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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Harry Potter e o prisioneiro de azkaban.

HARRY POTTER e o Prisioneiro de Azkaban

- CAPITULO UM -
O correio-coruja
Harry Potter era um menino bastante fora do comum em
muitas coisas. Para começar, ele detestava as férias de verão mais
do que qualquer outra época do ano. Depois, ele realmente queria
fazer seus deveres de casa, mas era obrigado a fazê-los escondido,
na calada da noite. E, além de tudo, também era bruxo.
Era quase meia-noite e Harry estava deitado de bruços na
cama, as cobertas puxadas por cima da cabeça como uma barraca,
uma lanterna em uma das mãos e um grande livro encadernado em
couro (História do magia de Batilda Bagshot), aberto e apoiado no
travesseiro. Harry correu a ponta da caneta de pena de águia pela
página, franzindo a resta, à procura de alguma coisa que o
ajudasse a escrever sua redação, "A queima de bruxas no século
XIV foi totalmente despropositada discuta".
A caneta pousou no alto de um parágrafo que pareceu a
Harry promissor Ele empurrou os óculos redondos para a ponte do
nariz, aproximou a lanterna do livro e leu;
Os que não são bruxos (mais comumente conhecidos
pelo nome de trouxa) tinham muito medo da magia na época
medieval, mas não tinham muita capacidade para reconhecêla.
Nas raras ocasiões em que apanhavam um bruxo ou uma
bruxa de verdade a sentença de queimá-los na fogueira não
produzia o menor efeito. O bruxo, ou bruxa, executava um
Feitiço para Congelar Chamas e depois fingia gritar de dor;
enquanto sentia uma cocegazinha suave e prazerosa.. De
fato, Wendelin a Esquisita gostava tanto de ser queimada na
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fogueira que se deixou apanhar nada menos que quarenta e
sete vezes, sob vários disfarces.
Harry prendeu a caneta entre os dentes e passou a mão
embaixo do travesseiro à procura do tinteiro e de um rolo de
pergaminho. Devagar e com muito cuidado, retirou a tampa do
tinteiro, molhou a pena e começou a escrever, parando de vez em
quando para escutar, porque se algum dos Dursley, a caminho do
banheiro, ouvisse sua pena arranhando o pergaminho, ele
provavelmente ia acabar trancafiado no armário embaixo da
escada pelo resto do verão.
A família Dursley; que morava na rua dos Alfeneiros, -l,
era o motivo pelo qual Harry jamais aproveitava as férias de
verão. Tio Válter, tia Petúnia e o filho deles, Duda, eram os únicos
parentes vivos de Harry. Eram trouxas e tinham uma atitude muito
medieval com relação à magia. Os pais de Harry, já falecidos, que
tinham sido bruxos, nunca eram mencionados sob o teto dos
Dursley. Durante anos, tia Petúnia e tio Válter tinham alimentado
esperanças de que, se oprimissem Harry o máximo possível,
seriam capazes de acabar com a magia que houvesse nele. Para
sua fúria, tinham fracassado. Agora, viviam aterrorizados que
alguém pudesse descobrir que Harry passara a maior parte dos
últimos dois anos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. O
máximo que podiam fazer, porém, era trancar os livros de feitiços,
a varinha, o caldeirão e a vassoura de Harry no início das férias de
verão e proibir que o menino falasse com os vizinhos.
A separação dos seus livros de feitiços tinha sido um
verdadeiro problema para Harry porque os professores em
Hogwarts tinham passado muitos deveres para as férias. Uma
redação, particularmente espinhosa, sobre poções redutoras fora
pedida pelo professor de quem Harry menos gostava, o Prof
Snape, que ficaria encantado de ter uma desculpa para castigá-lo
com um mês de detenção. Por isso Harry tinha aproveitado uma
oportunidade que surgira na primeira semana de férias. Quando tio
Válter tia Petúnia e Duda foram ao jardim admirar o novo carro da
companhia a serviço do tio Válter (em altas vozes para que toda a
rua o visse), Harry desceu silenciosamente as escadas, arrombou a
fechadura do armário sob a escada, apanhou alguns livros e os
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escondeu em seu quarto. Desde que não deixasse manchas de tinta
nos lençóis, os Dursley não precisariam saber que ele estava
estudando magia à noite.
Harry tomava muito cuidado para evitar problemas com
seus tios no momento, pois eles já estavam bastante malhumorados
com o sobrinho, só porque o menino recebera um
telefonema de um coleguinha bruxo uma semana depois de entrar
em férias.
Rony Weasley; que era um dos melhores amigos de Harry
em Hogwarts, descendia de uma família em que todos eram
bruxos. Isto significava que ele sabia um montão de coisas que
Harry desconhecia, mas Rony jamais usara um telefone antes. E,
por azar, fora o rio Válter que atendera a ligação.
- Válter Dursley.
Harry que, por acaso, se achava na sala àquela hora, gelou
ao ouvir a voz do amigo responder:
- ALÔ! ALÔ! ESTÁ ME OUVINDO? QUERIA - FALAR
-COM - O - HARRY – POTTER!
Rony gritou com tanta força que tio Válter deu um salto e
afastou o fone a mais de um palmo da orelha com uma expressão
em que se misturavam a fúria e o susto.
- QUEM E QUE ESTÁ FALANDO? - berrou ele em
direção ao bocal. - QUEM E VOCÊ?
- RONY, WEASLEY! - berrou Rony em resposta, corno se
ele e tio Válter estivessem falando de extremidades opostas de um
campo de futebol. - SOU - UM AMIGO - DE - HARRY - DA -
ESCOLA...
Os olhinhos de tio Válter se viraram para Harry, que estava
pregado no chão.
- NÃO TEM NENHUM HARRY POTTER AQUI! -
vociferou ele, agora segurando o fone com o braço esticado, como
se receasse que o aparelho pudesse explodir - NÃO SEI DE QUE
ESCOLA VOCÊ ESTÁ FALANDO! NUNCA MAIS TORNE A
LIGAR PARA CÁ! FIQUE LONGE DA MINHA FAMÍLIA!
E atirou o fone no gancho como se estivesse se livrando de
uma aranha venenosa.
A briga que se seguiu foi uma das piores da vida de Harry;
- COMO E QUE VOCÊ SE ATREVE A DAR ESTE
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NÚMERO PARA GENTE COMO - GENTE COMO VOCÊ! -
berrara tio Válter, salpicando Harry de cuspe.
Rony obviamente percebera que metera Harry em uma
encrenca, porque não telefonou mais. A outra grande amiga de
Harry em Hogwarts, Hermione Granger tampouco o procurara. O
menino suspeitava que Rony tinha avisado à amiga para não
telefonar, o que era uma pena, porque Hermione, a bruxa mais
inteligente da turma deles, tinha pais trouxas, sabia usar o telefone
perfeitamente bem e provavelmente teria o bom senso de não dizer
que freqüentava Hogwarts.
Com isso, Harry não ouvira uma única palavra de nenhum
dos seus amigos de bruxaria durante cinco longas semanas, e este
verão estava saindo quase tão ruim quanto o anterior Havia apenas
uma coisinha que melhorara - depois de jurar que não iria usar sua
coruja para remeter cartas aos amigos, Harry tivera permissão de
soltar Edwiges, à noite. Tio Válter concordara com isso diante da
barulheira que o bicho aprontava quando ficava preso na gaiola o
tempo todo.
Harry terminou de escrever sobre Wendelin a Esquisita e
parou mais uma vez para escutar. O silêncio da casa às escuras só
era interrompido pelos roncos sonoros e distantes do seu enorme
primo, Duda.
Deve ser muito tarde, pensou Harry. Seus olhos
comichavam de cansaço. Talvez terminasse a redação na noite
seguinte...
Ele repôs a tampa do tinteiro; puxou uma fronha velha
debaixo da cama; guardou dentro a lanterna, História da magia, a
redação, a caneta e a tinta; levantou-se da cama e escondeu tudo
sob uma tábua solta do soalho debaixo da cama. Então ficou em
pé, se espreguiçou e verificou a hora no despertador luminoso
sobre a mesa-de-cabeceira.
Era uma hora da manhã. Harry sentiu uma contração
engraçada na barriga. Fizera treze anos de idade havia uma hora e
não tinha se dado conta disso.
Mas outra coisa fora do comum em Harry é que ele não
ligava nem um pouco para os seus aniversários. Nunca recebera
um cartão de aniversário na vida. Os Dursley não tinham dado a
mínima atenção aos dois últimos e ele não tinha razão alguma para
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supor que fosse se lembrar deste agora.
Harry atravessou o quarto escuro, passou pela espaçosa
gaiola vazia de Edwiges e foi abrir a janela. Debruçou-se no
peitoril, achando gostoso o ar fresco da noite que batia em seu
rosto depois de ter passado tanto tempo debaixo das cobertas.
Fazia duas noites que Edwiges andava fora. Mas Harry não estava
preocupado - a coruja já ficara fora tanto tempo assim antes. Mas
o garoto desejou que ela voltasse logo -, era a única criatura na
casa que não se esquivava quando o via.
Harry, embora continuasse pequeno e magricela para sua
12 idade, crescera alguns centímetros desde o ano anterior Seus
cabelos muito pretos, porém, continuavam como sempre tinham
sido teimosamente despenteados, por mais que ele fizesse. Os
olhos por trás das lentes eram verde vivo, e na testa havia,
claramente visível através dos cabelos, uma cicatriz fina, em
forma de raio.
De todas as coisas fora do comum em Harry, essa cicatriz
era a mais extraordinária de todas. Não era, como tinham fingido
os Dursley durante dez anos, uma lembrança do acidente de carro
que matara seus pais, porque Lílian e Tiago Potter não tinham
morrido em um acidente de carro. Tinham sido assassinados,
assassinados pelo bruxo das trevas mais temido do mundo nos
últimos cem anos, Lord Voldemort. Harry escapara desse mesmo
atentado com uma simples cicatriz na testa, no lugar em que o
feitiço do bruxo, em vez de matá-lo, tinha se voltado contra o
próprio feiticeiro. Quase morto Voldemort fugira..
Mas Harry voltara a defrontar com ele outra vez em
Hogwarts. Ao se recordar do último encontro, ali parado à janela
escuta, Harry teve de admitir que era uma sorte ter chegado ao seu
décimo terceiro aniversário vivo.
Examinou o céu estrelado à procura de um sinal de
Edwiges, voando ao seu encontro talvez com um rato morto
pendurado no bico, contando receber elogios. Mas ao olhar
distraidamente por cima dos telhados, Harry demorou alguns
segundos para perceber o que estava vendo.
Recortado contra a lua dourada, e sempre crescendo, vinha
um bicho estranhamente torto voando em sua direção. Harry ficou
muito quieto esperando o bicho descer Por uma fração de segundo
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ele hesitou, a mão no trinco da janela, pensando se devia fecha-la.
Mas, nessa hora o bicho esquisito sobrevoou um lampião da rua
dos Alfeneiros e Harry, identificando o que era, saltou para o lado.
Pela janela entraram três corujas, duas delas segurando uma
terceira que parecia desmaiada. Pousaram com um ruído fofo na
cama do menino e a coruja do meio, que era grande e cinzenta,
tombou para o lado, imóvel. Trazia um grande pacote amarrado às
pernas.
Harry reconheceu a coruja desmaiada na mesma hora - seu
nome era Errol e pertencia à família Weasley. O menino correu
para a cama, desamarrou os barbantes que envolviam as pernas de
Errol, soltou o pacote e, em seguida, levou a coruja para a gaiola
de Edwiges. Errol abriu um olho lacrimejante, deu um pio
fraquinho de agradecimento e desatou a beber água em grandes
sorvos. Harry se virou para as corujas restantes. Uma delas, a
fêmea grande, branca como a neve, era a sua Edwiges. Ela
também trazia um pacote e parecia muito satisfeita consigo
mesma. Deu uma bicadinha carinhosa em Harry quando ele soltou
sua carga, depois saiu voando pelo quarto para se juntar a Errol.
Harry não reconheceu a terceira coruja, um belo espécime
pardo, mas soube imediatamente de onde viera, porque além de
um terceiro pacote, ela trazia uma carta com o escudo de
Hogwarts. Quando Harry acabou de aliviá-la de sua carga, ela
sacudiu as penas, cheia de si, abriu as asas e saiu voando pelo céu
noturno.
O menino sentou-se na cama e apanhou o pacote de Errol,
rasgou o papel pardo e encontrou um presente embrulhado em
ouro, e o primeiro cartão de aniversário de sua vida. Com os dedos
trêmulos, ele abriu o envelope. Caíram dois papéis - uma carta e
um recorte de jornal.
O recorte fora visivelmente tirado do jornal dos bruxos, o
Profeta Diário, porque as pessoas nas fotos em preto e branco
estavam se mexendo. Harry apanhou o recorte, alisou-o e leu.
FUNCIONÁRIO DO MINISTÉRIO DA MAGIA
GANHA GRANDE PREMIO
Arthur Weasley chefe da Seção de Controle do Mau
Uso dos Artefatos dos Trouxas no Ministério da Magia,
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ganhou o Grande Prêmio Anual da Loteria do Profeta
Diário.
A Sra. Weasley, encantada, declarou ao Profeta Diário:
"Vamos gastar o ouro em uma viagem de férias ao
Egito, onde nosso filho mais velho, Gui, trabalha para o
Banco Gringotes como desfazedor de feitiços".
A família Weasley vai passar um mês no Egito, de onde
voltará no início de ano letivo em Hogwarts, escola que
cinco dos seus filhos ainda freqüentam.
Harry examinou a foto em movimento, e um sorriso
espalhou-se pelo seu rosto ao ver os nove Weasley acenando
freneticamente para ele, diante de uma enorme pirâmide. A Sra.
Weasley» pequena e gorducha, o Sr. Weasley, alto e um pouco
careca, os seis filhos e uma filha, todos (embora a foto em preto e
branco não mostrasse isso) com flamejantes cabelos vermelhos.
Bem no meio da foto se achava Rony, alto e desengonçado com o
seu rato de estimação, Perebas, no ombro e o braço passado pelas
costas da irmã, Gina.
Harry não conseguia pensar em ninguém que merecesse
mais ganhar um monte de ouro do que os Weasley, que eram gente
muito fina e extremamente pobre. Ele apanhou a carta de Rony e a
desdobrou.
Caro Harry
Feliz aniversário!
Olhe, estou muito arrependido daquele telefonema.
Espero que os trouxas não tenham engrossado com você.
Perguntei ao papai e ele acha que eu não devia ter gritado.
O Egito é incrível. Gui nos levou para ver os túmulos e
você não ia acreditar nos feitiços que os velhos bruxos
egípcios lançavam neles. Mamãe não quis deixar a Gina ver
o último. Só continha esqueletos mutantes de trouxas que
violaram o túmulo e acabaram com duas cabeças e outras
esquisitices.
Nem consegui acreditar quando o papai ganhou a
Loteria do Profeta Diário. Setecentos galões! A maior parte
foi gasta nesta viagem, mas eles vão me comprar uma
varinha nova para o próximo ano letivo.
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Harry lembrava-se bem demais do dia em que a velha
varinha de Rony se partira. Acontecera quando o carro em que os
dois voaram para Hogwarts batera de encontro a uma árvore nos
jardins da escola.
Estaremos de volta uma semana antes
do ano letivo começar e vamos a Londres
comprar a minha varinha e os livros da escola.
Alguma chance de nos encontrarmos lá?
Não deixe os trouxas arrasarem você!
Faça uma força para ir a Londres,
Rony
OS.: Percy agora é monitor-chefe. Recebeu a carta de
nomeação na semana passada.
Harry tornou a admirar a foto. Percy, que estava no sétimo
e último ano em Hogwarts, parecia muito cheio de si. Prendera o
distintivo de monitor-chefe no fez que usava num ângulo elegante
sobre os cabelos bem penteados, seus óculos de aros de tartaruga
faiscavam ao sol do Egito.
Harry voltou então sua atenção para o presente e o
desembrulhou. Dentro havia um objeto que parecia um pequenino
peão de vidro. Debaixo, mais um bilhete de Rony.
Harry - isto é um "bisbilhoscópio" de bolso. Dizem
que quando tem alguma coisa suspeita por perto, ele
acende e gira. Gui falou que é porcaria que vendem a
bruxos turistas e que não é confiável porque ontem,
durante o jantar ficou acendendo o tempo todo, Mas ele
não percebeu que Fred e George tinham posto besouros na
sopa dele.
Tchau - Rony
Harry pôs o bisbilhoscópio em cima da mesa-de-cabeceira,
onde o pião ficou parado, equilibrado sobre a ponta, refletindo os
ponteiros luminosos do despertador. O menino admirou-o feliz por
alguns segundos, então apanhou o pacote que Edwiges lhe
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trouxera.
Dentro deste também havia um presente embrulhado, um
cartão e uma carta, desta vez de Hermione,
Caro Harry,.
Rony me escreveu contando o telefonema que deu para
o seu tio Vá/ter. Espero que você esteja bem.
Estou de férias na França neste momento e não sabia
como ia mandar o meu presente para você - e se e/es
abrissem o pacote na alfândega? -, mas então a Edwiges
apareceu. Acho que ela queria garantir que você recebesse
alguma coisa no seu aniversário) para variar. Comprei o
seu presente pelo reembolso-coruja; vi um anúncio no
Profeta Diário (mandei entregar o jornal no meu endereço
de férias; é tão bom continuar em dia com o que está
acontecendo no mundo dos bruxos). Você viu a foto de
Rony com a família que saiu no jornal na semana
passada?Aposto que ele está aprendendo um monte de
coisas. Estou com inveja - os bruxos do Egito antigo são
fascinantes.
Aqui também tem histórias de bruxaria locais
interessantes. Reescrevi todo o meu trabalho de História
da Magia para incluir algumas coisas que descobri.
Espero que não fique grande demais
- são dois rolos de pergaminho a mais do que o Prof Binns
pediu Rony diz que vai a Londres na última semana de
frias. Você também vai poder ir? Será que sua tia e seu tio
vão deixar? Espero realmente que possa. Se não, agente se
vê no Expresso de Hogwarts no dia 1º de setembro!
Afetuosamente,
Hermione
P.: Rony contou que Percy virou monitor-chefe. Aposto
como ele está realmente satisfeito. Quem não parece ter
gostado é o Rony
Harry deu risadas enquanto punha a carta de Hermione de
lado e apanhava o presente. Era muito pesado. Conhecendo a
amiga, ele teve certeza de que seria um livrão cheio de feitiços
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complicados -mas não era. Seu coração deu um enorme salto
quando ele rasgou o papel de embrulho e viu um belo estojo de
couro preto, com dizeres em letras prateadas: Estojo para
manutenção de vassouras.
- Uau, Hermione! - exclamou Harry baixinho, abrindo o
estojo para ver dentro.
Havia um frasco grande de líquido para polir cabos, uma
tesoura prateada e reluzente para aparar cerdas, uma pequena
bússola para prender na vassoura em viagens longas e um manual
Faça a manutenção da sua vassoura.
À exceção dos amigos, o que Harry mais sentia falta de
Hogwarts era o quadribol, o esporte mais popular do mundo
mágico -extremamente arriscado, muito excitante, que se jogava
montado em uma vassoura. Harry; por acaso, era um ótimo
jogador de quadribol: fora o menino mais novo do século a ser
escolhido para um time de casa em Hogwarts. Uma das coisas que
Harry mais prezava na vida era sua vassoura de corrida, uma
Nimbus 2000.
Harry pôs o estojo de couro de lado e apanhou o último
embrulho. Reconheceu os garranchos no papel pardo do embrulho
na mesma hora eram de Hagrid, o guarda-caça de Hogwarts. Ele
rasgou o papel de embrulho externo e viu um pedacinho de
alguma coisa em couro verde, mas antes que conseguisse desfazêlo
direito, o embrulho estremeceu de um modo estranho e o que
havia dentro se fechou com um estalo - como se a coisa tivesse
mandíbulas.
Harry congelou. Sabia que Hagrid jamais lhe mandaria uma
coisa perigosa de propósito, mas, por outro lado, seu amigo não
tinha a visão de uma pessoa normal sobre o que era perigoso.
Todos sabiam que Hagrid já fizera amizade com aranhas
gigantescas, mas nocivas, com cães de três cabeças dados por
gente que ele encontrou em bares, e contrabandeara ovos de
dragão, um bicho ilegal, para dentro da cabana em que morava.
Harry cutucou o embrulho, nervoso. A coisa tornou a se
fechar com ruído. O garoto apanhou o abajur na mesa-decabeceira,
agarrou-o com firmeza com uma das mãos e ergueu-o
acima da cabeça, pronto para desferir uma pancada. Então agarrou
o resto do papel de embrulho com a outra mão e puxou.
14
E a coisa caiu - um livro. Harry só teve tempo de reparar na
bela capa, adornada com um título dourado, O livro monstruoso
dos monstros, antes do livro virar de lombada e começar a correr
pela cama como um caranguejo esquisito.
- Ah-ah - gemeu Harry,
O livro caiu da cama com um barulho metálico e arrastouse
rápido pelo quarto, O menino o seguiu furtivamente. O livro foi
se esconder no espaço escuro embaixo da escrivaninha, Rezando
para os Dursley não terem acordado, Harry ficou de quatro e
tentou apanhá-lo,
-Ai!
O livro se fechou sobre sua mão e se afastou do menino se
sacudindo e andando adernado sobre as capas.
Harry saiu correndo, ainda agachado, e se atirou para frente
conseguindo achatar o livro, tio Válter soltou um grunhido
sonolento e alto no quarto ao lado.
Edwiges e Errol observaram com interesse quando Harry
abraçou com força o livro que se debatia, correu até a cômoda e
pegou um cinto, com que o amarrou firmemente. O livro
monstruoso estremeceu de raiva, mas não conseguiu mais se agitar
e morder, então Harry atirou-o na cama e apanhou o cartão de
Hagrid.
Caro Harry,
Feliz aniversário
Achei que isto pudesse lhe ser útil no ano que vem.
Não vou dizer mais nada aqui. Conto quando a gente se
encontrar
Espero que os trouxas estejam tratando você bem.
Tudo de bom, Hagrid.
Pareceu a Harry um mau agouro que Hagrid pudesse achar
que um livro que morde tivesse utilidade futura, mas pôs o cartão
do amigo ao lado do de Rony e Hermione, sorrindo mais satisfeito
do que nunca. Agora só sobrava a carta de Hogwarts.
Reparando que era bem mais grossa do que de costume,
Harry abriu o envelope, puxou a primeira página de pergaminho
de dentro e leu:
15
Prezado Sr Potter,
Queira registrar que o novo ano letivo começará em
1º de setembro. O Expresso de Hogwarts partirá da
estação de King's Cross, plataforma nove e meia, às onze
horas.
Os alunos de terceiro ano têm permissão para
visitar a aldeia de Hogsmeade em determinados fins de
semana. Assim, queira entregar a autorização anexa ao
seu pai ou guardião para que a assine.
Estamos anexando, nesta oportunidade, a lista de
livros para o próximo ano.
Atenciosamente,
Profª M. McGonagall
Vice-Diretora
Harry tirou do envelope o formulário de autorização para ir
a Hogsmeade e leu-o, mas já não sorria. Seria maravilhoso visitar
Hogsmeade nos fins de semana; ele sabia que era um povoado só
de bruxos, em que nunca estivera. Mas como é que ia convencer o
tio Válter ou a tia Petúnia a assinar o formulário?
Ele olhou para o despertador. Eram agora duas horas da
manhã.
Decidindo que se preocuparia com o formulário de
Hogsmeade quando acordasse, Harry voltou para a cama e se
esticou para riscar mais um dia no calendário que fizera para
contar o tempo que faltava para regressar a Hogwarts. tirou então
os óculos e se deitou, de olhos abertos, de frente para os três
cartões de aniversário.
Mesmo sendo muito fora do comum, naquele momento
Harry Potter se sentiu como todo mundo: feliz, pela primeira vez
na vida, porque era o dia do seu aniversário.
16
- CAPITULO DOIS -
O grande erro de tia Guida
Harry desceu para o café na manhã seguinte e já encontrou
os três Dursley sentados à mesa. Estavam assistindo a uma
televisão novinha em folha, um presente de boas-vindas para as
férias-de-verao-em-casa de Duda, que andara se queixando, em
altas vozes, sobre a grande distância entre a geladeira e a televisão
da sala. Duda passara a maior parte do verão na cozinha., seus
miúdos olhinhos de porco fixos na telinha e sua papada em cinco
camadas balançando enquanto ele comia sem parar.
Harry sentou-se entre Duda e tio Válter um homem grande
e socado, com pescoço de menos e bigodes de mais. Longe de
desejarem a Harry um feliz aniversário, os Dursley não deram
qualquer sinal de que tinham reparado em sua entrada na cozinha,
mas o menino estava mais do que acostumado com isso para se
importar. Serviu-se de uma fatia de torrada e em seguida olhou
para o repórter na televisão, que já ia adiantado na transmissão de
uma notícia sobre um fugitivo da prisão.
"... alertamos os nossos telespectadores de que Black está
armado e é extremamente perigoso. Se alguém o avistar deverá
ligar para o número do plantão de emergência imediatamente".
- Nem precisa dizer quem ele é - riu-se tio Válter, espiando
o prisioneiro por cima do jornal. - Olhem só o estado dele, a
imundice do desleixado! Olhem o cabelo dele!
E lançou um olhar de esguelha, maldoso, para Harry; cujos
cabelos despenteados sempre tinham sido uma fonte de grande
aborrecimento para o tio. Comparado ao homem da televisão,
porém, cujo rosto ossudo era emoldurado por um emaranhado que
17
lhe chegava aos cotovelos, Harry se sentiu, na verdade, muito bem
penteado.
O repórter reaparecera.
"O Ministério da Agricultura e da Pesca irá anunciar
hoje..."
- Espere aí! - berrou tio Válter, olhando furioso para o
repórter - Você não disse de onde esse maníaco fugiu! De que
adiantou o alerta? O louco pode estar passando na minha rua neste
exato momento!
Tia Petúnia, que era ossuda e tinha cara de cavalo, virou-se
depressa e espiou com atenção pela janela da cozinha Harry sabia
que a tia simplesmente adoraria poder ligar para o telefone do
plantão de emergência. Era a mulher mais bisbilhoteira do mundo
e passava a maior parte da vida espionando os vizinhos sem graça,
que nunca faziam nada errado.
- Quando é que eles vão aprender - exclamou tio Válter,
batendo na mesa com o punho grande e arroxeado - que a forca é a
única solução para gente assim?
- É verdade concordou tia Petúnia, que ainda procurava ver
alguma coisa por entre a trepadeira do vizinho.
Tio Válter terminou de beber a xícara de chá, deu uma
olhada no relógio de pulso e acrescentou;
- É melhor eu ir andando, Petúnia. O trem de Guida chega
às dez.
Harry, cujos pensamentos andavam no andar de cima com
o Estojo para manutenção de vassouras; foi trazido de volta à
terra com um tranco desagradável.
-Tia Guida? - o garoto deixou escapar - É... ela não está
vindo para cá, está?
Tia Guida era irmã de tio Válter. Embora não fosse um
parente consangüíneo de Harry (cuja mãe fora irmã de tia
Petúnia), a vida inteira ele tinha sido obrigado a chamá-la de "tia".
Tia Guida morava no campo, em uma casa com um grande jardim,
onde ela criava buldogues. Raramente se hospedava na rua dos
Alfeneiros, porque não conseguia suportar a idéia de se separar
dos seus preciosos cachorros, mas cada uma de suas visitas
permanecia horrivelmente nítida na cabeça de Harry.
18
Na festa do quinto aniversário de Duda, tia Guida tinha
dado umas bengaladas nas canelas de Harry para impedi-lo de
vencer o primo em uma brincadeira. Alguns anos mais tarde, ela
aparecera no Natal trazendo um robô computadorizado para Duda
e uma caixa de biscoitos de cachorro para Harry. Na última visita,
um ano antes do garoto entrar para Hogwarts, ele pisara sem
querer o rabo do cachorro favorito da tia. Estripador perseguira
Harry até o jardim e o acuara em cima de uma árvore, mas tia
Guida se recusara a recolher o cachorro até depois da meia-noite.
A lembrança desse incidente ainda produzia lágrimas de riso nos
olhos de Duda.
Guida vai passar uma semana aqui - rosnou tio Valter - e
enquanto estamos nesse assunto - ele apontou um dedo gordo e
ameaçador para Harry - precisamos acertar algumas coisas antes
de eu sair para apanhá-la.
Duda fez ar de riso e desviou o olhar da televisão. Assistir a
Harry ser maltratado pelo pai era sua diversão favorita.
- Emc primeiro lugar - rosnou tio Válter - você vai falar
com bons modos quando se dirigir a Guida.
- Tudo bem - disse Harry com amargura -, se ela fizer o
mesmo quando se dirigir a mim.
- Em segundo lugar - continuou o tio, fingindo não ter
ouvido a resposta de Harry -, como Guida não sabe nada da sua
anormalidade, não quero nenhuma... nenhuma gracinha enquanto
ela estiver aqui. Você vai se comportar, está me entendendo?
- Eu me comporto se ela se comportar - retrucou Harry
entre dentes.
- E em terceiro lugar - disse tio Válter, seus olhinhos
maldosos agora simples fendas na enorme cara púrpura -,
dissemos a Guida que você freqüenta o Centro Saint Brutus para
Meninos Irrecuperáveis.
- Que?- berrou Harry.
- E você vai sustentar essa história, moleque, ou vai se dar
mal.
- cuspiu tio Valter.
Harry ficou sentado ali, o rosto branco e furioso, encarando
o tio Válter, sem conseguir acreditar no que ouvia. Tia Guida
vinha fazer uma visita de uma semana - era o pior presente de
19
aniversário que os Dursley já tinham lhe dado, incluindo nessa
conta o par de meias velhas do tio.
- Bom Petúnia - disse tio Válter, levantando-se com esforço
-, vou indo para a estação, então. Quer me acompanhar para dar
um passeio, Dudoca?
- Não - respondeu o menino, cuja atenção se voltara para a
televisão agora que o pai acabara de ameaçar Harry;
- O Dudinha tem que ficar elegante para receber a titia -
disse tia Petúnia, alisando os cabelos louros e espessos do filho. –
Mamãe comprou para ele uma linda gravata-borboleta.
Tio Válter deu uma palmadinha no ombrão de porco de
Duda.
- Vejo vocês daqui a pouco, então - disse ele, e saiu da
cozinha. Harry; que estivera sentado em uma espécie de transe de
horror, teve uma idéia repentina. Abandonando a torrada, ele se
levantou depressa e acompanhou o tio até a saída.
Tio Válter estava vestindo o paletó que usava no carro.
- Eu não vou levar você - rosnou ele ao se virar e ver Harry
observando-o.
- Como se eu quisesse ir - disse Harry friamente. - Quero
lhe perguntar uma coisa.
O tio mirou-o desconfiado.
- Os alunos do terceiro ano em Hog.. na minha escola às
vezes têm permissão para visitar o povoado próximo - disse Harry.
- E daí? - retrucou o tio, tirando as chaves do carro de um
gancho próximo à porta.
- Preciso que o senhor assine o formulário de autorização -
disse Harry depressa.
- E por que eu iria fazer isso? - falou o tio com desdém.
- Bom - respondeu Harry escolhendo cuidadosamente as
palavras - vai ser duro fingir para tia Guida que eu freqüento o
Saint não sei das quantas...
- Centro Saint Brutus para Meninos Irrecuperáveis! -
berrou o tio, e Harry ficou satisfeito de ouvir uma inconfundível
nota de pânico em sua voz.
- Exatamente - disse Harry, encarando com toda a calma o
rosto púrpura do tio. - É muita coisa para eu me lembrar. Tenho
que parecer convincente, não é mesmo? E se eu, sem querer,
20
deixar escapar alguma coisa?
- Vou fazer picadinho de você, não é mesmo?- rugiu o tio,
avançando para o sobrinho com o punho levantado. Mas Harry
agüentou firme.
- Fazer picadinho de mim não vai ajudar tia Guida a
esquecer o que eu poderia contar a ela - disse em tom de ameaça.
Tio Válter parou, o punho ainda levantado, a cara de uma
fria cor marrom-arroxeada.
- Mas se o senhor assinar o meu formulário de autorização -
apressou-se Harry a acrescentar - juro que vou me lembrar da
escola que o senhor diz que freqüento, e vou me comportar como
um ser... como se fosse normal e todo o resto.
Harry percebeu que o tio estava considerando a proposta,
mesmo que seus dentes estivessem arreganhados e uma veia
latejasse em sua têmpora.
- Certo - disse por fim, bruscamente. - Vou vigiar o seu
comportamento muito de perto durante a visita de Guida. Se,
quando terminar, você tiver andado na linha e sustentado a
história, eu assino a droga do formulário.
E, dando meia-volta, abriu a porta e bateu-a com tanta
força que uma das vidraças no alto se soltou.
Harry não voltou à cozinha. Subiu as escadas e foi para o
quarto. Se ia se comportar como um trouxa de verdade, era melhor
começar já. Devagar e com tristeza, reuniu seus presentes e
cartões de aniversário e escondeu-os debaixo da tábua solta do
soalho com os deveres de casa. Depois, foi até a gaiola de
Edwiges. Errol parecia ter-se recuperado; ele e Edwiges estavam
dormindo, com a cabeça enfiada embaixo da asa. Harry suspirou e
cutucou as corujas para acordá-las.
- Edwiges - disse deprimido -, você vai ter que dar o fora
por uma semana. Vá com Errol. Rony cuidará de você. Vou
escrever um bilhete para ele explicando. E não me olhe assim - os
grandes olhos âmbar de Edwiges se encheram de censura -, não é
minha culpa. É o único jeito que tenho de conseguir uma
autorização para visitar Hogsmeade com Rony e Hermione.
Dez minutos depois, Errol e Edwiges (que levava um
bilhete para Rony amarrado na perna) saíram voando pela janela e
desapareceram de vista. Harry, agora se sentindo completamente
21
infeliz, guardou a gaiola vazia dentro do armário.
Mas não teve muito tempo para se entristecer. Não
demorou quase nada e tia Petúnia já estava gritando lá embaixo
para Harry descer e se preparar para dar as boas-vindas à hóspede.
- Faça alguma coisa com o seu cabelo! - disse tia Petúnia
bruscamente quando o sobrinho chegou embaixo.
Harry não via sentido em. tentar fazer seu cabelo ficar
penteado. Tia Guida adorava criticá-lo, por isso, quanto mais
desarrumado, mais satisfeita ela iria ficar.
Demasiado cedo, ouviu-se um ruído de pneu triturando
areia quando o carro de tio Válter entrou de marcha a ré pelo
caminho da garagem, depois, batidas de portas e passos no jardim.
- Atenda a porta! - sibilou tia Petúnia para Harry
Com uma sensação de grande tristeza e depressão na boca
do estômago, Harry abriu a porta.
Na soleira encontrava-se tia Guida, Era muito parecida com
o tio Válter; corpulenta, alta, socada, a cara púrpura, tinha até
bigode, embora não tão peludo quanto o do irmão. Em uma das
mãos ela trazia uma enorme mala, e, aninhado sob a outra, um
buldogue velho e mal-humorado.
-Onde está o meu Dudoca? - bradou tia Guida. - Onde está
o meu sobrinho fofo?
Duda veio gingando em direção ao hail, os cabelos louros
emplastrados na cabeça gorda, uma gravata-borboleta quase
invisível sob a papada quíntupla. Tia Guida largou a mala na
barriga de Harry; deixando-o sem ar, agarrou Duda num abraço
apertado com o braço livre e plantou-lhe uma beijoca na bochecha.
Harry sabia perfeitamente bem que Duda só agüentava os
abraços da tia porque era bem pago para isso, e não deu outra,
quando os dois se separaram, Duda levava uma nota novinha de
vinte libras apertada na mão gorda.
- Petúnia! - exclamou tia Guida, passando por Harry como
se ele fosse um cabide de chapéus. As duas se beijaram, ou
melhor, tia Guida deu uma queixada na bochecha ossada de tia
Petúnia, Tio Válter entrou nesse momento, sorrindo jovialmente e
fechou a porta. Chá, Guida? - ofereceu, - E o que é que o
Estripador vai tomar?
- Estripador pode beber um pouco de chá no meu pires -
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respondeu tia Guida enquanto seguiam todos para a cozinha,
deixando Harry sozinho no hail com a mala. Mas o menino não ia
se queixar; qualquer desculpa para ficar longe da tia era bemvinda,
por isso começou a carregar a pesada mala para o quarto de
hóspedes, demorando o máximo que pôde.
No momento em que voltou à cozinha, tia Guida já fora
servida de chá e bolo de frutas e Estripador lambia alguma coisa,
fazendo muito barulho, a um canto. Harry viu tia Petúnia fazer
ama ligeira careta ao ver gotas de chá e baba pontilharem o seu
chão limpo. Ela detestava animais.
- Quem ficou cuidando dos outros cachorros, Guida? -
perguntou tio Válter.
- Ah, deixei o coronel Pubster tratando deles - ribombou
em resposta Guida. - Ele entrou para a reforma agora e é bom ter
alguma coisa para fazer. Mas não pude deixar o coitado do
Estripador, tão velho. Ele fica doente de tristeza quando viajo.
Estripador recomeçou a rosnar quando Harry se sentou. isto
atraiu a atenção de tia Guida para Harry, pela primeira vez.
- Então! - vociferou ela. - Ainda está por aqui?
- Estou - respondeu o menino.
- Não diga "estou" nesse tom ingrato - rosnou tia Guida. - E
uma grande bondade Válter e Petúnia acolherem você. Eu não
teria feito o mesmo. Eu o teria mandado direto para um orfanato se
alguém largasse você na minha porta.
Harry estava doido para responder que preferia viver em
um orfanato do que com os Dursley, mas a lembrança do
formulário de Hogsmeade fez com que se calasse. Ele se esforçou
para dar um sorriso constrangido.
- Não me venha com sorrisinhos! - trovejou tia Guida. -
Estou vendo que não melhorou nada desde a última vez que o vi.
Tive esperanças que a escola lhe desse educação à força, se fosse
preciso. -Ela tomou um grande gole de chá, limpou o bigode e
continuo: .
- Aonde mesmo que você o está mandando, Válter?
- Saint Brutus - respondeu o tio prontamente. - É uma
instituição de primeira classe para casos irrecuperáveis.
- Entendo. Eles usam a vara em Saint Brutus? - vociferou
23
ela do lado oposto da mesa.
-Ah...
Tio Válter fez um breve aceno de cabeça por trás de tia
Guida.
- Usam - respondeu Harry. Depois, sentindo que devia
fazer a coisa bem-feita, acrescentou: - o tempo todo.
- Ótimo - aprovou tia Guida. - Eu não aceito essa conversa
fiada de não bater em gente que merece. Uma boa surra de vara
resolve noventa e nove casos em cem. você já apanhou muitas
vezes?
- Ah, já - respondeu Harry -, um monte de vezes.
Tia Guida apertou os olhos.
- Não gosto do seu tom, moleque. Se você consegue falar
das surras que leva com esse tom displicente, obviamente não
estão lhe batendo com a força. que deviam. Petúnia, se eu fosse
você escreveria à escola. Deixaria claro que os tios aprovavam o
uso de força extrema no caso desse moleque.
Talvez tio Válter estivesse preocupado que Harry pudesse
esquecer o acordo que tinham feito; o caso é que ele mudou o
assunto bruscamente.
- Ouviu o noticiário hoje de manhã, Guida? E aquele
prisioneiro que fugiu, bem?
Enquanto tia Guida começava a se fazer em casa, Harry se
surpreendeu pensando quase com saudade na vida na rua dos
Alfeneiros, nº 4 sem ela.
Tio Válter e tia Petúnia em geral encorajavam Harry a ficar
fora do caminho deles, o que o menino fazia com a maior
satisfação. Tia Guida, por outro lado, queria Harry debaixo dos
seus olhos o tempo todo, para poder fazer, com aquele vozeirão,
sugestões para melhorá-lo. Adorava comparar Harry a Duda, e
tinha o maior prazer de comprar presentes caros para Duda
enquanto olhava feio para Harry, como se o desafiasse a perguntar
por que não recebera um presente também. Além disso, ela não
parava de soltar piadas de mau gosto sobre as razões de Harry ser
uma pessoa tão deficiente.
- Você não deve se culpar pelo que os meninos são hoje,
Válter - comentou ela durante o almoço do terceiro dia. - Se existe
alguma coisa podre por dentro, não há nada que ninguém possa
24
fazer.
Harry tentou se concentrar na comida, mas suas mãos
tremiam e seu rosto começou a arder de raiva. Lembre-se d
formulário, disse a si mesmo. Pense em Hogsmeade. Não diga
nada. Não se levante..,
Tia Guida esticou a mão para a taça de vinho.
- Isso é uma das regras básicas da criação – disse ela. - A
gente vê isso o tempo todo com os cachorros. Se tiver alguma
coisa errada com uma cadela, vai ter alguma coisa errada com o
filhote...
Naquele momento, a taça de vinho que tia Guida segurava
explodiu em sua mão. Cacos de vidro voaram para todo lado e ela
engrolou e piscou, a caraça vermelha pingando.
- Guida! - guinchou tia Petúnia. - Guida, você está bem?
- Não se preocupe - resmungou tia Guida, enxugando o
rosto com o guardanapo. - Devo ter segurado a taça com muita
força. Fiz a mesma coisa na casa do coronel Pubster no outro dia.
Não precisa se preocupar, Petúnia, tenho a mão pesada...
Mas tia Petúnia e tio Válter olharam desconfiados para
Harry; por isso o menino resolveu que era melhor não comer a
sobremesa e se retirar da mesa o mais depressa que pudesse.
No corredor, apoiou-se na parede e respirou
profundamente. Fazia muito tempo desde a última vez que se
descontrolara e fizera uma coisa explodir. Não podia deixar que
isso acontecesse de novo. O formulário de Hogsmeade não era a
única coisa em jogo se ele continuasse a agir assim, ia se
encrencar com o Ministério da Magia.
Harry ainda era um bruxo menor de idade, portanto, pela
lei dos bruxos, era proibido de fazer mágica fora da escola. A
ficha dele não era muito limpa. Ainda no verão anterior recebera
uma carta oficial em que o avisavam muito claramente que se o
Ministério tomasse conhecimento de qualquer magia ocorrida na
rua dos Alfeneiros, ele seria expulso de Hogwarts.
