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domingo, 7 de agosto de 2011

Operação Cavalo de Tróia III

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA III
J. J. Benítez

DIVULGAÇÃO CULTURAL
Muitas pessoas, após a leitura dos volumes anteriores de Operação Cavalo de Tróia, fazem-me a mesma pergunta: «Mas é verdade? Tudo isto é crível?» E vejo-me obrigado
a repetir a única coisa que sei: que tais documentos existem e que embora alguns se empenhem em afirmar o contrário a minha imaginação não é assim tão grande.
Desafio quem o deseje a elaborar uma Vida de Cristo tão rica de lógica, audácia e beleza.
Não é assim tão simples «inventar discursos de Jesus de Nazaré» ... ou esses trinta e dois anos que os crentes designam como «vida oculta».
Inventá-los, claro, com dados nomes, acontecimentos e circunstâncias credíveis. ... Em suma e não me cansarei de insistir nisso -, é o coração do leitor que
deve «sentir» se estas narrações acerca de Jesus são ou não credíveis. Que cada qual, portanto, no mais íntimo do seu ser, julgue e decida de acordo com os ditames
da sua consciência.
Essa nunca se engana...


A Irma e Jenny

Ao fim de uma rápida caminhada penetrámos num amplo salão
em obras. À escassa luz de algumas lâmpadas presas das colunas,
envoltos numa atmosfera de gesso fresco e de madeira acabada de
serrar, quatro indivíduos lidavam com pranchas e martelos. Um
deles, curvado sobre uma tina de cimento, cantarolava uma dolente
melopeia árabe. Cerrei os punhos, dominado pela emoção. Qual dos
atarefados trabalhadores seria o depositário daquilo por que tanto
ansiava? Depois de identificar o nosso homem, o meu
acompanhante passou pelos operários mais próximos, saudando-os
com repetidas e amistosas palmadas nas costas. Vi-o chegar até
junto daquele que remexia a massa e, inclinando-se, sussurrar-lhe
alguma coisa ao ouvido. Então ambos se ergueram, observando-me
da penumbra. A iluminação deficiente impediu o homem de dar-se
conta da minha curiosidade ostensiva. No entanto, mantive-me
quieto, como sugerira o meu improvisado guia. Presumo que as
palpitações do meu coração devem-se ter ouvido num amplo raio em
volta. Mas ninguém parou a sua tarefa.
Concluído o breve diálogo, aquele que trabalhava de pedreiro
atirou com a ferramenta para o balde da massa e, esfregando as
mãos nas calças, avançou na minha direcção.
Não pude evitá-lo. Comecei a tremer. Teria chegado o grande
momento? Que poderia eu dizer-lhe? Como abordar tão peregrina e
enigmática história?
Espanha
Sim, aquele foi de facto um momento de alta tensão. Em poucos
segundos, tudo ficou esquecido: as intermináveis jornadas de
nervosa e, por vezes irritante busca a solidão dos caminhos e
mesmo os múltiplos assomos de desespero e de tentativas de
abandono. Como ao fim de um pesadelo num abrir e fechar de olhos,
tudo isso passou para as páginas da recordação. No entanto, em
atenção e agradecimento a quantos se sentiram atraídos por este
enigma ou me encorajaram a não desanimar em semelhante
empresa, será bom que relate, ainda que apenas de modo sucinto,
algumas das peripécias, sucessos e desventuras em que me vi

envolvido por obra e graça do criptograma que serve de fecho ao
volume anterior: Operação Cavalo de Tróia II.
As pessoas que tenham lido o primeiro volume recordarão, sem
dúvida, como, para me entender com o fascinante Diário do major
norte-americano, em que se contam os últimos onze dias da vida de
Jesus de Nazaré, foi necessário uma paciência quase franciscana.
Naquela tarefa de tipo policial desempenharam um papel decisivo
um total de cinco enigmáticas e aparentemente absurdas frases:
A SENTINELA QUE VELA DIANTE DO TÚMULO REVELAR-TE-Á O
RITUAL DE ARLINGTON.
CHAVE E RITUAL CONDUZEM A BENJAMIM.
ABRE OS OLHOS PERANTE JOHN FITZGERALD KENNEDY.
O IRMÃO DORME EM 44-W. A SOMBRA DA NESPEREIRA COBRE-O
PELO ENTARDECER.
PASSADO E FUTURO SÃO O MEU LEGADO.
Pois bem, como ia dizendo, o jogo favorito do Major os
criptogramas não tinha terminado. O manuscrito apresentava-se
bruscamente interrompido, precisamente no final da histórica
jornada de domingo 16 de Abril do ano 30 da nossa era, após a
primeira das misteriosas aparições do Ressuscitado aos seus onze
íntimos. Inexplicavelmente, pelo menos para mim, a narração ficava
interrompida no ponto em que os apóstolos e o berço se dispunham
a viajar rumo a norte, para a Galileia.
Como fecho, após uma patética súplica Deus do céu! Dai-me
forças para continuar o meu relato! -, o Major rematava o seu Diário
com este segundo e não menos inquietante enigma:
ENVIO O MEU MENSAGEIRO
DIANTE DE TI MARCOS 1.
HAZOR É O SEU NOME
E AS SUAS ASAS LEVAR-TE-ÃO
AO GUIA MARCOS Ó.Z.O
O NÚMERO SECRETO DAS SUAS PENAS
É O NÚMERO SECRETO DO GUIA,

O QUE HÁ-DE PREPARAR O TEU CAMINHO MARCOS 1.
Como é natural, eu conhecia esta suposta chave muito antes de
ela vir a público, em Março de 1986. Nessa altura não podia
imaginar o porquê de tão dramático e exasperante final.
Que se tinha passado? Terminava ali a aventura de Jasão? Tudo
parecia indicar que não; que o Diário se deteria nas restantes
aparições do Mestre. Ou seria apenas o meu ardente desejo de
continuar a conhecer novos pormenores sobre Jesus? Durante algum
tempo, muito a contragosto, vivi com uma inseparável sensação de
raiva, quase de frustração. Não me sentia com forças para dar início
a uma segunda e incerta exploração do criptograma. E pouco faltou
para que, antes mesmo de qualquer tentativa, esquecesse ali
mesmo e para sempre este novo desafio. Mas está claro que cada
ser humano vem a este mundo com uma ou várias tarefas das quais
ninguém pode dispensá-lo, nem sequer o próprio. E o meu destino
é, claramente, sair de uma aventura para me meter noutra...
O facto é que tal como temia aquele meu distanciamento
relativamente ao último código do Major foi temporário. Essa força
que vive em mim encarregou-se de dissipar os iniciais sentimentos
de impotência e de
desencanto, arrastando-me, subtil e magistralmente para o
inevitável. E um belo dia pus de lado as minhas outras indagações e
pesquisas e aceitei o repto.
Não sei se vale a pena insistir nisso. As minhas primeiras
escaramuças com este segundo enigma foram tão estéreis como
desencorajadoras. Durante semanas não fiz mais que aborrecer-me
sem remédio. Agora, com a vantagem do tempo entretanto
decorrido compreendo que incorri, naquela altura, em dois erros.
Influenciado pelo primeiro dos criptogramas, suspeitando mesmo
que existia uma relação entre ambos, esforcei-me por descobrir
alguma pista que me levasse a uma nova chave ou apartado dos
Correios.
O meu desejo era que este mistério pudesse materializar-se em
outro maravilhoso maço de folhas manuscritas, ou seja, naquilo que
eu supunha ser a continuação do Diário do Major. Foram estes, de
facto, os primeiros e lamentáveis equívocos que vinham a atrasar o

meu trabalho.
Desde o início houve uma frase que me perturbou: O que há-de
preparar o teu caminho; MARcos,12. Que queria isso dizer? Qual era
esse caminho? Ou não se tratava de um caminho, tal como eu
supunha? Agora vejo com clareza. Oxalá tivesse sido então
suficientemente hábil para esquecer a ideia preconcebida de um
legado, canalizando as minhas forças para outras possibilidades.
Mas as coisas tinham de seguir o seu curso natural.
Nem é preciso dizer que gastei dezenas de horas entretecendo
as mais afastadas e mesmo inverosímeis possibilidades, dentre as
hipotéticas combinações de letras, palavras e frases. Tal como no
primeiro desafio.
Baralhei incansavelmente os vocábulos do criptograma, à
procura de uma secreta leitura do mesmo. Fracassei vezes sem
conta; aquilo não fazia o menor sentido. Nem no original, em inglês,
nem em castelhano, consegui alinhavar uma única frase que
projectasse um pouco de luz no meu cérebro exausto.
Pensei por vezes que me estava a envolver em elocubrações tão
profundas quanto inúteis. Talvez a solução se encontrasse mesmo à
superfície, do enigma. Contudo, obstinado em tais maquinações,
levei muito tempo a compreendê-lo.
Lembro-me, ao rever agora as minhas notas, que houve uma
altura em que cheguei a tomar o caminho certo. Abstraindo dos três
exasperados MARcos e das suas respectivas numerações, a
mensagem do Major aceitando-a como tal apresentava uma
certa lógica, dentro do hermetismo próprio de qualquer criptograma.
Nesta perspectiva, e lido correntemente, o texto rezava assim: Olha,
envio o meu mensageiro diante de ti. Hazor é o seu nome e as suas
asas te levarão ao guia. O número secreto das suas penas é o
número secreto do guia, o que há-de preparar o teu caminho.
A mais elementar dedução digamos que lendo à superfície
colocou perante mim duas personagens aparentemente distintas: o
mensageiro, cujo nome era Hazor e um guia. Esforçando-me por
deslindar as imtenções do meu amigo, o Major, considerei uma
infinidade de hipóteses. Quem era esse tal Hazor, mensageiro
alado? Que significaria que o enviava diante de mim? Seria preciso

esperar que algo ou alguém aparecesse na minha presença? Desde
o primeiro instante afastei a última incógnita. Conhecendo um pouco
o estilo labiríntico do ex-oficial da Força Aérea norte-americana, era
mais que duvidoso que quem se confrontasse com o enigma devesse
sentar-se e aguardar a misteriosa aparição do citado Hazor...
O Major jogava mais uma vez com os símbolos, e era esse o
problema. Evidentemente, a prosseguir com essa interpretação
literal o mensageiro dispunha de asas e de penas. Pensei num açor,
a conhecida ave de rapina. Mas, além do H a mais, a árdua tarefa
de contar o número exacto de penas dessas aves predadoras fez-me
desistir. Consultei peritos ornitólogos. As respostas como
imaginava foram desanimadoras: era muito difícil, quase
impossível, encontrar dois açores com o mesmo número de penas.
Claro que também podia tratar-se de um açor de pedra, ou de uma
pintura dessa ave, escondidos sabe Deus em que lugar do Mundo. A
possível pista apresentou-se-me tão débil quanto trabalhosa. E a
pouco e pouco foi-se diluindo entre as minhas mãos.
Foi por aqueles dias de 1985 que, ao seguir o rasto do
mensageiro, numa das primeiras consultas bibliográficas, surgiu
perante mim como que um presságio. Hazor ou uHãsõr existia de
facto. Li aquela documentação sofregamente.
Tratava-se de uma remota cidade bíblica, localizada no topo de
um tell, ou colina artificial, denominado Tell el-Quedah ou Tell
Waqqãs, entre os lagos el-Hñleh e Tiberíades, a norte de Israel.
Como dizia, foram instantes de lucidez e de lógica excitação. Uma
cidade bíblica chamada Hazor? Não estava lá a chave? Mas,
infelizmente, ao voltar ao enigma, as minhas tímidas esperanças
caíram por terra. Nele falava-se de um mensageiro, não de uma
cidade. Era muito possível que o Major tivesse conhecido Hazor, mas
como associar a hipótese de um ser com asas e um conjunto de
ruínas arqueológicas? O meu já proverbial torpor e talvez um
asfixiante sentido da racionalidade sepultaram aquilo que, sem
qualquer dúvida, teria sido uma excelente intuição. Quando
aprenderei eu a deixar-me levar por esse oculto e maravilhoso
sentido?
Além disso, e para eliminar de vez esta luz inicial, os três

Marrcos e os números que vinham junto apanharam-me como
autênticas ratoeiras. Simplesmente, perdi-me na astuta armadilha
do Major. Logo desde o início, quase desde a primeira leitura do
criptograma, várias das frases com o ardiloso remate do Marcos 12
ou Marcos 6.2.0 levaram-me inexoravelmente à Bíblia. Reli o
Evangelho de Marcos e comprovei como parte do Capítulo 1,
versículo 2, era de facto idêntico ao escrito pelo Major na primeira,
segunda e última linhas. O citado evangelista diz, textualmente, em
1,2:
Começo do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme
está escrito no profeta Isaías: "Eis que envio o meu mensageiro
diante de ti, aquele que há-de preparar o teu caminho."
Quanto à segunda suposta citação do Novo Testamento (Marcos
62.0), a leitura do mesmo só contribuiu para me arrefecer os
ânimos. Para começar, tal citação não existe. Eu explico-me. Não
existe como Marcos 62.0, mas sim como Marcos 6,2. O escritor
sagrado, no seu Capítulo 6, versículo 2, diz assim: Chegado o
sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes
enchiam-se de assombro e diziam: De onde é que isto Lhe vem e
que sabedoria é esta que Lhe foi dada? Como se operam tão
grandes milagres por Suas mãos?
Não pude ou não soube decifrar a possível ligação entre ambos
os textos. Além disso, havia outro pequeno-grande pormenor que me
confundia. Consultei vários especialistas bíblicos e todos foram
taxativos: os números das citações do Antigo ou do Novo
Testamento nunca se apresentam separados por pontos, mas
sempre por uma vírgula e um guião ou com o primeiro dos números
o correspondente ao capítulo -, num tipo mais carregado. O Major
tinha lido a Bíblia. Conhecia-a muito bem. Como interpretar então
aquela falha? Ou não se trataria de uma falha? Neste caso, que
teria querido dizer com estes três algarismos 6.2.0 vinculados,
ou supostamente vinculados, ao nome de Marcos?
Obstinado, aventurei-me no tortuoso mundo das citações
bíblicas, esforçando-me por desvendar as possíveis ramificações
daquelas duas passagens de Marcos. E de um texto fui saltando
para outro, numa louca correria, cada vez mais vertiginosa. Talvez

fosse a minha preocupação em encadear as pistas ou quiçá a
indubitável magia do criptograma, tal como mais à frente se verá
que, de vez em quando, me fazia ver insuspeitados e assombrosos
vínculos entre muitas das citações consultadas. Por sorte, e por
desgraça, em princípios do ano 1986 uma vez publicado o
segundo volume de Operação Cavalo de Tróia -, comecei a receber
dezenas de cartas, informações e sugestões em torno do enigma.
Tudo aquilo, durante algum tempo, acabou por conduzir-me a um
perigoso e permanente estado de excitação e nervosismo, muito
próximo da loucura.
No entanto, algumas das ideias proporcionadas pelos leitores,
embora não tenham levado à solução última e concreta do
criptograma, apontaram algo que jazia no mais profundo da
mensagem e que, como anteriormente assimalava, lhe confere um
halo mágico. Como se não tivesse sido elaborado por uma mente
humana. Como se encerrasse entre as suas palavras e letras vários e
preciosos tesouros, só discerníveis com as ferramentas da Cabala,
da Numerologia ou da imaginação. Mas vamos por partes...
Felizmente, as minhas incursões na Bíblia sempre em busca de
alguma chave segura terminaram poucas semanas depois e como
consequência de um cansaço total. O encadeamento das citações,
além das mil possíveis interpretações, todas elas perfeitamente
subjectivas, não me levou a nada de palpável ou de concreto. Uma
destas pesquisas pacientemente engendrada por um dos meus
leitores: Luis Astolfi levantou, em parte, o meu depauperado
ânimo. Partindo do primeiro dos textos de Marcos (1,2), fomos parar
a outro de Malaquias no qual pode ler-se: Eis que vou enviar um
mensageiro, que preparará o caminho diante de mim...
Por sua vez, como tinha já tido oportunidade de experimentar
em dezenas de exemplos anteriores, esta passagem catapultou-nos
para outra, também de Malaquias (4,5), aparentemente encadeada
na primeira: Eis que enviarei Elias, o profeta, antes que venha o dia
de Iavé, grave e terrível. E daí, com a esperança de que Elias
pudesse significar alguma coisa na cada vez mais intrincada teia de
aranha do enigma, fomos saltando para Malaquias (3,23), para
Mateus (11, 10- 14), com um novo contributo referido à fuga para
o Egipto, para Mateus (17,1-13), para Marcos (9,2-13), novamente

a Malaquias (3,1), para Lucas (1, 17-76), para João (1, 6-26),
para Isaías (63,9), etc. Paralelamente, de Marcos (6,2) poderíamos
passar para textos de Mateus (13,53-58) e de Lucas (4,16-30)..., e
assim quase até ao infinito. Seja como for, Astolfi concluía a sua
exposição com algumas frases que reproduzo literalmente e que,
repito, constituíam uma possibilidade. Uma difícil e remota
possibilidade, de facto, que eu já tinha ponderado anteriormente
naquele manicómio.
De tudo isto deduzo, dizia o meu amável correspondente, que
Hazor está na sinagoga. O açor é uma ave. Ignoro por que está com
H. Pode ser que nas sinagogas (ou numa em particular) exista a
imagem simbólica do açor, com penas, cujo número tem algo a ver
com Elias ou João Baptista. Como não conheço nenhuma sinagoga
próxima, detive-me aqui.
Tratar-se-ia de investigar em sinagogas e procurar um açor
(imagem ou outra coisa), ver se o H tem alguma razão de ser, contar
as penas contidas nas suas asas (suponho que serão limitadas,
dado tratar-se de uma imagem), ou ver se tem algum número
simbólico associado, e ligar esse número com o guia Elias ou João
Baptista (que ignoro o que possa representar).
Isso preparará o caminho.
A sugestão deu-me novo ânimo. Desenterrei a velha pista e,
durante alguns dias, fiz árduas pesquisas. Foi inútil. Nem os rabinos
a quem interroguei, nem a Associação para a Amizade Hispano-
Judaica, nem os meus amigos em Israel souberam orientar-me. E o
assunto do açor nas sinagogas, do guia Elias ou João Baptista foi
arquivado. Era preciso abrir novos caminhos, novas possibilidades.
Mas quais e em que direcção? Uma coisa eu tinha aprendido
naquele caótico vaivém pela Bíblia, deslumbrado pelas alusões
evangélicas do Major: estas, quase seguramente, não tinham
qualquer relação com o decifrar do criptograma.
O meu instinto dizia-me que eram uma pura miragem. Um truque,
que fazia eventualmente parte do jogo. E esse firme, se bem que
subjacente, sentimento continuava a recordar-me uma palavra, uma
pista Hazor que eu, com idêntica obstinação, teimava em
relegar. Para quê enganar-me e enganar o leitor? Logo desde o

início, desde que soube da existência da cidade bíblica, compreendi
que tinha de viajar para Israel. Mas antes, talvez pelo meu
exacerbado espírito analítico, tratei de esgotar até à última
probabilidade.
Em algum momento deste desordenado relato que reflecte em
certa medida o carácter precipitado e confuso da minha própria
pesquisa fiz alusão à inegável magia contida no enigma. Pois
bem, esta seria outra das causas das minhas contínuas e
prolongadas divagações em direcções aparentemente improdutivas,
em ordem à solução do criptograma, mas todas elas fascinantes.
Nunca me cansarei de repeti-lo: a mensagem parece ter vida
própria. Encerra e esconde outras mensagens secundárias que, sei-o
bem, maravilharam todos os leitores que tiveram a paciência e o
instinto de as descobrir e trabalhar.
Uma dessas surpresas chegou-me vinda da Cabala.
Embora continue a ser um lobo solitário em muitas das minhas
aventuras e investigações, compreendi há muito que o trabalho em
equipa produz sempre resultados altamente proveitosos. Daí que,
sem tergiversar, a partir da altura em que fiz meu o novo desafio do
Major, tenha solicitado a opinião e generosa ajuda de um grupo de
peritos nas mais variadas disciplinas. E os cabalistas aceitaram,
naturalmente, o que à primeira vista se apresentava apenas como
um jogo.
Seria fastidioso esmiuçar aqui as assombrosas deduções que,
um após outro, estes estudiosos da outra face da Bíblia foram
extraindo do enigma. Sirva de pequena amostra daquilo que afirmo
a parte inicial de uma das missivas, vinda de um eminente médico
o doutor Larrazábal -, em resposta às minhas solicitações.
A primeira coisa que chama a atenção, escrevia este notável
investigador da Cabala, referindo-se ao criptograma, é o nome do
mensageiro: Hnzor. Que ave tão rara essa, porquanto em espanhol
«azor» não se escreve com `h. Logo, este nome está camuflado e
quer dizer outra coisa.
Esta forma de ocultar palavras é frequente nos livros sagrados e
resolve-se mediante uma operação chamada «Gilgul», que em
hebraico significa transposição e que consiste em transpor a ordem

das letras da palavra para descobrir o seu real significado. Por
exemplo: o Êxodo diz "enviarei diante de ti a Mlaki o anjo)." Por
transposição obtemos Mikael, o arcanjo guia e protector do povo
hebreu.
Assim, por transposição da palavra HnzoR, obtemos ZoHAR, que
em hebreu significa luz. O Zohar, juntamente com o Sepher Ietzirah,
constituem os dois principais tratados de Cabala teórica, tal como o
Tarot e as Schemanphoras o são da Cabala prática ou aplicada.
De maneira que já temos o nome do "mensageiro"; agora vam
contar as suas "penas" para ver se averiguamos a natureza do
"guia" e do "caminho".
A palavra Zohar consta, como vês, de três letras hebraicas, que
têm os seguintes valores numéricos: resch = 200, hé = 5 e zain = 7.
Ou seja, os três somados, 212. Estas seriam as "penas do açor": e o
seu número secreto (2 + 1 + 2), o 5. Se te lembrares agora do que
te escrevi na minha carta anterior, o "cinco" constitui o número
secreto de Jesus.
Lembrar-te-ás que eu te dizia que "Iavé" era o grande nome de
quatro letras o "quatro" -, ao passo que "Iesué" era o "cinco",
assim como a grande relação que existia entre ambos os nomes.
Não insistirei nisso. Este "cinco", repito, é o número secreto de
Jesus, porque a sua valorização numérica, correspondente a cada
letra hebraica, dá a soma total de "2".
Isto é lógico, já que é a manifestação do Verbo ou segunda
pessoa da Santíssima Trindade. O "dois" seria, portanto, o seu
número "natural", ao passo que o secreto seria o "cinco", por provir
do seu grande nome de cinco letras...
Deste modo, as asas do "hazor" levaram-nos ao guia que veio
preparar o nosso caminho. Acerca deste Guia não farei nenhum
comentário; tu conhece-lo melhor do que eu, e sabes que Ele mesmo
é o caminho...
"Mas prossigamos e vejamos o que é que nos diz Zohar do
"caminho". Para tanto, vamos utilizar um processo diferente.
Em vez de tomar os valores numéricos cabalísticos das três letras
da palavra, vamos dispor, simplesmente, dos números de ordem em

que tais letras aparecem no alfabeto hebraico.
Assim, resch é a letra 20; hé é a 5 e zain a 7. De modo que
20+5+7=32 (que também daria "5"). Deste modo temos o número
principal que se desprende do conteúdo da análise do Zohar: o 32.
São, precisamente, os 32 "caminhos" do Sepher Ietzirah, ou Livro da
Formação...
O estudo, apaixonante, atinge níveis inimagináveis, só
compreensíveis para os que conhecem os mistérios da Cabala.
Mas não vou alongar-me nos "achados" do meu bom amigo e
conselheiro, doutor Larrazábal. Apraz-me que o leitor jogue e
participe comigo, ainda que só minimamente, em todas e cada uma
das minhas iniciativas. E esta é outra magnífica oportunidade para
que, quem o deseje ou se sinta atraído pelo oculto, aceite o
desafio e prossiga, por si mesmo, a "exploração" do enigma através
dos insuspeitados meandros cabalísticos. A sua surpresa será
seguramente tão grande como a minha.
Para já, estas descobertas do ponto de vista da Cabala -
permitiram-me dispor de algo mais concreto: o número secreto das
penas de Hazor, o mensageiro, era o 212.
Consequentemente, o do não menos fugidio "guia" tinha de ser
o mesmo: o 212, ou a soma destes. Mas a questão, longe de se
clarificar, continuava a apresentar-se muito nebulosa. Admitindo que
tivesse descoberto o "número secreto", qual seria o passo seguinte?
O enigma dizia claramente que "as asas de Hazor, o mensageiro"
me levariam ao guia. Agora a questão era: onde encontrar essas
asas? Por outro lado, embora carecesse de provas contra a dedução
do médico e cabalista, a sugestão de que o guia podia ser Jesus de
Nazaré apresentava-se-me como vaga, demasiado espiritual. Não
era esse o estilo do Major...
Assim, apesar da nuvem de dúvidas que toldava o meu
horizonte, não tive outro remédio senão maravilhar-me perante o
insuspeitado e hermético potencial daquelas oito frases.
Como, de que modo, teria conhecido o Major semelhante
enigma? Teria tido consciência, na altura da sua elaboração, de tão
secreta e sugestiva leitura cabalística?

Depois de baralhar várias hipóteses, houve alturas em que,
sinceramente, cheguei mesmo a duvidar da paternidade do exoficial
norte-americano relativamente à mensagem. Como é óbvio,
acabaria por afastar tais pensamentos. Aquela letra era de facto a
do meu amigo, o Major. E havia ali tinha de haver! - algo de oculto
que eu não conseguia desvendar. E uma vez mais naqueles meses, à
vista da estéril sucessão dos dias, caí noutro obscuro período de
desalento. A situação era análoga à vivida nas semanas que
precederam a resolução do primeiro criptograma. Talvez ainda mais
dolorosa, se é que era possível. Sentia-me perdido. Cravado na
minha alma, o enigma transformou-se num fantasma, que me
acompanhava dia e noite.
Cada letra, cada palavra, levantavam-se como grades espessas
de uma prisão. Via-o como uma obsessiva alucinação, em qualquer
dos meus movimentos. Mas o Destino não permite que um ser
humano enlanguesça ou fique para sempre imerso na confusão. E ao
caminhar, quando menos se espera, lá aparece uma mão, uma voz,
um amigo ou uma ideia que nos devolve a coragem e, o que é mais
importante, a esperança. E foi justamente o que me aconteceu em
plena Primavera de 1986.
Aquelas duas cartas constituíram um lenitivo. Eu continuava a
receber numerosa correspondência. A maior parte dos meus
correspondentes quase todos de boa-fé -, tão inquietos e
ansiosos por desvendar o mistério como eu próprio, esmagavam-me
com um variadíssimo rol de possíveis pistas e soluções. Referir-meei
mais à frente a algumas das mais insólitas. A questão é que,
como ia dizendo duas dessas missivas fizeram o milagre de oxigenar
o meu espírito, devolvendo-me à luta.
Uma delas, proveniente de Corrientes, na Argentina, insistia na
necessidade de eu prestar toda a minha atenção à cidade bíblica
de Hazor. Mas o que mais me emocionou na carta assinada por
Eduardo Alfredo López foi este brevíssimo parágrafo: ... Rezo
muito por si. Trago o enigma numa bolsinha de nylon atada ao meu
pulso. Levo-o, rezando, para todo o lado: no autocarro, enquanto
trabalho... Talvez possa parecer uma ninharia. Para mim, no entanto,
e para o meu fatigado coração, foi uma verdadeira descarga
eléctrica.

A segunda carta chegou em 20 de Abril. Vinha de Dublim.
Assinava-a Maria-Ángel, uma excelente amiga. No início desse
ano eu visitara a Irlanda e, deixando-me levar por uma intuição,
comunicara-lhe o enigma. Creio, se não me falha a memória, que foi
uma das raras pessoas que teve conhecimento da mensagem do
Major antes de aparecer publicada no meu segundo volume. E,
sinceramente, dado o longo silêncio da minha amiga, quase esqueci
o assunto. A minha surpresa, ao receber a sua mensagem, foi total.
O árduo trabalho de investigação levado a cabo pela jovem abria
um novo e desconcertante caminho, que, de resto, vinha confirmar o
mágico halo do criptograma.
Quando me entregaste o enigma, dizia na sua carta, não sabia
sequer o que fazer com ele. Estive mesmo para não fazer caso dele,
até que me ocorreu dar a cada letra um valor numérico. Assim, o "a"
valia 1, o "b" 2, etc., até ao "z".
(Não tive em conta o "w" nem os grupos "ch" e "rr".)
O segundo passo foi somar esses valores, reduzindo sempre o
resultado a um dígito apenas, com o que cada frase equivalia a um
número concreto... A primeira somava "1"; a segunda "7"; a terceira
8; a quarta "6"; a quinta "2"; a sexta "7"; a sétima "3"; e a última
frase, também "3". Quer dizer, no total, 37. Ou, o que é o mesmo,
3+7=10="1". A unidade!...
Esta descoberta de Maria Ángel, insisto, foi providencial.
Estimulou-me, libertando-me das pesadas trevas em que mergulhara.
E da noite para o dia, a força que vive em mim empurrou-me para
uma procura febril. Estaria a chave nos números? A partir daquela
altura experimentei todo o tipo de conversões e combinações
numéricas. De um ponto de vista ocultista, o facto de o criptograma
ter somado UM era altamente significativo. Os peritos em
Numerologia e Cabala sabem-no bem... Coloquei o problema nas
mãos de matemáticos e de especialistas em computadores e o
mágico halo do enigma reapareceu em todo o seu esplendor. Aquilo
era desconcertante.
Enlouquecedor. O total das letras em espanhol - contabilizando
os números das citações, ou supostas citações bíblicas, como outras
tantas letras era de 170. Na versão original, a inglesa, e seguindo

o mesmo processo, o volume total de dígitos ou símbolos a manejar
era de 184. Pois bem, tendo em conta cada um dos alfabetos o
espanhol e o inglês -, as combinações possíveis para cada caso
deram um resultado de pôr os cabelos em pé: 2910 para o
castelhano e 275 para o inglês.
As sucessivas tentativas dos hábeis programadores de
computadores para obter a combinação concreta que configura o
enigma, partindo dos mencionados parâmetros, foram-se
escaqueirando irremediavelmente. O parecer final foi demolidor:
qualquer computador de média capacidade precisaria de cerca de
trezentos anos (!) para obter essa combinação específica,
ressalvando, naturalmente, que a concretização da mesma poderia
sugir em qualquer momento desses três séculos.
E a velha interrogação não se fez esperar: como é que um ser
humano pode conceber um texto de tão diversas e simultâneas
leituras secretas? Os especialistas em informática replicaram com a
única resposta ao alcance da ciência: tudo é fruto do acaso. Mantive
silêncio. No mais íntimo do meu ser, eu sabia que a casualidade
jogava um papel insignificante em tudo aquilo. Provavelmente até
nenhum.
A pista da Irlanda, em suma, mostrou-se duplamente útil.
Fez com que me erguesse das minhas próprias cinzas
e,definitivamente, por eliminação, pôs-se num rumo que eu tinha
deixado para trás: Hazor. E digo por eliminação porque, ao fim e ao
cabo, todas aquelas sugestivas possibilidades Cabala,
Numerologia, etc. -, embora intrigantes e dignas de estudo, não
conduziam a um final como o que eu desejava e necessitava.
A minha obsessão era mais prosaica: acertar com uma chave que
pusesse ao meu alcance o resto do Diário do Major. E Hazorfosse lá
o que fosse apresentava-se-me como algo de concreto de físico,
de tangível. Os laboriosos estudos de Numerologia tinham, além
disso, colocado à minha disposição outra subtil informação, muito
ao estilo de Jasão.
Ao analisar o texto em inglês do criptograma, numa das leituras
verticais, vi com clareza o problema. A primeira palavra de cada uma
das oito linhas da mensagem formavam uma frase com uma certa

Lógica: «LOOK AHEAD HAZOR AND TO THE IS HE» OLHA DIANTE
HAZOR E A O É ELE). Instintivamente, desdobrei o conjunto em duas
partes: Olha diante de Hazor e a o. É ele. E lembrei-me como, no
primeiro enigma, o Major se tinha servido deste sistema para
reafirmar a sua mensagem: A chave abre o passado. Eu tinha
reparado na existência desta frase forçada durante as primeiras
tentativas, quando sujeitei os vocábulos e dígitos do criptograma a
toda a espécie de saltos e permutas. Mas nessa altura, alheio ao
verdadeiro peso de Hazor, não me detive nisso. Agora, porém,
ganhava uma especial dimensão. O Major parecia insistir na
transcendência dessa palavra. Olha diante de Hazor... Não havia
dúvida. O objectivo era Hazor. Era necessário localizá-lo, situar-se
perante ele e analisá-lo.
Fui eu o primeiro a ficar surpreendido diante daquela súbita e
incontível vaga de entusiasmo e coragem. Era tão absurdo como
paradoxal. Ardia em desejos de investigar algo que nem sequer
sabia onde procurar... É certo que existia um hipotético indício: as
ruínas arqueológicas israelitas. Mas tratava-se apenas disso
mesmo: um indício. Apesar de tudo, e não obstante as censuras do
meu senso comum, tomei a firme decisão de viajar até Israel. A
verdade é que, no fundo, não tinha outra alternativa: ou me deixava
levar pela intuição ou perdia a batalha.
A minha fraca memória não me permite recordar com precisão
como nasceu em mim aquela ousada ideia. O caso é que, dias antes
da partida, activei um plano que não sei se acertadamente foi
concebido como uma cortina de fumo.
Contactei o então embaixador israelita em Madrid e, sem
rodeios, pedi-lhe que me concedesse uma entrevista. Eu já conhecia
Samuel Hadas muito antes de ele ter sido nomeado para este cargo
e, desde o nosso primeiro encontro, reconheci nele as maneiras e o
estilo de um homem aberto e fundamentalmente bom. A sua ajuda
em outras investigações e consultas foi sempre crucial. A minha
ardente imaginação intuía que aquela iminente viagem à Terra
Santa podia complicar-se.
A verdade é que não me apetecia nada passar por outro transe
como o sofrido em Washington na altura de retirar do país os

documentos manuscritos pelo Major. Tinha consciência da eficácia
dos serviços secretos israelitas de informações sem dúvida, os
melhores do Mundo e optei por proteger a minha retaguarda,
sendo eu a tomar a iniciativa de lhes anunciar quais eram os meus
propósitos. Naturalmente e isto fazia parte do plano -, na altura
de revelar a Hadas os meus objectivos, não podia sequer insinuar o
autêntico motivo daquela nova aventura: o enigma.
E horas antes da minha partida para Telavive, o embaixador fez
um intervalo nas suas ocupações habituais, recebendo-me no seu
escritório da Rua Velázquez, na capital de Espanha. Ouviu-me com
grande atenção e carinho, mostrando-se especialmente interessado
por um dos capítulos: uma caminhada, a pé, de Nazaré a Belém de
Judá, numa tentativa de reconstituição da histórica viagem de Maria
e José, por motivo do famoso censo do imperador Augusto.
Samuel tinha lido alguns dos meus 24 livros, incluindo Operação
Cavalo de Tróia, e, segundo suponho, aceitou como inevitável que
um louco aventureiro como eu quisesse empenhar-se em semelhante
caminhada um pouco mais de cento e setenta quilómetros -, assim
como em outras investigações relacionadas com um possível terceiro
volume acerca da vida de Cristo. Dessas investigações falei-lhe
muito por alto. Não é que pretenda justificar-me, mas, à minha
maneira, disse-lhe a verdade. Nessas outras indagações escondiase,
de facto, a razão primeira do meu périplo.
Prudentemente, e como prova de sinceridade, proporcionei-lhe
uma cópia do mapa, com a rota a seguir desde Nazaré a Belém,
pela margem direita do rio Jordão, assim como os nomes de alguns
dos hotéis em que imaginava poder vir a alojar-me. Desejava que o
meu comportamento fosse transparente, pelo menos na aparência.
Uma vez em Israel, e embrenhado na investigação, logo se veria...
Aqueles dias que precederam a viagem foram singularmente
excitantes. Um formigueiro já familiar e o nervosismo, sempre
premonitórios de próximas aventuras, instalaram-se no meu espírito,
não me deixando respirar livremente. Eu sabia, pressagiava, que
algo de muito especial me aguardava do outro lado do
Mediterrâneo.
Revi repetidamente o vago plano de trabalho, procurando,

intencionalmente, que a minha solitária caminhada chegasse ao
conhecimento de pessoas e círculos muito específicos. Quase sem
prévio projecto, por si mesma, a audaciosa ideia de repetir a
viagem dos pais de Jesus à Judeia foi tomando posse do meu
coração, apresentando-se como um magnífico pretexto, que desviou
qualquer outra suspeita a respeito de tão repentina viagem. E
cheguei mesmo a iludir-me com o que, em princípio, seria apenas
uma manobra de diversão. Se falhasse na minha autêntica missão,
disse para comigo próprio, sempre podia ficar-me a consolação
dessa outra aventura. Tal raciocínio, para falar verdade, não
conseguiu tranquilizar- me.
Começava mal se, ainda antes de partir, pretendia enganar-me e
justificar a viagem com um projecto alheio ao que tinha entre mãos.
Procurei mentalizar-me. O meu primeiro e principal desejo era
resolver o enigma do Major. Ele, segundo o texto do criptograma,
enviava um mensageiro diante de mim. O seu nome era Hazor. E as
suas asas deveriam levar-me ao guia. Era isso o que realmente
contava.
E finalmente, às treze horas e dezasseis minutos de 19 de
Novembro de 1986, o airbus Islas Cies da companhia Iberia atingia
os 188 nós horários. Era a velocidade limite, sem retorno, antes de
se lançar no espaço. Para mim, significava também o não retorno...
A sorte está lançada.
No meu íntimo, sorri. Enquanto o comandante De La Torre nos
elevava até à altura de cruzeiro prevista trinta e três mil pés -,
afastando-nos da costa catalã, rumo à Itália, reparei no número
daquele voo: era o 888 Curioso: 888 é a equivalência numérica do
nome de Jesus, em grego (1). que foi relativamente fácil, com a
ajuda de uma enciclopédia.
*1 Para os Gregos, os números eram representados por letras do seu próprio
alfabeto. Assim, o nome de Jesus, em grego Iesous", adquire o referido valor numérico
de 888.
(I=10; B=8; S=200 O=70; U=400 e S=200.) Um número 888
que, reduzido a um só dígito, encerra também um profundo
significado esotérico e cabalístico: o K6H.
E embora ao longo dos meus quarenta anos tenha acumulado

abundantes provas para não acreditar na mera casualidade, a
verdade é que não prestei atenção de maior a tão curiosa
coincidência. Não podia passar a vida sujeito à tirania dos números
e às suas hipotéticas mensagens secretas. Por isso, registei muito
simplesmente o assunto no meu caderno de campo, convencido
isso sim de que, pelo menos, iniciava o meu caminho com o pé
direito. (Pobre pateta! Os fracassos não tardariam a devolver-me à
realidade dura e crua...) No entanto, tinha diante de mim quatro
longas e aprazíveis horas de voo e procurei aproveitá-las ao
máximo, deixando-me arrastar num torvelinho de ideias, sonhos e
projectos.
Contudo, as dúvidas escondidas numa das minhas grossas
pastas de trabalho continuavam à espreita. Naquela altura não
podia ser de outra forma. E ao olhar com atenção algumas das
anotações e cartas dos leitores dos dois volumes anteriores, a
dúvida traiu-me. Estaria eu a viajar numa direcção errada? E se não
fosse Israel o meu lugar de reunião com Hazor?
Esbocei o gesto de fechar a documentação e fixar os meus
sentidos na Palestina. Não consegui. Aquelas sugestões tinham
merecido e mereciam ainda o meu respeito. Algumas dessas atentas
missivas chamavam-me à atenção para a suspeita semelhança entre
HnzoR e Jnsno, o nome de guerra do Major. E alertavam-me para a
possibilidade de investigar nas selvas mais do Iucatão, onde o meu
enigmático amigo tinha passado os seus últimos dias.
A proposta não era absurda. E se o mensageiro fosse um
símbolo alado, um ídolo, ou mesmo o próprio Laurencio Rodarte, fiel
companheiro do Major até à sua morte?
Outra das comunicações de Santiago de los Santos, de
Valênciaesboçava-me um panorama diametralmente oposto, mas
tão sugestivo como o anterior. Numa minuciosa pesquisa em torno
da palavra Hazor, este amigo como acontecera com outros leitores
tinha detectado algo de interessante. E reli mais uma vez a sua
carta...
(... Como suponho que saberá, dizia textualmente, Hazor é uma
antiga cidade da Palestina, na Galileia. Mas o que mais reteve a
minha atenção foi o facto de em 1959 terem sido descobertas nos

seus limites as ruínas de vinte e uma cidades, construídas umas
sobre as outras. Outra vez o ditoso número! .... (O 21, como talvez
o leitor recorde, constituiu uma das chaves o ritual da sentinela
do cemitério norte-americano de Arlington -, quando se tratou de
resolver o primeiro criptograma.)
.. Aqui embaracei-me, prosseguia De los Santos. Levei uma
semana a compreender de que forma as "asas" de Hazor poderiam
levar-me ao "guia". A chave estava em MaRcos 6.2.0 (1),
"porque Herodes respeitava João e protegia-o". Tudo se tornou fácil
ao descobrir que a cidade foi fortificada pelo rei Salomão. As
"asas" tinham de ser as muralhas, e o guia, Salomão. O "número
secreto das suas penas" era, evidentemente, o número de cidades
construídas de modo sobreposto.
Para confirmá-lo tinha de descobrir "o número" secreto do
"guia", o
*1 Ainda um dia terei de deter-me a escrever sobre o 6, e suas curiosas
vinculações com a minha própria vida.
(N. do A.)
Salomão, além de ser o nome do famoso rei, é um arquipélago
da Oceânia, situado no Pacífico, entre os 5 e os 12 graus de
latitude sul e os 154 graus, 40 e 162 graus, 30 de latitude leste. A
parte britânica do arquipélago é administrada por um conselho
executivo de oito membros e um conselho legislativo de vinte e um
(!). Curiosa coincidência!
Era evidente que Salomão tinha de dizer-me onde encontrar o
resto do Diário. E tudo devia manter relação com o número "21". Por
conseguinte, a única via tinha de ser o seu livro Provérbios. Todavia,
ao ver que o citado livro não tem vinte e um capítulos, decidi
concentrar a minha atenção nos versículos. Qual não foi a minha
surpresa ao ler em Provérbios 1, 21: ... grita do alto dos muros, à
entrada das portas da cidade. Estava resolvido o enigma (....

Talvez se devesse à minha natural desconfiança, ou à minha não
menos acentuada lentidão, mas a verdade é que eu não via a
questão de modo assim tão claro. Em todo o caso, tomei boa nota e
fiz minhas as reflexões e inquietações deste dedicado leitor.
Em outra das comunicações, as coisas complicavam-se ainda
mais. Hazor podia ser entendido como um antigo instrumento
musical, usado pelos Hebreus. Uma espécie de harpa de dez cordas
oblíquas, semeIhante ao quinor e destinado a acompanhar o náblio.
E aqui surgia a possibilidade: Nabeul, uma cidade da Tunísia, a
dois quilómetros do golfo de Hamamet...
Devia pesquisar nas ruínas de Nabeul? Ou seria antes em
Veneza? Segundo este correspondente, São Marcos é o padroeiro
da referida cidade italiana, sendo representado com um leão alado.
Por outro lado, Veneza encontra-se a escassos quilómetros do
meridiano situado a 12 graus leste do de Greenwich. (Recordemos
Marcos 1.2.) E Veneza, além disso, dispõe de um gueto judaico, com
uma sinagoga. (Recordemos Marcos, 6.2.0: "e no sábado pôs-se a
ensinar na sinagoga").
Houve quem apontasse outro não menos perturbador caminho: o
do Egipto. Na mitologia deste país, a vaca Hathor Hazor? -poderia
conduzir-me a Hórus, uma deusa com cabeça de falcão...
Ter-me-ia eu enganado no rumo? Seria no Egipto que deveria
investigar? E se todo o enredo como insinuava outro leitor
-obedecesse ao desejo do Major de transmitir uma data, um número
de telefone ou uma determinada combinação de um cofre-forte?
Como muito bem descobrira Ramon Ramos, das Canárias, entre os
jogos a que os números do enigma se prestavam, um deles, por
exemplo, podia ser interpretado como 12, 6, 2.012 (12 de Junho do
ano 2012, na leitura espanhola, ou 6 de Dezembro do mesmo ano,
segundo o costume inglês). Uma data? E que significado teria?
Segundo os documentos que tinha em meu poder, o Diário pelo
menos a parte que eu conhecia tinha sido concluído em Abril de
1979.
Subtraí, somei, multipliquei e fiz mil cabalas com esta e outras
sequências numéricas. Não houve resultados, ou eles foram tão
pobres e incertos que apenas contribuíram para complicar o quebra

cabeças. Só uma das operações subtrair 1979 de 2012 parecia
querer dizer alguma coisa: 33 anos ou, somando ambos os dígitos,
6. Este número tem-me mantido transtornado. E não me faltam
razões para tal, como eu viria a descobrir pouco depois. Cheguei a
pensar, dada a mágica natureza do criptograma, que talvez essa
data 12 de Junho ou 6 de Dezembro do ano 2012 seja um
momento de grande transcendência, ainda que eu ignore porquê e
para quem... Mas será tudo questão de esperar e comprovar.
E à medida que nos fomos aproximando de Telavive, posso dizer
que, como um providencial milagre, este furacão de dúvidas se foi
desvanecendo. E a minha mente, em branco, esqueceu a aparente
teia de aranha do enigma para traçar um único objectivo: Hazor. Às
dezassete horas e quinze minutos (hora espanhola), ao aterrar no
aeroporto israelita de Ben Gurion, o meu coração estremeceu e uma
familiar e inesgotável força me fez vibrar. Tinha chegado a hora da
verdade.
Israel
A noite tinha já caído sobre as longínquas luzes de Telavive.
Percorri devagar os escassos metros que nos separavam do edifício
terminal do aeroporto, desfrutando daquele firmamento limpo e
calmo: o mesmo que, 1956 anos antes, tinha contemplado Jesus de
Nazaré. E dei-me conta de como os meus joelhos tremiam. Israel
sempre me fascinara. E muito mais, sem qualquer dúvida, desde que
tomei conhecimento do Diário do Major.
O meu objectivo naquele primeiro dia na Terra Santa era muito
simples: viajar para Jerusalém, instalar-me e tomar posições. Tinha
de começar por algum lado e, depois de não poucas hesitações e
de apaziguar o meu instinto jornalístico, achei que o mais prático
era adiar a exploração nas ruínas bíblicas de Hazor. A minha
genética tendência para a análise -tão própria dos do meu signo,
Virgem ordenava-me uma outra tarefa prévia, essencial para um
bom funcionamento do plano.
Antes de avançar para norte convinha estudar, rever e pesquisar
toda a bibliografia existente sobre a cada vez mais atraente Hazor.

Mais ainda, no meu diário de bordo, aparecia, a vermelho, uma
auto-recomendação, tão vital como o referido estudo dos textos e
documentos arqueológicos: Interrogar os especialistas. No entanto,
como veremos mais adiante, tal como costuma acontecer-me com
frequência, uma mal programada volta nas pesquisas atrasar-me-ia
sensivelmente.
Na realidade, as minhas preocupações, que já não eram poucas,
aumentaram ali mesmo, enquanto aguardava a chegada das minhas
bagagens no tapete rolante. Tudo parecia correr normalmente
incluindo a sempre delicada operação do controlo do passaporte
quando, de súbito, alguém se postou diante de mim. Lembro-me que
estava absorto na inútil tarefa de adiantar o meu relógio uma hora,
com o propósito de me ajustar à hora local de Israel. E digo inútil
porque nunca me dei bem com estes mecanismos electrónicos...
- Shalom! Bem-vindo a Israel, senhor Benítez...
Levantei o olhar e, perplexo, observei um indivíduo jovem,
magro e de aspecto nórdico. Sorria dissimuladamente, talvez
divertido perante o meu estúpido esgar de espanto.
Falava um castelhano correcto, com aquele indelével e
característico sotaque dos argentinos. Disse chamar-se Livne e
representar a agência de turismo através da qual eu adquirira a
minha passagem. Mostrou-se requintadamente amável e solícito,
interessando-se de vez em quando, e com a habilidade muito
própria dos serviços de informação, pelos motivos da minha viagem,
lugares que pretendia visitar, amigos ou conhecidos em Israel e
mesmo pelas características da minha aparelhagem fotográfica.
Tudo isto me pôs de atalaia, decidindo-me a ver-me livre dele o
mais depressa possível.
As minhas suspeitas ficaram quase confirmadas quando, já a
caminho da saída, Livne, espontaneamente, me confessou ter lido
Operação Cavalo de Tróia, fazendo generosos elogios ao livro. Era
muito pouco crível que aquele judeu tivesse conhecimento do meu
trabalho, a não ser que figurasse no dossier que, com toda a
probabilidade, tinha sido transmitido a partir da embaixada
israelita em Espanha. Imaginava, naturalmente, que desde a minha
visita a Samuel Hadas, os serviços hebraicos de informação estavam

ao corrente dos meus movimentos. O que não conseguia entender
era o motivo de tão fulminante recepção.
Horas mais tarde, já no hotel, tive um pressentimento.
Não sei se o meu loquaz amigo acusou o toque. Quero crer que
sim. A verdade é que, submissamente, aceitou o meu desejo de
viajar sozinho para Jerusalém. As minhas contínuas evasivas e meias
respostas evidenciavam a minha mal disfarçada desconfiança. E o
homem, como disse, cedeu, aconselhando-me isso sim que,
antes de pôr em marcha as minhas investigações, procurasse
contactar com ele ou com qualquer dos organismos oficiais do país.
Estava tudo muito claro. E, devolvendo-lhe o mesmo falso sorriso,
perdi-me no meio do trânsito do Ben Gurion.
Uma hora depois, o taxista árabe deixava-me à entrada do Hotel
Moriah Jerusalém, a sudoeste, relativamente próximo da Cidade
Velha. O encontro com o suposto agente secreto israelita deixarame
desconcertado.
Que se passava? Porquê aquela estreita vigilância? Para falar
verdade, eu era apenas um inofensivo jornalista, ansioso por
percorrer Israel e reunir informação sobre um assunto tão pouco
comprometedor como a vida de Cristo... Ou haveria mais alguma
coisa? E nessa noite, na solidão do quarto 724, fazendo um esforço
por recordar a minha conversa com o embaixador israelita em
Madrid, ressaltou um pequeno pormenor. Quase uma ninharia, mas
que, agora que o recordo me lembro que alterou fugazmente o rosto
de Hadas. Naquela altura, entre as minhas múltiplas investigações,
figurava uma que, envolta como estava em tão densas trevas, não
duvidaria em abandonar no esquecimento. Refiro-me à pouco clara
queda de um avião da Iberia, em 19 de Fevereiro de 1985, no
monte Oíz, no País Basco.
Nunca pus em dúvida o profissionalismo e a perícia dos pilotos,
e na verdade, aquele suposto acidente, em que pereceram 148
pessoas, despertou a minha insaciável curiosidade. Trabalhei
silenciosa e meticulosamente na possível reconstrução dos factos,
averiguando alguns pormenores tão estranhos como alarmantes. Em
resumo: segundo informações confidenciais dos serviços de
informação espanhóis, havia um alto índice de probabilidade de

que o Boeing 727, Alhambra de Granada, tivesse sido derrubado
por um míssil terra-ar talvez um Sam-7 ou um Strella disparado
pela organização terrorista ETA. Mas o que, no meu entender,
alarmou o representante diplomático foi o facto de eu ter sabido
que um dos motores, aparecido a uma considerável e inexplicável
distância, tinha sido transportado para Israel.
Concretamente para uma das bases militares, com o fim de ser
inspeccionado por peritos em terrorismo.
Naquele Novembro de 1986 eu não tinha a menor intenção de
prosseguir as pesquisas referentes a este caso e, muito menos, de
me introduzir na referida base israelita. Mas os judeus,
desconfiados por natureza, não devem ter pensado o mesmo.
Talvez aquele meu inoportuno comentário a Hadas fosse a causa
de tão subtil e, ao mesmo tempo, férrea vigilância. Se os israelitas
suspeitavam que os meus propósitos não eram totalmente
transparentes, então as dificuldades podiam vir a acentuar-se. Foi o
que aconteceu.
Na manhã seguinte, 20 de Novembro, quinta-feira, depois de
uma noite mal dormida, com o coração apertado pelas suspeitas,
apressei-me a pôr em andamento uma imediata acção preventiva.
Se o meu telefone se encontrava sob escuta, talvez aqueles
primeiros passos em Jerusalém tenham tranquilizado os meus
hipotéticos controladores. Segui à letra as recomendações do
embaixador, pondo-me em contacto com as personalidades e
instituições oficiais que ele tão gentilmente me tinha indicado.
Primeiro com Salomão Lewinsky, director da revista Semana; com um
médico chamado Blezcof e, muito especialmente, com o Instituto
Central de Relações Culturais.
Neste último, tanto o seu director doutor Moshe Liba, veterano
diplomata -como a amabilíssima Raquel Eldar foram incansáveis
para me ajudar, orientando-me e combinando um bom número de
entrevistas com destacados arqueólogos, antropólogos, professores
universitários e muitos outros. Tudo isso, é claro em prol de muito
estimáveis e interessantes investigações em torno da vida e época
de Jesus Cristo, mas que não constituíamde facto o objectivo da
minha presença em Israel.

Contudo, porelementar prudência, concordei, encantado,
enriquecendo-me, é justo que o reconheça, com todas elas. Esta
cadeia de reuniões e entrevistas que se prolongariam durante
toda a minha estada na Palestina atrasou, obviamente, as
pesquisas principais. Mas as circunstâncias são como são e, por
vezes, é preferível acomodar-se a elas, jogando as sempre
imprevisíveis cartas do Destino.
Naturalmente, embora a marcação dos funcionários israelitas
naquelas primeiras jornadas em Jerusalém tivesse sido
suficientemente intensa e eficaz para controlar a maioria dos meus
passos. Não é menos certo que, em nenhum momento, esqueci o
meu verdadeiro objectivo: o enigma do Major. E entre um encontro e
outro pude organizar-me no sentido de visitar a Biblioteca Nacional,
a do Museu de Israel e outras livrarias da cidade, sempre à procura
de uma teórica bibliografia histórica. Os judeus não estranharam
tais consultas, permitindo-me assim esporádicos tempos livres e um
mínimo de liberdade de acção. Como é de supor, na habitual
intimidade destas bibliotecas, a minha intenção fixou-se em Hazor.
Examinei catálogos, ficheiros e estantes, à procura de qualquer
livro ou documento sobre o assunto. Mas a incómoda realidade
acabaria por desarmar-me. Os estudos sobre a velha cidade
cananeia eram tão prolixos e numerosos que teria necessidade de
vários meses para a sua leitura atenta. Só na biblioteca do Museu
de Israel contabilizei um total de quarenta e seis fichas
relacionadas com Hazor. Para cúmulo, numa daquelas minhas
precipitadas incursões pelos intermináveis e densos textos
arqueológicos, confirmei com desalento como, na realidade, os
especialistas admitiam a possibilidade de terem existido umas
cinco ou seis cidades com este mesmo nome.
Uma delas Hãsõr Hãdattãn ou Hasor a Nova podia ser
excluída, uma vez que nem sequer se conhecia a sua exacta
localização na geografia de Israel. É claro que este raciocínio só era
válido no pressuposto de que o criptograma se referia a Hazor como
essa tal cidade. Mas se realmente isso não acontecesse?
Libertei-me como pude daquelas dúvidas angustiantes,
agarrando-me ao meu instinto.

Quanto às restantes Asor, Hasor e Azor povoações
mencionadas também no Antigo Testamento decidi retirá-las
temporariamente da investigação. Era mais cómodo e positivo
concentrar as forças na Hazor mais popular e mais exaustivamente
trabalhada pelos arqueólogos: a de norte. Se falhasse no meu
intento, ainda teria tempo para desenterrar as restantes pistas.
Falei em tempo? Eu próprio me respondi: os meus recursos
económicos, como sempre, não durariam indefinidamente. O consolo
do tempo era pois pouco fiável...
Devo reconhecer que as minhas incursões pela bibliografia -
fruto talvez do nervosismo e da pressa foram de mal a pior. Muitos
dos documentos estavam escritos em hebraico, outros em alemão e
a maioria em inglês. Tal facto limitou ainda mais as minhas
possibilidades. A esta precária realidade veio juntar-se o pesado
lastro de quem pesquisa e indaga... às cegas. Com efeito, o que é
que eu procurava naquela montanha de livros? Um mensageiro alado
que dava pelo nome de Hazor? E se não tivesse nada a ver com as
ruínas em questão? Mas, não sendo assim, para onde encaminhar os
meus passos?
Durante horas, o meu ânimo sofreu toda a espécie de
convulsões. Via passar o tempo e os resultados, aparentemente,
brilhavam pela ausência. Dentro da minha capacidade e dos minutos
disponíveis, dei uma olhadela e alguns dos trabalhos de Galling,
Johanan Aharoni, Trude Dothan, Abel, Ruth Amiran, Maass, Perrot,
Moshe Pearlman, Inmanuel Dunayevsky e Yigael Yadin, entre outros.
Foram dois dias de frenética busca.
Contudo, quando Asher Kupchik, um dos responsáveis da
gigantesca Biblioteca Nacional de Israel, com quem cheguei a travar
uma certa amizade, me anunciou às primeiras horas da tarde de
sexta-feira, 21, que a jornada chegava ao seu fim, o meu desânimo
foi total. Meu Deus! Apenas tinha tido acesso e um precipitado e
superficial acesso a uma dezena de livros... Nos arquivos, rindo-se
de mim, escondiam-se ainda mais de trinta volumes, documentos,
mapas e centenas de fotografias que era forçoso estudar. O meu
caderno de campo apresentava-se repleto de notas sobre a história,
as sucessivas escavações, os achados arqueológicos e as diferentes
hipóteses à volta da agitada vida das vinte e uma cidades que

formavam o tell de Hazor. Em suma, uma estéril sucessão de dados,
cifras e seguríssimas considerações técnicas que não projectaram um
único raio de luz sobre o meu cérebro congestionado.
A chuva mansa e o frio de Jerusalém serenaram um pouco o meu
espírito. A iminente entrada no sábado paralisaria tudo em
*1 Segundo textos extraídos do livro de Josué (15,25), esta Hasor a Nova"
poderia ter sido uma cidade do Sul de Judá.
Por seu turno, Eusébio situa-a a leste do território de Ascalon. Outros
investigadores associaram-na com Yãsñr e com Hattã, ainda que, como disse, a sua
localização exacta continue a ser muito difícil. (N. Do A.)
Israel. Deste modo, enquanto regressava ao hotel, procurei
mentalizar-me. A minha resignação viria no entanto a esgotar-se
bruscamente.
Não sou homem que se renda facilmente e, atormentado na
penumbra do meu aposento, decidi mudar o rumo das investigações.
Não podia esperar até domingo para reatar as consultas nas
bibliotecas. Tinha de agir. Deixando-me levar pela intuição, pus em
marcha um novo plano.
Não havia tempo a perder. Localizei Raquel Eldar e expus-lhe o
meu propósito. (Felizmente para mim, esta mulher não praticava a
sua religião com o fanatismo e ortodoxia de alguns círculos judaicos
que se negam mesmo a atender o telefone durante a festividade do
sabbath. Este, como creio ter referido, inicia-se com o pôr do Sol de
sexta-feira, prolongando-se até ao ocaso seguinte. Durante esse
tempo, as dificuldades para um estrangeiro como eu podiam ser
contínuas e quase insolúveis. Muito em breve teria ocasião de o
experimentar.)
Desde o meu primeiro contacto com o Instituto Central de
Relações Culturais, e por pura curiosidade científica, eu manifestara
o meu desejo de conhecer e conversar com Shelley Waschsmann, um
eminente arqueólogo, que tinha a responsabilidade dos trabalhos
de estudo e restauração de uma embarcação descoberta na margem
ocidental do lago da Galileia.
Tratava-se de um barco que, segundo os primeiros cálculos dos
cientistas, podia corresponder a uma época relativamente próxima
da de Jesus. Este, como outros, foi um simples pretexto para

justificar as minhas idas e vindas por Israel.
E agora convinha-me às mil maravilhas para o meu objectivo
imediato. Raquel, com a admirável eficácia dos judeus, tinha
accionado os mecanismos necessários para a concretização dessa
entrevista. Shelley concordou, convidando-me para a sua casa de
Cesareia. Aquela súbita mudança nos planos não pareceu alarmar a
funcionária. Era lógico que eu desejasse aproveitar as horas mortas
do sábado preenchendo-as com aquela actividade. Além disso,
Cesareia encontra-se a norte de Jerusalém, precisamente na
direcção oposta à da localização da base militar que era suposto
eu não podia visitar...
Gentilmente, e com subtil habilidade, Raquel procurou averiguar
quanto tempo pensava eu demorar-me na cidade costeira de
Cesareia, se dispunha de um meio de transporte e se tinha intenção
de me alojar em algum hotel próximo. Não satisfiz a sua
curiosidade. Em parte porque nem eu próprio o sabia e,
principalmente, porque não estava nas minhas intenções revelar-lhe
os meus verdadeiros objectivos. Um tanto confusa, lembrou-me uma
série de visitas previstas para os dias imediatos, recomendando-me
que lhe telefonasse aquando do meu regresso. Reconheço que sou
hábil a persuadir e assumo também o meu grande pecado de mau
cumpridor de promessas. De modo que, docilmente, prometi-lhe tudo
o que desejou. Quanto a cumpri-lo ou não, isso era outra coisa...
Preparei uma sumária e austera bagagem e iniciei
confiadamente os trâmites para sair nessa mesma tarde para
Cesareia. A fatalidade paralisou, porém, todos os meus movimentos.
Quase me esquecera de que era sábado. No hotel insinuaram-me
como única maneira de poder dispor de um veículo que
contratasse um motorista árabe. É realmente triste, mas em muitas
destas pesquisas, as maiores perdas de tempo, de dinheiro e de
energia, foram provocadas por contratempos desta natureza.
Naquela altura, enquanto dialogava com a atraente e severa
recepcionista, algumas das suas perguntas passaram-me quase
despercebidas. Respondi seca e mecanicamente que não pensava
deixar o hotel e que se tratava apenas de uma excursão de fim-desemana.
Foi só depois, ao marcar o número de telefone de um dos

meus amigos árabes de Jerusalém Anthony Salman, director de
uma agência de viagens -, que as palavras da judia ecoaram na
minha memória. Estremeci. Mas, automaticamente, censurei-me a
mim próprio por tanta suspeita. Começaria eu a ver espias por todo
o lado?
O problema ficou resolvido. Anthony arranjar-me-ia um carro.
Mas com duas condições: como já era muito tarde, só podia estar
disponível à primeira hora da manhã do sábado e com a estrita
obrigação de contratar um motorista e um guia, igualmente árabes.
Tais condições indignaram-me, mas não tinha alternativa. E nessa
noite, enquanto revia o plano, propus-me ludibriá-los na altura
oportuna. Não via com muita clareza o motivo de tais exigências. E
a minha natural desconfiança pôs-me de pé atrás.
Os meus receios não sei já se infundados aumentaram
quando, na manhã desse sábado, 22 de Novembro, um tal Michael
se me apresentou como o guia designado por Salman. Tinha vivido
em Espanha, falava castelhano e, durante os mais de cem
quilómetros que nos separavam de Cesareia, mostrou-se igualmente
interessado nas minhas actividades profissionais e, em especial, no
meu plano de trabalho para aqueles dias. Correspondi-lhe com
idêntica amabilidade, mas sem nada adiantar sobre os meus
verdadeiros objectivos. Tanto e tão específico interesse pelo meu
trabalho como jornalista e escritor não era normal. Por isso, sem
pensar duas vezes, optei por desembaraçar-me dos meus
acompanhantes antes do pôr do Sol.
Após a instrutiva reunião com Waschsmann, o arqueólogo judeu
canadiano, ordenei ao silencioso condutor que tomasse a estrada
de Nazaré. Não houve muitas perguntas. Ao iniciar a última subida
que desemboca na pequena cidade de Jesus, disse-lhes que
estacionassem o automóvel à entrada do Hotel Nazaré, nas
imediações da povoação. E antes de poderem reagir, despedi-me
deles, informando-os de que prescindia dos seus serviços e que
podiam regressar a Jerusalém, se assim o desejassem. Nem sequer
me atrevi a olhar para trás. Ao chegar à porta do obscuro e vetusto
hotel, ainda guia e motorista continuavam numa animada discussão,
em árabe, da qual, naturalmente, nada entendi.

Na realidade, tratava-se de uma velha táctica. Sempre que
empreendo uma investigação digamos que arriscada tomo a
precaução de reservar alojamento em dois ou três hotéis,
simultaneamente. Às vezes compensa.
A noite já caíra sobre as ruas de Nazaré e, muito a contragosto,
tive de me resignar e esperar pelo novo dia. A luz era vital para a
minha transcendente pesquisa seguinte.
Creio que, nessa altura, já estou antecipadamente disposto a
acomodar-me em todo o tipo de alojamento.
Sinceramente, após quinze anos de infatigáveis correrias pelo
mundo, acho que já vi e sofri até mais do que o aconselhável.
Mas a tristeza daquele hotel nazareno não pode descrever-se.
Por isso, incapaz de o suportar, lancei-me na cidade quase deserta.
Nazaré, como tantos outros lugares santos, não é, nem de perto
nem de longe, o que se possa imaginar. O turismo, a civilização e
os séculos eliminaram todo e qualquer vestígio da aldeia que
albergou o Filho do Homem durante mais de vinte anos.
Actualmente, dominada por uma maioria árabe, é tão-só um lugar de
obrigatória e sempre rápida passagem de peregrinações de toda a
índole e confissão. Só aquele céu de azeviche, que as
desordenadas colinas sobre as quais assenta a povoação tornam
mais próximo, pode emocionar um visitante medianamente
desperto. As miríades de estrelas, resplandecentes ao frio da
Galileia que então fazia, são as mesmas que velaram sobre os
trabalhos e preocupações dessa personagem que cativou o Major e
a mim próprio me mantém cativo.
Os meus passos, tal como em anteriores ocasiões, levaram-me à
Basílica da Anunciação. E não com a intenção de rezar coisa que
deveria fazer com maior frequência -, mas para saudar alguns dos
pacientes e veneráveis franciscanos. Apesar do ainda escasso
tempo passado em Israel, as tensões tinham sido suficientemente
intensas para eu necessitar de uns instantes de companhia.
Felizmente, aqueles agradáveis momentos de convívio com os
padres Rafael e Uriarte viriam a revelar-se duplamente úteis. Por um
lado, como dizia, preencheram a minha solidão. Dias mais tarde,
servir-me-iam de álibi, tirando-me de sérios apuros... Mas não devo

antecipar-me aos acontecimentos.
A inquietação e o nervosismo dominaram-me. De tal modo que,
após mais uma noite em claro, saltei da cama, esperando o
amanhecer. Às cinco horas e trinta e nove minutos daquele domingo,
uma difusa luz alaranjada foi subindo por detrás das colinas,
despertando a cidade.
Duas horas depois, ao fim de não poucos regateios, consegui
convencer e contratar um dos taxistas. Estive tentado a prescindir
daqueles árabes casmurros e a servir-me do autocarro 431, que faz
o percurso até Tiberíades, costeando depois a margem ocidental do
lago.
Mas, segundo as minhas informações, esses autocarros públicos
circulavam muito longe do meu verdadeiro ponto de destino.
Não tinha outra hipótese. Fez-se o contrato e, depois de
desembolsar os seiscentos dólares acordados, Soliman Hakim, meu
novo guia, desfez-se em saudações e reverências tudo isso numa
caótica mistura de inglês, italiano e árabe -, jurando-me pela sua
saúde que não me arrependeria de tão acertada decisão.
O céu, muito azul, prometia um dia morno e luminoso.
Acomodei-me junto do tagarela Soliman e, respondendo com
monossílabos à sua interminável verborreia, vi desaparecerem atrás
de mim os últimos contrafortes de Nazaré. Fui-me animando dizendo
para comigo: Este tem de ser um dia decisivo...
O potente Mercedes desafiava bem as curvas. E em pouco mais
de dez minutos deixou para trás Caná (hoje conhecida por Kafr
Kannã) e seus abruptos e claros despenhadeiros, em direcção ao
cruzamento de Haifa-Tiberíades, na Estrada Setenta e Sete.
Vinte minutos depois rodávamos a toda a velocidade para o mar
da Galileia. Seguindo as minhas instruções, Soliman evitou o
populoso núcleo urbano de Teverya ou Tiberíades, rodeando o lago
pela Estrada Noventa. Pouco faltou para que, obedecendo a outro
dos meus típicos impulsos, interrompesse a viagem e aproveitasse a
ocasião apresentando-me na sede da Polícia, na mencionada cidade
de Tiberíades. Ao expor-lhes o meu propósito de reconstituir, sem
companhia, a caminhada de Maria e José desde Nazaré a Belém de

Judá, tanto no consulado da Espanha em Jerusalém, como o próprio
doutor Liba me tinham recomendado que dado o perigo da zona
do rio Jordão, que faz fronteira com a Jordânia fosse junto das
autoridades policiais e militares judaicas, a fim de lhes explicar o
meu projecto e obter assim os imprescindíveis salvo-condutos. Mas
venci a tentação. Éra preciso respeitar as prioridades...
De súbito, o mar da Galileia apresentou-se à minha direita.
Aquele azul imóvel, com tons de verde e névoa nas suas distantes
margens, lembrou-me que estava a viajar através dos cenários que
tinham sido, em grande parte, os da vida terrena do Mestre. E uma
contida emoção se apoderou do meu espírito.
Aqueles sítios sim, conservavam toda a sua pureza, todo o
poder e todo o magnetismo dos campos, encostas, caminhos ou
águas pelos quais Jesus tinha passado. E prometi a mim mesmo um
intervalo para descer de novo às negras e pedregosas costas,
daquele mar. Tinha necessidade de respirar a sua brisa, sentir os
leves passos do Mestre e o tímido chapinhar das ondas entre o
cascalho de basalto.
Soliman tirou-me de tão aprazíveis e reconfortantes
pensamentos, apontando-me o kibbutz Ginnosar, na margem do
lago. Shelley Waschsmann tinha-me de facto informado de que a
chamada barca de Jesus" -descoberta, como já referi, em princípios
desse ano de 1986 pelos irmãos Yuval e Moshe Lufan tinha sido
transportada para um pequeno museu, especialmente aberto e
equipado para tal no kibbutz que se apresentava agora diante de
mim. Ali deverá permanecer, durante sete a nove anos, submersa
numa solução de cera sintética. O árabe, desejando agradar-me,
insistiu para que parássemos um pouco na granja-hotel que o citado
kibbutz constitui, para visitarmos a valiosa barca.
Uma relíquia de inestimável valor arqueológico nada menos
que a primeira embarcação dos tempos de Cristo encontrada no
referido Kinneret ou mar da Galileia -, mas que, infelizmente, os
interesses económicos já catalogaram como um novo motivo de
peregrinação religiosa. Assim se faz a História.
Mas eu fui categórico. Era preciso continuar. O meu objectivo era
outro e muito diferente. O guia resmungou umas ininteligíveis

palavras em árabe, demonstrando a sua contrariedade com brusca
aceleração. A minha recusa manteve- o, felizmente, em silêncio
durante os últimos dezassete quilómetros. Subimos em bom
andamento, sempre pela Estrada Noventa, e, deixando para trás à
esquerda Rosh Pinna, o cume nevado do Hérmon no horizonte
anunciou-me a proximidade iminente do meu destino. E como uma
premonição, uma descarga nervosa trouxe complicações ao meu
estômago.
Soliman sorriu. Indicou-me o lugar e reduziu a velocidade. Poucos
minutos depois virava à esquerda, deixando a estrada principal e
tomando um péssimo caminho que subia exactamente até à entrada
daquele gigantesco triângulo isósceles.
Foi inevitável. Eu pressentia qualquer coisa no meu íntimo. E as
palmas das minhas mãos começaram a transpirar.
Soliman, com um recuperado bom humor, pediu-me que
esperasse no carro. Desceu vagarosamente e dirigiu-se à simples
choupana que fazia as vezes de posto de controlo.
Um enfastiado guarda recebeu-nos com curiosidade. As visitas
não deviam ser muito frequentes naquele afastado recanto da
Galileia. E, muito menos, a de um suposto turista estrangeiro que,
além disso, vinha sozinho. Ignoro o que terão dito, mas a julgar pela
exuberante gesticulação do guia e pelas intermitentes e incisivas
olhadelas que o guarda me lançava, devo ter sido tomado por um
excêntrico milionário ou coisa pior...
Satisfeito o obrigatório cerimonial, o alto e azedo guarda
tendo-me sempre debaixo de olho procedeu ao levantamento da
pequena barreira, deixando-me a passagem livre.
Soliman, visivelmente satisfeito, entregou-me os três bilhetes e
penetrou no terreiro que se abria diante de nós. Eram nove horas da
manhã.
Li os bilhetes e mal pude acreditar. Em todos eles no azul, no
verde e no castanho aparecia a mesma inscrição: National Parks
Authority,, e um nome longamente acarinhado: Tell-HnzoR.
O Mercedes parou. Senti medo. Ali, algures naquele pequeno
planalto, podia estar a chave do enigma. Vês, envio o meu

mensageiro diante de ti, Marcos 1.2. Hazor é o seu nome e as suas
asas levar-te-ão ao guia Marcos 6.2.0. O número secreto das suas
penas é o número secreto do guia, o que há- de preparar o teu
caminho, Marcos 1.2.
O criptograma, permanentemente instalado na minha memória,
ecoou desta vez com um timbre especial. Estremeci.
Encontraria ali o que tão ansiosamente procurava? Mas o que é
que eu procurava exactamente?
O árabe observava-me sem compreender. Os meus dedos
tremiam, e eu, com a vista fixa no horizonte, parecia atarraxado ao
assento.
- Passa-se alguma coisa, senhor?
Não me lembro sequer se lhe respondi. E Soliman, intrigado,
pressionou o meu braço esquerdo, insistindo:
- Senhor!... O senhor sente-se bem?
- Como?... Ah! Sim balbuciei por fim, saindo daquela espécie
de bloqueio mental.
Fiz apelo às minhas forças e, decidido, abandonei o automóvel.
Abri a minha inseparável bolsa de aparelhagem fotográfica e,
procurando apaziguar a minha excitação,
dediquei alguns minutos à inspecção do equipamento. O guia,
curioso, deixou-me actuar, preso de cada um dos meus movimentos.
Pendurei uma das máquinas ao pescoço e, depois de comprovar o
bom funcionamento da bússola, fita métrica, conta-passos e outros
aparelhos, postei-me perante as ruínas.
Por onde começar? Hazor é o seu nome..., Sim, finalmente estava
em Hazor., Mas que quereria o Major insinuar?
Não tinha nem a mais remota ideia do tempo que me seria
necessário para aquela exploração. Por isso, e com o firme
propósito de gozar de inteira liberdade de acção, fiz ver a Soliman
que a minha visita poderia prolongar-se e que o mais prudente era
ele organizar o seu dia como muito bem entendesse. Mas o guia
recusou-se a sair do seu lugar.
Encolhi os ombros e, virando-lhe as costas, avancei em direcção

ao meio do tell. Pelo que eu tinha lido e estudado, aquela pequena
colina artificial, de quarenta metros de altitude na sua zona mais
elevada, fora construída há mais de cinco mil anos, desempenhando
ao longo da sua história um papel de grande importância
estratégica no nó natural de comunicações em que se achava
inserida. Por ali tinham passado os caminhos de Damasco a
Megiddo e de Sídon a Beisan. A transparência e luminosidade
daquele dia permitiam divisar, a oeste, as terras azuis do Líbano e,
a leste, as verdes encostas dos montes Golan. Mas talvez o meu
objectivo se encontrasse ali mesmo: naquela meseta ou plataforma
que vista do alto, lembrava a figura de um descomunal triângulo
isósceles de cor avermelhada, dominando uma fértil campina.
À entrada das ruínas consultei algumas das notas contidas no
meu caderno de campo. As consideráveis dimensões da cidadefortaleza
intimidaram-me: 470 metros de oeste a leste e 175 de
norte a sul, na sua parte mais larga. Para o oeste ou seja, no
imaginário vértice do triângulo -, a meseta perde altura em
sucessivos socalcos. E todo o conjunto devidamente cercado por
restos de muralhas e fossos. Em última análise, um compacto e
monumental conglomerado de restos arqueológicos que, segundo os
peritos, pertence a vinte e um estabelecimentos humanos e,
naturalmente a outros tantos remotos períodos da História.
Demasiado para a minha escassa capacidade e informação...
Neste singular tipo de pesquisa sei-o por experiência - a
disciplina e método são de vital importância. Convém proceder com
extrema cautela, sem descurar nenhum pormenor, por muito
irrelevante ou pueril que possa parecer. E sem perder de vista tais
premissas dei início àquilo que poderia qualificar como uma inicial
tomada de contacto com o lugar. Esta incómoda situação de
inferioridade, não me cansarei de insistir nisso, de não saber
exactamente o que buscava, tornou ainda mais tensos os meus
sentidos. Talvez a pista das asas fosse o único apoio, se bem que
débil em tão louca investigação. E lentamente, como se uma força
extra-humana tivesse congelado o tempo, iniciei aquela nova fase
da minha tarefa.
A luz oblíqua da manhã despertara um exército de sombras, que

avançava lentamente para ocidente. E os amarelos, ocres e brancos
de labirinto arqueológico foram-se avivando.
* 1 O tell de Hazor ou Hãsfir, depois das sondagens iniciais de Gastang em
1927, foi meticulosamente escavado pelo célebre arqueólogo judeu Yigael Yadin (de
1955 a 1958). Hazor foi a maior cidade-fortaleza de Caná e, durante longo tempo, um
centro comercial e político de primeira grandeza. Em fins do século xII a. C. Contava com
uma população aproximada de quarenta mil almas. Segundo Yadin, embora se
suponha que o tell possa ter sido habitado há uns cinco mil anos, a arqueologia
localizou apenas um total de 21 estratos. O mais antigo é do período do Bronze Antigo
(II), ou seja de há 2750 a 2600 anos antes de Cristo. O mais recente foi datado da
época helenística. A Cidade Alta ocupava cerca de seis hectares e estava rodeada de
uma sólida muralha. Depois de ser destruída pelo biblico Josué, Hazor ficou reduzida a
uma colina de escombros, salpicada de toscas e miseráveis cabanas de nómadas. No
século x a. C., o rei Salomão reedificou parte da Cidade Alta, transformando-a numa
guarnição real que vigiava os acessos do Norte de Israel. Um século mais tarde,
destruída pelo fogo, foi reedificada por Ajab, sendo definitivamente arrasada pelos
Assírios em 733 a. C. O seu passado esplendor ficaria assim sepultado durante vinte e
sete séculos. (N. Do A.)
Tomei o estreito carreiro arenoso que rodeia a meseta pelo
lado norte alcantilado, com os olhos e o coração atentos a tudo o
que me rodeava. Eu era o único visitante e isso permitia-me uma
total liberdade de movimentos.
Hazor é o seu nome...
À primeira vista, aquele emaranhado caótico de muros, pátios,
palácios meio desmoronados, de colunatas ceifadas pela destruição
e pelo tempo, de edifícios públicos sem tecto e restos do fortim
helenístico meio derrubado, não parecia apontar qualquer indício ou
sinal que despertassem a minha atenção. Eram só pedras. Pilares e
envasamentos adormecidos, importunados agora, aqui e ali pelo
monocórdio crepitar da areia sob as minhas botas. Aqueles minutos
iniciais de busca infrutífera atiçaram o meu ânimo. Tinha de manter
a calma. E retomei a lenta caminhada, bordejando a fortaleza em
todo o seu perímetro.
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia.
A mensagem do Major ou seria imaginação minha? -

continuava em primeiro plano, e eu via-a em cada bloco de pedra,
em cada esquina, em cada sombra...
Pelas dez horas, quando estava para terminar a minha primeira
volta de inspecção, umas húmidas e toscas escadas situadas no
lado leste do terreiro e que se perdiam nas entranhas de Hazor,
fizeram-me hesitar. Cartazes amarelos, em hebraico e inglês,
anunciavam a entrada de um túnel. E um sopro de esperança fez-me
tremer; mas contive-me. Primeiro tinha de passar a pente fino a
superfície da cidade-fortaleza.
Ao regressar ao ponto de partida consultei o conta-passos. A
agulha marcava quatrocentos e dois. Aquele dado não revelava
grande coisa. É verdade que somando os dígitos, lá aparecia o
misterioso 6.
Mas de que me servia? No entanto, anotei, esta e outras
observações imprecisas e, depois de inspirar profundamente,
procedi a um segundo assalto. Soliman dormitava, lá longe, no
interior do automóvel. Dividi mentalmente a fortaleza em três
sectores, penetrando no primeiro: no que se situava a norte.
Pondo de lado todas as normas, abandonei as veredas que
ziguezagueavam entre as ruínas, entregando-me aos meus próprios
impulsos. Saltei muros, toquei nas colunas ásperas, trepei às
casamatas desmoronadas e, cheio de suor, subi mesmo ao ponto
mais elevado das paredes do fortim. Felizmente, como já referi,
Hazor encontrava-se então solitária e em silêncio, e o posto de
controlo ficava relativamente afastado. Não corria o risco, pelo
menos de momento, de que a minha heterodoxa visita pudesse
chamar a atenção dos vigilantes.
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia.
As suas asas? Na minha crescente perplexidade cheguei a
imaginar que o Major, no seu hipotético deambular por aquela
plataforma, poderia ter descoberto algum tipo de desenho ou figura
geométrica que lembrasse umas asas. Sempre com a bússola na
mão, mudei repetidas vezes de posição, explorando aquele
amontoado de pedras. Fui incapaz de descobrir o menor vestígio.
Nem as rudimentares ruas nem o confuso traçado da cidadela se
pareciam com o que eu procurava. Ali, as únicas asas eram de facto

as da minha escaldante imaginação. Desci para o terroso
pavimento, repetindo a exploração ao longo do segundo e terceiro
sectores. Era desolador! Se o Major tinha jogado com algum
símbolo, restos de cerâmica ou estela funerária, era evidente que
tinha de pesquisar noutra direcção. As ruínas de Hazor, pelo menos
o que eu vira até então, eram apenas isso mesmo: ruínas sem mais,
desprovidas de quaisquer inscrições, estátuas ou recheio, incapazes
de projectar alguma luz. Mas, de súbito, sentado numa das pedras,
enquanto me esforçava por recapitular, tive um pressentimento. E se
as famigeradas asas pertencessem a alguma coisa que tivesse sido
desenterrada em Hazor e transferida sabe-se lá para onde? Aquele
flash, perturbador, mergulhou-me no desalento.
E ali, humilhado no meio de remotas ruínas arqueológicas, fui
rememorando o que tinha visto e lido na volumosa documentação
bibliográfica sobre Hazor. Nos três anos de escavações, os
arqueólogos tinham recuperado uma enorme quantidade de objectos
de culto, figurinhas de divindades, centenas de vasos, inscrições
egípcias uma delas com o nome de Amenófis III -, relevos de
carácter religioso, máscaras litúrgicas óstracos, a famosa estrela
circunscrita (signo da realeza hitita), formidáveis esculturas de leões
e, por fim, cerca de nove masseboi ou estelas, uma com enigmáticas
mãos em atitude de súplica. Todo um espólio pertencente a vinte e
uma cidades e períodos distintos. E tudo aquilo, se a memória me
não atraiçoava, sem a menor relação com umas asas. Faltava,
certamente, ainda muito por ver. E se acabasse por não descobrir
um único motivo alado? E se as intenções do criptograma fossem
noutra direcção?
Levantei-me e, batendo no muro com raiva, ergui os olhos ao
céu, clamando por uma pista. Estava de novo perdido. A resposta,
ainda que uma vez mais não tivesse sabido vê-la naqueles
momentos críticos, acabou por chegar, subtil e pontual. Suspirei e,
um tanto envergonhado do meu próprio dramatismo, voltei a sentarme.
Acendi um cigarro e, sem saber porquê, debrucei-me novamente
sobre o caderno de campo. Reli as notas e, pouco a pouco, ao
mesmo tempo que me acalmava, fui-me aproximando de um
comentário sublinhado a vermelho e que transcrevera de uma
carta procedente de Munique, antes de iniciar a viagem para

Israel: ... Claro que, em princípio, pode pensar-se que Hazor se
refira antes a um animal ou personagem com asas. Por isso duvido
um pouco da sua relação com a cidade bíblica do mesmo nome. No
entanto, também poderá acontecer que qualquer figurinha retirada
de Hazor, e actualmente num museu, tenha alguma coisa a ver com o
assunto.
É evidente que não soube interpretar aquele sinal. O que me
chamou a atenção foi a curiosa e oportuna coincidência de ideias.
Mas tudo ficou por ali. Por vezes, a excessiva autoconfiança ou uma
estúpida presunção desembocam em rotundos fracassos. Aquela
prostração foi-se, contudo, esfumando, juntamente com o cigarro.
Recompus as minhas forças e, como se nada se tivesse passado,
afastei-me da cidadela na direcção leste disposto a fazer uma
tentativa no misterioso túnel que tinha visto duas horas antes.
Não é que eu seja muito praticante da religião em que fui
educado, mas instimtivamente, ao pôr o pé no primeiro degrau,
benzi-me. A entrada do túnel intimidou-me. Que me esperaria
naquelas profundidades?
A escavação feita por Yadin respeitando sempre os traços de
origem desce na vertical. Trata-se de um enorme poço
quadrangular de pouco mais de dez metros de lado, com uma
sucessão de rampas escalonadas que avançam pelo terreno
avermelhado do tell por cada uma das paredes laterais do poço.
E fui avançando muito devagar, com o coração agitado. Por mera
precaução, antes de pisar o primeiro e húmido degrau, liguei o
conta-passos, pondo a agulha no zero. A luz entrava sem dificuldade
até ao fundo da perfuração, situada a uns doze metros da
superfície. O silêncio era completo. Consultei a bússola em cada um
dos patamares, mas não me dei conta de qualquer alteração. As
paredes, cuidadosamente aplainadas pelos arqueólogos, não
apresentavam sequer outros aspectos ou sinais que não fossem os
logicamente derivados dos trabalhos de remoção de detritos e da
humidade. Em todo o caso, dediquei algum tempo ao exame dos
diferentes cortes, patentes nos muros. A experiência foi nula. No
poço não pude, ou não soube, encontrar um único pormenor que
tivesse a ver com o criptograma. Mas faltava ainda uma segunda

galeria.
Ao chegar ao último degrau, parei. À minha frente abria-se um
corredor de uns cinco metros de altura, muito mal iluminado por
alguns mortiços e espaçados pontos de luz amarelada. O túnel,
certamente tenebroso, descia sabe-se lá até onde num brusco
desnível de trinta ou trinta e cinco graus. As paredes gotejavam
humidade. Apurei o ouvido, procurando captar algum som.
Rigorosamente nada. Só o meu descompassado coração ecoava no
meu peito. Esperei alguns segundos para que as minhas pupilas se
adaptassem ao escuro. Mas não consegui distinguir o fundo do
corredor. Foi então, ao remexer na bolsa do equipamento
fotográfico, à procura de uma lanterna inexistente, que reparei no
conta-passos. À luz do isqueiro ao mesmo tempo que amaldiçoava a
minha falta de previsão, tratei de desenganchá-lo do cinto. A agulha
estava imobilizada nos cento e cinquenta passos. Cento e
cinquenta?, repeti em voz alta. O eco propagou-se na obscuridade.
Senti um calafrio. A soma dos dígitos dava 6. Outra vez o misterioso
número...
Como era possível? E se o aparelho estivesse avariado? Era
duvidoso. Entusiasmado com um dado tão débil, regressei por onde
tinha descido, contando os degraus.
.. O número secreto das suas penas é o número secreto do
guia. Num passo rápido, nervoso por confirmar a cifra, fui subindo as
rampas, chegando à superfície já sem fôlego.
Maldito tabaco!...
Não havia erro, de facto. As escadas perfaziam cento e
cinquenta degraus. Deixei-me cair sobre o corrimão que protegia o
último dos ressaltos de acesso ao poço e, enquanto recuperava o
fôlêgo, fui desfiando algumas hipóteses. Todas se me apresentavam
pelo menos retorcidas. Deveria associar as asas com aquelas
rampas escalonadas? Poderiam conduzir-me ao guia? Seria o 6 o
número secreto das penas das asas de Hazor? Agora, ao recordar
tamanhas desventuras, não pude deixar de sorrir. O Major, quase
com certeza, tinha visitado as ruínas de Hazor. Sem saber, ao fazer
a contagem dos degraus, tinha acertado em cheio. Mas, absorto
pelo achado, perdi de vista um factor inerente ao Major e aos seus

enigmas: a sua natural inclinação para o jogo do despiste...
Admitindo a tese forçada de que tais rampas de terra fossem as
asas do mensageiro e de que o número secreto fosse o seis,
aquelas escadas tinham de levar-me ao guia. Mas quem ou o quê
era o guia? Encontrá-lo-ia no subterrâneo?
Só havia uma maneira de tirar as dúvidas.
No fundo estava-lhe grato. Aquilo que eu tinha averiguado até
àquele momento em Hazor era tão pouco relevante que aquela luz
ou qualquer outra, por muito débil que tivesse sido fez o milagre
de devolver-me a esperança. Precipitei-me pelas escadas abaixo e,
ansioso, por penetrar no túnel, pouco
faltou para que desse com o costado em terra num dos
escorregadios lanços. O susto fez-me reflectir. Tinha de proceder
com cautela. À entrada da segunda galeria continuavam a reinar o
silêncio e uma viscosa penumbra. De isqueiro na mão avancei pelo
meio do túnel. O acentuado declive tornava-se incómodo e,
prudentemente, encostei-me para o lado, apoiando-me à gotejante
e irregular parede da direita. Foi uma marcha lenta, expectante. Com
a frágil chama azul-amarelada do isqueiro fui explorando cada
centímetro quadrado de pedra. Mudava de parede em cada quatro
ou cinco passos, repetindo a minuciosa operação de busca. A
abrupta abóbada do subterrâneo também não apresentava qualquer
inscrição ou indício.
Senti frio. A humidade aumentava. Subitamente, enquanto
examinava uma das paredes à luz do isqueiro, pareceu-me ouvir
alguma coisa.
Apaguei a chama e, imóvel como uma estátua, aguardei. O
coração tinha começado a bater com violência. Mas aquele fugaz e
surdo som algo parecido com um chapinhar não se repetiu.
O fundo do corredor continuava envolto em trevas. Era difícil
precisar os seus contornos e o que eventualmente pudesse albergar
lá no mais fundo. Não posso ocultar que uma familiar sensação de
medo fez tremer os meus joelhos e frias gotas de suor me
deslizaram pelas costas. Interroguei-me, procurando raciocinar. Ali,
com toda a certeza não havia ninguém. Era tudo fruto da tensão em

que me encontrava. Mas não saí do lance muito convencido. O
instinto mais que a inteligência -dificilmente se equivoca.
Que deveria eu fazer? Continuava a avançar ou dava meia volta,
obedecendo à lógica e natural inclinação para sair daquele antro?
Engoli a pouca saliva que me restava e, aceitando o imprevisto
desafio, avancei cautelosamente, sem me afastar da parede da
direita. Desta vez fi-lo às escuras. Se se tratava de um falso alarme,
raciocinei com dificuldade, haveria tempo e oportunidade para rever
com cuidado os lanços de percurso que estavam por explorar.
Segundo os meus cálculos, tinha já percorrido uns dez ou quinze
metros, ignorando quanto faltava para chegar ao fim do túnel.
Seguindo uma velha táctica, inspirei profundamente e repetidas
vezes, procurando acalmar o ritmo cardíaco. Só em parte o consegui.
Tinha a certeza de ter ouvido aquele ruído.
Esta ideia, aliada à escuridão e ao não menos lúgubre silêncio
do recinto, fizeram aumentar os meus receios.
O piso tornava-se cada vez mais escorregadio. Procurei agarrarme
às saliências pedregosas da parede, não dando um único passo
sem antes testar a solidez do inclinado pavimento.
Depois de ter avançado uns vinte a vinte e cinco metros, outro
golpe seco chegou com nitidez aos meus ouvidos. Agora não tinha
dúvidas. Era como se uma pedra, ou coisa parecida, embatesse
contra uma parede.
Senti grandes e repetidos calafrios. Num ímpeto acendi o
isqueiro, ao mesmo tempo que gritei algo timidamente: Quem está
aí?
Não obtive resposta. Mas, coincidindo com o acender da chama,
dois novos golpes, mais próximos, gelaram-me o sangue.
Agora, e só agora, ao relembrar a cena, esta se me apresenta
como tragicómica. Naqueles instantes, consequência do medo e dos
nervos, o único impulso que me dominou foi uma premente
necessidade de urinar. É claro que soube conter-me.
Olhei em redor e, forçando a vista, julguei distinguir à distância
uma mescla informe de sombras verticais e horizontais. Que diabo

seria aquilo?
A curiosidade nunca consegui compreender a tremenda força
de tal atributo impôs-se ao medo. No entanto, precisei de alguns
segundos para mexer as pernas. Com o braço direito tenso como um
pau, suportando o doloroso contacto com o isqueiro sobreaquecido,
avancei em direcção àquilo que me parecia ser o fim do
subterrâneo. O silêncio era de novo completo. Um silêncio carregado
de presságios, saturado pelo meu próprio medo.
Sombras estilizadas? Sombras imóveis, desenhando um incerto
emaranhado de linhas (?) verticais e horizontais? Ou não estavam
imóveis? Estas interrogações acompanharam-me nos últimos metros,
ao mesmo tempo que, afortunadamente, a fraquíssima luz do meu
isqueiro foi rompendo a escuridão.
Detive-me. Apontei a fraca luz para a direita e para a esquerda
e, de repente, um cheiro fétido chegou-me às narinas.
Procurei fixar a chama com a mão em concha, mas ela oscilou,
agitada por alguma corrente. Poucos minutos depois descobria
diante de mim a cerca de três ou quatro metros um rudimentar e
semi-apodrecido tapume de madeira, que me impedia a passagem.
Respirei com alívio. Ligeiramente encurvado, ainda com os músculos
retesados, pus-me diante das ripas que delimitavam aquela zona do
túnel. A barreira teria cerca de um metro de altura. Espreitei
calmamente e, estendendo o isqueiro, compreendi. Acabara
simplesmente de percorrer os trinta a trinta e cinco metros de um
subterrâneo que ia dar a uma piscina ou cisterna, cheia de uma
água fedorenta e verde-negra. Quanto ao entrelaçado de sombras,
não era mais que um amontoado de estacas e de postes que
escoravam o tecto do cubículo, à direita e à esquerda. Não sabia se
rir se chorar. O medo tinha-me pregado uma boa partida.
Incompreensivelmente, esqueci-me dos tais estranhos ruídos.
Recuperei a calma e, desejoso de prosseguir a busca, levei
algum tempo a examinar as madeiras do tapume, andando para
cima e para baixo. Era tudo normal. Do outro lado, o declive do
terreno acabava bruscamente. Semi-enterrados, avistei quatro
reluzentes e enormes degraus de basalto que se afundavam no
charco. O meu rudimentar sistema de iluminação não me permitia

ver para além de dois ou três metros.
Consequentemente, desconhecia as dimensões da cisterna e o
que poderia haver do outro lado das primeiras fileiras de postes.
Era a altura de avaliar a minha situação. Em frente do sujo
tapume, respirando as emanações nauseabundas da água
estagnada, fixei a vista e o pensamento na negra incógnita que
tinha diante de mim. Rebusquei na memória. A verdade é que tinha
lido muito pouco sobre aquele sector das escavações de Hazor.
Tratava-se, sem dúvida, de um antiquíssimo sistema hidráulico,
idealizado para o abastecimento de uma cidade-fortaleza que, como
a história regista, se viu submetida a vários e prolongados cercos.
O espanto é que, tantos séculos depois, a água ainda continuava a
chegar ao fundo do subterrâneo. Calculei o caminho percorrido,
concluindo que poderia encontrar-me a vinte e cinco ou trinta metros
de profundidade. A minha grande dúvida era se deveria arriscar-me
a continuar a marcha, explorando o resto do túnel. (Falar de marcha
era uma maneira de dizer, claro. O tapume de madeira estava ali
por alguma razão.) Senti um incómodo desassossego, que no
entanto atribuí ao acumular de contrariedades que me estavam a
acontecer. E se a chave do mistério estivesse mais para além? A
tirania do criptograma fez-se sentir uma vez mais. Iria desistir
perante a primeira séria dificuldade que se me deparava?
A decisão estava quase tomada quando, no meio da escuridão,
ouvi um novo e misterioso golpe. Foi como que um plof. Peguei no
isqueiro e notei o lento avançar de pequenas ondas à superfície da
cisterna. Alguma coisa se precipitara nas águas. E voltou o medo.
Levantei a chama com o intuito de observar o tecto da galeria.
Talvez se tratasse de algum desprendimento, coisa habitual em
túneis desta natureza. A simples ideia de um desabamento
apanhou-me de surpresa. Mas, seguidamente, ao verificar o rochoso
e compacto tecto abobadado, afastei tal possibilidade. Mas então,
se não se tratava de uma pedra, o que é que acabava de agitar a
superfície das águas?... A recordação deste e dos anteriores golpes
intimidou-me. Como disse atrás, tinha-os esquecido completamente.
Num ápice, a minha imaginação encarregou-se de pôr de rastos o
meu já enfraquecido ânimo. E se o charco cuja profundidade
desconhecia escondia algum animal?, perguntei a mim próprio.

Isso não era razoável. Que tipo de animal poderia sobreviver em
semelhante lodaçal? Já tinha visto pior. É claro que também havia a
possibilidade de, no extremo oculto do túnel... Refutei-me a mim
próprio sem contemplações. Isso não fazia muito sentido. Se a
galeria continuava, e dispunha mesmo de uma segunda entrada,
porquê supor que ali, em algum obscuro e incerto nicho do
subterrâneo, teria de haver um abrigo de cães ou animais bravios?
Além do mais rematei com convicção -, esse ou esses supostos
cães não teriam desaparecido sob as águas!...
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia.
Maldição! A curiosidade continuava a minar o meu senso comum.
Que haveria do outro lado da cisterna e da barreira de sustentação
do túnel? Era necessário clarificá-lo. Se voltasse à superfície sem
tentar esclarecê-lo, jamais mo perdoaria. E, o que era pior, talvez
perdesse a ocasião de decifrar o enigma.
Mandei tudo para o diabo e pendurei a bolsa com as máquinas
fotográficas às costas com a correia a tiracolo e, cheio de coragem e
de insensatez, saltei o tapume.
O terreno a seguir aos degraus de basalto, era lamacento.
À esquerda enterradas no barro, levantavam-se as primeiras
escadas de madeira. O meu propósito era trepar por elas e, com
todas as precauções possíveis, ir deslizando sobre as traves até ao
outro extremo. Naqueles agitados instantes não vi uma melhor
fórmula para transpor o charco.
As minhas mãos ficaram húmidas ao apalpar as tábuas do lado
esquerdo.
Mau negócio!, sentenciei. À luz do isqueiro inspeccionei as
bases. Estavam apodrecidas, como era de esperar. Aquela armação,
montada pelos homens de Yadin, já tinha um desgaste de trinta
anos. A humidade da cisterna tinha-a apodrecido implacavelmente
quase toda. Examinei as cavilhas que ligavam os barrotes
horizontais aos verticais. A maior parte corroída pela ferrugem
não oferecia muita segurança. Resistiriam ao meu peso? Decidi
experimentar.
Apoiei-me com ambas as mãos na trave mais baixa, situada a

cerca de oitenta centímetros do solo, comprovando a sua
consistência com vários e fortes abanões. A estrutura ressentiu-se,
rangendo ameaçadoramente. Foi um aviso. Mas as coisas não
terminaram ali. Além de patinar perigosamente na curvatura do
madeiro, ao terceiro ou quarto embate ouvi um novo plof. Desta vez
à minha direita e muito próximo.
Virei-me, frenético. A única resposta foi outra lenta série de
ondas circulares avançando em direcção aos meus pés e o silêncio.
Um silêncio que me secou a garganta. O irritante mistério daqueles
golpes começavam a encolerizar-me. Desci até ao último dos
degraus e, de cócoras, aproximei a chama da água. Foi inútil. A
escuridão era impenetrável. Agitei a superfície com a mão esquerda
e, ao aproximar os dedos do nariz, um intenso odor a podre fez-me
recuar. Fiquei pensativo e na expectativa, enfrentando a escuridão.
Pouco depois, à minha esquerda, junto a um dos postes situado a
cerca de metro e meio, emergiram várias borbulhas. Senti como os
pêlos da nuca se me eriçavam. Mas tive coragem para me mexer.
Aquelas bolhas, as únicas que observara desde que tinha chegado à
cisterna, confirmaram as minhas suspeitas iniciais. Ali por baixo
habitava ou movia-se alguma coisa... Segundos depois, outro
borbulhar, mais intenso, denunciou a presença do suposto animal
junto à base do poste contíguo. Parecia afastar-se para o meio do
charco. Tremendo de medo, transido no húmido degrau, fui abrindo
devagar o fecho da bolsa, à procura das máquinas.
Se aquilo fosse o que fosse emergisse à superfície, um
oportuno flash permitir-me-ia fotografá-lo e deixá-lo
temporariamente cego... Em caso de perigo, essa cegueira jogaria a
meu favor. Os segundos transcorreram, tensos e intermináveis. Com
os músculos hirtos fui passando a vista pelo conjunto do lago,
esperando que, a qualquer momento, o ou os bichos irrompessem à
superfície.
Dei-me conta, de súbito, que estava com meio corpo fora do
degrau, praticamente em cima das águas. E se o responsável pelas
borbulhas viesse até à borda da cisterna? A repentina e angustiante
ideia deu cabo dos restos da minha coragem. Com um salto
retrocedi até ao tapume. O suor frio de medo escorria já pelas
minhas costas.

Mas o túnel continuou em silêncio. Nada alterou as suas águas.
E devagar, muito devagar, fui recompondo o meu espírito
aterrado. Os que me conhecem um pouco sabem que, nestas alturas
da vida, só fico indignado comigo mesmo. Pois bem, esta foi uma
das ocasiões em que amaldiçoei a minha escassa fortaleza de
ânimo.
Guardei a máquina fotográfica e, resmungando toda a espécie
de impropérios contra mim mesmo, avancei até ao andaime da
direita. Estavam terminadas as inspecções e o rosário das minhas
fantasias. Aqui não há nada e nada se passa, fui repetindo para
mim próprio enquanto me agarrava a uma das estacas, dando início
à escalada. Aqui só há medo...
Quanto ao medo não me enganava. Quanto ao resto,
infelizmente, sim.
Estúpido que eu fui! Nunca aprenderei. Os primeiros movimentos
foram muito simples. Lentos e cuidadosos por causa da superfície
escorregadia dos troncos, mas sem grandes dificuldades. As escoras
acabavam a uns cinco metros da superfície das águas. Experimentei
várias das traves horizontais, acabando por escolher uma das mais
grossas. Com a pressão do meu pé, rangeu levemente, mas suportou
o peso. O longo madeiro, pregado aos postes verticais, encontravase
a uns dois metros da superfície das águas, perdendo-se na
profundidade do túnel. Aquele conjunto de postes e traves, tal como
o que tinha sido implantado no lado esquerdo do subterrâneo,
constituía um intrincado labirinto de difícil acesso. Os troncos
horizontais tinham sido dispostos com cerca de meio metro de
intervalo, reforçados no interior dos andaimes com dezenas de
estacas entrecruzadas. Tentar avançar pelo centro da estrutura teria
sido extremamente difícil. De modo que, com a minha preocupação
de ganhar tempo, preferi o lado de fora: liso e perpendicular às
águas. Diante desta carcomida e improvisada ponte a cerca de
quatro ou cinco metros dispunha-se paralelamente, como disse, a
estrutura da esquerda.
Fixei o isqueiro entre os dentes e, experimentando passo a
passo, palmo a palmo, a integridade e resistência do tronco a que
me agarrava, fui avançando. A humidade ia aumentando à medida

que penetrava no interior da cisterna. Um bolor escuro envolvia a
maior parte das madeiras, desfazendo-se entre os meus dedos e na
sola das botas. Respirei fundo e olhando para baixo, a mancha
negra das águas e a lembrança das bolhas fizeram-me estremecer.
Se alguma das traves cedesse, a minha situação podia complicar-se.
Afastei tão funestos presságios e, com os cinco sentidos
concentrados em cada centímetro de madeira, reatei a marcha.
Tudo correu relativamente bem até que, a cinco ou seis metros
da borda, ao escolher outro dos postes, os já conhecidos golpes
gelaram-me o sangue. Colei o rosto ao madeiro e, contendo a
respiração, fiquei à escuta. Os ruídos eram agora contínuos,
encadeados, muito próximos. E dei-me conta de como todos os
pêlos do meu corpo se eriçavam ao mesmo tempo. Após uns
segundos de indecisão, abraçado ao poste com todas as minhas
forças, inclinei a cabeça, procurando o charco. A obscuridade não me
facilitou a tarefa. Não conseguia perceber...
De repente, algo bateu na minha bolsa. Foi um impacte seco,
violento. Dobraram-se-me as pernas e como que uma dolorosa
língua de fogo se propagou nas minhas entranhas. Cravei os dedos
na madeira, aterrorizado perante a agressão e, principalmente,
perante a ideia de perder o equilíbrio e cair.
Meu Deus! Alguma coisa se movia nas minhas costas,
arrastando-se e arranhando a bolsa do equipamento fotográfico!
Era pesado e batia-me violentamente nos rins. O pânico
bloqueou-me a garganta. Não podia voltar-me. Ignorava o que se
passava nas minhas costas e, embora o instinto me ordenasse que
soltasse uma das mãos para me defender, a possibilidade de
escorregar e precipitar-me nas águas foi mais decisiva.
Naqueles segundos que me pareceram uma eternidade dei-me
conta de que o animal se colocava por cima da bolsa,
desequilibrando-me. E cego pelo pânico, comecei a agitar-me,
balanceando a aparelhagem fotográfica para a direita e para a
esquerda com histérico desespero. Nos primeiros movimentos, a
coisa deve ter cravado as suas garras no cabedal do estojo,
resistindo, imperturbável, às violentas oscilações. À quinta ou sexta
sacudidela, a bolsa recuperou o seu peso habitual. O animal tinha

saltado, sem dúvida.
Ao diminuir a tensão, senti-me sem forças. Tive de abraçar-me à
trave, tremendo dos pés à cabeça. Os calafrios e o terror fizeram
com que os meus dentes se cravassem no isqueiro, perfurando o
plástico. Fechei os olhos, esforçando-me por controlar a respiração
agitada. Mas as pancadas continuavam à minha volta, quebrando o
silêncio do túnel e das minhas desordenadas tentativas por
recuperar a calma. Sentia-me impotente, incapaz de avançar ou
retroceder.
A minha obsessão em tão dramáticos instantes era de que outro
ou outros bichos pudessem precipitar-se sobre o meu corpo. Os
impactes na água que eu ouvia eram evidentemente provocados por
aqueles seres invisíveis.
Não sei quanto tempo permaneci agarrado à trave, acobardado
e indefeso. Só quando os golpes diminuíram, tornando-se mais
espaçados e distantes, a lucidez voltou de novo ao meu espírito.
Tinha de actuar. Não podia ficar ali, especado sobre os andaimes,
sem saber que fazer e com a permanente ameaça de uma queda
naquelas águas infestadas sabe-se lá de que criaturas.
Bem, primeiro, antes de tomar uma decisão, é iluminar o local.
O medo quem já o tenha experimentado saberá compreenderme
tem estas e outras consequências. Começa-se a falar sozinho.
E eu comecei de facto a dialogar comigo mesmo, com a voz
entrecortada, num fervente desejo de me sentir acompanhado... O
isqueiro! Claro...
Mas o mecanismo não funcionou.
Meu Deus!... Que se passa?
Uma, duas, três tentativas. Era inútil. Abracei-me de novo ao
malcheiroso e húmido madeiro e, às apalpadelas, abri ao máximo a
passagem do gás. As minhas estéreis tentativas de acender o
isqueiro tinham feito recrudescer o ritmo dos golpes e do chapinhar
nas águas.
Vamos, vamos!
À segunda ou terceira tentativa, uma longa e trepidante chama

irrompeu por fim impetuosamente diante dos meus olhos.
E com o pulso trémulo levantei a luz por cima da minha cabeça
até aos barrotes superiores. O túnel iluminou-se. E quando descobri
o que se mexia sobre o madeiramento, os cabelos e toda a minha
pele eriçaram-se-me como agulhas. O pavor e a repugnância
fizeram-me vomitar entre dolorosos espasmos.
Pensei que ia desmaiar. E numa suprema tentativa para não
perder os sentidos, bati com a testa contra um poste...
Jesus Cristo!
* * *
Aquela reacção instintiva salvou-me momentaneamente. Com a
boca seca e amarga, sem poder controlar os tremores que me
sacudiam como um boneco, urinei-me de medo. Nunca tal me tinha
acontecido. Confesso-o.
Com os olhos esbugalhados de espanto aproximei a chama da
trave horizontal que estava situada a um meio metro dos meus
eriçados cabelos, proferindo um dilacerante: Fora!...
O uivo, mais que guincho, e a proximidade do fogo surtiram
efeito: dezenas de ratazanas que pululavam e se amontoavam no
madeiramento da galeria treparam e fugiram em todas as direcções,
atropelando-se e caindo à cisterna.
Eram ratazanas cinzentas. Muitas delas, enormes como gatos,
apresentavam-se gotejantes e com repulsivas pelagens, erectas
como espinhos.
Entre calafrios, fui dirigindo a chama para cima e para baixo,
para a direita e para a esquerda, procurando averiguar o número
das que se retorciam e corriam velozes pelos postes próximos. Era
impossível calculá-lo.
Talvez fossem mais de uma centena.
É curioso. O instinto de conservação prevaleceu e, enquanto
agitava ameaçadoramente o braço esquerdo, uma precipitada
sequência de possíveis soluções desfilou pelo meu cérebro. O mais
sensato era retroceder imediatamente e escapar dali para fora.
Tinha lido em algum lado qualquer coisa sobre tais roedores e sabia

da sua voracidade, inteligência e capacidade destruidora. Também
era verdade que raramente atacam ou se confrontam com um inimigo
superior. Mas como saber se aquela colónia reagiria assim? E se
estivessem famintas?
A louca dispersão dos núcleos mais próximos tranquilizou-me em
parte. Algumas, talvez as mais velhas, foram refugiar-se na confusão
do entrelaçado de paus, desaparecendo no escuro. Outras, em
contrapartida, revolviam-se nervosamente a uma prudente distância
do fogo, agitando as suas caudas peladas no vazio e levantando os
focinhos pontiagudos em atitude duvidosa. As suas unhas e dentes
cintilavam em cada movimento, enchendo-me de pavor.
Várias das ratazanas nunca saberei se as mais audazes se as
mais famintas atreveram-se a atravessar pelo barrote horizontal
mais próximo e paralelo ao que me servia de apoio.
Centímetros antes de chegarem à altura dos meus olhos, detidas
pelos trémulos movimentos da chama que eu sustinha entre os
dedos, davam meia-volta ou apoiavam-se nas patas traseiras,
fixando a atenção na anárquica movimentação do isqueiro. Em
atitude de desafio, como ia dizendo, algumas chegavam a
aventurar-se ao longo da trave, correndo velozes mesmo diante do
meu rosto. Numa das vezes, meio enlouquecido, consegui acertar
com os nós dos dedos na espessa pelagem de um dos bichos e o
fogo pegou-se-lhe. A ratazana revolveu-se e, entre grande chiadeira,
deu uma dentada na parte incendiada. A dor obrigou-a a procurar o
poste mais próximo e, enroscando a cauda ao madeiro, desceu
velozmente até à água da cisterna. O ciciar do fogo em contacto
com a água e uma pequena fumarada puseram ponto final ao lance.
Sem poder reprimir a minha angústia, explodi num novo e
prolongado grito, que provocaria outro afastamento precipitado dos
roedores. Com espantosa agilidade, saltando umas por cima das
outras, muitas das ratazanas, socorrendo-se sempre das suas
caudas, tomaram o caminho do charco, correndo pelos postes abaixo
até mergulharem na água.
Algo reconfortado (?) por este meu pequeno triunfo, deslizei a
mão esquerda pelo barrote vertical e, de cócoras, procurei iluminar o
charco. Por debaixo dos meus pés, no madeiramento, não distingui,

graças a Deus, nenhum dos escorregadios e negros vultos. Em
contrapartida, o fosso parecia um fervedouro. As ratazanas
cinzentas, resistentes nadadoras, dirigiam-se velozmente para a
borda da esquerda.
Meu Deus! Se caísse à água podia considerar-me morto...
Então, obedecendo ao instinto de conservação, comecei a
retroceder, à procura de terra firme.
Hazor é o seu nome...
Nunca consegui perceber Como é que um homem atemorizado
pode dominar a sua natural inclinação para fugir e, em poucos
segundos, enfrentar aquilo que o aterrorizava? Talvez seja esse um
dos maravilhosos paradoxos da condição humana...
O caso é que, mal percorrera alguns metros, a força que sempre
me acompanha ressurgiu em mim. E as frases do criptograma
entrecruzavam-se no meu íntimo com outras não menos fortes
censuras.
..e as suas asas levar-te-ão ao guia.
Não, não posso abandonar...
.. O número secreto das suas penas...
São apenas ratazanas!
.o que há-de preparar o teu caminho.
É preciso lutar!
Maldição! O meu ânimo, contra a minha vontade, começava a
fortalecer-se. As ratazanas, pelo menos até ali, não tinham dado
grandes mostras de agressividade. Talvez pudesse atingir o outro
extremo do subterrâneo. O meu medo, porém, tão forte como o
desejo de chegar ao outro lado oculto da galeria, fez-me hesitar.
Deus do céu! Decide-te! Se ao menos tivesse alguma coisa com
que defender-me...
Não tinha outro remédio senão apagar o isqueiro. A cápsula
mecânica já me queimava os dedos. Mas a simples ideia da
escuridão, rodeado por todo aquele fervilhar de ratazanas, fez-me
estremecer. Lembrei-me do caderno de campo. Sim, podia ser uma

solução. As suas folhas, estreitas e alongadas, poderiam dar uma
folga ao isqueiro.
Arranquei várias das páginas em branco e, retorcendo-as,
improvisei uma espécie de tocha. Estava decidido. Ajustei o
providencial bloco à cintura e, noutro impulso, precipitei-me para o
interior do túnel.
Tinha de agir com rapidez. Aquele frágil archote não duraria
muito. O fogo devorava o papel e eu continuava a ignorar a
profundidade da galeria. Tremendo, agarrado ao barrote horizontal
com a mão esquerda e dividindo os olhares entre a trave sobre que
caminhava, as inquietas ratazanas e a chama, consegui avançar uma
dúzia de passos. Em parte para libertar a tensão e o pânico e
também para afugentar os habitantes do subterrâneo, fui
acompanhando os movimentos com outros tantos sonoros uivos, cujo
eco fez aumentar ainda mais as correrias das ratazanas e os baques
na água.
Aguentei enquanto pude a proximidade do fogo até que, a
escassos milímetros dos dedos, o calor me obrigou a soltar a
improvisada tocha. A escuridão invadiu o local. Intensifiquei os
gritos, enquanto atabalhoadamente preparava um segundo archote.
O aparecimento da luz não apaziguou o frenético bater do meu
coração. O meu peito agitava-se violentamente.
Perscrutei os barrotes próximos. As ratazanas, cada vez mais
perturbadas, tinham deixado de fugir, amontoando-se
convulsivamente e chiando a três ou quatro metros de mim.
Outras recuavam, evitando as traves em que me encontrava.
Gritei com mais força ainda, protegendo o meu corpo com a
chama. Não percebia aquela perigosa contenção e recuo dos
roedores. Por que não fugiam mais lá para o fundo da galeria? A
resposta estava diante de mim. Confuso e apenas atento às
ratazanas, não percebi até quase chocar com ela.
Num dos movimentos do archote julguei vê-la. Sim, agora tinha a
certeza. O brilho amarelado da chama iluminou-a fugazmente.
Mas só quando o pé esquerdo embateu nela, o pressentimento
se tornou realidade... A mais decepcionante das realidades.

