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terça-feira, 14 de junho de 2011

Che Guevara Uma lenda do século XX

PIERRE KALFON

CHE
ERNESTO GUEVARA, UMA LENDA DO SÉCULO XX

Uma obra, considerada completa, ou o mais próximo disto, deste ser
que marcou época e ainda hoje mobiliza muitas pessoas em prol da luta,
em busca de seus objetivos.
Obs: Não considerar "luta", como sendo unica e tão somente a luta
armada, e sim, a busca de seus objetivos, preferencialmente voltados
para a justiça social.
Eu mesmo, já pronunciei, muito este nome, e, ele, já me motivou por
várias vezes em busca do que precisava, geralmente em momentos dificeis
de minha vida.

Uma palavra de ordem que me lembro que usávamos:
"- Che, Zumbi, Antonio Conselheiro,
na luta por justiça, nós somos companheiros."


CHE?
CHE (pronunciar tchê) é a interjeição característica da linguagem argentina familiar para interpelar, chamar a atenção do interlocutor. Consoante a entoação, as
circunstâncias, CHE, que é sinal de tratamento por tu, pode significar mil e uma coisas: ó pá, olá, ouve lá, incrível!, etc. Por vezes, raiando o vulgar, CHE distingue
as pessoas do Rio da Prata da maior parte dos outros hispanófonos.
Foi com esta alcunha que os cubanos castristas passaram logo a designar o jovem médico argentino que iria juntar-se à sua causa, "um nome que mais tarde ele tornou
célebre, do qual fez um símbolo". (Fidel Castro em Trois Lettres pour Naviguer en Haute Mer, de René Depestre).
Comecemos por pôr de lado todos os factos, para nos dedicarmos às coisas sérias, às lendas.
Régis Debray
Quem o matou? Poderíamos antes interrogar-nos: quem eliminou o seu ser físico? Porque a vida de homens como ele prolonga-se no povo [...].
Foi o inimigo que o matou [...] e o que o matou também foi o seu carácter. Camilo não media o perigo, utilizava-o como uma diversão, brincava com ele, toureava-o,
atraía-o e manobrava-o; na sua mentalidade de guerrilheiro, nenhum obstáculo podia travar ou alterar a linha que ele traçara. [...] Não vamos fixá-lo para o encerrar
num molde; isso seria matá-lo.

Ernesto Che Guevara

Só os pormenores são importantes.
Thomas Mann

PRÓLOGO

O capitão dos Rangers Gary Prado nem queria acreditar no que ouvia. No fundo daquela ravina perdida no Sul da Bolívia, naquele amontoado de calhaus invadido pelas
silvas, tem à sua frente o guerrilheiro mais procurado do continente, o mais temido, aquele que conseguiu pôr o país em estado de sítio. Dois soldados apontam-lhe
as armas.
O homem está nitidamente extenuado. A sua roupa de caqui está suja, enlameada; um velho blusão azul, de capuz, abre-se sobre uma camisa em farrapos, com um único
botão. Um autêntico aspecto de bandido. Tem ao pescoço um altímetro. Exala um cheiro intenso, uma mistura acre de tabaco e suor. Barba, bigode, guedelhas poeirentas
e desgrenhadas cobrem-lhe parte do rosto. Mas, sob o boné verde, os olhos continuam brilhantes. "O seu olhar era impressionante", observa Gary Prado que, na altura,
finge não dar grande importância à revelação espectacular.
São quase 15 horas, nesse domingo de 8 de Outubro de 1967. De manhã cedo, quando um camponês correu à aldeia de La Higuera para alertar o exército, a madrugada estava
gelada. Agora o sol está quente e, a 1500 metros de altitude, a atmosfera límpida. Ao longe, soam tiros no desfiladeiro. O combate da quebrada do Churo já dura há
quase quatro horas. Renhido.
No tiroteio, três balas atingiram Guevara sem verdadeiramente o derrubar. Uma delas apenas lhe furou o boné, a outra inutilizou o cano da espingarda M-I, à qual
ele se apoia. A terceira atingiu-lhe a perna direita. Já não tem botas. Os pés estão envolvidos em pedaços de couro, toscamente cosidos à mão. Um fio de sangue escorre-lhe
pelo artelho.
"Sou Che Guevara", repete ele num tom firme.
O capitão consulta os retratos dos guerrilheiros que foram fornecidos aos Rangers. Acabou de ter, com os seus homens, cinco meses de treino intensivo. "Boinas Verdes"
americanos, peritos em combate antiguerrilha, veteranos do Vietname, vieram expressamente do campo de Fort Bragg e do Panamá para aperfeiçoar a instrução das tropas
bolivianas. Ele próprio teve direito aos cursos de Intelligence (serviços de informações e espionagem) que a CIA reserva aos oficiais.

9

Os retratos, bastante parecidos, foram desenhados por um guerrilheiro ocasional, o pintor argentino Ciro Bustos, que Guevara chamara à Bolívia, para se lhe juntar.
Detido há seis meses, a cento e cinquenta quilómetros daquelas paragens, juntamente com o francês Régis Debray, cujo processo, em Camiri, deu que falar em todo o
mundo, o argentino abriu a boca e não parou de falar. Mais: traçou com precisão os rostos de cada um dos membros da guerrilha.
Prado observa atentamente. As protuberâncias características das sobrancelhas deixam poucas dúvidas. Para confirmar, pede ao prisioneiro que mostre as costas da
mão esquerda. A cicatriz está lá. É mesmo o Che.
Acabou de capturar uma lenda...

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Primeira Parte

"A NOSSA AMÉRICA MAIÚSCULA"

I

UM ASMÁTICO APRESSADO

Durante muito tempo deitou-se cedo. Não por snobismo proustiano, mas devido a uma saúde frágil, desde a nascença: uma pneumonia aos dois meses e, aos dois anos,
primeiros sintomas de uma asma muito forte, que nunca mais o largaria.
Handicap fundamental, essa asma que ele irá combater durante toda a vida, forjando a sua vontade "com um deleite de artista", constitui uma chave essencial para
se compreender tanto as fulgurâncias da existência de um ser excepcional como as atribulações que ela acarretará para toda a família.
Ernesto Guevara de la Serna* nasce a 14 de Junho de 1928 em Rosário de Santa Fé, na Argentina. Um pouco por acaso. Nessa época, Rosário é o grande porto cerealífero
da pampa húmida, ligado ao rio Paraná que, duzentos quilómetros abaixo, forma com o rio Uruguai o imenso estuário do Rio da Prata dominado por Buenos Aires, a capital
da Argentina.

Nota: * Ao apelido do pai vem juntar-se o da mãe, tradição hispânica, mantida na América Latina, que permite distinguir filiações e gerações.

Os seus pais vivem então, desde há dois anos, uma aventura fantástica, daquelas em que só é possível lançar-se quando se é jovem, apaixonado e um tanto louco. O
pai, Ernesto Guevara Lynch, homem atraente, bem-falante, de olhar vivo por detrás dos óculos, de chapéu de feltro e laço ao pescoço, interrompeu os estudos de arquitectura
em Buenos Aires para raptar, como nos romances, uma bela e rica órfã de vinte anos, de rosto oval e cabelos negros, cheia de energia, Célia de la Serna de la Llosa,
a mais nova de uma família de sete filhos. Os pais de Célia - grande burguesia patrícia - morreram quando ela era pequena.
Tinha acabado de sair do respeitável colégio francês do Sacré-Coeur de Buenos Aires. Muito religiosa, a ponto de se martirizar colocando cacos de vidro nos sapatos1,
a menina estava até decidida a ser freira para assumir plenamente as suas convicções quando encontrou o belo Ernesto, rapaz decidido,

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empreendedor e anticonformista. Paixão recíproca à primeira vista e decisão dos jovens de violar a oposição dos irmãos mais velhos de Célia, de se casarem de imediato
e de partirem logo para os confins do mundo. Estamos em 1927.

Nos confins do mundo, os trópicos

Os confins do mundo, neste caso, não é uma figura de estilo. Significa a província subtropical de Misiones, a dois mil quilómetros de Buenos Aires. No extremo nordeste
argentino, um enclave que se estende às imponentes cataratas do Iguaçu, entre o Paraguai e o Brasil, entre o rio Paraná e rio Uruguai. Marcada pelos dois rios fronteiros,
o nome de Misiones recorda-nos ter sido nessa região quente e húmida que, durante século e meio, até à sua expulsão em 1767, os missionários jesuítas tentaram evangelizar
os índios guarani. Antes de Roland Joffé ter feito dela um filme, Mission, foi lá que Voltaire compôs o seu Candide, foi lá que o botânico francês Aimé Bonpland
viveu quase quarenta anos, fascinado com a extraordinária riqueza da vegetação.
Herdeiro de uma pequena parcela de um património paterno partilhado por onze irmãos e irmãs, o jovem recém-casado adquiriu aí duzentos hectares, junto de Puerto
Cuaraguatay, na margem do Paraná. E aí instalará um yerbal, uma plantação dessa erva-mate (congonha) de gosto acre, que os Argentinos adoram e beberricam em infusão,
chupando por um tubo de metal mergulhado numa pequena cabaça, onde macera a yerba, mergulhada em água a ferver.
Desde a época colonial espanhola que, na Argentina, o mate serve para compensar os excessos de uma alimentação essencialmente carnívora. Essa erva (que provém de
um arbusto) podia ser fonte de receita e justificar uma corrida ao "ouro verde" numa época em que a Coca-Cola não tinha ainda invadido o mercado. Mas era necessário
saber gerir esse tipo de empresa. E a capacidade de gestão não era exactamente o forte do Sr. Guevara.
Nessa selva pioneira em que os proprietários ditam a lei, ele, que se gaba das suas ideias socialistas, recusa-se a tratar como meros animais de carga uma mão-de-obra
escravizada ao patrão por dívidas impossíveis de saldar. Em vez de pagar aos peones em espécie, como era regra - géneros alimentares ou materiais calculados a preços
altos - insiste em pagar em metal sonante os salários dos seus empregados - muitas vezes antigos condenados -, sendo apontado como comunista pelos proprietários
da região, e não conseguirá nunca fazer fortuna. Vinte anos depois, a empresa terá de ser vendida, com prejuízo. Há em Guevara Lynch uma ingenuidade generosa e obstinada,
que irá marcar a sua prole, um lado Bouvard et Pécuchet, sempre pronto a experimentar uma nova melhoria: "Para tirar partido da minha plantação, precisava de completar
o processo, instalando um moinho para moer a yerba, empacotá-la e vender o produto final. Não consegui porque era preciso muito dinheiro"2.

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Pouco importa. Quando chega o momento de Célia dar à luz o primeiro filho, o casal regressa pelo rio - uma semana de navegação - a Buenos Aires, onde não faltam
clínicas excelentes. Mesmo assim, decidem fazer uma paragem em Rosário, império dos moinhos de mate. Só que o bebé não espera. Nasce nessa escala, numa tarde de
Junho, às 15.05h., precisa a certidão de nascimento3. Dão-lhe o nome de Ernesto, como o pai, e para não os confundirem, todos lhe chamarão Ernestito, e os mais íntimos
Teté.
A sul do equador onde, como se sabe, as estações do ano são opostas em relação ao hemisfério norte, Junho é já um mês de Inverno. É certo que o frio não é muito
intenso (8 a 10 graus), mas em Rosário, como em todas as regiões quentes ou que assim se consideram, os sistemas de aquecimento são vistos como um luxo inútil; o
recém-nascido apanha uma broncopneumonia. De Buenos Aires, acorrem então em socorro do doente e da mãe os dois anjos tutelares da família paterna, que irão marcar
fortemente, pela sua ternura e solicitude, a infância e a adolescência do rapaz: a tia Beatriz e a avó, Ana Isabel Lynch.
Mais tarde, depois de restabelecido o bebé e devidamente apresentado em Buenos Aires ao resto da família, regressam ao calor viscoso e aos grandes espaços de Misiones.
"Foram anos difíceis mas felizes"4, escreverá o pai, evocando o período que se seguiu ao nascimento de Ernesto naquele território de pioneiros. Empresário da construção,
Guevara Lynch fez ele próprio o projecto e mandou construir uma casa de madeira sobre estacas no alto de uma colina bordejando uma curva do Paraná, nesse ponto já
com uma largura de seiscentos metros. O edifício resistiu a alguns furacões violentos, observará ele com uma ponta de orgulho.
Na obra preciosa mas inevitavelmente hagiográfica que escreveu no fim da vida, Mi Hijo el Che, o pai não esconde as dificuldades da vida numa região infestada de
mosquitos e de insectos de toda a espécie. Conta, por exemplo, que todas as noites, durante uma meia hora, Curtido, simultaneamente capataz, contramestre e mordomo,
vinha delicadamente extirpar das unhas dos pés do bebé carrapatos minúsculos, através do calor de uma beata de cigarro e com uma fina agulha de ouro. Muito chique.
Mas o tom da narrativa, estilo Paul et Virginie, de toda essa primeira época da vida familiar é sobretudo a do deslumbramento perante o carácter poderoso e fascinante
de "uma fauna e uma flora maravilhosas": floresta virgem impenetrável e mágica, de árvores imensas, papagaios atravessando o céu em bandos ensurdecedores, crocodilos,
jaguares, ursos-formigueiros... Ernesto pai levava Ernesto filho a passear de barco nos afluentes do Paraná, cursos de água silenciosos, como que inviolados desde
o início da humanidade; ou então montava-o na sela do cavalo e percorria com ele toda a propriedade... Era
a felicidade.
Por volta do final de 1929, nova gravidez, nova viagem à "civilização", desta vez a bordo de um barco movido a pás, pré-histórico, que terminava no Paraná uma longa
carreira iniciada no Nilo. Quando os Guevara, com Ernestito ao colo de Carmen, a sua ama espanhola, uma robusta galega vinda da Corunha, partem da grande mansão
à beira do rio, ignoram que nunca

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mais voltarão a viver naquele universo, para alguns maldito como um "inferno verde", mas que para eles terá sido idílico.
Por muito curto que seja - apenas um ano e meio na vida de Ernestito -, este episódio "missionário" subtropical não deixará de marcar o seu imaginário, bem como
o dos seus quatro irmãos e irmãs, pois a partir daí os pais não cessarão de o evocar, com todos os encantos e pequenos exageros que se ligam às recordações felizes,
e também porque, durante muito tempo, o yerbal de Misiones, apesar da sua administração deficiente, permanecerá um ponto de referência importante nos recursos financeiros
da família.

O miúdo que tirita

É em San Isidro, bairro elegante de Buenos Aires, na margem do Rio da Prata, que vai produzir-se o acidente cujas consequências na opção de vida dos Guevara, na
altura, ninguém imaginava: a primeira crise de asma de Ernestito.
O pai, co-proprietário ocasional de um estaleiro naval próximo, tinha sido chamado a substituir um sócio falido. Sem deixar de renunciar à plantação de Misiones,
a pequena família vai então instalar-se por uns tempos em San Isidro, numa agradável mansão alugada a um cunhado. Depois dos trilhos da selva do Alto Paraná, abertos
a faca de mato, é agora a relva bem aparada, as áleas geométricas da Neuilly de Buenos Aires, os passeios pelo imenso delta no pequeno iate de doze metros, cinco
beliches, que Guevara Lynch mandara construir para seu uso pessoal; o regresso, de facto, ao estilo de vida desafogado da boa sociedade aristocrática de que o casal
faz parte, seja como for.
Como já vimos, Célia de la Serna, mãe de Ernesto, tinha dado provas de um certo carácter ligando o seu destino ao daquele "aventureiro", Guevara Lynch, seguindo-o
no seu sonho de plantador tropical. Mas o seu espírito independente, a sua profunda rebeldia contra as boas maneiras de um estilo de vida imposto também se manifestavam
no seu comportamento quotidiano.
Carmen Córdova, prima em primeiro grau de Ernestito, recorda os comentários da mãe, Carmen de la Serna, acerca da irmã, a tia Célia: "Foi uma das primeiras mulheres
a cortar o cabelo à rapaz, a fumar em público, a ousar cruzar a perna num salão, a conduzir um automóvel, a andar de avião. Tinha ido a França"5. Dessa modernidade
fazia parte um gosto acentuado pelo desporto, sobretudo a natação, numa época em que não era costume as mulheres serem grandes nadadoras. Treinada pelos irmãos desde
muito nova, "Célia fazia os mil metros com toda a facilidade"6.
Na manhã de 2 de Maio de 1930, foi nadar com o filho, junto do Clube Náutico de San Isidro, muito chique, perto de casa deles7. Era Outono. A aragem anunciava a
sudestada, um vento forte do Sul, dos planaltos gelados da Patagónia. Célia quer lá saber... Essa bela jovem decidida, de 23 anos, quer recuperar a linha após o
nascimento, quatro meses antes, da sua filha Célia,

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a quem chamavam Celita. Pede a Ernestito, que tem dois anos, que fique muito quieto à sua espera, na praia de areia escura. Quando o pai os vem buscar, à hora do
almoço, a mãe ainda está a nadar, mas o filho, transido, ainda em fato-de-banho, treme de frio. Nessa noite, Ernesto Guevara de la Serna tem a primeira crise de
asma. Uma crise terrível. A falta de ar do rapazinho deixa os pais em pânico. Começa então, dirá o pai, "aquilo que para nós passou a ser uma espécie de maldição...
O nosso calvário".
Nada mais complicado do que a asma, que a partir de então não mais largará Ernesto Guevara. Não é exactamente uma doença, mas talvez muito mais do que isso. François-Bernard
Michel, médico de doenças das vias respiratórias, fala de uma "doença" estranha, insistindo tanto nas aspas como na estranheza8. Descreve-a como a impossibilidade,
num determinado momento, de expelir o ar contido nos pulmões. O asmático não consegue sequer apagar uma vela. "A crise vesperal ou nocturna é a sua manifestação
essencial. E uma sensação de sufoco levada ao paroxismo pelo fecho dos pulmões. Essa crise reproduz, de forma dramática e repetitiva, a morte por asfixia"9. O romancista
Raymond Queneau, também ele asmático, põe na boca de um dos seus personagens: "É uma asfixia que parte de baixo, uma asfixia torácica, um aperto da caixa respiratória"10.
Os brônquios, reduzindo o seu calibre, "fazem com que a respiração tenha um som aflautado. A saída do ar parece um assobio... Essa queixa aguda, dolorosa e monótona
passa a ser a única linguagem do asmático, sentado na cama, encharcado em suor, lívido, incapaz de falar"11.
Por muito impressionante que seja, o processo da asma é hoje bastante conhecido. Conhece-se o "como". Permanece a questão essencial, que ultrapassa a simples explicação
fisiológica: por que é que os brônquios, cuja função é abrirem-se à passagem do ar, acabam por fechar-se? "Essa questão persegue-me", confessa o médico. "Dedicar
a minha actividade a estes doentes sem perceber a verdadeira natureza da sua queixa acabou por me parecer insensato e insuportável. No fundo, eles preferem a asma
a quê?"12. Toda a obra do Dr. Michel é dedicada à proposta de elementos de resposta, que se evitará aplicar mecanicamente ao caso de Ernesto Guevara. A asma seria
uma espécie de "choro de angústia inibido". Proust revelou que preferia a asma à perda do afecto materno.13 Poder-se-á daí concluir que para Ernestito, abandonado
pela mãe na praia de San Isidro, a reacção foi do mesmo tipo? Ou que se vingou da atenção dedicada à irmãzinha Célia, que surgiu inopinadamente no seio da família?
A explicação seria talvez um pouco apressada, tão sumária como afirmar simplesmente que se trata de um fenómeno "psicossomático". O que é possível postular, garante
o médico, é que "esse sintoma manifesta um sofrimento que, não podendo ser dito (ou ser entendido), se exprime através da linguagem dolorosa e sonora da obstrução
dos pulmões". Todavia, criando o terror da morte iminente, "a asma é provavelmente o sintoma mais ansiogéneo; essa aflição vai passar a ser a obsessão do asmático,
com a angústia do fim do dia e da noite, um handicap para toda a vida, que

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faz dele um ser diferente"14. Registemos apenas, com certa prudência, que Guevara de la Serna será, durante toda a vida, um "ser diferente".
Quanto aos pais, estão aterrados. "Custava-nos imenso ouvi-lo a arfar e, nunca tendo lidado com um asmático, eu e a minha mulher ficávamos desesperados"15. Porque
a asma assusta. Mas tudo farão para a combater, com os meios conhecidos na época. Consultam todos os médicos, experimentam todos os medicamentos: radiações, análises,
fumigações, xaropes. Nada resulta. "Ernesto crescia com aquela doença terrível que começava a envolver-nos. Célia passava as noites atenta à sua respiração e eu",
diz o pai, "deitava-o sobre o meu peito para que ele pudesse respirar melhor, o que fazia com que eu dormisse muito pouco. Mal tinha aprendido a falar e já dizia:
"papito, pica" quando sentia a crise a aproximar-se, ao contrário das crianças que geralmente têm pavor das seringas. Ver um filho sofrer, mesmo quando o mal não
é grave, deixa os nervos em franja. Nunca consegui habituar-me a ouvi-lo respirar com aquelas miadelas de gato..."16.
Para fugir à humidade de San Isidro, muito próximo do rio, os Guevara alugam um apartamento num dos bairros elegantes de Buenos Aires, na orla do bosque de Palermo.
Multiplicam as estadas no campo, em propriedades opulentas, as estancias, que a avó, a família, os amigos possuem na Pampa, à volta da capital. Em vão. Ernesto brinca,
ri, cresce devagar. Passará longos meses em casa da tia Beatriz e da avó Ana Isabel, rodeado de carinho. Toda uma iconografia nos mostra uma infância de filho de
gente rica: pónei, bicicleta, automóvel de pedais, ama cuidadosa17. Numa época em que era raro ter-se máquina de filmar, o pai filmou a alegria desses dias de férias.
Aí se pode ver cenas clássicas: o pequeno Ernesto a aprender a andar de bicicleta, ou a tentar trepar para cima de um cão enorme, que se recusa a fazer de cavalo.
Mas o miúdo permanece frágil. A asma não o larga, pelo contrário. Os médicos estão de acordo em reconhecer que nunca se tinha visto um caso tão sério. Recomendam
uma mudança de clima radical.
"Um belo dia, decidimo-nos. Cortámos as amarras"18. Destino: Alta Gracia, zona turística perto de Córdova, velha cidade colonial a setecentos quilómetros de Buenos
Aires, no centro propriamente "mediterrânico" do país. Ar puro, clima seco e quente de planalto, serras hospitaleiras não ultrapassando os 2 800 metros de altitude,
algumas unidades hoteleiras propícias a curas de repouso para doenças respiratórias, eis a paisagem em 1933.
Para os Guevara, sair de Buenos Aires é mais do que uma simples mudança de ares. É um verdadeiro sacrifício. Um exílio. Nada que se comparasse com o entusiasmo aventuroso
dos primeiros dias da sua vida de casal, quando foram tentar fazer fortuna plantando mate na região guarani. Desde então, três anos de reencontro com Buenos Aires
voltaram a pôr Ernesto e Célia em contacto com os amigos, com a rede da grande cidade cujos códigos conhecem, como porteños* distintos.

Nota: * Habitante do porto. Na Argentina, "o único porto que conta" é o de Buenos Aires. Ser porteño é uma espécie de privilégio, é demarcar-se imediatamente do
resto do país.

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Uma família patrícia

Tanto um como o outro provêm do mesmo meio social das famílias "tradicionais" da Argentina, uma aristocracia legitimada mais pela História do que pela fortuna. Num
país de imigração recente como a Argentina, o pai, Ernesto Guevara Lynch, pode reivindicar dez gerações instaladas nessas costas, desde o tempo da colónia espanhola.
A mãe, Célia de la Serna de la Llosa, sete gerações igualmente ilustres.
Bastante mais tarde, em 1964, uma certa Maria Rosário de Guevara, instalada em Marrocos, em Casablanca, interrogará o comandante Che Guevara sobre as suas origens,
imaginando um possível parentesco. A resposta, que contém um certo humor e generosidade social, é contudo demasiado vaga, historicamente falando, pois Ernesto está
longe de ser o "primeiro homem" sem passado nem posteridade, no sentido que lhe atribui Albert Camus, evocando a sua infância de filho de gente pobre. Mas ele não
retira daí nenhuma vaidade e tende mesmo a ocultar o lado "aristocrático" das suas origens. "Camarada", responde Ernesto Guevara à sua homónima, "não sei ao certo
de que parte de Espanha vem a minha família. É claro que há muito tempo que os meus antepassados partiram de lá, com uma mão à frente e outra atrás, e se eu não
conservo essa posição é porque ela é incómoda. Não me parece que sejamos parentes próximos, mas se é capaz de se indignar perante a injustiça do mundo, então somos
camaradas, que é o mais importante"19.
Na realidade, nem todos os antepassados de Ernesto Guevara de la Serna vieram de Espanha, e ainda menos rotos e descalços, como o sugere a expressão metafórica do
Rio da Prata, "uma mão à frente e outra atrás". A sua história é, pelo contrário, uma saga cheia de som e fúria, de grandes viagens e de famílias numerosas, que
vale a pena descrever para melhor situar o itinerário do menino-prodígio.
Do lado do pai, a dinastia remonta, tanto quanto se sabe20, ao senhor da Normandia Hugues de Linch que, em 1066, comanda a cavalaria na batalha de Hastings, sob
as ordens de Guilherme, o Conquistador, futuro rei de Inglaterra. Os seus descendentes irão tomar a Irlanda, onde permanecerão alguns séculos e combaterão ao lado
de Ricardo Coração de Leão, na época da terceira cruzada. Em 1493, um cavaleiro, James de Lynch, destaca-se por um sentido de justiça digno de Agamémnon: condena
à morte Walter, o seu próprio filho, o preferido. Após as guerras religiosas da Inglaterra, nas quais os Lynch se colocam decididamente do lado dos católicos ultras
e do Papa, alguns regressam à Normandia, outros vão para Espanha ou para os Estados Unidos. Na Virgínia, Charles Lynch, plantador e magistrado, ficará tristemente
célebre, associando involuntariamente o seu nome ao termo "linchamento", tal como mais tarde Guillotin ficou associado à guilhotina "para abreviar o suplício dos
condenados".
É no início do século XVIII que o capitão Patric Linch de Lydicam, nascido em Galway, na Irlanda, tem a ideia genial de embarcar para o Rio da Prata, trazendo como
equipagem um bom cofre de moedas de ouro. Criará aí a sua

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linhagem. O seu filho Justo será administrador da Alfândega Real, gerindo tão bem os dinheiros da coroa espanhola que, apesar da sua fidelidade declarada ao rei,
será confirmado nas suas funções em 1810 pelos partidários vitoriosos da independência da colónia. Patrício Lynch, filho de Justo, retomando o y do apelido, será
um dos homens mais ricos da América do Sul, dono de extensíssimas propriedades nas Pampas, temporariamente confiscadas pelo ditador Rosas, mais tarde recuperadas.
Viverá quase até aos cem anos e terá nove filhos, sendo Francisco o mais novo.
Este, em vez de se alistar no exército sanguinário do "tirano" Rosas, prefere tentar a sorte na Califórnia. Foge para Montevideu, do outro lado do Rio da Prata,
segue depois para o Chile, passando pelo Cabo Horn, em seguida para o Peru - onde apanha a cólera -, depois o Equador - onde contrai a varíola e chega por fim a
São Francisco, onde faz fortuna. E regressa trinta anos depois à Argentina, com mulher e filhos. Entre eles, Ana Isabel, que será a avó adorada de Ernestito. Personagem
enérgica, declaradamente ateia numa época em que era necessário coragem para o assumir, irá ter doze filhos de um casamento feliz com o geógrafo Roberto Guevara,
ele próprio descendente de uma linhagem de espanhóis vigorosos, instalados nestas paragens desde o século xvi. Nove gerações de autênticos criollos*.

Nota: * Criollos: literalmente, "crioulos, nativos do país". O termo ultrapassou o seu significado mais imediato para se aplicar a tudo o que é tipicamente argentino.

É na sua confortável estancia de Portela, perto de Buenos Aires, que ela irá embalar, com a narrativa fabulosa da sua juventude californiana, a infância do miúdo
enfezado que, mais tarde, sem dúvida sem o saber, retomará aproximadamente o périplo do bisavô antes de a lenda, por seu turno, o fixar na imagem do "guerrilheiro
heróico".
Os ascendentes maternos de Ernestito, que datam do século XVII, não são menos respeitáveis. Encontramos um militar, Martin José de la Serna, que participa numa das
páginas mais ilustres, senão das mais gloriosas da história argentina, "a conquista do deserto", espantosa empresa de "limpeza" dos índios da Pampa. De facto, em
finais do século XIX, a invenção do arame farpado e dos frigoríficos abala a economia nacional. A partir do momento em que foi possível racionalizar a criação, seleccionando
o gado, e exportar a carne, conservando-a, as imensas pastagens das Pampas, "vertigem horizontal" até então sem valor real, adquirem uma nova importância que convém
proteger de todo o tipo de incursão. Daí, em 1879, a liquidação do "problema índio": um exército bem equipado com espingardas Remington e munições recupera, até
às fronteiras da Patagónia, 400 000 km2 de boa pampa, até aí inexplorada. Este novo território, do tamanho da Itália e Grécia juntas, será distribuído aos militares
e aos estancieros (fazendeiros).
Juan Martin de la Serna, filho do militar, será um rico proprietário de terras, dono de várias fazendas. Fundará, a algumas léguas da capital, a cidade

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de Avellaneda, actualmente um enorme subúrbio industrial e popular absorvido pela grande metrópole. A sua mulher Albertina Ugalde, antes de morrer de febre amarela
em 1871, dar-lhe-á um filho, Juan Martin, que será o avô de Ernestito. Homem brilhante, professor de Direito na Universidade de Buenos Aires aos vinte e nove anos,
deputado, embaixador na Alemanha, será um dos militantes do então jovem Partido Radical, que irá lutar contra o domínio do capital inglês na Argentina. Célia, a
última dos seus sete filhos, não chegará a conhecê-lo, pois ele morrerá pouco depois do seu nascimento, mas será ela a reivindicar resolutamente a herança das suas
ideias revolucionárias.

Alta Gracia, o "exílio"

Os Guevara decidem, pois, ir ver se os ares da serra de Córdova, primeiro relevo geográfico no final da Pampa infinda, trarão finalmente algum alívio à asma de Ernestito.
Ao princípio, tudo parece perfeito. A família, que em 1932 conta com um terceiro filho, Roberto, pára primeiro em Córdova, segunda cidade argentina, de origem jesuíta,
tradicionalmente rebelde, que possui uma das mais antigas universidades do continente americano e, há quatro séculos, fornece ao país um honorável contingente de
padres, advogados e estudantes contestatários, de fala cadenciada. O Hotel Plaza, onde a pequena tribo Guevara desembarca com os três filhos e Carmen, a ama fiel,
a partir de então membro adoptivo da família, dá para a inevitável Praça do General San Martin, herói da independência nacional, que, a cavalo, imperturbável, fixado
no bronze, curveteia em todas as praças centrais das cidades argentinas. Um arvoredo magnífico, algumas palmeiras, um céu límpido, de um azul intenso, atravessado
por uma leve brisa, constituem bons augúrios. De facto, Ernestito, que durante a interminável viagem de comboio não parou de sofrer, respira agora a plenos pulmões.
E os pais rejubilam.
Resta descobrir o sítio ideal para se instalarem definitivamente. A aldeia de Arguello, ali ao lado, não serve. As crises de asma do rapaz multiplicam-se. O médico
Fernando Peña, amigo da família, aconselha a pequena povoação de Alta Gracia, antiga reducción* na encosta da montanha, também ela fundada pelos jesuítas no século
XVII, a quarenta quilómetros de Córdova. O ar é tão puro, tão tonificante, que muitos vão lá fazer férias, mesmo sem sofrerem de qualquer doença respiratória. Aliás
foi aí, na sua residência, monumento histórico, que viveu um outro herói argentino da independência, Jacques de Liniers, de origem francesa, que, no tempo das guerras
napoleónicas veio colocar a sua espada ao lado dos criollos contra os ingleses que, por duas vezes, tentaram, sem sucesso, tomar Buenos Aires.

Nota: * A reducción era o lugar onde os missionários reuniam os índios seminómadas para melhor os "reduzir", os evangelizar.

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Na vida de Ernesto Guevara de la Serna, Alta Gracia, Córdova e os arredores dessa região montanhosa e acolhedora vão constituir a base sólida, o alicerce de uma
identidade argentina muito forte que os sobressaltos de uma vida agitada nunca irão apagar. Chegado ali com quatro anos e meio, em 1933, só partirá de lá catorze
anos depois, quase com 19 anos, para entrar na Faculdade, em Buenos Aires, em 1947. Mais tarde alargará a noção de pátria grande a toda a América Latina, que denominará
de "América maiúscula", mas a sua pátria chica, a "sua terra", continuará a ser a serra de Córdova. É nesta paisagem de montanha, seca mas verdejante, semeada de
espinheiros, de silvas e de árvores imponentes ao longo de cursos de água, que ele irá descobrir o gosto pela natureza, a amizade, a solidariedade, o espírito de
equipa, é lá que irá revelar as suas qualidades de dirigente, capaz de todas as audácias e de todas as impertinências, adorado pelos companheiros, respeitado mesmo,
devido a uma aura particular que alguns atribuem à sua inteligência, a uma cultura nitidamente superior, e outros à segurança das suas opiniões e a um aprumo raiando
por vezes a presunção.
Para os pais, o "exílio" cordovês iria ser provisório, apenas o tempo de verificar que a asma de Ernestito iria diminuir e desaparecer. Tal não sucedeu. É certo
que houve tempos de acalmia, mas nunca de remissão total, apesar de o clima de Córdova se revelar benéfico.
Todo esse período será pontuado pela permanente migração dos Guevara de residências elegantes para casas cada vez mais modestas, de zonas residenciais para bairros
populares, à medida que os recursos da família diminuíam, mas sem que a moral e o espírito de humor fossem afectados. À excepção do pai, talvez, que, ardendo numa
febre de acção frustrada, confessa ter por vezes andado à beira da neurastenia.
Ao princípio, a família estabelece-se no muito respeitável Hotel La Gruta, convertido desde então em retiro de freiras carmelitas, a quatro quilómetros do centro
de Alta Gracia. A vista é magnífica e as crianças, ainda muito pequenas, têm direito a passeios quase quotidianos em cima de burros, sob o olhar vigilante da ama.
Mas entre a clientela há demasiados convalescentes de tuberculose, potencialmente contagiosos, na opinião dos pais. Que irão investigar nas redondezas e, sempre
apoiados pelo doutor Peña, decidem alugar uma bela vivenda de dois andares, há oito anos desabitada, que se ergue, isolada, numa colina dos bairros elegantes construídos
pelos ingleses, poderosos proprietários dos caminhos-de-ferro da Argentina.
A módica renda dessa "Villa Chichita" deve-se à sua fama de "casa assombrada", o que de modo algum incomoda esses livre-pensadores que, pelo contrário, se divertem
por ver os aldeãos, ao passar em frente da casa, fazerem um desvio prudente para o passeio em frente.
A casa está aberta de par em par, fresca no Verão, gélida no Inverno, por falta de aquecimento. O pai conta que, para combater o frio durante as refeições em família,
acontecia-lhes disporem apenas do fraco apoio de um pequeno radiador, colocado debaixo da mesa, coberta por uma longa toalha

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até ao chão, velho princípio readaptado da braseira hispano-mourisca. Apesar do frio, a asma de Ernestito melhora um pouco e é nessa casa supostamente assombrada
que irá nascer, em 1934, a quarta filha, Ana Maria.
O que não melhora é a situação económica dos Guevara. "Para nós, os tempos eram críticos", escreve o pai. "Forçados a viver em Alta Gracia, não era fácil para mim
arranjar lá trabalho. A minha mulher possuía um campo* que não rendia muito por causa da seca, e o preço da yerba mate, a minha principal fonte de receita, tinha
baixado devido à crise"21.

Nota: * Campo: propriedade rural, geralmente dedicada, na Pampa, à criação extensiva de bovinos.

A família volta então a mudar-se, para o outro lado da rua, para uma casa mais antiga, mais barata mas maior e mais confortável, pois é flanqueada por um hectare
de mato, terreno ideal de brincadeiras para a garotada. Nos anais da família e na memória de todos os amigos, essa Villa Nydia permanecerá ligada à recordação de
um período, no fundo, bastante agradável. "Vivemos lá vários anos e passámos bons momentos, apesar das dificuldades económicas"22. Além disso, o senhorio, bom tipo,
a quem chamavam o gaúcho Lozada, não levantava grande problema quando a renda não era paga.
Se a asma de Ernestito parece melhorar um pouco, nem por isso lhe permite frequentar regularmente a escola San Martin, onde os seus irmãos e irmãs fazem a instrução
primária. Por isso é Célia, a mãe, que se encarrega da formação do filho mais velho, do seu regime alimentar, das suas horas de deitar, vigiando-lhe o sono. É com
ela que vai aprender a ler e a escrever esse rapazinho de ombros levantados e "peito de frango", devido aos seus esforços permanentes para respirar, com o inalador
sempre à mão.
Do contacto privilegiado com essa mulher de carácter, cheia de dedicação para com um rapazinho frágil, sensível e inteligente, nascerá em Ernestito a afeição profunda
e a estima nunca desmentida para com a mãe, apesar de o seu afecto frequentemente se dissimular sob a capa de ironia, ou na sua forma correspondente, a lítotes,
que diz pouco para dar a entender muito.
Num dia de 1935, a mãe recebe uma circular do Ministério da Educação manifestando surpresa por o jovem Ernesto, com mais de 7 anos, não estar inscrito em nenhum
estabelecimento de ensino. "Respondi de imediato, muito orgulhosa dessa preocupação com a instrução das crianças [...] Na realidade", esclarece ela, "Ernesto só
pôde frequentar com alguma regularidade a escola no segundo e terceiro graus (aos 9 e aos 10 anos). Os últimos anos do ensino primário fê-los como pôde, trabalhando
em casa. Os irmãos e as irmãs copiavam-lhe os deveres"23.
Tem 9 anos quando à asma se vem juntar a tosse convulsa, cujos ataques de tosse agravam o mal. "Quando sentia a crise aproximar-se ficava imóvel na cama, esforçando-se
por aguentar a sensação de asfixia [...] A conselho dos médicos", conta o pai, "tinha sempre à mão um balão de oxigénio que, com uma baforada, podia acalmar um pouco
a criança nos acessos de tosse mais fortes. Mas ele recusava habituar-se a essa panaceia. Aguentava o máximo

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de tempo possível até ao momento extremo quando, já roxo, perto da asfixia, começava a saltar na cama e me fazia sinal com o dedo para lhe pôr um pouco de ar na
boca, o que o acalmava de imediato"24.
Essa asma, em torno da qual gira toda a vida da família Guevara, terá assim como efeito levar Ernestito a adquirir, desde tenra idade, uma vontade e um autodomínio
fora do comum, que ele procurará aperfeiçoar durante toda a vida.
Os pais, desesperando de encontrar a forma de acabar com essa "maldição", continuam a experimentar tudo, o racional e o irracional. As injecções de cálcio, a vaselina
líquida, que o obrigam a engolir, os mais variados medicamentos não produzem resultados visíveis. Avançam por tentativas, à sua maneira, procurando isolar o eventual
"factor desencadeante", anotam cuidadosamente o que o filho come, a roupa que veste, os objectos de que se serve, a humidade, a pressão atmosférica, a temperatura
ambiente... Mandam fazer colchões novos, travesseiros, substituem os lençóis de algodão por lençóis de nylon, produto novo na época. Tiram do quarto todos os tapetes
e cortinas, evitam os contactos com cães, gatos, pássaros... Em vão. E acabam por se voltar para as sugestões mais fantasistas dos curandeiros: decocções de ervas
locais, remédios caseiros e, contrariamente aos seus bons princípios, basta que digam ao pai que a presença de um gato seria benéfica para que ele meta um na cama
de Ernestito. Resultado: o gato morre asfixiado, mas a asma permanece inalterável. Única conclusão mais ou menos fiável: o clima seco de média altitude onde eles
se encontram é ainda o que há de melhor.

Viver a vida

Até que, um belo dia, é a mãe, Célia, que tem a coragem de tomar a decisão que irá mudar tudo. Declara que já chega, que é altura de acabar com o desespero e as
queixas, que prender o rapaz em casa não serviu para nada, que os próprios médicos mostraram que não entendiam patavina e que, por conseguinte, ela é de opinião,
contra todos os outros, que é necessário deixar o miúdo ao ar livre, deixá-lo desenvolver-se o mais livremente possível, permitir-lhe viver a vida dele, oxigenar-se
sozinho mexendo-se, correndo, fazendo ginástica, combatendo ele próprio a asma, com toda a gana...
E a coisa corre mais ou menos bem. Não é a cura milagrosa, é certo. Mas também não é o temido agravamento da doença. Pelo contrário, Ernestito pode finalmente dar
livre curso à ânsia de actividade que o agita. É um rapaz um tanto reservado, talvez um pouco tímido, mas não é introvertido. A partir daí vai fazer trinta por uma
linha, ou quase. Mal chegou aos 10 anos e é já considerado chefe de grupo pelos outros miúdos. Na escola San Martin, quando finalmente a frequenta, Elba Rossi, a
sua antiga professora, é categórica: "No recreio, era um líder; todos o respeitavam. Os Guevara pertenciam à classe média-alta, mas na escola quase só havia rapazes
pobres.

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A mãe dele tinha instaurado o copo de leite grátis, que ela própria oferecia aos alunos. Ernestito era tudo menos estirado (afectado). Era espevitado, claro. Trepava
às árvores que havia junto da escola, onde também passavam vacas e corria um pequeno regato. Os miúdos iam lá apanhar girinos..."25.
Falta muitas vezes (vinte e uma faltas "justificadas" durante o terceiro período de 1938, segundo o seu caderno de notas). Às vezes tem ataques de asma nas aulas,
o que o deixa particularmente nervoso. Uma vez, para se acalmar, bebe a tinta do tinteiro!...26 O seu irmão Roberto acrescenta: "Era um rebelde. Castigavam-no e
acabavam por o pôr na rua. Então a mãe vinha, parlamentava, voltavam a aceitá-lo. A ameaça clássica do meu pai era: "Vou pôr-te num colégio de padres", ameaça gratuita,
evidentemente."27. Ernestito muda de escola e vai para uma classe em que a professora não hesita em dar palmadas no rabo. O que faz com que um dia, prevendo um castigo,
o "diabrete" coloque um tijolo nos fundilhos das calças. "Foi um escândalo!"28. São inúmeros os testemunhos sobre este período da vida do pequeno Ernesto. Todos
estão de acordo em evocar a alegria de uma vida muito livre, para não dizer libertária, da família Guevara. No entanto, a Argentina vive uma situação crítica da
sua história, cujos ecos, embora abafados, não deixam de chegar a Alta Gracia.
Em 1928, quando Ernesto nasceu, o velho presidente Irigoyen iniciava um segundo mandato difícil. Era um caudillo radical, colocado no poder graças às memoráveis
eleições de 1916. Realizadas pela primeira vez por voto secreto e obrigatório, tinham permitido à geração dos filhos de imigrantes chegados no final do século XIX
alcançar uma vitória sobre a grande burguesia tradicional dos latifundiários, que se prontificava a ser a sucursal rural, principescamente paga, de uma Europa industrial.
Quando a crise de 1929 produziu os seus efeitos no Rio da Prata, suprimindo encomendas de carne, de trigo, de couro, bem como os créditos, o radicalismo, ainda recente,
mais estado de espírito do que doutrina, não resistiu. Com as vacas magras vieram os generais "golpistas" e, a partir de 1930, o general Uriburu correu com Irigoyen,
antes de ser, por seu turno, derrubado por um outro general do mesmo gabarito, Agustin P. Justo.
Esses anos 30 foram designados pelos nacionalistas argentinos de esquerda como a "década da infâmia", consistindo esta tanto na ignomínia dos métodos para tomar
o poder - golpe de Estado ou fraude eleitoral manifesta -, como na aceitação bastante cínica do desastre social provocado pela venda ao desbarato dos produtos agrícolas.
O desemprego rural desencadeia um êxodo para os subúrbios miseráveis das cidades, a começar por Buenos Aires, que se rodeia de bairros povoados por cabecitas negras,
mestiços de cabelo negro, resultado do cruzamento entre gaúchos, escorraçados pelos arames farpados que cercam a Pampa, índios domesticados e imigrantes
diversos, provenientes da Sicília, da Calábria ou da Espanha. Será entre esses "descamisados" que um general um pouco mais astuto do que os seus

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congéneres, Juan Domingo Perón, irá recrutar as suas tropas de choque. Nesses bairros populares, amontoados em conventillos, casas comuns propícias a toda a promiscuidade,
formar-se-ão os compadritos, a meio caminho entre vagabundos e caloteiros de bairro. Chapéu de feltro, casacos cintados e lenços brancos, vivendo de esquemas, são
eles que irão começar a dançar, entre homens, na rua, ao som de uma guitarra, de um violino, de uma flauta, as primeiras milongas saltitantes ou tangos raivosos,
com personagens surpreendentes, cujas fintas e passos insinuantes mais não fazem do que transpor o verdadeiro combate que representa a conquista de uma mulher por
um macho argentino.
Se os anos 30 são considerados como a idade de ouro do tango, é porque sobre os acordes sincopados e pungentes dessa música bem ritmada, sobre os lamentos do bandónio,
alguns compositores inspirados - Discépolo, Cadícamo, Manzi e tantos outros - criam letras que reflectem as múltiplas tristezas e as raras alegrias de um período
sinistro da história argentina. Os temas são recorrentes. Evocam a amargura perante um destino injusto, o ressentimento para com a mulher classicamente infiel -
todas putas, menos a mama -, o lamento piegas ou sarcástico do homem traído. Muitos são também os tangos que evocam a miséria social, a repugnância pelo cambalache,
o "desprezo" de uma sociedade na qual triunfam sobretudo os delinquentes e os caloteiros e a atitude do "salve-se quem puder", quando as portas se fecham e a miséria
é tanta que chega a desaparecer a erva-mate que já serviu na véspera, e que foi "deixada a secar ao sol"... Ernesto, um zero absoluto em música, apreciará muito
a sua poesia simples e profunda, cujas letras aprenderá de cor, como todo o argentino bem nascido.
A Europa de entre-as-duas-guerras recebe o tango de braços abertos "tristeza em forma de dança" - do qual apenas capta o tom lascivo. Enquanto em Buenos Aires, a
"gente de bem", rejeita o tango, nascido nos bordéis dos subúrbios, maculado de obscenidades, os salões parisienses, até então habituados às valsas, polcas e ao
fox-trot, ficam obcecados pela sensualidade desse corpo-a-corpo em que o homem cola a si a sua parceira, desde a face ao joelho, fá-la dobrar-se e entreabre-lhe
as pernas, em múltiplos passos perfeitamente inconvenientes. Arquétipo do cantor argentino de voz aveludada, Carlos Gardel (nascido em Toulouse) faz furor em França.
Apresenta-se na Ópera de Paris, em Cannes, nos cabarets em voga. Em 1928, ano em que nasce Ernesto, é consagrado como a "vedeta do ano" pela imprensa musical francesa.
Paris dança o tango. Buenos Aires desfolha a sua melancolia.
Contudo, em Alta Gracia, entre os Guevara não há o menor vestígio dessa tristeza amarga, dessa nostalgia lancinante dos tempos passados.
Embora sofram os efeitos da crise, como toda a gente, os pais continuam a frequentar a fina-flor da pequena cidade que, no Verão, se enche de uma população elegante,
fugindo da humidade de Buenos Aires para apanhar ar puro, jogar o brídege e a canasta. O pai chegou mesmo a arranjar um emprego interessante, que consiste em "construir
um terreno de golfe de quarenta e dois hectares

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para o luxuoso Sierras Hotel, ponto de encontro de certos representantes das "duzentas famílias" argentinas, personalidades da vida política, alguns intelectuais
distintos, amadores endinheirados. Há uma magnífica piscina, onde Ernestito virá treinar-se regularmente. Quanto ao golfe, também tirará partido das suas vantagens,
sobretudo quando uma das inúmeras casas onde irá viver confinará com o percurso e os relvados. Ele e os seus companheiros dos bairros pobres, caddies e apanhadores
de bolas, vigiam de perto os jogadores desastrados e conseguem recolher discretamente as bolas perdidas, para depois as usarem à vontade, quando o terreno está vazio.
Mas em Córdova o ambiente político não é mais calmo do que nos outros lados. Em 1933, um deputado socialista da província, José Guevara (simples homónimo), é assassinado
pelos capangas da Legião Cívica Argentina, criada pelo general Uriburu e decalcada das milícias fascistas italianas. O assassino é condenado apenas a dois meses
de prisão simbólicos.

"Esquerda mate"

Apesar do seu afastamento da capital, os pais de Ernesto não deixam de se interessar pelo que se passa. É certo que, do lado do pai, a tradição é mais conservadora,
ao passo que do lado da mãe a tendência liberal está aberta à modernidade. Mas Guevara Lynch e a esposa Célia de la Serna estão de acordo numa recusa mútua dos valores
da sua classe de origem, sem que por isso a sua cultura, orientada para um certo cosmopolitismo, faça apagar um forte sentimento patriótico. Em vez de uma esquerda
"caviar" - de qualquer forma, nem sequer têm meios para isso -, eles representariam antes uma espécie de "esquerda mate", fortemente nacional sem ser nacionalista,
pronta, pelo contrário, como se verá, a mostrar-se internacionalista. Em suma, tanto um como o outro, embora frequentem a aristocracia local, são já "politicamente
incorrectos". Os filhos também o serão.
Quando, por exemplo, em 1932, estala a absurda guerra do Chaco entre a Bolívia e o Paraguai, numa linha de fronteira mal definida, pela posse de campos de petróleo
cobiçados tanto pela Esso (Standard Oil, Estados Unidos) como pela Shell (Royal Dutch, Inglaterra e Holanda), os Guevara tomam de imediato o partido dos paraguaios,
de quem aprenderam a gostar na época em que estiveram na província limítrofe de Misiones. Além disso, observa o pai nas suas memórias, "o general boliviano Kuntz
era pró-nazi, ao passo que o general paraguaio Estigarribia era um antigo aluno de Saint-Cyr que tinha combatido ao lado dos Franceses durante a guerra de 1914-1918"29.
Com seis ou sete anos, Ernesto brinca já com os companheiros aos polícias e ladrões, sendo polícias e ladrões substituídos por bolivianos e paraguaios. O armistício
só será assinado em 1935, ao cabo de combates tão ferozes quanto absurdos, pois as companhias estrangeiras, que estavam na origem do conflito, declararam um belo
dia, friamente, que os seus peritos se tinham enganado...

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Portanto, já não havia petróleo. Nem casus belli. Taparam com cimento os escassos poços furados e foram procurar noutras paragens esse ouro negro precioso. Cento
e cinquenta mil soldados mortos para nada... Mais tarde, já na pele do "Che", o comandante Guevara referir-se-á a essa guerra como exemplo do cinismo dos monopólios
estrangeiros na América Latina.
A guerra civil espanhola (1936-1939) afectou ainda mais os Guevara e os filhos. Primeiro, porque o cunhado de Célia, o poeta comunista, um pouco "dandy", Cayetano
Córdova Iturburu, tomou corajosamente parte nela durante um ano, como enviado especial do Critica, único jornal antifranquista de Buenos Aires, sendo todos os restantes
partidários de Franco. Depois, porque a mulher, Carmen de la Serna, comunista como ele, decidiu, a pretexto da tosse convulsa do filho, ir juntar-se, com os dois
filhos, à sua irmã mais nova Célia, em Alta Gracia. Finalmente, porque vários filhos de republicanos espanhóis exilados em Córdova e naquela região se tornarão alguns
dos melhores amigos de infância e de adolescência do jovem Ernesto.
É difícil calcular o impacte da guerra de Espanha nessa longínqua província da Argentina. Mas foi grande. "Era tema de violentas discussões", recorda o advogado
cordovês Gustavo Roca, amigo de Ernestito. "Tal como em cada família havia um clerical e um anticlerical, também havia os "republicanos" e os "anti-republicanos""30.
Os Guevara são, evidentemente partidários declarados da jovem república espanhola. Militam nos comités de apoio, recolhendo fundos, organizam o acolhimento dos refugiados...
"Ernesto participava com o mesmo entusiasmo", revela o pai. "Com dez anos apenas, espetava alfinetes de cores num mapa de Espanha, colado na parede do seu quarto,
marcando as posições dos combates." Tão fascinado como os pais, ao escutar da boca do general Jurado, exilado no final da guerra, as peripécias da batalha de Guadalajara
onde, em 1937, os republicanos derrotaram por completo as brigadas italianas enviadas por Mussolini para tentarem conquistar Madrid"31.
Juan Miguez, outro amigo de infância, conta: "Todas as tardes brincávamos à guerra de Espanha; cada campo tinha a sua trincheira e quando nos faltavam os projécteis
e era preciso ir buscar mais munições, era nessa altura que nos atiravam com tudo"32. "Calica" Ferrer, que também fazia parte do grupo, explica: "Mais tarde, durante
a guerra mundial, batíamo-nos do lado dos aliados contra os nazis"33.
Os pais dão apoio especial a uma família numerosa, originária de Múrcia, os González Aguilar, chegados em 1937, seguidos depois pelo pai, médico famoso, e pelo compositor
Manuel de Falla, inconsolável com o assassínio pelos franquistas do poeta Garcia Lorca, seu "filho espiritual". Os filhos das duas famílias têm pouco mais ou menos
a mesma idade e depressa se tornam amigos. Embora mais novo que Ernestito, José manterá o contacto e fará uma descrição desse período rica de recordações.34 Fernando
Barral, filho de comunistas espanhóis, será também um bom amigo de Ernesto, mas mais reservado; confessará que, embora da mesma idade, sentia pelo filho mais velho

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dos Guevara "uma admiração secreta pelo seu espírito decidido, pela sua audácia, pela sua segurança e, sobretudo, pela sua ousadia, que era um dos aspectos mais
marcantes do seu carácter"35.
Ousadia é o que não falta a Ernesto, com efeito. Há inúmeras histórias que o descrevem como um autêntico façanhudo. Liberto pela mãe da reclusão habitual dos asmáticos,
parece querer recuperar o tempo perdido ultrapassando sempre os seus próprios limites, para provar a si e aos outros que não é prisioneiro da sua doença. No futebol,
por exemplo, é guarda-redes. Posição clássica atribuída àqueles que têm problemas respiratórios. (Exemplo: Albert Camus, antigo tuberculoso, como é sabido). Mas
mesmo quando se trata de jogar de qualquer maneira, na rua, à saída da escola, ele é obstinado. "Tinha um destes amores-próprios!", declara Juan Miguez. "Mesmo quando
jogava contra dois ou três, queria ganhar a todo o custo. E, se perdia, a sua raiva era tal que ficava logo com uma crise de asma [...]. Depois íamos a correr nadar
para o rio. Às vezes íamos pescar ou caçar a San Clemente, a sessenta quilómetros dali. Mas cortávamos caminho pela serra, a pé [...]. Caçávamos perdizes. Ao domingo
íamos treinar no Tiro Federal*. Apesar da asma, Ernesto atirava muito bem... íamos também para as pedreiras, que estavam cheias de galerias que conhecíamos bem.
Se chovesse, ficávamos por lá, escondidos na serra"36.

* Sob a orientação do pai, grande amador de tiro à pistola. O Tiro Federal era um lugar de entretenimento público, aberto aos sócios.

O seu irmão Roberto precisa que os desafios de futebol tomavam por vezes um carácter "ideológico": "A nossa formação era anticlerical. Nunca fomos à missa. Na escola,
para não assistirmos às aulas de religião, era necessário fazer um pedido expresso, e nós fazíamo-lo. No Verão, formávamos duas equipas de futebol: os que acreditavam
em Deus e os que não acreditavam, entre os quais nos incluíamos. Se os crentes ganhavam, celebravam o acontecimento como uma vitória contra os infiéis"37. As batalhas
à pedrada ou até com cavilhas de aço também tinham a sua conotação social, senão mesmo política: "Os nossos pais davam-se mais com gente rica e nós com os pobres",
acrescenta Roberto. "[...] A maior parte dos miúdos do nosso grupo era de origem popular. Os filhos dos comerciantes, de um nível económico mais elevado, andavam
a cavalo. Nós andávamos a pé. As batalhas travavam-se então com fundas. Ernesto batia-se como um leão [...]. Lembro-me de uma pedrada (ou cavilha?) que lhe fez um
buraco no pé... O meu pai levou-o a coxear"38.
A audácia do rapaz manifestava-se nas mais inesperadas ocasiões. O seu primo Fernando Córdova, o filho do poeta comunista, conta que um dia, em
1937, tendo Ernesto apenas 9 anos, ao regressarem de um passeio, encontraram pelo caminho um carneiro de grandes cornos retorcidos, conhecido na região pela sua
agressividade. "Roberto e eu fugimos a correr, mas Ernesto decidiu enfrentá-lo. O carneiro derrubou-o e fê-lo rebolar no chão, mas quando o pessoal que chamámos
acorreu, era o carneiro que fugia de Ernestito"39.

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Vingar-se da asma

Esta intrepidez, este lado desafiador da morte, esta ânsia de vencer a todo o custo apesar das crises de asma são já, no rapaz, características de um verdadeiro
gosto pelo perigo, que virá a confirmar-se na idade adulta. Quando vai com os pais, os primos e os amigos tomar banho, no Verão, nas águas frias de uma torrente
da montanha que, mais calmas num determinado ponto, formam um pequeno canal natural, com seis ou sete metros de largura mas apenas com dois metros de profundidade,
é sempre ele que, sob o olhar inquieto de todos, trepa ao rochedo mais musgoso e escorregadio, cinco metros a pique sobre a água e se lança num "salto mortal".
Quando mais tarde, com o seu amigo Alberto Granado, parte em excursão pela serra com outros amigos, é ainda ele que se diverte a assustar toda a rapaziada, fazendo
o pino e avançando assim ao longo do parapeito de uma ponte de caminho-de-ferro, a vinte metros de altura. Há uma fotografia que o mostra também a caminhar calmamente
sobre um tubo atravessado numa ravina de quarenta metros de profundidade.
De facto, tudo parece servir para se vingar da asma, e uma vez que as crises reproduzem a morte por asfixia, aproximemo-nos mais dela quando a asma não está presente,
e treinemo-nos... Na elegante piscina do Sierras Hotel, o pai vigia o banho dos filhos durante a manhã. De facto, a natação, em dose razoável, é recomendada para
alargar a caixa toráxica e regularizar a respiração asmática. O que o pai ignora é que, à tarde, Ernesto volta lá sozinho para fazer os seus cem comprimentos sem
controlo de qualquer espécie, para além daquele que os seus companheiros lhe prestam, contando as idas e as vindas.
Outro caso revelador dessa fúria de vencer. Sempre vencido nos campeonatos de pingue-pongue do Sierras Hotel pelo número um, Rodolfo Ruarte, Ernesto desaparece durante
dois meses, treina-se em casa numa mesa improvisada e depois regressa para desafiar o adversário. Desta vez, é ele o vencedor. "Tinha uma vontade de ferro", conclui
Ruarte, que nunca esqueceu essa partida.40
Os testemunhos da época mostram-no pronto a embarcar nas mais insólitas aventuras, nas lutas mais renhidas. Por vezes, a asma vem cortar esta energia, e o pai recorda
uma tarde em que os companheiros o trouxeram para casa em braços, porque uma crise o paralisara. Mas, geralmente, corre como uma lebre, como o prova um dia passado
a ultrapassar constantemente Zacharias, um rapaz de quinze anos, seis anos mais velho, vendedor ambulante, vencedor de uma maratona local. O pai de Ernesto tinha
mandado esse tal Zacharias buscar o filho, que tinha fugido para escapar a uma reprimenda paterna, pois respondera torto à mãe. Foi o maratonista que regressou esbaforido,
sem ter conseguido apanhá-lo.
Quanto às brigas a soco entre rapazes, parece que foram muitas, e violentas. Uma vez, a disputa travou-se entre os clássicos "polícias" e "ladrões".

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Mas o adversário, sem dúvida "ladrão", tem ainda uma verdadeira algema agarrada ao punho direito, e cada soco que desfere é aumentado pela algema livre, que balança.
Contudo, Ernestito acaba por ganhar, muito orgulhoso mas bastante magoado. Outra vez, é um parceiro, não menos desleal, que, sentindo-se vencido, morde Ernesto com
tal força que é preciso ir chamar o pai para que este liberte a mandíbula inimiga de uma dentada que durante muito tempo deixou marcas na carne do rapaz, cujo aspecto
poderia talvez parecer frágil, mas cuja resistência física era fora do comum.
Encorajado pelos pais, sobretudo pela mãe, Ernesto não cessará de domar o corpo e a vontade. Praticará, por vezes até ao extremo, todos os desportos da época, considerados
como "desportos de luxo" mas cujo acesso não é difícil para os Guevara que, apesar das suas dificuldades económicas, obstinadamente consideradas como passageiras,
mantêm um comportamento de burgueses de vida desafogada. O rapaz poderá assim entregar-se aos prazeres desportivos, cuja lista é impressionante: ténis, equitação,
esgrima, natação - modalidade "mariposa", a mais violenta -, golfe, boxe - o verdadeiro, muito diferente das zaragatas de rua - pelota basca, râguebi, alpinismo,
etc. Tudo isso perfeitamente contra-indicado para quem sofre de asma, a qual se manifesta em intervalos irregulares, mas frequentes. De facto, muitas vezes as crises
obrigam Ernesto a um repouso absoluto e a longas sessões de fumigação. Durante esses períodos, que podem prolongar-se por vários dias, o rapaz lança-se então, como
um bulímico, sobre todos os livros que encontra à mão, da forma mais desoordenada: aventuras, romances, viagens, ensaios filosóficos...
A sua avó americana, Ana Isabel, a ateia, embalara-o em pequenino com a saga familiar, evocando a tirania do ditador Rosas, que expulsara os seus antepassados para
a Califórnia. Sonhou com os ataques dos índios quando seu avô geógrafo, Roberto Guevara Castro, traçava a fronteira entre as províncias argentinas de Chaco e de
Santiago del Estero, no norte do país, ou procedia ao cadastro da província de Mendoza, no sopé da imensa cordilheira de Andes. O exotismo dos trópicos, ainda pouco
explorados, era também moeda corrente e recorrente nas conversas de família, visto que era das plantações de yerba mate de Misiones que, como se sabe, provinha uma
parte dos recursos dos Guevara. Terá o adolescente apanhado algumas frases soltas entre o seu tio Córdova Iturburu e os amigos, "intelectuais de esquerda", próximos
do anarquismo - Roberto Arlt, Ernesto Sábato... -, que vinham à serra, no Verão, prosseguir os debates iniciados no Inverno, nos cafés de Buenos Aires? Sabe-se apenas
que Ernesto Guevara não perderá o contacto com Sábato.
Ao imaginário doméstico, acrescenta o que é alimentado pelos romances de Alexandre Dumas, Jack London, Stevenson, Júlio Verne, Salgari, e tantos outros. "É muito
simples", explica o seu irmão Roberto, "vi-o ler sistematicamente toda a biblioteca que tínhamos em casa. A biblioteca inteira. Havia entre outras, uma História
Contemporânea em 25 volumes. Ele leu-a; uma biblioteca filosófica em 40 grossos fascículos baratos. Também a leu, e posso garantir-vos que compreendeu tudo. Era
um maníaco da leitura".41

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Por seu turno, José Aguilar conta o espanto do seu pai, médico, ao ver Ernestito, com apenas 15 ou 16 anos, mergulhado na obra de Freud42. Cerca de treze anos mais
tarde, a 5 de Dezembro de 1956, três dias depois de ter desembarcado em Cuba com Fidel Castro e os seus guerrilheiros, quando, jovem médico argentino da expedição,
Guevara é ferido no pescoço pelos soldados do ditador Batista e se considera "lixado", é uma recordação de leitura que lhe vem à memória: "Lembrei-me de um velho
conto de Jack London: o herói, apoiado num tronco de árvore, dispõe-se a acabar os dias com dignidade, sabendo-se condenado a morrer de frio nas zonas geladas do
Alasca"43. Admirado por Lenine, aplaudido por Trotski, que classificava O Tacão de Ferro como um romance visionário, J. London marcou, para além de Guevara, várias
gerações da primeira metade do século xx. "Recordo-me da excitação que sentia aos catorze anos ao ouvir pronunciar o nome de Jack London", escreve Henry Miller nos
Livros da Minha Vida. "Para os que têm ânsia de viver, ele era um poderoso farol e era apreciado tanto pela sua firmeza revolucionária como pela vida aventurosa
que levou."
Sede de viver e generosidade social são os sentimentos que, acerca do seu primo, Carmen Córdova, chamada La Negrita*, transmite nas suas memórias, quando completa
o retrato literário do adolescente, sublinhando o quanto ele gostava de poesia, de Pablo Neruda, de Baudelaire e sem dúvida dela própria. Sabia de cor poemas dos
espanhóis vítimas da repressão franquista, García Lorca, Miguel Hernández, Antonio Machado. Do chileno Neruda, que estava ainda longe do Nobel de 1972, tinha lido
quase tudo, tinha-se informado de tudo o que fora publicado sobre ele na Argentina. "Tratando-se, por exemplo, dos Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada,
podia recitá-los do primeiro ao vigésimo, sem esquecer, evidentemente, a canção desesperada"44. O que era, obviamente, uma maneira de fazer a corte a essa prima
encantadora, dois anos mais nova, que o escutava fascinada, e pela qual ele confessará um dia ao seu amigo Barrai ter estado apaixonado. Mais tarde, ele próprio
se aventurará a escrever poemas (que não são grande coisa).

* A alcunha nada tem de pejorativo. Basta ter os cabelos negros e a pele de tom mate para que, na América Latina, se seja baptizado de negro, negrita.

Até ao fim da vida, esse gosto pela poesia nunca o abandonará, e não hesitará em lançar um olhar poético em relação a circunstâncias e pensamentos absolutamente
insólitos. A Maria Rosa Oliver, escritora argentina com quem se avistará em Cuba, chega mesmo a afirmar, sem qualquer outro comentário, que em Marx "sentia perpassar
o mesmo poder de inspiração que em Baudelaire"45. Quanto aos 2316 versos do Martin Fierro, "canção de gesta" da Argentina rural, tecida de reflexões de bom senso
transformadas em provérbios, hino à triste sina do infeliz gaúcho desaparecido, Ernestito conhecia páginas inteiras, como todo o bom cidadão argentino. O seu ecletismo
era tal que devorava também autores norte-americanos "empenhados", como Steinbeck ou Faulkner, rivalizando nessa proeza com o seu amigo Alberto

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Granado, também ele grande leitor. A este último, que põe em dúvida que ele tenha lido Luz de Agosto, de Faulkner, que em 1945 ainda não tinha sido traduzido em
espanhol, ele responde, imperturbável: "Claro, li-o em francês..."46. Porque, além do mais, este rapaz teve o privilégio de aprender, desde tenra idade, a língua
de Descartes, graças à mãe, educada, como é sabido, num colégio de freiras francês.
Em Buenos Aires, onde prosseguirá os estudos, voltará a encontrar La Negrita, a prima predilecta, e voltará a falar-lhe de literatura, dando mostras da mesma memória
prodigiosa. "Sentávamo-nos nos degraus de mármore da escada (ele morava no primeiro andar) e, ali, falávamos horas e horas", conta ela. "Às vezes, ele dizia-me:
lembras-te de um capítulo que começa assim?... e recitava-me de cor um capítulo inteiro do D. Quixote, por exemplo. De Neruda, conhecia toda a Residência na Terra.
Como eu também gostava de Cervantes, apercebi-me de que a prosa de certos capítulos estava escrita em octossílabos. Então ele citava, à escolha, os que eram em octossílabos
ou outros em decassílabos. Era incrível..."47.
Em Alta Gracia, Ernestito terá vivido uma infância feliz numa família boémia, informal, libertária dos quatro costados e liberal em extremo. Todos entram e saem
de casa à vontade. Cada um se desenrasca, desde muito novo, faz a cama, ou não faz. É uma barafunda tal que, em casa dos primos Córdova, ficou célebre a expressão
da velha criada para designar a confusão total: "Parece a casa dos Guevara". Bastante excepcionais, cada um no seu género, os pais têm outras prioridades e deixam
andar, desde que isso não incomode demasiado a comunidade. É certo que não podem fazer totalmente tábua-rasa do meio social de onde provêm. Conhecem os hábitos,
sabem que fazem parte, quer o aceitem ou não, das "boas famílias" argentinas. Mas sem paternalismo, com uma simplicidade sincera, recusam-se a admitir qualquer barreira
social: filhos de miseráveis ou de burgueses são recebidos em sua casa com a mesma bonomia e se, como frequentemente sucede, os filhos trazem amigos à hora do chá,
partilha-se à vontade o que há sobre a mesa. De facto, todos concordam em afirmar que os Guevara constituem uma família alegre, aberta, sem dúvida original, e bastante
simpática.
Quando a ocasião se apresenta, nem o pai nem a mãe desdenham um certo gosto pela provocação, traço de carácter que Ernestito não deixará de manifestar em certas
circunstâncias. O pai conta, por exemplo, como, durante um cocktail muito requintado no Sierras Hotel, Ernesto e o irmão apareceram, rodeados de um bando de maltrapilhos,
sujos, mais ou menos desgrenhados.
Encorajados por uma piscadela de olho cúmplice, lançaram-se descaradamente sobre o bufete sumptuosamente servido. Para grande escândalo das senhoras organizadoras.
Como vimos, o casal Guevara não se preocupava muito com a gestão do seu património. "Viviam gastando sistematicamente aquilo que possuíam", observa, com certa indulgência,
Carmen Córdova48. Carpe diem parece ter sido o seu lema. Aproveitemos cada instante da vida e sem fazer grande

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banzé. O que explica que todos os Verões, a partir de Dezembro ou Janeiro, seja qual for a situação financeira, a pequena tribo empreenda a sua migração anual, primeiro
para a estancia da avó, em Portela, em plena Pampa - vida de campo ao ar livre, cavalo, banhos, passeios de charrette e grandes assados, esses churrascos gigantes
em que os peones assam em brasas um pedaço de carne de vaca, uma delícia - em seguida para Mar del Plata, a estação balnear elegante da Argentina, quatrocentos quilómetros
a sul de Buenos Aires, com belíssimas praias e ar cheio de iodo, mas de águas frias, porque uma corrente fria do pólo atravessa o Atlântico Sul.
Os três dias de viagem - mais de mil quilómetros, geralmente por estradas de terra batida ou de cascalho - são feitos numa velha carripana resistente que tem um
nome, "La Catramina", pois faz também parte da família. É um grande descapotável Chrysler-Maxwell, modelo de 1926, todo amolgado, de cor indefinida ao longo dos
anos, mas que, dotado de uma "suspensão de camião", passa praticamente por todo o lado e marca a sua chegada com sonoros estampidos; a sua panela de escape está
praticamente desfeita. Célia, a mãe, utiliza-o no Inverno para levar as crianças à escola, enchendo-o com todos os miúdos que lá possam caber. É nessa geringonça
a toda a prova que Ernestito cedo aprenderá a guiar. "Sempre que me ausentava", escreve o pai, "Ernesto e os amigos pegavam no carro e iam dar uma volta. Toda Alta
Gracia estava ao corrente, excepto eu"49.
Depois do clima seco da Serra, o vento marítimo do Atlântico tem efeitos benéficos sobre a asma de Ernesto. De forma que, apesar do custo elevado da vilegiatura,
os Guevara procuram fazer aí todos os anos uma estada mais ou menos longa, alugando durante dois meses um andar inteiro de um hotel decente. Os encontros rituais
com o Atlântico explicam que, mais tarde, Ernesto, criado na serra, possa contudo dizer que, para ele, "o mar é um velho amigo".

Uma Argentina pró-nazi

Nas suas memórias um tanto desordenadas sobre si próprio e sobre O Meu Filho, o Che, o pai, Guevara Lynch, insiste na sua acção antinazi e garante que desde os dez
ou doze anos, o filho fez questão de colaborar também. É provável que o miúdo, já sensibilizado pelo combate dos "bons" contra os "maus" através das tomadas de posição
da família, antifranquistas, por ocasião da guerra de Espanha, tenha sido seduzido pelo lado um tanto clandestino de "contra-espionagem de aventura" das operações
efectuadas pelo pai para sondar e descobrir na região de Córdova os pontos de apoio logísticos favoráveis a uma eventual "penetração nazi" na Argentina. Juan Miguez,
seu companheiro de brincadeiras, recorda-se dos soldados de chumbo contra os quais se entretinham a disparar. "Ernesto declarava que um era o Hitler e o outro Mussolini.
E tentávamos derrubá-los com uma espingarda de pressão de ar"50.

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De facto, muito antes do desencadear da Segunda Guerra Mundial, as autoridades argentinas não escondiam a sua simpatia pelas doutrinas de Hitler e de Mussolini.
E mesmo que, por puro oportunismo político, a Argentina, sem temer o grotesco, tenha declarado guerra à Alemanha in extremis, apenas alguns dias antes da capitulação
de 8 de Maio de 1945 e da vitória dos Aliados, os nazis sabiam que dispunham, nesse país dos antípodas, de uma zona de operações bastante segura e, em caso disso,
de uma base de apoio acolhedora. Trata-se de um aspecto ainda bastante obscuro da história da Argentina. Foi necessário aguardar 1992 para que, aceitando abrir os
seus arquivos, as autoridades argentinas permitissem que fosse possível ter uma ideia da amplitude do apoio concedido aos nazis e aos seus aliados, antes, durante
e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial.
Em 1939 dá-se um episódio revelador dessa benevolência particular em relação ao Reich. Perseguido por três cruzadores da Royal Navy britânica, o couraçado alemão
Graf-Spee refugia-se no Rio da Prata. O seu comandante manda evacuar os 1039 membros da tripulação para as costas da Argentina antes de fazer explodir o navio ao
largo de Montevideu e de disparar uma bala na têmpora. Os marinheiros dispersar-se-ão, entre outros pontos, pela serra de Córdova, no belo vale de Calamuchita, onde
muitos dos seus descendentes se fixaram a partir de então.
Guevara Lynch, que fundou em Alta Gracia uma filial da Acción Argentina, organização nacionalista antinazi, leva o pequeno Ernesto a vigiar discretamente com ele
os movimentos dos militares alemães que, embora desarmados, continuam a treinar-se sob o comando dos seus oficiais. Detecta uma bandeira com a cruz gamada que flutua
por uns dias no alto de uma colina, descobre que à entrada de cada ponte se encontra uma casa ocupada por um alemão possuidor de dinamite e que, a partir de um hotel
da aldeia de La Falda, bastante próxima, funciona um potente emissor que comunica com Berlim...
As denúncias da Acción Argentina conduzirão mais tarde, em 1943, ao relatório à Câmara dos Deputados de uma comissão de inquérito sobre as actividades antiargentinas,
dando conta de múltiplas acções de espionagem efectuadas pelo Reich na Argentina, sob a capa dos clássicos gabinetes de Turismo e dos Caminhos-de-Ferro da Alemanha,
com a cooperação dos não menos clássicos adidos de embaixada alemães colocados em Buenos Aires. Mas a repercussão desse relatório, em breve abafado, foi mínima e
provocou, quando muito, a partida de alguns diplomatas nazis, demasiado queimados. A complacência do governo militar da época para com nazis e fascistas não foi
de modo nenhum afectada, tanto mais que, a partir de 1942, Goebbels, apercebendo-se do papel geopolítico da Argentina como base estratégica no continente americano,
não hesitou em transferir para Buenos Aires reservas importantes. Após a derrota alemã, os magnatas nazis Freude e Mandl, amigos de Perón, irão gerir esse tesouro
de guerra - ouro, diamantes, divisas, centenas de milhões de dólares - que submarinos alemães teriam escoltado até às costas argentinas. Freude, nessa época conselheiro
do Banco Central da

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Argentina (cujos arquivos ainda não tinham sido abertos em 1996), foi um dos agentes que, a partir de 1946, criaram sociedades destinadas a branquear esses capitais
e, de passagem, a financiar parcialmente a campanha eleitoral de Perón, candidato a um primeiro mandato presidencial.
De facto, quando o corajoso Guevara Lynch leva consigo Ernestito para detectar, da forma mais artesanal, os nazis instalados na província de Córdova, mais não faz
do que entrever um pequeno fragmento do que virá a ser uma das grandes questões do pós-guerra: o acolhimento e a protecção, não declarada mas real, de mais de 40
000 nazis em trânsito para Buenos Aires, graças ao apoio da Cruz Vermelha Internacional e do Vaticano, entre os quais mais de cento e cinquenta criminosos de guerra,
que conseguiram escapar ao processo de Nuremberga: Eichman, Mengele e outros, Erich Priebke51...

Córdova, a revolucionária

No início do ano escolar de Março de 1942, Ernesto, que vai fazer 14 anos, volta a mudar de escola. Desta vez é para entrar no secundário. Terá então de ir todos
os dias sozinho, como uma pessoa crescida, a Córdova, capital de província, a 40 quilómetros de Alta Gracia - três quartos de hora de comboio ou de autocarro, através
de uma estreita estrada de montanha. A escolha limita-se a dois colégios. Um, elegante, o Monserrat, é normalmente reservado aos filhos-família. Logicamente, o lugar
de um Guevara de la Serna é aí. O outro, o colégio estatal Dean Funes, é muito mais popular, "laico e republicano", claramente de esquerda e considerado pela "gente
bem" como um "viveiro de revolucionários". É aí que Ernesto irá fazer os cinco anos de estudos que o levarão ao bachillerato (grau académico equivalente ao ensino
secundário completo). É também aí que contrairá novas amizades, algumas das quais muito fortes.
Vários dos seus condiscípulos conservaram uma recordação nítida desse novo aluno, que não se parece com os outros, e cuja desenvoltura e independência de espírito
são surpreendentes. Aos 14 anos, ainda não é muito alto. De facto, usará calções até aos 16 anos. "Os Guevara só começam a crescer a partir dos 15 anos"52, diz a
mãe. Aos dezassete anos, numa noite de Verão, veste-se para parecer mais velho e entrar no casino de Mar de la Plata. Tempo perdido. Tem ainda um ar tão jovem que
os porteiros lhe barram a passagem. Apesar da sua fragilidade aparente, impressiona toda a gente pelo seu olhar decidido, por vezes malicioso, pela sua inteligência
fulgurante, pela originalidade do seu comportamento. Nessa pequena sociedade de província, em que os jovens assumem ainda os valores paternos e as normas que distinguem
"o que deve fazer-se" do "que não se deve fazer", o aluno Guevara arvora um desprezo soberano por aquilo que poderão dizer.
Um dos seus companheiros de turma, Domingo Rigatusso, de ascendência italiana, não esquece como Ernesto se distinguia dos demais. Em plena

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Segunda Guerra Mundial, apesar do afastamento geográfico e da neutralidade oficial da Argentina, cada um era sumariamente catalogado e classificado quer no campo
dos Aliados quer no campo dos seus adversários. "Eu era mais a favor do país dos meus pais. Ernesto chamava-me tano* fascista. Era um tipo de uma inteligência e
de uma memória excepcionais. Um dia, o professor de Matemática, um engenheiro-geómetra, apresentou-nos um teorema, dando apenas a hipótese. Perguntou se alguém era
capaz de desenvolver a tese. Guevara levanta-se, vai ao quadro e, exceptuando uma pequena correcção, desenvolve a tese de uma ponta a outra como se a conhecesse,
quando nem sequer a tinha lido [...]. Chamavam-lhe el Pelao (tosquiado) porque, ao contrário de todos nós, que usávamos o cabelo comprido e às vezes um pequeno rabo
de cavalo, que estava na moda, ele usou sempre o cabelo muito curto, apenas com uma madeixa à frente"53.

Nota: * Tano é a abreviatura pejorativa de italiano. Os franceses diriam "rital". Juntamente com os espanhóis, os italianos constituem na Argentina o mais importante
contingente da imigração europeia chegada ao Rio da Prata a partir do final do século XIX.

As viagens quotidianas a Córdova não melhoram a asma do rapaz, mas agora ele sabe lidar com essa desvantagem. Passou o tempo em que, em caso de brigas com os primos
ou os amigos do grupo, a arma secreta da rapaziada era despejar-lhe um balde de água na cabeça. "Tinha um espasmo fortíssimo e a batalha estava ganha. Mas com que
crueldade!..."54. Agora ele dispõe dos seus apetrechos. "Sentava-se muitas vezes ao meu lado", prossegue Rigatusso, "e tinha sempre o nebulizador à mão. Mas às vezes
a crise era tão forte que tinha de dar uma injecção a si próprio. Sem sair da aula, à minha frente, agarrava na coxa e espetava-lhe a agulha [...]. E depois não
hesitava em fumar durante as aulas os cigarros antiasmáticos do Dr. Andreu. Tinham um cheiro penetrante que invadia a sala. Mas não podiam dizer-lhe nada devido
ao seu problema..."55. A indulgência dos professores explica-se talvez pelo facto de se tratar de uma pessoa extraordinariamente dotada. "Geralmente, os professores
gostavam muito dele, apesar de ele ser contestatário. Discutia os seus pontos de vista quando não estava de acordo, mas sem nunca lhes faltar ao respeito", recorda
Tomás Granado, que virá a ser um dos seus melhores amigos.56 Outro condiscípulo observa: "Aprendia com toda a facilidade. Às vezes chegava à turma sem saber qual
era o tema da aula. Pedia um ou dois esclarecimentos breves e, se era interrogado, saía-se brilhantemente, como um verdadeiro erudito"57. Contudo, Ernesto estava
longe de ser um aluno-modelo. Muitas outras coisas o absorviam: o desporto, a literatura, o xadrez, a grafologia, o desenho, os grandes passeios na montanha, a pé
ou de bicicleta, e até a política, sem ser ainda uma grande paixão, mas como qualquer coisa de natural numa família politizada como a sua.
Ao fim de um ano, em 1943, após algumas atribulações infrutíferas para se aproximar de Córdova sem no entanto lá entrar, a pequena tribo decide mudar de vez - enésima
migração - e instala-se em plena cidade. Primeiro porque as idas e vindas quotidianas de Alta Gracia fatigam Ernesto, depois

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porque a mãe espera um quinto filho e porque o pai conseguiu voltar a trabalhar, associando-se a um arquitecto da capital da província. A casa de Córdova, na rua
Chile, 288, onde viverão cinco anos, será quase tão célebre no folclore familiar como a famosa Villa Nydia, tão incómoda mas tão acolhedora. De construção recente,
a nova residência é vasta - grande pátio (sem jardim), grandes janelões - e sobretudo fica perto do jardim zoológico, em torno do qual gravitam vários clubes desportivos,
garantia de prazeres ao ar livre para os Guevara que, há onze anos, adquiriram o hábito de viver praticamente no campo. Na Argentina, os clubes desportivos têm,
evidentemente, a vocação de permitir a prática de toda a espécie de actividades desportivas, mas também de receber as famílias que lá passam o dia, organizando frequentemente
o asado dominical (churrascos tradicionais da "melhor carne do mundo") e participam nas clássicas manifestações sociais, jantares, encontros, cerimónias desportivas
ou patrióticas, etc.
Apesar das suas qualificações de empreiteiro, o pai não se apercebe de um defeito de construção fundamental: o edifício não tem alicerces sólidos e assenta num terreno
movediço, próximo de uma ravina. O que explica o aparecimento progressivo de enormes fissuras nas paredes e nos tectos. "Recordo-me que, da minha cama, podia ver
a noite estrelada através de uma fenda no tecto", escreve com toda a serenidade Guevara Lynch que, todavia, tem o cuidado elementar de afastar das paredes as camas
dos filhos "em caso de desmoronamento"58. Carmen Córdova, a prima, conta, ainda achando piada, que um dia, quando almoçavam no rés-do-chão, começou a cair uma "pequena
chuva" do primeiro andar, cujo sobrado estava bastante desconjuntado. Era Negrina, a cadela de estimação de Ernesto, que satisfazia uma necessidade natural. Espanto
divertido dos convivas, sem mais nenhum incidente de maior... "Uma autêntica família de boémios"59.
A casa apresenta uma outra curiosidade: estar situada num bairro residencial, a vinte cuadras* do centro da cidade, mas também próxima de uma zona de construção
difícil, devido à fragilidade d
os solos. Instalam-se então aí barracas ocasionais, onde se refugiam os mais pobres dos sem-abrigo. Ernesto e os irmãos e irmãs estabelecem naturalmente amizade
com os miúdos desse bairro da lata. O que nem por isso os impede de estarem inscritos no Lawn Tennis Club, mais próximo, mas altamente selecto, por vezes anti-semita,
nem de continuarem a praticar um desporto como o golfe, sinal clássico de pertença a uma elite.

Nota: * A cuadra é a distância (100 metros) atribuída pelos espanhóis aos lados de cada grupo de casas na quadrícula dos planos urbanísticos coloniais.

"Tinha comprado, perto do Golf Club, uma casa de campo em Villa Allende, uma pequena vila onde os habitantes de Córdova gostavam de vir descansar", escreve o pai.
"Ernesto adorava o golfe e jogava bastante bem"60. A ambivalência social e económica da família Guevara está talvez simbolicamente resumida nesta geografia, sem
dúvida ao acaso mas que a situa

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precisamente na fronteira entre dois tipos de sociedade, alta burguesia de um lado, proletariado semi-urbano do outro. As crianças não dão qualquer importância a
essas diferenças. Comovem-se antes com o nascimento, em 1943, do último irmão, Juan Martin, quinto rebento que durante muito tempo será conhecido pela alcunha de
Patatín e pelo qual Ernesto, quinze anos mais velho, sentirá sempre uma ternura especial.

Louco pelo râguebi

Tendo-se tornado amigo de Tomás Granado, Ernesto (14 anos) conhece o irmão mais velho deste último, Alberto (20 anos), que formou um grupo de râguebi, Estudiantes,
e recruta voluntários. Até aí, o jovem Guevara entusiasmara-se sobretudo pelo futebol e, para se distinguir dos clássicos adeptos de Boca Juniors ou do River Plate,
as duas equipas eternamente rivais de Buenos Aires, declarou que a sua equipa favorita seria a de Rosário Central, cujos membros eram qualificados de canallas, o
que não deixava de lhe agradar. Afinal de contas, foi em Rosário que nasceu, apesar de não ter vivido lá.
Importado para a Argentina no fim do século XIX pelos britânicos, donos dos bancos e dos caminhos-de-ferro, o râguebi era ainda pouco praticado na província, nos
anos quarenta. Os clubes elegantes ainda não tinham descoberto o seu aspecto "aristocrático". Alberto Granado faz ao jovem Ernesto o teste habitual que concebeu
para avaliar a capacidade de aparar os golpes quando surgem candidatos a esse "desporto de marialvas jogado por cavalheiros". Manda-o saltar, de cabeça para a frente,
por cima de um cabo de vassoura colocado entre duas cadeiras e avançar a rebolar sobre o cimento do pátio. "Ernesto não estava ainda suficientemente desenvolvido,
era um pouco magricela e não muito alto para a sua idade. A asma quase o impedia de falar. [...] No entanto, não foi uma, mas catorze vezes que se lançou a rebolar
pelo cimento [...]. Vi que era um rapaz decidido, um tipo tenaz, capaz de aguentar"61, afirma Alberto Granado.
Na equipa Estudiantes de Córdoba, Ernesto irá ocupar o posto de três-quartos ala, número 11 no râguebi de 15. Ao contrário dos "transportadores de pianos" das poderosas
linhas de avançados, ele faz parte dos artistas, "tocadores de piano" das linhas médias, corredores rápidos, peritos em passes hábeis, encarregados de evitar as
placagens para marcar os ensaios. Apaixona-se por este desporto viril e solidário, mesmo se por vezes a asma o obriga a ir a correr aspirar umas baforadas do nebulizador.
Alguns anos mais tarde, estudante em Buenos Aires, publicará, com o seu irmão Roberto e alguns amigos, uma pequena revista, Tackle, onde evocará as suas primeiras
experiências como jogador de râguebi: "Éramos uma dezena de voluntários e procurávamos detectar, entre os curiosos que andavam por lá, alguns tipos audaciosos capazes
de se juntarem a nós. Entrávamos em campo sempre de olho na nossa roupa, com medo que a

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roubassem..."62. Do râguebi, Ernesto conservará pelo menos o cognome inventado por Granado, para o avisar quando a bola vai sair da formação: "Fuser!", contracção
de fu (furibundo) e ser, de Serna, seu segundo apelido por parte da mãe.63
Como sempre, a asma leva-o a alternar períodos de actividade física intensa, no limite do que pode ser exigido a uma caixa torácica caprichosa, e períodos de repouso
mais ou menos longos, que ele aproveita para fazer mil e uma coisas: ler, ler, ler, mas também exercitar-se na grafologia, seguir um curso de desenho por correspondência
ou jogar xadrez, chupando mates. Tal como o pai, amador esclarecido, Ernesto interessou-se bastante pela grafologia, sem o dizer a ninguém. Foi encontrado um caderno
de juventude - jardim secreto - onde, de ano para ano, reproduziu a mesma frase de forma a avaliar as suas mudanças de letra. Numa série de folhas volantes, a passagem
repetida, cuja escolha ganha, com o recuo no tempo, um significado particular, evoca a virtude do sacrifício individual quando a causa é nobre. O texto, retirado
manifestamente de um livro de história da Revolução Francesa, exalta a coragem perante a morte de um herói não identificado, mas no qual seria possível reconhecê-lo:
"Creio ter a força necessária - estou agora convencido disso - para subir ao cadafalso de cabeça erguida. Não sou uma vítima. Sou uma parte do sangue que fertiliza
a terra de França. Morro porque devo morrer para que o povo viva..."64.
Quando era ainda criança em Alta Gracia, Ernesto aprendera com o pai os rudimentos do jogo de xadrez. À medida que vai crescendo, o seu fascínio pelas subtilezas
dessa estratégia sábia irá aumentar e o aluno em breve ultrapassará o mestre. Em Córdova dedica-lhe muitas horas e acaba por ser um campeão. Um Verão, de férias
em Mar de la Plata, participa mesmo numa partida que o campeão da Argentina, Miguel Najdorf, disputa contra quinze adversários em simultâneo. Cerca de dez anos depois,
em Cuba, Guevara irá organizar uma partida onde, com mais nove jogadores, entre os quais se encontravam destacados membros do governo, defrontará o mesmo Najdorf.
Este, de regresso à Argentina, confessará: "Bati-o por pouco, e propus-lhe um empate. Ele respondeu-me: "Maestro, já me venceu em Mar del Plata, quando eu era estudante
de Medicina. Desta vez, prefiro voltar a perder ou então tirar a desforra". [...] Era bastante bom", conclui o campeão argentino, que garante ter visto em casa de
Guevara uma biblioteca de quinhentos livros sobre xadrez. "Preferia o jogo ofensivo e não hesitava em sacrificar peões, mas sabendo o que estava a fazer. Podia ser
classificado na primeira categoria"65.
Em Córdova, Ernestito encontra Gustavo Roca, filho do famoso advogado Deodoro Roca, que foi o mestre "em rebeldia" de toda uma geração de estudantes, proclamando,
cinquenta anos antes dos seus descendentes europeus de Maio de 1968, que era "proibido proibir". São eles que obtêm em 1918 uma reforma universitária, única no género,
que fará história na América Latina. Pela primeira vez, era formalmente estabelecida não só a

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autonomia da universidade em relação ao poder político mas também o princípio da participação democrática e colegial dos estudantes, professores e pessoal administrativo
nas decisões da universidade.

"Já te apareceu?..."

Do que o filho de Roca se recorda é da personalidade singular do jovem Guevara, mais novo que ele. "Era original em tudo. Era um anticonformista..."66. Ernesto ia
pesquisar na biblioteca do seu pai e não se contentava em ler sistematicamente todos os livros ali encontrados; "Às vezes, levava-os para casa, o que era trágico
para os livros. Devorou assim a colecção das Mil e Uma Noites na sua versão não edulcorada, verdadeiramente escrabosa e erótica. Devia ter dezasseis anos"67.
Precisamente aos dezasseis anos, Ernesto vive o despertar da sexualidade da forma mais livre e natural. La Negrita reconhece que andava já namoro no ar, na época
em que a família das duas irmãs Célia e Carmen de la Serna, sempre muito cúmplices, viviam juntas em Alta Gracia e que um fiacre levava à escola todo o rancho de
primos e primas. "Eu e o Ernesto, dois anos mais velho do que eu, fomos sempre muito amigos. Gostei sempre e ainda gosto, de certas audácias, certos divertimentos.
E devíamos estar os dois um bocado apaixonados um pelo outro. Mas éramos apenas pré-adolescentes, ainda impúberes. Lembro-me de, num dia de Verão, num jogo das escondidas
em minha casa, nos termos escondido no fundo de um grande armário. E ali, à queima-roupa, fez-me uma pergunta que me deixou estupefacta: "Já te apareceu? Já veio?".
Eu percebi bem que aquilo que devia vir não era propriamente o Espírito Santo. Era a menstruação... Ele queria saber se eu já era mulher"68.
Os amores com Carmen serão sempre platónicos, apesar de existir uma grande afinidade intelectual. "Era tal e qual como no filme de Saura, A Minha Prima Angélica.
As nossas relações eram um misto de ternura, de descoberta de ideias, de literatura, de revolta contra a injustiça. Tudo isso nos ligava bastante"69. Mas tratando-se
de trabalhos práticos, o caso é diferente. Para a sua iniciação sexual, Ernesto não é muito diferente da maior parte dos meninos-família na Argentina dos anos quarenta:
clássico, recorre à criada. O seu irmão Roberto confessará mais tarde ao primo Fernando Córdova que Ernesto tinha obtido os favores de todas as criadas que passaram
por casa deles.70 Geralmente, nas boas famílias, explica La Negrita, era sempre a criada, normalmente uma rapariga de Santiago del Estero* que desempenhava o papel
de Madame de Warens com Rousseau.71

Nota: * província bastante pobre no Norte da Argentina, que fornecia o maior contingente de pessoal doméstico do país.

Apesar do seu lado um pouco selvagem, Ernesto, que parece apreciar a coisa - "Tinha como que uma obsessão", declara Carmen Córdova -, participa

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nos bailes. "Nós tínhamos treze, catorze anos, ele tinha quinze ou dezasseis...". Com Ernesto, o divertimento consistia em fazer troça da sua total falta de ouvido
musical. "Tratando-se de música, ele era um verdadeiro "surdo". Perguntava-nos: "E esta música, o que é?" Respondíamos-lhe uma coisa ao acaso: "É um fox-trot. 1-2,
1-2". Ele obedecia a esse ritmo, 1-2, 1-2, quando tanto poderia tratar-se de um tango como de uma polca. Mas ele não perdia o sentido de humor, era divertido. Dizia
que se se tratasse do hino nacional, aí não podíamos enganá-lo porque, pelo menos, reconheceria a letra [...]. O que era simpático da parte dele é que, quando íamos
dançar, ele convidava sempre as mais feias, para que não se sentissem mal..."72.
Há, no entanto, um pequeno problema para um adolescente preocupado em agradar às raparigas: o cuidado no vestir e a higiene corporal. Serão as suas duas extravagâncias,
pela vida fora. Ernesto nunca se preocupará muito em lavar-se e em cuidar da aparência. Já em miúdo era assim e parece que os pais não se preocuparam muito com isso.
É ainda a Negrita que conta a sua vida com os Guevara, na serra de Córdova, em 1937, enquanto o pai "cobre" a guerra de Espanha: "Em Alta Gracia, estivemos sobretudo
nas casas que davam para o campo de golfe, onde apanhávamos as bolas perdidas [...]. Quando chegávamos à escola primária, verificava-se se os alunos estavam limpos.
E, nesse ponto, as coisas não eram fáceis para Ernesto, pois ele parecia de relações cortadas com a higiene. Na verdade, lavava-se pouco, com receio do frio"73.
O pretexto do frio e das constipações não pega. Acontece simplesmente que o rapaz não gosta do sabão, sem dúvida porque tem mais que fazer, a menos que fosse uma
forma de afirmar o seu anticonformismo um tanto provocante em relação a uma norma estabelecida. "Gabava-se de se lavar pouco", reconhece o seu grande amigo Alberto
Granado. "Dávamos-lhe várias alcunhas - chamávamos-lhe el Loco, e também el Chancho (porco). Ele gostava de se exibir: "Há 25 semanas que não lavo o meu equipamento
de râguebi""74.
Um dia, o seu outro condiscípulo, "el tano" Rigatusso Domingo, que ganha uns cobres a vender caramelos à entrada do cinema Ópera de Córdova, vê-o chegar com uma
rapariga, numa farpela indescritível, enfiado num sobretudo dois números acima do seu tamanho, calçado com sapatos desemparelhados, que nunca viram uma ponta de
graxa. "Diz-me ele: "Che, estou com uma miúda". E eu: "Já viste bem a tua figura?"... Estava cá com um destes aspectos! Um autêntico desastre. Num dos bolsos do
sobretudo tinha um termo (de água quente, para preparar um mate), no outro biscoitos e côdeas de pão. Enfiava as mãos nos bolsos deformados e comia. E, nessa figura,
entrou no cinema com a rapariga"75. Ninguém se leva a sério aos dezassete anos.
Esses cinco anos passados em Córdova serviram-lhe, sem dúvida, para assimilar o programa escolar, mas sobretudo para tentar ultrapassar cada vez mais os limites
das suas capacidades físicas contra a desvantagem da doença e para adquirir uma cultura geral impressionante, que confundirá todos os seus interlocutores. Sempre
alerta, ávido de todos os conhecimentos, lê, escreve

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(poemas, diários, cartas a tias, à avó, aos pais), recorda-se de tudo, dos caminhos, dos passeios, das plantas e das árvores da serra, dos amigos da sua idade,
aos quais dedicará uma fidelidade exigente e irrepreensível. "Não era fácil ser amigo dele", dirá Alberto Granado, "porque a sua amizade era sempre crítica. Mas
possuía o sentido da amizade caracteristicamente argentino, uma coisa fundamental na vida"76. Calica Ferrer, outro amigo, cujo pai, médico fisiologista, "seguirá"
a asma de Ernesto, explica que, "sem o saber, foi em Alta Gracia e na serra de Córdova que ele se treinou naquilo que teria de enfrentar mais tarde: escalar montanhas,
montar a cavalo, nadar, aguentar o frio, o calor, aprender a desenrascar-se, a sobreviver. Tudo isso lhe foi muito útil. A partir dos 10 anos, íamos a cavalo, levávamos
uma tenda ou mesmo nada, instalávamos uma rede, dormíamos ao ar livre..."77.

Um fascismo à argentina

Os anos quarenta não foram nada calmos nessa Argentina longínqua, protegida da guerra pelo seu afastamento geográfico mas sem deixar de se interessar pelo desenrolar
das operações na Europa, de onde provinha o essencial da sua população imigrada. Quando em 1939 estala o conflito mundial, a Argentina é denunciada pelos nacionalistas
como "a melhor colónia do Império Britânico". Transportes, frigoríficos, centrais eléctricas, telefones, portos e silos estão ligados aos capitais de Londres, da
Europa e, em parte, dos Estados Unidos, que desejariam penetrar melhor no mercado. É por isso que a Inglaterra prefere uma neutralidade argentina, ainda que tingida
de simpatia pela Alemanha, em vez da sua entrada na guerra, que significaria a abertura do país à concorrência do perigoso rival norte-americano. Por seu turno,
os generais, quase todos formados segundo o modelo dos seus colegas da Wehrmacht, são mais sensíveis à fraseologia nacional-socialista alemã do que aos ideais de
defesa democrática, os quais, no fundo, mobilizam apenas uma frente antifascista heteróclita, onde alinham lado a lado os partidos de esquerda tradicionais implantados
na pequena-burguesia e os sectores que representam a grande propriedade rural e o capital inglês.
Assim, quando Ramón Castillo, presidente em exercício, tem o mau gosto de propor como seu sucessor um candidato disposto a declarar a guerra à Alemanha, é no meio
da indiferença geral que, em Junho de 1943, se dá um novo golpe. Na origem desse golpe de Estado sem brilho está uma célula militar, de inspiração fascista, até
então na sombra, o GOU (Grupo de Oficiais Unidos). O novo regime militar apressa-se logo a garantir a Hitler a sua neutralidade, tanto mais benevolente porquanto
a guerra na Europa se torna para a Argentina um bom negócio económico que irá apagar os efeitos da crise de 1929. Buenos Aires coloca em posição de vantagem os seus
produtos agrícolas, dita os seus preços, enche os seus cofres. As suas reservas de ouro e de divisas sobem em flecha.

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Nestas condições excepcionalmente favoráveis, surge o coronel Perón (46 anos), que toma conta da Secretaria de Estado do Trabalho e da Segurança Social, pouco cobiçada.
Fará desse cargo o seu melhor trampolim. Membro do GOU, formado nos métodos fascistas da Itália mussoliniana, onde fez umlongo estágio, próximo da Embaixada da Alemanha
que o apoiará financeiramente, é um homem astucioso que sabe dominar um temperamento um pouco ordinário para se mostrar afável e bem comportado, se for caso disso.
Cuidadosamente penteado, vestindo uma impecável farda branca, de sorriso hollywoodesco nos lábios, tem o mérito de ter compreendido antes dos outros que há, na Argentina,
uma massa politicamente disponível de trabalhadores rurais e semiurbanos tratados com igual desprezo por cabecitas negras pela gente fina ou por lumpen-proletariado
pelos partidos de esquerda. Utilizando habitualmente uma perfeita demagogia, Perón entusiasma essa massa majoritária decretando algumas medidas concretas de justiça
social, espectaculares, que irão abalar a paisagem social argentina: aumentos de salários, redução do horário de trabalho, décimo terceiro mês, indemnização por
doença, construção de habitações, organização em todo o país de sindicatos sob a direcção de oficiais inferiores, etc. Ao mesmo tempo, obtém a bênção da Igreja e
empenha-se em tranquilizar os possidentes. A 25 de Agosto de 1944, enquanto a burguesia de Buenos Aires chora de alegria perante o anúncio da libertação de Paris
e canta nas barbas dos militares uma Marseillaise ainda subversiva, ele declara com um cinismo desconcertante na Câmara do Comércio: "Senhores capitalistas, não
temam o meu sindicalismo; o capitalismo nunca estará tão seguro como agora [...]. As massas operárias que não estão organizadas são perigosas [...]. Se proporcionarmos
algumas melhorias aos trabalhadores, teremos uma massa fácil de manobrar [...]78. Promovido a ministro da Guerra e em seguida à vice-presidência do país, a sua popularidade
é tal que inquieta o aparelho militar, tanto mais que uma "coligação democrática", encorajada pela vitória dos Aliados, levanta a cabeça e organiza uma enorme marcha
da Liberdade. Perón é preso e demitido. Demasiado tarde. O movimento sindical que desencadeou ganha força. Exortados pela sua conselheira Eva Duarte, starlette inflamada
transformada em locutora de rádio na Radio Belgrano, os operários invadem num imenso caudal as ruas da capital e exigem a liberdade do "coronel do povo", seu amante.
É o histórico 17 de Outubro de 1945 dos descamisados, que passará a ser festa nacional do peronismo. Libertado, reintegrado, Perón força as leis e apresenta-se como
candidato "macho" proveniente da Argentina profunda, como o campeão de um sentimento nacional ultrajado contra um candidato radical, apoiado muito desajeitadamente
por Spruille Braden, embaixador dos Estados Unidos. Sem precisar de recorrer às clássicas fraudes eleitorais, Perón é conduzido à direcção do país em 1946. A partir
de então a Argentina ficará cortada ao meio: quem não for peronista é considerado inimigo, votado ao opróbrio. Instala-se uma espécie de maccartismo populista, que
controla tanto o ensino a todos os níveis como os meios de comunicação social.

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Enquanto vão surgindo nacionalizações à força (e a preço de ouro), enquanto a função pública é ocupada por todos os peronistas amigos, parentes ou aliados, são escorraçados
como "indesejáveis" dois terços dos professores universitários, sessenta jornais são suspensos, as rádios são vigiadas, os deputados da oposição são expulsos...
Os Guevara situam-se evidentemente num antiperonismo decidido. Em nome desse internacionalismo democrático que os levou a apoiar os republicanos espanhóis contra
Franco, fazem campanha contra Perón, cuja palavra de ordem "Sapatilhas sim! Livros não!" só pode escandalizar qualquer espírito bem formado. Célia, a mãe, é a mais
combativa. Faz parte de uma comissão franco-argentina de apoio à Resistência, exibe em sua casa uma fotografia do general de Gaulle, e não hesita, numa situação
extrema, em cantar em francês... a Internacional. Um dia, na praça San Martin em Córdova, não consegue conter-se ao ver desfilar milhares de peronistas e desata
a gritar: "Viva a liberdade! Abaixo Perón!" É logo presa. Enquanto, na esquadra, trata os polícias como agentes da Gestapo, o oficial faz-lhe notar com toda a calma,
que talvez, pelo contrário, lhe tenham salvado a vida. "Se não tivéssemos intervido, a esta hora já teria sido certamente linchada"79.
Juntamente com o marido, ela faz parte de um grupo antiperonista, de resistência civil, Monteagudo, que, inspirando-se nos maquisards franceses, fabrica explosivos
e edita panfletos. "Um dia", conta o pai, "Ernesto percebeu o que estávamos a fazer. Disse-me então: "Mete-me no grupo, porque senão participo sozinho...". Aceitei,
para evitar que ele se pusesse a fazer coisas à toa. Fui eu que lhe incuti o antiperonismo"80.
Ernesto acompanha o movimento, mais por espírito de contestação contra a ordem imposta do que para alinhar ao lado dos pais. Tomás Granado, o seu melhor amigo do
liceu, conta o episódio que põe em confronto o rapaz de 15 anos com a professora de História, senhora Beruato, que após o golpe de Estado de 1943 afirma que os militares
vão finalmente levar a cultura ao povo e aos pobres. Interpelado sobre os motivos do seu sorriso céptico, Ernesto responde sem pestanejar que duvida muito disso,
pois se o povo fosse culto não quereria militares. Pânico horrorizado da professora, que põe de imediato o aluno Guevara fora da aula. "Admirámo-lo muito, pois dizer
uma coisa destas em plena ditadura militar era muito arriscado"81. Em 1949, uma lei chegará mesmo a punir com pena de prisão qualquer "falta de respeito" (desacato),
crítica ou piada em relação a Perón ou ao seu governo.
Nessa época, Ernesto é aquilo a que se pode chamar um "reformista", isto é, ao contrário do que se entende hoje por isso, um discípulo da famosa Reforma Universitária
de Córdova. "Isso engloba o conjunto da esquerda, incluindo o Partido Comunista...", explica Gustavo Roca. "Após a libertação de Paris, discursei numa manifestação
e a polícia caiu sobre nós. Recordo-me que Ernesto estava ao meu lado e tiraram-nos uma fotografia"82.
Em Córdova, para lutar contra os grupos de choque de extrema-direita da Aliança Libertadora Nacionalista, que retoma o lema peronista "Matar um

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estudante é uma obra patriótica", a Federação Universitária e as Juventudes Comunistas formam os seus próprios grupos. Muitas vezes, os confrontos são sangrentos.
Em 1945, por ocasião de uma greve na Universidade de Córdova, Alberto Granado, estudante e jogador de râguebi, é preso. O seu irmão mais novo, Tomás, vai levar-lhe
comida à prisão, acompanhado de Ernesto. Quando Alberto os encoraja a mobilizar os alunos do secundário para que se manifestem, Ernesto responde-lhe friamente: "Nem
pensar. Eu só vou para a rua se me derem uma arma"83. Na realidade, ele irá sair à rua e até juntar-se a manifestantes peronistas, seus companheiros do bairro de
lata vizinho, para irem partir os vidros do jornal radical de Córdova La Voz del Interior. "Mas porquê a Voz?" pergunta-lhe Pepe Aguilar, a quem ele conta a história.
"Porque são tão reaccionários como os conservadores, mas mais hipócritas"84, responde Guevara.
Com o passar do tempo, tenderá a mitigar o seu antiperonismo e acabará por reter dele apenas a dimensão "anti-imperialista". Em 1955, escreve à mãe: "Confesso-te
sinceramente que a queda de Perón me provocou uma profunda amargura, não por causa dele, mas por o que isso significa para a América"85. Mais tarde, chegará mesmo
a enviar a Perón (confortavelmente exilado em Madrid) um exemplar da sua Guerra de Guerrilha com uma dedicatória "afectuosa" de "um antigo opositor que evoluiu".
Mas já, na Argentina, toda a caça ao homem o repugna, venha ela de onde vier. O dirigente peronista de esquerda John William Cooke evocou, antes de desaparecer,
numa noite de Verão de 1946, quando, tendo sido identificado numa praia elegante de Mar del Plata, um grupo de jovens burgueses quis expulsá-lo. O único que ousou
interpor-se foi aquele jovem corajoso de dezoito anos, que viria a encontrar em Cuba, como "comandante da Revolução"86.
Se, apesar de tudo, os Guevara se esforçam por manter, mesmo por pouco tempo, o seu encontro estival com as praias do Atlântico, a sua situação económica não é brilhante.
A erva-mate da sua plantação de Misiones não é o género de artigo que se exporte para a Europa. Antes mesmo de acabar o bachillerato, Ernesto é forçado a ganhar
uns cobres para começar a fazer face às suas necessidades. Graças a uma recomendação do pai, arranja um trabalho de ocasião, com o inseparável Tomás Granado, nas
pontes e calçadas da província. A sua tarefa consiste em analisar os materiais de revestimento da estrada, perto de Villa Maria, a cento e cinquenta quilómetros
de Córdova, para verificar se o caderno de encargos foi cumprido. O pai cita uma carta pitoresca do filho que explica, numa linguagem metafórica, como recusou deixar-se
"comprar". É, no fundo, o primeiro verdadeiro contacto do rapaz com o mundo do trabalho, se exceptuarmos uma campanha de alguns dias, quando tinha doze anos, com
o seu irmão Roberto, para fazer as vindimas a um peso por dia. Indigestão de uvas, asma, a aventura a ter de ser interrompida e, para grande indignação de ambos,
o patrão a recusar-se a pagar-lhes.