Harry ouviu os Dursley se levantarem da mesa e correu
escada acima para sair do caminho.
Harry conseguiu sobreviver os três dias seguintes forçandose
a pensar no manual de Faça a manutenção da sua vassoura
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sempre que tia Guida implicava com ele. A coisa funcionou muito
bem, embora seu olhar parecesse vidrado, porque tia Guida
começou a ventilar a opinião de que ele era mentalmente
deficiente.
Finalmente, um finalmente muito demorado, chegou a
última noite da estada de tia Guida. Tia Petúnia preparou um
jantar caprichado e tio Válter abriu várias garrafas de vinho. Eles
conseguiram terminar a sopa e o salmão sem mencionar nem uma
vez os defeitos de Harry; quando comiam a torta-merengue de
limão, tio Válter deu um cansaço em todo mundo com uma longa
conversa sobre Grunnings, sua empresa de brocas; depois tia
Petúnia preparou o café e o marido apanhou uma garrafa de
conhaque.
- Posso lhe oferecer essa tentação, Guida?
Tia Guida já bebera muito vinho. Sua cara enorme estava
muito vermelha.
- Só um pouquinho, então - disse ela rindo. - Um
pouquinho mais... mais... aí, perfeito.
Duda estava comendo o quarto pedaço de torta. Tia Petúnia
bebericava café com o dedo mindinho esticado. Harry realmente
queria desaparecer e ir para o quarto, mas deparou com os
olhinhos zangados do tio Válter e viu que teria de agüentar até o
fim.
- Aah! - exclamou tia Guida, estalando os lábios e
pousando o cálice de conhaque. - Um senhor jantar, Petúnia.
Normalmente só como uma coisinha rápida à noite, com uma
dúzia de cachorros para cuidar.. - Ela soltou um gostoso arroto e
deu umas palmadinhas na grande barriga coberta de tweed. - Me
desculpem. Mas gosto de ver um menino de tamanho saudável -
continuou ela, dando uma piscadela para Duda. - Você vai ter
tamanho de homem, Dudoca, como seu pai. Sim, senhor, acho que
vou querer mais um pouquinho de conhaque, Válter.
"Agora esse outro ai...
Ela virou a cabeça para indicar Harry; que sentiu um aperto
no estômago. O manual pensou depressa.
- Esse aí tem um jeito ruim e mirrado. A gente vê isso nos
cachorros. Pedi ao coronel Fubster para afogar um no ano passado.
Era um ratinho. Fraco. Subnutrido.
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Harry tentou se lembrar da página doze do seu livro Feitiço
para reverter feitiços persistentes.
-A coisa toda está ligada ao sangue, como eu ia dizendo
ainda outro dia. O sangue ruim acaba aflorando. Mas, não estou
dizendo nada contra a sua família, Petúnia - ela deu umas
pancadinhas na mão ossuda da cunhada com sua mão que mais
parecia uma pá -, mas sua irmã não era flor que se cheirasse. Isso
acontece nas melhores famílias. Depois, fugiu com aquele
imprestável e aí está o resultado bem diante dos olhos da gente.
Harry olhava fixamente para o próprio prato, sentindo uma
zoeira engraçada nos ouvidos. Segure sua vassoura pela cauda
com firmeza, pensou. Mas não conseguiu se lembrar do que vinha
depois. A voz de tia Guida parecia perfurá-lo como se fosse uma
das brocas do tio Válter.
- Esse Potter - continuou tia Guida bem alto, agarrando a
garrafa e derramando mais conhaque no copo e na toalha da mesa
-, você nunca me contou o que ele fazia.
Tio Válter e tia Petúnia tinham uma expressão
extremamente tensa. Duda chegara a levantar os olhos da torta
para olhar os pais, boquiaberto.
- Ele... não trabalhava - disse tio Válter, sem chegar a olhar
de todo para Harry. - Desempregado.
- Era o que eu esperava - disse tia Guida, bebendo um
enorme gole de conhaque e limpando o queixo na manga, - Um
parasita preguiçoso, imprestável, sem eira nem beira que...
- Não era, não - exclamou Harry inesperadamente, Todos à
mesa ficaram muito quietos, Harry tremia da cabeça aos pés,
Nunca sentira tanta raiva na vida,
- MAIS CONHAQUE! - bradou tio Válter, que
empalidecera sensivelmente, Ele esvaziou a garrafa no cálice de
tia Guida, -Você, moleque - rosnou para Harry, - Vá se deitar,
ande...
- Não! Válter - soluçou tia Guida, erguendo a mão, os
olhinhos injetados e fixos em Harry, - Continue, moleque,
continue, Tem orgulho dos seus pais, é? Eles saem por aí e se
matam num acidente de carro (imagino que bêbados)".
- Eles não morreram num acidente de carro! - protestou
Harry que percebeu que se levantara.
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- Morreram num acidente de carro, sim, seu mentiroso
infeliz, e jogaram você nos ombros de parentes decentes e
trabalhadores! - gritou tia Guida, inchando de fúria, - Você é um
ingrato, insolente e...
Mas repentinamente ela se calou. Por um instante pareceu
que tinham-lhe faltado palavras. Parecia estar inchando, engasgada
de tanta raiva... mas não parou de inchar. Sua cara enorme e
vermelha começou a crescer, os olhos miúdos saltaram das órbitas,
e a boca se esticou tanto que a impedia de falar - no segundo
seguinte vários botões simplesmente saltaram do seu paletó de
tweed e ricochetearam nas paredes -, ela inflou como um balão
monstruoso, a barriga transbordou o cós da saia, os dedos
engrossaram como salames...
- GUIDA! - berraram tio Válter e tia Petúnia juntos quando
o corpo dela começou a se erguer da cadeira em direção ao teto.
Estava completamente redonda agora, como uma enorme bóia
com olhinhos porcinos, e as mãos e os pés se projetaram
estranhamente do corpo que flutuava no ar, dando estalinhos
apopléticos, Estripador entrou derrapando na sala, latindo
enlouquecido
- NÃÃÃÃÃÃÃO!
Tio Válter agarrou Guida por um pé e tentou puxá-la para
baixo, mas quase foi erguido do chão também, Um segundo
depois, Estripador avançou, e de um salto abocanhou a perna do
tio Válter.
Harry se precipitou para fora da sala de jantar antes que
alguém pudesse impedi-lo, e correu para o armário sob a escada. A
porta do armário se abriu magicamente quando ele se aproximou.
Em segundos, o garoto tinha arrastado o seu malão para a porta da
rua. Subiu aos saltos a escada e se atirou embaixo da cama,
levantando a tábua solta do soalho, agarrou a fronha cheia de
livros e presentes de aniversário. Arrastou-se para fora, passou a
mão na gaiola vazia de Edwiges, correu de volta ao lugar em que
deixara o malão, na hora em que tio Válter irrompia da sala de
jantar, com a perna da calça em tiras ensangüentadas.
- VOLTE AQUI! - urrou. - VOLTE AQUI E FAÇA-A
VOLTAR AO NORMAL!
Mas uma raiva que não media conseqüências se apoderara
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de Harry. Ele deu um chute no malão para abri-lo, puxou a varinha
e apontou-a para o tio Válter.
- Ela mereceu - disse, ofegante. - Ela mereceu o que
aconteceu. E o senhor fique longe de mim.
Depois, tateou às costas à procura do trinco da porta.
- Vou-me embora. Para mim já chega.
E no momento seguinte Harry estava na rua escura e
silenciosa, puxando o malão pesado, a gaiola de Edwiges debaixo
do braço.
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- CAPITULO TRÊS -
O Nôitibus Andante
Harry já estava bem distante quando se largou em cima de
um muro baixo na rua Magnólia, uma rua curva de prédios
geminados, ofegante com o esforço de arrastar o malão. Sentou-se
muito quieto, ainda espumando de raiva, escutando o galope
desenfreado do seu coração.
Mas depois de uns dez minutos sozinho na rua escura, uma
nova emoção se apoderou dele: o pânico. De qualquer maneira que
considerasse o caso, ele nunca se vira em situação pior Estava
perdido, sozinho, no escuro mundo dos trouxas, absolutamente
sem ter aonde ir. E o pior era que acabara de executar um feitiço
sério, o que significava que quase certamente seria expulso de
Hogwarts. Violara tão flagrantemente o decreto que limitava o uso
da magia por menores, que se surpreendeu que os representantes
do Ministério da Magia não tivessem caído em cima dele ali
mesmo.
Harry estremeceu e olhou para os dois lados da rua
Magnólia. O que ia lhe acontecer? Seria preso ou simplesmente
banido do mundo dos bruxos? Ele pensou em Rony e em
Hermione, e seu coração ficou ainda mais apertado. Harry tinha
certeza de que, fosse criminoso ou não, Rony e Hermione iriam
querer ajudá-lo agora, mas os dois estavam no exterior e, com
Edwiges ausente, ele não tinha meios de entrar em contato com os
amigos.
E tampouco tinha dinheiro dos trouxas. Havia um ourinho
na carteira que guardara no fundo do malão, mas o resto da fortuna
que seus pais tinham lhe deixado estava depositado em um cofre
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do banco dos bruxos em Londres, o Gringotes. Ele jamais
conseguiria arrastar o malão até Londres. A não ser que..
Ele olhou para a varinha que ainda mantinha segura na
mão. Se já fora expulso (seu coração agora batia dolorosamente
depressa,, um pouco mais de magia não iria fazer mal algum.
Tinha a Capa da Invisibilidade que herdara do pai - e se
encantasse o malão para torná-lo leve como uma pena, o
amarrasse à vassoura e voasse até Londres? Então poderia retirar o
resto do seu dinheiro do cofre e.. começar uma vida de proscrito.
Era uma perspectiva terrível, mas não podia ficar sentado naquele
muro para sempre, ou ia acabar tendo que explicar à polícia dos
trouxas o que estava fazendo ali, na calada da noite, com um
malão cheio de livros de bruxaria e uma vassoura.
Harry tornou a abrir o malão e empurrou as coisas para um
lado à procura da Capa da Invisibilidade - mas antes de apanhá-la,
endireitou o corpo de repente e olhou mais uma vez a toda a volta.
Um formigamento estranho na nuca o fizera sentir que
estava sendo observado, mas a rua parecia deserta e não havia luz
nos grandes prédios quadrados.
Ele tornou a se curvar para o malão, mas quase
imediatamente se endireitou, a mão apertando a varinha. Não
ouvira, sentira uma coisa: alguém ou alguma coisa estava parado
no estreito vão entre a garagem e a grade atrás dele. Harry apertou
os olhos para enxergar melhor; passagem escura. Se ao menos
aquilo se mexesse, então ele saberia se era apenas um gato sem
dono ou.... outra coisa qualquer.
- Lumus - murmurou Harry, e apareceu uma luz na ponta de
sua varinha, que quase o cegou. Ele levantou a varinha acima da
cabeça e as paredes incrustadas de seixos do nº 2, de repente,
faiscaram; a porta da garagem reluziu e entre as duas Harry viu,
com muita clareza, os contornos maciços de alguma coisa muito
grande com olhos enormes e brilhantes.
Harry recuou. Suas pernas bateram no malão e ele
tropeçou. A varinha voou de sua mão quando ele abriu os braços
para amortecer a queda, e aterrissou com toda a força na sarjeta.
Ouviu-se um estampido ensurdecedor e Harry ergueu as
mãos para proteger os alhos da luz repentina e ofuscante...
Com um grito, ele rolou para cima da calçada bem em
31
tempo. Um segundo depois, dois faróis altos e dois gigantescos
pneus pararam cantando exatamente no lugar em que Harry
estivera caído. As duas coisas pertenciam, Harry viu quando
ergueu a cabeça, a um ônibus de três andares, roxo berrante, que
se materializara do nada. Letras douradas no pára-brisa
informavam: O Nôitibus Andante.
Por uma fração de segundo, Harry ficou imaginando se o
tombo o teria deixado abobado. Então, um condutor de uniforme
roxo saltou do ônibus para anunciar em altas vozes aos ventos da
noite:
- Bem-vindo ao ônibus Nôitibus Andante, o transporte de
emergência para bruxos e bruxas perdidos. Basta esticar a mão da
varinha, subir a bordo e podemos levá-lo aonde quiser. Meu nome
é Stanislau Shunpike, Lalau, e serei seu condutor por esta noi...
Lalau parou abruptamente. Acabara de avistar Harry que
continuava sentado no chão. O menino recuperou a varinha e ficou
de pé como pôde. Aproximando-se, viu que Lalau era apenas
alguns anos mais velho que ele, tinha dezoito ou dezenove anos no
máximo, grandes orelhas de abano e uma grande quantidade de
espinhas.
- Que é que você estava fazendo aqui? - perguntou Lalau,
pondo de lado sua pose profissional.
- Caí - respondeu Harry.
- E por que foi que você caiu? - caçoou Lalau.
- Não caí de propósito - respondeu Harry, incomodado.
Uma perna de seu jeans se rasgara e a mão que ele estendera para
aliviar a queda estava sangrando. De repente ele se lembrou por
que caíra e se virou depressa para o lado para ver a passagem entre
a garagem e a cerca. Os faróis do Nôitibus agora a inundavam de
luz e ela
estava vazia.
- Que é que você está olhando? - perguntou Lalau.
- Havia uma coisa grande e escura - respondeu Harry,
apontando hesitante para a abertura. - Parecia um cachorro... mas
enorme...
Harry olhou para Lalau, cuja boca estava entreaberta. Com
um certo constrangimento, Harry viu o seu olhar se deter na
cicatriz de sua testa.
32
- Que é que é isso na sua testa? - perguntou Lalau de
repente.
- Nada - apressou-se a dizer Harry, achatando os cabelos
em cima da cicatriz. Se os funcionários do Ministério da Magia
estivessem à sua procura, ele não ia facilitar a vida deles.
- Qual é o seu nome? - insistiu Lalau.
- Neville Longbottom - respondeu Harry com o primeiro
nome que lhe veio à cabeça. -Então... este ônibus - emendou ele
depressa na esperança de desviar a atenção do rapaz -, você disse
que vai a qualquer lugar?
- Isso aí - respondeu Lalau orgulhoso -, qualquer lugar que
você queira desde que seja em terra. É imprestável debaixo da
água.
Aqui - disse ele outra vez desconfiado -, você fez sinal para
a gente parar, não fez? Esticou a mão da varinha, não esticou?
- Claro - confirmou Harry depressa. - Escuta aqui, quanto
custaria me levar até Londres?
- Onze sicles, mas por catorze você ganha chocolate quente
e por quinze um saco de água quente e uma escova de dentes da
cor que você quiser.
Harry remexeu outra vez no malão, tirou a bolsa de
dinheiro, e empurrou um ourinho na mão de Lalau. Ele e o rapaz
então ergueram o malão, com a gaiola de Edwiges equilibrada na
tampa, e subiram no ônibus.
Não havia lugares para a pessoa sentar; em vez disso havia
meia dúzia de estrados de latão ao longo das janelas protegidas por
cortinas. Ao lado de cada cama, ardiam velas em suportes, que
iluminavam as paredes revestidas de painéis de madeira. Na
traseira do ônibus, uma bruxa miúda usando touca de dormir
murmurou:
- Agora não, obrigada, estou fazendo uma conserva de
lesmas.
- E voltou a adormecer.
- Você fica com essa aí - cochichou Lalau, empurrando o
malão de Harry para baixo da cama logo atrás do motorista, que se
achava sentado em uma cadeira de braços diante do volante. - Este
é o nosso motorista, Ernesto Prang. Este aqui é o Neville
Longbottom, Ernesto.
33
Ernesto Prang, um bruxo idoso que usava óculos de grossas
lentes, cumprimentou com um aceno de cabeça o novo passageiro,
que tornou a achatar nervosamente a franja contra a testa e se
sentou na cama.
- Pode mandar ver, Ernesto - disse Lalau, sentando-se na
cadeira ao lado do motorista.
Ouviu-se mais um estampido assustador e, no instante
seguinte, Harry se sentiu achatado contra a cama, atirado para trás
pela velocidade do Nôitibus. Endireitando-se, o menino espiou
pela janela escura e viu que agora deslizavam suavemente por uma
rua completamente diferente. Lalau observava o rosto surpreso de
Harry achando muita graça.
- Era aqui que a gente estava antes de você fazer sinal para
o ônibus parar - disse ele. - Onde é que nós estamos, Ernesto? Em
algum lugar do País de Gales?
- Hum-hum - respondeu o motorista.
- Como é que os trouxas não ouvem o ônibus? - perguntou
Harry.
- Os trouxas! - exclamou Lalau com desdém. - E eles lá
escutam direito? E também não enxergam direito. Nunca reparam
em nada, não é mesmo?
- É melhor ir acordar Madame Marsh, Lalau - disse
Ernesto.
- Vamos entrar em Abergavenny dentro de um minuto.
Lalau passou pela cama de Harry e desapareceu por uma
estreita escada de madeira. Harry continuou a espiar pela janela,
sentindo-se mais nervoso a cada hora. Ernesto não parecia ter
dominado o uso do volante. O Nôitibus a toda hora subia na
calçada, mas não batia em nada; os fios dos lampiões, as caixas de
correio e as latas de lixo saltavam fora do caminho quando o
ônibus se aproximava e tornavam à posição anterior depois de ele
passar.
Lalau voltou do primeiro andar, seguido de uma bruxa
meio esverdeada e embrulhada em uma capa de viagem.
- Chegamos, Madame Marsh - exclamou Lalau
alegremente, enquanto Ernesto metia o pé no freio e as camas
deslizavam bem uns trinta centímetros para a dianteira do ônibus.
Madame Marsh cobriu a boca com um lenço e desceu as escadas,
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titubeante. Lalau atirou a mala para ela e bateu as portas do
ônibus; ouviu-se novo estampido, e o veículo saiu roncando por
uma estradinha do interior, fazendo as árvores saltarem de banda.
Harry não teria conseguido dormir mesmo se estivesse
viajando em um ônibus que não produzisse tantos estampidos e
saltasse um quilômetro e meio de cada vez. Seu estômago deu
muitas voltas quando ele tornou a refletir no que iria lhe acontecer,
e se os Dursley já teriam conseguido tirar tia Guida do teto.
Lalau abrira um exemplar do Profeta Diário e agora o lia
mordendo a língua. Um homem de rosto encovado e cabelos
longos e embaraçados piscou devagarinho para Harry em uma
grande foto na primeira página. Pareceu-lhe estranhamente
familiar.
- Esse homem! - exclamou Harry, esquecendo-se por um
momento dos próprios problemas. - Ele apareceu no noticiário dos
trouxas!
Lalau virou para a primeira página e deu uma risadinha.
- Sirius Black - disse, confirmando com a cabeça. - Claro
que apareceu no noticiário dos trouxas, Neville, por onde você tem
andado?
E, deu uma risadinha de superioridade ao ver o olhar
vidrado no rosto de Harry rasgou a primeira página e entregou-a
ao garoto.
- Você devia ler mais jornal. Harry ergueu a página diante
da luz e leu:
BLACK AINDA FORAGIDO
Sirius Black, provavelmente o condenado de pior
fama já preso na fortaleza de Azkaban, continua a escapar
da polícia, confirmou hoje o Ministério da Magia.
"Estamos fazendo todo o possível para recapturar
Black" disse o Ministro da Magia, Cornélio Fudge, ouvido
esta manhã, "e pedimos à comunidade mágica que se
mantenha calma."
Fudge tem sido criticado por alguns membros da
Federação Internacional de Bruxos por ter comunicado a
crise ao Primeiro Ministro dos Trouxas.
"Bem, na realidade, eu tinha que fazer isso ou vocês
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não sabem?, comentou Fudge, irritado. "Black é doido. É
um perigo para qualquer pessoa que o aborreça, seja
bruxo ou trouxa. O Primeiro-Ministro me garantiu que não
revelará a verdadeira identidade de Black. E vamos
admitir - quem iria acreditar se etc revelasse?
Enquanto os trouxas foram informados apenas de
que Black está armado (com uma espécie de varinha de
metal que os bruxos usam para se matar uns aos outros), a
comunidade mágica vive no temor de um massacre como o
que ocorreu há doze anos, quando Black matou treze
pessoas com um único feitiço.
Harry olhou bem dentro dos olhos sombrios de Sirius
Black, a única parte do rosto encovado que parecia ter vida. O
menino jamais encontrara um vampiro, mas vira fotos nas
aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, e Black, com a
pele branca como cera, se parecia muito com um.
- Carinha sinistro, não é mesmo? - comentou Lalau, que
estivera observando Harry enquanto lia.
- Ele matou "treze pessoas" - admirou-se Harry, devolvendo
a página a Lalau. - Com um feitiço?
- É, isso aí, bem na frente de testemunhas e tudo. Em plena
luz do dia. Armou uma confusão do caramba não foi, Ernesto?
- Hum-hum - confirmou Ernesto sombriamente.
Lalau girou a cadeira de braços, cruzou as mãos às costas, a
fim de olhar melhor para Harry.
- Black foi um grande partidário de Você-Sabe-Quem -
disse ele.
- De quem, do Valdemort? disse Harry sem. Pensar.
Até as espinhas de Lalau ficaram brancas; Ernesto deu tal
golpe de direção que uma casa de fazenda inteira teve que saltar
para o lado para fugir do ônibus.
- Você ficou maluco? - gritou Lalau. - Pra que foi que você
foi dizer o nome dele?
- Desculpe - apressou-se a dizer Harry - Desculpe, eu... me
esqueci...
- Se esqueceu! exclamou Lalau com a voz fraca. -
Caramba, meu coração até desembestou...
- Então... então Black era partidário de Você-Sabe-Quem? -
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repetiu Harry como se pedisse desculpas.
- É, é - confirmou Lalau, ainda esfregando o peito. – É é,
isso aí. Dizem que era muito chegado ao Você-Sabe-Quem... Em
todo o caso, quando o pequeno Harry Potter levou a melhor sobre
Você-Sabe-Quem...
Harry, nervoso, achatou a franja na testa outra vez todos os
partidários de Você-Sabe-Quem foram caçados, não foi assim,
Ernesto? A maioria deles sacou que estava tudo acabado, Você-
Sabe-Quem tinha desaparecido e o pessoal ficou na moita. Mas o
Sirius Black, não. Ouvi dizer que ele achou que ia ser o vice
quando Você-Sabe-Quem assumisse o poder. Em todo o caso, eles
cercaram Black no meio de uma rua cheia de trouxas e o cara
puxou a varinha e explodiu metade da rua, atingiu um bruxo e mais
uma dúzia de trouxas que estavam no caminho. Uma coisa
horrorosa! E sabe o que foi que o Black fez depois? - Lalau
continuou num sussurro teatral.
-Quê?- perguntou Harry.
- Deu uma gargalhada. Ficou ali parado dando
gargalhadas. E quando chegaram os reforços do Ministério da
Magia, ele acompanhou os caras sem a menor reação, rindo de se
acabar. Porque ele é maluco, não é, Ernesto? Ele não é maluco?
- Se ele ainda não era quando foi para Azkaban, agora é -
comentou Ernesto com sua voz arrastada. - Eu preferia estourar os
miolos a pisar naquele lugar. Mas acho que é bem feito... depois
do que ele aprontou...
- "Tiveram uma trabalheira para abafar o caso, não foi,
Ernesto?
-disse Lalau. - Ele mandou a rua antiga para o espaço e
matou todos -aqueles trouxas. Que foi mesmo que falaram que
tinha acontecido, Ernesto?
- Explosão de gás - resmungou Ernesto.
- E agora ele anda solto por ai - continuou Lalau,
examinando mais uma vez a cara encovada de Black na foto do
jornal. - Ninguém nunca fugiu de Azkaban antes, não é mesmo,
Ernesto? Não sei como foi que ele fez isso. É de apavorar, hem? E
olha só, não acho que ele tivesse muita chance contra aqueles
guardas de Azkaban, hem, Ernesto?
Ernesto sentiu um arrepio repentino.
- Vamos mudar de assunto, Lalau. Esses guardas de
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Azkaban me dão até dor de barriga.
Lalau largou o jornal com relutância e Harry se encostou-se
à janela do Nôitibus sentindo-se pior que nunca. Não podia deixar
de imaginar o que Lalau iria contar aos passageiros nas próximas
noites... "Você soube o que aconteceu com aquele Harry Potter?
Mandou a tia pelos ares! Ele viajou aqui no Nôitibus com a gente,
não foi mesmo, Ernesto? Estava tentando se mandar...
Ele, Harry Potter, tinha infringido as leis dos bruxos
igualzinho ao Sirius Black. Fazer tia Guida virar balão seria
suficiente para ir parar em Azkaban? Harry não sabia nada sobre a
prisão dos bruxos, embora todo mundo que ele já ouvira falar
daquele lugar o fizesse no mesmo tom de medo. Hagrid, o guardacaça
de Hogwarts, passara dois meses lá ainda no ano passado.
Harry jamais esqueceria a expressão de terror no rosto do amigo
quando lhe disseram aonde ia, e Hagrid era uma das pessoas mais
corajosas que Harry conhecia.
O Nôitibus corria pela escuridão, espalhando para todo o
lado moitas de plantas, latas de lixo, cabines telefônicas e árvores,
e Harry continuava deitado, inquieto e infeliz, em sua cama de
penas. Passado algum tempo, Lalau se lembrou de que Harry
pagara pelo chocolate quente, mas derramou-o no travesseiro do
garoto quando o ônibus passou bruscamente de Anglesea para
Aberdeen. Um a um, bruxos e bruxas de roupa de dormir e
chinelos desceram dos andares superiores e desembarcaram do
ônibus.
Todos pareciam satisfeitos de descer.
Finalmente, Harry foi o único passageiro que restou.
- Muito bem, então, Neville - disse Lalau, batendo palmas -
, em que lugar de Londres você vai ficar?
-No Beco Diagonal - respondeu Harry.
- É pra já. Segura firme ai...
BANCUE.
E na mesma hora o Nôitibus estava correndo pela rua
Charing Cross como uma trovoada. Harry se sentou e ficou
observando os edifícios e bancos se espremerem para sair do
caminho do veículo. O céu estava um pouquinho mais claro. Ele
tentaria passar despercebido por umas duas horas, iria ao
Gringotes no instante em que o banco abrisse, depois iria embora -
para onde, ele não sabia muito bem.
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Ernesto fincou o pé no freio e o Nôitibus parou derrapando
diante de um bar pequeno e de aparência mal cuidada, o Caldeirão
Furado, nos fundos do qual havia a porta mágica para o Beco
Diagonal.
- Obrigado - disse Harry a Ernesto.
Ele desceu os degraus com um pulo e ajudou Lalau a
descer o malão e a gaiola de Edwiges para a calçada.
- Bem - disse Harry - Então, tchau!
Mas Lalau não estava prestando atenção. Ainda parado à
porta do ônibus, arregalava os olhos para a entrada sombria do
Caldeirão Furado.
- Ah., aí está você, Harry - exclamou uma voz.
Antes que Harry pudesse se virar, sentiu uma mão segurálo
pelo ombro. Ao mesmo tempo, Lalau gritou:
- Caramba! Ernesto corre aqui! Corre aqui!
Harry ergueu a cabeça para o dono da mão em seu ombro e
teve a sensação de que um. balde de gelo estava virando dentro do
seu estômago - desembarcara diante de Cornélio Fudge, o
Ministro da Magia em pessoa.
Lalau saltou para a calçada, ao lado deles.
- Que nome foi que o senhor chamou Neville, ministro? -
perguntou ele excitado.
Fudge, um homenzinho gorducho, vestindo uma longa capa
de risca de giz, parecia enregelado e exausto.
- Neville? - repetiu ele, franzindo a testa. - Este é Harry
Potter.
- Eu sabia! - gritou Lalau radiante. - Ernesto! Ernesto! É o
- Harry Potter! Estou olhando para a cicatriz dele!
- Bem - disse Fudge, irritado -, muito bem, fico satisfeito
que o Nôitibus tenha apanhado o Harry, mas etc e eu precisamos
entrar no Caldeirão Furado agora...
Fudge aumentou a pressão no ombro de Harry, e o menino
sentiu que estava sendo conduzido para o interior do bar. Um
vulto curvo segurando uma lanterna apareceu à porta atrás do
balcão. Era Tom, o dono encarquilhado e sem dentes do barhospedaria.
- O senhor o encontrou, ministro! - exclamou Tom. - Quer
alguma coisa para beber? Cerveja? Conhaque?
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- Talvez um bule de chá - disse Fudge, que continuava
segurando Harry.
Ouviram-se passos que arranhavam o chão e gente ofegante
atrás deles, e Lalau e Ernesto apareceram, carregando o malão de
Harry e a gaiola de Edwiges, olhando para os lados, excitados.
- Por que é que você não nos disse quem era, hem, Neville?
-disse Lalau sorrindo, radiante, para Harry, enquanto o cara de
coruja do Ernesto espiava muito interessado por cima do ombro do
ajudante.
- E uma sala reservada, por favor, Tom - pediu Fudge
enfaticamente.
- Tchau - disse Harry, infeliz, a Lalau e Ernesto, enquanto
Tom encaminhava Fudge, com um gesto, para um corredor que se
abria atrás do bar;
- Tchau, Neville! - disse Lalau se retirando.
Fudge conduziu Harry por um corredor estreito,
acompanhando a lanterna de Tom, até uma saleta. Tom estalou os
dedos, um fogo se materializou na lareira, e, fazendo uma
reverencia, ele se retirou do aposento.
- Sente-se, Harry - começou Fudge, indicando a poltrona
junto à lareira.
Harry obedeceu, sentindo arrepios percorrerem seus braços
apesar da lareira acesa. Fudge despiu a capa de risca de giz, atiroua
a um lado, depois suspendeu as calças do seu terno verde-garrafa
e se sentou em frente a Harry.
- Eu sou Cornélio Fudge, Harry. Ministro da Magia.
Harry já sabia disso, é claro; vira Fudge antes, mas como
estava usando a Capa da Invisibilidade do pai na ocasião, Fudge
não devia saber disso.
Tom, o dono do bar-hospedaria reapareceu, com um
avental por cima do camisão de dormir, trazendo uma bandeja
com chá e pãezinhos de minuto. Pousou a bandeja entre Fudge e
Harry e saiu, fechando a porta ao passar.
- Muito bem, Harry - disse Fudge, servindo o chá -, não me
importo de confessar que você nos deixou preocupadíssimos.
Fugir da casa dos seus tios desse jeito! Eu já tinha até começado a
pensar, mas você está são e salvo, e isto é o que importa.
Fudge passou manteiga em um pãozinho e empurrou o
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prato para Harry.
- Coma, Harry, sua cara é de quem não está se agüentando
em pé. Agora... Você vai ficar satisfeito em saber que cuidamos do
infeliz acidente com a Srta. Guida Dursley. Dois funcionários do
Departamento de Reversão de Feitiços Acidentais foram
mandados à rua dos Alfeneiros há algumas horas. A Srta. Dursley
foi esvaziada e sua memória alterada. Ela não lembra mais nada
do acidente, E isto é tudo, não houve danos.
Fudge sorriu para Harry por cima da borda da xícara de
chá, como faria um tio examinando um sobrinho querido. Harry,
que não conseguia acreditar no que estava ouvindo, abriu a boca
para falar, não conseguiu pensar em nada para dizer, e tornou a
fechá-la.
- Ah, você está preocupado com a reação dos seus tios?
Bom, não vou negar que eles estão muitíssimo aborrecidos, Harry,
mas se dispuseram a recebê-lo de volta no próximo verão, desde
que você passe em Hogwarts as férias do Natal e da Páscoa.
A língua de Harry se soltou.
- Eu sempre passo em Hogwarts as férias do Natal e da
Páscoa, e não quero nunca mais voltar à rua dos Alfeneiros.
- Vamos, vamos, tenho certeza de que você vai pensar
diferente depois que se acalmar - disse Fudge em tom preocupado.
-Afinal, eles são sua família, e tenho certeza de que... bem lá no
fundo vocês se querem bem.
Não ocorreu a Harry corrigir Fudge. Continuava esperando
ouvir o que ia lhe acontecer em seguida.
- Então agora só falta - disse Fudge, passando manteiga em
um segundo pãozinho - decidir onde é que você vai passar as duas
últimas semanas de férias. Sugiro que alugue um quarto aqui no
Caldeirão Furado e...
- Espera aí - falou Harry sem pensar; - E o meu castigo?
Fudge piscou os olhos.
- Castigo?
- Eu desobedeci à lei! - disse Harry. - O decreto que proíbe
o uso da magia aos menores!
- Ah, meu caro menino, nós não vamos castigá-lo por uma
coisinha à toa como essa! - exclamou Fudge, agitando o pãozinho
com impaciência. - Foi um acidente! Nós não mandamos ninguém
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para Azkaban por fazer a tia virar um. balão!
Mas isto não batia com os contatos que Harry tivera
anteriormente com o Ministério da Magia.
- No ano passado, recebi uma notificação oficial só porque
um elfo doméstico largou um pudim no chão da casa do meu tio! -
disse ele a Fudge, franzindo a testa. - O Ministério da Magia disse
que eu seria expulso de Hogwarts se acontecesse mais um caso de
magia por lá!
A não ser que os olhos de Harry o enganassem, Fudge de
repente parecia pouco à vontade.
- As circunstâncias mudam, Harry. Temos que levar em
consideração... no clima atual... Com certeza você não quer ser
expulso?
- Claro que não - disse Harry.
- Bom, então, por que toda essa agitação? - riu-se Fudge. -
Agora coma mais um pãozinho, enquanto vou ver se Tom tem um
quarto para você.
Fudge saiu da saleta e Harry ficou observando-o se retirar.
Havia alguma coisa muito estranha acontecendo ali. Por que
Fudge viera esperá-lo no Caldeirão Furado, se não ia castigá-lo
pelo que fizera? E agora, pensando bem, com certeza não era
normal um Ministro da Magia se envolver pessoalmente com
casos de magia praticada por menores!
Fudge voltou acompanhado de Tom, o dono do barhospedaria.
- O quarto onze está livre, Harry - anunciou Fudge. - Acho
que você vai ficar muito bem instalado nele. Mas tem uma coisa, e
estou certo de que vai compreender. Não quero você passeando
pela Londres dos trouxas, certo? Fique no Beco Diagonal. E tem
que voltar todos os dias antes do escurecer; Tenho certeza de que
vai compreender; Tom vai ficar de olho em você por mim.
- Tudo bem - disse Harry lentamente -, mas por quê...?
- Não queremos perdê-lo outra vez, não é mesmo? – disse
Fudge com uma risada calorosa, - Não, não.., e melhor sabermos
onde é que você anda, quero dizer.
Fudge pigarreou alto e apanhou a capa de risca de giz,
- Bom, vou andando, muito que "fazer sabe".
- Já teve alguma sorte com o Black? - perguntou Harry.
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Os dedos de Fudge escorregaram no fecho de prata da capa.
- Que foi que disse? Ah, você ouviu falar..., bem, não,
ainda não, mas é só uma questão de tempo. Os guardas de
Azkaban até hoje não falharam", e nunca os vi tão furiosos, Fudge
estremeceu ligeiramente.
- Então, vou dizendo até logo.
Ele estendeu a mão, e Harry, ao apertá-la, teve uma idéia
repentina.
- Ah..., ministro? Posso perguntar uma coisa?
- Com toda certeza - disse Fudge com um sorriso.
- Bom, em Hogwarts os alunos do terceiro ano podem
visitar Hogsmeade, mas os meus tios não assinaram o formulário
de autorização, O senhor acha que poderia?
Fudge pareceu constrangido.
- Ah - respondeu, - Não, não, sinto muito, Harry, mas não
sou seu pai nem seu guardião...
- Mas o senhor é o Ministro da Magia - disse Harry,
ansioso.
- Se o senhor me desse autorização...
- Não, sinto muito, Harry, mas regras são regras - disse
Fudge sem entusiasmo, - Talvez você possa visitar Hogsmeade no
ano que vem. De fato, acho melhor você nem ir...é..., bem, vou
andando, Aproveite a sua estada aqui, Harry.
E com um último sorriso e um aperto de mão, Fudge
deixou a saleta, Tom, então, adiantou-se sorridente para Harry.
- Se o senhor quiser me acompanhar, Sr. Potter. Já levei
suas coisas para cima...
Harry o seguiu por uma bela escada de madeira até uma
porta com uma placa de latão de número onze, que Tom
destrancou e abriu para ele.
Dentro havia uma cama muito confortável, uma mobília de
carvalho muito lustroso, uma lareira em que o fogo crepitava
alegremente e, encarrapitada no alto do armário...
- Edwiges! – Exclamou: Harry.
A coruja muito branca deu estalinhos com o bico e voou
para o braço de Harry.
- Coruja muito inteligente a sua - disse Tom rindo - Chegou
uns cinco minutos depois do senhor. Se precisar de alguma coisa,
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Sr. Potter, por favor, é só pedir.
Ele fez outra reverência e saiu.
Harry ficou sentado na cama durante muito tempo,
acariciando, distraído, as penas de Edwiges. O céu visto pela
janela foi mudando rapidamente de um azul escuro e aveludado
para um cinzento metálico e frio, depois, lentamente, para um rosa
salpicado de ouro Harry mal conseguia acreditar que abandonara a
rua dos Alfeneiros havia apenas algumas horas, que não fora
expulso e que, agora, tinha diante de si duas semanas inteiras sem
os Dursley.
- Foi uma noite muito estranha, Edwiges - bocejou ele.
E sem nem ao menos tirar os óculos, ele se largou em cima
do travesseiro e adormeceu.
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- CAPÍTULO QUATRO -
O Caldeirão Furado
Harry levou vários dias para se acostumar àquela estranha
liberdade nova. Nunca antes ele pudera se levantar quando
quisesse nem comer o que lhe desse vontade. Podia até ir aonde
desejasse, desde que não saÍsse do Beco Diagonal, e como essa
longa rua de pedras era repleta das lojas de magia mais fascinantes
do mundo, Harry não sentia desejo algum de romper a palavra
dada a Fudge e voltar ao mundo dos trouxas.
Todas as manhãs ele tomava o café no Caldeirão Furado,
onde gostava de observar os outros hóspedes. bruxas do interior,
franzinas e engraçadas, que vinham passar o dia fazendo compras;
bruxos de aspecto venerável discutindo o último artigo do
Transfiguração. Hoje; bruxos de ar amalucado; anões de voz
roufenha; e, uma vez, alguém, que tinha a aparência suspeita de
uma bruxa malvada, pedira um prato de fígado cru, o rosto semiescondido
por uma carapuça de lã.
Depois do café Harry saía para o pátio dos fundos, puxava
a varinha, batia no terceiro tijolo a contar da esquerda, acima do
latão de lixo, e se afastava enquanto se abria na parede o arco para
o Beco Diagonal.
O garoto passou os dias longos e ensolarados explorando as
lojas e comendo à sombra dos guarda-sóis de cores vivas à porta
dos cafés, em que os seus companheiros de refeição mostravam
uns aos outros as compras que tinham feito ("é um lunascópio,
meu amigo é o fim dessa história de mexer com tabelas lunares,
me entende?") ou então discutiam o caso de Sirius Black
("pessoalmente, não vou deixar nenhum dos meus filhos sair
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sozinho até que ele esteja outra vez em Azkaban"). Harry não
precisava mais fazer os deveres de casa debaixo das cobertas, à luz
de uma lanterna; agora podia se sentar à luz do sol, na calçada da
Sorveteria Florean Portescue, terminar suas redações e até contar
com a ajuda ocasional do próprio Florean, que, além de conhecer a
fundo as queimas de bruxas em fogueiras, ainda oferecia a Harry a
cada meia hora, sundaes de graça.
Depois de ter reabastecido a carteira com galeões de ouro,
sicles de prata e nuques de bronze retirados do seu cofre no
Gringotes, Harry precisava se controlar muito para não gastar tudo
de uma vez. Precisava se lembrar o tempo todo de que ainda lhe
faltavam cinco anos de escola e que se sentiria mal em pedir
dinheiro aos Dursley para comprar livros de bruxaria, e se segurou
para não comprar um belo conjunto de bexigas de ouro maciço
(um jogo de bruxos parecido com o de bolas de gude, em que as
bolas espirram um líquido fedorento na cara do outro jogador
quando ele perde um ponto). Harry se sentiu tentadíssimo,
também, por um modelo perfeito de uma galáxia em movimento,
dentro de um grande globo de vidro, e que teria significado que ele
jamais precisaria assistir a uma aula de astronomia na vida. Mas a
coisa que mais testou a força de vontade de Harry apareceu em sua
loja preferida, a Artigos de Qualidade para Quadribol, uma
semana depois do menino ter chegado ao Caldeirão Furado.
Curioso para saber a razão do ajuntamento diante da loja,
Harry foi entrando com jeitinho e se espremendo entre as bruxas e
bruxos até conseguir ver um tablado recentemente erguido, em
que haviam montado a vassoura mais deslumbrante que ele já vira
na vida.
- Acabou de ser lançada... um protótipo - comentava um
bruxo de queixo quadrado para o companheiro.
- E a vassoura mais rápida do mundo, não é, papai? -
perguntou a vozinha aguda de um menino mais novo do que
Harry, que se pendurava no braço do pai.
- O time internacional da Irlanda acabou de mandar um
pedido para sete desses vassourões! - informou o proprietário da
loja aos presentes. - E o time é o favorito para a Copa Mundial!
Uma bruxa corpulenta, na frente de Harry; se mexeu e o
menino pôde ler o cartaz ao lado da vassoura:
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FIREBOLT
Fabricada com tecnologia de ponta, a Firebolt possui
um cabo de freixo, superfino e aerodinâmico, acabamento
com resistência de diamante e número de registro entalhado
na madeira. As cerdas da cauda, em lascas de béntulas
selecionadas à mão, foram afiladas até atingirem a perfeição
aerodinâmica, dotando a Firebolt de equilíbrio insuperável e
precisão absoluta. A Firebolt atinge 10 km/h em dez
segundos e possui um freio encantado de irrefreável ação.
Cotação a pedido.
Cotação a pedido... Harry nem queria pensar quanto ouro a
Firebolt custaria. Jamais desejara tanto alguma coisa em toda a sua
vida - mas jamais perdera uma partida de quadribol com a sua
Nimbus 2000, e qual era a vantagem de esvaziar seu cofre no
Gringotes para comprar uma Firebolt, quando já possuía uma
excelente vassoura? Harry não pediu a cotação, mas voltou, quase
todos os dias depois disso, só para admirar a Firebolt.
