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sábado, 13 de agosto de 2011

Operação Cavalo de Tróia IV

OPERAÇÃO CAVALO DE TRÓIA 4
J. J. Benítez

É vital eu diria mesmo, imprescindível conhecer a infância e a juventude do Filho do Homem para nos aproximarmos da sua Verdade. É essencial o acesso aos anos
que precederam a chamada vida pública de Jesus . Só assim, com essa maravilhosa informação em nosso poder, poderemos valorar com alguma equidade a irrepetível
passagem do Filho de Deus pela Terra. A mais elementar prudência obriga-me a prevenír o leitor A julgar pelas centenas de cartas e mensagens recebidas
a partir da publicação dos volumes anteriores de Operação Cavalo de Tróia, sei que uma notável maioria não se sentiu magoada ou desconcertada com a leitura desta
inédita Vida de Cristo. Pelo contrário. Tal como no meu caso, este novo, mais humano e infinitamente mais próximo Jesus de Nazaré fez o milagre de cativar
os corações, apaziguando ansiedades, preenchendo lacunas e, principalmente, confirmando suspeitas e intuições. Este Jesus mais nosso fez-nos pensar, o que não
é pouco.
J. J. BENÍTEZ

O diário (Quarta Parte)

Devia ter pensado nisso. Depois de quase nove horas de uma viagem prolongada e cheia de incidentes, aquela paragem não era normal. Ao pisar a vereda poeirenta que
subia, íngreme, para a branca e próxima Caná, o optimismo dos peregrinos desfez-se em fumo, perdendo-se no céu tempestuoso e ameaçador daquela segunda-feira, 24
de Abril de 30. De repente, surgiu a tragédia. E quem isto escreve teve de enfrentar outro amargo transe...
Com toda a certeza, nada daquilo teria acontecido se o imprevidente Bartolomeu, em vez de interromper o passo desigual, tivesse continuado em direcção à sobranceira
e desejada aldeia, ponto final da sua viagem. Mas terá alguém o poder de modificar os desígnios da Providência? Dias depois, ao regressar ao módulo e submeter o
minúsculo disco magnético alojado na sandália electrónica ao processo
de leitura e descodificação, o Pai Natal, nosso computador central,
confirmou com minúcia escrupulosa o lugar exacto onde se verificou o
lamentável incidente: a dezanove quilómetros e quinhentos metros do
lago de Tiberíades.
No referido local, à vista da cidade onde nascera, Bartolomeu
(Natanael), numa muito humana e compreensível explosão de júbilo,
interrompeu as passadas curtas e vacilantes. Levantou os braços e,
deixando cair sobre os ombros as amplas mangas da túnica, mostrouos,
tão curtos quanto peludos e musculosos. Rodando nos calcanhares,
surpreendeu-nos com um dos seus sorrisos inconfundíveis: franco,
interminável, mas desfeado por dentes negros e cariados.
João Zebedeu, a Senhora e este explorador agradeceram a pausa
inesperada. E Bartolomeu, olhando para o céu, clamou em alto brado:
- Rodem as portas nos seus gonzos... tal como o preguiçoso na
cama... e tu, Caná, na dourada abundância... amo-te.
À medida que fui penetrando na vida daqueles homens conhecidos
por discípulos de Jesus a minha surpresa aumentava
desmedidamente. Natanael era o exemplo mais próximo.
Culto, filósofo e com um singular sentido de humor, acabava de dar

como seu um símile didáctico do Livro dos Provérbios, apossando-se dele
sem pudor. Contudo, não quero afastar-me...
Talvez fossem já quatro da tarde. O caso é que Maria, mãe de Jesus,
aproveitando o breve descanso, pousou a reduzida bagagem. Sabendo
que Caná estava próxima, num gesto tipicamente feminino, ajeitou e
alisou os generosos, negros e discretamente nevados cabelos. Soltou
um longo suspiro e, por casualidade, o verde-erva dos formosos olhos
amendoados foi descobrir alguma coisa naquele manso e dourado mar
dos trigais, à esquerda da vereda por onde seguíamos. Não hesitou.
E também não fez perguntas. Era assim o seu carácter: decidido e, em
certos momentos, perigosamente irreflectido. Esta maneira de ser da
Senhora tinha constituído uma quase permanente fonte de conflitos. Seu
Filho primogénito entre outros, como espero ir narrando, foi excepcional
testemunha de quanto afirmo.
Ao princípio, nem o satisfeito Zebedeu nem o eufórico Bartolomeu
prestaram muita atenção ao súbito afastamento de Maria. Porém, este
explorador, sempre atento, quase que em perpétua tensão, fascinado
por cada palavra ou movimento daquelas personagens, acompanhou-a
com o olhar, intrigado.
Com o seu passo nervoso, a Senhora chegou ao limite da seara.
Durante uns segundos permaneceu absorta num vibrante círculo de
flores, nascido ao abrigo das altas e prometedoras espigas de trigo.
Depois, segura da sua descoberta, deixou-se cair lenta e suavemente,
até os joelhos tocarem na argila vermelha. Habilmente, a sua mão
esquerda foi colhendo ramos de flores. Aproximou-as do rosto e,
fechando os olhos, aspirou profundamente. Como estávamos alheios à
iminência da tragédia! Num generoso desejo de compartilhar o seu
achado mostrou-nos o ramalhete de flores brancas.
- São lírios! - exclamou, em alvoroço.
A sua alegria era justificada. Aquele tipo de flor silvestre - shoshan,
segundo os textos bíblicos que cresce na Galileia e no monte Carmelo,
simbolizava a beleza. Naquele tempo, esta delicada e aromática flor
estava associada à boa sorte e a qualidades espirituais muito
particulares. O Livro dos Reis (I,7; 19-26), o Cântico dos Cânticos (2, 1-2)
e Isaías (35,1-2) entre outros, mencionam-na e enaltecem-na. O próprio

Jesus Cristo falou no seu especial significado (1). No entanto, nesta
altura, a descoberta do lilium candidum não foi presságio de boa sorte.
Muito pelo contrário.
Um sorriso foi a amável resposta do Zebedeu ao terno comentário de
Maria. Mas continuou a meu lado. Quanto a mim, estive tentado a
percorrer os três ou quatro metros que nos separavam da Senhora e
colaborar na recolha dos lírios. No entanto, Bartolomeu, como se tivesse
adivinhado as minhas intenções, tomou a iniciativa, precipitando-se para
a seara.
Livrou-se do incómodo manto ou chaluk e, feliz como
1 Ainda que os linguistas do século xx nunca tenham chegado a acordo quanto à
identificação desta flor tanto a havatzeleth ou rosa do Cântico dos Cânticos como
o açafrão do Livro de Isaías não eram mais que o lilium candidum, ou lírio branco:
um espécime de caule coberto de folhas, que termina num cacho de grandes flores
brancas orientadas horizontalmente e que vive quatro ou cinco dias. Mantêm-se
abertas noite e dia, embora o seu subtil aroma seja mais intenso no escuro. Os
dons e qualidades espirituais do lírio branco seriam reconhecidos oficialmente num
edicto papal do século xvII, vinculando a esta flor as representações pictóricas da
Anunciação.
Botticelli e Ticiano são dois excelentes exemplos. (N. Do M.)
uma criança, foi debruçar-se sobre as flores, colhendo não só os lírios
mas também as anémonas roxas e azuis bem como os abundantes
ranúnculos escarlates, que cresciam aos pares.
Tremo agora, ao imaginar o que poderia ter sucedido se me tivesse
antecipado ao romântico Natanael...
Preparava-me para interrogar o jovem Zebedeu quanto ao possível
destino de tão abundantes ramos quando, de repente, Bartolomeu
soltou um gemido abafado. Ergueu-se rápido, largando o ramalhete. E,
ante o assombro geral desembainhou o seu gladius, lançando uma
poderosa estocada contra o chão.
Entre os caules cortados, levantou-se fugaz uma pequena nuvem de
pó por cima das espigas, manchando a túnica branca do discípulo.
Maria, a dois escassos metros, empalideceu. João e eu olhámo-nos,
alarmados, sem compreender.
De tão violento, o golpe, vibrado com ambas as mãos, cravou o ferro
no barro. No entanto, em vez de recuperar a arma, Bartolomeu deu

meia volta e, vacilante, encaminhou-se para nós. Assustei-me. Os seus
olhos estavam muito abertos, vidrados, e a face, como a da Senhora,
tornara-se pálida.
Aterrorizado, estendeu as mãos para Zebedeu, numa muda súplica de
auxílio... Hoje, ao relembrar estas cenas e a sua carga de dramatismo
faço a mim mesmo a grande pergunta: Estávamos preparados para
uma viagem desta natureza? Mais ainda: é possível encontrar alguém
com tanto sangue-frio que se limite a observar, sem ceder à natural
inclinação de ajudar os seus semelhantes?
O nosso treino, quanto a isso não há dúvida, era excelente. Quem isto
escreve foi posto à prova durante as amargas horas da prisão, tortura e
execução do Rabi da Galileia. Mas, mesmo assim, as tentações e as
dúvidas surgiam a cada instante. Era este o problema. Pois bem, à vista
do que tivemos de viver naqueles segundo e terceiro saltos no tempo,
estou convencido de que, com a continuação, se estas viagens se
repetem, os frutos podem ser nefastos. O que aconteceu a pouco mais
de dois quilómetros de Caná e no resto da viagem foi um aviso. Para
que conste.
João ao compreender o problema, lançou-se para o assustado
Natanael. Também Maria acudiu em seu socorro. Quanto a mim,
perplexo e sem saber o que fazer, fiquei a meio caminho, agarrado à
vara de Moisés e, suponho, com uma perfeita cara de estúpido...
Mas, reparo agora, com desolação, que voltei a alterar a ordem
cronológica desta nova aventura. É preciso que este pobre e apressado
diário reflicta os factos tal como sucederam e, muito especialmente, pela
ordem rigorosa com que se manifestaram.
Assim tem de ser, para bem da verdade. Peço, pois, desculpa ao
hipotético leitor por estas convulsas memórias. Foram tantos e tão
sugestivos os acontecimentos que nos coube viver que, nesta ocasião,
tenho a imperdoável tendência de os alterar. E ainda que a minha
profissão não seja escrever, esforçar-me-ei por manter essa ordem
natural e imprescindível.
Como ia dizendo, esta utilíssima exploração foi feita muito pela
manhã. O desembarque na margem ocidental do yam, ao sul da cidade
de Migdal, efectuou-se com rapidez e extrema discrição. Os relógios do

berço deviam marcar as sete horas e quinze minutos...
Tomando a iniciativa, Natanael pôs-se à frente da expedição,
internando-se pela planície que nos separava de Hamâm.
Inspirei com força e, dirigindo um último olhar ao distante promontório
onde meu irmão esperava, coloquei-me logo atrás de João, fechando a
pequena escolta. Uma nova e excitante aventura acabava de começar.
Como narrei em devido tempo, entre as duas assombrosas aparições
do Ressuscitado nas margens do mar de Tiberíades, os seus discípulos
divididos, por causa da fogosidade de Simão Pedro acabaram por
contemporizar. Aguardariam o sábado, 29 daquele mês de Abril. Se a
terceira e discutida presença do Mestre não se registasse ao longo
desse sabbat, o próprio Pedro encabeçaria a missão de proclamar a
boa nova da Ressurreição e, segundo eles, da iminente chegada do
Reino.
Na jornada anterior domingo, 23 de Abril -, aquele que bem
depressa seria reconhecido como chefe de um sector do grupo
apostólico original cometera a ousadia de convocar a multidão que se
amontoava às portas da casa dos Zebedeus, em Saidan, para uma
magna assembleia, naquela mesma praia e à hora nona (três da tarde)
do referido sabbat!
- Então anunciou-lhes vos falarei com mais calma.
Pobre Simão. A sua surpresa, naquele dia e naquela multitudinária
reunião, seria épica.
A sorte estava lançada. E os discípulos, de comum acordo, optaram
por aproveitar aqueles dias de teórica inactividade para visitar as suas
esquecidas famílias ou, simplesmente, para se recomporem dos
recentes e dolorosos acontecimentos vividos em Jerusalém.
Esta circunstância, que Cavalo de Tróia não previra, viria enriquecer a
nossa missão, permitindo a quem isto escreve um acesso mais fácil à
aldeia de Nazaré. A magnífica oportunidade apesar dos seus perigos e
naturais dificuldades, podia abrir-nos um campo de que não
suspeitávamos no conhecimento dos anos ocultos ou supostamente
ocultos de Jesus. E a Providência, uma vez mais, foi generosa para
com estes esforçados exploradores...
Como julgo ter referido, João de Zebedeu ofereceu-se para velar pela

segurança de Maria durante aquelas jornadas. E eu aceitei, encantado,
o convite para os acompanhar. Quanto ao segundo discípulo,
Bartolomeu, tal como referi oportunamente, caminharia a nosso lado,
ficando na sua cidade de origem, Caná.
No regresso, previsto para sexta-feira, 28, Natanael esperaria a
nossa passagem obrigatória pela povoação dos seus antepassados,
regressando ao lago na companhia de Zebedeu e deste pagão, meio
adivinho meio negociante de vinhos e de madeiras, meio curandeiro...
Quanto à missão, a minha incumbência em Nazaré não apresentava
complicações especiais. Com extremo tacto, isso sim, teria de conseguir
juntar o máximo de informações, verificando até onde fosse viávelos
dados e documentação obtidos até essa altura. Não vou insistir. Não
discutirei se os chamados evangelistas acertaram ou não no seu
trabalho.
Quem leia este diário poderá julgar por si próprio. Do que tenho a
certeza é que uma autêntica contribuição à vida e à mensagem do Filho
do Homem exige, pelo menos, uma visão panorâmica de toda a sua
existência. Mutilar a encarnação de Jesus, oferecendo apenas os três
derradeiros anos da sua vida, é injusto e irresponsável.
Quanto nos foi dado averiguar sobre os seus primeiros trinta e dois
anos encontra-se tão cheio de interesse que, além de ser atractivo em si
mesmo, autoriza fiéis e não fiéis a desenhar nas suas mentes e corações
uma silhueta de Jesus de Nazaré infinitamente mais precisa, próxima e
esperançosa.
Se a filosofia de vida e a forma de ser de qualquer humano adulto
dependem em grande medida da sua educação e ambiente familiar, por
que motivo fazer excepção com um Deus que se fez igual ao homem?
Que singular simpatia experimentámos ao ver que aquele jovem
também conheceu a dor que se experimenta ante o falecimento de um
ente querido! Que emoção, ao saber dos seus apertos e dificuldades
económicas!
Que serena suavidade ao identificarmo-nos com as suas humanas
tentações, as suas crises e o seu despertar para a vida! Por que razão
os escritores a que imerecidamente se chama sagrados negaram às
gerações seguintes aqueles anos dramáticos em que Jesus, muito

lentamente, foi ganhando consciência da sua natureza divina? Porque
esquecer ou ocultar o transparente e formoso amor de Rebeca, a jovem
de Nazaré, por aquele rapaz? Isto e quanto o Pai Eterno e
Misericordioso achou por bem revelar-nos sobre a vida oculta de Seu
Filho não alterou a nossa visão do Mestre. Pelo contrário. Daí vem a
minha compreensível indignação com os evangelistas. Porém, é altura
de entrar no assunto.
Bartolomeu e João estugaram o passo. Era evidente que desejavam
afastar-se o mais cedo possível da margem ocidental do yam. O
segundo, inquieto, especialmente pelos recentes acontecimentos de
Saidan, procurava evitar qualquer tipo de encontro com as pessoas do
lugar. Entenda-se que aquela atitude esquiva nada tinha que ver com
medo. Nos momentos críticos, Zebedeu manifestara-se como um dos
mais valentes, acompanhando o Mestre até ao final. O problema era
outro.
Desde o princípio que, em aberta e azeda oposição a Pedro, se
inclinara para uma actuação mais cautelosa. Juntamente com André e
Mateus Levi defendera a opção da espera. Os factos eram tão
extraordinários, confusos e vertiginosos que, na verdade, requeriam
uma reflexão serena e profunda antes de se pronunciarem num ou
noutro sentido.
E, embora ninguém pudesse duvidar da sua fé inquebrantável no
regresso de Jesus à vida, esgrimindo uma louvável sensatez, Natanael
quis harmonizar-se primeiro com as ordens ou indicações do Rabi. E
estas, obviamente, não se tinham cumprido. O tempo lhe concederia
razão.
Em silêncio, depois de atravessarmos as gastas lajes de pedra da
calçada romana que facilitava as comunicações naquela região,
internámo-nos pela fértil planície que se alongava desde o desfiladeiro
das Pombas.
Natanael, nosso guia, velho conhecedor do terreno, arrastou-nos
durante quatro ou cinco minutos através de um labirinto de
veredazinhas, que delimitava e intercomunicava com uma não menos
complexa rede de hortas e de campos de lavoura, prolongamento, em
suma, do jardim de Guinosar, orgulho da Galileia.

Pouco depois, com admirável precisão, o discípulo de Caná
desembocava num caminho de uns três metros de largura, poeirento e
atapetado por pestilento regueiro de excrementos de cavalgaduras e
gado menor. Parei um instante. Como nas andanças anteriores pelas
costas de Cafarnaum e Saidan,
a localização exacta de referências geográficas na minha memória
vinha do interesse essencial por um mais seguro e eficaz
desenvolvimento da missão. E aquele caminho, pelo que pude deduzir,
seguia para sudeste. Provavelmente, a Via Máris, nas cercanias das
ruínas de Raqat, ou da altiva cidade de Tiberíades.
Uns dez minutos depois estávamos às portas do wâdi ou vale de
Hamâm, também conhecido por desfiladeiro das Pombas. Ali, a vereda
dividia-se em duas. Um carreiro, apertado e ao abandono, seguia para
a nossa direita, perdendo-se na direcção nordeste.
Na encruzilhada, para meu descanso e satisfação, erguiam-se dois
marcos de basalto negro brilhante. O que presenciei naqueles
momentos talvez não se revista de grande importância, mas não o
quero esquecer. Há momentos em que um simples gesto, como aquele,
tem mais força que todo um discurso...
Curioso... Apesar da sua longa associação com Jesus e dos excelsos
ensinamentos recebidos, a maior parte dos discípulos continuava a
alimentar um desprezo quase genético pelos Romanos. E não era
estranho que o manifestassem à menor oportunidade.
A questão é que, ao chegar à encruzilhada, Bartolomeu, sempre à
cabeça, abrandou o passo. O Zebedeu e a Senhora imitaram-no e,
depois de uma rápida inspecção, convencidos de que ninguém espiava
os seus movimentos, o primeiro dos discípulos voltou o rosto para os
marcos, lançando uma súbita e certeira cuspidela contra a pedra.
No primeiro momento, um tanto perplexo, associei aquele gesto pouco
edificante com algum dos hábitos do guia. Mas, ao ser testemunha de
uma segunda cuspidela, atirada desta vez por Zebedeu, o meu
desagrado transformou-se em curiosidade. Porém, depois disto,
recomeçaram a marcha.
Não precisei de explicações complementares. Ao passar na frente dos
marcos entendi a razão de tal comportamento. Cada uma daquelas

pedras vulcânicas, de um metro de altura, orientava o caminhante para
uma direcção muito concreta. Num deles, na rocha dura, fora esculpido o
nome de Tiberíades e os estádios que faltavam até à cidade: vinte e um
(aproximadamente quatro quilómetros e meio).
O segundo marco, indicando o ramal que serpenteava para nordeste,
avisava da proximidade de Migdal, situada a cinco estádios (cerca de
um quilómetro). Pois bem: embora os marcos e as sinalizações
pudessem ter sido trabalhadas setenta anos antes certamente na
época em que o rei Herodes, o Grande, conquistara aquela região -, por
baixo dos respectivos letreiros, uma mão hábil e, certamente, romana,
gravara a efígie de César Tibério, dono e senhor da província levantina
por onde caminhávamos.
Sorri no meu íntimo e, ajeitando às costas o cada vez mais incómodo
odre de água, apressei o passo, juntando-me ao grupo.
Dias mais tarde, Pai Natal faria as medições correctas. No entanto, se
não estava enganado nos meus cálculos, aquela primeira etapa (da
praia às portas do wâdi) fora apurada em mais ou menos quinze
minutos. Não estava mal, para uma milha.
Aquele, naturalmente, não era o caminho habitual entre Nahum e
Nazaré ou vice-versa. Ao utilizar a via marítima, e desembarcar ao sul de
Migdal, tínhamos evitado os oito quilómetros que separavam Nahum
(Cafarnaum) da cidade da Madalena.
Pois bem, ao entrar no wâdi Hamâm o passo abrandou consequência
lógica da elevação progressiva do terreno.
Devemos considerar que o nível do lago de Tiberíades, naquele
tempo, se encontrava na cota menos duzentos e oito metros e que, em
breve, nos situaríamos no nível do mar Mediterrâneo, ultrapassando-o
em mais de quarenta metros nas cercanias da aldeia de Arbel. E tudo
isto em questão de dois quilómetros e meio.
O cenário que então se abriu ante este emocionado explorador foi
surpreendente. As referências obtidas do ar não prestavam justiça às
quebradas. Numa centena de passos, a partir da encruzilhada, a
paisagem sofreu uma metamorfose dramática. O pomar que nos
recebera ao pisarmos terra firme desaparecera para dar lugar a
penedos afiados e altivos, de paredes verticais e nuas, ora violetas ora

douradas, que emergiam como sentinelas.
E a seus pés, até onde a Natureza fora capaz de trepar, bosques
densos e verde-negros de terebintos e carvalhos do Tabor. Ao fundo do
desfiladeiro, servindo-nos de milagroso guia, um caminho tortuoso, de
pó e de terra, que se tornara crusta com o decorrer dos anos. Uma
vereda que tinha de ser aberta e desbravada regularmente, ante o
avanço emaranhado do mato, impossível de se deter, regado com
generosidade por sussurrantes fios de água, vindos todos das alturas.
De vez em quando, nas voltas do caminho, bandos de pombos
levantavam voo, precipitada e ruidosamente, passando pelos canaviais
e pelos maciços de venenosas adelfas.
Preguiçosamente, com tédio, os açudes em que tinham sido
surpreendidos iam recuperando a sua transparência. O ruflar dos
pombos bravos alertava outras colónias de aves, que, por sua vez, em
brancos voos, despertavam, num eco interminável.
Por uma deliciosa loucura, os habitantes do desfiladeiro pesados e
negros corvos, fulminantes gaviões de caudas afiadas, azulados e
assustadiços, gorriões barulhentos e escrivães-cinzentos migradores
planavam de penhasco em penhasco ou de gruta em gruta, erguendose
sem esforço para o alto do pico que dominava a paisagem rochosa: o
har ou monte Arbel, de 389 metros de altitude.
1. Depois de vinte minutos de marcha desta segunda etapa, numa
das ladeiras mais acentuadas (com uma inclinação superior a quarenta
graus), Maria, suada e ofegante, soltou um pequeno grito, chamando a
atenção dos homens que vinham na frente.
Precisava de descansar e ganhar alento. Entre protestos, Bartolomeu
parou. Porém, o Zebedeu, compreensivo, desfez-se da mochila,
acorrendo, solícito, em auxílio da Senhora. Esta, sentando-se numa das
rochas que eram tão frequentes ao longo do caminho, agradeceu o
grande lenço que João acabava de lhe oferecer, enxugando o suor do
rosto e do pescoço. E eu, antecipando-me aos seus propósitos,
arranquei a tampa de madeira do odre, impermeabilizado com sebo e
alcatrão, e enchi a escudela que pendia da pele. Ao servir-lhe a água,
Maria, com um olhar cheio de doçura, esboçou um dos seus calorosos
sorrisos. Meu Deus! Logo o reconheci.

Aquele era o sorriso de seu Filho. Franco. Acolhedor.
Irresistível... E um calafrio deixou-me sem fala.
Os modos rudes de Natanael, exigindo a sua ração de água, fizeram
esquecer tão comovedoras recordações, devolvendo-me à realidade.
Apesar da sua falta de tacto, aquele discípulo possuía um coração nobre
e confiante. Pouco a pouco o iria descobrindo.
Nem Zebedeu nem eu bebemos água. Ele, suponho, porque não
precisava. Quanto a mim, como já expliquei, por rigorosas razões de
segurança.
No fundo, embora ninguém o reconhecesse abertamente, todos
agradecemos a paragem. E, durante alguns minutos, cada um
mergulhou nas suas preocupações pessoais. Uma ligeira e fresca brisa,
prelúdio do primaveril Maarabit, o vento que viaja diariamente do
Mediterrâneo ao lago, fazia oscilar os hissopos síros e as espadanas,
agitando os bosquezinhos de loureiros e perfumando o desfiladeiro com
o óleo volátil das suas folhas verdes e flexíveis.
Levantei os olhos. No céu, plúmbeo, as nuvens rumavam
apressadamente para leste. Contra minha vontade, fui de novo
assaltado por um sentimento familiar, mistura de saudade e subtil
melancolia. Como explicar tão paradoxal situação? Éramos
exploradores, observadores de outros tempos, com uma missão fria e
calculista: reunir as peças da história de um homem chamado Jesus
Cristo. No seu código, Cavalo de Tróia proibia a mais pequena fraqueza
dos seus navegantes. Era-nos exigido coragem, astúcia, uma notável
reserva de conhecimentos de todo o género e, em especial, coração de
gelo! Quanto é vã por vezes a inteligência! Ou será que se pode
encarcerar os sentimentos? Ali estava a prova. Por mais que lutasse, por
muito grande que fosse a minha capacidade de esquecimento, o
magnetismo daquele Homem estava a derrubar todos os códigos.
Tal como aqueles galileus, também eu sentia a sua falta... E por um
momento imaginei-o a avançar pelo wâdi, com a sua inconfundível
passada larga.
De repente qualquer coisa veio romper tão agradável descanso. Foi
tão inesperado quanto grotesco. Mas ajudou-me a conhecer melhor o
temperamento do praticamente desconhecido Bartolomeu.

Num voo súbito sobre as cabeças dos confiados andarilhos, uma ave
das rochas, deixou cair os seus brancos excrementos em cima de
Natanael, que dormia. O fulminante projéctil, que o atingiu em cheio no
ombro esquerdo, sujou-lhe o impecável manto de lã. Em segundos, o
grupo passou da estupefacção a um riso inocente e contagioso. João foi
o primeiro a explodir, arrastando na gargalhada a Senhora e quem isto
escreve.
Bartolomeu, congestionado pela ira, afastou-se da rocha a que estava
encostado e, levantando-se, percorreu com o olhar as paredes do
desfiladeiro, em busca da atrevida ave. Por um momento, o riso geral e
indisfarçável fez-me temer o pior. Mas o discípulo, aparentemente alheio
à hilaridade dos companheiros, continuou a agitar o punho esquerdo,
insultando toda a criatura que pudesse voar, com uma irreproduzível
enfiada de pragas e maldições.
Quando, finalmente, compreendeu a inutilidade de tal
comportamento, a sua cara gorda e saliente voltou-se para o chaluk
manchado. Os olhos negros e expressivos fecharam-se-lhe, ao mesmo
tempo que apertava o queixo e franzia o cenho, numa careta de
repulsa. As pestanas grossas e compridas oscilaram nervosamente. Por
fim, a sua atenção caiu sobre nós. Atónito, observou primeiro o riso
sufocado de João. Depois, percorreu com o olhar o pouco caritativo
grego que, para dizer a verdade, fazia árduos esforços para dissimular.
Por último, lançou uma mirada inquieta às lágrimas que molhavam o
rosto da Senhora consequência do forte ataque de riso -, e o bom
Bartolomeu cedeu. Obedecendo aos seus mais íntimos impuLsos, uniu-se
à alegria geral, soltando uma gargalhada que atroou pelo desfiladeiro,
de novo fazendo levantar voo os seus hóspedes alados. Para falar com
franqueza, senti-me aliviado. Assim era Natanael, um dos onze: franco,
indeciso, falho de tacto, indulgente e, acima de tudo, amigo dos seus
amigos. Nos modernos esquemas da tipologia de Ernest Kretschmer,
certamente teria sido incluído no grupo designado por pícnicoH, com alta
percentagem de temperamento ciclotímico
(1). juntamente com Tomé, era o de mais baixa estatura: cerca de um
metro e cinquenta e oito. Sofria de uma clara tendência para a
acumulação de gordura. O ventre avançado, como o de Simão Pedro,
era disso viva manifestação. Como bom pícnico, destacava-se pela

suavidade das linhas, esqueleto frágil, membros curtos e hirsutismo
(corpo muito peludo), que lhe valera a alcunha de Urso. Com o andar do
tempo, detectaria no seu organismo tensão arterial elevada e
hiperfunção supra-renal. O rosto, mais largo que alto, parecia-se com
um escudo.
Dele pendia uma barba de palmo, grisalha, frisada e aberta em
leque. Nos seus lábios carnudos e permanentemente humedecidos,
movia-se uma sensualidade extrema. Os olhos chamaram-me a atenção
desde o princípio. Imensamente negros e profundos, vinham equilibrar
os seus mal conservados trinta anos. O nariz, porém, rematava os seus
poucos encantos físicos. Malfeito e redondo como uma bola de golfe,
apresentava ligeiras dilatações dos vasos capilares. As suspeitas iniciais
ficariam confirmadas na terceira e apaixonante aventura: os inestéticos
angiomas estavam estreitamente relacionados com o desmedido apreço
de Bartolomeu pelo vinho...
Em contraste com a abundante e extensa pilosidade, uma calvície
prematura ganhava terreno no alto do crânio, desenhando enorme
coroa. Habitualmente, o Urso de Caná cobria o corpo com uma túnica
branca de lã, sempre imaculada, e um roupão castanho, de largas riscas
verticais, igualmente brancas. Durante o tempo que permaneci a seu
lado, a perna esquerda apareceu sempre ligada. Faixas de couro de
vaca, seboso e desbotado pelo uso, procuravam aliviar um problema
vascular antigo: veias varicosas (varizes), tão frequentes então como
hoje. (Segundo os nossos cálculos, pelo menos uns dez ou uns quinze
por cento da população adulta viam-se afectados por esta doença.)
1 Ainda que as classificações de Kretschmer tenham sido de grande utilidade
para a psiquiatria e a medicina em geral, é francamente difícil encontrar tipos tão
puros como os descritos na referida tipologia. Feita esta observação, vejamos o que
diz Kretschmer em relação aos indivíduos de temperamento ciclotímico,: São
pessoas de bom humor, que encaram a vida tal como ela é, naturais, abertas,
espontâneas, de amizades rápidas e fáceis, ternas. Têm acentuadas variações no
plano da diátese (humor), oscilando com facilidade da alegria à tristeza. Pela sua
boa capacidade de sintonização e de irradiação afectiva contagiam-se com
facilidade com a alegria e a tristeza dos outros, e, por sua vez, transmitem os
próprios sentimentos; porém, independentemente destas mudanças de humor, pela
sua constituição, tendem a manter-se desmotivadas. Quanto ao tempo, são
rápidos ou tranquilos, e sem grandes oscilações no plano da psico-estesia. O seu
carácter, extrovertido, comunicativo, e a irradiação afectiva facilitam-lhes

imensamente as relações pessoais e a adequada captação dos estímulos do
ambiente, pelo que são muito sociáveis e muito bem aceites pelos outros., (N. Do
A.)
Maria, prestável e conhecedora do proverbial asseio de Natanael, pôs
ponto final aos risos e ao incidente do pássaro atrevido. Como a maioria
das hebreias, estava familiarizada com as propriedades de muitas das
plantas que cresciam naquelas terras. Pôs-se de pé e, após rápido
exame à floresta, dirigiu-se a uma pequena moita de arbustos, de uns
oitenta centímetros de altura, de caules com nós abundantes, verdes e
carnudos. Arrancou uma mancheia e, pegando numa pedra, pôs-se na
frente da rocha onde estivera sentada. A uma rápida ordem sua,
Bartolomeu despiu o manto, estendendo-o em cima da rocha.
Servindo-se de algumas folhas de adelfa, Maria procedeu primeiro a
uma meticulosa limpeza. Partiu os talos aos pedacinhos, colocou-os
sobre a nódoa e, pegando na pedra com a mão esquerda, esmagou-os,
procurando não estragar o chaluk. Um suco leitoso brotou
imediatamente, cobrindo as manchas dos excrementos.
Concluída a operação de limpeza, o roupão foi devolvido ao
proprietário e a expedição lançou-se ao último troço do desfiladeiro.
Não pude evitá-lo. Movido pela curiosidade, examinei os restos da
planta utilizada pela Senhora. Tratava-se da salgadeira-branca, uma
espécie silvestre cujas cinzas, adequadamente tratadas com azeite,
davam origem ao borit ou bor: um sucedâneo do sabão, mencionado
em Jeremias (2, 22) com o nome de nitro (1).
Aquele último avanço pelo wâdi seria do maior interesse para este
explorador e, enfim, para os planos futuros da nossa missão. Como já
disse, meu irmão e eu tínhamos decidido forçar a sorte, embarcando
num terceiro salto no tempo, fora do programa estabelecido, a fim de
acompanhar o Mestre ao longo dos seus anos de pregação. Pois bem,
entre os preparativos para tão ambiciosa e arriscada odisseia figurava
um de vital importância: a escolha do local de aterragem, onde
esconderíamos o módulo. A escassez de combustível obrigava-nos a um
voo curto, que, em princípio, de acordo com os estudos feitos nas
imediações do yam, deveria ter como cenário a garganta por onde
caminhávamos agora.
Naturalmente, a nova base-mãe teria de ser previamente explorada.

No devido momento subiríamos ao cume escolhido, comprovando in situ
as características do lugar. Uma das nossas obsessões era localizar um
ponto de descida onde a passagem ou a presença de seres humanos e
animais fossem praticamente nulos. Mercê das radiações
infravermelhas, éramos invisíveis. No entanto, depois da embaraçosa
experiência vivida no monte das Oliveiras, com o jovem João Marcos,
todas as cautelas eram poucas. Por outro lado, o alcance da exploração
forçava-nos a uma drástica economia no consumo energético da nave.
Aquilo significava, entre outros condicionalismos, desligar os
*1 A citada passagem de Jeremias reza textualmente: Pois, mesmo que te laves
com nitro, por muita barrela que empregues, continuará marcada a tua iniquidade
perante mim. A salgadeira-branca salgadeira de Hammada ou Hammada
salicornicaconstitui uma das espécies da família das Quenopodiáceas. Em Israel,
cresce frequentemente junto das acácias. Nos mercados das actuais cidades do
Oriente é possível encontrá-la junto da anabasis, outro excelente produto para o
fabrico de potassa, que, por sua vez conduz à obtenção de sabão. A salgadeiranegra,
sua parente próxima, é mais abundante no Negueve, a ocidente da África
do Norte. (N.
Do M.)
diferentes escudos protectores, pelo menos durante as nossas longas
ausências. Em síntese: a segurança do berço, dos seus delicados
instrumentos e, em especial, dos seus pilotos exigia que a base-mãe
fosse inexpugnável. Se falhássemos, se o módulo fosse atacado e
destruído, o regresso ao nosso tempo teria sido inviável.
Permaneceríamos tragicamente ancorados numa época que não era a
nossa.
Ao efectuarmos os primeiros estudos, o monte Arbel, com os seus 181
metros acima do nível do lago, destacou-se como um dos firmes
candidatos para base do módulo. Teoricamente, nos mapas, parecia
oferecer-nos muito boas perspectivas: paredes escarpadas na quase
totalidade do seu perímetro apenas quilómetro e meio do cume às
margens do yam; uma equidistância aceitável com as cidades de
Tiberíades, e de Nahum e, aparentemente, um cume despovoado,
pedregoso e inculto. Mas, à medida que fui avançando para o sopé da
enorme mole algo que, obviamente, não figurava na nossa cartografia,
me fez duvidar.
Aquela parede, orientada a norte, além de uma vintena de cavernas,

apresentava outras tantas longas cordas, que caíam do cume, indo
morrer de modo estranho e certeiro, na escuridão das grutas.
Era evidente que alguém as utilizava, ou fizera uso delas, para entrar
nas já citadas cavernas. Aquilo não me agradou.
Disposto a não perder a oportunidade, pus-me ao lado de
Bartolomeu, interrogando-o quanto àquele cordame surpreendente,
agitado agora pela brisa de oeste. O discípulo, como se lhe tivessem
falado nalgum dos espíritos maléficos que, segundo então se pensava,
assaltavam os caminhantes nas ruínas ou à sombra de certas árvores,
carregou o semblante, resmungando um maldita seja tua mãe.
Retirando da bolsa que trazia suspensa do cinto um dos tefilin (um
pequeno estojo de couro negro, em forma de dado, de apenas três
centímetros de lado, ou amuleto, que se atava no braço esquerdo ou na
testa durante a oração) (1), tratou de o atar à volta da cabeça.
Fiquei perplexo, claramente magoado pela indelicadeza do galileu.
Pouco a pouco me iria habituando a esta maneira de ser para com os
pagãos. No fundo, a culpa era minha. O grau de superstição daquele
povo era tal que uma pessoa se via obrigada a pesar o mais ligeiro dos
comentários. E Natanael fiel à tradição religiosa do seu povo, entoou um
dos versículos encerrados no tefilin (o quinto do Salmo XII): Não terás
temor de espanto nocturno de seta que voa de dia.
Uma tradição, diga-se de passagem, que perdura ainda entre os
católicos, embora, logicamente, com uma intenção diferente. Se a minha
fatigada memória não me atraiçoa, este mesmo salmo reza-se ainda
hoje...
João, intrigado pelo murmurar de Bartolomeu, pôs-se a meu lado.
Contei-lhe o que acontecera e, sorrindo com benevolência, esclareceume
o motivo de tão aborrecida circunstância. A simples referência
àquelas grutas, infestadas de atalef ou morcegos (e, o que era pior, de
bandidos) podia chamar estes seres imundos, trazendo aos
caminhantes
*1 No interior destas cápsulas, utilizadas quase exclusivamente pelos varões
judeus, estavam encerradas tiras de pergaminho com as passagens de Esdras,
13,1-16, Deuteronómio 6, 4-9 e 11, 13-21. A colocação dos dois amuletos

- na testa e no braço esquerdo, perto do coração tinha um carácter simbólico:
Como memória e sinal. (N. Do M.)
todo o género de infortúnios (1). Compreendi a irritação de Natanael
e, simulando total desapontamento, roguei-lhe que desculpasse tão
ignorante e mau companheiro de viagem. O de Caná aceitou as minhas
desculpas, mas, recalcitrante, continuou com as suas rezas, apressando
a marcha. Bandidos? Aquilo, sim, era interessante. Zebedeu pôs-me ao
corrente.
Apesar das severas medidas adoptadas no seu tempo pelo rei
Herodes, o Grande (2), e depois pelo governo de Roma, contra os
salteadores de caminhos, o acidentado daquele wâdi e a proliferação
de grutas nas nuas paredes rochosas do desfiladeiro tornavam
extremamente difícil a expulsão dos bandidos. Algumas das quadrilhas
de nómadas sanguinários ou seminómadas, formadas, na maioria dos
casos, por escravos evadidos, deserdados da fortuna e sicários
provenientes das guerrilhas que regularmente se levantavam contra o
poder estabelecido, tinham feito o seu quartel-general nas profundezas
daquelas cavernas, ocupando-as ou abandonando-as conforme fosse
conveniente com o auxílio de cordas que eram lançadas do alto e que
as ligavam entre si. Este perigo latente, como é de supor, iria obrigarnos
a esquecer o cimo do har Arbel, bem como os restantes cumes que
davam forma ao desfiladeiro. A futura base-mãe deveria ser
estabelecida em local mais seguro. O problema era onde. A margem
oriental do lago, ainda que menos povoada, afastava-nos
demasiadamente dos núcleos humanos onde o Mestre actuara. De
reserva, havia uma segunda alternativa: um har de 138 metros do nível
do Kennereth o Ravid -, uns três quilómetros a norte do wâdi Hamam
e a pouco mais de oito, em linha recta, do promontório onde pousar o
módulo. Mas deixarei este assunto para mais tarde...
*1 O morcego mais pequeno, de cauda curta (Rhinopomia haidwic kei) é
mencionado na Bíblia em várias ocasiões: no Levítico (11,19), no Deuteronómio
(14,18) e no livro de Isaías
(2,20). Para o povo judeu era um animal imundo, fundamentalmente por causa
do seu cheiro pestilento. O facto de abundarem nas ruínas e cavernas, dormindo de
cabeça para baixo e caçando durante a noite, acabou por associar os morcegos
aos demónios e espíritos malignos, tão difundidos na crédula e supersticiosa
sociedade hebraica. Para aquela gente era incompreensível que este animal

pudesse voar nas trevas sem chocar em obstáculos. Esta habifidade -
asseguravam só podia ter origem demoníaca. Daí a ansestral repulSa pela
referida espécie. Naquele tempo, como agora, existiam em Israel umas vinte
espécies de morcegos, na sua maior parte de pequeno tamanho e insectívoros,
incluindo o Pipistrellus kuhli ou de cauda curta, que C. Tristam encontrara numas
pedreiras por baixo do Templo de Jerusalém e nas grutas de Adullam. (N.
Do M.)
2 O banco de dados do módulo iria proporcionar-nos uma valiosa documentação
neste sentido. Segundo Flávio Josefo (Antiguidades, XIV 15, 3-6 e Guerras I, 16, 4),
as grutas existentes no referido wâdi tinham desempenhado um papel relevante na
história de Israel, praticamente desde os tempos de Oseas. Pelo ano 39 antes de
Cristo, o então recém-nomeado rei da Judeia, Herodes, o Grande, empreenderia
uma intensa campanha de limpeza, destas grutas, infestadas por bandidos e
rebeldes. A meio de uma tormenta de neve, pouco habitual naquelas latitudes e
que foi descrita como enviada por Deus, o enérgico edomita abriu caminho para
sul. Primeiro, conquistou a cidade galileia de Séforis, enviando um destacamento à
povoação de Arbel. Mas, ante a coragem demonstrada pelos seus adversários, o
próprio Herodes teve de se colocar à frente do seu exército, defrontando assim a
gente de Arbel. Muitos, bons conhecedores do terreno, refugiaram-se nas grutas do
desfiladeiro. E Herodes teve de se preparar para um longo e difícil assédio. Estas
grutas, que se abriam para os precipícios, não tinham acesso directo e, para as
alcançar, o rei teve de recorrer a um perigoso estratagema. Do bordo cimeiro foram
descidas grandes caixas, reforçadas com ferro, cheias de gente armada brandindo
compridos ganchos com que agarravam os rebeldes e bandidos, atirando-os lá do
alto. Nas grutas havia muito material inflamável. Incendiando-o, facilitaram o seu
trabalho de destruição. Finalmente, o inimigo submeteu-se ao rei, mas outros
lançaram-se lá do alto, preferindo a morte à submissão. Estes ladrões foram
finalmente submetidos e, com isso, Herodes ganhou não só a boa vontade dos
habitantes da Galileia como aumentou ainda a confiança no seu governo. (N. Do
M.)
De acordo com a informação fornecida pela sandália electrónica, a
saída do desfiladeiro das Pombas verificou-se pelas oito horas e dez
minutos. Quer dizer, os dois quilómetros e meio desta segunda etapa
foram percorridos em quarenta minutos. O ligeiro atraso foi devido ao
declive abrupto e ao breve e acidentado repouso.
Ao deixar para trás as alturas de Arbel, Bartolomeu parou com as
suas rezas monocórdicas. Guardou o amuleto que lhe apertava as
fontes e aliviando o coração com um suspiro aparatoso, aproximou os

lábios de um sapinho de couro que permanentemente trazia pendurado
ao pescoço. Beijou-o e, esconjurando o perigo dos bandoleiros e
espíritos maléficos, encurtou o passo. Quando a confiança fosse mais
estreita, aquele discípulo de Jesus mostrar-me-ia, satisfeito, o seu
pequeno tesouro. O amuleto era feito de ovos de gafanhoto secos.
Como era de obrigação, dei-lhe a conhecer o meu amuleto, aquele que
João Marcos me oferecera em Jerusalém.
Naquele dia, ao partilhar os temores supersticiosos do Urso, acabei
por ganhar a sua amizade.
Aos nossos pés abriu-se então uma singular planície, em forma de
ponta de flecha, de uns quinhentos metros de comprimento. Toda ela, à
esquerda e à direita do caminho rectilíneo que a cortava, aparecia
coberta por mato rasteiro: uns arbustos de cinquenta centímetros de
altura, muito ramificados e entrelaçados. Ao fundo, na base do triângulo
verde e espinhoso, a aldeia de Arbel.
Natanael trocou umas frases com Zebedeu. Porém, dada a minha
posição, um pouco atrasada relativamente aos discípulos e à Senhora,
não consegui captar-lhe o significado. A uns quatrocentos metros, quase
no fim da vereda, avistava-se um grupo de indivíduos e de montadas.
Deduzi que os comentários podiam estar relacionados com as
personagens que tínhamos à vista. Mas, ai de mim!, voltaria a enganarme...
Ao aproximarmo-nos descobri um grupo de felah, o típico camponês
palestino, trabalhando na extracção e armazenamento dos arbustos
anões, que dominavam na planície. Os meus companheiros apressaram
o passo. Ao chegarem junto da meia-dúzia de homens responderam
com murmúrios às saudações da praxe. Receosos e fugidios, sem
voltarem as cabeças, deitaram pernas ao caminho, afastando-se para a
aldeia. Eu, como disse, caí em novo erro.
Curioso, parei na frente do grupo observando a sua faina. Com as
túnicas enroladas na cintura cingindo os quadris e as cabeças
cobertas por simples lenços acinzentados, vergados em triângulo e
presos por cordas de lã e pêlo de cabra, os trabalhadores felah
introduziam-se entre os arbustos com inacreditável habilidade,
arrancando-os incluindo as raízes com duas ou três enxadadas
certeiras. As plantas, da espécie Pimpinela Espinhosa, eram atiradas

para o caminho e metidas nuns enormes cestos de folha de palma, de
quase metro e meio de diâmetro, firmemente presos aos lombos de três
cinzentos asnos de Licaonia rebeldes e teimosos, os mais fortes
treinados para grandes distâncias. Às minhas perguntas, o capataz
desfez-se em explicações. Aquele espinheiro o Sarcopoterium spinos -,
que tivera oportunidade de ver nalgumas das casas e jardins dos
arredores da Cidade Santa, era muito cobiçado entre os Hebreus. Era
excelente para limitar uma propriedade ou como combustível. As folhas,
divididas em vários pares de folíolos dentados, davam um requintado
sabor à comida. Era, segundo entendi, uma das fontes de riqueza de
Arbel. A pimpinela era exportada para toda a Galileia, para Decápolis
e, naturalmente, para Jerusalém. Desejoso de agradar a estrangeiro
tão interessado, o chefe dos felah pôs-me nas mãos um punhado de
folhas verdes e aromáticas, replicando à minha gratidão com um a paz
te acompanhe no teu caminho.
Mas o meu contentamento ia durar pouco. Quando lancei os olhos
para o caminho, o coração deu-me um baque. Até onde podia distinguir
não via ninguém. Os meus companheiros de viagem tinham
desaparecido.
Como era possível?... Mal parara a conversar... A uns metros das
primeiras casas interrompi a incómoda corrida em direcção à aldeia.
O roupão e o odre de água não faziam mais do que dificultar a minha
já penosa situação. Hesitei. Cortava por dentro da povoação? Caminhei
uns dois minutos. Dali a pouco recuava, desmoralizado. O dédalo de
casebres e vielas era tão arrevesado que, na previsão de piores males,
me inclinei para o caminho mais seguro. Rodearia Arbel.
Ainda que meu irmão e eu tivéssemos prestado especial atenção ao
estudo da rota que devia levar-me a Nazaré, em momento algum
suspeitámos que eu tivesse de a fazer sozinho.
Naturalmente, apesar dos perigos que isso implicava, estava disposto
a tentá-lo. O mais prudente, no entanto, era viajar na companhia dos
discípulos. Tinha de os alcançar E supus que, dada a atitude refractária
a qualquer tipo de contacto com os habitantes da região, o mais
provável era que tivessem escolhido aquela mesma direcção, ou a
oposta; quer dizer, a que ladeava Arbel pelo flanco ocidental,
mantendo-me, assim à distância. Segundo os mapas e os dados obtidos

pelos especialistas do Cavalo de Tróia, o caminho habitual, do wâdi
Hamâm, descia para sul até se confundir com a estrada principal: a que
enlaçava Tiberíades com as regiões mais ocidentais do país.
No total incluindo a planície de pimpinelas, cerca de três quilómetros e
meio. Para começar consolei-me não era lógico que o Urso, nosso
guia, tivesse escolhido outro itinerário.
Apressei o passo, distanciando-me das choupanas miseráveis que
limitavam a aldeia a leste. Ao contrário das sólidas construções de
Nahum e de Saidan, o pouco que tinha visto de Arbel era deprimente.
Só por milagre aquelas casas de adobe avermelhado, com terraços de
palha e terra pisada, podiam fazer frente à estação das chuvas ou aos
embates dos poderosos ventos estivais.
As finas colunas de fumo negro que se elevavam em toda a parte
eram afastadas pelo pontual Maarabit, precipitando-se por pátios e
vielas, irritando as gordas matronas que faziam a sua lida à entrada
das primitivas moradas. Nos arredores, pelo terreno que pisava
baldio, pedregoso e eriçado de cardos -, uma miudagem andrajosa, de
cabeças rapadas e cheias de piolhos e de pústulas, perseguia e
mortificava com paus e agulhões uma parelha de onagros: uns asnos de
pescoço curvo, orelhas longas e espetadas e vistosas crinas castanhas
que flutuavam e se prolongavam até à cauda.
Com as patas dianteiras peadas por cordas, estes vigorosos
quadrúpedes lutavam por se distanciarem dos pequenos e barulhentos
diabretes, escoiceando de cada vez que um dos miúdos lhes martirizava
os quartos traseiros com os cardos ou as irritantes urtigas.
Ao alcançar o limite da aldeia, outro contratempo veio piorar a
situação. A vereda que nos guiara através da plantação de pimpinela
espinhosa surgiu clara, ziguezagueando, realmente, para sul. Mas, ali
mesmo, correndo em igual direcção sul e também para o lago,
começava uma densa colónia de centenárias oliveiras que
impossibilitavam a observação.
Esquadrinhei o poeirento caminho até onde foi possível, na esperança
de localizar os meus desaparecidos companheiros.
Tive de desistir.
Junto de uma daquelas soberbas e ramalhudas oliveiras, de quase

cinco metros de altura, um ancião e várias mulheres trabalhavam sobre
um espesso e fétido colchão de esterco.
Aventurei-me a interrogá-los. O velho, de cócoras, com os pés
enterrados na massa pestilenta, tratava de encher uma série de largas
e pouco profundas escudelas de barro. Misturava previamente a
matéria orgânica com palha, comprimindo-a depois nos recipientes. A
seguir, as mulheres empilhavam os pratos, à espera que secassem por
completo. Em questão de dias, se o tempo ajudava, o esterco
transformava-se numa torta rígida e compacta, muito útil como
combustível.
O galileu fez um aceno negativo de cabeça. Nem ele nem as hebreias
tinham sido testemunhas da passagem dos três caminhantes. A
circunstância de se encontrarem junto da vereda, praticamente desde o
amanhecer, mergulhou-me numa confusão total. Quer passassem por
dentro de Arbel quer a contornassem, aquela gente teria de observar a
sua presença.
Confuso e desalentado, tentei pôr em ordem os meus pensamentos.
Que podia eu fazer?
Analisemos a situação, disse de mim para comigo. A Senhora e os
discípulos evaporaram-se. Com um pouco de sorte, os trinta quilómetros
que me separam de Nazaré podem ser percorridos em quatro ou cinco
horas...
Encostado a um rugoso ramo de uma das oliveiras, com Arbel nas
minhas costas e a inquietante incógnita pela frente, vacilei
perigosamente. Voltava ao lago, para junto de Eliseu? Ia perder aquela
oportunidade? Meu irmão teria aprovado a prudente decisão. Curtiss
não era favorável às longas marchas solitárias.
Mas não... Resolvido a concluir a missão , toquei na extremidade
superior da vara de Moisés, onde se encontrava o dispositivo que
accionava os ultra-sons. Tinha de confiar. A minha protecção, pelo
menos em teoria estava perfeitamente calculada. Inspeccionei os
crótalos, pus-me de pé e, enchendo os pulmões com o perfume fresco
das pequenas flores brancas que alegravam o azul-esverdeado do
olival, lancei um olhar cauteloso à vereda que me esperava.
Não tinha tempo a perder... Além disso..., dizia-me a intuição que,

mais tarde ou mais cedo, me reuniria com os meus amigos. Mais tarde
ou mais cedo? Naquele preciso instante, prestes a partir para o
desconhecido, a Providência teve piedade de mim. Uma mão caiu-me
com força no ombro esquerdo. A reacção foi uma intensa descarga de
adrenalina. Voltei a cabeça com lentidão, preparando os músculos para
uma possível emergência.
Mas o suposto agressor recebeu-me com um sorriso familiar. E os seus
olhos negros iluminaram-se. Era João de Zebedeu...
Olhei-o, perplexo. A uma centena de passos distingui a frágil silhueta
de Maria e o passo bamboleante do Urso. Vinham de Arbel.
- Que aconteceu?... - gaguejei, tão admirado quanto contente.
O meu jovem amigo indicou-me a Senhora e, em tom displicente,
replicou:
- Coisas de mulheres... Nenhuma passa pela aldeia das redes sem
comprar um tule... Estávamos preocupados. Onde te meteste? O
incidente ficou resolvido quando Maria, radiante, obedecendo aos
pedidos de Zebedeu, me mostrou um embrulho alongado, de uns trinta
e cinco centímetros de comprimento.
Dentro, descobri uma rede meticulosamente dobrada, confeccionada à
base de linho. Os fios tinham uma suave tonalidade castanhoamarelada
do linho velho. A rede estava presa com uma corda
entrançada com filamentos de palmeira, de uns seis milímetros de
espessura. O trabalho era excelente.
Tanto as malhas, de cerca de quarenta milímetros, como o
entrelaçado dos fios (três principais, muito enrolados) denotavam labor
hábil e paciente. Este tule de mulheres, na linguagem popular, era muito
apreciado pelas hebreias, que o destinavam, principalmente, a segurar
o cabelo.
Com efeito, Arbel com os seus escassos mil habitantes, ganhara uma
popularidade notável, mercê da sua próspera indústria de cordoaria e
da fabricação de todo o género de redes, incluindo os complementos
necessários para as fainas de pesca dos seus navios do yam: lastros
de pedra e de barro, bóias de madeira e de casca de árvore e agulhas
de osso, sicómoro e metal, para remendar as redes. Neste sentido,
Nazaré reservava-me uma curiosa e imprevista surpresa.

Durante boa parte daquela, para mim, terceira etapa da viagem,
Natanael não parou de resmungar. A meia hora que se perdera em
Arbel, por motivo tão fútil, exasperara-o. Hoje, os cristãos têm uma
imagem muito distorcida dos chamados apóstolos de Cristo. Para dizer a
verdade, estas ideias que elevam estes homens a absurdas cotas de
santidade, compreensão e benevolência estão cimentadas em
tradições tão posteriores quanto falsas. A realidade quotidiana era
outra.
Naquele tempo, incluindo os irmãos Zebedeus, que conheciam e
estimavam a família de Jesus havia muito, os outros valorizavam e
ajuizavam as mulheres pela mesma bitola da generalidade da
sociedade judaica. Julgo ter explicado: a mulher era uma criatura de
segunda ordem, mentirosa por natureza e sempre submetida à
autoridade do varão. E Maria, apesar da sua condição de mãe terrena
do Mestre, não se via livre dessa lamentável servidão. Também é
verdade que, dado o seu fortíssimo temperamento, os discípulos
procuravam não a contrariar. No entanto, no caso de que falamos, o
talante intransigente de Bartolomeu foi mais forte, originando uma
azeda e estéril discussão.
A Senhora, que poucas vezes aceitava uma recriminação em especial
se a achava injusta ou em tom injustificado procurou argumentar. Mas
o urso de Caná, com a sua habitual falta de tacto, continuou nos seus
argumentos, considerando Maria frívola e desmiolada. Para o Zebedeu,
como disse, estas discussões não tinham importância.
E alheio à zanga, com um mais acentuado sentido prático do que o
seu companheiro, apressou o passo, puxando pelo grupo e procurando
recuperar o tempo perdido. Felizmente, a meio caminho, por entre as
oliveiras, vimos aproximar-se uma estafada parelha de burros,
carregada com enormes fardos, que a cada momento batiam nas
ramagens. João parou, trocando algumas palavras com os três
indivíduos que tocavam e guardavam os animais.
O encontro foi providencial. Bartolomeu, esquecendo a aborrecida
questão da rede, entrou na conversa e Maria, prudentemente, pôs-se
de lado. Eram vizinhos de Séforis, a capital oficial e administrativa da
Galileia. Como almocreves uma das profissões mais vulgares naquela
região montanhosa e acidentada -, cumpriam a tarefa de transportar

uma substancial carga de linho, recentemente colhido, à localidade de
Arbel. Os caminhos estreitos e pedregosos da maior parte de Israel
tinham convertido o burro no meio ideal de transporte.
Muitos camponeses e pequenos ou médios artesãos, ante a
impossibilidade de levar os seus respectivos géneros ao mercado,
alugavam os serviços destes almocreves, que, frequentemente, se
uniam entre si, constituindo florescentes empresas. O desenvolvimento
deste comércio foi tal que, a fim de evitar lógicos abusos, os rabinos se
viram na necessidade de legislar até os mais ínfimos pormenores.
O custo do transporte variava consoante o tipo de terreno, as
distâncias ou a natureza da carga. Naturalmente, os riscos da profissão
obrigavam-nos a viajar armados. Era este o caso dos três galileus com
que tínhamos deparado. Cada um deles trazia na faixa uma espada
curta um gladius e punhais de uns trinta centímetros, com punhos de
osso, lavrados ao estilo egípcio.
Durante o breve diálogo, discípulos e almocreves interrogaram-se
mutuamente. Ambas as partes desejavam saber se o caminho
percorrido por uns e por outros até ali estava livre de perigos.
Pelo que parecia, o caminho para Caná e Nazaré não oferecera
problemas para os de Séforis. O único e desagradável tropeço
avisaram os almocreves tinha sido uma patrulha romana a cavalo
(uma turma). E os cinco galileus, segundo um velho ritual, escarraram
simultaneamente. Tínhamos de estar prevenidos.
Procurando não perder pormenor algum da conversa fui-me
aproximando de uma das cavalgaduras, com o fim de examinar os
grandes volumes de plantas. Efectivamente, tratava-se do linum
usitatissimum, uma das duzentas espécies do género linum, muito
espalhado na Baixa Galileia e, como teria ocasião de verificar na devida
altura, fonte importante de riqueza para Séforis e sua região.
A fibra não tanto a semente, muito rica em óleo era aproveitada
para a confecção de tecidos e de cordas. A Senhora, hábil tecelã, iria
surpreender-me com as suas habilidades na altura de manipular esta
erva anual, de cinquenta centímetros e deliciosas flores azuis.
Concluída a troca de informação, cada grupo prosseguiu o seu
caminho. O nosso, com os animais mais tranquilos, dispôs-se a deixar

para trás a escassa milha que nos separava do caminho principal. O
terreno, no qual prosperava o olival, foi subindo paulatinamente, até
alcançar a cota duzentos. Foi ali que, pela primeira vez, tive a
oportunidade de avistar ao longe a uns dois quilómetros os célebres
Cornos de Hittim, umas mesetas, mais que picos, de 534 metros de
altitude.
Alguns autores e estudiosos modernos das Escrituras associaram
estas crateras extintas com duas passagens da vida de Jesus.
Aqui, dizem pode ter-se dado o famoso Sermão da Montanha, bem
como o milagre dos pães e dos peixes. Nos dias de hoje, os guias
mostram aos viajantes e turistas a chamada rocha do cristão, que se
julga ter servido de mesa a tão memorável acontecimento.
E ainda que o senso comum me ditasse que tais tradições não podiam
gozar de muito fundamento, abordei Zebedeu, interessando-me pelo
assunto. João escutou-me, atónito. E replicou com uma razão
esmagadora: Essas paragens estão amaldiçoadas. A partir da
Primavera, o ar fica insuportavelmente quente, as fontes secam e a
terra greta.
E concluiu: Só as serpentes fazem ninho... Era claro. Os referidos
episódios da vida pública do Mestre tinham sido removidos dos locais
geográficos autênticos onde haviam ocorrido: Estes exploradores foram
testemunhas de excepção de ambos os acontecimentos e estamos em
condições de afirmar que tudo se deu nas margens do yam.
O segundo destes factos a multiplicação dos pães e dos peixes
registado ao sul da cidade de Betsaida Julias, abalou-nos... Mas terei
força e saber bastantes para narrar tão prodigioso sucesso? Minutos
depois da hora terceira (as nove da manhã), chegámos ao fim da
estrada principal: a que ligava Tiberíades com a região ocidental de
Israel, pondo em comunicação o mar do Kennereth com Megiddó e a
planície de Esdrelon (2). Apesar da sua largura (uns cinco metros), a
referida via não era melhor do que as veredas precedentes. O intenso
trânsito de homens e caravanas tinham-na descarnado. O piso, de terra
batida, apresentava um interminável tom enegrecido, fruto das
necessidades dos animais. Era uma pena que os hábeis construtores
romanos tivessem desprezado aquela importante artéria. Uma estrada
procurei não o esquecer por onde tinha caminhado o Mestre em

muitas e muitas ocasiões.
Não me cansarei de salientar as excelências daquela região.
*1 João de Zebedeu tinha razão. Basta lembrar o acontecido muitos séculos
depois, em Julho de 1187. Nestas mesetas registar-se-ia um dos maiores desastres
dos Cruzados. Os Cornos de Hittim foram conquistados depois de numerosas e
ferozes batalhas e conservados pelos cristãos durante quase cem anos. Porém, no
século xII, o lendário Saladino fez frente ao rei Guy de Lusignan, derrotando-o, no
sopé de Hittim. Em parte, a derrota dos Cruzados foi devida às duras condições
atmosféricas. A escassez de água e o calor tórrido minaram as forças dos cristãos,
que tiveram de recuar para os lugares onde, finalmente, foram vencidos e feitos
prisioneiros. Muitos dos cavaleiros templários e hospitalários seriam executados e
Raynold de Châtillon, senhor de Kerak, morto à espada pelo próprio Saladino. (N.
Do M.)
2 Nos tempos de Cristo, a Palestina era, em si mesma, uma autêntica
encruzilhada de caminhos internacional em especial entre os povos do Norte e do
Leste (Mesopotâmia) e os do Sul (Egipto). Para atravessar o país existiam então
cinco grandes rotas, muito ramificadas entre si. Isto explica só em parte
- a peregrinação de Jesus por todo o território. Em primeiro lugar, a estrada da
costa que unia a Fenícia com o Egipto.
Seguindo a linha do mar, atravessava Gaza, Áscalon, Ashdod, Jopé (Jaffa) e
Cesareia. Rodeava o monte Carmelo, perdendo-se para norte (Líbano). Em Acre
surgia um ramal que descia para os montes da Galileia, passando a escassos
quilómetros ao norte de Nazaré. Dali continuava para a região da Decápolis, a
leste, morrendo na cidade helenizada de Citópolis, nas margens do rio Jordão. A
segunda artéria, uma das mais destacadas, era a chamada Via Máris ou
Hcaminho do mar, que ligava o Egipto à Mesopotâmia. Trata-se, provavelmente, de
um dos caminhos mais antigos do Mundo. Partia de Jopé, atravessando a planície
de Sharon por Antípatris, até Pirathon. Aqui dividia-se em três.
O primeiro ramal subia para norte, a oriente do Carmelo, para se fundir com a
artéria da costa, em Acre. O segundo, na direcção noroeste, procurava a cidade de
Megiddó, internando-se pela fértil planície de Esdrelon, muito perto também de
Nazaré, para morrer finalmente nas proximidades de Magdala e Tiberíades, nas
margens do yam. Era esta a via pela qual avançávamos naquele momento. O
terceiro ramal era um caminho alternativo, quase obrigatório na época das chuvas,
quando a planície de Esdrelon se transformava num extenso lamaçal. A partir de
Pirathon entrava pela planura de Dothan, até Engamnin, atravessando depois o
vale de Jezreel, para se unir por último ao segundo ramal, muito perto do monte
Tabor.
Uma vez na margem ocidental do Kennereth, como já foi explicado, esta Via
Máris rodeava o yam, passando às portas de Nahum. Dali rodava para Carazim,

perdendo-se ao norte, rumo a Damasco.
Em terceiro lugar encontrava-se a estrada central: a que se aventurava pela
cordilheira de Samaria. Nascia no Egipto, entrando em Bersabé, o Hébron e a
Cidade Santa. Aqui se bifurcava. Uma vereda passava junto de Gibeon Beth-Hovon
e Lydda, alcançando a costa em Jopé. Desta forma ligava o mar Mediterrâneo a
Jerusalém. A segunda vereda enfiava pelo norte, por Beeroth, até se unir à Via
Máris, em Antípatris.
Em quarto lugar, dispúnhamos da estrada do Jordão. Partia de Jerusalém e
deixando para trás Jericó, seguia muito perto da margem ocidental do grande rio,
até chegar ao mar de Tiberíades, ao sul. Dali, pela margem ocidental do yam, uniase
também à Via Máris. Por altura de Citópolis (a actual Beth-Shean) ramificava-se
noutra vereda que atravessava a Baixa Galileia, até Acre. Este caminho era muito
útil nas ligações entre a Decápole e a Fenícia.
Por último, a quinta rota era conhecida como o caminho do deserto. Nascia em
Jerusalém, atravessando parte do deserto de Judá a Jericó. Dali cruzava o rio
Jordão e, pelo vale de Achor, chegava a Abel Shittim. Prosseguia para norte,
relativamente próximo da margem esquerda do rio, atravessando um dos seus
afluentes: o Jabbok, nas proximidades de Adam.
Passava por Gibeah e mesmo na frente da cidade helenizada de Citópolis
cruzava o Jordão pela segunda vez, unindo-se à estrada do vale.
A estas cinco artérias principais havia que acrescentar uma complexa e muito
danificada rede de veredas, pistas e caminhos secundários. (N. Do M.)
A Galileia de hoje é um pobre reflexo da que nos coube percorrer
naquele tempo. Mesmo o cântico do exagerado Flávio Josefo sobre a
referida terra é incompleto e pobre. Acontecia o mesmo com o caminho
que escolhera. Os campos, vales e encostas encontravam-se cuidadosa
e exaustivamente cultivados.
Ao deixar para trás o imenso olival surgiram na minha frente, à direita
e à esquerda da estrada, a perderem-se na distância, densas searas de
trigo e cevada, amadurecida a primeira e preparada para a ceifa a
segunda. E mais além dos ondulantes trigais, coroando colinas, novos
olivais, perfeitamente alinhados, que esfumavam o vermelho barrento
do terreno. No horizonte, acima do nível dos trezentos metros, as
benfazejas copas verde-azuladas dos bosques de carvalhos,
alfarrobeiras, terebintos e pinheiros de Alepo.
Era esta uma das chaves da magnificência da Alta e da Baixa Galileia:

os inumeráveis e espessos bosques, nos quais sobressaíam três
espécies de robles (dois pertencentes ao vulgar sempre-verde e o
gigantesco, antigo e venerado roble do Tabor). O regime combinado de
chuvas mais abundantes entre Outubro-Novembro e Março e a fiel e
artesanal química das massas florestais propiciava todo o género de
mananciais e correntes subterrâneas que os naturais souberam tornar
seus. As neves acumuladas na cadeia montanhosa do Hérmon (Líbano
de hoje) situada a cinquenta e três quilómetros da primeira foz das
duas do Jordão, no lago de Tiberíades, constituíam um tesouro seguro
e sem preço, de que beneficiava toda a região.
Ao contrário da Judeia, cuja pele era o deserto, a Galileia dificilmente
soube o que era seca e fome. Estas circunstâncias como escreve
Josefo atraíam, até, os menos amantes do trabalho. Os números
falam só por si. Em vida do Mestre, aquela região de cento e onze
quilómetros (de norte a sul) por cinquenta e cinco (de leste a oeste)
agrupava um total de quinze cidades fortificadas e duzentas e quatro
aldeias, com uma população total que se aproximava dos oitocentos mil
indivíduos. A qualidade da própria terra (pesada, de grão fino e com
excelente capacidade de absorção de água) e o engenho dos
camponeses fazia o resto.
Enfim, foi este o cenário em que cresceu e agiu o Filho do Homem:
uma Galileia dourada, com vales abrigados e planícies extensas em que
o olival ia a par com o trigo, a cevada, a escândea e o sorgo. Uma
Galileia verde, onde a cultura intensiva, as hortas e as árvores de fruto
fizeram com que Jacob exclamasse: Aser, o seu pão é saboroso: fará as
delícias dos reis. A doçura dos seus frutos era tal que chegaram a ser
proibidos em Jerusalém durante as três grandes peregrinações anuais.
E, por último, uma Galileia azul, nas margens do yam...
A invejável riqueza da Galileia e a sua estratégica situação
geográfica, nó górdio dos caminhos que iam ou vinham da
Mesopotâmia ao Egipto e de Filadélfia ao Mediterrâneo, trariam consigo
duas realidades indiscutíveis, que não posso nem devo passar por alto.
Duas circunstâncias que, na minha modesta opinião, incidiram e de que
maneira na personalidade humana e no carácter de Jesus de Nazaré.
Refiro-me, em primeiro lugar, ao intenso intercâmbio de povos, culturas
e costumes, do qual, em todos os aspectos, beneficiou a Galileia.

Em segundo lugar, quase como um prolongamento do anterior a
liberalidade que este rio de gente fez germinar nos corações dos
Galileus. Insisto: estes factores marcaram profundamente o pensamento
terreno de um Homem que conviveu durante quase vinte anos com
caravanas provenientes dos quatro pontos cardeais. Este incessante
trânsito, o correr do dinheiro e o carácter hospitaleiro e receptivo dos
autóctones, que não hesitavam em se ligarem com os impuros pagãos,
traria à Galileia a depreciativa designação de círculo dos gentios.
Ali trabalhava, se divertia ou fazia um alto no caminho todo o género
de raças tírios, helenos, sidónios, egípcios, negros africanos, romanos,
babilónicos, judeus e uma convulsa legião de nómadas de leste com os
seus respectivos deuses, superstições, línguas e hábitos. Ao reconstruir
as sucessivas etapas infância, juventude e maturidade da existência
do Rabi da Galileia fomos compreendendo a decisiva influência
*1 Ainda que Josefo, ao falar da Galileia, garanta nos seus escritos que cada
uma das povoações não tinha menos de quinze mil habitantes, a verdade é que tal
afirmação é inaceitável.
Se dermos como certos os cálculos do general judeu romanizado, a Galileia teria
abrigado uma média de trinta mil almas por metro quadrado... Por outras palavras:
uma população de três milhões e seiscentas mil pessoas. (N. Do M.)
deste ambiente cosmopolita e aberto na sua educação e,
principalmente, na sua forma de ajuizar os pensamentos e o
comportamento dos seres humanos. Que fraco contributo o dos
evangelistas, ao não mostrarem ao mundo a realidade diária em que
cresceu o Filho do Homem! Os cristãos caem na tentação de imaginar
um Jesus menino ou adolescente, praticamente enclausurado e retirado
do mundo, submerso nos estreitos e remotos limites de uma aldeia
chamada Nazaré. Nada mais distante da realidade...
Mas esta promiscuidade entre israelitas e estrangeiros provocaria
também um raivoso e geral repúdio entre os judeus do Sul (a Judeia).
Rabinos e homens de rigorosa observação da Lei de Moisés viviam num
permanente escândalo em relação aos costumes e à tolerância dos
Galileus. Aqueles vangloriavam-se do seu puritanismo, qualificando os
seus vizinhos do Norte de impuros, incultos e provincianos, incapazes,
até, de falar correctamente. A soberba dos judeus meridionais era tal

que, entre os membros do Grande Sinédrio, se repetia com frequência.
Nunca da Galileia veio profeta. Estas relações tensas foram, enfim, o
terreno adubado pelo ódio em que teve de mover-se o Nazareno e,
naturalmente, o seu grupo.
Aquele susto foi um providencial aviso. O que se dera na plantação de
pimpinelas não devia repetir-se. E assim, pelo menos até à entrada em
Nazaré, tomei a firme decisão de ser extremamente prudente. Durante
a caminhada, limitar-me-ia a observar. Ao fim e ao cabo, era esse o
meu trabalho. E tinha de o executar, evitando toda a intromissão
naquele agora histórico que não era o nosso. Complexo objectivo, na
verdade.
Os incidentes nos quais me vi envolvido colocariam esta rígida norma
da operação perante um espinhoso dilema. Mas prosseguirei com o
relato do acidentado caminhar para a aldeia do Filho do Homem.
Segundo os meus cálculos, Caná encontrava-se a pouco mais de
quinze quilómetros. Como já disse, ali nos deixaria Bartolomeu. E
sozinho, atrás, concentrei-me na memorização de quantas referências
nos poderiam servir em futuras explorações. Se o projectado salto no
tempo chegasse a consumar-se como aconteceu este caminho e as
já referidas Caná e Nazaré converter-se-iam nos habituais cenários das
idas e vindas de Jesus e seus discípulos. O conhecimento do terreno que
pisava portanto, tinha de ser o mais exaustivo e preciso possível.
Na sua quase totalidade, a quarta etapa, oferecia um caminho
cómodo e apertado entre grandes searas. A campina corria livre e
dourada, rodeando os quatro montes vigilantes nos sete quilómetros
que formavam este novo troço. Estas consideráveis elevações todas
superiores a quinhentos metros apresentavam uma curiosa simetria.
Num capricho da Natureza constituiam um quadrado quase perfeito,
de dois quilómetros de lado, com a estrada passando justamente pelo
centro. No cume de um dos montes o primeiro à nossa direita
distinguia-se a brancura de uma escondida aldeola (Lavi), único
povoado visível nesta quarta etapa. E aqui e além, quebrando o
relaxante ondular do trigo e das searas de cevada, choupanas de palha
e adobe, destinadas a armazéns de alfaias e, certamente, ocasionais
abrigos de homens e de animais. Grupos de felah distribuíam-se pelos

dois lados do caminho, curvados sobre os campos de cevada. Era tempo
da ceifa do pão dos pobres. A recolha do trigo duro viria umas semanas
depois.
Armados com pequenas foices de ferro, ligeiramente curvas e, por
vezes, de lâminas dentadas, os camponeses arrepanhavam a cevada
com a mão direita, cortando-a com um golpe certeiro.
Ainda que menos abundante que o trigo, aquela cevada era de
excelente qualidade. Pertencia à espécie hexastichum (1) (de seis
fileiras), cujas espigas, diferindo da sua irmã distichum (de dupla fileira)
produzem um generoso grão.
Os feixes, atados em paveias, passavam para as mãos das mulheres
e dos rapazes, que os transportavam para as eiras: uns espaços
abertos nos trigais geralmente formados por um afloramento rochoso
-, que facilitava a debulha e posterior recolha do trigo. Alguns grupos de
camponeses, com melhores recursos, dispunham de asnos e carros para
aliviar o transporte das ceifas.
Quando a eira consistia num nu leito de terra argilosa, a zona em
questão via-se cercada por dezenas de pedras de tamanho regular. As
mulheres, então, espalhavam os feixes, procedendo ao trabalho da
debulha. Para tal, estas esforçadas galileias batiam na cevada com
paus e maças, quebrando os caules. Outras, mais abastadas sempre
em menor número serviam-se dos burros. Punham-lhes uma esportela
ou açaimo, a fim de que não devorassem o grão acicatando-os para
que andassem ou trotassem pela eira, debulhando a colheita.
Nalguns casos os quadrúpedes eram atrelados a uma dura tábua
rectangular munida de dentes de pederneira. A camponesa colocava-se
sobre a primeira grade e tocava o animal, libertando o grão.
Cada qual, enfim, cumpria uma tarefa. Os meninos, por exemplo,
tratavam da distribuição da água e da vigilância do trigo debulhado ou
joeirado. Neste caso, o inimigo era constituído por grandes bandos de
rolas vulgares que, desde o começo da Primavera, atravessavam os
céus de Israel, rumo ao Velho Continente. Muitas delas sobrevoavam a
Galileia, ameaçando as colheitas.
Quando estas aves ou as carriças se aproximavam das eiras, os
pequenos vigias agitavam os braços, batiam palmas e entoavam

barulhentas canções, espantando as intrusas. A campina ganhava assim
um ruidoso palpitar. Os cânticos e a teatralidade da gente miúda
suavizavam em parte a dureza daquele trabalho. Uma tarefa que não
foi alheia ao Filho do Homem...
Feita a debulha, os felah, munidos de forquilhas de madeira de cinco
pontas, sacudiam as palhas no ar, joeirando o trigo.
Uma vez em terra, as hábeis mulheres peneiravam-no com o auxilio de
pedras pequenas e pontiagudas. O grão de cevada dieta básica dos
menos favorecidos da fortuna ficava pronto para o transporte até às
aldeias e definitivo armazenamento nos silos.
*1 O género Hordeum consta de dezoito espécies, embora só sejam cultivadas a
de dupla e de seis fileiras. Ambas, segundo parece, são uma variedade de cevada
comum (hordeum vulgare) uma erva erecta e anual com abundantes folhas ao
longo do talo central e dos secundários. Cada um destes talos termina numa espiga
que dispõe, por sua vez, de numerosas espiguetas, com três flores cada uma. Na
de dupla fiada, só uma flor de cada espigueta é fértil. Na de seis, em
compensação, todas as espiguetas produzem grão. Naquele tempo não era ainda
usada como forragem. Foi a partir do século xvI que começou a servir como fonte de
alimentação para o gado. (N. Do M.)
Os primeiros vinte ou trinta minutos de marcha reconfortaram-me.
Com simplicidade, gozei de tão magnânima Natureza. Imaginei o Mestre
entre os felah. Segundo as minhas informações, durante algum tempo,
também Ele o foi. Não podia perder de vista que esta era a sua gente,
a sua terra e o mundo em que vivera durante anos. Uma ampla
documentação em torno dos costumes, modo de pensar e problemas
dos Galileus deveria esclarecer-nos a razão de muitas das atitudes e
decisões de Jesus. Nem os homens nem as ideias e muito menos o ritmo
social daquele tempo e daquele país se relacionam com a cultura e o
ligamento primordial dos cristãos do século xx.
Esta circunstância é esquecida com frequência pelos que praticam o
cristianismo. E já que falo nisso, vou fazer um parênteses na narração.
Dizia que aquele caminhar pela fértil região da Baixa Galileia me encheu
de força. Bem sabe Deus que na nossa viagem não eram abundantes os
momentos de paz. Era natural que, à menor oportunidade, a eles nos
agarrássemos.

Quem, porventura, ler este diário não deve esquecer que tanto meu
irmão como eu éramos também seres humanos. É certo que estávamos
em condições de manipular o tempo e isso, em teoria, colocava-nos
num plano de superioridade. No entanto, a verdade foi outra. Apesar do
treino implacável, dos meios técnicos e científicos ao nosso alcance e das
vantagens, de toda a índole, que implicava uma diferença histórica de
quase vinte séculos, nós, exploradores, sentimo-nos perdidos numa
infinidade de ocasiões.
O leitor destas experiências tem de nos compreender e de
compreender as nossas fraquezas. Sofremos o indizível. Caímos no erro
e, o mais lamentável, não conseguimos adaptar-nos inteiramente à
realidade quotidiana daquele outro agora. Foram muitos os dias em
que, por causa de tão prolongada estada num quadro histórico
estranho, padecemos um mal-estar ainda não catalogado pela medicina
e que poderíamos definir como ressaca psíquica. Explicá-lo não é fácil.
Ainda que o organismo acabasse por se adaptar às necessidades e
exigências do nosso meio, não aconteceu o mesmo com as nossas
mentes. Freud ter-se-ia sentido feliz a estudar esta dissociação entre o
consciente e o subconsciente.
Enquanto o primeiro reagia com normalidade, o segundo, talvez mais
sábio, opunha resistência a sobreviver num habitat em todos os
aspectos antinatural. E de vez em quando experimentávamos uma
espécie de bloqueio mental que era acompanhado por reacções não
menos injustificadas de repulsa por quanto nos rodeava. Nada de
grave, suponho, mas suficientemente relevante para nos alertar de que
qualquer coisa não ia bem. Como médico estou convencido de que tais
alterações, ainda que passageiras, tinham uma íntima relação com o
irreversível processo degenerativo das redes neuronais.
Um mal que custou a vida ao meu querido irmão e que não tardará
em destruir a minha. O cérebro humano tem a capacidade de se
adaptar às condições mais adversas tanto físicas como psíquicas. No
entanto, um salto desta natureza, para outro marco temporal, vem
quebrar a própria química do cérebro.
Curtiss e os especialistas do Cavalo de Tróia foram devidamente
avisados. Queira Deus que a nossa experiência ponha um freio a outros
projectos semelhantes. A ciência é obrigada a meditar e a prever estas

delicadas situações. Fomos os primeiros, sim, e ainda que a Providência
nos assistisse a todo o momento, o preço a pagar foi o mais alto.
Fechado o parêntese, como costumava dizer o Mestre, quem tenha
ouvidos que ouça.
O encontro com aquela caravana seria de mau agoiro. A partir dali
até à consumação do terceiro salto no tempo, uma cadeia de
acontecimentos inesperados iria cercar-me, até me afundar numa
dolorosa marginalização. Como é estranho o destino! Eu, Jasão, o audaz
e valente grego, que soube estar ao lado de Jesus nas mais duras
provas, acabaria repudiado pela maioria dos discípulos.
A Operação tinha considerado esta possibilidade. No entanto, as
normas e directrizes sempre teóricas não serviram de grande coisa.
Vejamos a razão.
Estamos talvez com meia hora de caminho, desde a entrada na
artéria principal. O caso é que, ao sairmos de uma das curvas e a uma
distância de meio quilómetro, avistámos uma multidão de homens e de
animais. O grupo, imóvel, ocupava a totalidade do caminho,
impossibilitando a passagem. Bartolomeu e Zebedeu pararam. E o
primeiro, depois de rápida inspecção, acertou no veredicto.
Encontrávamo-nos perante uma caravana. Uma das muitas que
atravessavam diariamente a Galileia. O que não souberam dizer-me foi
o motivo de tal paragem que não parecia adequada para dar de beber
aos animais.
Também a hora, cerca das dez da manhã, não era a mais própria
para levantar o necessário acampamento nocturno. Salvo algumas
excepções, caravanas e caminhantes evitavam deslocar-se durante a
noite.
O facto de terem de abrir passagem por entre aquela gente
desconhecida não agradou aos meus amigos. E com gesto grave, quase
mal-humorado, recomeçaram o avanço, discutindo a alternativa de
passar por eles de lado. Por certo, os felah que ceifavam nas
proximidades não teriam aprovado a inconsciente opção de espezinhar
os trigais. Foi pena... Se tivéssemos evitado a caravana, todos teríamos
poupado alguns dissabores.
A caravana ia na nossa direcção. Na altura de passar pelos

gigantescos dromedários que fechavam a coluna, a Senhora e os
discípulos, num gesto quase mecânico, levaram as mãos aos mantos,
tapando as cabeças e os rostos. Primeiro, interpretei aquilo como uma
maneira de passarem despercebidos. Mas, à medida que começámos a
passar pelos animais, compreendi a razão por que se embuçavam.
Aquela variedade branca de dromedários, os asnos e os búfalos de
cornos em forma de meia lua viajavam escoltados por nuvens
zumbidoras de moscas, tão incómodas quanto perigosas. Apesar da
protecção da pele de serpente, apressei-me a imitá-los. A picada de um
daqueles tabanídeos, em especial do Loa Ioa, podia originar doenças
caso das filaríases que devíamos evitar a todo o custo.
Embora tenha tido a oportunidade de contemplar outras caravanas
nos arredores de Jerusalém e no caminho de Betânia, era esta a
primeira vez que me aventurava justamente no coração de um destes
singulares grupos.
Fiquei aturdido. O cheiro acre dos animais; o zurrar dos burros; a
regra e pertinaz geometria dos dípteros, inútil e pacientemente
acossados pelas caudas dos quadrúpedes; o balido dos rebanhos de
cabras de grandes e descaídas orelhas; a vozearia dos caravaneiros e
as ordens das escoltas - homens e jovens -, mantendo em linha a
meia centena de dromedários, desenhavam um quadro pintalgado,
fascinante e, para um como eu, aparentemente caótico.
A maioria dos dromedários transportava volumosas canastras, que
pendiam dos flancos. A água, elemento precioso, quase sagrado, era
levada ao lombo de uma dezena de pequenos burros de negra e densa
pelagem. Os odres, seguros por varas de madeira, estavam ao cuidado
das mulheres.
. Na corcova dos dromedários, conhecidos entre os Mesopotâmicos
por asnos do mar, fora armado igualmente uma série de baldaquinos
ou rústicos pavilhões, onde viajavam mulheres e crianças. Noutros
ruminantes, perfeitamente enrolados, adivinhavam-se as tendas e o
austero recheio doméstico das quase duzentas pessoas que formam a
caravana.
Sempre com mais pressa, os discípulos e a Senhora prosseguiram o
ziguezagueante caminhar entre carros e animais desejando a paz à

direita e à esquerda. Foram poucos os homens e mulheres que
responderam às saudações. Deduzi que, certamente, não entendiam o
aramaico galalaico. A ajuizar pela indumentária, era provável que
viessem da Mesopotâmia. Os homens vestiam túnicas de linho e lã,
praticamente até aos pés, e mantos de deslumbrante brancura, que, em
certas alturas, enrolavam nos crânios cabeludos, à maneira de
turbantes.
O vestuário, vaporoso e folgado, muito adequado ao deserto, era
seguro por uma ampla faixa ou ta,. que ajudava a trazer uma arma.
Neste caso, umas adagas curtas e curvas, com bainhas de madeira ou
de pano e cabos de fino lavrado.
O calçado, com excepção de algumas sandálias que me lembraram os
borzeguins da Beócia, era extremamente simples.
Consistia numa grossa sola de couro de vaca ou pele de camelo ou
dromedário a que se prendera uma corda que, passando por entre o
dedo grande e os outros dedos, se atava em volta do tornozelo.
O vestuário das mulheres, semelhante ao dos varões, diferenciava-se
pelo colorido luminoso. Se os homens, como acabei de dizer, vestiam um
branco liso, elas gostavam de motivos florais e complexos bordados a
vermelho, azul, rosa e negro. O rosto, descoberto, de pele tostada,
apresentava enigmáticas tatuagens azuladas no queixo e na testa.
Como teria ocasião de verificar poucos minutos depois, encontrávamonos,
com efeito, no meio de uma tribo nómada, parcialmente oriunda da
região setentrional do que hoje conhecemos por Península Arábica. A
numerosa récua de animais, os grandes brincos, os anéis no nariz, os
pesados braceletes e colares tudo de prata denunciavam uma
confortável posição económica.
Um dos aspectos que me chamou a atenção neste contacto inicial e
apressado com a caravana foi a presença de cinco corpulentos cãespastores,
muito parecidos com os mastins de Bordéus. De grandes
cabeças, focinhos descaídos, uns cinquenta quilos de peso e cerca de
oitenta centímetros de altura, constituíam uma excelente defesa para o
grupo, em geral, e para o gado, em especial. Havia uns amarelos, havia
outros mosqueados. Prudentemente, enquanto a caravana se manteve
parada, um dos pastores aguentou-os, presos. Mesmo assim, ao chegar

junto da matilha, alguns dos cães, alertados pela presença de quatro
estranhos, levantaram-se de imediato, a ladrar furiosa e
ameaçadoramente. Maria, assustada, pôs-se a meu lado, procurando a
protecção do Zebedeu.
O nómada que segurava as cordas com ambas as mãos sorriu
trocista, ao mesmo tempo que afastava a pontapé os cães mais
bravios. Procurei distanciar-me. Numa escala de dez aquelas feras
teriam a classificação nove, no que se referisse a defesa do território e
agressividade.
A espinha dorsal da caravana era formada por uns quinze carros, na
sua maior parte de duas rodas e puxados por bois.
Outros, mais pesados e munidos de quatro rodas com a forma de
discos de madeira de uma só peça, eram puxados por parelhas de bos
bubalus, os poderosos búfalos utilizados nas planícies dos rios Tigre e
Eufrates, desde a remota dinastia de Akad. Tanto as carroças cobertas
como as descobertas estavam cheias de cestos de vime, talhas e
ânforas de diversos tamanhos e escuros e bem atados fardos.
Os carros de quatro rodas, com um rebordo que cercava a
plataforma, eram muito semelhantes aos plaustra maiora, que os
Romanos tinham introduzido com as suas legiões e o seu comércio.
Supus, acertadamente, que se tratava da mercadoria principal. Estas
caravanas, principalmente as que partiam de norte e de leste,
traficavam fundamentalmente com sedas, especiarias, tapetes, pedras
preciosas, frutos, madeiras nobres e, até, animais exóticos.
Em vários dos carros descobertos, sentadas ou de pé sobre a carga,
mulheres e crianças dirigiam os seus olhares para a cabeça da
caravana, discutindo umas com as outras. Ao contrário das que acabava
de deixar para trás, estas tapavam o rosto com longos e negros véus. A
que obedeceria tal discriminação? Na vanguarda da caravana esperavame
a resposta a esta interrogação, ainda que, desde logo, não se
apresentasse na forma que eu teria imaginado e desejado...
A congénita e, acho eu, inevitável curiosidade feminina veio precipitar
os acontecimentos. O urso de Caná suspirou, aliviado, ao ultrapassar a
vanguarda da caravana. Tirou o roupão da cabeça e dispôs-se a
atravessar pela frente de um grupo de nómadas que se amontoavam à

direita do caminho.
Zebedeu, que seguia Natanael muito de perto, fez menção de se
aproximar do grupo vociferante. Mas, ao reparar na pressa do
companheiro, renunciou a tão compreensível gesto. A Senhora, pelo
contrário, caiu na pueril tentação. E, embuçada ainda no seu manto
castanho-claro, vi-a insinuar-se entre os caravaneiros, intrigada com o
alvoroço. Num primeiro momento, nem João nem Bartolomeu notaram a
manobra de Maria. E quem isto escreve aproximou-se igualmente dos
dez ou doze indivíduos que discutiam acaloradamente. A Senhora,
sempre intrépida, era uma permanente fonte de surpresas.
Distraído na observação da caravana não me dera conta de que nos
achávamos a escassa distância do monte em que se encontrava a
aldeia de Lavi. Os nómadas discutiam justamente na confluência da via
principal com o atalho estreito e pedregoso que descia da aldeola.
Como era habitual nas rotas principais, os habitantes dos povoados
próximos aproveitavam estas encruzilhadas de caminhos para virem ao
encontro dos viajantes e oferecerem-lhes os produtos e especialidades
do lugar. Nesta ocasião, uma vizinha de Lavi estabelecera o seu arraial
numa redonda e pequena eira, aberta mesmo junto do caminho.
Ali, na companhia de dois meninos de tenra idade, em cima de uma
humilde esteira e folhas de palmeira, apresentava um conjunto de
tigelas de barro Cheias de lentilhas recentemente colhidas, farinha de
cevada, alhos e cebolas (crus e cozidos) e uma enfiada de cabaças de
vinho, com a típica forma da garrafa. Depois de se extrair a polpa
amarga e as sementes, esta espécie única no género é muito
procurada como recipiente, para uso doméstico ou nas viagens, à
maneira dos nossos modernos cantis.
De começo, mais atento a Maria que à sarabanda protagonizada
pelos viajantes, não compreendi muito bem os motivos da discussão.
Alguns nómadas pareciam interrogar a vendedora.
Faziam-no num aramaico fluente. Mais correcto que o ocidental ou
galalaico (1). A palavra repetida muitas vezes por aqueles homens,
visivelmente nervosos era médico. Efectivamente, tentavam encontrar
um curandeiro. Algo de anormal acontecia na caravana. E o instinto pôsme
em guarda. A Senhora e os discípulos sabiam da minha condição de
galeno. Mas, salvo em casos de nula ou muito curta transcendência,

Cavalo de Tróia proibia aos seus exploradores qualquer tipo de
intervenção, administração de medicamentos e, até, conselhos ou
orientações médicas que pudessem modificar o ritmo normal das
pessoas ou dos grupos. Precisamos de tempo para aceitar os nossos
erros: embora em certos momentos nos tivesse beneficiado, nunca devia
ter reconhecido entre aquela gente a minha especialidade como rofé ou
médico. E então, no meio dos nómadas, estava prestes a experimentar
as desagradáveis consequências de tão grande erro...
O caso é que, tendo intuição do possível conflito, recuei uns passos,
afastando-me dos caravaneiros. Que ia fazer? Fugia e escondia-me no
labirinto dos carros? Se o problema fosse grave, teria de me manter à
margem. Mas, como? Hoje, ao recordar o crítico lance, arrependo-me de
não ter obedecido àquele impulso inicial. Mas, abafando a subtil
advertência, desisti. Talvez fosse exagerado. O meu súbito
desaparecimento
- pensei seria de muito difícil justificação. Por outro lado, carecia de
elementos de apreciação para analisar o assunto com um mínimo de
objectividade. E assim, avançando novamente para o grupo, deixei
correr os acontecimentos.
* O termo aramaico, vem das tribos que, entre os séculos x e xII antes de Cristo,
penetraram nas regiões da Síria e da Palestina, oriundos de leste. Eles próprios se
denominavam aramaicos. E ainda que, com a passagem do tempo, alguns
daqueles Estados (Israel, Edom, Amon e Moab, entre outros) terminassem por
tornar seu o dialeto cananeu, outros povos caso da Síria mantiveram a primitiva
linguagem. Segundo os arqueólogos e linguistas, o grande impulso do aramaico
regista-se por volta de 500 a. C. Quando os Aqueménidas lhe deram o carácter de
língua oficial dos embaixadores persas. O seu esplendor por todo o Médio Oriente
foi tal que chegou até a ser usado no Egipto. [Os papiros descobertos em
Elefantina (1906-1907), muito perto da primeira catarata do Nilo, confirmam esta
extraordinária expansão do aramaico.] Por seu lado, o aramaico falado por Jesus
de Nazaré, definido hoje como ocidental, ainda que nascido do primitivo dialecto
mesopotâmico-babilónico, encontrava-se obviamente corrompido pelo passar dos
séculos. (N. Do M.)
A galileia, sentada à turca, parecia alheia à gritaria, mais preocupada,
segundo parecia, a espantar as moscas que disputavam os géneros que
em colaborar com os exaltados viajantes. Por duas vezes se dignou

levantar os olhos e, com dificuldade e lentidão, articulou algumas
palavras, ao mesmo tempo que apontava para ocidente. Francamente,
não consegui percebê-la. Ao reparar na sua péssima pronúncia comecei
a entender a razão de tais galimatias. A infeliz padecia de uma disartria
(1) uma deficiência na articulação das palavras, motivada por alguma
afecção nos músculos fonatórios. Aquilo impedia-a de manifestar as
ideias com clareza, provocando, em suma, o exaspero e a confusão dos
seus interlocutores. Estes, ao captarem a nebulosa indicação, voltaramse
para um indivíduo que presenciava a cena em silêncio.
Vestia também de branco, embora o seu porte, a franja de borlas que
lhe rematava a túnica imaculada e o arco que trazia na mão direita me
fizessem suspeitar de que podia tratar-se do xeque ou chefe da família
de nómadas. O fenótipo era claramente mesopotâmico: nariz aquilino,
testa estreita, abóboda craniana achatada e oblíqua, olhos pretos,
occipício plano e uma barba larga e quadrada.
A troca de impressões foi breve. O que parecia dirigir a caravana
lançou o olhar para poente, perscrutando o caminho.
Acariciou a pequena cabeça de pato de marfim que adornava uma
das extremidades do arco e, com uma sombra de tristeza no rosto, falou
aos seus homens, ordenando o avanço da caravana.
Naquele instante, Maria, sempre prestável, destacou-se dos
caravaneiros, oferecendo a sua ajuda ao xeque. Este, perplexo, olhou-a
de alto a baixo, sem compreender muito bem as suas intenções nem de
onde diabo tinha aparecido aquela galileia.
Tudo ficou esclarecido quando Natanael e Zebedeu, alarmados com a
nossa demora, voltaram atrás, juntando-se ao grupo. Eu,
prudentemente, conservei-me a certa distância, meio escondido entre os
nómadas. Pouco depois de iniciar a conversa com a Senhora e os
discípulos, o xeque, persuadido da boa-fé da hebreia e dos que a
acompanhavam, modificou a ordem anterior: a caravana continuaria
parada.
E quem isto escreve pressentiu o pior. De vez em quando, os olhares
dos meus amigos e os inquisidores olhos do mesopotâmico procuravamme
entre as brancas roupagens dos caravaneiros. Não havia dúvida.
Falavam de mim. E um crescente nervosismo foi-me invadindo o coração.

Estava apanhado...
O destino, implacável, caiu sobre mim, encurralando-me. João
levantou a mão esquerda e, sorridente, exigiu a minha presença.
Zebedeu, tal como suspeitava, apresentou-me ao xeque
- um tal Murashu como um sábio rofé, capaz de grandes prodígios.
Aturdido, com a boca seca pelo medo procurei negar
*1 Este grau moderado de anartria, ou impossibilidade de articular distintamente
os sons, era bastante vulgar na época de Jesus. Ao longo das nossas explorações
tivemos oportunidade para verificar diferentes graus de afasias e disartrias. A
primeira, como se sabe, consiste na perda, total ou parcial, da capacidade de
expressão, motivada por uma alteração no hemisfério esquerdo do cérebro.
Consequentemente, o afásico, embora fale correctamente, encontra-se privado da
chamada linguagem interior,, errando a escolha das palavras na altura de exprimir
uma ideia. A disartria, pelo contrário, tem a sua origem em lesões localizadas nos
músculos da laringe, linguais ou labiais. O disártrico sabe o que quer dizer, porém
exprime-o deficientemente. Tanto uma deficiência como a outra podem ser sintomas
de uma grave doença do sistema nervoso. (N. Do M.)
e retirar mérito aos entusiásticos elogios do discípulo. Mas nenhum
dos presentes me tomou em consideração. Murashu, respeitoso, inclinou
a cabeça, suplicando-me que aliviasse a carga dos seus muitos pecados.
Pelo que parecia, uma das suas mulheres sofrera uma queda. O
dromedário em que viajava atacado de loucura, tinha-a derrubado e
espezinhado a escassa distância da encruzilhada em que nos
encontrávamos.
Em boa lógica, deduzi, o percalço devia ser suficientemente grave
para ter imobilizado a caravana. E os meus temores aumentaram.
Para os assírio-babilónicos, as doenças, acidentes e outras
calamidades tinham a sua origem na ira dos deuses. Qualquer
contratempo ou desgraça eram associados de imediato aos pecados,
mesmo hipotéticos, da vítima ou da sua parentela (1).
Daí vinham os lamentos do atormentado Murashu.
Procurei serenar-me. Era inútil falar no curandeiro de Caná, o mais
próximo, e a que aludira a vizinha de Lavi. A distância que nos separava
da aldeia de Bartolomeu era superior a doze quilómetros. Não tinha
outra escolha...

E o dono e senhor da tribo levou-nos até uma das carroças cobertas:
uma espécie de carpentum de duas rodas. A poucos metros do carro,
dois serventes da caravana (os chamados escoltas, responsáveis pelos
dromedários) estavam junto de um inquieto animal. O ruminante
encontrava-se deitado e imobilizado por uma corda que, descendo da
cabeça, lhe fora atada à articulação ferida. Murashu, ao passar junto do
branco e nervoso exemplar, amaldiçoou-o. Tratava-se, efectivamente,
da dromedária causadora do percalço. Um dos nómadas munido de um
odre, esforçava-se por lhe dar água.
O outro, a seu lado, com um feixe de plantas entre as mãos, ia-lhe
chegando pequenas raízes e umas cápsulas esféricas que arrancava dos
caules. Ao falar de um ataque de loucura, o xeque não tinha
exagerado. Tal como o ser humano, o camelo e o dromedário padecem
também de podagra ou gota (2), que afecta os membros
*1 No banco de dados do Pai Natal, o nosso computador central, fora introduzida
ampla documentação sobre as crenças e práticas médico-religiosas dos povos da
Assíria e da antiga Babilónia. Em geral, estas gentes consideravam a vida e a
saúde como dons divinos. Se um indivíduo não cumpria os preceitos estabelecidos
pelos deuses caía imediatamente em desgraça, sendo perseguido e castigado com
todo o género de calamidades. Os textos cuneiformes definiam esta absurda
situação com total clareza: Ao que não tem deuses, quando anda pela rua, cobreo
a dor de cabeça como uma roupagem., Entre os pecados e faltas mais
importantes destacavam-se as seguintes: violar os preceitos religiosos, pisar uma
libação, insultar, desprezar ou revoltar-se contra os pais, tocar em pessoas que
tenham mãos sujas, mentir, roubar, destruir estremas ou deslocar marcos que
delimitem uma propriedade, possuir um coração falso, usar balanças falsas,
derramar o sangue do próximo, cometer adultério, cuspir nas imagens dos deuses,
rir dos deuses próprios e alheios, desobedecer ao deus tutelar, esquecer as
orações e tirar alimento dos templos.
Quando alguém, em consequência de uma destas faltas, adoecia ou sofria uma
desgraça, todo o seu interesse e da sua família se centravam, mais que na cura ou
busca do remédio, na investigação do pecado que tinha originado o mal. Desta
forma, esclarecida a falta, podia consagrar-se de novo com o deus protector,
recuperando a saúde ou a fortuna. (N. Do M.) 2 Curiosamente, os camelos e
dromedários são os únicos quadrúpedes que, à semelhança do homem, padecem
de gota.
Basicamente, a podagra, nestes ruminantes, tem os mesmos sintomas que no
ser humano: uma artrite aguda recorrente das articulações e tendões e, em torno
deles cristais de urato monossódico, por saturação hiperuricémica de líquidos

corporais. Como se sabe, estes animais estão preparados para converter
rapidamente o escasso conteúdo proteico da flora desértica em gordura e água e
conservá-las a fim de permanecer longo tempo sem beber nem comer. De facto,
dromedários e camelos podem resistir entre três a sete dias sem beber água.
(N. do M.)
inferiores provocando nos quadrúpedes uma dor intensíssima.
Quando isto se verifica, o animal enlouquece, mostrando-se irascível e
perigoso em extremo. Era isto, nem mais nem menos, o que acontecera
na caravana. Se o incidente tivesse sido protagonizado por um macho,
talvez Murashu houvesse ordenado o seu imediato sacrifício. Ao tratarse
de uma fêmea, o comportamento dos nómadas era radicalmente
diferente. O leite de dromedária, de elevado teor proteíco e excelente
percentagem salina, constituía um alimento e uma bebida fundamentais
na dieta daquela gente. E, com bom critério, procuravam aliviar a
loucura do ruminante, proporcionando-lhe abundante líquido e as
negras sementes contidas nas cápsulas esféricas. Estes grãos oleosos
provinham da dormideira, uma planta muito conhecida nas regiões
mesopotâmicas, que chega a conter vinte e cinco alcalóides opiáceos.
Como analgésico e calmante da dor era de grande utilidade nestas
circunstâncias.
A este tratamento, os nómadas, antigos conhecedores das
propriedades medicinais das plantas (os Assírios, para citar um
exemplo, dispunham de mais de duzentos e cinquenta espécies na sua
farmacopeia) juntavam as raíses secundárias do harpagófito,
especialmente indicado para a dor das articulações.
O nosso anfitrião e os meus acompanhantes começaram a
impacientar-se. Não conseguiram entender o meu interesse pela
dromedária. Para dizer a verdade, ainda que me tivessem interrogado,
também não me teria sido fácil satisfazer a sua curiosidade. Curvado
para os membros inflamados do animal, o meu exame não encerrava
outro objectivo que não fosse o de tentar averiguar o grau de
contaminação por fezes. Se o ruminante tinha pisado a mulher era
conveniente certificar-me do estado dos cascos. Mesmo assim, pensei,
se se verificar o aparecimento de um tétano, que se pode fazer? Foi
Maria quem tomou a iniciativa. E pondo-se atrás de mim, pousou-me a

mão no ombro, repreendendo-me com doçura e qualificando a minha
acção como imperdoável distracção.
- Jasão avisou-me, sorridente -, estás enganado. Não é o
dromedário que precisa da tua ciência...
Eu sabia, mas desculpei-me. E seguindo os passos do xeque saltei
para dentro da carroça.
Meu Deus... que era aquilo? Num asfixiante habitáculo de três metros
por dois, em cima de um carregamento de fardos de lã, jazia uma
mulher com o rosto coberto por um véu negro. Os seus gemidos eram
sufocados pelas rezas de uma anciã que, de cócoras e aos pés da jovem
doente, ao mesmo tempo que entoava salmos penitenciais lançava
sobre o corpo da nómada uma substância ocre que, de início, não fui
capaz de identificar.
Sob a ampla roupagem distingui um ventre anormalmente inchado.
Porém, o cheiro putrefacto que enchia o carro intrigou-me. A que era
devido aquele infecto ambiente? Ao ajoelhar-me junto da mulher e
quando procurava tomar-lhe o pulso compreendi. A substância líquida e
pegajosa que quase enterrava a doente ficou-me pegada às mãos.
Instintivamente, aproximei as polpas dos dedos do nariz, procurando a
identificação da substância lançada pela velha. Revolveu-se-me o
estômago. De acordo com os ancestrais e supersticiosos costumes
daqueles povos ao considerar-se a doença como a vingança de um deus
ou demónio maléfico, tudo quanto pudesse desagradar à vítima
originava o mesmo efeito na divindade instalada no corpo. Pois bem,
com a finalidade de obrigar o espírito causador do problema a sair do
doente, a velha tinha salpicado a mulher com excrementos de animais.
A minha raiva e repugnância foram tais que, sem proceder sequer a
uma superficial inspecção, abandonei a fétida carroça, tentando pôr
ordem nas ideias... e no estômago.
A Senhora, alarmada, veio ao meu encontro, interrogando-me.
E o mesmo se deu com Murashu e os discípulos. Uma vez recomposto,
ante o olhar atónito do chefe da tribo, ordenei-lhe que, para começar,
procedesse à imediata transferência da jovem para um carro sem carga.
A seguir, em idêntico tom enérgico, solicitei de Maria que se ocupasse
da limpeza da mulher.

Neste ponto, um segundo carro entrava em acção. E apesar do risco
que podia trazer a mudança de um acidentado naquela situação, com
possível politraumatismo, minutos depois repousava na espaçosa
plataforma de um carro de quatro rodas.
A Senhora auxiliada por duas nómadas de rostos igualmente
cobertos, despiu a rapariga, cumprindo as minhas indicações. E eu, sem
saber muito bem que fazer nem por onde começar, aproveitei a espera
para ver o que tinha na farmácia de campanha, guardada na reduzida
bagagem de viagem, e trocar algumas palavras com Murashu.
Zebedeu, testemunha da conversa, mostrou-se agradado ao averiguar
que os antepassados do xeque eram precisamente judeus. Aqueles
orientais, contrariamente ao que acontece com os homens do século xx,
gozavam de uma memória prodigiosa. Podiam recitar, passo a passo, a
totalidade das suas árvores genealógicas. Soubemos assim que os
primeiros Murashus tinham sido deportados para a Mesopotâmia
depois da conquista de Jerusalém por Nabucodonosor (em 587 antes de
Cristo). A família prosperou, atingindo o seu auge nos reinados de
Artaxerxes e Dario II.
Embora mantendo-se ligadas à cidade de Nippur, alguns ramos
familiares acabaram por se cruzar com os autóctones da região,
procurando novos horizontes. Murashu e os seus nómadas,
antepassados dos actuais beduínos, residiam habitualmente a norte da
Península Arábica (hoje reino da Arábia Saudita), num território perdido
no deserto do Grande Nefud, para lá dos montes de Agia e de Selma.
Dali partiam para as suas actividades, comerciando para leste, norte e
oeste, pelas rotas de Susa, Jarash, Damasco e Egipto. Mas, o agradável
colóquio ia ser bruscamente interrompido por um agudo grito da
Senhora.
Não hesitei. Deixando o manto e a vara de Moisés nas mãos de João
enfiei-me por baixo da lona da carroça, disposto a tudo.
Porém, a cena que me apareceu diante dos olhos ia pôr em causa o
meu zelo e boa-fé. A disciplina e ética da Operação instalaram-se no
meu cérebro e na minha vontade, impedindo-me a acção. A partir
daquele instante, um violento conflito interior se apossaria de mim,
destruindo-me.
Maria, de joelhos, com os panos usados na limpeza entre as mãos,

parecia uma estátua. As duas outras mulheres, acocoradas e à
cabeceira da jovem, continuavam a molhar os panos num alguidar de
barro. A respiração da doente, mal perceptível na minha primeira
observação, tornara-se agitada.
Acho que não o quis ver. Passei por alto o ventre proeminente,
concentrando-me no pulso. Estava aceleradíssimo.
Pálida e desfigurada a Senhora, ao lado da rapariga, acompanhoume
com o olhar, deixando-me actuar. Numa precipitada avaliação inicial
descobri que, apesar das contusões e pequenos hematomas
consequência da queda e prováveis patadas do dromedário o
aparelho respiratório não se encontrava afectado. A palpação também
não revelou rupturas, com excepção do que vi ser uma fractura
transversal na falanginha do segundo dedo do pé direito. O
traumatismo fizera com que se soltasse a unha. Oxalá o problema se
limitasse a esta ferida...
Uma vez recomposta da surpresa, Maria, ao notar a minha aparente
indecisão, confundida e pressionada pelas circunstâncias, levantou a
voz, exigindo-me que actuasse. Não pude replicar. Um grito dilacerante,
seguido por outros breves mas intensos gemidos da jovem, paralizaramme.
E a Senhora, com os seus belos olhos cheios de incredulidade
levantou-se, ao mesmo tempo que gritava, zangada:
- Será que estás cego?
A minha resposta à sua humana e justificada indignação foi um suor
frio, a perlar-me a testa. Não, não estava cego. E continuei de joelhos,
mudo, aos pés da mulher, que, havia uns minutos, começara a parir um
filho...
- Jasão!...
Não me lembro bem da dura censura de Maria. Os meus olhos
estavam fixos na cabeça daquele bebé, que começara o lento mas
inexorável processo da libertação!
Maldito código! Cavalo de Tróia proibia terminantemente e em
absoluto a nossa participação no nascimento de um ser humano.
E quem isto escreve, sem o poder evitar, via-se perante o parto de
uma jovem nómada. Um nascimento prematuro, provocado

- quase com toda a certeza pelo acidente do dromedário.
A Senhora, nunca o soube ao certo, deve ter interpretado o meu
silêncio e paralisação como resultado de um terror insuperável. E com
uma coragem espantosa, tomou a seu cargo a situação, ordenando às
mulheres que a munissem de quanto era necessário: água quente em
abundância, panos limpos, sal, azeite, essências, esponjas, etc.
Pelo que pude apreciar, não era aquela a primeira vez que Maria
assistia uma parturiente. Como primeira medida, envolveu a cabeça da
jovem nas suas mãos e, com uma ternura que quase me fez esquecer as
normas, foi-lhe sussurrando palavras de alento. Depois, acompanhada
pelas mulheres no interior da carroça, beijou-a na testa, incentivando-a
ao derradeiro esforço. E sem sequer me olhar, assistida por uma das
nómadas, precipitou-se para a criança. Com uma precisão impecável
colocou um pano humedecido nas mãos, ajudando assim a expulsão da
cabeça e protegendo o bebé das inevitáveis secreções anais.
Com o aumentar dos gritos, a nómada que se pusera à cabeceira da
rapariga meteu-lhe um pedacinho de madeira entre os dentes,
agarrando-a pelos pulsos, a fim de a ajudar na expulsão.
Com a mão envolta por cima da região rectal, a improvisada e audaz
parteira foi exercendo pressão conseguindo assim uma mais rápida e
eficaz libertação da cabeça. Maria, cheia de força e de amor, animava
constantemente a mulher, orientando-a nas suas respirações e esforços.
Nunca esquecerei aquela imagem da Senhora, banhada em suor e em
sangue, com toda a sua humanidade voltada para o nascimento do
pequeno nómada.
Quando a cabeça ficou livre, Maria passou os dedos em volta do
pescoço do bebé, certificando-se de que vinha sem a presença perigosa
do cordão umbilicall. Feliz pelo rápido desenlace, a mãe de Jesus
ganhou alento, limpou o suor que lhe escorria pela cara e, inclinando-se
para o rosto avermelhado do nascituro, aspirou o material estranho que
lhe enchia o nariz e a boca cuspindo-o.
Animada também pelo bom parto da cabeça, a mulher que
colaborava com a Senhora começou a entoar um daqueles salmos
pagãos:
.. Foi destruído pelo mal da alma e do corpo...

. noite e dia passou sem ter descanso.
.. Estou mergulhada na escuridão e caminho...
Maria esperou uns segundos. Tinha os olhos postos na recém-liberta
cabeça do bebé. Porém, a espera da volta, quase sempre espontânea,
com que a criança costuma colocar-se com os ombros no plano sagital
da mãe, tardava. E a Senhora, levantando a voz e a cabeça, insistiu com
a nómada para que lutasse. A parturiente, esgotada, tentou obedecer.
Mas aquele novo esforço só serviu para quebrar o pedacinho de
madeira que apertava entre os maxilares. E a respiração tornou-se
desordenada.
.. Estou abatida pela dor e pelo lamento...
O inoportuno da reza penitencial e a tensão do momento fizeram com
que a parteira explodisse!
- Silêncio! - decretou Maria. E fulminando-me com os olhos gritou: - Por
amor de Deus, Jasão, ajuda-me! Senti como o coração me batia no
peito. Fechando os punhos até cravar as unhas, baixei os olhos, rogando
àquele mesmo Deus que se apiedasse deste pobre explorador.
Um novo gemido arrancou Maria àquele violento interlúdio.
Serenando os nervos com uma funda inspiração lançou-se para o
bebé, procurando voltar os ombros. Aquela esplêndida mulher mais uma
vez me maravilhou. Agarrou a cabeça do recém-nascido com ambas as
mãos, aplicando-lhe uma pressão, suave mas firme.
Esta manobra, na verdade, facilitou o movimento do ombro mais
elevado, por baixo da sínfise do púbis. Pouco depois, os hábeis puxões
libertavam o ombro. E a Senhora suspirou, batalhando para conter a
hemorragia. A nómada que a acompanhava retomou os seus cânticos,
enquanto a parturiente parecia estabilizar a sua frequência cardíaca e o
ritmo respiratório.
.. A minha infância não a recordo...
*1 Quando o cordão umbilical rodeia o pescoço do nascituro, pode ocorrer uma
hipoxia fetal, quer pela compressão do referido cordão quer por uma extirpação da
placenta ou por uma invaginação uterina. (N. Do M.)
.. Não sei o pecado que cometi: era menina e pequei...

