca imaginara Roosevelt como sendo um
deles. Pouco a pouco, a lógica sem nexo do anarquis
ta italiano se apodera do confuso pensamento de Di
mitri. Que importa se Roosevelt havia sido escolhido
pelo povo? Acontecera o mesmo com Mussolini, na
Itália, e Hitler, na Alemanha. Hitler, Mussolini, Roo
sevelt, todos tiranos, todos opressores.
A sorte lhe permitira descobrir que Zangara está
decidido a matar o presidente. Ele também poderia
eliminar o presidente eleito. Trouxe sua 45 de Chica
go. Está bem guardada no quarto, em cima do armá
rio. Enquanto terminam a sopa em silêncio, começa a
germinar na sua cabeça a idéia de roubar para si o
assassinato de Roosevelt.
MIAMI QUARTAFEIRA, 15 DE FEVEREIRO
DE 1933 21H30
CONVERSÍVEL diminui a velocidade e estacio
_ na numa praça do centro. Sentado no banco de
trás do automóvel está o novo presidente. Sorridente e
bronzeado pela viagem de barco, dirige um pequeno
discurso às vinte mil pessoas que se aglomeram na pra
ça para aplaudilo. Fala do New Deal, o extraordinário
plano que terminará com a Depressão.

Alheio ao acontecimento, um mendigo faminto
chamado Tobias CTLeary dedicase a roubar uma ba
nana numa carroça de frutas.
A três metros de distância, Giuseppe Zangara, a
arma engatilhada, preparase para subir num banco
da praça e conseguir assim uma melhor visão do alvo.
Entre Zangara e o mendigo, surge uma mulher
de vestido estampado e cabelos desalinhados. Ca
minha insegura sobre os saltos altos. Abre a bolsa
deformada por um volume e um peso exagerados.
Confere o conteúdo. Dentro da bolsa, uma auto
mática 45, como as usadas pelos gângsteres de Chi
cago. A mulher que mal se sustenta nos sapatos é
Dimitri de peruca.
Tendo surrupiado a fruta, o mendigo Tobias
O'Learv afastase da carroça e escondese atrás de uma
árvore, para ficar longe das vistas do vendedor. A ár
vore que ele escolhe fica entre Dimitri, que vem che
cando, e o banco onde Zangara acaba de subir, com o
revólver na mão.
O que se passa a seguir acontece ao mesmo tempo,
numa sincronia arquitetada pelo acaso.
O mendigo come a banana com sofreguidão e
joga a casca por terra. Zangara, do banco, grita: "O
povo está morrendo de fome!". Dimo, a um passo dele,
já meio desequilibrado pelos saltos, pisa na casca de
banana, desliza e chocase com Zangara, levantando
os braços. Sua bolsa pesada atinge a mão de Giuseppe
da sua pistola. O impacto desvia a trajetória dos projé
teis. Como conseqüência, várias pessoas são baleadas
e o prefeito Anton Cermak, que estava em pé ao lado
do carro, é ferido mortalmente.
Graças ao escorregão de Dimo, Franklin Delano
Roosevelt escapa ileso do atentado.
Na quintafeira, todos os jornais trazem a man
chete na primeira página:
MULHER
MISTERIOSA
DESVIA
A MIRA DO
ASSASSINO
Facsímile da notícia
publicada num
jornal da Flórida
Podese dizer, sem receio de exagero, que Dimi
tri Borja Korozec é o responsável indireto pelo suces
so do New Deal.
Trecho extraído do manuscrito
incompleto Memórias e lapsos
Apontamentos para uma autobiografia,
de Dimitri Boria Korozec
MIAMI, SEXTAFEIRA, 7 DE JUNHO DE 1935
Ao completar trinta e oito anos não vejo moti
vos para comemorações. Até agora, quis o acaso que
eu me atrasasse para todos os encontros com o des
tino. Xada deu certo. Só minha inefável obstinação
me obriga a permanecer fiel aos ideais da minha ju
ventude.
0 sorriso de Roosevelt. piteira entre os dentes, ain
da perturba meus sonhos. Devem desprezarme os deu
ses dos matadores depois que salvei minha própria ví
tima.
Às vezes penso se não teria sido melhor permane
cer na Europa. Ano passado, em Marselha, um grupo
de terroristas croatas assassinou o rei Alexandre da
Iugoslávia. Dois deles estudaram comigo na Skola
Atentatora.
Sintome só. É certo que tive várias aventuras amo
rosas. Já desisti de entender a estranha atração que
exerço sobre as mulheres, mas procuro não me envol
ver emocionalmente. A vida errante que levo ainda não
me permite uma ligação mais profunda.
1 çuei haver encontrado a com
panheira ideal na pessoa de Helen Murrav. uma trei
nadora de cavalos dissidente do Partido Comunista ame
ricano. Atraíramme seus cabelos louros, seus seios
' tidas e. principalmente, seu inte
resse pelos ideais anarquistas.
Helen viera de Nova lork para esquecer uma pai
xão tumultuada que vivera até dezembro com ^ ictor
Allen Barron. militante da Internacional Sindical "\ er
melha. Por intermédio dela. soube que ele partira para
o Rio de Janeiro, onde os comunistas preparavam uma
revolução chefiada por um tal de Luís Carlos Prestes.
Barron estudara eletrônica e radiotelegrafia em Mos
cou e seria o homem das comunicações, encarregado
Infelizmente, havia algo em Helen que me inco
modava demasiado e acabou por provocar o término da
relação. Toda vez que atingia o orgasmo. ela gritava
com toda a força dos seus pulmões: "Proletários de todo
o mundo, univos!'".
Ao saber da conspiração em curso, mais uma vez
me entusiasma a antiga decisão de conhecer o Brasil.
Talvez as oportunidades de exercer meu ofício letal
Desta vez. Dimitri Borja Korozec preparase com
todo o cuidado para a viagem com a qual almeja trans
formar sua vida. Continua preservando obstinadamen
te as libras esterlinas de ouro oferecidas por Dragu
tin. Conservaas como um último recurso, já que não
tem idéia do futuro que o aguarda. >p •'.


Um novo meio de transporte começa a encurtar
distâncias: o avião. Empresas comerciais estendemse
pelo mundo, diminuindo o tamanho do planeta. En
tre elas, a Pan American World Airways, que tem como
subsidiária a Panair do Brasil. Uma de suas linhas, fa
zendo oito escalas, liga Miami ao Rio de Janeiro. Di
mitri empregase como carregador na repartição de
despachos. Durante cinco meses, estuda a rotina dos
bagageiros e a rota da Panam.
Aprende também tudo o que pode sobre o Brasil
na biblioteca da cidade. Félix Ortega, um companhei
ro mexicano da Tijolo Negro, fornecelhe uma carta
para dois anarquistas bascos, os gêmeos Samariego,
que trabalham como doceiros na Confeitaria Colom
bo, no Rio de Janeiro.
Dimo coloca numa mala apenas seus pertences
essenciais, a automática 45, os dólares que lhe restam,
e a esconde, junto com um pesado cobertor, no han
gar da companhia. Só falta aprontar um farnel com
alimentos em conserva e garrafas dágua no dia da
viagem, e estará pronto para a travessia.
O percurso é feito pelo Sikorsky S42, um hidroa
vião de trinta e dois lugares batizado de Brazilian Clip
per, que decola do ancoradouro de Dinner Key e pou
sa, dias depois, na Ponta do Calabouço, no Rio, quase
em frente à ilha Fiscal.
Sendo um dos carregadores, Dimitri planeja
burlar a vigilância com seu macacão da Pan Ameri
can e ocultarse no compartimento destinado às
bagagens na traseira do poderoso quadrimotor.
Dimo aguarda, ansioso, pelo primeiro vôo que não
lote de malas o exíguo porão, deixando espaço su
ficiente para ele.
A oportunidade tão esperada surge, enfim, no dia
24 de novembro de 1935. O Sikorskv S42 alçase das
águas levando para o Brasil vinte e três passageiros e
um clandestino: Dimitri Borja Korozec.

BRASIL RIO DE JANEIRO 28 DE NOVEMBRO
DE 1935
Cidade Maravilhosa,
Cheia de encantos mil...
Cidade Maravilhosa,
Coração do meu Brasil!
A BORDO DO A\T\O, os brasileiros que regres
lV sam cantam alegremente a marcha de André Fi
lho transformada em hino do Rio de Janeiro. O Brazi
lian Clipper circunda o Cristo Redentor e. como um
imenso albatroz, pousa nas águas mornas da baía de
Guanabara. A aeronave atraca na ponte móvel da pon
ta do Calabouço, e os passageiros iniciam o desem
Xo bagageiro, Dimitri afasta o cobertor que o
protegera contra o frio, estica pernas e braços entor
pecidos, e preparase para deixar o esconderijo. En
colhese no fundo do compartimento, empilhando as
malas na sua frente. Assim que o pessoal de terra sai
com as primeiras bagagens, ele empunha alguns volu
mes, inclusive a sua maleta, e misturase aos outros
Desde o momento em que põe os pés em terras
brasileiras, Dimo enamorase da cidade. Encantase com
o Pão de Açúcar. Lembralhe uma esfinge natural dei
tada em berço esplêndido. Do alto do Corcovado, os
braços do Cristo parecem abençoar sua vinda.
Ele observa os arredores como que hipnotizado
pela natureza e, deslumbrado com a paisagem, chega
à praça Marechal Ancora. Os homens e as mulheres
que cruzam com ele caminham como se estivessem
embalados por um ritmo sensual. Há um meneio sua
ve em cada um de seus passos. Sem se dar conta, Dimo
começa a mimetizarlhes a ginga. O sol da tarde ainda
queima seu rosto e um suor quente inundalhe lenta
mente o corpo. Agradalhe essa sensação úmida dos
trópicos. Dimitri sente pulsar mais forte o sangue
mulato que corre em suas veias. Protegido por um
arbusto, ele arranca o macacão da Pan American que
lhe cobre as roupas e jogao embaixo de um banco da
praça. Pergunta a um rapaz, segurandolhe o braço,
qual a localização da Confeitaria Colombo. O jovem
assustase, olhando ansiosamente para os lados. "Fica
na Gonçalves Dias, entre a Sete de Setembro e a Ouvi
dor", diz ele, com um sotaque melodioso que Dimo
não conhece, e afastase apressado.
Seu jeito de responder intriga Dimitri. Como uma
pergunta tão banal pôde causar tamanho sobressalto?
Ignora que a revolução comunista que o trouxe ao Bra
sil fracassara na véspera em menos de doze horas.
Também não sabe que o rapaz aparentando ner
vosismo a quem indagara o endereço da Colombo é
um jovem escritor baiano rumo à clandestinidade,
conhecido como Jorge Amado.
Ao cruzar a Primeiro de Março, Dimitri Borja
Korozec percebe que existe um clima de guerra no
ar. Tropas armadas circulam pelas ruas em viaturas
militares e ônibus civis. Informandose pelo caminho,
ele avista, afinal, a confeitaria.
Fundada em 1894, a Colombo transformarase ra
pidamente no ponto de encontro do mundo elegan
te, político e intelectual. Sua decoração lembrava a
das melhores casas francesas, e seus doces, pastéis e
empadinhas nada fica
vam a dever aos quitu ^jjp*l
tes europeus. Dimitri
dirigese a um dos gar
çons do salão e per
gunta pelos irmãos Sa
mariego. ""
Júlio e Carlos Sa
mariego haviam emi
grado para o Brasil em
1928, fugindo do Mé
i , Setas apontam os irmãos Samari
xico depois de terem em J^ ao obeliscO) aindi
participado do aSSaSSÍ ostentando sombreros mexicam
nato do presidente
Obregón. Fixaramse no Rio Grande do Sul, em Por
to Alegre, onde trabalham numa fábrica de biscoitos.
Adaptamse com entusiasmo aos hábitos da terra e par
ticipam ativamente dos movimentos políticos.
Em 1930, partem para o Rio de Janeiro no bojo
da revolução. São eles dois dos gaúchos, embora bas
cos, que amarraram seus cavalos no obelisco da aveni
da Rio Branco para comemorar a vitória.
Decepcionados com o messianismo dos líderes
revolucionários, afastamse de seus companheiros e
retornam às atividades pasteleiras. Devido aos seus
dotes culinários, conseguem o cobiçado emprego de
doceiros na Colombo. ,,<• ¦¦¦¦+ ¦. y :.¦T>.; ;
•VÍ^V^^^íFí"'"^.
Os gêmeos Samariego assemelhamse como duas
gotas d'água. Atarracados e morenos, usam o mesmo
bigode farto, adquirido na época em que moravam
no México. Ainda rapazes, em Galdácano, costuma
vam enlouquecer os barbeiros da cidade. Júlio senta
vase para cortar os cabelos e avisava:
Como sou islamita, o senhor tem que virar a
cadeira em direção a Meca. Caso contrário meu cabe
lo cresce em dez minutos.
O barbeiro nem lhe dava atenção. Quando ter
minava o serviço, Júlio prevenia:
Se o cabelo crescer, o senhor vai ter que cortar
de novo sem cobrar nada.
Retiravase da barbearia e. dez minutos depois,
entrava Carlos com os cabelos longos:
Eu não disse?
Espantadíssimo, o pobre barbeiro refazia o traba
lho de graça.
Os dois recebem Dimitri no sobrado onde se lo
calizam as dependências dos funcionários. Vestemse
de branco, com o tradicional uniforme dos paste
leiros.
Júlio e Carlos têm o hábito desagradável de dis
cutir constantemente. Júlio lê a carta de apresentação
da Tijolo Negro e comenta:
Me lembro muito bem de Ortega. É um gordo
baixinho.
Carlos retruca:
Estás louco. Ortega é alto e magro.
Iniciam um bateboca numa algaravia que Dimi
tri presume ser o dialeto basco. Finalmente viramse
para Dimo e perguntam:
Ortega é gordo e baixo?
Ou alto e magro?
As duas coisas responde Dimitri, não que
rendo discordar de nenhum deles.
Dando o caso por encerrado. Júlio devolvelhe a
carta:
Pouco importa. O fato é que chegaste tarde
demais. A intentona fracassou. Começou ontem às
três da madrugada e acabou à uma e meia da tarde.
Prenderam o capitão Agildo Barata, encarregado da
insurreição no quartel da praia Vermelha, e estão à
caça de Prestes e dos outros revolucionários. Foi
decretado o estado de sítio e o país está em pé de
guerra.
O pior é que Getúlio deu carta branca ao che
fe de polícia Filinto Müller e a polícia de Filinto usa
métodos de dar inveja aos homens da Gestapo. Xão é
a época ideal para alguém como tu conhecer a Cida
de Maravilhosa.
Uma intensa depressão abatese sobre Dimitri. O
destino insiste em colocálo no lugar certo na hora
errada. Os gêmeos procuram encorajálo:
Calma, rapaz. O importante agora é não desa
nimar.
Claro. Como dizia Bakunin, o desespero é típi
co daqueles que não entendem as causas do mal, não
enxergam uma saída e são incapazes de lutar de
clara Júlio. * y ¦ ;
Só que quem disse isso foi Kropotkin retru
ca Carlos. :... ,¦; .
Bakunin insiste Júlio. : ¦ :. :
Kropotkin. ~ ';> : : ~
Bakunin. ^ : ; .. :'/'
Kropotkin! ív. : ;; ; : .í v

Bakunin!
Diante do abatido Dimitri, os dois se engajam em
outro violento debate em dialeto basco.
Lenin. Xa verdade foi Lenin afirma Dimo,
interrompendo a discussão.
Com os ânimos serenados, passam a analisar a
situação. Concluem que nada há por fazer senão
aguardar.
Hospedam Dimitri numa pensão da rua do Cate
te e, uma semana depois, valendose de suas relações
marginais, arranjam para ele um emprego de moto
rista de ambulância na Assistência Pública Municipal.
Para isso, conseguemlhe documentos falsos. Além do
passaporte francês forjado sob a alcunha de Jacques
Dupont. ele conta agora com outros papéis. Não é mais
Dimitri Borja Korozec e sim Demétrio Borja, brasilei
ro, solteiro, nascido em Vassouras.
RIO DE JANEIRO JORNAL DO COMERCIO
14 DE DEZEMBRO DE 1935
Salve! Ó galhardo filho de São Borja
Com rija. pronta, inexorável mão.
E firme agarra a cana do timão
Não pudera temerse dessa corja,
Nem sotoporse a miseráveis, não!

Alugados da russa parcimônia ' ,'
Visavam reduzirnos a colônia
Do eslavo país. fero e glacial.
Assassinaram desbragadamente,
Mas salvouse nas mãos do presidente
O inviolável decoro nacional.
¦ Esse soneto de Geraldo Rocha em homenagem a
Getúlio Vargas dá uma idéia do clima que reinava na
cidade logo após a intentona. É declarado o estado de
guerra, reforçando ainda mais a repressão. Dimitri
procura ser o mais discreto possível. Raramente sai
do seu quarto na pensão da rua do Cate te, cuja pro
prietária, dona Pequetita, umajovem viúva, logo toma
se de amores por ele. Comparece diariamente ao hos
pital e é considerado um funcionáriomodelo.
Por medo de ser preso e revistado, esconde seu
cinturão com as moedas de ouro num buraco cavado
sob a pesada mesa de autópsias do necrotério, buraco
que ele tapa usando gesso da enfermaria de emergên
cia. Trabalha há menos de um mês no prontosocorro
da praça da República, onde faz amigos com facilida
de. Seu jeito desprotegido agrada às enfermeiras e aos
médicos. Os colegas motoristas logo o acolhem com
simpatia, principalmente porque, não tendo família,
ele se prontifica a cobrir os plantões mais ingratos, como
acontecera um dia antes, durante o Natal. "Podese sem
pre contar com o Borja". comentam nos corredores,
usando o nome pelo qual ele é agora chamado.
Na quintafeira. 26 de dezembro, depois do plan
tão, sem ter para onde ir. Dimitri atardase no hospi
tal. Ávido por informações, pergunta a todos pelas
últimas notícias. São inúmeros os boatos: Prestes fugi
ra do país, de norte a sul vários batalhões do Exército
estariam envolvidos, Moscou financiara o levante com
milhões de dólares e haveria centenas de agentes in
filtrados no Brasil. Os mais lúcidos comentam que se
o apoio da Internacional Comunista fosse tão grande
como dizem, dificilmente a revolução teria falhado.
Por volta de duas horas da tarde, é abordado pelo
chefe dos motoristas:
Borja, ainda estás por aí? Então pega uma am
bulância e vai buscar o dr. Otelo Neves em Ipanema.
Às três e meia, Dimitri retorna à Assistência Mu
nicipal tendo ao seu lado o jovem médico, um minei
ro que está há pouco tempo no Rio. Quando passam
pela rua Prudente de Morais, Neves aponta uma jo
vem loura que caminha pela calçada:
Borja, olha que moça bonita. Tem jeito de es
trangeira.
Dimitri diminui a velocidade para que ambos
possam observála. Percebem algo estranho no com
portamento da rapariga.
Que esquisito. Ela chegou na esquina, parou,
deu meiavolta. apressou o passo e saiu em disparada.
Movido pela curiosidade, Dimo estaciona a am
bulância:
Com licença, doutor. Vou ver o que está ha
vendo.
¦f: Antes que Neves possa impedilo, Dimitri salta do
carro e dobra a esquina da Paul Redfern para saber o
que tanto assustou a moça. Fica horrorizado com o
que vê. Três limusines estão paradas em frente ao nú
mero 33. Do interior da casa, alguns indivíduos jogam
pela janela livros e pacotes. Enquanto isso, outros, ar
mados, empurram um casal para dentro de um dos
automóveis, desferindolhes murros e pontapés. O
homem é corpulento, muito louro e está sangrando.
A mulher é magra, de pele clara e cabelos castanhos.
Dimitri avalia rapidamente a situação: "Um assalto
seguido de seqüestro", imagina ele. Sem pensar duas
vezes, corre e lançase sobre os atacantes, atingindo
um deles com um violento soco no rosto. É subjugado
pelos demais com facilidade e começa a gritar pedin
do socorro:
Polícia! Polícia!
Um dos homens acha graça:
Claro que é a polícia. Você pensou que era o
quê, seu comunista filho da puta?
• Dois outros policiais enfiam Dimo no carro e os
três veículos saem a toda, rangendo os pneus.
Sentado na ambulância, Neves assiste à cena, im
potente diante daquela brutalidade. Sem o saber, Di
mitri tentara impedir a prisão de Arthur Ewert e de
sua esposa Elise Saborovsky. dois importantes mem
bros do Komintern enviados por Moscou para ajudar
na revolução. A polícia fascista de Filinto Müller dei
xara, todavia, escapar uma presa maior. A bela loura
que conseguira se afastar correndo em direção ao
Leblon era Olga Benario, mulher do líder revolucio
nário Luís Carlos Prestes.
Por que bebes tanto assim, rapaz?
Chega, já é demais.
Se épor causa de mulher é bom para)
irque nenhuma deu