Oh, não!
Tacteei, incrédulo. A rugosidade da parede não deixava
dúvidas. Ali mesmo se esvaíram as minhas forças e as minhas
últimas esperanças. O túnel terminava afinal numa parede de
cimento, lisa e nua. Atónito, movi o archote para a direita e para a
esquerda procurando um vão, uma passagem, uma continuação da
galeria. Nada. Os únicos buracos eram os que tinham sido feitos
pelos trabalhadores de Yadin na altura em que perfuraram o
subterrâneo com os barrotes de sustentação.
Umas brechas que as ratazanas se tinham encarregue de alargar,
transformando-as em esconderijos. O crepitar do lume,
chamuscando-me os dedos, chamou-me à realidade. Deixei cair o
que restava da tocha e o silêncio, as trevas e a desolação
abateram-se sobre mim. Por um instante esquecera onde me
encontrava. A sensação era de frustração total.
Que estupidez a minha!
Restava-me apenas regressar, refazer o caminho em sentido
inverso. Mas antes, claro, tinha de ultrapassar aqueles vinte metros,
encavalitado numas traves semiapodrecidas, escorregadias e
infestadas de ratos...
A sensação de inutilidade foi tão profunda que eliminou mesmo
o medo nos primeiros minutos. Maquinalmente, retirei as últimas
folhas do caderno, pegando-lhes fogo. A sorte não estava do meu
lado.
Ao tentar guardar o isqueiro no bolso das calças, ele escapouse-
me entre os dedos húmidos, caindo à água.
Merda!
Foi a gota de água que fez transbordar o copo da minha
indignação. Como iria agora atravessar aquela densa estrutura de
madeira? Sem a protecção do fogo, o bando de roedores podia
abater-se sobre mim... E um suor frio copioso inundou-me as
têmporas. Contemplei a chama oscilante como que hipnotizado.
Apenas tinha luz para um ou dois minutos. Assim, o medo
apoderou-se de mim e sacudiu o meu cérebro exausto.

Ainda restavam folhas no meu caderno de campo. Mas essas -
repletas de anotações eram sagradas. Pensei em sacrificar o
casaco ou a camisa... Felizmente, reparei noutro elemento, de mais
fácil e cómodo manejo. Mudei o archote para a mão esquerda e sem
perda de tempo, lancei mão de um ou dois rolos de película.
Prendi a ponta entre os dentes e retirei-o do bastidor. Ao
segundo toque, o metro e meio de filme saiu, enrolando-se entre as
minhas pernas.
Tinha de actuar com precisão e sem demoras. Avancei até ao
barrote vertical mais próximo e, antes que a débil chama se
apagasse, envolvi a tocha com a película. O Tri-X retorceu- se,
desprendendo um odor penetrante e tóxico.
As ratazanas, desorientadas pela súbita mudança de direcção
do fogo, amontoaram-se nas traves que eu tinha de atravessar.
Hesitei.
Era preciso afastá-las. Avancei mais dois passos sobre a trave
que rangia, afugentando-as com o fogo e os meus gritos.
Algumas fugiram, de facto. Outras, desorientadas e irritadas,
ficaram paradas ou começaram a girar sobre si próprias, como que
enlouquecidas. Temendo o pior, peguei no meu lenço e, lançandolhe
fogo, atirei-o juntamente com os restos do archote para cima
das mais próximas. O pano e as faúlhas caíram sobre as ratazanas,
provocando a debandada geral. O caminho ficou livre.
As línguas de fogo verde-azuladas do filme prosseguiam a sua
lenta e árdua ascensão.
Três, quatro novos passos.
Tirei mais dois rolos e, ao mesmo tempo que varria o madeiro
com o filme em chamas, vigiando os roedores e proporcionando-me
um mínimo de visibilidade, fui puxando e preparando um outro filme.
.. seis, sete passos mais.
Parei. Faltava-me o ar. Prendi a película seguinte e, quando me
preparava para percorrer o lanço final, o poste rangeu sob os meus
pés, cedendo e inclinando-se. Foi quase instantâneo. A película
escapou-se-me de entre os dedos, mergulhando na cisterna com um

pedaço da trave.
Instintivamente, ao dar-me conta do desabamento do madeiro,
agarrei-me ao poste superior.
Jesus Cristo! Não consegui articular nem mais uma palavra. O
terror pôs-me um nó na garganta. Pendurado e balanceando-me,
esforcei-me por alcançar a trave salvadora.
Outro sinistro estalido perturbou-me ainda mais. Com medo de
que a trave quebrasse, optei por avançar, valendo-me das mãos e
do impulso do corpo no vazio. O poste mais próximo não se
encontrava muito distante. Se conseguisse alcançá-lo, supondo que
os restantes barrotes horizontais não tivessem sofrido a mesma
sorte que o anterior, poderia apoiar de novo os meus pés e
descansar o pulso. Gemendo, resfolegando e rezando para que o
poste húmido não viesse abaixo, fui avançando palmo a palmo pelo
madeiro, com os dedos crispados e sujos do bolor.
Meu Deus, ajudai-me!
Num dos movimentos de vaivém, os meus pés tropeçaram no tão
almejado poste.
Aí está!... Um pouco mais!
As forças começavam a faltar. Mas tinha de lá chegar.
Suspendi a respiração e, cerrando os dentes, avancei mais um
palmo.
Inesperadamente, porém, os meus dedos pisaram uma robusta e
fria pata. Fiquei para morrer. Desprendi a mão direita e, numa
reacção instintiva, adiantando-me a um possível ataque, retesei os
músculos, içando-me a pulso até tocar a base inferior da trave com o
crânio. Não sei onde fui buscar as forças e a coragem. E entre
convulsões urrando de raiva e de pânico, bati às cegas com o punho
cerrado. Um dos murros atingiu em cheio a ratazana, projectando-a
no vazio. Só tive tempo para me agarrar à trave, que oscilou
perigosamente, suportando o peso.
O vulto escuro caiu como um pedaço de chumbo, indo estatelarse
contra a minha bota esquerda, e, ágil e precisa, cravou as unhas
no couro da bolsa do material, equilibrando- se sobre o ventre.

Oh, não!
Fiz enorme alarido, pateando na escuridão. Mas a ratazana do
tamanho do meu pé, resistiu a todas as investidas. Se aquele bicho
se lembrasse de trepar pelas calças não tinha outro remédio senão
soltar-me do barrote...
Um frio cortante subiu-me pela coluna vertebral. E notei que a
perna esquerda, esgotada, ia ficando sem forças. A minha mente
recusou-se a pensar. Em alguns segundos tinha-me transformado
num louco selvagem e irracional, dominado pelo pavor. Agitei-me
convulsivamente, cuspi e dei um pontapé na ratazana com a bota
direita, ao mesmo tempo que enchia o túnel com uma catadupa de
gritos e imprecações. Meio esmagado, o bicho cedeu, finalmente,
caindo à água. Tomado de um irresistível desespero quase voei até
ao poste. De gatas, sem tomar qualquer precaução, gemendo e
ululando, deslizei pela trave horizontal, sem o menor sentido de
orientação e sem saber para onde me dirigia.
Segundos depois chocava violentamente com outro poste. Só me
lembro de, com o choque, ter perdido o equilíbrio. E a temida
imagem do charco acompanhou-me na queda.
Pode parecer pueril. A verdade é que sempre acreditei na
proximidade do anjo-da-guarda. E naquela ocasião, com mais
fundamento.
Foi o frio que me espevitou. Ao recuperar do choque vi-me de
bruços, com o rosto meio enterrado no lodo.
Tentei erguer-me, mas a correia da bolsa e uma aguda dor na
fronte retiveram-me na mesma posição.
Que tinha acontecido?
Onde estava eu?
Movi as pernas e apanhei um susto. Parte do meu corpo estava
submerso no charco.
Oh meu Deus!
Agora percebia. Recordei a cena da ratazana, a louca corrida
sobre a trave e o golpe final. A Providência, no momento crítico,
permitira que eu caísse na borda do charco, junto aos degraus de

basalto.
Arrastei-me para fora da água e, aos tropeções, passei para o
outro lado do tapume. Estava todo molhado, sujo de lama e, o que
era pior, completamente abatido. Caminhei como um autómato,
subindo de novo o declive do subterrâneo sem parar até que, no
fundo do túnel, a morna luz do dia me banhou dos pés à cabeça.
Libertei-me do equipamento fotográfico, contemplando
desoladamente as minhas roupas. A cabeça continuava a doer-me,
se bem que não fosse o que mais me preocupava de momento.
Encostei-me contra a parede e fechei os olhos, deixando que o sol
retemperasse os meus nervos. Pouco faltou para que começasse a
chorar. Tinha sido tudo inútil. Tinha arriscado a vida... para nada.
Ali, naquele inferno, só tinha descoberto uma vez mais a
minha rematada estupidez e uma ilimitada capacidade de medo...
O enigma, o Major e o Destino acabavam de zombar de mim.
Descoroçoado, sem ter sequer coragem para inspeccionar as
máquinas fotográficas, iniciei uma lenta ascensão por aqueles
malditos e inesquecíveis cento e cinquenta degraus. Nunca mais
voltaria a Hazor. Nunca mais...
Mas a tormentosa jornada ainda não tinha acabado.
Nas ruínas reinava a paz. Uma calma que eu naturalmente
perdera. Aspirei com sofreguidão a fresca brisa que descia do
Hérmon e, junto dos cartazes que anunciavam o túnel, levantei os
olhos para o céu azul, agradecendo o facto de, depois de todas
aquelas vicissitudes, o bom Deus e os seus intermediários se terem
mostrado misericordiosos para comigo.
A prece não durou muito. Os números do relógio marcando as
treze horas e trinta minutos lembravam-me que devia regressar.
Tinha perdido a noção e a medida do tempo. Ao longe, no vértice
do triângulo arqueológico, um grupo de estudantes, alvoroçados e
tagarelas, visitava a cidadela.
Estremeci perante a possibilidade de as crianças penetrarem na
galeria e cometerem a travessura de saltar o tapume de madeira. E
inevitavelmente, ao ver aqueles rapazes, o meu pensamento voou
para junto dos meus filhos.

O Mercedes estava fechado e sem ninguém. Soliman, talvez
aborrecido com aquela espera de quatro horas e meia, tinha
desaparecido. Mais sereno, aproveitei para pôr as minhas coisas
em ordem. Descalcei-me, examinando a bota esquerda com
repugnância. A bolsa estava de facto perfurada em vários pontos.
Procurei esquecer o que acontecera. Tentei enxugar a metade
inferior das calças, mas, com elas vestidas, não podia torcê-las. O
resto do equipamento, à excepção do caderno de campo, não
parecia ter sofrido demasiado. Coloquei as botas e as meias no
tejadilho do veículo e, encostado a uma parede, sentei-me no chão
quente de Hazor. O hematoma da testa começava a tornar-se visível
pelo inchaço. Olhei-me de cima a baixo e o velho sentimento de
frustração veio misturar-se ao nojo. É que eu cheirava mesmo mal.
Sem querer, voltado para o sol, caí na tentação de analisar e
avaliar o que tinha feito e investigado até então.
O enigma continuava por decifrar, distante e selado. Não tinha
adiantado um único passo. Pelo contrário. Tudo estava consumado,
perdido. Não me sentia com forças para prosseguir.
E para quê? Hazor era um fracasso. Sinceramente, aqueles foram
os minutos mais decepcionantes de toda a minha aventura em
Israel.
Estava decidido. Regressaria a Jerusalém e, sem mais demoras,
apanharia o primeiro avião para Espanha. Dava-me por vencido.
Mas o Destino tinha, é claro, outros planos.
- Homem de Deus! Onde se tinha metido?
A grossa voz do guia, vinda de trás, foi providencial para me
arrancar, ainda que só por instantes, a tão negros pensamentos.
Quando me voltei para ele, Soliman fez um esgar de espanto.
- O que é que lhe aconteceu?
Levantei-me, tentando em vão dissimular o meu lamentável
aspecto.
Boquiaberto, olhou-me com toda a atenção, e mudo de surpresa,
apontou para os meus pés descalços, interrogando-me com o olhar.
Encolhi os ombros e, sem grande entusiasmo nem demasiados

pormenores, insinuei que sofrera um estúpido acidente no fundo da
galeria.
O rosto do nazareno abriu-se num sorriso de cumplicidade. Os
seus olhinhos brilharam. Não compreendi. Fazendo-me um gesto com
a mão convidou-me a regressar ao automóvel. Calcei-me em silêncio
e, uma vez dentro do carro, o perspicaz árabe estendeu-me umas
tangerinas, que devorei.
Soliman esperou uns segundos. Observou-me sem qualquer
rebuço e, quando o julgou conveniente, perguntou-me em tom
conciliador:
- Afinal o que é que o senhor procura, realmente?
O meu olhar esquivo e o embaraçoso silêncio que se seguiu
denunciaram-me.
- Talvez eu possa ajudá-lo... - acrescentou com habilidade.
Sorri interiormente. Como poderia fazê-lo?
- Já outros, antes do senhor, o tentaram voltou ele à carga.
Desta vez olhei-o de frente.
- Outros?... Quando?
Tinha caído na armadilha. Soliman, satisfeito, recostou-se no
assento, respondendo com outro interminável sorriso.
- Mas de que é que está a falar? - repliquei num desajeitado e
tardio esforço por corrigir o meu erro.
Tirou a mão esquerda do volante e, apontando as ruínas com o
indicador, sentenciou:
- A lenda fala de um tesouro oculto nas entranhas de Hazor.
Aquilo era novo para mim. Incitei-o a prosseguir.
- Na época helenística, o fortim foi reconstruído e a sua
guarnição testemunhou a batalha de Jónatas contra Demétrio II.
Pois bem, os sobreviventes, ao que parece, enterraram os
despojos algures na meseta...
Com uma sonora gargalhada cortei as suas explicações. Não
consegui evitá-lo. Pedi desculpa e, negando com a cabeça, fiz-lhe

ver que desconhecia o assunto e que não era de modo nenhum um
tesouro o que eu perseguia.
Pelo menos, um tesouro daquela natureza...
- Então?...
Suspirei, desalentado. Lancei-lhe um breve e inquiridor olhar e,
após uns segundos de reflexão, aceitei o desafio.
Que podia eu perder?
- Tem razão, Soliman. Procuro alguma coisa...
Atento, assentiu com a cabeça.
- Procuro uma coisa que não soube descobrir. Algo que
pertenceu ou pertence a Hazor... Algo que tem asas...
O homem emudeceu. Por um momento pensei que me tomasse
por um louco.
- Asas, diz o senhor?
Sem esperar resposta, concentrou-se em novas reflexões.
Tive um sobressalto. Porque se mantinha ele em silêncio?
Haveria de facto alguma coisa? Era incrível. Em fracções de segundo,
uma chispa de esperança voltava a colocar-me em estado de
tensão, afastando o meu ainda escaldante fracasso.
Esperei, ansioso. Mas o árabe nem pestanejou. Peguei na
carteira e, antes de ele abrir a boca, mostrei-lhe uma nota de cem
dólares.
- Se me ajudar a encontrá-lo disse-lhe com veemência -, se me
ajudar a encontrar um ídolo, uma pintura, uma pedra... não sei...,
algo que tenha umas asas, isto será para si.
Girou lentamente a cabeça. Examinou o dinheiro com avidez e,
saltando do carro, gaguejou:
-Não saia daqui!... Espere um pouco!
Atónito, vi-o correr e desaparecer em direcção ao posto de
controlo. Saí do automóvel e pouco faltou para correr atrás dele. Têlo-
ia ofendido? Porquê aquela violenta reacção? Comecei a tremer. A
espera prolongar-se-ia por uma irritante e interminável hora.

Durante esse tempo tive oportunidade de engendrar toda a espécie
de hipóteses. No entanto, o mais curioso é que o meu aparente
firme propósito de abandonar a empresa se tivesse dissipado num
abrir e fechar de olhos.
Nunca consegui entender as minhas loucas contradições...
Soliman apareceu por fim pela íngreme rampa de acesso às
ruínas. Vinha a correr, cheio de suor, ofegante e, cheio de
satisfação, entrou para o Mercedes. Imitei-o e ele, sem dizer
palavra, arrancou, dirigindo-se para a zona de saída. Vi-o tão
ensimesmado que não tive coragem para o interrogar. Ansiava por
fazê-lo, mas o seu mutismo inibiu-me.
Conduzia velozmente, com gestos nervosos. Passámos diante da
guarita de controlo como um turbilhão envolvendo o guarda numa
branca nuvem de pó. O motorista, com ar de indiferença, desviou o
olhar para o espelho retrovisor, esboçando um sorriso malicioso. Ao
voltar-me distingui a irada figura do funcionário, que agitava os
braços no meio de toda aquela poeirada.
Minutos depois, Soliman deixava a estrada principal,
estacionando diante de um moderno e funcional edifício de um só
piso, à distância de pouco mais de um quilómetro do tell.
- E então?
Como única resposta, o hermético guia levantou as mãos em
direcção ao edifício, exclamando:
- O museu de Hazor.
Santo Deus! Tinha-o esquecido. Desta vez fui eu quem correu até
às portas envidraçadas, deixando-o para trás. Como é que não tinha
pensado nisso muito antes? Ali me esperava, certamente, a solução
do criptograma.
Hazor é o seu nome...
Tremendo de ansiedade irrompi pelo recinto. Ao ver-me, o
porteiro, um homem já encanecido, sorriu. Estava obviamente a par
dos manejos de Soliman, porquanto ao passar o obrigatório bilhete
de entrada, fez um sinal para o Mercedes, acentuando o seu largo
sorriso e franqueando-me a passagem.

- Compreendo correspondi-lhe eu. - Obrigado...
Lancei uma aturdida olhadela à minha volta. O recinto baixo,
que faz as vezes de vestíbulo e recepção, apenas continha uma
dúzia de peças e várias fotografias aéreas das escavações.
Tem calma!, ordenei a mim próprio com severidade. Muita calma!
O exame tinha de ser minucioso. Deambulei em torno das tinas
e restos de cerâmica, mas nada vi de particularmente significativo.
..e as suas asas levar-te-ão ao guia.
Concentrado na pesquisa, só ao fim de alguns minutos reparei
no anómalo daquela situação. O guia, incompreensivelmente, não
tinha saído sequer do carro.
Observei-o através das grandes janelas. Não parecia ter
intenção de sair do veículo. Era muito estranho. Será que toda a sua
descoberta consistia em trazer-me ao museu? Não, não era lógico.
Poderia ter evitado tais correrias, conduzindo-me simples e
directamente ao local. Por outro lado? Se sabia de facto alguma
coisa, porquê todo aquele mutismo? Ou não estaria interessado na
substancial gorjeta? Estive tentado a ir ter com ele e interrogá-lo. A
verdade é que, com toda aquela pressa e a excitação do momento,
não lhe tinha dado oportunidade para se explicar. Contudo
pensei, aborrecido o normal é que ele me tivesse acompanhado
até ao edifício.
A curiosidade impôs-se e, esquecendo o incidente, dirigi-me
para a escadaria que conduz à parte superior, ao museu
propriamente dito. Pouco depois lamentaria este novo erro.
O único e espaçoso salão estava deserto. Imóvel, junto à
escada, com o pulso acelerado, pretendi abarcar tudo num segundo.
Calma!, disse para comigo mais uma vez, ao mesmo tempo que o
senso comum insistia com devoradora curiosidade.
.. O número secreto das suas penas é o número secreto do
guia.
Pressentia que a chave do enigma estava ao meu alcance.
Quase podia farejá-la... Ou seria apenas a minha ansiedade?
Carecia ainda de informação a respeito da natureza do mensageiro

Hazor, mas alguma coisa no meu íntimo me dizia que mal o visse o
reconheceria. Foi assim que, em bicos de pés, fui examinando as
vitrinas. Cerâmicas avermelhadas de diferentes períodos, pontas de
flecha... Nada daquilo continha a mensagem de que eu necessitava.
Fui dando a volta pela sala, desinteressando-me dos inúmeros
cântaros, escudelas, teares, mesas de libações de basalto e das
pesadas rodas de moinho, utilizadas na antiguidade para esmagar
os cereais.
Ao chegar a um grupo de estátuas, também de basalto, contive
a respiração.
Examinei uns negros leões deitados, esculpidos em pesados
blocos prismáticos, todos eles como todo o recheio do museu -
extraídos das escavações de Hazor. A forma da juba tinha uma certa
semelhança com a de um corpo emplumado. Mas as figuras não
tinham asas. Via-se logo que aquilo não eram asas. Apesar disso,
levado pela minha obsessão, entretive-me a contar as que
adornavam uma das monumentais cabeças. O número obtido 205
não me serviu de muito. Recuei um par de metros, procurando uma
leitura secreta na disposição do conjunto.
Tive de render-me, mas a minha coragem não esmoreceu. Devia
ser paciente.
Consultei as minhas notas.
«Vê, ENVIO O MEU MENSAGEIRO DIANTE DE TI, MARCOS 1.2.»
Apesar de saber o criptograma de cor, apesar de tê-lo
desmontado e decomposto durante centenas de horas, fiz uma nova
tentativa. A palavra vê sempre a partir do hipotético ponto de
vista do autor podia conter um significado puramente literal: olhar
ou fixar deliberadamente a vista num objecto. Claro que, segundo
outra acepção, também queria dizer reflectir num assunto antes de
tomar uma resolução. Qualquer delas era válida. Estaria o Major a
insinuar que eu devia concentrar os meus cinco sentidos numa coisa
chamada Hazor ou oriunda de Hazor? Ou, pelo contrário, tratava-se
de uma advertência ou de um convite à reflexão?
O instinto não hesitou, inclinando-se para a primeira hipótese.
Hazor tinha de ser qualquer coisa; e coisa sólida, visível, susceptível

de ser medido e contemplado.
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia MARcos 6.2.0.
Asas? Aí estava o problema. Se aceitasse o termo no seu
sentido natural, o lógico era pensar num ser alado. Mas em qual?
Num animal? Num deus? Num homem ou numa mulher? Num símbolo?
Se, pelo contrário, me ativesse ao segundo significado - fila,
fileira" -, o dilema complicava-se. As ruínas não apresentavam uma
especial simetria, não fui capaz de descobrir uma única fileira de
pedras, colunas ou caminhos que apontasse ou me levasse ao guia.
Além disso se o Major tivesse concebido o vocábulo asas como filas,
que significado tinham as penas no resto do enigma?
Fechei o caderno de campo e, persuadido de que o mensageiro,
era outra coisa quem sabe se uma pintura, uma moeda ou uma
estatueta -, retomei as pesquisas.
Não era necessária demasiada agilidade mental para deduzir
que o que se exibe no museu de Hazor é apenas uma mínima parte
do realmente descoberto e recuperado no tell. Na documentação
consultada em Jerusalém aparecia uma legião de objectos que não
figurava naquele modesto museu do Norte da Galileia. Esta
realidade foi moderando o meu entusiasmo. Apesar disso, detiveme
diante de cada um dos utensílios e peças, dissecando-os
milímetro a milímetro. Onde demorei mais tempo foi talvez diante
de uma tabuinha rectangular milenária, de pedra, na qual tinha sido
feita uma série de incisões horizontais e verticais. Tratava-se de um
jogo, conforme rezava a legenda. Uma espécie de raiazinhaz
rudimentar, com um total de 21 quadradinhos em três fileiras: uma
central com dez, e duas laterais com cinco cada uma. A fila da
direita apresentava um sexto quadrado, inserido a meia altura. Em
quatro desses quadradinhos, o artífice gravara grandes X.
Somei, diminuí e multipliquei as cruzes daquela charada, até
que, aborrecido, convenci-me de que também não era ali que
encontraria uma clara relação com o criptograma. Numa primeira
tentativa, ao descobrir que as séries de quadrados somavam vinte e
um, alvorocei-me. Lembrei-me do ritual do cemitério de Arlington,
mas as coisas ficaram por aí. Pura coincidência? Subestimei
igualmente um grande búzio seccionado no vértice, perfurado em

dois ou três pontos, e que constituía um velho instrumento musical:
o conhecido shofar da Bíblia. Os delicados escaravelhos sagrados
de marfim e osso repletos de inscrições egípcias também nada
adiantaram à minha investigação.
Quanto às estatuetas de bronze, armas, colares e outros
objectos de adorno, nem um único correspondia
às características assinaladas no enigma: nem asas, nem penas,
nem números secretos, nem a mais remota pista ou indício.
*1 Neste caso, o duplo sentido a que o autor se refere só ocorre no castelhano,
com a palavra ala. (N. Do T.)
*2 Em castelhano rayuela, um popular jogo infantil. (N. Do T.)
Sentia-me totalmente derrotado.
Ao regressar ao vestíbulo, a amargura e a decepção que me
dominavam rapidamente deram lugar à indignação. É que Soliman
conversava com o porteiro com ar cúmplice. Senti-me enganado.
Avancei com ar de poucos amigos para o guia, decidido a
descompô-lo. O árabe, alertado pelo seu companheiro, deu meia
volta e, ao descobrir a minha irritação, foi perdendo o sorriso. Mas
nem me deixou falar. Recuperou de imediato o seu bom humor e,
erguendo as mãos em sinal de paz, adiantou-se:
- Não me diga nada. O senhor sofre do problema da juventude...
Olhei para ele, desconcertado.
- Amigo, o senhor é demasiado impulsivo. O senhor não
encontrou o que procura porque não confia em Soliman.
E, tomando-me pelo braço, conduziu-me para fora do museu.
- Venha comigo foi o seu único e seco comentário.
Não retorqui. Abriu a porta do carro e convidou-me a sentar-me a
seu lado. Era espantoso. Da amargura, decepção e enfado eu tinha
saltado, em poucos minutos para a surpresa e a expectativa. Aquele
indivíduo sabia alguma coisa. E eu, como um néscio, tinha voltado a
malbaratar um tempo precioso.
Acabava de aprender algo de muito importante: é preciso saber

não abrir a boca e escutar.
Sem perder o sorriso, pegou numa escura e sebenta carteira
tirando de lá algo que, à primeira vista, parecia um postal ilustrado.
Os nervos atraiçoaram-me. Estendi o braço para tomá-lo, mas ele,
com ar divertido, disse que não com a cabeça, tornando a guardá-lo.
Acto contínuo aproximou a mão direita do meu rosto, agitando os
dedos indicativo e polegar, sinal inequívoco de que exigia que lhe
desse primeiro o dinheiro. Entreguei-lhe os cem dólares americanos
e, continuando com aquele mudo mas eloquente diálogo,
apresentei-lhe a palma da minha mão direita, reclamando o
misterioso postal. Soliman congelou o sorriso, repetindo o
internacional e conhecido gesto que simboliza o dinheiro.
Aquilo era de mais. Recordei-lhe o combinado. Tentei persuadilo
de que ao menos me mostrasse primeiro o que tinha na carteira,
mas o astuto árabe não mordeu o anzol.
Indiferente aos meus pedidos, sugestões e argumentos,
continuou silencioso no seu petrificado sorriso sacudindo
incansavelmente os dedos, numa irredutível exigência de mais
dólares. Acabei por ceder, claro. Era o preço da minha
inconsequente desconfiança anterior. O guia não perdoava e agora,
seguro de si, ali me tinha preso.
Não é que eu tenha um especial fraco pelo dinheiro, mas ao ver
voar uma segunda nota de cem dólares pressenti que as minhas
modestas finanças acabavam de sofrer um duro revés.
Bem, consolei-me, resta-me ainda o recurso aos cartões de
crédito... A minha estada em Israel podia ser longa e os gastos
nestas investigações e peripécias são sempre vultosos.
Mas a minha confiança na Divina Providência e, repito, nos
seus intermediários é quase suicida. Por isso, como disse, acedi
às suas exigências.
- Bom menino! - exclamou por fim Soliman.
Abriu de novo a carteira e, satisfeito, entregou-me o que de
facto mais não era que um reluzente e recém-comprado bilhete
postal ilustrado de uns vinte ou trinta centavos de dólar... Fez
estalar a segunda nota e, desconfiado, ergueu-a até à altura do

pára-brisas, para comprovar a sua autenticidade.
Olhou-me curioso e satisfeito, estudando as minhas reacções.
No postal estavam reproduzidas as duas faces de uma
antiquíssima moeda: um stater de prata, cunhado provavelmente na
cidade fenícia de Tiro durante o período persa, ou seja, no século iv
a. C.
O meu pulso começou a bater mais forte. Afinal, dei por bem
empregues os duzentos dólares.
- Santo Deus! - exclamei, em alvoroço.
- Era isso que procurava? - perguntou-me ele, feliz.
Não soube nem pude responder-lhe. A emoção bloqueava-me.
Aquilo, sim, poderia constituir uma pista. Uma valiosa pista...
Soliman esperava que eu o bombardeasse com perguntas.
Onde, como, quando tinha ele localizado aquelas imagens?
Embora essas e outras perguntas aflorassem ao meu espírito,
limitei-me a devorar com os olhos e em silêncio as faces da velha e
deteriorada moeda. Especialmente a que estava situada à esquerda
do postal. E os minutos voaram. Finalmente, cortês mas firme, o meu
acompanhante interrompeu as minhas divagações. Estava já a
entardecer e, cheio de razão, perguntou-me quais eram as minhas
intenções.
- Sim, claro... - murmurei por fim. - Um momento, por favor.
Voltei ao museu e, de postal na mão, pedi ao funcionário que
me mostrasse todos os postais, folhetos e demais documentos à
venda. Não tinha grande coisa. Além do postal ilustrado que eu já
tinha ali mesmo adquirido pelo árabe pouco antes -, o resto do
material não correspondia aos meus anseios. Consequentemente,
aquele era o único testemunho alado existente no tell de Hazor.
Pretendia, tinha necessidade de um máximo de segurança antes de
reatar as investigações.
Enquanto saía ao encontro do Mercedes e de Soliman -
certamente devido ao cansaço acumulado tomei a decisão de dar
por terminada a nossa visita a Hazor. O meu corpo e o meu espírito
reclamavam um pouco de sossego e um banho retemperador.

Depois, no silêncio do meu aposento no hotel, logo se veria.
O guia recebeu com satisfação a ordem de regressar a Nazaré.
Na realidade, pouco ou nada ficava por perguntar a respeito
daquele oportuno postal. Não fazia sentido pô-lo ao corrente do
meu objectivo final. De modo que, salvo alguns poucos, esporádicos
e irrelevantes comentários, remeti-me a um mutismo total. Soliman,
respeitoso, não insistiu na história do tesouro nem nas tramóias
que, evidentemente, supunha que eu tivesse entre mãos.
Despedimo-nos já noite dentro. O bom homem, que parecia terme
ganho amizade, desfez-se em sábios conselhos, oferecendo-me
a hospitalidade do seu lar e obrigando-me a prometer-lhe que o
chamaria e contrataria para futuras incursões na Galileia. O cansaço
acabou por vencer-me. As emoções, sustos e esbanjamentos de
energias daquela jornada ditaram as suas leis e, à volta da uma da
madrugada, contra a minha vontade, tive de interromper a análise
da moeda. Em sonhos, como acontece com frequência, a minha
mente continuou a trabalhar e a pesquisar, à procura de uma
interpretação.
Foi outra noite de pesadelos, em que se entrecruzaram a
longínqua voz do Major ditando-me o criptograma -, os
angustiosos ataques de centenas de ratazanas em gigantesco
mocho, planando em silêncio sobre as ruínas de Hazor.
Ao alvorecer acordei sobressaltado e com o corpo moído de
cansaço.
Precisei de algum tempo para me lembrar onde estava. Não era
a primeira vez que tal me acontecia. Em outras pesquisas fruto das
tensões ou da poderosa dinâmica das mesmas -, ao despertar na
obscuridade de um aposento, a minha consciência, confusa, reclama
e leva de facto alguns segundos até conseguir situar-se no lugar
exacto.
Coloquei o postal ilustrado junto do espelho e, enquanto me
barbeava, fiz o balanço do que conseguira assimilar e descobrir no
dia anterior. A verdade é que não podia sentir- me satisfeito. A face
da moeda situada à esquerda apresentava um mocho, com o corpo
quase de perfil e a cabeça de caras com o observador. Tratava-se
provavelmente de um mocho real ou grão-duque, com uma longa

cauda e os característicos penachos nas respectivas aberturas
auriculares. Por detrás da nocturna ave de rapina via-se uma
espécie de báculo do qual pendia um apêndice triangular. Tratavase,
quase de certeza ,de um enxota-moscas.
A efígie da direita, bastante mais deteriorada, parecia
corresponder a uma divindade mitológica: uma espécie de tritão ou
deus das águas cavalgando um cavalo com cauda de peixe. O herói,
guerreiro ou divindade estava na atitude de disparar um arco. Por
debaixo do cavalo-peixe via-se a superfície da água e, no extremo
inferior da moeda, um delfim, orientado na mesma direcção do
grupo superior.
Logicamente, desde o momento em que deparei com a
reprodução do stater de prata, a minha atenção centrou-se no
mocho. Como já referi, era o único indício, relacionado com Hazor,
que apresentava asas e penas, ou melhor, uma única asa. Com
efeito, de perfil como estava, a ave apresentava apenas a asa
direita. Esta circunstância confundiu-me porquanto o enigma falava
de asas, no plural. Para cúmulo da infelicidade, esta única e
solitária asa encontrava-se muito desgastada,
apresentando-se como um todo uniforme e monocolor, sem o
menor vestígio de penas. Apesar disso examinei o resto do corpo
que, esse sim, apresentava uma nítida e abundante plumagem. A
soma final das penas aquelas que tinham resistido ao passar dos
séculos voltou a surpreender-me. Eram exactamente trinta e três,
ou seja, somando ambos os dígitos, seis. De novo aquele
enigmático seis...
Por ali se ficavam os meus achados. Mas não me dava por
vencido. Sem a necessária documentação e sem a imprescindível
assistência dos peritos em numismática, em mitologia persa,
fenícia, egípcia e assirobabilónica, era inútil tirar conclusões. O que
é que aqueles símbolos podiam representar? E, muito
especialmente, que secreta interpretação teria a imagem do mocho
real e do enxota-moscas egípcio? Ou não se trataria de um enxotamoscas?
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia.
Não devo esconder que esta frase do criptograma me fez

desconfiar, de tão precisa que era. E se não fosse o stater de Tiro o
mensageiro anunciado pelo Major? Como é que uma só asa poderia
conduzir-me ao guia?
O caos implantava-se de novo por momentos. Tinha de reflectir e
agir com sagacidade. Para começar, além de reunir um máximo de
informação sobre a moeda, a localização da mesma era vital. Onde
teria sido depositada? Convinha estudá-la e estudar o seu contexto
e situação actual com todo o rigor.
Quem sabe se a localização ou o proprietário da milenar peça
não poderiam lançar mais luz que as próprias imagens cunhadas nas
suas faces?
Certamente que nem no tell de Hazor nem em Nazaré teria
grandes possibilidades de deslindar no novo mistério. A maior parte
dos tesouros arqueológicos descobertos em solo israelita
encontram-se nos magníficos museus de Jerusalém, Nova Iorque,
Paris e Londres. E o planalto de Hazor não constitui uma excepção.
Tinha de regressar a Jerusalém e recomeçar praticamente do zero.
Não hesitei mais. Nessa mesma manhã, navegando entre a
esperança e o desalento, paguei a conta, para logo a seguir
abandonar o hotel e a cidade de Nazaré. Desta vez decidi-me pelo
serviço de autocarros interurbanos. As minhas finanças não teriam
resistido ao custo de um táxi ou de um carro de aluguer.
Ao meio-dia daquela terça-feira empurrava eu a porta giratória
do número trinta e nove da Rua Keren Hayesod em Jerusalém. Como
sempre, o vestíbulo do Hotel Moriah era um movimentado ponto de
encontro de turistas dos confins mais remotos. E, mais uma vez, ao
cruzar com aquela barulhenta e eufórica turba de alemães,
japoneses, italianos e norte-americanos, senti-me só e estranho.
Quão diversos eram os meus objectivos dos de toda aquela gente!
David, o único recepcionista capaz de articular algumas frases
em espanhol, entregou-me as mensagens que me aguardavam,
interessando-se, curioso e solícito, pelo inchaço que eu ainda exibia
na testa. Agradeci a atitude, não dando importância ao caso.
Quanto às chamadas telefónicas, todas elas vinham do Instituto de
Relações Culturais. As peripécias em Hazor tinham varrido da minha
lembrança as obrigações contraídas com o citado organismo oficial

judaico. A situação assim criada incomodou-me. Procurei uma
desculpa que justificasse o meu silêncio, mas não era fácil. Que
podia eu argumentar? Como explicar verosimilmente o hematoma da
minha fronte? Aquele estrito e asfixiante controlo começava a irritarme.
Por isso, fazendo ouvidos de mercador daquelas mensagens,
concentrei-me na leitura de um dos guias turísticos de Jerusalém. O
mais razoável seria iniciar as minhas novas investigações pelos mais
importantes museus da cidade. Como segunda opção tinha os
peritos em numismática e, por último, os diferentes departamentos
de Arqueologia e Antiguidades da Universidade Hebraica e do
Serviço de Conservação do Património Histórico do Governo de
Israel. Tarefa árdua e trabalhosa, sem dúvida, que, no entanto, não
me atemorizou.
Estava disposto a remover céus e terra para encontrar o stater.
Curiosamente, a minha busca terminaria muito antes do previsto...
Não sei muito bem por que é que, entre tantos museus, fui
escolher o Rockefeller. Talvez por o dia já ir declinando e pela sua
relativa proximidade do hotel em que me hospedava.
Em Jerusalém, quase todas as instituições deste tipo fecham as
suas portas entre as cinco e as seis da tarde. Dispunha portanto de
umas três horas. Por outro lado, na extensa lista de cientistas com
quem tinha começado a encontrar-me figurava um, Joe Zias, do
departamento de Antiguidades do referido Museu Rockefeller, que,
seguramente, me poderia orientar.
Suponho que foi tudo isto que me levou a marcar, sem mais
delongas, o número 278624. Tive a sorte do meu lado. Zias
encontrava-se efectivamente no museu e receber-me-ia. Alguns
minutos depois o táxi deixava-me no fim da Rua Suleiman, em frente
das muralhas do vértice norte da Cidade Velha. Fiquei absorto
durante alguns segundos a desfrutar o branco azulado daqueles
muros. Era imperdoável. Desde que chegara à Cidade Santa ainda
não concedera a mim próprio um minuto de lazer.
Encolhi os ombros e, após um minucioso registo do meu
equipamento fotográfico, o guarda do museu ficou-me com a bolsa.
As medidas de segurança, tanto no exterior como no interior do

palacete que serve de sede ao museu, eram plenamente
justificadas. Os tesouros ali depositados são de facto excepcionais.
Zias ouviu-me com curiosidade, examinando as figuras do postal
ilustrado. Nem pestanejou.
Observou-me atentamente e, desconfiado, perguntou sem
rodeios:
- Por que é que lhe interessa uma peça tão antiga?
- É uma longa história improvisei. - Faço investigação sobre o
mundo mágico e iniciático das velhas civilizações semíticas, e este
mocho é, sem dúvida, uma peça-chave.
Pretendo localizar a moeda e reunir o máximo de informação em
torno da sua origem e possível significado.
O cientista humedeceu os lábios com a ponta da língua e, não
muito convencido, deixou a atafulhada mesa de trabalho e
pesquisou numa das estantes. Deu uma olhadela ao índice de um
grosso livro e, depois de localizar o capítulo desejado, abriu-o,
voltando ao seu local de trabalho com a mesma discrição.
Lancei um furtivo olhar sobre as páginas que retinham a sua
atenção. Entre as quatro ilustrações distingui duas que reproduziam
moedas, mas não me atrevi a mover-me. O meu coração começou a
bater mais forte.
Zias, imperturbável, continuou a sua atenta leitura, recuando
duas ou três folhas. A tensão acumulada começava a incomodar-me.
Que teria ele encontrado?
Finalmente, voltando ao ponto de partida, estendeu-me o
pesado livro, convidando-me a examiná-lo. Tratava-se de um volume
sobre mitologia geral, de F. Guirand, aberto nas páginas cento e
seis e cento e sete. Naquele capítulo fazia- se uma exaustiva
descrição dos deuses e heróis mitológicos fenícios. E na citada
página cento e seis podiam ver-se, de facto, duas gravuras a preto
e branco com antiquíssimas moedas de Arvad, Biblos e Tiro. Uma
das peças na ilustração situada no canto superior esquerdo
deixou-me atónito. Precipitei-me sobre o texto da legenda. A sua
leitura desiludiu-me. Dizia assim: Moedas de Arvad (em cima) e de
Tiro (em baixo), com temas mitológicos. Paris, Biblioteca Nacional

(Gabinete de Moedas).
Levantei a vista, desanimado.
- Santo Deus! - balbuciei. - Está depositada em paris.
O arqueólogo não pôde conter um sorriso irónico.
Naufragavam assim todas as minhas esperanças. A moeda
encontrava-se a mais de nove mil quilómetros de Jerusalém...
- Sim precisou o judeu -, essa sim...
Olhei para ele sem compreender. Então, Zias, apontando com o
indicador esquerdo para a gravura em questão, sugeriu- me que
prestasse maior atenção ao que tinha diante de mim.
Examinei de novo ambas as faces da moeda inferior, a de Tiro,
e, de facto, ao vê-la pela segunda vez, compreendi que laborava
num erro. Embora os motivos fossem semelhantes aos cunhados na
de Hazor, tanto o mocho como o cavaleiro e seu hipocampo tinham
um realce maior e algumas variantes, se bem que muito ligeiras. Na
de Paris, a cabeça do grão-duque e o enxota-moscas, por exemplo,
apresentavam uma inclinação mais acentuada para a esquerda que
a que se notava na moeda do tell. Não havia dúvida, eram mesmo
diferentes. Contudo, a trégua duraria pouco. O cientista não soube
resolver a seguinte e mais importante questão. Consultou os
catálogos do museu e, perante o meu desespero, disse que não com
a cabeça.
A peça encontrada nas ruínas de Hazor não se encontrava nas
vitrinas nem nos depósitos do Rockefeller.
- Já procurou no Museu de Israel?
- Tenciono fazê-lo repliquei, resignado.
Zias também não soube adiantar-me nada sobre o significado
das figuras. Para ele, como bom profissional da ciência, o mocho, o
enxota-moscas ou o não menos enigmático cavaleiro que montava
um cavalo-marinho, eram simples alegorias mitológicas.
Nada mais que isso. A minha insistência foi inútil. A possível
simbologia esotérica do stater era assim relegada para o mundo da
fantasia e dos loucos...
Apesar do meu desapontamento agradeci-lhe a sua valiosa

ajuda. Então o israelita, talvez impressionado pela minha teimosia
em continuar a procurar a moeda de Hazor, recomendou-me que
fosse ter com Michal Dayagi-Mendels, conservador e responsável
pelos períodos persa e judaico no referido Museu de Israel,
certamente um dos museus mais relevantes do Mundo. Um lugar que
jamais esquecerei...
Deus, ou os seus intermediários, escrevem direito por linhas
tortas. Sábia máxima esta... Este tosco aprendiz de quase tudo
estava a ponto de comprová-lo mais uma vez.
Raquel, a prestável funcionária do Instituto de Relações
Culturais, voltou a telefonar. Sabia do meu regresso a Jerusalém e
eu não tive outro remédio senão enfrentar a realidade nua e crua. A
jornada extinguia-se e, não obstante os meus bons propósitos, a
fase seguinte das investigações no Museu de Israel teve de ser
adiada. A conversa telefónica com Raquel só contribuiu para
complicar ainda mais a minha situação. Precisava de liberdade de
movimentos e, perante o desconcerto da rígida e disciplinada
Raquel, anunciei-lhe a minha intenção de congelar as entrevistas
até nova ordem.
O único pretexto verosímil que me veio à lembrança foi o da
grande caminhada a pé, de Nazaré a Belém. Desejava levar a cabo
o projecto quanto antes e, consequentemente, as reuniões
programadas passariam para segundo plano. Tal como em encontros
anteriores, procurou dissuadir-me, alegando que uma caminhada de
tais proporções exigia uma preparação e infra-estrutura mais sólidas
e minuciosas. Não cedi nem um milímetro. Melhor dizendo, o único
ponto em que me mostrei de acordo foi em trocar impressões com o
doutor Liba, director do Instituto, e em aceitar uma carta oficial do
citado organismo que, de algum modo, apoiasse a minha aventura e
fizesse as vezes de salvo-conduto.
Assim, logo à primeira hora do dia seguinte, transpunha eu a
porta de entrada do número seis da Rua Sokolov, recebendo o
utilíssimo documento, em hebraico, das mãos do próprio Moshe
Liba. Tratava-se de um documento em que se especificavam os meus
objectivos e se recomendava a ajuda e a colaboração das
autoridades militares das zonas pelas quais tinha previsto passar.

Tal escrito então eu nem sequer poderia imaginá-lo viria a
revelar-se providencial em determinados momentos da dura e
inesquecível caminhada de quatro dias pela margem direita do rio
Jordão. Mas isso é outra história que pouco ou nada tem a ver com
o enigma do Major e que talvez um dia ganhe coragem para contar.
A partir daquela luminosa manhã de quarta-feira o autocarro
número nove tornara-se familiar para mim. Foram dias cheios de
emoção, em que, salvo ocasiões excepcionais, o citado autocarro
representou o meu único elo de ligação com a rua e com a
população de Jerusalém. Ao tomá-lo pela primeira vez na Avenida
Jorge V, em frente ao Hotel Plaza, os meus pensamentos
continuavam virados para o stater e suas enigmáticas figuras.
Em especial a do mocho era para mim uma obsessão. Porque
seria que as suas asas somavam seis? Poderia ser a ansiada pista?
Como atrás afirmei, os caminhos da Providência são imprevisíveis.
Naquela mesma noite, de regresso ao hotel, rir-me-ia de mim
próprio. Mas sigamos o fio dos curiosos acontecimentos que se
aproximavam.
Eu tinha visitado o Museu de Israel na minha anterior estada no
país. Tenho um velho fraco pelos museus, reconheço-o. Ao descer na
zona sudoeste da cidade, o espaçoso complexo abriu-se diante de
mim como um novo repto. Por onde começar? O museu tem um total
de vinte e sete secções, com um pequeno núcleo de salas dedicado
às mais heterogéneas disciplinas: arte, pré-história, arqueologia
judaica e asiática, etnografia, biblioteca e muitas outras.
Era elementar. Talvez Dayagi, o curator ou conservador dos
períodos judaico e persa, pudesse facilitar a minha tarefa. Como
primeira medida seria indispensável pô-lo a par dos antecedentes e
localizar a moeda. Mas, como dizia, o Destino tinha outros planos.
Michal não estava no seu gabinete; e ninguém soube informar-me
sobre o seu possível regresso ao museu. Mostrei o postal ilustrado
a uma das empregadas do serviço de informação e relações
públicas, mas ela tão ignorante como eu sobre o assunto,
aconselhou-me a consultar a biblioteca do centro. A sugestão não
me entusiasmou.
Aquilo significava quase seguramente uma nova e

irreparável perda de tempo e de energias. Havia também a
possibilidade de me lançar numa obsessiva procura do stater por
entre as dezenas de salas e as centenas de vitrinas.
E curioso. O razoável teria sido aceitar os sensatos conselhos da
minha informadora e do próprio senso comum, reconendo aos
bibliotecários ou a outros arqueólogos e especialistas em
antiguidades. Inexplicavelmente, pondo de lado os argumentos da
minha consciência, escolhi o mais difícil... e atractivo: empreender a
pesquisa pelos meus próprios meios. Esta perigosa e suponho que
genética tendência minha custou-me sérios reveses. Mas aceitei o
desafio. Eu sabia que a operação poderia saldar-se num rotundo
fracasso. Não obstante, este método como tudo o que é
imprevisto e misterioso exerce sobre mim uma influência
dominadora. Nunca encontrei nada de mais excitante que a aventura
do desconhecido. E com um entusiasmo transbordante desci as
escadas que conduzem às caves do pavilhão de arqueologia. Não
posso explicá-lo com clareza, mas qualquer coisa parecia chamar-me
a partir das entranhas do museu. Abençoada intuição! Ou não foi a
intuição que guiou os meus passos? Nunca o saberei...
Consultei o relógio. Eram dez horas. O museu fechava às
dezassete, pelo que eu dispunha de uma ampla margem, mais do
que suficiente, para explorar as salas repletas, correspondentes aos
nove ou dez séculos anteriores a Cristo.
Hazor é o seu nome...
As imagens da moeda e o tell de Hazor eram as minhas únicas
pistas. Lenta e tranquilamente dei início à investigação, com os
cinco sentidos atentos a qualquer peça, mapa, escultura ou
referência que levasse o nome de Hazor ou Tiro.
..e as suas asas levar-te-ão ao guia.
Meio-dia. As pesquisas estéreis começavam a minar o meu ânimo.
E se aquele processo se revelasse tão improfícuo como os
anteriores? Como poderia eu estar seguro de que a moeda tinha
sido contemplada e utilizada pelo Major? Examinei sucessivamente
um sem-número de vestígios correspondentes aos períodos do
Bronze, remontando, inclusivamente, a séculos tão fora de questão
como O XVIII e XVII a. C.

Descurei os vestígios encontrados nos estratos do primeiro
Período do Ferro e, pelas treze horas, os acontecimentos
precipitaram-se. Ao entrar na sala trezentos e nove de arqueologia,
o correspondente quadro-resumo do segundo Período do Ferro
israelita (1000-586 a. C.) despertou-me a atenção. O stater,
segundo os arqueólogos, tinha sido cunhado cerca de quatrocentos
anos antes da nossa era. Estava, pois, muito próximo do possível
objectivo.
Fiel à táctica de explorar cada sala começando sempre pela direita
da porta de acesso, fui deambulando em frente da primeira parede,
examinando algumas diminutas estátuas de terracota e uma valiosa
colecção de selos e de moedas. Dobrei a esquina e, ao iniciar a
exploração da segunda parede, um nome e uma pequena cabeça de
argila fulminaram-me: Hazor! Precipitei-me sobre a peça.
A legenda explicativa falava de Astarte, deusa da fertilidade,
encontrada nas ruínas do tell, do século vIII a. C. Claro, disse para
mim próprio, esta finíssima escultura de greda foi extraída por Yadin
na escavação do quarto estrato. Atenção! Sem me dar conta disso,
tinha penetrado numa sala em que Hazor podia ocupar um lugar
proeminente. De facto, não me enganava.
No solo, junto à mutilada representação de Astarte, exibia-se um
ciclópico lintel de pedra, utilizado numa das portas da cidadefortaleza.
Tremi de emoção.
Os meus sentidos ficaram bem despertos, prontos a captar o mais
insignificante dos pormenores. Recuei até junto da cabeça da
deusa, subjugado pelos seus olhos e, especialmente, diante do
quase imperceptível e malicioso sorriso que brotava dos seus finos
e delicados lábios. Não sei como explicar. Na realidade, eu próprio
não compreendo. A verdade é que o meu olhar e o meu coração
ficaram presos da doce e ao mesmo tempo irónica expressão
daquele rosto avermelhado. Tive a clara sensação de que, apesar
do vazio dos seus olhos, a divindade me transmitia alguma coisa.
Mas isto é ridículo, conclui, ao fim da intensa observação. Voltandome
então, lancei uma olhadela pela sala. O enigmático sorriso de
Astarte agora atrás de mim continuou vivo e flutuante na minha
memória.

Um momento...
Aquela intuição seio-o bem não foi apenas resultante do meu
tosco entendimento. E a força que me acompanha levou- me a voltar
a cabeça, ao encontro dos olhos da deusa.
Um momento...
Fui colocar-me à esquerda do pedestal que sustinha a figura,
procurando seguir a direcção apontada por tão fascinantes olhos.
Não havia dúvida. Astarte olhava para o centro geométrico da sala
quadrangular. Mas a lógica revelou-se de novo.
Estás louco! Censurei-me a mim próprio.
É bem possível. Mas também era certo que muitas dessas loucuras
me tinham proporcionado estimulantes surpresas...
Um já familiar estremecimento interior pôs-me de
sobreaviso. Já não podia recuar. A curiosidade tinha levado a
melhor.
Encarei Astarte de novo e, desta vez, o subtil sorriso
acentuou-se na minha imaginação. Ou não teria sido apenas coisa
da minha imaginação? Dei meia volta e, sem me atrever a mover
sequer um músculo espiei o pedestal que se levantava a quatro ou
cinco metros. Que continha ele? Porque é que a sua simples
contemplação alterava o ritmo do meu pulso? A situação era ridícula.
No fim de contas, tarde ou cedo teria chegado até ele... Não estaria
a exagerar? Por que razão prestar tanta atenção a um obscuro
sorriso e a uns olhos de barro? Sempre gostei de enfrentar
situações-limite. São situações que podem desembocar, ou não, em
surpresas ou ganhos altamente proveitosos. De modo que, medindo
cada um dos meus passos, fui-me aproximando do negro pedestal
provavelmente mecânico - sobre o qual repousava uma urna cúbica.
À sua direita, num nível inferior ao da arca de cristal, uma base
igualmente de metal abria-se num atril.
Parei a meio caminho. Estava seguro, mas queria certificar-me.
Voltei-me e procurei os olhos da deusa. De facto, mantinham a
trajectória que levava à coluna. Uma pungente mistura de ansiedade
e angústia reteve-me uns segundos. A minha vista percorreu toda a

face do pedestal, sem descobrir a obrigatória legenda explicativa.
Estava com certeza no interior da urna. A tensão desencadeou-se e,
com um salto, lancei-me sobre o cofre. O instinto bradava-me que
ali, entre aquelas paredes de vidro, tinha de estar o que eu
perseguia: a milenar moeda de Hazor, com o macho real.
Foi um golpe muito duro. O meu orgulho, a minha fantasia e as
minhas loucas esperanças desvaneceram-se. Não conseguia afastarme
da urna. No seu interior não figurava o ambicionado stater.
Apenas três objectos, em osso ou marfim pertencentes a um enxoval
feminino. A decepção atingiu-me tão profundamente que nem
sequer reparei nas pequenas etiquetas escritas à máquina que
aclaravam a natureza e origem dos utensílios que estavam à vista.
Encontrava-me de facto hipnotizado pelo desencanto, com as mãos
aferradas às arestas daquela maldita urna de quarenta e cinco
centímetros de lado. Ali mesmo amaldiçoei a deusa e, é claro, a
minha néscia precipitação.
Contorci-me com raiva e, fixando os olhos nos de Astarte,
interroguei-me a mim próprio. Como poderia eu ter sido tão ingénuo
e estúpido ao mesmo tempo? Não tinha emenda...
Naquele momento, enquanto fulminava o pétreo e brincalhão
sorriso da divindade desenterrada em Hazor, o subconsciente
ressuscitou, subliminarmente, a imagem de uma das peças
depositadas na urna.
Meu Deus! Mas o que é que acabei de ver ali atrás?
Pestanejei, nervoso. E a máscara de argila, como pouco antes
tinha já acontecido, pareceu confirmar as minhas suspeitas,
dilatando o seu irónico trejeito e fazendo-me vacilar.
Não é possível!
Inclinei-me para a vitrina. Confirmei que o que se encontrava no
seu interior não era mera criação da minha desenfreada imaginação
e logo a seguir li sofregamente a legenda que se encontrava junto
do objecto.
Um estremeção fez-me recuar. Assustado, a única coisa que me
ocorreu foi sair dali, refugiando-me num dos cantos da sala.
Que espécie de jogo era aquele?

.. e as suas asas levar-te-ão ao guia.
O criptograma iluminou-se no meu cérebro.
Tudo aquilo era absurdo!...
Vê, envio o meu mensageiro diante de ti...
A cabeça da deusa. O enigmático sorriso. Os seus olhos vazios. E
agora... aquilo.
Meu Deus!
Sabia que era proibido fumar. Mas mesmo assim acendi um
cigarro, deixando que as grossas e obedientes colunas de fumo me
acalmassem os nervos. Apaguei-o após a segunda e relaxante
fumaça, voltando com decisão para junto da urna.
Incrível!
Dei uma volta em torno da caixa de cristal, observando-a de
ângulos diferentes.
.. o número secreto das suas penas.
Tudo parecia encaixar-se. Ou era a minha alegria que,
atabalhoada e falsamente, estava a conceber um novo fantasma?
Impus-me serenidade. Abri o caderno de campo e, quase sem
pulsação, copiei a legenda, em inglês, que acompanhava a minha
descoberta. Dizia textualmente:
«DecoxAzED BoNE HANDLE.
Hazor, 9th. Century B.C.E. Probably part of a mirror or sceptre, the handle shows a
winged figure grasping the open volutes of a "tree of life" in relief.» Traduzido,
aquilo queria dizer que a peça um cabo de osso decorado vinha
de Hazor. A sua antiguidade, na opinião dos arqueólogos,
remontava ao nono século antes de Cristo. A etiqueta acrescentava
que se tratava, provavelmente, de parte de um espelho ou ceptro na
qual aparecia, em relevo, uma figura alada segurando as volutas
abertas de uma árvore da vida.
Uma figura alada! E originária de Hazor! Um ser com asas,
infinitamente mais atractivo que o mocho! Fiquei colado ao cristal,
absorto e maravilhado. O delicado relevo - trabalhado sobre um
cilindro de osso de uns vinte centímetros de altura por seis ou sete
de diâmetro representava, de facto, uma espécie de anjo com

quatro grandes asas estendidas.
Duas nasciam das suas costas e as outras, voltadas para baixo, da
cintura. Apresentava o típico perfil egípcio-babilónico, com os
braços ligeiramente separados do corpo: o direito estendido para a
frente e o esquerdo para trás. As mãos, como dizia a legenda,
agarravam vários ramos (?) de um arbusto acaçapado. Aquela
híbrida criatura enchia a quase totalidade da superfície do cabo.
Quanto à árvore da vida, tinha sido gravada na face oposta.
As duas peças que acompanhavam o anjo foi assim que o
baptizei desde o primeiro momento não despertaram a minha
atenção. Uma consistia numa colher de marfim, utilizada
seguramente em cosmética, com o cabo gravado com folhas
invertidas de palmeira. Um pequeno espelho rectangular colocado
na superfície da urna permitia que se visse a sua face inferior. A
outra também desenterrada nas ruínas de Hazor era parte de
uma taça ou recipiente cilíndrico, também de marfim.
Mas se o achado do cabo de osso com o anjo foi vital, a
observação do desenho exibido no atril contínuo à urna foi-o muito
mais. Os responsáveis do museu, com um critério acertado e
providencial, tinham reproduzido no papel, de modo integral e
exacto minuciosamente exacto, diria eu -, todo o alto-relevo
lavrado no mencionado cilindro. Ali, as características e pormenores
da árvore da vida e da personagem apresentavam-se com total
nitidez.
Ajoelhei-me em frente do esquema e, durante um longo momento,
permaneci absorto e saboreando aquilo que à primeira vista parecia
uma importante chave. Infelizmente, a recordação do stater vinha de
vez em quando perturbar os meus pensamentos. Qual dos dois teria
a ver com o criptograma? E se nenhum deles tivesse a ver com o
assunto? No museu ainda havia muito por ver... As circunstâncias
exigiam uma especial frieza. Convinha analisar e esmiuçar ambas as
pistas, sempre à luz do texto do Major.
Vê, envio o meu mensageiro diante de ti, MARcos 1.2.
Hazor é o seu nome e as suas asas levar-te-ão ao guia MaRcos
6.2.0. O número secreto das suas penas é o número secreto do
guia, o que há-de preparar o teu caminho, MaRcos 12.

Uma primeira chispa fez-me saltar de alegria. Como o não tinha
intuído antes? A palavra mensageiro também podia ser entendida
ou traduzida por anjo. Em sentido literal, é esse o seu significado
genuíno. Aquela criatura com quatro asas e ligada à biblica
Hárvore da vida tinha de simbolizar o famoso anjo guardião do
Paraíso: o querubim cuja missão era guardar a árvore da
imortalidade
- Quer o cabo de osso tivesse sido obra de judeus ou de persas,
tanto uns como outros conheciam e eram depositários da mesma
tradição.
Vê, envio o meu mensageiro, o meu anjo?, diante de ti.
Estaria, portanto, diante do mensageiro citado no criptograma?
Quanto à terceira frase Hazor é seu nome - talvez o jogo de
palavras do Major estivesse a insinuar que o anjo ou mensageiro
tinha esse nome. A quarta e quinta frases continuavam a resistir. Se
era realmente aquele o mensageiro alado, como ou de que forma as
suas asas poderiam levar-me ao guia? Impaciente, saltei para a
sexta e sétima referências: as penas e o número secreto. Ao somálas,
o resultado deixou-me confuso.
Incrédulo, repeti a operação.
Não pode ser! Talvez a réplica do atril seja defeituosa.
No fundo, conhecendo eu a eficiência dos judeus sabia que tal
possibilidade era uma quimera. Mas, por uma questão de
segurança, fui até junto do original e, com paciência franciscana,
contei as penas esculpidas no cilindro. Não havia erro. E a certeza
de que me encontrava perante o Hazor do enigma ganhou terreno
no meu íntimo.
Não podia desperdiçar um minuto. A impossibilidade de fotografar
a peça e o desenho as máquinas fotográficas eram proibidas no
museu obrigou-me a recorrer a uma fórmula intermédia: fazer eu
próprio uma cópia. Teria tempo para localizar a documentação
correspondente e agir em consequência.
Concluída a minha rústica obra de arte e ansioso por concentrarme
a estudá-la estive quase a tomar o caminho da saída.

Precisei de uma dose extra de disciplina. O magnetismo do anjo
da sala trezentos e nove atraía-me para o hotel. Mas, como dizia um
inato sentido da responsabilidade amarrou-me àquele lugar. Tinha
de examinar todas as outras dependências; observar ao menos as
que tivessem alguma relação com as escavações e achados do tell
da Galileia.
Pouco antes do fecho do museu fatigado e excitado dei por
concluída a exploração. Paradoxalmente, a infrutífera busca
tranquilizou-me. Nenhuma das salas continha o menor vestígio de
cerâmica, escultura, pintura ou utensílios com representações ou
símbolos alados de Hazor. Quanto à moeda cunhada em Tiro,
nenhum rasto.
Nunca me agradou deixar fios soltos nas minhas investigações.
Daí que, dada a impossibilidade material de obter informações
sobre a moeda nos dias que se seguiram à descoberta do anjo, no
meu regresso a Espanha fiz algumas pesquisas. Numa atenta carta,
o professor Yaakov Meshorer, conservador de numismática do museu
de Israel, esclareceu-me que deste tipo de stater existem milhares
de peças, distribuídas por numerosas colecções. Nos fundos do
Museu de Israel existe uma centena de moedas semelhantes se bem
que todas elas provenientes das proximidades de Haifa; nenhuma
de Hazor. É evidente que eu nunca teria encontrado a moeda
desenterrada.
E com prudente optimismo preparei tudo para o assalto à
enigmática figura do anjo de Hazor. Teria chegado o grande
momento? O número secreto das suas penas é o número secreto do
guia...
Estas frases sexta e sétima, respectivamente foram a minha
principal obsessão naquela longa noite de quarta-feira.
Admitindo que o Major que podia ter visitado o museu
exactamente como eu tivesse posto os olhos em tão bela e
simbólica imagem, tornando-a no eixo do seu enigma, que
reservada informação teria ele escondido sob o conceito de número
secreto das suas penas? Cada uma das asas superiores apresentava
12 penas, o que fazia um total de 24, ou seja: 2 + 4 = 6. Curioso.
Em contrapartida, as inferiores levavam a um resultado diferente.

A que se situava junto da perna direita dispunha de 10 penas. Na
quarta distinguiam-se 8 apenas. O desconcertante é que a soma
última a das penas das quatro asas também dava 42, ou seja: 4
+ 2 = 6. Este número o endiabrado 6 aparecia invariavelmente,
tanto nas somas de cada asa superior ou inferior como na
mencionada adição final. (12 + 12 = 24 = 2 + 4 = 6, que somando a
10 + 8 = 9 era igual a 6+9=15=1+5=6.) Durante horas, aquele
aparente jogo catapultou-me para um universo de especulações,
jogando com as asas e os números em todas as direcções, de todos
os modos possíveis, até ao esgotamento. A última e provisória
conclusão foi a mesma que eu já tinha entrevisto nas primeiras
análises na sala trezentos e nove do Museu de Israel: talvez o
número secreto das penas daquela criatura fosse o 6. (Exactamente
o número de degraus que conduziam aos túneis das ruínas de
Hazor.) Se estava no caminho certo, o número secreto do guia tinha
de ser, obviamente, o mesmo.
*1 no tell da Galileia nas instalações do Museu de Israel, em Jerusalém. Para
Yaakov, o mocho constitui uma derivação ou cópia das moedas atenienses daquele
período (350-333 a. C.).
Os restantes elementos adicionais são bem conhecidos como símbolos reais do
Egipto, cuja influência na cultura de Tiro foi muito notável.
Por seu lado, outro prestigioso investigador e estudioso do antigo Egipto Esteban
Llagostera
Cuenca veio, como sempre, em meu auxílio, proporcionando-me uma valiosa
informação a tal respeito. Ao que parece, o stater de Hazor de 13 37 gramas de
peso e 24 milímetros de diâmetro - apresenta no seu anverso a figura de Melkart ou
Melgrat, deus dos Fenícios, que os Gregos identificaram com Hércules (o Hércules
fenício) e que em Israel foi conhecido como Baal.
(Os seus templos, como diz a Bíblia em Reis I e II, foram destruídos.) Este deus
cavalga, de facto, um hipocampo ou cavalo-marinho, tendo sob si ondas e delfins. No
reverso, a moeda apresenta o mocho real com os atributos faraónicos: o kheka e o
nekheka, isto é, o báculo e o látego: poder e justiça ou castigo.
O mocho representa, em geral, diversas atribuições ou atributos: a sabedoria, a
timidez, a solidão, o pássaro do demónio, o emblema de Atenas, a deusa Minerva ou
Ateneia, as bruxas e, nas mitologias alemã e escandinava, o espírito das selvas ou
bosques.
Quanto ao antigo Egipto, a sua simbologia era igualmente ampla: morte, frio, noite,
passividade, o reino do Sol morto, o Sol sob o horizonte quando atravessa as trevas,

etc. O seu símbolo hieroglífico é a letra M.
Na minha opinião, nenhuma destas possíveis pistas teria conduzido à resolução do
enigma. (N. Do A.)
Havia, além disso, outro pequeno-grande pormenor ao peculiar
estilo do Major que aumentou a minha segurança. A frase que
levava ao misterioso número secreto das penas constituía,
justamente, o número seis no enigma. Não seria demasiada
coincidência.
No entanto o mais importante crucial, no meu ponto de vista
continuava obscuro e distante.
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia MaRcos 6.2.0.
Admitindo insisto, que fosse aquele o ansiado Hazor, como
interpretar o sentido de ambas as frases? Que se devia entender?
Aquele «levar-te-ão» só podia esconder um significado puramente
simbólico. O cilindro de osso estava encerrado numa urna. Isso era
óbvio. Não era preciso ter uma especial inteligência para deduzir
que as asas em questão eram talvez um meio, uma fórmula ou uma
simples orientação para chegar ao não menos confuso guia. Foi
assim que pus a questão. Sabia-a por experiência: embora
aparentemente complicada, a linguagem dos criptogramas do oficial
norte-americano acabava por ser sempre muito mais directa e
elementar do que eu próprio me empenhava em imaginar. Levar-teão,
em suma, podia ser associado a conduzir-te-ão ou a guiar-te-ão.
Infelizmente, a modesta cópia que eu desenhara no meu caderno de
campo não me permitiu avançar mais. Era claro.
Tinha de inspeccionar as asas no próprio local. Talvez a posição
ou orientação das mesmas no cilindro escondesse algo de que não
me tinha dado conta. Tais raciocínios aliás elementares
ganharam consistência quando, numa das minhas inúmeras
deambulações pelo aposento, me veio à memória outra das chaves
do criptograma: a que era constituída pela primeira palavra de cada
uma das frases: olha diante Hazor e a o. É ele. Lendo nas
entrelinhas, o enigma era um contínuo sobressalto. A caixinha das
surpresas e dos trovões tinha sido destapada.

É uma coisa que costuma acontecer-me frequentemente.
Aqueles que tenham acompanhado as minhas peripécias e
desventuras pelo mundo, estão a par das bruscas reviravoltas que,
mais vezes do que o recomendável, me acontecem a mim e
consequentemente às investigações em que estou envolvido. Mas a
vida é assim.
Na manhã seguinte com tudo preparado para a exploração no
terreno, mudei de ideias. Adiaria esta fase do trabalho em
benefício de um mais aprofundado conhecimento bibliográfico da
origem, natureza e simbologia do anjo de Hazor. Havia, além disso,
outra poderosa razão. Na minha espartana e metódica consciência
supondo, claro, que ainda me reste algo dela...
- continuava a pesar a densa relação de livros e documentos
inéditos que falavam do tell da Galileia. Não me sentiria em paz
comigo mesmo enquanto não a examinasse na sua totalidade.
Este desprezo por aquilo a que muitos chamam intuição acalmaria
o meu espírito, sem dúvida, mas fazer-me-ia perder um tempo
precioso.
Dito e feito. Nas jornadas seguintes fazendo ouvidos moucos
como um estúpido Ulisses aos contínuos apelos da sala trezentos e
nove -, o meu tempo e inteligência foram sacrificados na biblioteca
do Museu de Israel. A batalha com os ficheiros, catálogos e volumes
foi tão esgotante como inútil. E ao meio-dia de sexta-feira, prestes
a render-me e seguramente pelo nervosismo que me dominava, tive
a feliz ideia de mostrar às pacientes bibliotecánas o desenho que
tinha feito no caderno de campo. Ao ver o anjo, a mais jovem
piscou-me um olho, exclamando:
- E porque não disse antes!?
Poucos minutos depois, satisfeita e sorridente, punha-me nas
mãos um livro de capa avermelhada. Tratava-se de uma obra de
Yigael Yadin Hazor editada em Nova Iorque, em 1975.
Impaciente, folheei rapidamente as suas duzentas e oitenta
páginas, cheias de imagens e gráficos relacionados com as
escavações do célebre professor judeu. De repente, uma fotografia
a preto e branco de página inteira deixou-me preso na página

156. Abri o caderno de apontamentos e, antes de avançar, dei
graças a Deus.
Até que enfim!
Mas a minha euforia ir-se-ia esfumando lenta e inexoravelmente, à
medida que fui lendo o texto que acompanhava as ilustrações.
Na mencionada página apresentavam-se três excelentes imagens
do cilindro que eu tinha descoberto no museu. A da esquerda
apresentava a face mais plana do osso, com a árvore ou arbusto da
vida. As duas restantes correspondiam à superficie convexa, com o
alto relevo do anjo. Na página contígua, reforçando o texto em
inglês, Yadin reproduzia um desenho de 4 x 6 centímetros, idêntico
ao que se exibia na sala trezentos e nove. Sob a grande fotografia
da esquerda podia ler-se o seguinte texto: O espelho da vizinha da
senhora Makhbiram.
Na página anterior reconheci também desta vez a cores a
colher de marfim, igualmente depositada na urna e que, segundo o
texto, tinha sido propriedade da tal senhora Makhbiram, na cidadefortaleza
de Hazor.
Como é fácil de supor, não deixei uma única sílaba daquelas
setenta e uma linhas de texto por esquadrinhar incluindo os
dezanove versos de um poema do profeta Amós acerca de um
terramoto que abalou a região. Contudo, como ia dizendo, os
esclarecimentos dos arqueólogos em torno do anjo eram pouco mais
que nulos. As únicas novidades se assim se lhes pode chamar
foram que a peça tinha sido desenterrada no estrato sexto de Hazor
(o 6 parecia indelevelmente vinculado a toda a história), sendo
propriedade de uma anónima vizinha da abastada senhora
Makhbiram. Estes utensílios teriam ficado soterrados no ano 763 a.
C., por força do referido terramoto.
Por dedução, verificava-se que a figura do querubim-guardião do
jardim do Éden punha a claro uma notória influência das civilizações
fenícias e cananeias sobre os israelitas implantados no Norte do
país. De certa maneira, aquele símbolo - se é que na verdade
constituía a autêntica pista do enigma - encaixava às mil maravilhas
na hipotética vontade do Major de resguardar o seu tesouro. Com
efeito, que melhor guardião do próprio criptograma que o mítico

anjo do Paraíso? Houve também outro subtil factor que,
francamente, me fez pensar.
Na opinião dos peritos, a cabeça de mulher que adorna a colher
de cosmética podia ser a efígie de Astarte, a deusa da fertilidade.
Sei que o argumento parece frágil, mas durante bastante tempo não
pude dissociar o enigmático sorriso da divindade que encontrara na
parede da sala trezentos e nove desta outra réplica, talhada num
extremo da colher de marfim e que, casualmente, fazia companhia
ao cilindro de osso interior da urna. Mas isto, logicamente,
pertencia apenas ao reino das suspeitas ou, quando muito, das
crenças íntimas que, no fim de contas não serviam para materializar
aquilo por que tanto ansiava. A verdade, fria e inalterável, é que os
textos científicos não traziam qualquer indício sobre o anjo nem
sobre as suas asas. A consulta serviu também para precisar as
dimensões exactas do cilindro de osso: dezoito centímetros de
altura por cinco centímetros e meio de diâmetro. Felizmente,
concluiria aí a minha penosa e prolongada incursão nas bibliotecas
de Israel.
E com idêntica amabilidade, as bibliotecárias prestaram-se a
fotocopiar algumas das páginas do livro de Yadin, um volume que,
se tivesse podido folheá-lo a tempo, me teria poupado não poucos
aborrecimentos. Mas não me cansarei de o repetir Deus escreve
direito por linhas tortas. O pior é que há intermediários que
parecem ter uma habilidade especial para complicar as coisas
simples...
O declinar daquela sexta-feira fez-me esquecer a sala trezentos e
nove, pelo menos até às dez horas do dia seguinte. Mas o dia não
tinha passado em vão.
Para mim não há outra explicação. Desde o momento em que
comecei a trabalhar sobre o tema do anjo, descobrindo que o
número secreto das suas penas talvez fosse o 6, uma ideia ia
ganhando corpo nas profundidades do meu subconsciente.
À primeira hora da tarde, enquanto contemplava o sinuoso
deslizar da chuva pelas vidraças do autocarro da carreira nove,
decidi tentar a minha sorte. Embora a operação fosse o que há de
mais inócuo e inocente, tomei as minhas precauções.

O meu súbito interesse por aqueles documentos podia inquietar
os, até então, tranquilos serviços de informação israelitas.
Prescindi da utilização do telefone do hotel e, de uma cabina
pública, marquei o 28 29 36. Momentos depois, um dos meus
amigos franciscanos do Convento da Flagelação, na Cidade Velha,
proporcionava-me a informação necessária.
O tempo urgia. Por isso, quase correndo, cheguei ao local exacto:
a confluência da Rua Jaffa e da Shlomzion Hamalka. Nessa esquina
tal como me informara o bom monge -, em frente de uma loja de
flores, no segundo andar, encontraria o que procurava.
Tive sorte. Embora a repartição estivesse para fechar, um dos
funcionários, de origem sefardita, mostrou-se encantado por poder
atender-me e, ao mesmo tempo, refrescar o seu arcaico castelhano.
A verdade é que eu não sabia muito bem qual daqueles mapas
militares de Israel podia ser o indicado. De modo que, indo pelo
seguro, fiquei com uma meia-dúzia seleccionando diferentes áreas
do Norte, Centro e Sul do território. Até aí correu tudo pelo melhor.
Mas um funesto presságio me abalou da cabeça aos pés, quando,
ao entregar-me as cartas topográficas, o empregado do Governo me
pediu o passaporte, tomando nota da minha filiação. O imprevisto
contratempo que de resto eu não podia evitar traria
consequências...
Os mapas à escala de um para cem mil eram minuciosos.
Perfeitos. Entusiasmado com a aquisição e, em especial, perante
a atractiva ideia de poder comprovar a hipótese acerca das asas,
apressei a marcha, enclausurando-me de novo no hotel.
..e as suas asas levar-te-ão...
Procurei um guia rodoviário entre os meus papéis. Ao desdobrá-lo,
tremeram-me os dedos. Não sei como explicar, mas sabia que
estava para acontecer alguma coisa.
Escolhi a cidade de Jerusalém como centro de ensaio.
Vendo bem, é lá que se encontra o Museu de Israel e o anjo.
Seguidamente desenhei duas linhas rectas sobre o mapa. Uma
vertical, ou eixo de coordenadas, seguindo a direcção norte-sul;

outra horizontal, ou eixo de abcissas, de leste a oeste. A Cidade
Santa, repito, ficava na intercepção dos dois eixos.
Examinei de novo a fotocópia do livro de Yadin, confirmando o que
já sabia: se tomasse a silhueta alada como eixo vertical imaginário,
cada uma das asas ocuparia um quadrante.
E o velho pressentimento tomava corpo...
Pois bem, de acordo com esta proposta, as penas mais longas,
correspondentes a cada uma das asas, podiam ser associadas a
outras tantas direcções ou rumos. As duas superiores marcariam
assim o Nordeste e o Noroeste, respectivamente; as inferiores, o
Sudeste e o Sudoeste.
A hipótese parecia válida. Se as asas como assegurava o
enigmadeviam conduzir ao guia, era lógico supor que ocultassem
alguma informação. Quem sabe se a posição de uma cidade, de
uma povoação, de um monumento ou de um acidente geográfico...
Para desfazer o dilema só vi um caminho: trabalhar com as penas.
As asas que nasciam das costas do querubim como já foi dito
tinham vinte e quatro penas (doze em cada uma). O passo seguinte
era elementar. Que aconteceria se transformasse os números em
graus? Ora bem, estaríamos perante quatro rumos muito
precisos:12, 98,190 e 282 graus, respectivamente, tomando como
base, insisto, o número de penas de cada asa (12, 8,10 e 12), e
estes mesmos números com a magnitude angular a considerar,
partindo dos eixos-base de cada um dos quadrantes.
Não dispondo de um transferidor ou de um esquadro tive de
improvisar pacientemente. Dividi cada quadrante em dez ângulos
mais ou menos iguais, fazendo então um exame meticuloso dos
quarenta rumos. Numa primeira abordagem, o emaranhado feixe de
rectas desanimou-me. Cada linha pisava dezenas de povoações,
montanhas e cidades israelitas. Estaria ali a resposta? Teria de
começar por algum lado. Assim, acabei por decidir-me pelo mais
razoável: o rumo 10 graus, ou seja, a primeira das divisões. A
mecânica de exploração foi igualmente simples: partindo do centro
dos eixos de Jerusalém -, fui seguindo a linha que tinha traçado a
lápis sobre o mapa, primeiro na direcção norte e, seguidamente,
para o sul. A leitura daquele rumo nada adiantou. A maioria das

povoações árabes ou judaicas nada me dizia. Não encontrei uma
única relação com Hazor ou com o anjo. Avancei para a segunda
direcção 20 graus e, ao cruzar o mar da Galileia, o nome de
Hazor surpreendeu-me. As ruínas do tell, rigorosamente registadas
no mapa, ficavam entre ambos os rumos, muito próximas dos dez
graus. A aparente casualidade deixou-me um tanto perplexo.
Mas, sem lhe prestar demasiada atenção, continuei no paciente
rastreio.
Duas horas mais tarde, com o caderno cheio de anotações, dei-me
por vencido. Tinha falhado de novo. Mos não eram mais que um
emaranhado de vãs ilusões. Impossível descobrir a mais remota
ligação entre as centenas de números que coincidiam com a
passagem das linhas.
Desmoralizado, deitei-me na cama, recusando-me a pensar.
Mas o Destino não me costuma dar tréguas. Poucos minutos
depois, passando por cima do desencanto e da melancolia essa
misteriosa força que nunca me abandona agitou a minha memória
trazendo já esquecido o lance da posição da cidade-fortaleza de
Hazor, entre os rumos dez e vinte graus.
Visualizei na minha imaginação a airosa figura do anjo, e,
instantaneamente, reparei num pormenor que, à força de o ter
diante dos olhos, tinha escapado aos meus pensamentos.
Diabos me levem!
Como que impelido por uma mola sentei-me na cama,
surpreendido pelas minhas próprias especulações.
Doze penas! Mas não, rectifiquei, sem poder esquecer o rosário de
desacertos. De certeza que não coincide. Seria um milagre.
O germe da dúvida estava lançado.
Além disso, rematei no meu íntimo, para o comprovar seria
necessário um transferidor...
Foi inútil. Aquela tentativa de me forçar a mim próprio estava
desde o início destinada ao fracasso.
E onde vou eu buscar um maldito transferidor?

Consultei o relógio. Eram quatro e meia. O sábado judaico
aproximava-se. Fui até à janela, comprovando o rápido
obscurecimento de Jerusalém.
Sim, talvez ainda possa...
Saí do hotel rapidamente, ordenando ao taxista que me
conduzisse à Porta de Jafa, nas muralhas da Cidade Velha.
Tanto os árabes como os cristãos aproveitavam o encerramento
maciço das lojas e estabelecimentos judaicos no sabbath para
patentearem os seus produtos à multidão de estrangeiros que
passa pelos seus bairros.
Com toda aquela precipitação só reconheci o meu erro quando, em
pleno coração da Cidade Velha compreendi que me tinha enganado
na porta de entrada para a tortuosa e escura cidadela. Pela de
Damasco, um pouco mais a norte, o acesso ao sector cristão teria
sido directo. Mas não era altura para lamentações. O importante
era encontrar uma livraria, uma papelaria ou um qualquer bazar
onde adquirir o instrumento necessário para as minhas pesquisas.
Sem rumo certo fui penetrando nas animadas e malcheirosas
ruelas, perguntando aos muçulmanos receosos: - Book-shop?
Os poucos árabes que acabavam por entender o meu propósito de
encontrar uma livraria arrastavam-me
invariavelmente para o seu próprio estabelecimento ou para o de
um parente ou amigo, metendo-me pelos olhos dentro os ,típicos e
batidos livros sobre a Terra Santa, sempre rodeados de uma
constelação de souvenirs. Não me foi fácil escapar de algumas
daquelas verdadeiras pocilgas. E, entrada já a noite, exausto do
incessante palmilhar de ruela em ruela e de bazar em bazar,
renunciei ao meu intento, descobrindo com desolação que para
cúmulo dos males e desventuras me encontrava irremediavelmente
perdido no interior do nada recomendável bairro árabe. Os que
conhecem este negro labirinto especialmente se já o atravessaram
durante a noite - compreenderão a angústia que começou a infiltrarse
no meu já deprimido ânimo. Quanto às escassas indicações dos
cada vez mais raros transeuntes, só contribuíram para o meu
progressivo enjoo, fazendo-me penetrar em becos fétidos e

tenebrosos, povoados de gatos e de sombras furtivas. Ignorava qual
das portas da muralha Jafa, Nova, Damasco ou Herodes podia
estar mais à mão. E a verdade é que se algum malfeitor se desse
conta do meu problema, eu e os meus dólares tínhamos já a
sentença lida...
Por volta das nove da noite, ao entrar numa das ruelas, tão
exiguamente iluminada como as anteriores, resolvi fazer uma pausa.
Tinha de encontrar uma saída para aquela estúpida e irritante
situação.
Se ao menos tivesse a sorte de encarreirar os meus passos para o
Convento da Flagelação...
Acendi um dos últimos cigarros e, como em outras ocasiões limite,
levantei os olhos para o céu tempestuoso, suplicando ajuda. O
leitor incrédulo pode imputar o que depois aconteceu e tem todo
o direito de o fazer a uma mera casualidade.
Compreendo e respeito tal posição. Quanto a mim, felizmente que
já há muitos anos não acredito em acasos. A verdade é que,
passados não mais de trinta segundos, divisei ao fundo da rua as
inconfundíveis silhuetas dos monges e não pude reprimir um franco e
agradecido sorriso. Um sorriso dirigido aos céus, naturalmente, e
que só o meu coração entendeu.
Os solícitos franciscanos, embora não se dirigissem naquela altura
para o Convento da Flagelação, fizeram um desvio para me ajudar,
orientando-me para a Via Dolorosa. A partir daí, o resto foi simples.
O prior do célebre convento padre Justo Artazar Ocerinjaureguin -,
compatriota e amigo, confiou-me a outro ilustre frade, o sábio
Frederic Manss, que resolveu o meu problema.
E às onze horas dessa noite de sexta-feira munido do
transferidor preparei-me para comprovar aquilo que, pouco antes,
eu próprio quase menosprezara.
- Se resultar acrescentei, falando sozinho para comigo próprio -,
não terei outro remédio senão acreditar em milagres...
Fiz deslizar o simples semicírculo de plástico azulado sobre o
mapa do território israelita, socorrendo-me na
medição com o canto de um livro.

- Santo Deus!
Repeti a operação e o rumo doze encaixou-se matematicamente.
Não havia dúvida nem erro possíveis. Relativamente ao meridiano
de Jerusalém, as ruínas de Hazor encontravam-se a doze graus.
- Fantástico!
Acariciei o desenho do anjo e, ainda incrédulo perguntei-me uma e
outra vez como era possível. A soma das penas da asa localizada no
primeiro quadrante coincidia exactamente com o rumo de Hazor! Um
rumo perfeitamente exacto, sem o menor desvio. Directo.
E o meu espírito sentiu-se, por fim, reconfortado.
* * *
..e as suas asas levar-te-ão ao guia Marcos 6.2.0.
O criptograma ganhava assim uma certa lógica. Algumas das suas
frases começavam a fazer sentido. Creio que naqueles instantes de
júbilo, natural consequência do que se passara, as três pouco claras
menções do evangelista Marcos apareceram-me, pela primeira vez,
como o que na realidade talvez fossem: um meio-jogo do Major,
astutamente colocado para despistar. Dias mais tarde viria a
compreender que tal dedução era correcta... mas só em parte.
O resto da noite, até ao clarear do novo dia, dediquei-o a um
mais atento exame do rumo que, nascendo em Jerusalém, passava
por Hazor doze graus norte ou doze graus leste, assim como dos
indecifráveis dígitos 62.0. A minha excitação era tal que o sono e o
cansaço devem ter fugido, espantados.
Ran... o monte Bet E1, Mizrat Sharkiye..., a montanha denominada
Shiloh... Karyut... Talpit... Salim..., o monte Ein Faria... Mueir...
Gazit... Sharona... Migdal... Amiad e Hazor.
Nenhuma daquelas povoações e elevações sobre as quais voava o
rumo me infundiu confiança... As asas deveriam levar-me ao guia.
Mas a que lugar? Talvez ao alto de algum dos três picos
mencionados? Encontraria ali o misterioso guia? Ou não se tratava
de um ser humano? Não posso negá-lo. Apesar do pequeno-grande
triunfo que tinha significado a descoberta do rumo doze, o enigma
continuava ainda envolto em tanta névoa que foram necessárias
grandes reservas de calma e resignação para não enviar o assunto

para o inferno. A possibilidade de ter de subir às montanhas de Bet
EI, Shiloh e Ein Faria, sinceramente, desmoralizou-me.
Investiguei também o rumo oposto ao de Hazor 192 graus -, mas
os frutos não foram melhores. A simpática cidade de Bethlehem (a
Belém dos cristãos) quase roçava a linha imaginária. Segundo o
transferidor, o lugar do nascimento de Jesus fica situado numa
direcção de 190 graus, quer dizer, menos dois do que o que eu
explorava. Nessa altura não me dei conta de outro curioso
pormenor...
O referido rumo acabava por perder-se no deserto do Neguev,
sobrevoando o pico de Zior e a cidade de Amasa, muito a sul.
Cansado de elucubrar à volta das povoações e montanhas que
coincidiam com o 12 graus-192 graus, mudei de táctica. Então, a
magia dos números apoderou-se de mim e o nervosismo disparou de
novo. Por pura inércia entretive-me a averiguar os quilómetros
existentes entre Jerusalém e Hazor sempre em linha recta e
seguindo o mencionado rumo, norte 12 graus leste. A cifra obtida
-142,5 quilómetros também não me pareceu significativa...
Mas, ao somar os dígitos, o resultado intrigou-me. Obtinha um
número muito familiar:12. Outra coincidência? O senso comum não
contestou. Havia ali de facto algo oculto e inebriante.
E no meio de uma autêntica selva de cálculos, as minhas
averiguações acabaram por conduzir à descoberta de outro facto
singular. A longitude de Hazor 35-31 graus leste -, uma vez
somados os seus dígitos, também dava 12. Quanto à latitude 33
graus 00 norte -, para maior suspense, somava 6. Ou tudo isto era
fruto do acaso o disfarce favorito de Deus - ou o Major pretendia
reafirmar o importante papel do número secreto: o inefável 6. Não
soube a que apegar-me. A confusão e o optimismo tomaram posse
de mim sem contemplações.
Recapitulei a situação pela enésima vez. A asa superior direita
(na realidade, a situada à esquerda do anjo), com as suas 12
penas, apontava para Hazor. (Rumo 12 graus). A distância entre o
lugar onde se exibe o anjo e o ponto onde ele foi desenterrado
também somava 12. O mesmo acontecia com os dígitos da
longitude das ruínas (12). A latitude, por seu turno, apresentava um

6. Cheguei mesmo a duvidar do número secreto. E se fosse o 12? O
estranho é que, fundindo estas cifras graus, quilómetros, longitude
e latitude -, o resultado era 6. Os meus neurónios cederam. O total
de penas do anjo 42 coincidia com a soma anterior! Era muito
difícil de acreditar que aquilo fosse pura e simples casualidade.
Tinha de obedecer a uma metódica e escrupulosa preparação. E a
imagem do Major materializou-se na minha memória, com o seu
inconfundível e malicioso sorriso. É de crer que ele se tenha
divertido muito ao elaborar o criptograma e ao imaginar as minhas
peripécias. Não o censuro por isso. Eu, à minha maneira, mais mal
do que bem, também trabalhava com um inesgotável espírito
desportivo. E estava disposto a ir até onde fosse preciso.
A extrema precisão destes cálculos e medidas no que se refere à
asa do primeiro quadrante fez-me compreender que talvez as
pesquisas levadas a cabo sobre o rumo oposto a Hazor não
estivessem correctas. Naquele meu torpor, esquecia-me de que tinha
de ater-me sempre ao sugerido ou assinalado pelo mensageiro que
tinha diante de mim. Neste caso, a direcção ou rumo que resultava
do número de penas da ala do terceiro quadrante era 190o
(180+10). Obcecado como estava, ao prolongar o rumo 12 para
sudoeste (terceiro quadrante), estava a errar em dois graus). Pois
bem, dado que não havia muito a perder, tracei a linha
correspondente, com a nova magnitude -190 graus concentrandome
na revisão do rumo determinado pela referida asa inferior
esquerda. O primeiro ponto que atraiu a minha atenção foi Belém.
Como já referi, encontra-se a sudoeste de Jerusalém, justamente nos
190 graus. O resto da projecção perdia-se igualmente nas areias do
Neguev, praticamente sem referências dignas de menção.
Belém?
.. e as suas asas levar-te-ão ao guia MaRcos 6.2.0.
Qual o papel da cidade de David naquela embrulhada?
Marcos, o Evangelista, não falava de Belém. O seu Evangelho
começa com a pregação de João Baptista. Não conseguia ver a
possível relação com Hazor ou com a frase do criptograma. Apesar
disso saltava à vista que, entre os nomes localizados em ambos os
rumos -12 e 190 -, os de Belém e Hazor avultavam notavelmente

entre os demais. Eram, definitivamente, os que prendiam a atenção
desde o primeiro momento.
Deixando-me levar pelo instinto, repeti a dança dos números,
tomando o novo rumo e a cidade de Belém como referências. As
surpresas não se fizeram rogadas. A distância de Jerusalém a Belém
7,5 quilómetros voltava a somar 12. E os 142,5 quilómetros, que
separam Hazor da Cidade Santa, adicionados a estes 7,5
quilómetros, projectaram de novo diante de mim o inevitável 6
(142,5 + 7,5 =150 =1 + 5 = 6).
Santo Deus! Aquilo era de mais.
1=.. I
Mesmo assim, tirei a prova com a longitude e a latitude de B; O
número final -121 = 4 não parecia relacionado com o conjunto de
12 e 6 anterior. (Os adeptos da Cabala, esses, pelo contrário,
saberiam por certo espremê-lo...) A verdade é que, para uma noite,
foi mais que suficiente.
Os números falavam por si. Aquela desconcertante sintonia Belém-
Hazor no que se refere aos rumos e aos dígitos não podia deixar
de ter um significado. Mas tinha de certificar-me; sentia que os
meus passos estavam certos, mas precisava de novas provas. Era
vital um exaustivo reconhecimento do anjo no próprio local. Se a
intuição não me atraiçoava, talvez no interior da urna do Museu de
Israel pudesse detectar algum indício ou informação
complementares.
O Major, homem meticuloso mais que qualquer um, devia tê-lo
previsto.
O que não fui capaz de prever como poderia sequer imaginá-lo?
- é que nessa mesma manhã de sábado, 29, alguém de quem me
tinha esquecido me forçaria a suspender as investigações, atirandome,
em poucas horas, para outra aventura sem par.
Ainda meio adormecido por tão precário descanso, e absorto em
mil e uma conjecturas precisei de umas duas horas para descobrir
que estava a ser controlado. Para falar verdade, foram eles a
desvendar o seu jogo, e não eu... Mas antes, a meio da sala
trezentos e nove das de arqueologia do Museu de Israel, dar-se-ia

outra descoberta, bastante mais feliz.
Às dez horas e poucos minutos, mal abriram as instalações,
digamos que tomei posse da solitária sala em que se exibe o cabo
de osso de Hazor. Não posso negá-lo. Depois do que tinha
averiguado na noite anterior, o meu encontro com o anjo foi
especialmente emotivo. A figurinha convertera-se para mim em algo
de querido e familiar. Era mais um motivo a unir-me, ainda que só
espiritualmente, ao falecido e saudoso Major norte-americano.
(Ainda um dia me atreverei a contar o que nunca revelei sobre este
homem singular. Os leitores que tenham podido acompanhar as
minhas investigações nestes últimos quinze anos e que conheçam
alguns dos meus vinte e dois livros publicados, não estranharão se
lhes disser que, por múltiplas razões, por vezes não dou à luz da
publicidade nem dez por cento do material que tenho em meu
poder. Mas lá iremos.) Após uma saudação mental curiosamente, a
minha loucura dá-me sempre para dialogar com as coisas com que
contacto, e o alto-relevo do querubim não foi excepção -, preparei
tudo para o controlo definitivo: bússola, mapas militares, fita
métrica e caderno de campo.
Destravei a agulha magnética e coloquei-a sobre a vidraça da
urna, precisamente na vertical do anjo. Terminada a natural
oscilação inicial, a bússola imobilizou-se, marcando o norte
magnético. Inspirei profundamente antes de verificar a posição da
criatura alada.
Norte...
Inseguro, repeti a verificação.
Jesus!
Um formigueiro inconfundível tirou-me deste mundo.
Contudo, pragmático e teimoso, quis demonstrar a mim próprio
que não estava a sonhar. Peguei de nowo na bússola e avançando
até uma das janelas, procurei um ponto de referência conhecido. Ao
longe distinguia parte do airoso Knesset, o parlamento israelita.
Desdobrei uma planta de Jerusalém, colocando ambas as coisas,
planta e bússola, no peitoril da janela. A agulha, fiel e obediente à
sua natureza, marcou de imediato o rumo lógico: norte. Satisfeito,

assinalei a posição do Knesset com um círculo vermelho. Grave erro
que não tardaria a lamentar...
A bússola de azeite funcionava perfeitamente, pelo que as suas
indicações eram fiáveis.
Recoloquei-a no ponto que me interessava na vertical do cilindro
-, procedendo a uma terceira leitura das medições.
Norte..., noroeste.
Apesar de estar ali à minha vista, custou-me a acreditar.
A figura do guardião da árvore da vida estava e está - orientada
para o nordeste, ou seja, na direcção de Hazor. A bússola, cega e
imparcial, ali estava a marcar um rumo por de mais conhecido e
significativo: 12 graus! Dominado pela surpresa, não soube que
fazer nem que pensar. Como era possível? Por um lado, no exame a
que submetera o anjo, a asa situada no primeiro quadrante revelara
a direcção das ruínas e o conhecido rumo: 12a. E agora, sobre o
terreno, o próprio alto-relevo ratificava-o. Era de enlouquecer.
A ideia de que o Major tivesse manipulado o cilindro, colocando-o
na sua actual posição, pareceu-me descabida. A urna de cristal,
firmemente atarrachada ao pedestal metálico, era inviolável. Tudo
aquilo emitia um halo mágico...
O penúltimo sobressalto veio logo a seguir ao explorar as
direcções das quatro asas e do arbusto sagrado. Estando a peça
virada para nordeste, tanto a árvore da vida como a asa de dez
penas a oposta à que apontava para Hazor assinalavam outro
importante rumo: sudeste. Por outras palavras, o da cidade de
Belém. A confirmação foi definitiva. A mencionada asa de dez
penas, tinha sido a chave para traçar o rumo 190 graus. Tudo se
encaixava na perfeição. As incógnitas pareciam solucionar-se.
Anotei minuciosamente estes últimos achados e, rendido à
evidência, utilizando a urna como secretária improvisada, escrevi:
<<OLHA, ENVIO O MEU MENSAGEIRO DIANTE DE TI, MARCOS 1.2.>>
(O Major adverte da existência-presença de um anjo ou
mensageiro..., diante de mim: criatura híbrida depositada no Museu
de Israel, sala trezentos e nove. Correcto.) Nota: o Major aproveita
a frase do evangelista (Marcos 1.2). Se leio de seguida os

versículos 1, 2 e 8 do criptograma, coincide com o expresso por
Marcos no seu primeiro capítulo: Vê envio o meu mensageiro diante
de ti, o que há-de preparar o teu caminho. Faz sentido. O anjo e
suas chaves são o meio para avançar. Se bem que também
separadamente pareça viável: será o guia quem deverá apontar o
meu caminho?
<<HAZOR É O SEU NOME.>>
(O do mensageiro-anjo: Hazor. Não vislumbro outra explicação. É
de lá oriundo. Hazor é, pois, o seu nome.) «E AS SUAS ASAS LEVARTE-
ÃO AO GUIA MARCOS 6.2.0. »
(As asas parecem guiar ou conduzir a dois lugares praticamente
opostos: Belém e o tell de Hazor. Pelo
menos, é isso que eu penso...)
Nota: Marcos 6.2.0, incompreensível! Como deve entender-se esta
quinta frase do enigma: guia Marcos?, guia. Marcos 620?, guia
Marcos 6.2.0? Cuidado!, pode não ser um homem.
Talvez um determinado documento ou direcção? Até agora,
exploração negativa.
«O NÚMERO SECRETO DAS SUAS PENAS É O NÚMERO SECRETO DO
GUIA. »
(Convém baralhar as cifras mais significativas: 42, 12 e 6. Inclinome
para a última, até porque a soma total também remete para o
6.) Nota: estou longe de imaginar o significado de número secreto
do guia.) Não faço a mínima Ideia...
Frase vertical:
«OLHA
DIANTE DE
HAZOR
E
A
o
ELE.»

(Nada a objectar. Tenho a certeza de que o querubim de Hazor é a
chave. É ele.)
Não me foi possível ponderar aquela espécie de balanço-evocação
do que até então tinha conseguido obter.
Alguém tocou, com delicadeza, o meu ombro direito.
Sobressaltei-me. Ao voltar-me, três indivíduos sorriram-me
simultaneamente. Nem sequer tinha dado pela sua chegada. O mais
baixo de meia-idade e revólver à cintura, pediu desculpa pela
interrupção. Identificou-se como guarda do museu, pedindo-me que
prestasse atenção aos que o acompanhavam.
Tratava-se de dois jovens, correctamente vestidos e de maneiras
impecáveis. Sem deixar de sorrir, um deles tirou do bolso posterior
das calças uma pequena carteira de plástico castanho. Abriu-a e
deu-me a ler: Agaf Hamodün.
Instintivamente pus-me à defesa. O Agaf é o serviço de
informação do exército judaico. Juntamente com o célebre Mossad
(Mossad Lemodün Vetafkidim Meiujadim ou Instituto de Informação
e Operações Especiais), constitui a mais perfeita máquina da
espionagem mundial.
Foi em vão que tentei reflectir. Que diabo se estava a passar?
- Não se alarme interveio o da credencial, adivinhando a minha
inquietação -, chamo-me Tzipori. O meu colega Ivri e eu próprio
desejamos fazer-lhe algumas perguntas...
- Mas, como é que sabem...?
O que dizia chamar-se Tzipori guardou a carteira e, fitando-me
friamente com os seus olhos azuis, ladeou a
estúpida pergunta.
- A nossa obrigação é saber, senhor Benítez. Sabemos que o
senhor é basco, jornalista e que, entre outras coisas, adquiriu uma
certa cartografia militar...
- Não compreendo.
Com um gesto calculado da mão direita, o israelita incitou o seu
colega a que refrescasse a minha memória. Como um autómato, Ivri

foi enumerando os mapas que, de facto, eu tinha comprado no dia
anterior:
- Mapa nove: Jericó; quatro:
Teverya; seis: Bet Shean; dois...
- Já percebo... - disse eu aliviado. E procurei esclarecer o malentendido.
Mas os judeus travaram os meus desejos com outras
perguntas.
-Diga-nos porque é que os adquiriu? E porquê os mapas treze e
catorze? Fiz um esforço, mas, na verdade, nem me lembrava a que
parte do território correspondiam aquelas folhas. A minha sincera
ingenuidade confundiu-os. - Treze e catorze?... A que zona
pertencem?
- Ao Neguev! - esclareceram eles gravemente.
Em segundos julguei descobrir o motivo de tanta preocupação.
Estupidamente, tinha caído numa armadilha.
Aquelas plantas do Sul de Israel contêm dois enclaves de especial
interesse estratégico-militar: uma base aérea e o controverso silo
atómico de Rifidimi. Segundo o que eu sabia, na primeira destas
instalações tal como eu comentara com o então embaixador
israelita em Madrid devia encontrar-se ainda um dos motores do
avião da Iberia que caíra sobre o monte Oíz, nas proximidades de
Bilbau, no País Basco. É claro que, como oportunamente referi, não
tinha a menor intenção de aventurar-me por semelhantes paragens.
Mas uma coisa eram os meus íntimos propósitos e outra, muito
diversa, as suspeitas do Agaf. Estava a pisar um terreno muito
escorregadio.
- É muito simples defendi-me eu, suavizando as palavras. Tenho
a intenção de reconstituir a histórica viagem de Maria e José de
Nazaré a Belém de Judá, e esses mapas são imprescindíveis. O
doutor Liba, do Instituto de Relações Culturais, o consulado
espanhol em Jerusalém e o próprio Samuel Hadas, vosso embaixador
no meu país, estão ao corrente.
- Também já sabemos disso contra-atacaram eles com
obstinação. - E o senhor não ignora que o deserto do Neguev fica
muito distante da rota que pretende reconstituir...

Estava apanhado. Felizmente, a impaciência de Tzipori evitou
males piores.
- Quando é que pensa empreender essa caminhada?
- Se não houver mconvementes, amanhã mesmo. Talvez segundafeira...
A fulminante improvisação relaxou um pouco os duros olhares dos
agentes da Informação Militar, mas, em contrapartida, mergulhou-me
na incerteza. Acabava de hipotecar o meu tempo e as imediatas e,
sem dúvida, cruciais investigações. Mas as escorregadelas não
acabavam ali.
-Está bem.
Tzipori estendeu-me a mão e, ao despedir-se, disse algo que
parecia queimar-lhe a língua:
*1 Para mais informações, veja-se Operação Cavalo de Tróia II,
pp. 90 e seguintes (N. Do A.) - Estranha a visita a esta sala em
especiál. Não sabia que se interessava tanto pela arqueologia...
Compreendi a indirecta. Muito possivelmente ou, melhor
dizendo, com toda a certeza os serviços de informação israelitas
estavam a controlar todos os meus actos e movimentos. A prova
disso é que eles me tinham encontrado. Tive de morder a língua.
Mas, na minha preocupação por apresentar naturalidade e
transparência, mostrei-lhes o caderno de campo, metendo de novo
os pés pelas mãos...
- Trata-se do anjo de Hazor expliquei-lhes, ao mesmo tempo que
Tzipori, astuto e vigilante, me arrebatava o bloco, esquadrinhando-o
de ponta a ponta. - Um tesouro do século nono antes de Cristo que
pode servir-me para a elaboração de um futuro livro...
Ignoro se os agentes percebiam o espanhol. O facto é que sem
qualquer rebuço, foram passando folhas e plantas, trocando rápidos
comentários em hebraico. De repente, Ivri, ao desdobrar a planta de
Jerusalém que eu consultara e sobre a qual trabalhara com a
bússola, chamou a atenção do seu colega, indicando-lhe um
determinado ponto. Eu, como um perfeito tonto, continuei com o
meu discurso sobre as excelências do tell de Hazor. Mas notei
entretanto, como Tzipori cerrava os dentes, passando a pente fino

todo o mapa com semblante carregado.
Alguma coisa se estava a passar.
Por fim, pondo-me ostensivamente a planta diante dos olhos,
perguntou de chofre:
- E isto?
Correspondi com idêntica sem-cerimónia afastando com firmeza a
mão que segurava o mapa. Sem me alterar, baixei a vista,
examinando o lugar que suscitava o seu tão vivo interesse.
Maldição! Tratava-se do pequeno desenho feito por M. Gabriefi,
autor do referido mapa, a assinalar a localização do Knesset.
Mecânica e inconscientemente, como atrás referi, eu encerrara-o num
círculo vermelho, ao comprovar a fiabilidade da agulha magnética.
Disse-lhes a verdade, mostrando-lhes mesmo a bússola. Duvido
que tenham aceitado tão peregrina saída... E a pergunta seguinte
confirmaria as minhas suspeitas:
- Muito bem. E então por que é que o Knesset foi marcado a
vermelho e as restantes direcções e lugares a azul? Sagazes e
desconfiados, nada lhes escapava.
Imaginei o pior. Aqueles sujeitos ou a legião de agentes
disfarçados em Israel podiam estar a par dos meus contactos com
os árabes e, dada a minha condição de basco, associá-los a outra
eventual actividade terrorista que, naturalmente, detesto. Meu
Deus! Como explicar-lhes que tudo aquilo não passava de uma
cadeia de infelizes coincidências? - Pensam por acaso que sou um
terrorista? - explodi.
Os judeus devolveram-me o caderno de campo e, do alto da sua
irritante suficiência, Tzipori deu por encerrada a entrevista com uma
frase que jamais esquecerei:
- Se o fosse, meu amigo, já estaria morto...
Não houve mais comentários, conselhos nem esclarecimentos. Tal
como tinham chegado, assim desapareceram. A partir de então, a
minha estada em Israel tornou-se num contínuo sobressalto.
Atemorizado pelo cariz que os acontecimentos iam tomando, não
hesitei. Cumpriria a minha promessa. As pesquisas à volta do

enigma podiam esperar. Não podia sequer pensar em contrariar os
perigosos Serviços de Informação. E nessa mesma tarde preparei a
grande caminhada. Seguindo as prudentes recomendações do
doutor Liba dada a elevada conflituosidade e teórica
periculosidade de um dos lanços do percurso: a franja fronteiriça
entre Israel e a Jordânia -, telefonei a vários meus colegas e
correspondentes de imprensa em Jerusalém e Telavive, a fim de lhes
anunciar o meu objectivo. Desta forma, se a notícia saltasse para os
meios de comunicação judaicos, a minha aventura seria por certo
apoiada, sobretudo em face dos postos de controlo militar
dispostos ao longo da fronteira direita do rio Jordão. Contudo, não
tive muita sorte. A notícia, que eu saiba, jamais teve eco na
imprensa de Jerusalém. Não desanimei. Correria todos os riscos.
Tudo somado, assim até era mais excitante.
Ao amanhecer, um autocarro levou-me até Nazaré; e por volta das
nove e meia, com uma incómoda mochila vermelha às costas e o
espírito inflamado perante semelhante desafio, dei início à
caminhada. Após uma breve prece, iniciei a descida para as
planícies de Israel, rumo a Bet Shean, a antiga Scythópolis, fim da
primeira etapa. O meu plano previa quatro etapas, de um pouco
mais de quarenta quilómetros cada, descendo paralelamente ao
Jordão, com uma segunda paragem no sopé do monte Sartaba. A
terceira jornada, em pleno deserto de Judá, terminaria no oásis de
Jericó; e a partir daí, finalmente, subindo as íngremes encostas que
vão dar à Cidade Santa, cobriria numa quarta e derradeira etapa o
resto da distância que separa Jerusalém de Belém. Seriam ao todo
cerca de cento e setenta quilómetros.
Mas, como já referi, não é este o momento nem o lugar para
relatar tão memorável e acidental excursão. Modestamente, isso
sim, creio ter contribuído para demonstrar que a rota mais lógica
para uma viagem como a empreendida por Maria e José não é a da
Samaria pelo centro de Israel mas a do rio Jordão. Um espanhol
terá sido, enfim, o primeiro louco e orgulho-me disso a
reconstituir a decisiva peregrinação dos pais terrenos de Jesus, da
Galileia à cidade de David.
Mas voltemos ao que agora importa: o criptograma e as
peripécias em que me vi envolvido até ao fim.