.. Transgredi o limite do meu Deus...
Com uma sabedoria invejável, a Senhora esperou uns segundos antes
de proceder à última tracção. Esta breve pausa, depois da libertação do
ombro anterior, permite que o ombro se contraia, travando assim a
possibilidade de uma perigosa hemorragia após o parto.
Decorrido um minuto, Maria puxou a cabeça na direcção da sínfise,
conseguindo a libertação do segundo ombro. O parto estava
praticamente consumado. E a audaz mãe do Mestre aspirou suave e
delicadamente a orofaringe do recém-nascido, agasalhando-o de
imediato. Assim o manteve durante alguns minutos, ternamente
apertado contra o peito, proporcionando o calor necessário para que o
bebé, de forma natural, começasse a respirar. Depois, a nómada que
segurara os pulsos da mãe procedeu ao tratamento do cordão umbilical.
Uma vez estrangulado em dois pontos (o mais próximo aí a dois
centímetros e meio do abdómen infantil), inclinou-se para o cordão,
cortando-o com os dentes. E o pequeno foi lavado entre o regozijo das
mulheres e energicamente friccionado com sal.
Por último, a Senhora, com uma quente luz no olhar, ergueu-o nas
mãos, enchendo-o de beijos. E o bebé foi deitado sobre o ventre da
mãe. Dez minutos depois, precedida por uma moderada hemorragia, a
placenta era expulsa espontaneamente. Maria procedeu então a uma
massagem da parede abdominal, aliviando assim o fluxo de sangue. Um
emplastro de ervas de capsella ou bursa-pastoris, de discutível efeito
hemostático fez o resto. A hemorragia, pelo menos de momento,
ficara detida.
E as nómadas, seguidas por Maria, abandonaram a carroça,
anunciando com muita excitação a boa nova. Eu, impotente e triste,
permaneci uns instantes junto da jovem, sem forças para ir ter com os
meus amigos. Tinha cumprido, sim, o rigoroso código do Cavalo de Tróia.
Mas a que preço? E em silêncio, à maneira de pequena compensação
pelo que não tinha feito por aquela desconhecida, lavei-lhe o pé ferido,
imobilizando o dedo fracturado com uma forte ligadura. E dispus-me a
enfrentar a crua realidade...
Ao ver-me descer do veículo, Murashu esqueceu os homens e
mulheres que se aglomeravam nas proximidades. E levantando os
braços acima da cabeça precipitou-se para este desolado médico.

Imaginei o pior. Talvez as nómadas, ou a Senhora, o tivessem posto ao
corrente da minha infeliz actuação Era lógico que, arrebatado pela ira,
quisesse castigar o embusteiro. Curioso: pela primeira vez na aventura
palestina estava disposto a aceitar...
E o xeque caiu sobre mim... abraçando-me exuberantemente.
Coberto de lágrimas lançou-se numa entrecortada e interminável
enfiada de agradecimentos. Eu não sabia que dizer. Aquele homem de
nobres sentimentos conseguiu transmitir-me a sua emoção. Que se
passava? Atónito, procurei Maria com o olhar.
Segundo parecia, a jovem nómada que acabava de dar à luz era a
sua esirtu, ou concubina favorita. Murashu viajava com a esposa legítima
e uma corte de escravas-concubinas. Estas, justamente, diferenciavamse
da primeira por trazerem o rosto coberto.
A alegria de Murashu pelo nascimento deste varão era tal que não
me atrevi a arrancá-lo do seu erro. Estreitando-me contra a ilharga
arrastou-me até à sua gente, acentuando os louvores pelo meu bemfazer.
João de Zebedeu felicitou-me com idêntico entusiasmo.
Balbuciei uma tentativa de explicação, com pouco êxito.
Por fim, os meus olhos cruzaram-se com os da Senhora.
Encontrava-se sentada à beira do caminho. Aproximei-me, devagar.
Trémulo.
Como explicar-lhe?...
Não se moveu. Aguentou o olhar e, com um gesto que não
esquecerei, piscou-me um olho, sorrindo maliciosamente. Eu conhecia e
recordava aquele sinal. Era um dos enternecedores hábitos de seu Filho.
A generosa e leal atitude de Maria desorientou-me. Pouco a pouco a
iria conhecendo. Tinha defeitos, sim, mas também esplêndidas
qualidades. Que surda raiva me consome quando leio, escuto ou assisto
a tanto desatino em torno da imagem e personalidade da mãe terrena
de Jesus! Não foi como os homens a desenharam: foi melhor... mais
humana...
mais valente. Haverá tempo para o demonstrar.

Como poderia pagar-lhe? Ajoelhei-me e, pegando-lhe nas mãos,
aproximei-as dos lábios, beijando-as com toda a ternura de que fui
capaz E os olhos deste angustiado explorador encheram-se de lágrimas.
É difícil explicar o que aconteceu naquele breve e silencioso diálogoH.
Ao sondar o doce olhar da Senhora, a intuição pôs-me em guarda.
Como hei-de explicar?... A mãe de Jesus sabia alguma coisa... Foi uma
sensação inequívoca. Como se a Providência tivesse achado por bem
revelar-lhe que aquele Jasão, comerciante de Tessalonica, tão profunda
e estranhamente interessado na vida do seu primogénito, era alguém
especial. O incidente com o jovem João Marcos, no monte das Oliveiras,
não passara despercebido àquela mulher inteligente e intuitiva.
Horas mais tarde, as circunstâncias me demonstrariam que não estava
enganado...
Mas o tempo era pouco. O encontro com a caravana fizera-nos perder
cerca de duas horas. Bartolomeu, impaciente, solicitou a Murashu que
nos deixasse continuar a marcha. O xeque compreendeu, e lamentando
não nos poder oferecer uma mais digna hospitalidade, insistiu para que
nos reuníssemos com ele e sua família na Cidade Santa durante a
próxima festa de Pentecostes. Os discípulos aceitaram por pura cortesia.
Nem eles nem Maria imaginavam naquela fresca manhã de segundafeira,
24 de Abril, que, efectivamente, uma semana depois, se veriam na
agradável obrigação de partirem a caminho da Judeia.
E a uma lacónica ordem do chefe, dois dos caravaneiros foram
depositar nas minhas mãos pecadoras um cordeiro de umas oito
semanas e um cântaro de quatro log (cerca de dois quilos),
hermeticamente selado com abundante estopa de linho. Eu sabia que
recusar aqueles presentes teria sido uma grave falta de cortesia. Assim,
depois dos agradecimentos de rigor, entreguei o misterioso jarro de
barro ao urso de Caná, mas na minha confusão, ao primeiro espernear,
o branco anho caiu-me no chão fazendo soltar divertidas gargalhadas
aos nómadas. Recuperado o cordeirinho, lenta e pesadamente a
caravana pôs-se em marcha.
E, durante um curto trajecto, Murashu e os seus homens escoltaramnos,
orgulhosos e contentes.
Naquele breve percurso, seguindo outra antiga tradição, o chefe dos

nómadas solicitou a minha permissão para dar ao novo rebento o nome
do seu salvador, ou seja, Jasão. Aceitei o facto com uma cerimoniosa e
teatral complacência, por saber que o orgulhoso pai me ocultava a
verdade. Aquele, na realidade, não ia ser o autêntico nome do
pequeno, mas sim o chamado segundo ou falso nome. Desde a mais
remota Antiguidade, as civilizações egípcias e mesopotâmicas, entre
outras, atribuíam ao verdadeiro nome um poder especial, quase mágico.
Em suma, Babilónios e Egípcios partilhavam o mesmo princípio: o
nome das coisas, dos animais e dos humanos faz parte da sua essência.
Platão e a filosofia escolástica não se encontravam muito longe desta
singular concepção (1). O autor de Cratilo, como ocorreria a
Schopenhauer, foi terminante neste sentido: Os nomes são a
consequência das coisas. Para Murashu, portanto, se o conhecimento do
verdadeiro, primeiro e bom nome do seu filho podia exercer um maléfico
poder sobre a referida criatura, o natural seria que tratasse de o
camuflar com uma segunda designação. De facto, os Egípcios procediam
assim desde a Antiguidade. Recordemos, por exemplo, uma estela da
época ptolemaica em que se diz o seguinte: Foi dado ao filho do
sacerdote o nome de Imhotep, mas foi chamado Petubast.
Estive tentado a sugerir-lhe um nome mais formoso do que o meu
Jesus mas, ao descobrir que ignoravam tudo sobre o Filho do Homem,
desisti. Este facto o absoluto desconhecimento da existência do Mestre
tem também a sua importância. O homem do século xx acha natural
que a totalidade das nações saiba da vida e dos ensinamentos do
Galileu. No ano 30, porém, as coisas eram muito diferentes.
Com excepção de umas centenas de milhares de israelitas e pagãos,
todos estabelecidos na Palestina e regiões vizinhas, o resto do mundo
viveu alheio à presença do Rabi na Terra.
Embora os dromedários de Murashu pudessem andar os seus
quarenta quilómetros por jornada, o ritmo da caravana era lento para
nós. Assim, perto da encruzilhada de Lavi, despedimo-nos com um a paz
esteja convosco. Os caravaneiros, por sua vez, inclinando as cabeças,
replicaram com um cortês que os deuses aumentem as vossas riquezas.
*1 O bom nome, como o designavam os Mesopotâmicos, era equivalente do
bom destino. Quer dizer, prolongava-se tanto quanto a própria vida. Lefébure,
numa valiosa análise desta doutrina sobre o carácter mágico do nome entre os

Egípcios, afirma: O nome da pessoa ou da coisa é uma imagem efectiva e, por
isso, converte-se na própria coisa, menos material e mais manobrável. Por outras
palavras: mais adaptada ao pensamento.
É um substituto mental. Actualmente, embora de uma forma menos mágica e
romântica, a sociedade não faz mais que insistir no já inventado: um indivíduo
adquire existência e personalidade legal ou jurídica mercê, justamente, dos seus
papéis e documentação. Em suma, para aquelas velhas e sábias culturas, a
doutrina do nome ficava resumida neste princípio fundamental: uma coisa-animalhomem
não existe se não tiver um nome,. O poema da Criação começa com a
afirmação de que, no princípio, era o Caos e que nada tinha nome. No Livro dos
Mortos, e expressão não sou levado, alterna com o meu nome não é levado,.
Também não podemos esquecer que nos tempos de Jesus, como uma herança
selêucida (312 a. C. A 64 a. C.), a sociedade gostava de helenizar o nome,
acrescentando um segundo, quase sempre grego. (N. Do M.)
Respirei fundo quando nos afastámos. A experiência com os nómadas
tinha sido pouco gratificante. A partir dessa altura, como creio ter
mencionado, a minha sorte mudou. Uma cadeia de desventuras ia
empurrar-me na direcção do inevitável.
Devo referir-me a isso? Entendo que é esse o meu dever.
Quando alguém lê os Evangelhos encontra dezenas de frases como
estas: De novo seguiu Jesus para o outro lado do Jordão (João,10,
40). E sucedeu que, de caminho para Jerusalém, passasse pelo meio
de Samaria e da Galileia (Lucas, 17, 11).
E saindo dali foi Jesus para os confins da Judeia (Marcos, 10,1).
Percorria Jesus toda a Galileia... (Mateus, 4, 23).
Pois bem, mais uma vez, os chamados escritores sagrados iludiram a
História e os que se proclamam crentes, um universo de pequenos e
grandes episódios, nascidos justamente nesses percursos e marchas. Se
tivessem sido minuciosos na narração das muitas horas gastas por Jesus
e pelo seu grupo pelos caminhos teríamos hoje uma visão mais certa da
vida e personalidade de todos eles. Segundo os nossos cálculos, dos
quase quatro anos que o Mestre dedicou à pregação,
aproximadamente um terço do tempo útil foi gasto em deslocações. Os
números falam por si da transcendência de quanto afirmo: dos 1395
dias destinados pelo Filho do Homem ao que foi classificado como vida

pública uns 465 dias, como disse, passaram-se nos caminhos de Israel e
dos países e regiões em volta. Será que nesse tempo nada aconteceu
de bastante curioso e importante para ser transmitido às gerações
seguintes? Este pobre e apressado relato da nossa peregrinação do
lago de Tiberíades a Nazaré constitui uma prova do que digo. O que me
coube viver nessas horas de marcha foi algo quase habitual nas viagens
daquele tempo. Se a isto juntarmos a mágica e insubstituível presença
do Nazareno, criador de maravilhas, tudo quanto consiga exprimir ficará
aquém...
Durante a nossa prolongada estada, no terceiro salto, tivemos
oportunidade de o confirmar. Foi nessas vívidas jornadas, viajando sem
cessar, que mais e melhor pudemos desvendar a personalidade humana
do Mestre e do seu heterogéneo grupo de discípulos. Os que amam a
Natureza, os acampamentos, o montanhismo que têm no sangue o
maravilhoso veneno da aventura e das viagens entenderão
perfeitamente as minhas palavras. É precisamente nessas intensas e
longas convivências que surge e se aprecia com maior transparência o
autêntico carácter dos seres humanos.
Feita esta observação, prosseguirei com o relato de um acontecimento
que se deu a uns dois quilómetros, na importante encruzilhada de
caminhos em direcção aos montes Tabor, no Sul, e Méron, no Norte.
Aqueles vinte minutos desde a despedida de Murashu até à referida
encruzilhada passaram-se em silêncio e, pelo que me toca, com o único
incómodo de ter de carregar nos ombros o inquieto cordeirinho. As
minhas intenções quanto ao pequeno animal eram claras: livrar-me dele
na primeira oportunidade.
Mas como? Não me enganei nas minhas reflexões: o destino decidiria.
Em relação ao jarro que Natanael levava, sinceramente, esqueci-o.
Pouco tempo depois, o seu misterioso conteúdo viria em auxílio deste
explorador. Mas não percamos o fio...
O acontecimento a que aludi começou a esboçar-se nos metros finais
daquela quarta etapa. Com a encruzilhada à vista, Bartolomeu começou
a coxear ligeiramente. De começo não dei muita importância àquilo. No
entanto, pouco a pouco, a cadência das suas curtas passadas tornou-se
desigual. A causa do transtorno pensei podia estar na sua perna
esquerda, ligada desde o tornozelo ao joelho. Mas o discípulo,

habituado ao seu mal continuou o caminho sem descerrar os lábios.
A reacção de João e de Maria embora fosse mais próprio falar da
falta de reacção de ambos deu-me a entender que estavam
familiarizados com o problema do Urso, que, muito possivelmente, não
apresentava gravidade alguma.
E assim continuámos até que, passada a hora sexta, chegámos ao
cruzamento das importantes artérias. Naquele lugar segundo os meus
cálculos situado a quatro quilómetros da vereda que descia da aldeia de
Lavi, erguia-se uma típica pousada judaica, muito frequentada por uma
infinidade de caminhantes e caravanas vindos dos quatro pontos
cardeais. Tratava-se, como a maioria dos albergues daquele tempo, de
um vetusto edifício quadrangular, de cerca de trinta metros de lado e
com paredes altas e acinzentadas, feitas à base de tosca pedra
calcária.
Quis o destino que o vacilante Natanael fosse parar diante da
fachada principal, à direita do caminho e a curta distância do túnel que
fazia as vezes de portão. Sem dar razões ou fazer comentários deixouse
cair no caminho poeirento, recostando-se à parede da estalagem.
Logo a seguir, pôs-se a tirar as faixas de couro de vaca que lhe
envolviam a perna dorida. Desejoso de verificar o mal que afligia
Natanael, confiei o cordeirinho à Senhora e pus-me na frente do
discípulo.
Pela escura boca de acesso ecoavam as vozes e gargalhadas dos que
estavam na pousada. Habituados, pelo que parecia, a estas rotineiras
pausas do urso de Caná, Maria e Zebedeu deixaram-no à vontade, ao
mesmo tempo que prestavam atenção a um grande grupo de cavalos,
presos a uma enfiada de argolas que pendiam da extremidade oeste
da parede principal. Baixando a voz com evidente temor, João veio
confirmar os receios da Senhora. As montadas, efectivamente, podiam
pertencer à turma romana a que os almocreves se tinham referido.
A presença da patrulha não agradou aos que me acompanhavam.
E embora aquela trintena de soldados que constituíam a unidade se
encontrasse, com toda a certeza, na pousada, o Zebedeu insistiu com o
amigo para que se apressasse. O de Caná nem o olhou.
Ambas as atitudes eram justas e compreensíveis. Ao visceral desprezo

do povo judeu pelo invasor romano havia a acrescentar, neste caso, um
facto particularmente doloroso e próximo no tempo: a humilhante
execução de Jesus pelos legionários de Roma. Não podemos esquecer
que apenas tinham decorrido dezassete dias desde a crucificação. Esta
angustiante realidade hoje apagada pelos séculos pesava muito nos
ânimos dos discípulos do Filho do Homem. Apesar do misterioso
regresso à vida do Mestre, nem a Senhora nem os discípulos tinham
esquecido os executores. Lamentavelmente, como irei narrando, as
assombrosas aparições de Jesus não serviram de muito neste sentido.
Enganam-se os que pensam que Maria perdoou de imediato aos
verdugos do seu primogénito.
Consequentemente, era humano que o Zebedeu e a Senhora
tentassem evitar o contacto com a turma.
Quanto ao Urso, também a razão estava com ele.
Compartilhava, era evidente, aquele sentimento de visceral repúdio
pelos romanos. Não obstante, naquele momento a sua perna tinha
prioridade.> E não lhe faltavam motivos.
Com docilidade, não isenta de certa desconfiança, Natanael deixoume
observar aquele quadro de veias varicosas primárias que progredia
em sentido descendente no sistema da safena interna (1). Estas varizes,
embora não representassem um problema grave, desfeavam ainda um
pouco mais o já pouco agradável físico do discípulo, provocando-lhe uma
incómoda sensação de peso e frequentes cãibras musculares. Pelo que
deduzi do parco interrogatório a que aceitou submeter-se, aquele mal
era frequente na sua família. Lamentei não puder ajudá-lo. Embora o
mal, em princípio, não brigasse com o rígido código moral de Cavalo de
Tróia, a minha farmácia de campanha não continha naquela altura
medicamento algum capaz de suavizar a doença. Felizmente não foi
necessária a minha intervenção. Previdente, Bartolomeu viajava
preparado para esta contingência. Assim, lançando mão ao seu bornal,
dele tirou um pequeno jarro de alabastro verde e translúcido.
Destapou-o e, fechando os olhos, engoliu parte do conteúdo.
Tossiu, fez uma careta de repugnância e dispunha-se a tapar o
recipiente quando lhe pedi que me deixasse examiná-lo.
Entretanto, Maria tinha reparado no cântaro de barro, oferta de

Murashu, pousado no chão por Natanael. Sem poder dominar a
curiosidade tirou a estopa de linho, olhando para dentro.
João, inquieto com a possível saída dos soldados, continuou a vigiar o
túnel de entrada para o albergue, sem reparar no que a Senhora fazia.
Também Bartolomeu, esperando a minha opinião, não se deu conta do
conteúdo do cântaro. E levantando-me, enquanto cheirava a minúscula
vasilha de alabastro, dirigi o olhar para o cântaro que a Senhora
observava. Tenho de o confessar: a minha curiosidade ainda que por
outras razões não ficava atrás da de Maria...
Felizmente para quem isto escreve, a mãe do Mestre não soube
identificar o líquido gorduroso e cinzento-escuro que enchia o recipiente.
As minhas suspeitas, considerando a origem da caravana
mesopotâmica, seriam confirmadas minutos depois, no decorrer de outro
singular e inesperado lance...
Encolhendo os ombros, Maria selou novamente o cântaro.
Com a ajuda de Natanael, que definiu a beberagem como uma
essência de hipericão, pude verificar que o licor por ele ingerido era um
óleo essencial, extraído de uma planta a Hypericum perforatum
muito corrente na Galileia. Os seus elementos básicos hiperina, tanino,
hipericina, pectina e colina, entre outros são recomendáveis como antiinflamatório,
adstringente, antidepressivo e cicatrizador de feridas. O
indivíduo que lhe receitou o medicamento sabia de medicina.
*1 Mediante palpação deduzi que estas varicosidades venosas podiam ter
origem no mau funcionamento das válwlas do sistema safeno. O resultado, bem
conhecido dos especialistas, é o refluxo do sangue e a dilatação crónica da veia.
Segundo as próprias palavras de Natanael, aquelas varizes eram hereditárias. Na
minha opinião, mais que a uma insuficiência de válvulas, a etiologia das veias
varicosas de Natanael podia corresponder a uma sua insuficiência funcional
progressiva. Um mal lamentavelmente alimentado, pela obesidade e pelas
grandes caminhadas. (N. Do M.)
E foi da vontade de Deus que, sem tardar, no decorrer daquela
mesma jornada, este explorador acabasse por o conhecer, embora em
circunstâncias especialmente dramáticas...
Mas Bartolomeu, meticuloso e consciencioso, não se contentou em
tomar o hipericão. A distância até Caná era ainda de uns oito

quilómetros, a partir da pousada. Um trajecto demasiado longo para a
sua maltratada perna. Assim, com a franqueza que o caracterizava,
dirigiu-se ao Zebedeu, ordenando-lhe que entrasse na estalagem para
lhe trazer um alguidar e a água e o sal necessários para diminuir a
inflamação. A cena que depois presenciei teria feito corar um carroceiro.
Zebedeu, boquiaberto, olhou-o fixamente. Tão intolerante como o
amigo, irritou-se e, levantando a voz, censurou-o pelo seu despotismo.
No fundo assim julguei adivinhar pelas iradas frases de João todo o
problema se resumia na palavra medo. O Zebedeu, como já disse, não
desejava cruzar-se com a soldadesca romana. Bartolomeu, que não
desarmava, avermelhou de cólera, acusando por sua vez o filho do
Trovão de vaidoso e insuportável mimado. Os taciturnos e melancólicos
olhos negros do Zebedeu escancararam-se, acusando o golpe.
Avançando para o Urso inclinou-se até colocar o rosto muito perto do do
companheiro, gritando-lhe que a única e verdadeira razão por que não
entrava ele próprio era a presença do zarolho.
Logicamente, não compreendi.
Com as artérias do pescoço tensas como cordas, Natanael puxou João
pelo manto exigindo-lhe que retirasse a acusação.
Mas o Zebedeu, que ainda não tinha aprendido a vergar a sua
vaidade, lançou-lhe um desafio, acrescentando ao fogo da discussão
impropérios como tampa de odre,. bola de sebo e outras delicadezas
que injectaram de sangue os olhos do seu companheiro. Se Maria não
interviesse, não sei como acabaria aquela desagradável discussão.
Pouco a pouco, ir-me-ia habituando a estes periódicos e, no fundo,
muito humanos choques entre os discípulos do Senhor. Os crentes não
deveriam escandalizar-se nem surpreender-se perante estas,
aparentemente, estranhas situações. Como disse, tudo aquilo era lógico
e normal numa forte e ampla associação de homens tão diferentes. No
entanto, algo tão óbvio nunca foi escrito pelos evangelistas. Porquê?
Tiveram medo de ofuscar a imagem dos embaixadores do Reino? Em
minha opinião, o conhecimento destas disputas e das diferenças de
carácter dos discípulos engrandece a dimensão humana dos homens e
mulheres que rodearam Jesus. No nosso caso, ao conhecê-los e saber
das suas limitações apreciámos melhor a sua inegável entrega ao
Mestre.

Felizmente, como ia dizendo, quando o lance começava a ficar turvo, a
Senhora entrou na peleja, indignada com o comportamento pueril dos
discípulos. E agarrando João pela manga direita da túnica arrastou-o
para o túnel, à procura do maldito alguidar. A coragem e bom senso
daquela mulher voltavam a impor-se.
Hesitei. Que direcção escolhia? Seguia os passos da intrépida Maria
ou esperava junto do recalcitrante Bartolomeu? Este, teimoso como uma
mula, continuava com o seu chorrilho de insultos e maldições. Com um
familiar formigueiro no ventre sinal inequívoco de uma nova e iminente
perturbação decidi-me pela primeira hipótese.
Ao entrar na penumbra do túnel, um fedor inconfundível,
desagradável mistura de urina, humidade, cavalariças e azeite
queimado, pôs-me em guarda. Aquele tipo de estabelecimento dava
abrigo a toda a espécie de gente. Desde bufarinheiros a pacíficos
comerciantes, passando por evadidos da justiça, temíveis grupos de
sicários, correios, famílias de peregrinos e uma infinidade de raparigas,
ou prostitutas, ladrões e, principalmente a escória do povo: os am-haarez.
Dadas, pois, as circunstâncias, tinha de ser extremamente
prudente.
Em geral, com o fim de facilitar o intenso trânsito de homens e de
animais, estes acessos não tinham portas ou, simplesmente ficavam
abertos de par em par, mesmo durante a noite. À direita e à esquerda
do túnel abobadado, de uns seis metros de fundo por uns quatro de
altura, e a meio do húmido corredor, abriam-se estreitas aberturas, à
maneira de portas, que davam para os andares de cima. A luz
amarelada e trémula que vinha da candeia de barro, metida num nicho,
esboçava o perfil dos degraus de pedra, tornando mais tétrica, se é que
era possível, a entrada nos quartos.
No final do túnel abriu-se na minha frente um amplo pátio ou curral,
igualmente quadrangular, de uns dezoito metros de lado, a céu aberto.
Ali, em especial durante os meses secos, decorria boa parte da vida da
pousada. No centro havia um amplo poço, de uns dois metros de
diâmetro, com um tripé de madeira por cima da abertura. Uma
elementar roldana, com o concurso de cordas e de sacos de couro,
facilitava a extracção da água.
Parei uns instantes, tentando localizar Maria e Zebedeu. A minuciosa

observação não deu resultado. À minha direita, sentados no lajedo
branco, estavam os soldados. Formavam um círculo apertado,
discutindo, vociferando e soltando gargalhadas sonoras. Pelo que
parecia, participavam nalgum tipo de jogo. Os capacetes de madeira e
metal, as lanças e os escudos curvos, também de madeira, estavam
espalhados pelo pavimento, atrás deles. Traziam no tronco as típicas
cotas de malha, entrançadas, à base de anéis de ferro. Curiosamente,
nenhum daqueles cavaleiros, apesar do descanso que gozavam, se
desembaraçara das espadas que pendiam das espáduas direitas.
Diferindo das turmae que contemplara na Cidade Santa, esta exibia
por baixo da armadura umas ccamisas, de manga comprida e de pálida
cor violeta. As calças, em contrapartida, granates, muito cingidas e
curtas, eram as habitualmente usadas pela cavalaria. Ao escutar a sua
linguagem deduzi que estava na frente de uma patrulha de origem síria.
Possivelmente, contratada e pertencente a uma das quatro legiões
regulares acantonadas na Palestina naquele tempo (1).
O seu aquartelamento podia encontrar-se na cidade de
*1 Na época de que falamos ano 30 da nossa era a Palestina encontrava-se
ocupada por quatro legiões romanas: a Décima, a Terceira, a Sexta e a Décima
Segunda. No total, a província da Síria concentrava nove legiões, com sessenta ou
setenta unidades auxiliares, o que representava um contingente aproximado de
cinquenta e quatro mil soldados. Cada legião contava, por sua vez com um corpo de
trezentos cavaleiros, divididos em unidades menores: as turmae, ,de trinta
cavaleiros. A turma dispunha de três oficiais os decuriões -, chefes de fileira. Um
deles comandava toda a patrulha. A unidade dispunha ainda de três oficiais de
posto inferior: os optiones. (N. Do M.)
Tiberíades ou nalgum outro núcleo próximo da costa ocidental do yam.
Com idades entre os dezassete e vinte e sete anos, tinham um aspecto
vigoroso e saudável. Alguns, e isto também eu não observara em
Jerusalém, apresentavam umas tiras de couro em volta das têmporas,
pulsos e cintura. Minutos mais tarde, entenderia a razão e o
fundamento daqueles supostos adornos.
Uma galeria com arcadas rodeando o pátio completava aquela parte
da pousada. Nela, à maneira de improvisadas cavalariças, permaneciam
os animais de carga e o gado, numa caótica misturada com a forragem,

perseguidos pelas moscas e moscardos que os escoltavam sem
remédio. Na parede em frente do túnel de acesso abriam-se três
portas.
As duas das esquinas davam para o andar de cima: os quartos dos
viajantes. Este segundo piso, com umas vinte pequenas portas, parecia
estar protegido por rústico e enegrecido varandim de troncos de
coníferas, do qual pendiam esteiras e edredões habitualmente usados
quando se dormia. Pela porta central, mais ampla, saía a vozearia de
outra gente, possíveis hóspedes da estalagem. Logicamente, os meus
companheiros de viagem tinham de ter entrado naquela quadra. E para
lá dirigi os meus passos cautelosos.
Pouco faltou que, no meu cuidado em passar incógnito, voltasse a cair
num novo e perigoso erro. Ao atravessar o pátio pensei em rodear o
poço pelo lado esquerdo, evitando assim a proximidade da soldadesca.
Quando estava prestes a efectuar a manobra, os meus olhos cruzaramse
com as inquisidoras miradas de alguns dos cavaleiros. Rectifiquei a
tempo. E aparentando serenidade escolhi o lado direito da cisterna,
caminhando muito perto da patrulha.
Efectivamente, divertiam-se a jogar com uns dados de barro, em
forma de pirâmide, popularmente conhecidos como teetotum.
Confundido, respondi aos olhares dos soldados com um meio-sorriso. E,
sem me atrever a virar a cabeça, entrei de rompante numa ampla
quadra rectangular, regularmente iluminada por meia-dúzia de archotes
que nas paredes, a crepitarem, sufocavam o recinto com um fumo
branco e resinoso. Precisei de uns segundos para me adaptar àquela
penumbra. A minha presença não despertou excessiva curiosidade.
A grande sala, que fazia as vezes de taberna, casa de jantar e lugar
de reunião era presidida por uma comprida mesa, que ocupava a quase
totalidade da casa. A cabeceira esquerda observada da minha
posição junto à porta de entrada estava ocupada por um animado
grupo de indivíduos que falavam e riam, bebendo por jarros de barro
avermelhado.
Sobre a mesa alinhavam-se três ou quatro candeias de azeite e
diferentes escudelas e pratos de barro e madeira, cheios de um pão
escuro, figos e azeitonas pretas. Muito perto das candeias vi um guttus
(um recipiente, geralmente de cerâmica, em forma de chaleira e um

afiado bico, empregue para encher as já referidas candeias ou
lamparinas de azeite).
Anarquicamente distribuídas à volta da mesa principal, outras mesas
mais pequenas e quadradas, acompanhadas por bancos de uma
madeira enegrecida e lustrosa pelo constante uso. Estavam quase todas
ocupadas por homens de amplas túnicas, bigode rapado e compridas
barbas, que comiam ou bebiam sem medida o vinho negro, espesso e
quente vindo de um nicho feito na parede que se erguia à minha direita.
Algumas mulheres, com o rosto e os braços tatuados, iam e vinham num
incessante lidar, voltando a colocar os caldos e estufados de vegetais
que enchiam a travessa comum de cada mesa e onde os comensais
introduziam um grande bocado de pão, à maneira de colher.
O quadro era completado por um curioso balcão, parecido com os que
observara nas tabernas de Nahum. Erguia-se junto de uma parede
situada em frente da porta de entrada e estava armado por dez
bojudas vasilhas de um metro de altura, alinhadas e solidamente
enterradas no piso de ladrilho. Nas bocas das ânforas fora colocada
uma tábua de madeira de sicómoro, de uns cinco metros de
comprimento, com dez aberturas, de vinte e trinta centímetros de
diâmetro, que permitiam encher os jarros e as conchas de longas asas.
O vinho, salvo quando o cliente preferia tomá-lo à temperatura
ambiente algo pouco frequente naquele tempo era vertido na
marmita que pendia do lar e, uma vez quente, servido pelas raparigas.
A Senhora, e Zebedeu, muito perto da extremidade direita deste
balcão, pareciam esperar. A clientela, distraída, não lhes prestara
grande atenção, tirando os que estavam sentados numa das mesas
próximas das talhas.
Ao ir ao seu encontro notei-lhes certo mau humor nos rostos.
Atribuí-o à forçada passagem junto de soldadesca ou,..talvez, ao
fedorento e pouco recomendável ar que se respirava na taberna.
Enganava-me.
Zebedeu, nervoso, tinha os olhos postos nos cinco galileus que
compartilhavam a mesa e que, na companhia de um sexto indivíduo,
que permanecia de pé e ligeiramente encostado aos ombros de um dos
bebedores, murmuravam entre si, lançando olhares provocadores a

Maria e ao seu companheiro. Não fiz perguntas mas, a ajuizar pela
sombra de tristeza que velava os olhos da Senhora e o fogo que saía
dos de João, calculei, acertadamente, que os felah eram antigos
conhecidos e, o que era pior ferrenhos inimigos do Mestre e dos seus
discípulos.
Ao examinar o rosto do que se encontrava de pé comecei a
compreender a dura acusação feita pelo Zebedeu ao urso de Caná. O
olho esquerdo do homem estava tapado por uma negra venda de
metal. Aquele, sem dúvida, era o zarolho pelo qual Bartolomeu parecia
não manifestar muita simpatia. Um avental de couro sujo e ensebado e
um molho de chaves pendurado ao pescoço denunciavam-no como o
taberneiro dono da pousada. A partir daquele momento, para o Cavalo
de Tróia, aquela estalagem ficou baptizada como a do zarolho.
Maria, numa tentativa para dissipar a tensão, aconselhou João a
evitar os olhares dos camponeses. Suavemente, empurrou-o para as
ânforas. Ali, a meia voz, explicou-me que esperava a vasilha com água e
sal e que, ao reconhecê-los, o maldito estalajadeiro, como em
momentos anteriores, começara a meter-se com os dois, mortificando-os
com as suas grosseiras troças a Cristo e, em especial, do milagre de
Caná. João, a pedido da Senhora, conteve-se, mas, se a demora se
prolongasse, não teriam outra solução senão prescindir do remédio e
abandonar o local.
- Esta gente disse Maria, reprimindo a raiva é capaz de tudo...
E durante uns minutos permaneceu absorta, brincando com a rosa
trabalhada numa das asas das ânforas. (Assinatura ou marca
características das vasilhas originárias, como aquelas, da ilha de Rodes.)
Ao notar a aparente indiferença dos meus companheiros, o zarolho e
os seus parceiros insistiram mais ainda nas chalaças e risotas com a
água e o vinho até ao ponto de atraírem a atenção dos comensais das
mesas próximas. Entre os que voltaram as cabeças para a tertúlia que o
estalajadeiro comandava, e com evidentes sinais de desaprovação,
encontravam-se seis soldados. Os penachos que sobressaíam dos seus
capacetes dourados indicavam que se tratava dos comandantes da
turma. Provavelmente, os três decuriões e os optiones. Um deles, mais
impulsivo, esboçou o gesto de se levantar, talvez com a intenção de
mandar calar os provocadores. Mas o mais veterano, segurando-o pelo

braço, obrigou-o a sentar-se novamente.
João, no limite da paciência, fechou os olhos e, de costas para os
azedos felah, começou a esmurrar com o punho esquerdo a tábua que
tapava as ânforas. O bater cadenciado parecia o presságio de uma
iminente e temível explosão da ira do discípulo ferido. E a Senhora,
prudentemente, suplicou-lhe cordura.
Mas algo de imprevisto estava prestes a modificar, pelo menos
temporariamente, a azeda e comprometedora situação dentro da
pousada...
Num primeiro momento, a vozearia reinante impediu-nos de
compreender o que estava a acontecer lá fora. Foi a presença de um
dos soldados, a recortar-se na claridade da porta, que mobilizou os
oficiais da turma, impondo o silêncio entre os comensais. Foi então que
escutámos aqueles grandes gritos, a pedir socorro. Vinham do curral, ou
talvez do túnel. João e a Senhora imediatamente os identificaram. Eu,
honestamente, não soube de quem se tratava. E o Zebedeu precipitouse
para o pátio, seguido por Maria e por quem isto escreve. Alguns dos
hóspedes, movidos pela curiosidade, imitaram-nos.
O curral encontrava-se deserto. A patrulha, evidentemente, acudira
em auxilio do autor do alarido. No fim do corredor pareceu-me
reconhecer alguns dos decuriões, confundidos entre os homens da sua
unidade. Ao sair do túnel, quem primeiro me chamou a atenção foi
Bartolomeu. Estava de pé, assistido por João e chorando
desanimadamente. Ao ver-me, lançou-se nos meus braços, suplicando
perdão. Atónito, tentei compreender. Mas a aflição do Urso era tal que
não pôde responder às minhas perguntas. O Zebedeu, apontando-me o
grupo de cavaleiros que corria pelo caminho poeirento, em direcção a
Caná, resumiu-me o problema:
- Roubaram-lhe o cordeiro...
Com efeito, a uma ordem dos oficiais, alguns dos soldados tinham
saído em busca do ladrão. A pronta gritaria de Natanael e a rápida
mobilização da turma tornou possível que o indivíduo fosse localizado,
em plena estrada, a pouco mais de uma centena de metros da
estalagem. Um dos oficiais e mais três cavaleiros saltaram para as
montadas, completando assim a perseguição. Mas a destreza do

pelotão que corria na frente dispensou a acção dos cavaleiros. Quando
os mais velozes ganharam terreno e pararam de correr e, soltando as
tiras de couro que traziam à volta das têmporas, fizeram-nas girar meiadúzia
de vezes, lançando projécteis sobre o fugitivo. Ali acabou o
problema. Os fundibulários, com uma pontaria implacável, tinham
derrubado o ladrão. Esquecendo os meus companheiros corri para o
lugar. Uns e outros, imagino, justificaram a ha atitude, pensando que
procurava recuperar o cordeirinho. A minha intenção não era essa.
Apenas me moveu o desejo de verificar o estado do ferido e, ao mesmo
tempo, ser testemunha da captura. Ao abrir passagem entre os
soldados e ao descobrir a vítima, compreendi a inutilidade do meu
gesto.
Um dos projécteis uma espécie de bala de chumbo, em forma de
ovo e de uns cinco centímetros de diâmetro superior estava alojada na
região occipital do crânio. O impacte originara fractura da base, com
irreparáveis danos no osso e nas meninges. O ladrão, um jovem coberto
de farrapos, devia ter tido morte instantânea.
Um após outro, os três fundibulários que tinham participado no
lançamento examinaram a cabeça do rapaz. O responsável pelo certeiro
e mortífero tiro solicitou permissão ao optio para recuperar o seu
projéctil. O suboficial, verificada a morte do infeliz, fez um gesto de
cabeça, ;consentindo. E o indivíduo desembainhou a espada,
introduzindo a afiada ponta na ferida.
E a bala foi catapultada para fora. Depois de a limpar
meticulosamente com o pano de lã que lhe cobria as nádegas beijou-a e
preparou-se para a devolver ao surrão que lhe pendia do ombro
esquerdo. Entretanto, o resto do pelotão colaborou no transporte do
cadáver, colocando-o na garupa de um dos cavalos e iniciando o
regresso.
Ao ver a minha curiosidade, o atirador sorriu maliciosamente, falando
num dialecto que não compreendi.
Encolhi os ombros e, por gestos pedi-lhe que me mostrasse o projéctil.
Estendeu a palma da mão, mostrando-mo com satisfação. Senti um
calafrio. Aqueles soldados, como os modernos artilheiros, gostavam de
gravar nas suas balas frases alusivas às suas mulheres ou aldeias
natais. Neste caso, em latim, podiam ler-se: Da parte dos Sírios.

Deprimido e triste juntei-me ao grupo de curiosos que se amontoava
em frente da pousada. A Senhora perguntou então pelo cordeirinho.
Não soube dar-lhe resposta. Até àquele momento não dera conta do
seu desaparecimento. O mais provável era ter escapado para as altas
searas. E a voz do decurião que assumia o comando, exigindo a
presença do dono da estalagem, fez-nos esquecer a sorte do cordeiro.
Ao apresentar-se, o oficial interrogou-o quanto à identidade do morto.
O zarolho, quase sem o olhar, negou conhecê-lo. Porém, o cavaleiro
veterano, adivinhando a perversa intenção do galileu, ordenou-lhe que
tomasse a seu cargo o cadáver, avisando os parentes, caso os tivesse.
Os protestos do zarolho foram afastados sem contemplações. Sem mais
palavras, o oficial encostou a ponta da espada à garganta do
estalajadeiro. E este, pálido, pôs às costas o corpo do jovem, perdendose
na penumbra do túnel.
Concluído o lance, a turma soltou os cavalos. Dada a estreiteza do
caminho formou a três fileiras (ao estilo grego), com os decuriões à
cabeça e os optio à esquerda daqueles. E a passo se afastaram em
direcção a Tiberíades.
Calculei que tanto sobressalto e a desagradável experiência dentro da
estalagem teriam feito com que os meus amigos mudassem de opinião.
Calculei mal. Natanael, embora recomposto do susto, continuava a
coxear. E perante a minha surpresa, desta vez foi Zebedeu quem se
empenhou em o ajudar, obrigando-o a entrar na pousada para receber
o necessário tratamento.
Maria agradada pela mudança de atitude de João, seguiu-os em
silêncio, ajudando-me a carregar os sacos de viagem e o cântaro de
Murashu. Sorri interiormente. Que acontecera à recente e envenenada
discussão entre os discípulos? Também me acostumaria a estas bruscas
mudanças nas relações dos íntimos do Mestre. Tal como podia ver
naquela jornada assim eram os homens e as mulheres que
permaneceram ao lado de Jesus: intolerantes por vezes, egoístas em
certas alturas, mas, ao fim e ao cabo companheiros muito amigos. A
prova estava na minha frente. Com muita ternura, esquecendo os
insultos Zebedeu passara o braço direito do seu amigo pelos ombros,
auxiliando-o no caminhar.

Ao entrar no pátio a céu aberto, os meus companheiros pararam. À
direita do poço, justamente no lugar onde estivera a patrulha romana,
jazia o corpo do ladrão. A totalidade dos hóspedes e comensais,
reunida de novo na taberna, parecia ter-se desinteressado do cadáver.
E Maria, compadecida, encaminhou-se para as escadas de pedra que
conduziam ao andar de cima. Retirou uma das esteiras penduradas do
varandim, com ela descendo até ao lugar onde repousava o corpo. E em
gesto de piedade começou a tapá-lo. Quis a má sorte que naquele
instante, uma das raparigas assomasse ao curral. Fitando a Senhora,
censurou-lhe a acção. Maria, indignada, não se calou, acusando por sua
vez a serva e prostituta de hipocrisia e falta de caridade. Embora hoje
possa parecer estranho, a recém-chegada, do ponto de vista da
rigorosa visão religiosa da lei mosaica, tinha razão em parte. O contacto
com um cadáver era considerado como causa de grave impureza. (A
Misná, na sua ordem sexta, dedica dezenas de capítulos a esta
questão.) Se, por exemplo, um homem tocava num cadáver, contraía
impureza durante sete dias. E se um segundo indivíduo tocava no
primeiro, ficava impuro até ao pôr do Sol. Da mesma forma, um objecto
que roçasse ou entrasse em contacto com um cadáver ficava igualmente
impuro. A maldade dos judeus contra a qual batalhou Jesus chegava
a extremos inconcebíveis: Se um homem tocava naquele objecto (que
permanecera em contacto com um cadáver], os objectos seguintes que
pudessem ser manipulados pelo homem caíam igualmente em impureza
e pelo período de sete dias.
A esteira utilizada por Maria era propriedade da rapariga.
Daí a cólera da prostituta. João intercedeu, procurando serenar os
ânimos.
Mas os ecos da altercação tinham chegado ao interior da taberna e o
zarolho e um grupo de hóspedes não tardaram a aparecer, pondo-se
ao lado da serva. Embora estas absurdas normas religiosas não fossem
tidas muito em conta pelos tolerantes e liberais galileus, uma das
famílias de peregrinos que se hospedava na estalagem e assistia à
discussão possivelmente vizinhos de Judeia acabou por fazer frente
ao dono da estalagem, exigindo-lhe que se desfizesse do cadáver e
procedesse à purificação do lugar. De contrário ameaçaram
abandonariam a pousada sem pagar um único asse.

O zarolho, perante o prejuízo económico patente nessa advertência,
tornou como responsável do problema o queixoso Bartolomeu, que nem
sequer saíra de junto de mim. Era claro que aquela vingança tinha raízes
muito antigas... João protestou, recordando-lhe as ordens do decurião.
As razões do Zebedeu fizeram transbordar o copo da indignação geral.
E os galileus adoptaram uma atitude ameaçadora, brandindo os seus
bastões. A Senhora recuou, atemorizada, refugiando-se atrás do Urso. E
o estalajadeiro, encorajado, acusou João e os seus acompanhantes de
amigos dos romanos animando a clientela a lapidá-los.
Instintivamente, os discípulos lançaram mão dos respectivos gladius. A
situação piorava. A uma ordem de Natanael, a Senhora recolheu os
haveres, abandonando o lugar. Aquele foi outro árduo dilema para mim.
Nem podia intervir nem podia permanecer como mero observador. Ao
encontrar-me integrado no grupo, as ameaças abrangiam-me tão
directamente como aos outros.
O Urso aguardou que o seu companheiro, caminhando para trás e
sem perder de vista os excitados clientes, se pusesse a seu lado. E este
explorador, mais assustado se é que é possível que os discípulos, não
soube que atitude tomar. Imitei-os simplesmente, preparando-me para
o que via como uma batalha campal ou uma fuga desesperada.
A maioria esmagadora dos nossos adversários e o furor que
demonstravam fizeram-me tremer.
Uma vez lado a lado, João e Bartolomeu continuaram a recuar com as
brilhantes espadas viradas para a chusma que o zarolho encabeçava.
Durante breves minutos, o gume dos gladius, habilmente manejados
pelos discípulos, fez vacilar a maioria. E a um sinal, dando meia volta,
Natanael, primeiro, e o Zebedeu, depois, lançaram-se em corrida para
fora. Quanto a mim, quis o cruel destino que, ao rodar nos calcanhares
para me lançar em fuga, os meus desajeitados pés fossem esbarrar no
esquecido cântaro de barro do xeque nómada, rolando a todo o meu
comprimento no lajedo e perdendo a vara de Moisés.
Ao quebrar-se o cântaro, parte dos dois litros que guardava
derramou-se pelo centro do curral e o líquido pardacento, mais leve que
a água, encheu o recinto com um cheiro forte e persistente. A minha
queda aparatosa e o aparecimento súbito daquela substância

gordurosa, praticamente desconhecida dos galileus, conteve
momentaneamente a fúria e a marcha dos perseguidores, intrigados e
confusos. Foi o que de pior podia suceder.
De gatas, tentei recuperar a vara. Mas, ao alcançá-la, uma sandália
fedorenta caiu sobre o báculo, imobilizando-o no solo. Ao levantar os
olhos vi-me cercado pelas caras contorcidas de uma dezena daqueles
energúmenos. Entre insultos, pragas e cuspidelas atiraram-se às
pauladas e pontapés contra quem isto escreve. Julgo recordar que a
minha única obsessão, além de apanhar o cajado, foi proteger a
cabeça; uma das poucas zonas não protegidas pela pele de serpente.
De facto, algumas das violentas pancadas foram mal contidas pelas
minhas mãos e braços. Se uma daquelas pauladas me acertasse no
crânio, a minha sorte e a da operação podiam estar condenadas.
Durante uns segundos, que me pareceram intermináveis, a chuva de
pauladas foi tão cerrada quanto feroz. Era claro que, por não ter podido
abater-se sobre os meus companheiros de viagem, todo o rancor e fúria
do estalajadeiro e dos seus aliados abateu-se sobre mim, com a pura e
simples intenção de me eliminar. Mas os Céus compadeceram-se deste
aturdido explorador. E os efeitos da especial protecção que me cobria o
corpo não se fizeram esperar. Ao baterem nas minhas pernas, rins
braços e costas, muitos dos bastões quebraram-se, enchendo de
consternação os seus proprietários.
Além disso o que veio aumentar a sua confusão foram os sucessivos
danos nas sandálias e dedos nus dos que optaram pelas patadas.
Muitos, com prováveis fracturas, acabaram no lajedo, gemendo e
contorcendo-se de dor. O insólito da cena fê-los recuar, lívidos de terror.
E o ser, aparentemente invulnerável ergueu-se em silêncio, sem o menor
sinal de dano. A chusma, sem poder dar crédito ao que presenciava,
recuou uns passos, atirando para o chão os cajados.
Decidido a dar-lhes uma lição que nunca mais esquecessem, adoptei
uma das minhas costumeiras atitudes teatrais. Levantei os braços como
um iluminado, mostrando-lhes o corpo. O zarolho caiu de joelhos,
implorando misericórdia. Fechando os olhos, clamei com força para os
céus, exigindo o castigo divino. Aquela foi uma excelente ocasião para
experimentar outro dos sistemas de defesa, incorporado na vara de
Moisés pelos especialistas do Cavalo de Tróia.

Segurando o báculo pela parte de cima, carreguei num dos pregos de
cabeça de cobre, activando um laser de gás (1).
O feixe invisível foi incidir no charco provocado pelo cântaro partido.
Bastavam uns dois segundos para que o líquido conhecido entre os
Mesopotâmicos como óleo de pedra se incendiasse, ardendo
intensamente. O providencial cântaro, oferta de Murashu, continha o
que hoje chamamos petróleo,.
Os Orientais, embora desconhecessem o seu refinamento, utilizavamno
de há muito como uma excelente fonte de iluminação, de melhor
rendimento que o azeite e o óleo de sésamo. Muito provavelmente, o
caro presente do nómada vinha de alguma das numerosas jazidas
naturais de Bacu, no que hoje se chama Irão.
A aparatosa mas inofensiva cortina de fogo e fumo de um escasso
meio metro de altura, proporcionou-me o efeitto desejado. O taberneiro
e a sua gente fugiram enlouquecidos ou caíram de bruços no chão,
interpretando a minha acção como um sinal celeste. E quem isto escreve
aproveitou a confusão para abandonar o curral. Mas as minhas penas
não tinham terminado.
No final do túnel esperava-me outro encontro, mais embaraçoso do
que aquele que acabava de suportar.
Ao descobrir a silhueta no centro do portão associei-a a um dos
perseguidores. Por certo voltava à pousada. O dramático espancamento
não me permitiu verificar, como era lógico, se parte dos hóspedes
pudera sair em perseguição dos meus amigos.
E se os tivessem capturado?
Um reflexo metálico veio arrancar-me às minhas reflexões. O indivíduo
empunhava uma arma. Abrandei o passo, preparando-me para um
possível e novo ataque. Inexplicavelmente a figura continuou imóvel, com
os braços caídos ao longo da túnica. Era evidente que estava a
observar-me. E ao chegar a uns dois metros da boca do túnel tive um
sobressalto.
*1 Este tipo de laser fora concebido para ser utilizado, em caso de emergência,
sobre animais ou coisas, nunca sobre seres humanos. Trabalhava numa gama que
ia de umas dezenas de watts a algumas centenas. A sua colimação era quase
total, podendo concentrar-se em pontos cujo tamanho oscilava entre poucos

micrómetros e uma fracção de milímetro, com um fluxo de energia electromagnética
com base no dióxido de carbono, capaz de soldar uma lâmina de aço inoxidável de
treze milímetros de espessura, à razão de sessenta e quatro centímetros por
minuto. (N. Do M.)
Era Zebedeu. Estava ali havia quanto tempo? Teria sido testemunha
do espancamento e da milagrosa recuperação? Teria presenciado a
minha espectacular invocação aos céus? Tais pensamentos, como um
turbilhão, provocaram em mim um sentimento mais angustioso que o
experimentado ao enfrentar os galileus.
Ao fitá-lo nos olhos soube que o discípulo vira tudo... ou quase tudo.
As finas feições, que davam gravidade aos seus vinte e oito anos, não
reflectiam temor. Nelas havia uma luz ténue como se a admiração que
escapara do seu olhar tivesse impregnado todos os seus poros. Não
abriu a boca. E eu, que aguardava, tenso, agradeci o seu silêncio
prudente. Pestanejou nervosamente e, oferecendo-me o melhor dos
seus sorrisos, pôs-se a caminho. Deixei-o avançar. Naqueles instantes,
mais do que nunca, tinha necessidade de solidão e de reflexão.
Sucedera o inevitável? Estava escrito que, mais tarde ou mais cedo,
tinha de ser descoberta a minha verdadeira identidade? Chegado a
este crítico extremo, qual era o meu dever? Ali mesmo, caminhando
como um autómato atrás dos passos de Zebedeu rumo a Caná da
Galileia, pus em discussão a eficácia da Operação. Para ser exacto, a
minha própria eficácia.
Sei hoje que exagerei no meu juízo. Ter conhecido Jesus, tê-lo seguido
e tê-lo amado constituíram o nosso grande êxito.
E agora, por sua graça e expresso desejo, está nas minhas mãos
relatar quanto vi, ouvi e compreendi.
No entanto, naquela manhã, as coisas não me pareciam tão nítidas.
Fiz o balanço e o quadro dos meus turbulentos pensamentos enegreceu:
perante a Senhora fracassara estrepitosamente. Depois, na pousada do
zarolho, tinha-me visto na necessidade imperiosa de fazer uso dos meus
poderes, sendo descoberto por Zebedeu. Se ele o comentasse com
Maria e Natanael, o que era provável, as suspeitas da mãe do Mestre
ficariam confirmadas. Nesse caso, previsto também por Curtiss e pelos
chefes da Operação, o nosso regresso tinha de ser imediato. Mas a

delicada situação tomaria rumos inesperados...
Durante quase um quilómetro, nem a senhora nem o Urso deram
sinais de vida. Mergulhado em tão amargos pensamentos mal reparei
naquilo. João caminhava na frente, com passo rápido e a espada na
bainha. De vez em quando voltava a cabeça, confirmando a minha
presença. E o senso comum impôs-se: tinha de encontrar uma saída
airosa e suficientemente aceitável com que pudesse desvanecer as
conjecturas do discípulo em relação à minha natureza e origem celestes.
Porque, enfim, era aquela a sua ideia em relação a mim, alimentada
desde que o jovem João Marcos espalhara o mágico desaparecimento
de Jasão numa nuvem em pleno monte das Oliveiras. O problema era
como o destino, em breve, me ofereceria a solução. Dolorosa, sim mas
eficaz...
De repente, o Zebedeu parou. Deviam ser, aproximadamente, as três
da tarde (a hora nona). Instintivamente, fiz o mesmo. E, levantando os
braços acima da cabeça, agitei-os uma e outra vez, como se fizesse um
sinal. Assim era. À esquerda do caminho, entre os trigais, vi aparecer a
nutrida figura do Urso e, a seu lado, a grácil silhueta de Maria. E ambos,
em corrida, se encaminharam para João. Então compreendi. O valente
Zebedeu, que nunca abandonava os amigos, ao verificar que eu não os
seguia, voltara à pousada e, espada em punho, preparou-se para me
dar a sua ajuda. O resto, ao chegar à boca do túnel, era fácil de
imaginar. E no meu íntimo bem o sabe Deus agradeci o seu nobre
gesto.
Reagi, compreendendo que era vital que me unisse ao grupo.
Se mantivesse a distância, caminhando solitário até à aldeia de
Bartolomeu, só conseguiria multiplicar os receios da Senhora e dos
discípulos, dando motivo, com a minha ausência, a todo o tipo de
comentários e especulações. Tinha de arriscar. E com uma fingida
naturalidade fui pôr-me ao lado do Zebedeu, ao mesmo tempo que
Natanael e Maria saltavam para o caminho poeirento.
O Urso, com a respiração agitada pelo susto e pela corrida,
interrogou-nos nervosamente. Desta vez tomei a iniciativa e,
antecipando-me a João, tentei explicar o que acontecera, numa vã
tentativa de desmistificar aquilo que o discípulo presenciara. Retirei

importância aos golpes e, mostrando as nódoas negras e pequenos
hematomas nas mãos, comentei que a fortuna e os deuses do Olimpo
me tinham protegido. João, impassível, ficou em silêncio.
- Infelizmente acrescentei, dirigindo-me a Bartolomeu -, o cântaro de
Murashu perdeu-se na desordem... Continha um estranho líquido,
semelhante ao utilizado pelos meus concidadãos de Tessalonica para
alimentar o fogo sagrado...
O Urso, um dos mais instruídos do grupo, concordou com a cabeça,
afirmando que podia tratar-se do célebre e exótico óleo de pedra, muito
apreciado na Cidade Santa e, na verdade, carregamento habitual nas
caravanas que vinham do Oriente.
- Foi pena não ter pegado fogo à pousada resmungou o franco
Natanael e, com ela, ao maldito zarolho...
O azedo comentário inclinou a balança da sorte e da lógica a meu
favor. Aproveitando a ideia reforcei os meus propósitos, expondo-lhes
que, muito provavelmente, na confusão, alguém atirara uma lanterna
para o líquido negro, provocando um fogo de pouca monta mas
bastante para os distrair e facilitar a minha fuga. O Zebedeu caminhava
em silêncio. O sorriso trocista que tinha nos lábios foi a mais eloquente
das censuras. E a piedosa mentira agitou-se no meu íntimo como um
réptil. A Senhora e Bartolomeu, em contrapartida, aceitaram a minha
versão.
Enredados nos pormenores da odisseia deixámos para trás um
segundo desvio. Nesta altura, o caminho secundário partia igualmente
da direita da via que nos levava a Caná, serpenteando durante
quilómetro e meio até outra perdida aldeia Tiran situada a uns
duzentos metros de altitude.
Alguns vendedores de ocasião, postados na encruzilhada, ao longo
dos trigais, mostraram-nos as canastras de fruta e os alguidares de
farinha de cevada, animando-nos com os seus gritos a que aliviássemos
a sua miséria. Mas, ensinados pelas duras provas passadas nos
cruzamentos anteriores, nem um só dos meus companheiros afrouxou a
marcha.
Aqueles trinta minutos gastos nos três quilómetros que separavam a
estalagem do zarolho do atalho para Tiran, foram o começo de outro

calvário para quem isto escreve. Apesar da blindagem que a pele de
serpente me proporcionava, a brutalidade do espancamento fora tal
que os meus ossos e músculos se ressentiram. Durante horas
intermináveis suportei uma dor generalizada que começou a atenuar-se,
com a ajuda dos analgésicos, camuflados na minha farmácia de
campanha, passada boa parte da jornada seguinte. Também
Bartolomeu não voltou a lamentar-se. Os dois quilómetros e meio que
faltavam desde o cruzamento de Tiran ao que devia levar-nos à sua
cidade natal percorreu-os a coxear mas sem protestos.
Aquele último e breve trajecto (cerca de vinte e cinco minutos) da
quinta etapa iria proporcionar-me duas interessantes revelações, de
especial utilidade para os nossos planos futuros. Como já expliquei, um
dos meus trabalhos devia consistir no armazenamento de um máximo de
informação, o mais rigoroso e exacto possível, sobre os começos da vida
pública de Jesus. A precisão nos referidos dados era vital na altura de
manipular os swivels e proceder ao terceiro salto no tempo.
Tudo aconteceu de forma natural. A uma das minhas perguntas sobre
o ódio que o dono da pousada mostrara ter pelos que me
acompanhavam, Natanael, tirando-me da minha ignorância, explicou
que a recíproca antipatia vinha já de alguns anos atrás. O problema,
segundo entendi, surgiu no mês de adar (Fevereiro-Março) (1) do ano
26. Justamente por aquela data teve lugar em Caná o milagre conhecido
pelo do vinho. Pois bem, o prodígio, como era de supor, espalhou-se de
boca em boca pela região, chegando aos ouvidos do zarolho. O assunto
provocaria todo o género de comentários e opiniões. A maioria
- segundo Bartolomeu mais cheia de incredulidade e mau gosto que
de sincera aceitação da verdade. Embora não seja minha intenção
antecipar-me aos acontecimentos que nos coube viver no decorrer do
referido terceiro salto, é meu dever, isso sim, esclarecer que tanto Maria
como os discípulos que me acompanhavam na referida viagem a Nazaré
foram testemunhas do milagre da transformação da água em vinho. A
Senhora, como veremos na devida altura, teve boa parte de culpa na
realização deste primeiro prodígio do Filho do Homem. Um prodígio
seja dito de passagem não desejado por Jesus e que surpreendeu os
que assistiam às bodas e o próprio Mestre.
- Nos primeiros dias continuou o Urso -, quando o Rabi e os seis

primeiros discípulos se dirigiam para o lago...
Não tive outro remédio senão interrompê-lo. Seis discípulos? E os
outros? O bom Natanael, cada vez mais cansado de tanto coxear, evitou
a pergunta, dando a entender que, de facto, naquele tempo (últimos
dias de Fevereiro) o grupo apostólico inicial era formado apenas por
Jesus, André e Pedro, João e Tiago, que também eram irmãos, Filipe e
ele. E, não desejando perder-se num tema que, obviamente, não vinha
a propósito, continuou com a história do zarolho.
- Nessa viagem para Saidam fizemos uma paragem na maldita
estalagem que acabas de conhecer...
*1 A equivalência dos meses judaicos de então era a seguinte: nisán
correspondia aos nossos Março-Abril; iyyar a Abril-Maio; siván a Maio-Junho;
tammuz a Junho-Julho; ab a Julho-Agosto; elul a Agosto-Setembro; tisri (o começo)
a Setembro-Outubro; marsheván a Outubro-Novembro; kislev a Novembro-
Dezembro; tebeth a Dezembro-Janeiro; sebat a Janeiro-Fevereiro e adar a
Fevereiro-Março. (N. Do M.)
Natanael interrompeu a narrativa. Aquelas recordações eram para ele
particularmente ingratas. Mas, condescendendo com o pagão que a eles
se unira, aceitou continuar.
.levado por um excesso de confiança, cometi a fraqueza de anunciar
ao dono da estalagem e a quantos ali estavam, na taberna, que o
Messias libertador de Israel, autor do prodígio de Caná, minha cidade,
se encontrava à porta da estalagem. A agitação foi muita. E o venenoso
zarolho foi logo encher de água uma das talhas, ordenando-me, entre
chalaças, que transmitisse ao meu Mestre o seu desejo de a ver
transformada em vinho. Se possível, disse com ironia, do Hébron. Logo
ali o amaldiçoei. Desde então tenho procurado evitar aquele covil de
ladrões...
Era claro para mim. Como pensava, o ressentimento do zarolho vinha
de muito longe. Não insisti, procurando levar a conversa para outros
rumos. À minha nova pergunta sobre a veracidade do prodígio, Maria,
aborrecida com as minhas dúvidas, apressou-se a recordar-me que,
além dos discípulos que nos acompanhavam, podia citar-me a
identidade dos servos que tinham visto a maravilha,.
- Eles, e eu própria estávamos ali, junto das seis talhas, quando o meu

Filho fez o que fez...
Calei-me. Não tinha o direito de duvidar da palavra daquela
esplêndida e honesta mulher. Mas, como cientista, resistia a aceitar a
transformação de um elemento como a água noutro completamente
diferente. Eu sabia do extraordinário poder do Galileu. No entanto,
nunca o vi subverter as leis naturais.
Como explicar, pois, a transformação de dois hidrogénios e um
oxigénio em etanol, propanotriol, açúcares, álcoois superiores ou ácidos
málico e tartárico, entre outros ingredientes básicos do vinho?
Optei por me calar e esperar pelo terceiro salto. Se a fortuna nos
acompanhasse em tão ambiciosa aventura, talvez desfrutássemos a
possibilidade de assistir às célebres bodas, desvendando a incógnita
com a ajuda da ciência. Néscio! Para dizer a verdade, quão longe se
encontra a ciência das alturas do poder e dos mistérios divinos...
Mas não tenhamos pressa. A hora desse acontecimento maravilhoso
ainda não chegou.
Um dos dados fornecidos por Maria ia ser a chave nos preparativos
da viagem seguinte. Contrariamente a João e a Natanael, a mãe de
Jesus lembrava-se da data exacta do milagre de Caná: deu-se pelo
entardecer de quarta-feira, 28 de Fevereiro do ano 26 da nossa era.
Disposto a tirar partido da loquacidade da Senhora arrisquei-me a
interrogá-la sobre outro capítulo decisivo para nós, exploradores: Em
que momento, com exactidão, deu Jesus começo ao seu ministério
público?, Em relação a isto, os textos evangélicos não são muito
precisos.
Mateus, por exemplo, no terceiro capítulo, não oferece data alguma.
Outro escritor sagrado, Marcos (1, 9-10) diz textualmente: E sucedeu
que naqueles dias veio Jesus de Nazaré a Galileia e foi baptizado no
Jordão por João. Que quis dizer o evangelista com a expressão
naqueles dias? Algumas tradições cristãs, incluindo a versão dos Padres
gregos, sugerem que o baptismo de Jesus pode ter-se realizado em
Janeiro. No entanto, isto não oferece muitas garantias.
Lucas, o mais rigoroso, também não fala do momento exacto. No seu
capítulo terceiro (1-2) diz:
no ano décimo quinto do reinado de Tibério César, sendo governador

da Judeia Pôncio Pilatos, tetrarca de Galileia, Herodes Filipo, seu irmão,
tetrarca de Itureia e da Traconitide Lisania, tetrarca de Abilena, no
tempo dos sumos sacerdotes Anás e Caifás foi dirigida no deserto a
João, filho de Zacarias, a palavra de Deus. Dado que Pilatos começou a
governar em 26 da nossa era e que o milagre do vinho se registou nos
primeiros meses desse mesmo ano, tudo parecia, apontar para a
referida data. Mas, para nós, ainda não era suficiente. João, o quarto
evangelista, também não proporciona luz alguma na sua narração.
Depois de a referência superficial à pregação de João e à escolha dos
cinco primeiros apóstolos (ele não se inclui), entra directamente nas
bodas de Caná (segundo capítulo).
Não sei se fiz bem ao fazer tal pergunta sobre os primórdios da vida
pública do Mestre. Todos hesitaram discutindo entre si quanto ao
momento exacto. Quebrando o seu mutismo, Zebedeu uniu-se à
polémica, oferecendo o seu critério pessoal. Para ele, a hora do Mestre
chegou depois da execução de João, no mês de tammuz (Junho).
Bartolomeu recusou a ideia do seu companheiro, alegando que Jesus
deu-se a conhecer no baptismo do Jordão, no sebat (mês de Janeiro).
Para Maria, influenciada por aquele dia de glória, a consagração de seu
Filho como Messias dera-se em Fevereiro, nas bodas de Caná.
Não houve maneira de unir vontades. No fundo, todos tinham uma
certa razão.
No entanto, o meu objectivo fora, em boa medida alcançado.
Ainda que fosse imprescindível aprofundar as minhas investigações
alguma coisa se esclareceu: o Rabi fora baptizado por João em Janeiro
de 26. Um mês depois, em Fevereiro, era o milagre do vinho. E, pelo que
parecia, embora ninguém o recordasse com precisão, a partir dos
últimos dias de Junho desse mesmo ano de 26, consumada a morte de
João, o anunciador, Jesus de Nazaré, e o seu grupo lançar-se-iam
abertamente pelos caminhos do país, inaugurando um tempo de
pregação e de milagres que concluiria com a morte do Senhor, em Abril
de 30.
Se não fosse a perna doente do Urso e as dores que o martirizavam,
aquela quinta jornada, diferente das anteriores, teria podido classificarse
como um autêntico e delicioso passeio. Mas, ao cabo dos cinco
quilómetros e meio, os céus reservavam-nos outro sobressalto...

Devia ter calculado. Depois de quase nove horas de viagem intensa e
acidentada, aquele momento de descanso não era normal. E, ao pisar o
caminho poeirento que subia para Caná, branca e próxima, o optimismo
dos peregrinos desfez-se em fumo perdendo-se no céu tempestuoso e
ameaçador daquela segunda-feira, 24 de Abril do ano 30. E surgiu a
tragédia.
Quem isto escreve viu-se perante outro amargo transe...
Certamente, nada daquilo teria acontecido se o confiante Bartolomeu,
em vez de deter o seu passo desigual, tivesse continuado para Caná,
ponto final da sua viagem. Mas, quem tem na mão modificar os
desígnios da Providência? Dias mais tarde, ao regressar ao módulo e
submeter o minúsculo disco magnético alojado na sandália electrónica
ao processo de leitura e descodificação, Pai Natal confirmou, com
minúcia escrupulosa, o local exacto onde se registara o lamentável
incidente: a dezanove quilómetros e quinhentos metros do lago de
Tiberíades.
Tendo-se detido à vista da sua cidade natal, Bartolomeu, numa muito
humana e compreensível explosão de júbilo, levantou os braços e, ao
caírem-lhe sobre os ombros, as amplas mangas da sua túnica deixaram
a descoberto os membros curtos, peludos e musculosos. Rodando nos
calcanhares surpreendeu-nos com um dos seus inconfundíveis sorrisos:
franco, interminável e desfeado por uma dentadura negra e cariada.
Agradecemos a inesperada paragem.
É possível que os relógios do módulo marcassem quase as quatro da
tarde quando Maria, aproveitando o breve descanso, deixou cair o seu
saco no chão.
Num gesto muito feminino, sabendo que Caná se encontrava perto,
procurou arranjar e alisar o cabelo. Soltou um grande sorriso e, penso
que por casualidade, os seus formosos olhos amendoados foram
descobrir alguma coisa na serena e dourada vaga de trigais, à
esquerda da vereda por onde seguíamos. E com o seu característico
estilo por vezes perigosamente irreflectido para lá se encaminhou.
A princípio, nem Zebedeu nem Natanael prestaram muita atenção ao
súbito afastamento da Senhora. Pelo espaço de alguns segundos
permaneceu absorta num vibrante círculo de flores, nascido ao abrigo

das altas e prometedoras espigas de trigo. De imediato, certa do seu
achado, se deixou cair de joelhos sobre o barro vermelho. E com a mão
esquerda arrancou uns primeiros feixes de flores. Vi-a aproximá-las do
rosto e, fechando os olhos aspirou a intensa fragrância. A tragédia
estava prestes a consumar-se...
Num desejo espontâneo e generoso de partilhar a sua descoberta,
mostrou-nos o ramalhete de flores brancas, exclamando, alvoroçada:
- São lírios!
A alegria da Senhora era justificada. Aquelas flores silvestres, a que
Jesus fizera referência, gozavam então de uma grande fama, sendo
consideradas como presságio e símbolo da boa sorte. Mas naquele
momento, contudo, a sabedoria popular não acertou.
O Zebedeu replicou com um amável sorriso. Mas não se moveu.
Quanto a mim, estive tentado a percorrer os três ou quatro metros
que nos separavam da Senhora e a colaborar na apanha dos lilium
candidum. Foi Bartolomeu quem tomou a iniciativa, precipitando-se para
o trigal. Despiu o sebento chaluk e, feliz como uma criança, inclinou-se
para as flores, apanhando não só os lírios mas também as anémonas
azuis e violetas e os abundantes ranúnculos escarlates, que cresciam
aos pares.
Tremo agora, ao imaginar o que teria podido acontecer se me tivesse
antecipado a Natanael...
Pois bem, dispunha-me a interrogar o Zebedeu sobre o destino de tão
copiosos ramos quando, de repente, Bartolomeu soltou um gemido
abafado. Logo se pôs de pé largando o ramalhete.
Perante a admiração geral, desembainhou o gladius, lançando uma
forte espadeirada no chão. Uma nuvenzinha de poeira e de talos
cortados se elevou, fugaz, entre as espigas sujando a túnica branca do
discípulo. Maria, a uns dois metros, empalideceu. João e eu olhámo-nos,
alarmados, sem entender.
O golpe vibrado com ambas as mãos, foi tão violento que o ferro ficou
cravado no barro. No entanto, em vez de o recuperar, Bartolomeu deu
meia volta e dirigiu-se a nós, cambaleante. Assustei-me. Os olhos
estavam desorbitados, vidrados e a face, como a da Senhora, tornarase
leitosa.

Aterrorizado, estendeu as mãos para o Zebedeu, num mudo peddido
de auxílio...
João saltou para ele, agarrando-o e interrogando-o aos gritos. Maria
correu também para os dois. ,; Bartolomeu, vítima de um forte choque
em vão tentava explicar-se , limitando-se a mostrar a mão esquerda.
Um suor abundante começou a correr-lhe das têmporas. Respirando com
dificuldade sussurrou uma palavra que não compreendi. Pareceu-me
hebreu...
A Senhora, menos admirada que o Zebedeu e que este atónito
explorador, tomou entre as suas a mão de Bartolomeu, examinando-a.
Suponho que, ao reparar naquelas marcas, passámos os três pela
mesma aguda sensação: um calafrio que nos percorreu e secou as
gargantas. Incrédulo, desejando com toda a minha alma que aquilo não
fosse o que imaginava, procedi também a um trémulo exame da mão
do angustiado Natanael. Não havia dúvida. No peludo triângulo situado
entre o músculo interósseo dorsal (entre os metacarpos dos dedos
polegar e indicador) apareciam dois pequenos orifícios, separados por
cerca de dez milímetros e dos quais brotava uma exudação de soro
tingido de sangue. Logo por baixo destas marcas distinguiam-se uns
círculos sanguinolentos, de uns quatro milímetros de diâmetro, aos quais
se seguiam, também em paralelo, cinco ou seis incisões, quase
imperceptíveis. Ou muito me enganava ou aquelas eram as marcas da
dentada pelas presas superiores e inferiores de uma serpente... E o que
era pior: de um réptil venenoso. Se se tratasse de uma serpente
inofensiva, o ataque não teria deixado na pele os orifícios dos colmilhos
nem as áreas circulares sanguinolentas, correspondentes às bolsas do
veneno. O ponteado paralelo que se desenhava na continuação destas
perfurações sangrentas , tal como teria oportunidade de verificar
instantes depois, eram as marcas dos dentes inferiores, maxilares não
perfurados e palatais, respectivamente.
Zebedeu e eu trocámos um olhar. Inclinei afirmativamente a cabeça,
confirmando os seus temores. E como um só homem, deixando Natanael
nas mãos da Senhora, entrámos pelo trigal, onde continuava a espada.
Quem dera que o destino me tivesse poupado aquela cena. Mas a
sorte em especial a minha estava lançada...
Entre os tufos de flores cortadas vimos agitar-se, nos últimos

estertores, as duas metades de uma impressionante víbora, de uns
sessenta centímetros de comprimento, com a típica cabeça larga e
triangular e duas pequenas protuberâncias, à maneira de cornos, na
ponta do focinho.
João, num ataque de histeria, começou a espezinhar a metade
posterior.
Cavalo de Tróia dedicara especial atenção ao nosso treino quanto a
alguns dos muitos ofídios que infestavam a Palestina naquela época (1).
*1 Naquele tempo, a população de viperídeos, em especial de víboras era
consideravelmente superior à actual. Os tipos, no entanto, eram praticamente os
mesmos. Os especialistas da operação classificaram-nos em oito grupos principais:
Atractaspis engaddensis, Cerastes cerastes gaspereai, Cerastes vipera, Echis
coloratus Pseudocerastes persicus fieldi, Vipera bornmullen, Vipera betina obtusa
(também conhecida na Europa) e a referida Vipera palestinae. (N. Do M.)
Contudo, num primeiro momento aturdido pela tragédia, não soube
discernir com clareza se se tratava de uma vipera xanthina (conhecida
também como víbora palestina) ou da cerastes cerastes gasperetti.
Para dizer a verdade, pouco importava a diferença. Ambos os viperídeos
são qualificados como altamente perigosos. E embora a gravidade da
mordedura dependa de múltiplos factores quantidade de veneno
inoculado, sua toxicidade, localização e natureza da dentada, idade,
peso, saúde da vítima, etc. - o risco de morte para Bartolomeu, dadas
as precárias condições médicas de que dispúnhamos, era grande. Os
peritos sabem que os venenos das serpentes são talvez os mais
complexos de todos os tóxicos animais (1).
Quando penetram no sistema sanguíneo ou no linfático, os seus
efeitos são devastadores. Neste sentido, os estudos de H.
A. Reid são categóricos: Umas quinze gotas de veneno de víbora
seriam fatais para um homem adulto; três gotas de veneno de cobra
poderiam ser igualmente letais e uma só gota de veneno de serpentedo-
mar acabaria com a vida de cinco homens (2). O problema era
averiguar que dose de veneno podia ter recebido Natanael e como o
neutralizar.
Ajoelhei-me junto da cabeça da víbora, abrindo-lhe cuidadosamente
as mandíbulas. Os colmilhos estavam intactos.

(Por vezes, por acidente, doença ou qualquer desarranjo no aparelho
mordedor podem ficar inutilizados ou desaparecer total ou parcialmente,
retirando eficácia aos ataques do ofídio.) As marcas da dentada
fizeram-me pensar que a pardacenta víbora uma cerastes cerastes,
quase de certeza tinha atacado numa característica acção de
punhalada. Quando as mandíbulas se encontram completamente
abertas, com um arco máximo de cento e oitenta graus, os colmilhos,
que podem girar para trás e para a frente, colocam-se como um punhal,
cravando-se na presa, o que comprometia ainda mais o estado do
discípulo. Mas já pouco importava, o mais provável era que
*1 Estes venenos contêm misturas de enzimas (proteases, colinesterases,
ribonuleases e kialuronidases) bem como proteínas de tipo não enzimático, que
penetram nos tecidos, sendo absorvidos pelos sistemas sanguíneo e linfático,
provocando gravíssimos danos. Mas são as proteínas não enzimáticas caso da
crotamina, com um peso molecular entre dez mil e quinze mil as que originam
maior dano. No caso das cobras, o veneno, ao ter um peso molecular inferior ao
das víboras, passa quase de imediato à circulação sanguínea, difundindo-se mais
rapidamente que o dos viperídeos. Estes, regra geral, actuam mais sobre o sistema
linfático. É comum a acção dos venenos agravar-se, em consequência da reacção
da vítima, cujos tecidos se defendem soltando bradiquina e histamina, de natureza
inflamatória. Ainda que cada família de serpentes venenosas possa oferecer um
quadro diferente, os efeitos principais e mais generalizados dos seus venenos nos
vertebrados são os seguintes: neurotóxicos (sobre o cérebro, medula espinal,
terminais nervosos, etc.), sobre o coração e/ou o sistema respiratório, lesões no
revestimento dos vasos sanguíneos que causam hemorragias, coagulação do
sangue, inibição da coagulação do sangue (ambos os efeitos podem ser
produzidos alternadamente por venenos de serpentes distintas ou, até, pelo
mesmo veneno em circunstâncias diferentes), hemólise ou destruição dos glóbulos
vermelhos do sangue e lesões gerais nas células e tecidos. (N. Do M.) 2 A maior
parte dos estudiosos calcula que o DLSO (dose letal que mata cinquenta por cento
de um determinado grupo de animais de laboratório num dado tempo) média do
veneno de uma serpente é de 0,4 mg/kg. Consequentemente, uns vinte e seis
miligramas de veneno teriam cinquenta por cento de probabilidades de matar um
homem que pesasse sessenta e cinco quilos. (N. Do M.)
o impulsivo Bartolomeu, ao arrancar as flores, tivesse desalojado o
viperídeo e este, surpreendido no seu habitat (geralmente passam
despercebidos enterrando-se e deixando a cabeça de fora), houvesse
replicado atacando. É frequente, uma vez vibrado o golpe, que a víbora

recue e se oculte. Mas Bartolomeu teve tempo de a cortar em duas.
Tudo foi vertiginoso. A Senhora, com um grito, exigiu a presença do
Zebedeu. E este, uma vez aliviada a sua fúria, de ânimo mais calmo,
juntou-se aos companheiros. Natanael, de joelhos, a meio da vereda,
continuava a suar abundantemente.
Passados cinco minutos apresentava uns sintomas nada
tranquilizadores. No lugar da dentada, o edema, de propagação rápida
atingiu os quinze centímetros e a mão inchou muito. A dor, apesar da
dificuldade de Bartolomeu para se exprimir, devia ser grande. E
surgiram as náuseas. Verifiquei o pulso.
Não enfraquecera excessivamente. Inspeccionei os olhos. Também não
notei dilatação pupilar. A Senhora e o Zebedeu limitaram-se a enxugar o
suor do amigo, observando os meus movimentos com inquietação. Foi
numa destas explorações de rotina que, de repente, os meus olhos
encontraram os de João.
Em décimos de segundo fiquei consciente da minha situação.
Arrastado pelo desejo natural de ajudar Bartolomeu não me tinha
apercebido do erro em que estava a cair. Se a dentada era grave, como
parecia, o discípulo podia morrer. Se algum dos vasos da mão tivesse
sido atingido pelo ataque do réptil, o veneno podia afectar o mecanismo
da coagulação do sangue, um efeito particularmente notório do
envenenamento viperino.
Estas lesões, por outro lado, dependendo da resistência da vítima e
de outros factores, podiam originar uma falha cardíaca ou respiratória.
Foi outra íntima batalha. Como médico, o meu dever era auxiliar. Como
membro do Cavalo de Tróia, a minha obrigação estava perfeitamente
traçada: observar, abstendo-me de intervir nos acontecimentos que
pudessem modificar o natural devir da existência humana ou dos grupos
sociais daquele outro agora. Ainda que fosse apenas a título de
hipótese os Evangelhos não são claros neste aspecto -, eu
compreendia que Bartolomeu venceria a crise, encontrando-se presente
nos futuros acontecimentos da chamada ascensão de Jesus, bem como
na festa de Pentecostes. Ainda assim, uma vez mais, fui fiel ao
estabelecido e, retirando as minhas mãos da extremidade superior do
discípulo, cujo tecido subcutâneo, afectado pelo veneno, tinha começado

a descorar a pele, tomei a firme e penosa atitude de não actuar, pelo
menos enquanto não notasse uma evolução favorável.
Zebedeu, perplexo, interrogou-me com o olhar. Natanael continuava a
gemer, cheio de dores, ou, o que era pior, cheio de medo. (Deram-se
casos de pessoas atacadas por serpentes venenosas que faleceram
devido a uma falha cardíaca, causada pelo terror.) Como única resposta,
limitei-me a negar com a cabeça. E João, interpretando mal o gesto
como um não há nada a fazer, explodiu, afastando-me com um
empurrão.
- Maldito pagão!... És um farsante!
A Senhora baixou os olhos, partilhando não sei muito bem a
justificada indignação de Zebedeu. E eu, ferido no íntimo, vi como se
repetia a embaraçosa situação vivida na caravana mesopotâmica.
Entre maldições, na sua maior parte dirigidas a este explorador, João
pôs a mão do Urso sobre o joelho esquerdo.
Pegando no gladius cuspiu-lhe na ponta, limpando-a com a orla da
túnica. Ordenou à mulher que segurasse o pulso do companheiro e, sem
perda de tempo, fez uma incisão linear nas marcas da dentada,
ultrapassando-as ligeiramente e ferindo até uma profundidade de meio
centímetro. Bartolomeu, ainda que amodorrado, reagiu e, com claros
problemas de dicção, pediu ao seu companheiro que utilizasse a pedra.
Zebedeu, apercebendo-se do seu erro, lançou nova praga, culpando-me
pelo seu engano. E enquanto Maria rebuscava precipitadamente no
saco de viagem de Natanael, o filho do trovão, cego de ira, foi cravar a
espada entre as minhas sandálias fulminando-me com o olhar.
O aparecimento de uma pedra negra de natureza vulcânica, com uns
dez centímetros, nas mãos trémulas da Senhora cortou,
momentaneamente, a perigosa violência do Zebedeu. Uma violência
que, naturalmente, desculpei. O gladius a meus pés representaria a
ruptura definitiva entre a maior parte dos discípulos e o grego de
Tessalónica...
Aqueles homens, que conheciam na perfeição os perigos dos
caminhos de Israel, viajavam preparados para estas e outras
contingências. A misteriosa pedra negra de tal era boa prova.
João tomou-a nas mãos e, colocando-a sobre as marcas dos dentes

da víbora, friccionou com força a zona, escoriando a pele, a sangrar.
Logo a seguir, inclinando-se para a ferida, sugou energicamente,
cuspindo depois uma mistura de sangue e de líquido amarelento. Neste
último reconheci o veneno da víbora.
Instintivamente, pensei na boca de Zebedeu. Mas contive-me.
Naquelas circunstâncias nem sequer teria escutado os meus conselhos.
Se a língua ou as gengivas, por exemplo, apresentassem alguma lesão
aberta, o veneno sugado poderia entrar-lhe no organismo. À primeira
vista não parecia ser esse o caso. (Se o veneno era ingerido
involuntariamente e entrava no estômago, era neutralizado.) Uma e
outra vez, durante uns quinze ou vinte minutos, João de Zebedeu repetiu
a frenética sucção.
Ignoro se teve consciência de quanto foi decisiva a sua acção mas, a
julgar pelos resultados, apesar dos riscos de infecção que sempre
estavam ligados a este processo, uma importante dose de veneno foi
retirada, reduzindo a toxicidade local e geral. Não posso ter a certeza
mas na minha opinião, Natanael conservou a vida graças ao amigo. O
problema, naqueles momentos cruciais, era averiguar a dose de veneno
que se espalhara pelo antebraço e que vasos sanguíneos e linfáticos
podiam ver-se afectados. As próximas seis horas seriam decisivas. Se
Bartolomeu cuspisse sangue era sinal de que o veneno tinha circulado
pelo corpo, atacando órgãos internos, tais como pulmões, intestino, etc.
*1 Os interessantes estudos do cientista E. Kochva com a víbora palestina
demonstraram que o veneno injectado em cada mordedura oscila notavelmente.
Kochva levou as suas víboras a morder numa série de ratazanas mortas, calculando
depois a quantidade de veneno presente em cada roedor, retirando o veneno da
serpente no final da experiência. Os números foram eloquentes: no primeiro
ataque, o ofídio apenas utilizou entre quatro a sete por cento do veneno total
disponível. Nas mordeduras seguintes, paradoxalmente, o volume de peçonha foi
superior. (N. Do M.)
Nessa fatídica suposição, dado não estar autorizado a ministrar-lhe
um dos contravenenos que figuravam obrigatoriamente na minha
farmácia de campanha, a evolução do envenenamento era imprevisível.
Quando Zebedeu, depois de inspeccionar minuciosamente as últimas
cuspidelas, achou que as sucções só traziam sangue, fez um torniquete

rústico com o lenço, uns dez centímetros acima da mordedura. O aspecto
do Urso era preocupante. À palidez e às náuseas juntaram-se
frequentes convulsões e algumas pequenas manchas na pele da mão,
formadas pela efusão de sangue. O Zebedeu animou-o a levantar-se.
Mas a sua fraqueza e o choque não lho permitiram. Ofereci-me para os
ajudar. João, inflexível, baniu-me, ordenando que lhe entregasse o odre
da água. Assim fiz. Maria, visivelmente preocupada, murmurou algumas
palavras de alento ao ouvido de Natanael, retirando importância ao
ocorrido. O seu tacto e prudência eram louváveis. Em tais circunstâncias
a atitude mais sensata era justamente esta, a de tranquilizar a vítima e
a de favorecer que se esquecesse da ferida.
O Urso bebeu abundantemente e, quase aos empurrões, acabou por
pôr-se de pé. O Zebedeu, passando o braço direito do vacilante e
doente companheiro de Caná pela sua nuca, carregou com ele, pondose
a caminho da aldeia. A Senhora e eu juntámos os sacos e, quando
me dispunha a desencravar o gladius de João, este, voltando a cabeça,
avisou Maria para que não esquecesse os restos da serpente. A
Senhora empalideceu, olhando-me, suplicante.
Precisando de me sentir útil, mesmo que fosse apenas como
recolhedor de imundícies,, poupei-lhe o sofrimento. Ao empacotar as
duas metades da víbora entre os lírios abandonados perguntei-me que
utilidade podia ter aquilo. Depois de recuperar a espada preparei-me
para os seguir, lançando-me naqueles dois quilómetros e meio que nos
separavam de Caná. O meu ânimo para quê escondê-lo estava
muito por baixo.
Consciente da importância de cada minuto, o Zebedeu forçou a
marcha. Mas o caminho, difícil em subida implacável e as dificuldades de
Natanael constituíram um empecilho e um sofrimento adicional ao seu
estado nervoso. Vi-o parar.
Tropeçar. Recuperar o alento. Carregar uma e outra vez o amigo
enfraquecido e, finalmente, quando quase tínhamos atingido a cota dos
quatrocentos metros, cair. Maria, ofegante,
*1 Entre os fármacos obrigatórios nas nossas deslocações figuravam dois
poderosos contravenenos, preparados na Alemanha e testados pelo Paul-Ehrlich-
Institut, do Departamento Federal para Soros e Vacinas. Ambos convenientemente
dessecados, tinham sido fabricados com base na proteína de cavalo (cento e

setenta miligramas) contendo anticorpos com efeito imunizante contra dezasseis
tipos de serpentes venenosas, entre as quais se encontravam a cerastes cerastes,
a cerastes vipera, a echis carinatus, a vipera xanthina, e a vipera levekna. A
dosificação estabelecida por Cavalo de Tróia, em caso de mordedura, era de vinte a
quarenta miligramas em caso de tratamento imediato e de quarenta a sessenta
miligramas ou mais para tratamento posterior ou quando se apresentassem os
sintomas de envenenamento. Estes soros extraídos de cavalos que foram
imunizados com os venenos das serpentes agressoras, continham a imunoglobina,
conseguida mediante o tratamento e a separação fraccionada das enzimas. (N. Do
M.)
correu em auxílio de ambos. Mas o peso do Urso excedia as suas
poucas forças. João, caído a meio do caminho, estreito e pedregoso,
banhado em suor, respirava dificilmente, vencido por aquele quilómetro
e meio de subida fatigante. Caná, alheia ao nosso suplício, avistava-se
ao longe, assente sobre uma colina de uma altitude semelhante à que
acabávamos de coroar.
Segundo os meus cálculos, entre aquele ponto e o aglomerado de
casas caiadas mediavam ainda cerca de oitocentos ou novecentos
metros. Um percurso menos sinuoso mas cheio de pequenas e regulares
canhadas que faziam saltar no caminho e sofrer o caminhante. Apesar
de ser uma zona agreste, as terras apresentavam uma grande
densidade de culturas. À direita, nos terraços em socalcos, cresciam o
trigo e, em menor quantidade, a cevada. À esquerda da vereda,
afastando-se para o cimo das suaves elevações, exércitos de oliveiras e
de figueiras dominavam a paisagem, dando fé às palavras de
Bartolomeu sobre a dourada abundância da sua terra natal.
Mas a pausa forçada duraria pouco. De repente, Natanael começou a
vomitar. Maria, assustada, suplicou ao Zebedeu um último esforço. Ela
própria, dando o exemplo, agarrou o enfraquecido discípulo pelas
axilas, lutando por o levantar.
Quanto a João, física e psiquicamente esgotado, só conseguiu gemer,
amaldiçoando a sua má estrela. Aquilo era demasiado para mim.
Esquecendo o nosso código rigoroso, esquecendo tudo, afastei suave
mas firmemente a mulher, carregando o Urso em cima do ombro direito,
como se de um fardo se tratasse. Desta maneira, pouco ortodoxa, para
dizer a verdade, lancei-me ao último troço, com mais decisão que fôlego.

A temperatura de Natanael apresentava-se oscilante.
Não havia dúvida: a infecção continuava a propagar-se. Apressei o
passo, respirando pela boca e, como disse, apoiado mais pela minha
férrea vontade que pelo poder das minhas pernas. Assim, conforme
pude, percorri os primeiros trezentos ou quatrocentos metros. A
Senhora, apoiada ao infeliz Zebedeu, seguia-me à distância de uma
pedrada.
Embora não tivéssemos trocado palavra alguma supus que o lógico
destino fosse a aldeia. Não foi exactamente assim.
Ao sair de uma descida o caminho aplanou-se, apontando
directamente para Caná. À direita e à esquerda, protegidos por muretes
de pedra de um metro de altura, viam-se pomares de romãzeiras que,
naquele tempo, honravam e tornavam célebre a cidade.
Era esta, e não o vinho, como se pensa erradamente, uma das fontes
de riqueza da região. Em Caná nunca prosperou a vinha. Centenas,
talvez milhares de punicum granatum, referidas em Números (13, 23),
de troncos densamente ramificados e folhas oblongas que não
tardariam em povoar-se de vistosas flores encarnadas, verdejavam nas
encostas, oferecendo abrigo a festivas calhandras e às tardias águasneves.
Numa das minhas visitas a Caná, em pleno Verão, teria
oportunidade de contemplar como muitos dos seus habitantes
trabalhavam a casca deste delicioso fruto, preparando-a para
posteriores labores de tinturaria.
De repente, a uns trezentos metros das primeiras casas, Maria
ultrapassou-nos, correndo e gritando um nome: Meir. Com o seu manto
flutuando ao vento vi-a afastar-se pela viela que os parapeitos dos
pomares formavam, gritando pelo tal Meir.
Sem alento, sentindo como os joelhos começavam a vergar, lutei para
ganhar aqueles derradeiros passos. Bem sabe Deus que tentei. Mas, tal
como acontecera a João, as minhas forças eclipsaram-se e, antes que
conseguisse pedir ajuda, tombei, arrastando o Urso, e o pesado corpo
do discípulo imobilizou-me contra as pedras do caminho.
Ferido no meu amor-próprio voltei-me, lutando para me libertar.
Impossível. De bruços com os olhos e a boca cheios de terra e
arquejando como um forçado das galés, as fracas tentativas para

afastar o Urso só conseguiram queimar as minhas últimas energias.
Senti-me ridículo.
Dali a pouco, o auxílio de João e do homem que vi correr ao nosso
encontro salvariam tão grotesca situação. Quando consegui pôr-me de
pé, o meu orgulho apresentava piores sintomas que a minha
integridade física. Tinha falhado de novo...
Cuspi o pó e a raiva que me secavam a língua. Desta vez fui eu quem
renegou a sua péssima estrela.
Providencialmente, a Senhora tinha alertado um indivíduo que agora,
com o auxílio do Zebedeu, ajudava Natanael a andar. Com o corpo e a
alma maltratados apressei-me a segui-los.
Ao deixarem para trás os frondosos pomares, os três homens,
precedidos por Maria, viraram bruscamente à esquerda, desaparecendo
num casarão de altas paredes. Ao fundo da vereda, a uns duzentos
metros, Caná estendia-se branca e silenciosa numa frente de quase um
quilómetro. Tratava-se, sem dúvida, de uma localidade em
desenvolvimento. Nesta altura, muito a meu pesar, quase não chegaria
a pisá-la.
Os próximos acontecimentos iam passar-se, fundamentalmente,
naquela grande casa isolada onde vivia um dos galileus mais
respeitados e queridos de toda a região e ao qual aludira a vendedora
da encruzilhada de Lavi.
Por volta das cinco e meia da tarde, a menos de uma hora do
crepúsculo, sem saber muito bem o que fazia, atravessei a cancela de
madeira, procurando não perder de vista os meus companheiros de
viagem. Uma viagem que os imponderáveis tinham convertido num
pesadelo. Talvez não devesse ter narrado tão acidentada travessia até
Nazaré. Mas, obedecendo ao coração, achei por bem que quem venha
a ler este relato partilhe também as penas deste explorador.
Os lugares favoritos de Jesus? Houve muitos. E aquele foi um deles.
Quem teria imaginado que do outro lado daqueles grossos muros de
pedras quadradas e negras se encontrava um dos cantos preferidos e
habitualmente frequentados pelo Rabi da Galileia na sua passagem por
Caná?
Desorientado, não soube para onde olhar.

Bastou-me pisar o belo ladrilhado de gesso, que imitava madeira, e o
ar deixou de ser ar, fazendo-me esquecer dores e desconsolos. Na
minha frente abriu-se um denso jardim, povoado exclusivamente por
rosas. Elevados canteiros de jardim escarlates, brancos, amarelos e
rosados desenhavam os limites de um pátio no qual a bíblica vereda
cantada no Eclesiastes parecia ser a única flor permitida.
Trepando por paredes e caniços, erguendo-se sobre uma terra negra
e esponjosa, enterradas em ventrudas vasilhas, em humildes vasilhas de
barro ou em cisternas de basalto de todos os tamanhos, floresciam
esplêndidas rosas de Sidónia, do Sinai, do monte Hérmon, caninas,
phoenicias e outros exemplares silvestres que não soube identificar.
Fiquei embriagado, quase hipnotizado, pelo feminino tremor das cores
e pela serenidade daquela fragrância, a tal ponto que quase me perdi
no apertado corredor que, simulando em labirinto, parcelava o bem
arranjado lugar.
Na zona ocidental do grande terreno levantava-se, como disse, um
velho casarão, todo ele de pedra, cujo segundo andar fazia as vezes de
parapeito, protegendo a delicada plantação dos temíveis e abrasadores
ventos de poente. Para ali encaminhei os meus passos, penetrando
numa sala escura situada no andar térreo.
Cego pela claridade exterior, não reparei no alto degrau que dava
acesso à sala e, desajeitadamente, perdendo o equilíbrio, fui bater com
os ossos no pavimento de terra batida. Pela terceira vez naquela
ingrata jornada rolei a todo o comprimento com o consequente
estrépito. A minha apresentação ante o venerável Meir não pôde ser
mais cómica e deplorável... Atordoado e vermelho de vergonha erguime
com a mesma velocidade com que caíra. Mas a meio caminho, a luz
amarelada de uma candeia saiu-me ao caminho. E uma longa mão,
estendida com generosidade, ajudou-me a levantar. Agradeci o gesto,
perscrutando o semblante do ancião que tinha na frente.
O seu cabelo e barba, quase albinos, emolduravam um rosto alto e
estreito, ligeiramente bronzeado e no qual dominavam uns olhos claros
e confiantes. Sobre a túnica de lã, igualmente branca, reconheci a
haruta, o pequeno ramo de palmeira que distinguia os médicos ou
antes, os auxiliadores judeus. O seu nome era Meir um velho
conhecido e amigo de Natanael e da família do Mestre. Os seus mais de

sessenta anos tinha-os passado, quase na totalidade, em Caná de
Galileia, entregue ao estudo da medicina em geral e das rosas em
particular. A sua eficácia como rofé embora sempre repelisse este
título e a sua nobreza de alma tinham granjeado estima e uma fama
que ninguém ousava discutir. Mas isto iria eu descobrindo pouco a
pouco. Primeiro, nesta apressada visita e, mais adiante, ao acompanhar
Jesus na sua vida de pregação.
Ao notar a minha perturbação sorriu, tranquilizador, juntando novas
rugas às muitas pregas do seu nobre rosto. Sem pronunciar palavra
alguma perdeu-se nas trevas da casa.
Segundos depois, a luz que trazia acendia as torcidas de outras
candeias, estrategicamente penduradas das paredes, e a escuridão foi
recuando, permitindo-me explorar o que constituía o local de trabalho do
auxiliador: uma singular miscelânea de laboratório-biblioteca-hospital,
reunidos numa galeria sem janelas, de quase vinte metros por uns seis
ou oito de fundo. As quatro altas paredes, com excepção da porta de
entrada e de uma segunda abertura praticada num dos cantos, à direita
do referido acesso principal, estavam
*1 Diferindo, por exemplo, dos médicos mesopotâmicos, os Judeus,
poderosamente influenciados pelo ambiente de rigor monoteísta no qual eram
educados, não se consideravam como tais. Para eles, o único médico ou rofé era
Yahvhe. A saúde dependia sempre da vontade de Deus. Daí vinha a razão por que
os que praticavam a medicina se autoproclamavam curadores ou auxiliadores,
mas nunca médicos,. Pretender o mesmo título que o Uno, teria sido uma blasfémia.
Por isso, em qualquer passagem bíblica onde se fale de uma cura, deve entenderse
como a vis medicatrix naturae, emanada do poder divino. (N. Do M.)
conquistados por uma rede de estantes de madeira, cheias de
panelas, jarros, vasilhas e recipientes, muitos de vidro com inscrições em
aramaico, grego e hebreu, gravadas ou pintadas.
Anarquicamente guardados entre toda aquela louça, dezenas de
pergaminhos, de couro e de pele, bem como poeirentas tabuinhas de
madeira cobertas de gesso ou de uma cera negra e dura.
(Diferindo das chamadas tabula ou tabla rasa, nas quais era possível
voltar a escrever raspando ou vertendo uma nova camada de cera
sobre a superfície, estas tabuinhas destinavam-se a inscrições

permanentes.) À minha esquerda, próximo do umbral que transpusera
tão impetuosamente distingui Natanael, recostado numa esteira de
folhas de palma e reconfortado pelos seus amigos.
Sem ideias muito definidas quanto ao que devia ou podia fazer,
permaneci junto da porta, espiando os pausados movimentos do
auxiliador. Quando a luz mortiça, roubada ao azeite, foi suficiente para
não tropeçar, sem pressa como se o problema de Bartolomeu não fosse
com ele, começou a trabalhar na mesa de mármore negro que presidia
à biblioteca. Verteu uma certa quantidade de azeite (cerca de um
decilitro: o bastante para umas seis horas e meia) numa candeia de
gesso, iluminando o tampo e a desordem que sustentava: frascos,
alguidares e pequenas ânforas de dupla asa com formosas decorações
vermelhas e negras em fundos brancos, que adivinhei repletos de
bálsamos, beberagens, emplastros e inalações. Entre os instrumentos
do boticário chamou-me a atenção uma urna de vidro, do melhor estilo
herodiano, e várias bandejas de barro. A primeira guardava duas
caveiras e outros ossos humanos, pertencentes a membros inferiores.
Um sacrilégio como aquele só era possível na Galileia...
Nas bandejas, muito apreciadas pelos Judeus devido à sua fraca
absorvência, que tornava desnecessária a purificação ritual repousava o
Hinstrumental cirúrgico: facas de pedra, de ferro e de bronze, serras
curtas e dentadas, afiados escalpelos (de metal e de concha de
tartaruga), tesouras de cirurgião, fórceps lisos etc. Numa das
extremidades da caótica mesa de trabalho, dois moldes circulares,
transbordantes de uma tinta negra e espessa (2).
Ao lado, atadas num molho, as penas habituais: carriças (os calamus)
cortadas obliquamente e fendidas, antepassados das actuais penas de
metal, e esponjas indispensáveis para apagar a tinta.
Enchida a candeia e acesa a lanterna que governava a mesa, Meir,
sem perder o sorriso que o caracterizava, ajoelhou-se junto do doente.
Confiou à mulher a sua pequena e inseparável candeia e, sem mais
preâmbulos,
*1 Ainda que os Galileus não fossem tão rigorosos em questões religiosas, a lei
judaica, no cúmulo da sofisticação, fixava que os utensílios de madeira, de pele, de
osso, de vidro, de barro e de alúmen, se fossem lisos, não contraíam impureza. Em
contrapartida como informa o kelim, ordem sexta - se formavam uma

concavidade, eram susceptíveis de pecado. A tinta usada tinhha diferentes origens.
Na sua maioria preparava-se à base de fuligem, proveniente de fornos de mármore
nos quais se queimava pinho. Misturava-se este com cola e, uma vez seco ao sol,
adoptava a forma de blocos fáceis de diluir. De um modo geral, a tinta escolhida
pelos copistas e escribas não continha cola, mas sim goma, com uma infusão de
absínho de sabor amargo que protegia os rolos dos ataques dos roedores. (N.
Do M.)
com movimentos calculados, inspeccionou a mordedura e o edema.
Lenta, silenciosa e prudentemente fui-me aproximando do grupo.
Não desejava intervir. Apenas presenciar a actuação do curador.
Ao verificar o pulso e a temperatura, a paz daqueles olhos azuis
fraquejou fugazmente. Mas, logo, com uma sabedoria nata ou
aprendida nos seus longos anos de combate à doença, de novo ela
voltou, tranquilizando o olhar incisivo de Maria. A respiração de
Bartolomeu, talvez por se saber nas mãos de Meir, recuperou um ritmo
aceitável. Abrindo-lhe as pálpebras, explorou as pupilas. A Senhora,
atenta, aproximou a candeia do pálido rosto do Urso. O seu pulso,
trémulo, não passou despercebido ao ancião. A midríase ou dilatação
de ambas as pupilas estava normal. Era um bom sintoma. E Meir,
afastando com doçura a mão que segurava a luz, perguntou a Maria:
- Filha, quem é o doente?... Ele ou tu?..
A Senhora baixou os olhos, desculpando-se. E o Zebedeu, devorado
pela impaciência, apressou o auxiliador com uma insolência semelhante
àquela que eu tinha suportado na altura do incidente. Meir não mudou
de atitude. Como única resposta, sem perder a compostura, ordenou-lhe
que aquecesse àgua. João obedeceu, dirigindo-se ao canto esquerdo
da quadra, e quem isto escreve sentiu-se satisfeito perante a firmeza e
tolerância daquele homem.
O auxiliador dirigiu as mãos para os músculos intercostais e para o
diafragma do discípulo. Apalpou e, satisfeito, gracejou, chamando-lhe
glutão. Calculei que não tivesse encontrado sinais de curarização ou
paralisação dos referidos músculos.
A astúcia e conhecimentos do rofé entusiasmaram-me. As troças ao
ventre avantajado de Bartolomeu, além de aliviar a tensão do

momento, continham outra escondida intenção: verificar os possíveis
transtornos na dicção. E o de Caná, com algumas dificuldades na
pronúncia, abusando da sua amizade com o ancião, mandou-o para o
inferno. Meir deu-se por satisfeito.
Regressando à mesa de mármore pegou num pequeno punção, que
aproximou da chama da candeia. Depois de o ter desinfectado e
arrefecido, ajoelhou-se novamente na frente do doente, praticando uma
série de meticulosas picadas no edema que deformava a mão. Ao tocar
na área da mordedura não obteve reacção de Bartolomeu. A acção
neurotóxica do veneno tornara insensível aquela parte.
Felizmente, não aconteceu o mesmo no resto do inchaço. Natanael
acusou dor. Torceu a cara e amaldiçoou a raça do curador. Por último,
Meir, depois de imobilizar a extremidade superior, provocou uma
minúscula ferida na pele do antebraço. Umas gotas de sangue,
provenientes dos capilares, apareceram de imediato entre a abundante
pilosidade. A hemostasia (coagulação) não se fez esperar. E Meir,
soltando um suspiro, deixou-se cair, sentando-se nos calcanhares.
Observou Bartolomeu e, dirigindo-se à mulher, formulou uma pergunta
que, naturalmente, ninguém soube esclarecer:
- Diarreias?
Maria vacilou. E o ancião, destapando as pernas de Natanael,
explorou o estado do seu seq ou tanga. Negou com a cabeça e dando
uma carinhosa palmada na cara do discípulo, comentou divertido:
- Parece-me que tiveste sorte... tampa de tonel.
Os olhos de Maria iluminaram-se e Meir, levantando-se, encaminhouse
para o canto onde permanecia o Zebedeu. A Senhora, então,
ajoelhando-se, pousou a cabeça do ferido no seu regaço, afagando-lhe
o cabelo e convidando-o a descansar.
Ainda que uma taquicardia parecesse afastada de momento, a
tranquilidade era muito aconselhável, principalmente para evitar o
aumento da absorção produzido pela vasodilatação.
Devorado pela curiosidade procurei conhecer os movimentos seguintes
do rofé. Ao canto destacava-se, avermelhado, um forno de tijolo de oito
bocas. Numa delas, ao cuidado de João, fervia uma marmita de cobre.
O ancião, contente ante a fervura da água, pediu ao Zebedeu que

continuasse atento, evitando que as chamas se apagassem. A seguir
interrogou-o quanto aos restos da víbora. Apontando para Maria, João
fez ver a Meir que era ela quem os recolhera. A Senhora, por sua vez,
enviou o ancião para este desolado explorador.
E digo bem: desolado, porque o molho de lírios que envolvia o ofídio
desaparecera. O mais provável era que se tivesse soltado do meu cinto
quando caí no pomar das romãzeiras. As minhas desculpas foram
entendidas e aceites por Maria e pelo auxiliador. João, em
contrapartida, profundamente magoado com este farsante, voltou à
sua cólera, descarregando em mim uma cruel intolerância. A minha
aparente mansidão acabou por exasperá-lo, exigindo a Meir que me
expulsasse de sua casa.
Foi a única vez que vi endurecer o rosto do ancião.
Recriminando o discípulo por tanta violência, lamentou que tão
rapidamente tivesse esquecido as palavras do seu defunto rabi.
Maria e eu entreolhámo-nos. O velho e bondoso curador de Caná
- que partilhava a filosofia do Filho do Homem não parecia estar
informado dos últimos e prodigiosos acontecimentos. Era lógico. As
notícias sobre a Ressurreição do Galileu e das suas aparições ainda não
tinham chegado à remota aldeia. Uma chispa de alegria clareou o
verde-erva dos olhos da Senhora, mas, quando se dispunha a anunciarlhe
a boa nova, Meir, voltando as costas ao confuso Zebedeu, pediu-me
que desculpasse o seu jovem e fogoso amigo. Concordei sem reservas. E
o rofé, recuperando a placidez, interrogou-me sobre as características
da serpente. Fingi não as recordar com exactidão, insinuando,
intencionalmente, o pormenor dos cornos... Foi suficiente.
Identificou a víbora, lamentando a perda. Segundo disse, este tipo de
ofídios, previamente cozinhados, dava um excelente resultado como
antídoto contra a lepra. Dadas as suas notáveis virtudes como curador
acreditei que o verdadeiro interesse pela cerastes cerastes não se
fixava exclusivamente no discutível remédio contra as lepras, mas sim
nas vantagens que, de um ponto de vista médico, podia trazer a
identificação e exame do animal.
Esquecendo o incidente, suponho que comovido com a minha
docilidade perante o ataque de João, pegou na candeia que voltara a

encher, fazendo-me sinal para que o acompanhasse.
Encaminhou-se para as estantes ao fundo da sala e, iluminando de
baixo para cima, retirou um dos rolos. Consultou a inscrição existente
numa das extremidades e, certo da escolha, regressou à mesa. O livro,
confeccionado em papiro de Sais, mais estreito e económico que o real
ou Augusta, estava armado à maneira egípcia: com as folhas cosidas
umas às outras, formando uma longa tira que se enrolava em dois paus
cilíndricos.
E à luz da lâmpada o foi desenrolando com a mão esquerda, olhando
a apertada grafia grega, ao mesmo tempo que, com a direita, ia
enrolando o que lia e consultava. Ao fim de poucos minutos detinha-se
numa série de colunas. A página em questão apresentava várias
ilustrações, que descreviam as partes mais destacadas das rosas. Ao
notar como me inclinava por cima do seu ombro, tentando ler, Meir, tão
curioso como eu, perguntou se me interessava a ciência de Cratevas (1).
Recuei prudentemente, com um aceno afirmativo de cabeça. E
colocando-me o rolo nas mãos convidou-me a desenrolá-lo. Antes de
poder agradecer-lhe a confiança, rodeou a mesa e saiu para o jardim.
O livro, pelo que pude ler, era uma cópia dos fecundos trabalhos
feitos sobre botânica do mencionado Cratevas e, muito especialmente,
em relação às supostas propriedades curativas e medicinais das rosas
(1). Nesta fonte se inspirariam outros grandes da Antiguidade, tais
como Plínio, Dioscórides, Teofrasto e Galeno, entre outros, bem como os
botânicos de Grete e Ascham, em 1526 e 1550, respectivamente.
As descrições do botânico grego, muito cingidas à verdade,
pareceram-me deliciosas. Chegava a classificar trinta tipos diferentes de
drogas, todas elas derivadas das rosas. Como Plínio, qualificava-as de
adstringentes e refrescantes.
Descrevia os processos para obter o suco benéfico, garantindo que
eram recomendáveis para dores de ouvidos, úlceras bucais, gargarejos,
transtornos do recto, do útero e do estômago, enxaquecas febris,
náuseas, insónias, irritações da parte interior das coxas, inflamação dos
olhos, escarros sanguinolentos, menstruação dolorosa ou irregular, dor
de dentes, diarreias, hemorragias e um etecétera tão grande que,
praticamente, enchia os seis metros de que constava o livro.

Depois de dar prolixos conselhos sobre as virtudes destas plantas,
horas do dia a que era conveniente colhê-las, destilar e macerar as suas
pétalas, Cratevas gastava dezenas de colunas em mais dois singulares
capítulos: a cosmética e a gastronomia. O método para obter a célebre
água de rosas, um dos perfumes mais solicitados nos tempos de Jesus
pareceu-me especialmente interessante.
O ingrediente básico eram as pétalas da damasco, uma das rosas, de
origem persa, de aroma mais penetrante. Colocam-se em água
límpida, rezava o papiro, num recipiente de madeira, que se deixa
destapado aos raios do sol durante alguns dias. As gotas de óleo que
vêm à superficie serão recolhidas em almofadinhas de lã, que depois
serão espremidas para um frasco, selando o recipiente... Por último, as
possibilidades gastronómicas das rosas hoje praticamente
desconhecidas eram enumeradas com minúcia, elogiando o requinte
do mel, sobremesas e bebidas que com elas se podiam obter
*1 Cratevas, conhecido por Rhizotomus (cortador de raízes,), foi um célebre
botânico grego, médico do rei Mitrídates Eupator II da Pérsia (século I a. C.) ao qual
dedicou dois géneros de plantas. (N. Do M.)
2 Um dos pratos mais wlgares era a compota, leve e nutritiva, confeccionada com
as rosas mais fragrantes, colhidas segundo a tradição de manhã cedo. Lavavase
e secava-se à sombra, em tiras de linho, juntando água e mel, em proporção ao
peso das pétalas. Cozinhava-se depois numa vasilha, mexendo com uma colher de
pau até engrossar. Por vezes juntavam-se umas gotas de limão, a fim de aumentar
a sua adstringência. Esta compota era guardada em frascos de vidro ou de barro,
selados com cera. Os doces à base de pétalas em pó era outra especialidade
muito cotada. Preparava-se uma massa com água e umas gotas de limão,
aquecendo-se até obter a cor desejada. A massa era estendida e cortada em
pequenas pastilhas, que eram servidas numa bandeja de madeira. O mel de rosas
uma das fraquezas de Jesus de Nazaré elaborava-se colocando as pétalas e o
mel em camadas sucessivas. Depois, aquecia-se a vasilha, fazendo com que o
aroma das rosas fosse absorvido pelo mel. Passada uma semana eram retiradas
as pétalas. Os Romanos segundo conta Apicius no seu livro de cozinha De re
coquinaria gostavam de juntar às sopas, carnes e peixes um pó de pétalas que
proporcionava um requintado sabor aos manjares. E o mesmo acontecia com as
saladas, nas quais se incluíam pétalas trituradas ou frescas. Também as bebidas,
principalmente nas mesas mais luxuosas e exigentes, contavam com o concurso da
Hágua de rosas. Servia para diluir o sumo de romã ou para perfumar os de
amoras. O chá de rosas, por outro lado, era muito apreciado entre os Orientais.
Confeccionavam-no com pétalas secas. Estes pratos, além do seu sabor

agradável, continham importantes quantidades de vitaminas, sais, fósforo, cálcio e
ferro. A rosa silvestre (Canino), para citar um exemplo, encerra vinte vezes mais
vitamina C que a laranja, sem mencionar as vitaminas A, B, E e K. Quanto ao
vinagre de rosas, obtinham-no introduzindo rosas vermelhas ou brancas num
recipiente com vinagre comum. (N. Do M.)
No futuro, este incomparável rolo seria de grande utilidade em
momentos muito delicados da operação...
O ancião voltou com um pequeno cesto a transbordar de rosas
vermelhas, brancas e outras de uma belíssima cor ferrosa.
- Cada uma comentou enquanto as desfolhava tem o seu valor.
Estas sentenciou, referindo-se às pétalas vermelhas as mais fortes,
ajudam a conter um ventre solto. Estas apontou as de tonalidade
branca têm um efeito...
A voz autoritária do Zebedeu, anunciando que a água estava pronta,
veio interromper as cordiais explicações do botânico.
E concluindo o corte dos pecíolos, onde se concentrava o maior volume
de humidade, almofariz na mão, empenhou-se numa hábil e rápida
trituração das folhas. O passo seguinte foi a filtragem do suco, voltando
a escudela de madeira em cima de um grosso pano de linho. O
perfumado licor ficou guardado num segundo recipiente de bronze,
preparado para o novo processo. Retirou a água do fogão e, muito
habilmente, começou a misturá-la com o sumo de rosas, até a
beberagem adquirir a espessura do mel.
Por último, lançou na poção bocadinhos de juncos aromáticos, uns
punhados de sais e uma generosa porção de etrog (o limão da festa
dos Tabernáculos), que contribuiu para arrefecer o remédio e, ajudando
Natanael a levantar-se, obrigou-o a ingeri-lo até à última gota.
Viu-lhe o pulso, recomendando a Maria que, caso fosse necessário, lhe
enxugasse o suor. Esfregando as mãos com satisfação voltou ao papiro
de Cratevas. Desta vez, preocupado com a evolução do discípulo, limiteime
a observá-lo de longe.
A chama que se agitava na mesa transformou em ouro o seu cabelo e
o silêncio encheu de paz o lugar. Terminada a consulta dirigiu-se a um
dos sombrios cantos da biblioteca, pegando num bojudo frasco de vidro.