Na madrugada de 26 de fevereiro, QuartaFeira
de Cinzas, os presos da Casa de Detenção na Frei Ca
neca escutam, ao longe, um grupo de foliões bêbados
e retardatários que passa cantando o sucesso de Ru
bens Soares no Carnaval de 36. O reinado de Momo
terminava da mesma forma melancólica como come
çara: bailes vigiados, máscaras proibidas e ensaios de
blocos e ranchos com horário controlado. Somente
os festejos de rua conservaram algo da alegria conta
giante, característica daqueles dias. Por maior que seja
a tirania, a alma do povo é livre.
Desde novembro passado, centenas de civis e mi
litares comunistas, anarquistas, inocentes ou simples
mente inimigos de Getúlio foram fichados e recolhi
dos ao rit\micuj viv^ ^ .".___
Originalmente destinado aos criminosos sem de
litos anteriores, o pavilhão fora esvaziado para aco
lher os presos políticos. Entre eles, Dimitri Borja Ko
rozec. o Borja, encarcerado juntamente com pessoas
mais ilustres, como Aparício Torelli, também chama
do de Aporelly, o famoso humorista barão de Itararé.
Suas críticas ao governo no jornal A Manha são consi
deradas altamente subversivas pelo chefe de polícia,
cujo senso ae niunui nau<* ^.______
ler. Consta que o barão, depois que a polícia de Filin
to invadiu o jornal e surrou covardemente seus cola
boradores, pendurou na porta da redação uma plací
onde se lia: "Entre sem bater".
Os detentos comentam as terríveis torturas prati
: cadas nos porões. Sabese que os algozes chegaram
enfiar um arame na uretra de Arthur Ewert, esquer
tando, com um maçarico, o pedaço que ficara par
fora. Sua mulher, Elise, tivera o bico dos seios tota
mente queimados com charutos e fora violentada por
dezenas de soldados na frente do marido.
Dimo é poupado desses suplícios, pois, tendo se li
vrado da carteira de motorista, apresentouse como
Jacques Dupont, cidadão francês. Sua história de que se
metera na briga pensando tratarse de um assalto se
guido de rapto, já que os policiais estavam à paisana e
usavam carros normais, não convenceu muito os inter
rogadores, porém, como não existia nenhum registro
sobre suas atividades anteriores, e temendo um inciden
te diplomático, deixaram para avaliar o caso poste
riormente. Havia presos mais importantes para torturar.
Xo Pavilhão dos Primários, Dimitri aprende tudo
sobre a vida de Vargas por intermédio dos outros pri
sioneiros.
Descobre, pasmo, os laços de sangue que os unem.
gas, de quem sua mãe tanto falava, e, portanto, seu tio
natural. Guarda segredo dessa revelação. Receia que
seus companheiros pensem que ele perdeu o juízo
devido à prisão, como ocorrera com Ewert.
A partir daquele instante passa a devotar um ódio
mortal ao ditador. Não tem mais dúvidas quanto à sua
missão. Dimitri Borja Korozec nascera na longínqua
Bósnia para matar Getúlio Vargas.
Nos primeiros dias de março, uma notícia se es
palha com a rapidez de um rastilho de pólvora pela
Casa de Detenção: Prestes e Olga Benario haviam sido
presos no Méier. Dimitri jamais os encontrará na Frei
Caneca. ;; ? ^
Sabese também que alguns homens serão trans
feridos para o naviopresídio Pedro I. A maioria se ani
ma com a perspectiva de trocar os sórdidos e escuros
cubículos onde se amontoa pela luz do sol e o céu
aberto. Outros temem a separação das mulheres, en
carceradas no segundo andar do pavilhão.
O Pedro I, que antes podia ser xisto em frente à
praia do Flamengo, estava agora fundeado a um quilô
metro da ilha do Governador. Ttido isso os presos apren
dem devido a um engenhoso sistema de comunicação
inventado por Dimitri. Dimo percebera que manten
do baixo o nível da água dos vasos sanitários, o som se
propagava de cela em cela através das privadas. O se
gredo estava no manuseio da corda de descarga, que
devia ser executado com a precisão de um ourives.
Na noite do dia 11. escutase uma conversa pelo
telefone coprológico:
A primeira leva parte amanhã para o Pedro I.
Câmbio.
Já se sabe quem vai? Câmbio.
Tenho aqui uma lista que consegui subornan
do o guarda Saraiva. Câmbio.
Então diga. Câmbio.
Vão o Borja, o...
Nesse instante algum desavisado puxa a descarga
numa das celas e o resto dos nomes afogase no bor
bulhar das águas. Dimitri é o único a saber que esta
será sua última noite na prisão da rua Frei Caneca.
> Comparado às masmorras fétidas do Pavilhão dos
Primários, o naviopresídio Pedro I é quase uma colo
mm.
nia de férias. Os prisioneiros, chis e militares, podem
conversar, circular pelo convés e respirar o ar maríti
mo. O que assemelha as duas prisões é a comida, tão
ruim numa como noutra. Os presos fazem as refei
ções na imensa sala de jantar onde as toalhas imundas
provocam um comentário jocoso de Aporellv. o barão
de Itararé:
Essas toalhas de mesa são mais sujas do que a
consciência do Getúlio.
O mesmo barão também se manifesta no que fi
cou conhecido como "o episódio da rabada".
Um dia foi servida uma rabada já em estado de
decomposição, cheirando a podre. Uma comissão de
presos vai se queixar ao capitão, que manda um te
nente cuidar do assunto. O tenente entra no refeitó
rio e olha para as carnes flutuando no próprio caldo,
dentro do caldeirão fumegante:
Aporellv responde na hora:
Não queremos que o senhor veja, queremos
que o senhor coma.
O tenente retirase indignado, enquanto os pre
Com a idéia arraigada de matar Vargas, Dimitri
Korozec, o Borja, só pensa em fugir. De início tem
dificuldade em se unir a uma das diversas facções for
madas pelos prisioneiros do Pedro I. Ninguém o co
nhece, pois jamais participou de nenhum movimento
revolucionário no Brasil.
Os comunistas pensam que ele é trotskista, os
trotskistas julgam que ele é comunista e os anarquis
tas acham que ele é louco.
Sua simpatia natural e a informação fornecida
pelos companheiros da Casa de Detenção de que ele
fora o inventor do latrifone, acabam, enfim, por ven
cer todas as resistências.
Nos primeiros dias de abril juntamente com um
oficial da Marinha, o comandante Roberto Sisson, ele
começa a organizar um plano para fugirem do navio.
Muitos presos aderem, entusiasmados, à empreitada.
Sisson desenha um mapa da ilha do Governador e, na
calada da noite, eles se reúnem às escondidas para
analisar a melhor maneira de atingir a ilha:
O melhor é baixar os escaleres sugere Ro
berto Sisson.
Estás doido? O barulho vai chamar a atenção
da guarda afirma Tourinho, um jovem tenente,
desrespeitando a hierarquia.
E se antes subjugássemos a guarda? teima
Sisson.
Impossível insiste Tourinho. Basta que
um dê o alarme e seremos logo descobertos.
Dimitri apresenta a solução mais óbvia:
A nado. Temos que fugir a nado.
A nado? Mas é quase uma milha em mar aber
to! preocupase Sisson.
Outro participante concorda:
O Borja tem razão. Só mesmo a nado.
Sisson torna a insistir:
Eu acho que a nado...
Vai ser a nado e pronto corta Tourinho.
• Dimo completa sua idéia:
Lançamos cordas até a água e descemos por
elas pra não fazer barulho. Tudo isso à noite, porque
a vigilância é menos severa.
Quando partimos? pergunta um oficial.
:;Éܧ§
Quanto mais cedo melhor. Amanhã roubamos
as cordas e saímos depois de amanhã.
E vamos pra que praia? quer saber outro
prisioneiro.
Deixem isso comigo. Vou estudar bem o mapa
e na hora basta me seguir.
O grupo se dispersa deixando Dimitri a sós com
seus pensamentos assassinos. Examina com cuidado
as praias da ilha. A fuga é apenas o primeiro passo.
Para ele, os dias do ditador estão contados.
Na madrugada do dia marcado, eles deslizam si
lenciosamente pelo casco do Pedro I e desaparecem
nas águas escuras do oceano. Depois de nadar por três
horas, boiando inúmeras vezes para descansar, os vá
rios homens liderados por Dimitri alcançam por fim
a ilha do Governador. Exaustos, mas exultantes de ale
gria pela façanha realizada, trocam abraços efusivos,
rolando pela areia. Dão vivas entusiasmados ao autor
da idéia: 'Viva o Borja!", "O Borjinha é o maior!".
De repente, as manifestações de alegria são inter
rompidas por uma sirene e por fachos de holofotes
que cruzam a praia. Uma das luzes enfoca o rosto de
Dimo. Todos imobilizamse, rígidos como estátuas. Por
uma cruel coincidência, Dimitri e seus seguidores
chegaram exatamente à parte da ilha onde existe uma
base de fuzileiros navais. Malograra por completo o
elaborado plano. Apenas dois fugitivos não são encon
trados pelos fuzileiros: o tenente Tourinho, exímio
nadador, que resolveu dirigirse à praia de Maria Angu,
a três quilômetros dali, e o comandante Roberto Sis


RIO DE JANEIRO TERÇAFEIRA,
2 DE JUNHO DE 1936
NA PENSÃO DA RUA do Catete. número 25. a
viúva Maria Eugênia Pequeno, mais conhecida
como Pequetita, acaba de sair do chuveiro. Inteligen
te e engenhosa, Maria Eugênia mandara construir,
sobre a laje do prédio, um imenso reservatório de
dois mil litros, solucionando o problema da falta de
água que assola constantemente a cidade.
Pequetita aparenta menos do que seus trinta anos.
Os banhos de mar na praia de Botafogo e a ginástica
dinamarquesa desenvohida pelo professor Müller, que
pratica todos os dias, deixamlhe o corpo rijo e bron
zeado. Os olhos amendoados, os zigomas salientes e
os cabelos negros presos num coque traem o sangue
árabe dos seus antepassados portugueses, nascidos no
Algarve. Do rosto corado, de pele macia como um
pêssego, sobressaem os lábios polpudos e bem deli
neados. Emana da jovem \iúva uma sensualidade que
ela se esforça por ocultar sem grandes resultados.
Pequetita enxugase lentamente diante do grande
espelho do banheiro. Acaricia os seios grandes e firmes,
de mamilos rosados, as coxas grossas e as nádegas arre
dondadas com a toalha de linho. Todos se perguntavam
por que uma mulher tão bonita permanecia sozinha.
A verdade é que Maria Eugênia, viúva há quatro
anos, continua fiel à lembrança do marido morto.
'ÜÜ
Túlio Pequeno morrera de tuberculose em 1932. Era
vendedor de seguros e tinha duas paixões na vida:
Pequetita e a ópera. Costumava cantar no coro do
Teatro Municipal e durante uma representação da
Aída tivera uma hemoptise em cena, vindo a falecer
dias depois. Sendo do ramo, Túlio deixara uma apóli
ce que permitira a Pequetita comprar ura sobrado na
rua do Cate te e transformálo em pensão. Maria Eu
gênia administrava o estabelecimento com extrema
competência, sempre eficiente e objetiva. Sem filhos
ou parentes próximos, ela se refugiara na leitura dos
romances de Rafael Sabatini e Alexandre Dumas. Ima
ginava aventuras amorosas com os heróis dos livros,
repudiando, contudo, a idéia de apaixonarse por
outra pessoa. Lembravase de uma frase que ouvira
do padre Rodrigues, no Grajaú, quando era menina,
a respeito de uma vizinha recémcasada pela segunda
vez: "O pior adultério é o da viúva que se casa nova
mente. Trair um morto não tem perdão, assim na ter
ra como no céu!". O anátema ficara gravado a ferro
e criança.
Porém, desde que Dimitri se mudara para a pen
são, ocvipando o quarto ao lado do seu, Pequetita co
meçara a sentir por ele uma forte afeição. Notara, de
imediato, os indicadores a mais nas mãos do novo
hóspede. A perfeita anomalia, longe de afastála, exer
cia sobre ela uma atração ainda maior. Tinha sonhos
eróticos em que o belo homem de olhos verdes e ca
belos encaracolados sugavalhe os bicos intumescidos
dos seios, explorava, com os doze dedos, os recôndi
tos mais íntimos do seu corpo, beijavalhe o púbis e a
penetrava com o ardor do capitão Blood, de Sabatini.
Gemia languidamente no seu leito de viúva. Acordava
no meio da noite empapada de suor e exaurida pelo
gozo solitário. Durante o dia, usando a chave mestra,
ia ao quarto de Dimo, rolava nos lençóis desarruma
dos, cheirava a fronha e, colocando o travesseiro en
tre as coxas úmidas, esfregavase nele até o paroxismo
do prazer.
Por isso mesmo, quanto mais dias se passam, mais
ela se preocupa com a ausência misteriosa de Dimitri.
Normalmente, um hóspede que sumisse por uma se
mana teria suas malas confiscadas como pagamento e
o quarto destinado a outro locatário. Há seis meses
Maria Eugênia não tem notícias de seu hóspede; no
entanto, mantém o aposento intacto. A intuição de
mulher apaixonada lhe diz que há algo estranho no
desaparecimento de Dimo.
Nesta tarde chuvosa de outono, enquanto se ves
te, Pequetita opta por tomar uma atitude que vai
contra todas as normas que se impôs como dona de
pensão: resolve vasculhar os pertences de Dimitri em
busca de indícios que revelem seu paradeiro.
Desta vez. entra com olhos de lince na alcova, tes
temunha de tantas poluções secretas. Esquadrinha as
gavetas da cômoda, deitase no chão para examinar
embaixo da cama e, finalmente, acha a maleta escon
dida sob o armário. Retirando as poucas vestimentas
ali guardadas, ela percebe um fundo falso improvisa
do feito com uma folha de cartolina grossa. Arran
candoo, deparase com uma descoberta digna dos
romances de aventura que tanto preza. Junto a vários
documentos forjados com a foto daquele que ela ama
em segredo, há uma pistola de grosso calibre enrola
da num encerado, um pequeno maço de dólares pre
so por um elástico e o desgastado caderno de folhas
Dimitri. Percorre avida
mente aquelas páginas com um excitamento que ja
mais sentira ao ler seus autores prediletos.
Logo se conscientiza de que o objeto de sua pai
xão não é um homem comum e corre perigo. Os jor
nais censurados nada publicam, mas todos sabem das
inúmeras prisões efetuadas desde a Intentona Comu
nista. É provável que Dimo tenha caído nas malhas da
que custar. Pequetita se lembra de um primo distante
do marido fuzileiro naval. A despeito de não ser de
alta patente, é o único militar que conhece. Talvez ele
tenha ligações que lhe permitam descobrir o destino
de Dimitri.
Volta ao seu quarto e procura pela velha caderne
ta do defunto. Lá está escrito na letra miúda de Túlio
Pequeno, que ela revê sem nenhum remorso, o ende
reço do rapaz: Sargento Olegário Ferreira. Quartel
dos Fuzileiros da Ilha do Governador.
Há quantos anos! Como vai a senhora, tia?
cumprimenta o sargento Olegário, usando um paren
tesco inexistente e que ela detestava.
Vou bem, obrigada responde Maria Eugê
nia Pequeno, enquanto passeiam pelo pátio ensolara
do, às àez horas àa manhã.
Quer encerrar aquela visita o mais rápido possível.
Não lhe agrada o ambiente soturno do quartel; lem
bralhe o colégio de freiras onde fora interna, em Tere
sópolis. .Além do quê, jamais gostou do sargento. Ma
cérrimo, de olhos pequenos e baços, bem distantes um
do outro, nariz adunco e vermelho, Olegário Ferreira
mais parece um peru natalino antes de ser sacrificado.
Nas raras vezes que o vira, quando o marido ain
da era vivo, Olegário sempre lhe lançava olhares lasci
vos, quase obscenos. Mesmo quando a chamava de
"tia", o tratamento vinha carregado de segundas in
tenções. Reside nele, contudo, a última esperança de
encontrar Dimitri. O sargento tampouco prima pela
inteligência. Abusa dos lugarescomuns e sua ignorân
cia é tida como das mais sólidas.
O que posso fazer pela senhora? Família é pra
essas coisas, é ou não é? lança Olegário, perpetran
do uma frase que ele considera da maior sabedoria.
Aliás, a tia anda mais linda do que nunca. Um pitéu.
Pequetita despreza o inútil galanteio:
Não quero tomar seu tempo. Estou à procu
ra de um hóspede lá da pensão que sumiu sem dar
notícias.
Não se preocupe, tia. Quem é vivo sempre apa
rece, é ou não é? sentencia o sargento, usando mais
um inoportuno clichê, e provocando arrepios de hor
ror em Pequetita ao imaginar Dimitri morto.
O meu medo é que ele tenha sido preso por
engano.
Acho difícil, tia. A polícia do capitão Filinto é
competitiva.
Você quer dizer "competente'" corrige Ma
ria Eugênia. ;,w..,': :¦:¦"¦ ..¦
Isso, competente. Só estão prendendo comu
nistas porque os vermelhos querem derrubar os três
pilares da sociedade: Deus, Pátria e Família. Comunis
ta é uma praga. Que nem a saúva. Ou o Brasil acaba
com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil, é ou não é?

Não sei, Olegário.
Me disseram que os comunistas comem crian
cinhas.
erencias gastronômicas
responde Pequetita.
Eles atacam de madrugada. Por isso é que eu
durmo com dois revólveres embaixo do travesseiro.
Quem tem um, não tem nenhum, é ou não é?
De qualquer forma, essa pessoa não é comu
nista corta a "úúva.
Como é que ele se chama?
Não me lembro mente Pequetita. Caso te
nha sido preso, não sabe o nome que Dimitri teria
fornecido. Mas é fácil identificálo. O homem que
estou buscando tem quatro indicadores.
A informação supera a capacidade de entendi
mento de Olegário:
Como assim? Esse sujeito conhece quatro in
Nada disso. Ele tem um indicador extra em
cada mão.
Tem o quê?
O dedo indicador, Olegário. O furabolos! O
homem tem quatro furabolos! Um a mais em cada
mão! Um dedo mindinho. um seuvizinho, um maior
detodos, um catapiolho e dois furabolos!
Calma. tia. Não fique tão agitada. Por que é
que a senhora não disse logo? Falando é que a gente
se entende, é ou não é?
Perdão, Olegário desculpase ela , é que
eu ando meio nervosa.
Bom, tia, pelo menos eu vou poder ajudar a
senhora. Nem preciso perguntar pra ninguém. Ima
gine que há cerca de seis meses uns prisioneiros fugi
ram a nado do Pedro I e vieram dar com os costados
aqui na praia,, bem em frente ao quartel. Ha! Ha! .Ain
da dizem que esses comunistas são inteligentes. Eu
notei que um deles tinha isso aí que a senhora falou.
Pelo nome eu acho que era francês. O mundo é pe
queno, é ou não é?
Pequetita agradece aos céus pelo acaso e indaga
animada:
Como se chamava?
Ah, não lembro, tia. Eu lá vou lembrar nome
de gringo depois de seis meses?
E ele está detido aqui?
¦ Xão. tia. Mandaram pra prisão da Ilha Grande.
Pequetita despedese rapidamente:
Obrigada, Olegário. Nem sei como agradecer.
Foi um prazer revêlo. Com licença que eu tenho muito
que fazer lá na pensão.
Volte sempre, tia. Sinto muitas saudades da
senhora responde o sargento, despindoa com os
olhos.
Quando ela está para atravessar os portões do
quartel, o sargento grita do meio do pátio:
Agora, que ele é comunista, é, ou não estaria
preso. Aqui se faz, aqui se paga, é ou não é? Cuidado,
hein, tia! Eu não sei se, além de criancinhas, os comu
nistas também não comem viúvas. ^
Maria Eugênia jamais conseguiu descobrir se
havia ou não um duplo sentido nas palavras de Ole
gário.