Havia, no entanto, coisas que Harry precisava comprar. Ele
foi à Botica para reabastecer seu estoque de ingredientes para
poções e, como agora suas vestes escolares estavam vários
centímetros mais curtas nos braços e nas pernas, ele visitou a
Madame Malkin -Roupas para Todas as Ocasiões e comprou
novos uniformes. E, o mais importante, tinha que comprar os
novos livros para o ano letivo, que incluiriam duas novas matérias:
Trato das Criaturas Mágicas e Adivinhação.
Harry teve uma surpresa quando parou para olhar a vitrine
da livraria. Em vez da decoração habitual com livros de feitiçaria
gravados a ouro, do tamanho de lajotas, havia uma grande gaiola
de ferro com uns cem exemplares de O livro monstruoso dos
monstros. Páginas arrancadas voavam para todo o lado, enquanto
os livros se agrediam e se atracavam em furiosas lutas livres e
mordidas agressivas.
Harry puxou a lista de livros do bolso e consultou-a pela
primeira vez. O livro monstruoso dos monstros estava arrolado
como o livro-texto para a matéria Trato das Criaturas Mágicas.
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Agora ele compreendia por que Hagrid dissera que o livro
futuramente seria útil. Sentiu alívio; andara imaginando se o
amigo ia querer ajuda para cuidar de um novo bicho de estimação
apavorante.
Quando Harry entrou na Floreios e Borrões, o gerente veio
correndo ao seu encontro.
- Hogwarts? - perguntou o homem sem rodeios. - Veio
comprar os seus livros?
-Vim. Preciso...
Saia do caminho - disse o gerente empurrando Harry para o
lado com impaciência, Em seguida, puxou um par de luvas muito
grossas, apanhou um bengalão nodoso e rumou para a porta da
gaiola em que estavam os exemplares de O livro monstruoso dos
monstros.
- Espere aí - disse Harry depressa -, já tenho um desses.
-Já? - Uma expressão de imenso alívio espalhou-se pelo
rosto do gerente, - Graças a Deus. Já fui mordido cinco vezes esta
manhã".
Um barulho alto de papel rasgado cortou o ar; dois livros
monstruosos tinham agarrado um terceiro e começavam a destruilo.
- Parem com isso! Parem com isso! - exclamou o gerente,
enfiando a bengala pelas grades e separando os livros à força, -
Nunca mais vou ter essas coisas em estoque, nunca mais! Tem
sido uma loucura! Pensei que já tínhamos visto o pior quando
compramos duzentos exemplares de O livro invisível da
invisibilidade, custaram uma fortuna e nunca achamos os livros.
Bem, tem mais alguma coisa em que possa lhe servir?
- Tem - disse Harry, consultando a lista de livros -, preciso
de Esclarecendo o futuro, de Cassandra Vablatsk.
- Ah, vai começar a estudar Adivinhação? - perguntou o
gerente descalçando as luvas e conduzindo Harry ao fundo da loja,
onde havia um canto reservado para esse assunto, Em uma
mesinha estavam empilhados livros como Prevendo o imprevisível
proteja-se contra choques e Bolas rachadas: quando a sorte se
transforma em azar.
"Aqui está - disse o gerente, que subira em um escadote para
apanhar um livro grosso, encadernado de preto, - Esclarecendo o
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futuro. Um bom guia para todos os métodos básicos de
adivinhação do faturo, quiromancia, bolas de cristal, tripas de
aves".
Mas Harry não estava escutando, Seu olhar havia pousado
em outro livro, que fazia parte de um arranjo em outra mesinha:
presságios de morte; o que fazer quando se sabe que vai
acontecer o pior.
- Ah, eu não leria isso se fosse você - disse o gerente de
passagem, procurando ver o que Harry estava olhando, - Você vai
começar a ver presságios de morte por todo lado, Só isso já é
suficiente para matar a pessoa de medo.
Mas Harry continuou a encarar a capa do livro; tinha um cão
preto do tamanho de um urso, com olhos brilhantes, Que lhe pare
cia estranhamente familiar.
O gerente pôs nas mãos de Harry o livro Esclarecendo o
futuro.
Mais alguma coisa? - perguntou.
- Sim - respondeu Harry desviando o olhar dos olhos do cão
e consultando, meio atordoado, a lista. preciso de Transfiguração
para o Curso Médio e de O livro padrão de feitiços, 3ª série.
Harry saiu da Floreios e Borrões dez minutos depois, com os
livros debaixo do braço, e tomou o rumo do Caldeirão Furado,
sem reparar aonde ia, esbarrando em várias pessoas.
Subiu as escadas fazendo barulho, entrou em seu quarto e
despejou os livros em cima da cama. Alguém estivera ali limpando
o quarto; as janelas abertas deixavam entrar o sol. Harry ouviu os
ônibus passarem lá embaixo, na rua dos trouxas que ele não via, e
o som dos transeuntes invisíveis no Beco Diagonal. Viu de relance
o seu reflexo no espelho acima da pia.
- Não pode ter sido um presságio de morte - disse à sua
imagem em tom de desafio. - Eu estava entrando em pânico
quando vi aquela coisa na rua Magnólia... Provavelmente era
apenas um cão sem dono..
Ele ergueu a mão automaticamente e tentou achatar os
cabelos.
- Você está empenhado em uma batalha perdida, meu
querido - disse sua imagem com a voz rouca.
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À medida que os dias se passavam, Harry começou a
procurar por todo lugar aonde ia um sinal de Rony ou de
Hermione. Muitos alunos de Hogwarts vinham ao Beco Diagonal
agora, com a proximidade do ano letivo. Harry encontrou Simas
Finnigan e Dino Thomas, companheiros da Grifinória, na Artigos
de Qualidade para Quadribol, onde eles também haviam parado
para namorar a Firebolt; encontrou também o verdadeiro Neville
Longbottom, um menino de rosto redondo e muito desmemoriado,
à porta da Floreios ú Borrões. Harry não parou para conversar;
Neville parecia ter extraviado a lista de livros e estava levando um
carão da avó, uma senhora de aparência colossal. Harry desejou
que a senhora jamais descobrisse que ele fingira ser Neville
quando estava fugindo do Ministério da Magia.
Harry acordou no último dia de férias, com o pensamento de
que finalmente iria se encontrar com Rony e Hermione no dia
seguinte, no Expresso de Hogwarts Levantou-se, se vestiu e saiu
para dar uma última espiada na Firebolt, e estava pensando onde
iria almoçar, quando alguém gritou seu nome e ele se virou.
- Harry! HARRY!
E ali estavam eles, os dois, sentados na calçada da Sorveteria
Florean Fortescue - Rony parecendo incrivelmente sardento,
Hermione muito bronzeada, os dois acenando para ele
freneticamente.
- Finalmente! - exclamou Rony, rindo-se enquanto o amigo
se sentava. - Fomos ao Caldeirão Furado, mas disseram que você
tinha saído, fomos à Floreios e Borrões, à Madame Malkin e...
- Comprei rodo o meu material escolar na semana passada -
explicou Harry. - E como é que vocês sabiam que eu estava
hospedado no Caldeirão Furado?
- Papai - disse Rony com simplicidade.
O Sr. Weasley; que trabalhava no Ministério da Magia, é
claro que soubera da história toda que acontecera com a tia Guida.
- É verdade que você transformou a sua tia em um balão? -
perguntou Hermione num tom muito sério.
- Eu não tive intenção - respondeu Harry; enquanto Rony
rolava de rir.-Simplesmente... perdi o controle.
- Não tem a menor graça, Rony - disse Hermione
rispidamente, - Francamente, fico admirada que Harry não tenha
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sido expulso.
- Eu também - admitiu Harry. - E nem expulso, pensei que ia
ser preso. - E olhou para Rony. - Seu pai não sabe por que Fudge
não me castigou, sabe?
- Provavelmente porque era você, não é? - Rony sacudiu os
ombros ainda rindo. - O famoso Harry Potter e tudo o mais. Eu
nem gostaria de ver o que o Ministério faria comigo se eu
transformasse minha tia em balão. Mas não se esqueçam, eles
teriam que me desenterrar primeiro, porque mamãe já teria me
matado antes. Em todo o caso, pode perguntar ao papai hoje à
noite. Estamos hospedados no Caldeirão Furado, também! Assim
você pode ir para a estação de King's Cross conosco amanhã!
Hermione também está lá!
A garota confirmou com a cabeça, radiante.
- Mamãe e papai me deixaram lá hoje de manhã com todas as
minhas coisas de Hogwarts.
- Fantástico! - exclamou Harry feliz. - Então você já comprou
os livros e todo o resto?
- Olhe só para isso - disse Rony tirando uma caixa comprida
e fina de uma sacola e abrindo-a. -. Uma varinha nova em folha.
Trinta e cinco centímetros e meio, salgueiro, contendo um fio de
cauda de unicórnio. E compramos todos os nossos livros... – Ele
apontou para uma grande saca embaixo da cadeira. - E aqueles
livros monstruosos, hem? O balconista quase chorou quando
dissemos que queríamos dois.
- E isso tudo o que é, Mione? - perguntou Harry, apontando
não para uma, mas para três sacas estufadas na cadeira junto à
amiga.
- Bem, é que vou fazer mais matérias novas do que vocês,
não é? Comprei os livros de Aritmancia, de Trato das Criaturas
Mágicas, de Adivinhação, de Estudo das Runas Antigas, de
Estudo dos Trouxas...
- Para que é que você vai fazer Estudo dos Trouxas? -
perguntou Rony, revirando os olhos para Harry. - Você nasceu
trouxa! Sua mãe e seu pai são trouxas! Você já sabe tudo sobre
trouxas!
- Mas vai ser fascinante estudar os trouxas do ponto de vista
dos bruxos - disse Hermione muito séria.
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- Você está planejando comer ou dormir este ano, Mione? -
perguntou Harry; enquanto Rony dava risadinhas abafadas. A
garota não ligou para os dois.
- Ainda tenho dez galeões - disse ela examinando a bolsa. – É
meu aniversário em setembro, e mamãe e papai me deram um
dinheiro para eu comprar um presente de aniversário antecipado.
- Que tal um bom livro? - perguntou Rony inocentemente.
- Não, acho que não - disse Hermione controlando-se. - O
que eu quero mesmo é uma coruja. Quero dizer, Harry tem a
Edwiges e você tem o Errol...
- Não tenho, não - respondeu Rony. - Errol é uma coruja de
família. Meu mesmo só tenho o Perebas. - E tirou o rato de
estimação do bolso. - Quero mandar examinar ele - acrescentou,
pousando Perebas na mesa a que estavam sentados. - Acho que o
Egito não fez bem a ele.
Perebas estava mais magro do que de costume, e seus
bigodes pareciam decididamente caídos.
- Tem uma loja para criaturas mágicas ali - disse Harry, que
agora conhecia o Beco Diagonal como a palma da mão. - Você
podia ver se eles têm algum produto para o Perebas, e Mione
podia comprar a coruja.
Assim dizendo, eles pagaram os sorvetes e atravessaram a
rua para ir a Animais Mágicos.
Não havia muito espaço dentro da loja. Cada centímetro das
paredes estava escondido por gaiolas. Era malcheirosa e
barulhenta porque 65 ocupantes das gaiolas guinchavam,
gritavam, palravam, sibilavam. A bruxa ao balcão estava ocupada
ensinando a um bruxo como cuidar de um tritão com dois rabos,
por isso Harry, Rony e Hermione aguardaram, examinando as
gaiolas.
Havia dois enormes sapos roxos que engoliam, com um ruído
aquoso, um banquete de moscas-varejeiras mortas. Uma tartaruga
gigante, o casco incrustado de pedras preciosas, cintilava junto à
janela. Lesmas venenosas, cor de laranja, subiam lentamente pela
parede do seu aquário, e um coelho branco e gordo não parava de
se transformar em cartola de cetim e novamente em coelho, com
um grande estalo. Havia ainda gatos de todas as cores, uma gaiola
barulhenta de corvos, uma cesta de engraçadas bolas de pêlo
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creme que zuniam alto, em cima do balcão, um gaiolão de ratos
negros e luzidios que brincavam de dar saltos se apoiando nos
longos rabos lisos.
O bruxo do tritão de dois rabos saiu e Rony se aproximou do
balcão.
- É o meu rato - disse à bruxa. - Ele tem andado meio
indisposto desde que voltamos do Egito.
- Põe ele aqui no balcão - pediu a bruxa, tirando do bolso um
par de pesados óculos de armação preta.
Rony catou Perebas do bolso interno e depositou-o ao lado
da gaiola dos seus companheiros de espécie, que pararam os
saltitos e correram para as grades para ver melhor.
Como todo o resto que Rony possuía, Perebas, o rato, era de
segunda mão (pertencera ao irmão de Rony, Percy) e era um
pouco maltratado. Ao lado dos reluzentes ratos na gaiola, ele
parecia particularmente lastimável.
- Hum - fez a bruxa, levantando Perebas. - Que idade tem
esse rato?
- Não sei - respondeu Rony; - Ele é bem velho. Foi do meu
irmão.
- Que poderes ele tem? - perguntou a bruxa, examinando
Perebas atentamente.
- Não sei - A verdade é que Perebas jamais revelara o menor
vestígio de poderes interessantes. O olhar da bruxa se deslocou da
orelha esquerda e esfiapada de Perebas para a pata dianteira, que
tinha um dedinho a menos, e deu um muxoxo alto.
Este aqui já sofreu muito na vida - disse ela.
- Já estava assim quando Percy me deu - respondeu Rony se
defendendo.
- Não se pode esperar que um rato comum ou rato de jardim
como esse viva mais do que uns três anos - disse a bruxa. - Agora
se o senhor estiver procurando alguma coisa mais resistente, talvez
goste de um desses...
Ela indicou os ratos negros, que imediatamente recomeçaram
a saíram Rony resmungou:
- Exibidos.
- Bem, se o senhor não quiser outro, pode experimentar um
tônico para ratos - disse a bruxa, levando a mão embaixo do
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balcão e apanhando um frasquinho vermelho.
- Está bem. Quanto... UI!
Rony se encolheu quando uma coisa enorme e laranja saiu
voando do teto da gaiola mais alta e aterrissou na cabeça dele, e
em seguida avançou e bufou com violência para Perebas.
- NÃO BICHENTO, NÃO! - gritou a bruxa, mas Perebas
escapuliu entre as suas mãos como uma barra de sabão molhado,
aterrissou de pernas abertas no chão e disparou para a porta.
- Perebas! - berrou Rony, correndo atrás do rato; Harry
seguiu-o.
Os dois levaram quase dez minutos para recuperar Perebas,
que se refugiara embaixo de um latão de lixo à porta da Artigos de
Qualidade para Quadribol. Rony tornou a enfiar o rato trêmulo no
bolso e se endireitou, massageando os cabelos.
- Que foi aquilo?
- Ou um gato muito grande ou um tigre muito pequeno -disse
Harry.
-Aonde foi a Mione?
- Provavelmente comprando a coruja.
Eles refizeram o caminho pela rua apinhada de gente até a
Animais Mágicos. Quando iam chegando, viram Hermione sair,
mas ela não trazia coruja alguma. Seus braços envolviam com
firmeza um enorme gato laranja
- Você comprou aquele monstro? - perguntou Rony,
boquiaberto.
- Ele é lindo, não é? - disse Hermione radiante.
Era uma questão de opinião, pensou Harry; A pelagem do
gato era espessa e fofa, mas ele decididamente tinha pernas
arqueadas e uma cara de poucos amigos, estranhamente amassada,
como se tivesse batido de frente numa parede de tijolos. Agora
que Perebas não estava à vista, porém, o gato ronronava satisfeito
nos braços de Hermione.
- Mione, essa coisa quase me escalpelou! - reclamou Rony
- Foi sem querer, não foi, Bichento? - perguntou Hermione.
- E o que vai ser do Perebas? - disse o menino apontando
para o calombo no bolso do peito. - Ele precisa de descanso e
sossego! Como é que vai ter isso com esse bicho por perto?
- Isto me lembra que você esqueceu o seu tônico para ratos -
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disse Hermione, batendo o frasco vermelho na mão de Rony. - E
pare de se preocupas Bichento vai dormir no meu dormitório e
Perebas no seu, qual é o problema? Coitado do. Bichento, a bruxa
disse que ele está na loja há séculos; ninguém quis o gato.
- Por que será? - perguntou Rony com sarcasmo, a caminho
do Caldeirão Furado.
Encontraram o Sr. Weasley sentado no bar, lendo o Profeta
- Harry! - exclamou ele, erguendo a cabeça e sorrindo. -
Como vai?
- Bem, obrigado - respondeu o garoto enquanto ele, Rony e
Hermione se reuniam ao Sr. Weasley com todas as compras que
tinham feito.
O Sr. Weasley pôs o jornal de lado e Harry viu a foto de
Sirius Black, agora muito sua conhecida, encarando-o.
- Então eles ainda não pegaram o homem? - perguntou.
- Não - respondeu o Sr. Weasley, parecendo muito sério. - O
Ministério nos tirou do nosso trabalho normal para tentar
encontrá-lo, mas até agora não tivemos sorte.
- Nós receberíamos uma recompensa se o apanhássemos?
perguntou Rony; - Seria bom ganhar mais um dinheirinho...
- Não seja ridículo, Rony - disse o Sr. Weasley; que a um
olhar mais atento parecia muito tenso. - Black não vai ser
apanhado por um bruxo de treze anos. Os guardas de Azkaban é
que vão levá-lo de volta, escreva o que digo.
Naquele momento a Sra. Weasley entrou no bar, carregada
de sacas e acompanhada pelos gêmeos, Fred e Jorge, que iam
começar o quinto ano em Hogwarts; Percy, o recém-eleito
monitor-chefe; e Gina, a caçula e única menina da família.
Gina, que sempre teve um xodó por Harry, pareceu ainda
mais constrangida do que de costume, talvez porque o menino lhe
salvara a vida no ano anterior, em Hogwarts. Ela ficou muito
corada e murmurou um "olá", sem olhar para Harry. Percy; porém,
estendeu a mão solenemente como se ele e o colega jamais
tivessem se encontrado e disse:
-Harry; Que prazer em vê-lo.
- Olá, Percy - respondeu Harry, tentando conter o riso.
- Você está bem, espero? - continuou Percy pomposo,
durante o aperto de mãos. Parecia até que estava sendo
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apresentado ao prefeito.
- Muito bem, obrigado...
- Harry! - exclamou Fred, empurrando Percy com os
cotovelos e fazendo uma grande reverência. - E simplesmente
esplêndido encontrá-lo, meu caro...- Maravilhoso - disse Jorge,
empurrando Fred para o lado e, por sua vez, apertando a mão de
Harry. - Absolutamente maravilhoso.
- Agora chega - interrompeu-os a Sra. Weasley.
- Mãe! - exclamou Fred como se tivesse acabado de avista-la,
apertando-lhe a mão também: - É realmente formidável encontrála...
- Eu já disse que chega - disse a Sra. Weasley, descansando
as compras em uma cadeira vazia, - Olá, Harry querido. Suponho
que tenha sabido das nossas eletrizantes novidades? - Ela apontou
para o distintivo de prata novinho em folha no peito de Percy. – É
o segundo monitor-chefe na família! - exclamou, inchada de
orgulho.
- E o último - resmungou Fred para si mesmo.
- Não duvido nada - disse a Sra Weasley franzindo a testa de
repente. - Estou reparando que até hoje vocês dois não foram
promovidos a monitores.
- E para que é que nós queremos ser monitores? - perguntou
Jorge, parecendo se indignar até com a própria idéia. - Isso tiraria
toda a graça da vida.
Gina abafou o riso.
- Vocês deviam dar um exemplo melhor para sua irmã! ¾
ralhou a Sra. Weasley.
- Gina tem outros irmãos para lhe dar exemplo, mãe - disse
Percy com altivez. - Vou mudar de roupa para o jantar.
Ele desapareceu e Jorge deixou escapar um suspiro.
- Bem que a gente retirou trancar ele numa pirâmide - disse a
Harry; - Mas a mamãe flagrou a gente no ato.
O jantar àquela noite foi muito agradável. Tom, o dono do
bar-hospedaria, juntou três mesas na sala, e os sete Weasley, Harry
e Hermione traçaram cinco pratos maravilhosos.
- Como vamos para a estação de King's Cross amanhã, papai?
- perguntou Fred quando enfiavam a colher em um suntuoso
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pudim de chocolate.
- O Ministério vai mandar dois carros - disse o Sr. Weasley.
Todos ergueram os olhos para ele.
- Por quê? - perguntou Percy, curioso.
- Por sua causa, Percy - disse Jorge, sério. - E vão botar
bandeirinhas em cima dos capôs, com as letras TC...significando
Tremendo Chefão - completou Fred.
Todos, à exceção de Percy e da Sra. Weasley deram
risadinhas baixando o rosto para os pudins.
- Por que é que o Ministério vai mandar carros, pai? - Percy
repetiu a pergunta, num tom muito digno.
- Bem, como não temos mais nenhum - disse o Sr. Weasley -,
como trabalho lá, eles vão me fazer esse favor..
Sua voz era displicente, mas Harry não pôde deixar de notar
que as orelhas do Sr. Weasley tinham ficado vermelhas, iguais às
de Rony quando o pressionavam.
- E ainda bem - disse a Sra. Weasley, animada. - Vocês
fazem idéia de quanta bagagem têm juntos? Que bela figura vocês
fariam no metrô dos trouxas... Todo mundo já está de mala pronta
ou não?
- Rony ainda não guardou todas as coisas novas no malão -
disse Percy, com voz de sofredor - Largou tudo em cima da minha
cama.
- É melhor você subir e guardar tudo direito, Rony, porque
não vamos ter tempo amanhã cedo - disse a Sra. Weasley alto,
para o filho sentado mais longe. Rony amarrou a cara para Percy;
Depois do jantar todos se sentiram satisfeitos e cheios de
sono.
Um a um foram subindo para os quartos para verificar as
coisas para o dia seguinte, Rony e Percy estavam hospedados no
quarto ao lado de Harry. Ele acabara de fechar e trancar seu malão
quando ouviu vozes zangadas através da parede, e foi ver o que
estava acontecendo,
A porta do quarto doze estava entreaberta e Percy gritava;
- Estava aqui, em cima da mesa-de-cabeceira, eu o tirei para
polir...
- Eu não peguei, está bem? - berrava Rony em resposta.
- Que está acontecendo? - perguntou Harry.
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- Meu distintivo de monitor-chefe sumiu - respondeu Percy,
virando-se irritado para Harry.
- E o tônico para ratos de Perebas também - falou Rony,
jogando as coisas para fora do malão para procurá-lo. - Acho que
deixei o frasco no bar...
- Você não vai a lugar nenhum até achar o meu distintivo -
berrou Percy.
- Eu vou buscar o remédio do Perebas. Já fiz a mala - disse
Harry a Rony; e desceu.
Harry estava no corredor a meio caminho do bar, agora mal
iluminado, quando ouviu outras duas vozes zangadas que vinham
da sala. Um segundo depois, ele as reconheceu como sendo as do
Sr. e da Sra. Weasley, Hesitou, sem querer que eles soubessem
que os ouvira discutindo, mas a menção do seu nome o fez parar,
e, num segundo momento, se aproximar da porta da sala, não faz
sentido não contar a ele - o Sr. Weasley dizia, veemente. - O
garoto tem o direito de saber. Tentei dizer isso a Fudge, mas ele
insiste em tratar Harry como criança. O menino já tem treze anos
e...
- Arthur, a verdade iria aterrorizar Harry! - disse a
Sra.Weasley com a voz esganiçada. - Você quer mesmo mandar
Harry de volta à escola com essa ameaça pairando sobre a cabeça
dele? Pelo amor de Deus, ele está feliz sem saber de nada!
- Não quero fazê-lo infeliz, quero deixá-lo de sobreaviso! -
retrucou o Sr. Weasley, - Você sabe como são o Harry e Rony
andando por aí sozinhos, já foram parar na Floresta Proibida duas
vezes! Mas Harry não pode fazer isto este ano! Quando penso o
que poderia ter acontecido a ele na noite em que fugiu de casa! Se
o Nôitibus não o tivesse apanhado, aposto que ele estaria morto
antes do Ministério encontrá-lo.
- Mas ele não está morto, está são e salvo, então qual é o
sentido..Molly, dizem que Sirius Black é doido, e talvez seja, mas
ele foi suficientemente esperto para fugir de Azkaban, e isto é uma
coisa que todos supõem que seja impossível. Já faz três semanas e
nem sinal dele, e não dou a mínima para o que Fudge vive
declarando ao Profeta Diário, estamos tão próximos de apanhar
Black quanto estamos de inventar uma varinha que funcione
sozinha. A única coisa de que temos certeza é que Black está atrás
58
de...
- Mas Harry está perfeitamente seguro em Hogwarts.
- Achávamos que Azkaban era perfeitamente segura. Se
Black foi capaz de sair de Azkaban, então é capaz de entrar em
Hogwarts.
- Mas ninguém tem realmente certeza de que Black esteja
atrás de Harry...
Ouviu, um baque seco na mesa e Harry não teve dúvida de
que o Sr. Weasley tinha dado um soco na mesa.
- Molly, quantas vezes preciso lhe dizer a mesma coisa? A
imprensa não noticiou porque Fudge não queria que houvesse
escândalo, mas Fudge foi até Azkaban na noite em que Black
fugiu. Os guardas lhe disseram que Black andava falando durante
o sono havia algum tempo. Sempre as mesmas palavras: "Ele está
em Hogwarts... ele está em Hogwarts". Black é desequilibrado,
Molly, e quer ver Harry morto. Se você quer saber ele acha que se
matar Harry vai trazer Você-Sabe-Quem de volta ao poder Black
perdeu tudo naquela noite em que Harry deteve Você-Sabe-Quem,
e passou doze anos sozinho em Azkaban pensando nisso...
Fez-se silêncio. Harry chegou mais perto da porta,
desesperado para ouvir mais.
- Bem, Arthur, você deve fazer o que acha que é certo. Mas
está se esquecendo de Alvo Dumbledore. Acho que nada poderá
fazer mal a Harry em Hogwarts enquanto Dumbledore for o
diretor. Suponho que ele esteja sabendo de tudo isso.
- Claro que sabe. Tivemos que lhe perguntar se se importava
que os guardas de Azkaban tomassem posição junto às entradas da
escola. Ele não ficou muito satisfeito, mas concordou.
- Não ficou satisfeito? Por que não ficaria satisfeito, se os
guardas estão lá para agarrar o Black?
- Dumbledore não gosta dos guardas de Azkaban - disse o Sr.
Weasley deprimido. - Nem eu, se você quer saber, mas quando se
está lidando com um bruxo como Black, por vezes a gente tem que
se aliar com gente que se prefere evitar.
- Se eles salvarem Harry... então nunca mais direi uma
palavra contra eles - disse o Sr. Weasley cansado. - Já está tarde,
Molly, é melhor subirmos...
Harry ouviu as cadeiras serem mexidas. O mais
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silenciosamente que pôde, correu pelo corredor até o bar e
desapareceu de vista.
A porta da sala se abriu, e alguns segundos depois o ruído de
passos lhe informou que o Sr. e a Sra. Weasley estavam subindo
as escadas.
O frasco de tônico para ratos estava debaixo da mesa à qual o
grupo se sentara mais cedo. Harry esperou até a porta do quarto do
Sr. e da Sra. Weasley se fechar, depois tornou a subir levando o
vidro.
Encontrou Fred e Jorge agachados nas sombras do patamar,
rindo a mais não poder de ouvir Percy desmontar o quarto que
ocupava com Rony; à procura do distintivo.
- Está conosco - sussurrou Fred a Harry; - Andamos dando
uma melhorada nele.
No distintivo agora se lia Tremendo Chefão.
Harry forçou uma risada, foi entregar a Rony o frasco de
tônico para ratos, depois se trancou em seu quatro e foi se deitar.
Então Sirius Black estava atrás dele. Isto explicava tudo.
Fudge ter sido indulgente porque ficara aliviadíssimo de encontrálo
vivo. Fizera Harry prometer não sair do Beco Diagonal onde
havia um grande número de bruxos para vigiá-lo. E ia mandar dois
carros do Ministério para levá-los à estação no dia seguinte, de
modo que os Weasley pudessem cuidar de Harry até ele embarcar
no trem.
Harry ficou deitado ouvindo a gritaria abafada no quarto
vizinho e imaginando por que não se sentia mais apavorado. Sirius
Black matara treze pessoas com uma maldição; o Sr. e a Sra.
Weasley obviamente pensavam que Harry entraria em pânico se
soubesse da verdade. Mas, por acaso, Harry concordava
inteiramente com o Sr. Weasley que o lugar mais seguro da terra
era aquele em que Alvo Dumbledore acontecesse estar. As pessoas
não diziam sempre que Dumbledore era a única pessoa de quem
Lord Voldemort já tivera medo. Com certeza Black, sendo o braço
direito de Voldemort não teria também igual medo do diretor?
E agora havia os guardas de Azkaban de quem todos não
paravam de falar. Eles pareciam deixar as pessoas paralisadas de
pavor e, se estavam de prontidão a toda volta da escola, as chances
de Black entrar lá pareciam muito remotas.
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Não, considerando tudo, a coisa que mais incomodava Harry
era o faro de que suas chances de visitar Hogsmeade agora eram
zero.
Ninguém iria querer que Harry deixasse a segurança do
castelo até Black ser apanhado; aliás, Harry suspeitava que todos
os seus movimentos seriam atentamente vigiados até que o perigo
passasse.
Olhou zangado para o teto escuro. Será que achavam que ele
não sabia se cuidar? Já escapara de Lord Voldemort três vezes;
não era um completo inútil...
Sem que ele quisesse, a imagem do animal nas sombras da
rua Magnólia perpassou sua mente. Que é que se faz quando se
sabe que o pior está por vir..
- Eu não vou ser morto - disse Harry em voz alta.
- E assim que se fala, querido - disse seu espelho, cheio de
sono.
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- CAPÍTULO CINCO -
O dementador
No dia seguinte Tom acordou Harry com o seu habitual
sorriso banguela e uma xícara de chá. O garoto se vestiu, e tentava
convencer uma mal disposta Edwiges a entrar na gaiola quando
Rony irrompeu no quarto, vestindo um suéter pela cabeça e
parecendo irritado.
Quanto mais cedo embarcarmos no trem melhor disse. -
Pelo menos posso fugir do Percy em Hogwarts. Agora ele está me
acusando de pingar chá na foto da Penelope Clearwaten. Sabe -
disse Rony com uma careta -, aquela namoradinha dele. Ela
escondeu a cara na moldura porque ficou com o nariz todo
borrado...
- Tenho uma coisa para lhe dizer - começou Harry; mas
foram interrompidos por Fred e Jorge, que meteram a cara no
quarto para cumprimentar Rony por ter enfurecido Percy
novamente.
Eles desceram para tomar café, e encontraram o Sr.
Weasley lendo a primeira página do Profeta Diário com a testa
franzida e a Sra. Weasley descrevendo para Hermione e Gina a
poção de amor que preparara quando era moça. Os três não
paravam de rir.
- Que é que você ia me dizer? - perguntou Rony a Harry
quando se sentaram.
- Depois - murmurou Harry na hora em que Percy irrompeu
pela sala.
Harry não teve mais oportunidade de falar com Rony nem
com Hermione no caos da partida; ficaram demasiado ocupados,
62
descendo as malas pela estreita escada do Caldeirão Furado e
empilhando-as perto da porta, com Edwiges e Hermes, a coruja de
Percy, encarapitadas no alto das gaiolas. Uma cestinha de vime
fora deixada ao lado da pilha de malas, de onde alguma coisa
bufava ruidosamente.
- Tudo bem, Bichento - tranqüilizou-o Hermione pelas
frestas do vime. - Vou soltar você no trem.
- Não vai, não - retorquiu Rony. - que vai ser do coitado do
Perebas, hem?
O menino apontou para o próprio peito, onde um grande
calombo indicava que Perebas estava enroscado no bolso interno
da veste.
O Sr. Weasley, que estivera à porta aguardando os carros
do Ministério, meteu a cabeça na entrada do Caldeirão.
- Eles chegaram - anunciou. – Harry – vamos.
O Sr. Weasley cruzou atrás de Harry o trechinho de calçada
entre a hospedaria e o primeiro dos dois carros verde-escuros e
antiquados, cada um dirigido por um bruxo de aparência furtiva,
vestido de veludo verde-vivo.
- Para dentro, Harry - disse o Sr. Weasley, verificando um
lado e outro da rua movimentada.
Harry entrou no banco traseiro do carro e se reuniram a elé
Hermione, Rony e, para desgosto de Rony, Percy.
A viagem até King's Cross foi muito tranqüila se
comparada a de Harry no Nôitibus Andante. Os carros do
Ministério da Magia pareciam quase comuns, embora Harry
reparasse que eram capazes de deslizar por espaços apertados que
o novo carro da companhia do tio Válter certamente não teria
podido. O grupo chegou à estação de King's Cross com vinte
minutos de antecedência; os motoristas do Ministério apanharam
carrinhos, descarregaram a bagagem, cumprimentaram o Sr.
Weasley, levando a mão ao chapéu, e partiram, conseguindo, sabese
lá como, tomar a dianteira de uma fila de carros parados no
sinal luminoso.
O Sr. Weasley manteve-se colado no cotovelo de Harry
todo o percurso até a estação.
- Certo então - disse ele olhando para todos os lados.-
Vamos fazer isso aos pares, porque somos muitos. Eu passo
63
primeiro com Harry.
O Sr. Weasley dirigiu-se à barreira entre as plataformas
nove e dez, empurrando o carrinho de malas e aparentemente
muito interessado no Interurbano 125 que acabara de parar na
plataforma nove. Com um olhar expressivo para Harry ele se
encostou displicentemente na barreira. O garoto imitou-o.
Num segundo, os dois atravessaram de lado a sólida parede
de metal e saíram na plataforma nove e meia e, quando ergueram a
cabeça, viram o Expresso de Hogwarts, um trem vermelho a
vapor, que soltava baforadas de fumaça na plataforma apinhada de
bruxas e bruxos que foram levar os filhos ao embarque.
Percy e Gina apareceram de repente atrás de Harry.
Ofegavam e pelo jeito tinham corrido para atravessar a barreira.
- Ah, olha lá a Penelope! - falou Percy; alisando os cabelos
e corando de novo. O olhar de Gina surpreendeu o de Harry e os
dois se viraram para esconder o riso, enquanto Percy ia ao
encontro da menina de cabelos longos e cacheados, com o peito
estufado para que ela não deixasse de reparar no seu distintivo
reluzente.
Depois que os outros Weasley e Hermione se reuniram a
eles, Harry e o Sr. Weasley saíram andando até os últimos carros
do trem, passando por cabines cheias, até uma que lhes pareceu
bem vazia. Embarcaram as malas na cabine, guardaram Edwiges e
Bichento no bagageiro, depois tornaram a sair para que todos
pudessem se despedir do Sr. e da Sra. Weasley.
A Sra. Weasley beijou os filhos, depois Hermione e, por
fim, Harry. O menino ficou encabulado, mas gostou bastante
quando ela lhe deu mais um abraço.
- Você vai se cuidar, não vai, Harry? - recomendou a
senhora se endireitando, com um brilho estranho nos olhos.
Depois, abriu uma enorme bolsa e disse: - Fiz sanduíches para
todos... Tome aqui, Rony... não, não são de carne enlatada... Fred?
Onde se meteu o Fred? Tome aqui, querido...
- Harry - disse o Sr. Weasley discretamente -, venha até
aqui um instante.
Indicou com a cabeça uma coluna, e Harry acompanhou-o
até detrás dela, deixando os outros amontoados em volta da Sra.
Weasley.
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- Há uma coisa que preciso dizer antes de você embarcar. -
começou o Sr. Weasley com a voz tensa.- Tudo bem, Sr. Weasley;
Eu já sei.
- Você sabe? Como poderia saber?
- Eu... ah... ouvi o senhor e a Sra. Weasley conversando
ontem à noite. Não pude deixar de ouvir - Harry acrescentou
rapidamente. - Me desculpe...
- Não era assim que eu queria que você tivesse sabido -
disse o Sr. Weasley parecendo aflito.
- Não... sinceramente, tudo bem. Assim o senhor não faltou
com a palavra que deu ao Fudge e eu sei o que está acontecendo.
- Harry você deve estar apavorado...
- Não estou - disse Harry honestamente. - Verdade -
acrescentou, porque o Sr. Weasley fazia cara de descrença. - Não
estou tentando bancar o herói, mas, sério, o Sirius Black não pode
ser pior do que o Voldemort pode?
O Sr. Weasley se perturbou ao som daquele nome, mas
conseguiu disfarçar.
- Harry, eu sabia que você tinha mais fibra do que Fudge
parece imaginar, e é óbvio que fico feliz em constatar que você
não se sente apavorado, mas...
- Arthur! - chamou a Sra. Weasley, que agora tocava os
garotos para embarcar no trem. - Arthur, que é que você está
fazendo? O trem já vai sair!
- Ele já está indo, Molly! - respondeu o Sr. Weasley, mas
voltou sua atenção para Harry e continuou a falar em tom mais
baixo e mais apressado. - Ouça, eu quero que você me dê sua
palavra...
- ... de que serei um bom menino e não sairei do castelo? -
disse Harry com tristeza.
- Não é bem isso - disse o Sr. Weasley, que parecia mais
sério do que Harry jamais o vira. - Harry, jure que você não vai
sair procurando o Black.
Harry arregalou os olhos.
- Quê?
Ouviu-se um apito forte. Guardas caminhavam ao lado do
trem, batendo as portas para fechá-las.
- Prometa, Harry - disse o Sr. Weasley; falando ainda mais
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depressa -, que aconteça o que acontecer.
- Por que eu iria sair procurando alguém que eu sei que
quer me matar? - perguntou Harry sem entender.
- Prometa que ouça o que ouvir...
- Arthur, vamos rápido! - chamou a Sra. Weasley.
O vapor saía da chaminé da locomotiva em gordas nuvens;
o trem começara a se mexer Harry correu para a porta da cabine e
Rony abriu-a e se afastou para o amigo embarcar. Os dois se
debruçaram na janela e acenaram para o Sr. e a Sra. Weasley até o
trem fazer uma curva e o casal desaparecer de vista.
- Preciso falar com vocês em particular - murmurou Harry
para Rony e Hermione quando o trem ganhou velocidade.
- Vai saindo, Gina - disse Rony.
- Ah, quanta gentileza - respondeu a garota aborrecida, mas
se afastando sem pressa.
Harry; Rony e Hermione saíram pelo corredor à procura de
uma cabine vazia, mas todas estavam cheias exceto uma bem no
finalzinho do trem.
Esta tinha apenas um ocupante, um homem que estava
ferrado no sono ao lado da janela. Os garotos pararam à porta. O
Expresso de Hogwarts era em geral reservado aos estudantes e, até
então, eles nunca tinham visto um adulto a bordo, exceto a bruxa
que passava com a carrocinha de comida.
O estranho usava um conjunto de vestes de bruxo
extremamente surradas e cerzidas em vários lugares. Parecia
doente e cansado. Embora fosse jovem, seus cabelos castanhoclaros
estavam salpicados de fios brancos.
- Quem vocês acham que ele é? - sibilou Rony quando se
sentaram e fecharam a porta, ocupando os assentos mais afastados
da janela.
- O Prof. R. J. Lupin - cochichou Hermione na mesma hora.
- Como é que você sabe?
- Está na maleta - respondeu a menina, apontando para o
bagageiro acima da cabeça do homem, onde havia uma maleta
gasta e amarrada com vários fios de barbante caprichosamente
trançados. O nome Prof. R..J. Lupin estava estampado a um canto
em letras descascadas.
- Que será que ele ensina? - perguntou Rony amarrando a
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cara para o perfil pálido do.homem.
- É óbvio - sussurrou Hermione. - Só existe uma vaga, não
é? Defesa contra as Artes das Trevas.
Harry, Rony e Hermione já tinham tido dois Professores
nessa matéria, e ambos só duraram um ano letivo. Corriam boatos
de que o cargo estava enfeitiçado.
- Bem, espero que ele esteja à altura - disse Rony em tom
de dúvida. - Dá a impressão de que um bom feitiço acabaria com
ele de vez, não acham? Em todo o caso... - Rony virou-se para
Harry - Que é que você ia nos dizer?
Harry contou toda a conversa entre o Sr. e a Sra. Weasley e
o alerta que aquele senhor acabara de lhe dar. Quando terminou,
Rony olhava abobado e Hermione cobrira a boca com as mãos.
Finalmente a menina baixou as mãos e disse:
- Sirius Black fugiu para vir atrás de você. Ah, Harry... você
vai ter que tomar muito, mas muito cuidado. Não vai sair por aí
procurando encrenca, Harry...
- Eu não saio por ai procurando encrenca - respondeu
Harry, irritado. - Em geral as encrencas é que vêm ao meu
encontro.
- Harry teria que ser um bocado obtuso para sair
procurando um biruta que quer matá-lo, não acha? - falou Rony
com a voz trêmula.
Eles estavam reagindo às notícias pior do que Harry
esperara. Tanto Rony quanto Hermione pareciam ter muito mais
medo de Black do que ele próprio.
- Ninguém sabe como foi que o homem fugiu de Azkaban -
disse Rony embaraçado. - Ninguém jamais tinha feito isso antes. E
ainda por cima, ele era um prisioneiro de segurança máxima.
- Mas vão pegá-lo, não vão? - perguntou Hermione muito
séria. - Quero dizer, todos os trouxas estão procurando Black
também...
- Que barulho foi esse? - perguntou Rony de repente.
Uma espécie de apitinho fraco vinha de algum lugar. Os
garotos procuraram por toda a cabine.
- Está vindo do seu malão, Harry - disse Rony se
levantando e esticando os braços para o bagageiro. Pouco depois
retirava o bisbilhoscópio de bolso, que fora guardado entre as
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vestes de Harry. O objeto girava muito rápido na palma da mão de
Rony e emitia um brilho intenso.
- Isso é um bisbilhoscópio? - perguntou Hermione,
interessada, levantando-se para ver melhor.
- E... e veja bem, é dos baratinhos - disse Rony. - Endoidou
quando o amarrei na perna de Errol para mandar para Harry.