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Buenos Aires: estudante de Medicina

Março de 1947 é um momento importante para toda a família, pois marca o regresso dos Guevara a Buenos Aires, a grande capital, após catorze anos de ausência e, por
outro lado, o início lento de uma separação amigável entre os pais. Aos quarenta e sete anos, idade clássica, o pai apaixona-se por uma miúda, Ana Maria Erra, encantadora
professora primária entusiasta de belas-artes, com quem casará bastante mais tarde.87 Monta um escritório perto do apartamento amavelmente emprestado no início pela
avó, no elegante Barrio Norte, rua Arenales 2208, onde também mora a simpática tia Beatriz, antes de a tribo se mudar "no ano seguinte" para perto das magnólias
do parque de Palermo, "Bosque de Bolonha" de Buenos Aires, rua Araoz 2180, para uma casa modesta. E a típica construção argentina antiga, chamada chouriço, de fachada
estreita e toda em comprimento, como ditavam as regras do urbanismo colonial, tendo, sobre a garagem para a rua, um único andar de tecto alto. Sobe-se por uma escada
direita, onde se demorarão em conversas intermináveis todos os amigos dos filhos, antes de se despedirem. Até ao fim dos estudos, em 1953, Ernesto partilha com o
irmão Roberto um pequeno quarto com duas camas sobrepostas. Ele dorme na de cima "para acordar melhor deixando-se cair, de manhã, e lançar-se sobre o seu mate amargo*88.

Nota: * O mate amargo é aquele que bebem os "verdadeiros" argentinos, os machos. O mate açucarado é considerado "feminino".

Para surpresa de todos aqueles que esperavam ver este ás em matemática escolher uma carreira de engenheiro, como o seu amigo Tomás, ele bifurca à última hora para
a medicina. É provável que, na sua decisão, tenha pesado o impacte provocado pela congestão cerebral e a morte recente da avó Ana Isabel, essa famosa descrente que
ele adorava e que ele fez questão de vigiar pessoalmente, sem interrupção, largando precipitadamente o seu emprego de Villa Maria, esquecendo tudo, durante dezassete
dias, até à morte dela.
Recompensa justa, pois os mimos e as meiguices foram precisamente a sua tia Beatriz e a sua avó admirável que lhos dispensaram. Não que os pais não tenham sido ternos
com ele. Nem por sombras. Já vimos com que cuidados ambos o protegeram o melhor possível contra as calamidades da sua doença. Embora a mãe pareça ter tido alguma
predilecção por esse filho mais velho, no qual se reconhecia, os beijos e abraços nunca foram muito o estilo da casa. Em contrapartida, todos sabiam que junto dos
Guevara se respirava um ar tónico de liberdade. Liberdade de comportamento e de pensamento. Liberdade de escolher o seu curso.
Ernesto inscreve-se, portanto, em Medicina, em Buenos Aires, no início de Março de 1947. É o Outono. Vai fazer 19 anos e, apesar de uma espécie de deformação da
caixa torácica que um quiroprático asiático conseguirá reduzir em poucos meses89, a sua figura é mais a de um jovem desempoeirado. Cabelos curtos, olhar penetrante,
é uma pessoa segura, mesmo que não

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conheça praticamente ninguém na Faculdade. Pela sua pronúncia cantada de Córdova vê-se logo que é da província. O que ele assume sem problema. Não tem a cadência
italianizante do falar portenho, nem o comportamento um pouco arrogante dos habitantes de Buenos Aires. Mais uma vez, é "atípico", segundo a expressão de um condiscípulo
comunista, Ricardo Campos, que tenta aproximá-lo do Partido e lhe dá a ler material de propaganda. "A sua reacção era um tanto encrespada [...]. Tinha as suas convicções,
ideias gerais sobre a justiça, a injustiça, e expunha-as. Um dia veio a uma reunião de célula, na Federação; saiu a meio. Não frequentava os cafés de estudantes
onde nos encontrávamos [...]. Passava facilmente doze a catorze horas a trabalhar sozinho, na biblioteca. Às vezes nem o víamos. Era um fantasma"90. Desde o primeiro
dia seduz, sem segundas intenções e sem se dar bem conta disso, uma jovem da província, membro das Juventudes Comunistas, Tita Infante, que fará todo o curso de
Medicina com ele, absolutamente apaixonada. Vinte anos depois, recorda-se ainda da sua fascinação dos primeiros tempos: "Estávamos no princípio de 1947. No anfiteatro
de anatomia, quando era necessário coragem para assistir a sessões que abalavam mesmo os mais insensíveis dos futuros médicos, eu ouvia sobretudo a voz quente e
grave, e todavia irónica, de um belo rapaz desempoeirado [...]. Um misto de timidez e de orgulho, de audácia, talvez, dissimulava uma inteligência profunda, uma
sede de compreensão insaciável [...]. Tinha um fogo a brilhar-lhe nos olhos"91.
O "belo rapaz desempoeirado" vai fazer os estudos a toque-de-caixa, sem procurar de forma nenhuma brilhar, indo ao prático, ao essencial. Além disso, ganha um ano
escapando ao serviço militar, graças à sua asma. "Pela primeira vez, estes malditos pulmões serviram-me para alguma coisa".
Procurando ganhar uns cobres porque, como dirá o pai, "eu ajudava-o muito pouco; ele não queria que eu lhe desse um centavo. Desenrascava-se como podia [...]. Estava
sempre apressado, sempre a correr"92. De facto, durante os seus anos portenhos, Ernesto aperfeiçoará a sua arte de fazer mil e uma coisas graças a uma organização
rigorosa, que parece tornar o seu tempo elástico. Para além dos estudos e de uma série de pequenos trabalhos, consegue também praticar desporto, fazer fotografia
- uma paixão para toda a vida - sem nunca perder também qualquer ocasião para se entregar à sua outra paixão, o xadrez, ou para jogar brídege. E no entanto, diz
ainda Tita Infante, "era sempre pontual, nunca esquecia um encontro nem um telefonema. Estranha boémia a sua [...]. Muitas vezes, vi-o preocupado, grave, pensativo.
Nunca verdadeiramente triste nem amargo. Não me lembro de nenhum encontro em que não estivesse presente um sorriso e essa ternura calorosa que aqueles que o conheciam
sabiam apreciar [...].
Tirava partido de cada minuto, até nos transportes; geralmente aparecia com um livro na mão. Às vezes era Freud ("Quero estudar um caso clínico, há uma história
que me interessa"), por vezes um livro do curso, ou então um clássico. Ele sabia estudar"93.
Buenos Aires é uma cidade complexa, encruzilhada de todas as contradições argentinas. No fim dos anos quarenta, com mais de quatro milhões

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de habitantes, é já uma megacidade. Reúne cerca de um terço da população do país, ignorando olimpicamente os outros dois terços e, por maioria de razão, o resto
da América Latina, da qual não está certa de fazer parte, voltada como está para a Europa. Durante a guerra vieram, aliás, ali procurar refúgio inúmeros intelectuais
europeus, Roger Caillois, Denis de Rougemont, Paul Bénichou, acolhidos com generosidade por Victoria Ocampo, directora de uma importante revista literária, Sur.
Rodeada por Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Gloria Alcorta, fina-flor de uma intelectualidade distinta, desprezada por Perón, ela é simultaneamente amiga
e protectora de Drieu de la Rochelle, Malraux, Valéry. "Buenos Aires Cosmopolis", já dizia o poeta Rubén Darío, no início do século...
Embora os tropismos pessoais do jovem Guevara o atraiam para a Serra de Córdova da sua infância - é o género de universo que, sempre, o apaixonará ele não está verdadeiramente
deslocado nesse mundo à parte que constitui a grande cidade. Primeiro porque ele próprio é filho de portenhos puros e, como a rede familiar dos Guevara é grande,
são pontos de apoio em caso de necessidade; depois, porque já conhece, por ter lá estado de passagem, essa capital fervilhante de energia em que os crepúsculos destilam,
todavia, uma melancolia análoga à que se transmite dos tangos "metafísicos" que ele tanto aprecia, apesar de não perceber nada de música. Consegue rapidamente dominar
os ritmos da cidade, os seus ritos sociais, o seu código de linguagem entremeado de calão, criador de estilos metafóricos que adoptará sem problema, pois adaptam-se
perfeitamente ao lado sarcástico do seu humor, pronto a captar o aspecto irrisório das coisas.
Camponês de Buenos Aires, vai rapidamente situar os campos magnéticos da sua geografia pessoal da cidade enquanto lá aportam, desta vez, a coberto dos favores peronistas,
todos os trânsfugas do nazismo e do fascismo da velha Europa, bem como um contingente substancial de colaboracionistas franceses. Os argentinos não prestam nenhuma
atenção a isso e o estudante de medicina tem outras coisas com que se preocupar. Estuda. Tem pressa. Um dos seus pólos de atracção no labirinto citadino será o apartamento
da tia Beatriz, na rua Arenales. Solteirona romântica com um coração de ouro, adoradora incondicional do sobrinho, nunca deixou de o mimar desde pequeno, embalando-o
nos braços para o adormecer, acariciando-lhe os cabelos, contando-lhe histórias. Quando a asma levou esse sobrinho favorito para as montanhas de Córdova, nunca se
esqueceu de lhe enviar, regularmente, todas as semanas, postais, cartas, revistas. Fica encantada por voltar a ver o seu menino. Em sua casa, passará calmamente
dias e noites a estudar, enquanto ela lhe prepara amorosamente mates amargos, a ferver.
Sobre esses anos de estudo, todos os testemunhos confirmam o carácter decidido do rapaz, que não receia enfrentar situações difíceis, por vezes originais. Adalberto
Larumbe, outro condiscípulo, contou ao pai de Guevara uma recordação pitoresca das suas iniciações na cirurgia. Para fazer tranquilamente os seus trabalhos práticos
de dissecação, conseguiu que o deixassem

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levar para casa uma parte do corpo humano exposto na sala de anatomia, uma perna inteira. Mas ele não se atreve a andar na rua com esse objecto insólito. Porém,
não se atrapalha. Enrola a perna nalgumas folhas de papel de jornal e não acha nada de melhor do que apanhar o metropolitano, com o embrulho debaixo do braço. "Os
dedos dos pés estavam a aparecer", acrescenta Larumbe, que se apercebe do espanto no olhar dos viajantes. "Quando chegámos a minha casa, Ernesto não parava de rir..."94.

Expedientes

Para ganhar a vida, o estudante vai exercer as mais diversas profissões, lançando-se em aventuras bastante picarescas. Graças a uma cunha de um amigo do pai, arranja
um lugar de escriturário no Serviço de Fornecimentos e Aprovisionamento da Câmara de Buenos Aires. É o emprego ideal, que permite aparecer apenas no fim do mês para
sacar o ordenado. Todavia, Ernesto é de uma pontualidade admirável. Mas é para trabalhar no seu curso de medicina, ou para enriquecer o Dicionário Filosófico que
estabelece para seu uso pessoal, no prolongamento de um caderno alfabético de leituras gerais onde, a partir de 1945, regista os seus apontamentos de leitura. Nesses
textos (que permanecem inéditos), Marx e Engels surgem ao lado de Platão e de Sócrates. Um dia, ao fim da tarde, o chefe de secção, aparecendo de surpresa, encontra-o
apenas a ele, sentado à sua mesa, e felicita-o, prometendo-lhe uma promoção. Porque terá ele deixado este emprego de sonho? Provavelmente por se ter recusado a aderir,
segundo a regra, ao partido peronista, único distribuidor deste género de prebendas.
Afastado de um lado, arranja contudo maneira de entrar, por outro lado, numa dependência da Câmara, os dispensários. Fazendo valer a sua qualidade de futuro médico,
vai entrando em contacto com o público, procedendo à vacinação. Todavia, esses empregos ocasionais não bastam. A partir de então, tal como nos romances de Roberto
Arlt - cronista que descreve maravilhosamente o génio inventivo dos portenhos para ganhar alguns mangas* Guevara júnior vai também utilizar todos os expedientes
para ganhar uns cobres.

Nota: * O mesmo que uns cobres.

Encontrou na capital um grande amigo, conhecido em Córdova, Carlos Figueroa, estudante de Direito, também sempre pronto para arranjar umas "massas". Um dia, descobrem
que vai haver um leilão de sapatos num bairro suburbano. Juntam as suas economias. Mas tudo é demasiado caro para a sua bolsa, à excepção de um lote desirmanado,
que ninguém quer. "A casa da rua Araoz transformou-se num armazém", conta o pai. "Primeiro, tentaram juntar os pares mais ou menos aceitáveis. Depois, chegou a vez
dos sapatos que só tinham o pé direito, ou só o pé esquerdo. Mas até esses conseguiram vender,

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barato, evidentemente, percorrendo as ruas à procura de pernetas!..."95. Quanto a Ernesto, durante meses ou anos, não teve nenhum problema em passear-se com um sapato
de cada qualidade, e de cor diferente, nos pés.
Os dois rapazes, que se tornam inseparáveis, partilham o mesmo amor por Córdova, onde procuram ir quando surge a ocasião, sempre à boleia, evidentemente. Uma vez,
é um camião de reboque que os leva, na condição de, no momento de passarem sob uma ponte demasiado baixa, desmontarem e voltarem a montar as xalmas. Outra vez, estão
nos arredores de Rosário, a quatrocentos quilómetros de Córdova, completamente nas lonas, quando passa um providencial vendedor de ananases, na sua carripana. Fazem
um acordo com o homem, comprometendo-se a vender todo o carregamento em troca de uma percentagem honesta. E eis os nossos dois estudantes que, fazendo altifalante
com as mãos, anunciam a todo o bairro que há ali ananases à venda por uma pechincha. Vendem todo o carregamento e retomam caminho, com os ganhos da sua comissão.
A história mais reveladora do carácter empreendedor de Ernesto é a do fabrico de insecticida, na qual ele e os seus acólitos se lançam sem se aperceberem do perigo.
Ernesto tinha descoberto que um insecticida criado pelo Ministério da Agricultura contra os gafanhotos tinha também a capacidade de exterminar uma série de outros
insectos domésticos, baratas, formigas, etc. Acrescentando-lhe uma boa dose de talco, isso podia dar um pó de perlim pim pim utilizável na vida corrente. Converte
então a garagem do rés-do-chão em oficina e põe-se a acondicionar em pequenas caixas o pó milagroso que todas as donas-de-casa do bairro lhe vêm comprar, por se
revelar eficaz. Mas não contou com os efeitos tóxicos do insecticida sobre o próprio homem. O seu sócio Figueroa abandona o negócio. Não podendo registar a sua receita
mortal sob o nome de Al Capone ou Átila - nem um nem outro "deixando nada vivo à sua passagem" -, Ernesto decide-se por Vendaval. A marca fica registada... assim
como o balanço da empresa, que tem de fechar, para não intoxicar a casa inteira.
Este género de aventura é pouco propício a melhorar a asma de Ernesto, que, pelo contrário, se acentua com a humidade do Rio da Prata. O jovem vai então consultar
o melhor especialista de Buenos Aires, o Dr. Pisani, especialista em alergologia. Este presta ao doente uma atenção especial, não só por se tratar de um caso interessante
- ele apercebe-se da dimensão alérgica dessa asma - mas também porque o carácter, a curiosidade e a inteligência do rapaz o comovem. A ponto de, ao fim de um certo
tempo, o professor contratar o estudante como assistente de laboratório. O que fascina Ernesto que, por seu turno, planeia especializar-se em doenças alérgicas.
Mesmo que, segundo a sua irmã Ana Maria, "nenhum dos negócios em que se lançou tenha dado certo"96, ele mantém-se perseverante e tenta por vezes juntar o útil ao
agradável. É o caso do râguebi. :
Como vimos, era um desporto a que Ernesto estava muito ligado desde Córdova, quando tinha apenas quinze anos. Chegado a Buenos Aires, tratou

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logo de se inscrever na equipa do San Isidro Club, que joga na 1.ª divisão, clube muito fino, dirigido por um dos seus tios maternos. Mas o pai, a quem os médicos
garantem que o râguebi é fatal para um asmático, combina com o cunhado a forma de não lhe permitirem correr assim para a morte. Furioso, Ernesto ameaça então: "Gosto
de râguebi e, mesmo que morra, continuarei a jogar"97. Entra na equipa da 2.ª divisão do Club Atalaya, sempre no elegante concelho de San Isidro, à beira do rio,
onde lhe dão o posto de retaguarda. Figueroa recorda: "Era o único full-back do mundo a jogar com protectores de orelhas. Era muito cómico..."98. Foi então que lhe
surgiu a ideia de fundar a revista Tackle, para vender no pequeno meio dos amadores portenhos. A partir de 1950, com o seu irmão Roberto, Carlos Figueroa e meia
dúzia de amigos, conseguem redigir, editar e vender onze números dessa publicação absolutamente artesanal, fabricada quase sempre no escritório do pai, que não tem
outro remédio senão aceitar. Ernesto assina aí as suas críticas com o pseudónimo de Chancho (porco), por ser essa a sua alcunha, mas dando-lhe um toque chinês: Chang-Chow.
Desportivos ou científicos, os improvisos do estudante Guevara são bastante pitorescos e audaciosos. Quando, por exemplo, são anunciadas as Olimpíadas universitárias
que decorrerão em Tucuman, no noroeste do país, Ernesto decide participar nelas à viva força. Escolhe então a única modalidade à qual mais nenhum candidato concorrera,
o salto à vara. Convocam-no. "Onde está a sua vara? - Pensava que vocês a forneciam". Arranjam-lhe uma. Pega nela, não faz a menor ideia de como a utilizar e, evidentemente,
é eliminado. Outra vez, sabe que um estudante peruano tenta bater o recorde de resistência em natação na piscina da Faculdade de Direito. "Coitado, não vou permitir
que ele nade sozinho". Mergulha para lhe fazer companhia e é logo repelido pelo peruano, que se sente incomodado com a companhia, que lhe corta o ritmo e lhe faz
ondulação99.
Nada o consegue verdadeiramente deter na sua impetuosidade juvenil. Está sempre pronto a tudo, não se importa muito com protocolos nem com elegâncias de vestimentas,
tal como o pai e sobretudo o tio, Jorge Guevara Lynch, homem do campo com físico de atleta, muito inteligente mas desconfiado, que terá grande influência sobre ele.
"Era um tipo muito anticonformista", explica Fernando Córdova, primo de Ernesto. "Também ele estava separado da mulher. Não via os filhos, mas ocupava-se muito dos
sobrinhos, sobretudo de Ernesto, por quem se afeiçoara bastante. Foi ele provavelmente que ofereceu a Tito (outro diminutivo de Ernestito usado pela família) Sandino,
General dos Homens Livres, a biografia que o socialista Gregorio Selser acabara de escrever sobre esse homem intrépido da Nicarágua, que se ergueu contra o domínio
dos Estados Unidos na América central. É natural que a leitura tenha produzido algum efeito..."100. Em todo o caso, é com o tio Jorge que Ernesto se inicia no voo
planado, em Morón, nos arredores de Buenos Aires, e toma gosto por esse desporto de luxo que mais tarde praticará em Cuba, mas desta vez pilotando um Cessna a motor.

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Voo planado, brídege, golfe, râguebi, xadrez, fotografia, as actividades desportivas ou lúdicas de Ernesto são sempre pouco plebeias. Mas é no bairro popular de
Pompeia que o fotógrafo amador vai tirar as suas fotografias, seguindo passo a passo o itinerário descrito em Sur, um excelente tango de Homero Manzi. Entretanto,
a situação económica da família continua periclitante. Acresce um alerta dramático quando a mãe, Célia, é operada a um cancro no seio, em 1948. O pai está muitas
vezes presente na rua Araoz, em Palermo, mas é ela que "mantém" a casa, secundada pela boa vontade, pela solidariedade dos filhos, que aprenderam a desenrascar-se
sozinhos, como vimos. Entre Ernesto e a mãe existiu sempre uma ligação especial feita de cumplicidade, de humor partilhado, de alusões. Ele é o mais velho, e leva
o seu papel a sério, ajuda as irmãs, com uma preferência por Ana Maria, em vez de Célia. Superprotege sobretudo o irmão mais novo, Juan Martin, que adora e a quem
chama carinhosamente pelotudito. Por isso, quando, antes da operação, percebe que o diagnóstico dos médicos é reservado, entra em desespero. "Até aí, tinha conseguido
controlar-se", escreve o pai. "Nesse momento, perdeu a serenidade"101. Felizmente, a operação corre bem e a mãe Célia disporá de uma remissão de dezassete anos,
até 1965.

De bicicleta, na Argentina profunda

Em Janeiro e Fevereiro de 1950, durante as férias grandes de Verão, não sendo já viável a transumância tribal para Mar de la Plata, Ernesto lança-se, sozinho, numa
aventura inédita, que requer, mais do que ele imagina, resistência, coragem e determinação: uma grande viagem circular de mais de quatro mil quilómetros através
de doze províncias do norte da Argentina. Isso irá marcá-lo.
Após três anos de vida urbana intensa no universo de asfalto de Buenos Aires, apesar das escapadelas fugazes à sua amada Córdova, esse "homem do campo" tem uma necessidade
intensa de respirar outro ar e também sede de descobrir o outro rosto do seu país, aquele que os portenhos ignoram com uma arrogância tranquila.
É certo que ele é de ascendência burguesa e que se move num meio privilegiado, tirando daí todas as vantagens, mas a descontracção libertária dos pais colocou a
família à beira da precaridade. O mundo da pobreza não está longe, aquele que, apesar da sua demagogia, o peronismo fez aflorar, o mundo, mantido na penumbra, dos
humildes que, pela primeira vez, ousam endireitar a espinha. Este fenómeno é uma revelação, se não um escândalo, para a burguesia, para as classes médias. Ernesto
é declaradamente antiperonista porque a ordem estabelecida é peronista e os estudantes, considerados a priori como subversivos, são maltratados. Mas ele sente uma
certa simpatia por este movimento social, quanto mais não seja porque assusta os privilegiados. Apesar disso, não pretende dar um sentido político à sua viagem.
O que é

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certo, é que "não vai para o meio do povo". Com vinte e um anos feitos, chegado quase a meio do curso, uma curiosidade empurra-o para um além que não cessará de
se alargar. Às fronteiras da Argentina, da América Latina, do mundo...
À partida, há um apelo do antigo capitão de râguebi, o seu amigo Alberto Granado, o mais velho dos três irmãos, que o convida a visitá-lo na leprosaria de San Francisco
del Chanar, a norte de Córdova. Pratica agora aí os seus talentos de biólogo, e dirige uma farmácia. Ernesto lança a si próprio o desafio de subir o mais possível
até ao norte antes de regressar a Buenos Aires, fazendo um longo círculo ao longo das praias da costa atlântica. Fabricou uma engenhoca inacreditável, montando uma
bicicleta tradicional um pequeno motor italiano, segundo o princípio da Solex francesa, com o qual é possível chegar aos 25 quilómetros hora, de vento em popa.
E ei-lo que se lança à estrada, "na noite do primeiro de Janeiro de 1950", em plenas férias de Verão do hemisfério sul, bem decidido a ultrapassar pelo menos duas
pequenas cidades próximas de Buenos Aires, que a sua família, sempre trocista, apostou que ele nunca alcançaria. Ganha essa primeira aposta aos cépticos e encontra-se,
de madrugada, em San Antonio de Areco, paradeiro simbólico da Pampa argentina onde o romancista Ricardo Güiraldes situou a acção de Don Segundo Sombra, história
de um gaúcho fabuloso, pequena jóia da literatura argentina. Nessa mesma tarde chega a Rosário, a sua cidade natal, agarrado a um camião de combustível. "O corpo
pede insistentemente um colchão, mas a vontade opõe-se, e prossigo caminho. Às duas da manhã rebenta uma tempestade que dura perto de uma hora, mas graças à capa
que a minha mãe, previdente, me pôs no saco, rio-me da chuva e recito aos berros um poema de Sabato..."102. Sequência wagneriana, que revela a sua enorme energia.
Graças a antigos cadernos de viagem inéditos que o pai encontrou, rabiscados, no fundo de uma gaveta, temos o argumento desse road-movie ao retardador.
Na manhã do terceiro dia, Ernesto passa por Villa Maria, por essa mesma estrada onde, quatro anos antes, ele analisava as estruturas para as pontes e calçadas da
Câmara. "Faltam-me ainda cento e quarenta e quatro quilómetros. Um carro ultrapassa-me e, vendo-me pedalar, propõe-me um pouco de gasolina. Recuso, mas aceito que
ele me reboque a sessenta quilómetros à hora. Mal fiz 10 quilómetros, o pneu traseiro rebenta e espalho-me ao comprido." Não há pneu sobresselente. "Permito-me então
uma ou duas horas de descanso e embarco em seguida num camião que deixo em Córdova [...]. Finalmente atinjo a meta (a casa de Granado), ao fim de 41 horas e 17 minutos...".
Este périplo de dois meses vai constituir, mesmo que a fórmula esteja gasta, uma verdadeira viagem iniciática para este rapaz que não duvida de nada, cujo impulso
vital é irreprimível. Sem qualquer mediação, vai ter, de facto, uma verdadeira iniciação a essa Argentina profunda, que só se dá a quem a sabe merecer. Guevara descobre
uma humanidade nova, impregna-se de paisagens desconhecidas, cuja beleza o comove, apercebe-se de que, mesmo sem

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vintém (pois ele nunca será um verdadeiro pobre), a sua situação continua ainda a ser a de um privilegiado quando a compara com a de todo o tipo de gente com quem
se cruza. O interesse dos seus cadernos é o de mostrar a que ponto ele está à vontade para conviver seja com quem for, sem qualquer preconceito.
Um dia, debaixo de uma ponte, encontra um vagabundo do campo, que, admirando-se por ver um estudante como ele "fazer-se à estrada", e naquele preparo, o convida
a partilhar um mate "tão açucarado como para uma solteirona". O vagabundo afirma ter sido antigo ajudante de cabeleireiro; achando que a trunfa do ciclista precisa
de ser aparada, propõe-lhe um corte gratuito. Desgraça! "Nunca pensei que uma tesoura pudesse ser tão perigosa", observa, maliciosamente, o nosso viajante, ao constatar
o desastre. "Tinha nos cabelos uma tal quantidade de "escadas" que nada fora poupado".
Acompanhado dos irmãos de Granado, vai admirar as cataratas de Los Chorillos, de cinquenta metros de altura, "entre as mais belas da serra". Mais uma vez, característica
do temperamento de Ernesto, só pelo facto de existir, o obstáculo é um desafio ao qual não consegue resistir. Só "pelo prazer", ("para sacarme el gusto"), decide
descer um muro quase a pique, muito próximo da catarata, cheio de humidade e semeado de fetos. Escorrega logo dez metros, arrastando na queda uma pequena avalanche.
Impossível continuar. "Aprendi assim a primeira lei do alpinismo: é mais fácil subir que descer."
Toda a viagem é assim semeada de incidentes por vezes divertidos, ornamentada de observações diversas sobre o clima, os encontros, as paisagens, os estados de espírito,
preciosos testemunhos sobre a personalidade do jovem.
O amigo Alberto apresentou-lhe o cacique local, senador da província, "verdadeiro pirata dos tempos modernos", que os convida para uma milonga, uma festa onde eles
dão brado. Guevara aprendeu depressa o método infalível dos caminhantes da estrada: obter uma recomendação para a etapa seguinte. E a coisa pega. No dia seguinte
será o irmão do "pirata" que lhe dará guarida. Avisam-no que tenha cuidado com a travessia das grandes salinas de Santiago del Estero, vestígios da época em que
o mar banhava o que agora é apenas uma província pobre, o "Sara argentino". Ernesto não faz caso. "A mistura bem batida de sangue irlandês e espanhol nas minhas
veias determina-me a partir sem levar mais que meio litro de água".
Perto de Tucuman, "jardim da República", encontra um desses jornaleiros agrícolas que vendem os seus serviços de colheita em colheita; o homem vem da apanha do algodão
do Chaco e vai para San Juan fazer as vindimas. Quando compreende que a viagem do rapaz é de ordem meramente desportiva, deita as mãos à cabeça: "E gasta tanta energia
para nada?".
"Como um raio que corre a trinta à hora", atravessa os campos de cana de açúcar. Admira à vontade a riqueza da selva de tipo amazónico, "como num filme", e faz solilóquios
sobre a sua ignorância em botânica, quando o "rugido" do motor de um camião a aproximar-se o arranca aos devaneios de passeante solitário. Escreve: "Apercebo-me
de que a agitação da cidade

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despertou há muito em mim o ódio contra a civilização. A imagem estúpida de homens que correm como loucos ao ritmo desse barulho infernal parece-me ser a antítese
detestável da melodiosa música de fundo que constitui o sussurro silencioso das folhas".
Uma manhã, descansa por instantes no posto fronteiriço entre duas províncias quando um motociclista, montando uma Harley-Davidson nova em folha, lhe propõe amavelmente
rebocá-lo. "A que velocidade?", pergunta Ernesto. "Devagar, a 80 ou 90". A resposta é: não, obrigado. "Tinha aprendido, à custa do próprio corpo, o que significa
ultrapassar os 40 à hora com uma carga instável e por maus caminhos". Quando chega à cidadezinha seguinte, apercebe-se que estão a retirar a mota de um camião, diante
do posto de polícia. "E o condutor?", pergunta ele. "Morreu". Guevara observa então: "O facto de um homem procurar o perigo sem mesmo esse vago aspecto heróico que
uma proeza pública implica, de morrer assim, sem testemunhas, numa curva da estrada, dá a esse aventureiro desconhecido um vago "fervor suicidário"".
Volta a partir, avançando sempre para norte, até Salta, velha cidade colonial cujos gaúchos, de poncho vermelho, são célebres em todo o país. Avança já nos contrafortes
da imensa cordilheira dos Andes que atravessa o continente, da Patagónia ao México. Apesar do desconforto dos solavancos da estrada, como "chapa de ferro ondulada",
sente-se tocado pela beleza da paisagem, "uma das mais belas da viagem". No fundo do vale, o rio Juramento - "as pedras da margem são de todas as cores e as águas
cinzentas do rio correm por entre uma vegetação maravilhosa. Mergulho na contemplação da água que corre tumultuosamente [...]. Há como que um convite a lançarmo-nos
nessa espuma, para sermos brutalmente embalados pela corrente". O rapaz sente uma grande força vital a invadi-lo. "Dá-me vontade de gritar como um louco sem pensar
no que estou a dizer [...]. Subo a encosta com uma doce melancolia e o grito das águas parece reprovar a minha indiferença amorosa. Vejo-me como um celibatário empedernido...".
Mas em breve o humor apaga estes tons à Lamartine: "uma cabra troça da minha barba à Jack London".
Chegado a Jujuy, povoação já bastante índia, povoada por essa "raça de bronze" conquistada pelos Incas em tempos pré-colombianos, Ernesto atinge o ponto extremo
da sua expedição, nesse noroeste semeado de cactos em forma de candelabro, que os argentinos geralmente só conhecem pelo seu folclore com sonoridades andinas. Daí
para a frente, o caminho está cortado: inundações e um "vulcão" de lama impedem-no de chegar à fronteira boliviana, etapa última e simbólica. Mas, escreve ele no
seu estilo muito pessoal, sente-se "empanturrado de beleza, como numa indigestão de chocolate". No hospital onde, segundo a sua técnica, consegue alojar-se, a realidade
vem trazê-lo às suas contingências. Arma-se em enfermeiro e limpa o crânio de um menino de dois anos, um negrito (mestiço de índios), de uma invasão de lêndeas.

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"Conta-nos o que viste", pedem-lhe os seus novos amigos no hospital. Ele considera a pergunta absurda e responde no seu caderno: "Não é visitando a catedral, o altar
da pátria, o museu ou uma determinada virgem milagrosa que se conhece um povo. Tudo isso não passa de um verniz superficial. A sua verdadeira alma encontra-se entre
os doentes do hospital, os tipos na prisão ou no vagabundo angustiado com quem travamos amizade".
O diário de viagem desse Verão de 1950 interrompe-se bruscamente neste ponto, quando Ernesto conta os seus serões filosóficos com camponeses que lhe afirmam teimosamente
que há "espíritos" a rondar pela zona, com a lua a brilhar, as rãs a coaxar e o mate amargo a passar de mão em mão...
Não temos mais nenhuma informação sobre o regresso à capital, sempre em bicicleta motorizada.
O pai, que só encontrou estes documentos, precisa, contudo, que quando chegou a Mendoza, maravilhoso oásis vitícola no sopé da cordilheira, Ernesto estava tão sujo
que a tia, que vivia lá, quase não o reconheceu.103
No universo mental do rapaz, a importância dessa descoberta da Argentina terá sido grande, pois referir-se-á frequentemente a ela. E, apesar de todos os internacionalismos
proclamados posteriormente, em Cuba e noutras paragens, não há dúvida que Guevara terá sempre presente a ideia de "libertar" um dia, por seu turno, o seu próprio
país da miséria que ele voluntariamente testemunhou.
Para já, juntamente com o negro Figueroa, seu companheiro predilecto, que procurou de imediato em Buenos Aires, dedica-se a consertar o motor italiano que se comportou
com bravura ao longo de todo o périplo, mas que dá sinais de fadiga. "O engenheiro que nos recebeu não queria acreditar no que ouvia", conta Figueroa, "garantindo
que um tal motor não seria capaz de uma proeza daquelas. Foi preciso Ernesto descrever-lhe os quatro mil quilómetros do seu itinerário, mostrar-lhe fotografias.
O engenheiro propôs-lhe então reparar o motor de graça, se, em contrapartida, o autorizassem a servir-se da história para fazer publicidade"104. Foi assim que no
jornal desportivo de Buenos Aires El Grafico surgiu uma carta explicativa bastante engraçada do nosso veraneante, datada de 28 de Fevereiro de 1950, acompanhada
de uma fotografia do herói, de óculos escuros, debruçado sobre a sua bicicleta motorizada, tudo isso em honra do motor Micron.

Chichina

Ernesto retoma as aulas na Faculdade, readapta-se à cidade, ao seu ritmo, aos seus ruídos. Mais do que nunca, aproveita o menor pretexto para fugir para as bandas
de Córdova, que é a sua "terra". A sua vitalidade é maior do que nunca. Apesar da asma, apesar das mil e uma ocupações, arranja tempo para dedicar a muitos amores.
É jovem, bonito, elegante. Apesar do seu ar desalinhado, transmite um certo magnetismo, do qual não se priva de tirar partido.

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Alberto Granado conta que, já em Córdova, "ele exercia uma grande atracção junto das mulheres. Elas diziam-me sempre: "Che, apresenta-mo; diz-lhe que penteie o cabelo;
diz-lhe que ponha uma gravata..." porque era um meio um pouco pequeno-burguês"105. E acrescenta: "Tinha as suas namoradas, raparigas que estavam apaixonadas por
ele, mas era discreto e não falava dessas coisas"106. Carlos Ferrer, outro amigo íntimo, confessa: "Tinha também uma amante fixa, uma mulher de outro meio, dez anos
mais velha do que ele"107. O seu irmão Roberto explica: "Tinha sempre uma miúda de "serviço". Era um rapaz vigoroso como todos nós, mas talvez tenha vivido com mais
ardor as suas aventuras amorosas"108. Quanto ao seu primo, Fernando Córdova de la Serna, irmão de Carmen, La Negrita, é categórico: "A partir dos dezasseis anos
era um engatatão, um terrível engatatão, aparentemente insaciável, como em tudo. Era muito ousado e muito admirado. Queria conquistar o mundo..."109. Contudo, será
ele que, em breve, será conquistado.
Em Outubro de 1950, toda a família Guevara se desloca a Córdova para visitar grandes amigos, os González Aguilar, cuja filha Carmen vai casar. Durante os festejos,
Ernesto conhece uma rapariga morena, de olhos verdes, bela, inteligente, ousada, Maria del Carmen Ferreyra, a quem chamavam "Chichina". Paixão recíproca à primeira
vista. Ela tem dezasseis anos. Ele vinte e dois. Os Guevara não são umas pessoas quaisquer. Os Ferreyra também não. São ricos, estimados. Horacio Ferreyra, o pai
de Chichina, antes de se tornar uma espécie de notável, levou uma vida aventurosa: expedições na Amazónia, corridas de automóvel (numa época em que os motores defrontavam
estradas más), pilotou aviões, percorreu o mundo. E foi acrescentando a sua fortuna explorando as pedreiras de calcário das serras de Córdova. A família é culta,
conhece os costumes, fala-se de pintura e de música. A mansão dos Ferreyra é uma das mais imponentes de Córdova. A sua estancia de Malagueño, não muito longe, é
um paraíso hollywoodesco, com campos de pólo, piscina, ténis, e ao domingo, na igreja da aldeia, está-lhes reservado um sector à parte para comungar em privado.
Num meio deste género, Ernesto destoa ainda mais do que Julien Sorel em casa de Mathilde de la Mole. A sumptuosidade dos Ferreyra não o impressiona. Pelo contrário.
Ele teria tendência a redobrar a provocação apresentando-se sempre mal vestido, sem a menor preocupação pelas aparências. É o que seduz a adolescente. "O seu ar
obstinado, o seu carácter antiformal [...]. A sua desenvoltura no vestir fazia-nos rir e envergonhava-nos simultaneamente. Nunca largava uma eterna camisa de nylon
cujo branco já estava acinzentado. Tinha comprado os sapatos num leilão, de forma que os dois pés nunca eram iguais. Para nós, que éramos tão sofisticados, ele representava
um verdadeiro escândalo. Mas aceitava as nossas zombarias sem se perturbar"110.
De início, o acolhimento dos Ferreyra não é hostil. Ouvem atentamente aquele jovem sagaz falar de literatura, de história, de filosofia ou contar peripécias de viagem.
Oferece a Chichina a obra de Gandhi A Descoberta da

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Índia, com uma dedicatória, e interessa-se pelos métodos não violentos do Mahatma para lutar contra a ocupação inglesa. As coisas complicam-se quando os dois jovens
se declaram noivos e Ernesto propõe um casamento imediato, com uma grande expedição em "caravana" através do continente americano, como viagem de núpcias.
A própria Chichina não está certa de estar convencida, e os pais não vêem com bons olhos este género de projecto. A questão dá para o torto quando as discussões
ganham um tom político. José Aguilar, que namorisca uma amiga de Chichina, seguiu de perto toda a história. Conta que uma noite, num jantar na estancia de Malagueño,
Ernesto ataca Churchill e o seu carácter conservador, a propósito de eleições em Inglaterra. O pai de Chichina, convicto partidário dos Aliados, com um irmão morto
no mar pelos alemães quando ia juntar-se a De Gaulle em Londres, contém-se com dificuldade. Quando ouve chamar a Churchill "político de pacotilha", exclama: "É demais",
e abandona a mesa, furioso. "Olhei para Ernesto", prossegue José Aguilar, "pensando que nós é que devíamos retirar-nos. Mas ele contentou-se em sorrir com um ar
travesso e começou a mordiscar um limão, sinal que a crise de asma andava por perto"111. Rotulado de comunista e de Pithecanthropus erectus pelos Ferreyra e pelos
seus amigos, que reparam no adesivo com que ele arranjou um rasgão nas calças, Ernesto não se deixa impressionar.
Em Buenos Aires, continua a manter a mesma disciplina que fixou no início do curso; o seu trabalho de laboratório em casa do professor Pisani estimula-o, dá-lhe
o gosto pela investigação. Em 1950, consegue sem dificuldade, tal como no ano anterior, fazer três exames, dois deles com menção honrosa. Mas ainda lhe faltam 21
cadeiras para o doutoramento.
Verão de 1951. Desta vez, para conhecer o mundo com viagem paga e tudo, Ernesto arranjou melhor do que a motorizada: um navio petroleiro. Graças a uma recomendação
do pai de Figueroa, consegue um lugar de enfermeiro na marinha mercante argentina. Até ao Outono (Maio de 1951), embarca em três navios, que o levam às Caraíbas
- Curaçau, Trindade, Tobago -, ao Brasil ou às águas frias do sul, rumo às zonas petrolíferas de Comodoro Rivadavia. Este género de viagem não parece tê-lo entusiasmado.
- "Quinze dias de travessia para quatro horas de escala num porto imundo e em seguida nova partida" -, mas aproveita para preparar os exames que irá apresentar,
como candidato independente, logo que regresse a Buenos Aires: seis exames de uma assentada, em avanço em relação ao curso normal, só no ano de 1951. O dobro do
ritmo oficial previsto. Sente já que é necessário apressar-se, o que não o impede de ir visitar sempre que possível a sua rica noiva Chichina ou, pelo menos, de
trocar com ela uma correspondência abundante. "Logo que chegava ao porto", recorda a sua irmã Célia, "telefonava-me para saber se tinha recebido correio de Chichina.
E eu corria a levar-lhe as cartas. Um dia, cheguei demasiado tarde. Mas ele chegou a ver-me, saudando-o no cais, com uma carta na mão"112.

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Durante 1951, os projectos de viagem tornam-se mais precisos; mas à medida que a partida com Chichina se revela mais difícil, surge a ideia de uma nova expedição,
muito mais ambiciosa, entre homens. Uma grande volta pela América Latina.

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Notas:
1 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, Havana, Arte y Literatura, 1988, p. 126.
2 Franco Pierini, "Mio figlio Guevara", in L'Europeo, nº 1147, Milão, 2 de Novembro de 1967. -1 Em 1992, a casa natal, prédio burguês da rua Entre Rios, nº 480,
foi declarado "lugar turístico" pela cidade de Rosário.
4 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 147.
5 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 28 de Outubro de 1967.
6 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 147.
7 Ernesto Guevara, in Gente y la Actualidad, n.º 18, Buenos Aires, p. 7.
8 François-Bernard Michel, Le Souffle Coupé, Gallimard, Paris, 1984, p. 7.
9 Ibid.
10 Raymond Queneau, Loin de Rueil, Gallimard, Paris, 1944, col. "Folio", p. 20.
11 François-Bernard Michel, Le Souffle Coupé, op. cit., p. 8.
12 Ibid. p. 13.
13 Marcel Proust, Correspondence, 1887-1905, Plon, Paris, 1953, p. 14.
14 François-Bernard Michel, Le Souffle Coupé, op. cit., p. 9.
15 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 175.
16 Ibid. p. 176.
17 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, Política, Havana, 1989.
18 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 179.
19 Ernesto Che Guevara, Obras, 1957-1967, Casa de las Américas, Havana, 1977, p. 685.
20 Alejandro Saez-Germain, "Los Lynch, Casi Mil Años de Historia", in Noticias (semanário), Buenos Aires, 20 de Março de 1994.
21 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 200.
22 Ibid.
23 Gente y la Actualidad, Buenos Aires, 26 de Outubro de 1967, in Hugo Gambini, El Che Guevara, Buenos Aires, Paidos, 1973, p. 27.
24 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 200.
25 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, Ed. Dialectica, Buenos Aires, 1988, pp. 33-34.
26 Ibid. p. 34.
27 Ibid. p. 36.
28 José Aguilar, "La Niñez, del Che", in Granma (resumo semanal), n.º 43, Havana, 29 de Outubro de 1967.
29 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., pp. 237-238.
30 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 37.
31 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 238
32 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 38.
33 Ibid.

60

34 José Aguilar, "La Niñez del Che", in Granma, op. cit.
35 Fernando Barral, "El Che estudiante", in Granma, op. cit., n.º 43, 29 de Outubro de 1967.
36 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., pp. 30-31.
37 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 72.
38 Claudia Korol, El Che y los argentinos, op. cit., p. 32.
39 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 72.
40 Ibid. p. 83.
41 Roberto Guevara de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
42 José Aguilar, "La Niñez del Che", in Granma, op. cit.
43 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Revolutionnaire, prefácio de Robert Merle, Paris. François Maspero, 1967, p. 36.
44 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
45 Maria Rosa Oliver, "El humanismo del Che", in Cuadernos 2 de Cristianismo y revolución, Buenos Aires, 1968.
46 Alberto Granado, entrevista com o autor, Havana, 1992.
47 Carmen Córdova, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
48 Ibid.
49 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 211
50 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 37.
51 Jorge Camarasa, Los Nazis en la Argentina, Legasa, Buenos Aires, 1992 e Odessa Al Sur, Planeta, Buenos Aires, 1995. Esta última obra fornece dados precisos interessantes
sobre o papel dos franceses, colaboradores e amigos dos nazis, refugiados na Argentina após a derrota peronista, acolhidos pelos "comités de apoio peronistas".
52 Hilda Gadea, Anos Decisivos, Aguilar, México, 1972, p. 195.
53 Claudia Korol, El Che y los argentinos, op. cit., p. 49.
54 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
55 Claudia Korol. El Che y los Argentinos, op. cit., p. 49.
56 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito vivo y presente, op. cit., p. 95.
57 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 53.
58 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 274.
59 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
60 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che. op. cit., p. 278.
61 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., pp. 51-52.
62 In Jean Cormier, Troisième mi-temps, Lincoln, Paris, 1991.
63 Alberto Granado, entrevista com o autor, Havana, 1992.
64 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 283. O texto da citação, retraduzido
do espanhol, não é provavelmente o do original.
65 Ibid.. p. 283-284.
66 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 48.
67 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 98.
68 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
69 Ibid.
70 Fernando Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
71 Carmen Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
72 Ibid.

61

73 Ibid.
74 Alberto Granado, entrevista com o autor, Havana, 1992.
75 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 51.
76 Alberto Granado, entrevista com o autor, Havana, 1994.
77 Carlos Ferrer, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1992. •
78 Citado in "Le péronisme", estudo do Centro Frantz-Fanon, tradução do italiano publicada na Partisans, n.º 26-27, Paris, François Maspero, 1966, p. 63.
79 Hugo Gambini, El Che Guevara, op. cit., p. 61.
80 Gente, Buenos Aires, 26 de Outubro de 1967.
81 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 95.
82 Ibid., p. 99.
83 Punto Final, n.º 41, Santiago do Chile, 7 de Novembro de 1967.
84 José Aguilar, texto inédito, Centro de Produção Documental, Madrid - Barcelona, p. 9.
85 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un soldado de America, Sudamericana Planeta, Buenos Aires, 1987, p. 110.
86 Gérard Guillerm, Le Péronisme. Histoire de l'exil et du retour. Publicações da Sorbone, 1989, p. 35.
87 Em 1965, após a morte da sua esposa Célia, Ernesto Guevara Lynch casa com Ana Maria Erra, de quem terá três filhos - meios-irmãos e irmãs de Ernesto - e, até
à sua morte, em
1987, viverá com eles em Cuba.
88 Fernando Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
89 Ibid.
90 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 119.
91 Id., ...Aquí va un soldado de America, op. cit., p. 166.
92 Id., Mi Hijo el Che, op. cit., p. 288.
93 Id., ...Aquí va un soldado de America, op. cit., p. 167.
94 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 300.
95 Ibid., p. 302.
96 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 75.
97 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 309.
98 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 75.
99 Ibid., pp. 75-76.
100 Fernando Córdova de la Serna, correspondência com o autor, 2 de Maio de 1994.
101 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 314.
102 Ibid., p. 321 e seguintes.
103 ibid., p. 342.
104 Carlos Figueroa, in Gente y la Actualidad, Buenos Aires, 12 de Outubro de 1967.
105 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 77.
106 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 136.
107 Carlos Ferrer, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
108 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 136.
109 Fernando Córdova de la Serna, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
110 Chichina Ferreyra, in Primera Plana, Buenos Aires, Outubro de 1967.
111 José Aguilar, "La niñez del Che" in Granma, op. cit.
112 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 136.

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II
O HOMEM DAS SOLAS DE VENTO

Ernesto e Alberto partem de moto

Há dez anos que Alberto Granado, o farmacêutico da leprosaria, aquele que iniciou Ernesto no râguebi, ruminava um grande projecto de viagem, sempre adiado e sempre
retomado. Sem Ernesto, sem a sua impulsividade um tanto louca, neste caso fecunda, certamente nada de concreto seria realizado.
Na Primavera de 1951, aproveitando o feriado de "San Perón", a 17 de Outubro - aniversário da reposição do coronel transformado em general-presidente -, Ernesto
dá uma escapadela a Córdova, onde o espera a sua querida Chichina. Mas quando o amigo Granado lhe diz que o velho sonho pode tornar-se realidade se aceitar participar
nele, ele lança gritos de alegria e põe-se a dançar como um selvagem, mandando para o diabo o seu futuro como médico encartado e a expedição em caravana que os pais
de Chichina, aliás, não aprovam.
É que a viagem faz parte da própria natureza de Guevara, nómada por excelência, nascido no acaso de uma escala, transferido do Rio da Prata para os trópicos, desde
então em permanente migração através dos vários poisos familiares, hotéis transitórios ou casas rachadas da montanha de Córdova. Para ele, Buenos Aires não é um
ponto fixo. Não terá nunca um poiso certo, uma morada definitiva. Nem um assento estável numa poltrona. Ficará sempre colocado de esguelha num canto de mesa, pronto
a meter o saco ao ombro para uma partida iminente. Em Janeiro de 1952, em San Martin de los Andes, nos confins da Patagónia, escreverá: "Sei agora que o meu destino
é viajar e aceito-o como uma espécie de fatalismo"1. O seu fascínio por D. Quixote não advém só dos combates heróicos do Cavaleiro de Triste Figura, mas também do
seu carácter de eterno nómada. Ele não pretende "fugir para longe". Nenhum "barco bêbado" o aguarda. Contudo, a partir de agora, não parará de correr mundo. Também
ele, como Rimbaud, pode anunciar: "E irei para longe, muito longe, como um boémio". Ainda não o sabe,

63

mas também ele quererá "mudar a vida". É já um "homem de solas de vento".
Os dois meses que antecedem a partida, marcada para 29 de Dezembro de 1951, são um "turbilhão louco de cartas, de peças mecânicas de reserva, de escolha e abandono
de uma dúzia de estradas..."*. A primeira ideia é chegar aos Estados Unidos. Mas o objectivo final não é menos ambicioso: atravessar a América do Sul avançando ao
longo da sua espinha dorsal, atingir a Venezuela através da cordilheira dos Andes, que se estende por cinco países do itinerário previsto: Argentina, Chile, Peru,
Colômbia e, por fim, a cidade de Caracas, onde Granado tem alguns contactos.

Nota: * Ernesto Che Guevara e Alberto Granado, Latinoamericana, Journal de voyage, Austral, Paris, 1994. Sob este título genérico, o editor francês reuniu dois cadernos
de viagem diferentes: as Notas de viaje de Guevara (Abril-Sodepar, Havana-Madrid, 1992) e o testemunho de Granado. Com el Che por Sudamerica (Letras Cubanas, Havana,
1986). Salvo indicação contrária, todas citações que se seguem são extraídas desses dois diários de viagem reunidos num volume. Certas passagens foram por nós abreviadas
a partir do original..

Este último tem uma moto potente, para a época, uma velha Norton inglesa de 500 cm' de cilindrada, baptizada de Poderosa II, em princípio capaz de os transportar
a ambos. Alberto, que tem horror a transformar-se num senhor Homais, abandona sem problemas a sua farmácia e as suas provetas. Quanto a Ernesto, sabe que, quando
voltar, terá de fazer todos os exames em atraso como aluno voluntário. A sua mãe, em vez de se juntar ao coro dos cépticos e dos preocupados, recomenda simplesmente
a Alberto: "tu, que és mais velho, trata de fazer com que Ernesto regresse para tirar o diploma de médico. Um curso nunca fez mal a ninguém".
Seis anos separam Alberto (29 anos) de Ernesto (23 anos), mas une-os uma grande cumplicidade, feita de amizade recíproca, desafios de râguebi disputados juntos,
leituras partilhadas, longas discussões filosóficas e políticas. Ambos estão animados por uma curiosidade igual por esse "algures" ainda indistinto, que os atrai,
sem imaginarem a mudança que ele irá operar neles. Ambos ignoram que, na mesma época, nos Estados Unidos, no outro extremo do continente, alguns "vagabundos celestes"
- Jack Kerouac, Neal Cassady, Allen Guinsberg, figuras emblemáticas da beat generation - vão, também eles, lançar-se à estrada, ou the road, à procura de uma felicidade
menos falsificada do que a que lhes oferece a sociedade de consumo do pós-guerra.
A atitude dos argentinos é diferente. Vão tanto à descoberta dos outros como dessa "América maiúscula" que, nos textos de Ernesto, ganha uma dimensão um pouco mítica.
Ambos mantêm um diário de viagem, testemunhos que levarão um tempo considerável a vir à luz. O pai, Guevara Lynch, deu a conhecer alguns excertos do de Ernesto na
obra que começa a escrever em
1972, cinco anos após a morte do "Che". Será necessário em seguida aguardar vinte anos para que, em 1992, o essencial desse diário - mas não a totalidade - seja
publicado numa versão sensivelmente retocada, amputada de

64

muita da sua autenticidade inicial e da sua espontaneidade. Numa advertência ao leitor, Guevara assinala a atitude stendhaliana do espelho passeando ao longo de
um caminho. "A minha boca conta o que os meus olhos lhe disseram [..]. Isto não é o relato de façanhas impressionantes [...]. É um naco de duas vidas durante um
determinado percurso". Quanto aos cadernos de Granado, retomados pelo autor em 1978, só serão publicados em Havana em 1986.
Impõe-se uma leitura cruzada destes dois documentos, que irá revelar-nos as diferenças de perspectiva de cada um e apresentar-nos um Guevara muito menos politizado
que o amigo, em todo o caso mais céptico, quase cínico, atento, como ele escreve, "a não criar musgo em parte nenhuma, nem a perder tempo a estudar o substrato das
coisas: a peripécia basta". Enquanto para Granado essa viagem constitui o limite da acção, para Guevara não passa do início de uma exploração geral do vasto mundo,
uma etapa lógica que, após o reconhecimento prévio do seu país, o levará a outras errâncias.
Esses cadernos não são de forma nenhuma documentos filosóficos ou políticos. Se a sua leitura é divertida, por vezes jubilar, é porque nos mostra um lado inédito
dos seus autores, verdadeiros anarcas quando calha, sempre feitos um com o outro para conseguirem pelo menor preço (ou mesmo de borla) o tecto de abrigo, a comida,
o transporte e, como por vezes se adivinha, os favores das raparigas.
Mais pândegos do que sérios, extravasando uma vitalidade juvenil, esses diários, por vezes escritos à pressa, remetem-nos para as melhores narrativas picarescas
espanholas quando o pícaro, transformado em vivo pelos argentinos, lança mão de todos os estratagemas para garantir a sobrevivência, tirar partido da mínima pechincha,
utilizar genialmente a sua própria precaridade como pretexto de risota e fonte de simpatia.
Ao longo dessa peregrinação americana cada um mantém a sua alcunha habitual. Granado é Mial, apócope da expressão "Mi Alberto", utilizada pelo avô, e também petiso,
porque é baixo e gordo. Guevara é sobretudo Fuser, alcunha de râguebi de "furibundo Serna", mas muitos só o conhecem por el Pelao, por usar sempre o cabelo muito
curto.
Logo nos primeiros minutos, à partida de Córdova, o tom fica dado. Está um belo dia de sol. Toda a família Granado está presente, ansiosa. Alberto toma o comando.
Oscilante, carregada "como um enorme animal pré-histórico" de sacos, tendas, camas de campanha, grelhador de carne e outros acessórios, a moto arranca bruscamente.
Ernesto, que se volta para um último adeus, faz o veículo dar uma guinada. Quase chocam com um eléctrico na esquina da rua. Mial dá então uma aceleradela brusca,
enquanto Fuser lhe bate nas costas como um louco. Ao fim de dois quilómetros, primeira paragem. "Parvalhão, tive de me agarrar como um polvo para não cair", barafusta
Ernesto. "Tínhamos de acabar com aquilo, senão nunca mais partíamos", responde Granado. Os dois rapazes entreolham-se. Crise de gargalhadas. Desta vez, é a sério.
Ernesto e Alberto partem de moto.

65

"Foi sempre tudo mel"

Em Rosário, rápida escala. Alberto, aliás Mial, nota como as suas sobrinhas, devoradoras de livros cor-de-rosa, ficam impressionadas com a presença de Ernesto, aliás
Fuser. Em Buenos Aires, segunda despedida, desta vez em casa dos Guevara. Nova partida para os lagos do Sul, mas passando pelas praias atlânticas onde os espera
a namoradinha de Pelao. Uma terceira personagem faz provisoriamente parte da expedição, um cachorro pastor alemão comprado à saída de Buenos Aires. Ernesto, que
sempre adorou cães, quer oferecer a Chichina o animal, que baptizou de Come Back, promessa de regresso que ninguém sabe se será cumprida.
Após várias peripécias sem gravidade - algumas quedas que não ajudam a moto, tornada instável com um carregamento louco -, os viajantes chegam a Miramar. Para Granado,
até aí habituado às estradas de montanha, é uma estreia absoluta: nunca viu o mar, "velho confidente", ao contrário do seu amigo, habituado a Mar del Plata.
Pequena estação balnear discreta, muito selecta, a 500 quilómetros da capital, Miramar é um entreacto importante na história dos amores de Ernesto. Com Chichina,
escreve ele, "foi sempre tudo mel, com esse pequeno travo amargo [devido] à iminência da separação que, adiada de dia para dia, acabou por ocorrer só após uma semana.
Ela agrada-me cada vez mais, cada vez gosto mais dela, a minha pequena cara-metade"2.
Esta passagem explícita, mas nada escandalosa, reproduzida pelo pai, Guevara Lynch, foi pudicamente expurgada da edição cubana do diário que, pelo contrário, precisa:
"Não faz parte dos objectivos destas notas contar o episódio de Miramar"3. Todavia, é dito o suficiente para se compreender que, apesar dos seus compromissos com
Granado, Ernesto poderia ainda ter mudado de opinião se Chichina tivesse insistido. Durante esses oito dias de Verão, à beira-mar, ao lado de Chichina, "a viagem
ficou em suspenso", escreve ele, "por decidir, inteiramente subordinada ao "sim" que poderia reter-me. Alberto via o perigo e já se antevia sozinho ao longo das
estradas da América, mas não dizia nada. A parada era entre mim e ela...".
Enquanto o rapaz, de cabeça pousada no colo da sua Dulcineia, "no interior do enorme Buick", imagina o que poderia ser "o meu universo inserido num meio burguês",
é o mar que, segundo ele diz, se recusa a escutar o "homem apaixonado" (e sobre esta mesma expressão ele ironiza de imediato, acrescentando: "Alberto utiliza um
adjectivo mais picante e menos literário"). De facto, Granado não está apenas preocupado por ver o seu amigo "na caça", está também furioso por ter de conviver de
perto com "esses seres [que] julgam que por direito divino [...] merecem viver sem outra preocupação que não seja a de cuidarem do seu estatuto social [...] Isso
faz-me ter orgulho na minha origem de classe [...] Ernesto nasceu e cresceu no mesmo meio social, mas a sua sensibilidade não foi contaminada pelos preconceitos
da sua classe".

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O enorme bom-senso do nosso Sancho Pança marxista vem recordar ao apaixonado que, para viajantes de longo curso como eles, todos os meios se justificam. Em Miramar,
Granado submete Ernesto a uma prova de elegância duvidosa. Chichina traz no pulso uma linda pulseira de ouro, que deve valer bastante. "A pulseira dela, ou então
já nem te reconheço", é a intimação que faz ao amigo. O qual regista a maldade no seu diário. "As mãos dela perdiam-se dentro das minhas. "Chichina, essa pulseira...
E se ela me acompanhasse durante toda a viagem, como recordação e guia?" Coitada! Eu sei que ela não pesou o ouro, digam lá o que disserem. Os seus dedos tentavam
apalpar e avaliar o amor que me levara a pedir esses quilates...". E Alberto, implacável, troçando da "densidade 29 quilates" do referido amor. No melhor estilo
do tango melodramático, Ernesto cita então um poema do venezuelano Otero Silva adaptado às circunstâncias: "Não sei como arranjei força para me libertar dos seus
olhos, / Fugi dos seus braços. / Ela ficou cobrindo de lágrimas a sua dor / ... Mas incapaz de me dizer: espera! Vou contigo!".
Em Miramar, apesar do "mel", qualquer coisa no entanto deve ter-se rompido na relação amorosa do jovem casal. Terá Chichina sentido que o esforço que Ernesto exigia
dela estava acima das suas forças de burguesa jovem e bonita, filha de uma família rica? O facto é que, depois da sua partida, ela lhe escreve uma carta, provavelmente
de ruptura, que ele só recebe um mês depois, a 12 de Fevereiro de 1952, na véspera de atravessar a fronteira chilena. É um balde de água fria. "Eu lia e relia aquela
carta inacreditável. Assim, de uma assentada, todos os sonhos de regresso ancorados nos olhos que me tinham visto partir de Miramar caíam por terra [...]. Um enorme
cansaço invadia-me". Mas enquanto os outros conversam, indiferentes, à sua volta, ele vai sentindo pouco a pouco um mal-estar profundo, sem dúvida porque apesar
da dor que deveria sentir - mas que não sente - eram as forças da vida que o arrebatavam. Sente-se, especifica ele lucidamente, "alheio ao que devia ser o meu drama
naquela altura". E é ele o primeiro a admirar-se: "Já nem era capaz de sentir a coisa [...]. Comecei uma carta piegas, mas era impossível, era inútil insistir [...].
Antes de se manifestar a minha indiferença, pensei que a amava. Tinha de a reconquistar através do pensamento, tinha de lutar por ela, ela era minha, ela era m...
E adormeci!". Esta sonolência irreprimível no momento em que um amor se desfaz, é de uma trivialidade tal que se torna cómica.

O ar leve da aventura

Durante o mês decorrido depois de, qual Ulisses, Ernesto ter escapado à sedução da sua sereia nas margens atlânticas, os dois viajantes fizeram a aprendizagem da
estrada, das suas partidas traiçoeiras e dos problemas mecânicos da moto. Puderam avaliar a simpatia provocada geralmente pela odisseia transamericana insólita na
qual se empenharam. Convencem-se que, em comparação com os ideais bastante básicos das gentes que vão descobrindo,

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são eles que estão no bom caminho, portadores de uma liberdade incomensurável. Para o alojamento, foi adoptada uma estratégia eficaz: quando não têm um ponto de
apoio garantido, dirigem-se primeiro ao hospital, quando ele existe, ou então ao dispensário. Quando isto falha, vão ao posto de polícia onde, apesar do seu aspecto
miserável, tiram descaradamente partido da sua qualidade de (quase) médico e bioquímico, passaporte capaz ainda, naquela época, de impressionar funcionários com
pouco mais do que a escolaridade mínima.
A etapa de Necochea, outra estação balnear, perto de Miramar, tem apenas interesse pelas reflexões que suscita em ambos quanto ao destino de pequeno-burgueses a
que estão decididos a escapar. Chegam lá, cobertos de poeira, mesmo a tempo de serem convidados para almoçar em casa de um antigo colega de Alberto, actualmente
casado e bem instalado na vida, o qual, apesar de um pouco atordoado, os recebe cordialmente. Granado escreve: "Mas que mudança [...]. Actualmente não passa de um
fóssil, com a senhora esposa que só se preocupa em que não haja um grãozinho de pó". Ernesto observa que, à despedida, "se sentiram francamente mais livres".
Na baía Branca (a 700 quilómetros de Buenos Aires), desta vez em casa de amigos de Ernesto, põem em prática um outro princípio sagrado do viajante prevenido: nunca
deixar passar uma ocasião de recuperar forças. Ernesto escreve: "O pão tinha um sabor a aviso. "Dentro em breve terás de pagar para me comer, meu caro". E logo o
comíamos com sofreguidão. Tal como os camelos, fazíamos provisão para a caminhada". Sobretudo quando o desastre financeiro se aproximava.
Granado que, como é evidente, se encarregava da contabilidade, informa-nos que ao partirem da baía Branca, dispõem apenas, os dois juntos, do equivalente a trezentos
e cinquenta dólares. Todavia, conseguirão com esses únicos recursos aguentar sete meses e percorrer mais de dez mil quilómetros. Percebe-se que para conseguirem
semelhante proeza, nem sempre tenham olhado a meios.
Na fronteira da Patagónia, a estrada que liga o Atlântico à cordilheira dos Andes e ao Chile estende-se por grandes espaços de Pampa, como que em cinemascope, extensões
infinitas varridas pelo vento sob céus magníficos que invadem a paisagem. Os nossos viajantes retomam o itinerário daquilo que, durante três séculos constituiu a
"fronteira", linha divisória, mais ou menos alterada, entre povoações índias e crioulos argentinos. Os nomes das pequenas vilas e aldeias que atravessam são os dos
fortins instalados, de longe a longe, no século passado, ou então os das tribos da região. Por vezes, como nos melhores westerns, os índios lançavam-se a cavalo
sobre as terras crioulas numa incursão devastadora, um malón, matando homens, queimando casas, capturando mulheres. E então os crioulos ripostavam com os seus gaúchos,
pagando-lhes na mesma moeda, ou ainda pior. Até ao momento em que, em 1879, a questão foi resolvida pelo método clássico: o massacre. Um bisavô materno de Ernesto
participou, como se sabe, nessa "conquista do deserto". Ficaram

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algumas obras-primas literárias: A Expedição contra os índios Ranqueles, do coronel Mansilla, distinto diplomata que, em Paris, frequentará os salões proustianos,
ou então A guerra ao malón, do comandante Prado, que descreve a louca construção de uma gigantesca "trincheira de Alsina", muralha da China oca, que deveria rodear
a Pampa. Os índios tiveram a astúcia de empurrar para lá rebanhos de carneiros, amontoados uns sobre os outros, antes de se lançarem a galope sobre esse aterro de
lã e balidos.
Toda esta história, verdadeiro southern argentino, certamente tão rica como o western das pradarias dos Estados Unidos, ainda hoje é pouco conhecida. Mas os dois
rapazes leram os clássicos. Granado faz referência a Mansilla e Ernesto ao inevitável breviário criollo de Martin Fierro. Beberricando o seu mate de manhã cedo,
ele observa os peones que se afadigam à volta do fogón, fogão a lenha de uma estancia onde se albergaram. "Estes membros da raça vencida dos Araucanos são pouco
comunicativos e mantêm a desconfiança em relação ao branco que, depois de lhes ter infligido tantas desgraças, ainda hoje os explora".
Sob a acção do vento, a estrada de terra batida e de areia franze-se como uma chapa ondulada: é o serrucho, pesadelo dos participantes em rallyes. Por não terem
partido de madrugada, quando a areia das dunas (os medanos), molhada pelo orvalho, é ainda praticável, os motociclistas enfrentam a passagem difícil na hora de maior
calor. E estampam-se por doze vezes! Uma vez, é o pé de Ernesto que fica entalado debaixo do cilindro. "A queimadura deixou-me uma má recordação por muito tempo".
Mas os dois aventureiros não se atrapalham com nada. Apesar de uma violenta tempestade que os deixa encharcados até aos ossos, Ernesto observa, divertido: "Encarávamos
o futuro com uma alegria impaciente [...]. Dir-se-ia que respirávamos um ar mais leve que vinha daquelas bandas, da aventura". Como D. Quixote, herói familiar, ele
sonha: "Países distantes, actos heróicos, mulheres bonitas desfilavam na nossa imaginação desenfreada. E diante dos meus olhos fatigados mas que recusavam o sono,
dois pontos verdes, síntese de um mundo morto, troçavam da minha pretensa libertação, associando o rosto a que pertenciam ao meu voo fabuloso por sobre mares e terras
do mundo".
Por seu turno, Granado está deslumbrado com "a vida cheia de surpresas" que passou a viver. Sonha com uma ida à Europa, andar pelo Danúbio, conhecer a URSS, ouvir
os sinos do Kremlin, e exclama: "E pensar que, se não nos tivéssemos revoltado, o futuro que nos aguardava era, quanto a mim, ser um farmacêutico de província, e
ele um médico de ricaços cheios de alergias!". Poeira da estrada ou dureza do meio de transporte? A asma de Ernesto manifesta-se com frequência, às vezes com violência.
Em Choele-Choel, crise terrível: náuseas, vómitos, 40 graus de febre. O médico da terra administra ao doente "uma droga pouco conhecida", a penicilina... "Alberto
fotografou-me com as vestes do hospital, magro, descarnado, com uns olhos enormes...". A viagem prossegue, enquanto a moto vai dando sinais de fraqueza: rebentamentos
de pneu (dramáticos quando se trata da roda traseira

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e é necessário desmontar a traquitana toda), o motor que também se torna asmático, ou então é o quadro que se parte e que Granado vai remendando com o seu eterno
arame, acessório mágico...

"É sempre cara ou coroa"

E de novo a estrada, a estrada que se enche de poeira, o horizonte que vacila e se afasta... Sempre que surge uma oportunidade eles aplicam, prevendo os tempos de
escassez, "a política do camelo": empanturrarem-se de cerejas, ameixas, de carne grelhada, seja lá o que for que encha a barriga, sobretudo se for de graça.
Cada etapa traz-lhes uma aventura nova, um episódio que lhes confere o seu tom particular. Uma vez, para passarem a noite abrigados do pampero, um vento agreste
que sopra do Sul, não encontram nada melhor do que a fossa de betume do mecânico que lhes arranja a moto. No dia seguinte é um proprietário alemão que lhes dá a
conhecer as alegrias da pesca da truta. Em San Martin dos Andes, abordam a cordilheira quando ela se transforma numa Escandinávia de beleza deslumbrante, multiplicando-se
em lagos bordejados de florestas densas, de aromas raros. Um guarda-florestal do Parque Nacional oferece-lhes dormida num hangar, propondo-lhes, além disso, que
trabalhem com ele na preparação de um assado de carneiro para uma equipa de corredores de automóveis. Eles aceitam com todo o prazer, tanto mais que é a ocasião
sonhada para comerem e beberem à tripa-forra. Ernesto, fingindo-se bêbado durante a ágape, tenta surripiar discretamente cinco garrafas de vinho. Mas para pícaro,
pícaro e meio; decerto não foi suficientemente discreto porque, no momento de ir buscar o fruto do seu rapinanço, vê que o seu esconderijo foi, por seu turno, descoberto
por alguém mais hábil do que ele. Pela primeira vez na vida, descobrem um verdadeiro glaciar. Tão audaciosos como inexperientes, lançam-se na subida, com a inconsciência
dos neófitos. A narrativa de Ernesto, retocada na edição cubana mas conservada na sua autenticidade pelo pai, Guevara Lynch, é digna de ser reproduzida: "Ao meio
dia e um quarto iniciámos a escalada; à uma e meia ríamos; às duas horas transpirávamos; às cinco horas atingíamos a parte rochosa. Foi aí que fiquei bloqueado,
sem poder subir nem descer: a rocha em que me apoiava cedera. Vendo os trinta metros de vazio abaixo de mim, apanhei um cagaço terrível. Durante uma boa meia-hora
fiquei ali aferrado, tentando ganhar coragem; por fim, sem olhar para baixo, comecei a subir muito lentamente, até alcançar uma parte firme. Alberto aguardava-me,
quase sem fôlego...". Finalmente, chegam ao cume, já ao cair do dia e têm de fazer a descida de noite; a sorte está com eles, porque, depois de quase se matarem
por dez vezes, acabam por chegar ao vale à uma da manhã, não sem antes terem contemplado, surgindo da escuridão, "a silhueta gigantesca de um alce iluminado pelo
luar"4.

70

Outra vez, Ernesto revela a sua presença de espírito e a sua pontaria a disparar. Estão acampados à beira de um lago magnífico, o Espejo Grande, à sombra de um arrayán,
uma árvore muito estranha, de tronco frio e amarelo, característica da região. Um vagabundo chileno parece demasiado interessado nas suas bagagens e Ernesto, sem
dizer uma única palavra, puxa da sua Smith & Wesson, pistola sólida, e "quase sem apontar abate um pato no lago". Desaparecimento imediato do visitante inoportuno.
Mesma rapidez de gatilho uns dias depois, numa estancia próxima. Quando os alojaram na granja, avisaram-nos que andava por ali a rondar um puma perigoso. Por isso
quando, de noite, surgem dois olhos fosforescentes acompanhados de uma rosnadela, o nosso Lucky Luke não hesita. Dispara, ouve um gemido e volta a adormecer. Era
o cão da quinteira que, ao descobrir a proeza de manhã cedo, os criva de injúrias e os escorraça aos berros.
Em Bariloche, estação de esqui ainda incipiente mas já zona turística do Sul argentino (e refúgio de muitos nazis), são albergados por pouco tempo no posto da polícia,
o que faz com que partilhem as suas magras refeições com uma galeria de seres humanos que Granado, de adjectivo fácil, classifica de "dantesca": uma pobre louca
que resmunga obscenidades, um bêbado titubeante, um delinquente crónico, um marinheiro desertor... tudo isso "reflexo fiel da destruição do ser humano provocada
pelo sistema vil e corrupto que nos governa, quando as pessoas a ele não se opõem". No seu diário, mais rico que o de Guevara em pormenores interessantes, Granado
raramente perde uma ocasião de se erguer, com uma subtileza que em nada ultrapassa a dos comunistas argentinos, conhecidos pela sua cegueira dogmática, contra os
exploradores do povo, a oligarquia, os bancos estrangeiros, o poder corrupto, etc. "Estava influenciado sobretudo pelas minhas leituras", dirá ele, "do Zola, do
Steinbeck das Vinhas da Ira"5.
À indignação do amigo, Guevara opõe uma visão placidamente maniqueísta do mundo, que de modo algum implica resignação: "Petiso, é sempre assim. É sempre cara ou
coroa. Riqueza natural de um lado, pobreza dos que trabalham do outro; generosidade dos pobres do lado da coroa, ganância dos proprietários do lado da cara". É a
vez de Granado ficar pensativo.

Peritos em leprologia

A 13 de Fevereiro de 1952, um mês e meio depois de terem deixado Córdova, iniciam finalmente a parte "internacional" da sua viagem. Para entrarem no Chile, "nosso
irmão filiforme dos Andes", tiveram de atravessar muitos lagos, sobretudo o magnífico Nahuel Huapi, recortado como uma renda, de um estranho verde leitoso, transbordando
sempre a moto estafada, já pouco digna do nome: "Poderosa".
Esta passagem da fronteira, "na terra dos Araucanos" está minuciosamente descrita nos apontamentos dos dois rapazes. Primeiro, porque tomam

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um banho (com sabão) nas águas mornas (e já não glaciais) do lago chileno Esmeralda, acontecimento suficientemente excepcional para ser mencionado. ("Até o Pelao
se lavou", observa Granado). Depois porque, conversando com médicos em vilegiatura, descobrem uma região do planeta que vai fazê-los sonhar, a Ilha de Páscoa e a
sua leprosaria. "O número de leprosos é ínfimo, mas a ilha é magnífica; e o nosso eu "científico" lançou-se de imediato em elocubrações sobre essa famosa ilha".
Surge aí também uma aventura amorosa com duas turistas brasileiras negras, em relação à qual Guevara é mais discreto que o amigo, que conta, com certo humor: "Levei
a colega à beira do lago. Depois de falarmos de bioquímica, passámos, de comum acordo, à anatomia topográfica... Espero não ter chegado à embriologia".
Para pagarem as suas passagens e a da moto, tiveram de se sujeitar a despejar "a lama oleosa da sentina" do barco. Agora, para poupar a moto estafada, Ernesto aceita
conduzir uma camioneta até Osorno, cento e cinquenta quilómetros a Norte. Não conhece a estrada que circunda um vulcão sempre coberto de neve, nem a caixa de velocidades
do veículo, mas pouco se importa. A sua única vítima é um porco suicida que corre "à frente do carro, enquanto eu não estava ainda familiarizado com o travão e a
embraiagem".
Em Valdívia, à beira do Oceano Pacífico, passeiam ao longo do porto quando, por mero acaso, resolvem fazer uma visita ao jornal local. No dia seguinte, o Correo
de Valdivia dedicará três colunas "aos bravos viajantes argentinos", que exageram descaradamente os seus conhecimentos sobre leprologia. Um pouco mais a Norte, em
Temuco, capital dos índios Mapuche, célebres pela sua destemida resistência aos invasores, fazem o mesmo junto do Diario Austral, que publica a sua fotografia na
edição de 19 de Fevereiro. E como não é fácil desmenti-los, embora ambos riam disso nos seus apontamentos, são suficientemente convincentes para que o cronista titule:
os "especialistas em leprologia", cuja experiência internacional incide em três mil casos, e que aliás projectam estudar a situação na Ilha de Páscoa.
Esta lenta subida do Chile dá-lhes imenso gozo. Guevara não se cansa de louvar a hospitalidade chilena, o campo chileno, o vinho chileno, a mulher chilena. "Feia
ou bonita, ela tem qualquer coisa de espontâneo, uma frescura, que cativa de imediato". A sua liberdade de costumes encanta-os, habituados que estão ao ar um pouco
presumido das argentinas. O artigo do jornal faculta-lhes uma pequena glória local. São reconhecidos, são convidados e deixam-se apaparicar sem qualquer escrúpulo.
Em Lautaro, sempre na região mapuche, novas complicações mecânicas com a moto, que se avaria e os obriga a vários dias de reparação. Uma noite, aceitam fazer uma
farra com amigos de ocasião. "Apesar da sua jardineira cheia de nódoas e de uma barba de vários dias, Pelao era uma presa cobiçada", observa Granado. "O vinho chileno
é excelente", conta, por sua vez, o Pelao. "Não parava de beber, o que me levou, no baile popular, a sentir-me capaz das maiores proezas [...]. Um dos mecânicos
da oficina pediu-me que dançasse com a mulher dele [...]. Era uma mulher ardente. E tinha bebido.

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Peguei-lhe na mão, para a levar até lá fora. Ela seguiu-me docilmente, mas percebeu que o marido a observava". Quer ficar por ali. Insistência de Ernesto. Gritos.
Confusão geral. Granado acrescenta: "O marido pega numa garrafa e avança para o Fuser para o atacar pelas costas. Eu precipito-me, seguro o tipo, que cai, mais pelo
efeito do vinho do que pelo meu ataque". Os dois argentinos decidem retirar-se sem se despedir e raspam-se prudentemente. Fuser tem a última palavra: "Daqui para
a frente, temos de prometer formalmente um ao outro que não voltamos a engatar em bailes populares".
Santa decisão! Mal acabaram de partir - depois de um almoço de despedida na companhia de raparigas encantadoras -, desta vez são os travões que falham em plena descida,
com uma manada de vacas mesmo à frente. "Mais uma vez", afirma Granado, "pude apreciar a calma e o sangue-frio de Ernesto". Num estilo "cinematográfico", que infelizmente
não se encontra na versão "reescrita" da edição cubana do diário, Guevara conta o incidente: "Vi passar-me ao lado, como um fantasma, a cabeça de uma vaca, depois
o lombo e por fim senti, na roda da moto, o impacto seco da pata traseira da última vaca"6.
Pedem auxílio numa pequena quinta. Inicialmente oferecem-lhes apenas o clássico palheiro, mas como a rapariga da casa os reconheceu como os "especialistas" do jornal
de Temuco, passam então a ser tratados como príncipes: cedem-lhes o quarto de hóspedes. "Quando partimos, ficámos convencidos que, em regime burguês, a imprensa
é realmente o quarto poder", sublinha Granado.
Mas as motos também se abatem, quando deixam de ser poderosas. Em Malleco, uma ponte metálica liga as duas vertentes de um desfiladeiro profundo, obra magnífica
desenhada por Gustavo Eiffel, (o que fez a Torre Eiffel), "a mais alta ponte de caminho-de-ferro da América do Sul", garante Granado. "Foi aí que a moto falhou",
especifica Ernesto. "Na primeira encosta complicada, a Poderosa ficou pregada ao chão, definitivamente".
Um camião caridoso recolhe-os até à localidade mais próxima, Los Angeles. Segundo Granado, irão viver aí "uma das mais inimagináveis e interessantes aventuras da
viagem", a do sapador-bombeiro. O Chile, país com uma "geografia louca", é uma faixa longilínea de território, coberta de florestas no Sul, de vinhas e pomares no
centro e de desertos no Norte. Sempre com um parapeito de cordilheira sobre o Pacífico. A madeira, abundante, é a matéria com que são construídas todas as casas
do Sul. Daí a frequência dos incêndios. E batalhões de bombeiros voluntários que disputam entre si a honra de servirem a comunidade.
Graças a umas raparigas que conhecem assim que chegaram a Los Angeles, os dois motociclistas sem moto conseguem ser alojados no quartel dos bombeiros. E, se for
necessário, participar nas operações. Logo na primeira noite, alerta geral. Dão-lhes um capacete e uma capa. E ei-los agarrados ao carro dos bombeiros que, de sirene
a apitar, avança para uma casa de madeira e taipa que arde num fogo bem ateado. Alberto empunha a agulheta, enquanto Ernesto retira os primeiros escombros. E, nos
seus diários,

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cada um atribui generosamente ao outro o mérito de ter saltado para as chamas para resgatar, sob os aplausos do público, um gatinho que miava. "Mas tudo tem um fim",
conclui Ernesto, "o pequeno Che e o grande Che (Alberto e eu) davam os últimos apertos de mão enquanto o camião rumava a Santiago, carregando o cadáver da Poderosa".
O transportador de móveis que lhes levou os últimos pesos para carregar a moto contratou-os também como descarregadores. A capital chilena, onde chegam a 1 de Março
de 1952, não os impressiona. É certo que está longe de poder ser comparada com Buenos Aires. Ernesto acha que "Santiago se parece mais ou menos com Córdova", apesar
de as "montanhas serem mais próximas e mais altas", acrescenta Alberto. Aliás demoram-se lá apenas o tempo de depositar a desgraçada moto (que Tomás Granado virá
mais tarde recuperar) e de obter os vistos para o Peru. Cumprindo o prometido, fizeram a mudança, como estava combinado. Granado conta, a propósito, um episódio
que revela a força de vontade de Ernesto, capaz de se transformar num robusto moço de fretes se lhe ferem o amor-próprio.
Quando o ajudante de camionista se dispõe a ajudá-los a transportar um grande armário muito pesado através de um corredor estreito, o patrão detém-no bruscamente:
"Deixa lá esses porteños carregá-lo sozinhos". O Pelao voltou-se, olhou para o patrão e respondeu: "Veja bem o que eu sou capaz de fazer, se quiser". E, dirigindo-se
a mim: "Mial, deixa lá que eu faço isto sozinho". Agarrou então o armário pelo meio do corpo, levantou-o dez centímetros, avançou com ele ao longo do corredor e
foi depositá-lo no meio da sala. Veio então ter connosco, todos três estupefactos com aquela proeza. "E pronto, já está!" Epílogo de Granado: "Não sei como é que
ele arranjou forças e fôlego para fazer aquilo".

Passageiros clandestinos

É ao partirem de Santiago para Valparaíso, privados da sua máquina, transformados em vulgares pedestres viajando à boleia, sujeitos à boa-vontade dos condutores,
que tomam consciência do seu novo "estatuto social". Guevara: "Estávamos habituados a despertar a atenção dos basbaques com o nosso aspecto original e a silhueta
prosaica da Poderosa II, cujo ronco asmático condoía os nossos hospedeiros, mas, de certo modo, éramos cavaleiros da estrada. Pertencíamos à velha aristrocracia
"errante" e exibíamos, como um cartão de visita, os nossos diplomas, que causavam grande impressão. Agora tudo isso acabara. Não passávamos de dois vagabundos, com
o saco às costas e toda a poeira da estrada colada às nossas roupas..."
Escala obrigatória de todo o navegante da costa do Pacífico antes de passar o Canal do Panamá, Valparaíso, porto mítico do álcool e das mulheres, povoou durante
muito tempo o imaginário dos marinheiros do Cabo Horne. O sítio é prodigioso. Quando se chega de Santiago, como os nossos dois

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"vagabundos", domina-se uma grinalda de colinas que descem desordenadamente até à baía gigantesca. Guevara faz uma boa descrição: "A sua estranha arquitectura de
zinco, escalonada em degraus ligados entre si por escadas tortuosas ou por funiculares, faz realçar a sua beleza caótica pelo contraste das diferentes cores das
casas, que se misturam com o azul plúmbeo da baía".
O objectivo é, antes de mais, a ilha de Páscoa, revestida de todas as virtudes do Graal, condensado das iluminações de Rimbaud e dos sonhos de Gauguin. Alucinação
em estado puro para Guevara, que esquece os leprosos e transcreve o seu delírio: "Ali, ter um namorado branco é uma honra para a mulher [...]. Ali, trabalhar é impossível,
as mulheres fazem tudo; os homens comem, dormem e dão-lhes prazer [...]. Lugar maravilhoso, onde o clima é ideal, as mulheres ideais, a comida ideal, o trabalho
ideal (na sua beatífica inexistência). Que importa ficar lá um ano, que importam os estudos, o salário, a família, etc.".
Mas "as notícias eram desencorajantes. Só dali a seis meses partiria um navio naquela direcção". Ernesto regressa então à realidade, "auscultando, com Granado, a
escória da cidade, os miasmas que nos atraem [...]. Com uma paciência de detective, fomos sondar todos os recantos, pátios e escadinhas, falámos com os mendigos
[...]. As nossas narinas dilatadas captavam a miséria com um zelo sádico". Tal como Georges Brassens descobriu o seu Auvergnat, eles descobriram um comerciante de
peixe providencial, de coração de ouro, que os alimentou de graça de manhã e à noite, segundo o generoso princípio: "Hoje para ti, amanhã para mim". A sua loja tem
como insígnia uma Gioconda cujo sorriso parece ter iluminado a estadia dos dois viajantes em Valparaíso.
Chamado para fazer uma consulta a uma velhota asmática, cliente da Gioconda, o não menos asmático Dr. Guevara revela nos seus apontamentos um grito de indignação
à maneira de Zola, demasiado insólito para passar desapercebido. Mas não denotando ainda nenhuma determinação política: "A desgraçada metia dó. No seu quarto respirava-se
aquele cheiro acre de suor concentrado e chulé, misturado com a poeira dos sofás [...]. Além da asma, sofria de uma grave descompensação cardíaca. É neste tipo de
casos que um médico, consciente da sua inferioridade absoluta face ao meio, deseja uma mudança, qualquer coisa que ponha termo à injustiça. Porque era evidente que
a desgraçada devia ter trabalhado até ao fim do mês anterior para ganhar a vida [...]. Nos últimos momentos desta gente cujo horizonte mais longínquo sempre esteve
limitado ao dia seguinte, compreende-se a profunda tragédia que é a vida do proletariado de todo o mundo. Não está ao meu alcance responder até quando durará esta
ordem de coisas baseada num absurdo espírito de casta".
Todavia, não está longe o tempo - apenas alguns anos - em que esse mesmo Guevara, vestido com a farda verde dos combatentes revolucionários, procurará dar algumas
respostas mais concretas às suas interrogações de juventude.
Por enquanto, Tintim e Milú vão tentar evitar uma parte do deserto chileno, dirigindo-se por mar a Antofagasta, dois mil quilómetros a norte.

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Vão como passageiros clandestinos. Será um dos episódios mais pitorescos da sua travessia latino-americana. Falaram com o capitão de um cargueiro, o San Antonio,
que estava disposto a deixá-los embarcar, desde que trabalhassem para pagarem a viagem, se conseguissem autorização da capitania. Autorização recusada. Mas eles
decidem dispensá-la e conseguem introduzir-se no navio, escondendo-se nas casas de banho dos oficiais. "A partir daí, a nossa tarefa consistiu em declarar numa voz
nasalada: "ocupado!" sempre que alguém tentava entrar. Mas, acrescenta Ernesto, as latrinas entupidas deitavam um cheiro insuportável. Alberto vomitou tudo o que
comera..." "O tempo passava tão lentamente como dois namorados que regressam do cinema" (Granado). Chegados ao mar alto, apresentam-se ao capitão que, numa cena
chaplinesca, lhes lança uma piscadela de olho cúmplice, desancando-os impiedosamente diante da tripulação, e impõe-lhes duas tarefas clássicas: descascar batatas
(para Granado, que aproveita para se empanturrar) e limpar as latrinas (para Ernesto, que barafusta, porque "é absolutamente injusto! Alberto acrescentou uma boa
dose de porcaria àquela que já se tinha acumulado, e sou eu que tenho de limpar".
Mas os três dias de travessia compensam todos os dissabores e até os enfadonhos jogos de canasta, para os quais o capitão os convida. Apoiados na amurada, vão filosofando,
ao mesmo tempo que admiram os peixes-voadores, os cachalotes, os golfinhos. "Percebemos que a nossa vocação é sulcar infinitamente todos os mares e estradas do mundo.
Permanecendo sempre curiosos [...] metendo o nariz em todos os cantos, mas sempre em bicos de pés, sem criar raízes em parte nenhuma, nem perder tempo a estudar
a substância das coisas; a superfície basta-nos", escreve Guevara.

A manta partilhada em Acatama

"Sair do Chile sem conhecer as minas de nitrato e de cobre seria como tirar o picante da aventura", escreve Granado. Lançam-se, portanto, a pé, como caminheiros
extravagantes, na estrada desolada de Antofagasta a Chuquicamata. Este deserto de Acatama, conquistado à Bolívia e ao Peru há mais de um século, é um dos mais áridos
do planeta, escaldante de dia, gelado de noite, de uma beleza sublime. Um universo puramente mineral, devolvido às suas origens. Rochas vermelhas, negras, verdes,
consoante a natureza do metal, cuja cor vai mudando ao longo do dia. Um sol branco e forte num azul intenso, quase violeta. Os dois caminheiros refugiam-se cada
um "à sombra escassa de um poste de electricidade", à espera de um improvável veículo. A riqueza geológica da região permitiu, a partir do século XIX, uma exploração
mineira sistemática, sobretudo nitratos e cobre, exigindo uma mão-de-obra abundante que acabou por criar as primeiras organizações sindicais do continente, acarretando,
como corolário, o habitual cortejo de repressões.

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Na humilde aldeia de Baquedano - umas barracas perdidas de chapa de zinco - um encontro, narrado com precisão, comove Guevara: o de um mineiro comunista, escorraçado
de todo o lado por ter manifestado "o desejo natural de melhorar a sua condição".
Relato: "Na sua linguagem simples e expressiva, descreveu a sua prisão, a sua mulher, faminta, que o seguira com uma lealdade exemplar, os filhos entregues a um
vizinho compadecido, a sua errância infrutífera em busca de trabalho e os seus companheiros misteriosamente desaparecidos, constando que teriam sido lançados ao
mar. Esse casal enregelado e encolhido na noite do deserto, era o retrato vivo do proletariado de qualquer parte do mundo. Não tinham nada para se cobrir e nós demos-lhes
uma das nossas mantas, agasalhando-nos como podíamos, eu e Alberto, naquela que nos restava. Foi uma das vezes em que mais sofri com o frio, mas também aquela em
que me senti mais solidário para com a humanidade...".
O interesse do diário de Guevara reside na acumulação destes "pequenos factos verídicos" que, apesar dos retoques posteriores, nos permitem seguir a evolução de
uma tomada de consciência, social e política, do sofrimento humano que ainda se opõe ao seu desejo de não se ligar a nada para seguir o seu caminho em plena liberdade.
Essa manta partilhada na noite gelada do deserto de Acatama parece ter marcado o rapaz, talvez tanto quanto o domínio ianque sobre a mina gigante que irão visitar
no dia seguinte.
Chuquicamata é a "montanha mágica" do Chile, pejada de cobre ao longo de quilómetros, fornecedora do "ouro vermelho" de onde o país retira a maior parte das suas
divisas, a maior mina do mundo a céu aberto. O sítio é impressionante. Um gigantesco funil de vários quilómetros de diâmetro com degraus de vinte metros de altura
entalhados na rocha e serpenteando ao longo das paredes. Camiões gigantescos transportam até às fundições as toneladas de minério que os dinamitadores fazem explodir,
enquanto chaminés com uma altura de cem metros largam os seus vapores sulfúricos no céu límpido.
Os dois rapazes ficam fascinados. Guevara descreve pormenorizadamente o processo de refinação do cobre, mas não deixa de transcrever o comentário do guia sobre os
"louros e eficazes administradores" ianques: "Estupores de gringos, perdem milhares de pesos por dia numa greve porque se recusam a dar mais uns cêntimos a operários
pobres"7.
Na sua lenta subida chilena até Arica, cidade na fronteira com o Peru, os viajantes à boleia, para não estorricarem ao sol, utilizam a técnica do "carrinho de bebé":
aceitar fazer apenas pequenas distâncias, em saltos de pulga. Uma vez, são três grevistas perdidos de bêbados que os embarcam alegremente, ziguezagueando pela estrada
deserta. Outra vez, participam num desafio de futebol com operários de uma mina de nitratos, o que lhes dá dormida, comida e transporte garantido no dia seguinte.
Por vezes, a estrada parece-lhes interminável. De saco às costas, vão caminhando. O calor deixa-os prostrados. Esta experiência pessoal faz com que Guevara tenha
uma consciência concreta da "epopeia" que constituiu a

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Mapa intitulado:
AS TRÊS VIAGENS DO COMANDANTE: DA ARGENTINA A CUBA

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conquista do Chile, "um dos maiores feitos da colonização espanhola". Avaliando a coragem dos conquistadores, ele anota: "Nestas pampas de uma aridez absoluta, fica-se
impressionado ao pensar que Valdivia passou por ali, com o seu punhado de homens". No alto da falésia que domina Iquique, grande momento de exaltação lírica. Empoleirado
num carregamento de luzerna transportado num camião, Ernesto declama textos de Neruda a plenos pulmões: "A nossa chegada com o sol a nascer atrás de nós, reflectindo-se
num mar de um azul muito puro, parecia um episódio das Mil e Uma Noites". Em Arica, "pequeno porto simpático", reencontra os sabores tropicais, os cheiros conhecidos
das Caraíbas, quando fazia de enfermeiro em petroleiros argentinos. As águas do oceano, sempre geladas ao longo das costas chilenas, são aqui um pouco mais temperadas.
Com Granado, repete o mesmo gesto com que enfrentaram o Chile, mergulhando no lago Esmeralda, trinta e oito dias antes: "Despedimo-nos do Pacífico com um último
banho (com sabão e tudo)". Coisa provavelmente pouco habitual em Ernesto, que reage logo com uma crise de asma.

Um Peru de livro ilustrado

É no Peru que, durante três meses, os nossos viajantes vão descobrir a América exótica dos livros ilustrados - sem comparação com o seu universo habitual -, a América
dos grandes planaltos andinos do Altiplano, onde se instalaram e por vezes refugiaram os índios Aimarás, terra de agricultores robustos, famosos pelo seu espírito
marcial. Os homens têm os olhos fendidos, o rosto achatado, o cabelo como baquetas de tambor, tão negro que parece azul, e usam pequenos ponchos curtos; as mulheres
têm tranças compridas sob pequenos quicos de feltro e cinco saias apertadas na cintura.
Num "vale lendário, parado há séculos na sua evolução", Ernesto e Alberto, "felizes mortais até aí saturados de civilização do século XX [...] devoram tudo com o
seu olhar ávido", chegam a Tarata, "velha aldeia pacata onde a vida segue o mesmo curso desde há séculos [...]. Mas aqueles que contemplamos não pertencem à raça
orgulhosa que não parou de se revoltar contra o domínio inca, é uma raça vencida. O seu olhar é doce, quase receoso, e completamente indiferente ao mundo exterior".
Depois das fornalhas do deserto chileno, os viajantes enfrentam o rigor do trio do alto Peru, quando o camião que os conduz a Puno sobe até cinco mil metros de altitude.
Mas aguentam. "Devemos ter feito três quilómetros a pé no meio da neve." Mas lá está a recompensa: em breve irão chegar às margens fundadoras da civilização milenária
de Tiwanaku, à beira do Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo (3 827 metros), na fronteira entre o Peru e a Bolívia. "À nossa frente estendia-se o famoso
lago, imenso, silencioso, sereno", escreve Granado. Os dois rapazes, impregnados das suas leituras, tinham sonhado com este momento. Vivem um ponto alto da sua viagem.

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"Para o Pelao e para mim, era um marco importante. Apertámos a mão em silêncio." Chegam mesmo a dar uma volta no lago mítico, cujos barcos são feitos de juncos,
mas Ernesto fica sobretudo impressionado com um barco feito na Inglaterra, içado até ali, insólito, "cujo luxo contrasta com a pobreza da região".
Espera-os outro lugar não menos mítico, para o qual se dirigem de imediato: a cidade histórica de Cuzco, "umbigo do mundo", em língua quíchua, a poucas léguas da
velha "montanha" de Machu Picchu, exaltada por Neruda, que faz dela o altar emblemático da americanidade profunda do continente. Desconhecido pelos espanhóis, protegido
dos olhares estranhos durante séculos pela vegetação que o invadira, este sítio arqueológico só foi redescoberto em 1911 por um havaiano naturalizado americano,
Hiram Bingham, que vê nele "a cidade perdida dos Incas". Tudo isso encanta os nossos exploradores, não só pelos mistérios das origens dos homens americanos como
também, porque embora sejam ambos descendentes de europeus, sentem que há, nessa cultura preservada, um elemento de identidade comum aos habitantes do continente.
Troçando do "turista norte-americano para quem o espectáculo de uma tribo degenerada faz parte das atracções da viagem", Guevara coloca-se do lado dos vencidos:
"São subtilezas que só o espírito semi-indígena de um sul-americano pode apreciar".
Com Granado, faz uma visita pormenorizada à fortaleza inexpugnável, situada a dois mil metros de altitude, sobre um promontório rochoso. Percorre em todos os sentidos
os degraus, os terraços, o Templo do Sol. Admira o inacreditável ajustamento dos enormes blocos de pedra granítica, que encaixam na perfeição. Desenha, toma notas,
faz consultas apaixonadas sobre o assunto na biblioteca de Cuzco. Aqui, o estilo dos diários, geralmente livre e metafórico, torna-se pomposo, anfigúrico, quando
o seu autor toma o cuidado de "escrever bem", sem dúvida embaraçado perante uma ciência ainda recente. Quinze longas páginas contam, no entanto, o deslumbramento
do jovem perante o Machu Picchu e a cidade de Cuzco, alcandorada a 3 600 metros, outrora "brilhante capital inca", eleita pelo deus Viracocha, hoje "réplica do passado,
com os seus telhados de telha vermelha, as suas ruas estreitas e a sua cor de quadro folclórico". Passará dez dias tentando ver tudo, compreender tudo: as igrejas
barrocas instaladas em antigas fortificações indígenas, decoradas sumptuosamente para impressionar o índio, o sincretismo religioso entre cristianismo e antigos
cultos, os museus, tristes depositários do que não foi pilhado pelos espanhóis da colónia ou pelos turistas do século XX. Fica sobretudo impressionado com as ruínas
dos templos-fortaleza nos vales escarpados vizinhos, ricos em vestígios incas, admirando particularmente as de Sacsahuamán, de nome áspero.
Mesmo não querendo fazer qualquer concessão ao espírito do "turista desiludido", como os norte-americanos que vêm e partem de avião, sem nada verem do contexto,
os argentinos ficam impressionados com as novidades que os desorientam: as manifestações sempre vivazes do culto de Pacha-Mama,

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a Terra-Mãe fertilizadora, divindade omnipresente, mal assimilada pela igreja católica, as comidas picantes e aromatizadas que as Índias lhes apresentam em trajes
típicos, ou então o ritual da coca, planta sagrada, supostamente possuidora de virtudes místicas que só o Inca e os seus amigos mastigavam, transformada a partir
de então em remédio tradicional contra a fome e a moléstia das montanhas, mas que em Ernesto e Granado provoca cólicas e vómitos.
À medida que avançam em território quíchua, a estrada, estreita e perigosa, passa das geadas secas do planalto ao vapor quente dos vales baixos e as crises de asma
de Ernesto intensificam-se, para desespero de Granado, que vai dando ao amigo injecções de adrenalina, cálcio ou coramina. Em camiões sacolejantes, evitando o precipício
num milagre permanente, partilham uma obsessão comum: matar a fome que parece nunca os largar, apesar da sua ementa de emergência: pão e mate. "A nossa fome era
uma coisa estranha", escreve Ernesto. "Estava simultaneamente em todo o nosso corpo e em parte nenhuma."
O sésamo deles, ao longo de toda a viagem, foi a leprologia, pretexto honroso justificando atribulações um pouco estranhas. Em Cuzco, Granado encontrou um colega
amável, que conhecera na Argentina, e que os ajudou bastante. Falou-lhes de um grande especialista de Lima, o doutor Pesce, para o qual lhes obteve uma recomendação.
Esse médico irá ser como um anjo da guarda durante os vinte dias da estada na capital peruana. Militante comunista e, por esse motivo, exilado durante muito tempo
na província, finalmente reintegrado na sua cátedra de medicina tropical, o professor irá albergar os dois rapazes no hospital dos leprosos de Lima, apresentar-lhes
colegas, dar-lhes regularmente de jantar e até arranjar-lhes roupas "civilizadas". Ernesto, que tem com ele longas conversas, chama-lhe "el Maestro", o Mestre.
Mais tarde confessará, numa dedicatória do seu manual de guerrilha que oferecerá ao Maestro, que "sem o saber [ele] provocou uma grande mudança na (sua) atitude
em relação à vida e à sociedade". Mas isso não o impede de faltar às boas regras da linguagem diplomática quando se trata de dar a sua opinião sobre uma obra na
qual o Dr. Pesce evoca a sua experiência no Altiplano. Instado a responder, Guevara acaba por declarar: "Doutor, o seu livro é bastante fraco. É inacreditável que
um marxista como o senhor descreva apenas o aspecto negativo da psicologia do índio. Custa a crer que tenha sido escrito por um investigador e por um comunista".
E o Mestre concorda: "Tem razão". Esta intransigência de pensamento, este lado de inteireza, por vezes brutal quando se trata de defender princípios, esta franqueza
nos antípodas da ambiguidade nunca abandonará Guevara. O que lhe valerá, mais tarde, algumas inimizades sólidas.
Ernesto e Alberto não se interessam apenas pela leprosaria de Lima, onde os doentes ficam impressionados com a sua gentileza, a sua atitude desprovida de qualquer
receio de contaminação. Os dois "Che", como os leprosos geralmente lhes chamam, vão completando conscienciosamente os seus conhecimentos arqueológicos do Peru, admiram
as colecções de cerâmica erótica antiga do Museu de Antropologia, descobrem sem grande entusiasmo

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o divertimento tauromáquico da garraiada, que não existe na Argentina. Na Biblioteca Nacional, uma exposição de reproduções de quadros fornece uma ocasião ao plebeu
Granado de avaliar um aspecto insuspeitável da cultura geral do seu distinto companheiro. "Não entendo nada destas modernices", declara ele. Pedagogo indulgente,
Pelao insiste então com Mial para observar atentamente os quadros antes de estabelecer o seu próprio critério. "Estás a ver, Petiso, não és assim tão estúpido. Escolheste
quatro Picassos e um Pissarro, grande impressionista - a não confundir com Pizarro, o conquistador do Peru."

"Como eu descesse rios tranquilos"

O excelente doutor Pesce forneceu-lhes os contactos para se dirigirem a San Pablo, uma leprosaria distante, nas margens do Amazonas, 1500 quilómetros a nordeste,
perto da encruzilhada das fronteiras do Brasil e da Colômbia. Por seu turno, um doente de Lima, leproso e maçónico, consegue que um amigo camionista os conduza até
ao pequeno porto fluvial de Pucallpa, onde embarcarão num vapor de dois andares. Mais uma vez, ao deixarem o deserto costeiro, têm de atravessar a cordilheira através
de gargantas que ultrapassam os 4500 metros; mais uma vez, a asma de Ernesto se manifesta. Um eixo parte-se durante a viagem. Quase se despenham num precipício,
conseguem repará-lo, voltam a partir, entusiasmados. Não tardaram a fazer amizade com os dois alegres folgazões que se revezam a guiar o camião. Em coro, vão massacrando
a plenos pulmões tangos argentinos e valsas peruanas. Sentem-se felizes "como canibais a devorar um missionário", diz Granado. Tudo os espanta: plantações de café
ou de chá, frutos tropicais desconhecidos, goiabas, papaias, florestas de jacarandá e de acaju.
Ao passarem por Junín surge-lhes uma recordação dos tempos de escola, que eles situam na actualidade americana da época. Foi ali que o General Sucre, lugar-tenente
de Bolívar, se distinguiu numa batalha contra a coroa espanhola, durante as guerras de independência. Contra o inimigo comum, os soldados do continente inteiro tinham-se
unido, "belo exemplo para o futuro!...".
No vapor, que demorará uma semana a chegar à Amazónia, Ernesto não está em grande forma. "A asma e os mosquitos não me largavam." Convivem com uma rapariga de má
fama, que embarcou também em Pucallpa. "Uma carícia hesitante da jovem prostituta condoída com o meu estado de saúde" fá-lo regressar aos tempos a que ele chama
já a sua vida "pré-aventureira". Pequena crise de saudade. "À noite, penso em Chichina, romance antigo cuja recordação deixa mais mel do que fel".
O abatimento será provocado pela asma? Enquanto Mial engata uma beleza tropical de olhar assassino ou se extasia com o espectáculo da "gigantesca variedade vegetal"
que desfila diante deles, Fuser regista, lacónico,

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quando desembocam no rio dos rios, o maior do mundo: "São apenas duas massas de água lamacentas que se unem".
Em Iquitos, outrora importante centro de produção de borracha vegetal, a alergia ao cheiro do peixe do pequeno porto desencadeia novas crises de asma. Será necessário
quase outra semana até encontrarem, para descer o Amazonas, um pequeno barco a motor, previsto para quatro passageiros. Amontoam-se lá dezasseis, prefiguração de
um amontoamento de outro tipo que Ernesto irá conhecer, quatro anos depois, num certo iate, que ficará na história: o Granma.
Os doze dias passados na leprosaria de San Pablo marcam outro momento intenso da viagem. A chegada dos dois "cientistas argentinos" fora anunciada. Apesar da precaridade
das condições, são recebidos com aquela cordialidade simples que sempre foi uma constante durante a sua estada no Peru. Mais uma vez, não hesitam em confraternizar
com os doentes, em associarem-se sem reservas à sua vida quotidiana, o que lhes vale, por parte deles, um elevado reconhecimento. Eles sabem que o bacilo da lepra
é dez vezes menos contagioso do que o da tuberculose, por exemplo. Não há necessidade de impor aos pacientes matracas ou outras formas de aviso, como na Idade Média.
Depois da sua co-habitação com os leprosos de Lima, Ernesto escrevia ao pai: "O facto de ir vê-los sem avental e sem luvas, de lhes apertar a mão, de falar de mil
e uma coisas, de jogar futebol com eles, de os tratar como seres normais, tem uma influência psicológica considerável, e o risco que se corre é mínimo"8. Comportam-se
do mesmo modo em San Pablo, embora lhes imponham avental e luvas. Instalada à beira do rio em cabanas de madeira sobre estacas, a colónia é composta por seiscentos
doentes, vivendo cada um na sua casa com a família e comunicando entre si por caminhos de pranchas suspensas, ou então por canoas. Muitos deles estão mutilados.
Os Argentinos ficam fascinados com este mundo da floresta amazónica, que não se assemelha a nada que eles conheçam, onde tudo é extremo, o vigor espantoso do elemento
vegetal, a força diluviana das tempestades. Ensinam-lhes a pescar peixes que nunca tinham visto em parte alguma e que comem crus, marinados, em ceviche, à maneira
peruana. O director da colónia organiza-lhes mesmo uma caçada aos macacos, durante a qual se embrenham na escuridão da selva, seguindo silenciosamente índios semi-nus,
armados de zarabatanas de dois metros e de flechas com veneno vegetal. Descobrem o gosto adocicado da carne de macaco grelhada e o do álcool de mandioca, a chicha,
fabricado a partir de mastigações cuspidas pelos índios. Estão noutro planeta.
O futebol continua a ser uma referência familiar. Para se encontrar um terreno em terra firme, no meio das árvores, é preciso percorrer primeiro um quilómetro de
canoa. Depois do desafio, Granado lança-se à água e sai logo de seguida, aos berros. Agarrada ao seu joelho, agita-se uma piranha, temível peixe carnívoro, do qual
Ernesto o liberta, "rindo à gargalhada". Diante deles, a presença poderosa da Amazónia constitui, aliás, um desafio para Fuser, que

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se recompôs das crises de asma. Não perdeu o treino desde os tempos da luxuosa piscina de Alta Gracia. Apesar dos avisos contra o perigo dos crocodilos e das piranhas,
lança-se na travessia a nado do rio-rei, naquele ponto com mil e duzentos metros de largura. Proeza alcançada sob a vigilância de Granado, que o segue de canoa e
o vai buscar à outra margem, quatro quilómetros mais abaixo, "estafado mas feliz".
"No sábado, 14 de Junho de 1952, eu, um pobre-diabo qualquer, festejei os meus vinte e quatro anos, nas vésperas do transcendental quarto de século, em bodas de
prata com a vida que, ao fim e ao cabo, não me tratou muito mal." O aniversário do valoroso argentino constitui um acontecimento na comunidade de San Pablo. Aos
brindes que inauguram a festa em sua honra, Guevara responde com um pequeno discurso muito pan-americano, que faria sorrir os etnólogos: "Nós formamos uma única
raça mestiça que, do México ao Estreito de Magalhães, apresenta semelhanças etnográficas consideráveis". Posto isto, Granado faz o relato, bastante curioso, do baile,
copiosamente regado com pisco, no qual várias raparigas rivalizam para dançar com ele, "embora já houvesse uma que ele tivesse reservado para si". Tendo em conta
a sua absoluta falta de ouvido musical, Ernesto pediu a Mial que lhe fizesse um sinal com o pé, debaixo da mesa, sempre que surgisse um tango, única dança que ele
conhecia mais ou menos. E a coisa ia dando resultado. Até ao momento em que a orquestra ataca um choro brasileiro, dança rápida, de ritmo seco e vivo. Alberto, que
reconhece Delicado, "uma das músicas preferidas de Chichina", dá logo um pontapé ao companheiro, que se lança então "como um bólide para convidar a moreninha que
o devorava com o olhar". Imperturbável, Ernesto concentra-se no ritmo do tango "1-2-3-4 e meia-volta" enquanto à sua volta os pares se agitam e saracoteiam e Granado
tem um ataque de riso tão forte que não consegue explicar-lhe o engano.
Entretanto chegou uma grande plataforma carregada de gado e eles vão utilizá-la para construir um meio de transporte original para se dirigirem pelos seus próprios
meios a Letícia, cidade na fronteira da Colômbia, durante muito tempo reivindicada pelo Peru. Ajudados por dois índios da colónia, fabricam, com uma dúzia de troncos
de bolsa (madeira excelente para flutuar) uma pequena jangada que os convence que se transformaram em autênticos aventureiros dos trópicos. Os seus amigos baptizam
a embarcação de Mambo-Tango, símbolo musical de solidariedade inter-americana. Depois da moto, dos mais diversos camiões, da caminhada a pé debaixo do sol, de um
cargueiro de alto-mar e de barcos fluviais de diferentes tamanhos, ei-los agora lançados num batel de três metros por sete, frágil, nas imponentes águas do Amazonas.
Rebocaram-nos até ao meio do rio, com mais de um quilómetro de largura, iniciaram-nos vagamente na prática da ginga e... coragem, amigos! Terá Ernesto lido Rimbaud?
Não o refere mas, no que lhe toca, está a viver o mesmo sonho exaltante do autor do Barco Bêbado: "Como eu descesse rios tranquilos, / não mais fui guiado pelos
meus sirgadores...".