Dele retirou uma porção de pétalas secas e, submetendo-as ao fogo,
reduziu-as a cinzas.
Uma segunda viagem à estante terminou a manipulação. De uma
vasilha de barro retirou uma colherada de gordura animal, espalhandoa
com delicadeza num pequeno prato de madeira, e as cinzas foram
misturar-se com a película fina e gordurenta.
Como era de esperar, a fragrância das pétalas apossou-se da
manteiga. Com a candeia na mão esquerda e a escudela na direita Meir
foi ao encontro de Bartolomeu. Talvez fosse cedo demais para um
diagnóstico, mas no meu fraco entender, o mal parecia regredir. Ignoro
que efeitos conseguiu produzir a beberagem no organismo do doente.
Do que estou certo, como já mencionei, é que o verdadeiro salvador foi
Zebedeu...
E cantarolando uma série de citações bíblicas, com o auxílio dos dedos
besuntou a ferida com o oleoso e fragrante produto.
Yavé curou Abimelech (Gén 20, 17).:. Eu sou a força eterna, Eu sou
Yavé que te cura (Êxodo 15 26)... Rogo-te Deus, que o cures agora!
(Números 12, 13)... Eu firo e Eu curo (Deuteronómio) 32, 39)...
Coberta a mordedura e o edema, o ancião, cujo afecto pelos homens
e pela mulher era tão antigo quanto a neve dos seus cabelos, cruzou o
olhar com o da Senhora e, convertendo em bolinhas os restos da
perfumada gordura, ofereceu o prato à mãe do Mestre. Os seus olhos
faiscaram. Resoluta e alegre alisou com elas os cabelos de Natanael e,
a seguir, a sua grande barba negra. Este costume, muito em voga
naquele tempo, era partilhado por homens e mulheres, indistintamente.
O portador, graças à fragrância do cabelo, tornava mais agradável o
espaço à sua volta.
Ao reparar em Zebedeu e em mim, a Senhora desculpou-se,
estendendo-nos a escudela. João, vítima de uma das suas frequentes
alterações de carácter, recusou a gentil oferta.
Quanto a mim não soube que fazer. Animado pelo sorriso de Maria
peguei no prato, tacteando a gordura com a polpa dos dedos. Maria,
divertida, adivinhou a minha falta de habilidade. Disse-me que me
inclinasse e espalhou e desfez as bolinhas no meu cabelo, esfregando-o
com ternura. E a minha profunda solidão viu-se notavelmente aliviada.

Pelas 18 horas e 22 minutos, o ocaso, pontual, afundou Caná numa
súbita escuridão. E o céu, inquieto e ameaçador durante todo o dia,
abriu-se finalmente, precipitando-se para a terra em mansa chuva. A
marcha para Nazaré foi adiada. Bartolomeu, mais sereno, caiu num
sono profundo e reparador. Meir ausentou-se e, durante meia hora,
nenhum dos três esgotados peregrinos trocou palavra. O Zebedeu,
extenuado, acabou por se acomodar perto do fogão, não tardando em
adormecer. Maria e este explorador, sentados um de cada lado do
doente, gozámos o sussurrante lamento da chuva nas flores.
Em muitas alturas os nossos olhares se cruzaram e num diálogo sem
palavras interrogámo-nos mutuamente. Ao contrário do Zebedeu, no
olhar de Maria não havia rancor. Pelo contrário: gentil, respondeu-me
com um sorriso quente. Porém, a valorosa mulher, tão fatigada quanto
os outros, viu-se atacada pelo sono e pelo cansaço, não podendo evitar
um cabecear de quando em quando.
No entanto, preocupada com o ferido, acabava por acordar, vigiando
os panos que humedeciam as têmporas de Natanael.
Pouco faltou para que me decidisse a falar, confessando-lhe a minha
verdadeira personalidade e os meus propósitos. Só me detive à ideia de
que as minhas frustrantes actuações durante o parto da nómada e no
ataque da víbora pudessem secar tão vital fonte de informação sobre a
chamada vida oculta de Jesus. Era muito o que restava por conhecer e
ela e a sua família eram os depositários do grande tesouro. Não podia
perder a sua amizade e, muito menos, a sua confiança...
O regresso de Meir tornou inviável esta cada vez mais firme decisão.
Contudo jurei a mim próprio que, à primeira oportunidade, lhe abriria o
coração, explicando-lhe tarefa nada fácil quem era e a razão do meu
cobarde comportamento.
Quase o tinha esquecido. Contudo, o hospitaleiro rofé estava atento.
Era o sagrado momento da ceia. Verificou a temperatura de Bartolomeu
e, depois de nos convidar às obrigatórias abluções, colocou no
pavimento uma bandeja generosamente sortida. Imitei Maria, lavando
os pés e a mão direita (utilizada habitualmente para comer).
Aguardámos respeitosamente que o ancião concluísse a sua rápida
bênção e, enfraquecidos, demos boa conta do refrigério: ervilhas

fervidas em azeite, tortas de trigo, acabadas de cozer, figos, tâmaras,
nozes um dos meus frutos favoritos queijo rançoso que,
prudentemente, não comi, peixe salgado e vinho quente devidamente
aromatizado, como não podia deixar de ser, com essência de rosas.
Seguindo a recomendação de Maria, João não foi acordado.
Satisfeita a fome, a conversa encaminhou-se para o tema predilecto
dos presentes: o Mestre. A meia voz, alegrando-se com uma aromática
taça de vinho, Meir lamentou que um homem capaz de fazer um
prodígio como o de Caná não tivesse evitado uma morte tão injusta e
humilhante. A Senhora e eu olhámo-nos de novo. E a mãe do Nazareno,
agarrando as mãos do curador, perguntou-lhe se estava ao corrente
das últimas notícias. Meir assentiu gravemente, relacionando essas
novas notícias com a crucificação. Maria negou com a cabeça,
informando-o atabalhoadamente das aparições registadas em
Jerusalém, Betânia e das mais recentes, nas margens do yam.
Os olhos de Meir, cheios de experiência, não se comoveram perante
as palavras entusiásticas da amiga. Ouviu com atenção.
Formulou algumas, muito poucas, perguntas acerca daquele corpo
ressuscitado que nenhuma das mulheres reconheceu e, bebendo o seu
vinho, resumiu o seu sincero e leal entender:
- Minha fílha, ando há cinquenta anos entregue ao estudo da
medicina e de outros saberes. Sei que o corpo humano tem duzentos e
quarenta e oito ossos e que as veias principais são tantas quantos os
dias que tem o ano. Abri cadáveres e posso assegurar-te que os seus
despojos o rofé apontou a urna das caveiras continuam ali, comigo,
e ali continuarão...
Maria, perplexa, compreendendo as conclusões de Meir, interrompeuo,
protestando. O ancião sorriu com benevolência e, afagando o cabelo
da galileia, replicou sem maldade, mas com uma firmeza que não
admitia discussão: ...todos lhe sentimos a falta. E todos, Maria,
desejaríamos voltar a vê-lo. Mas, que eu saiba, os mortos não
regressam...
Nem sequer os profetas.
A atitude do auxiliador de Caná, homem culto, equilibrado e amigo da
família, constituía o modelo de pensamento da maioria dos homens e

mulheres daquele tempo em relação à ressurreição de Jesus. Os
crentes, baseados na leitura evangélica, podem pensar que o
indubitável facto físico do regresso à vida do Galileu foi coisa aceite pela
comunidade judaica. Grave erro.
Só os muito íntimos, e com dificuldade, aceitaram essa árdua
realidade. Os outros incluindo familiares, amigos e pessoas de toda a
confiança, fervorosos adeptos, até, do Filho do Homem, não puderam
ou não souberam aceitá-lo. Os problemas dos escassos defensores da
ressurreição, longe de se dissiparem com as aparições, viram-se
dolorosamente complicados. Esta conversa foi o exemplo da
permanente luta que os discípulos e a Senhora teriam de travar. Uma
luta que só o difícil exercício da fé podia transformar em vitória. E se
aquele homem, como sucedia com Meir, era, além disso, um cientista,
fazê-lo crer só com factos indesmentíveis; nunca com palavras ou
testemunhos mais ou menos empenhados.
Já alta noite, a Senhora rendeu-se ao cansaço. Abatida, adormeceu,
descansando a cabeça no peito de Natanael. Meir sugeriu-me que
dormisse umas horas. Mas, intrigado pela personalidade e pelo saber
de tão singular personagem, declinei o paternal convite, incitando-o com
as minhas perguntas a entrar nos assuntos que me interessavam.
Naturalmente que ouvira falar das milagrosas curas de Jesus.
Ali mesmo, do outro lado da povoação, na casa de Natham, alguns
servos e Maria garantiram que a água de seis cubas se tinha convertido
em vinho.
- Eu, querido e curioso amigo justificou-se o ancião -, também provei
o sumo da videira. E posso assegurar-te que era excelente... Mas,
embora reconheça o poder do Rabi da Galileia, não consigo entender o
prodígio. Já o ouviste da minha boca: só acredito no que vejo... e o que
vejo não vale a pena. É muito possível que, do ponto de vista de um
homem que observa e estuda a Natureza, muitas daquelas curas
tenham sido apenas produto da fé das pessoas. Os meus métodos e
medicamentos são racionais. Ou será que me consideras tão néscio que
vá tratar o mal de Bartolomeu tal como indica o livro sagrado? Isso foi
posto de parte já em tempos de Ezequias...
O curador fizera uma clara e corajosa alusão a Números (21, 9), onde

se diz: Fez Moisés uma serpente de bronze e pô-la num mastro. E se
uma serpente mordia num homem e este olhava para a serpente de
bronze, ficava com vida.
A prudência e objectividade de Meir que eu compartilhava, em boa
medida, animaram-me a sondar os conhecimentos da medicina que
praticava, a qual, em traços largos, representava a ciência mais séria e
avançada dos curadores judeus contemporâneos de Jesus Cristo.
Ainda que as influências mesopotâmicas, gregas e egípcias fossem,
inegáveis, o velho rofé de Caná, botânico, cirurgião, curador e
investigador, tinha as suas opiniões próprias e muito pessoais,
desconfiando, por exemplo, da eficácia de muitas das regras sanitárias
que eram impostas ao povo na forma de cerimónias religiosas e que
vinham dos obscuros tempos de Moisés. (Dos 613 preceitos e proibições
da Bíblia, 213 são de natureza higiénico-sanitária.) Aceitava, no entanto,
que o sangue podia ser o veículo da alma humana, mostrando-se em
absoluta concordância com as doutrinas suméricas.
Com infinito tacto, fingindo ser um leigo, ansioso de conhecimentos, fui
aflorando pequenas e grandes ideias, sempre úteis na nossa missão.
No capítulo do sangue, por exemplo, mostrou-se de acordo com as
rígidas prescrições do Levítico, proibindo o seu derramamento e a
ingestão de qualquer alimento ou bebida que o pudesse conter. (De
facto pelo menos na teoria da lei, toda a carne devia ser sangrada
antes do seu consumo.) Já não se mostrou tão de acordo em relação
aos ridículos princípios dos astrólogos de Alexandria e de Babilónia, que
fixam os domingos, quartas-feiras e sextas-feiras como dias propícios
para as transfusões de sangue.
Animado pela minha fingida perplexidade continuou atacando,
mordaz, os que assim pensavam:
- Sabes como justificam semelhante tolice? Porque às segundas e
quintas-feiras dizem os tribunais do Céu e da Terra se encontram
ocupados e Satã, na sua condição de príncipe dos demónios, permanece
activo como acusador.
- E porque não às terças-feiras? - perguntei com um assombro que lhe
agradou.
- Nesse dia, segundo esses loucos, o planeta Marte manifesta-se

especialmente agressivo. E têm o descaramento de recomendar a sextafeira
como o dia ideal porque as influências astrológicas, nesse dia, são
mínimas, com excepção da hora sexta...
Meir, tal como a generalidade dos médicos judeus, conhecia a
hemofilia, descoberta, muito provavelmente, no acto de circuncidar os
recém-nascidos. Quando a enfermidade era detectada, a lei (Yebamot,
64.a) proibia novas circuncisões nessas famílias. E sabiam,
naturalmente, que era a mãe a transmissora hereditária do problema.
Como me mostrasse interessado nos ossos humanos que guardava na
urna de vidro, Meir sorrindo picaramente, afirmou ser um auxiliador que
trabalhava, tanto na teoria como na prática. E confessou ter retalhado
um esqueleto completo, a fim de o estudar. Os seus conhecimentos
anatómicos, no entanto, deixavam muito a desejar.
Chegou a citar-me algumas vísceras e ligamentos ósseos; porém,
confundia e identificava os músculos com um todo carnudo. O esperma
humano, ante a minha surpresa, entrava plenamente no capítulo ósseo,
sendo qualificado como osso imorredouro ou de luz. E ainda que
naquele tempo já houvesse um notável conhecimento do processo de
gestação, as propriedades do sémen, como veículo de transmissão da
vida, eram praticamente desconhecidas. Com grande orgulho, Meir
chegou a enumerar-me mais de quarenta doenças, tanto somáticas
como funcionais, incluindo mal-formações e aquilo a que se chamava
doenças cirúrgicas (1). Contudo, onde deu mostras de maior
loquacidade e entusiasmo foi no relato dos seus
*1 No banco de dados do Pai Natal, com base nos qualificados estudos de
Sussmann Muntner e outros especialistas, figuravam as seguintes e mais
destacadas enfermidades bíblicas: epilepsia, yeracón (icterícia), sehin poreah
avabuot (pênfigo), zav (gonorreia), requevazamot (osteomielite), sivrón monrnáyim
(lumbago), sanverim (amaurose), doc (coloboma), shavar (hérnia), harus (lábio
leporino), pesuadaká (ectopia testicular), acar (esterilidade), casita (cirrose
hepática), raatán (filariase), daléquet (inflamação), sapáhat (psoríase), gabáhat e
caráhat (alopecia), saráat (lepra), bahéret (leucoderme), yabélet (acne), asévet
(neurose), sarévet (escoriação), sahéfet (tuberculose), savur (fractura conminuta),
harus (cisão), maúj (esmagamento) natuc (cortado), as ús (ferida contusa), sarúa
(infectado), pasúa (ferido) karut (castrado), etc. Entre as enfermidades funcionais
contavam-se também o pesar (deavón), o estouvamento (hipazón), a sensação de
aniquilamento (kilayón) a cegueira espiritual (ivarón), a dor lombar (sibarón), o
estupor (simamón), a embriaguez (sikarón), a alucinação (sigayón), a alienação

(sigaon) e a mania (timahón). Quanto aos defeitos ou mal-formações eram
conhecidos com nomes que seguem o modelo piel: tolhido (iter), mudo (ilem), calvo
(guibéah), corcovado (guibén), enfezado (guidem), gago (guimem), cego (iver),
surdo (herés) e coxo (piséah). A este quadro havia que acrescentar um não menos
extenso rol de epidemias e doenças infecciosas. (N. Do M.)
ensaios e experiências. Aquela sala, como eu suspeitava, era o seu
beta de sãisã ou sala de operações. Ali, segundo me revelou, levara a
cabo todo o género de trepanações, amputações e extirpações,
incluindo uma cesariana. Aturdido, não me atrevi a entrar em
pormenores. Timidamente, isso sim, solicitei o seu critério quanto a
prioridades, em caso de risco de morte. Em tal caso, quem devia ser
salvo: a mãe ou o feto? Astuto, refugiou-se na norma, confirmando o
que já sabíamos através do escrito em Yebamot: a vida da mãe tinha
sempre preferência. Naturalmente, a sua farmácia encerrava
abundantes e poderosos narcóticos, tais como as solanáceas beladona,
meimendro e mandrágora, que, mercê do seu conteúdo de alcalóides
tropânicos, lhe permitiam anestesiar os pacientes.
O audaz rofé tinha suturado centenas de feridas, refrescando
previamente os bordos. E tinha notícias, ainda que não tivesse chegado
a semelhantes excessos, da recente abertura artificial do ânus de um
recém-nascido. Atrevera-se, sim com a introdução de sondas de fibra
vegetal pela garganta e com a castração de porcas para a ceva,
deduzindo, a julgar pelos resultados nos animais, que a extirpação do
útero da mulher contrariamente ao pensamento judaico não era
causa de morte. Segundo comentou, estas experiências, como muitas
outras, tinham sido realizadas previamente por médicos e cirurgiões na
Alexandria.
Contrariamente ao que hoje possamos imaginar, muitos destes
auxiliadores, embora ignorassem quase tudo sobre a estrutura, e
funções do cérebro, sabiam ou intuiam que o pensamento e a razão
humana tinham a sua sede em tal órgão. No entanto, estavam
convencidos de que as cefaleias e infecções de nariz e dos ouvidos
tinham a sua origem nos maus ares. Acreditavam igualmente que muitas
das doenças dos pulmões, do fígado e dos intestinos eram provocadas
por vermes. Meir dedicou uma longa conversa à maldade do sal e aos
transtornos digestivos, causados segundo ele pela falta de líquidos.

Também a retenção da bile, confirmou o ancião, era causa de icterícia e
retenção da diurese, de hidropisia. Falámos do medo e das palpitações
cardíacas e das alterações de pulso que podem ocasionar.
E o meu assombro não teve limites quando ao falar-me das funções
de bomba do coração, já muito conhecidas naquele tempo, o
desconcertante galileu me disse que eminentes colegas seus tinham
conseguido descobrir o volume de sangue contido no corpo humano.
Não consegui que me revelasse o método em questão, mas as
quantidades eram bastante exactas: à volta de dez log (uns cinco litros)
para o homem adulto e um pouco mais de seis log (uns três litros) para
uma mulher de estatura média. Infelizmente, tais dados eram
pretendidos por outra crença, muito pouco científica. Para os médicos
judeus do século I o peso do homem era constituído, fundamentalmente,
pela água e pelo sangue. Se o indivíduo era justo, ambos os elementos
apareciam em partes iguais.
Se, pelo contrário, era um pecador, a água dominava sobre o sangue,
convertendo-o num hidrópico. Em caso contrário, também por causa
da sua iniquidade a pessoa era vítima da lepra.
Nesta rede caótica de verdades e de superstições, um dos aspectos
mais bem conhecido pelos auxiliadores de Israel era a fisiologia da
menstruação. Havia muito que, devido às proibições bíblicas, este tema
fora exaustivamente investigado, ainda que, com a passagem dos
séculos, chegasse a converter-se num pesadelo pelo menos pelos
ortodoxos da lei
(1). Basta dizer que a menstruada judia era considerada impura pelo
período de sete dias, durante os quais era proibido toda a relação
carnal.
Falámos sobre a perigosidade das epidemias, transmitidas em certas
alturas pelas caravanas que atravessavam o país, por alimentos em
mau estado, pelas moscas e pela péssima educação sanitária da
população que não distingue entre água verde de um charco e a pura e
cristalina de um poço.
- A grande maioria exagerou morre por causa dos seus próprios
erros e da sua desconfiança pelos auxiliadores.
Talvez neste último aspecto tivesse razão. Durante muito tempo a

profissão de curador figurou entre os ofícios desprezíveis Pouco a pouco,
a honradez e eficácia de homens como o rofé de Caná limaram receios e
susceptibilidades, até ao ponto de, tal como assinala o Sanhedrin, 17 b,
no tempo de Jesus Cristo ser proíbido viver numa cidade, povoação ou
comunidade onde não houvesse um auxiliador. Como é natural, esta
norma nunca chegou a cumprir-se à letra... Contudo a figura do médico
foi adquirindo prestígio e, o que era mais importante, confiança. A lei
atribuía-lhes honorários, estabelecendo que um médico que tratasse
sem cobrar, nada valia. Havia auxiliares destinados aos lugares muito
concretos com a exclusiva missão de avaliar as indemnizações
correspondentes em casos de acidente. O exercício da profissão
encontrava-se bastante bem regulamentado. E ainda que a política de
fazer vista grossa já fosse inventada, cada rofé necessitava de uma
autorização especial para trabalhar como tal.
O caso dos médicos estrangeiros era outro. Os judeus mais rigorosos
aclamavam pela sua perseguição e desterro. No escrito Baba cama
(85. ), pode ler-se a este respeito: Uma pessoa não deve permitir que
a trate um médico que atravesse todo o país proveniente de terras
estranhas, pois este não conhece suficientemente as características do
meio ambiente e as influências climatéricas. Razão não lhes faltava,
mas, como em tudo, entre os curadores pagãos existiam os bons e os
maus. E a gente simples não queria saber da lei sempre que o
estrangeiro demonstrasse saber do ofício.
As consultas destes médicos, judeus ou gentios, faziam-se nos locais
mais inesperados: nas praças públicas, nos mercados, no templo, nas
estalagens e no próprio domicílio do rofé. Acorriam até lá os pacientes,
*1 O capítulo dedicado na Misná à menstruada (nidá) abrange um total de dez
partes, repletas com as mais absurdas expressões, que hoje envergonhariam os
mais liberais defensores dos direitos da mulher. No caso das filhas dos Samaritanos,
o fanatismo religioso judeu chegava a considerá-las menstruadas e impuras desde
o berço. (N. Do M.)
formando longas filas, e, tal como hoje acontece nas clínicas e nos
hospitais, comentando entre si os respectivos males.
Alguns auxiliadores, não todos tinham o costume de visitar ao
domicílio, convertendo-se, com o andar do tempo, em amigos da família.

Se a povoação em que um médico se estabelecia era suficientemente
importante, a lei exigia-lhe ainda um atestado dos vizinhos próximos da
sua consulta autorizando-o ao exercício da profissão no referido lugar. A
razão era óbvia; em muitas alturas, o agrupamento de doentes às
portas da casa do rofé provocava discussões ruídos e incómodos que
podiam alterar a paz da vizinhança. O índice de doenças era tão
elevado que nada tem de especial que massas doentes, ao terem
notícia de um rabi autor de maravilhas, como Josefo qualifica o Mestre,
o perseguissem sem trégua. É conveniente ter presente este aspecto
particular da situação médico-sanitária da população judaica para
compreender, na sua justa medida, o que aconteceria na vida pública de
Jesus.
Pelo que já sabíamos e pelas interessantes manifestações do meu
novo amigo, a medicina judaica, desde os tempos do Antigo
Testamento, podia qualificar-se como eminentemente preventiva.
E ainda que estas medidas se baseassem em normas e princípios
ético-religiosos, não há dúvida de que, em muitas ocasiões, foram de
grande eficácia. A higiene corporal rezava uma máxima do Avodé zoará
(20 b), conduz à higiene espiritual.
Efectivamente, embora os médicos sérios trabalhassem com
tratamentos mais ou menos racionais e científicos (dietas, compressas
frias e quentes, suadouros, curas de repouso, banhos de sol, mudanças
de clima, ginástica, sangrias, massagens, hidroterapia, psicoterapia,
etc.), a Lei vigiava muito estreitamente o cumprimento da pureza, tanto
em relação ao homem como a animais e coisas. A higiene chegava a
abranger a construção de cidades, estabelecendo redes de esgotos e
locais muito específicos para o abastecimento de água ou a construção
de cemitérios. Em caso de epidemias ou doenças contagiosas, as
populações eram isoladas e as roupas e utensílios fumigados, lavados
ou incinerados.
Os Judeus sabiam que, se aparecesse a peste, desinteria, etc.,
tinham de evitar as aglomerações nas ruas estreitas, a utilização de
pratos, talheres, roupas ou alimentos que pudessem ter permanecido
em contacto com os infectados, procurando não sair de suas casas
durante quarenta dias. Era proibido cavar poços nas imediações dos
cemitérios (Tosefta, Baba batra, lb) e cisternas. A água tinha de ser

fervida quando se tinha a menor suspeita de contaminação. A carne,
embora o seu consumo não fosse frequente entre as classes pobres,
tinha de ser cozida até os parasitas ficarem destruídos (assim reza o
escrito Sanhedrin, 9.a). Desde tempos imemoriais, a carne cozida que
não tivesse sido consumida ao segundo dia tinha de ser queimada.
Naturalmente, quem dispunha de tal luxo e não era um fanático da Lei
não tinha muito presente a proibição bíblica...
Outro preceito, muito espalhado entre os Judeus e que nos chamou a
atenção ao longo de toda a nossa exploração na Palestina, aludia aos
beijos na boca. A lei recomendava evitá-los, na previsão de contágios.
Era porém bem visto que o homem beijasse o homem na cara, na testa
ou nas costas da mão.
O beijo nos lábios à mulher, pelo menos em público, era causa de
escândalo e, em certas ocasiões, de repúdio.
Neste interessante capítulo da higiene, Meir dignou-se ilustrar-me com
uma interminável sequência de máximas, extraídas na sua maioria, do
saber popular e que, com o tempo, seriam incluídas nos escritos
rabínicos. Eis algumas das que mais me impressionaram: A lavagem
matutina de mãos e de pés é mais eficaz que todos os colírios do
mundo (Sabat, 108.a) A alteração de um costume é o começo de uma
enfermidade.
(Kebtubot, 100.a); Bebe apenas água fervida (Trumot, 8); O que
exagera o jejum, será considerado pecador (Taanit, 11.a) Pode
profanar-se o sábado por causa das parturientes, queiram elas ou não.
É de exigir e de recomendar uma limpeza escrupulosa do colo uterino
dilatado (Sabat, 29.a)1.
As exaustivas considerações do meu anfitrião sobre as excelências
médicas da comunidade hebraica não podiam concluir-se sem um grato
cântico às virtudes medicinais das rosas, sua grande especialidade. A
excelente palestra, no entanto, bem cedo acabou. E não porque fosse
esse o seu desejo, mas sim por causa do cansaço que eu já
manifestava.
Mesmo assim, alguma coisa consegui reter no meu cérebro.
O botânico confessou ter ganho bom dinheiro com a cosmética e
perfumaria derivada da destilação das pétalas. Uma vez incineradas, a

cinza resultante era muito apreciada para embelezar as pestanas.
- O próprio Herodes, o Grande insinuou secretamente -, achou por
bem experimentar a minha mercadoria... Ah!, Jasão que seria do mundo
sem perfumistas? Tudo na Natureza tende para o equilíbrio. Nós
sentenciou -, os perfumistas, somos o regalo de Deus, bendito seja o
Seu nome. Os curtidores, em contrapartida, ensombram a Terra.
Além da água de rosas obtida fundamentalmente por destilação, Meir
confeccionava e comercializava outro produto
- a pomada de rosas igualmente apreciada pelas mulheres e pelos
homens. Suponho que, animado pelo vinho, acabou por confessar-me o
segredo do seu fabrico: Quatro medidas de cera mole derretida numa
libra de óleo de rosas. À mistura junta-se a correspondente medida de
água e o resultado é aquecido a lume brando até ganhar uma natureza
translúcida. Com ela, ajudado por meio log de água e vinagre de rosas,
dá-se fim ao processo, resultando um unguento que rejuvenesce a cútis.
A pomada em questão, à maneira de máscara, era consumida por
homens e mulheres das classes média e endinheirada, preferentemente
antes de dormir. Também, o sabão vegetal, de uso comum e a que se
juntava cinza de madeira, apresentava uma dose rica de água de rosas,
perfumando-o e tornando-o mais atraente.
Ao referir-se ao método de destilação um processo que se supõe
inventado em Espanha por volta do século x (2) roguei-lhe que me
desse mais pormenores.
*1 Muitas destas curiosas e saudáveis sentenças seriam recolhidas anos mais
tarde pelo notável judeu emuel ben Aba Hakohén, que viveu em 165-257 da nossa
era. Também conhecido como emuel Yarhinaa, desempenhou o cargo de médico
pessoal do rei persa Shapur. (N. Do M.)
2 Segundo os especialistas, as primeiras destilações conhecidas foram levadas a
cabo em Espanha por um médico judeu: Ibn Zohar, de Sevilha. Outros técnicos
opinam que o inventor foi Rhazes, de origem árabe. Seja como for, o certo é que o
processo se propagou rapidamente. Primeiro em França e depois em Marrocos. No
século xvII, os Turcos semearam os Balcãs com extensos jardins de rosas,
exportando a cobiçada água de rosas,. A Bulgária converter-se-ia no século xvI no
principal produtor. A ela se seguiriam a Crimeia, a Turquia e o Cáucaso. A região de
Grasse, em França, aproveitando-se do invento espanhol chegaria a ser uma
grande produtora de água e óleo de rosas. A verdade, não obstante, é que a
destilação, embora rudimentar, nasceu no Oriente. (N. Do M.)

Meir fez melhor do que isso. Com passo vacilante aproximou-se da
mesa de mármore. Segui-o, intrigado. Ali, mostrou-me uma vasilha de
bronze. Encheu-a de água até meio e, depois de nela esvaziar uma
pequena ânfora cheia de pétalas, levou o recipiente ao fogão,
aquecendo-o a lume brando. Tapou-o com uma tampa a que estava
fixado um tubo em espiral também de bronze, de uns trinta centímetros.
Algum tempo depois, um vapor oleoso começou a circular pelo
rudimentar alambique, sendo recolhido, sob a forma de gotas, num
frasco que fazia as vezes de condensador. Concluída a destilação, o
ancião orgulhoso e agradecido por tão pacientemente o escutar, verteu
a reduzida dose de água de rosas nas minhas mãos, exclamando:
- É tua... As tuas mulheres dançarão amanhã de alegria.
E, transbordante de felicidade duvido que alguém alguma vez lhe
tivesse prestado tanta atenção -, iniciou um lento e instrutivo passeio
diante das estantes. A cada passo indicava um frasco ou uma cântara,
anunciando o seu conteúdo com solenidade:
.. Folhas secas de rosa para aliviar a inflamação dos olhos.
.. Flores para adormecer e controlar a menstruação... Se se juntar
vinagre e água, tanto melhor.
.. Licor de rosas, com três de vinho, para a dor de estômago.
.. Semente de cor açafrão. Ainda não tem um ano. Ideal para os
molares. Não conheço melhor diurético.
.. Inalação para o nariz. Liberta a cabeça e as más ideias.
.. Coroas de rosas. Controla as diarreias.
.. Rosas com pão. Santo remédio para os ardores estomacais.
.. Pétalas em pó. Eliminam o suor.
.. Hastes de rosa misturadas com banha de urso. Não conheço sarna
que lhe resista.
.. Seiva de rosas. Muito recomendado para o acne juvenil.
.. Outra vez água de rosas. Para feridas e contusões.
.. Essência de rosas. O melhor tratamento para a loucura.

.. Uma rosa branca, com todas as suas pétalas de um só lado.
Proporciona um bálsamo que vence a apoplexia.
.. Rosas vermelhas. Colocadas debaixo de almofada adormecem as
crianças inquietas.
.. óleo de rosas com pó de acácia. Esfregado no crânio acaba com as
cefaleias.
.. Óleo de rosas com sangue de crocodilo e mel. Ideal para a dor de
ouvidos.
.. Contra as doenças pulmonares, a tosse e a constipação.
.. Para o controlo da sexualidade, das desordens do coração e das
bebedeiras.
.. Mel, clara de ovo e água de rosas. Há anos que o uso para curar a
rouquidão e a falta de voz.
.. Esta ajuda a conciliar o sono.
.. Pétalas secas. Misturam-se com leite e pão para aliviar o mal de
amores.
. Perfume de rosas. Para os desmemoriados.
Mas Não sou capaz de recordar a totalidade das beberagens e
poções enunciadas por Meir. Muitas, naturalmente de duvidosa
utilidade. Pouco antes da vigília do canto do galo (pelas quatro horas),
depois de verificar que a temperatura de Bartolomeu baixara, o meu
incansável falador amigo retirou-se para os seus aposentos. E este
explorador, sentado à cabeceira do ferido, precisou de algum tempo
para adormecer. O cansaço, as emoções da viagem e a recordação do
meu irmão entrecruzaram-se com tal poder que foi preciso recorrer a um
profundo recolhimento mental e muscular para, por fim, recuperar
parcialmente as forças. Que me reservava aquele dia que começava, de
terça-feira, 25 de Abril?

25 DE ABRIL, TERÇA-FEIRA
O meu despertar nada teve de plácido. Estava prestes a amanhecer.
Os cronómetros do berço deviam marcar as cinco ou cinco e meia da
madrugada. Alguém me abanou pelos ombros e, mergulhado como
estava, nos abismos do sono, não tive consciência de onde nem com
quem estava. Adormecido, com a vara de Moisés entre as mãos e
arrebatado ainda pelas cenas de um terrível pesadelo, em que o
módulo lutava para atravessar uma tormenta infernal (reminiscência,
sem dúvida, dos grandes momentos vividos no voo sobre o mar de
Tiberíades) perguntei em inglês! - se o Mestre se encontrava a bordo.
Ao distinguir o rosto perplexo de Maria, que tentava acordar-me, tive
consciência do novo e involuntário erro.
- Jasão, que língua é essa?... Vamos, está na hora de partir.
A pergunta, graças a Natanael, ficou momentaneamente sem
resposta. De pé, com o semblante fresco como a brisa que entrava pela
sala, apoiando-se levemente nos ombros da mulher ajoelhada, entrou
em cena com uma das suas habituais piadas:
- É a primeira vez que vejo um maldito grego a dormir na companhia
de um bastão...
Com os olhos fitos nos da Senhora, embora escutando o gracejo do
Urso, desculpei-me com um esboço de sorriso, que não destoaria num
idiota. Não havia dúvida. Catorze horas depois da mordedela da víbora,
o discípulo encontrava-se francamente recuperado. Superada a crise,
voltava a ser o que sempre era: tagarela brincalhão, sonhador e
ingénuo como uma criança. Nunca ele o soube mas, ao vê-lo
restabelecido , alegrei-me muito no meu íntimo. E esquivando-me
deliberadamente da pertinaz e intrigada Maria refugiei-me em

Bartolomeu, examinando a sua mão esquerda e interrogando-o quanto
ao seu estado.
O edema inicial quase desaparecera embora reconhecesse que ainda
sentia picadas e dores na área da mordedura. A temperatura e a
pulsação estabilizadas eram outro saudável sinal do recuo da infecção.
O mesmo se podia dizer da sua dicção e ritmo respiratório. Mas,
quando me dispunha a examinar-lhe as pupilas, João de Zebedeu, do
canto onde crepitava o fogão, gritou-me que não tocasse com as minhas
mãos cobardes no seu companheiro. E a tensão do dia anterior
adensou-se na penumbra da sala. Obedeci, apesar do olhar atónito de
Bartolomeu, que, logicamente, não se lembrava do que acontecera ao
pé do trigal.
A entrada de Meir, a que se seguiu a de mais quatro homens, aliviou
o transe. Eram irmãos de Natanael. Todos vizinhos de Caná.
Prudentemente, com a sabedoria que a experiência proporciona, o
ancião auxiliador combinara com a Senhora e o Zebedeu que, até ver
qual a evolução do ferido, era mais sensato não avisar a família. Entre
outras razões por que o pai de Natanael de cama havia meses, piorara
de modo preocupante. Umas quatro semanas depois, recentes ainda os
misteriosos acontecimentos de Pentecostes, o discípulo receberia a triste
notícia do falecimento de seu pai.
Feliz, Bartolomeu foi beijando e abraçando cada um dos seus irmãos,
gracejando com o réptil que o atacara e que comparou a certos
prebostes das castas sacerdotais, responsáveis pela morte do Senhor.
Pondo a balançar o sebento saquinho com ovos de gafanhoto, que
trazia suspenso ao pescoço, troçou carinhosamente de Meir,
recordando-Lhe o poder dos amuletos. O ancião calou-se, aceitando
bem as graças do seu amigo. Pouco importava que assim acreditasse.
Ele e eu sabíamos quanto a morte andara perto...
O reconfortante pequeno-almoço à base de leite quente com mel e
pãezinhos de trigo melhorou o ambiente, proporcionando-me um novo
dado sobre a fraca ou nula acção do tóxico inoculado pela cerastes
cerastes. Natanael, faminto, devorou a sua ração sem o menor sinal de
disfagia (deglutição defeituosa).
E pelas 5 horas e 42 minutos os primeiros raios de sol romperam no
horizonte, iluminando o jardim com um halo escarlate. As chuvas

recentes, respeitosas para com o tesouro de Meir, tinham animado os
maciços, abrindo dezenas de botões, abençoando a terra e saturando o
ar com uma sinfonia de aromas que, não tardaria, atrairiam zumbidores
bandos de insectos.
Silenciosamente, sentindo em mim o plácido olhar do rofé, prometi
voltar.
O beijo da paz pôs ponto final à nossa estada na casa de altas
paredes. E às portas de Caná, rumorosa e alaranjada à saudação da
alvorada, Bartolomeu e os seus despediram-se de Maria, do Zebedeu e
de quem isto escreve com um optimista até sexta-feira. Nessa data,
como se disse, abandonaríamos Nazaré e, passando pela aldeia do
Urso, iríamos buscá-lo, seguindo depois rumo ao lago.
O céu, com grandes abertas, prometia um dia quente. Foi pena não
entrar na povoação. Aquela pequena cidade não saberia explicar por
que motivo atraía-me intensa e especialmente.
Penso agora que, em boa medida a causa se encontrava no meu
espírito científico. Ardia no desejo de voltar atrás e ver o falado milagre
do vinho. Algo tão aparentemente concreto e susceptível de análise não
podia escapar ao nosso método.
João e a Senhora, conhecedores do terreno, pouparam tempo,
rodeando Caná pelo flanco oriental. E ágeis, com o espírito
pletóricoespecialmente Maria -, gozando a fragrância do olival que nos
acompanhava à esquerda, percorremos os quinhentos metros que nos
separavam de uma das três veredas que uniam a aldeia ao resto do
mundo. Este caminho nascia ao sul da povoação e, evitando uma
acidentada e fértil área de pomares, trepava na direcção sudeste,
bifurcando-se a uns dois quilómetros. Naquele ponto, o ramal da direita
girava quarenta e cinco graus, perdendo-se na direcção sul.
Bastou pisar a estreita vereda, roubada a um monte baixo e abrupto,
e logo o terreno, acidentado e convulso nos arredores de Caná, se
mostrou tormentoso, cheio de barrancos e em constante subida.
O Zebedeu, com razão, forçou a marcha, aproveitando a frescura do
amanhecer e das cúpulas verde-negras dos bosques de alfarrobeiras e
robles do Tabor, que, com as suas majestosas copas, que chegavam a
ter vinte metros de circunferência, desenhavam contínuos túneis, onde se

aninhavam assustadiças perdizes e barulhentas pegas. Em poucos
minutos, com um João intratável à cabeça, carregando o odre de água
de que não quisera separar-se, Maria ao centro, pensando no regresso
a casa, e este explorador fechando o grupo, atento às possíveis
referências geográficas, Caná ficou para trás, como um ninho branco
entre verduras.
À nossa direita, iludindo vales e desafiando as encostas arborizadas,
acompanhou-nos durante vinte ou trinta minutos uma conduta de água
a céu aberto, construída em pedra branca calcária, porosa, soldada com
argamassa. A obra, que subia até uma cota de 532 metros, abastecia
de água as quase dezoito mil almas que residiam na cidade de Nazaré
e os pomares e plantações próximos; em especial, os situados no lado
sul. Não é preciso dizer que o aqueduto era um ponto de referência
indispensável para os viajantes.
A cerca de dois quilómetros da povoação o caminho dividia-se em dois
(1). E o Zebedeu, sem hesitar, sem olhar para trás, dando como certo
que o seguíamos, meteu pelo da direita. A paisagem não variou muito.
Os bosques de carvalhos do Tabor, que dominavam as colinas até uma
altitude de quinhentos metros, foram rareando, em benefício das quatro
espécies de terebinto, próprios da zona.
Trinta minutos depois da nossa partida de Caná, quando já tínhamos
percorrido mais de dois quilómetros e meio, a vereda desembocou numa
planície estreita muralhada pelo verde luminoso de uma colónia de
terebintos de cascas exsudadas, nas quais a prateada e aromática
terebintina se espalhava ao sol nascente. A clareira era dominada por
um penhasco, avermelhado pela aurora, do qual brotava caudaloso
manancial. A água
*1 Caná da Galileia localizada uns novecentos metros a oeste da actual Karf
Kanna dispunha de três acessos ou caminhos importantes. Um situado a norte,
que, tal como o vindo de leste, desembocava na via ou rota principal (a de
Tiberíades), e um terceiro o que ia para Nazaré que começava ao sul da
povoação. Os limites da cidade propriamente dita podem ser localizados
actualmente num lugar denominado Karm er-Kas já existente no período do
Bronze. Nas primeiras décadas do século xx, tomou forma uma versão que tentava
associar a cidade do milagre do vinho a Kâna-o-Jelil, ao norte da planície de EI
Buttauf. A pretensão era absurda.
Kâna-o-Jelil encontra-se onze milhas a noroeste de Nazaré e quase a cinco da

cidade de Séforis, numa ladeira tão inclinada quanto rochosa, sem água e muito
insalubre. (N. Do M.)
Naquele tempo, caía de cinco metros de altura, sendo recolhida num
tanque semicircular, que funcionava como albufeira, de onde saía o já
mencionado aqueduto. A cota referida 532 metros permitia o rápido
e permanente escoamento de água até Caná e imediações, a uma
distância de quatrocentos metros.
Junto à penha, vencida pelos anos e pelos ventos, aguentava-se com
muita dificuldade uma cabana de troncos, com telhado de palha e
giestas, tão abertas que deixavam a descoberto uma base de terra
batida. À porta do refúgio, um homem de meia-idade, sentado à turca,
seguia os nossos passos com receio. Mas o Zebedeu avançou seguro
detendo-se junto da albufeira. Saudou com um murmúrio o indivíduo que
cortês, replicou com uma leve inclinação de cabeça. Enquanto o discípulo
se empenhava a encher o odre, Maria, adiantando-se até à cabana,
desejou a paz ao seu proprietário. Depois, como se de um velho
costume se tratasse, deixou nas suas mãos uma lepta (um oitavo de
asse: trocos de cobre), aguardando em silêncio. E o homem, que era o
funcionário guardião do serviço de águas de Caná, desapareceu no
interior da cabana, voltando imediatamente com um pucarinho de barro
na mão esquerda e uma candeia acesa na direita. Entregou-os a Maria
e, ao que parecia com pouca vontade de falar, voltou a sentar-se à
porta do abrigo, atento aos três forasteiros. O Zebedeu, com o odre em
bandoleira, aproximou-se da Senhora e ambos seguidos pelo olhar
atento do funcionário, atravessaram a clareira na direcção oeste,
detendo-se no limite do bosque. Ali, entre os troncos dos terebintos
mais avançados, erguia-se um rústico altar de um metro de altura,
construído com lajes de calcário sobrepostas.
Maria alongou o braço esquerdo até à ara, abandonando o púcaro na
sua superfície. O recipiente continha uma substância amarelada, em
forma de lágrimas, que, num primeiro instante, me lembrou o incenso de
África. Não estava enganado. E passando a candeia ao Zebedeu, este
aproximou a chama das lágrimas, que arderam imediatamente com uma
luz branca. Uma coluna de fumo espesso esbranquiçado, de aroma
penetrante e muito agradável, ergueu-se para os terebintos sagrados.

Aquela, efectivamente, era uma das árvores míticas do povo hebreu e
aquela uma cerimónia não menos ancestral, conservada com respeito e
amor pelos Galileus.
E João, elevando os braços, entoou uma passagem do Génese:
- Assim deram a Jacob todos os deuses alheios que havia em poder
deles, e as argolas que estavam nas suas orelhas... E Jacob escondeuos
debaixo de um elah que estava junto de Siquem.
Concluído o breve cântico, coube a vez à senhora. Contudo, em vez de
recitar uma passagem bíblica, deixou-se arrastar pelo seu coração
valente e sensível,
*1 O nome bíblico do terebinto Elah tal como o do roble - Allon ou Elon
provém da palavra hebraica EI (Deus) e estava associado ao poder e à força.
Ambos eram reverenciados e nos seus bosques iam a sepultar os seres mais
queridos e respeitados. Em numerosas passagens bíblicas há referências ao
terebinto: um anjo apareceu a Gedeão debaixo de um terebinto (Juízes, 6, 11);
Jacob enterrou os ídolos de Labão debaixo do terebinto de Siquem (Génese, 35,
4); Saul e seus filhos foram enterrados junto da referida árvore (1 Reis, 10, 12);
David deu morte a Golias no vale do Terebinto (1 Samuel, 17, 12); e Absalão, filho
de David, morreu quando o cabelo se lhe enredou nos ramos de um terebinto (II
Samuel, 18, 9). (N. Do M.)
elevando, com o incenso, uma prece que, em parte, me era familiar:
.. Pai nosso, que nos criaste, arrancando-nos como uma centelha
eterna do teu coração... Que estás nos céus... Que estás nos céus
limitados de cada dor e de cada doença... Que estás no sangue que se
derrama... Que estás no céu sem distâncias do amor... Santificado seja
o teu nome...
Santificado e repetido com orgulho, com a satisfação do filho do
poderoso... Venha a nós o Teu reino... Chegue aos homens a sombra da
Tua sabedoria... Venha a nós a brisa que impele a vela... Venha
depressa o sinal de Teu Filho, meu chorado Filho, venham a nós as
outras verdades do Teu reino... Faça-se a Tua vontade na Terra e nos
Céus... E que o homem saiba compreendê-lo... Que os espíritos
conheçam que nada morre ou muda sem o Teu conhecimento... Que não
percamos o sentido da Tua última palavra: Amai-vos... Faça-se a Tua
vontade, ainda que não a entendamos... O pão nosso de cada dia nos
dai hoje... Dá-nos o pão da paciência e o do repouso... Dá-nos o pão da

alegria dos pequenos momentos... Dá-nos o pão das promessas... Dános
o pão da coragem e da justiça... E o fogo e o sal da companhia... E
também o pranto que limpa... Dá-nos, Pai, o rosto sem rosto da tua
imagem... E perdoa as nossas dívidas... Desculpa os nossos erros como
o pai esquece a maldade do filho... Perdoa as trevas do nosso
egoísmo...
Perdoa as feridas abertas... Perdoa os silêncios e o rumor das
calúnias... Perdoa a nossa pesada carga de desconfiança...
Perdoa a este mundo que, à força de solidão, está a ficar sozinho... E
não nos deixes cair em tentação... Livra-nos da cegueira de coração...
Não nos deixes cair na tentação da riqueza, nem na miséria e estreiteza
de espírito... Livra-nos, Pai, de toda a certeza e segurança materiais...
Livra-nos.
Um profundo silêncio encerrou a oração de Maria. Que radical
transformação a experimentada por aquela mulher, antanho oposta ao
seu primogénito...
Concluído o ritual, reatámos a marcha. A bela e pessoal adaptação do
Pai-Nosso animou-me a tentar o diálogo com os que me
acompanhavam, e durante um quilómetro tive um certo êxito.
O Zebedeu voltou a distanciar-se, mas a Senhora, a meu lado,
explicou-me que a primitiva oração o Pai-Nosso fora escrita por
Jesus na sua distante juventude e quando ela, infelizmente, tinha os
olhos do espírito fechados para a verdadeira missão de seu Filho.
De repente, quando havia apenas quinze minutos que
conversávamos, João parou. O abrupto terreno inclinava-se ligeiramente
talvez nos encontrássemos a uns quinhentos metros e a vereda, a
julgar pelo sol, começava a voltar-se para ocidente. Chegámos onde ele
estava e, antes que pronunciássemos uma palavra, apontou para a
esquerda da vereda, recomendando silêncio e precaução. Intrigado,
inspeccionei o bosque e o alto mato que nos rodeava, seguindo a
direcção apontada pelo discípulo. Mas nada vi de anormal.
E continuámos a cammhada. Ao observar como o Zebedeu levava
Maria pela mão, alarmei-me. Tinha avistado algum animal selvagem?
Sabia da existência de ursos-pardos nos montes de Arbel, chegando
alguns às quatrocentas e cinquenta libras de peso, mas não dispunha

de informação sobre a presença destas feras nas abruptas e solitárias
colinas de Caná.
Para dizer a verdade, os ricos e densos bosques, que se perdiam em
todas as direcções, constituíam o refúgio ideal para ursos, hienas
listradas, chacais, cães-selvagens, raposas, numerosos ofídios e, até,
leopardos. Apurei o ouvido, mas só escutei o habitual ruído de fundo da
floresta. Aquilo tranquilizou-me relativamente. A proximidade de uma
ursa a que tivessem roubado a cria acção muito espalhada entre os
judeus e gentios de então, que faziam negócio com os ursinhos
- teria alertado e posto em fuga a maior parte dos inquilinos da mata.
Procurei não me afastar, afagando com a mão direita os dispositivos
de defesa da vara de Moisés. Depois do percalço com a víbora não
podia distrair-me...
A vereda continuou a descer, até entrar numa garganta de altas
paredes, que se prolongava por uns quinhentos metros. O discípulo
apressou o passo, obrigando a Senhora a acompanhá-lo quase a correr.
À direita e à esquerda, nos taludes, terebintos pendentes desafiavam a
gravidade, auxiliados por cerrados matagais cinzentos de ezov, o
conhecido arbusto bíblico, hoje conhecido como hissope sírio (1). A uns
quantos metros, sobressaltou-me um eco. O Zebedeu, que devia tê-lo
ouvido antes de mim, vacilou. Abrandou a marcha, mas, imediatamente,
puxando pela mulher, lançou-se numa rápida fuga. Desorientado, rodei
numa volta completa, em busca da origem daquele ruído cavernoso.
Mas continuei sem nada ver. O instinto impeliu-me a imitar João. E, sem
pensar duas vezes, com o medo a espicaçar-me as entranhas, lancei-me
em perseguição do par. Não sabia o que se estava a passar, mas não
tinha grande vontade de o descobrir. No entanto, as coisas não eram,
não iam acontecer como imaginava...
Mal tinha iniciado a frenética corrida, eis que uma sombra me surgiu
pela esquerda, em pleno caminho. E o eco, ao chegar onde ele estava,
tornou-se claro, profundo e, naqueles instantes, arrepiante.
Só Deus sabe porque parei. Meio estrangulado por um terror absurdo
e irracional, com a pulsação agitadíssima, recuei até ficar na frente da
sombra. Os meus amigos estavam prestes a alcançar o final do
pequeno desfiladeiro. O eco ressoava, nítido, no fundo da gruta que

tinha na minha frente. Naquele lugar, a garganta apresentava um vão
de um metro de altura por dois de largura, meio fechado pela ramaria.
E devagar, muito devagar, fui-me baixando, perscrutando a escuridão
do buraco e tentando identificar os sons. Maria e o discípulo, a trezentos
ou quatrocentos metros, faziam-me sinais, gritando qualquer coisa que
não entendi. E quando me dispunha a afastar-me, convencido de que
podia tratar-se da toca de algum animal, o eco, mais próximo, pôs-me
os cabelos em pé. Qualquer coisa rastejava ou arrastava os passos pela
terra, precipitando-se para a saída. Com a vontade e os nervos em
desordem, tentei
*1 No êxodo (12, 21-22), I Reis (4, 33) e nos Salmos (51, 7) entre outros textos
bíblicos, há referências a esta planta, o origanum syriacum, que se atava formando
uma espécie de escova, com ela se salpicando de sangue os dintéis e ombreiras
das portas, quando uma casa judaica se via livre da lepra.
Assim o ordenava no Levítico (14, 4). Também era utilizado pelos Samaritanos
para espalhar o sangue do sacrifício pascal, na falsa crença de que a vilosidade dos
caules evitava a coagulação. (N. Do M.)
recuar. Mas o bastão escapou-me dos dedos. Ao inclinar-me para o
apanhar, no meio de grunhidos, cada vez mais próximos, julguei
identificar um som humano: algo semelhante a um grito, meio lamento
meio aviso... alguma coisa parecida com ame...
Deus dos céus! Era, efectivamente, uma voz humana. Ao soar na boca
da caverna, aquele ame, repetido insistentemente, fez-me compreender
o que tinha na minha frente.
Um novo ame (impuro) antecedeu a aparição de umas mãos e um
rosto, parcialmente ligados com lenços purulentos e rasgados pela
miséria, e os olhos de um velho, tão assustado quanto eu, que se
cravavam em quem isto escreve. De gatas, da entrada, o infeliz voltou a
gritar aquele impuro, em tom ameaçador. E uma imensa piedade veio
substituir os meus terrores. O local, próximo do que hoje é conhecido
como Ein Mahil, era o forçado reduto de um grupo de leprosos, vizinhos
na sua maioria das aldeias e povoados limítrofes. A lei e os costumes
obrigavam-nos a permanecer isolados e em caso de proximidade de
caminhantes ou de núcleos habitados, a lançar aqueles gritos de
advertência. Infelizmente, por causa da ignorância em matéria sanitária,

o termo lepra tornou-se extensivo a doenças e males que nada tinham
que ver com o referido mal.
Como S. W. Baron demonstrou, nesta designação foram incluídas
tuberculoses ósseas purulentas, elefantíases contagiosas, dermatoses,
lepras de cabeça, (prováveis alopecias), queimaduras graves mal
curadas e até inofensivas calvícies, em que apareciam manchas
vermelhas ou lobinhos,. No caso de que falamos, o ancião parecia
apresentar uma verdadeira lepra. Por baixo dos farrapos manchas
leitosas corroíam os tecidos das mãos e do rosto, desfigurando o pobre
homem. Tratava-se, certamente, de uma das lepras mais generalizada
na Palestina de Jesus: a mosaica ou branca, hoje conhecida como
anestésica.
Ainda que, obviamente, não tivesse oportunidade de a reconhecer, ao
pôr-se de pé e ao observar as ulcerações e a paralisia que inutilizava
alguns dedos, imaginei que a primeira lepra se encontrava associada à
também infecciosa lepra tuberculóide. Nariz e faces ou o que delas
restava apresentavam umas desiguais nodosidades em forma de
bolsa, na sua maioria amolecidas, e outras em estado terminal,
*1 Fazendo-me eco da qualificada opinião de Muntner, tendo em conta que a
maioria dos termos médicos da Bíblia foi pessimamente traduzida, não é de
estranhar que a palavra lepra tenha sofrido idêntica sorte. Isto nota-se, em
especial, na tradução de saraat, que não equivale a um diagnóstico determinado
mas sim a um termo geral, aplicável a diferentes dermopatias contagiosas ou não
contagiosas. A culpa tem de ser procurada na tradução da Septuaginta, onde se
atribui à referida palavra o significado de lepra,. Em composição, a citada palavra
possuía diferentes significados.
Por exemplo: negá hâsará-at (infecção cutânea); saráat or habasar (cancro duro
do pénis); saráat poráhat (leishmaniose); saráat nosenet (sifílis crónica); sarát bros
(tricofitose) saráat maméret babégued (parasitose que se transmite pelas roupas);
saráat habáyit (contaminação saprofitária das casas), etc. Isoladamente, no
entanto, a palavra saráat teve também, a certa altura, o significado de lepra (caso
de saráat hamesah, ou lepra leonina).
Nos capítulos xIII e xiv de Levítico são dadas minuciosas prescrições sobre as
normas a seguir com os leprosos e as que eles próprios deviam acatar. (N. Do M.)
ou ulceradas. O seu aspecto famélico fez-me pensar também em
graves lesões internas. Ou muito me enganava ou aquele infeliz estava

às portas da morte.
Durante uns dois minutos o cadáver ambulante contemplou-me
incrédulo. Porque não fugia? Para qualquer judeu, mesmo para o menos
escrupuloso com a lei, a lepra, além de uma impureza, era a mais
flagrante manifestação do pecado (1). Todo o leproso, pelo facto de o
ser, era desprezado e repudiado, não só pelo risco de contágio mas
também, especialmente, por ter caído em desgraça ante Deus.
Auxiliadores, sacerdotes, ricos e pobres, judeus ou gentios todos
procuravam afastar-se destes empestados, não lhes concedendo outro
favor senão o de, lá muito de longe em longe, lhes lançarem aos pés
uma ou outra fogaça de pão ou roupas usadas. Embora espere referirme
a isso no devido momento, esta dramática situação tornou mais
louváveis as audazes aproximações do Mestre aos leprosos.
Comovido ante a insondável tristeza daqueles olhos negros talvez
tudo o que estava vivo no meio de tais despojos sorri-lhe e, inclinando
a cabeça, balbuciei uma saudação. O velho, ao notar a minha pronúncia,
compreendeu. Agradecido pelo gesto de simples humanidade daquele
grego, correspondeu com uma frase que não esqueci:
- Não precisas de paz, amigo: ela vai dentro de ti.
Não era a melhor altura para conversar sobre tão discutível afirmação.
Com um gesto nervoso de despedida afastei-me. Mas, subitamente,
levado por um dos meus perigosos impulsos, voltei atrás e deixei entre
os cotos das suas mãos o frasco de vidro, presente de Meir. O leproso
inspeccionou-o e, sem compreender, levantou os olhos para o
enigmático caminhante. Encorajei-o a destapá-lo. Aproximando-o dos
lábios descarnados arrancou com os dentes o pano de linho que o
selava. A fragrância da água de rosas desconcertou-o. Suponho que
tentou sorrir. Sem o conseguir, baixou o rosto e as lágrimas correram
pelas ligaduras quase desfeitas. Jamais o voltaria a ver.
Deixei para trás o desfiladeiro, impressionado pela triste sorte
daquele homem e dos que certamente partilhavam gruta e doença. Um
Zebedeu colérico aguardava-me no final da garganta.
A sua companheira indo contra a opinião do discípulo, resolvera
esperar por mim... Ao ver-me, João explodiu, chamando-me néscio,
inconsciente, lastro inútil e pecador entre os pecadores. Deixei-o

desabafar. E enquanto subíamos uma nova ladeira, numa estéril
tentativa de reconciliação admiti a minha fraqueza ao parar em frente
da gruta, acrescentando que talvez as suas palavras não tivessem
*1 Embora pense que nalgum ponto deste diário tenha de entrar a fundo no
árduo capítulo das impurezas,, de grande importância para compreender o povo
judeu, assinalarei agora, a título de síntese, as três categorias principais de
impureza originante, que exerciam uma notável influência na vida diária daquela
sociedade: impureza derivada de algo morto (cadáveres humanos, répteis mortos,
carne podre de outros animais); impureza derivada do corpo humano vivo
(menstruada, mulher com fluxo anormal de sangue, parturiente, homem com
corrimento gonorreico, ejaculação de sémen e lepra); e impureza derivada de meios
de purificação (vaca vermelha e outros sacrifícios expiatórios que devem ser
queimados, água de purificação e macho caprino de Azazel). (N. Do M.)
merecido a aprovação do Mestre. Fui feri-lo bem fundo, conseguindo,
justamente, o efeito contrário. Julgo tê-lo dito.
João de Zebedeu era um homem valente, rápido de reflexos,
imaginativo, astuto, fiel, com frequentes variações de carácter e com um
defeito que, com toda a certeza, o acompanhou até à morte: uma
vaidade desmedida. Pois bem, ao escutar nos meus lábios pecadores a
palavra rabi voltou-se contra mim como um gato, gaguejou e, crescendo
para o meu metro e oitenta vociferou:
- Quem és tu para falar no Santo?... Ele amava-me... Podes tu, grego
cobarde e assustadiço, dizer o mesmo? Eu e os meus irmãos fomos
ordenados na montanha de Nahum. Somos embaixadores. E quando Ele
regressar arderás na geena... como aquele leproso impuro... O que
peca contra o seu Criador recebe o castigo da doença...
Maria tentou acalmá-lo. Mas João, transtornado, ordenou-lhe que se
mantivesse longe daquilo.
..Olha-me bem, pagão ignorante, porque tens na tua frente um eleito
do Reino. Podes encontrar em mim defeito ou doença que me faça
pecador?
Não sei onde fui buscar a paciência. Escutei em silêncio.
Sem mover um músculo. E ao compreender que João tinha concluído o
seu feroz discurso, a mim mesmo dei permissão, para, pela primeira vez
na nossa aventura, confundir a sua soberba com algo que, havia algum
tempo, lhe descobrira nos pés. Apontando para o chão, armado com o

mais cínico dos sorrisos perguntei-lhe:
- Que me dizes dessas calosidades? Não são um flagrante sinal da
intervenção de um espírito imundo? Entre as pessoas fanatizadas pelas
normas religiosas, até um simples calo era motivo de vergonha. Yavé,
proclamavam os ortodoxos da Lei, castiga com doenças o culpado, seja
directamente, seja por meio dos anjos. Um corpo vicioso, em suma era o
sinal de uma alma viciosa. Podia admitir-se que a origem do mal não
fosse um pecado cometido pelo doente. Neste caso, o culpado, ou os
culpados, tinham de ser procurados na família ou nos seus
antepassados. Esta, nem mais nem menos, foi a filosofia que levou os
discípulos a perguntar ao Rabi da Galileia quando, um determinado
momento da sua vida pública, lhe apresentaram um cego: Quem pecou,
ele ou seus pais, para que nascesse cego?
O meu sarcasmo abalou a veemência de Zebedeu. Mas, a partir
daquele choque, Jasão, o grego filho de Tessalonica, foi riscado do seu
coração. E os quatro escarpados, verdes e luminosos quilómetros que
restavam até à aldeia de Jesus foram os mais tensos e intermináveis da
nossa acidentada travessia desde as margens do lago...
Pela minha parte, tudo ficou esquecido quando, aí pelas oito da
manhã, ao chegar à altitude de 511 metros, o bosque se abriu e Maria,
feliz, gritou o nome tanto tempo esperado: Nazaré, a branca flor entre
colinas... Ofegantes e suados, obedecendo a um impulso comum,
largámos os sacos de viagem, cativados por aquela interminável e
montanhosa verdura. Hoje, Nazaré e os seus arredores não conservam
a menor parecença com o vergel ondulado que então abraçava a
pequena aldeia em que cresceu e viveu Jesus durante vinte e seis anos.
Ao descobrir o cacho de casitas prateadas, à distância, juntas como
pombas indefesas, ao pé de uma das elevações, protegidas por todo o
género de plantações, pomares e bosques, o coração bateu-me com
mais força. E uma íntima e grata emoção prelúdio de novas e notáveis
descobertas acerca da figura do Mestre encheu a alma deste
explorador ansioso. Num raio de um quilómetro, tomando como centro a
povoação, cheguei a somar quinze suaves colinas, todas arborizadas ou
salpicadas de oliveiras, vinhas, socalcos com florescentes e densos
campos de trigo e de cevada, e dezenas de cabanas e de casas
quadradas de um só piso, cuja brancura competia com a dos três

caminhos que abraçavam a base do Nebi Sain, o monte de 488 metros
em cuja encosta oriental se refugiava Nazaré. Esta elevação, a mais
airosa, um dos locais predilectos do Mestre, tal como os outros montes à
volta, constituíam o fim da serra da Baixa Galileia, que acabava nas
planuras próximas de Esdrelon, ao sul de Nazaré. Uma das três veredas
mencionadas partia justamente da aldeia, rompendo pelos pomares na
direcção sul, para Afula e as suas férteis planícies. A um quilómetro do
núcleo urbano, este caminho bifurcava-se, desviando-se para ocidente,
em busca de Jafa e das vias que conduziam à costa.
A terceira via importante (não contando com a nossa, vinda de
oriente) nascia, como a de Afula, às portas de Nazaré. Encerrada entre
as colinas penetrava em direcção ao noroeste, rumo a Séforis, capital da
região. À primeira vista, do sítio em que nos encontrávamos, a povoação
apresentava-se perfeitamente ligada ao exterior. Certamente, Nazaré
não se encontrava numa rota tão próspera e frequentada como a de
Tiberíades. No entanto, a riqueza da sua agricultura, os caminhos
cuidados que partiam do seu extremo oriental e a sua relativa
proximidade de cidades mais célebres e populosas tinham-na convertido
num lugar habitual e estimado pelos comerciantes, caravaneiros e
grossistas de produtos do campo, que, com as récuas de burros,
transportavam as colheitas, fazendo de intermediários com os mercados
e retalhistas da região e, mesmo, com áreas tão afastadas como a
Decápole a Pereia e a própria Cidade Santa.
Neste aspecto, como fui comprovando reunia as vantagens de uma
aldeia recôndita e aprazível, à margem dos tumultos de Nahum, para
citar um exemplo mas, ao mesmo tempo, discretamente ligada ao que
poderíamos considerar o progresso e a civilização exteriores.
Como estão enganados aqueles que supõem ou imaginam Jesus
desterrado durante anos numa povoação sem vida e sem relações.
E falando de equívocos, quando iniciávamos a descida acudiram-me à
memória aquelas dúvidas absurdas de alguns estudiosos das Escrituras
e exegetas do século xx em relação à existência histórica de Nazaré. O
facto de não aparecer mencionada nos livros bíblicos afirmam estes
sábios leva a suspeitar de que se trata de uma invenção evangélica. O
argumento, quando se conhecem os estudos e investigações de
especialistas como Loffreda Manns Bagatti, Daoust, Testa, Viaud, Livio,

Jablon-Israel, Brunot, Carrez, Brosster e tantos outros, é, pelo menos,
irritante...( 1)
*1 Ainda que os directores de Cavalo de Tróia nunca concedessem excessivo
crédito a esta moderna corrente mais carregada de snobismo que de fundamento
científico -, que defende a não existência histórica de Nazaré,, alguns dos
especialistas da (nota interrompida.)
A quatrocentos ou quinhentos metros, o caminho rodou com docilidade
a partir da referida cota 511 até se estabilizar na altitude mínima
daquelas paragens: os quatrocentos metros. A partir desta altitude
levou-nos, rectilíneo, na sua poeirenta brancura calcárea, à meta final. E
devagar, com Maria alvoroçada, tentei reter cada pormenor, cada
canto,
(continua a nota.)
Operação preocuparam-se em reunir um máximo de informação em torno,
principalmente, dos principais achados arqueológicos que se deram no local. A título
de guia para os cépticos, eis um dos relatórios, elaborado pelo prestigiado S.
Loffreda, do Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém: A presença do homem
em Nazaré e seus arredores vem de muitos séculos antes da era cristã. Já no
Paleolítico Médio, entre 75.000 e 35.000 anos antes de Cristo, o homem de Galileia,
muito próximo do homem de Neanderthal, se tinha agrupado nos arredores de
Nazaré. Restos humanos daquele período longínquo e fascinante, bem como
utensílios musterienses, foram encontrados na caverna de Djebel-Qafze. Aquele
homem, que precede a aparição do homo sapiens, vivia ainda da caça e da
colheita de frutos selvagens. Não conhecia a arte de construir casas e refugiava-se
periodicamente em cavernas naturais, onde facto novo e significativo no homem
do Paleolítico Inferior começou a sepultar os seus mortos.
Sobre a pequena colina que corresponde a Nazaré, os vestígios mais antigos
datam do final do terceiro milénio. A Palestina, que tinha entrado na civilização
urbana no começo daquele período, sofreu, pelo final do terceiro milénio, um
sensível recuo cultural: muitas cidades foram destruídas, de modo que os vestígios
arqueológicos provêm, em grande parte, de muitos túmulos. É costume opinar, em
geral, que tal recuo está ligado à penetração em Caná dos Amorreus. Na Nazaré,
esta fase é representada por alguns vasos de barro provenientes de um cemitério.
Trata-se de pequenas ânforas de cor cinzenta-clara, que apresentam uma base
achatada muito larga, asas horizontais reduzidas a mera marca, colo virado e
incisões rudimentares na base do gargalo.
Na Nazaré, o material proveniente do período do segundo milénio, conhecido na
Palestina com o nome de bronze Médio II (2000-1550) e Bronze Novo (1550-

1200), é muito mais abundante. O período do Bronze Médio, que regista entre
outros acontecimentos a entrada dos patriarcas na terra de Caná e constitui,
portanto, a alvorada da história sagrada, é representada na Nazaré por vasos de
cerâmica muito elegantes, que reflectem um gosto artístico mais requintado. Além
disso, alguns alabastros e escaravelhos tinham chegado já do longínquo Egipto a
este território. O período seguinte, o Bronze Novo, deixou igualmente numerosos
vestígios.
Tem de se acentuar que todo esse material do segundo milénio não provém da
cidade propriamente dita mas sim de alguns túmulos. Um deles foi descoberto por
baixo do pequeno convento da igreja bizantina da Anunciação. Outro a sudeste,
imediatamente contíguo ao mesmo convento, e um terceiro mais a sul. Dado que o
costume de enterrar os mortos fora da zona habitada estava já em vigor no
segundo milénio, podemos pensar, com toda a certeza, que a cidade de Nazaré do
Bronze Médio e Novo se encontra mais ao norte e ainda não foi alcançada pelas
escavações.
Com a Idade do Ferro (1200-587), entramos plenamente no período bíblico:
depois do êxodo do Egipto, as tribos israelitas instalam-se na Terra Prometida,
adquirem uma fisionomia própria e, a partir de Saul, organizam-se em monarquia.
Nazaré pertencia à tribo de Zabulão que, com toda a probabilidade, nunca foi ao
Egipto. Depois do cisma que se deu com a morte de Salomão (ano de 922 antes
de Cristo), Nazaré fazia parte do Reino do Norte, que foi submetido pelo império
assírio em 722.
Nessa época, observamos em Nazaré um facto muito significativo. No sector
meridional da colina foram encontrados alguns silos escavados na rocha, enquanto
a zona de túmulos fica já deslocada fora da colina. Temos, portanto, provas
arqueológicas de que, a partir da Idade do Ferro, o flanco meridional da colina,
reservado antes às sepulturas, se tinha convertido já em zona de habitação. É
importante sublinhar que essa transposição se manteve depois, mesmo no tempo
em que Jesus vivia em Nazaré.
É muito possível que esta mudança de tradições esteja ligada a uma mudança de
população, tanto mais se se tiver em conta que coincide com a última vaga de
penetração israelita em Caná. Até há pouco tempo, a cerâmica encontrada nas
escavações pertencia antes à última fase do Ferro. Apenas o achado fortuito de um
túmulo, com um rico sortido de vasos, objectos de metal e escaravelhos, prova que
a fixação data do século xII, ou seja, do começo do período israelita.
Nos limites da cidade, a cerâmica do Ferro foi encontrada em zonas muito
díspares. Por exemplo, no lado oriental da Igreja da Anunciação do tempo dos
Cruzados e a noroeste. É também importante recordar que diversos fragmentos de
cerâmica do ferro foram encontrados nas falhas da rocha que forma o tecto da
gruta venerada da Anunciação. Fique claro que as escavações são demasiado
parciais para que se possam estabelecer os limites extremos da cidade israelita de

Nazaré. De qualquer modo, é verosímil que diversas estruturas de uso doméstico,
escavadas na rocha, tenham sido utilizadas durante vários séculos a partir da Idade
do Ferro. Seja como for, a antiga Nazaré nunca deixou de ser uma humilde aldeia,
pelo que não é estranho que o Antigo Testamento nunca a mencione. Não é pouco,
de qualquer modo, ter podido constatar a presença humana pelo menos 2000 anos
antes da época evangélica. (N. Do M.)
daquela veiga de meio quilómetro de comprimento, não
excessivamente larga, resguardada nos seus quatro lados por muitas
das quinze elevações já mencionadas. De um e do outro lados da
vereda, os engenhosos camponeses tinham feito prosperar um
magnífico palmeiral, certamente importado da vizinha Fenícia. Aos
múltiplos ganhos provenientes do cultivo do tamar (nome hebreu da
palmeira) e que iam da colheita do seu fortificante fruto à preparação
do mel, passando pela confecção de cestos, tapetes, cercas de madeira,
telhados e balsas, os habitantes de Nazaré tinham somado, com a
implantação daqueles soberbos exemplares que chegavam aos vinte
metros de altura, de lânguidas e longas folhas, a nada desprezível
realidade de um passeio que pouco tinha a invejar aos de Jerusalém.
Por baixo das copas verde-amareladas das palmeiras tamareiras, a
veiga, na forma de minifúndio, florescia, exuberante, sulcada por uma
teia de aranha de espelhantes acéquias. Verdejavam ali bojudas
figueiras de cinco metros de altura, de folhas espalmadas e rugosas. E à
sombra da sua prometedora colheita, a luz (designação aramaica da
amendoeira). Toda uma nuvem branca de luz eclipsando as diminutas e
verdes flores das amoreiras negras.
E entre paliçadas de caniços, disputando cada palmo de terra, um
labirinto de verduras: talhões de favas de um metro de altura, com as
folhas dispostas para uma iminente explosão de flores brancas e
aladas: gravanços, de peludos e pegajosos caules: apertados canteiros
de alhos-porros, alhos e cebolas; acinzentados maciços de hortelãpimenta,
nascidos ao correr das valas e canalizações de pedra; videiras
bravas de flores douradas e escuras sementes medicinais; preguiçosas e
alaranjadas abóboras-mogangas e o primeiro dos legumes
mencionados na Bíblia: a lens culinaris a lentilha -, alimento básico da
dieta de toda a família judaica.

Mais para além da veiga, escalando encostas, marciais legiões de
oliveiras. Sobre elas, recortando as suas copas no azul-cristal da manhã,
massas florestais de alfarrobeiras e de nogueiras. Por todo o lado,
acamadas nos vales, assomando aos terraços em socalcos ou
desafiando os esporões rochosos das vertentes, a verdadeira imagem
da abundância e da bênção divina para os Judeus: a videira. Eram aos
milhares, amparadas com estacas de madeira de um metro de altura,
assim dispostas para suster e aliviar a futura e, certamente, grada
colheita.
Enquanto atravessávamos o pomar, fonte de vida e de prosperidade
dos notzrim (nazarenos), alguns dos camponeses mais próximos, ao
reconhecerem a Senhora, levantaram os braços em sinal de saudação e
de boas-vindas. Outros, deixando os seus enxadões e alfaias,
apressaram-se a correr ao seu encontro, e ao pisarem o caminho, de
rosto grave, começaram a bater palmas.
O gesto nada tinha que ver com o que hoje, no século xx,
interpretamos como aplausos. Não se tratava de um reconhecimento ou
de uma manifestação de louvor pelo facto de ser a mãe do grande Rabi
da Galileia. Aqueles homens, jovens e velhos, batiam palmas em sinal
de luto. Era esta uma forma de exprimir a sua condolência pelo recente
falecimento de Jesus, a cuja execução, obviamente, não tinham
assistido. E Maria, emocionada, com os olhos em lágrimas, foi
abraçando a maioria.
Em Nazaré, como sucedera na vizinha Caná, não se encontravam
muito a par da ressurreição nem das aparições de Jesus. Teria tempo
para o verificar e assistir às polémicas que as referidas notícias
levantariam entre os humildes e cépticos vizinhos.
E por volta das 8 horas e 30 minutos daquela terça-feira, 25 de Abril,
encontrei-me, por fim, às portas de Nazaré. E ponho a palavra entre
aspas porque, para dizer a verdade, trata-se apenas de uma figura
literária. Carecendo de muralhas, a aldeia não dispunha pois de um
acesso principal, propriamente dito. As portas formavam o final ou o
começo, consoante se olhe do passeio das palmeiras (assim foi
baptizado por quem isto escreve), o cruzamento e o começo dos
caminhos ali situados, e uma ruidosa conduta de água, uns vinte passos
à nossa direita. O vozeario que vinha do manancial chamou a atenção

de Maria e, sem hesitar, correu para a fonte. A água, canalizada de
uma nascente situada no lado norte do cume do Nebi Sain, corria,
impetuosa, desde os quase quatrocentos e oitenta metros do seu
manancial, abastecendo a população e as caravanas e transeuntes que,
obrigatoriamente, a cruzavam. Como iria verificar mais tarde, aquela era
a única fonte importante em Nazaré. Ponto de encontro, local de
tertúlias e de obrigatória e quotidiana reunião de matronas,
camponeses, artesãos e viajantes.
Prudentemente, quedei-me junto de Zebedeu, observando os risos,
abraços e a algazarra geral que a inesperada chegada da Senhora
provocara. O largo jorro de água brotava a metro e meio de altura,
atravessando uma parede de pedras rectangulares, de natureza
calcária sedimentar (extraídas das colinas) e permanentemente
invadidas por um musgo verde-negro, onde se aninhava uma notável
colónia de moscas. Uma viseira, igualmente de pedra, à maneira de arco
de meia volta, fazia as vezes de toldo, cobrindo a fonte. O jorro caía
directamente no terreno, formando um tanque natural, de uns cinco
metros de largura máxima, no qual, com água até aos joelhos,
chapinhava a criançada, enchiam os seus cântaros e odres as mulheres
e felah, bebiam os asnos e lavavam as roupas as risonhas e tagarelas
matronas. A curta distância, sobre os calhaus e o vermelho barro,
alinhava-se uma malcheirosa colecção de sandálias, violentamente
assaltadas pelos rijos tabanídeos.
Não sei se deva usar a palavra decepção. No fundo, pelas
informações que possuíamos, aquilo era de esperar. Hoje, gerações
imaginam Nazaré como uma cidade populosa, de belos edifícios e ruas
empedradas. Nada mais distante da realidade.
Avidamente, enquanto a Senhora dava rédea solta à sua alegria,
percorri com os olhos o punhado de casas, na sua maioria de um só
piso, que se empurravam no acentuado desnível da encosta oriental do
Nebi. Num minucioso estudo posterior, desmentindo os cálculos
efectuados a partir da cota 511, ratificaria aquela primeira e apressada
impressão: a aldeiazinha era formada por umas vinte a trinta casas.
Não eram mais. E todas, como disse, estribadas umas nas outras e
ocupando uma superfície que lembrava um triângulo isósceles, com uma
altura aproximada de cento e cinquenta metros e cinquenta ou sessenta

de base. O vértice continuando com a comparação situava-se nas
portas. Na realidade, o nó de onde partiam os caminhos fazia parte do
dito vértice.
Do lugar onde nos encontrávamos, as edificações, impecavelmente
caiadas, assemelhavam-se a uma gigantesca escada ou, para utilizar
uma imagem mais de acordo com os tempos actuais, aqueles
apartamentos ou hotéis em socalcos, que podem contemplar-se nas
praias em moda. A orientação não podia ser melhor: voltada para
oriente, captava os raios solares do nascer ao pôr do Sol. Quanto aos
ventos de poente, o próprio monte Nebi Sain fazia de parapeito,
resguardando-a no seu regaço. A íngreme ladeira em que assentava,
nalguns pontos chegava aos trinta e mesmo aos quarenta por cento de
desnível, não fora obstáculo para os empreendedores galileus. As casas
estavam niveladas, aproveitando bem o subsolo irregular e rochoso ou
graças a muros e fundações, levantadas com pedras roubadas à colina.
Mas a Nazaré daquele tempo não era apenas o que à primeira vista
parecia. Uma importantíssima e invisível área encontrava-se justamente
debaixo da terra. Durante esta e outras visitas teria a oportunidade de
descer a um emaranhado labirinto de grutasalgumas naturais e outras
escavadas na rocha -, que ocupava uma superfície maior que a da
povoação.
(Esta foi calculada nuns três mil e setecentos metros quadrados e a
da cidade subterrânea em cinco mil metros quadrados.) Em tais
cavidades que serviam de silos, cisternas e armazéns se passava
boa parte da vida daquela simples e, em geral, amável gente. Algo que
os evangelistas passaram por alto e que a arqueologia moderna se
encarregou de ressuscitar. Ainda não é altura de falar destes
corredores, grutas e passagens, aos quais, como é evidente, também
desceu o jovem Jesus... (1) Algumas mulheres, ansiosas por conhecerem
as novidades em primeira mão que a mãe do Mestre trazia,
cercaram-na, assaltando-a com perguntas.
Porém, o tumultuoso interrogatório seria breve. João, abrindo caminho
entre as galileias, chamou por Maria e, fazendo orelhas moucas aos
irados protestos, puxou-a, prometendo, isso sim, uma próxima, pública e
pormenorizada narração dos acontecimentos. Teimoso e autoritário,
deixou a complacente Senhora com a palavra nos lábios, internando-se

pela aldeia.
*1 Os turistas e actuais visitantes não podem reconhecer na Nazaré de hoje a
insignificante aldeia da época de Jesus. Nada resta, com excepção daquela Nazaré
subterrânea e quase troglodítica,. A próspera cidade do século xx, com os seus mais
de quarenta mil habitantes, continua a ser um enigma. Até o seu nome, que vem da
raiz semítica nsr e que significa guardar e esconder, parece estreitamente ligado
àquelas grutas e túneis rochosos. Talvez algum dia a arqueologia, ao explorá-los,
revele ao mundo como era na verdade a vida naquela remota população. (N. Do
M.).
É curioso. Embora o compreendesse, embora fosse lógico e natural
que Maria se perdesse em Nazaré, ao encontrar os seus entes queridos,
este explorador não pôde evitar uma amarga sensação de... como
explicar? Talvez de desamparo. Às portas da aldeia, esquecido pelo
Zebedeu e por Maria, vi-me assaltado por uma pungente tristeza. Se,
ao menos, a mulher tivesse voltado a cara e...
Foi questão de segundos. Tinha de actuar. Não podia ficar diante das
casas e da fonte como uma estátua. Decidido a iniciar a fase seguinte
da missão interroguei a pequenada quanto a algum lugar onde pudesse
hospedar-me. Ao repararem naquele estrangeiro grandalhão, algumas
das matronas uniram-se espontaneamente à roda dos rapazes,
oferecendo-se, prestáveis e encantadas, para me acompanharem até à
estalagem.
E entre risos comentários pícaros e perguntas descaradas sobre a
minha origem e profissão, as galileias e os rapazes deixaram-me à
porta da estalagem. As minhas insistentes inclinações de cabeça e
sinceros agradecimentos só contribuíram para multiplicar os risos.
Vermelho de vergonha aventurei-me no túnel que, como no caso da
estalagem do Zarolho, servia de acesso ao edifício. Um lugar, como era
de esperar, em que seria testemunho de outro singular lance.
Uma das vantagens de Nazaré, de acordo com a sua configuração e
humildes dimensões, era precisamente a pequenez das distâncias. Da
fonte à estalagem que me serviu de refúgio e quartel-general, durante
os três dias de permanência no lugar, não seriam mais de quarenta
metros. Até lá chegava-se pelo caminho que seguia em direcção ao sul.
Uns dez metros antes de se chegar ao seu extremo oriental, a vereda,

disfarçada de pequena ponte de pedra, brincava sobre uma torrente de
fraco caudal, proveniente do flanco ocidental do Nebi Sain e que,
despreocupado e transparente, saltava, corria ou deslizava, fiel à falda
sul do monte. A partir da pontezinha, o arroio penetrava decidido em
plena veiga, alimentando a cuidada rede de acéquias.
Mas, como ia dizendo, a estalagem uma das escassas edificações
de certo relevo existente na circunscrição da aldeia mantinha uma
extraordinária semelhança com a que tivera ocasião de visitar na
recente caminhada. As suas dimensões eram notavelmente inferiores
mas, quanto ao seu desenho geral, pátio a céu aberto, quartos no
andar de cima, taberna-casa de jantar, etc., não vi diferenças
merecedoras de referência. As paredes de pedra sobressaíam das
restantes construções pelo seu revestimento, descuidado e cinzento em
tempos caiado e agora roído pelas chuvas e ventos.
À terceira hora (as nove da manhã), o pátio interior estava deserto.
Ou melhor, quase deserto. Por baixo da galeria em pórtico que rodeava
o referido pátio, no lado esquerdo (da minha posição ao final do túnel
de acesso à estalagem), brincava uma criança entre os quatro troncos
de árvores escavados que faziam as vezes de pesebres. Uma criança? A
impressão foi corrigida de imediato. Embora a cabeça não sobressaísse
do perfil dos negros lombos dos asnos ali amarrados, a personagem
não era exactamente um rapaz. Ao descobrir a minha presença
abandonou a forragem, e sacudindo as mãos contra um avental sujo
que quase roçava pelo pavimento do tijolo vermelho, veio ao meu
encontro com um sorriso confiante.
A sua minguada estatura apenas um metro de testa proeminente,
nariz em sela de montar, pernas tortas e uma acentuada curvatura
lombar punham em evidência naquele indivíduo uma forma de anão de
extremidades curtas (possivelmente uma acondroplasia: um dos tipos
de deformações hereditárias em que anormalidades de crescimento de
osso e cartilagem originam o desenvolvimento inadequado do esqueleto
e, enfim, o nanismo). Caminhando em saltos pequenos e cómicos não
isentos de balanceamento à esquerda e à direita, típico nas pessoas
que sofrem desta malformação, foi reunir-se com este perplexo
explorador, identificando-se como Heqet, estalajadeiro ao meu serviço.
O seu aramaico com sotaque chamou-me a atenção.

Correspondi à apresentação, anunciando-me como aquilo que
supostamente era: um comerciante grego de vinhos e madeiras, de
passagem por Nazaré. E, imediatamente, informado da minha origem
grega, Heqet esqueceu o rude idioma da Galileia, falando-me numa
koiné mais inteligível. E a nossa primeira conversa, como era forçoso,
centrou-se na questão doméstica. Naturalmente que dispunha de um
quarto para tão ilustre viajante. Mas acentou sem rodeios o
pagamento, como a boa educação, vem sempre à frente. Estendendo a
mão direita, curta e rechonchuda, solicitou o meio denário (doze asses)
daquela primeira noite. Satisfeitas as suas exigências, enquanto
atravessávamos o pátio em direcção à escada do canto esquerdo
recordo-me que, se desejasse, podia também alimentar as minhas
montadas.
- Os preços mentiu são os mais baixos de toda a região: pão e
uma medida de vinho, um asse; carne, dois asses; forragem, mais dois
asses, e uma importância a combinar para o uso da retrete.
Ao subir a vintena de degraus recentemente baldeados estremeci. As
condições sanitárias eram deploráveis. Era óbvio que evitaria o
reservado ou lugar secreto...
Apesar do natrão esfregado nas escadas e nas tábuas desunidas que
formavam o soalho da galeria, o cheiro vindo do andar de baixo
apoderara-se das paredes e dos móveis. Durante a minha passagem
pela estalagem, aquele fedor a urina e excremento de cavalariças, a
forragem e a lugar húmido e deficientemente ventilado, acabaria por
aderir às minhas roupas e à minha pele, provocando um ou outro gesto
de repulsa entre as pessoas com quem tive de contactar. Heqet, que
era um emigrado egípcio cujo nome Rã lhe fora posto pelas
mordazes pessoas da terra por causa do seu extravagante caminhar,
apontou as esteiras de palha e as mantas que pendiam do varandim,
perguntando se desejava alugar a cama. Imaginando o pior,
inspeccionei-os com cuidado. A tinta escarlate e violácea encontrava-se
devorada por uma porcaria de difícil identificação. Quanto ao que
tinham dentro uma palha espinhosa e putrefacta melhor era não
entrar em pormenores.
Neles pululavam as mais variadas e pouco recomendáveis quadrilhas
de hemípteros...

Desisti, naturalmente, alegando que o meu roupão bastava e sobrava
para tão natural necessidade. O estalajadeiro não se rendeu. Disposto
a obter o máximo proveito do novo inquilino enumerou outros serviços
próprios da estalagem, igualmente à disposição dos respeitáveis
clientes A saber: uma mocinha com que aquecer a cama (dois asses por
noite), inspecção e tratamento dos animais de carga (preço a
combinar), serviço de guia e protecção armada, se o meu trabalho
requeresse viajar pela região (um denário por dia para o condutor e
idêntica tarifa para cada homem da escolta), abastecimento (também a
combinar) e, finalmente, até mapas dos caminhos e paragens da Baixa
Galileia (à razão de seis sestércios o exemplar). Esta última oferta, por
razões que o anão egípcio não podia suspeitar, sim, foi do meu
interesse. E o Rã, agradado, combinou mostrar-me o valioso género
quando voltássemos ao andar de baixo.
Pareceu hesitar. Percorreu as sete estreitas e enegrecidas portas que
se alinhavam num dos flancos mas, com a sua habitual teatralidade, fezme
ver que aquelas não eram celas dignas de um homem ilustrado.
Os meus receios aumentaram. Em que espécie de covil fora cair?
Saltando por cima das rangentes e soltas tábuas foi parar diante de
um quarto situado na extremidade ocidental do edifício. Procurou por
baixo do avental sebento e com um risinho nervoso mostrou-me uma
daquelas aparatosas chaves, em ângulo recto, com punho esférico de
madeira e cinco longos dentes na de ferro. O cinismo e falsidade do
estalajadeiro não conheciam limites se cada um dos vinte e oito quartos
da estalagem se abria com a sua própria chave e se o egípcio só trazia
no cinto a que agora me entregava, para quê tanta hesitação e
circunspecção? Tinha de estar muito atento; em especial à bolsa dos
dinheiros...
A fechadura, enferrujada, gemeu a cada tentativa. Por fim, com a
ajuda de um pontapé, a porta abriu-se, rangendo nuns gonzos
ligeiramente decadentes. Inclinando-se numa vénia exagerada deu-me
passagem. Frestas de vinte centímetros e pouco mais de um metro de
altura deixavam passar faixas de claridade, suficientes para iluminar
uma cela triste e fedorenta, de dois metros de lado. Julguei que ia
morrer. Nas paredes, entre as junturas das pedras e num rebocado
bolorento e descascado, moravam os autênticos e permanentes

hóspedes da estalagem: percevejos avermelhados de corpos achatados
e elípticos, grandes como lentilhas. O mobiliário, de harmonia com a
húmida quadra, consistia num alguidar de barro agora vazio e animado
por uma inquietante família de baratas que, obviamente, via em perigo
os seus domínios. Um jarrão de bronze único luxo do cubículo
completava o recheio que assim pensava, devia servir para a minha
higiene quotidiana.
Junto da porta, numa cavidade esverdeada, uma candeia de argila
com a asa em forma de serpente (a deusa egípcia Meret-Seger,
protectora como a serpente de bronze de Moisés, contra todo o género
de ofídios) que emprestava a sua superfície poeirenta à ancoragem de
várias teias de aranha cruzadas.
Achei mais prudente calar-me e não protestar pelo estado da cela. O
meu trabalho, ao fim e ao cabo, pedia outros cenários.
Dando como assente que o quarto era do meu agrado, o
estalajadeiro fechou a porta, deixando-me só. Quem isto escreve, com a
pesada chave de trinta centímetros na mão, só conseguiu assomar o
nariz às asfixiantes seteiras, numa vacilante ânsia de respirar um ar
menos viciado e, ao mesmo tempo, procurando situar a posição do
quarto ao exterior e à própria estalagem. Na minha frente, apareceram
as colunas que cercavam Nazaré a ocidente e, ao fundo, a cintura
branca do caminho para Jafa. A aldeia, à direita da fresta aberta diante
da porta, mal era visível.
A dávida que me coubera em sorte ocupava a esquina ocidental do
edifício. Em baixo, junto da parede, começava uma plantação de
oliveiras.
Oprimido pela sujidade e pelo aperto do quarto ordenei as ideias com
mais pressa que eficácia. Aquela parte da missão, como o programa
estabelecia, consistia em recolher, in situ, um máximo de dados com os
quais preencher os anos ocultos de Jesus. A verdade é que ignorávamos
quase tudo sobre este ponto. Quanto tempo permaneceu o Nazareno
na aldeia? A que dedicou aqueles anos?
Quais foram as suas relações com os habitantes da povoação? Em
que momento soube da sua natureza divina? Chegou a estabelecer
algum plano? Porque abandonou aquelas paragens? As interrogações

eram tantas e o tempo tão curto que invadido pela impaciência, decidi
actuar imediatamente, embora com extrema prudência. A deterioração
das relações com Zebedeu preocupava-me.
Muito contra minha vontade, consciente de que a cela podia ser
aberta com um pontapé, tive de desistir de andar com o saco de
viagem. As sandálias de reserva e a dezena de fármacos camuflados
em pequenos boiões de argila podiam ser engodo para qualquer
ladrão. Encolhi os ombros e deixando o assunto nas mãos da
Providência encaminhei-me para a porta. Ao abri-la reparei nuns sinais
marcados a faca na madeira e que, com toda a certeza, eram obra de
clientes descontentes. Em grego e aramaico podia ler-se: Para o fogo
com o anão; Hequet: andar de rã e coração de víbora...
Tê-lo-ia presente. Depois de três ou quatro tentativas, um estalido
deu-me a saber que a porta tinha ficado fechada. Sem pressa,
farejando cada canto desci ao pátio deserto. Só o patear de um dos
asnos no pavimento quebrava o silêncio do local. O meu propósito era
simples: antes de me lançar na investigação propriamente dita que
devia fundamentar-se nas conversas com Maria e outros parentes e
conhecidos do Mestre percorreria Nazaré, familiarizando-me com os
seus perfis físicos. Mas, eis que quando atravessava o vermelho lajedo
de tijolos, a voz do estalajadeiro me chamou do umbral de uma das
portas. Não me deu tempo para declinar o convite. Quando quis
desculpar-me, o Rã tinha regressado ao interior. Contrariado, passei
novamente pela frente do poço central, parando diante da escuridão.
Encontrava-me como na estalagem do zarolho, diante da sala principal
do edifício uma taberna-casa de jantar e, segundo verificaria naquela
mesma noite, se as circunstâncias assim o exigissem, centro de reunião
de quantos precisassem de que lhes escrevesse uma carta, lhes
receitassem um remédio para o gado ou lhes arrancassem um dente.
Heqet, à direita da sala rectangular e encostado a um daqueles
singulares balcões de bojudas ânforas de pedra, apontou um dos
orifícios abertos no tampo de mármore que as cobria convidando-me a
provar um néctar chegado justamente do delta do Nilo. Ante o meu
assombro , o anão erguia meio corpo acima dos recipientes. Ao
aproximar-me, descobri o truque: um banco o levantava permitindo-lhe
o acesso às altas vasilhas.

Uma pobre iluminação, consequência da falta de clientes, perfilava as
silhuetas brilhantes e sebosas de três grandes mesas. A parede nas
costas do balcão apresentava uma dúzia de nichos, cheios de papiros
enrolados, caixas de madeira de múltiplos tamanhos, espelhos e polidos
cristais de bronze e um emaranhado de artigos, confundida na escuridão
dos nichos que constituíam parte do negócio do egípcio.
Molhei os lábios no vinho doce e espesso cortesia da casa e o
incansável estalajadeiro trepou até uma das despensas, saltando para
o chão com uma mancheia de rolos. Tirou uma candeia de azeite da
parede e, abrindo-os, passeou-a, cobiçoso, a um palmo dos rústicos
mapas. Aproximei-me, intrigado, comprovando que, efectivamente, tal
como o dono tinha anunciado, se tratava de uma série de desenhos e
anotações manuscritas, sem a menor concepção das proporções e das
escalas, que lembrava isso sim a distribuição das principais cidades e
aldeias da Galileia, bem como as trajectórias aproximadas dos
caminhos, estalagens afamadas (incluindo a do Rã), poços ou fontes,
gargantas e atalhos e, até, as paragens perigosas, tanto pelo risco de
assalto como pela presença de feras ou pelo estabelecimento de
colónias de leprosos (1).
Ao cotejá-las observei que as diferenças eram mínimas. Na realidade,
estes guias pareciam cópias de um original, trazendo de acordo com
a estalagem onde eram vendidos o nome, a localização e as
excelências (preços incluídos) da estalagem em questão. Num destes
mapas Hturísticos, para viajantes com dinheiro, em traços infantis fora
pintada a casa de Heqet (mais em destaque até do que Nazaré) com
uma nota no rodapé do mapa que me pôs de sobreaviso. Rezava assim:
Swnw [médico laico em egípcio], ilustre filho de Athotis. O embuste
não podia ser mais flagrante. O tal Athotis, entre outras coisas, era um
soberano da Primeira Dinastia. Aquilo representava uma antiguidade
aproximada de três mil anos... De qualquer modo, como publicidade, o
anúncio não podia ser melhor. Paguei os seis sestércios (2), adquirindo
o rolo onde se falava da especialidade do Rã. Pura diplomacia... O
estalajadeiro, depois de contar e verificar com os dentes a autenticidade
das moedas, deu-se por satisfeito, e eu, emocionado, entreguei-me à
aventura chamada Nazaré...
*1 Estes mapas não eram uma novidade nos tempos de Cristo.

Muito possivelmente, obedeciam à moda imposta por um tal Pausânias, autor de
uma curiosa e divertida série de guias (hoje poderíamos qualificá-los como turísticos)
para viajar na Grécia. Os mapas de Pausânias eram o equivalente dos
confeccionados por Baedeker ou Murray e que foram traduzidos por Sir James
Frazer. Como disse, estes trabalhos eram muito frequentes no século i. Augusto
encomendou um novo mapa do Império a um dos seus altos funcionários, bem
como um pormenorizado dicionário geográfico. Também não podemos esquecer a
expedição geodésica patrocinada por Nero ao Alto Nilo.
2 No complexo emaranhado de moedas que nos vimos obrigados a conhecer e
manejar, o denário-prata ia representar o padrão monetário. Era o salário-dia de
um operário não especializado e, a traços largos, mantinha as seguintes
equivalências: seis sestércios ou vinte e quatro asses. A moédah podia ser trocada
por um sexto de denário ou quatro asses; o pondion ou semimésh era igual a dois
asses. Consequentemente, um asse era similar de um semipondio. O quadrante
representava dois leptas (simples trocos) ou um quarto de asse. Por sua vez, a
lepta ou lepton, também conhecida como proutah, tinha o valor insignificante de um
oitavo de asse. Em relação aos dinheiros mais avultados, as medidas eram
distintas. O aureus (denário de ouro) representava trinta denários de prata. O sekel
(siclo, statere, sela ou tetradracma) equivalia a quatro denários-prata ou vinte e
quatro sestércios. O zouz tírio a que os Gregos chamavam dracma - era igual a
um denário-prata. Uma mina, preço médio de um terreno, era equivalente a cem
denários-prata. Por último, o talento era igual a três mil sekel ou siclos (doze mil
denários-prata).
Uma fortuna. (N. Do M.)
Foi simples e também agradável, mas em determinados momentos
decepcionante. Acima de tudo, aquela primeira volta de inspecção foi
emotiva. A frieza do nosso treino não contou com a imaginação.
Percorrer a aldeia era ver, escutar e sentir um Jesus adolescente. Um
Jesus artesão. Um Jesus adulto, conversando na fonte. Um Jesus vivo e
tranquilo, à porta das casas...
Uma hora foi suficiente.
Pouco mais ou menos pelas dez da manhã atravessava novamente a
pontezinha com parapeitos de pedra, indo ao encontro do vértice de
triângulo isósceles que Nazaré formava. Por ali começou o meu passeio.
A animação na fonte coberta tinha diminuído. Junto de dois ou três
camponeses atrasados, mais atentos aos mexericos que ao enchimento
dos odres, as crianças continuavam fazendo das suas, chapinhando e

brincando aos barcos com as sandálias de erva e palha prensada
esquecidas por algum adulto. Nenhum teria mais de seis ou sete anos.
Vestiam túnicas curtas, escurecidas pela água e coladas a corpos que
não estavam muito bem alimentados. Como nas outras povoações que
visitara, as famílias tinham muito cuidado em lhes rapar os crânios,
aliviando assim as pragas de piolhos e mais parasitas que assolavam a
sociedade judaica. Alguns pequenos mais adiante ampliaria esta
observação com numerosos adultos diferenciavam-se dos outros pelos
cabelos louros ou ruivos, olhos azuis celestes e uma pele branca que,
apesar das mascarras, clareava os semblantes. Nem eles próprios
conheciam a origem desta estampa quase céltica. Muito possivelmente
teria de se ir até aos tempos dos amorritas (1), séculos atrás, para
justificar este claro distanciamento do fenótipo hebreu, de cabelos, olhos
e pele mais próximos da noite que do dia.
Recordando a eficácia do jovem João Marcos na Cidade Santa, estive
quase a solicitar o auxílio, como guia, de algum dos mocinhos. Mas, não
desejando provocar contratempos precoces resolvi andar sozinho.
Aquela ponta de Nazaré no enclave mais próximo dos
caminhosvinha a ser, forçando a imagem, o centro industrial do
povoado. Abrindo-se em V e escalando a ladeira alinhavam-se entre
oito e dez oficinas, abrigadas em casas de pedra de um só piso e
caiadas com pior gosto que o resto da aldeia. De muito diferentes
dimensões apareciam segundo o costume,
*1 Os Amorritas povo semita fixaram-se a partir do terceiro milénio antes de
Cristo ao norte da Síria, oásis de Palmira e Babilónia. A Bíblia menciona-os como
descendentes de Amorreu, filho de Caná (Génese, 10, 16). Julga-se que, entre os
séculos xv e xvI, os Amorreus penetraram em direcção ao sul da Síria, Alto Caná e
margem oriental do rio Jordão, até ao Arnão. Segundo parece, o povo hebreu
entrou em contacto com eles durante ou depois do Êxodo. É possível que, nas
incursões dos Amorritas para o Sul da Síria e Alto Caná, numerosas famílias e
grupos se estabelecessem na Alta e na Baixa Galileia, dando assim origem a
indivíduos de configuração semítica. Nazaré e seus arredores, neste aspecto, não
teriam sido uma excepção no cruzamento com os Amorritas. Uma obra capital da
arte amorrita, além dos cilindros, que representam Amurro, deus do Oeste e da
tempestade, é a estela com o Código de Hammurabi. (N. Do M.)
- com as portas de par em par. Bem no umbral, sentados ao tépido

sol da manhã, ou ocultos na penumbra do interior, carpinteiros, tecelões,
tanoeiros e tintureiros esforçavam-se nos seus misteres, cantarolando
uns, em silêncio a maioria, ou em intermináveis conversas os outros.
Sobre a terra nua, ao pé das paredes ou pendurados das fachadas,
exibiam-se ao público as peças já terminadas: mesas, bancos, camas e
arcas de todos os tamanhos, formas e preços; jugos primorosamente
curvados e equilibrados; lanças de tiro e rodas para as carroças;
aguilhões e cabos de arados; portas e caixilhos para janelas; huchas e
masseiras para as donas de casa; arquivadores para os escribas;
sólidas vigas destinadas à sustentação dos terraços que coroavam as
casas e as próprias oficinas e armazéns; túnicas e mantos de vivas
cores, de lã e de linho escorrendo ainda o azul, o escarlate ou o verde
das tintas; camisas de menino delicadamente tecidas; bolsas de couro;
cestos de vime, tapetes e esteiras entrançadas em espiral; tonéis de
diferentes bocas e cubas calafetadas para o transporte e
armazenamento de vinho ou de frutos e, por fim, uma interminável
sequência de pratos, escudelas, colheres e recipientes de madeira.
A excepção entre os artesãos, sempre varões, constituíam-na os
operários dos teares. Eram todos mulheres. As jovens, sentadas no solo,
esticavam a lã, extraindo-a de grandes cestos circulares de vime.
Outras, igualmente jovens, fiavam de pé, valendo-se de rocas e de
fusos. Só as anciãs tinham a seu cargo o difícil labor de tecer nos
primitivos teares verticais.
Embora ardesse em desejo de meter conversa com aquela gente,
compreendi que não devia alterar o programado por Cavalo de Tróia.
Assim, metendo-me por entre as casas, escolhi o que parecia ser uma
rua que, a partir deste percurso inicial, seria baptizada por este
explorador como a rua sul. Nazaré não tinha calçadas propriamente
ditas.
As vinte ou trinta casas que davam corpo à aldeia, como creio ter
sugerido, formavam um caótico labirinto de vielas e de espaços mais ou
menos abertos que, na maioria dos casos, não conduziam a lado algum.
Pois bem, num alarde de generosidade, poderíamos dizer que o humilde
núcleo humano, por puro acaso, se encontrava atravessado por duas
vias ou ruas. Uma, a que eu tinha tomado, corria paralela ao lado sul do
já referido triângulo isósceles. A outra, partindo do vértice, escalonava

se para norte. A meio, o coração da aldeia: um amontoado de casitas
brancas, de estruturas quadrangulares ou cúbicas, com toscas paredes
de pedra calcária de três a cinco palmos de espessura e telhados planos
de madeira cobertos de terra batida. Às referidas açoteias chegava-se
mercê de simples escadas exteriores, construídas a partir de grossos
troncos ou vigas encravadas nas paredes.
Muitas eram protegidas por um varandim rudimentar, também de
madeira. Das portas ao limite do povoado, cada palmo era uma
pequena conquista à colina. Em pouco mais de cento e cinquenta metros
comprimento máximo de Nazaré o perfil da ladeira passava dos
quatrocentos metros no lugar da fonte aos quatrocentos e cinquenta.
Aquilo forçara os vizinhos ao levantamento de sucessivos parapeitos e
muros de contenção, que tornavam inútil qualquer tentativa de traçado
urbano. Para cúmulo, a pavimentação brilhava pela ausência.
As ruas, pátios e vielas encontravam-se atapetadas com uma
incómoda mistura de terra, cascalhos, restos de vasilhas partidas e
tijolos de barro desfeitos. Em época de chuvas, semelhante desastre
tinha de constituir sério problema para a integridade das casas e dos
próprios habitantes. De facto, a quase totalidade das casas
apresentava nas portas um alto degrau de pedra, preparado para
evitar que as enxurradas que podiam surgir do alto do Nebi inundassem
os lares. Apenas nas duas vias que qualifiquei como importantes tinham
sido dispostas canalizações, formadas por uma regueira central de
quinze centímetros de profundidade por trinta ou quarenta de largura,
segundo os lugares.
De começo, na minha proverbial falta de habilidade, perdido uma e
outra vez entre os estreitos pátios e passagens estreitas, vi-me na
necessidade de voltar atrás, evitando os caixotes de madeira que
faziam as vezes de fogões improvisados e as mulheres e velhos que
vigiavam os cozinhados. Ninguém protestou pela irreverente invasão dos
seus domínios.
Na realidade, ainda que cada propriedade estivesse perfeitamente
delimitada, a aldeia, como já referi, era um todo sem muros nem
barreiras. A proximidade das casas era tal que numa infinidade de
lugares dois homens tinham dificuldade em passar lado a lado. Algumas
mulheres, aproveitando a frescura da manhã baldeavam às portas das

casas, lançando fora com as mãos, a água, de grandes alguidares
depositados por terra.
Noutros recantos, no entanto, as imundícies e o lodo formavam
montões fedorentos, cobertos de moscas e de assustadiços gatos
pretos e tigrados.
Com a permanente visão do Nebi como referência, fui subindo pelas
rampas e degraus de tijolo cozido, espiado pelos olhares curiosos das
matronas e das crianças. Numerosas vielas encontravam-se cobertas por
telheiros de caniços que voavam de terraço em terraço e, em certas
alturas, pelos braços sarmentosos de densas parreiras que davam vida
às paredes negras, na sua maioria sem janelas.
Um dos aspectos que mais gratamente me impressionou em tão
humilde aldeia foram as flores. Não havia casa que não as tivesse.
Alinhadas de um e outro lado das portas, enchendo pátios ou trepando
pelas fachadas, floresciam a hortelã-pimenta, o jasmim, as trepadeiras,
as vermelhas túlipas de montanha, os narcisos de mar e uma palpitante
paleta branca, escarlate, amarela e violeta de anémonas, ranúnculos e
rosas. A fragrância e o colorido daqueles minúsculos jardins quase
faziam esquecer a sujidade e o abandono de muitos dos becos do
povoado.
Só assim, experimentando in situ a pequenez e a modesta condição
do lugar, comecei a compreender a razão da frase de Bartolomeu: Será
que de Nazaré poderá sair alguma coisa de bom? Naquele tempo, não
o podemos esquecer, Caná, muito próxima da aldeia de Jesus,
ostentava o título e a condição de cidade notável, consideravelmente
mais populosa, rica e civilizada que aquele punhado perdido de casas,
acachapadas numa não menos remota colina. Se os habitantes de Caná
podiam contar-se por milhares, os de Nazaré, em troca, somavam uma
escassa meia centena de famílias, com um contingente aproximado de
trezentas ou trezentas e cinquenta almas.
Só isso. Neste meio com as suas vantagens e inconvenientescresceu
e despertou para a vida o Filho do Homem. No termo da sua
impropriamente chamada vida oculta, os inconvenientes eclipsaram as
vantagens e, como foi afirmado, Jesus viu-se na necessidade de se
afastar daquele afectuoso e difícil grupo humano.