- Você estava fazendo alguma coisa suspeita na hora? -
perguntou Hermione astutamente.
- Não! Bem... eu não devia estar usando o Errol. Você sabe,
ele não pode realmente fazer viagens longas... mas como é que eu
ia mandar o presente do Harry?
- Ponha-o de volta no malão - aconselhou Harry enquanto o
bisbilhoscópio continuava a apitar baixinho -, senão vamos
acordar o homem.
O menino indicou o Prof. Lupin com a cabeça. Rony enfiou
o bisbilhoscópio dentro de um par de meias velhas do tio Válter
particularmente horrendas, o que abafou o som, depois fechou a
tampa do malão.
- Poderíamos mandar verificar esse bisbilhoscópio em
Hogsmeade - disse Rony, sentando-se outra vez. - Vendem essas
coisas na Dervixes e Bangues, instrumentos mágicos e artigos
sortidos. Foi o que Fred e Jorge me contaram.
- Você conhece muita coisa de Hogsmeade? - perguntou
Hermione interessada. - Li que é o único povoado inteiramente
bruxo da Grã-Bretanha...
- E, acho que é - disse Rony meio sem pensar -, mas não é
por isso que quero ir lá. Só quero conhecer a Dedosdemel!
- E o que é a Dedosdemel? - perguntou Hermione.
- É uma loja de doces - disse Rony, com uma expressão
sonhadora assomando em seu rosto -, que tem de tudo... Diabinhos
de Pimenta... que fazem a boca fumegar.. e enormes Chocobolas
recheadas de musse de morango e creme cozido, e Canetas de
açúcar realmente ótimas, que a gente pode chupar em classe e
fazer de conta que está pensando no que se vai escrever..
- Mas Hogsmeade é um lugar muito interessante, não é? -
insistiu Hermione, pressurosa. O livro Sítios históricos da
bruxaria diz que a estalagem foi o quartel-general da Revolta dos
Duendes de 1612, e diz que a Casa dos Gritos é o prédio mais mal68
assombrado da Grã-Bretanha... e bolas maciças de sorvete de
frutas que fazem a gente levitar uns centímetros acima do chão
enquanto está comendo - continuou Rony; que decididamente não
estava ouvindo uma palavra do que Hermione dizia.
A garota virou-se para Harry.
- Não vai ser ótimo sair um pouco da escola e explorar
Hogsmeade?
- Imagino que sim - respondeu Harry deprimido. - Você vai
ter que me contar quando descobrir.
- Como assim? - perguntou Rony.
- Não posso ir Os Dursley não assinaram o meu formulário
de autorização e o Fudge também não quis assinar.
Rony fez uma cara de horror
- Você não tem autorização para ir?Mas... nem pensar...
McGonagall ou alguém vai ter que lhe dar essa autorização...Á
Harry deu uma risada forçada. A Profa. McGonagall,
diretora da Grifinória, era muito rigorosa.
- ou podemos apelar para o Fred e o Jorge, eles conhecem
todas as passagens secretas para sair do castelo...
- Rony! - ralhou Hermione com. severidade. - Acho que o
Harry não devia sair escondido da escola com o Black solto por
aí...
- E, imagino que é o que McGonagall vai dizer quando eu
pedir autorização - disse Harry amargurado.
- Mas se nós estivermos com ele - disse Rony, animado, a
Hermione - Black não ousaria...
- Ah, Rony, não diz besteira - retrucou Hermione. - Black
já matou um monte de gente bem no meio de uma rua
movimentada. Você acha mesmo que ele vai se preocupar se vai
ou não atacar Harry só porque nós estamos presentes?
Hermione mexia com as alças da cesta de Bichento
enquanto falava.
- Não solta essa coisa! - exclamou Rony, mas tarde demais;
Bichento saltou com leveza da cesta, espreguiçou-se, bocejou e
pulou nos joelhos de Rony; o calombo no peito do menino
estremeceu e ele empurrou Bichento com raiva.
- Dê o fora daqui!
- Rony, não! - disse Hermione, zangada.
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O menino ia responder quando o Prof. Lupin se mexeu.
Eles o miraram com apreensão, mas ele simplesmente virou a
cabeça para o outro lado, a boca ligeiramente entreaberta, e
continuou a dormir.
O Expresso de Hogwarts rodava numa velocidade
constante para o norte e o cenário à janela ia se tornando cada vez
mais bravio e escuro enquanto as nuvens, no alto, se avolumavam.
Estudantes passavam pela porta da cabine correndo para cima e
para baixo. Bichento agora se acomodara num assento vazio, a
cara amassada virada para Rony, os olhos amarelos cravados no
bolso do peito dele.
Á uma hora, a bruxa gorducha com o carrinho de comida
chegou à porta da cabine.
- Vocês acham que a gente devia acordar o Professor? -
perguntou Rony sem graça, indicando Lupin com a cabeça. - Ele
está com cara de quem podia comer alguma coisa.
Hermione se aproximou cautelosamente do homem.
- Hum... Professor? Com licença, Professor?
O homem não se mexeu.
Não se preocupe querida - disse a bruxa entregando a
Harry uma montanha de bolos de caldeirão. - Se ele tiver fome
quando acordar vou estar lá na frente com o maquinista.
- Suponho que ele esteja dormindo - disse Rony baixinho
quando a bruxa fechou a porta da cabine. - Quero dizer: ele não
morreu, não é?
- Não, está respirando - sussurrou Hermione, pegando o
bolo de caldeirão que Harry lhe passava.
Talvez o Prof. Lupin não fosse uma ótima companhia, mas
sua presença na cabine dos garotos tinha suas vantagens. No meio
da tarde, bem na hora em que a chuva começou a cair, embaçando
os contornos das colinas ondulantes por que passavam, os meninos
ouviram novamente passos no corredor, e surgiram à porta as três
pessoas que eles menos gostavam no mundo: Draco Malfoy,
ladeado pelos seus asseclas, Vicente Crabbe e Gregório Goyle.
Draco Malfoy e Harry eram inimigos desde que se
encontraram na primeira viagem de trem para Hogwarts. Malfoy,
que tinha uma cara desdenhosa, pálida e pontuda, era aluno da
Sonserina; jogava como apanhador no time de sua casa, a mesma
70
posição de Harry no time da Grifinória. Crabbe e Goyle pareciam
existir para fazer o que Draco mandava. Eram grandes e
musculosos; Crabbe, mais alto, tinha um pescoço muito grosso e
um corte de cabelos de cuia; os cabelos de Goyle eram curtos e
espetados, e seus braços compridos como os de um gorila.
- Ora, vejam só quem está aqui - disse Draco naquela sua
voz arrastada, abrindo a porta da cabine. - Potinho e Fuinha.
Crabbe e Goyle riram feito trasgo.
- Ouvi dizer que seu pai finalmente pôs as mãos no ouro
neste verão - disse Malfoy. - Sua mãe não morreu do choque?
Rony se levantou tão depressa que derrubou a cesta de
Bichento no chão. O Prof. Lupin soltou um pequeno ronco.
- Quem é esse aí? - perguntou Draco, dando
automaticamente um passo atrás, ao ver Lupin.
- Professor novo - disse Harry que se levantou também,
caso precisasse segurar Rony. - Que é que você ia dizendo mesmo,
Draco?
Os olhos muito claros do menino se estreitaram; ele não era
bobo de puxar uma briga bem debaixo do nariz de um Professor;
- Vamos - murmurou Draco, contrariado, para Crabbe e
Goyle, e os três sumiram.
Harry e Rony tornaram a se sentar, Rony massageando os
nós dos dedos.
Não vou aturar nenhum desaforo de Draco este ano disse
cheio de raiva. Estou falando sério. Se ele disser mais uma
piadinha sobre a minha família, vou agarrar a cabeça dele e...
Rony fez um gesto violento no ar.
- Rony - sibilou Hermione, apontando para o Prof. Lupin -,
cuidado...
Mas o Prof. Lupin continuava ferrado no sono.
A chuva engrossava à medida que o trem avançava mais
para o norte; as janelas agora iam se tornando um cinza sólido e
tremeluzente, que gradualmente escureceu até as lanternas se
acenderem nos corredores e por cima dos bagageiros. O trem
sacolejava, a chuva fustigava, o vento rugia, mas, ainda assim, o
Prof. Lupin continuava adormecido.
- Devemos estar quase chegando - disse Rony curvando-se
para frente para olhar, além do Professor, a janela agora
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completamente escura.
Nem bem essas palavras tinham saído de sua boca e o trem
começou a reduzir a velocidade.
- Legal - exclamou Rony; levantando-se e passando com
todo o cuidado pelo Prof. Lupin para tentar ver lá fora. - Estou
morrendo de fome. Quero chegar logo para o banquete...
- Nós ainda não chegamos - disse Hermione, consultando o
relógio. - Então por que estamos parando?
O trem foi rodando cada vez mais lentamente. Quando o
ronco dos pistões parou, o barulho do vento e da chuva de
encontro às janelas pareceu mais forte que nunca.
Harry, que estava mais próximo da porta, levantou-se para
espiar o corredor. Por todo o carro, cabeças, curiosas, surgiram à
porta das cabines.
O trem parou completamente com um tranco, e baques e
pancadas distantes sinalizaram que as malas tinham despencado
dos bagageiros. Em seguida, sem aviso, todas as luzes se
apagaram e eles mergulharam em total escuridão.
- O que é que está acontecendo? - ouviu-se a voz de Rony
às costas de Harry.
- Ai! - exclamou Hermione. - Rony, isto é o meu pé! Harry
voltou ao seu lugar, às apalpadelas.
- Vocês acham que o trem enguiçou?
- Não sei...
Ouviu-se um barulho de pano esfregando vidro e Harry viu
os contornos difusos de Rony desembaçando um pedaço da
vidraça da janela para espiar
- Tem uma coisa se mexendo lá fora - disse ele. - Acho que
está embarcando gente no trem...
A porta da cabine se abriu repentinamente e alguém caiu
por cima das pernas de Harry, machucando-o.
- Desculpe... você sabe o que está acontecendo?... Aí...
desculpe...
- Oi, Neville - disse Harry tateando no escuro e levantando
o colega pela capa.
- Harry você? Que é que está acontecendo?
- Não tenho idéia... senta...
Ouviu-se um sibilo forte e um ganido de dor; Neville
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tentara se sentar em cima do Bichento.
- Vou perguntar ao maquinista o que está acontecendo -
ouviu-se a voz de Hermione. Harry sentiu a amiga passar por ele,
ouviu a porta deslizar, e em seguida um baque e dois berros de
dor.
- Quem é?
-Quem?
- Gina?
- Mione?
- Que é que você está fazendo?
- Estava procurando o Rony...
Entra aqui e senta...
Aqui não! - disse Harry depressa. - Eu estou aqui!
- Ai! - disse Neville.
- Silêncio! - ordenou uma voz rouca, de repente.
O Prof. Lupin parecia ter finalmente acordado. Harry ouviu
movimentos no canto em que ele estava. Ninguém disse nada.
Seguiu-se um estalinho e uma luz trêmula inundou a
cabine. Pelo que viam, o Professor estava empunhando um feixe
de chamas. Elas iluminavam um rosto cansado e cinzento, mas
seus olhos tinham uma expressão alerta e cautelosa.
- Fiquem onde estão - disse com a mesma voz touca, e
começou a se levantar lentamente segurando as chamas à sua
frente.
Mas a porta se abriu antes que Lupin pudesse alcançá-la.
Parado à porta, iluminado pelas chamas trêmulas na mão
do Professor, havia um vulto de capa que alcançava o teto. Seu
rosto estava completamente oculto por um capuz. Harry baixou os
olhos depressa, e o que ele viu provocou uma contração em seu
estômago. Havia uma mão saindo da capa e ela brilhava, um
brilho cinzento, de aparência viscosa e coberta de feridas, como
uma coisa morta que se decompusera na água...
Mas foi visível apenas por uma fração de segundo. Como
se a criatura sob a capa percebesse o olhar de Harry; a mão foi
repentinamente ocultada nas dobras da capa preta,
E então a coisa encapuzada fosse o que fosse, inspirou
longa e lentamente, uma inspiração ruidosa, como se estivesse
tentando inspirar mais do que o ar a sua volta.
73
Um frio intenso atingiu todos os presentes. Harry sentiu a
própria respiração entalar no peito. O frio penetrou mais fundo em
sua pele. Chegou ao fundo do peito, ao seu próprio coração...
Os olhos de Harry giraram nas órbitas. Ele não conseguiu
ver mais nada. Estava se afogando no frio. Sentia um farfalhar nos
ouvidos que lembrava água correndo. Estava sendo puxado para o
fundo, o farfalhar aumentou para um ronco que aumentava...
Então, vindos de muito longe, ouviu gritos, terríveis,
apavorados, suplicantes. Ele queria ajudar quem gritava, tentou
mexer os braços, mas não conseguiu... um nevoeiro claro e denso
rodopiava à volta dele, dentro dele...
- Harry! Harry! Você está bem? Alguém batia no seu rosto.
-Q...quê?
Harry abriu os olhos; havia lanternas no alto e o chão
sacudia - o Expresso de Hogwarts recomeçara a andar e as luzes
tinham voltado. Aparentemente ele escorregara do assento para o
chão. Rony e Hermione estavam ajoelhados ao seu lado, e acima
dos seus amigos ele viu que Neville e o Professor o observavam
Harry se sentiu muito doente; quando ergueu a mão para ajeitar os
óculos no nariz, sentiu um suor frio no rosto.
Rony e Hermione puxaram-no para cima do assento.
- Você está bem? - perguntou Rony, nervoso.
- Estou - disse Harry olhando depressa para a porta. A
criatura encapuzada desaparecera. - Que aconteceu? Onde está
aquela,..aquela coisa? Quem gritou?
- Ninguém gritou - disse Rony, ainda mais nervoso.
Harry olhou para todos os lados da cabine iluminada. Gina
e Neville retribuíram seu olhar, ambos muito pálidos.
- Mas eu ouvi gritos...
Um forte estalo assustou os meninos. O Prof. Lupin partia
em pedaços uma enorme barra de chocolate.
- Tome - disse a Harry, oferecendo-lhe um pedaço
particularmente avantajado. - Coma. Vai fazer você se sentir
melhor.
Harry apanhou o chocolate, mas não o comeu.
- Que era aquela coisa? - perguntou a Lupin.
- Um dementador - respondeu Lupin, que agora distribua o
chocolate para todos. - Um dos dementadores de Azkaban.
74
Todos o olharam espantados. O Professor amassou a
embalagem vazia de chocolate e meteu-a no bolso.
- Coma - insistiu. - Vai lhe fazer bem. Preciso falar com o
maquinista, me dêem licença...
Ele passou por Harry e desapareceu no corredor.
- Você tem certeza de que está bem? - perguntou
Hermione, observando-o com ansiedade.
- Não entendo... Que foi que aconteceu? - perguntou Harry;
enxugando mais suor do rosto.
- Bem... aquela coisa... o dementador.. ficou parado ali
olhado, quero dizer, acho que foi, não pude ver o rosto dele... e
você... você...
- Pensei que você estava tendo um acesso ou coisa parecida
-disse Rony que conservava no rosto uma expressão de pavor -
Você ficou todo duro, escorregou do assento e começou a se
contorcer..
- E o Prof. Lupin saltou por cima de você, foi ao encontro
do dementador, puxou a varinha - contou Hermione - e disse:
"Nenhum de nós está escondendo Sirius Black dentro da
capa. Vá" - Mas o dementador não se mexeu, então Lupin
murmurou alguma coisa e da varinha saiu um raio prateado contra
a coisa, e ela deu as costas e se afastou como se deslizasse...
- Foi horrível - disse Neville numa voz mais alta do que de
costume. - Vocês sentiram como ficou frio quando ele entrou?
- Eu me senti esquisito - disse Rony sacudindo os ombros,
desconfortável. - Como se eu nunca mais fosse sentir alegria na
vida...
Gina, que se encolhera a um canto parecendo quase tão mal
quanto Harry, deu um solucinho; Hermione aproximou-se e
passou um braço pelas costas da menina para consolá-la.
- Mas nenhum de vocês caiu do assento? - perguntou Harry
sem graça.
- Não - disse Rony, olhando para Harry, ansioso, outra vez
-Mias Gina tremia feito louca...
Harry não entendeu. Sentia-se fraco e cheio de arrepios,
como se estivesse se recuperando de uma gripe muito forte;
começava também a sentir um início de vergonha. Por que
desmaiara daquele jeito, quando mais ninguém desmaiara?
75
O Prof.. Lupin voltou. Parou ao entrar, olhando para todos
e disse, com um leve sorriso:
- Eu não envenenei o chocolate, sabem. -.
Harry deu uma dentada e, para sua grande surpresa, sentiu
de repente um calor se espalhar até as pontas dos dedos dos pés e
das mãos.
-Vamos chegar a Hogwarts dentro de dez minutos - disse o
Prof. Lupin. - Você está bem, Harry?
O menino não perguntou como é que o Professor sabia seu
nome.
- Muito bem - murmurou ele, constrangido.
Ninguém falou muito durante o resto da viagem. Por fim, o
trem parou na estação de Hogsmeade e houve uma grande correria
para desembarcar; corujas piavam, gatos miavam e o sapo de
estimação de Neville coaxou alto debaixo do chapéu do seu dono.
Estava frio demais na minúscula plataforma; a chuva descia em
cortinas geladas.
- Alunos do primeiro ano por aqui! - chamou uma voz
conhecida. Harry; Rony e Hermione se viraram e depararam com
o vulto gigantesco de Hagrid, no outro extremo da plataforma,
fazendo sinal para os novos alunos, aterrorizados, se aproximarem
para a tradicional travessia do lago.
- Tudo bem, vocês três? - gritou Hagrid sobre as cabeças
dos alunos aglomerados. Eles acenaram para o guarda-caça, mas
não tiveram chance de lhe falar porque a massa de alunos em volta
deles os empurrava na direção oposta. Harry, Rony e Hermione
acompanharam o resto da escola pela plataforma e desceram para
uma trilha enlameada, cheia de altos e baixos, onde no mínimo uns
cem coches os aguardavam, cada qual, Harry só podia supor,
puxado por um cavalo invisível, porque os garotos embarcaram
em um, fecharam a porta e o veículo saiu andando, aos trancos e
balanços, formando um cortejo.
O coche cheirava levemente a mofo e palha. Harry se sentia
melhor desde o chocolate, mas continuava fraco. Rony e
Hermione não paravam de lhe lançar olhares de esguelha, como se
temessem que ele pudesse desmaiar outra vez.
Quando o coche foi se aproximando de um magnífico
portão de ferro forjado, ladeado por colunas de pedra com javalis
76
alados no alto, Harry viu mais dois dementadores encapuzados
montando guarda dos lados do portão. Uma onda de náusea e frio
tornou a invadi-lo; ele se recostou no banco encalombado e fechou
os olhos até atravessarem a entrada O coche ganhou velocidade no
caminho longo e inclinado até o castelo; Hermione se debruçou
pela janelinha, espiando as muitas torrinhas e torres que se
aproximavam. Por fim, o coche parou balançando, e Hermione e
Rony desembarcaram.
Quando Harry ia descendo, uma voz arrastada e satisfeita
chegou aos seus ouvidos.
- Você desmaiou, Potter? Longbottom está falando a
verdade?
Desmaiou mesmo, é?
Draco passou por Hermione acotovelando-a, para impedir
Harry de subir as escadas de pedra do castelo, o rosto jubilante e
os olhos claros brilhando de malícia.
- Se manda, Malfoy - disse Rony, cujos maxilares estavam
cerrados.
- Você também desmaiou, Weasley? - perguntou Draco em
voz alta. - O velho dementador apavorante também o assustou,
Weasley?
- Algum problema? - perguntou uma voz suave. O Prof.
Lupin acabara de desembarcar do coche seguinte.
Malfoy lançou ao Prof. Lupin um olhar insolente, que
registrou os remendos em suas vestes e a mala surrada. Com uma
sugestão de sarcasmo na voz, ele respondeu:
- Ah, não... hum...Professor - depois fez cara de riso para
Crabbe e Goyle, e subiu com os dois as escadas do castelo.
Hermione bateu nas costas de Rony para apressa-lo, e os
três se reuniram aos muitos alunos que enchiam as escadas,
cruzavam a soleira das enormes portas de carvalho e penetravam
no saguão cavernoso iluminado com tochas ardentes, onde havia
uma magnífica escadaria de mármore para os andares superiores.
A porta que levava ao Salão Principal, à direita, estava
aberta; Harry seguiu o grande número de alunos que se deslocava
naquela direção, mas apenas vislumbrara o teto encantado, que
àquela noite se mostrava escuro e anuviado, quando uma voz o
chamou:
77
- Potter! Granger! Quero falar com os dois!
Os garotos se viraram surpresos. A Profa. McGonagall, que
ensinava Transformação e dirigia a Casa da Grifinória, os
chamava por cima das cabeças dos demais. Era uma bruxa de
aspecto severo, que usava os cabelos presos em um coque
apertado; seus olhos penetrantes eram emoldurados por óculos
quadrados. Harry abriu caminho até ela com esforço e um mau
pressentimento: a Prof.a McGonagall tinha o condão de fazê-lo
sentir que fizera alguma coisa errada.
- Não precisa ficar tão preocupado, só quero dar uma
palavrinha com vocês na minha sala - disse ela. - Pode continuar o
seu caminho, Weasley.
Rony ficou olhando a Professora se afastar, com Harry e
Hermione, da aglomeração de alunos que falavam sem parar; os
três atravessaram o saguão, subiram a escadaria de mármore e
seguiram por um corredor.
Já na sala, um pequeno aposento com uma grande e
acolhedora lareira, a Professora fez sinal a Harry e Hermione para
que se sentassem. Ela própria se sentou à escrivaninha e disse sem
rodeios:
- O Prof. Lupin mandou à frente uma coruja para avisar que
você tinha passado mal no trem, Potter.
Antes que o garoto pudesse responder, ouviu-se uma leve
batida na porta e Madame Pomfrey, a enfermeira, entrou com seu
ar eficiente.
Harry sentiu o rosto corar. Já era bastante ruim que tivesse
desmaiado, ou o que fosse, sem todo mundo ficar fazendo aquele
alvoroço.
- Eu estou bem - disse. - Não preciso de nada...
- Ah, então foi você? - exclamou Madame Pomfrey,
ignorando o comentário de Harry e se curvando para examiná-lo
mais de perto. - Suponho que tenha feito outra vez alguma coisa
perigosa.
- Foi um dementador, Papoula - informou McGonagall.
As duas, trocaram olhares misteriosos e Madame Pomfrey
deu um muxoxo de desaprovação.
- Postar dementadores em volta da escola - murmurou,
afastando os cabelos de Harry e sentindo a temperatura na testa
78
dele.
- O menino não vai ser o último a desmaiar. É, está úmido
de suor. Eles são terríveis e o efeito que produzem nas pessoas que
já são delicadas...
- Eu não sou delicado! - exclamou Harry aborrecido.
- Claro que não é - disse Madame Pomfrey distraída, agora
tomando o seu pulso.
- Do que é que ele precisa? - perguntou a Profa
McGonagall, decidida. - Repouso? Quem sabe não fosse bom
passar a noite na ala hospitalar?
- Eu estou ótimo! - disse Harry levantando-se de um salto.
A idéia do que Draco iria dizer se ele tivesse que ir para a ala
hospitalar foi uma tortura.
- Bem, ele devia, no mínimo, tomar um chocolate - disse
Madame Pomfrey, que agora tentava examinar os olhos de Harry.
- Já comi chocolate - disse ele. - O Prof. Lupin me deu.
Deu a todos nós.
- Deu, foi? - exclamou a bruxa-enfermeira em tom de
aprovação. - Então finalmente conseguimos um Professor de
Defesa contra as Artes das Trevas que sabe o que faz!
- Você tem certeza de que está se sentindo bem, Potter? -
perguntou a Prof. McGonagall bruscamente.
- Estou - respondeu Harry;
- Muito bem. Por favor, esperem ai fora enquanto dou uma
palavrinha com a Srta. Granger sobre sua programação para o ano
letivo, depois podemos descer juntos para a festa.
Harry saiu para o corredor com Madame Pomfrey, que
seguiu para a ala hospitalar, resmungando sozinha, Ele só precisou
esperar uns minutinhos; Hermione apareceu com um ar muito
feliz, acompanhada pela Professora, e todos desceram a escadaria
de mármore para o Salão Principal.
Havia um mar de chapéus cônicos e pretos; cada uma das
compridas mesas das casas estava lotada de estudantes, os rostos
iluminados por milhares de velas que flutuavam no ar, acima das
mesas. O Prof. Flitwick, que era um bruxo franzino de cabeleira
branca, carregava um chapéu antigo e um banquinho de três
pernas para fora da sala.
- Ah - comentou Hermione em voz baixa -, perdemos a
79
cerimônia da seleção!
Os novos alunos de Hogwarts eram distribuídos pelas
quatro casas do colégio, pondo na cabeça o Chapéu Seletor, que
anunciava a casa (Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa ou Sonserina)
que melhor convinha ao recém-chegado A Profa. McGonagall
dirigiu-se ao seu lugar, que estava vazio à mesa dos Professores e
funcionários e Harry e Hermione seguiram na direção oposta, o
mais silenciosamente possível para se sentarem à mesa da
Grifinória. As pessoas viraram a cabeça para olhá-los passar pelo
fundo do salão, e alguns apontaram para Harry. Será que a história
do seu desmaio ao topar com o dementador se espalhara com tanta
rapidez?
Ele e Hermione se sentaram um de cada lado de Rony, que
guardara seus lugares.
- Que história foi essa? - murmurou Rony para Harry.
O amigo começou a lhe explicar aos cochichos, mas
naquele momento, o diretor se ergueu para falar e ele se calou.
O Prof. Dumbledore, embora muito velho, sempre dava
uma impressão de grande energia. Tinha alguns palmos de cabelos
e barbas prateados, óculos de meia-lua e um nariz muito torto. Em
geral era descrito como o maior bruxo da era atual, mas não era
esta a razão por que Harry o respeitava. Não era possível deixar de
confiar em Alvo Dumbledore, e quando Harry o contemplou
sorrindo radiante para os alunos à sua volta, sentiu-se calmo, pela
primeira vez, desde que o dementador entrara na cabine do trem.
- Sejam bem-vindos! - começou Dumbledore, a luz das
velas tremeluzindo em suas barbas. - Sejam bem-vindos para mais
um ano em Hogwarts! Tenho algumas coisas a dizer a todos, e
uma delas é muito séria. Acho que é melhor tirá-la do caminho
antes que vocês fiquem tontos com esse excelente banquete...
O diretor pigarreou e prosseguiu:
- Como vocês todos perceberam, depois da busca que
houve no Expresso de Hogwarts, a nossa escola passou a hospedar
alguns dementadores de Azkaban, que vieram cumprir ordens do
Ministério da Magia,
Ele fez uma pausa e Harry se lembrou do que o Sr.
Weasley comentara sobre a insatisfação de Dumbledore quanto ao
fato de os dementadores estarem montando guarda na escola.
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- Eles estão postados em cada entrada da propriedade e,
enquanto estiverem conosco, é preciso deixar muito claro que
ninguém deve sair da escola sem permissão. Os dementadores não
se deixam enganar por truques nem disfarces, nem mesmo por
capas de invisibilidade - acrescentou ele brandamente, e Harry e
Rony se entreolharam. - Não faz parte da natureza deles entender
súplicas nem desculpas. Portanto, aviso a todos e a cada um em
particular, para não darem a esses guardas razão para lhes fazerem
mal. Apelo aos monitores, e ao nosso monitor e monitora-chefes,
para que se certifiquem de que nenhum aluno entre em conflito
com os dementadores.
Percy, que estava sentado a algumas cadeiras de distância
de Harry, estufou o peito outra vez e olhou à volta cheio de
importância. Dumbledore fez nova pausa; percorreu o salão com
um olhar muito sério, mas ninguém se mexeu nem emitiu som
algum.
- Agora, falando de coisas mais agradáveis - continuou ele-,
tenho o prazer de dar as boas-vindas a dois novos Professores este
ano.
"Primeiro, o Prof. Lupin, que teve a bondade de aceitar
ocupar a vaga de Professor de Defesa contra as Artes das Trevas".
Ouviram-se algumas palmas dispersas e pouco
entusiásticas. Somente os que tinham estado na cabine de trem
com o novo Professor bateram palmas animados, Harry entre eles.
Lupin parecia particularmente mal vestido ao lado dos outros
Professores que trajavam suas melhores vestes.
- Olha a cara do Snape! - sibilou Rony ao ouvido de Harry.
O olhar do Prof. Snape, mestre de Poções, passou pelos
Professores que ocupavam a mesa e se deteve em Lupin. Era fato
sabido que Snape queria o cargo de Professor de Defesa contra as
Artes das Trevas, mas até Harry, que o detestava, se surpreendeu
com a expressão que deformou o seu rosto macilento. Era mais do
que raiva: era desprezo. Harry conhecia aquela expressão bem
demais; era a que Snape usava sempre que o avistava.
- Quanto ao nosso segundo contratado - continuou
Dumbledore quando cessavam as palmas mornas para o Prof.
Lupin. -Bem, lamento informar que o Prof. Kettleburn, que
ensinava Trato das Criaturas Mágicas, aposentou-se no fim do ano
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passado para poder aproveitar melhor os membros que ainda lhe
restam. Contudo, tenho o prazer de informar que o seu cargo será
preenchido por ninguém menos que Rúbeo Hagrid, que concordou
em acrescentar essa responsabilidade docente às suas tarefas de
guarda-caça.
Harry Rony e Hermione se entreolharam, estupefatos. Em
seguida acompanharam os aplausos, que foram tumultuosos
principalmente à mesa da Grifinória. Harry se esticou para frente
para ver Hagrid, que tinha o rosto vermelho-rubi, os olhos postos
nas mãos enormes, e o sorriso largo escondido no emaranhado de
sua barba escura.
- Nós devíamos ter adivinhado! - berrou Rony, dando socos
na mesa. - Quem mais teria nos mandado comprar um livro que
morde?
Os três garotos foram os últimos a parar de aplaudir e
quando o Prof. Dumbledore recomeçou a falar, eles viram que
Hagrid estava enxugando os olhos na toalha da mesa.
- Bem, acho que, de importante, é só o que tenho a dizer
Vamos à festa!
As travessas e taças de ouro diante das pessoas se
encheram inesperadamente de comida e bebida. Harry, de repente
faminto, se serviu de tudo que conseguiu alcançar e começou a
comer.
Foi um banquete delicioso; o salão ecoava as conversas, os
risos e o tilintar de talheres. Harry, Rony e Hermione, porém,
estavam ansiosos para a festa terminar para poderem conversar
com Hagrid. Sabiam o quanto significava para ele ser nomeado
Professor. O guarda-caça não era um bruxo diplomado; fora
expulso de Hogwarts no terceiro ano por um crime que não
cometera. Harry,, Rony e Hermione é que tinham limpado o seu
nome no ano anterior.
Finalmente, quando os últimos pedaços deliciosos de torta
de abóbora tinham desaparecido das travessas de ouro,
Dumbledore anunciou que era hora de todos se recolherem e os
meninos tiveram a oportunidade que aguardavam.
- Hagrid! - exclamou Hermione quando se aproximaram da
mesa dos Professores.
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- Graças a vocês - disse Hagrid, enxugando o rosto
brilhante de lágrimas no guardanapo e erguendo os olhos para os
garotos. -Nem consigo acreditar.. grande homem, o Dumbledore...
veio direto à minha cabana quando o Prof.. Kettleburn disse que
para ele já chegava... É o que eu sempre quis...
Dominado pela emoção, ele escondeu o rosto no
guardanapo e a Profa McGonagall tocou os meninos para fora.
Harry, Rony e Hermione se reuniram aos outros colegas da
Grifinória que ocupavam toda a escadaria de mármore e agora,
muito cansados, caminharam por mais corredores e mais escadas
até a entrada secreta pata a torre da Grifinória. Uma grande pintura
a óleo de uma mulher gorda vestida de rosa perguntou-lhes:
- A senha? -Já estou indo, já estou indo! - gritou Percy lá
do fim do ajuntamento. - A nova senha? Fortuna Major!
- Ah, não! - exclamou Neville Longbottom com tristeza.
Ele sempre tinha dificuldade para se lembrar das senhas.
Depois de atravessar o buraco do retrato e a sala comunal,
as garotas e garotos tomaram escadas separadas. Harry subiu a
escada circular sem pensar em nada exceto na sua felicidade por
estar de volta. Quando chegaram ao dormitório redondo com as
camas de colunas que já conheciam, Harry» -olhando a toda volta,
se sentiu finalmente em casa.
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- CAPITULO SEIS -
Garras e folhas de chá
Quando Harry, Rony e Hermione entraram no Salão
Principal para tornar café, na manhã seguinte, a primeira coisa que
viram foi Draco Malfoy, que parecia estar entretendo um grande
grupo de alunos da Sonserina com uma história muito engraçada.
Quando os três passaram, Malfoy fez uma imitação ridícula de um
desmaio que provocou grandes gargalhadas.
Não ligue para ele - disse Hermione, que vinha logo atrás
de Harry - Não dê bola para ele, não vale a pena...
- Ei, Potter! - chamou esganiçada Pansy Parkinson, uma
garota da Sonserina com cara de buldogue. - Potter! Os
dernentadores estão chegando. Potter! Uuuuuuuuuuuu!
Harry se largou numa cadeira à mesa da Grifinória, ao lado
de Jorge Weasley.
- Novos horários de aulas para os alunos do terceiro ano -
disse Jorge, distribuindo-os. - Que é que há com você, Harry?
- Malfoy - informou Rony, sentando-se do outro lado de
Jorge e olhando feio para a mesa da Sonserina.
Jorge ergueu os olhos na hora em que Malfoy fingia
desmaiar de terror outra vez.
- Aquele debilóide! - disse calmamente. - Ele não estava
tão exibido ontem à noite quando os dementadores revistaram o
nosso lado do trem. Entrou correndo na nossa cabine, não foi,
Fred?
- Quase fez xixi nas calças - disse Fred, lançando a Draco
um olhar de desprezo.
- Nem eu fiquei muito feliz - comentou Jorge. - Eles são
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um horror, aqueles dementadores...
- Meio que congelam a gente por dentro, não acha? - disse
Fred.
- Mas você não desmaiou, desmaiou? - perguntou Harry em
voz baixa.
- Esquece isso, Harry - disse Jorge para anima-lo. - Papai
teve que ir a Azkaban uma vez, lembra, Fred? E comentou que foi
o pior lugar em que esteve na vida, voltou de lá fraco e abalado...
Eles sugam a felicidade do lugar, esses dementadores. A maioria
dos prisioneiros acaba endoidando.
- Em todo caso, vamos ver se Draco vai continuar tão
felizinho depois do primeiro jogo de quadribol - disse Fred. -
Grifinória contra Sonserina, primeiro jogo da temporada, está
lembrado?
A única vez em que Harry e Draco tinham se enfrentado
em uma partida de quadribol, Draco decididamente tinha levado a
pior. Sentindo-se um pouquinho mais animado, Harry se serviu de
salsichas e tomates fritos.
Hermione examinava seu novo horário.
- Ah, que ótimo, estamos começando matérias novas hoje -
comentou satisfeita.
- Hermione - disse Rony, franzindo a testa ao olhar por
cima do ombro da amiga -, bagunçaram o seu horário. Veja só:
dez aulas por dia. Não existe tempo para tudo isso.
- Eu me arranjo. Já combinei tudo com a Prof. Minerva.
- Mas olha aqui - continuou Rony, rindo-se-, está vendo
hoje de manhã? Nove horas, Adivinhação. E embaixo, nove horas,
Estudo dos Trouxas. E - o menino se curvou para olhar o horário
mais de perto, incrédulo - olha, embaixo tem Aritmancia, nove
horas. Quero dizer, eu sei que você é boa, Mione, mas ninguém é
tão bom assim. Como é que você vai poder assistir a três aulas ao
mesmo tempo?
- Não seja bobo - disse Hermione com rispidez. - E claro
que não vou assistir a três aulas ao mesmo tempo.
- Bom, então...
- Passe a geléia - pediu Hermione.
- Mas...
- Ah, Rony, é da sua conta se o meu horário ficou um
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pouco cheio demais? - perguntou a menina em tom zangado. - Já
disse que combinei tudo com a Profa Minerva.
Nesse instante Hagrid entrou no Salão Principal. Estava
usando o casaco de pele de toupeira e distraidamente balançava
um gambá na mão enorme.
- Tudo bem? - perguntou ele, ansioso, parando a caminho
da mesa dos professores. - Vocês vão assistir à primeira aula da
minha vida! Logo depois do almoço! Estou acordado desde as
cinco horas aprontando tudo... Espero que dê certo... Eu,
professor. sinceramente...
E dando um grande sorriso para os garotos foi para sua
mesa, ainda balançando o gambá.
- O que será que ele andou aprontando? - comentou Rony;
com uma nota de ansiedade na voz.
O salão começou a se esvaziar à medida que as pessoas
saiam para a primeira aula. Rony verificou seu horário.
- E melhor irmos andando, olha, Adivinhação é no alto da
torre Norte. Vamos levar uns dez minutos para chegar lá...
Os garotos terminaram o café, apressados, se despediram
de Fred e Jorge, e foram saindo para o saguão. Ao passarem pela
mesa da Sonserina, Draco tornou a fazer a imitação do desmaio.
As gargalhadas acompanharam Harry até a entrada do saguão.
A viagem pelo castelo até a Torre Norte era longa. Dois
anos em Hogwarts não tinham ensinado aos meninos tudo sobre o
lugar, e nunca tinham ido à Torre Norte antes.
- Tem-que-ter-um-atalho - ofegava Rony ao subirem a
sétima longa escada e chegarem a um patamar desconhecido, onde
não havia nada exceto um grande quadro de um campo relvado
pendurado na parede de pedra.
- Acho que é por aqui - disse Hermione, espiando o
corredor vazio à direita.
- Não pode ser - discordou Rony. - Ai é sul, olha, dá para
ver um pedacinho do lago pela janela...
Harry parou para examinar o quadro. Um gordo pônei
cinza malhado pisou lentamente na relva e começou a pastar sem
muito entusiasmo. Harry estava acostumado aos personagens dos
quadros de Hogwarts andarem e até saírem pela moldura para
visitar uns aos outros, mas sempre gostava de apreciar esse
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movimento. No instante seguinte, um cavaleiro baixo e atarracado,
vestindo armadura, entrou retinindo pelo quadro à procura do
pônei. Pelas manchas de grama nas joelheiras metálicas, ele
acabara de cair do cavalo.
- Ah, ah - berrou, vendo Harry, Rony e Hermione. – Quem
são esses vilões que invadem as minhas terras! Porventura vieram
zombar da minha queda? Desembainhem as espadas, seus
velhacos, seus cães!
Os meninos observaram, espantados, o cavaleiro nanico
puxar a espada da bainha e começar a brandi-la com violência,
saltando para aqui e para ali enraivecido. Mas a espada era
demasiado comprida para ele; um golpe particularmente
exagerado desequilibrou-o e ele caiu de cara na grama.
- O senhor está bem? - perguntou Harry, aproximando-se
do quadro.
Afaste-se, fanfarrão desprezível! Para trás, patife!
O cavaleiro retomou a espada e usou-a para se reerguer,
mas a lâmina penetrou fundo na terra e, embora ele a puxasse com
roda a força, não conseguiu retirá-la. Finalmente, teve que se
largar outra vez no chão e levantar a viseira para enxugar o rosto
coberto de suor.
- Escuta aqui - disse Harry se aproveitando da exaustão do
cavaleiro -, estamos procurando a Torre Norte. O senhor conhece
o caminho, não?
- Uma expedição! - A raiva do cavaleiro pareceu sumir
instantaneamente. Levantou-se retinindo a armadura e gritou: -
Sigam-me; caros amigos alcançaremos o nosso objetivo ou
pereceremos corajosamente na peleja!
Ele deu mais um puxão inútil na espada, tentou, mas não
conseguiu montar o gordo pônei e gritou: - A pé, então, dignos
senhores e gentil senhora! Avante! Avante!
E saiu correndo, a armadura fazendo grande estrépito,
passou pelo lado esquerdo da moldura e desapareceu de vista.
Os garotos se precipitaram atrás dele pelo corredor,
seguindo o barulho da armadura. De vez em quando o avistavam
passando para o quadro seguinte.
- Sejam fortes, o pior ainda está por vir! - berrou o
cavaleiro e os três o viram reaparecer diante de um grupo
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assustado de mulheres vestindo anáguas de crinolina, cujo quadro
fora pendurado na parede de uma estreita escada circular.
Ofegando ruidosamente, Harry Rony e Hermione subiram
os estreitos degraus em caracol, sentindo-se cada vez mais tontos,
até que finalmente ouviram o murmúrio de vozes no alto e
perceberam que tinham chegado à sala de aula.
- Adeus! - gritou o cavaleiro, enfiando de repente a cabeça
no quadro de uns monges de aspecto sinistro. - Adeus, meus
camaradas de armas! Se um dia precisarem de um coração nobre e
fibra de aço, chamem Sir Cadogan!
- Ah, sim, chamaremos - murmurou Rony quando o
cavaleiro foi sumindo de vista -, mas se um dia precisarmos de um
maluco.
Os garotos subiram os últimos degraus e chegaram a um
minúsculo patamar, onde a maioria dos colegas já estava reunida.
Não havia portas no patamar, mas Rony cutucou Harry indicandolhe
o teto, onde havia um alçapão circular com uma placa de latão.
- Sibila Trelawney, Professora de Adivinhação - leu Harry.
- E como é que esperam que a gente chegue lá em cima?
Como se respondesse à sua pergunta, o alçapão se abriu
inesperadamente e uma escada prateada desceu aos seus pés.
Todos se calaram você - disse Rony sorrindo, e Harry subiu a
escada.
Chegou à sala de aula mais esquisita que já vira. Na
realidade, sequer parecia uma sala de aula, e, sim, uma cruza de
sótão com salão de chá antigo. Havia, no mínimo, vinte mesinhas
circulares juntas ali, rodeadas por cadeiras forradas de chintz e
pequenos pufes estufados., O ambiente era iluminado por uma
fraca luz avermelhada; as cortinas às janelas estavam fechadas e
os vários abajures, cobertos com xales vermelho-escuros. O calor
sufocava e a lareira acesa sob um console cheio de objetos
desprendia um perfume denso, enjoativo e doce ao aquecer uma
grande chaleira de cobre. As prateleiras em torno das paredes
circulares estavam cheias de penas empoeiradas, tocos de velas,
baralhos de cartas em tiras, incontáveis bolas de cristal e uma
imensa coleção de xícaras de chá.