Com cento e setenta e quatro quilômetros qua
drados, a Ilha Grande, em Angra dos Reis, a menos
de noventa milhas marítimas do Rio, é recoberta pela
vegetação luxuriante das florestas tropicais. Um aloja
mento fora ali edificado em 1884, inicialmente como
posto de saúde, com o propósito de isolar em quaren
tena passageiros e escravos que vinham do exterior
portando doenças contagiosas. O hospital, conheci
do como o Lazareto. seria posteriormente transfor
mado em cadeia, tendo abrigado, inclusive, os tenen
tes revoltosos de 1922.
A doze quilômetros de serra a partir do embarca
douro existia outra prisão: a Colônia Correcional de
Dois Rios, situada na antiga Fazenda Dois Rios.
Esse famigerado presídio localizavase nas escar
pas da ilha. e junto a ele havia galpões rústicos e imun
dos rodeados por uma imensa cerca de arame farpa
do onde se amontoavam novecentos condenados.
Xa colônia, os presos políticos misturavamse aos
criminosos comuns. As condições de higiene e alimen
tação eram extremamente precárias, e os detentos
definhavam a olhos vistos.
É nesse verdadeiro campo de concentração que
se encontra aprisionado, desde sua desventurada fuga,
Dimitri Borja Korozec; há dois meses padecendo num
inferno construído pela mão do homem em meio ao
paraíso criado pela natureza.
Um dos companheiros de infortúnio de Dimitri
é o professor Euclides de Alencar, entomologista de
¦ renome, sem qualquer filiação partidária. O profes
críticas ao regime junto aos colegas do Instituto Vital
Brasil, em Niterói. Aos cinqüenta anos, atarracado e

de orelhas de abano, o rosto coberto por uma longa
barba branca, mais parece um gnomo dos contos dos
Irmãos Grimm. Em poucos meses de encarceramen
to, o cientista perdeu quase vinte quilos, mas não o
entusiasmo pela insetologia. Nutre verdadeira paixão
pelos invertebrados. Seus olhos se iluminam ao falar
de mosquitos, pulgas e percevejos.
Para preencher o tempo, Dimitri dedicase, com
Alencar, ao estudo das baratas. Passa horas a fio ou
vindo o professor discorrer sobre esses pequenos se
res escuros que infestam as celas:
Meu caro amigo, a barata, cujo nome vem do
latim blatta, é a criatura mais incompreendida do uni
verso. Não entendo a aversão que os homens sentem
por esse maravilhoso animal.
O que há de tão maravilhoso nele?
Alencar inicia uma verdadeira aula sobre o asque
roso inseto.
Pra começar, a capacidade de sobrevivência.
Foram encontrados fósseis de baratas com mais de tre
zentos milhões de anos. Existem três mil e quinhen
tas espécies espalhadas pelo mundo. Na Costa Rica,
há uma barata alada tão grande, a Blaberus giganteus,
que se alimenta de peixes e rãs. Ela enterra o ferrão
na presa e sugalhe os líquidos orgânicos. Não é fan
tástico.
E essas aqui. de que tipo são? pergunta Di
mo, ap
rede em frente. : _ :>
Periplaneta americana. As minhas preferidas. É
a barata mais comum, fácil de criar em laboratório e
muito inteligente.
Inteligente!? :;^: . v / ;:
Éifií
Claro. Toda barata é inteligente. Podese dizer
que ela tem dois cérebros.
O quê!?
Alencar divertese com o espanto do discípulo:
São dois pares de gânglios nervosos na cabe
ça, ligados a um gânglio na ponta da cauda. Isso per
mite que ela receba impulsos sensoriais em frações de
segundos.
O que mais me impressiona é a capacidade
que elas têm de comer qualquer coisa diz Dimitri,
apontando uma quarta barata, que rói um pedaço de
É porque elas possuem dentes minúsculos no
estômago, com os quais mastigam qualquer alimento
ingerido.
A medida que os dias transcorrem monotona
mente. Dimitri começa a ver com outros olhos aque
les animais. Já não os acha tão repelentes. Traz mi
galhas do pestilento refeitório da prisão e começa a
alimentálos.
Em pouco tempo, seu cubículo é o preferido das
baratas. Com paciência, treina os insetos para puxar
caixas de fósforos vazias e transportar pequenas men
sagens grudadas em suas asas para os detidos das ce
las mais distantes.
Vencendo a repulsa natural, consegue que, a um
comando, elas cubram todo o seu corpo, assim como
os apicultores fazem com as abelhas. O próprio pro
fessor Euclides surpreendese com essa proeza. Guar
das e prisioneiros passam a chamálo, com respeito e
nojo, de O HomemBarata da Ilha Grande.
Essa súbita notoriedade leva presos de outros gal
pões a se aproximarem de Dimitri. Entre eles, o escritor
Graciliano Ramos. Graciliano fora detido em Alagoas
no mês de março, transportado para a Casa de Deten
ção do Rio de Janeiro e depois enviado para a Colônia
Correcional, sem que nenhum processo houvesse sido
formalizado. Do encontro entre os dois, temse apenas o
breve registro feito, posteriormente, por Dimo numa das
folhas soltas do caderno de apontamentos:
[...] Muito me marcou aquele homem sensível, magro e
de rosto encovado. Era poucos anos mais velho do que
eu. contudo parecia meu pai. Percebi que o encarcera
mento fizera dele um fantasma de si mesmo. Disseme
que sua mulher, dona Heloísa, havia conseguido en
trar em contato com um certo general e ele esperava a
qualquer momento ser transferido de volta ao Pavilhão
dos Primários. Interessouse pela minha habilidade no
treino dos insetos. Expliqueilhe que aquilo era ape
nas um passatempo, uma forma de permanecer lúcido
enquanto não descobria uma maneira de fugir daquele
inferno. Faloume que. caso não sucumbisse às agru
ras da prisão, ao ser libertado escreveria um relato nar
rando os horrores da cadeia. Queria dedicarme um
capítulo, contando meus experimentos com as baratas.
Supliquei que não o fizesse. Poderiam pensar que eu
havia perdido a razão [...]
Também se ligara a Dimitri um criminoso comum
francês chamado Henri Maturin. Esguio, moreno, de
pele lisa e fala macia, Maturin aproximarase dele pen
sando que Dimo era francês, pois Dimitri continuava
a declararse daquela nacionalidade.
Henri era homossexual e arrombador de cofres.
Os que tentavam zombar das suas preferências se
xuais eram surpreendidos pela violência e rapidez com
que ele manejava o estilete feito com um cabo de co
lher, seu inseparável companheiro.
Lenda ou não. constava que Maturin havia esca
pado, anos antes, da ilha do Diabo, na Guiana France
sa, onde cumpria sentença perpétua por ter assassi
nado o amante. Chegara ao Brasil atravessando a
Venezuela pela selva amazônica. E com ele que Di
mitri planeja evadirse da Colônia Correcional. O
francês tem a prática necessária para o perigoso em
preendimento para quem já fugiu da ilha do Dia
bo, escapar da Ilha Grande é um passeio; faltalhes
apenas o dinheiro indispensável para realizar a esca
pada. Esse item fundamental será providenciado du
rante a visita que, depois de mover mundos e fundos,
a viúva Maria Eugênia Pequeno conseguirá fazer ao
novo grande amor da sua vida.
A viagem de Mangaratiba até a Ilha Grande ocorre
ra sem contratempos, a despeito do mar encapelado qu(
sacudia a lancha. Maria Eugênia obtivera uma autoriza
ção especial. O próprio general Góis Monteiro, irmãc
do parceiro de pôquer de um cunhado do filho da se
brinha do avô de uma vizinha de Pequetita, dera un
jeitinho, concedendolhe o passe. Ficara encantado con
a beleza e a perseverança da jovem viúva.
; Na Colônia Correcional, o sargento de plantai
examina as credenciais e ordena a um soldado:
O capitão? pergunta o soldado, referinde
se a Agildo Barata, também confinado na ilha.
Não, idiota. O HomemBarata. Há uma visita
pra ele.
Numa saleta contígua à enfermaria da prisão, sob
a vigilância de um guarda sonolento. Peque titã acha
se finalmente diante de Dimitri. Falam baixo, quase
aos sussurros:
Como foi que a senhora me achou?
Pouco importa, e, por favor, não me chame de
senhora.
Dimo está visivelmente acanhado pela presença
inesperada:
Você tem o mesmo interesse pelo destino de
todos os seus hóspedes?
Não me envergonho de dizer que. pra mim,
você é mais do que um hóspede ela afirma, assom
brada com o próprio despudor.
Dimitri arrepiase ao ouvir aquela revelação. Tam
bém sentirase atraído por Pequetita desde a primeira
vez que a vira. Ocultara seus sentimentos, pois nada
no comportamento da viúva indicava que a atração
fosse recíproca:
De qualquer forma, arriscouse vindo até aqui.
Quem lhe disse que eu estava preso?
Ninguém. Eu mesma descobri. Devo confessar
que entrei no seu quarto e mexi nos seus guardados.
Pequetita narra, em detalhes, a agonia que vivera
com o desaparecimento de Dimo. Num rasgo de ou
sadia, conta como seu coração pulsava mais forte cada
vez que ouvia a campainha da porta, na esperança de
vêlo retornando à pensão. Fala das noites insones,
durante os intermináveis meses sem saber notícias
dele. Por fim. confessa ter lido ansiosamente cada
nna do seu caderno: v. . v
Sei de tudo.
E mesmo assim me procurou? espantase
Dimitri.
Claro. Tinha certeza de que você precisava de
ajuda. Tomei a liberdade de trocar alguns dos dólares
que achei na sua valise. O dinheiro vai ser mais útil
aqui do que trancado na maleta.
Unindo o gesto à palavra, tira o maço de notas
dobradas que escondera sob o cinto e o entrega dis
cretamente a Dimo. Quando os dois se tocam, uma
onda de calor percorre os seus corpos. Dimitri não
quer mais soltar as mãos que lhe trouxeram amor e
salvação:
Obrigado. Nem sei o que dizer.
Então não diga nada conclui Maria Eugê
nia, um sorriso iluminandolhe o rosto.
Ficam ali, olhos grudados um no outro, dedos
entrelaçados, mesclando o suor tépido que aflora em
suas palmas apertadas. Finalmente, unidos num mi
nuto com sabor de eternidade, eles atingem juntos
um orgasmo intenso e silencioso.
Está na hora, dona.
mento mágico. Rosto afogueado, Peque titã desprende
se a custo das mãos do homem amado. Da porta, ek
lhe lança um derradeiro olhar cheio de promessas:
O quarto continua à sua espera. Adeus.
Até breve responde Dimo.
Sabe que agora nenhuma força humana ser;
capaz de mantêlo aprisionado aos grilhões do cati
No dia seguinte, ao sair do refeitório, Dimitrí
aproximase de Maturin: ; :
Consegui o dinheiro para a fuga. Só receio que
resolvam me revistar.
Não te preocupes. Na ilha do Diabo aprendi
uma maneira de esconder as coisas que passa por qual
quer revista garante Maturin.
Qual? .:
Já te mostro. Vem comigo.
Henri leva Dimitri para os banheiros e pede que
ele vigie a entrada. Depois, abaixando as calças e aga
chandose junto à parede, começa a contorcerse como
se fosse evacuar. De súbito, um tubo de bambu polido
com aproximadamente quinze centímetros de com
primento por três de diâmetro emerge de seu ânus.
Dividese em duas partes rosqueadas no meio. Giran
do as extremidades, Maturin abre o inusitado es
conderijo. Do interior do tubo ele retira uma fina
corrente de ouro com uma figa e quatro fotografias
enroladas de sua mãe.
É o meu cofrinho.
Dimitri contempla o cilindro ameaçador. Henri
segue explicando:
Preparei um igualzinho pra ti. Deves enfiálo
bem dentro, até o cólon, no intestino grosso. Basta res
pirar fundo que ele sobe direto. Mesmo que te ponham
nu, de pernas abertas, não há como descobrilo.
Após uma longa pausa. Dimo se dirige ao compa
nheiro:
Pensando bem, acho que vou ficar por aqui
mesmo. Afinal, a Colônia não é tão ruim assim. A co
mida é sofrível, mas a vista é bonita, o ar é puro e eu
preciso cuidar das minhas baratas.
htenri acna graça no pavor que o DamDu inspirou
a Dimitri:
v;í Não sejas tolo. Se estás com tanto medo do
tubo, deixa que eu carrego o teu também.
E caber pergunta Dimo, admirado.
Claro! divertese Maturin, dando uma pal
madinha nas nádegas. Aqui, onde cabe um, cabem
dois.
ILHA GRANDE COLÔNIA CORRECIONAL
14 DE JULHO DE 1936
SIMBOLICAMENTE, os dois escolhem para fugir
a data em que se comemora a Revolução France
sa. As onze horas da noite, o sentinela da ala oeste,
seduzido pelos encantos de Maturin e por cem mil
réis oferecidos por Dimitri, permite que eles cavem
uma passagem sob a cerca de arame farpado. Para isen
tarse de qualquer culpa, pede que Maturin lhe desfi
ra, com a pá, um forte golpe na cabeça, ato que o
que conduz ao ancoradouro, eles atravessam a mata
entre o pico da Pedra d "Água e o do Papagaio em di
reção ao Saco do Céu.
Volta e meia, Dimitri estranha os ruídos notur
nos, desacostumado que é à vida na floresta. Quase
começa a amanhecer quando chegam a uma vila dis
simulada pelas árvores ao pé de um morro.
Que lugar é esse? indaga Dimo.
Não te assustes. É a aldeia dos leprosos. Pouca
gente sabe da sua existência.
Leprosos?
Leprosos, sim, e comerciantes. São eles que vão
nos vender o barco pra escapar daqui. Isso se simpati
zarem conosco, senão...
Nos matam e ficam com o dinheiro.
Antes que Dimitri possa dizer algo, eles são cerca
dos por um bando de homens com espingardas. Mes
mo na penumbra, é possível perceber que todos estão
desfigurados pela lepra. Ambos tentam disfarçar o
pânico causado pelo círculo de horrores.
LTm dos leprosos, desarmado, provavelmente o
líder do grupo, de chapéu enterrado até os olhos, di
rigese aos dois com um sorriso irônico no que lhe
resta dos lábios:
Aonde vocês vão tão apurados? Estão com pres
sa de pegar a doença?
Mais uma vez, Dimitri sente saudade das baratas.
Maturin adiantase e enfrenta o homem:
Estamos fugindo da colônia.
Fugiram de uma colônia pra cair em outra
diz, rindo, o chefe.
Dimo e Henri se vêem rodeados por gargalha
das desbeiçadas. O francês procura iniciar as nego
ciações: M*v: : ......; .::;; *
Queremos comprar um barco. : ; ;: ;:.:r.
¦; Com que dinheiro? ': ; :T'
í Xós temos dinheiro.
Tinham. Não vão ter mais depois de mortos
diz o hanseniano. E é melhor morrer logo de bala
do que ficar por aqui até apodrecer de lepra.
Os morféticos em volta deles engatilham as ar
mas e se posicionam para a execução, aguardando o
comando do chefe. Maturin fecha os olhos, confor
mado, porém Dimitri afirma, seguro de si:
De lepra eu não morro nunca, porque já tive,
e existe a cura aqui na ilha.
O chefe dos leprosos interrompe o fuzilamento:
Como é isso?
Contraí a doença numa viagem à índia. Meu
corpo era coberto de lepromas e meu rosto deforma
do pela leontíase. Xão tinha mais esperanças de viver,
quando um guru paquistanês me deu a receita sagra
da de uma infusão feita com três tipos de erva. Essas
ervas crescem em abundância nestas matas. Ali mes
mo, em volta daquela árvore, tem uma touceira co
berta delas garante Dimitri, apontando a moita.
O homem examina Dimo desconfiado:
E que prova tenho de que não estás mentindo
pra salvar a pele?
Eu sou a prova viva. Estava desfigurado e, em
poucas semanas, a poção me reconstruiu o nariz e os
membros. Só ficou uma seqüela. Xa ânsia de me
curar, tomei remédio em excesso e me cresceu um
dedo a mais em cada mão confirma Dimitri, exi
Os leprosos se maravilham ante aquela demons
tração insofismável.
Quais são as três ervas e como se prepara o
chá? pergunta, ansioso, o chefe.
Calma. Primeiro quero saber se conseguimos
o barco.
Claro, colega! Xem precisas pagar nada!
Faço questão. Xegócios são negócios.
"ÍÉÉÉi
Quando é que o tratamento começa a fazer
efeito?
Varia. Às vezes leva dias. às vezes semanas. Os
primeiros sinais se manifestam em menos de um mês.
Sob o comando de Dimitri, Maturin e os leprosos
passam a hora seguinte recolhendo plantas inócuas
no matagal que circunda a aldeia escondida.
' Ao subir no barco, Dimo faz as últimas recomen
dações quanto à receita:
É fácil. Põe pra ferver as ervas durante cinco
horas, em fogo brando, numa fogueira de lenha feita
com madeira verde. Depois, coloca o caldeirão no se
reno e deixa orvalhar até o dia seguinte.
Quando Dimo e Henri pegam nos remos para
iniciar a viagem rumo à liberdade, o chefe dos lepro
Obrigado de novo. Só não te dou a mão por
que não tenho.
SSSÍSi*;

:'ÍtíllÍiɧi#

RIO DE JANEIRO NOVEMBRO DE 1937
[...] O presidente Getúlio
Dissolveu quase a bofete
A tal Câmara e o Senado
Virando tudo em confete...
[...] O Brasil de norte a sul
Tem muita admiração
Por este grande estadista
Oue hoie dirige a nação...
[...] Implantando a ditadura,
O chefe do Estado Novo
Tirou do rico a bravura,
Conquistou a alma do povo,
Do litoral ao sertão...
Literatura de cordel
0 ministro da Guerra,
general Dutra, ao lado
de Getúlio Vargas
no dia da promulgação
do Estado Novo
¦ ESDE A SUA FUGA, há mais de um ano, Dimitri
___ alienase dos seus sonhos revolucionários no lei
to macio de Maria Eugênia Pequeno. Logo ao desem
barcar, separase do companheiro. Maturin segue para
a zona do Mangue, onde passa a exercer a função de
leãodechácara no prostíbulo de madame Rosaly, uma
gorda cafetina sua amiga, que administra um rendez
vous na rua Júlio do Carmo, e Dimitri se abriga nos
braços sensuais da viúva.
Dimo e Pequetita passam semanas praticamente
sem sair do quarto e ela é obrigada a admitir para si
mesma, com uma ponta de remorso, que nunca viveu
sensações tão intensas ao fazer amor com o marido
falecido. As mãos de Dimitri apagam de sua pele a
memória de antigas carícias. O sexo jamais se torna
rotineiro. Inventam e reinventam diariamente novas
e inesgotáveis fontes de prazer, seus corpos vibrando
com uma voluptuosidade insuspeitada.
A gerência da pensão vai ficando por conta de
Francisca, uma governanta portuguesa que acompa
nha Pequetita desde os tempos de criança. Ao invés
de aborrecerse com as novas tarefas, Francisca rejubi
lase de ver a patroa novamente feliz.
não ser as páginas de esportes. Desenvolveu um inte
resse quase fanático por um jogo do qual pouco ou
nada conhecia, o futebol. Tem preferência pelo time
do Flamengo, atraído pelo negro e vermelho, cores
que simbolizam o clube, e se entusiasma com os gols
de bicicleta de Leônidas, o Diamante Negro.
Por precaução, resolve alterar sua fisionomia cul
tivando um farto bigode, que lhe
*" acentua a aparência de anarquista ro
, mântico.
, , . , Sempre que lhe vem à mente z
gode cultivado " >¦
por Dimitri idéia de eliminar Ge túlio, ele a afaste
e adia a ação, convencendose de que
o momento ainda não é chegado.
As oito horas da noite do dia 10, Dimitri está deita
do ao lado de Pequetita na cama descomposta, cujos len
çóis ainda exalam os eflúvios de mais um embate amoro
so, quando a voz do locutor interrompe a programaçãc
normal no rádio colocado sobre a mesadecabeceira:
Com a palavra, o Excelentíssimo Senhor Presi
dente da República.
A voz de Vargas ferelhe os ouvidos:
Trabalhadores do Brasil...
Num longo discurso, Getúlio anuncia a Nova Or
dem. Sob o falso pretexto de que há um plano comu
nista para derrubar o governo pela luta armada, ele in
forma que fechou o Congresso, dissolveu os partidos e
suspendeu as eleições previstas para o ano seguinte.
Com o apoio das Forças Armadas, concentra agora todo
o poder na Presidência. Está criado o Estado Novo. Tudo
isso, diz ele, é feito em nome da segurança nacional.
Terminado o pronunciamento, Dimitri percebe,
não sem certa culpa, que tem se esquivado de seus pro
pósitos. Desliga o aparelho, acende um cigarro Petit
Londrinos da Tabacaria Londres e sentase na cama,
acabrunhado. Maria Eugênia notalhe o desânimo:
O que aconteceu?
Tudo isso que omimos poderia ter sido e\itado.
Que estás dizendo? pergunta a viúva, in
trigada.
Sabes muito bem o que estou dizendo. Se eu não
tivesse omitido o meu dever, o ditador já estaria morto.
Pequetita o envolve num abraço:
Meu amor, esquece essa loucura.
Loucura? responde Dimitri, desvencilhan
dose de seus braços. Então tu chamas de loucura o
objetivo maior da minha existência? * ¦
Pequetita procura desculparse:
:.; Um homem sozinho não pode fazer nada.
Não é o que nos mostra a História. Às vezes,
basta um homem. Um homem e uma bala senten
cia Dimitri, o olhar vago, lembrandose de Sarajevo.
Maria Eugênia se desespera, antevendo a possibi
lidade de perder, pela segunda vez, um ente querido.
Deve dissuadilo de qualquer ato insano. Arranca a
camisola e exibe os seios perfeitos, tentando arrastá
lo de volta para o conforto das cobertas:
Vem. Tenho vontade de ti ela diz, abrindo
as coxas generosas.
Dimo se afasta para não sucumbir àquela sedu
ção. Levantandose, ele enfia rapidamente as calças e
a camisa.
Aonde vais? indaga Pequetita, ansiosa.
Pro meu quarto. Preciso refletir.
Dimitri sai da alcova aconchegante fechando a
porta atrás de si. A tristeza se apodera da viúva e ela
cobre com a colcha amarrotada a nudez oferecida.
Duas lágrimas formam uma trilha de dor no rosto de
Maria Eugênia Pequeno.
[...] Eu fui às touradas em Madri,
Pararatibum, bum. bum.
Pararatibum, bum, bum.
E quase não volto mais aqui...
[...] Eu conheci uma espanhola natural
Ouería aue eu tocasse castanhola e pesai
Caramba, caracoles,
Sou do samba, não me amoles!
Pro Brasil eu vou fugir.
Isso é conversa mole para boi dormir.
Pararatibum, bum, bum...
Pararatibum, bum, bum...