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Antes da partida, rodeados de múltiplas manifestações de amizade, tiveram direito a uma despedida, em que o grotesco rivaliza com o sublime. Numa carta dirigida
à mãe, Fuser descreve com talento essa tenda dos milagres como um cenário de um filme de Buñuel: "À noite, um grupo de doentes passou de canoa e, no cais, fizeram-nos
uma serenata [...]. O acordeonista não tinha dedos na mão direita e substituíra-os por pedaços de madeira ligados ao punho, o cantor era cego, quase todos tinham
um aspecto monstruoso [...] juntando-se a tudo isso os reflexos das velas e das lanternas no rio. Espectáculo cruel".
Para não ficarem encalhados na outra margem, como aconteceu na primeira manhã, enquanto dormitam revezam-se para ficar de guarda. Tanto mais que é preciso evitar
também as enormes ramadas transportadas pelo rio, capazes de desfazer uma jangada. É durante uma dessas vigílias que se dá um incidente em que Guevara, audacioso
mas nem sempre temerário, confessa à mãe uma fraqueza bastante humana: "Um frango que trouxéramos para comer caiu à água, a corrente levou-o, e eu que, em San Pablo,
tinha atravessado o rio, fraquejei por completo no momento de o ir buscar, em parte por causa dos crocodilos que surgem de vez em quando, e também porque nunca consegui
vencer totalmente o medo que tenho da água, à noite"9.
Apesar da vigilância, passam ao largo de Letícia e sem querer vão parar ao Brasil, o que os obriga a trocar a jangada por uma piroga de um habitante da ribeira;
seis horas a remar de pangaia para subir o rio.
Em Letícia, os dois parceiros tiram o máximo partido da fama internacional do futebol argentino. Propõem-lhes que treinem a equipa local, o que eles fazem de forma
tão eficaz que conseguem dinheiro para pagar os seus bilhetes de meia tarifa para Bogotá num grande hidroavião-cargueiro anfíbio do exército.
Se o Peru os seduziu - ficaram lá três meses - o clima repressivo da Colômbia desanimou-os. "A polícia patrulha as ruas, de espingarda a tiracolo, e procede ao controlo
dos passaportes a todo o momento, mesmo quando às vezes o lêem de pernas para o ar". Bogotá ainda não se recompôs da extraordinária explosão de cólera popular de
9 de Abril de 1948, o Bogotazo, desencadeada pelo assassínio de um dirigente de esquerda, Jorge Eliécer Gaitán (o acaso fez com que um leader estudantil cubano,
de 22 anos, assistisse à revolta e à sua repressão, um certo Fidel Castro, que não irá esquecer o acontecimento). Desde então, o país vive uma guerra civil larvada
sob o regime autoritário de um presidente-ditador, Laureano Gomez. Focos de guerrilha camponesa acenderam-se um pouco por toda a parte. A violência - geral na América
Latina - tornou-se, sobretudo na Colômbia, uma característica nacional.
Os Argentinos encontram uma certa solidariedade entre os estudantes da cidade universitária, que chegam a cotizar-se para os ajudar. Mas bastaram algumas reservas
expressas sobre a legislação antilepra colombiana para que lhes fosse vedado todo o acesso ao sistema nacional das leprosarias. A isto vem juntar-se uma história
sombria de facon, faca de gaúcho com cabo de prata, que um polícia decide confiscar a Guevara de uma forma arbitrária.

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Ao cabo de inúmeras diligências, a faca acaba por ser recuperada, mas os seus amigos estudantes aconselham-nos a partir de imediato, sabendo que as represálias contra
eles não tardarão. "O 14 de Julho não será para mim apenas o aniversário da tomada da Bastilha, mas também o da minha saída da Colômbia", escreve Granado, aliviado.
A aventura venezuelana será ainda mais breve. Encafuados num pequeno camião desconfortável e arcaico, avançando de rebentamento em rebentamento de pneu, demoram
três dias para chegar a Caracas e apercebem-se que os Andes continuam a ser bastante altos. Atravessando uma garganta da cordilheira, a mais de 4 800 metros de altitude,
ficam transidos de frio; "dir-se-ia que não estamos nos trópicos". Entretanto, para se aquecerem enquanto esperam que o pneu seja trocado, beberricam o eterno mate
na berma da estrada e o seu olhar cruza o olhar, curioso, de uma família de camponeses negros. A surpresa leva-os a tomarem consciência de que não estão longe da
costa das Caraíbas. Traçam planos para o futuro. Ir até ao México? Ficar em Caracas, no caso de Alberto? Regressar a Buenos Aires, no caso de Ernesto? Este último,
em jeito de chalaça, auto-descreve-se, a si e a Alberto como "uma parelha de vagabundos à deriva, sem passado nem futuro". Ao pai, escreve: "Tenho realmente um espírito
de globe-trotter e é muito provável que, depois desta viagem, vá dar uma volta pela Índia e pela Europa"10.
No imediato, as circunstâncias vão fornecer as respostas às suas interrogações. Em Caracas, "capital da eterna Primavera", preservada do calor tropical da costa
atlântica pela sua situação a mil metros de altitude, a vida é cara devido à expansão petrolífera recente, mas há trabalho. Logo à chegada, oferecem a Alberto um
cargo muito aceitável (e que ele aceita) numa leprosaria a 30 quilómetros da cidade, à beira-mar. Quanto a Ernesto, graças a uma recomendação de um tio de Buenos
Aires junto de um negociante de Caracas, consegue regressar de borla à Argentina num avião de carga que antes irá entregar cavalos de corrida argentinos a... Miami!
"O grito bestial do proletariado triunfante"
Guevara interrompe aqui o seu diário, não deixando contudo de lhe acrescentar, in fine, algumas páginas cujo interesse reside apenas em nos dar a conhecer os limites,
as hesitações e os entusiasmos das suas reflexões sociais e políticas, ainda um pouco incoerentes, nessa época.
Como anteriormente em Valparaíso, vai flanar, desta vez sem o seu bravo acólito, pelos bairros de lata miseráveis das colinas de Caracas. Tal como os turistas que
ele censurava em Cuzco ou em Machu Picchu, procura fotografar alguns cenários típicos. "Aproximo-me de uma barraca [...], a mãe, de cabelos crespos e seios caídos,
cozinha, ajudada por uma negrinha de quinze anos, que está vestida [...]. Peço-lhes que posem para uma fotografia mas recusam categoricamente, a menos que eu lhes
entregue a dita fotografia: "nem pensar

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em deixar que nos roubem a alma"". Ernesto insiste - nova recusa -, sem dúvida demasiado seguro da sua boa consciência para se dar conta de que é visto como um estranho,
um branco, membro da mesma corja dos malditos portugueses, emigrantes pobres que foram lá parar, que escorraçam os negros cada vez para mais longe. O fotógrafo vira
então a máquina para um garoto de bicicleta que se assusta perante a objectiva e cai, desatando num berreiro. Catástrofe. "Todos saem a correr para me insultar..."
Chamam-lhe, suprema injúria, português!
À laia de clichés, os únicos que acompanham este incidente surgem, deformados, sob a pena do nosso repórter frustrado: "Os negros, esses magníficos exemplares da
raça africana que conservaram a pureza graças à sua aversão pelo banho, viram o seu território invadido por um novo tipo de escravos: os portugueses...". Ou então
esta pérola: "O negro, indolente e sonhador, gasta dinheiro em frivolidades ou na bebida; o europeu é herdeiro de uma tradição de trabalho e de economia que o persegue
até estas paragens da América e o leva a progredir..." Lugares-comuns bastante lamentáveis na pena de um jovem cujo olhar crítico é geralmente mais penetrante. Podemos
avaliar o caminho percorrido quando, dez anos depois, o mesmo Guevara mas já não é o mesmo - pretenderá editar em Cuba Frantz Fanon, apóstolo radical da negritude
revolucionária, antes de ir, ele próprio, combater na África negra.
Menos caricaturais mas ainda mais surpreendentes, as últimas páginas desses Apontamentos de Viagem revelam um acontecimento estranho, ao qual parece não ter sido
atribuída a importância que merece: a "revelação" ao viajante do destino que o aguarda. Sem dúvida escritas noutro tempo e lugar, colocadas deliberadamente como
epílogo, essas "notas à margem" pretendem, evidentemente, dar um sentido a essa travessia americana.
Uma noite, numa aldeia dos Andes, quando "o silêncio e o frio tornavam a escuridão imaterial", Guevara encontra um desconhecido, sobre o qual não fornece nenhum
esclarecimento a não ser o de que ele fugiu muito novo de um país da Europa "para escapar à faca do dogmatismo" e que é um interlocutor interessante. "Não sei se
foi a aura que se desprendia desse indivíduo ou a sua personalidade que me prepararam para receber a revelação." A revelação em causa, é que "o futuro pertence ao
povo [...] que irá conquistar o poder no mundo inteiro". É certo que haverá vítimas. "A revolução ceifar-lhes-á a vida e servir-se-á da sua memória como exemplo
[...]. Eu morrerei sabendo que o meu sacrifício se deve à cegueira de uma civilização podre, que se decompõe [...]. E vocês, prossegue o profeta desconhecido, irão
morrer de punho erguido e de dentes cerrados, ilustração perfeita do ódio e da luta".
Vindo dessa "boca obscura", estamos perante o "anúncio feito a Ernesto", sem que ele tenha nada de claudeliano. Seja como for, o jovem fica impressionado. Ao ponto
de entoar então um canto de vitória absolutamente barroco, desenfreado, em honra do combatente que, como ele, se colocará "ao lado do povo": "Sei que eu, dissecador
eclético de doutrinas e psicanalista de

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dogmas, gritando como um possesso, tomarei de assalto as barricadas ou as trincheiras, tingirei a minha arma de sangue e, como um louco, degolarei todos os vencidos
que caírem nas minhas mãos. Vejo-me imolado na verdadeira revolução [...]. Já sinto as narinas dilatadas, saboreando o cheiro acre da pólvora e do sangue da morte
do inimigo [...]. Preparo o meu ser para que nele ressoe [...] o grito bestial do proletariado triunfante". Texto louco, delirante, imprecação digna de Lautréamont,
autêntica "iluminação", mas já texto-charneira, premonitório de uma imolação anunciada.
A 26 de Julho de 1952, enquanto na Argentina todas as rádios interrompem a programação para chorar a morte de Eva Perón, Fuser e Mial despedem-se num abrazo comovido
no aeroporto de Caracas. Há sete meses que os dois amigos não se separam. "Já passámos por tudo", diz Ernesto. "Estuda a valer. Fico à tua espera", recomenda Alberto.
"Nunca mais encontrei um companheiro de viagem como ele", confidenciará Ernesto três anos depois, numa carta à sua amiga Tita Infante.
Como um Tintim sem Milú, Pelao voa para Miami, mera escala, em princípio (só o tempo de entregar os cavalos), antes de chegar a Buenos Aires. Mas um motor do avião
Douglas precisa de ser reparado. A simples escala irá durar um mês. E Ernesto tem apenas um único dólar! Mas a "operação sobrevivência" funciona graças ao apoio
oportuno de um primo de Chichina, Jimmy Roca, que estuda arquitectura na cidade dos palácios e das residências para milionários. Em Miami Beach, em Agosto, a estação
balnear está no auge. Ernesto, que só se desloca a pé e se alimenta de cachorros-quentes, observa tudo com curiosidade: as festas, o luxo, os letreiros luminosos
dos espectáculos. Arranha um mau inglês, convive um pouco com as classes populares dos latinos, essencialmente portorriquenhos. Consta que um dia foi interpelado
por um agente do FBI, que percebeu que ele não gostava nada do sistema ianque."
Os Estados Unidos vivem nessa época obcecados pelo perigo comunista, perseguindo tudo o que lhes parece "antiamericano". A caça às bruxas preconizada pelo senador
McCarthy está no seu ponto máximo. Essas escassas semanas na terra do Tio Sam dão ao jovem Guevara uma percepção das "entranhas do monstro", segundo a expressão
exaltada do cubano José Marti. Considerá-las-á como algumas das mais amargas da sua vida, dirá ele, no regresso, a Tita Infante.
No início de Setembro de 1952, após oito meses de ausência, e sob uma chuva miudinha de Inverno, reencontra finalmente em Buenos Aires toda a tribo Guevara, que
veio esperá-lo ao aeroporto, e os seus caros estudos, que está morto por concluir para poder voltar a partir. Continua a ter um rosto juvenil, o olhar trocista e
o ar desengonçado de um adolescente tardio. Mas é já outro homem. "Esta errância sem objectivo modificou-me mais do que eu supunha".

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"Aqui vai um soldado da América!"

Retoma rapidamente as aulas da Faculdade e faz num relâmpago a catadupa de exames nos quais, em Caracas, se inscreveu em regime especial; e até arranja tempo para
prosseguir as suas investigações sobre alergias junto do professor Pisani. Este último gostaria de o ter como colaborador. Nunca teve um aluno tão estudioso, tão
inteligente, tão interessado. Ele, que selecciona tão rigorosamente os médicos que disputam o privilégio de trabalhar sob a sua direcção, oferece ao futuro Dr. Guevara
um verdadeiro salário de colaborador a tempo inteiro. Mas Ernesto recusa, com a mesma determinação que o levou, no início do ano, a pôr de lado a ideia de se instalar
numa vida burguesa casando com Chichina.
Mais do que nunca, assalta-o o desejo de correr mundo. A terra é vasta e tudo está ainda por descobrir, na curiosidade impaciente deste nómada insaciável que gostaria
de partir por dez anos. Aliás, ele mais não fez do que entrever uma parte dessa América da dor que anseia conhecer melhor, antes de ir mais longe.
Faz então um grande esforço e tira o máximo partido da capacidade espantosa que tem para ir direito ao essencial sem se deter nos detalhes. Não perdeu nada da sua
ironia e auto-confiança. Num dos últimos exames, um examinador, chocado por o ver descascar uma laranja, sentado calmamente, balançando as pernas, numa mesa de mármore
do anfiteatro, admoesta-o. "Parece que o senhor está com muita fome". "É verdade", responde Guevara. "Estamos à espera desde as 7 da manhã. É meio-dia e ainda não
almocei". "Muito bem. Vamos já tratar de si". Guevara está numa posição crítica. Espalha-se rapidamente por toda a Faculdade a notícia desta troca de palavras. Os
colegas acorrem ao exame. As perguntas do júri multiplicam-se. Ele vai respondendo com toda a pertinência. Intensificam-se as perguntas. Ele aguenta a parada. Já
não é um exame, mas sim um duelo. Finalmente, o examinador levanta-se, estende-lhe a mão e esboça um sorriso: "Doutor", e basta esta palavra para se ver que ele
estava aprovado, "não posso deixar de lhe atribuir uma menção honrosa".
Em cinco meses apenas, entre Dezembro de 1952 e Abril de 1953, Ernesto - que ainda não fez 25 anos - consegue assim a proeza de fazer, de uma assentada, quinze dos
trinta exames necessários para obter o grau de médico. Coisa nunca vista. Um dos motivos suplementares de toda esta pressa foi a preocupação de evitar ter de fazer
um exame especial de "educação justicialista" imposto pelo regime peronista para tentar controlar melhor os espíritos. A atitude de Guevara em relação ao peronismo
continua marcada pelo espírito libertário em que foi educado. Mas a sua viagem latino-americana deu-lhe um novo esclarecimento do peronismo. Vistas do estrangeiro,
as disputas internas na Argentina não têm sentido. Do peronismo só é captada uma atitude corajosa de independência e de hostilidade em relação aos Estados Unidos.
Com a imagem subsidiária de uma fada-boa-dos-pobres, ligada a Eva Perón. A posição de Ernesto em relação a Perón não é fixa. Pode ser hoje a

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favor e contra amanhã, consoante considerar justa ou injusta determinada medida do regime. Neste caso, aquilo a que ele recusava submeter-se é a essa espécie de
juramento de obediência disfarçado de exame universitário.
Ei-lo, pois, a 1 de Junho de 1953, consagrado oficialmente como médico. Como o serviço militar argentino recusou este asmático, está a partir de agora livre como
o vento. Livre para voltar a partir. Ainda não sabe bem para onde - primeiro Caracas, onde o espera Granado - nem com quem. Com aquela miúda, Liria Bocciolesi, que
conheceu no laboratório do Dr. Pisani? Ela está muito apaixonada por ele, completamente seduzida. "Larga tudo e vem comigo", propõe-lhe ele.12 Ela tem 19 anos e
assusta-se. Com Domingo Granata? Esse colega da faculdade não entende o projecto e pergunta: Como? Quanto? No fundo, antes mesmo de se lançar na primeira grande
viagem com Granado, ele já "selecionou" aquele que, se voltar a partir, será o seu próximo companheiro de aventura: Carlos Ferrer, a quem todos chamam Calica, velho
amigo de infância, mais novo do que ele um ano, com quem fez mil e uma tropelias em Alta Gracia e em Córdova e que reencontrou em Buenos Aires, também a estudar
medicina. "A próxima viagem faço-a contigo", prometera-lhe ele.13
Em vez de voltar ao Chile, mais vale atalhar caminho pela Bolívia, onde as coisas estão a mexer. Em Buenos Aires, na rua Araoz, Ernesto foi o "mais-que-tudo" de
uma criada boliviana, Sabina, uma aimará analfabeta que lhe preparava frigideiras de batatas fritas, contando-lhe as dificuldades da sua vida na Bolívia. Ele sente-se
atraído por esse país, o mais índio e o mais pobre dos países andinos, empoleirado no tecto da América, o único do continente que não tem acesso ao mar. Desta vez
já não há moto potente; vão de comboio, económico e directo. Com Calica, só conseguiram juntar setecentos dólares. Mas, como se sabe, Guevara é perito em fazer esticar
um dólar.
A 7 de Julho de 1953, na estação do Retiro de Buenos Aires, numa tarde fria e cinzenta de Inverno, o jovem doutor Guevara e o companheiro instalam-se no banco de
madeira de um compartimento de 2.ª classe do comboio que vai levar três dias para os conduzir a La Paz, a mais alta capital do mundo. Têm catorze sacos, presentes
de última hora dos amigos, numerosos, que vieram juntar-se às famílias para a despedida. Na véspera, Célia, a "Mãe Coragem" de Ernesto, teve um pressentimento: "Desta
vez perco-o para sempre. Não voltarei a vê-lo"14. No cais, não consegue ainda resignar-se. Corre, como nos filmes, atrás do comboio que ganha velocidade, enquanto
que, agarrado à portinhola, o filho proclama, com uma ênfase teatral: "Aqui vai um soldado da América!".

"Uma revolução muito tímida"

Nem ele sonha como é verdade. De facto, esta segunda viagem vai desembocar em Cuba, num verdadeiro compromisso de soldado numa luta armada que abalará o continente.
Para já, Ernesto não faz nenhuma ideia do

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que a História lhe reserva, apesar do "anúncio" do profeta dos Andes. Note-se contudo, que é um viajante menos ingénuo do que parece, mesmo que o seu gosto pela
aventura e a sua paixão pela arqueologia permaneçam intactos. Aprendeu a ver; o seu olhar é mais atento às condições sociais e à vida política dos países que atravessa.
A Bolívia oferece-lhe um terreno de observação privilegiado, pois ele sente-se ainda apenas como um "observador neutro". O que lá se passa parece-se bastante com
uma revolução. Após dez dias em La Paz, escreve ao pai: "Vimos desfilar multidões incríveis de gente armada de mausers e metralhadoras ligeiras que disparavam por
dá cá aquela palha [...]. Aqui a vida humana tem pouco valor e é concedida ou retirada sem grandes escrúpulos. O que faz com que, para um observador neutro, a situação
seja extremamente interessante. Isso não impede que, ao mínimo pretexto, aqueles que podem se ponham ao fresco, e nós também"15. Na verdade, apesar deste discurso
destinado a tranquilizar a família, Ernesto permanecerá dois meses na Bolívia, fascinado por um país ignorado do resto do planeta e, todavia, um dos mais apaixonantes.
Bolívar, que deu o nome a este "Alto Peru" libertando-o, em 1824, do jugo espanhol, concedera imediatamente aos índios aimarás e quíchuas a propriedade individual
das terras, onde viviam em comunidade. Quarenta anos depois, um ditador confisca-lhas em proveito do Estado, isto é, das haciendas dos seus correligionários. Será
necessário aguardar até 1953 para que se produza essa (tímida) redistribuição de terras e sobretudo a abolição da servidão camponesa três dias de trabalho gratuito
em troca do direito a cultivar uma modesta parcela. "A 2 de Agosto vai ser proclamada a reforma agrária; prevêem-se agitações e distúrbios em todo o país"16, afirma
Ernesto. E acrescenta, sempre numa posição de observador, curioso de assistir a uma contra-revolução: "Esperava-se uma revolta de um momento para o outro e estávamos
determinados a vê-la de perto. Com grande pena nossa, ela não chegou a acontecer e apenas assistimos às manifestações de força do governo que, digam o que disserem,
me parece estável"17. Com Tita Infante, cujas opiniões comunistas conhece, é mais explícito: "O panorama político é extremamente interessante. A Bolívia é um país
que deu realmente um importante exemplo na América [...]. Os combates prosseguem ainda e, todas as noites, por toda a parte, há gente baleada, mas o governo é apoiado
pelo povo em armas..."18. Dez anos depois, em Cuba, será mais severo: "A Bolívia fez uma tímida revolução burguesa [...] e uma reforma agrária que não retirou os
bens ao clero"19.
Sem o terem premeditado, Guevara e o seu companheiro de viagem chegaram num momento em que a Bolívia atravessa uma das épocas mais interessantes da sua agitada história.
Em 1941, um jovem universitário, Victor Paz Estenssoro, revoltado com a derrota da Bolívia após a absurda guerra do Chaco por um petróleo inexistente, fundara o
Movimento Nacional Revolucionário, que iria ficar na história. Inicialmente muito nacionalista,

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influenciado pela ideologia nacional-socialista, o MNR adopta um tom mais socializante após a sua aliança com o Partido Operário Revolucionário, de tendência trotskista,
dominado pelos mineiros. Ora, situada nos Andes, a uma altitude média de 4 200 metros, a Bolívia é um paraíso geológico fabuloso, rico em minério estanho, prata,
antimónio - explorado pela Rosca, um pequeno número de famílias abastadas - Patiño, Aramayo, Hoschild tradicionalmente apoiadas pela igreja e pelo exército. Proletariado
esquecido mas bem organizado, os mineiros do Altiplano constituem, também, uma força poderosa. Sabem manejar a dinamite. Em Abril de 1952, enquanto os camponeses
índios ocupam as terras do patronato, os sindicatos surgem na cena política. Milícias operárias, mal armadas mas combativas e determinadas, fazem fogo contra o exército
(mil e quinhentos mortos) e impõem o regresso ao poder de Paz Estenssoro que, legitimamente eleito em 1951, fora apesar disso afastado e forçado ao exílio por uma
junta militar.
Desde então, essa revolução, pois trata-se de uma revolução (a segunda na América Latina depois da do México), dá início a uma profunda alteração das estruturas
sociais e económicas do país: nacionalização das minas - os senhores do estanho fogem para o estrangeiro; reforma agrária - a terra a quem a trabalha; e, mais insólito
ainda, dissolução do exército! que se reconstituirá. O objectivo é integrar na vida nacional tanto a massa índia, largamente majoritária mas até aí marginalizada,
como os trabalhadores das minas, a partir de agora unidos numa grande Central Operária dirigida por uma figura carismática e controversa, de ascendência sírio-libanesa,
Juan Lechín "el Turco". Guevara vai lançando sobre toda esta agitação um olhar simultaneamente interessado e céptico. Com o radicalismo que caracteriza as suas opiniões
incisivas, considera que o presidente Paz Estenssoro, "escorregadio e ambíguo [...], está provavelmente tão à direita como o seu vice-presidente" e que Lechín, "figura
visível de um forte movimento reivindicativo apoiado pelos mineiros armados, [...J é um arrivista, um femeeiro"20. Mas, apesar de mero observador, gostaria mesmo
assim de se ligar mais à vida da população. Propõem-lhe um emprego de três meses como médico numa mina. Ele aceita, na condição de ficar apenas por um mês, com o
seu companheiro Calica como enfermeiro. Mas obrigam-nos a esperar três semanas para confirmar o contrato. É demasiado tempo para os seus recursos. Alugaram por uma
ninharia um quarto miserável numa casa quase em ruínas, num bairro popular. A roupa está pendurada em pregos, nas paredes. Ernesto pouco se importa com estes pormenores
prosaicos. Passa o tempo a percorrer as ruas dessa cidade fascinante que é La Paz, estendida em escada por um quilómetro de desnivelamento. Em torno do centro histórico,
construído a 3 600 metros de altitude, a capital boliviana está protegida dos ventos gelados do Altiplano pela sua situação, surpreendente, no interior de uma ravina
rodeada de montanhas. No horizonte, no ar seco e tonificante, os picos nevados do Illimani, a 6 400 metros de altitude, servem de ponto de referência, magníficos,
sob o sol. Os pobres habitam El Alto, na serra, a quatro mil metros de altitude;

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os mais ricos moram em baixo, onde a temperatura é menos rigorosa e as árvores mais abundantes.
Para Ernesto, o espectáculo reside nas ruas, que fervilham de índios, de pele tisnada pelo vento e pelo sol, e de cholas (mestiços), cuja indumentária é bastante
semelhante à que ele encontrou, há um ano, no Peru: fatos coloridos, gorros de lã com orelheiras contra o frio, bebés atados às costas com tecidos multicolores.
Apesar das espingardas a tiracolo e alguns petardos gratuitos, a atmosfera é pacífica. Mineiros, camponeses, gente da classe média estão convencidos de terem ganho.
Puseram em xeque o exército e os proprietários, readquiriram algum prestígio. Na Praça Murillo, lugar histórico dos pronunciamientos, onde outrora um presidente
foi enforcado, os ajuntamentos têm um ar festivo. Muitas vezes há uma fanfarra. Dança-se um carnavalito, revolteando ao som dos tambores. Num canto do passeio, índias
de chapéu, acocoradas nas suas saias rodadas, vendem fritos e chicha.
Guevara mete o nariz em tudo. Não lhe falta o fôlego para subir e descer as ruelas mal pavimentadas, às vezes verdadeiros escorregadouros. Nem se lembra da asma.
A altitude não parece afectá-lo. "A saúde está excelente, apesar de não seguir nenhum regime alimentar", escreve ele.21 E Calica particulariza: "Jogámos futebol
a 3 700 metros de altitude. Ele corria mais depressa de que eu"22. Sempre mal pronto, sem se preocupar com a indumentária, não hesita em sentar-se no terraço do
elegante Sucre Palace Hotel.
Uma tarde, Calica, que já não aguentava não se lavar há vários dias, pede-lhe dinheiro para tomar banho. Ernesto, que desta vez gere a bolsa comum, recusa. É uma
despesa inútil, explica ele. Mais vale comer do que tomar banho. Calica insiste, consegue a sua parte. Quando regressa, uma hora depois, muito asseado, encontra
o nosso herói instalado diante de um substancial café com leite acompanhado de torradas. "O duche quente dera-me uma fome dos diabos. Olhei para ele. Sabia que não
tinha direito a comer, pois tinha feito uma despesa extra. Mas ele teve pena de mim e convidou-me a partilhar a sua pitança."23
Entre as classes populares de La Paz, os dois argentinos descobriram rapidamente um amável compatriota que tem mesa franca para toda a gente: Isaias Nouguès, chefe
de um pequeno partido de oposição antiperonista da província de Tucumán. Num bairro residencial de La Paz, ele vive um exílio dourado graças aos rendimentos da sua
plantação de açúcar argentina e não pára de recriminar Perón e os seus excessos. Guevara não tem qualquer escrúpulo em regalar-se comendo locros, guisado de milho
e carne. Pratica, como sempre, a "estratégia do camelo", capaz de absorver enormes quantidades de comida, como que para constituir "reservas", prevendo dias de penúria.
Mas quando entende que o seu hospedeiro exagera nas suas queixas contra a sua triste situação de exilado, não hesita em comentar, impertinente: "Ora, ora! Porque
é que não falas antes das tuas plantações de açúcar?"24
É em casa de Nouguès, onde pontifica a colónia argentina, que conhece um jovem advogado de Buenos Aires, Ricardo Rojo, de vinte e nove anos.

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Membro do Partido Radical hostil a Perón, Rojo teve problemas com a polícia peronista. Detido, interrogado, conseguiu fugir, refugiou-se na embaixada da Guatemala
e tenta actualmente regressar ao seu país de acolhimento. A Guatemala tornou-se no mais "sensível" dos países da América Central desde que um jovem coronel de esquerda,
Jacobo Arbenz, conduzido à presidência, teve a ousadia de atacar os privilégios da United Fruit Company.
O encontro com Rojo tem o seu interesse pelo facto de este último ter feito com Guevara uma parte da viagem, de mais tarde ter tido ocasião de o reencontrar por
diversas vezes e ter escrito posteriormente uma obra rica em recordações, Che Guevara, Vie et Mort d'un Ami, bastante bem documentada, mas que em certos pontos deve
ser lida com prudência por ser muitas vezes demasiado aproximativa. Os cadernos de viagem de Guevara relativos a esta segunda viagem infelizmente estão ainda inéditos,
ciosamente guardados em Cuba pela sua viúva, Aleida March. Mas a partir da sua correspondência abundante e dos relatos de Calica Ferrer e de Rojo, é possível reconstituir
o itinerário e o estado de espírito do nosso herói. É Rojo que conta, por exemplo, o sarcasmo de Guevara quando ambos aguardavam no vestíbulo para serem recebidos
por Ñuflo Chavez, recém-nomeado ministro dos Assuntos Camponeses, e assistem ao lançamento de insecticida sobre os índios que aguardam pacientemente o momento de
poderem expor os seus problemas relativos à posse das terras: "O MNR faz a revolução do DDT".25
É graças à habilidade desse mesmo Rojo, perito em contactos úteis, que Ernesto obtém os salvo-condutos necessários para visitar os dois centros mais importantes
de extracção de estanho da Bolívia, as minas Siglo XX e Catavi, na região de Oruro, palco de batalhas sangrentas entre as metralhadoras do exército e os paus de
dinamite dos mineiros. Mas é provável que a expedição tenha permanecido em fase de projecto. Ela não é mencionada nem por Guevara, nem por Calica nem por Rojo.
Em contrapartida, sabe-se que passou dois ou três dias a visitar com Calica uma mina de antimónio. "Vimos a bestialidade das companhias americanas, que tinham colocado
metralhadoras para disparar sobre os operários"26, escreve Calica. Ernesto nota sobretudo que "a mina está situada num lugar maravilhoso"27.

A reconquista do passado

Mais do que as peripécias da história imediata, são os mistérios do passado indígena que parecem excitar Guevara. Com um fotógrafo alemão que dispõe de um jipe,
vai à ilha do Sol, no lago Titicaca, não muito longe de La Paz, lugar onde, segundo a lenda, o deus Viracocha criou os homens. Há uma fotografia que o mostra sob
a imponente Porta do Sol, descoberta pelo francês Alcide d'Orbigny, no ponto que indica a posição do astro no momento do solstício de Inverno. Pouco se sabe ainda
sobre essa civilização Tiwanaku, que

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surgiu a quatro mil metros de altitude e que, todavia, conseguiu tornar habitável um ambiente difícil e hostil em planaltos frios, batidos pelos ventos.
"Continuamos a tentar descobrir com que meios um povo que vivia num ambiente tão agreste conseguiu mover blocos de granito ou de basalto pesando cem toneladas",
escreve o etnólogo Alfred Métraux. "Ficamos pasmados perante a audácia e a determinação desses homens."28 Guevara sente a mesma perplexidade. E também a alegria
de descobrir um minúsculo vestígio que escapou à pilhagem. "Num cemitério indígena, encontrei uma estatueta feminina, do tamanho do meu dedo mindinho, mas apesar
de tudo um ídolo..."29.
Depois de ter ido aquecer-se nos vales tropicais dos Yungas, onde a cultura da coca alimenta um consumo que por enquanto é apenas tradicional, Ernesto vai prosseguir
no Peru uma investigação arqueológica iniciada um ano antes, mas que o deixou insatisfeito. A 11 de Setembro de 1953, com Ferrer e Rojo, que afirma ter-se juntado
a eles, toma um camião, não propriamente em classe de "luxo", isto é, na cabine do condutor, mas amontoado na traseira, com os índios de rosto hermético e hálito
mal-cheiroso, provocado pelas folhas de coca longamente mastigadas. Já experimentou isso no ano anterior e não achou grande piada, ao contrário dos seus companheiros,
para os quais a experiência parece verdadeiramente deliciosa.
A propósito disso, há um pequeno incidente narrado por Ferrer, revelando que nem todos os índios possuem uma impassibilidade ancestral e que o próprio Guevara está
ainda longe de viver mergulhado num espírito de sisudez que mais tarde lhe será criticado. Para atravessarem a pé os dois quilómetros que separam os postos fronteiriços
entre a Bolívia e o Peru, os argentinos contrataram dois índios para transportarem as bagagens. Há, entre outras coisas, uma velha mala carregada de livros. A mala
é pesada e o índio franzino. Cambaleando sob o peso, está sempre a deixar cair a carga. A coisa repete-se a ponto de se tornar burlesca. "Ernesto tinha o riso mais
contagioso que eu jamais ouvi". Em breve o grupo desata às gargalhadas e o próprio índio se lança ao chão com a mala, contagiado pela hilaridade geral. "Foi a primeira
vez que vi um índio rir daquela maneira".30
Chegado à região de Cuzco, enquanto Rojo prossegue até Lima, Ernesto decide fazer uma paragem diante das ruínas ciclópicas da fortaleza inca de Sacsahuamán, que
mal teve tempo de ver na viagem anterior. Quer "verificar uma hipótese", apenas delineada na sua primeira passagem. O que dará um artigo bem documentado "Machu Picchu,
enigma de pedra na América", no qual Guevara não fala de América Latina mas de "Indo-América" e cuja mensagem é a seguinte: "Partam à reconquista do passado"31.
No seu diário, anota: "Não sei quantas vezes ainda poderei admirar [o Machu Picchu], mas é um dos espectáculos mais deslumbrantes que se possa imaginar"32.
O essencial das duas breves semanas dessa segunda travessia do Peru será, assim, consagrada ao "umbigo do mundo", que continua a fasciná-lo. Em Lima volta a encontrar
o doutor Pesce, que já o ajudara tão generosamente. Com Calica, são alojados em casa de uma enfermeira, Zoraida B...,

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também conhecida no ano anterior, no hospital dos leprosos. Calica confessa que ela cede facilmente ao encanto do belo Ernesto.33 Uma noite, durante uma festa em
casa dela, há uma algazarra por uma questão de saias. Os argentinos nada têm a ver com o caso, mas Ernesto acha que têm a obrigação de tomar o partido dos hospedeiros.
"Durante dez minutos andámos todos aos murros", conta Calica. "Os peruanos davam cabeçadas. Seja como for, ganhámos e expulsámos os convidados"34. É em casa dessa
simpática figura que Ernesto conhece alguns dirigentes da APRA, um partido ilegalizado por Odría, o general-ditador que nessa época governa o Peru. Um desses militantes
dá-lhe uma carta de recomendação para uma camarada peruana que poderá ajudá-lo na Guatemala, se por acaso ele for à América central, uma tal Hilda Gadea.
A APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana) foi criada em 1924 por dois homens, na época influenciados pelas teorias marxistas: Haya de la Torre e Mariátegui.
Este último fundará em 1928 o Partido Comunista Peruano, ao passo que Haya de la Torre se afastará do comunismo, imprimindo ao seu partido um tom nitidamente populista
e nacionalista. Bastante abrangente, defendendo tanto o "indigenismo" como o anti-imperialismo, a APRA irá congregar camponeses e mineiros, pequenos funcionários
e burguesia intelectual. Para escapar às malhas do poder, Haya de la Torre teve de se refugiar na embaixada da Colômbia. Como se vê, na América latina o asilo diplomático
desempenha o papel de saída de emergência para as personalidades em dificuldades. Rojo, que encontraram por acaso em Lima, conta que, ao ver a concentração de forças
militares diante da embaixada, Guevara comenta, trocista: "Porque terão tanto medo dele? Afinal é como os outros..."35.

"Aniquilar esses polvos capitalistas"

Rumo ao Equador, Ernesto e Calica sobem o deserto costeiro do Peru, até chegarem a um minúsculo porto-fronteira, Aguas Verdes. Embarcam então num pequeno navio de
cabotagem: seis horas de travessia antes de chegarem a Guayaquil, num estuário de águas acastanhadas, o rio Guayas.
O país deve o seu nome aos sábios franceses La Condamine e Jussieu que, no século XVIII, foram encarregados de medir, no equador, a extensão de um arco de meridiano.
No século XIX, a francofilia das elites é ainda tão forte que um presidente, García Moreno, solicitou (em vão) a Napoleão III o protectorado do Segundo Império.
No século XX, um outro presidente, Velasco Ibarra, proclamou o 14 de Julho como festa nacional equatoriana. Os argentinos ignoram estas curiosidades históricas.
O que mais os impressiona, em Guayaquil, é o carácter violento dos trópicos. O calor pesado e húmido, o céu cinzento, os mosquitos, as iguanas passeando-se nos lugares
públicos, o bolor que ataca as cabanas sobre estacas, os odores intensos do porto, de onde partem carregamentos de camarões, bananas e cacau.

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Aí os dois jovens vão encontrar Rojo, a quem chamam "el Gordo" (o Gordo), que os precedeu, e encontram, por feliz acaso, três compatriotas da idade deles, estudantes
de direito, Oscar Valdovinos, Andrew Herrero e Eduardo García, aliás "Gualo", cujo irmão é amigo de Calica, e que é militante "reformista", ou seja, de esquerda,
presidente da Federação Universitária de Córdova.
Chegados há pouco, também eles a caminho da Guatemala, estão encurralados em Guayaquil, por falta de dinheiro. Os seis rapazes decidem então fazer todos os gastos
em comum, para tentarem escapar o mais rapidamente possível àquele pântano insalubre. "Criámos uma espécie de colónia estudantil", escreve Guevara. "Vivíamos na
mesma pensão e bebíamos litros de mate durante o dia"36. Para juntar algum dinheiro, enviam Valdovinos a Quito, a capital, para lá vender toda a roupa de Inverno.
A 2 800 metros de altitude, terá mais hipóteses de arranjar comprador do que no braseiro do porto. "Guevara guardou o estritamente necessário: umas calças deformadas,
à força de tanto uso, uma camisa que já tinha sido branca e um casaco desportivo, com os bolsos esticados pelos diversos objectos que ele costumava lá meter, desde
o inalador para a asma às enormes bananas que muitas vezes constituíam a sua refeição"37. Sobre isto, Rojo conta mais uma peripécia confirmando o desleixo do rapaz:
"Afirmou que as calças que vestia - as únicas que lhe restavam desde há dois meses - estavam tão impregnadas da poeira da estrada que se seguravam de pé sozinhas".
Ninguém queria acreditar. "Ele despiu-as e tivemos que nos render à evidência: ganhara a aposta. As calças aguentavam-se em pé e o seu proprietário prometeu, no
meio da risota geral, que acabaria por conseguir fazê-las marcar passo"38.
Hilda Gadea relata: "No Equador, Ernesto conheceu vários dirigentes da juventude comunista e muitos intelectuais, entre os quais Jorge Icaza, com o qual debateu
bastante o problema dos camponeses e que lhe dedicou o seu Huasipungo, livro que depois Guevara me ofereceu"39. O huasipungo é uma forma de servidão que vigorava
ainda na Bolívia antes da reforma agrária: metade da semana de trabalho ao serviço do patrão em troca do direito a cultivar uma parcela de mau terreno.
Foi em Guayaquil que Guevara tomou a decisão fundamental de alterar o rumo da sua viagem. Adia o encontro com Granado na Venezuela e opta por se dirigir, com os
novos amigos, para a Guatemala, onde toda a gente lhe garante que "é aí que estão a acontecer as coisas". Explica à mãe: "Garcia convidou-nos a acompanhá-los à Guatemala
e eu estava com vontade de aceitar"40. O amigo Ferrer continua disposto a ir a Caracas. Separação amistosa.
Na Colômbia, ao sair do Equador, a estrada pan-americana que vai do Chile ao México interrompe-se. Impossível chegar ao Panamá, a não ser de avião - demasiado caro
- ou de barco - difícil. Mas não impossível. Rojo, que se considera bastante desenrascado, tira da manga uma recomendação oportuna que o parlamentar chileno Salvador
Allende, candidato à presidência da República, lhe deu, por solidariedade antiperonista, para um advogado socialista de Guayaquil. Este último põe-se em campo e
consegue viagem

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grátis para os argentinos, em grupos de dois, nada menos que na Flota Blanca da famosa United Fruit Company, empresa gigante da indústria bananeira mundial.
Os dois primeiros a partir são Rojo e Valdovinos. Como o quinto argentino, Herrero, decide regressar a Buenos Aires, farto de aventura, só restam Guevara e Garcia
que, a 25 de Outubro de 1953, embarcam por seu turno para uma travessia da América central que demorará cerca de dois meses. Do Panamá, prosseguem o seu trajecto
passando pela Costa Rica, Nicarágua, El Salvador e, por fim, a Guatemala.
No Panamá, Guevara publica na Siete (uma revista de grande tiragem) o seu artigo, abundantemente ilustrado com fotografias sobre o Machu Picchu. Apesar de pago em
dólares, este biscate não basta para sanear as finanças, que estão muito por baixo. Ele contará mais tarde como, para poder partir para San José da Costa Rica, deixou
como penhor todos os livros de medicina que tão afanosamente transportara até aí.41
A sua estada na Costa Rica é breve mas rica em contactos do mais variado tipo. Pequeno oásis democrático entre vizinhos turbulentos, esta "Suíça da América Central"
é o único país a não dispor de forças armadas. Desde 1952, um presidente social-democrata de gema, José Figueres, que se mantém equidistante em relação aos comunistas
e aos conservadores de direita, conseguiu a pouco e pouco fazer com que a United Fruit entregasse ao Estado mais de 40% dos seus lucros. Faz parte do grupo de fundadores
de uma original Legião das Caraíbas, aberta a todos os democratas da região, que o ajudou, em 1949, a fazer respeitar a vitória eleitoral de um candidato liberal.
Desde então, essa Legião transformou-se numa espécie de protectora dos refugiados políticos da região, expulsos pelos coronéis. Guevara, que no fundo é um tímido,
torna-se audacioso. Não hesita em pedir uma entrevista a dois eminentes refugiados dessa Legião, Juan Bosch, escritor de Santo Domingo, e Rómulo Betancourt, chefe
do Partido de Acção Democrática da Venezuela, que vivem na mesma casa. As circunstâncias em breve conduzirão um e outro à chefia dos seus países.
Juan Bosch parece-lhe "muitíssimo interessante". No seu diário, Ernesto observa: "É um homem de letras com ideias claras, que pensa à esquerda. Não falámos de literatura;
apenas de política"42.
Em contrapartida, Betancourt parece-lhe capaz de "se inclinar" para aquilo que melhor lhe convier. "Deu-me a impressão de ser um político com algumas convicções
sociais firmes, mas o resto é sinuoso..."43. Coloca-lhe a questão-chave: "Em caso de guerra entre os Estados Unidos e a URSS, de que lado se colocava?" E Betancourt
responde sem hesitar: "Do lado dos Estados Unidos, evidentemente"44. Esta resposta, dirá ele a Hilda Gadea, classificou-o como um traidor aos interesses do seu povo.
Quanto ao líder do Partido Comunista da Costa Rica, Manuel Mora, que também chega a conhecer, recebe dele "uma boa explicação sobre a política do país [...] uma
lição de história"45.

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Se, por um lado, Guevara continua a considerar-se um globe-trotter aventureiro, batendo as estradas à descoberta da "grande pátria" latino-americana, por outro lado
mostra-se cada vez mais atento à dimensão política dessa realidade e a sua simpatia, ainda intuitiva, em relação às posições comunistas torna-se evidente. Numa carta
de 10 de Dezembro de 1953, dirigida de San José à sua tia Beatriz, na qual finge querer assustar a solteirona que o adora, percebe-se, por trás da caricatura, a
evolução que se desenha. "Querida tia: Tive ocasião de passar diante das propriedades da United Fruit [...]. Fiz um juramento, perante uma imagem do velho camarada
Estaline, que não descansaria enquanto não fossem aniquilados esses polvos capitalistas. Vou aperfeiçoar-me na Guatemala e hei-de conseguir o que me falta para ser
um verdadeiro revolucionário"46. O que lhe falta é justamente assistir ao esmagamento exemplar de uma tentativa democrática pelos Estados Unidos e pela CIA.
Note-se que antes de partir, é na Costa Rica que Guevara ouve falar, pela primeira vez, contado pelos próprios protagonistas, do ataque ao quartel Moncada, em Santiago
de Cuba.
A operação, insensata, fora levado a cabo quatro meses antes, a 26 de Julho de 1953. por um jovem advogado cubano de vinte e sete anos, chamado Fidel Castro. A ideia
era fazer estalar uma revolta numa parte da ilha para desencadear uma greve geral e mobilizar o povo contra a ditadura de Batista, apoiada por Washington. A operação
correu mal. De entre os mil e trezentos assaltantes, sessenta e um são mortos ou assassinados nos dias seguintes. Muitos ficaram feridos. O dirigente, Castro, é
preso. Escapando ao massacre, alguns conseguiram chegar à Costa Rica. Entre eles, Calixto García, um negro, futuro "comandante da revolução", e Severino Roseli,
que conta: "Havia um café que era o ponto de encontro de muitos estrangeiros da capital [...]. Chamávamos-lhe "a Internacional", pois havia sempre gente de diversos
países, que falavam de conspiração [...]. Nesse café, fomos os primeiros Moncadistas a conhecer o Che. Travámos amizade com ele. Ele andava por lá, com uma espécie
de mochila..."47.
Os relatos dos cubanos são de tal forma impressionantes, tão cheios de som, de sangue, de suspense, que Guevara parece ter alguma dificuldade em levá-los a sério.
Segundo Rojo, cujo testemunho, neste ponto, é pouco fiável, ele terá dito: "Rapazes, contem-nos antes um filme de cowboys"48.
Vinte quilómetros após terem transposto a fronteira entre a Costa Rica e a Nicarágua, Guevara e Garcia têm um encontro inesperado. Caminham debaixo de uma chuva
intensa, um aguaceiro tropical. Guevara anda com dificuldade. Pediram boleia à saída de San José, mas um dos camiões que os recolheu virou-se. Ernesto, empoleirado
sobre a carga, foi projectado no chão, e ficou ferido. Tem dores no calcanhar. A estrada está cheia de lama. "Por estas bandas, a estrada pan-americana é uma desilusão",
resmunga ele.49 De repente, surge-lhes à frente um Ford com três homens a bordo, carro trava. Pasmo geral. Por entre a cortina de chuva reconhecem "o grande bigode
de Rojo, el Gordo". Abraços sob uma carga de água. Explicações.

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Rojo apresenta os outros dois passageiros. São argentinos, os irmãos Beveraggi que, após uma estadia nos Estados Unidos, na sequência de desaguisados com o regime
peronista regressam a Buenos Aires, trazendo como única riqueza o carro americano, um modelo de 1946, com matrícula de Boston, Massachusetts. Rojo conheceu-os na
Guatemala, onde chegou em meados de Novembro. Aproveitou a ocasião para descer com eles até ao sul para saber (segundo o que ele diz) o que acontecera aos dois "retardatários".
Este encontro volta a alterar os planos. Os irmãos Beveraggi decidem voltar para trás e ir à Guatemala para lá venderem o carro pelo melhor preço.
E lá vão os cinco no grande Ford. Rumo ao país de Quetzal. Aqui chega um soldado da América!

Notas:
1 Ernesto Che Guevara, Alberto Granado, Latinoamericana, Journal de Voyage, Austral. Paris, 1994, p. 35.
2 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 353.
3 Ernesto "Che" Guevara, Notas de Viaje (Tomado de su archivo personal), Abril-Sodepaz, Havana-Madrid, 1992, p. 21. De notar que a "redacção" desta obra foi certificada,
para a edição cubano-espanhola traduzida para francês, pela viúva do Che, Aleida March, que possui ainda uma parte significativa dos manuscritos inéditos do marido.
4 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 358.
5 Alberto Granado, entrevista com o autor, Havana, 1992.
6 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 367.
7 Só em 1972 o governo de Unidade Popular de Salvador Allende nacionaliza o cobre do Chile. Após o golpe de estado de 1973, o general Pinochet irá destinar 10% das
receitas obtidas com o cobre para financiar o orçamento das forças armadas.
8 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 342.
9 Ibid., p. 412.
10 Ibid., p. 407.
11 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 32.
12 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 165.
13 Carlos Ferrer, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
14 Adys Cupull e Froilán González, Ernestito Vivo y Presente, op. cit., p. 172.
15 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 15.
16 Ibid.
17 Ibbid., p. 19.
18 Ibid., pp. 21-22.
19 Ernesto Che Guevara, Obras, 1957-1967, op. cit., t. 2, pp. 474-475.
20 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 22.
21 Ibid., p. 20.
22 Calica Ferrer, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
23 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 23.

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24 Ricardo Rojo, Che Guevara. Vie et Mort d'un Ami, op. cit., Seuil, Paris, 1968, p. 23.
25 Ibid., p. 22.
26 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 90.
27 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 21.
28 Alfred Métraux, Les Incas, Seuil, Paris, 1961, p. 25.
29 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 21.
30 Ibid., P- 23.
31 O artigo sobre o Machu Picchu, publicado inicialmente na revista Siete (Panamá), em Dezembro de 1953, foi reproduzido no jornal Granma, Havana, 5 de Outubro de
1987.
32 Maria del Carmen Ariet, Che, Pensamiento Político, Política, Havana, 1988, p. 41. Esta historiadora cubana, situando-se na linha da hagiografia oficial, é, tanto
quanto sabemos, a única a ter tido acesso ao texto inédito do diário que Guevara escreveu na sua segunda viagem. Esse privilégio foi-lhe concedido por ter sido colaboradora
da viúva de Ernesto Guevara, Aleida March. Esta última, depositária ciosa do essencial dos arquivos pessoais do seu ilustre marido, ainda não autorizava a consulta
na altura em que redigimos estas linhas.
33 Calica Ferrer, entrevista com o autor, Buenos Aires, 1994.
34 Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 94.
35 Ricardo Rojo, Che Guevara. Vie et Mort d'un Ami, op. cit., p. 30.
36 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 25.
37 Ricardo Rojo, Che Guevara. Vie et Mort d'un Ami, op. cit., p. 33.
38 Ibid.,p. 35.
39 Hilda Gadea, Años Decisivos, op. cit., p. 33.
40 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 27.
41 Hilda Gadea, Años Decisivos, op. cit., p. 33.
42 Maria del Carmen Ariet, Che, Pensamiento Político, op. cit., p. 43.
43 Ibid., p. 44.
44 Hilda Gadea, Años Decisivos, op. cit., p. 22.
45 Maria del Carmen Ariet, Che, Pensamiento Político, op. cit., p. 43.
46 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 29.
47 Revue de la Bibliothèque Nationale José Marti, Havana, 1988; citado por Claudia Korol, El Che y los Argentinos, op. cit., p. 97. Ver também Mário Mencia, "Los
primeros Cubanos que conocieron al Che", in Bohemia n.º 40, 7 de Outubro de 1977.
48 Ricardo Rojo, Che Guevara. Vie et Mort d'un Ami, op. cit., p. 48. O testemunho de Rojo é bastante duvidoso, pois parece pouco provável que ele tenha estado na
Costa Rica ao mesmo tempo que Guevara.
49 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 30.

101

III
A MUDANÇA RADICAL

Respirar Democracia

"O único país da América central que vale a pena é este [...]. Reina aqui um autêntico clima de democracia e de colaboração com todos os estrangeiros que cá chegam
[...]. Acho que vou ficar aqui dois anos, se tudo correr bem, ou pelo menos seis meses"1.
Desde a sua chegada à Guatemala, Guevara está seduzido. Não só está bem colocado para observar como procede, para trocar as voltas ao tio Sam, um governo que, sem
ser comunista, os aceita como aliados, como ainda por cima esse país magnífico, carregado de vulcões, tem matéria suficiente para fazer sonhar o arqueólogo amador
em que ele se tornou, partidário declarado da "indo-americanidade" do continente. Ele cresceu numa Argentina que se considera como "o único país branco ao sul do
Canadá", mas num poema redigido na Guatemala, proclama: "Sou mestiço [...]. Volto-me para as fronteiras da América hispânica para saborear um passado que engloba
o continente". Na Guatemala, os ladinos são os brancos misturados com os mestiços, minoritários aos olhos de 60% da população, composta ainda de índios "puros",
não cruzados, descendentes da brilhante e milenária civilização Maia que se estende desde o México às Honduras. Os Maias conheciam a cerâmica, a tecelagem, a ourivesaria,
os segredos dos astros e da arquitectura. Os vestígios arqueológicos são abundantes - pirâmides, estelas com hieróglifos, túmulos, estátuas -, sobretudo nas florestas
ainda pouco exploradas do Petén, ao norte, precisamente onde se aninha o Quetzal, pássaro símbolo da liberdade morre se ficar preso que deu o nome à unidade monetária
do país.
A chegada de Ernesto à Cidade de Guatemala, a 20 de Dezembro de 1953, coincide mais ou menos com a de John E. Peurifoy, novo embaixador "de choque", que faz parte
daqueles diplomatas sem escrúpulos que os Estados Unidos destacam para as zonas quentes do planeta quando entendem que os seus interesses estão em perigo. Para o
Departamento de Estado, é justamente

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o caso da Guatemala, que Washington pretende fazer regressar ao bom caminho, se necessário pela força. Porque o novo governo esboça uma prudente tentativa de reestruturação
de um sistema agrário ainda feudal que mantém na posse de vinte e duas famílias patrícias metade das terras cultiváveis.
Eleito em 1951, o coronel Jacobo Arbenz tornara-se, aos 37 anos, no mais jovem chefe de Estado do continente. Filho de um farmacêutico de origem suíça de Quetzaltenango,
faz parte de uma geração de oficiais nacionalistas fartos das ditaduras e das prebendas concedidas ao big brother americano. A sua doutrina fica por aí, pois não
tem formação política, apesar de estar cheio de boa vontade. Ele queria para a Guatemala, limitada à cultura de bananas e café, um movimento sindical forte e a criação
de uma nova classe de pequenos proprietários de terras. Põe então em prática uma lei do trabalho e um projecto de reforma agrária legados pelo seu antecessor, Juan
José Arévalo, presidente "democrático", do qual foi ministro.
A reforma agrária, promulgada em 1952, não pretende uma subversão total, mas a sua lógica económica é, só por si, de uma audácia sacrílega. Estipula que, nas propriedades
com mais de 90 hectares, as terras que não forem cultivadas ou que forem deixadas em pousio, serão expropriadas, mediante indemnização adequada, para serem distribuídas
aos campesinos. A United Fruit pressente logo o perigo. Possui duzentos e trinta e quatro mil hectares, mas só explora 15% dessa área.
"La Frutera", como lhe chamam na região, é um verdadeiro Estado dentro do Estado da Guatemala. Em 1936, celebrou um acordo extremamente vantajoso com o ditador Ubico,
protótipo do tirano, imortalizado em 1946 pelo guatemalteco Miguel Angel Asturias - que receberá o prémio Nobel da literatura em 1967 -, na sua obra El Señor Presidente.
Dispõe das melhores terras do país, onde prosperam imensas e florescentes plantações de bananeiras. Emprega mais de dez mil camponeses e controla um tráfico ferroviário
que beneficia directamente a sua White Float, uma "Frota Branca", composta de trinta e oito navios de grande tonelagem, que Guevara conhece por ter embarcado num
deles para Guayaquil. A United Fruit é o arquétipo da multinacional americana, já presente no Equador e também em cada um dos seis países da América central, no
México, em toda a parte das Caraíbas onde for possível obter lucro com a cultura e o comércio dos frutos tropicais. Asturias chama-lhe o "polvo verde". Dita a sua
lei na indústria bananeira mundial e faz parte dos gigantes do big business americano. Os grupos Morgan e Rockefeller são membros do seu directório. Acontece, por
outro lado, que um advogado, John Foster Dulles, está ligado a essa empresa tentacular. Participou na redacção dos contratos leoninos de 1936, e ei-lo hoje à frente
da diplomacia americana, sob a tutela do presidente Eisenhower. Além disso, é o seu próprio irmão, Allen W. Dulles, que dirige uma outra sociedade não menos temível,
a CIA. O quadro está, pois, completo quando surgir o sinal de alarme.
Desde o início, o que mais impressiona Guevara no plano político é a total liberdade de imprensa. Deixou uma Argentina onde o peronismo controlou

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rádios e jornais e onde, como vimos, a própria ironia constitui um delito punido por lei. Na maior parte dos países sob ditadura militar que ele atravessou, a sorte
da imprensa não é melhor. Na Guatemala, pelo contrário, quinze dias depois de lá chegar, garante: "Eis um país onde é possível encher os pulmões e respirar democracia.
Há alguns jornais, apoiados pela United Fruit, que eu fecharia imediatamente, se fosse Arbenz, porque são uma vergonha. E contudo eles dizem o que lhes apetece e
contribuem para criar o clima que os Estados Unidos desejam, dando a impressão de que isto aqui é um covil de ladrões, comunistas, traidores, etc."2. Mais alguns
dias de observação e acrescenta: "A Bolívia era um país interessante, mas a Guatemala é-o muito mais, pois ergueu-se contra os seus adversários sem ter independência
económica, tendo que aguentar ataques armados de toda a espécie e sem nunca atentar contra a liberdade de expressão"3.
Tudo isso deixa o nosso homem muito excitado. Mas não basta respirar o ar tonificante da democracia para subsistir. "Para mim, o dinheiro não significa nada"4, proclama
ele. Mas há que resolver alguns pormenores tão prosaicos como a comida e a dormida, sobretudo quando se está tão desfalcado como Ernesto, ao fim de seis meses de
viagem. Ao contrário de Rojo, que é albergado às custas do governo, na sua qualidade de refugiado político, Ernesto e o seu amigo Gualo García têm que se desenrascar
sozinhos. Rojo apresentou-os a uma jovem economista peruana, Hilda Gadea. Também ela refugiada política, mas trabalhando num organismo de Estado, tem um salário
regular e pode assim servir de fiadora junto da senhoria. Ela aceita, não sem uma certa reserva: "Como muitos latino-americanos, sentia alguma desconfiança em relação
aos argentinos, primeiro por causa da sua presunção de serem oriundos de um país mais desenvolvido do que os nossos, e depois pela sua fama de arrogância, espalhada
por todo o continente"5.
Os dois argentinos instalam-se numa pequena pensão a três cuadras da casa dela, perto do Palácio Nacional, sede da Presidência. Dois ou três dias depois desta primeira
apresentação, Ernesto, sempre acompanhado por Gualo, vai visitar o seu contacto peruano. Lembrou-se que tem uma carta de apresentação da APRA. No seu livro dedicado
aos "anos decisivos" vividos com Guevara, Hilda Gadea traça o retrato dos dois rapazes, começando pelo de Ernesto. "Era alto e magro - 1,76 metros* - em relação
à estatura média nos nossos países, tinha uma pele muito clara, pálida, cabelos castanhos, olhos pretos, grandes e expressivos, nariz curto, feições regulares e
um aspecto agradável. Tinham ambos um ar descontraído e sorridente. A voz de Guevara era um pouco rouca, muito masculina, o que era surpreendente, tendo em conta
a sua aparente fragilidade; os seus movimentos eram ágeis e rápidos, mas davam a impressão de serem sempre muito controlados. Reparei no seu olhar inteligente e
observador e nos seus comentários incisivos. Segundo afirmaram, um era médico e o outro advogado, o que custava a acreditar porque tinham ar de estudantes, mas falando
com eles percebia-se que eram cultos"6.

Nota: * Hilda Gadea embeleza um pouco a memória de Guevara. Ele media 1 metro e 73.

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Quanto a Hilda Gadea, está longe de ser uma beleza. É uma bolinha morena, de pernas curtas, mestiça de ascendência índia e chinesa, cabelo muito negro, olhos amendoados.
É três anos mais velha que ele. Para Ernesto, o seu encanto é quase puramente abstracto. Vê nela um temperamento determinado, como ele aprecia, pois é uma anti-imperialista
dos quatro costados, militante assumida da ala mais esquerdista da APRA, o partido do tal Haya de la Torre que, no entanto, ele considera "igual aos outros". Durante
semanas, Ernesto e Hilda terão longas conversas de carácter político que, pouco a pouco, ganharão um tom mais pessoal.
"À primeira vista", reconhece ela, "Guevara não me causou boa impressão. Pensei, decerto apressadamente, que ele era demasiado bonito para ser inteligente. Pareceu-me
vaidoso, muito cheio de si"7. Na realidade, o "belo rapaz" explicar-lhe-á mais tarde que estava no início de uma crise de asma e que estava sobretudo cheio de ar
que o seu peito arqueado não conseguia expulsar.
Seja como for, ela interessa-se suficientemente por ele a ponto de o introduzir no seu círculo de relações e de lhe apresentar o pequeno grupo dos seus amigos pessoais.
Refugiados políticos como ela ou nativos do país, a maior parte ou são membros do Partido Comunista ou se movimentam em torno do Partido Guatemalteco do Trabalho
(comunista). O PGT é o mais pequeno mas o mais bem organizado dos seis partidos "revolucionários" que apoiam o regime de Arbenz, o único que não está demasiado afectado
por lutas internas, e também o mais escutado pelo poder. E Ernesto parece sentir-se absolutamente à vontade neste meio, embora decida manter toda a sua liberdade.
A propósito disso, Rojo conta (e a história é confirmada por Hilda Gadea) que o Ministério da Saúde, antes de confiar a Guevara um posto médico ardentemente desejado
no Petén, na região norte, no meio dos mais belos vestígios da civilização maia, exige-lhe a inscrição no PGT ou que lhe entregue uma parte do salário. Ao que ele
responde: "No dia em que eu decidir aderir a um partido, fá-lo-ei por convicção e não por obrigação".
Contudo, deixa-se guiar sem grandes reticências por essa camarada peruana decidida, que começa por o introduzir em casa dos seus melhores amigos, os Torres, uma
família de comunistas nicaraguenses. A filha, Myrna, é uma colega de trabalho no Instituto de Planeamento Económico, onde ambas trabalham; o pai, professor, é uma
figura respeitada no meio dos exilados, dirigente de um partido perseguido pelo ditador Somoza; o filho, secretário-geral da Juventude Democrática (comunista), acaba
de regressar da China popular. É com estes dois últimos que Guevara gosta de conversar. Edelberto Torres, o velho comunista, fica impressionado com o rapaz: "Tão
novo e já tão cheio de talento, de maturidade!"8
Hilda apresenta-lhe também uma exilada hondurenha, Elena Leiva, de boa formação marxista, que esteve na URSS e na China e que é dirigente da Aliança das Mulheres,
outra organização comunista. "Guevara revelava uma grande simpatia pelas realizações da União Soviética"9, afirma ela. Uma

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noite, ao sair de casa de Elena, assiste a uma discussão acalorada entre Ernesto e Rojo. O primeiro afirma que, para mudar as coisas, não há outro processo senão
uma revolução violenta, pois todas as meias-medidas preconizadas pela APRA peruana, pela Acção Democrática Venezuelana, pelo MNR boliviano, etc., não passam de "puras
traições". Rojo, pelo contrário, defende o princípio do combate eleitoral. A opção, fundamental, entre a estratégia da espingarda e a do boletim de voto não é ainda
a "pedra de toque" do debate revolucionário. Perante a argumentação e a exaltação crescente de cada um deles, Hilda intervém, tenta acalmá-los e Ernesto então explode:
"Não quero que me acalmem!". O que deixa imediatamente gelada a menina-árbitro, a quem Guevara depois pede desculpa: "O Gordo às vezes põe-me fora de mim"10. Guevara
já está longe daquela "observação neutra" que preconizava ainda seis meses antes, quando via desfilar os mineiros bolivianos na esplanada de um café de La Paz, frustrado
por não assistir a uma contra-revolução anunciada.

Os dois "eus" do doutor Guevara

Na Cidade de Guatemala, como sucedera em San José de Costa Rica, encontra também um pequeno contingente de cubanos que escaparam ao ataque frustrado ao quartel Moncada,
e que lhe confirmam a ideia de que é necessário combater "de arma na mão", mesmo que nem sempre o sucesso seja garantido.
É uma semana após a sua chegada, a 27 de Dezembro de 1953, que, em casa de Myrna, Hilda lhe apresenta os cubanos. São seis, entre os quais Mario Dalmau e Antonio
López, denominado "Nico". O primeiro guiava a viatura atribuída a Raul Castro, irmão de Fidel, no dia do assalto mas, infelizmente, deu uma volta errada para ir
tomar o Palácio da Justiça e chegaram atrasados. O segundo é um tipo esgalgado e simpático tem mais de 1 metro e 90 de altura, um operário que se tornou amigo de
Fidel Castro quando este último preparava a sua campanha eleitoral, para vir a ser deputado aos 24 anos, antes do golpe de Estado de Batista deitar por terra todas
as ilusões eleitoralistas. Nico tinha um policopiador, no qual imprimiu os quinhentos exemplares da proclamação de Castro afirmando que, uma vez que o ditador tinha
tomado o poder pela força, era pela força que ele deveria ser derrubado. Aqueles cubanos são pessoas simples, sem grande instrução, como a maior parte dos combatentes
de Moncada, mas com um ardor combativo que conseguem transmitir. "Quando ouvia os cubanos fazerem afirmações grandiloquentes com uma sinceridade absoluta, sentia-me
muito insignificante", observa Ernesto no seu diário. "Eu posso fazer um discurso dez vezes mais objectivo e sem lugares-comuns, posso ler ainda melhor e convencer
o meu auditório, mas não me convenço a mim próprio. Os cubanos sim. Nico punha toda a sua alma no microfone e por isso Conseguia entusiasmar até um céptico como
eu"11.

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Nesse primeiro semestre de 1954, o clima político na Guatemala torna-se cada vez mais tenso. A imprensa é maioritariamente hostil a Arbenz. Financiados pela publicidade
e por subsídios da United Fruit, os jornais da oposição transmitem, dia após dia, as inquietações dos grandes latifundiários, da Igreja ultra-conservadora e os comentários
azedos dos enviados especiais dos Estados Unidos, que proferem a acusação capital, em período de guerra fria: "Vendido ao comunismo". Em 1948, os Estados Unidos
criaram, à escala do "seu" hemisfério, a OEA (Organização dos Estados Americanos), com sede em Washington, visando impedir que o bloco soviético se infiltre no continente.
As manobras contra a Guatemala são tão evidentes que Guevara escreve, a 15 de Janeiro de 1954: "O "cozinhado" principal parece ir ser digerido nas conferências de
Caracas, onde os ianques vão armar as suas redes para tentar impor sanções à Guatemala"12. De facto, reunidos em Março na Venezuela, onde impera a ditadura de Perez
Jiménez, os Estados membros da OEA afirmam que "toda a actividade comunista na América Latina constitui uma ingerência nos assuntos internos americanos", uma maneira
de confirmar a doutrina de Monroe, que reinvidica para os Estados Unidos uma soberania implícita sobre a região e que serve de álibi legal a toda a política intervencionista.
No final de Janeiro, o presidente Arbenz denuncia publicamente os preparativos de uma invasão armada, apoiada por um "governo do Norte", o que coloca a Guatemala
à beira de uma ruptura diplomática com o dito vizinho.
Numa tal situação, o céptico Guevara não hesita em escolher o seu campo. As suas longas conversas com Hilda não são de molde a refrear a sua impaciência. Incitam-no,
pelo contrário, a firmar as suas pulsões de combate por uma verdadeira justiça social numa base teórica sólida, assumidamente marxista. "Nós dois já tínhamos lido
os romances precursores da Revolução Russa: Tolstoi, Gorki, Dostoievski, as Memórias de um Revolucionário de Kropotkine", escreve Hilda Gadea. "Agora os nossos temas
habituais de discussão incidiam em Que fazer? e O Imperialismo, Estádio Supremo do Capitalismo, de Lenine, o Anti-Dühring, o Manifesto Comunista, A Origem da Família,
da Propriedade Privada e do Estado e outras obras de Marx e Engels e também Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico de Engels, bem como O Capital de Marx,
com o qual eu estava mais familiarizada, em função dos meus estudos económicos"13.
O facto de as conversas de Ernesto terem "incidido" nesta bibliografia não significa que ele tenha lido todas essas obras, apesar de ser um leitor voraz e rápido.
Mas o ambiente político geral, uma certa disponibilidade de tempo, frequentemente imposta pelas crises de asma - "este clima não é bom para mim" -, e a solicitude
da camarada Gadea permitem afirmar que é na Guatemala que ele "entra no marxismo". Produz-se uma "mudança qualitativa" decisiva na evolução mental e na reflexão
social e política de Ernesto Guevara. É certo que ele faz ainda diligências para se governar, sonha em ir descobrir o México, Cuba, os Estados Unidos. Acalenta mesmo
o projecto de levar a mãe à velha

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Europa "onde permanecerei até queimar o meu último cartucho monetário". Mas. numa carta à adorada tia Beatriz, cuja pusilanimidade se diverte a beliscar revela finalmente
a verdade, fazendo-lhe notar, sempre provocador, que ela não poderá queixar-se por o seu "sobrinho proletário" não ter sido franco com ela: "A minha posição não
é, de modo nenhum, a de um pensador diletante. Tomei deliberadamente posição a favor do governo da Guatemala e, nesse âmbito, dentro do grupo do PGT, que é comunista.
Estou também ligado a intelectuais dessa tendência que editam aqui uma revista, e trabalho como médico nos sindicatos"14. É a primeira vez que Guevara define com
tanta clareza a sua posição, alinhada ao lado dos comunistas guatemaltecos, e convém que se retenha a data: 12 de Fevereiro de 1954.
Os acontecimentos que irão seguir-se não farão mais do que reforçar essa orientação. Apenas a última observação sobre a sua actividade como médico nos sindicatos
deve ser corrigida, pois releva ainda da pura intenção, destinada sem dúvida a tranquilizar a boa senhora que, sempre preocupada, lhe enviou alguns dólares. Se houve
colaboração com os sindicatos, ela terá sido meramente episódica e sempre gratuita. A verdade é que, durante a sua permanência na Guatemala, Guevara nunca conseguirá
ter um emprego estável, devidamente remunerado. "É a primeira vez que preciso de emprego, e não arranjo nada"15, confessará ele. Uma tentativa para ser admitido
na leprosaria local não deu resultado; tal como a de ir trabalhar no Petén, no Norte do país. "É claro que eu poderia enriquecer aqui, desde que recorresse ao vil
procedimento de revalidar a minha carteira profissional, montar um consultório e especializar-me em alergias. Fazer isso seria a mais profunda traição para com os
dois "eus" em luta dentro de mim: o socialudo e o aventureiro da estrada"16. Note-se que o "eu" viajante de Ernesto luta ainda em pé de igualdade com o "eu" socialudo
de Guevara.
Como, de qualquer forma, o regulamento da Ordem dos Médicos, "absolutamente reaccionário", levanta enormes obstáculos à participação de um estrangeiro "na partilha
das prerrogativas de um grupo de oligarcas que não querem, por nada deste mundo, perder o seu filão"17, ele terá que se contentar, mais uma vez, com os biscates
e os expedientes.
Alguns não deixam de ter um certo lado pitoresco. "Neste momento", escreve ele três semanas após a sua chegada, "vendo nas ruas uma magnífica imagem do Senhor de
Esquipulas*, um Cristo negro que faz milagres incríveis. Aquele que eu vendo é luminoso. Tenho já um extenso repertório de milagres deste Cristo, que vou sempre
aumentando e, como quem não quer a coisa, exagero um pouco, quando vejo que há hipótese [...]. As comissões permitem-me viver o dia-a-dia, o moral é excelente"18.
Por outro lado, Hilda Gadea apresentou-lhe um gringo, Harold White, que se tornará seu amigo, um antigo professor de História na Universidade de Utah (EUA), retintamente

Nota: * Esquipulas: pequena vila da Guatemala, perto das Honduras. Local de peregrinação, célebre pela sua estátua de um Cristo Negro, de um metro e meio de altura.

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marxista. "Partilhamos as nossas ignorâncias. Ele não fala uma palavra de castelhano, mas entendemo-nos às mil maravilhas". O gringo pede-lhe que lhe dê umas aulas
de espanhol. "Um peso por lição, mais trinta pesos mensais para ajudar um economista que prepara um livro de geografia. Total: 50 pesos. Tendo em conta que a pensão
custa 45, que não vou ao cinema e que não preciso de comprar medicamentos, é um super-salário. O único problema é que já devo dois meses [...]. Mas tenho uma proposta
concreta de trabalho como pintor numa oficina de tabuletas, o que pode significar que em vez de um Rockefeller (em ponto pequeno), eu me transforme em Hitler"19.
Mesmo apresentada com humor, a "proposta concreta" desvanece-se no clássico mañana, eterno amanhã de promessas não cumpridas, e Ernesto, acompanhado de Gualo, vai
pedir ajuda a Hilda, que lhes empresta algumas jóias para acalmar a senhoria.
Ele sabe pouco de inglês, mas aceita, novamente com o apoio de Hilda, lançar-se na tradução para espanhol de um livro do gringo White sobre o marxismo. Com Nico
e alguns cubanos audaciosos, vão à província vender artesanato, bugigangas, de tudo um pouco. Percorrem as verdes montanhas dos Quichés, confraternizam com os índios,
"homens de milho" de pernas nuas, por vezes curvados sob enormes feixes de lenha presos com um arnês frontal, admiram as tecelãs que, nas praças da aldeia, trabalham
em simples teares os huipils, vestimentas magníficas e multicolores que distinguem, consoante os motivos, as mulheres de cada etnia. Mas Nico e os cubanos saem da
Guatemala em Abril e vão para o México, e a venda ambulante cessará, por falta de vendedores. Por fim, o único emprego mais ou menos regular que Ernesto consegue,
mas só no fim de Abril, é o de médico-interno num centro de formação de professores.
Para o governo Arbenz, está a aproximar-se o seu fim. Sensibilizados mais do que outros para os perigos de uma repressão anunciada se a reacção vencer, muitos exilados
políticos e estrangeiros tentam encontrar terras de acolhimento mais sossegadas. Grande parte vai para o México. Em fins de Fevereiro, Rojo parte para os Estados
Unidos e Gualo García regressa para casar com uma noiva que o espera em Buenos Aires. Ernesto vê-se um pouco abandonado, sem saber bem para onde ir, embora não lhe
faltem projectos nem coragem. "As minhas actividades futuras são um mistério," mesmo para Deus. Para já, gostaria de ter um pouco de tranquilidade, pois estou a
seleccionar material para o projecto de um livro [...] mas a luta quotidiana pela subsistência não me deixa muito tempo livre [...]. Se não encontrar uma solução,
então, parto por aí fora (mas só daqui a quatro meses, até regularizar as minhas dívidas), à descoberta das ruínas maias e deste país, a preceito"20. Por não ter
um contrato de trabalho que lhe dê uma garantia de permanência, tem de abandonar o território para regressar munido de um novo visto de entrada na Guatemala. Pega
então de novo na mochila e vai uma semana ao vizinho Salvador, "em parte a pé, em parte à boleia, e em parte (que vergonha!) pagando"21. Num poema redigido nessa
época, regista:

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"Persiste em mim o aroma dos passos vagabundos"22. Em Salvador obtém o visto e aproveita para ir admirar algumas maravilhas arqueológicas cuja arquitectura "nada
tem a ver com a dos Maias nem dos Incas"23. Tenta entrar nas Honduras, onde 25% dos trabalhadores estão em greve, "número elevadíssimo num país onde não existe o
direito à greve e os sindicatos são clandestinos", mas basta a referência à Guatemala no seu passaporte para provocar uma recusa inabalável por parte dos hondurenhos.
Consola-se passando dois dias de praia no Pacífico, encontra aí alguns jovens vagabundos que "carburam a álcool", faz-lhes uma grande propaganda sobre a Guatemala
e... acabam todos numa esquadra da polícia, de onde são corridos rapidamente. Está sem cheta, mas consegue regressar à Guatemala fazendo vários rodeios, visitando
as estelas com hieróglifos de Quirigua, algumas das quais com dez metros de altura. Em Puerto Barrios, o porto bananeiro da United Fruit na costa atlântica, é contratado
como estivador para descarregar, no meio dos mosquitos, barris de alcatrão, "pesados como nunca vi [...], tinha as mãos num estado lastimável e as costas ainda piores.
Trabalhava das seis da tarde às seis da manhã 2.63 pesos por doze horas de trabalho - e ia dormir numa casa abandonada, à beira-mar"24.

O dia em que me amarás (tango)

Hilda Gadea, que pensava nunca mais voltar a ver Guevara, fica feliz por o rever. Ele bate-lhe à porta, assim que regressa. Tornara-se uma amiga privilegiada.
À excepção de Tita Infante, camarada comunista da Faculdade, em Buenos Aires, meiga e angustiada, ele nunca tinha encontrado uma verdadeira militante como Hilda,
preocupada em filtrar tudo através de uma interpretação marxista do mundo. E isso sedu-lo. Com ela, pelo menos, é possível haver debate, troca de ideias, confrontar
pontos de vista, falar de Sartre, por exemplo, ou de Freud. Vai ver com ela La Putain Respectueuse. "Ernesto era um admirador entusiasta de Sartre, que conhecia
melhor do que eu", escreve ela. "Eu só tinha lido O Existencialismo é um Humanismo e A Idade da Razão [...]. Ele falava-me também de O Ser e o Nada, A Náusea, As
Mãos Sujas [...] A propósito de As Mãos Sujas, ele disse-me uma vez: "é verdade que Sartre atacou o Partido Comunista". Eu respondi-lhe que o que ele atacara fora
uma deformação do marxismo e do comunismo e que nesse aspecto, eu estava de acordo"25.
No entanto, como todos os comunistas da época, Hilda censura sumariamente Sartre por ver apenas os problemas individuais sem os inserir no contexto social. "Ernesto
era partidário de Freud e da sua interpretação da vida baseada nos problemas sexuais", acrescenta ela. "Tinha lido mais que eu Adler e Jung"26 Neste aspecto, a reacção
de Hilda é de um marxismo bastante primário. Ela afirma que os conceitos de Freud precisam de ser completados: "Como é possível explicar então que existam combatentes
políticos cujas razões de viver

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não estão ligadas a nenhum problema sexual, pois são seres inteiros e normais?"27. Se esta visão incongruente da "normalidade" foi exposta a Ernesto pela sua amiga
desta maneira clara como ela escreve, ele não parece ter ficado chocado. Continua atraído pelo lado puro e duro desta pasionária que lhe dá a honra de se ocupar
dele, o põe em contacto com novas figuras políticas de esquerda, o convida a passear no campo, ao domingo.
Por vezes, Harold White acompanha-os; Ernesto prepara o asado, a carne grelhada à argentina. A conversa incide sobre a situação do país, evidentemente, que sofre
uma pressão intensa dos Estados Unidos; mas falam também da União Soviética, dos trabalhos de Mitchurine, o agrónomo da moda em Moscovo, dos reflexos condicionados
de Pavlov e da política internacional - os Estados Unidos acabam de fazer explodir a primeira bomba H em Bikini e o Vietname derrota o exército francês em Dien Bien
Phu...
Num desses domingos, Hilda tem uma reacção tipicamente pequeno-burguesa, mas Ernesto não presta atenção. Uma procissão imprevista na pequena aldeia onde passaram
o dia complica o regresso à capital. White propõe que se passe a noite num hotel e que se regresse na manhã seguinte. "O que irão pensar de mim na pensão onde eu
moro?", murmura ela. Ernesto lança-lhe um olhar divertido e faz o possível para que possam regressar, custe o que custar, nessa mesma noite, de modo a que a virtude
e sobretudo a reputação da menina fiquem preservadas.
O próprio Guevara tem uma maneira curiosa de fazer a corte. A 3 de Janeiro de 1954, os dois jovens conhecem-se há menos de quinze dias quando se encontram em casa
dos Torres, que organizaram um grande passeio de campo, nos arredores da capital. Está toda a gente lá, os argentinos, o grupo ruidoso dos cubanos, hondurenhos,
o professor White, amigas encantadoras de Myrna, membros das juventudes comunistas. Ambiente excelente. Monta-se a cavalo (Ernesto dá provas da sua habilidade).
Piquenique campestre. Valsas de Viena ao som do acordeão. Ernesto chama então Hilda de parte e pergunta-lhe, à queima-roupa, se ela é "completamente sã" e se a sua
família também o é. Surpresa divertida da peruana, embaraçada, que lhe responde: "Porquê? Queres saber a minha história clínica para me pedires em casamento?" E
Guevara, sorrindo: "Talvez não fosse má ideia..."28.
A mesma impulsividade de Ernesto, depois de ela lhe ter emprestado A Nova China de Mao Tsé Tung, de quem ele ainda não lera nada. "Poucos dias depois, propunha-me
que fosse com ele à China"29. Ela hesita, evidentemente. Ele promete não a importunar fazendo-lhe a corte. As coisas ficarão por aí. Mas Ernesto irá apresentar-se
como candidato junto do professor Torres, encarregado de seleccionar aqueles que irão assistir, em Pequim, à próxima conferência sobre a Paz na região do Pacífico.
"Demasiado tarde", explica-lhe Torres, e ele não insiste.
Finalmente, em meados de Março, Ernesto faz uma verdadeira declaração de amor a Hilda sob a forma de um curto poema, que a jovem perdeu. Ele esclarece que está pronto
a casar de imediato. Mais uma vez, ela hesita.

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"Disse-lhe que, pessoalmente, pensava que não era no casamento que a mulher se realizava..."30. Ela levará um ano a decidir-se e só casarão em Agosto de 1955. Mais
tarde, em 1959, ela lamentará a sua indecisão. "Que pena que a minha indecisão me tenha feito perder um ano de vida com ele"31.
Em todo o caso, a partida dos argentinos, seguida da dos cubanos, aproxima-os. Vêem-se todos os dias. Em Abril, pela primeira vez, ele fala dela à mãe: "Bebo mate
quando há, e tenho conversas intermináveis com a camarada Hilda Gadea [...]. Ela tem um coração de platina, no mínimo. O seu apoio faz-se sentir nas mais pequenas
circunstâncias da minha vida quotidiana"32. Hilda oferece-lhe os poemas do peruano Cesar Vallejo e do espanhol León Felipe, refugiado no México. Ernesto descobriu,
na Guatemala, Asturias e o Popol Vuh, o "Grande Livro do Conselho" dos antepassados, que exprime a essência do universo maia. Declama a Hilda trechos de Neruda ou
de Martin Fierro, fala-lhe de escritores argentinos contemporâneos, Borges, Marechal, Alfonsina Storni. Aprecia sobretudo uma poetisa uruguaia, Sara de Ibañez, e
sabe de cor vários poemas dela, carregados de símbolos, de sonhos, de transposições líricas, de dores intensas e etéreas.
Guevara possui um certo dom para a escrita. As suas descrições, rabiscadas ao correr da pena, a sua correspondência, os seus diários de viagem escritos fluentemente,
sem emendas, são transbordantes de vida, de humor, de realismo. Contudo, quando se trata de poesia, o seu bom-gosto transvia-se: nunca foi brilhante nas suas produções
poéticas, muitas vezes embrulhadas em figuras rebuscadas. (Numa dedicatória a León Felipe reconhecerá que é um "poeta falhado"). Neste aspecto, foi decerto influenciado
pela mãe, sensível aos voos líricos dos poetas "modernistas" latino-americanos, eles próprios fascinados pelos parnasianos franceses.
Hilda e ele recitam em conjunto o clássico Se de Kipling, exaltação da coragem perante a adversidade. Estão também de acordo quanto à importância de Ariel, o grande
ensaio do uruguaio Rodo. Esse texto abstracto marcou várias gerações de intelectuais latino-americanos. "Ariel era um dos livros essenciais da formação de Ernesto"33,
escreve ela. A partir de A Tempestade de Shakespeare, Rodo elaborou uma espécie de ética, na qual o mal consiste na "abdicação da vontade". Em relação a Próspero,
mestre temível (que em breve será identificado com o colonizador), Ariel, génio do ar, significa o idealismo, o desapego, o heroísmo em acção; é, no fundo, o intelectual
comprometido com uma causa, ao passo que Caliban (anagrama, em inglês, de canibal) acabará por representar o escravo colonizado, prisioneiro da sua sensualidade.
Qual é o valor supremo? É o próprio homem, que deve realizar-se integralmente. Esta temática, muito simples mas forte, ajudou Guevara a balizar a sua posição ética;
veremos que ela irá ressurgir, dez anos depois, em Cuba, quando todos os esforços visarão a criação de um "homem novo".
Para já, ele, que continua a não entender nada de música, que pisa os pés •de Hilda quando a convida para dançar, vai-lhe sussurrando (uma vez que não lhos pode
cantar) os requebros de um dos mais românticos tangos de

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Carlos Gardel, El dia em que me quieras. Ela reage convidando-o para... uma cerimónia de homenagem a Sandino, esse nicaraguense heróico que ergueu um exército contra
os ianques que ocupavam o seu país, antes de ser assassinado. Ernesto sabe de quem se trata; leu, em Buenos Aires, a biografia dessa personagem, que o seu tio Jorge
lhe ofereceu logo que foi editada. Na noite da concentração ela quase não o reconhece. Ele vestira um belo fato de flanela cinzenta: "Herdei-o do Gualo", explica
ele, chocarreiro.
Irá o aventureiro assentar, transformar-se numa pessoa "normal", com uma profissão, uma esposa, um futuro mais ou menos traçado? Pressente-se, nas suas respostas
às cartas que recebe de Buenos Aires, que a família, por muito boémia e libertária que seja, está um pouco preocupada por o sentir à deriva, e num país tão exposto.
A tia Beatriz recomendara-lhe que fosse procurar, em El Salvador, amigos que poderiam proporcionar-lhe uma "situação". "Nem sequer encarei a hipótese de lá ficar",
responde ele. A mãe pensa que ele poderia especializar-se em arqueologia, já que as velhas pedras pré-colombianas lhe agradam tanto. "Seria um tanto paradoxal que
eu consagrasse a minha vida a fazer investigações sobre aquilo que está definitivamente morto", escreve-lhe ele. "Há duas coisas de que estou certo: a primeira é
que, se atingir a fase verdadeiramente criadora por volta dos trinta e cinco anos, a minha ocupação, exclusiva ou essencial, será a física nuclear ou a genética
[...]; a segunda é que a América será o palco das minhas aventuras, num sentido muito mais importante do que eu poderia imaginar. [...] Sinto-me muito mais americano
do que tudo o mais no mundo"34.

A chaga aberta da Guatemala

Os acontecimentos, que se precipitam, vão dar-lhe ocasião de exprimir esse apego à América. Os Estados Unidos não digeriram a expropriação de 84 mil hectares da
United Fruit. Os relatórios enviados a Washington, cada vez mais alarmantes, do embaixador Peurifoy, exigem que se passe à acção. A CIA de Allen W. Dulles põe então
em prática os seus velhos métodos. Sob a direcção de um coronel fantoche, Castillo Armas, reúne nas Honduras um pequeno exército "guatemalteco" constituído por mercenários
vindos das Honduras, da Nicarágua, da Colômbia, de Cuba, etc. Uma verdadeira caricatura da intervenção mal disfarçada dos Estados Unidos numa república das bananas.
As proclamações anticomunistas da OEA, a campanha da imprensa nos Estados Unidos, retomada pelos meios de comunicação social da região, os repetidos avisos de Foster
Dulles levam o nacionalista Arbenz a apoiar-se cada vez mais nos comunistas do PGT, que assume deliberadamente um papel secundário, José Manuel Fortuny, o seu secretário-geral,
chega mesmo a demitir-se, para não atrapalhar o governo, que lhe pede conselho.
Num breve artigo sem data, escrito sem dúvida entre Abril e Maio de
1954 e nunca publicado, sobre o dilema da Guatemala, Guevara toma assumidamente

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o partido de Arbenz. "O Departamento de Estado e a United Fruit, confundindo-se um com o outro neste país, em franca aliança com a maioria dos grandes agrários e
com a burguesia medrosa, traçam toda a espécie de planos para reduzir ao silêncio o adversário altivo que surgiu como um furúnculo nas Caraíbas". A partir de agora
a situação está tão clarificada, os dois campos tão nítidos, que se nota desta vez em Guevara, face a um adversário bem definido, o radicalismo total da luta sem
tréguas, recentemente gritado na cordilheira dos Andes: "Os patriotas sabem agora que a vitória será conquistada a ferro e fogo e que não pode haver perdão para
os traidores; que só a liquidação total dos grupos reaccionários poderá permitir que reine a justiça na América. [...] É altura de responder às cacetadas com cacetadas
e, se for preciso morrer, que seja como Sandino!"35.
A Guatemala, com poucos recursos, teve de comprar armas ao exterior. A chegada a Puerto Barrios de um carregamento de material militar desencandeia o último ajuste
de contas. A 17 de Junho de 1954, armadas e equipadas pelos Estados Unidos, as tropas de Castillo Armas, arvorando como insígnia um crucifixo atravessado por uma
espada, atravessam a fronteira entre as Honduras e a Guatemala. Alguns dias antes, aviões pilotados por norte-americanos semearam o terror entre a população civil.
Nos campos ainda não eram conhecidos esses instrumentos apocalípticos. O jornalista Marcel Niedergang, que "cobriu" o acontecimento no local, escreve: "Os aviões
de Castillo Armas tiveram o mesmo efeito sobre os índios pacíficos da Guatemala que os cavalos de Cortez e de Alvarado no século XVI sobre os seus antepassados maias"36.
Aldeias inteiras fugiram para as montanhas.
Guevara assiste aos bombardeamentos de meados de Junho num céu desesperadamente vazio de qualquer contra-ataque das forças regulares, por falta de aparelhos em condições,
de pilotos treinados, de combustível e de bombas. Está desesperado, mas regozija-se: "Tenho a sensação de ser inviolável", observa ele ao descrever com talento o
"espectáculo" a que assiste numa carta para a mãe. "Vi um avião mergulhar contra um objectivo, bastante perto do local onde me encontrava. Via-se o aparelho a crescer
cada vez mais, enquanto as asas cuspiam intermitentemente pequenas línguas de fogo, crepitando como metralhadoras ligeiras. E, de repente, ficava um momento como
que suspenso no ar, horizontal, lançando-se em seguida num voo picado, ultra-rápido. Sentia-se a terra a tremer sob o efeito da bomba. Mas, devo confessar-te, um
pouco envergonhado, que me diverti à brava durante todos estes dias. Esta sensação mágica de invulnerabilidade dava-me um enorme prazer, quando via as pessoas a
fugirem como coelhos assim que os aviões chegavam, ou, de noite, quando na escuridão a cidade se enchia de clarões de tiros"37. Impossível não comparar este texto
com uma outra carta, escrita seis meses antes, a 31 de Dezembro de 1953, pelo advogado Fidel Castro, encerrado na prisão, após o fracasso do ataque contra o quartel
Moncada. Apesar da hecatombe dos seus companheiros, Castro sentiu a mesma alegria durante o combate. "O momento mais feliz do ano e de toda a minha vida foi aquele
em que estive envolvido na batalha"38.

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A 20 de Junho de 1954, Ernesto anota: "O coronel Arbenz é, sem sombra de dúvida, um tipo corajoso, disposto a morrer no seu posto, se for necessário"39. Mas a 4
de Julho tudo está consumado e ele rectifica: "A dura verdade é que Arbenz não soube estar à altura das circunstâncias"40. O "coronel corajoso" não o foi muito.
Torna-se, para Ernesto, no verdadeiro anti-exemplo. Na realidade, Arbenz lutou como pôde. Protestou contra as Honduras, tentou levar a questão perante a opinião
internacional e as Nações Unidas. Tempo perdido. O jovem médico inscreveu-se para trabalhar nas equipas de socorro médico de urgência e pede às Juventudes Comunistas,
com as quais fez equipa para a extinção dos fogos durante os alertas aéreos, que o inclua entre os voluntários para receber instrução militar. Está convencido de
que as milícias operárias e camponesas, armadas pelo governo, poderiam lutar contra os mercenários vindos das Honduras. Vai procurar dirigentes políticos, membros
do PGT ou próximo dele, como Marco António Villamar, para os convencer a organizarem-se nesse sentido. Villamar explica-lhe que, quando foi ao arsenal com um grupo
de operários, os militares em vez de lhe agradecerem, quase dispararam contra eles.
A 25 de Junho, Arbenz afirma ainda, num vibrante apelo radiofónico: "Não recuaremos um passo". Mas o embaixador americano Peurifoy apresenta-lhe o seu ultimato;
as forças armadas, na sua maioria, abandonam-no. Há oficiais que exigem que ele se afaste dos seus aliados comunistas. Ele recusa. Mas recusa também confiar naqueles
que o apoiam... "Não pensou que um povo em armas é invencível, apesar do exemplo da Coreia, apesar do exemplo da Indochina. Podia ter dado armas ao povo. Não quis.
Eis o resultado!"41, diz Guevara. Na realidade, foi o exército que proibiu mesmo que se sonhasse com uma coisa dessas. "Contudo, a Guatemala é uma terra destinada
à guerrilha", observa Niedergang. "Algumas dezenas de homens decididos e bem armados teriam podido deter durante vários dias uma tropa tão pouco mecanizada e tão
díspar como a de Castillo Armas [...]. Mas essa ordem não foi dada"42. Seis anos mais tarde, em Julho de 1960, em Cuba, o jovem argentino, agora comandante Guevara,
saudará, numa homenagem ambígua, a presença de Jacobo Arbenz no Congresso das Juventudes Comunistas latino-americanas e agradecer-lhe-á por "nos ter permitido determinar
com exactidão as fraquezas que o seu governo não conseguiu ultrapassar". A 27 de Junho de 1954, Arbenz refugia-se na Embaixada do México e a 3 de Julho, acompanhado
pelo núncio apostólico e pelo embaixador Peurifoy, Castillo Armas, desembarcando de um avião militar norte-americano na Cidade de Guatemala, proclama, sob ovações:
"Primero Dios!".
A repressão é feroz: nove mil mortos e presos durante os primeiros meses da contra-revolução. É elaborada uma nova legislação do trabalho. A lei da reforma agrária
é revogada e a United Fruit recupera não só as terras expropriadas que não cultivava mas também algumas centenas de milhares de hectares suplementares que tinham
sido distribuídos aos camponeses. O que lhe permite ter um gesto muito mediático: restitui generosamente parte delas

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ao governo. Por parte dos partidos de esquerda, e até do centro, dá-se a clássica corrida às embaixadas para obter asilo. Guevara, o "invulnerável", não entra em
pânico. Quando muito, a conselho dos amigos, muda de residência. No microcosmo dos meios políticos da Guatemala, o argentino acaba por ser descoberto e catalogado
de agitador. "As embaixadas estão a abarrotar de refugiados", escreve ele. "A nossa e a do México, sobretudo"43. Por seu turno, Hilda encontrou amigas generosas,
muito católicas, que a albergam. Ele vai visitá-la todos os dias e ainda arranjam tempo para ler Einstein em inglês e, ele, para traduzir Pavlov do francês para
o espanhol.
No auge dos acontecimentos, dita a Hilda um artigo de dez páginas, que também irá perder-se no meio da confusão, mas que alguns, que o leram, como o cubano Mario
Dalmau, recordam. Sob o título "Eu vi cair Jacobo Arbenz", denuncia as condições em que a Guatemala foi obrigada a submeter-se aos interesses ianques44. O tom mudou.
Já não é um céptico afável que fala. É um homem empenhado num combate feroz contra o imperialismo dos Estados Unidos no mundo inteiro. A Guatemala terá servido como
revelador para transformar o franco-atirador divertido num combatente determinado. Acaba de assistir à primeira insurreição da história. A mudança é radical.
Foi provavelmente durante este período que ele compôs alguns poemas de circunstância evocando essa "Guatemala que me deixaste / uma chaga aberta no peito"45. Mas
o "tempo das cerejas" voltará. A amarga experiência da Guatemala não o impede de ouvir os amanhãs que cantam. Ele pressente, segundo escreve, "... o impacto difuso
/ do hino, o de Marx e de Engels / cantado por Lenine e entoado pelos povos"46.
Ernesto comunica a Hilda a sua decisão de partir para o México e depois para a China. Propõe-lhe de novo que o acompanhe, que se casem no México. Acaba de fazer
26 anos. A excitação desses dias plenos de emoção, a iminência da partida, levam-no sem dúvida a desejar ir mais longe nas suas relações com a amiga. Ela furta-se
de novo, explica que prefere regressar ao Peru. Ele escreve então num poema: "Há dias em que sinto despertar o sexo / e vou mendigar um beijo à mulher / Sei então
que nunca beijarei a alma / daquela que não consegue chamar-me camarada"47.
A 22 de Julho, Hilda é presa. Apenas uns dias de prisão. A polícia quer que a peruana revele a morada do seu amigo argentino. Assim que é informado, Ernesto quer
ir entregar-se. O cônsul da Argentina, Sánchez Torrenzo, consegue dissuadi-lo. Sabe que esse jovem Guevara não é uma pessoa qualquer. Recebeu, para lhe entregar,
encomendas e dinheiro que a família enviava ao cuidado de um capitão da força aérea argentina. Propõe-lhe a protecção da embaixada. Ernesto aceita, com a condição
de ser considerado como um "hóspede", com toda a liberdade de movimentos, e não como um "refugiado". A embaixada pede a cada um que declare se é comunista. Treze
respondem pela afirmativa. Ernesto colocou-se decididamente entre eles. Mas recusa, evidentemente, regressar à Argentina. Perón, jogando como de costume com Deus
e com o Diabo, não condenou Arbenz. É certo que enviou aviões

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militares para trazer os refugiados. Mas, à chegada a Buenos Aires, os comunistas são presos, interrogados e por fim libertados. Vários, a pedido de Ernesto, são
apoiados pela família Guevara.
Quando Hilda é posta em liberdade, Ernesto não hesita em ir procurá-la no restaurante habitual, sob o olhar assombrado dos clientes, que não compreendem como é que
ele tem a audácia de circular livremente. Aproveitando a margem de manobra de que dispõe para entrar e sair à vontade da embaixada e a sua relativa protecção diplomática,
Guevara não se contenta em jogar xadrez e beber mate; empenha-se em ajudar aqueles que precisam de escapar à repressão. Consegue que certos dirigentes políticos
encontrem uma embaixada que os acolha, arranja um abrigo para outros, chega a transportar armas, garante Hilda.
Um dia, diz à amiga que, enquanto espera o visto para o México, vai dar uma volta até ao Lago Atitlán, que ainda não conhece. A menos de cem quilómetros da capital,
é o passeio turístico clássico: paisagem alpina nos trópicos. Terá realmente ido lá? Armand Gatti, que percorre nessa época a Guatemala como cronista judiciário
para o Parisien Libéré, garante que foi noutra zona, para as bandas de Escuintla, que se cruzou com Guevara. Depois de entrevistar Peurifoy, que lhe contou com uma
arrogância bastante obscena "como fiz cair Arbenz", Gatti teria ido buscar, num carro da embaixada de França, o dirigente comunista Fortuny, para o levar para a
embaixada do México. Ter-lhe-iam também apresentado "um tipo fixe que também lá está", médico no Ministério da Saúde. "Guevara tinha o aspecto de um esquerdista
desengonçado, com a sua mochila, capaz de dormir em qualquer canto, e o ar de um intelectual. Usava o cabelo curto e era magro"48, declara Gatti.
No fim de Setembro de 1954, assim que obtém o visto mexicano, Ernesto envia os seus livros para Buenos Aires e compra um bilhete de comboio para o México. "O meu
lema é: pouca bagagem, pernas fortes e um estômago de faquir"49. Por seu turno, Hilda tem de regressar ao Peru. Os seus destinos irão separar-se aí? Ernesto pede
à amiga que faça com ele uma parte da viagem de comboio. Ela aceita acompanhá-lo durante 20 quilómetros, até à primeira paragem. Na carruagem que corre para a fronteira,
eles vão de mãos dadas, como namorados bem comportados. Ele recita-lhe textos de Vallejo e insiste com ela para que vá depressa ter com ele. A Hilda, a coisa parece-lhe
pouco provável. Separam-se sem saberem se voltarão a ver-se. Ernesto vê-se compelido para sempre a correr mundo. Retoma essa imagem num poema sem título: "Vou por
caminhos mais longos do que a memória / trazendo em mim a hermética solidão do peregrino / [...] triste por dentro, sorridente por fora/"50, e em Auto-Retrato Obscuro,
acrescenta: "Devorei quilómetros de ritos transumantes, com o meu fardo asmático que carrego como uma cruz"51.
Depois destes oito meses decisivos na Guatemala, como será o amanhã no México? Pouco se importa, confiante na sua boa estrela. Aconteça o que acontecer, ele tem
as coordenadas de um velho amigo do pai, Ulises Petit de Murat, o argentino que melhor conseguiu introduzir-se no meio cinematográfico

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mexicano. Imagina que, ao fim e ao cabo, com o seu físico de galã, poderia começar por fazer figuração e em seguida conseguir um grande papel, quem sabe?52 As coisas
não acontecem exactamente como ele imagina, mas, de facto, é no México que lhe vai ser proposto um grande papel.
"
No fundo, sou um vagabundo..."

No parque de Chapultepec, no México, dois jovens parecem andar a passear. Um é alto, de pele clara, olhar penetrante e um certo ar de adolescente tardio. O outro
caminha apressadamente ao lado dele, nas suas pernas curtas e ar doentio; tem, como os nativos, a pele acobreada e o olhar impassível. Não estão a passear, mas sim
a trabalhar. Estão à procura de clientes. Ernesto Guevara acrescentou à panóplia dos seus múltiplos empregos, o de fotógrafo ambulante. De máquina pendurada ao pescoço,
propõe às famílias tirar-lhes o retrato, em grupo ou em separado. O seu sócio irá entregar o negativo e receber a módica quantia de um peso por fotografia.
O sócio em questão é um guatemalteco de vinte e poucos anos, que encontrou no comboio, a caminho do México. Chama-se Julio Cáceres, mas, segundo diz, costumam chamar-lhe
"El Patojo", por ser baixo. Durante a viagem tiveram tempo de contar um ao outro as suas vidas. Ernesto comoveu-se com a história das desgraças deste jovem comunista
sem vintém que dissimulava, atrás da sua reserva, uma grande sensibilidade e inteligência. Ficaram amigos, e quando, a 21 de Setembro de 1954, chegam ao México,
Ernesto propõe ao companheiro que fique com ele no pequeno quarto subalugado a uma senhora de idade e arrasta-o no seu esquema de fotógrafo ambulante, ilegal no
México, onde nada é mais difícil, para um estrangeiro, do que obter autorização para exercer a mínima actividade remunerada.
A Cidade do México, situada num lago seco, não é, em 1954, a metrópole desmesurada e poluída em que hoje se tornou. Subsistem ainda, irradiando em torno da grande
praça central do Zocalo, bairros que conservam os encantos do período colonial: ruas com calçadas antigas, casas baixas com telhados de telhas vermelhas e paredes
de taipa caiada, tendo nas janelas grades de ferro forjado. Mas é já uma grande cidade com mais de quatro milhões de habitantes. Como em toda a parte na América
Latina, há um grande contraste entre os muito pobres e os muito ricos. Os primeiros vêm dos bairros de lata para exercer, nas esquinas das ruas, pequenos ofícios
populares, cauteleiros, engraxadores, etc. Os segundos moram nos bairros finos das lomas (colinas), em vivendas de luxo, protegidas do exterior por grandes portões
de madeira trabalhada e por guardas armados. No meio da multidão, um homem pára, surpreendido, ao reconhecer o argentino que, outrora, na Cidade de Guatemala, veio
interrogá-lo sobre a situação política. Advogado de esquerda, antigo director do Banco Agrícola, Alfonso Bauer é dirigente de um dos pequenos partidos "revolucionários"
que apoiavam Arbenz. Exilado político como os

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outros, fica chocado por ver o brilhante Guevara, um médico, reduzido à condição de ter de ganhar a vida a fotografar pessoas nos jardins públicos. Convida-o, juntamente
com El Patojo, para um copioso almoço no restaurante do qual, agora, é gerente e insiste para que Ernesto vá procurar, da parte dele, um compatriota, o doutor Pietrasanta,
que o apresentará ao director do Hospital Geral. A recomendação funciona e, três semanas após a sua chegada ao México, Ernesto é médico assistente no Serviço de
Alergologia, com um salário simbólico, é certo, mas que ele aceita sem vacilar, pois para ele é uma ocasião de praticar. Aliás, apercebe-se de que, com o que aprendeu
sobre alergias com o Dr. Pisani, em Buenos Aires, sabe mais do que os seus colegas mexicanos, mesmo que se tenham especializado nos Estados Unidos.
Ao deixar a Guatemala, cheio de raiva contra os Estados Unidos, cujo verdadeiro rosto imperialista, cínico e arrogante, viu com os próprios olhos, Ernesto manifesta
alguma hesitação quanto às suas actividades futuras. Para ele, o México não passa de uma etapa, bastante provisória, de um percurso cujo itinerário preciso ignora,
como sempre. Continua a ser consumido pelo desejo de viajar. Sonha com uma bolsa de estudo em Paris. Não é só o continente americano que ele quer conhecer, mas também
a Europa, a Ásia, a China, o planeta inteiro. "O meu próximo objectivo será a Europa e depois a Ásia. Como? Isso é já outra história"53.
Oito dias depois de ter chegado ao México, conta as primeiras impressões numa série de cartas que envia para toda a parte aos seus correspondentes de Buenos Aires.
É espantoso verificar a constância com que ele mantém o contacto com os membros da sua tribo argentina. Com a mãe, interlocutora privilegiada, com o pai, a quem
escreve à parte, visto que os pais estão separados (sem o estarem, estando), com a tia Beatriz, com a inteligente Tita Infante, a sua amiga comunista, às vezes deprimida...
Nos primeiros contactos, o México não parece ter despertado nele grande simpatia, reacção clássica entre os Argentinos. Com Tita Infante, aborda com mais à-vontade
a análise política. O México, explica-lhe ele, ao recusar apoiar a Guatemala de Arbenz, "desempenhou, nesta comédia, o mesmo triste papel que a França desempenhou
em relação à República espanhola". É certo que "também aqui, como na Guatemala, se pode falar à vontade, mas desde que se pague de uma maneira ou de outra; é a democracia
do dólar"54, acrescenta. Ele, que cultiva um desprezo sincero, profundo e permanente pelo dinheiro, pelo lucro, pelos estratagemas financeiros, vê-se na necessidade
constante de se precaver contra a exigência sistemática de um pagamento para todas as coisas. "Cheguei ao país da mordida"55, diz ele à sua tia Beatriz.
A mordida (literalmente "dentada") é essa espécie de dízimo - avatar mexicano do hakchich oriental - que é recebido por quem quer que entreveja a possibilidade de
"dar uma dentada" num eventual lucro, de se fazer pagar por um serviço, por um favor, pela isenção de uma multa. A política mexicana é conhecida pelo seu recurso
sistemático e intempestivo à mordida sempre que se deseja que ela faça vista grossa. Este método de pequena chantagem,

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que é aplicado a todos os níveis e a várias escalas, poderia envenenar as relações sociais. Mas cada um, adoptando o princípio de que "se dá a quem dá", acaba por
se adaptar mais ou menos a este modo de corrupção, transformado por alguns em estilo de vida.
Este tipo de sistema não agrada a Guevara. "Já circulei o suficiente pelo México para me aperceber que as coisas não serão fáceis"56, escreve ele ao pai, aproveitando
para o informar que o seu amigo Petit Murat foi impecável, que andou com ele pela cidade, que o convidou frequentemente para ir a sua casa; já não fala de carreira
cinematográfica. Mas "preferi manter uma certa independência, pelo menos enquanto durarem os pesos que vocês me enviaram". E vai anunciando: "Daqui a algum tempo,
vou tentar obter um visto para os Estados Unidos, só para ver se pega..."57. À mãe, dirá mais concretamente: "Não perdi um milímetro da minha raiva contra os Estados
Unidos [...]. Sairei de lá tão antianque como entrei"58. Com ela, abre-se mais. Após a derrota de Arbenz, ela notou uma certa amargura nas cartas do filho. Ele justifica-se,
sublinhando que se trata mais de cepticismo, mas confirma que mantém o seu radicalismo. "Estou absolutamente convencido que os meios-termos só podem conduzir à traição.
O pior é que, ao mesmo tempo, não consigo decidir-me a adoptar a atitude determinada que deveria ter tomado há muito, porque no fundo (e à superfície) sou um vagabundo
impenitente [...]. Já nem sei se serei um actor ou um espectador atento à acção"59.
Actor ou espectador? Olhar ou participar? Os seus dois "eus" socialudo e aventureiro puxam-no ainda cada um para seu lado. Aguardando o momento bendito em que irá
intervir a figura excepcional graças à qual ele conseguirá conciliar, sem má consciência, a aventura e a revolução.
O final de Outubro de 1954 marca um encontro feliz. Na consulta que ele tem agora, todas as manhãs, no Hospital Geral, apresenta-se o matulão Nico López, aquele
cubano tão entusiasta que tanto o entusiasmara na Guatemala, por "pôr toda a sua alma no microfone" ao evocar os projectos de Castro para libertar Cuba da ditadura
de Batista. Saudações clássicas: Qué tal, Che? Qué tal, hermano? O contacto com os cubanos renova-se. E nunca mais será interrompido.
Outra surpresa, igualmente agradável, no início de Novembro: a chegada inopinada de Hilda Gadea, de quem não mais tivera notícias e que ele imaginava no Peru. Quando,
no comboio, as suas mãos se separaram, ela teve, desde o seu regresso à Cidade de Guatemala, amargos dissabores. Prisão, seguida de ordem de expulsão para o México.
Mas retiveram-na na fronteira. Um oficial mais ou menos embriagado propôs-lhe, de metralhadora na mão, que fosse dar "uma volta" com ele. Ela teve depois que atravessar
um rio a nado para entrar no México, pagar, evidentemente, aos passadores, esperar ainda, dias a fio, o seu estatuto de exilada política. Em suma uma odisseia. Mas,
enfim, ali estava ela, como ele desejara, e não em Lima, como ela decidira. Ernesto faz-lhe de novo a proposta: "Vamos casar". E ela, afectada, faz-se cara, declara
que ainda não se decidiu, pede-lhe que espere um pouco.