Na quarta-feira, 3 de Dezembro de 1986 à luz neutra do
crepúsculo, avistava por fim a cidade de Belém. Com andar
inseguro e passo curto mais próprio de um velho que de um
homem de quarenta anos, consequência lógica da dureza do
caminho, dos pés doridos e daquela persistente dor na coluna,
terminei a odisseia diante das paredes brancas da Igreja da
Natividade.
Talvez fosse mera casualidade (?). O facto é que, ao terminar a
caminhada no terreiro pavimentado e me encostar ofegante ao
pedestal sobre o qual se levanta a estrela de cinco pontas o repicar
de um dos sinos do recinto sagrado encheu-me o coração de júbilo.
Levantei o olhar para o céu purpúreo daquele ocaso e agradeci o
oportuno sinal e a benevolência do Pai Eterno, que me permitira
chegar até ali.
Durante algum tempo, alheio a tudo, chorei em silêncio,
afugentando assim os medos, as angústias e a solidão daqueles
dias. O frio e cintilação das primeiras estrelas secaram as minhas
lágrimas e a placidez que me inundava.
Regressei de imediato a Jerusalém. No hotel não havia Serviços
de Informação apostaria nisso a minha própria vida. No hotel
estavam a par das minhas andanças, mas souberam guardar as
distâncias. No entanto, a partir dessa altura todo o cuidado era
pouco. Pelo menos durante algumas horas, não seria eu a quebrar
as tréguas. O meu único desejo era tomar um banho retemperador e
e atirar-me a um prolongado descanso. O céu e os homens
respeitavam a minha vontade, mas, por volta das nove da manhã do
dia seguiinte, o telefone diabolicamente pertinaz arrancar-me-ia
a um quase cataléptico e reparador sono de catorze horas.
Ao erguer-me da cama, uma fortíssima e generalizada dor muscular
manifestou-se inopinadamente acabando por derrubar-me. Era-me
impossível alcançar o auscultador. Ao quinto ou sexto sinal, deixou
de tocar.
- Meu Deus! Não posso mexer-me!
Aquelas picadelas nada de grave, na verdade não deixaram de
ter consequências. Esperei uma hora e, perante o risco de
adormecer de novo, apertei os punhos, dando início a uma lenta e

cómica saída da cama. Várias pastilhas de glicose, um bom duche e
uma forte aplicação de linimento aliviaram momentaneamente o
meu estado deplorável.
E estava preocupado por não ter atendido o telefone. Quem
poderia ter sido, Pressenti por detrás a actuação silenciosa dos
serviços secretos e, na previsão de males maiores decidi averiguar.
Marquei o 528658 e de imediato o meu bom amigo Elias Zaldívar,
correspondente da Agência Efe com quem tinha mantido contacto
na primeira etapa da caminhada a pé -, satisfez as minhas dúvidas,
negando ser o autor da chamada.
Nem sequer sabia do meu regresso a Jerusalém. Alegrou-se ao
ouvir-me, prometendo-me enviar para Espanha um breve relato da
minha pequena façanha.
Não foi preciso dar grandes voltas. Logo que desliguei, Raquel
telefonava-me, dizendo que tinha sido ela a fazer a chamada
anterior que eu não pudera atender. O caso fez-me pensar. Na
realidade, porque deveria eu surpreender-me... Continuei, no
entanto, a sopesar a suspeita pontualidade da funcionária do
Governo israelita. Era casualidade a mais o ter-me telefonado
precisamente poucas horas após o meu retorno ao hotel.
Quando lhe confirmei a conclusão da minha aventura por terras do
Jordão, mostrou alguma incredulidade e directa como sempre
relembrou-me as reuniões que estavam pendentes.
Uma delas, aprazada para o Museu de Medicina Antiga de Israel,
vinha-me mesmo a calhar. Hoje, sinceramente, arrependo-me da
loucura cometida.
Acedi, como era lógico e natural. Compareceria, submissamente, a
quantas entrevistas fosse preciso. Deste modo, ficava com quase
todos os meus movimentos controlados.
É claro que nem preciso de dizer que, apesar destes empecilhos
oficiais, o meu plano se mantinha de pé. Estava já a engendrar um
processo para romper o cerco e reatar as investigações em torno do
criptograma. Para começar, até às quatro da tarde, hora prevista
para a primeira das reuniões na Universidade Hebraica, dispunha
ainda de uma margem que não estava disposto a malbaratar.

Durante as oito horas em que fiquei sozinho ao longo de cada um
daqueles quatro dias, dispus do tempo suficiente para reflectir
sobre o enigma. As frases quarta e quinta - ...e as suas asas levarte-
ão ao guia Marcos 6.2.0 ocuparam boa parte dessas
prolongadas meditações. A palavra guia podia ser encarada sob
aspectos muito diversos: como uma pessoa que conduz outra ou lhe
ensina o caminho; como um guia turístico, tão numerosos em Israel;
como um mestre ou guia espiritual; como um poste ou pilar servindo
de indicação; como um livro ou tratado de preceitos ou, por fim,
entre outras traduções, podia ser mesmo entendido como o
sarmento ou vara que se deixa nas cepas e nas árvores quando se
faz a poda.
Tendo em consideração que as asas do anjo pareciam conduzir a
Hazor ou a Belém, o normal era pesquisar nesses lugares. O tell da
Galileia, por influência da lembrança da minha desastrosa visita e
também pela distância a que se encontrava a cidade-fortaleza, foi
relegado para segundo plano. Belém atraía-me muito mais. Tomada
assim a decisão de pesquisar na cidade de David, o passo seguinte
não era tão cómodo como isso.
Como e por onde começar? Não sei se foi de facto o mais correcto,
mas foi certamente o mais exequível: pus de lado as interpretações
mais complexas do termo guia, limitando o campo de acção a uma
das facetas mais fáceis de comprovar: a de guia turístico. Sei que
avançava às cegas e que essa coisa de guia turístico era muito
prosaico.
Mas como dizia, por algum lado tinha de começar. Na minha
indomável fantasia erro lamentávelmantinha-se viva a imagem de
um guia igualmente fantástico, oculto pelos véus do mistério e
talvez inacessível. Estava mais uma vez a esquecer a peculiar
simplicidade e o estilo directo do Major.
Era impossível dar-me conta de como estava perto da resolução do
enigma e dos tortuosos acontecimentos que a acompanhariam. Os
telefones do Ministério do Turismo de Israel 240141 e 4661516
estavam sempre ocupados. Por isso, e apesar das dores que me
atormentavam, decidi-me pela única fórmula viável para resolver
aquela primeira incógnita. Três quartos de hora mais tarde depois

de invocar os nomes de dois dos meus contactos com o citado
Ministério os senhores Hod e Kotzer -, um dos funcionários
apresentava-me à responsável pelos staff guide, dependentes, na
sua maioria, das centenas de agências de turismo radicadas no
país.
- Se bem entendi retorquiu a funcionária israelita com
requintada amabilidade -, o senhor deseja consultar as listas dos
guias oficiais de turismo de Hazor e Belém...
Concordei com impaciência.
- A que guias se refere, exactamente?
- Não compreendo.
Com excelente capacidade de precisão pormenorizou a sua
pergunta informando que os guias autorizados a trabalhar na cidade
de David eram mais de quinhentos.
A cifra desanimou-me. De repente, o piscar alaranjado de uma das
linhas do telefone interrompeu a conversa. A mulher escutou
atentamente durante um ou dois intermináveis minutos alternando
os seus concisos monossílabos com várias e esquivas olhadelas para
a minha pessoa. Não lhe atribuí importância de maior. No entanto,
ao reatar o diálogo, apercebi-me de uma notável mudança no tom
da sua voz. A cordialidade inicial, se bem que sempre presente,
tinha descido de nível. Foi algo de instintivo. No nosso diálogo
começou a aflorar um clima de mútua desconfiança. Aquela chamada
tinha, sem dúvida, muito a ver com os meus velhos amigos do
Agaf...
- É uma questão diferente prosseguiu ela, reatando o fio da
conversa se o senhor se refere aos que residem de forma habitual
em Belém ou no tell de Hazor e, ao mesmo tempo, desenvolvem a
sua actividade nessas zonas.
Os seus olhos brilharam com uma mal contida curiosidade,
aguardando a minha resposta. A verdade é que eu não dispunha de
muitas opções. Se fosse preciso, queimaria as pestanas sobre a
extensa lista, à procura do mais insignificante indício. Mas o melhor
seria começar pelo mais cómodo.
Decidi-me então pelo último. Em boa lógica, os guias legalmente

autorizados, que habitam permanentemente em Belém ou Hazor,
não podiam ser muito numerosos. E confiei na minha boa estrela.
Enquanto a funcionária remexia na sua mesa, à procura da referida
relação, assaltou-me uma incómoda dúvida: e se não fosse um guia
oficial? Não é segredo nenhum que em Israel, os que vivem como
guias ocasionais ou clandestinos muito especialmente os árabes
são uma legião.
E eu sempre a complicar a minha vida...
- Cá está interveio ela, desfazendo a minha repentina incerteza.
- Vejamos...
Foi passando as folhas plastificadas de uma grossa agenda negra
e, uma vez localizados os guias de Belém e Hazor, ergueu o olhar,
sugerindo-me que me sentasse. Agradeci a atenção, até porque as
minhas pernas ainda me doíam.
Percorreu com o indicador esquerdo uma coluna de nomes,
endereços e números de telefone e, ao passar à página seguinte,
murmurou quase de si para si:
- Tal como eu supunha, em Hazor não reside nenhum guia.
Os mais próximos (que se ocupam da visita ao tell vivem em
Teverya, Nazaré e, naturalmente, aqui, em Jerusalém.
Recebi a informação com alívio. Tinha a pesquisa simplificada. E
sem aviso prévio, a funcionária disparou duas perguntas que eu já
esperava desde o início: - E porque lhe interessam essas pessoas?
Está a pensar em alguma em especial? Em momentos tão críticos
não me dei conta das segundas intenções da minha interlocutora.
Mas depois percebi tudo.
Conforme pude e Deus me ajudou, informei-a de que desejava
visitar a zona e por isso precisava de um guia sério e competente.
- Quanto à pessoa em concreto dissimulei com frieza -, não
tenho preferências especiais.
- Compreendo...
Uma densa pausa fez-me pressagiar novas complicações.
- Afinal, nem há muito por onde escolher concluiu com fingido

desalento. - Veja e decida o senhor.
Às vezes acontece. Com os dedos trémulos impaciente por apanhar
a lista, nem sequer reparei na hábil manobra. Ou estaria eu a ver
espiões infiltrados por todo o lado? A verdade é que só depois, ao
tomar um táxi e confirmar que estava a ser seguido, é que me dei
conta. O mais lógico teria sido que ela própria tomasse a iniciativa
de recomendar-me a um qualquer dos guias.
Mas não. Astuta e premeditadamente, deixou-me actuar. E eu,
estupidamente, mordi o anzol.
Invoquei todos os santos.
Mas os escassos vestígios de serenidade que ainda me restavam
desapareceram exactamente ao receber a agenda. O escandaloso
tremelicar do bloco de endereços não passou despercebido à minha
felina observadora. Segura de si, continuou a perscrutar as minhas
reacções. Topei um par de vezes com o seu olhar inquiridor, mas
baixei os olhos, impotente.
Mais inquieto e perturbado pelo incontrolável tremor que pela
lista que se abria sobre os meus joelhos, só me concentrei nela à
segunda ou terceira leitura. Por fim, uma vez de posse da relação de
guias autorizados que residiam habitualmente em Belém, os nervos
acalmaram-se, dando lugar a uma não menos implacável emoção.
Na página esquerda sob o brilho traiçoeiro do plástico, aparecia
uma série de nomes e apelidos, precedidos de diferentes números
de cinco dígitos que, francamente, não fui capaz de interpretar. A
seguir vinham os respectivos domicílios, telefones, caixas postais,
nacionalidade e raça, a data do início da sua actividade como guia
e a ou as agências turísticas com as quais trabalhavam.
A funcionária judia, por detrás do seu silêncio, pareceu
surpreendida com a minha rápida recuperação. Abri o caderno de
campo e, disposto a desafiá-la, fui copiando a lista. Por razões
óbvias, vejo-me obrigado a omitir parte da informação ali reunida.
O que primeiro me chamou a atenção foi o facto de a maioria dos
guias ser árabe. No fundo, era o mais natural, já que boa parte da
população de Belém o é. Terminadas as minuciosas anotações,
passei a cotejá-las com o original. Ao chegar ao meio da lista, o

meu coração sobressaltou-se.
Voltei atrás estupefacto, relendo as inscrições anteriores. Por
último, ansioso, avancei até ao último dos guias inscritos.
A funcionária notou a minha excitação. E, sem poder conter a sua
venenosa curiosidade, quebrou o silêncio: - O que é que se passa?
Encontrou o homem que procurava?
- Bom..., não sei disse eu com hesitação, ao mesmo tempo que
fazia um grande esforço por controlar o júbilo que, como uma rajada
de vento, quase me levantava da cadeira. - Assim, à primeira vista...
Insatisfeita com a minha evasiva, pressionou sem contemplações.
- Há algum que lhe sirva? Quer contactá-lo já daqui?
Trocou a dureza do seu semblante por um acolhedor sorriso,
passando-me o auscultador do telefone. Mas desta vez a
Providência acudiu à minha perigosa espontaneidade.
Além disso, eu nem sequer tinha a certeza. Convinha sopesar
aqueles dados longe de possíveis interferências oficiais...
- Não, obrigado interrompi com decisão. - Tendo em conta que
todos são bastante antigos no serviço - acrescentei com uma
teatralidade que ainda agora me espanta qualquer deles me
parece ser bom candidato. Vou pensar...
Sem dar-lhe trégua, devolvi-lhe a milagrosa agenda, inquirindo
quanto àqueles enigmáticos números e nomes que encabeçavam
cada página e que tanto me intrigavam...
A mulher acentuou o seu sorriso, pagando-me na mesma moeda.
- Isso não lhe diz respeito... Digamos que se trata de um código
secreto e cifrado, de uso exclusivo do Governo.
- Um número secreto!
A minha exclamação, a torrente de alegria e a não dissimulada
surpresa que em mim provocou a lacónica mas reveladora
insinuação, esgotaram a sua paciência e creio eu, a sua capacidade
de entendimento: O deslize punha ponto final à minha visita à sede
do turismo judaico.
Apertei com força a sua mão. O aparente gesto de amizade e

gratidão desconcertou-a completamente, levando-a a corresponder
com um impreciso sorriso.
Momentos depois, eufórico, abandonava o local, estreitando
contra o peito a valiosa informação.
Caminhei três ou quatro metros ao longo do corredor e, assaltado
por uma invencível curiosidade, fiz meia volta e retrocedi. A velha
táctica daria os seus frutos. Violando as mais elementares normas
de educação, empurrei a porta de vidro do gabinete onde tinha sido
recebido assomando a meio corpo.
O meu inesperado aparecimento apanhou desprevenida a
funcionária, precisamente quando ela, de telefone em punho e em
hebraico, avisava alguém da minha partida. Isso foi pelo menos o
que eu deduzi do seu visível nervosismo. Um pouco mais tarde, o
taxista que me conduziria ao hotel, ao traduzir as três frases que
consegui ouvir e fixar, confirmaria as minhas suspeitas.
Foram mais ou menos estas as palavras que, como dizia, consegui
reter: «Ha-ish sheljá iachá ka-rega...
Beseder... Eeséh ma she-ujal».
Palavras essas que, traduzidas, não ofereciam grandes dúvidas: O
seu homem acaba de sair... Está bem. Farei o que puder.
Ao reconhecer-me, interrompeu a conversa telefónica, encostando
o auscultador ao peito.
- Desculpe! - adiantei eu sem soltar o manípulo da porta.
- Esqueci-me de perguntar qual a tarifa oficial por dia...
- Isso é estabelecido pela agência, senhor! - trovejou ela lá do
fundo do seu gabinete.
- Ah, claro! Desculpe.
A teia de aranha dos Serviços de Informação continuava a
envolver-me, invisível mas certeira. Contudo que insensatez a
minha! -, o perigoso jogo, longe de me atemorizar, libertou a minha
adrenalina, excitando-me ainda mais. Não tinha nada de que me
envergonhasse. Por isso, com uma temerária inconsciência, resolvi
despistá-los. (Relembro agora com pavor esse velho e sábio adágio
popular que diz que a ignorância é atrevida.)

Não foi difícil notar a presença no vestíbulo daquele indivíduo
rechonchudo, de fartos bigodes e guarda-chuva pendurado no braço.
Apesar de esconder a cara de lua-cheia atrás de um exemplar do
Jerusalem Post, os nossos olhares cruzaram-se. O que acabava de
passar-se no gabinete falava por si. Aquele podia ser o homem da
comunicação telefónica. Em breve o saberia.
O número 24 da King George Street, sede do Secretariado do
Turismo, não era muito longe do Moriah Jerusalem Hotel.
Poderia ter feito o percurso a pé. Mas, dadas as persistentes
dores musculares e a mórbida curiosidade de comprovar se estava a
ser seguido, escolhi o mais cómodo e seguro.
À entrada do edifício, ocupando parte do passeio e com dois
ocupantes no seu interior, estava estacionado um Mercedes 300-D,
cinzento. A movimentada avenida não é exactamente um lugar onde
se possa estacionar daquela maneira. Aquilo fez-me desconfiar. E
enquanto esperava por um táxi, fixei a matrícula: 699-518, placa
amarela.
Ao entrar no primeiro táxi livre que apareceu, hesitei.
Dirigir-me-ia para o hotel ou daria uma volta pelas ruas
adjacentes. Se o Mercedes como eu suspeitava pertencesse aos
Serviços de Informação judaicos, em breve o confirmaria. Por outro
lado, pedir ao motorista que despistasse o potente automóvel
afigurou-se-me arriscado.
O mais prudente era regressar ao Moriah. Intencionalmente,
sentei-me ao lado do motorista, espiando as manobras dos
hipotéticos agentes através do espelho retrovisor. De facto, mal
arrancámos, o gorducho do jornal dirigiu-se rapidamente para o
Mercedes que, misturado no fluxo do trânsito, veio colocar-se a uns
cinquenta metros atrás do carro em que eu seguia.
Quinze minutos depois, diante das portas amarelas do hotel,
simulei um inexistente regateio com o taxista. Eu explico-me. Para
um observador exterior a minha gesticulação e o meu esbracejar com
o dinheiro na mão poderiam ser interpretados como uma
normalíssima discussão do preço, tão comum entre os turistas
experientes e os profissionais do táxi em Israel. Na realidade, a

conversa seguia rumos bem diferentes...
O pretexto da tradução para inglês das palavras hebraicas que eu
tinha apanhado no ar no escritório da funcionária veio-me mesmo a
calhar para demorar a saída do táxi, dispondo assim de um tempo
precioso para poder observar as evoluções do Mercedes cinzento. O
motorista agradeceu a gorjeta e a possibilidade de quebrar a
monotonia da manhã, prestando-me, sem saber, um inestimável
serviço. Nesse lapso de tempo, dividido entre o retrovisor e as
prolixas explicações do meu oportuno tradutor, comprovei com
pérfido regozijo que os meus perseguidores abrandavam a marcha.
Hesitaram dois ou três segundos e, convencidos de que eu me
preparava para entrar no hotel, viraram à sua esquerda, tomando a
rampa de acesso ao estacionamento subterrâneo do Moriah.
Tinham, pois, caído num erro. Se as minhas intenções tivessem
sido outras, poderia tê-los despistado, quer afastando-me do local
no mesmo táxi quer apanhando qualquer dos autocarros com
paragem diante do edifício do hotel, de ambos os lados da rua.
Mas, para já, não era esse o meu objectivo.
O meu maior desejo era sentar-me calma e sossegadamente e
proceder a uma exaustiva análise do que tinha descoberto no
Ministério do Turismo.
Pedi a chave do meu quarto e, quando estava para entrar num dos
elevadores, pensei melhor. Aquela situação divertia-me.
Faltavam duas horas para a minha entrevista na Universidade
Hebraica e esperando tirar daí algum proveito, instalei-me num
canto do vestíbulo, de forma a observar e ser observado sem
dificuldade. Cinco minutos depois, eu pensava quando o cara de
lua-cheia e um segundo indivíduo entravam a porta giratória.
Debrucei-me sobre o caderno de campo, aparentemente alheio a
tudo o que me rodeava.
A chegada de uma das empregadas fez-me lembrar que estava
praticamente em jejum, conferindo à cena uma maior naturalidade.
De soslaio, enquanto pedia um copo de leite e uma dose de torta
de queijo, fui seguindo os movimentos dos meus contumazes
amigos. Vi-os a trocar algumas frases, olhando-me de esguelha, até
que finalmente se dirigiram à recepção, solicitando a presença de

um dos empregados. A distância cerca de vinte metros e o facto
de os indivíduos me terem virado as costas anularam toda a
possibilidade de eu captar directamente a cena, se bem que
imaginasse tudo ou quase tudo o que se passou nos cinco ou dez
minutos que durou o conclave. A única coisa que consegui observar
foi como o companheiro do gorducho buscava e rebuscava nos
bolsos de trás dos seus coçados jeans, acabando por tirar qualquer
coisa talvez um pequeno bloco de notas em que fez algumas
rápidas anotações. Logo a seguir, com a mesma discrição, depois
de se certificarem de como eu tomava o meu frugal almoço,
abandonaram o hotel.
Para falar verdade, o desaparecimento dos supostos agentes não
me serviu de consolo, seguro como estava de que tramavam
qualquer coisa contra mim. Ainda estive tentado a espreitar lá para
fora, mas compreendi que o mais inteligente era seguir o jogo
deles, fazendo-lhes crer que ignorava a sua presença. Tal situação
proporcionava-me uma certa vantagem.
..e as suas asas levar-te-ão.
Ao guia MaRcos 6.2.0
O número secreto das suas penas é o número secreto do guia...
Aquilo, sim, era importante. O Destino, talvez cansado de tanto
mistério, acabava de prestar-me uma ajuda inestimável.
Na relação de guias autorizados pelo Ministério do Turismo de
Israel, com residência habitual em Belém, figuravam doze nomes.
(Seria também casualidade que fossem precisamente 12?) Destes,
quatro Toufite, Abraham, Mike e Elias desempenhavam as suas
funções na própria cidade de David. Os outros Emin, Raimundo,
José, Michel e outros três Elias levam os turistas e peregrinos a
todos os locais da Terra Santa. Premeditadamente apenas
mencionei onze dos doze profissionais incluídos na lista.
É que o último, que se encontrava a meio da lista oficial, foi o
causador do meu já referido júbilo. Na breve referência da qual
omito alguns dados por razões de segurança pude ler e copiar o
seguinte: 00006. Marcos Gabriyeh. Morada... Apartado 620. Belém.
(Não tem telefone.) Árabe cristão. Exerce desde 1965. Fala

hebraico, árabe, inglês, espanhol, francês, italiano e português.
Trabalha para a Agência... Endereço... P.O.B...
Telefones... Caboama... Telex... Jerusalém.
Como o leitor já terá percebido, nestas telegráficas linhas
apareciam alguns dados reveladores que levaram ao auge a minha
excitação. Para começar, aquele era o único guia de Belém que
tinha o nome de Marcos. Quanto aos três dígitos do apartado,
quem poderia imaginar? 620! A mesma cifra que acompanhava a
inicialmente suposta citação bíblica: MARcos 6.2.0.
..e as suas asas levar-te-ão ao guia Marcos 6.2.0.
O quebra-cabeças começava a resolver-se. As asas do anjo de
Hazor estavam a levar-me a um guia, de nome Marcos, cujo número
secreto oficial 00006 coincidia com o das penas do querubim: 6.
Estudei o criptograma, sem dar crédito ao que agora, após tantos
esforços e congeminações, resplandecia perante mim como o que há
de mais cristalino no mundo. E recordei com um estremecimento a
carta de Munique.
Se tudo aquilo era algo mais que uma miragem as minhas velhas e
inseguras deduções tinham acertado em cheio. O Major, jogando na
desorientação, soube extrair a oportuna utilização do número e dos
textos do evangelista, incrustando um segundo Marcos no ponto
exacto. E como já tinha acontecido com a primeira das mensagens,
que me levou a Washington, as sucessivas chaves foram
introduzidas como se se tratassem de peças complementares, com
um papel de apoio ou ratificação do essencial.
Em suma, aceitando que os meus passos e elucubrações
estivessem certos, o enigma parecia estar a chegar ao fim. No
entanto, apesar da solidez das aparências, o meu espírito
desconfiado não era capaz de assimilá-lo e, o que era mais
importante, não conseguia admitir que tivesse triunfado. Suponho
que é a minha maneira de ser.
Naturalmente, continuei a admitir a possibilidade de o ditoso guia
ser uma coisa ou pessoa diferente. Mas o senso comum rebelava-se
contra tal hipótese.
Inegavelmente, tudo aquilo fazia sentido. Tudo engrenava na

prodigiosa roda da lógica. E assim deixei-me arrastar pelos sonhos.
Talvez o Major, sabe-se lá quando, tenha conhecido um homem
chamado Marcos. Talvez tenha sido seu amigo e lhe tenha confiado
algo que prepararia o meu caminho... Por que não? Abandonei tais
pensamentos e, travando a minha imaginação anotei o que entendi
como de imediata e obrigatória realização: Localização e entrevista
com o tal Marcos, de Belém.
Desconhecia o que me aguardava e, por isso, calculei os riscos,
considerando que tal encontro deveria efectuar-se sem testemunhas;
muito especialmente, fora da órbita dos Serviços de Informação
Militar israelitas. Naquele momento à vista do leque de dados e de
acontecimentos que se abria diante de mim, felicitei-me pelo
silêncio guardado no gabinete da funcionária do Turismo.
Não podia esquecer e os serviços secretos muito menos que a
região de Belém constitui um dos mais virulentos focos do terrorismo
em Israel, tendo-se transformado num verdadeiro canteiro donde
brotam inúmeros palestinianos, dispostos a combater pelos seus
legítimos direitos. No caso de ter pronunciado o nome de Marcos,
ou qualquer outro, as minhas dificuldades com o Agaf teriam sido
dramáticas. Vendo bem esta poderia ser uma das razões, entre
outras, pelas quais a espionagem Judaica me mantinha sob
controlo.
Era absolutamente necessário organizar tudo conscienciosa e
meticulosamente. E o meu atrevido cérebro começou a maquinar um
plano.
O tempo piorou. O frio e a chuva intensificaram-se em Jerusalém
e, não de muito boa vontade, dispus-me a apanhar o autocarro 4A,
que deveria levar-me à Universidade Hebraica, no monte Scopus,: a
cidade. Aquele compromisso irritou-me, mas, resignado, que não
convinha dar um único passo em falso.
Enquanto deambulava à entrada do hotel fazendo tempo, ou nas
imediações, junto à paragem do autocarro, Olhei em especial para a
entrada do parque subterrâneo e para a porta giratória do
vestíbulo: Do Mercedes e seus ocupantes nem rasto. Era como se a
terra os tivesse tragado.
Dois judeus ortodoxos, com as suas fúnebres levitas, os

inconfundíveis caracóis pendentes de ambos os lados dos pálidos
rostos e os chapéus de veludo negro protegidos da chuva por
amplas capas de plástico, juntaram-se a mim na espera do
autocarro. Depois, com idêntica desconfiança, vi chegar uma mulher
alta e atraente de rasgados olhos negros. Ao passar diante dela
aguentei o seu olhar inquiridor. Não sabia como proceder. Qualquer
daqueles hirtos semblantes podia ocultar um astuto agente secreto.
Mas porquê esta obsessão?, censurei-me de imediato. A minha
visita a Scopus recebeu a «bênção. Talvez tenham desistido, para
já..».
No entanto, decidi tirar as dúvidas, na medida das minhas
possibilidades. O autocarro chegou pontualmente e as suas portas
hidráulicas resfolegaram, franqueando-nos o acesso. Os judeus, sem
a menor consideração, puseram-se à frente. A mulher, mais
prudente, ficou para trás. E eu pus em acção a primeira das provas.
Imóvel sobre os degraus que conduziam ao motorista e cobrador,
toquei no ombro do indivíduo que me precedia, perguntando-lhe,
em inglês, se era aquele o autocarro da Universidade. Sabia que
estes fanáticos da religião talvez moradores do Bairro de Mea
Shearim levam o seu radicalismo ao ponto de nem sequer dialogar
em outra língua que não seja o hebraico. Se se tratasse de um
membro da Informação Militar, o mais provável seria que se tivesse
dignado responder à inocente pergunta daquele estrangeiro. Não
foi isso o que aconteceu. Voltou a cabeça. Inspeccionou-me de alto
a baixo e, com o mais olímpico dos desprezos, prosseguiu a sua
conversa com o segundo hassidim, ignorando-me.
Perfeito, pensei cá para mim, encaixando aquela reveladora
desconsideração.
Já só faltava a mulher. O normal, na suposição de que fosse o que
eu suspeitava, era que dispusesse de uma arma.
Tinha de confirmá-lo. Cedi-lhe gentilmente a passagem e, já no
corredor do autocarro, fiquei atrás dela. O arranque brusco foi o
pretexto indicado para apoiar-me à sua cintura com ambas as mãos.
O imcidente tão comum nestas circunstâncias não pareceu tê-la
aborrecido demasiado. Com o seu ágil braço esquerdo seguro a uma
das barras de segurança, resistiu ao esticão. Soltei a minha presa e

aproveitando a oscilação do veículo, provocada pela entrada da
segunda velocidade, agarrei-me de novo ao corpo da rapariga,
desta vez por debaixo das axilas, deslizando as minhas mãos, sem o
menor pudor, pelos seus flancos. Uma vez recompostas a
estabilidade e a posição, pedi-lhe desculpa, aliviando-a da firme
pressão das minhas mãos. A jovem, imperturbável, sorriu
maliciosamente, piscando-me o olho. O meu rubor chegou até aos
pés...
Os meus temores eram infundados. A formosa judia não ia
armada.
À hora combinada, Daniel Schwartz, professor de História do Povo
de Israel, recebia-me num dos gabinetes do edifício Truman. Durante
uma hora, na presença de Pessy Druker, também professor da
Universidade Hebraica, o jovem cientista satisfez a minha
curiosidade, falando-me das suas investigações em torno de Pôncio
Pilatos. Diga-se de passagem que algumas das audazes teorias de
Schwartz coincidiam com o exposto no diário do Major norteamericano
acerca deste discutido e injustamente difamado
governador romano.
Embora tenha prestado toda a minha atenção à entrevista, a
verdade é que o meu coração estava muito longe. Para ser exacto,
em Belém. O meu plano inicial não comportava a procura do
enigmático Marcos até ao dia seguinte. Contudo à medida que a
tarde foi avançando, modifiquei os meus projectos. Actuaria de
imediato. Nem os nervos nem a curiosidade aguentariam que eu
cruzasse os braços.
Dito e feito. Por volta das seis, de regresso ao Moriah, pus em
marcha a recém-baptizada Operação Marcos. Procurei o
recepcionista que tinha dialogado com os ocupantes do Mercedes,
pedindo informações sobre algo que eu estava farto de conhecer: a
zona comercial mais próxima. Com a planta da cidade na mão,
recomendou-me o triângulo formado pelas ruas de Jaffa, Ben Yehuda
e George V, no centro. Trata-se, de facto de um verdadeiro paraíso
para o comprador.
Não havia pressa.
Por isso, desafiando a chuva e o persistente mal-estar que me

chegava até aos ossos, dei início a um despreocupado passeio, por
Keren Hayesod acima. O movimento de peões muito escasso
naquela altura, jogou a meu favor. Mas como não tinha a certeza fiz
uma pausa, como medida preventiva, diante de um estabelecimento
de música que se ergue na mesma rua do hotel, a cerca de cem
metros. O silêncio envolvente foi quebrado por um rápido bater de
tacões. Alguém se aproximava. Não me mexi, aparentemente
absorto na contemplação dos discos que se exibiam na vitrina. O
reflexo de um homem gordo, de baixa estatura, apareceu na vidraça
que se erguia a dois palmos do meu nariz. Voltou a cabeça para o
lugar onde eu me encontrava, afrouxando o passo automaticamente.
Era o cara de lua-cheia!
Indeciso, trocou o guarda-chuva de mão, continuando o seu
caminho. Esperei dez ou quinze segundos e, sem querer reprimir a
minha alegria, recomecei a marcha. Engraçado! De perseguido tinha
passado a perseguidor.
O atrapalhado agente, naquela penosa situação só conseguiu
virar a cara umas duas vezes, comprometendo ainda mais a sua
tarefa. O meu objectivo encontrava-se a cerca de meio quilómetro e,
divertindo-me como uma criança, deixei-o seguir.
Inteligentemente, foi para o outro passeio da rua e, com toda a
naturalidade, deteve-se numa das paragens de autocarro. Ao chegar
a sua altura, o cara de lua-cheia mudou de táctica. A partir de
então, passaria a seguir-me a uma prudente distância e sempre em
paralelo, do lado oposto àquele que eu utilizava.
A minha estratégia, elementar, consistia em alcançar a concorrida
confluência das ruas Ben Yehuda e George V. Uma vez ali, com
alguma sorte procuraria despistá-lo. No entanto, ao ultrapassar o
Hotel Plaza já a meio da Avenida George V -, tive uma ideia
melhor e mais arriscada.
Tal como esperava, o gorducho, sempre atento, ficou
desorientado.
Quase de certeza, a informação recebida do recepcionista fê-lo
cair no meu propósito de visitar lojas e fazer algumas compras. Por
ver como eu me detivera sob o abrigo do autocarro número 9, a sua

desolação deve ter
sido notável. Apesar de tudo, tenho de reconhecer, a sorte estava
do seu lado. Se naquele preciso momento tivesse chegado um
autocarro, o meu golpe teria resultado plenamente.
Com grande desgosto meu o primeiro veículo de transporte público
a aparecer na avenida deu-lhe tempo mais que suficiente para
atravessar a rua e misturar-se com o reduzido grupo de pessoas que
se encontravam sob o abrigo.
Ao entrar no autocarro, aumentou a minha contrariedade. E agora?
O cara de lua-cheia, imperturbável, passou ao meu lado, instalandose
num dos assentos lá do fundo, muito perto da saída. Eu fiquei de
pé, diante da porta dupla situada no centro geométrico do veículo e
que era accionada em todas as paragens. Tinha de agir. Mas como?
O número de passageiros foi aumentando nas duas paragens
seguintes, o que poderia beneficiar-me. De soslaio, ocultando-me
entre os passageiros, procurei vigiar o indivíduo. Naturalmente, ele
fez o mesmo.
Não dispunha de muitas alternativas. Era imperioso jogar uma
cartada, mesmo correndo o risco de me denunciar. Nervoso, esperei
pela paragem seguinte. Ao avistar o iminente cruzamento com a Rua
de Hillel, alguém accionou a campainha prevenindo o motorista. O
autocarro parou e, aberta a porta, desci sem pressas. Foi coisa de
segundos. A surpresa atrasou a reacção do agente que, embora com
dificuldade, acabou por descer também. Era o que eu esperava.
O seu sentido profissional fez com que, ao pôr o pé em terra me
virasse as costas, num elementar gesto de dissimulação. Aquele foi
o seu erro. Antes que ele se apercebesse saltei como um gato para
o degrau da porta central, exactamente na altura em que o veículo
arrancava com o seu ronco peculiar.
Fiquei preso na porta dupla, mas pouco depois consegui forçar o
sistema hidráulico, libertando-me. O cara de lua-cheia, desarmado,
nem sequer se mexeu ou esboçou um gesto. Atónitos ficaram os
passageiros mais próximos, que evidentemente não conseguiam
perceber o meu estranho comportamento. A maioria, quero crer, têlo-
á atribuído a um erro na identificação da paragem.

Um quilómetro depois abandonava definitivamente o autocarro
salvador, perdendo-me na noite. Desta vez tinha sido eu a ganhar. E
na próxima? A pequena peripécia, embora me tivesse devolvido a
liberdade de acção, podia provocar consequências imprevisíveis.
Agora, eles sabiam que eu também sabia... Mau negócio.
Fosse como fosse, acontecesse o que acontecesse, não tinha
intenção de desperdiçar a minha temporária vantagem.
Apanhei um táxi e, quarenta minutos depois, descia diante da
Basílica da Natividade, em Belém. Coloquei-me junto de uma das
portas do templo, disposto a verificar se o já familiar Mercedes, ou
qualquer outro veículo suspeito, apareciam no terreiro.
Passada meia hora, convencido de que isso não acontecia,
contratei os serviços de um taxista da cidade que me conduziu com
precisão ao endereço que, de acordo com o Secretariado de Turismo
de Israel, pertencia ao guia e suposto amigo do Major: Marcos
Gabriyeh.
Os dados estavam lançados. Agora, diante daquela casa de um só
piso, o mar de dúvidas que me assaltava encrespou-se ainda mais.
Teria escolhido o bom caminho? Por mais que me esforce não
encontro palavras para descrever o fogo e o vazio que, como
verdadeiro nó górdio, eu sentia nas minhas entranhas ao transpor o
portão da entrada. Pode parecer exagero, mas a verdade é que me
fui abaixo. Fiquei literalmente em branco.
Por onde começar? Se aquele era realmente o indivíduo que eu
perseguia com tanto empenho, como me devia dirigir a ele? Como
deveria apresentar-me Partindo do princípio o que talvez fosse um
excesso de optimismo de que ele guardava algo para mim, como
convencê-lo a entregar-mo Tremendo como a chama de uma vela,
toquei à campainha. Cinco, dez, quinze segundos... Silêncio.
Alarmado, insisti com energia. E se ele não estivesse em Belém?
Dada a sua condição de guia oficial, nada mais natural.
..Vinte, trinta segundos. Chamei pela terceira vez. A resposta foi
idêntica. A casa parecia deserta.
Maldição!
Da incerteza e do espanto passei a uma raiva surda.

Aquilo era injusto. Não havia direito...
Foi inútil.
Ninguém respondeu à minha meia-dúzia de toques de campainha.
Desiludido, dei meia volta, parando no meio da rua deserta.
O impasse abateu-se sobre mim como uma negra e pesada
fatalidade.
Incapaz de reflectir e de tomar uma decisão, as minhas esperanças
derramaram-se pelo reluzente asfalto juntamente com a chuva
miudinha que caía.
Mas a minha boa e acalentadora estrela acompanhava-me lá do
alto, embora a não pudesse divisar. De repente, uma voz chamou
por mim vinda de uma janela contígua à casa do desaparecido
Marcos. Era uma mulher. Para meu azar, só falava árabe. Deduzi, no
entanto, que tinha ouvido as minhas chamadas. Pronunciei o nome
de Marcos o mais lentamente possível, soletrando como uma criança
e apontando para o seu domicílio. A senhora replicou na sua língua,
indicando-me, por sua vez, o fundo da rua. Após uns minutos de
estéril diálogo, retirou-se da janela, pedindo-me por gestos que
esperasse.
Pouco depois voltava com um rapaz com o qual pude fazer-me
entender. Amável e bem-disposto, prestou-se a acompanhar-me até
ao local onde, segundo parecia, se encontrava o seu viziniho e
amigo. Segundo o jovem árabe, Marcos estava a trabalhar na
montagem de um restaurante.
Ao fim de uma rápida caminhada, penetrámos num amplo salão em
obras. À escassa luz de algumas lâmpadas presas das colunas,
envoltos numa atmosfera de gesso fresco e de madeira acabada de
serrar, quatro homens lidavam com pranchas e martelos. Um deles,
curvado sobre uma tina de cimento, cantarolava uma dolente
melopeia árabe.
Cerrei os punhos, dominado pela emoção. Qual daqueles
atarefados trabalhadores seria o depositário daquilo por que tanto
ansiava? Depois de identificar o nosso homem, o meu
acompanhante passou pelos operários mais próximos, saudando-os
com repetidas e amistosas palmadas nas costas. Vi-o chegar até

junto do que remexia a massa e, inclinando-se, sussurrar-lhe alguma
coisa ao ouvido. Então ambos se er gueram, observando-me da
penumbra. A irregular iluminação impediu o homem de dar-se conta
da minha ostensiva curiosidade. No entanto, mantive-me quieto,
como sugerira o meu improvisado guia.
Presumo que as palpitações do meu coração devem ter sido
ouvidas num amplo raio à volta. Mas ninguém parou a sua tarefa.
Concluído o breve diálogo, o que trabalhava de pedreiro atirou
com a ferramenta para o balde da massa e, esfregando as mãos nas
calças, avançou na minha direcção.
Comecei a tremer. Não podia evitá-lo. Teria chegado o grande
momento? Que poderia eu dizer-lhe? Como abordar tão peregrina e
enigmática história? Um foco amarelado, vindo ao encontro dos
meus desejos, eliminou por fim a escuridão que envolvia a silhueta
que se aproximava, mostrando-me o homem. Parecia ter chegado
àquela idade indefinida que só aparece depois dos cinquenta.
Como bom árabe, conservava uma crespa e abundante cabeleira
negra, algo acinzentada já e descuidada.
Um ventre saliente enchia uma camisa de caqui, salpicada aqui e
além por pingos de cal, diminuindo aparentemente o seu já escasso
metro e sessenta de altura. Um rosto liso, mais largo que alto,
constituía um todo com o pescoço robusto. No meio de uma tez
bronzeada brilhavam uns olhinhos fundos, sempre em movimento,
mas ao mesmo tempo sorridentes e confiantes, como em todo o
homem de bem.
Não me gabo de ter muitas virtudes. Mas entre elas, arriscando
um pouco, acho que tenho a de ver o fundo das pessoas, depois de
duas ou três atentas olhadelas. Pois bem, este pequeno dom fruto
do ofício fez-me confiar. Espontaneamente, estendeu-me a sua
maciça e vigorosa mão e eu, apanhado um pouco desprevenido e à
deriva, apenas correspondi, apertando-a com força. Julgo não me
enganar quando digo que, em geral, um sincero e intenso gesto
desta índole abre logo muitas portas; sobretudo as da amizàde.
Aquele apertão de mãos, apesar do mútuo desconhecimento,
prolongou-se por mais tempo que o normal. Eu e o guia ficámos em
sintonia, tenho a certeza disso.

- Diga então, senhor...
A voz firme de Marcos, sem sombra de reserva, animou-me.
Sorri-lhe. E o bom homem, expectante, fez o mesmo.
-Bem... - disse eu finalmente, sem saber muito bem que rumo tomar
-, desejaria ter uma conversa com o senhor.
-Comigo?
- Não se alarme atalhei. - Trata-se de um assunto privado que
requer um pouco de calma. Nada de grave.
Espantou-me que não tentasse aprofundar ou sondar as razões da
minha tão insólita visita, fazendo-me algumas perguntas que seriam
perfeitamente pertinentes.
- Pode esperar um minuto?
Concordei, creio eu, com um vago movimento de cabeça. A tensão
baralhara-me completamente.
Despediu-se dos companheiros e, indicando a saída com ambas as
mãos, convidou-nos a precedê-lo.
- Iremos para minha casa acrescentou.
O jovem árabe e eu obedecemos em silêncio. Poucos minutos
depois, com uma franqueza que marcaria todo o encontro, abriu o
seu coração, lamentando-se da crise que o sector turístico
atravessava naquela altura. A falta de trabalho tinha-os empurrado
a ele e a outros guias de Belém para o pluriemprego, tentando
a aventura do restaurante. Apreciei o pormenor e a confiança
demonstrada. Marcos era um homem sem duplicidade, aberto mesmo
para quem não conhecia. O seu gesto estimulou-me. A caminho da
sua casa tomei a firme decisão de lhe falar sem rodeios nem meias
verdades.
O rapaz que me tinha prestado tão providencial serviço deixounos
a sós. Uns minutos depois quase sem poder acreditar ali
estava eu sentado diante do guia de Belém, no seu austero e
solitário lar.
Apesar dos meus bons propósitos, as coisas não eram fáceis.
Sentia-me deslocado, impotente e até ridículo. Como explicar-lhe
quem eu era e porque estava ali? Penetrante e sagaz como falcão,

Marcos adivinhou o estado de nervos que me paralisava. Levantouse
e, com cordialidade e simpatia, ofereceu-me um chá.
Claro que não poderia jurá-lo, Mas, através do vaporoso fumo da
infusão, pareceu-me intuir no seu olhar o porquê da minha visita. Em
todo o caso, não estaria a exagerar? Isso era impossível. No
entanto, aquela «luz e o silêncio dominador dos seus olhos»
continuaram a inquietar-me. Em última análise acabaram por
estender-me uma ponte salvadora.
Falei-lhe de mim. Do meu trabalho e do histórico dia em que
conheci o Major. Não me interrompeu. Deixou-me falar à vontade. A
sua imperturbável atenção, aliviada apenas por um ou outro sorriso
de cumplicidade, convenceu-me de que não estava a falar em vão.
Se não fosse o homem que eu procurava que sentido tinha tão
paciente e generosa escuta? Ao pormenorizar-lhe, por exemplo, as
minhas venturas e desventuras na resolução do criptograma, o mais
razoável da sua parte teria sido se nisso não estevesse
interessado cortar desde logo tão prolixas e estranhas
explicações.
Pelo contrário... As minhas peripécias em Washington cativaram-no
visivelmente.
Acabei o reconfortante chá e ele, sem dizer palavra, serviu-me uma
segunda taça, convidando-me, com o seu respeitoso mutismo, a que
prosseguisse. Fi-lo como um potro selvagem, sem ordem nem
comedimento, com uma exaltação progressiva que, naturalmente,
não escapou à sua inteligência.
Houve alguns pornenores, isso é verdade, que obscureceram
claramente o seu olhar, traindo a sua emoção. O primeiro foi a
alusão à morte do ex-oficial da Força Aérea norte-americana.
O segundo, a surda batalha com os Serviços de Informação Militar
israelitas. Pouco faltou para que, perante tão eloquente
envolvimento, encurtasse o resto da história, passando de imediato
à questão que me consumia. Contudo, não desejando forçar os
acontecimentos, completei a narração.
O último capítulo consistiu em mostrar-lhe o caderno de campo,
com o texto do segundo enigma e os desenhos do anjo de Hazor.

Ele pegou no bloco e leu rapidamente o criptograma. Logo a
seguir, em tom grave, pediu-me que lhe mostrasse o meu
passaporte. O insólito do pedido apanhou-me desprevenido,
perturbando-me.
- Fique descansado acrescentou ele, suavizando o tom das
palavras. - Trata-se de uma simples verificação.
Mas eu continuei fortemente desconcertado. Ter-me-ia enganado
na pessoa? Seria este Marcos outro esbirro dos Serviços de
Informação? No entanto, a explicação do guia veio pôr um ponto
final na minha inquietação.
- Compreenda sorriu, satisfeito, devolvendo-me o documento. -
Tenho de ter a certeza...
- Então o senhor...
A minha explosão de alegria comoveu-o. Mas não disse nada.
Levantou-se e, dirigindo-se à janela, reflectiu uns instantes. Ao
voltar-se, a sua pergunta evitando o essencial da questão
arrefeceu a minha expectativa.
- Julga possível que o tenham seguido até aqui?
Neguei com firmeza.
- E outra coisa que me preocupa: eles sabem ou suspeitam da
minha identidade? Repeti a negativa, contando-lhe em pormenor o
meu silêncio no Secretariado de Turismo e como tinha dado com ele.
Marcos conhecia bem a astúcia dos Serviços de Informação de Israel
e as minhas palavras não chegaram para o tranquilizar. No entanto,
pelo menos para já, deixou de lado o espinhoso assunto. O seu
rosto readquiriu a natural luminosidade e, estendendo-me ambas as
mãos, resumiu em poucas palavras a única coisa que eu desejava
ouvir naquele momento:
- Há anos que espero esta visita...
Embora a intuição já me tivesse aberto a alma desde há algum
tempo antes, a minha garganta ficou embargada pela emoção. Fui
incapaz de responder. Peguei nas suas mãos e apertei-as, com
simplicidade, transmitindo-lhe assim os meses de pesadelo,
desalento e esperança. Os nossos olhares falaram por si sós. A

partir daquele momento inesquecível, foi ele quem tomou a
iniciativa, tirando-me todas as dúvidas. Tinha conhecido o Major ao
longo do ano de 1973, em Jerusalém, e por motivos alheios aos que
agora nos reuniam. Entre eles nasceu uma corrente de fraternidade
e, anos mais tarde, a partir do remoto Iucatão, voltou a ter notícias
do velho piloto norte-americano. Incumbia-o da guarda de qualquer
coisa que só poderia ser entregue ao homem ou mulher que
acreditasse ter resolvido e decifrado o criptograma que estava em
meu poder.
A última chave do enigma era ele próprio. Desde que aquilo tinha
chegado ao seu poder, apesar das suas tentativas no sentido de
contactar o Major, nunca mais tinha tido notícias dele.
Ignorava que tivesse falecido e, naturalmente, que existisse uma
primeira mensagem.
Leal e prudente como os que o são, Marcos assegurou-me que
nunca tinha aberto a encomenda do nosso amigo comum. Acreditei
nele.
Ardendo em desejos de receber o misterioso legado, supliquei-lhe
que mo mostrasse.
Sorriu com benevolência, desculpando a minha excessiva
fogosidade. E logo depois, sem rodeios, fez-me compreender que
aquela justa entrega devia ser feita no momento e lugar
adequados. Aceitei as suas razoáveis exigências. Muito
provavelmente, o Agaf poderia estar à espreita.
Se nessa noite eu me apresentasse no hotel com o precioso
carregamento foram estas as suas palavras -, os meus sacrifícios,
os dele e os do Major corriam o risco de ser ingloriamente imolados,
em benefício dos
Serviços de Informação. Valia a pena esperar.
- O meu plano é este... - resumiu ele, expondo a ideia que
acabava de conceber e que, de tão surpreendente, me fez dar uma
gargalhada, a primeira se bem me recordava que este infeliz
soltava em toda a sua estada na Terra Prometida.
Rendido, concordei. Aquilo era excitante e, sobretudo, eficaz.

Submeti-me à sua vontade e não voltei a interrogá-lo nem a
pressioná-lo acerca daquilo que o Major lhe tinha confiado.
Um legado cuja natureza eu pressentia.
A nossa conversa entremeada de confidências - prolongar-se-ia
até altas horas da madrugada. Foi assim que entrámos no mútuo
conhecimento de factos e circunstâncias, intimamente ligados ao
Major, que, além de nos enriquecerem, aumentaram ainda se
possível a nossa sincera estima para com aquele homem singular
e corajoso.
Já passava das quatro horas quando um outro taxista de Belém
concluía o seu frete no cruzamento das ruas Smolenskin e Keren
Hayesod, a trezentos metros do Moriah Jerusalém. Por uma questão
de segurança, dispensei o motorista e amigo de Marcos num lugar
suficientemente retirado do hotel para evitar qualquer mau encontro
ou curiosidade malsã...
Caminhei decidido. Toda aquela zona iluminada e adormecida
parecia em paz. Nas imediações do Moriah não se distinguia um
único veículo. Passei pela frente do estacionamento subterrâneo e,
de súbito, senti medo. Parei.
Inspeccionei a obscura e solitária entrada do parque de
estacionamento, sem avistar o guarda. Que fazer? Entraria pela
cave? A partir de lá, com a ajuda dos elevadores, o acesso ao meu
quarto era mais discreto. Por fim, acabei por desistir. O meu
abalado coração não resistiria a outro susto. Além disso, o que
importava que me vissem entrar pelo átrio? Naquela altura do
negócio já tudo estava consumado... para o bem ou para o mal.
Encolhido e receoso, empurrei devagar a porta giratória. No átrio,
envolto em penumbra, não se via vivalma.
Minto: à esquerda, numa das poltronas, ressonava um vigilante.
Percorri em bicos de pés os sete ou oito metros que me
separavam dos elevadores e escapulindo-me como uma serpente,
subi para o meu quarto. Nenhum dos recepcionistas possivelmente
tão em êxtase como o agente de segurança detectou o regresso
daquele noctívago. Mas os sobressaltos no fundo eu sou um
ingénuo não acabariam assim...

Transbordando de felicidade, preparava-me para, enfim,
descansar.
Parei diante da porta do quarto e, de repente, tive a sensação de
que meio mundo desabava: tinha-me esquecido da chave na
recepção.
- Esta agora é muito boa!..
Não sabia se rir, se chorar. Nova pesquisa nos meus bolsos
revelou-se tão inútil como a primeira. Incrível!
Em poucos segundos, a euforia transformou-se em cólera.
Os que me conhecem sabem que já só me indigno... comigo
próprio. Pois bem, aquela foi uma excelente ocasião para exercer
uma das minhas actividades predilectas: maldizer a minha sombra e
os meus já proverbiais despistes.
Concentrei-me para tentar uma solução. Tudo menos descer e
denunciar assim a minha presença. Até era possível que não
acontecesse nada, Mas... e se acontecesse? A análise da estúpida
situação propôs-me duas únicas alternativas, A primeira: tentar
forçar a porta. A segunda: acomodar-me no corredor e aguentar até
ao amanhecer. Esta última não foi do meu agrado. De modo que, de
mau humor, inventariei tudo o que trazia comigo. A lista não foi de
molde a estimular-me: algumas canetas de que tanto gosto e o
caderno de campo, com três ou quatro folhas soltas , cheias de
nomes e endereços e presas ao resto do bloco mediante alguns
clips de aço inoxidável.
- Pouca coisa! - lamentei-me. - Se ao menos o isqueiro fosse de
gasolina...
Como já tinha feito noutras ocasiões igualmente loucas, bastava
injectar o combustível no interior da fechadura e pegar-lhe fogo.
Geralmente, dependendo, é claro, do tipo de engrenagem, o
pequeno incêndio-explosão acaba por desarranjar o mecanismo. Não
era este o caso. Restava apenas uma solução: os clips. Endireitei
um deles, e com o arame daí resultante confeccionei uma espécie de
gazua. Foi absurda a minha preocupação de olhar para um lado e
para o outro do solitário corredor. A uma hora daquelas, quem
poderia de facto estar a observar-me? A grosseira chave

esgaravatou nos interstícios da fechadura à procura da lingueta. À
terceira ou quarta tentativa um familiar clique veio recompensar a
minha persistência, abrindo-me a passagem.
O Destino, se bem que não saiba já o que pensar, tinha previsto
tudo. Até mesmo que eu não recolhesse a chave do meu quarto,
dando assim a entender que tinha passado a noite fora.
Era o que eu já esperava. Logo às primeiras horas da manhã de
sexta-feira, quando me preparava para sair, o
telefone tocou. Imaginei a origem da chamada, pelo que,
ignorando-a, saí do quarto, dando assim início à operação planeada
por Marcos.
Julguei oportuno continuar a ocultar a minha presença no hotel.
Assim, para evitar encontros comprometedores, dirigi- me
directamente para o estacionamento subterrâneo. Lá me esperava
outra surpresa. Quando me encaminhava para a saída, um dos
veículos estacionado a pequena distância da barreira de controlo
despertou o meu interesse. Cautelosamente, fui esconder-me atrás
de uma das colunas. Não havia dúvida. Era o tal Mercedes 300-D!
Esquadrinhei a medo o seu interior.
Ninguém. Também nas imediações não havia rastos dos
obsidiantes agentes. Era óbvio que a localização do veículo na cave
tão estrategicamente preparado para uma fulminante partida
não era casual. Se estivesse na rua em frente do hotel ou nas suas
proximidades, teria chamado de imediato a minha atenção. Por
outro lado, se estava desocupado, onde localizar os seus
passageiros? Não muito longe, imaginei.
Se eles estavam a par da minha prolongada ausência, o mais
lógico era supor que, naquela altura, vagueassem pelo átrio.
A chave do meu quarto continuava na recepção...
Que caminho devia eu tomar? É claro que afastei a ideia de me
apresentar no átrio. E se estivessem de vigia no exterior? Não havia
escolha.
Correria o risco. Saí do esconderijo e optei pela rampa do
subterrâneo.

O empregado que accionava a barreira da entrada - esgotado
pelo longo turno da noite que agora terminava lançou-me uma
rotineira e fatigada olhadela. Saudei-o com um simples movimento
de cabeça e, de repente, a minha vista deparou com algo que
quem sabe talvez pudesse vir a ter utilidade. Fiz-lhe sinal para
que abrisse a vidraça da guarita e, uma vez diante do enfastiado e
sonolento personagem, sorri-lhe, apontando um gorro azul que
pendia das costas da cadeira.
- Está à venda?
A pergunta deixou-o perplexo. E antes de ele abrir a boca mostreilhe
cinco notas de dez dólares.
- Desculpe acrescentei -, é que sou coleccionador...
O homem deve ter-me tomado por um turista endinheirado e
excêntrico. Sem pensar duas vezes pegou no dinheiro, entregou-me
a poeirenta e desbotada preciosidade. Ainda incrédulo, contou as
notas. Quando quis dizer alguma coisa já eu me afastava do parque
de estacionamento com o gorro enterrado até às sobrancelhas.
(No meu regresso a Espanha, ao contar este episódio à pessoa a
quem mais quero, esta, com inteligência, fez-me ver que um gorro
não é exactamente o meio mais discreto para passar despercebido.
Tinha razão. Neste caso foi a Providência quem permitiu que eu
saísse indemne do lance.) Seja como for, o bom e proveitoso de
tudo aquilo foi que, à hora combinada, lá estava eu reunido com
uma das relações públicas da Universidade Hebraica Gina S. -
cumprindo o prometido ao Instituto de Relações Culturais.
Conforme tinha ficado acordado com Marcos, convinha ir dando
uma no cravo e outra na ferradura... A jovem judia introduziu-me na
Academia Rubin de Música, ajudando-me a localizar uma série rara
de livros sobre instrumentos musicais bíblicos. Satisfeita a minha
curiosidade, pedi-lhe que me acompanhasse ao Moriah. E às onze
horas, levando-a pelo braço, entrámos no hotel.
O movimento dos turistas não me permitiu explorar todo o átrio
com precisão. Se a Informação Militar se encontrava ou não no local,
nunca o vim a saber. Recebi a chave na recepção e, sem largar Gina,
convenci-a a subir. Não recordo muito bem o pretexto, mas creio que

lhe falei de um livro hebraico, escrito pelo grande especialista no
mar de Tiberíades, Mendel Nun, que eu tinha comprado dias antes e
sobre o qual necessitava de uma certa informação.
A generosa e complacente mulher aceitou, encantada. Mas, antes
de tomar o elevador, soltei o seu braço e, voltando ao balcão da
recepção, informei-me acerca do modo mais rápido de fazer chegar
ao meu quarto uma garrafa de champanhe e duas taças. A pergunta,
em tom de voz mais alto que o habitual, deu resultado. Vários dos
recepcionistas, ao ouvir-me, fixaram os seus olhares,
alternadamente, na jovem e no seu suposto cortejador. Os sorrisos
que entretanto se espalharam foram o fruto do meu estratagema.
Uma vez no quarto, tirei o casaco e, convidando-a a sentar-se,
pus-lhe nas mãos o referido volume de Nun: Sea of Kinnereth. Pedilhe
que o folheasse, esclarecendo-a de que precisava da tradução
da bibliografia. A verdade é que nem sequer sabia se o livro incluía
uma relação bibliográfica.
Gina, creio que um pouco desiludida, pôs mãos à obra, ao mesmo
tempo que cruzava as pernas provocadoramente. Não sei o que ela
terá pensado. Talvez que lhe tinha calhado um tímido ou um
excêntrico. Em parte, acertou. Simulei que procurava alguma coisa.
Peguei na minha documentação, nos cartões de crédito e nalguns
dólares e, com o estafado pretexto de ir comprar cigarros,
desapareci perante o seu olhar atónito.
O resto foi menos angustioso. Repeti a descida até à cave,
saindo do hotel pela entrada do parque de estacionamento. O
Mercedes lá continuava no mesmo lugar. Eram onze e vinte. Quinze
minutos mais tarde com algum peso na consciência, tenho de
confessá-lo apanhava o autocarro 22, na Porta de Jafa, com
destino a Belém.
Naqueles onze ou doze quilómetros de viagem como justo
castigo da minha perversidade outra dúvida me assaltou: e se a
jovem das relações públicas que eu abandonara mexesse nos meus
papéis? A lembrança do caderno de campo que eu deixara sobre a
escrivaninha do meu aposento fez-me perder a serenidade.
Ao meio-dia e meia hora, já com algum atraso, irrompia eu pela
Basílica da Natividade. Marcos e um fransciscano amigo, cuja

identidade deve manter-se oculta, aguardava-me numa pequena
antecâmara. Pedi desculpa pelo atraso e um pouco de tempo para
respirar. Estava sem fôlego.
O bom guia recebeu-me com o melhor dos seus sorrisos.
Perguntou-me se tudo tinha corrido bem e, sem mais preâmbulos,
apontou-me uma cadeira.
- Não há tempo a perder sentenciou.
Obedeci, e pegando nas roupas que estavam sobre o assento,
levantei-as à altura do rosto sem poder reprimir um riso nervoso. O
frade, desculpando a minha falta de jeito, apressou-se a ajudar-me.
Senti a falta de um espelho.
- Perfeito declararam em uníssono.
- Será que vai dar resultado?
Marcos olhou-me fixamente, no intuito de me infundir coragem.
- Claro que resultará! Agora convém esperar pelo menos uma
hora...
Resignado, agradeci a sua paciência e dedicação. Naquele
momento, inebriado na contemplação do hábito franciscano que me
cobria e que fazia parte do plano não prestei atenção àquilo que,
desde o princípio, ocupando boa parte da mesa da antecâmara,
presidia ao aposento. Foi o árabe cristão quem me conduziu até à
volumosa bolsa acastanhada. Uma vez em frente dela, abriu a palma
da minha mão direita e, radiante, deixou cair uma chave. Não
compreendi logo.
- Promessa cumprida - balbuciou num fio de voz. - Que Deus (o
Deus de todos nós) o abençoe...
Fixei-o atentamente.
- Então... isto...
As minhas palavras, atropelando-se umas nas outras, fizeram-no
sorrir. Disse que sim com a cabeça, fechando os meus dedos em
torno da fria e diminuta chave prateada.
- Sim, isto...
Aquelas duas palavras ecoaram no silêncio da sala. Não podia

acreditar. Não podia...
Acariciei a lona, sem atrever-me a apalpar. Um fecho e um
cadeado, quase de brinquedo, fechavam a bolsa.
Olhei para Marcos. Os meus olhos, mais eloquentes que as frases
escassas e desligadas que consegui articular, gritaram-lhe
Obrigado!.
Fiz menção de abri-la. Enérgico, o guia deteve-me.
- Por favor pediu com firmeza. - Foram sete anos de fidelidade
ao nosso amigo comum... Prefiro ignorar o
conteúdo.
Desta vez fui eu quem concordou em silêncio. Senti como que um
nó na garganta e todo o meu ser estremeceu. A minha admiração
não tinha limites.
Diante do silencioso franciscano, Marcos mandou-me sentar e,
fazendo uma viragem de cento e oitenta graus no seu tom de voz,
lançou-me uma advertência que me deixou perplexo mas que, com o
passar do tempo, acabei por aceitar.
- E agora, oiça-me bem. Pela sua própria segurança, e pela minha,
eu não sei nada! Rigorosamente nada!
O seu olhar, surpreendentemente inflamado, acentuou a ênfase da
palavra nada.
- Não sei quem é o Major. Nunca me deu nada. Nunca lhe
entreguei nada a si. Sei que virá a compreender esta exigência. Se
alguém me perguntar por si, encolherei os ombros. Não posso negar
que o conheço. Mas será para mim apenas mais um jornalista à
procura de emoções e histórias fantásticas. Compreendido? A dureza
das advertências reflectiu-se no meu rosto. E o meu amigo, lutando
consigo próprio, virou-me as costas, indo sentar-se no outro extremo
da antecâmara.
Alguns minutos depois, após uma silenciosa e embaraçosa espera,
consultou o relógio, concluindo que era altura de actuar.
Atravessámos o sector cristão da Basílica, acedendo ao exterior
pela fachada oposta ao átrio. Daí, por um tortuoso labirinto de
ruelas sem passeios, o guia e o franciscano autêntico escoltaram-me

até uma agência de viagens. Marcos e eu tínhamos combinado que
a minha partida de Israel devia ser fulminante.
Não era aconselhável tentar a sorte. Tendo marcado lugar para o
voo de domingo, pouco antes das duas da tarde, instalava-me num
dos transportes públicos com destino a Jerusalém. A aparente frieza
daquela despedida lançou-me numa dolorosa melancolia. Voltaria a
vê-lo? Apesar das aparências, serei sempre um sentimental... E
falando de aparências: ao descer na Estação Central de
Camionagem, para os lados de Yafo, a proximidade de um reduzido
grupo de franciscanos fez-me empalidecer. Felizmente não se deram
conta da presença daquele falso irmão de ordem, e afastaram-se
num dos sherouts, ou táxis colectivos. Recuperado o fôlego, ajustei
a cinta, ajeitando as pregas enrugadas do hábito.
Pelas três da tarde, aquele monge inquieto e feliz, esgueirava-se
pelo estacionamento subterrâneo do Moriah, perante o olhar
displicente do vigilante. A primeira coisa que me chamou a atenção
foi o Mercedes, ou melhor, a sua ausência.
O desaparecimento do veículo inquietou-me. Agarrei-me à bolsa
com paixão, jurando a mim próprio que, a partir daquele instante,
não cometeria mais qualquer loucura. Nem eu próprio acreditei em
tal promessa...
Gina, farta de esperar ou furiosa pela minha escapadela,
volatilizara-se. Nunca mais a vi. E duvido seriamente que tenha
coragem para combinar um segundo encontro.
Dei duas voltas à chave e, cheio de nervosismo, coloquei a bolsa
em cima da cama passando depois longamente em revista o quarto
e os meus haveres. Estava tudo no seu lugar, intacto e sem
vestígios de ter sido tocado. Mais tranquilo, tirei o hábito. A bolsa
continuava a fascinar-me e, como se fora um ser vivo, começou a
falar...
Foi todo um ritual. Embora enferrujado, o cadeado abriu-se
docilmente. Acariciei-o com as minhas mãos trémulas, lançando um
olhar quase lascivo a todo o conjunto. A julgar pelo aspecto, cor,
resistência da lona e correias de aperto, parecia uma típica mochila
de soldado , como as utilizadas pelo exército judaico.

E então, suave e cerimoniosamente, fui abrindo o fecho.
O toque inesperado e brusco do telefone fez-me sobressaltar,
pregando-me um susto de morte. Hesitei. Mas, sensível ao desejo
sincero de não enredar mais as coisas acabei por atender. Era
Raquel. Mostrou-se como sempre, encantadora. Possivelmente,
desconhecia as minhas andanças. Com entusiasmo contagiante
anunciou-me que, vencendo as reticências dos especialistas de
medicina antiga de Israel, conseguira destes uma entrevista para a
manhã seguinte. Tive de espevitar a memória. A verdade é que a
tensão e as peripécias das últimas horas tinham bloqueado o meu
cérebro, fazendo-me perder a noção daquela outra actividade
paralela.
O.K. Muito obrigado...
A que horas?
- Muito bem..., lá estarei..., sim. Museu da Medicina Antiga...
O assunto, imediatamente arquivado e relegado, viria a ressucitar
horas mais tarde quando, empenhado num imprudente e delicado
lanço de distracção da Informação Militar, tive a infeliz ideia de os
utlizar como engodo. Em má hora o fiz! Eu sabia. A intuição não me
defraudou. Ao examinar o interior da bolsa, quatro grossos pacotes
surgiram diante de mim. Eram extraordinariamente pesados. Mediam
à volta de trinta centímetros de comprimento por vinte a vinte e
cinco de largura e outro tanto de altura. Peguei num, acariciando a
espessa tela de estopa que, cosida lateralmente, o envolvia e
fechava hermeticamente. A curiosidade fazia-me transpirar.
Meu Deus!
Coloquei-o em cima da colcha virando-me para os outros.
Praticamente, não notei diferenças substanciais. Mediam e
pesavam mais ou menos o mesmo. E todos eles, tal como o primeiro
estavam cobertos por uma serapilheira idêntica à dos sacos,
amarelada e cuidadosamente cosida com um resistente fio de nylon
azulado. Alinhei-os em cima da cama e, durante cinco ou dez
minutos perdi de facto a noção do temPo fiquei ali enfeitiçado,
dando livre curso a recordações e sensações.
Confesso que foi um abandono íntimo, como que o prelúdio de

jogo amoroso...
Meu Deus! Obrigado! Obrigado! Muito obrigado!...
Quão díspares sentimentos nos podiám assaltar ao mesmo tempo!
Gratidão, ansiedade, medo... tudo à uma Eu sabia.
Mesmo antes de o abrir, já conhecia a natureza do legado do
Major.
Ou foi o meu febril desejo que operou o milagre?
Por fìm, saboreando pausadamente cada movimento, escolhi um
dos pacotes. Desfiz a costura e, com a delicadeza com que se despe
um bebé, retirei a cobertura de estopa.
Bendito seja!
Uma etiqueta adesiva sobressaiu logo sobre um invólucro de
plástico preto. Escrito à mão, a vermelho, podia ler-se um número.
Inexplicavelmente pus de lado este primeiro pacote, passando a
descoser os restantes. A estrutura que os envolvia era idêntica: uma
capa dupla resistente e impermeável de material plástico,
refractário à luz. Cada embrulho apresentava também um número: de
1 a 4.
Optei pelo primeiro. (Tal como seria muito capaz de começar pelo
último... Com uma tesourinha que tinha à mão perfurei um dos
cantos e rasguei o plástico.
Bendito, bendito seja!
Numa reacção difícil de classificar, saltei da cama, abandonando o
pacote. Pus-me em frente da janela e, tocando com as mãos na
vidraça, procurei uma resposta no tempestuoso céu de Jerusalém,
indo mesmo para além das nuvens. O meu espírito e a minha mente
foram muito mais além, até se reunirem com o homem que tinha sido
capaz de revelar-me um Jesus de Nazaré novo, humano,
incomensurável e divino. E algumas lágrimas silenciosas e
apaziguadoras correram pelas minhas faces.
O embrulho continha um maço compacto de folhas manuscritas,
com uma única e lacónica frase por título: Diário DE... (com o nome
do Major).

Alguns traços característicos da sua caligrafia denunciaram-no de
facto. Aquela era mesmo a sua letra. Então, ébrio de alegria, abri os
outros pacotes.
Santo Deus!
Continham muito mais do que eu esperava. Fui incapaz de contálas,
mas as folhas passavam seguramente das duas mil. Estavam
minuciosamente classificadas, subordinando a narração como logo
deduzi de uma leitura apressada e saltitante a uma rígida
sequência cronológica dos acontecimentos vividos pelos
protagonistas da Operação Cavalo de Tróia. Uma operação que em
boa hora tinha desafiado todos os limites imagináveis. , Já alta
noite, tive de suspender, muito a contragosto o incrível relato do
Major. Mas a dura realidade perspectivou-se diante de mim.
Uma questão adormecida pelo ardor da leitura despertou de
novo no meu íntimo, contorcendo-se como uma víbora: e se o legado
caía em mãos judaicas? Estremeci. Aquela história fascinante, tal
como a identidade dos pilotos norte-americanos que a tornaram
possível, podia interessar e de que maneira! - aos Sérviços de
Informação norte americanos (CIA) identificados com a Agência
Central de Israel.
Durante algum tempo, com a mente assolada pela preocupação,
andei de um lado para o outro do aposento, esforçando-me por
dirimir o problema. Era óbvio que, sujeitos a qualquer fiscalização,
aqueles papéis atrairiam de imediato o interesse dos militares ou
dos Serviços de Informação israelitas. Era preciso encontrar uma
fórmula, um caminho, qualquer coisa que funcionasse como
cobertura, desviando a atenção dos abutres.
E com algum desatino tirando partido da entrevista do Museu da
Medicina Antiga de Israel fui elaborando um plano de ataque e
defesa tão atrevido quanto altamente perigoso.
Nessa mesma noite, antes de cair vencido pelo cansaço, depois
de uma revisão exaustiva de todos os obstáculos previsíveis,
cheguei à conclusão de que havia apenas um meio para disfarçar
na medida do possível aquele vultoso material manuscrito. A
realização de tal tarefa ficou para o dia seguinte.

A Rua Straus, sede do Museu da Medicina Antiga de Israel,
desemboca na Avenida Haneviim, a uns vinte ou trinta minutos, a
pé, do Moriah. A manhã, morna e azul, convidava a passear. E
assim, cheio de projectos e de ilusões, após um pequeno-almoço
substancial, dirigi-me para o local da reunião.
No hotel, a chegada do sabbath tinha afrouxado o frenético
vaivém dos turistas. Por mais que inquirisse com o olhar, não tive
sorte. O cara de lua-cheia e o seu amigo, o do cabelo espetado
como relva acabada de cortar, não se encontravam no átrio. Pelo
menos não consegui localizá-los.
Naturalmente, depois do incidente do autocarro, era possível que
tivessem sido substituídos. Mas essa não era, para já, a minha
maior preocupação. Os meus pensamentos à medida que ia
avançando para o número dez da Rua Straus navegavam noutra
direcção. Tinha de conseguir. Era preciso desviar o ponto de mira
dos Serviços de Informação judaica de tal maneira que, no caso de
vir a ser revistado, o seu objectivo fosse algo completamente alheio
às duas mil e tal folhas que constituíam o meu tesouro. Talvez
viesse a encontrar naquele museu aquilo de que necessitava.
No cruzamento com a Rua Jafa, a fortuna continuou a sorrir-me.
Uma papelaria dirigida por árabes fornecer-me-ia as bisnagas de
cola e os adesivos de que precisava. E exactamente às nove e meia,
com uma pontualidade que me não era peculiar, lá estava eu a tocar
a campainha da porta do museu, no rés-do-chão do edifício.
As cuidadosas diligências de Raquel tiveram êxito absoluto. O
doutor Samuel S. Kottek, especialista em medicina antiga, e o
director receberam-me de braços abertos. Agora, sinceramente,
chega a doer-me ter atraiçoado a sua generosidade.
Durante mais de uma hora trabalhámos nos pontos que me
interessavam (?), transcrevendo uma extensa lista de volumes e de
especialistas nos mais variados diagnósticos, doenças e fármacos
da antiga Caná. Mas não era aquilo que mais me importava,
naturalmente.
Desde a altura das apresentações iniciais ficara-me debaixo de
olho uma das salas do pequeno e até certo ponto desordenado
museu, na qual, em meia-dúzia de vitrinas se exibia toda a espécie

de maquinetas, velharias e instrumental médico-mágico-cirúrgico de
épocas e culturas muito distintas.
Com uma frieza mórbida, o meu cérebro continuou a trabalhar.
Finalmente apresentou-se a oportunidade. Kottek convidou-me a
passar à modesta sala que, como ia dizendo, constituía a zona
nobre do museu, deixando-me nas mãos eficientes e sibilinas
acrescentaria eu, a julgar pelo que viria a ocorrer pouco depois da
idosa responsável pelas peças expostas. Uma mulher prestável e
encantadora cujo nome não recordo, que se desdobraria para me
mostrar o mais valioso do que estava exposto. Esse foi o seu erro
involuntário.
Samuel pediu desculpa e regressou ao gabinete onde tínhamos
estado a conversar. Durante perto de uma hora a minha anfitriã foime
acompanhando vitrina a vitrina até tudo ficar visto. Ainda
não tinham passado quinze minutos desde o início da visita quando,
ao observar uma das mesas situadas no canto direito da sala, um
conjunto de amuletos de bronze, prata e marfim despertou o meu
espírito maquiavélico.
Isto podia servir..., pensei eu com alguma inconsciência.
A judia, complacente para comigo, levantou a cobertura de vidro,
pegando em algumas das antiquíssimas relíquias cananeias.
Examinei-as, deliciado, dando mostras de um exagerado interesse
pelas suas origens e fundamentos.
Perante o ardor das minhas palavras, a guardiã desejosa de
enriquecer o mais possível a minha visita afastou-se um pouco de
mim procurando algo. As minhas mãos começaram a transpirar.
Sim, é isso...
E o plano estava prestes a arrancar, incontrolavelmente.
Mas, quando me preparava para pôr em execução a iníqua
manobra a velha senhora reclamou a minha atenção. De um armário
tinha retirado uma pequena caixa de papelão branco que, com todo
o cuidado, foi colocar sobre outra das vitrinas centrais. Desisti
momentaneamente do meu plano.
Contrariado e enervado, fui ter com ela. A caixa continha uma
dúzia e meia de cartuchos de uns seis ou sete centímetros de

comprimento, numerados à mão. Consultou uma lista colada na parte
de dentro da tampa do recipiente, escolhendo suponho que
intencionalmente um dos mais antigos e valiosos: o 15.
Retirou o papel que o envolvia, depondo nas minhas mãos
pecadoras um estreito pergaminho de quase meio metro de
comprimento, coberto de caracteres e de símbolos hebraicos.
- Tem dois mil anos disse com orgulho. - Cremos que se trata de
um amuleto.
A beleza do esbranquiçado e áspero tesouro cegou-me. E ali
mesmo mudei de objectivo. Aquilo era muito mais excitante e
atractivo. E era até mais fácil de ocultar.
Perante a minha curiosidade insaciável, a velha senhora incapaz
de traduzir o hebreu arcaico pediu desculpa e saiu da sala. Foram
segundos dramáticos aqueles. Que fazer? Apoderar-me do
pergaminho? Mas como subtraí-lo sem que dessem por isso? Kottek
veio logo, encantado. As suas explicações de amuleto na mão
não foram muito explícitas. Tomei todas as notas que pude, sem
saber muito bem do que é que ele falava. Toda a minha inteligência
uma vez tomada tão reprovável decisão estava polarizada num
único e inconfessável sentido. Bem depressa me viria a
arrepender...
É evidente que era impossível apoderar-me do pergaminho
enquanto Samuel ou a guardiã permanecessem junto de mim.
Esperei. A observação dos cartuchos terminou e, sem pressa,
continuámos a visita. A caixa, com os rolos à vista, ficou
momentaneamente esquecida sobre a vitrina. Em três ocasiões,
enquanto desenhava algumas das peças no caderno de campo, a
judia teve de prescindir da minha gratíssima companhia, sendo a
sua presença reclamada quer pelo telefone quer pelo próprio
Kottek. Nas duas primeiras oportunidades, por causa do pavor que
me invadia ou do seu regresso precipitado, a minha movimentação
foi nula.
Mas na terceira e última saída da velha senhora, muito próximo da
caixa e tremendo como varas verdes, introduzi a mão entre os
cartuchos e apoderei-me do quinze. Com a pulsação baixíssima,

afastei-me da vitrina, encostando-me a um móvel contíguo. Era
impossível fingir que tomava apontamentos. A lapiseira escapou-seme
entre os dedos húmidos, aumentando a minha taquicardia.
Todavia, com um repugnante sangue frio, aguentei o regresso da
mulher e as suas últimas explicações. Estava terminada a visita.
Com a mente perturbada e uma única obsessão sair do museu -,
agradeci as atenções de todos com um aperto de mão. Estava
quase a desmaiar quando cheguei à porta de saída. Samuel,
extremamente atencioso, convidou-me a voltar sempre que quisesse.
Balbuciei alguma coisa nem sei bem o quê e, aterrorizado,
preparei-me para sair. Nesse momento crucial, o director saiu
precipitadamente do seu gabinete, dirigindo a Kottek algumas
frasas em hebraico. E este, fazendo um sinal de assentimento,
segurou-me pelo braço impedindo a minha fuga.
Pensei morrer de vergonha.
- Um momento disse o médico, com um sorriso de satisfação.O
director deseja pedir-lhe um favor...
A palidez do meu rosto devia ser tal que o médico, ao conduzir-me
de novo ao museu, perguntou-me com
estranheza:
- Sente-se bem?
- Perfeitamente...
Foi uma mentira de todo o tamanho...
Kottek e o responsável do museu levaram-me para um dos cantos
da sala, abrindo diante de mim um grosso volume com as folhas em
branco.
- Sentir-nos-íamos muito honrados esclareceu o director se
assinasse o Livro de Honra da casa...
Meu Deus!
Aquele gesto amigável pôs ainda mais em evidência a minha
própria desonra. Fiz o que me pediam e ao retirar-me, um furtivo
olhar à guardiã, que estava a arrumar os cartuchos e a conferir a
lista dos pergaminhos, gelou-me o raro sangue que ainda circulava
nas minhas veias. Astuta e desconfiada como um lince, tinha

começado a passar revista ao insubstituível tesouro arqueológico.
Estava perdido.
Às onze e meia daquela nefasta manhã estava finalmente na rua,
escapulindo-me como um rato. Os meus pensamentos, lacerados por
um arrependimento súbito, atropelavam-se uns aos outros. Que
nova loucura tinha perpetrado? Como podia ser tão miserável e, o
que era pior, tão insensato e estúpido? Quase de certeza, não
tardariam a dar-se conta de que faltava um dos pergaminhos. Meu
Deus! A angústia encurralou- me contra mim próprio. No tempo que
levei a percorrer três ou quatro quarteirões, um tétrico filme de
muito possíveis e justíssimas represálias desfilou pelo meu espírito.
Um tal deslize podia custar-me caro.
Parei a meio da Avenida Jorge V. Hesitei. Voltaria atrás e
devolveria o rolo aos seus legítimos proprietários? Não tive
coragem. A vergonha foi superior. Até pode acontecer - consolei-me
no cúmulo da minha idiotice que não tenham dado pelo seu
desaparecimento. Ou talvez supondo que o detectam - nem
saibam o que pensar...
Mas, por cima de todas aquelas pueris elucubrações, uma coisa
acabou por impor-se: tinha de restituir o documento.
Uma coisa era brincar aos espiões; outra, muito diferente, o furto
de uma peça que, ainda por cima, nada trazia de novo ao que eu já
conseguira. A verdade é que eu me tinha descontrolado. Só
esperava que os meus anfitriões soubessem perdoar a este infeliz.
Junta com o pecado ia já a penitência. A partir daquela altura, o
desgosto, os remorsos e o terror torturar-me-iam impiedosamente.
Mas o mal estava feito. Agora tinha de actuar com diligência e
sensatez. Possivelmente isso dependia da Providência o meu
objectivo de distrair a atenção dos serviços de informação, na
suposição de ser associado ao desaparecimento do pergaminho,
estava mais que garantido. As próximas horas o diriam.
E num rompante, na previsão de que a rapidez de acção dos
homens do Museu da Medicina Antiga fosse tão vertiginosa como
seria de esperar, escondi-me num portal, passando o cartucho para
o interior do sapato esquerdo. Agora, a frio, só tenho de sorrir
perante tamanha ingenuidade. Se tivesse sido interceptado, é claro

que os hábeis judeus nunca me teriam revistado no meio da rua.
Dispõem de outros meios incomparavelmente mais eficazes para
levarem a água ao seu moinho.
Em marcha acelerada, procurei uma fórmula que me permitisse
reparar o dano e salvar a pele. É algo de muito típico em mim...
E creio que também desta vez dei com ela.
Não falando do implacável desespero que me corroía, o regresso
ao hotel não foi marcado por qualquer incidente.
Furtivamente, temendo que alguém, a qualquer momento, pudesse
deter-me, corri a refugiar-me no meu quarto, amaldiçoando a minha
triste figura.
Carente de um consolo imediato, pus em andamento a primeira
das três fases da manobra que entretanto idealizara para a
devolução do amuleto. Perante o carácter desproporcionado do
golpe, desisti do meu propósito inicial de desviar o interesse do
Agaf para um objectivo secundário. Se fosse detido com o
pergaminho, não era só a minha integridade física que estava em
perigo. Nessa mais que verosímil suposição, os documentos do
Major correriam talvez o mesmo risco que o cartucho...
Tinha de mudar de táctica. Para começar, era imprescindível
desfazer-me do corpo do delito. Pensei em depositá-lo,
anonimamente, no Instituto de Relações Culturais.
Em boa lógica, se Kottek e a guardiã me relacionassem com o
furto, o assunto seria comunicado às pessoas que tinham
organizado a minha entrevista no museu. Também era possível que
comunicassem o caso à polícia. Em princípio continuei eu a
concentrar-me não havia provas de ter sido eu o autor do desvio.
Quem sabe, talvez se tivesse extraviado...
O argumento, infantil em excesso, não me convenceu. Do que não
havia dúvida era de que, em caso de busca, a presença do
pergaminho junto de mim podia significar a prisão, a expulsão do
país ou coisa ainda pior.
Tinha de devolvê-lo, procurando no entanto confundir os seus
legítimos proprietários; por outras palavras, sem que eles pudessem
demonstrar a minha intervenção em tão amargo episódio.

Uma aguda dor de estômago veio juntar-se a tudo o resto, quando
uma vez escolhida a fórmula menos má de restituição me
aventurei até à zona comercial do hotel, à procura dos necessários
selos de correio. O pequeno quiosque-livraria estava fechado. Um
cartaz informava a hora da reabertura. Faltava meia hora. Foram
minutos pesados os da espera, com a espada de Dâmocles da
amplificação sonora do hotel pendente sobre o meu desânimo, no
temor de que, a cada aviso, a justiça caísse sobre mim. A
Providência teve compaixão. E às 12 horas e 30minutos, adquiridos
os selos, escapei pelo estacionamento, à procura de uma caixa de
correio. Às 12h45m previamente desenrolado, dobrado ao meio,
aconchegado entre duas folhas em branco e introduzido num
sobrescrito com o endereço do hotel (Moriah Jerusalem 39 Keren
Hayesod Street.
Jerusalem 94188 Israel), o pergaminho caía no fundo de uma caixa
de correio, com destino ao meu domicílio, em Espanha.
Relativamente aliviado, procurei de novo o amparo do meu
quarto, suspenso do telefone e das consequências que se o
Altíssimo não me ajudasse podiam derivar de semelhante
desvario.
Curiosamente, não houve uma única chamada. Arrasado, caí num
sono convulsivo. Foi o melhor que poderia acontecer-me.
Ao despertar, convencido de que não devia render-me pelo que já
era irreparável, empenhei-me na tarefa de camuflar o Diário do
Major. De acordo com o planeado, meia dúzia de grossos e altos
volumes adquiridos dias antes serviriam de veículos. Arranquei as
respectivas páginas e, um tanto atabalhoadamente colei as
centenas de folhas às capas dos volumes sacrificados, distribuindoas
equitativamente.
À hora do jantar, os falsos textos sobre A Terra da Biblia, Os
Segredos dos Mares da Biblia Jerusalém, O Atlas da Biblia, A Terra
da Galileia e Animais Biblicos, dissimulados entre uma vintena de
livros autênticos, foram parar ao fundo da minha mala, prontos para
a viagem final.
Agora só restava esperar...

Não sei se consegui descansar uma ou duas horas. Foi uma noite
sem princípio nem fim, saturada de presságios e temores.
Ao raiar da madrugada preparei a bagagem. O voo, a partir de
Telavive, tinha a descolagem prevista para as dezoito horas.
O Destino, irónico e contraditório, presenteava-me com um tempo
que eu não desejava.
Seguindo o programa esboçado por Marcos, enquanto aplicava
novas e vigorosas massagens aos meus doloridos músculos,
rememorei os obrigatórios movimentos que se seguiriam.
Desgraçadamente, tudo estava alterado por causa do lamentável
episódio do museu. Já só podia confiar na sorte, e desde logo, na
possibilidade de as pesquisas e decisões dos proprietários do
pergaminho terem sido suspensas por algum motivo ainda que
apenas durante algumas horas. O prolongado silêncio dos meios
oficiais oprimia-me cada vez mais...
Como de costume, o restaurante do Moriah encontrava-se repleto
de turistas. Esse era outro factor-chave. Embora o suspeitasse, tinha
de o confirmar: quem estaria agora encarregue da minha vigilância?
Entre tantos anglo-saxões, latinos e orientais, descobrir os possíveis
agentes da Informação Militar hebraica era tarefa votada ao
fracasso.
Qualquer daqueles ávidos comensais com os quais cruzei mais
que um olhar podia ser um deles. Prudentemente, procurei a
companhia de alguns daqueles forasteiros. Não podia dar-me ao
luxo de tomar o pequeno-almoço sozinho. Quanto mais tempo
estivesse rodeado por estranhos, mais sólida era a possibilidade
de escapar das garras dos meus invisíveis controladores.
Junto do self service com notável acerto fui escolher um par de
risonhos japoneses. Eu sabia que os diferentes ramos dos serviços
secretos judaicos dificilmente incluíam nos seus staffs indivíduos
que não sejam da sua raça. Esta norma sagrada levou-me a confiar
nos nipónicos. E em boa hora o fiz porquanto por insondável
coincidência os cerimoniosos Tatsuhiro Kataoka e Yutaka
Matsukawa eram de facto meus colegas.
O primeiro, como editor de livros de arte, da firma Kodansha, Ltd.

O segundo, como fotógrafo da mesma editorial, com sede em
Bunkyo-Ku (Tóquio). Era pelo menos o que constava nos cartões de
visita que trocámos.
A ocasião bem a propósito foi aproveitada ao máximo.
Tatsuhiro conhecia a Espanha. Na realidade, toda a sua bagagem
cultural sobre o meu país estava reduzida à obra de Picasso, Dali e
ao bairro chinês de Barcelona. Para mim foi mais que suficiente,
conseguindo o que precisava naquela altura: prolongar o pequenoalmoço
retemperador por uma hora e, entre risos e piadas, oferecerme
depois como guia turístico. Os cândidos e providenciais amigos
aceitaram, encantados. Desta forma, tão simples como inesperada,
acabei por ver ocupada toda aquela luminosa manhã.
Pelas três da tarde agradecidos e emocionados como crianças
pelo festivo périplo pela Cidade Velha - despedimo-nos até à
próxima.
Não havia tempo a perder.
Fazendo apelo às forças e à ténue serenidade que ainda me
restavam, requeri os serviços de um dos recepcionistas, explicandolhe
que desejava dormir nessa noite na cidade de Tiberíades e que,
se fosse possível, telefonasse para o Golan, a confirmar a reserva.
Perante a minha insistência, o judeu efectuou a diligência solicitada
logo de seguida. Não houve problemas. O hotel, em que me tinha
alojado em 1985, tinha quartos livres. O plano foi concluído com
uma segunda consulta: quanto poderia custar o frete de um táxi
para aquela povoação?
Preparado o isco, dirigi-me aos elevadores. Faltava, no entanto, a
operação mais delicada. Como confundir os hipotéticos e
desconfiados membros do Agaf? Se andavam pelo hotel não
deixariam de ser rapidamente informados dos meus projectos de
viagem para as margens do mar da Galileia. Nesse caso, duas
coisas podiam acontecer: ou me acompanhavam ou confiavam tal
missão a outros colegas, em Tiberíades. O perigo radicava na
primeira hipótese. Só me restava uma opção. Era arriscada, mas,
francamente, nesta altura já tudo ia dar ao mesmo.
15 horas 30 minutos.

Tirei o máximo partido do tempo. Se aquilo desse resultado,
dispunha de cerca de escassos minutos para recolher a bagagem,
pagar a conta e em poucos momentos sair. 15 h 35 m.
Benzi-me. Escondi duas garrafas de cerveja sob a capa e,
rapidamente, precipitei-me para os elevadores, marcando a saída
do estacionamento subterrâneo. O meu objectivo continuava no
mesmo lugar, solitário e envolto nas sombras da cave. De coluna em
coluna, evitando os olhares do guarda da barreira, fui-me
aproximando do Mercedes.
15 h 40 m.
Recurvado e com os bofes na boca, coloquei-me por fim do lado
direito do cano. Era preciso esperar a entrada ou saída de algum
outro veículo. Preparei as garrafas vazias e, postando-me em frente
da roda da frente. Debrucei-me sobre o nariz do motor. A chapa
quente, revelou-me que o carro tinha sido utilizado pouco antes. Por
certo tinham observado o nosso anterior percurso turístico. Mais uma
vez, de igual modo.
Tinha que aceitar que a minha iminente viagem podia ser seguida
15 h 45 m.
O roncar de um automóvel na entrada do estacionamento pôs
termo à irritante espera. Era a altura de actuar.
Estilhacei as garrafas contra o pavimento, fazendo coincidir o
estalido provocado com o ruído do cárro na rampa de acesso. Lancei
uma última olhadela ao vigilante e coloquei os afiados cacos de
vidro junto das rodas dianteiras do Mercedes. De imediato, esvaziei
os pneus, abafando o silvo provocado pela saída do ár com o lenço.
15 h 50 m.
Voltei ao meu quarto e peguei na bagagem. Dois minutos depois,
exibindo uma falsa tranquilidade, liquidava a avultada conta do
hotel, saí calmamente pela porta giratória do Moriah. Tinha de agir
com rapidez, aparentando a maior calma possível. Transe difícil.
Sobretudo, imaginando os agentes a caminho do subterrâneo do
hotel...
Com total premeditação regateei uns momentos com o primeiro
dos taxistas estacionados junto do hotel. O preço para Tiberíades

era justo e razoável. No entanto, recusei a proposta e passei ao
segundo árabe.
Desta vez parei diante da janela do motorista, para lhe pedir que
abrisse o porta-bagagens. Acomodada a bagagem, com os nervos
mais relaxados, dei-lhe uma ordem muito simples: - Para Telavive!
Às dezasseis horas o táxi partia veloz e, o que era mais
importante, sem qualquer escolta. A travessura com o Mercedes,
aprendida com alguns amigos dos serviços de informação
espanhóis, dava-me uma certa vantagem.
Se os ludibriados agentes interrogassem o primeiro dos taxistas,
só obteriam a confirmação da minha suposta deslocação a
Tiberíades. Tendo em conta que o tempo calculado de Jerusalém ao
lago podia cifrar-se numa hora ou hora e meia, a vantagem daí
resultante para mim era considerável. Mas não podia confiar muito.
Se detectassem a minha presença no aeroporto Ben Gurion, tudo
teria sido inútil.
O anúncio de uma gorjeta quase fez voar o voluntarioso taxista.
Quarenta minutos mais tarde, esfalfado e com a língua de fora,
tomava lugar na longa fila de passageiros que, tal como eu,
pretendiam voar para Barcelona. O medo, longe de esfumar-se,
penetrou nos meus ossos. Cada rosto, cada indivíduo, que se
aproximava ou afastava, tornara-se para mim numa ameaça. Mas a
lista dos meus erros não estava ainda completa. Inconscientemente
fruto da tensão esqueci-me de apresentar a bagagem aos
funcionários de segurança. A assistente lembrou-me esse pormenor
ao colocá-la no tapete rolante. Com efeito, a mochila e as malas
não apresentavam a pequena etiqueta obrigatória com o visto da
Polícia. Pus-me a tremer.
Uma jovem funcionária encarregou-se da minha bagagem,
exigindo-me os documentos. Teoricamente nada tinha a ocultar.
Mas o olhar inquiridor da rapariga intimidou-me.
- Jornalista? - perguntou com desconfiança.
Disse que sim com um gesto.
- E por que veio a Israel?

Expliquei-lhe o melhor que pude, aludindo às minhas
investigações como escritor. Impassível, continuou a examinar o
passaporte, obrigando-me a responder a uma interminável sucessão
de perguntas: - Acompanharam-no durante a sua estada?... Quem. ...
De automóvel ou de autocarro?... Entregaram-lhe alguma coisa? Em
que hotéis se alojou?... As facturas, por favor... Todos os seus
amigos em Israel são judeus?... Que é que escreve?...
Porque traz uma mochila.
Esgotado, depois de mostrar mil e um papéis, a funcionária
solicitou a presença de outro oficial de segurança. Não aparecia a
factura do hotel de Nazaré.
- Então, segundo afirma repetiu calmamente o recém-chegado
o senhor trabalhou e pernoitou em Nazaré...
Mas não encontra a respectiva factura... procurando Mal-humorado
abri o meu inseparável caderno de campo com todos os nomes e
telefones dos franciscanos amigos da Basílica da Anunciação.
Mostrei-lhos e ele, desconfiado, tomou nota do número.
- Muito bem. Aguarde aqui.
Enquanto o seu companheiro se misturava na barafunda do
aeroporto, disposto a telefonar aos padres Uriarte e Rafael
certificando-se das minhas afirmações, a funcionária lançou-se à
minha bagagem. Apesar de ter aberto a mala em primeiro lugar, o
insólito de uma mochila vermelha na bagagem de um jornalista fez
pender a balança da fortuna.
Convencida da transparência do conteúdo, introduziu a mão entre
os livros, apalpando os cantos da mochila.
- E isto?
A pergunta deixou-me sem fala. Tirou um dos volumes e, de súbito,
lembrando-se de alguma coisa, sentenciou:
- Essa mochila não lhe quadra lá muito bem...
Sorri sem grande vontade, explicando-lhe que para
determinadas andanças e excursões era mais prática.
Felizmente, a conversa ficou por aqui. O oficial voltou da sua
diligência e, laconicamente, ordenou:

- Está bem.
Adiante.
A chamada telefónica para Nazaré desviou o curso da ingrata
situação. Apressei-me a fechar a bolsa dos documentos e, aturdido,
meti o maço de recibos e facturas nos vários compartimentos da
mochila. Ao vê-la depois correr sobre o tapete rolante respirei
fundo. E sem mais delongas corri para o controlo de passaportes. A
minha falta de cuidado a guardar os papéis esteve quase a custarme
um último e catastrófico desgosto. Mas antes Deus é
misericordioso! -, à entrada da zona internacional, esperava-me uma
grata e inimaginável surpresa:
- Marcos!
Sorridente, o guia deixou que o abraçasse. Trocámos apenas
quatro palavras. Ofereceu-me um pequeno pacote e com os olhos
húmidos, apontando a mochila que tinha guardado durante tantos
anos, desejou-me sorte, incitando-me a que passasse o controlo.
Não voltei a vê-lo.
Um minuto depois, ao apresentar o passaporte, o mundo pareceu
desabar de novo. A agente policial folheou o documento. Olhou-me
de frente e fulminou-me com três palavras: - Falta o visto.
Era o que eu menos podia imaginar. Peguei no passaporte e,
estupefacto, repeti a operação da funcionária, Era verdade: o
obrigatório visto turístico não constava entre as folhas. É evidente
que eu o obtivera antes de entrar no país. E mais: sem aquela
formalidade cumprida antes nem sequer poderia ter entrado no
território israelita.
O visto, disso tinha eu a certeza, tal como costumo fazer em todas
as minhas viagens, tinha sido meticulosamente guardado entre as
páginas do passaporte. Como era possível? Sem o documento, as
autoridades poderiam reter-me. Senti-me perdido. Por entre cãibras,
inspeccionei cuidadosamente todos os recônditos da minha roupa.
Foi inútil. De repente, compreendi. A fugidia folhinha com caracteres
verdes devia ter-se misturado com os recibos e facturas, estando
agora sepultada sabe-se lá onde na mochila.
Há anos, em pleno aeroporto da Cidade do México, sofri um

percalço semelhante. No entanto graças à pessoa que me
acompanhava, e depois de ter revolvido a maleta dos meus
documentos, a contrariedade tivera um final feliz. Agora as
circunstâncias eram radicalmente distintas. Se perdesse o avião, já
tinha a sentença lida.
Optei por dizer-lhe a verdade. A funcionária ouviu-me com
indiferença. Apelei aos céus e por que não? - deu-se o milagre".
A agente folheou o passaporte pela segunda vez.
E eu, impaciente, aguardei a pergunta-chave. Conhecia o truque.
Tudo dependia do arquivo policial e da minha resposta.
Eu explico-me. Como estrangeiro não judeu, a única possibilidade
de passar o controlo tinha a ver com os meus antecedentes e com o
grau de simpatia que fosse capaz de demonstrar para com o Estado
de Israel. Este último e singelo gesto a polícia de fronteiras de
determinados países domina-o na perfeiçãodeveria reflectir-se nas
minhas próximas palavras.
A responsável policial levantou os olhos do passaporte e utilizou o
teclado de um termimal de computador, oculto sob o balcão. A
elementar operação consistia em averiguar a data da minha entrada
em Israel e o meu currículo policial. Se o monitor como de facto
aconteceu respondesse com a frase-chave nada consta", que me
livraria de qualquer suspeita, o desfecho da situação dependeria
dessa decisiva resposta.
E a máquina o mais surpreendido fui eu apostou na minha
inocência.
- Quando entrou em Israel?
- Em dezanove de Novembro passado respondi sem hesitar.
E a agente, com olhar severo, lançou a esperada pergunta:
- Muito bem. Deseja que carimbe o passaporte?
- Claro. Ficar-lhe-ia muito grato!
Se no meu íntimo eu albergasse qualquer ódio ou receio
relativamente ao povo judaico, o mais natural teria sido recusar a
proposta. Em alguns países árabes, por exemplo, um passaporte
com o timbre de Israel é garantia de desconfiança, de penosos

interrogatórios e, inclusivamente, de recusa de entrar no país.
A ênfase e o entusiasmo que coloquei nas minhas palavras foram
determinantes. A funcionária sorriu e, apondo o carimbo de saída,
deixou-me passar.
Mas o Destino, sempre tortuoso, não parecia disposto a concederme
um segundo de trégua. O voo 889 da Iberia, anunciado para as
dezoito horas, estava com atraso.
Sei que parece absurdo mais ou menos o mesmo que praticar a
política da avestruz -, mas, desmoralizado e inferiorizado pelo
medo, fui esconder-me nos lavabos, ali ficando, agarrado à mala,
até que, finalmente, através da instalação sonora, os passageiros
da Iberia com destino a Barcelona foram alertados. E assim, às 19
horas, 11 minutos e 51 segundos quase como um indulto -, o jacto
deixou o solo da Terra Santa, em direcção às estrelas, cúmplices da
minha angústia.
Em segredo e silenciosamente, dei graças à força que sempre me
acompanha, celebrando a fuga com dois largos tragos do sabra o
espírito de Israel que o bom Marcos tinha posto nas minhas
indignas mãos. Nunca um licor foi tão bem recebido... por um homem
tão arrasado.
Espanha
No meu íntimo eu sabia e já esperava. O incidente no Museu da
Medicina Antiga de Israel, apesar da minha fuga, continuava vivo e
actuante. Os Serviços de Informação israelitas nunca esqueceram.
Daí que as semanas que se seguiram ao meu regresso a Espanha
não foram de modo nenhum amenas e tranquilas como eu precisaria.
A carta com o pergaminho chegou-me às mãos oito dias depois de
ter sido depositada na caixa do correio em Jerusalém. Constituiu um
enorme alívio que no entanto, seria perturbado por uma
significativa e alarmante chamada telefónica.
Na manhã daquela segunda-feira, 15 de Dezembro de 1986,
poucos minutos depois de receber o pergaminho, o primeirosecretário
da embaixada israelita em Madrid punha-se em contacto

com este aterrorizado jornalista. Foi uma conversa tão curta como
angustiante, na qual mal consegui construir uma frase coerente.
Hábil e prudente, depois de vários e lisonjeiros circunlóquios, foi
direito ao assunto: - Por acaso não lhe entregaram um amuleto
muito antigo no Museu de Medicina Antiga de Jerusalém?
Já não me lembro bem da resposta, mas é claro que não se
ajustou à verdade. A advertência subtil e generosa, é certo, mas
sempre advertência foi como que um tiro de misericórdia.
Para os israelitas eu era um indivíduo marcado para sempre.
Fotocopiei o texto hebraico do pergaminho e, de acordo com o
combinado comigo próprio, apressei-me a executar a segunda fase
da já referida manobra de restituição do documento. Introduzi-o em
novo sobrescrito e este, por sua vez, em outro que, com urgência e
registado, seguiu nessa mesma tarde de segunda-feira para a
República Federal da Alemanha.
Duas grandes amigas minhas, cuja identidade não posso
naturalmente revelar, encarregar-se-iam da terceira e última
operação: o imediato envio do corpo de delito aos seus legítimos
proprietários, na Rua Straus de Jerusalém. A carta chegou à
Alemanha já muito perto do Natal e o meu pedido preciso foi
cumprido fiel e diligentemente. Poucas horas depois o sobrescrito
lacrado e anónimo com o pergaminho partia de Munique, rumo a
Israel. As minhas simpáticas amigas não fizeram perguntas,
limitando-se a telefonar para minha casa, confirmando em código
que a misteriosa carta já ia a caminho do seu destino final.
Por uma questão de segurança, dado que o meu telefone não
oferece demasiadas garantias, eu tinha transmitido às amigas
alemãs uma espécie de código que, uma vez concluída a operação,
elas deveriam transmitir-me simples e concisamente. E assim
aconteceu, graças a Deus.
No próprio dia de Natal ao anoitecer, com o oportuníssimo
pretexto de nos apresentar as boas-festas, Jenny telefonou-me da
Alemanha Oci dental: - A tia Margarida está melhor...
Saltei de alegria.
- Tens a certeza?