Trecho extraído do manuscrito
incompleto Memórias e lapsos
Apontamentos para uma autobiografia,
de Dimitri Boria Korozec
RIO, 19 DE ABRIL DE 1938
O Carnaval terminou há dois meses, no entanto o
alegre estribilho da marchinha "Touradas em Madri"
não me sai do pensamento. Pararatibum, bum. bum...
Para mim. esse ruído repisado, longe de lembrar o cli
ma jovial dos festejos, tem um significado demoníaco.
Lembrame a Guerra Civil Espanhola que os repu
blicanos perdem para o Exército fascista de Franco,
apoiado pelos aviões alemães da Legião Condor. A ono
matopéia do refrão associase ao som da metralha e
das bombas lançadas sobre as cidades indefesas. Para
ratibum. bum. bum... Garcia Lorca fuzilado: Pararati
bum. bum. bum... Guernica pulverizada pelas bombas:
Pararatibum. bum. bum... A Catalunha e os Países Bas
cos dizimados: Pararatibum. bum. bum... 0 sangue der
ramado dos meus camaradas anarquistas encharcando
a terra ensolarada da Espanha: Pararatibum, bum, bum...
Nos primeiros meses do ano procurei pelos irmãos
Samariego na Colombo para organizar junto com eles o
assassinato de Vargas, que aliás deve rejubilarse com
as vitórias do seu equivalente espanhol, porém os dois
tinham voltado à terra natal, para unirse às forças re
publicanas. E claro que não se esquivariam àquela luta
encarniçada. : , ¦¦¦:¦.. '¦':'¦¦•:'¦ ,.v..'V.;":¦':'
:ÍÍͧÍ:
Hoje comemorase o aniversário de Getúlio. A
Hora do Brasil, também conhecida como "Fala So
zinho", prometeu, à noite, um programa em sua ho
menagem. A transmissão radiofônica, normalmente
enfadonha, será mais insuportável ainda. Quem faz anos
amanhã é Adolf Hitler. da Alemanha. Os dois ditado
res bem que poderiam festejar na mesma data.
Meus arroubos com Maria Eugênia tornaramse
menos constantes, embora nada tenham perdido em
intensidade. Sempre que me ausento, despedese de
mim como se fosse a última vez que nos vemos. Perce
bo pelo seu olhar que teme pela minha vida. É um medo,
por enquanto, infundado, já que a ocasião ainda não se
apresentou para que eu cumprisse a tarefa que me im
pus. Deve ser praga de viúva.
Em dezembro passado, sabedor de que \argas joga
golfe assiduamente. empregueime como carregador de
tacos no clube que ele freqüenta. Antes, todavia, que
eu pudesse cruzar pelo seu caminho, tive que abando
nar o cargo devido a um lumbago provocado pelo peso
das sacolas.
Em fevereiro deste ano. vestindo os trajes típicos
dos gaúchos, tentei um lugar de assistente de churras
queira no palácio, mas a inabilidade no corte da pi
canha denunciou minha falta de prática.
Há um mês. após sérias reflexões e sem outra al
ternativa, tomei uma decisão pragmática que muito me
custou. Apesar do asco que dedico aos integralistas,
consegui infiltrarme no grupo pelas mãos de César
Albanelli, um milionário idiota que encontrei um dia
contando vantagens, meio embriagado, num botequim
de Copacabana. Para cair em suas graças, disselhe
que era italiano, que conhecia Mussolini e me chama
va Corozimo; o mesmo nome que usei para ganhar a
confiança de Al Capone.
smo. essa facç
ítica na
cional que macaqueia o nazifascismo e suas teorias
racistas, mas sei que planejam um atentado contra Var
gas desde que o partido foi posto fora da lei. Para mim.
os fins justificam os meios.
Finalmente vislumbro uma possibilidade de ma
tar o tirano.
RIO DE JANEIRO 2 DE MAIO DE 1938
_ ANAUE!
jfx. Anauê! grita de volta Dimitri, responden
do à saudação integralista, que significaria "salve!" em
alguma língua indígena.
Sentese um tanto ridículo, na reunião secreta
em Botafogo, vestindo o uniforme proibido de cal
ças negras, camisa verde, casque te e a braçadeira
tica. Os mais exaltados empunham estandartes os
tentando o mesmo símbolo. A mansão onde eles
se reúnem foi emprestada por César Albanelli, que
é amigo do líder Plínio Salgado e membro do parti
do desde a sua fundação. Com o fechamento do
partido, a Ação Integralista Brasileira se disfarçara
em clube cívieorecreativo, mas o alto comando dos
camisasverdes, a Câmara dos Quarenta, resolvera
tomar o poder pelas armas. : ¦:.
O plano, elaborado pelo médico integralista Bel
miro Yalverde juntamente com alguns militares, é inva
dir o Palácio Guanabara, domicílio oficial do presiden
te, e prender Getúlio \ argas. Caso resista, o ditador será
eliminado.
Dimitri escuta, em silêncio, enquanto Belmiro Val
verde expõe seu projeto. Pouco lhe importam os ide
ais primários dos fascistas tupiniquins. Está ali apenas
pela oportunidade \islumbrada de penetrar no palá
cio e assassinar Getúlio.
Ao seu lado, César
Albanelli irritase com
por Valverde. Afinal
de contas, o encontro
ocorre em sua casa e
ele se sente atingido
em sua vaidade faraô
"É| nica. Gordo e trucu
"*" lento, sem um fio de
cuiiLiu na maus et v u.c niuaiiciu.
A mão de Dimitri à esquerda cabelo na cabeça, Al
banelli orgulhase de
sua semelhança com Mussolini. Fora dele a idéia do
uso obrigatório do uniforme nesta noite, condição sine
qua non para que cedesse a mansão. Como era im
possível andar pelas ruas naqueles trajes, os convoca
dos tiveram que trocar de roupa na cozinha. Inter
rompendo Yalverde. ele propõe:
Antes de mais nada, pra nos acostumarmos,
seria bom que nos tratássemos pelos nossos cognomes.
O meu é Maringá. Corozimo, qual é o seu?
Queiroga inventa Dimitri, meio encabula
do pelo ridículo da situação.
Ótimo! incentiva Albanelli, dandolhe um
violento tapa nas costas. E o de vocês?
Após uma pausa constrangedora, cada participan
te se apresenta:
Tibiriçá.
Macedo.
Carvalhaes.
Bulhões.
Albanelli grita um moreno baixinho pare
cido com Goebells, do fundo da sala.
César interrompe a chamada:
Espera aí, isso não pode. Albanelli é o meu
nome.
Por isso mesmo.
Como, por isso mesmo?
E pra semear confusão entre os inimigos.
Todos caem na gargalhada com a troça inoportu
na do baixinho. Albanelli fica roxo de raiva e frustra
ção. Valverde retoma as rédeas da conferência:
Não me parece que a hora seja para gracejos.
Apoiandose numa mesa sobre a qual há um mapa
estendido, ele se vira para o tenente Severo Fournier,
um jovem oficial da Marinha alto e bemapessoado, e
começa a repassar as manobras:
Fournier, a investida contra o palácio fica sob
o seu comando. Os quartos ficam na ala direita, dan
do de frente para a capela. Enquanto vocês atacam,
outras equipes vão estar cercando os ministérios do
Exército e da Marinha, além das residências de outras
autoridades do governo. O início da operação está
marcado para a madrugada do dia 11.
Devemos enfrentar muita resistência? inda
ga o tenente, alisando os cabelos castanhos.
Duvido responde Yalverde. O tenente
Júlio Nascimento, comandante dos fuzileiros navais
que protegem o palácio, faz parte da conspiração.
Já se prontificou a nos dar acesso ao local. Vai abrir
o portão da casa da guarda para que os dois cami
nhões com os nossos homens possam entrar nos jar
dins.
Fournier estuda o mapa, procurando memorizar
cada detalhe:
Só temos um problema. Precisamos de um téc
nico para cortar as comunicações do palácio. Se eles
conseguirem auxílio externo, estamos perdidos.
Lembrandose do treinamento e dos cursos inten
sivos praticados na Skola Atentatora, Dimitri dispõe
se a dar conta da incumbência:
Quanto a isso, podem ficar tranqüilos, que eu
me encarrego de isolar a área. Sou perito no assunto.
Sei tudo sobre telegrafia e telefonia.
Yalverde, que mal conhece o novo integrante do
grupo, pergunta com apreensão:
Tem certeza?
Inflando o peito de orgulho, César Albanelli ava
liza a afirmação de seu mais recente protegido:
Se ele diz que sabe, é porque sabe. Meu amigo
Corozimo não é de gabolices.
Pouco depois da meianoite, Alzira Vargas é des
pertada em seu quarto pelo estampido de um tiro iso
lado. Alzirinha atribui o disparo a alguma sentinela
sonolenta que apertara inadvertidamente o gatilho.
Incidentes semelhantes haviam ocorrido em outras

ocasiões. Cobre a ca
conciliar o sono. Um segundo tiro lhe dá a certeza de
que algo errado está acontecendo. Pega na gaveta o
revólver calibre 38 que ganhara de presente, dias an
tes, para praticar tiro ao alvo. Sem nem mesmo trocar
de roupa, corre para o quarto do pai. Getúlio está
colocando sua arma na cintura, por cima do pijama.
O que está havendo? ela pergunta, preocu
pada.
Estão atacando o palácio, Rapariguinha in
forma Vargas, usando um dos vários apelidos que dera
à filha.
Quem?
Devem ser os integralistas. Estão inconforma
dos desde que eu dissolvi o partido.
Os dois se dirigem ao gabinete particular ao lado
da biblioteca. Nesta altura, as metralhadoras inimigas
varrem as paredes do prédio. No palácio, não são
muitas as pessoas que podem oferecer resistência: so
mente alguns policiais, dois ou três auxiliares, o ofi
cial de plantão e a família do presidente. Vargas
observa o jardim pelas janelas, procurando avaliar a
situação, alheio às balas que lhe ameaçam a vida. De
notando valentia incomum, Alzirinha deixa o gabinete
e precipitase pelas escadas, arma na mão, em busca
de informações. No andar de baixo, os sitiados res
pondem às rajadas de metralhadora com tiros de pis
tola. A única metralhadora que havia no palácio esta
va enguiçada.
Alzira volta ao primeiro andar e informa a Getú
lio que o Palácio Guanabara está cercado pelos rebel
des. Pai e filha engatilham seus revólveres, mostrando
que estão dispostos a vender caro a derrota.
Não vamos conseguir resistir por muito tem
po. É preciso ligar pedindo ajuda sugere ele, o so
taque gaúcho acentuado pela tensão.
Já tentei. Os telefones do palácio estão mudos.
Cortaste todas as linhas?
Cortei.
Inclusive a linha direta?
Que linha direta?
A linha direta do aparelho que liga com a Che
fia de Polícia.
O ruído das tropas comandadas pelo coronel Cor
deiro de Farias que chegam em socorro de Vargas res
pondem à pergunta feita a Dimitri.
Como conseqüência do esquecimento desastro
so de Dimitri, malograra o putsch integralista. E, no
entanto, digno de nota o fato de que tanto o Exército
como um contingente da famigerada Polícia Espe
cial, com seus bonés vermelhos, levaram quase cinco
horas para penetrar no Guanabara.
Entraram pelo campo do Fluminense Futebol Clu
be, vizinho aos jardins. Motivo da delonga: primeiro,
aguardavam ordens específicas. Além disso, a porta
que ligava o campo ao palácio estava fechada e nin
guém tinha a chave. Em vez de arrombar a porta, fize
ram contato com Filinto Müller, na Chefia de Polícia,
que se comunicou com Alzira Vargas, a qual, furiosa
com a demora, ordenou que um dos investigadores
sitiados se esgueirasse pelas sombras levando a chave
e abrisse o portão.
Ao tomar conhecimento dessa notícia, dias de
pois, no Café Lamas, Max Cabaretier, um dos boê
mios que freqüentava o lugar, comentou: ílPor essas e
outras é que o Brasil não acaba".
Passados três meses daquela ridícula aventura,
quando as coisas se acalmam, Dirnitri trata de recupe
rar o cinturão com as libras esterlinas, que continua
enterrado sob a mesa de autópsias no necrotério da
Assistência Pública. Receia que uma reforma no hos
pital revele o esconderijo das moedas.
Durante semanas, \igia o prédio do prontosocor
ro da praça da República, observando as entradas e saí
das dos funcionários e estudando a melhor forma de
agir. Não quer ser reconhecido por algum antigo com
panheiro. Escolhe a noite de 28 de agosto, um domin
go, dia de menor movimento, para executar seu plano.
Às onze horas, ele arromba uma das janelas tra
seiras do andar térreo e invade silenciosamente o
edifício. Dirigese ao necrotério, tomando o cuida
do de esconderse cada vez que alguém cruza por
um dos corredores. Por precaução, ao entrar na sala,
não acende as luzes da morgue. Sobre a mesa de
autópsias, Dimitri percebe, na penumbra, um corpo
coberto por um lençol. Amaldiçoa sua falta de sorte.
O móvel já é suficientemente pesado sem o acrés
cimo daquele peso morto. Ele se aproxima engati
nhando e começa a arrastar a mesa, esforçandose
para não fazer nenhum ruído. tír ..:¦;