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Ele então zanga-se, sem contudo fazer alarido, e declara que, nesse caso, serão apenas amigos, que compreende a situação, etc. Numa carta que ele lhe enviara mas
que ela ainda não tinha recebido, ele dizia-lhe: "Despacha-te a vir, porque entre os bifes do Petit de Murat e os encantos da filha dele, pode haver algumas mudanças"60.
Pela primeira vez desde que partiu de Buenos Aires já há um ano e meio instala-se num tipo de vida mais ou menos organizado. "Tenho imenso trabalho; todas as manhãs
no hospital, as tardes e o domingo dedicados à fotografia e à noite estudo um pouco. Tenho um bom apartamento, onde cozinho as minhas refeições, e, além disso, lavo-me
todos os dias porque há água quente à vontade. Como vês, observa ele à mãe, neste aspecto estou mudado. Quanto ao resto, está tudo na mesma, porque a roupa, lavo-a
pouco e mal, ainda não ganho o suficiente para pagar a uma lavadeira"61.
No fim de Novembro de 1954 convida a arisca Hilda para ir ao cinema. Está a ser exibido o filme soviético Romeu e Julieta. Influência benéfica do velho Shakespeare?
Virtudes românticas da história? Os dois jovens reconciliam-se. O plano em que se entendem melhor é o da luta política. Uma das primeiras questões que ele lhe colocou
quando se encontraram foi a de saber se, segundo a opinião dela, era justo que um comunista combatesse numa revolução "pelos direitos do povo". Resposta da militante,
que não sabe bem o que ele quer dizer: "Os comunistas devem estar sempre na primeira linha". "Também penso o mesmo", declara ele.62 No fim do ano, o apego bastante
conformista de Hilda pela celebração tradicional das festas quase deita tudo a perder. Ela ofende-se porque ele chega atrasado ao jantar de Natal que ela organizou
e porque, mal engoliu a última garfada, foi render o seu companheiro El Patojo, para o qual arranjara um biscate, guarda-nocturno numa editora. A mesma cena na passagem
do ano. Vai-se embora às 10 da noite, sem esperar pelas doze badaladas da meia-noite. Sempre susceptível, ela decide romper com ele, mas desiste dessa ideia quando
ele aparece no dia seguinte, para a levar a passear no campo.
Nas semanas seguintes, Ernesto volta à carga, fala de novo em casamento. Em Fevereiro - cansada de lutar, segundo deixa entender - ela acaba por aceitar, decidindo
então que o casamento será no mês seguinte, em Março. Mas, uns dias depois, encontra entre as páginas de um livro de Ernesto o negativo de uma fotografia de uma
rapariga em fato de banho. Crise de ciúmes! Por muito que ele lhe explique que se trata da filha de Petit de Murat, que ela tem agora um namorado, é inútil. Ela
escreve-lhe a dizer que está tudo acabado. Está bem, responde ele; e deixa de a procurar... A Tita Infante, a sua indefectível apaixonada tímida de Buenos Aires,
escreve então: "Apesar de eu ser, por natureza, uma pessoa cheia de vitalidade, acontece-me ter momentos de abatimento [...]. Que não resistem a uns mates e a uns
poemas"63.
Arranjou um emprego suplementar, em princípio bem pago, na filial mexicana de uma agência de imprensa argentina, a Agência Latina, de criação recente, graças à qual
Perón espera melhorar a sua imagem e contrabalançar

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a "desinformação" dos meios de informação norte-americanos. A cobertura dos Jogos Pan-Americanos, que decorrerão a partir de 6 de Março no México, exige reforços.
Ernesto é contratado simultaneamente como redactor e como fotógrafo. "Não durmo mais do que quatro horas por dia", escreve ele. E logo estende aos seus amigos cubanos
essa grande sorte: são eles que irão revelar as fotografias num pequeno laboratório que improvisam numa alegre barafunda, como sempre.
Hilda, que aguenta mal o silêncio de Ernesto, vai procurá-lo, acompanhada de Myrna Torres, a nicaraguense comunista que, entretanto, casou. O pequeno estratagema
resulta. No dia seguinte, Ernesto volta a vê-la, colocando-lhe, pela última vez, a questão do casamento e, desta vez, ela aceita. Fixam um prazo de dois meses para
tratar da papelada. Será então em Maio. Retomam as suas leituras políticas, orientadas agora para a história da revolução mexicana e para a situação actual do país.
Lêem México Insurrecto de John Reed, esse "vermelho" dos Estados Unidos que tão bem descreveu os Dez Dias que Abalaram o Mundo, em Outubro de 1917. Guevara retomou
o estudo daquele a quem chama por brincadeira "San Carlos", ou seja, Karl Marx. Em contrapartida, nenhuma referência a Trotsky, destacado marxista assassinado a
poucos quilómetros dali, em Cayoacán, em 1940, por ordem de Estaline. Através das Memórias de Pancho Villa descobrem que no México, em 1910, generais-camponeses
como Villa ou Zapata provocaram um verdadeiro terramoto político e social ao comandarem, de uma forma possivelmente anarquista mas eficaz, um temível levantamento
popular contra os grandes proprietários de terras e o capitalismo estrangeiro. Desde então, essa revolução foi desnaturada, absorvida por um partido que se tornou
sobretudo uma máquina eleitoral, cujo nome é já uma heresia, o Partido Revolucionário Institucional (PRI). Numa carta ao pai, provavelmente de 10 de Fevereiro de
1955, Guevara traça um retrato demolidor da administração mexicana: "O México está totalmente nas mãos dos ianques [...], o FBI passeia-se aqui como se estivesse
em casa, muito mais perigoso do que a polícia mexicana [...], todos os dirigentes sindicais estão comprados e celebraram contratos leoninos com as várias empresas
americanas, hipotecando as greves por um ano ou dois"64.
Quando pode, Ernesto retoma o seu projecto de escrever um livro, A Função do Médico na América Latina. A ideia trabalha-lhe na cabeça desde os tempos de estudante.
As suas explorações do continente americano abriram-lhe os olhos para a indigência da imensa maioria daqueles que não podem pagar o luxo de proteger a saúde. "Pelas
condições em que eu viajava, descobri que era impossível curar crianças doentes por falta de meios. Vi a degradação da subnutrição e a repressão constante, ao ponto
de, para um pai, perder um filho se tornar um acidente sem importância"65. Na Guatemala traçou o plano da obra e chegou a redigir o primeiro dos catorze capítulos
previstos. Afirma aí que, para exercer a sua profissão de forma responsável, isenta de toda a ideia de lucro, o médico é forçosamente levado a erguer-se

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contra os poderes constituídos, a transformar-se em médico revolucionário. Guevara ignora que está a tomar uma posição semelhante à dos "médicos vermelhos" que,
no século XIX, sobretudo na Alemanha, foram atraídos pelas doutrinas sociais revolucionárias através de uma mesma revolta contra a miséria. Nunca terá tempo de terminar
o seu livro mas, a 19 de Agosto de
1960, dirigindo-se aos estudantes de medicina de Cuba, apresentará a chave do problema, para ele evidente: "Compreendi que, para ser um médico revolucionário, era
preciso começar por fazer a revolução"66.
Por enquanto, no México, está ainda a tentar tornar-se um bom especialista em alergologia. Faz simultaneamente investigação médica, cultura política, jornalismo
desportivo e fotografia. Redige um "modesto estudo onde retomo as investigações de Pisani sobre os alimentos pré-digeridos"67. Apresentado no Congresso Mexicano
de Alergologia, a 23 de Abril de 1955, o "modesto estudo" vale-lhe as felicitações do grande patrão da especialidade no México, o doutor Salazar Mayen, director
do Hospital Geral onde Guevara exerce, bem como uma (módica) bolsa de investigação.
Estes encorajamentos são extremamente bem-vindos, visto que o seu biscate de jornalista-fotógrafo se esfuma, bem como os quatro ou cinco mil pesos de salário com
que Ernesto contava. Em Abril, terminados os Jogos Pan-americanos, a agência de imprensa Latina, financiada por Perón, pôs termo às suas actividades "de um dia para
o outro, e sem pagar um tostão. Suspeito que houve negociações secretas entre os chefes da Casa Rosada* e da Casa Branca, a não ser que tenha sido apenas o da Casa
Rosada que desistiu, sem mais nem menos"68. Opinião brutal, certamente; a verdade é que os Estados Unidos nunca apreciaram muito a concorrência no que toca aos meios
de informação.

Nota: * Casa Rosada: sede da Presidência da República Argentina em Buenos Aires.

No 1º de Maio de 1955, vai com Hilda e Ricardo Rojo, chegado na véspera dos Estados Unidos, assistir à manifestação clássica da festa do trabalho no Passeo de la
Reforma, uma espécie de campos Elíseos do México. Está um dia de sol. O ambiente está ainda desanuviado, mas os operários estão lá "mais para cumprir uma rotina
do que para participar numa manifestação proletária"69, observa a peruana. E el Gordo Rojo aproveita a ocasião para colocar uma pedra no jardim do seu amigo, que
ele sabe estar atraído pelas sereias comunistas: "Parece uma manifestação operária num país socialista da Europa de Leste"70. Entre os espectadores, Hilda avista
José Manuel Fortuny, secretário-geral do Partido Comunista da Guatemala. Ela conhece-o, chama-o, faz as apresentações. Guevara faz então a pergunta que lhe queima
os lábios: "Porque é que os comunistas não lutaram quando se deu o golpe de Estado contra Arbenz?" Explicações embaraçadas do dirigente comunista: "Era difícil.
Era preferível recuarmos para combatermos mais tarde". Ernesto insiste: "Não teria sido preferível que Arbenz continuasse a luta com um grupo de verdadeiros revolucionários?
Ele era o Presidente, representava um

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símbolo"71. O embaraço de Fortuny aumenta. Ele, cuja missão era aconselhar Arbenz, disfarça mal a sua irritação e desaparece sem se despedir.
Entre os amigos cubanos que Guevara frequenta, figura um respeitável professor universitário comunista, Raul Roa, que, de Havana, abastecera em livros, mercadoria
preciosa para um prisioneiro, os fugitivos do ataque de Moncada, presos na penitenciária cubana da ilha dos Pinheiros. Também ele exilado no México, é chefe de redacção
de uma revista conceituada, Humanismo, e traça numa longa enumeração, um retrato fiel de Guevara naquela época: "Parecia muito jovem, e era-o. A sua imagem ficou-me
gravada na retina: inteligência lúcida, palidez ascética, respiração asmática, testa saliente, carácter decidido, queixo enérgico, comportamento calmo, olhar inquiridor,
pensamento penetrante, linguagem cuidada, sensibilidade vibrante, riso claro e, a aureolar-lhe o rosto, uma espécie de irradiação de grandes utopias"72.
Hilda conseguiu arranjar um emprego como técnica de estatística numa filial da Organização Mundial de Saúde. Faz alguns contactos para que Ernesto também seja contratado
e chegam a acenar ao jovem médico com a hipótese de um contrato de especialista em parasitologia em África, no ano seguinte. Mas, para já, a situação administrativa
de ambos continua por regularizar. Sem dúvida por não terem recebido as mordidas necessárias, as autoridades mexicanas não facilitam nenhuma papelada para autorizar
o casamento de dois estrangeiros no seu território. De forma que, no regresso de um fim-de-semana em Cuernavaca, perto da Cidade do México, onde por fim consumam
o seu amor, decidem começar a viver juntos, o que, na pena de Hilda se traduz por uma pudica perífrase: "Decidimos unir-nos nos factos"73. Ernesto precisará a data
do acontecimento: 18 de Maio de 1955.
Este início de ligação, por muito importante que seja, em nada altera os seus projectos de exploração do planeta. A sua opinião sobre o México, "tão duro, tão pouco
hospitaleiro", torna-se mais moderada.74 "No fundo o México não me tratou muito mal". Mas não é, obviamente, um país onde ele deseje viver, é apenas uma etapa para
"algo mais longínquo". Sonha cada vez mais com Paris, insiste com a mãe, a sua melhor confidente, para que vá lá ter com ele. Diz que está disposto a ir a nado,
se for preciso. "Para mim, é uma necessidade biológica", escreve-lhe ele a 17 de Junho de 1955.75 De tal forma que, quando os responsáveis pela extinta Agência Latina
lhe comunicam que os salários em atraso vão certamente ser-lhe pagos, ele não hesita. Corre à primeira agência de viagens e reserva uma passagem para Espanha. Mas
só lhe pagam cerca de metade do que lhe é devido, três mil pesos. O que não chega para atravessar o Atlântico.
Prosseguindo a sua "união nos factos" com Hilda, vive com ela no apartamento que ela divide, na rua do Reno, com uma poetisa venezuelana, Lucila Velasquez. Ernesto
vai fazer vinte e sete anos. Na pequena festa de aniversário que lhe organizaram, a 14 de Junho, o comunista nicaraguense Edelberto Torres, sempre ligado a Pequim,
propõe-lhe uma viagem à China

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popular, por meia tarifa. Ernesto está morto por aceitar. Mas tem um certo escrúpulo em ir sem a camarada Hilda, que não está convencida. E portanto renuncia.

Dez horas de entusiasmo: Fidel Castro

No fim de Junho, Nico López e o seu grupo de imigrantes cubanos apresentam ao companheiro Guevara um camarada de quem já lhe falaram, Raul Castro, que acaba de chegar
de Havana. Embora já no poder, o ditador Batista fez questão de ser "eleito" presidente, numa farsa eleitoral em que ele era o único candidato. Para celebrar a vitória,
acabou por conceder aos prisioneiros políticos, com alguma reticência, uma amnistia que veio beneficiar os irmãos Castro e os sobreviventes do louco empreendimento
de Moncada, denominados "Moncadistas".
Entre Raul e Ernesto estabelece-se logo uma boa relação. Raul é três anos mais novo, mas já atravessou o oceano, participou no Congresso Mundial da Juventude em
Viena, teleguiado pelos comunistas, visitou Budapeste, Praga, Bucareste, Paris. No regresso, aderiu às Juventudes Socialistas de Cuba (comunistas). Tem ideias claras
sobre a necessidade de uma revolução armada, sobre o imperialismo dos Estados Unidos, sobre a inutilidade de eleições fraudulentas. Ernesto está encantado. Está
de acordo com tudo. Em breve os dois rapazes se tornam inseparáveis. Vêem-se todos os dias, ou quase. Ernesto convida Raul a ir a sua casa, apresenta-o a Hilda.
"Aparecia pelo menos uma vez por semana [...]", diz ela. "Era loiro, imberbe, parecia muito novo. Conversar com ele era muito estimulante. Era alegre, comunicativo,
auto-confiante, muito claro nas suas exposições. Por isso se dava bem com Ernesto"76. Raul conta a história daquele trágico e inesquecível 26 de Julho de 1953, primeiro
desafio, de dimensão épica, lançado a Batista pelo seu irmão Fidel. Explica porque é que eles pensavam que, tomando de assalto uma fortaleza considerada inexpugnável,
um punhado de homens poderia humilhar o poder, desencadear uma imensa energia popular numa revolta geral contra a ditadura. É verdade que a operação falhou por razões
técnicas - carros que ficam empanados, motoristas que não conhecem bem a zona, uma patrulha militar imprevista que desencadeia o alerta geral - mas esse fracasso
não os desencorajou. Aliás, conclui ele, Fidel, que em breve vai ser obrigado a exilar-se porque a sua vida corre perigo em Cuba, saberá explicar melhor que ninguém
porque é que este fracasso é, na realidade, uma vitória.
O famoso irmão desembarca no México a 8 de Julho de 1955. Não pediu, como Raul, asilo político na Embaixada do México. Com um visto de turista no passaporte, Fidel
Castro instala-se num pequeno hotel barato. Organiza imediatamente o seu quartel-general em casa de Maria Antonia González, uma cubana que é a protectora de todos
os exilados políticos de Cuba e cujo irmão morreu após ter sido torturado pelos esbirros de Batista. Casada com

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um mexicano, Avelino Palomo, lutador de profissão, vive no centro da cidade, no número 49 da rua Emparan. O seu modesto apartamento é um porto de abrigo. É em casa
dela que, "numa dessas frias noites mexicanas", Raul apresenta o seu amigo argentino ao irmão. Encontro decisivo.
Entre Ernesto Guevara e Fidel Castro, a admiração é recíproca. O seu primeiro frente-a-frente dura dez horas seguidas. "Conversei com Fidel uma noite inteira", dirá
Guevara. "De madrugada, eu era já o médico da futura expedição"77. De que falaram eles? Guevara indica apenas que a sua primeira conversa versou sobre política internacional.
A América Latina, Cuba, Guatemala estiveram sem dúvida no centro das suas atenções. Mas é pouco provável que tenham medido o alcance de uma conferência como a de
Bandung na qual, em Abril de 1955, vinte e nove países da Ásia e da África tentaram definir uma posição anticolonialista comum para o que ainda não é designado como
Terceiro Mundo. Terão atribuído o justo valor ao sucesso que acaba de obter, em Maio, a Jugoslávia de Tito, que conseguiu que Kruchtchev reconhecesse a possibilidade
de uma via nacional para o socialismo? Não é muito provável.
Por prudência, no caso dos seus apontamentos, o seu diário e a sua correspondência caírem em poder do FBI ou outras polícias, a partir desse momento, nos seus escritos,
Guevara deixa de fazer referência aos cubanos e aos seus projectos. Todavia, a partir das memórias de Hilda e dos traços da personalidade dos dois homens, talvez
seja possível avançar algumas hipóteses.
Fidel é um sedutor, um retórico extraordinário, capaz de captar para as suas posições o mais céptico dos interlocutores. É uma figura impressionante. Porte altivo,
estatura de atleta - 1,86 m - rosto de feições regulares, de pele clara, bigode fino, olhos negros, dissimulando por vezes, atrás de óculos de armações grossas,
um olhar míope mas inquiridor. Fala num tom de voz desconcertante de criança afónica, mas o que diz é dito com uma tal convicção que provoca uma adesão imediata.
Fala de nação, de nacionalismo e de internacionalismo. Fala de Cuba e de toda a América Latina. Recorda o sonho delineado em Bogotá em 1948, quando era ainda estudante,
de uma grande federação anti-imperialista latino-americana. Fala de Marti e de Bolívar. E também de justiça social. Explica a sua estratégia: sair de Cuba para regressar
em triunfo, desembarcar lá como fez Marti, com combatentes decididos, desencadear uma grande revolta popular, derrubar a ditadura, realizar finalmente aquilo que
falhara em Moncada mas que semeou grãos de vitória, a sementeira revolucionária do "26 de Julho".
Guevara está fascinado. Escuta com toda a atenção e faz, por seu turno, perguntas. Também ele é bom em dialéctica. Desde muito novo que se habituou a discussões
políticas acaloradas. Durante as ruidosas controvérsias familiares aprendeu a forjar os seus argumentos. Se necessário, pode transformar-se num rápido esgrimista.
Conhece a arte da polémica, a boa utilização da zombaria, da ironia cruel. Cultiva o humor negro, especialidade argentina, e se não põe "toda a sua alma no seu discurso",
como Nico, é sem

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dúvida porque está sempre pronto a praticar a auto-ironia. Mas, naquilo que lhe explica aquele colosso de voz meiga, ele não encontra nada de escarninho, nem sente
necessidade de polémica. Pelo contrário, sente-se conquistado e concorda. Sem reticências, com prazer. O encontro com Castro dá-se no momento em que Guevara atingiu
o ponto de maturidade exacto para que o discurso messiânico do cubano tenha sobre ele o impacto máximo.
Por seu turno, ele conta as suas viagens, a descoberta da "América maiúscula", a miséria do povo por toda a parte, a Guatemala, a United Fruit, a liquidação cínica
e brutal de uma tentativa corajosa de libertação nacional. As suas histórias pessoais apresentam traços comuns. Ambos filhos de burgueses ou assimilados, odeiam
a burguesia. Um foi educado nos Jesuítas, o outro não. Mas nenhum crê em Deus. Ambos revelam uma grande impulsividade, por vezes temperada, em Fidel, por um sexto
sentido político sempre alerta. Mas são dois seres apaixonados, prontos a qualquer sacrifício por um ideal. Perante o sofrimento do povo, o controlo dos Estados
Unidos sobre o seu país, sentem a mesma raiva, intensa, partilham a mesma convicção de que é necessário combater de armas na mão. Recorde-se a frase de Guevara,
ainda estudante do liceu, "Dêem-me uma arma", quando Granado o incitava a combater a polícia.
Castro fica seduzido por este rapaz inteligente, com ar de estudante, que não é um ingénuo, que não é arrogante como tantos argentinos, mas que também não se deixa
intimidar, que se mostra tal qual é, sincero no seu desejo de revolução. "O Che", dirá ele quando em 1967 lhe prestarem homenagem, "fazia parte daquele grupo de
pessoas em relação às quais se sente uma simpatia imediata pela sua simplicidade, pelo seu carácter, pela sua autenticidade, pelo seu espírito de camaradagem, pela
sua personalidade e originalidade"78. Reconhecerá que Guevara possuía uma cultura marxista superior à dele. "Era um especialista do marxismo-leninismo. [...] Quando
nos conhecemos, era já um revolucionário [...]. Vinha a calhar, o argentino - por isso lhe chamavam Che - que nos falava das questões da Guatemala! Não foi preciso
muito tempo para chegarmos a acordo e para o aceitarmos na nossa expedição"79.
Se Guevara o atraiu, é porque ele, que será classificado de intelectual porque tem realmente tendência para teorizar, descobre nessa personagem volúvel o próprio
exemplo do homem que soube dar o passo em frente, passar à acção. "Sei que abandonarei os prazeres agnósticos / de copular ideias sem funções práticas"80, escreve
ele num poema composto nessa época. Guevara é mais um homem da escrita. Castro um homem da oralidade. Para o argentino, o imenso mérito do cubano é o de ter ultrapassado
o discurso, de ter empunhado a espingarda, de ter organizado um ataque com um pequeno exército, de ter conhecido a experiência amarga mas revigorante da prisão.
E eis que esse homem generoso, fora do comum, lhe oferece os "furacões desejados", a possibilidade de poder, também ele, entrar em guerra, vingar-se, de certo modo,
do golpe baixo dos ianques na Guatemala! "Depois da experiência que tinha tido, das minhas longas caminhadas através de toda a América Latina e do epílogo da Guatemala,
não era preciso muito para me

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convencer a apoiar qualquer revolução contra um tirano. Mas Fidel deu-me a impressão de ser um homem extraordinário. Enfrentava o impossível e resolvia-o[...]. Eu
partilhava o seu optimismo. Era imperativo agir, combater, concretizar. Era imperativo parar com as lamúrias e combater"81. Os dois "eus" do Dr. Guevara vão finalmente
poder reconciliar-se numa operação em que o ideal social e o romantismo se unem ao serviço de uma mesma causa. Ficam para trás as zombarias da Costa Rica, quando
ele falava de cowboys aos cubanos que lhe descreviam o assalto de Moncada.
No fim dessa noite memorável, a primeira coisa que Ernesto conta a Hilda é a impressão extraordinária que o irmão de Raul lhe causou. "Nico tinha razão na Guatemala,
quando nos dizia que se Cuba produziu alguma coisa boa depois de Marti, foi Fidel Castro; esse fará a revolução. Estamos absolutamente de acordo [...]. Só um tipo
como ele é que poderia fazer com que eu o apoiasse até ao fim"82. Mais tarde, será mais explícito, talvez mais lúcido. Nos seus Episódios da Guerra Revolucionária*,
classificados por ele próprio como "história fragmentada feita de recordações e de alguns apontamentos", Guevara dá conta, com sinceridade, do seu estado de espírito:
"A vitória, confesso-o, parecia-me muito problemática quando assumi o meu compromisso ao lado do comandante rebelde, ao qual me senti ligado, desde o primeiro instante,
por um laço romântico de simpatia e de aventura e pela ideia de que valia apena morrer num país estrangeiro por um ideal tão nobre"83.

Nota: * Publicados entre 1962 e 1964 sob a forma de artigos na revista de grande tiragem Bohemia e no semanário das Forças Armadas Verde Olivo.

A partir de agora, Guevara e Castro não mais se separarão. Mesmo no México, apesar das múltiplas actividades de cada um, vêem-se duas ou três vezes por semana, a
sós ou com Raul ou qualquer outro "moncadista". Estudam o projecto, avaliam os riscos, os custos, as necessidades logísticas. Um dia, Ernesto convida Fidel para
jantar; quer apresentar-lhe Hilda, que convidou também um casal de revolucionários porto-riquenhos, os Juarbe. Ele já esteve preso por ter exigido a independência
da ilha ocupada pelos Estados Unidos. Hilda faz a Castro uma pergunta impertinente: "Porque é que está aqui, se o seu lugar é em Cuba?" "A resposta dele durou quatro
horas!"84, escreve ela. Castro retoma alguns dos temas da sua argumentação torrencial quando, por ocasião do processo que lhe foi movido no caso Moncada, proclamou:
"A História absolver-me-á". Recorda a situação neocolonial do seu país, colocado, como a Guatemala, sob a dependência da United Fruit e dos Estados Unidos. Demonstra
que em Cuba já não é possível lutar contra a corrupção e os abusos do ditador Batista através de meios legais, pois as eleições tornaram-se uma farsa. Afirma que
é necessário, portanto, seguir o exemplo de José Marti e de Maceo, isto é, pegar em armas.
É certo que o assalto ao quartel de Moncada falhou, mas foram colhidos ensinamentos preciosos. Se saiu de Havana, explica ele, foi porque a sua vida estava à mercê
de gangsters a soldo da ditadura. Ora, o seu objectivo principal

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é derrubar a ditadura. É por isso que, agora, tem que contar com combatentes aguerridos. A sua luta, afirma ele, inscreve-se, a longo prazo, numa acção mais vasta,
pois Cuba, uma vez libertada, poderá apoiar outros revolucionários noutros países. No horizonte desenha-se o velho sonho de Bolívar de libertação de todo o continente...
Escutando o cubano inflamado, são os convidados que se animam e se põem a sonhar. Poucos dias depois - coincidência? - o apartamento que Ernesto e Hilda partilham
ainda com a amiga venezuelana é "visitado". Desapareceram a máquina fotográfica, a máquina de escrever e outros objectos de Ernesto, algumas jóias de Hilda. "Foi
o FBI", diagnostica Guevara que, desconfiado, prefere não apresentar queixa à polícia.
Duas semanas apenas após a sua chegada ao México, Fidel Castro organiza uma manifestação pública dos seus partidários, por ocasião do ataque a Moncada. Afinal de
contas, no ano anterior a maior parte deles estavam ainda, na prisão. É o seu primeiro "26 de Julho" em liberdade, embora tenham sido obrigados a abandonar provisoriamente
a sua pátria tiranizada. Castro sabe que o México, cioso das suas prerrogativas de Estado soberano, "tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos", não admite
nenhuma ingerência nos seus assuntos internos, mas que é suficientemente tolerante em matéria de política estrangeira desde que sejam apenas agitados conceitos gerais
de liberdade ou de solidariedade internacional. No parque de Chapultepec, é diante da estátua do "apóstolo" José Marti, herói cubano à escala continental, que se
exprimem primeiro um venezuelano, um peruano, um nicaraguense, todos eles cidadãos de países submetidos ao absolutismo de um ditador. Castro toma a palavra em seguida
e fustiga o regime que vigora em Cuba, prometendo publicamente combatê-lo sem tréguas. À noite, festa animada, como os cubanos apreciam, em casa de duas compatriotas
conquistadas para a causa, as irmãs Eva e Graciela Jiménez. O ambiente é festivo. Toca-se guitarra. Bebe-se rum e o próprio Fidel cozinha um petisco para a malta:
esparguete com marisco e queijo. Ernesto, ao lado de Hilda, parece um pouco taciturno. "Estás muito calado, Che", observa-lhe Fidel, que o sentara ao seu lado, em
tom de gracejo. "Será porque agora te sentes controlado?"85 O cubano ainda não sabe que o seu amigo argentino é, como ele, um homem reservado, que se fecha logo
que sente muita gente à sua volta.
Quando, no início de Agosto, Hilda informa Ernesto que o mais certo é estar grávida, ele pensa primeiro que se trata de uma brincadeira. Mas não é. Ele, o vagabundo
impenitente, vai ver-se "chefe de família", ligado ao curso das gerações, recordado (se é que é preciso, para um asmático) da inevitabilidade da sua própria morte!
Oxalá que seja um rapaz, diz ele a Hilda. Influenciado pelas suas leituras "bolcheviques", planeia já chamar-lhe Vladimir Ernesto e insiste para que, desta vez,
apressem o casamento. "No hospital, há um médico meu amigo que é também presidente da câmara de uma pequena cidade, perto da Cidade do México. Ele poderá casar-nos.
Senão, vamos à embaixada"86. Fidel será testemunha, anuncia-lhe ele; pouco depois, rectifica: será Raul. À cautela, é melhor que Fidel não se mostre.


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O casamento é celebrado a 18 de Agosto de 1955 em Tepotzotlán, pequena aldeia encantadora, de tipo colonial, a quarenta quilómetros da capital, actualmente quase
absorvida pelos bairros da grande cidade. Raul Castro está presente, mas afinal, sempre por precaução, não é ele que assina como testemunha, mas um outro cubano
"moncadista", Jesus Montané, denominado "Chucho". Em seguida, Ernesto exibe a sua habilidade a preparar um bom asado, para o qual todos são convidados, a começar
por Fidel, que se juntou a eles. "Ele sabia fazer carne grelhada à moda argentina, o que só pode ser feito ao ar livre", admitirá Castro que, todavia, não deixará
de acrescentar: "Acho que cozinho melhor do que ele"87.

"Terás uma rubra vingança"

Desembarcar em Cuba à frente de um corpo expedicionário é, para Castro, um projecto de envergadura que exige tempo, paciência e dinheiro. Parte em Outubro para os
Estados Unidos, onde a colónia de refugiados cubanos é significativa, para durante quase dois meses fazer uma colecta de fundos. Oitenta por cento do dinheiro obtido
servirá para comprar armas, vinte por cento para fins de organização e propaganda. Filadélfia, Nova Jérsia, Connecticut e, antes da Florida, Nova Iorque. É lá que,
a 30 de Outubro de
1955, Fidel Castro assume publicamente o compromisso de desembarcar em Cuba antes do final de 1956: "Posso garantir-vos, com toda a confiança, que em 1956 seremos
livres ou mártires", fórmula que em breve servirá de lema aos seus partidários. Um prazo a cumprir a todo o custo.
Para já, Guevara prossegue no hospital as suas investigações e dá as suas consultas. Prepara também um concurso para professor de fisiologia e o seu artigo sobre
a alergia, tão apreciado no congresso de especialistas, é publicado numa revista médica, no México. Mudou de casa, para um apartamento no n.º 40 da rua de Nápoles,
onde vive com Hilda, num bairro da média burguesia, Colónia Juarez, segundo a terminologia urbanística do México. Ernesto passou ao seu amigo El Patojo o biscate
de fotógrafo ambulante. Já não tem tempo e, de resto, não voltou a comprar nenhuma máquina fotográfica desde que lhe roubaram a sua. Arranjou uma coisa melhor. Um
trabalho um pouco mais rentável, para o qual também é necessário andar bastante a pé: vender livros a domicílio e a crédito. O que lhe permite ler de uma assentada
alguns grandes clássicos que ainda não conhece. A isso acrescenta a leitura dos romances soviéticos em voga: Assim Foi Temperado o Aço, A Batalha de Estalinegrado,
hinos aos "heróis positivos" bem como, por exemplo, A História Secreta da Guerra da Coreia, de Irving Stone que, segundo o testemunho de Hilda, o impressionou bastante.
Mas continua a ter uma certa predilecção pela poesia. Soube, por exemplo, que León Felipe, o poeta espanhol que descobriu na Guatemala, está refugiado no México,
como milhares de outros espanhóis. Faz questão de ir cumprimentá-lo à residência dos

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republicanos espanhóis, acompanhado de Rojo (o qual observa que o poeta e o seu admirador ostentam ambos, quando estão sentados, sapatos com as solas rotas). Em
1964, em Cuba, Guevara escreverá ao reputado espanhol: "Talvez goste de saber que um dos poucos livros que tenho sempre na mesa de cabeceira é El Ciervo"88. Esse
longo poema desenvolve a alegoria desesperada do cervo perseguido impiedosamente pela matilha de cães, mas que não desiste. "Ó, destino do Homem... / Se for necessário
fazer de novo esse caminho, nós fá-lo-emos..."
No hospital, Ernesto interessa-se por uma doente idosa, asmática, a "velha Maria", que passou toda a vida a lavar roupa. Recorda-lhe certamente aquela outra asmática
chilena "nas últimas", que ele tentara socorrer em Valparaíso.89 Os seus cuidados para com a mexicana que vai em breve soltar o último suspiro não se devem apenas
à sua identificação com a doente.
O caso dessa pobre "avó proletária" ilustra sobretudo aquilo que ele procura desenvolver no seu livro inacabado sobre o papel do médico, ou seja, que, uma vez que
as questões de saúde se situam na encruzilhada dos problemas sociais, é a própria raiz desses problemas que é necessário atacar, antes de mais, para que se faça
alguma justiça. Daí o seu radicalismo. Hilda, que nunca foi subtil, confessa algum ciúme ao ver o seu jovem esposo tão preocupado com essa velhota, que o obceca.
Mais tarde encontrará, entre os papéis que Ernesto lhe deixará, um poema um pouco desajeitado que fornece a chave dessa obsessão. Da morte pela asma, ele faz um
símbolo. "Velha Maria, vais morrer/... Esfrega as tuas calosidades contra a vergonha suave das minhas mãos de médico/... Acredita no futuro que não chegarás a ver/...
Não te voltes para o deus inclemente / que, toda a vida, iludiu a tua esperança/... Terás uma rubra vingança / juro-te [...] / Todos os teus netos viverão a aurora/
Morre em paz, velha combatente"90.
Os acontecimentos que acompanham a queda de Perón, em 1955, mais não fazem do que confirmar ao médico anunciador da "rubra vingança" que é através da luta de classes
que se deve ler a História, mesmo a imediata. Por mais que se declare aventureiro e vagabundo, está absolutamente atento às notícias que chegam da sua Argentina
natal. Depois da marinha de guerra ter tentado em Junho, sem êxito, derrubar Perón, que se agarrava teimosamente à plutocracia do Jockey Club e à Igreja, Guevara
escreve à mãe (antiperonista) que "o exército só fica nos quartéis quando o governo serve os seus interesses de classe"91. E acrescenta que, para ele, qualquer negro
(mestiço) que morre por um ideal vale muito mais do que um marinheiro pituco (menino-família). Guevara nunca foi declaradamene peronista, como vimos. Quando Perón
foge para o Paraguai, sem muita dignidade, não hesita em fustigar a sua cobardia ("Caiu como todos os da sua laia"), mas aceita a opinião daqueles que vêem nos acontecimentos
na Argentina "uma nova vitória do dólar, das forças armadas e da igreja"92.
Seja como for, está fora de causa regressar a Buenos Aires, como o aconselha Rojo, que veio dos Estados Unidos para aproveitar o avião enviado pela

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Junta da Casa Rosada. O argentino Orfila Reynal, director da conhecida editora Fondo de Cultura Económica e da revista Humanismo (juntamente com o cubano Raul Roa),
reúne-se no seu escritório com alguns compatriotas para analisar a situação argentina. Recorda-se muito bem da intervenção de Guevara que, na época, sem dúvida influenciado
por Rojo, pensava que o radical Frondizi poderia talvez contrabalançar o peso da direita reaccionária, que regressara à liça em Buenos Aires. Doze anos depois, Orfila
confessa que não sentiu manifestar-se o Che sob a figura de Guevara. "Foi numa noite de Outubro de 1955 [...]. Ele entrou, um pouco atrasado e sem se apresentar,
sem mesmo nos dizer que não pensava como os outros, que estava a transformar-se naquilo que viria a ser; aproximou-se do nosso grupo com uma certa timidez, uma certa
distância, com a intenção de não intervir na discussão. Mas fê-lo. Discutimos. Discordámos. Ele mostrou-se convicto, sempre, malicioso, por vezes. E à meia-noite
deixámo-lo partir sem sabermos que tínhamos tido entre nós um ser diferente dos outros"93. À mãe, Ernesto explica que, se lamenta a queda de Perón, não é tanto pelo
próprio Perón, para o qual se está nas tintas, mas porque a Argentina "era o paladino daqueles que pensam que o verdadeiro inimigo está no norte". Nessa mesma carta,
pede que lhe enviem todas as semanas o Nuestra Palabra, órgão do Partido Comunista argentino, e acrescenta, no fim, como se se tratasse de um pormenor: "Casei com
Hilda Gadea e vamos ter um filho dentro em breve. Chao"94.
Fidel Castro, que emite o seu parecer sobre tudo, tinha-os aconselhado a utilizar a pequena indemnização da Agência Latina para fazerem uma viagem, em vez de comprarem
um carro, como era o desejo de Hilda. Ernesto, sempre apaixonado pela arqueologia, propõe, em Novembro, uma viagem de núpcias às origens de uma das mais brilhantes
civilizações do mundo, a dos Maias. Em Palenque, "pérola das Américas", regala-se a escalar templos barrocos e pirâmides que mal se destacam de uma floresta que
quase voltou a ser virgem. Consola-se da sua frustração guatemalteca quando, um ano antes, prestes a ser nomeado médico no Petén, outra jóia da arqueologia maia,
lhe exigiram que se filiasse no partido. Mas o calor húmido dos trópicos agrava-lhe a asma, esquecida nos montes do México. Na península do Iucatão, de clima árido
e seco, recupera o fôlego e descobre o esplendor dos complexos gigantescos de Uxmal e de Chichén Itzá. Não é a asma mas a indignação que poderia asfixiá-lo quando
fica a saber que, na corrida contra o tempo que os arqueólogos levam a cabo contra os ladrões de túmulos, há inúmeros norte-americanos que os pilham à vontade, enviando
esses tesouros para galerias de arte ou museus nos Estados Unidos. Mais uma razão para justificar a sua raiva antianque e reivindicar uma filiação cultural nessas
populações indo-americanas de ilustres matemáticos, que tinham inventado o zero, os sistemas decimais, um calendário de extrema precisão e uma língua tão rica que,
em comparação, o espanhol importado pelos conquistadores lhes pareceu pobre e bárbaro. Único mistério ainda por resolver: porque é que uma civilização tão notável
foi engolida pela floresta com a mesma rapidez com que surgiu?

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No caminho de regresso, num pequeno porto de pesca perto de Vera Cruz, no golfo do México, Hilda relata um pequeno incidente que revela que o argentino, agora "chefe
de família", sabe comportar-se como um macho se alguém se meter, mesmo sem maldade, com a sua querida esposa.95 Hilda, grávida, tem um súbito desejo de comer peixe;
entram numa espelunca onde já estão à mesa uns dez mexicanos a beber cerveja, certamente marinheiros. Um deles, erguendo o copo, dirige-se a Ernesto. "Bebo à tua
saúde e à da princesa". Resposta de Ernesto: "À minha saúde, podes beber à vontade. A ela deixa-a em paz". Hilda observa que o casal que eles constituíam - ela com
um ar muito mestiço, ele com um ar muito europeu - devia provocar alguma estranheza. (Em Chichén Itzá, onde estava a ser rodado um filme, toda a gente julgava que
Ernesto era um actor). "Devem ter pensado que eu era uma mexicana que andava com um gringo". No fim da refeição, nova homenagem feita pelo mesmo marinheiro, que
se aproxima deles: "À saúde da princesa!". Desta vez, Ernesto levanta-se, agarra-o pelo colarinho, empurra-o para a mesa dele e deixa-o cair na cadeira. "Já te avisei:
comigo, tudo bem. Com ela, não." No México, não é preciso mais para se puxar logo de facas ou pistolas. Mas o dono da tasca, sem chamar a polícia, consegue acalmar
os ânimos.
Para regressarem à Cidade do México alongando o caminho, embarcam numa pequena lancha que faz cabotagem ao longo do golfo. É uma zona de ciclones. Enormes vagas
agitam a embarcação, fazem rolar a carga. A travessia, que deveria durar 24 horas, prolonga-se por três dias. Toda a gente enjoa. Excepto Ernesto que, em fato de
banho, salta, a rir, de um lado ou do outro do barco, tira fotografias, brinca. Depois de um ano inteiro sem sair do México, será que esta viagem lhe despertou a
sua veia de vagabundo? Ou estará já a treinar-se para uma travessia de outro género?
O verdadeiro treino daqueles que se consideram como "combatentes rebeldes" chamados a libertar Cuba começa em Janeiro de 1956. Na sua longa volta pelos Estados Unidos,
Castro conseguiu recolher dólares suficientes para pôr em prática a sua nova estratégia. Enquanto a aventura de Moncada fora concebida como uma acção insurreccional
curta, centrada nas cidades, ele pensa agora que uma guerrilha, mesmo prolongada, tem mais hipóteses de sucesso se se apoiar numa população urbana e rural favorável
aos guerrilheiros. Falta ainda proceder à formação moral e física dos ditos. Tal como proclamou publicamente, o ano de 1956 não deverá chegar ao fim sem que eles
sejam "livres ou mártires". Também ele tem pressa.
No Natal de 1955, é ele próprio que cozinha, e convida Ernesto, prontamente incluído no círculo dos mais íntimos, para uma consoada à cubana, cuja ementa nos é descrita
por Hilda: porco assado, acompanhado de moras1 e cristianos (mouros e cristãos), isto é, feijões pretos e arroz branco, com os clássicos pinhões, maçãs, uvas e vinho.
Mas essas ágapes são excepcionais. A regra agora é a disciplina e o rigor em tudo. Antes de sair de Cuba e ir para o México, Castro tinha já lançado as bases do
"Movimento do 26 de Julho", o M-26, que irá constituir a base da rede dos seus apoiantes incondicionais,

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tendo criado agora alguns núcleos na colónia cubana nos Estados Unidos. A designação "26 de Julho" não é inocente. Adoptando a data simbólica do ataque a Moncada
para baptizar o seu movimento, Castro pretende estabelecer o carácter fundador da sua acção. Ao contrário de todos os discursos contestatários dos partidos de oposição,
ele foi sem dúvida o primeiro, depois de Marti, a criar um grupo armado sólido, disciplinado, capaz de enfrentar a morte para atacar um dos bastiões emblemáticos
da tirania. O facto de ter falhado torna-se quase secundário. Está convencido, e consegue convencer os seus seguidores, que a próxima tentativa será bem sucedida.
Em meados de Janeiro, o M-26 envia-lhe quarenta homens cuidadosamente escolhidos que, juntando-se aos que já estão no México, constituem um pequeno grupo de sessenta
valentões que é necessário agora transformar em combatentes resistentes. Alugam-se seis casas pequenas, onde é imposto um regime de caserna tão monástico como compartimentado.
Estudos sobre "questões militares ou revolucionárias", saídas vigiadas, sempre a dois, refeições a horas fixas. Nenhum álcool, nenhuma chamada telefónica. Qualquer
indiscrição é considerada como uma traição. Castro está consciente de que a polícia de Batista o vigia de perto, mesmo no México, e que é necessário redobrar a vigilância.
O seu correio pessoal é recebido em casa de Hilda Gadea, a quem Ernesto pede a máxima discrição junto dos amigos.
Elogio da guerrilha
Tratando-se da preparação militar propriamente dita, Castro descobriu, na colónia dos republicanos espanhóis instalados no México, uma personagem altamente pitoresca,
o general da força aérea Alberto Bayo, nascido em Cuba, mas que fez toda a sua carreira em Espanha e sobretudo em Marrocos onde, ao longo de onze anos, na legião
estrangeira espanhola, enfrentou a guerrilha permanente dos mouros do Sara ocidental. Velho combatente, zarolho - perdeu um olho em combate - simultaneamente ingénuo
e astuto, Bayo é conhecido pelas suas conferências em prol da guerra de guerrilha contra um inimigo poderoso e organizado. Foi a guerrilha, alega ele, que permitiu
expulsar os franceses de Espanha durante as guerras napoleónicas, foi a guerrilha que, por seu turno, os mexicanos utilizaram contra a coroa espanhola para alcançar
a independência. Foi ainda graças à guerrilha que Sandino conseguiu fustigar durante sete anos as tropas dos Estados Unidos que ocupavam a Nicarágua. O seu princípio
é simples: "Ataca e foge". Mas pressupõe, evidentemente, um apoio total dos habitantes e uma estadia prolongada em zonas rurais.
"Ébrio de entusiasmo" pelo ardor desse brilhante advogado que lhe faz vibrar a corda patriótica, Bayo abandona, aos 65 anos, a sua fábrica de móveis e as suas aulas
na escola de aviação para se dedicar exclusivamente à formação militar dos recrutas do M-26. Em meados de Março consegue encontrar,

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a quarenta quilómetros da Cidade do México, uma grande propriedade semi-abandonada, de dez mil metros quadrados, rodeada de cento e cinquenta hectares de terreno
selvagem, entre a planície e a montanha. O ideal. Para conseguir a coisa, contou uma história rocambolesca de um coronel salvadorenho, ligado à política no seu país,
que gostaria, antes de o adquirir, de remodelar o edifício com uns cinquenta operários da sua confiança, correndo as despesas por sua conta. Mas é necessário discrição.
O proprietário, um velho mexicano que combateu nas fileiras de Pancho Villa contra os Estados Unidos, compreende muito bem e aluga-lhe a sua hacienda de Santa Rosa,
durante o tempo das obras, por um preço simbólico de oito dólares por mês.
Entretanto, Guevara, que continua a trabalhar no hospital, faz o possível, sempre que pode, para acompanhar os seus novos companheiros nas sessões de treino físico:
longas marchas já está habituado pela avenida Insurgentes, que atravessa a cidade ao longo de quarenta quilómetros; remo durante várias horas, no lago do parque
de Chapultepec; treino de combate com os punhos, num ginásio de confiança. Mas o que ele prefere, por constituir um verdadeiro desafio, são as escaladas na montanha.
Não esperou pelas instruções de Bayo para se lançar na escalada dos cinco mil e quatrocentos metros do Popocatépetl, um magnífico vulcão de cone quase perfeito,
sempre envolto em nevoeiro, que é possível avistar, nos dias de bom tempo, a partir da Cidade do México. Em Julho de 1955, Ernesto descreve à mãe a sua primeira
ascensão: "Já escalei o Popo - é como aqui lhe chamam [...]. Estava disposto a tudo para chegar ao cume, mas um camarada cubano pregou-me um susto, pois ficou com
os pés gelados e, todos cinco, tivemos que descer. Quando a tempestade abrandou um pouco e o nevoeiro se dissipou, reparámos que tínhamos chegado quase à beira da
cratera. Lutámos seis horas contra uma neve que nos chegava à cintura e nos deixava derreados. O nosso guia perdera-se, ao querer evitar uma fenda [...]. Para descer,
fomos quase de escorrega, lançando-nos por ali abaixo! Quando cheguei, já não tinha calças. Os meus pés descongelaram, mas tenho a cara e o pescoço queimados como
se tivesse passado um dia inteiro ao sol em Mar del Plata. Neste momento, pareço o Frankenstein"96. Talvez mais monstruoso do que Frankenstein é este tipo de proeza
ser feita por um asmático como Guevara. Essa vontade férrea de ultrapassar a doença, essa alegre tenacidade no esforço são características que não deixarão de impressionar
Castro.
A 15 de Fevereiro de 1956 dá-se o grande acontecimento: Hilda dá à luz não um Vladimir-rapagão, mas uma menina bochechuda, cujos olhos em bico e a pele morena marcam
bem a ascendência índia. É baptizada de Hilda (como a mãe) Beatriz (como a adorada tia de Ernesto). O primeiro a vir admirar a pequena maravilha é o amigo Fidel
Castro, que promete: "Esta criança vai ser educada em Cuba"97. Ao comunicar a novidade à mãe, tratando-a por abuelita (avozinha), Ernesto comenta: "É a cara chapada
de Mao Tsé-Tung"98 À sua camarada Tita Infante, confessa: "Poderia transformar-me num insípido pai de família, mas sei que não vai ser assim e que continuarei com
a minha

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vida de boémia [...] até ao dia em que chegar à Argentina e trocar a minha capa de cavaleiro andante por um instrumento de combate"99.
No rancho de Santa Rosa, instrumentos de combate é o que não falta, embora díspares, espingardas com mira telescópica, metralhadoras, semiautomáticas portáteis e
até duas armas antitanque. Ernesto adora as armas de fogo desde pequeno. Depois de terem feito treino físico na cidade e em seguida num campo de tiro perto da Cidade
do México, os futuros combatentes passam ao estádio superior e instalam-se no aquartelamento provisório da hacienda, longe de olhares curiosos. Guevara começa por
alternar entre o hospital e o campo de treino. Mas em breve, a partir de Maio, sai do hospital para se instalar definitivamente em Santa Rosa e seguir o mesmo regime
dos companheiros. Castro, sempre muito ocupado no México com a preparação política da operação, nomeou o argentino responsável pelo grupo; ele leva a sério o seu
papel, sob a direcção do general Bayo, que declara nunca ter tido melhor aluno. Guevara reconhece que, se inicialmente teve algumas dúvidas quanto ao êxito da aventura,
elas em breve se dissiparam ao ouvir as lições de táctica militar do general, que fala como um profissional: "Desde as primeiras aulas que tive quase a certeza de
que iríamos vencer"100. Encarregam-no de dar umas aulas de instrução política e ele expõe então aos camaradas os princípios elementares da doutrina de "San Carlos",
apesar de nem todos partilharem o seu entusiasmo pelo marxismo. Mas a sua tarefa essencial, como médico da expedição, é zelar pela boa saúde física do grupo. Ministra
umas noções básicas de socorrismo, mostra-lhes quais são os primeiros cuidados a prestar a um ferido e, se se trata de dar uma injecção, não hesita em dar ele próprio
o exemplo: é perito na matéria. Um único senão, aparentemente paradoxal para um médico por definição ligado à higiene: os cubanos têm a mania de se lavar. "Tudo
isso é muito bonito, mas como é que vão fazer quando estiverem no mato? Duvido muito que possam lavar-se ou mudar de roupa todos os dias"101. E Bayo prefigura já
o aspecto que um dia terão esses combatentes barbudos quando os obriga a deitar fora lâminas de barbear e escovas de dentes "porque para onde vocês vão não há disso".
Em Santa Rosa, o regime é ainda mais severo do que na cidade. Num livrinho tosco, pleno de ingenuidade, O Meu Contributo para a Revolução Cubana102, Bayo dá uma
ideia do regime que impõe aos seus homens. Levantar às cinco da manhã e actividades teóricas e práticas intensas até ao anoitecer. Todos dormem no chão, quando dormem,
pois as marchas de noite multiplicam-se, com cargas às costas cada vez mais pesadas. Por vezes separam-se em dois grupos que simulam defrontar-se, para melhor reproduzir
as condições dos combates que poderão ter de enfrentar na sierra cubana. Guevara adapta-se a estas condições rigorosas e duras como se sempre tivesse feito isso
na vida. Consegue até arranjar tempo para jogar xadrez com Bayo, entre outros, beberricando o seu inevitável mate. Castro observa que, quando todos estão esgotados,
o argentino é o único a não manifestar cansaço, e aponta-o como exemplo. A partir dessa existência quotidiana de

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esforços partilhados, sem nenhum privilégio, Guevara é integrado pelos cubanos como sendo um dos deles, um camarada de pleno direito. Já o chamam pela alcunha Che,
nome dado a todos os que vêm do Rio da Prata, que ornamentam o seu discurso com essa interjeição familiar. "No caso do Che, ele adquiriu uma tal fama, um tal prestígio
que se tornou proprietário da alcunha"103, precisa Fidel.
Dessas semanas memoráveis, Bayo assinala uma única falta grave à disciplina quando, numa marcha, um dos aprendizes de guerrilheiro, Calixto Morales, recusa dar mais
um passo. Conselho de guerra imediato. Fidel e Raul acorrem da Cidade do México. Fidel está louco de raiva, mas é Raul que deixa Bayo estupefacto pela violência
do requisitório, e pede a morte para o "sabotador". Por fim, o culpado é banido do movimento, considerado como prisioneiro. Todavia consegue, como um perdão, que
o deixem retomar o treino.
Muito mais tarde, explicaria a Bayo que estava a sofrer terrivelmente devido a uma deformação na anca, que teimara em não revelar com medo de não ser seleccionado
entre os privilegiados que iriam desembarcar em Cuba. Quanto a Castro, parece não ter ficado nada convencido com a actuação da sua tropa, pois falará a Tad Szulc,
um dos seus biógrafos, da "inacreditável mediocridade do seu treino no México".
Apesar das precauções, todos estes preparativos militares estão longe de ser ignorados pelos serviços secretos de Batista, que conseguiram infiltrar-se no M-26.
Através das suas declarações, dos artigos que consegue fazer publicar na imprensa cubana, pelos contactos que vai multiplicando na região com os meios da oposição,
pelas visitas que recebe de emissários vindos de Havana, Castro começa a tornar-se um inimigo quase mais prejudicial no exílio do que em Cuba. Batista ordena então
aos seus capangas que se desembaracem dele fisicamente ou, pelo menos, que façam o necessário para que a polícia mexicana o "neutralize".
Na noite de 20 de Junho de 1956, ao sair de uma das casas-refúgio à disposição dos combatentes do M-26, Fidel Castro é preso em plena rua, juntamente com dois companheiros,
Universo Sánchez, um antigo comunista encarregado das questões de segurança, e Ramiro Valdés, um "moncadista" da primeira hora. A cena passa-se como nos filmes de
gangsters, com a polícia a servir-se de Sánchez e Valdés como escudo para obrigar Castro a entregar a arma e a entrar na carrinha. Nessa mesma noite, mais uma dúzia
de membros da equipa Castro são presos, entre os quais a hospitaleira Maria Antonia González. No dia seguinte, é a vez de Hilda Gadea ser conduzida ao posto da polícia,
com a pequena Hildita ao colo. Querem sobretudo saber onde se encontra o senhor Guevara, suspeito de simpatias comunistas, pecado capital numa época em que o relatório
Kruchtchev, certificando os campos do terror estalinista, acaba de ser divulgado.
Antes de ser libertada, Hilda garante ter ouvido os seus inquiridores, mergulhados na penumbra, falar inglês. Não é de excluir a hipótese de alguns agentes do FBI
ou da CIA terem acompanhado os seus colegas mexicanos

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nos seus esforços para deter toda a tentativa de penetração comunista na "coutada" norte-americana.
Quando a polícia informa Castro que vão também fazer uma busca no acampamento de Santa Rosa, do qual lhe chegam a mostrar fotografias, ele reage de imediato. Tem
de evitar um confronto tão mortal quanto inútil, uma vez que o inimigo se situa em Cuba e não no México. Consegue que o deixem acompanhá-los. A 24 de Junho, quando
os jipes e os carros da polícia se aproximam da hacienda, Guevara está de vigia, em cima de uma árvore. Enquanto os veículos se imobilizam, avista Fidel, que avança
sozinho, a descoberto, ao longo de duzentos metros, para que os seus amigos, entrincheirados atrás dos muros espessos do edifício, possam reconhecê-lo. É ainda uma
cena de filme mas, desta vez, do género western. "Estive quase para me deixar ficar escondido na árvore, mas Fidel pediu que nos rendêssemos todos"104, confidenciará
depois Ernesto a Hilda. Treze homens são assim presos. Escapam Raul Castro e um pequeno grupo, que tinham ido esconder armas numa colina próxima.
Guevara vê-se então detido com Fidel Castro e mais vinte e seis companheiros na prisão especial dos serviços de emigração do Ministério do Interior, na rua Migue-Schultz.
O acontecimento dá brado na imprensa mexicana. Em Cuba, Batista exulta e pede a extradição de toda aquela malta. Há uma grande agitação por parte dos simpatizantes
do M-26, que mandam vir de urgência, dos Estados Unidos, um dos mais próximos colaboradores de Castro, Juan Manuel Márquez que, com Raul, contrata dois advogados
que vão ter um trabalhão para contrabalançar o efeito das substanciais mordidas pagas pelos agentes de Batista. Lavalle, um juiz corajoso, ordena, porém, a libertação
dos detidos, ao que se opõe o Ministério do Interior, alegando uma conspiração comunista. "Acusação absurda", protesta Castro, que não aceita de modo algum ser rotulado
de comunista (e que não o é, por enquanto). Envia ao semanário Bohemia (15 de Julho de 1956) um longo artigo no qual recorda que, pelo contrário, foi Batista que,
nas eleições de 1940, foi o candidato oficial do Partido Comunista e que, aliás, o seu governo actual inclui muitos comunistas.105
Todavia, o falatório é tal, com avisos de greve da fome por parte dos detidos que, a 9 de Julho, vinte e cinco cubanos são libertados, abandonando a prisão a cantar
o hino nacional de Cuba e o do M-26. Só permanecem presos Castro, Calixto García e Guevara, sob o pretexto de os seus vistos ter caducado e estarem, portanto, em
situação ilegal. Os advogados de Castro apelam então para o homem que, no México, goza do maior prestígio, o antigo presidente Lázaro Cárdenas, aquele que teve a
coragem de nacionalizar o petróleo em 1938, até aí nas mãos das companhias norte-americanas. Cárdenas aceita intervir e Castro é libertado a 24 de Julho. Mas Guevara
não; a polícia mexicana tem-no especialmente sob mira, pois não entende o que é que ele faz entre os cubanos. Em sua casa foi encontrada abundante literatura marxista
e um cartão de membro do Instituto México-URSS; de facto, ele começara

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a estudar russo "para entender melhor Pavlov". Não é preciso mais para que seja considerado como o cérebro do grupo. "Quando iam buscá-los para os interrogatórios,
ele era o único a quem punham algemas"106, esclarece Hilda. E quando o ameaçam de torturar a sua mulher e a sua filha para que confesse que está a soldo do comunismo
internacional, ele decide não mais abrir a boca. Daí uma certa raiva da polícia contra esse argentino, que parece troçar dela.
Essa estada na prisão reforça ainda mais os laços de amizade já estabelecidos no acampamento de Santa Rosa e a estima dos cubanos por esse camarada vindo de outras
bandas, que Castro põe a dormir junto de si, que fala com um sotaque estranho, que prepara infusões esquisitas, que anda em tronco nu e que é tão simples, tão prestável,
tão dedicado a uma causa. O fotógrafo Nestor Almendros, que o jornal Bohemia envia em reportagem com o jornalista Carlos Franqui, recorda-se desse jovem de cabelo
curto, "muito belo, calmo, discreto, não muito simpático, pois responde num tom seco, mas cuja atitude digna contrasta com o aspecto patibular dos seus companheiros"107.
Quanto a Hilda, ela reteve sobretudo a extrema coesão de todos esses homens que, segundo diz, constituíam "um grupo maravilhoso".
Antes de Fidel sair da prisão, Guevara pede-lhe que não comprometa o projecto global por sua causa. "Expliquei-lhe o meu caso pessoal; eu era estrangeiro, clandestino
no México e sobre mim pesavam uma série de acusações. Disse-lhe que estava fora de questão travar a marcha da revolução por minha causa [...]. Tudo o que pedia era
que me mandassem para um país próximo, mas não para a Argentina. Lembro-me da resposta categórica de Fidel: "Não te abandonarei" [...]. Esta atitude em relação às
pessoas que ele estima, explica, quanto a mim, os apoios incondicionais que suscita"108.
Numa das visitas de Hilda com a filha, ele entrega-lhe, amarrotado, um poema que compôs na herdade de Santa Rosa, para que ela o envie ao destinatário quando estiver
no mar alto. É um Canto a Fidel, verdadeiro hino de admiração, quase um grito de amor, tanto mais notável por vir de um homem que procurou, até ali, manter o sangue-frio.
Desta vez já não se trata de olhar as coisas com algum desdém, nem com cepticismo; já não há distanciamento. Guevara encontrou a sua verdade e o seu guia: "Partamos
/ ardente profecia da aurora/... para libertar o caimão verde de que tanto gostas/... Quando soar o primeiro tiro/... Ali, ao teu lado... Nos encontrarás. / Quando
a tua voz gritar aos quatro ventos / reforma agrária, justiça, pão, liberdade / Ali, ao teu lado... / nos encontrarás. / E, se a metralha nos detiver no caminho,
/ que nos dêem uma mortalha de lágrimas cubanas..."109. Mais tarde, em Cuba, o semanário Verde Olivo publicará este poema e Guevara, protestando veementemente, enviará
uma carta ao director, proibindo-o de publicar o que quer que seja da sua autoria; e acrescentará, com um certo humor: "muito menos esses versos, que são horríveis"110.
Aos pais, ele já não esconde nada. Escreve-lhes da prisão: "O meu futuro está ligado à revolução cubana. Ou triunfo com ela, ou morro lá. [...] Passei a vida à procura
da minha verdade, por tentativas, e, nesta fase da vida, agora

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com uma filha para me perpetuar, encerrei um ciclo. Doravante, não considerarei a minha morte como uma frustação. Quase diria, como Hikmet: Só levarei para o túmulo
a mágoa de um canto inacabado...""1. (A referência a Hikmet* deve ser sublinhada, pois confirma a que ponto Ernesto estava influenciado, nessa época, por um universo
mental marcado pelo ideário comunista).

Nota: *Nazim Hikmet (1902-1963) é um poeta turco que fora condenado a pesadas penas de prisão pelas suas opiniões comunistas. Uma vasta campanha internacional, conduzida
pelos partidos comunistas, tinha obtido a sua libertação em 1950.


"Não sou Cristo"

A 15 de Julho de 1956, Ernesto envia à mãe, que certamente lhe reprovara um gosto excessivo pelo sacrifício, uma carta decisiva, que é simultaneamente um manifesto,
um programa de vida e uma sátira violenta contra a abjecção das meias-tintas: "Não sou nem Cristo nem filantropo; sou o contrário de Cristo [...]. Tento derrubar
o adversário em vez de me deixar pregar na cruz [...]. Não só não sou moderado como procurarei nunca o ser, e quando perceber que o meu fogo sagrado se transformou
num pequeno círio não vou certamente pôr-me a vomitar sobre a minha própria merda [...]. Toda a acção de envergadura exige paixão e, para a revolução, é preciso
paixão e audácia em grande escala". E acrescenta, referindo-se às diligências levadas a cabo pela sua família junto de amigos ou de autoridades, como o contra-almirante
Raul Lynch, primo do pai de Ernesto (que é embaixador da Argentina em Havana): "Todos os SOS que vocês lançaram não serviram de nada. Só dariam resultado se eu abdicasse
dos meus ideais. Não acredito que prefiras um filho vivo mas infame a um filho morto por ter cumprido o que considera o seu dever". E termina, depois de ter corrigido
algumas críticas feitas a Cuba: "Além do mais, irei para outro sítio qualquer. Porque é evidente que fechado num trabalho burocrático, ou numa clínica de doenças
alérgicas, fico liquidado". E, pela primeira vez, ostenta a nova identidade que lhe atribuíram os seus camaradas cubanos, assinando: "Teu filho, o Che"112.
Por seu turno, Fidel Castro cumpre o prometido e não abandona nem Che nem Calixto García. O argumento clássico de uma mordida substancial abranda a intransigência
policial. Os dois últimos detidos são libertados em meados de Agosto. Guevara tem 28 anos. Ordenam-lhe que abandone o território no prazo de dez dias. O que, evidentemente,
ele não faz. A partir de agora, para ele, como para todos os homens de Castro, até à partida para Cuba, começa o tempo da clandestinidade. Vem-lhe à memória um filme
da época, com Paul Muni: Sou um Evadido. Não se pode dizer que esse papel de conspirador, jogando ao gato e ao rato com a polícia, lhe tenha desagradado.
A prisão nem por sombras fez com que Castro renunciasse ao seu projecto. Está mais empenhado do que nunca, mas redobra de precauções. Dos

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Estados Unidos e de Cuba chegam-lhe quarenta novos recrutas. Dispersam-se todos ao longo da costa do golfo do México a que está voltada para a sua adorada ilha,
estendida como um caimão. Guevara é inicialmente enviado para Cuautla, a duas horas da Cidade do México, onde se aloja, sob o nome de González, num pequeno hotel
onde Hilda pode procurá-lo aos fins de semana. Cada um recebe uma pequena quantia de dinheiro para as despesas e a Hilda, que lhe traz esse viático, ele recomenda
que não gaste sequer um tostão dele com as viagens. O dinheiro do M-26 deve destinar-se apenas às despesas essenciais. Aproveita essas tréguas inopinadas para aperfeiçoar
o seu treino físico e os seus conhecimentos sobre o marxismo. Diz ele: "S. Carlos fez um recrutamento estudioso [...]. Eu passo o tempo a fazer exercício e a ler.
Depois disto, acho que ficarei "um barra" em matéria de economia, mesmo que tenha esquecido como se mede o pulso"113. Apesar de tudo, ele é o médico da expedição
e às vezes chamam-no para assistir um doente.
Por vezes, muda de residência. "A minha profissão actual é a de um saltimbanco, hoje aqui, amanhã ali"114. As estadias em zona tropical, quente e húmida, provocam
de novo a asma. Mas, à medida que o tempo passa sem que o controlo policial se manifeste, ele torna-se mais ousado, vem discretamente à capital respirar um ar seco
mais saudável, falar com os irmãos Castro, ver a sua filha rechonchuda, a quem chama "indiazinha", ou "Maozinha". Está todo orgulhoso. Como se pode ver pelo bilhete
atestando a sua virilidade satisfeita, que Hilda recebe um dia, através de um mensageiro que vem buscar um lote de livros marxistas: "O portador é um guajiro (camponês)
inculto. Não ligues. Mostra-lhe antes a miúda, para que ele possa avaliar a qualidade do touro"115. Em Novembro, vem esconder-se por 15 dias na Cidade do México,
em casa do guatemalteco Alfonso Bauer, o mesmo que conheceu nos tempos de Arbenz e que o ajudou a arranjar emprego no Hospital da Cidade do México. Também aqui se
dá um incidente revelador de uma boa presença de espírito. Como o apartamento de Bauer foi assaltado, a polícia vem fazer um inquérito e aproxima-se do quarto das
traseiras, onde Ernesto está alojado. Contudo, ele tem tempo de lançar um cobertor sobre o seu camarada Calixto García, deitado na cama, temendo que a sua pele negra
desse um pouco nas vistas. Mas a cara simpática de Guevara satisfaz os polícias, que não manifestam excesso de zelo e não vão vasculhar no canto onde Bauer escondeu
os caixotes de medicamentos que o argentino trouxe para casa.
Parece que foi durante esse último semestre de 1956 que começaram a surgir discussões com Hilda, sem dúvida de ordem política, tanto mais surpreendentes por a constituição
do casal ter assentado, desde a sua origem, numa conivência ideológica, e também porque para Guevara, como sempre insistiu, a primeira virtude de uma esposa é a
de ser uma "boa camarada". Em Outubro, comunica à mãe que Hilda vai regressar ao Peru, uma vez que já não é lá persona non grata. Com efeito, a APRA, o partido a
que Hilda pertence, coligou-se com o reformista Manuel Prado, que ganhara recentemente as eleições presidenciais. "Ei-la representante extraviada do mui digno e
mui anticomunista partido aprista"116, ironiza Ernesto.

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Nas suas memórias, editadas em 1972, Hilda Gadea não menciona a mais pequena nuvem nas suas relações com Ernesto em 1956. Pelo contrário, refere gestos de ternura
que, segundo afirma, não eram habituais no marido, pois ambos pensavam que cada encontro poderia ser o último. "Será pelos jornais que ficarás a saber que partimos",
dizia-lhe ele. Mas, numa extensa carta que ele escreve, em Outubro, à sua confidente Tita Infante (Penélope que ficou em ítaca), Ernesto revela de modo explícito:
"A minha vida conjugal está quase desfeita [...]. Há um certo sabor amargo nesta ruptura, pois [a minha mulher] foi uma camarada leal e o seu comportamento revolucionário
foi irrepreensível durante as minhas férias forçadas, mas havia um grande desacordo espiritual entre nós, e eu vivo dentro daquele espírito anárquico que me faz
sonhar com novos horizontes..."117. Após o divórcio, três anos depois, Hilda Gadea declara à revista Time de 8 de Agosto de 1960: "Se perdi o meu marido, foi por
causa da revolução cubana". A observação não deixa de ter o seu fundamento, pois o verdadeiro amor de Ernesto é realmente a revolução, que para ele está acima de
tudo, incluindo a vida familiar e conjugal. "Vinha a casa de dois em dois meses, confessa Hilda. O período de tempo mais longo em que pude vê-lo foi quando ele esteve
na prisão. Uma noite, apareceu. Passado um bocado, bate à porta um companheiro. Fecham-se os dois na casa de banho, para conversar. Depois ele sai lá de dentro e
diz-nos adeus. Não dá nenhuma explicação, mas pensei que era a despedida final. Não me enganava. Dias depois, li no jornal que o embarque ocorrera em Tuxpán"118.
Através de um traficante de armas mexicano, Castro compra, no fim de Setembro, um iate branco de doze metros, já velho mas com bom aspecto, o Granma (Avozinha, em
inglês), que pertence a um norte-americano de origem sueca, instalado no México. Pequeno inconveniente: o barco, construído em 1943, fora afundado por um ciclone
em 1953. Tendo estado muito tempo afundado, precisa de ser convenientemente reparado e só pode comportar, no máximo, 25 pessoas. Pouco importa; é mesmo o que Castro
pretende, e paga por ele quarenta mil dólares, recebendo como "brinde" uma casa na margem do rio Tuxpán, perto da foz, onde poderão ficar instalados os homens que
são imediatamente enviados para reparar a embarcação. O projecto de Castro não sofreu alteração: desembarcar em Cuba com os seus guerrilheiros antes do fim do ano,
como anunciara publicamente, e coordenar esse desembarque com uma série de levantamentos organizados no país, sobretudo em Oriente, isto é, na parte leste da ilha,
e em Santiago de Cuba. Frank País, encarregado das operações do M-26 nessa região, vem explicar-lhe que é demasiado cedo, que os grupos armados de Oriente ainda
estão mal preparados. Os comunistas cubanos do Partido Socialista Popular (clandestino) enviam-lhe a mesma mensagem. Seria melhor esperar, pelo menos, até Janeiro,
quando os trabalhadores agrícolas contratados para a zafra (colheita da cana-de-açúcar) poderão entrar em greve. Por enquanto a situação não é favorável, a oposição
não está unida. Seria correr para o fracasso. Em Cuba, o comandante das Forças Armadas cubanas declara que uma tentativa de desembarque seria

143

esmagada; multiplicam-se as patrulhas marítimas e os reconhecimentos aéreos, o exército e a polícia estão em estado de alerta. Castro não desiste. Pelo contrário,
anuncia mesmo, numa entrevista ao jornal governamental cubano Alerta (publicada a 19 de Novembro de 1956), que se Batista não abdicar dentro de duas semanas, ele
se reserva o direito de "desencadear a luta revolucionária". Nesta crónica de um desembarque anunciado, o prazo decisivo de 1956 será respeitado: "Seremos livres
ou mártires".
Os acontecimentos precipitam-se. Duas deserções nas fileiras do M-26 levam Castro a apressar a decisão. Começa uma corrida contra o tempo com a polícia, que dispõe
agora da lista dos acampamentos e das casas-refúgio. A
23 de Novembro ordena, com carácter de urgência, o carregamento do barco com armas, munições e víveres. Todos os combatentes seleccionados são convocados para 24
de Novembro. Uma chuva torrencial abate-se sobre eles na margem do Tuxpán. Mal conseguem distinguir o barco no qual se amontoam, encharcados. Um deles, Faustino
Pérez, admite que "foi o início de uma competição inconfessada para entrar primeiro, temendo que os últimos não pudessem partir"119. Universo Sánchez, o braço-direito
de Fidel, não acredita que é com aquela casca de noz que vão chegar a Cuba e pergunta: "Onde é que está o barco grande, o verdadeiro barco?"120. Fidel, imperturbável,
informa Frank País, por mensagem codificada, que é no dia 30 de Novembro que irão desembarcar a sul de Niquero, na praia de Las Coloradas. Às duas horas da manhã
do dia 25 de Novembro de 1956, o pequeno navio, que há vários anos não navegava, desce o rio Tuxpán, com todas as luzes apagadas, passa o porto, entra no mar alto
e perde-se na noite. Oitenta e dois homens cantam o hino cubano e o do M-26. Entre eles, um insólito argentino, que, sem se interrogar o que faz em tão estranha
companhia, passa o seu Rubicão pessoal para comparecer ao encontro que tem consigo mesmo. Rumo a leste, o iate mergulha nas águas negras do mar largo. Começa a odisseia.

Notas:
1 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., pp. 30-32.
2 Ibid., p. 34.
3 Ibid., p. 37.
4 Ibid., p. 33.
5 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 21.
6 Ibid., pp. 20-21.
7 Ibid., p. 21.
8 Ibid., p. 243.
9 Ibid., p. 29.
10 Ibid.
11 Maria del Carmen Ariet, Che, Pensamiento Político, op. cit., p. 47.
12 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 36.

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13 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 36.
14 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 39.
15 Ibid., p. 41.
16 ibid., p. 54.
17 Ibid., p. 46.
18 Ibid., PP. 35-37.
19 Ibid., p. 41.
20 Ibid., p. 42.
21 Ibid., p. 48.
22 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 226.
23 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 48
24 Ibid., p. 49.
25 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 54-55.
26 Ibid.,pp. 55-56.
27 Ibid., p. 55.
28 Ibid., pp. 40-41.
29 Ibid., p. 37.
30 Ibid., pp. 58.
31 Ibid., p. 203.
32 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 53.
33 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 48.
34 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 52.
35 Ibid., pp. 69-70.
36 Marcel Niedergang, Les Vingt Amériques Latines, Seuil, Paris, 1969, p. 83.
37 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 55 e seg.
38 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, Payot, Paris, 1987, p. 208.
39 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 56.
40 Ibid., p. 57.
41 Ibid., p. 58.
42 Marcel Niedergang, Les Vingt Amériques Latines, Seuil, Paris, 1969, p. 83.
43 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 59.
44 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 72-73.
45 Ibid., p. 224. •
46 Ibid., p. 226.
47 Ibid., p. 225.
48 Armand Gatti, entrevista com o autor, Santiago do Chile, 1993.
49 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 61.
50 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 221-222.
51 Ibid., p. 226.
52 Ibid., p. 85.
53 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 76.
54 Ibid., p. 75. "
55 Ibid., p. 76.
56 Ibid., p. 77.

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57 Ibid.
58 Ibid., p. 80.
59 Ibid., p. 78.
60 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 107.
61 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 79.
62 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 100.
63 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 81.
64 Ibid., p. 89.
65 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., p. 2
66 Ibid., p. 71.
67 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 92.
68 Ibid.
69 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 116.
70 Ricardo Rojo, Che Guevara. Vie et Mort d'un Ami, op. cit., p. 60.
71 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 117.
72 Ernesto Che Guevara, Escritos y discursos, Ciências Políticas, Havana, 1985, t. I p. 20.
73 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 116.
74 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 99.
75 Ibid., pp. 99-100.
76 Hilda Gadea, Anos decisivos, op. cit., p. 116.
77 Ernesto Che Guevara, Oeuvres VI, Textes inédits, François Maspero, Paris, 1972, p. 155.
78 Fidel Castro, Révolution Cubaine, François Maspero, Paris, 1968, t. 2 p. 227.
79 Fidel Castro, Entretiens sur la religion avec Frei Betto, Ed. du Cerf, Paris, 1986, p. 227.
80 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 225.
81 Ernesto Che Guevara, Oeuvres VI, Textes inédits, op. cit., pp. 155-156.
82 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 126.
83 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 29.
84 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 127-128.
85 Ibid., p. 133.
86 Ibid., p. 119.
87 Fidel Castro, Entretiens sur la religion avec Frei Betto, op. cit., p. 262.
88 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., p. 690.
89 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 373.
90 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 232-233.
91 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 104.
92 Ibid., p. 109.
93 Arnaldo Orfila, "Recordando el Che", in Che, n.º especial da revista Casa de las Americas, reproduzindo os n.º 46 de Janeiro-Fevereiro de 1968 e n.º 104 de Setembro-Outubro
de 1977, Latinas, Buenos Aires, 1986, p. 36.
94 Ernesto Guevara Lynch, Aquí va un soldado de America, op. cit., p. 111.
95 Hilda Gadea, Anos decisivos, op. cit., p. 142.
96 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., pp. 106-107.
97 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 152.
98 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 130.

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99 Ibid., p. 129.
100 Ernesto Che Guevara, Écrits I, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 29.
101 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 183.
102 Alberto Bayo, Mi Aporte a la Revolucion Cubana, Imp. Ejercito Rebelde, Havana, 1960.
103 Fidel Castro, Entretiens sur la Religion avec Frei Betto, op. cit., p. 202.
104 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 169.
105 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 301.
106 ibid, pp. 169-170.
107 Nestor Almendros, entrevista com o autor, Paris e Londres, 1991.
108 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 30.
109 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 171-172.
110 José Pardo Llada, Fidel y el "Che", Plaza y Janes, Barcelona, 1988, p. 152.
111 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 137.
112 Ibid., p. 140 e seg.
113 Ibid., p. 148eseg.
114 Ibid., p. 151.
115 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 181.
116 Ernesto Guevara Lynch, ...Aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 152.
117 Ibid, p. 150.
118 Entrevista de Carlos Maria Guttiérez na revista Casa de las Americas n.º 54, Maio-Junho, citada em Philippe Gavi, Che Guevara, Éditions Universitaires, Paris,
1970, p. 50.
119 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, Seuil, Paris, 1976, p. 142.
120 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 301.

147

Segunda Parte

CUBA, CROCODILO VERDE

149

IV

SIERRA MAESTRA: O CHEIRO DA PÓLVORA.

"Vim para lutar"

A horrível travessia, o desembarque em Cuba, o intenso tiroteio que se abate sobre eles pouco depois, o caos e a errância que se seguem são descritos em dois textos,
ambos arrebatados e verdadeiros. O primeiro é do próprio Guevara, que procura reconstituir "uma visão fragmentária, feita de recordações e de alguns apontamentos".
O outro é uma novela, intitulada Réunion, imaginada a partir da descrição de Guevara, pelo seu compatriota Julio Cortázar: o longo monólogo interior de um homem
cuja única preocupação, obsessiva, é encontrar o chefe das operações, o comandante, o amigo Fidel.
Logo que o pequeno iate, sumariamente reparado, entra nas águas agitadas do golfo do México, a tempestade, até aí refreada pela geografia do litoral, vem abanar
impiedosamente a casca de noz e justificar a interdição de navegar imposta pela capitania do porto de Tuxpán. Os trópicos, supostamente paradisíacos, podem revelar-se
selvagens e brutais. El Norte, a poderosa nortada, fustiga a chuva. Vagas "altas como montanhas" fazem dançar a embarcação, com uma carga quatro vezes superior à
que devia comportar: oitenta e dois homens (em vez dos 25 autorizados), com armas, bagagens e caixotes de munições (por falta de espaço foi mesmo necessário deixar
na costa mexicana cinquenta voluntários frustrados). Mergulhado abaixo da sua linha de flutuação, o barquito é sacudido de todos os lados. Mal os últimos cânticos
de "morrer pela pátria é viver" se perdem na noite, o enjoo toma conta da tripulação, com excepção de quatro ou cinco valentes, de estômago mais sólido, entre os
quais o doutor Guevara, que já tem muito com que se entreter com a asma, que não o largará durante toda a viagem. Para já, não consegue encontrar os malditos comprimidos
contra o enjoo. Tal como ele descreve: "O barco era um espectáculo simultaneamente trágico e ridículo: "homens, de rosto lambuzado de angústia e segurando na barriga;
uns com "a cabeça enfiada num balde, outros, caídos no chão, imobilizados nas mais

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estranhas posições, com a roupa suja de vomitado"1. Para cúmulo, a água invade o tombadilho. Faustino Pérez, um dos adjuntos de Castro, relata ao jornalista Carlos
Franqui: "Foi dada ordem de utilizar as bombas, mas a água, em vez de baixar, continuava a subir [...]. Está tudo perdido, pensei eu. Fui falar com Fidel [...].
Queria propor-lhe que nos lançássemos à água para chegar à costa a nado"2. A explicação de Guevara é reveladora da confusão geral: "Descobrimos que aquilo que pensávamos
ser um rombo no barco não passava de uma torneira aberta nos sanitários. Tínhamos deitado borda fora tudo o que era supérfluo, para descarregar o lastro"3.
No terceiro dia, a tempestade abranda e Castro dá aos seus homens alguns elementos de informação. A rota adoptada não irá seguir o caminho mais curto, para evitar
qualquer encontro inoportuno com as patrulhas cubanas, marítimas ou aéreas. "O itinerário escolhido", esclarece Guevara, "implicava um grande círculo ao sul de Cuba,
costeando a Jamaica, as ilhas do Grande Caimão, desembarcando por fim na costa de Oriente, nas proximidades de Niquero"4. O desembarque em Oriente, extremidade leste
da ilha, região tradicionalmente rebelde, é um clássico da história cubana. Sempre atento aos símbolos, Fidel retoma o exemplo do seu ilustre compatriota José Marti
que, em 1895, ao cabo de um longo exílio nos Estados Unidos, escolheu essas costas para vir combater o ocupante espanhol.
Durante os horríveis dois primeiros dias, o enjoo tinha tirado a todos o apetite, mas com o regresso do sol, a fome aperta, estimulada pelo ar do mar; verifica-se
então que os mantimentos, trazidos à pressa, não eram suficientes. Não se chega ao ponto de tirar à sorte por uma palhinha aquele que vai ser comido pelos outros,
mas é imposto um racionamento drástico em alimentos e água, tanto mais que a verdadeira catástrofe, de consequências dramáticas, é o atraso do barco sobrecarregado,
cujos motores se esfalfam e que só atinge
7,2 nós, em vez dos dez nós indispensáveis para chegarem a tempo. A travessia vai, pois, prolongar-se durante sete dias, enquanto tudo fora sincronizado com o M-26
de Cuba para que o desembarque ocorresse no quinto dia, a
30 de Novembro de 1956.
Nesse dia, para acolher os combatentes do Granma nas praias de Niquero, Celia Sánchez, uma mulher espantosa da qual voltaremos a falar, mobilizou camiões, guias
experientes e milícias rurais formadas pelo dirigente camponês do M-26, Crescencio Pérez. Em Santiago de Cuba, capital desse Oriente mulato penetrado por influências
africanas, haitianas e dominicanas, o jovem professor Frank País, outro grande dirigente, não imagina que Castro vai chegar com dois dias de atraso ao encontro.
De madrugada, conforme combinado, desencadeia, com vinte e sete homens apenas, o levantamento que deveria coincidir com o desembarque. Pela primeira vez, guerrilheiros
de farda verde-azeitona e braçadeiras vermelhas e negras do Movimento
26 de Julho irrompem numa cidade cubana; incendeiam o quartel da polícia nacional, apoderam-se de armas no posto da polícia marítima, travam ainda combates de rua
até ao dia seguinte, mas renunciam a atacar o quartel

152

Moncada e são forçados a recuar, deixando nove mortos, face a quatrocentos membros das forças antiguerrilha, bem treinadas, que acorreram em reforço. A insurreição
falhou. Batista decreta o estado de emergência em Oriente e redobra a vigilância da costa. Já não duvida da iminência da chegada desse perigoso Fidel Castro, que
proclamou alto e bom som que regressaria a Cuba antes do fim do ano.
No Granma, que lá vai avançando lentamente, este escuta, impotente e frenético, as informações que a rádio transmite sobre os acontecimentos de Santiago. Vocifera:
"Se eu pudesse voar...", dirigindo-se a Faustino Pérez. Na praia deserta, Célia Sánchez é informada do fracasso do levantamento e da instauração do estado de emergência.
Na noite do segundo dia de espera, vendo que ninguém chega, não tem outro remédio senão ordenar às suas milícias a retirada. Ao largo, no mar calmo, o pequeno iate
branco continua a arrastar-se. Um dos dois motores diesel avariou; foi reparado, mas é necessário vigiar o consumo de combustível, que se vai esgotando. Para cúmulo
da desgraça, surge outro acidente a atrasar a marcha. Na noite de 1 para 2 de Dezembro ainda de temporal o navegador Roberto Roque, içado sobre o habitáculo da cabine
para tentar avistar o farol do cabo Cruz, escorrega e cai ao mar. Fidel manda parar o barco e, ignorando toda a prudência (pois estão perto da costa), manda acender
o farolim do iate para tentar encontrar o marinheiro. Depois de uma hora de andar às voltas milagre! Uma voz fraca responde. Guevara e o seu colega Faustino Pérez
(que também é médico) tratam de reanimar o semi-afogado.
Algumas horas mais tarde, o piloto, Onelio Pino, começa a avançar lentamente pelo canal de Niquero. Mas hesita; as bóias não coincidem com as indicações das cartas
de navegação. Troca impressões com Castro. Este arde de impaciência por chegar a terra e não quer perder tempo. Ordena que se avance direito à costa. Decisão precipitada,
que irá custar bem caro.5
Na véspera, Castro recapitulara com os seus soldados a estrutura geral e a hierarquia do contingente. Sessenta e seis homens organizados em três pelotões (linha
da frente, centro e retaguarda) e um estado-maior de dezasseis homens. Todos são cubanos, excepto o nosso argentino, um italiano, um mexicano e o piloto, de Santo
Domingo. Fidel Castro recusou-se a aceitar El Patojo, o amigo guatemalteco de Ernesto. Não queria transformar a sua tropa em brigada internacional. São todos jovens,
mas não são garotos. A média de idades é de 27 anos. Guevara, de 28 anos, é oficial de saúde, com o posto de tenente. Raul Castro, capitão, comanda a retaguarda;
Nico López é também capitão. Vestiram as fardas verde-azeitona e calçaram as botas mexicanas novas. Na sua qualidade de comandante supremo, Fidel Castro entregou
uma arma a todos os combatentes. "A minha espingarda não era das melhores", admite Guevara. "Fui eu próprio que pedi que assim fosse, porque as minhas condições
físicas estavam deploráveis depois da grande crise de asma que me atacou durante toda a travessia, e não queria que uma boa arma se perdesse nas minhas mãos"6.
A madrugada de 2 de Dezembro de 1956 não tinha ainda despontado quando, subitamente, todos são projectados para diante. Fim da travessia.

153

O barco acaba de encalhar num banco de areia, na zona de Los Cayuelos, a dois quilómetros das praias de Las Coloradas, perto de Niquero, onde os esperara, até à
véspera, Celia Sánchez. "Se tivessem chegado pela praia, era facílimo; teriam encontrado os camiões e os jipes com combustível"7, declara ela. Fidel Castro resume:
"Depois de uma semana a aguentar a tempestade, num barco minúsculo, quase sem víveres, os homens do nosso corpo expedicionário desembarcaram num estado de enorme
fraqueza. Há três dias que praticamente não comíamos. Tivemos o azar de desembarcar num sítio mau, em pleno pântano"8. Falar de azar é escamotear um pouco a responsabilidade
daquele que tomou a decisão de avançar a direito para a costa e o "sítio mau" é uma branda figura de retórica. Los Cayuelos é o inferno.
Como sempre, o grotesco alia-se ao trágico. A lancha auxiliar lançada ao mar afunda-se de imediato sob o peso dos homens e do material. É necessário abandonar o
material pesado. Cada um tem de saltar para a água com a sua arma individual e o "estritamente necessário". O primeiro a lançar-se é um homem leve. O solo resiste.
Fidel, que se precipita atrás dele, tem outra corpulência. Enterra-se no lodo até à barriga. O mesmo sucede ao seguinte. A história não regista os palavrões desses
aprendizes de recruta que se debatem no atoleiro. Guevara é, com Raul Castro, um dos primeiros a sair do barco. Mais sarcástico com o passar do tempo, comentará:
"Não foi um desembarque, foi um naufrágio". Patinhar até ao que julgam ser a costa, ainda não é o pior. As delícias começam com a vegetação luxuriante, dos arbustos
cujas raízes, mergulhando no pântano salobro, formam uma rede de tal forma emaranhada que parece de propósito para impedir qualquer avanço. A tudo isto vêm juntar-se
matagais de silvas e moitas de plantas cortantes cujo nome, cortadora, é já todo um programa. Para completar o quadro, sobre tudo aquilo flutuam nuvens de mosquitos
e outros insectos cujos sussurros e picadas são de enlouquecer. São as boas-vindas à "pérola das Caraíbas". E contudo eles avançam, esses homens enfraquecidos, já
sob o fogo inimigo. "Uma embarcação de cabotagem viu-nos e avisou as tropas de Batista [...]. Foi por pouco que conseguimos penetrar nos pântanos: a aviação começava
já a metralhar-nos"9. A única vantagem das plantas traidoras é que protegem dos disparos aéreos.
Atolado no lodo, Castro sente uma súbita angústia, a de ter desembarcado num cavo, um desses milhares de pequenas ilhotas desérticas que se estendem ao longo da
costa cubana. Seria o desastre total, a armadilha. Um guajiro (camponês) duro de roer, Luis Crespo, trepa a um montículo e tranquiliza-o. Avistou ao longe um casebre
com um habitante. Alguns obstinados conseguem por fim chegar a terra firme. Faustino Pérez: "Deitámo-nos esgotados, esfomeados, cobertos de lama, mas conscientes
de estarmos finalmente a pisar o solo da nossa pátria [...]. Foi necessário que os mais fortes de nós levassem em braços alguns companheiros"10. O guajiro Crespo
conta: "O resto dos camaradas mal conseguiam andar. Voltei-me para o Che e disse-lhe: "Dá cá o teu saco, eu ajudo-te". "Nem pensar", respondeu-me ele. Eu insisti;
vi que

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Nesta página apresenta-se um mapa intitulado:
CUBA, TÃO PRÓXIMA DOS ESTADOS UNIDOS...

155

estava esgotado, por causa do pântano. Ele respondeu-me então: "Vai-te lixar. Vim para lutar e não para que me ajudem". Falava como costumávamos falar no México.
Por fim, consegui pegar-lhe no saco, convencendo-o que estávamos quase a chegar".
À tarde, setenta e quatro homens estão finalmente agrupados. Faltam oito, que se perderam, e que encontrarão dois dias depois. Triste balanço. Só lhes restam armas
ligeiras. O atraso fê-los falhar o encontro com os camaradas que deviam conduzi-los. Não há nada para comer e têm de fugir para a Sierra quase às cegas. "Nem casas,
nem água", diz Pérez. "Não encontrámos nem guias, nem campos. [...] Os aviões metralhavam ali perto. Fidel deu ordem de descansar durante o dia e caminhar de noite"12.
O que é extraordinário nessa epopeia - pois é mesmo uma epopeia, apesar dos seus aspectos prosaicos -, é que, diz Guevara, esse "exército de sombras e de fantasmas,
à deriva, que avançavam, como que movidos por um obscuro mecanismo psíquico"13, vai apesar de tudo conseguir safar-se, compensar as baixas sofridas, organizar-se
numa força estruturada que acabará por derrubar a ditadura. Este prodígio só é explicável pela espantosa solidariedade manifestada (salvo raras excepções) pelos
camponeses da Sierra Maestra, inicialmente bastante desconfiados e receosos e depois, com o correr do tempo, cooperantes e solidários. E também, a somar a isso,
a descomposição de um regime corrupto e o poder carismático de um chefe, Fidel Castro.

O dilema resolvido do doutor Guevara

Os três dias que se seguem são "medonhos", segundo Guevara, que não é um fraco. É certo que há quase sempre um camponês que acede a indicar-lhes o caminho, a menos
que fuja aterrorizado, como os carvoeiros que trabalham numa clareira. Mas quando encontram um bohio miserável, cabana de tábuas com tecto de folhas de palmeira,
nunca há nada para comer, ou quase nada: mandioca, mel e, uma noite - felicidade! - arroz e feijão. Desde os primeiros contactos em solo cubano, salta aos olhos
do argentino a miséria dos camponeses, de que os amigos lhe tinham falado. Caminham de noite, contornando os campos de café ou utilizando as valas no meio dos canaviais.
Essas imensas plantações de cana-de-açúcar pertencem a latifundiários cubanos, como o magnata Julio Lobo, ou a companhias norte-americanas, New Niquero, Beattie
Sugar Company ou à omnipresente United Fruit. Os guajiros, verdadeiros proletários, só são contratados na época da zafra e, depois da colheita, têm que procurar
sobreviver durante o resto do ano num pedaço de terra cuja propriedade lhes é negada. Por isso ouvirão tão atentamente aqueles que vêm dizer-lhes que a terra é de
quem a trabalha.
Guevara descreve bastante bem esses dias de emoção intensa e de cansaço extremo. "Inexperientes como éramos, para enganar a fome e acalmar a sede, trincávamos cana
na orla dos campos e lançávamos os detritos

156

pelo caminho"14. Tal como as pedrinhas do Pequeno Polegar, serão boas pistas para as tropas de Batista seguir, embora também tenham recebido indicações de um camponês
que os denunciou. Desde que iniciaram a marcha em direcção à Sierra Maestra, cujo relevo acidentado e frondoso constituirá um refúgio, só conseguiram cobrir 35 quilómetros.
Estão esgotados. A maior parte tem já os pés em sangue, retalhados pelas botas ainda novas, outro erro. As fardas estão enlameadas, laceradas pelas silvas e pelas
plantas cortantes. O grupo tem um aspecto deplorável. "Na madrugada do dia 5 [de Dezembro de 1956], poucos eram os que conseguiam ainda dar um passo [...]. Após
uma marcha longa e penosa [...] interrompida pelos desmaios, pelas náuseas, [...] a nossa tropa chegou a um ponto conhecido - belo paradoxo! - pelo nome de Alegria
de Pio [...]. Chegámos extenuados"15. Uma colina arborizada, ali perto, é propícia a um acampamento protegido contra uma eventual emboscada. Mas estão todos de tal
forma exaustos que não avançam até lá. O "paradoxo" a que Guevara se refere é que é nesse local chamado Alegria de Pio que vai dar-se o desastre.
"Passámos toda a manhã a dormir". Quando acorda, Guevara monta a sua farmácia de campanha. Trata dos pés feridos, que não conseguem voltar a entrar nas botas. Ao
seu lado está o seu amigo "Chucho", Jesus Montané, aquele que foi testemunha oficial do seu casamento no México, há um ano e meio há já tanto tempo. "Estávamos encostados
a um tronco de árvore e falávamos dos nossos filhos, comendo a magra ração, meia salsicha e dois biscoitos. Soou um tiro isolado. Em poucos segundos, um furacão
de balas (ou o que assim foi percebido pelo nosso espírito angustiado com esse baptismo de fogo) abateu-se sobre nós"16. A surpresa é total, a debandada é geral.
Como Fabrício em Waterloo, Ernesto só retém um fragmento da batalha, ("Soube depois que Fidel tentara, em vão, reagrupar os homens no canavial mais próximo")17.
Só se lembra do pânico. Cada um procura, antes de mais, proteger-se. São metralhados de terra e do ar. "Os aviões passam baixo, largam rajadas de metralhadora, o
que aliava ainda à confusão cenas, ora dantescas, ora grotescas - vimos, por exemplo, um companheiro corpulento tentar esconder-se atrás de uma cana; ou um outro
reclamar silêncio no meio do fragor da metralha..."18.
Surge então um desses momentos-chave, carregados de símbolos, que marcam um destino. "Um companheiro deixa cair um caixote de balas aos meus pés. Chamei-lhe a atenção.
Com uma expressão que ainda recordo perfeitamente, pela angústia que se estampava no seu rosto, o homem respondeu-me qualquer coisa como "não é altura para nos ocuparmos
dos caixotes de balas" [...]. Ia eu dedicar-me à medicina ou ao meu dever de soldado revolucionário? Foi talvez a primeira vez que o dilema se me apresentou em termos
práticos: tinha à minha frente uma mochila cheia de medicamentos e um caixote de balas; o peso não me permitia carregá-los a ambos; peguei no caixote e deixei a
mochila"19. Foi assim que o doutor Guevara escolheu tornar-se o Che.

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Mantendo-se vivo, evidentemente, o que não era fácil. Perto dele, Faustino Pérez dispara a metralhadora. Mesmo ao lado, um camarada, Albentosa, atingido por um grande
calibre 45, vomita sangue. A mesma rajada atinge Guevara. "Senti uma grande pancada no peito e um rasgão no pescoço: considerei-me morto [...]. Do chão, murmurei
a Faustino: "Acertaram-me". Faustino, em plena acção, lançou-me uma olhadela e disse que não era grave, mas os seus olhos mostravam bem que a ferida era feia"20.
Os olhos de Faustino enganam-se. O caixote de balas, revolucionariamente empunhado, acabou por salvar a vida ao nosso herói: a bala que deveria ser mortal apenas
fez ricochete, batendo no pescoço sem o penetrar. A ferida, embora dolorosa, é só superficial. Mas Guevara não o sabe ainda. Está a perder muito sangue. A sua asma
atinge o paroxismo. Prepara-se para morrer dignamente, como aquela personagem de Jack London, perdido na solidão gelada do Alasca, cuja recordação lhe vem à memória.
Ouve Camilo Cienfuegos, um tipo incrível, berrar: "Aqui ninguém se rende, caralho!", mas deixa logo de o ver. "Durante um momento fiquei sozinho, ali estendido,
esperando a morte. Almeida aproximou-se e encorajou-me a prosseguir. Apesar das dores, consegui avançar e lançámo-nos ao canavial [...]. Formou-se um grupo, dirigido
por Almeida"21. Um dos membros do grupo, Rafael Chao, um veterano da guerra de Espanha, deu o seu lenço a Guevara. Ele enrola-o à volta do pescoço, como um penso.
Enquanto os soldados lançam fogo ao canavial, há cinco, incluindo o argentino asmático e ferido, que fogem sem saber para onde. Como eles, uma dúzia de outros grupúsculos
de dois ou três homens, formados ao acaso, no meio da confusão, perdem-se no mato. O corpo expedicionário, tão cuidadosamente preparado por Fidel, ficou literalmente
pulverizado. Serão necessárias várias semanas para reconstituir algumas partes. Mas não o conjunto. Nos dias que se seguem a esse 5 de Dezembro fatal, dezoito "rebeldes"
- é agora o nome - deles são encontrados e assassinados pela guarda rural. Mais vinte e um são posteriormente capturados. Para além dos três mortos durante o ataque-surpresa,
vinte homens desapareceram sem deixar rasto. Sem dúvida traumatizados pelas sucessivas catástrofes do desembarque, da perseguição, do ataque de Alegria de Pio, assustam-se.
Alguns voltam para trás, e pronto. Por fim, dos oitenta e dois combatentes do Granma, apenas vinte e sete reencontrarão Castro, alguns só ao cabo de um ou dois meses.
No fim de Dezembro, Castro dispõe apenas de dezanove homens para lutar ao seu lado. Quase um quarto da expedição, mas praticamente todo o estado-maior. Falta Márquez,
segundo comandante, torturado e assassinado pelos guardas, bem como dois amigos de Guevara, Jesus Montané, preso e enviado de novo para a penitenciária da ilha dos
Pinheiros, onde estivera após o ataque ao quartel Moncada, e o caro Nico López, aquele que deu forma à aventura cubana no imaginário de Ernesto, na Guatemala. Nico
fora executado sem piedade por um oficial da marinha, Julio Laurent, conhecido pela sua crueldade.

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Quanto a Batista, canta vitória, e a agência United Press International (UPI), baseando-se em comunicados militares, dá como certa a morte de Fidel Castro. Mas o
seu cadáver não foi identificado e há jornais que ainda duvidam. Dois membros da expedição, presos e interrogados, começam a contar como decorreu a operação até
ao ataque de Alegria de Pio. Referem, de passagem, sem que a opinião pública preste grande atenção, que junto de Castro está um médico argentino chamado Guevara.
O dito Guevara está, segundo os seus próprios termos, "à deriva". Ao lado de Almeida e de Ramiro Valdés, operacionais do golpe de Moncada, e de dois outros rebeldes
Chao e Benitez irá viver "alguns dos dias mais angustiantes da guerra, atormentado pela fome, pela sede, pela sensação de derrota e a iminência de um perigo palpável
e iniludível que nos dava a sensação de sermos ratos apanhados na ratoeira"22. Caminham "sem direcção precisa, desmoralizados", numa zona de mato tropical, onde
surgem da terra vermelha pequenas rochas assassinas, de arestas pontiagudas, que constituem um tormento para homens que se arrastam, exaustos. Mas prometem a si
mesmos lutar até à morte. "Apelando aos meus conhecimentos de cosmologia, detectei a estrela polar e durante dois dias guiámo-nos por ela, caminhando para leste,
para chegarmos à Sierra Maestra.. Meses mais tarde vim a saber que a estrela que nos guiou não era a estrela polar! Foi portanto por acaso que escolhemos o caminho
certo"23. Franqueza simpática. É através deste tipo de sinceridade no pormenor que podemos avaliar o seu gosto pela verdade sem máscara. Guevara descobre que, por
uma vez, a sua asma serve para qualquer coisa. Para extrair a água da chuva depositada no interior das rochas, nada melhor do que a pequena bomba do seu pulverizador,
que em seguida redistribui o líquido na ocular de uma mira telescópica. Umas gotas para cada um. A sede torna-se ainda mais insuportável por só terem encontrado,
para se alimentarem, a carne gelatinosa e salgada dos caranguejos que fervilham à volta deles. Para se refrescarem, apenas um banho breve que concedem a si próprios
quando, ao contornar as falésias da costa, se vêem numa pequena praia no fundo de uma enseada.
Retomando a marcha nocturna, acabam por se aproximar, ao luar, de uma cabana de pescadores à beira-mar e descobrem três vultos adormecidos. São três camaradas, um
dos quais Camilo Cienfuegos, um tipo de Havana, famoso pela sua fanfarronice e audácia. Abraços sob as estrelas. "Em seguida, a troca de informações sobre o pouco
que cada um sabia dos outros companheiros e do combate [...]. Pensávamos que devia haver outros grupos de sobreviventes como o nosso. Mas não fazíamos a menor ideia
onde nos encontrávamos"24. E lá vão eles, agora oito, prosseguir a sua errância. Uma noite, impelidos pela fome, aproximam-se de uma cabana de troncos de palmeira.
Está ocupada por soldados de Batista. Recuo prudente. No dia seguinte, encontram por acaso um curso de água, e bebem sofregamente. "Deitados no chão, bebemos com
a avidez dos cubanos". Uma outra noite, ouvem música numa casa. Guevara e Ramiro Valdés vão ver de perto. Mais

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uma vez, são soldados que bebem à sua vitória. "Não esperámos mais e fizemos meia-volta a todo o vapor e em bico de pés"25.
Desde o ataque de Alegria de Pio, há oito dias que caminham praticamente sem comer nem beber. Estão esgotados. "Nessa noite, ou na noite seguinte, todos os companheiros,
com uma ou outra excepção, decretam que não querem prosseguir. Perante isto, fomos forçados a bater à porta de um camponês, à beira do caminho. Fomos amavelmente
recebidos. Esse casebre camponês tornou-se então palco de intermináveis comezainas"26. Na verdade, é a primeira refeição deles, desde que saíram do México. Durante
horas, em casa de Alfredo González - é o nome do camponês -, eles devoram. Quando o dia nasce, ainda estão a comer. Está fora de causa porem-se a caminho à luz do
dia. Durante a manhã, outros camponeses, sabendo da chegada dessas estranhas personagens, acorrem, cheios de curiosidade e de solicitude, para ver de perto esses
justiceiros extraterrestres, que só podem ser simpáticos, visto que são perseguidos pelos militares. Mas a psicologia dos nossos heróis é das mais triviais. Não
se interrompe impunemente um jejum tão prolongado, sobretudo com estômagos vazios e fatigados. "A pequena casa que nos albergava não tardou a tornar-se num inferno:
Almeida foi o primeiro a ser atacado de diarreia e, num abrir e fechar de olhos, oito intestinos implacáveis deram mostra da mais profunda ingratidão. Alguns companheiros
começaram mesmo a vomitar. Pablo Hurtado, esgotado pelos longos dias de marcha, de enjoo no barco, de fome e sede, não foi mesmo capaz de se levantar"27.
Através dos guajiros da zona, Guevara e os amigos ficam a saber que Fidel Castro está vivo. Alívio intenso; o moral volta a subir. Propõem-lhes conduzi-los, em dois
grupos, até junto do líder camponês Crescencio Pérez, um dos dirigentes da rede rural do M-26 na região, verdadeiro chefe de tribo. Mas só se despirem a farda e
não transportarem armas demasiado perigoso, caso encontrem casquitos, esses soldados do tirano que patrulham o sector e que são implacáveis. Eles aceitam e - com
excepção de Guevara e de Almeida, que não largam a sua pistola-metralhadora - partem em dois grupos, vestidos "à civil". Mas o exército está já no seu encalço. De
facto, não sabendo onde esconder as armas, o camponês que acolheu os rebeldes falou do caso a um vizinho que, por seu turno, falou a outro, o qual alertou a guarda.
No dia seguinte, a polícia invade a casa, apodera-se das armas e leva Hurtado. Contudo, a rede é eficaz. Durante uma semana, Guevara, Almeida e outros dois vão passando
de refúgio em refúgio. Primeiro escondem-nos, a poucos quilómetros dali, em casa de um pregador laico, adventista do sétimo dia, Argelio Rosabal, a quem o argentino
chama "Pastor". Rosabal contará que pediu aos quatro homens que se ajoelhassem com ele para pedir a Deus que os ajudasse - imagem insólita, a do ateu Guevara ajoelhado
ao lado de um adventista!28 Em seguida, Rosabal fá-los caminhar a noite inteira para os conduzir a casa da cunhada, que tem também a preocupação de alimentar os
seus hóspedes. Guevara vomita duas vezes antes de conseguir engolir um caldo. A ferida ainda o incomoda, mas sabe que escapou e não perde o sentido

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de humor. Entrega ao "pastor" uma mensagem para os pais, que o M-26 enviará pelo correio e que chegará a Buenos Aires a 31 de Dezembro, às dez da noite, metida debaixo
da porta, como um insólito presente de Ano Novo: "Estou bem. Já usei duas. Restam-me cinco. Continuo a tratar do mesmo assunto. As notícias continuarão a ser esporádicas,
mas esperemos que Deus seja argentino"29. Para os pais, é uma alegria. Ernesto está vivo! Descodificam facilmente a alusão às sete vidas dos gatos: houve, pois,
duas ameaças sérias. Também não havia mistério na referência a Deus-argentino, lugar-comum no Rio da Prata para significar o poder de um país opulento e dos seus
cidadãos, que não se deixam abater pelos piores desastres.
O adventista confia em seguida as suas ovelhas ao seu cunhado Guillermo García, outro líder camponês, amigo de infância de Celia Sánchez, que virá a ser o chefe
do exército rebelde em Oriente. García encaminha-os para a finca, a quinta de Mongo Pérez, irmão de Crescencio, onde Fidel Castro, chegado a 16 de Dezembro, estabeleceu
o quartel-general provisório do exército destroçado, que vai reconstituindo por fragmentos. Guevara está ainda em plena crise de asma, a 21 de Dezembro, quando chega
à quinta, mas aguentou firme. Ao vê-lo chegar, acompanhado por Almeida e pelos companheiros, Castro anuncia, grandiloquente, que a vitória está próxima.