- Sim atalhou, categoricamente -, a tia Margarida encontra-se
melhor. Muito melhor.
A aventura assim espero e desejo terminaria com duas atentas
e significativas cartas de Samuel S. Kottek, o médico que me
acompanhou na visita ao citado museu, de tão triste recordação. A
primeira, com data de 7 de Dezembro; a última, escrita em 5 de
Janeiro de 1987. Ambasx estão incluídas no presente trabalho e
falam por si sós.
Advertência preliminar
É curioso. Há já vários dias que luto comigo mesmo, tentando o
impossível. Para ser sincero, gostaria de resumir em meia-dúzia de
linhas aquelas duas mil folhas que constituem o novo legado do
Major. É claro que tenho de dominar a minha tresloucada ansiedade
e deixar que as coisas se passem como foram escritas e dispostas
por essa mão invisível a que, por vezes, chamamos Destino.
Lamentavelmente, temos as nossas limitações. Neste caso, a
palavra constitui, paradoxalmente, a maior das minhas limitações.
Farei o que puder.
Prestes a iniciar a transcrição desta parte do legado do falecido
piloto da USAF, ouso propor algumas reflexões. Acho justo adiantar e
confessar que a leitura de tais manuscritos me impressionou
profundamente. E não apenas pela sua extensão e riqueza de
pormenores. Creio que o nais importante e assombroso é a
verdadeira montanha de informação acerca da vida de Jesus de
Nazaré.
João Evangelista, nos seus últimos versículos (21, 25) escrevia
com sobeja razão que muitas outras coisas sobre Jesus. É verdade. E
atrever-me-ia a acrescentar que tantas e tão decisivas que, mesmo
faltando uma única o nosso conhecimento e perspectiva da sua obra
ficam diminuídos. Agora isso é claro para mim. ; vital eu diria
mesmo, imprescindível conhecer a infância e a juventude do Filho
do Homem para nos aproximarmos da sua Verdade. I essencial o
acesso aos anos que precederam a chamada vida pública de Jesus
para, pelo menos, intuir os seus propósitos e, desse modo, encaixar
melhor as peças da complexa, agitada e sempre fascinante etapa
da sua pregação. Só assim, com essa maravilhosa informação em

nosso poder poderemos valorar com alguma equidade a irrepetível
passagem do Filho de Deus pela Terra.
Também sei isso. Muitas pessoas, após a leitura dos volumes
anteriores de Operação Cavalo deTróia, fazem-me a mesma
pergunta: «Mas é verdade, É crível tudo isto?» E vejo-me obrigado a
repetir a única coisa que sei: que tais documentos existem e que
ainda que alguns se empenhem em afirmar o contrário a minha
imaginação não é assim tão grande. Desafio daqui quem o deseje a
elaborar uma vida de Cristo tão rica de lógica, audácia e beleza.
Não é assim tão simples inventar discursos de Jesus de Nazaré
práticas inéditas e, o que mais interessa, cheias de sabedoria ou
esses trinta e dois anos que os crentes definem como vida oculta.
Inventá-los claro, com dados, nomes, acontecimentos e
circunstâncias credíveis.
É o coração do leitor que deve sentir se estas narrações acerca de
Jesus são ou não credíveis. Que cada qual, portanto no mais íntimo
do seu ser, julgue e decida, de acordo com os ditames da sua
consciência. Essa nunca se engana...
Dito isto, a mais elementar prudência obriga-me a prevenir o
leitor.
Pelo menos, aos pusilânimes e ancorados nos velhos e
inamovíveis portos do conservadorismo. A julgar pelas centenas de
cartas e comunicações recebidas a partir da publicação dos volumes
anteriores de Operação Cavalo de Tróia, sei que uma notável
maioria não se sentiu ferida ou desconcertada com a leitura desta
inédita Vida de Cristo. Pelo contrário.
Tal como no meu caso, este novo, mais humano e infinitamente
mais próximo Jesus de Nazaré fez o milagre de cativar os corações,
apaziguando ansiedades, preenchendo lacunas e, principalmente,
confirmando suspeitas e intuições. Este Jesus mais nosso fez-nos
pensar, o que não é pouco.
A outros, em contrapartida, a torrente de revelações sobre a sua
pessoa, vida e mensagem, irritou-os ou afundou-os em nada
aconselháveis trevas. Naturalmente, não era essa a minha intenção.
Pois bem, a estes cujos princípios e esquemas religiosos já não
podem evoluir se dirigem as minhas presentes e respeitosas

palavras de advertência. Como já tinha acontecido com os textos
publicados em Operação Cavalo de Tróia II, entendo que é meu
dever alertá-los de novo. A natureza dos factos, ideias e situações
que me disponho a narrar poderia magoar os inseguros ou aqueles
que, infelizmente, não podem avançar na apaixonante aventura da
busca pessoal. Cada um tem, naturalmente, a sua Verdade e a sua
razão. Por consequência como medida preventiva -, sugiro-lhes que
NÃO SIGAM EM FRENtE. Se a sua mente não está preparada para se
confrontar com outras verdades, por favor, Não Leiam Operação
Cavalo de Tróia III. Se, apesar de tudo, decidir continuar, não perca
de vista que a Verdade, como o mais valioso dos diamantes, tem
mil faces.
Talvez, no fundo, todos tenhamos razão.
E antes de entrar no que na verdade importa e é motivo do
presente trabalho o Diário do Major -, dado o considerável volume
do legado (duas mil folhas, de vinte por trinta e um centímetros
cada), é mais que provável que tal informação deva ser dividida em
duas partes. Sei que o sempre paciente leitor o compreenderá. Mas
deixemos que seja o próprio Diário a fixar as normas. Um Diário em
que, na verdade, ocorre uma triste e significativa mudança. Ao
contrário do que sucedera com a primeira das entregas a
verificada em Washington -, esta última não se apresenta
dactilografada, mas manuscrita. E manuscrita com evidente
dificuldade. Como se o autor, já sem forças, tivesse consciência de
que era aquela a sua última missão. Uma missão que agora como no
futuro, só poderá beneficiar os homens de boa vontade. Que Deus o
abençoe.
O diário
(Terceira Parte)
Outono de 1978. Estou a perder a noção de tempo.
Pressinto o fim. Já nada me preocupa. Apenas terminar. A vida e o
alento escapam-se-me. Em breve me juntarei ao meu irmão.
Mas antes, ó Deus misericordioso, dai-me forças para concluir o
começado. Tenho ainda tanto para rememorar e deixar escrito! Hoje,

quando me disponho para retomar o fio das nossas experiências e
explorações na Palestina de Jesus de Nazaré bendita seja a sua
memória -, continuo sem conhecer o homem ou mulher que deverá
guardar e difundir tudo o que tenho anotado e que, é esse o meu
único objectivo: pretende reflectir, tosca e pobremente, sei-o bem, a
maravilhosa "luz" do Mestre. Nem sequer tenho a certeza de que
estas rápidas memórias cheguem a ser lidas. No entanto, tal como
aprendi com Ele, devo confiar na mão avisada e amorosa do Pai. Ele
tem um plano para cada um de nós. Portanto, Ele saberá como e
quando fazer chegar quanto aqui é narrado àqueles que estão, na
verdade, sedentos da sua palavra.
E antes de mergulhar de novo na apaixonante aventura deste par
de "loucos" nas terras altas da Galileia, solicito a benevolência e
compreensão de todos aqueles que vieram a ler esta espécie de
diário. Sem dúvida, um escritor consumado tê-lo-ia feito com maior
acerto e brilho. Creio, mesmo assim, que estou em dívida para com
esse ainda anónimo destinatário de tudo o que já escrevi e daquilo
que, espero, ainda me resta para contar.
O final abrupto que precede o que agora me ocupa não foi
gratuito, nem deve ser interpretado como o capricho de um homem
senil ou decadente. O que tivemos oportunidade de viver e
presenciar na Palestina, a partir daquele inolvidável domingo, 16 de
Abril do ano 30 da nossa era foi tão espectacular e decisivo que,
honestamente, julguei necessário adoptar um máximo de
precauções. O criptograma, que em certa medida encerra a primeira
fase do segundo "salto" da Operação Cavalo de Tróia, apenas
pretende salvaguardar o nosso «tesouro»
E foi concebido de tal forma que, assim como no primeiro dos
enigmas, só uma pessoa sedenta de conhecimentos e disposta a
enfrentar toda a espécie de riscos e sacrifícios está capacitada para
o desvendar e por fim, respeitando o seu conteúdo, dar-lhe o
devido tratamento. Estou certo de que esse anónimo e não menos
"louco" personagem só pode ser um admirador de Jesus de Nazaré.
Nele confio.
*1 É claro que no Outono de 1978 o meu amigo, o Major norte-americano, não

conhecia ainda a identidade da pessoa que descobriria o seu legado. O Diário foi
terminado em 7 de Abril de 1979 e o meu primeiro encontro com o velho piloto só viria
a verificar-se um ano depois (Abril de 1980). Já nessa altura - estou convencido -, o
legado, dividido em duas partes, tinha sido depositado nos Estados Unidos e em Israel,
respectivamente. (Nota de J. J. Benitez.)
17 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA
(ANO 30)
Agora, ide todos para a Galileia. Lá vos aparecerei muito em
breve.
Assim, com esta ordem terminou a aparição número dez do
Ressuscitado. Era o domingo, 16 de Abril do ano 30, da que hoje
denominamos como nossa era.
E o Mestre, voltando-se para mim, sorriu-me. Caminhou devagar
para a penumbra, desaparecendo diante da parede pela qual o
tínhamos visto surgir. Desvaneceu-se, simplesmente. E eu, como uma
estátua tão confuso e atónito como os demais, não soube que fazer
nem que dizer. Como médico e como simples e incrédulo mortal,
aquele homem não tenho outro remédio senão refugiar-me nos
únicos e limitados conceitos que estão ao meu alcance morto 219
horas antes, era o maior desafio científico da História.
A sua presença aparentemente tão física e tangível como a
nossa excedia toda a possibilidade de compreensão racional.
Reconheço-o humildemente: aquela era a segunda vez que o via e
ouvia e, mesmo assim, custava-me a aceitá-lo. Mais tarde, quando a
calma desceu sobre o lar da família Marcos, dei-me conta de algo
que, à primeira vista, parecia uma contradição.
Desde muito antes de consumar aquele segundo salto no tempo, o
meu empenho em voltar a ver o Mestre tinha sido constante.
Sentia a sua falta. Precisava de o sentir. Ouvi-lo.
Contemplá-lo. Era uma sensação irreprimível. Sem querer, apesar
do rígido código moral da Operação Cavalo de Tróia, as palavras, o
olhar e o halo mágico daquele Ser tinham-me transtornado. Sem
querer, insisto, tinha-me tornado num silencioso seguidor da sua

obra e da sua pessoa. Pois bem, naquela tarde, ao reconhecê-lo, o
espanto sobrepujou a alegria. Inexplicavelmente, o meu coração não
vibrou de júbilo perante o fugaz reencontro. Durante os escassos
cinco minutos que o Galileu permaneceu no cenáculo, quem isto
escreve não recorda o mínimo assomo de íntima satisfação que em
boa lógica, eu deveria ter experimentado. Talvez fosse do susto. Ou
quem sabe se o duríssimo treino a que tínhamos sido sujeitos. A
verdade é que, analisando os factos, este paradoxal comportamento
me afundou durante algum tempo numa dolorosa depressão. Mas
vamos aos acontecimentos, tal como tive ocasião de os viver e
contemplar.
Como ia dizendo, as últimas frases do Galileu ordenando aos
seus íntimos que partissem para o Norte marcariam o resto
daquele agitado domingo. De acordo com a minha contagem
particular, esta tinha sido a décima aparição. As nove primeiras
tiveram lugar em Jerusalém, Betânia e no caminho que conduz à
aldeia de Emaús. Todas elas como já referi, ao longo do anterior
domingo, 9 de Abril. Semanas depois ver-me-ia obrigado a rectificar
este cômputo. Jesus de Nazaré também se apresentou a outras
pessoas e em lugares insuspeitados.
Tais acontecimentos é claro! - seriam igualmente ignorados
pelos escritores sagrados.
É possível que os cronómetros do módulo marcassem as dezoito
horas e cinco minutos quando, no meio de um surpreendente
silêncio, o Rabi desapareceu da nossa vista. O pasmo dos
presentes ou deveria antes qualificá-los de ausentes? - perdurou
ainda por cinco ou dez segundos. E, de súbito a sala enlouqueceu.
Não recordo com clareza como é que os factos se desenrolaram. Foi
como que um trovão ou uma caldeira que explode. João, Simão
Pedro e os gémeos foram os primeiros a voltar a si.
Saltaram para cima da mesa e, berrando, cantando e vociferando
como energúmenos, abraçaram-se, arrastando os demais para uma
espécie de histeria colectiva. Copos, pratos e os restos da ceia
inacabada espalharam-se pela mesa em U e pelo soalho, salpicando
os galileus enlouquecidos. Ninguém reagiu mal ao sucedido. Na
realidade, aquelas reacções foram tão lógicas como necessárias. A

tensão, as dúvidas, os medos e as incertezas foram assim imolados
no fogo de uma incontível alegria. Estive tentado a juntar-me àquela
saudável algazarra.
Mas contive-me, desfrutando daquele caos, tão compreensível
como justificado. Bartolomeu e Filipe desfigurados, olhavam sem
ver, vítimas de um riso nervoso. Simão o Zelota, refeito
momentaneamente do seu profundo abatimento, batia palmas
também ao ritmo dos que folgavam sobre a maltratada mesa. Os
seus olhos abertos e imensos como galáxias, iam e vinham,
detendo-se sobre os companheiros, na ânsia creio eu de
corroborar tudo o que tinha presenciado.
Tomé, sentado no mesmo divã era um dos mais afectados pela
aparição. Parecia ausente. Com os cotovelos cravados nas coxas,
escondia o rosto entre as mãos, gemendo e chorando mansamente.
Mateus Levi, solícito, passou o seu braço pelos ombros do tímido e
perturbado Didimo, no intuito de o consolar.
Quanto a André tão desconcertado como Tomé, precisou de algum
tempo para reagir. As suas recentes piadas, impropérios e censuras
a todos os que tinham acreditado na ressurreição deviam pesar na
sua alma como uma mó de moinho.
E por fim, branco como a cal, juntou-se aos outros. Subiu para a
mesa e, com suavidade, afastou o delirante João Zebedeu, pondose
em frente de seu irmão. Pedro, ao vê-lo, parou com as suas
manifestações e saltos de júbilo. Observaram-se mutuamente e, sem
pronunciar qualquer palavra o antigo chefe do grupo precipitou-se
para Simão abraçando-o. Os aplausos e vivas aumentaram.
No meio daquele tumulto, Tiago de Zebedeu, como sempre, foi o
homem prático, frio e calculista. Embora o seu olhar, tão radiante
como os dos demais, o atraiçoasse, foi o único que conservou um
mínimo de lógica e de senso comum. Movido por estes sentimentos,
e por uma curiosidade tão forte como a minha, pegou numa das
candeias, dirigindo-se para a parede.
Discretamente juntei-me a ele. Aproximou a lamparina de azeite
do soalho por onde Jesus tinha caminhado, examinando o percurso
do Ressuscitado. Ao chegar à parede, coberta naquele ponto por
uma longa e delicada tapeçaria de linho de En-Gedi, o filho do

trovão alheio ao tumulto do cenáculo ergueu a candeia,
concentrando a sua atenção na zona pela qual o Galileu se tinha
volatilizado. Aproximou a frágil chama até cerca de um palmo dos
finos fios púrpura e carmesim, certificando-se de que o tecido não
apresentava o menor sinal de deterioração.
Segui os seus movimentos. Tanto ele como eu sabíamos que do
outro lado da tapeçaria havia apenas uma grossa parede de pedra
calcária. Apesar de tudo, desconfiado, fez pressão sobre a tela em
vários pontos. Finalmente, descarregando o seu cepticismo confesso
num profundo e interminável suspiro, voltou o seu rosto anguloso na
minha direcção, dirigindo-me um olhar pleno de satisfação. Sorri-lhe.
Nem Tiago nem eu podíamos compreender. Mas era de facto assim.
O Mestre desmaterializara-se diante da parede ou, quem sabe,
talvez tenha sido capaz de atravessá-la.
Achei melhor não pensar mais nisso. E o Zebedeu, decidido,
avançou para a porta dupla, destrancando-a com um seco e
contundente pontapé. Minutos mais tarde, alertados pelo discípulo,
a família e criadagem de Marcos irrompiam em tropel pela sala
dentro, juntando-se àquela barafunda.
Os gritos, perguntas, cânticos, palmas e risos prolongaram-se
durante mais de meia hora. Pouco a pouco, Elias, Simão Pedro e
Tiago conseguiram acalmar os ânimos, fazendo ver aos seus
companheiros que o tempo urgia. Se desejavam cumprir a ordem do
Mestre e partir assim o mais depressa possível para a Galileia, era
preciso deitar mãos à obra. A viagem até ao mar de Tiberíades era
longa e os preparativos já tinham sido interrompidos mais de uma
vez.
Pelas oito horas, a quase totalidade dos íntimos de Jesus tinha
descido para o espaçoso pátio ao ar livre. E ali, à volta da fogueira,
enquanto Filipe, o intendente, se atarefava com os gémeos na
preparação da bagagem, os outros recuperado o sangue-frio
dedicaram uma boa parte das duas primeiras vigílias (a da noite e
a da meia-noite) a examinar a situação.
Apesar da euforia, tinham consciência da sua delicada situação
frente à casta sacerdotal que tinha perseguido e crucificado o Rabi.
André, prudente e receoso, recordou as preocupantes notícias

trazidas uma semana antes por José de Arimateia. As medidas
promulgadas por Caifás, o sumo sacerdote, e seus sequazes na
noite do domingo anterior continuavam a fazer lei: «Aqueles que se
atrevessem a proclamar o regresso à vida de Jesus de Nazaré serão
expulsos das sinagogas.» A segunda dessas medidas que,
segundo os confidentes do velho membro do Sinédrio, não pudera
ser submetida a votação especificava que todo aquele que
declarasse ter visto ou falado com o Ressuscitado poderia ser
condenado à morte.
Apesar da força moral que, evidentemente, a presença do Mestre
lhes tinha insuflado, aqueles galileus, sabedores do ódio e do
poder da classe dirigente judaica, envolveram-se numa nova e acesa
polémica. Pedro, fogoso e impulsivo como sempre, levou a mão
esquerda ao punho da es pada, apelando aos seus companheiros
para que enterrassem os velhos temores e se lançassem pelas ruas,
anunciando a boa nova. A maioria repeliu a perigosa e prematura
ideia de Simão.
É verdade que aqueles sete dias de silêncio e total ocultamento
dos discípulos tinham acalmado o furor dos homens do Sinédrio. E
mais ainda: o fluxo ininterrupto de notícias que chegava até à
mansão de Marcos apontava para um absoluto e definitivo
esmagamento do grupo evangélico. Esta era, ao que parece a
convicção de Caifás e da sua gente. Quanto aos rumores da absurda
e fantasiosa ressurreição do Galileu, os saduceus e escribasuma vez
promulgadas as já referidas normas consideraram-nos e definiramnos
como os últimos restos de sequazes de um movimento a que O
passar do tempo e a mentalidade reinante da subornada guarda do
Templo fariam o resto. Esta era a situação em Jerusalém, ao
amanhecer daquela segunda-feira 17 de Abril.
Como era de prever os veementes discursos de Simão, se bem que
atraentes, não foram atendidos. Tiago, Mateus Levi e seu irmão
André interromperam-no mais de uma vez e, com o silencioso apoio
dos demais, procuraram convencê-lo dos riscos de semelhante
empresa. De momento, se na verdade davam valor às palavras de
Jesus, a única coisa que importava era cumprir a sua ordem.
Curiosamente, e creio que devo referir-me a isso antes de
prosseguir, a partir daquela noite de domingo, 16 de Abril, a figura

de Simão Pedro foi-se impondo de maneira notável.
O Mestre apesar de alguns evangelistas sugerirem que lhe
outorgara a chefia e direcção do corpo apostólico Também não
houve qualquer votação ou manobra dos íntimos para a sua
designação como cabeça visível dos novos evangelizadores. Na
realidade, os factos foram-se encadeando por si mesmos e, com o
passar dos dias, o inquebrantável entusiasmo de Pedro e a sua
inegável capacidade oratória fizeram o resto. Os discípulos de
forma tácita, aceitaram o vulcânico galileu como o homem indicado
para os representar e proferir os discursos.
Estas, e não outras foram as verdadeiras razões que o conduziriam
ao lugar de todos conhecido.
(pela quárta hora da madrugada, hora antes da vigília, do canto
do galo), o grupo, temendo ser descoberto pelos espias do
Sinédrio, adoptou por unanimidade a resolução de abandonar a
Cidade Santa antes da aurora. Confundidos na obscuridade da
noite, a sua partida de Jerusalém poderia ser menos arriscada.
Maria Marcos, com a sua proverbial diligência, aparentemente
alheia às discussões e polémicas dos discípulos, não tinha tido um
momento de descanso. Durante toda a noite, vi-a entrar e sair do
pátio, trocando impressões com Filipe e, sempre discreta e
silenciosa, orientando a necessária moagem do grão. Nesta
ocasião, a criadagem não utilizou o pequeno almofariz de pedra,
tão comum nas casas judaicas.
Pela meia noite, dois dos criados colocaram no pátio um pesado
mecanismo que consistia em dois grandes discos de basalto. O
inferior, de cerca de noventa centímetros de diâmetro por vinte de
altura, apresentava a face superior acentuadamente convexa. No
centro emergia um sólido eixo de ferro de uns trinta a trinta e cinco
centímetros de comprimento. Ao aparecer, intrigado, deixei por
instantes a fogueira acolhedora observando as suas hábeis
manobras. Um deles estendeu um pano de linhagem sobre o solo de
ladrilhos e, seguidamente, não sem esforço, ambos pegaram na já
referida mó, colocando-a ao centro da escura serapilheira. Em
seguida repetiram a operação, encaixando a segunda roda de
basalto no eixo da primeira mó.

A superior, de um pouco mais de meio metro de diâmetro, tinha
sido trabalhada de tal forma que a sua superfície inferior,
acentuadamente côncava, se acoplasse perfeitamente com a que
assentava no pavimento. O orifício que perfurava este disco
superior, no qual entrava o eixo de ferro, parecia um funil.
Compreendi que se tratava de um moinho caseiro, com uma maior
capacidade de trituração e, por conseguinte, muito útil em
determinadas circunstâncias. E aquela era, sem dúvida, uma
situação de emergência. Encaixadas as duas mós era este, ao que
parece, o nome do aparelho um dos criados foi buscar um
recipiente de pedra avermelhada cheio de trigo, iniciando a
moedura propriamente dita. Com a mão esquerda accionou um cabo
de madeira encravado verticalmente na roda de cima, fazendo-a
girar com força.
Ao mesmo tempo, com a mão direita, foi deitando punhados de
grão no funil central. Durante alguns minutos fiquei absorto e
maravilhado diante daquele primitivo mas engenhoso sistema. O
áspero ranger do basalto, girando lenta e eficientemente, acabou
por dominar todo o local, obrigando os discípulos a elevar o tom
das suas vozes.
Passada uma meia hora, o segundo criado ajoelhou-se diande do
moinho, rendendo o primeiro. A monótona e cansativa trituração
terminaria já depois das duas da madrugada. Os criados, cheios de
suor, desmontaram então as mós e Maria, ajudada pelo jovem João
Marcos, foi depositando o fruto da moenda numa peneira de cerdas,
de cujo aro de madeira estava suspenso um engordurado saco de
oleado, que levava meia efa, aproximadamente, ou seja, cerca de
vinte e dois quilos.
Quando a farinha chegou a meio do saco, o benjamim fechou-o,
entregando-o a Filipe, o responsável pelos abastecimentos. A partir
de então, com o que sobrou da moagem, a dona da casa concentrou
a sua atenção na amassadura e cozimento das apetitosas roscas
redondas que tinha tido oportunidade de saborear noutras alturas.
Prudentemente, conhecedora do seu secundário papel entre os
homens, aguardou que estes fixassem a hora da partida. Eram, como
disse, quatro horas da madrugada. Trocou então um sinal com Elias,

seu marido, e, de imediato, os criados começaram a distribuição das
douradas roscas de trigo e de tigelas de argila cheias de leite de
cabra bem quente. Bem-disposto, o prestável João Marcos ocupouse
do meu pequeno-almoço. Abriu o pão crepitante e, imitando os
restantes comensais, untou-o com azeite. Um espesso e dourado
azeite de oliveira que impregnou a massa, tornando-a, se possível,
ainda mais saborosa e digerível.
A refeição foi rápida. Filipe, no centro do círculo formado pelos
galileus, bateu palmas, chamando à atenção dos presentes. Até
essa altura não tinha ainda tido oportunidade de assistir aos
preparativos de uma daquelas frequentes viagens do grupo. Cada
qual sabia, evidentemente, o seu papel.
O intendente apontou para os volumes e mochilas que se
alinhavam ao longo de uma das paredes e, com um lacónico «Vamos
lá!», animou-os a iniciarem a caminhada. A cena que a seguir
contemplei deixou-me agradavelmente surpreendido. À excepção de
Filipe, de Judas e Tiago Alfeu, todos os outros, em silêncio, foram
pôr-se em fila, diante do responsável pelos abastecimentos e dos
gémeos. Estes, sob o olhar atento de Filipe, abriram dois sacos de
couro e tiraram de cada um deles um par de sandálias com solas
lisas, de madeira ou matéria vegetal prensada, e uma cabaça oca,
respectivamente. Esta última tinha pendente uma longa e escura
corda já com muito uso. No interior de cada um dos nísticos cantis
podia ouvir-se o bater seco de um seixo. Tudo aquilo era
desconcertante. Apesar do seu contínuo e intenso contacto com Rabi
da Galileia e de terem sido beneficiários dos seus abertos e
liberais ensinamentos, aqueles judeus continuavam agarrados a
muitas das ancestrais e asfixiantes normas religiosas da
comunidade hebraica.
*1 Entre as medidas de capacidade (para secos e líquidos), o kor era uma das
mais frequentes na pesagem de grãos. Equivalia a qualquer coisa como 364-450 quilos
e dividia-se, por sua vez, em dez efas e bats. A efa representava setenta e dois log.
Este último, uma das unidades mais pequenas, equivalia a cerca de seiscentos amas.
(N. Do M.)
Esta era uma delas. Numa posterior ligação com o berço, o Pai

Natal, nosso computador central, fornecer-me-ia os antecedentes
originários de semelhante costume. Segundo o capítulo xvII, 6, do
Sabbath os caminhantes e peregrinos deviam prover-se de uma
daquelas cabaças secas e ocas, introduzindo no seu interior uma
pedra que, tornando-as mais pesadas, lhes permitia tirar água dos
poços, sem necessidade de recorrer aos serviços de homem ou
mulher impuros.
Cada homem atou o seu par de sandálias de reserva à cintura,
dependurando a cabaça a tiracolo. Terminada a distribuição, Filipe
reclamou a presença de Simão, o Zelota, e de Tiago Zebedeu.
Ambos se encarregariam da pesada lona que enrolada à volta de
três longos e rugosos páus de conífera, serviria de tenda de
campanha. Na dramática madrugada de quinta para sexta-feira
como talvez recorde quem tenha seguido estas memórias o
corajoso David Zebedeu, chefe dos "correios", teve a precaução de
desmantelar o acampamento montado no horto de Getsémani,
transferindo parte dos utensílios para a casa de Elias Marcos.
Também a bolsa com o dinheiro do grupo tinha sido colocada por
David nas mãos do novo e provisório administrador: Mateus o
Publicano.
Durante a primeira etapa da viagem pelo que deduzi das
palavras do intendente -, os gémeos carregariam com o odre
destinado à água e o saco dos víveres. O odre em questão, de pele
recamada de breu, tinha uma capacidade de dez bats ou jarras
(cerca de trinta ou quarenta litros. A curtida e enegrecida pele de
cabra fora provida de um par de correias de couro, cosidas dos
lados facilitando assim a sua manipulação e tornando-o melhor de
transportar. Ninguém protestou.
Todos deram por assente que na segunda jornada as bagagens
passariam para outras mãos. Na verdade, aqueles homens
dispunham de uma rigorosa e eficaz organização, que eu ignorava
quase por completo. Sabia, por exemplo que Judas Iscariotes tinha
sido o responsável pela tesouraria e que a Filipe cabia a obscura e
por vezes ingrata tarefa do abastecimento e da intendência-geral.
Também soube do papel de André, até então chefe indiscutível do
grupo. Mas que sabia eu dos demais? Cada um estava incumbido de
uma missão, conforme fui descobrindo pouco a pouco. Era o mais

lógico. Caso contrário, aqueles anos de estreita cooperação com o
Mestre ter-se-iam perdido. E pena que os evangelistas não tivessem
feito menção dessas tarefas específicas, decisivas para o bom
andamento da chamada vida pública do Mestre. Que se sabia, por
exemplo, de Mateus Levi? Qual tinha sido a sua tarefa? Porque é
que João, seu irmão Tiago e Pedro tinham permanecido mais perto
que o demais da figura de Jesus? Será que o Rabi fazia distinções
pessoais. Não, por certo... E que dizer dos gémeos?
*1 A Misná, na sua Ordem Segunda, dedicada às Festas diz o seguinte: «pedra
que está na cabaça oca, se se enche esta e aquela ,a pedra não cai, encha-se com
ela dentro; senão pode (X V I6) a( pode encher-se com uma varinha a que se atou um
pequeno (n. Do M.)
Quanto a Simão, o Zelota, Bartolomeu e Tomé, o meu
desconhecimento acerca das suas tarefas específicas era igualmente
total. Ao longo dessa madrugada julguei descobrir a missão do
Didimo. No meio de toda aquela azáfama, pouco antes da partida,
vi-o trocar impressões com Filipe.
Falavam do itinerário a seguir. Tomé, sem hesitações, como quem
já fizera muitas vezes aquele percurso, propôs-lhe o plano da
viagem. A jornada daquela segunda-feira levá-los-ia até Jericó, o
que representava cerca de 183 estádios (trinta e quatro
quilómetros, aproximadamente). A terça-feira dedicá-la-iam à etapa
mais dura: Jericó-monte Gilboa, seguindo a margem direita do
Jordão. Por último, na quarta-feira, 19, fariam o percurso Gilboa-
Betsaida, no extremo nordeste do mar de Tiberíades, passando
pelas cidades de Tarichea, muito perto da segunda desembocadura
do Jordão, Hippos e Kunsi, ambas na costa leste do lago. Ao todo,
à volta de cento e trinta quilómetros. Segundo as palavras de Tomé,
um pouco mais de oitenta e cinco milhas romanas.
Devo recordar que, na Palestina desde a conquista grega, os
judeus tinham acabado por aceitar diferentes unidades de medida.
O estádio, para não falar de outras, era uma delas. Equivalia a 600
pés ou 185 metros. Por seu turno, os Romanos tinham introduzido,
entre outras, a milha (1478 metros). Nas nossas múltiplas
peripécias por aquelas terras do ano 30, e nos acontecimentos que

tivemos oportunidade de viver desde o ano 26, tanto o meu irmão
como eu tivemos múltiplas ocasiões de deparar com os famosos
marcos miliários do Império. Mas isso é outra história...
O intendente aceitou o plano de Tomé. Como ia dizendo, comecei
a suspeitar que o papel do Didimo fosse exactamente esse: o de
guia ou responsável pelos itinerários. Tinha de encontrar tempo
para dialogar com os onze e conhecer a fundo os seus trabalhos, os
seus pensamentos, preocupações e, principalmente, a situação das
suas respectivas famílias.
É algo de que quase nada dizem os textos sagrados e que,
partilhar desta opinião, também tem a sua importância em nós
quando? A primeira fase da nossa missão chegava ao fim. Nessa
mesma manhã deveríamos activar o módulo e transferir-nos para o
Norte.
Judas de Alfeu, um dos gémeos, responsável pelo odre, carregou-o
às costas, tendo o cuidado de deixar o gargalo estreito e
pontiagudo virado para o solo. Nem era preciso perguntar porquê.
Desta maneira em caso de necessidade, poderia tirar-se água sem
ser preciso descer ao depósito. Bastava que o caminhante se
inclinasse e retirasse o tampão de madeira para prover-se da
quantidade desejada.
De acordo com outro costume romano, a água do odre tinha sido
cortada com um pouco de vinagre. Para ser mais preciso com uma
espécie de vinho fermentado, que dava à bebida um toque tão
agradável como refrescante, a que os legionários romanos e etíopes
chamavam posca. Em mais de uma ocasião, quando o vinho
escasseava, os nómadas e judeus substituíam-no por um acre sumo
de palma, também fermentado.
As vitualhas, gentilmente fornecidas pela dona da casa,
consistiam em legumes favas e lentilhas -, grão torrado, cominhos
e hortelã-pimenta (óptimos para temperar a comida), um jarro de
mel branco e um abundante sortimento de passas de Corinto,
tâmaras e figos secos e prensados, constituindo uma espécie de
pão escuro e brilhante. Tudo isto, mais a referida porção de farinha
moída na altura, constituía uma aceitável dieta, suficiente para três
ou quatro dias.

Alguns homens, obedecendo a outro velho hábito, enrolaram o
respectivo sudarium à volta da cabeça. Ao vê-los assim com os
mantos pela cabeça, uma imagem saudosa perfilou-se na minha
memória. Emocionado, recordei o meu primeiro encontro com Jesus,
em casa de Lázaro.
O Gigante trazia também pelas fontes uma daquelas faixas de
pano, tão úteis para conter o suor nas longas caminhadas. Meu
Deus! Quando voltaria a vê-lo? O Destino tinha a palavra.
A quase totalidade do grupo, à excepção de Tomé e Mateus Levi,
recolheu e enrolou as respectivas túnicas à cintura, cingindo os rins.
A sábia expressão de Lucas (XII, 35) era plenamente justificada.
Assim, as amplas peças de lã ou linho não travavam o andar do
caminhante. Coloquei-me ao lado de João e, discretamente,
perguntei-lhe por que é que Mateus e o Didimo não punham o seu
chaluk como os outros.
O Zebedeu sorriu maliciosamente. As razões de um e do outro não
podiam ser mais opostas. A de Levi pareceu-me lógica. Na sua cinta
estava guardado todo o dinheiro do grupo. Em caso de
necessidade, o acesso à bolsa tinha de ser rápido e sem
constrangimentos.
- Quanto a Tomé sussurrou João, fazendo um gesto em direcção
a Maria Marcos -, fá-lo-á daqui a pouco...
Compreendi a alusão velada. A aversão daquele galileu pelas
mulheres chegava a tais extremos. O que eu então desconhecia era
a causa de tal misoginia ou aversão pelo sexo feminino.
Por volta das quatro e meia da madrugada, o tagarela e bemdisposto
Filipe procedeu à última revista. A ideia do próximo retorno
a suas casas tinha-lhes devolvido parte do perdido bom humor. Ao
encarar com Tiago Alfeu, o intendente resmungou. Bateu
carinhosamente na bainha de madeira, vazia, que emergia por
debaixo da hagorahh, ou faixa larga que fazia as vezes de cinturão,
interpelando o despistado gémeo.
O dócil pescador fez menção de pousar o saco de víveres para ir
em busca da esquecida espada. Mas o voluntarioso João Marcos
adiantou-se, precipitando-se para o piso superior. Não me cansarei

de insistir nisso. Embora pareça um contra-senso, a verdade é que
todos os discípulos traziam à cinta, naquela altura, a espada que
sempre os acompanhava. Desconheço se eram destros no seu
manejo provavelmente não muito -, mas acreditem que ao vê-los
armados, se experimentava uma desagradável sensação.
Como os cristãos e crentes estão pouco informados a respeito
daqueles homens! Terminada aquela última inspecção, os galileus
de acordo com o seu costume e arraigada fé religiosa entoaram o
«Ouve, Israel». O cântico elevou-se vigoroso e compacto para as
últimas estrelas de Jerusalém. Nos seus corações, a desvanecida
esperança no reino brotava de novo, pujante e incontidamente. A
família Marcos uniu-se à oração e eu respeitosamente, como pagão,
retirei-me para um dos cantos do pátio.
O meu propósito era juntar-me à expedição até à vizinha Betânia
ou suas imediações. Dali subiria ao monte das Oliveiras e
encontrar-me-ia com o meu irmão. O facto de abandonar a Cidade
Santa acompanhado tranquilizou-me.
A despedida foi parca em palavras. Elias, sua esposa, o benjamim
da casa e os criados, corresponderam aos carinhosos beijos e sem
mais, os onze foram desfilando até ao portão de saída.
Intencionalmente, deixei-me ficar para trás. A minha gratidão para
com os anfitriões era tão sincera como ilimitada.
- E tu Jasão, também nos deixas?
O tom de Elias, apagado e tristonho, fez-me vacilar. Fiz que sim
com a cabeça e, quando dispunha a abraçá-los, João Marcos,
acocorado até então entre os braços de sua mãe, explodiu num
amargo pranto. Entre soluços suplicou a seus pais que o deixassem
juntar-se aos amigos de Jesus. Agarrado a Maria, lembrou-lhes que
também ele desejava ver o Mestre. Elias e eu entreolhámo-nos,
enternecidos. A mãe acariciou os cabelos do adolescente numa
tentativa vã de o convencer. O rapaz redobrou de lágrimas e
lamentos, esperneando com força.
Foi inútil. O dono da casa perdeu a paciência e pôs fim à cena
com um imperativo Banim. (Menino!). E apontando com o dedo a
direcção dos seus aposentos, obrigou-o a retirar-se.

Uma vez mais, por pura cortesia, prometi regressar a Jerusalém
logo que me fosse possível. Elias resignou-se, admitindo que a mão
de Deus, bendito seja o Seu nome me tinha levado até ao seu lar e
que, apesar dos meus negócios na Galileia, esse mesmo poder
divino me devolveria à Cidade Santa. Não se enganou. Infelizmente,
os seus dias estavam contados e eu não voltaria a vê-lo.
Na ombreira da porta recomendou-me que não deixasse de visitar
um seu velho amigo um tal Maraschu -, judeu helenizado e honrado
monopolei, estabelecido na cidade de Teverya (Tiberíades). Os
comerciantes gregos davam esse nome aos grossistas que
comerciavam com trigo, azeite, peixe salgado e conservas de frutas
secas, entre outras actividades 1.
O monopolei em questão segundo Elias homem bem
relacionado na Galileia poderia aconselhar-me nas minhas
transacções de vinho e madeiras, abrindo-me muitas portas.
Fixei o nome de memória e, depois de nos beijarmos em ambas as
faces, penetrei na obscuridade das ruas de Jerusalém. O grupo dos
onze adiantara-se-me um pouco, o que me inquietou.
Tinha de os alcançar. Àquela hora cinco da madrugada -, não era
muito recomendável atravessar sozinho a parte baixa da cidade e
transitar pelos caminhos que confluíam para ela.
Nessa ocasião, os meus receios não eram infundados.
Em passadas largas, com a ajuda duvidosa das mortiças lâmpadas
de azeite que iam piscando nas encruzilhadas daquele dédalo de
ruas e rampas fui-me orientando para o extremo sudeste da cidade,
à procura da Porta da Fonte.
Os únicos sinais de vida na zona baixa da cidade eram
constituídos pelas inquietantes filas de ratos, que deslizavam
negros e velozes de uma parede para a outra ou trepavam pelos
montes de lixo e imundícies, alertados e desconfiados pela minha
passagem. O ranger ritmado da moenda foi crescendo em extensão
e intensidade, coincidindo, aqui e ali, com o aparecimento de novas
candeias no interior dos pátios e casinhotos.
*1 Em Mateus (XXV, 9), Jesus ao falar das virgens néscias e sensatas, alude,
muito provavelmente, aos monopolei.

Tanto em Israel como no resto do Império, estes grossistas gozavam de uma
situação económica privilegiada. Armazenavam nos seus diplostoon toda a espécie de
mercadorias exercendo um controlo especial sobre o comércio dos cereais. Em Roma,
por exemplo, esses judeus instalaram-se perto do Tibre, onde atracavam os barcos de
trigo. (N. Do M.)
O aconchego do manto veio em boa hora, porquanto a
madrugada se apresentava fresca.
Eliseu respondeu preocupado. Há horas que eu não restabelecia o
contacto auditivo.
Confirmei-lhe a minha posição e intenções, acrescentando que,
com um pouco de sorte, chegaria à base mãe trinta ou quarenta
minutos depois do nascer do Sol, marcado naquele dia 17 de Abril
para as cinco horas e quarenta minutos. O meu irmão mostrou-se de
acordo. Estava tudo preparado para a descolagem do berço.
- ... Tal como prevíamos acrescentou de passagem -, a frente
borrascosa detectada a oeste na manhã de ontem, domingo,
penetrou na minha mira, Jafa-Sídon e ameaça cobrir toda a região.
Eliseu procedeu à leitura dos dados meteorológicos. O laser do
ceilómetro não se prestava a dúvidas: os Cb (cumulonimbos),
espessos e verticais, deslocando-se a pouco mais de seis mil pés
(cerca de seis mil metros), podiam trazer-nos dificuldades no voo
para o mar da Galileia.
Segundo os dados do Pai Natal, estes ventos do Mediterrâneo tão
frequentes e benéficos na Palestina entre os meses de Março a
Maio, eram imprevisíveis. Por vezes, dependendo de múltiplos
factores, tomavam a direcção sul, rumo aos montes de Judá; outras
vezes, subiam até às alturas do actual Líbano, saturando-se de
humidade nos cumes nevados do Hérmon e, descendo
tormentosamente, varriam o Norte de Israel. Esta última
possibilidade podia representar graves riscos para a nossa missão.
O módulo não tinha sido concebido para suportar as fortes
turbulências que, em geral, acompanhavam os Cb: ventos intensos,
granizo, fenómenos eléctricos e congelamento.
- Dentro de uma hora sintetizou Eliseu com o seu habitual
pragmatismo o rawin verificará a direcção e força dominantes dos

ventos. Esperaremos. Fim da comunicação.
Pareceu-me excelente. Os cumulonimbos ou melhor, o nosso
hipotético encontro com eles eram apenas uma contingência
longínqua. A vida ensinara-me a ocupar-me das coisas uma a uma e
na altura própria. E, de momento o meu único objectivo era alcançar
os galileus.
Respirei, aliviado. O nobre pórtico que rodeava o Tanque do
Enviado, também conhecido então como Piscina de Siloé, foi um bom
ponto de referência. Dali até ao arco da Porta da Fonte, na muralha
meridional eram apenas cem ou cento e cinquenta passos.
Mas, ao dobrar a esquina sul da cisterna, algo travou a minha
marcha. A uns trinta metros, esfumados no claro-escuro do alvorecer,
distingui o ondear de uns mantos. Eram cinco homens.
Desciam rapidamente pela encosta que morria às portas da
cidade. Numa primeira olhadela confundi-os com os discípulos de
Jesus. Mas não. O seu andar era diferente. Além disso as suas
túnicas, ou chaluks não estavam presas à cintura. O inusitado da
hora e o facto de irem todos na mesma direcção que nós fez-me
desconfiar.
Detiveram-se sob o pórtico. E ali, do meio dos mendigos,
aleijados e vagabundos que dormitavam ao abrigo das grandes
pedras lavradas, destacou-se um indivíduo. Trocaram breves
palavras e depois retomaram o passo. O sexto homem juntou-se ao
grupo e, apressadamente, afastaram-se da muralha em direcção ao
viaduto que transpunha a torrente do Cédron. A imponente ponte
a quarenta metros sobre o vale constituía o início de um dos
caminhos que levava à aldeia de Betânia a leste de Jerusalém.
Talvez tenha sido o instinto. A verdade é que ao vê-los tomar
aquela rota, senti um certo desassossego. Mantive as distâncias,
amaldiçoando a minha má estrela.
Aquela meia-dúzia de judeus ocupava a quase totalidade da
calçada, dificultando o meu avanço. Para os ultrapassar dado o
vigoroso ritmo que imprimiam ao seu passo teria de o fazer em
corrida Francamente, não me pareceu muito sensato. De modo
que, resignado, aproximei-me, mantendo-me na expectativa.

Como já disse, aquele grupo tinha qualquer coisa de especial.
Qualquer coisa que não encaixava. Não levavam qualquer volume,
nem sequer os típicos e quase obrigatórios bastões de peregrino.
Além disso, aquela pressa não parecia muito normal.
De vez em quando atavam os braços cop -, apontando ora na
direcção dos cerros de Moab, como se discutissem a leste, ora para
o fundo do caminho.
Cruzámo-nos com dois felahs, ou camponeses, agasalhados com
grossos capotes de lã, que tocavam um daqueles altos e garbosos
burros mascate, de pêlo branco acinzentado e longas orelhas,
totalmente carregado de legumes e de molhos de vides.
Ao aproximar-se do grupo, o felah que caminhava à frente reagiu
de maneira peculiar. Conteve o animal, que se imobilizou, ao mesmo
tempo que, submisso e respeitoso, inclinava a cabeça à passagem
dos judeus. O gesto deixou-me perplexo.
Os indivíduos prosseguiram, quase sem reparar nos camponeses.
Mas, de súbito, um deles deu meia volta e, voltando atrás,
perguntou alguma coisa ao felah que segurava as rédeas. A
claridade do novo dia começava a despontar sobre as distantes
colinas do deserto de Judá. Foi quando, entre as pregas do roupão
do que tinha retrocedido, descobri algo que revelou a identidade
de todo aquele grupo.
Preso ao cinto e pendendo do flanco direito via-se um daqueles
temidos porretes guarnecidos de metal, de uso comum entre os
guardas do Templo. Por certo, deviam ter estado a rondar as
imediações da casa de Elias Marcos, vigiando os movimentos dos
maltrapilhos galileus, como eles qualificavam os discípulos do
Mestre. No fundo, era lógico.
A casta sacerdotal não descansaria enquanto não aniquilasse o
blasfemo e incómodo movimento que o Rabi tinha encabeçado. Os
discípulos ainda constituíam uma ameaça, e o mais provável era que
Caifás tivesse dado ordens severas aos levitas e aos espias. Mas
quais seriam as suas intenções.
Tratar-se-ia de uma simples missão de vigilância e informação?
Percorridos os três ou quatro primeiros estádios dos quinze

(2755 metros) que nos separavam de Betânia -, o caminho atingiu a
sua cota máxima 680 metros), inflectindo à esquerda, na direcção
nordeste. Daquele ponto, bordeando sempre a falda sul do monte
das Oliveiras, precipitava-se suavemente para Betfagé, numa recta
de quase meio quilómetro.
Ao chegar à encosta detive-me. Por trás de mim ressoou o duplo
toque de bronze das trombetas do Templo, anunciando o nascer do
Sol. Os levitas não tardariam a abrir a porta dupla do Templo,
também chamada de Nicanor, permitindo assim a entrada no Átrio
dos Gentios.
Ao fundo do caminho, a uns trezentos metros, avistei o compacto
grupo dos galileus.
Caminhavam rapidamente. Aparentemente, não se tinham dado
conta da proximidade dos esbirros. Estes, ao identificarem o seu
objectivo, aceleraram a marcha. Um já longínquo e solitário toque de
trombeta, recordando a primeira oração do dia, serviu de
detonador. Os guardas, excitados, pegaram nos seus porretes,
dando início a uma veloz corrida em direcção aos onze. Fiquei
paralisado. A gritaria dos fanáticos chegou até ao grupo da frente.
E os discípulos, tão atónitos como eu voltaram-se e testemunharam
a louca correria. Que podia eu fazer?
Muito, obviamente. Teria sido suficiente accionar o sistema ultrasónico
da vara de Moisés para deixar a maioria deles inconsciente.
Cego de ira, corri atrás deles disposto a neutralizá-los. Mas a meio
caminho travei a minha louca corrida. Por pouco não violei a mais
estrita e sagrada das normas da operação. Não era esse o meu
papel. Apesar do que sentia e da minha natural simpatia para com
os galileus, devia manter-me à margem.
E assim foi. Os meus amigos, numa demonstração de serenidade,
lançaram por terra as bagagens, formando um grupo compacto.
Simão, o Zelota, Tiago de Zebedeu e Pedro ficaram na primeira fila
e, com um sangue-frio que ainda agora me comove, deixaram que os
outros se aproximassem.
Os seis homens do sumo sacerdote, confiados perante a aparente
passividade dos seus opositores, foram aumentando o tom das suas
imprecações e levantaram os bastões por cima das cabeças.

Os últimos metros foram dramáticos. Os guardas, imparáveis,
dispunham-se a descarregar os seus porretes quando, subitamente,
a um grito de Simão, os onze desembainharam as espadas, que
reluziram afiadas e ameaçadoras. A fulminante e sincronizada
reacção do grupo, com os gládios apontados ao peito dos esbirros,
foi decisiva. Estes, desconcertados, ficaram pregados ao chão. O
Zelota e os seus aproveitaram aquele instante de dúvida e como um
só homem, passo a passo, avançaram para os intimidados judeus. O
que aconteceu nesses momentos críticos não se apresenta com
muita clareza na minha memória.
Como fui ingénuo. Suspenso do confronto iminente, nem sequer
reparei no arriscado da minha posição, por detrás e a escassos
metros do grupo que brandia os cacetes. Lembro-me, isso sim, de
um forte e furibundo grito de Pedro, que tinha a ver com a mãe de
um tal Ben Bebay... Este esbirro, ao que parece, era o chefe
daquele grupo de guardas e muito famoso em Jerusalém pela sua
triste missão entre os sacerdotes do Templo. (Segundo consta no
Yoma, norma vigésima terceira, competia-lhe açoitar os que
tentavam interferir no sorteio das funções cultuais). E num ápice
todo o bando se desfez dos seus bastões, fugindo
precipitadamente. No meio daquele tumulto, vários dos esbirros,
completamente desnorteados, vieram chocar com o autor destas
linhas, derrubando-o e písando-o.
Quando procurei recompor-me o fio de uma espada sobre a minha
garganta impediu-me de fazê-lo. Alquebrado e meio cego pela
poeira, fui incapaz de reagir. Senti no meu pescoço o frio metal do
gládio e, por um momento, julguei que tinha chegado a minha
hora... É que naquele transe eu não dispunha da protecção da pele
de serpente.
- Jasão!... Mas és tu, com mil diabos?!...
A pressão da arma cessou e, com dificuldade, limpando o pó que
tinha no rosto, tentei levantar-me. Alguém veio em meu auxílio.
Quando, por fim, compreendi o que sucedera, Simão, o Zelota,
brandindo a sua espada, confirmou-me que tinha estado a um passo
da morte e que, de futuro, devia ter mais cautela.
Tomei bem nota, é claro... A infeliz situação não devia repetir-se.

No entanto, afastado o perigo, o grupo alegrou-se por me ter
recuperado. Satisfeitos e desenvoltos, pegaram de novo nas
bagagens e retomaram o caminho. Se descrevi este incidente não
foi apenas para ser fiel ao que tive ocasião de presenciar. Acho que
a atitude dos chamados embaixadores do reino numa emergência
destas prestes a pegar nas suas armas e a repelir qualquer
ataque é um elemento da maior importância para compreender
melhor as suas ideias e impulsos. Não obstante os ensinamentos e
a eventual ressurreição de Jesus, os discípulos precisariam ainda de
um prolongado processo de mudança e amadurecimento para virem
a ser os dóceis e pacíficos apóstolos que, anos mais tarde, não
hesitariam sequer em sacrificar as suas vidas em benefício da
evangelização dos homens.
Creio sinceramente que, nestes dois mil anos, os cristãos
sublimaram a imagem individual e colectiva do corpo apostólico,
elevando-a a uma categoria que não corresponde à realidade.
Naquele tempo, como acabo de relatar, o comportamento dos
galileus pautava-se por padrões muito mais lógicos e humanos do
que os que as Igrejas pretendem inculcar.
Mas haverá oportunidade de continuar a aduzir provas.
Os contratempos não tinham ainda terminado. Já muito perto de
Betânia, que brilhava nas suas paredes caiadas, surgiu o segundo
problema da manhã. A casa de Marta e de Maria era uma pausa
obrigatória na caminhada. Os irmãos Zebedeu desejavam abraçar
sua mãe, Salomé, e ao mesmo tempo receber Maria, a mãe do
Mestre, acompanhando-a até Betsaida.
Mas, inesperadamente, dentre as figueiras e sicómoros que
davam sombra à estrada, uma conhecida personagem saltou para o
meio do caminho, obrigando-nos a suspender a marcha. Perplexos,
os onze olharam uns para os outros, sem saber que fazer. E o filho
mais novo dos Marcos, ofegante pela corrida desde Jerusalém e
ainda com os sinais do choro recente, esboçou um sorriso não muito
confiante.
- Quero ver o Mestre...
A desculpa não lhe serviu de muito. André trocou algumas palavras
com os demais e, convencidos de que se tratava de uma nova

travessura do rapaz, adoptaram a posição mais sensata. O ex-chefe
dos galileus ajoelhou-se diante dele e, acariciando os seus cabelos
transpirados, tentou persuadi-lo, fazendo-lhe ver que semelhante
fuga não teria tido a aprovação do seu ídolo. João Marcos,
impaciente, desviou o olhar, procurando o apoio dos silenciosos
discípulos. Ninguém cedeu e o assunto ficou assim resolvido. O
adolescente baixou a cabeça e, esperneando com raiva, partiu como
um raio em direcção à cidade.
Antes de se porem novamente em marcha aproveitei a
circunstância para resolver a minha incómoda situação.
Alguns estranharam a minha inesperada despedida. Apesar da
minha condição de gentio, a maioria sentia um sincero apreço por
aquele esgrouviado e aparentemente corajoso comerciante grego
que não os tinha abandonado em tão difíceis momentos. João e
André insistiram para que os acompanhasse até à Galileia.
O pretexto dos meus negócios em Jerusalém não foi muito
convincente. Contudo, habituados ao meu comportamento
contraditório, não insistiram. Fui-lhes dizento que determinadas
transacções comerciais me levariam em breve às cidades de
Tiberíades e Cafarnaum, e que essa seria uma óptima oportunidade
para retomar os nossos contactos e continuar a aprofundar a minha
leal admiração para com Jesus que rematei eu estava a mudar
as minhas ideias.
Suponho que me acreditaram. Instantes depois partíamos em
direcções opostas. Eles para Betânia e eu, cheio de remorsos, ao
encontro do módulo.
Esperei que desaparecessem no emaranhado casario da aldeia.
Não havia tempo a perder. Abandonei a deserta rua principal e tal
como em ocasiões anteriores, iniciei a ascensão do monte das
Oliveiras pelo estreito carreiro que serpenteava até ao cimo. O vivo
escarlate daquele amanhecer anunciava um dia de sol brilhante,
pelo menos naquela latitude. Senti-me reconfortado. A operação
estava a caminhar. E a iminência da nova etapa rumo a norte,
encheu-me de força. À minha passagem, bandos de cotovias
levantavam voo, planando inquietas sobre as filas de oliveiras e
zambujeiros. Tudo parecia tranquilo. É claro que me enganei nas

minhas apreciações.
O Destino, imprevisível, reservava-nos outra surpresa. Qualquer
coisa que nem Eliseu nem eu podíamos imaginar e que, a curto
prazo, nos colocaria numa delicada situação. Foi a pouca distância
do cume. Ao parar para enxugar o suor e estabelecer a ligação
prévia à minha entrada no berço, um estalido sobressaltou-me.
O pequeno olival que eu atravessava naquele momento
continuava solitário brilhando ao morno sol da manhã, e a sua
quietude era apenas perturbada pelo rápido voo das madrugadoras
andorinhas. Talvez me tivesse enganado. A encosta oriental, até
onde a vista alcançava, encontrava-se deserta.
Premi o meu ouvido direito e, sem mais, anunciei ao módulo a
minha posição e imediata aproximação do ponto de contacto.
Retomei a marcha, deixando a vereda à minha esquerda e
penetrando no matagal que subia para norte. A pedregosa clareira
em que a nave assentava não distava mais de trezentos a
quatrocentos pés. Mas não o pude evitar. Foi superior a mim. À
medida que ia vencendo os abrolhos e giestas, aquela sensação
tornou-se incómoda e opressiva.
Era semelhante à que experimentara na manhã de terça-feira
quando, em plena tarefa de recuperação dos panos mortuários,
muito perto do bosque de alfarrobeiras, julguei notar a presença de
alguém.
- Não pode ser. Quem e por que razão havia de me espiar?
O raciocínio não me tranquilizou. E dando uma volta sobre mim
mesmo, dei uma olhadela à minha volta. O meu coração
sobressaltou-se. A uma centena de metros, na orla do olival que eu
acabava de atravessar, distingui confusamente uma silhueta
humana, oculta entre os galhos de uma árvore.
Estremeci. Fiz a ligação com a nave, acelerei o passo e avisei
Eliseu da inesperada companhia.
- Recebido. Activo dispositivo de infravermelhos até trezentos pés.
Continua à escuta.
Procurei os crótalos e, nervoso, ajustei-os aos olhos, na intenção
de localizar o módulo e nele ingressar sem demora.

Ao contacto com as lentes especiais, as cores da paisagem
mudaram drasticamente. O verde do matagal e do olival
transformou-se num vermelho sangue, ao passo que o céu via
intensificado o seu azul e a pedra calcária adquiria uma tonalidade
de cinzento-claro. De súbito, no centro da clareira a uns duzentos
pés, levantou-se diante de mim a mole da nave, palpitante e
avermelhada. A membrana exterior, submetida a elevadas
temperaturas, apresentava uma larga faixa branca no meio das
paredes, ao passo que a zona dos motores, agora fria, aparecia
num suave e esfumado tom verde-violeta.
O meu irmão não tardou a confirmar as minhas suspeitas.
Como é sabido, qualquer corpo cuja temperatura seja superior ao
zero absoluto (-273 graus centígrados) emite energia infravermelha,
ou IR. Esta emissão de raios infravermelhos, invisíveis ao olho
humano, é provocada pelas oscilações atómicas no interior das
moléculas e, por conseguinte, está estreitamente ligada à
temperatura corporal. Ao entrar no raio de acção do primeiro
dispositivo de segurança do módulo, o intruso era imediatamente
detectado 2.
- Roger 3! Atenção, Jasão! Afirmativo. Target 4 no ecrã...
A verificação fez-me tremer. Quem poderia ser? Que pretenderia?
- Move-se num rumo cento e sessenta... Muito devagar.
Tem-lo no teu cinco5. Distância do módulo: duzentos e dez pés e
avança. Estás a receber? Escuto.
- Oiço-te cinco por cinco repliquei, arquejando. -
Entendi, no meu cinco. Escuto.
- Roger. No teu cinco. Avistas o berço? Escuto.
- Afirmativo. Dentro de um minuto estou contigo.
- Okay. No momento em que entrares na nave libertarei o escudo
gravitacional. Escuto.
Esta segunda defesa como creio ter especificado consistia numa
poderosa emissão de ondas gravitacionais que, partindo da
membrana situada na fuselagem, se projectava à distância de trinta
pés, envolvendo a nave. Em caso de emergência, esta semiesfera

invisível actuava como uma muralha de contenção.
Qualquer indivíduo que tentasse passar esse limiar, deparar-se-ia
com algo semelhante a um ar impossível de furacão.
*1 Estas pequenas lentes, como já expliquei na devida altura, permitiam uma visão
infravermelha acima dos setecentos nanómetros. Os especialistas do Cavalo de Tróia
incorporaram nelas uma série de bandas periféricas dotadas de centenas de
microcélulas que não eram mais que outros tantos filtros Wraaen 89 B, que só
deixavam passar a referida radiação infravermelha. O peso específico conseguido foi
de 119. A sua força flexional (ppi), dez mil-quinze mil e a sua dureza Rockwell, de M85-
M105. Os sais monoiónicos permitiam uma aceitável circulação das lágrimas e da
oxigenação da córnea, ainda que não se devesse abusar do seu uso. (N. Do M.) 2
Os dispositivos termográficos, ligados ao computador central e a um dos radares
primários, estavam em condições de captar variações de temperatura até dois décimos
de grau (Farenheit). Num target estático, o Pai Natal era capaz de diferenciar as
possiveis doenças de um indivíduo e mesmo as oscilações de temperatura do nariz e
dos lábios nas respectivas inalações e exalações do ar. (N. Do M.)
3 Roger, expressão usada nas comunicações via rádio que equivale a afirmativo,
sim", de acordo". (N. Do M.) 4 Target, em gíria aeronáutica, um objecto localizado no
radar. (N. Do M.)
5 Em linguagem aeronáutica, na posição assinalada pelos ponteiros de um relógio
às dezassete horas. (N. Do M.)
Com um ruído surdo, a escadinha hidráulica desceu até tocar na
laje de pedra.
- Vamos, Jasão! Já falta pouco. Vejo-te no ecrã a trinta pés.
Mas, perante a surpresa de Eliseu, em vez de me introduzir no
berço, girei sobre mim mesmo, detendo-me no limite de segurança
do escudo gravitacional.
- Jasão, que é que se passa?
Não sei muito bem porque o fiz; talvez por curiosidade. A verdade
é que, de costas para a nave, procurei localizar o intruso.
- Jasão...
A voz de Eliseu, entre suplicante e imperativa, fez-me hesitar. O
intruso, ao comprovar que eu me detinha, abandonou a sua atitude
esquiva, aventurando-se na clareira a corpo descoberto. E devagar,
sem deixar de me observar, foi ganhando terreno.
- Responde!... Jasão... Que diabo se passa?

- Um momento repliquei a meia voz. - Creio que devemos
identificá-lo. Está armado? Escuto.
- Negativo. A barragem IR não detecta qualquer objecto metálico.
A informação tranquilizou-me relativamente. Na previsão de
qualquer eventualidade, deslizei a mão direita para o extremo
superior da vara de Moisés disposto a accionar os ultra-sons
perante o menor indício de agressividade. Lógo estas ondas numa
frequência que oscilava entre os dezasseis e os 10 hertz podiam
ser projectadas e dirigidas à cabeça da personagem que se
aproximava e provocar-lhe uma passageira alteração do aparelho
vestibular. Em décimos de segundo, o ouvido interno do sujeito
ficava bloqueado pelos referidos ultra-sons, com a consequente e
transitória perda da posição da cabeça e do corpo no espaço. Nada
de grave, de facto, mas algo de suficientemente drástico e eficaz
para imobilizar o presumível agressor durante alguns minutos.
A pouco mais de cem pés (cerca de trinta e três metros) do lugar
onde me encontrava, o indivíduo parou. Os crótalos não me
permitiam identificá-lo com nitidez. O seu rosto, à distância,
apresentava uma tonalidade avermelhada que lhe deformava as
feições. A túnica, originalmente branca, apresentava-se azulada e
as pernas e mãos de uma intensa coloração verde-laranja. Como
consequência do seu esforço, a sua temperatura corporal tinha
aumentado em zonas muito concretas. Assim, por exemplo, o
pescoço, axilas e têmporas apresentavam, na visão infravermelha,
um tom branco-mate.
Reparei nos olhos, algo em que até então não tinha reparado, fezme
passar do espanto ao medo.
Quase teria preferido deparar com uma fera ou com um dos
fanáticos guardas do Templo a ter de passar por
semelhante prova...
*1 O aparelho vestibular, em questão é vital na percepção de sensações e facilita
uma permanente informação sobre a posição do corpo e cabeça humanos no espaço.
Juntamente com as impressões visuais e tácteis, dá a conhecer ao sujeito as
variações de situação por que passa o corpo, desencadeando as correspondentes e
automáticas reacções que asseguram a manutenção do equilíbrio, em colaboração com
a contracção sérgica dos músculos antagonistas. (N. Do M.)

E o meu coração, pressentindo uma situação muito penosa bateu
mais forte. Aquela criatura não tinha mais de um metro e meio de
altura. Talvez menos. Era uma criança! Um
pressentimento perturbou-me. Retirei uma das pequenas lentes e,
de facto, ao normalizar a visão no olho direito, a figura franzina de
um João Marcos imóvel e tão desconcertado como eu apareceu
perante mim, derrubando as minhas ideias feitas.
Senti-me apanhado. Aquela situação, de uma especial gravidade,
não tinha sido prevista pelos especialistas do Cavalo de Tróia. Que
devia fazer?
Sabia da inteligência e pertinácia do rapaz. Sugerir-lhe ou
ordenar-lhe que desse meia volta e se afastasse seria tão inútil
como contraproducente. Não dispunha de muitas opções.
É claro que não duvidei dos seus bons propósitos. Talvez aquela
inoportuna atitude fosse apenas mais uma das suas diabruras
infantis ou resultasse tão-só da necessidade de consolo perante as
suas frustradas expectativas. Repeli a ideia de que estivesse a par
das minhas entradas e saídas da nave. Isso era impossível. O seu
comportamento para comigo teria sido radicalmente diferente. Além
disso, os sistemas de localização do módulo tê-lo-iam descoberto.
Empenhei-me a fundo para encontrar uma solução. Mas qual? Que
podia eu explicar-lhe? Passados aqueles segundos de mútua e tensa
observação, o rapaz reagiu. Levantou o braço esquerdo em sinal de
saudação e, na disposição de juntar-se ao seu velho amigo,
continuou a avançar. Impotente, deixei-me levar pelo instinto.
Levantei o cajado e, lançando um forte grito, intimei-o a parar. O
gesto brusco, a gravidade do meu semblante e o tom imperativo da
voz deram resultado.
O menino, embora sem compreender, obedeceu. Assustado, olhou
em redor, tentando localizar algum invisível perigo. Não tendo dado
por nada, ergueu a vista para mim, encolhendo os ombros. É
evidente que não compreendia o meu estranho comportamento, mas
eu não estava disposto a entrar em pormenores. Premi o meu ouvido
direito e, resolvido a levar a questão a bom termo, transmiti a

Eliseu a ordem de ligar o motor principal e ficar alerta para uma
descolagem de emergência. O meu irmão, eficiente como de
costume, não fez perguntas. Sabia que qualquer coisa de grave e
singular se passava comigo e, segundos depois de cortada a
ligação auditiva, o fino sibilar dos silenciadores do J 85 irrompeu na
clareira, aumentando o espanto de João Marcos.
Aterrado, retrocedeu alguns passos, movendo a cabeça em todas
as direcções numa frenética tentativa para localizar e identificar o
agudo e, para ele, misterioso som que se espalhou por todo o
cume, provocando a debandada dos pássaros e insectos. Hábil e
oportunamente, Eliseu cobriu a minha retirada, accionando outra das
medidas de segurança incorporadas na nave: das suas quatro
arestas superiores brotaram densos jorros de fumo 1. Um fumo
branco
*1 No tejadilho e nas quatro arestas superiores do berço,, os especialistas do
Cavalo de Tróia tinham instalado um duplo sistema de camuflagem de emergência.
Ambos consistiam numa rápida e maciça produção de névoa fumo, bruma ou vapor
conforme as necessidades -, que podiam produzir-se mediante a utilização de neve
carbónica ou de um simples Fogmaker 1%3, de M. Richardson. (N. Do M.)
Géssno que, vindo aparentemente do nada (não se esqueça que
a camuflagem IR tornava o módulo invisível), foi-se derramando
lento e compacto até às rochas amareladas, transformando-se em
segundos numa mágica e gigantesca nuvem cúbica. E aconteceu o
inevitável. O adolescente, completamente transtornado, tomando a
névoa por uma visão celeste, caiu por terra, escondendo o rosto
contra o solo. Foi uma situação especialmente dolorosa. Teria
desejado tranquilizá- lo e aclarar o erro. Mas, impotente, permaneci
mudo. O mal estava feito.
Talvez mais tarde, supondo que voltaríamos a encontrar-nos,
tivesse ocasião de desfazer o equívoco, diminuindo a importância
do que acabava de ouvir e contemplar.
Não debalde, entre os meus atributos figurava o de mago e
adivinho... Aproveitando a sua confusão, dei meia volta, penetrando
na providencial cortina de fumo e entrando na nave.
Aturdido com uma amarga sensação no mais fundo da minha alma,
libertei-me da chlamys e, sem perder um segundo, fui ocupar o meu

lugar diante do painel de comando.
Eliseu, atento aos instrumentos e ao monitor em que continuava
presente o eco do jovem João Marcos, fez menção de activar o
cinturão gravitacional. Mas, dada a imobilidade do rapaz sugeri-lhe
que prescindíssemos do segundo escudo. Em princípio, o sibilar do
motor e a espessa camuflagem que nos envolvia eram mais que
suficientes.
E às oito horas e dezasseis minutos quase uma hora antes que o
previsto a nave descolou do cume do monte das Oliveiras.
O plano de voo, minuciosamente estudado, foi revisto por Eliseu
tendo em conta a situação verificada nos últimos e críticos
momentos, anulando o programa inicial do computador central no
que se refere ao momento da descolagem. Este, dadas as
circunstâncias, foi feito manualmente,estabelecendo-se a ligação
automática com o Pai Natal a partir do estacionário.
- Subindo... Roger!...
Enquanto Eliseu comandava a manobra de elevação, passei em
revista o painel de instrumentos.
- Temperatura dos motores, okay... Regulagem da plataforma de
inércia sem variação...
Ligeira vibração... Indicações de velocidade...
- Okay.
Índice de consumo?... segundo a. A queimar segundo a
estimativa... Leio 5,2 quilogramas por...
- Roger, Jasão! Estamos a subir a trinta por segundo...
Quatrocentos pés e continuamos a subir...
- Okay... A quatrocentos para o estacionário.
- Combustível?
- A treze segundos da descolagem leio 67,6 quilogramas. - Percebi
67,6...
- Afirmativo... Estamos a 97,6 por cento.
- . Quinhentos... Quinhentos e cinquenta... Tempo para
estacionário

- A seiscentos pés, seis segundos e sete décimos.
- Preparados foguetes auxiliares...
- Roger... Setecentos pés e subindo a um por segundo.
Os sistemas dóceis e precisos elevaram o berço até ao nível
de estacionário.
- Oitocentos pés! Travo.... não tenho bandeiras.
- Combustível e tempo?
- Leio 138,3 quilogramas. Estamos a 97,2 por cento. Tempo de
ascensão a nível oito: vinte e seis segundos e seis décimos.
- Percebi vinte e seis.
- Afirmativo.
- Roger. Passo ao automático. - Eliseu teclou no terminal do
computador central, restabelecendo o programa directo. A partir
desse instante, o nosso eficiente Pai Natal encarregou-se do resto
da viagem.Amigo, agora é tudo contigo...
- Okay.
Rectificando a radial setenta e cinco.
A nave girou para nordeste, ao encontro do ponto J:
Jericó. O plano de voo incluía as seguintes fases: uma vez
consumada a descolagem e estabilizado ao nível oito, o berço
dirigir-se-ia ao referido ponto J, situado a catorze milhas (vinte e
três quilómetros). Dali, com uma ligeira mudança de rumo,
deveríamos situár-nos na vertical do rio Jordão (ponto J2), a cinco
milhas (nove quilómetros) de J.
Numa terceira etapa, o módulo mover-se-ia em torno da radial
trezentos e trinta, cobrindo as quarenta e duas milhas que
separavam J2 da cidade helenizada de Citópolis (ponto S). Num
quarto movimento, passaríamos ao rumo trezentos e sessenta, à
procura do extremo sul do mar de Tiberíades, num total de quinze
milhas (vinte e sete quilómetros). Por último, atravessando o lago
de sul a noroeste (radial trezentos e vinte), desceríamos na base
mãe-2, a noroeste de Cafarnaum. No total, noventa milhas (um
pouco mais de 166 quilómetros).

.. Procedo à leitura de WX 2.
- Roger. Atingimos os dezoito mil pés por minuto (quatrocentos
quilómetros por hora). O Pai Natal calcula a chegada ao ponto J
dentro de três minutos e quatro segundos.
-
Okay... Três minutos. WX ilimitada... Parece que estamos com
sorte. Nem rasto dos Cb. Vento trezentos e cinquenta. Sem
problemas a nível oito. Temperatura: dez graus.
Consultei os altímetros gravitacionais 3.
- Três mil e duzentos pés.
Embora o módulo mantivesse o seu nível de cruzeiro (oitocentos
pés sobre a cota máxima do monte das Oliveiras, ou seja, três mil e
vinte pés), o paulatino e acentuado declive do terreno foi
aumentando essa altitude inicial. De acordo com os nossos cálculos,
na vertical do oásis de Jericó (ponto J), a nossa posição ficaria
fixada em 3770 pés (1256 metros).
(Convém recordar que a milenária cidade de Jericó se encontrava a
duzentos e cinquenta metros abaixo do nível do mar). Aquilo
proporcionava-nos uma margem acrescida de segurança.
*1 Bandeiras", em gíria aeronáutica, significa aviso de falha no painel electrónico
de alarme (bandeira de aviso de falha ou failure flag). (N. Do M.) 2 uWX, condições
meteorológicas. (N. Do M.)
3 Sobre altímetros gravitacionais, veja-se a ampla informação proporcionada em
Operação Cavalo de Tróia II, pp.168 e seguintes. (N. Do M.)
- Atenção! Ponto J no radar... Tempo estimado: noventa segundos.
O meu companheiro manteve-se atento à iminente correcção de
rumo. Em baixo, amarelado ao sol, o deserto de Judá estendia-se
redondo e solitário, precipitando-se em inúmeras lombas até à
fossa do Gort.
A luz oblíqua sombreava dezenas de torrentes e gargantas que
abriam caminho em direcção à profunda depressão do mar Morto
com um áspero leito de calhaus avermelhados. A dura luminosidade
daquela paisagem árida mesmo 1 assim ocre e cinzenta não

tardaria a despertar.
O Sol ia subindo majestoso sobre os cerros violáceos de Moab, a
sudeste, transformando os sessenta e sete quilómetros do lago
salgado numa fulgurante lâmina de estanho, engastada, quase
encurralada entre rochas nuas e desafiadoras.
- (Quinhentos pés) e a aumentar Nível trinta e cinco (três mil e
quinhentos por segundo.
Às 8 horas, 19 minutos 30 segundos e 6 décimos, o Pai Natal
modificou a posição do anel cardã e o J 85,
suave, quase imperceptivelmente, girou um grau, projectando o
berço para a radial setenta e seis.
O módulo tinha sido programado para utilizar dois sistemas de
navegação e direcção: o inercial e o denominado de orientação
óptica. O primeiro tipo, baseado numa plataforma orientável
situáda numa posição constante, quaisquer que fossem as viragens
da nave, graças a tregioscópios. Tanto as estrelas como o horizonte
podiam servir de pontos de referência. Três dispositivos sensíveis à
aceleração mediam todas as mudanças de posição.
Estes parâmetros eram transferidos para o computador central
que, depois de os comparar com os correspondentes aos da
trajectória de voo programado, efectuava as oportunas correcções.
Qualquer desvio desencadeava um impulso eléctrico que disparava
os propulsores de controlo, com o objectivo de modificar o rumo.
Como aconteceu com a descolagem de emergência no cume do
Olivete, podíamos desligar o sistema automático de direcção,
manobrando manualmente.) - Roger. Luz de contacto. Verificação da
radial?
- Okay: ponto J2, situado a setenta e seis. Adiante...
Oscilação nula.
- Sessenta e três segundos.
- Okay: Dá-me combustível.
- Estamos a 93,2 por cento.
- Fantástico!

A exclamação de Eliseu justificava-se plenamente. De súbito, os
vinte durmá de terra calcária árida e gretada do deserto de Judá
haviam-se transformado num vasto vergel. O oásis de Jericó!
Densamente arborizado, com mil tonalidades de verde manchado
aqui e além por pequenos bosques de tamargueiras, pintalgados
por milhares de flores vermelhas e brancas.
Toda uma luxuriante flora, bem irrigada por límpidos mananciais
que emergiam entre álamos, roseirais, flexíveis muralhas de papiros
e, dominando aquela incrível e imensa bênção, a rainha do oásis: a
palmeira. A famosa phoinikon já cantada por Tácito Flávio Josefo e
Plínio, o Velho. Meu irmão e eu ficámos mudos. Meu Deus, que
beleza indescritível.
O radar, com a sua frieza, foi mais eloquente do que as nossas
pobres palavras: só o palmeiral ocupava uma extensão de quase
treze quilómetros de comprimento por, aproximadamente, quatro
quilómetros de largura. E entre as gráceis e esbeltas palmeiras, um
mundo de cabanas, culturas de regadio, árvores de fruto e os tão
apreciados arbustos de bálsamo.
No horizonte, ziguezagueando entre a mancha verde, as águas
escuras e plácidas do rio bíblico por excelência: o Jordão. Ao vê-lo
correr entre meandros eriçados de canaviais e de amieiros de
madeira branca, uma intensa emoção se sobrepôs por um momento
à rígida disciplina de voo. Ali, em algum sítio daquelas águas
terrosas, João tinha baptizado Jesus de Nazaré. E subitamente
recordei a promessa feita a Eliseu.
Como já contei em páginas precedentes, numa sexta-feira, 14 de
Abril deste ano 30, depois de constatarmos o mal que nos afligia e
de sabermos do pouco tempo de vida de que dispúnhamos, o meu
entusiasta companheiro avançou com uma louca e tentadora
sugestão: porque não desafiar o Destino? Porque não forçar a
operação e acompanhar o Mestre ao longo de toda a sua vida
pública? Naquela noite prometi- lhe reflectir sobre o assunto e darlhe
uma resposta precisa e definitiva antes da descolagem para a
Galileia. Mas as circunstâncias que rodearam a nossa partida do
cimo do monte das Oliveiras fizeram-nos esquecer o assunto.

*1 A terceira região natural em que se divide a Palestina era conhecida como o
Gor. Trata-se de uma extraordinária zona de afundamento o raben para os
arqueólogos que atinge a sua depressão máxima no mar Morto, 793 metros abaixo
do nível do Mediterrâneo. As outras duas regiões naturais correspondem à costa e às
terras altas", que atravessam o país de norte a sul. (N. Do M.)
Esquecê-lo temporariamente, é claro. Ao contrário da minha, a
memória de Eliseu continuava a ser esplêndida. E,
inexplicavelmente, embora a minha decisão já estivesse tomada,
mantive-me em silêncio.
- Aí a tens exclamou Eliseu, apontando para terra com o dedo
indicador esquerdo. - Ao teu nove...
- Jericó! A cidade mais antiga do Mundo...
A pouco mais de onze quilómetros a oeste do Jordão a mile pria
cidadela com os seus quase dez mil anos de existência -
despertava para o novo dia, banhada de cal, tortuosa com as suas
casas cúbicas aglomeradas no interior de uma muralha de cinquenta
pés de altura, ocre e escarlates sob o sol nascente.
Ocupava uma planície oval de quase dez estádios de diâmetro
maior, serena e magistralmente implantada entre cerros
escalonados que, como descrevia Estrabão se assemelhavam aos
degraus de um ciclópico anfiteatro. A sudoeste, um profundo wadi, o
célebre leito da torrente de Qelt, igualmente frondoso e escoltado
por negros e vigilantes ciprestes (talvez da mesma espécie dos
utilizados por Salomão para pavimentar o Templo), constituía o
caminho natural para Jerusalém.
De ambos os lados do wadi, a um escasso quilómetro das portas
da cidade elevava-se um deslumbrante edifício, com terraços
lajeados, fontes, jardins e um complexo labirinto de altas colunatas
brancas e vermelhas. Tratava-se sem dúvida do luxuoso palácio de
Inverno de Herodes, o Grande, com as suas instalações de banhos
1, os seus caldaria (aposentos aquecidos), tepidaria (salas
temperadas), salões de recepção, cavalariças e uma piscina de
águas esverdeadas de quase trinta metros de comprimento.

*1 Supõe-se que numa destas instalações de banhos terá sido assassinado
Aristóbulo, cunhado de Herodes. Tratava-se de uma considerável piscina dupla tendo
ao meio uma divisória sobre a qual repousavam os banhistas. (N. Do M.)
A observação, necessariamente exígua e apressada, não nos
permitiu captar muitos pormenores. A cerca de duzentos e cinquenta
metros a oeste desta dupla e airosa construção de mármore branco
erguia-se outro palacete sensivelmente mais pequeno, que, .
segundo as nossas informações, podia constituir a velha residência
asmoneia. E à entrada do Wadi erguida sobre um cerro a torrefortaleza
de Cypros, construída por Herodes, o criado idumeu, em
honra de sua mãe e como baluarte para proteger o acesso a
Jerusalém.
Diferentemente do que sucede em pleno século xx, naquele tempo
(ano 30) o oásis ocupava uma boa parte dos contrafortes do
deserto de Judá. A cidade do vale inferior do Jordão, mil metros
abaixo das colinas que rodeiam Jerusalém, podia sentir-se
orgulhosa. O verde e próspero mar vegetal em que estava
implantada atraía centenas de comerciantes e de ricos proprietários
da Judeia que, tal como o rei Herodes, se mostravam orgulhosos por
possuírem uma propriedade de recreio no suave e inalterável clima
do oásis.
- ... Prevenidos anunciou Eliseu, atento às leituras do
computador. - Ponto J2 no ecrã.
Na vertical do rio Jordão no cruzamento com o wadi, o Pai Natal
modificou a radial, passando a trezentos e trinta.
- Roger. Verifica pegeons.
- Roger... Derivação correcta. Voando no rumo previsto: noroeste,
e mantendo nível trinta e sete.
- Tempo calculado para o ponto S?
- Leio onze minutos e seis segundos.
- Okay. Repete pegeons...
- Quarenta e dois e trezentos e trinta. - Estávamos a quarenta e
duas milhas do ponto S.
- Como vamos de WX?

Fiz de novo a leitura dos dados meteorológicos, que não me
agradaram.
- A frente de perturbação (linha de fortes aguaceiros com ventos e
trovões) continua a avançar. Leio base média abaixo dos dois mil e
quinhentos pés. O laser apanha uma ampla frente, a norte, com
lóbulos frontais a setenta e duas milhasz...
- Percebi setenta e duas...
- Okay. Precisamente na costa norte do lago. Vento na base dos
Cb... trezentas e sessenta e vinte e cinco 3.
- Meu Deus!
Olhei de soslaio para Eliseu. Ambos sabíamos o que podia
representar o encontro sobre o mar de Tiberíades com aquelas
nuvens de desenvolvimento vertical e com ventos de cinquenta nós.
Mas, sem mais comentários, rodeámos o inquietante problema.
Ainda faltavam vários minutos para o temido confronto com a frente
de cumulonimbos.
*1 Fornecer pegeons: na linguagem aeronáutica, dar distância e rumo. (N. Do M.)
2 O ceilómetro-laser detectara a base média dos cumulonimbos (Cb) a dois mil e
quatrocentos pés de altura, com um tecto de trinta e seis mil pés. Naquela altura, a
frente encontrava-se a setenta e duas milhas. (N. Do M.)
3 O vento na base dos cumulonimbos soprava de norte (radial trezentos e
sessenta), com uma velocidade de vinte e cinco nós (à volta de cinquenta quilómetros
por hora). (N. Do M.)
..Roger, Jasão. Decidiremos no ponto S.
A ideia pareceu-me prudente. O módulo permanentemente
protegido pela radiação IR deslocava-se velozmente a dezoito mil
pés por minuto, num sobrevoo teórico do Jordão. Na realidade, a
faixa ocre do rio que na maior parte das vezes desaparecia sob
uma selva impenetrável que desafiava o deserto em ambas as
margens era uma simples referência posicional.
Era, por assim dizer, uma via natural, cómoda e directa, que
deveria conduzir-nos ao objectivo final: o Kennereth ou mar da
Galileia. Desde o primeiro momento chamou-nos a atenção a
selvagem fecundidade dos bosques e da cúpula vegetal que crescia

sob a protecção, e à custa, do Jordão. Hoje, no nosso tempo, nem
vestígios restam de semelhante selva, que, naturalmente, não devia
ser muito recomendável para os peregrinos e caravanas. Com efeito,
o poeirento caminho que, partindo de Jericó, subia paralelamente
ao rio, até às povoações de Arquelaus, na Samaria, e Citópolis, na
Decápole, raramente se aproximava da referida selva.
A sua distância do Jordão oscilava entre uma e seis milhas.
Embora o programa do Cavalo de Tróia tivesse estabelecido uma
série de filmagens obrigatórias e de registos fotográficos
infravermelhos, a partir da radial trezentos e vinte no limite sul do
lago, o meu irmão mostrou-se de acordo quando, à altura de três mil
e setecentos pés (1233 metros), sugeri que talvez fosse
interessante aproveitar a ocasião para fazer uma cobertura
fotográfica de alguns dos trechos do rio.
Meses depois, quando os especialistas examinaram a valiosa
colecção de imagens aéreas infravermelhas, a sua surpresa não teve
limites. Os filmes Kodak aerochrome infrared 2443 (base star) e
infrared 3443 (base star fina), de setenta milímetros, captaram uma
prodigiosa fauna e flora que, dois mil anos mais tarde, só perduram
na memória dos textos bíblicos. Uma folhagem verde, sã, exuberante
quase me atreveria a dizer amazónica aparecia nas cores
vermelho-arroxeado, púrpura-escuro, vermelho-pardo e amarelo. As
acácias e jujubas eram aos milhares, descobrindo-se bosques
compactos de bananeiras silvestres exemplares insólitos e
praticamente ignorados, carriços de escova, pujantes macieiras de
Sodoma e milhões de juncos odoríferos, tão apreciados na
preparação do óleo santo.
Estas técnicas infravermelhas revelaram igualmente a presença na
cerrada selva do Jordão de felinos e outros animais selvagens, a
que aludem determinados escritos bíblicos e que, em pleno século
xx, se nos afiguram fantásticos ou anacrónicos. Pois bem, Pedro, na
sua Primeira Epístola (1 Ped 5, 8), ao evocar o rugido do leão,
não utilizava uma parábola.
Realmente, há dois mil anos, aquela selva tropical era um
território dominado por leões, leopardos, linces, raposas, crocodilos
e até hipopótamos. (Por certo, o behemoth e o leviatã referidos na

Bíblia).
Aos cinco minutos desta terceira etapa de voo, no meio da
espinha dorsal formada pelas terras altas a pouco mais de vinte e
quatro quilómetros para oeste, apareceram diante de nós os cumes
de Garizim e Ebal, em plena Samaria, de um verde-azulado pela
distância e em evidente contraste com o amarelo avermelhado do
deserto. E para leste a não menos árida região da Pereia o
Abasim ou montes fronteiros -, onde o planalto se apresenta
quebrado por mesetas abruptas e brumosas, atravessadas por
caravanas que vão para ou vêm de Damasco, Mas as nossas
observações ver-se-iam bruscamente interrompidas.
Foi o primeiro sinal do que nos aguardava.
Sobrevoámos a desembocadura do Yabboq no Jordão, às três da
nossa posição. Lembro-me de que me preparava para comentar com
Eliseu a célebre história de Jacob, lutando num dos vaus do referido
afluente com o misterioso anjo que lhe mudaria o nome para o de
Israel quando, na cabina do módulo, soou um dos alarmes. O Pai
Natal, através dos sensores exteriores, tinha detectado um aumento
brusco da velocidade do vento.
- Roger. Doze alarme. Dá-me pegeons.
Enfim apagou a luz alaranjada do panel panic, esperando a minha
informação.
- O ceilómetro e os sferic (1) assinalam ventos de quinze nós a
nível trinta e sete... Rumo norte. Não há dúvida: a frente está a cairnos
em cima.
- Dá-me potência.
- Queimando a quatro por segundo.
- Okay. Tempo estimado para o ponto S?
- Creio seis minutos e seis segundos.
- Roger. Sincronizo a cinco quilos. Creio que será
suficiente.
O berço acusou uma pequena sacudidela. Eliseu não se enganava.
O aumento de potência a cinco quilos por segundo equilibrou

homogeneamente a velocidade. Mas que sucederia ao aproximarmonos
do lago? Quando me preparava para activár o radar
meteorológico, embrenhado nos meus pensamentos, o TGT AleRTa
provocou um segundo alerta acústico e luminoso. No ecrã, a
sessenta e cinco milhas, apareceu uma grande mancha verde,
amarela e vermelha.
Especialmente esta última de nível três representava uma
séria perturbação meteorológica. Premi o FR 2, retendo a imagem da
frente e pedindo ao Pai Natal um máximo de informação. Com a
abertura de cento e vinte graus, a antena não tardou a explorar a
tormenta. E através do outro dos pulsores o CYC as células mais
activas da tempestade começaram a brilhar a vermelho.
Olhámo-nos em silêncio.
- Roger murmurou o meu companheiro, esperando o pior.O que é
que diz o Pai Natal? Resumi os parâmetros.
- Zona crítica a sessenta e cinco milhas. O radar não capta o tipo
de turbulência...
*1 O berço, tinha sido dotado de vários radiogoniómetros, em apoio de outros
tantos sferic ou detectores dos «parasitas» produzidos no campo electromagnético.
Embora não esclareça a natureza da perturbação, o seu grande alcance acaba por ser
de extrema utilidade. (N. Do N.) 2 um dos quatro pulsores, localizado no canto superior
esquerdo do ecrã do radar meteorológico. Activa um circuito que avisa
automaticamente o piloto quando qualquer área de nível três aparece num sector de
71/2 graus de cada lado do eixo longitudinal da nave e a distâncias compreendidas
entre sessenta e cento e cinquenta . (N. Do M.)
Nem era preciso. Aquela inoportuna linha de tempestade podia
trazer de tudo: desde granizo até forte carga eléctrica.
- Rawin e ceilómetro confirmam leituras anteriores: corrente em
jorro subtropical... Nada de bom! Ao que parece, apresenta uma
largura de trezentos quilómetros. Força de vento no centro:
oscilando de oitenta a cento e cinquenta nós. Na tropopausa, forte
cisalhamento vertical.
- Nível?
- Leio quatrocentos quarenta mil pés.

- Percebi quatrocentos.
- Afirmativo. Cisalhamento horizontal à esquerda do eixo e
superior ao da direita do jorro... Tecto dos cumulonimbos a trezentos
e sessenta (trinta e seis mil pés). Sem variação.
- Alguma alteração ao nível da base?
- Negativo. Mantendo-se a dois mil e duzentos pés.
Eliseu esperou a última leitura, sem dúvida, crucial na altura de
tomar decisões.
- Ventos de componente norte na base. Força vinte e cinco.
Empalidecemos ao mesmo tempo.
- Repete.
- Trezentos e sessenta graus vinte e cinco.
Durante alguns segundos, cada um de nós mergulhou nos seus
próprios pensamentos. Imagino que numa única e comum
interrogação: como livrar-se daquela perigosa muralha? As nuvens
de desenvolvimento vertical varriam o centro do mar de Tiberíades,
com ventos de base de cinquenta quilómetros à hora.
Se mantivéssemos o mesmo nível de voo (três mil e setecentos
pés), penetraríamos em cheio na linha de turbulência. Se fosse caso
disso, poderíamos descer de nível, aumentando assim a margem de
segurança. Apesar disso, iludir a tormenta pela sua zona inferior
não eliminava os riscos.
- Roger. A seis segundos para o ponto S.
- Okay. Dá-me o combustível.
- De J2 leio três mil e trinta quilos. Estamos a 73,2 por cento.
- Resistência parasitária em okay. Vento a trezentos e sessenta
graus e a aumentar para dezassete nós.
- Dá-me indicador de velocidade.
- Mantida em dezoito mil...
- Este maldito vento...
O berço continuava a vibrar e a balancear. Aquele caixote voador,
com as suas escassas para não dizer nulas formas

aerodinâmicas, não tinha sido concebido para enfrentar turbulências
como as que presumíamos. Ponderámos a possibilidade de tornear
os cumulonimbos, mas, definitivo e sem contemplações, o radar
meteorológico fez-nos desistir de tal intento: em cada uma das suas
catorze varredelas por minuto, a muralha reflectia-se numa área de
sessenta graus de cada lado do eixo longitudinal da nave.
*1 A corrente em jorro ou jet stream, segundo G. Rossby, é uma forte e estreita
corrente concentrada ao longo de um eixo quase horizontal na alta troposfera ou
estratosfera, caracterizada por forte cisalhamento horizontal e vertical do vento,
apresentando um ou mais máximos na velocidade. A OMM (Organização
Meteorológica Mundial) acrescenta: Normalmente, uma corrente em jorro corre ao
longo de vários milhares de quilómetros, numa largura de centenas de quilómetros e
com uma espessura de vários quilómetros. (Nota de J. J. Benitez.)
O combustível e tempo necessários para tentar a aproximação da
base mãe-2, pelo leste ou pelo oeste, tornavam a manobra
proibitiva. A hipótese de sobrevoar a formação de nuvens,
elevando-nos a trinta e seis mil pés, nem sequer foi considerada.
À razão de 5,2 quilos por segundo, a nave teria necessidade de
mais de sessenta e duas toneladas de propulsor para se sobrepor
ao tecto dos cumulonimbos. (A nossa carga total disponível, no
momento da descolagem na meseta de Massada era de dezasseis
mil e quatrocentos quilos.)
Só nos restavam duas alternativas: aterrar e deixar passar a
tempestade ou arriscar, contornando-a por baixo.
Absortos no exame dos instrumentos, mal reparámos na branca e
quadriculada cidade de Citópolis, a seis quilómetros a oeste do
Jordão.
O Pai Natal modificou o rumo, passando para a radial trezentos e
sessenta. O tempo estimado até ao ponto L (margem sul do lago)
era de três minutos e quinze segundos.
- Agarra-te! Isto começa a complicar-se.
Às oito horas e trinta e quatro minutos exactamente a quarenta
segundos de tocarmos no ponto L as oscilações do berço
aumentaram. O vento, em rajadas de direcção variável, fazia saltar
e alterar continuamente os parâmetros do computador central, num
esforço por equilibrar a potência do J 85. Se a nave entrasse em

perda, a nossa situação e a de toda a operação podiam ficar
seriamente comprometidas.
- Roger. Modificação para trezentos e vinte. Atenção, Jasão! Um
último esforço. Base mãe-dois a doze milhas e meia.
O Pai Natal orientou o motor principal para noroeste. E a nave
registou quarenta graus. O vento bateu forte a estibordo, fazendo
soar, pela primeira vez os avisos de nave em perda.
- Alt! Altitude... Alt a trinta e cinco! Maldição!
Descendo a vinte por segundo. Correcção! Correcção! Stall! O
sistema automático reagiu de imediato, elevando a potência para
5,2 quilos por segundo.
- Reduzindo inclinação... Quarenta graus... Trinta...
Bem! Dá-me DGI indicador de giroscópio direccional.
- Estabilizado.
- W/D... Jasão, dá-me W/D! Direcção do vento.
- Continua em trezentos e sessenta graus. Força dezassete.
A nave reduziu o balanceamento.
- Combustível.
- No ponto L, 756 quilos. Estamos a 68,7 por cento.
- Okay. Mantendo no nível trinta e cinco três mil e quinhentos
pés.
Sem nos apercebermos, tínhamos penetrado no espaço aéreo do
mar de Tiberíades. O radar meteorológico continuava a apresentar o
vermelho. Aqueles malditos cumulonimbos atingiam uma
profundidade aproximada de trinta e cinco quilómetros.
- Cinco milhas para a zona crítica.
Os cumulonimbos estavam à vista. Observados de baixo
apresentam-se negros e altos como montanhas, com a típica forma
de bigorna na sua zona superior. Sobrevoavam o lago, estendendose
muitas milhas a leste e oeste. No interior da nuvem
serpenteavam, ameaçadoras, esporádicas descargas eléctricas.
- Estás a receber a intensidade de turbulência?

- Roger. Muito forte na orla da frente e aumentando de baixo para
cima. O Pai Natal calcula o nível de grau zero a quatro mil e
quinhentos pés.
- Gradiente de potencial eléctrico?
- Superior a um milhão de vóltios por metro. Campo
electromagnético nos Cb entre cinquenta e quinhentos.
- Preparado protector antiabrasão 2.
*1 Em geral, a intensidade dos cumulonimbos depende da distância entre a base
dos mesmos (neste caso situada a dois mil e duzentos pés) e o nível de zero graus
(quatro mil e quinhentos pés): níveis de condensação e congelação. Quanto mais
dilatada é a distância, mais activos são os cumulonimbos.
Na nossa situação, os dois mil e trezentos pés representavam um perigo muito
considerável. (N. Do M.)
2 O chamado «protector antiabrasão» consistia num dispositivo especial, criado
pelos engenheiros do Projecto Swivel e que, embora tenha sido concebido para outro
tipo de navegação (a espacial), foi igualmente introduzido no «berço».
Futuramente se Deus quiser esta «barreira protectora» resultará de suma utilidade
nas viagens intergalácticas. Como é bem sabido, uma nave espacial cria à sua volta um
campo gravitacional que, embora não excessivamente intenso, se vê aumentado em
determinadas regiões do espaço. A poeira cósmica e partículas de natureza vária
chocam inevitavelmente com a estrutura do veículo, provocando, a longo prazo, uma
abrasão e um desgaste perigosos. Pois bem, o protector antiabrasão evita esse
problema. A camada superficial da membrana exterior (a que já me referi noutra
altura) foi provida de uma finíssima subcamada, composta de partículas coloidais de
platina e empulsionadas num meio de elevado coeficiente. Na periferia da nave
instalaram-se igualmente «células ionizadas» que desempenham uma dupla tarefa. Em
primeiro lugar, reforçam os gradientes electrostáticos em redor do veículo. No caso, por
exemplo, de uma grande nebulosa de poeira cósmica, com partículas sólidas de
metano, níquel-ferro silício ou amoníaco, que envolva a nave, estas partículas podem
ser de natureza neutra (sem carga eléctrica) ou ionizada (em positivo ou negativo). Na
primeira hipótese neutras -, tais partículas orientar-se-iam para a nave, dado o
gradiente gravitacional favorável a este fluxo. Previamente, o computador central
regista e analisa a densidade espacial dessas partículas, o seu espectro gravimétrico
(isto é, a distribuição estatística em função das suas massas e morfologias), a sua
composição química e a sua carga electrostática média (nula neste caso), assim como
a sua função cinemática em relação aos núcleos galácticos emissores de referência.
Analisados estes parâmetros, a resposta do sistema antiabrasão é fulminante. As
células geradoras de iões emitem electrões, impelidos por uma elevada energia, que
se projectam em trajectórias parabolóides para o exterior. Ao mesmo tempo, a

membrana de platina coloidal carrega-se de um potencial electrostático que pode
atingir valores de cento e oitenta mil a novecentos mil e seiscentos volts (potencial
negativo). Qualquer partícula que se dirija à membrana exterior capta um ou vários
electrões, procedentes do fluxo emitido pela nave. A partícula fica ionizada. Como o
gradiente de potencial eléctrico é muito elevado à volta do veículo, a repulsão eléctrica
compensa tanto a enera cinética daquela como a força de atracção gravitacional, não
estabelecendo contacto com a superfície exterior da referida nave. No caso de a poeira
cósmica estar previamente ionizada, a submembrana de platina ioniza-se com carga
idêntica à do elemento agressor. É preciso ter em conta que a subcamada de platina
coloidal está protegida por outro estrato superior do mesmo material cerâmico que a
camada superficial da membrana.) Um efeito secundário de transferência de cargas
entre a superfície livre da membrana e a subcamada de platina coloidal dá origem a
uma emissão fotónica do córtice cerâmico dentro do espectro visível, em ondas de
longitudes no vácuo de 596,9 milimícrons e 602,34 ou 612,68 milimícrons. Esta
electroluminescência não é provocada pelo impacte de electrões sobre a massa, mas
sim pelo campo eléctrico gerado por eles, à sua passagem pela massa cerâmica
translúcida. Um observador exterior apreciaria uma intensa luminosidade, cujos matizes
dependem da longitude da onda emitida, oscilando entre o verde amarelado e o
carmim. O controlo do potencial electrostático em cada unidade superficial do córtiou
membrana exterior está projectado de tal forma que a distribuição de cargas
densidade superficial electrostática) possa variar de um contorno para outro até ao
ponto de que, numa área, a densidade apenas atinja alguns décimos de
microcolúmbio, mesmo que circule por zonas de potencial eléctrico muito elevado. A
função potencial não é, pois, constante para áreas da mesma curvatura ou
arqueamento. Em suma, não é harmónica na periferia da nave.
Várias são as razões pelas quais se faz uso dessa flexibilidade na distribuição da
carga eléctrica. Primeiro, porque a densidade de partículas agressoras não é a mesma
em toda a periferia. Além disso, como estas vão orientadas numa direcção (caso típico
do «ventoH de partículas cósmicas», obviamente, nem incidirão com a mesma energia
cinética sobre a nave. A abrasão seria mais intensa que em outras áreas, numa zona
definida que terá de proteger-se com um potencial mais intenso. Por último, nesta
descrição sumária convém lembrar que, num dado momento pode suceder que o
elevado potencial de uma zona perturbe qualquer medição ou análise de um
transductor de funções, e assim a rede de computadores anula a carga superficial
usurpadora. (M. Do M.)
- Okay... CP ponto crítico a três milhas. Vento em trezentos e
sessenta graus e aumentando para vinte.
Sob o berço, as águas do lago, cinzentas e encrespadas, batiam
força, branqueando a costa ocidental. Eliseu, precavido, chamou a si
o controlo manual pronto a accionar o sistema de comando.

..Aí vem!... Altímetros, altímetros!
- Trinta e cinco...
- Temperatura dos foguetes...
- Sem variação... Que Deus nos ajude!
A nave penetrou no grande lóbulo frontal dos cumulonimbos.
Uma forte sacudidela fez estremecer a estrutura, ao mesmo tempo
que a chuva intensa e em rajadas nos deixava às cegas.
A turbulência fez saltar os altímetros gravitacionais, provocando
viragens bruscas na plataforma giroscópica.
- Inclinação!... Trinta graus! Rectifica!
- Aumenta a potência!... Nível a trinta! Perda! Perda!
- Desligar!
O meu irmão, desdobrando-se em actividade, anulou o sistema
automático, puxando com força a alavanca. As ALT (barras de
comando que fornecem o roteiro vertical) continuavam
enlouquecidas.
- Aumentar a potência!
Foguetes no limite!... Queimando a sete por segunto! Já se
levanta Vamos, vamos!...
O berço recuperou em quinze graus a sua perdida horizontalidade.
Mas a força do vento, ora vertical ora
horizontal, continuava a alterar a altitude, deslocando o rumo.
- Assim! Assim!... Mantém-no em trinta!
Mas os alarmes continuaram a dar-se. Desta vez foram os
anemómetros periféricos.
- Meu Deus!... Cisalhamento vertical... Quarenta nós! Nível! Nível! -
Estamos em perda!... Stall!...
Tínhamos entrado no raio de acção de um fortíssimo vento vertical
que se precipitava dos cumulonimbos para o solo, com um temido
efeito de redemoinho sobre a nave. E o berço,, entre sacudidelas,
desabou como um cubo.
- Stall!...

- Três mil!... Dois mil e oitocentos!... Dois mil e quinhentos!...
Luzes, luzes!... Descendo! Perigo!... Oh, meu Deus!... Luzes de
sobrecarga na estrutura!... Dois mil e duzentos pés!
Eliseu puxou a alavanca, formando o ângulo de viragem do J 85.
Mas o balanceamento continuou, sensivelmente acentuado pelos
golpes de água provocados pelo cisalhamento.
- Correcção do arqueamento!..
- Vou tentar! Sessenta graus!... Cinquenta e cinco....
Vamos, vamos!... , - Nível vinte!... Alarme. Luzes de baixa na
pressão de óleo. Aguenta-o, aguenta-o! , - Meu Deus! Jasão, reduz o
ângulo de arqueamento. Liga os auxiliares! Os pequenos motores,
sob o controlo do Pai Natal, entraram em acção estabilizando o
módulo.
- Roger... Finalmente sob controlo!... Dá-me secção de
cisalhamento!
- Uma milha... SODAR localiza dissipação a trezentos e cinquenta
pés.
- Roger. Não temos outra alternativa. Lá vamos. Activa dispositivo
antiabrasão!
A membrana exterior abriu o escudo, criando um poderoso fluxo de
electrões em torno da nave. E um redemoinho de um vermelho
amarelado envolveu o berço. Água e vento chocaram com a invisível
parede, mantendo-se a pouco mais de um metro da fuselagem. Isto
aliviou as fortes tensões que a estrutura estava a suportar e o J 85
reduziu a sua potência.
O meu irmão, tão pálido como eu, sem perder de vista o
variómetro, inclinou o módulo, à procura do nível de dissipação de
cisalhamento.
- Queimando a cinco ponto dois... Dá-me nível.
- Mil e oitocentos pés... Mil e seiscentos... Trinta e cinco graus.
- Pegeons.
- Trezentos e trinta... Correcção dez graus Okay. Para baixo a
vinte e três por segundo!... Rumo trezentos e vinte.

Estabilizado!
- Continua a descer. Mil e duzentos pés... Mil pés... Parece que
afrouxa! Vento?
*1 Os sensores externos, incluindo o SODAR (radar acústico), estabeleceram a
secção do cisalhamento em cerca de uma milha (quase dois quilómetros). Baseandose
no efeito Doppler, analisaram o retorno de um sinal acústico emitido por uma das
antenas especiais e capaz de chegar até aos seis mil metros, na vertical. Desta forma
consegue-se uma aceitável medição do vento: a sua força, direcção, turbulência e
estruturas térmicas. A análise do deslizamento em frequência do eco em retorno e em
intensidade permite uma precisão de 0,5 milhas/hora e de cinco graus em direcção.
Neste caso o jorro vertical descia até trezentos e cinquenta pés do solo, abrindo-se
horizontalmente sobre as águas do lago. (N. Do M.)
- Em trezentos e sessenta graus e a dez.
- Nível oitocentos pés... Um pouco mais!... Setecentos
pés... Para baixo a quinze. Travando! Para baixo a dez...
Nível!
- Seiscentos pés... Vento a oito. Zona de dissipação! Agora! Eliseu
estabilizou o módulo em velocidade horizontal. O cisalhamento
tinha perdido a sua força.
- Desactiva o antiabrasão!
- Roger...
A luminosidade escarlate desapareceu e a chuva, mais leve,
envolveu de novo o berço. Para baixo a duzentos metros, o lago
agitava-se à passagem dos cumulonimbos. Reflecti por um instante
sobre o que se passara. A nossa temeridade podia ter-nos custado
muito caro.
Sem o escudo de electrões, a nave poderia ter entrado num stall
de alta velocidade, precipitando-se no mar de Tiberíades. E ali teria
terminado a Operação Cavalo de Tróia. É claro que nem o meu irmão
nem eu fizemos qualquer comentário. Naquele momento, a única
coisa que importava era chegar à costa norte e descer. A tormenta,
agora por cima do módulo, corria velozmente para o sul. A
navegação tornou-se mais suave, mas não havia que confiar.
- Verificar a rota.

- Em trezentos e vinte. Tempo estimado para a base mãe-dois...
leio quarenta e cinco segundos.
Eliseu retomou o plano director.
- Linha de costa no radar. Verifica coordenadas.
- Roger. Base mãe-dois em 32 graus 527" (latitude norte) e 35
graus 302" (longitude leste).
- Okay. Elevando para trinta e três graus... Vinte e cinco
segundos... Nível estabilizado a novecentos pés. Reduzindo para
quinze por segundo. Reduzindo para nove...
Cavalo de Tróia tinha previsto o novo ponto de contacto num
suave promontório que se ergue a noroeste do mar de Tiberíades e
cuja cota máxima coincide praticamente com o nível do
Mediterrâneo. As referências evangélicas identificam essa colina
com o célebre monte das Bem-Aventuranças. Na opinião dos
geólogos, era mais que provável que o perfil orográfico do referido
promontório não tivesse experimentado alterações sensíveis
naqueles dois mil anos. No entanto, dada a lógica dificuldade para
o comprovar, os directores da operação tinham-nos confiado a
decisão final a respeito da zona de descida. Resumindo: antes de
proceder à aterragem era necessário um cuidadoso reconhecimento
do terreno.
- Roger. Base mãe-dois à vista. Que diz o Pai Natal?
O módulo sobrevoou terra firme e os sistemas de detecção, em
conjugação com um CLC-3D modificado, apresentaram no monitor
algumas das mais salientes características da colina: - Cota máxima
a seiscentos pés sobre o nível do lago.
Encosta sul de mil e seiscentos pés, em declive de quarenta graus.
Sólida formação calcária com abundante fluxo basáltico em declives
a oeste e sudeste e uma série de vãos perfeitamente delimitados
(sem dúvida de origem artificial) no subsolo do lado leste.
As radiações IR não detectaram qualquer presença humana em
todo o promontório. Mas não é preciso dizer que aquelas covas ou
galerias nos intrigaram sobremaneira.
- O radar assinala uma dupla formação rochosa, plana, na encosta

sul. Cota cem. Distância do lago: quatrocentos pés.
Configuração calcária. Leio trinta e nove pés de diâmetro,
respectivamente. A primeira pode servir. Ligeira inclinação da
superfície rochosa para oeste; dez graus.
- Okay. Compreendido. Pronto.
Altitude novecentos. Vamos lá. Vinte e um para baixo...
Trinta e cinco graus... Seiscentos pés... Para baixo a dezanove...
O berço iniciou a descida, à procura de uma das brancas e pétreas
manchas.
- Roger... Trezentos pés e três e meio para baixo...
Adiante! Para baixo num minuto. Vento?
- Leio cinco nós e direcção estável: trezentos e sessenta graus.
- Roger. Um e meio para baixo... Dezanove adiante. Atenção! Onze
adiante... Luzes altitude! Três e meio para baixo... Duzentos pés...
Já é nossa!... Quatro e meio para baixo...
Cento e sessenta pés e metade para baixo... Adiante! Já!...
Quarenta pés... para baixo dois e meio... Poeira! Recolhemos
pó!... Quatro para diante, desviando para a direita. Cá está! Luz de
contacto! Luz de contacto!... Santo Deus, obrigado! A nave tocou o
solo bruscamente. E o Pai Natal corrigiu automaticamente os dez
graus de desnível, equilibrando as secções telescópicas do trem de
aterragem.
Eliseu desligou os circuitos, procedento à ventilação do oxidante.
- Pronto o dispositivo infravermelho a cento e cinquenta pés.
- Roger. Ancorados na base mãe-dois. Algum target no ecrã? O
meu irmão fez sucessivas verificações com os feixes.
- Negativo. Parece que lá fora está tudo calmo.
- Bandeiras?
- Negativo. Tudo pelo melhor... Fizeste um bom trabalho.
Eliseu sorriu matreiramente. E, apontando a minha insólita
indumentária de piloto, replicou: - Para comerciante de vinhos e
madeiras de Tessalónica, também não estiveste mal de todo...

A piada descontraiu o pesado e tenso ambiente da cabina. O
pior, em princípio, já tinha passado. Os cronómetros marcavam
oitenta e nove horas, quarenta e sete minutos, cinquenta e sete
segundos e seis décimos. Isso significava que tínhamos gasto dez
minutos mais que o previsto no plano de voo. Uma vez mais me
equivoquei. Apesar de termos vencido o temporal, a nossa situação
não era tão boa como presumíamos. Ao verificar os sistemas, um
dos controlos de rotina deixou-nos perplexos.
O combustível consumido nas últimas vinte e sete milhas e meia
(do ponto S até à base mãe-2) era muito superior ao previsto pelos
especialistas da operação. Em vez de 1492 quilogramas fixos
previamente, o módulo como consequência das fortes acelerações
tinha consumido 2992 quilogramas.
Recorremos ao computador central. Os cálculos estavam correctos.
O Pai Natal tinha sido atestado com minuciosa exactidão. Não havia
possibilidade de erro. Estávamos com 59 6 por cento de
combustível. Sem nos descontrolarmos, repetimos e verificámos os
cálculos uma e outra vez.
O problema surgia sempre na última etapa. Só naquelas 12,5
milhas finais o berço, de quatrocentos quilos iniciais tinha
consumido 9,1 por cento dos dezasseis.
Visivelmente desanimado, o meu irmão voltou a cabeça,
contemplando a chuva que batia na escotilha de bombordo.
Compreendi o seu desalento. Não era a viagem de regresso à
meseta de Massada o que o preocupava. A reserva de combustível
de que dispunhamos sse bem que exígua permitia-nos atingir o
nosso objectivo. (Na realidade, dispúnhamos de 9774,4
quilogramas, mais três por cento na reserva de emergência,
equivalente a 492 quilogramas.) Contando com bom tempo e com
uma navegação sem excessivos contratempos, estas dez toneladas
eram suficientes.
Com o fim de poupar tempo e combustível seria preciso modificar
as rotas. E durante alguns minutos, aparentemente alheio à
profunda e silenciosa frustração do meu companheiro ocupei-me do
tratado e programação dos possíveis novos rumos desde o nosso
actual nível de contacto até à piscina de Massada. O Pai Natal não

tardou a apresentar um plano de voo minuciosamente ajustado às
circunstâncias: da zona noroeste do lago ao ponto L e daí,
esquecendo o ponto S, direitos como um tiro ao J 2. Na confluência
do Jordão com o wadi Nimrin, o berço deveria passar a radial cento
e noventa, sobrevoando a zona oeste do mar Morto. Ao todo, 109,2
milhas, com um tempo calculado de trinta minutos e quatro
segundos, a uma velocidade de cruzeiro de dezoito mil pés por
minuto. Esta travessia a uma média de quatro quilogramas por
segundo representava um consumo total de 7216 quilogramas.
Por outras palavras, descontada a viagem de regresso a Massada,
as nossas disponibilidades cifravam-se nuns nada confortáveis
2558,4 quilogramas de combustível. Apesar disso, tentei levantar o
moral de Eliseu.
- Nem tudo está perdido sentenciei, convidando-o a examinar o
programa.
O meu irmão acedeu sem demasiado entusiasmo.
- Esqueces-te de uma coisa interveio, ao fim de alguns minutos. -
a operação prevê a elaboração dos mapas digitalizados do lago.
Sabes que, sem eles, o olho de Curtiss ficará fora de serviço...
Neguei com um movimento de cabeça. O computador central, esse
sim tinha tido em conta essa parte do programa. Como já referi,
Cavalo de Tróia achou conveniente que, no sobrevoo do mar de
Tiberíades , as câmaras de bordo filmassem diferentes áreas do
lago. Essa informação, previamente codificada, era de importância
vital para o bom funcionamento de outro dos dispositivos
fantásticos de que dispúnhamos e que os engenheiros tinham
baptizado familiarmente de olho de Curtiss, em honra do nosso
querido general e director do Projecto.
(adiante, se não me faltarem as forças, falarei deste curioso e
Mais mágico companheiro de expedição, - que quase matou a
estes loucos aventureiros.) que tão excelentes serviços prestou. Mas
a tempestade tinha impossibilitado a execução dessas filmagens.
Era preciso esperar e, com boa visibilidade elevar-se de novo sobre
a zona, procedendo então ao estudo e registo do perfil do terreno.
Isto representava um consumo adicional de combustível. E Eliseu,
frustrado, dava-se bem conta disso. Contudo, como disse, ao

elaborar o plano de voo, o Pai Natal não tinha perdido de vista esta
contingência. Na suposição de que a nave percorresse o perímetro
total do lago (cinquenta e dois quilómetros), o combustível
necessário para tal sobrevoo ascendia quase a duas toneladas.
(Tendo em conta as sobrecargas da descolagem e posterior
aterragem, assim como o consumo médio durante os sete minutos e
oito segundos previstos para o desenvolvimento da operação, o
consumo total - sempre segundo o computador somava 1988,6
quilogramas.
Ou seja, se obedecêssemos aos planos da operação, a descida
final em Massada poderia verificar-se com um superavit de
combustível mesmo à justa: 569,8 quilogramas, além da reserva de
emergência. E embora essa perspectiva não nos tranquilizasse, a
realidade acabou por se impor. Estávamos onde estávamos e, uma
vez verificados todos os parâmetros, de nada servia lamentarmonos.
O Destino tinha a última palavra.
Além disso, tanto Eliseu como eu conhecíamos perfeitamente os
pormenores da chamada fase tigre. Cavalo de Tróia tinha
contemplado também a remota mas verosímil possibilidade de que,
devido a uma avaria ou acidente irreparáveis, o berço e os seus
ocupantes fossem sujeitos a alguma nova e grave emergência, as
ordens eram taxativas e invioláveis: regressar ao nosso tempo,
procedendo à imediata destruição do módulo.
Fosse qual fosse o lugar em que se produzisse essa desintegração
do berço, o nosso regresso a Massada não tinha por que ser
especialmente problemático. Mas vejo que estou a afastar-me de
novo do que na verdade importa. Eliseu continuou em silêncio. Os
planos e estimativas eram relativamente tranquilizadores. Todavia,
aquele mutismo encerrava algo de mais profundo e íntimo. E eu
sabia o seu significado.
- Repito-te que nem tudo está perdido...
Olhou-me sem compreender a minha insistência. Sorri
maliciosamente, exibindo um ar descontraído, e adiantei-me aos
seus pensamentos.
- Sabes bem a que me refiro.

- Então...
O meu sorriso abriu-se definitivamente, dissipando as suas
dúvidas.
- Sei que podemos fazê-lo acrescentei, simulando uma segurança
que teria desejado possuir de facto. A minha atormentada
existência foi sempre assim: cheia de contradições. - Se ainda te
sentes com forças, vamos em frente. Acompanhemos o Mestre! -
Mas...
Não o deixei terminar.
- Julgavas que tinha esquecido a minha promessa? Reflecti na tua
ideia e estou de acordo: vamos correr o risco. Vale a pena. Vejo
apenas uma dificuldade...
- Só uma?
Pus-me diante do monitor e, teclando no terminal do computador
central, mostrei-lhe algo que já conhecia: os 59,6 por cento de
combustível.
- Esta é a nossa dificuldade...
- Compreendo.
Eliseu, prudentemente, deixou-me concluir.
- Se bem que haja uma solução: imobilizar a nave, haja o que
houver. Só assim poderíamos conjugar a nova exploração e o
regresso.
O meu irmão começava a adivinhar as minhas intenções.
- Estás a sugerir que durante esses três ou quatro anos de
acompanhamento do Rabi da Galileia, o berço permaneça inactivo?
- Não exactamente. Os seus sistemas e dispositivos electrónicos,
como sabes, são necessários para levar a cabo esta e a futura
terceira exploração. Em contrapartida podemos prescindir dos
serviços da pilha atómica e principalmente, do voo da nave.
Substituiremos a alimentação da SNAP 27 recorrendo à bateria de
placas solares.
(Como medida de precaução, os responsáveis do Cavalo de Tróia
tinham incluído neste segundo salto um total de doze placas,

susceptíveis de serem montadas no exterior do berço, placas de
radiação solar. Todas de vidro com revestimento de práta, tinham
29,3 centímetros de diâmetro, podendo gerar até quinhentos watts.
Por detrás tinham sido fixadas diversas películas de cobre com
possibilidade ideal pela base de ferro em posição azimutal biaxial.
O sistema do professor israelita Tabor, permitia que toda a
radiação reflectida incidisse num único tempo.
Isso era possível graças à forma espectacular assimétrica e ao
deslocamento do eixo de rotação horizontal no centro da curvatura
da imagem. Embora a capacidade de reflexão do vidro com
revestimento de prata fosse elevada cerca de oitenta e noventa
por cento, -, os especialistas equiparam- nos também com outras
lâminas de substituição, à base de aço maleável prateado e metal
electroprateado, com índices de reflexão de noventa e um e de
noventa e seis por cento, respectivamente.)
O plano, ainda que viável do ponto de vista estritamente técnico,
exigia uma longa e conscenciosa maturação. Eram muitos os
aspectos a considerar que, naquele momento exacto da vida de
Jesus de Nazaré deveríamos encarar? O início da sua actividade
pública não aparece com muita clareza nos textos evangélicos. Era
preciso confirmá-lo com um máximo de rigor. E essa devia ser,
indubitavelmente outra das minhas missões na já iminente
exploração na Galileia , (Apenas Lucas é explícito quanto à data em
que João Ba tista deu início à sua actividade como pregador:
O décimo quinto do reinado de Tibério César... (2 A manipulação
dos eixos dos swivels requeria uma precisão absoluta.
Sobrecarregar as nossas debilitadas colónias neuronais com
sucessivas e frustradas inversões de massa das partículas
subatómicas teria constituído um risco inútil e perigoso (3). Mas
não era esse o único problema a ser encarado na atractiva terceira
exploração. Uma expedição complexa e prolongada, com o peso
suplementar de um módulo forçosamente imobilizado em terra,
exigia a procura de um refúgio seguro e inacessível aos humanos
daquele tempo. Uma base mãe era o que fazia falta, em última
análise, na qual pudéssemos esconder o berço e a partir da qual
pudéssemos partir tranquilamente para as várias missões. Esse
lugar só podia ser algum dos abruptos picos que circundavam o

lago. A escassez de combustível assim o aconselhava. Por outro
lado, segundo os textos evangélicos, a Galileia tinha sido uma das
regiões mais intensamente frequentada por Jesus de Nazaré durante
a sua vida pública.
*1 A SNAP 27 localizada à popa do «berço», transformava energia calorífica do
plutónio radioactivo em corrente eléctrica de cinquenta watts), com uma vida útil de um
ano.
Esta pilha,, com uma blindagem especial, era o coração do módulo. Todos os
circuitos e instrumentos em maior ou menor grau, dependiam dela. (N. Do M.) 2 As
dúvidas sobre esta data são consideráveis. Será possível começar a contar esse ano
15 como o ano 765 da era romana ou o ano 12 depois de Cristo, quando Tibério foi
associado ao governo do seu predecessor, Augusto? Se assim fosse, a pregação de
João teria de ser fixada no Outono do ano 26 ou talvez 27 da nossa era.
Muito impreciso, em suma. (M. Do M.) 3 Ampla informação sobre o grave problema
que afectava os pilotos, em Operação Cavalo de Tróia II, pp 363 e seguintes. Nota de
J. J. Benitez.)
Era, pois, presumível que uma boa parte do acompanhamento do
Mestre se desenrolasse por aquelas paragens.
Durante uma hora vimo-nos assim arrastados para uma viva,
electrizante e esperançosa discussão na qual cada um,
paradoxalmente, procurou convencer o outro da bondade e dos
inúmeros atractivos da futura missão. A decisão estava tomada:
retrocederíamos no tempo, desenvolvendo aquela que, sem dúvida,
podia constituir a nossa mais ambiciosa e histórica exploração.
Estávamos convencidos de que o sacrifício redundaria num mais
extenso e aprofundado conhecimento do que se passou na referida
vida pública do Mestre.
E aquele ideal - vejo-o agora com emoção manteve-nos firmes
nos momentos de perigo e desalento. E foi com entusiasmo que nos
entregámos à árdua tarefa de programar e planificar aquele que
seria o terceiro salto à Palestina do século I. Eliseu ficou encarregue
de tudo o que se refere à infra-estrutura: equipamentos,
manutenção da nave, protecção pessoal, sobrevivência, etc. A minha
tarefa consistiria essencialmente na recolha de dados: data do
início da pregação de Jesus, itinerários das suas viagens estadas,
acompanhantes, etc.