Na parte alta da aldeia, ainda que mínima, foram apreciadas certas
diferenças em relação à zona baixa. As casas, igualmente cúbicas e
esbranquiçadas pela cal, eram, na sua maioria, de construção recente.
Dispunham de pátios mais desafogados, cercados por muros baixos de
pedra de um metro de altura nos quais se distinguiam enormes ânforas,
pilhas de lenha e fornos de tijolo cupuliformes, alisados por dentro por
uma camada de argila. Alguns, em plena cozedura do pão, chamejavam
pelas suas bocas estreitas, lançando para o céu azul baforadas
intermitentes de fumo branco. Até a pavimentação parecia mais
cuidada. Nos pátios e vielas a terra fora coberta com pequenos calhaus
rolados, ligados por uma argamassa de qualidade duvidosa.
Talvez pela sua proximidade do campo e do arroio que se precipitava
da encosta ocidental do Nebi, em direcção à pontezinha próxima da
pousada, aquela ponta de Nazaré era uma das paragens favoritas da
gente mais nova. Quando uma mãe ou o chefe da família precisavam
dos serviços de algum dos seus filhos era habitual irem procurá-los na
fonte ou arrabaldes da aldeia, na referida zona norte. O chamado
arrabalde, conquistado também por um mosaico de hortos, reunia ainda
um aliciante especial, que descobriria ao longo da minha estada na
aldeia e que, durante anos, alimentou a fecunda imaginação de Jesus
menino: uma pequena oficina de olaria, nas margens da referida
corrente de água.
O antigo proprietário, um tal Nathan, já falecido, fizera as delícias de
toda uma geração de adolescentes. Agora, os filhos, tão pacientes e
bondosos como o velho oleiro, continuavam a facultar pedaços de barro
com que moldar sonhos e brincar a conquistar cidades. Ao abrigo da
colina ou dos muros, sob a distante e sonolenta vigilância de gordos
gatos, as meninas faziam grupos à parte, brincando barulhentas com
umas enormes bonecas de barro ou de trapo (1). Alguns destes
brinquedos apresentavam braços e pernas articulados.
Outros, os mais luxuosos e cobiçados, dispunham de buracos na
cabeça, pelos quais saíam cordéis presos às extremidades, de forma
que podiam imitar o caminhar dos seres humanos. Embora tivesse visto
brincar os meninos de Jerusalém, Betânia, Nahum e Saidan, a alegria
especial e intensa da grande prole de Nazaré, não tinha paralelo. Não
havia mau momento para exercitar a sua fantasia transbordante. Vi-os

correr, saltar e trepar todo o género de muros, apedrejando a
abundante população de gatos não sei se mais numerosa que a dos
próprios habitantes e balançando entre as velhas oliveiras.
Dispunham de aros de madeira, rústicos piões com um prego na
extremidade, cavalos de barro munidos com rodas e bolas de trapo que
atiravam exclusivamente com as mãos, ao estilo dos actuais jogos.
Um pequeno carreiro atravessava a cintura de hortos, afastando-se
encosta acima, ao encontro do cume. O monte, a partir desta pequena
fronteira verde mostrava-se áspero, rochoso e pouco propício a
escaladas. Pensei em trepar até ao cume. Mas desisti, limitando-me a
activar os quatro canais
*1 Este género de brinquedos era habitual entre a criançada da Palestina. Na
Grécia, no século Iv antes de Cristo, havia notícia de bonecas semelhantes.
Xenofonte refere, até, um actor que trabalhava com fantoches (N. Do M.)
de filmagem simultânea alojados na vara de Moisés (1) e que, como
nas visitas aos anteriores núcleos humanos, tinham a missão de registar
paisagens, cenas e personagens previamente seleccionadas por Cavalo
de Tróia.
Por volta da hora quinta (as onze da manhã), sempre com a
referência do Nebi nas minhas costas, cheguei ao extremo norte da
aldeia iniciando a descida pelo lado setentrional do triângulo. Uma
segunda ruaque receberia o nome de norte ziguezagueava entre as
casas interrompida a cada passo pelos taludes e paredões de rocha.
A curta distância das casas situadas nesta zona, ladeando a encosta,
corria uma larga canalização de pedra, fechada com tijolo, que partia do
alto do flanco norte do monte, transportando a água potável até à fonte
situada às portas do povoado.
No total, segundo os meus cálculos, à volta de setecentos metros de
aqueduto. Todo um milagre de engenharia para lugar tão insignificante
(Na Nazaré de hoje existe a possibilidade de adivinhar o primitivo
percurso do caudal e da canalização, seguindo o traçado das ruas que
desembocam no lugar chamado Mensa Christi e nos alicerces,
respectivamente.)
Outro pormenor que não esqueço de que teria consciência ao descer

à cidade subterrânea foi a ausência de entradas para as grutas nas
ruas e vielas. As bocas das dezenas de silos e cisternas ficavam
escondidas nas casas. A única forma de Lhes ter acesso era por
intermédio dos quartos e pátios das casas. Como mais adiante veremos,
não é verdade que a população de Nazaré vivesse exclusivamente em
grutas, como pretendem alguns arqueólogos e antropólogos.
As construções à superfície, ainda que elementares, eram a forma
básica de habitação. O subsolo desempenhava um papel importante
mas complementar, destinado a adegas e despensas.
A localização da casa de Maria foi simples. Num estreitamento da rua
norte fui esbarrar com um burro que carregava uma pesada cuba de
água. O quadrúpede, de poucas delicadezas, esteve quase a pisar-me.
Atrás, a ofegar por causa da íngreme encosta e do enorme cesto de
verduras que trazia às costas, apareceu um velho tão curvado que as
suas barbas quase lhe roçavam os joelhos. Uma correia de lona nas
têmporas tornava mais fácil o transporte da carga. Ao interrogá-lo sobre
o paradeiro da Senhora parou uns instantes.
Sem levantar os olhos, com o rosto voltado para o chão e malhumorado
pela inoportuna paragem, perguntou por sua vez:
- Maria?... Qual delas?
A observação, justíssima, deixou-me perplexo. Na Nazaré, como em
todo Israel, o nome de Maria era vulgar. Ao referir-me a Jesus, seu filho,
o camponês como se dialogasse com as pedras do caminho, insistiu com
maior impaciência:
- Jesus?... Qual deles?
Perfeitamente atónito, precisei de uns segundos para encontrar a
palavra adequada:
*1 Ampla informação sobre os complexos dispositivos de filmagem da vara de
Moisés, nas páginas 171 a 174 do primeiro volume de Operação Cavalo de Tróia.
(Nota de J. J. Benitez.)
..O Mestre... o Ressuscitado.
- Aqui, meu filho troçou o galileu, olhando-me para as sandálias -, o
único que ressuscita é o Sol... Mas suponho que te referes àquele
louco... o de Maria, a das pombas. Não tem remédio. Outros loucos

como ele atrapalham o caminho ali mais abaixo... a vinte passos.
Devia ter pensado nisso. Na Nazaré nem todos tinham entendido o
Rabi. Para muitos, a revolucionária filosofia de irmandade entre os
homens filhos de um Deus-Pai e, principalmente, a crucificação,
destino inexorável dos assassinos, blasfemos e malfeitores, tinham
manchado o bom nome da aldeia. Tal estado de coisas ignorado
também pelos textos evangélicos não me escandalizou. Bastava ver os
discípulos, os familiares e a própria mãe terrena do Rabi.
Qual deles tinha ideias claras em relação à especialíssima mensagem
de Jesus? Consequentemente, por que motivo estranhar a reacção
negativa de alguns vizinhos que o tinham visto crescer? Ou será que
alguma vez houve profeta na sua terra? Um dos dados insinuado na
conversa com o velho era novo para mim. Na Nazaré, Maria era
conhecida por a das pombas. Depressa averiguaria o motivo.
Ao sair do estreitamento, a rua alargou até aos quatro metros. Ali,
efectivamente, se concentravam uns trinta indivíduos, sentados na
rampa de terra, de pé ou encostados preguiçosamente aos muros que
limitavam a calçada. Na sua maioria, mulheres levadas pela novidade,
anciãos desocupados e meninos choramingas e distraídos. Todos
estavam atentos numa das esquinas da casa à minha esquerda. Ao
aproximar-me descobri o Zebedeu, sentado nos primeiros degraus da
escada exterior que dava acesso ao terraço. Numa inflamada alocução
narrava aos vizinhos boquiabertos as recentes aparições do Mestre em
Jerusalém. A julgar pela incredulidade nos rostos dos mais velhos, o
discurso não parecia seguir por bom caminho...
Ao alto, a uns quatro metros, no parapeito que rodeava a açoteia,
esvoaçavam, picavam a pedra e moviam-se inquietas seis ou sete
pombas mansas e silvestres, de plumagem azulada e pescoço verdebronze.
O meu coração agitou-se. Aquela casa da esquerda tinha de ser
o lar da Senhora...
Como no resto da aldeia, as paredes de pedra, meticulosamente
caiadas, não tinham janelas. Só uma porta, mas baixa, se abria nos
sessenta centímetros de espessura da fachada. Numa primeira
avaliação deduzi que o local onde evidentemente vivera o Filho do
Homem se erguia a uns oitocentos metros das portas de Nazaré. Quer
dizer, no bairro baixo: o mais antigo e degradado. E preparei-me,

então, para o grande momento.
Confuso, sem saber que partido tomar, observei os que escutavam o
Zebedeu. Maria não se encontrava entre eles. As mulheres que a tinham
acompanhado desde a fonte permaneciam sentadas muito próximo da
porta.
Que devia fazer? Entrava? Esperava que João terminasse? A situação
era melindrosa. Dadas as nossas tensas relações não podia esperar
muitas facilidades do filho do trovão. Assim, mesmo com o risco de
cometer nova tolice, optei por entrar na casa. Silenciosa e
cautelosamente, colado à parede e procurando não desviar a atenção
dos ali reunidos, fui ganhando os poucos metros que me separavam da
ombreira direita. É possível que o Zebedeu, da esquina e entusiasmado
com a sua proclamação, não chegasse a ver-me. Descalcei-me e,
curvando-me, avancei a cabeça, entoando um assustado a paz seja
com os desta casa. Sinceramente, não distingui grande coisa. Uma voz
familiar chamou-me da penumbra. Voltei a hesitar. Mas a Senhora, que
sabia da minha timidez, insistiu com firmeza.
Os meus pés passaram o alto degrau de pedra da porta, pousando
numa quente e seca esteira. No centro da sala, fracamente iluminada
pela luz de fora, agrupavam-se várias pessoas, sentadas nos tapetes
de palha que cobriam o soalho.
Precisei de alguns minutos para reconhecer as figuras. Aquele jugo
das casas hebraicas a sua perpétua escuridãofoi algo a que não
consegui habituar-me. Maria, notando a minha cegueira, acudiu rápida
a um dos cantos. Pegou numa brasa da lareira que, soltando fagulhas
no canto esquerdo (tomarei sempre como ponto de referência a porta
de entrada), acendeu duas candeias. A nova luz veio em meu auxílio.
Este aturdido e nervoso explorador pode contemplar, pela primeira vez,
o que fora casa de jantar, quarto e sala principal do lar do Mestre
desde a sua mais recuada infância.
Maria passou, sorrindo, na minha frente. Depois de pendurar uma das
candeias na parede da direita, juntou-se aos dois homens e às três
mulheres que a acompanhavam, deixando a segunda candeia em cima
de uma mesa de pedra de um metro de diâmetro e vinte centímetros de
altura que, à primeira vista, me lembrou uma mó de moinho. Dos
presentes, só reconheci Tiago, o segundo filho de Maria. Os outros,

também jovens, pareciam ser parentes. Prudentemente, continuei de pé,
em silêncio, respeitoso com a conversa que travavam. Segundo parecia
afirmou o homem que se sentava ao lado de Tiago o ambiente em
Nazaré piorara. Não era lugar seguro para os simpatizantes e parentes
do Mestre e, muito menos, para a mãe do Ressuscitado.
Pobre de mim! Excitado ante a oportunidade que talvez não voltasse
a repetir-se de contemplar o lar do Galileu, quase não prestei atenção à
premonitória informação do desconhecido: um judeu, íntimo de Jesus,
que iria proporcionar-me interessantes e muito secretas páginas sobre
aqueles distantes anos de adolescência e da juventude. Durante uns
minutos, alheio ao tema da conversa, mergulhei numa minuciosa
inspecção de quanto me rodeava.
Se não fosse aquilo que representava, a sala em questão ter-me-ia
passado despercebida. A sua distribuição, escassos móveis, iluminação,
tudo era semelhante ao que já vira noutras humildes casas da Palestina.
De acordo com o costume nas povoações agrícolas, a sala de uns
quatro metros de lado surgia distribuída em duas zonas bem
diferenciadas. Na metade esquerda, o nível do solo encontrava-se
elevado um pouco mais de oitenta centímetros, formando uma
plataforma de construção.
Esta elevação, como disse, ocupava metade da habitação e era
destinada à cozinha e quarto de dormir. No canto esquerdo, o pedreiro
muito provavelmente o falecido José esmerara-se na construção de
um fogão de tijolo refractário de uns quarenta centímetros de altura,
que fechava o referido canto.
Os fogos consistiam numa prancha de ferro triangular, solidamente
ligada às paredes. A lenha era introduzida e ateada por uma abertura
estreita e rectangular praticada em baixo, na parede de tijolo. No
Inverno, a chapa de metal ao rubro aliviava os rigores do frio. Os fumos
eram expulsos por uma chaminé, triangular como o fogão, que subia
pela confluência das paredes, perfurando o tecto. Tendo em conta que
na maioria dos modestos lares judeus os gases e os fumos resultantes
da combustão se escapavam por onde podiam, a tiragem da casa de
Maria podia considerar-se como um luxo.
No extremo oposto descansava uma arca de madeira, na qual,
também segundo o costume, se guardava a roupa e, até, as provisões.

Naquela mesma parede, a meia altura, alinhavam-se quatro nichos de
fundos arredondados pela cal, cheios de vasilhas, ânforas, pratos de
argila e madeira e outros utensílios de cozinha. Na parede lateral
entre o fogão e a arca estavam pendurados os frouxéis que serviam
de cama. Em geral, na altura de dormir, os ocupantes destas casas
deitavam-se com os pés na direcção do fogo.
O que explica a citação do evangelista Lucas. Levantar-se em plena
noite, incomodando e pisando a família, não era agradável. Quanto à
razão da plataforma, era basicamente sanitária. O nível inferior
costumava ser destinado aos animais: cabras, galinhas, burros, vacas,
etc. Era lógico, portanto, que a maioria dos camponeses preferisse
dormir, cozinhar e alimentar-se a certa distância do sempre sujo e
malcheiroso gado.
Ao habituar-me à penumbra, as observações apuraram-se. As
paredes, todas, encontravam-se rebocadas com gesso e belamente
branqueadas. Quatro degraus, no centro da plataforma, facilitavam o
acesso numa e noutra direcção.
No tabique que encerrava a quadra à minha direita, muito próximo da
porta principal, abria-se outra cavidade, sem batente, que levava ao
que parecia uma segunda sala. Mas as trevas no referido lugar eram
tão cerradas que não pude apreciar um só pormenor.
Ao fundo desta parede, no canto direito, destacavam-se três ânforas
de pedra. Uma delas, bojuda, solidamente fixada ao pavimento e
coberta com uma tampa de madeira, protagonizara uma célebre
história...
O telhado não podia ser mais rudimentar. Grossas vigas de sicómoro
(resistente aos vermes) calafetadas iam da parede da fachada à
oposta, entrecruzando-se em ângulo recto com um madeiramento mais
leve. Em cima desta base tinham sido dispostas camadas alternadas de
folhedo, terra e barro batido.
Numa das minhas visitas ao terraço pude examinar o rolo de pedra de
sessenta centímetros que servia para acamar a superfície depois das
chuvas. Durante os Invernos, a fragilidade dos telhados, castigava os
moradores a um ingrato e malsão gotejar de água e de terra. O lar de
Jesus, apesar das hábeis mãos do seu pai terreno, empreiteiro de

obras, não se viu livre de tal condenação.
- Jasão, amigo, acomoda-te. E, por favor, calça-te. Estes tapetes não
são um luxo.
O acolhedor convite da Senhora veio arrancar-me a tão prosaicos
cálculos e pensamentos. Fui juntar-me aos que estavam em volta da
mesa de pedra. Uma mó, efectivamente, mudo testemunho de outro
acontecimento histórico: a famosa anunciação do anjo a Maria.
Digamos que, à sua maneira, Tiago com quem já tivera longas
conversas me apresentou ao homem e às três mulheres que
compartilhavam a animada conversa. Os rostos de duas delas foram-me
familiares. No entanto, atordoado por uma infinidade de pessoas que,
directa ou indirectamente, tivera ocasião de conhecer durante o primeiro
e segundo saltos, só consegui identificá-las quando o filho mais velho de
Maria se lhes referiu como suas irmãs. Duas, efectivamente, eram-no:
Miriam e Ruth. A terceira Esta que conheci naqueles momentos, era
a esposa de Tiago. Miriam, que apresentava os mesmos traços
angulosos e os olhos verdes de sua mãe, nascera na noite de 11 de
Julho do ano menos dois. Estava casada com o enigmático homem que
me observava em silêncio: um tal Jacob, vestido com o tradicional tsitsit
de amplas riscas verticais vermelhas e negras.
O seu aspecto celta, em especial os límpidos olhos azuis, atraíram-me
a atenção desde o primeiro instante. Não parava de me olhar. De início,
com um fundo de receio. Depois, ao escutar dos lábios do cunhado o
meu digno comportamento nas horas amargas da crucificação, com
reconhecimento. Aquela personagem, como tantas outras, tinha muito
que dizer em relação aos anos ocultos do Mestre. Filho de um pedreiro
associado com José, nascera na casa contígua à de Maria.
Crescera e tinha sido educado ao mesmo tempo que Jesus,
compartilhando as suas brincadeiras, estudos, problemas e, o que era
mais atraente para este explorador, os seus mais íntimos pensamentos
e inquietações. Jacob, ligeiramente mais velho que Jesus, fora seu
amigo íntimo, pelo menos durante boa parte dos vinte e seis anos que
residiu em Nazaré. As suas revelações, como é fácil imaginar, seriam
decisivas para quem isto escreve.
Ruth, que, juntamente com Miriam e a Senhora, fizera parte do grupo

de mulheres que se deslocara a Jerusalém nas jornadas da paixão e
morte, era a mais nova da família. Filha póstuma, viera ao mundo na
noite de quarta-feira, 17 de Abril do ano nove da nossa era. Tinha,
portanto, vinte e um anos já feitos.
Poderia dizer-se que, tanto pelo seu carácter como pela cor ruiva dos
seus cabelos, constituía uma atraente excepção entre os oito irmãos.
Tímida, de uma extrema sensibilidade e doçura, fora a mimada da casa.
Não podemos esquecer que apareceu no lar de Nazaré logo após o
falecimento de José e quando o primogénito contava quinze anos de
idade. De seu pai herdara um olhar profundo e reflectido. De Maria, a
sua espontânea humanidade. O irmão mais velho, com o passar dos
anos, soubera suavizar o seu natural nervosismo. Atrever-me-ia a dizer
que aquela ruiva de nariz aquilino e cútis transparente, toda salpicada
de sardas, foi uma das pessoas que mais intensamente amou Jesus e
mais padeceu com a sua morte.
Incomodado com os louvores de Tiago homem pouco inclinado para
o elogio gratuito e sustentando o olhar de Jacob, fiz recuar a conversa
para o ponto quente: os temores da família ante a divisão suscitada na
aldeia por causa da execução de Jesus. Supunha que a tradicional
liberalidade dos Galileus não se veria diminuída pelos protagonizados
por Jesus e pelo seu grupo. Supunha mal. O problema de fundo não
residia em compartilhar ou recusar os ensinamentos de Jesus. Muitos
dos vizinhos respeitavam o estilo do Mestre e, até, se tinham sentido
orgulhosos dos seus prodígios e da sua fama.
Mas, entre aquela gente também havia quem fosse invejoso e
estivesse saturado pelo veneno do rancor. Desde muito tempo atrás,
como narrarei em breve, estes grupos minoritários se tinham
manifestado abertamente contra o rebelde e orgulhoso filho de José.
Com o decorrer dos anos, por causa de acontecimentos muito
determinados, estes indivíduos acabariam por toldar o ambiente da
povoação, forçando o Galileu a precipitar a sua partida. A insultuosa
execução parecia ter dado razão aos intriguistas. Encorajados, além de
aviltarem o nome de Jesus, tinham-se apressado a repudiar quantos
pudessem defender a nefasta imagem do carpinteiro louco. A nobreza
do espírito de gente como Jacob, pedindo paz e tolerância, serviu de
pouco. O sacerdote que presidia ao reduzido conselho de governo da

aldeia e Às funções religiosas, erigido em porta-voz e cabeça visível dos
inimigos do Rabi, soube alimentar a discórdia até limites insuspeitados.
Bem depressa teria oportunidade de o comprovar.
Curiosamente, o tal Ismael, da casta dos Saduceus, fora um dos
mestres do jovem Jesus. A sua animosidade para com o Filho do Homem
coisa que poucos recordavam nascia dos tempos da escola, quando
o inconformista primogénito cometeu o sacrilégio de o desenhar no
pavimento da sinagoga. Isto fora há mais de vinte anos... O incidente
talvez se tivesse apagado do mesquinho coração do sacerdote, senão
se tivessem dado outros acontecimentos igualmente protagonizados por
Jesus e que feriram o patriotismo de Ismael. Porém, o que soltou os
cães da sua fúria foram as contínuas notícias que descreviam o antigo
discípulo como inimigo irreconciliável de seus irmãos na religião, na
cobiça e na corrupção: fariseus, escribas e saduceus.
O descaramento de Jesus, que se atrevera a qualificá-los de víboras e
sepulcros caiados, unida à sua absurda teologia sobre a ressurreição
depois da morte, arrastaram o caduco saduceu para um lamaçal de ódio
em que cairiam outros ressentidos e medíocres.
*1 No banco de dados do Pai Natal dispúnhamos de ampla documentação sobre
esta casta sacerdotal os Saduceus de tão nefasta influência na conjura contra o
Rabi da Galileia. É decisivo entender a sua filosofia e estilo de vida para, por sua
vez, compreender o porquê dos seus ódios pelo Mestre.
Neste sentido, os estudos de especialistas como J. Jeremias, Rolland e Saulnier
são esclarecedores. O nome dos Saduceus vinha ou estava relacionado com o de
Sadoq, que reivindicava o sacerdócio legítimo (Ez, 40, 46). E ainda que os últimos
asmoneus e as famílias da aristocracia pontifícia ilegítima caso de Hircano (130-
104 antes de Cristo), sumo sacerdote tenham adoptado as ideias saduceias, a
verdade é que não se podia considerar a referida casta como um partido clerical de
elites. Embora na sua origem fossem os caudilhos da resistência contra os ímpios,
as suas alianças posteriores com Roma e a sua abertura ao progresso e ao dinheiro
gregos acabariam por convertê-los na viva imagem do luxo, do bem-viver e da
intolerância por qualquer ideia que defendesse a ígualdade entre os homens. Os
Saduceus formavam um grupo organizado, não excessivamente numeroso como
assegurava Josefo (Ant. XVIII 1,4) e no qual não era fácil entrar. Possuíam uma
halaká, ou tradição, muito especial, baseada no Pentateuco e só nele. Uma forma
de vida que, logicamente, os diferenciava da restante comunidade. Não aceitavam
facilmente os profetas, culpando os Fariseus de muitas das heresias recentes.
Insistiam em manifestar uma fidelidade quase doentia ao Deus da Aliança e dos

seus antepassados. Fidelidade que, naturalmente, Lhes permitia continuar a usufruir
dos seus privilégios. A sua teologia é igualmente importante para entender a
atitude de conservadorismo intransigente desta casta: a sua rigorosa observância
da Tora, em especial em tudo o que diz respeito ao culto e ao sacerdócio, tinha-os
levado a profundas disputas com os Fariseus, que defendiam a tradição oral e um
rigoroso cumprimento da pureza sacerdotal. Negavam violenta e sistematicamente
a ressurreição, apoiando-se no conceito tradicional de uma retribuição imeditada e
material.
Desta forma, justificavam o seu poder e riquezas: Deus abençoa os justos. A
frase de Jesus os últimos serão os primeiros era algo que não podiam admitir
nem suportar. Aceitar um juízo e um prémio ou castigo depois da morte teria
colocado em sérias dificuldades os seus luxos e excessos. Para os Saduceus, a
santidade e as leis da pureza só eram exigíveis no templo. Consequentemente, fora
do seu recinto, podiam comportar-se como melhor conviesse aos seus interesses,
escravizando mesmo o povo. A expressão de Jesus sepulcros caiados retratouos
perfeitamente. (N. Do M.)
Foi este, em traços largos, o quadro que Maria encontrou no seu
regresso a Nazaré. Um panorama não me cansarei de o repetir do
qual não se fala nos Evangelhos e que, no entanto, foi o detonador que
obrigou a mãe de Jesus a autodesterrar-se para as margens do lago,
em Saidan.
Tem de se dizer tudo. Nos primeiros rodeios da conversa, tanto a
Senhora como Tiago discutiram o parecer de Jacob, acusando-o de
alarmista. Maria, pelo menos naquela radiante manhã de terça-feira, 25
de Abril, não contemplava a ideia de abandonar a sua casa. Ali tinham
sido sepultados José, seu esposo, e Amos, seu único filho falecido. Ali
tinha sido feliz. Ali estavam as suas raízes, a sua gente, as suas
pombas...
Via-a negar e minimizar as prudentes advertências do seu genro e de
Miriam. Teimosamente levantou-se muitas vezes, mostrando-nos a
humilde casa e recordando aos presentes que aquele lugar fora
abençoado pelo anjo de Deus.
E estávamos nisto quando, de repente, no grupo de Zebedeu,
distante e praticamente esquecido, se iniciou uma gritaria confusa e
entrecortada. Tiago e Jacob olharam-se, alarmados.
Ruth e Esta empalideceram, agarrando-se ao mesmo tempo aos

braços de Maria. A Senhora, fria e resoluta, fez um gesto a sua filha
Miriam, indicando-lhe que fosse ver o que era. E a jovem, valente como
sua mãe, apressou-se a obedecer. Jacob deixou-a chegar à porta mas,
ao escutar algumas secas e dolorosas imprecações contra o seu falecido
amigo, saltou como um leopardo, arrastando na sua cólera Tiago.
Obrigando a esposa a entrar em casa, recortou-se a um palmo da
entrada, ombro a ombro com o cunhado. Devagar e cautelosamente fui
atrás deles e vim para a rua. O que vi e ouvi foi um coro de impropérios
e ameaças entre dois grupos. À nossa esquerda, envolvendo um João
Zebedeu de pé na escada e fora de si, gritava uma dezena de vizinhos,
mulheres, na sua maioria, insultando a vintena restante. Estes últimos,
que não ficavam atrás quanto a maldições, brandiam os seus bastões
no ar, cuspindo para a pequena faixa de terra que os separava.
Uma e outros, num vão empenho de abafar as vozes dos contrários
elevando o tom e a violência dos insultos, acusavam-se de velhacos,
escravos de um bêbedo saduceu, amigos de um carpinteiro ao serviço
de Roma, traidores à lei e visionários, entre outras delicadezas...
Talvez o mais triste de toda aquela de momento batalha dialéctica
fosse assistir à total decomposição da imagem do Zebedeu. Não podia
acreditar naquilo que via. João, histérico, com os olhos quase fora das
órbitas, levantoú os braços ao céu e berrando como um possesso exigiu
da justiça divina que arrasasse aquele ímpio povo com o enxofre e o
fogo que destruiu Sodoma. O que não tinham conseguido os sensatos e
insistentes pedidos de paz de Jacob e Tiago alcançou-o aquela louca
invocação. As gargantas, todas, apagaram-se, como que fulminadas.
Tiago e o seu companheiro, conscientes dos gravíssimos efeitos que
podia trazer tão insensata provocação, abriram passagem entre os
silenciosos e perplexos vizinhos.
E sem o menor respeito lançaram mão à túnica do enlouquecido
Zebedeu, arrastando-o para a porta da casa. Uma vez ali, Tiago com o
semblante desfigurado, limitou-se a empurrá-lo, enfiando-o na
penumbra da sala. Ao mesmo tempo, desembainhando a espada, foi
cravar-lha aos pés, gritando as seguintes palavras:
- Rogo-vos que desculpeis a ira do nosso amigo... Não foi este o
espírito de meu Irmão e Mestre... Mas também vos aviso: esta é a
nossa terra... - E apontando o gladius que vibrava, cravado, acrescentou

com firmeza - ... E se é mister, defender-nos-emos dos répteis que se
aninham em Nazaré.
O profundo silêncio foi quebrado pelo súbito choramingar das
crianças. As mães, assustadas ante o feio desenlace daquele encontro
apressaram-se em erguê-las nos braços. Mas a infeliz linguagem do
filho do trovão que, na sua arrogância, falava na hora de castigar os
seus inimigos, despertaria fundos rancores. Quando os ânimos pareciam
mais serenos, alguém, aos empurrões, abriu caminho entre o compacto
grupo de vizinhos, encarando altivo e desafiador os dois homens que
representavam e simbolizavam a família de Jesus. Longe de reagirem
ante o seu andar dominador e arrogante, os que ali estavam reunidos,
ao verem-no, recuaram com temor. A maioria inclinou a cabeça em sinal
de respeito e obediência.
Só Tiago e Jacob se mantiveram firmes e em guarda. Os olhos
acastanhados do primeiro percorreram a figura enrugada do velho sem
poder reprimir uma careta de repugnância. O notável que julguei
identificar pelas vestes sacerdotais túnica branca de linho apertada na
cintura por três voltas de faixa e um gorro cómico, de tecido e de cor
idêntico e pelo avançado da idade, replicou com mudo desdém ao
significativo olhar do irmão do Rabi. E foi mais longe que Tiago.
Inclinando a cabeça, cuspiu para a espada que os separava,
proclamando com voz de bebedor de aguardente:
- E disse Isaías: A víbora e a serpente... se as juntarem originarão
víboras.
Fiquei tão confuso como os meus dois acompanhantes. A citação do
Livro Profético (59, 5) parecia sugerir que a espada semienterrada na
areia acabaria por se transformar numa víbora. Por outras palavras:
que o ódio e a maldade, devidamente fecundados, só engendram ódio
e maldade...
Mas Tiago, bom conhecedor das Escrituras, que aprofundou graças a
seu Irmão, logo replicou com os versículos imediatamente seguintes aos
referidos pelo perverso Ismael, O saduceu:
- E tu, corrupto entre os corruptos, atreves-te a falar assim? Escuta
agora o que disse Isaías: ... Caminho de paz não conhecem, e direito
não há nos seus passos. Torcem os seus caminhos para proveito

próprio... Por isso se afastou de nós o direito.
Alguns risos de cumplicidade e aprovação, nas costas do sacerdote só
contribuíram para piorar as coisas.
O velho chefe do conselho mordeu os lábios, acusando golpes
certeiros. Ao pensar que me encontrava na frente do velho professor de
Jesus, uma curiosidade excitante se apoderou de mim. Sintomas
inconfundíveis revelavam que Ismael padecia de cirrose: ginecomastia,
ou volume anormal dos peitorais, que oscilavam por baixo da túnica, a
cada movimento ou respiração agitada; acentuado enfraquecimento e
diminuição do tónus muscular; ruborização; calvície quase total e uma
ascite, ou acumulação de líquido na cavidade abdominal. Porém, acima
de tudo, o selo da sua mais que provável doença hepática crónica
aparecia nos vasos em aranha, desenhados nas mãos e nas faces
(vasos dilatados quase dispõem de forma radial, como as patas dos
aracnídeos).
Lançando uma baforada pestilenta ao rosto de Tiago, vociferou,
enquanto fazia recuar o braço esquerdo, apontando para as pessoas ali
reunidas:
.. Nazaré nunca foi berço de répteis. Tu e os teus, com esse Jesus à
cabeça, sim, haveis trazido a inquietação e a divisão... Um foi já
castigado. Toca agora a vós, ímpios, que não sabeis pôr a nu os vossos
ombros (1) e que, vencidos e humilhados, haveis sido capazes de
propalar a mentira da ressurreição desse carpinteiro que acreditou ser o
filho do Divino, bendito seja o seu nome...
Jacob, menos sereno que seu cunhado, esboçou o gesto de se inclinar
para desenterrar o gladius e castigar as duras palavras do saduceu.
Mas Tiago, irradiando parte da serenidade que tanto admirei no
Mestre, sustentou o olhar de Ismael e interpôs o braço direito entre a
espada e o cunhado, numa renúncia a toda a violência. Instintivamente,
alguns dos vizinhos recuaram. Antes que Tiago pudesse replicar ao
sacerdote, este, soberbo, desafiou-o com uma pergunta que só podia
conduzir à catástrofe:
- Ou será que te atreves a negá-lo? ... Diz-nos: reconheces em Jesus o
Filho do Deus vivo?
Por um instante, acreditei que Tiago renunciava. Os seus compridos e

louros cabelos cintilavam levemente. Mas aquele majestoso girar de
cabeça para a direita e para a esquerda não significava rendição. Com
voz grave, alta e forte para que todos o pudessem ouvir, sentenciou:
- Tu o disseste. Reconheço-o como tal.
Estupefacto, assisti a uma cena familiar e não muito distante. Ismael
recuou uns dois passos e convulso, a babar-se, com uma teatralidade
muito própria daquele sacerdócio hipócrita, voltou-se para os vizinhos.
Levantou os braços. Cerrou os punhos e em tom fatigado, falsamente
esgotado pelo peso do que acabava de escutar gemeu:
- Todos sois testemunhas... Blasfemou... Réu é de morte!...
*1 Entre os rituais praticados pelos Judeus em caso de nojo, figuravam rasgar as
vestes e pôr o ombro a nu. Igualmente, o costume da época obrigava à celebração
de um banquete fúnebre
- o pão de nojo de que falam Oseas e Ezequiel (Os. IX, 4) e (Ez. XXIV, 17) em
que o vinho corria com generosidade, terminando a maior parte das vezes em
pândegas. O luto durava trinta dias. Nos três primeiros estava proíbido todo o tipo
de trabalho, não se podendo sequer saudar os concidadãos. Os muito piedosos e
observadores da lei não se barbeavam nem tomavam banho, cobrindo-se com as
roupas mais sujas e velhas da casa. Na Galileia, livre e liberal, muitas destas
normas eram olimpicamente ignoradas. (N. Do M.)
Um pressentimento tudo parecia repetir-se absurdamente me fez
reagir a grande velocidade. Tirei os crótalos e, colado à parede, ajusteios
aos olhos, preparando-me assim para me defender, caso fosse
necessário... E os meus dedos deslizaram para o dispositivo que
activava os ultra-sons (1). Desta vez a sorte esteve do meu lado...
As cores que não os sentimentos interpretados pelo meu cérebro
mudaram drasticamente. Os brancos, em especial a túnica do saduceu,
explodiram numa prata fulgurante, enquanto as riscas vermelhas dos
mantos se transformavam num negro espectral, e os verdes das flores e
trepadeiras próximas uniram-se ao dramatismo de momento, sangrando
em vermelho e laranja.
Alta gritaria vincou a sentença de Ismael. Tiago, precavido, recuperou
a espada e o cunhado, tremendo em suores frios de medo, recuou até
ao umbral da porta.
*1 Ainda que a descrição deste complexo mecanismo tenha sido já incluída nos

volumes anteriores, entendo que, aqui e agora, a sua repetição pode ser de
interesse para o leitor. Esta foi a explicação do Major: Um dos dispositivos situado
no interior do cajado o das ondas ultra-sónicas, de natureza mecânica e cuja
frequência se encontra acima dos limites da audição humana (superior aos 18.000
Hertz) fora modificado tendo em vista esta nova missão. Cavalo de Tróia proibia
terminantemente que os seus exploradores ferissem ou matassem os indivíduos...
Porém, na previsão de possíveis ataques de animais ou de homens, como meio
dissuador, inofensivo, Curtiss aceitara que os ciclos das referidas ondas fossem
intensificadas até aos 21000 Hertz. Em caso de necessidade, o uso dos ultra-sons
podia resolver situações comprometedoras, sem que ninguém chegasse a
aperceber-se do sistema utilizado.
Como também expliquei, tanto os mecanismos de teletermografia como os de
ultra-sons eram alimentados por um microcomputador nuclear, estrategicamente
alojado na base do bastão. A cabeça emissora disposta a um metro e setenta
centímetros da base da vara, era accionada por um prego de larga cabeça de
cobre, trabalhado como o restante de acordo com as antiquíssimas técnicas
metalúrgicas descobertas por Glueck no vale da Arabá, ao sul do mar Morto, e em
Esyón-Guéber, o lendário porto de Salomão no mar Vermelho. Os ultra-sons, pelas
suas características e natureza inócua, estavam indicados para a exploração do
interior do corpo humano. Cavalo de Tróia dispôs na cabeça emissora, camuflada
por baixo de uma risca preta, uma placa de cristal piezeléctrico formada por titanato
de bário. Um gerador de alta frequência alimentava a referida placa, produzindo
assim as ondas ultra-sónicas. Com intensidades que oscilam entre os 2,5 e os 2,8
miliwatts por centímetro quadrado e com frequências próximas dos 2,25 megaciclos,
o dispositivo de ultra-sons transforma as ondas iniciais noutras audíveis, medíante
uma complexa rede de amplificadores, controlos de sensibilidade, moduladores e
filtros de bandas. Com o fim de evitar o complexo problema do ar inimigo dos
ultra-sons -, os especialistas imaginaram um sistema capaz de encarcerar, e guiar
os ultra-sons através de um finíssimo cilindro ou tubagem de luz laser de baixa
energia, cujo fluxo de electrões livres ficava congelado no instante da sua emissão.
Ao conservar um comprimento de onda superior aos oito mil angstrom (0.8 micras),
o tubo laser continuava a dispor da propriedade essencial do infravermelho, que só
podia ser visto mediante o uso das lentes especiais de contacto (crótalos). Desta
forma, as ondas ultra-sónicas podiam deslizar pelo interior do cilindro ou túnel,
formado pela luz sólida ou coerente, podendo ser lançadas a distâncias que
oscilavam entre os cinco e os vinte e cinco metros. O nome de crótalos deve-se à
semelhança com o sistema utilizado por este tipo de serpente, que Lhes permite
caçar através das emissões de radiação infravermelha dos corpos das suas presas.
Qualquer corpo cuja temperatura seja superior ao zero absoluto (menos 273
graus Celsius), emite energia do tipo IR, ou infravermelha. Estas emissões de raios
vermelhos, invisíveis ao olho humano, são provocadas pelas oscilações atómicas no
interior das moléculas e, em consequência, encontram-se estreitamente ligadas à

temperatura corporal. (N. De J. J. Benitez.)
Fiz bem em preparar-me. Girando nos calcanhares, o sacerdote
voltou-se novamente para nós. Congestionado pela ira, as manchas em
forma de aranha do rosto tremeram num negro diabólico. A sorte
parecia lançada e como imaginava, de acordo com o costume, as suas
mãos crispadas agarraram o linho da túnica, rasgando-a com um puxão
seco e forte. A horrorosa caverna esverdeada da boca abriu-se,
guinchando como uma comadre:
- Morte!
Alguns dos velhos e mulheres, aterrorizados, fugiram rua abaixo. Mas
a vintena de fanáticos vizinhos, uivando como lobos, inclinaram-se ao
mesmo tempo para o chão à procura de pedras. Continuando a entoar a
sua lengalenga, Ismael, misturou-se com o grupo, chocando com uns e
outros na atabalhoada recolha de pedras. E de súbito, num dos mais
violentos ataques que alguma vez eu poderia imaginar, uma chuva de
pedras, atiradas de quatro, oito a dez metros, começou a ferir Jacob e
Tiago, bem como a parede da casa e, naturalmente, quem isto escreve.
A palavra morte, bradada em coro por aqueles energúmenos
arquejantes, misturou-se com o ruído das pancadas na fachada e nos
gemidos de dor dos dois homens. A crítica situação apenas se
prolongaria trinta segundos. Protegendo a cabeça com os braços, o
irmão de Jesus ordenou ao cunhado que entrasse em casa. Logo, com
um salto, também ele desapareceu de cena. Ante a minha desolação, a
porta cinzenta foi fechada e trancada. Durante breves instantes, as
pedras continuaram a bater na madeira, acumulando-se, negras, na
soleira.
Quis Deus que este assustado explorador soubesse e pudesse reagir
a tempo, e o ódio daquele grupo voltou-se para mim. Sem saber, sem
perguntar, uns rostos e mãos verde-azuis exigiram a minha vida. Na
verdade, era um deles. Assim o interpretaram e, consequentemente, a
falhada lapidação mais violenta ainda, se tal era possível tomou-me
como vítima.
Mas antes que se inclinassem novamente para a calçada, uma
primeira descarga de 21.000 Herz entrava na calva cor de bronze do

saduceu, provocando-lhe alterações no aparelho vestibular, (1). Em
centésimos de segundo, o seu ouvido interno sofreu a invasão dos ultrasons,
bloqueando o canal semicircular membranoso, com a fulminante
perda de orientação da cabeça e do corpo no espaço.
Com os olhos fora das órbitas e a língua pendente tombou
redondamente. A imobilização estava garantida durante alguns minutos.
A queda inesperada do sacerdote provocou um silêncio sepulcral.
Aproveitando a vantagem da confusão, premi novamente o prego e
outro fio infravermelho penetrou, implacável, na testa de um ancião que
se apressara a ajudar Ismael. O segundo desmaio foi decisivo.
O grupo, aterrorizado, largou as pedras e, movido por um pânico
supersticioso, elevou os rostos para o azul-marinho
*1 O efeito dos ultra-sons, puramente defensivo, como já indiquei, centrava-se no
referido aparelho vestibular, vital na percepção de sensações e que facilita uma
informação permanente sobre a orientação no espaço do corpo e da cabeça.
Junto às impressões visuais e tácteis dá a conhecer ao indivíduo as variações de
situação que o corpo experimenta, desencadeando as reacções correspondentes e
automáticas, que tendem a conservar o equilíbrio, em colaboração com a
contracção sinérgica dos músculos (N. Do M.)
do céu. Recordei a maldição de Zebedeu. Numa debandada
vergonhosa, atropelando-se mutuamente, desapareceram pelos pátios
e vielas circundantes. Felizmente, nenhum dos esbirros me associou à
queda do saduceu e do companheiro. Entre os falatórios que pude ouvir
nas intensas horas e jornadas seguintes, alguns, a meia voz, atribuíam o
mal que os deixara sem palpitação a uma manifestação da cólera
divina.
Pelo contrário, havia outros que troçavam das atemorizadas
testemunhas, recordando que aquela não fora a primeira vez que
Ismael perdia os sentidos... por causa do vinho de palma. Os restantes
encoLhiam os ombros, convencidos da inépcia e falta de coragem dos
atacantes. O certo é que o incidente marcaria o destino da família de
Jesus. Em especial, o da Senhora. Nem uns nem outros estavam
dispostos a perdoar...
Na rua deserta caiu um silêncio atroz, de desconfiança, aos poucos
interrompido pelo regresso à açoteia das assustadiças pombas e pela

rápida passagem dos gatos. De costas para os corpos caídos, pus-me
em frente da porta. Antes de bater, perguntei-me o que devia fazer ou
responder ante as prováveis e lógicas interrogações dos moradores.
Talvez tivesse chegado o momento de abrir o meu atormentado espírito
ainda que apenas minimamente e sufocar assim os receios de Maria.
O céu tinha a palavra. Cheio de vaidade não o pude evitar senti-me
orgulhoso com o trabalho dos ultra-sons.
Não tive de bater à porta. O repentino e anormal silêncio não passara
despercebido na casa. Um sussurro veio do terraço.
Ao levantar os olhos avistei a cabeça de Jacob, escondida entre as
pombas. Pediu-me que esperasse. A incerteza, como um corvo, foi
pousar no meu coração. Há quanto tempo estaria o amigo de Jesus na
açoteia? Teria presenciado o desmaio dos velhos? Com a angústia a
dominar-me os pensamentos ouvi o nervoso destrancar da porta, que se
abriu quatro dedos. Uns olhos chorosos os de Ruth pestanejaram,
feridos pela claridade.
Entrei imediatamente, ao mesmo tempo que as filhas da Senhora se
precipitavam para a porta escorando-a com uma tranca.
Junto à mesa de pedra, de joelhos, arrasada em pranto, descobri
uma Maria nova para mim. E antes que conseguisse mover um músculo,
aquela mulher, derrotada pela angústia e pelo medo lançou-se nos
meus braços, estreitando-me entre soluços e tremores. Comovido, mal
soube corresponder ao seu infortúnio, afagando-Lhe os fragrantes e
sedosos cabelos negros.
O cintilar de uma espada na penumbra da sala pôs-me em guarda.
Respirei aliviado ao verificar a identidade do seu portador. Tiago, com
as feições endurecidas, avançou para nós.
Ao reconhecer-me meteu o gladius na faixa. Atrás, vindo também da
misteriosa sala, apresentou-se o Zebedeu. Observei-o sem
dissimulação. A espada tremia-lhe na mão esquerda. Suava
abundantemente e, com o olhar perdido, parecia falar consigo mesmo.
Experimentei a necessidade de o ajudar. Com toda a probabilidade, era
vítima de um choque. Afastei carinhosamente Maria mas, quando me
dispunha a chegar junto do impulsivo e maltratado fiLho do trovão, o
agora chefe de família interpôs-se e pondo-me as mãos nos ombros

suplicou-me perdão.
Estremeci ao recordar aquele gesto... Era um dos comoventes hábitos
do Mestre. Mas Tiago não pôde notar o calafrio que me percorreu as
entranhas.E negando com a cabeça retirei importância ao que
acontecera. Logo a seguir fez-me uma pergunta que, em boa medida,
me tranquilizou:
- Que aconteceu lá fora?
Aquilo significava que Jacob, vigilante no terraço, não fora testemunha
dos últimos sucessos.
Improvisei uma resposta, respeitando em parte a verdade.
- Sem causa aparente respondi dois dos indivíduos tombaram
como que mortos...
- Mas...
As dúvidas de Tiago morreram na penumbra. O Zebedeu não lhe
permitiu terminar. Avançando, sem deixar de brandir a espada, começou
a rir nervosamente, balbuciando um monocórdico Deus é justo. Tiago,
sem se impressionar ante o ataque de histeria de João, fez um sinal a
sua mãe. E Maria, secando as lágrimas, encaminhou-se para o canto
das ânforas.
- Deus é justo...
O sinal de cumplicidade fez-me pensar que aquela psiconeurose, com
perda de controlo sobre os actos e emoções, não era novidade para o
grupo.
Num momento de desatenção do Zebedeu, o irmão do Mestre
agarrou-lhe a mão que empunhava a espada. E delicada mas
resolutamente arrebatou-lhe a lâmina. O discípulo, alheio ao que o
rodeava, não opôs resistência. Com os olhos vidrados transformou o riso
em pranto. E caindo de joelhos nas esteiras prosseguiu a sua obsessiva
ladainha:
- Deus é justo e humilhou o impuro... Deus é justo.
Auxiliado por Ruth, a Senhora abriu a boca do Zebedeu, obrigando-o
a engolir um vinho negro e espesso.
A entrada de Jacob, anunciando que a rua continuava deserta,

acelerou os planos de Tiago. Confiando ao cunhado a custódia dos seus,
obrigou João a levantar-se. Puxando-o por um braço, levou-o consigo,
desaparecendo na escuridão da sala contígua.
Com sobriedade admirável, esta sua mulher, beijou Maria,
sussurrando-Lhe que regressariam imediatamente. Pouco depois,
averiguaria que, para evitar males maiores, a família optara por
esconder o Zebedeu na casa de Tiago, a oeste da aldeia, muito próxima
do falecido oleiro.
E Jacob, depositando em mim a sua confiança, anunciou que voltava
ao terraço, avisando que sob pretexto algum transpuséssemos a porta.
As mulheres concordaram, juntando-se a sua mãe. Num gesto de
hospitalidade não sei se tentando compensar-me pelo involuntário
descuido de seus filhos ao deixarem-me à mercê dos vizinhos Maria,
enxutas as faces e dominadas as emoções, rogou-me que achasse por
bem dispor da sua humilde casa. Sorri-lhe, honrado pelo que aquele
convite significava para mim e feliz pela sua rápida recuperação. De
bom grado aceitei a malga de vinho que a trémula Ruth achou por bem
oferecer-me.
Não sei porque o fiz. Mas, deixando-me arrastar por um íntimo e
cristalino sentimento, afaguei as longas e finas mãos da rapariga,
dizendo-lhe com ternura imprópria:
- Não temas. Eu vos protegerei... até ao regresso do teu irmão.
Talvez me tenha arrependido um segundo depois. Talvez não.
Pouco importa. Tudo o que recordo com clareza é que, esquecendo as
normas, quem isto escreve teria dado a sua vida para salvar aquelas
mulheres indefesas e atemorizadas.
E a Senhora, ao sentir a sinceridade das minhas palavras, lançou-me
um olhar penetrante, igual ao que tínhamos cruzado na caravana de
Murashu. E soube que chegara o momento. E ela, talvez antes de mim,
também o soube. Com os seus amendoados olhos verdes fitos em mim
ordenou às filhas que vigiassem a porta das traseiras.
- Jasão amigo disse, logo que desapareceram Miriam e Ruth -, és
um homem estranho. Na verdade, nenhum de nós consegue entender a
tua singular actuação...
Deixei-a falar. A sua voz grave, interrompida de quando em quando

por breves suspiros lógicos soluços do recente choro
- fez que eu começasse a revelar os meus sentimentos. E assim, mercê
da sua intuição, tudo foi mais fácil.
.. Eu sei que nenhum comerciante se porta como tu.
Sorriu maliciosamente, mostrando à feminina chama que nos separava
aquele marfim alinhado e invejável. Eu, porém, com todos os sentidos
alerta, continuei hierático: gelado por fora, a arder por dentro.
.. Nenhum pagão faz o que tu fazes. Nenhum gentio teria arriscado
a sua vida aos pés da cruz. Só João, o meu querido e por vezes infantil
João, soube ser homem... A linguagem rude de Maria não me
escandalizou. Aquela valente muLher, vítima de tudo e de todos, em
especial de si mesma, dizia o que pensava. E admirei-a por isso.
.. Julgas que não soube do profundo amor de meu filho por ti?
Desta vez, sim, repliquei:
- O Mestre corrigi-a ama tudo aquilo que foi criado e não foi
criado.
As finas sobrancelhas de Maria arquearam-se levemente, acusando a
carinhosa emenda.
. Ama, dizes? És dos que acreditam que não morreu?
- Sim, morreu acrescentei, arriscanto tudo por tudo -, mas também é
certo que ressuscitou... para vós e para nós.
A Senhora, nos seus quarenta e nove anos, conservava reflexos
mentais que gostaria fossem os meus.
.. Não é já tempo, Jasão, de abrires a tua alma? Porquê vós e nós?
Quem és? De onde vens?
Suplicando-lhe que aquela conversa fosse mantida em segredo, tentei
fazer-me compreender.
- O Mestre, minha querida e admirável Senhora era a primeira vez
que a tratava assim -, anunciou-o uma vez...
Cerrou levemente os olhos, como se procurasse recordar.
- Lamento... - desistiu, com uma sombra de tristeza. - Naquele tempo,
mal sabia das andanças de meu Filho... Vivia por outra ideia.

. Jesus exprimiu-o com clareza prossegui: - No reino de meu Pai
há outras moradas.
Olhou-me sem compreender.
- Eu e milhões de homens e mulheres como eu pertencemos a uma
dessas moradas... A realidade que observas e tocas não é a única...
- Compreendo interrompeu-me. E os seus lábios entreabriram-se,
deixando escapar um medo recém-nascido. Há trinta e seis anos, nesta
mesma mesa de pedra, justamente onde te sentas agora, alguém que
não era daqui me falou e anunciou que o Filho da Promessa estava para
chegar...
A comparação era incorrecta. Mas aceitei-a. E os meus olhos sorriram,
aprovando as suas palavras.
- Mas, então...
E aquele escondido medo cresceu como uma coluna de fumo, que
acentuou as fundas olheiras de Maria.
.. Tu, Jasão, és um anjo...
Apressei-me a negar, embora não saiba se fui muito convincente:
.. Se anjo significa mensageiro... aceito. Gabriel aquele de quem
falas, sim, é um verdadeiro anjo. Eu não sou digno nem de projectar a
minha sombra sobre ele. Estou aqui para dar testemunho de teu Filho.
Um testemunho que deverão conhecer outros povos... Gentes de um
mundo, de uma morada muito distante... E o Pai, na Sua infinita
bondade, concedeu-me alguns poderes (muito poucos) de que tu,
talvez, tenhas a intuição. Tal como o Mestre foi, também eu devo ser
respeitoso convosco. A minha missão é tentar aproximar-me da Verdade
que rodeou Jesus...
- Porquê? - perguntou, com uma ingenuidade comovedora, fruto da
sua lógica falha de perspectiva histórica.
Tenho de insistir nisto. Hoje, os crentes deformaram a imagem da
Senhora. Naqueles instantes, nem ela nem nenhum dos que seguiam o
Nazareno podiam ter sequer a intuição das consequências da
encarnação do Mestre.
- Tu viste: meu Filho acabou como um delinquente... A quem pode
interessar a sua vida e as suas palavras? Amanhã será apenas

recordado pelos seus amigos.
Por momentos, fiquei num silêncio estudado. Saltava aos olhos que a
Senhora, por muito que se esforçasse não estava em condições de
conceber a grandiosa e divina transcendência do Ser que trouxera no
ventre. E quem era eu para violar as limitadas fronteiras da sua
inteligência...
- Sim repliquei, com uma convicção que a desorientou -, tens razão...
em parte. Será recordado pelos seus amigos.
Porém, esses amigos multiplicar-se-ão como as flores na Primavera...
Aquele verde-erva dos seus olhos, geralmente sereno, agitou-se como
um trigal por onde passa o vento. E a cor voltou de novo à sua tez
bronzeada. Comovida, pediu que me explicasse.
. Não te é fácil compreender, contudo, eu sou a prova de quanto
digo. Venho de um mundo para ti longínquo. Ali, as pessoas também
receberam a notícia de um Jesus de Nazaré. E muitas lhe abriram os
seus corações. Outras, em contrapartida, ignoram-no e repelem-no. Eu
venho saber para depois transmitir. E faço-o para todos. Teu Filho
sabia...
- Oh, Jasão! Então a sua morte não será em vão...
Sorri de novo, não sei se contente ou comovido.
- Permite-me... A sua vida não será em vão. A morte, a de todos,
nunca é em vão. - E erguendo entre os meus dedos a malga de vinho
acrescentei: - Observa este licor. Foi antes o fruto da videira. Assim,
como Ele profetizou, o seu corpo e existência terrenos foram esmagados
para obter a essência: o seu espírito, a sua palavra, a sua mensagem,
-o seu amor... E a fragrância desse vinho chegou até ao meu mundo
longínquo.
Mas a nossa sede é tão grande, querida Senhora, que os meus
concidadãos me enviaram para transportar o vinho da vida de Jesus e
poderem saboreá-lo. Por isso, tu e os teus deveis ajudar este
comerciante de vinhos...
Um choro sereno faiscou à luz da candeia, e Maria, agradecida,
aceitou-me desde a distante proximidade da sua nobre alma, revelada
agora nos olhos molhados por lágrimas de felicidade. E Deus sabe:

aquele abraço invisível para sempre me compensou.
- Que devo fazer, meu querido comerciante de vinhos? - gracejou,
enxugando as lágrimas.
- Deixa isso nas mãos do Pai... E guarda o meu segredo.
Impulsiva como sempre, a Senhora levantou-se e, rodeando a mesa,
tomou-me a cabeça entre as mãos, dando-me um sonoro e prolongado
beijo na testa.
- Deus te abençoe, Jasão.
Aproximadamente às treze horas, (Entre a hora sexta e a hora nona.)
A nossa conversa, que, de acordo com o combinado, girava em torno
dos supostos anos secretos de Jesus em Nazaré, foi interrompida por
um vaivém de passos, confuso e espaçado.
Pareciam vir da açoteia. Maria, alarmada, pegou na candeia de azeite
e, decidida, aproximou-se da porta de entrada. Encostou o ouvido à
madeira, mas, pelo que parecia, lá fora continuava a reinar o silêncio.
Levantou os olhos para o tecto e, ao notar que o nervoso matraquear
na argila passara para a frente da casa, precipitou-se na escura
cavidade onde eu ainda não entrara. Receosa, parou no umbral. Voltou
a cabeça e, ao saber que me encontrava nas suas costas, aventurou-se
no escuro, cautelosamente. Tentei não me distanciar, entre outras
razões para não perder a pouca luz que nos abria caminho. Aquela
segunda sala, completamente às escuras foi uma surpresa.
Nos seus três metros de lado dormia empoeirado e em desordem
quanto era necessário para exercer a profissão de carpinteiro... Na
parede oposta à porta sem batente que atravessámos estava um
banco de cerca de oitenta centímetros de altura, escorado por dois pés
em v invertido. E sobre o grosso madeiro esquadriado que lhe dava
forma, uma plaina de dupla asa e um pranchão meio trabalhado.
Sem fazer ruído, a Senhora chegou à desengonçada porta, na parede
que se erguia em frente da fachada. Aproximou a face esquerda do sujo
batente. Deste tabique, como dos restantes, pendiam dezenas de
ferramentas, presas por ripas de madeira: serras, cinzéis, compassos de
bronze e de madeira, tesouras, pinças, pregos de trinta e de quarenta
centímetros, punções, :lâminas de machado, cabeças de martelos (com
ou sem cabo), goivas, facas e vários trados de arco. O chão ressequido,

atapetado de serradura e de aparas encaracoladas, rangeu sob as
sandálias.
Era estranho. Os cabos para enxadas, as almajarras para animais e
para a trilha e alguns simples arados de pouco peso - tudo meio
acabado e espalhado pelos cantos sugeriam um trabalho
bruscamente interrompido. Mas, a julgar pelas teias de aranha que
formavam névoa aos cantos, isso devia ter acontecido há muito tempo.
Por outro lado, aquele cubículo fechado, sem acesso directo à rua, não
ligava com a fórmula tradicional judaica. A maioria das oficinas de
carpintaria concentrava-se num lugar ou bairro certo da aldeia ou da
cidade, formando um grémio artesanal e, insisto, sempre aberto para o
exterior, para o cliente. Por último, se a sala contígua apresentava um
aspecto limpo e arrumado, a que obedecia aquele lamentável desleixo?
A Senhora, única responsável pelo imaginado pecado, tinha as suas
razões...
O murmurar do outro lado da parede aproximou-se. Num movimento
reflexo, firmei-me com força no movimento brando pronto a intervir. De
repente, alguém empurrou a porta e pouco faltou para que o empurrão
derrubasse Maria. A claridade cegou-nos a ambos, e a silhueta de um
homem atlético, de estatura próxima da de Jesus, com cintilações de
ouro nos compridos cabelos recortou-se, majestosa, à luz da manhã.
Não quero ocultá-lo. Por um momento sobressaltei-me. Estava a
sonhar? Tinha na minha frente o Ressuscitado? Perplexo, vi como a
muLher se lançava para o desconhecido, abraçando-o.
Respirei, aliviado. Era Tiago. Atrás, com os semblantes igualmente
graves, apareceram Jacob e as mulheres.
A porta da oficina foi escorada e a irmã do Rabi foi, apressada,
sentar-se à beira da plataforma da sala-dormitório.
À excepção do Zebedeu, toda a família se sentou nas esteiras,
disposta a escutá-lo. O estado de espírito de João tornara aconselhável
que permanecesse recolhido em casa de Tiago e de Esta. Na verdade,
fora ele quem provocara aquela situação.
Ao reparar no sempre impassível rosto do agora filho mais velho da
Senhora e ao descobrir a macilenta palidez do medo compreendi que as
coisas se tinham agravado. Já tinha visto aquele terror mal contido.

Tinha-o visto no recolhimento prolongado dos discípulos no cenáculo de
Jerusalém.
Tiago, dissimulando o sofrimento no mais profundo de si mesmo,
procurou disfarçar. Não o conseguiu por completo. Para sua mãe, aquele
distraído afagar da barba com a mão esquerda não era bom presságio.
Sem rodeios, foi direito ao assunto. As coisas eram como eram e não
convinha fechar os olhos à dura realidade. Tinham de abandonar a
aldeia. A tentativa de lapidação daquela manhã era uma carga difícil de
suportar.
Quem poderia adivinhar o que iria acontecer naquela mesma noite ou
no dia seguinte?
. Temos de actuar com prudência continuou, dirigindo-se a Maria. -
Com o nosso Irmão e Mestre vivo, o respeito desta gente estava
garantido. Agora, com a sua morte, encontramo-nos à mercê dos que o
odiavam.
Muito acertadamente, recordou aos familiares silenciosos a reunião
secreta celebrada por Caifás e as suas ratazanas na noite de domingo,
9 de Abril. José, o de Arimateia, membro do Conselho do Sinédrio, ao
informá-los dessa assembleia, tinha sido muito claro: em vista da
constelação de notícias e rumores que começava a circular pela Cidade
Santa acerca do túmulo vazio e das aparições do Ressuscitado, o sumo
sacerdote, seu sogro, os saduceus, escribas e mais fanáticos que tinham
provocado a morte de Jesus, decidiram actuar sem contemplações. E
adoptaram duas medidas, especialmente pensadas para a destruição
do esfarrapado grupo de galileus que ainda acreditava no Nazareno.
Não fosse algum dos presentes tê-las esquecido, recitou-as
textualmente, sublinhando algumas das frases:
- Primeira: Todo aquele que fale ou comente (em público ou em
privado) os assuntos do sepulcro ou da ressurreição do Mestre será
expulso das sinagogas.
Segunda: o que proclame que viu ou falou com o Ressuscitado... será
condenado... à morte.
As respirações suspensas serviram-lhe para dar mais força às duas
últimas palavras:
- À morte!

Os soluços incontroláveis de Ruth foram de mais para sua irmã
Miriam. Irada, recordou a Tiago e aos seus que a segunda disposição
das ratazanas de Jerusalém não tinha ido avante e que, segundo o
de Arimateia, não chegara a ser votada. E acusou seu irmão de
cobarde. Este, impassível, compreendendo a raiva e a desolação de
Miriam, não abriu a boca, limitando-se a cofiar a barba com os dedos.
Porém, esta, indignada ante as injustas acusações de sua cunhada e a
irritante passividade do marido, pôs-se de pé, acusando Miriam de
irresponsável e egoísta. Jacob, por sua vez, procurou serenar as
mulheres.
Mas no fogo cruzado dos gritos e impropérios que Miriam tinha
começado a lançar, só obteve um violento empurrão da irada esposa. O
choro de Ruth, redobrado ante a confusa e lamentável zanga familiar,
acicatou o carácter vigoroso da Senhora. Era a primeira vez, se estou
bem lembrado, que a via erguer a voz.
Colocou-se entre Miriam e a nora, de mãos na cintura, ordenando
silêncio. Entristecido, Jacob retirou-se para junto de Tiago. E Esta,
conhecedora do temperamento da sogra, calou-se, acorrendo em auxílio
de Ruth. Mas Miriam, forte como sua mãe, lançou-se contra a Senhora,
gritando mais alto do que ela. Foi uma cena triste e compreensível. A
filha mais velha, fora de si, lembrou a Maria que aquele era o seu lar e
que nenhum patife a arrancaria dele. A Senhora, pela enésima vez,
mandou-a calar. Mas a fúria e o desespero da jovem estavam fora de
controlo. Assim, esgotada a paciência e entendo que como um mal
necessário, Maria, de repente, deu-lhe uma sonora bofetada.
Santo remédio. Miriam acusou o golpe e o histerismo latente esfumouse,
dando passagem às lágrimas. Em segundos, sem rancores nem
censuras, mãe e filha abraçaram-se, num comovido e mútuo pedido de
perdão.
Tiago, comovido como os outros, lançou-se para elas, unindo-se em
silêncio ao abraço. Ruth e Esta, parando com as queixas agora traídas
por gargalhadas esporádicas precipitaram-se igualmente para o trio,
permanecendo junto no mesmo abraço. Com um nó na garganta desviei
o olhar para Jacob. Uma lágrima solitária deslizava pela sua barba
céltica.
Ao ver-se descoberto, baixou a cabeça, mas não se moveu da beira

da plataforma. Quem isto escreve, contagiado pelo turbilhão de beijos,
carícias e doces e tranquilizadoras palavras dos cinco, não pôde evitar
que os seus olhos pestanejassem freneticamente numa luta perdida com
lágrimas quase desconhecidas para este ser solitário entre os solitários.
Cerrando os maxilares descarreguei a tensão na vara de Moisés. Com
tão pouca sorte que, ao crispar os dedos no cajado, este se projectou a
dois palmos das sandálias de Jacob. A nuvenzinha de fumo branco deume
noção do impacte.
Amaldiçoando a minha falta de habilidade, corri para o distraído
esposo de Miriam, pisando e escondendo o pequeno círculo de um
escasso milímetro de diâmetro que aparecera na esteira. Jacob, ao verse
tão inexplicável e violentamente encarado pelo grego altarrão, voltou
a si e, ao olhar-me, atónito, procurou uma razão. A estúpida careta que
me leu no rosto confundiu-o por completo. Acho que reagi sorrindo, com
uma expressão de perfeita idiotia:
- Aleluia! - gritei, lançando o que primeiro me veio à cabeça.
A exclamação de júbilo um tanto despropositada provocou o
espanto do cada vez mais perplexo judeu. E quando, suponho, se
preparava para me responder, um fio de fumo e um cheiro
desagradável a espadana queimada subiram, reveladores, por baixo do
calçado.
Sem deixar de me olhar, Jacob cheirou, confundido. Pensei que ia
desfalecer. A potência do laser de gás que podia cortar uma prancha
de aço de treze milímetros de espessura em quatro segundos
destruíra aquele bocado do tapete.
Lívido, recuei. Que podia fazer? E o bom Jacob, ao descobrir a seus
pés o fumo e o círculo negro, encostou-se à parede.
Levantando os olhos, procurou a origem do fogo nas vigas escuras do
tecto. Não o encontrando, girou a cabeça para um lado e para o outro
com idêntico êxito. Entreabrindo os lábios, foi colocar os olhos muito
abertos nos meus, gritando:
- Fogo!
E aqui acabou o abraço familiar. Maria e os outros precipitaram-se
para a parte da esteira que este inútil, em nova e desesperada
tentativa, procurava apagar. Quis o céu que, por fim, o chamuscado

cedesse. Mas não o fedor. Tiago e as mulheres, inclinados em volta do
queimado, não conseguiam entender o sucedido. Mas Maria, depois de
um exame minucioso do orifício, procurou-me com o olhar. Empalideci. Do
susto e da perplexidade a minha cúmplice passou para uma radiante
paz.
Piscando-me um olho sorriu, feliz, certa de que o meu poder e
presença eram a melhor das protecções para ela e para os seus.
Também não repliquei nem me aventurei em desculpas ou
comentários. Era melhor assim. Batendo palmas, Maria exigiu a atenção
geral. Retomando o fio da narrativa iniciada por seu filho exprimiu-se
nos seguintes termos:
- Dir-vos-ei algo...
Pus-me a tremer. Teria esquecido o nosso acordo? ... É possível que
nos tenhamos precipitado. Jesus esforçou-se por nos ensinar algo que,
agora, levados pelo medo e pela raiva, estivemos a ponto de esquecer:
deixemos que se cumpra a vontade do Pai dos Céus E agarrando o
braço de Tiago, acrescentou, condescendente: - É certo que devemos
permanecer alerta mas, acima de tudo, confiemos.:. O espírito de meu
Filho, vosso Irmão, está connosco. Ele e os seus anjos
- e o olhar sereno de Maria confundiu-se com o meu acompanhamnos
e protegem-nos. A uma só voz, todos aprovaram as suas justas
palavras. De mútuo acordo, com o beneplácito do irmão do Mestre,
traçaram um plano simples: esperariam.
Fá-lo-iam em silêncio, sem novas manifestações, nem públicas nem
privadas, acerca da ressurreição ou das visões. Velhos conhecedores da
volúvel idiossincrasia da aldeia, confiavam que, sem tardar, as águas
voltariam ao seu leito e cada um poderia reatar a sua vida e o seu
trabalho. Uns e outros com excepção de Tiago, tentaram convencer-se
mutuamente da bondade e boa-fé dos vizinhos. Tinham apenas de
ceder e de se mostrarem prudentes. De modo algum deviam incorrer
nas medidas adoptadas pelo sumo sacerdote e seus sequazes...
Esta atitude era lógica e compreensível... naqueles momentos. Entre
outras razões, porque ignoravam o que ia suceder umas horas depois e,
em especial, na manhã de sábado, vinte e nove. Exceptuando a
aparição a Tiago, em Betânia, em que o Ressuscitado comunicou algo

muito específico e que o irmão não desejava desvendar, nas restantes
visões conhecidas, Jesus limitara-se a desejar a paz, a dar a conhecer o
seu novo e prodigioso estado e a distribuir uma série de conselhos, mais
ou menos abstractos e vagos. Para dizer a verdade, quase ninguém no
grupo sabia que fazer. Apenas o fogoso Pedro indicara uma tentativa
falhada de se lançar pelos caminhos a proclamar a boa nova da
ressurreição.
Quem, dos que ali estavam reunidos, podia suspeitar que num prazo
de vinte e três dias, durante a tradicional festa de Pentecostes, o
Mestre voltaria a falar-lhes e que, a partir de então, nada seria igual?
Mas essa informação, de momento, era da minha exclusiva
propriedade. Para Maria e para os seus tais acontecimentos não
existiam. Só o presente contava. Para muitos crentes de hoje,
semelhante atitude da impropriamente chamada sagrada família é
pouco crível ou irreverente. Neste caso, esquecem que aqueles homens
e mulheres eram, acima de tudo, seres humanos submetidos às
pressões de uma vida que continuava, apesar de tudo. A história nem
sempre desfruta da vantagem que o tempo proporciona. O mau é
quando essa história não contempla e contabiliza todo o tempo. E
aqueles dias dos finais de Abril do ano trinta também não aparecem na
medíocre história dos Evangelhos...
Voltando àquele meio-dia, recordo que, enquanto a Senhora e seus
filhos traçavam, iludidos, os seus planos de paz, o silencioso Tiago,
inexplicavelmente, negou-se a participar na última parte das
conversações. Retirou-se para a beira da plataforma e ali ficou,
cabisbaixo e atento aos desejos bem-intencionados mas utópicos de sua
família. Não consigo explicá-lo mas algo talvez a intuição? - me gritou
que Tiago sabia o que estava prestes a acontecer. Ter-lhe-ia antecipado
Jesus a iminente sorte de sua mãe? Era este o conteúdo da misteriosa
revelação recebida na aparição de Betânia? Aquele era outro assunto
que espicaçava a minha curiosidade. Tinha de arranjar maneira de
saber...
Pouco antes das três da tarde (hora nona), delineado o plano a
seguir nos dias imediatos, Tiago e a mulher abandonaram a casa pela
porta principal. Ismael e o ancião tinham desaparecido. O lugar,
deserto, continuava anormalmente privado das pessoas que, como era

natural, o deviam frequentar.
Tiago desembainhou a espada e, depois de observar ambos os
acessos da rampa, passou o braço direito pelos ombros de Esta,
seguindo em direcção ao bairro alto. A sua missão era falar com João
Zebedeu e participar-Lhe as resoluções adoptadas no conselho familiar.
Cumprida a tarefa, voltariam a casa de Maria, se possível com o
discípulo. Mas as coisas não iam passar-se de forma tão simples.
Jacob, cumprindo as severas ordens da sua cunhada, voltou ao
terraço. Ao menor sinal de ameaça, toda a família deveria fugir pelas
traseiras e, se possível, refugiar-se na de Santiago. Maria e suas filhas,
a princípio inquietas, foram recuperando uma certa calma quando, ao
me sentar junto delas e colocar a vara sobre as pernas, lhes sorri,
satisfeito, animando a Senhora a que prosseguisse com o nosso relato
interrompido dos anos jovens do seu Filho. Ruth e Miriam, que já tinham
presenciado algumas das minhas longas tertúlias na herdade de Marta,
acolheram aquele recordar a distante história de seu Irmão como um
bendito e relaxante bálsamo que lhes faria esquecer, embora apenas
temporariamente, amarguras recentes.
Quando a Senhora, depois de se acomodar à minha esquerda, se
dispunha a falar, a curiosa e imprevisível Ruth pousou as mãos na rocha
circular que servia de mesa, perguntando à queima-roupa:
- E tu, Jasão, por que razão nunca trazes espada? Não soube que
dizer. A subtil observação raro era o comerciante ou homem de
negócios que não trouxesse algum tipo de arma exigia uma resposta
não menos estudada. Maria e eu entreolhámo-nos. E foi ela quem falou:
- Filha, este homem... - vacilou um segundo. Observou-me de soslaio e
feliz com o seu segredo prosseguiu também anda armado.
A benjamim, incrédula, inclinou o corpo, examinando com
descaramento o meu cinturão e o cajado. Negando com a cabeça
emendou a mãe:
- Só vejo um bastão...
A Senhora sorriu, benévola.
- As armas de Jasão, querida, são as mais poderosas, eficazes e
seguras...

Ruth esbugalhou os seus olhos verdes. Nunca sua mãe mentia.
Quem isto escreve, desorientado ante a magnífica definição da
natureza dos sistemas defensivos da vara de Moisés, aguardou o final
da frase com idêntica expectativa.
. porque não matam, ferem ou causam danos. Só proporcionam
confiança...
Nem Ruth nem eu a entendemos inteiramente.
.. Jasão, minha querida, como teu Irmão, leva no cinto a arma da
confiança no Pai.
- Então respondeu a rapariga -, tu também és um homem de paz...
Nisso, sim, estava de acordo. Tornando minha uma frase de Byron no
Dom João, dei forma à minha ideia das guerras e da violência:
- O sangue, minha filha, serve apenas para lavar as mãos da
ambição.
Aproveitando a coincidência, parti do exemplo dos discípulos do
Mestre quase todos armados e perguntei à Senhora se Jesus,
alguma vez, empunhara uma arma.
Hoje, ou em qualquer momento da história dos últimos dois mil anos,
a pergunta seria causa de escândalo. Maria, em contrapartida,
habituada aos gladius mesmo nas faixas dos seus filhos não replicou
com repugnância ou espanto.
- Houve um tempo recordou com tristeza em que lhe foi oferecida
a espada. E eu encorajei-o a empunhá-la...
Alguma coisa sabia eu daquela interessante passagem da juventude
de Jesus mas, em benefício da ordem cronológica, e da minha, dei por
encerrado o assunto, pedindo à minha informadora que abrisse as
portas da memória e nos mudássemos para uma das datas
fundamentais na vida do Filho do Homem: 25 de Setembro do ano 8, um
mês e quatro dias depois do seu décimo quarto aniversário... (1)
*1 Penso que, em especial para quantos tenham podido ler os volúmes segundo
e terceiro de Operação Cavalo de Tróia, trazer aqui e agora uma síntese quase
telegráfica dos principais acontecimentos registados ao longo dos primeiros
catorze anos da vida de Jesus de Nazaré pode ser útil. Além de refrescar as
recordações permitir-nos-á, a todos, uma melhor compreensão de quanto narra o

Major a partir destes momentos. Continuemos, pois, com esse resumo:
ANO -8 Em Março celebram-se as bodas de José e de Miriam (verdadeiro nome
de Maria). Ela tinha treze anos de idade; ele, vinte e um.
Por meados do oitavo mês (marjesvan), em Novembro, pelo entardecer a jovem
esposa recebe a misteriosa visita do anjo Gabriel, que lhe diz: Venho a mando
daquele que é meu Mestre, aquele que deverás amar e defender. A ti, Maria,
trago-te boas notícias, pois que te anuncio que a tua concepção foi ordenada pelo
céu. A seu devido tempo serás mãe de um filho.
Chamar-lhe-ás Yohosua (Jesus ou Iavé salva) e inaugurará o reino dos céus
sobre a Terra e entre os homens. Disto fala apenas a José e a Isabel, tua parente,
a quem também apareci e que bem cedo dará à luz um menino cujo nome será
João. Isabel prepara o caminho para a mensagem de libertação que teu filho
proclamará com força e profunda convicção aos homens. Não duvides da minha
palavra, Maria, já que esta casa foi escolhida como morada terrestre desta criança
do destino...
Recebe a minha bênção. O poder do Mais-Alto te apoiará. O Senhor de toda a
Terra alongará até ti a sua protecção.
A todo o momento, Maria defendeu a concepção não humana do seu
primogénito.
Durante algum tempo José não consegue entender como um menino nascido de
uma família humana podia ter um destino divino. Num sonho, um brilhante
mensageiro tranquilizou-o com as seguintes palavras: José, apareço-te por ordem
dAquele que reina agora nos céus. Recebi o mandado de te dar instruções sobre o
filho que Maria vai ter e que será uma grande luz neste mundo. Nele estará a vida
e a sua vida será luz da humanidade. De momento irá para o seu próprio povo.
Porém este aceitá-lo-á com dificuldade. A todos aqueles que o acolham lhes
revelará que são filhos de Deus.
O papel que deveria desempenhar aquele filho do destino, provocaria uma grave
perturbação entre os mais chegados de José e de Maria. A maior parte dos seus
familiares acolheu a notícia com cepticismo. Erradamente, a Senhora como o Major
lhe chama identificou seu filho com o Messias ou Libertador político.
Ano -7 Em Fevereiro, Maria visita sua prima afastada, Isabel. Em Junho do ano
anterior, o anjo Gabriel tinha aparecido igualmente a Isabel, comunicando-lhe o
seguinte: Enquanto teu marido, Zacarias, oficia diante do altar, enquanto o povo
reunido pede a vinda de um salvador, eu, Gabriel, venho anunciar-te que depressa
terás um filho que será o precursor do divino Mestre. Dar-lhe-ás o nome de João.
Crescerá consagrado (nota interrompida.)

Como ficou inscrito neste diário, a partir daquela terça-feira, a nau da
jovem e prometedora vida de Jesus viu-se açoitada por novos e furiosos
ventos. Sepultado seu pai, com catorze anos recentemente feitos, não
teve opção. Todos os projectos os seus, os de sua mãe e os da
esperançada aldeia
- foram inumados com o cadáver de José.
*(continua a nota.)
ao Senhor, teu Deus e, quando for adulto, alegrará o teu coração, pois trará
almas a Deus. Anunciará a vinda do que cura a alma do teu povo e o libertador
espiritual de toda a humanidade. Maria será a mãe desta criança e também a ela
aparecerei. Três semanas depois, a futura mãe de Jesus regressava a Nazaré,
definitivamente convencida do papel político e libertador, que desempenharia seu
filho e João, seu lugar-tenente.
A 25 de Março nasce João.
Ao receber-se em Nazaré a ordem de recenseamento, José prepara a viagem a
Belém, mas sozinho. Maria consegue convencê-lo, apesar de estar prestes a dar à
luz.
Pelo amanhecer de 18 de Agosto metem-se a caminho, pelo Jordão, em direcção
à cidade de David.
Pelo entardecer de 20 de Agosto entram em Belém, alojando-se nos estábulos
da pousada. Nessa mesma noite, a mulher de José experimentaria as primeiras
dores de parto.
Pelo meio-dia de 21 de Agosto deu-se o nascimento de Jesus: o bekor, o
primogénito de Maria.
Quando o bebé tinha a penas algumas semanas, recebe a visita de uns
sacerdotes astrólogos provenientes de Ur da Caldeia.
Zacarias informa-os do lugar onde se encontra o rei dos Judeus e, depois de
contemplarem o menino, regressam a Jerusalém, sendo interrogados por Herodes,
o Grande. O edomita, tenta enganar os magos,, e estes desaparecem, rumo ao
seu país. Os espiões de Herodes procuram insistentemente o menino. José, avisado
por Zacarias, esconde Jesus na casa de seus parentes.
Angustiosa situação da família. José hesita entre procurar trabalho e instalar-se
em Belém ou fugir.
ANO -6 Desesperado perante a infrutífera busca do outro rei, Herodes ordena
o censo da aldeia e a execução de todos os varões menores de dois anos que
pudessem ser encontrados. O aviso de um funcionário próximo da corte do
edomita permite que José, Maria e o menino escapem a tempo. No morticínio

acontecido em Outubro perdem a vida dezasseis meninos. Jesus tinha catorze
meses de idade.
A família instala-se na cidade egípcia de Alexandria, sob a protecção de parentes
abastados. Ali permanecem durante dois anos. José aprende o ofício de
empreiteiro de obras. A comunidade judaica acaba por conhecer o segredo de
Maria e de José e tenta convencer os pais do filho da Promessa para que Jesus
cresça e seja educado em Alexandria. Oferecem-Lhe um exemplar da tradição
grega dos textos da Lei, de grande importância na posterior educação do jovem
Jesus.
Maria tem a obsessão da integridade física do filho.
ANO 4. Em Agosto, terceiro aniversário de Jesus, a família embarca com destino
ao porto de Jafa, a cerca de trezentas milhas de Alexandria. Primeira viagem por
mar de Jesus.
Pelos finais daquele mês de Agosto, via Lydda e Emmaus, chegam a Belém.
Permanecem na aldeia durante todo o mês de Setembro. Maria é partidária de
educar seu filho em Belém, mas José, pelo contrário, opõe-se, sugerindo o regresso
a Nazaré.
O carácter violento do novo tetrarca Arquelau -, sucessor de seu pai, Herodes, o
Grande, decide José a partir para a Baixa Galileia. Maria tem de ceder. Por fim, nos
primeiros dias de Outubro empreendem a viagem para Nazaré. Ao chegarem à
aldeia encontram a casa ocupada por um dos irmãos de José.
ANO -3. Na madrugada de 2 de Abril nasce Tiago.
Por meados daquele Verão, José realiza um dos seus sonhos: montar uma oficina
perto da fonte pública. Associa-se com dois dos seus irmãos. Os negócios
prosperam.
(nota interrompida.)
A Providência, sempre sábia, forçou-o a ultrapassar-se a si mesmo. As
suas ideias, de dia para dia mais lúcidas, para revelar aos homens a
maravilhosa realidade de um Pai celestial, ficaram encerradas mas
não mortas no mais íntimo do seu ser. Jesus viu-se perante uma
família numerosa que tinha de alimentar, educar e empurrar para a
frente.
*(continua a nota)
Reúnem um grupo de operários e percorrem as aldeias e cidades próximas,
trabalhando, principalmente, na construção de edifícios. Pouco a pouco José
abandona os trabaLhos de carpintaria.

Jesus começa a escutar os relatos dos viajantes e guias de caravanas que vêm à
oficina de seu pai terreno.
Em Julho, uma epidemia intestinal obriga Maria a sair da povoação com os filhos,
refugiando-se durante dois meses na herdade de um dos seus irmãos, perto de
Sarid. Jesus estabelece especial amizade com um ganso. ANO -2. Na noite de 11
de Julho nasce Miriam. Prestes a completar cinco anos, Jesus faz a sua primeira
pergunta sobre o mistério da vida e do nascimento dos seres vivos. A sua
curiosidade insaciável levanta problemas a quantos o rodeiam.
A 21 de Agosto, no seu quinto aniversário, Jesus, de acordo com a lei, passa a
depender de José no que diz respeito à educação moral e religiosa, e começa a
aprender o ofício de seu pai. Maria inicia-o no cuidado pelas flores. Jesus garatuja
as primeiras letras.
Primeira grande desilusão da criança. Naquele Verão, um tremor de terra sacode
Nazaré. Seus pais não sabem explicar-lhe o que é um sismo. O seu constante fluxo
de interrogações obriga José a esconder-se, fugindo assim às embaraçosas
perguntas que lhe faz o seu infatigável filho. ANO -1 Maria recebe a visita de Isabel.
Primeiro encontro de João e de Jesus. Durante uma semana, as famílias fazem
planos para o Libertador e o seu imediato. João fala a seu primo de Jerusalém e
da sua grandeza. Desde essa altura Jesus não cessa de perguntar: Quando
viajaremos para Jerusalém?, Jesus manifesta o desejo blasfemo de falar
directamente com Deus. E chama-Lhe Pai,. José e Maria, aterrorizados, tentam
dissuadi-lo de tal ideia.
Em Junho, José toma a decisão de ceder a oficina a seus irmãos, lançando-se na
empreitada de obras. Maria opõe-se. Mas os ganhos da família melhoram
consideravelmente.
Jesus acompanha José em muitas das suas viagens de negócios pela região.
ANO 1. O gosto pelos jogos e os constantes passeios pela colina do Nebi Sain
valem-lhe uma dura reprimenda. José faz-Lhe ver que tem de se submeter à
disciplina da casa.
No shebat (Janeiro-Fevereiro), Jesus tem uma das mais agradáveis surpresas da
sua breve vida: neva em Nazaré.
Em Julho, o primogénito rola pelos degraus da escada encostada a uma das
paredes da casa, cego por uma tempestade de areia. O acidente ressuscitou em
Maria os velhos temores.
A 16 de Março, quarta-feira, nasce o quarto filho do casal: José.
Em Agosto, ao completar os sete anos e seguindo o costume, Jesus vai à escola.
Os estudos elementares prolongavam-se até aos dez anos.
Jesus continua a escutar os peregrinos e caravaneiros. Isso permite-lhe

aperfeiçoar o grego. Sua mãe ensina-o a ordenhar, a fazer queijo e a tecer.
Por essa altura, Jesus e o seu amigo Jacob descobrem a oficina do oleiro
Nataham. ANO 2 O bom aproveitamento de Jesus na escola proporciona-lhe uma
licença: de três em três semanas tem uma semana livre. E o rapaz dedica aquelas
férias,, à pesca, na margem do yam, e à agricultura, na herdade de seu tio. A sua
primeira experiência com uma rede teria lugar em Maio.
(nota interrompida.)
Trocando impressões com Maria e os seus sobre esta mudança
significativa, fui dando conta de alguma coisa que emocionou e que, ao
ser ignorada pelos evangelistas, não pôde ser conhecida durante dois
anos. A maioria dos crentes e não crentes pensa ou imagina um Jesus
protegido, durante a infância e a juventude, por uns pais que, à sua
maneira,
*(continua a nota.)
Naquele ano aparece em Nazaré um misterioso professor de matemática,
oriundo de Damasco. O enigmático sábio inicia Jesus no mundo dos números e,
principalmente, da Kabala.
Jesus ensina a seu irmão Tiago os rudimentos do abecedário.
Os mestres perdem a paciência com as inquietantes e, por vezes sacrílegas
perguntas de Jesus. Tudo o interessa. Tudo lhe desperta interrogações. ,À sua volta
gera-se um ambiente de repúdio e antipatia de determinados círculos de aldeia.
O falador Zacarias revela a Nahor, professor de uma das escolas rabínicas de
Jerusalém, a existência em Nazaré do Messias. Nahor examina primeiro João e,
posteriormente, desloca-se à Galileia. Embora o descaramento de Jesus em temas
religiosos não seja do seu agrado, decide propor a sua partida para a Cidade
Santa, para que possa estudar: José não vê com bons olhos aquele projecto. Pelo
contrário, Maria pressente que pode ser o ponto alto da carreira política de seu
Filho.
Perante o desacordo dos pais do menino Nahor consulta o interessado. Jesus
decide permanecer em Nazaré.
Na noite de sexta-feira, 14 de Abril, chega ao mundo Simão, o terceiro dos seus
irmãos varões. : Jesus vende o queijo e a manteiga que ele próprio preparava. Com
o dinheiro paga as suas primeiras lições de música.
ANO 3 Jesus conhece as habituais doenças da infância. O seu desenvolvimento
físico é espectacular, destacando-se entre a população infantil da aldeia.
No Inverno regista-se um grave incidente. Jesus, excelente desenhador, comete o

sacrilégio de pintar o rosto do seu mestre no pavimento da escola. O conselho de
Nazaré reúne e José é admoestado. A leijudaica proibia todo o tipo de
representações humanas. Jesus é ameaçado com a expulsão da escola e não
voltará a pintar nem a modelar barro.
Na companhia de seu pai escala pela primeira vez o monte Tabor.
A 15 de Setembro nasce Marta, a segunda das irmãs, o que leva José a
aumentar a casa.
Jesus trabalha na ceifa, na herdade de seu tio. Maria indigna-se ao saber que
seu filho manejou uma foice.
ANO 4 Prestes a completar os dez anos, a corpulência física e o desenvolvimento
intelectual de Jesus convertem-no no chefe de um bando de sete amigos. Jacob,
seu vizinho e íntimo amigo, é um deles. Jesus sente uma repugnância natural ante
toda a violência. Isso traz-lhe sérios conflitos com os companheiros de brincadeiras.
A 5 de Julho dá-se um acontecimento que confunde seus pais.
Naquele sábado, num dos habituais passeios pelo campo, Jesus confessa a José
que sentia que o seu Pai dos céus chamava por ele e que ele não era quem todos
acreditavam que fosse. A partir daquela data tornar-se-ia taciturno e solitário,
partilhando a companhia dos adultos.
Em Agosto entra na escola superior. As suas impertinentes perguntas passaram
das marcas, provocando que o conselho chamasse à ordem seus pais. Os inimigos
de Jesus acusaram-no de soberbo, descarado e vaidoso.
O seu gosto pela pesca aumenta, até ao ponto de comunicar a seu pai que, de
futuro, deseja ser pescador.
ANO 5 Por meados de Maio, Jesus acompanha o pai à cidade helenizada de
Citópolis, na Decápole. A grandiosidade dos edifícios e a beleza dos jogos que
presencia entusiasmam-no.
José ofende-se e envolve-se com o filho numa discussão (nota interrompida.)
suavizaram a existência do Filho do Homem. É chegada a Sua hora -
continuam a pensar os homens e mulheres que não o conheceram
despediu-se de Nazaré, lançando-se na pregação, que, melhor ou pior,
nos foi transmitida. Erro crasso. Jesus de Nazaré quase não teve
adolescência. Se um dos objectivos da sua encarnação foi experimentar
por si mesmo
*)continua a nota.)
acalorada. Na quarta-feira, 24 de Junho, Maria dá à luz Judas.

Por causa deste parto, a Senhora adoece. Jesus vê-se obrigado a suspender as
aulas na escola e a cuidar da mãe e irmãos mais novos. As suas brincadeiras e
distracções rareiam. As dúvidas sobre a verdadeira identidade continuam a
atormentá-lo.
ANO 6 Jesus volta aos estudos. A sua maneira de ser muda: das constantes
perguntas passa ao silêncio. Os pais não entendem aquela estranha
transformação. Maria desespera. Não compreende por que razão o seu
primogénito, Filho da Promessa, não atende nem compartilha as suas directrizes
para levantar a nação judaica contra Roma. As discussões conjugais, neste sentido,
são constantes. Jesus mantém-se silencioso e refugia-se na música e na educação
dos irmãos. No final do ano, por causa de uma submissão esmagadora às rígidas e
absurdas normas religiosas da comunidade, Jesus cai num profundo abatimento.
ANO 7 Jesus entra na adolescência. A sua voz e o seu corpo modificam-se. : Na
noite de domingo, 9 de Janeiro, nasce Amos. : Em Fevereiro, o esplêndido jovem
supera o seu abatimento. Conjugaria, de momento, as férreas crenças dos seus
antepassados com o secreto projecto que continuava a germinar no seu coração:
Iluminar a humanidade, falando-lhe de seu Pai celestial.
A 20 de Março, depois de uma repousada e bela leitura na sinagoga, o povo
sente-se orgulhoso daquele filho de Nazaré. E ressuscitam os velhos planos para
que estude em Jerusalém.
Seguiria para a Cidade Santa ao completar quinze anos.
Nos primeiros dias de Abril recebe o diploma pelos seus estudos. José anuncialhe
que, como adulto perante a lei, assistirá à sua primeira Páscoa em Jerusalém.
Na segunda-feira, 4, desse mês de Abril, um grupo de cento e trinta vizinhos
empreende a marcha para a Cidade Santa. Nesta viagem, a família de Nazaré
estabelece amizade com a de Lázaro, na Betânia. Pelo entardecer de quinta-feira,
dia 7, Jesus contempla Jerusalém do monte das Oliveiras.
No dia seguinte, José levou Jesus a uma das prestigiadas academias rabínicas.
8 de Abril: nessa noite, aparece um anjo diante de Jesus e diz-lhe: Chegou a
hora. É já altura de começares a tratar dos assuntos de teu Pai. E o Filho do
Homem, muito lentamente, vai ganhando consciência da sua origem e natureza
divinas.
No sábado, 9 de Abril, é consagrado no templo como filho da Lei. Jesus sofre
uma profunda decepção perante a teatralidade e o derramamento de sangue que
acompanham os ritos religiosos.
Os desacordos com seus pais continuam a aumentar.
No domingo, Jesus descobre as discussões entre os rabinos e os doutores da lei.
Antes da partida para a Galileia fica marcada a sua entrada na escola rabínica

para Agosto do ano 9.
Jesus continua a assistir às conferências do Templo, mas não intervém.
A 18 de Abril, segunda-feira, os peregrinos concentram-se nas proximidades do
Templo e partem rumo a Nazaré. Maria e José dão pelo desaparecimento do filho
ao chegarem a Jericó.
Pelo meio-dia daquela segunda-feira Jesus tem plena consciência da marcha da
caravana. Mas decide ficar e continuar a assistir às discussões do Templo.
Na manhã seguinte, ao passar pelo Olivete, Jesus chora amargamente, à vista
de Jerusalém. José e Maria regressam à Cidade Santa e procuram-no
desesperadamente.
Naquela jornada, o adolescente fala pela primeira vez perante os rabinos,
provocando com as suas perguntas e comentários as mais díspares reacções.
A terceira jornada de Jesus no Templo constitui um grande triunfo para o jovem
de Nazaré. A notícia de uma criança galileia lançando no ridículo os vaidosos
escribas e doutores da Lei espalha-se pela cidade.
(nota interrompida.)
a vida das suas criaturas, por minha fé que, a partir do referido 25 de
Setembro, o alcançou sobejamente. A misteriosa Providência frustra os
sonhos de um Deus que não sabia que o era, em benefício do
enriquecimento moral de um homem e, como milhões de seres humanos,
teve de vergar-se à disciplina da miséria, da solidão e do medo. Bem
pode falar-se de um Jesus anterior à morte de seu pai e de outro,
forçosamente distinto que despertaria sobre os restos mortais de José.
Como sempre sucede com os valentes, Jesus, recomposto da
surpresa, longe de se humilhar, assumiu o seu novo papel, pegando nas
rédeas do lar entristecido e desolado. Em Nazaré já ninguém acalentava
a ideia de o ver convertido em rabino de Jerusalém. Estava escrito:
Jesus não seria discípulo de ninguém.
- O golpe foi tão inesperado prosseguiu a Senhora com a
serenidade que o tempo traz que precisámos de meses para ganhar
novo ânimo. José fora-se sem nos falar. Sem nos dar a bênção. As
feridas, mortais, arrebataram-lhe a vida antes de eu entrar em Séforis
e, apesar do consolo das pessoas desta aldeia, a casa já não foi a
mesma.

Quando quis saber em que lugar descansavam os restos mortais do
marido, respondeu com um movimento de cabeça mecânico e impreciso.
Deduzi que se referia à colina. Na minha agenda figurava também uma
volta de inspecção pelas faldas e pelo cume do Nebi. E decidi-me a
localizar o seu túmulo.
.. Compreendes, Jasão amigo, a razão pela qual a minha família
continua a confiar nos vizinhos de Nazaré? Não soube muito bem ao que
se referia.
*(continua a nota.) Na quinta-feira, 21 de Abril, José e Maria decidem procurar
Jesus fora de Jerusalém. Acorrem ao Templo para interrogar Zacarias e José
reconhece a voz de seu filho entre os que assistem a um dos debates. Nessa
mesma tarde, numa grande tensão, ini ciam o regresso à Galileia. O abismo entre
as ideias de Maria e as do seu primogénito torna-se quase intransponível.
Ao entrar em Nazaré, Jesus prometeu a seus pais que nunca voltariam a sofrer
por sua causa. Esperarei a minha hora, respondeu. E a Senhora reavivou os seus
sonhos nacionalistas.
Mas Jesus encerrou-se num muro de silêncio, indo, cada vez mais, ao cume do
Nebi.
O êxito, de Jesus em Jerusalém foi celebrado pelos seus professores e vizinhos. E
muitos compartilharam as ilusões políticas de sua mãe: De Nazaré sairia um
brilhante mestre e, quem sabe, um chefe de Israel.
ANO 8 O jovem Jesus torna-se um homem de grande beleza.
Continuou a trabalhar como carpinteiro. E o seu espírito vai-se abrindo à realidade
divina. Mas os seus passeios solitários e o acentuado distanciamento das ideias de
sua mãe fizeram com que Maria duvidasse do prometido destino de seu filho. Além
disso, o sempre pensativo carpinteiro não fazia milagres.
Apesar da tensa situação familiar, José preparou tudo para a admissão próxima
do primogénito na escola rabínica de Jerusalém. O futuro parecia prometedor.
A 21 de Agosto, ao completar catorze anos, sua mãe oferece-lhe uma
esplêndida túnica de linho, confeccionada por ela própria.
Mas na manhã de terça-feira, 25 de Setembro, a vida de Jesus e de toda a
família sofreu uma dolorosa alteração: José ficará ferido, ao cair de uma obra na
residência do governador, na vizinha cidade de Séforis. O empreiteiro de obras e
pai terreno do Filho do Homem faleceu pouco depois, quando contava trinta e seis
anos. Curiosamente, quase a mesma idade em que foi crucificado Jesus. No dia
seguinte foi sepultado, em Nazaré. (Nota de J. J. Benitez)

.. Em tão dramáticos momentos, muitos deles abriram-nos as portas
do pouco que tinham, oferecendo-nos consolo e amizade.
Isso não se esquece.
- Mas insisti, apontando na direcção da rua -, esta manhã...
Embora reconhecendo que eu tinha razão a nobre Maria insistiu:
- Aqueles, uns quantos, alegraram-se então com a morte de José e
agora com a de Jesus... - E dirigindo-se às filhas acrescentou,
categórica: - conhecemos os seus nomes e as razões do seu mesquinho
comportamento. Mas nem todos são assim.
Miriam e Ruth assentiram. Quem isto escreve ficou com vontade de as
interrogar quanto a ambos os assuntos: a identidade dos agressores e
as razões da sua cólera. Mas, não desejando interromper o fio principal
da narração, resolvi esperar e chegar às minhas próprias conclusões.
- Os laços entre a povoação e a nossa família estreitaram-se de tal
forma, que, durante aquele Inverno, rara era a noite que a casa não se
via invadida por gente que vinha fazer-nos companhia, escutar Jesus
nas suas habituais leituras das Escrituras ou, simplesmente, desfrutar da
sua música.
Foi assim. Naqueles difíceis dias, o jovem Jesus combatia a sua natural
amargura refugiando-se entre os seus e na sua harpa. Eu tinha
conhecimento da existência deste pequeno instrumento musical
provavelmente um kinnor -, pelas minhas conversas em Betânia, e, para
dizer a verdade, não sei explicar o motivo pelo qual desde o primeiro
momento me senti atraído por ele. Tinha de averiguar onde se
encontrava, que destino tivera tão afectuoso companheiro do Mestre...
Esta obsessiva busca da harpa levar-me-ia, bem depressa, a uma das
situações mais penosas em que me vi envolvido em toda a aventura
palestina... Mas vamos por partes.
Ao escutar a palavra música interrompi a minha confidente,
interessando-me pelo paradeiro do velho instrumento. Maria,
compartilhando a minha curiosidade, encolheu os ombros. Nem ela nem
suas filhas o tinham voltado a ver. Quando a falta de recursos
económicos as colocara em dificuldades o próprio Jesus se desfez do
kinnor, vendendo-o pela mísera quantia de uns dois denários de prata.
- Isso, querido e curioso amigo sentenciou a Senhora, dando por

concluído o assunto -, há já muitos anos.
A fugaz alusão ao dinheiro deu-me pretexto para indagar sobre novo
capítulo, ainda que prosaico, mas não menos importante:.em que
situação os deixara José?
- Bem Jasão... Meu marido tinha poupado uma avultada quantia. E
dela fomos vivendo. Meu Filho mostrou ser um prudente administrador.
Era generoso, mas poupado. Além disso, tal como estabelece a lei,
imaginámos que o governador de Séforis nos concederia uma
importante quantia como indemnização...
A Senhora esboçou um sorriso irónico. Tal indemnização, exigida
algum tempo depois por Jesus ao tetrarca da Galileia, o tristemente
célebre Herodes (a velha raposa) nunca chegou.
Este novo golpe precipitaria outros acontecimentos.
. Por não podermos contar com esses dinheiros, que por justiça nos
eram devidos, tudo se desmoronou. Não tinha ainda passado um ano e
os fundos acumulados por José esgotaram-se. E não tivemos outra
escolha senão a de vender uma das casas, propriedade de José e do
pai de Jacob, o que nos tirou de dificuldades. Mas o nosso destino
estava escrito com a tinta da pobreza...
Palavras certas de Maria. Se a existência de Jesus e de todos os seus
podia qualificar-se, até àquela data, de medianamente abastada, ao
entrar no seu décimo quinto aniversário afundar-se-ia no poço da
miséria. Os crentes que vestem Jesus de Nazaré de pobreza não sabem
até que ponto acertam. Desse modo, o Mestre experimentou também a
gélida sensação da escassez e até pior: a impotência ante a escassez
dos que dependiam dele.
Passei muito tempo a meditar sobre aqueles meses angustiosos do
Filho do Homem. Ignorantes evangelistas! Pode haver imagem mais
próxima, humana e aliciadora na vida do jovem Jesus? Será que aquela
etapa da sua vida terrena não merecia umas linhas? Qual foi o
panorama em que teve de se mover o Galileu nos começos daquele ano
nove? Só de o imaginar estremeço: uma mãe abatida e grávida, sete
irmãos para alimentar e, como única bagagem, catorze anos!
Na noite de 17 de Abril chegaria ao mundo a filha póstuma de José, a
esquilazinha. Ao recordar o acontecimento, Maria abraçou-se a Ruth

numa quente melancolia. Durante uns segundos falou o silêncio. E
acreditei decifrá-lo. Aquela temerosa criatura, que não conhecera o pai,
teve a fortuna e a desgraça de aparecer no lar de Nazaré no meio da
mais alterosa vaga.
Desgraça, pelo que já contei. Fortuna porque, na ausência de José,
encontraria em seu Irmão o mais doce, paciente e amoroso dos pais.
Ao interrogar a ruiva irmã de Jesus sobre as suas recordações, as
mãos da mãe e da filha foram encontrar-se no centro da mesa de pedru
e entrelaçaram-se, mudas e eloquentes.
Mas Ruth, ignorando os meus pedidos, negou-se a responder.
Compreendi. Era o seu tesouro. E Maria, fazendo-me um sinal, pediume
paciência. A certeira intuição materna não se enganava. E, sem dar
importância à minha tentativa falhada, desviou a conversa para um
tema que provocaria a hilaridade das filhas.
- Foi o brinquedo da casa, Jasão. Deus, bendito seja o seu nome, quis
suavizar a nossa tristeza e enviou Ruth.
Desarrumava tudo e mordia em tudo. O seu canto favorito era a
oficina de Jesus. Sempre que eu virava costas escapava gatinhando e ia
meter-se na serradura...
Ao falar das diabruras da esquilazinha voltou a cabeça para o
desarrumado cubículo que estava nas minhas costas. Comecei, então a
compreender.
- Então interrompi-a com a voz mal segura pela comoção -, aquele
suj o lugar...
A Senhora aceitou mal a palavra.
- Sujo?...
Tarde, como sempre, quis emendar. Mas Maria, magoada no seu
orgulho de dona de casa, não mo permitiu.
- Dir-te-ei alguma coisa que também não sabes, Jasão.
O tom, duro e implacável, fez-me adivinhar uma secreta revelação.
.. Quando meu Filho abandonou definitivamente Nazaré, a suja
oficina de carpinteiro (essa que viste) ficou tal qual...
por expresso desejo de Maria, a das pombas. E assim continuará. Tu

não podes saber com que coragem, com que tenacidade, com que suor
trabalhou Jesus nesse sujo quartinho...
Corei de vergonha.
.. para cuidar de seus irmãos. Enquanto os outros jovens da aldeia
gozavam o seu tempo livre, ele ficava exausto sobre a bancada.
Benditas teias de aranha! Não quero esquecer o passado, Jasão...
Abri a boca, procurando desculpar-me. Não me foi concedido.
A Senhora prosseguiu acaloradamente. E eu, no fundo, agradeci a
involuntária indiscrição.
.. Ainda sem os quinze anos completos madrugava como eu. E
fechava-se na sua suja oficina o seu tom era tremendamente mordaz
até para lá do pôr do Sol. A princípio, entrava e repreendia-o. Tive de
me render. A partir de então, sempre que o interrompia, era para lhe
levar uma malga de leite ou animá-lo com um beijo. E tanto esforço para
quê?... Sabes qual foi o seu salário até completar os dezasseis anos?
Por vezes não chegava a vinte e quatro asses por dia... Fiz cálculos
mentais. Tendo em conta que uma libra de carne andava à volta dos
dois asses e que o número de bocas a satisfazer era de dez, a margem
não era muito tranquilizadora.
.. Que angústia, Jasão! Antes que o ano acabasse tivemos de
recorrer à dolorosa venda das pombas de que Tiago tratava.
Minhas queridas pombas... Mas Jesus era empreendedor. No meio da
nossa miséria, empenhou-se em comprar uma vaca. Era audaz e
obstinado como o pai...
- E como a mãe... - completou Miriam com muito acerto.
Maria sorriu, aceitando a justa observação da filha mais velha.
- Nunca soube como se arranjou para a ir pagando. O caso é que,
passado pouco tempo, tive de lhe dar razão. E Miriam, todas as
manhãs, com frio, calor, água ou gelo, encarregava-se da venda do
leite. Mesmo assim, as coisas não melhoraram. O pagamento dos
impostos, no ano seguinte, enterrou-nos de vez.
Meio siclo para a escola-sinagoga, mais meio para o Templo...
Enfim, o desastre. E para cúmulo, aquela víbora...

A minha perplexidade não passou despercebida à Senhora.
- Ouviste bem: víbora. O que é verdade, é verdade... Esse saduceu
hipócrita que rasgou as suas vestes, em tempos mestre de Jesus,
ameaçou-nos com a penhora se não pagássemos as taxas. E,
rancoroso, só com a preocupação de ferir meu filho, falou na harpa...
O quebra-cabeças com as palavras ódio e Ismael começava
lentamente a resolver-se.
- Sabes como Jesus replicou aos desmandos daquela serpente? Como
podia eu saber?
.. No dia em que fez quinze anos apresentou-se na sinagoga e fez
doação do seu querido exemplar de tradução grega das Escrituras.
Quando, indignada, Lhe perguntei a razão por que o fizera, respondeu,
piscando-me o olho: Mãe, ceder a tempo é vencer.
Embora as necessidades da casa fossem drasticamente reduzidas
durante meses, o esforço colectivo as vendas de leite de Miriam; os
esporádicos trabalhos de Tiago no armazém de abastecimento de
caravanas, agora propriedade de um irmão de José; a roupa fiada e
feita por Maria e o salário do jovem carpinteiro acabou por dar os
seus frutos. E a família, mais mal que bem, lá iniciou uma lenta
recuperação. Por intermédio dos seus familiares, Jesus conseguiu que
lhe cedessem um lote de terreno na vertente norte do Nebi. Cheio de
esperança dividiu-a em pequenos hortos, entregando o seu cultivo aos
outros irmãos. A nova sociedade, se não lhes trouxe dinheiro,
proporcionou-lhes pelo menos um complemento à dieta diária.
- A fantasia juvenil do meu Filho esclareceu a Senhora -, adormecida
em parte pelas dificuldades voltou a brilhar fugazmente. Ao ver seus
irmãos a trabalhar entre legumes e hortaliças confessou-me que lhe
agradaria ter um dia uma herdade sua. Como vês, o destino reservavalhe
outros planos...
- Ah, Jesus, consolo dos idealistas desiludidos! .. E talvez o tivesse
conseguido, Jasão.
- Jesus, lavrador?
Maria acenou afirmativamente com a cabeça, e deu-me nova prova
da teia emaranhada e enigmática da Providência.

- Adivinha quem lançou por terra as sensatas esperanças de meu
Filho?
Não era fácil. Pensei no saduceu. Ou teria sido a própria Maria?
- A raposa. Aquele maldito...
- Quem? - perguntei surpreendido...
- Herodes Antipas...
E a mulher, que não se calava quando tinha razão, relatou-me o
interessante e decisivo encontro entre o filho de Herodes, o Grande, na
altura dono e senhor daquelas terras, e o jovem de Nazaré. Segundo
parece, quando da morte do empreiteiro de obras, o tesoureiro de
Séforiscapital da Baixa Galileia devia a José uma série de salários.
Estes dinheiros, somados à indemnização por falecimento em acidente
de trabalho teriam permitido à família a compra da referida herdade.
Mas o tesoureiro oferecia uma quantia tão ridícula que, naturalmente,
recusaram. Os irmãos de José apelaram para o próprio tetrarca.
Quando, por fim, Herodes recebeu Jesus e os seus familiares no palácio
de Séforis, a sentença arruinou os sonhos do carpinteiro. Que venha o
morto, riu o corrupto Antipas, que apresente a queixa. Jesus
regressou à aldeia com a ansiedade que a injustiça traz. A partir de
então retirou a sua confiança em Herodes. E a Providência, como disse,
obrigou-o a sonhar noutra direcção.
- Poucos dias depois acrescentou Maria, com orgulho -, Jesus tinha
esquecido Antipas. E devagar, medindo cada lepta, conseguiu o que eu
não teria conseguido em anos. Os seus trabalhos de carpinteiro
agradavam; em especial os jugos. E os camponeses e os caravaneiros
disputavam-nos. Desta forma, ao completar os dezasseis anos tinha
reunido três vacas, quatro carneiros, um burro, um bom número de
galinhas e um cão.
- Um cão?
A notícia, tão inesperada como insólita, levou-nos para um assunto
que não agradou a Ruth.
- Gostava de animais?
- Sempre respondeu Maria. E depois de me recordar a paixão de
Jesus Menino por uma das gansas da herdade do irmão, animou a

esquilazinha a que me falasse de Zal.
Ao ouvir aquele nome, a rapariga em sobressalto baixou os olhos,
começando a chorar. Fiquei sem saber que atitude tomar.
Quem era Zal? E antes que a Senhora conseguisse consolá-la deixou a
mesa, refugiando-se na escura oficina. Miriam tentou levantar-se para ir
em seu auxílio. Mas Maria, conhecendo a extrema sensibilidade de Ruth,
recomendou-lhe que a deixasse sozinha.
- Zal esclareceu Miriam foi um dos melhores amigos de Ruth... e de
Jesus.
Interessei-me vivamente por esta nova personagem. E ao pedir mais
pormenores, a Senhora, intuitivamente, apressou-se a desviar-me do
que sem dúvida ia a caminho de se converter num lamentável equívoco.
- Jasão: não te precipites... Zal não era um ser humano, embora, em
certas alturas, demonstrasse maior nobreza, lealdade e inteligência que
muitos dos que se dizem homens.
Jesus não te falou dele?
- Lembrar-me-ia...
- Zal foi um bonito cão, inseparável companheiro do meu Filho nos
seus últimos anos.
Pestanejei, atónito. Nunca eu teria imaginado o Mestre acompanhado
por um cão... Mais ainda; pelo que lera e pela informação acumulada no
nosso banco de dados, os cães não eram bem vistos pela sociedade
judaica. Eram considerados como comedores de cadáveres, desprezíveis
e perigosos (1). E ainda que a maior parte das vezes não se tratasse
do canis familiaris, mais sim de chacais lobos, cães selvagens ou um
cruzamento de uns e de outros, a verdade é que, segundo a Lei, só os
cachorros eram admitidos nas casas dos hebreus. Uma norma, claro
está, que os muito ortodoxos respeitavam...
O povo, em especial os que viviam no campo, sabia aproveitar as
muitas qualidades destes animais. Mais uma vez Jesus pregara com o
exemplo, colocando-se do lado da Natureza. Mas o instinto levou-me a
cortar cerce a história de Zal. Alegro-me agora. Esta personagem
ignorada pelos textos sagrados, chegou a comover-nos. Se tivesse
entrado em pormenores naquela altura, certamente teria destinado

menos tempo ao fundamental da missão em Nazaré. E antes de
avançar naquele crucial ano 9, coloquei duas questões pouco claras no
meu coração ansioso. Em primeiro lugar se as arcas domésticas se
encontravam tão minguadas, assim o garantia a Senhora, como
entender que a família pudesse comprar três vacas, quatro carneiros e
um burro?
Maria, que gostava da sinceridade, aceitou de bom grado a minha
objecção.
*1 Desde os templos bíblicos que o cão foi desprezado, sendo unicamente
apreciado no seu papel de guarda do gado e como carniceiro, tendo por sua conta
a limpeza das cidades. Vadiava à noite pelas muralhas (Salmos, 59, 6), devorando
mesmo corpos humanos (Reis I, 14, 12) e comendo a carne que o homem rejeita
(Êxodo, 22 31). Nos Salmos (22, 16-20) são comparados aos violentos,. Era, em
suma o maior,dos ultrajes (Samuel I, 22,
14), (Samuel II, 3, 8), (Reis II, 8,13) e (Isaías 66 3). Na linguagem popular a
palavra cão, servia para designar um inimigo. (N. Do M.)
- Talvez me tenha explicado mal. De começo não foram comprados,
mas alugados. O burro, à razão de três denários-prata por mês. As
vacas, um pouco menos...
A segunda dúvida, menos embaraçosa, foi resolvida com idêntica
simplicidade.
- Não, Jasão, meu Filho não perdeu o seu interesse pelas novidades
que os viajantes e os caravaneiros sempre trazem.
Mas, como compreenderás, o seu trabalho na oficina não lhe permitia
ir ao armazém de abastecimento ou à pousada. E arranjou maneira de
aproveitar as constantes viagens de Tiago a ambos os lados e as
numerosas visitas aos seus clientes, informando-se, assim, de quanto
acontecia lá por fora.
- Não lhe daria mais comodidade e rendimento manter a carpintaria
no bairro dos artesãos?
A Senhora parecia estar à espera da pergunta.
- A família de José insinuou-lho em diferentes alturas.
Sempre se recusou. Daquela forma (dizia) podia velar a todo o
momento pela segurança dos irmãos e pelas minhas próprias

necessidades.
Curioso. Quem teria suspeitado que o simples carpinteiro se sentisse
tão interessado pelas notícias e acontecimentos do mundo? O Filho do
Homem foi, é e continuará a ser uma inesgotável e fascinante fonte de
surpresas para quem isto escreve...
E uma vez que menciono o título de Filho do Homem, bom será que
não esqueça que, justamente naquele ano, se daria a descoberta de
tão acertada denominação. Mais de uma vez me perguntara: de onde
vinha? Como e por que razão surgiu a designação de Filho do Homem
ou dos Homens? Foi oùtro juízo pessoal do Mestre? Ter-se-ia devido
talvez a uma luminosa revelação de algum dos seus discípulos? Em
Betânia, Tiago encarregou-se de me tirar as dúvidas. E agora, Miriam e
sua mãe confirmavam-no. Foi no decorrer do referido ano nove quando,
numa das suas periódicas visitas à biblioteca da sinagoga, tropeçou
num texto que o impressionou vivamente. Porém, com a finalidade de
nos aproximarmos o máximo do íntimo valor de tal descoberta, é
conveniente reflectirmos um pouco sobre o complexo edifício que se
erguia então na mente humana do adolescente de Nazaré. Por um lado
não o podemos esquecer sua mãe encarregara-se de lhe recordar
que era o filho da Promessa. Por outras palavras, o futuro Messias ou
Libertador de Israel. Ao mesmo tempo, ainda que muito gradualmente,
a inteligência do rapaz ia despertando, ou ganhando consciência de
outra realidade, que nada tinha a ver com as muito humanas
pretensões de Maria.
Para cúmulo, Jesus cresceu numa Palestina agitada como nunca pela
crença de uma iminente chegada do Messias (1). No entanto
*1 Basta lançar uma vista de olhos à extensíssima bibliografia existente em torno
do Messias judeu para se reparar na delicadeza do momento escolhido pelo Mestre
para a sua encarnação. Seleccionei os estudos de Rops, pela sua clareza e
concisão, como o exemplo que confirma as felizes palavras do Major. Vejamos
alguns dos conceitos e crenças que, em relação ao ansiado Messias, floresciam na
sociedade em que teve de se desenvolver o Filho do Homem: Aquela esperança,,
diz D. Rops, de uma era mais feliz do que o tempo presente, estava cristalizada
em redor de uma imagem grandiosa de um ser providencial investido do poder
capaz de a promover. Nas proximidades da era cristã designava-se esse ser com o
título que a Escritura santa aplicava a homens providenciais que Deus tinha utilizado
(nota interrompida.)

quase naturalmente, o jovem carpinteiro forjara um plano que não
tinha parentesco com os sonhos nacionalistas e patrióticos da Senhora,
como também não tinha com o denominador comum das crenças
populares. Durante alguns anos, fruto deste ambiente, Jesus, confuso,
hesitou. Seu irmão Tiago e o próprio Jacob, que viveram de perto as
duas vidas que assolavam o coração
*(continua a nota.)
especialmente para servir os seus desígnios reis de Israel, sumos sacerdotes e
até soberanos estrangeiros que tinham feito bem ao Povo eleito, como Ciro rei dos
Persas: ungido do Senhor. meshiah em aramaico, e christos em grego. Uma
poderosa corrente de fervor desembocava naquela misteriosa figura, uma imensa
esperança que, desde gerações e gerações, enchia o peito dos crentes.
Aquela esperança nunca foi tão viva, tão premente a espera, como naquele
período de tristeza e de surda angústia. [Rops refere-se à submissão de Israel ao
jugo de Roma.] Que o Todo-Poderoso tivesse de garantir o triunfo da Sua causa,
vingar-se da maldade dos Seus inimigos e, ao mesmo tempo, devolver a Israel os
seus direitos e a sua glória, como não havia de acreditar em tal com todas as suas
forças, aquele povo que havia séculos vivia da Promessa divina? Precisamente
porque estava humilhado, submetido ao jugo romano, a salvação estava perto. Mil
sinais provam quanto estava viva, no momento em que Jesus nascia, aquela
expectativa messiânica. A redenção de Israel, como escreveu Lucas (I, 68; II, 38 e
XXIV, 21), era para amanhã? O Evangelho, em numerosas passagens,
testemunha o fervor daquela esperança. Nota-se na pergunta feita a João
Baptista: Tu quem és? (És tu o Messias?) (João, I 19). Na simples afirmação da
samaritana: Eu sei que o Messias está para chegar (João, IV, 25). Na mensagem
que o Baptista manda transmitir a Jesus: És tu o que vem ou esperamos por
outro? (Lucas VII, 19). Na impaciente pergunta feita a Jesus por peregrinos no
templo: Até quando nos vais ter em suspenso? Se és o Messias diz-nos
claramente.
(João, X, 24). Ou nas aclamações da multidão na entrada triunfal de Jesus em
Jerusalém. (Marcos, XI, 10). Aquele sentimento era tão imperioso que Jesus se vê
obrigado a moderar o excessivo entusiasmo da multidão, disposta a proclamá-lo rei
e Messias de Israel. (João VI 15).
A leitura de Apócrifos, que constituíam a literatura judaica além da Escritura, não
é menos reveladora. O Livro de Enoc, o Testamento dos Doze Patriarcas, os Salmos
de Salomão, etc., falam dele, matizando quase sempre a sua história com muitas
maravilhas, para melhor assinalarem as suas características sobre-humanas. Nos
Apocalipses, esses tratados misteriosos que revelavam o que seria o fim do mundo

intervinha o Messias; aliás, não se distinguia muito bem a diferença entre o seu
reinado e o século a vir, que veria o triunfo de Deus, pois alguns pensavam que o
reinado messiânico teria uma duração de tempo limitada de sessenta a mil anos
consoante estes ou aqueles -, enquanto outros admitiam que se confundiria com a
eternidade ou com o Paraíso. Um vasto conjunto de noções complexas, até
contraditórias, se tinha, pois, acumulado em volta da figura do Messias, de onde
surgiam algumas certezas: a era messiânica inauguraria uma felicidade perfeita.
Israel voltaria a encontrar a plenitude da sua glória e a justiça de Deus regeria o
mundo.
No entanto, havia cépticos. Alguns troçavam das fábulas populares segundo as
quais, no reino messiânico, nem sequer haveria necessidade de colher, de vindimar,
para se ter sempre trigo e vinho em quantidade, pois que os grãos atingiriam o
tamanho de rins de boi. Uma expressão usual dizia à chegada do Messias ou ao
regresso de Elias para exprimir a ideia que traduz a nossa irónica fórmula para a
semana dos nove dias. Um fariseu sem ilusões garantia: Se estás a preparar uma
estaca e nessa altura te anunciam o Messias, termina a tua estaca: pois que terás
muito tempo para ir ao seu encontro.
De um modo geral segundo parecia, a expectativa pelo Messias era mais viva no
povo simples que entre os ricos e poderosos.
Para a gente simples chegaria a converter-se numa febre. Havia séculos que
Deus parecia calar-se. O tempo alonga-se, dissera Ezequiel e toda a visão fica
sem efeito. Quinhentos anos tinham passado desde que, morto Zacarias, não se
ouvira uma grande voz inspirada anunciar a palavra divína.
Repetiam-se as palavras do Salmista: Já não há nenhum profeta, nem alguém
entre nós que saiba até quando.(Salmos, LXXIV,9). Em que data viria pois o
Salvador (nota interrompida.)
do jovem, foram os encarregados de me mostrarem as chaves.
Diga-se em abono da verdade que Maria não sabia muito de tal
assunto. As suas discussões com o Filho acabariam por selar os lábios
de Jesus. O futuro Rabi da Galileia estudou a fundo as Escrituras e
todas as profecias relacionadas com o Messias.
Concluída a investigação o rapaz estava praticamente convencido de
que aquele não era o seu destino. O apelo íntimo que o alimentava e
amparava não falava em comandar exércitos ou resgatar o trono do rei
David. Ele era um libertador, sim, mas de outra natureza. Estava
destinado a educar, mas longe do silvo das flechas. Ele era, talvez, o
antimessias...