A senha era mosquito

Fidel Castro, que se agarra às grandes referências do passado de resistência do seu país, gostaria de repetir ou, pelo menos, de fazer balbuciar a história cubana.
Mas - excepto, talvez, durante dois ou três dias - nunca tinha estado só com doze homens, como o herói da independência, Carlos Manuel de Céspedes, ou como Cristo
com os seus doze apóstolos, símbolo fácil, frequentemente utilizado no imaginário fidelista. Também ele teve de se esconder durante dias no restolho dos canaviais,
com Universo Sánchez, o inseparável, e Faustino Pérez, um dos seus comandantes. Como Guevara e os seus companheiros, sentiram a fome, a sede, a sensação terrível
de estarem perdidos numa região infestada de soldados. "A nossa revolução começou em condições inacreditáveis", dirá ele. Quando, ao fim de uma semana, consegue
finalmente entrar em contacto com Guillermo García (que avisará o M-26), está fisicamente combalido, mas o entusiasmo mantém-se intacto. Logo que chega à finca de
Pérez, na localidade de Purial de Vicana, está ansioso por reconstituir o seu "exército".
Reformulou a sua estratégia. Será uma guerrilha prolongada, que durará "o tempo que for preciso", mas que terá êxito. Guevara definirá bastante bem este novo estado
de espírito: "Os poucos sobreviventes - firmemente decididos a combater - compreendem a partir de agora que se enganaram ao imaginar levantamentos espontâneos por
toda a ilha; que a luta irá ser longa e que será necessário garantir uma grande participação camponesa"30. Raul Castro

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junta-se ao irmão dois dias depois, com quatro homens; em seguida Calixto Morales, o professor; depois outros; finalmente o Che e o seu grupo, e, mais tarde, quatro
voluntários camponeses que Fidel aceita nas suas fileiras: trouxeram-lhe armas (algumas encontradas no campo de batalha de Alegria de Pio) e também munições, cartucheiras
que a rede rural clandestina possuía e que as mulheres, as filhas e as irmãs tinham escondido debaixo das saias. Agora são vinte. Castro instalou-se na orla de uma
plantação de cafezais, na margem de um regato. O local fica apenas a 50 quilómetros de Alegria de Pio, de triste memória, mas pegada já aos primeiros contrafortes
da Sierra, difícil de detectar. O comandante rebelde começa seguro de si, por enviar Faustino à cidade de Manzanillo, para dar as suas instruções a Celia Sánchez,
depois a Santiago de Cuba, capital regional, para pedir a Frank País e aos seus camaradas que tragam jornalistas para a serra, para provar que o cadáver de Fidel
Castro, prontamente liquidado pelos comunicados militares e pelos telegramas da UPI, está de boa saúde. Pede-lhes que organizem o mais depressa possível o apoio
da "planície" (o llano) aos combatentes da Sierra.
Essa solidariedade llano-sierra explica em parte a vitória de Castro, ao fim de dois anos. A dialéctica é por vezes complicada quem ajuda quem? mas o seu alcance
político é considerável, pois levanta a questão de saber quem, da cidade ou da serra, assegura a direcção do combate.
A planície, isto é, a resistência urbana, não teria certamente tido a audácia de acabar com a ditadura se não tivesse existido, muito concreto, o "foco" da luta
armada, o foco criado na Sierra por Castro e os seus combatentes. Mas estes também não teriam podido sobreviver, desenvolver-se, armar-se, retomar a ofensiva, se
não tivessem recebido o apoio logístico e humano do pessoal da planície. O combate das cidades foi, decerto, menos espectacular, talvez mais "confortável", apesar
da repressão policial, do que o dos guerrilheiros patinhando na lama da Sierra, mas foi o seu complemento absoluto. Debate fundamental, que por muito tempo agitará
a estratégia, a táctica e a filosofia da revolução cubana. Castro pensa que a cidade é o cemitério dos revolucionários e dos recursos humanos. Guevara, tal como
ele, manterá sempre uma autêntica desconfiança em relação aos combatentes das cidades, suspeitos de falta de garra e de disciplina. Após a vitória, proclamará, é
certo, que "a Revolução pertence tanto a um grupo como ao outro" e que "toda a energia dos militantes deve ser canalizada tanto para a planície como para a serra"31,
mas nunca esquecerá o contributo decisivo dos camponeses da Sierra ao combate revolucionário. Privilegiará sempre a guerrilha rural.
A terminologia "planície-serra" não é uma mera questão de linguagem. Cuba é, antes de mais, uma vasta planície quente e húmida, por vezes ondulada, pantanosa ou
arborizada (a manigua), plantada de cana-de-açúcar e tabaco. Com três modestos maciços montanhosos, um a oeste, outro no centro - a serra de Escambray que também
ficará célebre - e o mais importante de todos a leste, a Sierra Maestra, prolongada pela serra Cristal. Se retomarmos a comparação, que se tornou clássica com Humboldt,
da ilha indolentemente

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estendida sobre o mar das Caraíbas como um longo e delgado crocodilo preguiçoso de 1250 km, a cauda do réptil estende-se então a ocidente, para Havana, que fica
em frente da Florida, a cento e oitenta quilómetros, ao passo que, na extremidade leste, próxima da Jamaica e do Haiti, a cabeça do sáurio tomba, eriçada por essa
famosa Sierra Maestra, culminando, a cerca de 2000 metros, no mais alto pico do país, o Turquino, antes de mergulhar numa profunda fossa marinha. A serra não é grande
- cento e cinquenta quilómetros de comprimento por uns cinquenta de largura - mas a região é escarpada e selvagem, de difícil acesso, cheia de desfiladeiros, grutas
e cumes que se sobrepõem, zona ideal de guerrilha para quem quer esconder-se ou despistar quem o procura. Em algumas colinas, à sombra das folhas das bananeiras,
nascem as pequenas bagas vermelhas do café e, um pouco por todo o lado, plantações de marijuana, cultura semiclandestina nesta região, já colocada fora-da-lei pela
sua geografia. Por toda a parte se erguem, no céu, os penachos altivos coroando os longos troncos das palmeiras reais, uma espécie cuja beleza e abundância foi notada,
em 1492, por Cristóvão Colombo, que descobriu a ilha. A sua casca, castanha e flexível, imputrescível, é utilizada nas paredes dos bohios* e também nas embalagens
de charutos.

Nota: * Bohio: nome, de origem índia, dado às casas dos camponeses, cobertas de folhas de Palmeiras.

Apesar de Castro ter nascido nesta região de Oriente, nunca teve ocasião de conhecer de perto a realidade física dessa Sierra, difícil de percorrer por falta de
bons caminhos. Quanto a Guevara, embora tenha tido algum contacto com a vegetação tropical da América central e na Guatemala, nunca saiu das cidades. O monte, o
mato, essa pequena espécie de selva de tojo da Sierra Maestra, é, para ele, uma novidade. Muito diferente, aliás, da paisagem seca e amena da serra de Córdova da
sua infância. Quando a asma lho permite, readquire logo o seu gosto pela caminhada, adquirida durante os longos passeios da juventude. Pouco a pouco vai-se familiarizando
com esse novo modo de vida, e habitua-se à chuva, à lama, ao frio - pois não faz nenhum calor naquelas alturas, quando o termómetro desce aos cinco ou seis graus
e o pico Turquino desaparece entre as nuvens.
A única dificuldade real é a alergia que provoca ao asmático a juta das redes onde dormem, feitas a partir de sacos velhos. Ele não se queixa, não protesta, mas
prefere dormir no chão, mesmo que esteja húmido, enrolado num oleado velho. Só quando chegarem as redes de algodão é que ele se afastará da humidade, instalando-se,
como todos os outros, na rede esticada entre duas árvores. Utensílio emblemático dos países tropicais, herdado dos índios, que legaram o nome e o objecto, a rede
(hamac) constitui para os rebeldes um dos artigos indispensáveis do equipamento de base. Serve tanto para transportar feridos, como armas, alimentos, material. Cada
um instala-a à sua maneira, adaptando-a ao seu tamanho. Está tão intimamente ligada ao seu proprietário que, após poucos dias de uso, dizem por brincadeira os

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homens mal lavados que é pelo cheiro que cada um distingue a sua rede da do vizinho.
Aguardando a chegada de hipotéticos jornalistas, a melhor forma, para Castro, de provar que está vivo é desencadear operações militares. Depois das festividades
do Natal - nessa altura, Guevara, perito no asado, fez um churrasco de porco e vitela -, Castro decide que não é prudente permanecer ali mais tempo. É necessário
partir, penetrar de vez no labirinto vegetal da serra. Três sobreviventes de Alegria de Pio juntam-se a eles, guiados por camponeses que também se alistam. Uma emissária
do M-26 rural chega com mais um carregamento de munições, cartuchos de dinamite, granadas e, para Guevara, o livro de álgebra que ele tinha pedido.
Na noite de 30 de Dezembro de 1956, são vinte e nove a caminho debaixo de chuva. Dois dias de chuvadas glaciais imobilizam-nos. Não têm nada para se proteger, a
não ser pequenos oleados para cobrir as armas. Quando chegam à linha da crista e avistam os cumes dos montes Caracas, "ninguém conseguirá desalojar-nos", garante
Castro. Contudo, opta pela costa, onde se encontra, na foz do rio da Prata, uma pequena guarnição militar que poderia constituir um alvo perfeito. Levam onze dias
a chegar à colina que domina o miniquartel: uma caserna de tábuas com telhado de chapa de zinco, ocupada por onze homens, ali colocados para vigiar qualquer desembarque
suspeito. Pelo caminho, compram o que encontram em casa dos guajiros. Um deles, Dariel Alarcón, que ainda não tem dezassete anos, vende-lhes bananas, café e um porco.
Aterrorizado, toma-os por guardas rurais de Batista. Mas quando os verdadeiros guardas, para o castigarem por ter ajudado os rebeldes, matam, na sua ausência, a
sua jovem namorada e queimam o seu bohio, ele junta-se à guerrilha e torna-se um soldado dedicado de Camilo e de Guevara, cujo pseudónimo ficará na história: "Benigno".
Os rebeldes param também em casa de um camponês, Eutimio Guerra, "símbolo do campesinato", que garantiam ser de toda a confiança. Mas Guerra, manobrado pelos oficiais
de Batista, tornar-se-á, por dez mil pesos*, o traidor perfeito.

Nota: * Um peso cubano equivale a um dólar americano.

Há aqui um episódio que Guevara descreve num tom expedito sem se aperceber que, simultaneamente, nos dá a dimensão lúdica dessa guerrilha. Através dos camponeses
que interceptaram, os homens ficaram a saber que um dos administradores dos vastos terrenos onde se encontram é um tal Chicho Osório, personagem sinistra que semeia
o terror na região, obsequioso para com o poder, implacável para com os pobres jornaleiros. E, justamente, ei-lo que chega, bastante tocado pela pinga, montado numa
mula, com um negrinho à garupa. "Universo Sánchez gritou-lhe que parasse em nome da guarda rural e ele respondeu sem hesitar: "Mosquito". Era a senha"32. Começa
então uma autêntica cena de filme. Fidel Castro desempenha o papel de um coronel em missão de inspecção, furioso por verificar que os militares ainda

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não liquidaram todos os rebeldes. "Apesar do nosso aspecto patibular, conseffuimos enganar Chicho, talvez devido ao seu estado de embriaguez"33. O qual, "todo submisso",
dá razão ao coronel e proclama a adesão ao "meu general Batista". Fidel e os companheiros, cada vez mais divertidos, prolongam o interrogatório e vão tomando nota
dos camponeses da zona que são partidários dos rebeldes e dos que não o são. Escutam, calados, o tiranete contar que ainda há pouco esbofeteou dois camponeses "um
tanto insolentes", mas quando, reparando nas suas botas mexicanas, ele acrescenta: "um desses filhos da puta que castigámos também tinha umas botas dessas", dita
a sua sentença de morte. "O homem fez o resto do caminho como prisioneiro"34.
A noite cai, mas "havia luar". Luis Crespo, o guajiro rebelde, verificou que as informações fornecidas pelo administrador são exactas. Há dois guardas de vigia:
ele conseguiu distinguir a brasa dos charutos. Tudo isso é ainda em escala reduzida mas, na história da guerrilha, é um dos raros confrontos em que os rebeldes terão
vantagem numérica: "tínhamos muito poucas balas", diz Guevara. Daí a necessidade de aproveitar o efeito surpresa. A meio da noite de 17 de Janeiro de 1957, Castro
dá o sinal disparando a primeira rajada de metralhadora, enquanto duzentos metros atrás dele o sinistro Osório é executado. Todavia, os guardas tombam e não se rendem.
Quanto ao arsenal dos nossos aprendizes de guerrilheiro, é bastante revelador do armamento artesanal a que estão reduzidos: nada funciona. O pequeno grupo de Fidel
lança duas granadas: elas não explodem. Por seu turno, Raul atira um cartucho de dinamite, que também não explode. "Só nos restava avançar e lançar fogo à caserna,
arriscando as nossas vidas", conta Guevara. Universo Sánchez foi primeiro, e não conseguiu. Depois foi Camilo Cienfuegos a tentar; também não teve sucesso. Por fim,
Luis Crespo e eu aproximámo-nos de uma cabana, à qual Luis deitou fogo. [...] Foi o suficiente para acagaçar os soldados, que se renderam"35. Balanço entre os soldados:
três mortos e cinco feridos, dos quais três não sobreviveram. "Para grande desespero meu (como médico, pretendia manter reservas para as nossas forças), Fidel ordenou
que se reservasse aos prisioneiros todo o nosso stock de medicamentos para cuidar dos feridos"36. O comportamento "cavalheiresco" em relação aos feridos inimigos,
contrastando com o do exército, "que não só abatia os nossos como abandonava os seus", será tido em conta a favor dos rebeldes, bem como a preocupação de nunca levar
nada de casa de um camponês sem o comprar a um preço generoso, enquanto que o exército pilha à vontade. O que explica que, pouco a pouco, camponeses e até soldados
de Batista se passem para o lado da guerrilha. Para Castro, a vitória é total: nem uma arranhadela entre os seus homens, uma boa apreensão de armas e munições e,
observa Guevara, para quem estes pormenores prosaicos não deixam de ter importância: "Apreendíamos cartucheiras, combustível, facas, roupa e comida"37.
As duas horas deste minúsculo confronto não mereceriam um lugar de grande destaque na história se não tivessem marcado a primeira vitória da guerrilha contra as
tropas regulares. O seu efeito psicológico foi grande, antes

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de mais sobre os próprios rebeldes que, de certo modo, se vingam da derrota de Alegria de Pio e apagam um pouco o traumatismo da debandada. Quanto à opinião pública
cubana, ela verifica - pois os jornais falam do caso - que os rebeldes não parecem estar tão neutralizados como fora proclamado. "Tínhamos travado a nossa primeira
batalha quando todos pensavam que estávamos mortos", dirá Castro.

Quando os joelhos tremem

Sendo a mobilidade uma das leis da guerrilha, Fidel Castro e o seu grupo retiram-se logo de madrugada e voltam a subir as colinas, procurando sumir-se nessa Sierra
Maestra, que conhecem ainda tão mal. Castro não duvida que o exército se lançará no seu encalço. Decide então montar uma emboscada para defrontar o inimigo nas melhores
condições e instala o seu acampamento numa zona denominada Ribeiro do Inferno, na montanha, onde se erguem dois bohios vazios que ele nem sequer pensa em ocupar,
pois uma outra regra da guerrilha é nunca dormir entre quatro paredes e um tecto, para não se ser apanhado de surpresa. Ele teve uma amarga experiência disso após
o fracasso de Moncada.
"Fidel nunca deixava as linhas sem vigilância; fazia rondas para se certificar da eficácia da defesa. A 19 de Janeiro, de manhã, estávamos nós a inspeccionar a tropa
quando se deu um incidente cujas consequências poderiam ter sido graves"38. Para compreendermos esse incidente, convém notar que, entre o pequeno grupo rebelde,
a indumentária de cada um é ainda, forçosamente, bastante heteróclita. O uniforme vestido antes de desembarcarem do Granma há muito deixou de ser uniforme; o aspecto
desses homens um pouco hirsutos assemelha-se às vezes ao dos assaltantes de estrada. É certo que, antes do ataque de La Plata, aproveitaram a passagem a vau de um
rio para tomarem um banho "delicioso, admite Guevara, após tantos dias sem as mínimas regras de higiene"39, mas esse género de delícia é excepcional. Geralmente
cheiram mal e não dão por isso. Seguindo os conselhos de Bayo no México, apoiados por Castro, não trouxeram navalhas de barba nem escova de dentes. Alguns têm já
uma barba razoável. Outros nem tanto. Mario Soriol, um comerciante da Sierra que lhes vendeu algumas provisões, lembra-se que, no início de 1957, a barba de Fidel
mal começava a despontar e a de Raul tinha apenas alguns pêlos. "Pareciam uns garotos"40. Dariel Alarcón, Benigno, ficou impressionado com os colares de conchas
à volta do pescoço do negro Juan Almeida, que lhe davam o ar de um santeiro, um desses padres que celebram os ritos da África negra, muito vulgares em Cuba.
Um camponês, Julián Pina Fonseca, conta que nessa época Guevara parecia ter apenas "pele e osso. [...] A barba era ainda rala. Tinha um olhar fixo. Ficava-se com
a impressão de se estar a ser observado por um guerreiro chinês"41.

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No seu estilo alegórico, é o próprio "guerreiro chinês" que explica que foi a sua imprudência (ou a sua inconsciência) que esteve na origem desse tal incidente.
Esses jovens guerrilheiros gostam de se disfarçar ataviando-se com tudo o que encontram, sobretudo se isso lhes for de alguma utilidade. Antes de sair de La Plata,
Guevara apoderou-se de um capacete. "Trouxe, como trofeu do combate de La Plata, um belo capacete de sargento do exército de Batista, que usava com uma enorme arrogância"42.
Esse capacete quase lhe ia custando a vida. Quando os homens colocados por Fidel na linha da frente vêem surgir o grupo precedido por uma silhueta com capacete,
não estão com hesitações. É o inimigo. "Felizmente, nessa altura os companheiros estavam ocupados a limpar as armas e só a espingarda de Camilo Cienfuegos funcionava.
Ele disparou contra nós [...] e depois a sua automática encravou"43. Grande sorte para Guevara que, se não fosse isso, seria abatido por aquele que viria a ser o
seu melhor amigo. O incidente revela bem o estado de tensão nervosa do grupo; os soldados estão próximo e, nesse caso, não se brinca.
Neste ponto, há uma observação de Guevara que nos revela que o anima um autêntico desejo de guerra, aconteça o que acontecer, semelhante àquela excitação jubilosa
que, há três anos, o fazia "regalar-se" ao observar o "espectáculo" dos bombardeamentos na cidade de Guatemala. Hoje, já não é testemunha passiva, mas actor de pleno
direito. "Todos aguardávamos o combate como uma libertação. Nesses momentos febris, todos, mesmo aqueles que têm nervos de aço, sentem um ligeiro tremor nos joelhos
e cada um deseja ardentemente a chegada do momento crucial da guerra: o confronto"44. Como desta vez o que escreve já não é uma carta pessoal aos pais, onde pode
abrir-se à vontade, mas uma narrativa que, publicada na Bohemia ou na Verde Olivo, será lida por um vasto público, corrige de imediato o que pode haver de chocante
na sua fraqueza, semiprotegendo-se atrás do "nós" impessoal da oficialidade cubana. "Todavia, combater não era o nosso sonho; fazíamo-lo porque era necessário"45.
O facto é que, durante esses dois primeiros anos em Cuba, Guevara se lançará no combate com uma voluptuosidade incontestável. "O que leva a alegria de todos ao paroxismo
é o combate, clímax da vida de guerrilha"46, dirá ele. A única reserva que Fidel Castro exprimirá publicamente em relação ao Che é justamente essa impetuosidade.
"Enquanto guerrilheiro, ele tinha um calcanhar de Aquiles, era a sua excessiva agressividade, o seu desprezo absoluto pelo perigo"47.
A 22 de Janeiro, às 5 da manhã, uma detonação alerta os homens de Castro. São os soldados da guarda que liquidam um "filho de haitiano", ou seja, um negro, que se
recusou a revelar-lhes a pista dos guerrilheiros. Estes aguardam, num estado de alerta permanente, os soldados, que só surgem ao meio-dia. "O combate foi terrivelmente
feroz"48. O Che faz a sua primeira vítima, um soldado que ele viu esconder-se no bohio. "Disparei um primeiro tiro naquela direcção, sem o atingir. O segundo tiro
atingiu-o no peito"49. Guevara corre, recolhe a cartucheira e a espingarda do inimigo, uma bela Garand americana que ele bem gostaria de conservar mas que será distribuída

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a um outro companheiro, Ameijeiras, que, mais tarde, lhe irá dar água pela barba. Três quartos de hora de combate. Cinco mortos no campo adversário. Nenhum ferido
nas fileiras de Castro. "Tínhamos medido forças com as do exército numa situação nova e havíamos superado a prova. O que veio subir bastante o moral das nossas forças,
dando-nos coragem para prosseguir, durante todo o dia, a nossa escalada para alturas inacessíveis, a fim de escaparmos às perseguições de maiores contingentes das
tropas"50.
Este comentário de Guevara não é uma mera figura de estilo. O exército, alertado pelo ataque mortífero de La Plata, envia de facto um "contingente maior" para acabar
com os rebeldes que pensava ter liquidado após a carnificina de Alegria de Pio. Organiza um cerco progressivo à Sierra Maestra, destacando para lá os seus melhores
elementos, e recorre à aviação, que irá bombardear implacavelmente tudo o que lhe parecer suspeito: e se se tratar de simples camponeses, paciência... Não tinham
nada que andar por ali... Fora-lhes pedido que abandonassem as suas pequenas culturas para os agruparem fora da Sierra, a fim de deixar campo livre aos militares,
e muitos tiveram o descaramento de recusar. O combate de Ribeiro do Inferno pôs, aliás, os homens de Castro em confronto com um dos melhores oficiais de Batista,
o tenente Sánchez Mosquera, cujo nome será citado em inúmeras descrições da batalha da Sierra, desordeiro temível, detestado pela população pelos seus inúmeros desmandos,
pilhagens, violações, assassinatos. As suas proezas em breve o alcandorarão ao posto de coronel. Durante dois anos, comandando unidades de elite, tentará, sem sucesso,
aniquilar a guerrilha. Guevara retira deste episódio um ensinamento que ele próprio irá pôr em prática, quando chegar a altura, e que sistematizará num manual, A
Guerra de Guerrilha: "O que é preciso é atingir a vanguarda. Quando os soldados se convencem que os da linha da frente estão mortos, o receio de virem também a morrer
pode provocar verdadeiros motins"51.
Oito dias depois, acampam nas altas colinas de Caracas (cujo nome é igual à capital da Venezuela) quando, de madrugada, "após uma noite gelada", escutam um zumbido.
"Cinco aparelhos avançam no céu. Subitamente ouve-se o voo picado de um avião de combate e em seguida o crepitar das metralhadoras e o rebentar das bombas. [...]
As balas de calibre 50 estalam ao tocar no chão. Parecia que saltavam da própria floresta..."52 Eles ainda não sabem, mas aquilo é o resultado da acção de Eutimio
Guerra, que se lhes juntara para os guiar. Com o pretexto de ir ver a mãe doente, foi a correr revelar a posição dos militares, que tiram todo o partido do excelente
material que os Estados Unidos forneceram a Batista, bombardeiros B- 26 e P- 47 de combate. "Com uma extrema precisão de tiro, o inimigo tinha atacado a cozinha.
O forno ficara feito em migalhas e uma bomba rebentara mesmo no centro do acampamento"53. Ninguém ficou ferido - milagre - mas, tal como após Alegria de Pio, dá-se
a debandada do grupo. É tão fácil alguém perder-se nesta vegetação tropical que Guevara e quatro companheiros levarão dois dias a encontrar o grosso da coluna dos
rebeldes. Ainda são só vinte e cinco, entre os quais

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dezassete que se consideram já como "veteranos" do Granma. Através de um camponês aterrorizado, ficam a saber que a pequena mercearia do lugarejo mais próximo acaba
de ser assaltada pela soldadesca: mercadoria pilhada, local incendiado, mulas requisitadas após execução do proprietário e rapto da mulher do merceeiro. O mistério
que os intriga é o de não perceberem como foram detectados. Atribuem a causa ao fumo no céu, produzido pelo seu pequeno-almoço; a partir de agora, só acenderão a
fogueira à noite. A única consolação vem de Celia Sánchez que, da cidade, lhes faz chegar uma trouxa de medicamentos e de roupa: "Para nós, foi uma grande emoção
receber, numa altura daquelas, uma muda de roupa com iniciais bordadas pelas raparigas de Manzanillo!"54.
Mas o exército ronda por ali, perigoso. Eles sabem-no. Mergulham então no melhor refúgio do guerrilheiro, o monte (mato), que é necessário cortar à catanada para
abrir um caminho. Para Guevara, a avançada é bastante penosa, pois durante os primeiros meses na Sierra adoece frequentemente, o que o deixa furioso. Desta vez é
a malária. A febre enfraquece-lhe as pernas. "Foi graças ao guajiro Crespo e ao inesquecível companheiro Julio Zenón que consegui ultrapassar essa angustiante etapa"55.
Desmaiou uma vez, teve diarreia dez vezes. Está num tal estado que, excepcionalmente, o põem a dormir no bohio de um camponês hospitaleiro e o deixam para trás,
com dois camaradas. Para se reunirem ao grupo, voltam a perder-se, mas Raul Castro, que foi procurá-los, consegue encontrá-los.
E depois, dez dias após o ataque aéreo, repete-se a cena, com poucas alterações. Eutimio Guerra, cheio de descaramento, regressou. Sugere a Fidel que monte o acampamento
no fundo de uma ravina, para evitar, segundo diz, os bombardeamentos aéreos que prosseguem esporadicamente. Chove. Está frio. Eutimio não tem nada para se agasalhar.
Fidel propõe-lhe que se deite a seu lado, tapando-se com a mesma manta. Não passa pela cabeça de ninguém que a vida do comandante se encontra à mercê daquele canalha,
armado de uma pistola fornecida pelos militares para a tarefa específica de eliminar o chefe da guerrilha. Mas ele não terá a coragem de o fazer. Ao contar a história
dessa "longa noite sem impermeável", Guevara revela como, nessa época, é já íntimo de Fidel. "Eu e Universo Sánchez andávamos constantemente à volta de Fidel [...].
Veteranos do Granma e homens de confiança de Fidel, íamos-nos revezando para velar por ele pessoalmente"56.
A 9 de Fevereiro, um camponês vem avisá-los. Há uma movimentação de cento e quarenta soldados em direcção ao acampamento. "Fidel decidiu abandonar a zona. Subimos
até ao cimo do monte". Ouviu-se um tiro, seguido de uma descarga. Num instante, rajadas e detonações não pararam de soar... O ataque "concentrava-se no local que
acabávamos de abandonar"57. Mais tarde tirarão as devidas conclusões, compreendendo finalmente que Eutimio os denunciara. Para já, é o salve-se quem puder, mais
uma vez. Num abrir e fechar de olhos, o acampamento esvaziou-se. [...] O grupo dispersou-se a correr. A famosa mochila de que eu tanto me orgulhava, carregada de

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medicamentos, de rações suplementares, de livros e de mantas, ficou para trás. [...] Fugi a toda a pressa"58. Entre as vítimas inclui-se Julio Zenón, o camponês
robusto, analfabeto, que Guevara tinha decidido ensinar a ler, aos quarenta e cinco anos. "Estávamos na fase de distinguir o O do A, o E do I"59.

Um país sob tutela

Todas essas emboscadas, esse contra-ataque, essa perseguição poderiam parecer simples peripécias de um "jogo de escondidas" sempre trágico se, tanto perante os seus
homens como perante os guajiros que o acolhem ou o evitam, Castro não iluminasse esse combate através de uma filosofia simples, acessível a todos: a necessidade
de lutar contra a ditadura de Batista e dos seus esbirros, o direito dos camponeses disporem da terra que trabalham e do fruto desse trabalho.
São esses, esquematicamente, os eixos políticos do M-26 das cidades e do M-26 do campo, duas "frentes" entre as quais começam a manifestar-se certas discordâncias
às quais convém pôr termo: o llano (a planície), que não desarma no seu combate urbano contra as forças de Batista, parece, efectivamente, ter dificuldade em admitir
a necessidade de atribuir uma prioridade fundamental à luta dos guerrilheiros na Sierra.
Os dias 16 e 17 de Fevereiro de 1957 são de uma importância decisiva na história da guerrilha castrista: marcam, antes de mais, o primado absoluto, exigido por Fidel,
da serra sobre a planície. "Tudo pela Sierra", é a palavra de ordem que indica ao estado-maior do seu movimento, convocado para "o terreno", numa quinta da rede,
a de Epifanio Díaz, nos confins da Sierra. O outro acontecimento, que ultrapassa o anedótico, a entrevista-espectáculo que ele concede ao repórter norte-americano
Herbert Matthews. Os três artigos de Matthews, o primeiro dos quais sairá na primeira página do New York Times de 24 de Fevereiro, vão dar a essa pequena guerrilha
ignorada do planeta uma repercussão internacional e ao seu chefe uma imagem romântica de justiceiro democrático. Conseguindo que lhe tragam um jornalista de peso,
se possível dos Estados Unidos, Castro evoca mais uma vez um episódio da história do seu país, retomando uma atitude do seu ilustre antecessor, José Marti, cujo
modelo o obceca. Em 1895, uma semana antes de se lançar numa galopada romântica no seu cavalo branco e de ser liquidado em pleno combate pelas balas espanholas,
Marti fora entrevistado por um enviado especial do New York Herald. A história repete-se, como vemos. É impossível compreender a aventura de Fidel Castro e do movimento
que o segue se não o situarmos, em traços largos, no continuum de um país que nunca conseguiu verdadeiramente sair do estado colonial. Guevara é um grande leitor,
como se sabe, mas é mais através das suas conversas com Fidel e Raul do que pela leitura que descobre a história e a geografia desse país-crocodilo, cuja voluptuosidade
e langor tropicais não teve ainda tempo de apreciar.

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Inicialmente, houve o "postal turístico" que Colombo, ao descobrir essa região de Oriente, envia aos reis de Espanha: gaba as praias e os coqueiros, as águas límpidas,
a sinfonia estonteante dos pássaros: "Nunca vi um país tão belo". É certo que não há ouro, a grande cobiça dos conquistadores que em breve acorrem, mas a ilha servirá
de base rumo aos países que o têm: Peru, México, Florida. Uma chave, nos brasões de Cuba, simboliza a importância da sua posição estratégica de abertura ao golfo
e para garantir o controlo das Antilhas.
Seguem-se então quatro séculos de colonização espanhola que só terminarão em 1898, com uma independência "sob tutela"; mais um século do que as outras possessões
americanas. O açúcar - bênção dos colonos, maldição dos escravos - é a causa disso. Antes que as teses de Frei Las Casas a favor dos índios pudessem surtir algum
efeito, o bacilo de Koch, a sífilis e outras "prendas" do velho mundo deram conta dos primitivos habitantes da ilha, calculados em cerca de um milhão. De forma que,
no fim do século XVI, a indústria da cana-de-açúcar é forçada a importar mão-de-obra robusta e abundante: negros africanos, escravos. Ao contrário dos índios, são
vistos como não tendo alma e, embora morram novos, têm o bom gosto de se reproduzir bastante. O seu número chega a preocupar os amos. Poderiam transformar-se num
perigo, como no Haiti, ali perto, onde, instigados pelas ideias subversivas da Revolução Francesa, os negros se amotinaram e obrigaram os plantadores franceses a
refugiarem-se em Oriente - o que explica a frequência de patronímicos franceses na região. Essa revolta de escravos provocou entre os colonos cubanos um grande terror:
todo o movimento pró-independência poderia desembocar na horrível perspectiva de uma república negra em Cuba. Mais vale então aceitar o statu quo colonial espanhol
e falar de reforma em vez de revolução.
Todavia, é de um agrário, mação generoso, Carlos Manuel de Céspedes, que vem o primeiro sinal de liberdade. A 10 de Outubro de 1868, na sua plantação de cana-de-açúcar,
perto de Manzanillo, faz tocar o grande sino, a Deajagua (que o estudante Fidel trará um dia, como um trofeu, para Havana). Céspedes proclama a libertação dos escravos
e incita os seus compatriotas a sacudir o jugo espanhol. O movimento dos separatistas denominados mambis* espalha-se pela ilha e radicaliza-se: trinta anos de batalhas
entrecortadas por "repouso turbulento" (Marti). Um exército mambi instala-se na mata cubana a manigua, queima os canaviais, pratica (já) uma guerra de guerrilha
contra as tropas espanholas, tanto mais ferozes porquanto Cuba, juntamente com Porto Rico e as Filipinas, permanece como o único vestígio que a Espanha pretende
salvaguardar do seu império, outrora imenso. Os negros constituem o grosso dos rebeldes. Após a morte de Céspedes, Maceo, um general insurrecto, mulato de pele clara,
lidera o combate. A escravatura só será abolida em 1886, mas será transformada num salariado miseravelmente pago, que pode ser despedido à vontade; o sistema é ainda
mais vantajoso para os plantadores.

Nota: * Mambi: nome dado aos combatentes cubanos das guerras de independência.

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No século XIX, o fenómeno mais assinalável, talvez menos visível, é o progressivo controlo económico dos Estados Unidos sobre Cuba. Em 1819, já tinham comprado a
Florida à Espanha. Ao longo das décadas seguintes, Madrid rejeita várias propostas de compra de Cuba.
Por volta de 1880, as trocas comerciais com os Estados Unidos são seis vezes mais importantes do que com a Espanha. A maior ilha das Antilhas parece destinada a
tornar-se mais uma estrela na bandeira americana. Quando Marti provoca um novo sobressalto patriótico e, por toda a parte, redobra, mais severa do que nunca, a repressão
espanhola contra o retomar dessa interminável guerra de independência, Washington finge temer pelos seus interesses e envia para o porto de Havana o cruzador Maine.
A 15 de Fevereiro de 1898, o navio de guerra explode com a tripulação. Drama, certamente, mas casus belli perfeito (mesmo quando o inquérito subsequente prova que
a explosão, providencial, foi acidental). O conflito dura apenas alguns meses. Esgotados, os espanhóis em breve são derrotados. A sua esquadra é afundada na baía
de Santiago e a cidade ocupada. Em Dezembro de 1898, o tratado de Paris dá o "controlo" de Cuba aos Estados Unidos (que aproveitam a ocasião para comprarem também
Porto Rico e as Filipinas).
Deste modo, Cuba só se libertou da Espanha para cair no domínio do poderoso vizinho. Amarga vitória. A ocupação militar dos Estados Unidos, primeira de uma longa
série, vai durar quatro anos, o tempo necessário para lançar as bases do que virá a ser um protectorado de facto. A liberdade que é concedida aos cubanos não ultrapassa
a da dosagem da bebida denominada, por ironia, Cuba libre: quatro porções de Coca-Cola para uma de rum crioulo. As grandes companhias americanas apoderam-se, a preços
irrisórios, de imensas propriedades de cana-de-açúcar, tabaco, café. Graças a uma cláusula especial imposta na Constituição Cubana de 1902 - a emenda Platt - os
Estados Unidos conseguem obter não só uma base naval de concessão perpétua, Guantánamo, que permite vigiar as Caraíbas e a rota do canal do Panamá em construção,
mas sobretudo o direito de intervir à vontade nos assuntos cubanos "para garantir a independência [sic] e para ajudar a proteger as vidas, as propriedades e as liberdades
individuais". Graças ao que, os marines americanos virão por três vezes instalar-se em Cuba, de 1906 a 1909, depois em 1910, e ainda de 1917 a 1923.
Tinham os soldados ianques saído do país há três anos apenas quando nasce, na irrequieta província de Oriente, Fidel Castro. Essa zona de Mayari, onde ele passa
a sua infância, é dominada pela United Fruit Company, um Estado dentro do Estado, com a sua polícia, as suas escolas, o seu hospital, as suas piscinas e o seu clube
de pólo: uma potência. Nessa época, os Estados Unidos controlam 80% da produção açucareira, os caminhos-de-ferro, a electricidade, os telefones e os bancos. Como
a maior parte dos cubanos, Castro alimenta em relação aos Estados Unidos um ressentimento intenso e confuso, feito simultaneamente de atracção, de rancor e de um
vago complexo de inferioridade provocado pelo desdém, ou mesmo pelo desprezo dos ianques para

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com os dirigentes corruptos de um país derrotado, encarado como um fornecedor de açúcar e de prazeres fáceis. O big brother institui, aliás, um pacto económico bastante
perverso: a compra a uma taxa preferencial do açúcar cubano em troca de direitos alfandegários muito baixos para os produtos made in USA. Tudo benefícios para os
Estados Unidos mas, para Cuba, uma dependência acrescida da monocultura açucareira.
Em 1933 surge uma personagem "muito cubana", por ser representativa do aspecto mestiço da sociedade. Ninguém desconfia que vai transformar-se num ditador. Fulgencio
Batista é um mestiço de sangue negro, espanhol e chinês. Filho de um cortador de cana, chegou ao posto de sargento-estenógrafo. Quando os Estados Unidos deixaram
de apoiar a sua figura do momento, o general-ditador Machado, que disputava um terceiro mandato presidencial, tão fraudulento como os dois anteriores, um directório
de "estudantes rebeldes" forçou-o a demitir-se. Mas a sua partida não é suficiente. O sargento Batista que, inicialmente, exige melhores salários para os oficiais
inferiores, vê-se "promovido numa noite a coronel e a comandante do exército numa hora"60. Decide entregar o poder aos estudantes, os quais colocam na chefia do
Estado, devidamente enquadrado, um professor universitário liberal, Grau San Martin. De imediato são promulgados alguns decretos "revolucionários": jornada de trabalho
de oito horas, salário mínimo para todos os cortadores de cana, reconhecimento dos direitos sindicais, esboço de uma nacionalização da electricidade e de uma reforma
agrária. Washington torce o nariz. Mas o que ultrapassa os limites do tolerável são os "sovietes" que o jovem Partido Comunista, em princípio clandestino, começa
a organizar nas centrais açucareiras nas vésperas da zafra. Trinta navios de guerra cercam a ilha e o embaixador Summer Welles, chefe da diplomacia latino-americana
de Franklin Roosevelt, sugere a Batista que intervenha de novo. O que ele faz, sem qualquer cerimónia, depondo Grau discretamente mas castigando severamente os "subversivos".
A partir desse momento, do seu forte militar Columbia de Havana, é ele que, através de presidentes-fantoches, puxa os cordelinhos até 1940. Eleições sérias conduzem-no
então à presidência. Empurrado pela vaga democrática do combate dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, oficializa a autonomia da Universidade, inscrevendo-a
numa nova Constituição, e arrecada as divisas obtidas através da subida do preço do açúcar. O antigo sargento não recusou o apoio do partido comunista, (incluirá
até dois ministros comunistas no seu governo, em 1942), mas permanece mais do que nunca fiel aos Estados Unidos, que zelam pelos seus interesses. Estes últimos,
em nome de uma política de boa "vizinhança", suprimiram a partir de 1934 a impopular emenda Platt, mas substituíram-na por um acordo de comércio que lhes concede
o controlo total do mercado da ilha. Cuba permanece sob a sua tutela.
Os políticos que, a partir de 1944, sucedem a Batista - que se retirou para Miami - mais não fazem do que amplificar os males endémicos ligados à situação neocolonial
do país: especulação, prevaricação administrativa, introdução

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do gangsterismo no sector sindical, respeito apenas pelos interesses norte-americanos. Um jovem senador de Oriente, Eduardo Chibas, decide combater esta corrupção.
Não se contenta em reivindicar como os outros, a herança revolucionária autêntica do imortal José Marti; funda um partido seguidor da linha do herói, o Partido Ortodoxo,
que pretende correr com os exploradores quando 25% da população activa está no desemprego. Fidel Castro, de 26 anos, advogado recém-formado, é candidato "ortodoxo"
a deputado nas eleições de 1952. Também ele quer varrer a exploração, e mais ainda, se possível.
Um tiro espectacular agita então a opinião pública. Chibas suicida-se com uma bala no peito em plena emissão de rádio, gritando "Povo de Cuba, desperta!" A vitória
do seu partido parece mais garantida do que nunca. Era não contar com o putsch de Batista. Que regressa de Miami, onde, rei e senhor, fez estranhas amizades no mundo
da escroqueria. Toma conta do poder com toda a facilidade, a 10 de Março de 1952, na madrugada de uma noite de carnaval. As eleições são adiadas sine die e os gangs
americanos, secundados pelos seus acólitos cubanos, tomam conta de Havana. É o reinado, tantas vezes descrito, de mafiosos como Meyer Lansky ou do actor-vedeta Georges
Raft, donos de casinos e de clubes nocturnos. Os parasitas controlam máquinas caça-níqueis e lotarias de toda a espécie; o vício sob todas as formas reina no interior
do bairro americanizado de Vedado, apinhado de grandes hotéis e arranha-céus. Duzentos e setenta bordéis fazem de Havana um antro da prostituição na América Latina,
sem contar com casas de passe especializadas e bares de alterne, paraíso para turistas gringos, a poucas horas de avião de Nova Iorque. Alguns também vão à praia...
O advogado Castro apresenta queixa contra o usurpador, mas sem a menor ilusão. Compreendeu que, a partir de agora, o verdadeiro combate deverá usar outros meios,
sem ser os legais. Será o ataque ao quartel Moncada.

Sobrevivência, modo de usar

Tudo isso, que constitui a história escaldante do país onde se encontra há dez semanas, Guevara não o aprendeu nos manuais, mas pelas descrições dos amigos, por
vezes através do testemunho dos protagonistas. Mas a sua visão é continental. Tem consciência de essa luta ultrapassar o simples quadro de Cuba, de o seu alcance
atingir toda a América Latina. O inimigo é comum: a United Fruit ou os investimentos norte-americanos ditam a lei no conjunto do "hemisfério americano". Para ele,
o seu combate em Cuba é apenas uma etapa.
Quando o previnem que Matthews chegou para a tal famosa entrevista do New York Times, Fidel só dispõe de dezoito homens. Naquele momento, é todo o efectivo do seu
"exército". Todavia, monta uma verdadeira encenação para fazer crer ao jornalista que as suas tropas são numerosas, enxameando pela Sierra em pequenas unidades móveis
de vinte a quarenta homens. O seu

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fantástico optimismo fá-lo antecipar a realidade. Guevara está consciente da jogada, embora não tenha o talento teatral de Castro. "A presença de um jornalista estrangeiro,
de preferência norte-americano, tinha para nós mais importância do que uma vitória militar"61, declara ele. Desse modo, todo o grupo se presta, o melhor que pode,
ao espectáculo que Castro organiza com os meios de que dispõe. Faz de conta que recebe, através de pseudo-estafetas, esfalfados mas em sentido, mensagens de batalhões
inexistentes. Manuel Fajardo, um dos primeiros camponeses a juntar-se à guerrilha, conta no Livro dos Doze de Carlos Franqui: "Fidel pediu-nos que nos comportássemos
como verdadeiros soldados. Olhei para mim, olhei para os outros, para as nossas botas desfeitas, enlameadas, consertadas com arame... Mas fizemos a nossa parte;
eu marchava à frente, em passo militar"62. E Raul, por seu turno, passa e volta a passar com os mesmos homens.
Castro obtém tal êxito com a sua performance, no sentido inglês e francês do termo, que Matthews, impressionado, se deixa seduzir. Dez anos mais tarde, uma digna
"biografia política" de Castro, explicará como, aos 57 anos, apesar da sua grande experiência de jornalismo (cobriu a guerra de Espanha), se deixou enganar por aquele
rapazola de trinta anos, que sussurra, agachado ao seu lado, porque, como lhe explica, os soldados de Batista andam por ali, o que é verdade. "Ele sabia que precisava
de publicidade. Teve sempre um sentido muito apurado para ela, e um grande talento também. Essa entrevista foi uma das suas mais brilhantes jogadas [...]. Tudo o
que Fidel teve de fazer [...] foi "vender-me" a sua personagem. Bastava-lhe ser ele próprio"63. Matthews não desconfia por um momento sequer que o território que
o chefe da guerrilha controla não vai para além de alguns metros quadrados da tenda onde se abrigam da chuva. E escreverá: "Este homem tem uma personalidade esmagadora.
É fácil perceber porque é que os seus homens o adoram. [...] É um fanático culto e devotado a uma causa, um idealista, cheio de coragem"64.
Quando, após a entrevista de três horas, à qual não assiste, Guevara interroga Castro, este tranquiliza-o: "Ele respondeu afirmativamente quando lhe perguntei se
era anti-imperialista"65. Durante esses dias memoráveis, Guevara conhece algumas das mais destacadas figuras da época. De Santiago chegaram Frank País, o organizador
da resistência em Oriente um homem que, apesar dos seus vinte e cinco anos, "se impõe logo que começa a falar"66 e Vilma Espín, uma militante excepcional com quem
Raul Castro casará após a vitória. De Havana, para além de Faustino Pérez, emissário de Fidel, vieram Armando Hart, advogado, animador da resistência cívica na capital,
Haydée Santamaría, uma "veterana" de Moncada (ambos casarão mais tarde). E depois há sobretudo aquela que representa a cavilha mestra operária do M-26, em Manzanillo
e nos arredores, a espantosa Celia Sánchez, aquela que encontra solução para tudo, que consegue resolver, ininterruptamente, os mil e um problemas logísticos. Filha
de um conceituado médico, conhece toda a gente, é estimada por todos. Com trinta e seis anos, solteira, de rosto oval, sorriso aberto, sedutora, foi ela que montou
os "comités de acolhimento"

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que na praia esperaram muito tempo, em vão, os homens do Granma, foi ela que conduziu Matthews a Fidel, do qual é apoiante incondicional mas que, até então, nunca
tivera ocasião de conhecer pessoalmente. Ninguém sabe se houve uma atracção mútua quando ambos se encontram pela primeira vez, mas a simpatia recíproca é tão forte
que, quando a polícia começa a apertar o cerco em torno dela em Manzanillo, ela vem refugiar-se na Sierra e, a partir daí até ao fim dos seus dias (em 1980), nunca
mais deixará Fidel Castro. Será a sua confidente, a sua secretária, a sua mulher, a sua sombra protectora. Junto de Guevara desempenhará o papel de irmã mais velha,
carinhosa, e entre ambos estabelecer-se-á uma amizade profunda.
"Só precisamos de uns milhares de balas e mais uns vinte homens armados para ganharmos a guerra contra Batista", garante Castro com toda a convicção. Passado um
mês, Frank País envia-lhe 58 homens, encaminhados por Celia Sánchez. Entretanto, é urgente que Castro regresse ao refúgio do mato; os militares andam por perto.
Antes da partida, decidiu-se a sorte de Eutimio. Este, convencido que ninguém desconfia dele, teve o descaramento de voltar a aparecer. Descobre-se que traz consigo
prova flagrante do seu jogo duplo um salvo-conduto dos serviços de Batista, uma pistola e algumas granadas. Ele confessa, cai de joelhos, pede que o matem. Guevara
transforma a execução do traidor numa cena de ópera wagneriana: "Naquele momento estalou uma grande tempestade e mergulhámos na escuridão. No meio de enormes trombas
de água, sob um céu riscado de relâmpagos, seguidos dos trovões, terminou a vida de Eutimio Guerra, sem que nem os companheiros mais próximos dele tivessem podido
ouvir o tiro"67.
Os dias seguintes permaneceram negros na memória de Guevara: "para mim, pessoalmente, a mais penosa etapa da guerra"68. É sempre o maldito problema respiratório.
No terceiro dia de marcha perde o aerossol, quando a crise de asma se anuncia, ameaçando ser forte e a humidade que os rodeia é absolutamente contra-indicada para
esse tipo de doença. "Era a época das chuvas na Sierra Maestra e todas as noites ficávamos encharcados até aos ossos [...]. A minha asma estava tão assanhada que
me impedia de caminhar normalmente [...]. Um numeroso grupo de soldados preparava-se para ocupar o terreno. Era preciso avançar a toda a pressa antes que a tropa
nos cortasse a passagem. [...] Chegámos todos ao cume. Todos menos eu; consegui lá chegar mas depois de terríveis esforços, lutando contra um ataque de asma tão
forte que praticamente não conseguia pôr um pé diante do outro"69. Guevara faz-nos então uma breve descrição da afectividade brusca que se manifesta na solidariedade
da guerrilha. Com o seu tom rude e a sua robustez de camponês, o guajiro Crespo vem em seu socorro. "Quando eu já nem aguentava mais e pedia que me deixassem, o
guajiro dizia-me naquela linguagem típica entre nós: "Argentino de merda, hás-de marchar nem que seja à coronhada..." Não só me encorajava com estas palavras como,
para além da sua carga, carregava comigo e com o meu saco nas passagens mais difíceis da montanha. Entretanto, caía-nos em cima uma carga de água"70.

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Sobrevivência, modo de usar. No seu manual de guerrilha, o Che sublinha as qualidades de resistência e tenacidade que são exigidas ao combatente rebelde. Para os
novatos, a aprendizagem é dura. Recorda-se de um que fraqueja: "Teve uma crise de nervos e, na solidão e no silêncio da serra, pôs-se aos gritos, a dizer que tinha
partido para um acampamento cheio de provisões [...] e que, em vez disso, estávamos cercados [...] não parávamos dois dias quietos no mesmo sítio, morríamos de fome
e nem sequer tínhamos água para beber"71! Guevara admite que é esta, pouco mais ou menos, a reacção dos combatentes durante os primeiros dias de acampamento e define,
sem floreados, qual deve ser a têmpera do guerrilheiro: "Os que aguentavam firme [...] aprendiam a habituar-se ao pó, à falta de água, de comida, de abrigo, à insegurança
e acabavam por viver fiando-se apenas na sua espingarda"72. Nada é mais perigoso do que um excesso de higiene, porque isso fragiliza. Atento aos seus homens, Fidel
pede ao camponês amigo, em casa de quem pararam, que mande buscar na cidade os medicamentos para o Che, que estava bastante mal e, excepcionalmente, instala-o num
abrigo precário perto do bohio. pondo-lhe ao lado um recruta recente. "Num gesto de generosidade, Fidel deu-me, para nos defendermos, uma espingarda Johnson de repetição,
uma das jóias da nossa guerrilha"73. Apesar da adrenalina que lhe é trazida, Guevara levará dez longos dias para alcançar o grupo, cuja distância poderia ser transposta
num dia de marcha normal. A guarda anda por aquelas paragens e o seu companheiro treme sempre que o asmático, sufocado, não consegue reprimir a tosse, apesar de
todos os esforços. "Para avançar, apoiava-me de árvore em árvore e na coronha da minha espingarda"74. Também ele poderia afirmar que aquilo que fez nenhum animal
o teria feito.
Enquanto recupera o fôlego junto dos companheiros finalmente alcançados, contam-lhe as novidades: em Havana, a rivalidade para tomar o controlo do movimento revolucionário
à escala nacional levou uma nova geração do directório estudantil a lançar-se num ataque insensato ao palácio presidencial, que falhou trinta e cinco mortos. (Nesse
momento, a eliminação de Batista teria tirado todo o interesse à guerrilha de Castro. Teria dado o predomínio à cidade, à "planície", sobre a Sierra e teria obrigado
Castro a negociar os dividendos da vitória com os vencedores de Havana.) Por outro lado, a entrevista do New York Times fez sensação em Cuba onde, aproveitando uma
brecha da censura, todos os jornais a noticiaram. Fidel está prestes a tornar-se o símbolo da resistência para a juventude. O ministro da Defesa de Batista cobriu-se
de ridículo ao alegar que a entrevista fora forjada; Matthews publica então uma fotografia, na qual Castro surge sentado a seu lado. Irrefutável. Outra notícia encorajadora:
a chegada iminente dos reforços prometidos por País.
É Guevara, recomposto, que é encarregado por Fidel de ir acolher estes novos recrutas. Ele nota a diferença entre eles próprios, que aqueles poucos meses transformaram
em centuriões "barbudos, com sacos feitos de bocados de pano, atados de qualquer maneira, e os novatos, de fardas ainda novas, com belas mochilas todas iguais, de
rosto barbeado de fresco [...]. Não

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estavam habituados a comer apenas uma vez por dia [...] e arrastavam sacos atafulhados de coisas inúteis"75. Ainda por cima, não sabem marchar, observa Guevara,
que tenta controlar as coisas, mas tem problemas com o chefe deles, também vindo da cidade, e que recusa ceder-lhe o comando. "Nessa época, ainda não me tinha libertado
do meu complexo de estrangeiro"76, explica Guevara, a quem Fidel censurará não ter sabido exercer a sua autoridade. Ele não esquecerá a lição e em breve se libertará
desse tipo de hesitação, passando a comportar-se como cubano sem por isso ocultar a sua condição de argentino. Ao fim e ao cabo, é um Che.
Escarnecido pela imprensa, Batista gostaria de se ver livre dessa guerrilha que, mesmo distante, é um furúnculo desagradável. A sua ausência de vitória da sua parte
é já uma derrota, porque os rebeldes aproveitam-na para garantir o controlo em zonas da Sierra onde os militares, escaldados, não ousam aventurar-se, e que a guerrilha
decreta, com bastante ênfase, "territórios libertados". Castro, arranjou, de resto, um émulo. Refugiado em Miami após ter sido derrubado por Batista, o antigo presidente
Prío Socarras decide também participar na corrida ao poder. Dono de uma fortuna fabulosa, retirada dos cofres do Estado, arma um iate, o Corinthia e, por seu turno,
financia uma expedição que manda desembarcar em Oriente e que será implacavelmente esmagada no próprio dia, 28 de Maio, em que os "fidelistas" obtêm uma nova vitória
sobre uma guarnição militar bem protegida.
Graças aos reforços enviados da cidade, Castro recupera mais ou menos o equivalente dos efectivos que haviam desembarcado do Granma. Redistribui os seus homens,
entrega os comandos ao seu irmão Raul, ao negro Almeida e a Camilo Cienfuegos, colocado na vanguarda da coluna. Mantém Guevara a seu lado, na qualidade de "médico
do Estado-Maior". Esta função de médico não é, aliás, um mero pró-forma. Guevara exerce-a com os meios disponíveis, tanto junto dos seus companheiros como junto
dos camponeses que vão encontrando pelo caminho - apesar de Cienfuegos, sempre trocista, lhe chamar matasanos (literalmente: matador de gente sã). "Mal chegávamos
a um lugarejo, começava logo a dar consultas. Era um tanto monótono, pois eu não tinha medicamentos. [...] Mulheres desdentadas, crianças com barrigas enormes, doenças
parasitárias, avitaminose, eram geralmente as doenças da Sierra"77.
A fama deste médico que veio da Argentina espalha-se entre os camponeses, ao ponto de um espertalhão, que conviveu uns tempos com os guerrilheiros, descobrir um
expediente para atrair as mulheres, fazendo-se passar pelo Che: "Tragam-me as mulheres; vou examiná-las". E chega ao ponto de violar a mulher de um camponês. Castro,
que garante ter fuzilado "muito pouca gente" durante a guerra, é implacável com o impostor: "Fuzilámo-lo"78.
Antes de entrarem em combate, os guerrilheiros considerados "veteranos" treinam os recém-chegados na arte de se desenrascarem nas difíceis condições da Sierra. Familiarizam-nos,
através da prática, com o vocabulário brutal e directo, com o praguejar que pontua a mínima frase, mas habituam-nos

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também, por prudência, a nunca gritarem para não revelarem ao inimigo a sua presença; a, pelo contrário, falarem por sussurros; ao atravessar um campo descoberto,
nunca o fazer em grupo, mas um a um, mantendo uma certa distância entre si, de forma a que os aviões que patrulham a área pensem que se trata de um camponês isolado.
Ensinam-lhes a caminhar sem deixar rasto, a cuidar da arma, a montar uma rede, a proteger-se da chuva e do sol, a suportar sem grandes coçadelas as picadas infernais
dos insectos. Tudo coisas indispensáveis para "manter o moral".

Uma guerrilha de chapéus de palha

Os artigos do New York Times levaram uma equipa de televisão da CBS (Columbia Broadcasting System) a vir filmar in situ a guerrilha desses "selvagens" cubanos, tanto
mais que se sabe que entre o grupo se incluem três jovens norte-americanos, filhos de funcionários da base naval de Guantánamo que, segundo Guevara, abandonaram
a família "para satisfazerem o seu desejo de aventura vivendo connosco"79 (Terão imensos dói-dóis, que o Dr. Guevara irá tratando). Conduzida por Celia Sánchez,
a equipa de televisão conviverá cerca de dois meses com os guerrilheiros. Fidel Castro adora a coisa, apesar de não ter ainda consciência do poder gigantesco que
esse meio de comunicação, ainda pouco divulgado, irá ter. Contemporâneo lúcido de Citizen Kane, dará sempre uma grande importância àquilo a que ainda não se chama
uma política de comunicação. Quanto a Guevara, é mais reservado em relação à imprensa, cujo poder não ignora mas que por vezes o irrita pelo seu lado superficial
e de "poeira nos olhos". Naquele caso, diz ele, "tratava-se de dar mostras da nossa força e de evitar perguntas indiscretas"80. Castro não encontra nada de mais
"visual" do que mandar toda a gente subir, com equipamento e carga, ao pico mais elevado da Sierra Maestra e da ilha, onde se ergue um pequeno monumento a José Marti,
o Pico Turquino (1850 metros, no seu altímetro de campanha), prova de que a guerrilha controla realmente a serra. "Esta escalada ao nosso cume mais elevado implicava
um elemento quase místico"81, observa o argentino que, como vemos, se refere ao "nosso" cume como um cidadão cubano de pleno direito. Mal a equipa da CBS parte,
chega um outro jornalista norte-americano, Andrew Saint George. Guevara, que mais tarde o classificará como um "agente do FBI", ocupa-se dele, pois "era o único
que falava francês (naquela altura ninguém falava inglês). "A partir daí, a epopeia romântica dos bons justiceiros que se batem no mato contra os soldados do terrível
ditador vai tornar-se o tema recorrente de reportagem, tanto mais que a aventura de Fidel Castro não está ainda maculada com a etiqueta infamante de comunista. Pelo
contrário, Matthews, nos seus artigos, afirmou que o programa de Castro é, decerto, vago, mas que significa para Cuba uma transformação radical, democrática e anticomunista"82.
No seu livro, sublinha que, depois do seu scoop, "as montanhas

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passaram a ser um lugar de peregrinação para um exército de jornalistas da imprensa diária e não-diária, da rádio, da televisão e para os repórteres fotográficos"83.
Passam os dias e passam as semanas... Os media relatam, a guerrilha avança, o Che endurece. A Sierra, tão selvagem quando ainda a não conhecem, passa a tornar-se
uma amiga. "Prosseguíamos a nossa lenta marcha na crista da Sierra Maestra, ou nas encostas. Levávamos a outros sectores a chama revolucionária e a lenda do nosso
grupo de barbudos. Ia-se propagando um outro estado de espírito: os camponeses vinham saudar-nos com menos terror [...] sentíamos que íamos tendo mais confiança
com os nossos guajiros"84. Quando a asma o deixa em paz, Guevara revela-se um montanhista aguerrido. Prova-o a pequena aventura que lhe sucede durante uma marcha
nocturna, quando ele se afastou um pouco "para satisfazer uma necessidade natural. [...] Enganei-me no caminho e perdi-me. Ao fim de três dias, acabei por encontrar
o grupo"85. Mais ainda do que o reencontro comovente, que mostra já como ele era estimado pelos companheiros - "que acolhimento caloroso me fizeram!"86 - é a forma
como ele se desenrascou que é interessante. "Tive toda a ocasião para verificar que carregávamos às costas tudo o que é necessário para nos bastarmos a nós próprios
[...], comida [...], tudo o que é necessário para dormir, acender uma fogueira..."87. Sobre o que deve conter um saco de combatente, mais tarde escreverá páginas
bastante esclarecedoras. No seu breviário da insurreição armada, A Guerra de Guerrilha, retira um ensinamento teórico e prático das mínimas peripécias da vida guerrilheira.
Na América Latina, essa pequena obra preciosa é considerada por alguns tão "perigosa" que se tornará um texto de leitura obrigatória das escolas de guerra anti-subversiva,
a começar pela das forças especiais norte-americanas, com base no Panamá.
Em vez de montar emboscadas a camiões militares, como Guevara sugere, desejoso de lutar, Castro prefere organizar uma acção mais espectacular, que Batista não poderá
dissimular. "Fidel já tinha na ideia o confronto de Uvero (ao passo que nós estávamos tão ansiosos por combater que acabávamos por optar por soluções imediatas,
desprezando a paciência)"88. As armas que esperavam chegam em meados de Maio. Tinham sido já bastante usadas. Mesmo assim, Guevara fica fascinado. "Para nós, foi
o espectáculo mais maravilhoso do mundo. Aqueles instrumentos de morte, expostos ao olhar de todos os combatentes"89. A observação pode chocar as almas sensíveis,
mas traduz bem o sentido da realidade, muito pragmático, de um homem que compreendeu que na guerra é preciso matar, se não queremos ser mortos. Para ele, aliás,
a distribuição das armas transforma-se num rito de passagem, confirmando finalmente a sua opção quando, na confusão do baptismo de fogo de Alegria de Pio, ele decidira
salvar as munições em vez dos medicamentos. Castro confia-lhe uma espingarda automática americana M-1, "arma altamente cobiçada [...]. Nunca esquecerei o momento
em que me foi entregue a espingarda-metralhadora [...]. Foi assim que me tornei um combatente permanente.

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Até ali, acontecera-me combater ocasionalmente, mas era, antes de mais, o médico do grupo. Para mim, começava agora uma nova etapa"90.
A guarnição de Uvero está situada à beira do mar das Caraíbas, no sopé da Sierra Maestra, tal como o pequeno quartel de La Plata onde a guerrilha obteve a primeira
vitória. Mas este quartel está entrincheirado de outra forma, com cerca de sessenta homens, ninhos de metralhadoras e a protecção de pilhas de troncos da serração
vizinha, perto de um pequeno povoado que os rebeldes têm ordem de poupar. No dia 28 de Maio, "já despontava esse claro-escuro que precede a aurora e nós ainda não
estávamos em posição. [...] Pensava-se que a acção seria muito rápida"91. Puro engano. O combate dura cerca de três horas e é sangrento: seis mortos e oito feridos
entre os rebeldes, um dos quais o robusto Almeida. Mais do dobro entre os militares, que acabam por se render. A certa altura, os gemidos dos feridos, provocam uma
certa confusão entre os rebeldes, que é detectada por Guevara. Joel Iglesias, membro da sua esquadra, relata: "Então, o Che ergueu-se e avançou, deixando de tomar
precauções, descarregando a metralhadora e gritando: "temos de ganhar!""92 Evocando esse combate, Castro louvará em Guevara "o soldado que mais se distinguiu, realizando
pela primeira vez uma dessas proezas extraordinárias que iriam caracterizá-lo"93. Depois da batalha de Uvero, "que marca a entrada da guerrilha na idade adulta"94,
os generais de Batista consideram prudente evacuar as zonas costeiras da Sierra Maestra, deixando o campo livre aos rebeldes.
A sua promoção a combatente de pleno direito nem por isso o liberta das suas funções de médico. Pelo contrário, prevendo duras represálias, Castro decide afastar-se
rapidamente com os homens válidos e confia os feridos aos cuidados do médico-guerrilheiro. "O regresso à prisão de médico não deixou de me emocionar"95, confessa
Guevara que, contudo, não explicita a natureza dessa emoção. É evidente que preferia combater em vez de tratar os doentes. O seu velho amigo guajiro, Luis Crespo
garante que se Fidel o tivesse obrigado a ser apenas médico, o Che teria sido o "primeiro desertor". Em 1960, perante os estudantes de medicina de Havana, fará uma
autocrítica, semivelada pelo "nós" oficial: "Parecia-nos uma desonra estar à cabeceira de um doente ou de um ferido e procurávamos por todos os meios empunhar a
espingarda e demonstrar no campo de batalha o que era necessário fazer"96. Contudo, ele irá dar boa conta da sua difícil missão. São cinco homens a ter de se ocupar
de oito feridos, quatro deles incapazes de andar. Não é propriamente uma passeata ter de transportar homens em redes amarradas num tronco largo "que retalha as costas
dos que os transportam". Velocidade média: quatrocentos metros à hora. Apoiado por operários da serração, e em seguida por camponeses, consegue apesar de tudo abrigar
os seus homens na casa de um guajiro do M-26, Israel Pardo, transformada em hospital de campanha bastante precário, altamente vigiado, para impedir qualquer incursão
dos soldados de Batista, e cercado por uma rede de camponeses-sentinelas, prontos a dar o alerta ao mínimo sinal de perigo. Todo o mês de Junho de 1957 será dedicado
à cura dos companheiros feridos.

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Durante essas semanas de relativa imobilidade, Guevara vai consolidando o seu conhecimento sobre o campesinato da serra cubana. Toma consciência da miséria dessa
população esquecida sem a qual, todavia, a guerrilha em breve seria esmagada. "A situação do campesinato na região da serra era simplesmente horrorosa"97. Apercebe-se
do grau de credulidade e de ignorância das pessoas, e também da sua dedicação, da sua profunda ligação à terra, mesmo quando essa terra da Sierra Maestra, é ingrata.
Todos vivem obcecados pelas questões dos limites dos terrenos que permitem aos latifundiários contestar-lhes o direito de cultivar um pedaço de terra. Tem longas
conversas com eles. Tenta explicar-lhes que é possível, que é urgente "mudar o estado das coisas". Sobretudo a um deles que, exprimindo um desejo de terra secular,
teima em querer trabalhar as suas terras por conta própria, procura demonstrar que é preferível unir esforços numa cooperativa. À noite, à luz das estrelas ou de
um fraco candeeiro, os camponeses vêm escutá-lo; por muito que se tenha "cubanizado", a sua voz conserva ainda a melodia exótica da pronúncia argentina. Eles vão
contando as suas histórias, evocando lendas e superstições; ele improvisa pequenos debates políticos muito simples. Não fala de marxismo, idioma desconhecido, mas,
segundo o neologismo castelhano, "consciencializa", isto é, procura despertar as consciências... A propósito disso, escreverá: "A nossa missão consiste em desenvolver
o que cada um tem de bom e de nobre, em fazer de cada homem um revolucionário"98. Os guajiros serão tocados pelo seu discurso. Fidel Castro reconheceu quanto, naquela
época, ele próprio e os seus companheiros ignoravam a realidade social e física da região. "Quando chegámos nem sequer tínhamos feito um estudo geográfico da Sierra,
nem sequer tínhamos previsto a organização da Sierra Maestra"99. Por seu turno, Guevara, numa conferência de imprensa efectuada logo após a vitória, sublinha o tempo
que eles demoraram a ser plenamente aceites pelas populações miseráveis da montanha. Quase todos citadinos instruídos, vêem-se confrontados, logo após o desembarque,
com camponeses confusos, desconfiados, analfabetos - imagem invertida deles próprios -, que terão primeiro de conhecer e em seguida cativar". Nós éramos homens da
cidade, instalados mas não ligados à Sierra Maestra [...]. Um grupo que era tolerado mas que não estava integrado [...]. A atitude do camponês para connosco foi
mudando pouco a pouco, devido à repressão das forças de Batista [...]. Essa mudança traduzia-se pelo aparecimento do chapéu de palha de palmeira nas nossas fileiras
e o nosso exército de citadinos foi-se transformando gradualmente num exército camponês"100.
Nessa época, Guevara mantinha o seu aspecto magricela e o rosto de menino, cercado por uma barba rala. Já não usava o cabelo rapado como dantes. Fajardo, um dos
primeiros camponeses a aliar-se a Fidel, dá conta disso101. Agora, como todos os seus companheiros, tem uma cabeleira comprida, "como uma rapariga"102, observa uma
guajira, Heralda Ortiz. Mas esse repouso forçado foi-lhe benéfico; recuperou forças, apesar de a asma, que não o larga, se tornar por vezes muito forte. "Nesses
dias, não dispondo

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de nenhum calmante, via-me reduzido a uma imobilidade semelhante à dos feridos"103. Fuma então folhas secas, um remédio da Sierra. Um batedor que chega com medicamentos
descreve-o "como um animal acossado"104; nunca deixará de explorar, sozinho, esse continente de respiração cortada.
Não muito longe do acampamento, Guevara às vezes tomava banho num lago de águas transparentes. "E isso era um acontecimento"105, garantem as testemunhas. A sua preocupação
fundamental são os feridos, evidentemente. Dia após dia, vigia o seu restabelecimento e começa até a gracejar com Almeida; não esquece que foi ele que o tirou do
canavial de Alegria de Pio, quando já se julgava morto. Justa inversão de situações. "Ele tratou deles, salvou-lhes a vida"106, dirá Castro. Quanto aos cuidados
médicos que poderia dispensar aos camponeses da região, não tem ilusões; são as condições de vida, a subnutrição, que é necessário mudar. Quando recebe da cidade
um estojo de instrumentos de cirurgia dentária, proclama-se "arrancador de dentes". Não havendo anestesia química, é à força de anestesia "psicológica" pragas violentas,
raspanetes amigáveis pondo em causa a virilidade do paciente que tenta fazê-los suportar a dor. Novos recrutas camponeses vieram oferecer-se espontaneamente. Ele
equipa-os o melhor que pode, indo desenterrar velhas armas escondidas após a batalha de Uvero. Até que, um belo dia, a pequena coluna de cerca de trinta rebeldes,
com os homens válidos a ajudar os convalescentes, se põe a caminho em direcção ao ninho de águia do Turquino, para se reunir a Fidel. Este fica satisfeitíssimo por
voltar a ter junto de si os seus dois excelentes tenentes: Almeida, ainda um tanto combalido, e Guevara, que anuncia "missão cumprida". "Desde então", dirá Castro,
o Che "afirmar-se-á como um chefe competente e corajoso"107.
Logo após os abrazos de boas-vindas, o Che é confrontado com uma realidade mais complexa do que a sobrevivência em meio hostil: a dos meandros da luta política.
Em Santiago, Frank País continua a ter um comportamento exemplar. Com Celia Sánchez, garante uma logística notável, mas propõe também o que, para Castro, constitui
o cúmulo da heresia: a partilha do poder entre a planície e a serra. Isso numa altura em que Fidel insiste com Celia: "Todas as espingardas, todas as munições e
todos os recursos para a Sierra!". Por seu turno, em Havana, Carlos Franqui, chefe de redacção do jornal clandestino Revolución, insiste na oposição do M-26 a todo
o "caudilhismo", essa praga endémica da América Latina que consiste em deixar um chefe, um caudillo mais ou menos providencial, confiscar o poder. "Desejamos que
Fidel Castro [...] seja um líder e não um caudillo"108, escreve ele.
Guevara encontra Fidel em acesa discussão com duas figuras vindas de Havana: Raul Chibas, irmão daquele dirigente "ortodoxo" que se suicidou para demonstrar a primazia
da "honra sobre o dinheiro" e Felipe Pazos, antigo presidente do Banco Nacional que, constituindo uma excepção, não enriqueceu à custa do cargo. Para evitar a pequena
escaramuça, que pressente, no seio do Movimento, contra o seu "centralismo", Castro assina com esses dois moderados um "Manifesto da Sierra", pouco revolucionário,

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que fala de "frente popular" unitária contra a ditadura, de eleições livres, de plano de reforma agrária "com indemnização dos proprietários". Para ele, é uma forma
de garantir a sua liderança à escala nacional sobre o M-26, criando a cada um dos signatários a miragem de aceder à presidência da República após a vitória. Para
Guevara, cujo radicalismo não permite concessões mas que não foi chamado à discussão, trata-se de um mero compromisso necessário. "Um passo em frente, [...] uma
breve pausa na caminhada, nada mais que isso"109. Ainda não avaliou bem a astúcia do chefe guerrilheiro.

Comandante Che

O pequeno exército inclui agora cerca de duzentos homens. É demais para manter a agilidade necessária. Castro procede a nova reestruturação. Desta vez, não mantém
Guevara na sombra protectora do seu estado-maior"; já que ele deu tão boa conta do recado, confia-lhe o comando de uma coluna de setenta e cinco homens, com o posto
de capitão. Será designada, um tanto ingenuamente, por coluna n.º 4, para enganar o inimigo quanto ao número de efectivos da guerrilha. Guevara fica muito orgulhoso,
mas mantém o sangue-frio. Descreve-nos, num tom irónico, o aspecto insólito da coluna colocada sob o seu comando, "um conjunto inacreditável de armas e de vestimentas
que mereceu entre nós o cognome de desalojo campesino"110. A expressão não deixa de ter um certo humor (negro), pois os guerrilheiros tiveram ocasião de assistir,
nos sinuosos caminhos da Sierra, ao triste espectáculo dos campesinos forçados pelos militares a abandonar as suas terras e os seus casebres para que o exército
pudesse combater melhor os rebeldes através da política da terra queimada.
E então, a 21 de Julho de 1957, chega o momento inesquecível para Guevara. Alguns dias antes do aniversário da gesta fidelista, celebrada com uma missa, os oficiais
que sabem escrever - nem todos o sabem - são chamados a assinar uma bela carta de solidariedade para com Frank País, cujo irmão fora assassinado pela "tirania".
"Quando eu me preparava para escrever a minha patente à frente do meu nome, Fidel disse apenas: assina "comandante". Foi desta forma familiar e quase oblíqua que
me vi nomeado comandante da segunda coluna"111. Uma testemunha da cena, Edelfin Mendoza, conta: "Deviam ver a cara dele; o seu sorriso e a sua alegria eram indescritíveis"112.
Guevara completara vinte e nove anos. É o primeiro, na guerrilha, a alcançar esse posto, o mais alto do exército rebelde. Isso confirma que, a partir de então, será
chamado a combater e já não a "fazer de médico". E ele confessa: "Nesse dia, não cabia em mim de orgulho. Quem, de entre nós, não tem a sua pequena vaidade? Recebi
das mãos de Celia uma pequena estrela, símbolo da minha promoção, bem como um relógio de pulso"113.
É a partir deste momento que Ernesto Guevara, assim artilhado, vai transformar-se verdadeiramente no Che, tal como o descrevem as testemunhas

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que irão construir a lenda: um homem generoso, igualitário, mas de princípios inflexíveis, um asceta tão severo em relação a si próprio como em relação aos outros,
capaz de suportar mil sacrifícios para alcançar uma vitória sobre as forças da ditadura, um chefe temível, levando os seus homens a comportarem-se como heróis espartanos,
em todas as circunstâncias.
Fidel reserva-lhe como território de combate a parte oriental da Sierra Maestra, 200 km, e dá-lhe carta branca, "desde que seja prudente". A partir de então ele
vai levar uma vida semi-independente, procurando, através de algumas acções ousadas, mostrar-se digno da confiança que lhe foi concedida. Com a sua tropa de maltrapilhos
mal equipados, pouco treinados pois muitos são novatos, vai lançar-se em várias acções que, apesar de não constituírem marcos assinaláveis na história da guerrilha,
não deixarão de representar vitórias sobre Batista. O seu armamento é tão heteróclito quanto inoperante nos momentos cruciais: metralhadoras que encravam, espingardas
que não disparam, granadas que não explodem, explosivos que falham... Mas, face ao inimigo, Guevara vai fazer da sua guerrilha uma espécie de tauromaquia.
Em Bueycito, na noite de 31 de Julho, toma de assalto uma pequena caserna guardada por doze homens e incendeia-a "depois de ter retirado tudo o que nos pudesse dar
jeito". Quando quis dar o sinal de ataque disparando sobre a sentinela alertada pelo ladrar dos cães, nicles... "Carregava no gatilho, procurando enfiar-lhe um carregador
inteiro no corpo, mas a primeira bala falhou e fiquei sem defesa. Israel Pardo disparou, mas a sua pequena espingarda 22, em mau estado, também se recusou a funcionar"
e eis que o nosso herói-guerrilheiro compreende, numa fracção de segundo, que a salvação está na fuga: "Desatei a correr a toda a velocidade, sob uma chuva de balas
da Garand"114. Outras circunstâncias mostrá-lo-ão suficientemente intrépido para que não seja obrigado a esconder a verdade. Escreve a Fidel: "Estreei os meus galões
de comandante; foi um sucesso", mas nas suas Memórias*, precisa: "Apesar de a minha participação no combate não ter brilhado nem pelo vigor nem pelo heroísmo uma
vez que só enfrentei os escassos tiros com a parte posterior da minha pessoa, atribuí a mim próprio uma espingarda-metralhadora Browning, a jóia da caserna, e abandonei
a velha Thompson e as suas perigosas balas, que nunca disparavam no momento oportuno"115.

Nota: * Episódios da Guerra Revolucionária, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975.

Um mês depois, cenário mais ou menos análogo a El Hombrito. Organiza uma emboscada contra uma coluna de cento e quarenta soldados comandada por um certo Merob Sosa,
personagem cuja fama é tão sinistra como o temível Sánchez Mosquera. É certo que a sua arma funcionou quando, "após uma espera interminável", decide abater o sexto
homem da vanguarda, desencadeando uma fuzilaria geral. Mas, desta vez, é a metralhadora Maxim, "a única arma importante que possuíamos", que o seu utilizador não
consegue pôr a funcionar. E, contudo, mais uma vez, com as suas pequenas carabinas que fazem mais barulho que estragos, conseguem deter a avançada da coluna

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armada de bazucas. Para se vingar do recuo forçado, Merob Sosa fuzila quatro camponeses, culpando-os por não lhe terem comunicado a presença dos rebeldes. É por
isso que, "conhecendo bem o sistema do exército de Batista, costumávamos ocultar as nossas intenções aos camponeses"116, explica Guevara. A regra de ouro é fazer
do campesinato um aliado da guerrilha e não uma vítima, e muito menos um inimigo.
Com Fidel, criam uma pequena receita estratégica que consiste em jogar ao gato e ao rato com as forças de Batista, atacando o amor-próprio machista dos soldados.
Chegar a uma aldeia e tomar conta do posto militar, "fazer um acto de presença" e fugir. É garantido que, em breve, o exército irá retaliar. Ocupar então as melhores
posições nos caminhos de acesso, para montar uma emboscada. É este o esquema do confronto de Pino del Agua, em Setembro, perto de uma serração de pinho, a 1000 metros
de altitude. Guevara espera sete dias até ver subir cinco camiões carregados de guardas. Chove a potes. O que não impede a fuzilaria e uma debandada dos guardas.
Três camiões incendiados, quatro soldados mortos e, quanto aos feridos, um incidente eloquente relatado por Guevara. Quando ele repreende severamente um dos seus
homens pelo "acto de vandalismo" que representa o tiro que acaba de liquidar um ferido, um outro guarda ferido, que até ali se mantivera escondido, revela a sua
presença gritando aos rebeldes que se aproximam: "Não me matem! O Che diz que não se deve matar os prisioneiros..."117. A notícia deste combate irá espalhar-se em
Cuba, devidamente distorcida, por uma imprensa subserviente que começa a falar de um certo "agente comunista internacional conhecido pelo nome de Che Guevara"118.
Mais do que a sua imagem na imprensa, o "comunista internacional" está sobretudo preocupado com o controlo da sua coluna e com a disciplina e resistência dos seus
homens, que pretende exemplares. Não é tarefa fácil fazer-se obedecer por um grupo de homens que não são propriamente uns meninos de coro, muitos deles recrutas
recentes, ignorando "as virtudes formadoras das privações da vida de um combatente". Nessa época, Guevara é uma espécie de magricela cuja aparente fragilidade é
desmentida por uma energia espantosa, apoiada numa vontade de ferro. Torna-se um pouco trocista quando alguns o tratam por "comandante" de um modo afectado. Não
tem tempo a perder com explicações sobre a sua filosofia do combate, a saber que ao lutar contra a ditadura, o guerrilheiro é levado a "substituir uma ordem injusta
por algo novo". Esta linguagem é ainda demasiado abstracta para camponeses que se juntaram a eles porque o exército os persegue e porque os proprietários lhes roubam
as terras que eles desbravam. Para expulsar definitivamente esse exército da Sierra, Guevara precisa, antes de mais, de combatentes experientes. É na experiência
do "marcha ou morre" que ele vai basear a sua selecção. "A marcha é o elemento de base da guerrilha, que não pode ser tolhida por gente lenta ou fatigada"119, escreve
ele em A Guerra de Guerrilha; cinquenta minutos de marcha, seguidos de dez minutos de descanso, e volta-se a partir. Toda a noite, geralmente, ou todo o dia,

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Nesta página existe um mapa intitulado:
Geografia da Epopeia da Sierra Maestra

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quando a floresta os protege dos ataques aéreos. As palavras de ordem são transmitidas ao longo da fila indiana. Os surrealistas teriam apreciado esta variante do
"cadavre exquis": quando chegam ao destino, as mensagens são por vezes bastante originais.
Enrique Acevedo, um rapaz de catorze anos, veio juntar-se ao grupo; mais tarde tornar-se-á general. Recorda-se daquilo que antes de mais o impressionou: o cheirete,
feito de suor, urina, de corpos não lavados. Descreve o aspecto desgrenhado da maior parte desses barbudos, piolhosos no verdadeiro sentido do termo, vestidos às
três pancadas, enlameados, ao ponto de lhes chamarem descamisados, como os proletários dos subúrbios de Buenos Aires, tão caros ao peronismo. O Che não tem melhor
aspecto. As suas roupas estão rotas... Acevedo refere sobretudo a obsessão diária de cada um: comer, beber, curar as feridas. Um pedaço de malanga, grande tubérculo
insípido, cozida, sem sal, e meia lata de sardinhas por cabeça, e às vezes nada para beber, a não ser, quando chove, a água de um charco. Um "veterano" ensina-o
a encher um cantil, cortando rente as lianas dos bosques. "Quem consegue aguentar as privações torna-se um verdadeiro eleito"120, garante Guevara.
"Muitos deles sofrem de disenteria, outros de malária, apanhada nos arrozais da planície, quase todos têm os pés cheios de bolhas e furúnculos nos ombros, provocados
pelo roçar e pelo peso do saco e da espingarda"121. Como não há medicamentos, o médico pouco pode fazer mas, observa Guevara, "uma simples aspirina pode ter um grande
efeito se for dada pela mão amiga de quem sente e faz seus os sofrimentos dos outros"122. Régis Debray, que será confrontado com este género de experiências, afirmou
que "nos primeiros tempos da serra a vida não é mais que um combate diário, nos mais ínfimos pormenores - e, antes de mais, um combate do guerrilheiro consigo mesmo;
[...] muitos desistem, desertam"123.
Apesar de vir da universidade, foi a experiência do Che como calcorreador das serras de Córdova e a sua enorme força de vontade que lhe permitiram adaptar-se ao
universo agreste e duro da Sierra Maestra, que transformou no seu território. Exceptuando as crises de asma, aguenta melhor do que alguns camponeses que se deixam
abater, que acham que é demasiado duro, que desertam ou pedem que os deixem ir embora. Nesses casos, acontece-lhe sair da sua reserva e entrar numa grande fúria:
"Que se ponham a andar os medricas e os papa-açordas"124, berra ele a um pequeno grupo que vem apresentar desculpas esfarrapadas para voltar para trás. Sabe que
esses podem muito bem transformar-se em salteadores ou em denunciantes. Dá-lhes meia hora para abandonarem a arma e correr. Depois disso, serão alvejados. Quando
um deles, o "Chinês", Wong, desertou levando a espingarda, acto criminoso, o Che enviou dois combatentes no seu encalço, um dos quais, tendo confessado que não traria
o desertor, seu amigo, foi imediatamente executado pelo outro. Guevara manda desfilar os seus homens em fila indiana, num rigoroso silêncio, diante do cadáver do
jovem desertor, "um simples camponês [...]. Eram tempos difíceis. A sanção servia de exemplo"125. Uma

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vez, deixa-se comover por um soldado de Batista que se juntou a eles, declarando-se também rebelde, e que lhe conta "a história patética da doença da mãe". Rói-se
todo de raiva. Não só o tratante faz com que a guarda assassine os quatro homens que o escoltam, como também se empenha em denunciar todos os camponeses que apoiaram
a guerrilha. "São incontáveis as vítimas que este meu erro custou ao povo de Cuba"126, reconhece Guevara, mais autocrítico que nunca.
Um dia, um acidente provoca um verdadeiro motim. Lalo Sardiñas, capitão e "combatente de elite", ameaçando com o revólver um guerrilheiro indisciplinado, dispara
inadvertidamente um tiro, "quando a lei da guerrilha proibia expressamente a aplicação de um castigo corporal a um companheiro"127. Os amigos da vítima ficam indignados,
exigem a execução imediata do oficial, lançam as armas ao chão. A revolta é tal que o discurso de Guevara não surte qualquer efeito. Fidel é chamado e propõe que
se vote o castigo, sugestão insólita num exército, mesmo revolucionário, mas que é aceite. Os mal-intencionados dirão que deve ter sido o único referendo verdadeiramente
democrático consentido por Castro. O facto é que a votação não resolve o problema. Saindo da cabine de voto improvisada com um oleado esticado entre duas estacas,
os duzentos e quarenta e seis guerrilheiros depositam os seus quadradinhos de papel num capacete: há um empate. À luz dos archotes, o advogado Castro lança-se então
num discurso de uma hora em defesa de Sardinas e consegue uma segunda votação, renhida, que poupa a vida ao oficial. Mas logo na manhã seguinte, duas esquadras entregam
as suas armas e pedem para partir. Vão-se embora. Guevara recorda os conselhos de Castro para depurar, sempre depurar. O autor do delito é despromovido e transferido
para a coluna n.º 1, enquanto Camilo Cienfuegos, outra "figura lendária", vem dirigir a coluna n.º 4, sob o comando do Che. E voltam a partir...

Uma ilha dentro de outra ilha

"As condições da Sierra permitiam-nos agora viver livremente num território bastante extenso"128. De facto, desde Setembro de 1957 que o exército não se atreve a
penetrar em zonas que não consegue controlar, e a guerrilha ainda não é suficientemente forte para fazer incursões fora da área agreste, mas protectora, da Sierra.
Tirando partido deste equilíbrio relativo, o Che decide instalar um acampamento sedentário numa clareira do monte, o vale de El Hombrito, no alto das colinas húmidas.
Espeta no pico mais alto, como um desafio, uma enorme bandeira vermelha e negra do 26 de Julho, que pode ser avistada ao longe, quando o nevoeiro se dissipa. "Feliz
ano de 1958!", ironiza um cartaz dirigido às tropas de Batista. E começa logo a organizar "centros de produção", pois grupos de jovens camponeses vêm reforçar as
fileiras da sua coluna e é necessário garantir o equipamento e o sustento dessa População, mais ou menos abastecida por almocreves.

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Constrói um abarracamento sumário que será baptizado, com um certo exagero, de "hospital", bem como um forno de cozer pão, de terra batida, e uma série de pequenas
cabanas de troncos e folhas para se abrigarem do frio da noite e por vezes da geada branca da manhã, pois, mesmo nos trópicos, o termómetro pode descer aos zero
graus quando se sobe a mais de mil metros de altitude. Não chegam a ter tempo de se habituar a essa base precária, pois Fidel encarrega-os de uma nova missão. É
preciso limpar a zona de alguns meliantes que, fazendo passar-se por guerrilheiros, pilham e aterrorizam os camponeses - a revolta inicial contra a injustiça é,
sem dúvida, legítima, comenta Guevara, mas "eles acabam por se ocupar apenas das suas questiúnculas pessoais, sem se preocuparem em derrubar a ordem social"129.
Daí a necessidade de uma "mão de ferro" para acabar com esses "focos de anarquia". Guevara descreve sem floreados a execução de um chefe de quadrilha, o Chinês Chang,
ladrão e violador. Três outros membros da quadrilha são poupados - "Fidel achava que era preciso dar-lhes uma oportunidade"130 mas, como castigo, vendam-lhes os
olhos e submetem-nos a um simulacro de execução. "Quando, após os tiros para o ar, os três rapazes se viram bem vivos, um deles correu para mim e, num gesto espontâneo
de alegria e reconhecimento, deu-me um grande beijo repenicado, como se estivesse diante do pai"131. Bela cena de um Guevara perplexo, à qual assiste o jornalista
Andrew Saint Georges, de novo em reportagem, que será publicada na revista Look e ganhará um prémio.
Sedentarizando-se, Guevara priva-se daquilo que, até então, constituíra o melhor trunfo da guerrilha: a mobilidade, a capacidade de desaparecer em poucos instantes
ao menor sinal de perigo, esquivando-se ao inimigo e, se necessário, atacando-o pela retaguarda. Pensa que os homens de Batista não se atreverão a penetrar até ali.
Mas este ponto de vista, demasiado optimista, não tem em conta a obstinação de Sánchez Mosquera em liquidar os rebeldes, sobretudo esse maldito argentino incapturável,
que o provoca. No fim de Outubro, Guevara regressa a El Hombrito a fim de acabar a sua instalação. Pretende construir um acampamento modelo e inicia a montagem de
toda uma infra-estrutura: uma represa, que fornecerá energia eléctrica, uma oficina de armeiro, uma correaria, uma espécie de pocilgas e galinheiros; pensa já em
editar um jornal. Como a bandeira do M-26 é uma verdadeira provocação que desencadeia diariamente tiroteios e bombardeamentos aéreos e como os rebeldes não conseguem
abater nenhum avião, a zona enche-se de abrigos antiaéreos e, no solo, são montadas emboscadas em todas as vias de acesso. Em todas, excepto uma, mal guardada, por
onde penetra justamente a coluna do inimigo mortal do Che, levando à frente, para o caso de o caminho estar minado, quarenta camponeses a sacrificar. "O exército
passou seis das nossas emboscadas, mas nós não disparámos"132, declara Guevara. Na realidade, trata-se de ver quem cerca quem. Neste género de jogo, Guevara não
tem a seu favor nem a vantagem numérica nem a do armamento - as suas munições são insuficientes -, nem, sobretudo, a agilidade de movimentos habitual; ei-lo

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agora prisioneiro do ponto fixo que tem de defender. Assim que manda evacuar o acampamento, os seus homens, dispersos, são forçados a combater numa série de confrontos
mortíferos em torno da região chamada Mar Verde.
Dia 29 de Novembro de 1957: "A luta durou onze horas, de manhã à noite"133. Sob o fogo inimigo, Guevara vai buscar o seu jovem tenente de 26 anos, Joel Iglesias,
gravemente ferido, trazendo-o às costas. Mas não se consola da morte do seu outro tenente, Ciro Redondo, atingido com uma bala na cabeça. Quando lhe dão a notícia,
ele acusa o toque. Uma testemunha, Javier Millan, recorda: "Pensava que um homem como ele não chorava, mas naquele dia ele foi-se abaixo. Vi-o abatido, com a cabeça
entre as mãos, a chorar"134. No ano seguinte, o Che dará o nome de Ciro Redondo à coluna que o leva à vitória. Para já, rápido recuo estratégico para La Mesa, uma
povoação próxima mais recuada, e última batalha num cabeço da crista da Sierra, "os montes de Conrado", com o nome do camponês comunista que lá vive, membro do Partido
Socialista Popular. "Ele prestara-nos inúmeros serviços. A sua casa era isolada: local excelente para montar uma emboscada. Só se podia lá chegar por três caminhos
estreitos..."135.
É aí que, a 8 de Dezembro, apenas semiprotegido por um tronco de árvore que mal o oculta, Guevara é atingido no tornozelo esquerdo: "Tive uma sensação desagradável,
semelhante a uma queimadura"136. Arrastando consigo um dos seus homens, também ferido, consegue alcançar o seu grupo. "Vingámo-nos da derrota de El Hombrito, escreve
ele a Castro. [...] Lamento não ter seguido os teus conselhos, mas achei que a minha presença na linha da frente era necessária"137. Numa mesa da pequena escola
de La Mesa, "com uma navalha", o doutor Machado, futuro ministro da Saúde, extrai do tornozelo de Guevara uma bala de M-1, que o atingido usará algumas semanas pendurada
ao pescoço, como um adorno. "A partir desse momento, a minha cura foi rápida"138.
Em El Hombrito, os homens de Sánchez Mosquera pilharam e incendiaram à vontade, mas após a resistência de Mar Verde e as baixas sofridas, retiram-se por uns tempos,
levando os rebeldes a pensar que, a partir de agora, controlam um "território libertado". Guevara está furioso por não ter recebido armas da planície e comunica
a Castro que irá responsabilizar a direcção do movimento, "pois começo a desconfiar que a minha coluna ou, mais exactamente, a minha pessoa, está a ser vítima de
uma sabotagem"139. Se assim for, propõe que o substituam no comando. Esta questão do fornecimento de armas foi levantada vezes sem conta pelo próprio Castro que,
numa carta a Celia Sánchez, se queixou de, desde Agosto só dispor de armas e munições retiradas ao inimigo. Carlos Franqui, que cita esse documento, rectifica todavia:
"Das duzentas armas de que nessa época o exército da Sierra dispunha, mais de cem, entre as quais as metralhadoras, tinham sido enviadas pelo Movimento de Santiago
e de Havana"140. Essa contabilidade não é anedótica, pois assenta na capacidade de a Sierra se fazer ouvir pelos companheiros da planície.

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Guevara faz de a Mesa o seu novo quartel-general. Retoma, com melhoramentos, a pequena infra-estrutura planeada em El Hombrito. Instala-se tendo em vista uma guerra
prolongada e pede até aos camponeses que semeiem, para as suas tropas, legumes, feijão, milho, etc., prometendo-lhes a compra de toda a colheita. Combina com pessoal
da aldeia vizinha o transporte de víveres, munições e de certo material de equipamento. "Foi assim que começaram a surgir récuas de mulas, propriedade das forças
rebeldes"141. Dá livre curso à sua criatividade e instala uma minicentral eléctrica servindo prioritariamente um hospital "ao abrigo de olhares aéreos". Uma correaria
confecciona algumas cartucheiras grosseiras, conserta o calçado e chega mesmo a criar um modelo de boné de couro que faz dos seus homens objecto de troça da comunidade,
pois o modelo é muito parecido com o dos revisores dos autocarros de Cuba. Uma "fábrica" fornece também charutos "execráveis, mas que nos pareciam deliciosos, uma
vez que não havia outros"142. Mais do que num D. Quixote, com o qual ele próprio ironicamente se comparou, é antes numa espécie de Robinson Crusoe muito sui generis
que ele se transforma, criando uma ilha de produtividade no interior de uma Sierra Maestra libertada mas cercada, uma ilha dentro de outra ilha. Tenta produzir meios
de alimentação, de protecção, de moralizar os seus homens e os camponeses da zona. Na "oficina de armeiro", constrói, com o material disponível, uma arma original,
de uma eficácia relativa, a M-26, capaz de lançar garrafas incendiárias a partir de uma espingarda de cano serrado, colocada num tripé. A bem dizer, a engenhoca
não assustará os soldados de Batista. Pela primeira vez após o naufrágio do Granma e da incrível reconstituição de um pequeno exército de guerrilha em torno de Castro,
o Che pode respirar um pouco. Antes de mais, está vivo, proeza notável, pois esgotou sem dúvida as sete vidas de gato que declarara aos pais ter concedido a si próprio.
Lutando como um louco, correndo apesar da asma, habituou-se a uma sobrevivência permanente, como Boris Vian a tocar trompete, com a sua doença de coração. Cada crise
traz em si a ressurreição.
Temem-no, pois é um chefe exigente e rigoroso, mas respeitam-no, porque é justo e não atribui a si mesmo nenhum privilégio. À noite, à hora de deitar, vai dar uma
palavra aos seus homens, mas será por timidez, reserva, gosto pela solidão? não é muito falador, em nada corresponde ao estereótipo do argentino loquaz e fanfarrão.
E, como não procura cativar, inspira confiança. A sua franqueza brutal choca por vezes alguns interlocutores habituados a mais "psicologia", mas provoca a estima,
pois não esconde nenhuma maldade. Quando o vêem lutar contra a asfixia, proibindo, arisco, que o venham a ajudar, os seus companheiros chegam a sentir uma certa
ternura pelo comandante. O seu saco, é sabido, é o mais pesado de todos, porque está cheio de livros. Grande leitor, assim que pode, à luz da madrugada ou de uma
vela, perdendo por vezes horas de sono, mergulha na leitura, vício impenitente. A sua velha amiga Chana, uma camponesa que ele adora (e que o adora), não cabe em
si de espanto quando o vê mergulhado "nesses livros

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sem imagens, todos cheios de letras. [...] Quando ele pegava num livro", conta ela, "era como se tivesse "partido", silencioso, de rosto sereno, como se estivesse
noutro mundo"143. Por vezes, fala desses livros aos seus soldados, a Camilo, a Ramiro Valdés, aos camponeses de la Mesa; cita Victor Hugo, Rubén Darío, o poeta indiano
Tagore, o chileno Neruda... Desde o México que conseguiu conservar uma História da Filosofia, que empresta como um tesouro a um homem de confiança, Raimundo Pacheco.
A um companheiro que tem de ir à cidade, pede-lhe que lhe traga o Capital de Marx "porque começara a lê-lo e nunca pudera acabá-lo"144. Devora tudo o que lhe vem
parar à mão. Acevedo, com a curiosidade dos seus catorze anos, bisbilhota o seu saco: "Não era Mao, nem Estaline, mas Um Americano na Corte do Rei Artur. Eu nem
queria acreditar"145. Uma fotografia, sem dúvida tirada em La Mesa, mostra-o deitado numa cabana de casca de palmeira, tendo à sua volta todos os ingredientes da
felicidade: de um lado, um cachorrinho aninhado no seu braço, do outro um aparelho de rádio; um charuto entre os dentes; está mergulhado num grosso livro que tem
por título, ou por autor, Goethe.
Apesar das duras condições da guerrilha, mesmo durante as marchas extenuantes, nunca abandonou por completo a sua droga favorita, a infusão de mate: água a ferver
deitada sobre uma yerba argentina, obtida sabe-se lá como, que gosta de beber amarga, como sempre, em pequenos golinhos. Jogar xadrez é um prazer raro, pois precisa
simultaneamente de um tabuleiro, de um parceiro e de tempo, mas, sorvendo o seu mate, conversa às vezes sobre tango com o capelão fidelista, Guillermo Sardinas,
que veio trazer a boa esperança, com a bênção do seu bispo. O padre-soldado celebra a missa quando pode, mas baptiza a torto e a direito adultos e crianças (de que
Fidel será padrinho). De todos os tangos, Sardinas declara preferir o Adíos Muchachos. Malicioso e um tanto provocador, Guevara responde que aquele de que gosta
mais é o que diz: "Yo quiero morir comigo, / Sin confesion y sin Dios, / Crucificao en mis penas, / Como abrazao a un rencor..."*

Nota: * "Quero morrer só comigo / sem confissão e sem Deus, crucificado na minha dor, / como que abraçado a um rancor...".

"O meu nome histórico"

Guevara está atento aos pormenores da vida quotidiana, mas não esquece o tempo longo da história. Nos seus Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, faz o balanço
desse ano de 1957, que foi sem dúvida o mais duro da sua breve existência, mas também o mais rico em peripécias de toda a espécie. Desde que Celia Sánchez lhe espetou
a pequena estrela de comandante na boina, os acontecimentos políticos em Cuba foram numerosos. Por vezes só teve deles, com atraso, um eco abafado pelos combates
da Sierra, mas as suas conversas com Fidel deram-lhe uma perspectiva dos acontecimentos. Sabe que a 30 de

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Julho, quando "os esbirros da tirania" assassinaram, em plena rua, Frank País, toda a cidade de Santiago se sublevou, arrastando nesse movimento uma parte da ilha:
três dias de greve geral e uma forte repressão. Sabe que na serra Escambray, no centro do país, militantes do "26 de Julho" e do Directório Revolucionário Estudantil
começaram a atear alguns focos de resistência armada. Sabe que, em Setembro, a base naval do porto de Cienfuegos se amotinou, mas que os insurrectos não ousaram
criar um foco de guerrilha na serra e foram massacrados. Tirámos uma conclusão, diz Guevara: "é aquele que detém a força é quem dita a estratégia"146. A lição não
será esquecida. Sabe que Castro teve algumas preocupações quanto ao destino da sua própria luta. Se um golpe militar, sobretudo de inspiração democrática como o
de Cienfuegos, tivesse conseguido a liquidação de Batista, a própria guerrilha teria perdido a sua razão de ser.
Quanto ao Che, teve uma preocupação ainda maior em relação ao próprio Fidel, chefe admirado, amigo respeitado, mas que ele suspeita de cumplicidade no compromisso
demasiado moderado assinado em Novembro, em Miami, em nome da unidade, por sete organizações políticas da oposição, entre as quais o M-26. Esse "Pacto de Miami"
esvaziava da sua substância revolucionária o combate que eles travavam na sierra. "Pensei coisas que me envergonho de ter pensado"147, dirá ele. Mais tarde, traçando
um balanço, escreverá: "O meu único erro de alguma gravidade foi não ter tido mais confiança em ti desde os primeiros momentos da Sierra Maestra"148. Felizmente,
o que é um alívio, Castro que não foi consultado e que se indigna com isso, denuncia vivamente esse pacto "cozinhado" por dirigentes que faziam, no estrangeiro "uma
revolução imaginária", enquanto que os do M-26 fazem, em Cuba, "uma revolução real". Está fora de causa hipotecar uma futura vitória. E para que ninguém tenha ilusões
sobre as suas hipóteses de se instalar na presidência provisória após a queda de Batista pois era disso que se tratava também em Miami, ele anuncia que o seu candidato
é "o digno magistrado do tribunal de Oriente, o Dr. Manuel Urrutia [...], que não pertence a nenhum grupo político"149. Figura honesta mas sem envergadura, um tanto
anticomunista; exactamente o que convém.
Guevara dá pouca importância a estas manobras políticas, para não dizer politiqueiras. Nunca terá muito jeito para esse tipo de jogos; é demasiado intransigente,
demasiado rígido nos princípios. Para ele, o combate em que se empenhou ultrapassa o quadro único de Cuba, é o de todo um continente. É necessário chamar as coisas
pelos nomes. "Infelizmente, teremos de enfrentar o Tio Sam demasiado cedo"150, escreve ele a Castro a 15 de Dezembro de
1957. Mais ou menos nessa data, enquanto está imobilizado pela ferida que cicatriza, envia um correio a René Ramos Latour que, em Santiago, substitui Frank País.
Acusa-o de direitismo. A sua carta é violenta mais tarde considerá-la-á "bastante idiota". Nela, declara sem rodeios: "Pela minha formação ideológica, sou daqueles
que acreditam que a solução para os problemas deste mundo está atrás daquilo a que chamam a cortina de ferro"151. Antes, em Abril de 1956, dirigindo-se à mãe, autocaricaturava-se
"escravo total da

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peste vermelha"152. Desta vez, o discípulo de "São Karl Marx" (San Carlos) já não brinca. Não é comunista, mas é convictamente marxista. Explicita, bruscamente,
pondo de parte toda a ironia: "Encaro este movimento (o 26 de Julho) como um daqueles provocado pelo desejo da burguesia de se libertar das cadeias do imperialismo.
[...] Foi nessa óptica que entrei na luta: honrosamente, sem esperar ir mais longe do que a libertação do país, disposto a sair quando as condições da luta forçaram
uma viagem à direita (no sentido do que vocês representam) em toda a acção do Movimento"153.
Se há algum génio na história, como diz Régis Debray, quando ela concede a seres excepcionais circunstâncias excepcionais, então ela parece ter revelado algum na
Sierra Maestra, pondo a combater lado a lado Castro e Guevara. A admiração do Che por Fidel é grande e sincera. Não é cega. Guevara encontrou Castro antes de o clã
se transformar em serralho e de o Líder máximo se tornar um "intocável". O Che manteve a sua liberdade de expressão; durante o seu convívio com Castro, será a sua
má consciência de esquerda, mesmo quando, por seu turno, lhe suceder ter de se sacrificar ao culto: "Sempre considerei Fidel como um autêntico líder da burguesia
de esquerda, embora a sua imagem seja realçada por qualidades pessoais extremamente brilhantes, que o colocam acima da sua classe", diz ele nessa mesma carta. E
conclui, regressando à "traição" que o Pacto de Miami representa: "É por isso que o meu nome histórico (aquele que eu tenho de construir, pela minha conduta) não
pode ser associado, perante a história, a esse crime, e nisto não cedo"154. Espantosa observação esta, de um rapaz de vinte e nove anos, mergulhado ainda na floresta
densa da Sierra e que já antevê o "nome histórico" que deve legar à posteridade. Não liga à resposta, lúcida mas convencional de René Ramos Latour que, recusando-se
a debater o lugar "onde se encontra a salvação do mundo", lhe responde: "Os da tua tendência ideológica pensam que a solução dos nossos males está em libertarmo-nos
do domínio nefasto dos ianques para nos colocarmos sob o domínio, não menos nefasto, dos soviéticos"155.
A questão do carácter comunista da revolução iniciada na Sierra Maestra é uma daquelas que não deixará de ser levantada pelos Estados Unidos, pela imprensa, por
diferentes correntes da oposição a Batista, incluindo o próprio M-26. Fidel Castro evitará dar-lhe uma resposta clara, e os sinais que fornecerá serão contraditórios.
É provável que, na Sierra, não fosse absolutamente nada comunista, nem sequer marxista. Mais tarde referir-se-á ao seu "analfabetismo político" nessa época. K. S.
Karol, jornalista extremamente bem informado sobre as questões do comunismo, descobriu uma pérola no Sierra Maestra de Junho de 1958, o órgão oficial do M-26 de
Miami. Lê-se aí que Castro não pode ser comunista porque "é oriundo de uma família de proprietários [...] e traz ao peito uma medalha com a Virgem do Cobre"156.
Requintada explicação. Apesar desta desvantagem, Castro também não é anticomunista. Tem junto de si dois bons apóstolos o seu irmão Raul e o seu caro amigo Ernesto,
o argentino que não escondem as suas simpatias marxistas. Fidel escuta-os, mas não tem em conta as suas propostas, pelo menos por

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enquanto. Está sobretudo preocupado em não afrontar nesse momento nenhuma das forças que podem ajudar a derrubar o ditador e a criar a era pós-Batista. Se fosse
necessário defini-lo, responde Guevara a um jornalista, poderíamos dizer que Fidel é "nacional-revolucionário"157.
Em todo o caso, nem a CIA, nem o FBI, nem as informações fornecidas pelos seus diplomatas em Cuba permitem a Washington afirmar que Castro é comunista. Um novo embaixador,
Earl Smith, chega em Julho de 1957; mantém uma certa distância em relação a Batista e presta mais atenção ao que se passa nessa turbulenta região de Oriente. Na
manhã do assassínio de Frank País, dirige-se pessoalmente a Santiago e ergue um protesto contra o "abuso da força" por parte da polícia que reprime a torto e direito
uma manifestação de duzentas mulheres vestidas de negro, gritando "Libertad, libertad!". Mais tarde, tudo fará para que três dirigentes do M-26 presos em Santiago,
entre eles Armando Mart não sejam mortos. Tad Szulc garante mesmo que um agente da CIA, Robert Wiecha, agindo sob a capa de vice-cônsul dos Estados Unidos em Santiago,
financiou o M-26 em cinquenta mil dólares, em várias prestações, a partir de Outubro de 1957. Mas as coisas ficaram por aí. Os Estados Unidos não aproveitaram a
ocasião de estabelecer o diálogo com um Fidel Castro que afirma não existir antiamericanismo no exército rebelde. Mantêm os seus fornecimentos de armas a Batista.
Quanto ao Partido Socialista Popular, nome eufemístico adoptado pelo Partido Comunista Cubano, só deixará de considerar os guerrilheiros como aventureiros em finais
de 1957 quando, em grande segredo, um emissário. Ursinio Rojas, virá informar Castro que o seu partido autoriza alguns dos seus membros a integrarem-se, a título
individual, no exército rebelde.
O que preocupa Guevara nesse ano é a mudança de atitude do campesinato em relação à guerrilha. Notou que os guajiros passaram de uma solidariedade espontânea, inicial,
a uma certa frieza, devido ao temor das represálias brutais do exército de Batista casas incendiadas, assassínios em massa. (Os próprios guerrilheiros compreenderam
então que o medo levara alguns à delação). Mas logo que a relação de forças se inverteu e as forças armadas foram obrigadas a abrandar a sua pressão, os guajiros
venceram o seu receio e começaram a juntar-se aos rebeldes. Fornecem-lhes víveres, garantem as ligações em tempos recordes, dão o alarme assim que há perigo, oferecem
uma mão-de-obra gratuita para a construção de cabanas e armazéns e acabam por aprender a disparar, como verdadeiros soldados do povo. E, melhor do que tudo, recuperam
a sua alegria natural.
Assim, à medida que a guerrilha de extracção citadina se tornava camponesa, os camponeses tornavam-se guerrilheiros. Esta dialéctica elementar é importante, pois
a partir daí, Guevara, com tendência para teorizar, vai estabelecer uma evidência ignorada pelo dogma marxista nascido no contexto da Europa industrializada, isto
é, que na América Latina e no Terceiro Mundo em geral o verdadeiro motor da história não é o proletariado urbano, mas sim o pequeno campesinato pobre. Os verdadeiros
condenados da terra são os que

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passam a vida, vergados sob o peso de mil servidões, nessa terra que trabalham com os seus braços mas que não lhes pertence.
Logo a seguir à vitória de 1959, numa série de artigos e entrevistas, e posteriormente na sua Guerra de Guerrilha, Guevara não deixará de sublinhar o carácter prometeico
da experiência cubana e da lição original que dela se pode extrair. Distingue três princípios gerais que vão "fazer mossa", inspirando muitos movimentos na América
Latina: 1) "As forças populares podem ganhar uma guerra contra o exército regular" (lição de optimismo, confirmada pela história recente); 2) "Nem sempre é necessário
aguardar que estejam reunidas todas as condições para fazer a revolução; o foco revolucionário fá-las surgir". (Não confundir rapidez com precipitação, mas não esperar
indefinidamente um dia D improvável: eis um escolho complicado no universo dos comunistas e daqueles "revolucionários que justificam a sua inacção" condenando aqueles
que consideram demasiado impacientes);
3) finalmente, uma vez que o verdadeiro proletariado do Terceiro Mundo é, antes de mais, de origem rural, "na América sub-desenvolvida, o terreno fundamental da
luta armada deve ser o campo"158. Percebe-se melhor, depois desta análise, porque é que, na Sierra, as primeiras medidas revolucionárias incidiram na reforma agrária.

Revolucionários na Revolução

O nevoeiro intenso amortece o ruído das detonações, mas distingue-se, amortecido, o crepitar das metralhadoras e os tiros. Há no ar um cheiro a pólvora, apesar da
humidade. O frio gela o suor na testa dos caminhantes. No alto da Sierra, na madrugada de 17 de Fevereiro de 1958, obedecendo ao guia que, de súbito, ordena que
ninguém se mexa, Carlos Maria Gutiérrez, jornalista uruguaio, imobiliza-se. Fez uma longa viagem para vir entrevistar esse argentino pouco conhecido, cuja acção
nefasta, ao lado do perigoso Fidel Castro é denunciada pelos jornais cubanos. Agacha-se, a tremer, de costas apoiadas a um tronco de árvore enegrecido pelo napalm.
Passado um bocado, na claridade difusa da vegetação interior da mata, surgem vultos que se aproximam no meio dos fetos e das ramadas. São os guerrilheiros da coluna
do Che que, num lento desfile, sobem para o acampamento de La Mesa, através de caminhos que bifurcam. Há mais de trinta horas que esses homens não dormem, explicam-lhe.
Acabam de travar, tal como há cinco meses, um segundo combate, sangrento, contra a guarnição de Pino del Agua. Fidel Castro quis aproveitar a suspensão (provisória)
da censura na ilha (com excepção de Oriente, considerado "zona de guerra") para recordar a Batista e à imprensa cubana que continua presente e activo na Sierra Maestro.
Reuniu o conjunto das suas forças, cerca de duzentos homens armados, nessa altura. Ele próprio conduziu as operações, muito excitado com essa batalha a ponto de,
desta vez, ser Guevara, juntamente com Raul, Celia, Almeida e uns quarenta homens, a pedir-lhe que não se exponha assim, na linha da frente.