Rony espiou por cima do ombro de Harry enquanto os
colegas se reuniam à volta deles, todos falando aos cochichos.
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- E onde está a professora? - perguntou Rony.
Uma voz saiu subitamente das sombras, uma voz suave,
meio etérea.
- Sejam bem-vindos. Que bom ver vocês no mundo físico,
finalmente.
A impressão imediata de Harry foi a de estar vendo um
enorme inseto cintilante. A Prof. Sibila Trelawney saiu das
sombras e, à luz da lareira, os garotos viram que era muito magra;
uns óculos imensos aumentavam seus olhos várias vezes, e ela
vestia um xale diáfano, salpicado de lantejoulas. Em volta do
pescoço fino, usava inúmeras correntes e colares de contas, e seus
braços e mãos estavam cobertos de pulseiras e anéis.
- Sentem-se, crianças, sentem-se - disse, e todos subiram
desajeitados nas cadeiras ou se afundaram nos pufes Harry, Rony
e Hermione se sentaram a uma mesa redonda.
- Bem-vindos à aula de Adivinhação - disse a professora,
que se acomodara em uma bergêre diante da lareira. - Sou a profa
Sibila Trelawney. Talvez vocês nunca tenham me visto antes, acho
que me misturar com freqüência a roda-viva da escola principal
anuvia minha visão interior.
Ninguém fez nenhum comentário a tão extraordinária
declaração. A professora rearrumou delicadamente o xale e
continuou.
- Então vocês optaram por estudar Adivinhação, a mais
difícil das artes mágicas. Devo alertá-los logo de inicio que se não
possuírem clarividência, terei muito pouco a ensinar a vocês. Os
livros só podem levá-los até certo ponto neste campo...
Ao ouvirem isso, Harry e Rony olharam, sorrindo, para
Hermione, que pareceu assustada com a notícia de que os livros
não ajudariam nessa matéria.
- Muitos bruxos e bruxas, embora talentosos para ruídos,
cheiros e desaparecimentos instantâneos, permanecem, ainda
assim, incapazes de penetrar nos mistérios do futuro.
A Profa Sibila continuou a falar, seus enormes olhos
brilhantes iam de um rosto nervoso a outro.
- É um dom concedido a poucos. Você, menino - disse ela
de repente a Neville, que quase caiu do pufe. - Sua avó vai bem?
- Acho que vai - respondeu Neville trêmulo.
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- Eu não teria tanta certeza se fosse você, querido - disse a
professora, enquanto a luz das chamas fazia faiscarem seus longos
brincos de esmeraldas. Neville engoliu em seco. Sibila continuou
tranqüilamente: - Vamos cobrir os métodos básicos de
adivinhação este ano. O primeiro trimestre letivo será dedicado à
leitura das folhas de chá. No próximo, abordaremos a
quiromancia. A propósito, minha querida - disparou ela de repente
para Parvati Patil -, tenha cuidado com um homem de cabelos
ruivos.
Parvati lançou um olhar assustado a Rony; que se sentara
logo atrás dela, e puxou a cadeira devagarinho para longe dele.
- No segundo trimestre - continuou a professora - vamos
estudar a bola de cristal, isto é, se conseguirmos terminar os
presságios do fogo. Infelizmente, as aulas serão perturbadas em
fevereiro por uma forte epidemia de gripe. Eu própria vou perder a
voz. E, na altura da Páscoa, alguém aqui vai deixar o nosso
convívio para sempre.
Seguiu-se um silêncio muito tenso a essa predição, mas a
Profª Sibila pareceu não tomar conhecimento.
- Será, querida - dirigiu-se ela a Lilá Brown, que estava
mais próxima e se encolheu na cadeira -, que você poderia me
passar o bule de prata maior?
Lua, com um ar de alívio se levantou, apanhou um enorme
bule na prateleira e pousou-o na mesa diante da mestra.
- Obrigada, querida. A propósito, essa coisa que você
receia vai acontecer na sexta-feira, dezesseis de outubro.
Lilá estremeceu.
- Agora quero que vocês formem pares.Apanhem um bule
de chá na prateleira e tragam-no aqui para eu encher. Depois se
sentem e bebam, bebam até restar somente a borra. Sacudam a
xícara três vezes com a mão esquerda, depois virem-na, de borda
para baixo, no pires, esperem até cair a última gota de chá e
entreguem-na ao seu par para ele a ler. Vocês vão interpretar os
desenhos formados, comparados com os das páginas cinco e seis
de Esclarecendo o futuro. Vou andar pela sala para ajudar e
ensinar a cada par. Ah, e querido - ela segurou o braço de Neville
quando ele fez menção de se levantar -, depois que você quebrar a
primeira xícara, por favor, escolha uma com desenhos azuis, gosto
90
muito das de desenhos rosa.
Não deu outra, Neville mal chegara à prateleira de xícaras
quando se ouviu um tilintar de porcelana que se quebrava, A
professora deslizou até ele levando uma pá e uma escova e disse:
- Uma das azuis, então, querido, se não se importa...
obrigada... Depois que Harry e Rony levaram as xícaras para
encher, voltaram à mesa e tentaram beber rapidamente o chá
pelando. Sacudiram a borra conforme a professora mandara,
depois viraram as xícaras e as trocaram entre si.
- Certo - disse Rony depois de abrirem os livros nas
páginas cinco e seis. - Que é que você vê na minha?
- Um monte de borra marrom - disse Harry. A fumaça
intensamente perfumada da sala o estava deixando sonolento e
burro.
- Abram suas mentes, meus queridos, e deixem os olhos
verem além do que é mundano! - gritou a Profª Sibila na
penumbra,
Harry tentou se controlar.
- Certo você tem uma espécie de cruz torta... - Ele
consultou o Esclarecendo o futuro. - Isto significa que você vai ter
sofrimentos e provações... sinto muito... mas tem uma coisa que
podia ser o sol... espere ai... que significa "grande felicidades"...
então você vai sofrer, mas vai ser muito feliz...
- Você precisa mandar examinar a sua visão interior - disse
Rony, e os dois precisaram sufocar o riso quando a professora
olhou na direção deles.
«Minha vez... - Rony examinou a xícara de Harry a testa
franzida com o esforço. - Tem uma pelota que lembra um pouco
um chapéu-coco. Vai ver você vai trabalhar no Ministério da
Magia...
Rony girou a xícara para cima.
- Mas desse outro lado as folhas parecem mais uma bolota
de carvalho... Que será isso? - O garoto consultou seu exemplar de
Esclarecendo o futuro. - Uma sorte inesperada, ganhos de ouro.
Que ótimo você pode me emprestar algum... e tem outra coisa aqui
-ele tornou a girar a xícara - que parece um animal... é, se isso
fosse a cabeça... podia parecer um hipopótamo... não, um
carneiro...
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A Profª Sibila se virou quando Harry deixou escapar um
ronco de riso.
- Deixe-me ver isso, querido - disse ela em. tom de censura
a Rony aproximando-se num ímpeto e tirando a xícara de Harry da
mão do colega. Todos se calaram para observar. A professora
examinou a xícara, e girou-a no sentido anti-horário,
- O falcão... meu querido, você tem um inimigo mortal.
- Mas todos sabem disso - comentou Hermione num
cochicho audível. A professora encarou-a.
"Verdade, todos sabem - repetiu a garota. - Todos sabem da
inimizade entre Harry e Você-Sabe-Quem.
Harry e Rony a olharam com uma mescla de surpresa e
admiração. Nunca tinham ouvido Hermione falar com uma
professora daquele jeito. Sibila preferiu não responder Tornou a
abaixar seus enormes olhos para a xícara de Harry e continuou a
girá-la.
- O bastão... um ataque. Ai, ai, ai, não é uma xícara feliz...
- Achei que isso era um chapéu-coco - disse Rony sem
graça.
- O crânio... perigo em seu caminho, querido...
Todos observavam, hipnotizados, a professora, que deu um
último giro na xícara, ofegou e soltou um berro.
Ouviu-se uma nova onda de porcelanas que se partiam
tilintando; Neville destruíra sua segunda xícara. A professora
afundou em uma cadeira vazia, a mão faiscante de anéis ao peito e
os olhos fechados.
- Meu pobre garoto... meu pobre garoto querido não.. e
mais caridoso não dizer.. não... não me pergunte...
- Que foi, professora? - perguntou Dino Thomas na mesma
hora. Todos tinham se levantado e aos poucos se amontoaram em
torno da mesa de Harry e Rony, aproximando-se da cadeira de
Sibila para dar uma boa olhada na xícara de Harry.
- Meu querido - os olhos da professora se abriram
teatralmente -, você tem o Sinistro.
- O, o quê? - perguntou Harry.
Ele percebeu que não era o único que não entendera. Dino
Thomas sacudiu. os ombros para ele e Lilá Brown fez cara de
intrigada, mas quase todos os outros levaram a mão à boca
92
horrorizados.
- O Sinistro, meu querido, o Sinistro! - exclamou a
professora, que parecia chocada com o fato de Harry não ter
entendido. - O cão gigantesco e espectral que assombra os
cemitérios! Meu querido menino é um mau agouro, o pior de
todos, agouro de morte!
Harry sentiu o estômago afundar O cão na capa do livro
Presságios da morte na Floreios e Borrões - o cão nas sombras da
rua Magnólia... Lilá Brown levou as mãos à boca também. Todos
tinham os olhos fixos em Harry, todos exceto Hermione, que se
levantara e procurava chegar às costas da cadeira da professora.
- Eu não acho que isso pareça um Sinistro - disse com
firmeza.
A Profª Sibila mirou a menina atentamente e com crescente
desagrado.
- Desculpe-me dizer isso, minha querida, mas não percebo
muita aura ao seu redor. Pouquíssima receptividade às
ressonâncias do futuro.
Simas Finnigan inclinou a cabeça de um lado para o outro.
- Parece um Sinistro se a gente fizer assim - disse com os
olhos quase fechados -, mas parece muito mais um burro quando a
gente olha de outro ângulo - disse ele, inclinando-se para a
esquerda.
- Quando vão terminar de resolver se eu vou morrer ou
não? -perguntou Harry, surpreendendo até a si mesmo. Agora
parecia que ninguém queria olhar para ele.
- Acho que vamos encerrar a aula por hoje - disse a
professora no tom mais etéreo possível. - É... por favor, guardem
suas coisas...
Em silêncio a classe devolveu as xícaras à professora,
guardou os livros e fechou as mochilas. Até mesmo Rony evitava
o olhar de Harry.
- Até que tornemos a nos encontrar - disse Sibila com uma
voz fraca - que a sorte lhes seja favorável. Ah, e querido - disse
apontando para Neville -, você vai se atrasar da próxima vez,
portanto trate de trabalhar muito para recuperar o tempo perdido.
Harry, Rony e Hermione desceram a escada da Profª Sibila
e a escada em caracol em silêncio, e seguiram para a aula de
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Transformação, da Profª Minerva. Levaram tanto tempo para
encontrar a sala de aula que, por mais cedo que tivessem saído da
aula de Adivinhação, acabaram chegando em cima da hora.
Harry escolheu um lugar no fundo da sala, sentindo-se
como se estivesse sentado sob um holofote; o resto da classe não
parou de lhe lançar olhares furtivos, como se ela estivesse preste a
cair morto a qualquer momento. Ele mal conseguiu ouvir o que a
professora dizia sobre Animagos (bruxos que podiam se
transformar à vontade em animais), e sequer estava olhando
quando ela própria se transformou, diante dos olhos deles, em um
gato malhado com marcas de óculos em torno dos olhos.
- Francamente, o que foi que aconteceu com os senhores
hoje? - perguntou a Pro& Minerva, voltando a ser ela mesma, com
um estalinho, e encarando a classe toda. - Não que faça diferença,
mas é a primeira vez que a minha transformação não arranca
aplausos de uma turma.
Todas as cabeças tornaram a se virar para Harry, mas
ninguém falou. Então Hermione ergueu a mão.
- Com licença, professora, acabamos de ter a nossa
primeira aula de Adivinhação, estivemos lendo folhas de chá e...
- Ah, naturalmente - comentou Minerva, fechando a cara de
repente. - Não precisa me dizer mais nada, Srta. Granger. Me diga
qual dos senhores vai morrer este ano?
Todos olharam para ela.
- Eu - disse, por fim, Harry.
- Entendo - disse a Profa Minerva, fixando em Harry seus
olhos de contas. - Então, Potter, é melhor saber que Sibila
Trelawney tem predito a morte de um aluno por ano desde que
chegou a esta escola. Nenhum deles morreu ainda. Ver agouros de
morte é a maneira com que ela gosta de dar boas-vindas a uma
nova classe. Não fosse o fato de que nunca falo mal dos meus
colegas...
A professora se calou, mas todos viram que suas narinas
tinham embranquecido de cólera. Ela continuou, mais calma:
- A Adivinhação é um dos ramos mais imprecisos da
magia. Não vou ocultar dos senhores que tenho muito pouca
paciência com esse assunto. Os verdadeiros videntes são muito
raros e a Profª Trelawney...Ela parou uma segunda vez, e em
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seguida disse, num tom despido de emoção:
- Para mim o senhor parece estar gozando de excelente
saúde, Potter, por isso me desculpe, mas não vou dispensá-lo do
dever de casa, hoje. Mas fique descansado, se o senhor morrer,
não precisa entregá-lo.
Hermione riu com gosto. Harry se sentiu um pouco melhor.
Era mais difícil sentir medo de folhas de chá longe daquela sala
fracamente iluminada por luzes vermelhas, que recendia ao
perfume atordoante da Profª Sibila. Ainda assim, nem todos
ficaram convencidos. Rony continuava com a expressão
preocupada e Lilá cochichou:
- E a xícara de Neville?
Quando a aula de Transformação terminou, eles se
reuniram ao resto dos alunos que atroavam a escola em direção ao
Salão Principal para almoçar.
- Anime-se, Rony - falou Hermione, empurrando uma
travessa de ensopado para o amigo. - Você ouviu o que a Profª
Minerva disse.
Rony se serviu do ensopado e apanhou o garfo, mas não
começou a comer; - Harry - perguntou ele, em tom baixo, com ar
sério -, você não viu um canzarrão preto em algum lugar, viu?
- Vi, sim. Na noite em que sai da casa dos Dursley.
Rony deixou o garfo cair com estrépito.
- Provavelmente um cão sem dono - comentou Hermione
secamente.
O garoto olhou para Hermione como se ela tivesse
enlouquecido.
- Mione, se Harry viu um Sinistro, isso é - é ruim. Meu tio
Abílio viu um e... e morreu vinte e quatro horas depois!
- Coincidência - replicou Hermione dignamente, servindose
de suco de abóbora.
- Você não sabe o que está falando! - disse Rony,
começando a se zangar. - Os Sinistros deixam a maioria dos
bruxos mortos de medo!
- Então é isso - retrucou a garota em tom superior. - Eles
vêem o Sinistro e morrem de medo. O Sinistro não é um agouro, é
a causa da morte! E Harry continua conosco porque não é burro de
ver um Sinistro e pensar "certo, muito bem, então é melhor eu
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bater as botas"!
Rony fez protestos para Hermione, que abriu a mochila,
tirou o novo livro de Aritmancia e apoiou-o na jarra de suco.
- Acho que Adivinhação é uma coisa muito confusa - disse,
procurando a página que queria. - E muita adivinhação, se querem
saber a minha opinião.
- Não houve nada confuso com o Sinistro naquela xícara! -
retrucou Rony acaloradamente.
Você não me pareceu tão confiante quando disse ao Harry
que era um carneiro - respondeu a menina sem se alterar;
- A Profª Sibila disse que você não tinha a aura necessária!
Você não gosta é de ser ruim em uma matéria para variar!
Ele acabara de tocar num ponto sensível. Hermione bateu
com o livro de aritmancia na mesa com tanta força que voaram
pedacinhos de carne e cenoura para todo lado.
- Se ser boa em Adivinhação é ter que fingir que estou
vendo agouros de morte em borras de folhas de chá, não tenho
certeza se quero continuar a estudar essa matéria por muito mais
tempo!
- Aquela aula foi uma idiotice completa se comparada à
minha aula de Aritmancia!
E, agarrando a mochila, a menina se retirou.
Rony franziu a resta acompanhando com os olhos a amiga
se afastando.
- Do que é que ela estava falando? - perguntou a Harry. -
Ela ainda não assistiu a nenhuma aula de Aritmancia.
Harry ficou contente de sair do castelo depois do almoço. A
chuva do dia anterior parara; o céu estava claro, cinza-pálido e a
grama parecia elástica e úmida sob os pés quando os garotos
rumaram para a primeiríssima aula de Trato das Criaturas
Mágicas.
Rony e Hermione não estavam se falando. Harry
caminhava ao lado dos dois em silêncio enquanto desciam os
gramados em direção à cabana de Hagrid, na orla da Floresta
Proibida. Somente quando identificaram três costas muito
conhecidas à frente é que se deram conta de que iriam
compartilhar as aulas com os alunos da Sonserina, Draco falava
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animadamente com Crabbe e Goyle, que riam com gosto. Harry
tinha quase certeza de qual era o assunto da conversa.
Hagrid já estava à espera dos alunos à porta da cabana,
Vestia o casaco de pele de toupeira, com Canino, o cão de caçar
javalis, nos calcanhares, e parecia impaciente para começar.
- Vamos, andem depressa! - falou quando os alunos se
aproximaram. - Tenho uma coisa ótima para vocês hoje! Vai ser
uma grande aula! Estão todos aqui? Certo, então me acompanhem!
Por um momento de apreensão, Harry pensou que Hagrid
os levaria para a Floresta Proibida; o menino já tivera suficientes
experiências desagradáveis ali para a vida inteira. No entanto, o
guarda-caça contornou a orla das árvores e cinco minutos depois
eles estavam diante de uma espécie de picadeiro. Não havia nada
ali.
- Todos se agrupem em volta dessa cerca! - mandou ele. -
Isso... procurem garantir uma boa visibilidade... agora, a primeira
coisa que vão precisar fazer é abrir os livros...
- Como? - perguntou a voz fria e arrastada de Draco
Malfoy.
- Que foi? - perguntou Hagrid.
- Como é que vamos abrir os livros? - repetiu o menino. Ele
retirou da mochila seu exemplar de O livro monstruoso dos
monstros, amarrado com um pedaço de corda. Outros alunos
fizeram o mesmo, alguns, como Harry, tinham fechado o livro
com um cinto; outros os tinham enfiado em sacos justos ou
fechado os livros com grampos.
- Será... será que ninguém conseguiu abrir o livro? -
perguntou Hagrid, com ar de desapontamento.
Todos os alunos sacudiram negativamente as cabeças.
- Vocês têm que fazer carinho neles - falou o novo
professor, como se isso fosse a coisa mais obvia do mundo. -
Olhem aqui...
Ele apanhou o livro de Hermione e rasgou a fita adesiva
que o prendia. O livro tentou morder, mas Hagrid passou seu
gigantesco dedo indicador pela lombada, o livro estremeceu, se
abriu e permaneceu quieto em sua mão.
- Ah, mas que bobeira a nossa! - caçoou Draco. - Devíamos
ter feito carinho no livro! Como foi que não adivinhamos!
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- Eu...eu achei que eles eram engraçados - disse Hagrid,
inseguro, para Hermione.
- Ah, engraçadíssimos! - comentou Draco. - Uma idéia
realmente espirituosa, nos dar livros que tentam arrancar nossa
mão.
- Cala a boca, Malfoy - advertiu-o Harry baixinho. Hagrid
parecia arrasado, e o garoto queria que aquela primeira aula do seu
amigo fosse um sucesso.
- Certo, então - continuou Hagrid, que pelo jeito perdera o
fio do pensamento - ... então vocês já têm os livros e... e... agora
faltam as criaturas mágicas. É. Então vou buscá-las. Esperem um
pouco...
Ele se afastou na direção da floresta e desapareceu de vista.
- Nossa, essa escola está indo para o brejo! - falou Draco
em voz alta. - Esse pateta dando aulas, meu pai vai ter um acesso
quando eu contar...
- Cala a boca, Malfoy - repetiu Harry.
- Cuidado, Potter, tem um dementador atrás de você..,
- Aaaaaaah! - guinchou Lilá Brown, apontando para o lado
oposto do picadeiro.
Trotavam em direção aos garotos mais ou menos uma
dezena dos bichos mais bizarros que Harry já vira na vida. Tinham
os corpos, as pernas traseiras e as caudas de cavalo, mas as pernas
dianteiras, as asas e a cabeça de uma coisa que lembrava águias
gigantescas, com bicos cruéis cinza-metálico e enormes olhos
laranja-vivo. As garras das pernas dianteiras tinham uns quinze
centímetros de comprimento e um aspecto letal. Cada um dos
bichos trazia uma grossa coleira de couro ao pescoço engatada em
uma longa corrente, cujas pontas estavam presas nas imensas
mãos de Hagrid, que entrou correndo no picadeiro atrás dos
bichos.
- Upa! Upa! Ai! - bradou ele, sacudindo as correntes e
incitando os bichos na direção da cerca onde se agrupavam os
alunos. Todos recuaram, instintivamente, quando Hagrid chegou
bem perto e amarrou os bichos na cerca.
- Hipogrifos! - bradou Hagrid alegremente, acenando para
eles. - Lindos, não acham?
Harry conseguiu entender mais ou menos o que Hagrid quis
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dizer. Depois que se supera o primeiro choque de ver uma coisa
que é metade cavalo, metade ave, a pessoa começava a apreciar a
pelagem luzidia dos hipogrifos, que mudava suavemente de pena
para pêlo, cada animal de uma cor diferente: cinza-chuva, bronze,
ruão rosado, castanho brilhante e nanquim.
- Então - disse Hagrid, esfregando as mãos e sorrindo para
todos -, se vocês quiserem chegar mais perto...
Ninguém pareceu querer. Harry, Rony e Hermione, porém,
se aproximaram cautelosamente da cerca.
- Agora, a primeira coisa que vocês precisam saber sobre os
hipogrifos é que são orgulhosos - explicou Hagrid. - Se ofendem
com facilidade, os hipogrifos. Nunca insultem um bicho desses,
porque pode ser a última coisa que vão fazer na vida.
Malfoy Crabbe e Goyle não estavam prestando atenção;
falavam aos cochichos e Harry teve o mau pressentimento de que
estavam combinando a melhor maneira de estragar a aula.
- Vocês sempre esperam o hipogrifo fazer o primeiro
movimento - continuou Hagrid. - É uma questão de cortesia,
entendem? Vocês vão até eles, fazem uma reverência e ai
esperam. Se o bicho retribuir o cumprimento, vocês podem tocar
nele. Se não retribuir, então saiam de perto bem depressinha,
porque essas garras machucam feio.
- Certo, quem quer ser o primeiro?
Em resposta, a maioria dos alunos recuou mais um pouco.
Até Harry Rony e Hermione se sentiram apreensivos. Os
hipogrifos balançavam as cabeças de aspecto feroz e flexionavam
as fortes asas; não pareciam gostar de estar presos daquele jeito.
- Ninguém? - disse Hagrid, com um olhar suplicante.
- Eu vou - disse Harry.
Ouviu-se gente ofegar atrás dele e Lilá e Parvati
murmuraram a mesma coisa:
- Aaah, não, Harry, lembra das folhas de chá!
Harry não deu ouvido às meninas. Trepou pela cerca do
pica-deito.
- É assim que se faz, Harry! - gritou Hagrid. - Certo,
então... vamos ver como você se entende com o Bicuço.
E, dizendo isso, soltou uma das correntes, separou o
hipogrifo cinzento dos restantes e retirou a coleira de couro. A
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turma do outro lado da cerca parecia estar prendendo a respiração.
Os olhos de Draco se estreitaram maliciosamente.
- Calma, agora, Harry - disse Hagrid em voz baixa. - Você
fez contato com os olhos, agora tente não piscar;.. Os hipogrifos
não confiam na pessoa que pisca demais...
Os olhos de Harry imediatamente começaram a se encher
de água, mas ele não os fechou. Bicuço virara a cabeçorra alerta e
fixava um cruel olho laranja em Harry.
- Isso mesmo - disse Hagrid. - isso mesmo, Harry.. agora
faça a reverencia.
Harry não se sentia nada animado a expor a nuca a Bicuço,
mas fez o que era mandado. Curvou-se brevemente e ergueu os
olhos.
O hipogrifo continuava a fixá-lo com altivez. Nem se
mexeu.
- Ah - exclamou Hagrid, parecendo preocupado. - Certo...
recue, agora, Harry devagarinho...
Mas nesse instante, para enorme surpresa de Harry, o
hipogrifo inesperadamente dobrou os escamosos joelhos dianteiros
e afundou o corpo em uma inconfundível reverência.
- Muito bem, Harry! - aplaudiu Hagrid, extasiado. - Certo...
pode tocá-lo! Acaricie o bico dele, vamos!
Com a impressão de que recuar teria sido uma recompensa
melhor, Harry avançou devagarinho para o hipogrifo e estendeu a
mão. Acariciou seu bico várias vezes e o bicho fechou os olhos
demoradamente, como se estivesse gostando.
A turma prorrompeu em aplausos, à exceção de Malfoy
Crabbe e Goyle, que pareciam profundamente desapontados.
- Certo então, Harry - falou Hagrid. - Acho que ele até
deixaria você montar nele!
Isto era mais do que o toma lá dá cá proposto por Harry.
Ele estava acostumado a montar vassouras; mas não tinha muita
certeza se um hipogrifo seria a mesma coisa.
- Isso, suba ali, logo atrás da articulação das asas - mandou
Hagrid. - E cuidado para não arrancar nenhuma pena, ele não vai
gostar nem um pouco...
Harry pisou no alto da asa de Bicuço e se içou para cima
das costas do bicho. O bicho se ergueu. Harry não tinha muita
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certeza de onde deveria se agarrar; à sua frente tudo era coberto de
penas.
- Pode ir, então! - bradou Hagrid, dando uma palmada nos
quartos do hipogrifo.
Sem aviso, as asas de quase quatro metros se abriram a
cada lado de Harry ele só teve tempo de se agarrar ao pescoço do
hipogrifo e já estava voando para o alto. Não foi nada semelhante
a uma vassoura e Harry soube na hora qual dos dois preferia; as
asas do hipogrifo adejavam desconfortavelmente dos lados,
batendo por baixo de suas pernas e dando-lhe a sensação de que
estava prestes a ser jogado no ar; as penas acetinadas
escorregavam dos seus dedos e o garoto não se atrevia a se agarrar
com mais força; em vez do vôo suave da Nimbus 2000, ele agora
balançava para a frente e para trás quando os quartos do hipogrifo
subiam e desciam acompanhando o movimento das asas.
Bicuço deu uma volta por cima do picadeiro e em seguida
embicou para o chão; essa foi a parte que Harry teve receio; ele
jogou o corpo para trás, à medida que o pescoço liso do bicho
abaixava, achando que ia escorregar por cima do bico, então,
sentiu um baque quando os quatro membros desparelhados do
bicho tocaram o chão. Por milagre, conseguiu se segurar e tornar a
se endireitar;
- Bom trabalho, Harry! - berrou Hagrid enquanto todos,
exceto Malfoy Crabbe e Goyle, aplaudiam. - Muito bem, quem
mais quer experimentar?
Encorajados pelo sucesso, os outros alunos subiram,
cautelosos, pela cerca do picadeiro. Hagrid soltou os hipogrifos,
um a um, e logo os garotos, nervosos, começaram a fazer
reverências por todo o picadeiro. Neville fugiu várias vezes do
dele, pois o bicho não estava com jeito de querer dobrar os joelhos
Rony e Hermione praticaram no hipogrifo castanho, enquanto
Harry observava.
Malfoy» Crabbe e Goyle ficaram com Bicuço. Ele acabara
de retribuir a reverência de Malfoy que agora lhe acariciava o
bico, com um ar desdenhoso.- isso é moleza - disse Draco com a
voz arrastada, suficientemente alta para Harry ouvir; - Só podia
ser, se o Potter conseguiu fazer... Aposto que você não tem nada
de perigoso, tem? - disse ao hipogrifo. - Tem, seu brutamontes
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feioso?
Aconteceu num breve movimento das garras de aço; Draco
soltou um berro agudo e no momento seguinte, Hagrid estava
pelejando para enfiar a coleira em Bicuço, enquanto o bicho fazia
força para avançar no garoto, que caíra dobrado na relva, o sangue
aflorando em suas vestes.
- Estou morrendo! - gritou Malfoy enquanto a turma
entrava em pânico. - Estou morrendo, olhem só para mim! Ele me
matou! - Você não esta morrendo! - disse Hagrid, que ficara muito
pálido. - Alguém me ajude.,. preciso tirar ele daqui...Hermione
correu para abrir o portão enquanto Hagrid erguia Malfoy nos
braços, sem esforço. Quando os dois passaram, Harry observou
que havia um corte grande no braço de Draco; o sangue pingava
no gramado e o guarda-caça, com o garoto ao colo, subiu correndo
a encosta em direção ao castelo.
Muito abalados, os alunos da aula de Trato das Criaturas
Mágicas os seguiram caminhando normalmente. Os alunos da
Sonserina gritavam contra Hagrid. - Deviam despedir ele,
imediatamente! - disse Violeta Parltinson, que estava às lágrimas.
- Foi culpa do Draco! - replicou Dino Thomas com
rispidez. Crabbe e Goyle flexionavam os braços, ameaçadores.
Os garotos subiram os degraus de pedra para o saguão
deserto, - Vou ver se ele está bem! - disse Pansy, e os outros
ficaram observando-a subir de corrida a escadaria de mármore. Os
alunos da Sonserina, ainda murmurando contra Hagrid, rumaram
para sua sala comuna!, em uma masmorra; Harry, Rony e
Hermione subiram as escadas para a Torre da Grifinória.
- Vocês acham que ele vai ficar bem? - perguntou
Hermione, nervosa.
- Claro que vai. Madame Pomfrey cura cortes em um
segundo
- disse Harry que já tivera ferimentos muito mais sérios
curados magicamente pela enfermeira.
- Foi realmente ruim acontecer isso na primeira aula de
Hagrid, vocês não acham? - comentou Rony parecendo
preocupado.
- Sempre se pode contar com o Draco para estragar as
coisas para o Hagrid...
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Os três foram os primeiros a chegar ao Salão Principal para
jantar, na esperança de verem Hagrid, mas o amigo não estava lá.
- Não iriam despedir ele, vocês acham que sim? –
perguntou Hermione aflita, sem tocar no pudim de carne e rins.
- É melhor não - replicou Rony que também não estava
comendo.
Harry ficou observando a mesa da Sonserina. Um grande
grupo, que incluía Crabbe e Goyle, estava reunindo, absorto em
conversas. Harry teve certeza de que estavam inventando a própria
versão para o ferimento de Draco.
- Bem, não se pode dizer que não foi um primeiro dia de
aula interessante - comentou Rony deprimido.
Os três subiram para o salão comunal da Grifinória depois
do jantar e tentaram fazer o dever de casa que a Profª Minerva
passara, mas ficaram o tempo todo interrompendo-o para espiar
pela janela.
- Tem luz na janela de Hagrid - disse Harry de repente.
Rony consultou o relógio.
- Se a gente andar depressa, pode descer para ver ele. Ainda
é cedo...
- Não sei - disse Hermione, lentamente, e Harry viu que a
amiga o olhava.
- Eu tenho permissão para andar pela propriedade - disse o
garoto incisivamente. - Sirius Black ainda não passou pelos
dementadores ou passou?
Então eles guardaram o material de estudo e se dirigiram ao
buraco do retrato, felizes por não encontrar ninguém no caminho
até a porta principal, porque não tinham tanta certeza assim. de
que podiam sair.
O gramado ainda estava úmido e parecia quase negro à luz
das estrelas. Quando chegaram à cabana de Hagrid, bateram e uma
voz resmungou rouca:
- Pode entrar.
Hagrid estava sentado em mangas de camisa à mesa de
madeira escovada; o cachorro, Canino, tinha a cabeça no colo
dele. Ao primeiro olhar, os garotos perceberam que o amigo
andara bebendo muito; havia uma caneca de alpaca quase do
tamanho de um balde diante dele e parecia ter dificuldade para
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focalizá-los.
- Imagino que seja um recorde - disse com a voz pastosa,
quando os reconheceu. - Calculo que nunca tiveram um professor
que só durasse um dia.
- Você não foi despedido, Hagrid! - ofegou Hermione.
- Ainda não - respondeu ele, infeliz, tomando um grande
gole do que havia na caneca. - Mas é só uma questão de tempo,
não é, depois que Malfoy..
- Como é que ele está? - perguntou Rony enquanto se
sentavam. - Não foi grave, foi?
- Madame Pomfrey fez o melhor que pôde - disse Hagrid
num tom inexpressivo -, mas ele diz que contínua doendo muito...
todo enfaixado... gemendo...
- Ele está fingindo - disse Harry na mesma hora. - Madame
Pomfrey sabe curar qualquer coisa. Ela fez crescer metade dos
meus ossos no ano passado. Pode contar que Draco vai se
aproveitar o máximo que puder do acidente.
- Os conselheiros da escola foram informados, é claro -
disse Hagrid, infeliz. - Acham que comecei muito grande. Devia
ter deixado os hipogrifos para mais tarde... que estudasse vermes
ou outra coisa pequena... Só quis fazer uma primeira aula boa...
Então a culpa é minha...
- É tudo culpa do Malfoy, Hagrid! - disse Hermione, séria.
- Somos testemunhas - acrescentou Harry -Você avisou que
os hipogrifos atacam quando são insultados. O problema é do
Malfoy se ele não estava prestando atenção. Vamos contar ao
Dumbledore o que realmente aconteceu.
- Vamos, sim, não se preocupe, Hagrid, vamos confirmar
sua história - disse Rony.
Lágrimas saltaram dos cantos enrugados dos olhos de
Hagrid, negros como besouros. Ele puxou Harry e Rony e lhes deu
um abraço de quebrar as costelas.
- Acho que você já bebeu o suficiente, Hagrid - falou
Hermione com firmeza. E apanhou a caneca na mesa e saiu da
cabana para esvaziá-la.
- Ah, talvez ela tenha razão - reconheceu Hagrid, soltando
Harry e Rony que recuaram cambaleando e massageando as
costelas. O guarda-caça levantou-se com esforço da cadeira e
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seguiu Hermione até o lado de fora, com o andar vacilante. Os
garotos ouviram barulho de água caindo.
- Que foi que ele fez? - perguntou Harry nervoso, quando
Hermione voltou trazendo a caneca vazia.
- Meteu a cabeça no barril de água - respondeu Hermione,
guardando a caneca.
Hagrid voltou, os cabelos e barbas longas empapadas,
enxugando a água dos olhos.
- Assim está melhor - falou, sacudindo a cabeça como um
cachorro e molhando os garotos. - Escutem, foi muita bondade
vocês terem vindo me ver, eu realmente...
Hagrid parou de repente, encarando Harry como se tivesse
acabado de perceber que ele estava ali.
- QUE É QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO,
HEIN?
- bradou, tão inesperadamente que os garotos deram um
pulo de mais de um palmo. - VOCÊ NÃO PODE SAIR
ANDANDO POR AÍ DEPOIS DO ANOITECER, HARRY! E
VOCÊS DOIS! DEIXARAM-NO SAIR!
Hagrid foi até Harry agarrou-o pelo braço e puxou-o para a
porta.
- Vamos! - disse aborrecido. - Vou levar vocês de volta à
escola, e não quero pegar ninguém saindo para me ver depois do
anoitecer. Eu não valho o risco!
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- CAPITULO SETE -
O bicho-papão no armário
Draco não reapareceu nas aulas até o fim da manhã de
quinta-feira, quando os alunos da Sonserina e da Grifinória já
estavam na metade da aula dupla de Poções. Ele entrou cheio de
arrogância na masmorra, o braço direito enfaixado e pendurado
em uma tipóia, agindo, na opinião de Harry; como se fosse o
sobrevivente heróico de uma terrível batalha.
- Como vai o braço, Draco? - perguntou Pansy Parkinson,
com um sorrisinho insincero. - Está doendo muito?
Está - respondeu o garoto, fazendo uma careta corajosa. Mas
Harry o viu piscar para Crabbe e Goyle, quando Violeta desviou o
olhar.
- Vá com calma, vá com calma disse o Prof. Snape
gratuitamente.
Harry e Rony fizeram careta um para o outro; Snape não teria
dito "vá com calma" se eles tivessem entrado atrasados, teria lhes
dado uma detenção. Mas Draco sempre conseguira escapar com
qualquer coisa nas aulas de Poções; Snape era o diretor da
Sonserina e em geral favorecia os próprios alunos em prejuízo dos
demais.
A classe estava preparando uma poção nova naquele dia,
uma Solução Redutora. Draco armou seu caldeirão bem ao lado do
de Harry e Rony, de modo que os três ficaram preparando os
ingredientes na mesma mesa.
- Professor - chamou Draco -, vou precisar de ajuda para
cortar as raízes de margarida, porque o meu braço...
- Weasley, corte as raízes para Malfoy - disse Snape sem
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erguer a cabeça.
Rony ficou vermelho como um tomate.
- O seu braço não tem nenhum problema - sibilou o garoto
para Draco.
Draco deu um sorriso satisfeito.
- Weasley, você ouviu o que o professor disse; corte as
raízes.
Rony apanhou a faca, puxou as raízes de Draco para perto e
começou a cortá-las de qualquer jeito, de modo que os pedaços
ficaram de tamanhos diferentes.
- Professor - falou Draco com a voz arrastada - Weasley está
mutilando as minhas raízes.
Snape aproximou-se da mesa, olhou para as raízes por cima
do nariz curvo e em seguida deu a Rony um sorriso desagradável,
por baixo da cabeleira longa e oleosa.
- Troque de raízes com Malfoy, Weasley.
- Mas, professor...!
Rony passara os últimos quinze minutos picando
cuidadosamente suas raízes em pedacinhos exatamente iguais.
- Agora - mandou Snape com o seu tom de voz mais
perigoso.
Rony empurrou as raízes caprichosamente cortadas para o
lado de Draco na mesa, e, em seguida, apanhou novamente a faca.
- E, professor, vou precisar descascar este pinhão - disse
Draco, a voz expressando riso e malícia.
- Potter, pode descascar o pinhão de Malfoy - disse Snape,
lançando a Harry o olhar de desprezo que sempre reservava só
para o garoto.
Harry apanhou o pinhão enquanto Rony começava a tentar
consertar o estrago que fizera às raízes que ia ter que usar Harry
descascou o pinhão o mais depressa que pôde e atirou-o para o
lado de Draco, sem falar. O outro riu com mais satisfação que
nunca.
- Tem visto o seu amigo Hagrid, ultimamente? - perguntou
Draco aos dois, baixinho.
- Não é da sua conta - retrucou Rony aos arrancos, sem
erguendo a cabeça.
- Acho que ele não vai continuar professor por muito tempo -
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disse Draco num tom de fingida tristeza. - Meu pai não ficou nada
satisfeito com o meu ferimento...
- Continue falando. Draco, e vou lhe fazer um ferimento de
verdade - rosnou Rony ele apresentou queixa aos conselheiros da
escola. E ao Ministério da Magia. Meu pai tem muita influência,
sabe. E um ferimento permanente como este - ele fingiu um longo
suspiro -, quem sabe se o meu braço vai voltar um dia a ser o
mesmo?
- Então é por isso que você está fazendo toda essa encenação
-comentou Harry; decapitando sem querer uma lagarta morta,
porque sua mão tremia de raiva. - Para tentar fazer Hagrid ser
despedido.
- Bom - respondeu Draco, baixando a voz para um sussurro -,
em parte, Potter. Mas tem outros benefícios, também. Weasley,
fatia minhas lagartas para mim.
A alguns caldeirões de distância, Neville se achava em
apuros. Ele se descontrolava regularmente nas aulas de Poções;
era a sua pior matéria, e seu grande medo do Prof. Snape tornava
as coisas dez vezes pior. Sua poção, que devia ter ficado verde
ácido e berrante, tinha acabado...
- Laranja, Longbottom - exclamou Snape, apanhando um
pouco de poção com a concha e deixando-a cair de volta no
caldeirão, de modo que todos pudessem ver. - Laranja. Me diga,
menino, será que alguma coisa penetra nessa sua cabeça dura?
Você não me ouviu dizer, muito claramente, que só precisava pôr
um baço de rato? Será que eu não disse, sem nenhum rodeio, que
um nadinha de sumo de sanguessuga era suficiente? Que é que eu
tenho de fazer para você entender, Longbottom?
Neville estava vermelho e trêmulo. Parecia prestes a chorar.
- Por favor, professor - disse Hermione -, eu poderia ajudar
Neville a consertar.
- Eu não me lembro de ter lhe pedido para se exibir, Srta.
Granger - respondeu Snape friamente e Hermione ficou tão
vermelha quanto Neville. - Longbottom, no final da aula vamos
dar algumas gotas desta poção ao seu sapo e ver o que acontece.
Quem sabe isto o estimule a preparar a poção corretamente.
O professor se afastou, deixando Neville sem fôlego de tanto
medo.
108
- Me ajude! - gemeu o menino para Hermione.
- Ei, Harry - disse Simas Finnigan, curvando-se para pedir
emprestada a balança de latão de Harry -, você já soube? No
Profeta Diário desta manhã, eles acham que avistaram Sirius
Black.
- Onde? - perguntaram Harry e Rony depressa. Do lado
oposto da mesa, Draco ergueu os olhos, escutando a conversa
atentamente.
- Não muito longe daqui - respondeu o colega, que parecia
excitado. - Foi visto por uma trouxa. Claro que ela não entendeu
muito bem. Os trouxas acham que ele é apenas um criminoso
comum, não é? Então ela telefonou para o número do plantão de
emergência. Mas até o Ministério da Magia chegar lá, o Black já
tinha sumido.
- Não muito longe daqui...repetiu Rony, lançando a Harry um
olhar sugestivo. Ele se virou e notou que Draco os observava,
atento. - Que foi, Draco? Precisa que eu descasque mais alguma
coisa?