Seja como for, as coisas não se passaram como, hoje, privados destas
subtis informações, julgamos. Este processo, insisto, não foi espontâneo.
Levou o seu tempo. E, principalmente, não deve ser confundido com
outro passo, infinitamente maior: a aquisição por Jesus, homem, da
plena consciência da sua divindade. Isto teria lugar anos depois...
Não podemos nem devemos enganar-nos: a influência de sua mãe no
capítulo messiânico foi importante, interrompendo durante algum tempo,
as visões interiores do adolescente. Ele repetiu-o muitas vezes: Tenho
de me ocupar dos assuntos de meu Pai. No entanto, a Senhora que
conservava na sua alma a promessa de Gabriel confundiu os termos
de seu Filho. Nem Tiago nem Jacob se atreveram a confessá-lo, mas
estou certo, certo de que, durante os primeiros anos, Jesus, influenciado
pelo entusiasmo de Maria, pôde chegar a crer que, com efeito, era o
Ungido. Os argumentos da Senhora, apoiada no que fora revelado junto
daquela mesa de pedra e nas minuciosas precisões que as Escrituras
faziam acerca
*(continua a nota.))
de Israel? Examinavam ansiosamente os textos para obter uma resposta.
Aplicavam-Lhes cálculos complicados, jogando com o significado numérico das
palavras. Josefo fala em várias alturas dos aventureiros que encontraram crédito
entre o povo judeu, fazendo-se passar por Messias. E na Guerra dos Judeus
(VI, 5) anota que uma profecia ambígua, encontrada nas Sagradas Escrituras,
anunciava aos Judeus que nesse tempo um homem da sua nação seria o senhor do
Universo. Tanto como sobre as condições da vinda do Messias, interrogavam-se
sobre o que o caracterizaria. Alcançava-se a unanimidade quando se falava do
palco do seu regresso em glória: não podia ser senão Jerusalém, a Cidade Santa
entre todas, e uma terra prometida, maravilhosamente renovada, onde, como se
dizia no apócrifo de Baruc, um maná inesgotável alimentaria os homens até ao fim
dos tempos. Mas quando se tratava de representar os episódios sobrenaturais da
chegada do Ungido, o que era quase o mesmo, a sua personalidade, estavam
longe de ver claro...
Mas como estabeleceria o seu reino? Nesse ponto, há que reconhecê-lo, a
grande maioria dos documentos desenhava uma imagem singularmente distinta
daquela na qual os cristãos têm o costume de reconhecer o Messias. Algumas
passagens dos apócrifos eram terríveis. Insistiam no carácter guerreiro do rei
Messias, sobre o esmagamento das nações pagãs, sobre as cabeças cortadas, os
cadáveres amontoados, as aguçadas flechas cravadas no coração dos inimigos. O
quarto livro de Esdras comparava-o com um leão devorador. O apócrifo de Baruc

comparava a sua vinda com um terramoto, seguido de incêndio e logo de grande
fome, para todas as nações excepto o Povo eleito. Reacções que não deixam de
ser muito compreensíveis: Israel humilhado esperava um vingador ou, em todo o
caso, um libertador que lhe devolveria o seu lugar na terra. Era natural. A tal ponto
que os próprios discípulos permaneciam fiéis a esta imagem e em várias alturas lhe
perguntarão se não virá, por fim, estabelecer o seu reino na Terra, se não os
associará ao seu reinado glorioso... (Nota de J. J. Benitez.)
do Messias, eram correctos. O Libertador rezavam aqueles textos
proféticos nasceria da estirpe de David. À qual ela pertencia. Isaías
disse-o no seu capítulo xI, ao falar do futuro rei (1). Outros anunciavam
que seria filho de José.
Jesus era-o. E será chamado Emmanuel ou Yavé sidqenu (Yesua
ou Deus connosco), segundo Isaías ou Jeremias, respectivamente. Era
Jesus... Perante tanta coincidência, que podia pensar Maria, a das
pombas? E o coração daquela valente e patriótica galileia identificou-se
plenamente com um dos salmos apócrifos de Salomão (o xvII), em que é
retratado o Messias: Esse rei, filho de David, suscitado por Deus para
purificar Jerusalém de pagãos, puro de todo o pecado, rico de toda a
sabedoria, depositário da Omnipotência, quebraria o orgulho dos
pecadores como púcaros de olaria, enquanto reuniria o povo santo e o
conduziria com justiça, paz e igualdade...
Recordo que naquela tarde, ao falar com a Senhora sobre esta parte
delicada da juventude de Jesus, ela baixou os olhos, magoada consigo
mesma, declarando a sua estupidez.
- Compreendo agora murmurou, abalada pelo peso de uma culpa
que suportaria até à morte -, a razão dos seus passeios solitários pelo
monte e a sua recusa em conversar comigo sobre estes assuntos... -
Suspirou, lamentando-se - .. A minha teimosia e ares importantes
(imagina, Jasão, eu a mãe do Libertador!) obrigaram-no a um mutismo
quase total. Durante muito tempo não consegui arrancar-lhe uma única
opinião sobre o mundo, sobre o meu povo ou sobre a cantada vinda do
Messias.
Olhava-me em silêncio, com alguma tristeza nos olhos, e perdia-se
naquela suja oficina... Eu sabia das suas inquietações, dos seus
blasfemos desejos de falar cara a cara com seu Pai e penso que, para

não me causar dano, escolheu o mais difícil, carregar sozinho com a sua
pesada luta interior.
Na aldeia, esta pouco habitual forma de ser de Jesus não passou
despercebida, e muitos dos seus amigos e conhecidos o acusaram de
vulgar.
- Mas atrevi-me a insistir -, não havia ninguém a quem pudesse
confiar os seus pensamentos e atribulações? Miriam e sua mãe
entreolharam-se, com tristeza.
- Supomos que não... Era um adolescente, Jasão! E de novo me
precipitei.
- Que me dizes de Jacob ou de Tiago? Os olhos de Maria
incendiaram-se. E recebi o que merecia:
- Não perguntes o que já sabes... Neste, e noutros assuntos, tu, anjo
dos demónios, sabes mais do que nós.
Miriam recolheu o carinhoso e certeiro dardo. E depois de me olhar,
outra vez, como só as mulheres sabem fazer pediu explicações a sua
mãe. Esta, porém, sem se perturbar, evitou a perigosa curiosidade da
rapariga, desvendando-lhe algo que era rigorosamente certo: Aquele
grego anónimo
*1 No referido capítulo, Isaías diz: Sairá um rebento do tronco de José [pai de
David], e uma vergôntea das suas raízes brotará. Sobre ele repousará o espírito de
Javé .
Naquele mesmo livro profético, Isaías (cap. VII) volta a profetizar: o próprio
Senhor vos vai dar um sinal: eis que uma donzela está grávida e vai dar à luz um
filho e lhe concederá por nome Emmanuel. (N. Do M.)
soubera conquistar o coração de Jesus, tendo com Ele longas
conversas. Por consequência, sabia coisas que elas ignoravam.
- Então surpreendeu-me Miriam -, é verdade que desejas escrever a
história de meu Irmão...
Nunca soube de onde retirara tão peregrina ideia. Mas, ao regressar
ao meu mundo, a misteriosa e providencial afirmação da jovem foi
decisiva no momento de iniciar quanto trago entre mãos.
Assenti, em boa medida guiado pelo interesse. E trazendo a água de

tão favoráveis circunstâncias ao meu moinho, recordei-lhes que para
levar a bom porto a minha missão precisava de todos os seus segredos
e recordações. Desta forma regressei ao ponto da grande descoberta
do título de Filho do Homem. E foi isto o que soube...
Naquele ano nono, a Providência levou o ainda confuso carpinteiro até
um dos rolos guardados na sinagoga, e ainda que fosse público e
notório, o mencionado manuscrito podia ter um carácter apócrifo. Jesus
leu-o e releu-o, impressionado por uma das passagens. Nele aparecia a
expressão Filho do Homem. O autor falava com precisão, retratando um
homem que, antes de descer ao mundo para o iluminar com a sua
palavra, tinha atravessado os umbrais da glória celestial, na companhia
do Pai Universal, seu Pai. E dizia também que o Filho do Homem
renunciara à sua majestade e grandeza, em benefício dos infelizes e
perdidos mortais, aos quais ofereceria a notícia da filiação divina. O
coração do adolescente vibrou como poucas vezes vibrara. De entre as
profecias e referências messiânicas, aquela era a que mais se
aproximava das suas íntimas inquietações. Por volta dos catorze anos,
Jesus de Nazaré fez a si próprio a solene promessa de adoptar como
seu tão formoso título. Certamente, e eu fui testemunha de excepção, o
Mestre tinha a faculdade infalível e invejável de reconhecer a verdade,
estivesse onde estivesse e vestisse a roupagem que vestisse...
E chegou o 21 de Agosto...
Como disse, o quebra-cabeças do ódio e da inveja continuava a
encaminhar-se para a solução. Ao completar quinze anos, o então chefe
da sinagoga de Nazaré Ismael, o Saduceu apressou-se a colocar
uma nova pedra no tabuleiro do seu coração de hiena. Vejamos como
aconteceu.
Na referida data, Jesus foi autorizado a dirigir o ofício de sábado. (A
partir dos doze-treze anos a lei permitia aos varões livres de Israel a
leitura da sagrada Tora o Pentateuco nas sinagogas). E ainda que o
adolescente já tivesse lido as Escrituras noutras ocasiões, naquele
momento, o sabbat seguinte ao seu aniversário, ao ser requerido
oficialmente pelo conselho, o acto encerrava um solene significado. Toda
a aldeia se encontrava reunida na bethhakeneseth. E o jovem, vestindo
a sua branca túnica de linho, presente de Maria, dirigiu-se à assistência,
lendo uma passagem, especialmente escolhida pela sua simbologia:

- O espírito do Senhor Deus está em mim, já que ele me ungiu e
enviou para levar aos bondosos a boa nova, para curar aqueles que
sofrem, para anunciar a liberdade aos cativos e abrir os cárceres aos
prisioneiros. Para proclamar o ano a favor do Eterno e um dia de
vingança para o nosso Deus. Para consolar os aflitos e dar-lhes o óleo
da alegria em vez do luto e um canto de louvor em vez de um espírito
abatido, com o fim de que sejam chamados árvores de rectidão,
plantadas pelo Senhor e destinadas a glorificá-lo...
Buscai o bem e não o mal para que vivais e o Senhor, o Eterno dos
Exércitos, esteja convosco. Odiai o mal, amai o bem. Estabelecei o juízo
justo nas assembleias da porta.
Talvez o Senhor Deus use a sua graça com os despojos de José.
Lavai-vos e purificai-vos. Tirai a maldade nas vossas acções ante os
meus olhos. Cessai de fazer o mal e aprendei a fazer o bem. Buscai a
justiça, aliviai o oprimido. Defendei o que já não tem pai e protegei a
causa da viúva.
Como me apresentarei ante o Senhor? Como me inclinarei perante
Deus de toda a Terra? Terei de ir ante Ele com holocaustos, com bois de
um ano? O Senhor gozará com milhares de carneiros de cobrição, com
dezenas de milhares de borregos ou com rios de azeite? Daria o meu
primogénito pela minha transgressão ou o fruto do meu corpo pelo
pecado da minha alma? Não, porque o Senhor nos ensinou o que é
bom. Que vos pede o Senhor? Unicamente que sejais justos, ameis a
misericórdia e caminheis humildemente para Ele.
Com quem comparais o Deus que domina toda a órbita da Terra?
Levantai os olhos e vede quem criou estes mundos que produzem
legiões e as chama pelo seu nome. Faz todas estas coisas graças à
grandeza do seu poder. E dada a força do seu poder, ninguém se
equivoca. Dá vigor aos débeis e aumenta a força dos que estão
cansados. Não temais, pois estou convosco já que sou vosso Deus. Vos
darei a minha mão, dizendo: Não temais, pois que vos ajudarei.
Tu és minha testemunha, disse o Senhor, e o servidor que escolhi
com a formalidade de que todos me conheçam e me creiam, ao mesmo
tempo que saibam que sou o Eterno. Eu, sim, eu sou o Senhor... e além
de mim não há salvador.

Miriam, que idolatrava seu Irmão, fez um exacto relato da reacção do
povo:
- Regressaram a suas casas impressionados. A leitura de Jesus,
solene, suave, varonil, firme, encheu-os de paz e de esperança...
- E de ódio interrompeu a Senhora, revelando algo que já me aflora
ao espírito. - Ódio entre os de sempre... Ódio nos corações dos que
associaram aquela leitura com os meus sonhos messiânicos. O saduceu,
principalmente, que sempre desprezou as nossas crenças no Messias,
interpretou as últimas frases de meu Filho com uma blasfémia
dissimulada. Ele sabia que Jesus era considerado o filho da Promessa. A
notícia, inevitavelmente, acabou por correr de boca em boca. E o
atrevimento de Jesus pareceu-lhe intolerável. Quem se julga este
presumido carpinteiro? (Chegou ele a murmurar).
Imaginando que o Ungido apareça, não saberia ele que primeiro será
designado sumo sacerdote?
Querido Jasão: entendes agora quão velhas e profundas são as
raízes do ódio naquela víbora?
Eu entendia. E uma nova inquietação me assaltou. A circunstância de
ter sido mestre do Jesus Menino forçava-me a interrogá-lo. Porém, dada
a minha condição de amigo da família, aceitaria receber-me? De
momento, optei por adiar a questão. Devia dar tempo ao tempo...
- Imagino que Jesus soubesse desses ódios...
- Muito bem precisou sua mãe. - Porém, havia algo nele que
desconcertava. Desde muito menino que lhe repugnava a violência. E
não era um problema de falta de coragem ou de vigor físico. Todos o
vimos carregar troncos de dois e três etah. - Considerando que um etah
equivalia a uns quarenta e cinco quilos, a expressão da mãe pareceume
um tanto exagerada. Porém, tudo era possível naquele soberbo
exemplar humano ninguém o viu recuar perante uma ameaça ou
encolher-se como uma mulher no escuro. Era bravo e corajoso...
mas demonstrava-o com simplicidade, sem alardes. E quando lhe
chegavam aos ouvidos as maledicências ou calúnias dos de sempre,
sorria ou recorria à sua frase favorita: Nada se move se não for essa a
vontade de meu Pai. Mesmo a língua da áspide.
- É tão verdade o que diz minha mãe sublinhou Miriam que, nessa

mesma tarde, fazendo orelhas moucas ao venenoso falatório do
saduceu, Jesus, eufórico, como havia muito não o víamos, foi buscar
Tiago e ambos foram passear pela colina. À volta surpreendeu-nos a
todos. Antes e depois da ceia não parou de cantar, ao mesmo tempo
que escrevia os dez mandamentos nas tábuas de madeira polida...
- Sim! - exclamou a Senhora, que parecia ter esquecido o pequeno
episódio. - É verdade, que foi feito das madeiras? A filha refrescou de
novo a memória da mãe, dando-me, de passagem, uma informação
que, naquela altura, não cheguei a entender.
- Mãe Maria... então não te lembras? Marta deu-lhes cor e tu própria
os penduraste na oficina...
Em silêncio, Maria foi corroborando as explicações da rapariga.
- E que foi feito dos mandamentos? - intervim, felicitando-me ante a
fascinante possibilidade de acolher nas mãos uma obra escrita pelo
Mestre.
Miriam encolheu os ombros e, resignada, fulminou-me:
- Meu irmão, anos mais tarde, se encarregaria de o destruir...
Pensei não ter ouvido bem a última palavra. E insisti:
- Destruiu os mandamentos?
- Não, Jasão: destruiu... tudo Que era tudo? Confuso e contrariado
solicitei uma explicação.
- Tudo o que tinha escrito, desenhado ou pintado. Tudo! Incluída a
tábua de cedro, com a sua primeira oração...
- Porquê? - murmurei, sem poder crer no que me anunciavam.
Não souberam responder-me. Era simplesmente, um enigma.
Apesar da obstinada oposição de Maria e de seus irmãos, Jesus, da
noite para o dia, queimou quanto escrevera ou criara. As minhas
indagações posteriores junto de Tiago e de Jacob não obtiveram
melhores resultados. Recordavam o incidente mas não conheciam a
razão ou razões. Este explorador teve de esperar pelo terceiro salto
para descobrir as motivações do Mestre.
Motivações plenamente justificadas como não podia deixar de ser
do seu ponto de vista... não do meu. Mas não antecipemos nem um

instante da fascinante aventura que julgo ter acompanhado durante a
sua vida de pregação.
..Até a tábua de cedro, com a sua primeira oração.
A inadvertida confissão de Miriam, proporcionou-me nova e
comovente descoberta. Naquele mês de Outubro, pelos seus belos
quinze anos, aquele jovem singular, movido por circunstâncias muito
concretas, teve a genial lembrança de pôr por escrito o que seria uma
das orações mais recitadas do mundo cristão: o célebre Pai Nosso.
Nunca, até àquele instante, me detivera a reflectir sobre a referida
prece. Mais dado o seu conteúdo imaginei tratar-se de uma obra da
maturidade. De facto, se a memória não me trai, os evangelistas
mencionam-na em plena vida pública. Pois não é assim. O Mestre
continuava a desconcertar-me...
- Supomos esclareceu Maria que a ideia do Pai Nosso nasceu por
causa da nossa escassa imaginação...
- Não entendo...
- É fácil elucidou, impacientando-se comigo. - Desde sempre, o meu
povo e a minha família se tinham limitado a recitar de cor as orações
que a lei e a tradição indicam. Mas Jesus, empenhado em que
compartilhássemos as suas loucas pretensões de falar directamente com
Deus, bendito seja o Seu nome, insistia em que era bom improvisar e
comunicar ao Pai todas as nossas inquietudes e problemas. Estás a ver,
Jasão? Como podia ser aquilo? Por muito menos tinham sido outros
lapidados. Falar, cara a cara, com o Divino?... As admoestações de José,
quando vivia, e as minhas, em todos aqueles anos, foram como zumbido
de moscas aos seus ouvidos.
Meus filhos, que o adoravam, tentaram. Mas, temerosos perante o
que dirão ou amarrados à força do hábito, acabavam na recitação de
memória. E um belo dia...
- Uma noite, mãe Maria... - corrigiu Miriam.
- Uma noite, tens razão, cansado de solicitar espontaneidade, veio
sentar-se aqui mesmo e, pegando numa das madeiras da suja oficina...
- desta vez acompanhou a alfinetada com um sorriso brincalhão ... pôsse
a pintar...
- A escrever, mãe Maria... - rectificou a filha.

- O céu me valha, Jasão... Já não há respeito neste mundo...
Agradeci a precisão. Como era lógico e natural, a Senhora não podia
compreender quanto era importante para mim a exactidão, a milimétrica
exactidão, em quanto dizia respeito a seu Filho. E embora o facto de
trocar a palavra escrever por pintar possa ser considerado como banal,
não o quero passar por alto. A razão não é tão banal... Encontrávamonos
em Abril de 30. Tinham decorrido vinte e um anos desde a criação
do Pai Nosso. Se uma das protagonistas do importante acontecimento
não fixava com nitidez os referidos pormenores, que havia a esperar
dos chamados evangelistas, que se aventuraram a redigir as suas
recordações e as de terceiros muitos anos depois?
..Muito bem, pôs-se a escrever... Esta descarada e eu lidávamos
junto da lareira, preparando a ceia. E os mais pequenos, se bem me
lembro, brincavam lá fora ou talvez no terraço, com as caixas de areia...
Maria, reservada, franziu as sobrancelhas e, abrindo as mãos
interrogou a filha com o olhar. Mas Miriam, maliciosamente, fez-lhe ver
que a sua memória não chegava tão longe.
- De súbito, Ruth, que apenas contava seis meses, começou a chorar.
Levantei os olhos e vi como Jesus encostava o berço à mesa. Sorriu-me
e, cantarolando, prosseguiu na sua escrita, ao mesmo tempo que
embalava a esquilazinha. Era matemático.
Quando alguém a embalava, a espertalhona parava logo com o
choro... E assim, inclinado para esta mó, embalando o berço com a mão
direita, entre a gritaria da gente miúda e o lidar de pratos e de vasilhas,
deu forma àquela maravilha..: Um momento de silêncio antecedeu a
qualificação certa. E os três meditámos naquela cena. Como é simples,
por vezes, a gestação das grandes obras!
- Acabada a ceia pediu a atenção geral e, carinhoso, leu-nos a
oração. Os mais pequenos Judas, Amos e Ruth adormeceram nos
braços dos irmãos. E em paz, à trémula luz de uma candeia como esta,
meu Filho foi lendo, comentando e respondendo às dúvidas de todos
nós...
A Senhora vacilou. E os lábios tremeram-lhe, vencidos por uma
melancólica tristeza.
- Foi formoso, Jasão enalteceu Miriam, enquanto escondia entre as

suas as longas e crepusculares mãos da mãe. - Formoso, embora não
compreendêssemos...
- Porquê? - intervim, sem reflectir.
- Ele falava e dizia coisas estranhas, quase proibidas pela Lei.
- Por Deus animei-a -, faz com que eu participe dos seus pecados...
A rapariga sorriu, divertida com alguém que também não cedia com
facilidade.
- Foi recitando o que escrevera e... mas melhor será que escutes.
Fechou os olhos e foi recordando.
- Pai Nosso...
E fixando os nossos olhos assombrados esclareceu: Porque Ele nos
criou em verdade, como a vaga que, sem se soltar, se solta do mar... -
Que estás nos céus...
E piscando-nos um olho apontou para o peito de Tiago. E disse: Nos
céus do coração. Santificado seja Teu nome...
E todos assentimos. E ele, porém, sem deixar de sorrir, negou com a
cabeça. E elucidou: Santificado, não só porque a Lei o ordene.
Santificado porque nunca dorme. Santificado porque nunca fere.
Santificado porque, agora, certamente se sorri ante os problemas de
mãe Maria e deste pobre carpinteiro...
A Senhora lançou-me um olhar penetrante. Aquele verde-erva teria
sido bastante para iluminar a sala.
- Venha a nós o Teu reino...
E Tiago interrompeu-o: Será que Deus é rei? E meu Irmão,
apontando para o pátio, levantou a voz. E disse: O único, ouçam-me
bem, capaz de criar o vermelho de uma rosa. Poderias ser tu Tiago, ou
tu, Miriam, ou tu, José, a conceber a geometria das estrelas?
Ninguém replicou. E com uma convicção que causava medo,
sentenciou: Pois esse é o reino de Nosso Pai: o da beleza visível e
invisível. Beleza invisível, interrompeu Simão, que com os seus sete
anos era tão irritantemente curioso como Jesus.
ASsim, pequeno: a que se adivinha por baixo da justiça; a que um
beijo de amor contém; a dos homens que nunca exigem; a que oferta ao

mundo as suas colheitas; a que concede antes que os lábios se abram
para rogar. Esse é o nosso reino... E faça-se a Tua vontade na terra e
nos céus... Esperou um momento. E em plena expectativa anunciou o
que menos imaginávamos: Já sei que, por vezes o Pai dos Céus parece
portar-se como se tivesse partido em viagem... Não temais: é o único
que nunca viaja...
Nunca?, perguntou Marta, de olhos escancarados. Isso não é
verdade... E que me dizes de Moisés? Não viajou com ele pelo
deserto?
Surpreendido, Jesus rendeu-se à candura de minha irmã.
O que quero dizer, menina perguntadora, é que a nossa vontade
nem sempre coincide com a Sua. Ele, porém, como a mãe Maria, sabe
bem o que é bom para ti. Fazer a vontade do Pai sempre, a cada
instante, ainda que não a compreendamos é o pequeno-grande
segredo para viver em paz.
E meu Irmão continuou: O pão nosso de cada dia, nos dai hoje...
Mas, quem é que o dá: mãe Maria, tu ou Deus? Tiago, sensato e
racional nunca teve papas na língua. - Mamã Maria e eu,
naturalmente... porque Ele deu-nos primeiro.
O argumento não satisfaz os seus onze anos, e meu Irmão
acrescentou, solícito:
O pai é sábio. Conhece cada um dos seus filhos pelo nome. E
prepara quanto é necessário para que, na forma de trabalho, de sorte
ou de casualidade, nem uma só das suas criaturas fique desamparada.
A cobiça, a ambição e a usura, meus queridos, não são só pecados
contra os homens. São tolices, muito próprias dos que esqueceram ou
nunca souberam que têm um Pai...
imensamente rico.
E perdoa as nossas dívidas?
Jesus disse: Principalmente, as que ninguém conhece. E tu atrevime
a perguntar-lhe esclareceu Miriam, também tens dívidas para com o
pai? Pôs-se muito sério. E assustei-me.
Tantas quantas as aparas da minha oficina...
Mas ninguém acreditou, porque aquelas aparas estavam molhadas

com o suor do seu rosto. E é difícil encontrar maldade em alguém que
tudo antepõe ao seu interesse.
E não nos deixes cair em tentação.
Baixando o tom de voz fez-nos participar noutro segredo: ...Não na
tentação de violar o sábado ou as quase sempre interesseiras leis dos
homens. Dizei melhor: Não nos deixes cair na tentação de te esquecer,
Pai dos céus. Se o pior dos pecados é subestimar ou ignorar os que nos
deram a vida terrena, que espécie de afronta será renunciar ao Pai dos
pais?
Depois de conhecer esta esquecida passagem da sua vida, mais me
convenci de que Jesus, desde muito jovem e contrariamente à imagem
oferecida pela história, se manifestou como um rebelde.
Algo assim como um anarquista dos conceitos. As suas doutrinas
revolucionárias do período de pregação chegaram aos tectos das leis e
instituições judaicas. Mas, como as trepadeiras das paredes da sua casa
de Nazaré, tinham crescido e lançado raízes muito tempo antes. Eis aqui
uma justificação mais que bastante para ter exigido aos evangelistas o
relato completo da sua vida.
E desconfiado, como se não tivesse ouvido Miriam, perguntei de novo
pelo paradeiro da famosa tábua de cedro, com o Pai Nosso original. A
intuição pôs-me de sobreaviso. Os olhares que as duas mulheres
trocavam deu-me que pensar. Teria sido, realmente, queimado pelo
Mestre?
- Não sabemos... Foi tudo destruído teimou a filha mais velha em
tom menos convincente. - Pelo menos, ninguém a voltou a ver.
Interessante. Muito interessante.
O final daquele ano e o seguinte poderiam ser considerados como
definitivo e sempre conflituoso salto da adolescência para a juventude.
Mercê das explicações minuciosas dos que compartilham o seu tempo e
o seu coração pude alinhavar este retalho da vida de Jesus de acordo
com o seguinte esquema: Conforme foi vivendo os quinze anos, o
paciente carpinteiro entende e aceitou que, apesar do seu apelo íntimo,
devia suportar primeiro o duro encargo da sobrevivência dos seus.
Essa, sem dúvida, era a vontade de seu Pai dos Céus.

Ao mesmo tempo, no natural despertar da virilidade, o jovem viu-se
sacudido por novos ventos. Estava a afastar-se da margem da
puberdade para desembarcar no pedregoso escarpado dos adultos.
Exactamente como os jovens de hoje, e de sempre, sentiu-se só,
desamparado, incom preendido, sonhador, inseguro e especialmente
sensível. E como eles, durante meses, fez do silêncio e da solidão, no
Nebi, o seu verdadeiro refúgio. Como tantos outros homens em
projecto, esquivou-se às insistências bem-intencionadas de sua mãe,
que não o entendia.
- Nunca soube a razão daqueles longos passeios pela colina
confessou Maria, com desolação idêntica à das mães que hoje podem
recorrer a um psicólogo. - Para mim, era apenas um menino... Desejava
protegê-lo, mimá-lo... Ele, porém, arisco, evitava-me. E o que era pior,
raramente me abria o coração.
Muitas vezes me perguntei se a necessidade de trazer dinheiro para
casa arruinando assim os seus projectos de estudo em Jerusalém não foi
a causa do seu mutismo...
Enganava-se, obviamente. Como na actualidade, o coração daquele
jovem era mais cristalino e generoso do que nós adultos, transformados
pela experiência, costumamos imaginar.
Simplesmente, aquele era o processo a seguir: a descoberta da vida,
como o ferro na forja, é geralmente penoso. E raro é o ferro que, em
plena incandescência, manifesta a sua dor vociferando contra o ferreiro.
Jesus, por puro instinto humano, foi aprendendo que só os êxitos
parciais e o contentar-se constituem as chaves de horizontes mais
prometedores. Como disse, Maria enganava-se. Seu Filho amava-a
profundamente. Talvez com mais intensidade do que nunca. Nos jovens
de nobres sentimentos, embora não cheguem a exteriorizá-los, uma
tragédia ou um revés familiar purifica os seus afectos. Mas também
seria justo compreender a sua luta e inquietação íntimas. Como todo o
homem de quinze ou dezasseis anos, Jesus tinha projectos. Um deles,
especialmente, o preocupava. E tal como veria a sociedade do século xx,
teve de aprender a lição da paciência.
Tanto que, contrariamente ao que hoje se repete com demasiada
frequência, aquele rapaz não viu diminuído o seu direito a assumir as
próprias responsabilidades. Maria, ainda que forçada pelas

circunstâncias, viu-se livre daquele erro em que costumam incorrer os
pais de hoje: afastar os filhos de todo o género de responsabilidades.
Jesus, -felizmente para Ele, recebeu e aceitou a responsabilidade de
uma família.
A obrigação se me é lícito dizer, excessiva para os seus parcos meios.
A sua força moral nem maior nem menor que a de qualquer jovem
fez o resto. Quanto estamos perdidos em relação ao poder espiritual
dos novos homens! E como se desperdiça aquele tesouro, vivo em todos
os jovens, pelo medo dos velhos homens, que não se lembram das suas
etapas de juventude! Assim entrou o Filho do Homem no ano 10, o do
aniversário dos seus dezasseis anos: inquieto, responsável e confiante.
Compreendo que a fase selvagem e escondida da vida só pode ser
evitada com um suave e tranquilo caminhar.
Replicando sem replicar. Deixando fazer, sem deixar de fazer.
Sorrindo quando ninguém sorri. Hoje diríamos: Caminhando com as
mãos nas algibeiras. Só assim se pode esperar a graça do pensamento
criador. Se os Evangelhos, embora deformados e pouco esclarecedores,
reflectem a imagem de um Homem submetido a duras provas, a sua
juventude não lhe ficou atrás. E embora o repetisse até se cansar o
Filho do omem não deve ser tomado como exemplo, - quem isto
escreve, desobedecendo ao seu conselho, atreve-se a recordar aos
jovens insatisfeitos ou magoados que houve uma vez outro jovem que
não se revoltou contra a sábia, ainda que incompreensível, violência
do destino. E carregou uma responsabilidade de que hoje faria
empalidecer muitos.
Quando me interessei pelo seu aspecto físico, o que poderia parecer
frívolo, a sua irmã Miriam tomou a iniciativa, ante o olhar agradado de
sua mãe:
- Belo, Jasão!... Belíssimo!...
Compreendi o seu fervor exagerado embora seja justo reconhecer que
o Galileu, de um prisma claramente estético, era um jovem muito
próximo da perfeição.
.. Nesse ano fez-se homem... em todos os sentidos.
Compreendes-me?
Maria, afogueada, negou com a cabeça. Gesto tão subtil que quase

não o notava. Interrompendo Miriam, interroguei Maria com um
levíssimo movimento dos dedos. Só consegui ruborizá-la até às
sobrancelhas.
- Foi antes... - replicou, quase para consigo.
Ficou claro. E a filha prosseguiu com o seu particular retrato de Jesus.
Um esboço que não se afastou excessivamente da verdade:
. Era viril. Musculoso. Muito alto para a idade. A barba e os pêlos
dos braços eram dourados. E os olhos, Jasão... sempre doces mas
trespassando como espadas. À luz do dia ficavam claros como o mel.
Um sorriso seu era como o calor no Inverno.
Mas o que punha as jovenzinhas loucas eram as pestanas...
- E não esqueças a voz reforçou Maria.
- Sim, mas por aquela altura mudou. Em casa tomavam-no por...
- Por quem?
Miriam sorriu, convencida de que, no fundo, todos os homens são
deliciosamente ingénuos.
- Ao princípio parecia sair de uma cripta. Depois, estabilizou, grave e
musical. Passava pela aldeia como a brisa fresca, despertando carinho,
admiração...
- E inveja rematou a Senhora, com uma sinceridade muito de
agradecer.
- Foi um jovem saudável?
A pergunta ofendeu as mulheres.
- Duro como o granito lançou-me a mãe à cara -... apesar dos
pesares.
- Não entendo.
- Filho, às vezes pareces tolo!
E recuperando o sorriso fez-me ver que a escassez de dinheiro não
lhes permitia grandes luxos na dieta diária.
- Carne, uma vez por semana e nem sempre. Leite em abundância.
Pão de trigo ou de cevada, conforme... Legumes, hortaliças e fruta de
acordo com as épocas, e as minhas sobremesas: o fraco de Jesus.

- E peixe?
- Menos do que o aconselhável. O transporte desde o yam tornava-o
quase proibitivo. Só quando Ele começou a ir ao lago na companhia dos
meus irmãos o começámos a comer com mais regularidade.
Devo esclarecer que o meu esforço para esmiuçar a dieta do jovem
Jesus não era orientado unicamente por um interesse documental. Uma
informação pormenorizada dos alimentos que ingeria regular e
habitualmente podia proporcionar a Cavalo de Tróia um quadro
esclarecedor das possíveis deficiências nutricionais e metabólicas do
Filho do Homem, se é que as teve. Nas análises efectuadas por altura
da paixão emorte, as notícias neste sentido tinham sido muito
tranquilizadoras.
Mas; mesmo assim, era conveniente ter-se a certeza... na medida do
possível. Pois bem, com base nos dados obtidos, considerando a sua
idade (quinze anos), pelo aproximado (sessenta e seis quilos), estatura
(à volta de 1 metro e 76) e actividade exercida por aquela data
(intensa), os resultados não poderiam ser melhores: nem sombra de
desnutrição e um mais que aceitável funcionamento metabólico. Tanto
em vitaminas lipossolúveis como hidrossolúveis e minerais, a dieta era
correcta (1). Não o vou ocultar.
*1 A ajuizar pelos alimentos recebidos na sua infância e juventude, o quadro
sempre estimativo dos principais micronutrientes (vitaminas e minerais) de Jesus
de Nazaré foi classificado como satisfatório. Eis uma síntese dos resultados obtidos
pelos especialistas:
Vitamina A: proveniente, provavelmente da manteiga, ovos e vegetais de folhas
verdes ou amarelas que ingeria com regularidade. Uma deficiência, teria provocado
cegueira nocturna, hiperqueratose perifolicular, xeroftalmia e queratomalacia:
hipertrofia da pele, opacidade e amolecimento da córnea, respectivamente.
Vitamina D: recebida através do leite e manteiga, ovos e radiação ultravioleta.
Regulou a absorção do cálcio e fósforo, além da mineralização e maturação do
colagénio ósseo. A sua deficiência teria provocado raquitismo (por vezes com
tetania).
Grupo da vitamima E: assimilados por Jesus da Nazaré através do trigo, óleos
vegetais, ovos, leguminosas e verduras foliáceas. Poderia originar hemólise de
glóbulos vermelhos, (nota interrompida.)

Para os especialistas e para quem isto escreve, a excelente saúde do
Mestre sempre de um ponto de vista dietético foi algo de
incompreensível. Explico: entre as classes sociais judaicas não
abastadas, ou seja, a imensa maioria, a dieta diária pecava por
insuficiente e desequilibrada. O raquitismo, deficiências digestivas,
circulatórias, problemas nervosos, renais, atrasos no crescimento, etc.,
tinham a sua origem, em grande medida, na ausência de vitaminas e de
minerais. A carne e o peixe, por exemplo, salvo em determinadas
regiões, eram comidos lá muito de longe em longe. E a família de
Nazaré,
*(continua a nota.)
depósito de ceróide em músculos e creatinúria (presença de creatina na urina).
Ácidos gordos essenciais (linoleico, libolénico e araqmdónico); extraídos de óleos de
sementes de vegetais. A sua ausência teria interrompido o crescimento, provocando
também dermatoses. Ácido fólico: contido em vegetais frescos de folhas verdes e
frutos. Uma sua deficiência é causa de pancitopenia ou escassez de todos os
elementos celulares do sangue.
Niacina: obtém-se do peixe, carne, leguminosas e cereais de grão integral. Entre
outros problemas, uma sua deficiência teria sido motivo de pelagra: síndroma
caracterizado por transtornos digestivos, dores raquidianas, fraqueza e,
posteriormente, eritema e alterações nervosas.
Riboflavina (vitamina B2): provém do queijo, leite, carne, ovos e fígado. A
ausência teria originado em Jesus a afecção dos lábios, a vascularização corneal e
dermatose sebácea, entre outros problemas.
Tiamina (vitamina B1): o jovem Jesus obteve-a dos cereais, carnes e nozes. Uma
deficiência teria provocado insuficiência cardíaca. Síndroma de Wernicke-Korsakoff
ou estado de debilidade mental, neuropatia periférica, etc.
Vitamina B6 (piridoxina): este grupo encontra-se nos cereais, leguminosas e peixe
que Jesus recebeu. A sua ausência poderia ter-lhe causado, entre outros
transtornos, convulsões durante a lactação, anemias, neuropatia e lesões cutâneas
de tipo seborreico bem como um estado de dependência.
Vitamina B2 (cobalamina): as fontes principais, onde o organismo do Mestre as
foi buscar, foram as carnes, leite, ovos e produtos lácteos. A sua deficiente presença
poderia ser causa de anemia perniciosa, sindromas psiquiátricos e ambliopia
nutricional.
Cálcio: obtido por Jesus através do leite, qucijo, manteiga carne, ovos, peixe,
verduras e cereais. Favoreceu-lhe a formação dos ossos e dos dentes, a
coagulação do sangue, a irritabilidade neuromuscular, a função miocárdica e a

contractibilidade muscular.
Fósforo: extraído do leite queijo, carnes, aves, peixe, nozes, leguminosas e
cereais. A sua falta ou escassez teriam originado irritabilidade, transtornos de
cólulas do sangue fraqueza e disfunção renal e do tubo digestivo. Tanto a formação
dos seus ossos e dentes como o equilbrio de ácidos e bases e o componente de
ácidos nucleicos fez-nos suspeitar que entre os onze e os dezoito anos recebeu uma
dicta diária saudável (à volta de 1200 mg).
Iodo: muito possivelmente o seu organismo alimentou-sc à base dos produtos
derivados do leite, peixe, sal iodado e água. Se tivesse tido carência de iodo o seu
organismo poderia ter padecido de bócio simples, cretinismo ou, até, de
surdimutismo.
Ferro: partmdo do facto de que apenas se absorvem uns vinte por cento, pôde
obtê-lo de algumas carnes (rins e fígado) e de determinados frutos e leguminosas.
A sua falta teria afectado a formação de hemoglobina, mioglobina e enzimas.
Magnésio: extrai-se em especial das nozes, cereais e folhas verdes. É. Duvidoso
que Jesus comesse marisco. Este elemento, consumido à razão de uns 400 mg/dia,
permitiria a adequada formação de ossos e dentes, bem como a função nervosa,
contracção muscular e activação enzimática.
Zinco: à razão de uns 15 mg/dia, pode ser obtido, em especial dos vegetais,
favorecendo as funções de desenvolvimento de enzinas e de insulina, cicatrização
de feridas e crescimento em geral. (N. Do M.).
recursos económicos passaram por grandes altos e baixos, não foi
uma excepção. Em boa lógica, reflectindo de um ângulo estritamente
humano e científico, o satisfatório desenvolvimento físico de Jesus (que
chegaria a 1 metro e 81 de estatura) foi anormal e ilógico. Enquanto
que o leite, produtos derivados do mesmo (queijo, manteiga, etc.)
verduras e frutas, cereais e ovos lhe foram fornecidos ao longo da sua
infância e juventude numa proporção e frequência aceitáveis, não pode
dizer-se o mesmo das carnes e do peixe. Em ambos os casos, um plano
dietético diário básico assinala o consumo, para um adolescente, de
uma ou duas rações, com uma média de noventa gramas por ração.
Jesus de Nazaré, segundo todos os indícios, tal como a restante
comunidade em que lhe coube criar-se, só pôde ingerir uma ou duas
rações por semana (por vezes nem isso). Pois bem, essa alarmante
carência de carne e de peixe os especialistas bem o sabem teria de
lhe provocar, por sua vez, uma assimilação deficiente das vitaminas A, D,
tiamina, riboflavina, niacina, vitaminas B6, B 2, biotina, sódio, cálcio,
fósforo, ferro, iodo e cobre. Por outras palavras: uma carência tão

gigantesca quanto perigosa, que, de acordo com as leis da Medicina,
poderia ter formado um Jesus diferente daquele que todos imaginámos
e daquele que na verdade foi.
Ante semelhante caso de excepção são lícitas duas possíveis
explicações. Uma: que a sua restante dieta e a própria Natureza
equilibrassem o desajuste evidente. Outra: que o seu organismo se
encontrasse salvaguardado de forma extraordinária... Seria lícito mesmo
uma terceira explicação: a sábia simbiose das duas primeiras. A primeira
é racional e científica. Em contrapartida, a segunda e a última não o são.
Porém, será que nesta altura me poderia surpreender? Em que lugar
tinha ficado o meu espírito científico perante a realidade do túmulo vazio
ou das frequentes aparições? Que podia dizer a ciência ante o seu
corpo glorioso? Pois bem, as nossas surpresas ainda mal tinham
começado...
Dois anos depois da morte do pai, o carpinteiro de Nazaré começou a
impor-se no seu ofício. Em toda aquela zona poucos jugos, arados,
alfaias de lavoura e utensílios de madeira tinham a perfeição que lhes
sabia imprimir aquele Jesus de dezasseis anos. Além de cumprir as suas
obrigações, sustentando tão numerosa prole, o jovem artesão gostava
do seu trabalho. Tiago, seu irmão, que passaria muitas horas a seu
lado, ajudando-o, era um dos que mais e melhor o conheceu neste
interessante capítulo da chamada vida oculta. Um capítulo em que, por
pouco que se aprofunde, surge já o Jesus do futuro. A nula informação
dos Evangelhos neste sentido privou a humanidade crente de alguns
episódios dignos de menção. A história imaginou o Jesus carpinteiro
como um operário mais ou menos rotineiro, obrigado pelo morgadio a
dedicar-se a um ofício obscuro e aborrecido. Lamentável erro.
Embora seja verdade que desde os cinco anos começou a lidar à
sombra de seu pai com vigas, ferramentas, aparas e madeira de muito
diversa natureza, Jesus tinha a capacidade nata de se identificar e de
se fazer uno com o que tinha entre mãos.
Neste sentido, a madeira suponho que não foi por casualidade
- constituiu durante anos um íntimo e gratificante modo de se exprimir
e de exprimir o que pulsava no seu sensível coração.
Jesus encontrou a cada passo deste belo ofício desde a simples tala

aos mais belos acabamentos um desafio a si mesmo. Foi e não foi um
artesão que trabalhava por encomenda.
Fazia o que lhe pediam, mas o que muitos poucos souberam é que em
cada banco, em cada arca, em cada jugo, em cada porta ou cabo de
enxada que rematava ficava um momento da sua alma. O Jesus
ebanista e o Jesus fabricante de pesadas vigas para terraços acariciava
a madeira, respirava ao ritmo da serra e da garlopa, inspirava ao
mesmo tempo que cortava e escutava o ruído das goivas. Sabia que a
madeira tem coração e, consequentemente, falava-lhe. Talvez possa
parecer uma figura de retórica. Eu não creio. Aquele carpinteiro, pouco a
pouco, chegou a descobrir no duro e impermeável roble a natureza de
muitos seres humanos: granítico por fora e de fibras longas, rectas e
flexíveis, fáceis de manejar. E da nogueira aprendeu também que,
apesar da sua resistência ao machado, o seu coração era uma malha de
ouro. Como sucede com outros homens viu na avelaneira uma madeira
flexível, tenaz... mas de escassa duração. Aquele coração não dava fogo
nem cinza...
Talvez imaginasse a oliveira como aquelas pessoas que, torcidas pela
dor e pelas misérias, precisam de uma secagem especialmente
delicada...
Pena que os evangelistas não nos tenham alegrado com aquele
carpinteiro que fez da verticalidade da madeira um esperançoso e
horizontal caminho!
Não, Jesus não foi um aborrecido artesão. Como sucederia com os
ofícios que iria desempenhando, foi humilde na aprendizagem e alegre
na maturidade. Equilibrou a sua dureza com uma permanente
descoberta. Cada nova encomenda era um mistério, um enigma, um
desafio...
Mercê da magia do seu pensamento, o luto férreo da família de
Nazaré foi sublimar-se numa quente recordação. Apesar das
dificuldades e do seu aparentemente frustrado grande plano, a
serenidade acabou por regressar à casa da Senhora.
E foi naquele ano 10 que segundo confissão de Tiago tomou uma
das suas primeiras e mais importantes decisões. Uma determinação que
tocava o seu futuro e o dos seus. Uma resolução que não compartilhou

com sua mãe por que, entre outras razões, dificilmente o teria
compreendido. Jesus, consciente da sua grave responsabilidade para
com a família de que era pai e principal suporte, decidiu esperar...
- Meditara longamente explicou o irmão. - Aguardaria que todos
estivéssemos em condições de nos bastarmos a nós próprios. Então, só
então, empreenderia o seu ministério como divulgador da verdade.
- Que verdade? - perguntei, simulando total cepticismo.
- A sua replicou, acertadamente. - Pelos dezasseis anos, embora o
seu pensamento se encontrasse ainda confuso, tinha uma ideia muito
clara do Pai Celestial. Mas não me perguntes como é que tal ideia
lançara profundas raízes na sua inteligência. E ninguém foi capaz de o
dissuadir: nem mestres, nem sacerdotes, nem amigos, nem sequer
Maria... Pobre mãe Maria! Quanto padeceu com os seus silêncios... E
esse, Jasão, foi o sonho e o ideal que o susteve durante anos: libertarse
dos compromissos familiares para anunciar ao Mundo que existe um
Pai que nada tem que ver com o Javé dos nossos antepassados.
Dito assim, contemplado à distância de dois mil anos, falta o rigor, e
corremos o risco de minimizar o que se passara no coração daquele
Homem. Jesus controlou, deteve, guardou o seu mais belo projecto
durante mais de doze anos. Se alguém se detém a pensar no que são e
no que podem significar doze longos anos de trabalhos, e numa aldeia
como Nazaré, não pode deixar de reconhecer que a sua vontade,
paciência e saúde mental eram dignas de um colosso. Para dizer a
verdade, acabo de cometer uma imprecisão. Não foram doze os anos
de espera, mas catorze. Terminados aqueles 4380 dias (doze anos),
uma vez que seus irmãos contraíram matrimónio e orientaram as
respectivas existências, o Mestre abandonou a Galileia... para viajar. E
fê-lo durante dois anos. No total, portanto, o aperfeiçoamento da sua
missão exigiu mais de cinco mil dias.
Evidentemente, o aparecimento em público do Filho do Homem não foi
algo de repentino, nem fruto de uma iluminação súbita, como alguns
podem crer. No desenvolvimento do nosso terceiro salto iríamos
descobrindo o apaixonante prolegómeno que constituiu o fundamento
da sua vida de pregação.
Que demolidora lição para os impacientes! Durante aquele longo

período, à excepção de Tiago e do seu amigo íntimo, Jacob, ninguém
soube do sonho de Jesus. Mais, ligada à rotina da casa, a Senhora
chegou a duvidar do carácter messiânico de seu Filho. Se explorarmos a
situação com frieza e detidamente, a atitude da mãe de Jesus é
perfeitamente racional. Doze anos é muito tempo, mesmo para a
Senhora e as suas convicções patrióticas. Doze anos em que Jesus se
negou, sistematicamente, a partilhar os ideais nacionalistas de Maria.
Doze anos em que nunca falou como profeta. Doze anos sem efectuar
um só prodígio. Doze anos de silêncio, de aparente monotonia na sua
oficina... Que podia pensar a desolada mulher?
E no entanto, durante aquele tempo, como irei revelando, Jesus
passaria pela sua grande metamorfose. O Jesus homem, a meio de
uma terrível luta interior, descobriria que, além de irmão, era parte e
todo daquela divindade. Algo que o atingiria no seu âmago. Algo que,
naturalmente, a Senhora só veio a saber com a Ressurreição... e sem
muita clareza. Não era de estranhar, portanto, que o Filho do Homem se
refugiasse no silêncio. Nem sequer os seus mais íntimos podiam
compreendê-lo e compreender aquilo a que estava destinado. Se
alguma vez houve um homem soLItário, esse homem foi Jesus de
Nazaré...
É conveniente observar que, embora sabendo que não era o Messias,
a partir daqueles anos de juventude, Jesus escolheu a atitude de não
enfrentar sua mãe. Deixou-a sonhar. Respeitou a sua errada crença e
esperou. De que tinham servido os seus desmentidos anteriores?
Apenas para avivar a discórdia e, em suma, para atormentar Maria e os
poucos familiares que acreditam na complexa história do anjo, incluindo
os seus seis irmãos adultos. Porque, se os choques mais azedos foram
com sua mãe, com os irmãos também se viu forçado a discorrer e a
discutir. Era lógico. Desde meninos que a Senhora os tinha feito
participar no grande segredo de família: o irmão mais velho era o Filho
da Promessa. E cresceram naquele ambiente, convencidos de que Jesus
trazia o sinal do trono de David e lançaria ao mar os invasores. A sua
confusão não teve limites, ao verem que o primogénito recusava as
armas e a violência.
Como era possível que não se sentisse orgulhoso ante o prometido
messianismo? Tinha de estar louco para negar que fosse o Messias. Por

isso, feitos os dezasseis anos e depois de adoptar a grande decisão de
aguardar a sua hora, o carpinteiro selou os lábios. Só Jacob e Tiago
conheceram os seus pensamentos e inquietações. Mas também não o
compreenderam.
O ano 10 foi também o da entrada de Simão na escola. E no lar
levantou-se um novo problema: a educação das irmãs. Que iam fazer
com Miriam e Marta? A primeira tinha feito onze anos. A segunda teria
sete em Setembro. A Senhora e Jesus discutiram o caso...
- Desde o começo concordámos afirmou Maria sem dissimular o seu
agrado. - Também as meninas tinham direito a estudar e a conhecer a
Lei. O problema era como o fazer.
Não teve de explicar-me o motivo. Naquela sociedade, como creio ter
informado, as mulheres eram cidadãos de segunda ordem. Eram
educadas para o casamento, o trabalho e a submissão. Deviam
fidelidade absoluta ao marido, embora não pudessem exigir o mesmo
do esposo. Um dos mandamentos de Javé foi manipulado pelos
doutores e exegetas, de forma a que pudesse satisfazer o gosto dos
varões. Dizia assim: Não desejarás a casa do teu próximo, nem a
mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu
asno, nem o seu boi, nem nada quanto lhe pertença. (Êxodo xx, 17 e
Deuteronómio v, 21.) Pois bem, os astutos judeus, dada esta prescrição
do Javé bíblico, acharam que a mulher lhes pertencia, tal como um asno,
uma vinha ou umas sandálias. Tão certo era que, quando se efectuava a
venda de um escravo, a mulher deste era incluída na operação, tal como
se assinala no Êxodo (xxI, 3). Num dos escritos rabínicos Menakhoth,
XLIII, proclamava-se com o maior descaramento que todo o homem
devia agradecer diariamente a Deus que não o tivesse feito mulher,
pagão ou proletário.
De um ponto de vista legal, a mulher recebia a consideração de menor
de idade, quer dizer, irresponsável.
Consequentemente, qualquer acordo, convénio ou negócio que
pudesse efectuar ou estabelecer podia ser reprovado pelo marido.
Nesse caso, a parte aceitante não tinha direito a reclamar. Eram
qualificadas como mentirosas por natureza, não tendo direito a herdar
por parte do pai e também pela do esposo. Em boa medida, esta
situação degradante encontrava-se justificada pelos sagrados textos

bíblicos: lamentável antologia da misoginia. Raro era o profeta que não
tivesse arremessado os seus dardos contra as mulheres... Isaías chamalhes
voluptuosas, perversas e ridiculamente vaidosas.
Amós qualifica-as de cruéis. Quanto a Jeremias e Ezequiel, para não
alongar tão lamentável lista, consideram-nas cheias de duplicidade.
Alguns rabis asseguravam que entre os homens que não veriam a
Gehena (o inferno) se encontravam os que tivessem tido na terra uma
mulher má: teriam cumprido o seu castigo antecipadamente...
Este desprezo pela mulher repercutia-se, logicamente, no capítulo
religioso e do ensino, para dizer a verdade, se confundiam num todo
único. Em relação aos preceitos da Tora, a regra seguinte esclarece a
situação: Os homens são obrigados a todas as leis vinculadas a um
determinado tempo; as mulheres, pelo contrário, delas estão libertas
(uidr, 17 e Sota, 11. 8). Por outras palavras: não estavam sujeitas a
recitar o Schema, como também não eram obrigadas a ir em
peregrinação a Jerusalém, durante as festas da Páscoa, do Pentecostes
ou dos Tabernáculos. Estavam livres de assistir à leitura da lei, habitar
nas tendas e agitar o lúlab durante a festa dos Tabernáculos, fazer soar
o sopar no dia de Ano Novo, ler a me gillah (o livro de Ester) na festa
dos Purim, levar as filactérias ou apresentar riscas verticais nos vestidos.
O seu estatuto na legislação religiosa surge perfeitamente
configurado numa fórmula que os sacerdotes se encarregavam de
repetir sem cessar: Mulheres, escravos [pagãos] e meninos [menores]; a
mulher, tal como o escravo não judeu e o menino pequeno, tem sobre
ela um homem como dono. É por isso que, do ponto de vista religioso se
encontra em inferioridade perante o homem (Ber., IiI, 3 e Sukka, II, 8).
Os seus direitos religiosos, efectivamente, tinham sido violenta e
injustamente reduzidos. Podiam entrar no grande templo de Jerusalém,
sim, mas só no Átrio dos Gentios, entre os pagãos, cambistas,
traficantes de todo o género e prostitutas e, no Átrio chamado das
Mulheres. Durante a purificação mensal era-lhes terminantemente
proibido o acesso ao Templo: por espaço de quarenta dias depois do
nascimento de um varão ou oitenta se se tratasse de uma menina.
Também o ritual da imolação não era costume entre as mulheres de
Israel, e se alguma vez recebiam autorização para sacudir as porções
nos sacrifícios ou impor as mãos sobre as cabeças das vítimas, era única

e exclusivamente para as acalmar (Hag., 16 b). E já não era mau que o
Deuteronómio (31, 12) exprimisse com clareza que as mulheres e os
meninos deviam congregar-se, tal como os homens, perante Javé, para
escutarem a sua palavra. Isto pressupunha a possibilidade de entrarem
nas sinagogas ainda que, isso sim, separadas por uma grade ou
barreira... Chegou até a construir-se uma tribuna especial, com uma
entrada particular (1). Nem é preciso dizer que fazer uso da palavra
nas sinagogas era inconcebível. Uma mulher a ler a palavra de Deus?
Teria sido como imaginar um cão a fazer profecias... Em contrapartida,
era nos seus ombros que recaía todo o peso do trabalho no lar, tecer ou
atender a uma multidão de fainas agrícolas. Eram elas as responsáveis
pelo fabrico diário do pão. Deviam triturar o grão nos moinhos caseiros,
transportar a masseira com a massa fermentada e proceder à cocção.
Um trabalho duro, que exigia considerável força e resistência físicas. E
eram as mulheres que, habitualmente, tinham a seu cargo o transporte
quotidiano da água, carregando com toda a espécie de vasilhas. Enfim,
eram elas que lavavam, cozinhavam, amamentavam, vestiam e
limpavam os filhos, costuravam, tratavam da limpeza geral da casa,
vigiavam pela sagrada chama, que tinha de arder todo o sábado,
serviam à mesa o vinho ao marido e eram, até, obrigadas a lavar-lhe os
pés. A sorte das meninas judias, em geral, estava
*1 Pai Natal proporcionou-nos a seguinte informação: A sinagoga mesopotâmica
de Dura-Europos, descoberta em 1932, não tem tribuna., Segundo Kraeling, nela
temos um tipo de sinagoga mais antigo que o da Galileia, construída entre os
séculos III e vII,. Watzinger, por seu lado, data da era helenística a sinagoga com
tribuna, apoiando-se na descrição do Talmude da sinagoga de Alexandria,
chamada diplostoon. Contudo, não chegámos a descobrir uma só sinagoga com
tribuna. (N. Do M.)
traçada desde o seu nascimento: eram educadas para servir o macho.
Numa primeira etapa, o pai e os irmãos. Depois, a partir dos doze anos
e meio, o marido. E como cantavam as mordazes galileias, nunca se
sabia o que era pior. Falando das galileias, ainda que estas severas e
insultantes leis e tradições rezassem igual para a totalidade do país, na
pátria pequena de Jesus nem tudo era assim tão tenebroso para as
mulheres. Na prática de portas para dentro tanto o homem como a
mulher se deixavam guiar pelo senso comum e, naturalmente, pelo

amor. Só os muito ortodoxos mantinham aquelas diferenças, com o
consequente repúdio e as justificadas troças do resto da população. À
hora da quotidiana e implacável realidade, a mulher como sempre
pela sua intuição, experiência ou bondade, era a que aconselhava e
dispunha.
Nalgumas das casas que cheguei a visitar observei nas paredes, à
maneira dos nossos quadros, tábuas policromadas com inscrições como
estas: Ditoso o marido de uma boa mulher: o número dos seus dias será
duplo. A mulher de valor é uma fortuna. Os que temem o Senhor tê-laão.
E, seja rico seja pobre, o seu coração será feliz. A graça da mulher é
o gozo do marido. O seu saber dá-lhe vigor aos ossos.
Um dom de Deus é a mulher calada e não tem preço a discreta. E não
tem preço a mulher casta. Sol que sobe às alturas do Senhor é a beleza
de uma boa mulher numa casa em ordem. Boa mulher é boa herança.
Não dês saída à água, nem à mulher má liberdade de falar.
A Senhora, pela educação recebida na sua infância e juventude, pelo
seu arraigado respeito à liberdade de ideias e crenças e pelas
circunstâncias relativamente cómodas da sua vida numa Galileia
tolerante e liberal, era um belo exemplo do que hoje se conhece como
feminista. Nunca a vi sair à rua com o rosto coberto, tal como
estabelecia a Lei, ou ruborizar-se por um vizinho ou um estranho poder
dirigir-lhe a palavra.
Cumpria o estabelecido na hora de acorrer aos serviços da sinagoga
mas, naturalmente, não estava de acordo com o sistema,. E sentiu-se
feliz e recompensada quando seu Filho, contra toda a tradição, admitiu
a seu lado um grupo de mulheres que, como os discípulos, o
acompanharam em toda a sua vida de pregação. Por isso, ao levantarse
o difícil problema da educação de suas filhas Miriam e Marta, não
hesitou um instante: Seriam instruídas na Tora... pública ou
secretamente.
Nem sequer à liberal Galileia tinha chegado ainda o perverso costume
grego e romano, de admitir nas escolas as mulheres.
Intrigado, mostrei interesse pelo sentido da palavra pública.
Que quisera dizer a impulsiva Maria com instruir suas filhas de forma
pública.

- Exactamente o que estás a pensar... - respondeu a Senhora.
- Tentar que fossem admitidas na sinagoga...
Miriam acompanhou as suas palavras com indulgência.
- Falei com Jesus e, apesar dos seus sensatos argumentos, caí numa
daquelas crises de teimosia. Porque não dar o passo? Os argumentos
do jovem cabeça-de-casal não podiam ser outros senão os da triste
realidade: Não era o habitual. Mas a mulher, compreendendo que a
justiça lhe assistia, foi animando o Filho. E um belo dia apresentaram-se
perante o hazan, o chefe da escola-sinagoga.
Não quis interrompê-la. Tratava-se, sem dúvida, do saduceu.
- Conversámos, discutimos, e, como é evidente, brigámos.
Aquela víbora...
Tinha acertado. E Maria moveu-se, inquieta, na esteira.
..Aquela cobra torceu-se de riso ao saber das nossas pretensões.
Antes morto, sentenciou, que violar a lei de Moisés. Violar a lei!
Desavergonhado! Se esta aldeia falasse... Era o momento esperado. Ao
mencionar a Lei, eu mesma lha recordei. E disse-lhe o que reza a Tora.
Escuta e diz-me se não tinha razão...
Maria era imprevisível. E, assim, fui todo ouvidos.
..Moisés pôs a lei por escrito e deu-a aos sacerdotes... E deu-lhes
esta ordem: De sete em sete anos, tempo fixado pelo ano da
Remissão, na festa das Tendas, quando todo Israel acorre, para ver o
rosto de Javé, teu Deus, ao lugar escolhido por Ele, lerás esta lei aos
ouvidos de todo Israel. Congrega o povo, homens, mulheres e crianças,
e ao forasteiro que vive nas tuas cidades, para que ouçam, aprendam a
temer Javé, vosso Deus, e cuidem de pôr em prática todas as palavras
desta lei.
E seus filhos, que ainda não a conheçam, a ouvirão e aprenderão a
temer. Javé, nosso Deus, todos os dias que vivais no solo de que vais
tomar posse ao passar o Jordão.
Mais que o conteúdo daquela passagem do Deuteronómio o que me
impressionou foi o facto de conhecer a Tora. Talvez, como outras
mulheres, tivesse sido secretamente instruída em sua casa.

- E, agora, diz-me: encerravam justiça as minhas palavras? Concordei,
como era evidente.
- Pois bem, à medida que recitava a letra santa, o grande velhaco,
que Deus confunda, foi mudando de cor. E do branco passou ao
vermelho e depois ao verde. Alguma coisa tramava.
Meu Filho, conhecendo as suas maquinações, fez-me um sinal para
que acabasse o discurso. Mas Maria, a das pombas, não é mulher a
quem possam impor um injusto silêncio. Aquele saduceu iria ouvir-me até
ao fim. E ao concluir, dirigindo-se a Jesus, com a língua entaramelada
pela ira, balbuciou: Tu e as tuas ideias irreverentes!... Mais valera que
procurasses marido para esta viúva sem tento na língua!
A partir desse momento, aquele ser venenoso nem sequer olhou para
mim. As minhas possíveis culpas caíram nas costas de Jesus. E,
invocando a palavra do Divino, acometeu de novo: Muitos tombaram
ao fio da espada, mas não tantos quantos os que caíram pela língua.
Jugo mal preso é a mulher má... E Jesus, uma vez que ele vazara a sua
peçonha, replicou-lhe com a sabedoria do Eclesiastes: Três espécies de
gente odeia minha alma e a sua vida de indignação me enche: pobre
altaneiro, rico mentiroso e velho adúltero, falho de inteligência.
Deus bendito, o saduceu (altaneiro, mentiroso e adúltero) ficou lívido.
E lançando fel e fogo pelos olhos arremeteu contra meu Filho: Quem
lhe ensinou a Lei? Quem cometeu o sacrilégio de abrir a santidade da
Tora a esta pecadora? Foste tu, messias da madeira? Sabes que
poderia expulsar-te da sinagoga? Mas Jesus, sorrindo com valentia,
disse-lhe algo que então, com o chamariz do Messias Libertador no meu
coração, interpretei de forma errada: Mede bem as tuas palavras,
Ismael.
Também eu, o último, me desvelei, como quem rebusca atrás dos
vindimadores. Pela bênção do Senhor me apressei e como vindimador
enchi o lagar. Olha que não é só para mim que me canso, mas sim para
todos os que procuram a instrução. Deixa esta viúva com a pena da sua
viuvez e não esqueças o que reza a lei que tanto defendes: o coração
obstinado fica carregado de fadigas. E há quem se esgote e se apresse
em benefício da santidade de um livro, chegando tarde à sua própria
santidade. Se para procurar a entrada da justiça na sinagoga pretendes
a minha expulsão da assembleia, não estarás a condenar o justo?

Justo? Atreves-te a proclamar-te Justo? O saduceu, fora de si, tê-loia
fulminado com o olhar. E quando Jesus se preparava para responder
explodiu em lamentos hipócritas: Adula o teu filho e dar-te-á surpresas!
Folga com ele e causar-te-á pesares! Porque tive eu de te instruir?
Esqueceste quem te ensinou? És tu mais justo que o que distribui a
justiça?
Desta vez, meu Filho não permitiu que lhe selasse os lábios.
Não esqueci. Mas não teria vindo da tua mão, se não fosse por
expresso desejo de meu Pai...
- Ismael esclareceu Maria, sem necessidade confundiu as palavras.
José, teu pai, era um homem sem duplicidade, mas brando. Deu-te
liberdade em excesso e é este o resultado: um filho libertino.
Está escrito: o que instrui seu filho, atacou Jesus, fará ciumento o seu
inimigo. E ante os seus amigos sentir-se-á contente. Quanto aos meus
pecados, não esqueças que os rebentos dos ímpios não têm muitos
ramos... E diz-me, acaso as vês neste messias de madeira?
Como te atreves a chamar-me ímpio?, vomitou o sacerdote.
Eu sou a custódia da lei...
O que guarda a lei, desarmou-o Jesus, controla as suas ideias.
As minhas ideias, jovenzinho ingrato e presunçoso, clamou o hazan
atabalhoadamente, nascem da Lei. As tuas, para tua perdição, morrem
na Lei. Sempre te exprimiste como um tolo e só os tolos consolarás. Mas
não te enganes: eu não sou assim. Ismael, disse Jesus com uma
paciência e doçura que me espantaram, tu, agora, tens o coração na
boca. E eu, um dia, ensinarei o contrário, que o coração seja a boca dos
sábios. Algum dia?... Primeiro, terás de aprender a humildade. E,
mesmo assim, quem escutará um esfarrapado carpinteiro? Jasão, tive
de me conter. Ter-lhe-ia arrancado os olhos...
Mas o Filho do Homem começava a brilhar com luz própria. E teve a
resposta merecida: Quem é estimado na pobreza, quanto mais o não
será na riqueza!
Ah, mas tu serás rico!?, troçou o saduceu.
Meu Filho voltou a sorrir-lhe. E apontando com o dedo os céus, tentou
esclarecer a sua ideia de riqueza. Mas a víbora era cega.

A minha riqueza, Ismael, é fazer a vontade do Pai. Quanto maior é a
minha fé nEle, maior será o meu crédito na Terra...
E quanto a aprender a humildade, essa, amigo meu, não se aprende:
nasce-se ou não se nasce com ela. Diz a Escritura: exalta-te com
moderação.
A censura do sacerdote não fez mossa em Jesus. E diz também!,
replicou-lhe, de imediato, avalia-te pelo que vales. Porque, ao que
peca contra si mesmo, quem o justificará? Quem apreciará o que
despreza a sua vida?
E tu, infeliz, em que podes avaliar-te? Indignada, não pude conterme.
E fui eu quem lhe deu a devida réplica: É avaliado pelo amor que
guarda e concede.
Podes tu dizer o mesmo, que só ganhaste a amizade dos sem-amor?
Jesus procurou acalmar-me. Mas, furiosa, atirei-lhe à cara o que todos
pensavam e muito poucos se atreviam a declarar: A tua boca amarga,
longe de multiplicar amigos, só sabe diminuí-los. O teu poder é o do
medo. Sentas-te às mesas das pessoas desta aldeia, mas nunca abriste
a tua bolsa perante a adversidade dos outros. Só tu te avalias,
confundindo o brilho do luxo com o beneplácito divino. Será que não
sabes que o coração modela o rosto do homem? Pois bem, olha-te e
julga...
As minhas palavras, reconheço-o, foram desapiedadas. E Jesus,
puxando por mim, obrigou-me a regressar a casa. A partir daquela
disputa, Ismael, o Saduceu, não parou de intrigar para nos perder. E
minhas filhas tiveram de ser instruídas secretamente. Tiago e Jesus, por
vezes, quando o trabalho lho permitia, foram os mestres.
Jesus de Nazaré mestre. Como é natural, não resisti à tentação e quis
conhecer as características e o estilo de tão singular professor. Houve
unanimidade. O velho e difundido lema dos hazens judeus odeia o seu
filho o que dá paz à vara
- foi fulminantemente reprovado pelo primogénito.
- A vara de avelaneira repetia aos que não partilhavam o seu
método pedagógico pode empunhá-la quem quer que seja. A da
paciência só os autênticos professores.
Os seus ensinamentos a Miriam e Marta, e por extensão a todos os

irmãos, tiveram base comum, as Escrituras. Assim estava fixado pela
tradição e Jesus, sempre respeitoso, não quis afastar-se delas. E
embora a sabedoria fosse a própria Tora, o jovem mestre procurava
alternar as repetitivas recitações dos livros sagrados com incursões às
ciências, como a Geografia, a Matemática, a Astronomia, a História,
para citar alguns modelos. Disciplinas que, naquele tempo, não tinham
nada a ver com a investigação. Pelo menos para os ortodoxos da Lei.
O Talmude regista com precisão: Não faças objecto das tuas
investigações o que é demasiado difícil. Não sondes o que está oculto.
Jesus, como se disse, não era desta opinião. As suas constantes e
inquietas perguntas revelaram-no como um curioso ou, se se prefere,
como um investigador nato.
Chegado a este extremo, é bom que se revele uma coisa que, em
minha opinião, tem um grande interesse. Os ensinamentos do futuro
Filho do Homem a suas irmãs e irmãos põem a claro que pelos seus
dezasseis anos não tinha consciência da sua natureza divina. De
contrário, porque consideraria a Bíblia como fonte de toda a sabedoria?
Para quê ensinar-lhes que seria preciso viver quinhentos anos para
percorrer a distância da Terra ao céu que está imediatamente por cima
de nós? Para quê dizer-lhes que aquele mesmo intervalo separa aquele
céu do seguinte e que aquela é a distância entre as extremidades de
todo o céu, atravessado na sua espessura?
Se Jesus dispusesse da sua memória divina as palavras continuam a
ser uma limitação para que iria ensinar-Lhes que o número de céus é
de sete? A razão é óbvia. O seu combate interior não tinha terminado.
Ele pensava como homem. E como tal aprendera que existem sete céus:
o Pentateuco diziam os rabis -, serve-se de sete palavras diferentes
para se referir ao céu.
Consequentemente ensinavam os hazans -, o número de céus é de
sete. (Paulo de Tarso alude àquele sétimo céu.) Se aquele mestre
chamado Jesus tivesse consciência da sua origem divina, para que iria
afirmar que a Terra, pela mesma razão, era formada por sete camadas
sobrepostas? (Hoje sabemos que os antigos eruditos de Israel não se
encontravam assim tão desencaminhados nas suas apreciações. Alguns
cabalistas dividem até os três elementos em SI-AL-SI-MA-NI-FE. ) - Ele
ensinou-nos o que reza a tradição em redor da criação do mundo. Mas

tinha as suas dúvidas...
Miriam foi sincera. Aquela tradição, recolhida no escrito rabínico Yoma,
LIV, 6, diz que no Templo de Jerusalém se via a pedra que Javé lançou
ao mar primitivo, com a finalidade de que a terra se fosse formando à
sua volta.
.. Disse-nos que aquela era a crença mais espalhada e que devíamos
considerá-la e conhecê-la, embora suspeitasse de que pudesse haver
outra explicação mais lógica.
- E chegou a exprimi-la? - interroguei-a, com grande curiosidade.
- Não. Meu irmão não era como os outros mestres. Quando não sabia
uma coisa confessava-o abertamente. E aquilo não tinha resposta para
Ele.
Também lhes falou da misteriosa linha que rodeia o Universo.
- Efectivamente prosseguiu a irmã mais velha -, a que separa a luz
das trevas. Dela fala o profeta Isaías, quando diz: Lançará sobre ela
Javé as cordas da confusão e o nível do vazio. (Isaías XXXIV, 11) No
capítulo da Geografia, Jesus chegou onde pôde. Os conhecimentos da
sociedade judaica eram mais românticos e nacionalistas que científicos.
Os especialistas acreditavam que o mundo era um plano circular.
(Crença baseada também na Bíblia: Isaías, XI, 22.) E que todo ele se
encontrava cercado de água. (Eroub, XXII, b.) E Deus como testemunha
o Livro dos Provérbios (VIII, 26), senta-se neste círculo, traçado por ele
próprio. Logicamente, Israel ocupava o centro. E muitos rabis
designavam o resto do mundo conhecido como os países do mar.
- Ele transmitiu-nos então o que todos acreditavam: que a nossa
nação era banhada por sete mares: o Grande [Mediterrâneo], o yam
[actual mar de Tiberíades], a Samoconita [o lago Hule], o Salado ou mar
de Sodoma, o mar de Aco [golfo de Aquaba], o Schelyath e o Apameu
(muito provavelmente, referia-se a dois pequenos lagos, já
desaparecidos, situados em terras de Idumeia e aos quais alude
Diodoro de Sicília.] Tomando como referência os textos bíblicos e o que
aprendera das caravanas e viajantes, Jesus atreveu-se a vaticinar que a
Terra era muito maior do que aquilo que oficialmente se acreditava. E
que o número de montes, rios, lagos e animais ia mais além do que a
Escritura enumera. Mas também os aconselhou a serem prudentes ao

falarem do assunto aos seus amigos e companheiros de Nazaré. A
credibilidade do carpinteiro entre as forças vivas da aldeia não era das
maiores...
- Ao estudar o mundo dos animais disse Miriam com nostalgia -, o
nosso querido Irmão falou muito, elogiando a sabedoria de seu Pai dos
Céus. E quase em segredo comunicou-nos que Ele não acreditava muito
na divisão sagrada de animais puros e impuros,. E disse que, por
exemplo, a lagosta e outras criaturas com patas que habitam no mar e
que o livro chama impuras não podiam sê-lo. Em todo o caso, declarou,
dependerá do tempo que mediar entre a captura e o seu consumo.
(Acertadíssimo veredicto do jovem mestre de Nazaré. Num lugar como o
deserto do Sinai, com temperaturas que podiam ultrapassar os
quarenta graus centígrados, a conservação do marisco era
extremamente duvidosa, podendo prejudicar a saúde do povo eleito.
Daí que, com astuta visão sanitária, Javé os incluísse entre os animais
que não deviam ser destinados ao consumo.)
.. E contava-nos histórias.
Ao rogar-lhe que se recordasse, Miriam fitou sua mãe. E a Senhora,
sem hesitar, recordou-lhe a do burro.
- Sempre que a incluía nas suas lições acrescentou Maria com
regozijo -, os mais pequenos acabavam por fugir para a rua à procura
de um burro.
A fábula em questão era a seguinte: Um dia, o asno acorreu à
presença de Deus e apresentou as suas queixas. Não trabalharei para
o homem, dissera, se não receber uma justa compensação. E ameaçou
propagar a sua espécie se o Divino não recompensasse o seu duro labor
com um salário justo. E Deus disse-lhe que satisfaria os seus desejos
quando a sua urina formasse uma corrente capaz de mover um moinho
e os seus excrementos tivessem a fragrância das flores. Daí vem que,
desde então, o burro tenha o costume de cheirar as fezes e urinar muito
tempo.
- E regressavam sublinhou a mãe com os olhos brilhantes,
admirados da precisão de Jesus. E meu Filho divertia-se muito mais que
os seus irmãos.
- Quando se referia aos cães recordou Miriam meu Irmão

incomodava-se... Ele tinha um na horta e gostava dele. Por isso não
aceitava que se fizessem amuletos com os seus olhos, dentes e língua.
Punha-o fora de si...
O aborrecimento daquele grande amigo dos animais era justificado.
Entre os supersticiosos judeus havia a crença generalizada que garantia
que colocando-se a língua de um cão debaixo do dedo grande do pé,
no interior do calçado, pode evitar-se que os cães ladrem,. Outros, com
aquele mesmo fim, confeccionavam amuletos com os olhos de um cão
preto. E se alguém obtinha os dentes de um cão raivoso que tivesse
mordido um homem ou uma mulher e, uma vez atados com couro, os
suspendesse do ombro, podia passear com toda a paz entre uma
matilha de cães raivosos. Naturalmente, nem todos eram tão incautos...
Como professor de matemáticas, Jesus não foi além do estritamente
necessário. Também não eram precisos grandes conhecimentos para a
vida quotidiana numa aldeia como Nazaré: números, operações
rotineiras e elementares, pesos e medidas e um pouco de geometria,
basicamente dirigida para a agrimensura ou medição das terras.
- Era curioso disse Miriam, quase como se falasse para consigo. -
Recordo muito bem os olhos de Jesus quando tocávamos no mundo dos
números. Iluminavam-se. Neles flutuava o amarelo da chama... Todos
sabíamos que o entusiasmavam.
Porém, nunca quis aprofundá-los. Chamava-lhes a correspondência
secreta de seu Pai dos Céus. ,Que quereria dizer?
Calei-me, simulando que o ignorava. Mas quem isto escreve
compreendia já naquele momento que o Mestre dominava também o
prodigioso universo da Cabala. Possivelmente, naqueles anos de
juventude, foram-lhe desvendados os primeiros mistérios. E com o
decorrer do tempo, aquela secreta inclinação do Filho do Homem
chegaria a converter-se numa paixão e fonte de sublimes conhecimentos
esotéricos,. Foi uma pena sempre o lamentei não ter conhecido e
interrogado o enigmático professor de matemática vindo de Damasco,
que um belo dia chegou à aldeia... Porém, ao fim e ao cabo, o que
importava eram os resultados. E esses - sugestivos seriam
descobertos no terceiro salto, (1).
Jesus preocupar-se-ia igualmente com outro capítulo, vital para o

futuro bom desenvolvimento dos seus: os idiomas. O convívio com os
caravaneiros influiu nesta louvável e universal visão do Galileu. Como em
dezenas de costumes do fechado círculo social judeu, o jovem Jesus não
compartilhava a obsessão dos sábios de Israel em levantarem
obstáculos ao progresso. Neste caso, tal modernidade tinha um nome
concreto: o grego. O que ensina seu filho, diz-se em Sota, IX,14, e em
Antiguidades Judaicas (xx, 11), de Josefo, é maldito, tal como o que
come porco,.
O hebreu ou leshon ha kodesh, a língua dos sábios e da santidade
desde que as Escrituras foram redigidas nessa língua, acabou por ser
utilizada fundamentalmente nos ofícios religiosos, nas preces, nos
ensinamentos dos doutores da lei e nas citações de natureza bíblica que
podiam vir a propósito na linguagem diária e coloquial. Qualquer coisa
como o latim escolástico e litúrgico na Idade Média e na actualidade,
respectivamente, e que, para dizer a verdade, só os eruditos usam. A
imensa maioria do povo judeu falava o aramaico. De facto, nas
sinagogas existia quase sempre um targoman ou tradutor, encarregue
de dar a compreender o hebreu das Escrituras às pessoas que não o
entendiam ou o dominavam com dificuldade. O galalaico ocidental
aramaico falado por Jesus e pelos seus era mais cerrado que o
habitualmente falado no Sul de Israel. Embora a comparação não seja
exacta seria um pouco como o inglês de Oxford (Judeia) e o do Texas
(Galileia).
*1 Uma das especialidades, singularmente reconhecida, respeitada e admirada
na sociedade do tempo de Jesus era a do cálculo matemático aplicado à Bíblia.
Estes peritos eram chamados soferim ou contadores. Nos seus estudos alcançaram
resultados que hoje só seriam viáveis com os computadores. Por exemplo:
chegaram a contabilizar as letras de todos os textos sagrados, em rigorosa ordem
canónica descobrindo que o vocábulo que ocupava justa e misteriosamente o centro
exacto do Antigo Testamento era o verbo buscar. E os numerólogos e cabalistas
da época interpretaram-no, com razão, de mil maneiras. Estas matemáticas
esotéricas convertendo as letras em números e vice-versa fariam de Moisés,
suposto autor do Pentateuco, um iniciado capaz da obra mais faraónica: escrever
a lei em duas leituras,. Daquele interessante ângulo, a palavra de Javé nos escritos
bíblicos encerrava um significado oculto, só acessível aos rabis privilegiados.
Segundo parece, visto assim, o Pentateuco viria a ser um documento cifrado,,
cheio de segredos cosmológicos, metafísicos e proféticos. Muitos dos escribas da
época do Filho do Homem eram depositários deste conhecimento esotérico ao qual,

como disse, Jesus não foi alheio. (N. Do M.)
Para o carpinteiro de Nazaré era óbvio que um homem que não
dominasse a língua internacional do seu tempo, o grego, era um ser
limitado: lamentável e absurdamente limitado. E deu especial ênfase a
que seus irmãos o conhecessem. Este, sem dúvida, foi outro dos
grandes triunfos daquele mestre de dezasseis anos. Tinha-o visto em
José, seu pai na terra: os seus negócios e viagens exigiram-lhe que o
aprendesse.
Percebeu-o desde o primeiro instante nos viajantes que chegavam à
Cidade Santa e à própria Nazaré. Tinha-o presente em Maria, sua mãe.
E apesar da oposição dos cegos rabis, preclaros doutores da lei tinhamse
visto obrigados a procurar a língua de Alexandre Magno. Raro era o
comerciante que não a falava. As importações e exportações, as
viagens e o permanente intercâmbio cultural dela tinham feito uma
ajuda imprescindível num mundo dominado por Roma e pela Grécia. Era,
isso sim, um grego simplificado (1), por vezes portuário, com altos
índices de degenerescência linguística, proveniente dos quatro pontos
cardeais. Com umas centenas de vocábulos, a eliminação de termos
difíceis e deixando de lado as particularidades das declinações e
conjugações era possível o entendimento com um funcionário egípcio, um
notário de Chipre, um curador da Mesopotâmia, um comerciante de
vinhos e de madeiras de Tessalonica, um poeta de Roma, um vendedor
de papiros mágicos de Éfeso ou um guia de caravanas da meseta da
Anatólia.
Jesus não falava o grego de Platão ou dos imortais trágicos.
Também não precisava. O que manejava era bastante para que a sua
palavra chegasse clara e sem erros aos ouvidos do procurador romano,
do centurião de Nahum que solicitou a cura de um dos seus servos ou
dos muitos gregos e pagãos que tiveram a fortuna de se cruzarem no
seu caminho. É hoje paradoxal que determinados exegetas e estudiosos
das Escrituras neguem o bilinguismo do Mestre e, no entanto, lhes
pareça natural que o seu suposto representante na Terra se dirija às
massas em diferentes idiomas. Como estão enganados em relação à
figura e à inteligência daquele Homem!
*1 Os estudos de Carrez neste aspecto são muito elucidativos. Antes de

Deissmann, no século xIx, o grego bíblico surgia como uma língua à parte. A
descoberta de documentos pertencentes à língua comum, em especial papiros
gregos, demonstrou que os autores da tradução grega do Antigo Testamento, os
famosos Setenta, e os do Novo Testamento não fizeram mais do que aproveitar a
língua comum na redacção dos seus escritos. Esta língua comum derivou, por sua
vez, da ática, convertendo-se, desde as conquistas de Alexandre Magno (356-325)
no idioma internacional. Mercê de Alexandre, o grego falou-se de Atenas ao Éfeso,
passando pelo Egipto, Antioquia, Pérgamo e o deserto de Palmira. Ao formar-se
esta língua comum deu-se uma fusão dos dialectos, proporcionando-Lhe um
carácter autenticamente helenístico. Era a língua de todas as classes sociais,
tornando-se difícil a distinção entre a culta e a vulgar. Naquele tempo, apresentava
duas características, derivadas da sua própria situação: era um compromisso entre
a língua que foi na sua origem a mais poderosa a ática e os restantes dialectos.
Em segundo lugar, numa consequência lógica, viu-se forçada a admitir numerosos
rodeios e modificações no estilo, sintaxe e vocabulário. As culturas submetidas à
influência grega reagiram com esta natural vingança. E assim foram aparecendo
no grego comum ou internacional o que Jesus falou todo o género de
semitismos e latinismos. Entre os primeiros têm de se destacar os hebraísmos,
arameismos e septuagintismos (conceito que designa o estilo dos Setenta,). (N.
Do M.)
Mas, em animada e instrutiva conversa com as mulheres, alguma
coisa tinha ficado no ar. Alguma coisa que no nosso tempo poderia
parecer absurdo e, mesmo, irreverente. No entanto, naquelas
circunstâncias, numa sociedade que abençoava e louvava a família como
um bem nascido do céu e, principalmente, tendo em conta que a
realidade de Jesus de hoje não era entendida nem sequer por sua mãe,
teria sido normal e, como exprimira o saduceu, até desejável. Refiro-me,
claro está, à possibilidade de a Senhora poder contrair segundas
núpcias. Insisto com todo o respeito de que sou capaz: hoje, sabendo o
que sabemos, e com uma imagem tão completa de Maria, a hipótese
pode soar blasfema. No entanto, ao expor-lhe a ideia, a das pombas,
com a sua habitual sinceridade, disse-me, muito sensatamente:
- Voltar a casar-me? - E riu com gosto Não te mentirei, Jasão. Houve
um tempo, quando eles eram pequenos, que pensei nisso. Nunca me
assustou o trabalho. Mas os homens (e soube que mais de um me
mirava com bons olhos), pobrezinhos, são assustadiços como pombas.
O peso de uma família tão numerosa foi decisivo. Quem teria a coragem
de trazer o seu dote a uma casa assim? Não, amigo, essa possibilidade

estava nas mãos de Deus, bendito seja o seu nome, e bem vês...
O raciocínio era correcto. Maria enviuvou quando contava vinte e oito
anos de idade. À parte o problema económico fundamental naquela e
em todas as épocas -, ainda que a sua beleza não se tivesse apagado,
era já uma mulher velha. Não esqueçamos que a esperança média de
vida há dois mil anos, na Palestina, oscilava à volta dos quarenta anos
para o varão e pouco mais para a mulher. E embora ela não o dissesse,
havia outro obstáculo. Um impedimento que, em geral, os homens
costumam valorizar em extremo. A Senhora, viva por natureza, de uma
inteligência que se adivinhava a cada olhar. Educada muito acima do
habitual entre as hebreias, necessitaria a seu lado de um homem de
características idênticas ou semelhantes.
E a verdade é que em Nazaré não abundavam. José fora uma
excepção. Eu diria que uma providencial excepção. Aquela beleza de
alma, a sua liberal concepção da vida e o fortíssimo temperamento
singularizavam-na de tal forma que a maioria dos possíveis
pretendentes teria ficado eclipsada. Por último, e não menos
importante: casara-se por amor. E aquele amor não era fácil de
sepultar... Teria sido muito diferente se a Providência não lhes tivesse
concedido descendência situação que, obviamente, não entrava nos
planos divinos. A chamada lei do matrimónio vibbum (1) ou do levirato
(da palavra levir:
*1 Este tipo de matrimónio encontrava-se perfeitamente legislado desde os
tempos bíblicos. No extenso tratado sobre as cunhadas (yebamot), a Misná
contempla uma infinidade de possibilidades legais, derivadas de uma situação de
viuvez sem filhos. Quando dois irmãos, dizia a Lei, moram um junto do outro e um
deles morre sem descendência, a mulher do falecido não se casará com um
estranho. O seu cunhado irá até ela e a tomará por mulher, e o primogénito que
dela tiver terá o nome do irmão morto, para que o seu nome não desapareça de
Israel.
No caso de o irmão se negar a tomar por mulher sua cunhada, virá esta à porta,
aos anciãos, e lhes dirá: Meu cunhado nega-se a suscitar em Israel o nome de seu
irmão, não quer cumprir a sua obrigação de cunhado, tomando-me por mulher. Os
anciãos o mandarão vir e lhe falarão. Se persiste na negativa, sua cunhada se
aproximará dele na presença dos anciãos, lhe tirará do pé um sapato e lhe cuspirá
na cara, dizendo: Isto se faz a um homem que não sustenta a casa de seu irmão.
E a sua casa será chamada em Israel a do descalço.
A partir daquele momento, a viúva ficava livre para contrair matrimónio com

qualquer um. Sem ter contraído o matrimónio do levirato ou ter efectuado a
cerimónia jalutsá (tirar), a viúva não podia voltar a casar-se. (N. Do M.)
cunhado), estabelecia que, nesta hipótese, a viúva devia casar-se com
o irmão do morto. Em primeira instância com o mais velho e, em
segundo lugar, com o seguinte em idade. O irmão em quem recaísse
esta sagrada obrigação tinha de ter sido gerado pelo mesmo pai e ter
vivido, pelo menos um período, contemporaneamente ao falecido. Se a
viúva, tinha sucessão, caso de Maria, este género de matrimónio estava
proíbido por lei.
À medida que fui conhecendo o Homem se é que existe alguém
capaz de chegar ao santuário de uma alma e aqueles que o
rodearam, mais próxima me pareceu a mão da Providência. Tudo
naquela família se encontrava traçado e escrito com os fios subtis mas
diamantinos de uma Inteligência que o meu juízo de cientista não pode
pôr em dúvida. Jesus nasce em primeiro lugar. Como primogénito herda
o ofício do pai. E como tal deve sustentar a família. Se o seu nascimento
tivesse sido depois, a responsabilidade como novo pai teria ficado
invalidada.
Mesmo se o Mestre como pretendem muitos tivesse sido filho
único, a possibilidade de um novo matrimónio de sua mãe poderia ter
ganho espacial força. E que dizer da esmagadora experiência colhida
naqueles doze anos, desde a morte de José? Aquela Inteligência foi
colocá-lo no centro do furacão das dificuldades e apertos económicos. E
teve de saber do trabalho e do angustiante viver o dia-a-dia, e da
educação, dos sonhos e das misérias alheias. E tudo isto, quero crer,
com uma finalidade justa e escrupulosamente medida: ser homem, até
às suas últimas consequências. E naquele estudado labirinto que foi a
sua vida na Terra, tudo o foi conduzindo por vezes sem piedade, por
vezes gratificantemente para o seu destino.
Como Filho de um Deus imaginou e pensou como um menino, sofreu e
revelou-se como um adolescente, trabalhou e angustiou-se como um
operário sem fortuna e, finalmente, aceitou, corajoso, o papel de
revelador de seu Pai. Quem pode duvidar da experiência humana do
Filho do Homem? Porém, estas coisas não foram desvendadas pelos
evangelistas. E a humanidade, assim, perdeu quatro dos cinco períodos

que formaram os seus trinta e seis anos de vida... Períodos, como
continuarei a narrar, sempre mais apaixonantes.
Quando me dispunha a falar do turbulento ano 11, o inesperado
aparecimento de Tiago deixou-nos perplexos.
Seguiam-no Ruth e Jacob. Maria e Miriam levantaram-se
imediatamente. E eu, prudentemente, mantive-me a um dos cantos,
junto das ânforas. Os olhos acastanhados de Tiago brilhavam, inquietos,
na penumbra. Antes de falar, como se precisasse de tempo para
reflectir, subiu à plataforma, pegou numa malga de madeira e,
descendo ao piso em que nos encontrávamos, encaminhou-se para o
canto onde, casualmente, me pusera. Destapou a grande vasilha e
serviu-se de vinho. Ao levá-lo à boca o seu olhar cruzou-se com o meu.
Suponho que não fui o único a aperceber-me da gravidade do seu
semblante. Ao reparar na minha presença, tossiu nervosamente.
Alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa que eu não devia ouvir.
Assim, pelo menos, o interpretei. Em silêncio, dirigi-me para a porta
principal, trancada. A Senhora, porém, ágil e atenta, saiu-me ao
caminho e retendo-me pelo braço, quebrou a embaraçosa situação:
- Que aconteceu? - A pergunta, dirigida a Tiago, não obteve resposta,
e Maria, apertando-me o antebraço com os dedos, exigiu a minha
atenção. - Jasão, que se passa? Porque te vais embora?
Não teria sabido que responder-lhe. Mas também não me deu essa
oportunidade. Aproximando-se do filho exigiu-lhe uma explicação. Vi-o
vacilar. Estranhei aquilo em Tiago. A sua confiança em mim estava fora
de causa. Baixou os olhos e logo os levantou, para fixar em mim o seu
olhar penetrante. Depois o compreenderia. Aquele nobre coração
tentava evitar-me um desgosto. Mas, instado por sua mãe, meteu a
mão esquerda na faixa que cingia a túnica dela retirando um pedacito
de cerâmica: uma ostraka, e em silêncio foi entregá-lo a Maria.
Esta aproximou-o da lanterna que presidia à mesa de pedra e depois
de examinar a breve inscrição rabiscada na argila olhou-me, incrédula.
Negando com a cabeça, devolveu-o ao filho.
- Não acredito... - foi o seu comentário.
Intrigado e perplexo assisti então a um lacónico e indecifrável diálogo
entre ambos:

- Quem poderia escrever uma coisa assim? - clamou, furiosa.
- É a sua letra... - replicou o galileu.
- Isso não basta. Será que não sabes que o aborrece? E Maria,
acabando com a tensa situação, tirou-lhe a ostraka, entregando-ma.
Durante alguns segundos, todos os olhares pousaram neste confundido
explorador. Graças a Deus, o meu pulso não tremeu. Lida a mensagem,
sem perder a calma, devolvi-a a Maria e julgo que os meus olhos
falaram com maior precisão que a minha garganta. Os olhos da
Senhora iluminaram-se, radiantes ante a muda confirmação. Porém, ao
escutar as minhas palavras, o seu júbilo esmoreceu.
- É verdade declarei, sem rodeios. - Sou amigo de Pilatos...
E antes que os outros se manifestassem lancei o que entendi dever
declarar: a verdade. As frases mal alinhavadas do caco de cerâmica
diziam textualmente: Jasão é um traidor. Traz um salvo-conduto do
assassino.
- Nunca minto declarei, aguentando o olhar perplexo de Tiago
Visitei-o em Jerusalém. Bem o sabeis, porque numa das entrevistas fui
gentilmente acompanhado por José, o de Arimateia. Ele pode dar um
relato completo do que ali se falou... Quanto ao salvo-conduto...E
comecei a tirá-lo da bolsa de encerado suspensa da faixa. - Também é
verdade.
Um murmúrio de desaprovação saiu dos lábios de Miriam e de Ruth.
Mas a minha intervenção imediata acalmou-as...
relativamente.
- Foi solicitado disse-lhes sem hesitações com o fim de cumprir a
minha missão sem impedimentos. Segundo os meus planos devo en
contrar-me com o centurião que solicitou de Jesus a cura do seu servo...
- A firmeza das minhas palavras não dava lugar a dúvidas. E
acrescentei: - Pelo amor de Deus vos rogo que não me pergunteis qual é
a minha missão.
- Apoiando-me na confiança da Senhora, acentuei: - Só vossa mãe a
conhece. Confiai em mim, como fez Jesus.
A clara e intencional alusão ao Mestre foi decisiva. E Maria, com os
olhos em lágrimas, abraçou-me, feliz, murmurando-me ao ouvido:

- Obrigado, amigo!... E perdoa a nossa tolice.
Jacob, com o seu proverbial sentido da oportunidade, fez a perguntachave:
- Quererás dizer de uma vez que diabo aconteceu? Tiago, satisfeito
com as minhas explicações, entregou-lhe a misteriosa ostraka,
esclarecendo os factos.
- João Zebedeu desapareceu.
A notícia causou maior impressão que o escrito injurioso.
.. Quando Esta e eu voltámos a casa não havia rasto dele.
Ou antes rectificou com desagrado -, sim, deixou um rasto: aquela
inscrição.
Naqueles instantes, ultrapassado pelos acontecimentos, não fui capaz
de descobrir o mistério. Como sabia o discípulo que eu tinha o salvoconduto?
Teria sabido por José, o de Arimateia? Fosse como fosse, o
certo é que o ódio do Zebedeu por mim fora além de todas as
previsões... E o triste facto mergulhou-me em amargas reflexões.
- Não compreendo... - disse Maria, traduzindo os nossos
pensamentos.
- Nem tu, mãe Maria, nem ninguém confirmou Tiago.
- E onde pode ele estar?
A pergunta de Miriam ficou sem resposta. O filho mais velho
- segundo disse percorrera a aldeia, mas ninguém soubera informálo.
- E que me dizes da víbora?
A Senhora, com a sua aguda intuição, acertara. Mas nenhum dos
presentes deu crédito à aparentemente absurda sugestão.
Por que razão iria visitar Ismael, o Saduceu? Durante alguns
momentos, discutiram os vários caminhos que poderia ter seguido o
impulsivo João.
- Talvez tenha voltado ao yam.
Maria recusou a hipótese de Jacob. Que motivo tinha para o fazer e
sem sequer os informar previamente?

- E se tivesse sofrido um acidente ou um ataque daqueles malvados?
Tiago opôs-se à tese de sua mãe. Se tivesse acontecido uma coisa
assim, alguém na aldeia teria dado conta. Além disso, as suas ordens
tinham sido claras: Esperar em casa.
- Podia ter-se mudado para Séforis.
A ideia de Ruth também não foi considerada. Não tinha sentido. Mas,
em vista da excitação de que padecia o filho do trovão o que era
sensato? Podia ter seguido um qualquer rumo ou a mais louca das
decisões. Ter desobedecido a Tiago era uma indicação.
Mergulhados naquele enigma, as primeiras pancadas passaram
despercebidas. Foi Ruth quem pediu silêncio. Efectivamente, nas
traseiras da casa soaram uns toques, como se alguém batesse à porta
com um bastão.
À pergunta do filho, a Senhora encolheu os ombros, e as pancadas
repetiram-se, distantes mas nítidas, segundo uma sequência de três
pancadas e silêncio. Aquilo parecia uma contra-senha. Tiago, mais
tranquilo, pediu calma. Com passo cauteloso, dirigiu-se à oficina. Fui
atrás dele. Aliviou o batente do madeiro que o trancava e entrou na
claridade. Até àquele momento não tivera oportunidade de pisar a
terceira e última dependência da casa de Nazaré.
O galileu, com extremas precauções, parou a meio do pátio
rectangular que encerrava a morada pelo flanco norte. De espada em
punho esperou nova série de batidas. Quase em frente da porta que
acabávamos de deixar para trás abria-se uma modesta cancela de
tábuas, fechada com um cordel meio podre.
Era um tanto absurdo - pensei - trancar os acessos principal e da
oficina quando, com um pontapé, teria sido viável a entrada pelo pátio.
Como na maioria das casas rurais, aquela dependência constituía uma
espécie de pátio: numa superfície de sete por cinco metros, a céu
aberto, amontoava-se toda a espécie de objectos e trastes velhos que,
por conveniência, tinham sido tirados da casa. Um muro de pedra sem
estar caiado, com a rocha escorada por argamassa antiga e gasta,
fechava a totalidade do curral, elevando-se a um pouco mais de dois
metros. Na parede à minha direita (sempre em relação à porta exterior
da oficina de carpintaria) alinhavam-se um tear vertical de um metro e

oitenta de altura (agora em evidente desuso), um almofariz de basalto
negro e, fazendo corpo com o canto, um forno de tijolo vermelho de um
metro de altura.
O almofariz ou moinho caseiro, adquirido certamente na alta e
vulcânica Galileia, era simples em extremo. A verdade é que já os vira
mais luxuosos. A lousa rectangular, de uns sessenta por quarenta
centímetros, que fazia de base, estava gasta pelo uso prolongado.
Sobre ela repousava a segunda peça, complementar: um pesado cubo
de trinta centímetros de lado, que servia para moer o grão. A face
superior do referido prisma apresentava um orifício em forma de funil,
pelo qual se introduzia o cereal.
Para o deslocar, labor nada cómodo, a julgar pelo peso da mole
basáltica, fora disposto um delgado mas sólido pau cilíndrico de roble
de meio metro de comprimento, perfeitamente ajustado em duas fendas
praticadas nos extremos da face superior do cubo. Para a obtenção da
farinha era mister arrastar o prisma para cima e para baixo, esfregando
ambas as peças. Quantas vezes teria contemplado Jesus a aborrecida
mas necessária operação? Talvez ele próprio a tivesse feito em muitas
madrugadas... Não pude evitar a emoção...
O forno, com claros sinais de não ter sido aceso durante dias ou
semanas, parecia uma colmeia de pedra, em tempos primorosamente
caiado e agora devorado por estreitas línguas de fuligem, que
escapavam como uma estrela negra pela boca em baixo.
À minha esquerda, encostada à parede mais curta, descobri uma
curiosa construção de madeira. A área, cinco por dois metros, tinha sido
aproveitada para construir um pombal. O albergue estava disposto em
três andares, meticulosamente fechados com tábuas e com um
entrançado de junquilhos, e divididos, por sua vez, em quatro
compartimentos ou celas por piso, com as correspondentes portinhas ou
gateiras. Maria, a das pombas,... Ali estava a explicação para o apodo
que distinguia a Senhora. No alto do pombal e lá dentro dormitavam ou
arrulhavam algumas das suas queridas aves. Não muitas, para dizer a
verdade.
O resto do pátio, pavimentado à base de uma terra suja e batida,
apresentava o mesmo ar de abandono. Junto da parede em que se
abria a cancela distingui um bebedouro de pedra e um casebre de

madeira, com pés em forma de tesoura. E em frente, separado por um
corredor estreito que ia dar ao pombal, um pedaço de terra com três
escassos metros de lado que, tempos atrás, podia ter sido uma horta e
agora, semeado de talhas, cestos e algumas alfaias agrícolas cheias de
ferrugem, quase se convertera numa esterqueira, castigada pelo negro
ziguezaguear das moscas. A recente tragédia, como uma muda
represália do inanimado, podia adivinhar-se até na triste desordem do
local, aquele, naturalmente, não era o estilo da Senhora...
A esperada sequência de batidas três, exactamente repetiu-se do
outro lado da desengonçada portinha, carcomida nos seus nós pela
velhice.
- Quem é?
O imperioso grito de Tiago não obteve resposta. Decidido, deu os três
passos que o separavam da cancela, espiando por um dos nós
descarnados. Um toque cansado fez tremer novamente o
madeiramento. Mas, ao segundo toque, a porta entreabriu-se, chiando.
O irmão do Mestre, certo da identidade e das honradas intenções do
visitante, disse-lhe que entrasse. Era um ancião de barbas soltas, que
pendiam como um salgueiro, quase até à cintura. Ao ver-me, aproximou
os lábios do ouvido de Tiago, murmurando-lhe qualquer coisa que,
naturalmente, não consegui escutar. O filho da Senhora foi concordando
com a cabeça e, terminado o cochichar, formulou uma única pergunta:
- Quando?
Mas o velho, surdo como o muro que o contemplava, precisou de uma
segunda e de uma terceira tentativas.
- Mas quando... - vociferou Tiago, em desespero, pondo a boca entre
as gaforinas do tal Jairo.
E o amigo da família, porque a sua arriscada acção bem merecia a
palavra, rogou-lhe de novo que se inclinasse, segredando-lhe uma frase
que desta vez apanhei:
- Vencida a nona. [Passadas as três da tarde.] Tiago beijou-o em
ambas as faces e, imediatamente, o vi desaparecer.
Um minuto depois dava a conhecer a notícia que lhe viera trazer o
ancião vizinho:

- Segundo parece, aquela víbora tenta ir até ao fim. Um membro do
conselho partiu para Séforis, passada a nona, com o fim de solicitar
instruções ao tribunal...
As duras palavras de Tiago caíram como chumbo derretido. Só a
esquilazinha, com a sua candura, se atreveu a perguntar:
- Instruções? Acerca de quê?
Maria acariciou-lhe o cabelo, aconselhando-a a ficar em silêncio.
..Ao que parece, a lapidação falhada desta manhã humilhou-o, e
exige que sejamos castigados.
Não houve perguntas. Todos pensavam que o castigo podia ser
colectivo.
- Quem foi o emissário?
A questão suscitada por Jacob encerrava mais importância do que
podia parecer. Dependendo de quem e de como se expusesse o pleito,
assim a decisão do tribunal podia variar sensivelmente. Naquele caso,
Séforis, capital da Baixa Galileia, desfrutava de um dos quatro tribunais
de vinte e três juízes em que fora dividido o país desde os tempos do
legado Gabino (1). Quase todas as povoações menores caso de
Nazarédispunham também de um pequeno sinédrio, constituído por
sete, três ou mesmo, um só juiz. Porém, estes conselhos ou tribunais
locais limitavam-se a despachar causas de escassa importância.
Quando, como no caso da blasfémia cometida por Tiago, o assunto
tinha em si uma mediana gravidade, era transferido para o tribunal
imediatamente superior, chegando em muitos casos ao Grande Sinédrio
da Cidade Santa.
- Jairo falou em Judá.
O esclarecimento de Tiago foi acolhido com um espontâneo maldito!,
que escapou dos lábios de Miriam.
O tal Judá, membro do conselho local, era uma espécie de aguazil e
verdugo, encarregue das flagelações e braço-direito do saduceu. Um
personagem, enfim, mal encarado e tão rasteiro como o seu chefe. (A
denominação destes funcionários dos tribunais de justiça hazzam
tinha o seu equivalente nos hiperetas ou remadores de segunda como
lhes chamavam os Gregos, com justa ironia.) - Mas de que nos acusa? -

perguntou Maria, que, no fundo, sabia ou podia intuir a resposta.
Ninguém se atreveu a pronunciar-se. Blasfémia? Desobediência ao
Grande Sinédrio ao violar as normas especiais concedidas na noite de
domingo, 9 de Abril? Em qualquer caso, o castigo pelos referidos delitos
encontrava-se perfeitamente estabelecido. Com muita sorte, se o
tribunal se mostrasse indulgente, Tiago, chefe visível da família e
responsável directo pela injúria ao Todo-Poderoso, podia ser expulso da
sinagoga com carácter temporário ou perpétuo excomunhão que
encerrava um aspecto vergonhoso -, açoitado, acorrentado ou
desterrado, com a consequente perda dos seus bens e propriedades.
Se, pelo contrário, os juízes aplicassem a lei com rigor, a sentença era a
morte (2).
*1 Como Flávio Josefo estabelece em Antiguidades Judaicas (XIV,5), Israel, como
província romana, fora descentralizada do poder judicial de Jerusalém em tempos
do legado romano Gabino. O Grande Sinédrio da Cidade Santa era o eixo da
legalidade judaica. Qualquer coisa como o Supremo Tribunal com competências que
abrangiam, principalmente, a religião. Para assuntos de menor gravidade bastava
a reunião de vinte e três dos setenta membros que formavam o referido Sinédrio. O
resto do país encontrara-se dividido em mais quatro tribunais: Jericó, Séforis, Amat
e Gadara. O direito, como nos países regidos pelo Alcorão era eminentemente
religioso, fundamentado em três códigos principais: o contido no Livro de Aliança
(capítulo xx a asxu), no Deuteronómio (capítulos xxI a xxvi) e uma parte essencial do
Levítico, actualizada durante o exílio da Babilónia. Sobre este Corpus juris divini e
seus 613 preceitos se teceram centenas de novas normas e de leis que, com o
passar dos séculos, seriam recolhidos no Talmude. Sobre esta intrincada rede de
textos de jurisprudência, um mandamento-lei, que inspirava todo o Direito judaico:
Sede santos, porque santo sou eu. (N. Do M.)
2 Dado o carácter sagrado de quase todas as instituições judaicas, o pior dos
delitos não podia ser outro senão o de se rebelar contra Deus. E mais prejudicial
que esta era o de se declarar igual a Deus (caso de Jesus). Para a sociedade de
então, era o equivalente aos actuais crimes contra a segurança do Estado. A
condenação era a morte. Neste capítulo se considerava como supremo delito a
idolatria, a blasfémia (mesma o facto de invocar em vão o nome do Altíssimo), a
violação do sábado, a magia e a adivinhação, abster-se de celebrar a Páscoa e
não apresentar o filho varão na cerimónia da circuncisão. Vinham depois outras
categorias de crimes que, em síntese, se agrupavam da seguinte maneira:
atentados contra a vida humana, com uma perfeita e minuciosa distinção entre
homicídio voluntário e por imprudência; golpes e feridos, com uma exaustiva
subdivisão, de acordo com a gravidade; atentados à família e à moral, com uma
interminável casuística (desde a bestialidade à violação de uma filha pelo pai,

passando pelos matrimónios consanguíneos ou a maldição privada ou pública de
um filho contra o seu progenitor); danos à propriedade, considerados como crimes
quando se tratava de roubo à mão-armada ou com a agravante de ser praticado
de noite, e falsificação no peso e trocas nos marcos que delimitavam os campos.
Muitos destes delitos podiam trazer a pena capital ou pôr em funcionamento a
célebre lei de talião: olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,
queimadura por queimadura, contusão por contusão, ferida por ferida e vida por
vida,, como rezam o xoda (XXI, 23), o Levítico (XXIV, 19) e o Deuteronómio (XIX,
21). (N. Do M.)
O exemplo do Irmão mais velho, tão recente, não dava lugar a
dúvidas... Daí que a família, inquieta, se lançasse num oceano de
especulações. E o pessimismo foi-os invadindo até que, vencidos, caíram
nu obscuro mutismo. Todos confiavam em Tiago e para ele voltaram os
olhos e os corações. O tribunal de Séforis não se reuniria em sessão
oficial antes de quinta-feira. Tinham pois uma margem para deliberar e
adoptar a resolução que considerassem correcta. A presença do odioso
Judá ante o Conselho dos Vinte e Três não era bom augúrio.
Mas, mesmo assim, sempre havia a esperança de uma defesa e de
uns juízes imparciais. Perante a louca proposta de Jacob de fugir da
aldeia, a Senhora e Tiago negaram-se redondamente.
Nada tinham que ocultar. Pelo menos, aos olhos dos justos... E o
irmão mais velho, depois de afagar a barba, pronunciou-se no sentido
de aumentar a vigilância. Como primeira medida informou os seus
deviam conhecer as acusações de que eram objecto. Para tal, de
momento, impunha-se a necessidade de irem até Ismael. Miriam e seu
marido protestaram. Mas a Senhora, animosa, deu razão a seu filho.
Consumado aquele forçoso e desagradável passo, tempo haveria para
seguirem voluntariamente até Séforis e enfrentarem o problema. Jacob
e Maria ofereceram-se para acompanhar Tiago. Mas com bom critério,
não desejando atiçar os ânimos já exaltados e receando o tempestuoso
carácter da mãe, declinou as ofertas.
Iria sozinho E todos reforçou esperarão o meu regresso em casa.
Na ordem ficou a flutuar um nome: João de Zebedeu. E A opinião
generalizada que a inexplicável fuga do discípulo só causaria novas
complicações. Não se enganavam...

Quando faltava meia hora para o ocaso, o voluntarioso Tiago
abandonou-nos pela segunda vez. Quem isto escreve viu-se de novo
envolvido., num ambiente toldado pelas circunstâncias.
Jacob, desanimado, nem sequer fez menção de voltar ao seu posto
de vigia no terraço. Permaneceu sentado à beira da plataforma, a
observar as mulheres, mergulhado num mar de profundas reflexões.
Mas aquelas nuvens negras iam desaparecer dali a pouco mercê tinha
de ser da forte vontade da Senhora, que não estava disposta a
deixar-se dominar pela tristeza e, muito menos a permanecer impassível
ante a desolação dos seus.
Primeiro, vi-a subir à parte mais alta da casa e lidar com os utensílios
de cozinha. Mas, ao reparar na triste cena, largou os pratos e escudelas
de madeira com estrépito. Todos voltaram as cabeças, assustados.
Secando as mãos com as abas da túnica subiu os degraus,
acomodando-se junto da mesa de pedra. Fazendo-me um sinal,
exclamou:
- Jasão, continuemos!...
Olhei-a, atónito. Dali a pouco compreendi. A conversa com aquele
curioso, infatigável e por vezes tolo e divertido grego era o melhor
remédio para distrair a tristeza. E secundei-a, encantado. No começo
desta nova etapa de conversa, nem as filhas nem Jacob demonstraram
especial interesse pela narração da Senhora. Ao longo daquele ano 11,
tal como no anterior, Jesus, o carpinteiro, continuou com o seu esgotante
trabalho na oficina. Cuidava dos irmãos, da sua educação e velava pela
segurança da mãe Maria. No fundo, os desacordos com a mãe viam-se
equilibrados pelo intenso amor que tinham um pelo outro.
- Uma coisa eram as suas ideias e as minhas em relação a Miriam
esclareceu a mulher e outra, muito diferente, o nosso mútuo afecto.
No entanto, esse afecto ia atravessar um novo deserto neste período:
o do seu décimo sétimo aniversário. A Senhora, que já me tinha falado
do incidente com os zelotas, não lhe concedeu a importância que
realmente tinha. A sua atitude era muito humana e desculpável. Para
quê aprofundar um episódio tão aborrecido?
- Melhor será que o esqueçamos.
Vi-me apanhado. O trato com ela e os outros tinha de ser subtilmente

discreto. Não era aconselhável repisar a história da mal conhecida vida
oculta do Mestre. E à beira de me resignar, veio Miriam em meu auxílio.
- Se este homem tenta averiguar a verdade sobre nosso irmão
- declarou com frieza -, é conveniente que também lhe contemos os
nossos erros.
- O meu erro rectificou Maria, assumindo a totalidade da culpa.
- Não. Teu e também de Tiago e dos varões que fizeram causa comum
com as tuas manias...
- Manias?
A Senhora olhou-a fixamente, irritada.
- Desculpa. Não é essa a palavra adequada... - e numa acusação
frontal, acrescentou. - Delírios de grandeza! Absurdos alardes de glória!
A Senhora, que sabia ouvir as verdades, não teve outro remédio
senão reconhecê-lo com humildade.
- Comecemos pelo princípio propus, tentando continuar o nosso
diálogo. Jacob, envolvido no tema desde o princípio, tomou a palavra.
- Sim, contemos os factos tal como ocorreram e não como gostaríamos
que fossem...
Assim, soube o que já constava no banco de dados do Pai Natal. A
história proporciona interessantes e prolixos dados quanto ao
florescente movimento de insurreição contra o invasor romano.
Jerusalém e a Judeia foram os primeiros cenários daquela corrente
político-religiosa que começava a soprar com força por todo o Israel.
Tempo atrás, da seita dos fariseus, que não hesitavam em se
proclamarem como os santos e separados, os verdadeiros nacionalistas
e depositários do esmagado patriotismo, se separaria o que hoje
poderíamos chamar um partido de extrema-esquerda os zelotas (1) -,
fanáticos radicais e violentos. Uma espécie de braço armado do
farisaísmo. Algo que hoje, embora com outras motivações, é ampla e
tristemente conhecido pela sociedade da Europa, que padece de um
terrorismo essencialmente gémeo do dos zelotas.
Pois bem, não admitindo senão Deus como único dono e senhor,
pretendiam a expulsão e o esmagamento dos pagãos pela força. A
diplomacia, o diálogo, a negociação e a paciência não figuravam no seu

vocabulário.
E quando digo pagãos incluo todos os gentios, embora, como é
evidente, Roma e os seus representantes ocupassem uma especial
preferência nos seus objectivos. A 6 da nossa era, quando Jesus tinha
doze anos, dera-se já uma grave tentativa de sublevação. Um galileu
chamado Judas de Gamala e um fariseu de nome Saduc conseguiram o
que parecia impossível: arrastar milhares de judeus contra as legiões
romanas. Como era de esperar, fracassaram. Porém, a semente fora
lançada. E desde então, os zelotas cuja tradução era equivalente a
zelosos pela lei -, com o apoio de boa parte da população, que os
ocultava, alimentava e pagava um imposto revolucionário secreto para a
aquisição de equipamentos e de armas, actuaram em guerrilhas,
acossando os exércitos e funcionários romanos e cometendo toda a
sorte de crimes e de vilezas, em nome da causa. Eram conhecidos
também por sicários por causa do sica, um punhal curto e temível que
escondiam na roupa e com que matavam os que consideravam
traidores, infiéis ou colaboracionistas.
O mal, como sempre, é que, justificando-se com supostas traições ao
povo e ao Deus de Israel, estes zelotas satisfaziam as suas vinganças
pessoais ou as daqueles que diziam simpatizar com eles. E o homem de
bem, enfim, viu-se envolto numa atmosfera de medo e de permanente
desconfiança. Pois bem esta ameaçadora vaga de levantamento
nacional contra o usurpador da Terra Prometida foi aumentando com os
anos. E não tardaria, em 70, a desembocar na grande rebelião que
mobilizou Roma, com as consequências por todos conhecidas.
A Galileia, pelas suas especiais características geográfico-estratégicas
e pela sua reconhecida liberalidade social e religiosa foi sempre um
reduto muito apreciado pelos zelotas ou bandoleiros como também
eram chamados. E ainda que em vida de Jesus não chegassem a
alcançar a virulência dos anos imediatamente anteriores ao cerco de
Jerusalém por Tito, era inegável que a sua força e presença
constituíssem uma realidade para os cidadãos. Inquietante para muitos,
esperançosa para outros e perigosa para todos. Entre os seus íntimos
um dia terei de
*1 O qualificativo de bandido e bandoleiro, com que eram igualmente
designados os zelotas, vinha de anos atrás.