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Na véspera, de madrugada, Camilo Cienfuegos, encarregado de dar início ao ataque, teve de chegar perto da caserna. Demasiado perto. O seu tiro foi mortífero, mas
ficou ferido na perna e no ventre. Ei-lo que surge, içado, numa maca improvisada; faz uma careta, mas aceita, à passagem, o cigarro aceso que o jornalista lhe oferece.
Os rebeldes sobem em silêncio as colinas escarpadas, derrapando por vezes na lama avermelhada, escorregadia, como que embrutecidos pelo cansaço e por uma tensão
nervosa que se vai apaziguando. De cabeça descoberta, apenas reconhecidos pelos uniformes amarelados, soldados prisioneiros transportam outros feridos em maca. Duas
mulheres, de espingarda a tiracolo, vigiam o estado dos feridos. A guerrilha de Castro também inclui mulheres, poucas, mas que combateram com bravura e não ficaram
sempre acantonadas em actividades de intendência.
Quando o Che chega ao seu acampamento de La Mesa, o jornalista já lá estava há um dia. Tinha sido guiado através de atalhos. O uruguaio teve ocasião de admirar o
sítio, enquadrado por dois maciços cobertos de florestas, bem como as instalações ocultas sob as árvores, invisíveis até para o olhar penetrante do pequeno avião-espia
que voa baixo para indicar aos bombardeiros que o seguem os alvos onde largar o napalm. Mostraram-lhe o "hospital" onde, entretanto, extraíram a bala do ventre de
Camilo, a escola onde três professoras alfabetizam os camponeses guerrilheiros e até alguns prisioneiros. Indicaram-lhe, discretamente instalada num cume, a estação
Rádio Rebelde, levada até lá, peça por peça, no dorso de mulas, cujo raio de alcance é ainda fraco. Reparou que havia um gerânio plantado diante do bohio do Che.
Tudo isso vem descrito num artigo que ele só publicará dez anos mais tarde, em Dezembro de 1967, no semanário Marcha de Montevideu. Quando o vê chegar à Mesa, à
frente de uma parte da sua coluna, Gutiérrez descreve Guevara deste modo: "Caminhava junto da sua mula e trazia às costas um saco pesado, uma espingarda com mira
telescópica e cartucheira, de onde pendiam duas granadas. Estava muito magro e uma barba rala enquadrava um rosto que era quase o de um garoto. No seu boné de pala
brilhava uma estrela dourada sobre uma pequena meia-lua. Era o único que tinha polainas sobre as botas de montanha. Os bolsos da sua camisa verde-azeitona estavam
cheios de papéis, blocos e canetas. Trazia uma pistola 45 à cintura. Os bolsos laterais das calças abarrotavam como alforges, e estavam deformados pelo peso das
balas e dos livros. Parou à sombra de um loureiro e perguntou, numa voz rouca e baixa, fatigada: "Que tal vai isso, Camilo?... O Fidel já chegou?" E, tirando do
saco o termos e a yerba, começou a preparar um mate. Uma rapariga veio trazer-lhe água quente"159. A cena é bíblica: Macabeu regressando do combate contra Antíoco.
Guevara mostra ao jornalista o objecto da sua principal atenção, uma escola militar para os jovens recrutas que chegam da Sierra, de Manzanillo, de Havana, camponeses,
estudantes, empregados de comércio. É um antigo oficial de Batista, convertido à revolução, o capitão Lafferté, que se ocupa da instrução desses jovens. Têm fé.
Falta-lhes experiência e armas que a planície ainda não enviou. "Falta muito para chegarem?", pergunta um deles. "Se

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estás com pressa, vai tirar a Garand a um casquito", responde-lhe Guevara, trocista. A sua brusquidão irónica não choca. Já conhecem o estilo do argentino. Os rapazes
sorriem, seguem-no com o olhar, numa espécie de admiração um pouco fascinada. A lenda começou na Sierra.
Diante do seu quase-compatriota (porque os uruguaios, do outro lado do Rio da Prata, são como irmãos mais novos dos argentinos) é estranho que Guevara não tenha
feito referência ao "boletim" que publicava nessa época. Eram algumas folhas mal impressas, mais próximas do folheto do que da gazeta paroquial, que contudo se proclamam
"órgão do exército revolucionário, de novo na manigua redentora", e estão datadas, com toda a simplicidade, da "nova era". O título El Cubano Libre é uma homenagem
ao jornal com o mesmo nome dos separatistas mambis do século XIX, em luta contra a Espanha. Distribuído (em pequena tiragem) sobretudo na Sierra Maestra, o boletim
de Guevara não teve mais do que uma dezena de números, de Dezembro de 1957 até meados de 1958. Não é o Tackle, o pequeno jornal de ráguebi dos seus vinte anos, em
Buenos Aires. É, com os meios disponíveis, um contributo para a guerra psicológica para desmoralizar o adversário e encorajar os camponeses. Guevara assina aí uma
espécie de editorial político, sob um nome que manterá mais tarde e que exprime bem a sua situação: "o franco-atirador". Numa escala mil vezes mais modesta do que
Castro, que explica à revista Coronet de Nova Iorque que foi obrigado a tomar a "terrível decisão" de mandar incendiar a colheita de cana de açúcar para forçar Batista
a "capitular", Guevara sublinha, em letras maiúsculas: "Com Batista, não há zafra!"160 É interessante notar que, dez anos antes de Debray levantar a questão "Révolution
dans la révolution?", o Che diagnostica: "Tornámo-nos revolucionários no interior da revolução [...] Viemos derrubar um tirano, mas descobrimos que é a imensa região
rural [...] que necessita urgentemente de uma libertação"161.
Mas para derrubar o tirano e libertar os camponeses é preciso sair da Sierra Maestra, ganhar terreno fora da cidadela montanhosa de Oriente. Em Março de
1958, Castro abre uma "segunda frente", na serra Cristal, cujo comando entrega ao seu irmão Raul, à frente de uma coluna de sessenta e cinco homens. Juan Almeida
é encarregado de uma "terceira frente" a noroeste de Santiago e, em Abril, Camilo Cienfuegos começa a aventurar-se na planície, em direcção a Bayamo. Simultaneamente,
multiplicam-se acções contra Batista por todo o país. A 15 de Março, por exemplo, há a "noite das cem bombas" em Havana, mas o "golpe" mais espectacular, de repercussão
mundial, é o do rapto do campeão de automobilismo, o argentino Juan Manuel Fangio. Raptado a 23 de Fevereiro de 1958, no hotel Lincoln, no centro da capital, reconhecerá
ter sido muito bem tratado pelos militantes do M-26, que só o libertam no dia a seguir à competição, depois de lhe terem pedido alguns autógrafos. O caso dá que
falar na imprensa internacional. Muitos são os que só nessa ocasião descobrem a existência do movimento de revolta contra o regime de Batista. Regime esse que sai
bastante ridicularizado.
Faustino Pérez que, enquanto dirigente do M-26 em Havana, congeminou a operação, "sobe" à Sierra para convencer Fidel que estão reunidas as

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condições para desencadear com sucesso uma greve geral que poderia dar o golpe de misericórdia na ditadura. Guevara e Raul mostram-se cépticos. Temem que o llano,
a planície, tire as castanhas do lume e que a revolução escape ao M-26. Fidel está menos reticente. Assina um Manifesto de 22 pontos, intitulado Guerra Total à Tirania,
que proclama que "a luta contra Batista entra na sua fase final" e que "a estratégia consiste numa greve geral revolucionária apoiada por uma acção militar". O perigo
que ele quer a todo o custo evitar é que se estabeleça um entendimento entre oposição civil e militares liberais, que o afastaria da corrida.
A greve geral é desencandeada a 9 de Abril de 1958. Constitui um trágico fiasco. Faustino Pérez e os seus companheiros da direcção acumulam erros sobre erros. Em
vez de sensibilizarem os ânimos, de mobilizarem todas as forças da oposição, em vez de anunciarem por toda a parte essa próxima greve geral, mesmo sem indicarem
a data exacta, esperam pelas onze horas da manhã para transmitir a ordem de greve imediata pela rádio, numa altura em que só as donas de casa têm o aparelho ligado.
A surpresa é geral. As escassas manifestações de apoio à greve são sangrentamente reprimidas: cento e cinquenta a duzentos mortos, um massacre; centenas de prisões.
Do alto da Sierra, a rádio rebelde clamava: "Greve, greve, greve!". Por muito que, no dia seguinte de manhã, Fidel anuncie: "Cuba inteira está ao rubro", o fracasso
da greve é total. Fidel está fulo de raiva: "Não passo de um merdas, que não pode decidir nada". Mas enfrenta a situação: "Sou visto como o chefe deste movimento,
portanto [...] devo assumir a responsabilidade das asneiras cometidas pelos outros"162. Com a sua prodigiosa capacidade de recuperação, vai mesmo tirar partido desse
recuo para resolver de uma vez por todas o velho conflito entre a planície e a serra, grosseiramente definidas como a direita e a esquerda do Movimento do 26 de
Julho. A Celia Sánchez declara, como de Gaulle: "Perdemos uma batalha, mas não perdemos a guerra"163, e convoca à Sierra Maestra todo o estado-maior do M-26 para
um grande momento de verdade, a 3 de Maio de 1958.
Guevara não faz parte da Direcção Nacional do Movimento (e Raul também não) mas as suas críticas a Faustino Pérez em Havana e a René Latour em Santiago foram tão
incisivas que o argentino participa na reunião para se justificar. Fi-lo, pela primeira vez, admitido no círculo dos principais responsáveis da revolução cubana.
Ao cabo de vinte horas de "intensa discussão", o Che aplaude, como se imagina, o resultado daquilo que ele qualifica como "reunião decisiva"; prioridade absoluta
à acção militar directa, reforço da autoridade de Fidel, que passa a ser simultaneamente secretário-geral do Movimento e comandante supremo das forças armadas, incluindo
as milícias urbanas, até então controladas pelo llano. Faustino Pérez e Latour são destituídos e levados para a Sierra. Haydée Santamaría ("veterana" de Moncada)
é enviada aos Estados Unidos para vigiar de perto e coordenar a recolha de fundos junto da colónia cubana e o jornalista Carlos Franqui é chamado do seu posto de
delegado do M-26 em Miami para vir ocupar-se da Radio Rebelde. A 29 de Maio, aterra num campo lavrado, semi-aplanado entre duas colinas. E descarrega

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trinta espingardas, balas, rastilhos eléctricos para as bombas enquanto o aparelho volta a descolar. Díaz Lanz, o audacioso piloto, já executou uma proeza análoga
poucos dias antes, trazendo da Costa Rica armas e munições cedidas pelo presidente da Costa Rica, o social-democrata José Figueres, graças aos bons ofícios de um
fazendeiro cubano, Huber Matos que, como recompensa, conseguirá que Castro lhe confie o comando de uma coluna.
O fracasso da greve de 9 de Abril tem duas consequências de importância diferente; por um lado, uma nova relação entre o M-26 e o PSP comunista e, por outro lado,
a decisão de Batista de acabar com a rebelião. Como já referimos, o M-26 nunca morreu de amores pelos comunistas. Até Guevara, apesar das suas simpatias marxistas
declaradas, lhes censura as suas desconfianças em relação à guerrilha e ao papel de Castro no combate revolucionário: "Vocês são capazes de criar quadros que se
deixam martirizar no fundo de uma masmorra sem abrir a boca, mas são incapazes de formar quadros que tomem de assalto um ninho de metralhadoras"164, diz-lhes ele.
Quanto a Castro, nota, muito pragmaticamente, que os comunistas dispõem daquilo que falta ainda aos partidários do M-26: uma experiência dos movimentos de massa,
uma disciplina perfeita, um real talento organizativo. Se alguém os convencer a fazer qualquer coisa, pode contar-se com eles. São bastante mais fiáveis do que muitos
militantes, mesmo os mais devotados, do seu próprio movimento. Por isso criticou os organizadores da greve de Abril por não terem incluído os comunistas. É certo
que sabe que existe um perigo: quem controlará quem. Mas, neste tipo de jogada, Castro é perito. Confia nos seus talentos de jogador. Em todo o caso, o PSP toma
nota destas boas intenções. Aguardará ainda, por prudência, que o comboio ganhe alguma velocidade mas, quando decidir saltar para a carruagem em andamento, enviará
um dos seus melhores dirigentes Carlos Rafael Rodríguez para junto de Fidel Castro.

A pulga e o martelo-pilão

Batista, um tanto eufórico, convencido de que os rebeldes estão enfraquecidos e desmoralizados pelo falhanço da sua greve e pela repressão severa que se seguiu,
pensa ser chegado o momento de organizar uma ofensiva a grande escala, denominada "FF" (Fim de Fidel). Recorre a meios de vulto: nada menos do que dez mil homens
repartidos por catorze batalhões, apoiados por artilharia, aviões, alguns helicópteros e fragatas da marinha prontos a metralhar a costa de alto a baixo. Uma espécie
de Apocalypse Now. A estratégia é simples: cercar a Sierra e apertar o cerco, cada vez mais, até ao aniquilamento ou à rendição dos insurrectos. Dez mil homens contra
duzentos e oitenta guerrilheiros mal equipados: um martelo-pilão para esmagar uma pulga. É a pulga que sairá vencedora.
Os rebeldes têm muito poucas armas, "apenas duzentas espingardas em bom estado"165, garante Guevara, mas dispõem de alguns trunfos que faltam

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aos soldados de Batista: têm fé, uma fé de mártires, têm mobilidade e um perfeito domínio do terreno acidentado da Sierra; conhecem cada caminho, cada casa, cada
colina. Podem andar depressa e durante muito tempo, trepar, correr, galgar um desfiladeiro. Conhecem os atalhos, os abrigos, as curvas propícias às emboscadas. Movem-se,
segundo a expressão de Mao Tse Tung, "como peixes na água". Castro aplica o princípio elementar de toda a guerrilha: "ataca e foge". À imprensa venezuelana que o
interroga, declara: "Cada acesso à Sierra Maestra é como que o desfiladeiro das Termópilas, cada vale é uma armadilha mortal"166. Quando, a 25 de Maio de 1958, começa
a grande ofensiva das forças governamentais, Fidel estabelecera há pouco, seguindo o modelo de Guevara, um quartel-general perto de La Plata, num maciço rochoso
próximo do pico Turquino, à beira de uma ravina inacessível. Também aí, todas as instalações estão tão bem camufladas sob as árvores que se tornam indetectáveis.
A Radio Rebelde merece, mais que nunca, o seu nome. Dotada de emissores muito potentes que permitem fazer-se ouvir em Caracas, no México, em Miami e, por maioria
de razão, no território cubano, combate com talento e censura imposta por um "estado de emergência" constantemente prorrogado. Carlos Franqui faz prodígios. O seu
jornal Revolución substitui o pequeno boletim de guerra. Além disso, uma pequena rede telefónica, sumária mas eficaz, permite que as várias colunas coordenem a sua
acção sem estarem dependentes dos mensageiros, até aí tão preciosos.
Sob a pressão dos parlamentares democratas, Washinton começou, em princípio, a fazer um embargo ao envio de armas a Batista. Este último já não é muito recomendável,
semeando o país de "subversivos" enforcados nas árvores, com o corpo lacerado por mil torturas. O efeito da imprensa estrangeira é deplorável. A 14 de Março de 1958,
um lote de duas mil espingardas Garand, destinado ao exército cubano, fica no cais, nos Estados Unidos. Mas Castro, que vinha reclamando essa medida há mais de um
ano, desde a sua primeira entrevista a Matthews, não tem muitas ilusões. Sabe que as armas para apoiar "a tirania" transitam e pela República Dominicana Nicarágua,
onde imperam, com a bênção do Departamento de Estado, as ditaduras de Trujillo e de Somoza. A base norte-americana de Guantánamo, enclave vergonhoso concedido aos
ianques, presta, aliás, o seu apoio logístico às forças aéreas de Batista, que aí vêm abastecer-se de combustível e mísseis. Castro fartou-se de repetir que não
nutria qualquer animosidade especial contra o povo dos Estados Unidos e ainda não utiliza, como Guevara, a expressão "imperialistas" para designar os gringos. Mas
sente, em relação ao poderoso vizinho, uma repulsa semelhante ao dos manifestantes que, na mesma altura, escarnecem o vice-presidente Nixon, enviado por Eisenhower
em "visita de amizade" à América latina. Duas semanas após a ofensiva FF, o bombardeamento da casa de um camponês que os apoiou põe Castro fora de si. Envia a Celia
Sánchez uma carta, datada de 5 de Junho de 1958, da qual um extracto será fixado em Havana, em 1967, por ocasião da conferência da Organização Latino-Americana de
Solidariedade (OLAS):

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"Ao ver os mísseis a cair sobre a casa de Mario, jurei a mim próprio que os americanos pagariam bem caro o que estão a fazer. Quando esta guerra acabar, começará
para mim uma guerra mais longa e mais violenta, a que eu moverei contra eles. Vejo que será esse o meu verdadeiro destino"167. Parece que estamos a ouvir Guevara.
A campanha de Batista para sitiar a Sierra Maestra vai durar dois meses e meio. Setenta e seis dias de combates diários, durante os quais o general Cantillo, chefe
das operações, pensa várias vezes ter alcançado a vitória, enquanto que esta lhe escapa; nunca conseguirá dar o golpe decisivo num adversário omnipresente e que,
contudo, não se deixa agarrar. É certo que, inicialmente, Castro cede terreno, refugiando-se no alto da serra, obrigando as forças armadas a penetrar na montanha,
para melhor as atacar. Em torno do seu QG de La Plata reuniram-se, vigiando os caminhos, todas as pequenas colunas, as de Che, de Camilo, de Almeida, várias outras
recentemente formadas, reforçadas pelos novos recrutas da escola militar de Guevara, chamados pelas circunstâncias a "trabalhos práticos" imediatos. Só a coluna
de Raul permaneceu na serra Cristal, de forma a desviar para leste uma parte das tropas governamentais. Tad Szulc estima em trezentos e vinte e um o número total
dos combatentes rebeldes. Guevara voltou a mudar, em poucas horas, o seu acampamento de La Mesa. As munições são tão escassas que a recomendação é tentar acertar
no alvo em cada disparo.
Lembrar-se-á o nosso argentino, a 14 de Junho, que faz anos nesse dia? Tem mais com que se preocupar. A batalha está no auge. O "território libertado" da guerrilha
foi encolhendo para um perímetro de apenas trinta quilómetros. Um batalhão da guarda acaba de chegar e sobe para o ataque, em duas colunas paralelas. A 19 de Junho,
Castro escreve ao seu lugar-tenente argentino: "A situação é extremamente perigosa [...] Só tenho aqui a minha espingarda para opor resistência. Necessito urgentemente
dos homens que te pedi para salvar a zona de La Plata"168. No dia seguinte, o Che quase cai ele próprio nas mãos da guarda. Aproxima-se, solitário, montado na sua
mula, da povoação de Las Vegas, ignorando que os homens de Batista acabaram de a tomar. É o comandante Sori-Marín (jurista, futuro redactor da reforma agrária) que,
dobrando-se, o avisa e lhe evita a armadilha. Carlos Franqui confirma que, a 28 de Junho, no posto de comando de La Plata, para além da equipa da Radio Rebelde,
só está Fidel e a sua sombra, Celia Sánchez, e que, do seu promontório, podem observar e contar através dos binóculos os soldados inimigos, de tal forma eles estão
próximos.
"No pasaran!" ("Não passarão!") era a palavra de ordem para impedir a guarda de atravessar o último rio, o de Santo Domingo, que dá acesso ao QG de Castro. "No pasaron!"
("Não passaram"). O combate renhido de cerca de quarenta guerrilheiros dispostos a tudo, espalhados no alto de uma colina,consegue derrotar tropas em número seis
ou sete vezes superior. Lalo Sardiñas distinguiu-se aí com brio; era aquele oficial impulsivo, que fora julgado, e cuja vida Fidel Castro salvara in extremis. A
táctica dos rebeldes é a

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mesma de sempre: não dar descanso ao inimigo, fazer fogo a toda a hora, não poupar os soldados desmoralizados, cansá-los, privá-los de abastecimento, se possível,
interceptando o envio de mantimentos. Apesar da amplitude dos meios utilizados pelos assaltantes, apesar da dureza dos combates, esta guerra é ainda, se assim se
pode dizer, de tipo "arcaico". O relevo escarpado da Sierra impõe operações na escala reduzida, que permitem a Castro utilizar uma arma que ele maneja habilmente,
a intoxicação verbal, servindo-se apenas da voz humana. Tal como na Idade Média, há interpelações de parte a parte. Troça-se de quem foge, de quem perde a arma;
há insultos mútuos, numa linguagem pitoresca que põe em causa, evidentemente, a virtude da mãe do adversário. Por vezes as posições geográficas dos dois campos estão
tão próximas que Castro manda instalar altifalantes que gritam exortações revolucionárias, cantos patrióticos, o hino nacional, todo um arsenal psicológico destinado
a enfraquecer o desejo de luta dos casquitos. "Discursos bem preparados e palavras de ordem bem escolhidas"169, recomenda Fidel a Guevara.
Não é, evidentemente, uma guerra de punhos de renda, mas Castro não desdenha travar também um combate epistolar com o inimigo. O que não agrada muito a Guevara,
avesso a esses artificialismos. Quando o general Cantillo pede a Castro que se renda, garantindo que lhe poupará a vida, este responde, como um cavalheiro, que isso
está fora de causa, mas observa, nessa carta, que é contra a ditadura que se bate e não contra as forças armadas. Em Julho, descobre que é um dos seus antigos condiscípulos
da Faculdade de Direito de Havana, José Quevedo, que comanda um batalhão encarregado da mesma "missão impossível", tal como os anteriores: desalojá-lo da sua cidadela.
Encurralado na ratoeira da Sierra, Quevedo resistirá quinze dias antes de capitular (e de se juntar aos rebeldes). É provável que para a sua decisão, tenham pesado
os cantos de sereia de Castro, garantindo-lhe que a sua rendição seria feita com honra e dignidade. Entretanto, que fazer dos prisioneiros? Franqui sugere que se
recorra, através da Radio Rebelde, à Cruz Vermelha Internacional. Castro aprova, tanto mais que vê nisso um meio de tornar público o fracasso da ofensiva de Batista.
Franqui e Faustino Pérez conduzem os prisioneiros ao seu destino, e é Guevara, de cachimbo entre os dentes, que é encarregado de velar pelo bom andamento da operação.
A opinião internacional, sobretudo nos Estados Unidos, fora sobressaltada em finais de Junho por uma manobra um tanto desesperada levada a cabo por Raul Castro na
"segunda frente" da serra Cristal. Vendo-se cercado, metralhado implacavelmente pelos aviões que o detectaram, Raul Castro tomou a iniciativa um tanto tresloucada
de raptar quarenta e nove cidadãos norte-americanos, engenheiros que trabalhavam na construção de uma fábrica de tratamento de níquel, marines que regressavam à
base de Guantánamo, após uma licença em território cubano. Alvoroço na embaixada dos Estados Unidos, que envia o seu cônsul-geral a Santiago para negociar com os
rebeldes. Raul prova, com fotografias, que apesar do pretenso embargo, os

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aviões de Batista são abastecidos com bombas e combustível na base naval americana. Obteve documentos irrefutáveis graças a um amigo do M-26, um sargento, empregado
na embaixada de Cuba em Washington. A chantagem resulta e os Estados Unidos instam de imediato Batista que obedece - a suspender os bombardeamentos até à libertação
total dos reféns. O que Raul Castro vai fazendo, lentamente, até receber as munições esperadas e recuperar o fôlego, explicará a sua companheira Vilma Espín. Os
prisioneiros americanos não guardarão ressentimento contra os seus raptores por essa aventura tão "excitante", na qual não terão sido mal tratados. Alguns partirão
até convencidos da justeza da causa desses rebeldes. Contudo, é já de assinalar a utilização pertinente da informação por parte daquele que virá a ser o grande mestre
das questões de espionagem, de segurança e dos serviços secretos. Nessa época, Raul Castro, marxista tão confesso quanto Guevara, acolhe junto de si o organizador
da futura polícia secreta castrista, Manuel Piñeiro, apelidado Barbarroja, um sujeito com quem Guevara mais tarde terá de lidar. Quanto a Fidel, sai airosamente
do incidente. Sem deixar de se solidarizar com o irmão, ordena a libertação dos reféns e acalma as coisas, procurando também ganhar tempo. Segundo o dirigente comunista
Carlos Rafael Rodríguez, que veio estudar com o chefe do exército rebelde o panorama da era pós-Batista, Castro ter-lhe-ia dito que convinha sobretudo evitar alarmar
demasiado cedo o adversário proclamando com precisão objectivos revolucionários.
Quem parece mais atingido por esta guerra que pretendia ser relâmpago mas que nunca mais acaba é o general Cantillo. Apesar da sua vasta panóplia, tem de reconhecer
que não consegue vencer aqueles malditos guerrilheiros. O moral das suas tropas é desastroso. A maior parte, antes do combate, droga-se com marijuana, tão fácil
de encontrar na Sierra. Alguns desertam, juntam-se à causa "fidelista". Outros, feitos prisioneiros, só partem com a Cruz Vermelha depois de terem obtido um autógrafo
de Fidel Castro, cujo carisma é já célebre. Aliás, foi um antigo oficial de Batista, de nome francês Coroneaux - que, tendo-se juntado à rebelião na época de Frank
País, conseguiu dar um golpe brilhante utilizando a frequência de rádio de um tanque inimigo, imobilizado pelos guerrilheiros, para fazer com que a aviação bombardeasse
os próprios soldados de Batista. O próprio batalhão de Mosquera, o inimigo jurado de Guevara, foi destruído, e Mosquera ficou ferido. No fim de Julho, em Havana,
um general insiste com Batista para que entre em negociação com os rebeldes; é preso. A 6 de Agosto, a operação "Fim de Fidel" termina sob a forma de um comunicado
que pretende manter ainda um tom marcial mas que mal consegue disfarçar o fracasso da ofensiva.

A "invasão"

É a vez de Castro cantar vitória e de traçar, ao microfone da Radio Rebelde, o balanço da derrota de Batista: quinhentas armas capturadas ao inimigo,

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entre as quais dois blindados, equipamento e munições abundantes, quatrocentos e cinquenta prisioneiros. Durante essas dez semanas intensas, Guevara não parou quieto,
preocupado sobretudo em proteger Fidel Castro. Não parou de acudir a todas as emergências, respondendo à avalanche de mensagens que o comandante supremo lhe envia.
Tornou-se o adjunto omnipresente a quem se pode pedir tudo, homens, armas, material. Consegue o impossível, fazendo os seus homens praticar feitos espantosos, levando-os
por vezes à beira do esgotamento. Ele próprio combate, evidentemente - adora fazê-lo -, mas procura dominar a sua impetuosidade natural em nome das tarefas que ainda
tem de cumprir. Confessa abertamente que uma manhã, encontrando-se isolado dos companheiros por ocasião de um confronto sério com o famoso Sánchez Mosquera, teve
de correr a toda a velocidade, sob os apupos da guarda, com um grande saco cheio de balas e uma crise de asma. "Nesse dia, senti-me cobarde". Mas, dentro do mesmo
espírito, conta também como, em plena noite, descobrindo ao luar uma récua de mulas de abastecimento abatidas, tudo numa atmosfera silenciosa de terror, enquanto
o guia foge, em pânico, ele avança, ultrapassando o medo. "Nessa noite, senti-me corajoso"170. Uma vez, consegue fazer cem prisioneiros de uma vez só, outro dia,
decide cavar fossas antitanques ou então retirar do caminho uma mina perigosa, com grandes felicitações de Castro. É ainda a ele que este último pede que trate de
fazer com que os prisioneiros sejam fotografados ao serem entregues à Cruz Vermelha. Ocupa-se de tudo.
A Sierra, a guerra, a vida rude da guerrilha tornaram-se elementos familiares de um mundo no qual o argentino se sente à vontade, livre de passear mais ou menos
ataviado, mais ou menos lavado. No furor dos combates, quando as bombas de napalm rebentam em enormes círculos de fogo à sua frente, saberá ele que talvez esteja
a viver a fase mais feliz da sua vida? Seja como for, guardará dessa liberdade uma nostalgia que nunca mais o largará. Essa guerrilha permanecerá a matriz, o modelo
fundador dos seus combates futuros. O inimigo está bem definido, as coisas são claras, os companheiros de uma dedicação extrema; está em paz consigo mesmo e descobriu
que o melhor remédio para a asma é... o cheiro da pólvora! Aliás, já não fuma cachimbo, como na época, ainda recente, em que era necessário poupar o tabaco. Agora
habituou-se aos charutos cubanos e, ainda para mais, engole o fumo. Quando lhe dizem que isso é uma loucura para um asmático, responde que é excelente para enganar
a fome e para se proteger dos mosquitos.
Em Abril, um outro jornalista veio entrevistá-lo, um compatriota argentino com quem travou amizade e cujo destino reorientará: Jorge Ricardo Masetti. No livro que
irá escrever ao regressar a Buenos Aires, Los que luchan y los que lloran, Masetti descreve Guevara a chegar na sua mula, de pernas a balouçar, com uma máquina fotográfica
ao pescoço e "alguns pêlos no queixo", à laia de barba: "O famoso Che Guevara parecia um típico rapaz argentino da classe média. E também uma caricatura rejuvenescida
de Cantinflas"171. Cantinflas é aquele herói cómico do cinema mexicano, muito

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famoso a sul do Rio Grande, uma espécie de Charlot latino-americano, reconhecido pelo seu aspecto mal pronto, com umas calças que escorregam e que ele está sempre
a puxar para a cintura. Em Agosto, Guevara ainda tem o seu aspecto de Cantinflas, mas uma testemunha da Sierra, Javier Fonseca, apresenta-no-lo já transformado:
"O Che tinha um ar mais aguerrido, não sei se por a barba ter crescido e o cabelo lhe bater nos ombros. O seu rosto já não era o de um novato. Tinha já a estatura
de um chefe, com o hábito de dar ordens e de ser obedecido. A sua actividade era intensa. Corria de um lado para o outro [...]. A última vez que o vi, estava absorvido
numa conversa com os seus homens para estudar planos de combate. Fumava um charuto"172.
Castro não espera para lançar a sua contra-ofensiva e desencadear o que ele chama a "invasão", ou seja, o avanço das colunas rebeldes "em todas as direcções, no
resto do território nacional, sem que nada nem ninguém as possa deter"173. Os alistamentos multiplicam-se; dispõe de mil homens. A ideia é atacar em três pontos:
nos dois extremos da ilha e ao centro. Ele próprio, com o seu irmão Raul e Almeida, encarrega-se da província de Oriente e de Santiago de Cuba. Camilo Cienfuegos
deve avançar até à posição de Pinar del Rio, no extremo ocidental, e é o Che que fica encarregado de cortar a ilha ao meio, atacando a região central de Las Villas,
onde se encontram já, na serra de Escambray, diversos focos de resistência, e não só o do M-26.
"Dia 21 de Agosto de 1958. O comandante Ernesto Guevara tem por missão conduzir da Sierra Maestra à província de Las Villas uma coluna rebelde e operar no território
em conformidade com o plano estratégico do exército rebelde..."174. No seu laconismo, a ordem de missão reflecte mal a imensa façanha que é pedida a Guevara e aos
seus homens: atravessar seiscentos quilómetros de planícies e de pântanos em território inimigo. Já não contarão com o abrigo protector da serra-fortaleza e a sua
logística é irrisória.
Mas "a guerra de guerrilha está ultrapassada, transformou-se numa guerra de posições e de movimento"175, garante Castro, que fez seu o lema de Danton: "audácia,
mais audácia, sempre audácia". A coluna n.º 2 de Camilo - oitenta e dois homens - está colocada sob o padroado de Antonio Maceo, famoso herói da independência, que,
também ele, em 1895, atravessou a ilha de lés a lés. A do Che, n.º 8, la ocho, sempre para confundir o inimigo, adoptou o nome de Ciro Redondo, o estimadíssimo camarada
morto em Dezembro. O objectivo final é, evidentemente, derrubar a ditadura mas, para já, trata-se antes de impedir as eleições presidenciais de Novembro, verdadeira
farsa eleitoral, com Batista a apresentar, fingindo suceder-lhe, um dos seus homens de confiança, que irá manipular, como sempre fez. Guevara tem, além disso, a
tarefa bastante difícil de coordenar a acção dos grupos de oposição que, nessa região central, se inclinam cada um para seu lado. Ei-lo agora, já não "membro associado",
mas protagonista directo na batalha política cubana.
"Pensando fazer o trajecto em quatro dias, íamos pôr-nos a caminho em camiões, a 30 de Agosto de 1958"176. Todavia, levarão sete semanas pavorosas a cobrir essa
distância. Desde o início, as dificuldades não param.

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O pequeno avião que traz as armas que eles esperam, aterra de noite, como previsto, mas é detectado e bombardeado "das dez da noite às cinco da manhã". De forma
que, depois de terem recebido à pressa as armas, os rebeldes preferem incendiar o avião em vez de o oferecerem à guarda, que avança em grande número para o aeroporto
e que, entretanto, se apodera de uma camioneta que vinha trazer fardas e combustível para os camiões. "Foi assim que a marcha começou, sem camiões nem cavalos"177.
No dia seguinte, os camiões aguardam-nos do outro lado da estrada, mas, desta vez, são os elementos naturais que se opõem. Um terrível ciclone, o "Ella", abate-se
sobre a ilha, inundando a planície, tornando impraticáveis os caminhos de terra, com excepção da estrada central, a única asfaltada e que não é conveniente tomar,
como é óbvio. Violência dos trópicos.
"Vieram dias difíceis [...]. Foi preciso atravessar rios caudalosos, e ribeiros transformados em rios, lutar incansavelmente para impedir que as munições, as armas
e os obuses se molhassem, procurar cavalos e largar os cavalos fatigados, evitar as zonas populosas à medida que nos afastávamos da província de Oriente. Avançávamos
penosamente por terrenos inundados, atacados por hordas de mosquitos que tornavam as horas de descanso insuportáveis [...]. Comíamos mal e pouco, bebíamos a água
dos ribeiros que serpenteavam pelos pântanos [...]. Arrastávamo-nos penosamente ao longo de dias insuportáveis. Uma semana após a nossa partida [...] estávamos bastante
enfraquecidos"178. Antes de partir, Guevara seleccionou cuidadosamente os voluntários que desejassem partilhar com ele essa aventura. Tem fama de ser severo, mas
justo e corajoso. É uma honra pertencer à sua coluna. Todos foram informados das dificuldades, dos enormes perigos que os aguardam. Deu algum tempo para reflectirem.
Cento e quarenta e cinco homens fizeram questão de segui-lo. Contudo, o que eles suportam ultrapassa tudo o que se poderia imaginar.
Não só a linha da frente cai numa emboscada, ao fim de oito dias e, a partir de então, "as forças inimigas perseguem-nos sem nos darem um minuto de sossego"179,
como a chuva, intensa, interminável como num romance de García Márquez, vem complicar tudo, e logo que ela pára, surgem os mosquitos, em nuvens espessas. Foi necessário
esquecer os camiões atolados na lama, que nenhuma força humana conseguiu arrancar de lá, apesar de Guevara, de metralhadora em punho, ameaçar aqueles que não querem
tentar. Foi necessário abandonar na margem os cavalos que a corrente dos rios, transformados em torrentes impetuosas, teria arrastado. Os homens têm de se agarrar
a uma corda esticada sobre o rio para ultrapassar o obstáculo. E tudo isso de noite, à luz fraca de um archote, quando muitos deles não sabem nadar. Em vez de uma
"longa marcha", é uma expedição anfíbia "com um andamento médio de 12 a 15 quilómetros por dia. [...] A lama e a chuva não param", escreve Guevara a Castro, "e havias
de ver o que tive de fazer para chegar com os obuses em bom estado; uma cena de filme"180. Os seus diários de campanha são menos líricos: "
2 de Outubro: há três dias que não comemos

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nem dormimos. Só a força de vontade nos mantém de pé [...]. Atravessámos, de noite, um lago cheio de plantas cortantes que fizeram em picado os pés inchados e já
insensíveis dos que iam descalços. Dormimos na lama"181, mais tarde, nas suas Memórias*, dirá mais explicitamente: "Os dias mais difíceis passámo-los cercados nos
arredores da central açucareira Baragua, nos pântanos pestilenciais, sem uma gota de água"182.

Nota: * Episódios da Guerra Revolucionária, Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1975.

Da sua comandancia de Sierra Maestra, Castro, que anuncia primeiro que "a coluna de invasão n.º 8 [...] prossegue a sua avançada sob a hábil direcção do corajoso
rebelde Ernesto Guevara", reconhece, a 8 de Outubro, que tiveram dificuldade em romper as linhas [o Che e Camilo], mas safaram-se bem"183. De facto, as duas colunas
caminharam juntas por um tempo, apoiando-se mutuamente; depois cada uma tomou a sua mobilidade num itinerário paralelo, semeado de combates análogos, sob bombardeamentos
constantes, mais assustadores do que eficazes, avançando durante a noite, quase sempre a pé, por vezes a cavalo, raramente de camião ou de tractor agrícola, para
cobrir distâncias curtas. O perigo de encontros com os casquitos é permanente, mesmo quando se percebe que, no exército regular, a vontade de combater não é grande.
É difícil imaginar a enorme auto-confiança, talvez a inconsciência, que os duzentos e trinta destemidos do Che e de Camilo - andrajosos, esfalfados, na maioria analfabetos
- tinham de ter para derrotar um exército cem vezes mais numeroso, dispondo de todo o arsenal clássico, armamento pesado, aviões, comunicações, rádio, etc. E, no
entanto, esses barbudos não parecem ter sido afectados pela dúvida.
Após vários confrontos, onde só por milagre as baixas entre os rebeldes foram mínimas - nove mortos - vem a recompensa, outro milagre. Uma manhã, surgem no horizonte
os contornos azulados da serra de Escambray, a terra prometida. "Até os montanhistas menos entusiastas tinham pressa de lá chegar"184, afirma Guevara. Quando entram
na província central de Las Villas, Ramiro Valdés declara que, depois de atravessarem o rio Jatibonico, saem finalmente "das trevas para a luz". Mais uma etapa esgotante
para esse "exército de sombras" que patinha nos arrozais e se arranha todo nos canaviais, mais um último rio, o mais largo, o Zaga, e "em seguida passámos o último
cordão da guarda na estrada de Trinidad para Sancti Spiritus, a 15 de Outubro, ao cair da noite, e começou o nosso duro trabalho político"185, escreve Guevara.

A maninha Escambray

Missão difícil, de facto, para Guevara, mesmo investido de plenos poderes por Fidel Castro, a de se fazer ouvir pelas diferentes "resistências" da região. Escambray
tem, também, a sua tradição contestatária. A cor da

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pele dos seus camponeses não é tão escura como a dos da Sierra Maestra, mas essa "montanha" de oitenta quilómetros de comprimento, que mal chega aos mil metros de
altitude, parece-se com ela como uma irmã mais nova. Coexistem aí, sem contudo se apoiarem, apesar da luta comum contra a ditadura, centros de resistência que reflectem
mais ou menos o leque das forças políticas de oposição. Antes de mais, há o Directório Revolucionário de Faure Chomón e de Cubela. Sentem uma certa desconfiança
em relação a Fidel Castro, que lhes paga na mesma moeda; Mas Guevara não terá dificuldade em entender-se com eles. Há uma cisão de direita desse mesmo Directório,
que se intitulou "Segunda Frente de Escambray", dirigida por um espanhol anticomunista, talvez mais bandido do que guerrilheiro, Eloy Gutiérrez Menoyo, hostil a
Castro. Menoyo recebe subsídios do antigo presidente Prio Socarras, instalado em Miami, mas que nem por isso deixa de espoliar os camponeses. Há também uma pequena
resistência comunista do Partido Socialista Popular, dirigida por Felix Torres, que recebeu a directiva de apoiar as colunas rebeldes, e que o faz. Há, por fim,
um destacamento significativo de combatentes do M-26, mal armados, grande parte dos quais refugiados nos montes após o fracasso da greve de Abril. O seu chefe, Víctor
Bordon, atribuiu a si próprio o grau de comandante. Guevara nomeia-o capitão e incorpora os seus homens na coluna ocho.
O confronto político começa, aliás, por um debate indispensável com os camaradas do M-26 local, pois o Movimento do 26 de Julho nunca teve uma doutrina específica
- facto que é frequentemente esquecido - para além daquilo que é possível encontrar nos discursos de Fidel Castro ou nas proclamações gerais contra Batista...
Enrique Oltuski, vinte e oito anos, jovem e brilhante engenheiro da Shell, responsável local do M-26 de Las Villas, "sobe" à serra de Escambray para falar com o
Che. Nas suas memórias, Gente del Llano (os da planície)186, deixa-nos um vivo testemunho do seu encontro com o argentino, que apenas conhecia através de fotografias
publicadas na imprensa. É de noite, está frio - também há Inverno em Cuba, quando se sai do calor húmido da planície. À luz das chamas de uma braseira, na casa rústica
onde se albergam, fica impressionado (como outros, antes dele) pelos traços "chineses" da personagem, talvez porque a barba fosse pouco abundante e os bigodes, caindo
de cada lado da boca, lhe dessem essa aparência. "Pensei em Gengis Khan [...]. Era de estatura média, tinha uma boina sobre o cabelo bastante comprido e uma capa
negra em cima de uma camisa aberta". A discussão é violenta:
- Meteste água em Escambray - diz-lhe logo o Che.
Oltuski explica os meandros das facções rebeldes nessa serra. É complicado.
- O Partido Socialista Popular ajudou-nos mais que vocês - continua Guevara. - Deram-nos roupa e calçado.
- Mas fomos nós que os enviámos. Pensávamos que vocês ainda estavam longe.

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- Assim que alargarmos e reforçarmos o nosso território libertado, decretaremos a reforma agrária - acrescenta Guevara. - O que pensas disso?
- Óptimo. Eu próprio escrevi a tese agrária do Movimento. Todas as terras livres devem ser entregues aos camponeses e os latifundiários devem ser pesadamente colectados.
Desse modo os camponeses poderão comprar as suas terras ao preço de custo mediante créditos bonificados.
Foi neste momento que o Che explodiu de indignação, conta Oltuski:
- Vender aos camponeses a terra que eles trabalham? Tese reaccionária! És como todos os do llano...
Seguem-se alguns insultos. A fúria de Guevara sobe ainda mais quando Oltuski explica que é necessário ter cuidado com a reacção dos Estados Unidos, que podem não
ficar de braços cruzados.
- Não passas de um comemierda*. Pensas então que é possível fazer a revolução às escondidas dos americanos? Uma autêntica revolução, um combate de morte contra o
imperialismo, não é coisa que se esconda...

Nota: * Comemierda: insulto cubano muito usado por Guevara.

A discussão dura a noite inteira. Poucos dias depois, é a vez de Oltuski se interrogar se Guevara não estará louco: ordena-lhes que ataquem o banco da cidade vizinha
de Sancti Spiritus. Antes de mais, é inútil, responde o dirigente do M-26. Para já, dispõe de cinquenta mil pesos-dólares, e envia-lhe imediatamente grande parte
dessa quantia, pedindo-lhe que lhe mande um recibo. Depois, seria virar contra eles uma grande parte da população. Finalmente, é muito provável que Fidel fosse contra.
De qualquer forma, os dirigentes locais do M-26 prefeririam demitir-se a cometer tal asneira. Resposta ríspida de Guevara: recorda-lhe que o chefe é ele, aceita
as demissões, confirma que o velho antagonismo llano-Sierra continua vivo e que os dirigentes do llano, uns "medricas isolados das massas" nunca analisaram "as raízes
económicas desse respeito para com a mais arbitrária das instituições financeiras". (Quatro anos mais tarde, em 1963, num prefácio a um tratado sobre o partido marxista-leninista,
sublinhará ainda a oposição entre o exército rebelde, formado na serra, "já ideologicamente proletário, pensando como classe desfavorecida" e a planície "pequeno-burguesa"
que gostaria de ter um exército "político" sob a direcção dos "civis")187. Convoca à Sierra Oltuski e o seu adjunto Diego.
Desta vez, o tom é mais calmo e, apesar de Oltuski notar que Guevara cheira mal - um cheiro rançoso de suor acumulado - e que não tem o menor refinamento culinário
- devora, pegando-lhe com as mãos, uma carne meio-podre que ele acaba de cuspir, com nojo -, declara ao seu amigo Diego, no caminho de regresso: "É impossível não
o admirar. Sabe o que quer. Vive apenas para isso. Eu julgava-me um verdadeiro revolucionário mas, ao lado dele, não passo de um aprendiz. É ao lado dele que irei
combater"**188.

Nota: ** Três meses depois, Oltuski será o mais novo ministro do governo revolucionário de 1959, antes de ser destituído e em seguida reabilitado. Tornar-se-á um
dos melhores colaboradores de Guevara para as questões de planificação económica.

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Esta história ultrapassa o anedótico por confirmar aquilo que será, a partir de então, a força e a fraqueza de Guevara: um radicalismo total, uma determinação, em
tensão permanente, de atingir, a todo o custo, para além de toda a contingência, o verdadeiro regime de justiça social que a revolução exige. Mas essa exigência
absoluta, que atrairá apoiantes incondicionais prontos a fazerem-se massacrar, assustará também muitos dos que dele se aproximam, adivinhando que depressa se consumiriam
nessa tocha ardente, avessa a meias-medidas.
O rapaz alegre e decidido, de ar adolescente, que embarcou no Granma, adquiriu uma nova espessura humana. Se o olhar não perdeu o brilho, o carácter tornou-se mais
grave, talvez mais solitário também. Na Sierra Maestra, à noite, Guevara lia por vezes Neruda aos seus homens. Todavia, o mais frequente era ele isolar-se em leituras
silenciosas, de charuto na boca, mesmo nos momentos em que o combate a travar em breve tendesse a provocar inquietação. Luis Simon, um intelectual do M-26, encarregado
da acção militar em Havana, encontra-o em meados de Setembro na planície, no meio da chuva e dos mosquitos. Simon, que em breve entrará em dissidência, recorda-se
que nesse dia Guevara lhe pediu emprestado Existentialisme et Marxisme, de Merleau-Ponty, e que, falando de política internacional, o Che "criticou duramente o estalinismo
e o massacre de Budapeste"189. Ponto de referência.
Todavia, é com a clássica foice e martelo que, na província de Las Villas, o regime manda afixar fotografias de Guevara e de Cienfuegos, oferecendo vultuosas recompensas
a quem facilitar a sua captura. No caso de Guevara, ao epíteto infamante de comunista vem acrescentar-se o de "mercenário estrangeiro"190. De facto, a sua lenda
de guerrilheiro terrível precede-o, e tudo concorre para a alimentar: a bravura dessa coluna ocho que ele comanda, capaz de todas as audácias, forçando todas as
barreiras, e também o exotismo da personagem, os seus cabelos ao vento, o seu ar de profeta, a boina preta, já sem a estrela, substituída por duas espadas cruzadas,
insígnia dos oficiais da guarda rural, mais uma provocação à solenidade das aparências.
Poucos cubanos conhecem o significado exacto da sua alcunha, "Che", mas esse nome bizarro identifica ainda o estranho nesse homem vindo de tão longe - a Argentina!
-, por solidariedade. Ter vivido cerca de dois anos no mato, ter ultrapassado provas difíceis, ter forçado a sua asma a suportar o insuportável, a humidade, a lama,
o fumo do charuto, ter descoberto, ao ritmo dos seus passos, a geografia da planície cubana, os campos de cana de açúcar ou de bananeiras, os espinheiros infectos
da costa, tudo isso deu a esse "selvagem" uma espécie de força telúrica sólida, que aceita mal as subtilezas do protocolo e os arrebiques da diplomacia. Para a sua
tropa, para todos, ele é sem dúvida o comandante Guevara, mas assume com um orgulho divertido passar a ser designado como "o" Che. Pois só há um.
Esse Che sem rival vai dar mostras que sabe, apesar de tudo, dominar a sua impaciência quando a estratégia política o exige. Em Julho, Fidel tinha assinado um manifesto
unitário reunindo, na Venezuela, todos os sectores da

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oposição cubana (com excepção dos comunistas): é o Pacto de Caracas. Do mesmo modo, em Pedrero, onde se instalou, nos contrafortes da serra de Escambray, Guevara
consegue, no início de Novembro, ao cabo de "complicadas negociações", reunir o conjunto das forças de resistência, incluindo os comunistas, num pacto de boa vizinhança
que lhe permite encarar o prosseguimento das operações. Tem agora o apoio incondicional do M-26 local que, anteriormente, estava pronto a mandá-lo passear.
Ladeando a costa sul, Guevara chegou à província de Las Villas uma semana depois de Camilo que, entretanto, seguiu pelos atalhos do norte. Fidel pede então a este
último que suspenda a sua avançada até Pinar del Rio, em direcção ao outro extremo do país, para se colocar sob as ordens do Che, ajudando-o a controlar essa região
central onde pulsa o coração económico de Cuba. "Depois da proeza única de, tu e o Che, terem avançado desde a Sierra Maestra até Las Villas, mesmo nas barbas de
milhares de soldados inimigos [...], é lógico, se pretendemos a unidade das forças nessa província, que o comando pertença ao comandante mais antigo, àquele que
revelou maiores capacidades militares e organizativas, àquele que suscita mais entusiasmo e confiança entre o povo"191. Camilo obedece. Aprecia e respeita o argentino,
apesar de muitas vezes troçar dele. Os dois comandantes conseguirão sabotar as pseudo-eleições de 3 de Novembro, paralisar a circulação, fazer saltar as pontes,
cortar a ilha ao meio, impedir o envio de reforços militares para Oriente, onde as colunas rebeldes dos irmãos Castro e de Juan Almeida cercam a cidade de Santiago.
No dia das eleições, a farsa é evidente, a participação irrisória - menos de 20% -, a fraude descarada. Os próprios observadores estrangeiros nem sequer consideraram
útil deslocar-se. Um político desconhecido, Rivero Aguero, deveria em princípio suceder a Batista em 1959. Daqui até lá, a história vai galopar. Guevara prepara
a sua ofensiva contra Santa Clara.
Após cinquenta dias de marchas, de combates e confrontos, durante os quais, segundo a sua linguagem figurada só comeram "dia sim, dia não, outro dia talvez", após
os pântanos fétidos e os bombardeamentos, o Che instala o seu "exército de sombras" na serra de Escambray. Organiza um verdadeiro acampamento, como na Sierra Maestra
- com "hospital", defesa aérea, etc. -, destinado a servir de base a uma guerra que ele reconhece longa e difícil. Deixa, primeiro, que os seus homens recuperem
um pouco, que tratem dos pés roídos de fungos, que vistam fardas lavadas, que mudem de sapatos, que limpem as armas. Desde a primeira visita, Oltuski ficou impressionado
com o à-vontade com que todos manejavam espingardas ou metralhadoras que "pareciam fazer parte deles próprios"192. O M-26, os camaradas do Directório e do PSP fornecem
o equipamento, garantem a intendência. Sente-se que a cidade e os seus recursos estão próximos; o exército de Batista não virá incomodá-los muito, nesse maciço cortado
por rios e vales, propícios a emboscadas.
Guevara monta, mais uma vez, uma escola militar onde os "veteranos" ensinam o essencial aos novos recrutas que, em grande número, pedem que os deixem combater nas
fileiras rebeldes. "Transferíamos os melhores milicianos

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urbanos para o campo de treino para lá aprenderem uma táctica de sabotagem que deu bons frutos"193. Às vezes os oficiais são muito jovens: o capitão Joel Iglesias
tem apenas dezassete anos, o tenente Acevedo quinze anos. Ganharam os seus galões sob o fogo da metralhadora, graças à sua coragem. Quando se dirigem aos homens
mais velhos sob as suas ordens, tratam-nos delicadamente por "você". Os "velhos" continuam a tratar por "tu" os miúdos, mas obedecem-lhes. Como, por outro lado,
verificou que outros, aventureiros, "brincavam com a morte", Guevara criou, para as missões perigosas, um "pelotão suicida", constituído por voluntários. A dirigi-lo,
um rapaz de vinte e três anos, de uma audácia louca, a quem chamam "el Vaquerito".

Uma ofensiva relâmpago

Foi na serra de Escambray que Ernesto encontrou Aleida, que viria a ser a sua segunda mulher. Até então, na Sierra Maestra, a vida amorosa do Che não parece ter
sido diferente da dos outros guerrilheiros, isto é, praticamente nula. Alguns obtiveram autorização de viver com uma companheira, que obedece às ordens e combate
como toda a gente. Mas são raros. Conta-se que Guevara teria tido os favores de uma guajira mulata, uma camponesa, quando vigiava a convalescença dos feridos, após
a batalha de Uvero. A história é plausível. O Che não é propriamente um puritano. Mas torna-se puritano quando considera que não o ser poderia prejudicar a imagem
da revolução. Mais tarde acontecer-lhe-á ter de resolver questões em assembleias de fábrica, a propósito de histórias de infidelidades conjugais que interferiam
com o andamento dos trabalhos. Responderá que não é possível vigiar de tão perto o comportamento dos trabalhadores e porá ao mesmo nível "beatice burguesa" e "beatice
socialista".
Aleida March é uma professora de Santa Clara que ficou demasiado exposta pelas suas actividades militantes no M-26 e que, para escapar aos "esbirros", foi enviada
pelo Movimento para a serra; situação análoga à de Celia Sánchez, que sobe à Sierra Maestra para se refugiar junto de Fidel, ou de Vilma Espín, que vai juntar-se
a Raul Castro na serra Cristal. Não consta que Guevara tenha tido uma repentina paixão na serra de Escambray, tal como não o tivera na Guatemala com Hilda Gadea.
Para ele, a qualidade essencial de uma mulher, de uma companheira, é ser uma "boa camarada" com quem se possa contar, com a qual exista uma sintonia ideológica total.
Jovem e bela, franzina, de pele clara, nariz arrebitado num rosto redondo emoldurado por cabelos loiros, Aleida sorri com facilidade e em breve cede ao encanto desse
intrépido comandante, de quem é secretária. Ela estará a seu lado na batalha de Santa Clara e pretenderá segui-lo quando ele entrar em Havana. Mas Ernesto irá pedir-lhe
que aguarde. Eles voltarão a encontrar-se, de facto.
"Logo que chegámos a Las Villas, a nossa primeira medida política - antes de criar a primeira escola - foi publicar uma proclamação instaurando a reforma

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agrária"194. Essa é "a ponta de lança do exército revolucionário [...] foram os camponeses que nos incitaram a fazê-la", sublinha Guevara. Retoma as disposições
redigidas (com moderação) na Sierra Maestra pelo jurista Sori-Marín e assinadas a 10 de Outubro de 1958 por Fidel Castro. A terra é atribuída aos camponeses que
a trabalham, mas nada é dito quanto à divisão das grandes propriedades. Seguir-se-á outra lei, ainda insuficiente, na sua opinião, que distribui também as terras
do Estado e dos servidores da ditadura. "O seu princípio era revolucionário"195. Para já, recomenda aos camponeses que deixem de pagar renda aos grandes proprietários
e concede a Gutiérrez Menoyo o direito de cobrar, apesar de tudo, na sua "zona", uma taxa sobre as rendas não pagas. O tipo não perde pela demora. Depois do inimigo
principal, Batista, seguir-se-ão os ajustes de contas com os inimigos secundários".
De facto, para se distribuir terras, é necessário controlá-las. Em meados de Dezembro, Guevara desencadeia a sua ofensiva. É uma blitzkrieg, uma guerra-relâmpago
cuja rapidez o surpreende a ele próprio. A 18 de Dezembro, após dois dias de combate, os homens da ocho, apoiados pelos do M-26 local e do Directório, tomam a pequena
cidade de Fomento, com dez mil habitantes, e o seu quartel. A estratégia é simples: criar o vazio à volta de Santa Clara, impedir que cheguem reforços. Poupado,
por vezes até à parcimónia, sobretudo quando se trata de bens públicos, Guevara manda redigir uma lista exaustiva do espólio apreendido, na qual figura até uma peneira:
dois jipes, três camiões, cento e trinta e oito espingardas, quatro máquinas de escrever, etc, e... um despertador! Mais cento e quarenta e um soldados prisioneiros.
Uma fotografia mostra Guevara empoleirado num dos dois jipes, cuja capota está coberta com uma grande bandeira cubana. Vêem-se os rostos das pessoas olhando fixamente
para esse guerrilheiro vindo de longe, que lhes fala com a sua estranha pronúncia.
A 21 de Dezembro, primeiro golpe duplo: dois quartéis rendem-se simultaneamente, em Cabaigan e em Guayos. A avançada foi feita pelas ruas e pelos telhados planos
das casas baixas. Em Cabaigan, ao saltar de um telhado para outro, Guevara tropeça numa antena de televisão, escorrega e cai no pátio, sobre um bidão de lata transformado
em vaso de flores. Ferida no sobrolho direito e luxação grave no pulso esquerdo. O doutor Guevara recusa a injecção contra o tétano, temendo que ela interfira com
a asma. Mas consente em "tomar aspirinas como se se tratasse de biscoitos". As fotografias desses "dias históricos" mostrá-lo-ão de braço ao peito, atado numa charpa
negra, de efeito muito atraente.
Dois dias depois, novo golpe duplo, mais sério. Em Sancti Spiritus, a tal cidade de cento e quinze mil habitantes cujo banco Guevara pretendia assaltar, um pequeno
esquadrão de vinte rebeldes, enviados como batedores, estimula, com a sua presença, uma insurreição geral da população, que ataca as propriedades dos lacaios do
regime e provoca incêndios. Algumas rajadas de metralhadora e um ultimato audacioso bastarão para que os quatrocentos soldados da guarnição se rendam. Sinal de decomposição
da disciplina militar, os aviões encarregados de atacar a cidade optam por largar as bombas no

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alto-mar. Nesse mesmo dia de 23 de Dezembro, Placetas, com trinta mil habitantes, rende-se também. O Che é o primeiro da linha da frente a atacar o quartel, onde
cento e quatro soldados travam um combate de puro prestígio. O capitão Calixto Morales recorda: "Os franco-atiradores metralhavam de todos os lados e ele, muito
calmo, avançava como se nada acontecesse, no meio da rua"196.
Logo a seguir, Guevara corre a juntar-se a Camilo, que monta o cerco a um quartel coriáceo, perto da cidade de Yaguajay, a cem quilómetros de distância. Existe,
entre o Che e Camilo, uma enorme cumplicidade, feita de estima recíproca e de fraternidade profunda, sempre mascarada pelas brincadeiras de Camilo. Com o seu eterno
chapéu de cowboy inclinado sobre o rosto, a barba negra e comprida prolongando-lhe a cara, Camilo é um operário de Havana, de língua afiada, que finge troçar de
tudo e de todos mas que impressionou Guevara sobretudo pelo seu talento de guerrilheiro. Nos momentos de verdade, a sua coragem não tem limites. Quando fazia parte
da coluna do Che, na Sierra Maestra, os companheiros ficavam pasmados com o seu sangue-frio quando havia emboscadas. Uma vez, esperou que um elemento da guarda chegasse
a um metro dele para disparar e lhe arrancar a espingarda antes mesmo dele cair. Entregando os seus dentes ao cuidado do doutor Guevara, garantia que o argentino
era capaz de lhe arrancar um dente são em vez do cariado. Quando os camponeses de Yaguajay ouvem dizer que o Che está por perto, correm em grupos, excitados, curiosos
de ver aquele de quem todos falam. E Camilo, testemunha desse fascínio, declara então ao companheiro: "Já sei o que vou fazer depois da vitória. Vou meter-te numa
jaula e percorrer o país, cobrando cinco pesos por bilhete a quem vier ver-te. Vou ficar rico"197.

Os "cinco gloriosos" de Santa Clara

Dia 27 de Dezembro de 1958. Em dez dias de combate ofegante, o Che e os seus homens "libertaram" um território de oito mil quilómetros quadrados e meio milhão de
habitantes. No dia de Natal tomaram de assalto a pequena cidade de Remédios; no dia seguinte o porto de Caibarién. No total, fizeram oitocentos prisioneiros e recuperaram
seiscentas armas. Às técnicas experimentadas nos combates em zonas rurais, Guevara em breve acrescentou algumas astúcias aprendidas na guerrilha urbana: ensinar
à população favorável a arte do cocktail Molotov, bastante útil para "cobrir" uma retaguarda; penetrar nas casas, deitando abaixo uma parede, se necessário, para
atacar o inimigo pelas costas; fraccionar a coluna em pequenos comandos; avançar pelos telhados (evitando as antenas de televisão...). A rapidez e a eficácia da
ofensiva foram espectaculares. Foi necessário dar posse de imediato a novas autoridades revolucionárias, reparar os danos, organizar o curso da vida económica: aproxima-se
a zafra e, assim como se justificava a palavra de ordem de lançar fogo aos campos de cana de açúcar contra Batista, agora

216

justifica-se, pelo contrário, proteger essa riqueza nacional, uma vez liberto o país. Nem o Che nem os seus homens tiveram tempo para dormir. As fotografias mostram-nos
um Guevara magro, pálido, de ombros um pouco descaídos e olhar fixo, como que possuído por uma chama interior.
Falta ainda o bastião, Santa Clara, capital da província, última etapa antes de Havana, sustentáculo da ilha na estrada principal. Cento e cinquenta mil habitantes,
três mil e duzentos soldados entrincheirados em doze quartéis, tanques e, às portas da cidade, um comboio blindado, temível, que acaba de chegar como reforço, com
400 homens e um canhão. Em frente, o Che coloca 364 combatentes, muito mais motivados do que os da "tirania", mas cujo armamento é ridículo se comparado com o poder
de fogo do adversário. Sempre a mesma louca desproporção de um contra dez, porém em nítido progresso se nos recordarmos que, na Sierra Maestra, o combate era de
um contra cem. Estava fora de causa, evidentemente, utilizar as grandes vias de acesso, barradas por tanques. Mas nos mapas que o geógrafo Nuñez Jiménez desdobra
à sua frente, Guevara descobre um pequeno caminho vicinal que conduz à cidade universitária. É por aí que irá começar a infiltração. Durante a noite.
A 28 de Dezembro, antes do amanhecer, começa o primeiro dos "cinco gloriosos" dias de combate que vão fazer capitular a cidade e dar a Che Guevara uma auréola de
herói que ultrapassará o espaço cubano. Os rebeldes infiltram-se na cidade e multiplicam os confrontos, enquanto a aviação dá início a bombardeamentos que irão durar
sete horas, abrir crateras de oito metros e fazer inúmeros mortos e feridos. Organizando, na Universidade, um posto de pronto-socorro e um "banco de sangue", Guevara
confessa ao médico rebelde Fernández Mell que talvez seja necessário um mês de combates para alcançar a vitória. Da estação de rádio que acaba de ocupar, pede à
população que erga barricadas capazes de se oporem aos tanques. Quando anoitece, aproveita um bulldozer encontrado na Faculdade de Agronomia para isolar o comboio
blindado, arrancando vinte metros de carris, a quatro quilómetros dali.
No dia seguinte, 29 de Dezembro, enquanto combatentes do Directório se ocupam da cidade de Trinidad, cento e trinta quilómetros a sul, e Camilo, mantido em reserva,
ataca o quartel, que continua sem se render, a cidade de Santa Clara acorda atravessada de barricadas, camiões, autocarros, viaturas, um amontoado de móveis, por
vezes lançados pelas janelas. A luta estende-se a toda a cidade. O pelotão suicida apoderou-se da estação ferroviária, onde o telefone toca. O tenente rebelde Del
Rio atende e tem o prazer de comunicar ao oficial de Batista, do outro lado da linha, que o estabelecimento mudou de proprietário. Imprecações do outro, que o desafia
a vir desalojá-lo do quartel, ali mesmo ao lado. "Quando contei isto ao Che ele mandou-me lá ir..."198. Antes que ele lá chegue, o quartel rende-se. O pelotão suicida
não tem rival e impressiona a guarda pela ousadia. Intitula-se "Mau-Mau", o nome das tribos africanas que, no Quénia, se revoltaram contra os ingleses.

217

Guevara está presente em todo o lado, vigia todas as frentes. Não encontrou veículo mais discreto para se deslocar do que um jipe Toyota vermelho. À tarde, o auge
da acção concentra-se no famoso comboio blindado de dezassete carruagens, do qual uma parte dos ocupantes se instalou numa colina próxima. Dois destacamentos rebeldes
partem ao assalto, desalojam a guarda, que corre para o seu refúgio de chapa de aço. E, uma vez que a estação já não pode ser utilizada, as duas locomotivas puxam
o comboio para trás, a toda a velocidade... em direcção aos carris arrancados. O descarrilamento é impressionante. A locomotiva vira-se e esmaga-se num apeadeiro
próximo, o que aumenta a amálgama de ferros das primeiras carruagens que balouçam e saltam uma sobre a outra. Gritos. Gemidos. "Caímos-lhes em cima sem lhes dar
tempo de ripostar"199, conta o tenente Espinoza, à frente de um pequeno esquadrão de dezoito rebeldes. Uma metralhadora perfura, em cima, o tecto de madeira das
viaturas deitadas. Cocktails Molotov incendeiam o soalho. As carruagens transformam-se em fornalha.
O Che, que acorreu ao local, considera que o combate se tornou "interessante". Fala pouco, dá quinze minutos ao comandante para se render. Mais do que o tempo que
a guarda leva a sair daquele braseiro e a abandonar as armas. São sete horas da tarde. Ainda há luz suficiente para a aviação bombardear. Recolhe-se a toda a pressa
um espólio miraculoso: bazucas, morteiros, metralhadoras, um arsenal (Guevara envia logo uma bazuca a Camilo). Em Santa Clara, privada de electricidade, o M-26 espalha
a notícia através de carros com altifalantes. Entre os civis: esperança de que os bombardeamentos acabem depressa; entre os militares, cujo moral baixa ainda mais:
desorientação. Mas que fazer dos quatrocentos prisioneiros do comboio? Ninguém os quer. Guevara não dispõe de meios para os prender nem para se ocupar deles. Tenta
enviá-los para Havana através do pequeno porto de Caibarién, mas a fragata ancorada na baía, recusa-se a aceitar aqueles miseráveis vencidos. À falta de melhor,
são entregues à milícia local do M-26.
Nos dois últimos dias do ano de 1958 assiste-se à queda da maior parte das praças militares. Trinidad rendeu-se. Em Havana, um paiol explode com grande estrondo.
Em Oriente, prosseguem as negociações entre Fidel e o quartel de Santiago. Em Santa Clara, apenas resistem ainda aqueles que mais têm a temer da justiça popular:
a esquadra da polícia - sede de torturas abomináveis - e os franco-atiradores do Grande Hotel, alguns "tigres" do bando de Masferrer, um antigo comunista que se
tornou senador, chefe de um verdadeiro bando de assassinos a soldo, ao serviço de Batista. Os rebeldes sofrem inúmeras baixas, entre as quais a de Vaquerito. "Mataram-me
o equivalente a cem homens"200, lamenta Guevara. Mas detém o gesto de um dos seus companheiros que, de lágrimas nos olhos, quer vingar-se num prisioneiro: "Achas
que ele era igual a eles?"201
Na tarde de 31 de Dezembro, Camilo consegue finalmente a rendição do maldito quartel de Yaguajay e trata de se reunir a Guevara. Porque a 1 de Janeiro de 1959, quinto
dia da ofensiva do Che, a fortaleza de Santa Clara

218

ainda resiste, apesar de o seu comandante ter fugido desavergonhadamente, vestido à civil, aproveitando a escuridão. Mas a rádio transmite um conjunto de notícias
de importância capital: Batista fugiu de avião, durante a noite, para Santo Domingo (com toda a família e uma confortável conta bancária). O General Cantillo, chefe
das forças armadas, anuncia a criação de uma junta cívico-militar. Castro lança um apelo à greve geral contra a manobra de Cantillo: "Revolução, sim! Golpe de Estado
militar, não!"

"Nunca voltaremos a ser tão felizes..."

A história dos primeiros dias frenéticos desse novo ano conta-se agora em horas. No seu derradeiro ultimato para evitar um banho de sangue, Guevara ameaça os militares
de terem de responder também por uma "invasão estrangeira" porque, garante ele, sem que se saiba onde foi buscar tal informação, é possível uma intervenção dos Estados
Unidos. Ao meio-dia e meia, o quartel acaba por aceitar a rendição. A batalha está ganha. A cidade de Santa Clara pertence aos rebeldes! Grandes manifestações de
alegria. A população sai para a rua, confraterniza alegremente com os vencedores barbudos, oferece bebidas, exige a presença do herói dessa batalha histórica: Che
Guevara! O herói está feliz, mas esgotado. Tem um sorriso nos lábios. Através da rádio, Fidel anuncia-lhe que o último bastião militar, em Santiago, acaba de se
render nesse mesmo dia 1 de Janeiro, às 18 horas. Na madrugada do dia 2, as colunas do Che e de Camilo partem para Havana. Trezentos quilómetros ao longo dos quais
são aclamados por toda a parte. Mas o pior está para vir.
Com efeito, o combate torna-se mais político do que militar. A estratégia subtil de Castro, genial Maquiavel, distingue-se da intransigência radical de Guevara,
para quem o imperialismo constitui o inimigo principal. O argentino tem uma visão internacionalista, ao passo que, sem menosprezar o perigoso vizinho norte-americano,
Castro, o cubano, permanece ligado ao nacionalismo. Um sexto sentido leva-o a adivinhar aquilo que é conveniente dizer ou fazer para ganhar a adesão popular. Antes
mesmo de começar o combate de Santa Clara, quando Guevara acumulava vitórias sobre vitórias, Castro, antecipando-se ao sucesso militar, tinha dado a Che as suas
instruções: a avançada sobre Havana deveria ser efectuada "exclusivamente pelas forças do Movimento do 26 de Julho"202. O que exclui as forças do Directório, cujo
apoio Guevara aceitou e com as quais pactuou em Pedrero. Fidel, que o criticará por ter "ressuscitado um morto", precisa ainda: "A coluna de Camilo deve constituir
a vanguarda e tomar Havana".
Porquê esta preferência, esta honra insigne concedida a Camilo Cienfuegos, a quem fora até ali exigido que se colocasse sob o comando do Che, verdadeiro "número
dois" do exército rebelde? Provavelmente porque o prestígio de Guevara já não é oportuno, a partir de agora. O seu êxito

219;

estrondoso, a tomada de Santa Clara, a proeza do comboio blindado concentraram nele as luzes dos projectores da imprensa internacional. Até a Radio Rebelde, sempre
sob a batuta de Carlos Franqui, deu um lugar de destaque aos acontecimentos da região central que, pelo seu brilho, eclipsaram o arrastar das negociações do comandante
supremo para fazer aderir à revolução os chefes militares de Oriente. Mas a decisão de Castro tem outra explicação para além de uma hipotética "ferida narcisista".
Este homem, que luta há seis anos para derrotar uma ditadura odiosa, vê finalmente o poder ao seu alcance. É natural que tenha procurado evitar dar qualquer passo
em falso nessas horas decisivas. Cuba está demasiado próxima dos Estados Unidos, e o anticomunismo marcou as mentalidades, sobretudo em Havana. É certo que o poderoso
vizinho é culpado de humilhações de que o país deve ser vingado. Assim, Castro dá-se ao luxo de, numa Santiago em júbilo, evocar a dignidade recuperada: "Desta vez,
[...] não será como em 1898, quando os norte-americanos vieram para tomar conta do país"203. Mas, ao mesmo tempo, deixa na sombra o seu irmão Raul, demasiado marcado
pelo seu "comunismo". Quanto ao caro Guevara, por muito amigo de Cuba que ele se mostre, não é conveniente que seja um estrangeiro a ser o primeiro a entrar na capital
da República, acto simbólico, nem que seja a ele que as forças armadas se rendam. Se as negociações em Santiago não se tivessem arrastado tanto, Castro poderia ter-se
juntado a Camilo e ao Che, em Santa Clara, a uma hora de avião, para encabeçar ele próprio a marcha204. Mas a 1 de Janeiro de 1959 é já demasiado tarde. Hábil na
arte de virar as situações a seu favor, Castro declara Santiago capital provisória e procura tomar a dianteira, organizando uma marcha triunfal sobre Havana.
Na noite de 2 de Janeiro de 1959, é, pois, Camilo Cienfuegos, arquétipo de uma Cuba festiva, filho de Havana, que entra, sem disparar um tiro, na fortaleza de Columbia,
praça-forte do exército, onde o aguarda um militar adversário de Batista, o coronel Barquin, acabado de sair da prisão. O comandante Guevara instala-se algumas horas
depois na fortaleza La Cabaña, dominando o porto e a cidade, mas que não passa de um posto secundário. É provável que ele pudesse já fazer suas as palavras ditas
a meia-voz, por Celia Sánchez, ao jornalista Lee Lockwood, alguns anos mais tarde: "Ah, eram os bons tempos, não é verdade? Nunca voltaremos a ser tão felizes, nunca
mais..."205.

Notas:

1 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., pp. 30-31.
2 Carlos Franqui, Journal de la Révolulion Cubaine, op. cit., p. 143.
3 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 31.
4 Ibid.
5 Centro de Estudios de Historia Militar, PAR - Ed. Política, Havana, 1985, p. 104.
6 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 35.

220

7 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 150.
8 Ibid.
9 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 31.
10 Carlos Franqui. Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 144.
11 Mariano Rodríguez Herrera, Con la Adarga al Brazo, Política, Havana, 1988, p. 81.
12 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 145.
13 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., pp. 31-32.
14 Ibid., p. 34.
15 Ibid.
16 Ibid.
17 Ibid., p. 35
18 Ibid.. p 36.
19 Ibid., p. 35.
20 Ibid.
21 Ibid.
22 Ibid., p. 42.
23 Ibid., p. 39.
24 Ibid., p. 40.
25 Ibid., p. 42.
26 Ibid., p. 43.
27 Ibid.
28 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 328.
29 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, op. cit., p. 21.
30 Ernesto Che Guevara, Textes Politiques, François Maspero, Paris, 1965, p. 40.
31 Ernesto Che Guevara, "Le Peuple en Armes", in Partisan, Paris, Nov.-Dez. 1961, p. 24.
32 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 47.
33 Ibid.
34 Ibid
35 Ibid., p. 49.
36 Ibid., p. 50
37 Ibid.
38 Ibid., p. 51.
39 Ibid., p. 45.
40 Tad Szulc. Castro, Trente ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 329.
41 Froilán Escobar. Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, Editora Política, Havana, 1988, pp. 18-19.
42 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 51.
44 Ibid., p. 52.
45 Ibid.
46 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, François Maspero, Paris, 1968, p. 59.
47 Fidel Castro, Révolution Cubaine, Paris, 1968, p. 230.
48 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 53.
49 Ibid., p. 52.

221

50 Ibid., p. 53
51 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op cit., p 60
52 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 57.
53 Ibid
54 Ibid, p. 58
55 Ibid., p. 61
56 Ibid., p. 63
57 Ibid, p. 64
58 Ibid., p. 65
59 Ibid., p. 62
60 Marcel Niedergang, Les iingt Amériques Latines, op cit, t 3, p. 228.
61 Ernesto Che Guevara, "Le peuple en armes", art cit., p. 23
62 Carlos Franqui, Le Livre des Douze, Gallimard, Paris, 1965, p. 80
63 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, Seuil, Paris, 1970, p. 106
64 Ibid., p. 110
65 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 69.
66 Ibid., p. 68
67 Ibid., p. 70
68 Ibid., p. 71
69 Ibid., p. 73
70 Ibid. p. 770
71 Ibid., p. 61
72 Ibid., p. 74
73 Ibid.
74 Ibid.
75 Ibid., pp. 78-79
76 Ibid., p. 78
77 Ibid., p. 91
78 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 202
79 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 83.
80 Ibid., p. 87
81 Ibid., p. 88
82 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, op. cit., p. 108
83 IIbid., p. 112
84 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 89.
85 Ibid., p. 90
86 Ibid., p. 91
87 Ibid., p. 90
88 Ibid., p. 100
89 Ibid., p. 98
90 Ibid.
91 Ibid., p. 102
92 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 93.
93 Fidel Castro, Révolution Cubaine, op. cit., t. II, p. 228.

222

94 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 106
95 Ibid., p. 107
96 Ernesto Che Guevara, (OEvres V, Textes inédits, François Maspero, Paris, 1972, p. 106
97Ibid., p. 12
98 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Revolittionnaire, op. cit., p. 113
99 Fidel Castro Étapes de la Révolution Cubaine, François Maspero, Paris, 1964, p. 44
100 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 138
101 Carlos Franqui Le Livre des Douze, op. cit., p. 81
102 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 118
103 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 118.
104 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 125
105Ibid., p. 106
106 Fidel Castro, Révolution Cubaine. op. cit., t. II, p. 229
107 Ibid.
108 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 222
109 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., pp. 127-128
110 Ibid., p. 128
111 Ibid., p. 129
112 FroilánEscobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 128
113Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 129
114 Ibid., p. 134
115 Ibid., p. 136
116 Ibid., p. 141
117 Ibid., p. 148
118 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 190
119 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 114
120 Ibid., p. 106
121 Enrique Acevedo, Descamisado, Edition Cultura popular, Havana, 1993, p. 52
122 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 95
123 Regis Debray, Révolution dans- la Révolution?, François Maspero, Paris, 1972, p. 161
124 Enrique Acevedo, Descamisado, op. cit., p. 63.
125 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 132
126 Ibid., p. 145
127 Ibid., p. 154
128 Ibid., p. 164
129 Ibid., p. 168
130 Ibid., p. 166
131 Ibid., p. 168
132 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 271
133 Ibid., p. 275
134 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che Sierra Adentro, op. cit., p. 218
135 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 159
136 Ibid., p. 161
137 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 283.

233

138 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Revolutionnaire, op. cit., p. 163
139 Carlos Franqui Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 283
140 Ibid., p. 244
141 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 175
142 Ibid., p. 176
143 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 184
144 Ibid., p. 186
145 Enrique Acevedo, Descamisado, op. cit., p. 220
146 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 174
147 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 285
148 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., t. II, p. 627
149 Carlos Franqui Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 285
150 Ibid., p. 194
151 Ibid., p. 286
152 Ernesto Guevara Lynch, aquí va un Soldado de America, op. cit., p. 131
153 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 285
154 Ibid., p. 285
155 Ibid., p. 289
156 K. S. Karol, Les Guérrilleros au Pouvoir, Robert Laffont, Paris, 1970, p. 153
157 Ernesto Che Guevara, (OEuvres VI Textes Inédits, François Maspero, Paris, 1972, p. 155
158 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 27
159 Carlos Maria Gutierrez, in Marcha, Montevideu, Dezembro 1967, pp. 16/17
160 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che Sierra Adentro, op. cit., p. 281
161 Tad Szulc, Castro Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 373
162 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit, p 320
163Ibid., p. 321
164 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 178.
165 Ibid., p. 197
166 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 346
167 Ibid., p. 362
168Ibid., p. 372
169 Ibid., p. 397
170 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., t. I, pp 388/389
171 Jorge Ricardo Masetti, Los que Luchan y los que Lloran, Freeland, Buenos Aires, p. 46
172 Froilán Escobar, Felix Guerra, Che, Sierra Adentro, op. cit., p. 363.
173 CarlosFranqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 245
174 Ibid., p. 426
175 Ibid., p. 423
176 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 198
177 Ibid
178 Ibid.
179 Ibid., p. 199
180 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 457

224

181 "Diario de Campaña del comandante Ernesto Che Guevara", in Bohemia, Havana, 11 de Janeiro de 1959, citado in HugoGambini, El Che Guevara, op.cit., p. 178
182 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 201
183 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., pp. 433-441
184 Ibid., p. 460
185 Ibid
186 Enrique Oltuski "Gente del llano", in Casa de las Ameiricas, nº 40, Havana, 1967, p. 51
187 Ernesto Che Guevara, Textes Politiques, op. cit., p.
188 Enrique Oltuski, "Gente del llano", art. cit., p. 58
189 Luis Simón, "Mis Relaciones con el "Che" Guevara", in Cuadernos, nº 60, Paris, Maio de 1962
190 Enrique Acevedo, Descamisado, op. cit., p. 275
191 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 450
192 Enrique Oltuski, "Gente del llano", art. cit., p. 51
193 Ernesto Che Guevara, Souvenirs de la Guerre Révolutionnaire, op. cit., p. 202
194 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 142
195 Ibid.
196 Paco Ignacio Taibo II, La Batalla del Che, Santa Clara, Ed. Politica, Havana, 1989, p. 70
197 Guillermo Cabrera Alvarez, Camilo Cienfuegos, el hombre de mil anecdotas, Política, Havana, 1989, p. 67
198 Paco Ignacio Taibo II, La Batalla del Che, Santa Clara, op. cit., p. 64
199 Ibid., p. 116
200 Ibid., p. 128
201 Ibid., p. 129
202 Carlos Franqui, Journal de la Révolution Cubaine, op. cit., p. 504
203 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 399
204 Enrique Oltuski, entrevista com o autor, Havana, 1992
205 Lee Lockwood, Castro's Cuba, Cuba's Fidel, The Macmillan Company, Nova Iorque, 1967, p. 80

225

V

UMA REVOLUÇÃO TIPO MELANCIA

Fuzilamentos em La Cabaña

A partir de agora, passará a deitar-se tarde. Para refazer o mundo (a começar por Cuba), para criar o "homem novo" do século XXI (a começar pelos cubanos), os dias
nunca serão suficientemente longos e as noites parecer-lhe-ão demasiado curtas. Só se empresta aos ricos. Não foi Guevara que criou, como alguns afirmam, a expressão
mordaz de Maio de 1968: "Sejamos realistas, exijamos o impossível". Mas poderia ter sido. A sua impaciência em passar à acção era tal, a sua fé na revolução tão
intensa, que nada lhe parecia impossível.
Ocultando-o na penumbra das espessas muralhas da prisão militar de La Cabaña, Castro não lhe presta um mau serviço. Entre o mundo dos combates da Sierra, o recente
frenesim da batalha de Santa Clara e a modernidade estridente de Havana, capital de todos os prazeres e de todos os vícios, que abre as suas fortalezas antes mesmo
de soar o olifante, é necessário algum tempo de adaptação. Depois de vinte e cinco meses praticamente ao relento, no clima frio e agreste dos cumes da Sierra Maestra,
depois da humidade viscosa dos pântanos da planície, da fome, da sede, dos mosquitos, dos bombardeamentos, do ruído da metralha, eis o nosso "selvagem" repentinamente
de regresso à volúpia da "civilização": uma cama com lençóis, água corrente, electricidade, refeições satisfatórias, luxos esquecidos que, não o entusiasmam muito.
"Guevara é Diógenes", afirma Papito Serguera, um advogado culto promovido a comandante e em seguida a embaixador, que ele conheceu na Sierra Maestra e que com ele
manteve um contacto regular, sobretudo porque ambos são excelentes jogadores de xadrez. Tal como Diógenes, coberto com o seu único manto, desprezando honrarias,
riquezas e convenções sociais, el Che se llevaba recio a él mismo "o Che não fazia concessões a si próprio")1. Esta austeridade para consigo mesmo, tocando as raias
do ascetismo que, como vimos, provém do regime severo e da frugalidade imposta pela asma, não predispõe o argentino a saborear os encantos de uma cidade votada aos
langores de uma sensualidade feliz.

227

No grande escritório sombrio e abobadado, destinado há dois séculos aos governadores da Bastilha havanesa, Guevara empenhar-se-á em algo mais do que o bom funcionamento
da prisão. Cortou a sua longa cabeleira, mas não tapou a barba, que continua a recusar-se a crescer em duas pequenas áreas de pele imberbe, de cada lado do queixo.
O seu uniforme verde-azeitona está agora lavado e passado a ferro, a camisa, por fora das calças, mostra apenas uma minúscula estrela dourada em cada ombro e os
bolsos continuam atafulhados de todo o tipo de papéis, lápis, blocos e charutos Montecristo nº 1, além do indispensável inalador contra a asma. Os visitantes ficarão
surpreendidos não só com a sua pronúncia argentina sibilante, que alonga as sílabas, como também com o tom de voz, grave e pausado, invulgar num país onde a regra
é falar alto, engolindo o fim das palavras. Guevara murmurava as suas ordens.
Em relação a Havana, o Che parece ter sido contagiado pela influência de Castro que, como bom "oriental", prefere Santiago, outra metrópole, símbolo de uma Cuba
mais tradicional. Terá Guevara tido tempo, ou até vontade, de descobrir as subtilezas, de decifrar os mistérios dessa cidade portuária, compêndio da história da
ilha? É pouco provável. Enganar-se-ia quem se detivesse apenas nos aspectos exteriores da americanização de Havana. É certo que, a meia-hora de avião de Key West,
a menos de uma hora de Miami, ligada ao "poderoso vizinho" por frotas de ferry-boats, a cidade pode parecer um mero apêndice da Florida. Para lá do Malecon a zona
em frente ao mar ao longo da baía, inundada de sol, atravessada pela brisa fresca da corrente do Golfo, a paisagem pode ainda reforçar essa ilusão. A publicidade
vistosa celebra marcas emblemáticas da produção norte-americana. Lucky Strike, Palmolive, Sears and Roebuck... Grandes automóveis, tipo "banheira" - Buick, Chrysler,
Oldsmobile - exibem os seus cromados, ignorando que são já peças de museu. Encorajados por Batista (que recebia o seu dízimo), erguem-se alguns hotéis ultra-modernos
recém-construídos, réplicas dos de Las Vegas (Nevada). A sua decoração, de um sublime mau-gosto faz as delicias dos amadores de kitch dos anos 50. Se a isto acrescentarmos
casinos, clubes nocturnos, play-houses e outros templos e capelas de jogos e lotarias, Havana poderia ser rotulada de "nova Babilónia", entregue ao estupro e à fornicação.
Todavia, é necessário cautela Por um efeito inesperado de "antropofagia cultural", os havaneses têm conseguido absorver essa rédea solta sem se deixarem corromper.
Impostas por meio século de protectorado económico, após uma independência sob controlo, as mensagens do way of life norte-americano foram passadas pelo pente fino
do "efeito de mestiçagem".
Cidade duas vezes mestiça, com efeito, Havana segregou os enzimas da sua mitologia caribe e africana para cubanizar alegremente o made in USA, transformando-o num
produto nacional autêntico. Basta reparar no andar bamboleante de uma mulata de bigudis no "centro histórico" de Havana Vieja, ou ver os garotos jogar basebol numa
rua de um bairro popular para se compreender

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que a cubanidade não se dissolve na Coca-Cola, muito menos se for enriquecida com uma dose de rum crioulo. Nessa cidade de mais de um milhão de habitantes, aberta
ao oceano e à vida, semeada de palmeiras e de buganvílias, perfumada pela canela e pela banana frita, o caso de Beny Moré e talvez o arquétipo dessa dialéctica do
explorador explorado. Cantor negro do oriente cubano, este "bárbaro do ritmo", ao recuperar a tradição da big band dos antigos escravos criadores do Jazz nos Estados
Unidos, abalou a paisagem musical popular dos mambos, rumbas e boleros, os quais, por sua vez, se tornam produtos de exportação cubana, tão autênticos, como o açúcar
ou o café.
Em 1959, o comandante Guevara não parece ter sentido que Havana é uma festa. O Che nunca foi, como Fidel, um "animal mediático". Seduz sem dar por isso. Não é um
sedutor. Nunca prestou atenção ao seu "marketing político", nem ostentou nenhuma medalha fotogénica da Virgem do Cobre na camisa aberta. Que seja Camilo, com o seu
chapéu de cowboy, no Quartel General de Columbia, a colher os louros da vitória não o incomoda absolutamente nada. São frioleiras. Há outras coisa mais importantes:
a garantia de uma actuação unitária das forças revolucionárias em relação ao comandante supremo, a reacção da burguesia havanesa, que convém vigiar.
O primeiro choque, que ele se apressa a reparar, vem das forças do Directório Revolucionário. Os homens de Faure Chomón e de Rolando Cubela lutaram a seu lado na
província de Las Villas. Mas Castro não quis que eles se integrassem nas colunas do "26 de Julho" para entrarem como vencedores em Havana. Barricaram-se então na
Universidade e no edifício simbólico da sua resistência a Batista o palácio presidencial, que tinham atacado durante algumas horas trágicas, em Maio de 1957, sem
terem conseguido desalojar o ditador. Desta vez, entrincheiraram-se aí recusando-se a sair. Camilo quer fazer uso do canhão! Paradoxalmente, é Guevara, o desordeiro,
que contemporiza e acaba por convencer os dissidentes a abandonarem o local. O juiz Urrutia, nomeado por Castro, em meados de 1958, presidente provisório de Cuba,
pode, pois, tomar posse a 5 de Janeiro. A mil quilómetros dail, em Santiago de Cuba, Castro vai gerindo o suspense com mão de mestre. Mantém durante três dias a
ordem de greve geral, tanto para se precaver contra qualquer nova tentativa de golpe de Estado como para sublinhar que, agora, é ele o Líder máximo. A 3 de Janeiro
inicia, por estrada, uma marcha em direcção a Havana, uma lenta e longa marcha triunfal de cinco dias e cinco noites, na qual sente, a cada minuto, o fervor popular
que a sua passagem provoca. Nunca se cansara desses banhos de multidão - uma droga, dos comícios ao ar livre, onde, perante milhares de pessoas de pé, se entrega
a uma paciente pedagogia da revolução.
Empoleirados em camiões, jipes e até tanques que, ao longo da estrada, se incorporam no cortejo, os soldados rebeldes de braçadeira vermelha e negra reforçam o pitoresco
da procissão "Invencíveis, os barbudos irromperam / para instaurar a paz na terra..."2, celebra Pablo Neruda, que lhes dedica "um momento de canto em louvor da Sierra
Maestra". Em cada etapa, a multidão

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dos partidários vai aumentando, engrossada pelos combatentes da vigésima quinta hora. Tal como o Cid de Corneille partindo ao encontro dos infiéis, partiram trezentos
mas num denodado reforço eram já três mil quando chegaram ao porto".
A chegada a Havana, a 8 de Janeiro, foi uma apoteose. Nessa mesma noite, no acampamento de Columbia, escolhido a dedo porque as forças da "tirania" o haviam declarado
inviolável, Castro faz o seu primeiro grande discurso ao povo de Cuba. Inaugura, com a sua voz aguda, o que constituirá a cerimónia ritual do seu "diálogo" com o
público: um longo monólogo interrompido de vez em quando por perguntas que provocam respostas induzidas "Oralidade quente que atinge as tripas e o coração, transformando
um auditório em comunidade viva"3, segundo o diagnóstico de Régis Debray.
Nessa noite, o discurso do vencedor é uma obra-prima de prudência e de capacidade de manobra. Afirma a primazia do poder civil sobre o militar, garante não nutrir
nenhuma ambição, promete que, longe de se transformar em ditador, se retirará logo que a sua tarefa esteja concluída, como Cincinato. Refere a necessidade de união
e, de súbito, pergunta a Camilo, à sua esquerda: "Estou certo, Camilo?" E Cienfuegos, dando-lhe a réplica aguardada: "Estás certo, Fidel!" Bramidos da multidão delirante.
A fórmula será retomada vezes sem conta. Castro ataca, sem as nomear, às forças do Directório que se apoderaram de armas e munições. "Armas para quê?" E a multidão,
repetindo em coro: "Armas para quê?" Mais tarde, Castro modificará ligeiramente a fórmula "Eleições para quê?" Acabou-se a dissidência do Directório. A maior parte
dos seus membros aderirão ao Movimento. Surge então a marca favorável do destino: os projectores captam nos seus raios uma largada de pombas brancas. Duas delas
vêm pousar nos ombros do orador Mágico!
"Fidel! Fidel!", gritam trezentas ou quatrocentas mil gargantas. É o delírio. Num país de maioria negra, marcado pela santeria, crenças espiritualistas africanas
datando do tempo da escravatura, e pela influência cristã, essas pombas brancas da paz santificam simultaneamente Castro e a revolução "Mas também vos previno",
conclui Castro, indicando que as festividades da revolução terminaram, "que nada nem ninguém poderá salvar os criminosos, os que cometeram assassínios serão punidos
sem piedade"4 É Guevara que é encarregado dessa tarefa ingrata.
Em La Cabaña, a 9 de Janeiro, no dia que se seguiu ao discurso "histórico" de Castro, reuniram-se no pátio dois mil desses combatentes que acorreram ao cheiro da
vitória no último momento. A maior parte não participou nos combates, mas não deixam de ostentar vistosas braçadeiras vermelhas e negras, bem como armas retiradas
dos inúmeros comissariados de polícia, abandonados. Quando perguntam ao Che o que se há-de fazer a essa turba heteróclita, ele responde apenas "Que vão para o diabo!".
Muitos alistar-se-ão nas colunas de comandantes menos rigorosos do que ele. Outros, despeitados, irão engrossar as fileiras da "contra-revolução".

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Após a fuga de Batista, o comportamento dos cubanos não cai nos excessos de violência que se poderiam esperar. É certo que, em Havana, houve nos primeiros dias destruição
e pilhagem dos parquímetros de estacionamento, cujas receitas se sabia reverterem para a mulher de Batista. Houve, na província, alguns ajustes de contas tão irreprimíveis
como sumários: o chefe da polícia de Santa Clara, alguns assassinos a soldo, bem conhecidos, em Santiago. Mas nenhum tumulto mortífero como em 1933, após a queda
de Machado, ou como no ano anterior na Venezuela, após o derrube do ditador Pérez Jiménez. Fidel pediu calma e prometeu que todos os criminosos seriam punidos.
Dito isto, os desmandos dos "esbirros" - nome genérico - tinham sido de tal oídem, violências, torturas, assassínios, que as famílias das vítimas, os amigos e a
maior parte da população reclamam justiça E, portanto, foi feita justiça. Não foi exactamente como Nuremberga, e a depuração foi "razoável", se se tiver em conta
a imensa raiva acumulada contra as infâmias da ditadura. Julgamentos apressados, sem todas as garantias necessárias, isso é ponto assente. Nos Estados Unidos, sobretudo,
sobem os protestos. Mas o moderado Rufo López-Fresquet, ministro das Finanças do primeiro governo de Urrutia, observa pertinentemente, num livro escrito no exílio:
"O estrangeiro, sobretudo o americano, insistia no aspecto jurídico desses julgamentos revolucionários. O cubano interessava-se pelo seu aspecto moral"5.
Claude Julien, enviado especial do jornal Le Monde, precisa: "as duzentas pessoas que foram executadas [...] eram criminosos de direito comum, que mataram com as
suas próprias mãos"6. Herbert Matthews, do New York Times, aceita como provável o número de seiscentos "criminosos de guerra" abatidos. E confessa: "Não conheço
nenhum exemplo de um inocente que tivesse sido executado" Perante a indignação da imprensa e do público americanos, observa que, durante os últimos dois ou três
anos, "sobretudo quando os partidários de Batista matavam os adversários - geralmente depois de os terem torturado - a um ritmo assustador, não tinham surgido protestos
americanos"7. Uma francesa, Marie-Chantal, surpreendida em Havana em lua-de-mel com o marido, Daniel Camus, fotógrafo do Paris-Match, observa em 14 de Janeiro de
1959, num livro-testemunho, de uma inépcia desarmante mas escrito a quente, por isso interessante: "Há dois dias que a imprensa local surge cheia de fotografias
dos assassinos do antigo regime, com descrição pormenorizada das atrocidades e dos crimes que cometeram. Fotografias de identidade, tendo como legenda: Senhor X...
110 assassínios. Senhor Z... 80 mortes". A jovem declara sentir-se arrepiada ao ver na revista Bohemia "metade das duzentas e onze páginas cobertas de fotografias
desses desgraçados torturados que foram encontrados nos postos de polícia da capital. Isso devia ser proibido"8
O presidente Urrutia, antigo presidente do Tribunal da Relação de Oriente, tenta pôr termo a esses métodos expeditos. Castro ignora-o. Sente que a opinião pública
quer ser informada. Manda até publicar um decreto que altera pura e simplesmente a constituição de 1940, que excluía a pena

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de morte. É sobretudo em La Cabaña, portanto sob a autoridade de Che, que se situam os tribunais marciais, e também os tribunais especiais de Havana, com um advogado
de nomeação oficial e, entre os juízes, um notável. Para evitar eventuais erros judiciais, a sentença não é executada de imediato.
A sólida fortaleza, transformada em prisão militar, foi construída pelos espanhóis, no fim do século XVIII, para proteger uma outra fortificação, o Castillo del
Morro, que controla a entrada do porto de Havana; o local foi sempre muito cobiçado por piratas e corsários de todos os tempos. O repórter do Paris-Match e a sua
escandalizada esposa atravessam o túnel submarino, construído pelos franceses, antes de transporem a pesada ponte levadiça. "É ali que "eles" vão ser fuzilados",
indica-lhes um capitão que os guia, mostrando-lhes os fossos secos. "Eles" - os prisioneiros, vestidos de sarja azul com um grande P nas costas - deixam-se fotografar
sem levantar obstáculos. O fuzilamento é uma tradição tão antiga na história cubana dos dois últimos séculos que se formou uma ranhura num muro, à altura do coração,
formada, segundo parece, pelo impacto das balas que atravessam o corpo das vítimas. Na cidadela, transformada agora em museu, a visita guiada inclui o famoso paredón,
o muro dos fuzilamentos.
É provável que Guevara, com a sua intransigência radical à moda de Saint-Just, tenha zelado pelo cumprimento das execuções sem grandes problemas. A revolução não
é um artifício. A sua boa consciência é total. O padre franciscano que assiste os futuros executados conta-lhe, aliás, que os condenados confessam crimes ainda piores
do que aqueles que lhes valeram o paredón. "A justiça revolucionária é uma verdadeira justiça; não é rancor ou raiva doentios. Quando aplicamos a pena de morte,
fazemo-lo correctamente"9, declara o Che. Uma vez que é necessário sujar as mãos, exige que todos os oficiais, incluindo os que se ocupam de questões de intendência,
se revezem para garantir as execuções, a fim de impedir a "profissionalização", tornar a responsabilidade colectiva e evitar a criação de eventuais "pulsões sádicas".
Aliás, é um gringo dos Estados Unidos, Hermann Mark, conhecido de Che, que comanda os pelotões. Não houve banho de sangue por parte dos "fidelistas", como afirma
levianamente o senador democrata norte-americano Wayne Morse. Tal como não houve vinte mil mortos, vítimas da repressão de Batista, como afirma não menos levianamente
a revista Bohemia, número exagerado que, porém, à força de ser repetido, acabará por servir de referência.
A única fífia mediática vem do próprio Fidel Castro que, demasiado convencido da justeza da causa e da ignomínia dos acusados, convoca a imprensa internacional,
numa grande "operação-verdade", para que ela assista, a 22 de Janeiro, no Palácio dos Desportos (com dezoito mil lugares), ao megaprocesso de três antigos oficiais
de Batista, entre os quais um comandante da polícia, Jesús Sosa Blanco, acusado de oitocentos assassínios. A operação é um fracasso. Mesmo confirmada a culpabilidade
dos acusados, a maior parte dos quatrocentos jornalistas fica impressionada com os apupos que interrompem

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as alegações, os gritos de ódio dos espectadores, entre os quais inúmeros camponeses vindos de Oriente. Por muito que o processo seja regular e as acusações devidamente
deduzidas, a imprensa só reterá as palavras do condenado à morte: "Um circo romano!"

Eminência vermelha?

Guevara vai desempenhar um papel de relevo no estabelecimento de uma historiografia oficial, que exalta a gesta heróica da Sierra Maestra derrubando a ditadura,
mas que silencia o papel da população urbana, hostil a Batista e à sua tirania, porém alérgica às orientações comunistas. O eterno conflito entre a serra e a planície.
"Na realidade", escreve Carlos Franqui, "a derrota da ditadura não foi essencialmente de ordem militar. O exército, composto por milhares de soldados, rendeu-se
sem combate"10. Observação exacta. Em muitos casos, a tropa regular passou mesmo, com armas, para o campo rebelde. Os guerrilheiros fizeram, pois, desabar um edifício
mais frágil do que parecia, minado pela corrupção e pela incompetência dos seus quadros.
Não se trata de uma mera discussão académica, mas de um ponto essencial na interpretação da revolução cubana, que irá pôr em causa vidas humanas. Pois é a partir
da leitura dessa revolução vitoriosa que muitos movimentos de oposição na América Latina optarão por orientar ou não o seu combate para a acção militar organizada
em torno do famoso foco de rebelião armada. O Che baseia a sua teoria revolucionária no modelo matricial de uma guerrilha camponesa que consegue vencer um exército
de profissionais. Mas, se não foram tanto os guerrilheiros que venceram mas sim o regime de Batista que se afundou, minado por dentro, então o mal-entendido torna-se
enorme, e a espantosa façanha de trezentos camponeses analfabetos que vencem um exército de cinquenta mil homens fica reduzida a um acidente da história. Já não
há, então, "revolução na revolução". Os comunistas ortodoxos tentarão impor esse ponto de vista, segundo o qual não era necessário recorrer à acção armada para derrubar
Batista, justificando desse modo a sua participação tardia numa luta que não correspondia ao seu esquema marxista do levantamento popular de massas.
Em 1961, num artigo publicado em Verde Olivo, revista das forças armadas sob a sua direcção política, Guevara responde-lhes, sem os nomear. Empenha-se em demostrar
que o caso de Cuba não constitui uma excepção histórica mas, pelo contrário, um exemplo de luta anticolonialista de vanguarda, podendo e devendo ser imitado, pois
os denominadores comuns - a fome, o ódio contra a repressão - são em maior número do que os factores de excepção. Quanto muito, admite dois desses factores. O primeiro,
indubitável, segundo ele, é "essa força da natureza chamada Fidel Castro [...] com uma personalidade extraordinária e qualidades de grande conductor". O outro factor
particular da situação cubana provém do facto de que "o imperialismo

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norte-americano estava desorientado. [...] Quando compreendeu que o grupo de jovens inexperientes que entrava triunfalmente nas ruas de Havana tinha uma consciência
clara do seu dever político e a firme decisão de orientar a vida nesse sentido, era já demasiado tarde. Foi assim que nasceu, em Janeiro de 1959, a primeira revolução
social de toda a região das Caraíbas e a mais profunda das revoluções americanas"11.
Enquanto Castro se instala no vigésimo terceiro andar do hotel Hilton (com elevador privativo), Guevara fixa-se na velha prisão espanhola. Logo que chega, reúne
os seus oficiais para analisar com eles o significado da vitória e para lhes explicar as tarefas que os esperam a partir de agora. Orlando Borrego, um jovem escriturário
de vinte e um anos, promovido a primeiro-tenente ao alistar-se na coluna do Che, em Las Villas, descreveu como, diante de um mapa-múndi, o comandante da fortaleza,
com a sua estranha pronúncia argentina e as suas locuções cubanas, situou o acontecimento no contexto internacional. Desta vez, Guevara já não hesita em falar de
marxismo, de Lenine, de Outubro de 1917, da URSS. Para fazer entrar a revolução na realidade do povo cubano, é o exército rebelde que deve dar o exemplo do trabalho
e do sacrifício, declara ele.12 Nesses primeiros dias da revolução, Havana fervilha numa agitação mais festiva do que inquieta. Em La Cabaña reina ainda a confusão.
O romancista Cabrera Infante, que nessa altura é ainda um jovem jornalista com a paixão do cinema, vem saber notícias do seu amigo Franqui junto do comandante Guevara,
que está desejoso por conhecer. Conta, divertido, como, num corredor, o Che se encontra cara a cara com um general de Batista que, vendo-o à civil, não deixa de
o tratar por comandante, pondo-se em sentido. "Guevara deu-me a sensação de estar um pouco retraído, como se pedisse desculpa por ser argentino, por não ser inteiramente
cubano"13.
O testemunho de Martha Frayde é diferente. Médica, descendente da grande burguesia crioula, membro do Partido Ortodoxo que, graças à sua palavra de ordem. "O dinheiro
é uma afronta", seduzira Castro, amiga pessoal deste último e das suas irmãs, vai a La Cabaña recuperar a sua ficha policial, depositada ali pelo BRAC (Gabinete
de Repressão Anticomunista). Num pequeno livro escrito no exílio, após três anos de prisão castrista, descreve o ambiente em que encontrou o argentino; este tinha
a seu lado uma jovem secretária loura, Aleida, que não mais o deixaria. "O Che intrigava os cubanos. A sua personalidade e a sua origem fascinavam-nos. [...] Vimo-nos
com frequência e, nessa época, isso não era fácil. De facto, o Che estava fortemente guardado pelos camaradas, que queriam poupar-lhe toda a fadiga, afastando-o
dos outros. Estava nessa altura diminuído por crises de asma violentas e frequentes. [...] O Che vivia ali num ambiente sórdido, numa sala escura, com o inalador
e o seu mate ao alcance da mão"14. Martha Frayde nota como, desde o início, as hierarquias do exército rebelde se voltaram para os homens considerados nessa época
mais fiáveis do que ninguém por terem sido treinados na disciplina e no secretismo. "O seu grupo era constituído por

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camaradas comunistas. [...] Entre os civis que gravitavam à sua volta, como se ele fosse um deus, havia uma figura que, imediatamente, me despertou a atenção. Chamava-se
Osvaldo Sánchez. Era o responsável do Partido Comunista Cubano para a segurança dos seus dirigentes. Tinha feito a sua formação na URSS. Era a caricatura típica
do agente do KGB, quase sempre mudo, sóbrio, grave, sempre vestido à civil e com um chapéu de feltro clássico..."15
Sobre o comportamento do Che em relação a Fidel, a apresentação habitual do binómio sagrado da revolução pretende que Guevara surja como o discípulo fascinado, pouco
disposto a brilhar e menos ainda a comparar-se com o "gigante" ainda não estatuificado, mas proclamado, desde os tempos do México, "ardente profeta da aurora". Ora
a impressão do testemunho, insólito, afasta-se do imaginário convencional, aproximando-se mais do estereótipo que circulava na América Latina do argentino com tendência
a dar nas vistas. "O Che tinha um grande orgulho em falar francês e gostava de mostrar que era culto e brilhante. Penso que ele se julgava superior a Fidel, mais
cáustico, melhor estratega. Adorava falar. Nós ficávamos horas a ouvi-lo. De boca aberta"16.
Se é (modesto) burgrave em La Cabaña, visto que é chefe da cidadela, Guevara ainda não o é na equipa dirigente do país, pelo menos na equipa oficial. Castro, que
para já não tem outro título senão o de comandante supremo de um exército que vai reestruturando, deixou ao presidente Urrutia o cuidado de constituir um governo
competente e moderado. Nele, os membros do "26 de Julho" estão em minoria, no meio de uma maioria de notáveis liberais, reformistas, gente adequada para tranquilizar
uma população cheia de desconfiança em relação aos comunistas. Obcecada com a sua paranóia anticomunista, a administração Eisenhower ainda não compreendeu muito
bem o que acabou de acontecer com a queda de Batista e a chegada inopinada desses Robins dos Bosques barbudos. Washington começa a interrogar-se se os novos senhores
da ilha irão permitir que Cuba permaneça na sua zona de influência. O que está longe de avaliar é a onda de choque que o fenómeno cubano irá provocar na América
Latina, a sua coutada. Enquanto não consolida o seu poder, Fidel Castro, lembrando-se sem dúvida das conversas com Guevara, procura não dar nenhum pretexto ao big
brother para intervir militarmente, como o fez na Guatemala, há cinco anos.
Tratando-se do seu lugar-tenente argentino, Castro é de uma prudência extrema. A penumbra de La Cabaña parece-lhe propícia a manter afastado dos holofotes esse belo
estrangeiro, cuja fama começa a tornar-se lendária. Foi já visto em público, muito romântico, com o seu rosto pálido, os cabelos compridos, a boina com a estrela,
mas tem fama de incendiário. As suas respostas bruscas aos jornalistas que o assaltam, as suas condenações radicais do imperialismo, a sua liberdade de linguagem
correm o risco de assustar. Já entre as fileiras da guerrilha corria um son, uma canção tipicamente cubana, que marcava bem o lado "rolo-compressor" da personagem
e da sua coluna de maltrapilhos: "Quilate de la acera/Mira que te tumbo / Que aqui viene el Che Guevara / Acabando con el mundo". Mais vale então manter à margem

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da revolução aquele que alguns não hesitarão em classificar de "eminência vermelha" do comandante chefe - análise um pouco apressada, pois Castro nunca aceitará
à sua volta nenhuma eminência, nem sequer vermelha. Alguns problemas de saúde, bastante oportunos, justificam o seu discreto afastamento. De facto, foi detectado
no Che um foco de tuberculose, o que, a acrescentar à asma, às duras experiências de uma campanha esgotante, às crises de malária e a um gosto imoderado pelo charuto,
impõe uma verdadeira cura.
Guevara não abandona por completo as muralhas húmidas da fortaleza, mas aceita ir "repousar" na elegante estância balnear de Tarara, a vinte quilómetios de Havana,
numa vivenda à beira-mar, confiscada a um potentado do antigo regime. Um Studebaker azul, último modelo (1958), leva-o lá em poucos minutos. Não muito longe, em
Cojimar, o pequeno porto de pesca em que Hemingway (que mora perto) se inspirou para escrever O velho e o mar, Castro fará também de um terraço alcandorado no alto
de uma colina uma das suas inúmeras pousadas. Em matéria de repouso, a vivenda de Che em Tarara torna-se em breve na sede do brain-trust da revolução, o ponto de
encontro informal dos comandantes do primeiro círculo. À beira de uma praia magnífica, com um pano de fundo de jardim tropical, num casarão confortável, em plena
efervescência permanente - mas Cuba inteira está em efeivescência -, enquanto soldados armados entram, saem, trazem café, constroem-se alguns sonhos delirantes de
libertação latino-americana, mas também uma segunda lei de reforma agrária, um código penal militar, o regulamento da marinha mercante, uma nova reflexão sobre o
papel do sector bancário, e muitos outros projectos de transformação social, económica e política do país. A ponto de Tad Szulc, apoiando-se em confidências de "velhos"
comunistas como Fabio Abraham Grobart, afirmar que se tratava de um verdadeiro "governo sombra" reunido em torno de Fidel e do Che: Raul, Cienfuegos, Ramiro Valdés
(braço direito de Guevara e futuro chefe dos serviços secretos), bem como alguns marxistas declarados, Alfredo Guevara, velho amigo comunista de Fidel dos tempos
da universidade, regressado do exílio, e Nuñez Jiménez, o geógrafo marxista que apareceu em Santa Clara.
Esse Fábio Giobart é uma figura bastante enigmática, na época já com uma certa idade, procurando nunca aparecer em fotografias. De origem polaca, promovido, segundo
consta, a coronel do KGB, eminência bastante parda dos serviços soviéticos, teria começado por instalar, em 1928, a partir de Havana, uma rede de espionagem através
do continente latino-americano Juan Vivés, um jovem do pelotão suicida do Che em Las Villas, posteriormente recrutado para a contra-espionagem militar por Ramiro
Valdés, estava de guarda a 3 de Março de 1959 quando Castro teve uma reunião com Grobart, no gabinete do Che em La Cabaña. Segundo Vivés, Guevara insistiu em manter
confidencial esse encontro, uma vez que, no dia seguinte, arrancou do registo de entradas a respectiva página. Três dias depois, de forma discreta, duas missões
com membros do PSP partiram de avião, uma para Moscovo, dirigida por Carlos Rafael Rodríguez, a outra para Pequim. Foi Ramiro Valdés que se

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encarregou de obter, dos Negócios Estrangeiros, passaportes virgens para os emissários especiais, e de os mandar preencher pelos serviços. Aproveitou, aliás, para
retirar cerca de cinquenta passaportes. De tal forma que, com o espírito travesso próprio da juventude, o tal Vivés, de dezasseis anos, que conta esta história em
Les Maìtres de Cuba, se diverte a fabricar para o Che um passaporte com o nome de Carlos Gardel, cantor de tango (A brincadeira valeu-lhe quinze dias de detenção,
conta ele).
E em Tarara que, muito discretamente, comunistas de peso como Blas Roca, Carlos Rafael Rodríguez e Anibal Escalante vêm escutar Fidel. São eles os primeiros a aperceber-se
que, se há dois governos paralelos em Cuba - o do presidente Urrutia e o "outro" -, o único que detém o poder é aquele onde está Castro. Isto é de tal forma verdade
que o primeiro ministro em exercício, o bastonário Miro Cardona, para não fazer apenas figura de corpo presente, decide demitir-se, a 13 de Fevereiro. Fidel Castro,
que já mostrara estar interessado no cargo, é imediatamente empossado - desta vez oficialmente - na chefia do Conselho de Ministros.
O sociólogo norte-americano Wright Mills ficou impressionado com o "vazio ideológico" que nessa época reinava em Cuba entre a classe política. Falava-se aí, como
nos Estados Unidos, de "democracia" e de "mundo livre", sem se perceber que esses conceitos não faziam sentido numa ditadura manipulada por Batista. Por isso, apesar
do Relatório Kruchtchev e da revelação dos crimes de Estaline em 1956, apesar do esmagamento pelos soviéticos da revolta na Hungria, nesse mesmo ano, uma política
de justiça social inspirada na filosofia marxista era ainda susceptível, no fim dos anos cinquenta, de provocar a adesão, desde que se adaptasse à mentalidade do
país e que invocasse mais José Marti do que Karl Marx. Nesta perspectiva, se Castro se "colou" habilmente à sensibilidade do país, dizendo o que as pessoas queriam
ouvir, sem dar um passo em falso, Guevara, em contrapartida, manifesta desde o início um radicalismo que destoa, surpreende e até assusta. Contrapondo-se a pachanga,
ao arraial folclórico dos amanhãs que cantam, e que dançam, ele encarna o espírito de seriedade, recorda as virtudes de resistência e de determinação que prevaleceram
na Sierra e, opondo-se à improvisação festiva, exige pontualidade e eficácia.
por muito pouco cubano que seja, este comportamento vale-lhe a idolatria dos puros, dos incondicionais da mudança radical, que vêem nele o modelo a seguir, o arquétipo
do revolucionário exemplar. Não deixa de ser surpreendente verificar que, entre todos aqueles que conviveram com ele, que se bateram ou que trabalharam a seu lado,
são raros os que saíram indemnes desse encontro. Como se tivessem sido tocados por uma espécie de chama, declaram-se marcados, quase transformados pelo contacto
com um ser considerado excepcional. Outros, pelo contrário, não tendo tido com ele senão um contacto esporádico, sentem-se incomodados com esse modelo culpabilizador
e declaram que ele é um pesado", um chato - censura grave num país em que o uso é consubstancial à vida. Pesado é "aquele que não sabe viver"

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ou que, como o nosso herói, só aceitará viver quando for feita justiça na América Latina e no mundo inteiro. O que significa: alguém que corre ao encontro da morte.