Mas os olhos do garoto brilhava de maldade, e estavam fixos
em Harry. Ele se debruçou na mesa.
- Está pensando em apanhar o Black sozinho, Potter?
- Acertou! - respondeu Harry displicentemente.
Os lábios finos de Draco se curvaram num sorriso mau.
- E claro, se fosse eu - disse em voz baixa - eu já teria feito
alguma coisa há mais tempo. Eu não ficaria na escola como um
bom menino, eu estaria lá fora procurando o homem.
- De que é que você está falando, Draco? - perguntou Rony
com aspereza.
- Sabe de uma coisa, Potter? - sussurrou Malfoy, os olhos
claros quase fechados.
- De quê?
Malfoy soltou uma risada baixa e desdenhosa.
- Vai ver você prefere não arriscar o pescoço. Quer deixar os
dementadores resolverem o caso, não é? Mas se fosse eu, eu ia
querer me vingar. Ia atrás dele pessoalmente.
- Do que é que você está falando?- perguntou Harry
com.raiva, mas naquele momento Snape falou:
- Os senhores já devem ter terminado de misturar os
109
ingredientes. Essa poção precisa cozinhar antes de ser bebida;
portanto guardem o seu material enquanto ela ferve e, então,
vamos testar a do Longbottom...
Crabbe e Goyle riram-se abertamente, vendo Neville suar,
enquanto mexia febrilmente sua poção. Hermione murmurava
instruções para o garoto pelo canto da boca, para que Snape não
visse. Harry e Rony guardaram os ingredientes que não tinham
usado e foram lavar as mãos e conchas na pia de pedra a um canto
da sala.
- Que foi que Draco quis dizer? - sussurrou Harry para Rony,
enquanto molhava as mãos no jorro gelado que saía da boca da
gárgula – Por que eu iria querer me vingar de Black? Ele não me
fez nada... ainda.
- Ele está inventando - disse Rony com violência. - Está
tentando instigar você a fazer uma idiotice...
O fim da aula à vista, Snape encaminhou-se para Neville, que
estava encolhido ao lado do seu caldeirão.
- Venham todos para cá - disse o professor, seus olhos negros
cintilando - e observem o que acontece ao sapo de Longbottom. Se
ele conseguiu produzir uma Poção Redutora, o sapo vai virar um
girino. Se, o que eu não duvido, ele não preparou a poção direito,
o sapo provavelmente vai ser envenenado.
Os alunos da Grifinória observaram temerosos. Os da
Sonserina se mostraram excitados. Snape apanhou Trevo, o sapo,
com a mão esquerda e mergulhou, com a direita, uma colherinha
na poção de Neville, que agora estava verde. Depois, deixou cair
umas gotinhas na garganta de Trevo.
Houve um momento de silêncio, em que Trevo engoliu a
poção; seguiu-se um estalinho e Trevo, o girino, pôs-se a se
contorcer na palma da mão de Snape.
Os alunos da Grifinória desataram a aplaudir. Snape, com a
expressão mal-humorada tirou um vidrinho do bolso das vestes,
pingou algumas gotas em Trevo e ele reapareceu repentinamente
adulto.
- Cinco pontos a menos para a Grifinória - anunciou ele,
varrendo, assim, os sorrisos de todos os rostos. - Eu disse para não
ajudá-lo, Srta. Granger. A turma está dispensada.
Harry, Rony e Hermione subiram a escadaria do saguão de
110
entrada. Harry ainda estava pensando no que Malfoy falara,
enquanto Rony espumava de raiva de Snape.
- Cinco pontos a menos para a Grifinória porque a poção
estava certa! Por que você não mentiu, Mione? Devia ter dito que
Neville fez tudo sozinho!
Hermione não respondeu. Rony olhou para os lados.
-Aonde é que ela foi?
Harry se virou também. Os dois estavam no alto da escadaria
agora, vendo o resto da turma passar por eles a caminho do Salão
Principal para almoçar.
- Ela estava logo atrás da gente - comentou Rony, franzindo a
testa.
Malfoy passou pelos dois, caminhando entre Crabbe e Goyle.
Fez uma careta de riso para Harry e desapareceu.
- Lá está ela - disse Harry.
Hermione vinha ligeiramente ofegante, correndo escada
acima; com uma das mãos, ela agarrava a mochila e com. a outra
pare cia estar escondendo alguma coisa dentro das vestes.
- Como foi que você fez isso? - perguntou Rony.
- O quê? – perguntou, por sua vez, Hermione, se juntando aos
amigos.
- Em um minuto você está bem atrás da gente e no minuto
seguinte está de volta ao pé da escada.
Quê? - Hermione pareceu ligeiramente confusa. - Ah... eu
tive que voltar para ver uma coisa. Ah, não...
Uma costura se rompera na mochila da garota. Harry não se
surpreendeu; era visível que a mochila fora atochada com pelo
menos doze livrões pesados.
- Por que está carregando tudo isso na mochila? - perguntou
Rony.
- Você sabe quantas matérias estou estudando - respondeu ela
sem fôlego. - Será que podia segurar esses para mim?
-Mas... - Rony foi virando os livros que a amiga lhe passara
para olhar as capas - você não tem. nenhuma dessas matérias hoje.
Só tem Defesa contra as Artes das Trevas, à tarde.
- É verdade - respondeu Hermione vagamente, mas guardou
todos os livros na mochila assim mesmo. - Espero que tenha
alguma coisa boa para o almoço, estou morta de fome -
111
acrescentou, e se afastou em direção ao Salão Principal.
- Você também tem a impressão de que Mione não está
contando alguma coisa à gente? - perguntou Rony a Harry.
O Prof Lupin não estava em sala quando eles chegaram para
a primeira aula de Defesa contra as Artes das Trevas. Os alunos se
sentaram, tiraram das mochilas os livros, penas e pergaminho e
estavam conversando quando o professor finalmente apareceu.
Lupin sorriu vagamente e colocou a velha maleta surrada na
escrivaninha. Estava mal vestido como sempre, mas parecia mais
saudável do que no dia do trem, como se tivesse comido umas
refeições reforçadas.
- Boa tarde - cumprimentou ele. - Por favor, guardem todos
os livros de volta nas mochilas. Hoje teremos uma aula prática. Os
senhores só vão precisar das varinhas.
Alguns alunos se entreolharam, curiosos, enquanto
guardavam os livros. Nunca tinham tido uma aula prática de
Defesa contra as Artes das Trevas antes, a não ser que
considerassem aquela aula inesquecível no ano anterior, em que o
professor tinha trazido uma gaiola de diabretes e os soltara na sala.
- Certo, então - disse o Prof. Lupin, quando todos estavam.
prontos. - Queiram me seguir.
Intrigados, mas interessados, os alunos se levantaram e o
seguiram para fora da sala. Ele levou os alunos por um corredor
deserto e virou um canto, onde a primeira coisa que viram foi o
Pirraça, o poltergeist flutuando no ar de cabeça para baixo, e
entupindo com chicles o buraco da fechadura mais próxima.
Pirraça não ergueu os olhos até o professor chegar a mais ou
menos meio metro; então, agitou os dedos dos pés e começou a
cantar.
- Louco, lobo, Lupin - entoou ele. - Louco, lobo, Lupin...
Grosseiro e intratável como era quase sempre, Pirraça em
geral demonstrava algum respeito pelos professores. Todo mundo
olhou na mesma hora para Lupin a ver qual seria a sua reação
aquilo; para surpresa de todos, o professor continuou a sorrir.
- Eu tiraria o chicle do buraco da fechadura se fosse você,
Pirraça - disse ele gentilmente. - O Se. Filch não vai poder apanhar
as vassouras dele.
112
Filch era o zelador de Hogwarts, mal-humorado, um bruxo
frustrado que travava uma guerra constante contra os estudantes e,
na verdade, contra Pirraça também. Mas o poltergeist não deu a
mínima atenção às palavras do professor a não ser para respondelas
com um ruído ofensivo e alto feito com a boca.
O professor deu um breve suspiro e tirou a varinha.
- Este é um feitiçozinho útil - disse à turma por cima do
ombro. - Por favor, observem com atenção.
Ele ergueu a varinha até a altura do ombro e disse:
- Uediuósi!- e apontou para Pirraça.
Com a força de uma bala, a pelota de chicle disparou do
buraco da fechadura e foi bater certeira na narina esquerda de
Pirraça;o poltergeist virou de cabeça para cima e fugiu a grande
velocidade, xingando.
- Maneiro, professor! - exclamou Dino Thomas admirado.
- Obrigado, Dino - disse o professor tornando a guardar a
varinha. - Vamos prosseguir?
Eles recomeçaram. a caminhada, a turma olhando o
enxovalhado professor com crescente respeito. Lupin os conduziu
por um segundo corredor e parou bem à porta da saia de
professores.
- Entrem, por favor - disse ele, abrindo a porta e se afastando
para os alunos passarem.
A sala dos professores, uma sala comprida, revestida com
painéis de madeira e mobiliada com cadeiras velhas e
desaparelhadas, estava vazia, exceto por um ocupante. O Prof.
Snape estava sentado em uma poltrona baixa e ergueu os olhos
para os alunos que entravam. Seus olhos brilhavam e ele tinha um
arzinho de desdém em volta da boca. Quando o Prof. Lupin entrou
e fez menção de fechar a porta, Snape falou:
- Pode deixá-la aberta, Lupin. Eu prefiro não estar presente.
E, dizendo isso, se levantou e passou pela turma, suas vestes
negras se enfunando às suas costas. À porta, o professor girou nos
calcanhares e disse ao colega:
- Provavelmente ninguém o alertou, Lupin, mas essa turma
tem Neville Longbottom. Eu o aconselharia a não confiar a esse
menino nada que apresente dificuldade. A não ser que a Srta.
Granger se incumba de cochichar instruções ao ouvido dele.
113
Neville ficou escarlate. Harry olhou aborrecido para Snape;
já era bastante ruim que ele implicasse com Neville nas próprias
aulas, e muito pior fazer isso na frente de outros professores.
O Prof. Lupin ergueu as sobrancelhas.
- Pois eu pretendia chamar Neville para me ajudar na
primeira etapa da operação, e tenho certeza de que ele vai fazer
isso admiravelmente.
A cara de Neville ficou, se isso fosse possível, ainda mais
vermelha. Snape revirou os lábios num trejeito de desdém, mas se
retirou, batendo de leve a porta.
- Agora, então - disse o Prof. Lupin, chamando, com um
gesto, a turma para o fundo da sala, onde não havia nada exceto
um velho armário em que os professores guardavam mudas limpas
de vestes. Quando o professor se postou a um lado, o armário
subitamente se sacudiu, batendo na parede.
"Não se preocupem - disse ele calmamente porque alguns
alunos tinham pulado para trás, assustados. - Há um bicho-papão
aí dentro.
A maioria dos garotos achou que isso era uma coisa com o
que se preocupar. Neville lançou ao professor um olhar de
absoluto terror e Simas Pinnigan mirou o puxador, que agora
sacudia barulhentamente, com apreensão.
- Bichos-papões gostam de lugares escuros e fechados -
informou o mestre. - Guarda-roupas, o vão embaixo das camas, os
armários sob as pias... Eu já encontrei um alojado dentro de um
relógio de parede antigo. Este aí se mudou para cá ontem à tarde e
perguntei ao diretor se os professores poderiam deixá-lo para eu
dar uma aula prática aos meus alunos do terceiro ano.
"Então, a primeira pergunta que devemos nos fazer é, o que é
um bicho-papão?"
Hermione levantou a mão.
- É um transformista - respondeu ela. - É capaz de assumir a
forma do que achar que pode nos assustar mais.
- Eu mesmo não poderia ter dado uma definição melhor -
disse o Prof. Lupin, e o rosto de Hermione se iluminou de orgulho.
- Então o bicho-papão que está sentado no escuro aí dentro
ainda não assumiu forma alguma. Ele ainda não sabe o que pode
assustar a pessoa que está do lado de fora. Ninguém sabe qual é a
114
aparência de um bicho-papão quando está sozinho, mas quando eu
o deixar sair, ele imediatamente se transformará naquilo que cada
um de nós mais teme.
"Isto significa - continuou o Prof. Lupin, preferindo não dar
atenção à breve exclamação de terror de Neville - que temos uma
enorme vantagem sobre o bicho-papão para começar. Você já sabe
qual é, Harry?"
Tentar responder uma pergunta com Hermione do lado, com
as plantas dos pés subindo e descendo impacientes e a mão no ar,
era muito irritante, mas Harry resolveu tentar assim mesmo.
...... porque somos muitos, ele não vai saber que forma
tomar.
- Precisamente - concordou o professor e Hermione baixou a
mão, parecendo um pouquinho desapontada. - É sempre melhor
estarmos acompanhados quando enfrentamos um bicho-papão.
Assim, ele se confunde. No que deverá se transformar, num corpo
sem cabeça ou numa lesma carnívora? Uma vez vi um bichopapão
cometer exatamente este erro, tentou assustar duas pessoas
e se transformou em meia lesma. O que, nem de longe, pode
assustar alguém.
"O feitiço que repele um bicho-papão é simples, mas exige
concentração. Vejam, a coisa que realmente acaba com um bichopapão
é o riso. Então o que precisam fazer é forçá-lo a assumir
uma forma que vocês achem engraçada. Vamos praticar o feitiço
com as varinhas primeiro. Repitam comigo, por favor.
riddikulus!"
- Riddikulus!- repetiu a turma.
- Ótimo - aprovou o Prof. Lupin. - Muito bem. Mas receio
que esta seja a parte mais fácil. Sabem, a palavra sozinha não
basta. E é aqui que você vai entrar Neville.
O guarda-roupa recomeçou a tremer, embora não tanto
quanto Neville, que se dirigiu para o móvel como se estivesse indo
para a forca.
- Certo, Neville - disse o professor. - Vamos começar pelo
começo: qual, você diria, que é a coisa que pode assustá-lo mais
neste mundo?
Os lábios de Neville se mexeram, mas não emitiram som
algum.
115
- Não ouvi o que você disse, Neville, me desculpe - disse o
Prof. Lupin animado.
Neville olhou para os lados meio desesperado, como que
suplicando a alguém que o ajudasse, depois disse, num sussurro
quase inaudível:
- O Prof. Snape.
Quase todo mundo riu. Até Neville sorriu como se pedisse
desculpas. Lupin, porém, ficou pensativo.
- Prof. Snape... hummm... Neville, eu creio que você mora
com a sua avó?
-Hum... moro - disse Neville, nervoso. - Mas também não
quero que o bicho-papão se transforme na minha avó.
- Não, não, você não entendeu - disse o professor, agora
rindo. - Será que você podia nos descrever que tipo de roupas a
sua avó normalmente usa?
Neville fez cara de espanto, mas disse:
- Bem... sempre o mesmo chapéu. Um bem alto com um
urubu empalhado na ponta. E um vestido comprido... verde,
normalmente... e às vezes uma raposa.
- E uma bolsa?
- Vermelha e bem grande.
- Certo então - disse o professor. - Você é capaz de imaginar
essas roupas com clareza, Neville? Você consegue vê-las
mentalmente?
- Consigo - respondeu Neville, hesitante, obviamente
imaginando o que viria a seguir.
- Quando o bicho-papão irromper daquele guarda-roupa,
Neville, e vir você, ele vai assumir a forma do Prof. Snape. E você
vai erguer a varinha... assim... e gritar "Riddikulus"... e se
concentrar com todas as suas forças nas roupas de sua avó. Se tudo
correr bem, o Prof. Bicho-Papão Snape será forçado a vestir
aquele chapéu com o urubu, aquele vestido verde e carregar aquela
enorme bolsa vermelha.
Houve uma explosão de risos. O guarda-roupa sacudiu com
maior violência. - e Neville acertar, o bicho-papão provavelmente
vai voltar a atenção para cada um de nós individualmente. Eu
gostaria que todos gastassem algum tempo, agora, para pensar na
coisa de que têm mais medo e imaginar como poderia fazê-la
116
parecer cômica...
A sala ficou silenciosa. Harry pensou... O que o apavorava
mais no mundo?
Seu primeiro pensamento foi Lord Voldemort - um
Voldemort que tivesse recuperado totalmente as forças. Mas antes
que conseguisse planejar um possível contra-ataque ao bichopapão
Voldemort, uma imagem horrível foi aflorando à superfície
de sua mente...
Uma mão luzidia e podre, que escorregava para dentro de
uma capa preta... uma respiração longa e rascante que saía de uma
boca invisível... depois um frio tão penetrante que dava a
impressão de que ele estava se afogando...
Harry estremeceu e olhou para os lados, na esperança de que
ninguém tivesse reparado nele. Muitos alunos tinham os olhos
bem fechados. Rony murmurava para si mesmo Arranque as
pernas dela". Harry teve certeza de que sabia a que o amigo se
referia. O maior medo de Rony eram as aranhas.
- Todos prontos? - perguntou o Prof. Lupin.
Harry sentiu uma onda de medo. Ele não estava pronto.
Como era possível fazer um dementador se tornar menos
aterrorizante? Mas não quis perder mais tempo; todos estavam
acenando a cabeça afirmativamente enrolando as mangas.
- Neville, nós vamos recuar - disse o professor, - Assim você
fica com o campo livre, está bem? Vou chamar o próximo para
frente... Todos para trás, agora, de modo que Neville tenha espaço
para agitar a varinha...
Todos recuaram, encostaram-se nas paredes, deixando
Neville sozinho ao lado do guarda-roupa, Ele parecia pálido e
assustado, mas enrolara as mangas das vestes e segurava a varinha
em posição.
- Quando eu contar três, Neville - avisou Lupin, que
apontava a própria varinha para o puxador do armário. - Um.,.
dois... três... agora!
Um jorro de faíscas saltou da ponta da varinha do professor e
bateu no puxador, O guarda-roupa se abriu com violência. Com o
nariz curvo e ameaçador, o Prof. Snape saiu, os olhos faiscando
para Neville.
Neville recuou, de varinha no ar, balbuciando
117
silenciosamente. Snape avançou para ele, apanhando alguma coisa
dentro das vestes,
-R...r.. ríddikulus!- esganiçou-se Neville.
Ouviu-se um ruído que lembrava o estalido de um chicote.
Snape tropeçou; usava um vestido longo, enfeitado de rendas e um
imenso chapéu de bruxo com um urubu carcomido de traças no
alto, e sacudia uma enorme bolsa vermelho-vivo,
Houve uma explosão de risos; o bicho-papão parou, confuso,
e o Prof. Lupin gritou:
- Parvati! Avante!
Parvati adiantou-se, com ar decidido. Snape avançou para
ela, Ouviu-se outro estalo e onde o bicho-papão estivera havia
agora uma múmia com as bandagens sujas de sangue; seu rosto
tampado estava virado para Parvati e a múmia começou a andar
para a garota muito lentamente, arrastando os pés, erguendo os
braços duros...
- Riddikulus!- exclamou Parvati.
Uma bandagem se soltou aos pés da múmia; ela se enredou,
caiu de cara no chão e sua cabeça rolou para longe do corpo.
- Simas - bradou o professor,
Simas passou disparado por Parvati.
Craque! Onde estivera a múmia surgiu uma mulher de
cabelos negros que iam até o chão e um rosto esverdeado e
esquelético -um espírito agourento. Ela escancarou a boca e um
som espectral encheu a sala, um grito longo e choroso que fez os
cabelos de Harry ficarem em pé.
- Riddikulus! - bradou Simas. E o espírito agourento emitiu
um som rascante, apertou a garganta com as mãos; sua voz sumiu.
Craque!O espírito agourento se transformou em um rato, que saiu
correndo atrás do próprio rabo) em círculos, depois... craque! -
transformou-se em uma cascavel, que saiu deslizando e se
contorcendo até que - craque! - se transformou em um olho único
e sangrento.
- Confundimos o bicho! - gritou Lupin. - já estamos quase no
fim! Dino!
Dino adiantou-se correndo.
Craque!O olho se transformou em uma mão decepada, que
deu uma cambalhota e saiu andando de lado como um
118
caranguejo.
- Riddikulus!- berrou Dino.
Ouviu-se um estalo e a mão ficou presa em uma ratoeira.
- Excelente! Rony; você é o próximo!
Rony correu para frente aos pulos.
Craque!
Muitos alunos gritaram. Uma aranha gigantesca e peluda,
com quase dois metros de altura, avançou para Rony; batendo as
pinças ameaçadoramente. Por um instante, Harry achou que Rony
congelara. Mas...
- Riddikulus!- berrou Rony, e as pernas da aranha
desapareceram; ela ficou rolando pelo chão; Lilá Brown deu um
grito agudo e se afastou correndo do caminho da aranha até que
ela parou aos pés de Harry. O garoto ergueu a varinha, preparouse,
mas...
- Tome! - gritou o Prof. Lupin de repente, correndo para
frente.
Craque!
A aranha sem pernas sumira. Por um segundo todos olharam
assustados para os lados a ver o que aparecera. Então viram um
globo branco-prateado pendurado no ar diante de Lupin, e ele
disse "Ricblikulu!' quase descansadamente.
Craque!
- Para frente, Neville, e acabe com ela! - mandou o professor
quando o bicho-papão aterrissou no chão sob a forma de uma
barata. Craque! E Snape reapareceu. Desta vez, Neville avançou
parecendo decidido.
- Riddikulus!- gritou, e, por uma fração de segundo, seus
colegas tiveram uma visão de Snape com seu vestido de rendas
antes de Neville soltar uma grande gargalhada e o bicho-papão
explodir em milhares de fiapinhos minúsculos de fumaça, e
desaparecer.
- Excelente! - exclamou o Prof. Lupin enquanto a classe
aplaudia com entusiasmo. - Excelente Neville. Muito bem,
pessoal... Deixe-me ver... cinco pontos para a Grifinória para cada
pessoa que enfrentou o bicho-papão - dez para Neville porque ele
o enfrentou duas vezes e cinco para Harry e para Hermione.
- Mas eu não fiz nada - protestou Harry.
119
- Você e Hermione responderam às minhas perguntas
corretamente no início da aula, Harry - respondeu Lupin
gentilmente. -Muito bem, pessoal, foi uma aula excelente. Dever
de casa: por favor, leiam o capítulo sobre os bichos-papões e
façam um resumo para me entregar... na segunda-feira. E por hoje
é só.
Falando agitados, os alunos deixaram a sala dos professores.
Harry, porém, não estava se sentindo muito animado. O
Prof. Lupin intencionalmente o impedira de enfrentar o bichopapão.
Por que? Tinha sido porque vira Harry desmaiar no trem e
achava que ele não seria capaz? Teria pensado que ele ia
desmaiar de novo? Mas ninguém mais pareceu ter estranhado
nada.
- Você me viu enfrentar aquele espírito agourento? -
perguntava Simas aos gritos.
- E a mão! - disse Dino, agitando a própria mão no ar.
- E o Snape naquele chapéu!
- E a minha múmia?
- Por que será que o Prof. Lupin tem medo de bolas de
cristal? - indagou Lilá, pensativa.
- Essa foi a melhor aula de Defesa contra as Artes das Trevas
que já tivemos, vocês não acham? - disse Rony excitado quando
refaziam o caminho até a sala de aula para apanhar as mochilas.
- Ele parece um bom professor - comentou Hermione em tom
de aprovação. - Mas eu gostaria de ter podido enfrentar o bichopapão...
- O que ele teria sido para você? - perguntou Rony dando
risadinhas. - Um dever de casa que só mereceu nota nove em dez?
120
- CAPITULO OITO -
A fuga da mulher gorda
Não demorou nada e a Defesa contra as Artes das Trevas se tornou
a matéria favorita da maioria dos estudantes. Somente Draco
Malfoy e sua patota de alunos da Sonserina tinham alguma coisa
de ruim a dizer do Prof Lupin.
- Olha só as vestes dele - Malfoy diria num sussurro bem
audível quando o professor passava. - Ele se veste como um velho
elfo doméstico
Mas ninguém mais se importava se as vestes de Lupin eram
remendadas e esfiapadas. Suas aulas seguintes tinham sido tão
interessantes quanto a primeira. Depois dos bichos-papões, eles
estudaram os "barretes vermelhos", criaturinhas malfazejas que
lembravam duendes e rondavam os lugares onde houvera
derramamento de sangue - masmorras de castelos e valas dos
campos de batalha desertos - à espera de abater a porrete os que se
perdiam. Dos barretes vermelhos eles passaram aos kappas, seres
rastejantes das águas, que lembravam macacos com escamas,
palmípedes cujas mãos comichavam para estrangular os banhistas
desavisados que penetravam seus domínios.
Harry só desejava que fosse tão feliz com outras matérias.
A pior delas era Poções. Snape andava com uma disposição bem
vingativa ultimamente, e ninguém tinha dúvidas do que motivara
isso. A história do bicho-papão que assumira a forma dele, e a
maneira com que Neville o vestira com as roupas da avó, correra a
escola como fogo espontâneo. Snape não parecia ter achado graça.
Seus olhos faiscavam ameaçadoramente à simples menção do
nome de Lupin e ele andava implicando com Neville mais do que
121
nunca.
Harry também estava começando a temer as horas que
passava na sala sufocante da Profª Sibila, decifrando formas e
símbolos enviesados, tentando fingir que não via os olhos da
professora se encherem de lágrimas todas as vezes que olhava para
ele. Não conseguia gostar de Sibila, embora ela fosse tratada, por
muitos alunos da turma, com um respeito que beirava a reverência.
Parvati Patil e Lilá Brown passaram a rondar a torre da professora
na hora do almoço, e sempre voltavam com irritantes ares de
superioridade, como se soubessem de coisas que os outros
desconheciam. Tinham começado também a usar um tom de voz
abafado sempre que falavam com Harry, como se estivessem em
seu velório.
Ninguém gostava realmente de Trato das Criaturas Mágicas
que, depois da primeira aula repleta de ação, tornara-se
extremamente monótona. Hagrid parecia ter perdido a confiança
em si mesmo. Os alunos agora passavam aula após aula
aprendendo a cuidar de vermes, que eram uma das espécies de
bichos mais chatas que existem no mundo, e não era por acaso.
- Por que alguém se daria o trabalho de cuidar deles? -
exclamou Rony, depois de mais de uma hora enfiando alface
fresca picada pela goela escorregadia dos vermes.
No início de outubro, porém, Harry teve algo com que se
ocupar, algo tão prazeroso que mais do que compensou as aulas
chatas. A temporada de quadribol se aproximava e Olívio Wood,
capitão do time da Grifinória, convocou uma reunião para uma
noite de quinta-feira com a finalidade de discutirem as táticas que
adotariam na nova temporada.
Havia sete jogadores num time de quadribol; três
artilheiros, cuja função é marcar gols fazendo a goles (uma bola
vermelha do tamanho de uma bola de futebol) passar por um aro
no alto de uma baliza de quinze metros de altura fincada em cada
extremidade do campo; dois batedores, armados com pesados
bastões para repelir os balaços (duas bolas pretas maciças que
voavam para todos os lados tentando atacar os jogadores); um
goleiro, que defendia as balizas e um apanhador, que tinha a
função mais difícil de todas, a de capturar o pomo de ouro, uma
bolinha alada do tamanho de uma noz, cuja captura encerrava o
122
jogo, e garantia para o time do apanhador cento e cinqüenta pontos
a mais.
Olívio era um rapaz forte de dezessete anos, agora no
sétimo e último ano de Hogwarts.Tinha uma espécie de desespero
silencioso na voz quando se dirigiu aos seis companheiros de
equipe nos gelados vestiários, localizados nas pontas do campo de
quadribol, agora quase escuro.
- Esta é a nossa última chance, minha última chance, de
ganhar a Taça de Quadribol - disse andando para lá e para cá
diante dos colegas. - Vou-me embora no fim deste ano. Nunca
mais terei outra oportunidade.
"Grifinória não ganha a taça há sete anos. Tudo bem
tivemos o maior azar do mundo, acidentes, depois o cancelamento
do torneio no ano passado... - Olívio engoliu em seco como se
aquela lembrança ainda lhe desse um nó na garganta. - Mas
também sabemos que temos o time - melhor - mais irado – da
escola - disse ele, dando um soco na palma da mão, o velho brilho
obsessivo nos olhos.
"Temos três artilheiros da melhor qualidade".
Olívio apontou para Alicia Spinnet, Angelina Johnson e
Katie Bell.
- Temos dois batedores imbatíveis.
- Pode parar, Olívio, você está encabulando a gente -
disseram Fred e Jorge juntos, fingindo corar.
- temos um apanhador que até hoje nunca deixou de nos
levar à vitória nas partidas que jogamos - falou Olívio em tom
retumbante, encarando Harry com uma espécie de orgulho
ardoroso, - E temos a mim - acrescentou, pensando melhor.
- Nós também achamos você muito bom, Olívio - disse
Jorge.
Um goleiro do caramba! - disse Fred.
- A questão é - continuou Olívio retomando a caminhada -
que a Taça de Quadribol devia ter tido o nome do nosso time
gravado, nesses dois últimos anos. Desde que Harry se juntou a
nos, achei que a taça já estava no papo. Mas não ganhamos, e este
ano é a última chance que teremos de finalmente ver o nosso nome
na taça...
Olívio falou tão desolado que até Fred e Jorge o olharam
123
com simpatia.
- Olívio, este ano é o nosso ano - animou-o Fred.
- Vamos conseguir, Olívio! - disse Angelina.
- Sem a menor dúvida - confirmou Harry.
Cheio de determinação, o time começou os treinos, três
noites por semana. O tempo estava ficando mais frio e mais
úmido, as noites mais escuras, mas não havia lama nem vento nem
chuva que pudesse empanar a visão maravilhosa de Harry de
finalmente ganhar a enorme Taça de Quadribol de prata.
Harry voltou à sala comunal da Grifinória certa noite
depois do treino, enregelado, os músculos endurecidos, mas
satisfeito com o aproveitamento do treino, e encontrou a sala
mergulhada num vozerio excitado.
- Que foi que aconteceu? - perguntou ele a Rony e
Hermione, que estavam sentados em duas das melhores poltronas
ao lado da lareira terminando uns mapas estelares para a aula de
Astronomia.
- Primeiro fim de semana em Hogsmeade - respondeu
Rony, apontando para uma nota que aparecera no escalavrado
quadro de avisos. - Fim de outubro. Dia das Bruxas.
- Ótimo - comentou Fred que seguira Harry na passagem
pelo buraco do quadro. - Preciso visitar a Zonko's. Meus
chumbinhos fedorentos estão quase no fim.
Harry se atirou em uma cadeira ao lado de Rony, sua
animação esfriando. Hermione pareceu ler seus pensamentos.
- Harry tenho certeza de que você vai poder ir na próxima
visita - disse a garota. - Vão acabar pegando o Black logo. Ele já
foi avistado uma vez.
- Black não é louco de tentar alguma coisa em Hogsmeade
-argumentou Rony. - Pergunte a McGonagall se você pode ir
Harry. A próxima vez talvez demore um tempão para acontecer.
- Rony!- exclamou a garota. - Harry tem que ficar na
escola...
- Ele não pode ser o único aluno de terceiro ano que vai
ficar - disse Rony. - Pergunta a McGonagall, anda, Harry...
- É, acho que vou perguntar - disse Harry se decidindo.
Hermione abriu a boca para protestar, mas naquele instante
Bichento pulou com leveza em seu colo. Trazia uma enorme
124
aranha morta pendurada na boca.
- Ele tem que comer isso na frente da gente? - perguntou
Rony aborrecido.
- Bichento inteligente, você apanhou a aranha sozinho? -
perguntou Hermione.
Bichento mastigou a aranha vagarosamente, os olhos
amarelos fixos insolentemente em Rony.
- Vê se ao menos segura ele aí - disse Rony irritado,
voltando a atenção para o seu mapa estelar - Perebas está
dormindo na minha mochila.
Harry bocejou. Queria realmente ir se deitar, mas ainda
tinha o mapa para terminar. Puxou a mochila para perto, tirou um
pergaminho, tinta e caneta e começou a trabalhar;
- Pode copiar o meu, se quiser - ofereceu Rony, escrevendo
o nome da última estrela com um floreio e empurrando o mapa
para Harry.
Hermione, que desaprovava colas, contraiu os lábios, mas
não disse nada. Bichento continuava a mirar Rony sem piscar,
agitando a ponta do rabo peludo. Então, sem aviso, atacou.
- AI! - berrou Rony, agarrando a mochila na hora em que
Bichento enterrava nela as garras das quatro patas e começava a
sacudi-la furiosamente. - DE O FORA DAI SEU BICHO
BURRO!
Rony tentou arrancar a mochila das garras de Bichento,
mas o gato não a largava, bufando e unhando.
- Rony, não machuca ele! - gritou Hermione; toda a sala
observava; Rony girou a mochila, Bichento continuou agarrado, e
Perebas saiu voando pela abertura...
- SEGURE ESSE GATO! - berrou Rony quando Bichento
se desvencilhou dos restos da mochila e saltou para a mesa
perseguindo o aterrorizado Perebas.
Jorge Weasley deu um salto na direção de Bichento, mas
errou; Perebas disparou entre vinte pares de pernas e sumiu
embaixo de uma velha cômoda. Bichento parou derrapando, se
abaixou o mais que pôde nas pernas arqueadas e começou a fazer
furiosas investidas com a pata dianteira no vão da cômoda.
Rony e Hermione correram pata acudir; Hermione agarrou
Bichento pelo meio e carregou-o para longe; Rony se atirou no
125
chão de barriga para baixo e, com grande dificuldade, puxou
Perebas para fora pelo rabo.
- Olha só para ele! - gritou o garoto furioso para Hermione,
balançando Perebas diante da amiga. - Está pele e osso! Segura
esse gato longe dele!
- Bichento não entende que isso é errado! - defendeu-o
Hermione, a voz trêmula. - Todos os gatos caçam ratos, Rony!
- Tem uma coisa esquisita nesse animal! - acusou Rony,
que estava tentando persuadir um Perebas, que se contorcia
freneticamente, a voltar para dentro do seu bolso. - Ele me ouviu
dizer que Perebas estava na mochila!
- Ah, deixa de bobagem - retrucou a garota. - Bichento sabe
farejar Rony de que outro modo você acha...
Esse gato está perseguindo o Perebas! - disse Rony,
fingindo não ver os colegas em volta, que começavam a dar
risadinhas abafadas. - E Perebas estava aqui primeiro, e está
doente!
Rony atravessou a sala decidido e desapareceu na subida da
escada para os dormitórios dos garotos.
Rony continuou de mal com Hermione no dia seguinte.
Quase não falou com a garota durante a aula de Herbologia,
embora ele, Harry e Hermione estivessem trabalhando juntos na
mesma tarefa.
- Como é que vai o Perebas? - perguntou Hermione
timidamente enquanto colhiam gordas vagens rosadas das plantas
e esvaziavam seus feijões luzidios em um balde de madeira.
- Está escondido no fundo da minha cama tremendo -
respondeu Rony com raiva, errando o balde e espalhando feijões
pelo chão da estufa.
- Cuidado, Weasley; cuidado! - exclamou a Prof. Sprout
quando os feijões desabrocharam diante dos olhos de todos.
A aula seguinte era Transformação. Harry; que resolvera
perguntar à Profª McGonagall depois da aula se podia ir a
Hogsmeade com os colegas, entrou na fila do lado de fora da sala
tentando decidir como é que iria defender o seu caso. Foi
distraído, porém, por uma confusão no início da fila.
126
Pelo jeito, Lilá Brown estava chorando. Parvati abraçava-a,
e explicava algo a Simas e Dino, que pareciam muito sérios.
- Que foi que aconteceu, Lilá? - perguntou Hermione,
ansiosa, quando ela, Harry e Rony se reuniram ao grupo.
- Ela recebeu uma carta de casa hoje de manhã - sussurrou
Parvati. - Foi o coelho dela, Binqui. Foi morto por uma raposa.
- Ah - disse Hermione -, sinto muito, Lilá.
- Eu devia ter imaginado! - exclamou Lilá, tragicamente. -
Você sabe que dia é hoje?
- Hum...
- Dezesseis de outubro! "Essa coisa que você receia, vai
acontecer na sexta-feira, 16 de outubro!" Lembram? Ela estava
certa, ela estava certa!
A turma inteira agora rodeava Lilá. Simas sacudia a cabeça,
sério. Mione hesitou; em seguida perguntou:
- Você receava que Binqui fosse morro por uma raposa?
- Bem, não necessariamente por uma raposa - respondeu
Lilá, erguendo os olhos, dos quais as lágrimas escorriam sem parar
-, mas obviamente eu receava que ele morresse, não é?
- Ah - exclamou Hermione. Era fez outra pausa. E depois...
- Binqui era um coelho velho?
- N... não! - soluçou Lilá. - A... ainda era um bebezinho!
Parvati apertou o abraço que dava em Lilá.
- Mas, então, por que você tinha receio que ele morresse? -
perguntou Hermione.
Parvati fez uma cara feia para a colega.
- Bem, vamos encarar isso logicamente - falou Hermione,
virando-se para o restante do grupo. - Quero dizer, Binqui nem ao
menos morreu hoje, não é? Lilá foi que recebeu a noticia hoje... -
Lilá abriu um berreiro - e ela não podia estar receando isso, porque
a notícia foi um choque para ela...
- Não ligue para Hermione, Lilá - disse Rony em voz alta -
,ela não acha que os bichos de estimação dos outros têm muita
importância.
A Profª Minerva abriu a porta da sala de aula naquele
momento, o que talvez tenha sido uma sorte; Hermione e Rony
estavam se fuzilando com os olhos e quando entraram na sala se
sentaram um de cada lado de Harry, e passaram a aula inteira sem
127
se falar.
Harry ainda não decidira o que ia dizer à professora quando
a sineta tocou anunciando o fim da aula, mas foi ela quem
levantou o assunto de Hogsmeade primeiro.
- Um. momento, por favor! - pediu quando a turma se
preparava para sair - Como vocês todos fazem parte da minha
Casa, deverão entregar os formulários de autorização para ir a
Hogsmeade a mim, antes do Dia das Bruxas. Sem formulário não
há visita, por isso não se esqueçam.
Neville levantou a mão.
- Por favor, professora, eu... eu acho que perdi...
- Sua avó mandou o seu diretamente a mim, Longbottom -
disse Minerva. - Parece que ela achou mais seguro. Bem, é só isso,
podem ir.
- Pergunta a ela agora - sibilou Rony a Harry.
- Ah, mas... - começou Hermione.
- Manda ver - disse Rony insistindo.
Harry esperou o resto da turma desaparecer e se dirigiu,
nervoso à escrivaninha da professora.
- Que foi, Potter?
Harry inspirou profundamente.
- Professora, minha tia e meu tio... hum... esqueceram-se de
assinar a minha autorização.
A Profª Minerva olhou-o por cima dos óculos quadrados e
não disse nada.
- Então... hum... a senhora acha que haveria algum
problema... quero dizer, que estaria OK se eu... se eu fosse a
Hogsmeade?
Minerva baixou os olhos e começou a mexer nos papéis em
cima da escrivaninha.
- Receio que não, Potter; Você ouviu o que eu disse. Não
tem formulário, não tem visita ao povoado. Essa é a regra.
- Mas, professora, minha tia e meu tio... a senhora sabe,
eles são trouxas, não entendem realmente para que servem... os
formulários de Hogwarts e outras coisas daqui - explicou Harry;
enquanto Rony o animava prosseguir com vigorosos acenos de
cabeça. -Se a senhora disser que eu posso ir.
- Mas eu não vou dizer - falou a professora se levantando e
128
arrumando os papéis na gaveta. - O formulário diz claramente que
o pai ou guardião precisa dar permissão. - Minerva se virou para
olhá-lo, com uma estranha expressão no rosto. Seria pena? - Sinto
muito, Potter, mas esta é a minha palavra final. E melhor você se
apressar ou vai se atrasar para a próxima aula.
Não restava nada a fazer. Rony xingou a Profª Minerva de
uma porção de nomes, o que deixou Hermione muito aborrecida; a
garota assumiu um ar de "foi-melhor-assim" que fez Rony ficar
com mais raiva e Harry teve que suportar os colegas na aula
discutindo, alegres e em altas vozes, o que iam fazer primeiro,
quando chegassem a Hogsmeade.
- Sempre tem a festa - disse Rony, num esforço para animar
Harry. - Sabe, a festa do Dia das Bruxas, à noite.
- Sei - respondeu Harry, deprimido -, que ótimo.
A festa do Dia das Bruxas era sempre boa, mas teria um
sabor muito melhor se fosse depois de uma visita a Hogsmeade
com os colegas. Nada que ninguém disse fez Harry se sentir
melhor com relação à idéia de ser deixado para trás, Dino Thomas,
que era jeitoso com uma caneta, se oferecera para falsificar a
assinatura do tio Válter no formulário, mas como Harry já dissera
à Profª Minerva que os tios não haviam assinado, não adiantava
nada. Rony, meio desanimado, sugeriu a Capa da Invisibilidade,
mas Hermione eliminou essa possibilidade, lembrando a Rony que
Dumbledore avisara que os dementadores podiam ver através da
capa. Possivelmente foi Percy quem disse as palavras que menos
consolaram.
- O pessoal faz um estardalhaço sobre Hogsmeade, mas eu
garanto, Harry, o povoado não é tão fantástico quanto dizem -
falou ele, sério. - Tudo bem, a loja de doces é bastante boa e a
Zonko's - Logros e Brincadeiras é francamente perigosa e, ali, sim,
a Casa dos Gritos sempre vale a pena visitar, mas, verdade, Harry,
tirando isso, você não vai perder nada.
Na manhã do Dia das Bruxas, Harry acordou com os
129
colegas e desceu para tomar café, sentindo-se totalmente arrasado,
embora se esforçasse ao máximo para agir normalmente.
- Vamos lhe trazer um monte de doces da Dedosdemel -
prometeu Hermione, sentindo uma pena desesperada do amigo.
- É, montes - concordou Rony. Ele e Hermione tinham
finalmente esquecido a briga por causa do Bichento diante do
descontentamento de Harry.
- Não se preocupem comigo - disse Harry, no que ele
imaginava ser uma voz displicente. - Vejo vocês na festa.
Divirtam-se.
Ele acompanhou os amigos até o saguão da escola, onde
Filch, o zelador, estava postado à porta de entrada, verificando se
os nomes constavam de uma longa lista, examinando cada rosto
cheio de desconfiança, e certificando-se de que ninguém que não
devia ir estivesse saindo escondido da escola.