Súbito, o cadáver levantase apavorado e corre aos
gritos para a porta, lançando longe o lençol: "Deus
me acuda! Tem assombração aqui dentro! A mesa está
mexendo sozinha!".
Xa verdade, o cadáver era um auxiliar de enfer
magem que aproveitara o momento de tranqüilidade
para tirar um cochilo no necrotério. Dimo, que tam
bém se assustou, reabre rapidamente com uma faca o
Antes que o falso defunto volte com os vigias, Di
mitri esgueirase para fora do hospital, ganhando a
segurança da praça da República.
O incidente deixalhe em tamanho estado de ex
citação que, ao retornar para casa, faz amor com Pe
quetita até o amanhecei".
* * * é
RIO DE JANEIRO DEZEMBRO DE 1939
Brasil,
Meu Brasil brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
\ou cantarte nos meus versos.
O Brasil, samba que dá,
Bamboleio que faz gingar,
Ô Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor...
yX Brasil. Brasil!
t Brasil Brasil!
3SAMBAEXALTAÇÃO de Ari Barroso cantado
por Francisco Alves, o Rei da Voz, transmitido
constantemente pela Rádio Nacional, encanta os pri
meiros refugiados que chegam ao Brasil. A Europa
está novamente em guerra. Hitler. depois de anexar a
Áustria e dominar a Tchecoslováquia, invadiu a Polô
nia, ocasionando a reação da França e da Inglaterra.
O país que os acolhe ao som da "Aquarela do Bra
sil" assemelhase a um paraíso tropical, "uma ilha de
tranqüilidade" bem longe dos bombardeios da Luft
waffe alemã.
Não é o que pensa Dimitri Borja Korozec. É vi
sível a melancolia que o domina desde a malograda
tentativa de assassinar Ge túlio. Escapara ao cerco dos
soldados e, ao voltar para casa, queimara o odiado uni
forme dos integralistas, que fora obrigado a usar mui
to a contragosto.
Depois de resgatar as moedas de ouro. fica horas
mturao
or Dragu
tin, perguntandose como utilizar aquele legado para
cumprir seus objetivos. O desânimo impedeo de pen
sar claramente.
Xo início do ano, Maria Eugênia o força a acom
panhála a Cambuquira, mas nem as fontes ricas em
partículas radioativas da estância hidromineral nem
o corpo vibrante de Pequetita lhe aliviam a sensação
de fiasco. As férias, que a viúva prolonga até depois
do Carnaval, servem apenas para que ele emagreça
cinco quilos devido à disenteria causada pelo efeito
poderoso daquelas águas.
Em junho, a viúva procura motiválo, promoven
do uma reunião íntima para comemorar seu aniversá
rio. Os festejos só lhe aguçam a lembrança de que,
aos quarenta e dois anos, todos os seus projetos de
assassinatos foram frustrados.
Xo começo de setembro, pensa construir uma
bomba caseira para lançar sobre o ditador durante as
comemorações do dia da Independência. Todo dia 7
daquele mês, Getúlio comparece à Hora da Pátria,
solenidade realizada no estádio do Vasco da Gama.
Maria Eugênia consegue dissuadilo, alegando que
centenas de inocentes também morreriam. Ao livrar
se do material adquirido para a confecção do artefa
to, atirandoo no lixo. Dimitri quase provoca um in
Em dezembro, num sábado à tarde, uma notícia
lida no Jornal do Brasil o deixa particularmente depri
mido. O professor Euclides de Alencar, seu colega de
prisão na Ilha Grande, que lhe ensinara tudo sobre as
baratas, falecera na véspera. Fora libertado havia ura
ano e readmitido no cargo, porém os longos meses
de encarceramento tinham deixado marcas indeléveis
na sua saúde. Seu corpo está sendo velado no Institu
to Vital Brasil, em Niterói. Dimitri revolve ir prestar as
últimas homenagens ao injustiçado professor.
Ao saber de seu intento. Pequetita o convence a
irem antes a um desfile que haverá na Cinelândia, no
centro da cidade. Quer desanuviar o estado de espíri
Xão sabes que eu odeio paradas militares?
resmunga Dimitri.
Tolo. Xão é nenhuma parada. É um desfile
para promover uma fita que a Metro vai lançar.
Que fita é essa?
O mágico de Oz. Dizem que é maravilhosa. É um
musical em tecnicolor, com a Judy Garland. O Brasil
dos Unidos informa Pequetita, toda orgulhosa.
Dimitri não faz a menor idéia de quem seja Judy
Garland. Sua passagem por Hollvwood o deixara com
verdadeira ojeriza à sétima arte. A última vez que en
trara num cinema fora para assistir a Scarface, em 1932,
mesmo assim só para saber se Paul Muni retratava
fielmente Al Capone e rever seu antigo amigo George
Raft, considerado uma revelação. Saiu decepcionado
com os dois. Xão custa, no entanto, satisfazer a Maria
Eugênia. Findos os festejos na Cinelândia. seguirá para
o velório em Xiterói:
Quem vai participar desse desfile?
A Metro trouxe alguns artistas menos impor
tantes e contrataram atores brasileiros para vestir as
roupas do Homem de Lata, do Espantalho e do Leão
Covarde. Pequetita é assídua leitora de A Scena
Muda.
Então vamos logo decide Dimitri, sorrindo
ao ver a alegria infantil que se estampa no rosto da
A partir de 1920, o arrojado empresário Francis
co Serrador construíra vários edifícios na área antes
ocupada por um século e meio pelo Convento da
Ajuda.
O Império, o Capitólio, o Glória e o Odeon, em
frente à praça Floriano, tinham modernas salas de ci
nema instaladas no térreo. Logo a área ficara conhe
cida como Cinelândia. A noite e nos fins de semana, a
região era das mais animadas da cidade. Os que não
iam aos espetáculos passeavam pela praça, aprecian
do o movimento.
Nesta praça se acham Dimo e Maria Eugênia, chu
se fossem namorados recentes, lambem a mesma bola,
o que permite que suas línguas se toquem sem cha
mar a atenção dos transeuntes. A tarde ensolarada e o
clima festivo parecem ter afastado por um tempo os
pensamentos lúgubres de Dimitri.
Os dois ficam bem na beira da calçada da praça
para melhor assistir ao desfile que se inicia. Já se avista
a fanfarra. que dobra a esquina com seus uniformes
coloridos, atacando os primeiros acordes de "Some
where over the rainbow", músicatema do filme. O pú
blico grita e aplaude alegremente. Logo atrás da fan
farra aparecem o Homem de Lata, o Espantalho e o
Leão Covarde, sofrendo, em seus trajes pesados, o ca
lor do verão. Junto com eles, uma atriz de trancas e
roupas iguais às da personagem Dorothy, criada por
Judv Garland, dança e atira beijos para a multidão.
Outra, vestida de bruxa malvada, corre pela rua mon
tada numa vassoura e dando gargalhadas malignas.
Para as crianças, no entanto, a maior atração fica
por conta dos anõezinhos que compõem a população
da Terra de Oz. A Metro trouxe, dos Estados Lnidos,
dez dos que participaram do elenco original. Com as
mesmas fantasias de duendes usadas no filme, eles ati
ram balas importadas para meninos e meninas que
deliram de satisfação.
Dimitri não nega que toda aquela alegria melho
rou seu ânimo. Xem atina que um dos anões, mais
moreno do que os outros, parou de lançar os cobiça
dos caramelos americanos e fixao intensamente. Seus
olhos despejam sobre ele um ódio há muito destila
do. O duende, que agora começa a apartarse de seus
pares, é o anão da seita Thug Motilah Bakash.
Os adeptos do ocultismo pensarão que fora gra
ças à proteção da deusa Kali que Motilah escapara da
morte ao cair duas vezes de um vagão em alta veloci
dade, como ele próprio declarara numa carta à sua
família adotiva de ciganos, estabelecida naquela oca
sião em Big Sur, na Califórnia.
O fato é que ao ser projetado novamente pela ja
nela de um trem, dessa vez na viagem entre Chicago e
Miami, quando perseguia Dimitri, o anão assassino se
SPlIf;
lãiWr.
enganchara na alça do poste à beira da estrada de fer
ro que recolhia as sacolas de correio nas estações em
que o comboio não parava.
Lá ficara pendurado vários dias, até ser salvo pelo
encarregado do serviço postal. O ódio a Dimitri man
teveo vivo enquanto balançava como um berloque ao
sabor das intempéries. Debilitado pela terrível prova
ção, Motilah Bakash voltara a Los Angeles, sendo mais
uma vez aco
Mayara, uma princesa cigana gorda e mimada, de
buço abundante, que lhe dava uma certa aparência
masculina, se compadece do pequenino indiano. A
compaixão se converte rapidamente em amor. Chega
a ser tocante observar os dois passeando de mãos da
das entre as carroças, a gorda Mavara puxando pelo
homúnculo, como se Motilah fosse uma boneca da
caprichosa princesa.
À noite, colocao sobre seu corpo vasto e roliço,
exaurindo o homenzinho metamorfoseado em bibe
lô erótico. Nas fantasias sexuais de Bakash, a anato
mia volumosa da cigana ganha os contornos esbeltos
de Mata Hari. Depois do gozo, Bakash refugiase nas
dobras quentes das gorduras de Mayara, em busca do
sono reparador.
Aos poucos ele retoma as atividades usuais, per
correndo as ruas com os meninos do bando. Além de
roubar bolsas das senhoras, ele se transforma em exí
mio batedor de carteiras. Depois de treinar meses a
fio num boneco cheio de guizos. Bakash consegue
esquadrinhar o bolso de qualquer indivíduo, mesmo
que este esteja se locomovendo com rapidez. Para
compensar seus passos curtos, aprende a patinar, e
circula sobre rodas com extrema habilidade.
Por pura obra do acaso, após alguns anos viven
do em relativa felicidade, Motilah Bakash bate a car
teira de um homem na Rodeo Drive. Ao examinarlhe
os documentos, descobre tratarse de Victor Fleming,
diretor que se prepara para rodar O mágico de Oz.
Fleming começa a fazer testes para escolher os mais
de quarenta anões que irão participar do filme. Maya
ra, obstinada entusiasta do cinema, sugere a Motilah
que devolva a carteira ao cineasta alegando têla en
contrado jogada na calçada. Quer ver o seu amor agi
gantado pelas lentes da câmera. Bakash, que nada lhe
nega, atende ao desejo da amada, tendo antes o cuida
do de retirar os trezentos e onze dólares ali guardados.
Deixa apenas os documentos, de nenhum valor para
ele, mas de grande valia para o diretor. Victor Fleming
apaixonase imediatamente por Motilah. Suas propor
ções perfeitas e o porte liliputiano garantemlhe um
lugar nas primeiras filas do povo da floresta.
Qual não é a surpresa de Motilah Bakash ao ver,
no Brasil, o objeto de sua tão almejada revanche. O
vasto bigode não é empecilho para que Bakash re
conheça as feições há tanto amaldiçoadas. Os anos
foram generosos com o anarquista, que conserva o
aspecto jovial e romântico de poeta desnutrido e os
negros cabelos encaracplados. Se pudesse, o anão tres
passaria com a força do pensamento os olhos verdes
de Dimitri.
Quando o grupo passa pela rua Alcindo Guanaba
ra, Motilah escondese na esquina e arranca a longa
barba postiça. Lança longe o pequeno chapéu de tiro
lês. Já não lembra mais um duende e sim um menino
de calças curtas e suspensórios. O desfile distanciase,
dobrando a rua Treze de Maio, e o som da fanfarra
misturase aos ruídos normais do trânsito da cidade.
Os espectadores da praça começam a dispersarse. Sob
o olhar furtivo de Bakash, Dimitri consulta o relógio e
despedese de Maria Eugênia com um beijo nos lábios.
Não quer atrasarse para o velório do professor Eucli
des, em Niterói. Subindo a avenida Rio Branco, ele parte
em direção às barcas da Cantareira.
Motilah Bakash, o anão assassino, segue com dois
passos cada passo de Dimitri.
Assim que cruzam a Almirante Barroso, as dimi
nutas pernas de Motilah mal acompanham as largas
passadas de sua presa. Felizmente Dimo atardase
numa banca, lendo as manchetes dos jornais. Ao mes
mo tempo, Bakash avista, do outro lado, uma loja que
vende materiais esportivos. Tendo uma idéia salvado
ra, ele atravessa a rua rapidamente e compra um par
de patins. O vendedor se espanta ao ver aquela míni
ma figura já sair do estabelecimento coleando com
agilidade entre os pedestres. Os passantes se pergun
tam quem seriam os pais irresponsáveis que permi
tem àquela criança patinar em pleno centro.
No momento em que Dimitri desce a rua da As
sembléia no sentido da praça Quinze de Novembro,
para dali dirigirse até a estação das barcas da Canta
reira, Motilah não encontra dificuldades para perma
necer na sua trilha, deslizando elegantemente pela
Desde 1834 barcos a vapo
de Janeiro e Niterói. Era curió
todas as embarcações:
OS PASSAGEIROS NÃO DEVERÃO
CONVERSAR COM O MACHINISTA NEM COM
O HOMEM DO LEME. NOS ASSENTOS
DE RÉ NÃO HE PERMITIDO FUMAR,
NEM ASSENTAR ESCRAVOS. A CÂMARA
INTERIOR HE DESTINADA PARA SENHORAS,
NA QUAL NÃO HE PERMITIDO ENTRAR
PASSAGEIRO ALGUM.
Vinte e oito anos mais tarde os ingleses Jones e
Rainey criaram um serviço de femboats ligando os dois
lados da baía de Guanabara. Os ferrys. ao estilo das
chatas que navegavam pelo rio Mississippi, ficaram
conhecidos como as barcas da Cantareira devido ao
nome da empresa, Companhia Cantareira de Yiação
Fluminense.
Dimitri chega à estação a tempo de pegar a barca
das quatro horas. Sem perder o seu rastro, Motilah tam
bém compra uma passagem e pula com destreza para
o sistema flutuante de atracação. A barcaça se afasta do
ancoradouro, sulcando o mar da Guanabara.
Resta a Motilah Bakash aguardar as circunstâncias
ideais para afinal realizar a nemésica missão. Não traz
consigo o roomal, porém o laço sagrado não lhe fará
falta. Tão intenso é seu desejo de vingança que preten
de saltar sobre Dimo e, com os dentes, rasgarlhe aju
gular. A deusa Kali tem sede do sangue de Dimitri.
Alheio ao perigo que corre, o anarquista apóiase
na balaustrada que cerca a parte traseira do ferryboat
e observa o oceano, seus pensamentos saudosos volta
dos para o velório do amigo. Quando a barca atinge a
metade do trajeto, uma tempestade de verão semeia
o céu azul de nuvens negras e um vento forte encape
la as ondas da baía. "Agora", pensa Motilah. Ainda não
chove, contudo não quer que Dimitri se refugie no
interior da embarcação. Aproximase silenciosamen
te, pronto para o bote. Desta vez, o odiado inimigo
não lhe escapará.
No momento em que vai tomar impulso para lan
çarse sobre as costas de sua vítima, uma onda provoca
da pela ventania levanta a proa da barca. Perdendo o
ponto de apoio, as rodas dos patins de Motilah escorre
gam para trás pelas tábuas polidas do tombadilho.
Sem um ruído, Motilah Bakash precipitase no
oceano. O peso dos patins arrastao para o fundo e o
grito que lhe sobe à garganta é afogado pelas águas.
Os mesmos adeptos do ocultismo diriam que as
primeiras gotas de chuva eram as lágrimas de Kali, a
devoradora de homens, pranteando a perda de seu
Xo dia seguinte, em Paquetá, ao abrir o ventre de
um tubarão que acabam de fisgar, dois pescadores
imobilizamse, intrigados, ao ver o conteúdo daquela
barriga. Motilah fora deglutido numa só bocada pelo
enorme peixe. Seus restos mortais permanecem in
tactos. Benzendose, um deles pergunta:
Oxente! Será o profeta Jonas?
Tesconjuro. Raimundo! Isso aí não é baleia e
Jonas não era um anão de patins.
RIO DE JANEIRO SETEMBRO DE 1940
E disseram que eu voltei americanizada,
Com o burro do dinheiro,
Oue eu estou muito rica,
¦wo suporto mais o breqi
Efico arrepiada ouvindo uma cuíca.
Maspra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu nasci com o samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada.
Nas rodas de malandro, minhas preferidas.
Enquanto houver Brasil, na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu.
\ ORQUESTRA DE Carlos Machado ataca os últi
mos acordes da canção e a platéia do Cassino
da Urca aplaude de pé, freneticamente, Carmen Mi
randa. A estréia, entretanto, em benefício da Cida
de das Meninas, patrocinada pela primeiradama,
senhora Darcy Vargas, e que marcara a volta de Car
men Miranda depois de um retumbante sucesso na
Broadway, fora decepcionante. Músicas feitas nos Es
tados Unidos, como "I like vou very very much" e
"Chica Chica Boom Chie", deixaram o público frio
e indiferente. :': ;,""¦ :T.^r'"'¦""' ¦¦"'"¦
rizavam, Carmen suspendera o espetáculo e, em
poucas semanas de ensaio, mudara radicalmente o
repertório. Agora, acrescentara "Ela disse que tem"
e "Voltei pro morro" aos seus antigos números bra
sileiros, além do samba vibrante de Vicente Paiva e
Luís Peixoto, uma resposta aos maledicentes que
afirmavam ter Carmen Miranda perdido sua brasi
lidade.
De sua mesa, Bejo. o coronel Benjamim Vargas,
irmão do presidente e assíduo freqüentador do lo
cal, lança gritos de "Bravo" acompanhado por sua
comitiva.
O luxuoso Cassino da Urca era a concretização
do sonho de um visionário mineiro chamado Joa
quim Rolla. Homem de origem humilde que come
çara a vida como tropeiro, conduzindo bestas de
carga pelas trilhas do interior, Rolla chegara a em
preiteiro de estradas. Após perder algumas fortu
nas no jogo, resolvera ir para o outro lado da roleta
e, em poucos anos, o empresário se transformara
no imperador do jogo no Brasil. Tinha estabeleci
mentos espalhados por todo o país, porém a jóia
maior de sua coroa era o Cassino da Urca. Os shows
do grillroom eram encabeçados por estrelas de pri
meira grandeza. Atrações nacionais e internacionais,
de Grande Otelo a Virginia Lane, de Mistinguett a
Bing Crosbv, deixaram a marca do talento nas tá
buas daquele palco.
Alto e elegante, Joaquim Rolla raramente cir
cativa no grill, onde mesmo os figurões do Estado
Novo iam renderlhe homenasem. Dono de uma in
:Sft|fI.
teligência ágil e brilhante era, no entanto, semianal
fabeto. Mal sabia assinar o nome. Seu vocabulário
era inversamente proporcional à riqueza que acu
mulara. Consta que, certa vez, encontrarase à tar
de, no centro da cidade, com um conhecido político
que estivera a noite anterior no cassino. O polí
tico saudarao dizendo:
Rolla! Que agradável coincidência!
Rolla respondera, sem perder a pose:
A coincidência é toda minha, Excelência.
Pois é exatamente no Cassino da Urca que Dimi
tri Borja Korozec empregase como crupiê. Consegue
o lugar graças à interferência de Mário Charuto, um
funcionário do cassino, que reside, como ele, na pen
são da rua do Catete.
Mário Charuto, cujo apelido originase do sempi
terno corona preso entre os dentes, impressionase
com a agilidade de Dimo no manuseio do baralho,
por ocasião de uma partida de pôquer jogada a leite
de pato numa tarde ociosa de domingo, no quintal da
pensão. Os doze dedos de Dimitri dão ao carteado
uma velocidade quase mágica. Dimitri. por sua vez,
interessase pelo emprego porque sabe que Bejo Var
gas é um jogador inveterado e ardoroso habitue. Bejo
tem um temperamento extrovertido. Sempre que ga
nha na roleta ou no bacará atira às gargalhadas, como
gorjeta, as pesadas fichas de um conto de réis, feitas
de madrepérola, sobre os garçons e os músicos da or
questra. Uma idéia sinistra brota na mente de Dimi
tri. Quer atingir Getúlio seqüestrando o irmão caçula
do ditador.
s da época
Façam seu jogo, senhores!
Rien ne va plus!
Ganhou a banca!
J°g°:Jogo:
Carta ao ponto!
Jogo feito, não vai mais!
Os boleiros animam o jogo girando as rodas das
roletas. O novo sistema de ar condicionado, instalado
recentemente, mal dá conta do calor. A fumaça dos
charutos e dos cigarros, recortada pelas luzes do salão,
forma uma névoa quase palpável. Mulheres elegantes
vestindo longos e homens de smoking aglomeramse
em volta das mesas. Os jogadores mais fanáticos gru
damse ao pano verde como moscas no mel. Ao longe,
o som da orquestra de Carlos Machado, tocando no
grill, completa a atmosfera festiva do cassino.
Numa roleta o tabelião aposentado Luciano Sol
fieri, perdedor contumaz, arranca das mãos do em
pregado que dirige o jogo a última ficha que acabara
de perder:
Com esta tu não ficas. Esta é a do leite das
crianças.
Todos riem da tirada e o empregado, benevolen
te, deixa passar, Solfieri é "freguês" antigo, amigo de
Rolla. O gordo notário leva tudo com bom humor.
Desde que Ge túlio lhe desapropriara o cartório. Sol
fieri passara a assinar Solfieri Furtado.
Contudo, a grande atração da sala é o novo cru
piê da mesa de bacará. Mesmo quem não joga se apro
xima para ver os malabarismos de Dimitri ao misturar
os seis baralhos do jogo antes de colocálos no sabot.
Maneja a pá que distribui as cartas e recolhe as fichas
como se não tivesse feito outra coisa na vida.
Três contos de réis na banca ele anuncia,
ao embaralhar novamente, formando uma cascata
colorida.
Dálhe, Borjinha! incentivam os circunstantes.
Dimitri se indaga como os doze dedos, que tanto
o atrapalhavam quando queria aprender os truques
do circo, se adaptam com tanta precisão ao bacará.
Um dos maiores admiradores de sua perícia é o
coronel Benjamim Vargas. .Ainda mais baixo do que
Ge túlio, Benjamim parece uma miniatura do irmão.
Bejo chega a se esquecer de jogar para quedarse apre
ciando a desenvoltura de Dimitri com o baralho. Como
Dimo previra, o caráter bonachão do irmão do presi
dente permite que logo estabeleçam contato. Bejo sim
patiza de imediato com o habilidoso crupiê. Além do
mais, há algo nos trejeitos de Dimitri que lhe lembra
seu pai, o velho general Vargas.
Muitas vezes, às três horas da manhã, quando os
salões de jogo encerram as atividades, Bejo o convida
para um uísque no bar, onde ficam conversando até o