"Não sou um artista de cinema"

Quando, alguns dias após a vitória, um jornal pergunta a Guevara qual foi o momento mais tocante da sua vida de guerrilheiro, ele declara que foi quando ouviu a
voz do pai ao telefone, seis anos depois de ter deixado o seu país. Mas não é ele, demasiado austero, que toma a iniciativa de convidar a família a vir a Cuba. É
Camilo Cienfuegos que, sem ele saber, lhe oferece esse presente; dá instruções para mandar vir a "tribo" Guevara no mesmo avião cubano que traz da Argentina um grupo
de exilados anti-Batista e alguns jornalistas amigos. O filho-prodígio só é informado a 9 de Janeiro, poucos momentos antes da chegada do voo, e abraça a mãe em
lágrimas, o pai que, sempre um pouco teatral, beija o chão de Cuba ao sair do avião, Célia, a irmã mais velha e Juan Martin, aliás Patatín, o irmão mais novo, já
com catorze anos, e que ele adora.
É com a mãe, Célia de la Serna, inteligente e culta, mulher de carácter e corajosa, que Ernesto sempre se relacionou melhor. Foi ela que tomou a iniciativa de empurrar
para o exterior o pequeno asmático sofredor, instigando-o a lutar, sozinho, contra a doença. Em relação ao pai, tipo simpático e prosaico, que vive em Buenos Aires
separado da mulher mas que mantém contacto com o domicílio conjugal, adopta uma atitude um tanto protectora. Quando o pai lhe pergunta, a ele que acaba de sair do
seu mundo da guerrilha, o que conta agora fazer com o seu diploma de médico, responde à pergunta absurda com a indulgência trocista que é dispensada àqueles que
não entendem nada de nada. "Há muito que larguei a medicina. Sou um combatente que, por agora, trabalha para apoiar um governo. O que vai ser de mim, ignoro-o. Não
faço a menor ideia onde vou esticar o pernil..."17.
Camilo reservou quartos para os Guevara no décimo-sexto andar do hotel Hilton. Mas quando, após alguns dias naquele palácio, Guevara Lynch manifesta o desejo de
mudar para um hotel menos luxuoso, o seu ilustre filho, conhecendo Fidel Castro, previne-o que se arriscam a ir parar a um sítio ainda mais elegante, o que de facto
acontece. Se o Che é muito austero, não ignora que os cubanos sabem mostrar-se generosos, por vezes até à ostentação. Mas quando o pai pergunta ainda se é possível
ir ver in situ, em Oriente, o teatro das operações da guerrilha na Sierra Maestra, Ernesto filho responde que sim senhor, é possível, e que pode colocar um jipe
e um motorista à sua disposição, desde que ele, Ernesto pai, pague a gasolina do seu próprio bolso, pois está fora de questão utilizar um combustível que é pago
em divisas pelo povo cubano para ir fazer passeatas de diversão. O projecto é, portanto, adiado.
Quanto muito, vão todos a Santa Clara, para conhecerem os pais de Aleida, a nova companheira do filho.

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O pai, divertido por ver o filho tão mudado, entregar-se-á mais tarde à comparação clássica com o antes: "Quando partiu era quase imberbe, e agora tinha uma barba
esparsa. Era magro, queimado do sol. Os olhos não tinham mudado, penetrantes, trocistas. Dantes, falava depressa, as ideias atropelavam-se, comia as palavras. Agora
falava pausadamente, com segurança. Reflectia antes de responder, coisa que antes não fazia nunca. [...] Tinha dificuldade em reconhecer o nosso Ernesto. Estava
diferente. Parecia carregar nos ombros uma enorme responsabilidade..."18. Fascinado com a transfiguração, Guevara Lynch vai, anónimo, assistir a uma conferência
desse "comandante Guevara", que muito o orgulha: "Falou durante duas horas com clareza e precisão, numa voz pausada, sem fazer gestos nem mímicas, com as mãos apoiadas
no púlpito, como se reflectisse em voz alta"19. Uma forma de discorrer que se demarca da retórica utilizada pelo Líder máximo...
Este reencontro familiar despertou em Ernesto o desejo de voltar a ver a filha, Hildita, que ainda não sabia andar quando ele saiu do México, em Novembro de 1956.
Vai fazer três anos agora. A menina chega a Havana a 21 de Janeiro, caminhando a passos curtos ao lado da mãe, Hilda Gadea. Esta, em 1958, tinha enviado uma carta
ao marido guerrilheiro, manifestando o desejo de se juntar à luta, hipótese que Ernesto pôs de parte, argumentando com a ofensiva iminente das forças de Batista.
Tanta coisa mudou desde então... "Com a sua franqueza habitual, Ernesto disse-me que tinha outra mulher, que conhecera durante os combates de Santa Clara e, com
grande pesar meu, mas fiel às nossas convicções, resolvemos divorciar-nos. [...] Recordo-me de um pormenor que me comoveu. Quando viu a minha tristeza, disse-me:
"Mais valia que eu tivesse morrido em combate""20.
A peruana congratula-se por ele estar vivo: tem ainda uma missão a cumprir em Cuba e na América Latina, diz-lhe ela. Ficam então "amigos e camaradas". Hilda instala-se
em Havana, com a filha. O divórcio é decretado a 22 de Maio de 1959.
Após um mês de estadia, a família argentina volta a partir. Ernesto acompanha o pai ao aeroporto quando um passageiro argentino, compatriota, o reconhece, se aproxima
dele e vem apertar-lhe a mão, pedindo-lhe um autógrafo. Virando-lhe as costas, brusco: "Não sou um artista de cinema"21, declara o Che, que parece sentir uma aversão
sincera pelas honrarias. Timidez? Orgulho? Numa sociedade jovial, onde todos se tratam por tu, ele prefere manter as distâncias, quer isso agrade ou não. Cabrera
Infante recorda-se de um incidente ocorrido em Janeiro de
1959 e exagerado por um efeito de lupa catódica. Um jornalista muito conhecido na época, German Pinelli, tinha começado a sua entrevista na televisão, em directo,
com um "Muito bem, Che...", imediatamente interrompido pelo visado: "Para si, sou o comandante Guevara. Che, reservo-o aos meus companheiros e aos meus amigos".
O jornalista fica embaraçadíssimo. "Nunca um cubano reagiria daquela maneira"22, indigna-se ainda o romancista, passados trinta anos.
Guevara faz parte, evidentemente, desde o início, do regime de excepção instaurado pela revolução, quanto mais não seja pela protecção cerrada que

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lhe é dispensada (e à qual, aliás, ele tenta escapar). Procura sobretudo não se deixar amolecer por outros privilégios menos visíveis, mais insidiosos.
"Comandante da revolução" é já uma designação controlada, designando apenas essa nobreza de armas restrita que ganhou a sua estrela no combate. É o título mais elevado.
"Esta é a única revolução no mundo de onde não saiu um general, nem mesmo um coronel"23, declarou Castro um dia*. Quando cada um dos membros dessa honrosa confraria
é convidado a atribuir a si próprio um salário mensal, Guevara outorga-se um bastante irrisório: cento e vinte e cinco pesos. Mesmo equiparada ao dólar, esta quantia
é baixa. Certos ministros atribuem a si próprios setecentos e cinquenta pesos, outros mil. Será afectação? Decerto que não. É antes a preocupação de ajustar a sua
vida a uma determinada ética. Àqueles que poderiam considerar essa austeridade pessoal exagerada, o nosso jansenista recordaria que o salário anual de um camponês
não ultrapassava então noventa e dois pesos.

Nota: * Os coronéis e os generais irão surgir quando a hierarquia militar cubana alinhar pelo modelo soviético.

Quando, ao chegar a La Cabaña, descobre nos aposentos do general Tabernilla, chefe do Estado-Maior de Batista, um cofre cheio de divisas, comenta, num trocadilho
engraçado, de difícil tradução: "Aquí se podrá meter la pata, pero la mano jamás" ("Aqui pode-se meter água, mas a mão nunca"). A era das prevaricações está ultrapassada.
Neste ponto, a sua susceptibilidade é extrema. Basta uma "breve" da revista Carteles, a comunicar que "o comandante Guevara fixou a sua residência em Tarara", para
ele se irritar e protestar junto de Carlos Franqui, chefe de redacção da revista e director de Revolución, outrora folha clandestina e actualmente o jornal diário
do novo regime. Que não se imagine que ele se enfiou nalguma Tebaida. É só porque está doente, explica ele, e porque o seu salário de oficial é demasiado baixo para
poder alojar as pessoas que o acompanham, e porque os médicos recomendaram o repouso à beira-mar. Escolheu a menos luxuosa das vivendas abandonadas pela corte de
Batista. Sem por isso deixar as suas actividades em La Cabana.
Apesar das recomendações médicas de prudência e descanso, Guevara recusa abstrair-se do ambiente efervescente que reina em Cuba. O desafio é imenso e é necessário
andar depressa para fazer tábua-rasa do passado, reorganizar todo o país no plano económico e social. Parece-lhe elementar que, à sua volta, ninguém conceda a si
próprio a menor trégua. Num dia de Janeiro, um dos seus antigos capitães da província de Las Villas, que ele nomeou comissário da revolução na pequena cidade de
Cólon, vem visitá-lo na sua Bastilha de Havana. O jovem oficial, que se aperaltou todo, apresenta-se e faz continência ao seu comandante. O qual, fingindo não o
ter visto, continua a escrever atrás da secretária e ordena que mandem entrar o tal capitão. Espanto do visado e de Aleida, sempre presente: "Mas ele está à sua
frente...". "Não conheço este senhor", responde o Che. "O capitão do exército rebelde, aquele que eu deixei em Cólon, deve estar neste momento a trabalhar lá, noite
e dia,

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extenuado, esgotado, mal tendo tempo para comer, para dormir ou para se lavar, com tanto que há a fazer para organizar e consolidar a revolução. Que esta coisa que
está à minha frente se retire, que entre então o revolucionário." Envergonhada, a "coisa" retira-se. Muitos anos mais tarde, num pequeno livro-testemunho, o capitão
Julio Chaviano, que conta esta história, afirma, à laia de epílogo: "Que grande lição recebi do Mestre..."24.
São incontáveis os exemplos deste espírito rigoroso, nos limites do humano, deste voluntarismo pascaliano dos quatro costados exigido pelo Che para servir a causa,
de corpo e alma. Nem todos são exibidos por Guevara com a mesma teatrealidade cruel; mas nenhum está isento dessa mística do sacrifício, que por vezes chega ao ponto
de esquecer o homem, sem piedade, em nome dessa revolução que, contudo, se destina a restabelecer o homem na sua plenitude. O Che gostaria de ter à sua volta samurais.
E também alguns kamikazes. Em Santa Clara descompusera o seu "pelotão suicida", que hesitava em tomar de assalto um ninho de metralhadora assassino. Arrastando os
indecisos, foi o primeiro a lançar-se ao ataque, aos berros, deixando estupefactos os soldados de Batista, que se renderam. É com o mesmo ardor que ele gostaria
que prosseguisse o combate em tempo de "paz". Mas, em La Cabana, queixa-se de só dispor de burocratas mais ou menos analfabetos para instruir os processos. Dura
realidade.

"Vamos viver coisas extraordinárias"

Na repartição das tarefas, Castro, que quer fazer tudo, saber tudo, dirigir tudo, destina a si próprio, prioritariamente, a política interna, delicada, e a gestão
das relações com os Estados Unidos, não menos delicada. Guevara, desde o seu encontro no México, nunca lhe escondeu que, se chegassem à vitória, considerava que
a sua missão estava cumprida e recuperaria a liberdade para ir erguer noutras paragens a sua lança contra outros moinhos do monstro imperialista - D. Quixote é,
por definição, cavaleiro andante. Mas Fidel não vê as coisas desse modo. Explica ao seu fiel companheiro que a vitória ainda não está garantida, que a tarefa é imensa,
que precisa dele, mesmo que, de momento, seja conveniente que ele se mantenha em segundo plano. Confia-lhe, entre outras actividades a desenvolver com a máxima discrição,
as que respeitam aos movimentos de libertação na América Latina.
Prevendo que o argentino possa vir a ter necessidade disso - pois, um dia, terá de assumir funções oficiais -, declara-o "cidadão cubano de nascimento", a 9 de Fevereiro
de 1959. A terminologia legal não deixa de ser um tanto humorística, mas a distinção é merecida, para quem arriscou a vida mais de vinte vezes ao serviço desse país
de adopção. O precedente, prestigioso, é o de um herói nacional da independência: Maximo Gomez, natural de Santo Domingo mas consagrado cidadão honorário no panteão
da trilogia dos libertadores, com José Marti, o "Apóstolo", e António Maceo, o "Titã".

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Em 1964, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Guevara responderá ao delegado da Nicarágua, que ironizara a propósito da pronúncia argentina desse
estranho representante de Cuba: "Nasci na Argentina; ninguém o ignora. Sou cubano e sou também argentino, e, se os digníssimos representantes da América Latina não
se ofenderem, sinto-me também patriota da América Latina, o mais patriota de qualquer país da América Latina". E acrescenta, sem que ninguém pressinta a sua partida
iminente: "No momento oportuno, estarei pronto a dar a vida pela liberdade de um país da América Latina, sem pedir nada a ninguém, sem nada exigir..."25.
Ei-lo então, no início de 1959, superintendente-geral da cooperação técnica, militar e financeira que, logo nas primeiras semanas, Cuba vai organizar para apoiar
os "países irmãos" da América Latina a travarem, por seu turno, o seu justo combate. Para este cidadão latino-americano, a tarefa, de alcance bolivariano, tem qualquer
coisa de excitante.
O país irmão mais próximo fica apenas a setenta e sete quilómetros da costa cubana; é o Haiti. Esquece-se por vezes que essa região destacada da negritude antilhense,
de língua francesa e crioula, é também uma parte integrante da América dita "Latina". Reina aí um ditador, François Duvalier, aliás Papa Doe, preocupado com a vitória
desses barbudos que conseguiram expulsar o seu compadre Batista. Imaginando que um sinal de simpatia poderá desencorajar eventuais projectos de desestabilização
do seu regime, tenta utilizar os talentos de um poeta "subversivo", mantido em residência vigiada, René Depestre. Autoriza-o a publicar, no jornal controlado por
Port-au-Prince, um artigo saudando o novo poder em Cuba. Pior a emenda que o soneto! A vitória dos guerrilheiros, exulta o poeta, "é uma música que nos faz nascer
o sol nas tripas". É "a vitória das forças tumultuosas da justiça e da razão [sobre] os tenebrosos instigadores do terror e da corrupção"26. O artigo, que dá brado,
incita Fidel e o Che a convidarem o autor a vir a Cuba, a pretexto de um inocente colóquio sobre poesia.
Mulato, rebelde e, aos 33 anos, comunista já experimentado, Depestre denuncia de imediato os desmandos dos tontons-macoutes do seu país, análogos aos dos "esbirros"
cubanos. Acolhido em Havana pelo bardo nacional, Nicolas Guillén, comunista genuíno, fica sobretudo espantado por ser conduzido a casa de Guevara por dois membros
do bureau político do PSP (comunista), que ele conhece, Anibal Escalante e Osvaldo Sánchez (o homem cujo ar de KGB tinha impressionado Martha Frayde, em La Cabana).
Depestre, que mais tarde se tornará um romancista bastante produtivo, laureado com o Prémio Renaudot 1988, em França, faz-nos uma viva descrição do seu primeiro
encontro com o Che, em Tarara, numa tarde de domingo de Março de 1959.
Mal acaba de beber o café oferecido por Aleida, o haitiano é recebido em privado, no primeiro andar, pelo argentino, que acaba de vencer uma crise de asma e que
está deitado na cama, de botas e com as calças da farda, mas em tronco nu. A vivenda enxameia de gente. Comandantes, amigos, Camilo

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Cienfuegos, Almeida, entram e saem, lançam cumprimentos ruidosos. "Era um corrupio louco... O Che exprimia-se num francês aplicado, por vezes em busca das palavras,
mas muito claro. Tinha uma ideia romântica do Haiti, da sua luta contra a escravatura, na época da Revolução Francesa, etc. Tracei-lhe um quadro detalhado da situação
no meu país e ele fez-me um resumo muito sumário do projecto revolucionário cubano. Disse-lhe então: "Comandante, se não estou em erro, trata-se de uma revolução
radical". Ele olhou-me, malicioso, e respondeu: "Vou confiar-te um segredo. É uma revolução so-cia-lista" (destacando as sílabas). Depois pôs um dedo na boca, para
indicar que era uma confidência"27. Quando Depestre lhe fala do seu projecto de participar num congresso de escritores em Roma, Guevara aconselha-o então: "Não é
em Roma, mas aqui, que as coisas estão a acontecer... Fique por cá. Vamos viver coisas extraordinárias"28. O poeta ficará dezanove anos em Cuba. Exercerá uma influência
considerável. A sua admiração pelo Che não parará de aumentar. "Com ele, nunca senti que estava a lidar com um branco. Bom sinal"29.
"Estão aqui, há dois meses, uns cinquenta haitianos agrupados em torno de um deles, um senador com um discurso ambíguo", prossegue Guevara. "Vais ajudar-me a trabalhar
com eles e receber um treino militar. Se tudo correr bem, vamos desembarcar no Haiti e abrir uma dupla frente com Santo Domingo..."30. A história irá passar-se de
outra forma. Há, de facto, um desembarque, em Junho de 1959, em Santo Domingo, onde Batista se refugiou, outra metade da ilha Espanhola* partilhada entre os dois
Estados, mas as autoridades e a CIA estavam informadas e a expedição fracassa. Nenhum sobrevivente. Desse modo, o projecto haitiano é adiado sine die. E Depestre,
em Havana, será catalogado como um "homem do Che".

Nota: * República Dominicana.

Ultrapassando as instituições, foram-se constituindo redes, de fronteiras pouco nítidas, que prolongam o espírito de corpo das colunas rebeldes, e cuja manifestação
fundamental é uma obediência privilegiada a um chefe, um comandante, de quem se recebe directivas e a quem se presta contas. Não é a gens romana, porque não se trata
de "clientela", mas antes a "liga dos antigos combatentes e dos seus amigos" - cuja aristocracia subtil se media pela antiguidade do alistamento a partir do 26 de
Julho de 1953, data fundadora do ataque ao quartel Moncada. Isso provoca alguma confusão, mas Fidel gere as coisas com mão de mestre; os serviços de informações
funcionam bem. Soberano, não proíbe aos seus barões que tenham os seus próprios apoiantes. Assim, há os homens do próprio Fidel, os do Che, os de Raul, de Camilo,
de Almeida, os do Directório, etc. As coisas irão complicar-se quando os homens do Partido Comunista, planeta à parte, tentarão puxar para a sua órbita o conjunto
da constelação castrista "para te comer melhor, minha netinha"...
Logo a seguir à vitória, as tendências dessas redes tornaram-se mais visíveis, cada uma marcando a sua cor política. "Há mais coisas a separar-nos que aquilo que
nos unia face ao inimigo", constata então Carlos Franqui,

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que vê na posição de uns e outros em relação ao comunismo a linha de clivagem que já surgira durante a guerra entre a serra e a planície. "A cidade travou um combate
em quinze assaltos, mas a vitória escapou-lhe. Fidel e a Sierra venceram por knock-outs"31.
Entre as forças rebeldes, a corrente mais forte é, incontestavelmente, a do Che e de Raul, próximos dos comunistas. Camilo Cienfuegos está do lado deles, talvez
mais "guevarista" que "marxista". A outra corrente manifesta, pelo contrário, uma clara aversão ao comunismo. Nela encontram-se dirigentes do Movimento de 26 de
Julho urbano, como Faustino Pérez, cristão convicto, o jornal diário Revolución, com Carlos Franqui e, sobretudo, a CTC •(Confederação dos Trabalhadores Cubanos),
dirigida por David Salvador. Este antigo operário do açúcar, muito popular, "fidelista" moderado, dirigente de um frente obrero na época de Batista, mantém uma orientação
um tanto corporativista, defendendo o direito à greve e resistindo à infiltração comunista - até ao momento em que, em 1960, será neutralizado por Castro.
Uma terceira corrente, dita "democrática", reúne simultaneamente comandantes como Juan Almeida e dirigentes da clandestinidade, de filiação "ortodoxa", como Raul
Chibas, Huber Matos ou Manuel Ray, principal organizador da resistência cívica das classes médias que se opunham à ditadura.
Face a este poder revolucionário cujos matizes não tardarão a ser detectados, ergue-se uma nova resistência poderosa, a da burguesia económica e dos media. Imprensa
escrita, rádios e televisão, estão longe de estar conquistadas para o movimento castrista. Quanto aos grandes proprietários açucareiros, ligados às companhias norte-americanas,
em breve compreendem que é necessário aliarem-se à burguesia nacionalista e aos impérios financeiros dos Estados Unidos implantados na electricidade, nos telefones,
no petróleo, na banca...

Marxista independente

Politólogos, historiadores e biógrafos têm vindo a interrogar-se se Fidel Castro já seria comunista quando entrou triunfalmente em Havana ou se foi a sua alma danada,
Che Guevara, que o converteu à religião marxista de "São Karl". A questão não é ociosa, pois se existe uma grande cumplicidade entre os dois homens, eles ainda não
sabem que não estão a correr atrás da mesma quimera.
Apesar dos seus arrebatamentos, Castro é mais o homem do hic et nunc. do aqui e do agora, porque cada dia que passa exige um ajustamento táctico, se não estratégico.
Avança passo a passo. Ser marxista e, por maioria de razão, comunista, implica a adesão a um padrão pré-estabelecido. Demasiado rígido, demasiado constrangedor para
quem navega por instinto, sem nunca estar certo de conservar o leme. Mais tarde afirmará que foi marxista-leninista "sem o saber", desde os tempos da Universidade.
Admirável espírito de jesuíta! A 23 de Abril de 1959, numa conferência de imprensa em Nova Iorque, por

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ocasião de uma memorável digressão de relações públicas pelos Estados Unidos, declara, contudo, o que o auditório quer ouvir: "Pretendemos estabelecer em Cuba uma
verdadeira democracia, sem o menor traço de fascismo, peronismo ou comunismo. Somos contra todas as formas de totalitarismo"32.
O Che não teve sobre Castro a influência ideológica que lhe atribuíram. É certo que impressionou Fidel pela sua cultura, pelo seu ardor combativo, a sua inteligência
fulgurante, a sua lealdade absoluta, o seu radicalismo revolucionário; contribuiu, sem sombra de dúvida, para colorir de "antimperialismo ianque" o nacionalismo
de Fidel, mas era chover no molhado. Castro inspira-se bastante numa história nacional que conhece bem e, juntamente com José Marti, o seu modelo não seria Marx,
mas sim Antonio Guiteras, o jovem ministro do Interior do governo Grau, que militava contra o estatuto de protectorado imposto pela emenda Platt, e que a polícia
liquidou após o golpe de Estado de Batista, em 1934.
Não é necessário que Guevara invoque, perante Fidel, Lenine e o seu Imperialismo, estádio supremo do capitalismo para ele saber que é necessário libertar o seu país
do império. Para atingir esse objectivo, de que lhe adiantaria ser comunista? Basta-lhe não ser anticomunista. Quanto a Guevara, embora não negligencie as premências
do quotidiano, tende muito mais do que Castro para um mañana revolucionário que se projecta, a prazo, muito para além de Cuba. Continua a ser o homem do amanhã e
do algures, um amanhã latino-americano que verá atearem-se braseiros, focos revolucionários, como outros tantos sóis negros, desde a Terra do Fogo ao Rio Grande
mexicano, transformando a Cordilheira dos Andes numa imensa Sierra Maestra. Sobre esta complementaridade de duas atitudes, Régis Debray utilizou uma expressão feliz:
"Fidel vivia na horizontal das questões práticas. O Che vivia na vertical do sonho"33.
Será o próprio Guevara comunista? A 4 de Janeiro de 1959, respondendo telefonicamente a essa questão ao jornal (conservador) La Nación, de Buenos Aires, protege-se
com uma prudência idêntica à que Castro manifestará nos Estados Unidos: "Creio estar a ser vítima da campanha internacional que se desencadeia sempre contra aqueles
que defendem a liberdade da América"34. Mas se lhe exigirem o seu minuto de verdade, afirma sem hesitar que o é. Com a particularidade de, sem ser membro do partido,
estar sobretudo à esquerda dos comunistas. O marxismo seduziu-o porque encontrou uma explicação global do desenvolvimento da sociedade e do jogo das forças económicas.
Mas, nessa matéria, ele é autodidacta, como quase toda a gente na revolução castrista. As suas leituras teóricas foram erráticas, ao sabor das obras abordadas caoticamente
na Guatemala, no México e até na Sierra Maestra onde, como se sabe, tenta terminar a leitura inacabada de O Capital. O que é certo é que o seu desejo de revolução
é permanente - e é uma das razões da simpatia ideológica que sentirão por ele os trotskistas e outros defensores da revolução permanente. No seu estudo La pensée
de Che Guevara, o sociólogo Michael Lowy sublinha uma observação feita em Abril

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de 1959 a um jornalista chinês: o Che refere-se a um "desenvolvimento ininterrupto da revolução" e à necessidade de abolir "o sistema social" existente e os seus
"fundamentos económicos"35.
Ao longo dos anos, no contacto com marxistas franceses como Charles Bettelheim e Ernest Mandel, o Che prosseguirá a sua formação, descobrirá os efeitos perversos
da lei do valor e as diferenças consideráveis entre o pensamento do jovem Marx e a estruturação posterior da sua doutrina. Seguindo o conselho de Lenine, verá no
marxismo, submetido ao fogo da sua crítica pessoal, não um dogma, mas um guia para a acção. O que seduzirá toda uma geração e fará dele o anjo tutelar do movimento
de revolta de Maio de 1968 na Europa, e não só, será a sua forma de reinserir os valores morais numa sociedade dominada pelo mercado. Reabilitará desse modo palavras
gastas à força de serem manipuladas, tais como dignidade humana, liberdade, solidariedade, fazendo do comunismo uma filosofia libertária, um meio de alcançar uma
humanidade nova.
Em 1965, confessará ao presidente Nasser que, no México, foi ele que iniciou verdadeiramente Raul Castro no comunismo, apesar da adesão antiga mas fugaz deste último
às juventudes socialistas (comunistas), e que, ao tomar conhecimento disso, Fidel ficou muito irritado por lhe terem escondido uma coisa dessas36. Raul, de temperamento
mais militar e menos filósofo, tornar-se-á um marxista-leninista puro e duro, um homem de aparelho. Apoiar-se-á sem reservas no PSP, infiltrará os seus homens em
todos os níveis do exército e da nova administração. Guevara, pelo contrário, não se deixará amarrar pela nova guarda do PSP, alinhada por Moscovo. Para grande desespero
de alguns, procurará manter-se, segundo a expressão cubana, um marxista por la libre, isto é, um marxista independente, autónomo, "não alinhado", cioso das suas
opções e avesso às meias-tintas.
Apesar ou devido à sua intransigência, e também porque se sabe que ele é um incondicional de Fidel, o Che dar-se-á ao luxo um tanto provocador de acolher na sua
rede inúmeros "órfãos" da revolução. Militantes pouco conhecidos ou dignitários de primeiro plano guindados ao Capitólio, se num dia de desgraça caírem da rocha
de Tarpeia, é junto de Guevara, o incorruptível, que imploram uma segunda oportunidade redentora. O Che é severo, já se sabe. Pode ser brutal, grosseiro, implacável,
se for preciso. Mas não é surdo ao debate de ideias, desde que se trate de revolução. Com ele é possível explicar-se, discutir, desenvolver uma argumentação herética
sem se ser excomungado. Neste franco-atirador inveterado, a chama contestatária não esmoreceu. É por isso que ele, que é considerado cruel - e às vezes sê-lo-ámanifesta
uma firme indulgência em relação a esses homens rejeitados. Recuperando-os como que por desafio, transformando esses falhados em incondicionais consumados, demonstra
que o castigo foi desastrado ou excessivo. O que alguns castigadores não lhe perdoarão.
Por muito entusiasmado que esteja com o seu sonho bolivariano, o Che não negligencia as contingências do momento. É ele, tão avesso à comunicação

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quando ela não passa de espectáculo, que, lendo a imprensa cubana e os telegramas das agências noticiosas, se apercebe de que a revolução não está preparada para
fazer ouvir a sua voz. Na segunda semana de Janeiro de 1959 manda vir de Buenos Aires Jorge Ricardo Masetti, o jornalista argentino que o entrevistou na Sierra Maestra
e lhe parecera conquistado para a causa dos guerrilheiros. Pediu-lhe primeiro que o ajudasse a montar a "operação-verdade", destinada a contrabalançar, se possível,
os terríveis exageros das agências norte-americanas e da imprensa local sobre os tribunais revolucionários, de forma a explicar que os barbudos não são perigosos
sanguinários. Mas o projecto mais vasto, de uma louca ambição para um pequeno país como Cuba, é criar uma agência de imprensa nacional, de vocação internacional,
destinada a mostrar la otra cara de la moneda, a outra face da moeda, o aspecto da realidade que as agências menosprezam e que os jornais conservadores ignoram,
isto é, esse movimento popular que cresce e que procura estabelecer a justiça e a equidade nas estruturas sociais.
A agência nasce; chama-se Prensa Latina. Com um capital de mil dólares inicialmente abonados por Guevara, Masetti recruta como redactores em Havana, ou como correspondentes
na América Latina e no mundo, a fina-flor do jornalismo latino-americano: Gabriel García Márquez, futuro prémio Nobel da literatura, Carlos Maria Gutiérrez, do conceituado
semanário uruguaio Marcha, o romancista mexicano Carlos Fuentes, os argentinos Rodolfo Walsh e Rogelio García Lupo, o boliviano Teddy Córdova, o colombiano Plínio
Apuleyo Mendoza... Durante alguns anos, a aventura é bela, exaltante e divertida. E cara: seis milhões de dólares para arrancar. Depois, pouco a pouco, veio o tempo
do congelamento...
O próprio Che faz, à sua escala, um trabalho de informação permanente. Durante os seus anos cubanos, não pára de explicar e voltar a explicar a revolução nas suas
diferentes etapas e porque é que ela precisa de ser apoiada com entusiasmo. Os seus discursos, exortações e outras intervenções acabam por encher uma série de volumes.
A primeira conferência que o comandante Guevara, aureolado com a sua jovem glória, aceita proferir em Havana, menos de um mês depois de ter lá entrado à frente da
sua coluna, é reservada a um pequeno público de comunistas e simpatizantes. O facto não é inocente. Cabrera Infante afirma que esse gesto foi considerado como uma
inépcia pelos intelectuais havaneses anti-Batista, pouco atraídos pelos comunistas. Nos salões de Nuestro Tiempo, associação cultural do PSP, o Che insiste sobretudo
no modo como se teceram os laços entre o exército rebelde e o campesinato. Sublinha que a primeira lei da reforma agrária de Outubro de 1958, concebida por Fidel
Castro, redigida pelo advogado Sori-Marín "e na qual tive a honra de colaborar", modesta lítotes - permitiu a distribuição de terras pertencentes ao Estado ou a
apoiantes de Batista a mais de duzentas mil famílias. Mas não chega, diz ele; falta abolir a grande propriedade, o latifúndio, "fonte indiscutível do atraso do país
e dos males de que padecem as massas camponesas"37.

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Guerra ao latifúndio

As questões da reforma agrária podem parecer áridas. Todavia, elas constituem o prisma através do qual se ilumina toda a estratégia política dessa revolução que
Castro faz avançar, etapa por etapa, com algum génio. Falando dos guerrilheiros desembarcados, como ele, do Granma, Guevara sublinha como eles evoluíram, no plano
ideológico, porque partilharam a existência da "parcela dessa classe social que mostra, quase agressivamente, o seu desejo de possuir terra [...]. Eles sabem que
a reforma agrária é a base sobre a qual deve ser construída a nova Cuba"38. O Che sentiu que o latifúndio, ligado à monocultura do açúcar, era o símbolo da dependência
económica e política da ilha: os grandes proprietários de terras tinham feito uma aliança com os monopólios norte-americanos, "os mais poderosos e cruéis dos opressores"39.
Manifestamente, os cubanos punham uma grande carga afectiva no seu desejo de se libertar daquilo que transformara o seu país em anexo rural da grande potência industrial
do Norte.
Enquanto que, para empatar, para consolidar o seu poder e acalmar eventuais inquietações dos Estados Unidos, Castro deixa o seu ministro da Agricultura (o advogado
Sori-Marín) preparar uma lei agrária de carácter reformista e liberal, sabe que, na sua casa à beira-mar, o Che, rodeado de um pequeno comité de tendência comunista,
prepara, secretamente, um projecto muito mais radical. "Durante dois meses, tivemos reuniões nocturnas em Tarara, onde o Che convalescia"40, conta Nuñez Jiménez.
E Alfredo Guevara especifica: "Ficávamos em casa de Che até de madrugada, aguardando a chegada de Fidel, que modificava tudo"41. E então, a 17 de Maio, Sori-Marín
é colocado perante o facto consumado (demitir-se-á algumas semanas depois). Castro vai com os seus ministros e comandantes ao antigo acampamento de La Plata, nas
encostas da Sierra Maestra, espaço já sacralizado, para aí promulgar, com pompa e circunstância, uma lei de reforma agrária que irá alterar o curso dos acontecimentos
em Cuba.
Numa primeira leitura, essa lei não parece muito má. Proíbe, como estava previsto, os latifúndios. Nenhuma propriedade deve estender-se por mais de 400 hectares
e, para evitar um parcelamento excessivo, não deve ser inferior a duas caballerias (27 hectares), área considerada mínima em sistema de agricultura extensiva. Mas
algumas explorações agrícolas "de ponta", de alto rendimento, são autorizadas a conservar até cem caballerias (1350 hectares). O agrónomo Michel Gutelman, autor
de um estudo aprofundado, L'agriculture socialisée à Cuba, observa que "a lei de 17 de Maio de 1959 visava sobretudo criar e consolidar uma pequena burguesia camponesa
[mas que] na prática, e contrariamente às intenções explícitas da lei, o sector cooperativo tornou-se rapidamente um sector estreitamente dependente do Estado. [...]
De facto, para abolir efectivamente os latifúndios, era forçosamente necessário pôr em causa a propriedade estrangeira"42. Com as consequências que se podem adivinhar.

248

Outro fenómeno de extrema importância é que não são os tribunais, mas um Instituto Nacional da Reforma Agrária (INRA) - presidido pelo próprio Fidel Castro! - que
controla as expropriações e redistribuição de terras. Para esse efeito são-lhe conferidos poderes tão amplos que muitos passam a considerar essa instituição como
o verdadeiro governo do país. Tanto mais que "departamentos" criados ad hoc, como o da Indústria, serão decalcados dos ministérios oficiais, que, por seu turno,
parecem não servir para nada. "Com base na reforma agrária virá a grande batalha da industrialização do país", explicará Guevara, dirigindo-se, em 1960, à "juventude
da América Latina"43. Uma milícia de cem mil homens bem armados, criada em poucos meses e constituída essencialmente por camponeses, tornar-se-á o braço executivo
do INRA.
Ao mesmo tempo, sob a direcção de Raul Castro, prossegue o desmantelamento, por fases sucessivas, do exército de Batista, sem grandes sobressaltos. "Não deve subsistir
a mínima estrutura do antigo exército", preconiza Guevara na sua Guerra de Guerrilha44, para que se crie um novo exército que seja verdadeiramente, segundo a expressão
de Camilo Cienfuegos, "o povo fardado".
Ao decretar, em Janeiro de 1959, a suspensão dos despejos e, em Março, a redução para metade de todos os arrendamentos, o novo regime obteve, de imediato, uma enorme
popularidade junto das populações urbanas. Com a proclamação da reforma agrária de Maio, são os guajiros de todo o país que exprimem a sua alegria e gratidão. Após
séculos de exploração, os camponeses, povo esquecido e desprezado, têm finalmente a sensação de que lhes é feita justiça. Tornar-se-ão incondicionais da revolução.
Por muito que Guevara se tenha apagado durante esses primeiros meses de 1959, nenhum dos protagonistas da vida política ignora que é ele, mais do que ninguém, o
"extremista", o vermelho. Numa digressão pela América Latina após a sua viagem aos Estados Unidos (Abril de 1959), Castro inventou, em Montevideu, uma palavra de
ordem liberal, conciliadora, muito apreciada. Aquilo que Cuba deseja, declara ele, é "pão e liberdade, pão sem terror. Nem ditadura de direita, nem ditadura de esquerda;
uma revolução humanista". É muito aplaudido. O que, pelo contrário, Guevara pretende é o combate justiceiro antimperialista. Tendo, como arma de guerra, "a reforma
agrária [que] dará a terra a todos os desapossados e tirá-la-á aos que se apropriaram dela injustamente. [...] Os maiores proprietários, são também homens influentes
do Departamento de Estado ou do governo dos Estados Unidos"45 denuncia ele. Percebe-se que Castro tenha achado conveniente afastar por uns tempos este enfant terrible,
avesso à arte da subtileza, na qual ele é mestre, e que diz com uma franqueza desastrada aquilo que convém ocultar por enquanto. Primeiro-ministro, chefe das forças
armadas, presidente do INRA, Castro declara que a revolução é verde-azeitona, que é tão verde como as palmeiras cubanas. Mas, pelo que diz Guevara, a oposição pressente
que, como afirma o conservador Diário de la Marina, essa revolução é mais do tipo melancia: verde por fora, mas vermelha na sua verdade profunda. Fidel sugere então
ao

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seu impetuoso amigo - bem o merece - que vá percorrer o vasto mundo ou para ser mais preciso, o vasto Terceiro Mundo. O revolucionário sem fronteiras, eterno vagabundo,
aceita de bom grado, tanto mais que se trata de ir espalhar a boa nova de Cuba e se sente restabelecido dos seus problemas de saúde. Faz, porém, questão de regularizar
antes dois "pormenores" da sua vida pessoal: um divórcio e um novo casamento.
Como vimos, as coisas com Hilda Gadea estão claras. O casal já não era exactamente um casal antes mesmo da expedição do Granma os separar. Hilda arranjou emprego
no departamento de economia da Prensa Latina (a rede dos "homens do Che") e cuida de Hildita, que vai ver o pai quando este está livre - mas durante a fase de tuberculose
do papá, para evitar o contágio, diz-lhe adeus de longe, sem se aproximar.
A 2 de Junho de 1959, em Havana, Ernesto Guevara de la Serna casa com a cubana Aleida March. Tem trinta e um anos. Ela tem vinte e cinco. Terão quatro filhos em
seis anos. Uma fotografia do casamento, um pouco afectada, publicada nos jornais, mostra-nos, no gabinete do Che em La Cabaña, uma esposa convencional, penteada
à Joana d'Arc, num vestido branco de mangas curtas, de rosto sério, quase sisudo, ao passo que o marido-comandante, sempre com a sua farda verde-azeitona e a boina
com a estrela, ostenta um sorriso trocista, de sobrancelhas erguidas sob as protuberâncias características da testa, revelador da ironia com que se presta ao jogo.
A seu lado - presença não desprovida de significado político - o amigo de longa data, Raul Castro e a sua esposa Vilma Espín, de origem francesa, que serviram de
testemunhas. Também eles são recém-casados; Raul, de 28 anos, "regularizou" no princípio de Janeiro, em Santiago de Cuba, a relação iniciada na Sierra com a responsável
local do M-26. Nem Fidel, nem o Che, demasiado ocupados em Havana, tinham podido entretanto deslocar-se ao outro extremo da ilha. A cerimónia de casamento de Guevara
é o mais "civil" possível. Ernesto é um ateu declarado e Aleida desligou-se, ao que consta, da religião presbiteriana em que fora educada em Santa Clara.
Uma outra fotografia tirada por ocasião desse acontecimento merece ser referida, por ser um dos raros documentos em que se vê Guevara rir abertamente. Régis Debray,
sublinhando que nunca viu Fidel nem o Che fazerem tal coisa, observa que rir em público é descobrir-se. É verdade que, com o passar do tempo, Guevara irá provavelmente
rir cada vez menos. Passa a sorrir. Um sorriso matreiro, por vezes sarcástico. O seu humor (quase sempre negro) saboreia o segundo sentido. Mas há inúmeros testemunhos
que falam do seu riso desenfreado e contagioso em privado. Calica Ferrer recorda-se da alegria espontânea e tonitruante do seu amigo Ernesto quando fizeram a viagem
beatnik de 1953. Ricardo Rojo, Alberto Granado, Gustavo Roca e outros companheiros de juventude são testemunhas disso. Mas foi talvez com o seu verdadeiro cúmplice,
Camilo Cienfuegos, que Guevara, no meio de insultos amigáveis e exclamações afectuosas, soltou as maiores gargalhadas. Julio Chaviano, o tal capitão muito aperaltado
que Guevara ignorou

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como uma "coisa" quando se apresentou diante dele em La Cabaña, escreve no seu livrinho de memórias: "Apesar das diferenças de carácter, tudo o que o Camilo fazia
ou dizia era pretexto de risota para o Che, que olhava o amigo com aquele misto de admiração e de ternura que se tem por um irmão mais novo que se estima muito"46.
Essa fotografia de casamento, portanto, mostra-nos um Guevara que se descobre, que se abre. De mão dada, curvados pelo riso, os noivos fogem da sala como se acabassem
de pregar uma boa partida aos presentes.

Vasto é o Terceiro Mundo

A 12 de Junho de 1959, dez dias apenas após o casamento, Guevara parte de avião, não em viagem de núpcias, mas como celibatário, para Madrid, primeira escala de
uma viagem de três meses que vai levá-lo ao Médio Oriente e à Ásia: Egipto, Índia, Japão, Indonésia, Ceilão, Paquistão, Jugoslávia, Marrocos. Todos esses países
estão relutantes em aderir a um ou ao outro dos dois blocos que partilham entre si as suas zonas de influência desde os acordos de Ialta, em 1945. Exceptuando o
Japão, que conseguiu refazer a sua economia após a derrota de 1945, todos fazem parte do vasto Terceiro Mundo. O termo, lançado em 1952 pelo demógrafo Alfred Sauvy,
é ainda recente. Surgiu em França num artigo do semanário L'Observateur, evocando esse Terceiro Mundo ignorado, explorado, desprezado como o terceiro estado"47,
categoria social que, no tempo da Revolução Francesa, não era nada e queria ser "alguma coisa".
O pretexto da digressão do comandante Guevara é vago e múltiplo: visita de amizade, procura de contratos económicos, apoio diplomático em caso de conflito com os
Estados Unidos, compra de armas, se tal se proporcionar... Especulou-se sobre os fracos resultados concretos dessa longa viagem: nada que pudesse ser contabilizado
de forma precisa. É avaliar por baixo um balanço importante, difícil de apreciar por derivar do qualitativo, a imagem positiva dada pelo Che, de forma viva, de um
pequeno país da América Latina, pouco conhecido, se não mesmo desconhecido, que tenta escapar à tutela dos Estados Unidos e que está prestes a juntar-se ao campo
dos que em breve passarão a ser designados como "não-alinhados". Quando, como ele contará no regresso, um cidadão desses países distantes, vem vê-lo de perto, perguntando
numa língua estranha: "Fidel Castro?", a sua simples presença física torna subitamente real o "fenómeno quase abstracto da Revolução cubana"48.
A lenda ainda fluida desse argentino que passou a ser cubano chegou até as chancelarias de países remotos. A personagem desperta curiosidade; pressentem-na importante.
Apesar de não utilizar o registo da sedução, como Fidel Castro, apesar de se mostrar avesso às sofisticações do protocolo, que considera geralmente ridículas, Guevara,
filho-família, é bem educado. A sua cultura é vasta, sabe responder com segurança e clareza às perguntas dos

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jornalistas e evitar as armadilhas. Ao enviar esse "vermelho" ao outro extremo do mundo, Castro não fez uma má jogada. Não só tranquiliza a sua ala direita e uma
oposição burguesa anticomunista que vai tentar puxar para o seu campo como, simultaneamente, transforma o seu mais fiel partidário se não num embaixador da simpatia
- é preciso muita prática -, pelo menos num "excelente objecto mediático" ad majorem gloriam... Barba, camuflado e boina com estrela são coisas fotogénicas. Graças
a elas, populações até aí incapazes de situar a ilha no mapa descobrem que existe um país amigo que se chama Cuba. Em seis anos de vida cubana "oficial", o Che passará
mais de onze meses - quase um sexto do tempo - em digressões deste género, como caixeiro-viajante ou porta-voz da revolução cubana.
Começar pelo Cairo não foi gratuito. A escolha não foi ditada unicamente pela comodidade geográfica de um itinerário complicado. Corresponde também a certas afinidades
pessoais de Guevara. O Egipto acaba de dar ao mundo uma magnífica lição de antimperialismo. O seu presidente, o coronel Nasser, conseguiu o seu "26 de Julho" em
1956 quando proclamou, nesse dia, perante uma multidão chorando de entusiasmo, numa embriaguez de dignidade recuperada, que nacionalizava o Canal do Suez - Estado
dentro do Estado, sob controlo anglo-francês. O dirigente egípcio tirou o melhor partido do jogo de equilíbrio entre a URSS e os Estados Unidos para converter em
vitória política a resposta militar abortada levada a cabo pela Inglaterra, a França e Israel. Também ele dirige uma ambiciosa reforma agrária e, com a gigantesca
barragem de Assuão, ambiciona transformar a economia geral do país. Os cubanos têm muito a aprender com tudo isso.
O Che, ficara impressionado com esses acontecimentos quando ainda estava no México, treinando-se ao lado dos irmãos Castro. Tinha redigido nessa altura, exaltando
o feito, um daqueles maus poemas que costumava fazer, no qual os bons sentimentos contam mais do que a feitura prosódica. O seu Hino ao Nilo: "Canta hoje o ontem
da pedra morta. / Se convoco a memória de Tebas, / é porque o presente emerge do teu passado, / é porque estás vivo na barragem de Assuão / e no Suez reconquistado"49.
Eis, pois, o apaixonado por mapas e imagens a concretizar a sua "viagem ao Oriente". Assiste a manobras navais no Mediterrâneo mas, sempre que pode, finta os guarda-costas
e vai comer espetadas de carneiro nas ruas do Cairo.
O facto de o embaixador extraordinário Ernesto Guevara caminhar deliberadamente fora do tapete vermelho estendido em sua honra, como conta um dos seus tenentes,
é puramente infantil e anedótico50. É sabido que o comandante liga pouco à etiqueta. Mais interessante é a primeira pergunta que ele coloca ao chefe de Estado da
República Árabe Unida* logo que abordam o tema da reforma agrária: "Quantos refugiados foram obrigados a deixar o país?" Quando o presidente Nasser lhe responde
que foram muito poucos,

Nota: * O Egipto e a Síria constituíram em 1958 a República Árabe Unida (RAU); em 1961, a Síria retomará a sua autonomia.

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Guevara não esconde o seu cepticismo. "Isso significa que não se passou nada de especial com a vossa revolução", responde ele. O conselheiro privado de Nasser, Mohamed
Hassanein Heikal, que assistiu à conversa, conta que Guevara acrescenta: "Eu avalio a profundidade da transformação social pelo número de pessoas que são atingidas
por ela e que pensam que não têm lugar na nova sociedade"51. Nasser, grande e forte, dez anos mais velho, parece divertido com aquela petulância. Explica-lhe que
os proprietários perdem toda a importância a partir do momento em que se destrói o sistema que os fazia proprietários.
Ao longo da sua estadia, de 15 a 30 de Junho de 1959, o Che terá várias conversas com o "Raïs" que, segundo Heikal, "estava fascinado com Guevara"52. Durante quinze
dias, o comandante-embaixador multiplica os contactos e as visitas. Vai a Gaza, onde os israelitas efectuaram um ataque mortífero. É aclamado aí como "o libertador
de todos os oprimidos". Visita campos de refugiados palestinianos e cumpre o programa clássico que, com algumas variantes, se repetirá na maior parte dos países:
visitas a fábricas, a refinarias de açúcar, a instalações militares, etc. Por ocasião de um banquete, conhece o futuro e efémero presidente do Brasil, Jânio Quadros,
que voltará a encontrar anos mais tarde. Explica também aos jornalistas a solidariedade de Cuba para com o Egipto, que apoia o combate dos argelinos pela independência.
Quando Anwar al-Sadat, futuro sucessor de Nasser, convida Cuba a participar na próxima conferência afro-asiática, da qual é secretário-geral, Guevara escreve: "A
África e a Ásia começam a olhar para além dos mares"53. Desenvolverá este tema de geopolítica num artigo publicado quando regressa: "A América vista da varanda afro-asiática"54.
Tratam-no quase como um chefe de governo, mas o aparato não lhe sobe à cabeça. Exige, aliás, dos cinco membros da pequena delegação que o acompanha um comportamento
bastante austero. Quando dois deles lhe pedem autorização para comprar botas novas, ele agasta-se - o dinheiro pertence ao Estado cubano, diz ele -, mas acaba por
consentir. Contudo, para demonstrar aos compradores intempestivos que a despesa não era indispensável, calça ele próprio o par de botas usadas, abandonado por um
deles, para ir visitar o presidente Nasser55. Na sua equipa reduzida, introduziu o seu companheiro el Patojo, o comunista guatemalteco que Fidel não quis aceitar
no Granma mas que, logo após a vitória, veio para Havana, para se juntar ao seu ilustre amigo.
Com Nehru, presidente da União Indiana, "patriarca" de setenta anos, o contacto é diferente. É um pandit, um letrado, um socialista esclarecido, tão frágil e magro
quanto Nasser era forte e vigoroso. Vestido com a sua eterna túnica branca, fala filosoficamente de não-violência e de resistência passiva, como o seu mestre Gandhi.
Na sua adolescência, Guevara fora seduzido pelo pensamento de Gandhi. Tinha lido a Descoberta da Índia e oferecera o livro, com uma dedicatória, a Chichina, a primeira
noiva de Córdova. Agora, o seu ponto de vista é absolutamente contrário. "Pode ser que o sistema funcione na Índia", observa ele, "mas na América não serve. A nossa
resistência deve ser activa"56. E conta aos

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membros do Estado-Maior indiano como, com camponeses armados de espingardas de má qualidade, a guerrilha cubana conseguiu vencer a ditadura.
Na Índia, onde permanece duas semanas, de 1 a 14 de Julho, a reforma agrária em curso surpreende Guevara pelo seu método suave: "A grande nação indiana procura convencer
os grandes proprietários de terras que é justo dar a terra aos que a trabalham, e os camponeses a pagar um preço por essa terra..."57 Em honra desse embaixador extraordinário,
Nehru oferece um sumptuoso banquete, no qual faz sentar Guevara junto da sua filha Indira que, por seu turno será conduzida à chefia do Estado em 1966. Enquanto
el Patojo regressa a Cuba, chega entretanto um jornalista de pena afiada, por vezes verrinosa, Pardo Liada, que observa, a propósito desse banquete a que assiste,
"o esforço do comandante para dar mostras de um comportamento refinado"58. Numa outra noite, um funcionário cubano das Nações Unidas em Nova Deli, Eugênio Soler,
levou-os a casa do embaixador do Chile, adepto convicto do ioga; aí, "o Che surpreendeu a assistência demonstrando a sua habilidade no ioga: deitou-se no chão e
em seguida ergueu-se, apoiando-se na cabeça"59. Compreende-se o espanto dos convivas ao verem o honorável guerrilheiro fazendo "o pino" no meio do salão. Protocolo?
Não sei o que é isso.

Um cruzado

Por muito que Guevara seja um dignitário do novo regime cubano, nem por isso perdeu a sua espontaneidade, que manifesta quando está farto de desempenhar o seu papel,
recusando a assumir-se como o "Che". Na edição espanhola da hagiografia escrita por Guevara Lynch sobre o seu filho, (Mi hijo, el Che, Planeta) figura a fotocópia
de uma carta espantosa, não datada, enviada pelo Che à mãe, numa folha de papel com o carimbo da Air-India, de algures nesse país, provavelmente quando foi a Bombaim,
na segunda semana de Julho de 1959, para visitar uma fábrica de montagem de aviões. O texto merece ser referido quase in extenso, não tanto pela alegria um pouco
ingénua que o menino prodígio confessa sentir ao visitar essas regiões que excitaram o seu imaginário adolescente, como pelo que revela de fé revolucionária do nosso
herói. Estamos na Índia e já não no Egipto! "Fala-se de questões políticas e económicas, dá-se festas nas quais o mínimo que posso fazer é vestir um fraque e esquecer
um dos meus prazeres mais puros, sonhar à sombra de uma pirâmide ou do sarcófago de Tut Ank Amon [...]. O Egipto constituiu um sucesso diplomático estrondoso". Com
a sinceridade que sempre o caracterizou em relação à mãe, confidente privilegiada, Guevara revela nessa carta o que futuramente guiará a sua vida: um radicalismo
arrepiante. É certo que lamenta a ausência de Aleida que "não pude trazer devido ao meu complicado esquema mental* (sic), mas, quinze linhas abaixo, faz uma

Nota: * Sublinhado pelo autor.

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confissão mais importante: "Desenvolveu-se em mim o sentido do que é a massa em oposição ao que é pessoal. Continuo tão solitário como dantes, procurando o meu caminho
sem a ajuda de ninguém, mas tenho agora a consciência do meu dever histórico"*. E acrescenta, fornecendo então a chave de uma mudança psíquica que irá esclarecer
o seu comportamento futuro: "Não tenho casa, nem mulher, nem filhos, nem país, nem irmãos. Os meus amigos só são meus amigos na medida em que pensam politicamente
como eu.* E contudo sou feliz, sinto-me alguém na vida, conduzido não só por uma poderosa força interior, que sempre senti, mas também por uma capacidade de a transmitir
aos outros. Um sentimento de fatalidade absoluta da minha missão liberta-me de qualquer receio* Não sei porque é que te escrevo isto; talvez sejam saudades de Aleida.
Toma esta carta por aquilo que é, escrita numa noite de tempestade, nos céus da Índia, longe das minhas pátrias* e dos meus entes queridos. Ernesto"60.


Gosto da solidão, individualismo, "dever histórico", fatalismo, predominância absoluta do político, aceitação implícita da morte. Todos os ingredientes do fatum
estão resumidos neste documento cujo significado só pode ser comparado com a "revelação" de 1952. Uma noite (sempre a noite), nos Andes venezuelanos, como já referimos,
uma estranha "sombra" falara e, desde então, o jovem tinha jurado a si próprio "preparar-se para que no [seu] ser ressoasse [...] o grito bestial do proletariado
triunfante". Desta vez, já não é o aspirante a revolucionário que faz ouvir a sua voz e se exalta; é o revolucionário assumido que faz uma constatação. Já não é
um encarregado de uma missão, mas sim um missionário, encarregado da salvação das massas, motivação messiânica que tudo muda. Se quisermos descobrir o segredo profundo
do homem-Guevara, o seu Rosebud, o seu irredutível ponto cego, é na identificação total com esse destino marcado que talvez seja necessário procurar. Ele já não
é o pequeno condottiere com quem tantas vezes se comparou. Demarca-se do aventureiro clássico, de tipo Lawrence, versão Malraux. Terá, um dia, que voltar a cavalgar
o Rocinante? A sua loucura ultrapassará então a de D. Quixote, seu herói. A partir de agora é um cruzado, e a luta anti-imperialista a sua Jerusalém.
No Japão, a estadia é um pouco mais curta - de 15 a 26 de Julho -, mas rica de ensinamentos económicos e políticos. Guevara fica a saber que o Japão só não participou
na conferência de Bandung - tão importante para os países não-alinhados - porque os Estados Unidos o dissuadiram, a fim de provocarem a China comunista, representada
por Chu En-Lai. O Japão permanece "alinhado" pelos Estados Unidos, a ponto de ter sido o general MacArthur, para pôr termo ao regime feudal tradicional, a impor
depois da guerra uma reforma agrária draconiana: não mais de um hectare por habitante!
De forma que a prosperidade do país só lhe advém do seu desenvolvimento industrial, apesar de não possuir petróleo nem carvão. Não dispondo

Nota: * Sublinhado pelo autor.

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também de minérios, exceptuando níquel, o Japão conseguiu desenvolver uma indústria pesada. "No mundo moderno, o desejo de desenvolvimento é mais importante do que
a existência de matérias-primas", conclui Guevara, após as clássicas visitas às fábricas. "[...] Não há nenhuma razão para que uma indústria siderúrgica não seja
o ponto de partida da industrialização em Cuba"61. Uma visita breve de um dia a Hiroshima deixa-o sem fala. "Tudo o que possa ser dito ficou gravado em quatro rolos
de fotografias"62. Em Osaca, o Che mostra-se não tanto puritano, mas sim político prudente. Proíbe os três militares da sua equipa de irem a um cabaret, célebre
pelas suas 600 prostitutas, mas deixa os civis "livres, se lhes apetecer, de serem fotografados pela revista Time a gastar o dinheiro do povo em orgias com putas..."63.
Em contrapartida, em Tóquio, aceita assistir à cerimónia do chá e não pode deixar de rir quando vê a cara de espanto do seu adjunto, o capitão Omar Fernández, ao
verificar que a gueixa que o serve com gestos graciosos não é a bela cortesã que ele imaginara, mas uma venerável senhora com mais de 50 anos... "Foi a única vez
que vi o Che rir", observa Pardo Liada. "Geralmente era reservado e pouco falador"64.
Durante o seu périplo, Guevara procura estar a par, tanto quanto possível, do que se passa em Cuba. O seu homónimo comunista, Alfredo Guevara, envia-lhe relatórios
de três em três dias. É assim que fica a saber que, no próprio dia da sua partida, alguns ministros chocados com a reforma agrária, que consideravam demasiado radical,
se demitiram, tendo sido imediatamente substituídos por "homens de Fidel". Parece-lhe, porém, mais grave, visto de longe, o psicodrama desencadeado a 17 de Julho
por Castro que, por seu turno, finge demitir-se do seu cargo de primeiro-ministro (mas não de chefe das forças armadas), a pretexto de o presidente Urrutia lhe complicar
demasiado a tarefa. Gigantescas manifestações de protesto, organizadas pelos sindicatos. É então o próprio Urrutia que se demite no dia seguinte: objectivo alcançado.
Sucede-lhe à frente do país, nomeado pelo governo, o ministro Dorticos, antigo bastonário de Havana, discreto simpatizante comunista. De Tóquio, Guevara felicita
o novo presidente. Em Havana, Castro mantém o suspense e aguarda o aniversário do 26 de Julho, a partir de então decretado festa nacional, para "obedecer à vontade
popular" e retomar a direcção do governo. Com poderes reforçados.
Para o Che, ainda não é o momento de regressar. A sua presença poderia incendiar os espíritos. A oposição anticomunista não desarmou; algumas bombas rebentaram em
Havana. Todavia, o ritmo da viagem acelera: fica só seis dias na Indonésia. Apenas o tempo necessário para trocar alguns pontos de vista com o presidente Sukarno,
que dirige o arquipélago indonésio de cem milhões de habitantes e que é considerado um dos grandes líderes do Terceiro Mundo.
Depois de quatro dias no Ceilão e três no Paquistão, é a vez da Jugoslávia, última etapa da viagem "oficial", onde chega em meados de Agosto. O país interessa o
futuro responsável pela economia cubana. Primeiro, porque essa república compósita dos Balcãs conseguiu sair da órbita soviética sem

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cair na dos Estados Unidos, e depois porque funciona aí um sistema auto-gestionário que merece ser observado de perto. O Che faz dele um resumo um pouco superficial:
"Trata-se de um capitalismo de empresa com uma distribuição socialista dos lucros [...] mas obedecendo às leis da oferta e da procura [...]. Na minha opinião, não
se insiste suficientemente na industrialização, o que exige à população enormes sacrifícios". Contudo, retém da experiência jugoslava o princípio dos dias de trabalho
voluntário, o da participação dos conselhos operários na vida económica e política e a "grande liberdade de crítica" que aí reina, "apesar de só existir um partido
político, o comunista"65.
O seu encontro com Tito convence-o de que está a lidar com um "grande". Sabe que o chefe dos jugoslavos considera ter sido sacrificado pelos acordos de Ialta. Foi
o homem que ousou dizer a Estaline que se os resultados da experiência contradiziam Marx, ele iria obedecer, não a Marx, mas aos resultados da experiência. Tito,
que recebe a delegação cubana no seu refúgio da ilha de Brioni, pequena pérola do Adriático, repete a Guevara um discurso que os seus amigos Nasser e Sukarno conhecem
bem "O não-alinhamento não é um estado. É uma tendência"66. Explica, evidentemente, que cada um é livre de seguir o seu próprio caminho para o socialismo e deixar
uma mensagem clara: "Bem-vinda ao clube, se Cuba assim o desejar!". A primeira conferência dos países não-alinhados irá ter lugar em Belgrado, em 1961. Cuba participará
nela.
No caminho de regresso, o Che fica ainda setenta e duas horas em Marrocos, para repetir que Cuba apoia a luta de independência do povo argelino e, via Madrid, a
delegação regressa finalmente a Havana a 8 de Setembro de
1959. Guevara anseia por se colocar ao serviço da revolução de uma forma mais directa do que proferindo discursos de amizade em salões dourados. Não ficará desapontado.
Fidel está, agora, em condições de utilizar os seus talentos.

Morte de um amigo

A primeira função que é atribuída ao Che é a de director do departamento industrial do INRA. O cargo pode parecer modesto; todavia, é de importância primordial.
Em primeiro lugar, o poder de compra dos cubanos aumentou devido aos aumentos salariais e à redução das rendas de casa; é necessário fazer face a um disparo na procura
de produtos manufacturados, quase todos importados dos Estados Unidos. Além disso, a própria reforma agrária, ao multiplicar o número de explorações, provocou um
aumento da procura de artigos industriais. Por fim, e sobretudo, é esse departamento que decide os novos investimentos em todos os sectores da economia, desde a
construção de estradas à construção de casas; é ele que concede os créditos tanto ao sector privado como ao sector do Estado. Cargo de vulto, como se vê, cuja dimensão
política é evidente, apesar da modéstia do título. É necessário um homem de toda a confiança.

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Guevara não é um entendido; aliás os entendidos são raros em Cuba. Mas regressou da sua digressão terceiro-mundista cheio de projectos, depois das realizações que
viu. Registou os pontos fortes, que podem servir de modelo e também os perigos a evitar. Castro ouviu o seu relatório com a preocupação de fazer o país beneficiar
de todas essas experiências. Com o INRA, Fidel forjou uma verdadeira máquina de governar, apoiada no exército. A nomeação de Guevara é uma maneira discreta de fazer
entrar no aparelho de Estado uma figura explosiva. Apesar de ter sido "decretado cubano de nascimento" é ainda visto pelos detentores do poder como um extremista
estrangeiro. A modéstia do título esconde que Castro faz dele o seu braço direito. O número dois.
Em Cuba, Outubro é o mês das chuvas e de uma certa frescura, bem vinda após a canícula do Verão. No plano político, esse mês de Outubro é bastante quente para Castro:
tem de esmagar aquilo que ele denuncia como uma conspiração mas que é mais a expressão de um movimento de desagrado de alguns oficiais perante a orientação, demasiado
"comunista" para o seu gosto, do regime e do exército. Com efeito, a 17 de Outubro, Fidel nomeara ministro da Defesa o seu irmão Raul, de 28 anos, cujas posições
marxistas-leninistas são conhecidas. De uma ortodoxia total, as ideias de Raul são desprovidas da reserva crítica que Guevara é capaz de manifestar. Terá sido a
gota de água para o comandante Huber Matos, chefe militar da província central de Camaguey, relutante em aplicar a reforma agrária? A 20 de Outubro, envia a Fidel
Castro uma carta de demissão comedida: "Não quero tornar-me um obstáculo à revolução..."
Huber Matos não é uma pessoa qualquer. É certo que não fez parte do corpo expedicionário do Granma, que representa já, para a "aristocracia" militar cubana, aquilo
que o Mayflower significava para os WASP (Brancos, Anglo-Saxões, Protestantes), fundadores dos primeiros Estados Unidos, em 1620. Mas esse jovem professor de liceu
é um destacado militante do M-26. Pequeno proprietário em Oriente, nos confins da Sierra, ofereceu os seus camiões aos guerrilheiros. Foi depois à Costa Rica arranjar
armas, que conseguiu trazer, nas barbas das forças de Batista, fazendo aterrar o seu avião, um DC-4, no sopé da Sierra Maestra. O que deu para equipar uma coluna
inteira, cujo comando Castro lhe confiou. Foi o único que conseguiu ferir e pôr em fuga o terrível Sánchez Mosquera, inimigo declarado do Che. Mas não aprecia o
activismo dos comunistas do PSP.
Para Castro, toda a demissão por motivos políticos é acto de traição. Já quatro meses antes, pouco depois da partida do Che, um outro comandante, o intrépido aviador
Díaz Lanz, abandonara a luta, refugiando-se em Miami Quando Alfredo Guevara comunica a notícia ao Che, este reage com clareza: "É um filho da puta. Ponto final"67.
Desde então, multiplicam-se as incursões de aviões vindos da Florida, que lançam sobre Havana panfletos anticomunistas e, por vezes, algumas rajadas de metralhadora.
Está fora de causa permitir que esse movimento de rebelião alastre, sobretudo no exército. Tendo

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sido informado de que mais vinte oficiais de Camaguey vão imitar o chefe, Fidel, antes mesmo de receber a carta de Matos, envia Camilo Cienfuegos, com ordem de prender
o "traidor". Ele próprio se dirige ao local e avança sobre o quartel-general do "oficial prevaricador" a fim de esmagar qualquer tentativa de resistência. Matos
será condenado, em Dezembro, a 20 anos de prisão, que cumprirá até ao último dia.
A 26 de Outubro, enquanto Fidel convoca, em Havana, um comício-gigante de "solidariedade popular" às suas medidas, ocorre um outro drama, desta vez no céu cubano.
O pequeno avião no qual Cienfuegos embarcou, sozinho com o piloto, para regressar à capital, desaparece com pessoas e bens. Durante vinte dias, todo o exército bate
o território à procura do mínimo indício. Em vão. Camilo desapareceu. Nem o mais pequeno vestígio do aparelho nem dos dois passageiros. Mistério absoluto.
Para o Che, é uma tragédia pessoal. Camilo era aquele guerrilheiro intrépido e trocista que, por ocasião do baptismo de fogo na debandada de Alegria de Pio, gritara
que nunca se renderia. Havanês típico, embora filho de refugiados republicanos espanhóis, tornara-se o melhor amigo do argentino, em seguida seu adjunto, e por fim
seu alter ego à frente de uma coluna. Tinham entrado juntos em Havana. Quando, em 1960, Guevara publica a sua Guerra de Guerrilha, obra cheia de conselhos práticos
e de reflexões sobre a arte e a maneira de organizar uma guerrilha, presta homenagem a Camilo numa longa dedicatória, cheia de ternura: "[Ele] foi o companheiro
de inúmeros combates [...]. Ia rever [o texto] e fazer as correcções necessárias. [...] Camilo possuía a inteligência natural do povo. [...] Praticava a lealdade
como uma religião. [...] Quem o matou? Foi o inimigo que o matou [...] porque não há aviões seguros, [...] porque, sobrecarregado de trabalho, tinha de regressar
a Havana o mais depressa possível..."68. A tese de acidente foi sempre controversa e, a esse "inimigo" não identificado, alguns tiveram a audácia de lhe dar um nome
da primeira figura cubana.
Um jovem guajiro que Guevara começara a alfabetizar na Sierra, Dariel Alarcón, mais conhecido por Benigno, será o companheiro de Che até ao último dia. Integrado
na coluna de Camilo que, após a vitória, o nomeou chefe da polícia militar da província de Havana, Benigno romperá com o regime cubano em 1996, após anos e anos
de fidelidade absoluta e de silêncio. Numa obra desconcertante, Vie et Mort de la Révolution Cubaine, publicada em Paris, afirma estar convencido, como muitos outros,
de que "o acidente foi organizado por Fidel e Raul, porque o nome de Camilo era mais popular na ilha do que o do próprio Fidel"69. Mesmo tom de denúncia de um outro
dissidente, Juan Vives: "A nomeação de Raul Castro para a pasta da Defesa foi muito mal recebida pelo exército, que desejava que Camilo Cienfuegos fosse ministro.
[...] A partir dos elementos que possuo, estou certo de que, aproveitando o caso Huber Matos, eliminaram Camilo, matando assim dois coelhos com a mesma cajadada"70.
Esta acusação, gravíssima, vem juntar-se à dos guarda-costas, que ficaram em terra por razões desconhecidas, mas que se baseia apenas em convicções

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pessoais. Em 1987, Matos, saído da prisão, revela em Nadie Escuchaba, um filme de Ulla e Almendros, que Cienfuegos, ao telefonar de Camaguey para Fidel Castro, para
lhe dizer que não havia o menor vestígio de conspiração, teria dessa forma assinado a sua sentença de morte.
Consequência clássica em sistema de "baronia": a rede dos "homens de Camilo" é desmantelada e Benigno, regressado à base, é enviado para um campo de trabalho militar,
para aí construir uma cidade-escola com o nome de... "Camilo Cienfuegos"!

Che Guevara banqueiro? Uma anedota

A história, já gasta à força de ter sido repetida, é retomada pelo próprio Fidel Castro. Durante uma reunião das cúpulas, surgiu a pergunta: "Há aqui algum economista?".
Guevara levanta o braço e é nomeado de imediato presidente do Banco Nacional. Entretanto, Fidel chama-o de parte, para lhe observar que desconhecia os seus talentos
ocultos de economista. Ao que o Che lhe respondeu: "Não sou economista. Pareceu-me ouvir perguntar quem é que era comunista...". Pode não ser mais do que uma das
muitas anedotas cubanas - inventam-se dez por dia, todas deste género -, contudo ela exprime a ideia geral de que não é a competência técnica que mais conta, nessa
época, mas sim a determinação política.
Porque se, no estrangeiro, Guevara pôde dissertar sobre o modo como um punhado de guerrilheiros derrubou uma ditadura, em Cuba, como ele próprio verifica, a batalha
revolucionária está longe de estar ganha. Uma parte da burguesia local, proprietários de terras e criadores, não aceita as medidas sociais, protesta, compra espaços
na rádio para dizer que a reforma agrária é um roubo, que estão a estrangular as liberdades. Uma parte da imprensa junta-se ao coro. Muitos profesionales - médicos,
engenheiros, advogados, contabilistas e outros quadros - também se inquietam, por razões que escapam ao racional, pois nada os ameaça directamente. Mas, obcecados
pelo medo dos "vermelhos", dão início a um movimento de emigração para a Florida, fenómeno de semi-pânico, mais de ordem cultural de que de económico.
"Não era apenas uma questão de interesses de classe", observa K. S. Karol, "mas o resultado de hábitos mentais, de convicções profundas e insidiosamente arraigados.
Nem todos os que abandonavam Cuba eram latifundiários, grandes burgueses, nem sequer pró-americanos indefectíveis; muitos tinham sido "americanizados" à força, ou
temiam simplesmente as consequências de um conflito com os Estados Unidos"71. Partem, então, "até as coisas se acalmarem".
Mas elas não se acalmam. Em 1959, a reforma agrária dá início à expropriação dos latifúndios, a maior parte dos quais pertencente a estrangeiros: United Fruit -
outra vez ela -, e também Francisco Sugar, King Ranch (da província de Camaguey, controlada por Matos) e muitos outros. Não são os tribunais que decidem sobre as
indemnizações, mas apenas o todo-poderoso

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INRA. Em Junho, o novo embaixador dos Estados Unidos, Philip Bonsal, exigiu "indemnizações rápidas, adequadas e efectivas". Foi-lhe respondido que a lei era a mesma
para todos: pagamento em "Títulos da Reforma Agrária", a 4% de juro por vinte anos. Em Washington - a confirmação virá mais tarde -, há já quem encare uma intervenção
armada. Ao fim e ao cabo, na Casa Branca e no Departamento de Estado continuam os mesmos homens - Eisenhower e Foster Dulles - que, há cinco anos, organizaram, na
Guatemala, a queda do coronel Arbenz, acusado de crimes análogos contra as plantações norte-americanas. Prisioneiros dos seus esquemas passados, agarram-se à ideia
de que a América Latina é a sua "coutada" e não têm em conta um elemento fundamental, que não pode ser medido em dólares: o desejo dos países do "sub-continente"
de verem reconhecida a sua dignidade.
Testemunha da época, o romancista Carlos Fuentes dirige-lhes, em 1962, sem raiva mas sem papas na língua, um simples pedido: "Americanos, peço-vos que vejam mais
longe do que o provincianismo da guerra fria. [...] Tentem compreender a diversidade do mundo. [...] A América Latina não é um subúrbio do vosso país. Vamos fazer
a nossa entrada no mundo"72. Os "Estado-unidenses" - neologismo mais justo do que o de "americanos" que engloba stricto sensu o conjunto do continente - não aproveitam
a ocasião histórica que lhes é oferecida para reverem a sua posição em relação aos seus vizinhos latinos. Em vez de aceitarem, e até de acompanharem uma descolonização
por etapas que lhes teria dado uma excelente imagem de democratas esclarecidos (e lhes teria permitido, além do mais, retirar vantagens económicas substanciais a
longo prazo), assustam-se e congeminam projectos obscuros de desestabilização e de assassínio de Fidel Castro.
Apesar da questão argelina, Guevara tinha uma certa simpatia por De Gaulle, cujo mérito, na sua opinião, fora sobretudo o de ter sabido "fazer frente aos ianques.
[...] Com ele, a França poderia simbolizar de novo aquilo que representava na Revolução francesa"73, declara ele. Castro pensa o mesmo. Comparando a histeria anticomunista
dos "norte-americanos" com a paciência e a moderação do chefe de Estado francês perante as expropriações em massa decretadas pela Argélia a seguir à independência
(1962), dirá um dia a Ben Bella: "Vocês têm sorte! Se ao menos tivéssemos um De Gaulle nos Estados Unidos!"74. Todavia, em Novembro de 1959, o general Cabell, número
dois da CIA, não se engana quando afirma: "Os comunistas consideram Castro um representante da burguesia. [...] Castro não se considera um comunista"75. O mesmo
já não poderia dizer de Guevara...
Guevara vê bem que a batalha não está ganha quando, a 9 de Novembro desse mesmo ano de 1959, em Havana, a igreja católica consegue reunir um milhão de pessoas -
o equivalente à população da capital! - para exigir o respeito pelas liberdades e pela propriedade.
E todo o trabalho que ainda falta fazer quando, a 18 de Novembro, o congresso da Confederação de Trabalhadores Cubanos (CTC) aplaude os candidatos próximos do M-26
mas vaia os do PSP comunista.

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Fidel Castro recorre então ao velho princípio revolucionário da depuração permanente. Remodela o governo, elimina companheiros como Faustino Pérez, veterano do Granma,
e Manuel Ray, chefe da resistência em Havana em 1958. Tiveram o desplante de pedir que se poupasse a vida a Matos. Carlos Franqui, que afirma ter recordado a Fidel
as suas próprias palavras: "A revolução cubana não devora os seus próprios filhos", garante ter ouvido Guevara dizer nessa altura a Fidel: "Pessoas como Faustino,
Ray e Oltuski, que têm a coragem de defender as suas opiniões arriscando a própria vida, não devem ser fuziladas. Pelo contrário, devem continuar a ser ministros"76.
Testemunho não confirmado, que se ajustaria ao carácter hiper-crítico de Guevara, mas que parece insólito, já que o Che "se cola" quase sempre à posição de Fidel,
quando não a antecede. Seja como for, Fidel parece não se preocupar com isso: na onda da remodelação, a 26 de Novembro de 1959, nomeia Guevara presidente do Banco
Nacional, em substituição do economista Felipe Pazos, demasiado moderado, que é enviado para a Europa para aí defender, como puder, os interesses cubanos.
A nomeação do médico-guerrilheiro para a direcção do Tesouro público é um sinal político deliberado: "Senhores especuladores, tenham cuidado". De facto, o Che não
encara essa nova função como uma brincadeira. Pelo contrário, empenha-se com a mesma seriedade que põe em todas as coisas sempre que se trata de servir a revolução.
Cuba a caminho do socialismo torna-se, para ele, uma nova Sierra Maestra, na qual o combate, "mais difícil que o de tomar o poder", é desenvolver o país e mudar
as mentalidades.
Já se viu um banqueiro numa figura daquelas? O presidente do Banco Nacional de Cuba, sempre despreocupado com a sua aparência, chega de farda verde, camisa aberta,
pistola à cinta, com as botas de páraquedista mal atadas, como sempre. Está ladeado de guarda-costas que se parecem com ele como irmãos, capazes de assustar qualquer
visitante não prevenido que, de resto, não perdem de vista. "Compreendo que um homem de negócios americano, de rosto escanhoado e trajando um fato cinzento convencional
me tenha confessado o seu espanto perante aquele banqueiro desalinhado, de sorriso aberto, de olhar brilhante de inteligência", escreveu Claude Julien no Le Monde
a 22 de Março de 1960.
O gabinete é amplo, sóbrio mas confortável: alcatifa, poltronas de couro. Na parede, um grande mapa de Cuba, estendendo-se na horizontal. (Um outro mapa, esse da
Argentina, ornamenta, na vertical, a casa de banho contígua). Num armário, em vez do whisky propício às discussões de negócios, um termos de água quente, uma embalagem
de yerba mate e a cabaça com a pipeta que costuma circular entre os convidados, em sinal de amizade. Que o argentino-cubano não dispensa, quando quer divertir-se
a desconcertar o interlocutor. "Eu próprio acabei por me tornar guajiro", confessou ele em Fevereiro de 1959, sem nenhuma demagogia, perante um público de camponeses.
"E quando estou na cidade não aprecio muito o ar condicionado. Não é uma coisa para mim"77. Contudo, habitua-se a ele. O essencial não é isso.

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As noites brancas da Revolução

O seu dia de trabalho, interminável, começa a meio da manhã. E nunca acaba antes das três ou quatro da madrugada. Às vezes mais tarde. Será que esse gosto pela noite
lhe vem do tempo da guerrilha onde tudo, marchas e combate, era feito ao abrigo da escuridão cúmplice? Vir-lhe-á do tempo em que os ataques de asma o obrigavam a
levantar da cama? As reuniões, em todo o caso, processam-se a partir da meia-noite. Nos gabinetes contíguos ainda circulam colaboradores; e Aleida, que se adapta
ao ritmo guerrilheiro do marido. Se, por sorte, o nosso banqueiro encontra um bom parceiro de xadrez, a partida, repouso perfeito, pode estender-se então até de
madrugada. É de noite que Guevara escreve os seus artigos, as suas Memórias da Guerra Revolucionária ou a sua Guerra de Guerrilha, manual do perfeito combatente
camponês, que nas entrelinhas se refere aos textos de Mao Tsé-Tung, cuja leitura lhe fora recomendada pelo comunista Carlos Rafael Rodríguez. Por vezes dita os textos
para o gravador; de manhã encontra-os transcritos por Manresa, um antigo soldado de Batista que, durante anos, será o seu fiel e discreto secretário particular.
A regra, implícita, do bom revolucionário é que ele não dorme nunca, ou quase. Há muito que fazer. Cuba é uma colmeia. Os assuntos urgentes são constantes e a revolução
não espera. "Em Cuba as noites são brancas".
Para o Che, o desafio que se coloca é mostrar que é possível dirigir um grande navio como o Banco do Estado sem conhecer em pormenor todos os seus maquinismos; o
essencial é traçar o rumo e manter-se ao leme. As reformas agrária e urbana que agora se iniciam não abalaram o carácter ainda capitalista do sistema económico cubano.
Em Abril de 1959, quando estava ainda em La Cabaña, Guevara declarara à televisão: "Temos fome de capitais, mas não desejamos que entrem capitais que tenham muita
fome"78. Trata-se, porém, de "tranquilizar os mercados". E o Che aplica-se a fazê-lo. No próprio dia da sua nomeação, exprime-se como o mais experiente dos economistas
da finança. Declara ao jornal Revolución: "O nosso objectivo principal, para já, é a defesa da nossa reserva de divisas. É provável que ela diminua ainda um pouco,
mas será recuperada em meados de 1960. Travámos as importações. É necessário restringi-las [...]. Esperamos uma retoma da cotação do açúcar no mercado internacional,
de modo a utilizar uma boa parte das divisas em projectos de industrialização...".
A nova política económica está a despontar, como se vê. Consiste em apoiar-se no açúcar para se libertar do açúcar, isto é, para montar uma verdadeira indústria,
garantia de independência. Quando Carlos Franqui o interroga então sobre os intensos movimentos bancários que marcam o anúncio da sua nomeação, ele responde: "É
lógico, porque a substituição de Pazos Por alguém que tem a fama de ser extremamente radical deve assustar os depositantes. Mas é uma coisa que não tem fundamento,
porque o governo vai continuar a canalizar os investimentos para a industrialização, mas sem

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utilizar métodos coercivos [...]. Mas é evidente que defenderemos a nossa moeda contra a desvalorização..."79
Assim fala aquele que desde sempre manifestou um desprezo soberano pelo dinheiro, aquele que, há um ano, queria organizar o assalto ao Banco de Sancti Spiritus.
Ei-lo transformado num perito financeiro! Seis meses depois, o enviado especial do Le Monde pergunta a um observador francês instalado em Havana: "Ele é competente?"
Resposta: "Vi todo o tipo de homens de negócios estrangeiros procurá-lo, convencidos de que aquele médico revolucionário se deixaria enganar pelas suas astúcias
comerciais. Saíram de cabeça baixa, depois de uma discussão renhida com um homem que possuía um conhecimento profundo dos assuntos e que defendia os interesses cubanos
com uma sólida competência"80.
Para o ajudar na sua tarefa, Guevara precisa de economistas "comprometidos", capazes de entenderem o significado das transformações a operar nas estruturas do país.
No INRA, um jovem chileno de 26 anos, Carlos Romeo, observa-lhe que em Santiago do Chile existe um "potencial humano" que gravita em torno da CEPAL (Comissão Económica
das Nações Unidas para a América Latina) e que poderia ser útil. Encarregam-no de explorar essa pista e ele transmite aos seus amigos longínquos - quase todos comunistas
ou simpatizantes do partido - a proposta de virem para Cuba "fazer com que os sonhos se tornem realidade". Entretanto, Carlos Rafael Rodríguez - o dirigente do PSP,
antigo ministro de Batista que fora à Sierra falar com Castro percorre a América Latina, numa viagem de informação e de recrutamento junto dos partidos irmãos. É,
pois, de partido a partido que o PC cubano trata com o PC chileno no sentido de que este lhe "empreste" alguns economistas escolhidos a dedo. Guevara vê assim chegar,
por vagas sucessivas, alguns verdadeiros especialistas que se colocam ao serviço da revolução com entusiasmo e disciplina: Jaime Barrios, antigo alto responsável
pelo Banco Central do Chile, Raul Maldonado, equatoriano, também membro do PC chileno, Alban Lataste, Sérgio Aranda, Gonzalo Martner, socialistas, Alberto Martínez,
engenheiro comunista, Carlos Matus, Edmundo Meneses... um batalhão. Mais tarde a equipa será reforçada com argentinos e uruguaios, provenientes desse "cone sul"
latino-americano rico em quadros bem formados.
O Che fala com uma simpatia divertida dos seus chilenitos, cuja dedicação e conhecimentos técnicos aprecia. No sétimo andar do edifício inacabado, destinado à Câmara
de Havana mas totalmente ocupado pelo INRA - Fidel Castro escolheu o último andar -, instalou-os num amplo gabinete ao lado do seu, de forma que, conta Carlos Romeo,
"quando ele queria ir à casa de banho, era a mim que confiava a pistola 7,65 que trazia à cintura. [...] No INRA, acrescenta ele, em Setembro/Outubro de 1959 começámos
a preparar as leis revolucionárias das nacionalizações e até a organizar um sistema central de planificação da economia [...]. O Che pensava que Fidel levaria algum
tempo a anunciar a nacionalização das minas e das indústrias petrolíferas. Eu apostei uma caixa de charutos em como, pelo contrário, Fidel

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iria ser mais rápido a tomar medidas. Foi o que, de facto, aconteceu. O Che, que sabia perder, mandou colocar na minha secretária uma magnífica caixa com cinquenta
charutos"81.
Foi ao seu oficial de ligação cubano, Pancho García Valls, também ele comunista, que Guevara pediu que gerisse com o PSP a melhor utilização possível daquele contingente
de combatentes internacionalistas de um novo tipo. Mas percebeu logo quais eram os melhores. Quando, sem deixar por completo o INRA, toma as rédeas do Banco, leva
Barrios consigo.* Quanto aos chilenos, estão fascinados com aquele homem irónico, cujo sentido de humor entendem, com o qual têm provavelmente mais afinidades do
que os cubanos. "O Che não se abria com facilidade, mas ao fim do dia, já tarde, vinha aprender connosco economia"82, conta ainda Romeo. Raul Maldonado, que virá
a ser vice-ministro do Comércio Externo, acrescenta: "Aproveitávamos para lhe puxar pela língua, incitando-o a contar-nos histórias da guerrilha. Quando estava à
vontade, ele acedia de bom grado. Por vezes apareciam outros comandantes, Raul Castro, Almeida, Camilo (pouco tempo antes de desaparecer), o seu irmão Osmany...
Cada um contava umas coisas. Às vezes havia grandes momentos de emoção e também grandes gargalhadas [...] Esse tipo de reunião chegava a durar até às cinco da manhã,
para grande irritação de Aleida. E retomávamos o trabalho às onze da manhã"83.

Nota: * Jaime Barrios integrará mais tarde a equipa económica do presidente chileno Salvador Allende e morrerá sob as balas dos soldados do general Pinochet, após
o golpe de Estado deste último, em 1973.

A revolução caminha mais depressa do que a reflexão dos peritos, que se interrogam sobre o modelo de desenvolvimento industrial que melhor convém a Cuba: "Mal tínhamos
chegado", explica Borrego, "os operários vieram pedir-nos que fosse posta de novo a funcionar uma velha fábrica, a American Steel, abandonada pelos seus proprietários
americanos. Mas nós não tínhamos um centavo. Tivemos de pedir uma pequena subvenção a Fidel que, ao fim e ao cabo, era o presidente do INRA. Ele deu-nos um cheque
de 200 000 pesos-dólares e nós pusemos a funcionar a fábrica, com um novo nome: "Cubana de Acero""84.

A visita do Espírito Santo

Nesses tempos de construção alegre e febril de uma sociedade nova, Guevara está presente em todas as frentes. Saiu do semi-anonimato prudente dos primeiros meses
em La Cabaña mas mantém, na velha fortaleza, a sua logística militar pessoal; é aí que dirige a formação dos quadros do exército rebelde. Vem ainda uma vez por semana
ao INRA, para acompanhar os resultados industriais da reforma agrária. Na presidência do Banco, adquire uma consciência clara, perante as estatísticas, do enorme
desequilíbrio das trocas comerciais que fazem de Cuba

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um país de economia colonial clássica, exportando matéria-prima e importando produtos manufacturados. Continua também a ser informado do apoio pedido por uma grande
quantidade de movimentos revolucionários, estimulados pelo exemplo cubano. E ainda arranja tempo para receber personalidades de passagem pelo país, que fazem questão
de conhecer essa figura insólita, já célebre, da revolução.
Do México, onde acaba de rodar com Buñuel A Febre Sobe em El Pao, chega primeiro o actor Gérard Philipe, no auge da sua glória (e a poucas semanas do cancro fulminante
que o matará). A imprensa traça logo uma comparação entre o comandante guerrilheiro, de rosto tão puro, e a vedeta que, em Paris, desempenhou um fogoso Rodrigo em
Le Cid. O actor fora convidado por Alfredo Guevara, grande cinéfilo, a quem Fidel Castro atribuíra a quantia (irrisória) de trinta mil pesos-dólares para criar um
"Instituto Cubano das Artes e das Indústrias Cinematográficas" (ICAIC), que terá uma bela carreira. "Gérard fazia perguntas inocentes; Anna, a sua mulher, fazia
perguntas muito mais pertinentes"85, comenta Alfredo Guevara. Por seu turno, Carlos Franqui aproveitou uma viagem à Europa para, em nome do jornal Revolución, convidar
a vir a Cuba alguns grandes nomes da intelectualidade literária e artística: Sartre, Picasso, Breton, Le Corbusier...
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir são os primeiros intelectuais franceses de peso que, respondendo ao convite, vêm de certo modo dar a sua bênção cultural à
jovem revolução, conferindo-lhe, pela sua presença, uma espécie de honorabilidade. Sartre já esteve na URSS, em 1954, e na China, em 1955. Aos cinquenta e cinco
anos, publicou já o essencial da sua obra, ou quase. A sua celebridade é grande. É já algo mais do que "o papa do existencialismo" nascido no Café de Flore e nas
caves de Saint-Germain-des-Prés - banalidades que por muitos anos fizeram as delícias da imprensa sensacionalista. Quatro anos, antes de lhe ser atribuído o prémio
Nobel, e de o recusar, assume-se como o protótipo do escritor "em situação".
Uma vez que não existe nem Diabo nem Bom Deus, está condenado, como todos os homens, pela liberdade absoluta de que dispõe, a conciliar as exigências da acção, nomeadamente
revolucionária, com um pessimismo fundamental que é a própria negação dessa acção. Em Cuba, porém, ele esquece todo o pessimismo filosófico para se deixar arrebatar
pelo entusiasmo vigoroso de um movimento social e político único que lhe parece proporcionar um encontro excepcional com a História. Confessa que, antes de regressar,
tentou, em vão, que os seus convidados lhe dissessem se o regime era ou não socialista. "Devo reconhecer que estava errado, ao colocar a questão desse modo"86. Mas
o seu preconceito é favorável. No próprio dia da chegada, antes de ver seja o que for, declara ao jornal Revolución: "Admiro sinceramente a revolução cubana". A
visita de Sartre a Cuba constitui um acontecimento nacional. "Para nós, intelectuais cubanos, era como receber a visita do Espírito Santo"87, declara um deles, Juan
Arcocha.
Durante um mês inteiro, de 22 de Fevereiro a 21 de Março de 1960, o "Espírito Santo" da margem esquerda parisiense vê tudo, fala com todos,

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circula por toda a ilha. Castro joga forte, sem imaginar que pode cansar o filósofo. Faz-lhe as honras da Cienaga de Zapata - pântanos transformados em reserva natural
- o "Rambouillet" cubano, leva-o, com Simone de Beauvoir, no seu jipe sacolejante, a visitar os campos de cana de açúcar e de tabaco, cooperativas, fábricas, quartéis
transformados em escolas. Fala-lhe da reforma agrária, dos latifundiários maus, dos camponeses bons, dos projectos industriais, da tentativa de conquistar uma independência
económica ameaçada pelos Estados Unidos, ali tão próximos, tão poderosos. Sartre deixa-se seduzir, engole tudo, esquece todas as resistências. "É a lua-de-mel da
revolução"88, confia ele ao "Castor", ou seja, a Simone. Levam-no ao Teatro Nacional para assistir à representação de uma peça sua, La putain respectueuse. "É a
minha melhor puta", declara ele89.
Carlos Franqui fá-lo descobrir a loucura africana das danças do carnaval cubano: ritmos das Caraíbas e sensualidade. A primeira página do diário Revolución publica
grandes fotografias do francês com a sua companheira. Passados poucos dias, o rosto de Sartre passa a ser tão conhecido do cidadão cubano como o retrato de Marylin
Monroe. É reconhecido na rua, é aclamado: "Saltré! Simona!" Sartre fica encantado. Há sobretudo duas coisas que o seduzem: a juventude geral de todos aqueles revolucionários
e a democracia directa" que Castro exerce quando "dialoga" com o povo, disposto, se necessário for, a ir buscar a lua para a oferecer às massas. "Não há velhos no
poder. Não vi nenhum entre os dirigentes. Em todos os postos de comando [...] encontrei, se assim posso dizer, filhos meus"90.
O filho que talvez o impressione mais é o comandante Guevara. O presidente do Banco Nacional recebe-o "cedo", isto é, à meia-noite, hora que o visitante considera,
apesar de tudo, insólita. Uma fotografia mostra-nos, num grande sofá, Simone de Beauvoir num vestido discreto e Sartre de gravata e casaco assertoado, escutando,
atentos, o Che que, sentado à sua frente, de farda verde e boina na cabeça, lhes explica, imaginamos, as graças, desgraças e esperanças da revolução.
"Respondia a todas as perguntas com muita competência. Só falei com ele duas ou três horas, e é evidente que não sou uma especialista; mas disseram-me que ele conseguia
espantar os próprios especialistas; à partida, pensam que é fácil manobrá-lo; e depois vêem que não [...]. É Guevara que consegue levá-los à certa", escreverá Simone
de Beauvoir no France-Observateur de 7 de Abril de 1960.
Sartre confirma: "Guevara passa por ser um homem de grande cultura, e isso é notório. Em breve nos damos conta de que, por trás de cada frase, haver um grande saber.
[...] Pálido, tinha uma barba rala e um cabelo comprido, mas o rosto liso e saudável pareceu-me matinal. [...] A noite não entra naquele gabinete. Não faço ideia
quando Guevara descansa. [...] Imaginem um trabalho contínuo, num ritmo de três por oito, executado desde há catorze meses por uma só equipa. Em 1960 não se dorme
em Cuba. Ainda se distingue a noite do dia, mas apenas por delicadeza e para poupar o visitante estrangeiro. [...]

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Estes jovens prestam um culto, aliás discreto, à energia que Stendhal tanto apreciava. [...] São felizes. Certamente vão envelhecer depressa. [...] Mas terão eles
vontade de morrer velhos? [...] Trazem em si a presença da morte; a sua vida já foi dada. Ainda não lha tiraram, mas eles continuam a oferecê-la. E uma vida que
arde"91. Por muito estrábico que seja, Sartre é perspicaz. Apesar do deslumbramento tropical, a sua análise é premonitória.
O escritor Erik Orsenna, em busca de um longínquo antepassado cubano, encontrou em Havana, em 1995, Álvaro, o guia que conduziu "os Sartre" na sua visita a Cuba.
Num tom malicioso, finge contar a descrição do encontro, ao qual Álvaro não assistiu, entre Che Guevara e o "homenzinho muito feio" acompanhado de uma rapariga "alta
e bonita, um pouco antiquada, constrangida com o ar de uma freira à civil". O que dá um texto divertido, simplório e injusto:
"Abriu-se uma porta e apareceu o comandante.
- Como vai a França?
Tão alto, tão belo, tão radioso e paternal... Por um instante, vi os intelectuais franceses perturbados, infantis... Perguntei a mim próprio se não iriam cair nos
braços abertos do Che. Mas eles recompuseram-se. E, mal se sentou, Sartre adoptou um ar severo, o ar de papa consagrado do existencialismo, encarregado de informar
o mundo.
- Qual é o projecto da vossa revolução?
- Alargar o campo do possível.
Este vasto programa espevitou de imediato os nossos dois enviados parisienses. Seguiu-se um diálogo exaltado"92.
Juan Arcocha, que serviu de intérprete a Sartre, confessa: "Sempre lamentei não ter podido acompanhá-lo quando ele foi visitar Che Guevara que, para meu azar, falava
francês"93.
De regresso a Paris, Sartre publica, não em Les Temps Modernes mas, deliberadamente, no popular France Soir, sob o título "Ouragan sur le sucre" (Furacão no açúcar),
uma série de artigos de página inteira tão favoráveis à revolução cubana, tão desajeitados na sua ingenuidade, que não foram incluídos na sua bibliografia. (Mas,
editado em opúsculo no Brasil, em Cuba, e também nos Estados Unidos, esse Ouragan sur le sucre teve um grande sucesso.) "Essas reportagens surpreendem pelo seu carácter
anedótico, pela sua simplicidade, e até pela sua afectação. É o género "Castro contado às crianças", escreve um dos seus biógrafos94. Juízo apressado, pois encontramos,
nesses textos de circunstância, um esclarecimento sobre a situação internacional de Cuba, benevolente, é certo, mas lúcido. "Vou pedir-lhe uma coisa difícil. Não
diga que somos socialistas"95, pede Castro. O filósofo cumpre o prometido. Todavia, levanta algumas questões e anuncia algumas verdades incontestáveis que decorrem
tanto das suas observações como de uma geopolítica de simples bom-senso.
Reivindicando a sua independência, escreve Sartre, "Cuba entra em choque com a força de atracção de uma enorme massa continental que pretende integrá-la no seu campo
de gravitação. [...] As relações da ilha com os

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Estados Unidos não são boas, com efeito. [...] Irão os EUA fazer um boicote aos navios cubanos? Irão reduzir a sua importação de açúcar? Farão um bloqueio a Cuba?
[...] Há uma ordem do Novo Mundo que é elaborada em Washinton e é imposta ao continente e às ilhas, desde o Alasca à Terra do Fogo; essa ordem não tolerará por muito
tempo aquilo que considera como uma pequena desordem insular; um dia, as forças armadas do continente virão meter na ordem esse torrão de açúcar contestatário. [...]
O mundo viu, sem se insurgir, Monroe meter na ordem a Guatemala. Cuba arrisca-se, a cada instante, a ter o mesmo destino dessa república"96. Para um filósofo que
poderíamos imaginar perdido nos meandros de uma Crítica da Razão Dialéctica, estas observações são de uma pertinência que resiste ao tempo.

Lenda de uma imagem lendária

O acaso da história fez com que Sartre e seu Castor assistissem, como testemunhas oculares, a uma das mais manifestas tentativas de desestabilização do regime: a
explosão, a 4 de Março de 1960, no porto de Havana, do navio francês La Coubre, carregado de armas belgas. Enorme estrondo e nuvens de fumo no céu. Uma centena de
mortos ou desaparecidos. Fala-se imediatamente em sabotagem. Vem logo à memória, é óbvio, a explosão do navio norte-americano Maine em Havana, em 1898, que serviu
de pretexto aos Estados Unidos para afastar a Espanha e estabelecer o seu "protectorado" na ilha. No dia seguinte, na cerimónia fúnebre das vítimas no cemitério
Cólon, Castro organiza uma manifestação de protesto. Em termos velados, aponta o culpado: os Estados Unidos. Explica que eles já fizeram tudo para impedir os belgas
de vender armas aos cubanos, depois da recusa da maior parte dos países da Europa. "Ao terror contra-revolucionário, responderemos com o terror revolucionário",
ameaça ele. E lança nesse dia a fórmula que ficará consagrada como palavra-de-ordem revolucionária: "Patria o Muerte. Venceremos!" Sartre apoia-o: "A liberdade cubana
exaspera o país da liberdade. Guerra de nervos, vexames, alfinetadas e depois, por vezes, uma intuição brusca e sinistra, iluminando o mar até à costa: a explosão
do La Coubre. Capta-se, de passagem, a verdade trágica: Cuba é mortal"97.
Foi nesse comício de 5 de Março de 1960 que um fotógrafo até aí desconhecido, "Korda", passa à posteridade fazendo o "boneco" da sua vida, o retrato do Che que,
aumentado para cartaz, tem dado a volta ao mundo, desde então, povoando quartos de adolescentes, servindo de emblema em manifestações estudantis, simbolizando o
redentor das injustiças do planeta. Alberto Díaz Gutiérrez, que usa o nome Korda "porque faz lembrar Kodak", fora encarregado pelo jornal Revolución de fazer a cobertura
fotográfica desse acontecimento. Avistou, na tribuna erguida na esquina da rua 23 e da rua 2, Sartre e Beauvoir, ao lado de Castro. Guevara não está ali. Acompanhou
o cortejo fúnebre com Fidel e os dirigentes da revolução. Depois desapareceu. "Eu costumo fotografar

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sistematicamente todos os que rodeiam Fidel", conta Korda. "Tinha o olho pregado no visor da minha velha Leica. Subitamente, do fundo da tribuna, num espaço vazio,
surge o Che. Tem uma expressão de desafio. Quando ele surgiu na minha objectiva de 90 mm, quase me assustei, ao ver a raiva que ele exprimia. Talvez estivesse comovido,
furioso, sei lá. Disparei de imediato, quase que por reflexo. Fiz um novo disparo mas, como de costume, a primeira imagem era a melhor. Ele só ficou ali um instante
e eu só tirei aquelas duas fotografias. Aliás, nem sequer estão muito nítidas, porque não tive tempo de focar"98.
Tal como está, a força expressiva da fotografia é intensa. Com a sua boina e estrela, um estranho blusão de cabedal verde escuro ornado de lã azul-escura
- oferta de um amigo mexicano - o Che tem um olhar sombrio, distante. O rosto, severo, está enquadrado por uma cabeleira longa, despenteada. Paradoxalmente, essa
imagem de um homem com uma raiva interior tornar-se-á o símbolo do revolucionário de rosto angelical, sereno, quase místico, que os media, cartazes, T-shirts e outros
objectos espalharão pelo mundo. Korda esquecerá essa fotografia no fundo de uma gaveta. Contudo, ela será utilizada e muito reproduzida em Cuba. Até ao dia em que
o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli fará dela "a imagem mais divulgada no planeta". "Ofereci-lhe duas provas 30/40", conta o fotógrafo. "Quando se soube da
morte do Che, Feltrinelli fez um cartaz com a minha fotografia. (Será a capa do Journal de Bolivie). Se ele tivesse pago apenas uma lira de cada vez que a imagem
foi reproduzida, teríamos recebido centenas de milhões..."99.
É pena que Feltrinelli, desaparecido entretanto em circunstâncias trágicas, não possa dar aqui o seu testemunho. Porque a paternidade da célebre fotografia é também
reivindicada por um trânsfuga dos serviços secretos cubanos, Juan Vives, que afirma que foi ele, nessa altura com dezasseis anos apenas, que tirou essa fotografia
histórica. Segundo afirma, Castro tê-lo-ia encarregado, em Outubro de 1967, de arranjar documentos sobre o Che para o editor italiano. "Entre as fotografias que
eu tinha tirado [...] por acaso, descobri uma, tirada na tribuna durante uma cerimónia em memória dos marinheiros do navio La Coubre. [...] Foi a fotografia escolhida,
[...] o cartaz mais vendido da história. No entanto, nunca recebi um tostão de direitos de autor"100. Provavelmente isto não é verdade. A obra de Vives carece de
rigor, apesar das informações por vezes interessantes e plausíveis; além de que não fornecer nenhuma prova do que afirma. Ao contrário de Korda, que apresentou o
rolo inteiro, onde se incluem as duas fotografias.

Em Cuba, entre visitas, excursões e diversas entrevistas, Sartre arranjou tempo para redigir um importante prefácio a uma reedição de Aden-Arabie. do seu colega
da Escola Normal, Paul Nizan, morto na frente de combate aos trinta e cinco anos, em 1940. O caso não valeria a pena ser mencionado se, para além do retrato de Nizan
traçado pelo biógrafo, não se desenhasse, como em sobre-impressão, espantosamente parecido, o do Che: "Um militante incorruptível e crítico, sempre à esquerda dos
comunistas, incapaz de hipotecar a prática à linguagem oficial da burocracia"101.

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O militante incorruptível e, não obstante, banqueiro, sugeriu a Sartre que não deixasse de conversar com o seu assessor, Orlando Borrego, se quisesse entender certos
aspectos inéditos do processo económico da revolução. Borrego propõe ao ilustre visitante que vá no dia seguinte ao INRA, às nove da manhã, para assistir a "uma
coisa interessante". "De que se trata?" Da nomeação de miúdos de 15 a 20 anos para cargos de administradores de empresas.
Com receio do "perigo comunista", muitos directores de pequenas e médias empresas preferiram, de facto, aguardar em Miami até que o ar se tornasse mais respirável
em Cuba. Abandonaram as suas empresas aos operários, que não têm nenhuma competência em matéria de gestão. É necessário então arranjar, urgentemente, um pessoal
mais ou menos qualificado, decidido a colocar a produção ao serviço da revolução. Borrego lembra-se então de utilizar a boa vontade de duzentos jovens, quase todos
adolescentes, que se dispuseram a "alfabetizar" aqueles que o antigo regime tinha deixado na ignorância. Fala com Guevara, que acha a ideia "genial" e se faz acompanhar
de Castro para ir explicar a essa bela juventude a tarefa imprevista que a revolução lhes exige. Resposta entusiástica dos "alfabetizadores". Dois dias de formação
acelerada - contar o dinheiro em caixa, verificar o saldo no banco, certificar os documentos, apoiar-se nos elementos mais "revolucionários", etc. - e ala!
Borrego recorda-se da estupefacção de Sartre ao assistir, nessa manhã, à cerimónia das nomeações oficiais: "Vocês estão loucos", disse-me ele. Mas senti que o dizia
com admiração. Para nós, dada a urgência, não havia outra solução"102. Quando, meses mais tarde, em Paris, os jovens o vêm interrogar sobre que destino dar à sua
vida, Sartre responder-lhes-á bruscamente: "Sejam cubanos!"103.
Pingue-pongue entre David e Golias Enquanto os Estados Unidos vão olhando com um ar cada vez mais desconfiado a evolução do regime cubano, as suas relações com o
urso soviético desanuviam-se um pouco. Desde que em Setembro de 1959 Kruchtchev visitou Eisenhower em Camp David, nota-se um certo degelo. Mas o que é válido de
super-potência para super-potência deixa de o ser quando um "torrão de açúcar contestatário" como Cuba decide afastar-se da tutela dos Estados Unidos. Que Mikoyan,
vice-presidente do conselho de ministros da URSS, venha inaugurar feiras comerciais em Nova Iorque ou até no México, sim senhor. Que esse mesmo Mikoyan, veterano
da revolução de Outubro de 1917, se desloque a Cuba, em Fevereiro de 1960, sob o pretexto de uma exposição de ciência e tecnologia soviéticas, é que já não agrada
tanto a Washinton. Tanto mais que o honorável visitante faz muito mais do que inaugurar. Acolhido por Castro e Guevara, é com eles que negoceia o restabelecimento
de relações diplomáticas, a venda de armas, a compra de açúcar

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e um crédito de cem milhões de dólares, de 1961 a 1964, para o fornecimento de máquinas, material e assistência técnica.
Colocando o Che na chefia das finanças do Estado, Castro deu-lhe o controlo sobre a economia da ilha, posição essencial, visto que o combate político vai travar-se
cada vez mais no campo dos interesses financeiros. Para Guevara - e Castro concorda, sem o proclamar ainda -, o futuro de Cuba reside, custe o que custar, numa libertação
total da sua dependência do poder imperialista dos Estados Unidos. Por isso no 1º de Maio de 1960 surge a palavra de ordem "libertadora" que, adaptada por cada país
ao seu próprio caso, será retomada em toda a América Latina: "Cuba si, Yanquis no!".
A visita de Mikoyan fez com que se esboçasse a criação de um eixo Havana-Moscovo, que se traduz primeiro no reatamento de relações diplomáticas, a 7 de Maio de 1960,
e numa longa e (discreta) estadia de Raul Castro na URSS e na Checoslováquia. O irmão mais novo, ministro da Defesa, assina contratos para a obtenção de armamento
pesado (tanques, peças de artilharia, aviões Mig) e ligeiro, destinado às milícias populares, enquanto que os primeiros pilotos cubanos partem para Praga para receberem
treino no manejo de aviões com reactores. Enviado a Moscovo e aos países de Leste para assinar os acordos estabelecidos com Mikoyan, Nuñez Jiménez, responsável do
INRA, regressa entusiasmado.
Na verdade, Cuba não representa ainda um interesse de maior para Kruchtchev, empenhado numa política de desanuviamento com os Estados Unidos. Apesar dos êxitos soviéticos
na tecnologia espacial - lançamento do satélite Sputnik e outras acções - a economia soviética está enfraquecida. Tem uma necessidade premente dos recursos gigantescos
até aí dedicados às indústrias militares. Só uma "coexistência pacífica" entre os dois blocos permitirá à URSS ganhar um novo fôlego económico. Em Camp David foi
aceite o princípio de uma cimeira, em Paris, em Maio de 1960, incluindo a Grã-Bretanha e a França.
Ora, no dia 1 de Maio de 1960, um avião-espião americano U-2 é abatido sobre a Rússia continental e o piloto é preso. Eisenhower argumenta que, tratando-se da sua
segurança nacional, os Estados Unidos têm o direito de violar o espaço aéreo soviético e Kruchtchev indigna-se. Na cimeira de Paris, o presidente americano teima
em não apresentar desculpas. Aproximando-se as eleições presidenciais nos Estados Unidos, Kruchtchev declara à imprensa que rompe o diálogo com Washington, esperando
ter em breve, na Casa Branca, um interlocutor "mais responsável". Para além do caso do U-2, delineia-se o do estatuto de Berlim, que os soviéticos reivindicam para
a RDA. Entretanto, não contente com isso, Kruchtchev lembra-se da existência do diabrete cubano, a desafiar o big stick do tio Sam. Perante a imprensa, em Paris
- modesta represália, destinada a vingar um amor próprio nacional ferido - proclama: "A aurora do progresso ergue-se nas Américas, mesmo diante do nariz dos americanos"
e encoraja "a luta do povo cubano pela sua independência"104. Em Havana, Castro e Guevara, que não esperavam tanto, exultam.