Concretamente de 47 antes de Cristo, quando Herodes, o Grande, então
governador da Galileia, levou a cabo uma limpeza, dos bandos de salteadores de
caminhos que infestavam as montanhas.
Muitos destes assaltantes acabariam por se juntar ao movimento guerrilheiro. Daí
que Barrabás e os indevidamente chamados ladrões, crucificados com Jesus,
fossem designados como bandidos, quando, na realidade, eram zelotas. (N. Do
M.)
me referir a isso o Mestre acolheu Simão, alcunhado o Zelota. Não o
esqueçamos. Além disso na Galileia registava-se outro factor que só os
historiadores conhecem. Algo que contribuiu extraordinariamente para o
irreversível fenómeno do crescimento zelota. Refiro-me à febre de
compra de terrenos e propriedades por estrangeiros. Meia Galileia,
incluindo as cidades helenizadas, encontrava-se nas mãos de
comerciantes gregos, fenícios, romanos e egípcios. Esta vergonha
nacional estimulou mais ainda a ferocidade dos guerrilheiros.
E aconteceu que no referido ano 11, de acordo com as tácticas
nascidas em Jerusalém e na Judeia, alguns dos representantes do braço
armado na Galileia começaram a passar a região a pente fino em busca
de novos simpatizantes e filiados com os quais pudessem formar e
construir novos comandos. E, naturalmente, Nazaré não foi excepção.
É curioso, e acho que não o devo ignorar. Através das informações
que me proporcionou a família de Jesus, e quase por senso comum,
soube que antes de os zelotas chegarem à aldeia, já sabiam quem era
o jovem carpinteiro e até onde chegava a sua influência entre a
juventude da povoação. Algo de muito normal, por outro lado, se
considerarmos que os serviços de informações do referido movimento
patriótico se ramificavam até aos cantos mais distantes. Segundo
parece, a campanha dos zelosos na Galileia fora um êxito completo. A
juventude, em massa, pusera-se a seu lado. Mas ao entrar em Nazaré...
- Toda a sua presunção se desmoronou.
Jacob, ante o respeitoso e significativo silêncio de Maria, continuou
sem rodeios nem meias tintas. Nunca poderei agradecer devidamente o
seu amor à verdade.
- Encontraram-se com Jesus. Expuseram-lhe os seus ideais, os seus
planos, o seu fervor patriótico. E o jovem carpinteiro, meu amigo, soube

escutá-los até ao fim. A verdade é que aquela conversa não era
necessária. Todos sabíamos quem eram e o que pretendiam.
- E porque escolheram Jesus? - perguntei, simulando não conhecer a
razão. - Acho que não era o único inteligente e atento...
- Falas com verdade. O Mestre não era o único. Mas sim alguém que,
á força de trabalhar, de reflectir, de estudar e de escutar os outros
soubera ganhar as simpatias de boa parte dos jovens. A sua palavra e
conselho eram apreciados por todos...
- Além disso reforçou Ruth, que não perdia um pormenor -, era o
mais forte e o mais bonito...
- Bom recriminou-a Jacob -, falemos com seriedade. Aquela
gentalha...
A Senhora desviou o olhar para o genro, censurando-lhe o epíteto:
- Gentalha?... Por desejarem a liberdade para o nosso povo? Jacob,
não muito convencido mas querendo paz, rectificou, contrariado:
- Aquela gente sabia desde o primeiro instante que se Jesus e os
outros chefes entrassem no partido, muitos os imitariam.
E a operação ter-se-ia consumado com uma evidente economia de
tempo e de esforço. Enganaram-se, porém. Jesus fez-lhes muitas
perguntas e, finalmente, negou-se, por completo, a entrar nas suas
fileiras.
Observei Maria. As suas feições, marcadas pela lembrança, tinham
endurecido. Mas, de momento, continuou calada.
- Porquê? Qual foi a sua razão?
- Agora, amigo Jasão, é fácil entender e aceitar. Pelo menos, para nós
que acreditamos na sua palavra. Então, há dezanove anos, como
poderás imaginar, a face da moeda era outra.
E Jacob, chegado a este ponto, convidou a sogra a tomar o leme da
conversa. Não aceitou.
- Não é uma situação fácil para mim confessou o homem num gesto
que o honrava e que tive em consideração. - Devo contar-te tal como
aconteceu, com a pesada laje do conhecimento de hoje. Ele, como te
dizia, declinou a honra foram estas as suas palavras -, refugiando-se

na verdade: as suas obrigações familiares estavam acima de qualquer
outro compromisso.
Não fui capaz de me conter.
- Uma honra servir entre os zelotas?
A Senhora censurou-me, em silêncio.
Jacob sorriu, irónico. E sua mulher, Miriam, recolheu o expressivo
gesto, fazendo-o seu com as seguintes palavras:
- Meu Irmão não era ignorante... Sabia do poder, das vinganças e da
crueldade de tais grupos. Uma negativa seca poderia ter sido fatal para
toda a família. Compreendes? Perfeitamente. E no meu foro íntimo
louvei a hábil diplomacia do carpinteiro.
- A aldeia compreendeu as suas razões. A família, bem sabes, é
sagrada.
Miriam interrompeu-o.
- Tens a certeza?
Jacob, como eu, não captou a intenção da esposa.
- Tens a certeza insistiu de que toda a aldeia o entendeu e
respeitou?Um olhar fugaz à Senhora traiu Jacob.
- Enfim... - gaguejou Digamos que a maioria...
- A maioria? - atacou de novo a reticente Miriam.
E o galileu, encurralado, acabou por reconhecer que metade da
juventude foi colocar-se ao lado de Jesus; e outra junto dos zelotas.
Aquele deslize relativamente importante do amigo íntimo do Mestre
que acabava de exprimir a sua vontade de narrar toda a verdade
merece um leve reparo: quantos dos escritores sagrados não se
deixariam levar nos seus evangelhos por aquela mesma compreensível
inércia de suavizar o que não lhes era grato?
Para dizer a verdade, Jesus não mentira. Sua mãe e irmãos
justificavam a sua atitude, dentro de todos os pontos de vista. Mas
imagino isto não o souberam esclarecer os meus interlocutores que,
além disso, o tímido e incipiente Deus que continuava a germinar no seu
íntimo lhe apagou da vontade a hipótese de empunhar as armas para
defender o seu povo. No entanto, como disse, a desculpa da família era

perfeita. O que o honrado carpinteiro não podia suspeitar era que a sua
decisão pudesse levantar tal reboliço em Nazaré.
- Já podes calcular prosseguiu Jacob quem se atirou com mais
encarniçamento contra o Mestre...
- A víbora?
Todos riram com a minha espontânea e certeira resposta-pergunta.
Ou antes, todos menos Maria.
- Durante alguns dias acrescentou o galileu, com os olhos cheios de
surpresa foi a loucura. Discutiam uns com os outros. Entravam e saíam
desta casa e da oficina, vociferando, bradando aos céus e negando e
afirmando sem tom nem som. E o saduceu, claro está, juntou-se ao
bando dos zelotas, conspirando contra Jesus. Ouvimos tudo, Jasão. O
mais benévolo foi cobarde e renegado. E o meu Amigo, que se negava
a discutir em público, sofreu o que ninguém pode crer...
Naquele relato, fiel à verdade, faltava alguma coisa. Eu sabia. Todos
os presentes sabiam. A palavra-chave era Maria. E antes de prosseguir,
obedecerei ao impulso que me domina.
Farei um parêntese. E fá-lo-ei porque, se for a vontade de Deus que
este diário algum dia seja revelado ao mundo, devo avisar os
pusilânimes de que a imagem da Senhora, que me preparo para
reflectir, vai contra aquela que a tradição tem fomentado, na base de
um ideal digno de elogio, mas irreal.
Tranquilizado o meu coração continuarei.
Efectivamente, Maria tinha muito para dizer nesta turbulenta
passagem da vida de seu Filho. Mas, como conseguir que interviesse?
Aproveitando uma breve pausa, em que Ruth serviu água ao seu
cunhado, lancei-lhe à queima-roupa:
- No meu mundo temos sede de Jesus. Não te envergonhes por, nos
seus dias, teres sido fiel a ti mesma... Ou será que acreditas que teu
Filho não o soube compreender? A esquilazinha, que não captou as
minhas palavras na sua totalidade, apressou-se a oferecer-me a vasilha
com a água, exclamando, voluntariosa:
- No teu mundo têm sede? Toma... bebe. Minha mãe nunca negou
uma tigela a um sedento.

O delicioso erro de Ruth teve mais força que mil discursos.
E a Senhora, enternecida ante a transparência de sua filha, falou
assim:
- Acho que, morto meu Filho, pouco importa o que fiz ou não fiz...
Tive extremo cuidado em deixar que pensasse o que quisesse.
Teria sido árduo e trabalhoso arrancá-la do seu tremendo equívoco.
. Tu sabes, Jasão, porque já uma vez o comentámos. Naquele tempo,
as minhas ideias sobre o Messias Libertador eram claras e concisas.
Tinha de vir e tirar o meu povo da escravidão. O Ungido do Senhor, diz
a Escritura, surgirá no dia de misericórdia e de bênção e usará o seu
ceptro para infundir o temor do Senhor aos homens e encaminhá-los
para obras de Justiça...
Excelente investigadora dos textos bíblicos que cantavam a esperança
messiânica, recordou-nos o capítulo onze de Isaías.
.. Devido à presença do Anjo prosseguiu com certa tristeza
aqueles sentimentos cristalizaram no meu coração.
Jesus era o Filho da Promessa.
Interrompi-a. Não podia deixar passar a interessante alusão a
Gabriel:
- Em que momento se referiu o anjo a um Messias Libertador? Olhoume,
confundida. Recordando a Anunciação gravada na sua memória -,
enumerou as expressões que, segundo ela, tinham alimentado as suas
esperanças:
.. A tua concepção foi ordenada pelo céu... Chamar-lhe-ás Javé
salva... E inaugurará o reino dos céus sobre a Terra e entre os homens...
Isabel prepara o caminho para a mensagem de libertação que teu Filho
proclamará com força e profunda convicção aos homens... Esta casa foi
escolhida como morada terrestre desta criança do destino.
E os seus olhos, agora violetas pela amargura, esperaram algum
esclarecimento. Quem isto escreve atreveu-se a proporcioná-lo. Para tal,
entoei primeiro outra não menos célebre súplica da natureza messiânica,
contida nas Escrituras:
- Escuta, ó Senhor, põe sobre eles, o filho de David...

E cinge-o de força, que possa destruir os chefes injustos...
Que com vara de ferro os aniquile...
Que destrua as nações ímpias com o alento da sua boca...
E que reúna um povo santo...
E ponha as nações pagãs sob o seu jugo...
Será rei justo, instruído por Deus...
E em seus dias não haverá iniquidade no seu reino...
Pois tudo será santo e seu rei o Ungido do Senhor.
E logo a seguir perguntei:
- Será que Jesus foi um destruidor de chefes injustos? Aniquilou com
vara de ferro? Destruiu nações? Será que não houve iniquidade durante
a sua vida? Foi tudo santo? Que relação tem isto com a boa nova do
anjo? Miriam, surpreendida pelos meus conhecimentos bíblicos, fez de
defensora de sua mãe:
- Gabriel falou de uma mensagem de libertação para os homens.
Concordei, contente pela oportunidade do seu comentário. E uma vez
que o Mestre se cansara de insistir naquilo, recordei-lhes algo que não
interferia como o seu tempo:
- Essa mensagem, filha, que muito poucos compreenderam, nada tem
a ver com um Messias Libertador. Não é-fogo nem armas nem guerra
nem esplendor humano ou político o que trouxe teu Irmão à Terra. É
algo como um correio especial, directamente dos céus...
A Senhora agarrou-me as mãos e beijando-as, exclamou, radiante:
- Deus te abençoe!
Retirei-as logo. Confuso, terminei como pude:
- Um correio que, mais ou menos, recorda à humanidade que há um
Pai nos céus...
O gesto de Maria desorientou-me. E não soube terminar.
- Mas então prosseguiu, com renovado entusiasmo -, como disse
Jacob, as coisas não eram assim. Ao conhecer a negativa de meu Filho,
passei da surpresa à vergonha e à indignação.

Jesus um traidor? Nada disso. Falei-lhe, expus-lhe as excelências
daquele movimento patriótico, desfiz-me em argumentos para que
compreendesse... Inútil. De acordo com a sua natural docilidade escutoume
até ao fim. Mas, teimoso, negou-se. E chorei amargamente.
Cheguei, até, a lembrar-lhe a promessa feita a seu pai e a mim mesma,
à vinda de Jerusalém, quando tinha doze anos. Tinha-nos jurado
acatamento total e, consequentemente, esta atitude (repelindo a causa
nacionalista) era uma grave insubordinação. E assim lho dei a saber.
- Que respondeu?
- Os seus olhos, tu sabes, falavam por Ele. Olhou-me sem pestanejar.
E um calor muito estranho me sufocou. Então, limitou-se a dizer: Mãe,
como podes pensar isso? Ali mesmo me retratei e lhe pedi perdão.
Mas a Senhora não era mulher fácil de convencer. Naqueles dias
agitados, um inesperado acontecimento a fez conceber novas
esperanças. A desordem na tranquila povoação e as manobras dos
zelotas levaram um rico judeu de Caná a intervir no problema. A
instância dos guerrilheiros, o tal Isaac, que amontoara uma fortuna
concedendo empréstimos aos gentios (1), apresentou-se em Nazaré,
propondo uma solução difícil de recusar: ele arcaria com todas as
despesas de manutenção da família do carpinteiro se este, em troca,
aceitasse pôr-se à frente dos patriotas da povoação. A posição de Jesus
perante os seus vizinhos viu-se dramaticamente comprometida. E o cerco
apertou-se quando, ao conhecer as intenções de Isaac, sua mãe, seu
irmão Tiago e um dos tios Simão, irmão de Maria, que simpatizava
com os zelotas e que algum tempo depois faria parte activa do grupo
voltaram a pressioná-lo para que inaugurasse o seu destino.
- A oportunidade recordou a Senhora era magnífica. E de comum
acordo lhe fizemos ver que ficava agradavelmente liberto das suas
obrigações como chefe de família. Jesus, segundo o seu costume,
retirou-se para a colina. Tinha de meditar, disse, e conhecer a
vontade do Pai. E eu, Jasão, voltei a viver. Desta vez não podia negarse.
Tudo estava do seu lado.
A oferta não se repetiria. Meu Filho, por fim, abraçaria a causa
nacionalista e pôr-se-ia à frente dos exércitos, libertando o meu povo da
opressão dos ímpios. A hora do Filho da Promessa tinha chegado.

Aquela foi outra decisão dolorosa. Jesus teve de recorrer a toda a sua
habilidade. O panorama criado devido ao aparecimento dos zelotas não
era muito reconfortante: boa parte da aldeia os jovens em especial
esperava a sua determinação final. A própria família, com a Senhora à
cabeça, insistia para que se alistasse num movimento de índole política
e reconhecidamente sanguinário. E ele, filho do Homem, teve de
manobrar com astúcia, sem perder a bússola da verdade. Tomasse a
atitude que tomasse seria igualmente criticado. Soube-o e, pela primeira
vez na sua breve existência, actuou como um político. Não tinha sentido
falar-lhes do seu futuro, do seu sonho dourado. Assim, depois de
informar primeiro os seus, reuniu novamente com o prestamista e os
guerrilheiros. E manteve-se nos princípios iniciais:
- Não era uma questão de dinheiro, declarou com uma serenidade e
cordura que comoveu os interlocutores. A responsabilidade de um bom
pai vai além do estritamente económico.
*1 Este tipo de prestamista, meio banqueiro meio usurário, era muito frequente
nos tempos de Jesus. Eram conhecidos por foeneratores e daneistai e, apesar das
proibições bíblicas de emprestar dinheiro a juros, faziam das suas secretamente, em
especial com os gentios. A estes, segundo o Deuteronómio (xv, 3 - sim, era lícito
emprestar dinheiro a juros. No caso de o prosélito se circuncidar e passar a fazer
parte do povo eleito, o credor devia liquidar os juros. A realidade, no entanto, era
outra. (N. Do M.)
E a Senhora prosseguiu com a satisfação estampada no rosto:
- Agora sinto-me orgulhosa de um filho assim. Nenhuma causa,
disse-lhes abertamente, pode justificar a minha ausência. Minha mãe
viúva e meus oito irmãos precisam do consolo, do carinho e do conselho
de um guia do seu mesmo sangue. E o dinheiro, meus amigos, não
ajeitará a roupa aos mais pequenos nas noites de Inverno nem
consolará a solidão de Maria. Lamento. A solene promessa a meu
defunto pai não será quebrada,.
E depois de lhes agradecer as suas atenções retirou-se para a oficina.
Desconsolada, assisti, impotente, à sua irrevogável renúncia e, o que foi
pior, às críticas e maledicências dos de sempre, com a víbora à cabeça...
- Nem todos o criticaram protestou Miriam.
- Sim, querida reconheceu Maria, resignada -, mas os de sempre
traziam veneno. De que serviu que muitos dos vizinhos elogiassem o seu

honesto comportamento? A família é santa, de acordo, mas também o
era Israel.
E os zelotas, derrotados, abandonaram Nazaré. Para dizer a verdade,
este incidente não morreria com a saída dos guerrilheiros. Restava ainda
uma não menos delicada segunda parte.
O regresso de Tiago antes do previsto interrompeu a palpitante
confissão da família. Em meu entender, uma revelação muito mais
importante que a de Jesus entre os doutores da lei, única referência dos
evangelistas à infância e à juventude do Mestre. E é lícito fazer outra
pergunta. Se os responsáveis da narrativa evangélica souberam do
incidente com os zelotas, porque o ocultaram? É possível que a
explicação seja extremamente simples. Boa parte daquelas memórias
chamadas depois evangelics - foram escritas por judeus e para judeus.
Interessava trazer à luz a imagem de um Nazareno que se atrevera a
repelir a causa nacionalista? A entrada do irmão de Jesus em casa
permitiu-me verificar que o ocaso, que devia dar-se às 18 horas e 22
minutos, havia muito que se verificara. A escuridão lá fora era total.
A família aguardou impaciente que se acomodasse junto da rocha
circular que fazia de mesa. Olhávamos para ele, impacientes. Trazia o
olhar opaco do frustrado. Ao vê-lo cofiar a barba, Maria, sentada à sua
esquerda, pousou-lhe a mão direita no ombro. Ele observou-a
fugazmente. Num esforço para aliviar a ansiedade dos seus ajeitou
também a voz, retirando importância ao acontecido em casa do
saduceu.
- Recebeu-me, sim, e confirmou o envio de um mensageiro ao tribunal
de Séforis.
- E então...
A impaciência de Jacob esbarrou na calma do galileu.
Encolheu simplesmente os ombros.
- É tudo? - perguntou incrédula a Senhora.
É e não é. Quando o interroguei acerca das acusações, cuspiu-me
para os pés, furioso, e limitou-se a responder que tal como o outro
também eu era pasto da Gehena. E deu-me com a porta na cara.
- Maldito! Aquela víbora...

As imprecações de Jacob foram interrompidas pelo autoritário gesto
de Maria. Levantou a mão esquerda ordenando calma e, ignorando o
desplante de Ismael, abordou directamente o assunto que atraíra a sua
atenção:
- Tal como o outro? Que outro?
O eloquente silêncio do filho e a sua aguda intuição chegaram e
sobraram para que ela própria respondesse:
- João!
Tiago concordou, sem nada dizer.
- Como sabes? - interveio o cunhado, sem compreender.
- Deus misericordioso explicou o irmão de Jesus guiou os meus
passos...
- Os teus passos? Para onde?
Irritada com as constantes interrupções de seu marido, Miriam
ordenou-lhe que se calasse. A Senhora pediu tréguas.
- Antes de voltar aqui senti um impulso de ir a minha casa.
Esta, muito enervada, comunicou-me que um dos servos do saduceu,
tal como o velho Jairo, tinha chegado secretamente, referindo-lhe o de
Judá... e mais.
A boa vontade de Tiago, que procurava não preocupar inutilmente a
sua família, quase se desvaneceu. A voz fraquejou-lhe e a mãe, atenta
como um falcão, percebeu. Mas, arrepanhando a barba loura com os
dedos, dominou-se.
- O criado declarou secamente disse ter visto o Zebedeu.
Entrou em casa do saduceu e supõe que falou com ele.
- Supõe? Que quer dizer supõe?
Tiago não pôde esclarecer as dúvidas de Miriam.
- Imagino que possa ter sido essa a intenção de Zebedeu.
Porque não havia de ir a casa de Ismael? Assim terminaram as
notícias do enviado da família. Nada mais sabia. Apesar de ter
percorrido a aldeia pela segunda vez, o paradeiro do discípulo
continuava a ser um enigma. Se, como era de supor, tinha deixado a

mansão do saduceu depois da entrevista, porque não dava sinais de
vida? Que estava a acontecer? E a família, esquecendo de momento a
grave questão de Séforis, discorreu até ao esgotamento acerca da sorte
do seu amigo. A lógica impôs-se e os ali reunidos, com excepção da
Senhora, pareceram dispostos a acreditar que o Zebedeu, num dos seus
conhecidos arrebatamentos, seguira a caminho da capital, resolvido a
entrar no pleito. No entanto, mesmo admitindo a crise emocional que
João atravessava, havia dois pormenores que não batiam certo. E
Maria, de modo frio e calculista, expôs-lhos num tom nada
tranquilizador:
- Primeiro: se é certo que chegou a falar com o saduceu e conhece as
intenções daquela víbora, porque não se apressou em nos dar conta
disso?
E segundo: da casa de Ismael até ao caminho que vai para Séforis
teria de atravessar a aldeia de uma ponta à outra. Por que razão
ninguém o viu? Não continuará ele aqui? As pertinentes interrogações
obtiveram escasso eco. Só Miriam, intuitiva como a mãe, se atreveu a ir
mais além:
- Que estás a insinuar, mãe Maria?
Mas a mulher, assustada com os seus próprios pensamentos, fez um
gesto de renúncia, dando a entender que esquecêssemos quanto
sugerira. Quem isto escreve, no entanto, não o pôde esquecer. Uma vez
mais, o fino instinto feminino se revelou como o melhor dos detectives.
Naqueles instantes, o mais negro dos pesadelos caía sobre o discípulo.
E seriam necessários dois dias para o descobrir...
Em relação ao delicado tema do tribunal de Séforis pouco ou nada
pôde falar-se. Alguém levantou a possibilidade de viajar até à cidade e
de se interessar pela questão. Tiago, sempre prudente, voltou a insistir
na sua ideia de aceitar os acontecimentos. Na suposição de que a causa
fosse aceite, os juízes teriam de mobilizar as testemunhas das duas
facções.
Aquilo requeria tempo. Seria mais inteligente esperar e não actuar
com precipitação.
- Apesar de tudo recordou o chefe de família com uma ingenuidade
comovedora -, não cometi blasfémia alguma.

Limitei-me simplesmente a repetir as palavras do meu Irmão e
Mestre...
Jacob não perdoou a subtileza:
- Repetir não. Deves querer dizer, ratificar.
Mas a Senhora da casa não estava disposta a suportar outra batalha
dialéctica. E afastando a borrasca com um imperativo é altura de cear,
abandonou a mesa e a conversa, seguida pelas filhas. Este explorador,
como que movido por uma mola, pôs-se igualmente de pé, disposto a
regressar à estalagem. E quando já ia despedir-me dos homens, Maria
suspendeu o acender do fogão e, apontando a mesa de pedra com o
indicador esquerdo, suplicou-me que aceitasse a hospitalidade daquela
humilde casa. Antes que eu pudesse reagir, exclamou, maliciosa:
- Pensei fazer-te uma surpresa... Senta-te, Jasão. Aqui és bem-vindo.
E tu, Tiago, alegra essa cara. E faz-me um favor: este grego intrometido
(que Deus o abençoe) está empenhado em saber isso dos zelotas.
Continua tu...
O galileu abriu uns olhos espantados.
- Os zelotas? Estão aqui?
Sorrindo com benevolência, Jacob explicou-lhe do que se tratava e em
que ponto tínhamos ficado da conversa. Sem muito entusiasmo, talvez
acabrunhado com a sorte incerta do Zebedeu, começou a contar a
segunda parte da história dos guerrilheiros.
Tomada a decisão de não participar no movimento de libertação,
Jesus viu-se envolvido no que poderíamos definir como o rescaldo de um
temporal. Os seus inimigos os de sempre nunca lhe perdoaram o
atrevimento. E longe de se apaziguarem, os ânimos continuaram a
extremar-se. A partir daquele ano, o ambiente na recôndita Nazaré foi
piorando lenta mas inexoravelmente.
- Alguns, até explicou Tiago -, deixaram de o saudar.
Outros, movidos pelo ódio de Ismael, pretenderam expulsá-lo da
sinagoga. E durante um tempo, até as encomendas faltaram na oficina.
Que podíamos fazer? Meu irmão negava-se a falar do assunto. E assim,
um dia, cansado de tanta injustiça e falatório, reuni os jovens e, na
presença do saduceu e do restante conselho, aventurei-me a prometer

algo que, como bem sabes, nunca chegaria a cumprir. Cheio de fervor
patriótico, garanti que não devia preocupar-se. No momento em que a
minha idade me permitisse assumir as responsabilidades próprias do
chefe de família, disse-lhes sem rodeios, Jesus colocar-se-á à frente dos
exércitos de Israel. Então Nazaré contará com um chefe nacional e com
mais cinco valentes soldados.
- Cinco?
Mostrando-me o punho esquerdo, foi estendendo cada um dos
dedos, citando os cinco esforçados patriotas:
- Tiago, José, Simão, Judas e Amós.
Por outras palavras, pediu tempo e paciência. E, de algum modo, o
discurso do jovem Tiago, que tinha apenas treze anos de idade, sortiu
efeito. A tempestade amainou, pelo menos durante uma temporada.
Mas, como dizia, a ferida estava aberta e nunca chegaria a cicatrizar...
E tudo voltou à normalidade. Tiago concluiu os seus estudos
elementares e, pouco a pouco, foi ocupando o lugar do primogénito na
oficina. Jesus, então, deu novo passo, ampliando o negócio familiar. A
sua paixão pela marcenaria levou-o a trabalhar em interiores e,
segundo os seus familiares, com notáveis resultados.
À minha pergunta sobre os pensamentos e íntimas inquietações
daquele jovem, ao longo dos seus dezassete anos, nem Jacob nem o
seu cunhado souberam responder com precisão. Pecando talvez por
uma extrema crueza, coloquei a questão de outra maneira:
- Houve algum comentário, um sinal, qualquer indício que o fizesse
pensar que não era quem todos acreditavam que fosse? Tiago demorou
o seu tempo. A pergunta difícil foi respondida com o eloquente
silêncio.
Negando com a cabeça, veio esclarecer uma coisa que hoje poderia
ser considerado como inconcebível. Como tenho dito, o ano 30 da nossa
era encontrava-se demasiado próximo para que as inteligências
daquelas gentes pudessem avaliar na sua justa medida as palavras e a
obra de Jesus. Hoje, tudo ou quase tudo joga a nosso favor.
- Jasão, amigo, se te referes à sua divindade, tenta não confundir. É
possível que tu e muitos outros possam crer que um homem é na
verdade o Deus dos Céus. Eu e os que te acompanhamos, ainda que

tarde, acreditámos na sua palavra. Mas dá-nos tempo. As raízes dos
nossos antepassados encontram-se ainda enterradas nos pobres
corações destes homens e mulheres.
Se Ele disse, eu creio. Mas a minha inteligência, como um asno
teimoso, revolta-se e escoceia. Jesus, o Deus vivo? Só num acto de fé
posso responder-te que sim. E isto, mercê dos seus prodígios e
testemunho. Meu Irmão nunca foi um louco nem um mentiroso. Mas,
compreende-me, quando éramos jovens, nunca essa ideia me passou
pela cabeça...
- Não perguntei se te passou pela mente tentei rectificar
- mas sim pela dele.
Voltou a negar com a cabeça. E acrescentou, sincero:
- Ignoro, Jasão.
- Naqueles anos interveio Jacob, numa cordial tentativa para
satisfazer a minha sede -, se é que isso dá luz às tuas dúvidas, o tema
favorito da conversa connosco, seus íntimos, era seu Pai Celestial.
Aquela era uma boa pista. Supliquei-lhe que a aprofundasse.
- Falava dEle a toda a hora. Ao menor ou mais banal dos pretextos.
Era uma obsessão. Seu Pai estava em tudo. E tentava convencer-nos de
que éramos seus filhos. Não importava a raça, a condição social ou o
grau de bondade. Para nós não era fácil. O único Deus que tínhamos
conhecido era o de Moisés: justiceiro, abrasador por vezes, conquistador
e tão remoto que só o sumo sacerdote tinha acesso ao santo dos santos
e uma vez por ano. Como podíamos falar cara a cara com aquele Deus?
A blasfémia era flagrante. Ele, porém, vivia aquilo e explicava-o com
uma lógica e naturalidade que metiam medo.
Tiago e eu comentávamos aquilo muitas vezes: se as ideias de Jesus
chegassem aos ouvidos do conselho podia ser fulminado.
Dizia, até, que o nosso Pai amava o feio, o impuro e o disforme.
Mostrava-nos uma flor, um pedaço de madeira da sua oficina ou o seu
cão e exclamava, entusiasmado: Sabeis de algum homem que tenha
conseguido semelhante perfeição? Algumas vezes lhe perguntámos
pelo rosto desse Deus.
Mirava-nos com doçura e dizia: Podeis descrever o da música? Que

feições tem o amor? Quem será capaz de desenhar o rosto da
sabedoria? Tem olhos a ternura ou a tolerância ou a fidelidade? Pois
bem, meus irmãos, assim é o Pai dos céus; sem rosto e com os mil rostos
da beleza, do perdão, do riso, da paz e, principalmente, da
misericórdia. Para quem isto escreve, a descoberta na alma humana de
Jesus de um Deus-Pai tão oposto à concepção judaica era já um aviso.
Tinha para si como muito claro que uma das suas grandes missões era
tentar desfazer o erro. A humanidade arrastava naquele tempo a negra
cadeia de mil deuses ou, no melhor dos casos, de um único Deus (Javé),
que nada tinham a ver com aquele conceito de filiação divina. Daí à
plena tomada de consciência da sua natureza celeste era só um passo.
De repente, o familiar e caseiro aroma do azeite ao fogo foi-se
apossando do recinto. As mulheres, no cimo da plataforma, agitavam-se
de um lado para o outro, abrindo a grande arca, preparando verduras e
vigiando a lenha que alimentava o fogão. De vez em quando passavam
ao nosso lado, dirigindo-se ao recanto das ânforas ou ao quintal. E
voltavam à cozinha com pequenos cântaros de água ou molhos de
cebolas e de alhos, mergulhando-nos numa paz tranquila e relaxante.
Ruth, a pedido de seu irmão, deixou sobre a rocha um jarro de barro.
E o vinho foi acompanhado por uma escudela repleta de azeitonas em
vinagre e um prato de insectos, secos em sal, que, por não terem as
suas asas membranosas me custaram a reconhecer. Tratava-se de um
dos aperitivos mais comuns entre as gentes de humilde condição:
gafanhotos de pernas duras que, muito contra vontade, tive de
saborear. A hospitalidade dos orientais tinha destas servidões. Recusar
a única coisa que possuíam e que ofereciam com todo o coração teria
sido grave afronta.
Ao verificar como eu me demorava na inspecção aos pequenos e
acinzentados ortópteros, Tiago, escusando-se pela modesta entrada,
pôs-se a culpar os impostos.
- Desde a chegada do invasor acrescentou, em clara referência aos
romanos não há família honrada que consiga levantar cabeça (1). Já
naqueles anos, quando meu Irmão tomou a seu cargo a oficina, os
pesados encargos civis e religiosos obrigaram-nos a uma infinidade de
apertos e, o que foi pior, à liquidação dos bens que meu pai reunira com
o suor e o trabalho de toda a sua vida.

- A última destas propriedades informou o Galileu foi uma parcela
da vizinha Nahum. Um terreno sobre o qual pesara uma hipoteca. Com o
produto da venda foi possível o pagamento dos impostos, a compra de
novas ferramentas e empreender outro dos projectos de Jesus: a
compra do velho armazém de abastecimento de caravanas que, em
tempos, pertencera a José e a seus irmãos.
*1 Desde tempos imemoriais que a sociedade judaica se via submetida a dois
tipos fundamentais de impostos: os civis e os religiosos. Os primeiros datavam do
tempo de Salomão, que, astuto, dividiu o reino em doze cantões. Cada um era
obrigado a satisfazer as suas necessidades, quer em dinheiro quer em espécie.
Depois do exílio da Babilónia, estes impostos mudaram de mãos e os Judeus viramse
forçados a entregar parte dos seus ganhos aos odiados invasores: persas,
egípcios, gregos e romanos. Mais tarde, com o cruel e despótico rei Herodes, o
Grande, os encargos tributários tornaram-se insuportáveis. E o edomita viu-se
obrigado a suspender mais de uma cobrança de impostos, ante a ameaça de uma
sublevação popular. Para que façamos uma ideia, alguns dos seus filhos caso de
Arquelau e de Antipas chegaram a receber, só de impostos directos, as cifras de
600 e 200 talentos, provenientes de Judeia e Samaria e Galileia, respectivamente.
(Um talento era equivalente a doze mil denários.) Com a chegada de Roma, estes
impostos civis multiplicaram-se. Eram cobrados por múltiplos motivos: portagens em
pontes e estradas, direitos de alfândegas, de entrada nos portos, pelo consumo de
água, pelo uso de terras de titularidade pública, pela propriedade de casas,
indústrias, oficinas ou escravos, etc. Mas os mais duros eram os chamados de
capitação. Eram fundamentados nos censos e, desde um começo, foram tomados
como o símbolo da vergonhosa dominação estrangeira. Tanto as terras como as
propriedades eram avaliadas regularmente, atribuindo a cada titular o tributo
correspondente. E era-lhe exigida a décima parte das colheitas de cereal, bem
como um quinto das de vinho. Além disso, tinham de garantir um tanto proporcional
do valor dos direitos pessoais ou profissionais. Se o industrial, camponês, pescador
ou comerciante tinha assalariados, era obrigado a reter uma parte da jorna, à conta
de impostos de capitação. A este funesto quadro haveria que juntar as obrigatórias
taxas religiosas, estabelecidas já no Génese (XIV, 20) que fixavam, que o dízimo
de tudo pertencia ao Altíssimo. Os referidos impostos permitiam a manutenção do
Templo de Jerusalém e, naturalmente, dos milhares de sacerdotes ao seu serviço.
Cada judeu maior de doze anos era obrigado a contribuir com meio siclo (dois
denários), além da contribuição exigida pelas sinagogas das respectivas cidades e
aldeias. Porém, este tributo era insignificante ao lado daquele que se denominava
dízimo. A lei estabelecia que a décima parte de toda a colheita, rebanho, pesca e,
em geral, de qualquer produto do solo, devia ser entregue ao culto de Jerusalém. A
ambição dos sacerdotes chegava a extremos inacreditáveis. Retiravam dízimo de
quanto podiam imaginar: desde os ovos de uma capoeira às modestas ervas

usadas para cozinhar, ou à lenha destinada ao Inverno. E pobre daquele que
ocultasse as suas propriedades aos levitas que faziam a cobrança! Um produto que
não pagava dízimo era qualificado de impuroH e, consequentemente, o seu
proprietário caía na ignomínia do pecado. A partir de 15 de adar (mês que
antecedia a Páscoa), longas caravanas de carros com os dízimos afluíam à Cidade
Santa de todos os cantos de Israel, transportando as primícias e o melhor das
colheitas.
Os responsáveis do Templo, claro está, esfregavam as mãos de contentes. O
sustento anual de todos eles e mais ainda estava garantido, em nome de Deus.
(N. Do M.)
- Pagámos uma primeira prestação continuou a recordar com
saudade e, aproveitando o alívio económico, meu Irmão deu-se ao
luxo de uns dias de descanso.
É bom notar que na sociedade judaica, menos favorecida pela fortuna,
o actual conceito de férias não existia. Uma viagem de negócios ou uma
peregrinação, por exemplo, encerravam um significado semelhante.
..E poucos dias antes da Páscoa participou-me a grande notícia:
levar-me-ia a Jerusalém. Era a minha primeira visita à Cidade Santa. Já
podes imaginar a alegria...
Na Primavera daquele ano 12, prescindindo da grande caravana que
devia partir de Nazaré, seguiram sozinhos pela rota que atravessava a
Samaria. E tal como fizera José com o primogénito, Jesus sentiu-se feliz
por explicar ao irmão a história dos lugares por onde passavam. Não há
dúvida de que boa parte da formação daquele galileu era devida ao
solícito carpinteiro de Nazaré. Tiago era um homem religioso, à sua
maneira. Respeitava as tradições mas, lentamente, influenciado por seu
Irmão, foi pondo em questão muitas das rígidas e absurdas normas
religiosas que estrangulavam a vida diária.
Apesar disso, durante anos, encorajou a velha ideia de sua mãe de
ver Jesus convertido num líder. Mais: quando da morte do Filho do
Homem, foi um dos grandes desiludidos.
- Naquela viagem confessou, entusiasmado com a sua própria
narração -, aprendi a estimá-lo de verdade...
- Não entendo.

- Verás. Foram muitas horas de convivência. E longe e afastados das
obrigações habituais. Na Nazaré não era tão simples. Além disso, ao
sair da aldeia, meu Irmão transformava-se. Como poderei explicar-te?...
Era como se recuperasse a liberdade. Como se entrasse no mundo que,
na verdade, Lhe pertencia e pelo qual esperava. O cabelo ao vento, o
olhar alegre e determinado, o passo firme e confiante, tudo o convertia
num triunfador. Conto-te um pequeno segredo?
Quase me engasguei com um dos gafanhotos.
..Eu só tinha catorze anos, acabados de fazer, mas, por causa
daquela peregrinação, vi-o como um chefe. Soube que meu Irmão
estava destinado a grandes empresas. Nota-se nalguns gestos das
pessoas. São concretos. Inconfundíveis.
- E qual dos gestos de Jesus te levou a acreditar em tal?
- Dois respondeu de imediato: - a palavra e os olhos.
Ambos tinham o selo da predestinação.
Antes de chegar à Cidade Santa, Jesus confirmaria a seu irmão a
solene decisão adoptada dois anos antes: esperar pela maioridade e
independência dos seus para revelar ao mundo a única verdade que
deveria ficar em letras de ouro: a existência do Pai.
A tradicional ceia da Páscoa teria lugar em Betânia, na herdade de
Lázaro. Simão, o chefe da família, fora enterrado recentemente e, de
acordo com o costume, Jesus presidiu à mesa.
- Foi uma jornada intensa e inolvidável. Terminado o cordeiro, meu
Irmão falou muito e animadamente. Porém, tal como acontecia em
Nazaré, as suas ideias sobre o Pai Celestial não foram muito bem
compreendidas por Lázaro e suas irmãs.
Amavam-no, porém.
Na manhã seguinte, consumada a cerimónia da aceitação de Tiago
como membro de pleno direito da comunidade de Israel, os irmãos, de
regresso a Betânia, fizeram alto na falda ocidental do monte das
Oliveiras. Durante algum tempo, o novo cidadão desfez-se em elogios e
louvores à esplendorosa Jerusalém.
- Jesus, pelo contrário, não abriu a boca. Olhava a cidade e calava-se.
Não foi possível abrir-lhe o coração. E a partir daquela manhã tornou-se

silencioso e taciturno. Mais ainda: mal entrámos em casa de Lázaro
comunicou-me que tínhamos de voltar à Galileia. E eu, quase de joelhos,
supliquei-lhe que esperássemos mais um dia. Queria voltar ao Templo e
assistir às discussões dos doutores da Lei. Jesus, afagando-me os
cabelos, sorriu com certa tristeza, aceitando. Sabes uma coisa? Não lhe
disse toda a verdade.
- Mentiste-Lhe?
Tiago corou.
- Mais ou menos... Era verdade que desejava contemplar os sábios. O
que falei foi que morria de desejo de o ver discutir com eles...
- Repugnante fabricante de jugos! - censurou carinhosamente Jacob. -
Só tu podias lembrar-te de coisa assim.
No entanto, as secretas intenções de Tiago ver-se-iam frustradas.
Efectivamente Jesus, acompanhou-o ao Templo e permaneceu muito
tempo escutando as discussões. Porém, apesar dos incitamentos do
irmão, o Filho do Homem manteve-se à margem.
- Eu olhava-o e não conseguia entender. O que ali ouvimos não devia
agradar-lhe. Não era aquilo que me tinha contado minha mãe. E por
fim, morto de curiosidade, perguntei-lhe porque não se decidira a
intervir. A sua resposta, tantas vezes escutada nas discussões com a
mãe Maria, deixou-me como antes: Não chegou a minha hora. E
passando-me o braço pelos ombros dirigimo-nos para Betânia.
No dia seguinte, de madrugada, deixavam a aldeia, encaminhando-se
para Nazaré pelo caminho do Jordão.
- Foi nessa viagem de regresso a casa que Jesus, ao contar-me o que
acontecera na sua primeira peregrinação à Cidade Santa, quando
contava apenas doze anos, se pôs particularmente sério e me fez
prometer que, se Ele faltasse um dia, eu velaria pelos mais pequenos.
Esta revelação de Tiago veio confirmar-me o que sempre suspeitei: a
famosa fuga de Jesus Menino, apesar de tudo, teve de lhe doer no
mais íntimo. Depois, friamente, quando teve consciência da angústia que
provocara em seus pais durante quatro dias, não teve outro remédio
senão sentir-se culpado.
Perto de completar os dezoito anos, a vida do modesto carpinteiro

passou por uma pequena e agradável mudança. Com seu irmão à frente
da oficina, Jesus dedicou-se plenamente ao armazém de abastecimento
de caravanas, localizado no pequeno bairro dos artesãos, muito perto
da fonte. Esta nova actividade proporcionar-lhe-ia alguma coisa de que
se vira privado desde o falecimento de José: as conversas e a troca de
informações com os viajantes e comerciantes chegados de todo o país e
de mais além das fronteiras de Israel.
- Vou dizer-te uma coisa, Jasão. Aquela boa gente, pagãos na sua
maioria, agradeciam estas relações. Meu Irmão fazia-lhes uma
infinidade de perguntas e a espera era infinitamente mais agradável.
Nem todas as estalagens e armazéns recebiam os prosélitos com o
mesmo carinho e simpatia. E o saduceu, informado do que considerava
uma fraqueza imprópria de um judeu, criticou-o repetidas vezes. Mas
Jesus sempre lhe respondia o mesmo: Grandes trabalhos foram criados
para todo o homem. Um sorriso e uma palavra amável tornam mais leve
o jugo.
- E que vendia nesse armazém?
- O costume: cordoaria, forragem, odres para água e para vinho,
canastras, todo o género de roupa de abafo, cajados trabalhados por
ele próprio, víveres (às vezes cozinhados por mãe Maria) as ânforas de
Nathan, os meus próprios jugos e trabalhos em couro... Enfim, de tudo.
E o armazém, como outrora com a oficina de carpintaria, foi-se
convertendo em algo mais que um simples negócio. Por ali passavam
todos os anos dezenas de bufarinheiros, negociantes de cereais, vinho e
especiarias, e um pintalgado mosaico de caravaneiros e comerciantes
retalhistas e grossistas de todas as raças e credos.
- E muitos, velhos amigos, terminavam a noite nesta casa,
compartilhando, como tu, o pouco que tínhamos ou o muito que traziam.
Desta forma, Jesus e todos nós soubemos de outros costumes, povos e
crenças. E graças a Ele aprendemos a difícil lição da tolerância.
Antes de acabar o ano era o mês de Setembro a família de
Nazaré receberia uma gratíssima surpresa.
A duas semanas de festejar os seus dezoito anos, Jesus viu chegar
Isabel e seu filho João. Foi o melhor presente. Havia muito tempo que
não se viam e, sem que nada o fizesse adivinhar, seria uma reunião

histórica. Seu primo afastado, que mais adiante seria conhecido pelo
Anunciador mostrava-se confuso. Desde a morte de Zacarias não tinha
muito claro o seu futuro. Isabel, como acontecia com a Senhora e Jesus,
continuava a traçar-lhe grandiosos planos. Ocuparia o segundo escalão,
em glória e dignidade, ao lado do futuro Messias Libertador. No
entanto, a oposição de Jesus a estas ideias messiânicas conduziram
João a um mar de dúvidas. E Isabel informou Maria dos loucos projectos
de seu filho: queria retirar-se para as montanhas de Judá e dedicar-se
inteiramente à agricultura e à criação de carneiros. A Senhora, desolada,
refugiou-se em sua prima e esta, por sua vez, em Maria. Que podiam
fazer com aqueles varões, que recusavam a máxima honra a que podia
aspirar um judeu? E ao vê-los novamente reunidos ambas conceberam a
mesma ideia: talvez, ao trabalharem juntos, ao permanecerem lado a
lado em Nazaré, os seus sentimentos mudassem. Mais uma vez, no
entanto, os projectos das mulheres naufragariam ante a categórica
negativa dos fiLhos. João e Jesus tiveram longas conversas, analisando
as suas respectivas concepções do Messias, do Pai dos Céus, bem como
dos seus planos pessoais. Mas, segundo as minhas informações, as
divergências naqueles momentos eram tais que, de mútuo acordo,
decidiram separar-se até que chegasse a hora. João, mais impulsivo
que seu primo, não teria encontrado inconveniente em se meter pelos
caminhos naquele mesmo instante. Mas entendeu a posição de Jesus.
As suas responsabilidades, com a mãe a seu cargo e uma herdade a
dirigir, não eram as mesmas que as do gerente de um armazém de
abastecimento, com nove pessoas ao seu cuidado e recursos
económicos limitados. Teria sido interessante presenciar estes encontros
entre o futuro Filho do Homem e o Anunciador. O certo é que se Jesus
chegasse a ceder, recebendo os seus parentes de Nazaré, o destino, do
chamado João Baptista talvez tivesse sido outro... E aquele gigante de
dois metros de altura e sua mãe regressaram à Judeia. Já só voltariam
a ver-se no célebre baptismo no rio Jordão. Aquela Inteligência que tudo
dirige foi inflexível, mais uma vez.
Inexplicavelmente para mim, Tiago interrompeu a narração.
Bebeu o vinho e durante um longo minuto permaneceu de olhos
baixos, como se um pesado fardo acabasse de o esmagar contra a
mesa de pedra. Interroguei Jacob com o olhar. O cunhado fez-me um
quase imperceptível gesto, recomendando-me calma. Com pulso firme e

calmo encheu a tigela do abatido galileu. Afastado dos seus
pensamentos pelo gorgolejar do vinho, levantou os olhos, agradecendo
o nosso silêncio. Por fim, baixando o tom de voz, Jacob interrogou-o nos
seguintes termos:
- Desejas falar de Amós?
Negou com a cabeça.
- Está bem. Se me autorizas, posso continuar.
Tiago vacilou. Mas, ao reparar na minha sincera expectativa, fechou
os olhos, consentindo. Pôs uma condição. Que sua mãe não escutasse o
relato. Desviei os olhos para a plataforma.
Maria e suas filhas, tagarelando e atarefadas nos preparativos da
ceia, estavam alheias aos nossos assuntos. Não conseguia entender o
mistério. Jacob imediatamente o esclareceria.
- Naquele ano, quando as questões materiais e económicas
começavam a compor-se lentamente, uma nova desgraça caiu sobre
esta casa...
Dado o baixo tom de voz do meu confidente tive de me inclinar para a
rocha circular. Tiago continuava com o rosto e a alma tristes.
..Aconteceu ao anoitecer de um sábado de Dezembro.
Jacob deteve-se, tentando recordar a data exacta. Não conseguiu. E o
seu cunhado, que apesar das aparências se mantinha atento, murmurou
o dado que faltava:
- Três.
- É isso confirmou o narrador. - A três de Dezembro do ano doze a
cólera de Deus saciou-se na família que muito em breve seria a minha.
Santiago protestou.
- Porque asseguras o que não sabes? Meu Irmão ensinou-nos que o
Deus dos Céus nunca é vingativo nem colérico.
- Então replicou Jacob com assombro -, como explicas o que
aconteceu?
Não obteve resposta. E este explorador, confuso e impaciente, teve
de se calar.

- Como interpretas tu, Jasão, a súbita morte de uma criança de cinco
anos?
Desta vez fui eu quem se refugiou na tigela de vinho.
- Uma morte? De quem? - perguntei, como um estúpido.
- De Amós.
E antes de tentar responder à difícil interrogação de Jacob, roguei-lhe
que se alongasse nos pormenores.
- A doença, fulminante, levou-o numa semana. Nem sequer o
auxiliador das rosas pôde fazer nada por ele...
Ao saber que o velho Meir tinha visitado o mais pequeno dos varões
da família supus que o mal, ao não ser atalhado pelo excelente rofé,
devia ter sido de difícil controlo. A primeira descrição da doença febres
malignas não me ajudou grande coisa. Naquele nome cabia uma
infinidade de problemas. E apesar da amargura do momento arrisqueime
a solicitar sobre a sintomatologia. Pouco a pouco, creio, fui-me
aproximando da verdadeira natureza do mal, que terminou com a curta
existência de Amós. Da noite para o dia, aquele menino saudável feliz e
travesso viu-se atacado por uma forte dor de garganta febre alta e
rouquidão. Em questão de horas apareceu uma disfagia (dificuldade na
deglutição) e uma alarmante insuficiência respiratória, com sinais que
apontavam para o que hoje é conhecido em medicina como epiglotite
aguda (1): baba, silvo respiratório (som agudo, parecido com um
assobio), dispneia ou dificuldade na respiração e uma angustiante
taquipneia, ou ritmo respiratório superficial e acelerado.
A expressão de Jacob estava certa a criança parecia um moribundo,
- e a angústia estrangulou o lar de Nazaré. Nem os remédios, nem as
fricções de azeite, nem as sangrias de Meir sortiram efeito. Para salvar
a vida do menino teria sido necessário, além dos antibióticos específicos,
a rápida abertura de uma via aérea, preferentemente de natureza
naso-traqueal (intubação pelo nariz) ou, em alternativa, uma
traqueotomia (operação que pressupõe a abertura da traqueia).
Nada disto, como é lógico, chegou a acontecer. E o indefeso Amós
continuou a apresentar um quadro veloz e alarmante que o levaria a
uma horrível morte: retracções inspiratórias profundas supra-esternais
(por cima do esterno), supraclaviculares, intercostais e subcostais (entre

e por baixo das costelas). A faringe, com toda a certeza, ver-se-ia
inflamada e a epiglote, rígida e tumefacta, assemelhar-se-ia a uma
cereja vermelha. Se o bom Meir dispusesse de algum antibiótico a
aplicar por via distinta da digestiva ou intestinal, caso do cloranfenicol e
da ampicilina, os resultados talvez tivessem sido diferentes. Isso,
obviamente, era como um sonho.
E o destino foi implacável. Amós, nascido a 9 de Janeiro do ano 7,
morreria quando lhe faltavam cinco semanas para completar os seis
anos. Era a segunda morte em pouco mais de quatro anos.
- Maria quase o seguiu na tumba... - sussurrou Jacob. - Se o
desaparecimento de José foi uma machadada, o do filho destroçou-a
física e moralmente.
*1 Infecção grave, rigidamente progressiva, da epiglote (lâmina fibrocartilaginosa,
delgada e flexível, situada por cima do orifício superior da laringe, que
fecha no momento da deglutição) e tecidos vizinhos, que pode ser mortal a breve
prazo. A epiglote inflamada ocasiona uma súbita obstrução respiratória. O agente
patogénico costuma ser com frequência o Haemophilus influenzae do tipo B. A
epiglotite é vulgar em crianças dos dois aos cinco anos, podendo apresentar-se em
qualquer idade. A infecção, facilmente assumível pelas vias respiratórias pode
causar de início uma nasofaringite, propagando-se depois para baixo e inflamando
a epiglote e até, a árvore traqueo-bronquial. Esta inflamação da epiglote obstrui
mecanicamente as vias respiratórias, ocasionando retenção de CO2 e hipoxia. Do
mesmo modo, dificulta a eliminação das secreções inflamatórias. A consequência
última é uma asfixia mortal. Uma morte, pondo de lado as lógicas distâncias,
relativamente próxima da que Jesus padeceu. (N. Do M.)
E todos clamámos a Javé. Porquê? Que pecado tínhamos cometido?
O único que se mostrou firme (bendito seja o seu nome!) foi Jesus.
Ninguém o viu chorar. Mas também não consentiu que os seus familiares
levassem o cadáver de seu irmão para a colina.
Ele próprio, com uma serenidade e majestade invejável, o ergueu nos
braços, presidindo ao cortejo fúnebre. E ao depositá-lo junto aos restos
mortais de José, beijou-o e clamou em alta voz: Pai meu, esta é a tua
vontade. Amós é teu e a ti volta. E agora liberta-nos da tristeza: a
verdadeira morte.
E durante semanas esta casa foi um desfiladeiro deserto. A aldeia
desfilou por ela nas pontas dos pés. Ninguém falava.

Apesar dos esforços e da presença permanente de Jesus, Maria
negava-se a comer. Chegou um momento em que tememos pela sua
saúde. Até que, carinhoso mas firme, o Filho lhe pousou as mãos nos
ombros e lhe disse: Mãe, o desgosto não pode ajudar-nos. Fazemos o
que podemos, mas não é bastante. O Pai, agora, pede-nos o tributo de
um sorriso. Concede-nos o teu.
Assim, tudo sairá melhor. E não percas a esperança. Ele sabe o que
nos convém. Também na dor está a sua mão. Conseguiu o que parecia
um milagre. O seu optimismo, paciência e sensatez foram como que um
bálsamo. E Maria, muito devagar, recuperou a cor e o gosto de viver. A
partir daquele luto, Jesus foi unanimemente reconhecido como um chefe
valoroso.
Não quis penetrar na análise de uma das leituras deste acontecimento
dramático. Mas, ao reflectir sobre ela, mais me firmei na crença de que,
por essa altura, quando Jesus tinha dezoito anos, ainda não tinha
consciência do seu poder e natureza divinos. Se tivesse sido assim, teria
deixado morrer o seu querido irmão? Sabendo o que sei sobre a sua
vida de pregação aposto que não. Foi a ternura o que o moveu a
efectuar muitas daquelas curas. Algumas, por minha fé, bem mais
difíceis que a de uma epiglotite aguda. Mas tenho de me conter. Não é
o momento para referir até onde chegava a compaixão daquele
homem.
Não o posso ignorar. Contemplando a vida do Mestre desta
privilegiada atalaia quase como num filme até o mais céptico teria
de reconhecer comigo que aquela Inteligência Superior, qualquer que
seja o nome que lhe dermos, foi colocando o Filho do Homem perante as
mais díspares e corrosivas provas que um ser humano pode enfrentar.
Só aqueles que tenham padecido o infortúnio poderão aproximar-se do
que procuro sugerir. Pois bem, até nisso me vi ultrapassado pela
têmpera daquele gigante de dezoito anos. Como é certo que o machado
do destino abre os corações e que só então se descobre o interior da
árvore! O verdadeiro herói não se manifesta unicamente na trincheira ou
no arriscado jogo da salvação de uma vítima.
A coragem e a firmeza de ânimo, no caso daquele Jesus com o
cadáver do irmão nos braços, demonstram-se, principalmente, na
obscura espiral de um lar enlutado ou na tormenta anónima de cada

dia. Jesus herói sem medalhas durante vinte e oito anos pode
também ser o consolo dos constantemente desfavorecidos da fortuna.
Para o conseguir partindo deste meu fraco conhecimento -, o Mestre
pôs em movimento um motor principal e dois auxiliares: a sua fé na
vontade do Pai Celeste, a sua paciência para com os outros e a força da
sua inteligência, concentrada como um laser na resolução dos
problemas, um por um. Esta inteligente harmonia de fé, tolerância e
sentido prático permitir-lhe-ia voar sempre como homem mais alto,
mais longe e mais veloz do que todos, sem atropelar e sem se
atropelar.
Pregando com o exemplo, não só se pôs de novo à frente do negócio
como ainda, ante a surpresa dos seus e de estranhos, aceitou com
gosto participar num ciclo de discussões filosóficas para jovens,
organizado pelo conselho da sinagoga. O luto, respondia aos que
criticavam a sua aberta actividade social, pesa mais na recordação que
nos modos. E estas reuniões periódicas com a juventude de Nazaré lhe
devolveram algum do prestígio perdido por causa dos zelotas.
- Ah! - exclamou de repente Jacob, em voz tão alta que todos ali
puderam ouvi-lo. - Então não conheces a história de Rebeca...
- Que estás a dizer?
Que significava aquela tão evidente mudança de assunto? Estávamos
a falar da morte de Amós...
Fazendo-me um sinal com os olhos, ajudou-me a entender. Ruth
acabava de depositar sobre as esteiras uma ampla vasilha de bronze.
- Rebeca improvisei -, sim, claro... Ou por outra, não...
Quem diabo era Rebeca? Foi preciso dar tempo ao tempo. A
esquilazinha deu-nos os panos necessários e, por indicação de Santiago,
só tive de lavar a mão direita. (A que naturalmente usava, tal como os
Judeus, para me limpar depois de defecar.) A Senhora, triunfante,
anunciou do fundo da plataforma:
- Estamos prontas. Abram caminho...
Miriam, sorridente, carregando um pesado alguidar, foi descendo os
degraus com especial lentidão, tentando não derramar o conteúdo. E de
novo este explorador ia cometendo outro erro. Ao reparar no peso que
Maria transportava fiz menção de me levantar para a ajudar. Já meio

de pé recordei que não era esse o costume.
E quando me dispunha a sentar-me, Jacob, atento a tudo, sugeriu-me
que o acompanhasse. Também ele precisava do lugar secreto... A
errada interpretação não veio fora de propósito. Para dizer a verdade,
havia algum tempo que sentia essa necessidade. E o galileu, pegando
numa das candeias, fez-me sinal para que o seguisse. Saímos até ao
quintal e, aproximando-nos do pombal, o meu gentil guia tratou de abrir
uma pequena porta meio camuflada na fachada do abrigo, no canto
esquerdo. Entregando-me a candeia convidou-me a passar. Talvez me
tenha excedido no termo passar.
O cubículo, de metro e meio de altura por apenas um metro de lado,
não me permitia ficar de pé. Um cheiro característico recordou-me a
natureza do lugar. Inspeccionei-o à fraca luz do azeite, descobrindo a
sua mais que rústica configuração: um poço negro meticulosamente
coberto por uma tábua de madeira, com uma abertura no centro. Era
tudo. Aquela latrina nada tinha a ver com o luxuoso asseio que tinha
visto na casa de Elias Marcos, em Jerusalém.
Depois de eu e de Jacob nos termos servido da improvisada casa de
banho, o galileu voltou a dar-me passagem para casa. Quando
estávamos quase a atravessar o estreito corredor, um desordenado
afastar de passos fez-me voltar a cabeça para a cancela. Foi
vertiginoso. Umas quantas pombas, assustadas, lançaram-se num curto
voo, esvoaçando por cima do pátio. O meu companheiro parou também.
E lançando mão ao gladius abriu a porta de repente, assomando
impetuosamente. A escuridão era absoluta. Convencido de que podia
tratar-se de um falso alarme regressou ao pátio, convidando-me a
voltar para junto da família. Eu, pelo menos, tinha ouvido aquele ruído
de passos com total nitidez. A tranquila atitude de Jacob não me serviu
de consolo. Alguma coisa de estranho se passava em volta da casa.
Depois de uma segunda e obrigatória ablução tomei lugar na frente
de um alguidar fumegante. E Jacob fez o mesmo, esfregando as mãos
de satisfação. Não divisando a menor sombra de preocupação no seu
rosto pelo que acabava de acontecer lá fora, preparei-me para prestar
honras ao guisado de verduras que Miriam colocara no centro da
rocha... Tiago abençoou a ceia e, contra o que é costume segundo os
ortodoxos da lei, as mulheres acomodaram-se a nosso lado,

compartilhando o excelente guisado, onde descobri alho, cebola,
lentilhas, alhos porros, alcaparras e algumas aromáticas e apetitosas
folhas de hortelã-pimenta e de jeezer (uma das variedades de alecrim
silvestre).
Ruth, foi distribuindo os talheres, umas enormes colheres de madeira
de pinho. Ao receber a minha, a Senhora, atenta aos meus movimentos,
antecipando-se à minha curiosidade, adivinhou o que eu estava a
pensar:
- Isso mesmo, Jasão... obra de meu Filho.
Uma tremura denunciou-me e quase deixei cair a escura colher.
Maria sorriu, divertida. Dirigindo-se a Jacob, falou outra vez na já
esquecida história de Rebeca.
- Disso quem mais sabe é Miriam...
Confundido, tentei meter a colher no alguidar. De acordo com as
normas da urbanidade daquelas gentes, tive de esperar a minha vez.
Quando se tratava de um recipiente comum, assim o exigiam as boas
maneiras, meter a colher ao mesmo tempo que outro comensal era uma
grosseria e até sinal de mau augúrio.
A família, testemunha da minha inicial falta de habilidade, começou a
rir, contagiando-me com a sua alegria. As gargalhadas soltaram-se em
cascata quando, de repente, ao atravessar-se na garganta de Jacob, o
guisado foi catapultado como chuva de perdigotos sobre os comensais.
O inocente e pueril alvoroço acabou por desanuviar o ambiente pesado.
Miriam, ansiosa por falar do misterioso tema de Rebeca, não se fez
rogada.
- Por onde começo? - perguntou à mãe.
- Pela sua beleza interveio Ruth com os olhos a brilhar.
A Senhora, movendo a cabeça em sinal de desaprovação, rogou-me
que desculpasse a impulsiva ruiva.
.. Tem razão, mãe Maria aprovou Miriam. - Pelos seus dezoito anos
era um magnífico exemplar...
A Senhora, irritada com o que considerou uma vulgaridade, recriminou
a filha. Não serviu de grande coisa.

- Era alto, forte, bonito...
- Muito! - lançou de novo a esquilazinha.
..A sua prudência, bondade e brilho prosseguiu Miriam num tom
mais sério não passaram despercebidos aos olhos dos homens e das
mulheres. E uma dessas jovens de Nazaré... - Comecei a suspeitar... -
enamorou-se de Jesus.
Desta vez fui eu quem se engasgou, e os risos eclipsaram as últimas
palavras de Miriam. Tossindo, aflito, desculpei-me.
Hoje não compreendo a minha estranheza. Aquilo era o que havia de
mais natural e formoso.
..Fui a primeira a sabê-lo declarou Miriam com orgulho.Rebeca tinha
menos dois anos que Jesus. Era de Nazaré.
Todos a conhecíamos. A sua família, embora mais abastada do que a
nossa, era nobre e carinhosa.
- Mais abastada? - exclamou Jacob com ironia.
.. O velho Ezra guardava muitos talentos (1) na banca de
Jerusalém... Jasão, o pai de Rebeca era dono de meia aldeia.
Um bom partido, pensei para comigo.
..E um dia confessou-me os seus sentimentos por meu Irmão.
Para mim, que tinha então catorze anos, a notícia (ou antes a
confidência) encheu-me de surpresa. Entre os rapazes e raparigas da
aldeia havia sempre rumores. Todas sabíamos quem gostava de quem.
Mas de Rebeca, nem por sonhos... Não soube que dizer-lhe.
- Acerca de quê?
A minha pergunta, com segundas intenções, foi compreendida pelas
mulheres. Os homens, em contrapartida, nada entenderam.
- Oh, Jasão! - censurou-me Miriam. - De que havia de ser? Eu
ignorava os sentimentos de Jesus por Rebeca. Ela, tímida e
prudentemente, quis certificar-se primeiro. Por isso me interrogou. Vocês,
os homens, por vezes parecem tolos...
Procurei os olhos de Maria. A sua placidez indicou-me que tudo estava
correcto. E atrevi-me a lançar uma pergunta que começava a queimarme
o coração:

- Alguém, alguma vez, soube se Jesus se sentiu atraído por uma
rapariga?
Miriam fitou sua mãe. E esta, por sua vez, trocou outro olhar
significativo com Ruth. As três, quase em uníssono, reconheceram que
não sabiam. Tiago e Jacob igualmente negaram com a cabeça. Se o
jovem Jesus soube na sua adolescência ou juventude o que era esse
formoso sentimento, tão próprio da idade, nunca o exteriorizou.
- Meu Filho interveio então a Senhora teve a desgraça de quase
saltar da meninice para a responsabilidade de um pai.
Como é que ia pensar nessas coisas?
Embora não compartilhasse o seu critério, preferi escutar.
- E fiz tudo o que podia fazer sublinhou a mulher de Jacob.Falar com
mãe Maria. Contei-lhe o encontro com Rebeca e a sua secreta confissão.
Por um momento, não soube para quem olhar. E a Senhora, tomando
a palavra, tornou mais fácil a questão.
- Ao princípio, fiquei desconcertada. Depois, fiquei contra.
Aquilo não entrava nos meus planos. Jesus casado? Nem pensar! Era
o Filho da Promessa: o futuro Messias. Como hipotecar o meu sonho com
uma boda?
Tiago moveu a cabeça num quase imperceptível gesto de desacordo.
Mas a mãe apanhou-o, replicando sem contemplações:
*1 Um talento uma fortuna equivalia a uns três mil siclos (doze mil denários).
(N. Do M.)
- Agora é fácil criticar-me! Então, tu pensavas o mesmo.
O silêncio do filho encerrou o assunto. E Maria, cingindo-se aos factos,
continuou o relato, olhares esquivos a Tiago.
..Além disso, que ia ser de nós? Jesus era o chefe e o principal
sustento da família.
Naquilo também não lhe faltava razão. Se Jesus tivesse consentido no
casamento com Rebeca, a sua própria casa teria sofrido uma grave
quebra económica. Sua mãe, ante a séria ameaça que rondava o lar,
tomou a atitude que considerou justa: falaria com a rapariga, numa
tentativa para deter o perigoso processo. E de acordo com Miriam fá-lo

ia em segredo, procurando por todos os meios que não chegasse aos
ouvidos de seu Filho. Assim foi:
- Tivemos uma grande conversa. Rebeca, na verdade, foi sincera.
Amava Jesus. E eu, Jasão, pus-me a tremer. Sabes do que é capaz uma
mulher apaixonada?
Não pude responder. Nunca soube.
.. Talvez que o pior não fosse estar profunda e sinceramente
enamorada de meu Filho. O terrível é que, de certo modo, se parecia
comigo. Era leal e obstinada.
- Coisas do amor apoiou Miriam com sabedoria.
- Naturalmente aprovou a Senhora -, Rebeca não era uma criança.
Sabia o que queria. E estava disposta a defendê-lo com unhas e dentes.
E digo-te mais uma coisa. Se não fossem os muitos problemas que ela
trazia consigo, tê-la-ia animado.
Agradam-me as mulheres e os homens que lutam pelo que desejam.
Mas tendo em vista a dificuldade da situação, não tive outro remédio
senão confessar-lhe a verdade. E anunciei-lhe o que era um segredo
conhecido em toda a aldeia: que Jesus, o seu amado, era o Filho da
Promessa, certamente o Messias esperado por toda a nação. O seu
casamento podia pôr em perigo a gloriosa carreira do Libertador...
Miriam interrompeu de novo o relato.
- Confessaste-lhe a verdade ou apenas parte? A Senhora acusou o
golpe. Mas foi sincera.
- Naquele momento, o problema económico tinha o seu peso.
Mas o destino de Jesus era prioritário. Fiz o que devia fazer.
Impaciente, quis saber a reacção de Rebeca. Mas um alguidar vazio e
o apetite voraz dos homens foram mais fortes que a minha curiosidade.
E as mulheres voltaram ao alto da plataforma, regressando com duas
escudelas de madeira e seis pratos de barro. Uma das vasilhas, nas
mãos de Maria, vinha coberta com uma tampa de madeira. Distribuídos
os pratos, a escudela destapada foi posta no centro da mesa.
Continha uma estranha pasta leitosa, quebrada por dourados fios de
mel líquido. Foi tudo o que identifiquei. À sua volta, uma série de típicas

e estaladiças tortas de trigo. A Senhora com um sorriso malicioso,
permaneceu de pé, com a escudela entre as mãos. E eu, infeliz distraído
não reparei no gesto feminino da cozinheira. Intrigado, fiz perguntas
sobre a pasta que tinha à vista.
A explicação de Ruth deixou-me sem apetite: encontrava-me ante uma
nutrida colecção de gafanhotos peregrinos uma das quatro espécies
habitualmente consumidas pelos Israelitas -, previamente descabeçados
e desmembrados, secos ao sol e triturados até ficarem em pó. A massa
era misturada com flor de farinha e, finalmente, conservada em mel. Por
vezes era costume macerar-se em vinagre.
Acho que empalideci. Maria, que continuava em expectativa,
interessou-se pela minha saúde. Foi então que reparei na sua atitude.
Por que razão continuava como uma estátua? Ao perceber como a
olhava de alto a baixo, o seu sorriso matreiro alargou-se, rindo-se da
minha desorientação. Risinhos mal contidos, que se ouviam entre as
filhas, fizeram-me suspeitar que combinavam alguma coisa. Procurei
auxílio nos homens. Mas, tão ignorantes como eu, limitaram-se a
encolher os ombros. O segredo, adivinhei, devia estar na escudela que
tinha nas mãos.
Por fim, com a audiência em suspenso, Maria decidiu-se a falar:
- Surpresa, Jasão!
É verdade. Tinha esquecido. Aquela cozinheira chamada Maria, a das
pombas, tinha-o anunciado, ao iniciar os preparativos da ceia.
Inclinando-se por cima da mesa de pedra estendeu para este
explorador a vasilha tão ciosamente fechada. Ruth, divertida, destapoua.
E nós, três homens, devorados pela curiosidade, levantámo-nos ao
mesmo tempo e com tão pouca sorte que as nossas cabeças foram
bater umas nas outras. A solene e colectiva cabeçada provocou a
hilaridade das mulheres e, logo a seguir, a dos desajeitados varões.
Ao olhar o conteúdo da escudela fiquei perplexo. Era a primeira vez
que o via na nossa aventura palestina. Ao interrogar Maria, ela limitouse
a recordar-me que Nazaré não era o fim do Mundo. Depois foi
distribuindo as correspondentes rações. Ao receber a minha, incrédulo,
toquei-a com a colher.
E Jacob, soltando uma gargalhada, lembrou-me que aquilo não se

comia como eu julgava. Passando-me uma das tortas, convidou-me a
saboreá-la com o auxílio do pão. O manjar não passava de uma
humilde fritada de ovos batidos: uma tortilha. Hoje não seria surpresa
para ninguém. Naquele tempo causava furor entre os gastrónomos e as
classes populares. O invento, segundo parece de origem romana
(embora as más-línguas garantissem que Apicius (1) o tinha copiado
dos Iberos), tornou-se tão popular, saboroso e nutritivo que se espalhou
como o vento por todo o Império. Maria, tão atenta como qualquer
outra pessoa às modas, quis surpreender-me com o último grito em
cozinha.
Por minha fé que o conseguiu. Desta forma, o amargo sabor dos
primos do gafanhoto foi discretamente conjurado.
- E, então perguntei de novo à Senhora, que assistia, agradada, ao
seu êxito culinário -, que disse Rebeca? Maria serviu-se de vinho e,
molhando os lábios, aclarou a voz:
- Ai, Jasão!... Deixa-me respirar.
Mas o seu desejo de recordar aqueles anos era tão forte quanto o
meu.
*1 Segundo os nossos dados, o tal Apicius, afamado gastrónomo de Roma,
popularizou a receita da tortilha no ano 25. Algum tempo depois escreveria um livro
De re coquinaria - de grande êxito entre os adeptos da cozinha elaborada, em
que evoca os festins do imperador Cláudio. Séneca criticou-o acerbamente,
queixando-se de que as suas artes culinárias corrompiam os jovens, afastando-os
dos estudos de filosofia.
Plínio, em contrapartida, elogiou as suas receitas, garantindo que as de fígado de
porco e língua de flamingo eram autênticas obras de arte. Previamente, claro, tinha
de engordar os animais com figos e vinho adoçado com mel. (N. Do M.)
.. Sabia escutar. Nisso parecia-se com Jesus. E quando acabei olhoume
fixamente. Depois, pôs-se a chorar...
- E minha mãe continuou Miriam com um meio-sorriso -, pensou ter
ganho a batalha.
A Senhora, que tinha sempre resposta para tudo e para todos, não se
aborreceu.
- Menina linguareira! É possível que perdesse aquela batalha mas não

a guerra...
- Que insinua?
- Rebeca era sincera esclareceu Maria e dura de roer...
Comoveu-se com as minhas explicações. Mas, terminado o choro,
deixou-nos gelados... Sabes quais eram os seus pensamentos?
Desgraça de mulher... - Esperei, sem poder imaginar a conclusão -. .
Agora mais do que nunca comunicou-nos do fundo do seu amor estou
decidida a ter a mesma sorte. Se ele me aceitar serei a esposa de um
chefe nacional. E partilharei a sua carga. Nada mais há a dizer.
Regressámos a casa com o coração apertado. O remédio, Jasão, tinha
sido pior que a doença. Naquela noite, enquanto ceávamos, Jesus
percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Miriam ficou vermelha e
eu, estonteada, deixei queimar as filhós...
- Vais fazê-las de sobremesa?
Jacob distraiu-nos. Mas a mulher, ignorando a apetitosa sugestão do
genro, entrou pelo segundo e inesperado capítulo daquela história.
- Dali a uns dias, a pedido de Rebeca, tivemos uma nova entrevista.
Era viva como azougue...
- Não, mãe Maria rectificou Miriam. - Rebeca amava-o.
- Era viva continuou na sua teima, como se não a tivesse ouvido. -
Embora tivéssemos especial cuidado em não falar na nossa difícil
situação económica, ela deve ter adivinhado. Que más nós somos, as
mulheres, Jasão!
Ri do gracejo, fingindo estar de acordo.
- E veio à reunião com todas as suas armas desembainhadas.
- Mãezinha!
A exclamação de Miriam não serviu de muito.
.. Rebeca consultara antes seu pai e deu-nos a saber que estava
autorizada a dizer-nos que o dinheiro e o dote não eram problemas.
Que a sua família estava disposta a compensar-nos generosamente.
É conveniente esclarecer que, contrariamente ao que costuma
acontecer nos tempos modernos, a sociedade judaica estabelecia que o
mohar (o dote) devia ser satisfeito pelo pai ou pela família do noivo e

não o inverso. Assim o referem o Génese (XXXV,12), (XVIII, 25) e o
Êxodo (XXII, 16) (1). Segundo o Deuteronómio (XXII, 27) cinquenta
siclos de prata uns duzentos denários era o habitual. A cerimónia do
estabelecimento do mohar entre as respectivas partes era tão festejada
como a própria boda. Constituía um compromisso formal de matrimónio
com um contrato perfeitamente legalizado que, no caso de uma
donzela,
*1 Segundo o Êxodo (XXII, 15), o chamado mohar das virgens, era exigível por
lei. Esta norma recaía sobre a família de qualquer sedutor. Este, obrigado a casarse
com a seduzida, não podia negar-se ao pagamento do referido mohar. (N. Do
M.)
devia cumprir-se à quarta-feira. Além do dote, o noivo era obrigado a
oferecer à futura mulher o que denominavam o matan: uma espécie de
bens vitalícios que deviam ser reservados para o momento da viuvez.
Pois bem, a proposta de Rebeca alterava todas as normas e tradições,
deixando a Senhora numa situação comprometida.
- Agradecemos o gesto acrescentou Maria mas não aceitámos.
Certamente, aquele dinheiro ia livrar-nos de dificuldades. Mas, como te
digo, não era o mais importante.
Naquela noite, sim, senti-me feliz e livre de tão angustiante fardo...
Ruth e Miriam trocaram um olhar malicioso. Aquilo fez-me suspeitar de
que a Senhora não tinha ganho a guerra... ainda.
- Ai, meu amigo! Sabes o que é pior que uma mulher tola?
Prudentemente, reservei para mim a resposta.
Abrindo muito os olhos, Maria sentenciou:
- Uma mulher apaixonada.
As filhas protestaram. A Senhora, tendo em conta a reacção de
Rebeca, insistiu na sua sentença:
- A rapariga voltou à carga. Falámos e falámos. Impossível, Jasão.
Rebeca, perdidamente enamorada, estava disposta a tudo.
Tive medo. E o coração não me enganou... Assustei-me. Sabe-se lá do
que é capaz uma mulher enamorada?...
- Muito simples interveio Miriam, aprovando a audaz iniciativa de

Rebeca. - Eu, por este ganso teria feito o mesmo.
Jacob inchou como um pavão.
.. Desesperada continuou a mãe -, convenceu o bondoso Ezra a
visitar Jesus. E ali se apresentou. Tenho de reconhecer que foi valente.
Meu Filho, que ignorava as nossas combinações, ficou como a mulher de
Lot. Primeiro, ouviu o pai. Depois, teve uma longa entrevista com a
rapariga. E Rebeca, de acordo com o pouco que sabemos, confessou-lhe
o seu amor.
O último esclarecimento não me deixou tranquilo. Não conheciam o
combinado entre os dois jovens?
- Muito pouco confirmou Tiago, respondendo à minha interrogação. -
Jesus reservou-o para si muito no seu íntimo.
A única coisa que podemos contar-te foi o que declarou a Ezra:
nenhuma quantia de dinheiro o afastaria de sua família e do sagrado
compromisso que assumira.
E o rico proprietário de Nazaré pôs ponto final na entrevista e nas
aspirações de sua filha. Antes de regressar a sua casa visitou Maria,
informando-a do acontecido no armazém de abastecimento. Com o
coração nas mãos, afirmou-lhe: Não o podemos ter como filho. É
demasiado nobre para nós.
A esquilazinha, que não conhecia a história na sua totalidade,
começou a soluçar, comovida. E a mãe, levantando-se, abraçou-a,
enchendo-a de beijos. Na garganta de quem isto escreve fez-se um nó.
Senti-me em parte culpado pelas lágrimas da sensível Ruth. Durante
alguns segundos amaldiçoei o meu frio e desapiedado trabalho. Mas o
gelo do nosso treino esfriou as fugazes reflexões. Algo ficara na névoa
das recordações: a conversa entre Jesus e Rebeca.
Tinha de saber mais. Mas como? Quem podia preencher aquele
vazio? Por que razão se calara o Mestre? Que fora feito de Rebeca? O
certo é que o tempo modifica o granito dos corações e de quanto se
estabelece! Quem diria a Maria que, com o correr dos anos, a Rebeca
que tantas dores de cabeça lhe trouxera, quando Jesus tinha dezanove
anos, acabaria por converter-se numa das suas mais íntimas e leais
amigas? As coisas, como sempre, aconteceram na devida altura.
Decapitadas as esperanças nunca o seu amor -, a jovem de Nazaré

fez a única coisa inteligente que havia a fazer em tais circunstâncias:
abandonar a aldeia. Pouco depois, vendo-a consumida pela tristeza, o
pai sentiu-se na necessidade de a mandar para a vizinha Séforis.
- Chegou a casar-se?
- Nunca! - replicou Miriam. - Durante anos recebeu numerosos pedidos
de casamento. Recusou-os a todos. Sabes porquê? Não era difícil
imaginá-lo.
- Pois enganas-te antecipou-se ela às minhas suposições. - O seu
amor por meu Irmão aumentou e sublimou-se. Mas não foi essa a razão.
Ela era jovem e rica. Podia ter fundado um lar...
A verdade é que não entendia. A alma das mulheres foi sempre para
mim um incompreensível painel de comandos. Prefiro enfrentar um
urso...
- Pode parecer-te estranho, mas Rebeca, ao contrário de muitos de
nós, entendeu em profundidade a missão de Jesus.
- Como Messias?
- Não, Jasão. Sabes bem a que me refiro...
E Miriam, juntamente com os seus, explicou-me como, no início da
carreira de pregador de Jesus, Rebeca abandonou tudo, seguindo-o na
sombra. Foi uma das primeiras crentes muito antes dos seus discípulos
do divino papel do Mestre. E viveu com orgulho os seus momentos de
triunfo. Embora se pense que Jesus não tenha chegado a sabê-lo,
também ela esteve muito perto da cruz.
- Eu, sim, soube declarou a Senhora com piedade. - E senti-Lhe os
dedos em garrote quando expirou. Entre as mulheres que conheceram e
amaram meu Filho, Rebeca é a que mais o amou.
- Logo, vive...
E antes que confirmassem a minha suposição, antecipei que desejava
conhecê-la. Durante breves segundos deu-se um secreto cruzamento de
olhares. Mas ninguém abriu a boca. Quem isto escreve, sem elementos
de juízo, interpretou mal o breve silêncio. Por alguma razão que
desconhecia, aquele pedido era inviável. Contudo, também eu não era
homem que me rendesse com facilidade...
Embora tencione referi-lo quando se apresentar o mais belo dos

capítulos da nossa aventura na Palestina a vida pública de Jesus -,
entendo que não devo deixar passar o triste e comovente
acontecimento protagonizado por Rebeca, sem fazer uma rápida alusão
ao subtil e involuntário favor que Lhe fez com o seu amor. Eu explico. Na
moderna literatura sobre o Mestre, consequência de uma total
ignorância acerca dos costumes da época ou do desvario de alguns
destes escritores, é frequente encontrar hipóteses que vinculam
sentimental ou carnalmente Jesus com algumas das mulheres que o
rodeavam.
A Madalena é um dos exemplos mais típicos e repetidos por todos
esses ignorantes. Pois bem: para além de não conhecerem o
pensamento e o estilo do Filho do Homem nesse sentido, demonstram,
como digo, uma insultante ignorância em relação a uma das tradições
fielmente respeitada por aquele povo. Quando uma mulher como foi o
caso de Rebeca exprimia o seu amor por um homem e essa devoção
era do domínio público, as restantes hebreias, ainda que as bodas não
chegassem a consumar-se, não ousavam invadir os sentimentos da
outra, a não ser, claro está, que a enamorada contraísse matrimónio.
Naturalmente, o amor da rapariga de Nazaré por Jesus não tardou
em ser conhecido. E isto, em suma, viria a ser providencial. A partir de
então, nem uma só das mulheres que seguiram os passos do Galileu se
atreveu sequer a confessar-lhe o seu amor, embora, de facto, pudesse
estar dele enamorada. E o Mestre não voltou a encontrar-se na sempre
amarga situação de ter de repelir alguém. Pelo menos, por este motivo.
A partir dos seus dezanove anos, na aldeia, o nome de Jesus esteve
ligado ao de Rebeca. A Grande Inteligência, uma vez mais, soubera agir
como tal...
A história daquele amor impossível teve, ainda, outra consequência
positiva. O relacionamento de Maria e de seu Filho melhorou
sensivelmente. A Senhora, como Miriam, surpreendida pela decisão de
Jesus, multiplicou a sua admiração e carinho por Ele. A partir de então,
Maria mostrou-se mais reservada e prudente em quanto se relacionava
com o Messias. E Jesus, sem dúvida, lho agradeceu. No entanto,
afastado o problema de Rebeca, não tardaria a aparecer outra
complicação.
Jacob, de ideias fixas, atacou pela segunda vez:

- Há filhós?
- A sobremesa favorita de Judas. Coitado! A Senhora, depois do
lacónico comentário, mobilizou de novo as filhas, servindo as
sobremesas. Nesta altura não houve filhós outra das especialidades
da excelente cozinheira mas sim um saboroso pastel, em forma de
cilindro, cortado às rodelas e alfósticos (pistácias) ligeiramente tostadas.
O doce, preferido por Jesus, era uma pequena obra-prima: o miolo era
formado por figos, tâmaras e passas de Corinto prensadas, metidas
numa massa de farinha de trigo, leite, ovos, canela e o obrigatório
substituto do açúcar: o mel. Fez-nos suspirar a todos.
O lamento de Maria em relação a seu filho Judas, a sua ausência e a
dos outros três irmãos (José, Simão e Marta) animaram-me a perguntar
por eles. Encontravam-se ausentes. A vida os levara para outros
caminhos. Jude ou Judas assentara definitivamente a cabeça,
instalando-se em Magdala, nas margens do lago.
Aquele filho, que em 13 contava oito anos de idade, parecia chegar à
alma da Senhora com especial intensidade. E não pelas boas
recordações que dele pudesse conservar. Pelo contrário. Justamente
desde aquele tempo, o nervoso e volúvel Judas se manifestou como a
ovelha negra da família. Aquele era outro capítulo desconhecido para
mim. E Tiago e Jacob, que suportaram, tal como Jesus, as acções
irreflectidas do rebelde, concordaram em me desvendar alguns dos
pormenores da triste nódoa que caiu no lar de Nazaré.
- Foi como que uma maldição dos céus...
- Tiago recriminou-o a mãe -, teu irmão não é uma maldição!
- Agora, não, mãe Maria. Mas na altura...
- E na altura também não! - defendeu-o ela.
Tiago franziu as sobrancelhas. E exclamou, ao mesmo tempo que
procurava os olhos do cunhado:
- Tu não sabes!...
A Senhora, ciosa de todos os seus filhos, protestou de novo:
- Como é que não sei? O que acontece é que nunca gostaste dele...
O filho, com razão, tentou intervir. A discussão, por culpa minha,
começava a azedar. Mesmo assim, aquela natural e espontânea zanga

acabaria por me favorecer. Maria não deixou que Tiago prosseguisse.
..Julgas que não sei que te opuseste à venda da harpa?
- Naturalmente replicou Tiago. - Porque não era justo.
Havia outros processos para pagar os estudos de Judas... Bem vês de
que serviu. Tenho ou não tenho razão, Jacob? O cunhado, entre dois
fogos, nem se atrevia a pestanejar.
- Muito bem a Senhora desviou a sua indignação para o genro -,
atreve-te a dar-lhe razão!
- Mas eu...
A voz de Jacob embargou-se-Lhe! Dando-se conta do que Tiago
insinuara um pouco antes, Maria fez tréguas na peleja, interrogando-o:
- Não sei? Que é que eu não sei?
O galileu respirou fundo, e se fechou num silêncio eloquente. Saltava
aos olhos que não queria falar. A mãe, movendo a cabeça
afirmativamente, deu-se por informada. Acho que foi uma das poucas
vezes em que fiz de mediador. Peguei num pedaço de pastel e,
partindo-o ao meio, ofereci-o sorridente a cada uma das partes em
litígio, declarando, conciliador:
- Vejamos. Talvez ambos tenham razão...
- Claro! - foi a autoritária exclamação de Maria.
- Claro murmurou o filho, com a convicção do que julga saber.
- Bem, nesse caso propus, matreiramente -, deixemos que seja
Jacob a expor os factos.
A solução foi aprovada por unanimidade. E soube assim que,
casualmente, antes do final daquele ano 13, Jesus se viu forçado a
vender a sua harpa. Jacob, temendo provocar o tempestuoso
temperamento da sogra, foi avançando com cautela.
Felizmente, limitou-se aos factos. Maria, que sabia respeitar a
objectividade, conservou-se em silêncio. Numa das minhas conversas
anteriores creio que com as três mulheres fora mencionada a venda
do instrumento musical que tanto agradava a Jesus. Falaram-me, até,
dos dois miseráveis denários que lhe deram pelo kinnor. Não se
lembravam era da identidade do comprador. Jacob, sim, nomeou-o:

Ismael, o Saduceu. Não fui capaz de reprimir a minha estranheza. Desde
quando o velho mestre fazia favores a Jesus?
- Não foi favor nenhum prosseguiu Jacob, incluindo a resposta à
minha surpresa no relato. - Era muito complicado. A admissão de Judas
na escola da sinagoga custava dinheiro. E Jesus, nesse ano, tinha de
pagar os impostos civis e religiosos. Havia ainda a renda mensal do
armazém. Aquela víbora sabia e voltou a ameaçá-lo com a penhora.
Toda a aldeia estava a par do gosto do Mestre pela música e pela sua
harpa.
Nos momentos de cansaço, descontraía-o. Muito astutamente,
antecipou-se às turvas intenções do sacerdote. Em público, de modo a
haver testemunhas, apareceu um belo dia na sinagoga, oferecendo o
seu kinnor. E Ismael, que perseguia havia algum tempo a única
distracção de Jesus, aceitou, cobiçoso. Qualquer das magníficas peças
trabalhadas da oficina de carpintaria teria resolvido o problema. Porém,
a harpa encerrava um significado especial. E o gesto de Jesus impediu o
chefe do conselho da penhora da casa e dos negócios. Nunca dois
denários renderam tanto...
- Triste rendimento acentuei, quase só para mim. - E não procurou
recuperá-la?
Jacob sorriu maliciosamente.
- Todos os anos, enquanto permaneceu em Nazaré. E sempre, quase
como um ritual, pouco antes do pagamento dos impostos.
Compreendi o malicioso sorriso do galileu.
..Jesus, conhecendo o saduceu, sabia de antemão a resposta ao seu
pedido. Deste modo, inteligentemente o manteve na linha enquanto
pôde. Como vês, uma simples harpa salvou-nos da penhora durante
anos...
- E continua a conservá-la?
A minha pergunta ficou em suspenso. Desde a partida do Mestre que
ninguém se tinha preocupado com o instrumento. E uma ideia começou a
tomar forma no meu coração. Mas tive extremo cuidado em não a
revelar.
As comedidas explicações de Jacob sobre a venda da harpa e os

verdadeiros objectivos de Jesus deram razão à mãe e ao filho. Como é
frequente em quase todas as discussões, tanto ela como ele não se
tinham explicado com clareza. E Judas, efectivamente, pôde frequentar
os seus estudos básicos. Com toda a prudência de que fui capaz,
procurando evitar a discussão, solicitei de Jacob alguns dados sobre a
personalidade do rebelde. Inteligentemente percebendo o meu esforço
apaziguador, não foi ao âmago da questão.
Primeiro, alongou-se pelos princípios que governavam a filosofia
educativa de Jesus. A estratégia resultou. Ninguém elevou a voz nem se
sentiu ofendido. Em traços largos era esta a situação da sociedade
hebraica quando empreendeu a sua revolucionária política pedagógica:
arraigada nos textos bíblicos, a doutrina do comum dos Judeus na altura
de educar os filhos baseava-se no princípio da negatividade. Cumprir a
vontade de Deus significava não matar, não roubar, não levantar falsos
testemunhos, etc. O temor a Javé, enfim, era a corrente imperante no
povo eleito. Assim tinha sido desde tempos imemoriais.
O profeta Isaías deixara-o perfeitamente claro: A sua profunda
alegria era o temor do Santo (XI 2). E os salmos e provérbios
encarregavam-se de o recordar a todas as horas. O amor a Deus
embora defendido por algumas escolas e rabis, caso de Ben Cheta ou
Zakkai, nada pudera contra o temor a esse Deus. Mesmo os pagãos
que abraçavam o judaísmo eram chamados temerosos de Deus. E eis
que naquele turbulento e humilhado crer de um Israel que nem se
atrevia a pronunciar o nome da Javé (1) surge um humilde chefe de um
não menos
*1 Embora Deus tivesse revelado o seu nome a Moisés no Sinai, uns trezentos
anos antes de Cristo, os ortodoxos da Lei começaram a recomendar a sua não
pronúncia. E o célebre e cabalístico tetragrama J H W H, (não existem vogais no
hebreu), traduzido como Javé, sofreu uma curiosa peregrinação. Chamou-se
então a Deus Adonai,, traduzido em grego pelos Setenta como Kirios, ou Senhor.
E aquele temor, que foi aumentando com o tempo, levou os Judeus a
prescindirem de outros vocábulos tradicionais com que Javé era designado: Elohim
ELE. Todo aquele que pronuncie o Nome,, reza o Pesikia (CXLVIII. a), pode ser
condenado à morte,. Neste ambiente de receio e temor por esse Deus colérico e
vingativo, o povo de Israel acabou por designar Javé com termos como os
seguintes: o Nome, Céu, o Lugar,. A Mansão, a Morada, a Presença

ou Elo,, a Glória,, a Majestade,, a Potência,, o Altíssimo, o Santo Único,
o Misericordioso e o Eterno,. (N. Do M.)
humilde armazém de abastecimento de caravanas, de uma
humilíssima aldeia, que começa a pregar justamente o contrário.
Primeiro, na sua casa, com os irmãos. Depois, de rosto descoberto. Eis
outro traço da mensagem de Jesus que, obviamente, me atraiu a
atenção desde o princípio. Quem era aquele atrevido que rompia a
tradição e clamava em benefício do amor divino? Como podia erguer-se
acima das leis, chamando a Deus Abba (Pai)? Porém esta teologia do
Mestre e volto à ineficácia dos evangelistas era algo estabelecido no
seu espírito desde a distante juventude. Os irmãos foram o seu primeiro
testemunho.
Aquele chefe de família de dezanove anos, quebrando hábitos
ancestrais, ensina a usar a fórmula do positivismo. (Dos 613 preceitos
do judaísmo, recomendados pelo Senhor ao seu povo, 365 tinham um
carácter negativo.) O não farás é substituído pelo farás. E,
inteligentemente, afastando as proibições, foi retirando importância ao
mal, em benefício do bem. Este foi o ambiente que procurou criar em
casa.
- Tinha uma frase cuj a repetição o encantava declarou Jacob com
prazer: - Não sejais como aqueles lacaios que sempre esperam uma
recompensa; servi o Pai gratuitamente.
A fórmula foi genialmente encadeada com a do Pai Celeste.
- Pensa no bom Jacob enumerava alguns dos ensinamentos e
conselhos daquele Jesus do ano 13 -, porque o Pai só tem memória
para o bom.
Ignora a maldade do soberbo e do presumido porque o Pai Lhe
mostrará o caminho, a seu devido tempo.
Caminha na confiança de que tudo foi criado para o equilíbrio.
Prefere pensar bem dos outros. O Pai sempre concede o benefício da
dúvida.
- Nunca experimentou a humana necessidade de se revoltar? A
espontânea questão foi compreendida e compartilhada. E Jacob,

seguindo o exemplo de Judas, exprimiu-se assim:
- Nunca. Esse foi outro poço, todos entenderam o princípio da não
agressão e de não violência. Ele deixava à vida a cobrança das
injustiças. Para quê perder tempo e saúde em vinganças, pregava com
grande sensatez; se de tal se encarrega a Natureza. Mas Judas era
diferente. Aceitava, sim, a linha de seu irmão e pai, portas adentro. Lá
fora, era uma tempestade de areia. As suas brigas estavam na ordem
do dia. Tinha um grande coração, como sua mãe, mas era impulsivo e
falho de tacto.
A Senhora assentiu, muito a seu pesar.
..Jesus era inimigo natural dos castigos. No entanto, pelo menos em
três alturas, viu-se na necessidade de sancionar o desobediente,
provocador e irreflectido Judas.
- Tinha só oito anos! - clamei em sua defesa.
- Estamos de acordo. Mas as suas infracções passaram das marcas. E
continuou assim durante anos. E algumas, como Tiago sabe,
verdadeiramente graves...
Esperei em vão que alguém me falasse daquelas irregularidades.
- E em que consistiram os castigos? - perguntei finalmente, reservando
o tema anterior para melhor oportunidade.
- Antes de castigar, Jesus exigia que o culpado reconhecesse
publicamente o seu erro. Depois, se o caso o merecia, eram os irmãos
mais velhos e ele próprio que adoptavam a sanção pertinente. Judas.
Neste caso, devia aceitá-la. Que eu me lembre, um dos castigos foi a
limpeza da casa durante uma semana...
Ante as lógicas falhas de Jacob, Tiago acudiu em seu auxílio:
- Noutra altura teve de acartar água...
Era suficiente. Ao interessar-me pelas reacções dos outros irmãos,
Maria antecipou-se a Jacob:
- Todos (e eu em primeiro lugar) compreendíamos que numa casa tão
numerosa tinha de existir um mínimo de disciplina e solidariedade.
Numas quantas pinceladas desenhou o carácter e o sentir de cada um
dos seus filhos em relação à filosofia de Jesus:

- Tiago, mais equilibrado, foi o seu braço-direito.
Miriam, nobre, venerava-o.
José, trabalhador incansável mas pouco inteligente, fez-nos padecer.
Simão, sempre nas nuvens, não entendia nada de nada.
Marta, a mais estudiosa e séria da família, acusava seu Irmão de
brando.
Judas, pobrezinho, instável e agressivo, tinha grandes projectos.
Foram precisos anos para compreender que tínhamos razão.
E Ruth, um raio de sol. O mal é nunca saber por onde vai sair.
Talvez seja bom fazer uma paragem nestas memórias. Pelo que
sabíamos e graças à preciosa informação que fui acumulando em
Nazaré, aquele Jesus, prestes a completar os vinte anos, podia ser
considerado como homem adulto, ainda ignorante da sua dupla
natureza. Era um trabalhador infatigável. Paciente.
Analista e metódico. Capaz de tomar grandes decisões. Com ideias
religiosas, teológicas e filosóficas diametralmente opostas ao comum
dos Judeus. Consciente da sua responsabilidade para com os seus e, ao
mesmo tempo, com um ideal de futuro lenta mas solidamente ancorado
na sua alma: falar de seu Pai Celeste à confusa humanidade. Um
projecto que, de acordo com a vontade do Pai, se materializaria no
devido momento. A condição humana era de uma singular sensibilidade:
amava a Natureza, todas as manifestações artísticas e quanto podia
rodeá-la. Como bom leão era audaz, generoso, alegre e com um notável
sentido de humor (1). Era justo, tenaz e excessivamente respeitoso para
com
*1 Hesitei na altura de incluir esta documentação sobre Jesus. Não é em vão que
sou Virgem... Mas, finalmente, em honra da memória de Eliseu autor do trabalho
achei oportuno completar quanto venho a dizer com, pelo menos, uma síntese de
um curioso horóscopo (o termo não era do agrado de meu irmão, mais versado do
que eu nestas questões (nota interrompida.)
as ideias dos outros. Procurava viver, fazendo maior uso do sim que
do não. Naturalmente, como iremos vendo, tinha um fraco pelas
viagens. Como referira seu irmão Tiago, sair para o mundo, abandonar

Nazaré, ainda que fosse durante umas horas, transformava-o. Qualquer
coisa dentro de si o exigia. Fazia-o cidadão do horizonte. E bem o
demonstraria...
*(continua a nota.)
esotéricas. Elaborado com a ajuda do computador central do berço,. Nunca lhe
perguntei como o tinha conseguido. Só me lembro que um belo dia, durante o
terceiro salto mergulhou na sua realização, fornecendo ao Pai Natal quantos
dados tínhamos recolhido. O fruto do seu trabalho entusiasta deixou-me atónito.
Quem sabe se o presente resumo pode ser útil para algum outro louco
maravilhoso. A documentação que nunca foi entregue a Cavalo de Tróia dizia o
seguinte: Horóscopo Natal de Jesus de Nazaré, Autor: Pai Natal. (O meu irmão
preferiu camuflar-se com o nome de guerra do computador.) Belém (Judeia). Vinte
e um de Agosto do ano menos sete,. Hora local (refere-se ao nascimento): 11
horas, 43 minutos e 9 segundos. (Outra indicação: quando do nosso regresso
creio que fomos os únicos seres deste planeta que celebraram o Natal naquela
data e naquela hora.) Dados gerais: longitude (30 graus Este E 12 minutos),
latitude (30 graus Norte e 43 minutos). Hora universal (Greenwich): 9 horas, 22
minutos e 21 segundos, Hora sideral: 9 horas, 33 minutos e 7 segundos. Casas -
[Na devida altura, Eliseu foi-me explicando o significado de cada um destes
vocábulos. A verdade é que, por não lhe prestar muito interesse, o fui esquecendo]:
Casa I (Ascendente: 15 graus 25 minutos, Escorpião). Casa II (14 graus 49 minutos,
Sagitário). Casa III (17 graus 06 minutos, Capricórnio). Casa IV (Baixo Céu: 21 graus
06 minutos, Aquário). Casa V (23 graus 32 minutos, Peixes). Casa VI (21 graus 40
minutos, Carneiro). Casa VII (Descendente:15 graus 25 minutos, Touro). Casa VIII (14
graus 49 minutos, Gémeos). Casa IX (17 graus 06 minutos, Caranguejo). Casa X
(Céu Médio. 21 graus 06 minutos, Leão.) Casa XI (23o 32 Virgem) e Casa XII
(21graus 40 minutos, Balança).
Esquema
PLANETAS Longitude Signos Declinação Velocidade
Sol 25 03 14 Leão 13n 16 0 58 42
Lua 1 19 00 Caranguejo 28N 09 13 00 58 Mercúrio 6 45 Virgem 9N
45 1 39 Vénus 11 33 Balança 6S 45 1 01
Marte 3 32 Escorpião 13S 59 0 41 Júpiter 22 36 Peixes 4S 33 0
06R Saturno 20 33 Peixes 6S 15 0 04R Urano 4 15 Peixes 10S 49 0
02R
Neptuno 2 55 Escorpião 10S 52 0 02 Plutão 9 18 Virgem 23N 08 0
03
Quiron 10 38 Carneiro - Nodo 00 53 Touro 15N 54

ASPECTOS:
Conjunção 0;
semisextil 30;
semiquadratura 45;
sextil 60;
quadratura 90;
trígono 120;
sesquiquadratura 135;
quinquôncio 150;
oposição 180;
paralelo 0.
(Seguem-se os símbolos que, como é óbvio, não se transcrevem.)
De momento, naquele ano 14, obedecendo àquele impulso magnético
de viajar, Jesus ofereceu a si mesmo um pequeno luxo. E, começada a
Primavera, dirigiu-se sozinho à Cidade Santa.
- Pareceu-me o mais aconselhável disse a Senhora. - Depois de tão
intensa experiência, uma mudança de ares vinha a propósito.
*(continua a nota.)
SOL Céu Médio, Nodo, Vénus, Urano; LUA Mercúrio, Marte, Nodo, Urano,
Neptuno, Asc; Vénus Plutão, Sol, Saturno;
Marte Neptuno, Mercúrio, Lua, Urano, Nodo; Júpiter Saturno, ascendente Sol,
Céu Médio; Saturno Júpiter, Ascendente Neptuno, Marte, Céu Médio, Vénus;
Urano Lua, Marte, Neptuno, Nodo, Sol, Mercúrio, Plutão; Neptuno Marte,
Urano, Mercúrio, Lua, Saturno; Plutão Mercúrio, Nodo, Vénus, Urano.
Jesus de Nazaré. Este relatório, mais que uma carta astral para a pessoa de
Jesus, deve considerar-se como uma representação simbólica da sua relação com o
mundo. Através do signo Escorpião que guarda o mistério da ressurreição falanos
da sua missão na Terra, deixou uma mensagem escritaH em simbologia
astrológica. Mesmo assim pode ser estudado também como um ser humano.
Análise da carta astral do seu nascimento. Surpreende a posição de todos os
planetas com excepção de Saturno e dos exteriores nos seus espaços.
Excepcional. Indica que Jesus representava todas as forças cósmicas em equilíbrio: o
homem perfeito, o Homem-Deus.

Saturno e Úrano não aparecem nos seus espaços. Encontram-se em Peixes: facto
altamente significativo. (Trata-se do signo místico por excelência. O peixe, seu
símbolo seria usado posteriormente pelos cristãos.) Nesta carta domina o elemento
água,. O homem de água, vive a nível psíquico. Sente-se como um estrangeiro no
mundo da realidade. Termina sempre afastando-se do material.
A influência deste elemento proporciona um alto grau de sensibilidade. O nativo
sente a necessidade de viver intensamente.
Escorpião, signo do ascendente (grau da Elíptica que figura no horizonte do lugar
natal do momento do nascimento), domina a sua carta. Além de representar o
povo hebreu, é o símbolo da morte; de uma morte voluntariamente assumida, que
permitirá renascer de um Amor Superior que transcende os sentidos físicos.
A energia mais forte do homem escorpião é a do seu desejo.
No altamente evoluído, a sua força sexual não actua no plano erótico: convertese
em força condutora. É uma fonte rejuvenescedora para a humanidade; um
médico, no mais amplo sentido da palavra. O homem de que emanam forças
curativas.
Estas forças possuem, por sua vez, o dom do fascínio. Raro é o homem
HescorpiãoH que não reúna à sua volta um grupo de pessoas, magnetizadas pela
sua irresistível atracção pessoal.
Plutão, regente do signo fixo de água Escorpião, assume a regência desta carta.
Encontra-se mais bem situado e mais forte que Marte, o outro regente do signo.
Plutão representa a transformação. É comparado a uma força ou poder invisíveis.
(nota interrompida.)
Deduzi que se referia a Rebeca.
- Além disso, havia algum tempo que o via inquieto. Eu sabia do seu
amor pelos caminhos. E, assim, juntámos algum dinheiro e partiu.
- Quanto?
Olharam-me, sem compreender. Só Tiago entendeu a minha
*(continua a nota.) A sua influência facilita a revelação dos poderes do
subconsciente. Põe à disposição do nativo meios para promover e despertar nas
massas o tipo de sensibilidade que desejar. Influi sobre a consciência colectiva.
Quando Plutão se vincula a um signo de fogo (o signo de posição do Sol)
acentua poderosos e urgentes estímulos de ordem emotiva e concede uma
extraordinária capacidade dramática. Plutão em Virgem, como se apresenta nesta
carta, conduz a fanatismo de ordem social e intensifica ao máximo o poder

envolvente das massas. Acentua também a força do subconsciente e proporciona
uma personalidade sugestiva e fascinante.
Quando Plutão se une a Mercúrio confere capacidade de persuasão e um agudo
sentido de observação. A sua força espiritual é irreversível. Sob esta influência, o
nativo desenvolve uma intensa persuasão, bem como uma excelente habilidade
diplomática.
O signo de posição do Sol é o Fixo de Fogo (Leão), que representa o princípio da
vontade (a manifestação de vida do Eu).
Do homem leão altamente evoluído emana tal aura de positivismo que, à sua
volta, se esquecem os sofrimentos. É optimista e acredita firmemente no bem. O
triunfo do bem sobre o mal pensa o Leão é uma lei imutável.
É frequente aparecer dotado de tal serenidade que a sua supremacia é
inquestionável. Não é fácil à crítica vergá-lo.
Tudo o conduz a um notável grau de majestade e grandeza.
Um dos seus mandamentos íntimos é apoiar moralmente os outros, sempre com
o exemplo e sem ordens nem proibições.
O Sol aparece como o planeta na sua carta. É o vivo símbolo do infinito, do
divino, do criador, da luz, do espírito organizador do Universo, do sublime e da
liberdade, em contraste com o destino que personifica Saturno. É a individualidade.
O Eu imortal em contraposição à personalidade que simboliza a Lua.
O Sol representa o génio criador. E proporciona sentimentos profundos e
estáveis, critérios firmes, persuasão e grande vontade. É magnânimo e generoso.
Inspira admiração e simboliza o mais elevado estado de consciência. O seu princípio
é o do poder. No mundo instintivo é a inclinação para tudo o que contribui para a
elevação vital. No afectivo reina,, sobre os seus satélites e desfruta da veneração
que lhe professam. Os seus pontos de vista são amplos, objectivos e sistemáticos,
com uma excelsa filosofia. Aqui, o Sol manifesta-se através das vibrações aquáticas,
de Escorpião. E ganha em fortaleza, intuição, nobreza, tenacidade e honradez.
Neutraliza as Hinfluências ígneas, próprias de Leão, aparecendo menos optimista,
veemente e autoritário. A Água sensibiliza-o e proporciona a emotividade de que
carece Leão. Mantém o impulso de dirigir os outros, mas através do sentimento e
não tanto por meio da autoridade, características do nativo de Leão.
O signo de Peixes também se fortalece ao albergar três planetas lentos: Urano,
Saturno e Júpiter. É o símbolo que se envolve profundamente no psíquico.
Extremamente sensível a qualquer oscilação do espírito. Sente as dores da vida
própria e da alheia. Júpiter é o planeta transmissor das forças correspondentes à
radiação de Peixes. Nesta carta encontra-se localizado no referido signo, exercendo
todo o seu poder.
Júpiter fornece o impulso para se libertar de toda a influência que o amarre ao

material, concedendo asas que o elevem aos planos espirituais. Liberta-o do seu
destino representado por Saturno o que mostra simbolicamente a cúspide da
Casa V entre ambos os planetas. A referida Casa representa o cumprimento de uma
meta através da morte.
O Nodo Norte Lunar em Touro assinala o objectivo da sua encarnação:
experimentar, viver a vida humana na matéria para o signo de terra, representa:
Touro. Neste signo chega ao final do seu percurso pelo Zodíaco, no seu movimento
simbólico de retrogradação. No último signo de terra que deverá percorrer para se
desligar do seu vínculo com a matéria e, conhecendo-a, regressar à sua órbita de
Fogo, onde iniciou o caminho.
(nota interrompida.)
prosaica interrogação. Fazendo com os dedos indicador e polegar o
internacional gesto do dinheiro, transmitiu a ideia a sua mãe.
- Ai, Jasão!... Como vou eu lembrar-me? A incrível memória de seu filho
resolveu o dilema.
- Cerca de vinte denários...
*(continua a nota.)
Plano físico. Indivíduo de enorme fortaleza física, pois que Plutão, seu regente,
dota de desmedido poder para resistir à dor. O signo do Sol (Leão) aclara o negro
do cabelo que Plutão proporciona, bem como o dos olhos. Acastanhado. Olhos cor
de mel.
Rosto de testa ampla e pele clara. Expressão profunda, que irradiava grande
certeza.
Corpo bem proporcionado. Elevada estatura e ampla capacidade torácica. De
atitude decidida e manifestações claramente masculinas.
Aquário estabeleceu uma origem cósmica e um nascimento original,. (Ignoro a
que possa referir-se o Pai Natal com a palavra ,original.) A sua vida reza a carta
ver-se-ia repentinamente truncada. Mercúrio une-se em conjunção ao regente natal
Plutão, causando uma morte violenta e provocada, em certa medida, por Ele
próprio.
A Lua (indicador dos nascimentos) na Casa da morte, assinala um nascimentoH
através da morte: a ressurreição. Indica igualmente uma morte pública às mãos de
militares,. (Os romanos eram-no.)
Plano mental. Mercúrio, o planeta da razão, encontra-se muito elevado na sua
carta, exercendo uma forte influência na sua pessoa. Faz suspeitar que a razão
desempenhou um importante papel na sua missão (situado naquela Casa).

Grande facilidade de palavra e filosofia profunda. Expressão em termos
enérgicos. Atacava verbalmente com dureza os seus inimigos, embora utilizando
todas as suas artes. Cada planeta proporcionava-lhe as qualidades necessárias
para a obtenção do resultado apetecido. A sua filosofia. Nesta carta, a filosofia de
Jesus aparece reflectida através da simbologia astrológica na seguinte mensagem:
A luz, a união com o Pai: objectivo final da sua vida.
Os meios com que o homem conta para o conseguir graças à Natureza
aparecem nas doze Casas. A ordem natural do Zodíaco, que arranca no grau zero
de Carneiro, oferece um quadro puramente material, com Capricórneo no Céu
Médio, limitando-se a um destino. Aqui, a roda gira e situa Escorpião como princípio:
a encarnação. Porém, a encarnação de um Ser que tem a sua verdadeira origem,
não no seio materno, como assinala Caranguejo no Zodíaco natural, mas sim no
Cosmos, e cuja máxima aspiração é a ele regressar.
Eis, Casa por Casa, a mensagem astrológica que o Filho do Homem deixou:
Casa 1 (Escorpião): Como é o homem. O homem faz a sua incursão no mundo
sob as vibrações aquáticas do signo do Escorpião. Na sua constituição física o
elemento predominante é a água. É um ser intuitivo por natureza, cuja vida se
manifesta através do plano psíquico, representado pelos signos de água. Nesta
existência deverá aperfeiçoar-se e alcançar o equilíbrio entre as suas naturezas: a
material e a espiritual.
O ser humano perfeito é a consequência de um conjunto astrológico harmonioso,
no qual cada planeta está no seu próprio espaço. Através dos seus signos vibram
positivamente, dotando-o com as características necessárias à sua evolução.
Casa II (Sagitário): que possui. Esta Casa representa o que logra com o seu
esforço. Aqui, em vez de se manifestar em Touro, como no Zodíaco natural,
significando os bens materiais, situa-se em Sagitário: o símbolo da sabedoria.
À sabedoria divina não se chega pela experiência física ou pela prova material,
mas mercê, sim, dos conhecimentos abstractos representados pelo Sagitário. Ele
introduz o elemento Fogo (acção) em forma de sabedoria, que, através da
actividade simbolizada pelo segundo signo Fogo-Carneiro (trabalho) conduz à meta:
terceiro signo de Fogo (Leão).
Casa III (Capricórnio): A mente concreta. Capricórnio é o primeiro signo de Terra
que aparece nesta carta e coloca o homem em contacto com a realidade, graças à
mente. Dá-lhe consciência do alheio segundo o signo de Terra (Touro) em VII.
Ao aperceber-se daquele mundo real que o circunda ganha consciência de que a
sua actuação requer a participação dos outros e isso leva-o à cooperação,
simbolizada no terceiro signo de Terra na Casa da amizade.
(nota interrompida.)