Estas informações, fornecidas ao computador central, serviriam
para a elaboração de um minucioso plano de trabalho.
Dez horas.
Notavelmente reconfortado, o meu irmão recuperou a sua habitual
e eficiente frieza. E tentou dissuadir-me. A revisão do módulo podia
esperar, os aguaceiros e ventos intensos açoitavam a colina
incessantemente. Todavia, impaciente por reconhecer o terreno e a
estrutura da nave, ignorei os seus conselhos, accionando o
mecanismo de descida da escada hidráulica e vim para fora.
Eliseu tinha razão. Durante os primeiros momentos fui obrigado a
permanecer sob o bojo do berço, flagelado por rajadas de quinze a
vinte nós que arrastavam consigo terra, tufos de vegetação e um
autêntico dilúvio. O sibilar do vento entre as patas do módulo era
tão ensurdecedor que a própria ligação auditiva ficou seriamente
afectada.
- Jasão, estás a receber-me?... Escuto.
- Em condições precárias. A tempestade é muito forte. Estou
mesmo debaixo dos teus pés... Não distingo grande coisa.
Escuto.
- Roger. Desiste...
- Espera um momento.
Inspeccionei a massa rochosa. Parecia sólida, embora fortemente
marcada pela erosão. Provido dos crótalos fui-me deslocando de um
ponto de sustentação para outro, verificando a inclinação e natureza
da laje.
Apresentava de facto um desnível de cerca de dez graus para
oeste. Embrulhei-me o melhor que pude no capote e, lutando contra
a tempestade, circundei o módulo, inspeccionando as suas paredes.
- Atenção! Não vejo marcas na estrutura. A máquina não fendeu a
rocha. Há no entanto uma forte radiação no J 85.
Escuto.
- Recebido. Sobe já...
- Um minuto. Tens target no ecrã?

- Negativo.
A pergunta foi uma estupidez. Quem poderia aventurar-se até
àquele promontório com semelhante tormenta? Agarrado ao trem de
aterragem tirei as lentes IR, na tentativa de captar o maior número
po ssível de pormenores da colina e seus arredores. Não foi fácil. A
base das nuvens tinha descido consideravelmente talvez abaixo dos
mil e oitocentos pés (cerca de seiscentos metros) e espessas
formações de Cb precipitavam-se para terra em forma de negras
cortinas de água.
A cerca de seiscentos pés do ponto de contacto, a superfície do
lago, encrespada, era uma plúmbea e confusa massa de chuva e de
vagas.
Para leste, nas margens do lago turbulento e a uns dois
quilómetros de distância, destacava-se o núcleo urbano mais
próximo da nossa posição: um alongado conjunto de casas de
pedras escuras, que reluziam sob o aguaceiro persistente. Se não
me falham os cálculos, só poderia tratar-se de Cafarnaum. Apenas
da visibilidade precária, fiquei surpreendido perante o rosário de
pequenas e grandes aldeias que balizavam o litoral.
A costa oeste, em especial, era a mais densamente povoada.
Esta circunstância tranquilizou-me. Teríamos escolhido o lugar
indicado para o assentamento do módulo. Era vital e urgente que
procedêssemos a uma exploração exaustiva do promontório.
Se o ponto de contacto se encontrasse numa zona de passagem
os quebra-cabeças podiam ser contínuos e altamente
desagradáveis.
Pensei em deslocar-me até ao ponto mais alto. De lá, a
localização dos vários carreiros seria mais rápida.
Impossível. A furiosa tempestade tornava inviável qualquer
tentativa de reconhecimento. Aparentemente, os arredores do berço
não apresentavam sinais de qualquer caminho ou vereda.
O terreno parecia improdutivo. Contudo, tínhamos de nos
certificar. A cerca de cem passos, na direcção leste-sudeste,
perfilava-se uma formação de grossas e arredondadas rochas
basálticas. Se a memória não me falhava, aquele era o ponto em

que tinham sido detectadas as estranhas galerias ou construções
subterrâneas, aparentemente artificiais. O senso comum impôs-se e,
completamente encharcado, optei por ingressar na nave, à espera
de uma melhoria do tempo.
O resto daquela segunda-feira passou-se sem incidentes de
maior. Descansámos por turnos, presos a cada momento dos
sensores infravermelhos e da evolução da metereologia. Uma boa
parte do meu tempo foi gasta na revisão do programa estabelecido
por Cavalo de Tróia e que deveria iniciar-se a partir de quarta-feira,
dia dezanove. Se tudo corresse normalmente, o grupo dos galileus
apresentar-se-ia no lago até ao entardecer da referida quarta-feira,
ou, o mais tardar, na manhã do dia seguinte.
Por razões óbvias, a minha presença em Betsaida ou Cafarnaum
não era aconselhável até ao anoitecer de dezanove. E mesmo, se
possível, só deveria aparecer uma vez confirmada a chegada dos
discípulos do Ressuscitado. (Por muito veloz que tivesse sido o meu
meio de transporte desde Jerusalém, o lógico é que tivesse
precisado de uns dias para percorrer o acidentado caminho que
atravessa a Samaria. Não tinha outra alternativa. Só me restava
esperar.)
18 DE ABRIL, TERÇA-FEIRA
De madrugada, o vento parou. A frente nebulosa afastou-se para
sul e, como costuma acontecer nestes casos, a melhoria do tempo
foi espectacular.
5 h 42 m.
O Sol despontou num ápice como se estivesse impaciente -,
aquecendo a linha uniforme das elevações que emergem junto à
costa oriental do lago. Uma luz rasante e de múltiplos cambiantes
revelou-nos um espectáculo difícil de imaginar.
Atónitos, ficámos como que hipnotizados. Flávio Josefo tinha sido
demasiado sóbrio na sua descrição da pujante Galileia.

Em todas as direcções, colinas, vales e planícies apresentavam- se
cobertos de um manto vegetal sem princípio nem fim, onde os
bosques de azinheiras e terebintos, frondosos e ramificados, se
contavam por dezenas. Intermináveis campos de trigo e de cevada
perdiam-se no horizonte, dourando e verdejando encostas e
planícies.
E ali mesmo, na suave colina que nos servia de poiso, uma erva
alta e húmida atapetava os declives, em competição com fileiras de
vermelhas anémonas, lírios, margaridas de pétalas brancas e
amarelas e cardos de um metro de altura, carregados de flores
violetas que se estendiam desde o cimo do promontório até às
rochas basálticas agora amareladas da encosta leste. A
ocidental, mais pedregosa, encontrava-se igualmente colorida de
gladíolos e karKom de um amarelo luminoso.
Para norte, até ao cume, a vegetação era semelhante, com
compactos círculos de espécies baixas, entre as quais sobressaíam
murtas, urtigas e acantos. Meu Deus, como descrever semelhante
vergel?
O Pai Natal processou as últimas leituras dos sensores externos e
ofereceu-nos um emagrama de Stüve francamente optimista: os
níveis de condensação tinham descido, a visibilidade era ilimitada,
a calmaria entre mil e novecentos milibares quase total e a
pressão em contínua subida. A jornada parecia perfeita e, eufóricos,
pusemos mão à obra. O primeiro e obrigatório passo consistia num
meticuloso rastreio dos arredores. O dispositivo infravermelho
mantinha-se inalterável. Então, munido da minha inseparável vara
de Moisés, saí da nave.
Durante vários minutos, presa das mil cores e da fragrância que a
terra molhada exalava, hesitei quanto ao rumo a tomar.
Enchi os pulmões daquele ar fresco e perfumado e, deixando que
sandálias, pernas e túnica se impregnassem de orvalho, dirigi-me
para norte, para o ponto mais alto da colina. Uma vez ali, a uns
quatrocentos metros do ponto de contacto, esforcei-me por localizar
e reter na memória os caminhos mais próximos do promontório. Ao
sul, quase em paralelo com o litoral, corria uma larga vereda que,
sem dúvida, ligava a localidade da esquerda (a referida Cafarnaum)

aos núcleos situados na costa ocidental do mar de Tiberíades. Ao
longe, entre bosques, esta vereda perdia-se na direcção leste
possivelmente ao encontro da margem oriental do lago. Da suposta
Cafarnaum arrancava outro caminho, mais estreito que o anterior,
que, rodeando trigais e altos zimbros, corria em ziguezague até à
encosta leste da nossa colina. A cerca de quilómetro e meio da
povoação, o referido caminho dividia-se em dois. O ramal situado à
minha esquerda continuava pela base da colina e, dobrando-se num
arco das curvas, acabava por subir até ao cume onde eu me
encontrava.
Examinei os arredores, mas não encontrei nada que justificasse a
presença e o remate de tal carreiro no cimo da colina. Felizmente, o
promontório era uma zona inculta com abundantes eflorescências
basálticas de três a quatro metros de diâmetro espalhadas pelo
cume e talvez o cultivo daquela tterra aléM das outras circunstâncias
tornasse pouco transitável.
Mas o que mais me intrigou foi o segundo ramal. Trepava pela
mesma encosta leste do promontório, vindo a morrer na formação
rochosa que se erguia a uma centena de passos do berço,
precisamente, aquele, dada a sua proXimidade da nave, como
referi, no sítio das galerias subterrâneas.
Apresentava-se como ponto mais conflitual. Era preciso esclarecer
a natureza e o porquê de tão enigmático ramal.
O Sol elevou-se acima das colinas e as calmas águas do lago
palpitaram com cintilações de prata, verde-jade e azul-safira com
manchas ocres e ferruginosas junto das margens alcantiladas
consequência da recente tempestade. Mais ao longe, bandos de
aves chilreantes vindas dos cerros precipitavam-se como nuvens
brancas sobre o pequeno mar onde a vidda retomava o seu ritmo. A
razoável distância, vogando livremente e ao acaso alguns peixes,
que, com precisão matemática, os pássaros, nos seus voos picados,
iam assinalando.
O branco das povoações, rodeando o Kennereth, apareceu em
todo o seu explendor. Aquele sítio era, evidentemente, muito mais
povoado do que tínhamos suposto.
A norte, as neves perpétuas do Hérmon brilhavam num desafio.

Com o tempo, os rudes mas sábios pescadores do mar de
Tiberíades ensinar-me-iam a vigiar aquele colosso, infalível
anunciador de ventos e de tempestades.
Em definitivo, a nossa instalação parecia segura. Exceptuado o
núcleo situado a leste, o resto das povoações encontrava-se tão
afastado que não devia inquietar-nos. A segunda aldeia mais
próxima, - uns cinco quilómetros para o norte estava implantada
num cerro, diminuta e branca de cal, e igualmente encurralada por
bosques e campos cultivados. Talvez fosse a não menos célebre
Corozam ou Korazim, amaldiçoada por Jesus nos seus Evangelhos.
Transmiti ao módulo as tranquilizadoras notícias, anunciando a
Eliseu a minha intenção de descer até às rochas da encosta oriental.
A bifurcação do caminho, com o ramal que se extinguia no baluarte
de basalto constituía um enigma irritante. A extensa mancha violeta
que cobria aquela parte do promontório, ligando a plataforma
rochosa em que o berço assentava à referida formação basáltica,
serviu-me de guia e de ponto de referência.
Talvez deva anotá-lo agora. Este belíssimo tapete de flores
violáceas visível à distância foi de grande utilidade para o autor
destas linhas, servindo-lhe de orientação nas futuras e sucessivas
incursões fora do módulo. Mas continuemos. A uma centena de
passos do berço, de facto, a encosta oriental apresentava-se
semeada de enormes e esféricas massas de basalto negro que, com
toda a certeza, se tinham desprendido do cume, rodando sabe-se lá
quando para a sua actual implantação. Intrigado, subi até ao ponto
mais alto; e quando lá cheguei comecei a compreender.
O carreiro de terra avermelhada conduzia a um terreno circular,
protegido por aquela espécie de cintura rochosa. Sob as pedras
orientadas para norte, alguém tinha escavado o terreno modelando
uma tosca fachada de quase quatro metros de altura à qual se tinha
acesso por uma série de degraus, também de natureza calcária.
Apressei-me a descer e, aproximando-me dos degraus, descobri uma
pesada pedra circular que com toda a evidência, cerrava a entrada a
uma qualquer câmara ou gruta. Isto explicava em parte os
misteriosos perfis subterrâneos detectados quando sobrevoámos o
local. A pedra, de quase um metro de diâmetro, estava encaixada

numa calha de trinta centímetros, ligeiramente inclinada para oeste.
Uma cunha de madeira sob a pedra funcionava como travão. Teria
sido suficiente um pequeno esforço para a retirar e libertar a rocha,
que teria assim rodado sem entraves até ao extremo da fachada.
Venci a tentação. O retorno da pedra ao seu lugar exigiria a
colaboração de, pelo menos, três ou quatro homens.
De momento não podia correr o risco de deixar a descoberto o
acesso às intrigantes galerias. Quer tratando-se de um túmulo quer
de qualquer outra construção, o mais razoável era não chamar a
atenção dos possíveis utentes ou proprietários. A povoação estava
relativamente próxima e toda a precaução era pouca.
Enquanto regressava à nave reflecti sobre o assunto. Se na
verdade nos encontrávamos ao lado de um cemitério ou de uma
cripta familiar ou colectiva, a nossa localização na colina podia
considerar-se óptima. Salvo na altura dos enterros propriamente
ditos, os judeus não eram muito propensos a frequentar tais
lugares, nem as suas imediações. Neste caso, as estritas normas
sobre impureza por contaminação de cadáveres constituíam um
excelente e providencial aliado.
Mas... e se não se tratasse de um túmulo? A única forma de sair
da dúvida era deslocar a pedra circular, penetrando no interior. Para
semelhante aventura é claro que precisava da ajuda do meu irmão.
Às sete horas, concluída aquela primeira volta de inspecção,
regressei ao ponto de contacto relatando ao meu companheiro tudo
o que tinha observado. Ao referir-lhe a descoberta do possível
acordo, decidimos explorar o patamar basáltico enquanto nos fosse
possível.
Uma hora depois, ultimados os preparativos para o seguinte e
indeclinável objectivo, o berço elevou-se até ao nível estacionário
(oitocentos pés), dando assim início à operação de prospecção
televisual do lago e das terras próximas do litoral, até uma
distância de cinco quilómetros.
Estas imagens, juntamente com o perfil topográfico traçado pelos
altímetros gravitacionais, eram de vital importância para o sistema
de condução do olho de Curtiss. Partindo do local de aterragem do
módulo, os especialistas do Cavalo de Tróia tinham dividido aquele

contorno do mar de Tiberíades num total de treze secções, de quatro
quilómetros de comprimento por cinco de profundidade. Cada uma
delas foi identificada com a palavra-chave Galileia e o número
correspondente.
Embora as fontes evangélicas não fossem precisas, todos os
indícios apontavam para as áreas Galileia-1 e Galileia-2, na zona
norte do lago como os possíveis cenários das aparições de Jesus de
Nazaré na referida região.
E o módulo, obedecendo ao plano, dirigiu-se para nordeste.
Nos campos e veredas via-se já uma certa actividade.
Camponeses, bois, carroças e pequenos rebanhos de cabras
entravam, ou saíam do núcleo urbano que, a priori, associámos a
Cafarnaum. Esta aldeia talvez devesse qualificá-la de cidade
corria paralelamente à linha da costa, com uma extensão
aproximada de mil e oitocentos pés (seiscentos metros), por
novecentos de largura.
Formava uma meia-lua, positivamente encaixada entre o mar e
uma série de cerros suaves que descia em cascata a partir de norte.
Um pequeno rio - que identificámos nas nossas cartas como o
Korazim - desembocava no extremo oriental da povoação. O largo
caminho que bordejava o lago e que eu tinha localizado lá de cima
do alto da colina não era o mesmo que continuava para leste. Já
fora da localidade enveredava para norte e, quase paralelo ao
Korazim, perdia-se entre lombas e bosques, passando muito perto
da branca e altiva aldeia que tínhamos identificado com esse
mesmo nome: Korazim ou Corazam.
Dias mais tarde averiguaria que se tratava de uma importante
estrada romana a Via Máris que passando por Magdala, rodeava
as costas ocidental e norte do mar de Tiberíades, dirigindo-se a
Tiro, no Mediterrâneo.
Apesar da velocidade vertiginosa do nosso voo, um dos aspectos
que nos chamou a atenção da suposta Cafarnaum, foi o seu porto.
Como teríamos oportunidade de comprovar ao longo daquele
circuito, o Kennereth carecia então de enseadas que
desempenhassem a função de portos naturais. Esta séria deficiência

tinha sido colmatada mediante a construção de terraplenos
geralmente constituídos por blocos de basalto - que funcionavam
como paredões de protecção. No caso de Cafarnaum, essa espécie
de dique (cujo corte vertical se assemelhava a um trapézio) tinha
um comprimento considerável: dois mil e cem pés (setecentos
metros). Acompanhava a linha da costa e nele se inseria uma
dezena de atracadouros - perfeitamente perpendiculares ao referido
terraplano - rectangulares e em forma de ponta de flecha, com
dimensões que oscilavam entre dez a quinze metros. Neles se
alinhavam umas cem pequenas e médias embarcações. Ficámos
maravilhados...
Creio que devo insistir nisso. Lá do alto, a frondosidade daquela
parte da Galileia apresentava-se em toda a sua grandeza. O que
hoje, em pleno século xx, o nativo ou visitante pode contemplar ao
chegar ao lago, é uma triste e empobrecida relíquia.
Os bosques de ciprestes, azinheiras velani, alfarrobeiras,
alfóstigos, zambujeiros, palmeiras e plátanos orientais, entre outras
espécies, disputavam as margens dos rios, os barrancos, as línguas
de terra e as encostas dos promontórios. E, entre semelhante
espessura vegetal, todo um labirinto de leiras e campos de cultivo,
só comparáveis, de certa maneira, ao esplêndido oásis de Jericó.
Aquele ia ser o nosso teatro de operações. E, sinceramente, sentime
reconfortado.
A segunda secção Galileia-2 incluía a desembocadura do
Jordão e uma ampla várzea de quase doze quilómetros quadrados,
sulcada por quatro rios principais e uma complexa rede de afluentes
e de torrentes. As recentes chuvas tinham aumentado o seu caudal,
que penetrava, impetuoso e barrento, no ângulo Nordeste do Lago.
Estes rios (conhecidos hoje como Najal Mesusim, Najal Yehudiyeh,
Najal Daliot e Najal Shemafnun) desciam dos penhascos basálticos
situados a leste (actualmente denominados por montes Golam), a
uma altitude de oitocentos a mil metros, percorrendo distâncias que
oscilavam entre os vinte e os trinta quilómetros.
Esta inclinação emprestava às suas águas um ímpeto considerável,
arrastando toneladas de pedras e terra que acabavam por deter-se
na várzea, transformando o local num belíssimo mosaico de lagunas

de todos os tamanhos, muitas delas comunicando entre si. Os
materiais menos densos seixos, argila e fragmentos de
basaltoeram conduzidos até ao lago, configurando na
desembocadura um amplo delta que segundo as fotografias
infravermelhas 1 se prolongava sob as águas. No exame posterior
das filmagens comprovámos que aquele fértil e paradisíaco rincão
do mar de Tiberíades era cruzado por quinze riachos que se fundiam
a curta distância da costa, formando dois pequenos lagos cuja
largura ultrapassava mesmo a do Jordão.
(A maior destas lagunas recebia o caudal de sete riachos: cinco
provenientes do Najal Mesusim e dois de Yehudiyeh. Ao comparar
estes dados com os fornecidos aos especialistas do Cavalo de Tróia
pelo Kennereth Mimnological Laboratory e pelo investigador
israelita Mendel Nun, numa das maiores autoridades no estudo do
mar de Tiberíades, chegámos à conclusão de que aquela área norte
não tinha mudado substancialmente durante os dois últimos
milénios. Não aconteceria o mesmo com outras zonas do Kennereth.)
Quanto à segunda laguna, foi identificada como sendo o actual
Nahar AI-Magarsa, conhecido pelo nome de Masudiya. Sob a
espessa vegetação que quase ocultava estas lagunas algumas
chegavam a ter três metros de profundidade -, os registos IR
detectaram uma variada colónia de aves aquáticas, assim como
zonas pantanosas nas quais proliferavam répteis, tartarugas e
lontras. Todo um paraíso em que, por elementar prudência, não
devíamos entrar. A quilómetro e meio da margem esquerda do
Jordão, a oeste das desembocaduras de dois rios menores (talvez o
Zaji e o Masudiya) e no meio da exuberante várzea, descobrimos
outro núcleo humano, de apenas trezentos metros de comprimento,
com pequenas casas cúbicas, tão negras como as da suposta
Cafarnaum. Sinceramente, não soubemos que pensar.
Tratar-se-ia de Betsaida? A casa dos pescadores tradução de
Betsaida era outro dos meus objectivos. Ali, segundo os
evangelistas, tinham-se registado alguns dos prodígios do Rabi.
Lamentavelmente, nem os arqueólogos nem os estudiosos cristãos
se puseram de acordo sobre a verdadeira localização da vila ou
povoação em que tinham nascido André, Simão, Pedro e Filipe. A
nossa confusão foi completa ao verificar que, numa colina situada a

uns três quilómetros a norte muito perto do leito do Jordão se
erguia outro povoado, bastante maior que o situado na costa, em
que brilhavam ao sol brancas e airosas construções, entre as quais
se evidenciava uma espécie de palácio fortificado. Talvez esta
última cidade, construída sobre um promontório de trinta metros de
altitude e de paredes escarpadas, fosse a mítica Betsaida Julias,
mencionada por Yosef ben Matatlahu (mais conhecido por Flávio
Josefo) na sua obra Guerra dos Judeus (3,10, 7). Nesse livro, o
general e historiador judeu romanizado assegura que, antes de
desembocar no lago, o Jordão passa junto da cidade de Júlias.
Contudo nesse caso, como interpretar o nome de Betsaida ou casa
do pescador? Se se tratava de uma povoação de pescadores o mais
lógico é que se encontrasse nas margens do mar da Galileia e não
a três quilómetros da costa e no cimo de uma colina. A solução
elementar viria algumas horas depois, ao observarmos o porto de
Cafarnaum.
*1 Nos estudos hidrológicos, a fotografia infra- vermelha é de grande utilidade,
podendo delinear as marcas longitudinais provocadas pelas marés nas costas e os
sedimentos em tonalidades esverdeadas. É de grande importância obter imagens de
cores modificadas, a fim de registar plantas marinhas e algas flutuantes em águas
turvas. Interpretando esses reflexos de cor já conhecidos e outros que se podem
determinar experimentalmente, é possível localizar fontes de contaminação. Nas
imagens IR, a água clara apresenta-se negra e a coberta de algas, vermelha. As
camadas com baixo nível de oxigénio apresentam um tom leitoso. (N. Do M.)
Este segundo núcleo costeiro dispunha também de um pequeno
porto, formado por um espigão implantado perpendicularmente à
linha do litoral, que penetrava cerca de duzentos metros no lago e
inflectia depois, em ângulo recto, na direcção oeste.
A uns cinco quilómetros do Jordão num local hoje denominado
Jiabert A-Diqa -, nascia outra interessante construção: um canal de
dois metros de largura, cujas paredes tinham sido escavadas na
rocha viva, que conduzia à água através da várzea, numa extensão
de dezasseis quilómetros. Ao longo desta importante obra
alinhavam-se inúmeras granjas e moinhos.
Nas cinco secções seguintes até ao extremo sul do lago
contámos oito núcleos humanos de alguma importância a maioria

deles junto ao lago e uma infinidade de pequenas concentrações
de cabanas e casas de lavoura disseminadas pelos cerros.
Obviamente carecíamos de uma informação fidedigna e a definitiva
identificação de tais núcleos só chegaria com a terceira exploração.
A cerca de oito quilómetros da desembocadura do Jordão, quase no
equador do lago, um rio de caudal médio precipitava-se entre
bosques e barrancos dividindo aquele sector oriental da costa em
duas grandes metades.
O traçado do rio era muito semelhante ao que se via nos nossos
mapas, proporcionados pelo Serviço Cartográfico do Exército
Israelita. Provavelmente, tratava-se do Samak. Isso ajudou-nos a
identificar, ainda que só provisoriamente algumas das povoações.
Assim, de norte a sul, julgámos localizar as milenárias cidades de
Kefar Aqbiya Kursi (também conhecida como Gérasa) Ein Gafra
Suscita ou Hipos (uma das mais povoadas), En Gev e Kefar-Zemaj,
entre outras.
Ao todo ao longo do litoral leste, contando com o da suposta
Betsaida, somámos sete portos.
A sul da secção Galileia-2, relativamente perto da zona pantanosa
do ângulo nordeste, estava implantado o primeiro e mais
setentrional destes oito núcleos: uma modesta concentração de
pequenas casas de terraços ocres e que, segundo o Pai Natal, podia
ser a origem de uma pequena povoação árabe, desaparecida em
1967, que dava pelo nome de Duqat ou Duqal.
Aquele lugarejo, tal como a maioria, parecia imobilizado em terra,
exigia a procura de um refúgio seguro e inacessível aos humanos
daquele tempo. Uma base mãe era o que fazia falta, em última
análise, na qual pudéssemos esconder o berço e a partir da qual
pudéssemos partir tranquilamente para as várias missões. Esse
lugar só podia ser algum dos abruptos picos que circundavam o
lago. A escassez de combustível assim o aconselhava. Por outro
lado, segundo os textos evangélicos, a Galileia tinha sido uma das
regiões mais intensamente frequentada por Jesus de Nazaré durante
a sua vida pública.

*1 Segundo os dados do computador central, a povoação de Duqat foi conhecida
na antiguidade como Kefar-Aqbiya, do período do Segundo Templo ainda que a
cerâmica encontrada na zona leve os peritos a pensar que possa ter sido fundada
muito antes. Tratava-se, portanto, de uma das mais antigas povoações do mar de
Tiberíades. No século vi da nossa era, um judeu vizinho da localidade visitou os
balneários de Hamat Gader, oferecendo um donativo para a construção de uma
sinagoga. Como sinal de agradecimento, no mosaico do solo da sala aparece o nome
de Kiros senhor Patrik, de Kefar Aqbiya". (N. Do M.)
A partir do suposto Kefar Aqbiya, o mar ganhava terreno,
formando uma baía de dois quilómetros de extensão. Pois bem, no
meio do suave promontório, sobre uma pequena colina natural de
vinte metros de altura, Eliseu e eu próprio descobrimos uma curiosa
construção: algo de parecido com uma torre-fortaleza circular, com
um segundo muro também circular no seu interior. O diâmetro da
muralha exterior era de sessenta e oito metros.
A do interior atingia os cinquenta. A considerável construção, com
muros de três metros e meio de espessura e entre dois e três
metros de altura, intrigou-nos bastante. Mas o banco de dados do
módulo não dispunha de uma informação clara a tal respeito. Parece
que terá sido construída nos tempos do Primeiro Templo e com fins
puramente defensivos, como mais um elo na cadeia de fortificações
judaicas que vigiava os caminhos de leste.
(Além do estreito e poeirento caminho que descia de norte,
circundando o litoral, aquela região do Kennereth tinha ao seu
dispor uma esplêndida estrada romana que, procedendo de
Citópolis, ao Sul, atravessava montes e vales, passando junto de
várias cidades - Hipos e Gérasa? - e da própria torre-fortaleza
circular 1, dirigindo-se depois para Nordeste).
Na secção Galileia-4, a cerca de doze quilómetros do Jordão,
junto à desembocadura do suposto rio Samak, situava- se uma
autêntica cidade: a mais extensa e formosa daquela franja do
Kennereth. Em ambas as margens do rio abria-se um fértil vale de
três quilómetros de comprimento por quatro de largura,
intensamente cultivado. A cidade, implantada a sul do leito do rio,
ocupava quase metade do vale, com uma notável quantidade de
edifícios greco-romanos, entre os quais sobressaíam uma colossal

colunata circular, dois anfiteatros e um hipódromo.
Tomando como ponto de referência o Samak, suspeitámos de que
estávamos perante a evangélica Kursi ou Gérasa. (Em algum dos
abruptos montículos que fechavam o vale podia ter tido lugar o
famoso incidente da vara de porcos que, segundo os Evangelhos, se
lançou ao mar como consequência da cura de um endemoninhado
pelo Rabi de Nazaré. Este era outro dos inúmeros e atractivos
motivos que justificavam o nosso futuro campos que rodeiam as
ruínas da milinária Kursi. (N. Do M.)
*1 Esta estrada romana corria então em nível superior ao da
estrada que bordeja o lago actualmente. Marcos e lanços da mesma
podem ver-se ainda hoje nos arredores do kibbutz de Ein-Guev,
assim como nos salto à vida pública do Mestre. As coisas ter-se-iam
passado como no-lo contam os escritores sagrados? Mas demos
tempo ao tempo.
O Pai Natal alertou-nos. Kursi, segundo as suas informações,
albergava então uma notável guarnição romana, dependente das
legiões estacionadas na Síria, Tal dado, na previsão de futuros
encontros com os legionários foi tido muito em conta.
O porto de Gérasa tal como a cidade, era também um dos maiores
e i mais bem equipados da costa oriental. Um terrapleno, que fazia
as vezes de molhe, quebrava a linha do litoral, curvando-se em
forma de arco e com um comprimento de cento e cinquenta metros.
Terminava na sua zona norte, formando um estreito canal. Em terra,
um cais de cem metros de comprimento e vinte e cinco de largura
completava o recinto portuário. O grande terrapleno tinha sido feito
com grandes pedras de basalto que chegavam a ter um metro de
espessura, solidamente apoiadas nos seus flancos. A norte do
embarcadouro detectámos também uma piscina rectangular de três
por cinco metros, esmeradamente branca no seu interior e cheia de
peixes. Estávamos perante uma insólita realidade: já então
prosperava a piscicultura...
A piscina não se alimentava da água do lago (As surpresas que se
nos apreSentaram de um canal que partia do rio Samak foram
constantes.) mas de construções hidráulicas.
As sondagens do radar revelaram a presença, em frente da

desembocadura do rio, de um extenso banco de pedras que, sem
qualquer dúvida, fazia daquele lugar uma das mais ricas zonas de
pesca. Estas deduções ver-se-Iam plenamente confirmadas na última
expedição. Com efeito, o termo samak, nas línguas ugarítica, árabe
e aramaica, significa peixe e peixes. A curta distância de Kursi,
sempre para sul, no sopé de um montículo de quarenta e quatro
metros de altitude, as filmagens infravermelhas e os sensores
externos detectaram um manancial de águas sulfurosas, que
brotavam a trinta graus centígrados. Este tipo de águas termais
em especial na margem ocidental era bastante comum e
sabiamente aproveitado pelos naturais do Kennereth. A meio
quilómetro deste promontório, outra fonte semelhante irrompia nas
águas do lago, provocando uma permanente e branca nuvem de
enxofre em suspensão.
Já na secção cinco, junto a minúsculas aldeias portuárias que não
conseguimos identificar, sobrevoámos o segundo porto importante
da costa leste. A verdade é que as dimensões e configurações do
cais não eram consentâneos com a cerca da centena de pequenas
construções que constituíam o lugarejo situado junto dos molhes.
Esta aldeia estava ligada a uma povoação muito mais densa,
acocorada a trezentos e cinquenta metros sobre o nível do lago,
muma meseta isolada e separada do mar por cerca de dois
quilómetros. A estrada romana subia até ao alto da cidade,
ramificando-se depois noutra via secundária, mais estreita, que
terminava no citado porto.
Este, como ia dizendo, apresentava características únicas. O
molhe principal tinha um comprimento de cento e vinte metros, com
uma largura de cinco a sete metros na sua base. Partia
perpendicularmente à costa e uns quinze metros depois, mudava de
direcção, correndo paralelamente ao litoral, em direcção a sul. Este
segundo lanço tinha um comprimento de oitenta e cinco metros.
Subitamente, o terrapleno mudava de orientação, virando para
oeste. Este curioso Z invertido, maltratado sem dúvida por ventos
do sul, tinha sido fechado por um segundo molhe de quarenta
metros, que seguia perpendicularmente a partir da costa. O que
mais nos intrigou foi aquele cais de vinte metros de comprimento
que penetrava para oeste, em águas relativamente profundas

(quatro a cinco metros). Talvez servisse para a atracagem e
operações de carga e descarga, sem necessidade de penetrar no
porto. (Durante o terceiro salto resolvemos esta incógnita, assim
como a razão daquela área portuária aparentemente tão
desproporcionada.
Posso adiantar desde já que o lugarejo de pescadores e a cidade
da meseta Hipos ou Susita eram na realidade uma e a mesma
povoação. Tinha sido fundada em meados do século iII a.
C. como um florescente empório helenístico. Depois de cair nas
mãos de Pompeu e aderir ao pacto que vinculava as cidades da
Decápole, foi reconstruída, crescendo e transformando-se no
segundo aglomerado urbano da costa oriental do mar de
Tiberíades.) Ao entrar na secção sete, a nave foi girando e tomou a
radial duzentos e sessenta. Aquele percurso sobre o extremo
meridional do lago foi especialmente confuso. Nos mapas da
Operação Cavalo de Tróia apontava-se a existência de, pelo menos,
três ou quatro cidades de algum relevo: Bet- yeraj, Senabris, Taricha
e Kinnereth ou Kennereth. Na hora da verdade, as coisas não foram
tão simples como tinham previsto e traçado os peritos. É que o sul
do lago constituía de facto um todo urbano.
Estas povoações estariam certamente ali, mas tão entrelaçadas
que, a partir dos nossos oitocentos pés de altitude, era impossível
precisar onde começava uma e terminava outra. Centenas de casas,
edifícios públicos, torres, celeiros, casas de campo e cabanas
espalhavam-se por uma planície de quase quatro quilómetros. De
semelhante metrópole, se me é permitida a expressão, partiam
várias rotas de caravanas. Uma para Citópolis, no Sul. Outra subia
pelo leste do lago e uma terceira demandava o litoral ocidental. A
este nó de comunicações tinha de acrescentar-se uma intrincada
teia de aranha de veredas e caminhos secundários que bordejavam
e delimitavam inúmeras parcelas de regadio, pequenos pomares e a
massa verde-azulada da mata que abobadava a segunda
desembocadura do Jordão. O progresso daqueles núcleos humanos
devia ser esplêndido, a julgar, por exemplo, por um dos celeiros,
situado a um quilómetro da margem sul do Kennereth: de construção
circular, dispunha de dez torres de oito a nove metros de diâmetro
cada.

Ao contrário do que tínhamos visto no resto do lago, esta zona
não dispunha de portos artificiais. As escassas embarcações
alinhavam-se na foz do rio e numa laguna de duzentos metros de
comprimento por cinquenta de largura, localizada a sul da referida
segunda desembocadura.
O braço de terra que separava essa laguna do mar de dois a
seis metros de largura parecia inteiramente natural.
Provavelmente tinha sido formado pelo arrastamento de
sedimentos e pelo bater contínuo das ondas. Os habitantes do
lugar limitaram-se a estreitar a abertura da enseada, na zona sul,
com um curto terrapleno de quatro metros.
Naquela altura não nos demos conta de outro interessante
fenómeno.
Ao estudar e contrastar as imagens e os dados recolhidos no
circuito aéreo, comprovámos que, naquele tempo, a segunda
desembocadura do Jordão não ocorria no local que hoje
conhecemos. O antigo leito encontrava-se a um quilómetro e meio
mais a norte. (No século xx, entre a moshava de Kinnereth e o tell
de Bet-Yeraj). O Pai Natal esclarecia em parte o assunto. Ao que
parece, se bem que arqueólogos, geólogos e demais especialistas
não estejam completamente de acordo, as causas desta variação no
curso do rio haverá que procurá-las num forte sismo registado pouco
depois da época bizantina, ou seja, há cerca de mil anos.
Outra das obras a destacar naquele lanço sudoeste do mar de
Tiberíades, que demonstrava o grau de prosperidade e
desenvolvimento técnico da Galileia de Jesus era uma tubagem de
vinte quilómetros de comprimento que, partindo do rio Yavneel, a
sul, se dirigia para norte , atravessando as populações meridionais
do lago e a cidade fortificada de Hamat, para terminar na
esplêndida e luminosa Tiberíades.
Esta singular obra de engenharia, construída a céu aberto,
assentava sobre dezenas de pequenas pontes, avançando
penosamente pelo sopé das colinas e ramificando-se numa
infinidade de valas e pequenos canais que abasteciam de água os
vários aglomerados humanos, os moinhos de farinha e a agricultura.
(Mais tarde tivemos conhecimento de que esta BetlYeraj et

SenabgSa se deveu ao esforço conjugado de Tiberíades, A cinco
quilómetros e meio a norte da primitiva segunda desembocadura do
Jordão. O berço sobrevoou Hamat, uma das três cidades fortificadas
do território da tribo de Neftali 3. Também aqui foram detectadas
fontes termais. Na realidade, se não fosse a muralha que a
envolvia, Tiberíades teria passado a nossos olhos como um
prolongamento de Tibe, Como descrever a pérola do lago?
Tiberíades era então, sem qualquer dúvida a capital do Kennereth.
A partir da porta do norte da muralha de Hamat estendia-se branca
e impecável, ao longo de uma estreita faixa do litoral de apenas
quinhentos metros, com uma extensão de uma milha.
Um monte de cento e noventa metros de altitude ocupava o seu
flanco oeste. Na encosta, Herodes Antipas tinha mandado erguer
uma espessa muralha de quarenta e cinco metros de altura que,
ziguezagueando, servia de protecção à novíssima cidade. No topo
do promontório levantava-se a mais poderosa das fortalezas
daquela região da Galileia: um castelo de pedras negras e
elegantes paredes de calcário que faiscavam ao sol e que, como
pudemos comprovar na devida altura constituía o palácio de Inverno
do detestável filho de Herodes, o Grande.
*1 - Os curiosos e visitantes podem hoje identificar o palmeiral ali existente (o
Hjardim de Raquel,), plantado em memória da citada poetisa. (N. Do M.)
2 O primeiro dado histórico sobre esta mudança no leito do Jordão remonta ao
ano 1106, quando um peregrino russo um tal Daniel observou «como do Kinnereth
partiam dois braços de água que a meio quilómetro da margem, se uniam a um rio
chamado Jordão». Com efeito, estiveram à vista até ao ano 1950 os restos de uma
ponte romana levantada sobre o antigo leito do Jordão. (N. Do M.)
3 Segundo Josué (19, 35), estas três cidades fortificadas eram Hamat, Raqat e
Kinnereth. Mesmo antes da conquista da terra de Israel, Hamat e seus arredores eram
famosos Pelas nascentes de água quente, pelo clima suave e pelas suas paisagens
paradisíacas. Num Papiro do século xiI a. C.
(Anastácio I) qualifica esta zona de Hamat como «lugar de passeio». Na verdade a
beleza e placidez daquela zona litoral só podia comparar-se com a não menos célebre
várzea de Ginosar, na costa norte. (N. Do M.) 4 Ao que parece, Tiberíades foi
fundada por volta do ano 20 da nossa era por Herodes Antipas, um dos filhos de
Herodes, o Grande. O seu nome deve-se a um gesto de clara adulação de Antipas
para com o imperador Tibério. A verdade é que, apesar de ter sido edificada nas
proximidades de um cemitério circunstância que indignou os judeus -, no ano 30 tal

facto tinha praticamente sido esquecido pelas gentes da Galileia. Como terei ocasião
de relatar, nas suas ruas conviviam gentios e hebreus de todas as proveniências, que
não pareciam muito preocupados pelo repugnante sacrilégio de Herodes. (N. Do M.)
Esta cadeia de colinas, que protegia Tiberíades dos fortes ventos do oeste,
encontrava-se perfurada por numerosas grutas. Numa delas, aberta para poente e a
curta distância da face ocidental do castelo, os sensores detectaram uma forte corrente
de ar quente, assim como altos índices de vapor de água. Suspeitámos que a gruta em
questão devia estar ligada com um dos numerosos mananciais de águas termais que
desembocavam também nos limites da cidade.
Tiberíades era um modelo de construção tipicamente helénica. Uma via principal abria
passagem de norte a sul, com duas portas monumentais nos seus extremos. O resto,
traçado a régua e esquadro, girava em torno dessa artéria principal, com ruas, praças
e jardins meticulosamente desenhados, com grande número de edifícios que
rivalizavam em mármores, colunatas e fontes públicas. (Quando o Destino quis que eu
e meu irmão entrássemos em Tiberíades, a magnificência do lugar impressionou-nos.
Só as sinagogas eram em número de treze e o seu mercado, teatros e o edifício do
Conselho de Cidadãos ultrapassavam tudo o que possa imaginar-se.) O porto
decepcionou-nos. Embora espaçoso, não estava de harmonia com a categoria da
cidade. Além disso, apresentava-se ainda por acabar.
Três molhes de cem, duzentos e oitenta metros, respectivamente, formavam com o
cais costeiro um rectângulo, aberto pelo norte e, isso sim, habilmente protegido dos
temíveis ventos do Leste (o sharqiya) e do tempestuoso vento sul qibela.
A cerca de duas milhas e meia a norte de Tiberíades, seguindo a costa ocidental,
localizámos as ruínas de uma pequena povoação possivelmente a antiquíssima Raqat
1 espalhadas pela encosta oriental do actualmente denominado tell de Aqlatiya. A
seus pés morria um riacho, atravessado pelas lajes cinzentas e gastas de uma das
ramificações da Via Máris. No pequeno delta brotavam outras quatro fontes termais.
As filmagens IR detectaram umas sete correntes submarinas com temperaturas de
trinta graus centígrados que se perdiam no mar, a uns doze metros de profundidade.
Na base do tell foram captadas imagens de dois reservatórios de oito e doze metros
de diâmetro, respectivamente, com muros enormes de mais de cinco metros de altura.
A água armazenada nos mesmos devia servir para a irrigação das terras circundantes e
ainda de uma boa parte do vale que se prolongava, acompanhando o rio, até ao
desfiladeiro do Hittim no oeste. (Esta apertada garganta, também conhecida como
cornos de Hittim ou Hattim, encontra-se no caminho de Nazaré para o lago e, como
pormenorizarei na devida altura, foi de grande utilidade para a ocultação do nosso
módulo.) O último lanço deste périplo parte da secção doze e a Galileia-13 foi
simplesmente espectacular.
*1 - Raqat outra das povoações fortificadas do lago, remontava ao terceiro milénio,
sendo contemporânea de Bet-Yeraj. A sua existência prolongou-se até fins do período

do primeiro Templo. Os árabes dão actualmente ao vale de Raqat e às suas fontes o
nome de Fuliya, embora o local também seja conhecido como jardim dos russos,, por
causa do convento levantado na zona pela igreja ortodoxa russa de Moscovo, em fins
do século acx. (N. Do M.)
A nossos pés apareceu o mítico jardim de Ginosar: um vale de
quase sete quilómetros quadrados onde não foi possível descobrir
um único palmo de terra por cultivar. Era um autêntico vergel, cheio
de nogueiras, palmeiras, oliveiras, figueiras e centenas de
pequenas e médias hortas, abundantemente irrigadas por três rios
que desciam da cordilheira noroeste (os chamados montes da
Galileia, situada a cerca de seis quilómetros da costa do Kennereth.
Esta várzea cantada por Flávio Josefo 1, era o orgulho de todo o
mar de Tiberíades. Estreito nos seus extremos, o vale ia-se
alargando, até atingir uma largura máxima de quilómetro e meio. O
jardim apresentava-se praticamente dividido ao meio por uma colina
pedregosa cuja encosta oriental se espraiava suavemente até à
costa. Nessa encosta observámos pela primeira vez uma cidade de
uns três mil pés de comprimento. Era menos vistosa que a sua
vizinha Tiberíades, de ruas empedradas e casas de um só piso que
desciam até ao porto, muito semelhante ao de Cafarnaum, no qual
homens, fileiras de cavalgaduras pela arreata e embarcações se
misturam em frenética actividade.
Aquela povoação, em que passaríamos horas inolvidáveis, era
Migdal ou Magdala: a cidade de Madalena. À sua volta, entre a
espessa vegetação, reluziam valas, canais e reservatórios de água
de todas as dimensões. Dois deles surpreenderam-nos
especialmente pelas suas dimensões e localização. O primeiro, na
encosta da colina, tinha uns vinte e sete metros de diâmetro.
O segundo, no meio da povoação, tinha sido construído sobre
uma torre circular de seis metros de altura. A abundância de água
em Migdal e no resto da várzea ficou explicada não só pelo caudal
dos rios como, sobretudo pelos ricos mananciais subterrâneos que
afloravam por todo o lado. Um destes mananciais (actualmente
conhecido pelo nome de Ein-Nun) proporcionava um caudal da ordem
dos dois milhões de metros cúbicos de água por ano. A maior parte

deste caudal perdia-se no lago sob a forma de nacho.
E foi ali, na desembocadura da torrente, que os sistemas de bordo
descobriram algo que nos alarmou: as águas continham um gás
nobre o rádon e um índice de radioactividade superior ao
tolerado pelo organismo humano. As investigações posteriores,
efectuadas no local, confirmariam que uma parte da população de
Migdal e dos que bebiam actualmente da referida fonte se
encontrava afectada em maior ou menor medida por uma doença
bem conhecida no século xx 1.
*1 Na sua obra Guerras dos Judeus (3,10,8), Flávio Josefo faz a seguinte
descrição do vale de Ginosar: «Ao longo do mar estende-se uma terra chamada
Ginosar, maravilhosa pela sua disposição e beleza. E a terra desta zona é fértil e, por
isso, não tem falta de vegetação, pois os seus habitantes semearam nela toda a
espécie de plantas. Porque o clima é agradável e bom para toda a espécie de
plantações. Há inúmeras nogueiras que são dentre todas as árvores aquelas que mais
gostam do frio, e junto delas levantam-se palmeiras, que absorvem o calor do sol e
perto destas crescem figueiras e oliveiras, para as quais é bom um clima intermédio,
pois pode dizer quem isto escreve Que a Natureza combinou as suas forças para reunir
aqui todas as diferentes espécies, que competem umas com as outras» ...) (N. Do M.)
Meio quilómetro a norte do porto de Migdal sobressaía o último
aglomerado humano naquela zona da costa. Dispunha de um
pequeno embarcadouro e as suas dimensões eram notavelmente
inferiores às da industriosa terra de Maria Madalena. Segundo o
computador central, dada a sua localização muito próxima do pico
denominado Kinnereth -, podia tratar-se de uma quase esquecida
aldeia bíblica, de nome Guinosar, mencionada por Marcos, o
Evangelista, no seu capítulo 6, versículo 53: ... «e passaram Jesus
e os seus discípulos) e chegaram à terra de Guinosar e
aproximaram-se da costa. E estavam ainda a sair do barco quando
os habitantes do lugar O reconheceram».
Dois quilómetros mais acima, fechando o vale, divisámos por fim
as vertentes escarpadas e vermelhas do Kinnereth com os seus
oitenta e sete metros de altitude. Do outro lado, a cerca de meia
milha, encontrava-se o ponto de contacto: a base mãe-2.
Muito perto de Kinnereth sobrevoámos a não menos evangélica
terra de Tabja (em grego, Heptapegón: lugar das sete fontes), que

a tradição cristã associa à pesca milagrosa.
(Uma tradição, diga-se de passagem, igualmente errada. A
famosa pesca, como pude verificar, nem foi milagrosa, nem
aconteceu naquela minúscula baía, tão apreciada pelos pescadores
galileus.) Na realidade, mais que uma aldeia, aquele local, com a
sua meia-dúzia de cabanas, parecia um reduto industrial, com três
fontes importantes e inúmeros mananciais que forneciam água a um
complexo sistema hidráulico, integrado por moinhos e uma densa
rede de canais.
Um dos mananciais, localizado no fundo de uma piscina octogonal
de vinte metros de diâmetro e oito de profundidade, deixou-nos
atónitos. O seu caudal oscilava então entre mil e quinhentos e três
mil metros cúbicos por hora. Naquela altura não compreendemos a
utilidade de tais águas, de natureza sulfurosa e aflorando a vinte e
sete graus centígrados. A pequena enseada, de uma grande riqueza
piscícola, tinha sido equipada com dois cais de cinquenta e trinta e
cinco metros. O primeiro em forma de arco; o segundo, prependicular
à costa.
Finalmente, às oito horas, sete minutos e oito segundos, depois
de um voo quase perfeito, o berço pousava de novo na laje de
pedra da encosta sul do até então suposto monte das Bem-
Aventuranças. Como é de imaginar, embora o controlo durante o
périplo de reconhecimento do lago tivesse sido contínuo, a nossa
primeira preocupação quase obsessão - ao regressar a terra
dirigiu-se para a verificação das resérvas de combustível.
O consumo, tal como o Pai Natal tinha fixado, não ultrapassou as
duas toneladas: 1988,6 quilos. Isso reduzia o volume total do
remanescente para cerca de 47,5 por cento. A partir desse
momento, se na verdade desejávamos voltar a Massada, a ignição
do J 85 deveria ficar desligada ou, quando muito, limitada a uma ou
duas operações de curtíssima duração. A eventual transferência da
nave para um lugar mais seguro constituiria uma dessas
indispensáveis manobras.
*1 Segundo as informações em poder do Cavalo de Tróia, a perigosidade destas
àguas obrigou o Governo de Israel a proibir nos anos cinquenta, o seu consumo, pondo
marcha a um plano de aproveitamento das suas propriedades medicinais. Ao que

parece, passados alguns dias o referido gás acaba por desvanecer-se,
desaparecendo da água os elevados índices de radioactividade. (N. Do M.)
De acordo com o programado, aquela terça-feira, até já bem
entrada a noite, foi destinada à recolha das imagens, perfis
topográficos e mapas que deveriam servir de guias e sustentação
ao olho de Curtiss. A laboriosa tarefa vital para a obtenção de um
máximo de dados nas aparições que se aproximavam
proporcionou-nos algumas surpresas, muito sugestivas do ponto de
vista científico. Por exemplo: ainda que a sua forma de pêra
invertida e as suas dimensões 1 não tenham aparentemente
variado, as análises revelaram que, há dois mil anos, o lago era
ligeiramente mais estreito. A linha da costa passava por lugares
actualmente submersos. (A quase totalidade dos portos descritos
encontra-se hoje oculta sob as águas. Felizmente, graças às
modernas técnicas de arqueologia e exploração submarinas, tais
vestígios estão a ser localizados. Oxalá que num futuro próximo,
tudo o que aqui se narra possa ser ratificado por essa moderna
disciplina científica.) Isto significa que, no tempo de Jesus, o nível
do mar de Tiberíades era sensivelmente mais baixo: cerca de dois
metros em relação ao de hoje.
*1 O mar de Tiberíades, da Galileia ou Kennereth, como comummente se
denomina, mede vinte e um quilómetros de norte a sul. A sua largura máxima
corresponde à linha Migdal-Kursi, com doze quilómetros. Geologicamente, o lago é
muito jovem,: quinze mil e trezentos anos antes da era cristã. A depressão em que
assenta é parte de uma bacia muito mais antiga formada pelos rios Jordão e Aravá
que, por sua vez faz parte da grande fractura sírio-africana. De todas as falhas
continentais, a do Jordão é a mais profunda. No Plistoceno há um milhão ou milhão e
meio de anos -, uma dessas fracturas telúricas determinou a forma actual do
Kennereth. Durante o Plioceno, o mar irrompeu através do vale de Yizreel e de Bet-
Shean alcançando a bacia do Jordão.
E assim continuou até que as alterações geológicas e climáticas isolaram este mar
interior. Este último mar plistocénico existiu na referida bacia do Jordão entre os anos
75.000 e 17.000 antes da nossa era. Estendia-se desde o Kennereth, a norte, até
Hatzevá, a sul do mar Morto. As suas águas eram salgadas com um nível que era trinta
metros mais baixo que o do lago que hoje conhecemos. No seu fundo encontrava-se
um material maleável denominado argila de línguaH. (Daí, também, outro dos nomes
por que é conhecido: mar da LínguaH.) Depois do Plistoceno, cerca do ano 20.000 a. C.,
Israel sofreu uma importante alteração climática. O clima húmido tornou-se mais seco e
as abundantes chuvas diminuíram. Deste modo, no grande mar da Língua iniciou-se um

processo de dessecação que, com o passar do tempo, acabaria por torná-lo no que
hoje conhecemos como mar Morto, no Sul e mar de Tiberíades, no Norte. Este último
herdou as suas margens principais do referido mar anterior: a oeste e leste, as linhas
da grande fractura; a norte, a barreira de basalto e a margem sul a mais jovem.
Esta constituiu-se como consequência dos sedimentos que o rio Yarmuk arrastava,
elevando-se de oito a dez metros sobre o nível do lago. Muito antes de o Kennereth ou
mar da Galileia adoptar a sua forma definitiva, o Jordão vertia já as suas águas doces
no mar da Língua, abrindo lentamente passagem até alcançar a costa norte do mar
Morto. Desde muito cedo, estas paragens exerceram um poderoso influxo sobre todas
as culturas. Nas margens do lago foram encontrados restos das mais variadas épocas
pré-históricas. Não falando dos descobertos em África, um dos assentamentos
humanos mais antigos do planeta foi localizado precisamente em Batar Abudiya a três
quilómetros a sul do mar da Galileia junto ao kibbutz de Bet-Zerah. Estes homens
primitivos os primeiros a povoar a Terra Santa chegaram a Israel há três ou quatro
milhões de anos, procedentes do continente africano, através da citada fractura sirioafricana.
Estabeleceram-se nas margens do mar de água doce, alimentando-se da
abundante caça e de uma rudimentar agricultura. Estas tribos assistiram às últimas
fases de depressão do Jordão. Prova disso é o facto de os restos dos seus utensílios e
sedimentos terem aparecido num estrato com uma inclinação de sessenta graus. (fim
de nota).
Também foi possível constatar outro interessante fenómeno: o
Kennereth move-se para sul. Isso deve-se a um duplo processo. Por
um lado, o contínuo bater das ondas está a minar e a fazer
retroceder a costa meridional, à razão de dez centímetros por ano2.
Por outro lado, no extremo oposto verifica-se o fenómeno contrário:
a acumulação de sedimentos do Jordão alargam o delta, fazendo
avançar a linha nordeste da costa.
O perfil submarino do lago interessava-nos especialmente.
Um conhecimento exacto da sua configuração poderia
proporcionar-nos elementos de juízo para, futuramente, valorar na
sua justa medida alguns dos prodígios protagonizados pelo Rabi e
aos quais aludem os textos evangélicos. A famosa tempestade que,
segundo as Escrituras, foi amainada por Jesus, e a já referida pesca
milagrosa tinham despertado a minha curiosidade. Terão esses
factos ocorrido exactamente como são narrados pelos evangelistas?
Por isso, como dizia, era importante conhecer a sua estrutura,
correntes, ventos e demais factores meteorológicos, físicos,

geográficos e bioecológicos, próprios do Kennereth. Comprovámos,
por exemplo, que o seu fundo era assimétrico. A costa oriental
descia bruscamente. Foi aí, entre Ein-Guev e Kursi, que registámos a
máxima profundidade: 253 metros abaixo do nível do Mediterrâneo.
(A altura média do nível do lago era então de duzentos e oito
metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo.
Actualmente, o Kennereth anda à volta dos duzentos e dez metros,
se bem que em muitos mapas modernos, por erro, figure a cifra de
duzentos e doze metros. Isto faz do mar de Tiberíades o lago de
água doce mais baixo do Mundo.) Estes 253 metros representavam
uma fossa de quarenta e um metros. O litoral oeste, em
contrapartida, à excepção da área da cidade
*1 Já em 1869, o escocês McGregor levou a cabo as primeiras explorações do
lago, embora as marés de Inverno o tenham impedido de encontrar vestígios
importantes. Anos mais tarde, em 1970, a Associação para a Investigação
Arqueológica Submarina de Israel, através de Abner Raban e J. Shapiro, teve a sorte
de localizar os portos de Kursi, Migdal e Tabja. (N. Do M.)
2 Segundo os especialistas israelitas, entre os anos 1940 e 1970, este ritmo de
destruição da costa azul do lago atingiu a sua expressão máxima, em consequência
dos seguintes factores: a construção da barragem de Degania (em 1932) e do Canal
Nacional (em 1963). Estas obras provocaram um aumento nos níveis do lago. Ao
mesmo tempo, o desenvolvimento de uma agricultura intensiva no vale do Jordão fez
aumentar o volume das águas que chegavam à referida costa meridional, promovendo
a erosão. Com efeito, o litoral sul recuou a um ritmo de trinta-quarenta centímetros por
ano. Como consequência de tudo isso, a margem sul ficou submersa.
Testemunhas mudas deste lamentável processo são as bananeiras e as vinhas que
acabariam por tombar sobre as águas, deixando a descoberto algumas secções dos
canais que as irrigavam. Os mergulhadores comprovaram de igual modo que as
colunas de betão que foram implantadas na zona como defesas antitanque pelo
Exército judaico se encontram actualmente no fundo do Kennereth. (N. Do M.)
As imagens de infravermelhos explicariam o porquê das extensas
franjas castanhas que coloriam a superficie do lago naquela altura e
que, numa primeira análise, interpretámos como resultado das terras
arrastadas pelas águas do Jordão e demais rios que desaguavam
no lago. Estávamos, na realidade, perante uma maciça colonização
de algas, do tipo peridimiium (1). Obviamente, tal como previam
os projectos dode Tiberíades, como em 3 de Dezembro de 1986. De

facto, os vestígios de alguns dos portos das cidades percorridas por
Jesus actualmente ocultos sob as águas do mar de Tiberíades
estão a ser localizados pela moderna arqueologia submarina.
Descia de forma mais suave. O resto da bacia acusou uma
profundidade média de vinte e cinco metros com um volume
aproximado de quatro mil e trezentos milhões de metros cúbicos de
água.
*1 O Peridinium é uma alga esférica protozoária do grupo das «brilhantes». A partir
do mês de Janeiro reproduz-se maciçamente e entre Fevereiro e Abril, aparece em
largas zonas do lago. Os nossos sistemas detectaram naquela altura um número de
três mil e trezentas unidades por centímetro cúbico.
Com a luz matutina este género de alga sobe até à superfície colorindo-a com um
castanho intenso. Às primeiras horas do dia, recebida a natural radiação solar,
submerge-se de novo, concentrando-se em profundidade. Os pescadores do lago
conheciam muito bem este ritmo e a circunstância de uma das espécies piscícolas, a
«tilápia» se alimentar Precisamente deste tipo de alga. Assim introduziam-se ao
amanhecer nos bancos de peridinium, obtendo desse modo importantes capturas.
(N. do M.)
Cavalo de Tróia, os estudos do Kennereth deveriam ser concluídos
a partir de terra. Eliseu seria o responsável por boa parte dessas
investigações científicas, que incluíam capítulos tão ambiciosos
como o acompanhamento dos ciclos do nitrogénio e do fósforo, da
cadeia alimentar do lago, informações sobre as duas diferentes
camadas, fitoplâncton, transparência, oxigenação e níveis das suas
águas, principais ventos e correntes, salinidade, evaporação,
natureza dos mananciais sulfurosos, fauna e, de uma maneira geral,
tudo o que concerne à moderna ciência da limnologia (estudo dos
lagos e pântanos). Este banco de dados: além de nos enriquecer e
de enriquecer o projecto, foi de uma ajuda inestimável nas
movimentações e aventuras em que a partir de então nos vimos
envolvidos. Mas há que prosseguir, porquanto as forças se vão
diluindo e muito resta por contar...
Como julgo ter explicado, uma das regras da operação proibia a
presença dos expedicionários em momentos, digamos, de certa
intimidade entre Jesus e seus discípulos, como ocorrera, por
exemplo, no decurso da chamada última ceia.
Neste caso, a situação foi compensada com informações indirectas

e mediante a ocultação de um microfone especialmente sensível na
lanterna que iluminava a mesa do cenáculo. No entanto, tendo em
conta o grave risco que representaria o abandono ainda que
apenas temporário destes dispositivos electrónicos num quadro
histórico desajustado, os directores do Cavalo de Tróia acordaram
em substituir tais sistemas por outro, incomensuravelmente mais
seguro e eficaz. E o general Curtiss, com a sua proverbial
habilidade, conseguiu da AFOSI (Agência de Investigações Espaciais
da Força Aérea norte-americana) um protótipo quase mágico que,
com rara oportunidade, foi baptizado pelos homens do projecto com
o nome de olho de Curtiss. O berço foi equipado com seis dessas
maravilhas da engenharia electrónica: umas esferas de aço de 2,19
centímetros de diâmetro,
totalmente blindadas, susceptíveis de serem lançadas a partir do
módulo e convenientemente camufladas na faixa do espectro IR,
teledirigidas a distâncias não superiores a dez quilómetros,
podendo mesmo imobilizar-se a uma altitude de mil metros. Estes
equipamentos que fariam hoje as delícias dos serviços de
espionagem de todo o Mundopermitir-nos-iam registar cenas e
conversas que, em condições normais, seriam de difícil ou
impossível acesso 1.
*1 Embora o olho de Curtiss entre especificamente no âmbito do segredo militar,
não estando eu, portanto, autorizado a revelar as chaves dos seus microssistemas,
acho que não violo nenhuma norma se me limitar unicamente a referir as funções que
estiveram directamente relacionadas com o nosso trabalho. Em síntese, estas esferas
tinham sido dotadas de várias câmaras fotográficas electrostáticas, com uma
propulsão magnetodinâmica que, como eu dizia, lhes permitia elevarem-se até uma
determinada altitude, podendo captar imagens fotogramétricas e toda a espécie de
sons. No seu interior tinha sido instalado um microfone diferencial, integrado por 734
células de ressonância, cada uma delas sensibilizada numa gama muito restrita de
frequências acústicas. O campo de audição estendia-se dos dezasseis até aos
dezanove mil e quinhentos ciclos por segundo. Os níveis compensados, - com resposta
praticamente planadispõem de um limiar inferior aos seis decibéis. (É preciso
acrescentar que as células de registo de frequências infra-sónicas devido às suas
microdimensões" não funcionam com ressonância própria.) O nível de corte superior era
de cento e dezoito decibéis.
Outro dos dispositivos instalado no olho de Curtiss" consistia num detector de hélio
líquido extremamente preciso, capaz de registar frequências electromagnéticas que se
estendem desde a gama centimétrica até à banda beaa. O equipamento de resto

discrimina frequências, amplitude e fase, controlando, simultaneamente o tempo em
que se verificou a detecção.
Também dispõe de um emissor de banda múltipla, e gerador de ondas
gravitacionais, que era de grande utilidade nas comunicações com os órgãos de
controlo situados no berço, assim como de um retransmissor para a informação
captada pelos vários equipamentos. O «olho» podia imobilizar-se no ar, graças a um
equipamento, igualmente miniaturizado, de nível gravitacional, que lhe permite ficar
«estacionário» a diferentes altitudes mediante o registo do campo gravitacional e o
correspondente dispositivo propulsor. A medição do campo faz-se lhe permite o registo
do campo um acelerómetro que valora a constante g em cada ponto, controlando o
comportamento de queda livre de uma molécula de SCN2 Hg (.tiocianato de mercúrio).
O delicado engenho podia deslocar-se de acordo com dois sistemas de controlo. Em
alguns casos, um transceptor de campo gravitacional em alta frequência emitia
impulsos codificados de controlo que eram automaticamente corrigidos quando o olhoH
se encontrava nas imediações de um obstáculo. O operador, a partir de terra podia
observar num ecrã todo o campo visual detectado pela esfera. Este procedimento era
complementado mediante a Hcarga de uma sequência de imagens e perfis
fotográficos do terreno que se desejava «espiar». Daí a importância do «circuito», aéreo
sobre as treze secções em que o litoral do lago tinha sido dividido. Esse impulso
televisual servia de «guia» ao «olho de Curtiss». A sucessão de imagens levava fixada a
trajectória, que por sua vez era memorizada numa célula de titânio cristalizado quir,
llómente puro.
Dentro do olhoH microcâmara, cujo filme foi substituído por um ecrã que traduz a
recepção de fotões em impulsos eléctricos, recolhe as sucessivas imagens dos locais
sobrevoados pela esfera. (A sensibilidade desse ecrã vai até uma frequência de 7.102
ciclos por segundos, O espectro infravermelho -, sendo assim possível a sua orientação,
mesmo em plena escuridade.) Tais imagens são sobrepostas, às registadas na
memória e que, insisto, eram previamente captadas pelo módulo no referido voo. À
volta do mar de Tiberíades Este equipamento óptico explora ambas as imagens e,
quando as primeiras não coincidem com as memorizadas, alguns impulsos de controlo
corrigem a trajectória dos equipamentos propulsores e de direcção. Deste modo, o
«olho de Curtiss», pode orientar o seu movimento sem necessidade de manipulação
exterior, teledirigida. No nosso caso, o controlo a partir do berço foi praticamente
contínuo.
Lamentavelmente, hoje em dia uma parte deste prodigioso sistema acabou por
penetrar em outros círculos mas que, embora de forma incompleta começaram a
desenvolver o que designam nto sistema de guia TERCOM (Terrain Contour Mapping) e
sistema MAC (Scene atching Area Correlation), tristemente conhecidos pelo seu uso
como guias de míssão. (N. Do M.)

Nas iminentes aparições do Ressuscitado aos seus íntimos
teríamos ocasião de comprovar o grau de eficácia do olho de Curtiss
. Se não fosse ele, alguns dos acontecimentos que se passaram nas
margens do lago teriam ficado mutilados ou lamentavelmente
deformados.
Dava-se, além disso, outra circunstância que, por si mesma
justificava a utilização destes minúsculos, quase humanos,
dispositivos. No caso por exemplo, das aparições de Cristo no lago,
nenhuma das passagens evangélicas relata com exactidão em que
ponto da costa ou do interior se registaram.
Todas as suspeitas apontavam para as áreas de Betsaida ou
Cafarnaum e para o monte das Bem-Aventuranças. Mas isto não era
suficiente nem rigoroso. Daí que, chegado o momento na suposição
de não me encontrar presente, um destes olhos, poderia
previamente ser programado e ser conduzido para o local desejado,
registando imagens e sons.
E a jornada foi-se assim extinguindo. Eliseu e eu próprio
aguardámos impacientes o novo dia. Os planos da operação iriam,
uma vez mais, ser modificados em plena marcha.
19 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
Previdente e meticuloso, o meu irmão avisou-me. As reservas
alimentares e de água estavam a esgotar-se. Estas coisas,
aparentemente de pouca importância, desempenhavam também o
seu papel. E, por vezes, como adiante se verá, forçaram-nos a
mudanças bruscas nos planos. Neste caso, a alteração do programa
revelar-se-ia providencial. Os víveres, como já expliquei, tinham sido
programados para doze dias.
Reduzindo a dieta poderíamos resistir até ao meio-dia de sextafeira,
21. Mas também não era caso para nos estarmos a preocupar
demasiado com questões desta índole. As nossas forças e
inteligências deveriam estar prontas e disponíveis para

necessidades menos prosaicas. De modo que, de mútuo acordo,
decidimos quebrar com o que tinha sido programado pelo Cavalo de
Tróia. Nessa mesma quarta-feira, 19 de Abril, desceria à povoação
próxima, em busca de alimentos. Mas antes, aproveitando a serena
e ensolarada manhã, tentaríamos resolver um outro assunto.
A colina continuava deserta. Isso encorajou-nos a pôr em marcha a
nossa primeira saída conjunta do módulo. A temperatura no exterior
- onze graus centígrados às sete horas -, com possibilidades
seguras de ir aumentando até aos vinte e um ou vinte e dois até ao
meio-dia, e uns quarenta e nove e meio por cento de humidade
relativa, anunciavam um dia temperado, muito adequado aos nossos
propósitos.
Sem reprimir a emoção, Eliseu trocou o seu habitual fato de
trabalho por roupas próprias da época, substancialmente
semelhante à minha: uma camiseta castanha escura e uma túnica
preta, de linho, com duas franjas vermelhas e paralelas no centro,
que se prolongavam à frente e atrás, à maneira das que eram
confeccionadas em Gedi, na costa ocidental do mar Morto.
O cíngulo ou cinturão, de couro e de dez centímetros de largura,
era diferente do meu. Consistia numa utilíssima peça oca, idêntica
às encontradas nas ruínas de Massada, que permitia guardar
dinheiro e pequenos objectos. Uma fíbula de bronze, simulando um
arco, servia de fecho.
O calçado para esta fugaz escapada da nave também não era
muito diferente do usado habitualmente por mim próprio: sandálias
com sola de esparto entrançado nas montanhas turcas de Ancara,
belamente perfuradas por vários pares de tiras de couro de vaca,
devidamente enceradas, que se enrolavam na canela da perna.
Prescindimos das chlamys. A temperatura agradável e o estorvo
que tais mantos traziam desaconselhavam o seu uso.
Uma vez modificado o alcance dos sensores de radiação
infravermelha prolongando o seu raio de acção até trezentos pés
-, o meu companheiro pôs numa bolsa de oleado os instrumentos de
que, segundo os nossos cálculos, poderíamos necessitar nesta
nossa exploração. E lenta e ponderadamente, como se nisso
empenhasse a sua vida, desceu para o patamar rochoso. Segui-o

com curiosidade. Aquele era, de facto, o seu primeiro contacto
directo com a Palestina de Jesus. Um Jesus de Nazaré que, de resto,
ele ainda não tinha tido a fortuna de contemplar cara a cara. Eu
sabia-o, tinha conhecimento das suas inquietações e o seu
acalentado sonho e ali mesmo, sob a estrutura do berço, supliquei
aos céus que essa oportunidade não se malograsse. Nenhum de nós
imaginava então como estávamos perto de tão crucial e decisivo
encontro...
Tal como tinha sucedido comigo aquando da segunda saída,
Eliseu quedou-se silencioso durante uns instantes. A beleza da
colina verdejante e perfumada não era para menos. Passeou a vista
à sua volta e, deixando-se arrastar por um dos seus impulsos, pôs o
joelho direito em terra , apanhando uma mancheia húmida de ervas
e de flores.
Levou-a aos lábios e, semicerrando os olhos, beijou-a. Depois
sorriu para mim, como que escusando-se daquele gesto que eu
talvez pudesse interpretar como um tanto pueril. É claro que não era
isso que eu pensava. Bem pelo contrário. Emocionado perante a
sensibilidade e cristalina transparência do seu coração, correspondilhe
com o melhor e mais eloquente dos meus sorrisos.
De súbito, mal nos separámos do invisível berço, a cabeça de cera
ajojada no meu ouvido direito começou a vibrar. Era o sinal
previamente combinado. O Pai Natal, conforme o programado, tinha
iniciado a emissão de uma série de impulsos electromagnéticos de
0,0001385 segundos cada um, perfeitamente identificável através
da ligação auditiva.
O dispositivo não era mais que um reajustamento do escudo
protector IR. Na hipótese de alguém penetrar no círculo
infravermelho de trezentos pés de raio, os sensores depois de
captarem a presença do intruso , convertiam o sinal em impulsos
eléctricos e, automaticamente, o computador central reemitia-o sob
a forma de mensagens de curta duração. Mesmo que nos
encontrássemos a quinze mil pés da nave, o Pai Natal podia
interpretar e reconverter o alerta IR, transmitindo-o até à nossa
posição.
Este sistema, de grande fiabilidade, permitia-nos abandonar o

módulo, sem deixarmos de registar a proximidade de homens ou
animais na referida zona de segurança da máquina. No caso
presente, estes impulsos electromagnéticos foram provocados por
nós próprios, situados como estávamos em pleno campo de acção
dos sensores de radiação infravermelha. Quando chegámos perto do
círculo de pedras de basalto , saindo assim para fora do alcance do
escudo IR, os pequenos silvos cessaram.
Subimos ao cimo das rochas e, depois de nos certificarmos da
ausência de gente nos arredores, dispusemo-nos a desvendar o
mistério guardado pela pedra circular.
Alguns pontapés secos foram suficientes para que a cunha
cedesse. O pesado pedregulho, quase sem ajuda, deslizou por
efeito da gravidade para a esquerda, rangendo ao roçar na parede
de calcário. Uma escura abertura rectangular, de uns noventa
centímetros de altura, apareceu diante de nós. Olhámo-nos com
inquietação.
Devíamos prosseguir? A tenebrosa escuridão fez-me hesitar.
Até que ponto era necessário arriscar-nos numa aventura como
aquela, à margem da nossa verdadeira missão? Mas Eliseu,
adivinhando os meus pensamentos, atirou o saco lá para dentro e,
sem mais contemplações, introduziu-se de gatas na galeria.
Acompanhei-o com o coração acelerado. E já no estreito túnel,
começámos a sentir um cheiro acre e esquisito que nos deu desde
logo uma ideia do que na verdade a gruta encerrava. As minhas
suspeitas eram fundadas. Assim, seguros da completa ausência de
testemunhas, decidimo-nos a utilizar uma potente lanterna de trinta
e três mil lúmenes, a bateria, com uma autonomia de quase duas
horas.1
*1 A magnífica lanterna, de cristal de quartzo dispunha de cinco acumuladores
cádmio-níquel blindados, com uma capacidade de seis amperes-hora cada um. (N. Do
M.)
(Noutras circunstâncias, obviamente, este foco nem sequer teria
saído da nave.) O corredor, de uns dois metros de profundidade,
desembocava numa antecâmara rectangular, igualmente escavada

na rocha, cujo tecto a quase três metros de altura permitiu que
nos erguêssemos. O piso, ligeiramente mais baixo que o do
corredor de acesso estava rodeado de prateleiras de pedra. No
centro geométrico de cada uma das paredes abriam-se vários arcos
à maneira de portas e com um metro e oitenta de altura que
conduziam a outras tantas câmaras, todas quadradas, de oito
metros de lado. Naqueles cubículos, apesar do carácter hidrófilo da
caverna, que absorvia boa parte dos gases, o cheiro a gás sulfídrico
e amoníaco era tão intenso e nauseabundo que tivemos de recorrer
às máscaras, que prudentemente tínhamos incluído entre os
utensílios colocados na bolsa. (Como médico, eu sabia que,
passados uns minutos, a pituitária acabaria por saturar-se e a
membrana nasal deixaria de captar aquele molesto e opressivo
cheiro fétido. Mas respeitei os lógicos desejos de meu irmão.)
Encontrávamo-nos, de facto, numa cripta funerária de grandes
proporções que, com toda a probabilidade, guardava os restos
mortais de alguma endinheirada família de Cafarnaum, ou talvez de
toda uma colectividade. Nas paredes, sobre as prateleiras, abriamse
os kokim, ou nichos (em algumas contámos até nove), cerrados
por outras tantas pedras circulares. Quando removemos as pedras
apareceram-nos umas pequenas celas de dois metros de
comprimento por oitenta centímetros de altura e cinquenta e cinco
de largura. No seu interior repousavam uns curiosos sarcófagos
rectangulares de madeira quase todos de cipreste e sicômoro -,
feitos de pranchas ligadas por dobradiças e cavilhas.
Envergámos o vestuário de protecção dois pares de luvas cada
um, óculos, gorros e vários aventais que nos cobriam do pescoço
aos pés e, procurando não desconjuntar os carcomidos caixões,
removemo-los para o meio da sala.
Ao destapá-los fomos encontrar um sistema de sepultura muito
comum no século I antes de Cristo que consistia na sobreposição,
num mesmo ataúde, de dois ou mesmo três corpos, separados por
coxins de couro. (Geralmente, um adulto e uma criança ou dois
adultos e uma criança.)
Junto aos restos mortais alinhavam-se caçarolas e recipientes de
barro e, em cinco deles, ocupados por mulheres, sandálias e uma

moeda cunhada na época de Herodes. A maioria encontrava-se
reduzida ao esqueleto. Apenas alguns tinham passado ao estado
de desintegração pulverulenta. Várias das crianças apresentavam-se
mumificadas e dessecadas. Em contrapartida, três das sepulturas,
muito mais recentes, apresentavam-se na segunda e terceira fases
de pu trefacção períodos enfisematosos e de liquefacção com os
cadáveres apresentando todas as características habituais nesta
situação. Muitos provavelmente tinham sido inumados no decurso
dos últimos dois ou três meses.
Mas não era aquilo o que de facto procurávamos. E, uma vez
concluí das as análises e investigações nas câmaras funerárias,
encerrados de novo os nichos, dirigimo-nos ao piso inferior da
cripta. No pavimento do pubículo que se encontrava diante do túnel
de entrada, alguns degraus permitiam o acesso a uma segunda
sala, de quase trinta metros de fundo, cheia de nichos e arcossólios.
Ali, em mísulas igualmente escavadas na rocha viva, se encontrava o
nosso principal objectivo: uma trintena de ossários rectangulares
talhados em peças únicas de pedra calcária, com tampas separadas.
Quase todos apresentavam os nomes, origem da família e dados
pessoais da vida de cada um dos inumados gravados em hebraico e
grego. Estas inscrições ajudar-nos-iam a estabelecer os parentescos
e a comprovar outros dados antropológicos.
Cada ossário de cinquenta centímetros de altura por setenta de
comprimento e vinte e cinco de largura continha os ossos
desarticulados de um ou vários indivíduos, para ali trasladados
após uma primeira inumação e subsequente decomposição da carne.
Outros, mais pequenos, guardavam as ossadas de crianças. No
meio da câmara num largo poço de dois metros de diâmetro, um
caótico montão de ossos humanos, misturados com vasos de barro,
na sua maioria quebrados e sem préstimo.
Uma oportunidade como aquela talvez não se repetisse. Por
razões fáceis de compreender um estudo antropológico dos judeus
vivos daquele tempo era quase impossível. Daí que ao detectarmos
as galerias subterrâneas e suspeitarmos da sua natureza, tanto eu
como Eliseu decidimos que, à margem da missão propriamente dita
não devíamos menosprezar a ocasião de estudar os restos humanos

ali depositados e que, sem dúvida revelariam dados de grande
interesse científico. Assim, em empenhados com o projecto, demos
início a uma febril análise osteológica.
(Em dias sucessivos, o meu companheiro encarregar-se-ia de
concluir as medições, aventurando-se sozinho na cripta.
Lamentavelmente, tal temeridade valer-nos- ia um susto de morte e
uma lição que jamais esqueceríamos.
Conseguimos, ao todo, examinar o resto de 197 indivíduos
pertencentes a três gerações da família de um tal Yejoeser ben
Eleazar e sua esposa Slonsion. O apelido Goliat estava gravado na
maioria dos ossários. Pois bem, as conclusões mais importantes
deste estudo em boa parte extensíveis à generalidade da
população da Galileia seguintes: - foram as que cerca de metade
dos indivíduos tinha falecido antes dos dezoito anos. (Dentro desse
grupo, a mais alta cifra de mortalidade correspondia aos primeiros
cinco anos de vida.) Isso reflectia algo que, no fundo, já sabíamos:
o índice de mortalidade infantil era muito elevado.
Também observámos uma alta incidência de anomalias 1 no
sistema ósseo, com forte predomínio da artrite, em especial entre
os homens e mulheres mais idosos,
*1 As principais anomalias consistiam em sutura metópica, patente em um entre
quinze crânios; ossinhos na sutura lambóide, em dois; redução unilateral do canal
condilar num dos crânios e ausência do mesmo num segundo crânio; toros auditivos em
quatro de cinquenta e sete; fusão congénita do áxis e da terceira vértebra cervical em
dois de vinte e sete; formação incompleta do arco nervoso em um de vinte e nove atlas
e um em vinte e sete áxis; formação de duplo arco em dois de vinte atlas; diversos
graus de fusão da última vértebra lombar com o sacro em quatro de doze casos; um
caso de coluna bífida e dois de pélvis com aplasia congénita do acetábulo. No referido
e extenso problema da artrite observámos todos os graus: desde a erosão e corrosão
das superfícies articulares até à formação osteófita. E em certos casos, a ossificação de
ligamentos (nota interrompida).
Estendendo-se particularmente à região cervical e lombar da
coluna.
Quanto à dentição, o quadro geral era igualmente calamitoso.
Encontrámos cáries em 37 por cento das mandíbulas. (Verificavamse,
em geral, nos caninos e molares.) Também descobrimos

abcessos alveolares em 28,5 por cento dos maxilares e em 30,2 por
cento das mandíbulas: a maioria na região dos molares, caninos e
incisivos. O desgaste era maior nos espécimes mais antigos. (Muito
acentuado nos molares e pré-molares.) A reabsorção alveolar
denotava uma grave afecção periodontal, causa, sem dúvida, da
frequente perda prematura dos dentes. Segundo as nossas
observações, os primeiros a cair eram os molares.
(Descobrimos também dois caninos inferiores com dupla raiz; um
crânio com ausência congénita de caninos superiores e um canino e
um incisivo com raízes e coroas fundidas.) As condições dentárias da
população eram, manifestamente, lamentáveis. (Aos problemas
degenerativos de natureza congénita, avitaminose, etc., tinha de
acrescentar-se o excessivo consumo de pão fundamental na dieta
dos hebreus que levava seguramente à afecção periodontal e a
um notável desgaste dos dentes.)
Os crânios daqueles galileus, eram, no caso dos varões,
claramente mesocéfalos 1, ao passo que os das mulheres
relativamente mais largos se apresentavam como braquicéfalos2.
A proliferação de crâneos
(continua a nota).
Intervertebrais resultou, ao que parece, da fusão de duas ou mais vértebras da
região torácica. Também aparecem compressões laterais das vértebras torácicas,
dando origem a corpos vertebrais em forma de cunha. (A cifose seria para o lado
direito.). As alterações artríticas em outras junções da coluna vertebral eram frequentes
na região dos ombros. Os casos mais graves apareceram nos ossos que
apresentavam fracturas curadas, podendo estar associados às consequentes
alterações de postura. Ao todo encontrámos vestígios de quatro fracturas antigas: uma
na clavícula, outra no metatarso e as restantes no cúbito e no perónio. Todas elas se
soldaram com pouca ou nenhuma deformidade, embora a do perónio, com uma
proliferação excessiva do osso, sugerisse uma infecção benigna. Estes padrões foram
considerados como uma condição degenerativa da coluna e das articulações, muito
espalhada e relacionada com a idade.
Vários dos cúbitos e rádios apresentavam-se também atrofiados e outros inflamados
e curvados. Num dos números, a epínse estava pouco desenvolvida. Associámos tal
facto a uma deformidade do pescoço e da região tuberosa do deltóide. A verdade é
que todos, até certo ponto, indicavam um certo grau de paralisia dos músculos da
extremidade superior.
Suspeitámos que várias das anomalias congénitas podiam estar relacionadas com

alterações patológicas no sistema neuromuscular. A aplasia do acetábulo provoca um
marcar acentuado, já que não se forma articulação nos quadris. Quanto ao grau de
lesões no sistema nervoso do indivíduo que sofrera de coluna bífida foi, localmente,
difícil de avaliar, porquanto não dispúnhamos dos ossos associados. (Pensamos que tal
condição estava ligada a vários índices de paralisia, podendo estar na origem de um
dos casos de atrofia da parte superior do braço.) Por vezes, também o sistema nervoso
se vê afectado por outra das anomalias congénitas que observámos fusão das
cervicais -, situação registada na chamada síndroma de Klippel-Feil,. (N. Do M.)
*1 Mesocéfalos: crânios médios, mais ou menos arredondados e de dimensões
semelhantes. (N. Do M.)
*2 Braquicéfalo: crânio mais curto. A média entre as mulheres foi de 77,7 por cento.
Os rostos num e noutros sexos eram mais curtos, com um índice nasal mesorrino. No
capítulo das medições pós-cranianas computou-se a distribuição de frequência das
medidas para determinar se existia uma distribuição bimodal, que pudesse ajudar no
esclarecimento do sexo de forma individual. O fémur trouxe a evidência maiS (nota
interrompida).
Masculinos mesocéfalos, com uma média de 81,5 naquelas
latitudes, obrigar-nos-ia a rectificar o critério até então defendido
em relação ao crânio de Jesus de Nazaré, igualmente mesocéfalo e
que, fazendo fé nos estudos de Von Luschan e Renan tínhamos
considerado como pouco frequente entre os judeus da Galileia.
Segundo os compassos de arco, réguas e medidas utilizados, a
estatura média daqueles espécimes ratificada em observações
posteriores e directas oscilava à volta de 1,66 m nos homens e
1,48 m nas mulheres. Consequentemente, com o seu 1,81 m, Jesus
de Nazaré também nisso foi uma excepção.
A título de curiosidade direi que, ao classificar os ossos da cripta,
descobrimos dois esqueletos extremamente altos e robustos: um
com 1,88 m e o outro com 1,77. Dadas as suas notáveis diferenças
relativamente aos restantes, estes indivíduos varões não foram
incluídos na análise métrica geral, na qual o Pai Natal desempenhou
naturalmente um papel decisivo.
Três horas depois de termos penetrado no complexo funerário, com
a segunda bateria quase esgotada, impacientes por respirar ar puro
e inquietos por tão longa estada fora do módulo, demos por
terminada a primeira sessão de trabalho, à qual se seguiram outras

não menos apaixonantes jornadas.
O que não foi assim tão fascinante foi o obrigatório fecho do
panteão. Apesar dos nossos esforços o pesado pedregulho com os
seus quatrocentos ou quinhentos quilogramas mal se moveu. A
calha em rampa sobre a qual deveria rodar constituiu um obstáculo
inultrapassável para nós, expedicionários desesperados e suados.
Fizemos uma, várias tentativas, dobrando-nos literalmente sobre a
pedra e empurrando até nos sangrarem as mãos. Nada. Extenuados,
não soubemos o que fazer. Mas Eliseu, confiante e optimista,
encarou o percalço pelo lado bom: afinal, tal facto facilitaria o
acesso a futuras investigações. No entanto, o raciocínio não me
tranquilizou. Se os habitantes descobrissem como viria a acontecer
que a cripta tinha sido violada, os estudos e até mesmo a própria
segurança da nave poderiam correr graves riscos. A minha intuição
não falharia...
(continua a nota).
Clara de dimorfismo. O comprimento oblíquo, a largura bicondiliar e o diâmetro da
cabeça do fémur foram especialmente úteis nesse sentido.
Num dos crânios os ossos frontais eram muito densos e as rugosidades superorbitais,
maciças. Uma grande mandíbula com osso denso que encontrámos em separado
pertencia provavelmente, a este crânio. Um meticuloso exame osteológico mostrou uma
nova formação ordenada do osso. Noutro dos crânios descobrimos uma lesão erosiva
na região frontal. Tínhamos conhecimento de que este tipo de lesão tinha sido
detectado também em exemplares do Egipto e da Núbia. Provavelmente, representava
a reabsorção do osso, como consequência de uma irritação crónica de uma úlcera do
tecido mole que o recobria.
Observou-se ainda criba orbitalis na maioria dos crânios das crianças e mos nos
ossos parietais e occipitais. Possivelmente isso devia-se a uma deficiência de ferro e
proteínas ou talvez a uma infecção da mãe. Esta hipótese viu-se apoiada pelo achado
de crânios de adultos com uma forte díploe e estenae hyperplastica, dos que se
registam em consequência da destruição de eritrócitos pela malária. (N. Do M.)
* - Nas análises osteológicas foram utilizadas as medidas de Martin-Saller. A idade e
o sexo foram determinados usando, entre outros, o critério de Krogman. Com o fim de
estabelecer afinidades raciais, os achados foram comparados pelo Pai Natal com os de
Arensberg (para os restos do período romano-bizantino de Jerusalém e En Gedi) e
com os de Haas e Nathan (para os restos de Acre). Os fémures eram platiméricos e as
hôias, pelo contrário, mesocnémicas, com sinais de rigidez. Esta circunstância pode ter a
ver com uma contínua flexão das pernas, devida talvez ao acidentado do terreno

naquela região do país. (N. Do M).
Hora sexta. (Aproximadamente, doze horas.)
Como tínhamos combinado, preparei-me para descer à ainda
suposta cidade de Jesus: Cafarnaum. Inspeccionei a minha
indumentária e a bolsa de oleado; acabei por mudar de calçado.
O programa ordenava que, a partir da aterragem nas margens do
lago, as habituais sandálias de esparto deviam ser substituídas
pelas electrónicas. Para a caminhada que estava para iniciar e para
as que me aguardavam nos dias seguintes, aquele invento era tão
útil como imprescíndível. O material e as suas formas eram
basicamente idênticos. Só as solas parcialmente ocas as
tornavam diferentes das outras. No seu interior tinham sido
instalados dois sistemas miniaturizados: um microtransmissor e um
conta-passos.
O primeiro, vital para a minha localização nos ecrãs do berço.
(Quando, por necessidades da exploração, me visse forçado a
deslocar-me para distâncias superiores a quinze mil pés do módulo,
este dispositivo substituía, em parte, a escassa ou nula fluidez da
ligação auditiva. Um sinal emitido pelo referido microtransmissor era
então captado e ampliado no extremo superior da vara de Moisés e
reenviado para as antenas da nave mediante um poderoso laser.
Deste modo, Eliseu e eu próprio mantínhamos um razoável contacto.
Com efeito, em determinadas missões, o sistema foi utilizado como
uma chave para assinalar o princípio e o fim de operações e
manobras específicas.)
O segundo equipamento electrónico incluía um micropedómetro,
um cronómetro digital, um sensor-medidor do consumo energético
em cada deslocação e uma célula programada para elevar a
temperatura do calçado em caso de externa inclemência 1.
Em princípio, a minha presença no referido núcleo humano devia
ser o mais breve e cautelosa possível. O estritamente indispensável
para adquirir uma razoável quantidade de víveres que aliviasse a
nossa penosa situação.
Mais tarde, depois de os discípulos do Ressuscitado terem

chegado à zona, as minhas idas e vindas ficariam menos limitadas.
Eram estes os planos; mas, como diz o ditado, o homem põe e Deus
dispõe...
Pelas doze horas, com os crótalos, quarenta shekels e um pouco
mais de oitocentos sestércios na bolsa de oleado
impermeabilizado, deixei a base-mãe, pletórico de energia e
porque não dizê-lo com um subtil formigueiro nas entranhas.
Aquele ia ser o cenário das minhas próximas aventuras e o que
era mais importante dos meus possíveis reencontros com o
saudoso Rabi da Galileia.
Tomei a direcção do círculo basáltico e depois de transpor as
grandes rochas negras, fui descendo pela verdejante encosta
oriental, seguindo o estreito carreiro de terra avermelhada que
terminava no terreiro da cripta. Não se encontrava ninguém no
caminho, o que me tranquilizou.
*1 O sensor do micropedómetro foi instalado na entressola: na zona
correspondente aos dedos. Os dados registados pela sandália eram armazenados
num minúsculo disco magnético, localizado na zona do tacão. Posteriormente, podia ser
lido" e descodificado pelo computador central. Quanto à célula térmica, estava
programada para regular a temperatura dos pés entre cinco e sete graus centígrados
acima da média ambiental. (N. Do M.)
A minha condição de estrangeiro e gentio não me favorecia. Se
alguém me visse a descer por aquela vereda, talvez não deixasse
de se pôr algumas perguntas. Que andaria a fazer um pagão nas
imediações de um lugar tão sagrado como um cemitério judeu?
Tomei então consciência que, enquanto a pedra circular não fosse
devolvida à sua posição primitiva, deveria evitar aquele caminho.
Mas, por sorte, os campos contíguos em plena maturação, estavam
desertos.
Ao chegar à bifurcação respirei, aliviado. A distância percorrida
desde o ponto de contacto até à divisão da vereda era de cerca de
seiscentos metros. A partir daí, por uma rampa mais suave, o
caminho conduzia directamente ao extremo ocidental da povoação,
contornando à direita e à esquerda uma infinidade de dourados
trigais. Não pude evitá-lo: levado pela curiosidade detive-me junto
de um dos campos, examinando as espigas carregadas. A colheita

antevia-se esplêndida, com trinta e até cinquenta grãos por planta.
Uns grãos duros, sem casca e ricos em glúten típicos do chamado
trigo duro, muito frequente na Palestina de Cristo -, que produziam
uma farinha excelente.
Mais adiante noutras searas curvada também ao peso do fruto,
distinguia-se uma segunda espécie de trigo: a escândea, de inferior
qualidade.
A poeirenta vereda desembocava na estrada que contornava parte
da costa oeste do lago e que tínhamos tido ocasião de contemplar
em voo e do local onde o módulo tinha aterrado. Se os meus
cálculos não falhavam, a distância percorrida entre o círculo de
basalto e a confluência do caminho com a estrada podia calcular-se
em pouco mais de uma milha. Ao fim desta vereda principal a uns
trezentos ou quatrocentos metros para leste, avistavam-se os
negros muros da cidade em que eu devia entrar.
Senti um calafrio. Apesar do meu treino e das muitas horas vividas
em Jerusalém, Betânia e arredores da Cidade Santa, experimentei
uma incómoda e estranha sensação. Foi como se começasse a partir
do zero; como se aquela nova fase da exploração escondesse
emoções e perigos com que não tinha contado. Afastei tais
presságios e durante alguns minutos, depois de comunicar a Eliseu
a minha posição, entretive-me a examinar a estrada.
Porque era realmente disso que se tratava: de uma das magníficas
vias de projecto e construção inteiramente romanos, de quatro
metros e meio de largura, elevando-se cerca de oitenta centímetros
acima do terreno circundante e perfeitamente pavimentada com
grandes e lisas pedras de basalto, quadradas e rectangulares, cujas
junturas tinham sido invadidas e coloridas por verdes tufos de erva
e mato. À direita da berma e da vedação que marginavam a estrada
(neste caso, voltadas para a povoação), corria um caminho estreito,
pavimentado por pequenos seixos negros, menos duros que as lajes
da estrada e pensado, sem dúvida para o trânsito de homens e
animais.
O summum dorsum ou leito da estrada apresentava-se
ligeiramente abaulado, para facilitar o escoamento das águas
pluviais. Mais uma vez fiquei maravilhado. Apesar do acidentado e

da dificuldade do terreno , os excepcionais construtores romanos
tinham dado uma boa prova da sua perícia e competência.
*1 Aquela estrada a famosa Via Máris -, tal como a maioria das traçadas pelos
romanos, obedecia a padrões (que foram descritos numa das obras de Estácio (Silvas,
IV, 3 v. 40-55), na qual se relata a construção da Via Domiciana (ano 95 d. C.) que,
partindo de Roma, penetrava nas areias e salinas da costa. O primeiro trabalho diz
Estácio foi traçar os sulcos, abrir a rede de pistas e, mediante uma profunda cava,
revolver a fundo o terreno. O trabalho seguinte consistiu em encher as valas e
implantar uma base para a parte inferior do revestimento, de forma a que o solo não
aluísse, os fundamentos aguentassem e o leito não oscilasse sob o pavimento. Depois
vinha a tarefa de cercar o caminho mediante vedações dispostas de ambos os lados e
bermas. Quantas equipas trabalhavam ao mesmo tempo! Uns derrubavam as árvores
e arrasavam os montes, outros alisavam com o ferro as lajes e aplainavam as vigas de
madeira. Estes juntavam as pedras e completavam a contextura da obra com cal em
pó e gravilha de calcário. Aqueles procediam à dessecação dos terrenos e ao desvio
de nascentes e riachos." Entre os sulcos que tinham delimitado a largura da estrada
tornava-se necessário escavar uma vala, cuja profundidade fosse até à rocha ou, pelo
menos, até uma camada suficientemente sólida para suportar o peso da via.
Avançava-se mediante a construção de lanços sucessivos que se iam unindo uns aos
outros, conforme descreve Jeannine Siat no seu estudo O Império: as Suas Estradas.
Depois cobria-se a vala. Os materiais utilizados eram dispostos em camadas
sucessivas, sendo constituídos por pedra, cascalho batido e areia. Uma cobertura de
lajes dava o acabamento final ao summum dorsum. De ambos os lados havia uma
vedação ou umbo, formada por lajes dispostas verticalmente e apoiadas da parte de
fora por pequenos contrafortes. Uma espécie de cunhas de pedra ou gomphi de forma
angular, aparecem distanciadas na estrada, unindo a vedação com o empedrado, que
assim ganha em solidez. (N. Do M.)
De cócoras e absorto no exame da estrada, nem reparei na
silenciosa aproximação daquele indivíduo até que, praticamente,
dei por ele mesmo atrás de mim. Fiquei sobressaltado. O ancião
um simples agricultor, a avaliar pelo seu tosco chaluk de lã e pelo
sacho ou pequena enxada para plantação que pendia do seu
cinturão sorriu, desejando-me paz e saúde. Observou-me intrigado
e, antes mesmo de poder corresponder-lhe, perguntou-me se tinha
perdido alguma coisa. Ergui-me e, apontando para o calçado cheio
de poeira inventei uma desculpa: estava só a pôr em ordem as
correias das sandálias, que se tinham desapertado pela caminhada.
Ao contrário do que eu esperava, o hebreu não manifestou qualquer
espécie de contrariedade ao notar o meu sotaque estrangeiro.

Diferentemente de muitos dos habitantes de Jerusalém, aquele
galileu tal como a maioria daqueles com quem tive oportunidade
de contactar fez jus à liberalidade por que era conhecida aquela
região. Uma liberalidade duramente criticada pelos ortodoxos e
pelas castas sacerdotais da Judeia.
E muito naturalmente, sem tê-lo sequer pensado, vi-me a caminhar
junto do camponês em direcção à aldeia. O certo é que Jonas, era
esse o seu nome, tinha uma pequena horta nas proximidades da
zona de Tabja, muito perto das nascentes e, valha a verdade,
prestar-me-ia uma inestimável ajuda naquela minha primeira
abordagem. Timidamente, perguntei-lhe como se chamava a
povoação que estava à nossa vista e o meu providencial amigo,
espantado replicou cheio de razão se a pergunta fazia parte de
algum jogo ou adivinha ou se, pelo contrário, eu estava a fazer
pouco da sua boa vontade.
Acalmei como pude a sua lógica estranheza, assegurando-lhe que
não era essa a minha intenção e suplicando-lhe com veemência que
desculpasse a rudeza daquele cansado peregrino. Foi assim que,
aceitando a mais que justificada censura do ancião, confirmei o que
já suspeitávamos: aquela era de facto a célebre Kefar Nahum
(aldeia de Nahum), como era conhecida a Cafarnaum dos tempos de
Jesus. Ao que parece, o título de Nahum remontava ao século II a. C.
- data da sua fundação e tinha-lhe sido concedido em honra de
uma célebre personagem local (Nahum).
Ao longo de todo o flanco ocidental da povoação entre a
estrada romana e as casas alinhavam-se dezenas de pequenas
hortas, meticulosamente cercadas por muros de pedra negra de um
metro e meio de altura, nas quais se viam figueiras, nogueiras,
amendoeiras, e densos sicômoros, além de outras árvores de fruto
que não consegui identificar.
Vários carreiros partiam da artéria principal, perdendo-se entre os
pequenos muros de basalto daquela rica e florescente cintura
agrícola que cercava Nahum por aquele lado e que começou a darme
uma ideia mais precisa da prosperidade do lugar. Ao chegar a
uns cinquenta metros da triplice e colossal porta da cidade, situada
a norte, hesitei. Sob os arcos, entre mendigos andrajosos e

aleijados, distingui uma patrulha de legionários, com as suas
características túnicas vermelhas sob as cotas de malha e os seus
capacetes de bronze estanhado brilhando ao sol. Pensei em
despedir-me ali mesmo de Jonas e tomar uma das veredas que
contornavam as hortas, esquivando-me assim aos soldados.
Mas contive-me. Não tinha nada a esconder e a companhia do
vizinho de Nahum como chamarei a partir de agora a Cafarnaum
favorecia-me. E, inesperadamente, seguindo outro dos meus
impulsos, parei e fiz-lhe uma proposta. Esbocei o mais convincente
dos sorrisos e, mostrando-lhe dois shekels, perguntei-lhe se
aceitava conduzir aquele rústico e desamparado gentio até à casa
dos Zebedeus. Aquela era a minha única referência, medianamente
válida, que podia justificar a minha presença ali. Jonas não aceitou
o dinheiro.
Conhecia de há muito a família dos construtores de barcos como
a definiu e, precisamente em atenção a essa velha amizade,
recusou a generosa paga oferecendo-se gentil e hospitaleiramente
para me levar não à casa dos Zebedeu, mas ao seu estaleiro.
Parece que a casa de João e de Tiago ficava na outra margem do
lago, num local que o lavrador denominou Saidan.
- Saidan?
Retomámos a marcha e Jonas, satisfeito perante a possibilidade
de mostrar a sua superioridade sobre aquele desconcertante grego
mesmo que fosse apenas no conhecimento da zona e dos seus
topónimos -, explicou-me que era assim que chamavam a Betsaida.
O comportamento do camponês gesticulador, familiar e
multiplicando-se em informações não despertou suspeitas entre a
meia-dúzia de legionários que, aborrecidos e indolentes, nos viu
passar sob as pedras de basalto da tríplice arcada.
*1 O nome de Cafarnaum viu-se envolvido numa longa e já antiga polémica.
Orígenes, por exemplo, interpretou Kefar Nahum como a aldeia da consolação,, por
causa do significado etimológico da raiz hebraica nhm (consolação,). São Jerónimo, por
seu turno, traduziu-a como cidade formosa (da raiz hebraica nm, formosura,). No
entanto, o nome de Kefar Nahum é sempre transcrito como uma só palavra nos
idiomas não semíticos, eliminando o h gutural. Nos evangelhos gregos aparece em
duas modalidades: Caphamaum e Capernaum. A primeira, adaptada por Flávio Josefo,
está mais de acordo com a pronúncia hebraica, pelo que se supõe a mais correcta; ao

passo que a segunda é considerada entre os especialistas como um termo idiomático
da região de Antioquia. Até muito depois da sua destruição, o lugar foi conhecido pelo
antigo nome semita de Kefar Nahum.
Em 1333, o escritor judeu Ishak Chelo escrevia: ... de Arbel fomos a Kefar Nahum,
que é a Kefar Nahum mencionada nos escritos dos nossos sábios., (N. Do M.)
- Referes-te a Betsaida Julias?
Jonas não cabia em si de assombro. A minha ignorância parecia
não ter limites. Mas, sem perder o bom humor, fez-me ver que uma
coisa era Saidan ou Betsaida na realidade, um bairro pesqueiro
de Nahum e outra, muito diferente, Betsaida Julias, construída por
Filipe muito perto do Jordão e a pouco mais de dezasseis estádios
cerca de três quilómetros de Saidan.
Começava a compreender. Saidan era o nome popular e abreviado
de Betsaida, que pouco ou nada tinha a ver com Betsaida Julias.
De repente, encontrei-me diante de uma rua ampla, de seis metros
de largura e trezentos de comprimento, que atravessava Nahum de
norte a sul. Era a artéria principal, balizada à direita e à esquerda
por dezenas de colunas de três metros de altura sobre as quais se
erguiam edifícios de um, dois ou mesmo três pisos, todos eles, tal
como a própria colunata construídos com pedra de origem vulcânica.
Com toda a franqueza, fiquei surpreendido. Aquilo não tinha nada
a ver com a paupérrima ideia que os cristãos do nosso tempo têm
da cidade de Jesus. Tratava-se, dentro das lógicas limitações de um
sólido, florescente e cuidado aglomerado humano, palpitante de
vida e em contínuo fervilhar, onde os gritos dos aguadeiros, os
monótonos pregões dos vendedores e artesãos instalados sob os
pórticos, o impacto dos cascos dos animais no empedrado húmido e
enegrecido e o apressado vaivém de pessoas de todas as
condições e origens, confundiam-se e anulavam-se mutuamente,
transformando a rua num torvelinho de cheiros, gestos e luzes.
Jonas deve ter-se apercebido da minha perplexidade. E pegandome
pelo braço, convidou-me a prosseguir, dizendo-me que as
oficinas dos Zebedeus se encontravam no outro extremo da
povoação, junto do rio que vinha de Korazim.

Na verdade, Nahum justificava a sua condição de vila fronteiriça,
entre a tetrarquia de Herodes Antipas e os domínios do seu irmão
Filipe. Ali, em plena encruzilhada de rotas de caravanas, em
harmonia completa com os autóctones, traficavam e descansavam
estrangeiros de Indumeia, Tiro, Decápole, Transjordânia, Sídon;
gregos comerciantes de trigo do distante Egipto, pescadores de
todos os pontos do Kennereth, nómadas beduínos e, naturalmente,
hebreus, israelitas e judeus de todo o país e de além-Mediterrâneo.
De ambos os lados da rua principal abriam-se numerosas vias e
ruelas secundárias, igualmente pejadas de pequenos
estabelecimentos comerciais, entre os quais uma loja de louça
multicolor, pilhas de tecidos a esmo, cestos de fruta e hortaliça.
Alfaiates com uma grossa agulha de osso enfiada no tecido, oleiros
de mãos e pés húmidos, perfumistas, sapateiros e uma interminável
fila de bancas invadiam o pavimento, dificultando ainda mais o já
problemático e complicado trânsito de homens e animais.
Naquela primeira e fugidia observação pude comprovar que a
quase totalidade das casas tinha sido edificada com pequenas e
médias pedras basálticas, em forma de discos, com os interstícios
tapados com barro e pequenos calhaus. Só as colunas e os lintéis e
ombreiras de algumas das portas incluíam pedras lavradas. À
excepção dos edifícios que davam para a rua principal os outros
pareciam carecer de alicerces. Tinham uma altura máxima de três
metros, com escadas exteriores que, obviamente, conduziam aos
terraços.
Com o passar dos dias, as sucessivas incursões pela cidade
proporcionar-me-iam uma ideia mais ajustada da configuração de
Nahum, desenhada segundo o modelo helénico-romano de cardo
maximcis e decumani, ou seja, com uma vida básica de norte a sul
interceptada em ângulo recto por outras ruas de menor
importância. Nesta malha urbana, com grande surpresa minha, viria
a descobrir interessantes construções: balneários públicos,
estalagens e prostíbulos, um teatro ao ar livre, praças, uma bela
sinagoga o único edificio, creio eu trabalhado à base de pedra
branca calcária -, centros comerciais semelhantes aos que foram
descobertos nas ruínas de Pompeia e cinco ilhas. (Estes blocos de
habitações, origem dos actuais apartamentos, eram alugados por

pisos ou aposentos individuais a toda a espécie de viajantes,
comerciantes ou turistas.) Sob os pórticos da rua pela qual
caminhávamos abundavam as tendas de alimentos cozinhados e de
bebidas. Estas, em especial, eram as mais pretendidas. Grandes
portas de acesso com letreiros como NarANAEL , «O LAVRADOR»,
aHEBER VENDE «O MELHOR» OU «AQUI, VINHO DE HeBRoN»,
introduziam os clientes em salas escassamente iluminadas por
candeias de azeite penduradas nas paredes. À volta de longos
balcões de pedra, com bojudas vasilhas de barro neles fixadas uma
confusa mistura de caravaneiros, camponeses e carregadores do
porto bebia, discutia aos gritos ou saciava o apetite.
Servia-se um vinho tinto denso, áspero e quente, cerveja de palma
e fritos preparados à porta do estabelecimento ou em pequenos
pátios interiores, enfumarando e empestando o local com o
inconfundível cheiro do azeite a ferver e da gordura de peixe. No
meio da rua, importunados por nuvens de moscas, jumentos e mulas
carregados das mais variadas mercadorias, aguardavam os seus
sedentos donos.
Não pude recusar. Jonas, ignorando a minha suposta pressa,
levou-me até ao interior de um daqueles antros, abrindo passagem
sem grandes considerações por entre a animada concorrência.
Ninguém protestou. E o taberneiro um obeso e transpirado sírio de
nome Nabu, obedecendo ao pedido do impulsivo ancião, colocou
sobre o mármore do balcão umas vasilhas de argila, cheias de um
líquido espumoso. O camponês não tardou em imiscuir-se na
conversa geral que, segundo o que pude apurar, andava à volta das
novas burritas da estalagem de um tal Jacob, o Coxo. As burritas
mais não eram que uma esplêndida remessa de prostitutas fenícias,
recém-chegada a Nahum.
Com certa prevenção dadas as duvidosas condições higiénicas
da taberna molhei os lábios naquela bebida. Era uma espécie de
schechar: uma cerveja leve e quente, destilada de cevada e de
milho.
Um tanto afastado do grupo esperei que o meu acompanhante
esvaziasse o seu jarro e a sua verborreia. Por detrás de Nabu, fixos
à parede de pedra e como único adorno do estabelecimento, viam

se dois grossos remos cruzados. Numa das pás, gravada a fogo, liase
a seguinte inscriÇãO: «AI DO PAÍS QUE PERDE O SEU CHEFE, AI DO
BARCO QUE NÃO TEM CarrÃo»! A outra, também em grego, ostentava
a seguinte adivinha: «QUAIS AS TRÊS COISAS QUE FAZEM
ALVOROÇAR A TERRA, E A QUARTA QUE ELA NÃO PODE CONSENTIR?
O SERVO QUANDO REINAR; O NÉSCIO QUANDO SE FARTAR DE PÃO; A
ENJEITADA QUANDO SE CASAR; E A SERVA QUANDO HERDAR.» Muitas
das tabernas de Nahum, como viria a descobrir, apreciavam aqueles
provérbios e outras alegorias e hipérboles, retirados na maioria das
vezes dos discursos do filósofo hebraico Filipe de Alexandria, de
grande prestígio e influência no judaísmo daquele tempo, cujo
método foi, nomeadamente, seguido por Paulo de Tarso na sua
Epístola aos Gálatas (4, 21-31).
E de repente meti-me na conversa do grupo, perguntando se
aquelas frases tinham sido ditas por Jesus. Eu sabia que uma delas,
a segunda, pertencia ao Livro dos Provérbios. Mas quis auscultar a
opinião dos que ali estavam reunidos sobre a figura do Mestre. Foi
como se lhes desse um murro. Ao ouvir o nome do Rabi, os
presentes emudeceram, varando-me com olhares nada
tranquilizadores.
- Jesus... - acrescentei, vacilante, e sem perceber a razão de tão
súbita e áspera reacção -, o Ressuscitado. Penso que viveu aqui...
O taberneiro tomou a iniciativa e, em tom jocoso, resumiu o que
todos pensavam:
- É verdade que esse louco ressuscitou?
Uma sonora gargalhada colectiva subscreveu as palavras
incrédulas e depreciativas de Nabu.
Jonas, perspicaz e conciliador, interveio na embaraçosa situação,
lembrando aos presentes que eu era apenas um recém-chegado e,
como tal, desconhecedor das maldições lançadas pelo construtor de
barcos contra Nahum e seus honrados habitantes. O litígio foi
esquecido e cada um voltou à sua.
O incidente servir-me-ia de lição. Uma boa parte da população
desprezava o Mestre e, o que naquela altura era mais importante,
ignorava que tivesse ressuscitado. As notícias do seu retorno à vida

ainda não tinham chegado ao lago.
Posteriormente, deveria ter mais cuidado com as minhas perguntas
e afirmações.
O resto do passeio pela rua principal de Nahum decorreu sem
mais nada de especial. Já quase no fim, com as águas azuis do lago
à vista e desejoso de corresponder de alguma maneira à
desinteressada ajuda do meu amigo, parei em frente de um dos
bazares, repleto de peças de olaria, ânforas, vasos de cristal,
tapetes, panos multicolores, roupas e até coleiras para cães. Jonas,
paciente e de certo modo orgulhoso pelos meus contínuos elogios
da cidade, não reclamou.
Os trabalhadores de olaria eram realmente esplêndidos. Havia
vasos importados do vale do Pó, na Itália; taças de fina terracota
vermelha com as assinaturas do artesão e do seu operário, Naevius
e Primus, respectivamente; tigelas de Mégara; fogareiros de barro
com bases para os utensílios de cozinha ; caixas do período
herodiano e uma infinidade de recipientes em forma de chaleira,
com bico, denominados guttus, utilizados para encher as lâmpadas
e candeias de azeite. Por fim, decidi-me por um belo prato para
peixe, com uma concavidade circular ao meio, que servia para
escorrer o azeite.
O preço meio shekel de prata pareceu-me exorbitante. Mas a
verdade é que tudo naquela cidade de comerciantes e gente de
passagem à excepção dos produtos agrícolas, do pescado e do
artesanato de vidro era de preço proibitivo. Nahum via-se na
necessidade de importar a maior parte das matérias-primas, assim
como a carne e outros produtos de primeira necessidade, e é claro
que isso encarecia a vida, tornando-a mesmo mais cara que a de
Jerusalém.
Jonas, incrédulo, quase perdeu a fala. Custava-lhe a compreender
que um desconhecido, assim, espontânea e generosamente, lhe
oferecesse um presente tão valioso. A mudez, no entanto, duraria
pouco. Até que, finalmente, consegui ver-me livre dele; as suas
promessas de eterna amizade, a sua adulação e as suas ofertas de
hospitalidade martelaram-me penosamente os ouvidos. Apesar de
tudo, tomei boa nota das suas calorosas palavras dizendo-lhe que

talvez mais tarde viesse a precisar dos seus serviços. A experiência
ensinara-me, de facto, a ter muito presente aquele tipo de
amizades, tão úteis ao longo da exploração.
A Providência estava em todo o lado. Ao atravessar a última rua
transversal à grande artéria uma baforada de calor saiu de uma das
portas. Espreitei intrigado. Estava perante uma das numerosas
oficinas de fundição e sopro de vidro de Nahum.
Aquele bloco de edifícios térreos praticamente ligado ao porto,
era o bairro dos famosos artesãos e fabricantes de utensílios de
vidro e cristal. À volta de um pátio a céu aberto erguiam-se vários
telheiros com cobertura de cana, nos quais trabalhavam seis
homens, todos eles apenas de tanga e com os cabelos cobertos por
turbantes. Ao fundo diante da entrada formando corpo com a parede
de basalto e rodeado de altas pilhas de troncos, distinguia-se um
forno de pedra de um metro de altura, permanentemente alimentado
por um dos operários mais velhos.
A seu lado, com o torso brilhante pelo calor sufocante, um outro
artesão repisava com um maço de madeira uma mistura poeirenta e
leitosa que ia saindo de pequenos sacos de serapilheira na
concavidade circular feita na parte superior de uma pedra maciça e
escura que lhe servia de mesa.
Ao ver-nos, o indivíduo que atiçava o fogo apressou-se a recebernos
, mostrando com orgulho a variadíssima colecção de vasos,
frascos para unguentos e recipientes de todo o género que
repousavam no empedrado dos pavilhões, sobre esteiras extensas e
amarelas de folha de palma. Disse-lhe que, de momento, me movia
apenas a curiosidade e, como bom fenício, longe de se mostrar
contrariado, ofereceu-se, falador e calculista, para responder a
todas as perguntas ou dúvidas que houvesse por bem formular-lhe.
Azemilkos, o proprietário da oficina, não soube informar-me quanto
às origens daquela indústria em Nahum.
Herdara-a de seu pai e este, por seu turno, do seu. Alguns dos
mais velhos artesãos isso sim recordava-o tinham-se
estabelecido na vila muitos anos antes, provenientes do Egipto,
donde trouxeram as técnicas da fundição, sopro e preparação das
misturas. Estas, tanto quanto pude deduzir, eram feitas à base de

areia, pó, soda e cal. Uma vez misturados e triturados, estes
materiais cujas proporções faziam parte do segredo profissional
do fenício eram submetidos a elevadas temperaturas até
alcançarem a cor do sol no horizonte (possivelmente à volta dos mil
e quinhentos graus centígrados) -, obtendo-se assim uma massa
fluida e suficientemente homogénea.
Em seguida, aquela pasta avermelhada era transvasada para
umas caldeiras de metal, ficando em repouso. As impurezas e
partículas não dissolvidas subiam à superfície, formando aquilo a
que Azemilkos chamava as fezes do vidro. Por último, ao diminuir a
temperatura, aquela massa adquiria a viscosidade necessária para
que os especialistas pudessem trabalhá-la.
Para tanto - seguindo a técnica do sopro -, enganchavam uma
porção de pasta na extremidade de um tubo de ferro, injectando ar
no interior do vidro. Esta operação era, naturalmente, executada a
pulmão. Fiquei maravilhado com a destreza do chefe. Em poucos
segundos, tomando ar em curtas e rápidas inspirações, conseguiu
inflar uma das ampolas transformando-a, com várias e hábeis cortes,
numa bela e prometedora vasilha.
Por puro formalismo prometi voltar e adquirir algumas peças. Não
podia então sequer suspeitar que a minha prometida visita à oficina
de Azemilkos se concretizaria logo no dia seguinte e por razões
totalmente alheias ao puro prazer de comprar. Mas continuemos com
o desenrolar daquela jornada tão rica em surpresas e imprevistos.
A rua principal de Nahum desembocava perpendicularmente ao
porto, dividindo-o praticamente em dois. Ao pisar o negro e
encharcado empedrado do cais (de cerca de quinze metros de
largura), a sensação inicial de sufocação aumentou de intensidade.
Se o centro urbano fervilhava de gentes e animais, aquele espigão
de uns setecentos metros de comprimento não lhe ficava atrás.
Dezenas de carregadores seminus, banhados em suor e curvados
sob o peso de grandes fardos e barricas, iam e vinham a partir dos
dez ou quinze atracadouros, descarregando as mercadorias junto
dos animais ou de pesadas carretas de duas ou quatro rodas,
puxadas por bois avermelhados e de grande porte. Outros, sempre
sob o olhar atento e os chicotes de couro dos capatazes, faziam o

caminho contrário, depositando as mercadorias nos terraplenos
perpendiculares ao espigão ou descendo cambaleantes pelos
húmidos e escorregadios degraus feitos nas paredes laterais dos
referidos terraplenos, colocando ânforas, tonéis ou caixas no fundo
das embarcações.
Um vento de oeste, de uma certa intensidade, começou a soprar
sobre o lago, levantando pequenas ondas que faziam balancear os
barcos. Não cheguei a contá-los, mas eram seguramente mais de
cinquenta. A maioria, de dez a quinze metros de comprimento,
parecia destinada ao transporte de passageiros e de carga. Haviaos
de cores vivas vermelhos, azuis e brancos - ou simplesmente
untados com pez com proas esguias e pequeno calado.
Ânforas de todos os tamanhos peles de cabra, sacos, gaiolas com
pombas e até cordeiros eram retirados ou acondicionados nos seus
lugares por aquela turba de carregadores, dóceis e esquálidos, na
sua maioria escravos e am-ha-arez: a escória do povo. Ainda que a
palavra significasse o povo da terra, com o correr do tempo o termo
am-ha-arez tinha adquirido um matiz pejorativo, permanentemente
alimentado pelo ódio e má vontade dos rabis e das castas
sacerdotais.
Hillel, por exemplo, assegurava que os am-ha- arez não tinham
consciência, não atingindo assim a categoria de homens. Outros
como o rabi Jónatas, pretendiam que fossem pura e simplesmente
estripados, sentenciando que nenhum judeu se devia casar com a
filha de um am-ha-arez.
Os judeus ortodoxos acabaram por dar este qualificativo a todos
os grupos humanos.
*1 A repulsa para com estes desgraçados era tal que o rabi Eleázar ensinava que
era lícito esquartejá-los ao sábado.
Toda a Galileia e muito especialmente Kefar Nahum era considerada como o
principal reduto dos am-ha-arez e, por consequência, contínua e sistematicamente
vilipendiada. O próprio nome Galileia significava o círculo dos gentios.
Aos que, segundo eles, tinham usurpado as terras de Israel, especialmente a partir
do exílio para a Babilónia. Durante esta deportação, muitas das terras da Palestina
foram ocupadas por povos de origem pagã e impura aos olhos dos hebreus:
samaritanos, filisteus, arameus etc. Aquando do seu regresso, os judeus não lhes

perdoaram esta usurpação, e o ódio e desprezo para com os am-ha-arez fizeram com
que chegassem ao extremo de os designar no Talmude (Berakhoth XIVII b) como
aqueles que não comem o seu pão em estado de pureza ritual. (N. do M.)
Ao longe, aproveitando o vento súbito, algumas embarcações
tinham desfraldado as suas velas quadradas, de cores berrantes,
vermelhas e negras na sua maioria. Uma vez carregado ou
descarregado, cada barco era retirado em perfeita ordem do
atracadouro, dando lugar ao seguinte. Um ou dois marinheiros à
proa e à popa, remavam e manobravam a embarcação com grande
destreza.
O tráfico de mercadorias era desgastante. Ali se descarregavam
produtos vindos de todos os portos do litoral: desde carnes e
toucinho salgados da pagã Kursi até barris de pescado em salmoura
de Tarichea, passando por borrachos de Migdal, frutas e legumes
das várzeas de Ginosar e de Betijá, cordoaria de Arbel, gado de
Hipos e toda a espécie de produtos manufacturados do Sul, da
Pereia e da Decápole, transportados até ao lago em contínuas e
intermináveis caravanas de camelos, mulas e jumentos.
Da mesma forma, mas inversamente, ricas sedas da Índia,
madeiras do Líbano, especiarias de todo o Oriente, produtos
cosméticos, artesanato de Roma e até a neve do Hérmon entravam
no Kennereth pelo florescente porto de Nahum, seguindo as rotas
do Norte e do Leste, numa frenética e pacífica invasão de homens,
línguas e costumes.
Sem qualquer espécie de dúvida aquele tinha sido o cenário
quotidiano de muitos dos momentos da vida do Mestre.
No meio de toda aquela agitação, à medida que Jonas me
conduzia até ao extremo oriental do cais, não pude nem quis afastar
do meu coração a possível imagem de um Jesus descalço e seminu,
como aqueles fenícios, sírios e galileus empenhado na dura tarefa
de carregador ou lutando pelo respeito da dignidade desprezada
daqueles am-ha-arez. Um amargo sentimento - mistura de raiva e
piedade foi-se apoderando da minha vontade.
Aqueles homens anciãos adultos e mesmo crianças eram
tratados impiedosamente. Os chicotes, pontapés e imprecações
caíam sobre eles à menor vacilação ou tentativa de recobrar forças.