- Vai ficar na escola, Potter? - gritou Malfoy, que estava na
fila com Crabbe e Goyle. - Medinho de passar pelos
dementadores?
Harry não lhe deu atenção e se dirigiu, solitário, para a
escadaria de mármore, seguiu pelos corredores desertos e voltou à
Torre da Grifinória.
- Senha? - perguntou a Mulher Gorda, acordando assustada
de um cochilo.
- Fortuna Major - disse Harry apático.
O retrato se afastou e ele passou pelo buraco que levava à
sala comunal. Estava repleto de alunos do primeiro e segundo anos
que tagarelavam e de alguns alunos mais velhos, que obviamente
já tinham visitado Hogsmeade tantas vezes que a novidade se
desgastara.
- Harry, Harry! Qi, Harry!
Era Colin Creevey um colega do segundo ano que tinha
uma profunda admiração por Harry e nunca perdia uma
oportunidade de falar com o seu ídolo.
- Você não vai a Hogsmeade, Harry? Por que não? Ei -
Colin olhou com ansiedade para os amigos -, pode vir se sentar
conosco, se quiser, Harry!
- Num... não, obrigado, Colin - disse Harry que não estava
a fim de ter um bandão de gente olhando, curiosa, para a cicatriz
130
em sua testa. - Tenho... tenho que ir à biblioteca preciso fazer um
trabalho.
Depois disso, ele não teve escolha senão dar meia-volta e
se dirigir ao buraco do retrato para sair.
- Para o que foi então que me acordou? - comentou,
rabugenta, a Mulher Gorda quando ele, depois de passar foi se
afastando.
Harry caminhou, desalentado, em direção à biblioteca, mas
no meio do caminho mudou de idéia; não estava com vontade de
trabalhar. Deu meia-volta e deparou com Filch, que obviamente
acabara de despachar o último visitante para Hogsmeade.
- Que é que você está fazendo? - rosnou Filch, desconfiado.
- Nada - respondeu Harry com sinceridade.
- Nada! - bufou Filch, a queixada tremendo
desagradavelmente, - Que coisa improvável! Andando, sorrateiro,
sozinho, por que é que você não está em Hogsmeade comprando
chumbinho fedorento, pó de arroto e minhocas de apito como os
seus outros amiguinhos intragáveis?
Harry sacudiu os ombros.
- Muito bem, volte para sua sala comunal que é o seu lugar!
-mandou Filch, com rispidez e ficou parado olhando até Harry
desaparecer de vista.
Mas o garoto não voltou à sala comunal; ele subiu uma
escada, pensando vagamente em visitar o corujal para ver
Edwiges, e estava andando por outro corredor quando uma voz
que vinha de uma das salas o chamou:
- Harry?
O garoto se virou para ver quem o chamara e deparou com
o Prof Lupin, que espiava para os lados à porta de sua sala.
- Que é que você está fazendo? - perguntou Lupin, embora
num tom de voz diferente do de Filch. - Onde esta o Rony e
Hermione?
- Hogsmeade - respondeu Harry num tom que ele pretendia
que fosse descontraído.
- Ah - comentou Lupin. Ele observou o garoto por um
momento. - Por que você não entra? Estive aguardando a entrega
de um grindylow para a nossa próxima aula.
- De um o quê? - perguntou Harry.
131
Ele entrou na sala de Lupin com o professor. A um canto
havia uma enorme caixa de água. Um bicho de cor verde-bile e
chifrinhos pontiagudos comprimia a cara contra o vidro, fazendo
caretas e agitando os dedos longos e afilados.
- Demônio aquático - explicou Lupin, examinando o
grindylow pensativamente. - Não deve nos dar muito trabalho, não
depois dos kappas; O truque é deixar as mãos deles sem ação.
Reparou nos dedos anormalmente compridos? Fortes, mas muito
quebradiços.
O grindylow arreganhou os dentes verdes e em seguida se
enterrou num emaranhado de ervas a um canto.
- Xícara de chá? - ofereceu Lupin, procurando a chaleira. -
Eu estava mesmo pensando em preparar uma.
- Tudo bem - aceitou Harry sem jeito.
Lupin deu alguns golpes de varinha na chaleira e na mesma
hora saiu do bico uma baforada de vapor quente.
- Sente-se - convidou Lupin, tirando a tampa de uma lata
empoeirada. - Receio que só tenha chá em saquinhos... mas eu
diria que você já bebeu chá em folhas que chegue.
Harry olhou para ele. Os olhos do professor cintilavam.
- Como foi que o senhor soube disso? - perguntou Harry.
- A Profª' McGonagall me contou - respondeu Lupin,
passando a Harry uma caneca lascada cheia de chá. - Você
não está preocupado, está?
- Não.
Por um instante Harry pensou em contar a Lupin a história
do cão que ele vira na rua Magnólia, mas decidiu não faze-lo. Não
queria que Lupin pensasse que era covarde, principalmente porque
o professor já parecia pensar que ele não era capaz de enfrentar
um bicho-papão.
Alguma coisa dos pensamentoS de Harry devia ter
transparecido em seu rosto, porque Lupin perguntou:
-Tem alguma coisa preocupando-o, Harry?
- Não - mentiu o garoto Depois, bebeu um pouco de chá
observando o grindylow que o ameaçava com o punho. - Tem -
disse ele de repente, pousando a xícara de chá na mesa do
professor. - O senhor se lembra daquele dia em que lutamos contra
o bicho-papão?
132
- Claro.
- Por que o senhor não me deixou enfrentar o bicho? -
perguntou Harry abruptamente.
Lupin ergueu as sobrancelhas.
- Eu teria pensado que isto era óbvio, Harry - disse ele
parecendo surpreso.
Harry; que esperara que o professor negasse ter feito uma
coisa dessas, ficou perplexo.
- Por quê? - tornou ele a perguntar.
- Bem - falou Lupin, franzindo de leve a testa -, presumi
que se o bicho-papão o enfrentasse, ele assumiria a forma de Lord
Voldemort.'
Harry arregalou os olhos. Não somente esta era a última
resposta que poderia esperar, como também Lupin dissera o nome
de Voldemort. A única pessoa que Harry já ouvira dizer esse nome
em voz alta (além dele próprio) fora o Prof. Dumbledore.
- Pelo visto eu me enganei - desculpou-se o professor,
ainda franzindo a testa. - Mas eu não achei uma boa idéia Lord
Voldemort se materializar na sala dos professores. imaginei que os
alunos entrariam em pânico.
- Logo no começo, eu realmente pensei em Voldemort -
disse Harry honestamente. - Mas depois, ..... eu me lembrei
daqueles dementadores.
- Entendo - falou o professor, pensativo. - Bem, bem...
Estou impressionado. - Ele sorriu brevemente ao ver a expressão
de surpresa no rosto do garoto. - Isto sugere que o que você mais
teme é o medo. Muito sensato, Harry.
Harry não soube o que dizer ao professor, por iso bebeu
mais chá.
- Então você andou pensando que eu não acreditava que
você tivesse capacidade para enfrentar o bicho-papão? - perguntou
Lupin astutamente.
-Bem... é. Harry de repente estava se sentindo muito mais
feliz. - Prof. Lupin, o senhor sabe que os dementadores...
O garoto foi interrompido por uma batida na porta.
- Entre - convidou o professor.
A porta se abriu e Snape entrou. Trazia um cálice
ligeiramente fumegante e parou, apertando os olhos negros, ao ver
133
Harry.
- Ah, Severo - exclamou Lupin sorridente. - Muito
obrigado. Podia deixar ai na mesa para mim?
Snape pousou o cálice fumegante, os olhos indo de Harry
para Lupin.
- Eu estava mostrando a Harry o meu grindylow - disse
Lupin em tom agradável, indicando o tanque de água.
- Fascinante - comentou Snape sem sequer olhar para o
tanque. - Você devia beber isso logo, Lupin.
- É, é, vou beber;
- Fiz um caldeirão cheio - continuou Snape. - Se precisar de
mais...
- Provavelmente eu deveria tomar mais um pouco amanhã.
Muito obrigado, Severo.
- De nada - disse o colega, mas havia uma expressão em
seus olhos que não agradou a Harry. O professor se retirou de
costas para a porta, sem sorrir, vigilante.
Harry olhou, curioso, para o cálice. Lupin sorriu.
-O Prof. Snape teve a bondade de preparar esta poção para
mim -- explicou ele. - Nunca fui um bom preparador de poções e
esta aqui é particularmente complexa. - Ele apanhou o cálice e
cheirou-o. - É pena que o açúcar estrague o efeito da poção -
acrescentou, tomando um golinho e estremecendo.
- Por quê...? - começou Harry. Lupin olhou para ele e
respondeu à pergunta incompleta.
- Tenho me sentido meio indisposto. Esta poção é a única
coisa que me ajuda. Tenho a sorte de estar trabalhando ao lado do
Prof. Snape; não há muitos bruxos que saibam prepará-la.
O professor tomou mais um golinho e Harry teve um
desejo incontrolável de derrubar o cálice de suas mãos.
- O Prof. Snape e muito interessado nas Artes das Trevas
disse o garoto sem pensar;
- É mesmo? - admirou-se Lupin, parecendo apenas
levemente interessado, enquanto tomava mais um gole.
- Tem gente que supõe que ele faria qualquer coisa para
ocupar o cargo de professor de Defesa contra as Artes das Trevas.
Lupin esvaziou o cálice e fez uma careta.
- Horrível - disse. - Bem, Harry; é melhor eu voltar ao
134
trabalho. Vejo você mais tarde na festa.
- Certo - concordou Harry; deixando na mesa sua xícara
vazia. O cálice vazio continuava a fumegar.
- Segura aí - exclamou Rony. - Compramos o máximo que
podíamos carregar.
Uma chuva de doces intensamente coloridos caiu no colo
de Harry. Anoitecia e Rony e Hermione tinham acabado de chegar
à sala comunal, as faces rosadas do vento frio e a expressão de que
tinham se divertido como nunca.
- Obrigado - disse Harry; pegando um pacote de
minúsculos Diabinhos de Pimenta. - Como é que é Hogsmeade?
Aonde é que vocês foram?
Pelo que diziam... a todos os lugares. Dervixes e Bangues,
a loja de equipamento de bruxaria, Zonko's - Logros e
Brincadeiras, no Três Vassouras para tomar canecas espumantes
de cerveja quente amanteigada, e outros tantos lugares.
- O Correio, Harry! Umas duzentas corujas, todas pousadas
em prateleiras, todas com código de cores dependendo da urgência
com que você quer que a carta chegue!
- A Dedosdemel tem um novo tipo de fudge; estavam
distribuindo amostras grátis, olha aí um pedacinho, olha...
- Achamos que vimos um ogro, juro, tem gente de todo o
tipo no Três Vassouras...
- Gostaria que a gente pudesse ter trazido cerveja
amanteigada para você, esquenta para valer...
- Que foi que você ficou fazendo? - perguntou Hermione,
com ar preocupado. - Terminou algum dever?
- Não - respondeu Harry. - Lupin preparou uma xícara de
chá para mim na sala dele. Então Snape entrou...
E Harry contou aos amigos tudo sobre o cálice. Rony ficou
boquiaberto.
- E Lupin bebeu? Ele é maluco?
Hermione consultou o relógio de pulso.
- É melhor descermos, sabe, a festa vai começar dentro de
cinco minutos... - Os três atravessaram depressa o buraco do
retrato e se misturaram à aglomeração de alunos, ainda discutindo
135
Snape.
- Mas se ele... sabe...- Hermione baixou a voz, olhando,
nervosa, para os lados - se ele estivesse tentando... envenenar
Lupin... não teria feito isso na frente de Harry.
- É, talvez - disse Harry quando chegavam ao saguão de
entrada e o atravessavam para entrar no Salão Principal. Este fora
decorado com centenas de abóboras iluminadas por dentro com
velas, uma nuvem de morcegos, muitas serpentinas laranja-vivo
que esvoaçavam lentamente pelo teto tempestuoso como
parecendo luzidias cobras de água.
A comida estava deliciosa; até Hermione e Rony, que já
vinham empanturrados de doces da Dedosdemel, arranjaram lugar
para repetir. Harry olhava constantemente para a mesa dos
professores. O Prof. Lupin parecia alegre e o mais saudável
possível; conversava animadamente com o miúdo Flitwick,
professor de Feitiços. O olhar de Harry percorreu a mesa até o
lugar que Snape ocupava. Seria sua imaginação ou os olhos de
Snape cintilava na direção de Lupin com mais freqüência do que
seria natural?
A festa terminou com um espetáculo apresentado pelos
fantasmas de Hogwarts. Eles saltavam de repente das paredes e
dos tampos das mesas e voavam em formação; Nick Quase Sem
Cabeça, o fantasma da Grifinória, fez grande sucesso com uma
encenação de sua própria decapitação incompleta.
Foi uma noite tão agradável que o bom humor de Harry
sequer foi afetado quando Malfoy gritou no meio dos colegas,
quando deixavam o salão:
- Os dementadores mandaram lembranças, Potter!
Harry Rony e Hermione acompanharam os colegas da
Grifinória pelo caminho habitual para a sua Torre, mas quando
chegaram ao corredor que terminava no retrato da Mulher Gorda,
encontraram-no engarrafado pelos alunos.
- Por que ninguém está entrando? - perguntou Rony curioso
Harry espiou por cima das cabeças à sua frente. Aparentemente o
retrato estava fechado.
- Me deixem passar - ouviu-se a voz de Percy, que passou
cheio de importância e eficiência pelo ajuntamento. - Qual é o
motivo da retenção aqui? Não é possível que todos tenham
136
esquecido a senha, com licença, sou o monitor-chefe...
E então foi baixando um silêncio sobre os alunos a começar
pelos que estavam na frente, dando a impressão de que uma
friagem se espalhava pelo corredor; Eles ouviram Percy dizer,
numa voz repentinamente alta e esganiçada:
- Alguém vai chamar o Prof. Dumbledore. Depressa.
As cabeças dos alunos se viraram; os que estavam atrás se
esticaram nas pontas dos pés.
- Que é que está acontecendo? - perguntou Gina, que
acabara de chegar.
Instantes depois, o Prof. Dumbledore chegou deslizando,
imponente, em direção ao retrato; os alunos da Grifinória se
comprimiram para deixá-lo passar, e Harry; Rony e Hermione se
aproximaram para ver qual era o problema.
- Essa, não... - a garota agarrou o braço de Harry.
A Mulher Gorda desaparecera do retrato, que fora cortado
com tanta violência que as tiras de tela se amontoavam no chão;
grandes pedaços do retrato haviam sido completamente
arrancados.
Dumbledore deu uma olhada rápida no retrato destruído,
virou-se, o olhar sombrio, e viu os professores McGonagall, Lupin
e Snape que vinham, apressados, ao seu encontro.
- Precisamos encontrá-la - disse Dumbledore. - Profa
McGonagall, por favor localize o Se. Filch imediatamente e digalhe
que procure a Mulher Gorda em todos os quadros do castelo.
- Vai precisar de sorte! - disse uma voz gargalhante.
Era Pirraça, o poltergeist, sobrevoando professores e
alunos, encantado, como sempre, à vista de desastres e
preocupações.
- Que é que você quer dizer com isso, Pirraça? - perguntou
Dumbledore calmamente e o sorriso do poltergeist empalideceu
um pouco. Ele não se atrevia a atormentar o diretor. Em vez disso,
adotou uma voz untuosa que não era nada melhor do que a sua
gargalhada escandalosa.
- Vergonha, Sr. Diretor. Não quer ser vista. Está horrorosa.
Eu a vi correndo por uma paisagem no quarto andar, Sr. Diretor,
se escondendo entre as árvores. Chorando de cortar o coração
informou ele, satisfeito. - Coitada - acrescentou em tom pouco
137
convincente.
Ela disse quem foi que fez isso? - perguntou Dumbledore
em voz baixa.
- Ah, disse, Sr. Diretor - respondeu Pirraça com ar de quem
carrega uma grande bomba nos braços. - Ele ficou furioso porque
ela não quis deixá-lo entrar, entende. - Pirraça deu uma
cambalhota no ar e sorriu para Dumbledore entre as próprias
pernas. - Tem um gênio danado, esse tal de Sirius Black.
138
- CAPITULO NOVE -
A amarga derrota
O Prof Dumbledore mandou todos os alunos da Grifinória
voltarem ao Salão Principal, onde foram se reunir a eles, dez
minutos depois, os alunos da Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina,
todos parecendo extremamente atordoados.
- Os professores e eu precisamos fazer uma busca
meticulosa. no castelo disse o diretor aos alunos quando os
professores McGonagall e Flitwick fecharam as portas do salão
que davam para o saguão. - Receio que, para sua própria
segurança, vocês terão que passar a noite aqui. Quero que os
monitores montem guarda nas saídas para o saguão e vou
encarregar o monitor e a monitora-chefe de cuidarem disso. Eles
devem me informar imediatamente qualquer perturbação que haja
- acrescentou Dumbledore dirigindo-se a Percy. que assumiu um
ar de enorme orgulho e importância. - Mande um dos fantasmas
me avisar.
O Prof. Dumbledore parou, quando ia deixando o salão, e
disse.
- Ah!sim, vocês vão precisar...
Com um gesto displicente da varinha, as longas mesas se
deslocaram para junto das paredes e, com um outro toque, o chão
ficou coberto por centenas de fofos sacos de dormir de cor roxa.
- Durmam bem - disse o Prof. Dumbledore, fechando a
porta ao passar.
O salão imediatamente começou a zumbir com as vozes
excitadas dos alunos. os da Grifinória contavam ao resto da escola
o que acabara de acontecer.
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- Todos dentro dos sacos de dormir! - gritou Percy. -
Andem logo e chega de conversa! As luzes vão ser apagadas
dentro de dez minutos!
- Vamos, gente - disse Rony a Harry e Hermione. e eles
apanharam três sacos de dormir e os arrastaram para um canto.
- Vocês acham que Black ainda está no castelo? -
cochichou Hermione, ansiosa.
- É óbvio que Dumbledore acha que ele ainda pode estar -
respondeu Rony.
- É uma sorte ele ter escolhido esta noite, sabem -
comentou Hermione quando entravam, completamente vestidos,
nos sacos de dormir e apoiavam o corpo nos cotovelos para
conversar. - A única noite em que não estávamos na Torre...
- Calculo que ele tenha perdido a noção do tempo, já que
está fugindo - disse Rony. - Não percebeu que era Dia das Bruxas.
Do contrário teria invadido o salão.
Hermione estremeceu.
A toda volta, os colegas se faziam a mesma pergunta:
Como foi que ele entrou?
- Vai ver ele sabe "aparatar" - sugeriu uma aluna da
Corvinal, próxima. - Aparece de repente, sabe, sem ninguém ver
de onde.
- Provavelmente se disfarçou - disse um quintanista da
Lufa-Lufa.
- Vai ver ele voou - sugeriu Dino Thomas.
- Francamente, será que eu fui a única pessoa que se deu ao
trabalho de ler Hogwarts, uma história? - perguntou Hermione,
zangada, a Rony e Harry.
- Provavelmente - disse Rony. - Por quê?
- Porque o castelo não está protegido só por paredes,
sabem. Recebeu todo o tipo de feitiço, para impedir as pessoas de
entrarem escondidas. Ninguém pode simplesmente aparatar aqui.
E eu gostaria de ver qual é o disfarce que é capaz de enganar os
dementadores. Eles estão guardando todas as entradas da
propriedade. Teriam visto se Black entrasse voando. E Filch
conhece todas as passagens secretas e os funcionários terão
coberto todas...
- As luzes vão ser apagadas agora! - anunciou Percy. -
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Quero todo mundo dentro dos sacos de dormir, de boca calada!
Todas as velas se apagaram ao mesmo tempo. A única luz
agora vinha dos fantasmas prateados, que flutuavam no ar em
serias conversas com os monitores, e do teto encantado, que
reproduzia o céu estrelado lá fora. Com isso e mais os sussurros
que continuavam a encher o salão, Harry se sentia como se
estivesse dormindo ao ar livre, tocado por um vento suave.
De hora em hora, um professor aparecia no salão para
verificar se estava tudo calmo. Por volta das três horas da manhã,
quando muitos alunos tinham finalmente adormecido, o Prof.
Dumbledore entrou no salão. Harry observou procurar por Percy,
que estivera fazendo a ronda entre os sacos de dormir, ralhando
com as pessoas que continuavam a conversar. O monitor-chefe
estava a uma pequena distância de Harry, Rony e Hermione, que
depressa fingiram estar dormindo ao ouvirem os passos de
Dumbledore se aproximarem.
Algum sinal dele, professor? - perguntou Percy num
cochicho.
- Não. Está tudo bem aqui?
- Tudo sob controle, diretor.
- Ótimo. Não tem sentido transferir os alunos agora.
Arranjei um guardião temporário para o buraco do retrato na
Grifinória. Você poderá levá-los de volta amanhã.
- E a Mulher Gorda Diretor?
- Escondida em um mapa de Argyllshire no segundo andar.
Aparentemente se recusou a deixar Black entrar sem a senha,
então o bandido a atacou. Ela ainda está muito perturbada, mas
assim que se acalmar, vou mandar Filch restaurá-la.
Harry ouviu a porta do salão se abrir mais uma vez,
rangendo, e novos passos.
- Diretor? - Era Snape. Harry ficou muito quieto, prestando
a maior atenção. - Todo o terceiro andar foi revistado. Ele não está
lá. E Filch verificou as masmorras. não há ninguém, tampouco.
- E a torre da Astronomia? A sala da Profª Trelawney? O
corujal?
- Tudo revistado...
- Muito bem, Severo. Eu não esperava realmente que Black
se demorasse.
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- O senhor tem alguma teoria sobre o modo com que ele
entrou, professor? - perguntou Snape.
Harry levantou a cabeça um pouquinho para destampar a
outra orelha.
- Muitas Severo, cada uma mais improvável do que a outra.
Harry abriu os olhos minimamente e espiou para o lado
onde os três se encontravam. Dumbledore estava de costas para
ele, mas dava para ver o rosto de Percy inteiramente absorto e o
perfil de Snape, que parecia zangado.
- O senhor se lembra da conversa que tivemos, diretor,
antes... ah... do começo do ano letivo? - perguntou Snape, que mal
abria os lábios para falar, como se quisesse impedir Percy de
ouvir.
- Lembro, Severo - disse Dumbledore, e sua voz tinha um
tom de aviso.
- Parece... quase impossível... que Black possa ter entrado
na escola sem ajuda de alguém aqui dentro. Expressei minhas
preocupações quando o senhor nomeou...
- Não acredito que uma única pessoa no castelo tenha
ajudado Black a entrar - disse Dumbledore, e seu tom deixou tão
claro que o assunto estava encerrado que Snape se calou. - Preciso
descer para falar com os dementadores - disse Dumbledore. –
Prometi que avisaria quando a nossa busca estivesse terminada.
- Eles não quiseram ajudar, diretor? - perguntou Percy
- Ah, claro - disse Dumbledore com frieza. - Mas receio que
nenhum dementador irá cruzar a soleira deste castelo enquanto eu
for diretor.
Percy pareceu ligeiramente desconcertado. Dumbledore
saiu do salão rápida e silenciosamente. Snape continuou parado um
instante observando o diretor com uma expressão de profundo
rancor no rosto. em seguida também saiu Harry olhou de esguelha
para Rony e Hermione. Os dois também tinham os olhos abertos
nos quais se refletia o teto estrelado.
- De que é que eles escavam falando? - perguntou Rony,
apenas com o movimento dos lábios.
Nos dias que se seguiram não se falou de mais nada na
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escola senão de Sirius Black. As teorias sobre o modo com que
Black entrara no castelo se tornaram mais e mais delirantes. Ana
Abbott, da Lufa-Lufa, passou a maior parte da aula conjunta de
Herbologia, contando para quem quisesse ouvir que Black era
capaz de se transformar em um arbusto florido.
A tela rasgada da Mulher Gorda fora retirada da parede e
substituída pela pintura de Sir Cadogan e seu gordo pônei cinzento.
Ninguém ficou muito feliz com a troca. O cavaleiro passava
metade do tempo desafiando os garotos a duelar e no tempo
restante inventava senhas ridiculamente complicadas, que ele
trocava no mínimo duas vezes por dia.
- Ele é. completamente doido - protestou Simas Finnigan,
aborrecido, com Percy - Será que não podiam nos dar outro?
- Nenhum dos outros quadros quis o lugar - disse Percy. –
Se assustaram com o que aconteceu com a Mulher Gorda. Sir
Cadogan foi o único que teve coragem suficiente para se
voluntariar.
O cavaleiro, porém, era a menor das preocupações de
Harry. Ele agora estava sendo vigiado de perto. Os professores
procuravam desculpas para acompanhá-lo quando ele andava pelos
corredores, e Percy Weasley (agindo, suspeitava Harry, por ordem
da mãe) seguia-o por toda parte como um cão de guarda
extremamente pomposo. Para completar, a Profª Minerva chamou
Harry à sua sala, com uma expressão tão sombria no rosto que o
garoto achou que alguém devia ter morrido.
Não adianta lhe esconder isso por mais tempo, Potter -
começou ela em tom muito sério. - Sei que vai ser um choque para
você, mas Sirius Black...
- Eu sei, está querendo me pegar - disse Harry cansado. -
Ouvi o pai de Rony contar à Sra. Weasley. O Sr. Weasley trabalha
pala o Ministério da Magia.
A professora pareceu muito espantada. Encarou Harry por
um instante e em seguida falou.
Entendo! Bem, neste caso, Potter, você vai compreender
por que não acho uma boa idéia você treinar quadribol à noite. Lá
fora no campo só com os outros jogadores, é muito exposto
Potter...
- O nosso primeiro jogo é agora no sábado! - exclamou
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Harry, indignado. - Preciso treinar, professora!
Minerva mirou-o com muita atenção. Harry conhecia o
grande interesse da professora pelas perspectivas da equipe da
Grifinória. afinal fora ela que o recomendara como apanhador,
para início de conversa. Por isso aguardou, prendendo a respiração.
- Hum... - a Profª Minerva se levantou e contemplou pela
janela o campo de quadribol, quase invisível na chuva. - Bem,
Deus sabe que eu gostaria de nos ver ganhando finalmente a
Taça... mas mesmo assim, Potter... eu ficaria mais satisfeita se um
professor estivesse presente. Vou pedir à Madame Hooch para
supervisionar os seus treinos.
O tempo foi piorando dia a dia, à medida que a primeira
partida de quadribol se aproximava. Sem desanimar, a equipe da
Grifinória treinava com mais vigor que nunca sob o olhar vigilante
de Madame Hooch. Então, no último treino antes do jogo de
sábado, Olívio Wood deu ao time uma notícia indesejável.
- Não vamos jogar com Sonserina! - disse aos
companheiros, parecendo muito zangado. - Flint acabou de me
procurar. Vamos jogar contra Lufa-Lufa.
- Por quê? - perguntou o restante do time em coro.
Ê - A desculpa de Flint é que o braço do apanhador do time
ainda está machucado - respondeu Olívio, rilhando furiosamente os
dentes. - Mas é óbvio por que estão fazendo isto. Não querem jogar
com tempo ruim. Acham que vai reduzir as chances deles.
Tinha ventado forte e chovido pesado o dia inteiro e mesmo
enquanto Olívio falava ouvia-se o ronco distante do trovão.
- Não há nada errado com o braço do Malfoy! - disse
Harry. furioso. - É tudo fingimento.
- Eu sei disso, mas não podemos provar - argumentou
Olívio amargurado. - E temos treinado todos esses lances na
suposição de que íamos jogar com Sonserina, e, em vez disso, será
com Lufa-Lufa, que tem um estilo muito diferente. Agora eles
estão com um capitão novo que também é o apanhador, Cedrico
Diggory...
Angelina, Alícia e Katie tiveram um repentino acesso de
risadinhas.
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- Quê? - exclamou Olívio, fechando a cara para esse
comportamento alegre.
- É aquele alto e bonito, não é? - perguntou Angelina.
- Forte e caladão - concluiu Katie, e as três recomeçaram a
rir.
- Ele só é caladão porque é burro demais para juntar duas
palavras - comentou Fred, impaciente. - Não sei por que você está
preocupado, Olívio, Lufa-Lufa é brincadeira de criança. Da última
vez que jogamos com eles, Harry capturou o pomo em cinco
minutos, não se lembram?
- Estávamos jogando em condições completamente
diferentes!
- gritou Olívio, os olhos saltando ligeiramente das órbitas. -
Diggory armou uma lateral muito forte! E é um excelente
apanhador! Eu estava com medo que vocês fizessem essa leitura
falsa! Não podemos relaxar! Temos que manter o nosso foco!
Sonserina está tentando nos prejudicar! Precisamos ganhar!
- Olívio, vê se se acalma! - disse Fred, ligeiramente
assustado.
- Estamos levando Lufa-Lufa muito a sério. Sério.
Um dia antes da partida, o vento começou a uivar e a chuva
a cair com mais força que nunca. Estava tão escuro nos corredores
e salas de aula que foi preciso acender mais archotes e lanternas.
Os jogadores do time da Sonserina estavam de fato com um ar
muito presunçoso e Malfoy mais que todos.
- Ah, se ao menos meu braço estivesse um pouquinho
melhor! - suspirava ele enquanto a tempestade lá fora açoitava as
janelas.
Harry não tinha lugar na cabeça para se preocupar com
coisa alguma exceto o jogo do dia seguinte. Olívio Wood não
parava de correr para ele nos intervalos das aulas para lhe passar
novas dicas. A terceira vez que isto aconteceu, Olívio falou tanto
tempo que Harry. de repente, percebeu que se atrasara dez minutos
para a aula de Defesa contra as Artes das Trevas e saiu correndo
com Olívio gritando atrás dele.
- Diggory muda de direção muito rápido, Harry, quem sabe
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você tenta cercá-lo...
Harry parou derrapando diante da classe de Defesa contra
as Artes das Trevas, abriu a porta e entrou correndo.
- Me desculpe o atraso, Prof. Lupin, eu...
Mas não foi Lupin quem levantou a cabeça para olhá-lo da
escrivaninha do professor. foi Snape.
- A aula começou há dez minutos, Potter, por isso acho que
vou tirar dez pontos da Grifinória. Sente-se.
Mas Harry não se mexeu.
- Onde está o Prof. Lupin? - perguntou
- Ele disse que hoje está se sentindo mal demais para dar
aula - respondeu Snape com um sorriso enviesado. - Acho que o
mandei sentar-se?
Mas Harry continuou onde estava.
- Que é que ele está sentindo?
Os olhos negros de Snape reluziram.
- Nada que ameace a vida dele - disse, com cara de quem
gostaria que assim fosse. - Cinco pontos a menos para Grifinória, e
se eu tiver que pedir para você se sentar novamente, serão
cinqüenta.
Harry dirigiu-se lentamente ao seu lugar e se sentou. Snape
olhou para a turma.
- Como eu ia dizendo antes de ser interrompido por Potter,
o Prof. Lupin não registrou os tópicos que já abordou até hoje...
- Professor. por favor, já estudamos os bichos-papões, os
barretes vermelhos, os kappas e os grinddylows - informou
Hermione depressa -, e íamos começar...
Fique calada - disse Snape friamente. - Não lhe pedi
informação, estava apenas comentando a lista de organização do
Prof. Lupin.
- Ele é o melhor professor de Defesa contra as Artes das
Trevas que já tivemos - falou Dino Thomas corajosamente, e
ouviu-se um murmúrio de aprovação do resto da turma. Snape
pareceu mais ameaçador que nunca.
- Vocês se satisfazem com muito pouco. Lupin não está
puxando nada por vocês. Eu esperaria que alunos de primeiro ano
já pudessem cuidar de barretes vermelhos e grindylows. Hoje
vamos discutir...
146
Harry observou-o folhear o livro-texto até o último capítulo,
que ele certamente sabia que a turma não poderia ter estudado, -
lobisomens - disse Snape.
Mas, professor - protestou Hermione, aparentemente
incapaz de se conter -, não podemos estudar lobisomens ainda,
vamos começar os hinkypunks...
- Srta. Granger - disse Snape com uma voz letalmente
calma -, eu tinha a impressão de que era eu que estava dando a
aula e não a senhorita. E estou mandando todos abrirem a página
394 do livro. - Ele correu os olhos pela turma outra vez. - Todos!
Agora!
Com muitos olhares rancorosos de esguelha e gente
resmungando, a turma abriu os livros.
- Qual de vocês sabe me dizer como é que se distingue um
lobisomem de um lobo verdadeiro? - perguntou Snape.
Todos ficaram calados e imóveis. todos exceto Hermione,
cuja mão, como acontecia tantas vezes, se erguera imediatamente
no ar.
- Alguém sabe? - insistiu Snape, fingindo não ver a mão da
garota. Seu sorriso enviesado reaparecera. - Vocês estão me
dizendo que o Prof. Lupin sequer ensinou a vocês a diferença
básica entre...
- Nós já lhe informamos - interrompeu-o Parvati de
repente-, ainda não chegamos aos lobisomens, ainda estamos...
- Silêncio! - mandou Snape com rispidez. - Ora, ora, ora,
nunca pensei que um dia encontraria uma turma de terceiro ano
que não soubesse reconhecer um lobisomem quando o visse. Vou
fazer questão de informar ao Prof. Dumbledore como vocês estão
atrasados...
- Professor por favor - tornou a pedir Hermione, cuja mão
continuava erguida -, o lobisomem se diferencia do lobo
verdadeiro por pequenos detalhes. O focinho do lobisomem...
Esta é a segunda vez que a senhorita fala sem ser convidada
-disse Snape friamente. - Menos cinco pontos para Grifinória por
ter uma intragável sabe-tudo.
Hermione ficou vermelhíssima, baixou a mão e ficou
olhando para o chão com os olhos cheios de lágrimas. Um sinal do
quanto a turma detestava Snape era que todos olharam feio para
147
ele, por que todos os alunos já tinham chamado Hermione de sabetudo
pelo menos uma vez, e Rony que xingava Hermione de sabetudo
pelo menos duas vezes por semana, falou em voz alta
- O senhor nos fez uma pergunta e Hermione sabe a
resposta! Por que perguntou se não queria que ninguém
respondesse?
A turma percebeu instantaneamente que o colega fora
longe demais. Snape caminhou até Rony lentamente, e a sala
prendeu a respiração.
- Detenção, Weasley - disse Snape suavemente, o rosto
muito próximo ao do garoto. - E se algum dia eu o ouvir criticar o
meu modo de ensinar outra vez, o senhor vai realmente se
arrepender.
Ninguém mais deu um pio durante o resto da aula. Ficaram
sentados copiando dados sobre os lobisomens do livro-texto,
enquanto Snape rondava as filas de carteiras, examinando o
trabalho que os alunos tinham feito com o Prof. Lupin.
- Uma explicação muito insuficiente... Isto está errado, o
kappa é encontrado mais comumente na Mongólia... O Prof. Lupin
deu nota oito em dez? Eu teria dado três...
Quando a sineta finalmente tocou, Snape reteve a turma.
- Cada aluno vai escrever uma redação para me entregar,
sobre as maneiras de reconhecer e matar lobisomens. Quero dois
rolos de pergaminho sobre o assunto e quero para segunda-feira de
manhã Está na hora de alguém dar um jeito nesta turma. Weasley,
você fica, precisamos combinar a sua detenção.
Harry e Hermione saíram da sala com o resto da turma, que
esperou até estar bastante longe para não ser ouvida e prorrompeu
em furiosos discursos contra Snape.
- Snape nunca foi assim com nenhum dos outros
professores de Defesa contra as Artes das Trevas, mesmo que
quisesse o cargo deles - comentou Harry com Hermione. - Por que
está perseguindo o Lupin? Você acha que tudo isso é por causa
dos bichos-papões?
- Não sei - disse Hermione pensativa. - Mas vou realmente
torcer para o Prof. Lupin melhorar logo...
Rony alcançou-os cinco minutos depois, com uma raiva
descomunal.
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- Vocês sabem o que aquele... - e xingou Snape de uma
coisa que fez Hermione exclamar "Rony!", - vai me obrigar a
fazer? Tenho que lavar as comadres da ala hospitalar. Sem usar
magia!- O garoto respirava fundo, os punhos cerrados. - Por que o
Black não podia ter-se escondido na sala de Snape, hem? Podia ter
acabado com ele para nós!
Harry acordou extremamente cedo na manhã seguinte. tão
cedo que ainda estava escuro. Por um momento pensou que tinha
sido acordado pelos rugidos do vento. Então, sentiu uma brisa
gelada na nuca e sentou-se na cama de um salto - Pirraça, o
poltergeist, andara flutuando ao lado dele, soprando com força em
seu ouvido.
- Para que você fez isso? - perguntou Harry, furioso.
Pirraça encheu as bochechas de ar, soprou com força e
disparou de costas para fora do dormitório, dando gargalhadas.
Harry tateou procurando o despertador e olhou para o
mostrador. Eram quatro e meia. Amaldiçoando Pirraça, ele se
virou e tentou voltar a dormir, mas era muito difícil, agora que
estava acordado, não dar atenção à trovoada que roncava no céu,
ao vento que fustigava com violência as paredes do castelo e às
árvores que rangiam ao longe, na Floresta Proibida. Dentro de
algumas horas ele estaria lá fora no campo de quadribol,
enfrentando a tempestade. Por fim, ele perdeu as esperanças de
voltar a dormir, se levantou e se vestiu, apanhou a Nimbus 2000 e
saiu silenciosamente do dormitório.
Quando abriu a porta, alguma coisa passou roçando por sua
perna. Ele se abaixou bem a tempo de agarrar Bichento pela ponta
do grosso rabo e arrastá-lo para fora.
- Sabe, acho que Rony tem razão sobre você - disse Harry
desconfiado, a Bichento. - Há uma quantidade de ratos no castelo -
vá caçá-los. Anda - acrescentou o garoto, empurrando Bichento
com o pé para fazê-lo descer a escada. - Deixa o Perebas em paz.
O ruído da tempestade era ainda mais alto na sala comunal.
Harry sabia que não adiantava imaginar que a partida seria
cancelada as disputas de quadribol não eram desmarcadas por
ninharias como trovoadas. Ainda assim, ele estava começando a se
sentir apreensivo. Olívio lhe apontara Cedrico Diggory no
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corredor. O garoto era aluno do quinto ano e muito maior do que
Harry. Os apanhadores geralmente eram leves e velozes, mas o
peso de Diggory seria uma vantagem com um tempo desses
porque seria menor a probabilidade do apanhador ser tirado de
curso.
Harry matou as horas até amanhecer diante da lareira,
levantando-se de vez em quando para impedir Bichento de tomar a
subir, escondido, a escada para o dormitório dos garotos.
Finalmente, ele calculou que já devia ser hora do café da manhã,
então se dirigiu sozinho ao buraco do retrato.
- Pare e lute, seu cão sarnento! - berrou Sir Cadogan.
- Ah, cala essa boca - bocejou Harry.
Ele se reanimou um pouco com uma grande tigela de
mingau de aveia, e, no momento em que começou a comer
torradas, o restante da equipe aparecera no Salão.
- Vai ser uma partida dura - comentou Olívio, que não
queria comer nada.
- Pare de se preocupar, Olívio - disse Alicia para
tranqüiliza-lo - não vamos derreter com uma chuvinha á toa.
Era muitíssimo mais do que uma chuvinha. Mas tal era a
popularidade do quadribol que a escola inteira apareceu para
assistir à partida, como sempre. Os jogadores, no entanto,
desceram os jardins em direção ao campo, as cabeças curvadas
contra a ferocidade do vento, os guarda-chuvas arrancados de suas
mãos. Pouco antes de entrar no vestiário, Harry viu Malfoy,
Crabbe e Goyle, rindo e apontando para ele protegidos por um
enorme guarda-chuva, a caminho do estádio.
O time vestiu o uniforme escarlate e aguardou o discurso
de Olívio que antecedia as partidas, mas não houve discurso. O
capitão tentou falar várias vezes, fez um ruído esquisito de quem
engole, depois sacudiu a cabeça, desalentado, e fez sinal para os
companheiros o seguirem.
O vento estava tão forte que eles entraram em campo
cambaleando para os lados. Se os espectadores estavam
aplaudindo, os aplausos eram abafados por novos roncos de
trovão. A chuva batia nos óculos de Harry Como é que ele ia
enxergar o pomo desse jeito?
Os jogadores da Lufa-Lufa se aproximavam pelo lado
150
oposto do campo, usando vestes amarelo-canário. Os capitães
foram ao encontro um do outro e se apertaram as mãos. Diggory
sorriu para Wood, mas este agora não conseguia abrir a boca,
parecia estar sofrendo de tétano, e fez um mero aceno com a
cabeça. Harry viu a boca de Madame Hooch formar as palavras
"Montem em suas vassouras". Ele puxou o pé direito pingando
lama e passou-o por cima de sua Nimbus 2000. Madame Hooch
levou o apito à boca e soprou, um som agudo e distante - e a
partida começou.
Harry subiu depressa, mas o vento puxava sua Nimbus
ligeiramente para o lado. Ele a segurou o mais firme que pôde e
deu uma guinada apertando os olhos contra a chuva.
Cinco minutos depois, estava molhado até os ossos e
enregelado, mal conseguia ver os companheiros de equipe e muito
menos o minúsculo pomo. Voou para frente e para trás cruzando o
campo e deixando pelo caminho vultos difusos vermelhos e
amarelos, sem ter a menor idéia do que estava acontecendo no
resto da partida. Não conseguia ouvir os comentários por causa do
vento. Os espectadores se ocultavam sob um mar de capas e
guarda-chuvas arrebentados. Duas vezes Harry esteve muito perto
de ser derrubado por um balaço. seus óculos estavam tão
embaçados pela chuva que ele. não os vira se aproximar.
Harry perdeu a noção do tempo. Tinha cada vez maior
dificuldade de se manter aprumado na vassoura. O céu escurecia,
como se a noite tivesse decidido chegar mais cedo. Duas vezes
Harry quase colidiu com outro jogador, sem saber se era um
companheiro de equipe ou um oponente todos agora estavam tão
encharcados, e a chuva tão grossa que ele mal conseguia distinguir
alguém...
Com o primeiro relâmpago ouviu-se o som do apito de
Madame Hooch. Harry conseguiu mal e mal discernir, através da
chuva, os contornos de Olívio, que fazia sinal para ele pousar. O
time inteiro enfiou os pés na lama.