A verdade é que não era muito. E seguindo a rota de Meguido e Lida,
imagino que de coração radiante, fez rumo a Jerusalém.
- A sua intenção prosseguiu Maria era permanecer em casa de
Lázaro. Não sabes o afecto que a família ganhara por ele.
A seguinte pergunta inútil, na aparência não foi assim tanto para a
família.
*(continua a nota.)
Casa IV (Aquário): A origem do homem.
O homem provém do Cosmos, representado pelo signo de Aquário. A sua origem
material é estabelecida por Caranguejo signo da maternidade, e no Zodíaco
natural é a Casa IV. Aqui, em contrapartida, situa-o no oceano cósmico. A mãe está
representada pelo Cosmos. O pai é o criador: o Sol. O final da vida e o retorno ao
ponto de origem. O homem entra no plano mental pelo signo de Aquário. Aí
espiritualiza a experiência, pela mão da razão, representado pelo segundo signo de
Ar: Gémeos.
Casa V (Peixes): A sua obra.
Depois de se tornar consciente da realidade e de ter entrado no plano mental
começa a criar, graças ao plano emocional e à sensibilidade que Peixes lhe
proporciona. Os filhos, reflectidos na quinta Casa astrológica, são a obra do
homem.
Eles perpetuam a espécie. A mente, em contrapartida, perpetua a sua obra
intelectual. E isso consegue-se pelo plano intuitivo, representado neste sector. Não
existe criador sem intuição nem sentimentos.
Casa VI (Carneiro): O trabalho.
Por este signo de Fogo, o homem recebe a energia que o impele à acção.
Começa a actuar por iniciativa própria e torna-se consciente da realidade do plano
de Fogo: a luta pela vida. E tem de contribuir com o seu trabalho físico e mental
para a vida. É a energia vital ao serviço da humanidade.
Casa VII (Touro): O inimigo do homem. Esta Casa simboliza o alheio, bem como
as forças que actuam contra a iniciativa humana.
O signo de Terra (Touro) encarna o amor pelos bens materiais, o enraizamento
no material. E assinala aqui o mais perigoso e subtil inimigo do homem: a ânsia
pelas riquezas, o luxo e o prazer material. O homem tem de superar a lei dos
contrários e vencer a tentação do prazer.
Casa VIII (Gémeos): A morte.

A Lua que simboliza os nascimentos coloca-se nesta Casa assinalando que a
morte não é mais que o nascimento para uma nova vida. A palavra (o verbo), a
vibração sonora, desempenha um papel primordial na criação e no processo
evolutivo vinculado ao renascimento para essa vida nova. O objectivo final da
morte, simbolizado pela cúspide de Peixes, marca a separação do corpo físico do
espírito. O primeiro volta à matéria (Saturno). O segundo, como uma viajante
(Júpiter), empreende outras viagens, para planos ou níveis de existência.
O Grande Trígono (Lua, Marte e Úrano) fala de realização mediante um ciclo que
se origina no Cosmos, seguido pelo nascimento, da morte e da ressurreição.
Casa IX (Caranguejo): A mente abstracta. Depois de assimilar os conhecimentos
pela mente concreta, que o quadro da realidade confere ao homem, terá de os
canalizar através do sector intuitivo. Esta Casa representa a mente superior, a
filosofia e a religião. Caranguejo introduz o elemento imaginação no processo
mental superior. A intuição de Escorpião, a sensibilidade de Peixes e a imaginação
de Caranguejo constituem os três elementos básicos para desenvolver a vida
psíquica do homem. E daí emana a sabedoria divina. Esta Casa simboliza também
os sonhos, esse processo, ainda enigmático, que aqui aparece como uma
ferramenta para aprender e adquirir conhecimentos superiores.
Casa X (Leão): A meta.
O objectivo da existência, simbolizado aqui pelo Sol: a luz.
Chegar a Deus alcançar a sabedoria completa é essa a meta do homem. O
terceiro signo de Fogo (Leão) representa a vontade. Adquirida a sabedoria teórica,
é pela vontade que podem pôr-se em prática os conhecimentos e alcançar a
superação; quer dizer, o controlo absoluto do Eu inferior e do Eu superior.
Casa XI (Virgem): Os aliados do homem. Eis os amigos, os protectores, tudo
aquilo que ajuda o homem a cumprir a sua missão. Vénus indica onde pode
encontrar-se a força para chegar à meta: no amor espiritual, baseado no equilíbrio
matéria-espírito, como assinala Vénus em Balança.
Esta Casa representa as associações voluntárias, (nota interrompida.)
- Claro que viajou sozinho. Não foi pequena a zanga que tivemos por
causa desse assunto!..
- Não exageres, mãezinha! - murmurou Jacob.
A Senhora ignorou-o.
- Disse-lho mil vezes. Não era conveniente que se aventurasse por
esses caminhos sem a companhia de alguém. Ele, porém, limitava-se a
sorrir. Recomendei-lhe que esperasse por uma caravana. E replicou, com

razão, que podiam passar-se dias. Sugeri-lhe então que viajasse
armado. Ai, Jasão! Ficou muito sério e replicou: Mãe, que melhor
escudo que o céu azul de meu Pai? Como sempre, lá impôs a sua... Só
o Todo-Poderoso sabe como eu fiquei.
Miriam fez um sinal. A mãe exagerava. No entanto, tendo em conta
aquilo que eu vira e em que participara, na marcha do yam a Nazaré,
não tive outro remédio senão pôr-me do seu lado.
Naturalmente que tinha razões para se inquietar e discutir com o
confiante Jesus. Mas a sorte seria a sua sombra naqueles quatro dias
de caminho. Ou não devo falar de sorte? Tiago, o único que soube dos
pormenores desta sua primeira viagem solitária, passou a assumir o
comando do relato.
- Não sei se comentámos noutras alturas o profundo desagrado que
Jesus experimentava sempre que visitava o Templo...
De facto. O tema fora referido nas conversas travadas em Betânia.
.. Pois bem, nesta terceira entrada em Jerusalém (segundo me
confessou no regresso) o repulsivo espectáculo dos sacrifícios e o
descarado comércio no Átrio dos Gentios evidenciaram os seus antigos
sentimentos. Aquilo é uma vergonha, disse. Pagãos, sacerdotes e
judeus converteram a festa da Páscoa num latrocínio. Só o dinheiro Lhes
interessa.
E têm o atrevimento de justificar a sua repugnante actuação em
nome de Javé. Que espécie de Deus acreditam que servem? Será que
o derramamento de sangue serve para mais alguma coisa que não seja
truncar a vida de um animal e revoltar o estômago dos sensíveis? Meu
Pai não é um Deus de sangue. E entristecia-se, Jasão. Esta concepção
de Javé que era preciso aplacar era para ele pueril e própria de um
povo incivilizado.
Essa, como sabes, foi uma das suas permanentes batalhas.
Movido por aquela natural repugnância propôs a Lázaro e a suas
irmãs o que, a partir daquele ano 14, se converteria num verdadeiro
símbolo: festejar a Páscoa prescindindo do cordeiro.
*(continua a nota.)
e ensina ao homem a sua terceira realidade (terceiro signo Terra-Virgem): na
união reside a força. O homem, solitário, não pode lograr a sua meta final. É

preciso participar na evolução colectiva da humanidade.
Casa XII (Balança): A doença.
Este sector representa a doença incurável, o erro, os impedimentos, as penas, o
mistério e o inimigo oculto do homem. O terceiro signo de Ar, Balança, na Casa XII
adverte do perigo que representa o inimigo oculto: a cultura,. Quando o homem, no
seu processo educativo, deprecia a intuição e a sensibilidade que conduzem a
planos elevados de consciência cai numa intelectualidade enfermiça, incapaz de
reconhecer a capacidade emotiva. A sua cultura é falsa e incapacita-o para intuir
sequer a verdade. O homem, então, acaba por se converter num escravo das suas
próprias paixões; quer dizer, num desequilibrado. (N. Do M.)
- A família de Betânia continuou Tiago -, que não esperava a visita
de meu Irmão, ficou estupefacta. Celebrar a solene festa rompendo com
a tradição? E Jesus explicou-lhes que aquele género de rituais não era
importante. Que nada tinham que ver com o Pai dos Céus. E, pela
primeira vez, ainda que em segredo, um grupo judeu quebrou a
sagrada lei de Moisés. Na mesa de Lázaro houve apenas pão ázimo e
vinho com água. Num apaixonado discurso, Jesus chamou aqueles
manjares o pão da vida e a água viva.
Era, efectivamente, o nascimento de dois conceitos que, com o passar
do tempo, sofreriam a mesma deformação que o célebre cordeiro pascal
dos Hebreus.
.. Não sabemos como o conseguiu mas, a partir daquele ano, sempre
que Jesus assistia a uma Páscoa em Betânia, os amigos respeitavam os
seus sentimentos e prescindiam do ritual.
- E aqui perguntei, cheio de curiosidade estabeleceu o mesmo
costume?
Tiago transferiu o problema para sua mãe.
- Aqui houve de tudo...
O tom de Maria deu-me a entender que a ideia revolucionária de seu
Filho não tinha sido tão bem acolhida como na herdade de Lázaro.
. . Falámos muito sobre aquilo. Mas Nazaré não é Betânia.
Ali, naquele tempo, Jesus era um desconhecido. Além disso, quebrar
um costume de toda a vida não era tão simples. Ao princípio, opus-me.
Depois, fui compreendendo. Tinha razão.

Mas, mesmo assim, por prudência, continuámos a celebrar a Páscoa
segundo a lei de Moisés.
O seu vigésimo aniversário decorreria sem grandes sobressaltos.
Segundo os dados recolhidos junto da família, aqueles meses
distinguiram-se por uma normal placidez, quebrada apenas por três
factos de certa relevância. Um deles, de especial preocupação para
Maria: a incógnita do celibato de Jesus. E a Senhora teve com Ele uma
longa e transcendente conversa. Que planos tinha quanto a isso? Como
pensava encarar a sua vida, uma vez liberto das obrigações familiares?
Estas questões que hoje, com a perspectiva de vinte séculos, podem
parecer insensatas não o eram tanto em 14 da nossa era.
Maria, tenho de insistir, não podia imaginar sequer o rumo que o seu
primogénito ia seguir. No seu coração aninhava-se ainda a crença de
que Jesus chegaria a ser o Messias prometido.
Isso, porém, não implicava, nem nada que se parecesse, o celibato. E
na sociedade que coube em sorte ao Mestre, ficar solteiro não era
precisamente o estado perfeito. O Génese (I, 28), com a ordem de Javé
crescei e multiplicai-vos fizera do celibato algo de anormal e sempre
discutido. Um solteiro, clamavam os rigoristas da lei, não é
verdadeiramente um homem.
Apenas as seitas dos Essénios e dos Nazarenos (a que pertencia João
Baptista) praticavam o voto de castidade e, em muitas ocasiões, de
modo temporário. O matrimónio é conveniente não esquecer era a
máxima bênção. E mais ainda, a prole. Uma família numerosa, se
possível com muitos varões, era o aconselhado por aquele Javé bíblico e
autoritário. Dom do Único são os filhos e é mercê sua o fruto do
ventre, rezava o Salmo (CXXVII e CXXVIII). Um dos habituais jogos de
palavras entre os Hebreus banim (crianças): bonim (construtores)
punha em evidência este arraigado costume. Os filhos eram como as
oliveiras novas.
As sucessivas dispersões do povo eleito tornavam aconselhável
- quase necessário o nascimento demográfico. De facto, ainda que
na época de Jesus se tenha reduzido notavelmente, a poligamia era
uma situação legalmente aceite. Em caso de esterilidade (curiosamente,

só se reconhecia a feminina), um dos máximos opróbrios, o marido
podia ter concubinas ou procriar com as escravas e servas. (Assim
aconteceu com Abraão e com Jacob.) E com o tempo, o que tinha
nascido por estritas razões de esterilidade acabaria por se converter
num hábito, pelo menos para os poderosos. Os pobres, como é lógico,
não podiam aspirar a manter duas ou mais mulheres. Reis como David e
Salomão (este último com umas cavalariças que albergavam mais de
quarenta mil montadas) tinham haréns com centenas de mulheres.
Porém, sem chegar a estes extremos, o ideal aconselhava que o homem
tivesse mulher uma vez completados os dezoito anos. Era lógico,
portanto, que a Senhora, apesar da negativa de seu Filho em contrair
matrimónio com Rebeca, se sentisse preocupada com o seu futuro.
Jesus, com vinte anos, podia ser alvo das críticas dos vizinhos. O texto
rabínico Kiddouchim (XXIX, 6) exprime-o com clareza: O Santo Único
(bendito seja) amaldiçoa o homem que não se casou aos vinte.
Alguns rabis alongavam esta idade limite até aos vinte e quatro. Mas
a mãe, como era de esperar, saíra da conversa tal como entrara: sem
uma ideia clara do que o destino lhe reservava. O chefe da família foi
categórico: o seu dever estava ali, na casa de Nazaré.
Consequentemente, pouco havia que falar.
Um Jesus de vinte anos alheio ainda à sua divindade a falar sobre
o matrimónio pareceu-me especialmente interessante. E procurei
mergulhar no tema mais a fundo.
- Não sei, Jasão. Para dizer a verdade, vi-o hesitar. Tive a clara
impressão de que não tinha parado para reflectir naquele assunto.
Celibato ou casamento? Ambas as situações eram irrelevantes para ele
naqueles momentos. Estas coisas, declarou com a sua habitual calma,
chegarão... pela mão do Pai. Os assuntos importantes dependiam
sempre do seu Pai dos Céus. Não chegou a minha hora. Era esta a sua
frase preferida.
E a mim, mais uma vez, me fazia sair dos eixos. Só pude fazer uma
coisa: resignar-me.
Os irmãos confirmaram as palavras da Senhora. Durante anos,
ninguém conheceu os seus pensamentos.
- O trabalho que seu Pai lhe tinha destinado acrescentou Tiago

marcaria o seu destino. Dali não havia maneira de o fazer sair. E dir-teei
mais: se o Deus dos Céus lhe tivesse revelado que devia casar-se,
meu Irmão tê-lo-ia feito com toda a felicidade. Nenhum dos dois estados
lhe repugnava. Era solteiro mas conhecia o peso e a responsabilidade
de uma família. Nisso, mais uma vez, se comportou com tanta paciência
como sensatez. Para quê angustiar-se com o que vinha ainda longe?
- E o que era longe para Jesus?
Maria e suas filhas sorriram. E deram a resposta certa:
- Para aquele Homem maravilhoso só existia o presente. O futuro, o
amanhã, eram a vontade do Pai.
O segundo acontecimento digno de menção nos últimos meses
daquele ano de 14 teve nome próprio: Zebedeu. Da leitura dos
Evangelhos parece deduzir-se que o Mestre conheceu o clã dos
Zebedeus durante o relativamente curto período de pregação. Os
evangelistas, mais uma vez, prestariam um fraco serviço aos crentes e à
história. Foi pelos vinte anos que Jesus travou conhecimento com a
próspera família de Saidan. A Grande Inteligência agia de novo...
Naquela época, o chefe de armazém de abastecimento de Nazaré
receberia uma agradável surpresa: uma modesta quantia em dinheiro,
proveniente da venda da casa de Nahun, última propriedade de José. O
imóvel em questão fora adquirido por um tal Zebedeu, dono de um dos
estaleiros situados nas margens do yam. A partir de então, as relações
entre Jesus, Zebedeu, pai e seus filhos iriam mais além. E o que num
primeiro momento foi uma transacção comercial desembocaria num
mútuo e enraizado afecto. A amizade do Filho do Homem pelos
Zebedeus datava portanto do referido ano 14. Quando Jesus decide
iniciar a sua vida de mestre havia mais de doze anos que sabia da
existência de João e de Tiago, os filhos do trovão. O facto, como mais
adiante se verá, teve a sua importância.
O terceiro acontecimento, de indubitável relevância para a modesta
economia familiar, foi constituído pela entrada de José o terceiro dos
varões na oficina de carpintaria.
Concluídos os seus estudos na sinagoga, de mútuo acordo, foi ocupar
o lugar de aprendiz ao lado de Tiago. Eram já três os homens que
ganhavam um salário no lar de Nazaré. Quanto ao papel dos sonhos as

perspectivas melhoraram.
- Jesus, optimista por natureza, punha-me as mãos nos ombros e às
minhas insinuações sobre a possibilidade de sair da pobreza replicava:
Mãe, nunca fomos pobres... - A Senhora, ao recordar estas palavras,
pronunciadas dezasseis anos antes, comoveu-se... - Que pena não o ter
compreendido! E o destino, compassivo também com Jesus e os seus,
veio conceder-Lhes um período de paz e de cordura. Ao longo do ano
seguinte (15 da nossa era), tudo em Nazaré decorreu com normalidade.
Com uma suspeita tranquilidade...
Jesus, com a sua proverbial discrição, continuou à frente do armazém,
velando pela educação e pela segurança dos seus irmãos mais novos. O
único luxo daquele período, o do aniversário dos seus vinte e um anos,
foi constituído pela habitual viagem à Cidade Santa; desta vez na
companhia de José, que completaria catorze anos na manhã de quartafeira,
16 de Março. Com o precedente de Tiago, que tinha levado a
Jerusalém na Páscoa correspondente à sua maioridade ante a lei, o
chefe de família compreendia que não podia fazer excepções. E na
companhia do jovem aprendiz seguiu pelo vale do rio Jordão até à
buliçosa capital de Israel. E ali, como nas vezes anteriores, foi celebrar a
festa na companhia dos seus leais amigos de Betânia. José, menos
inteligente e intuitivo que os seus irmãos, limitou-se a escutar as suas
histórias, quase sempre relacionadas com os locais que atravessavam.
No seu regresso à aldeia, o futuro Filho do Homem, procurando novos
incentivos em cada viagem, escolheu um novo caminho, a margem
esquerda do Jordão, pela rota que passava pela cidade principal de
Pereia (Amato), a uns oito quilómetros do referido rio. Aquela, como
disse, seria a primeira incursão de Jesus pelas terras de leste.
Quão difícil é aquilo que pretendo! Não tenho palavras, inteligência ou
forças. Não obstante, aquela misteriosa luz que parece conduzir-me na
redacção destas recordações brilha há dias como um farol. É como que
um aviso. Tenho de o tentar.
Nela confiarei.
Por razões óbvias, que creio ter referido, a família e os íntimos de
Jesus tiveram acesso aos seus pensamentos... até certo ponto. Pois
bem, a partir dos anos em que nos encontramos (20-21,
aproximadamente), a vida interior do futuro Rabi da Galileia foi

passando por uma decisiva mutação.
Os seus perceberam-no, embora não com total clareza. Sempre que
tentei sondá-los, as respostas foram as mesmas: Era um poço escuro e
inacessível. Só nos falava do seu Pai dos céus.
Jesus, o Filho do Deus vivo? Nunca o ouvimos falar de tal. Os seus
poderes? Não os mencionou nem fez uso deles. Naturalmente que era
diferente dos outros. Havia alguma coisa nele, sim, mas não o
soubemos ver.
Em minha opinião, aqueles dez a doze anos que mediaram até ao seu
baptismo no Jordão poderiam ser qualificados de vida oculta. O único
período sempre a nível interior de comprometida reconstrução. E
embora seja apenas com toscas pinceladas, quem isto escreve quer
lançar-se à árdua e penosa empresa. Para tal, só existe uma via: ir até
ao próprio testemunho do Mestre, o único que, logicamente, estava com
condições de lançar luz sobre o complexo e obscuro processo.
Fazê-lo agora pode trazer um considerável benefício, permitindo uma
mais completa e profunda compreensão da sua forma de viver e de agir
durante os últimos tempos em Nazaré.
A informação que me preparo para intercalar não procede, como é
lógico, da minha aventura na aldeia. Foi obtida muito depois, nalgumas
das numerosas e fascinantes conversas travadas no período de
pregação de Jesus.
Para começar partindo sempre do testemunho do Mestre é
essencial que estabeleçamos o seguinte: Jesus encarnou-se na Terra
com uma grande finalidade dupla.
Ele, como Filho desse grande Deus ou Pai Celeste, já tinha conhecido a
glória da divindade. (As palavras, disse-o são o meu inimigo. Farei o
que puder). Quis porém descer até um dos mais primitivos níveis das
criaturas dotadas de vontade. Nunca o compreendi; foram, porém,
essas as suas palavras. Ele, como Soberano e Criador daquelas mesmas
criaturas (chamadas seres humanos), deseja partilhar a sua existência.
Para isso, o melhor sistema era fazer-se homem e viver como tal. E,
logicamente, para o conseguir em plenitude, este Filho do Pai teve de
renunciar durante muitos anos à sua, digamos, memória celeste,
poder e natureza divinos. Por outras palavras: por expressa vontade,

Jesus nasceu, cresceu, aprendeu, sofreu e viveu como qualquer indivíduo
da raça humana, absolutamente alheio à sua verdadeira identidade.
Ponto este de difícil compreensão, mas decisivo, para entender
aqueles anos da suposta vida oculta. Só assim, disse, era possível
que meu Pai reconhecesse a absoluta soberania do Filho sobre o
criado. (Palavras enigmáticas que o meu limitado entendimento não
pôde resolver, embora as aceite).
Concluída esta experiência na Terra algo que, surpreendentemente
para nós, teve lugar em vésperas da sua etapa de pregação Jesus
podia ter voltado ao Pai. A sua missão, ao que parece, estava cumprida.
Tinha conhecido os homens e teria obtido de pleno direito a
misteriosa entronização como Soberano. Mas, e eis outro aspecto
mágico da encarnação do Filho do Homem, desde muito jovem, sem
saber muito bem o que dEle se pretendia, aquela Superinteligência
encarregara-se de manter o fogo sagrado de um ideal: revelar a
existência daquele Pai-Deus à humanidade. Eis a segunda grande
finalidade da sua visita à Terra. Durante muitos anos, curiosa ou
paradoxalmente, Jesus esteve consciente deste segundo ideal, embora
ignorasse quem era na verdade e por que razão nascera. Hoje
poderíamos definir a situação como começar a casa pelo telhado. Mas
não tenho a menor dúvida de que Deus é inteligente...
E planear as coisas assim, no fundo, foi o mais sensato e natural.
Imagino que um Jesus plenamente consciente da sua divindade, no
tempo da infância ou da juventude, teria sido um erro. A vida, a sua
experiência humana, deviam decorrer normalmente. A prova é que, até
meados do ano 25 da nossa era Jesus teve uma única manifestação de
índole celeste ou sobrenatural: quase pelos treze anos, na sua primeira
visita a Jerusalém. Na referida ocasião se me é permitida a liberdade
a Grande Inteligência despertou nEle a realidade de um Pai dos Céus.
Aquele fogo naturalmente, nunca mais se apagaria. Mas, em que
momento se abriu a sua inteligência humana à descoberta das
descobertas? Teve de haver uma data, um período, em que o Mestre
tomasse plena e definitiva consciência da sua origem e natureza divina.
Para dizer a verdade, nunca aconteceu com a simplicidade com que o
estou a colocar.
Desde a juventude até ao histórico retiro da montanha do Hérmon, no

Verão de 25 (passagem ignorada e confundida pelos evangelistas com
o segundo retiro no deserto da actual Jordânia) o processo de abertura
à divindade foi irritantemente lento e gradual. Julguei entender que, a
partir da experiência nos cumes do Hérmon (actual Sul do Líbano), ELE
soubesse quem era. Mas, até àqueles dias o seu coração e inteligência
debateram-se num oceano de dúvidas. Sabia que era um homem,
nascido de mulher. E tinha perfeitamente clara a ideia de um Pai
Celestial que, na devida altura, o chamaria para uma tarefa
fundamental. A partir dos vinte ou vinte e um anos, o espírito daquele
Homem entrou numa crise demolidora.
Uma angústia cuidadosamente escondida de que ninguém soube
nada. Era como uma incontrolável torrente íntima que, pouco a pouco,
me ia arrastando para a mais absurda das ideias: que eu tinha muito
que ver com aquela Divindade, que era parte dEla... A tragédia do
Filho do Homem durante aqueles dez, doze anos teria pulverizado um
colosso. Mas Jesus inteligentemente, não se precipitou. A sua quase
suicida confiança no Pai salvou-o da loucura ou de algo pior.
E limitou-se a seguir o curso dos acontecimentos e da vida quotidiana.
A frase tantas vezes repetida Não chegou a minha hora foi
providencial. Outra prova de quanto afirmo encontra-se justamente no
facto de que só depois do baptismo no Jordão, plenamente certo do seu
poder e identidade divinos começava a aceitar dos seus amigos e
discípulos o título de Senhor e Filho de Deus. Antes daquele ano de 26,
ninguém, nunca, pôde favorecê-lo com semelhante denominação.
Ainda que em muitos momentos, em especial nos anos próximos do
decisivo retiro no Hérmon, chegasse a ter a intuição ou a suspeitar da
sua dupla natureza, defendeu-se muito bem de a manifestar ou de
fazer uso dos seus poderes, que, sem dúvida, germinavam já em si. Até
sua mãe, como julgo ter referido chegou a duvidar do seu papel
messiânico: entre outras razões, por causa da ausência de prodígios.
Em resumo: a autoconsciência da sua divindade foi um lento, gradual
e, sem dúvida, doloroso parto de trinta e um anos de gestação.
Fechado o parêntese, prossigamos com a sua vida humana...
Chegada a vigília da meia-noite a fadiga fez estragos entre os meus
anfitriões. Ruth caiu adormecida no regaço da mãe e Jacob, apesar dos

seus esforços, cabeceava lamentavelmente. E assim, de modo tácito,
demos por encerrada a tertúlia. Tiago, levantando-se, convidou os seus
a entoar a oração da noite: o Schema. E os cinco, voltados para sul
direcção de Jerusalém -, neste caso em frente da porta principal,
levantaram os braços e recitaram em uníssono a oração extraída do
Deuteronómio (VI, 4-7, e XI, 13-21) (1):
- Escuta, Israel: Javé, nosso Deus, é o único Javé. Amarás Javé teu
Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua
força. Fiquem no teu coração estas palavras que te dito hoje. E se
obedeceis exactamente aos mandamentos que hoje vos prescrevo,
amando Javé vosso Deus e servindo-o com todo o vosso coração e com
toda a vossa alma, eu darei ao vosso país a chuva no seu devido
tempo, chuva de Outono e chuva de Primavera, e tu poderás colher o
teu trigo, o teu mosto e o teu azeite; eu darei ao teu campo erva para o
teu gado, e comerás até te fartares. Cuidai bem que não se perverta o
vosso coração e vos desencaminheis a prestar culto a outros deuses e a
prostrar-vos ante eles; pois a ira de Javé se incendiaria contra vós e
cerraria os céus, não haveria mais chuva, o solo não daria o seu fruto e
pereceríeis bem depressa nessa terra boa que Javé vos dá. Colocai
estas palavras no vosso coração e na vossa alma, atai-as à vossa mão
como um sinal, e sejam como uma insígnia entre os vossos olhos.
Ensinai-as aos vossos filhos, falando delas tanto em casa como em
viagem, tanto deitado como levantado. Escrevê-las-ás nas empenas de
tua casa e nas tuas portas, para que os vossos dias e os dias dos
vossos filhos na terra que Javé jurou dar a vossos pais sejam tão
numerosos quantos os dias do céu sobre a terra.
Quem isto escreve manteve-se de lado. Foi para mim estranho ver e
ouvir estas pessoas, tão próximas de Jesus, recitando uma reza bíblica
que, enfim, implorava os favores de um Deus justiceiro, tão afastado
das ideias do Mestre. É certo que nenhum dos varões fez uso das
filactérias. Como também não cobriram as cabeças com o taled. Mas,
muito contra a sua vontade, a tradição judaica pesava neles como uma
âncora.
E Tiago, desejando a paz aos que ficavam, pegou numa candeia,
destrancando a porta.
A noite, com o seu hieróglifo de estrelas, recebeu-nos tépida e

acolhedora. E a aldeia, sem um só archote nas paredes, apresentou-se
na minha frente como um pequeno-grande conflito. A distância que me
separava da estalagem
*1 A partir dos treze anos, todo o judeu livre era obrigado a rezar, pelo menos
duas vezes por dia: de manhã e à noite. As mulheres, escravos e crianças estavam
isentos. Os mais ortodoxos envolviam-se no taled, uma espécie de xaile que,
cobrindo a cabeça, caía até à cintura. Deviam ir munidos dos tefilin ou filactérias tal
como se diz no Deuteronómio atados na testa e na palma da mão. Era estranho
que se ajoelhassem, salvo em casos extremos. O habitual era permanecer de pé,
com as palmas das mãos voltadas para o céu.
As actuais representações de Jesus ou de Maria com as mãos unidas, em
oração, provêm do século v da nossa era. Talvez fosse um costume de Bizâncio ou
das tribos germânicas. Era corrente também que se rezasse em voz alta e batendo
no peito.
(N. do M.)
não era excessiva. Mesmo assim, aquele labirinpo negro e sem
referências ficou-me atravessado na alma como um espinho.
Fechada e trancada a porta, quando me preparava para me
despedir, Tiago interrogou-me sobre a minha hospedagem. Ao falar-lhe
da estalagem do Rã torceu o nariz, manifestando o seu desagrado. E
durante uns dois minutos acho que com razão, me acusou de mau amigo
e de falta de confiança nele e na sua família. Agradeci a hospitalidade e
boas intenções mas, procurando incomodar o menos possível,
argumentei que o meu alojamento fora pago adiantadamente. Hesitou
e, respeitando a minha decisão não insistiu. Em compensação isso sim,
ofereceu-se para me escoltar, recomendando-me que, dali em diante,
procurasse andar de noite munido de um archote ou de uma candeia.
E em silêncio fomos descendo a rua norte, ao encontro das portas da
povoação. Nazaré, adormecida e sem Lua, era campo de batalha dos
imundos e fantasmais morcegos de cauda curta, que caíam sobre o local
como uma pontual quadrilha de lixeiros, animando tristemente as vielas
e abrindo as eléctricas pupilas de dezenas de gatos. Pelos postigos
apertados adivinhava-se o amarelo oscilante das obrigatórias candeias
nocturnas.
(Nenhuma família judaica dormia às escuras.) De repente, ao passar

uma das rampas de terra um miado enraivecido atravessou-se por entre
as nossas pernas. O susto imobilizou-nos. De um tenebroso corredor,
por onde surgira o atrevido gato, distinguimos um murmurar distante.
Ao apurarmos os ouvidos julgámos reconhecer vozes humanas,
abafadas na distância e num suspeito e intencional desejo de passarem
despercebidas. A viela, muito apertada, mal permitia a passagem de
um só homem. E Tiago, entregando-me a candeia, desembainhou o
gladius. Instintivamente, relacionei aqueles sussurros com os passos
precipitados que ouvira no pátio da casa de Maria. Mas não tive tempo
de avisar o meu companheiro.
Resoluto, avançou pelo corredor, disposto a desvendar a incógnita. E
este confuso explorador, depois de uns segundos de hesitação, foi atrás
dele. O local, cheio de imundícies e tão fedorento como outros recantos
da aldeia, não parecia ir dar a parte alguma. Tratava-se simplesmente,
da distância natural entre duas moradas. A três ou quatro passos Tiago
parou. Pedindo a candeia, alongou-a para as trevas. O entrecruzar de
vozes mais nervoso e agitado. E ao fundo precariamente desvendada
pela chama da candeia, distinguimos afuga precipitada de dois
indivíduos. Pelo que parecia, tentavam saltar o muro que fechava o
beco.
- Malditos!
Devolvendo-me a candeia, Tiago, que começava a compreender as
razões da intempestiva presença daquelas personagens, investiu contra
as sombras. Uma conseguiu saltar o muro. A segunda, essa, foi
apanhada por um pé, justamente no momento em que se preparava
para desaparecer. Se a situação estava comprometida para o que
procurava fugir, a minha não o estava menos. Que devia eu fazer. O
destino graças a Deus! - foi misericordioso. Ao ver-se apanhado, o
indivíduo, longe de ficar abatido, reagiu com violência. Atirando um
furioso pontapé ao peito do meu companheiro conseguiu derrubá-lo,
escapando como um felino. Tiago levantou-se logo e, lançando uma
espadeirada ao muro gritou de forma que pudessem ouvi-lo do outro
lado:
- Reconheci-te, maldito esbirro!
Mais magoado no seu orgulho que na sua integridade física, pegou
novamente na candeia, deixando o beco. Ao chegar às proximidades da

fonte, rompeu o seu mutismo, confessando-me algo de que já
suspeitava:
- Aquela víbora, Jasão, está sedenta de vingança... Tens de ter
extrema prudência.
E em justa correspondência pu-lo a par da estranha presença notada
por seu cunhado e por mim nas proximidades da casa. A notícia não o
alarmou. Tudo aquilo parecia fazer parte do estilo do perigoso saduceu.
O que não conseguia compreender era o motivo da perseguição, mas
não perguntei. Bem cedo o averiguaria e experimentaria na própria
carne...
A proximidade da estalagem tranquilizou-nos relativamente. A noite,
no entanto, não findara. E quando passávamos pela ponte de pedra,
com as luzes da estalagem à vista, Tiago, agarrando-me o antebraço
esquerdo, obrigou-me a deter a marcha. Apontando o caminho que se
abria na nossa frente, chamou-me a atenção. Na escuridão, distingui
duas sombras que, na estrada, se dirigiam ao nosso encontro ou, pelo
menos, manifestavam a clara intenção de atravessar a pontezinha.
Rápido de reflexos, Tiago empunhou novamente a espada, ocultandoa
atrás das costas. As duas estranhas personagens uma delas de
baixa e forte compleição continuaram no seu precipitado afastamento
da estalagem.Não havia dúvida de que tinham saído dos domínios de
Heqet. Mas para quê tanta pressa? O meu amigo, prudentemente, pôsse
de um lado do caminho. E logo descobriu a candeia que protegia por
baixo do roupão, de modo a poder ser vista pelos dois indivíduos já
próximos. A aparição da débil luz sortiu o efeito imaginado por ambos.
A parelha travou a corrida, surpreendida pela súbita presença dos
dois altos aparecidos. Avançaram uns dois passos e, detendo-se de
novo, trocaram algumas palavras. A sua atitude era, de imediato,
suspeita. Ignoro se nos reconheceram. O certo é que, seguindo o
combinado naquele breve diálogo, separaram-se a grande velocidade.
O mais alto meteu-se pela plantação de oliveiras que rodeava a
estalagem. O outro seguiu em direcção oposta, saltando pelos hortos
que se estendiam à nossa esquerda. Tiago, prevendo a má intenção
dos dois desconhecidos, pôs a candeia no chão, indo em perseguição do
primeiro.

Na precipitada separação da parelha julguei ver que largavam ou
perdiam alguma coisa. Pegando na candeia, apressei-me a inspeccionar
aquela parte do caminho. Com efeito, no pó ficara abandonado um
embrulho. Ao descobri-lo fiquei estupefacto.
Tiago, convencido da inutilidade da sua perseguição, não tardou em
vir ao meu encontro. E ao ver-me de cócoras, diante do embrulho,
revistando o conteúdo, pôs-se a meu lado, examinando-o com idêntica
curiosidade. Ao verificar a sua natureza, olhou-me sem compreender. E
antes de lhe proporcionar uma explicação, formulei uma única pergunta:
- Esbirros do saduceu?
Perplexo, acabou por reconhecer que era mais que provável.
- Como adivinhaste?
Mostrando-lhe as sandálias que se escondiam no embrulho disse-lhe
que o calçado em questão era meu e que, com toda a certeza, o tinham
roubado do meu quarto na pousada. Indignado, fez menção de entrar
na estalagem e denunciar o Rã.
Prudentemente, aconselhei-o a conter os seus impulsos. Embora fosse
verdade que alguém provavelmente os dois indivíduos em fuga
chegara até ao meu saco de viagem, levando as delicadas sandálias
electrónicas, naquele momento ignorávamos a identidade dos ladrões e,
o que era mais importante, se o anão era ou não cúmplice do furto.
Tiago aceitou, contra vontade, as minhas sensatas recomendações e
acabou por formular a pergunta-chave.
- Porquê a ti? Que tens tu a ver com as ameaças que pairam sobre a
minha família?
Não soube responder-lhe. De qualquer modo, meditando com lógica,
o problema não era assim tão complicado. Ismael, o sacerdote, sabia da
minha existência. Tinha-me visto junto de Jacob e de Tiago. Dada a sua
venenosa actuação, nada tinha de especial que desejasse averiguar
quem era aquele estrangeiro e por que motivo se apresentara na
aldeia, ao lado da odiada família do Galileu. Mas guardei estas
reflexões para mim. E agradecendo muito sinceramente o favor
prestado pelo galileu, incitei-o a que regressasse a casa.
- Uma vez na estalagem afirmei sem demasiada convicção a minha
segurança não corre perigo.

Com a firme promessa de voltar a casa de sua mãe às primeiras horas
do dia seguinte, reatando assim as nossas conversas, vi-o afastar-se em
direcção à encruzilhada de caminhos às portas da aldeia. E uma
desagradável inquietação me acompanhou até à pousada. Regressaria
sem novidade ao seu domicílio? Nesse sentido, pouco podia fazer.
Quanto ao roubo, embora não tivesse tido oportunidade de inspeccionar
o meu quarto, dei graças ao céu pela providencial recuperação das
sandálias e do conjunto de instrumentos que continham. Se acabassem
em poder do saduceu, quem poderia imaginar a sua reacção? E,
inquieto, meti-me pelo túnel de entrada.
O pátio a céu descoberto permanecia solitário. Quatro archotes,
suspensos a metro e meio do solo, em cada um dos cantos, crepitavam,
esquecidos, fumegando para o varandim de cima e empestando de
breu e resina o lugar. Novas montadas denunciavam um aumento de
clientela. Hóspedes que, a julgar pelas gargalhadas que saíam da
taberna, não se tinham retirado para repousar.
Como primeira medida, dirigi-me ao andar de cima. Antes de
apresentar qualquer reclamação tinha de me certificar. E,
cautelosamente, procurando em vão evitar que as tábuas da galeria
rangessem, fui pôr-me em frente da porta do meu quarto. Foi absurdo
pegar na chave que trazia pendurada no cinto: a porta estava aberta
de par em par. Apossei-me de uma das candeias que se esforçavam por
alumiar o corredor e, com todas as precauções, valendo-me do cajado,
empurrei a gordurenta e desengonçada porta. Antes que batesse na
parede, um chiar agudo e uma sombra não sei qual foi primeiro
deslizaram por entre as minhas sandálias.
O contacto com aquela pelagem áspera eriçou-me os cabelos. Irritado
ante a repugnante presença da ratazana, atirei-lhe a candeia de barro
que, naturalmente, rolou pelo soalho e foi cair com estrépito no
pavimento do pátio central. Recomposto do susto, permaneci uns
segundos junto do varandim, observando como se consumia a parca
quantidade de azeite da malograda candeia. Uma vez que o ruído
passara despercebido aos animados clientes de Heqet, peguei numa
segunda candeia, penetrando no cubículo. Não me tinha enganado.
O saco de viagem, aberto e vazio, veio confirmar o que já calculava.
Um rápido olhar pelo quarto tornou claro que o ladrão, ou ladrões, se

tinham apoderado igualmente dos doze fármacos de campanha,
meticulosamente camuflados noutras tantas pequenas ampolas de
barro. Por mais que inspeccionasse o chão, além de baratas não
conseguia ver rasto algum dos medicamentos. O facto de se
encontrarem perfeitamente selados tornava muito difícil o seu
derramamento. Todos eles tinham sido reduzidos a pó, em processos de
dissecação ou de liofilização. A perda da botica num meio tão agressivo
deixou-me preocupado. Se pudesse regressar ao módulo, o incidente
quase não teria importância.
Mas, na situação em que me encontrava e obrigado a regressar ao
yam, o problema assumia gravidade. Por outro lado, o possível uso dos
remédios era mais uma preocupação. Ainda que, na sua maioria,
tivessem um carácter praticamente inócuo, outros, em contrapartida,
podiam intoxicar e trazer complicações a quem os utilizasse (1). Mas o
senso comum levou-me a afastar esta última possibilidade.
Quem podia ser tão insensato que fosse tomar as estranhas
substâncias? Mesmo assim, a semente da inquietação dominou-me.
Tinha de recuperar as pequenas ampolas. O mais provável era que
estivessem já nas mãos do saduceu, supondo que não tivessem tido a
mesma sorte das sandálias. Tentei consolar-me. A perda do calçado
tinha sido um acidente, consequência da brusca fuga. Estava decidido.
Na manhã seguinte, com a desculpa dos remédios, apresentar-me-ia na
casa da víbora... Quanto a denunciar o roubo, que sentido tinha isso?
Em princípio, salvo complicações, limitar-me-ei a observar. A minha
passagem por Nazaré, de acordo com o programado por Cavalo de
Tróia, devia ser o mais discreta possível. Com estas intenções
encaminhei-me para a taberna. O meu desejo, como disse, era
elementar e simples em extremo: tratar de saber se o Rã ou algum dos
hóspedes sabiam alguma coisa.
*1 Alguns dos analgésicos de grante potência (à base de codeína), vários
antibióticos de amplo espectro (tetraciclina, cotrimoxazol e amoxicilina, entre outros)
e, em especial, os soros antivenenos podiam representar um perigo potencial para
o consumidor. Para citar um exemplo direi que, no caso da tetraciclina, os nossos
laboratórios tinham confirmado a existência de efeitos secundários: infecções do
aparelho digestivo, transtornos gastro-intestinais (para doses diárias de dois ou
mais gramas), coloração dos dentes, lesões renais e hepáticas, hipertensão
intracraniana benigna (no caso de recém-nascidos: protrusão da fontanela

anterior), vertigem e provocação de lupus sistémico. Tudo isto, naturalmente,
dependendo das doses ingeridas, da idade, constituição física, etc., do possível
consumidor. Felizmente, dado o estado de liofilização de alguns dos fármacos, era
pouco provável que chegassem a prejudicar os possuidores. Estas substâncias, na
forma de pó extremamente poroso e muito higroscópico, recuperam as suas
propriedades ao ser-lhes acrescentado um determinado volume de água:
justamente a que lhes foi tirada no terceiro dos processos: a dissecação secundária.
(N. Do M.)
A sala parecia estar mais animada do que eu suspeitara. Duas das
três compridas mesas que presidiam à taberna-casa de jantar
encontravam-se apinhadas de indivíduos que, a julgar pelos seus
vestuários, pareciam gregos e fenícios. Discutiam, bebiam sem limites,
riam com estrépito e, a cada jarro que esvaziavam, protestavam a
Heqet. O Rã, sentado na terceira mesa, parecia absorto e sumamente
ocupado. A seu lado, distingui um jovem com uma túnica curta e calçado
tipicamente romano: o solea (uma espécie de sandália com sola, presa
por correias de couro, que enlaçavam o dedo grande ao peito do pé).
Numa ponta do tampo da mesa estava uma grande peça de roupa
parecida com um capote de lã grossa e que, num primeiro instante,
identifiquei com uma toga romana (uma das vestes que, precisamente,
distinguia todo o cidadão romano e cujo uso era proibido aos
estrangeiros.) Do outro lado da mesa, em frente do estalajadeiro e
formando uma fileira, aguardavam uns seis homens, idosos na sua
maioria e habitantes da aldeia. Um deles, casualmente, fora vítima dos
meus ultra-sons. Atrás das vasilhas que faziam de balcão palravam
duas mulheres que, dada a sua indumentária, ou antes da falta de
indumentária, identifiquei como raparigas ou prostitutas de serviço.
Uma delas cobria a parte superior do corpo com uma espécie de xaile.
A outra, em contrapartida, estava com o peito nu e colorido de amarelo.
Ambas se exibiam com o mais completo descaramento, cobrindo-se, da
cintura para baixo, com uma túnica ou gaze transparente. E a cada
pedido de vinho, as meretrizes acorriam às mesas, enchendo os jarros.
Entre a clientela distingui vários bufarinheiros ou vendedores
ambulantes, com umas grossas e enormes varas de madeira repletas
de roupa e amontoadas em desordem no chão da sala. Os restantes
pareciam pertencer à próspera profissão dos rokel (comerciantes que

caminham em todas as direcções) e dos sitônes (compradores de grão
por atacado e, muito frequentemente, de colheitas em verde).
Estes indivíduos, tal como os chamados monopôles, que
monopolizavam todo o género de produtos agrícolas ou
manufacturados revendendo-os depois aos retalhistas, eram muito
vulgares na Galileia e em especial nas aldeias ou cidades que, como
Nazaré, desfrutavam de uma rica variedade agrícola. Adquiriam as
colheitas a preços abusivos, retendo-as nos seus armazéns até os
preços dispararem. Eram odiados pelos explorados camponeses ou
artesãos, que, lamentavelmente, tinham de escoar os seus produtos.
Ao ver-me junto à porta, uma das raparigas segredou ao ouvido da
sua companheira. E separando-se das ânforas aproximou-se com um
provocador gingar de ancas. Exibia nas têmporas uma estreita faixa de
seda branca, que realçava o negrume do cabelo. De ambos os lados do
rosto estreito e pintalgado caíam cordões com um total de vinte leptas,
grosseiramente perfuradas. (Perder alguma destas moedas era sinal de
má sorte. Segundo parece, a moeda extraviada na célebre parábola de
Jesus podia tratar-se de uma destas leptas.)
Sobrancelhas (meticulosamente depiladas), pestanas e pálpebras
apresentavam-se sombreadas num tom verde-azulado, provavelmente
com uma mistura de sulfurato de chumbo ou carbonato de cobre. E os
lábios e unhas das mãos e dos pés, vermelhos-vivos, mercê do licor
extraído das folhas trituradas de alfena. Ao chegar junto de mim, um
perfume intenso talvez de coentro ou de cássis quase me fez
espirrar. Aproximando os seus bem completos trinta anos dos meus
ombros, tratou de me abraçar, ao mesmo tempo que murmurava um
bem-vindo à casa de Heqet. Detive-a a tempo, e, pouco acostumado
a tal atitude, inspeccionou-me de alto a baixo. Mudando de táctica,
sorriu, acabando por estragar o seu indubitável atractivo físico: a infeliz
padecia de uma piorreia alveolar, com a consequente inflamação
purulenta do periósteo dos alvéolos dentários, uma feia necrose e um
quase completo desprendimento dos dentes. Correspondi ao sorriso e
antes que prosseguisse com as suas lisonjas evitei o incómodo encontro,
interessando-me pelo estalajadeiro. A mulher, rendendo-se, indicou com
tédio a mesa onde, naturalmente, eu já sabia que se encontrava o
atarefado Rã.

Ao descobri-lo entregue ao seu gosto preferido contar moedas
pouco faltou para que desse meia volta e desistisse dos meus intentos.
Mas a curiosidade prendeu-me à mesa. A cena era nova para mim. Por
uma rigorosa ordem, cada um dos vizinhos da aldeia ia ditando ao
jovem sentado junto de Heqet o que parecia ser uma carta.
O indivíduo em questão, munido de pena, tinta e folhas de papiro de
umas oito ou dez polegadas, e de um grão e cor muito mais grosseiros
que os habitualmente usados entre os escribas (provavelmente, tratavase
do papiro siciliano), sem pressa e sem se impressionar com as
comovidas frases dos humildes e analfabetos vizinhos, ia redigindo, em
aramaico, os pequenos segredos, os pedidos ou os saborosos
comentários dos seus clientes. Em plena função, o escriba levantou os
olhos e, confundindo-me com um novo solicitante dos seus serviços,
disse-me que esperasse a minha vez. O Rã, ao identificar-me,
empalideceu. Simulando grande contentamento pôs o sócio ao corrente
do meu elevado berço e melhores riquezas. De cal parecia o seu
semblante, e o anormal gaguejar foi suficiente para eu saber que Heqet
estava a par do roubo.
Dado o volume de clientes que enchiam a estalagem, só uma
informação precisa podia ter conduzido os esbirros de Ismael ao quarto
certo. Longe de me enfurecer, optei por aceitar-lhe a versão, como se
ignorasse o sucedido com o saco de viagem.
Aceitando o convite do anão fui sentar-me na ponta da mesa,
assistindo à redacção das últimas cartas. A maioria era destinada a
parentes que residiam ao norte, nas margens do lago e na Alta Galileia.
Um dos anciãos dirigia-se ao filho, alistado nos barcos de guerra de
Roma e em resposta a uma missiva do jovem dava-lhe a conhecer o seu
contentamento por ter terminado em bem a sua primeira missão, bem
como pelas três moedas de ouro recebidas do imperador como paga.
O bom homem rogava-lhe em segredo que fosse até aos pintores do
porto e lhes fizesse chegar um retrato. O estalajadeiro, ao ouvir o
pedido, deteve a mão do escriba e deu a saber ao submisso chefe de
família que aquilo era proibido por lei e que, se persistisse, lhe custaria
mais duas leptas. O ancião, sabendo que a lei mosaica repudiava todo
o tipo de representações pictóricas, não teve outro remédio senão abrir
a bolsa, depositando nas miseráveis mãos de Heqet a quantia exigida,

o que elevou a tarifa a um denário e duas leptas.
Um outro vizinho tentava convencer um irmão, residente em Nahum, a
que não tivesse contemplações com o seu sobrinho (seu filho) e se os
puxões de orelhas não o fizessem entrar na razão, que recorresse à
vara:
Concluída a carta, o escriba procedia a uma rápida leitura em voz alta
e, se o cliente se mostrava de acordo, era enrolada e depositada num
amplo saco de couro. O calçado e o vestuário fizeram-me suspeitar de
que me encontrava na frente de um correio. Possivelmente, um
funcionário ao serviço de Roma. O que já não era tão ortodoxo era o
jovem dedicar parte do seu tempo à redacção de documentos ou
missivas privadas que, presumivelmente, deveria entregar aos
correspondentes destinatários. E digo presumivelmente porque a
corrupta sombra do estalajadeiro fazia cálculos até com a tinta usada
pelo romano. Aquele duplo tinteiro chamou-me a atenção desde o
princípio. Um dos recipientes de barro continha leite. O segundo, uma
mistura de sumo de limão e cebola. A escrita, se bem que fraca, era
perfeitamente legível. O que não sabiam os incautos vizinhos é que, dali
a pouco, se tornava invisível.
O truque da chamada tinta simpática em que o papiro precisaria da
proximidade do calor para tornar visível a escrita fazia da operação
um negócio chorudo. Era evidente que, uma vez abandonada a aldeia, o
correio se desinteressava das missivas, aproveitando o papel para
novas manobras fraudulentas.
Quando o último dos clientes se retirou, o egípcio contou os ganhos
pela enésima vez. Satisfeito, dividiu-os ao meio. O correio recebeu o
combinado e o negócio foi celebrado com um generoso jarro de vinho. A
rapariga que me tinha recebido cumpriu com rapidez a ordem do seu
chefe. E servido o vinho, deslumbrada pelos denários que rolavam nas
mãos do escriba, deixou-se cair sobre os seus ombros e, apertando-se
contra as costas dele, perguntou-lhe se desejava mais alguma coisa.
Heqet, que não parecia disposto a contentar-se com metade daquele
dinheiro, antecipou-se aos desejos do correio e ordenou à mulher que
para começar servisse ao seu amigo a ceia especial da casa.
Sorridente, a meretriz piscou-me um olho, desaparecendo da taberna.
Sem que tivesse essa intenção, com a inestimável colaboração dos

vapores do álcool, o romano foi sentindo simpatia por mim,
respondendo às minhas perguntas com o calor de quem se sente
satisfeito com o seu trabalho.
Desta forma averiguei que, efectivamente, pertencia ao cursos
publicus (1) do Império e que lhe fora atribuída a rota de Tiberíades,
com prolongamento até Cesareia.
*1 Organizado por Augusto, este importante departamento oficial, que fazia
parte de uma espécie de Ministério dos Transportes, abarcava uma complexa rede
de funcionários, responsáveis pela circulação dos documentos e missivas oficiais.
Estes funcionários podiam fazer uso de veículos, transportes e estalagens, de modo
gratuito. Recebia um salário do Governo Central, não podendo fazer comércio por
sua conta.
Em geral, estes correios oficiais utilizavam as rotas marítimas, sempre e quando
os portos se encontrassem abertos.
De Roma à Síria, por exemplo, um enviado podia demorar uns cem dias. Quando
os temporais tornavam inviáveis as viagens pelo Mediterrâneo, os funcionários
viam-se obrigados a seguir as rotas terrestres, mais seguras mas, em geral, mais
penosas.
Neste caso, os mensageiros imperiais às províncias do Oriente viajavam pela
Macedónia e pela Trácia, atravessando, em certas alturas, de Brindisi a Durazzo e,
posteriormente, pelo Helesponto ou o Bósforo. Entre Roma, Síria e Egipto faziam
dois caminhos; um em Brindisi e outro em Neapolis no porto de Filipos. Eis alguns
tempos e distâncias percorridas por estes correios: ,de Roma e Brindisi 360 milhas;
de Brindisi e Durazzo (hoje Durres), dois dias; de Durazzo a Neapolis, 381 milhas; de
Neapolis a Troades, cerca de três dias e de Troades a Alexandria via Antioquia e
Cesareia umas 1670 milhas. Os mensageiros levavam sessenta e três dias pela
rota do norte, de Roma a Alexandria, e cinquenta e quatro de Roma a Cesareia.
A velocidade média de um correio a cavalo oscilava entre cinco e dez milhas por
hora. Quer dizer, uma jornada podia ser calculada em cerca de cinquenta milhas
romanas. (Cada milha romana era equivalente a mil passos ou 1481 metros.) As
viagens por mar encontravam-se sujeitas, como disse a outras exigências. Pelo
Mediterrâneo a época mais segura e frequentada era de 26 de Maio a 14 de
Setembro. Entre 10 de Novembro e 10 de Março, o tráfico paralisava quase
totalmente e os mensageiros imperiais tinham de seguir as rotas terrestres. Nos
períodos duvidosos (de 10 de Março a 26 de Maio e de 15 de Setembro a 10 de
Novembro), a marinha só se arriscava a cobrir trajectos curtos: pelo Norte de África
ou com a ilha de Sardenha. (N. Do M.)
Em determinadas cidades (Magdala e Nahum entre outras) eram
controlados pelos inspectores ou supervisores. Mas, segundo as suas

próprias palavras, estes eram tão corruptos como os próprios
mensageiros. Só assim se podia entender o trabalho extraordinário do
meu interlocutor.
Passado algum tempo, vazios o segundo e o terceiro jarros, entrou em
cena a rapariga. Com todo o género de reverências foi colocar na frente
dos olhos enevoados do correio uma bandeja de madeira, com a
especialidade da casa: uma suculenta carne de cordeiro,
intencionalmente temperada com muita pimenta, sementes de urtiga,
cebolas, couve silvestre e ovos.
O copo de vinho recebeu, além disso, o complemento de uma
prudente dose de resina de romãzeira. A ceia, com tal mortífera carga
de afrodisíacos, encontrava-se meticulosamente estudada para estes
casos. O mais provável era, uma vez devorada pelo hóspede e com a
decisiva ajuda dos vapores etílicos, a prostituta e o Rã não terem
excessivas dificuldades em depenar o ingénuo cliente.
A amizade eterna que, na sua embriaguez, chegou a jurar-me o
correio foi mudando para uma sonolência triste, muito própria dos
embriagados. Felizmente um dos viajantes que gritavam na mesa ao
lado alertado sem dúvida por Heqet sobre as minhas supostas
riquezas veio resgatar-me temporariamente dos abraços efusivos do
escriba. O fenício, de cabelo pintado num louro quase albino e modos
efeminados, apresentou-se como o maior inventor de Tiro. Por um
instante não soube qual daqueles companheiros de taberna e
estalagem era mais de temer. Armando-me de paciência escutei o seu
discurso, encaminhado para a venda de uma curiosa engenhoca que,
com grandes mistérios, se dignou colocar na minha frente. Não posso
negar que o invento, admitindo que fosse criação sua, me desconcertou.
A pequena caixa de madeira de pinho continha no seu interior um
total de cinco pequenas rodas metálicas dentadas, sabiamente
engatadas entre si por sete eixos igualmente de ferro. Segundo
explicou, uma vez acoplada aos raios da roda de um carro, permitia
medir as distâncias percorridas pelo transporte. Uns simples cálculos
matemáticos bastavam para que, a cada milha, da caixa principal se
soltasse uma pedrinha que ia parar a um segundo recipiente.
Desta forma, concluída a viagem, o condutor só tinha de contar as
pedras armazenadas na segunda caixa, estabelecendo o custo do

serviço. Um primitivo mas engenhoso taxímetro.
Prometi reflectir sobre a tentadora oferta. Que outra coisa podia
dizer-lhe? Quando me dispunha a retirar-me, tão esgotado como farto
de esperar a oportunidade para interrogar o estalajadeiro acerca do
roubo, um inesperado e triste mcidente veio precipitar os
acontecimentos.
Numa das múltiplas idas e vindas da solícita rapariga que não deixava
vazio o jarro do correio, este, quase à beira da inconsciência, acabou por
tombar pesadamente sobre Heqet que, desprevenido, perdeu por sua
vez o equilíbrio. Estalajadeiro e escriba, cómica e confusamente
enlaçados, puseram-se a rolar pelo chão, arrastando o banco de
madeira onde assentavam as nádegas vacilantes. Com tão pouca sorte
que, na queda, surpreenderam os passos de Débora, a meretriz que foi
estatelar-se e, o que foi pior, despejar os dois litros de vinho do jarro
que trazia em cima do seu chefe. A clientela gargalhou, divertida,
troçando do anão. E o egípcio, vermelho de ira e negro de vinho,
rastejou como um réptil por entre as pernas do sócio inconsciente,
atirando-se aos pontapés ao corpo caído da moabita. Os hóspedes,
qual deles mais embriagado, começaram a bater palmas, fazendo coro
a cada patada. Não o pude evitar. Num impulso, afastando com o pé a
mochila de couro que continha os papiros, deitei mão às correias que
prendiam às costas o avental do odioso Rã e levantando-o no ar
arremessei-o contra o pavimento. A minha atitude foi igualmente
vitoriada pela freguesia que, para dizer a verdade, não distinguia muito
bem quem era quem. A mulher, com os lábios feridos e
ensanguentados, apressou-se a desaparecer da sala e na sua corrida,
milagrosamente, espezinhou e acabou por espalhar pelo chão as cartas
enroladas. Um dos papiros, meio aberto, veio em meu auxílio...
Estava visto e provado que este impulsivo explorador tinha muito que
aprender...Heqet, atordoado, precisou de alguns minutos para se
recompor. A margem foi suficiente para que a Providência me fizesse
reparar no conteúdo invisível do papiro. Ao pegar-lhe, confirmei as
minhas suspeitas. E uma ideia sibilina acudiu em meu auxílio. Os
hóspedes, concluído o espectáculo, optaram por se retirarem. Quem isto
escreve esperou que o egípcio recuperasse. Uma vez de pé, incapaz de
precisar quem o atacara pelas costas, passeou o olhar vidrado pela

taberna, numa tentativa de localizar o agressor.
De punhal na mão, a babar-se de raiva, acabou por fixar a sua
atenção no único cliente que permanecia de pé na sala. O correio, a
ressonar como um bem-aventurado, jazia no chão, entre nós dois.
Adivinhando as más intenções de Heqet deslizei os dedos para os
mecanismos de defesa. Aos saltos, balanceando de um lado para o
outro, apontou-me a adaga. Com a língua prisioneira do vinho e da
raiva, exigiu-me a identidade do maldito que o atacara. Como única
resposta limitei-me a mostrar-lhe o papiro. Não foi preciso um único
esclarecimento.
Arrebatando-mo, observou-o vagarosamente. Depois, desviando os
olhinhos brilhantes para o saco de couro, transformou-se num cordeiro.
Guardou a arma e, procurando pensar a grande velocidade, convidoume
a negociar. Aceitei de bom grado. Ele sabia que a minha
descoberta, se chegasse aos ouvidos da povoação, podia acarretar-lhe
uma série de gravíssimas dificuldades, além de se ver obrigado a
devolver muitas tarifas pagas pelos confiantes vizinhos.
A cada proposta fui negando com a cabeça.
- Então clamou, fora de si -, que pedes em troca? Não queres
dinheiro, nem mulheres, nem alojamento gratuito!..
Lacónico e conciso, exclamei:
- Uma informação!
Recuperando o papiro exigi-lhe que escrevesse o nome do indivíduo
que tinha maquinado o roubo. A sua careta de consternação foi-se
apagando ante a dureza do meu olhar. Mas, numa última tentativa,
arremessou a caneta para cima da mesa, negando-se. Não resisti nem
alterei a gravidade do meu semblante. De modo natural retirei da bolsa
o salvo-conduto assinado por Pilatos e li o seu breve conteúdo. Ante a
ameaça velada de dar conhecimento do assunto ao sanguinário
procurador, Heqet apressou-se a retomar o calamus. Trémulo,
mergulhou-o na cavidade do tinteiro que continha leite, rabiscando a
seguinte legenda:
Ismael, chefe do conselho, ordenou a verificação do quarto e dos bens
do grego de Tessalonica.
Dei-me por satisfeito, apesar da subtileza da palavra verificação.

Depois da assinatura do documento dei por terminado o aborrecido
episódio.
Mas o egípcio, inquieto ante uma confissão que não o favorecia de
ponto de vista algum, arriscou-se a perguntar-me quais eram as minhas
imediatas intenções. Garanti-lhe que se tratava de um assunto pessoal
e que, para sua tranquilidade, ninguém saberia daquele escrito. Mais
uma vez, o ingénuo fui eu. Argumentar com um indesejável é como
parlamentar com uma serpente venenosa. O ideal é mantê-lo à
distância. Num gesto de boa vontade, mostrando-lhe a quase
imperceptível grafia, acrescentei que, em breve, quando o leite secasse,
a letra desapareceria. O que não lhe disse, embora pense que não era
tolo que não o soubesse, era que, em caso de necessidade, bastava um
pouco de cinza ou de pó de carvão para que a tinta invisível fosse
legível.
A julgar pelo sorriso cínico que me ofereceu, as minhas explicações
tranquilizaram-no... metade, apenas. Tinha de me manter alerta. O
estalajadeiro era capaz de tudo. Mais ainda: à vista do cruel desenlace
da jornada, prudente teria sido abandonar a pousada naquele mesmo
instante. Uma noite naquele tétrico cubículo, com um estalajadeiro sem
escrúpulos e ressumando ódio, não parecia ser a melhor das ideias. Mas
o esgotamento e um excesso de confiança pueril sufocaram a sempre
sábia intuição. Com a calma acabrunhada pela incerteza, afastei-me da
taberna solitária. Precisava de dormir e de recompor as forças.
Trancando a porta com a vara de Moisés fui sentar-me entre as frestas,
na companhia de uma modesta candeia e de uma magnífica solidão. E o
céu abençoou-me com um sono profundo. Porém, o repouso seria breve.
26 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
Fui um inconsciente. Agora, ao recordar aquele amanhecer,
compreendo quanto estive perto do fim.
Próximo do despertar do canto do galo, faltando cerca de duas horas
para a alvorada, um breve e temeroso estremecer da porta pôs-me de
pé. Precisei de uns segundos para me aperceber da situação. Os
sentidos não me tinham enganado. Os tímidos golpes, como se alguém
evitasse chamar a atenção dos outros hóspedes, novamente se
repetiram. Quase sem tocar no chão, aproximei-me da madeira,

tentando averiguar quem se encontrava do outro lado. E uma voz de
mulher substituiu desta vez o sinal abafado. Só apanhei duas palavras:
grego e desperta. Sem fazer ruído peguei no cajado, afagando o
prego do laser de gás. Se era uma armadilha, teria de agir com rapidez.
O instinto suponho que com razão desenhou o rosto e a adaga de
Heqet na penumbra da galeria. Estúpido que eu fora! Devia tê-lo
imaginado. Ou imaginei? Para o caso, era o mesmo. As circunstâncias
eram aquelas e não outras. Devagar, medindo cada passo, coloquei a
vara entre a porta e o corpo.
Com nervosa lentidão, entreabri o batente. A personagem que
assomou pela abertura não soube quanto esteve perto de receber uma
descarga.
- Grego dos infernos!... O vinho estragou-te os ouvidos.
Não repliquei. Débora, a moabita, com os lábios inchados e o rosto
cheio de hematomas, intimou-me a que saísse do quarto.
Desconfiado, limitei-me a transpor a porta, inspeccionando o corredor.
A rapariga, à primeira vista, não parecia vir acompanhada. A galeria
respirava silêncio. No entanto, dada a iluminação escassa, não era difícil
que alguém se tivesse emboscado atrás das esteiras e das mantas que
pendiam do varandim. Com pressa evidente sussurrou-me que pegasse
nas minhas coisas e a seguisse. O tom sincero animou-me a
obedecer às suas ordens. Perante a minha surpresa vi-a apanhar do
soalho um volumoso fardo e umas mantas. Carregando o volume, foi
deixá-lo num dos cantos do quarto. Segui-a, intrigado, verificando que o
enorme saco não era mais que um odre inchado e bem cheio de vinho.
Cobriu-o com as mantas e, apagando a candeia que me iluminara
durante o repouso, puxou por mim, fechando a porta com especial
cuidado. Era evidente.
Por razões que começava a entender, a audaz prostituta tinha
substituído o grego adormecido por um odre adormecido. Um calafrio
acordou-me de vez.
Percorremos o corredor como duas sombras, parando na outra ponta,
diante do quarto que se abria a norte. Alguém esperava com a porta
entreaberta, e em silêncio deu passagem. Débora precedeu-me.
Durante uns instantes, temeroso, não soube que partido tomar. E se era

uma armadilha? A rapariga, essa, não pensou duas vezes. Puxando-me
pelo manto, arrastou-me para dentro, ao mesmo tempo que
amaldiçoava a sua sorte. O cubículo, pouco mais ou menos como o meu,
só se diferenciava por uma janela nua e bastante mais desafogada que
as frestas.
Junto da abertura distinguia-se um enxergão e, à cabeceira, junto de
uma vasilha e de um jarro de bronze, a lança amarela e afiada de uma
chama, agitada pela brisa da noite. A mulher que nos tinha dado
passagem a segunda meretriz, que acompanhava a moabita na
taberna foi sentar-se na cama.
Débora, entretanto, voltou à porta, espiando a galeria deserta por um
dos nós de madeira esburacados. Aturdido, tentei assomar-me à janela.
A companheira da moabita impediu-me. Que diabo acontecia? E
Débora, confiando no silêncio momentâneo da estalagem, explicou-me
num fio de voz que Heqet e os esbirros do saduceu tramavam o pior.
Que significava tudo aquilo? Impaciente com a minha estupidez, fez-me
ver que o seu chefe, por qualquer razão que ignorava, tinha saído
precipitadamente da estalagem, regressando com quatro dos
incondicionais e viciosos servos de Ismael. Reunidos na taberna, ela e a
sua amiga tiveram de os servir, descobrindo assim os repugnantes
planos do egípcio. As ordens do estalajadeiro eram radicais: Apunhalar
o grego e fazer desaparecer o cadáver. Não havia tempo a perder.
Apontando-me a janela, convidou-me a fugir.
Comovido perante a generosidade e valentia das raparigas, não
soube que responder. E Débora, apressando-me, resumiu e justificou a
sua atitude com uma frase:
- Poucos homens teriam feito por mim o que tu fizeste na taberna.
- Mas que será de vocês?
Não houve resposta. O ranger do chão da galeria deixou-a em
suspenso. E a mulher, levando o indicador esquerdo aos lábios feridos,
aconselhou silêncio. Alguém andava no corredor.
Débora avançou para a porta, tentando ver no escuro. Logo, girando
nos calcanhares, nos informou da presença dos cinco indivíduos na
extremidade oposta do corredor. Agitando as mãos, insistiu para que eu
saltasse. Mas, inexplicavelmente, movido talvez pelo desejo de

identificar os agressores, afastei a moabita e abri a porta o bastante
para ver como arrombavam a porta do meu quarto, entrando em tropel.
Se não fossem as súplicas da prostituta é quase certo que, levado pela
indignação e pela inconsciência, me teria aventurado a fazer-lhes frente.
A mulher tinha toda a razão. Se o anão e a sua gente me localizassem
no quarto das meretrizes ou dele saindo, a vida das minhas salvadoras
podia correr grave perigo.
Fechando a porta, encaminhei-me para a janela. A distância ao solo,
de uns cinco metros, não me preocupava tanto como a sorte daquelas
valentes e infelizes rameiras. Prestes a saltar, lancei a mão à bolsa e,
tirando um dos saquinhos com pepitas de ouro, lancei-o para as mãos
da nervosa Débora. Um sorriso e um Melqart te abençoe foi o que por
último vi e ouvi. Atirando a vara na escuridão tentei adivinhar o tipo de
terra que me esperava. Uma pancada seca e amortecida anunciou-me
que estava no campo, possivelmente em zona de lavra. Décimos de
segundo depois precipitava-me no vazio, caindo, na verdade, na
argilosa base do olival que circundava boa parte do edifício. Para dizer a
verdade, salvo algumas contusões de pouca transcendência, tive sorte.
Se tivesse caído três ou quatro metros mais à esquerda, os ramos e os
braços retorcidos de uma daquelas oliveiras podiam ter-me magoado.
Minutos depois, a correr, passada a pontezinha de pedra, dirigia-me
para a fonte. A aldeia, já próximo o amanhecer, não tardaria a
despertar. Depois de verificar que não era seguido, parei junto da
barulhenta conduta de água.
Para onde dirigir os meus passos? Ia refugiar-me na casa da
Senhora? Escondia-me nalgum canto do povoado? Esperava mesmo ali
pela luz da alvorada? Que podia eu fazer com o saduceu? Acabrunhado
pela situação, ao reparar de repente no cristalino jacto de água, decidime
pela mais sensata das alternativas.
Como dizia o Mestre, os problemas, um por um.
Logicamente a asa do pássaro, como popularmente se chamava às
fontes, encontrava-se deserta. Prestando justiça a esta plástica
descrição (nos poços e mananciais de uso público juntava-se
diariamente a população, trocando novidades e mexeriquices), o local
não tardaria em se encher de madrugadoras matronas e de
camponeses preguiçosos que aproveitariam a passagem pelo tanque

para darem de beber aos seus jumentos e encherem as cabaças e
odres. Agi com rapidez.
Despi-me e, pondo-me na frente do frio veio de água, desfrutei do
improvisado duche. O banho outra das servidões difíceis de mitigar
nas nossas circunstâncias foi uma bênção.
Descontraído e fresco como uma rosa, depois de me secar com o
roupão, preparei-me para atacar aquela segunda jornada em Nazaré.
O contacto com a água devia também pôr mais claras as minhas
confusas ideias. Esperaria a claridade para me pôr em marcha. A minha
primeira visita, naturalmente, seria ao saduceu. Entendi que tinha
motivos de sobra para trocar algumas palavras com o perigoso
sacerdote. Se fosse possível, embora não visse com clareza como,
tentaria recuperar os fármacos. Por outro lado, em honra da
objectividade e dada a sua condição de velho professor de Jesus, não
vinha fora de propósito colocar-Lhe algumas questões a esse respeito.
Faminto, rebusquei pelo saco de viagem, quase vazio. Os ladrões
tinham desprezado os frutos secos, sábia e providencialmente incluídos
por meu irmão no modesto farnel. A ração de figos prensados, passas e
nozes de elevado poder calórico aliviou-me a alma. Estranhamente
tranquilo, assisti, satisfeito, ao meu primeiro amanhecer na aldeia do
Mestre. Em uníssono, como se se tratasse de um mesmo fenómeno, o
círculo laranja do sol e o ronco da moenda do grão foram empurrando
escuridões e silêncios, devolvendo a luz e a vida ao povoado.
Pontual e matematicamente, fizeram acto de presença as mulheres,
carregando vasilhas à cabeça ou apoiando-as nas ancas. Com elas, os
primeiros felah, descarregando a má disposição do madrugador nos
pacientes asnos. Não tive dificuldade em obter a informação de que
precisava. A casa de Ismael, ao lado da sinagoga, erguia-se ao norte
da aldeia, na margem esquerda do riacho, na encosta sul do Nebi. Não
tinha que enganar. De acordo com a tradição, surgia isolada das
restantes construções. Com a amável simplicidade que caracteriza a
gente humilde, duas das matronas, que seguiam pouco mais ou menos
o mesmo caminho, ofereceram-se para me guiarem até lá. O bairro dos
artesãos e a rua sul itinerário seguido para a ponta noroeste da
aldeia - foram-se iluminando com a promessa de um dia tão radiante e
quente como o anterior. Às portas das casas, nos pátios e vielas,

mulheres e rapariguinhas preparavam as fornadas, cantarolando ao
ritmo da moenda, varrendo e baldeando o empedrado e alimentando
as brancas colunas de fumo dos fogões e fornos de pão, que iam
traçando no azul-celeste uma Nazaré vertical, ondulada e optimista.
Uma Nazaré alheia às misérias de homens como Heqet e seus
sequazes. Era incrível. A julgar pelas alegres e sinceras saudações dos
vizinhos, ninguém parecia estar a par dos acontecimentos da noite que
acabava de passar.
Na cintura de hortos que fazia de fronteira entre a colina e as últimas
casas, as risonhas mulheres, com as ânforas à cabeça deixaram-me
praticamente encaminhado na direcção da sinagoga. O edifício de
pedra tinha à frente um terreiro, a uma meia centena de passos da
aldeia. Em princípio, com excepção dos blocos de rocha cinzentos e
desgastados pela erosão a construção não sobressaía das restantes
casas. Um carreiro quase invisível rodeava a casa pelo flanco oriental,
conduzindo directamente às duas portas que se abriam do lado norte.
Ambas se encontravam fechadas. Imaginei que deviam ser as entradas
para a sinagoga propriamente dita. Naquela mesma fachada norte, de
uns quinze metros de comprimento, ocupando a esquina ocidental,
aparecia uma construção de menor envergadura e claramente
diferenciada pelo caiado das paredes.
Apresentava também uma porta de serviço, semiencoberta por uma
cortina de lã escarlate. Diante do que supus ser a casa do saduceu a
quatro metros da entrada, um poço munido de tripé, do qual pendia um
balde de madeira, húmido e oscilante.
Amarrado ao parapeito do poço uma parelha de asnos, de pêlo negro
e encrespado.
Não soube que fazer. Rodeava a casa à procura dos criados?
Assustado, lembrei-me que os esbirros contratados pelo estalajadeiro
para me eliminarem eram justamente criados e lacaios do velho
sacerdote. Talvez a situação, em plena luz do dia e nos domínios da
víbora, não fosse tão dramática. A reflexão não era das melhores.
Assim, com mil precauções, caminhei na direcção ocidental da fachada.
Na referida esquina a passagem era cortada por um desnível abrupto
quase um precipício -, que morria no leito da torrente, a uns vinte metros
abaixo do ponto em que me encontrava. A parede ocidental da casa

ficava assim convertida em local de difícil acesso. De facto, como se o
saduceu tivesse desejado converter aquele flanco num bastião, a
parede não tinha portas. Quanto à meia-dúzia de janelas abertas no
estuque branco, a mais próxima da terra estava separada por uns três
longos metros.
Um pouco mais ao norte, seguindo o curso de água, erguiam-se duas
casitas, encostadas uma à outra. Às portas de uma delas distinguiam-se
vários homens, atarefados no que me pareceu um trabalho de olaria.
Sem o saber, estava a descobrir a oficina dos descendentes de Nathan.
Subitamente, o roçar de umas sandálias na terra pisada veio arrancarme
às minhas observações. A entroncada e forte compleição do
indivíduo que se aproximava foi-me familiar. Se a memória não me
enganava, era o mesmo, ou muito parecido, que tinha saído da
estalagem e que acabou por fugir pelos hortos próximos da ponte de
pedra.
Aquele elemento, na companhia do segundo o que Tiago perseguira
podia ser um dos autores do roubo. A mão direita deste cada vez mais
desconfiado explorador foi ao encontro do mecanismo activador dos
ultra-sons. Não foram necessários. Ao reconhecer-me, soltou a forquilha
de três dentes que trazia na mão esquerda e, aterrorizado, berrando
como um bezerro, deu meia volta, precipitando-se para o cortinado
vermelho. Atónito ante a incompreensível e excessiva reacção do esbirro
não consegui entender. A não ser... Sorri sem gosto. E o estômago deume
uma volta. A não ser que aquele maldito tivesse participado no
apunhalamento do grego adormecido... Alarmados pela gritaria não
tardaram a aparecer mais dois homens.
E atrás, saltitando, apressado, o saduceu, visivelmente irritado com o
alvoroço. Quis Deus que eu ficasse imóvel. Deste modo, sem mover um
músculo, tentando iluminar a minha inteligência com alguma brilhante e
oportuna ideia, esperei o desenlace da cena. O sacerdote, metido numa
túnica cuja brancura incomodava os olhos, entrou como um carro de
guerra no meio do confuso trio. Escutou a versão queixosa e abafada
dos acólitos e, sem tirar de mim os olhos, ordenou-Lhes que se
retirassem. Aquilo surpreendeu-me.
Mas, sem perder a serenidade, continuei no meu papel de estátua.
Só podiam acontecer duas coisas. Ou o velho cirrótico aproveitava a

solidão do local e me lançava aos seus esbirros ou então dava meia
volta e deixava-me ali de pé. Pois bem, sucedeu o que menos podia
imaginar: Ismael, astuto como uma raposa, pensava com o fulgor e a
rapidez de um relâmpago. Em segundos, talvez desconcertado perante
a minha imaginada audácia, alterou o semblante colérico compondo nas
faces um sorriso artificial. Abrindo os braços em sinal de paz caminhou
para quem isto escreve. Como é de supor, aquela mudança emanava
um inconfundível cheiro a traição. Mas, disposto a conquistar os
objectivos que planeara, decidi pôr-me à sua altura.
- O Único, bendito seja, favorece os valentes.
A saudação, lançando-me o seu hálito podre, confirmou as minhas
impressões.
- Sê bem-vindo à casa de Ismael. Calculo que procuras... - E com uma
desfaçatez difícil de igualar agarrou-me o braço, convidando-me a
entrar a seu lado - ... Pressinto acrescentou, olhando-me de soslaio
que o nosso encontro estava escrito nos céus.
Não podes imaginar até que ponto, pensei para comigo.
.. É muito possível que ambos tenhamos cometido erros. No entanto,
nada há que a palavra e uma boa medida de vinho não possam
resolver. Rogo-te que aceites a hospitalidade deste ancião.
Julguei conhecer o seu erro. Mas... qual era o meu?
Instantaneamente, veio-me à memória a crítica cena da blasfémia de
Tiago. Eu estava lá.
Ao transpor o umbral, o aspecto rústico da casa desapareceu.
Atravessámos um pequeno vestíbulo todo ele revestido de pedra
travertina e, falsamente reverente, o miserável chefe do conselho deume
passagem para uma segunda sala, sem janelas, onde se respirava
um penetrante perfume a incenso. Atento aos meus movimentos,
mostrou-se satisfeito perante o assombro que o meu rosto manifestava.
A decoração dava inteira expressão ao seu desmedido amor pelo luxo.
Era quase inconcebível que numa aldeia de tão modesta gente se
pudesse erguer uma casa que, sem dúvida, teria sido a inveja do
próprio procurador. As paredes, do soalho ao tecto, estavam forradas
de bronze. No centro geométrico de cada uma delas, incrustados nas
pranchas, brilhavam candelabros sagrados de meio metro de altura,

trabalhados numa pedra especial da Capadócia (um tanto semelhante
ao cristal de quartzo). A transparência dos sete braços de cada
menorah era tal que, mesmo sem janelas, cintilavam como diamantes.
Duas enormes lanternas em forma de meia-lua, num delicado
cinzelamento de ferro, pendiam das vigas do tecto, cobrindo a quadra
com uma luz dourada.
Suspensas aproximadamente à altura da minha cabeça (um pouco
menos de um metro e oitenta), as candeias queimavam as mechas por
cornos, deixando escapar os fios de incenso pelo centro. O piso,
deliciosamente fresco por baixo dos meus pés descalços, encontrava-se
armado com lousas de breccia egípcia o cobiçado alabastro cor de mel
transportada do Dshébel Urakan.
E a meio da sala de estar, outra jóia, cujo exorbitante preço só podia
estar ao alcance daquele corrupto representante da lei: uma mesa de
quase metro e meio de diâmetro e pouco mais de quarenta centímetros
de altura, feita com lâminas circulares de limoeiro (1). (Entre os
Romanos, estes móveis atingiam preços milionários. Conta-se, por
exemplo, que Cícero possuía uma destas mesas, avaliada em
quinhentos mil sestércios.) As pernas de marfim tinham sido guarnecidas
com aplicações de concha e pequenas lágrimas de ouro e de prata.
Dando resposta aos meus pensamentos, Ismael comentou, devorado
pela soberba:
- Deus, bendito seja, concede poder e glória a quem o procura.
Indicando os fofos almofadões de seda persa que rodeavam a mesa
suplicou-me que me sentasse. E o saduceu dirigiu-se ao vestíbulo,
trocando algumas frases com um dos servos. Mas, ignorando os meus
gostos, voltou-se, e da porta perguntou-me se desejava vinho. Declinei
o convite. No entanto, perante a enjoativa insistência, não tive outro
remédio senão sugerir um pouco de leite quente. Sorriu
depreciativamente e, transmitida a necessária ordem, foi sentar-se,
entre ofegos e uma apunhalante e justiceira artrite, nas voluptuosas
almofadas.
- Bem...
O maldoso Ismael repousou as sanguinolentas mãos no volumoso
abdómen, esperando as minhas razões. Sem saber que dizer-lhe nem

por onde começar, limitei-me a percorrer com o olhar a milionária sala.
- Não deve assombrar-te lançou, corrosivo. - Estas ninharias são
inspiradas na glória da Grécia. Porque tenho para mim que és de
Tessalonica...
Concordei, verificando que Heqet tivera uma excessiva pressa em
informá-lo.
- E que faz um rico comerciante tão longe da sua pátria? Rastejante,
de acordo com a sua condição, foi-me levando para onde desejava. O
que não sabia é que também eu o arrastava para um dos meus
objectivos.
- Soube de um profeta chamado Jesus deixei cair com maldade e
procuro informações.
Ao escutar o nome do seu antigo discípulo mordeu os lábios.
Azedo, sem se poder conter, balbuciou:
- Um profeta?... Esse louco presumido? Acabava de engolir o isco. Já
só era questão de ir puxando a linha.
..Eu fui seu mestre.
- Ouvi dizer isso... - interrompi-o, fingindo uma ardente curiosidade. - E
sei que os teus lábios falaram com verdade.
Diz-me: é verdade que foi um aluno distinto? A víbora abriu as fauces.
E a peçonha feriu-me no mais íntimo. Mas, fazendo das tripas coração,
suportei a investida.
- Um efeminado distinto!... - Presa da ansiedade do alcoólico, deu um
estalo com a língua.
*1 As tábuas circulares e com vistosos veios desta madeira uma espécie de
árvore-do-paraíso que crescia nas proximidades do Atlas eram muito procuradas
pelos patrícios e milionários da época. Seria difícil que os troncos destas árvores
atingissem a espessura necessária para a fabricação das referidas mesas. Mesmo
assim, alguns afortunados conseguiram comprar exemplares que tinham quatro pés
de diâmetro. Com o correr dos anos, algumas mesas de limoeiro chegaram a atingir
preços de um milhão e trezentos mil sestércios. (N. Do M.)
E acrescentou, roído pelo ressentimento: - Melhor teria sido que
casasse com Rebeca e esquecesse os seus sonhos de grandeza. E,

depois, quem foi o pai? Quem era ele? Carpinteiros ignorantes que não
tinham onde cair mortos!...
- Efeminado? - disse, descendo ao seu nível. - Tu também não te
casaste...
O seu olhar enegrecido toldou-se de vermelho. Medindo as forças do
seu opositor meditou a resposta. Porém, o ódio por Jesus era como um
oceano. Nem mil vidas o teriam secado. Em cada palavra, gesto ou
silêncio batia, surdo e destruidor.
- Eu consagrei a minha vida ao Todo-Poderoso, bendito seja.
E não vou consentir que me insultes. E menos na minha casa...
- Nem eu que insultes os meus amigos...
A tensão foi abafada pela entrada de um dos servos. Não fui capaz
de o reconhecer. Eu sabia que, pelo menos um de entre os servidores do
saduceu tinha demonstrado a sua lealdade à família de Tiago,
avisando-os em segredo da ida de um mensageiro ao tribunal de
Séforis. O indivíduo, jovem e magro, fitou-me com descarada
curiosidade. Seria aquele o contacto com os familiares do Mestre?
O velho recebeu o vinho inquieto. E agarrando o copo precioso antes
de a bandeja chegar à mesa bebeu-o, convulso, com a sede sem fundo
dos alcoólicos. Observei com desconfiança o leite, igualmente servido
numa daquelas esplêndidas taças uma espécie de ágata postas de
parte entre as classes endinheiradas por causa da sua introdução em
Roma por Pompeu depois do triunfo sobre Mitridates.
Um cavernoso arroto relaxou a ansiedade de Ismael mas não a sede
que, esvaziada a taça, estendeu a mão trémula, exigindo que
imediatamente lhe enchessem o copo. O servo, com a jarra de bronze
coríntio preparada, parecia esperar pela ordem. Deitou o espumoso e
leve néctar e, como um autómato, pousou o recipiente no soalho, ao
alcance da mão. O saduceu percebeu os meus receios. Soltou um riso de
hiena e, incapaz de soltar palavra, fez sinal ao jovem para que provasse
o leite. A fria e dócil submissão do indivíduo que cumpriu a ordem de
imediato deixou-me perplexo. Aquele parecia outro triste hábito da
infernal morada.
- Grego insolente! - clamou, quando o criado se foi. - Julgas-me capaz
de envenenar um amigo do procurador? Dir-te-ei uma coisa: admiro a

tua coragem...
A mão do egípcio continuava a pairar naquele desagradável encontro.
..Sabes defender os teus amigos. E isso não é moeda comum nestes
tempos. Mas, diz-me, porque te interessas por um profeta morto?
Riu da própria graça.
- Talvez improvisei porque soubesse enfrentar os corruptos.
- Nisso reconheço uma certa verdade replicou com cinismo.O
carpinteiro tinha a audácia dos ignorantes. Desde criança demonstrou
uma doentia inclinação para o desafio e a polémica.
O conselho, e eu próprio, tivemos de admoestar a sua família em
numerosas ocasiões. Introvertido, ególatra e blasfemo empenhava-se
em falar com o Único (bendito seja) como se fosse seu pai. Estava
possesso. Violava o sábado e a sua palavra era fonte de constantes
querelas entre a juventude.
Sendo ainda uma desprezível criança chegou a meter-me a ridículo.
Atreveu-se a desenhar o respeitável rosto do seu mestre nas lajes da
escola...
Com toda a frieza de que fui capaz continuei a manobrá-lo.
- Dizem que fez prodígios. Em Caná...
A gargalhada daquele maldito quebrou a branca linha do incenso.
- Caná... Água em vinho! - E, mostrando-me a taça, cuspiu-lhe para
dentro. - Se nesta região há alguém que entenda de vinhos, esse
alguém sou eu... - Não o pus em dúvida
- ... Quem presenciou o prodígio?
- Pelo que ouvi, sua mãe e...
- Tu mesmo o disseste! - vociferou, arremessando os restos de vinho
para o chão. - Sua mãe!... E mais ninguém! Jesus só fazia maravilhas na
frente dos seus.
- Não compreendo.
- Estimado grego desceu para um tom paternal -, outros, menos
inteligentes, se deixaram enganar por supostas ressurreições, falsas
curas e multiplicações de pães e de peixes. Alegra-me que tu, muito

mais sensato, perguntes também aos seus inimigos. Escuta isto: a certa
altura, esse ingrato veio cair neste seu povoado. Eu próprio o interpelei,
desafiando-o a que fizesse brotar vinho velho do meu poço. - Moveu a
cabeça, desqualificando o Mestre - ...Acobardado, fugiu para Nahun.
Para outros é possível: aos que o vimos crescer não podia enganar.
- Nunca houve profeta em sua terra.
- Os profetas replicou, autoritário nunca se proclamaram filhos de
Deus. - E enchendo o torturado espírito com uma terceira taça deixou o
assunto, como se tivesse proferido uma sentença. - Enfim, viste como
acabou. Se tivesse seguido os meus conselhos talvez tivesse sido um
homem útil e respeitável. Amanhã, ninguém o recordará... Quanto à sua
família, eu me encarregarei de a liquidar e de limpar a aldeia de tanta
imundície.
Pouco mais podia esperar daquele lamaçal. Aproveitando a
insinuação arrisquei-me a interrogá-lo quanto às suas intenções
imediatas. O réptil não caiu na armadilha. Num inequívoco tom de
advertência recomendou-me que, para minha segurança, mudasse de
ares.
- Ou melhor ainda rectificou, numa sibilina tentativa de me utilizar. -
Estaria disposto a esquecer o teu erro, sempre e quando me
mantivesses ao corrente dos projectos daqueles indesejáveis...
Procurando raciocinar à mesma velocidade e conhecer as suas turvas
manobras simulei não o ter compreendido.
- O meu erro?
- A tua ingenuidade comove-me. Precisamente a tua condição de
prosélito vem colocar-te numa situação melindrosa... - Nesta altura,
certamente, não atingi o significado das suas ameaças. - Penso que
estás informado de uma das acusações que o levaram à execução.
Aquele renegado declarou-se rei dos Judeus... Pois bem, os seus
partidários são igualmente imimigos de César. É conveniente para ti
converteres-te em suspeito de conspiração contra Roma? Desfeita a
dúvida sobre o meu erro, comecei a avaliar a oferta. Talvez fosse
altamente benéfico que me rendesse aos seus propósitos..: Deixou-me
reflectir.
- A minha proposta afirmou com astúcia pode salvar-te da

ignomínia e de algo pior...
Enquanto permanecesse na aldeia e o meu regresso ao yam estava
marcado para a manhã de sexta-feira, 28 -, o único risco calculado que
na verdade corria este explorador fora já marcado pelo saduceu e
tentado pelo egípcio. Neste sentido, tinha de actuar com cautelas. Era
preciso ganhar tempo e aplacar as iras do chefe do conselho, na medida
do possível. A operação não podia ver-se comprometida por causa das
intrigas daquele indesejável. Se obtivesse uma trégua se possível até
à mencionada sexta-feira o meu trabalho em Nazaré seria
beneficiado. Naturalmente, não se tratava de atraiçoar os meus amigos.
Nem o rigoroso código do Cavalo de Tróia o permitia nem eu o teria
consentido. Se o velho procurava informações acerca dos planos da
família de Jesus, eu dar-lhas-ia... à minha maneira. Estabelecer uma
relação secreta e estar a par dos seus movimentos podia ser positivo
para os meus propósitos.
- E que obterei em troca? - repliquei, fingindo não ter percebido as
suas ameaças.
O álcool concedeu-lhe lucidez momentânea. E convencido de que tinha
pela frente um néscio, aventurou-se a desvendar:
- O Sinédrio de Séforis decidirá amanhã a sorte de Tiago, de sua
família e de quantos proclamam a ressurreição do carpinteiro. Aqui, tudo
passa pelas minhas mãos. Se aceitares, não haverá acusações contra ti
e poderás voar em liberdade...
Ao dizer a palavra voar foi arrastado por um riso nervoso e prenhe de
funestos augúrios. E eu não fui capaz de interpretar a última e
enigmática frase do saduceu:
- A partir de hoje, muito poucas pombas desfrutarão dessa liberdade.
- Está bem concordei, desejando terminar a odiosa entrevista.Mas
exijo alguma coisa mais... - Os seus olhos abriram-se como os de um
mocho à espreita - ...Oferecer-te-ei a mais exaustiva informação,
sempre e quando quiseres, mas além da minha segurança, garantes-me
a devolução do que me roubaram na estalagem e...
Não me permitiu concluir.
- Combinado! A tua prudência é própria dos homens sábios.

Falámos do teu erro e creio que também deveríamos falar do meu. -
O tom, condescendente e impróprio de um réptil, pôs-me em guarda.
- ...Tens de compreender este velho e zeloso guardião da lei. Vivi por e
para Javé, bendito seja, e para estas simples e infelizes criaturas a meu
cargo...
Hipócrita repugnante!, gritei, no meu íntimo.
.. Por isso, e rogo-te que me desculpes, dei as ordens necessárias
para que fizessem uma busca ao teu quarto. Outro, no meu lugar, teria
feito o mesmo. A pureza da doutrina está em primeiro lugar. E tu não o
podes negar, entraste na aldeia como amigo e partidário desse
perigoso revolucionário, felizmente morto. Se tivesse sabido que és um
homem sensato e, para mais, amigo de Pilatos, esta conversa ter-se-ia
dado muito antes. Quando te encontrares com o procurador (porque sei
que o farás), fala-lhe de Ismael e do seu zelo...
- Comecei a desvendar as segundas intenções daquele mais que
evidente reconhecimento da sua culpa. - Amanhã, se me fizeres essa
honra, poderás apreciar o requinte da minha cozinha. E ficarei
encantado por restituir-te o que é teu, sempre e quando acentuou,
espaçando as palavras o respeitável grego cumpre o combinado...
- Há mais alguma coisa.
Consumado actor, o impenitente embusteiro fingiu surpresa.
E, procurando tirar partido da ideia que acabava de insinuar, mostreilhe
alguma coisa que já conhecia: o salvo-conduto de Pilatos.
.. A agudeza da tua inteligência afirmei, com idêntica teatralidade
poderia perder-se num lugar tão remoto como este. É certo que o
procurador me aguarda em Cesareia. E não é menos certo que poderia
falar do teu zelo e bom trabalho, não só a Pilatos como aos grandes
rabinos do Sinédrio de Jerusalém e, em breve, ao próprio Tibério...
A cobiça e ambição assomaram, traidoras, ao rosto congestionado de
Ismael. E bebendo a última gota do jarro, babando-se de prazer, rogou
que me explicasse. Tal como supunha, o malévolo plano deste
explorador caiu em terreno adubado...
- Poderia fazer chegar o teu relatório à máxima autoridade do
Império. Em troca, apenas desejo da tua provada magnanimidade uns
dois pormenores...

- Pormenores? Relatório? A que te referes? Com estudada frieza, fuilhe
explicando as minhas pretensões. Quem melhor do que ele podia
redigir um relatório sobre a figura de Jesus e as actividades blasfemas e
revolucionárias que começavam a detectar-se em Nazaré? A minha
exposição, adornada com um canto incessante à sua honorabilidade,
acabou por vencê-lo. Transpirando vaidade, aceitou, embora insinuasse
com desconfiança:
- Conceder-te-ei o que pedes, salvo uma coisa: o perdão para esses
miseráveis.
Fazendo-me cúmplice do seu ódio, assegurei-lhe que não era essa a
minha intenção.
- A tua palavra abriu-me os olhos. Não desejo modificar o rumo do
destino. Como te dizia, só pretendo uns dois pormenores...
- Fala, então...
Medindo cada sílaba, fiz-lhe ver que por razões estritamente
pessoais, desejava vingar-me de um dos discípulos do profeta.
Mas, incompreensível e estranhamente, tinha desaparecido. Sem
descer do cinismo a que trepara, exprimi-Lhe o meu fingido temor.
- Há a possibilidade declarei, baixando a voz de que esse
orgulhoso e peçonhento João de Zebedeu tenha fugido para Séforis e
tente prejudicar-me, denunciando-me aos funcionários de Antipas. No
caminho para Caná neguei-me a curar um dos seus companheiros e
jurou perder-me.
A notícia não podia ter chegado aos ouvidos do saduceu.
Admitindo que pudesse verificá-lo, o traço de honestidade sem dúvida
jogaria a meu favor.
Desconfiado e astuto deixou-me acabar.
..É minha intenção acabar com ele, antes que consiga enredar-me
numa sempre aborrecida demanda.
- E o segundo pormenor?
- Ouvi dizer (corrige-me, se estou enganado) que, há anos, o próprio
Jesus te vendeu uma harpa de sua propriedade...
Sem adivinhar para onde eu me encaminhava, franziu a testa, lutando

por se recordar...
..Pois bem, se foi assim e se ainda a conservas, gostaria de a
examinar e de a entregar a Procla, a mulher de Pilatos.
O chorrilho de improvisadas mentiras deixou-o fora de combate.
- A harpa!... Sim, claro que me lembro. Mas não entendo...
Mais assombrado que o saduceu perante a minha capacidade para a
invenção prossegui, nos seguintes termos:
- Trata-se de um sonho. Na véspera da crucificação, a mulher do
procurador teve uma visão. Nela apareciam o profeta e a harpa...
Lastimo, nada mais posso dizer-te.
Permaneceu em silêncio e confuso. Parecia obcecado, procurando
intenções ocultas nas minhas propostas. A segunda, aparentemente de
menor importância, ficou em suspenso.
- A harpa! Dá-me tempo. Terei de procurar...
Aceitei, compreensivo.
- Amanhã terás uma resposta. Quanto a esse Zebedeu... - Observoume
ladinamente. E do alto da sua maldade sentenciou, com calma
irritante: - Talvez o teu pormenor já tenha sido satisfeito...
Um pressentimento cruel apertou-me a garganta. E pouco faltou para
que as suas negras garras me denunciassem. Que quisera ele dizer?
Qual era a relação entre aquele miserável e a inexplicável ausência do
discípulo? Por o meu falso desejo de vingança se achar cumprido? Com
ar distraído, insisti:
- Agora sou eu quem não te entende.
Não mordeu o anzol. Com um gesto tentou pôr-se de pé. A entrevista
estava a chegar ao fim.
- Amanhã, grego astuto, darei alívio à tua curiosidade.
Terás preparado o relatório e, além da harpa e de uma ceia
suculenta, partilharás comigo outras surpresas...
A prudência obrigou-me a desistir. Aquele indivíduo era mais
escorregadio e perigoso do que imaginara. Teria de dominar os meus
movimentos. Ao abandonar o seu covil não sei como explicá-lo o
instinto agitou-se, avisando-me de algo de aterrorizador. Talvez me

tenha precipitado ao ir a casa do saduceu. A intuição, fazendo eco na
alma, avisou-me: não devia voltar...
Alheios aos meus pensamentos, os pés acabaram por me conduzir ao
lar da Senhora. Porque experimentara aquele desassossego ao
despedir-me do velho hipócrita? Era por mim ou pelo Zebedeu?
A porta aberta devolveu-me à realidade. Estranho. A que obedecia a
alteração nas rigorosas precauções da família? Espreitando, verifiquei
que a sala estava deserta. Levantando a voz, tentei avisá-los da minha
presença. Ninguém respondeu.
Repeti a saudação com idêntico fruto. Temeroso de abusar da
hospitalidade dos meus amigos afastei o impulso inicial de entrar na
casa. Recuei uns passos, inspeccionando a rua deserta. A ausência de
vizinhos nas imediações pareceu-me igualmente anormal. Que
acontecera? Preocupado ainda pelas enigmáticas e nada
tranquilizadoras palavras da Senhora, senti-me assaltado por um
turbilhão de dúvidas. Mas quando me dispunha a bater à porta ao lado,
domicílio de Jacob, uma voz me chamou do terraço. Respirei, aliviado.
Era Tiago.
Fazendo-me um sinal, indicou-me que esperasse. Dali a pouco,
aparecia pela abertura da oficina. Convidou-me a passar e, fechando a
porta, pôs-se a dar breves passos pela casa. Num primeiro momento
atribuí-o à lógica falta de sono. As olheiras e os olhos avermelhados não
podiam ter outra explicação. Era correcto, em parte.
- Que foi?
E o galileu, apercebendo-se da minha ansiedade, foi directamente ao
problema que lhe atormentava a alma.
- João...
- Apareceu... - atrevi-me a insinuar, demonstrando a minha alegria.
- É esse o caso replicou, quase sem voz. - Continua a não dar sinal
de vida. Esta manhã, um dos burriqueiros que transporta o linho de
Séforis comunicou-me que ninguém o viu na cidade.
- Então...
- Ontem à noite, ao regressar para junto de minha família completou
a explicação um dos criados do saduceu, fiel aos ensinamentos de

meu Irmão, apresentou-se de novo em minha casa, confirmando a sua
primeira impressão: o Zebedeu tinha solicitado uma entrevista com
aquela víbora. Ismael trocou algumas palavras com ele. Aí desaparece o
seu rasto, Jasão: aquele inconsciente do João tem de estar ainda na
casa...
- Não creio. Ou antes apressei-me a rectificar ante o olhar atónito do
meu interlocutor -, creio que não é possível...
- Porquê?
- Acabo de sair da toca daquele réptil e, segundo me pareceu, o
Zebedeu não está na mansão.
Ao ler na sua face a lógica surpresa, antecipei-me aos seus
pensamentos, referindo-lhe parte do meu encontro com o chefe do
conselho, bem como a combinada segunda reunião, prevista para o
entardecer do dia seguinte. Acho que entendeu e admitiu os meus
argumentos. Naturalmente, tive especial cuidado em silenciar as
tenebrosas intenções do saduceu em relação à sua família. Embora,
para dizer a verdade, também não constituíssem novidade alguma.
Durante breves instantes, distraiu-se a afagar a barba com os dedos.
Por último movendo a cabeça negativamente, não escondeu o seu
desgosto.
- Não me agrada... - Voltando a uma das partes importantes da
minha exposição, comentou, pouco seguro: - Minha mãe tem razão. É
possível que a tua suposta vingança já tenha sido satisfeita.
- Que estás a insinuar?
Olhou-me compadecido.
- Amigo Jasão; não conheces aquele homem... Se João cometeu o
erro de o desafiar...
Optou pelo silêncio. Para ele, o dramático epílogo daquele
pensamento era algo de vivo e possível. Para mim, que conhecia o
futuro, um fim trágico para o Zebedeu no ano 30 não tinha fundamento.
No entanto, embora ardesse em desejos de o tranquilizar, calei-me.
- Quais são os teus planos?
Sorriu tristemente.

- Procurar um cadáver...
- Mas...
Não aceitou o protesto.
- Aqui, Jasão, as notícias voam. Achas que não estamos informados
do que aconteceu esta manhã na estalagem? Toma bem nota: é esse o
estilo de Ismael e dos seus lacaios. Imaginas que João possa ter tido
melhor sorte? - Nem me deixou intervir. - ... Não, Jasão. Prefiro enfrentar
os factos. A visita ao chefe do conselho e o seu desaparecimento são
uma e mesma coisa.
O silêncio de prudência, pediu-me que aquela conversa não passasse
dali.
- Em especial acrescentou, com raiva mal contida -, depois do que
aconteceu esta noite...
Supus que aludia ao assassínio tramado por Heqet. O seguinte e
espontâneo comentário de Tiago veio tirar-me do erro.
.. Filho de má mãe! Não respeita nem os animais...
- De que estás a falar?
- Vem, que já vês.
Levando-me à frente, subiu até ao terraço, servindo-se de uma
escada de mão. Uma vez em cima, notando a minha atitude vacilante,
insistiu para que o seguisse. Ao pôr os pés no terraço fiquei estupefacto.
Miriam, ao fundo da açoteia justamente na zona situada por cima da
cozinha parecia consolar sua mãe. A Senhora, sentada no chão, tinha
a cabeça entre os joelhos. À esquerda das mulheres, Jacob, de cócoras,
examinava qualquer coisa, com grande atenção. Tiago juntou-se ao
grupo. Quem isto escreve, intrigado, foi atrás dele. Ao descobrir no solo
o motivo da minuciosa observação de Jacob compreendi a razão da
desconsolada atitude de Maria... e mais... No céu da minha memória
surgiu a figura do saduceu, com aquele risinho nervoso e a frase que
tolo que fui interpretara erradamente: A partir de hoje, muito poucas
pombas desfrutarão dessa liberdade.
- Porquê?... Porquê?
A Senhora, alagada em lágrimas, formulava a pergunta uma e outra
vez. Nenhum dos seus filhos soube responder-lhe. E os meus olhos

foram encontrar-se com os de Tiago.
- Amigo Jasão declarou, com justa amargura -, não conheces aquele
homem...
No terraço jaziam quinze pombas, mortas. Maria, ao descobrir
naquela manhã o macabro espólio, apressara-se a avisar os seus.
Curiosa e estranhamente, o autor ou autores da mortandade não
actuaram no pombal existente no pátio posterior. Era menos
comprometedor subir pelas escadas exteriores e eliminar os inofensivos
animais, que se acolhiam num anexo do pombal, colocado ao fundo da
açoteia e armado em pequenas gaiolas, junto do parapeito. Felizmente,
a vintena de aves que se aninhava habitualmente no pátio continuava a
arrulhar e a alegrar a casa com os seus voos brancos, negros e verdeazulados.
Ao examinar os animais mortos observei restos de vómitos no barro
pisado. Jacob mostrou ao cunhado uma das malgas de madeira que
servia de comedoiro. Junto do grão que constituía o alimento habitual
viam-se restos de uma raiz, minuciosamente esfarelada. Tiago pegou
nalguns daqueles minúsculos e escuros pedacinhos, cheirando-os.
- Não há dúvida... - comentou em voz baixa Envenenadas.
Pedi-lhe que me mostrasse o estranho elemento. Mas fui incapaz de o
identificar. Ao pedir-lhe que me esclarecesse o mistério, fê-lo com uma
única palavra:
- Acónito.
Estremeci. Efectivamente, eu tinha observado esta planta entre o
mato que crescia nas colinas. As suas raízes contêm uma alta
concentração de alcalóides, e entre os seus elementos activos a
aconitina, um dos venenos mais rápidos que se conhecem. Nem sequer,
actualmente, se descobriu o antídoto
(1). A raiz, o mata-lobos, confunde-se por vezes com os rábanos
picantes. Eram suficientes quatro ou cinco miligramas para provocar o
desenlace fatal num ser humano. No caso das pombas, a dose letal
podia ser consideravelmente inferior.
- Filho de mil rameiras!
Jacob mordeu os punhos. Todos sem necessidade de maiores

explicações, nos mostrámos de acordo sobre a identidade do miserável
que maquinara tão repugnante acto. Mas ninguém pronunciou o seu
nome. Também não era preciso ser muito esperto para entender que
aquele cruel envenenamento era um aviso. Pela segunda vez na
luminosa manhã de quarta-feira, 26 de Abril, quem isto escreve se
arrependeu de ter negociado com o saduceu.
As pombas foram metidas num saco, juntamente com a totalidade da
comida existente nos comedoiros. Segundo parecia, o pombal do pátio
fora já examinado por Miriam e seu marido, sem que encontrassem
nada de anormal. Maria secando as lágrimas, foi convidada a deixar o
terraço. Na companhia de Tiago fui o último a descer para o pátio. Ao
aproximar-me do pequeno muro de pedra de meio metro de altura que
cercava e protegia o terraço reparei nas caixas de madeira de pinho.
Sem querer demorei-me uns segundos. Não havia dúvida. E,
debruçando-me examinei-as com tanta curiosidade como emoção. O
chefe de família, com um pé na escada, observou a manobra e, em
silêncio, esperou a minha reacção. Estava certo. Aquelas caixas
rectangulares, de sessenta por quarenta centímetros, enegrecidas pela
humidade e cheias de uma areia suja e salpicada de excrementos de
pomba, tinham de ser
*1 O Aconitum napellum é frequente nas regiões montanhosas.
As suas flores, azuis-escuras, com forma de capacete medieval tornam-na
inconfundível. No século XX, a única forma comum do veneno (extracto P.D.)
aparece num linimento comercial cujo nome dada a sua perigosidade prefiro
passar por alto. A dose letal provoca no ser humano os seguintes sintomas e sinais:
formigueiro e inchaço da boca, sensação de constrição na garganta, dor de
estômago,vómitos e irregularidades no pulso, que se vai tornando lento. A vítima vai
perdendo força em todos os músculos voluntários, braços e pernas e a fonação e
respiração ficam dificultadas, apresentando-se uma insuficiência respiratória e por
último o colapso. O tratamento exige uma rápida lavagem ao estômago, à base de
leite ou de antídoto universal. A atropina tem uma acção de antídoto directo,
devendo ministrar-se entre um e dois miligramas, com repetição aos vinte ou trinta
minutos. (N. Do M.)
as utilizadas por Jesus nas suas brincadeiras. A Senhora, apaixonada
como sempre, conservara-as. Peguei num punhado de areia e mostrei-a
a Santiago. A luz que deve ter notado no meu semblante fê-lo esquecer

por um momento o desgosto do envenenamento. Sorrindo, agradecido,
confirmou a minha intuição. Naquele terraço, com aquelas caixas, a
fantasia e a imaginação de Jesus Menino tinham transbordado em
longos e felizes dias.
Dois minutos depois, o risonho rosto do meu amigo, sepultado na
areia das recordações da infância distante, adquiriu a inevitável aridez
do momento. A família, com a ausência de Ruth, tentou em vão serenar
e analisar a situação com a pouca calma que lhes restava. Miriam,
justamente indignada, propôs convocar o conselho do povo e dar conta
aos vizinhos da maldade do saduceu. Tiago repeliu a ideia,
argumentando com muita razão que não era preciso demonstrar aquilo
que todos conheciam há muito. Por outro lado, a notícia do
envenenamento
- além de se ter difundido já por Nazaré não era motivo suficiente
para reunir Ismael e os restantes anciães. Quem denunciavam? Como
demonstrar que se tratava de uma acção premeditada? Não havia
provas nem testemunhos. As raízes do acónito podiam ter chegado aos
comedoiros de mil formas.
Miriam protestou. Até as crianças sabiam da mortífera acção daquela
planta. Quem podia confundi-la e misturá-la com o cereal?
Apesar da sensata exposição de sua irmã, Tiago fez-lhe ver que a
crueldade do chefe do conselho acabaria por confundir tais argumentos,
piorando a já delicada situação da família.
Era mister que os passos seguintes fossem minuciosa e
cuidadosamente estudados. Depois de várias e infrutíferas discussões
posta de parte mais uma vez a sugestão de Jacob de abandonar a
aldeia o grupo teve de se resignar ao estabelecido no dia anterior:
esperar o desenlace da sessão do tribunal de Séforis, prevista para a
manhã do dia seguinte.
- Neste momento acrescentou Tiago, a concluir a reunião é
conveniente manter a calma e esforçarmo-nos por encontrar...
- Hesitou uns instantes e, olhando-me de lado, modificou o seu
pensamento. Se tivesse falado do cadáver de João só teria lançado
lenha seca no já voraz fogo que consumia os presentes
- ...o nosso amigo. O Zebedeu mentiu sem poder apagar de todo a

sua preocupação tem de estar nalgum lado.
A Senhora, ao escutar o nome do discípulo, teve um sorriso amargo.
Mas também nada disse. Quem isto escreve julgou ler os seus
pensamentos. Que podia esperar-se de um indivíduo sem entranhas,
capaz de acabar com a vida de pombas inocentes? Levando o saco,
Jacob dispôs-se a seguir o seu cunhado. Este explorador, embora não
tivesse sido convidado, resolveu acompanhar os dois homens. Ao
observar a minha intenção, Tiago olhou-me fixamente, fazendo-me uma
única pergunta:
- Tens a certeza de que te queres unir a nós? Os olhos do saduceu
estão em todo o lado...
Aproximando-me, segredei-lhe ao ouvido:
- Não esqueças de que sou seu cúmplice.
Sorriu sem vontade. Naquele instante devíamos rondar pela hora
terça (as nove horas). Ordenando a sua mãe e sua irmã que fossem ter
com Esta, deu meia volta, disposto a iniciar a busca. Mas com os dedos
no ferrolho, uma voz vinda da mesa de pedra o reteve. A Senhora,
libertando-se por fim da sua melancolia, atravessando a sala como um
meteoro, arrebatou o saco de serapilheira das mãos do genro.
- Isto é comigo! - exclamou, sem olhar para ninguém.
Jacob encolheu os ombros. E Tiago, conhecendo a teimosia da mulher,
deu por boa a iniciativa.
- Apesar de tudo declarou, resignado -, são as suas pombas...
Miriam concordou em ficar. Recolheria os filhos e, sem tardar, pôr-seia
a caminho da casa de sua cunhada.
Já na rua, o filho avisou Maria quanto a duas questões essenciais.
Primeira: nada de ditos nem provocações. Segunda: as aves seriam
enterradas na colina, no devido momento. E num tom que não admitia
réplicas, aconselhou-lhe que cumprisse as suas ordens. A Senhora não
respondeu. Com as pombas a seu cargo e a sua tristeza pôs-se a
caminho, atrás dos filhos.
Este explorador, para não perder o hábito, fechou o insólito séquito.
Para dizer a verdade, a busca do cadáver do Zebedeu afigurou-se-me
um trabalho estéril. Porém, calei-me. Que podia eu fazer? Seja como for,

consolei-me, talvez a excursão seja instrutiva. Sábia reflexão a
minha...
Os galileus, com boa passada, sabendo sem dúvida para onde se
dirigiam, tomaram a direcção oeste. Pois bem, apesar das claras
recomendações de Tiago, a Senhora, fazendo ouvidos moucos aos
chamamentos e ao enfado do filho, não teve a menor dúvida em se
deter uma meia-dúzia de vezes, mostrando o conteúdo do saco a
quantas vizinhas curiosas e palradoras Lhe viessem ao encontro,
interrogando-a quanto à matança. E a todas elas, com uma bravura que
chegava a ser inconsciência, lhes gritou o nome do assassino: Ismael, o
Saduceu. O suplício prolongou-se até ao limite do povoado. E não por
falta de vontade na impetuosa Senhora, mas dos vizinhos.
Ao verificar que se dirigiam ao terreiro da sinagoga comecei a tremer.
Se Maria passasse em frente da casa do chefe do conselho, aquilo
podia degenerar em tragédia. Enganei-me. Os guias, ao imaginarem o
mesmo que eu, evitaram o lugar e, metendo-se pela cintura de hortos,
afastaram-se do local e da tentação. Repetidas vezes, pararam para
conversar com alguns dos felah. As perguntas, sempre as mesmas,
giravam em torno da sorte de João. Mas nenhum ignoro se com
verdade soube informá-los. Entrando por um daqueles atalhos que
parcelavam os pequenos talhões de terra, foram descendo pela falda
ocidental do Nebi, numa clara tentativa de se unirem ao leito da
torrente. A Senhora, aturdida e extenuada como poucas vezes a tinha
visto, tropeçou duas vezes. Da última vez, ao cair de joelhos, queixou-se.
O saco rolou pela encosta. Apressei-me a auxiliá-la, apanhando a leve
carga. Neguei-me a entregar-lhe as pombas e, oferecendo-lhe o meu
braço recomendei-lhe que se apoiasse nele, facilitando-lhe assim a difícil
caminhada.
Quedou-se muda, porém, a forte pressão dos seus dedos na pele de
serpente foi o mais claro sinal da sua angústia.
À beira do riacho, Tiago e o seu companheiro dedicaram uns minutos
à inspecção dos juncos e canaviais que ladeavam o estreito caudal.
Desalentados, prosseguiram corrente acima até chegarem a uma rústica
e nada segura pontezinha de troncos, unidos por um cordame tão
esfiapado que, de o olhar, se podia partir. Resolutos, atravessaram os
três impossíveis metros de ponte quase milagrosos, diria eu -,

encaminhando-se para as duas casas que tinha observado do terreiro
da sinagoga.
A Senhora, a coxear e com o rosto crispado pela dor, parou na frente
dos troncos. Estava como se as forças lhe faltassem.
Compadecido, sem palavras, ergui-a nos braços, sorrindo-Lhe.
Não se opôs. Recomendando-me aos céus, fui tacteando a base da
húmida e apodrecida construção. Aquilo podia ir desabar a qualquer
momento. Ao quarto, demolido pelo peso, um dos troncos cedeu e a
perna esquerda deste explorador precipitou-se com estrépito pelo
buraco. Resisti, segurando a mulher contra o peito. Infelizmente, o saco
de viagem, que trazia suspenso do ombro, foi cair na corrente,
desaparecendo em segundos. E com ele, as sandálias electrónicas...
Nunca mais voltaria a vê-las. Se algum dos habitantes de Nazaré
chegou a tropeçar nelas e conseguiu descobrir o complexo mecanismo
da sola, as suas perguntas sem resposta foram infindáveis.
Maria, pálida, sugeriu-me que a sentasse nos troncos. Só assim me
poderia livrar de tão ridícula e comprometedora situação. Não tive de
reflectir muito. Os habitantes das casas alertaram com os seus gritos
Tiago e Jacob, que me acudiram imediatamente na ponte. A Senhora a
salvo, eu ajudando-me com a vara de Moisés, consegui libertar a perna,
saltando como um gamo para terra firme. Jacob, ao ver a minha
palidez, sorriu, divertido. O que não sabia é que a minha falta de cor
tinha uma origem diferente daquela que supunha. Na agitação do mau
passo não me tinha apercebido de uma coisa que teria sido realmente
grave. Quis Deus que o precioso cajado não me escapasse da mão
direita e fosse, sim, o saco de viagem. A perda da vara teria
representado uma desgraça irreparável...
Tiago guiou sua mãe até à porta de uma das casas. Ali, sentando-se
num banco de pedra, recebeu as atenções dos três oleiros, filhos do
falecido Nathan e velhos amigos da família.
Jacob, carinhoso, devolveu-lhe o saco das pombas, enquanto um dos
jovens lhe trazia uma tigela de água. Depois de uma breve conversa,
em que os artesãos afirmaram não ter notícia alguma sobre o Zebedeu,
os filhos dispuseram-se a reatar as suas buscas. No entanto, a boa
vontade da mulher não foi suficiente. O joelho direito, inflamado por

causa da queda no terreno, não aconselhava demasiados movimentos.
Tiago, contrariado, deixou-se cair a seu lado. Durante um breve espaço
de tempo limitaram-se a observar-se mutuamente. Maria, acabrunhada,
foi-se deixando abater pela tristeza, consciente de que a sua
obstinação, uma vez mais, era fonte de contratempos e de
preocupações. E acabou baixando o rosto. O nobre galileu não lho
permitiu. Esconjurando o mau humor, pegou nas mãos de sua mãe e
beijou-Lhas.
- Não te aflijas, mãe Maria! - exclamou, entre a súplica e o sorriso. - Já
sei o que vamos fazer.
A mulher olhou-o, agradecida. O verde-erva dos seus olhos voltara a
embaciar-se.
- Enterraremos as suas queridas pombas aqui mesmo, junto ao rio.
Dito e feito. E Tiago, acompanhado por um dos oleiros perdeu-se na
primeira das construções, adaptada a oficina, armazém e forno. Os
outros irmãos voltaram às suas ocupações.
Diante da referida porta, entre uma bojuda vaga de vasilhas de barro
de mil formas e tamanhos, achavam-se colocados dois tornos. Ambos,
nas margens da corrente, eram alimentados por uma conduta de
madeira em forma de Y em que partia de uma não menos primitiva
nora de metro e meio de diâmetro, mergulhada num remanso do rio. O
impulso da corrente, pelo menos naquela época, bastava para mover e
encher a dúzia de alcatruzes pregados à estrutura da roda.
Mansamente, dominado, o líquido derramava-se nas massas de barro
depositadas nas rodas superiores dos referidos tornos.
Aquele ofício, abençoado havia muito por Javé, tinha algo de mágico
e subjugante. Não era de estranhar que Jesus e o seu amigo Jacob
passassem as horas mortas diante do velho Nathan, vendo girar as
gotejantes massas de barro. Fascinado, imaginando os olhos vivos
daquele Jesus Menino, aguardei o regresso do galileu, desfrutando o
espectáculo daquelas mãos hábeis que acariciavam, golpeavam,
imobilizavam e moldavam a massa numa invisível e perfeita
coordenação com o impulso proporcionado ao disco inferior. Os pés
descalços, geralmente o esquerdo, eram o motor da roda. Ao empurrar
a roda, mãos, olhos, corpo e alma eram um todo, originando o milagre

da beleza. Como estão enganados os que crêem e proclamam que os
Israelitas não se distinguiram na arte da cerâmica! A técnica foi herdada
dos Sírios mas, a partir do século x a. C., a sensibilidade das suas
formas destacou-se e propagou-se como uma fresca brisa. Para evitar
que o barro ficasse excessivamente pegajoso, em vez de se servirem da
areia, quartzo ou sílica, aqueles artesãos recorriam ao calcário
pulverizado, cozendo depois as peças com extremo cuidado e a
temperaturas inferiores às habitualmente exigidas para os preparados
com sílica.
A sua destreza parecia apoiar-se num minucioso conhecimento das
técnicas. Enquanto um fabricava todo o género de vasilhas, pratos,
ânforas ou alguidares peça a peça -, o segundo trabalhava em série.
Colocava uma carga de barro na roda superior e, accionando a inferior,
convertia-a numa peça cónica. Seccionava então o bico do cone com um
fino cordel que pendia do pulso direito, obtendo assim o corpo de um
pequeno jarro. Sem deixar de dar impulso à roda, preparava um
segundo exemplar.
Estes pequenos jarros e vasos de especial finura e acabamento
empregues, geralmente, em cosmética tinham o selo particular da
olaria judaica: o engobo (1), ou seja, uma delicada capa de barro da
melhor qualidade, que se aplicava com pincel ou com um banho, nas
partes da vasilha que se queria decorar.
*1 Este tipo de Hengobos era constituído por barro muito rico em ferro, dissolvido
em água até lhe dar uma consistência cremosa. Se se desejava obter um tom
vermelho-vivo juntava-se-lhe ocre, a fim de elevar o teor de ferro. Por razões
religiosas, os Judeus quase não decoravam a sua cerâmica, com excepção de
algumas faixas vermelhas ou brancas na parte superior da curvatura das vasilhas
ou a meio dos alguidares e jarros. A decoração era reduzida ao uso do engobo ou
do polido. Esta última técnica como descreve G. E. Wright consistia num
minucioso fechar dos poros da superfície, por ela passando um polidor de pedra,
osso ou madeira, logo que o barro estivesse seco. A partir do século
IX,. C., esta operação era levada a cabo enquanto a vasilha girava na roda. Se
não se aplicasse calor excessivo, o polimento conservava-se brilhante,
proporcionando ao recipiente um bonito efeito. As típicas malgas israelitas daquele
tempo recebiam um engoboN vermelho no interior e no rebordo. São os chamados
de polimento circular, (N. Do M.)