Muitos, com o lóbulo da oreLha perfurado, eram ainda menos que os
am-ha-arez: constituíam o escalão mais baixo da sociedade, o da
escravatura. Nas palavras de Varrão , «uma espécie de ferramenta
que podia falar». Embora tivessem fama de preguiçosos, dissolutos
e ladrões a verdade é que o modo como eram tratados e as
condições de trabalho que lhes eram proporcionadas não eram de
molde a fazer esperar outra coisa.
O sentir geral daquelas pessoas para com os escravos talvez
possa resumir-se nas frases do mesmo Varrão: A forragem, o pau e a
carga, para o burro; o correctivo e o trabalho, para o servo. Obriga o
teu servo a trabalhar e terás descanso; dá-lhe rédea solta e ele
procurará a liberdade. Tal como o jugo e a soga fazem dobrar a
cerviz, assim ao servo mau o açoite e a tortura; fá-lo trabalhar e não
o deixes ocioso. Posteriormente, a História, com um eufemismo mais
que reprovável, procuraria dissimular esta angustiosa realidade,
substituindo mesmo o termo escravo pelo de servo ou criado... Mas
a verdade nua e crua era aquela.
No meio do porto, ao longo de dois dos terraplenos triangulares
as operações de carga e descarga eram facilitadas por outros tantos
artefactos bastante engenhosos semelhantes a gruas -, dos quais
me aproximei com curiosidade. Os responsáveis pelo tráfico
comercial tinham escavado várias calhas paralelas na superfície de
rocha basáltica de cada um dos cais. Umas plataformas de madeira
de dois metros de largura, dotadas de rodas, circulavam pelas
grosseiras guias, cobrindo assim os quinze metros de comprimento
de cada terrapleno.
Nas pranchas tinham sido instaladas umas trípodes também de
madeira de metro e meio de altura, que serviam de ponto de
apoio a várias penas metálicas, em cujas extremidades oscilavam
umas enferrujadas e barulhentas roldanas de ferro de trinta a
quarenta centímetros de diâmetro. Por meio deste processo, sob a
fiscalização dos capatazes ou dos proprietários das embarcações,
vários escravos ou am-ha-arez elevavam ou arreavam os volumes
mais pesados até os depositarem no chão do embarcadouro ou no
fundo dos barcos. Tratava-se quase sempre de animais bois,
vitelas ou cavalos ou de avantajadas redes de corda repletas de
talhas, barris e panelas. Muitas daquelas mercadorias tanto

chegadas por terra como pelo Kennereth passavam directamente
para os armazéns de alvenaria, que, em número de quinze ou vinte,
se erguiam em frente do cais, fechando assim o flanco sul da
cidade. Lá dentro ouvia-se um intenso martelar. Eram os
encarregados de guardar e acondicionar as mercadorias. As peças
mais frágeis cerâmica, vidro e ânforas com vinho, azeite ou garum
(procedente das costas da Itália e da Espanha) - passavam para
caixotes das mais variadas dimensões, meticulosamente enterrados
na areia ou protegidos e isolados entre si por erva e palha seca.
Os operários, com um leque de pregos entre os lábios, iam
fechando os caixotes, empilhando-os junto às paredes de pedra. De
quando em vez, grupos de carregadores entravam nos pavilhões
para retirar caixas ou acumular novos fardos sobre os já
armazenados. Em alguns daqueles depósitos tinham sido feitos
pequenos muros para armazenamento de grandes quantidades de
sal originário das salinas do mar Morto e de neve.
Esta última, pelo que pude observar neste segundo e no terceiro
saltos, chegava a Nahum, Migdal, Tiberíades e outras povoações do
lago, ao lombo de mulas que desciam diariamente dos cumes do
Hérmon, seguindo as margens do Jordão. A dificuldade do
transporte as cavalgaduras mais rápidas levavam entre oito e dez
horas até Kefar Nahum e o facto de se tratar de um produto muito
apreciado e perecível tinham-no tornado um artigo de luxo, só
acessível às famílias endinheiradas ou aos espertalhões lá do sítio,
em especial aos taberneiros, que em troca de uns bons odres de
vinho conseguiam arrancar dos depósitos algumas pazadas do
apreciado produto. Para sua melhor conservação, a neve era
transportada e armazenada sobre camadas de fetos frescos.
Mas, é claro que aqueles largos espaços despertavam também a
cobiça a muitos dos escravos e am-ha-arez empregados no porto. E
era vê-los, ao anoitecer, depois de concluídas as suas tarefas,
dormitando sobre as redes ou sentados entre as mercadorias, à luz
fraca das candeias de azeite, devorando um pequeno pão escuro
acompanhado, quando muito por um punhado de favas cruas ou um
pedaço de peixe. , Durante a jornada de trabalho, à sombra destes
armazéns, hortelãos e pequenos comerciantes estendiam os seus
produtos no empedrado, apregoando as excelências dos respectivos

pomares e hortas. Mulheres de olhos perscrutadores, envoltas em
mantos de cores claras, bufarinheiros barulhentos e camponeses de
pele tisnada levantavam das esteiras molhos de legumes, alhos,
cebolas, frutas, plantas aromáticas e medicinais, finas peças de
bysus, tapetes, pequenos cofres para jóias e cestas de figos ou
frutos secos, numa raivosa e por vezes desesperada luta para atrair
as atenções dos transeuntes.
Tudo aquilo me recordou o motivo da minha descida até Nahum.
Consultei Jonas e ele, com um gesto de desconfiança
relativamente à qualidade e aos preços dos produtos que ali
estavam patentes, recomendou-me que, se me fosse possível,
esperasse pelo mercado do dia seguinte.
Poderia dispor então de uma gama de produtos mais abundante e
mais em conta. Mas os planos da operação previam uma quinta-feira
inteiramente dedicada ao acompanhamento dos discípulos de Jesus.
De modo que, vencendo a resistência do ancião, acabei por adquirir
os víveres de que necessitava: legumes, alguns quilos de lentilhas e
grão-de-bico, favas, cebolas, alhos-porros, alhos, vários saquinhos
de tâmaras de Jericó (as doces adélfidas e as não menos afamadas
cariotas , de sumo leitoso e um elevado poder nutritivo), mel
branco, ovas de peixe de conserva, sal, nozes, ovos, azeitonas,
farinha, azeite e uma certa quantidade de cominhos, endro e
alfarroba.
Para já, renunciei ao peixe e carne salgados. As nuvens de moscas
que os envolviam não tornavam muito recomendável o seu consumo.
Quanto ao abastecimento de água tive, pura e simplesmente, de
prescindir dele. O cesto das provisões já era suficientemente
pesado para aguentar com mais um odre de trinta ou quarenta
litros. Talvez no dia seguinte pudéssemos resolver o problema.
Afinal, as nascentes que brotavam em Tabja estavam apenas a uma
meia milha do berço.
De início, entretido como estava no pagamento dos víveres não
reparei naqueles gritos. Mas, à medida que se tornavam mais
agudos, o palavreado dos hortelãos e vendedores interrompeu-se
subitamente e todos os olhares se voltaram para o meio do cais. Os
escravos e carregadores mais próximos afrouxaram o passo, ao

mesmo tempo que vários capatazes, entre manifestações de
espanto e imprecações, se precipitavam para um dos am-ha-arez,
caído por terra. Ao seu lado espalhavam-se os restos de uma talha
de barro que contivera tilápias sem cabeça, em salmoura. Um dos
vigilantes, cego de raiva, descarregava o chicote sobre o
desgraçado. Com a chegada dos restantes capatazes, os pontapés,
insultos e chicotadas intensificavam os gemidos e lamentos daquele
pobre-diabo que, acocorado e retorcendo-se entre os cacos e a
salmoura, protegia a cabeça com os braços, implorando piedade.
Aquele repentino silêncio no cais duraria pouco. Passados os
primeiros instantes de surpresa, os grupos de carregadores
açulados pelas pragas e chicotadas dos chefes de cais retomaram
o ritmo de trabalho normal, evitando o círculo formado pelos
energúmenos que se assanhavam contra o infeliz que tivera o azar
de cair ao chão.
Olhei à minha volta e, estupefacto, reparei que os outros
trabalhadores, comerciantes, aguaceiros e carpinteiros dos
armazéns, retomavam as suas tarefas, aparentemente insensíveis
perante o tratamento infligido àquele indivíduo. A cena, ao que
parece era bastante frequente. Interroguei Jonas com o olhar mas
este, encolhendo os ombros, deu-me a entender que não havia nada
a fazer. Os capatazes, brutais e sanguinários, teriam arremetido
contra qualquer um que ousasse interceder em favor do pobre
homem caído no solo. Hesitei. O código da Operação Cavalo de
Tróia impedia-me de intervir.
Mais uma vez, apesar dos meus desejos e impulsos, tinha de ter
presente que o meu papel era o de mero observador. Nada mais.
Mas, indignado perante o desproporcionado e injusto castigo, optei
por experimentar. Talvez tivesse violado uma das normas da
operação. Não sei, nem nunca saberei, nem isso tem demasiada
importância. A verdade é que com passo decidido, antes de o meu
companheiro poder deter-me, percorri os escassos metros que me
separavam dos capatazes, travando no ar um dos chicotes. A minha
reacção fulminante deixou-os perplexos.
Pus-me no meio do círculo e, esboçando um sorriso hipócrita,
apontei para a carga derramada, perguntando qual o seu preço.

Os desconcertados sírios, com a respiração entrecortada pelo
esforço ficaram mudos e imóveis. Levei a mão à bolsa de oleado e,
mostrando-lhes um punhado de moedas repeti a pergunta. O brilho
dos shekels teve efeitos milagrosos. Os chicotes voltaram às
cinturas e o que parecia ser o responsável pela talha, incrédulo e
desconfiado, interrogou-me por sua vez, interessando-se pela
identidade daquele inconsciente grego que tinha tido o
descaramento de os interromper. Sem perder o sorriso proclamei-me
amigo do procurador romano.
Ao ouvir o nome de Pilatos, dois daqueles impostores retiraram-se
e o meu interlocutor começou a ficar pálido, mudando de tom e de
táctica e gaguejando. Aproveitei aquela sua quebra e, antes que
ele se arrependesse, peguei-Lhe na mão, entregando-lhe dois
shekels. (O preço do deteriorado pescado pareceu-me mais do que
razoável. Uma jornada de trabalho de sol a sol, era então paga com
o equivalente a um denário. O shekel, por sua vez, costumava ser
trocado por quatro denários.) Os olhinhos do miserável capataz
brilharam de cobiça. Ambos sabíamos que aqueles oito denários
eram uma autêntica dádiva.
Dando meia volta encaminhou-se para um dos armazéns, seguido
por outro dos chefes de cais. O am-ha-arez continuava no solo, com
a pele aberta e ensaguentada pelas chicotadas, soluçando e sem se
atrever a abrir os braços com que protegia a cabeça.
Meu Deus! Só ao ajoelhar-me é que reparei que se tratava de uma
criança. Deveria ter uns doze ou treze anos. O seu corpo,
esquelético, com as espáduas em chaga pelo roçar diário dos
fardos, tremia e agitava-se, dominado pelo medo e pela dor.
Separei as suas mãos e, com doçura, como creio jamais ter falado a
um ser humano, procurei consolá-lo.
O rapaz, com os seus intensos e espantados olhos negros, olhoume
confuso. Sorri-lhe e, tomando-o entre os meus braços, conduzi-o
até à tenda do hortelão que me tinha vendido as provisões. Jonas,
espantado e maravilhado, cumpriu as minhas ordens sem retorquir.
Arranjou-me azeite e vinho e, com carinho e delicadeza, fui limpando
as feridas, sem deixar de lhe sorrir. A escassos metros do local em
que se encontrava, à entrada do armazém por onde os tinha visto

desaparecer, o sírio e o seu companheiro manipulavam uma
pequena balança de mão, com dupla escala, na qual pesaram por
duas vezes as moedas que eu lhes entregara. Satisfeitos, depois de
lançarem um olhar de desprezo para o jovem carregador, perderamse
entre as filas de estivadores, fazendo estalar os chicotes contra
o pavimento do cais.
A notícia do incidente deve ter-se propagado à velocidade do
vento porquanto, poucos minutos depois, uma legião de mendigos e
esfarrapados apareceu no local, mantendo-se na expectativa e a
curta distância das tilápias. O meu acompanhante sugeriu-me que
recolhesse a carga quanto antes.
É evidente que eu não tinha qualquer interesse em recuperar
aquele peixe. Por isso autorizei-os pura e simplesmente a disporem
dele como entendessem. A cena que seguidamente presenciei
abalou-me profundamente. Entre empurrões, gritos, pragas e
insultos, aquela turba de famintos e desesperados lançou-se sobre
os despojos, disputando os próprios cacos da talha.
Aturdido e impotente perante tanta miséria e crueldade, acariciei
os cabelos do rapaz e, desta vez, obedeci às recomendações de
Jonas, afastando-nos em direcção ao extremo oriental do porto.
Naquele ponto terminava a zona portuária propriamente dita, dando
lugar a outra das florescentes indústrias de Nahum: os estaleiros.
De ambos os lados da foz do rio Korazim, ocupando cerca de
trezentos metros de costa, sucedia-se uma série de varadouros nos
quais se construíam e reparavam embarcações de todos os tipos.
Precedido do camponês desci os degraus de pedra que conduziam
do nível superior do cais à rampa que delimitava o primeiro e mais
próximo dos estaleiros: o da família dos Zebedeus. O terreno, de
razoáveis dimensões (cerca de cinquenta metros de comprimento
por trinta de largura), estava coberto por uma camada de seixos
brancos e negros que rangiam à nossa passagem.
Entre a água e a cobertura de madeira e tecto de ramagens que
se erguia ao fundo da suave rampa, três carpinteiros, com as túnicas
apanhadas à cintura e grandes bolsas de pregos a tiracolo,
martelavam à volta de uma velha embarcação de carga. Na parte
baixa do varadouro, a quatro ou cinco passos da margem, jaziam

outros quatro barcos - um deles de apenas seis metros de
comprimento -, em tão más condições de conservação como o
primeiro. Ao vê-las, o meu coração agitou-se. Quem sabe se não
estaria junto de alguma das barcas habitualmente utilizadas pelos
discípulos e íntimos do Mestre nas suas tarefas de pesca.
Jonas saudou os operários e perguntou pelo chefe. Não souberam
dar-nos muitas explicações. Ao que parece já há dois dias que não
se apresentava no estaleiro, afectado por um mal ainda não
identificado. Um dos galileus apontou para o coberto,
aconselhando-nos a que, se desejássemos mais informações, nos
dirigíssemos ao mestre, uma espécie de naggar ou carpinteiro
naval, mistura de marceneiro, entalhador, ferreiro e reparador de
barcos. Foi o que fizemos e, ao entrarmos dentro do barracão que
servia de armazém, entre baterias de formões, cinzéis, serras,
machadas, compassos de bronze, curiosos trados de arco, plainas e
lâminas de todos os tamanhos, descobrimos um ancião, sentado no
empedrado do solo e ocupando-se no polimento de uma, para mim,
estranha pedra calcária em forma de pirâmide truncada de quase
meio metro de altura.
Protegia os olhos com uns curiosíssimos óculos de madeira muito
semelhante aos usados pelos lapões -, com uma fina ranhura ao
meio. Como o teria feito qualquer soldador do século xx, mal nos viu
retirou os óculos para o cimo da cabeça, saudando-nos com as
palavras a paz esteja convosco. Identifiquei-me como amigo dos
filhos de Zebedeu, expondo-lhe o meu desejo de falar com o chefe
do estaleiro. O bom homem, depois de sacudir o pó que
branqueava o seu avental de couro, fez um trejeito de
contrariedade, confirmando as palavras do operário.
Uma dor terrível mantinha-o prostrado na cama e, não obstante os
esforços e unguentos dos curandeiros de Saidan e Nahum, a sua
saúde vinha piorando nos últimos dias. A única possibilidade de o
ver acrescentou era visitá-lo na sua casa de Betsaida, e mesmo
assim, dada a sua enfermidade, tinha dúvidas que ele me
recebesse.
Antes de me ir embora, dominado pela curiosidade, interessei-me
pela função da pedra sobre a qual ele trabalhava. No centro da

pirâmide via-se um orifício de oito a nove centímetros de diâmetro
que a atravessava de lado a lado e que, sinceramente, não fui
capaz de relacionar com nada do que conhecia. O mestre olhou-me
de alto a baixo e, antes de ajustar de novo os óculos, replicou com
algum enfado e quase ofendido pelo absurdo da pergunta:
- Ora, o que é que há-de ser!... Uma âncora!
Entregue de novo ao cinzelamento da pedra não reparou na minha
perplexidade. A partir de então, nas minhas frequentes caminhadas
do módulo à costa de Saidan, teria numerosas ocasiões de
comprovar como os pescadores e marinheiros do lago se serviam de
pedras de todos os tamanhos, convenientemente perfuradas, para
imobilizar as embarcações e ainda determinado tipo de redes. (As
âncoras de ferro ainda não eram conhecidas no Kennereth.) Não
pensei duas vezes.
Depois de verificar a posição do Sol despedi-me do prestável
camponês e, seguindo pela margem direita do pequeno Korazim, fiz
rumo ao norte, na direcção do caminho que corria para a
extremidade oriental do lago. A minha instintiva decisão revelar-seia
providencial. Anunciei a Eliseu uma mudança nos planos e, não
falando do incidente com os capatazes do porto, prometi regressar
ao módulo num prazo máximo de cinco horas: exactamente ao pôr do
Sol. A intuição indicava-me que devia entrar em Saidan antes dos
discípulos do Senhor. Porquê? Obviamente, não podia sabê-lo.
A resposta surgiria no casarão dos Zebedeu.
Tal como acontecia no sector oeste, aquele flanco de Nahum
estava primorosamente cultivado. Deixei para trás o intrincado
labirinto de hortas muradas e, poucos minutos depois, já caminhava
decidido pela estrada romana. A curta distância, à direita da Via
Máris e junto à ponte que atravessava o riacho, erguia-se uma casa
de um só piso, de paredes tão escuras como as da cidade. Duas
grandes figueiras silvestres davam sombra à sua fachada norte. De
início não lhe prestei muita atenção. Mas à medida que me fui
aproximando, a presença à porta de dois legionários e de um
terceiro indivíduo fez-me recear. O calor e o cesto dos víveres
começavam a pesar-me e, com a desculpa de descansar um pouco
deixei a estrada e entrei num pequeno jardim que rodeava a

moradia. Os soldados, encostados à parede de pedra e meio
adormecidos, nem para mim olharam.
Sem querer, acabava de cumprir um dos requisitos obrigatórios
estabelecidos para todos os que iam ou vinham do território de
Filipe para o de seu Irmão, o tetrarca Antipas. Pus a canastra no
chão e quando me dispunha a interrogá-los sobre a distância entre
Nahum e Saidan, o dono da casa um grego com o típico gorro de
feltro na cabeça e uma placa de latão na túnica levantou a vara
que tinha na mão direita, interrogando-me num péssimo aramaicogalilaico
acerca do conteúdo do cesto.
Comecei a compreender.
- Víveres respondi em grego.
O indivíduo deu um passo em frente e, com a maior das
naturalidades, inclinou-se, metendo as mãos entre os alimentos.
Fiquei em silêncio. Como ia dizendo, sem dar-me conta disso, tinha
parado mesmo em frente do edifício que fazia as vezes de
alfândega.
- Está bem concluiu o publicano sem demasiado entusiasmo. -
Um asse é quanto tem de pagar.
Paguei a taxa e, felicitando-me pelo acerto e oportunidade da
minha iniciativa atravessei a ponte, tomando a vereda de terra que
partia dos contrafortes da estrada. Esta, logo depois de atravessar
as águas acastanhadas do Korazim, inflectia bruscamente para o
norte, escalando cerros e desaparecendo entre campos de oliveiras
e de cereais.
Consciente da importância daquele caminho, procurei registar na
minha memória o maior número possível de pormenores que, em
caso de necessidade pelo menos durante as primeiras explorações
-, me serviriam como ponto de referência. A partir do rio, num
percurso de um quilómetro e meio, o carreiro estava praticamente
livre, com algumas formações à esquerda e as ondulantes águas do
lago a cem ou duzentos passos à direita. Seguidamente deslizava
até ao fundo de um wadi ressequido e estéril, de encostas
pontilhadas por plantas de alcaparra, cardos, giestas e outros
arbustos. Aquele era o ponto mais afastado da costa quase meio

quilómetro. Dali até ao Jordão, com algumas pequenas curvas, a
vereda atravessava um sombrio e espesso bosque de tamargueiras
e grossos álamos do Eufrates. Ao todo segundo os meus cálculos,
desde a alfândega até às espessas e lamacentas águas do rio
biblico, mediavam cerca de três quilómetros e meio. Esse era
exactamente o limite para a minha ligação auditiva com a nave.
Informei disso mesmo o meú irmão. Seguidamente de acordo com
o que estava previsto, as comunicações com o berço deveriam
efectuar-se através do microtransmissor instalado na sandália
electrónica. Por razões técnicas esses sinais retransmitidos a partir
da vara de Moisés não permitiam retorno. Eliseu podia, assim
receber as minhas mensagens, mas não podia responder-me. De
mútuo acordo, dado o carácter excepcional desta incursão,
decidimos não utilizar o laser, salvo em situações de extrema
emergência.
Uma sólida ponte, com a tradicional silhueta do dorso de jumento
e três grandes arcadas assentando sobre grossos pilares e
travejamentos, permitia transpor o Alto Jordão, que naquele ponto
tinha um leito de oitenta metros de largura, por onde fluíam águas
impetuosas se bem que silenciosas e carregadas de troncos e restos
de mato. (Na impossibilidade de construir grandes abóbadas
rebaixadas, os engenheiros romanos - que tinham edificado aquela
ponte tinham colocado o piso central a grande altura,
economizando assim pilares e arcos e defendendo a estrutura de
eventuais cheias.) Do outro lado do rio, fazendo frente à direita e à
esquerda do caminho, erguiam-se vários marcos de um metro de
altura, sinalizando e avisando o caminhante da sua entrada nos
domínios de Filipe.
A paisagem e a vegetação mudaram radicalmente. O denso
bosque de álamos continuava ao longo do curso do Jordão,
rumoroso e ondulante por força do vento. A cinquenta passos da
ponte, no entanto, os habitantes do local tinham-se instalado,
devastando a massa florestal e cultivando a grande planície
pantanosa que se estendia até aos longínquos cerros orientais,
convertendo aqueles doze quilómetros quadrados num quebracabeças
de minifúndios, valas e canais, pequenos pomares, casas
de lavoura com coberturas de colmo, moinhos e pequenos tanques,

tudo isso atravessado por um labirinto de carreiros que
naturalmente evitei a todo o custo. À margem do bosque, a vereda
principal dividia-se em duas: o ramal da esquerda serpenteava para
nordeste, ladeando as árvores e perdendo-se na várzea. Aquele
braço do caminho, mais bem cuidado que o da direita, levava, com
toda a probabilidade, à cidade que sobressaía branca e airosa a
cerca de dois ou três quilómetros, encarrapitada numa colina, e que,
segundo informações recentes, ostentava o título de capital de
Betijá:
Betsaida Julias, em honra da filha de Augusto.
O segundo ramal, pelo qual obviamente me decidi, seguia quase
paralelamente ao Jordão, evitando um mosaico de lagunas não
muito profundas, de águas esverdeadas e pouco recomendáveis,
pejadas de canas, juncos marinhos, adelfas, papiros, helénios
viscosos, e um espinhoso entrançado de bathah, pequenos arbustos
que não consegui identificar.
Borboletas esplêndidas ziguezagueavam entre túlipas de fogo,
abrindo-se como orquídeas sobre as flores rosadas das adelfas, as
anémonas multicolores, as açucenas perfumadas e as moitas verdeescuras
de menta. Impelidos pelo vento de oeste, bandos de
inquietos martim-pescadores de peito branco e dorso azulesverdeado
revoluteavam e planavam sobre o pântano, trocando
ruidosos trinados. Enquanto atravessava aqueles quinhentos metros
imaginei como deveria ser aquele lugar durante o tórrido Verão de
Kennereth. A insalubridade da zona, com as suas colónias de
mosquitos, podia significar um perigo latente para a qual
deveríamos estar preparados.
A um passo da foz do Jordão, o caminho obliquava para sudeste,
deixando para trás os pântanos e avançando em linha recta por um
terreno plano e desimpedido, praticamente em paralelo à linha da
costa. À minha esquerda surgiram de novo as hortas de verduras e
legumes, entre os quais avultavam o grão-de-bico e as favas. Junto
às cabanas comecei a distinguir as silhuetas dos campOneses,
dobrados sobre a terra, carregando baldes de água ou estáticos e
vigilantes debaixo das rodas de pistáceas, amendoeiras e
sicômoros.

Com os dedos entumescidos pelo peso da canastra, optei por
fazer uma pausa. À direita do caminho, distante um tiro de pedra do
local onde me encontrava, via-se e ouvia-se o rítmico e surdo
marulhar das águas, precipitando-se em pequenas ondas na praia
rochosa. Um cheiro intenso e agradável a algas reconfortou-me,
lembrando-me os anos distantes da minha juventude no Oeste dos
Estados Unidos. Mas o meu objectivo estava à vista.
A cerca de meia milha, colada à costa, semioculta por um pequeno
bosque de esguios salgueiros e tamargueiras do Jordão e
ligeiramente encavalitada sobre a várzea, Saidan perfilava-se
escura e retraída com débeis colunas de fumo branco contrastando
com o céu azul. Diante da pequena cidade talvez devesse
qualificá-la como uma aldeia de tamanho médio -, imóvel naquele
caminho de terra, experimentei uma indizível sensação. Ansiedade?
Alegria e tensa emoção? Medo? Foi como uma premonição. Como se
algo me anunciasse que aquelas brilhantes e negras paredes que se
espraiavam até ao lago iriam ser testemunhas de acontecimentos e
momentos inolvidáveis...
Retomei a marcha, mas poucos minutos depois parei de novo.
Uma larga franja da costa tinha sido invadida por centenas de
pequenas tartarugas de couraças verde-amareladas imóveis ao sol
ou movendo-se preguiçosamente entre os seixos e pedras da costa.
Eram quelónios dos pântanos, excelentes nadadores, parecidos com
os seus irmãos de terra , se bem que um pouco mais ligeiros. A
partir daquele momento, tanto na minha memória como no banco de
dados do Pai Natal, aquele lugar ficaria registado sob o nome da
praia das tartarugas.
Enquanto contemplava os simpáticos inquilinos daquela zona do
Kennereth, o vento parou; e fê-lo tão brusca e repentinamente como
tinha começado. Pouco a pouco ia-me acostumando àquele
fenómeno, tão frequente no lago durante os meses de Primavera e
Verão. As nossas observações posteriores confirmariam a enorme
importância desse vento de oeste que pontualmente, dia após dia,
soprava desde o meio-dia até às primeiras horas da tarde,
levantando ondas de tamanho médio, que eram vitais para a várzea
de Saidan.

Sistematicamente, durante séculos , aquela ondulação vinha
arrancando do fundo do lago toda a espécie de conchas e
fragmentos de basalto negro que os rios arrastavam, formando na
margem um largo talude que funcionava como muro de protecção da
dita várzea. Isso explica, em parte, a formação das lagunas e
pântanos que eu acabava de atravessar, cujo nível era ligeiramente
mais alto que o do Kennereth.
A uns duzentos metros dos salgueiros que abobadavam o caminho,
parei pela terceira vez. Ali encontrei os primeiros vestígios da
principal fonte de riqueza da vila: a pesca.
Entre algumas embarcações varadas no porto viam-se longas
redes estendidas no terreno pedregoso. Sentados ao abrigo dos
barcos, alguns indivíduos com as cabeças cobertas por turbantes e
chapéus de palha afadigavam-se silenciosos no remendo das
malhas. Convencido de que me tinham visto a mim muito antes que
eu a eles, resolvi aproximar-me. Deixei o caminho e, sem pressa,
dirigi-me ao que estava mais perto. O pescador, como a quase
totalidade dos habitantes de Saidan, só falava aramaico. Ao
perguntar-lhe pela casa dos
Zebedeus, sem deixar de manipular uma larga agulha de madeira
de dupla ponta, levantou os olhos e, após uns segundos de atenta
e inquiridora observação do meu aspecto e da canastra que eu
tinha colocado sobre os seixos, respondeu com laconismo: Na praia,
diante da quinta pedra. E baixando o rosto, sem mais, ignorou-me.
A sua destreza no conserto da rede era espantosa. O dedo grande
do seu pé esquerdo mantinha a rede enganchada e retesada, ao
mesmo tempo que, com a mão direita, ia remendando os rasgões,
ligando-os com um resistente fio de algodão tingido.
Em vez de continuar pela costa, à procura da misteriosa quinta
pedra, voltei para o caminho. Tinha de ultimar as medições iniciadas
na base-mãe. A cerca de cem metros da aldeia, coincidindo com os
primeiros salgueiros e tamargueiras, o terreno inclinava-se,
formando uma rampa com uns trinta graus de desnível. Como julgo
ter referido, Saidan estava edificada numa meseta natural a uns
trinta a trinta e cinco metros acima do lago -, bem resguardada das
frequentes cheias do zaji e da rede de torrentes que cruzavam a

várzea.
À entrada da vila consultei o micropedómetro e o cronómetro
digital. A distância percorrida desde a ponte sobre o rio Korazim
até ao Jordão aproximava-se dos quatro mil metros.
Quanto à última etapa desde os marcos divisórios do território
até ao ponto onde me encontrava -, os registos marcavam outros mil
e quinhentos metros, o que perfazia um total de 5,5 quilómetros,
desde as imediações de Nahum. O tempo gasto era de cerca de
noventa minutos. É natural que, sem aquele pesado cesto das
provisões, e num passo mais ligeiro, aquela hora e meia pudesse
ser significativamente encurtada.
O cômputo final, desde o berço até à povoação pesqueira dos
Zebedeus, ficou assim estabelecido em pouco mais de sete
quilómetros. Juntando outros tantos para o regresso, o tempo
mínimo necessário para cada uma das incursões a Saidan deveria
pois oscilar em torno das quatro horas. (Estes cálculos, como
adiante se verá, foram da maior importância quando se tratou de
programar as explorações ao longo daquela franja costeira.) E às
quinze horas e trinta minutos, um tanto inquieto pela escassa
margem de tempo disponível para a minha primeira visita ao chefe
dos Zebedeus, penetrei nas poeirentas ruas da aldeia que tinha
visto nascer e crescer homens tão singulares e privilegiados como
Filipe, o intendente, João e Tiago e os também irmãos André e
Simão Pedro.
Que me reservaria o destino naquela pacata e aprazível
localidade? Para já, entre outras surpresas, um sensacional achado,
intimamente ligado à vida oculta de Jesus.
Algo que, ao que parece, os próprios evangelistas nunca
souberam e cujo depositário era o homem que estava a ponto de
conhecer.
Tinha de agir sem demora. Às dezassete horas, o mais tardar,
deveria dar início à viagem de regresso à nave.
Se Nahum, com os seus nove ou dez mil habitantes, se
apresentava como um núcleo vibrante, em contínua agitação,
Betsaida ou Saidan, pelo contrário, era um lugar silencioso, familiar,

onde a vida decorria monótona e placidamente. Foi um local de
gratas recordações, onde não encontrei vestígios de avidez,
brutalidade e insídias que imperavam na vizinha Kefar Nahum.
O caminho que me tinha conduzido até ali atravessava Saidan de
um lado ao outro, constÌtuindo a única via importante. Era assim
uma espécie de rua principal da povoação. A oeste e leste desta
rua amontoava-se um emaranhado anárquico de casas de pedra
vulcânica, sem a menor ordem urbanística, a que se tinha acesso
mediante uma não menos confusa teia de aranha de ruelas e pátios
que, apesar dos meus esforços, nunca consegui conhecer na sua
totalidade. O sistema e os materiais empregues na construção das
casas a maioria de um só pisoeram idênticos aos de Nahum:
blocos de basalto negro, tão abundantes na região, constituindo
fileiras mal alinhadas, mais ou menos niveladas e ligadas mediante
terra e calhaus.
Os telhados, leves e frágeis em quase todas as casas, tinham
sido dispostos em declive. Eram formados por vigas de madeira e
uma rudimentar mistura de terra batida e alha, que, após a época
das chuvas, tinha de ser refeita. Seguindo o mesmo modelo que em
Kefar Nahum salvo uma ou outra excepção, as habitações, os
celeiros, depósitos de forragens e armazéns em geral comprimiamse
uns contra os outros sempre à volta de um pátio central, a céu
aberto, com uma porta única e comum para as famílias que
compartilhavam essas elementares unidades urbanas.
Levado pela curiosidade, atravessei a aldeia de uma ponta à
outra.
Esquivas e tímidas, algumas mulheres espiaram a passagem
daquele estrangeiro da penumbra das janelas abertas nas paredes
de pedra. De vez em quando, tocados por meninos descalços, de
cabeças rapadas e faces sujas, bandos de patos, galinhas e gansos
esvoaçavam inquietos e barulhentos, levantando a poeira do
caminho e precipitando-se no interior dos pátios. Alguns dos
rapazes, sentados no meio da calçada, brincavam com barcos de
madeira, lançando e recolhendo pedaços de rede que na sua
imaginação, ora vinham repletos ora vazios.
Imitavam a rítmica vozearia dos remadores ou o ulular do vento e

o fragor de supostas tempestades. Sorri no meu íntimo. No fundo e
na própria forma, as brincadeiras das crianças pouco mudaram com o
passar dos séculos.
Saidan, pelo menos no que se refere à sua rua principal, podia
atravessar-se em pouco mais de duzentos passos. No extremo sul o
caminho precipitava-se por uma ladeira tão acentuada como a do
flanco norte , embora muito mais curta. Um rio o Zaji estreito,
tortuoso e entaipado nas suas margens por altas canas cardadoras
e eleph ha-elah, separava o núcleo urbano do porto pesqueiro.
Tal como já tínhamos detectado a partir da nave, um terrapleno de
duzentos metros de comprimento corria perpendicularmente à costa,
inflectindo em ângulo recto para o noroeste do lago.
Algumas dezenas de embarcações alinhavam-se no seu interior,
fundeadas ao meio do abrigado porto ou amarradas aos grossos
blocos de basalto do cais principal. Um pontão de pedra, sem
parapeitos, fazia com que o caminho chegasse até um conjunto de
casas e cabanas que se erguiam junto à doca. Dali para diante o
caminho perdia-se na direcção sul. A curta distância da velha ponte,
mesmo à borda da margem esquerda do Zaji um grupo de mulheres
lavava roupa entre risos e grande palração estendendo-a depois em
cima de giestas e alecrim.
No sopé de um penhasco próximo brotava uma nascente cujas
águas eram armazenadas num reservatório semicircular. Daqui partia
um simples e estreito aqueduto que, passando por cima do rio,
irrigava as culturas situadas a leste da povoação. Aquele lugar a
fonte pública de Saidan era um dos pontos de encontro, de
cavaqueira e de transmissão de notícias entre os habitantes da
aldeia. Um autêntico mentideiro oficial onde, a qualquer hora do
dia, qualquer um podia encontrar-se com mães de família,
pescadores ou operários dos secadouros de peixe, que ali iam
encher os seus cântaros e odres. Era, em suma, uma espécie de
centro cívico em que nada nem ninguém passava despercebido.
Contornando a meseta por aquele sector sul cheguei de novo à
praia. Muitas das casas voltadas para o lago dispunham naquela
zona de íngremes escadas que permitiam o acesso directo à
margem do lago. A língua de terra existente entre a margem e as

escadas, de apenas sessenta metros de largura, estava repleta de
embarcações varadas e de redes empilhadas ou estendidas sobre
os seixos e uma areia grossa constituída por um espesso granulado
basáltico de fortes tonalidades negras vermelhas e brancas. A partir
dali, na foz do Zaji, numa extensão de meio quilómetro, pescadores
isolados ou em pequenos grupos remendavam as redes ou
trabalhavam dentro e fora dos barcos, repassando aparelhos e
preparando-se para as próximas fainas no Kennereth.
Muito perto da água, solidamente enterradas, emergiam pesadas
pedras, de formas prismáticas, de vinte a trinta centímetros de
largura e de quarenta a cinquenta de altura, com umas perfurações
à maneira de botoeirana parte superior e pelas quais eram
introduzidos os cabos e cordas de atracação dos barcos que
flutuavam na margem. Estavam estrategicamente alinhadas ao longo
da margem e, por simples dedução, pensei que uma delas a
quinta a começar do extremo oposto devia ser a que ficava em
frente da casa dos Zebedeus. Não me enganei. Vários dos
pescadores, muito mais simpáticos que o primeiro a quem eu me
tinha dirigido, levaram-me até à escadaria de pedra que do meio da
praia, subia até à casa dos filhos do trovão. Ali tinha de ser -,
esperava-me uma dupla e comprometedora situação.
Foi um erro. Um erro involuntário que, noutras circunstâncias,
poderia ter-me custado muito caro. Mas a bondade e a tolerância
daquela família eram ilimitadas. A questão é que, ansioso por
estabelecer contacto com o pai dos Zebedeus, não me dei conta de
que tinha penetrado no casarão por uma porta privada, de uso
exclusivo dos donos e amigos da casa. Ao empurrar a grossa porta
de madeira vi-me dentro de um quinteiro rectangular onde
debicavam numerosas galinhas.
À direita, à sombra de um pequeno coberto, agitou-se inquieto um
pequeno rebanho de cabras de compridas orelhas pendentes e
carneiros de enormes caudas do género dos barbariscos, conhecidos
popularmente como de cinco quartos, dado o tamanho daqueles
apêndices (o quinto quarto). A presença de tais animais, oriundos
da Líbia, deu-me logo uma ideia de prosperidade da casa.
Atravessei o solo de terra batida e, ao transpor uma segunda

porta aberta na parede de pedra do quinteiro, encontrei-me perante
um espaçoso pátio a céu aberto que tinha sensivelmente a forma de
L. Diferentemente do do quinteiro, o pavimento deste segundo
recinto apresentava-se calcetado e impecavelmente limpo. À sua
volta dispunham-se seis casas de um piso, de diferentes alturas,
com estreitas escadas contíguas às paredes de basalto negro que
permitiam o acesso aos telhados.
Várias mulheres e crianças iam e vinham entre alguidares, fogões,
utensilios de cozinha e mós de moinho. A minha súbita e clandestina
entrada deixou-os perplexos. Uma das galileias cochichou ao ouvido
da mais velha e esta abandonando o braseiro onde crepitava uma
fumegante e apetitosa fritada de peixe, desapareceu a correr por
um dos escuros aposentos.
Não compreendi então, a razão de tão esquivo comportamento. O
meu aspecto, apesar de tudo não era incorrecto, embora me
apresentasse algo cansado da viagem. Saudei-os, desejando- lhes a
paz, mas não obtive resposta. Uma das meninas, de quatro ou cinco
anos, começou a chorar, refugiando-se nas pregas da túnica de sua
mãe. Alarmado e indeciso, não soube que dizer. Dei dois passos
com a intenção de perguntar pelo chefe da família mas as mulheres,
atemorizadas, retrocederam. Felizmente, tão embaraçosa situação
não durou muito.
Poucos instantes depois, apareceram por uma das portas dois
homens e a anciã que, evidentemente, se tinha apressado a
adverti-los da suspeita presença daquele esgrouviado e intrometido
estrangeiro. O meu coração agitou-se. Aqueles galileus eram João e
Tiago, filhos de Zebedeu. Como era possível? A sua chegada à costa
norte do lago estava prevista para a noite daquela quarta-feira ou,
como já referi, para a manhã do dia seguinte. A surpresa foi mútua.
Ao reconhecer-me, João tranquilizou os seus parentes e, de braços
abertos, saiu ao meu encontro, abraçando-me.
O carinhoso acolhimento distendeu os ânimos e as hebreias,
curiosas, sem tirarem os olhos de cima de mim, voltaram às suas
ocupações. Tiago distante como sempre, limitou-se a esperar à
porta da casa. O seu rosto anguloso apresentava-se mais grave e
olheirento que de costume. Devolveu-me a saudação e, frio e

directo, perguntou-me como tinha conseguido chegar ao yam tão
rapidamente.
(A palavra yam era a designação mais corrente do Kennereth ou
mar de Tiberíades, entre os pescadores e habitantes das margens
do lago.) Senti-me encurralado. Mas quando me preparava para
improvisar uma explicação, João interveio pondo termo à questão.
- Não precisavas de te incomodar...
Então pegando na canastra das provisões levantou-a, sorridente e
feliz, mostrando-a aos presentes. As crianças, alvoroçadas,
precipitaram-se sobre a canastra, procurando averiguar o seu
conteúdo. Mas João, em tom severo, conteve- as.
Não tive coragem para desfazer o mal-entendido e, resignado,
esbocei um sorriso de circunstância. A iniciativa do impulsivo João
tinha-me salvado das perguntas do seu irmão, pelo menos de
momento. Em contrapartida, lá se foram as nossas reservas de
alimentos...
Tiago regressou ao interior do aposento e, aproveitando a sua
ausência, interessei-me pelo resto do grupo. A explicação, no fundo,
era muito simples. Ele e o seu irmão tinham-se adiantado; os outros
chegariam a Saidan ao amanhecer.
Atendendo os desejos dos gémeos, cuja família residia muito
perto de Kursi (Gérasa) os discípulos de Jesus tinham feito uma
pausa no caminho. Com grande entusiasmo, João resumiu o
peregrinar dos onze pelo Jordão durante aquelas três jornadas,
aludindo às numerosas paragens que se viram obrigados a fazer, a
fim de satisfazer as perguntas das pessoas à volta das notícias
sobre a pretensa ressurreição do Mestre.
Pedro, em especial, fora o mais ardente, espraiando-se em
discursos que comoveram as populações simples das margens do
Baixo Jordão. Eram, como já referi, os primeiros sinais daquilo que,
mais tarde, acabaria por urdir uma chefia, tacitamente aceite pelo
flamante colégio apostólico.
Satisfeito parte do meu interesse, expliquei-lhe que os negócios
como já anunciara ao grupo no caminho de Betânia tinham-me
trazido até à costa norte do yam e que, uma vez concluídos, se a

minha presença não lhes fosse incómoda, pensava acompanhá-los,
tomando assim alguns dias de descanso.
João mostrou-se encantado, pedindo-me que soubesse
compreender e perdoar a desolação que naquela altura se abatia
sobre a sua família. O estado de saúde de seu pai não era bom e
isso trazia-os preocupados. Lembrei-lhe a minha condição de médico
e, sem reflectir suficientemente, pedi-lhe que mo deixasse examinar.
Dito e feito. Conduziu-me imediatamente ao aposento em que eu
vira pouco antes desaparecer o seu irmão.
A casa, tal como as outras que formavam o pátio familiar, não
tinha porta. No umbral alinhavam-se vários pares de sandálias. Um
pouco contrariado, descalcei-me eu também. A verdade é que não
me agradava nada perder de vista as preciosas sapatilhas
electrónicas. Mas, se o não fizesse, isso constituiria uma
descortesia para com os meus anfitriões.
A moradia, de uns sete metros de lado, estava dividida ao meio
por um tabique que, tal como o solo e as paredes, tinha sido
rebocado a gesso. Uma lâmpada de azeite pendia do tecto do
primeiro dos aposentos, espargindo uma luz ténue e amarelada.
Junto à porta de entrada, presas à parede por vários aros de
metal, estavam duas bojudas vasilhas de argila vermelha, com as
respectivas bocas tapadas por folhas e ramos aromáticos que ao
mesmo tempo protegiam e davam um sabor refrescante à água que
continham. À esquerda, na parede do fundo, várias prateleiras
guardavam todo o tipo de utensílios de cozinha: coadores, colheres,
garfos, frigideiras, peneiras, filtros, vasilhas, chapas para colocar
sobre o fogo, facas, pratos de madeira e um fole rudimentar feito de
pele de cabra. No solo, sobre esteiras de folha de palmeira,
estavam colocadas cestas com legumes, jarras de bronze e um banco
de madeira.
Na sala contígua, tão simples como a anterior, a luminosidade era
um pouco maior. Na parede virada para ocidente, uma pequena
janela com as portadas abertas deixava passar um feixe de luz solar
que desenhava um rectângulo no chão, igualmente atapetado. Numa
estante que se erguia junto do tabique que servia de divisória,
viam-se, cuidadosamente enrolados, os edredões que serviam para

dormir. Completavam o escasso mobiliário uma cómoda, pintada de
cores vivas, e duas lâmpadas herodianas de azeite, colocadas uma
sobre o mencionado móvel, e outra no solo, à cabeceira do
enxergão sobre o qual jazia um ancião. Aos pés do colchão de
palha, Tiago, de joelhos, contemplava, atento e em silêncio, um
homem de túnica branca e densa barba negra que, de cócoras,
procurava qualquer coisa numa caixa de madeira. O instinto pôs-me
de sobreaviso.
Imóvel no limiar da porta, esperei que João se aproximasse do
leito.
Aquela situação podia ser comprometedora. A insígnia presa ao
peito do indivíduo vestido de branco, uma haruta, com um ramo de
palmeira, significava que estava perante um médico ou «curador» -
possivelmente um rofé -, chamado pela familia.
Tinha de actuar com discrição, sem ferir a dignidade daquele
pensativo Galeno. Pelo nosso código, se a doença fosse grave,
deveria abster-me de intervir. João inclinou-se sobre o seu pai e,
tomando as mãos dele entre as suas, fez-me um gesto, indicandome
que me aproximasse. Disse-lhe que, dada a presença do médico,
talvez os meus serviços não fossem necessários. Mas, ignorando os
meus conselhos, insistiu para que o examinasse. Assim, o rofé, velho
amigo dos Zebedeus e, o que era ainda mais interessante, de Jesus
de Nazaré e do seu grupo, saiu do seu mutismo e, com um sorriso
conciliador, apontou-me o paciente, encorajando-me a que
interviesse.
O mais novo dos Zebedeus, não me apresentou como comerciante
ou simples curioso e seguidor da doutrina do Rabi, mas como
sincero amigo do Mestre. Cheio de satisfação, fui colocar-me à
cabeceira do chefe da casa: um ancião, de uma idade que podia
rondar os sessenta anos extremamente delgado ainda que de
compleição forte e fibrosa musculatura, fruto sem dúvida, dos muitos
e duros anos como pescador e construtor de barcos. Tinha o cabelo
branco e um rosto endurecido e bronzeado pelo sol e pelos ventos
do lago, naquela altura ligeiramente pontilhado por uma barba
grisalha de três ou quatro dias. Observou-me sem reservas lá do
fundo dos seus olhos claros e, confiado, deixou-me à vontade. O

pulso estava algo alterado mas não muito.
Quanto à temperatura, também não me pareceu irregular. Com a
maior delicadeza, a meia voz, pedi a Zebedeu que me indicasse
como é que o mal tinha aparecido.
Fechou os olhos e, levando as mãos à cabeça murmurou que
primeiro tinha sido aquele intenso zumbido, como se uma nuvem de
insectos revoluteasse na sua cabeça.
Depois vieram as dores, a perda da audição e as tonturas. Num
gesto de dor, apertou as orelhas com as suas enormes e calejadas
mãos.
Levantei a vista sobre o diagnóstico do «Curador», que pertencia
á seita dos Essénios e que tinha desenvolvido uma intensa
actividade como médico durante os anos da vida pública de Jesus,
atendendo os muitos doentes que vinham regularmente até Kefar
Nahum com a esperança de serem curados pelo Rabi da Galileia,
moveu a cabeça negativamente e, com toda a franqueza, expôs-me
as suas dúvidas. Desde que tinha sido chamado pelo Zebedeu há
já uns quatro dias -, a quase totalidade das suas observações não
dera resultado.
A memória, o estado geral de consciência do paciente, possíveis
tremores, a expressão do rosto, a cor da pele, face e olhos, assim
como a respiração, o odor do corpo e a inspecção diária da urina e
excrementos eram normais. Os exames funcionais de Assi não era
em vão que tinha recebido treino nas excelentes escolas de
medicina de Alexandria e no per-ankh ou Casa da Vida, de Assi -,
com movimentos e rotações de cabeça e extensões e flexões de
pernas (ante a possibilidade de luxações cervicais ou traumas de
natureza lombar), afiguraram-se-me oportuníssimos e muito
acertados. Contudo, o problema era muito mais simples.
* 1 Segundo os manuscritos descobertos em Qumrân a noroeste do mar Morto, e
os escritos de Flávio Josefo, Fison e Plínio, o Velho, os Essénios, eseos ou essenoi, como
indistintamente os denominavam estes autores, constituíam uma das três grandes
seitas judaicas de então que incluíam ainda os Fariseus e os Saduceus. Embora a sua
origem não tenha sido totalmente esclarecida, parece que se desenvolveram a partir
do século II a. C., tendo-se extinguido no final do século I d. C. Provavelmente terão
surgido como consequência do agitado período que se seguiu à revolução dos
Asmoneus. Segundo Josefo e Fison, o seu número oscilou em torno dos quatro mil,

espalhados pela Judeia e Galileia. Viveram em comunidades rurais, evitando as
cidades e seguindo «uma forma de vida que já foi ensinada aos gregos por pitágoras»,
(Antiguidades Judaicas, XV, 371).
Por certo, esses curiosos indivíduos tiveram muito em comum com os «pitagóricos»:
organizavam-se em Hcomunas, compartilhavam a terra e os bens e praticavam virtudes
como a abstinência, a modéstia, a autodisciplina, a discrição e uma estrita pureza
espiritual e corporal. Eram excelentes curadores, pois dominavam nomeadamente as
virtudes terapêuticas de uma infinidade de plantas e raízes. Vestiam sempre de branco
e, graças à minha amizade com Assi, tive oportunidade de aprofundar o meu
conhecimento da sua filosofia e dos seus fascinantes costumes, que foram,
evidentemente, do conhecimento do Filho do Homem. (N. Do M.)
- A princípio prosseguiu Assi, medindo cada uma das suas
palavras cheguei a pensar numa forte enxaqueca, provocada por
um vento mau 1.
E mostrando-me a colecção de poções e infusões que guardava na
sua caixa acrescentou:
- Mas as aplicações locais de coriandro, sementes de pinho,
tomilho, fígado de burro e ganso, natrão, tamargueira e espinhas
de peixe queimadas foram infrutíferas.
O voluntarioso auxiliador Assi recusou reiteradamente o meu
qualificativo de rofé, afirmando que só o Bendito (Deus) tinha o
poder de curar tinha mesmo experimentado um dos ritos de
transferência do mal, muito comum no antigo Egipto e recomendado
para a hemicrania ou dor numa das metades da cabeça. Durante
quatro dias esfregara a cabeça do paciente Zebedeu com a cabeça
de um peixe, tentando com escasso êxito, é bem de ver que os
vasos temporais restituíssem o ar ao enfermo.
Contudo, apesar destas e outras superstições que tive a
oportunidade de presenciar, o auxiliador dada a sua dilatada
experiência não se enganou muito no diagnóstico final. O
zumbido, as fortíssimas dores de ouvidos e a perda de audição
sentenciou plenamente convencido podiam ser sintomas de uma
otorreia ou de uma otite. (Ambos os males eram perfeitamente
conhecidos desde há muito tempo). Para Assi, como para o resto
dos médicos de há dois mil anos, cada um dos ouvidos recebia dois
vasos, que chegavam por cima dos ombros. Através deles entrava a

vida ou a morte. A primeira, pelo ouvido direito e a segunda, pelo
esquerdo.
*1 Naquele tempo, tanto na cultura hebraica como na egípcia, mesopotâmica e
grega, a imensa maioria das enfermidades era atribuída à acção de espíritos ou
agentes maléficos, à possessão demoníaca e ao castigo das divindades.
Só uma parte das doenças costumava ser atribuída a uma origem natural. O vento,
por exemplo, segundo o papiro de Edwin Smith (1550 anos a. C.), era considerado
como portador de doenças (possivelmente relacionadas com os miásmata) e como
sopro, ppneuma e «venta dos deuses». Também a bílis, determinadas combinações de
alimentos, a fleuma e todo (um factor que podia originar-se da putrefacção intestinal),
entre outros
eram causas de múltiplos quebrantos. Para muitos destes povos, as doenças penr
travam nos corpos pelos orifícios naturais, mesmo que tivessem origem divina e
demoníaca. Uma vez no interior do corpo, espalhavam-se através dos seus canais. (N.
Do M.)
(Uma concepção derivada do poder atribuída à palavra falada.)
Pois bem, segundo Assi, acausa daquela possível surdez de
Zebedeu tinha de ser procurada no desarranjo dos dois vasos que
terminavam na base dos olhos ou nas têmporas.
- Nesse caso concluiu o mais indicado seria uma aplicação à
base de sais minerais, folhas de legumes ou uma orelha de burro
num unguento-base.
Desconcertado, não me atrevi a replicar-lhe.
- ... Claro que talvez fosse mais eficaz um emplastro de excremento
ou, Simalão, qual é a tua opinião?
Que podia eu dizer. Fiz que reflectia e evitando uma confrontação
directa, procurei ganhar tempo. Pedi a João uma das lucernas de
azeite e erguendo o torso do ancião, aproximei a candeia do seu
ouvido direito. Assi e os dois irmãos apressaram-se a ajudar-me.
Apesar da fraca iluminação não tardei a constatar a possível origem
do mál. Repeti a exploração no ouvido esquerdo, chegando à
mesma conclusão: as sensações acústicas captadas por Zebedeu e
as dores sequentes eram devidas àquilo que em medicina
denominamos acúfenos ou acusmas. Embora esta perturbação
apareça com frequência, na maior parte das enfermidades do ouvido

Por vezes deve-se à natural acumulação no condutor auditivo externo
de cerume uma depressão séria das glândulas sebáceas do referido
condutor que, por vezes, se torna espessa formando um tampão).
Esta era a causa principal daquele transtorno que, se diagnosticado
a tempo, não oferecia excessivas complicações.
O carácter benigno e de certo modo, sem importância de maior do
caso, autorizava-me a intervir, sem que por isso quebrasse as
normas rígidas da Operação Cavalo de Tróia. Em resumo, tratava-se
de conseguir um progressivo amolecimento do cerume, procedendo
depois à sua extracção. Para tanto, pelo menos durante os próximos
três ou quatro dias, deveria administrar-Lhe algum medicamento ou
infusão que actuasse como dissolvente da massa de cera. O
problema era como fazê-lo sem despertar suspeições; e tinha de
actuar de imediato por uanto a dolorosa prostração de Zebedeu
assim o requeria. Sem muitas alternativas, lancei mão da
improvisação.
Invocando uma inexistente receita do Livro das Sentenças, de
Jesus ben Sirac, escrito cento e cinquenta anos antes de Cristo,
tranquilizei a consciência médica do essénio provocando ao mesmo
tempo a lógica admiração de João e Tiago.
De momento tinha de trabalhar com os únicos elementos que tinha
à mão. Mais tarde, de regresso à nave a preparação dos unguentos
seria menos heterodoxa e precipitada. Seguindo as minhas
instruções, Assi preparou um analgésico, à base de folhas de
melissa (cujo conteúdo em azeite essencial citral, citronela,
geraniol, linanol e tanino dava um resultado muito aceitável) e uns
gramas de samê de Sinta, um poderoso analgésico.
Com idêntica diligência, João aqueceu na minha presença uns
centímetros cúbicos de azeite puro de oliveira e, quando achei que
a temperatura tinha chegado aos vinte a vinte e cinco graus
centígrados, verti umas gotas em cada um dos ouvidos do paciente.
Aquele foi o único momento em que o auxiliador mostrou um ar
contrafeito, reprovando em silêncio a minha atitude. No entanto,
discreto e respeitoso para com os métodos daquele médico
estrangeiro, não disse nada. Em posteriores encontros, uma vez
ganha a sua confiança, confessar-me-ia a razão daquela muda

censura. Tal como relata Josefo, os Essénios consideravam o azeite
como impuro e por isso, quem quer que, mesmo acidentalmente,
entrasse em contacto com ele, manchava a sua pessoa. Esta era
uma das razões que os obrigava a manter a pele seca e a vestir
sempre de branco (Antiguidades Judaicas, II, 8, 3, 123). Esta
interessante seita da qual também deverei falar - estava em
confronto aberto com as interpretações
religiosas e os hábitos das castas sacerdotais judaicas. O
Talmude, por exemplo, estabelecia a unção como uma necessidade.
Tomar um banho e não se ungir, rezava o Shabbat, 41a, é como pôr
água num jarro.
O forte analgésico não tardaria a fazer efeito. De modo que, eu e
Assi, de mútuo acordo, recomendámos aos filhos do Zebedeu que o
deixassem repousar, administrando-lhe duas novas doses de azeite
quente durante a primeira vigília da noite e ao alvorecer. A terceira
já seria sob a minha orientação nessa mesma manhã de quintafeira.
Tiago, um pouco mais reconfortado pelas minhas palavras de
alento, que ficaram gravadas no seu íntimo, opôs-se a que eu me
fosse embora.
João, num dos seus arroubos juvenis, perante a minha firme
decisão de não pernoitar em Saidan, correu para a porta e
apoderou-se das minhas sandálias, fugindo com elas, na boa
intenção de me forçar a desistir das minhas pretensões de partir de
imediato para Nahum. Fiquei assustado. Ainda que fosse improvável
que ele viesse a descobrir os ocultos microssistemas electrónicos,
havia de facto a possibilidade e o grave risco de num daqueles seus
rompantes as destruir ou, simplesmente, as esconder,
prejudicando assim o desenrolar dos planos da operação. Assi e
Tiago riram-se com o caso, declarando-me, divertidos, que, agora
sim, estava perdido.
Corri atrás dele exactamente a tempo de vê-lo transpor a porta de
acesso ao quinteiro. João não se deteve e, com um salto, lançou-se
pelas escadas abaixo, em direcção à praia. A meio dos íngremes
degraus travou e, indeciso, como se procurasse um esconderijo para
o calçado, deu uma rápida olhadela aos barcos varados entre as
redes. Gritei-lhe para que acabasse com aquela incómoda

brincadeira, mas ele , levantando as sandálias por cima da sua
cabeça, desafiou-me a apanhá-lo. Ágil como um gato, desistiu dos
últimos degraus, saltando com toda a facilidade para a praia.
Maldizendo a minha má sorte, corri atrás do endiabrado jovem,
ferindo os pés nos calhaus da praia. A perseguição, em que
naturalmente ele levava a melhor, prolongou-se pela praia fora, até
quase um quilómetro de Saidan. Estando eu já esgotado, prestes a
desistir daquela corrida louca, eis que João parou de repente.
Vi-o largar as sandálias e, de costas começar a retroceder com
passos inseguros e vacilantes. Diante dele estendia-se a grande
colónia de tartarugas dos pântanos a que atrás aludi.
Estranhei que ele não seguisse em frente: Aqueles quelónios eram
tão feios como inofensivos.
Quando cheguei ao pé dele, João, transtornado, incapaz de
articular palavra, apontou para o solo recoberto de cascalho escuro.
Confundida entre os seixos retorcia-se uma serpente de um metro de
comprimento. Desta vez fui eu quem soltou uma gargalhada; e
aproximando-me do hofídio, apanhei-o pela base da cabeça,
levantando-o e mostrando-o ao apavorado jovem. O assustado
animal, único na fauna da Palestina era afinal uma pobre cobrad'água
incapaz de causar danos a quem quer que fosse e cuja dieta
básica eram os peixes do Lago. Nos actuais mosaicos da igreja de
Tabja vê-se um demónio lutando com um destes pacíficos répteis do
Kennereth. João, com os olhos esbugalhados, pediu-me que lhe
perdoasse e suplicou Que me desfizesse daquele demónio. Era
inconcebível. Apesar dos seus muitos anos de intensa amizade com
Jesus de Nazaré, aqueles rudes pescadores continuavam aferrados a
toda a espécie de superstições e malefícios, claro que também era
possível que aquele terror para com as serpentes constituisse uma
hofidiofobia, um medo patológico aos ofídios, cujas causas só
podem desvendar-se mediante uma profunda análise psicológica do
indívíduo. Para alguns autores, em geral a hofidiofobia ou medo
patológico dos animais poderia ser interpretada como uma oculta
recusa de ter filhos.
Curiosamente, João viria a morrer solteiro...
Incapaz de manter ou alimentar tão desagradável situação

apressei-me a largar a serpente perto da água. O réptil, tal como eu
esPerava, submergiu de imediato, desaparecendo no yam.
João, banhado num suor frio, deixou-se cair sobre a areia, exausto
e a tremer. Peguei nas minhas sandálias e, esquecendo a sua
travessura, quedei-me em silêncio enxugando-lhe a fronte.
Fronte. Durante breves segundos observou a minha roupa. De
súbito aqueles inquietos olhos negros fixaram-se nos meus e
perguntou-me: - Quem és tu na realidade?
Foi como se uma lâmina de fogo se propagasse pelas minhas
entranhas e adivinhando uma secreta intenção atrás das palavras
do meu amigo, esquivei-me à medida que lhe explicava a
complexidade, com um forçado sorriso, acrescentando uma coisa ao
que ele já sabia:
- Já o sabes muito bem: um tosco grego que, finalmente,
encontrou a verdade. - Como era de esperar, não aceitou a minha
evasiva. E com a audácia da sua juventude continuou a acossar-me:
- ... Porque é que o Mestre mal te viu em casa de Lázaro te recebeu
como a um velho e querido amigo? Porquê o teu interesse por ele?
De onde vens? Porque desafiaste os odiosos romanos
permanecendo ao lado do rabi enquanto os outros fugiam? Como
podes saber quando e onde?...
Não permiti que ele continuasse. Fechei os seus lábios com a
minha mão direita e, dizendo-lhe que não com a cabeça, procurei
demovê-lo de tão inoportunas cogitações. Penso que foi inútil. João
sabia ou intuía uma coisa anormal.
A sua última pergunta foi a clara confirmação e o anúncio de que,
pela primeira vez, me encontrava numa situação comprometedora.
- ... porque desapareceste numa nuvem branca?
Ao ouvir a referência à névoa, confesso que me senti desarmado.
- Como é que sabes isso?
Na sua candura, o discípulo confessou a única origem possível da
sua correcta informação, João Marcos. Para meu azar, o Benjamim da
família Marcos, uma vez refeito da cena do monte das Oliveiras,
correu ao encontro do grupo, juntando-se à expedição em Betsaida.

No caminho, perante a incredulidade geral, deu-lhes conta da
estranha névoa surgida atrás de mim e de como Jasão tinha entrado
nela, esfumando-se como um anjo do Senhor.
- ... É claro que concluiu o Zebedeu nenhum dos meus
companheiros deu crédito às suas fantasias... excepto eu.
- Então João Marcos veio convosco...
João confirmou triunfante, na convicção de que me tinha
apanhado.
- Muito bem concluí enfaticamente. - Amanhã demonstrar-te-ei
que estás enganado.
E sem dar-Lhe ocasião de responder, afastei-me em direcção ao
caminho, iniciando a viagem de regresso ao berço.
A jornada de quinta-feira, 20 de Abril, prometia ser tão animada
como a que estava prestes a terminar.
Bem vistas as coisas, a corrida atrás de João Zebedeu teve
também o seu lado bom. Permitiu-me abandonar Saidan mais
rapidamente do que pensava e, por acréscimo, pôr-me ao corrente
da presença, entre os discípulos, do pequeno João Marcos. Não
sabia muito bem como, mas a verdade é que tinha de agir. Era
preciso pôr em andamento um estratagema suficientemente claro e
contundente para dissipar os receios e as insinuações que acabava
de ouvir. No fundo, aquela situação inesperada serviu-nos de lição.
Cavalo de Tróia tinha subestimado os supostamente primitivos e
incultos homens do século I. Alguma coisa me ocorreria.
Às dezoito horas e dez minutos, sem qualquer entrave, avistei a
ponte sobre o rio Korazim. Eliseu alegrou-se ao ouvir a minha voz.
Os cálculos estavam correctos. Sem carga e num bom andamento, o
caminho de Saidan a Kefar Nahum podia fazer-se em pouco mais de
uma hora, reduzindo em cerca de vinte minutos a primeira
caminhada.
Paguei a obrigatória portagem (duas leptas, que equivaliam a um
quarto de asse, ou seja, apenas uns trocos) ao funcionário da
alfândega, e seguindo a estrada, rodeei a cidade pelo lado norte
até alcançar o caminho que subia para a colina onde estava assente
o módulo. Restavam uns quarenta e cinco minutos para o ocaso e,

depois de prevenir o meu irmão, optei por andar mais uns passos
até ao extremo sul do promontório -, evitando assim a vereda que
utilizara na descida e que, como disse, se bifurcava a uma milha de
Nahum. Não era prudente que me vissem tomar o caminho do
cemitério. A uns cem metros do lugar onde me tinha encontrado com
Jonas, o ainda suposto monte das Bem-Aventuranças era cortado na
encosta sul pela Via Máris.
Aquela era uma das passagens mais estreitas da costa norte. À
esquerda da estrada, o terreno precipitava-se literalmente sobre as
águas, formando um talude inclinado de vinte a trinta metros. O
precipício servir-me-ia de referência nos sucessivos retornos à basemãe.
Dali, encosta acima, a nave encontrava- se a uns seiscentos
pés. O caminho, a partir daquele ponto, afastava-se um pouco do
litoral, desenhando um amplo arco que bordejava as cabanas e o
complexo hidráulico de Tabja.
Naquele momento reparei num aqueduto de cerca de dois metros
de altura, meio encoberto pela vegetação, que partia da zona dos
moinhos; nas Sete Fontes, perdendo-se entre os rochedos da costa,
em direcção a Nahum.
Na manhã seguinte confirmaria que se tratava de uma das mais
importantes condutas de água potável que abastecia a «cidade de
Jesus».
Dispunha ainda de uma certa margem de luz solar e, por isso, para
obviar à falhada aquisição de víveres, julguei oportuno aproximarme
do povoado que estava à minha vista.
Com toda a certeza, os habitantes de Tabja poderiam fornecer-me
água e algumas provisões. Eliseu não julgou oportuno, mas, mesmo
contra a sua vontade, percorri os trezentos metros que me
separavam das cabanas.
Fiquei de novo agradavelmente surpreendido. O aproveitamento
industrial de Nahum era perfeito. Se os estaleiros, o fabrico de
vidro, o artesanato e o comércio se centralizavam na cidade
propriamente dita. Ali, entre hortas, pomares e um airoso palmeiral,
palpitavam os rumorosos mananciais que moviam os moinhos e as
forjas. Os primeiros eram, na sua maioria, de farinha, embora
também os houvesse para serrar madeira, triturar a azeitona e a uva

e até para moer pimenta e cortar pedra. Todos os dias, grupos de
operários e especialistas das vizinhas localidades de Guinosar,
Nahum e Migdal deslocavam-se até àquele belo ; local para pôr em
funcionamento as curiosas maquinarias, idealizadas e construídas
pelos romanos e que são citadas por Vitrúvio.
Entre aquela engenhosa rede de tanques, canais e aquedutos
erguiam-se ainda os tradicionais moinhos de cereais, movidos à
mão ou com a ajuda de animais. Mas o que verdadeiramente
chamou a minha atenção fora aquela invejável obra de engenharia
para uso dos seus habitantes, que pouco ou nada teria a perder dos
ingleses e norte-americanos até aos anos quarenta e cinquenta do
nosso século.
Os habitantes do lugar, prestáveis e acostumados a tratar com
toda a espécie de forasteiros, corresponderam de imediato à minha
solicitação, enchendo um áspero odre de pele de cabra, de uns
quarenta litros de capacidade, com água de uma das fontes que
brotava muito perto do grande depósito octogonal de vinte metros
de diâmetro que tínhamos detectado lá do alto.
*1 Os mais numerosos eram feitos a partir de dois cones" de basalto de um
metro de diâmetro nas respectivas bases -, unidos pelos vértices. Neste ponto de união
havia uma braçadeira e a pedra superior ficava suspensa por meio de um espigão de
ferro, tocando o cone inferior de forma a poder triturar o pão que entrava pela
abertura superior do moinho.
Ajustando o espigão obtinham-se moendas de diferente granulação: fina, média ou
grossa. Na referida confluência dos cones, uma alavanca de madeira ou de metal
permitia a rotação do moinho, por tracção humana ou animal. À medida que o grão
era triturado, a farinha ia saindo pela base do cone inferior, caindo a um canal de
pedra especialmente instalado para isso.
Os moinhos movidos por mulas ou jumentos como o que acabo de descrever,
foram caindo em desuso sendo paulatinamente substituídos pelos hidráulicos. Em caso
de guerra, por exemplo, a requisição dos animais acabava por desactivá-los, lançando
as populações na penúria e na fome. (N. Do M.)
2 a quase totalidade destes moinhos hidráulicos estava instalada nos aquedutos,
canais ou reservatórios, de forma a que as correntes fossem mais fáceis de controlar.
Uma roda de madeira dentada, ou provida de alcatruzes, era movida pela referida
corrente, transmitindo a força necessária ao resto da maquinaria. Esta, em linhas
gerais, constava de uma pia circular de pedra com uma coluna central à qual se
fixavam duas alavancas que controlavam a mó. Estas encontravam-se uma em frente

da outra, de cada lado da coluna. Na parte interna eram planas, na externa convexas,
encaixando-se assim nas paredes do recipiente. Juntavam-se de forma a não tocarem
na pia, deixando um espaço para ir esvaziando o grão ou a azeitona. As pedras eram
movidas graças a uma alavanca instalada de lado a lado sobre a zona superior da pia.
(Até certo ponto moviam-se sobre o seu próprio eixo como consequência da pressão
do cereal, originando um duplo movimento.) (N. Do M.)
Porém, o capítulo dos víveres ficou em branco.
Nakdimon, o funcionário judeu responsável pelo fornecimento de
água a Nahum e à indústria dos moinhos, que acorrera, encantado e
complacente, em meu auxílio, aconselhou-me tal como Jonas, a que
visitasse o mercado do dia seguinte, em Kefar Nahum. A minha curta
estada em Tabja, sempre guiado por Nakdimon, foi extremamente
frutuosa. Enquanto percorria as instalações, o funcionário pôs-me a
par de alguns pormenores que eu ignorava por completo. Sem
dissimular o seu desgosto, o capataz-chefe do Bairro das Sete
Fontes lamentou a nacionalização das águas pelos romanos. Com
efeito, desde que o Império tinha colonizado a Palestina, a riqueza
hídrica tinha passado para as mãos de Roma. César era o legítimo
proprietário que delegava, em cada província, numa densa rede de
funcionários. As tarifas cobradas pelo consumo da água iam
directamente para os cofres de Tibério. O controlo para evitar as
fraudes era levado a cabo com extremo rigor. De cada aqueduto
assim o especificava a legislação romana partia um determinado
número de tubagens. Para inserir uma nova canalização era preciso
solicitar uma autorização especial ao Governo. Quando este
concedia a licença, o inspector da zona entregava ao novo usuário
um calix, ou chave de passagem, de determinadas dimensões, de
acordo com o volume de água solicitado. Esta peça regulava o
caudal de forma inexorável. Se o consumidor era um industrial, o
calix recebido era naturalmente de maior secção, mas sempre de
acordo com o marcado na respectiva licença. Mas, exceptuando
essas chaves de passagem, a canalização era de propriedade
privada e cada um tinha de ocorrer às despesas de instalação e
manutenção. (Existia de facto uma lei que obrigava a que as
dimensões do calix se mantivessem em cada conduta até uma
distância de cinquenta pés da referida chave de passagem.) Era

terminantemente proibido obter água de outro lugar que não fosse
o depósito do aqueduto, assim como ramificar as canalizações. Tal
como acontece no século xx com o serviço telefónico ou o
fornecimento de electricidade, naquela época, o direito à água
tinha carácter pessoal. Desta maneira, quando um inquilino
abandonava uma casa ou um moinho, os engenheiros e inspectores
fechavam o calix. Contudo, diferentemente dos actuais
procedimentos na matéria, o Império Romano autorizav a venda das
licenças. Os novos proprietários ou arrendatários, antes 1de
tomarem posse da moradia ou da indústria, tinham de verificar se a
respectiva licença não tinha passado para as mãos de terceiros. O
elevado custo do fornecimento de água forçava numerosas famílias
a prescindir desses serviços, abastecendo-se nas fontes ou
nascentes públicas. Jesus, pelo menos durante a sua vida em
Nazaré, não teve oportunidade de desfrutar deste cómodo e
dispendioso sistema de água corrente ao domicílio. Só os mais
abastados podiam, de facto, permitir-se semelhante luxo.
Pelas dezanove horas, com o pesado odre de água às costas, que
Deus misericordioso quisesse que este imprudente expedicionário
regressasse são e salvo ao nosso querido lar, na encosta sul do
promontório que dourava o já avermelhado lago de Tiberíades.
Eliseu, posto a par das minhas primeiras andanças e correrias pela
costa do yam, concordou comigo em que a Providência nos assistia.
Apesar da perda dos víveres e da arriscada intromissão no caso do
jovem carregador do cais de Nahum, a mudança nos planos tinha
valido a pena. No entanto, com a sua habitual sensatez, advertiume
de que não convinha abusar da sorte e que fizesse um esforço
no sentido de me conformar com o programado pela Operação. A
minha incursão a Tabja e o transporte da água para o berço podiam
ter esperado. É curioso. Embora eu fosse mais velho e de patente
militar superior à do meu companheiro, foi Eliseu quem, durante
toda a aventura na Palestina, desempenhou sempre o papel de
paciente e sábio irmão mais velho, que sabia ouvir, animar ou
repreender na altura adequada. Agora, no fim dos meus dias,
continuo a ter saudade dos seus conselhos, da sua tolerância e do
seu coração de ouro.
Naquela noite, enquanto preparava um dissolvente para o cerume

do Zebedeu, o meu amigo uma vez analisado e fervido o
carregamento de água colocou-se diante dos painéis de controlo
do módulo, caindo num férreo mutismo. Eu tinha-o posto a par da
minha breve conversa com João e ambos concordámos,
naturalmente, na necessidade de encontrar uma solução sólida e
urgente que pusesse fim ao falatório provocado pelo benjamim da
família Marcos. Não era fácil. Mas Eliseu, após uma longa reflexão,
encontraria meio para remediar tão comprometedora situação. Por
sorte, a farmácia da nave era excelente. Após uma consulta ao
banco de dados do Pai Natal, decidi-me por uma composição à base
de óleo ou azeite de terebinto, numa proporção de um e meio por
cada dez centímetros cúbicos, e uma série de complementos não
irritantes, como o clorbutol (quinhentos miligramas), a benzocaína
(trezentos miligramas) e o benzofenol (também à razão de um e
meio por cada dez centímetros cúbicos). Um volume de dez
centímetros cúbicos seria suficiente para duas ou três doses diárias,
a introduzir nos ouvidos do Zebedeu durante dois dias. Assim se
conseguiria um progressivo amolecimento da massa de cera, que me
permitiria não sabia ainda bem como a extracção dos dolorosos
tampões.
Colocada a infusão numa pequena ampola de barro, entreguei-me
à revisão do programa de quinta-feira. A partir da chegada dos onze
a Saidan, os acontecimentos podiam precipitar-se a qualquer
momento. O nosso principal objectivo no lago consistia em tentar
observar as pretensas aparições de Jesus.
Nesse sentido, os evangelhos dos cristãos não são muito
explícitos. Como já referi, só o texto de João faz uma vaga alusão à
presença do Mestre nas margens do yam, sem especificar nem o dia
nem o lugar exactos. Nas margens do mar de Tiberíades, como reza
parte do versículo 1 do capítulo 21 não constituía uma grande
ajuda. Esta expressão podia querer dizer frente às costas de Nahum,
de Saidan ou de qualquer outro ponto do grande arco formado pelo
litoral norte, com os seus quase catorze quilómetros, desde Migdal
a Betsaida. A única possibilidade de estar presente em tal
acontecimento obrigava-me a permanecer junto dos discípulos, sem
os perder de vista nem um minuto. Quanto à segunda possível
aparição na Galileia referida pelo Evangelho de Mateus (28, 16-

20) -, também não era um primor de informação. A que monte se referia o
evangelista? O citado litoral está semeado de colinas...
*1 Da casca do terebinto, sangrando-o, obtém-se a terebentina de Quio,
conhecida naquele tempo pelos «curadores» gregos, egípcios e babilónicos com os
nomes de terebinthos e terebinthina. Esta resina oleosa contém catorze por cento de
essência, formada basicamente por «pineno». O resto são resinas, com pequenas
quantidades de ácido benzóico. (N. Do M.)
Pelo que eu tinha visto e ouvido, as palavras de Mateus não eram
muito exactas. Por seu turno, diz o escritor sagrado nos referidos
versículos, os onze discípulos foram para a Galileia até aqui,
correcto, para o monte que Jesus lhes tinha indicado .... (O Filho
do Homem não lhes indicou monte algum durante as suas aparições
em Jerusalém. Apenas que fossem para a Galileia, onde voltariam a
vê-lo.)
Por último, o bom Saulo ou Paulo, na sua primeira carta aos
Coríntios (15, 5-8), faz uma afirmação não contida nos Evangelhos
que também não soubemos como interpretar: (... depois apareceu
a mais de quinhentos irmãos de uma vez ....
Onde e quando se registou tal aparição multitudinária? As coisas,
como veremos, apresentar-se-iam muito mais complexas,
apaixonantes... e diferentes. Mas vamos por ordem.
Por fim, Eliseu, ressurgindo do seu mutismo, voltou-se para mim e,
com um sorriso malicioso, perguntou:
- Como te dás com os jogos de mãos?
Então, astuto e eficiente, passou a apresentar-me em pormenor a
sua ideia. Uma ideia que podia tirar-me do atoleiro para o qual as
circunstâncias e João Marcos me tinham arrastado.

20 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA
Nervoso com a perspectiva dos acontecimentos que se
aproximavam mal pude dormir. O dispositivo de segurança IR, no
automático, não acusou qualquer presença humana nas imediações
da nave; apenas alguns bandos de aves que, ao raiar do novo dia,
se lembraram inoportunamente de revolutear e pousar muito perto
da pequena laje de pedra, contígua ao nosso local de implantação.
Tal como a anterior, a jornada daquela quinta-feira apresentavase
radiante, do ponto de vista meteorológico.
Tendo em conta que os íntimos de Jesus se o anúncio de João
Zebedeu não sofresse alterações podiam ter entrado em Saidan
ao anoitecer de quarta-feira, o mais conveniente para os nossos
planos era aguardar até ao meio-dia ou primeiras horas da tarde
para marcar presença na casa dos Zebedeus. Depois de tão longa e
cansativa marcha pelo Jordão, o mais provável é que os discípulos
dormissem até bem tarde. A partir da minha entrada em Saidan,
como disse, deveria mostrar-me especialmente cauteloso e atento.
Dispúnhamos, consequentemente, de umas seis horas para concluir
outras duas operações, que por prosaicas, nem por isso eram menos
importantes. A primeira, a cargo de meu irmão, consistia em
preparar os elementos que com um pouco de sorte deveriam
ajudar-me a destruir o equívoco da névoa e da minha nada
recomendável condição de anjo do Senhor.
Esse simples instrumental (um par de pequenas esferas de cortiça
de cinco centímetros cada e um fio de seda) deveria ser completado
com a aquisição em Nahum de uma barra de vidro de tamanho
médio absolutamente comum e corrente. Nenhum daqueles materiais
perfeitamente conhecidos pelos habitantes do lago violava as
normas do código do Cavalo de Tróia. A segunda acção, vital para a
nossa subsistência e, em especial, para a de Eliseu, obrigava-me a
descer a Kefar Nahum e, numa ou duas viagens, abastecer a
enfraquecida despensa do berço.
Havia a possibilidade de, uma vez em Saidan, a minha ausência
do módulo se prolongar por vários dias. De modo que, aproveitando
a frescura do amanhecer, dei início à que seria a definitiva e
quotidiana via de descida e subida do módulo às povoações do

lago. Encosta abaixo, fui ter à estrada na passagem do precipício e
a partir dali, em coisa de vinte a trinta minutos, cheguei às portas
da cidade. A fim de não perder tempo repeti o itinerário do dia
anterior. O ruído produzido pela moedura de grão estava no seu
máximo, assim como o vaivém dos comerciantes e artesãos,
ocupados na abertura dos seus bazares e oficinas ou no atiçar dos
fogões sobre os quais douravam redondas tortas de farinha ou
ferviam negros panelões com fumegantes e apetitosos guisados de
carneiro, grossos rabos de ovelha ou simples sopas de cereais e
sêmola de cevada.
No meu caminho para a oficina de Azemilkos observei um maior
número de muares e camelos que no dia anterior, perfeitamente
alinhados e amarrados à borda da rua principal e das ruas
adjacentes. Também esse facto tinha a sua explicação: a realização
do mercado semanal, que constituía todo um acontecimento
económico-social.
O velho chefe da oficina de fundição de vidro recebeu-me com
exagerada reverência, agradavelmente surpreendido com a
prontidão do meu regresso. Numa rápida olhadela pela exposição
compreendi que a compra da pequena barra de vidro não era uma
coisa assim tão trivial como tínhamos suposto.
Obviamente, tais barras não tinham qualquer utilidade e por isso
não se fabricavam. A única solução consistia em adquirir um jarrão
de dupla asa e, uma vez no berço, serrá-las. Para a experiência que
me propunha executar, a forma da peça de vidro era o que menos
importava.
O objectivo seguinte aquisição dos víveres levou-me de novo
ao cais. O tráfico de mercadorias e a agitação dos carregadores e
capatazes nada tinham a invejar ao de quarta-feira. Alguém me
indicou o extremo oeste do porto como o lugar onde,
tradicionalmente, se instalava o mercado. Com efeito, no final do
espigão, no limite de Nahum, descobri uma praceta de uns
cinquenta metros de diâmetro, pavimentada com lajes negras
idênticas às utilizadas para o pavimento da Via Máris e fechada,
na sua zona mais ocidental, por um muro de uns três metros de
altura e dez de comprimento do qual emergiam seis grossos canos

de ferro. Por detrás perfilava-se o aqueduto que partia dos
depósitos de Tabja e que trazia a água potável para a cidade. O
líquido corria incessantemente por quatro das seis tubagens e
ficava depositado num tanque rectangular, passando deste para um
longo e estreito bebedouro em que se dessedentavam densos
magotes de jumentos, mulas, camelos, bois e ovelhas.
Aquela, tal como a que já tinha observado nas imediações de
Saidan, era a fonte pública de Nahum, sempre assediada por
mulheres com cântaros apoiados nos quadris ou em milagroso
equilíbrio sobre as cabeças. Uma legião de crianças chapinhava no
tanque, brincando com troncos de madeira ou cortiça ou dando de
beber a barulhentos e ariscos patos que, com toda a razão,
resistiam a participar naquele caos. Os protestos e imprecações dos
vendedores, salpicados ou entontecidos pelas brincadeiras da
criançada e pela gritaria das gordas e agressivas matronas eram
contínuos e, de certo modo, faziam parte do ritual que envolvia tais
centros de reunião.
Ao longo de todo o perímetro da praça, comerciantes e
vendedores ambulantes chegados dos quatro pontos cardiais
exibiam os seus produtos e habilidades, numa louca, permanente e
atroadora gritaria, em que ninguém queria ficar atrás. Uma patrulha
de legionários, postada no limite do cais com o terreiro, seguia
atentamente as evoluções dos regateios inevitavelmente
acompanhados de exclamações teatrais, murros no peito e
juramentos apaixonados que, em geral, não passavam dali.
O desfile de galileus de longas barbas e bigodes rapados, com as
suas cestas de compras na mão esquerda, atentos às novidades
chegadas de Tiro, da Decápole, da Idumeia ou da própria Cidade
Santa, foi engrossando com o despertar da luminosa manhã. Tal
como em Jerusalém, em Nahum eram os homens que faziam as
compras; em especial, tudo o que se referia aos víveres e artigos de
primeira necessidade. Numa espantosa mistura de aramaico, grego,
egípcio e outras línguas caldaicas e mesopotâmicas, mercadores de
roupa e calçado, barbeiros, oleiros, perfumistas, adivinhos,
curadores, negociantes de gado, pescadores e hortelãos, entre
outros, obrigavam os curiosos a examinar, cheirar, provar e apalpar
os seus produtos, invectivando e até puxando para que o possível

comprador não passasse ao largo. Sobre alcatifas e esteiras de
palha, os objectos importados de Roma, da Gália, das ilhas do
Mediterrâneo ou das remotas Ursa e Índia, gozavam da especial
predilecção dos habitantes de Nahum e das aldeias e povoações
vizinhas. Ali podia comprar-se de tudo: do mais inverosímil ou
luxuoso até ao mais pitoresco.
Desde um banco (subselium) finamente lavrado e em madeira de
carvalho pelos carpinteiros do Tibre, até uma espécie de caixa forte
(glosso-komon) onde guardar o dinheiro ou documentos, passando
por sagum ou capas curtas, abertas lateralmente, sem mangas,
muito em moda entre a gente do Império. Lá encontrei tabulas ou
bandejas para o serviço de mesa; mappas ou toalhas de mesa de
seda e rendas de Palmira e Séforis; roupa interior para senhora,
túnicas curtas ou Kolgur transparentes, meias de lã, chapéus e
sandálias de laodisseia, véus brancos, de luto, para as viúvas,
flautas e harpas de Tebas ou Creta; instrumental médico; sombrinhas
coloridas para se proteger do Sol nos degraus dos anfiteatros;
preservativos egípcios, feitos de bexiga de antílope e gato,
convenientemente conservados em frascos de azeite; cestaria
beduína também; e modelos de utensílios de barro e vidro de
Samos e do Egipto respectivamente. Um tal refinamento deixou-me
espantado.
O homem do século xx, na sua soberba, julga ter alcançado o
limite da comodidade e da perfeição quando, na realidade, já tudo,
ou quase tudo, estava inventado. No meio do tumulto, um
boquiaberto círculo de crianças, adultos e mulheres rodeava os
barbeiros-médicos-dentistas, assistindo, atónitos e perplexos, à
rapadela das barbas, à extracção de dentes ou à pintura de
cabelos. Fenícios, gregos, galileus e egípcios sentavam os seus
clientes em pequenos tamboretes ou enferrujados pipos,
amolecendo as suas barbas com água quente e, à falta de sabão,
com espessos e escuros produtos oleaginosos, fazendo deslizar
sobre as faces e pescoços longas navalhas de ferro, de gumes já
gastos na sua contínua ida e vinda pelos caminhos do país.
A pintura do cabelo em preto e ruivo para os homens e lourodourado
para as mulheres fazia-se à luz do dia, sem o menor
assomo de pudor até à última das cãs. Mas o trabalho preferido dos

curiosos o mais arrepiante e patético era a extracção de dentes.
Concluída uma barba ou a pintura de uma cabeleira, o barbeiro
acomodava o timorato paciente e, depois de se inteirar do seu
problema, procedia ao exame da dentadura. A seu lado, se se
tratava de um profissional com certo desafogo económico, um ou
dois aprendizes geralmente escravos preparavam os unguentos,
os anestésicos e o instrumental médico do homem dos dentes, como
popularmente eram conhecidos.
Aqueles curadores dispunham, em geral, de um arsenal cirúrgico
relativamente aceitável: sondas, lancetas e escalpelos de diferentes
modelos, facas de lâminas rectas ou recurvas, agulhas para coser
cortes, elatores para levantar crânios abatidos, seis tipos de
fórcipes (lisos ou rematados por dentes e com protecção ou sem
ela), catéteres, tesouras de cirurgia (algumas, mesmo para cortar a
parte doente da úvula), espátulas para examinar a garganta e até
um instrumento para dilatação.
Se as gengivas apresentavam ulcerações (juntamente com as
cáries eram as afecções mais comuns), o odontólogo ou os seus
ajudantes aplicavam-lhes um emplastro feito à base de resinas de
terebinto, leite de vaca, tâmaras, alfarrobas secas e outras plantas
que não consegui identificar; ou então esfregavam essa mistura nas
zonas atingidas ou faziam que o paciente a mastigasse. Quando a
deterioração do dente segundo o critério do barbeiro
aconselhava a sua extracção, o infeliz era amarrado com as mãos
atrás das costas, de modo que as suas convulsões não
prejudicassem a tarefa do mestre.
Como nos preparativos de uma execução, a assistência guardava
um significativo silêncio, suspensa das manobras e actuação do
verdugo e seus ajudantes. Especialmente um daqueles egípcios,
extremamente ossudo, demonstrava uma habilidade e força nos
dedos como nunca antes tinha visto. Enquanto um dos aprendizes
afastava as mandíbulas, o dentista introduzia um pano na boca do
paciente (geralmente um homem ou mulher de idade avançada) e,
sentando-se no chão com firmeza, prendia o dente condenado entre
o polegar e o indicador, arrancando-o com um seco esticão. Depois,
como se se tratasse de um número de circo, o egípcio mostrava ao
público o lenço com o dente ensanguentado (de uma ou duas

raízes), recebendo então o aplauso e a aprovação gerais. No
pressuposto de que habitualmente a extracção era seguida de
hemorragia, o Curador aplicava à cavidade uma infusão de ervas
que actuava como hemostático.
Travado o fluxo de sangue, o paciente fazia um bochecho de
vinagre, retirando-se seguidamente com uma bolsinha de pano
apertada entre os dentes. Ao interrogar um dos ajudantes sobre o
conteúdo dessa bolsa, senti um verdadeiro calafrio; gordura, mel,
óleo de microbálano e excrementos de mosca...
Enojado, retirei-me em direcção às bancas dos hortelãos e
tendeiros, enchendo duas grandes cestas com o mesmo tipo de
provisões que escolhera na manhã anterior, às quais juntei ainda
alguns queijos da Bitínia, espargos, mostarda do Egipto, passas de
Corinto o fruto preferido de Jesus e o meu fraquinho de sempre:
as nozes.
O regateio foi duro, como de costume. A cada par de palavras, o
camponês de Ginosar que me calhou em sorte levantava os braços,
jurando pela sua cabeça, pelos céus, por Jerusalém, pelos seus
filhos ou pelo leite que lhe dera sua mãe, que aquelas favas, alhos
ou lentilhas tinham sido regados com o seu sangue e que bem
mereciam os quatro miseráveis denários que me pedia em troca.
Pelas dez horas, com a cabeça em água, conseguia por fim escapar
de semelhante manicómio, iniciando a viagem de regresso ao
módulo. Uma hora mais tarde, com as duas esferas de cortiça, a asa
de vidro de uma jarra, o fio de seda, meia-dúzia de minúsculas
barras de neve carbónica e a ampola de barro com o dissolvente na
bolsa de oleado, despedia-me de Eliseu, disposto a enfrentar
aquela que ia ser sem dúvida a primeira grande aventura da nossa
estada na Galileia.
De acordo com o planeado pelos especialistas do Cavalo de Tróia,
se as aparições do Mestre tivessem lugar para além dos limites
estabelecidos para a ligação auditiva, o meu companheiro deveria
ser alertado de imediato através do laser, activando e dirigindo
para a zona em questão um dos olhos de Curtiss. Nenhum de nós
suspeitava então que a primeira dessas prodigiosas presenças de
Jesus nas margens do yam se registaria menos de vinte e quatro

horas depois...
A caminhada para Saidan foi, desta vez, mais interessante.
Até à ponte sobre o Jordão tive oportunidade de me cruzar com
várias caravanas que desciam pela estrada de Sídon, com destino
aos portos e núcleos comerciais de Nahum, Migdal e Tiberíades.
Desde a linha fronteiriça situada na ponte, em contrapartida, o meu
caminho foi praticamente solitário.
Pouco antes de passar pelos marcos divisórios do território de
Filipe, aquele vento do oeste que eu já conhecia soprou de novo
sobre o lago, vergando as copas dos álamos e arrancando
intermináveis zumbidos às suas folhas verde-brancas.
Pouco depois da hora sexta estava eu a apresentar-me no grande
pátio. Do casarão dos Zebedeus, desta vez pelo portão principal
que se abria, junto do caminho que atravessava a aldeia. Os onze,
sentados em torno de um braseiro quadrangular no qual fervia um
caldeirão de leite, con versavam animadamente. Durante uns
segundos fiquei quieto, com a vara de Moisés firmemente assente
nas lajes do pavimento. A vista dos discípulos encheu-me de
emoção. Um fumo branco, impelido pelo vento de poente, saía lá de
dentro esfumando os corpos dos discípulos situados à minha direita.
Era evidente que não se tinham dado conta da minha chegada, mas
de súbito, fez-se silêncio. Os que estavam sentados à minha frente
alertaram os restantes e os quatro ou cinco que estavam de costas
para mim voltaram as cabeças, fixando os olhares no recémchegado.
Então algo de estranho pairou sobre aqueles corações,
endurecendo os seus semblantes. Foi um olhar altamente
significativo: misto de medo, curiosidade e receio. Naquele instante
fiquei a saber que as revelações feitas por João Marcos embora o
não tenham confessado tinham semeado as dúvidas no crédulo e
supersticioso grupo. Tinha de agir. A missão podia ficar
comprometida se eu não eliminasse radicalmente a falsa ideia de
um Jasão anjo, pouco menos que aparentado com a Divindade.
A tensão atingiu o auge quando, de repente, apareceu o
benjamim pela porta que conduzia à casa de Zebedeu pai, Trazendo
um recipiente de barro. Recuou áo descobrir a minha presença,

arregalou os olhos, espantado, e cambaleante, como se tivesse
diante de si um fantasma deixando cair o recipiente, que ficou em
cacos, no meio de grande estrondo.
João, perturbado, levantou-se correndo para o rapaz. Mas, antes
de o alcançar, João Marcos saltou por cima dos cacos e das tilápias,
refugiando-se no quinteiro. O jovem Zebedeu hesitou. Então,
mudando de direcção veio ao meu encontro, pedindo-me que
desculpasse o frio e injusto acolhimento. O incidente ficou
temporariamente esquecido e, depois de uma discreta saudação
geral, os galileus retomaram a sua conversa que, naturalmente,
girava em torno dos extraordinários acontecimentos vividos em
Jerusalém. Fizeram- me o convite para partilhar o pequeno-almoço
colectivo, manifestando o mmeu desejo de visitar o enfermo. João
concordou, agradecido. No caminho. Inclinei-me para desatar as
sandálias e, ao começar pelas tiras de couro da perna esquerda, o
Zebedeu, retirando com suavidade os meus dedos dos nós, sugeriume
que começasse pela sandália direita.
- Dá azar acrescentou ele sem mais explicações.
Aceitei aquela pequena sugestão. Pouco a pouco ir-me-ia
familiarizando com aquelas superstições e manias que,
naturalmente, estava disposto a respeitar. No quarto do chefe dos
Zebedeus aguardava-me uma muito grata surpresa: Maria, a mãe de
Jesus, encontráva-se à cabeceira, na companhia de Salomé, a
esposa do ancião, e de algumas das mulheres da casa.
Os filhos do «patrão» tinham cumprido fielmente as minhas
prescrições médicas e o paciente, embora ainda abalado pelas
dores, apresentava um aspecto mais calmo. Ao ver-me no limiar,
Salomé e a senhora deixaram as compressas de água fria que
administravam sobre a fronte do doente e, com vivas manifestações
de alegria, beijaram-me nas faces, desejando-me paz. Aquele gesto
reconfortou-me, devolvendo-me a segurança.
A mulher do Zebedeu agradeceu os meus cuidados para com o seu
marido, censurando-me depois pelo desnecessário presente de
víveres da véspera.
Ajoelhei-me em silêncio junto ao colchão e, sem prestar
demasiada atenção às carinhosas palavras de Salomé, peguei nas

mãos do Zebedeu, verificando o seu pulso. O bom homem sorriu.
Pedi a João que me ajudasse a erguê-lo e, recorrendo à ampola
de argila, verti algumas gotas do preparado em cada um dos
ouvidos. Seguidamente, depositando o pequeno recipiente nas
mãos do discípulo, informei-o sobre o seu conteúdo, modo e
frequência com que devia administrá-lo até nova ordem. Se tudo
corresse normalmente, talvez no sábado ou no primeiro dia da
semana (domingo) pudesse proceder à dissolução definitiva e
extracção do cerume. Após uma rápida troca de palavras com as
mulheres, eu e João regressámos ao pátio. João Marcos ajudava os
gémeos de Alfeu, junto ao lume.
Os outros, muito bem-dispostos, estavam ainda entretidos com os
restos do tardio pequeno-almoço, molhando umas tortas de farinha,
ainda quentes, num fundo prato de barro cheio de azeite. Chegara a
altura de pôr em prática a ideia de Eliseu. O benjamim, mais calmo,
deixou-me aproximar. Em sinal de amizade mostrei-lhe o amuleto
que me oferecera em Jerusalém e que ainda tinha ao pescoço e, em
tom conciliador, pedi-lhe que me escutasse.
Os discípulos, que apesar da sua conversa não tiravam os olhos
de cima de mim, baixaram o tom de voz, mais presos das minhas
palavras que das suas. Medindo bem as minhas explicações, e
falando de modo que todos pudessem ouvir, lembrei-Lhe que, além
de homem de negócios e médico, Deus me tinha concedido o
privilégio de estudar e praticar a muito nobre profissão de áugure e
de mago. Tal como os demais, o rapaz acompanhou as minhas
explicações com a dúvida estampada nos olhos.
- E para que vejas que não minto, agora mesmo, se assim o
desejares acrescentei sem perder o sorriso -, estou disposto a
mostrar-te alguns dos meus poderes...
João Marcos, indeciso, desviou o límpido e profundo olhar para os
discípulos. Filipe, o mais dado a partidas e brincadeiras, erigiu-se
em espontâneo porta-voz dos demais, aceitando a proposta sem
dissimular a sua curiosidade.
Disposto a aproveitar o talvez irrepetível momento e a excelente
disposição dos galileus, pedi a João que colocasse sobre o braseiro
um caldeiro com água. Por seu turno, o benjamim, com idêntica

rapidez, correu para o pátio, à procura de uma simples varinha.
Entretanto, perante os olhares inquietos dos restantes, procedi com
um mais que teatral silêncio à atadura de cada uma das esferas de
cortiça a outras tantas porções (de cinquenta centímetros de
comprimento) do fio de seda. João Marcos regressou de pronto,
entregando-me uma tosca vara de um metro.
Parti-a em duas e, atando os pêndulos improvisados a cada um
dos paus, dirigi-me aos gémeos. Pedi-lhes que se adiantassem até
ao meio do círculo formado pelos expectantes galileus e, depois de
lhes entregar as varas, ordenei-lhes que procurassem manter as
esferas no ar, totalmente imóveis e protegendo-as do vento com os
seus próprios corpos. Filipe, nervoso, desatou a rir.
Ordenei silêncio e, pegando na asa de vi dro, esfreguei-a
energicamente com o fio da minha túnica. Levantei os braços para o
céu e, pronunciando palavras absurdas e ininteligíveiscom o único
fim de aquecer o ambiente, é claro -, inclinei-me para a pequena
esfera que Judas Alfeu sustentava. O efeito desejado não tardou a
produzir-se. Ao aproximar a barra de vidro da bola de cortiça, esta,
obediente, moveu-se, aproximando-se da ponta da asa. Um
murmúrio de admiração brotou espontâneo de todas as gargantas.
E o gémeo: assustado, largou a vara, correndo para junto do lume.
A reacção de Judas provocou a hilariedade geral. Repeti a singela
experiência com o pêndulo do seu irmão Tiago e a esfera, mais uma
vez como que empurrada por mão invisível, deslocou-se até tocar no
vidro.
Observei João Marcos e João Zebedeu. Ambos, de boca aberta e
olhos fixos nas oscilações do pêndulo, pareciam hipnotizados
daquela simples experiência, sobejamente conhecida dos
estudAntes do século xx. (baseava-se no natural processo de
electrização por friccionamento. Um elementar pêndulo electrostático
fazia o resto. Vidro e cortiça electrizados com cargas opostas,
atraem-se durante algum tempo. Depois, quando as cargas se
tornam do mesmo sinal, repelem-se.) Poucos minutos depois, pedi a
João que pegasse no pêndulo de Judas. Como era de esperar, ao
aproximar de novo o vidro electrizado da cortiça, a esfera moveu-se
em sentido contrário. O jovem, maravilhado, não saía do seu

assombro.
Quando achei que os meus poderes como mago tinham ficado
claros, guardei as peças e, dissimuladamente, peguei nas cápsulas
de neve carbónica, escondendo-as entre os meus dedos.
A água do caldeiro tinha começado a ferver. Lancei uma olhadela
sobre o grupo e, com idêntica teatralidade, estendi os braços para
a abertura do caldeiro fumegante, invocando os deuses do Olimpo.
Ao erguer o rosto para o azul do céu , quase todos os galileus,
intrigados, me imitaram. Nesse instante, com total premeditação,
deixei cair as cápsulas de CO2 (de um centímetro de diâmetro e
cinquenta milímetros de comprimento) na água. Registou-se uma
reacção imediata. Reforcei as minhas invocações e esconjuros e,
como por arte de magia (o termo nunca foi tão oportuno...), uma
névoa branca e densa idêntica à provocada por meu irmão no alto
do monte das Oliveiras começou a borbulhar e a subir pelas
paredes do caldeiro. Alguns dos discípulos perante o ameaçador
avanço do fumo, recuaram entre lamentos, vítimas de um pânico
supersticioso. João Marcos, abraçando-se à minha cintura, suplicoume
que acabasse com tais demonstrações. A «névoa» foi-se
dissipando.
Recuperada a calma, João Zebedeu com os olhos no chão pediu
publicamente desculpa, admitindo que, contra o que o Mestre
sempre tinha pregado, tinha caído no erro de me julgar. Um
murmúrio de aprovação ratificou as palavras do discípulo e, quem
isto escreve, imitando o gesto de amizade favorito de Jesus,
colocou as suas mãos sobre os ombros do pesaroso João,
agradecendo a sua nobreza de coração.
Nunca mais se voltaria a falar da minha possível origem ou
natureza angélica. A experiência resultara em cheio.
Terminado o pequeno-almoço, Simão, exultante e pletórico de
entusiasmo polarizou de novo a atenção geral, arengando aos seus
companheiros para que, tal como tinham feito na viagem de
Jerusalém até ao lago saíssem aos caminhos a pregar a boa nova e
a iminente chegada do Reino. O seu irmão André, Tomé, o Dídimo,
e Mateus, mais cautelosos não apoiaram as sugestões do fogoso
Pedro recordando-lhe que, de momento, as ordens do Rabi eram

outras: permanecer na Galileia até que ele voltasse a apresentar-se
diante deles. As opiniões ficaram pois divididas. João, Filipe e
Bartolomeu apoiavam incondicionalmente os desejos de Simão.
Tiago era da opinião de André e os gémeos, como de costume,
mantiveram-se à margem, mais atentos às tarefas domésticas que
ao problema de fundo.
Quanto ao Zelota, mudo e cabisbaixo, não houve processo de lhe
arrancar uma única palavra.
O aguerrido patriota, apesar das evidências, tinha caído numa
nova e profunda depressão. Ninguém conseguiu consolá-lo ou
infundir-lhe um mínimo de alento. Era inútil. A vergonhosa morte do
seu líder e a desintegração do grupo e dos seus velhos ideais de
libertação política pesavam mais que a própria ressurreição e que
as para ele nebulosas promessas de Jesus acerca de um
longínquo e incompreensível Reino espiritual.
Às primeiras horas da tarde, perante o desacordo e a crítica da
maioria, Simão, o Zelota, pegou nas suas coisas e, quase sem dizer
palavra, com o rosto endurecido pela desesperança, partiu para sua
casa, na vizinha Nahum. Aquela deserção como a sua atitude foi
qualificada por Pedro acabou por transtornar os planos do grupo.
Durante uma hora envolveram- se em outra das suas azedas e pouco
caridosas discussões, chamando ao Zelota indigno e pouco fiável
embaixador do Reino.
Só João e Mateus protestaram. Mas Simão Pedro, que começava a
afirmar-se como líder, foi quem aplacou as censuras da maioria,
chegando a insinuar uma coisa que me deixou perplexo: era o
próprio Mestre, lá dos céus, quem afastava o patriota dos
autênticos eleitos, como o pescador honrado separa a pesca pura
da impura. (Muitas vezes me perguntei porque é que os
evangelistas João e Mateus estavam presentes ocultaram estas
duras reacções do colégio apostólico, mostrando, pelo contrário, na
maioria das ocasiões, a falsa imagem de um conjunto de homens
tolerantes, generosos e fiéis aos ensinamentos do Filho de Deus.)
Às três e meia da tarde, terminada a polémica, Pedro pôs-se de pé.
Esquadrinhou o céu azul e, numa das suas típicas e bruscas
mudanças de atitude, adoptando um tom amistoso e conciliador,

propôs que saíssem a aproveitar o tempo. O grupo, desejoso de
esquecer as recentes e amargas acusações, aceitou em bloco a
sugestão. Aproveitar o tempo?, pensei eu, intrigado, Com efeito,
não captei logo o verdadeiro sentido da expressão. Como se se
tratasse de uma coisa de rotina e sobejamente conhecida de todos,
os dez mobilizaram-se em uníssono. Filipe, o ecónomo do grupo, e
os gémeos encheram dois cântaros de água, recolhendo e
guardando os restos do pequeno-almoço em dois pequenos sacos
de linhagem.
Os Zebedeus e Pedro, por seu turno, enquanto os outros se
dirigiam para o pátio, penetraram no aposento situado à direita do
portão de entrada. E eu, sem saber que atitude tomar, permaneci no
meio do pátio, absolutamente confundido. João foi o primeiro a
sair. Levava dois caldeiros cheios de barbos, mergulhados numa
calda oleosa e putrefacta.
Olhou-me e, levantando levemente a cabeça, apontou-me a porta
do pátio, perguntando: - Vens connosco?
Sem esperar resposta, partindo do princípio que eu aceitaria,
avançou à minha frente em direcção ao pátio. O seu irmão e Simão
apareceram logo depois, transportando uma volumosa alcofa, cujo
conteúdo não podia descortinar porque estava oculto por um feixe
de tiras atadas e empapadas em resina. Não pude resistir à
tentação e, timidamente, interroguei-os sobre as suas intenções.
Tiago sorriu com benevolência. Pedro, porém, incomodado com a
minha falta de discernimento, murmurou algo irreproduzível,
acrescentando quase só para si:
- O que é que há-de ser?... Nem todos nós somos ricos
comerciantes como tu!
Magoado pelo desabafo de Simão, precisei de alguns instantes
para reagir. E maldizendo a minha espontânea ingenuidade, lá fui
correndo atrás deles. Ao chegar à escadaria que conduzia à praia
percebi então o verdadeiro significado daquela expressão
«aproveitar o tempo». Os discípulos, junto das redes e dos barcos,
tinham começado a despir-se.
Agora era claro: preparavam-se para a pesca. Durante uns
instantes, imóvel sobre o último lanço das íngremes escadas,

hesitei. Pus todos os meus sentidos alerta. Se os escritos de João, o
Evangelista, estavam certos, a primeira das aparições de Jesus no
lago ter-se á verificado depois de uma noite de estéril pesca.
Estaria eu a assistir aos prolegómenos desse acontecimento? Um
frémito percorreu-me todo o corpo, sinal inequívoco de que algo de
muito especial estaria para se passar naquele sítio. A partir de
então deveria manter-me de olhos bem abertos...
De início, os meus escassos conhecimentos sobre navegação e
pesca em geral constituíram uma dura desvantagem. Vi-me obrigado
a formular uma infinidade de perguntas, muitas delas tão
elementares que teriam despertado o riso dos próprios filhos dos
pescadores e marinheiros do yam. Felizmente, nem todos os
discípulos eram tão secos como Peddro. Foi a eles que recorri uma e
outra vez.
A maioria dos discípulos, como ia dizendo tirou a roupa e o
calçado, que ficaram amontoados na margem, ficando,em saq ou
tanga ou, quando muito com a túnica repuxada e enrolada à cintura.
Em perfeita coordenação, os sais ou chefes de grupos - pedro, por
um lado, e Tiago Zebedeu, por outro, foram dando as oportunas
ordens a meu ver desnecessárias porquanto cada um parecia
saber muito bem o que tinha a fazer.
Foi assim feita a distribuição das provisões nas duas embarcações
que flutuavam na água a curta distância da margem, João e André
encarregaram-se dos caldeiros com o peixe já putrefacto e, tendo-os
despejado na areia escura, deram início à trituração dos peixes,
servindo-se de pedras para tal tarefa. A carniça pestilenta e
ensanguentada era misturada com areia húmida, formando umas
bolas que eram atiradas para o fundo dos caldeiros.
Ao mesmo tempo sob o olhar atento de Tiago, Filipe, Tomé,
Mateus e Natanael (Bartolomeu) colocaram-se de um e outro lado
de uma longa rede estendida sobre os seixos. Com extrema rapidez
e precisão começaram a dobrá-la. Pelas explicações do Zebedeu e
pelo que deduzi ou só depois ao vê-los manobrar, aquele aparelho
de uns cento e cinquenta metros de comprimento actuava como
uma rede de arrasto. Tinha o nome de jerem e a forma de um
rectângulo, entrançado com fortes fios de linho recoberto de breu,

mais largo na sua zona central (entre cinco e seis metros) que nos
extremos (cerca de dois metros e meio. As bordas mais longas
tinham várias cordas ligadas. Uma delas (que na água ficava à
superfície) estava dotada de dezenas de cortiças e tábuas. A outra
apresentava um número semelhante de pedras e pedaços de
chumbo perfurados que, obviamente serviam de lastro.
Duas varas de madeira nos extremos da rede permitiam a sua
verticalidade, quando submersa no yam. De cada uma das pontas
das varas partiam vários cabos que confluíam num só e grosso nó do
qual partiam outras tantas cordas de uns setenta a cem metros de
comprimento, respectivamente.
Pedro, entretanto, aprontava os remos no barco maior. De vez em
quando via-o avançar até à proa e com as mãos a servir de viseira,
parecia procurar algo no horizonte. O vento tinha parado e a
superfície do lago, azul e plácida, só era agitada por distantes e
esporádicos chapiscos das aves que planavam ou caíam em voo
picado, à procura de alimento.
Dobrado e reduzido ao tamanho mínimo, o jerem foi transportado
para a popa do barco; e um dos longos cabos foi meticulosamente
enrolado por Simão Pedro no fundo do barco. A segunda corda ficou
na costa, ao cuidado de Filipe. André e João, com as bolas de areia
e peixe macerado, entraram com decisão pela água dentro,
colocando os caldeiros na proa da embarcação.
Tiago apressou-se a segui-los e Tomé, o quinto tripulante,
dirigindo-se à pedra de amarração, soltou o cabo, esperando que os
seus companheiros subissem para bordo. De súbito, fazendo-me
sinal, João trocou algumas frases com os sais. Pedro encolheu os
ombros e o mais novo dos Zebedeus, regressando à margem,
convidou-me a acompanhá-los. Foi uma oportunidade que,
naturalmente, não deixei de aproveitar.
O Sol estava ainda a uns quarenta e cinco graus do poente e,
consequentemente, não era previsível que ocorresse nada de
anormal. Estive tentado a atar as sandálias ao cinturão; mas,
consciente de que aquele gesto de desconfiança podia cair mal nos
mais susceptíveis, optei por depositá-las, tal como a vara de
Moisés, junto do montão de roupas e sapatilhas dos meus amigos

pescadores. Não me agradava muito perder de vista aqueles
delicados instrumentos, mas não podia proceder de outro modo. E
depois, cheio de emoção, penetrei no yam.
Apesar da protecção da pele de serpente, que me cobria até aos
tornozelos, senti a frialdade das águas. Era a primeira vez que
entrava em contacto directo com o mar de Tiberíades. E não seria a
última, graças à Divina Providência...
O barco estava fundeado a um metro da areia. Saltei para dentro
e, nervoso, agradeci-lhes a sua gentileza. Ninguém ligou muito às
minhas palavras. Pedro, encarrapitado em cima do jerem, ordenou
que me sentasse à proa. Obedeci de imediato.
Era curioso: uma vez embarcados, aqueles homens e muito
especialmente Simão Pedro mudavam por completo de atitude.
Tornavam-se rígidos. Falavam pouco, só o imprescindível e,
principalmente, utilizavam uma linguagem de mímica comunicando
desse modo de barco para barco. O Didimo foi enrolando o cabo de
amaração. Encaminhou-se vagarosamente para o barco e, uma vez
junto à popa, empurrou a embarcação. Acto contínuo, ágil como um
gato, trepou pelo monte formado pelo jerem, indo ocupar o seu
lugar junto de João. Ao centro tinham sido colocadas duas pranchas,
à maneira de bancos. André e Tiago, mais corpulentos, ocuparam o
que estava mais próximo da proa.
Simão Pedro, ajoelhado sobre a rede, incitou os remadores a que
arrancassem. Quatro remos escuros e ensebados foram introduzidos
nos estropos. Uma vez dispostos nos toletes, lenta, silenciosa e
coordenadamente, as duas parelhas fizeram avançar a embarcação.
Esta de uns oito metros por dois -, construída com tirzah (um
pinheiro manso duro e resinoso, muito abundante nas proximidades
do lago), não se distinguia nem pelo seu calado nem pelos
cuidados da sua manutenção.
Parecia abandonada ou não utilizada já há meses.
O entabuamento, muito desigual, apresentava brechas e lascas,
com preocupantes perdas dos fios de algodão que
impermeabilizavam as junturas.
A sentina estava permanentemente inundada. Entre as cadernais

amontoavam-se feixes de cordas, várias lâmpadas de azeite vazias,
e sem os respectivos vidros, uma concha (talvez utilizada nas
refeições), um vertedor para esvaziar a água (com uma curiosa
forma de ferro de engomar ou de sapato, todo de madeira, fechado
na parte posterior , com um cabo na sua zona superior e a boca à
medida das cadernais), trapos velhos e empapados, um cântaro de
barro e um saco de oleado que pendia da cavilha de estibordo. À
proa e à popa estavam duas pedras negras, lisas e perfuradas nas
suas extremidades, que funcionavam como âncoras. De início não
reparei nisso.
Mas, à medida que penetrávamos no yam, chamou-me a atenção
uma pequena carranca encravada na proa. Representava a figura de
uma mulher-peixe com as mãos na cabeça e pintada de vermelhovivo.
Mais tarde, os galileus explicar-me-iam que se tratava da
deusa Atargatis, adorada em Áscalon e na costa fenícia, cuja
presença na embarcação garantia uma segura protecção contra os
ventos de leste súbitos e traiçoeiros e dava a possibilidade de
uma excelente pesca.
(Uma destas estatuetas seria descoberta pelo investigador
McLister nas escavações arqueológicas do tell Zakaria, em Eretz
Israel.) Soube-o logo. Aquela primeira fase da operação de pesca
era uma das mais delicadas. Eram precisos remadores experientes
capazes de impulsionar o barco com um mínimo de ruído.
Ninguém falava. A embarcação foi-se afastando, prependicular à
costa sempre ligada à terra pelo longo cabo amarrado a uma das
extremidades da rede. Na margem o resto do grupo acompanhava
imóvel e expectante, as manobras da tripulação. A cerca de
quarenta ou cinquenta metros do litoral, Pedro, permanentemente
atento à superfície do lago, levantou a mão esquerda.
Os remadores deixaram de remar e todos os olhares se dirigiam
para o ponto que atraía a atenção do chefe. O silêncio apenas
quebrado pelo gotejar das pás dos remos e pelo distante gritar das
gaivotas, impresionou-me. Também eu esquadrinhei a superfície do
yam, mas, francamente, nada vi de especial ou extraordinário. Dez
segundos depois com uma palmada seca na amurada de bombordo,
Pedro ordenou uma rotação. Muito devagar, André e João, sentados

do mesmo lado, mergulharam os remos na água ao mesmo tempo
que os seus companheiros de estibordo faziam o mesmo, remando
com firmeza.
Completada a manobra, a embarcação ficou paralela à costa e os
quatro prosseguiram no lento e silencioso avanço. Assim
continuámos durante algum tempo tendo por única companhia o
choroso ranger dos estropos e uma ou outra descompassada
respiração.
Ao chegar ao ponto desejado, o sais levantou a mão pela
segunda vez. E os remadores suspenderam de novo os remos. A
embarcação ficou à deriva, balouçando suavemente. Simão pôs- se
de pé, com os olhos fixos na superfície das águas que se estendia
entre nós e a margem. A avaliar pelo que nos tínhamos
distanciado, aquela zona do lago não devia ser muito profunda;
deveria oscilar entre os cinco e os seis metros. Passaram-se alguns
minutos tensos e intermináveis. Ninguém se mexeu. Eu próprio,
acocorado no fundo do barco, mal me atrevia a respirar. De vez em
quando, impelida pelo suave balanceio, a água da sentina molhavame
os pés.
De repente, como um trovão, ao mesmo tempo que apontava para
estibordo, Simão Pedro soltou uma imprecação. A quinze ou vinte
metros do costado direito do barco para o interior do lago -, as
águas começaram a ferver e a espumejar. O banco de peixes que o
sais estava a acompanhar tinha-se deslocado, enganando assim os
galileus. Entre o borbulhar da superfície vi saltar alguns exemplares,
cujos ventres brilharam como a prata à luz do Sol.
- Filhos de mil rameiras!...
As imprecações do guia sucederam-se em turbilhão. Jamais
poderia imaginar um futuro chefe da Igreja Católica tão
descontrolado e fora de si.
A primeira operação aquilo a que os galileus do yam chamavam
situar o barco tinha falhado. Atemorizado perante o péssimo génio
de Simão, cheguei a lamentar ter aceitado o convite. Se eu
cometesse o mínimo deslize, a carga de mau humor daquele homem
voltar-se-ia, sem dúvida, contra mim.