amanhecer. Dimitri inventa casos que o fascinam, ba
seandose nas aventuras do seu passado. Aos poucos,
vai ganhando a intimidade e a confiança total do co
ronel. Numa dessas madrugadas é que lhe surge o pla
no de como raptar Benjamim Vargas.
Primeiro, vai deixálo num estado de embriaguez
que o leve à inconsciência e depois, a pretexto de con
duzilo pessoalmente de volta ao palácio, transportá
lo para um esconderijo. Falta descobrir um local se
guro onde guardar seu prisioneiro, mas já sabe quem
pode ajudálo nessa empreitada.
Estás completamente maluco afirma Matu
Maluco, não. Obstinado. O que tem de ser fei
to, tem de ser feito replica Dimitri, taxativo.
A conversa enffe os dois companheiros de fuga se
passa num botequim da rua Júlio do Carmo, no Man
gue, perto do rendezvous de madame Rosaly, onde
Maturin exerce agora a função de gerente. Falam em
francês para evitar os ouvidos curiosos dos vizinhos. O
do prostíbulo. Já não conserva o corpo esbelto e mus
culoso que ostentava na Ilha Grande, malgrado as agru
ras da Colônia Correcional. Também não corre mais
atrás dos caronas, jovens boêmios que se utilizavam dos
serviços das prostitutas e escapuliam sem pagar. Con
tentase em administrar os negócios de madame Ro
saly, como um próspero comerciante. Continua, no
entanto, sendo temido no bairro. Xem os mais valen
tes caftens da zona. homens empedernidos, acostuma
dos a duelos com navalhas, se atrevem a troçar da sua
homossexualidade. É chamado à boca pequena pela
respeitosa alcunha de Bunda de Madame.
Dimitri o informa rapidamente sobre as andan
ças e desventuras dos últimos anos, sobre o relaciona
mento com Maria Eugênia, deixando para o final seu
emprego no Cassino da Urca e a idéia do seqüestro.
Quer que o amigo lhe forneça um lugar onde escon
der Bejo Vargas.
Não vês que vais pôr tudo a perder? Mesmo
que consigas raptar o homem, não vais mais poder
voltar à pensão nem ao cassino. O que é que a tua
viúva pensa disso? pergunta ele, preocupado.
Em primeiro lugar, não é minha viúva, que eu
ainda estou \ivo responde Dimitri, isolando na ma
deira da mesa, superstição que adquirira no Brasil.
Depois, é claro que não lhe contei nada. Não quero que
ela fique envolvida. Sei muito bem o risco que corro.
Sou contra insiste Maturin.
yí Se o problema é dinheiro, conto com duzentas
libras esterlinas em moedas de ouro que me foram da
das há muitos anos, em Belgrado, pelo meu antigo co
mandante no terrorismo, o coronel Dragutin. São tuas.
Xão me insultes.
Dimitri percebe que ofendera o velho camarada:
Perdão. E o desespero que fala por mim.
Maturin suspira resignado ante a determinação
do amigo:
Bem, se estás decidido a não desistir dessa lou
cura, vou te ajudar. Tenho um sítio no meio do mato,
em Barra do Piraí, aonde levo os meus meninos. Po
des guardálo lá. Vou te fazer um mapa, mas não te
dou as chaves. Quero que arrombes o portão, porque
se houver algum problema digo que não sabia de nada
Obrigado, Maturin. Te devo mais essa de
clara o anarquista, comovido.
Esquece conclui Maturin, disfarçando a
emoção. O que pretendes fazer se tudo der certo?
Os olhos de Dimitri brilham de excitação pele
triunfo antecipado:
Forçar o tirano a confessar seus crimes nurr
discurso transmitido pelo rádio e a renunciar. Case
contrário, mato seu irmão.
Maturin não sabe se atribui o disparate a um sur
to de demência ou ao calor intenso que assola a cida
de do Rio de Janeiro.
Dimitri escolhe uma noite de sextafeira para levai
a cabo o intento de embebedar Benjamim Vargas. Ima
gina o fim de semana angustiado que Getúlio passarí
no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, residência de ve
rão do presidente. Já preparou o abrigo, na garagerr
do sítio de Maturin, onde esconderá o coronel.
Fechadas as mesas, às três horas da madrugada
acompanha Bejo até o bar e. como de hábito, os doi
começam a beber. Sem que o coronel perceba, pari
cada dose de uísque servida em seu copo, Dimo der
rama duas no de Bejo. Tudo parece caminhar a con
tento. Restalhe apenas livrarse dos dois guardacos
tas à paisana da Polícia Especial que acompanhai!
Benjamim. Espicaçando a vaidade do irmão de Getú
lio. ele diz com ar de mofa:
Tu andas sempre com esses brutamontes. Tens
medo de quê?
De nada gabase o coronel, mostrando um
revólver 38 preso à cintura.
Numa bravata nada incomum. ele dispensa os
policiais.
Dimo congratulase pela esperteza. Segue contan
do histórias mirabolantes sobre seu passado e conti
nua entornando a garrafa no copo de Bejo. enquanto
bebe pequenos goles do próprio copo. "Agora falta
pouco", pensa Dimo, vendo que nada mais se inter
põe à realização do seqüestro.
O audacioso plano teria tudo para dar certo, não
fosse por um pormenor desconhecido de Dimitri: a
despeito de sua baixa estatura. Benjamim Vargas pos
sui uma resistência invulgar para a bebida. Consegue
absorver duas garrafas de scotch sem que o álcool lhe
altere os sentidos.
O mesmo não se pode dizer de Dimitri Borja Ko
rozec. Apesar da parcimônia com que se serve, às qua
tro da madrugada Dimo encontrase completamente
embriagado. O pileque desperta uma personalidade
oposta à sua, marcada por um sentimentalismo pie
gas e repetitivo. O irmão do ditador transformase no
alvo da mais arrebatada amizade.
Dimitri abraçase a Benjamim, rosto quase cola
do ao dele. e declara com a voz pastosa: L f > ::: 5
.; Bejo, tu sabes que eu te amo, Bejo. Não quero
que nada de ruim te aconteça!
Eu sei, Borjinha responde o sóbrio Benja
mim, com a paciência de quem está acostumado a atu
rar a cantilena e o hálito de centenas de bêbados.
Pra mim, tu és família. Pai é pai, mãe é mãe, e
família é família. Não é verdade?
Claro, Borjinha.
Bejo! Me dá um beijo. Bejo! Te amo, Bejo! Me
As juras de apreço são entrecortadas por excla
mações de um inimaginável fervor religioso:
Que Deus Xosso Senhor te abençoe e te pro
teja. Bejo!
Amém, Borjinha.
Um remorso inesperado toma conta de Dimitri:
Sabes quem eu sou? Sou um filho da puta! E
sabes por quê? Porque pai é pai, mãe é mãe, mas avô
é avô! Por isso é que tu és um grande amigo e eu sou
um grande filho da puuuuta!
Dimo chora copiosamente e adormece nos bra
ços de Benjamim Vargas.
O barman, que a tudo assiste impassível, oferece
ajuda:
Pode deixar, coronel, que a gente bota o Borja
num táxi.
Xão é preciso. Já vou me recolher e antes o
deixo em casa. Sabes onde ele mora?
O barman fornece o endereço e os dois carregam
Dimo desacordado até o automóvel de Bejo. No saguão,
o ronco surdo do anarquista provoca o riso abafado
das faxineiras que iniciam a limpeza dos salões.
Ao contrário do que Dimitri planejara, o preten
so raptado despeja o suposto raptor à porta da pen
são do Catete.
RIO DE JANEIRO NOVEMBRO DE 1941
A jangada saiu com Chico, Ferreira e Bento
yaaa voltoi
Com certeza foi lá fora. um pédevento
3 TRISTE LAMENTO da canção de Caymmi pa
recia prenunciar a tragédia ocorrida com um
pescador conhecido como Jacaré. Ele e mais três
companheiros viajaram sessenta e um dias de jan
gada, de Fortaleza ao Rio, para reivindicar junto a
Vargas a extensão dos direitos trabalhistas à sua clas
se. A jornada, autêntica epopéia, comoveu o país.
Ao desembarcarem na praça Maná, a jangada foi
posta num caminhão com os quatro heróis, que se
guiram rumo ao Palácio Guanabara acompanhados
por uma verdadeira romaria. Vargas não lhes nega
rá o pedido.
Algum tempo depois, Orson Welles, que estava
no Brasil dirigindo It's ali true, resolveu incorporar a
aventura ao documentário. A viagem foi reencenada
para as câmeras e os pescadores lançaramse ao mar.
Em meio às filmagens, uma onda mais alta emborcou
a tosca embarcação afundando seus tripulantes. Um
deles não conseguiu voltar à tona: justamente o líder
daquela expedição, o jangadeiro Jacaré.
Em 15 de novembro, seis meses antes desse fatí
dico acidente
íeada ainda é um símbolo de cora
<¦/ ._ .,,.__.,,..
gem e esperança. No final da tarde, Getúlio receberá
em palácio os quatro cearenses.
Dimitri Borja Korozec tem um interesse particu
lar na mesma data por razões que nada têm a ver com
a proeza dos valentes navegadores nordestinos. É tam
bém nesse dia que acontece, no Jockey Club Brasilei
ro, o Grande Prêmio Getúlio Vargas, com a presença
do presidente.
A bebedeira homérica que impedira seu absur
do propósito de seqüestro, obrigara Dimitri a afas
tarse do Cassino da Urca. Não que houvesse sido
demitido; ao invés de prejudicálo, o episódio gran
jearalhe maior popularidade, pois Bejo se diverti
ra com a situação. Dimo despedese do emprego
por puro constrangimento, não obstante os insis
tentes apelos de Rolla para que permaneça como
crupiê.
O pileque causou igualmente a ira de Maria Eu
gênia, aflita ao vêlo chegar em casa embriagado e
quase de manhã. O fato motivou a primeira alterca
ção entre os dois. Pequetita começa a se irritar com as
atitudes infantis do anarquista.
Sem ligar para as queixas da viúva, Dimitri mer
gulha de cabeça num novo projeto. Lera em O Globo a
respeito do Grande Prêmio, evento que faz parte das
comemorações do aniversário da República. Como de
costume, Getúlio assistirá ao páreo batizado em sua
homenagem. Vargas gosta de desfilar em carro aber
to pela pista, sugestão de Lourival Fontes, diretor do
Departamento de Imprensa e Propaganda, a fim de
promoverlhe a imagem. Uma semana antes, Dimitri
vai ao prado para avaliar a possibilidade de eliminar
Getúlio Vargas no Jockey Club.
Passeando pela pelouse, sua atenção é desper
tada pelos catadores de pules rasgadas das corridas
anteriores. Esses funcionários uniformizados reco
lhem os bilhetes jogados na grama utilizando um
cabo de madeira com um espeto na ponta e os colo
cam num saco que trazem a tiracolo. Dimitri fica
observando a rotina dos apanhadores. Nota que os
turflstas, absortos no estudo dos cavalos, nem lhes
fazem reparo. Quando termina o último páreo,
Dimo aborda um dos empregados e, dizendose co
lecionador, oferecelhe um bom dinheiro pelo jale
co e o casquete. Compra também o saco e o cata
dor, a haste com ponta de ferro usada para fisgar as
pules no chão.
Ao voltar para casa, ele já sabe como assassinar
Ge túlio.
Na pequena oficina montada por ele na garagem
da pensão, Dimitri dá os últim
que preparou para o atentado
ESPINGARDA CASEIRA CONSTRUÍDA
PRECARIAMENTE A PARTIR DE UM CATADOR DE PULES
ÉÉÜ:
Aproveitando um tubo de alumínio, fragmentos
de um cano de descarga e peças de um velho revólver
do exmarido de Pequetita, ele reproduz em metal o
catador de madeira, transformando o cilindro numa
espingarda calibre 22 de tiro único. Sob a aparência
inócua da haste escondese uma arma silenciosa com
forte poder de penetração.
Resta testar a eficiência do instrumento. Sabedor
de que Maria Eugênia foi às compras, ele dirigese ao
fundo do quintal, onde uma mangueira carregada de
frutos serve perfeitamente aos seus intentos. Seus
dotes de atirador, que tanto impressionavam os cama
radas da Skola Atentatora, continuam inalterados. Ele
regula a pontaria, corrigindo o ângulo e a trajetória,
usando as mangas como alvo. Em pouco tempo, acer
ta o centro das frutas quase automaticamente.
Sábado, no Jockey Club, uma bala certeira na tes
ta do ditador porá fim ao Estado Novo.
A chuva da véspera encharcara o solo macio do
gramado e as moças que desfilavam pela pelouse exi
bindo os últimos figurinos manchavam seus sapatos
forrados de tecido na terra úmida.
Faltam alguns minutos para o Grande Prêmio
Getúlio Vargas. Xo cânter, o galope de apresentação
que os cavalos fazem antes do páreo, agradou a es
plêndida forma de Trunfo, um dos favoritos, monta
do por Agostín Gutierrez.
Também brilharam Tenor e Albatroz, todos com
possibilidade de vencer naquela grama pesada.
Da tribuna de honra, cercado de autoridades e


bajuladores, o presiden
f"3P*5BüiS te saúda a multidão sor
iK^^ rindo e balançando len
i tamente o braço, num
s~ i aceno que se tornara ca
racterístico. Volta e meia
cochicha algo no ouvido
^ do amigo Salgado Filho,
v.,à presidente do Jockev e
primeiro ministro da re
náutica. Vargas deixará o
prado da Gávea logo após
o Grande Prêmio, pois
"í;; , .....^ terá que receber os jan
No GrandTííêmio,~ gadeiros cearenses no Pa
o ministro Salgado Filho lácio Guanabara.
e um menino exibido. ^ 1 j j
Ao fundo, Dimitri disfarçado D° OUtrO lad° da
de catador de pules pista, os cavalos se ali
nham na marca dos dois
mil metros. Até os catadores de pules interrompem sua
tarefa para não perder a largada. Somente um deles,
de costas para o evento, continua limpando a pelouse,
espetando na <L
cânico. Seus olhos não desgrudam do presidente.
O catador indiferente é Dimitri, que aguarda o
início do páreo, quando as atenções estarão concen
tradas na corrida, para alvejar Getúlio. Sem descuidar
das pules, ele toma posição em frente à tribuna de
honra. Qualquer ruído que escapar à ação do silencia
dor será coberto pela torcida dos apostadores. Dimi
tri está pronto para o tiro. Com raiva, ele espeta a últi
ma pule enlameada antes do disparo.


rL dada a partida e os jóqueis esporeiam os ani
mais, procurando, de saída, uma melhor posição jun
to à cerca interna. Os torcedores gritam o nome dos
seus escolhidos: "Vai, Adonis!", "Atropela, Tenor!".
Ao contornarem a curva final, Trunfo, nas mãos
do bridão chileno, distanciase do pelotão, livrando
dois corpos sobre Albatroz, o segundo colocado. Mais
distantes, Tenor e Adonis mantêm a terceira e a quar
ta posição. Centenas de binóculos acompanham a
decisão do Grande Prêmio. Dimo ergue o catador,
aponta para a cabeça de Getúlio e puxa o gatilho.
Há um estouro abafado e o anarquista cai contor
cendose de dor.
Existe uma explicação científica para o que acon
teceu com Dimitri quando acionou seu engenhoso
artefato. Como a grama da pelouse ainda estava em
papada com a água da chuva de sextafeira, cada vez
que ele fincava o instrumento no chão para recolher
os papéis picados, a terra molhada ia se acumulando
no cano da arma, vedando a saída do projétil. Os ga
ses provocados pela explosão, bloqueados pelo entu
pimento do tubo, expandiramse no sentido inverso,
projetando a tampa traseira do cilindro de encontro
ao rosto de Dimitri. A força do impacto derrubara o
atirador. Por sorte, os turfistas estavam tão entretidos
na corrida que ninguém se apercebera do incidente.
Dimitri Borja Korozec safase da aventura com um
olho roxo e o orgulho em frangalhos.

Nunca vi fazer tanta exigência,
Nem fazer o que você me faz.
Você nao sabe o que e consciência,
Não vê que eu sou um pobre rapaz?
Amélia não tinha a menor vaidade.
ter ae veraaae.
é> (c) (c) <s>
Das páginas de Memórias e lapsos
RIO, 30 DE ABRIL DE 1942
Dou corda na vitrola e escuto Ataulfo Alves can
tar o samba pela quinta vez. Estou sozinho no meu quar
to. A música me faz lembrar Mira Kosanovic. a bela
albanesa que foi meu primeiro amor. "Mira não tinha a
menor vaidade. Mira é que era mulher de verdade",
cantarolo o refrão, trocando o nome. Não que eu tenha
perdido o interesse pela viúva. Seria injusto ignorar
tudo aquilo que Maria Eugênia fizera por mim, pondo
em risco a própria liberdade. O que me incomoda é
que, cada vez mais. Pequetita se preocupa com as mi
nhas atividades. Em vez de incentivarme, como deve
ria fazer a companheira de um anarquista, desestimula
qualquer ação que me ponha em perigo. ";;
I
O mais curioso é que tenho certeza de que, ao ler
meus apontamentos, ficou fascinada pelo meu passado
revolucionário. Certamente não a quero como cúmpli
ce e entendo que sua formação religiosa condene a vio
lência, entretanto gostaria de fazêla entender que a
minha vida é dedicada à destruição da tirania, custe o
que custar.
Ainda me lembro de sua reação quando voltei do
Jockey Club depois do malsucedido atentado no hipó
dromo. Ralhou comigo como se eu fosse uma criança
que houvesse praticado uma travessura. E claro, tratou
com desvelo o meu ferimento, o que. por sinal, não evi
tou que eu perdesse cinqüenta por cento de visão no
olho direito como conseqüência de uma infecção pro
duzida pela pólvora, porém lançou nas águas da lagoa
Rodrigo de Freitas a minha automática 45 dos tempos
de Chicago. Quando a interpelei, disseme que não
queria mais saber de armas dentro de casa.
Obrigoume também a desmontar a oficina que eu
preparara com tanto cuidado e mandou instalar quatro
trancas de segurança na porta da garagem. Agora, sou
forçado a esconder dentro da caixa de descarga do meu
vaso sanitário, enrolados em sacos de plástico, os trin
ta bastões de dinamite que roubei de uma pedreira em
Jacarepaguá. Cada vez que vou ao banheiro, não posso
me esquecer de desarmar a válvula. Sintome como um
menino fumando escondido da mãe.
Não sei por quê. às vezes penso que Pequetita tem
dúvidas quanto à minha sanidade mental. Desejo par
tilhar com ela meu próximo projeto e vêla vibrar de
entusiasmo, mas sinto que preciso mantêlo em segre
do. Amanhã, Io de maio, Getúlio vai comparecer a um
grande comício dos trabalhadores no estádio do Vasco
da Gama, em Sao Januário, comemorando o Dia do Tra
balho. Conheço o itinerário e sei que o ditador não usa
batedores nessas ocasiões. Pretendo abalroar seu au
tomóvel com o carro de Mana Eugênia carregado de
explosivos. Minha única preocupação é saltar do veí
culo em movimento antes da batida. Algo me diz que
Pequetita não verá esse plano com bons olhos.
Na manhã de l2 de maio, Dimitri sofre uma de
cepção. Ao retirar da caixa de descarga os explosivos
com os quais quer confeccionar o carrobomba, nota
que o plástico protetor rompeuse, molhando as ba
nanas de dinamite. Por um momento, pensa em adiar
a operação; depois, refletindo melhor, conclui que os
cartuchos são desnecessários. O Cadillac usado por
Getúlio não é blindado. Se atingir a lateral do auto
móvel na altura das portas com força suficiente, a
colisão causará a morte do ocupante. As ruas estão
vazias devido ao feriado, o que facilitará o acidente.
Dimitri instalase ao volante e, fazendo uma ligação
direta no velho Ford de Maria Eugênia, segue para a
rua do Russell. É lá que vai aguardar a passagem de
^^^^^^^^^^^^b ^^^^^^^^^^^^(tm) ^^^^^^^^^^^^" ^^^^^^^^^^^^^
O Cadillac Fleetwood, modelo 41, de estribos lar
gos, é o preferido do presidente. Getúlio, baixote e
gorducho, sentese mais à vontade no espaçoso banco
traseiro da limusine. O motorista toma o caminho da
praia do Flamengo pela rua Silveira Martins.


Vargas, que desceu de Petropolis para os festejos,
aproveita para ler o discurso que pronunciará no es
tádio do Vasco. Tranqüilo, puxa os óculos sem aro
para a ponta do nariz e preparase para acender ou
tro charuto, quando um carro vindo em alta velocida
de corta pela rua do Russell, arremessandose como
um bólido contra o Cadillac. O impacto o pega com
pletamente desprevenido e Ge túlio é projetado de um
lado ao outro do carro, o corpo sem apoio saltando
feito um boneco invertebrado no interior do veículo.
Vargas escapa por pouco da morte, mas sofre fra
taras múltiplas, na perna esquerda, no maxilar e numa
das mãos.
Abatida também não preservou ileso o perpetra
dor da façanha. Dimitri não conseguiu pular do auto
0 AaiWffli CfWJ 0 MRKO.
W PRESIDENTE VAKáSi
*
O 4tn*stT* Ufe ttgtt m* 1's
Foto do desastre publicada
na Noite Ilustrada. Seta aponta bonde
móvel em movimento. Ao tentar abrir a porta, a man
ga do seu paletó enganchouse na maçaneta.
Talvez por castigo da Providência, o anarquista
padece das mesmas lesões que infligiu à sua vítima.
O Fleetwood 41 resiste razoavelmente bem ao
choque, ao contrário do Ford 34 de Maria Eugênia,
reduzido a um emaranhado de metal.
Arrastandose para fora das ferragens retorcidas
do que sobrou da carroceria. Dimo busca refúgio num
bonde cujo motorneiro parou a fim de observar o
desastre. Quer esconderse da turba enfurecida, que
No instante em que a multidão se apronta para
executar o verdugo do chefe da nação, escutase, vin
do da limusine. a voz característica do amado líder
distorcida pelo maxilar quebrado: "Xão façam isso!
Ele não fez por mal!".
O povo obedece, a contragosto, à ordem do pre
sidente ferido. A ironia da situação deixa Dimitri mor
tificado e constrangido. A dor moral que experimen
ta é maior do que a das contusões. Sua vida acaba de
ser poupada pelo homem que pretendia matar.
Getúlio Dornelles Vargas e Dimitri Borja Ko
rozec são socorridos ao mesmo tempo. Um dos pas
santes se prontifica a levar o presidente ao Palácio
Guanabara, onde ele será atendido pelos drs. Cas
tro Araújo, Juscelino Albuquerque e Florêncio de
Abreu. Logo depois, um táxi transporta Dimo para
o Hospital Pedro Ernesto, onde ele é recebido por
um anônimo quintanista. T


Os ferimentos obrigam Getúlio a ficar três meses
acamado no próprio palácio. Médicos e enfermeiras
maravilhamse da sua capacidade de recuperação.
Com fraturas idênticas, Dimitri leva o dobro do tem
po para se restabelecer.
Dando provas da generosidade que os adversá
rios políticos chamam de demagogia, Getúlio faz ques
tão de pagar todas as despesas de Dimitri.
Durante o período em que se encontra preso ao
leito com a perna sustentada por roldanas, a mão enges
sada e o queixo costurado, Dimo estranha a ausência de
enfermaria do andar, a fim de saber notícias suas, po
rém não lhe faz nenhuma visita. "Deve estar zangada
com a perda total do carro", ele pensa, sem dar maior
importância ao fato. A verdade é que Peque titã, cansada
das peripécias que colocam a rida do anarquista em pe
rigo, após longas reflexões resolvera dar um basta àque
las loucuras. Continua amando Dimitri, apenas não su
porta mais viver com o coração em sobressalto.
Em novembro, na manhã em que Dimo tem alta,
Maria Eugênia o aguarda na porta da pensão. Ele se
aproxima para beijála, mas Pequetita se esquiva, vi
rando o rosto:
Precisamos conversar.
Já sei. Estás aborrecida por causa do auto
móvel.
Se é isso que pensas, não me conheces nem
um pouco.
Ela começa a andar pela rua do Catete e Dimo a
acompanha, procurando abraçála:
Então o que houve? indaga Dimitri, intri
gado.