Ao reparar no meu sincero interesse, o artesão que fabricava os jarros
sorriu, compreensivo. Sem deter a manipulação do barro gotejante,
perguntou-me se era amigo da família. A minha resposta tranquilizou-o.
A julgar pelo seu aspecto, a rondar os quarenta e cinco anos, aquele
homem deveria ter sido companheiro do Jesus menino ou adolescente.
Recordando as explicações da Senhora sobre os gostos infantis de seu
filho pela arte de oleiro e por aquela oficina, arrisquei-me a interrogá-lo
sobre estes pormenores. Foi concordando em silêncio. Conhecia a
história.
- Meu pai comentou, referindo-se ao velho Nathan sentia uma
especial predilecção por Jesus. Rara era a tarde que não aparecia por
aqui... - Apontando com a cabeça para Jacob, que esperava junto de
Maria, acrescentou, sem esconder a sua saudade: - Que tempos! A este
pobre sempre lhe cabia o pior: amassar o barro. Meu pai trabalhava
aqui mesmo, nesta roda. E Jesus e Jacob sentavam-se onde tu te
encontras agora... e ali ficavam horas e horas, vendo girar as rodas. Às
vezes, quando ia à oficina, ambos disputavam o lugar e, nas suas
costas, faziam girar as massas de barro. A aventura terminava sempre
com uma repreensão...
Tiago e o terceiro dos irmãos, munidos de enxadões, trocaram
algumas palavras às portas do armazém. Seguidos por Jacob, aflito, e
pelo vacilante caminhar de Maria, que procurava em vão afastar a
amargura, rodearam o segundo casarão, parando em frente de uma
velha amiga de Nathan: uma frondosa figueira, com quase cinco metros
de altura, de ramadas frescas e suavizadas pela recente Primavera.
Escolhido o lugar, revezando-se no trabalho, lançaram-se ao argiloso e
dócil terreno, abrindo duas covas de quase meio metro de fundo.
Durante o tempo gasto na dolorosa obrigação, o silêncio, brotando do
coração, só foi quebrado pelas pancadas das ferramentas e pelo ofegar
dos coveiros. As vespas responsáveis pela polinização da figueira (a
Blastophaga psenes), tão desconcertantes como este explorador ante o
insólito do enterro, optaram por se retirarem para as cabeleiras
emplumadas das altas canas da ribeira.
Jacob, cerimonioso, numa tentativa de abreviar a tarefa foi alinhando
as pombas diante das sepulturas. Tiago e o oleiro, apoiados nos
compridos cabos das enxadas, aguardavam a decisão de Maria que

ajoelhando-se com dificuldade em frente das suas queridas aves, não
demorou a operação. Pegou na primeira com ambas as mãos e,
levando-a aos lábios, beijou-a no bico. Logo a seguir, com o silêncio
como quinta testemunha, foi deixá-la com uma estranha suavidade no
fundo da cova.
- Pinta... minha pequena Pinta...
Ao escutar a sussurrante despedida, Jacob cerrou os dentes e,
assaltado pela raiva, separou-se do grupo soltando o desgosto junto do
rio.
- Enamorada... minha querida Enamorada.
Com a terceira pomba, as lágrimas, irreprimíveis, misturaram-se com
os beijos. Tiago inclinou a cabeça.
.Preguiçosa... descansa em paz...
Quando a última das aves ficou a descansar no buraco, o filho,
ajudando a mãe a levantar-se, encomendou-a à minha tutela. Sem mais
rodeios, descarregando a tensão a cada pazada, sepultou as pombas.
Não sei se os meus afagos serviram de alguma coisa. A Senhora amava
intensamente as suas pombas.
E tal como tinham combinado possivelmente na conversa travada na
oficina o oleiro amigo responsabilizou-se por Maria, prometendo
auxiliá-la até casa de Esta. Elogiei a prudente decisão. O joelho não
teria resistido à cansativa jornada que, certamente, nos esperava. Dócil,
esmagada por pensamentos que nada tinham a ver com os de seu filho,
aceitou sem replicar.
Minutos depois, distanciávamo-nos da trabalhadora família, subindo a
margem direita da corrente. A base ocidental da colina, como
praticamente a totalidade do Nebi, era campo inculto, salpicado de
rochas, entrelaçado de giestas, armoles surpreendidos pela humidade
do riacho, cortinas negras e impenetráveis de barrilheiras e dezenas de
matagais de cardos de folhas violáceas e escarlates, abertas ao sol, e
os velozes e infatigáveis enxames de abelhas. Com um incansável Tiago
à cabeça, fomos procurando para oeste.
Pelas duas horas, com as pernas feridas, o rosto envergonhado e as
orlas dos mantos perdidas entre os espinheiros, o paciente Jacob
deixou-se cair num dos esporões de calcário, qualificando a busca como

ridícula e negou-se a continuar. Cheio de razão, interpelou Tiago,
exigindo-lhe um esclarecimento. Se procuravam um vivo, por que razão
fazê-lo entre rochedos e silvados?
- A não ser continuou, argumentando ante o grave semblante do
seu cunhado -, que saibas alguma coisa que nós ignoramos. - Sem mais
circunlóquios, intimou-o a que falasse sem rebuços: - Procuramos um
cadáver?
Tiago, obrigando-o a jurar que guardaria segredo, confessou-lhe os
seus temores. E perante a hipótese de o Zebedeu ter sido assassinado
e lançado para os caminhos e barrancos da zona, o fiel e voluntarioso
Jacob não teve outro remédio senão reconhecer quanto era sensata e
discreta a atitude do seu amigo e irmão. Resignado à sua sorte,
cingindo o roupão e a túnica aos rins, foi atrás dele, em direcção ao
cume.
Eu era o menos indicado para lho fazer ver, porém, na suposição de o
saduceu ter ceifado a vida de João, por que razão se arriscaria a deixar
o corpo nas ladeiras do Nebi ou à beira dos caminhos que partiam e
vinham dar a Nazaré? Um réptil como Ismael tinha outros meios para
resolver o problema. Obviamente, como era minha obrigação, continuei
no meu papel de convidado mudo. Dez ou quinze minutos depois,
quando nos encontrávamos a curta distância do cume, a ziguezagueante
e infrutífera exploração viu-se interrompida por um estranho cântico. Os
meus companheiros, agachados no mato, fizeram-me sinais para que
me escondesse. Obedeci, alarmado. Gatinhando, fui colar-me às suas
costas. Jacob, a tremer dos pés à cabeça, indicou-me a boca quase
triangular de uma gruta que se abria a uns trinta metros. E sussurrou um
nome:
- Koy.
Se o meu treino não falhava, o vocábulo queria significar animal de
espécie não identificada. Não conseguia compreender.
De que tinham medo? Quem habitava na caverna? Desde quando
uma fera entoava versículos do capítulo vinte e dois do Eclesiastes?
Prestei atenção. Do interior da cavidade, efectivamente, saía uma
singular recitação. O seu autor repetia algumas palavras, assim como as
últimas sílabas:

- O luto por um morto... to... dura sete dias... dias...
pelo néscio e pelo ímpio... pio... todos os dias da sua vida... da...
E a cantilena voltava, monótona e importuna.
Jacob sugeriu passar por detrás da gruta, evitando assim o Koy.
Tiago negou-se.
- Que melhor sítio para esconder um cadáver? Em relação à
identidade do tal Koy e quanto aos manejos dos galileus não tive outra
alternativa que não fosse a de me armar de paciência e esperar. E
Tiago, censurando ao seu companheiro a evidente falta de coragem,
pôs-se de pé, gritando pelo estranho inquilino. Jacob acompanhou a
gritaria, pelo menos com outras tantas maldições.
Dali a pouco, o cântico apresentou-se à meridiana luz do dia. Com ele,
um animal perfeita e tristemente identificado: um velho esquelético, nu
da cintura para cima, com uma cabeleira e barba pastosas como
cimento, e tão grandes que poderia atá-las na cintura. Sem parar com a
monocórdica oração, observou o intruso. De repente, prescindindo dos
versículos bíblicos, enredou-se numa sistemática e aparentemente
brincalhona repetição da última palavra pronunciada pelo seu
interlocutor.
- Koy perguntou Tiago pela segunda vez -, sabes alguma coisa de
um morto?
- Morto exclamou o infeliz.
- Sim, um morto.
- Morto...
- Maldito seja!... Koy!...
Koy repetiu o nome, divertido com o jogo. Sentando-se, iniciou uma
rítmica contracção do tronco para a frente e para trás que pôs em
evidência o possível mal do indivíduo.
A catatonia e os sintomas manifestados nas repetições das palavras
(ecolalia) e das últimas sílabas ou vocábulos levaram-me a suspeitar
que o pobre Koy padecia de esquizofrenia ou de demência precoce
(talvez o que hoje se conhece como doença de Alzheimer) (1).
Infelizmente, naquele tempo, os transtornos mentais, incluindo atrasos
de grau menor e simples problemas de dicção, vinham a par com o

desterro do doente. A maioria destes homens, mulheres, velhos e
crianças ficava etiquetada com o rótulo de loucura e, consequentemente,
eram qualificados como impuros, possessos,
*1 Este tipo de demência senil era bastante comum na época de Jesus. Em
princípios do século xx foi descrita por Alois Alzheimer, ao estudar uma paciente de
cinquenta e um anos que apresentava os sinais típicos: transtornos de memória,
tendência para a desorientação, ideias delirantes e ciúmes (zelotipia), emprego de
palavras impróprias (parafasias) e, em geral, dificuldades de comportamento e de
compreensão. De evolução contínua e irreversível, foi dividida em três fases ou
estádios. Koy muito provavelmente, encontrava-se na última fase da doença, com
incontinência esfincteriana e prosopagnosia ou dificuldade em reconhecer as caras.
(N. Do M.)
perigosos e indignos de viver ao amparo da Lei. Este era o caso do tal
Koy, o louco ou tonto oficial da aldeia: um indivíduo sem família,
possivelmente bastardo, de idade impossível de precisar, que nunca
tinha abandonado aquela gruta ou as suas imediações, de pele seca
como uma casca e que sobrevivia à base de raízes, mel silvestre e da
caridade de alguma boa gente de Nazaré. Por outras palavras: um
milagre da Natureza.
.. Viste um cadáver?
- Cadáver.
Jacob, impacientando-se, levou o dedo indicador às têmporas,
esclarecendo o que era evidente: que não se encontrava em seu juízo.
Puxando pelo manto do amigo, pediu-lhe que esquecesse a grotesca
conversa. Mas Tiago, obstinado, insistiu.
- Koy, podemos ver a gruta?
- Gruta...
- Deixa-me entrar!
- Entrar.
- Este louco...
- Louco.
Farto do que para ele só representava uma brincadeira, Tiago
avançou para o velho, resolvido a inspeccionar a gruta.

- Louco! - gritou Koy, levantando-se sem muita facilidade e entre
rangidos de ossos.
Caindo sobre as nádegas uivou de novo a palavra louco, ao mesmo
tempo que deitava mão a umas quantas pedras. Saltando dos gritos
para um riso sardónico recuou até à entrada da gruta, levantando os
braços ameaçadoramente. O irmão de Jesus parou. E quando estava a
ponto de desistir, o cunhado, perdendo a calma, saiu de entre as
giestas, derrubando com os seus impropérios o escasso juízo do
demente. A visão do segundo intruso desencadeou o medo de Koy e
apanhámos com uma, acho que justificada, chuva de pedras.
Assustados como coelhos lançámo-nos numa veloz corrida de
obstáculos. A uma centena de metros, suado e desfeito, com uma ou
outra pedrada nas costelas e nas pernas, o receoso trio pôs fim aos
pulos e quedas mas não ao medo, tratando de recuperar o fôlego e a
vergonha. Ninguém comentou o infeliz lance. Koy, desenfreado,
continuava a atirar pedras e a gritar queixosamente.
Às pressas, olhando para trás de dez em dez ou de quinze em quinze
passos, Tiago foi ganhando distância. E deste modo, num silêncio
embaraçoso, maltratados os corpos, as roupas e, o que era pior, as
almas, acabámos por rodear o flanco ocidental do monte, chegando ao
cume com o sol no zénite. O cimo do Nebi, estreito, aceitavelmente
plano e alongado, qual porta-aviões, de sudoeste para noroeste,
recebeu-nos em solidão. O terreno era uma massa de lajes calcárias,
arredondadas e desintegradas pela erosão, entre as quais abria
passagem o mesmo espinhoso monte das encostas que acabávamos de
vencer. O único alívio naquele pedregal era um bosque de alfena
(Viburnum tissus), expulso pelo banco rochoso no extremo norte do
porta-aviões.
As pequenas árvores de flores prateadas e de bagas negras e
azuladas agitavam a sua beleza ao compasso de uma ligeira brisa de
norte, prestando honra à descrição judaica desta planta ornamental,
conhecida então como glória do carmelo.
A busca pelas alturas do Nebi Sain foi breve. Enquanto os galileus
erravam pela plataforma, quem isto escreve, simulando colaborar no
exame do terreno, trepou a uma das moles pétreas que eriçavam o
centro do cume, alegrando-se com o esplêndido panorama.

Se as nossas informações eram correctas e partiam das melhores
fontes aquela era uma das paragens favoritas de Jesus. Ali acorria
desde menino. Ali, pela mão de José, despertou para a Natureza. Ali,
ao norte, à vista da faixa azul do Mediterrâneo, pôde sonhar com um
dos seus mais queridos desejos: viajar. Ali, ante o verde-negro mar de
colinas sem horizontes teve de encurtar distâncias com seu Pai Celeste.
Ali, quem sabe, ao imaginar outros povos, testemunhos como Ele do
incêndio circular do sol no poente, pensou e traçou o seu futuro em
grande plano. Ali, como o invisível e mágico florescer dos narcisos entre
a árida face das rochas, pôde pressentir o seu outro rosto: o da
divindade. Ali, apostaria o que me resta de vida, lutou e revoltou-se
contra o negro voo da dúvida. Ali falaria, sem protocolos nem servidões,
com o Pai Azul. E fá-lo-ia devorando estrelas.
Devorando os perfumes dos bosques, trespassados sem querer nas
esporas dos ventos. Ali, na sua procurada e multitudinária solidão
interior, descobriria a outra solidão: a de uma humanidade perdida em
multidão. Hoje, na quase irreconhecível Palestina que Jesus percorreu, o
Nebi continua a ser um local tão importante quanto desconhecido.
Dois caminhos estreitos e descuidados recordavam a proximidade da
presença humana. Um, partia da crista oriental do cume, descendo em
serra até à cintura de hortos da vertente oriental. O outro, oculto entre
as alfenas, precipitava-se pelo flanco norte, desembocando na rota que
unia Séforis a Nazaré. Deste último só tive consciência quando nos
internámos no bosque. E sob a permanente influência da fixação de
referências, este explorador acabou por ir dar à primeira das veredas,
estudando o seu percurso e desfrutando de uma inigualável vista aérea
da aldeia.
Com uma satisfação quase infantil, fui reconhecendo as casas, os
caminhos e a fonte. A fortuna, nesta altura, mostrou-se propícia. O
percurso dos limítrofes do povoado à margem dos contratempos já
assinalados enriqueceu as nossas informações, proporcionando-nos
uma visão mais completa e correcta daquela Nazaré do ano 30. Se o
tivesse procurado não teria sido melhor. Não tive assim outro remédio
senão agradecer o misterioso desaparecimento do Zebedeu. Uma
ausência, a verdade seja dita, que começava a inquietar-me...
Jacob, do extremo norte do porta-aviões, chamou-me. A busca

prosseguia.
É quase certo que, se não me tivesse aproximado do cume, aquilo
teria passado despercebido para quem isto escreve. Ao encaminhar-me
para os meus amigos e evitar uma das rochas, os meus olhos
depararam com uma laje plana e ligeiramente inclinada, cheia de
inscrições. Eram nomes próprios cinzelados grosseiramente com algum
material ou instrumento pontiagudo.
Não havia dúvida, parcas frases que pareciam ser obra de
adolescentes ou jovens do lugar. Todas associavam amorosamente
homens e mulheres:
Jonas Miriam... O oleiro ama a tecedeira... Judas será de Ester... José
e a moabita... Goliat e Salomé...
Fascinado, procurei encontrar algum nome familiar. Num canto mais
apagado que as trinta inscrições restantes descobri o que interpretei
como uma brincadeira do apaixonado Jacob: Miriam, a mais bela e o
seu pedreiro.
Não houve tempo para mais. O enamorado voltou a gritar-me do
bosquezinho. Era incrível. As formas do amor em vinte séculos pouco
tinham mudado...
Quase estive para comentar o meu achado. Mas, ao detectar um
crescente mau humor nos semblantes, inclinei-me para o silêncio. Talvez
se apresentasse um momento melhor.
Assim que penetrámos no claro-escuro do solitário exército de alfenas,
um ruidoso bando de gralhas levantou voo das copas. E Jacob, que me
precedia, cruzou os dedos, murmurando com receio:
- Esta tolice vai acabar mal...
Tiago, um pouco distanciado, não escutou o supersticioso cunhado.
Tinha pressa. O carreiro passava entre as árvores, acusando os quase
trinta graus de desnível daquele extremo do Nebi. A descida fez-se
socorrendo-nos dos troncos resinosos e acerados, que faziam de travão
e parapeito. A oitenta ou cem metros o bosque terminou. E o resto da
encosta apareceu primorosamente arroteado e colonizado com oliveiras.
A vereda recuperou uma aceitável horizontalidade, abrindo sulcos entre
a argila vermelha. Em baixo, lambendo a vertente, corria a poeirenta
estrada para Séforis.

Mais ou menos a meio da ladeira, Tiago, sempre à cabeça, virou à
direita, ignorando o caminho. Minutos depois, respeitoso, o olival cedeu
parte dos seus domínios ao cemitério do Nebi. E ante os atónitos olhos
deste explorador abriu-se um quadrilátero de uns cinquenta metros de
lado, vedado na sua totalidade pelos muros, ora verdes ora prateados,
das oliveiras. Em suave declive, intencionalmente orientadas para o sol
nascente, erguiam-se cerca de oitenta estelas de pedra de uma
brancura radiosa. Casualmente, fora parar ao cemitério de Nazaré. Um
recinto deliciosamente aberto e, ao mesmo tempo, cuidadosamente
retirado. Os assaltos às sepulturas estavam na ordem do dia. Encerrado
no meio do olival, o cemitério ficava a salvo dos possíveis olhares
cobiçosos dos caminhantes.
O forte caiado das lápides obedecia a uma razão eminentemente
preventiva e religiosa. A explosão de luz constituía um subtil aviso. Para
os Judeus, pelo menos para os ortodoxos, o contacto com cadáveres era
causa de grave impureza ritual. Porém, os meus companheiros, galileus,
afinal, prescindiram de tais rigorismos, metendo-se por entre as
sepulturas e na direcção de uma cabana de palha e de adobe, que se
erguia no extremo oposto, fora do quadrilátero.
Tentei segui-los mas, entusiasmado com aquela oportunidade, que
talvez não se repetisse, caí na tentação e, nervoso, fui vendo os
monumentos funerários. Ali deviam repousar os despojos de José. As
estelas, de quarenta a sessenta centímetros de altura, estavam
escrupulosamente gravadas.
Adivinhava-se a mão de um experiente canteiro. Na parte superior
apresentavam o desenho de uma, duas ou três rosetas, encerradas num
círculo ou num quadrado. Por baixo, em caracteres hebraicos o grego
era menos frequente -, o nome ou nomes dos sepultados, a origem da
família e, nalguns casos, breves dados da vida do defunto. A julgar
pelas coincidências, muitos dos mortos pareciam ser parentes. Um dos
nomes mais repetidos era Yejoeser.
Outros caso de Miriam; Simão, Judá ou Nathan eram igualmente
comuns. As inscrições, simples na sua maioria, reproduziam frases como
estas: Yejoeser filho de Yeoeser. Teodoto, liberto. Yejoeser filho de
Eleazar. Miriam esposa de Judá. Menajem filho de Simão.
Miriam filha de Nathan. Salomé esposa de Yejoeser. José e seu filho

Ismael e seu filho Yejoeser...
Um dos epitáfios surpreendeu-me. Fazia referência a um tal Samuel,
imagino que de pequena estatura, e dizia textualmente: Deve-se
chorar por ele. Deve uma pessoa sentir pena por ele. Quando os reis
morrem deixam a coroa a seus filhos.
Quando os ricos morrem deixam as riquezas a seus filhos.
Samuel, o Pequeno, tomou os tesouros do mundo e seguiu o seu
caminho.
No centro do cemitério abria-se o kokhim, uma fossa de quatro metros
de lado, meio cheia com os ossos e caveiras dos que tinham sido
exumados. Passado o tempo devido, os despojos depositados na terra
eram removidos e lançados para o lóculo ou ossário comum (1). O solo
da Galileia, unido às intensas chuvas e ao alto grau de humidade não
tornavam recomendáveis os enterramentos em sarcófagos de madeira.
Quando se tratava de pessoas humildes, sem recursos para adquirirem
uma cripta, os cadáveres eram depositados directamente em fossas
pouco fundas e rodeados por pedras. Depois se cobriam de terra,
cravando a correspondente estela à cabeceira da sepultura.
O céu teve piedade deste ansioso explorador. Ali estava o meu
objectivo. E as mãos, não sei se pelo banho de sol se pela emoção,
começaram a suar. Na fila número onze, perto do final do cemitério,
aproximadamente no centro da fila de covais, repousavam os restos
mortais do malogrado empreiteiro de obras e do seu filho.
José e seu filho Amós.
Assim rezava a legenda. E por baixo, um expressivo epitáfio: Não
desaparece o que morre. Só o que é esquecido. Dado o tempo
decorrido desde o falecimento do pai terreno de Jesus, quase vinte e
dois anos, pensei que os seus restos, bem como os de Amós, tivessem
ido parar ao fundo do kokhim. A proverbial discrição daquele homem
bom tornou-se extensível mesmo para além da sua morte. Hoje,
imaginando que um grupo de arqueólogos escavasse a ladeira norte do
Nebi e conseguisse descobrir o ossário, os ossos de José
possivelmente desintegrados continuariam no anonimato e naquele
segundo plano que sempre foi o seu. Bendito seja o seu nome.
*1 Esta prática, conhecida como ossilegium obedecia não a razões de espaço nos

cemitérios mas a crenças religiosas. A Misná, no seu texto Semahot (12, 9), em
palavras do rabino Eleazar bar Zadok, reflecte este costume: Assim falou meu pai
quando chegou a hora da sua morte: Filho, primeiro me enterrarás numa cova.
Quando decorra o devido tempo, recolhe os meus ossos e coloca-os num ossário,
mas não Lhes toques com as tuas próprias mãos., Quando se levava a cabo o
ossilegium não havia lamentações fúnebres e o luto durava apenas um dia.
(N. do M.)
Levado por um impulso inexplicável, quem isto escreve apesar da
sua manifesta e declarada falta de religiosidade baixou a cabeça,
recitando sem palavras a oração que o Filho da Promessa tinha criado.
Possivelmente pela primeira e última vez, um Pai-Nosso se elevou para o
azul do céu, em memória, honra e gratidão pelo desaparecido, mas não
esquecido, José.
Uma mão no ombro veio arrancar-me às minhas reflexões.
Tiago, ao notar a minha respeitosa atitude ante a lápide do pai e do
irmão, envolveu-me na sua gratidão. E exclamou, baixando a voz:
- Já não está aqui! Vamos...
Jacob esperava junto da cabana. O coveiro de Nazaré, que guardava
as ferramentas de trabalho na choupana, não estava.
Uma mulher envelhecida e desastradamente pintada sentava-se à
porta, a conversar com o nosso amigo. Pelo que pude deduzir, a galileia
do véu azul nos olhos vivia no telheiro. Trabalhava como carpideira nos
funerais e, também, como prostituta de cemitério; algo de semelhante
às célebres bastuariae romanas, que exerciam o duplo e singular
trabaLho de chorar os mortos e alegrar os vivos... Um costume que
ressuscitaria em França catorze séculos depois, em pleno apogeu do
culto à morte.
A rapariga como era de esperar, nada sabia do Zebedeu. Mesmo
assim, o infatigável Tiago deu volta à cabana, inspeccionando uma
oculta parede rochosa que se erguia ao sul do cemitério.
Cinco grandes pedras circulares encerravam outras tantas criptas.
Eram os panteões dos ricos da aldeia. A impossibilidade física de mover
as mós para tal era necessário o concurso de, pelo menos, quatro
homens fê-lo desistir. Numa coisa tinha razão: qualquer daquelas

criptas teria sido o lugar ideal para esconder um cadáver. Mas, mais
tarde ou mais cedo - disse para comigo, recusando a hipótese do
galileu podia ser destapada e descoberto o corpo do delito. Não,
aquilo não era verosímil.
Ao deixar para trás o cemitério, Jacob perguntou ao cunhado quais
eram os seus planos imediatos. E apontando-lhe a nascente que
abastecia a aldeia e que brotava um pouco mais acima, a curta
distância da crista oriental do cume, sugeriu-lhe que o inspeccionasse e
percorresse o aqueduto.
Ele, por seu lado, desceria até ao caminho de Séforis, indo reunir-se
com ele na asa de pássaro. Contrariado, considerando que lhe coubera
a tarefa mais incómoda, iniciou a ascensão, perdendo-se no olival.
Quem isto escreve, sem saber bem a razão, uniu-se a Tiago, descendo
através do campo.
A meia centena de metros do caminho que unia Nazaré à capital da
Baixa Galileia, o olival ficou definitivamente cortado, incapaz de se unir
ao branco rochedo que dominava a base norte do monte.
O meu companheiro, que poderia caminhar por aquelas paragens de
olhos vendados, seguiu por uma ínfima passagem, desviando-se para a
esquerda. A manobra desconcertou-me. Os montes de pedras não eram
excessivamente difíceis nem elevados. Bastava trepar por eles para
chegar ao caminho principal numa questão de minutos. Ao aproximar-se
de um dos penhascos mais salientes, superior aos dois metros de altura,
voltou-se, indicando-me com a mão esquerda estendida que parasse.
Depois, levando o indicador aos lábios, ordenou-me silêncio. Não me
movi nem respirei. Cautelosamente, procurando fazer com que as
sandálias apenas roçassem o chão, foi rodeando o penedo até
desaparecer da minha vista. E embora apurasse o ouvido, com
excepção dos distantes grasnidos dos corvos do bosque de alfenas não
registei qualquer indício do que existisse do outro lado do paredão. O
nobre exercício da espera nunca foi o meu forte. Assim, desobedecendo
ao meu companheiro, segui os seus passos com idêntica ou maior
cautela.
A dez metros, o terreno formava um pequeno anfiteatro. Ao descobrilos
a meio da clareira, o susto fez-me vergar os joelhos. Instintivamente,

lancei-me para trás, encostando-me à parede. Estava a sonhar? Fechei
os olhos e ao abri-los compreendi que não. Nada tinha mudado. A vara
continuava na minha mão direita. O sol corria sem vontade para
ocidente. Sentia a dureza da rocha por baixo da pele de serpente.
Então, aquela visão...
Engolindo a pouca saliva que me restava o medo e eu deslizámos
pela segunda vez, paralelos à penha, numa vã tentativa de nos
certificarmos de que tudo aquilo não era devido a uma alucinação.
Desta vez foi o coração que protestou. Um dos fantasmas trazia um
curto archote: Evidentemente não estava a sonhar. Na minha frente, no
centro daquela paisagem lunar, erguiam-se duas altas figuras cobertas
até aos pés com lençóis brancos. E uma delas, como disse, apresentava
na mão esquerda uma espécie de facho, que fumegava
aparatosamente, embora sem vestígio algum de fogo. Em segundos, a
fumarada foi dominando o lugar, embriagando-me com um cheiro
irritantemente enjoativo.
Que tolo fui! Como é possível que não me apercebesse? Os
fantasmas pareciam falar. Mas faziam-no num tom extremamente
baixo. Meu Deus! E Tiago? Por mais que explorasse o círculo rochoso
não pude dar com ele. Devo confessá-lo. Por um momento, pensei que o
meu cérebro seguia os infelizes passos de Koy. E embora de certo modo
assim fosse, nunca imaginei que o fatal desenlace fosse tão
fulminante...
A inesperada e inquietante cena veio demonstrar que, apesar do
nosso treino férreo, deixávamos muito a desejar. E o tremor dos joelhos,
contra minha vontade e para minha vergonha, dominou-me. Presa da
agitação, o cajado ia-me fugindo dos dedos, batendo na rocha e
alertando as aparições. Ambos se voltaram ao mesmo tempo e quem
isto escreve julgou que ia desmaiar. Paralisado pelo terror assisti à lenta
e pausada aproximação de um deles. Recuei, espantado, não tardando
em tropeçar nos esporões calcários. Pensei na vara de Moisés.
Impossível. O fantasma acabava de chegar junto dela. A mortalha que
o cobria, de uma textura semelhante à gaze, deixava transparecer
alguns traços do rosto. No entanto, cego pelo pânico, não pude
descobrir-lhe a identidade.

Ridiculamente derrubado pela pedra e pelo medo presenciei o
apanhar do cajado por aquele ser de além-túmulo.
Levantando-se, estendeu-o para mim. Suponho que, ao reparar na
humilhante situação, se compadeceu. E levantando a parte de baixo do
vaporoso tecido foi-o erguendo-o com estudada e mais que
premeditada lentidão. O rosto desvendado, longe de me acalmar,
rematou a minha humilhação. Ao avançar, procurou conter o riso, que
fervia em cachão. Ao estender-me a mão e ajudar-me a recuperar a
vertical não pôde mais e o sempre equilibrado e grave Tiago deixou
escapar o riso, sentando-se e dobrando-se em gargalhadas como uma
criança. Um minuto depois, a enxugar as lágrimas, teve de ir para um
canto e urinar. Mais calmo, livrando-se do pano, contemplou-me,
comovido, e apontando, o segundo fantasma, esclareceu o mistério
com uma única palavra.
- Abelhas.
Desta vez fui eu quem se riu, definitivamente esclarecido.
Num dos bastiões rochosos, com efeito, dissimuladas nas cavidades,
alinhavam-se seis ou sete colmeias de um metro de altura, feitas de
verga e de cascas de árvores, que conservavam uma certa forma de
sino. O apicultor seu proprietário fora surpreendido pelo meu prudente e
teatral amigo em pleno trabalho de colheita. A belicosa natureza das
abelhas hoje classificadas como Apis dorsata explicava os panos
protectores e o fumegante archote resinoso. Bem vistas as coisas, susto
à parte, devia mostrar-me agradecido. Um ataque daquela espécie
asiática teria sido difícil de avaliar.
Enormes como abelhões dispunham de um aguilhão, que mais parecia
um punhal. E a minha cabeça, mãos e pés não o devia esquecer não
se encontravam protegidas com a pele de serpente. Se as abelhas
tivessem atacado este explorador só a rápida administração de antihistamínicos
e corticosteróides teria detido o quadro tóxico.
Nem vale a pena dizer que o dono das dorsatas não prestou grande
ajuda a Tiago. Do Zebedeu não havia nem rasto. E depois de rodear a
perigosa clareira, desalentado, Tiago abordou finalmente a estrada de
Séforis. Percorremos pouco mais de meio quilómetro na direcção da
cidade do linho, interrogando os camponeses que limpavam as altas

vinhas, firmavam as estacas que as escoravam ou dormitavam ao pé
das torres de vigilância dos vinhedos. Estes curiosos e imprescindíveis
edifícios circulares ou quadrangulares, que chegavam a ter dez metros
de altura, mantinham-se habitados dia e noite durante os períodos de
vindima, impedindo assim os roubos das colheitas. Ninguém sabia de
nada. Ninguém o tinha visto. Ou, para sermos exactos, ninguém queria
comprometer-se...
A cara de Jacob era um poema. Sentado na borda do tanque da asa
de pássaro, com os pés na água, entretinha-se a atirar pedrinhas aos
bojudos traseiros das matronas que enchiam as ânforas. E as alegres
galileias replicavam à maliciosa brincadeira com mordazes expressões,
algumas referentes à soberana sova que o esperava quando Miriam
soubesse do desporto praticado pelo marido.
Ao ver-nos chegar, corado como uma papoula, mudou de táctica e de
semblante, simulando refrescar as pernas arranhadas.
Segundo parecia, aborrecido, havia tempo que abandonara a busca.
- Como se a terra o tivesse tragado... - resumiu, impotente e
definitivamente farto.
Sem o saber, Jacob acabava de pronunciar as palavras exactas.
Dramaticamente exactas...
Mas continuemos, segundo a ordem dos acontecimentos.
Convencido de que a busca pelo menos de momento chegara ao
fim, Tiago imitou o cunhado. Descalçou-se e solicitou alívio das frescas
águas. Durante algum tempo, passeando os pés doridos pela piscina,
ficou ensimesmado, reflectindo talvez sobre a nada tranquilizadora sorte
do discípulo. Embora no caminho de regresso à aldeia tenha
manifestado o seu propósito de prolongar a busca pela estrada que ia
para Caná, o infecundo trabalho daquela manhã e o compreensível
desânimo de seu cunhado acabaram por fazer que desistisse...
momentaneamente.
Estávamos nisto quando, muito perto da nona (às quinze horas), a
gritaria e a algazarra das mulheres se extinguiram nas revoltas águas. E
à pressa, resmungando e arrenegando, carregaram as vasilhas,
deixando o local de conversa. Sentado junto de Jacob, de costas para o
caminho que ia até à pontezinha de pedra, passei a minha interrogação

a Tiago, que continuava a chapinhar. Um gesto de cabeça, a apontar o
caminho, explicou o repentino e unânine abandono da fonte. Ao voltarme,
compreendi. Uma mulher aproximava-se. Uma mulher maldita.
Vinha da pousada e trazia à cabeça uma ânfora de medianas
dimensões. Contrariamente às galileias, os meus acompanhantes não se
mexeram. E a providencial Débora, toucada com uma peruca de um
amarelo-vivo prenda obrigatória de toda a meretriz que abandonasse
o lupanar e que servia para as diferenciar das donzelas, viúvas e
casadas supostamente respeitáveis continuou a andar na nossa
direcção. Ao distinguir os três homens, hesitou por uns instantes. Pus-me
de pé e, ao reconhecer-me, pareceu animar-se. Sem pronunciar palavra,
de olhos baixos, entrou no tanque, depositando o cântaro junto do
rumoroso jorro.
Tiago saiu da água e começou a calçar as sandálias. Quem isto
escreve, ao ver as dificuldades da mulher para levantar a ânfora até ao
pano enrolado no alto da cabeça e que devia amortecer a pesada
carga, apressou-se a simplificar-Lhe o trabalho. Uma vez assente a
ânfora na cabeça a rapariga, lançando um olhar esquivo e receoso aos
galileus, agradeceu-me o gesto com um sorriso. Confundida, preparouse
para se retirar. Mas, retendo-a, deixando-me levar pela intuição,
atrevi-me a suplicar-lhe um novo favor. Débora observou-me, atónita.
Em voz baixa arrisquei-me a avisá-la da entrevista que tinha marcada
com o saduceu, do risco que isso representava para a minha pessoa e,
por último, como disse, roguei-lhe que conservasse os ouvidos atentos
fazendo-me chegar qualquer informação sobre o desaparecido
Zebedeu.
Escutou as minhas palavras com nervosismo, como se temesse que
alguém pudesse surpreendê-la com aquele estrangeiro e, como única
resposta, replicou com um farei o que puder. E com uma habilidade de
circo, sem tocar na vasilha com as mãos, afastou-se, rápida, em direcção
à estalagem.
Discretos, nenhum dos meus amigos se interessou ou fez perguntas
sobre aquela quase clandestina conversa. Nem eles nem eu podíamos
suspeitar da extrema transcendência daquele fugaz encontro. A
Providência, o destino, aquela Superinteligência que tudo controla
pouco importa o nome actua sem actuar. É tão subtil que o grosseiro

coração humano raramente escuta os seus verdadeiros murmúrios. E
quando sobrevêm os acontecimentos, a maioria dos homens atribui, por
vezes, complicados desenlaces à casualidade. Creio recordar que foi o
meu admirado Júlio Verne quem escrevia que essa palavra constituía a
mais azeda calúnia contra Deus... Em todo o caso, parafraseando o
genial criador do capitão Nemo, é Deus quem, brincalhão, gosta de se
disfarçar de azar,.
A minha própria vida e a continuidade da Operação iam depender
daquela prostituta. A Providência sabia-o e casualmente guiou os
nossos passos para a asa de pássaro...
Não podia ser de outra forma. A aventura chamada Cavalo de Tróia
foi um frenético galope, no dorso do imprevisto, da tensão, da
prudência, da dor e, principalmente, do mágico e reconfortante coração
do Mestre. A minha capacidade de assombro indicador-chave do
estado de juventude de todo o espírito humano viu-se preenchida
para o resto dos meus dias. Pois bem, a surpresa seguinte daquela
quarta-feira estava para acontecer. O dia, se o Pai Azul não mudasse
de opinião (curiosamente, começava a contagiar-me com a linguagem
de Jesus), estava acabado. O estéril périplo deixou em seco os galileus.
E em silêncio, impotentes, entraram pelo bairro dos artesãos, dispostos
a abrigarem-se na casa de Esta.
O martelar dos carpinteiros e tanoeiros e o respirar ofegante dos
tintureiros trouxe-me à memória uma coisa que não queria deixar passar
por alto. Chamando a atenção de Tiago, pedi-lhe que me mostrasse o
velho armazém de abastecimento de caravanas. Sentia uma viva
curiosidade por visitar o lugar onde o Filho do Homem forjara tão
interessantes e cosmopolitas amizades. E o irmão de Jesus,
condescendente, deu meia volta, voltando atrás. Mesmo às portas da
aldeia, a dois passos da fonte, erguia-se um discreto casarão, de
paredes escuras, atacadas por um bolor verde-pardacento (a lepra das
pedras do Levítico). Pusemo-nos em frente do portão e, expectante,
aguardei que tomassem a iniciativa e entrassem na escura sala.
Não foi assim. Tiago, com fracos desejos de recordar o passado, deume
a saber que não merecia a pena. O armazém andara de mão em
mão e proporcionava agora trabalho aos fabricantes e remendões de
redes. A descoberta de um artesanato desta índole em Nazaré deixou

me perplexo. Sempre acreditei que estas indústrias, como a cordoaria e
a confecção de aparelhos para a pesca, se radicavam nas margens do
yam.
Jacob, apercebendo-se da minha desilusão, animou o cunhado a que
me mostrasse o lugar. E acrescentou alguma coisa que venceu a sua
resistência:
- Talvez tenham notícias de Séforis.
A partir daquele momento fui de sobressalto em sobressalto.
A empresa de burriqueiros que tinha comprado o armazém à família
do Mestre voltou a vendê-lo. E por um daqueles caprichos do destino, o
novo proprietário veio a ser o pai de Rebeca, a jovem enamorada de
Jesus. Havia dois anos, como disse, fora reabilitado como armazém,
oficina e tinturaria de artes de pesca.
Não pude conter-me e, ante a possibilidade de conhecer Rebeca,
puxei pela manga de Jacob, interrogando-o sobre o seu paradeiro. Não
soube responder. Mas prometeu informar-se.
Algumas das remendadoras e alguns dos caravaneiros que
transportavam o linho desde Séforis estavam a par dos movimentos da
família proprietária.
Atravessámos a escura sala, onde ondulavam as redes cobertas de
alcatrão e, seguindo os passos de Tiago, desembocámos num espaçoso
pátio descoberto, pavimentado com brancas lousas rectangulares sobre
as quais se estendiam longas e estreitas faixas de redes. Fiquei
impressionado. A cadeia de produção surgia minuciosa e
inteligentemente desenhada. Num dos cantos do recinto, no solo e
sobre várias esteiras, empilhavam-se os fardos de linho, livres de folhas
e de sementes. Ao cabo de alguns dias, uma vez secas ao sol, as
plantas são mergulhadas em grandes cubas de metal e submetidas ao
imprescindível processo de curtimento ou maceração (1). As cisternas,
escoradas a meio metro do piso, eram aquecidas com lenha, até a água
ultrapassar o ponto de ebulição (aproximadamente 120 ou 125 graus
centígrados). Esta técnica, mais eficaz que o curtimento no orvalho ou na
água corrente, levava o complemento de uma dissolução à base de
soda e urinas, humanas ou de cavalgaduras, ricas em ureia. O
industrioso pessoal golpeava depois o linho com maços e espadelas,

separando os feixes fibrosos da casca e mais partes lenhosas.
Terminada a operação, as fibras entravam no definitivo processo de
fiação.
A existência de matérias pécticas nos filamentos permitia às
tecedeiras utilizar o sistema do fiado húmido, com a consequente
economia de tempo. À excepção do curtimento, o resto das operações
estava a cargo de mulheres.
Quando os finos fios se encontravam entrançados e colocados
entravam em acção as habilidosas redeiras. Sentadas de um e de outro
lado do pátio, em animada conversa ou ao ritmo de canções inspiradas
nos Salmos, cosiam as malhas com a ajuda de cordas de fibra de
palmeira e agulhas de dupla ponta, muito parecidas com as usadas hoje
nos portos do Mediterrâneo.
Mais que tecer e entrelaçar, aqueles instrumentos de osso e de
madeira, de dez a trinta centímetros, tingidos de vermelho ou de
amarelo, dançavam e voavam nas mãos das galileias. Como pássaros
cativos, revoluteavam por cima do linho branco, acabando em quatro ou
cinco jornadas as sólidas redes que uma vez tingidas, partiriam para a
costa, para as frotas pesqueiras do yam. Quem o poderia imaginar? A
Nazaré agrícola e carpinteira também se orgulhava da sua prestigiada
indústria redeira...
Tiago foi ter com o capataz. O homem, com o torso pintado pelos
vapores que fluíam do tanque, escutou-o com atenção sem deixar de
remover o linho. E Jacob, espicaçado pela curiosidade, não tardou em se
juntar à conversa. Quanto a mim, escolhi o centro do pátio, absorto na
precisa linguagem das mãos daquelas redeiras de terra interior.
O indivíduo que trabalhava no curtimento assentiu com a cabeça em
duas ou três ocasiões. E, de repente, o cunhado de Tiago afastou-se da
cisterna, saltando, buliçoso, por cima das redes. Antes que conseguisse
abrir a boca, passou ou deveria dizer voou a meu lado,
desaparecendo no armazém.
*1 Esta fórmula, baseada em reacções químico-biológicas, permitia dissolver a
pectina (substância intercelular) mediante a acção de diástases segregadas por
bactérias aeróbias e anaeróbias. Como é do conhecimento dos especialistas, as
fibras têxteis encontram-se na zona liberiana do caule do linho, unidas por matérias
pécticas (do grego pekátos: que pode ser fixado). Daí a necessidade de submeter

os caules ao processo de curtimento, libertando as fibras. Do ponto de vista químico
o linho é formado quase exclusivamente por celulose. O seu branqueamento total
ou parcial é, consequentemente bastante cómodo. (N. Do M.)
A sua alegria e meteórica corrida foram tais que, num dos pulos,
perdeu o manto. Possivelmente, não deu por isso.
Desconcertado, apanhei-o, indo atrás dele. Vã tentativa.
Quando me preparava para tornar a entrar, a figura de Tiago entre
os corpos adormecidos e negros das redes deteve-me.
Esperei esclarecimento. O galileu, no entanto, com o semblante
crispado, esqueceu-se de mim. Não podia entender atitudes tão
opostas. Um, radiante. O outro, abatido.
Instintivamente, esforçando-me por seguir a marcha apressada do
meu amigo, associei a sua angústia às possíveis novas chegadas de
Séforis. Tinham localizado por fim João de Zebedeu? Era esta a causa
da explosiva alegria de Jacob? O sobressalto foi lógico. Depois de
atravessar Nazaré de sul a norte, Tiago meteu pelo caminho da
sinagoga. O meu cérebro negou-se a conjecturar. Mas não. Quem isto
escreve estava em erro. O indignado irmão do Mestre não tinha sequer
a intenção de tocar na casa do saduceu. A escolha daquele rumo
obedecia a uma razão simples: a sua casa ficava justamente no vértice
ocidental do triângulo formado pela aldeia. Paradoxalmente, era vizinho
de Ismael.
Ambas as construções se encontravam separadas por uma escassa
centena de metros. Sem olhar para trás na verdade, não o fizera uma
só vez em todo o percurso -, entrou em casa como um fugitivo. A
residência, distanciada do bairro alto, era notavelmente mais moderna
que a de sua mãe. Construída em pedra e embelezada com uma cal
refulgente, apresentava idêntica configuração ao resto do povoado: um
só piso, uma escada de troncos encostada a uma das paredes laterais e
a obrigatória açoteia.
Demasiado intrigado para reparar em ninharias imitei o dono,
entrando sem me descalçar. Ao contrário do lar paterno, o de Tiago e
de Esta somava duas únicas dependências. A primeira, em que acabava
de entrar, podia qualificar-se de residência habitual, um rectângulo de

oito metros por seis, dividido como na morada da Senhora nos
tradicionais níveis. O mais alto (a plataforma), à esquerda da porta
principal, servia, como se disse, de cozinha e de quarto. O inferior, de
uns cinco metros de comprimento, pavimentado com uma suja e
fedorenta terra batida, não tinha móveis nem esteiras. À minha direita,
amarradas a uma ferrugenta argola, olhavam desconcertadas três
cabras de poderosos úberes e pêlo de fuligem. Junto da parede fora
colocada uma manjedoura de pedra, muito pobre de forragem. Uma
das ruminantes, arisca e violenta de grandes cornos nodosos virados
para trás, deu-me as boas-vindas investindo com um salto. A corda, ao
esticar, defendeu-me.
O local, esquecendo as mal-educadas hircus, encontrava-se deserto.
Pela porta que se abria no tabique frontal chegavam vozes, risos
infantis e o que, de começo, me pareceu um rouco miado, impróprio de
um gato doméstico. Resolvido a satisfazer a minha curiosidade avancei
para a luz. Aquela era a segunda divisão da morada: um pátio-curral
descoberto, mais bem preparado que o aposento situado nas minhas
costas. Um muro alto e caiado cercava-o na totalidade. Quanto ao piso,
com largas lajes branco-azuladas, matemática e atraentemente
acamadas em argamassa, naquela mesma noite receberia a explicação
do seu belo fabrico.
Num primeiro momento, tudo foi confusão. Imóvel junto da porta,
segundo o costume, inspeccionei o recinto observando as suas principais
características. A família, completa, estava agrupada à minha direita,
conversando atabalhoadamente à sombra de uma nova mas alta
amoreira negra (um Norus nigra), que, com as suas folhas dentadas e
as suas florezinhas verdes e pendentes, velava em boa parte do canto
norte do pátio. Este flanco, tão espartanamente mobilado e decorado
como o resto da casa, apresentava uma mesa rectangular de quase três
metros de comprimento, toda ela num cintilante granito cinzento. Em seu
redor, como satélites da rocha, quatro bancos de sessenta centímetros
de altura, feitos no mesmo material. A presença desta pedra dura e
compacta chamou-me a atenção. Tiago era a chave.
À esquerda, cobrindo os sete metros da parede do fundo, distinguiase
um telheiro de tábuas em que se apertavam alguidares, uma dezena
de lousas de idêntica natureza das que pavimentavam o pátio,

ferramentas próprias de canteiro, algumas redes penduradas da
parede e das jaulas de medianas dimensões, fechadas com grossos
varões de madeira de pinho. Em volta destas armações palrava, ria e
gritava um excitado grupo de meninos e meninas, entusiasmados com
os inquilinos das referidas jaulas. Deduzi, e não me enganei, que se
tratava dos filhos de Miriam e de Esta. Apesar de não pararem quietos
cheguei a contar dez. Os mais velhos deviam rondar os oito ou nove
anos. Dois, aos cuidados das meninas mais crescidas, limitavam-se a
gatinhar, choramingando e mordendo com raiva nas suas irmãs, num
esforço inútil de se agarrarem aos varões.
Vestiam túnicas curtas e, tanto umas como outros, tinham o cabelo
rapado sem misericórdia.
Dado o calor da discussão dos adultos optei por me aproximar da
gente miúda. Ao descobrir o conteúdo de uma das jaulas estremeci.
Felizmente, os paus que as fechavam pareciam sólidos. No interior, cheio
de razão ante os gritos da meninada, agitava-se inquieto um soberbo
exemplar de Felis chaus, o selvagem gato-dos-pântanos; um felino de
setenta e cinco centímetros de comprimento, primo direito do Felis lybica,
o gato-africano, de cauda curta, pelagem cinzenta parda e tufos de
pêlos nas orelhas pontiagudas.
O pequeno tigre, pouco amigo de brincadeiras, replicava a cada
cuspidela dos mais audazes com o cintilar das suas temíveis presas e os
ferozes miados (quase rugidos) que eu tinha escutado minutos antes.
Na segunda jaula, menos concorrida, dormitava aborrecido um velho
furão de espesso e branco sobretudo, que, lá de quando em quando,
compreendendo as talvez justificadas queixas do seu companheiro de
cativeiro, se dignava abrir uns olhinhos escarlates, lançando
desdenhosos olhares ao incómodo público.
As redes dispostas por baixo do ressalto da parede e a presença do
mustelídeo um caçador de acreditada fama, domesticado havia
séculos pelos Gregos e Mesopotâmios foram suficientes para
compreender que um dos prazeres preferidos do dono da casa era a
caça.
Uma ávida hera, decorando a verde-negro cada palmo de muro,
completava o quadro que à minha vista se oferecia.

Ao repararem naquele enorme desconhecido que as observava em
silêncio, as crianças interromperam as suas brincadeiras.
Cochicharam e interrogaram-se mutuamente e, não encontrando
resposta, foram-se retirando do alpendre. As meninas, levando os
bebés nos braços, escolheram a frescura da amoreira. Os rapazes,
esquecendo por momentos o terrível gato-bravo e o seu distraído
compadre, passaram a página daquele divertimento, enfiando-se entre
gritos de guerra por um buraco de um metro de diâmetro feito junto da
parede norte, muito perto do telheiro. Aquilo era novo para mim. Que
significava aquela abertura no lajedo? Curioso, assomei-me ao negro
poço. A verdade é que não consegui descobrir grande coisa. Apenas uns
degraus, trabalhados na rocha do subsolo. O túnel, se as nossas
informações estavam correctas, devia levar às cavernas tradicionalmente
utilizadas pelos vizinhos como cisternas, silos e armazéns de cereal,
forragem, etc. Descer e aventurar-me naquele momento nos
subterrâneos da casa de Tiago não me pareceu oportuno nem
prudente. E, ao fim e ao cabo, que podia encontrar? Aliás, o meu
verdadeiro trabalho estava à superfície, ao lado da agitada família.
Esperaria melhor ocasião para explorar aquele mundo oculto que se
abria debaixo dos meus pés...
.. Digo-vos que não. Temos de lhe ganhar como deve ser...
A voz grave e a moderação de Tiago coroaram a tempestuosa
vozearia. Miriam, como sempre, foi a última a concordar. E quando a
barreira de vozes ficou livre do voo de critérios e vontades inúteis e
desencontradas, o senhor da casa prosseguiu nos seguintes termos:
.. Compreendam. As notícias de Séforis são animadoras. É bom que o
tribunal pareça dividido...
Miriam e o marido, obstinados, negaram com a cabeça sem se
atreverem a interromper o irmão mais velho. Atrás deles, velados pelas
sombras da amoreira, escutavam Maria, a esquilazinha, Esta e uma
quinta mulher, cujo rosto pensei já ter visto nalgum lado.
..Temos de ser tão astutos como o saduceu e vencê-lo no seu terreno.
Amanhã, à vista das acusações, não terão outro remédio senão solicitar
a presença de testemunhas e das partes em litígio...
Jacob rebateu as razões do cunhado, recordando-lhe qualquer coisa

que, ao que parecia, fora já submetida a debate e que este tolo
explorador não chegou a ouvir.
- E que nos dizes de João? Porque corre o rumor em Séforis de que foi
já executado?
Tiago, acusando o impacte, perdeu momentaneamente o domínio,
desorientando-se. Aquele gelo na face era o mesmo que tinha
observado à saída da oficina de redes. Quem isto escreve compreendeu
o motivo da súbita crispação, que o arrastou em bolandas até sua casa.
O capataz, fazendo-se eco das notícias recentemente chegadas da
capital, pô-lo ao corrente da possível sorte do Zebedeu.
- Executado? Por quem? Quando?...
As interrogações do meu cérebro foram expulsas só parcialmente
pela lógica e pela moderação do chefe do clã.
..Dizes bem, Jacob, são só rumores. A maldade daquela víbora é
sobejamente conhecida. Poderia tratar-se de uma manha para nos
amedrontar e nos obrigar a fugir. Se Ismael se atrevesse a acabar com
a vida de João, o tribunal não lhe concederia tréguas. E nós também
não...
- Mas tu, esta manhã...
A insinuação de Jacob sobre a busca do cadáver foi interrompida sem
contemplações. O cunhado, adivinhando o sentido das palavras, ceifoulhe
a erva debaixo dos pés, evitando assim males maiores.
- Esta manhã, velho linguareiro censurou-o Tiago, com um olhar
fulminante cumprimos a nossa obrigação... inquirindo dentro e fora da
aldeia. E bem sabes: ninguém o viu...
Jacob, avisado e consciente do seu juramento, emudeceu.
- Em resumo concluiu o irmão do Mestre, desanuviando o azedo
ambiente familiar ninguém se apresentará em Séforis enquanto não
for convocado pela justiça. A verdade, queridos irmãos, nunca tem
pressa para demonstrar a sua inocência. Ao malvado, em contrapartida,
falta-lhe tempo e sobram-lhe argumentos. Ele ensinou-nos a confiar no
Pai dos Céus. A sua verdade, como sabem, goza de tão boa saúde que
não precisa de bastões. Confiemos, pois, que se faça a sua vontade. E
alegrem essas caras!

A Senhora foi a primeira a pôr em prática o sensato discurso do filho
e, sentando-se num dos blocos de granito, agarrou a mão da quinta
mulher, a desconhecida, chamando-me à sua presença num tom
carinhosamente brincalhão:
- Jasão, meu desajeitado e voluntarioso anjo salvador, aproxima-te...
Miriam e Esta, avisadas pelas meninas da fuga em massa dos filhos
para os subterrâneos, soltaram gritos para o céu.
Precipitando-se para a boca do túnel chamaram-nos, numa furiosa
mistura de nomes, impropérios e ameaças. Impropérios que choveram
igualmente na atónita cara de Jacob, acusado por Miriam de pai inútil e
descuidado, incapaz de vigiar os filhos.
Maria, acusando a dor, soltou a mão das da bela desconhecida,
carregando no joelho direito. Não me atrevi a perguntar, mas deduzi
que a inflamação continuava presente.
- Mãe Maria, por favor, deixa-me aliviar-te...
A voz de veludo da anónima galileia, não isenta de certa tristeza, fezme
desviar o olhar. Onde tinha eu visto aqueles atraentes e rasgados
olhos azuis-celestes? Não podia forçar a memória...
E a Senhora, dominando-se, foi ao que a interessava.
- Não é nada, filha...
Filha? Ruth e Miriam estavam ali. Quanto a Marta, eu recordava-a.
.. Escuta prosseguiu Maria, estreitando de novo as longas mãos da
belíssima filha. - Este grego de bom coração, intrometido, bisbilhoteiro
como uma mulher, misterioso como a noite e valente como Zal, conheceu
Jesus e fez algo que a todos nós maravilhou...
Os olhos da filha um azul roubado ao céu pousaram nos meus e,
apesar das minhas constantes negativas aos elogios da Senhora,
pestanejaram, curiosos.
.. Pôs-se debaixo da cruz e não se moveu sem que fosse sepultado.
Diz agora que quer levar a palavra de meu Filho ao seu mundo...
A cruz! Fez-se de repente claridade nas minhas recordações.
Entre as mulheres, aí estava onde tinha visto a graciosa, obscura e
humilhada figura da desconhecida. Mas, qual era o nome? Por que

razão Maria lhe chamava filha? Tratava-se de um simples e carinhoso
título? Encontrava-me na frente de algum dos seus parentes? A sua
idade, muito próxima da de Tiago - por volta dos trinta e três ou trinta e
cinco anosconfundiu-me.
Durante uns minutos, preso à sua beleza, fui incapaz de raciocinar. O
cabelo sedoso, azeviche, flutuando em liberdade e até meio das costas,
emoldurava um rosto quase perfeito. Só as profundas olheiras,
resultantes, sem dúvida da amargura um abismo feminino a que o
homem jamais poderia descer desequilibravam o nácar da pele.
.. Também lhe falámos de ti acrescentou a Senhora, sem notar a
minha escandalosa falta de atenção. - Talvez possas esclarecer algumas
das suas dúvidas...
- Dúvidas?...
A minha pergunta foi como uma agulha num balão. E Maria, vendo a
minha desorientação, perguntou, contrariada.
- Jasão!... Não sabes de quem estou a falar?
- Sei... Ou melhor, não sei.
A resposta balbuciante não encobriu a minha tolice.
E a Senhora, levando as mãos da desconhecida aos lábios, beijou-as
com meiguice. Depois, olhando-me como se eu fosse uma criança, sorriu
no verde-erva dos seus olhos. E exclamou um nome, com ele enchendo o
coração e os lábios:
- É Rebeca!
Não sei se empalideci se corei. A questão é que permaneci mudo e, a
julgar pelo espontâneo fogo cruzado dos seus risos, a minha cara devia
ter-se aberto como um espelho.
- Jasão, é Rebeca acentuou Maria, afastando de si o riso.
- Chegou esta manhã de Séforis...
Aquilo explicava igualmente a buliçosa corrida de Jacob, saindo do
velho armazém. A fiel enamorada de Jesus soubera ganhar o afecto da
família. O seu anónimo e generoso serviço à causa do Mestre foi mais
além do que podiam exigir e imaginar.
No desenvolvimento do nosso terceiro salto no tempo teríamos

oportunidade de o comprovar e de nos maravilharmos ante a admirável
renúncia daquela galileia...
- Jasão, estás a ouvir-me?
- Não... ou antes, estou.
Deus dos céus! Que providencial e oportuníssima casualidade!
Efectivamente, Rebeca podia tirar-me algumas delicadas dúvidas. A
conversa privada, travada no ano 13 entre ela e Jesus, permanecia
inédita. Nem a mãe nem os irmãos do Mestre conseguiram desvendá-la.
E agora, como uma oferta da Providência, aparecia ante este
perturbado explorador e pela mão do melhor e mais indicado dos meus
protectores: Maria, a das pombas. Mas, como abordar capítulo tão
íntimo e reservado? Aceitaria confessar-me os seus segredos? Péssimo
intérprete da intrincada psicologia feminina decidi não me precipitar. E o
destino, misericordioso, acudiu em meu socorro.
Os meus calamitosos monossílabos foram felizmente interrompidos
por um novo e queixoso gemido da Senhora.
- Mãe Maria, tens de tratar desse joelho.
A mulher não prestou atenção ao justo conselho. Mas este explorador,
fazendo um sinal à solícita e terna Rebeca, solicitou a sua cumplicidade,
pondo em prática um inocente truque. Uma astúcia que, ao fim e ao
cabo, beneficiaria a Senhora e este chantagista de meia tigela. Em tom
enérgico e procurando o apoio de Rebeca fiz ver a Maria que, se não se
submetesse e nos autorizasse a examinar o joelho, não haveria
conversa alguma e tanto a filha como o grego intrometido sairiam da
casa imediatamente. A de Séforis compreendeu-me logo, apoiando-me
no que eu dissera. E a das pombas, viva e rápida como o gato-dospântanos,
cedeu entre surdos protestos, simulando não ter percebido o
ingénuo jogo.
Com a ajuda de Ruth foi levada para o interior da casa. Ali, uma vez
acomodada no alto da plataforma, a esquilazinha pegou em duas
lanternas e, como primeira medida, dispus-me a examinar e a avaliar a
lesão. A minha acção, naturalmente, não era isenta do risco já
conhecido: se o problema fosse complicado coisa pouco provável eu
ver-me-ia forçado a nova retirada.
A apalpação e os reconhecimentos iniciais felizmente para todos

não reflectiram sinal de fractura, nem sequer a presença de um corpo
estranho intra-articular (por exemplo, a extirpação de um fragmento
cartilaginoso). A pancada nas pedras do terreno, embora forte, fora
amortecida pela túnica.
O joelho, enfim, apresentava o que considerei como uma contusão de
segundo grau, com dor intensa, hematoma provocado pela ruptura de
vasos de pequeno calibre e a consequente equimose ou derramamento
de sangue por baixo da pele.
Valente como era, Maria apenas fechou os olhos, suportando a dor
aumentada pela apalpação. Os movimentos do joelho, normais em toda
a amplitude do seu jogo habitual, não pareciam indicar derrames
internos (muito comuns em pacientes com entorses) nem luxações
traumáticas. Estas lesões teriam afectado o movimento para trás da
tíbia sobre o fémur (luxação posterior), o da tíbia para a frente (luxação
anterior) ou o movimento lateral.
Em minha opinião, à vista do explorado, não existiam indícios de
ruptura dos ligamentos laterais e cruzados, nem rompimento da cápsula
articular. Quanto a possíveis luxações posteriores, as lesões do nervo
ciático poplíteo externo e da artéria do mesmo nome, tê-las-íamos visto
com considerável rapidez. Com toda a probabilidade, se a rebelde e
inquieta Senhora aceitasse manter-se nalgum repouso pelo menos
durante vinte e quatro a quarenta e oito horas o inchaço, a inflamação
e a dor regrediriam sem tardança.
Completo um primeiro e elementar tratamento de urgência à base
de suaves compressões com um pequeno pano solicitei a Ruth algo
mais complexo: gelo ou, na sua falta, água fria e mefiloto ou calêndula.
Qualquer destas plantas muito abundantes na região podia
substituir, com êxito, os nossos actuais anti-inflamatórios.
A ruiva hesitou. As plantas medicinais seguindo as indicações da
própria Senhora não eram difíceis de localizar. O problema era o gelo.
E, muito a meu pesar, a família, reunida à nossa volta e atenta a cada
um dos meus movimentos, entrou numa nova e azeda discussão.
Arrependi-me de ter falado no gelo. Um luxo daqueles geralmente
transportado dos cumes do Hérmon só podia encontrar-se, com sorte,
na abastecida despensa do saduceu ou na menos perigosa pousada de
Heqet, o estalajadeiro. Tentei ser medianeiro na questão,

argumentando que os panos podiam ser molhados em água fresca ou à
temperatura ambiente.
Foi inútil. Miriam, desejando o melhor para a mãe, juntou-se à
vontade geral, planeando a busca. Ruth desceria à aldeia e regressaria
com as plantas. Quanto à neve, o litígio, para surpresa dos homens,
passou à órbita feminina. Esta e Miriam dariam os passos necessários. A
resoluta decisão da filha mais velha, retrato quase perfeito da Senhora,
deixou sem armas os galileus. Todos conheciam o feitio e a audácia da
mulher. E achando que o pedido de um punhado de neve não dava
motivo para uma batalha campal, cederam inteligentemente. As três
saíram de casa. Por seu lado, Jacob e Tiago, obedecendo a Rebeca,
reuniram a revoltada prole, pondo-a a desfilar em direcção ao pátio. O
ocaso não tardaria em apregoar sombras e Maria, previdente,
calculando uma noite longa e cheia, recomendou aos filhos que fossem
tratando das ceias dos mais pequenos. Quem isto escreve lamentou não
dispor da farmácia de campanha. Uma dose de qualquer dos
analgésicos teria aliviado as suas dores e, principalmente, teria evitado
aquele êxodo inquietante. Oxalá o meu erro involuntário não fosse
causa de males maiores. E a Senhora, estranhamente submissa, acatou
de momento a ordem do grego intrometido: repouso absoluto.
Em contrapartida, não se manteve calada. E a sua pergunta recta
como o seu coração voltou a enredar-me.
Encostada à arca das provisões e prendendo entre as suas as mãos
de Rebeca lançou-me, de repente:
- Porque fizeste isto?
Pensei que falasse do modesto tratamento. A segunda parte da
pergunta como uma carga de profundidade encerrava a chave do
astuto pensamento.
.. Porquê comigo e não com Bartolomeu? Aquele verde-erva que
tanto me agradava ergueu-se para o azul-celeste dos olhos da sua
amiga e companheira. A resultante foi um violeta tempestuoso.
- Jasão de Tessalonica, que assim diz chamar-se este anjo do maisalém
aliviou o pai dos Zebedeus das suas horríveis dores e, no entanto,
deslustrou o saq à vista de um simples parto.
Rebeca olhou-me, sem compreender o malicioso alcance do inexacto

comentário. (Inexacto no saq. ) - É muito simples defendi-me. - Este
anjo sabe um pouco de madeiras e de vinho, alguma coisa de medicina
e nada de mulheres. A pancada no teu joelho e cera nos ouvidos do
velho Zebedeu foram questões de pouca monta. A víbora e o parto, em
contrapartida...
A psicologia feminina supersónica em relação ao desajeitado voo da
inteligência masculina praticou um impecável picado, colimando este
piloto. E a geometria de armamento da Senhora teve-me à sua mercê.
.. Logo, nada sabes de mulheres repetiu Maria com malícia,
renunciando ao resto da minha exposição. - E como explicas, astuto
grego, que Débora te tenha salvado a vida? E ambas, sorrindo
maliciosamente, deixaram que eu me estatelasse. Certamente, a minha
defesa só teria piorado as coisas. Devo ter corado. E a Senhora,
lançando uma ponte, possivelmente sem querer, permitiu-me ter acesso
à alma de Rebeca. A psicologia masculina, desta vez, tomou o comando,
planando sobre a feminina. Ou, pelo menos, assim me fizeram crer...
- Tu, como meu Filho, também antepões outros assuntos ao amor e ao
matrimónio?
Concordei, não sem certa tristeza, acrescentando:
- Os meus assuntos nunca poderão igualar-se aos do teu filho. Rebeca
arrisquei compreendeu-o. Ou não foi assim? E a enamorada,
baixando os olhos, respondeu afirmativamente.
Mas conservou-se em silêncio. Como num voo de reconhecimento vime
obrigado a manter o alto nível de cruzeiro avançando sem luzes e
quase sem motores. O mais pequeno deslize podia arruinar a operação.
- A obrigação do Mestre para com a sua família prossegui, tentando
nova aproximação era sagrada. A renúncia ao seu eu humano não
demonstrou a qualidade do seu amor? Rebeca acendeu as luzes da
pista, marcando-me o rumo.
- Não te enganes, Jasão: Jesus nunca me amou...
As minhas palavras não foram interpretadas correctamente. E a
balizagem azul do seu olhar apagou-se. Mas não me esforcei por
desfazer o equívoco. Não me interessava.
.. Pelo menos acrescentou, quase que para si -, não me amou como

eu ou qualquer mulher teria desejado.
- Sei que demonstraste grande coragem.
Os seus olhos, como um mar encapelado, pestanejaram a negro.
E as densas pestanas negaram-se a levantar-se.
- Foi honesta acudiu a Senhora, tentando endireitar o frágil veleiro
e lutou pelo seu amor...
- Por vezes, o amor que chama o amor sentenciei, apropriando-me
da sabedoria de Amiel-Lapeyre só escuta o próprio eco.
E Rebeca, na tormenta das recordações, resolveu tomar o comando
da nau, evitando assim os perigosos escolhos dos mal-entendidos.
- Enganas-te de novo, Jasão. O meu amor, sim, era um clamor.
O seu, em contrapartida, um silêncio...
E o seu coração iluminou-se definitivamente. Quem isto escreve nele
desceu sem dificuldades.
..Quando por fim aceitou falar comigo soube escutar-me. E desde o
primeiro momento, desde que os meus lábios lhe confessaram o meu
amor, soube que tudo era inútil. Ele tinha dezanove anos. Eu, dezassete.
E com uma convicção que só contribuiu para multiplicar os meus
sentimentos por Ele, agradeceu a minha coragem e sinceridade,
explicando-me que primeiro estavam os seus. Defendi-me e,
estupidamente, exigi-lhe o nome da minha rival...
Maria sorriu com benevolência.
.. Jesus (eu sabia) não sentia predilecção por nenhuma de nós.
O seu trato sempre foi correcto. As suas deferências a umas e a
outras eram escassas. Porém, uma mulher ferida é imprevisível. E eu,
confesso-o, cometi a estupidez de perguntar pela sua secreta
enamorada.
- E que respondeu?
- Não imaginas? Pôs-se sério e falou-me de alguma coisa que, então,
me crispou os nervos: do seu Pai dos Céus. Acima do amor que
professo por minha mãe e meus irmãos, declarou, está o meu
inexpugnável desejo de cumprir a vontade de Abba.

Rebeca cuja bravura fizera empalidecer a Senhora, contou: - O seu
Abba! Aquele tonto preferia seu Pai! Anos mais tarde, ao segui-lo,
compreendi que a tonta era eu... Mas, Jasão, que queres? Aos
dezassete anos, e perdidamente enamorada, era difícil entender. No
entanto, com paciência infinita, esperou que eu serenasse. E continuou a
falar-me de seu Pai Azul e do possível destino que o esperava. Não te
mentirei. Ao princípio, custou-me a acreditar. Enraivecida, propus-lhe
uma coisa da qual mãe Maria e eu estávamos a par: aceitava ser a
esposa do Messias. Um homem poderoso, intrépido e predestinado
precisa de ter a seu lado uma mulher leal e valente. Porém, ele,
negando com a cabeça, desarmou-me: Mais tarde compreenderás.
Agora, Rebeca, aceita a verdade. Sinto-me lisonjeado. E isto (podes ter
a certeza) dá-me coragem e me ajudará em todos os dias da minha
vida.
- Astuta, prestes a perder a batalha, lancei mão da minha última
arma: as lágrimas. Jesus nada disse. Manteve-se firme.
E eu, derrotada, soube que tudo tinha terminado... sem sequer ter
começado... - E o azul do olhar de Rebeca suavizou-se. - E a verdade
falou por ele....Eu, Rebeca, filha de Ezra, amei o Homem maior da Terra.
Observando tão esplêndida mulher recordei-me de uma frase feliz de
Schiller:
Só conhece o amor quem ama sem esperança.
- Em que momento deixaste de o amar? A minha nova pergunta, só
compreensível no míope espectro da psicologia do varão, foi recebida
como um néscio e indesejável visitante. Olharam-se e, finalmente, com a
piedade do vencedor, Maria antecipou-se a Rebeca:
- Filho, tu nunca conheceste o amor...
Pouco faltou para que lhes abrisse o meu deserto coração.
Felizmente, a apaixonada secundou a manifestação da Senhora.
- O amor, amigo Jasão, o autêntico, como o aloés, só floresce uma
vez. Vocês, homens, têm dificuldade em compreender-nos. Vocês, ao
longo das vossas vidas, amam pouco e muitas vezes. Uma mulher ama
só uma vez e para sempre. Isto responde à tua ingénua pergunta?
- Então, ainda o amas? Acreditei que depois daquela entrevista...

A transparência da minha intenção sem indício de duplicidade deve
tê-las comovido.
- Por vezes pareces uma criança... - recriminou-me Maria com afecto
Rebeca explicou-te. O amor (o que eu dediquei a José) não é túnica que
se tire e se vista. Nem o próprio Jesus podia aniquilar os sentimentos
desta criatura. Será que não sabes que o amor se nutre de esperança?
- Que difícil palavra! Esperança: o melhor médico que conheço.
O comentário, tirado de Dumas, pai, não passou despercebido à
enamorada.
- Dizes bem, Jasão. Foi a esperança que me amparou. Ela alimentou
os meus sonhos. Dava-me vida. Falava-me de milagres.
Pouco importava que não fosse correspondida. O amor é uma graça
sublime que, consegue, até, viver na solidão. Três anos depois daquela
conversa no armazém de abastecimento, as minhas esperanças,
intactas, receberam um quente raio de luz...
- Não compreendo.
A Senhora censurou a minha impaciência.
- Deixa-a explicar. Refere-se à passagem de meu Filho por Séforis...
Obedeci como um colegial. Mas, apanhada na armadilha das
recordações, Rebeca delegou em Maria. Foi assim que pude reconstruir
aquele novo ano da vida oculta de Jesus: o do seu vigésimo segundo
aniversário (16 da nossa era).
Antes de descrever a página da mudança para a capital da Baixa
Galileia, a mãe com bom tino colocou-me os antecedentes da
mudança temporária de residência de seu Filho.
- Não foi um capricho. Os tempos eram propícios. Simão, que
recentemente terminara os seus estudos, uniu-se a seu irmão Tiago na
canteira...
Tiago canteiro? As ferramentas do alpendre e o excelente
acabamento das lousas e da mesa do pátio começavam a fazer sentido.
..Jesus, sempre previdente, afirmara em repetidas ocasiões a
necessidade de diversificar os ofícios. Desta forma, de comum acordo,
José responsabilizou-se pela oficina de carpintaria e Tiago foi-se

especializando na pedra. Como te dizia, os tempos não eram bons.
Nazaré, e em especial os carpinteiros, atravessavam momentos de sol e
sombra. A falta de trabalho, como um lobo, assomou várias vezes à
aldeia e meu Filho concordou que era mais prático e inteligente quebrar
a tradição familiar. Um marceneiro na casa era bastante.
- E Jesus?
- Continuou no armazém de abastecimento de caravanas. Mas alguma
coisa trazia na mente. Eu, como sempre, fui a última a saber. Ao longo
do ano fez de maneira que Tiago alternasse a canteira com o armazém.
Simão era bom trabalhador e não teve problemas na hora de substituir
o irmão. E por finais daquele ano, ante a minha surpresa, Jesus
convocou uma reunião familiar. O ladino planeara tudo na perfeição...
Ele e Tiago, que contava então dezoito anos, entendiam-se só pelo
olhar.
Naturalmente que tinham falado nas minhas costas... - Maria suspirou,
resignada. - ...E Jesus, tomando como desculpa as novas e prementes
circunstâncias económicas, manifestou a sua irrevogável vontade de se
mudar temporariamente para a vizinha Séforis. Creio que fui a única a
protestar...
- Porquê? Se não entendi mal, o trabalho escasseava na aldeia...
- Sim... - replicou a Senhora, procurando apoio noutra desculpa. - Mas
já sabes como são as mães. Eu pressentia que atrás daquele primeiro
afastamento sério do lar se escondiam outras razões, e não
precisamente de ordem económica. Já te falámos muitas e repetidas
vezes da sua frustrada vocação de viajante...
O argumento não me satisfez.
- Maria, não exageres... Séforis está a pouco mais de uma hora.
Também não era o fim do mundo...
- Bom concedeu -, não sei que dizer-te. Nos seis meses que esteve
ausente só o vimos umas duas dúzias de vezes.
Uma visita por semana, filho. Mas não era disso que queria falar-te.
Naquela histórica assembleia de família houve alguma coisa mais. Algo,
precipitado e impaciente amigo, que apontava para longe, mas claro
como a luz da madrugada. Algo que não tinha relação com as penúrias
monetárias e que uma mãe, por pouco esperta que se considere, sabe

distinguir de longe...
Este explorador era todo ouvidos. Maria, em compensação, para meu
desespero, interrompeu-se...
.. Viajar, disse-te, fascinava-o. Mesmo que fosse só até lá acima, ao
cume do Nebi. Que prazer podia experimentar em mudar de ares? Pois
bem, foi como um pressentimento. A ida para Séforis era um sinal. E
naquela noite, enquanto falava, o céu iluminou-me e soube que os dias
de meu Filho como pai e chefe da casa do falecido José estavam
medidos e bem medidos. Com excepção daquele outro tunante a
Senhora apontou para o pátio todos ficámos boquiabertos. Jesus,
adoptando um tom solene, declarou que, na sua ausência, Tiago
ocuparia o seu lugar. A partir daquele momento, desempenharia as
funções de chefe imediato. Que bom diplomata! A verdade é que Tiago
nunca foi um chefe imediato. Desde o dia em que meu Filho foi para
Séforis foi chefe primeiro. Tudo caiu sob a sua exclusiva
responsabilidade. E Jesus fez com que seus irmãos (um por um) lhe
prometessem que obedeceriam e respeitariam a todo o instante e
circunstância.
A qualificação foi feliz. As informações colhidas posteriormente deram
razão a Maria: aquela cimeira familiar foi histórica, na verdade. O mês
de kisleu (Novembro-Dezembro) do ano 16 deveria ser lembrado como
o da largada das primeiras amarras de um veleiro que balouçava
inquieto diante do porto.
Ela não quis ou não soube admiti-lo mas, por pouco que se
conhecesse a linha daquele barco, saltava aos olhos que as espaçadas
visitas a Nazaré do Mestre obedeceram a um plano meticulosamente
estudado. Desta forma, ainda que o lar não se visse privado do salário
semanal de Jesus, seu irmão Tiago teve a possibilidade real de exercer
o papel de autêntico chefe de família. E o Filho do Homem cada vez
mais perto do seu destino viu-se lenta e progressivamente liberto dos
laços e obrigações domésticas.
.. Conhecendo-o como o conhecia acrescentou a Senhora, em minha
opinião sem exactidão: nem sequer depois da morte e ressurreição
foram claras as ideias de Maria acerca de seu Filho -, não tentei
dissuadi-lo. Só lhe fiz uma pergunta: a que pensava dedicar-se em
Séforis?

O esclarecimento deixou-me atónito.
.. A fundição de metais...
- Trabalhou durante seis meses numa forja?
- Foi o que disse confirmou a Senhora. - E agora que nisso falas,
dou-me conta de que nunca cheguei a vê-lo com o avental de ferreiro.
O relativamente longo período que Jesus viveu entre fornos e
bigornas esclarecia outro enigma, detectado na análise do cabelo. Ao
submetê-lo ao microscópio Ultropack, entre os elementos inorgânicos,
além dos habituais silício, fosfatos, chumbo, etc. - meu irmão e eu
descobrimos altos índices de ferro e de iodo (1). Ali estava a explicação.
O ferro que lhe contaminava o cabelo só podia vir daquele intenso
contacto com a forja de Séforis. O iodo, naturalmente, obedecia a outras
circunstâncias, das quais, penso, me ocuparei a seu devido tempo.
.. Meu Filho tinha muitos e bons contactos e não estranhei que uma
daquelas oficinas o admitisse ao seu serviço.
Duro trabalho, na verdade. Se a memória não me falhava, até àquele
ano 16 Jesus tinha trabalhado como carpinteiro, marceneiro de
exteriores, chefe de armazém de abastecimento de caravanas, ferreiro
e, ocasionalmente, como lavrador, pescador no yam e explicador ou
professor particular de seus irmãos. Um recorde que, naturalmente, não
ficaria por ali. E continuo na minha teima: fraco favor o dos evangelistas
ao mostrarem-nos um Filho de Deus basicamente carpinteiro. No seu
esforço por conhecer e compartilhar a existência humana, o Mestre foi
desempenhando por vezes sem querer um bom número de ofícios,
qual deles mais fatigante e representativo.
- E por que razão o deixou?
- Ele falava sempre de ganhar a vida por etapas. Segundo declarou
aos que o rodeavam, a experiência em Séforis, cidade de gentios,
estava feita. Herodes Antipas, além disso, não lhe inspirava confiança...
Rebeca, que assistia à narrativa da atalaia flutuante das recordações,
interveio de pronto:
- Sim e não.
Maria agitou-se. O seu próprio relato fizera-a perder de vista a base
e a razão que o justificava. Essa base não era mais que a recente e não

concluída revelação da enamorada: Três anos depois daquela conversa
no armazém de abastecimento, as minhas esperanças, intactas,
receberam um quente raio de luz...
- A que te referes?
A imperiosa e contrariada pergunta da Senhora ficou a gravitar na
penumbra da plataforma. A esquilazinha, suada e ofegante, apareceu,
voando ao nosso encontro. Atrás, deixando no umbral a proximidade
laranja do ocaso, apareceram as suas irmãs. Ruth, sem fôlego, confiou
nas minhas mãos um pequeno boião de argila. Continha uma abundante
reserva de florezinhas liguladas de calêndula secas e palhiças. Os
pigmentos florais desta asterácea contêm interessantes princípios
medicinais.
Felicitando-a pela sua eficácia e rapidez, dei-lhe as instruções
oportunas: verter entre um e dois log (entre meio litro e um litro) de
água num recipiente, se possível de metal. Macerar a calêndula e,
quando o líquido começasse a ferver, deitá-la na vasilha.
- E depois?
A dificuldade para lhe dar a entender um conceito que hoje não
encerra grande complicação quinze minutos forçou-me a adiar a
segunda parte do preparado. Afagando-lhe os cabelos ruivos, salvei a
situação, indicando que me avisasse quando o sol se ocultasse no
horizonte. Naquele instante, devíamos estar muito perto das seis da
tarde.
*1 Ampla informação sobre as referidas análises no segundo volume de
Operação Cavalo de Tróia (páginas 316 e seguintes).
(N. do M.)
Miriam e Esta para surpresa de todos mostraram, orgulhosas,
uma pá de neve, cuidadosamente revestida de folhas de feto. Às
perguntas dos que ali estavam, esclareceram que vinha da casa do
chefe do conselho. Jacob e Tiago, alarmados com a insólita
generosidade de Ismael, exigiram pormenores.
Mas ocupadas a cumprir as minhas indicações, voltaram as costas aos

maridos, adiando a resposta. Quando os panos ressumaram uma
aceitável frialdade apliquei-os no joelho da Senhora, que não tardou a
experimentar o esperado alívio. O frio, além de acalmar a dor, provocou
uma vaso-constricção, diminuindo assim o extravasamento sanguíneo e
o edema. A operação simples em extremo, ir-se-ia repetindo
regularmente até ao desaparecimento da neve. E o optimismo
adormecido de Maria despertou bruscamente. Com um delicioso
ímpeto... Em distracção, enquanto assistia, satisfeito à rápida
aprendizagem da mudança de compressas por Miriam, a Senhora deume
um sonoro e espontâneo beijo na cara. O carinhoso gesto acabaria
por dar lugar a risos e a aplausos.
Pelas 18 horas e 22 minutos, com o pôr do Sol, Ruth levou-me até ao
tacho que fervia na lareira. Retirei-o e, após uns minutos em repouso,
mostrei-lhe como encharcar os panos no cozimento, alternando-os com
as compressas de gelo. A infusão de calêndula, muito apropriada para
golpes e contusões, completou a minha modestíssima contribuição,
remediando em parte o que certamente não teria demorado em
sarar por si mesmo.
Os homens, impacientes, continuaram a insistir. E Miriam começou a
contar a história do gelo. O responsável pela entrega fora o criado que
já os informara por duas vezes e secretamente. Mas Jacob e Tiago
ainda não entendiam claramente. E o saduceu?
Tudo tinha a sua explicação. Pelo que parecia foram aquelas as
palavras do espião da família - Ismael encontrava-se ausente desde
as primeiras horas da manhã. Por alguma razão desconhecida, partira
para Séforis e com notória pressa.
Como era de prever, a novidade provocou uma vaga de opiniões.
Esta, de acordo com a sua natural condição, não abriu os lábios. Jacob
falou de negócios suspeitos. Como explicar a repentina viagem da
víbora? Tiago ficou pensativo, sem saber que dizer. E resumiu as suas
considerações com tanto acerto quanto o pouco brilho:
- Tanto pode ser bom como mau.
Miriam e Rebeca, mais intuitivas, mostraram-se pessimistas.
As intrigas do sacerdote junto do tribunal podiam ser nefastas. Ruth e
a Senhora, perplexas, limitaram-se a escutar e a pedir cordura e paz.

Tinham de permanecer unidos.
Curiosamente, nenhuma das interpretações acertou no alvo...
Não havia razão para transformar a viagem do saduceu numa
tragédia.
- Os problemas como as dúvidas sentenciou Maria, fazendo seu um
pensamento do Filho um de cada vez.
Imperativa como uma rainha, solicitou aos homens que ajudassem a
levá-la até ao pátio. Tiago consultou-me com o olhar. Penso que uma
negativa não teria vergado a vontade de Maria. Ignorando a
severidade, encolhi os ombros. De certo modo, Maria tentava não
desequilibrar o já perturbado ambiente do lar. O nível superior da sala
devia ser utilizado, não tardaria muito, como quarto da numerosa prole.
A noite, benigna, pôs-se ao lado da Senhora. E o pátio,
milagrosamente livre de crianças, respirou aliviado, atraindo as últimas e
fragrantes exalações de anémonas, macelas e túlipas do monte, que se
preparavam para fechar as suas flores.
A Senhora, entre os inevitáveis risos e brincadeiras das crianças, foi
levada em bolandas até à cabeceira da mesa de granito. Ali, submetida
à fraca guarda deste explorador, foi beijando, cada neto um a um.
Concluída a cerimónia, o fatigante bando, mal ou bem, lá foi recolhido na
casa, sob a implacável tutela de Miriam e de Esta.
A esquilazinha, ajoelhada junto ao bloco de pedra que servia de
assento a sua mãe, manteve-se vigilante, substituindo as compressas.
Rebeca tentou auxiliar no árduo trabalho de despir e alimentar a gente
miúda. Na sua qualidade de hóspede, foi gentilmente despedida da
cozinha. E para descanso e alegria deste pecador foi sentar-se junto de
Maria. Quanto a Tiago, saltando de repente para a lousa de granito,
tratou de pendurar na amoreira uma candeia de azeite que, com o
esforçado brilho de mais duas candeias, postas na mesa por Jacob,
pretendiam iludir a negra e estrelada noite. Uma noite tinha essa
intuição cheia de bons e de maus presságios. Bons para quem isto
escreve. Não tão saudáveis, em contrapartida, para a família que se
dignava acolher-me com tanto afecto. Mas procurarei ir por partes.
Para dizer a verdade, entre estas e outras coisas, Rebeca e eu quase
tínhamos esquecido o brusco final da nossa conversa com Maria. Aquele

sim e não da enamorada, colocando em juízo as explicações da Senhora
sobre o abandono de Séforis por Jesus, continuava a perturbar Maria. E
antes que o dono da casa acabasse de atar a candeia à ramada da
árvore, abordou-o, sem medo nem concessões.
- Explica-te. Tu estavas lá. Não foi por causa do odioso Antipas.
Não houve rodeios. Se Maria era rectilínea em pensamentos e obras,
Rebeca tinha pouco a invejar-lhe.
- Mãe Maria vejo que nunca soubeste...
- Nunca soube o quê? - reforçou Jacob, sem compreender.
Mas a Senhora, agitando com impaciência a mão direita, ordenou-lhe
que se sentasse e não interrompesse.
.. Jesus, de facto prosseguiu sem se apressar -, falou, e falou-te
com verdade. A sua experiência em Séforis, os seus contactos com os
gentios e o conhecimento dos seus costumes foram satisfeitos. E não é
menos certo que as suas discrepâncias com Herodes Antipas aceleraram
o seu regresso a Nazaré. Como sabes, o grupo para o qual trabalhava
aceitou participar na construção de vários edifícios oficiais. Tanto os de
Séforis como os de Tiberíades eram escolhidos pelo governador. Depois
da injustiça cometida após a morte de José, Jesus negou-se. Não
trabalharia para a velha raposa...
Rebeca fez uma pausa. Cheguei a crer que se arrependia de ter
falado. O meu desconhecimento acerca das mulheres (toda uma raça à
parte) poderia encher a biblioteca do Capitólio...
- Isso sabemos nós confirmou a mãe sem pestanejar e procurando a
razão oculta que já se adivinhava nos olhos da sua interlocutora.
- Passou muito tempo e não tem sentido ocultá-lo...
A pálida linha dos lábios da Senhora oscilou, temerosa.
- Eu provoquei a sua ida. - E Rebeca, antecipando-se ao ataque da
Senhora, acrescentou, tranquilizadora: - Não te alarmes. Sabes que sou
incapaz de fazer mal a alguém. Muito menos a Ele. Mas, ao saber que
trabalhava na forja, arranjei maneira de o observar sem que me visse. E
vivi assim a minha grande ilusão, semana após semana, escondida na
penumbra de uma janela...
- Rebeca!

Aceitou a censura. Mas, combatendo de igual para igual, não tardou
em desarmar Maria.
- Não terias feito o mesmo por José?
Com astúcia, a senhora não lhe respondeu.
- Que mais?
Rebeca parecia esperar a subtil repreensão. Mas não se perturbou.
- Mais nada... Nem sequer me foi possível falar com Ele.
Maria, desconfiada, lendo mais para além das palavras, acossou-a.
- Tens a certeza? Em tua opinião, o que foi que originou a sua
partida?
Rebeca vacilou, tremendo.
- Houve mais alguma coisa.
E Maria, desviando o seu ataque para quem isto escreve, preveniume:
- Não esqueças meu infantil Jasão... Mulher apaixonada, hera
trepadora.
- Sim repliquei em defesa de Rebeca -, uma hera que perfuma o que
toca.
Jacob, divertido com a minha insolência, deu uma cotovelada no
cunhado, e Maria fulminou-o com o olhar.
.. Quando soube que Jesus se dispunha a cancelar o seu contrato
com a forja prosseguiu Rebeca, tentando adivinhar novos conflitos
familiares quis vê-lo...
A Senhora, alheia a estas pequenas histórias, ficou suspensa.
- Meu pai cedeu e foi à oficina, convidando-o a ir a nossa casa... O
susto cobriu de neve o rosto de Maria. - Jesus declinou o convite. E o
raio de luz que aquecia as minhas esperanças eclipsou-se. No dia
seguinte, antes do previsto, abandonou a cidade. Eu provoquei a sua
partida.
Ninguém suspirou. E os primeiros luzeiros, no alto, foram fixando
posições, à espera da sempre atrasada frota de estrelas.
Teria desejado consolá-la. Explicar-lhe que, com certeza, como aqueles

primeiros planetas a chegar, os seus temores não reflectiam a verdade.
Esta, como a noite, é sempre uma construção intrincada. O ser humano,
da Terra, tem de se limitar a contemplá-la. Possuir a verdade como as
estrelas é ainda um sonho. Se o Mestre decidiu sair de Séforis não foi
por sua causa. E a Senhora, ao ler no meu firmamento interior,
restabeleceu a ordem.
- Enganas-te, criatura. Afasta essa ideia absurda. Meu Filho (tu
aprendeste-o nos anos de pregação) actuava movido pela vontade de
seu Pai; nunca por temores humanos.
Tive vontade de lhe devolver o beijo. Dificilmente se podia simplificar
com maior gentileza. O meu sorriso, onde poderiam instalar-se todas as
constelações, agradeceu-lhe com juros. E embarcado como um
clandestino no excelente humor da Senhora, dele me aproveitei
arrastando-a para águas que me convinham. A intuição esse infalível
semáforo da alma não cessava de dar sinal. Havia algum tempo que
me gritava a importância daquela serena e concorrida noite. Com a
madrugada, com a quinta-feira e com a assembleia do Pequeno
Sinédrio de Séforis, a minha sorte podia levantar voo.
Erguendo o rosto para a silhueta violácea do Nebi, a minha
providencial protectora inspirou e embebeu-se na fragrância que vinha
das encostas. Com os olhos fechados, sem desviar a proa dos seus
pensamentos da montanha, foi-me falando devagar.
Alegrando-se. Agradecendo. Chamando as recordações. Deixando
que pousassem, como as suas pombas, nas ramadas do coração. E
assim, serenamente, recebi as chaves que me permitiram escrever as
últimas páginas do tempo que o Filho do Homem passou na recôndita
Nazaré.
Terminada a sua experiência na forja reatou o trabalho na direcção do
armazém de abastecimento. E cumpriu o estipulado: Tiago continuou a
ser o chefe do lar.
O amanhecer do ano seguinte -17 da actual era cristã foi um dos
mais luminosos e esperançosos para a família. A ameaça da falta de
trabalho afastou-se da aldeia e os salários dos quatro filhos mais velhos
alteraram o rumo da economia doméstica. Miriam e Marta, por sua vez,
a primeira com a venda do leite e da manteiga a segunda ajudando a

mãe no tear, contribuíram para o aumento da renda familiar. Mais de
um terço do custo do armazém de abastecimento encontrava-se
satisfeito e pela primeira vez em anos, dispunham de poupanças. Esta
merecida abundância aliviou tensões e autorizou Jesus a cumprir uma
das tradições familiares: acompanhar seu irmão Simão, o canteiro, à
festa da Páscoa.
Desde o falecimento de seu pai na Terra, o Filho do Homem não
dispusera de tanto tempo livre. E soube aproveitá-lo. Como era habitual,
escolheu uma viagem inédita: à Decápole, a Péla, a Gérasa do Sul,
Filadélfia (actual Amã), Jesbón, Jericó e Jerusalém.
Neste trajecto, ao atravessarem as terras situadas a leste do rio
Jordão, os irmãos travaram amizade com um homem que, poucos meses
depois, se converteria na quarta grande tentação de Jesus. Quando leio
os evangelistas e me detenho nas famosas tentações do retiro no
deserto não posso deixar de me maravilhar ante a solene ingenuidade
dos péssimos relatores da vida do Mestre. Pedras que estão prestes a
transformar-se em pão, voos até ao pináculo do Templo... Enfim, belas e
preocupantes fantasias orientais, muito próprias de gentes que tinham
ouvido sinos e que, lamentavelmente, não souberam dar uma
informação rigorosa.
O Filho do Deus, enquanto homem naturalmente que foi tentado.
Mas, segundo o meu curto entendimento, com manobras e propostas
mais sibilinas e aceite-se a redundância tentadoras. Ao longo da sua
vida terrena teve de escolher. Existe uma fórmula mais diabólica de
tentação? Foi-lhe oferecida uma carreira: uma educação apurada nas
escolas rabínicas da Cidade Santa. Pôde cobrir-se da duvidosa glória
humana participando no movimento zelota.
Foi-Lhe dada a atraente possibilidade de sair da pobreza contraindo
matrimónio com Rebeca. O canto da sereia seguinte mais perigoso
que os anteriores foi cantado pela cultura.
Para sermos exactos, pelo chamariz do ensino.
Na sua passagem por Filadélfia, o Mestre e Simão conheceram um
próspero e nobre mercador de Damasco, dono de quatro mil camelos e
hábil negociante, com interesses e muitos dinheiros distribuídos por todo
o Império. Dirigia-se a Roma e, ao entrar em Jerusalém, achou por bem

convidar Jesus para sua casa. A notável instrução e os vastos
conhecimentos do impenitente viajante cativaram o Filho do Homem. Por
sua vez, o oriental ficou muito impressionado. Aquele galileu de vinte e
dois anos era especial... E quando Jesus se despedia, rumo a Betânia, o
banqueiro ofereceu-lhe um cargo nos seus negócios de importância.
Teria de o acompanhar a Damasco e, posteriormente, pelo resto do
mundo conhecido. O Nazareno recusou a oferta, escudando-se na
família. Mas o mercador também não era homem que se rendesse com
facilidade. Algum tempo depois voltaria à carga, com outra tentação.
Simão entrou na legalidade judaica e, pelo espaço de uma semana,
ele e seu Irmão desfrutaram da liberdade. Jerusalém, em plena festa,
era um turbilhão de línguas, cores e costumes.
E o curioso Jesus deixou-se arrastar naquela vaga, participando em
dezenas de conclaves. Num desses encontros com gentios e peregrinos
foi tropeçar num grego que fazia a sua primeira viagem à Cidade Santa.
Era terça-feira de Páscoa.
Local: o esplêndido Palácio dos Asmoneus. Pois bem, o grego em
questão que tinha o nome de Estêvão ficou comovido perante o
estilo e as ideias de Jesus. Durante quatro horas falaram sobre o
humano e o divino. A revolucionária filosofia do Galileu acerca do Pai
Azul deixou o grego fora de combate.
Nunca mais voltariam a ver-se nem a saber um do outro. No entanto,
embora não o possa demonstrar, tenho fundamentadas suspeitas de
que o jovem e fogoso grego passaria à história como aquele Estêvão
que seria lapidado às portas de Jerusalém por volta de 36 da nossa
era. Ou seja, cerca de vinte e um anos depois desta conversa
providencial. Uma morte da qual, como se sabe, nasceria para a fé o
não menos célebre Saulo ou Paulo de Tarso, verdadeiro fundador do
Cristianismo (1).
O regresso a Nazaré, no domingo seguinte à semana da Páscoa, deuse
por cenários igualmente novos: Lida, a rota da costa, Jopé e Cesareia
e, rodeando o monte Carmelo, Akkó (Ptolomaida) até à aldeia. Desta
forma, o incansável Jesus completou o seu conhecimento da Palestina,
situada ao norte de Jerusalém.
A entrada no lar, como em cada viagem, foi uma maravilhosa

confusão. Simão esteve horas a relatar à família os pormenores da
aventura. E, mais uma vez, a Senhora ao saber dos contactos de seu
Filho com aquelas gentes distantes e estranhas ressuscitou os seus
antigos medos. Qual a razão daquela ânsia em viajar e, principalmente,
em se relacionar com gentios tão alheios à religião e às formas
judaicas?
*1 Para mais ampla informação sobre a suposta fundação da Igreja por Jesus o
leitor pode consultar a obra El Testamento de San Juan. (N. Do A.)
Embora julgue tê-lo referido, à força da rotina, de anos, e dos
silêncios cada vez mais herméticos de Jesus em relação ao seu papel
como Messias, a mãe foi perdendo, de certo modo, a noção de um
primogénito libertador e chefe nacional. Para cúmulo, aquela febre pelas
viagens acabaria por desconcertá-la. Só de quando em quando, a
inapagável imagem do anjo na Anunciação lhe agitava a alma
sepultando-a num oceano de dúvidas. Mas, como todas as mães, foi-se
habituando à ideia: mais tarde ou mais cedo, Jesus voaria para o seu
lado...
O tímido salto para a vizinha Séforis depressa encontraria o seu
segundo elo: Damasco.
Jesus chefe de uma escola de filosofia religiosa.
Esta foi a quarta grande tentação. Mas seguirei o fio dos
acontecimentos, tal como os recebi da família.
Umas oito semanas depois de celebrar o seu vigésimo terceiro
aniversário, entrado já no mês de kisleu (Novembro-Dezembro) aquele
Jesus adulto e recto receberia uma grande embaixada. Um mensageiro
do rico comerciante de Damasco apresentou-se em Nazaré com a
missão de convidar o chefe do armazém de abastecimento a partir para
a próspera cidade oriental. A senhora foi a única que se opôs ao
projecto. Mas o destino estava traçado e o Mestre partiu. A separação
prolongar-se-ia durante os últimos quatro meses do ano 17.
Por que razão Jesus aceitou? Mudara de critério em relação ao mundo
dos negócios? A razão foi outra: o mercador desejava criar em Damasco
uma escola filosófica capaz de fazer sombra aos prestigiosos centros de

Alexandria. Para levar a cabo tão ambicioso projecto pensou naquele
jovem singular, culto e profundo, que conhecera em Filadélfia e
Jerusalém. Num primeiro instante, a ideia entusiasmou o Galileu. E a sua
perplexidade não teve limite quando, ao chegar a Damasco, o
banqueiro pôs à sua disposição uma grande quantia com que fazer
frente aos primeiros gastos. Para começar o reitor da futura
universidade tinha de visitar os mais afamados foros culturais e
pedagógicos da orbe mediterrânica, bebendo na essência das suas
doutrinas e ensinamentos. A seriedade do magno projecto foi aprovada
por mais doze banqueiros, que se comprometeram a financiar a
operação, sempre e quando Jesus se dignasse dirigi-la. Aqueles quatro
meses decorreram perigosamente para o Filho do Homem. A tentação
de ensinar e difundir a cultura tornou-se quase insuportável. Finalmente,
desistiu.
O grande sonho revelar ao Mundo a existência de seu Pai surgia
já como uma ofuscante manhã. Trabalhou na planificação do Centro,
ajudando o seu amigo e benfeitor. Traduziu numerosos documentos e
devorou quantos livros e manuscritos lhe caíram nas mãos. Quase a
terminar o ano, ante a tristeza do mercador e dos seus amigos,
empreendeu o regresso a Nazaré.
A tentação fora vencida.
As duas primeiras e importantes ausências de Jesus Séforis e
Damasco -, ainda que dolorosas, foram habituando a família.
A Providência, sem pressa, continuava a levantar o palco em que iria
ser representado o último acto da vida do Filho da Promessa. Os irmãos
e a mãe, à sua maneira, começaram a compreender que Nazaré era um
ninho extremamente pequeno para a envergadura de tão esplêndida
águia dourada. Os seus voos cada vez mais altos e prolongados,
anunciavam um êxodo definitivo não muito distante. De acordo com a
sabedoria da Natureza, a separação forjou-se sem traumas e ao
compasso do relógio das necessidades humanas.
Naqueles anos prévios da chamada vida pública, apesar da
inteligência e do magnetismo que o adornavam, ninguém na terra teria
podido suspeitar que aquele gigante de um metro e oitenta e um,
compleição atlética, trabalhador e viajante infatigável, estava destinado
a modificar a bússola da História. Como sempre, os mais optimistas

auguravam-lhe um futuro discretamente brilhante e centrado no ensino.
De facto, a sua fama como professor corria já de boca em boca. Na
Primavera do ano 18 ficaria demonstrada a solidez desta realidade.
Uma semana depois da Páscoa, um jovem judeu residente em
Alexandria visitou a casa de Nazaré, propondo algo que o Mestre
aceitou com prazer: uma troca de impressões com uma selecta
representação dos sábios e rabinos que trabalhavam na metrópole
egípcia. E em Junho, a dois meses do seu vigésimo quarto aniversário,
sentou-se em Cesareia na frente de cinco eminentes professores. As
conversações giraram em torno de duas ideias e uma proposta. Para
aqueles judeus, Alexandria estava destinada a ocupar o centro cultural
do Mundo. As correntes helénicas imperavam na civilização
mediterrânica, tendo ultrapassado o pensamento e a filosofia
babilónicos.
Quanto à proposta, não há dúvida de que constituiu uma quinta e
atraente tentação: Alexandria oferecia-lhe um lugar de professor e
ajudante do decano da sinagoga principal. Para tal, obviamente, teria
de residir no Egipto.
Ao longo desta cimeira com a fina-flor da sabedoria judaica no exílio,
o Filho do Homem teve oportunidade para escutar um alvitre que, anos
depois, com plena consciência da sua divindade, converteria em
profecia: a destruição de Jerusalém e do Templo. Os rabinos, tentando
ganhá-lo para a sua causa, não hesitaram em fazê-lo participar dos
preocupantes rumores que circulavam dentro e fora da Palestina. A
rebelião disseram estava iminente. A nação seria esmagada por
Roma num prazo máximo de três meses. Os homens prudentes deviam
abandonar Israel. Que melhor momento para Ele e a sua família?
Alexandria abria-lhe os braços.
Era suposição de Tiago e de Jacob principais informadores desta
sequência que Jesus voltou a sofrer, ante a nova e tentadora
proposta. Meditou demoradamente e depois de se retirar para
consultar seu Pai dos Céus, respondeu aos embaixadores da cultura
judaica em Alexandria com uma frase que não esperavam: A minha
hora ainda não chegou.
Confundidos momentos antes de partir, tentaram compensar o tempo
perdido pelo Galileu com uma bolsa bem recheada. O Mestre recusou-a

igualmente, acrescentando: A casa de José nunca aceitou esmolas. Não
podemos comer o pão alheio enquanto eu tiver bons braços e meus
irmãos possam trabalhar.
Bem depressa, a quinta grande tentação ficou no olvido.
Maria e seus filhos, não compreendiam o motivo da renúncia. E
durante algum tempo a polémica voltou a instalar-se no lar de Nazaré.
Que pretendia aquele estranho primogénito de vinte e quatro anos, que
se atrevia a recusar o que a maioria teria considerado como o auge de
uma vida? A Senhora recordava com saudade a sua estada na bela
cidade egípcia, e foi a mais ardente defensora da mudança. Empenho
estéril. Jesus mantinha silêncio e continuava os seus labores,
aparentemente apagados, como modesto chefe de um quase perdido
armazém de abastecimentos. E os últimos seis meses daquele ano 18
decorreram em paz, com o único sobressalto da notícia dada em
segredo por Tiago.
- Eu tinha feito os vinte anos contou o dono da casa, ante o
nostálgico olhar de sua mãe -, e achei que chegava o momento
oportuno para lhe falar dos meus projectos. Sabendo das inquietações
de meu irmão e das suas repentinas e longas viagens não quis arriscarme
a esperar. Tivemos então uma conversa e manifestei-lhe o desejo de
me casar...
Apesar dos doze anos decorridos desde aquela secreta entrevista
com Jesus, conservava na pedra da sua memória o mais insignificante
pormenor. E como bom canteiro cinzelou a cena com os golpes certos:
- Meu Irmão empalideceu. A sua luminosa percepção em assuntos
grandiosos claudicava e surgia como que distraída nas questões
caseiras.
Nem por um momento imaginou que eu pudesse estar apaixonado.
- Sim, era distraído.
Jacob antecipou-se ao cunhado, satisfazendo a minha curiosidade:
- Quanto mais sábio mais destraído. Nunca se lembrava de onde
deixava as coisas...
- O sábio reforçou Rebeca, desnecessária defesa de Jesus é
superior ao rei.

- Sim, já sei reconheceu Jacob, concluindo a sentença que os rabinos
apregoavam e que a de Séforis acabava de traçar um sábio que
morre é insubstituível. Para o trono de um rei, em troca, há sempre
candidatos.
- E que respondeu? - perguntei a Tiago.
- Quando desceu das nuvens mostrou-se satisfeito. E ao saber o
nome (Esta) abraçou-me, feliz. Veio então o pior... - O cunhado, fazendo
causa comum, assentiu com a cabeça. - Como é natural queríamos
casar-nos quanto antes. Meu Irmão disse que não. Para obter a sua
bênção definitiva colocou duas condições. Primeira: que esperássemos
dois anos. Segunda: tendo em conta que faltavam três anos a José
para completar os dezoito e, por consequência, poder substituir-me na
direcção dos assuntos familiares, exigiu-me que o fosse preparando
para tal mister. Serviram de pouco os meus protestos. Este impaciente
enamorado não conseguia ver mais longe que o seu nariz...
- Que estás a insinuar?
A pergunta, confesso, também não foi um alarde de perspicácia.
- Estamos a falar do que se passou há doze anos. Não o esqueças,
Jasão. Ele sabia o que queria. Precisarei de muito tempo para o
compreender. Foi aos dezasseis que adoptou aquela grande decisão.
Recordas? Esperar que todos nós nos encarreirássemos na vida para se
lançar no seu grande sonho.
Meticuloso e responsável não lhe agradavam as coisas no ar...
E aceitei claro. Que outra coisa podia fazer? O beneplácito do chefe
moral da casa às bodas de seu irmão com a discreta filha de Nazaré
desencadearia um segundo e inesperado acontecimento. Animada pela
reacção positiva de Jesus, a irmã mais velha Miriam apressou-se a
comunicar-lhe que também ela estava enamorada.
Os olhos de Jacob trouxeram luz à recordação. Arqueando as
sobrancelhas, resumiu com um lamento o embaraçoso lance que lhe
coube em sorte:
- Teria preferido uma semana a pão e água.
A Senhora admoestou-o, chamando-lhe exagerado. Ele teimou na
sua:

- Conheci Jesus desde que nasceu. Tinha vivido a seu lado noite e dia.
Paredes meias. Sabia dos seus risos e choros.
Participei nos seus jogos. Defendi-o e protegi-o. Sentei-me a seus pés
e aprendi. Gostava dele como se gosta de um irmão.
Mas, quando Miriam me comunicou a decisão de Jesus, tremeram-me
os joelhos. Tinha de ir falar com Ele e pedi-la oficialmente em
casamento. Acreditas? Eu, Jacob, seu amigo e confidente, vestido
cerimoniosamente, a pedir Miriam... Como era de esperar, à segunda
palavra deu-me vontade de rir.
Contagiado, abraçou-me e chamou-me cunhado. Vergados pelas
gargalhadas tivemos de fugir de casa, perseguidos à vassourada pela
minha futura mulher e por minha futura sogra...
- Sim disse Maria, troçando -, uma tragédia! Que dois brincaLhões!
Fingiu não a ter ouvido.
- Por outras palavras lamentou-se Jacob -, anunciou-nos o que já
sabíamos por Tiago: teríamos de esperar. E Miriam, pela sua parte,
comprometeu-se a preparar Marta no que se refere a tarefas
domésticas que desempenhava como filha mais velha.
- Então, aquilo de Miriam, a mais bela, e o seu pedreiro foi coisa tua...
O súbito comentário deste explorador, recordando a inscrição na
rocha do alto do Nebi, abalou Jacob. O negro da noite tornou cinzento o
rubor do louro. Gaguejou e, ante os risinhos de Ruth e de Rebeca, sem
perder de vista a sogra perplexa, desculpou-se com um débil não sei...
A Senhora exigiu pormenores sobre o caso. Mas Tiago, defendendo o
amigo, retirou importância ao facto, qualificando-o de criancice própria
de apaixonados. E a mãe, resignada, refugiou-se numa das suas frases
favoritas:
- Sou sempre a última a saber...
Maria estava certa. E se aquilo não transcendia a fronteira do
meramente episódico não podia dizer-se o mesmo do grave incidente
protagonizado por Judas no ano seguinte e que, com toda a razão, lhe
foi escondido...
Conta-se depressa. A família precisou de onze anos para liquidar as
suas dívidas. O reequilíbrio da economia iniciado no ano 18, terminaria

em 19 da nossa era. O remate do pagamento do