Contudo, a nenhum dos remadores pareceu incomodar aquela
torrente de impropérios e rudes palavras cuspida pelo homem que,
poucas horas antes, os tinha incitado a sair pelos caminhos
pregando a paz e a fraternidade.
O espumejante cardume acabou por submergir e, como se nada
tivesse acontecido, a tripulação concentrou-se em novo, silencioso e
paciente rastreio da zona, navegando sempre a uma distância
máxima de cinquenta a setenta metros da costa.
Passada uma meia hora, alguns esporádicos e solitários saltos de
peixes entre o barco e a margem alertaram o sais. Simão Pedro
levantou o braço, fazendo sinal aos de terra, e a barca,
energicamente impulsionada pelos remadores, começou a navegar
com força, mantendo um rumo paralelo à costa. Com os músculos
tensos, perfeitamente sincronizados, os quatro galileus, animandose
mutuamente com pequenos gritos, inclinavam-se para a popa e
tombavam seguidamente para a proa, até que as suas costas quase
chegavam a alinhar-se com as respectivas bordas.
O chefe do grupo, inclinado sobre a popa, foi largando o jerem.
Com grande destreza, as mãos enormes e calosas de Pedro foram
arriando a rede, ao mesmo tempo que, entre gritos e insultos,
incitava os remadores para que acelerassem o ritmo.
À popa foi ficando um rasto de pedaços de cortiça e madeira,
agitados pelo forte balanço do barco. Os homens que tinham ficado
em terra começaram a puxar o cabo e a rede começou a encurvar-se.
Depois de a rede estar praticamente na água, o sais, voltando a
cabeça para os seus companheiros, ordenou nova manobra. E o
barco mudou de rumo, virando-se para a orla.
Pedro, com os pés solidamente fincados no fundo da embarcação,
fez apelo a todas as suas forças que não eram poucas -, sustendo
e arrastando o segundo cabo.
A quatro ou cinco metros da margem, como que impelidos por uma
mola, os remadores saltaram à àgua e, pegando na corda, puxaram
vigorosamente o barco para a margem. Desejoso de colaborar em
alguma coisa, imitei-os, puxando juntamente com eles. Durante vinte
ou trinta minutos, as duas colunas de homens esforçaram-se
ininterruptamente, puxando os cabos, lenta mas firmemente. E o

jerem, formando uma meia-lua, foi- se aproximando da costa. A uns
vinte passos da água, cada um depositava em terra a porção de
corda que lhe coubera, regressando sem pressa à margem. Uma vez
lá, por meio de um curto cabo, uma espécie de estropo, com uma
pedra atada na ponta enroscava esta na maroma principal, puxando
com o auxilio do referido estropo. O aparelho que poderíamos
hoje identificar com a chincha funcionava como uma rede
varredora. Os chumbos e pedras mantinham-se no fundo, varrendo o
yam como uma barreira vertical. Tratava-se, diga-se de Passagem,
de uma pesca bastante destruidora, que acabava com todas as
espécies e ovas depositadas no fundo do lago.
Quando as varas de madeira flutuavam a uns passos da costa,
dois dos pescadores precipitaram-se sobre as extremidades do
jerem, enquanto os restantes multiplicavam os seus esforços no
sentido de que ambas as fileiras se aproximassem até chegarem a
uns dez metros uma da outra.
Os que puxavam a rede foram-se aproximando da costa. Os gritos
de apoio eram tantos e assim continuou até que o zut ou copo
apareceu à vista. Bastava uma simples olhadela cá de terra para
que, com escassa margem de erro, os pesc adores soubessem do
êxito ou do fracasso da faina. Por acaso, a súbita interrupção da
gritaria e a furiosa patada desferida por Simão Pedro à superfície
da água foram sinais que não davam lugar a dúvidas. Com efeito, o
jerem vinha vazio. O fundo da rede foi arrastado até à areia e,
entre pragas e impropérios, os guias procederam à sua abertura e
exame.
- Só lixo!
O qualificativo de Simão foi o melhor resumo: o copo só trazia
lama, pedras, um amontoado de algas esverdeadas (do tipo das
Botricocum) e outras, bastante mais nocivas (a Nostoc) cuja matéria
gelatinosa obstruía os olhos da rede, prejudicando e atrasando o
trabalho dos esforçados galileus; alguns búzios (a Melania
tuberculata); uma infinidade de minúsculos caranguejos do grupo
dos Cladocera e meia-dúzia de tilápias pequenas e médias, «tão
estúpidas», segundo o Dídimo, «como os pescadores que tinham
conduzido a dugit» (a barca).

A inoportuna observação de Tomé desencadeou a ira do sais que
tinha dirigido a embarcação da falhada faina e, para minha
perplexidade, Pedro e Didimo envolveram-se numa violentíssima
disputa. Tomé chamou a Simão velho, cego e inapto; e Pedro que
não se ficava atrás, explorou o estrabismo do pobre Tomé,
culpando-o por tão infeliz pesca. Alguns dos presentes intervieram
na azeda discussão tentando acalmar os ânimos. No terceiro salto
teríamos ocasião de comprovar como aqueles choques eram como
que o «pão nosso de cada dia» entre os grupos, chegando-se
mesmo a vias de facto. Uma imagem tão real como lamentável, da
qual no entanto os evangelistas também não falam...
Como que por encanto, passada a discussão, cada qual voltou à
sua tarefa. O jerem foi limpo das algas e depois de devidamente
dobrado foi colocado de novo à popa. Maravilhado, assisti assim à
mais natural e absoluta das reconciliações entre o sais e Tomé.
Ambos, tal como os restantes remadores, embarcaram novamente
como se nada tivesse acontecido, reiniciando a procega e a
manobra do barco. Desta vez, não obstante as reiteradas chamadas
de João para que me juntasse à tripulação decidi permanecer em
terra.
A varredela do fundo do lago repetiu-se mais duas vezes apenas
com uma diferença: de vez em quando Pedro levava as mãos aos
caldeiros, lançando à água as bolas de areia e peixe esmagado.
Deduzi que se tratava de uma maneira de atrair os peixes. Mas a
sorte, apesar da carniça e do contínuo vaivém da embarcação, não
estava de feição. Perante a desolação geral, o jerem só apanhava
lixo.
Pelas sete horas, já com o Sol posto, os persistentes galileus
enrolaram os cabos e, de mau humor, lavaram e estenderam a rede
sobre a pedregosa margem. Ali ficaria até uma nova oportunidade.
Vestiram-se e, depois de acenderem uma fogueira, ofereceram-se
uns momentos de descanso. Os pavios utilizados pelos gémeos
surpreenderam-me especialmente. No yam, entre os pescadores,
aquelas pequenas cargas de enxofre eram de uso corrente e,
naturalmente, mais rápidas e eficazes que os que actualmente
usamos, mas de pequenas lascas de oito a dez centímetros de
comprimento, totalmente envoltas em enxofre. As cargas eram

colocadas junto da pederneira e a chispa fazia o resto. Filipe cortou
as cabeças e estripou algumas tilápias, assando-as com a ajuda de
um espeto.
Entretida a fome, os homens, feridos no seu amor-próprio,
reiniciaram a faina. Desta vez participaram os dez, distribuindo-se
em dois grupos. Um, no barco capitaneado por Pedro; o segundo,
sob o comando de Tiago Zebedeu, numa embarcação um pouco mais
pequena, de uns seis metros de comprimento.
Substituíram as redes, carregando no barco de Simão uma rede a
que os nativos chamavam ambatan (mãsõd ou me.súdãh) e um jerem
ou chincha de cem metros no de Zebedeu. A primeira (gill-net em
inglês), de origem babilónica, constava de três malhas. A pançuda,
como popularmente era conhecida, utilizada em águas profundas e
só de noite, para que os seus fios de linho e algodão passassem
despercebidos aos peixes. A rede central estava cosida às cordas
ou relingas, providas de cortiças e de chumbos, respectivamente. As
malhas exteriores - de um metro e meio cada uma apresentavam
uns olhos muito maiores que os da rede central (cerca de duzentos
milímetros).
O comprimento total do aparelho não era inferior a trinta e dois
ou trinta e cinco metros.
Tornava a tocar o fundo do lago. Lançava-se também apartir da
popa ou de uma das bordas, formando na água uma espécie de U.
Em geral, os pescadores escolhiam zonas próximas da costa,
assustando os peixes das mais variadas formas: batendo na água
com os remos, com as mãos ou com ramos, fazendo arder benzina na
superfície, com a ajuda de cães especialmente adestrados ou, a
partir da costa, arrastando correntes. Os peixes, assustados, fugiam
do lugar onde fundeavam ou navegavam as embarcações,
precipitando-se para a tríplice rede.
Atravessavam a primeira malha, chocando de imediato com a
segunda muito mais apertada que era arrastada para a terceira.
Ao recuar o cardume ficava bloqueado no grande saco e a rede dava
um estremeção, perfeitamente visível da costa.
As bóias submergiam e as companhas apressavam-se a levantar o
ambatan, esvaziando o pescado no fundo dos barcos. Numa noite, a

pançuda podia ser lançada e recolhida de dez a vinte vezes, com
uma média de capturas que oscilava entre os cinquenta, e os cem
quilos.
O yam não tardou a tingir-se de vermelho. Nas povoações
costeiras foram-se acendendo as Primeiras luzes e os nossos amigos
esfumaram-se nas sombras do anoitecer rumo à desembocadura do
Jordão. Se não fossem as tochas amarradas à proa e à popa de
cada um dos barcos nem João Marcos nem eu teríamos sido capazes
de os localizar na escura noite que se aproximava. Uma noite e um
amanhecer dificeis de esquecer, diga-se desde já.
Foram minutos deliciosos aqueles. De paz. Durante longo tempo,
nem o benjamim nem eu trocámos uma única palavra.
Desfrutávamos, simplesmente, aquele momento. Os últimos
remendadores de redes acabaram de colocá-las sobre altas estacas
e, sem pressa, desapareceram em direcção às luzes amareladas que
piscavam nos pátios e postigos da aldeia.
Retardatários bandos de gaivotas dirigiam-se com urgência para
oeste, à procura de Tiberíades. E o crepúsculo sem aviso , passou
de cor malva a um azul sombrio. Foi um sinal. Em plena lua nova, o
firmamento precipitou-se sobre o lago, pejado de estrelas e
constelações. Nunca consegui acostumar-me à serena majestade
daqueles céus.
Uns céus que precisamente pela sua branca quietude pareciam
pressagiar algo... encheu-se de tochas. Dezenas de embarcações
concentravam-se diante dos ricos pesqueiros das costas de Kursi,
Tabja e do litoral onde nos encontrávamos. Calculo que pelas oito
ou oito e meia da noite, as embarcações inicialmente solitárias de
Simão e de Tiago ficaram confundidas entre as luzes dos outros
barcos, provenientes, na sua maioria, do cais de Saidan.
Inspirei-me profundamente, inebriado pelo intenso perfume de
algas que a suave brisa de poente trazia consigo. E sob o olhar
vigilante de João Marcos levantei os olhos para o profundo cintilar
das estrelas. Espontaneamente como num jogo fui-as nomeando
uma a uma movido pela paz do lugar e porque não dizê-lo E a
cada uma delas, movido pela paz do lugar e porque não dizê-lo
por uma incontrolável melancolia dediquei uma improvisada

recordação: «Sírio: meu anjo-da-guarda...
Carina: hoje no Sul, recordando o meu tempo... Oríon: talvez a
minha verdadeira "pátria"...» Curioso e ávido de conhecimentos o
adolescente juntou-se a tão estranha prece, pedindo-me que o
ajudasse a identificar as estrelas. Passei o meu braço sobre os seus
ombros e como se se tratasse de um filho (o filho que nunca tive),
fui-lhe apontando as mais brilhantes: a constelação de Leão, a
leste, com Régulo ao meio da elipse. A norte, Draco, a Ursa Maior e
a estrela-chave dos navegantes: a Polar, muito próxima do Pólo
Norte celeste.
Abaixo de Sírio a sul, Cão Maior. E roçando as colinas do extremo
meridional do Kennereth, o cacho cintilante de Vela.
- E tu, Jasão perguntou João na sua candura. -, que pensas que
sejam estas estrelas? Aproveitei a sua excelente disposição e,
suave e subtilmente, levei-o para onde me interessava.
- O Mestre disse-o...
Ao falar no Rabi, os seus olhos cravaram-se nas chamas
ondulantes. Pareceu-me perceber neles uma sombra de tristeza.
Em meu reino prossegui com o olhar fixo na intensa
manranqueava o oriente celeste há outras moradas.
- Então, lá em cima também há homens, lagos e gaivotas?
Concordei, sem poder reprimir um assomo de ternura.
- E o Mestre continuou ele, mostrando-se altamente
surpreendido é o chefe desses mundos?
- Mais ou menos isso...
Ficou em silêncio, distraído pelo súbito, negro e geométrico voo
de dois morcegos.
- Agora compreendo... - murmurou, convicto. - Esses homens das
estrelas devem ser melhores que nós. Senão, porque se teria ido
embora? Entendi que se referia ao Rabi.
- Pensas mesmo que partiu para essas paragens?
Pegou num ramo e, atiçando as labaredas da fogueira, encolheu
os ombros, acrescentando:

- E para onde, senão para lá?... Estava morto e agora vive.
Mas não está aqui connosco.
Insisti, procurando atraí-lo para o meu objectivo:
- Desejas vê-lo?
Deixou de brincar com o lume e, vibrando dos pés à cabeça,
adiantou-se aos meus pensamentos: - Tu és um mago. Podes
consegui-lo?
- Não, filho. Eu apenas consulto os astros e, quando muito,
vaticino.
- E que dizem as estrelas? - perguntou logo João Marcos. - Ele vai
aparecer em breve? Fiz-me rogado, alegando que não convinha
abusar de semelhante dom. Por fim, acedi, pondo em andamento o
meu modesto e inocente plano. Eu sabia que naquelas noites de
Abril entre as dez da noite e as três horas da manhã a Terra
atravessava um núcleo de asteróides em que inúmeras estrelas
cadentes (as Virgínidas) se precipitavam nas altas camadas da
atmosfera, incendiando-se. Tal fenómeno poderia servir os meus
propósitos. Levantei-me e com solenidade, comecei a caminhar à
volta do fogo. Atento e medroso, o rapaz seguiu-me com a vista. À
terceira ou quarta volta parei.
Lancei a cabeça para trás e assim permaneci por uns instantes,
com o olhar fixo na Via Láctea. Quando calculei que a pantomima
tinha tornado tensos os nervos do meu amigo coloquei-me de novo
a seu lado e, apontando com o indicador direito para a estrela
Hidra, prognostiquei: - Esta noite, precisamente ali e durante a
primeira vigilia, verás cair muitas estrelas. Não te assustes...
Fiz uma estudada pausa.
- Mas veremos o Mestre?
- A resposta a essa pergunta, meu filho, tem um preço...
Atónito, emudeceu. Apalpou as pregas da sua túnica e, desolado,
fez-me ver que não dispunha de uma única lepta.
- Não apressei-me a intervir não quero dinheiro...
E antes que pudesse interpretar mal as minhas palavras,

acrescentei com suavidade:
- Sabes bem da minha simpatia por Jesus. Estive perto dele nas
últimas horas da sua vida...
Sem conseguir compreender, foi assentindo com rápidos
movimentos de cabeça.
- Pois bem, desejo conhecer a fundo os seus ensinamentos.
Tudo o que disse ou fez. Graças à vossa generosidade e
paciência, o meu espírito está-se enchendo da sua mensagem.
Há no entanto um ponto que ainda permanece obscuro no meu
coração. Só tu podes desfazer as minhas dúvidas.
- Eu?!... Eles interrompeu-me apontando-me para as tochas que
oscilavam a noroeste do lago é que sabem tudo sobre o Mestre.
Neguei com firmeza.
- Eles nunca souberam o que aconteceu nas colinas de Jerusalém
durante a jornada do quarto dia da segunda semana deste mês de
Abril.
Avivei a sua memória. Naquela quarta-feira, 5, véspera da prisão
de Jesus na encosta do monte das Oliveiras, João Marcos
acompanhou o Rabi desde as primeiras horas da manhã ao
anoitecer. Ninguém conseguiu saber aonde tinha estado nem o que
aconteceu durante aquela enigmática jornada. Era um dia em branco
nas pesquisas do Cavalo de Tróia.
- Esse é o meu preço sentenciei, com uma frieza que logo se
transformaria em remorso. O que eu estava a fazer era, no fundo e
na forma, pura chantagem. Mas o meu impetuoso desejo de
averiguar tudo sobre Cristo aquietou a minha consciência.
- Aceitas o acordo?
A resposta foi um duro olhar de reprovação.
- Mas se eu lhe prometi...
Tentei persuadi-lo, assegurando-lhe que os meus lábios ficariam
selados, levando o segredo para Tessalónica.
- Bom balbuciou ele Não importa assim tantotudo somado, Ele
está morto... Na realidade, naquela jornada de descanso nos

montes que rodeavam a Cidade Santa, nada de prodigioso ou
espectacular se tinha passado.
- Passeámos sem rumo fixo e eu aproveitei a ocasião para
confessar-lhe a minha pena por não ter podido acompanhá-lo
naqueles anos de pregação prosseguiu João Marcos,
entusiasmando-se com as recordações. - recomendou-me que não
desencorajasse pelos acontecimentos que estavam a ocorrer. E
profetizou-me algo.
Os seus olhos brilharam de felicidade.
- Disse que eu chegaria a viver o suficiente para ser um poderoso
nensageiro do Reino.
- De que te falou Ele?
- Sobretudo, da sua infância em Nazaré.. Os seus pais eram mais
pobres que os meus.
O jovem desviou a conversa, concentrando-se no ponto que,
logicamente, iluminava e iluminaria para sempre o seu coração.
- quando lhe perguntei como chegaria a ser um poderoso
mensageiro do Reino, o Rabi disse o seguinte: "Sei que serás fiel
ao Evangelho do Reino porque conheço a tua fé e amor, enraizados
em ti graças aos teus pais. És o fruto de um lar em que o amor está
presente, embora, felizmente para ti, os teus progenitores não
tenham exaltado em excesso a tua própria importância.
O seu amor não distorceu o teu coração. Desfrutas do amor
paterno, que assegura uma louvável confiança em si próprio,
fomentando os normais sentimentos de segurança. Também foste
feliz porque, além do afecto que mutuamente se dedicam, os teus
pais souberam actuar com inteligência e sabedoria. Foi essa
sabedoria que os levou a ser inflexíveis com os teus caprichos e
fraquezas, respeitando ao mesmo tempo a tua personalidade e as
tuas próprias experiências. Tu, com o teu amigo Amós, procurasteme
no Jordão. Ambos desejáveis vir comigo. Ao regressar a
Jerusalém, os teus pais consentiram.
Os de Amós recusaram. Amam tanto o seu filho que lhe negaram a
bendita experiência que tu estás a viver. Fugindo de casa, Amós
poderia ter-se juntado a nós; mas essa actuação teria ferido o amor

e sacrificado a lealdade. Os pais sábios, como os teus, procuram
que os seus filhos não se vejam forçados a ferir esse amor ou a
quebrar a lealdade, permitindo-lhes, quando chegam à tua idade,
que desenvolvam a sua independência e que gradualmente, vão
saboreando a sua liberdade. Nada existe de mais desprendido e
justo que o verdadeiro amor. O amor, João Marcos, é a suprema
realidade, quando é outorgado com sabedoria. Mas os pais mortais,
lamentavelmente, transformam-no em algo de perigoso e egoísta.
Quando te casares e tiveres os teus próprios filhos, procura que o
teu amor seja sempre aconselhado pela sabedoria e guiado pela
inteligência.
O teu jovem amigo Amós crê neste Evangelho do reino tanto como
tu, mas não posso confiar plenamente nele. Não tenho a certeza do
que fará nos anos vindouros. A sua infância não foi adequada. Ele é
como um dos meus discípulos, que também não teve uma educação
baseada no amor e na sabedoria. Tu, pelo contrário, serás um
homem digno de confiança, porque os teus primeiros oito anos
foram vividos num lar normal e equilibrado, tens um carácter forte e
bem formado porque cresceste numa casa em que prevalece o amor
e reina a sensatez.
Tal educação leva a um tipo de lealdade que me inclina a crer que
terminarás o que começaste." A que discípulo se referiria Jesus?
Inevitavelmente, lembrei-me logo do infeliz Judas. Ou tratar-se-ia de
outro? No fundo, as minhas indagações sobre o carácter e as
famílias dos íntimos de Jesus estavam por começar. João Marcos não
me soube esclarecer. O resto daquela quarta-feira segundo o
benjamim fora absolutamente tranquilo.
O Rabi da Galileia continuou a falar-lhe da vida familiar
explicando-lhe uma coisa que os psicólogos bem conhecem: A vida
futura de uma criança será fácil ou difícil, feliz ou infeliz, conforme o
que lhe tenha sido dado viver no seu lar ao longo desses cruciais
primeiros anos da sua existência. Ainda que eu não tenha tido
filhos, vislumbro que o Mestre tinha razão e que as suas
apreciações eram tão válidas então como agora. No nosso mundo,
apesar dos seus avanços e da maior informação dos pais em geral,
os lares deixam muito a desejar.

Salvo raras excepções, o amor estipula-se sob o peso do egoísmo,
da pressa e de uma civilização (?) que não pode, não sabe ou não
quer valorizar a beleza e a transcendência das crianças. É certo que
as famílias desfrutam actualmente de uma liberdade como nunca
antes existiu. Essa liberdade, no entanto, não obedece nem é
gerada pelo amor; não é motivada pela lealdade nem dirigida pela
inteligente disciplina da sabedoria.
"Enquanto os pais continuarem a ensinar a rezar o "Pai Nosso"
assegurou Cristo ao seu jovem acompanhante, "sobre eles recairá a
tremenda responsabilidade de ordenar os seus lares de forma que
essa palavra pai encerre e signifique um autêntico valor na mente
e no coração dos seus filhos." De súbito, João Marcos emudeceu.
Uma estrela esverdeada rasgou o firmamento.
Logo a seguir, uma segunda estrela cadente mais volumosa,
irrompeu por cima da brilhante Espiga, riscando vertiginosamente o
negrume do céu. A espectacular chuva de meteoros prolongar-se-ia
durante quase cinco horas. E o jovem, perplexo primeiro e
atemorizado depois ante a precisão do meu vaticínio acabou por
agarrar-se ao meu braço, tremendo perante a possibilidade de que
algum daqueles demónios se abatesse sobre nós. Procurei
convencê-lo de que não havia perigo e de que tais demónios eram
apenas pedras a arder.
- Pedras a arder?
Compreendi que, longe de emendar o seu erro as minhas
explicações só tinham contribuído para aumentar a sua confusão.
Sem dar por isso estava a ponto de infringir uma das sagradas
normas da Operação Cavalo de Tróia. O nosso código proibia o
fornecimento ou sequer a simples insinuação quanto a informações
sobre matérias que não correspondessem ao âmbito cronológico em
que as explorações se desenvolviam. E a verdade é que a realidade
dos meteoros e meteoritos foi sistematicamente negada pelos
homens de ciência até meados do século XVIII.
Ali terminou o caudal de informações à volta da jornada daquela
quarta-feira, 5 de Abril. João Marcos, fosse por medo fosse por puro
cansaço, recusou-se a prosseguir. E esgotado, recostou a sua
cabeça no meu regaço caindo num sono profundo.

Foi melhor assim . Que poderia eu ter-lhe dito a respeito da
próxima aparição do Filho do Homem? Mesmo admitindo que Jesus
cumprisse a sua promessa, apresentando-se no yam, era impossível
predizer o dia a hora e o lugar. Para cúmulo, o anteriormente citado
texto de João Evangelista assegura que o Mestre se manifestou
quando estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado o Didimo,
Natanael, de Caná da Galileia, os Zebedeus e outros dois dos seus
discípulos (21, 2). Isto perfazia um total de sete homens, e ali,
naquela altura, estavam a pescar dez. Alguma coisa não condizia .
Quem eram esses dois pescadores anónimos? Seria de esperar que
Pedro convidasse para pescar apenas seis dos seus companheiros?
Tal como as coisas se apresentavam, isso não parecia lógico nem
provável.
A intuição dizia-me que não: que a madrugada em questão tinha
de ser aquela... E habituado às imprecisões e erros dos
evangelistas, apostei de facto no amanhecer próximo.
Entretanto é justo que o reconheça -, à medida que a noite
avançava, as minhas dúvidas foram-se tornando insustentáveis.
As embarcações continuavam a deambular pelo nordeste do lago.
Se a pesca fosse infrutífera, repetia a mim próprio uma e outra
vez, o mais natural é que Tiago e Simão Pedro tivessem ordenado o
regresso à praia. Ou não?» O evangelista era muito claro a esse
respeito: «... mas naquela noite não pescaram nada.» Significaria
a longa permanência do yam que os discípulos estavam a fazer uma
boa pesca? Em caso afirmativo, a minha intuição teria errado... Só
havia uma forma de resolver tão obsidiante incógnita: acalmar os
nervos e esperar pelo amanhecer. Antes, porém, seria testemunha
de outro desconcertante fenómeno, inconcebível de um ponto de
vista racional e científico.

21 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA
Aconteceu duas horas antes do amanhecer. O cansaço começava a
vencer-me. Necessitado de uns momentos de sono, tapei João
Marcos com o meu manto e recostei-me junto à fogueira já quase
apagada. A lenha chegara ao fim, mas sentia-me incapaz de ir à
procura de mais nas redondezas. A incomodidade do terreno, cheio
de calhaus, obrigou-me a mudar várias vezes de posição numa mais
que problemática tentativa de conciliar o sono.
Quando, finalmente, consegui descansar um pouco, aquilo sintome
incapaz de defini-lo melhor começou a mover-se. Eu estava
deitado de costas, virado para a majestosa cúpula celeste, quando,
como ia dizendo, algo, começou a deslizar lá no alto, no meio da
extensa constelação de Hidra.
Num primeiro momento, atribuí tal visão ao meu próprio
esgotamento. Talvez estivesse a ser vítima de uma alucinação
visual. Fechei os olhos, mas ao abri-los, a luz continuava lá,
deslocando-se lentamente para a elíptica. Seria uma estrela
cadente desgarrada? Evidentemente que não.
O seu comportamento, não tinha qualquer relação com as
fulgurantes e oblíquas trajectórias dos meteoros e meteoritos. Além
disso a sua luminosidade não coincidia com a dos rastos verdeamarelados
das fugazes estrelas que tínhamos contemplado pouco
antes.
Aquilo era branco. Um ponto de luz definido sem cauda e de
um brilho bastante semelhante ao da alaranjada estrela Alfard
(2m,2), da qual, justamente, o tinha visto partir. Fosse o que fosse
movia-se a grande altitude e com uma cadenciada
oscilação lateral. Rememorei o incidente que eu e o meu irmão
tínhamos presenciado na noite de Quinta-Feira Santa, no
acampamento de Getsémani. Senti um calafrio. De repente a luz
deteve-se na constelação de caranguejo. Fiquei perturbado.
Levantei-me e, extraordinariamente tenso, aguardei que se
deslocasse de novo. Mas a coisa permaneceu imóvel, camuflada
entre as miríades de estrelas. Na realidade, se a não tivesse visto
mover-se pouco antes, a sua presença ter-me-ia passado

absolutamente despercebida.
Deus do céu! Que se estaria a passar! Que diabo seria aquilo,? A
simples ideia de que, em pleno século I, alguém pudesse tripular um
veículo espacial repugnava ao meu espírito científico. Contudo, malgrado
meu e os meus esquemas mentais, o registado nos radares
do módulo na referida madrugada de quinta-feira, 6 de Abril, o não
menos misterioso objecto circular que se interpôs entre o Sol e a
Terra na manhã de Sexta-Feira Santa, provocando o obscurecimento
de que falam os Evangelhos, e agora a luz que vagueava sobre a
minha cabeça, pareciam manejados por um ser inteligente. E diria
mesmo mais.
Ainda que correndo o risco de perturbar as mentes mais ortodoxas,
estou quase convencido de que os três fenómenos tinham muito em
comum. Os dois primeiros coincidiram, com outros tantos
acontecimentos, intimamente vinculados à pessoa de Jesus. E o
terceiro. Deveria considerá-lo como um presságio? Tolices!
O sono dissipou-se. Observei João Marcos. Dormia profunda e
tranquilamente. Com uma crescente agitação encaminhei-me para a
margem. A praia continuava deserta e escura, sem outro sinal de
vida que não fosse o rubro rescaldo da fogueira. Naquela altura não
registei a distância. Mas depois, ao analisar a inacreditável cena
que estava para viver verifiquei que o brasido se encontrava a oito
metros do yam.
Uma distância insigmificante que pude cobrir em escassos
segundos. Pus-me de cócoras a um passo da água e, com ambas as
mãos refresquei o rosto e o pescoço. Achei que o melhor para me
libertar da ansiedade e das ideias baralhadas que a enigmática luz
em mim produzira era precisamente isso: espevitar-me com uma boa
e fresca lavagem.
Quanto tempo posso ter permanecido junto do lago? Um minuto?
Talvez menos. O caso é que de repente, pareceu-me ouvir um ruído.
Sim, foi como o crepitar de labaredas. E logo uma corrente de ar
frio soprou nas minhas costas. Os cabelos da nuca eriçaram-se-me e,
sem explicação aparente, experimentei uma nítida sensação de
medo. Era como se alguém pessoa ou animal - me espreitasse. O
meu coração começou a bater mais forte ao descobrir na superfície

da água o reflexo de uma luz. A costa apresentava naquele lugar
uma ligeira inclinação e, consequentemente, a imagem ondulante
que tinha aparecido à minha esquerda só podia vir da zona do
litoral onde me encontrava. Pensei na vara de Moisés. No caso de
ser atacado não teria tido tempo de recorrer a ela. Voltei a cabeça
muito devagar e uma descarga de adrenalina sacudiu-me pela
segunda vez. Junto do benjamim, no mesmíssimo lugar onde um
minuto antes se extinguiam as brasas, elevava-se agora um alto e
vigoroso lume. Petrificado, distingui alguém que com uns ramos na
mão alimentava a fogueira. Encontrava-se do outro lado das
chamas, de pé e voltado para mim. O meu ritmo cardíaco
estabilizou.
O mais provável é que se tratasse de algum dos habitantes de
Saidan, atraído, talvez, pelo brilho da fogueira. Mas... como é que
não tinha dado pela sua chegada? Naquela discussão comigo
mesmo, procurei outro argumento tranquilizador: seguramente, a sua
aproximação tinha coincidido com o meu afastamento para a
margem. Mesmo assim, como explicar, então, o súbito ressurgir das
chamas? Não era plausível que, em tão curto período de tempo
não mais de um minuto tivessem ganho semelhante altura e
consistência.
Foram instantes intermináveis. Espessos. Electrizados. E uma ideia
brilhou no meu cérebro. Ou terá sido um desejo? Afastei-a,
acusando-me a mim de pueril e fantasista.
O resplendor das chamas iluminava-o generosamente, mas mesmo
assim não consegui identificá-lo. O indivíduo de notável
corpulência inclinou-se para um monte de lenha seca. Só ele podia
tê-la trazido para ali. Pegou num molho e pouco a pouco, foi
lançando a lenha à fogueira. Receoso, decidi-me a aproximar-me. O
homem levantou a vista das chamas e durante um ou dois segundos,
não mais, observou-me atentamente. Acto contínuo baixando de
novo os olhos quebrou um ou dois ramos, esperando talvez que eu
acabasse de aproximar-me.
Mais uma vez não tenho palavras. Limitam-me.
Desejaria abrir a minha alma e que cada um pudesse ver e sentir
como eu próprio. A quatro metros da fogueira fiquei cravado na

areia. E todo o meu ser estremeceu numa convulsiva onda de medo,
confusão, incredulidade e alegria indescritíveis.
- Meu Deus!
O pavor não tenho vergonha de o confessar levou a melhor
naquele confuso ziguezaguear de sentimentos e emoções. Dando
meia volta, corri, espavorido, sem destino. De que tinham servido
tantas horas de treino? De nada, rigorosamente! Eu era um pobre
mortal, fugindo às cegas e topando no escuro com pedras, redes e
embarcações varadas. Suponho que assim teria continuado, se não
fosse aquela rede providencial.
Providencial?
No violento choque derrubei uma das estacas que a sustinham no
ar e, enredado nas malhas, rolei pela encosta como a mais néscia
das capturas obtidas no yam. Esbracejei e dei pontapés a esmo,
tentando escapar da armadilha. Em vão. Quanto mais me agitava,
mais enredado ficava. O sangue gelou-se-me nas veias: o meu
próprio medo acabara por me imobilizar. Não via forma de me
libertar. Do pânico passei a outro sentimento mais amargo: o do
ridículo. Creio que nunca me senti tão humilhado. Travei os meus
impulsos, tentando raciocinar. Se ao menos tivesse à mão uma
faca... Cheguei a morder os fios de linho embebidos em pez, numa
furiosa tentativa de abrir uma brecha. Impossível.
Esforcei-me então por levantar-me. E estava nisto quando, no
meio das trevas descobri uma tocha que se aproximava. Caído e
amordaçado estive para gritar, pedindo ajuda. Não foi necessário.
O portador da luz parecia conhecer muito bem a minha posição e a
crítica e estúpida situação em que me encontrava. Ao reconhecê-lo,
o meu coração acelerou de novo.
Desta vez, porém, não foi o terror que me agitou. Foi a mais
profunda, a mais intensa das alegrias. Não me equivocara. Era Ele!
Mas como podia ser? Quando e de que maneira se apresentara na
praia?
O Gigante observou-me uns instantes. Depois, em silêncio,
inclinou-se sobre aquele humilhado despojo humano e, com o maior
tacto, foi queimando as malhas da rede. Livre daquela armadilha,

apressei-me a levantar-me. Foi uma sensação embaraçosa. Violenta.
Incapaz de articular palavra, limitei- me a contemplá-lo. Apesar de o
ter visto no Cenáculo, não podia acreditar no que tinha perante
mim. Santo Deus! Não havia dúvida: era Ele! Trazia o seu habitual
manto cor de vinho, que Lhe envolvia o tórax vigoroso, a sua túnica
branca, de amplas mangas.
Que difícil e apaixonante repto para a ciência e que absurda
posição a minha! Eu, um cientista, acabava de ser liberto de uma
rede por um homem ressuscitado! Porque, evidentemente, tratava-se
de um ser vivo. Trazia uma tocha, tinha queimado parte de um
aparelho de pesca e, enfim, estava ali, diante de mim, ocupando um
lugar no espaço. Mas como assimilar tamanha loucura? É que eu
tinha-o visto morrer. Tinha comprovado o rigor mortis. Tinha tocado o
seu cadáver... Como era possível?
Adivinhando tão tormentosos pensamentos, o Homem aproximou a
tocha do seu peito. E a luz banhou-Lhe a face alta e serena,
produzindo cintilações nos cabelos lisos e acastanhados que caíam
sobre os ombros largos e fortes. O nariz proeminente, a barba fina e
apartada e, sobretudo, aqueles rasgados, profundos e intensos
olhos cor de mel, eram os de Jesus de Nazaré. A proximidade do
fogo impressionou as suas pupilas.
Num movimento reflexo, as longas pestanas movimentaram-se uma
e outra vez. Aquele pestanejar, absolutamente natural, não podia
ser fruto da minha imaginação.
E o Homem com aquele suave e acolhedor sorriso que tanto me
impressionava, falou por fim. A sua voz grave, inconfundível, fez-me
estremecer.
- Não te preocupes em saber como. Pergunta-me, isso sim meu
querido e assustado Jasão, pergunta-me porquê...
E, voltando-se, Jesus aproximou-se, de novo, da fogueira.
Aturdido, fui atrás dele, procurando acompanhar as suas passadas
largas. Que dizer, tímido e nublar-se, na minha mente mil e uma
perguntas. Contudo, queria agradecer a sua ajuda, mas
envergonhado pela minha fuga, não fui capaz. Continuei a seu lado,
caminhando como um autómato e tentando pôr em ordem o meu

cérebro bloqueado.
Ao contornar uma das embarcações varadas na margem, voltei a
tropeçar, apesar da luz da tocha. Instintivamente, apoiei-me ao seu
braço direito. Jesus parou, Dobrou o antebraço e retesou os
músculos numa pura e simples reacção de ajuda evitando assim que
eu caísse sobre os seixos. Ao agarrar-me ao seu braço pude captar
sob a túnica a dura massa dos bíceps, braquial e supinador. Longo
esforço. Obviamente aquilo não era um fantásma momentâneo João
Marcos continuava adormecido. E o Ressuscitado, depois de
acariciar os cabelos revoltos de João Marcos, foi sentar-se junto à
fogueira, de frente para o lago. Eu, sem poder libertar-me daquela
sensação de solenidáde, a um metro dele, permaneci uns instantes
de pé, contemplando o monte das chamas, obedeci ao meu coração.
Finalmente, com um nó na gargamta, imitei-o, sentando-me a seu
lado. Tinha a vista perdida nas distantes luzes do yan.
Parecia esperar. Durante algum tempo que podiam significar os
minutos naquela situação não me atrevi a interromper os seus
pensamentos.
Dobrou as pernas. Envolveu-as com os longos braços e,
descansando o queixo em mim, inspirou profundamente. De seguida,
fixando o olhar, exclamou: - Obrigado pelos vossos sacrifícios!
Espantado, olhei-o fixamente. Sorriu com uma leve sombra de
amargura e, compreendendo a minha perplexidade, acrescentou: -
Sabes bem a que me refiro. A vossa decisão de conhecer a
verdadeira história do Filho do Homem não é fruto do acaso.
Estes e com a mão esquerda apontou as embarcações do yam. -
de hoje, acabarão por alterar involuntariamente a minha
mensagem...
Estúpido que fui! Em vez de lhe permitir que aprofundasse tais
reflexões, decidi-me a intervir, interrompendo-o: - Mestre, eu sou um
cientista. Como poderei compreender e transmitir a tua ressurreição?
Tu estavas morto...
Jesus cedeu com benevolência à minha indagação. Levantou o
rosto para as estrelas e, a meia voz, comentou com firmeza: - Há
realidades que dificilmente poderão ser provadas pela ciência ou

pelas deduções da pura razão. Ninguém pode conceber tais
verdades enquanto permanecer no domínio da experiência humana.
- Quando tiverdes terminado cá em baixo, quando tiverdes
completado o vosso tempo de prova na carne, quando o pó que
forma o tabernáculo mortal for devolvido à terra donde provém,
então, só então, o Espírito que nos alimmenta, que foi Deus que volo
concedeu e a tua pergunta ficará plenamente satisfeita.
- Então insisti eu sem ocultar a minha incredulidade -, é verdade
que a morte é apenas uma passagem? - Tão natural e obrigatória
como a calma que sucede à tempestade.
- Mas os homens de ciência não crêem...
Desta vez foi Ele quem se adiantou à minha exposição.
- A corrente de ferro da verdade, que vós qualificais de invariável,
mantém-vos cegos num círculo vicioso.
Tecnicamente pode ter-se razão nos factos e, no entanto, estar-se
eternamente equivocado na Verdade.
E, esboçando um imenso sorriso, acrescentou:
- Eu sou a Verdade. Tocaste-me e agora vês-me e ouves as minhas
palavras. Porque continuas a duvidar? O facto de não a
compreenderes não significa que essa realidade superior seja uma
quimera ou o fruto de mentes visionárias. Quando chegar a tua
hora, os meus anjos ressuscitados despertar-te-ão num mundo que
nem sequer podes imaginar...
- Os teus anjos ressuscitadores?
O Mestre apontou para as estrelas. Julguei compreendê-lo.
- Tu, querido amigo continuou sem deixar de observar o brilhante
firmamento -, à tua maneira, já respondeste a essa pergunta: no
meu Reino há muitas moradas... E uma delas é passagem
obrigatória para os mortais que procedem dos mundos
evolucionários do tempo e do espaço.
- E tu, também foste ressuscitado?
- Não, meu filho e a sua voz encheu-se de ternura. - Acabo de
dizer-te que eu sou a Vida. Os meus anjos, não a meu pedido

dispúséram já do meu invólucro carnal. Mas o poder de ressuscitar,
no Espírito, é um dom que devo apenas ao Pai. Um dia, quando
fores para o outro lado, compreendê-lo-ás.
Desculpa a minha rudeza.
O Mestre envolveu-me no seu olhar cálido animando-me a
prosseguir: - Se não entendi mal, nenhum dos seres humanos tem o
poder de auto-ressuscitar-se...
- É verdade. No entanto, podeis desfrutár de soberana verdade
que ninguem mesmo ninguém, perde esse direito. Todos, como
aconteceu comigo, despertareis para uma vida qué é apenas o
princípio de uma longa caminhada para o Paraíso. Uma continuada
ascensão para o Pai Universal. Uma viagem... sem retorno.
As palavras de Jesus taxativas não davam lugar ao menor
resquício de dúvida.
- Que queres dizer com isso de que os teus anjos apenas
dispuseram do teu invólucro carnal? - Já to disse, mas, na tua
perplexidade, não ouves as minhas palavras.
Reconheço-o. A sua presença tinha-me transtornado. A minha
limitada inteligência não fazia mais que dar voltas em torno da
realidade física daquele corpo, surgido do nada. Suponho que, no
fundo, era inevitável e até lógico que tal acontecesse. Não era
assim tão simples sentar-se junto de um ressuscitado e dialogar
como se tal coisa...
- Eu sou a Vida! Em verdade te digo que nenhuma das minhas
criaturas pode devolver-me o que é meu e que só compartilho com
meu Pai. Os meus discípulos, e a maioria dos homens dos tempos
vindouros, associaram e associarão a maravilhosa realidade do
regresso à vida eterna e espiritual com o mero desaparecimento do
meu corpo terrestre. Enganam-se. A desintegração desse invólucro
carnal foi um fenómeno posterior à minha verdadeira ressurreição.
Um fenómeno necessário fruto do poder dos meus anjos. , Com o
passar do tempo relembrando estas frases do Mestre creio ter
chegado a compreender o seu significado. O desaparecimento do
cadáver era absolutamente necessário e conveniente. Por um lado
se não fosse assim, os judeus nem sequer se teriam colocado a

hipótese,de um Cristo ressuscitado. E nesse caso, como diz Paulo, a
nossa fé seria vã. Por outro lado, os restos mortais do Filho do
Homem teriam acabado por converter-se num motivo de lógica
veneração dos seus seguidores, com os riscos de uma quase
idolatria, ou mórbida adoração, totalmente contrárias à mensagem
do Rabi.
- Desintegração? Toda a gente pensa que o desaparecimento do
corpo foi um milagre...
Durante alguns instantes permaneceu com o olhar fixo na mágica
dança das chamas. Pensei mesmo que não teria ouvido as minhas
palavras.
- A ti posso dizê-lo sussurrou por fim. - Os milagres, tais como os
concebem muitos seres humanos, não existem. O poder de meu Pai
é tão grande que não precisa de alterar a ordem do criado. O
verdadeiro milagre é a vossa cega crença nos milagres.
- Continuo sem entender. Esse cadáver esfumou-se...
Jesus sorriu, infundindo-me confiança.
- Será que os teus anjos conhecem uma técnica...?
- Tu o disseste. Mas, tal como acontece com o vosso código
moral , o dessas criaturas às minhas ordens também não deve ser
violado. Sei que compreendes isso. Não é o lugar nem o momento
para o fazer.
- Desculpa a minha curiosidade. Essa técnica tem alguma coisa a
ver com a manipulação do tempo, que nós próprios estamos a
utilizar? O sorriso acentuou-se. Foi a melhor das respostas. E num
cálido tom de censura, acrescentou:
- Quando compreendereis que o tempo é apenas a imagem em
movimento da eternidade? Que mais precisais para considerar que
o espaço é apenas a sombra fugaz das realidades do Paraíso?
Orgulhais-vos das vossas descobertas e pensais que a Verdade
absoluta está ao vosso alcance. Não compreendeis que sois como
crianças recém-chegadas a uma ordem imensamente antiga e
inconcebivelmente sábia.
- E tu, Mestre, que lugar ocupas nessa ordem?

- Sou um Filho Criador.
Mexi com a cabeça, dando-lhe a entender que não conseguia
acompanhállo.
- Não queiras captar o que ainda é invisível aos teus olhos de
mortal. Bastar-te-á a fé na existência do Pai. Muitas das minhas
criaturas, apesar de terem passado a barreira da morte, também
não estão preparadas para enfrentar, cara a cara, a luz ofuscante do
Pai Universal.
Uma torrente de perguntas começava a inundar o meu coração.
O Pai? A morte? Aquelas outras criaturas?..
- Tudo parece tão simples!... Falas da morte sem medo... No
entanto, nós...
- Vós empenhais-vos a apagar a luz que lateja em cada um dos
corações e que lá foi depositada, precisamente para vencer o medo.
Se os homens escutassem a sua própria voz, ninguém temeria essa
passagem.
Porque creis que voltei?
Não me deixou responder.
..É preciso que uns poucos me vejam agora para que muitos
outros aprendam a olhar para si próprios. A morte, meu filho, é
apenas uma pórta. Não temais atravessá-la.
- Alguns seres humanos reagi timidamente temem mais a
incógnita do depois da morte que o facto físico da mesma...
- Esses apressou-se a intervir -, no escandaloso troar das suas
dúvidas, silenciam a íntima e sábia voz das suas consciências.
Deixai que seja ela a guiar-vos. Tudo, na criação de meu Pai, está
meticulosa e misericordiosamente posto para vosso bem
Ninguém morre. Nada morre. Tudo é um contínuo progresso para o
Paraíso. E nem sequer é o fim...
- Mas as religiões e algumas Igrejas pregam a salvação e a
condenação...
Foi a única vez que o seu rosto se endureceu.
- Não meças o nosso Pai Universal com a bitola dos homens, nem

confundas a religião da autoridade com a do espírito. Um dia todos
os mortais compreenderão que só o caminho da experiência e da
procura pessoal da chispa divina é que alimenta cada um de vós.
Enquanto as orações não evoluírem, o mundo assistirá a essas
cerimónias religiosas, mas supersticiosas, tão características dos
povos primitivos.
Enquanto a Humanidade não alcançár um nível superior,
reconhecendo assim as realidades da experiência espiritual, muitos
homens e mulheres preferirão as religiões autoritárias, que só
exigem o assentimento intelectual. Essas religiões da mente,
apoiadas na autoridade das tradições religiosas, oferecem um
cómodo refúgio às almas confusas ou assediadas pelas dúvidas e
pela incerteza. O preço a pagar por essa falsa e sempre provisória
segurança é o fiel e passivo assentimento intelectual às suas
verdades. Durante muitas gerações, a Terra acolherá mortais
tímidos, temerosos e vacilantes que preferirão esse tipo de pacto. E
eu digo-te que, ao unirem os seus destinos ao das religiões da
autoridade, porão em perigo a sagrada soberania das suas
personalidades, renunciando ao direito de participar na mais
apaixonante e vivificante de todas as experiências humanas: a
busca pessoal da Verdade e psíquica...
- E que representa essa busca pessoal?
Aquele Homem abriu os braços e, mostrando-me as luzes do lago,
a infinita beleza do firmamento e o crepitar do fogo, sentenciou
vibrantemente: - E tu, embarcado que estás nessa apaixonante
aventura, perguntas-me isso? Que dizes de todas as gerações que
acompanham as vossas descobertas? Não valeu a pena?
Guardei silêncio. Uma vez mais Ele tinha razão.
..As descobertas intelectuais, meu amigo, constituem sempre uma
aventura e um risco. Mas só os audazes, os que obedecem ao seu
próprio eu, têm capacidade para enfrentar isso. Só esses, os
autênticos pesquisadores da Verdade, sabem explorar
resolutamente e sem medo as realidades da experiência religiosa
pessoal. Tu próprio e teu irmão estais a experimentar a suprema
satisfação do triunfo da fé sobre todas as intelectuais!
Agora, com a ajuda do tempo e daquela perspectiva, a minha

estranheza parecia-me ridícula. Agarrado ainda ao pesado lastro do
material, a directa alusão a Eliseu, assim como a familiar fórmula
com que o venho designando (meu irmão), deixou-me perplexo. O
poder daquele Ser era, simplesmente, absoluto.
.E essas vitórias, único objectivo da existência humana, só
conduzem a uma busca pessoal de nós que todo o homem que se
empenhe nessa suprema aventura, encontrará meu pai no mesmo no
meio do desalento das dúvidas. A religião do espírito significa luta,
conflitos, esforço, amor, fidelidade e progresso. O dogmatismo,
pelo contrário, exige apenas dos seus fiéis uma parte ínfima desse
esforço. Não esqueças, Jasão, que a tradição é um caminho fácil e
um refúgio seguro para as almas tíbias e receosas, incapazes de
enfrentar as duras lutas
do espírito e da incerteza. Os homens de fé viajam sempre pelos
difíceis oceanos à procura de novos horizontes; os submissos
limitam-se a navegar junto à costa ou fundeiam as suas
inquietações ao abrigo de portos limitados impróprios para navios
que foram construídos para corajosas e longínquas navegações.
- Essas palavras repliquei sem poder conter-me, - no meu tempo
levar-te-iam de novo à morte.
- Não te esqueças de que a minha passagem pelo mundo será
sempre motivo de divisão e de confronto.
Interrompeu de novo.
- Diz-me! Que deve fazer um homem que deseja encontrar a
verdade? - Também tu não compreendeste a minha mensagem?
Uma onda de vergonha fez-me baixar os olhos. Mas aquele Homem
passou logo o braço esquerdo sobre os meus ombros obrigando-me
a aguentar o seu olhar. O contacto daquela mão agarrada
firmemente ao meu ombro, foi como que uma descarga eléctrica.
- Confiar no nosso Pai. Só isso. Em cada manhã, em cada momento
da tua vida, põe-te nas Suas mãos. Luta fraternidade entre os
homens, luta pela tolerância e pela justiça. Luta em prol dos mais
fracos. Ele encarregar-se-á do resto.
- O Pai! - exclamei, contagiado pelo seu entusiasmo. - Deve ser um
grande tipo! A minha prosaica definição fez rir o Homem. As suas

reacções, como ia verificando, eram tão «humanas» e naturais como
as de qualquer mortal. Uma loucura! Tomando um punhado de areia
estendeu a mão, mostrando-me os grãos escuros.
- É tão sem medida replicou lenta e pausadamente que mede
os mares na concha da sua mão e os universos na distância de um
palmo!
Ele quem está sentado na órbita da Terra, quem estende os céus
como um manto e os ordena para que sejam habltados. Mas não
confundas: Deusro símbolo verbal, que designa todas as
personalidades da divindade...
Jesus pegou na minha mão direita e, deitando nela o punhado de
areia, insistiu em algo que já tinha comentado: - Nu caso que
esqueças que a morte desse Deus, do noso Pai, entrou em ti há
muitos anos.
- Qüando?
- Digamos, para simplificar, que no momento em que tomaste a
tua primeira decisão moral.
- Entãoeu sou Deus?
- Tù o disseste. E a partir de hoje, procura-te no mais íntimo da
tua alma.
A curiosidade consumia-me. E deixando-me levar pelo mais infantil
dos impulsos, perguntei-lhe de chofre: - Como te chamas?
O Ressuscitado não iludiu a pergunta. Ele sabia que eu não me
referia ao seu nome na Terra. Observou-me com ar divertido e,
dirigindo o indicador esquerdo para as estrelas, exclamou: - No meu
reino, as minhas criaturas conhecem mepor Micael.
- E porque não adoptaste esse mesmo nome na Terra?
O mestre parecia divertir-se com aquelas pueris perguntas.
Sorriu de novo e a dentadura branca e perfeita iluminou-se com o
resplendor das chamas.
- De início, por meu expresso desejo, nem eu próprio tomei
consciência de quem era aquele jovem de Nazaré. Assim o exigia a
minha experiência entre os humanos evolucionários do tempo e do

espaço. Só uns tantos, muito chegados a Micael, souberam deste
segredo e o guardaram ciosamente.
Não saía do meu assombro. Santo Deus! Era tanto o que eu
ignorava sobre aquele Homem!...
- O meu nome na Terra tinha de ser outro.
- Satisfeito? - Então tu, durante a tua infância e juventude, nunca
soubeste...
Negou com a cabeça.
- E quando...?
- Isso, querido Jasão replicou divertido -, é uma coisa que
devereis descobrir vós próprios... na devida altura.
Agora já sei. Mas naquele momento nem sequer o imaginei.
Jesus de Nazaré referia-se à nossa terceira e fascinante aventura,
durante a qual teríamos, de facto, a extraordinária oportunidade de
conhecer os pormenores de tão decisiva mudança na personalidade
do Filho do Homem.
- Porque falas da minha experiência entre os humanos?
- E que outra coisa posso dizer?
Insisti, perplexo.
- Experiências? Só isso?
- Na tua opinião perguntou por sua vez -, como deveria qualificála?
- De desperdício retorqui sem dar-lhe tempo para replicar.
- Um puro desperdício, se mo permites, desnecessário e, a julgar
pelos resultados próximos e futuros, catastrófico.
- O Soberano Criador deste universo interveio, abandonando
momentaneamente o seu acolhedor sorriso.
- também faz a vontade do Pai. Uma vez satisfeita a minha sede
de conhecimento dos humanos, pude abandonar o mundo e receber
do Pai Universal o definitivo reconhecimento da minha soberania.
Mas, como te digo, não era essa... a vontade do Pai.
Estas palavras foram para mim confusas, Enigmáticas. Desde
quando o Criador tem necessidade de conviver com as suas criaturas

para Ele aprender num mundo como este. A que tipo de experiência
se referia? Que entender por aquele definitivo reconhecimento da
sua soberania?
- Por onde começar. Queres como o Pai pôde desejar para ti
uma morte tão cruel e sanguinária? Pôs-se de pé. Por de trás dos
cerros de Kursi e Hipos começava a clarear. As tochas continuavam a
oscilar no lago.
Atirou um molho de lenha para a fogueira e, com um leve gesto de
cabeça convidou-me a caminhar com ele. Tomou a direcção da foz do
Jordão e, devagar, afastámo-nos do pequeno João Marcos.
Durante alguns metros não disse nada. Cheguei a pensar que se
tinha esquecido da minha pergunta.
De súbito, com especial ênfase, falou assim:
- Antes da minha encarnação na Terra, os homens podiam crer num
Deus colérico, sedento de justiça. A sua ignorância era perdoável,
agora revelei-lhe um pai misericordioso que só conhece a palavra
amor.
- Crês então que um pai pode desejar essa morte a seu filho? - A
Sua võntade era que eu permanecesse no vosso mundo até ao fim e
esgotasse o cálice que todos os mortais, por sua natureza, beberam
e beberão com partilha e foi para vos demonstrar que a fé em Deus
nunca é estéril. Sei que, apesar das minhas palavras, muitos dão
outro sentido à minha morte na Cruz. Eu não vim ao mundo para
saldar uma suposta velha dívida dos homens para com Deus...
Parei. E Jesus, adivinhando a minha surpresa, acrescentou: - Sei o
que estás a pensar. Enganas-te e enganam-se todos os que assim
pensam. O Pai celestial jamais poderia conceber a grave injustiça
de condenar uma alma pelos erros dos seus antepassados.
- Então, essas ideias dos cristãos sobre a redenção pela
Cruz...
O Mestre pousou as suas mãos sobre os meus ombros,
transmitindo-me a sua compreensão.
- A tendência para o vício pode ser hereditária. O pecado,pelo
contrário, não se transmite de pais para filhos.

O pecado é úm acto consciente e deliberado de rebeldia contra a
vontade do nosso Pai Universal e ir contra as leis do filho.
Toda a ideia de resgate ou expiação é, por conseguinte,
incompatível com o conceito de Deus. O amor infinito do nosso Pai
ocupa o primeiro lugar dentro da natureza divina. Em verdade te
digo, Jasão, que o sentido de salvação pelo sacrifício está
arraigado no egoísmo. Sei que a vida de serviço e o conceito mais
elevado da fraternidade entre os crentes. E dir-te-ei mais: a
salvação é crer na paternidade de Deus, a maior preocupação dos
fiéis do reino não deveria ser o seu desejo egoísta de salvação
pessoal, mas sim a necessidade de amar os seus semelhantes acima
de si mesmos. Os autênticos crentes não se preocupam com o
possívél futuro castigo de seus erros. Interessam-se tão somente
pelo restabelecimento do contacto com Deus. Por certo, um pai pode
castigar os seus filhos, mas fá-lo por amor e com um fim e um
sentido puramente disciplinares.
- Logo, há um castigo futuro...
- Mas não como tu o imaginas. O nosso Pai é amor. E o amor é
contagioso e eternamente criador. Crês que não existem outros
meios melhores que o castigo para corrigir os erros das limitadas
criaturas mortais? Antes de eu ter vindo a este mundo (mesmo antes
de o ter criado), todos os mortais do reino dispunham já da
salvação. O nosso Pai, repito-to, não é um monarca ofendido,
severo e implacável, cujo principal prazer consista em detectar e
perseguir as criaturas que agem na obscuridade ou no pecado. A
simples ideia de um resgate ou expiação colocaria a salvação num
plano de irrealidade. Este conceito é puramente filosófico. A
salvação humana é inegável e baseada em dois únicos princípios:
Deus é nosso Pai e, consequentemente, todos os homens são
irmãos.
Custava-me a aceitar tão béla utopia. E sem dissimular o meu
cepticismo perguntei-lhe: - Quando é que isso acontecerá? Quando
desaparecerão amaldade e a injustiSa?
- Só há um caminho: o amor. O amor disssolve o pecado e as
fraquezas humanas. Ama os teus semelhantes, Jasão! Ama-os na
penúria e na riqueza! Ama-os mesmo quando penses que eles estão

enganados! Ama-os, simplesmente! Suponho que perdi a noção do
tempo. Ouvi-lo era muito mais que aprender: era viver, sentir e
palpar uma nova realidade.
Uma realidade que eu ignorava.
E com as primeiras claridades regressámos para junto da fogueira.
João Marcos tinha desaparecido.
Não dei atenção de maior à repentina ausência do benjamim.
Jesus também não fez qualquer comentário. A aurora, rápida e
alaranjada, obscureceu as estrelas, despertando o Kennereth.
As suas águas, primeiro acinzentadas, foram esverdeando e,
quase simultaneamente, as embarcações apagaram as suas luzes.
Na costa oeste, entre Hamat e Migdal, uma compacta bruma
ocultava as escarpas, das quais começavam a escapar brancos e
alvoroçados bandos de gaivotas. O yam retomava o seu ritmo
quotidiano, animado pelas longínquas vozes dos pescadores.
Quando já amanhecia, estava Jesus na margem...
A frase de João, no seu evangelho, pôs-me num alerta total.
A aparição oficial aos seus íntimos não tardaria a verificar-se. Mas
o Ressuscitado, absolutamente tranquilo, não parecia prestar
atenção às obscuras embarcações que deslizavam a cerca de uma
milha, em frente da desembocadura do Alto Jordão. Dali, pelo
menos para mim, era impossível distinguir os barcos de Pedro e
Tiago.
O Mestre avivou o fogo e, durante uns dois minutos, ficou de
cócoras, absorto na dança das chamas. A luz nascente daquela
sexta-feira e a reverberação do fogo iluminaram uma pele
bronzeada, exactamente igual à que tinha em vida. Mas como falar
de vida ou de morte? Para alguém que ignorasse os horríveis
acontecimentos ocorridos duas semanas antes, e que contemplasse
o Rabi naqueles precisos instantes, teria sido difícil de aceitar que
se tratasse de um homem morto e sepultado. O meu cérebro
rebelou-se pela enésima vez. No entanto, passados alguns
segundos tive de render-me à evidência. Aquele corpo também dava
sombra! E mais: num dos movimentos das chamas, uma baforada de

fumo apanhou-o de surpresa (?). Instintivamente, esbracejou,
tentando dissipá-la. Mas o fumo, implacável, penetrou-lhe na
garganta e provocou-Lhe a tosse. Jesus ergueu-se e como a coisa
mais lógica e natural (?) do mundo, apressei-me a ajudá-lo, dandolhe
repetidas palmadas nas largas costas. O Mestre afastou-se da
fogueira e, tendo-me piscado um olho, caminhou para a margem.
Agora, sinceramente já não sei o que pensar.
Se era capaz de ler as minhas dúvidas e pensamentos, devo
atribuir este pequeno e significativo incidente à mera casualidade
ou ao seu desejo deliberado de dissipar as minhas incertezas?
Depois vi que se descalçava. Abandonou as sandálias sobre a
areia e como uma criança, levantando a túnica com a mão direita,
foi entrando pela água dentro, chapinhando e brincando com a
esquerda. Acompanhei-o com a vista, entre atónito e emocionado.
Aquele menino grande, capaz de sentir prazer com o simples tocar
na água, era o Jesus de Nazaré que eu conhecera. Subitamente,
talvez ao pisar em falso, começou a oscilar. E o seu robusto corpo,
tendo-se desequilibrado, acabou por cair de costas, agitando as
águas em redor. Corri em sua ajuda.
Mas, ao chegar à margem, o Mestre, sentado no fundo e com a
água pelo estômago, voltou-se para mim e, entre sonoras
gargalhadas, com o seu habitual bom humor, gritou-me, feliz: - Estou
a ficar velho!
Julguei enlouquecer. O seu comportamento incluindo a
aparatosa queda era tão natural que ninguém, em seu juízo
perfeito, poderia acreditar no que eu estava a presenciar.
(Por vezes, quando acordo a meio da noite, muitas daquelas
cenas agitam-se na minha memória e tenho dificuldade em discernir
se, de facto, se trata de um sonho... ou da realidade.) Tirando
partido do incidente, o Mestre permaneceu uns minutos na água.
Refrescou o rosto e, deitando a cabeça para trás, fechou os olhos,
saboreando aqueles primeiros e mornos raios de sol. De repente,
reparei nas suas sandálias. Agachei-me e, pegando numa delas,
examinei-a atentamente. Pareciam as mesmas de sempre, com uma
já gasta sola de matéria vegetal prensada e as tiras de couro que
serviam para prendê-las aos dedos. Levantei a vista. Jesus

continuava com as mãos apoiadas no leito do yam recebendo a
cálida bênção de um novo dia que prometia ser tão quente como o
anterior. P Como um ladrão, aproveitando o momentâneo
ensinamento de Jesus aproximei a sandália do nariz e cheirei-a. Não
havia dúvida: mantinha o odor característico destas peças de
calçado, um misto de suor e de terra. Um tanto envergonhado pela
minha insaciável desconfiança, pu-la ao pé da outra e regressei
para junto do fogo. Jesus, de pé, com a túnica de lÌnho gotejando,
ficou alguns instantes a perscrutar
o horizonte. Alguns dos barcos aproavam já para Saidan. O grande
momento aproximáva-se. Prudentemente, retirei-me para as escadas
que davam acesso à casa dos Zebedeus. Dali, a meio dos degraus,
dominava-se toda a praia.
Jesus regressou à costa. Calçou-se e de pé junto à fogueira, ficou
de costas para mim, a observar o avanço das embarcações.
Aquela parte do litoral continuava deserta. O Mestre afastava-se
de vez em quando da fogueira, dando pequenos passeios junto à
água. Pouco antes das seis horas, muitos dos barcos passaram
diante da praia, vogando rapidamente para o embarcadouro da
aldeia.
Não reconheci nenhum dos discípulos. Atrás, a algumas centenas
de metros, avistavam-se outros barcos.
Forcei a vista, procurando descobrir a silhueta de Pedro.
Impossível. De súbito, lembrei-me de que não tinha alertado o
módulo. Activei o microtransmissor e, de acordo com o planeado, dei
início à transmissão de sinais via laser -, comunicando a Eliseu a
minha posição e a iminência da operação. Ajustei os crótalos e,
poucos minutos depois respondendo ao código de impulsos
electromagnéticos, o berço catapultou um dos olhos de Curtiss, que
voou lesto e convenientemente oculto pela radiação IR, até se
imobilizar a pouco mais de quarenta metros sobre o yam e a curta
distância da fogueira.
Parece incrível. Mas, tal como aconteceu, assim o devo registar
neste apressado diário. Tornando-se estacionário sobre as águas,
consoante as ordens do meu irmão, a pequena e invisível esfera

começou a transmissão de imagens e sons.
Pois bem, nesse preciso instante o Ressuscitado levantou a vista
em direcção ao olho de Curtiss. Tanto Eliseu como eu estamos
convencidos de que a sua presença foi captada pelo Mestre.
Durante alguns segundos observei-o com preocupação. Foi então,
ao seguir os seus movimentos com as lentes especiais, que notei
algo que me deixou novamente confuso e que já tínhamos
detectado na sua última aparição, no Cenáculo. Um ser vivo
sempre que a sua temperatura corporal esteja acima de zero
absoluto emite uma radiação infravermelha, cujas tonalidades
variam consoante o grau de calor acumulado ou libertado das suas
diferentes áreas. No entanto, o corpo de Jesus, quase não irradiava
calor. Devo registá-lo. Era como se carecesse de fluxo sanguíneo. É
absurdo, sei-o bem. Além disso, eu tinha tocado num dos braços e
não me dera conta de nada de anormal.
Um corpo sem aparelho circulatório? A minha inteligência negou-se
a admiti-lo. Mas a visão através dos crótalos não mentia...
Às seis e meia daquela sexta-feira 21 de Abril, as duas
embarcações aproximaram-se finalmente da costa de Saidan.
Eram eles! Jesus, atento às manobras dos remadores, afastou-se
da fogueira. (O posterior visionamento das imagens captadas pelo
olho de Curtiss permitiria reconstituir as palavras e gestos que
trocaram entre si, difíceis de captar do lugar onde me encontrava.) A
pouco mais de cem metros da orla, o primeiro dos barcos
capitaneado por Simão Pedro afrouxou a marcha.
Alguns dos remadores repararam então no homem que parecia
esperá-los perto do lume. Houve uma breve troca de palavras.
Simão e André insistiam com os seus companheiros, assegurando
que devia tratar-se de algum dos habituais compradores de peixe
de Nahum ou Tarichea, que viera recebê-los.
O sais resmungou uma das suas irreproduzíveis imprecações. A
pesca, evidentemente, tinha sido um completo fracasso. Tomé,
talvez por causa do seu defeito na vista, aventou a hipótese de se
tratar do jovem João Marcos. A sugestão foi rejeitada por entre
dichotes e zombarias. De facto, aquele homem era muito mais alto.

Curiosamente, ninguém chegou a identificar o Mestre. Quando o
barco se encontrava a pouco mais de cinquenta metros, Jesus
levantou o braço esquerdo e, dirigindo-se aos pescadores, gritoulhes:
- Rapazes! Pescastes alguma coisa?
Simão Pedro com um gesto severo, respondeu-lhe com um seco e
lacónico não. Cheguei a temer que a sua resposta viesse
acompanhada de alguma das suas menos polidas expressões.
João Zebedeu levantou-se e, pegando numa das pedras
lisas, preparou-se para fundear a embarcação. Mas, dez ou quinze
segundos depois daquele curto diálogo, o Ressuscitado dirigiu-se
de novo à tripulação e, apontando para estibordo, ordenou com voz
forte: - Lançai a rede à direita do barco... e encontrareis peixe!
O Zebedeu olhou para o sais. Este, voltando a cabeça para o
ponto indicado pelo desconhecido, inspeccionou a superfície das
águas. Os restantes remadores fizeram o mesmo.
Na zona apontada verificava-se um intenso borbulhar. Logo
depois, a estibordo, a superfície do yam agitava-se perante o
súbito aparecimento de um cardume. Pedro, esquecendo o homem
da praia começou a vociferar e a gesticular, avisando os ocupantes
do segundo barco da proximidade do peixe. João Zebedeu deixou a
âncora e, juntando-se aos remadores, dirigiu o barco rumo ao
cardume. Jesus continuava atento às evoluções dos amigos.
A escassa distância da espumejante mancha, com admirável
precisão, as embarcações atracaram uma à outra. Os remadores
sentados a bombordo e a estibordo de cada um dos barcos
retiraram os remos, mantendo ligadas as respectivas amuradas.
Simão tomou o comando de ambas as companhas e em
simultâneo, cadenciadamente, os quatro remadores livres foram
dirigindo os barcos para o cardume. O jerem foi disposto a cavalo
entre ambas as embarcações. A um grito do sais, quando se
encontravam a três ou quatro metros da mancha, os que seguravam
as bordas soltaram as respectivas pegas, proporcionando vários e
fortes impulsos ao barco contrário.
E, logo depois, iniciaram a manobra de cerco. Assim que os barcos
se distanciaram, os homens, agora libertos dos remos, arriaram a

rede, envolvendo os peixes saltitantes. Aquele sistema de pesca
denominado entre os galileus como shavaq qosiv era de facto uma
técnica bastante mais complexa que a que eu estava a presenciar
(uma espécie de método combinado) na qual, além do jerem, se
costumava utilizar também o ambatan. Para tanto, logicamente,
eram necessárias no mínimo três ou quatro embarcações.
Velozes e precisos, os barcos lançaram o jerem, traçando um
círculo. Ao atracarem um ao outro, oito dos dez homens, entre gritos
de entusiasmo, apressaram-se a recolher a rede, arrastando a bolsa
para as popas das embarcações. Muitos peixes pressentindo o
perigo, saltaram por cima das bóias do jerem, pondo-se em fuga.
(Se contassem com uma terceira e uma quarta embarcações, o
ambatan, estendido à volta das bóias teria evitado a fuga do
peixe.) Mesmo assim, a julgar pelas manifestações de espanto e
pelas exclamações de júbilo das tripulações, a captura terá sido
muito fora do comum.
É meu dever anotá-lo aqui e agora: não creio, em absoluto, que
aquela pesca possa ser qualificada de milagrosa.
Qualquer observador médio colocado no litoral poderia ter
detectado o cardume que fazia espumar a superfície do yam.
Objectivamente falando, Jesus limitou-se a assinalar uma mancha
de peixes que, a partir dos barcos, talvez tivesse passado
despercebida. Depois já se sabe -, com o passar do tempo,
aquele facto, totalmente fortuito, foi deformado e guindado à
categoria de pesca milagrosa.
Basta reler atentamente o que foi escrito por João - testemunha
presencial para deduzir que o acontecimento em questão nunca foi
considerado como extraordinário, no sentido sobrenatural da
palavra. Ao
episódio viria a ser retirada importância a nível dos exegetas e
estudiosos bíblicos por causa de uma outra pesca, mais ou menos
semelhante, narrada por Lucas (5,1-8) e situada pelo evangelista
muito antes da morte de Jesus de Nazaré. Mas dessa outra pesca
ocupar-me-ei a seu tempo 1. O arrasto foi extremamente laborioso.
Os sais esfalfaram-se, saltando de proa a popa a cada momento
cobrindo espaços vazios e puxando cai bos e aparelhos até ficarem

banhados de suor. Nem é preciso dizer que Simão Pedro elevou a
sua voz cantante durante toda a peleja invocando o humano e o
divino de cada vez que, por um mau movimento, o jerem se detinha
ou era arrastado com mais força de qualquer das popas, provocando
novas fugas de tilápias. Passada meia hora, exaustos, os galileus
agarraram, por fim, o saco do jerem. Tiago e o seu grupo, a partir da
embarcação mais pequena, trataram de ajudar os companheiros a
introduzir a rede no barco de Simão.
Após repetidos e vãos esforços em que alguns dos pescadores
estiveram a ponto de cair ao lago -, Simão renunciou à manobra da
carga da rede. Os remadores voltaram aos seus postos e,
firmemente seguro nas respectivas popas, o jerem foi rebocado até
à costa. O Mestre, visivelmente satisfeito, deu meia volta,
regressando para junto da fogueira, e, cruzando os braços sobre o
peito, esperou. Tiago marcou o ritmo dos remadores e, lentamente,
dispuseram-se a percorrer os cinquenta ou sessenta metros que os
separavam da margem.
Desta vez, porém, João Zebedeu não chegou a remar, e por uma
razão muito simples: ao mesmo tempo que os seus companheiros se
precipitavam para os bancos e pegavam nos remos, este discípulo
muito mais intuitivo que os demais aproximou-se de Simão, que
sustinha um dos extremos do jerem, desfechando-lhe ao ouvido um
rotundo e sonoro:
- É o Mestre!
O sais voltou o rosto para a praia procurando o desconhecido.
Mas o Sol nascente ofuscou-o, prejudicando-lhe a observação. É
possível que essa circunstância tivesse muito a ver com o estranho
comportamento dos galileus que, como dizia anteriormente não
chegaram a identificar o Mestre lá do lago. Simão fez um esgar de
incredulidade, replicando que lhe parecia muito improvável que o
Rabi pudesse apresentar-se ao ar livre.
*1 A referida passagem de Lucas diz assim: «Achando-se junto ao lago de
Genesaré e comprimindo-se sobre Ele a multidão para escutar a palavra de Deus, viu
duas barcas paradas à beira do lago. Os pescadores que delas tinham descido
lavavam as redes. Subindo para uma das barcas, que era de Simão, pediu-lhe que se
afastasse um pouco da terra e, sentando-se, pôs-se a ensinar, da barca, a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão: "Faz-te ao largo; e vós lançai as redes para a

pesca".
Simão respondeu: "Mestre, trabalhámos toda a noite e nada apanhámos, mas,
porque Tu o dizes, lançarei as redes". Assim fizeram e apanharam uma grande
quantidade de peixe. As redes estavam a ponto de romper-se e eles fizeram sinal aos
companheiros que estavam na outra barca, para que os viessem ajudar. Vieram e
encheram as duas barcas a ponto de quase se afundarem. Ao ver isto, Simão caiu aos
pés de Jesus, dizendo: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!"»
(Nota de J. J. Benitez.)
Nisso, Pedro tinha uma certa razão. Até àquela altura ao menos
que eu saiba -, Jesus sempre tinha aparecido em lugares fechados.
O caso é que, após hesitar uns momentos, o impulsivo capitão
mudou de parecer. Entregou a João a ponta do jerem que segurava
e perante a estupefacção dos demais, despiu a túnica e mergulhou
de cabeça no lago. Os tripulantes interpelaram o mais jovem dos
Zebedeus. Mas João limitou-se a encolher os ombros.
Julgo que é meu dever antes de prosseguir com a narração dos
factos que vivi fazer uma pequena observação.
Se se consultar o Evangelho de João, observar-se-á que o último
capítulo (21, 7) traz um pormenor, totalmente oposto ao que acabo
de referir. Esse versículo assegura que quando Simão Pedro ouviu "é
o Senhor", vestiu-seporquanto estava nu e lançou-se ao mar. Tal
afirmação que duvido muito possa ser atribuída a João está
errada. Para começar, em pleno mês de Abril, as noites no lago são
ainda frescas de mais para que o dayyag ou pescador se lance nu
na faina da pesca. Durante o dia é diferente. Por outro lado, mesmo
aceitando a circunstância improvável de o sais se encontrar em saq
ou tanga o mesmo é dizer, nu -, nenhum bom nadador (e Pedro
era-o) teria cometido a tolice de se vestir e depois lançar- se à
água. Muito pelo contrário. Como entender então a absurda
afirmação do evangelista? No meu fraco entender, só há uma
explicação: é muito provável que, na totalidade ou em parte, o
capítulo vinte e um (o Epílogo) seja um acrescento ao texto
primitivo, esse, sim, obra de João. O facto é bem conhecido dos
exegetas cristãos. Já em 1947, o eminente Boismard 1 observava
que o citado capítulo vinte e um era uma confusa mistura de estilos
em que se percebia a mão do discípulo e a de outros escritores. É
como se, baseando-se em recordações nebulosas uma pena

estranha tenha procurado arredondar o texto joanino. Boismard
assegura que o estilo do remendador apresenta uma suspeita
semelhança com o de Lucas. Uns anos antes, em 1936, outro
especialista Vaganay afirmava também que, por exemplo, o
versículo vinte e cinco do Epílogo não era do mesmo molde que o
precedente, podendo dever-se a um acrescento2.
Pouco depois, estas conjecturas que levantaram grande celeuma
entre os eruditos ver-se-iam plenamente ratificadas pelos achados
permitidos pela fotografia com raios infravermelhos e ultravioletas.
Tendo comprado o Códice Sinaitico, os ingleses fotografaram a
última página do Evangelho de João e comprovaram, com surpresa,
que, no seu estado primitivo, o referido capítulo vinte e um
terminava com o versículo vinte e quatro e não com o vinte e cinco.
Uma coronis rematava o texto original, com as palavras Evangelho
segundo São João.
Como digo, um qualquer escriba raspou estes dados,
acrescentando sabe-se lá por conselho de quem o versículo vinte
e cinco: Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem
escritas uma a uma, creio que o próprio mundo não poderia conter
os livros que tinham de ser escritos.
Uma vez que a caligrafia deste último versículo é a mesma que a
dos parágrafos anteriores, os especialistas inclinam-se a crer que o
acrescento se deveu à iniciativa do próprio calígrafo. Mas porquê?
Tê-lo-á descoberto noutro manuscrito? Alguém lhe terá sugerido?
Possivelmente, nunca o viremos a saber. Tudo isto, em suma, levou
os estudiosos das diferentes Igrejas em especial da Católica a
uma conclusão muito interessante: o capítulo vinte e um do
Evangelho de João pode ter sido um acrescento.
*1 Boismard Le chapitre XXI de saint Jean. Essai de critique littéraire", publicado em
Revue Biblique (LIV pp. 473-501). (N. Do M.)
2 Vaganay La finale du quatrième évangile, publicado na mesma Revue Biblique
(-V, pp. 512-528). (N. Do M.)
Será pois um precedente que arrasta consigo outra não menos
inquietante questão: quantos outros acrescentos, interpolações
e falsas afirmações, atribuídas a Jesus de Nazaré, terão sido
camuflados nos chamados evangelhos canónicos? Para mim, um

grande número. Alguns, obviamente, de extrema gravidade. Só isso,
insisto, poderá explicar os erros de João à volta do nada
transcendente assunto da roupa de Simão Pedro e do não tão
insignificante caso do primado...
E o bom do sais - cuja devoção por Jesus estava fora de qualquer
suspeita nadou até à costa, provocando o sorriso do Mestre. É
preciso, reconhecê-lo. Apesar das suas temíveis maneiras, o tosco
galileu amava o seu Senhor acima dos seus amigos e parentes.
Mas, mcompreensivelmente, ao chegar à orla, Simão deteve-se.
Ofegante, permaneceu imóvel como uma estátua, olhando
alternadamente para o Ressuscitado e para a fogueira. De início
não consegui perceber o seu estranho comportamento.
Atribuí-o ao pasmo talvez ao medo -, ao achar-se cara a cara e a
tão curta distância de Jesus. Mas não. Ao que parece segundo me
confessaria pouco depois -, o motivo de tão súbita paralisação foi
outro. Ao ver o fogo, o temperamental galileu não pôde evitar a
recordação das suas negações no pátio do palacete de Anás, E
durante alguns minutos sentiu-se novamente deprimido e
acobardado. Felizmente para ele, aquele negro pensamento
esfumar-se-ia com a chegada dos barcos.
Às sete e meia a um passo da margem, as tripulações lançaram as
pedras e saltaram para a água. É curioso: nem um só se preocupou
com a rede. Os nove, intrigados pelo comportamento anormal de
Pedro, foram-se aproximando da praia, parando junto ao sais.
Assisti ao espectáculo. Durante vários minutos, ninguém fez ou disse
nada. A maioria reconheceu de imediato o Ressuscitado, e, tal como
tinha acontecido comigo próprio, os rostos passaram de surpresa ao
medo. Só o de João se iluminou de alegria. Houve mesmo alguns
que recuaram. O silêncio era pesado como chumbo. Significativo. O
Mestre, com um olhar capaz de perfurar o próprio aço, foi
perscrutando cada um dos seus homens. Mas também não disse nem
fez qualquer gesto. Naqueles momentos críticos João Marcos
apareceu no cimo das escadas. Desceu até onde eu estava. Saudoume
e com a sua costumada candura perguntou-me o que se passava
lá em baixo.
Mudo, esperei a sua reacção. De reflexos rápidos, não tardou a

perceber que alguma coisa estranha se passava. Acomodou-se a
meu lado e, com a ajuda do indicador esquerdo, foi contando os
pescadores.
- Onze?
Olhou-me, desconcertado. Tive de fazer um esforço para não sorrir.
Reinìciou a contagem desta vez em voz alta e, ao obter um
idêntico resultado, a sua face transfigurou-se.
Pôs-se de pé e, dando um salto, exclamou fora de si:
- É o Mestre!
Num abrir e fechar de olhos, arriscando-se a sofrer uma perigosa
queda, o benjamim voou literalmente sobre os últimos degraus,
correndo como uma lebre até à fogueira. No seu maravilhoso
estonteamento tropeçou nos seixos e caiu de bruços. Não sei se
chegou a tocar na areia. Ao tentar erguer-se, quase de gatas, foi
estatelar-se contra as pernas do Ressuscitado. Abraçou-se a elas e,
entre lágrimas, soluços e um riso nervoso, repetiu uma e outra vez:
- Meu Senhor e meu Mestre!
No fundo a cena era tragicómica. Mais uma vez, o moço dos
recados tinha-lhes ganho a partida. Os dez, atónitos, pareciam
estátuas de sal.
Por fim, Jesus, tomando João Marcos pelos braços, obrigou-o a
levantar-se. O garoto, radiante, encostou o rosto contra o peito do
Gigante. Creio que foi a primeira vez que senti uma sã inveja.
Confesso-o: em mais de uma oportunidade teria gostado de imitar o
filho dos Marcos. Além disso, que excelente ocasião para estudar a
frequência cardíaca daquele corpo! O Mestre agitou carinhosamente
os revoltos cabelos do jovem e, num tom descontraído, disse:
- João, estou contente por voltar a ver-te na Galileia, onde
poderemos ter uma boa conversa. Fica connosco para o pequenoalmoço.
Dirigindo-se aos petrificados discípulos, ordenou-lhes:
- Trazei o vosso pescado e preparai alguns peixes para o
desjejum. Temos o lume aceso e muito pão.
Pão? Aquilo era novo. Com efeito, para meu espanto, junto dos

restos de feixe de lenha, viam-se meticulosamente empilhados
seis grandes e redondos pães brancos. Donde teriam vindo? Eu não
me lembrava de os ter visto durante a nossa conversa. João, no seu
Evangelho, não faz referência à enigmática presença do pão porque,
muito possivelmente, não reparou nele ou, ao desembarcar talvez
tenha pensado que alguém da sua casa o tivesse trazido para ali. O
certo é que nenhum dos habitantes do casarão dos Zebedeus nem
sequer a senhora chegou a ver o Mestre, à excepção,
naturalmente, de João Marcos e dos discípulos. Ainda hoje continuo
a perguntar-me como diabo terão aparecido aqueles pães na praia.
A única resposta tanto para a lenha como para os pães é tão
incrível que preferi esquecê-la...
Os discípulos, animados pelas palavras do Ressuscitado,
conseguiram sair do aturdimento em que tinham mergulhado e,
falando em voz baixa recuaram um pouco e arrastaram a rede para
terra firme. Como era diferente a atitude daqueles homens na
presença de Jesus! Enquanto permaneceu junto deles não ouvi uma
única imprecação, nem sequer uma palavra em tom mais alto.
Pedro também reagiu. Mas, em vez de juntar-se aos seus
companheiros, foi ao encontro do Rabi. Caiu de joelhos a seus pés
e, abrindo os braços, exclamou com aquele grosso vozeirão que o
caracterizava, quebrado agora pela emoção: - Meu Senhor... e meu
Mestre!
Jesus não disse nada. Ou melhor, ao sorrir-lhe e ao obrigá-lo a
levantar-se retribuiu amplamente a suplicante exclamação daquele
impulsivo e volúvel amigo. Depois, dando palmadas suaves e
carinhosas nas costas molhadas do sais, convidou-o a concluir a sua
faina. Simão foi logo para a margem, colaborando no arrasto do
jerem. Aberta a rede, dezenas de tilápias e barbos estremeceram,
saltando, serpeando e provocando a hilaridade, o bom humor e um
ou outro desabafo, bastante contidos, dada a presença do Mestre.
Tiago e Simão Pedro, como chefes de companha, procederam à
classificação do pescado, por espécies e tamanhos. Além de
inúmeros peixes de reduzidas dimensões, o jerem proporcionou aos
galileus 135 tilápias e 18 barcos de um peso considerável. Todos
eles foram cuidadosamente alinhados sobre a areia, tornando assim

mais fácil a sua contagem. Não sei se o acaso existe. Há já muito
tempo que tenho as minhas dúvidas. A verdade é que, ao somar os
peixes, tanto por espécies como globalmente, o dígito final era
sempre o mesmo:
9. (153=1+5+3=9. 135=1+3+5=9. 19=1+8=9.) Aquela cifra (9 ou
999) trouxe à minha memória as perturbantes vinculações do 9 com
a vida de Jesus de Nazaré...
Os siluros considerados impuros pela lei foram para o yam.
Algumas das tilápias eram realmente esplêndidas: atingiam os
quarenta centímetros de comprimento e entre um e meio e dois
quilogramas, aproximadamente. O seu predomínio relativamente
aos barbos não tinha nada de singular. A melhor época para a sua
pesca era justamente aquela: do Inverno à Primavera. Quando as
águas do lago se tornam frias, as tilápias concentram-se em grandes
cardumes, procurando refúgio e alimento na costa nordeste. A partir
de Abril e Maio com o progressivo aquecimento do yam -, estes
cardumes desmembram- se e as tilápias dirigem-se, aos pares, para
as desembocaduras dos rios da costa oriental, especialmente para
a pequena enseada do Zaji. Os pescadores mudavam então a sua
técnica, utilizando outro tipo de rede: a gela (um aparelho
individual de seis a oito metros de diâmetro, actualmente conhecido
por tarrafa). Se a aparição de Jesus se tivesse registado umas
semanas mais tarde, aquela volumosa pesca não teria sido
possível.
João Marcos, agarrado ao braço direito do Mestre mostrou-se
encantado com a captura. Puxou Jesus ao longo das filas de peixes,
manifestando o seu regozijo diante dos mais vistosos. Ao chegar
junto de uma das tilápias uma fêmea, a julgar pela sua cor
cinzento-pardo o Ressuscitado ajoelhou-se junto ao peixe, cuja
boca se abria e fechava em espasmos. Pegando nela, mostrou-a a
João Marcos. A tilápia defendeu-se, agitando-se. O Rabi, em
silêncio, pôs a palma da sua mão esquerda sob a cavidade oral do
peixe e, ante os olhos pasmados do jovem, a tilápia expeliu um
punhado de minúsculas crias. (Neste tipo de peixes, após a eclosão
dos ovos, as crias permanecem na boca da mãe até serem capazes
de nadar e sobreviver sozinhos. Em caso de perigo são expulsos
pela fêmea, voltando à cavidade oral materna uma vez passado o

perigo.) E o Senhor, enternecido, aproximou-se do lago,
depositando na água a mãe e suas crias. João Marcos aplaudiu o
gesto do seu ídolo.
Concluída a contagem e a classificação dos peixes metade das
tilápias e dos barbos (a maioria de cabeça longa, ou Barbus
longiceps e de grandes escamas, ou Barbus canis) foi parar ao
fundo do barco de Pedro. A outra metade ficou guardada no de
Zebedeu. Duas horas mais tarde, o peixe seria vendido no cais de
Nahum. Tal como estabeleciam as ancestrais leis da pesca no
Kennereth, quarenta por cento do produto da venda ficaria em
poder dos donos dos barcos e das redes: os Zebedeus e André e
Simão Pedro, respectivamente. Os restantes sessenta por cento
eram repartidos pelos tripulantes. Além do já referido, Tiago e
Pedro na sua qualidade de sais ou guias recebiam outras duas
partes cada um; os gémeos, como remendadores, uma parte e meia
e, por último, os remadores e puxadores, uma só parte.
Por expresso desejo do Ressuscitado João Marcos escolheu sete
belas tilápias. E, enquanto os galileus procediam à lavagem das
redes, o Rabi ocupou-se da preparação do lume.
Escolheu uma pedra basáltica de tamanho médio, com a superfície
relativamente plana, e colocou-a no meio da fogueira. As línguas de
fogo retorceram-se e Jesus, sentindo o roçar das chamas, retirou os
braços. Não posso assegurá-lo, mas quase juraria que chegou a
queimar-se. Filipe e os gémeos,
ao darem-se conta da movimentação do Mestre, vieram logo, com
a boa intenção de o substituir. Mas Jesus não o permitiu. E a
fogueira começou a lamber a superfície da pedra, aquecendo-a.
Seguidamente, pedindo a Tiago uma das longas facas guardada
na barca mais pequena, o Rabi foi para a borda do yam. Arregaçou
as mangas e com destreza foi estripando e tirando a cabeça aos
peixes, lavando-os depois. Tendo voltado para junto da fogueira,
esperou que a improvisada grelha aquecesse o suficiente. Minutos
depois, as apetitosas tilápias estavam a assar sobre a pedra
escura, destilando uma suculenta gordura e um excelente aroma
que, naturalmente, não passou despercebido aos famintos galileus.
As redes foram estendidas ao longo da praia e, esfregando as mãos

de satisfação, todos rodearam o diligente cozinheiro. Servindo-se
da longa e estreita faca, o Mestre foi controlando a assadura dos
peixes, ora mudando-os de posição ora estendendo-os melhor, com
o fim de extrair o máximo de gordura. Dissimuladamente, vários dos
pescadores entraram um pouco no lago, urinando ao abrigo das
barcas.
Quando o pequeno-almoço ficou pronto, Jesus, com os olhos
lacrimejantes por causa do fumo, disse aos amigos que se
sentassem. Os gémeos, segundo o seu costume, dispuseram-se para
servir o pão e o peixe.
- Não interveio o Rabi -, sentem-se também vocês; João Marcos
fá-lo-á.
E o benjamim, exultante, ocupou-se dos peixes, distribuindo-os
entre os discípulos. Jesus partiu o pão, entregando-o a João Marcos
e este, por sua vez, com a alegria estampada no rosto, fê-lo chegar
aos pescadores. Quando todos estavam servidos o Ressuscitado
ordenou ao jovem que se sentasse na areia e, pegando num pedaço
de pão e de peixe, pô-lo nas suas mãos. Logo a seguir foi juntar-se
junto dos gémeos, fechando o círculo.
Durante cerca de dois ou três minutos, ninguém falou. A fome,
creio eu, era mais forte que a curiosidade. Como sempre, lentos de
reflexos, a maioria deles não se deu conta de um pequeno e
aparentemente pouco significativo pormenor. Jesus, sentado à turca,
era o único que não comia. Sobre um dos pães abertos restavam
ainda alguns pedaços de tilápia. Contudo, o Rabi não parecia
disposto a acompanhar os amigos no desjejum. Tal facto intrigoume.
Por fim, Judas de Alfeu, um dos gémeos, sempre atento às
pequenas coisas dentro do grupo levantou-se e, pegando na porção
que ainda restava, ofereceu- a ao Mestre. Os semblantes
endureceram. Como dizia, ninguém tinha tido a delicadeza de servilo.
O Ressuscitado, com ambas as mãos, acariciou a espessa barba
de Judas, recusando a sua parte. Sim, era de facto muito estranho.
Porque é que Jesus se recusava a ingerir alimentos? Seria porque
aquele enigmático corpo não estava preparado para isso? As
minhas dúvidas ver-se-iam relativamente dissipadas algumas horas
depois...

O incidente adensou ainda mais o mutismo geral. Com os olhos no
chão, os íntimos apressaram-se a terminar a refeição sublinhada
apenas com um ou outro sonoro arroto.
Naturalmente, foi Jesus quem mais uma vez quebrou o gelo,
gracejando sobre o mergulho de cabeça de Simão Pedro e a sua já
pouco estética barriga. Os risos afloraram de novo e, durante uma
meia hora, entretiveram-se a rememorar velhas recordações e
experiências vividas em comum, muitas delas ali mesmo, no lago.
Jesus ria com gosto, absolutamente feliz. A meio da conversa
descalçou a sandália direita e, com toda a naturalidade, sacudiu-a,
desalojando os grossos grãos de areia que, pelos vistos, o
incomodavam.
Pelas nove horas a conversa decaiu e o Mestre, levantando-se, fez
sinal a João Zebedeu e a Simão Pedro para que o acompanhassem.
O rosto do Ressuscitado tornou-se grave. Os restantes,
acostumados como estavam àquelas súbitas mudanças de atitude
do Mestre, permaneceram sentados à volta da fogueira.
Jesus, ladeado pelos seus homens, caminhou devagar junto à
água, em direcção à foz do Jordão. A dada altura, passando o seu
braço esquerdo sobre os ombros do Zebedeu, perguntou-lhe: - João,
tu amas-me?
O discípulo, que evidentemente não esperava semelhante
pergunta, apressou-se a replicar: - Sim, Mestre!... De tódo o coração!
E o Ressuscitado, perante o olhar atónito dos dois galileus,
exclamou com veemência:
- Então, renuncia à tua intolerância e aprende a amar os homens
como eu te amei. Consagra a tua vida a demonstrar que o amor é o
que há de maior no mundo. E o amor de Deus que conduz os homens
à salvação. O amor é a bondade espiritual e a essência da
verdadeira beleza.
E voltando-se para o rude Pedro, atravessando-o com aquele olhar
de falcão, fez-lhe a mesma pergunta: - Pedro, tu amas-me?
O sais, com os olhos arregalados como luas, apressou-se a
satisfazer o enigmático Mestre: - Senhor, sabes que te amo com
toda a minha alma!

- Se me amas retorquiu com um acento de tristeza -, alimenta os
meus cordeiros...
Imparável, como sempre, o pescador quis replicar, mas o
Ressuscitado, tapando os lábios do galileu com a sua mão
esquerda, prosseguiu: - Não regateies o teu ministério aos mais
fracos, aos pobres e aos jovens. Prega o Evangelho sem temor nem
preferências. Não esqueças que Deus não faz distinção de pessoas.
Serve os teus contemporâneos como eu te servi. Perdoa aos homens
como eu te perdoei. Deixa que a experiência te demonstre o valor
da meditação e o poder da reflexão inteligente.
Creio não me enganar se disser que naqueles instantes Simão mal
terá entendido as recomendações do Rabi. Em especial, a última
frase. Continuaram a caminhar em silêncio.
Alguns passos adiante, o sais foi surpreendido por uma segunda e
idêntica pergunta:
- Pedro, amas-me realmente?
Desconcertado de boca aberta, Pedro precisou de alguns
segundos para se refazer. Por fim, em tom persuasivo, afirmou:
- Sim, Senhor, sabes que te amo.
- Cuida bem das minhas ovelhas disse Ele, como se não tivesse
ouvido a resposta. - Sê um bom pastor para o meu rebanho. Não
atraiçoes a confiança que tenho em ti. Não te deixes surpreender
pelo inimigo. Está sempre vigilante. Vela e reza!
O confuso discípulo ficou imóvel, pelo que Jesus e
o Zebedeu se adiantaram alguns metros. Mas o Mestre voltou-se
de novo para o pescador, interpelando-o pela terceira vez: - Pedro,
amas-me de verdade?
Simão baixou a cabeça, entristecido. Não era muito difícil
adivinhar os seus tumultuosos pensamentos. As três negações na
casa de Anás, em Jerusalém, devem ter ressurgido implacavelmente
no seu atormentado coração. Jesus esperou. E o sais, saltando por
cima da sua tristeza, gritou sem esconder o seu agastamento:
- Conheces tudo o que me diz respeito, Senhor!... Por
isso, sabes bem quanto te amo!