Pequetita afasta o braço que lhe cinge a cintura:
O que houve? Tens a coragem de perguntar o
que houve!? v
Claro. É a primeira vez que te vejo tão irritada.
O que houve é que não agüento mais ir dor
mir à noite ignorando se vais estar vivo no dia se
guinte. Eu não suporto a idéia de ficar viúva nova
mente.
Esse risco tu não corres.
Como não?
Xós não somos casados sorri Dimitri. ten
tando um gracejo.
Maria Eugênia irritase mais ainda. Gira nos cal
canhares e dirigese de volta à pensão, lançando a
ameaça por sobre os ombros:
Pra mim basta. Ou tu desistes dessas maluqui
ces ou não quero mais te ver.
O anarquista retruca, erguendo a voz:
O que tu chamas de maluquice é a razão da
minha vida!
Pequetita nem lhe responde, deixando Dimo
possesso: .,¦.
Vai! Nunca precisei de ti pra nada! grita ele,
Os moradores da rua do Cate te chegamse às ja
nelas para assistir à cena insólita. Ao perceber que se
transformara no centro das atenções, Dimo metese
no primeiro botequim que encontra. Pede um cafezi
nho e um maço de Petit Londrinos. Lamenta as pala
vras injustas com que agrediu Maria Eugênia. Não sabe
como resolver o dilema que se lhe apresenta. Tem de
escolher entre o amor de Pequetita e a rota incerta do

Traga a fumaça do cigarro forte de fumo escuro,
segurandoa nos pulmões até perder o fôlego. Está
sozinho outra vez. Só, literalmente só. Talvez seja me
lhor assim. A solidão é o apanágio dos guerreiros.
RIO DE JANEIRO MARÇO DE 1943
Etelvina, minha nega,
Acertei no milhar.
Ganhei quinhentos contos,
Não vou mais trabalhar.
3UYIXDO MOREIRA da Silva num cabaré da
Lapa, Dimitri Borja Korozec, ligeiramente em
briagado, se inspira para escolher sua próxima ocu
pação. Da mesma forma, a saudade ocasionada pela
ausência de Maria Eugênia deve ter contribuído para
a ofuscação de seu raciocínio, já que não existe moti
vo aparente para que, aos quarenta e seis anos de ida
de, Dimo resolva optar pelo ofício de bicheiro.
Seguindo a moda, aparara o bigode e voltara a
esticar os cabelos encaracolados com gomalina, como
nos tempos em que imitava o penteado de George
Raft. Freqüentava as casas noturnas, inconformado
com a separação.
Um dos seus recentes companheiros de boêmia
era Péricles de Andrade Maranhão, um jovem de
dezenove anos, cartunista promissor dos Diários
Associados, mais conhecido como Péricles.
É nos seus tímpanos que Dimitri despeja as lamen
tações habituais aos que sofrem de amor, sem contu
do confessar suas atividades terroristas:
Essa mulher não me entende. Não admira o
meu trabalho. . ¦. '"¦ : : ::~ :^
mm

O que é que tu fazes?
Faço uma coisa aqui, uma coisa ali, expedien
tes, entendes? responde Dimo, desconversando.
xe a eente
estável, Borjinha. Eu também sofro esse preconceito
Por isso é que o samba do Moreira me deu uma
idéia. Acho que vou me estabelecer como banqueiro
de jogo do bicho.
Péricles se espanta com a declaração de Dimitri:
Banqueiro de bicho? Pra isso é preciso muito
dinheiro.
Dinheiro há... Dinheiro há... garante Dimo,
com um sorriso enigmático.
Péricles dá de ombros e muda de assunto, atri
buindo a afirmação presunçosa às batidas de maracujá.
i
0 Amigo da Onça, de Péricles
undo consta, o personagem pos
Tamanha é a impressão causada por Dimitri em
Péricles que há suspeitas de que, apesar dos olhos
verdes e da beleza apolínea do anarquista, algo da
sua fisionomia tenha lhe influenciado o traço, quan
do criou, sete meses mais tarde, o célebre persona
gem O Amigo da Onça.
Dimitri termina a bebida e despedese do de
senhista. Tem pressa de regressar ao seu novo do
micílio. xAtordoado pela resolução irrevogável da
viúva e sem saber onde morar ao sair da pensão,
Dimitri fora acolhido por Maturin no bordel da rua
de adaptação desenvolvida
Graças à cap£
ao longo dos anos, logo ele se acomoda à vida no
Mangue.
Seus dons de poliglota facilitam a amizade com
as prostitutas estrangeiras arrebanhadas, nesses tem
pos de crise, nas aldeias miseráveis da Hungria, da
ganização de caftens judeus que envergonhavam seu
povo. Esses rufiões prometiam às pobres moças casa
mento e fortuna no Brasil. Desprotegidas e longe das
famílias, não conhecendo o idioma, elas eram força
das à prostituição. Algumas conseguem enriquecer e
se tornam cafetinas famosas, outras não resistem e se
matam. O instinto de sobrevivência, porém, leva a
maioria a se ajustar à nova realidade. ' :.¦¦
Dimitri costuma observar as garotas que circu
lam seminuas pelo rendezvous sob o olhar vigi
lante de madame Rosaly. Divertese ao vêlas à ja
nela tratando o preço com os clientes ou recusan
do os que não inspiram confiança. Quando não
querem oferecer seus préstimos, alegam que estão
¦¦.KSfíJpi^ftiS.
doentes, gritando em alemão, enquanto sacodem
a cabeça:
Nein! Ich habe eine Krankhmt! Eine Krankheit!
Ih. vamos embora que a puta hoje está com
encrenca é o que entendem os fregueses, criando,
para sempre, o neologismo.
O tino comercial de Maturin não passara desper
cebido à cafetina. Madame Rosalv deralhe sociedade
desde que o exarrombador sugerira expandir os ne
gócios abrindo uma filial em Laranjeiras.
Ao chegar da Lapa naquele sábado, 6 de março,
Dimitri informa ao amigo sua decisão. Pragmático,
Maturin pergunta:
O que tem a ver o jogo do bicho com o terro
rismo político?
Nada. Isso é o melhor de tudo. Não percebes?
Não.
Posso convencer Maria Eugênia de que aban
donei de vez o anarquismo. Depois, a banca de bi
cheiro é um disfarce perfeito para a minha tarefa re
volucionária.
Maturin pesa os prós e os contras:
Sabes que o bicho não é muito bemvisto pela
polícia. É tolerado, mas proibido. Além do quê, a con
corrência é grande.
Quem trabalhou com Al Capone não teme
concorrência nenhuma.
O projeto não agrada a Maturin. Como último
recurso, usa o argumento lembrado por Péricles:
E dinheiro? Onde vais arranjar o dinheiro para
Dimo encara o antigo camarada com ares de
Pensei nisso. Vou vender as libras esterlinas de
ouro que Dragutin me deixou.
Se pudesse ouvir as palavras de Dimitri. o velho co
Em 1892, tendo sido cortado o auxílio que rece
bia do governo para o sustento de seu jardim zoológi
co na Mia Isabel, o barão de Drummond inventou um
método para estimular a venda de entradas. Cada in
gresso de mil réis era marcado com os algarismos assi
nalados nas jaulas dos animais. À tarde havia um sor
teio e os visitantes premiados recebiam o equivalente
a vinte vezes o valor do bilhete. Estava criado o jogo
do bicho. O sucesso foi imediato. Os tickets. agora ven
didos nos armazéns, geraram a existência de interme
diários, os futuros banqueiros do jogo do bicho.
Em pouco tempo, o jogo iniciado de forma ino
cente se transmuda em jogatina desenfreada. Os ban
queiros organizam a loteria. Os números correspon
dentes aos vinte e cinco bichos divididos em "grupos"
se desdobram em cem dezenas, mil centenas e dez
mil milhares.
Para se saber a dezena do animal escolhido, mul
tiplicase seu número por 4 e baixamse três casas.
Exemplificando: as dezenas do camelo, grupo 8, são
32. 31,30 e 29. ¦.. ... .¦ . _¦
A grande atração dessa engenhosa loteria zoo
lógica é o milhar. Quem acerta num milhar recebe
cinco mil vezes o valor da aposta. Os "pontos", como
chamam os lugares onde se recebe o jogo, proliferam
por toda a cidade. ;
ÉÉÜ:
do pelas autoridades, o que contribuiu para a sua propa
gação. É mais saboroso, o fruto proibido. Não há quem
não faça a sua "fezinha" ao menos uma vez por semana.
Tudo é palpite: quem sonha com riojoga no jaca
ré: com srordo, no elefante, e sonhar com leite é vaca
Quando morreu Rui Barbosa, a Águia de Haia, o
povo em peso apostou no grupo 1 e deu águia no pri
meiro prêmio, quebrando algumas bancas.
Com a competência de financistas internacionais,
os banqueiros passaram a diluir entre eles as apostas
altas para evitar derrocadas semelhantes.
A essa atividade fascinante e perigosa entregase,
de corpo e alma, Dimitri Borja Korozec. Investe parte
da pequena fortuna obtida com as moedas de ouro
no aluguel de uma "fortaleza", nome dado às sedes
dos bicheiros, na rua Benedito Hipólvto, e o resto lhe
serve de capital de giro. Satisfeito, ele se pavoneia em
frente à casa, envergando um terno de panamá bran
co feito sob medida.
Contudo, não está completamente feliz. Ao con
trário do que imaginara, Maria Eugênia Pequeno de
saprova seu trabalho. Tentou explicarlhe ao telefone
os novos afazeres:
Foi por ti que embarquei nesta profissão.
Profissão!? Chamas isso de profissão? Ojogo é
fora da lei. Tu me dizes que desististe do anarquismo,
o que eu não acredito, mas continuas a ser o marginal
de sempre.
Xão entendes que exerço uma função social?
De social, ojogo do bicho só tem mesmo o eleva
dor dos prédios dos bicheiros! exasperase Pequetita.
Não sabia que eras tão reacionária. Vais me
dizer que nunca jogaste?
Nunca, mas se algum dia sonhar contigo, jogo
na cobra grita a viúva, batendolhe o fone na cara.
Ofendido, Dimo resolve desprezar o episódio, e
procura esquecer Maria Eugênia dedicandose com
afinco à banca. Com o tempo, pretende ampliar seu
território; antes, porém, quer firmarse como o maior
bicheiro da zona do Mangue. .: •;
Nas primeiras semanas tudo parecia correr a con
tento. Até Maturin, que no início fora contra o em
preendimento, se conformara com a idéia de ver Di
mitri desfilando de contraventor.
Essa serenidade paradisíaca se transformaria em
pesadelo na sextafeira. 23 de abril, dia de São Jorge. A
inexperiência e a ignorância dos meandros do ofício
impediram que Dimo descarregasse, junto a outros ban
queiros, as volumosas apostas cravadas no grupo 11.
Para seu desespero, deu cavalo na cabeça.
Em menos de rime e quatro horas, Dimitri Borja
Korozec, o popular Borjinha da zona do Mangue, fica
sem dinheiro, sem banca, e sem viúva. ;
Num desatino inexplicável, Dimo responsabiliza
Getúlio Vargas pela súbita ruína. A bancarrota des
perta nele o anarquista adormecido e a necessidade
de justiçar seu inimigo figadal. Quer vingar os oprimi
dos do regime.
A uma da madrugada, após pagar o último acer
tador com as poucas notas que lhe sobram, ele fecha
a fortaleza e entrega as chaves para Maturin.
Aonde vais? pergunta o amigo, preocu
pado. /
Não sei. . ¦ ¦ . ¦¦¦%¦•¦
Uma nuvem escura em forma de mariposa cobre
a lua que
de mau agouro. Dimitri alça os olhos para o céu e
vaticina:
__Amanhã vai dar borboleta.
Levantando a gola do paletó amarfanhado, ele
desce a rua Benedito Hipólyto em direção ao centro
e evitando os lampiões, perdese nas trevas da noite.
Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais.
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Do pampa, do seringal.
Dos verdes mares bravios,
Da minha terra natal.
Deixei lá atrás meu terrein
Meu limão, meu limoeiro,
Meu pé de jacarandá.
Minha casa pequenina
Lá no alto da colina
Por mais terras que eu peirorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá.
ir divisa
Esse V que simboliza ~ ; : ^^/: : :
A vitória que virá. _ ¦¦¦'¦'¦' ' " ' •
BRASIL DO ANO de 1944 é marcado por dois
. fatos relevantes. Primeiro, tendo declarado es
tado de guerra ao Eixo há quase dois anos, em repú
dio ao afundamento de vários navios da sua frota, o
país envia para a Sicília os primeiros soldados da feb,
a Força Expedicionária Brasileira. Os bravos rapazes
são saudados pelos versos de Guilherme de Almeida
na "Canção do expedicionário". Segundo, o misterio
Quanto ao primeiro, há uma farta documenta
ção sobre a coragem dos vinte mil homens armados
pelos Estados Unidos, como na heróica tomada do
monte Castelo, na região dos Apeninos. Os pilotos da
fab, a Força Aérea, nas carlingas da esquadrilha Senta
a Pua, deixaram a marca de sua valentia nos céus da
Itália. A participação das mulheres nada ficou a dever
à dos homens. Desde a primeira hoi"a, centenas de
jovens formavam filas para se alistar como enfermei
ras nos hospitais de campanha.
Uma serpente de cachimbo bordada nos brasões
dos uniformes era o símbolo da tropa. Diziase que
era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar
na guerra. Pois a cobra fumou.
O conflito motivou todos os brasileiros. Pirâmides
de metal eram amontoadas nas ruas para contribuir
com o esforço de guerra. Devido ao racionamento de
gasolina, os automóveis circulavam movidos a gasogê
nio, com as chaminés enfiadas nas traseiras dandolhes
a aparência de cozinhas ambulantes. Sem esquecer do
blecaute, precaução contra os possíveis ataques aéreos.
A noite, Copacabana às escuras lembrava épocas remo
tas. As famílias, que temiam pelos filhos embarcados
para os campos de batalha, receavam a convocação dos
que ainda não haviam sido recrutados.
Em relação ao segundo acontecimento, decerto
o mais intrigante, é necessário admitir que não há re

gistro confiável do paradeiro de Dimitri durante os
dez anos seguintes.
Malgrado exaustivas investigações, de 1944 a 1954,
seu destino se constitui num verdadeiro enigma. Nada
se conhece de concreto sobre os desígnios do anar
quista. As páginas manuscritas do caderno intitulado
Memórias e lapsos, manancial imprescindível para a rea
lização desta biografia, com anotações referentes ao
período perderamse no decurso das andanças de Di
mitri ou foram destruídas pelo próprio autor.
Cabe salientar que existem as costumeiras bale
las, de origens espúrias, às quais nenhum pesquisa
dor digno deste nome daria crédito.
Seria leviano afirmar, como garantem certos in
divíduos, talvez bemintencionados, que. em 45. quan
do Getúlio Vargas fora obrigado a renunciar. Dimitri,
munido de um fuzil com mira telescópica, encontra
vase numa árvore da rua Farani, em Botafogo, por
onde passaria o ditador rumo ao exílio.
Enganamse aqueles que asseguram têlo visto
rondando a fazenda de São Borja. para onde Getúlio
se retirara, à espera de uma oportunidade para enve
nenar seu chimarrão.
Só a mente mais delirante poderia crer no episó
dio fantasioso que o coloca como o cameraman que
inutilizou a câmera na inauguração da tv Tupi, em
São Paulo, em 1950. ^:: ' ¦¦ '"
Mais absurda ainda é a noção de que o terrorista
partira para a Europa, onde confeccionara, para os
generais alemães, a bomba utilizada na tentativa frus
trada de eliminar Adolf Hitler, em 20 de julho de 1944,
e a de que seu rosto havia sido identificado em meio à
multidão colérica que linchara Mussolini. ' • v ;
ôtósitóí
ísE^iSiRj

A versão menos implausível do que ocorreu com
Dimitri nesses dez anos, mesmo assim sem qualquer
documentação que substancie o fato, é a de que, após
sua malfadada experiência como bicheiro, ele sofrerá
uma violenta crise de depressão e fora recolhido por
monges caridosos a um mosteiro trapista em Friburgo.
Nessas horas é que o biógrafo escrupuloso tem a
obrigação e o dever de verificar exaustivamente as fon
tes, separando o joio do trigo e a verdade histórica da
mentira forjada em torno do mito.
Na realidade, a primeira notícia incontestável que
se tem de Dimitri, desde que desapareceu em 1943,
surge, em seus apontamentos, no mês de agosto de 54.
Vencendo as eleições de 51, Vargas voltara ao po
der nos braços do povo. Três anos depois, Dimo regres
sava de um passado incógnito nas asas da vingança.
As anotações genuínas que restaram principiam
na metade inferior de uma folha rasgada do diário de
Dimitri Borja Korozec.
[...] com as saias dobradas na altura dos joelhos e. ape
sar da insistência, nenhuma das duas soube me expli
car por quê. Continuamos rindo e bebendo até o ama
nhecer.
No domingo. 1? de agosto de 1954. com cinqüenta
e sete anos. eu havia quase desistido do meu intento de
matar Getúlio. Ficava cada vez mais difícil aproximar
me do presidente, agora eleito pelo povo. Foi totalmen
te por acaso que nossos caminhos se cruzaram mais
Quando fecharam os cassinos, em 46. vários cru
piês e boleiros passaram a trabalhar nos parques de
diversões. Operavam, por trás dos balcões, os es
tandes onde se faziam sorteios, da mesma forma que
anteriormente administravam os jogos no pano ver
de. Para sobreviver, haviam sido forçados a trocar
os elegantes salões de jogo pelo ambiente vulgar das
feiras.
Fazia algum tempo, eu me empregara num desses
parques itinerantes manejando a Roda da Sorte, uma
espécie de roleta vertical que premiava com prendas, e
não com dinheiro, os jogadores.
Numa das vezes em que estávamos montados em
Petrópolis. no largo dos Prontos, ouvi alguém gritar meu
nome de um automóvel que circulava a praça:
Borjinha! Não acredito! Borjinha!
Era o coronel Benjamim \argas.
Parecendo feliz com o reencontro. Bejo obrigou o
motorista a estacionar e saltou acompanhado de seus
guardacostas. Não acreditava que eu pudesse estar
trabalhando num mafuá: ¦; '
0 que fazes aqui? ^^
Sou o responsável pela Roda da Sorte ex
pliquei, muito digno.
Não te vejo há mais de dez anos. \amos tomar
umas copas.
Agora não posso. Meu intervalo é só daqui a
meia hora.
Estás brincando? Sou fiscal de Diversões Pú
blicas. Se não te deixam vir agora, fecho esta merda.
Nessa altura, o dono do parque, reconhecendo o
irmão do presidente, já se aproximava desdobrandose
em salamaleques: . _ ¦ . ." , ¦ ."....
Borja, como é que você nunca me disse que
era amigo do dr. Bejo? Pode sair que eu tomo o seu
lugar. Não há pressa! Não há pressa!
Na tendinha de bebidas do parque. Bejo encomen
dou um uísque de procedência duvidosa, e eu. um cuba
libre. Saímos a passear entre as barracas sob as vistas
dos dois seguranças. Bejo queria saber o que eu havia
feito nos últimos anos. Desconversei sem dizer nada de
concreto. 0 coronel tomou minha discrição por aca
nhamento. pensando que eu tinha vergonha do que fora
obrigado a realizar nos últimos anos para sobreviver.
Dispôsse a me conseguir um emprego melhor:
Não sei em que repartição, mas tenho certeza
de que podes ficar encostado em algum ministério.
Nossa conversa foi interrompida pelo choro de uma
criança. A menina, de cabelos cacheados presos por
uma fita de veludo azul. não podia ter mais do que dez
anos e seu pai procurava consolála:
Filhinha. papai errou o alvo. Por isso é que o
moço não pode te dar o ursinho.
Estávamos diante de um estande de tiro com ar
mas de ar comprimido. Quem acertasse nos oito pati
nhos de gesso que giravam na esteira rolante ao fundo,
tinha direito a um dos prêmios dispostos na prateleira.
A prenda que tanto despertara o interesse da menina
era um urso de pelúcia azul vestido de marinheiro. 0
pranto convulsivo da criança comoveume. Pagando o
preço da carga de chumbinhos, empunhei a espingar
da Daisy. réplica inofensiva da ^ inchester 73. Dispa
rei da altura dos quadris. Mesmo sem fazer pontaria,
despedacei todos os patinhos giratórios. Atrás do bal
cão, meu colega de mafuá passoume um olhar irrita
do. Mandei que ele entregasse o ursinho à menina. A
criança não cabia em si de contentamento e o pai nao
parava de me agradecer.
Vi que o coronel a tudo assistia embasbacado:
Barbaridade! Não sabia que tu eras tão bom no
gatilho, chê! Onde aprendeste a atirar?
Por aí respondi vagamente.
Só com espingarda de ar comprimido?
Não, atiro bem com qualquer tipo de arma.
Adio que e um dom. ;.: ; . ¦¦
Já sei qual é o emprego que vou te arranjar
disse ele, muito contente.
Rabiscou um bilhete num cartão de visita coi
brasão da República e o colocou no meu bolso:
artaíeira
procuras pelo Gregório no Palácio do Catete. Entrega a
ele esse meu cartão, ^ais trabalhar na guarda pessoal
Foi assim que. sem o saber. Benjamim \argas me
ofereceu a grande oportunidade de matar seu próprio