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É neste novo contexto internacional que vão ser adoptadas uma série de medidas que irão desencadear entre o David caribe e o Golias norte-americano um vai-vem de
decisões de ordem política, económica e militar. No fim desse "pingue-pongue", Cuba vai ver-se livre, muito mais depressa do que esperava, do sistema capitalista
e ao mesmo tempo inserida num sistema de tipo socialista. Mas, exceptuando alguns radicais (entre os quais certamente não se incluem os comunistas), seriam muitos
aqueles que, como Guevara, tinham já previsto, e até anunciado, que esse seria o caminho?
No fim de Maio de 1960, o Che dirige-se às três companhias petrolíferas instaladas em Cuba: Standard Oil, Texaco (Estados Unidos) e Shell (anglo-holandesa). Informa-as
que, a partir de agora, vai ser necessário refinar petróleo bruto soviético e já não aquele que elas próprias extraem e importam do sub-solo venezuelano. Além disso,
e na sua qualidade de presidente do Banco Nacional, comunica-lhes que o Estado cubano não está em condições de liquidar uma dívida anterior de cinquenta milhões
de dólares. As companhias hesitam, reúnem e, finalmente, recusam. A 29 de Junho, Castro manda então embargar as três refinarias enquanto que, entretanto, chega o
primeiro petroleiro soviético (a 4 de Julho, por ironia, data da independência dos Estados Unidos, mas, para a revolução cubana, marco simbólico no processo da sua
nova independência).
A partir deste momento, a cronologia precipita-se. O "gigante do Norte" zanga-se, mas os novos donos da pequena ilha não alteram a sua política. Pelo contrário,
apostando na ajuda aguardada dos soviéticos, endurecem as posições e a escalada sobe. A 6 de Julho, Eisenhower anuncia que os Estados Unidos põem termo às compras
de açúcar cubano para o ano em curso (setecentas mil toneladas). Dá a entender que o seu país poderia de futuro nunca mais comprar nada. Tendo em conta que, para
Cuba, o açúcar representa 80% das suas exportações,^compreende-se a reacção do ministro cubano da economia, Regino Boti: "É uma punhalada". Virão os soviéticos em
socorro dos seus novos amigos, arriscando-se a esfriar de novo as suas relações com os Estados Unidos?
K. S. Karol, politólogo especializado na análise da URSS e da China, faz, em Les Guérrilleros au Pouvoir, uma interpretação interessante da reacção de Moscovo105.
Recorda que a política de desanuviamento de Kruchtchev não agradava aos chineses que, classificando o chefe do Kremlin de "revisionista", preconizavam nessa época,
pelo contrário, uma estratégia combativa para o conjunto do movimento revolucionário internacional. Kruchtchev já considerava a hipótese de decretar contra a China
um bloqueio análogo ao que fora organizado por Estaline, em 1948, contra a Jugoslávia que saíra da linha: cortar todo o auxílio económico e retirar todos os técnicos
soviéticos que trabalhavam nesse país. Como se vê, cada bloco tinha os seus rebeldes a meter na ordem.
Quanto à decisão de Eisenhower de prescindir do açúcar cubano, provinha mais do orgulho ferido de uma grande potência do que de uma reacção fria e sensata. Se a
Casa Branca quisesse verdadeiramente dar uma "punhalada"

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nas costas da economia cubana, teria aguardado cinicamente o momento em que Castro seria obrigado a ver-se a braços com toda a colheita da próxima safra. Alguns,
como o presidente Frondizi, pensam mesmo que se trata de uma simples "advertência" e propõem-se servir de medianeiros. Castro aceita esperar um mês antes de executar
a ameaça contra os Estados Unidos, feita há duas semanas num discurso televisivo: "Se perdermos toda a nossa quota de açúcar, eles poderão dizer adeus a todos os
seus investimentos em Cuba"106.
Tratando-se de Kruchtchev, declara Karol "a questão cubana fornecia-lhe um alibi internacionalista inesperado"107. De facto, vê aí uma ocasião de mostrar aos chineses
que é possível invocar a "coexistência pacífica" entre os dois blocos e, mesmo assim, proteger uma pequena ilha distante que ousa declarar-se antimperialista. A
9 de Julho, a URSS declara-se então compradora de todo o açúcar cubano que os Estados Unidos se recusam a comprar hoje ou que recusarão comprar no futuro. Em Cuba,
prossegue ainda o debate fundamental entre a manutenção da monocultura tradicional, fornecedora de divisas, e uma industrialização inovadora, garante de autonomia.
Mas, de momento, é a euforia: a sobrevivência económica está garantida. Tanto mais que o chefe da União Soviética acrescentou uma pequena frase verdadeiramente explosiva,
indicando que, "falando de maneira figurada", na era dos foguetões intercontinentais, a URSS podia agir sobre os Estados Unidos como se eles fossem simples vizinhos108.
Não é preciso mais para que Guevara exalte essa generosidade exemplar. No dia seguinte, 10 de Julho, perante cem mil pessoas reunidas em Havana, o Che, substituindo
Fidel Castro, doente, esquece que Kruchtchev falou "de maneira figurada" e agradece-lhe calorosamente, tomando à letra a sua frase. E proclama, desencadeando uma
imensa ovação: "Cuba é hoje uma ilha gloriosa no centro das Caraíbas, defendida pelos foguetões da maior potência militar da história"109. Por seu turno, Kruchtchev
embandeira em arco. Como poderão os chineses continuar a censurá-lo pelo seu "egoísmo de grande potência" e pelo seu revisionismo? Mas os Estados Unidos preocupam-se,
e o seu candidato democrata à presidência, John F. Kennedy, indignando-se por terem ousado tocar na "coutada" americana, garante que se está a assistir à "primeira
violação da doutrina Monroe, desde há um século"110.
A 28 de Julho, na sessão de abertura do primeiro Congresso Latino-Americano da Juventude - de onde sairão inúmeros militantes revolucionários do continente americano
- Guevara sublinha a importância do apoio soviético num momento crucial. O seu discurso, simples e forte, evitando a linguagem oficial, escapa à retórica, por vezes
ambígua, de Castro: "Se a União Soviética não nos fornecesse petróleo e não nos comprasse açúcar, seriam necessárias toda a força, toda a fé e toda a dedicação do
nosso povo para aguentar a situação". Aumenta, para que ninguém o ignore, a solidariedade com a qual Cuba pode contar, sem fazer a mais pequena alusão, evidentemente,
às dissenções internas do campo socialista: "A União Soviética, a China e todos os países

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socialistas, bem como os países coloniais e semi-coloniais que se libertaram, são nossos aliados". E, respondendo às "acusações de comunismo vindas do imperialismo
e das potências coloniais", afirma: "Esta revolução, se fosse marxista - e sublinho, marxista - sê-lo-ia porque, também ela descobriu, pelos seus próprios meios,
as vias indicadas por Marx". O condicional, figura de estilo, não é mais do que uma medida de prudência face a uma oposição que não desarmou, pelo contrário. É também
uma estocada, semi-embotada, para arranhar o "grande Tio Sam". Aliás, tomando como pretexto a presença na sala do coronel Arbenz, antigo presidente da Guatemala,
derrubado em 1954 pelas manobras da CIA (e criticado nessa época pelo próprio Guevara pela sua pusilanimidade), o Che explica diplomaticamente que essa reforma agrária
frustrada permitiu que Cuba tivesse podido ir "ao fundo da questão e liquidar de um só golpe os que detêm o poder e os seus esbirros"111. Leia-se: Cuba não será
uma segunda Guatemala.
Os Estados Unidos não deixam de entender a mensagem. Sem recorrer a subterfúgios, a imprensa norte-americana concentra-se na confissão de Guevara - patrão da economia
cubana - das suas convicções comunistas. Já há um ano, o jornalista do Chicago Tribune, Jules Dubois, denuncia o facto de o próprio Guevara, ao receber estudantes
dos Estados Unidos, ter ironizado: "Segundo Dubois, em Cuba só existe um comunista e ele chama-se Guevara"112.
No seu número de 8 de Agosto de 1960, a revista Time, um dos primeiros "criadores de opinião" do país, coloca na capa o retrato do Che, apresentado como "o cérebro
de Castro". Segundo o artigo de fundo da reportagem de capa, Guevara deseja "romper os laços históricos entre Cuba e os Estados Unidos. Com a fria determinação de
um marxista fanático..." Observando que o presidente do Banco Nacional tomou a precaução de colocar na Suíça as reservas de ouro e de dólares até então depositadas
nos Estados Unidos, a Time explica que o comandante marxista começou a preparar-se para "a guerra" que espera da parte dos Estados Unidos, e que a influência revolucionária
está a espalhar-se "audaciosamente" por toda a América Latina. "Fidel é o coração e a alma da Cuba actual, sublinha o autor do artigo. Raul Castro é o punho fechado
sobre a adaga da revolução. E Guevara é o seu cérebro. É ele o principal responsável pela viragem à esquerda de Cuba. [...] É o elemento mais fascinante e mais perigoso
do triunvirato. Alvorando um sorriso de doce melancolia, que muitas mulheres consideram irresistível, o Che dirige Cuba com um calculismo frio, uma enorme competência,
uma grande inteligência e um forte sentido de humor".

A grande viragem

A "guerra" anunciada não tarda. Um mês após a decisão americana de não voltar a comprar açúcar cubano, Castro fecha-se três dias e três noites com Guevara, no gabinete
do INRA, para preparar a resposta. Que se traduzirá

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nos decretos de nacionalização de 7 de Agosto de 1960 os quais, aos olhos de Washinton, cometem o irreparável. São nacionalizados trinta e seis grandes impérios
açucareiros, entre os quais a emblemática United Fruit, duas refinarias de petróleo (Esso e Texaco), as companhias de electricidade e de telefone..., todas elas
pertencentes a empresas norte-americanas. No total, mais de setecentos e cinquenta milhões de dólares, representando três quartos dos bens que os Estados Unidos
detêm na ilha. Para cúmulo, as indemnizações previstas são irrisórias, visto que estão subordinadas à compra anual de mais de três milhões de toneladas de açúcar
a um preço fixado acima do câmbio mundial! Em Havana, mais uma vez, é o entusiasmo e a festa. Fidel, afónico, não consegue terminar o seu discurso. O seu silêncio
é preenchido pelas palavras de ordem da multidão: "Fidel, seguro! A los Yanquis, dales duro!" É Raul Castro que, por fim, lê o decreto, numa voz emocionada. O povo
desfila cantando e dançando diante das escadas do Capitólio, onde estão depositados caixões com os nomes das companhias nacionalizadas, que serão lançados ao mar.
Os Estados Unidos enfurecem-se, mas encaixam. Para a nação que pretende ser o arquétipo da democracia ocidental, uma intervenção armada dos marines em 1960 está
fora de causa. De qualquer forma, o período eleitoral impediria esse género de decisão. No imediato, Washington opta então por fazer condenar pela OEA (Organização
dos Estados Americanos), reunida no fim de Agosto em San José da Costa Rica, a "ameaça de ingerência de potências extra-continentais" nas questões do hemisfério
americano. Castro responde de imediato, fazendo aprovar por aclamação uma "Declaração de Havana", que repudia "cada um dos termos" da Declaração de San José, e adia
as eleições para as calendas gregas. Entretanto, aproveita para fazer aclamar a decisão de restabelecimento das relações diplomáticas com a China Popular e com todos
os países socialistas. Mais vale alargar o escudo. Nunca se sabe.
Mas não chega. A provocação máxima à Casa Branca será, para Castro, receber o abraço de Kruchtchev justamente em Nova Iorque, "na boca do lobo", como diria Marti.
Perito na encenação espectacular, o líder cubano vai transformar a sua participação na Assembleia Geral das Nações Unidas num espectáculo mediático. Fingindo ter
sido expulso do seu hotel, no centro da cidade, "refugia-se" com o comandante mulato Almeida e os seus oitenta barbudos num hotel do bairro negro de Harlem (antecipadamente
alugado, como virá a saber-se mais tarde). Uma matilha de jornalistas segue-lhe os passos. É aí que o chefe do Kremlin, baixo e gordo, de cabeça rapada, vem em pessoa
estreitar nos seus braços curtos o grande e robusto guerrilheiro de camuflado, tão hábil a desafiar o gigante americano. Kruchtchev está encantado e repete a cena
na bela sala das sessões plenárias, nas Nações Unidas, sob os disparos dos fotógrafos e o olhar divertido, consternado ou fascinado dos chefes de Estado do mundo.
Que, a partir daí, a CIA tenha tentado eliminar Castro, com a concordância do chefe da agência, Allen Dulles, e a colaboração directa da Mafia, é coisa que hoje
não oferece dúvida113. O que já poucos sabem é que a decisão

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abrangia também os dois outros membros do "triunvirato" apontado pela Time, isto é, Raul Castro, a "adaga", e Guevara, o "cérebro". Tad Szulc conta que, durante
as audições perante uma comissão de inquérito do Senado, o chefe da Divisão do Hemisfério Ocidental da CIA reconheceu que "se os três chefes principais não forem
eliminados num só golpe - o que é praticamente impossível - a operação corre o risco de se arrastar e o actual governo só poderá ser derrubado pela força"114.
Aguardando a concretização de uma tal hipótese, Washington decide, a 18 de Outubro, impor um embargo a todas as exportações com destino a Cuba, com excepção de medicamentos
e produtos alimentares. Resposta imediata: Cuba nacionaliza tudo o que ainda é americano na ilha. Logo em Junho, o hotel Hilton, paraíso do conforto norte-americano
em Havana, havia sido requisitado e rebaptizado de "Havana Libre". A 13 de Outubro, poucos dias antes da decisão do embargo norte-americano, um forte contingente
de empresas pertencentes à burguesia cubana fora também expropriado, bem como o conjunto dos bancos - com excepção dos canadianos. Desta vez, a revolução nacionaliza
as últimas cento e setenta e três empresas norte-americanas, cuja lista, não exaustiva, revela bem a importância da presença física dos Estados Unidos na vida quotidiana
dos habitantes da ilha. Coca-Cola, General Electric, Remington Rand, os grandes armazéns Sears and Roebuck, Woolworth, etc... e, já agora, as minas de níquel de
Nicaro e de Moa que, durante a guerrilha em Oriente, tiveram conflitos com os rebeldes.
Assim, em poucos meses, a estrutura capitalista do sistema económico cubano ficou estilhaçada. O Estado vê-se proprietário de um imenso património que terá não só
de aprender a gerir como também defender, pois a avalanche de medidas económicas e políticas dessa "grande viragem" provocou uma onda de protestos entre a classe
média e a burguesia cubana. A oposição - ainda existe uma - insurge-se o mais que pode contra a orientação "comunista" do país, mas os seus dias estão contados.
Em relação a ela, Guevara mostra-se mais radical do que nunca: "Atacam-nos, e atacam-nos muito. Nós, membros da Revolução cubana, que somos o povo de Cuba, chamamos
amigos aos amigos e inimigos aos inimigos. Não admitimos o meio-termo: ou se é nosso amigo ou nosso inimigo". E o Che denuncia "todos aqueles que constituíam a reserva
do governo americano neste país, os que se disfarçavam de anti-Batista mas que pretendiam simultaneamente derrotar Batista e manter o sistema, os Miro, os Quevedo,
os Díaz Lanz, os Huber Matos...115
Miro Cardona, promovido a primeiro ministro quando era necessário tranquilizar a opinião pública a seguir à vitória e "demitido" cinco semanas depois, é expulso
da sua cátedra na Universidade e acaba por se exilar. Díaz Lanz e Matos, ambos comandantes rebeldes, nutrem a mesma aversão pelo comunismo. O primeiro organiza,
a partir da Florida, incursões aéreas sobre Cuba para incendiar, com napalm, campos de cana de açúcar, ou para abastecer de armas e material uma resistência que
se organiza na Serra de Escambray; o segundo cumpre vinte anos de prisão. Quanto a Quevedo, amigo de

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Castro e director da Bohemia, o mais importante semanário de Cuba, é forçado a refugiar-se numa embaixada, o que ilustra um processo de controlo da imprensa, que
vai endurecendo à medida que a tensão política cresce.
Desde finais de 1959 que surgiu na imprensa uma forma insólita de contestação, a coletilla. Trata-se de uma "apostila", ou seja, um comentário acrescentado pelos
trabalhadores da empresa, que tomam a liberdade de exprimir uma opinião diferente da do autor do artigo ou da legenda da fotografia. (No fim dos anos setenta, em
Paris, as "notes de la claviste" do jornal Libération retomam o mesmo princípio).
Em Cuba, aquilo que começou como um debate público original transforma-se num sistema organizado, coordenado por um comité político que, do interior, esvazia o jornal
da sua substância. Os directores que tentam resistir em breve se vêem obrigados a seguir o caminho do exílio. Desaparecem assim Prensa Libre, El País, a revista
popular Carteles, etc. A maior parte deles voltarão a ser publicados em Miami, onde começa a desenvolver-se a maior comunidade cubana dos Estados Unidos.
O caso do conservador Diário de la Marina é exemplar; venerável instituição de direita, o jornal, que tem então cento e quarenta anos, defendeu a escravatura negra,
condenou José Marti, saudou Franco e todos os fascismos. Guevara não deixa de ler os editoriais reaccionários do Marina para avaliar a virulência da opinião contrária.
Ao contrário do pessoal dos outros jornais, os seus operários e trabalhadores recusam por maioria a prática da coletilla, e assinam mesmo, em Maio de 1960, uma tomada
de posição anticomunista da direcção. O sindicato dos trabalhadores gráficos envia então os seus "caceteiros" para tomarem de assalto o jornal. É René Depestre,
o poeta haitiano recebido anteriormente em Tarara, que o Che nomeia interventor, novo patrão. "Eu era uma espécie de comissário, conta Depestre. Entrei fardado,
no gabinete do director, para o despedir. Foi divertido... O que espantava muita gente é que eu escrevia simultaneamente no Hoy e no Revolución"116.
Se bem que, em princípio, todos os partidos políticos tenham sido dissolvidos desde o início de 1959, o Partido Comunista organiza sem problemas o seu congresso
de Agosto de 1960 - com a participação de Jacques Duelos, membro do bureau político do partido irmão francês. O Hoy é o órgão do PC cubano, ao passo que o Revolución,
criado na Sierra Maestra, porta-voz do Movimento do
26 de Julho, passou a ser o jornal de Fidel Castro. Carlos Franqui, o seu director, tenta não surgir muito como "a voz do dono" e faz o possível para se demarcar
dos comunistas. Distingue-se sobretudo por um suplemento cultural semanal, à
2ª feira, que se torna um ponto de referência, Lunes de Revolución, confiado ao escritor iconoclasta Cabrera Infante. Este instiga os "jovens turcos" da inteligentsia
literária e artística cubana que encontram, graças à revolução, um vasto espaço de liberdade. "A nossa estética era o surrealismo, o trotsquismo, tudo misturado
com más metáforas, como um cocktail inebriante"117.
Quando, nas magníficas instalações do Diário de la Marina, é instalada uma Imprensa Nacional, é ainda o Che, fiel aos seus sonhos de infância, que

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decide que a primeira publicação dessa nova casa editora será uma edição de cem mil exemplares do Don Quixote de Cervantes, em quatro volumes. "Fui eu que redigi
a apresentação", prossegue Depestre. "Era a primeira vez, em Cuba, que um livro simbólico como aquele atingia uma tal difusão. Aliás, ele não foi vendido, mas sim
oferecido às pessoas, aos jovens, ao público. Toda a gente leu o Don Quixote... Mais tarde, a Imprensa Nacional será confiada ao romancista Alejo Carpentier, regressado
do exílio, mas eu tive de travar uma dura batalha contra velhos comunistas, como Octavio Fernández, por exemplo, braço direito de Escalante, que pretendiam impor
uma série de obras medíocres trazidas de Moscovo, toda a literatura do realismo socialista. Era necessário negociar título a título. O Che dissera-me: "Sobretudo,
não confundas as tuas posições com as desses senhores. São uns sectários, gente complicada". Ele sabia que eu não era um comunista tacanho"118.
Virá o tempo em que os "comunistas tacanhos" irão atacar o próprio Guevara, demasiado livre para o gosto deles. Daí até lá, das máquinas do Diário de la Marina sairão
edições gigantescas de Marx, Engels, Lenine, Mao e Kim Il Sung, mas também Moby Dick, Robinson Crusoé e, evidentemente, O Velho e o Mar. Hemingway, famoso cidadão
honorário em Cuba, observou certo dia a um jornalista da Prensa Latina: "I'm not a Yankee, you know" ("Sabe, eu não sou um ianque")119. Guevara pediu a Depestre
que fizesse aquilo que ele melhor sabia fazer, escrever: "Pediu-me que preparasse, para o Revolución, crónicas sobre a guerra da Argélia. Era o padre Berenguer,
um padre pied-noir de Orão, enviado pela FNL argelina, que me fornecia as informações para os meus artigos. Havia inúmeras tendências no Revolución e o Che estava
satisfeito por ter alguém de confiança dentro do jornal"120-
Em fins de 1960 só subsistem, portanto, jornais, estações de rádio e de televisão favoráveis à revolução. Estimulada, sem dúvida, pelos artigos de Sartre no France-Soir,
a revista L'Express envia a jovem Françoise Sagan à festa do 26 de Julho em Cuba. Ela regressa com uma reportagem muito favorável ao regime, mas que reconhecia:
"Já não há imprensa livre e o resultado é confrangedor"121.
Em Março de 1960 - confirmar-se-á mais tarde122 - Eisenhower deu luz verde a um projecto da CIA defendido pelo vice-presidente Richard Nixon, aliás candidato republicano
à presidência. Antes de atacar o regime pelas armas, há que o desestabilizar primeiro: instalação de uma rádio anti-Castro na América Central, espionagem, treino
de comandos, etc. O objectivo consiste em encorajar a oposição a reforçar os numerosos grupos de guerrilha anticomunista que, sem coordenação real, reinam um pouco
por toda a parte a partir do refúgio da serra de Escambray. Fidel garante que existem 179 grupos desses em Cuba, abastecidos por pára-quedas provenientes dos Estados
Unidos. O seu irmão Raul precisa que o número desses bandidos - como ele lhes chama - chega aos três mil e quinhentos, o que não é uma brincadeira. Serão necessários
longos meses, anos, para que "operações de limpeza", difíceis

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e caras em vidas humanas, liquidem essa resistência que tem o descaramento de voltar contra Castro o método da guerrilha que lhes proporcionou os comandos da ilha.
Uma legião especial, a LCB (Luta Contra os Bandidos) é criada entre os camponeses fiéis à revolução, para apoiar o exército e as milícias; mas, apesar de milhares
de prisões, execuções e deportações, certos focos dessa oposição armada persistirão até 1965.
Retomando uma estrutura já funcional, o exército de Castro montou um excelente serviço de contra-espionagem, o G-2, sob a direcção do antigo braço direito de Guevara,
Ramiro Valdés, ele próprio assistido por um adjunto, o capitão Manuel Piñeiro, mais conhecido por Barbaroja, devido à sua barba ruiva. (Responsável pelo Departamento
América Latina, este último ficará famoso junto dos revolucionários latinos do continente, que terão todos de lidar com ele). O que não impede que "a síndroma da
Guatemala" continue ainda a pairar. À medida que a escalada de represálias económicas para com o perigoso vizinho aumenta, a ideia de uma invasão directa ou apoiada
por Washington vai ganhando corpo e espalha-se entre a população, chamada a mobilizar-se ao mínimo sinal de alerta. Assim, ao longo dos meses, e pontuadas pelas
bombas que rebentam em Havana e nalgumas grandes cidades, sucedem-se as medidas que vão acabar por "normalizar" a imprensa, a Igreja, a Universidade, os sindicatos.
Por tradição, a igreja cubana apoiava os poderosos. Em 1959, começou por saudar a dimensão cristã de uma revolução "humanista". Mas no ano seguinte essas boas intenções
desapareceram. O arcebispo de Santiago denuncia o comunismo ateu, o controlo dos meios de comunicação, os excessos da reforma agrária. "Cuba sim, comunismo não,
escravatura nunca", proclama ele em Outubro de 1960. O regime proibira já as procissões e os toques de sinos das igrejas. Meses depois, o jornal católico La Quincena
é encerrado, várias escolas e a universidade católica são nacionalizadas e uma centena de padres são expulsos.
Na Universidade, onde o meio estudantil nunca apreciou muito os comunistas, acusados de conluio histórico com Batista, Castro considera que a autonomia tradicional
já não tem razão de ser em regime revolucionário, e comissões mistas de estudantes e professores organizam uma depuração política sistemática, que leva ao exílio
excelentes intelectuais. Enquanto que o reitor, suspenso, é substituído pelo presidente do Partido Comunista, o estudo do materialismo histórico é introduzido em
todas as especialidades.
Essas manobras surgem também nos sindicatos. A Confederação dos Trabalhadores Cubanos (CTC), também ela avessa à dialéctica comunista, teve de aceitar a direcção
de um homem de Castro, David Salvador, apesar de tudo moderado. No ano seguinte, esse homem é considerado demasiado moderado. Sobretudo quando as nacionalizações
trazem consigo uma indexação salarial pela base, particularmente no sector da electricidade no qual, por tradição, as companhias americanas praticavam salários elevados.
Os trabalhadores desse sector chegam a desfilar gritando: "Cuba sim! Rússia não!"123 É um comandante do exército rebelde, guindado à direcção da CTC para pôr

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as coisas na ordem, que se apressa a declarar "greve à greve" e a reorganizar de imediato o sindicato.
Apesar das suas reservas em relação à velha guarda dos comunistas, Guevara não ficou chocado com a agitação desse segundo semestre de 1960, rico em decisões revolucionárias
e pesado de ameaças. Pelo contrário, o seu radicalismo levou-o sem dúvida a aconselhar Castro a ser ainda mais intransigente, a desembaraçar-se das ovelhas ranhosas.
Quando a pátria está em perigo, não se deve deixar a oposição minar o moral das tropas, fomentar intrigas, ajudar o inimigo. Basta lembrar a sua observação a Nasser,
quando declarou que media o alcance de uma revolução pelo número de pessoas que abandonavam o país.
Analisando em 1960 "a situação cubana, presente e futuro", o Che precisa, num apêndice à sua Guerra de guerrilha, que "após a fuga do ditador", aquilo a que se assiste
é "o resultado de uma longa luta civil armada do povo cubano". Seguem-se então uma dezena de páginas espantosas, onde são passados em revista diversos cenários,
políticos, económicos, militares, de uma agressão imperialista dos Estados Unidos contra Cuba. O Che examina assim a "variante Guatemala", a "variante República
Dominicana", a "variante Espanhola", calculando friamente as baixas prováveis em ambos os lados, mas incitando veementemente à organização imediata da resposta nas
cidades e nos campos, mediante a aliança entre milícias e o exército que representam, como afirmou Camilo Cienfuegos, "o povo fardado"124. "O nosso inimigo", insiste
o Che perante uma assembleia de médicos, em Agosto de 1960, "o inimigo de toda a América, é o governo monopolista dos Estados Unidos da América"125. Por isso, Guevara
não protesta, antes aplaude, quando Castro organiza os CDR. Esses Comités de Defesa da Revolução, criados em Setembro de 1960, vão estabelecer, rua a rua, casa a
casa, fábrica a fábrica, uma temível rede de vigilância das acções e do comportamento revolucionário de cada um. Servirão de estrutura poderosa para fazer "descer"
às bases as directivas políticas e fazer "subir" as informações "adequadas" até à hierarquia... e ao G-2, que começa a receber a assistência de conselheiros soviéticos
do KGB.
Muitos cidadãos não suportam esse controlo policial cerrado, prenunciador, pensam eles, do sinistro "admirável mundo novo" de Huxley, e optam por abandonar o país.
Entre eles, e de novo, inúmeros técnicos e membros de profissões liberais. Virá o dia em que o Che fará uma auto-crítica sobre este ponto e lamentará essas partidas
mas, para já, empenha-se sobretudo em tornar o processo irreversível.
Quando, após uma primeira estadia em Maio, o agrónomo René Dumont regressa a Cuba em Agosto de 1960, a convite de Castro, repete a Guevara, "grande inspirador da
política económica cubana", o que já dissera a Fidel: que a reforma agrária exige uma gestão correcta e não aquela desordem intempestiva, onde se nacionaliza à pressa
aquilo que ainda se não é capaz de administrar. Descrição: "O Che recebeu-me bastante cedo - são apenas
22 horas -, no gabinete do Banco. [...] Proponho [...] que os cooperantes

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participem, sem remuneração, na construção das suas habitações [...] e invistam trabalho na sua cooperativa durante a época baixa [...] [evitando-lhes desse modo]
sentirem-se promovidos a assalariados do governo, a semi-funcionários. [...] Essa participação dar-lhes-ia um sentimento de compropriedade, de ligação pessoal, ao
seu colectivo de trabalho". O Che que lera certas obras de Dumont, reage então violentamente: "Houve aqui em 1959 uma tendência para a "jugoslavização" e para os
conselhos operários. Não se deve dar-lhes [aos cooperantes] o sentido da propriedade, mas sim o da responsabilidade". René Dumont prossegue: "O Che desenvolvia uma
espécie de visão ideal do homem socialista, alheio ao lado mercantil das coisas, trabalhando para a sociedade e não com vista ao lucro". Entrevemos já os traços
desse "homem novo" que Guevara não deixará de tentar formar, um ser de qualidade, animado pelos mais nobres sentimentos, sempre disposto a prestar um trabalho voluntário,
mais sensível aos estímulos morais do que às recompensas materiais. "O Che estava muito adiantado para a época," conclui o agrónomo. "Pelo seu pensamento, ele encontrava-se
já na etapa do comunismo [...]. Esse avanço a toda a pressa prejudica o motor..."126.

"Trabalho, trabalho e mais trabalho!"

Reagindo contra Cuba como o fizeram, os Estados Unidos revelaram o seu verdadeiro rosto, segundo Guevara, o de uma potência colonial que não aceita que uma parcela
do seu império se revolte. Nessa guerra não declarada mas real, o Che está, como sempre, presente em várias frentes. Prepara o futuro empenhando-se em que os militantes
revolucionários que afluem de toda a parte do Terceiro Mundo recebam a formação adequada, o apoio financeiro, se possível armas, para combaterem o inimigo imperialista
comum. Esta solidariedade activa não se limita, aliás, à América Latina. Os futuros dirigentes de Zanzibar, colónia britânica na costa oriental de África, recordar-se-ão
do seu treino em Cuba e, depois de se fundirem com o Tanganica, formando a Tanzânia, não hesitarão, em contrapartida, em dar a Cuba (e em particular a Guevara) um
apoio indispensável quando as circunstâncias o exigirem. Por várias vezes o Che saudou calorosamente o comportamento antimperialista de Patrice Lumumba, no Congo
ex-belga. O assassínio do líder congolês, em 1961, indigná-lo-á. O comandante também não negligencia as suas responsabilidades de grande organizador do departamento
de instrução militar das forças armadas cubanas, sobretudo a partir do momento em que as milícias operárias e camponesas vão cada vez mais militarizar-se. E continua
a manter um pé no INRA, cujo património industrial aumentou, enriquecido pela confiscação por vezes desordenada dos "bens mal adquiridos" pelos parasitas do antigo
regime.
Mas é ao Banco que Guevara, consciencioso, dedica o essencial do seu tempo. Desde a sua tomada de posse, instaurou um rigoroso controlo dos câmbios. Desde então,
dia após dia, observa o nível das reservas de divisas.

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Manteve para o pessoal os salários elevados existentes, mas, para si e para os seus assessores, fixou uma remuneração inferior (que ele nem sequer recebe, uma vez
que tem o seu salário militar). E, aos fins de semana, dá o exemplo e leva aqueles que desejam fazê-lo a transportar perpianhos para a construção dás casas dos operários.
Não existe demagogia nesse "trabalho voluntário", dificultado às vezes pela asma, que o leva a continuar a ultrapassar-se. Não faz mais do que aplicar o princípio
erigido em regra de vida: um revolucionário deve dedicar toda a sua vida à revolução. A um amigo americano, escreve: "A minha vida resume-se a uma palavra: trabalho,
trabalho e mais trabalho. A revolução necessita de todos os nossos minutos"127. Muitos serão aqueles que não conseguirão acompanhar este rigor.
Por muito que este "monge" empenhado na sua era notável tenha declarado que só os seus amigos estavam autorizados a tratá-lo por Che, é cada vez mais por essa alcunha
familiar que ele é conhecido no país, sinal de uma popularidade que leva os cubanos a nunca dizerem Castro, mas Fidel. "Só os soberanos não tratados pelo nome próprio",
observa Régis Debray, trocista128. A identificação é tal que, quando pedem ao presidente do Banco Nacional que assine notas novas, ele não hesita e coloca maliciosamente
as três únicas letras Che à laia de assinatura. Aliás, está tão pouco preocupado com a sua irreverência que por vezes envia a amigos no estrangeiro notas assim ornamentadas,
que passaram a constituir objecto de colecção. Esta ironia em relação ao sacrossanto papel-moeda provoca inúmeros comentários agridoces. Alguns brincalhões terão
o mau gosto de acrescentar uma cruz à assinatura, o que dá cruz-che, aproximação fonética, em espanhol, de Kruchtchev, para marcar a submissão aos soviéticos atribuída
a Guevara.
Agora que as hostilidades estão abertas e Castro já não receia assustar a burguesia cubana ou a opinião pública norte-americana, o Che, saído da semi-clandestinidade
dos primeiros tempos, desempenha claramente o seu papel de coadjuvante. Não há visitante que não peça para lhe falar. Às vezes a surpresa é comovente. Um dia aparece
Granado, com quem ele fez a sua memorável primeira digressão latino-americana. "O comandante deu ordem para que não o incomodassem," declara Manresa, o devotado
secretário. "Está a estudar matemática". "Mesmo assim, anuncia-me", insiste Granado. Ernesto vem imediatamente. Grandes abraços. Pelao já não é digno desse nome;
agora a sua cabeleira é enorme. Já não se viam desde 1952 - oito anos já! Alberto casou. Guevara conta-lhe que esteve para ir em missão à Venezuela, mas que a sua
fama de semeador de revoltas precedeu-o e o governo de Caracas pediu-lhe que renunciasse ao projecto. Por isso foi Mial que fez a viagem para reencontrar Fuser e
para se colocar ao serviço da revolução.
Algumas semanas depois, convidado por Franqui em nome do jornal Revolución, aparece Pablo Neruda, o poeta por excelência, cujos versos Guevara sabe de cor. "Ele
tinha dito à meia-noite, mas era já quase uma hora quando eu cheguei, retido por uma reunião oficial interminável", conta Neruda. (Franqui evoca a rivalidade surda
que opunha Nicolas Guillén a

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Neruda, ambos poetas comunistas. O cubano Guillén conseguiu ser o primeiro a recitar os seus poemas, mas foi o chileno o mais ovacionado). Como sucede com todos,
Neruda fica impressionado pelo contraste entre o aspecto marcial daquele presidente de Banco, de pistola à cintura, e a decoração presidencial do gabinete. "O Che
era moreno, falava pausadamente e tinha uma pronúncia argentina acentuada. Era o género de pessoa com quem se pode conversar calmamente, na Pampa, entre vários mates.
As suas frases eram curtas, terminando num sorriso, como se o comentário pairasse no ar. Senti-me lisongeado com o que ele me disse do meu Canto General. Costumava
ler uma passagem dele aos seus guerrilheiros, à noite, na Sierra Maestra. [...] Nessa noite, disse-me uma coisa que me deixou perplexo mas que talvez explique o
seu destino. Falámos de uma possível invasão norte-americana de Cuba. Eu tinha visto, nas ruas de Havana, sacos de areia colocados em pontos estratégicos. E ele,
de repente: "A guerra... a guerra... Somos todos contra a guerra. Mas quando se fez a guerra, já não se pode viver sem ela. Estamos sempre a querer voltar a ela""129.
Chave para uma morte anunciada? Aleida, a esposa, vai acompanhando o movimento conforme pode. "Para além da minha mãe, tu és a única mulher que verdadeiramente amei",
disse-lhe ele um dia130. Ela já não o acompanha tanto nos seus longos dias e noites de trabalho; espera um filho. Depois da vivenda de Tarara, mudaram três vezes
de casa, por instruções dos serviços de segurança. Em Junho de 1960, instalaram-se numa vivenda que lhes foi atribuída na rua 18, em Miramar, no bairro elegante
de Havana. É o guajiro Alarcón, alistado na Sierra Maestra que, entretanto promovido a capitão, dirige por uns tempos a equipa dos seus guarda-costas e entra com
o Che no Oldsmobile preto, modelo de 1958, que substitui o Studebaker de La Cabaña. Olhando para ele, adivinha se o comandante sai das reuniões satisfeito ou de
mau humor. Guevara é uma figura que convém proteger, pois a contra-revolução não desarmou. O interessado refila um pouco contra esse excesso de precauções que o
incomoda, mas o chocalhar das metralhadoras no chão do automóvel não lhe desagrada. O Che sempre gostou de armas de fogo. Em Maio, a mãe vem visitá-lo de novo, sozinha.
Ele leva-a a uma grande pescaria para a qual Fidel o convidara, por ocasião de um trofeu Hemingway. Em algumas fotografias aparecem os dois à popa de um barco confortável
com motor fora-de-bordo: ele, de tronco nu, com a pele muito branca, a caixa toráxica larga, a clássica boina negra; Célia, sentada a seu lado, sorridente. Imagem
de um casal feliz. Mais tarde o Che convidará a mãe a acompanhá-lo, de avioneta, a Oriente, excursão de que o pai fora privado. O piloto, Eliseo de la Campa, conta
que ao chegarem às minas de El Cobre encontram mesas postas com uma refeição sumptuosa destinada ao poeta antifascista Marcos Ana, de visita a Cuba. Convidam Guevara
e a mãe a participar no festim. "É isto que os operários de Santiago costumam comer?", pergunta ele. Respondem-lhe que o visitante normal tem direito a carne russa
em conserva e esparguete. "Então dá-nos o que come o visitante vulgar. Aos convidados de Cuba, que se dê o que há de melhor. Mas a minha mãe é uma camarada como
eu.

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Não nos trates como visitantes estrangeiros"131, responde o presidente do Banco Nacional. De regresso a Buenos Aires, Célia de la Serna escreverá uma série de quatro
artigos elogiosos, "Cuba vista por dentro", publicados no semanário socialista argentino (de pequena tiragem) La Vanguardia.
O mesmo Eliseo de la Campa conta uma história que dá simultaneamente uma ideia do estilo de vida dos barbudos, nos primeiros tempos da revolução e da vida austera
que Guevara impunha a si próprio. Uma tarde, após uma reunião em Bayamo, na parte leste da ilha, o Che insiste em regressar sem falta a Havana, apesar de a previsão
meteorológica ser má. Descolam, mas o tempo está péssimo e são obrigados a voltar para trás. Aleida, que também tinha ido, pergunta ao piloto se tem dinheiro. E
explica: "É que o Che não tem um tostão para pagar o jantar e o hotel. Por isso queria por força regressar". Eliseo acrescenta: "E ele era presidente do Banco Nacional,
naquela época!"132.
Apesar dos seus constantes afazeres, Guevara arranja sempre tempo para escrever, uma disciplina diária a que ele se submeteu durante a vida inteira. Artigos para
a revista Verde Olivo, assinados "franco-atirador", reflexões políticas sobre a orientação da revolução, rascunhos de discursos, cartas. Em Abril de 1960, responde
ao seu "caro compatriota" Ernesto Sábato, "possuidor do que [é] para mim o título mais sagrado do mundo, o de escritor", diz-lhe ele. Apesar de "ter passado a ser
cidadão cubano por decreto, continuo a pertencer à terra onde nasci". Claro que voltaria a empunhar uma espingarda "com entusiasmo, se fosse necessário", confessa
ele. É visível que isso o satisfaria mais do que dirigir um banco, mesmo nacional. Mas este combatente é também um intelectual, e em Cuba não há muita gente que
possua estas duas qualidades. Sarcástico, admite que "esta revolução, [...] a mais autêntica criação da improvisação, [...] avançou mais rapidamente do que a sua
ideologia anterior"133. Simpática lucidez, que o leva a tentar elaborar uma tentativa de explicação histórica dessa velocidade revolucionária. Mas quando, na sequência
do anúncio das nacionalizações dos bens americanos, um jovem estudante de medicina chileno, Hernán Sandoval, lhe pergunta até onde irá a revolução, Guevara não está
exactamente a brincar quando fala em "salto no vazio". "Olha", diz-lhe ele, "quando te atiras do décimo andar, não perguntas até onde vais, quando passas pelo quinto"134.

Ernesto no continente das maravilhas

A 21 de Outubro de 1960, para garantir a rede de protecção que evitará o esmagamento da revolução, Fidel envia o digno representante da dita numa longa digressão
de dois meses por cinco países socialistas: Checoslováquia, URSS, China, Coreia do Norte e RDA. Na véspera da partida, em directo na televisão, Guevara explica o
significado da sua missão: definir as importações pretendidas por Cuba, de forma a permitir a esses países integrá-las na

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sua planificação económica. No total, cerca de dez milhões de toneladas de produtos diversos, declara ele.
Regressa da viagem maravilhado. Tal como Aragon, está pronto a gritar: "Hourra l'Oural!" (Viva os Urales!). Tudo lhe pareceu admirável, exaltante, magnífico. A 6
de Janeiro de 1961, também na televisão, declara: "Disseram-me que, quando há uns meses o camarada Nuñez Jiménez apresentou o seu relatório, após uma viagem aos
países socialistas, lhe chamaram "Alice no país das maravilhas". Posso garantir-vos que eu, que viajei mais, que visitei todo o continente socialista, posso ser
considerado como a "Alice no continente das maravilhas""135.
A razão fundamental do seu deslumbramento é de ordem política, insiste. Porque se a URSS prometeu fornecer petróleo em troca de açúcar "durante vários anos", se
os países socialistas no seu conjunto se comprometeram a comprar de imediato quatro milhões de toneladas da principal produção de Cuba, a quatro centavos a libra,
"isto é, a um preço nitidamente superior àquele que é definido pelas duas grandes Bolsas de Nova Iorque e de Londres", fazem-no, sublinha ele, não por razões económicas,
mas por um "princípio político", porque "o pedido cubano foi apresentado em termos políticos". Podemos já entrever essa filosofia de uma solidariedade indispensável
no seio do campo socialista, que Guevara reivindica permanentemente, ou seja, que os países socialistas "ricos" têm o dever moral, o dever político, de ajudar generosamente,
de forma desinteressada, os países em vias de desenvolvimento ou que caminham para o socialismo. Um dia, em Argel, em
1965, irá mais longe, e acusará os países socialistas que se furtam a esse dever, rotulando-os de neo-colonialistas. Nessa altura, a irritação do país farol do socialismo
será tal que precipitará a saída de Cuba de Guevara. Mas, por enquanto, está ainda na fase da admiração incondicional.
Apesar das suas simpatias marxistas, Guevara está mal informado sobre os costumes secretos da família comunista. O seu conhecimento da URSS é quase de ordem poética.
Leu inúmeras obras edificantes desses escritores apologéticos a que Estaline chamava "engenheiros da alma", viu imensos filmes não menos edificantes, exaltando os
"heróis positivos". Os soviéticos são épicos. Ele gosta. A sua opinião é de tal forma favorável que não se apercebe do que se passa por detrás das aparências. Toma
como ponto assente o que lhe dizem, o que lhe mostram, o que lhe prometem. Baixou a guarda, e compra, como boas, fábricas que, com o tempo, se revelarão de fraca
qualidade: sessenta e uma para já, anuncia ele. E mais cem, até 1965. Em Moscovo, enchem-no de atenções. Único senão: o beijo na boca, à russa quando o recebem.
Ele não contava com isso. A partir de agora, quando chega a altura dos cumprimentos, mantém o charuto entre os dentes. Na festa do 43º Aniversário da Revolução de
Outubro (celebrada a 7 de Novembro, segundo o calendário gregoriano), é convidado para a tribuna de honra, na Praça Vermelha. Precisamente ao lado de Kruchtchev
e de Maurice Thorez, "primeiro comunista de França". Mais afastados ficaram os dirigentes chinês (Liu Chao-Chi),

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vietnamita (Ho Chi Minh), polaco (Gomulka), checoslovaco (Novotny), etc. Como todo o detalhe tem o seu significado no protocolo soviético, o Che, sempre com a sua
farda verde-azeitona, tem o privilégio de ser admitido no círculo especial reservado ao primeiro-ministro, aos membros do Praesidium e aos chefes de Estado dos países
comunistas. Kruchtchev, que acaba de regressar de uma sessão histórica da ONU, em Nova Iorque, faz um brinde a Fidel Castro e ao seu arauto, o "valente e glorioso
Guevara", aqui presente. "Enquanto nos reuníamos, os delegados dos partidos comunistas de 81 países reuniam-se também para tratar de questões importantes". O Che
não especifica de que questões se tratava, cuja importância provavelmente lhe escapou, pois nunca se lhes refere. Moscovo pretende fazer aprovar naquele conclave
a estratégia da "coexistência pacífica" com os Estados Unidos: só essa política permitirá de facto proceder ao desarmamento do complexo militar-industrial que provoca
a sangria da economia soviética. A China Popular rejeita violentamente uma tal revisão política, considerada "contra-revolucionária". Anibal Escalante, representante
do PC cubano, assiste aos debates, mas nada diz a Guevara. K. S. Karol afirma que, "por incrível que pareça, essa família desunida, em pleno conflito, mantinha os
seus hábitos de "segredo entre iniciados" (em relação ao mundo exterior) a ponto de até um Che Guevara, progressista, revolucionário, amigo por excelência do bloco
socialista, não ter nenhum direito a ser informado da situação, nem sequer parcialmente. [...] Guevara não tinha segundas intenções e não imaginava que os outros
pudessem tê-las"136.
A ingenuidade dos cubanos joga a seu favor. Confiantes que estão (que pensam estar) na protecção dos foguetões soviéticos, provocam os norte-americanos, correndo
o risco de precipitar a prova de força. "Estamos em guerra económica, e quase em guerra real contra uma super-potência", declara Guevara antes de acrescentar, deliciado:
"Também nós somos apoiados por uma super potência"; uma forma de recordar o seu comentário, emitido em 10 de Julho em Havana, perante uma assistência de cem mil
pessoas: "Somos os árbritos da paz no mundo"137. Este ardor revolucionário não convém ao senhor K. (Kruchtchev) que, pelo contrário, pretende eliminar os "pontos
quentes", e que toma consciência de que, tratando-se de defender uma ilha a dez mil quilómetros de Moscovo, a superioridade soviética em matéria de armamento convencional
ficar anulada pela distância. É certo que é sempre agradável entreabrir a porta até aí aferrolhada dessa América Latina proclamada off limits desde 1823 pelo presidente
Monroe. Mas a que preço?
Karol explica bem o mal-entendido. Ao receber o auxílio económico da URSS e dos seus aliados, Cuba, a começar pelo seu fogoso número dois, pretenderia demonstrar
a superioridade do modelo de desenvolvimento socialista, transformar-se numa espécie de "montra" da eficácia soviética na América Latina. O que significa desconhecer
dois elementos de peso. Primeiro, que apesar das aparências e dos discursos, e pondo de parte algumas ilhotas de tecnologia avançada, a URSS assemelha-se mais às
"aldeias

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Potemkine" erigidas perante Catarina II pelo marechal do mesmo nome, apenas para impressionar. Esse país, em muitos aspectos ainda próximo do Terceiro Mundo, está
atrasado no seu desenvolvimento, afectado pela guerra fria, desmoralizado pela revelação dos crimes da época estalinista, despolitizado. A sua prosperidade é fictícia.
Por seu turno, a URSS não avalia bem o esforço necessário para ajudar um país como Cuba, que já está bastante americanizado. É certo que pelo menos um terço da população
não tem possibilidade de aceder aos bens e serviços, e esse escândalo agrava-se pela situação neo-colonial da ilha. Mas os dois terços restantes dispõem de um nível
de vida e de consumo superior ao dos cidadãos soviéticos, para não falar dos chineses. Quando Guevara se indigna em público por lhe terem pedido, antes de partir,
que comprasse material para fabricar desodorizantes ao passo que no Leste, diz ele, nem sequer sabem o que isso significa, sublinha involuntariamente o fosso que
existe entre uma sociedade habituada a consumir "à americana" e uma outra para a qual é prioritário ter sabão e comida.
Mais tarde, o Che cairá em si, mas, no calor tropical que encontra em Havana e no dos spots televisivos, nos primórdios desse ano de 1961 que acaba de ser declarado
"ano da educação", esforça-se por dar o seu contributo educativo fazendo a descrição mirífica daquilo que descobriu. Levado pelo entusiasmo, quase delira, como a
heroína de Lewis Caroll diante das montanhas de chocolate e dos rios de mel. "Esse país [a União Soviética] que preza tanto a paz, está disposto a arriscar tudo
numa guerra atómica [...] unicamente para defender um princípio e proteger Cuba. [...] Os soviéticos têm todos um elevado grau de cultura política". A uma questão
que lhe é colocada, após o seu discurso, ele responde falando da "enorme liberdade individual [...] a enorme liberdade de pensamento" de que cada indivíduo goza
na União Soviética. A Michel Tatu, correspondente do Le Monde, por ocasião de uma entrevista numa datcha, perto de Moscovo, declara, febrilmente, que "a URSS é,
segundo a expressão de Neruda, a mãe da liberdade"138.
Perante os telespectadores cubanos, e referindo-se à Coreia do Norte, onde permaneceu 5 dias, prossegue afirmando que, entre os países visitados, esse é "um dos
mais extraordinários". "Esse país conseguiu sobreviver graças a um sistema e a dirigentes admiráveis, tais como o marechal Kim Il Sung. [...] Tudo o que pudéssemos
dizer pareceria inacreditável". Na China, onde foi recebido (brevemente) por Mao Tsé-Tung e se avistou com Chu En Lai, "todos estão cheios de entusiasmo, toda a
gente faz horas extraordinárias e interessa-se pela produção". "Os chineses não quiseram que fosse mencionada a sua ajuda desinteressada, uma vez que têm interesse
em ajudar Cuba que se bate, na vanguarda, contra o inimigo comum dos povos, o imperialismo". Este raciocínio encanta-o. Em suma, na Checoslováquia, na Alemanha Oriental
e na Polónia (onde um dos seus adjuntos foi assinar acordos) "as realizações dos países socialistas são extraordinárias. Não há comparação possível entre os seus
sistemas de vida, os seus sistemas de desenvolvimento e os dos países capitalistas"139(!)

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Mesmo inserido no contexto de um país ameaçado como Cuba, que tem uma necessidade premente desses novos aliados, esse ramalhete de ingenuidades exibidas com desenvoltura
é confrangedor; revela-nos um Guevara desconhecido, cujo radicalismo maniqueísta lhe retira a lucidez, a capacidade de falar sem papas na língua, o distanciamento
que, geralmente, constituem o seu talento e o seu encanto.
Retenha-se, entretanto, que na RDA, em Leipzig, conhece uma encantadora compatriota, Tamara Bunke Bider, de vinte e três anos, que lhe serve de intérprete. Filha
de comunistas alemães refugiados na Argentina, na época nazi, nasceu em Buenos Aires, cresceu lá e, aos catorze anos, no início dos anos cinquenta, regressou com
os pais à RDA. O Che voltará a encontrá-la no ano seguinte, em Havana, como ardente militante revolucionária. Irá dar-lhe um papel a desempenhar na sua história
- e na história.

El señor ministro

No regresso, Guevara descobre a filha que Aleida deu à luz, a 24 de Novembro de 1960, enquanto ele se encontrava em Xangai. A menina recebeu o nome da mãe, uma tradição;
mas a euforia russófila da viagem transforma de imediato a pequena Aleida numa Aliucha. Entretanto, o pai não tem tempo de se entregar às delícias da família. O
rastilho não pára de arder entre Cuba e os Estados Unidos, e precisam dele.

Desde que começou a escalada de expropriações e de medidas de retaliação, Castro e Guevara admitiram como provável uma intervenção militar dos Estados Unidos. Apelaram
preventivamente para os recursos económicos e militares dos países socialistas e, em caso de necessidade, para o seu apoio diplomático. Para celebrar o segundo aniversário
da vitória contra Batista, os soldados do exército rebelde, com a sua farda verde-azeitona, e os milicianos em camisa azul, desfilam em Havana a 2 de Janeiro de
1961, desta vez com um equipamento que os guerrilheiros esfarrapados de 1959 não possuíam. Ostentam uniformes impecáveis e magníficas armas, novas em folha, soviéticas,
checas, belgas, e até tanques Estaline. Ainda não há parada aérea; os Mig encomendados chegarão mais tarde. Nesse dia, no seu discurso, Castro exige aos Estados
Unidos que os sessenta e tal membros do pessoal da sua embaixada em Cuba (metade dos quais trabalha para a CIA ou para o FBI) sejam reduzidos para dezoito pessoas,
número equivalente ao dos cubanos colocados na embaixada de Washington. Esta "provocação" suplementar serve a Eisenhower como último pretexto para adoptar uma medida
concebida desde há uns meses. No dia seguinte, 3 de Janeiro, anuncia a ruptura de relações diplomáticas, o que é uma forma de evitar que o seu sucessor tome esse
tipo de decisão.
John Fitzgerald Kennedy, o jovem e brilhante candidato democrático que ganhou as eleições de Novembro, vai entrar em funções a 20 de Janeiro. Daí até lá, pensa Castro,
tudo é possível. Decreta uma "mobilização geral" que

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põe todo o país em estado de alerta: o acesso às praias é proibido e no Malecón, o bairro em frente ao mar, em Havana, surge uma fila de canhões apontados para o
horizonte. O argumento do perigo externo será utilizado por Castro de uma forma recorrente para galvanizar energias revolucionárias, mas desta vez as informações
dos serviços cubanos batem certo: está em preparação uma acção militar, uma "invasão". Entre a população vai-se desenvolvendo um espírito de país cercado e surge
uma nova palavra de ordem: "Si vienen, quedan!"
O tema da pátria em perigo é susceptível de unir uma nação durante um certo tempo. Mas não chega para dissimular os primeiros fracassos da economia. As previsões
negativas de René Dumont confirmam-se: a reforma agrária, conduzida de forma anárquica pelos administradores do INRA, desorganizou o campo, provocando hiatos e posteriormente
rupturas, tanto na produção como na distribuição. A gestão caótica das cooperativas e as decisões contraditórias dos vários planificadores começam a provocar escassez.
Na altura em que os camponeses vêem o seu poder de compra aumentar, os artigos de consumo corrente - sabão, por exemplo - começam a faltar, até mesmo na rede de
tiedas populares, instalados no meio rural, que vendem em pesos, a preço de custo, aquilo que foi pago em dólares. Torna-se urgente repensar toda a economia do país
no seu conjunto, sobretudo agora que o sector estatizado se tornou enorme. A 21 de Fevereiro de 1961, Castro transforma então o antigo departamento industrial do
INRA num verdadeiro Ministério da Indústria e coloca à sua frente o seu homem de confiança, o comandante Guevara.
Poucos dias após a sua nomeação, o señor ministro, interrogado pelo jornal Revolución (27 de Fevereiro de 1961), traça as linhas gerais de um plano que parece não
o ter apanhado desprevenido. Retoma no essencial o mito estalinista da indústria pesada: "Os próximos cinco anos serão dedicados à industrialização de Cuba. [...]
Vamos montar paralelamente uma indústria ligeira e uma indústria pesada. A primeira será o resultado dos nossos esforços; a segunda será criada através dos créditos
e das compras dos países socialistas [...], minas, siderurgia, petróleo, altos-fornos. [...] A Junta Central de Planificação (Juceplan) fixará os programas, que
terão força de lei [...]. A industrialização é um dos grandes objectivos do governo revolucionário [...]. Ao contrário do imperialismo, os países socialistas não
se limitam a conceder-nos créditos para montar fábricas; vendem-nos também fábricas para fabricar outras fábricas"140 Exaltantes perspectivas de prosperidade futura!
Mas não se explica o que vai acontecer ao principal recurso de Cuba, o açúcar. O jornal refere, em conclusão, um ponto que o novo chefe da economia nacional parece
considerar fundamental: a importância, para todo o responsável governamental, de se entregar a tarefas manuais como o fazem, diz ele, os membros do governo na China
popular: "Uma vez que somos todos operários e que o poder está nas mãos da classe operária, é normal que todos nós trabalhemos em conjunto, pelo menos uma vez por
semana, para nos integrarmos melhor e melhor nos compreendermos".

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Que, em Fevereiro de 1961, o poder esteja na mão da classe operária cubana, é uma afirmação um pouco apressada. Guevara, como é sabido, tem tendência a andar mais
depressa do que a música. Mas a intervenção militar aguardada - o desembarque de 1500 mercenários na costa sul da ilha - vai fazer acertar os relógios.

A baía dos porcos: um fiasco monumental

No sábado, 15 de Abril de 1961, de madrugada, duas bases aéreas em Havana e uma outra em Santiago, Oriente, são bombardeadas por B-26, disfarçados pela CIA com as
cores cubanas, para fazer crer que se trata de pilotos anti-Castro. Os aparelhos partiram do território da Nicarágua, gentilmente cedido pelo ditador Luis Somoza.
O objectivo - destruir em terra a insignificante força aérea cubana - só é atingido parcialmente. Castro espalhou oito aparelhos dissimulados que, ao entrarem em
acção, irão ser de grande utilidade.
O ataque a Havana provocou sete mortos, que são enterrados com pompa no cemitério Cólon, no domingo, dia 16. Durante a oração fúnebre, ritual clássico da vida política
em Cuba, Castro dá livre curso à sua indignação. Compara o ataque norte-americano ao dos japoneses contra a marinha dos EUA em Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941,
e apelida os Estados Unidos de "mentirosos" por terem querido fazer passar os bombardeamentos por acções de cubanos passados para o lado inimigo. De facto, na ONU,
o embaixador norte-americano Stevenson, enganado pelos seus próprios serviços secretos, exibiu fotografias dos B-26, garantindo serem aviões cubanos. A sua humilhação
é enorme quando é forçado a reconhecer que as fotografias tinham sido falsificadas e que os aviões eram americanos.
Mas esse dia 16 de Abril de 1961 é uma data a fixar porque, pela primeira vez, num arroubo retórico, Castro confirma uma evidência nunca antes admitida: "Aquilo
que os imperialistas não podem perdoar-nos é termos feito uma revolução socialista mesmo nas barbas dos Estados Unidos, uma revolução socialista, repete ele, que
defenderemos de arma na mão"141. A melancia verde da revolução "humanista e liberal" de 1959 explode nesse mesmo momento, revelando o interior vermelho da sua verdade
profunda.
Um regime socialista conseguiu, pois, instalar-se a 160 quilómetros dos Estados Unidos, guardiões do continente, um regime que reivindica uma filosofia política,
social e económica situada nos antípodas dos princípios orientadores da potência imperialista. Apoiado em inúmeros argumentos, este puro escândalo teria podido justificar
uma intervenção militar. Mas teria de sair vitoriosa. A operação Baía dos Porcos é, pelo contrário, um fiasco absoluto, um dos maiores fracassos dos Estados Unidos
no século xx. E, para Castro, uma vitória total.
Em Cuba, no início do mês, muitos opositores são presos. Durante o fim-de-semana de 15-16 de Abril, a actividade da polícia é mais intensa do que

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nunca. Os Comités de Defesa da Revolução fizeram o seu trabalho de detecção e de delação, casa por casa. Em Havana, 35 mil pessoas são metidas nas prisões, nos quartéis,
em salas de cinema, num estádio. Cem mil em todo o país. "É a mais gigantesca varridela da história das Américas"142. Os "invasores" não poderão contar com nenhum
apoio local. Uma sabotagem consegue, no entanto, fazer deflagrar um incêndio num grande armazém da capital, El Encanto. Guevara previne os seus milicianos: "Será
a luta de todo um povo contra uma ínfima parte desse povo, que não se resigna a perder os seus privilégios"143.
A 17 de Abril, durante a noite, na Playa Giron, a praia mais importante da Baía dos Porcos, começa o desembarque dos mercenários, a brigada 2506. São rapidamente
detectados por milicianos que abrem fogo e alertam o exército, que de imediato informa Castro. Este conhece a zona palmo a palmo, a região dos pântanos de Zapata
que mostrou a Sartre com algum orgulho, uma reserva natural onde abundam os crocodilos e que, desembaraçada dos mosquitos, daria um local de férias ideal para o
bom povo de Cuba. Mas não se sabe se não haverá ainda outras tentativas nas duas extremidades do país. É Guevara que é encarregado de dirigir as operações na zona
ocidental da ilha, a mais sensível por estar mais perto da Florida. "Fidel disse-me que tinha enviado forças consideráveis para a área ocidental da ilha, sob as
ordens do Che Guevara, para defender a costa"144, observa Herbert Matthews. A zona oriental é confiada a Raul Castro e a região centro a Juan Almeida. Do seu QG
Punto Uno em Havana, Castro coordena e comanda. Tal como na Sierra Maestra, são os "veteranos" do Granma que, retomando o seu posto, estão de novo na linha da frente.

Sobre o fiasco espectacular desta operação "Baía dos Porcos" foram escritos milhares de artigos, centenas de reportagens, dezenas de livros. Do conjunto sobressaem
algumas conclusões que demonstram a que ponto as instituições mais sólidas - uma CIA, célebre pela sua eficácia - podem enganar-se quando obedecem às pulsões dos
seus dirigentes em vez de se regerem pelas exigências da realidade. Intoxicados pela sua própria propaganda, os serviços secretos americanos revelaram uma ignorância
espantosa do clima psicológico que reinava na ilha. Porque, excepto uma franja minoritária de cubanos lesados nos seus bens ou nas suas convicções, a grande massa
permanece ligada a uma revolução ainda rica de promessas e de amanhãs que cantam. Além disso, Castro, líder carismático, não parou, durante meses, de "aquecer" a
opinião pública nacional contra a invasão iminente dos gusanos, epíteto de desprezo com que são designados os exilados que, como "vermes" que saem do fruto, deixaram
o país para se juntarem ao campo dos imperialistas.
A CIA funcionou de acordo com o wishful thinking; só quis ouvir o que diziam os que tinham fugido do "comunismo cubano". A isso veio juntar-se uma certa arrogância
de grande potência, segura do seu modo de vida e de pensamento, persuadida que bastava o aparecimento dos "combatentes da liberdade" para unir uma população impaciente
por se livrar do jugo castrista.

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Finalmente, acumularam-se erros tácticos e técnicos: a guerrilha anti-revolucionária de Escambray, muito próxima, nem sequer foi informada; e, entre os americanos,
a convicção de que os bombardeamentos dos aeroportos chegariam para liquidar a pequena aviação cubana. De tal forma que os navios da operação de desembarque nem
sequer tinham artilharia antiaérea!
Concebido por Allen Dulles, o patrão da CIA, que mais não fez do que repetir o que resultara bem na Guatemala, o projecto, aprovado por Eisenhower e por Nixon, fora
"congelado" em Novembro, na sequência da eleição de Kennedy. Tendo herdado o dossier, este último hesitou por muito tempo em dar luz verde. Consultou, interrogou,
ponderou e, pondo de lado as reservas de alguns dos seus conselheiros, acabou por se render aos argumentos tranquilizadores que lhe garantiam um grande sucesso.
A 12 de Abril, teve, contudo, o cuidado de declarar que as forças americanas não interviriam em Cuba. A formulação é hipócrita, mas a mensagem é entendida por Castro,
que compreendeu que a operação seria executada por cubanos contra-revolucionários. Em Havana, sabe-se também que foi criada uma Frente Democrática Revolucionária,
dirigida por Miro Cardona, antigo primeiro-ministro, afastado em 1959.
É claro que os Estados Unidos não intervêm no sentido literal da palavra, e a tropa que desembarca é composta quase exclusivamente por cubanos. Mas a ficção não
vai além disso. Foram os Estados Unidos que organizaram, na Guatemala, o treino de 1.500 homens da brigada de invasão. Foram eles que os equiparam, transportaram,
escoltaram com os seus destroyers, lhes forneceram armas e todo o apoio logístico. Foram eles ainda que pagaram a cada um, em dólares, montantes diversos consoante
os encargos familiares, justificando desse modo a classificação de "mercenários", que não mais os abandonará. A responsabilidade de Washington é total e, depois
de ter hesitado, Kennedy terá a coragem de assumir, perante a opinião pública, a responsabilidade do fracasso.
De facto, as coisas avançaram depressa, e tudo ficou mais ou menos decidido no primeiro dia. Enquanto na madrugada de 17 de Abril de 1961, um milhar de cadetes da
milícia cubana avançam sobre a Playa Giron para reforçar o exército rebelde e as milícias já instaladas, Castro utiliza a sua "arma secreta" - a sua pequena aviação
- e faz sair dos seus esconderijos os oito aparelhos (herdados de Batista) que escaparam ao bombardeamento. Mandara transformar discretamente os três aviões de treino
a reacção T-33 em aviões de combate rápidos e perigosos, dotando-os de metralhadoras de calibre 50. A sua missão é eliminar os pesados bombardeiros B-26, pouco manejáveis,
que fazem a ligação entre a Nicarágua e a Baía dos Porcos e cobrir os dois Sea Fury, armados de foguetões, da força aérea insular, cujo objectivo é atacar implacavelmente
os navios da força invasora. O que Castro quer evitar a todo o custo é que os mercenários se apoderem de uma parcela de território cubano, onda viria instalar-se
um "governo provisório", imediatamente reconhecido por Washington que, respondendo à solicitação premente,

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poderia então agir abertamente e com recurso a grandes meios. O procedimento é clássico.
Não se chega a esse ponto. De manhã os foguetões dos Sea Fury afundam dois navios: o Houston, que se afunda com um batalhão de cerca de 200 homens, e o Rio Escondido,
carregado de munições e material de comunicações, que explode. Os outros navios consideram prudente retirar-se rapidamente, abandonando à sua sorte os combatentes
já desembarcados. Nesse histórico 17 de Abril, os T-33 abatem quatro B-26 inimigos, dois dos quais pilotados por cidadãos dos Estados Unidos. Como Kennedy se recusa
a comprometer mais a Força Aérea norte-americana, a batalha da Baía dos Porcos está, a partir daí, mais ou menos ganha para Castro. Durante um dia e meio haverá
ainda combates renhidos, porém "arcaicos"; ambas as partes se reconhecem e se insultam, como na Sierra Maestra, antes de abrir fogo. Mas, privados de todo o apoio
marítimo ou aéreo, abandonados ingloriamente por aqueles que os haviam incitado a participar numa acção que deveria assemelhar-se a um passeio militar, os emigrantes
anticastristas rendem-se a 19 de Abril, à tarde. Mil cento e oitenta e três prisioneiros. Cento e catorze mortos do lado dos assaltantes. Duas ou três vezes mais,
sem dúvida, entre os "lealistas".
Guevara saboreia sem dúvida, mais do que qualquer outro, a vitória da Playa Giron; para ele, trata-se de uma vingança histórica contra a sua amarga experiência na
Guatemala, quando ansiava por agir e estava praticamente só e desarmado. Há poucas informações sobre a sua actividade ao longo desses dias. A certa altura, correu
um boato alarmante: o Che fora ferido, vítima de um atentado. Mais tarde, Carlos Franqui chegou mesmo a garantir que durante os combates "o Che fora atingido no
rosto"145. Quando, em 1975, Sam Giancana, chefe de um bando norte-americano, foi encontrado morto, crivado de balas, na sua residência, o New York Times revelou
que a CIA tinha planeado utilizar os serviços do bandido para assassinar Ernesto Guevara e Raul Castro, a fim de desmoralizar o exército cubano146. Mas nada disso
aconteceu. A verdade é bem mais prosaica. Houve realmente um disparo, mas esse tiro partiu da pistola do próprio Guevara! Tendo-se desprendido do estojo, a arma,
ao cair, fez disparar uma bala que, felizmente, só provocou um arranhão no rosto do comandante. "Foi apenas um acidente sem importância", declara Guevara a Hilda
Gadea, quando ela vê a pequena ferida. "Desta vez safei-me. Mas se a bala se tivesse desviado, não estaria aqui para te contar"147. Diz-se que os gatos têm sete
vidas. Mas quantas terá Guevara?
O único testemunho directo sobre o Che na Baía dos Porcos é o de uma francesa, Ania Francos, que nessa altura passou um ano em Cuba, por sugestão de Joris Ivens
- esta revolução plena de sol fascina os Franceses. Com 22 anos, loura e rosada, muito excitada com a batalha de Playa Giron, com a "festa cubana" e com os "belos
revolucionários", faz uma descrição comovente pela sua ingenuidade deslumbrada - a revolução contada às crianças - que contribuiu bastante para fazer sonhar os estudantes
do Quartier Latin, em Paris.

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Ao lê-la, é possível notar que estão já fixados todos os ingredientes do mito: "O "ché" Guevara é aquele que mais me impressiona. Regresso às minhas emoções de adolescente.
[...] Rodeado de uma multidão de milicianos, surge de vez em quando o rosto belo e pálido do "ché". Usa uma boina preta e não tem nenhuma marca distintiva na farda
verde escura. Nada que indique que ele é um dos primeiros comandantes e Ministro da Indústria, a não ser a deferência que os milicianos lhe manifestam. Recordo-me
do que me dizia uma amiga argentina: "Todas as raparigas da América Latina estão apaixonadas pelo "ché". Ele é belo e romântico, com grandes olhos negros e uma barba
extravagante. Parece Saint-Just! O mais radical! E é asmático!" Fico toda corada quando me empurram para ele, que me diz amavelmente, em francês: "Bonjour, ça va?".
E eu respondo inteligentemente: "Très bien, et vous?""148.
Mais interessante do que este diálogo sublime é aquele que Guevara trava com alguns prisioneiros da Playa Giron: um padre espanhol falangista que pede perdão mas
que será enviado para Franco, um playboy que também se declara não-culpado e que não quer ser confundido com os "esbirros", um negro a quem o Che prega um sermão:
"Vieste combater numa invasão financiada por um país onde reina a segregação racial, para permitir que os "meninos bem" possam reaver os seus clubes privados. Tens
menos desculpa que os outros". "Eu sei, foi o que me disseram os milicianos", responde o negro, envergonhado149.
Mais desembaraçada do que parece, a rapariga francesa consegue que a levem para Havana "num grande automóvel a abarrotar de gente, entre o "ché", ao volante, e um
outro comandante desconhecido. "Tem cuidado com o "ché". Es un barbaro (ele é terrível)", comenta o outro comandante, a brincar. Fico corada; mesmo no escuro, deve
notar-se. "Não te aflijas, francesa; sou um marido excelente", responde o "ché". Ela adormecerá encostada ao ombro dele150. Assim vai a revolução...
Será necessário esperar um ano e meio para que, ao cabo de intermináveis negociações, os prisioneiros sejam trocados por medicamentos e víveres. Sobre a composição
social dos prisioneiros, Claude Julien consultou uma contabilidade interessante, elaborada por Castro. A brigada dos emigrantes compunha-se de 194 antigos polícias
de Batista e 112 condenados e outros delinquentes. "Por outro lado, tratava-se de recuperar 371 930 hectares de terras, 9666 prédios, 70 fábricas, 10 centrais açucareiras,
3 bancos, 5 minas e
12 cabarets"151. O suficiente para justificar todos os discursos guevaristas sobre a luta de classes entre uma minoria de privilegiados e os outros.
Esta "guerra de bolso", que termina em menos de três dias, terá consequências insuspeitáveis. Parece vir confirmar a declaração feita por Kruchtchev, em Julho de
1960, de que a doutrina Monroe estava ultrapassada. Incitará os Estados Unidos a combaterem com mais ardor o comunismo por toda a parte do mundo - no Laos, por exemplo,
e no Vietname do Sul - e a colocarem a tónica na sua própria segurança. Traz em si - imagem invertida - as premissas de uma "crise dos foguetões" que, no ano seguinte,
irá pôr o

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planeta à beira de uma guerra nuclear. Quanto a Castro, o seu poder está no auge. Para ele, o fracasso americano é magnífico. "Fidel campeón! Tu comiste el tiburomn!",
gritará uma multidão entusiasmada. "Ele devia agradecer-nos, dirá Kennedy a Matthews. Deu-nos um pontapé no rabo e isso tornou-o mais poderoso do que nunca."152
A partir de então, um gigantesco cartaz proclama, no local do combate: "Giron. Primeira derrota do Imperialismo na América". O impaciente Guevara avança finalmente
ao ritmo da música. Já não precisa de pedir a Depestre que guarde segredo como o fez em Tarara, revelando-lhe, com dois anos de antecedência, que essa revolução,
chico, era so-cia-lista. Essa revolução, vermelha como uma melancia.

Notas:

1 Jorge Papito Serguera, entrevista com o autor, Havana, 1992.
2 Pablo Neruda, in Partisans, François Maspero, Paris, n.º 2 Nov.-Dez. 1961, p. 165.
3 Régis Debray, Cours de Médiologie Générale, Gallimard, Paris, 1991, p. 179.
4 Fidel Castro, Révolution Cubaine, op. cit., t. I, p. 85.
5 Rufo López-Fresquet, My Fourteen Months with Castro, World Publishing, Nova Iorque, 1966, p. 68.
6 Claude Julien, Révolution Cubaine, Julliard, Paris, 1961, p. 102.
7 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, op. cit., p. 148.
8 Marie-Hélène Camus, Lune de Miel chez Fidel Castro, Fayard, Paris, 1960, p. 155.
9 Ernesto Che Guevara, "Hasta la victoria siempre", Cuba, número especial, Havana, Nov. 1967, p. 44.
10 Carlos Franqui, Vida, Aventuras y Desastres de un Hombre Llamado Castro, Planeta, Barcelona, 1988, p. 126.
11 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., t. II, pp. 404-405.
12 Orlando Borrego, entrevista com o autor, Havana, 1992.
13 Guillermo Cabrera Infante, entrevista com o autor, Londres, 1992.
14 Martha Frayde, Écoute, Fidel, Denoèl, Paris, 1987, p. 69.
15 Ibid.
16 Ibid.
17 Ernesto Guevara Lynch, My Hijo el Che, op. cit., p. 86.
18 Ibid. , p. 85
19 Ibid., p. 182
20 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., pp. 201-202.
21 Ernesto Guevara Lynch, My Hijo el Che, op. cit., p. 117.
22 Guillermo Cabrera Infante, entrevista com o autor, Londres, 1992.
23 Fidel Castro, Révolution Cubaine, op. cit., t. I, p. 87.
24 Julio O. Chaviano, La Lucha en Las Villas, Ciencias Sociales, Havana, 1990, p. 119.
25 Ernesto Che Guevara, Textes Politiques, op. cit., p. 254.
26 Claude Couffon, René Depeslre, Seghers, Paris, 1986, p. 59.
27 René Depestre, entrevista com o autor, Paris, 1991.

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28 Ibid.
29 Ibid.
30 Ibid.
31 Carlos Franqui, Retrato de família com Fidel, Seix Barral, Barcelona, 1981, p. 40.
32 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, op. cit., p. 165.
33 Régis Debray, Loués soient nos Seigneurs, Gallimard, Paris, 1996, p. 176.
34 Hugo Gambini, El Che Guevara, op. cit., p. 201.
35 Michael Lowy, La pensée de Che Guevara, François Maspero, Paris, 1970, p. 84.
36 Mohamed Hassanein Heikal, Les Documents du Caire, Flammarion, Paris, 1972, p. 224.
37 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., t. II, p. 18.
38 Ernesto Che Guevara, Textes politiques, op. cit., p. 44 e p. 64.
39 Ibid., p. 65.
40 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 416.
41 Ibid., p. 417.
42 Michel Gutelman, L'Agriculture Socialisée à Cuba, François Maspero, Paris, 1967, pp. 53-55.
43 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., pp. 115 e 129.
44 Ibid., p. 115.
45 Ernesto Che Guevara, Textes Politiques, op. cit., p. 44.
46 Julio O. Chaviano, La Lucha en Las Villas, op. cit., p. 111.
47 Alfred Sauvy, in L'Observateur, Paris, 15 de Agosto de 1952.
48 Ernesto Che Guevara, Obras, t. I, op. cit., p. 387.
49 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 230.
50 - Luis Alberto Lavandeyra, entrevista com o autor, Paris, 1991.
51 Mohamed Hassanein Heikal, Les documenls du Caire, op. cit., p. 220.
52 Ibid., p. 224.
53 Ernesto Che Guevara, Obras, op. cit., t. II, p. 387.
54 "America desde el balcón afroasiatico, Humanismo, Set.-Out. 1959, Havana" in Ernesto
Che Guevara, Obras, op. cit., T. II, pp. 387-389.
55 Luis Alberto Lavandeyra, entrevista com o autor, Paris, 1991.
56 José Pardo Liada, Fidel y el Che, Plaza y Janes, Barcelona, 1988, p. 144.
57 Ernesto Che Guevara, "La India: país de grandes contrastes", El Che en la Revolución Cubana, t. I, p. 8-9. (Esta edição, em 7 volumes, de tiragem limitada e não
comercializada, foi feita em Havana, sob a responsabilidade do Ministério da Indústria Açucareira, dirigida por Orlando Borrego, provavelmente a partir de 1966.
Mas não menciona local nem data).
58 José Pardo Liada, Fidel y el Che, op. cit., p. 230.
59 Ibid., pp. 143-144.
60 Ernesto Guevara Lynch, Mi Hijo el Che, Planeta, Madrid-Barcelona, nova ed. 1982, extratexto.
61 Ernesto Che Guevara, "Recuperase Japón de la tragedia atomica", El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. I, p. 15.
62 José Pardo Liada, Fidel y el Che, op. cit., p. 166.
63 Ibid., p. 185.
64 Ibid., p. 186.
65 Ernesto Che Guevara, "Yugoslavia, un pueblo que lucha por sus ideales", El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. I, p. 33.

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66 Mohamed Hassanein Heikal, Les Documents du Caire, op. cit., p. 277.
67 Alfredo Cevara, entrevista com o autor. Paris, 1991.
68 Ernesto Che Guevara, La Guerra de Guerrilla, op. cit., pp. 24-25.
69 Benigno (Daniel Alarcón Ramírez), Vie et Mort de la Revolution Cubaine, Fayard, Paris, 1995 pp. 76-77.
70 Juan Vives, Les Maîtres de Cuba, Robert Laffont, Paris, 1981, p. 49.
71 K. S. Karol, Les Guerilleros au Pouvoir, op. cit., p. 305.
72 Jean Lartéguy, Les Guerrilleros, Presse Pocket, Paris, 1972, p. 305.
73 José Luis Llovio-Menendez, La Vie Secrète d'un Révolutionnaire à Cuba, Ergo Press, Paris 1989, p. 33.
74 Herbert L. Mathews, Fidel Castro, op. cit., p. 109.
75 Ibid., p. 173.
76 Carlos Franqui, Retrato de Família com Fidel, op. cit., p. 109.
77 Ernesto Che Guevara, Escritos y Discursos, op. cit., t. IV, p. 24.
78 El Che en la Revolución Cubana, t. II, op. cit., p. 44.
79 Ibid, p. 124.
80 Le Monde, Paris, Março de 1960.
81 Carlos Romeo, entrevista com o autor, Paris, 1991.
82 Ibid.
83 Raul Maldonado, entrevista com o autor, Santiago do Chile, 1993.
84 Orlando Borrego, entrevista com o autor, Havana, 1992.
85 Alfredo Guevara, entrevista com o autor, Paris, 1991.
86 Jean-Paul Sartre in Obliques, Paris, n.º 18-19, "Sartre", 1979.
87 Juan Arcocha, "Le voyage de Sartre", Autrement, La Havane, 1952-1961, Paris, 1994, p. 200.
88 Simone de Beauvoir, La Force des Choses, Gallimard, Paris, 1963, t. II, p. 286.
89 Carlos Franqui, Retrato de Família com Fidel, op. cit., p. 131.
90 Annie Cohen-Solal, Sartre, 1905-1980, Gallimard, Paris, 1985, p. 513.
91 Jean-Paul Sartre, "Ouragan sur le sucre", France Soir, 10 de Julho de 1960.
92 Erik Orsenna e Bernard Matussière: Mésaventures du Paradis, Mélodie Cubaine, Seuil, Paris, 1996, pp. 37-39.
93 Juan Arcocha, Le Voyage de Sartre, art. cit., p. 513.
94 Annie Cohen-Solal, Sartre 1905, 1980, op. cit., p. 513.
95 Carlos Franqui, Retrato de Família com Fidel, op. cit., p. 132.
96 Jean-Paul Sartre, "Ouragan sur le sucre", art. cit.
97 Ibid
98 Alberto Korda in La Razón, Buenos Aires, 10 de Julho de 1986.
99 Alberto Korda in L'Autre Journal, Paris, Outubro de 1990.
100 Juan Vives, Les Maîtres de Cuba, op. cit., pp. 184-185. "•'••''''
101 Annie Cohen-Solal, Sartre, 1905, 1980, op. cit., p. 559.
102 Orlando Borrego, entrevista com o autor, Havana, 1992.
103 Jean-Paul Sartre in Revolución, Havana, 4 de Outubro de 1960.
104 K. S. Karol, Les Guerilleros au Pouvoir, op. cit., p. 203.
105 Ibid., p. 204 e seg.
106 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 458.

298

107 K S. Karol, Les Guerilleros au Pouvoir, op. cit., p 205.
108 ibid.
109 Ernesto Che Guevara, Escritos y Discursos, op. cit., t. IV, p. 171.
110 Jean-Pierre Clerc, Fidel de Cuba, Ramsay, Paris, 1988, p. 222.
111 El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. II, pp. 288-289. \\T-lbid.
112 Ibid.
113 Tad Szulc, Castro, Trente Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., pp. 463-464.
114 Ibid.
115 El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. II, pp. 296-298.
116 René Depestre, entrevista com o autor, Paris, 1991.
117 Citado por Pio Serrano, "La Havane était une fête", Autrement, La Havane, 1952-1961, op. cit., p. 222.
118 René Depestre, entrevista com o autor, Paris, 1991.

119 Citado por Jean-François Fogel ""Papa" dans sa Finca vigia", Autrement, La Havane, 1952-1961, op. cit., p. 195
120 René Depestre, entrevista com o autor, Paris, 1991.
121 Françoise Sagan in L'Express, Paris, 11 de Agosto de 1960.
122 Tad Szulc, op. cit., pp. 455-456.
123 Jean-Pierre Clerc, Fidel de Cuba, op. cit., p. 238.
124 Ernesto Che Guevara, Textes Militaires, op. cit., p. 117 e seg.
125 Ernesto Che Guevara, (Oeuvres V, Textes inédits, op. cit., p. 104.
126 René Dumont, Cuba, Socialisme et Développement, Seuil, Paris, 1964, p. 53-55.
127 El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. I, p. 406.
128 Régis Debray, Loués soient nos Seigneurs, op. cit., p. 161.
129 Pablo Neruda, Confiesso que he vivido, Planeta, Buenos Aires, 1992, p. 439.
130 Aleida March, entrevista com o autor, Havana, 1992.
131 Mariano Rodríguez, Com la Adarga al Brazo, op. cit., p. 168.
132 Ibid., p. 173-174.
133 Ernesto Che Guevara, Escritos y Discursos, op. cit., t. 9, pp. 375-377.
134 Hernán Sandoval, entrevista com o autor, Santiago do Chile, 1995.
El 135 Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. III, p. 3 e seg.
136 K. S. Karol, Les Guerilleros au Pouvoir, op. cit., p. 209.
137 Le Monde, Paris, 12 de Julho de 1960.
138 Michel Tatu, ibid., 21 de Dezembro de 1960.
139 El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. III, p. 3 e seg.
140 Ibid., p. 77 e seg.
141 Tad Szulc, Castro, Trenle Ans de Pouvoir Absolu, op. cit., p. 488.
142 Jean-Pierre Clerc, Fidel de Cuba, op. cit., p. 254.
143 El Che en la Revolución Cubana, op. cit., t. III, p. 64.
144 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, op. cit., p. 218.
145 Carlos Franqui, entrevista com o autor, Monte Catini, 1991.
146 Le Monde, Paris, 21 de Junho de 1975.
147 Hilda Gadea, Anos Decisivos, op. cit., p. 205.
148 Ania Francos, La Fête Cubaine, Julliard, Paris, 1962, p. 222 e seg.

299

149 ibid.
150 ibid.
151 Claude Julien, L'Empire Américain, Grasset, Paris, 1968, p. 364.
152 Herbert L. Matthews, Fidel Castro, op. cit., p. 226.

300

VI

À PROCURA DO HOMEM NOVO

A pachanga e depois

A pachanga é a festa, em Cuba. A vitória da Playa Giron veio intensificar os festejos que desde 1959 acompanham sistematicamente as acções e decisões revolucionárias
- reforma agrária, reforma urbana, apropriação dos meios de produção. A alegria ruidosa, a dança, o cha-cha-cha e a rumba sobrepõem-se aos protestos suscitados pelos
excessos dos CDR, que insultam, molestam, mandam prender quem não se associa, ou não se associa rapidamente, ao entusiasmo geral. A componente negra e mulata, largamente
majoritária entre a população, acentua a explosão de riso nacional que agita os cubanos ao mais pequeno êxito anunciado pelo governo. Diz-se que os espanhóis estão
marcados pelo sentimento trágico da vida. Os negros sublimam esse lado trágico na melopeia, que passa frequentemente ao êxtase e ao transe consoante os ritos da
santeria africana.
A mestiçagem cubana, bem sucedida, deu origem a uma sociedade alegre, espontânea, extrovertida, por vezes iconoclasta, apesar da sua ingenuidade. As palavras de
ordem políticas são convertidas em música, transformam-se em sons, ritmando as marchas populares. A Internacional transforma-se numa conga. Um dia, durante uma das
festas memoráveis do jornal Revolución, o subdirector apareceu disfarçado de Groucho Marx, com um exemplar de O Capital debaixo do braço. Humor sacrílego, que inquieta
os comunistas do diário Hoy, decididos a pôr uma certa ordem naquela anarquia. Os conselheiros "russos" (isto é, soviéticos), ucranianos, checos, não entendem aqueles
comportamentos pouco edificantes. Produtos típicos da burocracia insípida que os moldou, recusam abandonar-se ao prazer do corpo e verificam, com espanto, que em
Cuba a Revolução coexiste com a pachanga, como diria Guevara. Logo que Castro proclamou, por exemplo, que essa revolução era socialista - sim senhor, socialista
-, a rua desatou a dançar, cantando: Somos socialistas! P'alante, P'alante! (Somos socialistas! Avante,

301

avante!). Ninguém explicara aos soviéticos que existia uma versão tropical luminosa, da Revolução...
Nessa época, o colombiano Gabriel García Márquez era apenas um jornalista desconhecido da Prensa Latina. "Mesmo depois do desembarque da Playa Giron, os casinos
continuavam abertos e algumas prostitutas sem turistas rondavam por ali na esperança que algum felizardo da roleta lhes salvasse a noite. [...] Em Havana a festa
estava ao rubro. Havia mulheres magníficas que cantavam à varanda, pássaros luminosos sobre o mar, música por todo o lado. [...] A cidade permanecia um santuário
de prazeres, com lotarias até nas farmácias. [...] As noites em Havana e em Guantánamo eram sempre longas e insones e a música das festas prolongava-se até de madrugada"1.
Raros são os visitantes estrangeiros e os repórteres internacionais que ficam insensíveis a esse "fervor contagioso". Mas também são raros os que medem as consequências
da medida tomada por Kennedy a 25 de Abril de 1961: um embargo comercial total e radical contra Cuba. Com o cordão tradicional do consumo quotidiano cortado, são
de prever mil e uma complicações. Os cubanos sentem-se protegidos pela URSS, cuja tecnologia, no auge do seu prestígio, faz entrar na linguagem um termo novo:"cosmonauta".
A superpotência soviética enviou um homem para o espaço, o primeiro, o camarada Gagarine. Humilhação para os Estados Unidos, assim distanciados. Finalmente, e como
novo sinal de amizade, Moscovo atribui a Castro o Prémio Lenine da Paz, recompensa simbólica para o vencedor da Playa Giron, que conseguiu neutralizar Gulliver.
O ilustre Gagarine virá honrar com a sua presença a festa do aniversário do 26 de Julho.
Apenas dez dias após a vitória contra a brigada 2506, a manifestação do 1°ºde Maio é uma autêntica apoteose. Um milhão, dois milhões de pessoas? Não se sabe. Ania
Francos, a quem os dirigentes cubanos chamavam, com uma indulgência divertida, "la francesita loca", conseguiu subir à tribuna, na Plaza de la Revolución, onde,
desde a véspera, é proibido circular. Cerca das seis horas da manhã, pela fresquinha, enquanto os alti-falantes debitam ininterruptamente A Internacional (nesse
dia tocada a rigor), o desfile é aberto pelos dirigentes cubanos, que avançam de braço dado. Durante todo o dia, sob um sol implacável, o desfile engrossa, pontuado
de cartazes: "Viva os trabalhadores no poder!", "Os cubanos não se vendem nem se rendem ao bloqueio económico ianque", "Já não temos sabão mas temos coragem". O
calor é mais que tropical e, observa a Pequena Francesa: "é um concurso de chapéus. [...] O "che" desaparece sob um chapéu de cortador de cana e o embaixador soviético
pôs uma boina de miliciano [...]. Por volta das dez da noite, Fidel vai finalmente discursar. "Temos para umas boas cinco horas", declara Celia [Sánchez], sentando-se
no chão. [Castro] fala das declarações de Kennedy ("Não podemos permitir uma revolução socialista a 160 quilómetros da nossa costa".) "E nós", diz Fidel, "temos
de aguentar com um país capitalista a 160 quilómetros da nossa costa!" [...] Estou sentada aos pés de Fidel e ao lado de um ou dois ministros, que dormem em pé.
O "che" dá

302

o braço à mulher, cuja cabeça balança bastante, e vêem-se pessoas a dormir um pouco por todo o lado. Em baixo, a multidão não arreda pé e tenho a impressão que vai
pachangar a noite inteira"2. García Márquez insiste na "impressão de feira fenomenal que Cuba dava naquela época. [...] Nesses primeiros anos, Cuba foi o reino do
improviso e da desordem. À falta de uma nova moral - que não ia formar-se tão depressa na consciência da população - o machismo caribe encontrava uma razão de ser
naquele estado geral de emergência"3.
Guevara resiste como pode à negligência assim descrita. Na véspera desse 1º de Maio memorável, fez, na televisão, uma longa exposição sobre a situação económica
de Cuba e sobre os problemas a resolver, apesar de admitir que "o momento emocional não é o mais adequado". O país tem falta de técnicos, diz ele, não daqueles que
só sabem encomendar por catálogo aos Estados Unidos os artigos necessários e as peças sobresselentes, mas homens verdadeiramente qualificados. Existe uma hemorragia
de técnicos: "Não é segredo nenhum, eles optam pelo exílio. [...] Por isso temos de organizar uma formação de massas, alfabetizar rapidamente as pessoas e, logo
que elas saibam ler, escrever e contar, dar-lhes funções que sejam capazes de assumir"4.
Iniciada em Outubro de 1960, a campanha de alfabetização ganha um novo fôlego após Giron. A taxa de 26,6% de analfabetos (recenseados em 1953) não é, nem de longe,
a mais baixa da América Latina; esse mal atinge sobretudo o meio rural (40%). É uma forma de "matar dois coelhos com a mesma cajadada" e de "consciencializar" simultaneamente,
num trabalho social e político fecundo, tanto aqueles que, vindos da cidade, vão ensinar, como os guajiros que recebem os jovens professores. Em 1961, durante esse
"ano da educação", toda a população é mobilizada para fazer de Cuba o que nunca se viu num espaço de tempo tão curto: um "território libertado do analfabetismo".
Duzentos e setenta mil "alfabetizadores" - metade dos quais alunos do liceu, entre os 12 e os 18 anos - partem em brigadas entusiásticas para o campo, munidos dos
seus cadernos e manuais ad hoc, à descoberta da vida precária dos camponeses, ensinando-lhes que R se escreve como Revolución, F como Fidel e que um C com um H se
pronuncia Che, como o cognome do comandante Guevara. Todos querem vingar um dos seus: um jovem negro, Conrado Benitez, que foi morto por anticastristas em Escambray:
essa ida não estava isenta de alguns riscos. A parte de doutrinamento é inegável, e ninguém afirmou que a educação era inocente. Quando o objectivo é alcançado,
é içada uma bandeira azul, sinal de ter sido vencida a ignorância. Balanço: setecentas mil pessoas passarão a ser capazes de assinar o seu nome e de soletrar os
títulos do jornal Revolución. Mas daí a tornarem-se técnicos!...
Entre os artesãos desconhecidos que participaram nessa campanha, dois "internacionalistas" ignoram ainda que o destino os irá reunir um dia, na Bolívia: Tamara Bunke,
a argentina que Guevara conhecera no ano anterior na RDA, e um jovem francês da Escola Normal, Régis Debray, de 21 anos. Vindo de Miami, e chegando ali um pouco
por acaso, atraído por "um cheiro a festa, a fervor verde-azeitona", toma-se, segundo diz, por Victor Hugues, "o jacobino

303

transviado que Alejo Carpentier situa no seu O Século das Luzes"5. Em Havana é recebido na Imprensa Nacional por René Depestre, francófono, que o recorda como um
rapaz tímido que lhe causara boa impressão. "Levei-o a sério. Pediu-me que o apresentasse a algumas pessoas. Dei-lhe uma pequena lista..." "Simples estudante turista",
o francês troca com o Che "breves palavras numa tribuna" (que Guevara não recordará). Debray confessa não saber uma linha de espanhol, ignorância venial que não
o impede de se integrar num acampamento de "alfabetizadores" em plena Sierra Maestra, onde lhe destinaram uma família de camponeses iletrados. "Passei três meses
a aprender a dormir em redes, onde é difícil fazê-lo de barriga para baixo, a aprender com os mosquitos, com os coices das mulas e com a carne enlatada soviética"7.
A alfabetização nem sempre é uma festa.

Um pouco de seriedade, por favor

Os comunistas do PSP não perderam tempo para tirar todo o partido da profissão de fé socialista de Castro. O ano de 1961 não é apenas o ano da educação - todas as
escolas privadas são nacionalizadas -, é também o ano do controlo ideológico da informação e da cultura. Suprimidos os jornais da oposição, começa o controlo do
que deve ser politicamente correcto. A história da agência de imprensa Prensa Latina é emblemática. Logo após a vitória contra Batista, Guevara pede ao jornalista
argentino descoberto na Sierra Maestra, Jorge Ricardo Masetti, que monte uma agência e dá-lhe os meios para o fazer. A "Prela", como é chamada na gíria jornalística,
em breve se torna um elemento essencial dos serviços de informação de Cuba. Elemento demasiado importante para que se entregue a sua direcção a um jornalista cuja
competência profissional é inegável, sem dúvida, cujas opiniões de esquerda são inequívocas, mas cujo alinhamento político apresenta o inconveniente de não ser suficientemente
decalcado pelo modelo "socialista".
Plinio Mendoza, responsável, juntamente com García Márquez, pela delegação da Prensa Latina em Bogotá, contou como, pouco a pouco, "eles" (os comunistas) se apoderaram
da agência, começando por enviar os seus comissários políticos para controlar os telegramas e acabando por correr com o director8. Uma noite, Mendoza vê chegar de
imprevisto um enviado de Havana que se põe a expurgar os telegramas e a rectificar o vocabulário. "Diplomata americano" passa a ser "agente imperialista", "forças
da ordem" passam a ser "forças da repressão", etc. O comissário faz o seu relatório. Os comunistas transmitem-no a Guevara, que culpa Masetti, o qual defende o seu
pessoal e explica ao Che a manobra. García Márquez, nomeado para a delegação de Nova Iorque, passa nessa época algumas semanas em Havana. "Gabo [alcunha de Garcia
Márquez] fervilhava de informações, confirmando tudo o que eu tinha adivinhado. [...] Tinha percebido imediatamente a linha de separação entre os jornalistas e "eles",
declara Plinio Mendoza9.

304

Julgando poder contar com o apoio do Che e até de Castro, que o interroga quase todas as noites sobre as notícias do dia, Masetti corta o mal pela raiz despedindo
esses "comissários" ou enviando-os para países de Leste. Resposta imediata do Ministério do Trabalho (controlado pelo PSP): ordenam-lhe que volte a admitir todos
os despedidos. Desautorizado, Masetti apela para Castro e apresenta a sua demissão. Como única resposta, são as milícias armadas que vêm expulsar a equipa e instalar
um grupo de "jornalistas" disciplinados. Mendoza, García Márquez (mais tarde) e alguns outros demitem-se também. Terminou a época do jornalismo combativo e divertido.
Para Guevara, é um duro golpe. É certo que ele não é um homem de poder, ao contrário de Castro, mas a Prensa Latina era um pouco uma criação sua; às vezes, de madrugada,
ia bebericar um mate ou ouvir um tango na companhia de Masetti. Atacando este último, é uma miniprova de força que travam contra ele, uma espécie de teste para avaliar
a sua reacção. Ora, o Che não reage. A intervenção da milícia só pode ter sido decidida com o acordo de Fidel e não é concebível que ele se lhe oponha, ainda menos
para defender um argentino, seu compatriota, apesar de tudo. Quando muito, reforça a distância que mantém em relação aos comunistas, procurando rodear-se apenas
de homens em quem confia inteiramente. Quanto a Masetti, indignado, resmunga: "Apesar de tudo, não vou refugiar-me numa embaixada!"10. Sem profissão, destituído
sem apelo nem agravo, só lhe resta o recurso sugerido por Guevara: redescobrir o valor das coisas trabalhando algum tempo numa cooperativa. O Che propõe-lhe ir para
a Argélia juntar-se à FNL, que está na fase final da sua luta pela independência. Mais tarde, após um treino militar em Cuba, regressará à Argentina para montar,
em 1963-64, uma guerrilha desesperada que desembocará numa morte que muitos compararam a um suicídio. Tinha 35 anos. Esse destino quase anónimo prefigura, estranhamente,
o destino mais mediatizado do "guerrilheiro heróico" das lendas deste século.
Na frente cultural, o que verdadeiramente incomoda os comunistas é o semanário Lunes de Guillermo Cabrera Infante, editado à segunda pelo jornal Revolución, órgão
do M-26. Com uma tiragem de mais de 250 000 exemplares, a sua influência é grande, demasiado grande, e a sua liberdade de linguagem demasiado evidente. Uma "comissão
de orientação revolucionária", que pretende dirigir a propaganda de Estado, sob a orientação do número dois do PSP, Anibal Escalante, e do Conselho Nacional de Cultura,
dirigido por uma temível comunista, Edith García Buchaca, critica o Lunes pelo seu diletantismo pequeno-burguês, pelo seu gosto pela provocação e pelo escândalo.
Misturar Marx com Kafka, Virgínia Woolf, Breton, Beckett, Trotsky e Picasso, dedicar um número especial a Camus após a sua morte, e outro a Sartre e a Beauvoir,
brincar com os caracteres tipográficos à moda de Apollinaire, tudo isso é revelador de um elitismo culpável, de uma irresponsabilidade grave na formação cultural
do país. "Um pouco de seriedade, senhores intelectuais" torna-se a palavra de ordem.

305

Durante três sábados consecutivos, a Biblioteca Nacional de Havana transforma-se em tribunal, para o qual são convocados trezentos intelectuais e artistas, a fina
flor das artes e letras de Cuba. O pretexto é a polémica aberta por um artigo de um realizador de cinema, Nestor Almendros, que, no exílio, passará a ter uma fama
mundial, ao ser "oscarizado" em 1978. Defende ern Limes uma desajeitada curta-metragem experimental, P M (À tarde), proibida por ter tido o mau gosto de mostrar
a vida nocturna dos bares populares de Havana e de fazer "cinema-verdade" em vez de exaltar os verdadeiros valores revolucionários. Requisitório severo do comunista
Alfredo Guevara; defesa obstinada de Carlos Franqui, director rebelde do Revolución. O próprio Fidel Castro compareceu, rodeado do seu estado-maior. Convida "os
que têm medo" a falar. Uma larga maioria ousa declarar-se a favor de Limes e da liberdade de expressão. Castro pronuncia então uma longa "Mensagem aos intelectuais",
da qual uma expressão, sobretudo, é retida: "Pela Revolução, tudo; contra, a Revolução, nada!"11 Único problema, infelizmente fundamental: quem vai julgar o que
é "a favor" ou "contra" a Revolução, a não ser a própria autoridade revolucionária? Por isso, Limes de Revolución é suprimido passados poucos meses e, a partir daí,
cada um estabelece a sua autocensura.

Guevara, que se manteve (ou foi mantido?) afastado deste debate, observa, dois meses depois, que "a beleza não se estraga com a Revolução"12. A 28 de Março de 1960,
interrogado a propósito do primeiro aniversário do suplemento, ele havia declarado que Lunes "constituía o melhor contributo para a realidade cubana". Aliás, ele
próprio não desdenha a sua pequena provocação: numa sessão oficial de bailado no Teatro Nacional, coloca negligentemente os pés na balaustrada do camarote, gesto
que tem o condão de indignar a esposa de Cabrera Infante. Só em 1965 exprimirá uma opinião precisa sobre essa questão. Nunca apreciou muito os teóricos, suspeitos
de se atolarem em subtilezas. Retomando os termos da alternativa sem saída proposta por Castro, adopta uma posição ainda mais radical, que se traduz em proibir aos
intelectuais que não combateram Batista o direito de exercerem qualquer reflexão crítica: "O sentimento de culpa de muitos dos nossos intelectuais e artistas é fruto
do seu pecado original; não são autênticos revolucionários. [...] A nossa tarefa é impedir que, lacerada pelos seus conflitos, a geração actual se perverta e venha
a perverter as novas gerações"13.

Esta ideia de perversão, que pressupõe a existência de valores morais "puros" e pré-estabelecidos, está sem dúvida na origem da primeira grande purga de 1961, organizada
pela polícia, durante uma famosa "noite dos três P" (pederastas, prostitutas, proxenetas). Um poeta célebre, Virgilio Pinera, é preso em casa, em princípio por ser
homossexual. Mas o seu crime é outro. Na Biblioteca Nacional, cometeu a imprudência, ou impudência, de fazer uma pergunta de mau gosto, respondendo ao convite de
Castro: "Por que é que um escritor deveria ter medo da sua Revolução e por que é que a Revolução deveria ter medo dos seus escritores?"14

306

A PROCURA DO HOMEM Novo

Na época da ascensão em força dos comunistas, nos meses que se seguiram à invasão da Playa Giron, Guevara tenta apesar de tudo travar a inquisição. Quando tem conhecimento
de estar a ser efectuada uma "caça às bruxas" entre a população, para fazer a triagem entre os "bem-pensantes" e Os outros, intervém, no único âmbito em que possui
uma competência legal, e publica, a 19 de Maio de 1961, uma resolução que, "considerando que o Ministério [da Indústria] tem plenos poderes para fixar as normas
que melhor convêm aos objectivos propostos, [...] se determina [...] a proibição dos directores dos centros de trabalho dependentes do nosso Ministério de procederem
a interrogatórios ideológicos aos trabalhadores"15.

Apesar das suas afirmações peremptórias e do seu radicalismo extremista, o Che não é um sectário. Nunca cairá na repetição mecânica dos chavões da propaganda soviética.
Quando teceu louvores aos países socialistas, estava a ser sincero. Mais tarde terá a coragem de fazer, como Gide, algumas "correcções no [s]eu regresso da URSS".
Não chafurda na má-fé. Também nunca recusou a discussão em nome de uma verdade aceite como imutável. Na realidade, o Che é um revolucionário com pressa, no qual
arde ainda uma chama contestatária. Talvez deseje dar um contributo, de alguma maneira, à teoria marxista, mas, na verdade da acção, uma vez traçado o rumo político,
não perde tempo com cambiantes e escolhe a "boa" ideologia.

Quando K. S. Karol o interroga, ainda em Maio de 1961, sobre a escolha dessa ideologia, Guevara não faz nenhuma revelação, mas explica o lado essencialmente prático
de uma posição que é também a de Castro e aproxima-se indubitavelmente dos marxistas ortodoxos. "Num país que tem de enfrentar tarefas sem precedentes na história
do continente, seria criminoso e absurdo deixar o povo hesitar entre a boa e as más ideologias. [...] Queremos formar rapidamente os nossos jovens na ideologia dos
países socialistas"16. Para ele, esta atitude tem a vantagem de ser eficaz; pelo menos, nessa época, está convencido disso. Uma vez que, libertando-se da tutela
económica dos Estados Unidos, Cuba optou por se guiar pelo socialismo, é necessário caminhar depressa, pois são muitas as ameaças e o único modelo disponível é o
dos países socialistas. A partir daí, não é altura de tergiversar. Karol, que conheceu o dogmatismo da URSS e que fala com conhecimento de causa, evoca os males
que ele próprio observou: despolitização, cinismo, semiparalisia intelectual estalinista, mas o Che, como resposta, recorre ao argumento que passará a constituir
uma arma de arremesso para justificar os excessos autoritários do regime: "Quer o queira quer não, toda a revolução comporta uma parte inevitável de estalinismo,
porque toda a revolução tem de enfrentar o cerco capitalista". Mas acrescenta, tranquilizador: "em Cuba não existem condições para uma evolução estalinista; esse
fenómeno não pode reproduzir-se aqui"17. Seduzido, como toda a gente, pelo seu "encanto intelectual", Karol observa, apesar de tudo: "Tenho a impressão que ele fechava
os olhos perante uma certa realidade do mundo socialista porque isso lhe convinha"18. Melhor não se poderia dizer.

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Dois meses depois, no seu discurso comemorativo do 26 de Julho de
1961, Castro anuncia a criação da Organização Revolucionária Integrada (ORI), que incluirá comunistas, membros do M-26 e do Directório. É o primeiro esboço do Partido
Unificado da Revolução, que posteriormente se transformará em partido único.

O sonho acordado de Punta del Este

Guevara pensa, tal como Castro, que após a derrota da Baía dos Porcos (os Cubanos dizem Playa Giron), os Estados Unidos vão tentar desforrar-se e melhorar a sua
imagem deteriorada. A vitória do impertinente Lilipute das Caraíbas provocou uma enorme alegria entre as camadas populares da América Latina e até alguma satisfação
discreta nalgumas chancelarias. Kennedy, que despediu Allen Dulles, cujos serviços o informaram tão mal, vai tentar utilizar métodos mais subtis do que os do seu
antecessor. Traça as grandes linhas de um plano de auxílio económico de envergadura, uma "aliança para o progresso" destinada a manter o continente americano no
quadro da doutrina Monroe. posta em xeque pela subversão cubana. Uma reunião do CIES (Conselho Interamericano Económico e Social) vai, assim, reunir os Ministros
da Economia da Organização dos Estados Americanos para discutir o alcance desse plano e os meios a utilizar. A reunião efectua-se a 5 de Agosto de 1961, no Uruguai,
em Punta del Este. Trata-se de uma pequena estação balnear na costa do Atlântico Sul, frequentada no Verão pela burguesia argentina, que só tem de atravessar os
200 quilómetros do estuário do Rio da Prata, el Charco, como dizem os frequentadores habituais. É a Guevara que Castro pede para representar Cuba, com a missão de
"apagar incêndios" e evitar as provocações.
No hemisfério sul, Agosto é um mês de pleno Inverno, semelhante a Janeiro, a norte do Equador. O tempo está frio e enevoado quando o cubano desembarca no aeroporto
de Montevideu, onde o aguarda, como um herói, uma multidão de estudantes, de militantes de esquerda e quase toda a sua família, vinda de Buenos Aires. Será a emoção
de se encontrar tão perto da sua terra natal, de voltar a ouvir a pronúncia sibilante e arrastada das pessoas que se interpelam, dizendo che? Ou, depois dos alísios
tropicais, o arrepio provocado pela humidade e pelo vento agreste que sopra dos planaltos da Patagónia? Desde a sua chegada, o herói sente-se cansado, asfixiado
por uma violenta crise de asma, a primeira de uma série que o atormentará durante toda a estada.
O Uruguai, apressadamente rotulado de "Suíça da América Latina" porque a sua história parece pacífica, é uma invenção dos Ingleses que, no início do século XIX,
levaram à criação desse Estado-tampão entre a Argentina e o Brasil, eternos rivais. A população é pouco numerosa - menos de três milhões de habitantes num território
do tamanho de metade da França -, o país é próspero - carne e couro - e a legislação bastante democrática. Ao longo dos cento e cinquenta quilómetros da estrada
costeira que conduz

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a punta del Este, a multidão agita bandeirinhas cubanas de boas-vindas e grita "Cuba si, Yanquis no!". Convocado por Guevara, Ricardo Rojo, sempre bem relacionado
nos meios políticos, encontra-se nessa mesma noite com o amigo, no velho palácio onde se instalaram os quarenta e quatro membros da delegação cubana, jornalistas,
conselheiros e guarda-costas, tudo à mistura. Rojo conta que Ernesto, apesar da sua dificuldade em respirar, lhe explica, numa voz sibilante, que em 1959, em Pequim,
durante o seu breve encontro com Mao Tsé-Tung, tivera uma crise tão forte que lhe adveio uma paragem cardíaca, tendo desmaiado diante do presidente chinês. Apesar
de todos os meios da acupunctura e dos médicos de Mao, a asma não cedera19.
Durante a conferência, Guevara &