E o Ressuscitado, autoritário, ordenou-lhe:
- Alimenta as minhas ovelhas!... Não abandones o rebanho! Serve
de exemplo e inspiração a todos os teus companheiros pastores!...
Ama o rebanho como eu te amei! Consagra-lhe toda a tua felicidade,
como eu fiz contigo! E segue-me!...
Acompanha-me até ao fim!
Estas recomendações foram acompanhadas de bruscos e
sucessivos afirmativos de cabeça de Pedro. O Rabi preparava- se
para retomar o andamento quando, noutro dos seus irreflectidos
repentes, Simão apontou para João, perguntando:
- Seguindo-te eu, que fará este?
Jesus olhou-o com benevolência. O fogoso e primário sais não
captara o sentido das suas palavras. Com infinita paciência
respondeu-lhe:
- Não te preocupes com o que fazem os teus irmãos. Se eu quiser
que João permaneça aqui e tu partas, até que eu volte, que te
importa a ti? Avançou uns passos até ficar a cerca de meio metro do
galileu e, colocando as suas mãos sobre os ombros de Pedro,
repetiu com firmeza: - Cuida apenas de seguir-me!
É paradoxal. As palavras de Cristo seriam, uma vez mais,
pessimamente interpretadas. Quase todos acreditaram que aquele
até que eu volte garantia um seguro e iminente retorno do Mestre,
que asseguraria assim a definitiva instalação do Reino na Terra.
Alguns, incluindo Pedro, qualificaram o tema de profético, dando por
adquirido que João não morreria, enquanto não se verificasse o
referido retorno de Jesus.
E digo que é paradoxal porque, graças a este mal-entendido,
Simão, o Zelota, recuperaria a coragem perdida, reintegrando-se no
grupo algumas horas mais tarde. João Zebedeu, em contrapartida,
esse, sim, captou a intenção do Mestre, tendo em consideração o
que ele próprio escreveu no versículo vinte e três, do último capítulo
do seu Evangelho 1.
Jesus deu por concluído o breve passeio, pedindo aos
desconcertados Pedro e João que avisassem os seus respectivos
irmãos para virem ter com ele. Eles assim fizeram. André e Tiago de

Zebedeu abandonaram o círculo e os restantes, ardendo em
curiosidade, bombardearam o primeiro par com toda a espécie de
perguntas. João não abriu a boca. Pedro, pelo contrário, utilizando
um tom solene, pô-los a par da profecia. O mais jovem dos
Zebedeus enrubesceu e, incapaz de conter o aceso discurso de
Simão, limitou-se a negar com a cabeça.
Mas foi uma negação tão fugaz que nenhum dos presentes a
tomou em consideração. A partir dessa altura, como bem diz o
evangelista, as absurdas e falsas ideias sobre a volta do Mestre e
a quase imortalidade de João propagar-se-iam como o lume na
palha. Muito astutamente, o sais, que lá bem no seu íntimo
aspirava a liderar o grupo apostólico, silenciou a tríplice pergunta
do Rabi. Aquela insistência de Jesus poderia ter levantado falatório
e alguns incómodos melindres...
Evidentemente, a actual imagem de Pedro, transmitida pelos seus
discípulos e sucessores, dista muito da primitiva e autêntica
realidade.
Também André e Tiago acompanharam o Senhor pela orla do lago.
Passados alguns minutos de embaraçoso silêncio, Jesus falou assim
ao ex-chefe dos discípulos: - André, tens confiança em mim?
O introvertido irmão de Simão parou. Possivelmente, tal como
Tiago, não esperava uma pergunta aparentemente tão
despropositada. E com uma calma excepcional respondeu: - Sim,
Mestre, tenho absoluta confiança em ti..., e tu sabe-lo.
O Ressuscitado sorriu-lhe, satisfeito.
- André, se tens confiança em mim replicou Jesus, tocando num
dos graves defeitos do galileu -, tem mais confiança nos teus irmãos
e, sobretudo, em Pedro...
André, baixando os olhos, aceitou de bom grado a subtil
reprimenda. Jesus sabia ler muito bem nos corações daqueles
homens.
- Primeiro prosseguiu em tom amistoso - encarreguei-te da sua
direcção. Agora é preciso que lhes dês confiança, enquanto te deixo
para ir para o Pai. Quando os teus irmãos se dispersarem por causa
das perseguições, sê um sábio e previdente conselheiro para Tiago,

meu irmão de sangue, já que terá de suportar um pesado fardo,
demasiado pesado para a sua experiência. Depois continua a ter
confiança. Não te faltarei! E por fim virás para junto de mim.
Na minha humilde opinião, aquelas sim, foram palavras proféticas.
*1 O versículo em questão diz textualmente: «Correu, pois, entre os irmãos, o
boato de que aquele discípulo não moreria. Jesus, porém, não lhe disse que não
moreria, mas sim: Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que tens tu com isso?»,
Estas últimas palavras, como acabo de referir, não foram ditas como as transcreve o
Evangelista, ainda que o seu sentido venha a ser o mesmo. (N. Do M.)
A morte de Tiago, o irmão carnal de Jesus, verificar-se-ia trinta e
dois anos mais tarde, e as sangrentas perseguições dos cristãos por
Nero em 64, após o incêndio de Roma.
Seguidamente, voltando-se para o frio e distante Tiago de
Zebedeu, fez-lhe a mesma pergunta: - Tens confiança em mim?
O duro rosto do sais não se alterou. Mas a sua voz, repousada e
firme, denunciou o grande afecto que lhe dirigia: - Sim, Mestre, de
todo o coração...
- Tiago, se é certo que tens confiança em mim, deverias ser menos
impaciente com os teus irmãos...
O Zebedeu nem pestanejou. O Rabi tinha toda a razão. Mas,
demasiado orgulhoso para o admitir, aguentou em desafio o olhar
do Ressuscitado.
- Se realmente desejas gozar da minha confiança, isso ajudar-te-á
a ser melhor para com a irmandade dos crentes.
A irresistível luz daqueles olhos venceu finalmente a audácia do
Zebedeu, que, inclinando a cabeça, assentiu em silêncio.
- Aprende a pensar nas consequências das tuas palavras e actos.
Lembra-te de que a colheita é resultado da sementeira. Reza pela
paz de espírito e cultiva a paciência. Com fé viva, essas graças
sustentar-te-ão quando chegar a hora de beberes o cálice do
sacrifício. Não temas nunca. Quando tiveres acabado na Terra virás
morar junto de mim.
Nova e dramática profecia: ... quando chegar a hora de beberes

o cálice do sacrifício). Tiago viria a morrer catorze anos depois...
Diferentemente de Simão Pedro nem o seu irmão André nem Tiago
demasiado impressionados pelas palavras de Jesus aceitaram
compartilhar o conteúdo da simples conversa com o Mestre.
Preferiram refugiar-se num impenetrável mutismo. Em seguida foram
chamados Tomé, o Didimo, e Bartolomeu. E o Ressuscitado,
passando amistosamente os braços por cima dos seus ombros,
afastou-se da fogueira.
Que terna imagem a daquele Gigante caminhando entre os rudes
e modestos galileus como o mais fiel dos companheiros!
- Tomé, estás disposto a servir-me?
Educado e meticuloso, o discípulo sem saber muito bem o que Ele
queria dizer com pergunta tão singular, respondeu com algum
receio: - Sim, Senhor... Estou disposto a servir-te agora e sempre.
- Se queres servir-me disse-lhe ao mesmo tempo que o apertava
contra o seu lado direito -, serve os teus irmãos mortais como eu te
tenho servido. Não te canses de trabalhar nesse sentido e
persevera, pois foste destinado por Deus para este serviço de amor.
Depois de terminares na Terra servirás comigo na glória. Tomé, tens
de deixar de duvidar. Aumenta a tua fé e o teu conhecimento da
Verdade! Se o desejares, crê em Deus como um menino, mas não
actues infantilmente...
E, após uma pausa, animou-o com veemência:
- Tem coragem! Sê forte na fé e no reino de Deus!
Tomé também não divulgou esta conversa com o Mestre.
Bartolomeu (Natanael) ouviu a mesma pergunta:
- Estás disposto a servir-me?
- Sim. Mestre, com uma entrega total.
- Se me amas de todo o coração prosseguiu Jesus -, trata de
trabalhar pelo bem-estar dos teus irmãos terrenos.
Junta a amizade aos teus conselhos e acrescenta o amor à
filosofia. Serve os teus conterrâneos como eu servi. Sê fiel aos
homens, tal como eu velei por ti. Não sejas crítico e espera menos

de alguns homens. Assim, a tua decepção será menor. No fim do teu
trabalho na Terra servirás lá em cima comigo.
Aqueles breves mas acertados conselhos a cada um dos seus
discípulos fez-me lembrar a despedida pessoal da chamada última
ceia. Ambas as situações viriam a ser silenciadas pelos
evangelistas. Quando chegou a vez de Mateus Levi e Filipe, o
intendente, Simão Pedro, desarmado perante o férreo silêncio geral,
foi-se apagando como uma candeia. E cada qual se ensimesmou nas
suas reflexões.
O brincalhão do grupo Filipe parecia ter perdido o seu habitual
e louvável sentido de humor. Cansado e com olheiras pela noite
passada no yam, deu-me a sensação de que estava quase a
adormecer.
- Filipe obedeces-me?
- Sim, Senhor, obedecer-te-ei mesmo que isso me custe a vida.
Sem poder evitá-lo bocejou ruidosamente. O Mestre, paciente
para com o honesto ainda que pouco espiritual galileu, esperou que
ele recuperasse uma certa compostura.
Depois, apontando para oriente, disse-lhe algo que marcaria o
seu destino: - Se queres obedecer-me, vai até ao país dos gentios e
proclama o Evangelho.
O intendente seguiu a direcção apontada pelo dedo do Mestre.
No entanto, creio que não o compreendeu totalmente. O país dos
gentios? A que nação se referia o Mestre? - Os profetas disseram
que vale mais obedecer que sacrificar. Pela fé, conhecendo a Deus,
és um filho do Reino.
Só há uma lei a observar: difundir o Evangelho. Deixa de temer os
homens! Não tenhas medo de pregar a boa nova da vida eterna a
teus semelhantes que jazem nas trevas e que têm sede de luz e de
verdade! Morto de cansaço, Filipe ouvia sem assimilar. Mas,
subitamente, quando ouviu pronunciar a palavra dinheiro, despertou
de imediato.
- Não te ocupes mais do dinheiro concluiu Jesus nem das
provisões. A partir de agora, tal como os teus irmãos serás livre
para espalhares a boa nova. Preceder-te-ei e acompanhar-te-ei até

ao fim.
Com um sorriso de alívio, Filipe voltou para junto do lume.
Mateus Levi, o ex-cobrador de impostos, um dos homens mais
sérios e dedicados do grupo, aguardou a sua vez com evidente
curiosidade.
- Mateus, o teu coração está disposto a obedecer-me?
- Sim, Senhor replicou o discípulo com serenidade -,
estou inteiramente devotado ao cumprimento da tua vontade.
- Então, se queres obedecer-me ordenou-lhe o Ressuscitado - ,
vai ensinar a todos os povos o Evangelho do Reino. Não continuarás
a proporcionar aos teus irmãos as coisas materiais da vida mas
proclamarás a boa nova da saúde e da salvação espiritual. A partir
de agora, o teu único objectivo será cumprir o mandamento de
pregar este Evangelho do Reino do Pai.
Tal como eu segui na Terra a vontade do Pai, tu cumprirás também
a tua missão divina...
Jesus pôs especial ênfase nestas três últimas palavras: (...) «tua
missão divina».
- Lembra-te de que judeus e gentios todos são teus irmãos. Não
tenhas medo de nenhum homem quando proclamares as verdades
salvadoras do Evangelho do Reino dos Céus. Para onde eu vou, tu
virás também em breve.
O último par com quem o Ressuscitado dialogou naquela manhã
foi o constituído pelos dóceis e ingénuos gémeos.
- Tiago e Judas perguntou-lhes, conjuntamente -, acreditais em
mim?
A resposta foi imediata:
- Sim, Mestre, cremos.
Jesus contemplou-os com ternura. Não havia dúvida: apesar da sua
reduzida capacidade intelectual, os irmãos Alfeu idolatravam-no.
Sorriu-lhes e eles, contagiados por aquele imenso afecto,
precipitaram-se sobre o Rabi, abraçando-o.
- Vou deixar-vos muito em breve disse-lhes com doçura e como

se temesse magoá-los. - Vedes que já o fiz fisicamente...
O seu delicado tacto não evitou que os irmãos, pressentindo a
partida, começassem a chorar. Comovi-me. Jesus procurou infundirlhes
ânimo: - Estarei pouco tempo na minha actual forma, antes de ir
para junto do Pai...
A sua actual forma? Aquilo interessou-me sobremaneira.
Mas o Ressuscitado evitou o interessante tema:
- Creis em mim. Sois meus discípulos e sempre o sereis.
Continuai a crer depois de eu ter partido e recordai sempre a
vossa associação comigo, mesmo quando voltardes ao vosso antigo
trabalho. Não permitais nunca que a mudança de actividade
influencie na vossa obediência. Tende fé em Deus até ao fim dos
vossos dias terrestres. Não esqueçais que sois filhos de Deus pela
fé e que todo o trabalho honesto é sagrado para o Reino. Nada do
que faça um filho de Deus pode ser desprezível. Por conseguinte,
fazei agora o vosso trabalho como se fosse para Deus. Quando
tiverdes acabado neste mundo - Jesus levantou o rosto para o azul
do céu tenho outros melhores, onde trabalhareis também para
mim. Nessa tarefa, neste e noutros mundos, trabalharei convosco e
o meu espírito viverá sempre convosco.
Também aquelas frases seriam de facto proféticas.
Contudo, como é lógico, eu não soube interpretá-las naquele
momento.
E pelas dez horas, na companhia dos gémeos, angustiados, Jesus
de Nazaré voltou para junto dos seus pensativos homens.
Pediu dois voluntários para irem à procura de Simão, o Zelota;
com o pedido de que voltasse a juntar-se ao grupo. André e Pedro
prometeram trazê-lo nesse mesmo dia. Acto contínuo, de pé, a uns
dois metros do círculo formado pelos galileus, de costas para o
lago, despediu-se com as seguintes palavras: - Adeus!... Até que eu
volte amanhã para todos, à hora sexta, na montanha da vossa
ordenação.
Nem os pescadores nem nós próprios poderíamos explicar
cabalmente o que se passou em seguida. As palavras não chegam

ou são supérfluas. Nem a tecnologia, nem todo o saber do século xx
poderiam esclarecer como se deu semelhante desaparição.
Simplesmente, Jesus ou o que quer que fosse deixou de estar.
Aniquilou-se? Mas como? De repente, insisto, os galileus, o olho de
Curtiss e eu próprio deixámos de vê-lo. Dissolveu-se sem ruído, sem
deixar rasto, sem qualquer clarão e sem a implosão que,
logicamente, deveria ter provocado.
Absolutamente nada! Nessa tarde, quando fui ter com o meu irmão
e lhe contei os incríveis acontecimentos da jornada, o assunto da
possível desmaterialização da forma humana (?) do Ressuscitado
levou-nos a uma longa, complexa e infrutífera discussão. Mesmo
aceitando a difícil hipótese de uma aniquilação da matéria (porque
aquele corpo era formado por átomos), como admitir que tal
desintegração não tivesse provocado um holocausto termonuclear na
zona? Se o corpo foi liquidado, seguindo um hipotético processo de
fissão nuclear, o lago, por exemplo, teria desaparecido do mapa...
Por conseguinte, tal desintegração não é sustentável desse ponto
de vista. A partir daqui só podemos especular, invadindo o terreno
da ficção científica.
Terá o corpo de Jesus podido viajar a uma velocidade próxima da
da luz, sem necessidade de se mover nem de emitir energia
radiante, mecânica ou térmica? Para começar, deveríamos perguntarnos
o que entendemos por viajar. Nós próprios, sem ir mais longe
com a manipulação dos swiveis 1, estávamos a fazê-lo e de uma
forma fantástica para muitos. Poderíamos imaginar uma
hiperagitação, a nível atómico, que, aumentando progressivamente
de velocidade, levasse cada uma das subpartículas do corpo do
Filho do Homem a um processo de oscilações vibratórias com
velocidades semelhantes à da luz? É difícil, sei-o bem, mas não
serei eu a recusar semelhante possibilidade.
Continuando com essa suposição teríamos que, no momento da
conversão da matéria em luz, a massa, que iria aumentando até ter
uma vez e meia o seu valor original, passaria bruscamente a zero,
ao transformar-se em energia lumínica.
Mas, atenção!, esta energia lumínica jamais poderia ser como a
do Sol. Se fosse assim, tudo à sua volta teria ficado destruído 2.

Que espécie de energia lumínica poderia ser essa?
*1 É presumível que se produzisse uma circunstância favorável para que a matéria
do corpo do Mestre começasse a vibrar vertiginosamente dentro dos seus próprios
limites espaciais, e que a citada vibração alcançasse uma velocidade próxima da da
propagação da luz. Em tal circunstância, a massa do corpo do Mestre perderia as suas
propriedades como massa ponderável,, ao mesmo tempo que adquiriria as
correspondentes a uma massa inercial de proporções semelhantes à que poderia ter
alcançado aquele corpo movendo-se pelo espaço a uma velocidade próxima da da luz
(precisamente a velocidade a que supostamente chegam a vibrar as suas moléculas).
Os efeitos cinéticos dessa massa inercial seriam milhares de vezes superiores aos que
poderiam produzir-se, considerando a massa do corpo no estado normal de vibração
molecular (o estado que, em linhas gerais, qualificamos como de repouso,). A
elevadíssima velocidade atingida em todas e cada uma das moléculas daquele corpo,
segundo as teorias de Fitzgerald, tenderia a comprimir a matéria até fazê-la chegar a
limites adimensionais, que a subtrairiam do nosso espaço, tornando-a, portanto,
invisível. Nesse instante crítico, ao desaparecer o corpo de Jesus, o volume que este
ocupava no espaço ficaria bruscamente vazio. O aparecimento desse vazio originaria
uma formidável implosão, já que o ar que rodeava o corpo ocuparia rapidamente o
vazio produzido. O efeito é semelhante ao estampido do trovão, que é produzido pelo
próprio ar que rodeia a colina de vácuo produzida pela trajectória do raio quando, de
todas as direcções aflui para o preencher e restabelecer o equilíbrio atmosférico. (N. Do
M.)
2 Se a energia tivesse sido semelhante à do Sol, a sua equivalência em watts na
suposição de que tivesse sido libertada ao longo de um segundo teria sido de 81 x
10" watts; ou seja, oito mil e cem milhões de gigawatts. (Um gigawatt são mil milhões
de watts.) Se a massa do corpo de Jesus tivesse aumentado uma vez e meia o seu
valor original, essa energia teria atingido a monstruosa cifra de 12 150 milhões de
gigawatts. Uma coisa difícil de imaginar.
Como simples exemplo comparativo podemos dizer que para alcançar uma potência
de 19o watts seriam necessárias milhões de lâmpadas eléctricas de cem watts cada
uma. (Tal potência é maior que a fornecida actualmente por todas as centrais eléctricas
norte-americanas juntas. ) Mesmo os processos de fusão nuclear encontram-se abaixo
dessa descomunal cifra de 12 150 milhões de gigawatts. Actualmente, necessitam de
uma potência da ordem dos 103 watts... (N. Do M.)
Uma energia, além do mais, invisível ao olho humano. Como já
referi, ninguém nessa ocasião, foi capaz de captar o mínimo clarão,
resplendor ou luminosidade.) Sinceramente, não temos resposta.
Este é um desses momentos em que a Ciência deve admitir com
humildade que não conhece, não sabe, não compreende..., mas
aconteceu.

Eliseu avançou uma segunda teoria. Teria o corpo desaparecido
como consequência de uma súbita e maciça emissão de raios
infravermelhos, ultravioletas ou de qualquer outra natureza, por cima
do espectro visível É aceitável como hipótese de trabalho, ainda
que tão difícil de verificar como a da possível radiação lumínica de
origem desconhecida.
A Operação Cavalo de Tróia estava, de resto, a utilizar a emissão
IR para nos proteger e camuflar o módulo ou o olho de Curtiss. No
entanto, da simples camuflagem de uma máquina à criação de
semelhante fonte energética no interior de um organismo vivo vai
um verdadeiro abismo...
Lamentei não ter utilizado a teletermografia localizada na vara de
Moisés. Talvez tivesse podido desfazer a incógnita.
Mas foi tudo tão rápido e imprevisto...
Nem Eliseu nem eu éramos fáceis de derrotar. Se o Ressuscitado
cumprisse a sua promessa a verdade é que sempre as tinha
cumprido -, na manhã seguinte, pelas doze horas, poderíamos
dispor de uma nova ocasião para passar a pente fino aquele corpo.
A propósito, qual era a montanha designada para a segunda
aparição na zona do lago? O termo não se ajustava à realidade.
Nos arredores do Kennereth não havia uma única montanha.
Quando muito, cerros, colinas e montes. Mateus, no seu
Evangelho, fala de facto de um monte. Mas a pista é nebulosa: Por
seu turno, os onze discípulos caminharam para a Galileia, para o
monte que Jesus lhes tinha indicado. E ao vê-lo adoraram-No;
alguns, no entanto, duvidaram... (28,16-20).
E a que é que Jesus se referia com o termo ordenação? Por puro
senso comum imaginamos que se tratasse de algum acontecimento
ocorrido durante os anos da pregação. Ao interrogar os galileus
acerca da localização da referida montanha, todos apontaram o
Norte de Nahum. Os gémeos, mais explícitos, indicaram pelo
menos foi o que pareceu a direcção do suave promontório em que
estava implantado o berço. A coincidência manter-nos-ia em
suspenso. Com efeito, se os onze se aproximassem do ponto de
contacto, não haveria outro remédio senão descolar e descer noutro

ponto.
Antes de prosseguir com a narração das peripécias que nos foi
dado viver na jornada do sábado, 22 de Abril uma delas de
amarga recordação -, não resisto a referir uma coisa igualmente
relevante e que, mais uma vez, põe a claro a contínua e grave
manipulação de que foram objecto as palavras e os factos
protagonizados pelo Filho do Homem.
Refiro-me às conversas tidas por Jesus naquela manhã de sextafeira,
na sua primeira presença no yam. O Evangelho de João é o
único que as menciona, ainda que, a bem da verdade, se deva
utilizar o singular, porquanto no seu último capítulo apenas se fala
da conversa com Pedro, acrescentando e omitindo o juízo do autor.
A que deverá atribuir-se essa censura? O que terá levado os
evangelistas especialmente Mateus e João a esquecer um
acontecimento e umas palavras tão significativos? É evidente que
João silencia o que lhe diz respeito. E do mesmo modo procedem os
demais. Porquê? Como já referi esta passagem leva um deles à
outra passagem das despedidas da última ceia, igualmente
ignoradas pelos escritores sagrados.
Que têm elas em comum? Salta à vista: Jesus, sempre sincero, vai
pondo a nu os principais defeitos de cada um dos seus íntimos. Pois
bem, se tivermos em conta que a redacção definitiva do Evangelho
de João pode ter ficado concluída na última década do século I,
quando a Igreja primitiva começava a consolidar-se como tal, a
resposta não parece disparatada: não interessava depreciar a
imagem colectiva e individual do grupo apostólico pioneiro que
supõe-se -, por ter estado em contacto directo com o Mestre, tinha
assumido um carácter sagrado.
Muito menos, claro está, a do cabeça e chefe espiritual da
comunidade nascente: Simão Pedro, que no ano 64 seria executado.
Transcrevendo unicamente e com os retoques oportunos a
conversa de Jesus com Simão, o seu papel de líder ficava
notavelmente fortalecido e justificado.
Suponho que, involuntariamente, o autor ou autores deste capítulo
vinte e um, ao reconstituir a tríplice pergunta do Mestre, cai num
erro fatal: Simão, filho de João, reza o escrito, amas-me mais que a

estes? Quem quer que conheça minimamente a forma de ser e de se
comportar de Jesus Cristo ao longo da sua vida terrena
compreenderá que o Senhor nunca - nunca! - fazia distinções entre
os seus. A pergunta parece, pois, tendenciosamente manipulada e
apresentada com o fim de consolidar o primado de Pedro.
E a verdade é que este acaba por constituir um dos pontos de
apoio de muitos exegetas católicos que defendem a designação de
Pedro feita pelo Ressuscitado como seu sucessor na formação da
Igreja. Embora espere poder ainda dedicar mais adiante algumas
linhas ao delicado problema de saber se o Filho de Deus quis ou
não fundar uma Igreja tal como a interpretam os fiéis cristãos,
desejo apontar agora um dado que se me afigura significativo
nesse sentido.
Se tivesse desejado que se constituísse semelhante instituição
além de a ter planificado e erigido Ele próprio -, Jesus, por certo,
não teria entregue a sua chefia a um homem com as características
de Simão Pedro: irreflectido, de carácter inconstante, temperamental
e de uma fogosidade imprudente. De facto, durante os anos da vida
pública de Jesus, o chefe do grupo tinha sido o seu irmão André.
Quanto a Mateus, Tiago de Zebedeu, Bartolomeu e mesmo João,
eram indivíduos muito mais preparados, reflectidos e carismáticos
que o tosco sais de Betsaida.
Se Pedro chegou a ser o que foi - não me cansarei de o repetir -,
tal não se deveu à expressa vontade do Mestre, mas às
circunstâncias e, como disse na devida altura, à tácita aceitação dos
seus companheiros. (Não de todos, por certo.) Também é possível
que a tudo o que fica exposto se juntasse o irredutível silêncio dos
discípulos que conversaram naquela manhã com o Ressuscitado.
Provavelmente, João e Mateus tiveram problemas para obter
informações dos seus companheiros acerca dessa conversa. Mas isso
não justifica que ambos testemunhas presenciais tenham
silenciado a realidade dos diálogos por pares. Mateus
Levi, no último versículo do seu Evangelho, parece insinuar parte
do que Jesus repetiu durante aquela aparição: ... "E eis que eu
estou convosco todos os dias até ao fim do mundo".
Naturalmente, não podemos esquecer uma derradeira

possibilidade, a que aliás já me referi. Se o Epílogo do Evangelho
de João como parece é um acrescento, obra de estranhos, então
Zebedeu ficaria, em boa medida, isento de responsabilidade. Nesse
caso, as intenções do ou dos autores do referido capítulo vinte e um
seriam muito mais suspeitas...
Mas prossigamos com os acontecimentos.
Durante um bom lapso de tempo até que as brasas acabaram por
consumir-se, os dez e o jovem João Marcos permaneceram em
círculo, cabisbaixos e silenciosos. Repito: ninguém, excepto o
impetuoso Pedro, abriu o seu coração aos demais.
O meu sinal ao módulo anunciando o fim da operação foi
quase desnecessário. Com efeito, uma vez desaparecido o Mestre,
Eliseu fez regressar o olho de Curtiss. E lentamente desci dos
degraus, reinserindo-me no melancólico e taciturno grupo. Por fim,
pelas dez e meia, André, levantando-se, pôs termo àquela situação.
Nessa altura, eu ainda ignorava o que tinham conversado com o
Rabi, assim como a ordem de irem à procura de Simão, o Zelota.
Consequentemente, mantive-me num discreto segundo plano. Foi o
benjamim dos Marcos quem me deu a notícia sobre a anunciada
segunda aparição na montanha da Ordenação. E, como disse atrás,
ao perguntar qual a sua localização, alguns dos discípulos
apontaram para o Norte de Nahum. Alguns minutos mais tarde, à
excepção de João Zebedeu, dos gémeos e de João Marcos, os
restantes embarcavam com uma dupla missão: proceder à venda do
pescado e localizar o Zelota. Aceitei o convite de Tiago e, entrando
na mais pequena das barcas, atravessei aquela zona do lago, em
direcção ao porto de Nahum. À medida que nos afastávamos de
Saidan, um pensamento foi ganhando terreno no meu coração. Era
duro de aceitar, mas contra factos não havia argumentos: uma das
pessoas que mais intensamente teria desejado ver e ouvir o Mestre
sua mãe tinha ficado à margem.
As duas longas milhas que separavam ambos os portos foram
percorridas sem contratempos. Atracámos a um dos cais do flanco
oeste de Nahum e, de imediato, André e Pedro saltaram para terra,
perdendo-se no tumulto da cidade, à procura do desertor. O peixe
foi descarregado e Tiago de Zebedeu, como chefe e responsável,

procedeu às negociações, regateando o preço da venda como lhe
competia e acabando por obter pelos setenta quilos de tilápias e
barbos (uns dezasseis peixes tinham sido retirados para o consumo
dos discípulos e suas famílias) um total de oito denários. Refilando
contra o que qualificou de roubo e miserável perda de tempo, o sais
guardou o produto da venda, aproveitando a breve estada em
Nahum para dar uma olhadela ao negócio familiar: o estaleiro.
Eu aproveitei a oportunidade e, depois de me despedir da
companha com um até logo, afastei-me para a praça do mercado,
com a intenção de regressar à nave. Não tinha tempo a perder.
Tinha muita coisa a organizar, face à anunciada segunda aparição
de Jesus de Nazaré. Desta vez, se a sorte nos acompanhasse, toda
a nossa artilharia pesada estaria apontada para o enigmático e
intrigante corpo do Ressuscitado. Os pontos obscuros naquela forma
carnal eram um desafio excitante. As anteriores leituras do squid,
dos sistemas ultra-sónicos, teletermográficos, etc. - verificadas após
a última presença de Jesus no cenáculo -, tinham-nos alertado e
confundido. Aquele corpo, do ponto de vista da mais estrita das
interpretações médicas, não podia existir. Impunha-se, pois, passálo
a pente fino, até onde fosse possível.
Se a aparição se registasse na nossa colina, todo o instrumental
do módulo, além do olho de Curtiss e dos dispositivos instalados na
vara, seria destinado a uma análise implacável e rigorosa dos
tecidos e órgãos internos e externos, fluxo sanguíneo, funções
vitais, metabolismo, natureza do sistema nervoso e, naturalmente, à
exploração de um dos capítulos mais intrigantes: o cérebro. Os
resultados ultrapassariam todas as expectativas.

22 DE ABRIL, SÁBADO
Desta vez foi Eliseu quem nervoso e impaciente não conseguiu
dormir. Ao acordar, encontrei-o com o rosto colado aos painéis de
comando, atento aos detectores de radiações infravermelhas e ao
radar. Os sensores externos anunciaram a presença a cinquenta
quilómetros, sobre o Mediterrâneo, de um vento não muito forte
(vinte quilómetros por hora) que soprava para o interior do país. Era
o costumado maarabit uma corrente estival, muito frequente no
yam entre os meses de Abril e Outubro -, mas que, naquele sábado,
tinha madrugado bastante.
Dentro de algumas horas penetraria no lago pelo corredor formado
pelos vales de Bet-Netofa e Arbel. Isso significaria um considerável
aumento de temperatura de três a sete graus centígrados e a
consequente redução da humidade relativa (possivelmente entre
vinte a quarenta por cento). O dia apresentava-se, pois, ventoso e
quente, com uma temperatura previsível que oscilava entre os vinte
e cinco e os trinta graus centígrados.
- Tens a certeza de que a montanha é esta?
O meu irmão sabia tanto como eu. Assim, procurei tranquilizá-lo,
fazendo-lhe ver que era tudo uma questão de paciência. Chegada a
hora sexta, se os onze se encaminhassem para qualquer das
elevações dos arredores, o lançamento do olho de Curtiss supriria a
nossa presença. É claro que isso representaria para nós uma
contrariedade. Se a aparição se registasse longe do berço, o
emprego do instrumental científico careceria de sentido.
- Mas insistiu o meu companheiro -, como podes estar tão seguro
de que Ele aparecerá?
Sorri-lhe. Aquela inquietação já me era familiar. É claro que eu não
podia estar seguro de nada. Contudo, a minha confiança naquele
Homem começava a ser incondicional.
- Se foi Ele quem o disse sentenciei com uma segurança que
ainda agora me surpreende -, assim será.
Os minutos foram passando lentamente. Eliseu optou por não
fazer mais perguntas. Os seus cinco sentidos concentraram-se sobre
o quadro e os monitores de controlo.

Mas, a cada passagem do dispositivo IR, o resultado era sempre o
mesmo: presença negativa.
A partir das nove horas, o espesso silêncio no interior do módulo
tornou-se um tormento. De vez em quando os nossos olhares
cruzavam-se. Creio que agora compreendo bem a sua angústia. Ele
não tinha tido a maravilhosa oportunidade de contemplar Jesus de
Nazaré face a face. E embora, tal como eu, não pertencesse nem
simpatizasse com nenhuma religião, as múltiplas vivências e os
prodígios que vínhamos observando faziam-no ansiar por esse
encontro. Suponho que os nossos pensamentos foram muito
semelhantes naqueles duros minutos de espera: Onde e como
apareceria? Chegaria caminhando por alguma daquelas veredas?
Apresentar-se-ia de repente tal como sucedeu na praia de Saidan?
Que atitude devíamos tomar? Como iniciar as análises?...
9 h 15 m.
Segundo os nossos cálculos, faltavam três horas para o momento
decisivo. Eliseu, ansioso, alargou o raio de acção das radiações
infravermelhas até aos quatrocentos pés. A única resposta, como
vinha acontecendo, esteve a cargo dos pássaros.
9 h 25 m.
Angustiado pela atmosfera electrizante da cabina resolvi descer a
terra. Eliseu nem me ouviu.
9h 30m.
Na verdade, a temperatura ambiente começava a subir.
Passeei à volta da nave, esquadrinhando o horizonte. A solidão
na encosta sul do promontório era total. Bandos de pássaros
voavam em torno das pedras basálticas que rodeavam a cripta,
alegrando a tórrida manhã com os seus trinados e evoluções. O
lago, intensamente azul, era sulcado aqui e ali, por barcos que
andavam na faina nas águas de Nahum, Kursi e Tiberíades.
Se de facto é esta a «montanha» designada por Jesus, disse para
mim mesmo o mais lógico e presumível é que os discípulos cá
venham ter por um dos dois acessos. Mas qual deles...? Absorto em
tais pensamentos de vital importância na hora em que tínhamos
de decidir se retirávamos ou não o módulo -, precisei de uns dois

minutos para reparar numa coisa que, subitamente, inundou a
colina. Como o definiria? Foi um silêncio sonoro. Sem mais nem
menos deixei de ouvir os trinados dos pássaros. Levantei o olhar
para o círculo rochoso. Efectivamente tinham desaparecido. Tudo à
minha volta - o zumbido dos insectos e o leve e multicolor
movimento das flores parecia extinto. Ou talvez devesse dizer
adormecido.
E uma estranha sensação de asfixia, acompanhada de um suor
frio, invadiu-me de repente. É difícil de explicar. Os meus passos,
sem que eu me propusesse tal, levaram-me para o lado norte do
berço. E a sensação de asfixia desapareceu repentinamente,
transformando-se num quase ataque de histeria. Os meus joelhos
agitaram-se e todo o meu ser se convulsionou, cerrando-me a
garganta. Quis abrir a ligação auditiva, tentei, mas não consegui.
De novo, como tinha acontecido na praia de Saidan, o medo, os
nervos e a surpresa fulminaram-me, transformando-me noutra
pessoa. E os calafrios tolheram-me uma vez mais.
Tacteando, esquecendo os crótalos, apalpei as paredes da nave
procurando a também para mim invisível escadinha de acesso.
Aturdido, choquei com um dos suportes e quase caí por terra.
Quando por fim consegui entrar no módulo lancei-me sobre os
painéis de controlo. Eliseu, surpreendido, viu-me manipular os
registos IR. O meu aspecto, confessar-me-ia ele, depois de tudo
aquilo ter terminado era terrível: encharcado de suor, com os olhos
esbugalhados e os dedos crispados como ganchos...
Tal como eu supunha, o dispositivo de segurança mesmo
projectado a quatrocentos metros apresentou uma leitura
negativa. Ali não havia ninguém! Mas então...
- Que se passa?
A pergunta do meu companheiro ficou no ar. Não era possível! Os
sistemas de alerta e detecção deveriam ter disparado!
Verifiquei os circuitos pela segunda vez. Negativo!
Lentamente, deixei-me cair sobre o assento de pilotagem. Os
meus nervos foram-se relaxando e o nó na garganta desfez-se.

- Maldição! Pode saber-se que diabo se passa contigo?
Devo tê-lo olhado como um estúpido. Com a boca aberta, aponteilhe
para o exterior da nave. Eliseu, adivinhando a razão do meu
lamentável estado, saltou da sua cadeira, colando o rosto a uma
das escotilhas. Creio que nunca uma exclamação foi tão adequada: -
Jesus Cristo!
Eram 9 h 40 m.
O meu irmão, felizmente, não foi tão tolo como eu. Numa
demonstração de sangue-frio, com uma serenidade que a mim,
paradoxalmente, me faltava, permaneceu alguns segundos atento
ao que se passava no topo do promontório. Depois, girando sobre
si próprio e lançando-me um luminoso olhar, disse: - É Ele, não é
verdade?
Não pude responder-lhe. Avançou para mim e, sacudindo-me,
forçou-me a recuperar o autodomínio.
- Calma, rapaz! - E, sorridente e divertido, rematou: - Eu é que
devia estar cheio de medo! Inspirei profundamente. Sacudi a cabeça
como quem procura afastar um pesadelo e, agradecendo em silêncio
os seus encorajamentos, ergui-me. Eliseu convidou-me a que olhasse
lá para fora. Não, não tinha sofrido uma alucinação. O Gigante ali
estava, a uns quatrocentos metros da nave, de pé ao cimo da colina
e voltado directamente para a nossa posição. Estava imóvel, com os
braços ao longo do corpo e com o mesmo aspecto do dia anterior.
- E então?...
Era incrível! Apesar da pormenorizada e escrupulosa
planificação desenvolvida em ordem a este momento, não soube
que fazer nem por onde começar. Faltavam mais de duas horas para
o meio-dia. Como explicar semelhante antecipação? Estúpido que eu
fui! Só agora compreendo...
- E então? - repetiu Eliseu.
Eliseu esperava ordens. Mas, incapaz de coordenar ideias, só fui
capaz de encolher os ombros.
Como podia aparecer e desaparecer?, repetia eu como um
autómato. Como...? O meu irmão estarei sempre em dívida para

com ele - tomou a iniciativa. Orientou os instrumentos para o
Ressuscitado e, deixando o dispositivo IR a cargo do Pai Natal,
levou-me para junto da escada hidráulica. Se não fosse ele, ter-meia
até esquecido da vara de Moisés...
A encosta, fragrante e luminosa, tranquilizou-me.
Procurei explicar-lhe o estranho silêncio, mas, na realidade, aquilo
já nada importava. Além disso, tudo tinha voltado à normalidade:
ouviam-se de novo os ruídos, o zumbido dos insectos, o gorjeio das
aves...
Com passo decidido, Eliseu pôs-se a caminho do cume. Eu não
saía do meu assombro. Que era feito da sua habitual timidez?
Acompanhei-o e, quando cheguei ao pé dele, observei- o de
soslaio. O seu olhar parecia magnetizado em direcção ao Homem.
Julguei distinguir no seu rosto extremamente pálido - um contido
esgar de desafio e desconfiança. Imóvel como uma estátua, o
Mestre contemplava-nos lá de cima. Eu notava a força e o calor dos
seus olhos.
A uns cinquenta passos, Eliseu parou. O seu rosto, a tão grande
distância do Ressuscitado, mudou bruscamente. A mandíbula
distendeu-se. Exalou o ar com violência e, sem desviar o olhar da
figura do Mestre, exclamou num fio de voz: - Não posso, Jasão!...
Tenho medo!
Naquela louca dança de sensações e de sentimentos opostos
compreendi que era a minha vez. O ânimo aparentemente sólido do
meu compatriota fraquejou. Compreendi-o. E uma poderosa força se
instalou no meu espírito, equilibrando a balança.
- Não posso...
Das têmporas de Eliseu brotou um suor abundante. Os seus
lábios, trémulos, só conseguiam repetir aquele lastimoso Não
posso. Obriguei-o a desviar os seus olhos para mim e, apontandolhe
para o cume, gritei-lhe, tentando contrariar o seu pânico:
- Vale a pena!... Este Homem é o mais sublime que àlguma vez
conheceste! Pestanejou, indeciso. E pegando-lhe pelo braço fui-o
arrastando até às altas ervas que coroavam o promontório.
Segundo me confessaria mais tarde, fez aqueles últimos metros

como um robô, sem poder desviar o seu olhar do do Gigante.
- Era tudo muito confuso, Jasão. O medo do desconhecido tinhame
tolhido. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim (e não
precisamente tu) me impelia, desejoso de o conhecer...
A meia dúzia de passos do Ressuscitado detivemo-nos. Nada
tinha mudado no seu aspecto. Os seus profundos olhos cor de mel
estavam fixos nos do meu irmão. Vimo-lo esboçar um lento e
compreensivo sorriso e, sem dizer palavra, avançou na nossa
direcção. O meu irmão estremeceu.
Mas, deslumbrado diante da majestosa e serena figura daquele
Homem, não se moveu. E o Mestre, levantando a mão, enxugou o
suor que inundava a fronte e as têmporas do meu desconcertado
amigo com a borda da manga esquerda. A emoção e o
agradecimento foram certamente tão fortes em mim como em Eliseu.
Então, voltando-se para mim, disse em tom de carinhosa censura:
- Só nosso Pai, Jasão, é o mais sublime...
E dando meia volta foi sentar-se sobre a erva, voltado para a
distante Nahum. Entreolhámo-nos. Eliseu, sem poder crer no que
acabava de escutar. Quanto a mim, permanentemente perplexo
diante da força daquele Ser. A seguir, chamando-nos pelos nossos
verdadeiros nomes, convidou-nos a que nos sentássemos a seu
lado. Eu obedeci de imediato.
O meu irmão, porém, mudo e trémulo, continuou de pé. Os seus
olhos estavam presos nas moitas de erva acabadas de pisar pelo
Rabi. E Jesus, repetindo o convite com ambas as mãos, foi ao
encontro dos seus pensamentos:
- Os espíritos, se é isso o que crês que eu sou, não pisam a erva.
Também tu... - e aqui aparece o verdadeiro nome de Eliseu deves
aprender a confiar. E em verdade vos digo que chegará o dia em
que não duvidareis e, do mesmo modo que os meus mensageiros de
hoje, também vós (de outra maneira e em outro tempo e lugar)
proclamareis a boa nova do Reino.
- Nós?
O Mestre e nem é preciso dizê-lo, eu próprio -

alegrou-se ao ouvir a voz do meu companheiro. Com certo receio,
acabou por se instalar à minha esquerda. Jesus contemplou-nos
como se fôssemos duas crianças ansiosas por aprender.
- Porque julgais que estais aqui?
A questão colocada pelo Mestre parecia óbvia. A sua
interpretação, contudo, nem tanto.
- Digo-vos que, nos universos do nosso Pai, nada que envolva o
domínio do espírito fica sujeito ao acaso. Tudo é obra do amor, da
sabedoria e da misericórdia.
- Não te compreendemos, Senhor.
- Não tardareis a fazê-lo...
O Ressuscitado assinalou com os seus olhos a posição do berço.
Eliseu e eu voltámos a olhar-nos, desarmados.
- Quando fordes devolvidos ao mundo e ao momento de onde
vindes, uma só realidade brilhará nos vossos corações: ensinai aos
vossos semelhantes, a todos, o que vistes, ouvistes e
experimentastes a meu lado. Sei que, à vossa maneira, acabareis
por confiar em mim. Sei também que não temeis os homens, nem o
que eles possam representar, e que proclamareis a minha Verdade.
E muitos outros, graças ao vosso esforço e sacrifício, receberão a luz
da minha promessa.
Ao ouvi-lo tive a nítida sensação de que estava a par do nosso
projectado terceiro salto no tempo. Mas acho que devo ser fiel aos
acontecimentos e a mim próprio.
Naquele momento, ao ouvir as suas serenas e também proféticas
palavras, caí de novo na tentação da dúvida. Sei-o bem. Ele estava
ali diante de mim. O seu corpo, banhado pelo sol, projectava a
natural e correspondente sombra; ocupava um volume no espaço;
sob o seu peso as flores e a vegetação tinham ficado pisadas. Tudo
parecia normal. E no entanto não o era. Não podia sê-lo. Aquele
corpo, tal como em ocasiões anteriores, tinha surgido do nada. E
isto, científica e racionalmente, era pouco menos que impossível.
Acabrunhado por semelhante incerteza, as minhas ideias não
faziam sentido.

Tinha de encontrar uma explicação. Como podia aparecer e
desaparecer numa fracção de segundo? A física moderna também
sei disso conseguiu criar (?) matéria a partir da energia 1. E
embora as quantidades sejam minúsculas, o campho é prometedor.
Significaria isso que alguém, em alguma parte, seguia o mesmo
processo no momento de formar o corpo que tínhamos diante de
nós? Custava-me a aceitá-lo.
A energia mímima necessária para que surja um par de partículas
elementares é de duas vezes a massa em repouso de tais partículas
elementares, pela velocidade da luz ao quadrado. Por outras
palavras: 1.02 MeV ou 10 electrões-volts. Numa palavra: o
consumo energético, tratando-se não já de um par de partículas mas
de todo um corpo, seria tão brutal que insisto -, do ponto de vista
da nossa física, é inconcebível. Tinha de haver outra fórmula.
Mas qual?
Jesus aguardou que as minhas torturadas reflexões chegassem ao
inevitável beco sem saída em que me encontrava. Observou-me com
atenção e eu, dando-me conta disso, corei como um idiota. Ainda
tentei desculpar-me. Que absurdo! Porque haveria de justificar-me
perante um Ser que lê os pensamentos e que, sobretudo, é capaz de
uma compreensão infinita? Moveu a cabeça, como se estivesse
perante um subordinado que não tivesse emenda. E acertou. Mas,
condescendente, aliviou em parte a minha casmurrice:
- Porque te atormentas?
Eliseu, que logicamente não podia saber das dúvidas que me
assaltavam naqueles instantes, fez-me um sinal com a cabeça,
pedindo-me um esclarecimento do que se passava. Não me atrevi
nem a respirar.
- ..Tem fé. Já te disse: também as criaturas ao meu serviço têm um
código sublinhou esta palavra que, tal como vós, não podem
desrespeitar. Lembra- te das minhas palavras a Lázaro: Meu filho, o
que te sucedeu, acontecerá de igual modo a todos os que creiam no
Evangelho, mas ressuscitarão sob uma forma mais gloriosa. Eu sou a
ressurreição... e a VIDA! Isto que vedes e que podeis tocar Jesus
estendeu as palmas das suas mãos não é fruto de fantasias nem
de milagres. Vede-o bem! É uma das formas de que desfruta toda a

criatura mortal dos mundos do tempo e do espaço, uma vez vencido
o sono da morte...
*1 Hoje, a nível teórico e experimental, sabe-se que, a partir de um quanto" de
radiação electromagnética, é possível criar um par de partículas (um electrão e um
positrão). Para que isso aconteça, o fotão terá de passar pelas proximidades de um
núcleo, de forma que se cumpram os requisitos de conservação da energia e momento
desse sistema isolado. (N. Do M.)
O meu irmão discorreu rápido e, com invejável espontaneidade,
interrompeu-o:
- Posso...?
O Ressuscitado, como se já esperasse a pergunta, estendeu a sua
mão direita a mais próxima de Eliseu -, convidando-o a comprovar.
Não sei se voltei a ruborizar-me. Eu teria sido incapaz de
semelhante audácia. Mas aquele engenheiro de telecomunicações e
perito em computadores era uma caixinha de surpresas. Ajoelhou-se
em frente do Mestre e, tomando a mão entre as suas, pressionou,
apalpou, acariciou, cheirou sem o menor pudor e, ante a divertida
expressão do Homem, tomou-lhe o pulso. Passados dois minutos,
pálido como um morto e talvez mais morto que vivo -, enfrentou o
olhar do Ressuscitado. Vi-o franzir o sobrolho, como que a procurar
uma explicação. Lamentavelmente, não havia. Ou melhor, tinha de
haver, embora não estivesse ao alcance das nossas pobres e
limitadas mentes. Uma explicação que não contradizia as leis
universais da física e que, todavia, nós desconhecíamos. Foi toda
uma lição de humildade para a orgulhosa Ciência que acreditávamos
representar.
De repente, sem palavras que necessidade havia delas! -, o meu
companheiro inclinou-se e beijou a mão que ainda retinha e que
acabara de explorar. Foi espontâneo. E devo anotá-lo, pelo que foi
e pelo que representou. Os olhos de Jesus humedeceram-se. Santo
Deus! Aquele Ser era capaz de emoções! Agora, esta dedução
parece- me ridícula.
- Satisfeito?
Eliseu, perplexo, deixou-se cair sobre a relva. E, como única
resposta, disse que não com a cabeça. Logo a seguir, porém,
suponho que por pura cortesia, rectificou, assentindo em silêncio.

- Não estranheis continuou Jesus -, se notardes que esta forma
carnal pouco ou nada tem a ver com a que conheceis.
Lá, onde fordes devolvidos à verdadeira vida, as limitações que
vos constrangem aqui em baixo não têm sentido. Lá sentireis outro
tipo de fome, outro tipo de sede, outro tipo de sentimentos e
necessidades. Repito-vo-lo: não vos atormenteis. Agora é muito
difícil que o homem mortal possa alcançar as estrelas. Deve bastarvos
saber que elas estão lá e que, na devida altura, as estrelas e
não só... - farão parte do vosso conhecimento. A corrida para o Pai
Universal é prodigiosamente reveladora. Nada ficará oculto. Não
esqueçais que os vossos conhecimentos são finitos e que toda a
compreensão, por parte das criaturas mortais, é relativa.
Qualquer informação, mesmo a que procede de fontes elevadas, é
só relativamente completa, localmente exacta e pessoalmente
verdadeira. Apenas isso. Os factos físicos podem ser uniformes, mas
a verdade é uma realidade viva e flexível na filosofia do Universo.
As pessoas que evoluem como vós o estais agora a fazer só
parcialmente são sábias e relativamente verídicas nas suas
mensagens. Só podem ter certezas dentro dos limites da sua
experiência pessoal. Algo que pode parecer certo num lugar, poder
ser relativamente verdadeiro noutro segmento da criação. A verdade
divina, a verdade final, é uniforme e universal. A história das
criaturas espirituais, tal como é contada por numerosas
individualidades originárias de esferas diversas, pode mudar por
vezes nos pormenores. Isso deve-se à relatividade na plenitude dos
seus conhecimentos e da sua experiência pessoal, assim como à
extensão e amplitude dessa experiência...
- Parece-me que te contradizes, Senhor...
O comentário de Eliseu deixou-me atónito.
- A vida e as vicissitudes dos seres humanos argumentou com
frieza opõem-se a essa ideia de soberania universal de Deus...
O Mestre aceitou o repto.
- O plano do nosso Pai é fruto do amor e por consequência,
perfeito. E a tal ponto é assim que as criaturas evolutivas, como
vós, vêem-se necessariamente assaltadas por toda a espécie de

contingências, apenas para seu benefício.
- Contingências? - replicou o meu irmão com amargura. - Eu
empregaria um termo mais duro.
E antes de o Rabi abrir de novo a boca, atirou, inclemente:
- Que me dizes do desespero, da mentira, da injustiça?...
O Mestre levantou as mãos, pedindo-lhe calma.
- Vejamos: a esperança é desejável?
Assentimos em uníssono.
- Pois bem, então é necessário que a existência humana se
apresente permanentemente confrontada com a incerteza e com a
insegurança.
- E que nos dizes da mentira?
- Dizei-me: é bom o amor à verdade?
Nem esperou a nossa resposta. Era óbvia.
- ...Nesse caso, é preciso que o homem cresça num mundo onde o
erro esteja presente e a falsidade seja uma companheira de todos
os dias.
- Que podes dizer diante da decepção?
- Exactamente o mesmo: é desejável a força de carácter? Sendo
assim, a Humanidade deve ser educada num ambiente que a
obrigue a enfrentar duras provas e a reagir perante a decepção.
As respostas tão taxativas, não desarmaram o mordaz
Eliseu.
- E que podes dizer sobre a dor? Já a experimentaste amplamente.
Será mesmo necessária? Será justa? O rosto do Galileu endureceuse
levemente.
- Tu desejas a felicidade, não é assim?
- Mais que qualquer outra coisa neste mundo! - exclamou o meu
irmão, recuperando a combatividade.
- Então sentenciou sem possibilidade de apelo deverás viver
num mundo em que a alternativa da dor e a probabilidade do
sofrimento sejam possibilidades experienciais sempre presentes. As

tribulações são a melhor fonte de sabedoria para os mortais. Em
verdade, em verdade vos digo que não se pode captar a realidade
espiritual se antes a não tivermos sentido pela experiência. E
muitas dessas verdades só se intuem e compreendem no meio da
adversidade... Quanto ao meu próprio sofrimento, em nada se
diferenciou do de muitos outros mortais. Quando alguém sucumbe
por causa da dor, eu, ou os meus anjos, estamos lá...
- Para quê?
A ingenuidade deve ter comovido o Mestre. Sorriu-lhe e,
levantando o rosto para o céu azul, replicou: - Ainda que o enfermo
não o perceba claramente, com o único fim de lhe lembrar que, como
eu fiz, deve abandonar-se nas mãos do Pai. Já vo-lo disse: nada no
reino do nosso Pai é obra do acaso.
- O Pai! - desta vez tomei eu a iniciativa. - Falas tanto do Pai...
Mas, na verdade, Mestre, agora que ninguém nos escuta, quem é o
Pai? Jesus soltou uma gargalhada.
- Crês realmente que ninguém nos escuta?
Como duas crianças assustadas, Eliseu e eu olhámos à nossa
volta.
Sem perder o esplêndido sorriso, o Senhor moveu a cabeça, rindose
perante a nossa candura.
- Tu amavas o teu disse com aquele especial brilho que irradiava
quando se referia ao Pai. - Isso permite-te aproximar-te um pouco,
só um pouco, da magnífica realidade do nos-so ver-da-dei-ro Pai.
Intencionalmente, foi separando as sílabas.
- O pai Universal não é um ser humano, com longas barbas
brancas, como por vezes o pintam as suas criaturas. Mas o exemplo
é válido. Ele é o Deus de toda a criação. A causa-primeira-central de
todas as coisas e de todos os seres.
Deveis pensar nEle como um criador. Depois como um controlador.
Por último, como um apoio infinito. A verdade sobre o Pai Universal
começou a despontar sobre a Humanidade quando o profeta disse:
Tu, Deus, estás só e ninguém existe a teu lado. Tu criaste os céus e
os céus dos céus com todos os teus exércitos. És tu quem os

preservas e os controlas. Pelos Filhos de Deus é que os universos
foram feitos. O Criador cobre-se de luz como de uma roupagem e
estende os céus como um manto. Todos os mundos iluminados
reconhecem e adoram o Pai Universal, o autor eterno e o sustento
infinito de toda a criação.
Em inúmeros universos, criaturas dotadas de vontade
empreenderam a longa, muito longa viagem para o Paraíso e a luta
fascinante da aventura eterna para alcançar a Deus, o Pai. As
criaturas que conhecem a Deus têm apenas uma suprema ambição,
um único e ardente desejo: o de parecer-se no seu próprio mundo
ao que Ele é em sua perfeição paradisíaca personalizada...
- Mundos iluminados, dizes? - Eliseu, atento aos mínimos
pormenores, desceu para um plano mais prosaico. - Será que existe
vida inteligente e organizada fora da Terra? Percebi que Jesus
hesitava. Apanhou uma mão-cheia daquela fresca erva e,
arrancando-a pela raiz, mostrou-lha, perguntando:
- Dizei-me: o que é mais importante: isto ou vós?
Nenhum de nós se atreveu a responder. Foi ele quem o fez por
nós: - Diante do nosso Pai, vós, sem lugar para dúvidas. Credes
então que o Pai pode permitir que a erva seja mais numerosa que a
Sua prole? - Não respondeste à minha pergunta, Senhor: quem é o
Pai?
- Já respondi, Jasão...
Acariciou os verdes e sumarentos talos, mordiscando um deles.
..Mas vou propor-vos um exemplo. Há milhares de milhões de
tempos, o primeiro Inteligente que alcançou a consciência de si
mesmo entrou no não-tempo, depois de experimentar um processo
que também durou milhares de milhões de tempos. No próprio
instante da transição para o não-tempo, soube que, desse modo,
iniciava um longo caminho de realização absoluta de si mesmo que
igualmente se prolongaria por milhares de milhões de tempos, à
espera de que as humanidades a caminho chegassem a fazer parte
dEle.
E aquele Ser pensou: Eu serei a vossa meta, mesmo que me
ignoreis. Eu serei o vosso propósito, mesmo que apenas suspeiteis

da minha existência. Eu serei a vossa imagem quando crerdes em
mim. Eu só serei Deus quando vós fordes um todo comigo: quando
chegardes a ser Deus comigo. E juntos voltaremos a iniciar um
processo para além do não-tempo, pois o tempo terá perdido a sua
razão de ser.
Quem isto escreve devo confessá-lo humildemente não
conseguiu assimilar esta parábola.
- E tu que nome dás ao Pai? - Eliseu não recuava diante de
nada.Porque, segundo creio, tu também és Deus... Como entender
esta charada? Sendo tu Deus, porque é que o Pai é mais que tu?
Mas o Mestre
também não era dos que desistiam...
- Responde primeiro a uma pergunta: crês que serias capaz de
beber toda a água do yam? - Não, Mestre...
- Pois o nosso Pai é um lago que se esqueceram de cercar... Não
pretendes compreender a natureza de Deus: empenha-te em sentila!
Os nomes que as criaturas lhe atribuem
dependem da forma como concebem o Criador. A causa-primeiracentral
do Universo nunca se revelou pelo seu nome: só pela sua
natureza. Ao Pai pouco se lhe dá como o chames. Ele não impõe
nenhuma forma de reconhecimento, nem de culto oficial nem de
adoração servil às criaturas dotadas de inteligência e vontade. O
importante é que, no mais profundo dos vossos corações, o
reconheçais, o ameis e o adoreis...
voluntariamente. O Criador recusa exercer uma prepotência no livre
arbítrio espiritual das suas criaturas materiais e, muito menos, forçálas
à submissão...
- Mas as religiões...
- Sabeis qual é o dom mais precioso do homem? - interpelou-nos,
pousando o seu penetrante olhar ora num ora noutro de nós,
alternadamente.
- A liberdade adiantei eu não com muita segurança.
- A consagração amorosa da vontade humana à do Pai. Com efeito
, meus filhos, é o único dom válido que o homem pode oferecer a

Deus.
- Queres então dizer que não podemos oferecer mais nada?
- Fazer a vontade do nosso Pai é tudo. Nele, os humanos vivem,
movem-se e têm a sua existência. Esse é o verdadeiro culto, que
satisfaz plenamente a natureza do Pai Criador, dominado pelo amor.
Eliseu voltou à carga.
- E tu, Mestre, como te chamas?
- Já te disse: Abbá.
Aquela palavra aramaica significava de facto paizinho: o mais
carinhoso dos vocábulos que, por certo, nunca era utilizado pelos
judeus quando se referiam a Deus.
- Em espírito continuou todos os nomes atribuídos a Deus têm
idêntico significado, ainda que, em palavras e símbolos, cada uma
das denominações exprima o grau e a profundidade com que o Pai é
entronizado no coração das Suas criaturas...
- E por lá o meu irmão apontou para o céu -, como é que Lhe
chamam.
O Rabi sorriu de novo.
- Junto do centro do universo dos universos, o Pai
Universal é geralmente conhecido sob os nomes que vêm a
significar a Causa Primeira. Mais além, no exterior, nos universos do
espaço, os termos empregados para designá-lo coincidem com o de
Centro Universal. Mais longe, na criação estrelada, é conhecido por
Primeira Causa Criadora e Centro Divino.
Numa constelação próxima da vossa, Deus é chamado Pai dos
Universos. Noutra: Apoio Infinito. A oriente recebe o nome de Divino
Controlador. Também foi qualificado como o Pai das Luzes, o Dom da
Vida e o Único Omnipotente.
O universo dos universos, os universos do espaço, a criação
estrelada...
Aquilo escapava ao meu reduzido conhecimento. Teria desejado
perguntar-lhe mais coisas sobre tão magna citação, mas, com
franqueza, faltaram-me as forças.

Eliseu, pelo contrário, continuava desperto e disposto...
- Antes mencionaste o Paraíso. Existe na realidade ou trata-se de
outra bela metáfora?
- Vós associai-lo a um lugar cheio de felicidade e não estais
equivocados. Mas enquanto permanecerdes sujeitos à carne, jamais
podereis aproximar-vos sequer do meu magnífico e imenso
esplendor.
Eliseu, que não conhecia o desânimo, insistiu:
- Atrever-te-ias a defini-lo em poucas palavras?
- Centro de gravidade absoluta. Ou, melhor dizendo, ilha nuclear
de luz.
- Meu Deus! - exclamou o meu irmão. - Então é verdade!...
E antes de Jesus prosseguir, foi directamente ao assunto:
- Muitos seres humanos pensam que, ao morrer, entrarão logo no
Paraíso. Estão enganados?
- Querido amigo, o homem é como uma criança: possessivo,
inconsciente e ligado apenas ao mundo próximo que o rodeia.
Já te disse que a corrida para a Perfeição, para o Paraíso, ou, se
preferires, para o nosso Pai, exige uma longa preparação noutras
moradas...
- Então, quando veremos Deus face a face?
- Por vezes lamentou-se o Ressuscitado pareceis cegos...
Porque O procuras fora se Ele te ofereceu parte da Sua essência? O
meu companheiro a julgar pela expressão do seu rosto não o
compreendeu.
- Ele disse: Vós não podeis ver o Meu rosto, já que nenhum mortal
pode ver-Me e continuar vivo. Pois bem, eu digo-vos que nenhum ser
material poderia contemplar o espírito de Deus e preservar a sua
existência terrestre. É impossível aos grupos inferiores de seres
espirituais e a todas as ordens de personalidades materiais captar
a glória e o resplendor espiritual da presença da personalidade
divina. A luminosidade espiritual dessa presença do Pai é uma luz
que nenhum mortal pode suportar, que nenhuma criatura material viu

ou poderá ver.
- Em resumo deduziu Eliseu na sua honesta simplicidade -,
depois da morte não O veremos...
- Meu filho, na imensidade da criação, Deus não trata
directamente com as personalidades dotadas de vontade. Fá-lo de
outras maneiras: como te disse, instalando-se no mais íntimo de
cada ser e através de um vasto circuito de personalidades celestes.
Vês bem o alcance do que acabas de dizer?
Suponho que aquela perplexidade no rosto do Mestre foi
simulada.
- Se Deus se instala em cada um de nós porquê o sentimento do
mal? - prosseguiu Eliseu -
O Senhor não tinha pressa em responder. Fez uma pausa de
alguns segundos, multiplicando assim a ansiedade do meu irmão.
- Essa, pequeno curioso, é a maior verdade que poderás ouvir dos
meus lábios.
E deslocando os seus olhos para a minha pessoa, acentuou:
- O teu irmão sabe-o bem: a falsidade não pode alojar-se na
minha alma. E eu digo-te que cada criatura
mortal dotada de inteligência e vontade recebe, directamente do
Pai, uma centelha dEle mesmo, enviado do Paraíso e que vive no
órgão mental dos mortais, ajudando-os a desenvolver a sua alma
imortal, destinada a sobreviver por toda a eternidad. A presença
deste ajustador divino (poderíamos qualificá-lo assim na mente
humana é revelada graças a três fenómenos experienciais: a
aptidão intelectual para conhecer Deus, a necessidade espiritual de
O encontrar e o intenso desejo de toda a personalidade de se
parecer com Ele.
Foi como uma faísca. De repente julguei entender a famosa frase
bíblica: «Feito à Sua imagem e semelhança».
E o Mestre reparando na minha descoberta, voltou-se para mim
com vivacidade:
- Assim é, Jasão! E em verdade te digo que em todas as vossas

aflições, Ele se aflige. Em todos os vossos triunfos, Ele triunfa em
vós e convosco. O Seu divino espírito é realmente uma parte de vós,
embora a imensa maioria dos humanos nunca chegue a descobri-lo.
- Ajustador divino... Gosto da tua definição! - Eliseu avesso a
rodeios, perguntou à queima-roupa: - Sendo como dizes, Senhor, se
cada ser humano recebe essa centelha do próprio Deus, que sucede
com aquelas criaturas que não chegam a nascer? Não ignoras que
ontem, hoje e amanhã, o aborto provocado é uma realidade...
Ao mencionar a palavra aborto, o rosto do Mestre ficou sombrio. O
meu irmão, conhecendo-o como eu o
conhecia, deve ter pensado que o tinha apanhado...
- Olha à tua volta. Que vês tu?
- Não sei..., campos florescentes, belas colinas, um lago...
- Diz-me agora: crês que tudo isso é resultado do acaso?
Eliseu não disse nada. Tal como eu, tinha as suas dúvidas.
- Já vo-lo repeti: toda a Criação é obra do nosso Pai. O maarabit
não sopraria, as searas não amadureceriam e as tilápias não
alimentariam os homens se Ele não o tivesse desejado. Tudo
obedece a uma ordem, baseada no amor. Qualquer profanação
dessa ordem repercute-se no resto.
Consequentemente mesmo por puro egoísmo pessoal, as criaturas
humanas devem respeitar as leis da Natureza. Acreditais mesmo que
o nosso Pai está sujeito ao erro? As Suas leis são fruto do amor.
- Se o amor é a única moeda válida no Universo,
impossível de falsificar Intervim eu Se o pai é amor, porque
permite o mal?
- O mal, meu atormentado amigo, é conceito relativo. O mal
potencial é inerente ao carácter necessariamente incompleto de
Deus, como expressão da infinidade e da eternidade limitadas pelo
espaço-tempo. O facto do elemento parcial, em presença do total
aperfeiçoado, constitui a relatividade da realidade. Em todo o
universo, cada unidade é considerada como uma parte do todo. A
sobrevivência da fracção depende da cooperação com o plano e a
intenção do todo, do desejo sincero e do consentimento perfeito de

fazer a divina vontade do Pai. Se existisse um mundo evolucionário
sem erro, sem possibilidade de juízos imprudentes, esse seria um
mundo sem inteligência livre.
No meu universo há mil milhões de mundos perfeitos, com os seus
habitantes perfeitos, mas é preciso,que o homem em evolução seja
falível, se deseja ser livre de verdade. É impossível que uma
inteligência livre e sem experiência seja uniformemente sábia a
priori. Mas não confundais erro com pecado. A possibilidade de
juízo erróneo só se torna pecado se a vontade humana assume e
adopta conscientemente um juízo imoral intencional.
- Sendo assim acrescentei eu -, crer que as desgraças são
enviadas por Deus pode ser uma absoluta estupidez...
- Mais que uma estupidez, Jasão, é uma consequência da cegueira
humana. O Deus eterno é incapaz de sentir a cólera ou de castigar
os seus filhos. Essas são emoções humanas, vulgares e
desprezíveis, indignas de serem chamadas humanas e, muito menos,
divinas.
Pelas onze horas da manhã, as primeiras rajadas do vento de
oeste o maarabit fizeram-se sentir sobre a colina. Os cabelos e
a túnica do Homem agitaram-se e, tal como prevíramos, a
temperatura ambiente elevou-se notoriamente. Passados poucos
minutos, tanto Eliseu como eu cõmeçámos a transpirar
copiosamente. Ambos nos daríamos conta em seguida de outro
fenómeno singular: apesar do sufocante calor, igual para todos, a
epiderme de Jesus manteve-se seca e fresca, sem o menor indício
de suor.
O rosto, pescoço, axilas e palmas das mãos não apresentavam
qualquer vestígio de refrigeração cutânea. Ao passo que a escura
túnica de Eliseu, ou a minha, acabaram por colar-se aos corpos, a do
Galileu continuou solta e seca. Ao longo da conversa, o meu
companheiro fez um dissimulado sinal com os olhos, apontando-me a
parte superior do cajado, com o claro propósito de se proceder a um
exame completo do organismo do Ressuscitado. Reconheço que foi
uma falha ou uma negligência.
Mas, sinceramente, senti-me incapaz de o espiar naquela altura.
As suas palavras interessavam-me muito mais que todas as análises

médicas juntas.
Jesus, ao captar a minha silenciosa negativa, agradeceu com um
olhar que me tocou profundamente. E aguardou a pergunta seguinte.
Era curioso. Nos meus momentos de solidão entretivera-me a
levantar toda uma torre de perguntas. Mas agora, frente a Ele, não
me ocorria nenhuma.
O meu irmão, de mente mais ágil, esse, sim, estava disposto a
espremer o nosso singular interlocutor.
- Porque não nos falas um pouco mais desse Paraíso?
O Mestre encolheu os ombros.
- Fá-lo-ei, se assim o desejais, mas será um pouco como se vós
procurásseis fazer compreender aos meus pequeninos de hoje o
sentido da vossa missão... Antes disso teriam de conhecer muitas
outras coisas.
Suspirou profundamente e, durante uns segundos, entreteve-se
suponho eu a procurar as palavras adequadas.
- O Paraíso ou a ilha nuclear de luz deriva da Deidade, se bem
que não possa dizer-se que seja uma Deidade. As criações materiais
não são só uma parte da Deidade: são uma consequência.
Poderíamos dizer que sem qualificação especial, é o Absoluto do
controlo material-gravitacional, pela causa primeira central. Essa
imensa ilha cujas dimensões nem sequer poderíeis conceber com a
vossa limitada mente humana permanece imóvel. É a única criação
estática no universo dos universos. A ilha do Paraíso tem um lugar
no universo, mas carece de posição no espaço. Trata-se de uma ilha
eterna, origem efectiva dos universos fisicos passados, presentes e
futuros...
Para quê negá-lo! A meio da explicação tinha voltado a perder-me.
- O Paraíso é um termo que inclui os Absolutos locais pessoais e
impessoais de todas as fases da realidade
universal. O Paraíso pode implicar e reunir todas as formas da
realidade: Deidade, Divindade, personalidade e energia espiritual,
mente ou material. Tudo tem o Paraíso como ponto de origem, de
função e de destino, no que se refere ao seu valor, seu significado

e sua existência de facto. Mas não confundais.
A ilha eterna não é um Criador. É um controlador único de
numerosas actividades universais. De um extremo ao outro dos
universos materiais, o Paraíso influencia na conduta de todos os
seres relacionados com forças, energias e potências. Mas, em si
mesmo, é único, exclusivo e isolado nos universos. Não representa
nada e nada significa. Não é uma força nem uma presença. O
Paraíso é, simplesmente, o Paraíso.
Nem Eliseu nem eu nos atrevemos a formular qualquer comentário.
Era impossível. Eu, como sempre aceitei a sua palavra. O Paraíso
existe e deve tratar-se de um lugar (?) inenarrável.
- E porque é que todas essas coisas retorquiu Eliseu com
melancolia não são reveladas claramente? Talvez desse modo os
homens encontrassem um verdadeiro sentido para a vida...
- Meu filho, é conveniente que os homens não recebam uma
revelação excessiva...
Espantado, quase indignado, Eliseu protestou.
- Isso prosseguiu o Mestre com absoluta calma - asfixiaria a
imaginação. O progresso exige que a individualidade se
desenvolva. A mediocridade procura perpetuar-se na uniformidade.
Fora do contacto com o Pai Universal, nenhuma revelação pode
alguma vez ser completa.
Porque o vosso mundo ignora geralmente a origem das coisas,
mesmo físicas, julgou-se conveniente dar-lhe, de vez em quando,
noções de cosmogonia, mas isso sempre provocou confusões. As leis
que regem a revelação limitam grandemente porque proibem, como
vos acontece agora a vós, a transmissão de conhecimentos
imerecidos ou prematuros. A revelação é uma técnica que permite
economizar séculos e séculos de tempo no trabalho indispensável
de selecção minuciosa dos erros da evolução, a fim de extrair as
verdades adquiridas pelo espírito...
- Mas essas revelações interveio o meu irmão com nervosismo
ajudariam a Ciência...
O Mestre negou com a cabeça.

- ...A revelação não deve engendrar ciência, nem sequer religiões.
A sua função é coordenar ambas com a verdade da realidade.
- Mas a Ciência...
- A vossa ciência, como a de todos os tempos, é apenas um
espelho, que reflecte a vossa própria imagem cambiante. E dir-te-ei
mais: tanto a Ciência como a Religião têm permanente necessidade
de uma autocrítica mais corajosa e de uma mais clara consciência da
insuficiência dos seus respectivos estatutos evolutivos. Em ambos
os campos, os educadores humanos caem com frequência no
dogmatismo e num excesso de confiança em si próprios.
O meu companheiro sorriu maliciosamente.
-Tu, Mestre, não pareces muito amante das religiões. Quem o
diria!...
- O sectarismo, meu querido filho, é uma doença das religiões
institucionais. O dogmatismo é uma escravização da natureza
espiritual. É muito melhor ter uma religião sem Igreja, que uma
Igreja sem religião.
- Isso interessa-me sublinhou Eliseu, tirando partido daquela
inacreditável liberalidade do Ressuscitado. - Quais são, na tua
opinião, os perigos das Igrejas? - Noutra oportunidade falei disto
com o teu irmão. Mas repeti-lo-ei, se é esse o teu desejo. As
religiões formalistas tendem à fixação das crenças e à cristalização
dos sentimentos; fossilizam a Verdade; desviam-se do serviço de
Deus para o da Igreja; lutam entre si e entre os irmãos, em nome do
amor, dando origem ao aparecimento das seitas e das divisões;
estabelecem autoridades eclesiásticas opressivas; conduzem ao
nascimento do falso estado mental aristocrático de povo eleito;
mantêm ideias falsas e exageradas sobre a santidade; tornam-se
rotineiras e petrificadas e acabam por venerar o passado,
ignorando as necessidades do presente...
- Meu Deus! - lamentou-se o meu companheiro. - Mas tu também
formarás uma Igreja! Um pesado silêncio caiu sobre a colina. O
Mestre olhou-o com dureza. Por fim, apontando para mim com a sua
mão esquerda, respondeu sem rodeios: - Se não queres ouvir as
minhas palavras, ouve ao menos as de Jasão. Quando o Pai permitir

que me acompanhes, analisa bem o meu procedimento. Julga então
no mais íntimo do teu ser e lembra-te do que acabas de afirmar. É
importante que transmitas a verdade. Eu não vim ao mundo para
criar Igrejas, mas tão-só para dar testemunho do nosso Pai. A
natureza humana é fraca (sei-o bem) e, involuntariamente, a minha
mensagem será alterada, surgindo assim uma nova religião... a
pretexto da minha pessoa.
Palavras proféticas, as de Jesus de Nazaré...
- E qual é a tua religião?
- Já vo-lo disse: fazer a vontade do Pai. Entregar-se
generosamente ao amor e à apaixonante aventura da busca pessoal
de Deus. Eu não desejo credos nem tradições que fossilizem a alma
humana. Os que aceitaram a minha mensagem jamais serão
dogmáticos. São as metas (e não os credos) que devem unir os
homens. E a que eu vos revelei é simples e cristalina: chegar ao Pai.
Fazer a Sua vontade. Descansar nEle.
Não pude conter-me. E saltando por cima das muitas questões que
Eliseu guardava ainda no seu insaciável e inquieto coração,
interessei-me pelo destino desta caótica Humanidade a que
pertenço.
- Em verdade vos digo sentenciou com os olhos radiantes de
esperança que o futuro do mundo é esplêndido. As tribulações
passarão. Chegará o dia em que os homens esquecerão rixas e
interesses obscuros.
Nesse dia, as nações da Terra, como um só povo, aceitarão a
dupla mensagem que vos trago: que o Pai existe e que todos sois
irmãos.
O vosso destino é a luz e ninguém vos arrebatará esse direito.
Então, só então, encontrareis a paz. Para chegar a isso tendes de
aprender primeiro a gozar dos privilégios sem abusar deles, a
dispor da liberdade como de um delicado recipiente de cristal que
convém manejar com toda a delicadeza e a assumir o poder,
recusando utilizá-lo para concretizar ambições pessoais. Tais são os
indícios de uma alta civilização.
- Então estamos muito longe...

A insinuação de Eliseu ficou no ar. O dispositivo de segurança em
torno do berço, projectado para seiscentos pés, tinha detectado um
target.
O computador central transferiu o alerta, fazendo vibrar a ligação
auditiva.
Pus-me de pé. Alguém rondava ou se aproximava da colina.
Uma discreta indicação foi o suficiente: o meu irmão compreendeu
que algo se passava e, erguendo-se de imediato, olhou em silêncio
o extraordinário Homem. Foi um olhar de admiração. Jesus
correspondeu-lhe com uma piscadela de olho.
Levantou as mãos e despediu-se com um lacónico: "Ide, pois..."
Pelas onze e meia, o radar 2DT 1 confirmava os sinais
infravermelhos. Alguma coisa se movia na radial 135, avançando
lentamente na direcção norte praticamente em paralelo à encosta
oriental do promontório. A posição coincidia com a segunda vereda:
a que serpenteava pela referida encosta leste, até chegar ao cimo,
onde continuava o Ressuscitado.
Hesitámos. Conviria accionar o escudo gravitacional? Se fossem os
discípulos, a julgar pelo caminho que tinham tomado, passariam a
uns oitenta a cem metros a leste do berço. Era preciso que nos
certificássemos. Enviámos um dos olhos de Curtiss, estacionando-o a
cento e cinquenta pés de altitude sobre o eco. Ao identificar o
grupo humano, respirámos, aliviados. Eram eles, de facto.
Quinze minutos antes do meio-dia detiveram-se a curta distância
do cume. O Mestre, de pé, esperava-os lá em cima.
A partir dessa altura, com a ajuda do olho de Curtiss e do restante
instrumental entregámo-nos a um febril trabalho de observação do
grupo da Galiléia, principalmente, de análise do enigmático corpo
do Rabi.
*1 Este tipo de radar, de alerta prévio (AP), caracterizava-se pelas suas grandes
amplitudes. (no nosso caso PW, dois a vinte usec), baixa frequência de repetição PRF,
cem a quatrocentos pps) e uma frequência de transmissão da ordem dos quinhentos a
três mil megahertz (em bandas C a F). A sua grande amplitude permite a transmissão
de potências muito elevadas (um a dez megawatts) que, juntamente com a sua baixa
PRF, nos permitia uma detecção até duzentas e cinquenta milhas. O tipo de projecção
circular girava trezentos e sessenta graus à volta de um eixo vertical fixo, com um

período lento: entre três e oito rotações por minuto. Os valores de abertura dessa face
eram de um a dois graus em azimute e de vinte a trinta em elevação. Isso
proporcionava-nos uma excelente resolução em azimute e uma boa cobertura em
altitude. Com efeito, no incidente com o estranho objecto no monte das Oliveiras, o seu
papel foi decisivo. (N. Do M.)
O que aconteceu no cimo da colina não foi fácil de compreender.
O Senhor saudou-os, convidando-os a que se aproximassem. O
Zelota, mais impressionado que os demais, foi o último a chegar
junto dEle. E, a uma ordem do Ressuscitado, os onze ajoelharam-se
à sua volta. Então, levantando o rosto para o céu, pronunciou
algumas solenes palavras. Mais do que falar, Jesus bradou, pleno
de segurança, poder e majestade.
Ao ouvi-lo, estremecemos.
- Meu Pai, trago-te de novo estes homens, meus mensageiros! De
entre os filhos da Terra, escolhi estes para que me representem, tal
como eu vim representar- te.
Ama-os e acompanha-os como me amaste e acompanhaste a mim!
E agora, Pai, dá-lhes a sabedoria, já que ponho nas suas mãos
todos os assuntos do Reino. Novamente, meu Pai, Te dou graças por
estes homens e os deixo sob a Tua protecção...
Aquilo parecia uma confirmação como mensageiros e
embaixadores do Reino. Mas, por não sabermos o que tinha
sucedido em vida do Mestre naquela montanha da Ordenação foinos
impossível fazer uma ideia exacta da transcendência do que o
Rabi dizia e fazia. (Durante o terceiro salto creio que devo
adiantá-lo -, a cena em questão repetir-se-ia com os doze, e,
finalmente compreenderíamos o seu transcendente significado. A
montanha da Ordenação, tal como a denominavam Jesus e os seus
homens, foi o lugar onde os íntimos receberam a designação oficial
como discípulos do Mestre, numa cerimónia, valha a verdade, desde
há muito esperada por todos eles. Mas não nos adiantemos aos
acontecimentos.) Concluída a prece, no meio de um silêncio
respeitoso, o Ressuscitado aproximou-se de cada um dos presentes
colocando as mãos sobre as suas cabeças. Em cada imposição, o
Senhor fechava os olhos, permanecendo assim durante alguns
segundos.

Só Filipe e Simão Pedro os mais curiosos se permitiram
levantar ligeiramente os olhos, espiando os movimentos de Jesus.
Terminada a imposição das mãos, pediu-lhes que se erguessem. E
recuperando o seu bom humor, conversou com eles durante uma
meia hora, recordando como acontecera na praia de Saidan os
velhos tempos. Por último, pelas doze horas e quarenta e cinco
minutos dirigiu-se a Simão, o Zelota, abraçando-o durante quase um
minuto. Não houve palavras naquele abraço efusivo, mas os olhos
do patriota encheram-se de lágrimas. Logo a seguir, um por um,
repetiu a comovente despedida. Por fim, voltando ao centro do
círculo formado pelos discípulos esfumou-se no ar...
O meu companheiro olhou-me, perplexo. Eu, impotente, apenas
franzi as sobrancelhas, rendendo-me à evidência. Desta vez não
houv anúncio de uma terceira aparição. Significava isso que as
presenças de Jesus na Galileia tinham terminado? Após uns minutos
de confusão, os discípulos iniciaram a viagem de regresso a Nahum.
Por onde começar? O pouco que captámos com os nossos
aparelhos foi tanto e tão inconcebível que estive quase a render-me
e a passar por cima do capítulo das análises do chamado, pelos
crentes, «corpo glorioso de Jesus Cristo». Uma expressão muito feliz
que, no entanto, me atreveria a modificar pela de «corpo
milagroso», se bem que os milagres não existam...
Também sei que a ciência ortodoxa sorrirá com suficiência perante
o que vou expor. Tal não me preocupa. Chegados a este ponto
poderá importar-me a sua estúpida rigidez? Que com o fim de não
fatigar o leittor deste diário, limitar-me-ei a expor sumariamente as
descobertas com que a divina providência houve por bem
prodigalizar-nos.
Primeira: aquele corpo como imaginávamos, não tinha sistema
circulatório. Durante a longa hora que o Ressuscitado permaneceu
ao alcance dos detectores de ultra-sons, tanto as explorações à
superfície (a 7,5 MegaHertz como as de maior penetração (numa
frequência de 3,5 megahertz, resultaram negativas. Nos ecrãs não
obtivemos imagens de artérias, veias, vasos capilares, nem do
sistema linfático.
Nada!

Segunda: apesar dessa ausência de uma coisa vital para um ser
vivo como o homem -, o corpo apresentava uma formação
aparentemente perfeita do sistema muscular, pelo menos no que se
refere aos músculos voluntários. Os viscerais, pelo contrário, não
contavam... A natureza e disposição dos primeiros com as suas
estrias característicasnão se diferenciam dos nossos 2. Essa
estrutura parecia sustentada por algo semelhante a uma estrutura
óssea.
E digo pparecia porque o suposto esqueleto não era visível com
os ultra-sons, traduzindo-se em zonas de sombra.
Um dos aspectos mais desconcertantes foi o estranho líquido (as
palavras constituem, de novo um rude obstáculo) que impregnava
sem necessidade de vasos nem de qualquer rede capilar o que
talvez pudéssemos definir como um tecido conjuntivo no qual
assentava a massa esponjosa. A sua circulação actuava (?) como a
água que empapa uma esponja.foi impossível de precisar com
exactidão, embora suspeitemos de que poderia ter alguma relação
com a solução de Ringer, desempenhando, entre outros, o
importantíssimo papel de captador do oxigénio do ar, que seria
difundido pela totalidade das unidades celulares. (Este postulado,
obviamente, tem um carácter especulativo.)
*1 Como já pormenorizei noutras alturas, Cavalo de Tróia seleccionou o mecanismo
ultra-sónico pela sua natureza inofensiva e pelas suas características especiais, próprias
para a exploração e posterior conversão em imagens de órgãos internos, assim como
para o controlo do fluxo sanguíneo, coração, olhos e tecidos moles em geral. Com
intensidades que oscilam entre os 2,5 e os 2 8 milivátios por centímetro quadrado e
com frequências aproximadas dos 2,25 megaciclos, o dispositivo de ultra-sons
transforma as ondas iniciais em outras audíveis, mediante uma complexa rede de
amplificadores, controlos de sensibilidade, moduladores e filtros de bandas, todos eles
miniaturizados. Com o fim de dar solução ao difícil problema do ar inimigo dos ultrasons
que as medições só podiam efectuar-se à distância, os especialistas do Projecto
idealizaram um revolucionário sistema, capaz de reter e guiar os citados ultra-sons
através de um finíssimo cilindro ou tubagem de luz laser de baixa energia, cujo fluxo de
electrões ficava congelado no preciso instante da sua emissão. No caso que nos ocupa,
uma vez que o corpo se encontrava a uma distância de quatrocentos metros, as
bandas foram reforçadas por um duplo gerador de alta frequência. (N. Do M.)
2 Os músculos apresentavam as típicas partes contrácteis e os tendões. As
primeiras, formadas pelos elementos cilindróides alongados as fibras musculares

propriamente ditas providas de numerosos núcleos. Tudo normal, incluindo a fina e
transparente membrana que cobre a citada fibra muscular. Quanto aos tendões,
também eram de natureza fibrosa, com os correspondentes motores e sensitivos, cujos
filetes se ramificam dentro dos habituais corpúsculos musculotendinosos de Golgi. (N.
Do M.)
3 Como é do conhecimento dos especialistas. A solução de Ringer, de natureza
salina, - é composta de cloreto de sódio, cloreto de potássio, cloreto de cálcio,
bicarbonato de sódio, fosfato monossódico, dextrose e água. É um meio ideal para a
conservação de vísceras, sendo utilizada também em todas as formas de
desidratação, acidose ou alcalose, assim como para melhorar a actividade renal. (N.
Do M.)
Terceira: aquele corpo não apresentava vísceras. Quer dizer, não
tinha ou pelo menos nós não conseguimos localizá-los aparelho
digestivo, fígado, pâncreas, etc. , assim como pulmões... e coração!
Talvez isso justificasse o facto de Eliseu não ter encontrado o pulso
e de o Ressuscitado se ter negado a comer. O que é que captámos
no interior? Uma coisa tão invulgar que me sinto incapaz de a
definir. A ressonância magnética nuclear e os ultra-sons revelaram
um autêntico torvelinho de filamentos e zonas espaciais, de um rico
cromatismo, vibrando e fracturando-se a velocidades vertiginosas,
com as nuvens atómicas em perfeita ordem! Se tivesse de descrever
aquele vazio, talvez me inclinasse pela pobre e inexacta expressão
de «forno gerador». Mas era, seguramente, muito mais...
Nesta deficiente exposição, entre os muitos erros que, por certo,
estou a cometer, há um que posso rectificar. Embora não tivéssemos
conseguido localizar o aparelho digestivo, pelo menos encontrámos
um elemento residual, que esclarecia em parte o incompreensível
fenómeno da voz e das gargalhadas de Jesus. Para um ser humano
que não tivesse pulmões, a coluna de ar necessária para fazer vibrar
a glote deixaria de existir e os sons dificilmente aflorariam à
garganta. O corpo de Jesus apresentava uma boca e uma faringe
normais, com um tubo (?) rudimentar e curto que se fundia com o
forno interno. A única explicação possível para a fala de Jesus podia
estar na substituição do ar por uma série de impulsos eléctricos (?)
que faziam vibrar a referida área da glote.
Quarta: tanto os sentidos do ouvido e da vista como o do tacto

apresentavam estruturas idênticas às humanas, ainda que as
conexões cerebrais fossem imperceptíveis, devido à especialíssima
configuração e natureza daquilo que - arriscando muito
poderíamos qualificar de cérebro. O aparelho lacrimal, por exemplo
era perfeito, à excepção das vias lacrimais que, no homem normal,
conduzem o excedente às fossas nasais. Nele não existia. Quanto à
pele (?), estávamos perante outro mistério. Tanto o meu
companheiro como eu tínhamo-la tocado e contemplado à vontade.
Nem na praia de Saidan nem na montanha da Ordenação captámos
diferenças substanciais. A temperatura corporal, inclusivamente
parecia correcta. Mas, sendo assim, porque é que aquele corpo não
emitia radiação infravermelha? O bombardeamento teletermográfico
serviu apenas para corroborar aquilo que já sabíamos 1.
*1 Em páginas anteriores, o Major explica assim alguns dos fundamentos do
sistema de teletermografia dinâmica: A detecção da temperatura cutânea à distância
realizou-se graças à propriedade da pele humana, capaz de se comportar como um
emissor natural de radiação infravermelha ou IR. Tal como se sabe, pela fórmula da lei
de Stephan-Boltzmann (W = eJT4), a emissão é proporcional à temperatura cutânea,
e dado que T se acha elevada à quarta potência, pequenas variações no seu valor
provocam aumentos ou diminuições assinalados na emissão infravermelha (W: energia
emitida por unidade de superfície; s: factor de emissão do corpo considerado; J:
constante de Stephan-Boltzmann; e T: temperatura absoluta). Em numerosas
experiências, iniciadas por Hardy em 1934, tinha sido possível comprovar que a pele
humana se comporta como emissor infravermelho, semelhante ao corpo negro. (Este
espectro de radiação infravermelha emitido pela pele humana é amplo, com um pico
máximo de intensidade fixado em 9,6Ic). O nosso dispositivo de teletermo grafia
consistia por conseguinte, num aparelho capaz de detectar à distância intensidades de
radiação infravermelha.
Basicamente consta de um sistema óptico que focava a IR sobre um detector. Este
era formado por substâncias semicondutoras (principalmente Sbin e Ge-Hg) capazes
de emitir um sinal eléctrico mínimo de cada vez que um fotão infravermelho de um
determinado conprimento de onda incida na sua superfície. E embora o detector fosse
métrico, Permitindo detectar a IR procedente de um único ponto, o Cavalo de Tróia tinha
conseguido ampliar o seu raio de acção mediante um complexo sistema de projecção,
formado por miniespelhos rotativos e oscilantes. A alta velocidade dessa projecção
permitia analisar a totalidade do corpo em questão (neste caso de Jesus, várias vezes
por segundo. Isto por sua vez, tornava possível a obtenção de imagens dinâmicas. A
seguir à emissão,,o sinal eléctrico correspondente à presença de fotões infravermelhos
era amplificado e filtrado, sendo conduzido posteriormente a um osciloscópio
miniaturizado.

Nele, graças à alta voltagem existente e a uma projecção, que ficava armazenada
na memória de cristal de titânio do computador. Naturalmente, o nosso teletermógrafo
dispunha de uma escala de sensibilidade térmica (0,1, 0 2 ou 0,5 graus centígrados,
etc.) e de uma série de dispositivos técnicos adicionais que facilitavam a medição de
gradientes térmicos diferenciais entre zonas do termograma (isotérmico, análise linear
etc.). As imagens assim obtidas podiam ser de dois tipos: em escala de cinza (muito
adequada para o estudo morfológico dos vasos) e de cor (entre oito e dezasseis),
muito útil para efectuar medições térmicas diferenciais com precisão. Ambos os
sistemas podiam ser utilizados complementarmente., (Nota de J. J. Benitez).
O tegumento externo ou pele, graças às imagens macroamplificadas
revelou-se como um envoltório normal com as suas duas
camadas a derme e a epiderme -, com o pigmento correspondente
nas células de Malpighi, mas com algumas diferenças radicais. Por
exemplo: as papilas dérmicas eram de um só tipo (nervosas).
Faltavam igualmente as glândulas sudoríparas.
Como pudémos constatar aquando da passagem do maarabit, pura
e simplesmente não transpirava. Os órgãos da sensibilidade
térmica, tanto os receptores sensíveis ao frio (corpúsculos de
Crauss), como os do calor (rufini) eram normais. Isso confundiu-nos
muito, muito mais. Que finalidade poderiam ter num organismo que
não necessitava de respiração cutânea e que embora não
chegássemos a constatá-lo talvez fosse igualmente insensível ao
frio? Os órgãos da sensibilidade dolorosa apresentavam-se
perfeitamente diferenciados, através de uma rede de terminais
nervosos que se ramificava nos interstícios do epitélio cutâneo.
Compreendi então porque é que Jesus tinha retirado as mãos tão
precipitadamente do fogo e porque é que sacudiu uma das
sandálias das incómodas areias da praia de Saidan.
Quinta: não possuindo aparelho urogenital interno, aquilo que
entendemos por funções secretoras, excretoras e de reprodução era
desnecessário. Isso, obviamente, levava-nos a um não menos
interessante duplo dilema. Supondo que o necessitasse como
efectuaria as eliminações metabólicas e a transmissão da vida? Esta
última questão afigurou-se-nos deslocada. Por vezes esquecíamos
que aquele corpo não se encontrava sujeito às leis da nossa
natureza...
À medida que íamos avançando, as descobertas confundiam-se

cada vez mais. E o clímax chegaria com as análises do sistema
nervoso e da zona, sem dúvida mais nobre de tão prodigioso
organismo.
Sexta: não houve dificuldades de maior para constatar que aquele
corpo esta palavra é cada vez mais inadequada dispunha de
algo muito semelhante aos nossos sistemas nervosos central e
periférico. O primeiro apesar das dificuldades para penetrar o
osso com os ultra-sons apresentava uma forma conhecida: uma
longa haste, com o correspondente engrossamento no extremo
superior. Presumivelmente, encontrava-se alojado no condutor ósseo
crânio-raquidiano (aquilo a que chamamos eixo cérebro-espinal ou
neuro-eixo,). O periférico, por seu turno, apresentava-se ramificado
por todo o revestimento muscular, partindo do neuro-eixo. Uma
infinidade daqueles cordões nervosos ou nervos, perdia-se no
vibrante forno interior.
Mas a grande surpresa verificar-se-ia, como ia dizendo, ao
explorar a protuberância superior do sistema nervoso central, que a
medicina define como encéfalo,.
Com a inestimável ajuda das imagens obtidas por ressonância
magnética nuclear, a partir do olho de Curtiss com o fim de obter o
necessário retorno das secções transversais, o interior do crânio do
Ressuscitado apresentou-se diante dos nossos olhos atónitos como
um mundo irreal. A massa encefálica não existia como tal. Cérebro,
cerebelo, dura-máter, bolbo raquidiano, hipófise, etc., tinham sido
substituídos por um esferóide uma espécie de supergaláxia
luminescente, em perpétua palpitação e constituído por triliões de
circuitos de algo semelhante às substâncias branca e cinzenta, com
corpos-celulares, hastes protoplásmicas e cilindros-eixos...
puramente atómicos.
A nível teórico e especulativo, imaginamos que aquela intrincada
teia de aranha desempenharia as mesmas funções que os nossos
hemisférios, ventrículos, etc. Mas não podemos assegurá-lo. O certo
é que aquele poderoso encéfalo imaterial, parecia regular as
operações motrizes, em estreita colaboração com o sistema
periférico. Duvidamos, naturalmente, que existisse qualquer tipo de
rede nervosa visceral ou vegetativa.

*1 A técnica RMN (ressonância magnética nuclear) foi estabelecida pelos
professores Bloch e M. Purcell, da Universidade de Harvard, que fixaram as bases
experimentais para a espectroscopia da RMN. Muito antes, os cientistas já sabiam que
os núcleos atómicos dispõem de um momento angular derivado da sua propriedade
intrínseca de rotação: o spin.
(Não é meu propósito entrar aqui e agora em polémicas, mas, como já pormenorizei,
na devida altura, a estrutura actual da mecânica quântica está viciada de raiz. Daí que
não possa aceitar de modo algum a formulação do princípio do spin. Por exemplo: os
físicos, incapazes de explicar satisfatoriamente o efeito Zeeman, criaram o conceito de
momento angular do referido spin, construindo assim um modelo matemático
dificilmente sustentável. Simplesmente e ao falar dos swivel creio que já o referi -,
aquilo a que os cientistas chamam «spin» é algo de muito diferente. Se considerarmos
uma rede espacial de M dimensões, a deformação nos dois eixos axiais orientados
ortogonalmente e que se cruzam num swivel, ou ponto espacial,, dará lugar a um
efeito que, no caso de um campo electrostático ou magnético, é representado pelos
físico-matemáticos por um vector, atribuindo-lhe um número quântico. Grave erro, no
meu entender.) Pois bem, feito este esclarecimento, estando os núcleos electricamente
carregados, o spin corresponde a um fluxo de corrente à volta do eixo do referido spin,
que gera por sua vez um pequeno campo magnético. Só os núcleos com um número
ímpar de nucleões (protões ou neutrões) têm um spin total ou completo e apresentamse,
por conseguinte, à espectroscopia por RMN.
Entre esses núcleos conta-se o protão (H-1), que é o núcleo de 99,98 por cento de
todos os átomos de hidrogénio que existem na Natureza; o de carbono-13 (C-13), que
é o núcleo de 1,1 por cento de todos os átomos de carbono; e o do fósforo-31 (P- 31),
que é o de todos os átomos de fósforo. (N. Do M.)
A perfeita ordem dos núcleos atómicos daquele «corpo» e do seu
«encéfalo» - desafiando toda a entropia facilitou-nos as coisas.
Mas, nós, naqueles momentos de confusão não chegámos a
descobri-lo. Mais tarde, os especialistas de Cavalo de Tróia ao
analisarem a documentação, depararam com uma característica
daquele supercérebro que, com a evolução das pesquisas,
culminaria numa das mais extraordinárias descobertas da nossa era.
Uma revelação científica que, se algum dia for proclamada pública e
oficialmente, abalará os alicerces da Humanidade, enchendo de
alegria e optimismo penso eu filósofos, pensadores e,
naturalmente, todas as religiões. Estou a referir-me àquilo que, sem
lugar para dúvidas, poderia ser considerado como o habitáculo,
suporte ou receptáculo (as definições terminológicas mostram-se

neste caso curtas e pobres) da alma humana. Seria impossível
desenvolver aqui a infinidade de experiências levadas a cabo pelos
meus compatriotas, com base na nossa descoberta acidental e que,
insisto, os conduziu à constatação científica desse ente em que
milhões de seres humanos crêem pela fé. Acho, porém, que é meu
dever referir alguns dados os mais significativos -, com a única
finalidade de desvendar o feliz acontecimento.
Tudo começou quando, numa das áreas daquele filamentoso e
singular encéfalo que vinha a corresponder ao córtex do terceiro
ventrículo, sob o tálamo -, os cientistas, praticamente por acaso 2,
detectaram átomos de um gás nobre (o crípton). Ao todo, oitenta e
seis conjuntos biatómicos que giravam em órbitas comuns. Os
planos orbitais, sensivelmente paralelos, dispunham de um eixo,
comum que, por sua vez, descrevia um movimento vibratório
harmónico cuja frequência e amplitude estava em função da
temperatura (0,2 megaciclos para trinta e cinco graus centígrados).
Num primeiro momento, os investigadores não prestaram demasiada
atenção a esses átomos. Na realidade, desde muito antes, alguns
laboratórios que procediam a ensaios com a fecundação de óvulos,
já tinham detectado a sua presença no interior de tais óvulos
(concretamente, na desoxirribose). Estes átomos de crípton
encontram-se nos extremos da cadeia helicoidal do ácido
desoxirribonucleico, formando vários pares: os oitenta e seis já
mencionados.
*1 Como é do conhecimento dos especialistas em RMN, este tipo de
espectroscopia exige que o corpo a explorar seja previamente submetido a um campo
magnético, com o fim de ordenar" os seus átomos. Só então podem enviar-se as
ondas propriamente ditas. Geralmente, na ressonância magnética nuclear aplicam-se
dois campos às células ou tecidos. O primeiro, mais intenso, provoca a orientação dos
dipolos nucleares (hidrogénio-1, carbono-13 e fósforo-31). Então, o dipolo de cada
núcleo alinha-se no sentido do campo ou contra ele. Ao dirigir o segundo campo uma
radiação electromagnética na zona da radiofrequência do espectro chega uma altura
em que esse tipo de núcleos ressoam, ou seja absorvem os radiofotões. Por exemplo,
num campo magnético de uma intensidade de oitenta e quatro mil gauss, o núcleo de
hidrogénio-1 ressoará a uma frequência de uns trezentos e sessenta megahertz
(trezentos milhões de ciclos por segundo).
O do fósforo-31 fá-lo-á a 146 megahertz e o do carbono-13 ressoará à razão de

noventa megahertz. A partir desses sinais é possível reconstituir, em imagens qualquer
parte do corpo, com ajuda de um computador. Os nossos sistemas de RMN
desenhados pelos peritos da Technicare Corporation, de Ohio, tinham sido dotados ,de
um íman de 0,15 tesla (mil e quinhentos gauss) e tinham sido reforçados por um
completo dispositivo baseado nos squid -, destinado à medição de interferências
quânticas supercondutoras, capaz de registar ínfimas variações de natureza magnética.
(O campo normal terrestre entre 0,2 e 0,5 gauss foi «apagado» pelo Pai Natal que
pôs em écran o squid à relação de dez levantado a menos sete gauss.) Estas
medições atingiam até a centésima- milésima parte do gauss. Um desses squid
instalado na zona inferior da vara de Moisés, constava, basicamente de uma bobina
de medida de uma sonda criogénica da necessária união e do circuito ressoante ou
detector final. Nas primeiras
aparições de Jesus ressuscitado, como já referi, revelaram-se de extrema utilidade.
(N. Do M.)
2 Embora, como disse, eu já não acredite no acaso, o certo é que a localização
destes oitenta e seis pares de átomos de crípton foi considerada como fruto do acaso.
Basta dizer que, por exemplo, num milímetro cúbico de gás crípton rarefeito podem
contar-se cerca de dez mil milhões de átomos livres. (N. Do M.)
Ao que parece, segundo informações que me chegaram, tais séries ordenadas de
átomos só tinham sido detectadas nas células germinais de homens e animais
pluricelulares, embora, com o passar do tempo, a descoberta se alargasse ao resto
das células. Mas a primeira das grandes surpresas surgiu quando um dos especialistas
teve a genial e intuitiva ideia de analisar a distribuição electrónica de tais átomos. Como
os peritos em física quântica sabem, os electrões ocupam posições instantâneas, cuja
função probabilística se rege pelo acaso.
Este princípio do indetermimismo comum no mundo microfísico era, sagrado. E
digo era porque, como veremos, a dialéctica dos cientistas não tardaria a ser
pulverizada. Em tais átomos de crípton, as posições apresentavam-se regidas por um
sincronismo desconcertante! Os átomos homólogos nas cadeias de crípton dos vários
espermatozóides investigados apresentavam uma distribuição semelhante e sincrónica;
como se fossem relógios que funcionassem sincronicamente, ligados, talvez, por ocultas
emissões de radiação, que estimulassem esse comportamento, ou como se um
misterioso fenómeno de ressonância obrigasse todos os electrões a reger-se pelo
mesmo padrão. Pensou-se que a proximidade das células em estudo podia provocar
tal efeito de ressonância. Mais tarde com idêntica surpresa os pesquisadores
puderam comprovar que todos os seres vivos se comportavam nas suas cadeias de
átomos de crípton de idêntica forma.
(Parece mesmo que este fenómeno é universal e que o código genético encerrado
no ácido desoxirribonucleico não é mais que um dos elos dessa cadeia de factores que

explicam o comportamento da matéria, animada pela vida. Uma vida, no fim de contas,
inspirada por Deus.) Pois bem, esta cadeia de átomos de crípton apresenta uma dupla
função: a de armazenagem, no seio dos seres vivos, de uma informação codificada
sobre todos os possíveis seres orgânicos integrados no universo e, em segundo lugar, a
captação no meio ecológico circundante de toda a espécie de informações. Ao
comparar estas últimas com as primeiras, o ser vivo estaria em condições de provocar
as necessárias mutações, dando lugar a um indivíduo novo ou diferente.
Por outras palavras: estes átomos de crípton contêm as chaves codificadas para a
formação de todas as possibilidades. De seres orgânicos que possam dar-se na
Natureza. As cifras são estonteantes: suspeita-se que as possibilidades de mutações
poderiam ultrapassar os dezoito milhões. As im, cada mudança de um electrão no seio
de uma subcamada orbital, das oito que existem em cada átomo de crípton, codificaria
um philum. E cada um dos quatro saltos electrónicos representaria, consequentemente
outros tantos ramos.
A morfologia que um animal adoptasse, no caso de se produzir uma mutação,
estaria em função das mencionadas posições electrónicas dos electrões dos restantes
átomos do pequeno núcleo de crípton. Este é a matriz, por conseguinte, de toda a
filogenia dos seres vivos possíveis no universo, gravada em forma de código. Algo de
transcendente, portanto! Mas entremos já na descoberta final e mais sugestiva.
Qualquer observador medianamente informado poderá argumentar: Como é possível
determinar cientificamente a existência de um "ente" adimensional, como se supõe que
é a alma, e portanto inacessível ao controlo dos instrumentos de um laboratório?
Partindo do postulado de que a Ciência valoriza sempre a existência de um factor em
função dos efeitos que produz, talvez estejamos em condições de responder a essa
pergunta.
Após a descoberta desses átomos isolados no encéfalo do Ressuscitado, os
cientistas investigaram uma considerável amostra de cérebros humanos, comprovando
que a tal nuvem ou núcleo se encontrava sempre na mesma zona e a idêntica
profundidade, no hipotálamo. (Este gás, como é sabido, não se combina com nenhum
outro corpo ou elemento químico. A sua presença era, pois, muito estranha; e mais
ainda tendo em conta o seu reduzidíssimo volume
Era pois definitivamente claro que não se encontravam perante um fenómeno
aleatório. E uma noite, em pleno exame da coroa electrónica desses átomos com o
objectivo de observar possíveis alterações quânticas por prováveis transferências
energéticas os nossos investigadores detectaram «algo» de surpreendente.
O corpo de um dos voluntários jazia numa câmara especialmente preparada da qual
tinham sido eliminados todos os resíduos de gás crípton. Tinha uma série de sondas
fixadas no seu crânio (zona parietal direita). Embora submetido a anestesia local, os
seus restantes mecanismos reflexos e conscientes não se encontravam inibidos. Toda
uma rede de detectores de funções fisiológicas tinha sido distribuída pelo seu corpo.
Num ecrã, os computadores projectavam cifras e parâmetros perfeitamente ordenados

em colunas. Cada um desses dígitos reflectia a situação probabilística de cada electrão,
em relação a um tomado como referência em cada instante, mas com expressão de
tempo factorizado (em movimento ao retardador).
Quando uma cifra saltava para outra coluna, registava-se assim um salto quântico
para outro nível energético. Essa era a finalidade do estudo.
Este problema poderia ser também colocado em muitos outros campos da Ciência.
Por exemplo, na astronomia. Uma pessoa não informada poderá contrapor: como é
possível averiguar a distância de estrelas situadas a milhões de anos-luz? Um
astrónomo sorriria compreensivo e far-lhe-ia ver que certas estrelas as «cefeidas», -
emitem um fluxo de luz intermitente, de modo que no intervalo entre dois máximos, o
seu logaritmo varia proporcionalmente ao seu brilho. A comparação do brilho aparente
e real é a base de estimativa para essas distâncias estelares. (N. Do M.)
De súbito, como ia dizendo, os peritos ficaram paralisados. O ecrã
da equipa detectora foi desligado e os cientistas lançaram-se sobre
as colunas de números. Aquilo era impossível. Os dígitos mantinham
uma relação sequencial, ou seja, apresentavam-se distribuídos
harmonicamente, segundo uma função periódica. Os electrões, que
se deveriam! Localizar nos seus níveis energéticos de um modo
anárquico, pareciam ultrapassar o teórico e obrigatório caos,
regulando a sua função probabilística e rompendo assim com a
suposta lei imutável do referido indeterminismo microfísico. A
impressão foi tão forte que, naquela altura, a maioria procurou uma
explicação no simples acaso. Mas não. A experiência, repetida até à
saciedade e em indivíduos diferentes, tinha sempre o mesmo
resultado: aqueles movimentos harmónicos dos electrões corticais
do átomo de crípton coincidiam com os impulsos nervosos emitidos
pelo córtex cerebral dos voluntários em experimentação. Por outras
palavras: com os movimentos conscientes dos seus braços, pés,
mãos, vozes, etc.
No entanto, não acontecia o mesmo com os movimentos chamados
reflexos ou com os impulsos emitidos pelo sistema neurovegetativo.
Inicialmente, chegou a propor-se a hipótese de que tais movimentos
codificados no córtex electrónico de crípton pudessem estar
condicionados: que fossem, em suma, um efeito dos neuroimpulsos
emitidos pelo encéfalo do ser vivo.
Mas a verdade é que não se chegava a compreender a
funcionalidade desse código num átomo isolado de um gás inerte.

Um ano mais tarde verificar-se-ia uma nova e assombrosa eu diria
mesmo vital descoberta: aqueles movimentos harmónicos dos
electrões da coroa do átomo PRECEDIAM (isso mesmo: precediam!) a
conduta voluntária dos homens e mulheres sujeitos à experiência.
O avanço, em questão oscilava à volta de um milionésimo de
segundo sobre as reacções neurofisiológicas do organismo.
Por palavras mais simples: era como se aqueles electrões fossem
a alma do indivíduo, ditando as ordens necessárias ao corpo. Isto,
obviamente, parecia absurdo. Os electrões não têm vida. Mas
então, se não se moviam como consequência do acaso, devia existir
um factor, independente que fosse capaz de exercer um controlo
sobre eles. A conclusão final para não tornar mais longo este
relato foi tão simples como transcendental: esse factor invisível,
intangível e desconhecido tinha de ser aquilo a que a filosofia e as
religiões chamam alma. Pela primeira vez na história, a sua
constatação científica era um facto.
A Ciência, uma vez mais, vinha em auxilio da religião...
Como é fácil de imaginar, estas experiências não se limitaram
exclusivamente ao campo humano. Os cientistas, dominados pela
curiosidade quiseram pôr a claro uma velha incógnita: teriam os
animais alma, tal como a concebemos nós os seres inteligentes? E
as investigações estenderam-se a muitos outros seres orgânicos
unicelulares e pluricelulares -, incluindo vírus e compostos orgânicos
auto-reproduzíveis.
Os resultados foram desanimadores. Detectaram-se átomos
isolados de néon e xénon em muitos seres vivos e milhões de
átomos de gás hélio nos sinais dotados de estruturas nervosas
superiores. Houve mesmo um lampejo de esperança quando os
átomos de crípton apareceram nos mesmos encefálicos dos
inteligentes símios. Mas as suas nuvens, de crípton moviam-se
segundo a função probabilística habitual no resto dos átomos na
Natureza.
Não foi registado nenhum código. Persiste, portanto, a dúvida até
hoje: existirá uma alma nos seres biológicos não humanos?
Curiosamente, Jesus de Nazaré, sempre que se referiu à alma fê-lo
em relação directa com os seres dotados de inteligência e

vontade...
Após estas sensacionais descobertas as investigações adquiriram
um ritmo vertiginoso. Nas nuvens atómicas de crípton de cada
encéfalo humano foram localizadas as funções de três destes
átomos. Dois tinham um carácter emissor e o terceiro receptor. Os
primeiros são os responsáveis pelo envio de todas as informações
convenientemente codificadas que o sistema nervoso cortical pode
fornecer (1). Um pouco se transmitisse uma espécie de código de
morse para um pequeno emissor «o hélio».
Produz-se então o efeito cortical de ressonância entre a coroa
electrónica dos átomos de hélio e os de crípton e este, por sua vez,
volta a transformar o código recebiddo em outro de características
semelhantes, mas inteligível para a alma. Salvo as devidas
distâncias o átomo de crípton faria as funções de uma espécie de
receptor de televisão ou de rádio que recebe e emite para a alma,
numa linguagem que só ela conhece, tudo o que acontece no homem
e à sua volta.
Por seu turno os átomos receptores seguindo um processo inverso,
enviam ao corpo uma série de instruções procedentes da alma.
Essas mensagens são catapultadas dos átomos de crípton para
milhões de átomos de hélio, modificando-se os seus estados
quânticos de forma que irradiam um quantum de frequências
menores que as da luz (radiação infravermelha). A partir daqui,
outro tipo de órgãos nervosos também ainda desconhecidos pelos
fisiólogos -, que funcionam de maneira semelhante aos pares
termoeléctricos, transformam essas mensagens termomoduladas em
impulsos nervosos canalizados pelas redes neuronais.
Estes órgãos nervosos estão distribuídos nas áreas motoras de
ambos os lóbulos frontais; concretamente, nas zonas situadas atrás
e debaixo do grande sulco central. Como o Mestre costumava dizer:
«Quem tem ouvidos para ouvir, que oiça...» Voltando ao corpo
glorioso, do Ressuscitado, à maneira de resumo, eis o que se nos
oferece dizer dentro das tremendas limitações que isso implica.
1. Aquela estrutura, aparentemente humana, não estava sujeita
aos grandes constrangimentos da natureza humana terrena. Isso,
evidentemente, colocava-a em vantagem. As chamadas

necessidades fisiológicas básicas não contavam para ela.
2. Ao estudar todo o desenvolvimento das aparições, chegámos à
conclusão de que, por razões que nos escapam, a formação do dito
corpo experimentou diferentes e bem definidas fases ou processos
de materialização,, passando por etapas nebulosas,, cristalinas ou
transparentes nas quais o Mestre não permitiu que se tocasse e
de uma materialidade externa perfeitamente delineada. Nas primeiras
etapas digamos, de semiformação -, tais presenças provocaram
intensíssimos campos magnéticos (de cerca de duzentos mil
gauss), que, sem dúvida, foram responsáveis pelo arrasto das
espadas, taças metálicas, etc., no interior do Cenáculo. É impossível
comprovar se esses diferentes estádios do corpo glorioso de Jesus
correspondem a outras tantas formas de vida, independentes entre
si, às quais o homem pode ter acesso depois da morte, ou se, pelo
contrário, todas elas constituem um único e escalonado processo.
*1 Todas as imagens ópticas, acústicas, olfactivas etc.
Recebidas através dos neurónios ligados aos órgãos dos sentidos, procedentes dos
estímulos do mundo exterior, todas as imagens armazenadas na memória, todo o
desenvolvimento dos processos mentais, são remetidos por certas vias nervosas até
certos órgãos, ignorados ainda pela neurologia onde se produz uma reacção química
exotérmica que, ao libertar calor, excita o estado quântico de uma rede de átomos
livres de hélio. (N. Do M.).
3. Seja como for, o certo é que o estado terminal que nos foi dado
ver e examinar parecia estar orientado nas suas funções nobres e
básicas para algo que só o ser humano mortal pode sonhar e
ansiar: O CONHECIMENTO. Aquele supercérebro, dominando e
dominante, tinha de ser uma fonte incalculável de sabedoria, de
emoções e de sentimentos.
4. Se aquela como assegurou o Mestre era uma das formas de
vida depois da morte, devo confessar, humilde e sinceramente, que
já não temo essa passagem... E mais: rogo ao Pai Todo-Poderoso
que encurte os meus dias sobre a Terra e me permita comprovar
quanto sei e vislumbro. O medo de morrer, pela graça de Jesus de
Nazaré, foi superado. Que o Pai Universal o de todos o
abençoe...

23 DE ABRIL, DOMINGO
Tenho de o reconhecer. A nossa missão também se viu humilhada
por erros e fracassos. Alguns, como o daquele 23 de Abril, primeiro
dia da semana para os Judeus, poderia ter-nos custado muito caro.
Suponho que muitos desses problemas foram inevitáveis. Mesmo
assim, dada a natureza do nosso trabalho, não temos justificação.
Como se verá, um erro de rota ou uma simples falta de coordenação
podia originar uma catástrofe e até a morte dos exploradores.
Na realidade, eu só tive consciência do sucedido quando a tarde
já ia longa. Tudo começou nessa manhã...
Ao examinar o programa do dia, vimo-nos confrontados com um
difícil dilema: teriam terminado as aparições do Mestre na Galileia?
Sendo assim, quais eram os pensamentos e intenções dos
discípulos? Regressariam a Jerusalém? Os textos de Marcos e de
Lucas incluindo os chamados Actos dos Apóstolos referem um
duplo acontecimento que, evidentemente, não tinha ainda tido
lugar: a derradeira aparição do Senhor na Cidade Santa e a sua
ascensão (?) aos céus. Nos Actos (1,3 e 2,1) encontramos possíveis
pistas, em relação à data em que poderão ter sucedido tão
extraordinários acontecimentos.
A estes mesmos (aos discípulos) diz o versículo três do
mencionado primeiro capítulo dos Actos, se apresentou, depois da
sua paixão, dando-lhes muitas provas de que vivia, aparecendolhes
durante quarenta dias... Desde a madrugada de domingo, 9 de
Abril, dia da Ressurreição, até à segunda aparição no yam, tinhamse
passado dezoito dias. Se Lucas, presumível autor dos Actos,
estava certo, a última das presenças de Jesus e a sua enigmática
ascensão deveriam registar-se por volta de 18 de Maio. Esta data
era corroborada, implicitamente, pelo primeiro dos
versículos do capítulo dois do referido texto de Lucas: Ao chegar o
dia de Pentecostes... Quer dizer, concluído o período de cinquenta
dias que medeia entre a Páscoa e a referida festa das colheitas e
da renovação da Aliança.
Portanto, o dia da descida das supostas línguas de fogo (?) sobre

as cabeças dos discípulos era anterior à Ascensão.
Aceitando como correctos os textos sagrados (uma suposição
problemática, tendo em conta os erros e
contradições apontados), tudo isto significava que, a partir
daquele domingo 23 Cavalo de Tróia dispunha de trinta dias para o
remate da segunda fase da exploração. Um período de tempo
minuciosamente estudado em que, no entanto, as linhas mestras da
investigação deviam ajustar-se ao natural desenrolar dos factos.
Mas quais iriam ser esses acontecimentos? Os evangelistas, como
de costume são parcos nas suas narrações e esse lapso de um mês
estava em branco. A primeira medida a adoptar, evidentemente,
consistia em averiguar os propósitos dos íntimos. Agora a nossa
actuação, repito, dependia dos seus movimentos. Por exemplo: se
optassem por regressar de imediato à Judeia os planos teriam de
ser modificados. Um dos trabalhos a visita a Nazaré constituía
uma peça-chave na reconstituição da infância e juventude de Jesus.
De modo que, de mútuo acordo, considerámos que a minha
presença em Saidan era obrigatória e urgente. Além disso, a
questão da doença do pai dos Zebedeus continuava de pé.
Assim, com a frescura do amanhecer abandonei o módulo,
encaminhando-me em boa passada para a vizinha aldeia de
pescadores. O erro, fruto da pressa, consistiu em não coordenarmos
as nossas respectivas actividades para essa jornada. Eliseu foi
isso que eu percebi permaneceria no berço, entregue à
classificação, estudo e codificação do volumoso material científico
obtido na recente aparição do Rabi.
Quem iria imaginar que ele mudaria de ideias? Na bolsa de
oleado, depois de muito reflectir e puxar pela cabeça, incluí um
artefacto simples, destinado a resolver o problema auditivo de que
sofria o chefe dos Zebedeus: uma seringa auricular de ferro tosco,
de vinte centímetros de comprimento por cinco de diâmetro, dotada
de uma agulha oca, do mesmo material, apoiada por um êmbolo
maciço de madeira. O instrumento não chocava com os modos e
maneiras porque, à época, já se conhecia desde há muito tempo
este tipo de aparelhos. (Ebers 1550 anos antes de Cristo fala
de seringuinhas para lavagens muito comuns, por exemplo, no

tratamento de obstruções intestinais.) Eu devia tê-lo previsto.
Aquela movimentação de pessoas não era normal.
Provenientes da margem ocidental do lago, de Nahum e dos
caminhos do Norte