¦ RIO DE JANEIRO PALÁCIO DO CATETE
QUARTAFEIRA, 5 DE AGOSTO DE 1954
Vento do mar no meu rosto
E o sol a queimar, queimar.
Calçada cheia de gente
A passar e a me ver passar.
Rio de Janeiro, gosto de você.
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar,
Desta gente feliz..
GREGÓRIO INTERROMPE a canção de Antônio
Maria e Ismael Neto desligando o vistoso rádio
Ballade, da Standard Electric, com caixa de baquelite
marfim, presente de um general. Ao ouvir a música,
sempre se pergunta como um pernambucano e um
paraense puderam compor uma valsa tão linda sobre
o Rio de Janeiro.
Gregório Fortunato. o Anjo Negro, era um ho
mem de origem humilde, alto e corpulento, criado
nas estâncias de São Borja. Havia quase trinta anos
acompanhava Vargas servindolhe de guardacostas e
factótum. A fidelidade canina que lhe dedicava gran
jeara o afeto de Vargas.
Quando Bejo se afastou do comando da guarda
pessoal, o tenente Gregório ocupara o posto. Sua pro
ximidade com o chefe fez com que ele começasse a
ser incensado pelos que procuravam cair nas boas gra


Gregório, o Anjo Negro,
penteia um cabelo rebelde
do presidente Vargas
ças de Ge túlio. Chegara a ser condecorado pelo mi
nistro da Guerra com a Medalha Maria Quitéria, uma
das mais altas homenagens outorgadas pelo Exército.
Devido aos favores concedidos por seu intermédio,
Gregório era um homem rico. Muitas vezes, a influên
cia que exercia à sombra do trono ultrapassava a dos
ministros de Estado.
Iliterado, despreparado para o poder que possuía,
revelarase um homem arrogante e perigoso, cujos
desejos eram interpretados como ordens diretas do
presidente. A guarda pessoal, chamada pelos inimi
gos de "guarda negra", cumpria suas ordens sem pes
tanejar.
O Anjo Negro analisa de cima a baixo o homem
de pé em frente à mesa do seu gabinete. Lê, com certa
dificuldade, o bilhete escrito no cartão de Benjamim
Vargas que Dimitri lhe entregara. Guardando o bilhe
te, como fazia com qualquer documento, por menor
que fosse, assinado por uma autoridade, dirigese a ele:
Demétrio Borja. Tu és gaúcho?
Não, sou de Vassouras.
Vens muito bem recomendado. O Bejo diz que
tu és de confiança e que tens boa pontaria. Tu foste
militar?
Servi o Exército, como todo mundo.
Começas hoje. Depois te apresento o pessoal
da guarda.
Obrigado, tenente agradece Dimitri, cha
mando Gregorio pela patente ganha na Revolução
Constitucionalista de 32.
O Anjo Negro acaricia o punhal inseparável so
bre a mesa e, com o olhar vago, comenta como se fa
lasse para si mesmo:
Pena que não te conheci antes. Senão, tinha
um serviço bem a teu jeito. .
No dia seguinte, ao ler as edições extras dos jor
aquelas palavras.
V M • i \JJk
?acsímile da Tribuna da Imprensa
no dia 5 de agosto de 1954
O SAAGUE DE OI ENOCEYFE
Hoje, que mais posso dizer? A visão de Rubens Vaz, na rua,
com duas balas à queimaroupa: a viagem interminável
que fiz com ele até o hospital, vendoo morrer nos meus
braços, impedemme de analisar a frio. neste momento, a
hedionda emboscada desta noite. Mas. perante Deus. acuso
um só homem como responsável por esse crime. É o prote
tor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos
como o desta noite. Este homem chamase Getálio Vargas.
Sentado na sala de plantão da guarda pessoal, Di
mitri lê o artisro de Carlos Lacerda. Há meses os libe
cada vez mais violentos. Acusava Vargas de acobertar
negociatas, beneficiar amigos e de mergulhar o país
numa corrupção desenfreada.
ÍÍÍÍÍÍÍÍÉ:
Em fevereiro, o "Memorial dos coronéis", recla
mando dos salários e da "negligência a que fora lan
çado o Exército", aliado ao descontentamento da
Aeronáutica e da Marinha, obviamente contrárias a
Vargas, deixava clara sua falta de sustentação junto
aos militares. A inflação corrói os cem por cento de
aumento dados por Ge túlio ao salário mínimo.
Com a esperteza política que o caracterizava, Var
gas não se manifestava, esperando que as acusações se
diluíssem com o passar do tempo, administrando a
crise "sem pausa mas sem pressa". Xão contava que o
vigor dos inimigos crescesse com a veemência dos ata
ques de Lacerda, não apenas na Tribuna da Imprensa,
mas também através de um novo e poderoso veículo
colocado a seu dispor pelo dono dos Diários Associa
dos, Assis Chateaubriand: a televisão. Esplêndido ora
dor, seus pronunciamentos pela tv Tupi mobilizavam
a opinião pública como nunca acontecera antes.
Para evitar agressões, um grupo de oficiais da
Aeronáutica prontificouse a cuidar da segurança de
Lacerda. Um deles, o major Rubens Vaz, o acompa
nhou na quartafeira, 4 de agosto, a uma palestra rea
lizada no Colégio São José.
Por volta de meianoite e meia, Lacerda, seu filho
Sérgio e o major regressaram à rua Tonelero, onde mora
foram surpreendidos por disparos de pistoleiros atocaia
dos. Lacerda escapou da emboscada com um tiro na
perna, porém o major Rubens Vaz morreu no atentado.
Dimitri pressente que a desastrada tentativa fora
organizada por Grego rio Fortunato. Teme que a guar
da pessoal seja dispersada antes que ele consiga matar
Getúlio. ^v ¦;¦"• ¦'•¦"• ¦¦¦¦¦¦
Os dias subseqüentes são os mais alvoroçados da
história do Cate te. O Palácio das Águias transformase
num paiol prestes a explodir. Chis e militares ligados
ao governo confabulam em voz baixa, comentando as
últimas notícias. Um telefonema anônimo à redação
da Tribuna da Imprensa afirma que a ordem do crime
partira da guarda pessoal. O informante alega não po
der estenderse por pertencer ele mesmo à guarda.
A Aeronáutica cria a "República do Galeão" na
Base Aérea e. sobrepondose à autoridade policial,
principia um inquérito por conta própria. As investi
gações conduzem as suspeitas do homicídio para o
Catete. Há provas de que Gregório mantinha ligações
com conhecidos criminosos.
Surgem denúncias de corrupção no círculo pró
ximo à Presidência. Os indícios não apontam Getúlio
diretamente, no entanto mostram o "mar de lama"
túlio será forcado a renunciar.
garantem que
Dimitri aproveitase do tumulto reinante para es
tudar minuciosamente a planta do Catete. Utilizando
a credencial da guarda fornecida por Gregório, ele
percorre as dependências do prédio, examinando os
andares, memorizando cada detalhe do edifício.
Como fora admitido na véspera do atentado, é o
único membro da guarda sobre quem não paira qual
quer suspeição. Por isso não tem dificuldades em en
tabular amizade com Albino, o velho zelador do Cate
te. Magro e silencioso, Albino entrara para o serviço
ainda no governo Nilo Peçanha.
Alzira Vargas narra um episódio invulgar prota
gonizado pelo zelador. Quando Washington Luís foi
deposto em 1930, confioulhe a faixa presidencial com
o escudo de ouro e os vinte brilhantes representando
os estados do Brasil, recomendando que só a entre
gasse a quem de direito. Temeroso de que a faixa de
saparecesse, ele passou a usála sob as roupas e só a
retirava para tomar banho. Até entregála a Vargas, o
zelador do Catete dormia e acordava presidente da
República sem que ninguém o soubesse.
Dimitri e Albino conversam longamente, lamen
tando o drama palaciano que se desenrola. Albino
admite que jamais vira Getúlio assim desgostoso. ma
goado com a traição que o cerca.
Na segundafeira, a guarda pessoal é dissohida. To
dos os investigadores à disposição de Gregório retornam
às repartições de origem. Dimitri, entretanto, que não
pertence aos órgãos de segurança, continua risitando
Albino, levandolhe pequenos presentes, cativando o
zelador com suas atenções. Pouco a pouco aprende a
rotina do palácio e os hábitos do presidente.
Xa quintafeira, 12 de agosto, quando as tensões
políticas atingem seu auge, Vargas parte para Belo
Horizonte, onde deve inaugurar as instalações da usi
na siderúrgica Mannesmann. Xesse dia Dimitri faz
mais uma visita a Albino. Encontrao abatido pelo cli
ma sombrio do Palácio das Águias:
Parece mais o Palácio dos Abutres comenta
ele, sarcástico.
Calma, você vai ver que tudo se arranja ani
mao Dimitri. ;_
Albino afeiçoouse a ele. Acha reconfortante tro
car idéias com aquele homem afável e atencioso.
Num dado momento, a pretexto de usar o banhei
ro, Dimo desculpase com o zelador e dirigese ao
interior do Cate te. O lúgubre palácio está quase vazio
devido à viagem do presidente. Dimitri encaminhase
célere para o terceiro andar do prédio e entra no quar
to de Getúlio.
A aparência austera dos aposentos deixao per
plexo. Em contraste com a ala cerimonial do palácio,
nada acolhedores. Há uma cama de madeira lisa, uma
cômoda, armários e um espelho. Nenhum tapete lu
xuoso aquece o ambiente. A pintura desgastada das
paredes e o teto apresentando sinais de rachaduras
contribuem para a atmosfera de desolação. As janelas
são cobertas por longas cortinas desornadas.
Dimitri aproximase e afasta uma delas. O espaço
entre a janela e a cortina serve para ocultar um ho
mem. Ele puxa de volta os cortinados e desce as esca
das rapidamente, antes que Albino perceba sua au
sência pro
Satisfeito, Dimo já sabe onde se
executar o tão aguardado assassinato.
á sabe onde se esconder para
Transcrito de Memórias e lapsos
RIO, SEGUNDAFEIRA, 23 DE AGOSTO DE 1954
Instalado num quarto de fundos do Hotel Novo
Mundo, na esquina da praia do Flamengo com a rua
. Silveira Martins, perto do Palácio do Catete, avalio os
acontecimentos. Ontem, oficiais da Aeronáutica pedi
ram a renúncia de Vargas, no que foram apoiados hoje
pelos generais do Exército. Comentase que Getúlio
aceitaria licenciarse pelo período dos inquéritos poli
cialmilitares, mas que jamais renunciaria em definiti
vo. Prevêse uma reunião ministerial de urgência.
.... Em poucos dias. os encarregados da investigação
conseguem identificar os homens que participaram da
emboscada. Alcino do Nascimento, pistoleiro profis
sional, Climério de Almeida, investigador de polícia
da guarda pessoal. Nelson de Souza, motorista de táxi
que conduziu os assassinos, e Gregório Fortunato. o
mandante do atentado, estão presos no Galeão.
Os arquivos de Gregório foram abertos pelos mili
tares, trazendo à luz revelações inacreditáveis. Cartas
comprometedoras de generais, deputados e até do pre
sidente do Banco do Brasil, bajulando o Anjo Negro,
estarrecem a nação. Os eventos se precipitam com uma
velocidade vertiginosa.
Sinto que devo agir enquanto é tempo. Tenho que
desferir o golpe final antes que a presa me escape no
vamente, refugiandose nas estâncias de São Borja.
Nesse momento conturbado, com o auxílio invo
luntário do meu recente amigo Albino, não me será di
fícil penetrar no Catete e. encoberto pelas cortinas,
aguardar na triste alcova do antigo caudilho. Mesmo
que passe a noite em claro, só deixarei seu quarto ten
do cumprido a missão que justificará toda uma vida
ponteada por desacertos. Para quem esperou tantos
anos. algumas horas insones não farão diferença.
Enquanto escrevo estas linhas, talvez as últimas
deste diário, pois caso eu seja descoberto não tenciono
entregarme vivo, penso, com saudade, em Dragutin,
Mata Hari, Bouchedefeu, Marie Curie, George Raft,
Capone, Maturin e em Maria Eugênia, viúva dadivosa.
Recordo os sonhos de terrorista frustrado do meu pai e,
principalmente, penso em minha mãe, mulata brasilei
ra exilada em terra estranha.
Desta vez. nada impedirá que o neto bastardo do
velho general Manuel do Nascimento Vargas extermi
ne o exditadordéspotatiranopresidente Getúlio Var
gas, meu tio.
¦ PALÁCIO DO CATETE TERÇAFEIRA,
24 DE AGOSTO DE 1954 8H
T ESTIXDO UM PIJAMA listrado, o presidente Ge
túlio Vargas sentase no leito inóspito cio quarto
de pobreza franciscana. A reunião com o Ministério,
que iniciara às três horas da madrugada, terminara
num impasse. A maioria dos ministros civis tendia para
uma solução que não terminasse num banho de san
gue, ou seja, o afastamento. O general Zenóbio da
Costa era a favor de que se pusessem as tropas na rua.
Osvaldo Aranha declararase solidário à resistência,
mas ponderara que a decisão cabia a Vargas.
setenta e um anos, o presidente considerado pelos
oprimidos como o Pai dos Pobres, dáse por vencido.
Existe apenas uma maneira de transformar a der
rota em vitória. Ele coloca sobre a mesadecabeceira
calibre 32 de carga dupla com cabo de madrepérola
que o acompanha há anos. Contempla a arma perdi
Dimitri a tudo observa do seu esconderijo atrás das
cortinas. Pretendia estrangular Getúlio. cerrandolhe
o pescoço no torniquete mortal de seus doze dedos.
Percebe, no entanto, que não pode permitir o suicídio
do presidente. Morto pelas próprias mãos, derrotado,
cercado pelos inimigos, Vargas se converterá no mártir
do povo. Dimitri entende num relance que, se deseja
cumprir sua meta de anarquista e destruir o homem,
nem mesmo ele deve matálo nessas circunstâncias.
O melhor modo de extinguir o mito é obrigálo
a viver. A verdadeira vingança será vêlo execrado e
perseguido longe do poder, como uma besta acuada.
Assim são aniquilados os opressores.
Precisa abortar o ato final daquela tragédia. Afas
ta a cortina e grita:
Não!
Por um momento, Getúlio quedase atônito ante
a invasão inesperada. Recuperandose do susto, ele per
gunta:
Quem és tu?
Dimitri Borja Korozec. ; _
O que fazes aqui?
Porque tu só morrerás permanecendo vivo.
Vargas fitao confuso. Há algo de familiar naque
le semblante. O rosto do homem mesclase às memó
rias que guarda do pai quando era jovem, nas estân
cias do Rio Grande.
De onde vens? pergunta o presidente, ain
Da Bósnia. Sou teu sobrinho, filho de uma irmã
que nunca conheceste.
Vargas lembrase de repente da mulher de Sara
jevo que lhe mandara uma carta há muitos anos afir
mando a mesma coisa. Na sua mente, a semelhança
entre o intruso e o velho general acentuase cada vez
mais. Xesse instante decisivo, não sabe se delira ima
ginando fantasmas do passado.
Ge túlio esforçase por conservar a lucidez e reto
ma a iniciativa do gesto interrompido, engatilhando
o pequeno Colt com cabo de madrepérola.
Num mergulho felino, Dimitri projetase sobre ele
e seguralhe o braço que empunha o revólver. O pre
sidente luta pela posse da arma. Os dois rolam em
silêncio pela cama espartana. Afinal, Dimo consegue
envolver a pistola com as mãos.
Quando Dimitri julga ter vencido a batalha, Getú
lio, num safanão, puxa o Colt para junto do peito. Inad
vertidamente, o indicador de Dimo dispara o gatilho.
Horripilado, Dimitri Borja Korozec conscientiza
se de que seu dedo acaba de suicidar Getúlio Dornel
les Vargas.
Dimo tenta reanimar a lenda agonizante prostra
da na cama. É inútil. Vargas continua inerte em seus
braços. Amaldiçoase pelo atabalhoamento, sina que
o atormenta desde a infância. Sua falta de jeito fez
com que ele matasse, com um tiro no coração, o úni
co homem que não poderia matar.
Dimitri escuta passos nervosos no corredor, de
pessoas atraídas pelo estampido. E necessário aban
donar aquele quarto transfigurado em câmara mor
tuária. Abre as janelas e preparase para galgar as pa
redes rumo ao topo do edifício. Sabia previamente
como escapulir dali.
Antes, porém, uma curiosidade quase mórbida o
constrange a retroceder até a mesadecabeceira. Abre
o envelope branco e desdobra as folhas da carta. Al
guém bate a porta aos gritos. Dimo só tem tempo de
ler a última frase no papel timbrado da República:
"Serenamente dou o primeiro passo
no caminho da eternidade e saio da vida
vessa a janela em direção ao teto do Catete.
Alquebrado pelo fracasso, Dimitri Borja Korozec
se desvanece nas brumas da manhã de agosto esca
lando os telhados do Palácio das Áçmias.
¦"çusiüíSí

EPÍLOGO
FRANCEPRESSE ASSOCIATED PRESS
REUTERS AGÊNCIA TASS EGITO
ALEXANDRIA QUARTAFEIRA, 27 DE OUTUBRO
DE 1954
3 PRESIDENTE Gamai Abdel Nasser escapou on
tem da morte quando vários tiros foram dispa
rados contra ele por um fanático durante uma so
lenidade popular nesta cidade. Preso, o terrorista
Mahmoud Abdel Latif declarouse membro da seita
radical Confraria Muçulmana. Baseado em suas infor
mações, um comando militar encarregado de desba
ratar a organização realizou, com presteza, verdadei
ra façanha ao prender vários membros da seita que
estavam refugiados num esconderijo próximo ao mer
cado do bairro de Anfushi. No covil dos assassinos,
apreenderam farto material que levará à aniquilação
final do grupo guerrilheiro.
Entre os documentos, foi encontrado um cader
no semidestruído intitulado Memórias e lapsos Apon
tamentos para uma autobiografia, de Dimitri Borja Koro
zec. A julgar pelo nome, certamente seu autor não é
de origem árabe.
Apenas um dos terroristas logrou evadirse, nu
ma fuga espetacular, atirandose de um terraço no
quarto andar dos fundos do edifício. Ziguezaguean
do pelas ruas em desabalada corrida, ele foi re
conhecido por um comerciante dos arredores que,

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Hélio de Almeida Estúdio Gráfi
em Xeir Basherville
Papel de miolo:
Impresso em papel
m produto da
Impressão:
Hamburg Gráfica Editora
çãochave no livro: criar o contras
te entre as boas intenções assassi
nas de Dimitri e sua alma incorri
givelmente desastrada. Com uma
irônica naturalidade, o narrador po
de discorrer, por exemplo, sobre o
altíssimo nível gastronômico do
OrientExpress, sobre a origem do
jogo do bicho ou sobre a última pa
lavra em armas de fogo.
O principal efeito cômico da
combinação de fato verdadeiro e
fato fictício é fazer que tudo neste
romance pareça uma '"sincronia ar
quitetada pelo acaso". O grande ar
mas às vezes, como o leitor verá.
pode ser a própria História.
Ji
Jô Soares nasceu em 1938, no
Rio de Janeiro. Comediante, humo
rista e dramaturgo, publicou O fla
grante, O astronauta sem regime e O
humor nos tempos de Collor, além do
também p
trás (1995)
das Le
'$mmi

E
I le é o homem certo: formouse nu
ma escola de assassinos altamente concei
tuada, tem uma pontaria extraordinária e
está sempre disposto a dar cabo dos tira
nos que infestam o mundo. Mas sofre de
um problema crônico: é desastrado. Com
ele não tem meiotermo: é tudo por um
triz. Em 1914, por exemplo, na Europa,
foi ele quem quase desencadeou a Primei
ra Guerra Mundial... E é sempre assim,
negando fogo, que o anarquista Dimitri
Borja Korozec participa ativamente de im
portantes episódios históricos e convive
com estrelas como Mata Hari, Al Capone,
Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas, en
tre outros.
Com seu humor infalível, Jô Soares
faz a biografia fictícia de um assassino es
pecializado em tiro pela culatra. E mostra
que às vezes a própria História a ver
dadeira parece coisa de humorista.

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