- Eu pedi tempo! - berrou Olívio para seu time. - Venham
até aqui embaixo...
Os jogadores se agruparam na borda do campo debaixo de
um grande guarda-chuva. Harry tirou os óculos e enxugou-os,
apressado, nas vestes.
151
- Qual é o placar?
- Estamos cinqüenta pontos na frente - informou Olívio -,
mas a não ser que capturemos logo o pomo vamos jogar noite
adentro.
- Não tenho a menor chance com isso aqui - disse Harry
exasperado, agitando os óculos.
Naquele exato instante, Hermione apareceu do lado dele
segurava a capa por cima da cabeça e inexplicavelmente tinha um
largo sorriso no rosto.
- Tenho uma idéia, Harry! Me dá seus óculos, depressa!
O garoto entregou os óculos e, enquanto o time observava
espantado, Hermione deu uma pancadinha neles com a varinha e
disse:
- Impervius!
- Pronto! - disse, devolvendo os óculos a Harry. - Isto vai
repelir a água!
Wood fez cara de quem seria capaz de beijá-la.
- Genial! - gritou rouco para a garota que desapareceu no
meio dos espectadores. - Muito bem, time, agora vamos
arrebentar!
O feitiço de Hermione resolvera o problema. Harry ainda
estava insensível de tanto frio, ainda mais molhado do que jamais
estivera na vida, mas conseguia ver. Cheio de renovada
determinação, ele impeliu a vassoura pelo ar turbulento, espiando
para todos os lados 'à procura do pomo, evitando um balaço,
mergulhando por baixo de Diggory. que voava na direção oposta...
Ouviu-se novamente o trovão, acompanhando um raio
bifurcado. A partida estava ficando mais perigosa a cada minuto.
Harry precisava chegar ao pomo depressa...
Ele se virou, tencionando rumar para o centro do campo,
mas naquele momento, outro relâmpago iluminou as
arquibancadas e Harry viu algo que o distraiu completamente... a
silhueta de um enorme cão negro e peludo, claramente recortada
contra o céu, imóvel na última fila de cadeiras vazias.
As mãos dormentes de Harry escorregaram do cabo da
vassoura e sua Nimbus afundou alguns palmos. Sacudindo a franja
encharcada para longe da testa, ele tornou a apertar os olhos para
ver as arquibancadas. O cão desaparecera
152
- Harry! - ele ouviu a voz angustiada de Wood vinda das
balizas da Grifinória: - Harry. atrás de você!
Harry olhou a toda volta desesperado. Cedrico Diggory
subia em grande velocidade e havia entre os dois um grãozinho
dourado brilhando no ar varrido de chuva...Com um tremor de
pânico, Harry se achatou contra o cabo da vassoura e disparou em
direção ao pomo.
- Anda! - rosnou ele para a Nimbus, a chuva fustigando seu
rosto. - Mais depressa!
Mas alguma coisa estranha estava acontecendo. Um
silêncio inexplicável foi caindo sobre o estádio. O vento, embora
continuasse forte, se esqueceu momentaneamente de rugir. Era
como se alguém tivesse desligado o som, como se Harry, de
repente, tivesse ficado surdo - que é que estava acontecendo?
Então uma onda de frio terrivelmente familiar o assaltou,
penetrou seu corpo, no mesmo instante em que ele tomava
consciência de algo que andava lá embaixo no campo...
Antes que tivesse tempo para pensar, Harry desviou os
olhos do pomo e olhou para baixo.
No mínimo cem dementadores apontavam os rostos
encapuzados para ele. Era como se houvesse água gelada subindo
até o seu peito, cortando os lados do seu corpo. E então ele ouviu
outra vez. Alguém gritava, gritava dentro de sua cabeça... uma
mulher...
"O Harry não, o Harry não, por favor, o Harry não!"
"Afaste-se, sua tola... afaste-se, agora..."
O Harry não, por favor, não, me leve, me mate no lugar
dele... "
Uma névoa anestesiante rodopiava enchendo o cérebro de
Harry... Que é que ele estava fazendo? Por que é que estava
voando? Precisava ajudá-la... Ela ia morrer... ia ser assassinada...
Ele foi caindo, caindo sem parar pela névoa gelada.
"Harry não! Por favor.. tenha piedade... tenha piedade..."
Uma voz aguda gargalhava, a mulher gritava, e Harry
perdeu a consciência.
- Que sorte que o chão estava tão mole.
- Achei que ele estava mortinho.
- Mas ele nem quebrou os óculos.
Harry ouvia as vozes murmurarem, mas não faziam sentido
153
algum. Não tinha a menor idéia de onde estava ou como chegara
ali, ou o que andara fazendo antes de chegar. Só sabia que cada
centímetro do seu corpo estava doendo como se ele tivesse levado
uma surra.
- Foi a coisa mais apavorante que já vi na vida.
Mais apavorante... a coisa mais apavorante... vultos negros
encapuzados... frio... gritos...
Harry abriu os olhos de repente. Estava deitado na ala
hospitalar. O time de quadribol da Grifinória, sujo de lama da
cabeça aos pés, rodeava sua cama. Rony e Hermione também
estavam ali, parecendo que tinham acabado de sair de uma piscina.
- Harry! - exclamou Fred, cujo rosto estava extremamente
pálido sob a lama. - Como é que você está se sentindo?
Era como se a memória de Harry estivesse avançando em
alta velocidade. O relâmpago - o Sinistro - o pomo - e os
dementadores...
- Que aconteceu? -perguntou, sentando-se na cama tão de
repente que todos reprimiram um grito de surpresa.
- Você caiu da vassoura - contou Fred. - Deve ter caído...
de uns quinze metros?
- Pensamos que você tivesse morrido - disse Alicia,
trêmula. Hermione fez um barulhinho esganiçado. Tinha os olhos
muito vermelhos.
- Mas o jogo - perguntou Harry. - Que aconteceu? Vamos
jogar outra vez?
Ninguém disse nada. A terrível verdade penetrou em Harry
como uma pedrada.
- Nós não... perdemos?
Diggory apanhou o pomo - informou Jorge. - Logo depois
de você cair. Ele não percebeu o que tinha acontecido. Quando
olhou para trás e viu você no chão, tentou paralisar o jogo. Queria
um novo jogo. Mas tiveram uma vitória justa... até Olívio admite
isso.
- Onde está Olívio? - perguntou Harry percebendo
subitamente a ausência do capitão do time.
- Ainda está no banho - respondeu Fred. - Achamos que ele
está tentando se afogar.
Harry abaixou a cabeça até os joelhos, agarrando os
154
cabelos com as mãos. Fred segurou-o pelos ombros e o sacudiu
com força.
- Anda, Harry, você nunca perdeu o pomo antes.
- Tinha que haver uma primeira vez - disse Jorge.
-Mas a coisa não terminou aqui disse Fred. -Perdemos por
uma diferença de cem pontos, certo? Então se Lufa-Lufa perder
para Corvinal e vencermos Corvinal e Sonserina...
- Lufa-Lufa terá que perder, no mínimo, por duzentos
pontos.
- disse Jorge.
- Mas se eles vencerem Corvinal...
- Nem pensar, Corvinal é bom demais. Mas se Sonserina
perder para Lufa-Lufa...
Tudo depende do número de pontos, uma margem de cem
pontos a mais ou a menos...
Harry ficou deitado ali, sem dizer uma palavra. Tinham
perdido... pela primeira vez na vida, ele perdera uma partida de
quadribol.
Passados mais ou menos uns dez minutos, Madame
Pomfrey veio dizer aos garotos que deixassem Harry em paz.
- A gente volta para ver você mais tarde - disse Fred. - Não
fique se martirizando, Harry. você ainda éo melhor apanhador que
já tivemos.
O time saiu, largando lama pelo caminho. Madame
Pomfrey fechou a porta depois que eles passaram, uma expressão
de censura no rosto. Rony e Hermione se aproximaram mais da
cama de Harry.
- Dumbledore ficou realmente furioso - contou Hermione
com a voz trêmula. - Nunca vi o diretor assim antes. Ele correu
para o campo quando você começou a cair, agitou a varinha e você
meio que desacelerou antes de bater no chão. Depois, virou a
varinha, para os dementadores. Disparou uma coisa prateada
contra eles. Os caras abandonaram o estádio na mesma hora... Ele
ficou furioso que os dementadores tivessem entrado nos terrenos
da escola. Ouvimos ele...
- Aí ele usou a magia para botar você numa padiola - disse
Rony. - E saiu a pé até a escola, com você flutuando do lado, na
padiola. Todo mundo pensou que você estava...
155
A voz dele foi morrendo, mas Harry nem notou. Estava
pensando no que os dementadores tinham feito a ele... na voz que
gritava. Ergueu os olhos e deparou com Rony e Hermione
observando-o com tanta aflição que na mesma hora ele procurou
uma coisa banal para dizer.
Alguém apanhou a minha Nimbus?
Rony e Hermione se entreolharam depressa.
-Hum...
- Que foi? - perguntou Harry. olhando de um para o outro.
- Bem... quando você caiu a vassoura foi levada pelo vento
disse Hermione, hesitante.
- E?
- E bateu... bateu... ah, Harry... bateu no Salgueiro Lutador
As entranhas de Harry reviraram. O Salgueiro Lutador era
uma árvore violenta que se erguia sozinha no meio da propriedade
- E? - insistiu ele, temendo a resposta.
- Bem, você conhece o Salgueiro Lutador - disse Rony. -
Ele... ele não gosta que batam nele.
- O Prof. Flitwick trouxe a vassoura de volta pouco antes
de você recuperar os sentidos - disse Hermione com uma voz
mínima.
Devagarinho, ela foi se abaixando para apanhar uma saca
aos seus pés, despejou-a, e caíram na cama uns pedacinhos de
madeira e gravetos, tudo que restava da fiel vassoura de Harry,
enfim derrotada.
156
-CAPITULO DEZ -
O mapa do maroto
Madame Pomfrey insistiu em manter Harry na ala hospitalar pelo
resto do fim de semana. Ele não discutiu nem se queixou, mas não
deixou jogarem no lixo os estilhaços de sua Nimbus 2000. Sabia
que era uma atitude burra, sabia que a vassoura não tinha conserto,
mas o sentimento era mais forte que ele; era como se tivesse
partido um dos seus melhores amigos.
Uma procissão de amigos veio visitá-lo, todos decididos a
animá-lo. Hagrid lhe mandou um buquê de flores com lagartinhas,
que pareciam repolhos amarelos, e Gina Weasley, corando
furiosamente, apareceu com um cartão de votos de saúde, feito por
ela mesma, que cantava com voz esganiçada a não ser que Harry o
guardasse fechado embaixo da fruteira. O time da Grifinória
tornou a visitar o companheiro no domingo de manhã, desta vez
em companhia de Olívio, que declarou a Harry (numa voz de além
túmulo) que não o responsabilizava pela derrota. Rony e
Hermione só deixavam a cabeceira de Harry à noite. Mas nada que
ninguém dissesse ou fizesse conseguia fazê-lo se sentir melhor,
porque eles só conheciam metade das suas preocupações.
Ele não contara a ninguém que vira o Sinistro, nem a Rony
nem a Hermione, porque sabia que o amigo entraria em pânico e a
amiga caçoaria dele. O fato era, no entanto, que o Sinistro agora já
aparecera duas vezes e ambas as aparições tinham sido seguidas
por acidentes quase fatais; da primeira vez Harry quase fora
atropelado pelo Nôitibus Andante; da segunda, levara uma queda
da vassoura de quase quinze metros de altura. Será que o Sinistro
ia atormentá-lo até a morte? Será que ele, Harry, ia passar o resto
da vida olhando por cima do ombro à procura da fera?
157
Além disso, havia os dementadores. Harry sentia mal-estar
humilhação toda vez que pensava neles. Todos diziam que os
guardas eram medonhos, mas ninguém desmaiava sempre que se
aproximava deles. Ninguém mais ouvia mentalmente os ecos da
morte dos pais.
Isto porque agora Harry sabia a quem pertencia a tal voz.
Ouvira o que ela dizia, ouvira-a continuamente nas longas noites
passadas na ala hospitalar quando ficava acordado, contemplando
as listras que o luar formava no teto. Quando os dementadores se
aproximavam, ele ouvia os últimos instantes de vida de sua mãe,
sua tentativa de proteger o filho da sanha de Lord Voldemort e a
gargalhada do bruxo antes de matá-la... Harry dava breves
cochilos, mergulhando em sonhos cheios de mãos podres e
pegajosas e súplicas fossilizadas, acordando de repente para voltar
a pensar na voz da mãe.
Foi um alívio voltar à zoeira e à atividade da escola
principal na segunda-feira, e ser forçado a pensar em outras coisas,
ainda que tivesse de aturar a implicância de Draco Malfoy. O
garoto não cabia em si de alegria com a derrota da Grifinória.
Retirara finalmente as bandagens e comemorava a circunstância
de poder usar os dois braços novamente, fazendo espirituosas
imitações de Harry caindo da vassoura. Malfoy passou a maior
parte da aula seguinte de Poções, a que assistiram juntos na
masmorra, fazendo imitações dos dementadores; Rony finalmente
se descontrolou e atirou um enorme e gosmento coração de
crocodilo em Malfoy; que o atingiu no rosto, o que fez Snape
descontar cinqüenta pontos da Grifinória.
- Se Snape vier dar aula de Defesa contra as Artes das
Trevas de novo, vou me mandar - anunciou Rony quando seguiam
para a classe de Lupin depois do almoço. - Vê quem está lá,
Mione.
A garota espiou pela porta da sala.
- Tudo bem!
O Prof. Lupin voltara ao trabalho. Sem dúvida tinha a
aparência de quem estivera doente. Suas vestes velhas estavam.
mais frouxas e havia olheiras escuras sob seus olhos; ainda assim,
ele sorriu para os garotos que ocupavam seus lugares na classe e,
158
em seguida, desataram a se queixar do comportamento de Snape
na ausência de Lupin.
- Não é justo, ele estava só substituindo o senhor, por que
passou dever de casa?
- Não sabemos nada de lobisomens... dois rolos de
pergaminho!
- Vocês disseram ao Prof. Snape que ainda não estudamos
lobisomens? - perguntou Lupin, franzindo ligeiramente a testa.
A balbúrdia tornou a encher a sala.
- Dissemos, mas ele respondeu que estávamos muito
atrasados...- ...ele não quis ouvis...- ...dois rolos de pergaminho!
O Prof Lupin sorriu ao ver a expressão indignada nos
rostos dos alunos.
- Não se preocupem. Vou falar com o Prof. Snape. Não
precisam fazer a redação.
- Ah, não!- exclamou Hermione, muito desapontada. - Já
terminei a minha.
Tiveram uma aula muito gostosa. O Prof. Lupin trouxera
uma caixa de vidro contendo um hinkypunk, uma criaturinha de
uma perna só, que parecia feita de fiapos de fumaça, a aparência
frágil e inofensiva.
- O hinkypunk atrai os viajantes para os brejos - informou o
professor enquanto os garotos faziam anotações. - Vocês
repararam na lanterna que ele traz pendurada na mão? Ele salta
para frente... a pessoa acompanha a luz... então...
A criatura fez um horrível barulho de sucção contra o vidro
da caixa.
Quando a sineta tocou, todos guardaram o material e se
dirigiram para a porta, Harry entre eles, mas...
- Espere um instante, Harry - chamou Lupin. - Gostaria de
dar uma palavrinha com você.
Harry deu meia-volta e observou o professor cobrir a caixa
do hinkypunk com um pano.
- Soube do que houve no jogo - disse Lupin, virando-se
para sua escrivaninha e começando a guardar os livros na maleta -
e sinto muito pelo acidente com a sua vassoura. Há alguma
possibilidade de consertá-la?
- Não - respondeu Harry. - A árvore arrebentou-a em, mil
159
pedacinhos.
Lupin suspirou.
- Plantaram o Salgueiro Lutador no ano em que cheguei em
Hogwarts. Os alunos costumavam brincar de tentar se aproximar
do tronco e tocar a árvore com a mão. No fim, um garoto chamado
Davi Gudgeon quase perdeu um olho e fomos proibidos de chegar
perto do salgueiro. Uma vassoura não teria a menor chance.
O senhor soube dos dementadores também? - perguntou
Harry com dificuldade.
Lupin lançou um olhar rápido a Harry.
- Soube. Acho que nenhum de nós tinha visto o Prof
Dumbledore tão aborrecido. Há algum tempo, eles estão ficando
inquietos... furiosos com a recusa do diretor de deixar que entrem
na propriedade... Suponho que tenha sido eles a razão da sua
queda.
- Foram. - Harry hesitou e, então, a pergunta que queria
fazer escapou de sua boca antes que pudesse contê-la. - Por quê?
Por que eles me afetam desse jeito? Será que sou apenas...?
- Não tem nada a ver com fraqueza - respondeu o professor
depressa, como se tivesse lido o pensamento de Harry. - Os
dementadores afetam você pior do que os outros porque existem
horrores no seu passado que não existem no dos outros.
Um raio de sol de inverno entrou na sala, iluminando os
cabelos grisalhos de Lupin e os traços do seu rosto jovem.
- Os dementadores estão entre as criaturas mais malignas
que vagam pela Terra. Infestam os lugares mais escuros e
imundos, se comprazem com a decomposição e o desespero,
esgotam a paz, a esperança e a felicidade do ar à sua volta. Até os
trouxas sentem a presença deles, embora não possam vê-los.
Chegue muito perto de um dementador e todo bom sentimento,
toda lembrança feliz serão sugados de você. Se puder, o
dementador se alimentará de você o tempo suficiente para
transformá-lo em um semelhante... desalmado e mau. Não deixará
nada em você exceto as piores experiências de sua vida. E o pior
que aconteceu com você, Harry, é suficiente para fazer qualquer
um cair da vassoura. Você não tem do que se envergonhar.
- Quando eles chegam perto de mim... - Harry fixou o olhar
na mesa de Lupin, sentindo um nó na garganta -, ouço Voldemort
160
assassinando minha mãe.
Lupin fez um movimento repentino com o braço como se
fosse segurar o ombro de Harry; mas pensou melhor. Houve um
momento de silêncio, depois...
- Por que é que eles tinham que ir ao jogo? - exclamou o
garoto amargurado.
- Estão ficando famintos - disse Lupin tranqüilamente,
fechando a maleta com um estalo. - Dumbledore não permite que
eles entrem na escola, então o suprimento de gente com que
contavam secou... Acho que eles não conseguiram resistir à
multidão em torno do campo de quadribol. Toda a excitação... as
emoções exacerbadas... é a idéia que fazem de um banquete.
- Azkaban deve ser horrível - murmurou Harry Lupin
concordou, sério.
- A fortaleza foi construída em uma ilhota, bem longe da
costa, mas não precisam de paredes nem de água para manter os
prisioneiros confinados, não quando eles já estão presos dentro da
própria cabeça, incapazes de um único pensamento agradável. A
maioria enlouquece em poucas semanas.
- Mas Sirius Black escapou - comentou Harry lentamente.
Fugiu...
A maleta de Lupin escorregou da escrivaninha; ele teve que
se abaixar depressa para apanhá-la no ar.
- É - disse se endireitando. - Black deve ter encontrado
uma maneira de combatê-los. Eu não teria acreditado que isto
fosse possível... Dizem que os dementadores esgotam os poderes
de um bruxo que conviver um tempo demasiado longo com eles...
-O senhor fez aquele dementador no trem recuar - disse
Harry de repente.
Há... certas defesas que se pode usar - disse Lupin. - Mas
no trem havia apenas um dementador. Quanto maior o número,
mais difícil é resistir a eles.
- Que defesas? - perguntou Harry em seguida. - O senhor
pode me ensinar?
- Não tenho a pretensão de ser um especialista no combate
a dementadores, Harry... muito ao contrário...
- Mas se os dementadores forem a outro jogo de quadribol,
preciso saber lutar contra eles...
161
Lupin avaliou o rosto decidido de Harry, hesitou, depois
disse: - Bem... está bem. Vou tentar ajudar. Mas receio que você
terá de esperar até o próximo trimestre. Tenho muito que fazer
antes das férias. Escolhi uma hora muito inconveniente para
adoecer.
Com a promessa de receber aulas antidementadores de
Lupin, o pensamento de que talvez não precisasse mais ouvir a
morte da mãe, e o fato de que Corvinal esmagara Lufa-lufa na
partida de quadribol no final de novembro, o ânimo de Harry deu
uma guinada definitiva para cima. Afinal, Grifinória não fora
eliminada da competição, embora o time não pudesse se dar ao
luxo de perder mais uma partida. Olívio tornou a ficar possuído
por uma energia obsessiva, e treinou com o time com mais
empenho que nunca, na chuvinha gélida e nevoenta que persistiu
até dezembro. Harry não viu nem sinal de dementador nos terrenos
da escola. A fúria de Dumbledore parecia ter funcionado para
mantê-los em seus postos nas entradas.
Duas semanas antes do fim do trimestre, o céu clareou de
repente até atingir um branco leitoso e ofuscante, e os terrenos
enlameados da escola amanheceram, certo dia, cobertos de
cintilante geada. No interior do castelo, havia um rebuliço de
Natal no ar. Flitwick, o professor de Feitiços, já enfeitara sua sala
de aula com luzes pisca-piscas que, quando foram ver, eram
fadinhas voadoras de verdade. Os alunos estavam satisfeitos
discutindo planos para as férias de Natal. Tanto Rony quanto
Hermione haviam decidido permanecer em Hogwarts e, embora
Rony dissesse que era porque não ia conseguir aturar Percy duas
semanas, e Hermione insistisse que precisava consultar a
biblioteca, Harry não se deixou enganar; sabia que era para lhe
fazerem companhia e se sentiu muito grato.
Para alegria de todos, exceto Harry, houve mais uma visita
a Hogsmeade no último fim de semana do trimestre.
- Podemos fazer todas as nossas compras de Natal lá! -
exclamou Hermione. - Mamãe e papai iriam adorar receber fios
dentais de menta da Dedosdemel!
Resignado com a idéia de que seria o único aluno do
terceiro ano a não ir, Harry pediu emprestado a Olívio o livro Qual
vassoura, e resolveu passar o dia lendo sobre as diferentes marcas.
162
Ele andara montando uma vassoura da escola nos treinos do time,
uma velhíssima Shooting Star, que era demasiado lenta e instável;
decididamente precisava de uma vassoura nova.
Na manhã de sábado em que os colegas iriam a
Hogsmeade, Harry se despediu de Rony e Hermione, embrulhados
em capas e cachecóis, tornou a subir a escadaria de mármore,
sozinho, e tomou o caminho da Torre da Grifinória. A neve
começara a cair do lado de fora das janelas e o castelo estava
muito parado e silencioso.
- Psiu... Harry!
Ele se virou, a meio caminho do corredor do terceiro andar,
e viu Fred e Jorge espiando-o atrás da estátua de uma bruxa
corcunda, de um olho só.
- Que é que vocês estão fazendo? - perguntou Harry,
curioso.
- Vocês não vão a Hogsmeade?
- Antes de ir viemos fazer uma festinha para animar você -
disse Fred, com uma piscadela misteriosa. - Venha até aqui...
O garoto indicou com a cabeça uma sala de aula vazia, à
esquerda da estátua de um olho só. Harry acompanhou os gêmeos.
Jorge fechou a porta sem fazer barulho e se virou, sorrindo, para
Harry.
- Presente de Natal antecipado para você, Harry - anunciou.
Fred tirou alguma coisa de dentro da capa com um gesto
largo e colocou-a em cima de uma carteira. Era um pedaço de
pergaminho, grande, quadrado e muito gasto, sem nada escrito na
superfície. Harry, desconfiando que fosse uma daquelas
brincadeiras de Fred e Jorge, ficou parado olhando para o
presente.
- E o que é que é isso? - perguntou.
- Isso, Harry é o segredo do nosso sucesso – disse Jorge,
dando uma palmadinha carinhosa no pergaminho.
- Dói na gente dar esse presente para você - disse Fred -,
mas decidimos, na noite passada, que você precisa muito mais
dele do que nós. E, de qualquer maneira, já o conhecemos de cor.
É uma herança que vamos lhe deixar. Para falar a verdade, não
precisamos mais dele.
- E para que eu preciso de um pedaço de pergaminho
163
velho? -perguntou Harry.
- Um pedaço de pergaminho velho! - exclamou Fred,
fechando os olhos com uma careta, como se Harry o tivesse
ofendido mortalmente. - Explique a ele Jorge.
- Bem....... quando estávamos no primeiro ano, Harry...
jovens, descuidados e inocentes...
Harry abafou uma risada. Duvidava se algum dia os
gêmeos teriam sido inocentes.
- ...bem, mais inocentes do que somos hoje... nos metemos
numa certa confusão com Filch.
- Soltamos uma bomba de bosta no corredor e por alguma
razão ele ficou aborrecido...
- Então Filch nos arrastou até a sala dele e começou a nos
ameaçar com os castigos de costume...
- ...detenção...
- ...nos arrancar as tripas.
- ...e não pudemos deixar de reparar numa gaveta do
arquivo dele em que estava escrito Confiscado e Muito Perigoso.
Não precisam continuar. -- exclamou Harry, começando a
sorrindo.
- Bem, que é que você teria feito? - perguntou Fred. - Jorge
soltou mais uma bomba de bosta para distrair Filch, eu abri
depressa a gaveta e tirei... isto.
- Não foi tão desonesto quanto parece, sabe - comentou
Jorge.
- Calculamos que Filch nunca tivesse descoberto como usar
o pergaminho. Mas, provavelmente suspeitou o que era ou não o
teria confiscado.
- E vocês sabem como usar?
- Ah, sabemos - disse Fred, rindo. - Esta jóia nos ensinou
mais do que todos os professores da escola.
- Vocês estão me gozando - disse Harry, olhando para o
pedaço velho e rasgado de pergaminho.
- Ah, é? - disse Jorge.
Ele apanhou a varinha, tocou o pergaminho de leve e disse:
Juro solenemente que não pretendo fazer nada de bom.
Na mesma hora, linhas de tinta muito finas começaram a se
espalhar como uma teia de aranha a partir do ponto em que a
164
varinha de Jorge tocara. Elas convergiram, se cruzaram, se
abriram como um leque para os quatro cantos do pergaminho; em
seguida, no alto, começaram a aflorar palavras, palavras grandes,
floreadas, verdes, que diziam:
Os Srs. Aluado, Rabicho, Almofadinha e Pontas,
fornecedores de recursos para bruxos malfeitores,
têm a honra de apresentar
O MAPA DO MAROTO
Era um mapa que mostrava cada detalhe dos terrenos do
castelo de Hogwarts. O mais notável, contudo, eram os pontinhos
mínimos de tinta que se moviam em torno do mapa, cada um com
um rótulo em letra minúscula. Pasmo, Harry se curvou para
examinar melhor. Um pontinho, no canto superior esquerdo,
mostrava que o Prof. Dumbledore estava andando para lá e para cá
em seu escritório; a gata do zelador, Madame Nor-r-ra, rondava o
segundo andar; e Pirraça, o poltergeist, naquele momento saltitava
pela sala de troféus. E quando os olhos de Harry percorreram os
corredores que tão bem conhecia, ele notou mais uma coisa.
O mapa mostrava um conjunto de passagens em que ele
nunca entrara. E muitas pareciam levar..
-... diretamente a Hogsmeade - disse Fred, acompanhando
uma delas com o dedo. - São sete ao todo. Até agora Filch conhece
essas quatro - ele as apontou -, mas temos certeza de que somente
nós conhecemos estas outras. Não se preocupe com a passagem
por trás do espelho no quarto andar. Nós a usamos até o inverno
passado, mas já desabou, está completamente bloqueada. E
achamos que ninguém jamais usou esta porque o Salgueiro
Lutador foi plantado bem em cima da entrada. Mas, esta outra aqui
leva diretamente ao porão da Dedosdemel. Nós já a usamos um
monte de vezes. E como você talvez tenha notado, a entrada é bem
ali do lado de fora da sala, na corcunda daquela velhota de um
olho só.
Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas - suspirou Jorge,
dando um tapinha no cabeçalho do mapa. - Devemos tanto a eles.
- Almas nobres, que trabalharam incansavelmente para
ajudar novas gerações de transgressores - disse Fred solenemente.
- Certo - acrescentou Jorge depressa. - Não se esqueça de
limpar o mapa depois de usá-lo... senão qualquer um pode ler -
165
recomendou Fred.
- É só bater com a varinha mais uma vez e dizer "Malfeito
feito!", e o pergaminho torna a ficar branco.
- Portanto, jovem Harry - disse Fred, numa incrível
imitação de Percy -, trate de se comportar.
- Vejo você na Dedosdemel - despediu-se Jorge, piscando.
Os gêmeos deixaram a sala, sorrindo satisfeitos consigo
mesmos. Harry ficou ali, contemplando o mapa milagroso.
Acompanhou o pontinho de tinta Madame Nor-r-ra virar à
esquerda e parar para cheirar alguma coisa no chão. Se Filch
realmente não conhecia... ele não teria que passar pelos
dementadores...
Mas mesmo enquanto continuava ali, transbordante de
excitação, uma coisa que ouvira, certa vez, o Sr. Weasley dizer
aflorou em sua lembrança.
Nunca confie em nada que é capaz de pensar; se você não
pode ver onde fica o seu cérebro.
O mapa era um daqueles objetos mágicos perigosos sobre
os quais o Sr. Weasley o prevenira... Recursos para bruxos
malfeitores... mas então, raciocinou Harry, ele só queria usar o
mapa para ir a Hogsmeade, não era que quisesse roubar alguma
coisa ou atacar alguém... e Fred e Jorge já o usavam havia anos,
sem que nada de terrível tivesse acontecido...
Harry acompanhou com o dedo a passagem secreta até a
Dedosdemel.
Depois, subitamente, como se obedecesse a uma ordem,
enrolou o mapa, guardou-o nas vestes e correu para a porta da sala
de aula. Abriu-a uns dedinhos. Não havia ninguém do lado de
fora. Com muito cuidado, esgueirou-se da sala até as costas da
estátua da bruxa de um olho só.
Que era mesmo que devia fazer? Puxou outra vez o mapa e
viu, para seu espanto, que um novo boneco de tinta aparecera no
pergaminho, rotulado Harry Potter. Estava parado exatamente no
mesmo lugar que o verdadeiro Harry mais ou menos na metade do
corredor do terceiro andar. Harry observou-o atentamente. Seu
pequeno eu de tinta parecia estar tocando a bruxa com uma
varinha mínima. O garoto na mesma hora puxou a varinha real e
deu um toque na estátua. Nada aconteceu. Ele tornou a consultar o
166
mapa. Um balão com um texto aparecera ao lado do seu boneco.
- Dentro do balão havia a palavra "Dissendium"
- Dissendium! - sussurrou Harry; dando uma nova batida na
bruxa de pedra.
Na mesma hora, a corcunda da estátua se abriu o suficiente
para admitir uma pessoa bem magra. Harry deu uma espiada
rápida nos dois lados do corredor, guardou outra vez o mapa, se
içou de cabeça para dentro do buraco e deu um impulso para
frente.
Ele deslizou um bom pedaço, descendo o que parecia um
escorrega de pedra e aterrissou na terra úmida e fria. Levantou-se,
então, olhando a toda volta. Estava escuro como breu. Harry
ergueu a varinha e murmurou:
- Lumus! - E pôde ver que se encontrava em uma passagem
muito estreita, baixa e terrosa. Ergueu, então, o mapa, tocou-o
com a ponta da varinha e disse baixinho: - Malfeito feito! – O
mapa ficou imediatamente branco. Ele o dobrou cuidadosamente,
enfiou-o dentro das vestes, depois, o coração batendo rápido, ao
mesmo tempo excitado e apreensivo, Harry começou a andar.
A passagem virava e tornava a virar, mais parecendo uma
toca de coelho gigante do que qualquer outra coisa. Harry
caminhou depressa por ela, tropeçando aqui e ali no chão
acidentado, segurando a varinha com firmeza à sua frente.
Levou uma eternidade, mas o garoto tinha o pensamento
fixo na capacidade da Dedosdemel repor suas forças. Depois do
que lhe pareceu uma hora, a passagem começou a subir. Ofegante,
Harry apertou o passo, o rosto quente, os pés muito gelados.
Dez minutos mais tarde, chegou ao pé de uns degraus de
pedra muito gastos, que subiam a perder de vista. Tomando
cuidado para não fazer barulho, Harry começou a subir. Cem
degraus, duzentos degraus, perdeu a conta, olhando para os pés...
Então, sem aviso, sua cabeça bateu em alguma coisa dura.
Parecia um alçapão. Harry ficou parado ali, massageando o
cocuruto da cabeça, apurando os ouvidos. Não conseguia ouvir
nenhum som em cima. Muito devagarinho, empurrou o alçapão e
espiou pela borda.
Deparou com um porão, cheio de caixotes e caixas. Harry
subiu pelo alçapão e tornou a fechá-lo - ele se fundiu tão
167
perfeitamente com o soalho empoeirado que era impossível saber
que estava ali. O garoto avançou lentamente até a escada de
madeira que levava ao andar superior. Agora decididamente
conseguia ouvir vozes, para não falar no tilintar de uma sineta e no
abre e fecha de uma porta.
Pensando no que deveria fazer, Harry, de repente, ouviu
uma porta se abrir muito próximo; alguém ia descer a escada.
- E traga mais uma caixa de lesmas gelatinosas, querido,
eles praticamente levaram tudo... - disse uma voz feminina.
Dois pés desceram a escada. Harry pulou para trás de um
enorme caixote e esperou os passos se distanciarem. Ouviu o
homem deslocando caixas na parede oposta. Talvez não tivesse
outra oportunidade...
Rápida e silenciosamente, o garoto saiu abaixado do
esconderijo e subiu as escadas; ao olhar para trás, viu um enorme
traseiro e uma careca reluzente enfiada em uma caixa. Harry
alcançou a porta no patamar da escada, escapuliu por ela e se
encontrou atrás do balcão da Dedosdemel - abaixou-se, saiu
quietinho de lado e por fim se levantou.
A Dedosdemel estava tão cheia de alunos de Hogwarts que
ninguém olhou duas vezes para Harry. O garoto foi passando entre
eles, olhando para os lados e reprimiu uma risada só de imaginar a
expressão que apareceria na cara de porco do Duda se pudesse ver
onde ele estava agora.
Havia prateleiras e mais prateleiras de doces com a
aparência mais apetitosa que se pode imaginar. Tabletes de nugá,
quadrados cor-de-rosa de sorvete de coco, caramelos cor de mel;
centenas de tipos de bombons em fileiras arrumadinhos; havia
uma barrica enorme de feijõezinhos de todos os sabores, Delícias
gasosas - as tais bolas de sorvete de fruta que faziam levitar que
Rony mencionara - em outra parede havia os doces de "efeitos
especiais"; os melhores chicles de baba e bola (que enchiam a loja
de bolas azulonas e se recusavam a estourar durante dias), o
estranho e quebradiço fio dental de menta, minúsculos Diabinhos
negros de pimenta ("sopre fogo em seus amigos!"), Ratinhos de
sorvete ("ouça seus dentes baterem e rangerem!"), Sapos de creme
de menta ("faça sua barriga, saltar para valer!"), frágeis penas de
algodão-doce e bombons explosivos.
168
Harry se espremeu entre os alunos do sexto ano que
enchiam a loja e viu um letreiro pendurado no canto mais distante
do salão (SABORES INCOMUNS). Rony e Hermione estavam
bem embaixo, examinando uma bandeja de pirulitos com gosto de
sangue. Harry; sorrateiramente, foi parar atrás dos dois.
- Erca, não, Harry não vai querer esses, são para vampiro,
imagino - ia dizendo Hermione.
- E esses aqui? - perguntou Rony, enfiando um vidro de
cachos de barata embaixo do nariz de Hermione.
- Decididamente não - disse Harry
Rony quase deixou cair o vidro.
- Harry! - berrou Hermione. - Que é que você está fazendo
aqui? Como... foi que você...?
- Uau! - exclamou Rony; parecendo muito impressionado -,
você aprendeu a aparatar! - Claro que não aprendi. - Harry baixou
a voz de modo que nenhum dos alunos de sexto ano pudesse ouvir
e contou aos amigos sobre o Mapa do maroto.
- Como é que Fred e Jorge nunca me deram esse mapa? -
perguntou Rony indignado. - Eu sou irmão deles!
- Mas Harry não vai ficar com o mapa! - afirmou Hermione
como se a idéia fosse ridícula. - Vai entregá-lo à Prof. Minerva,
não é Harry?
- Não, não vou não! - disse Harry
- Você é maluca? - exclamou Rony, arregalando os olhos
para a garota. - Entregar uma coisa boa dessas?
- Se eu entregar, vou ter que contar onde foi que o arranjei.
Filch ia saber que Fred e Jorge surrupiaram dele!
- Mas e o Sirius Black? - sibilou Hermione. - Ele poderia
estar usando uma das passagens do mapa para entrar no castelo!
Os professores têm que saber disso!
- Ele não pode estar entrando por uma passagem - retrucou
Harry depressa. - Tem sete túneis secretos no mapa, certo? Fred e
Jorge calculam que Filch conheça uns quatro. E os outros três...
um desabou, de modo que ninguém pode passar. Outro tem o
Salgueiro Lutador plantado na entrada, portanto, não se pode sair.
E este que eu usei para chegar aqui... bem... é realmente difícil ver
a entrada dele no porão. Então, a não ser que Black soubesse que
havia uma passagem...
169
Harry hesitou. E se Black soubesse que havia uma
passagem ali? Rony, porém, pigarreou querendo sinalizar alguma
coisa e apontou para um aviso colado dentro da loja de doces.
POR ORDEM DO MINISTÉRIO DA MAGIA
Lembramos aos nossos clientes que até nova ordem, os
dementadores irão patrulhar as ruas de Hogsmeade todas
as noites após o pôr-do-sol. A medida visa garantir a
segurança dos habitantes de Hogsmeade e será revogada
quando Sirius Black for recapturado. Ë, portanto,
aconselhável que os clientes encerrem suas compras bem
antes do anoitecer.
Feliz Natal!
- Estão vendo só? - falou Rony em voz baixa. - Eu gostaria
de ver Black tentar entrar na Dedosdemel com dementadores
pululando por todo o povoado. Em todo o caso, Hermione, os
donos da Dedosdemel ouviriam se alguém arrombasse a loja, não?
Eles moram no primeiro andar!
- Tá, mas... mas... - A garota parecia estar fazendo força
para encontrar outro argumento. - Olha, ainda assim Harry não
devia ter vindo a Hogsmeade. Ele não tem autorização! Se alguém
descobrir, ele vai ficar enrascado até as orelhas! E ainda não
anoiteceu... e se Sirius Black aparecer hoje? Agora?
- Ia ter muito trabalho para encontrar Harry no meio disso
aí - disse Rony indicando com a cabeça as janelas de caixilhos,
pelas quais se via a nevasca rodopiando lá fora. - Vamos, Mione, é
Natal Harry merece uma folga.
Hermione mordeu o lábio, parecendo extremamente
preocupada.
- Você vai me denunciar? - perguntou Harry à amiga,
sorrindo.
- Ah... claro que não... mas sinceramente, Harry...
- Viu as delícias gasosas, Harry? - perguntou Rony,
puxando Harry e levando-o até a barrica em que se encontravam. -
E as lesmas gelatinosas? E os picolés ácidos? Fred me deu um
desses quando eu tinha sete anos, fez um furo que atravessou a
minha língua. Me lembro da mamãe pegando a vassoura e
baixando o pau nele. -Rony ficou mirando, pensativo, a caixa de
170
picolés ácidos. - Você acha que Fred comeria um cacho de baratas
se eu dissesse a ele que era amendoim?
Depois que Rony e Hermione pagaram por todos os doces
que compraram, os três saíram da Dedosdemel para enfrentar a
nevasca lá fora.
Hogsmeade parecia um cartão de Natal; as casas e lojas de
telhado de colmo estavam cobertas por uma camada de neve
fresca; havia coroas de azevinho nas portas e fieiras de luzes
encantadas penduradas nas árvores.
Harry estremeceu; ao contrário dos amigos, ele não estava
usando casaco. Os três saíram caminhando pela rua, a cabeça
abaixada contra o vento, Rony e Hermione gritando por dentro dos
cachecóis.
- Ali é o Correio...
- A Zonko's fica mais adiante.
- Podíamos ir até a Casa dos Gritos...
- Vamos fazer o seguinte - sugeriu Rony com os dentes
batendo -, vamos tomar uma cerveja amanteigada no Três
Vassouras?
Harry estava mais do que a fim; havia um vento cortante e
suas mãos estavam congelando. Então, eles atravessaram a rua e
minutos depois entravam na minúscula estalagem.
A sala estava cheíssima, barulhenta, quente e enfumaçada.
Uma mulher tipo violão, com um rosto bonito, estava
servindo um grupo de bruxos desordeiros no bar.
- Aquela é a Madame Rosmerta - disse Rony. - Vou pe~ar
as bebidas, está bem? - acrescentou, corando ligeiramente.
Harry e Hermione foram até o fundo do salão, onde havia
uma mesinha desocupada entre uma janela e uma bela árvore de
Natal próxima á lareira, Rony voltou em cinco minutos, trazendo
três canecas espumantes de cerveja amanteigada.
- Feliz Natal! - desejou ele alegremente, erguendo a caneca.
Harry bebeu com gosto. Era a coisa mais deliciosa que já
provara e parecia aquecer cada pedacinho dele, de dentro para
fora.
Uma brisa repentina despenteou seus cabelos. A porta do
Três Vassouras tornou a se abriu Harry olhou por cima da borda
da caneca e se engasgou.
171
Os professores McGonagall e Flitwick tinham acabado de
entrar no bar em meio a uma rajada de flocos de neve, seguidos de
perto por Hagrid, que vinha absorto em uma conversa com um
homem corpulento de chapéu-coco verde-limão e uma capa de
risca de giz - Cornélio Fudge, Ministro da Magia.
Numa fração de segundo, Rony e Hermione, ao mesmo
tempo, tinham posto as mãos na cabeça de Harry e feito o amigo
escorregar do banquinho para baixo da mesa. Pingando cerveja
amanteigada e se encolhendo para sumir de vista, Harry, agarrado
à caneca, espiou os pés dos professores e de Fudge caminharem
até o bar, pararem e, em seguida, darem meia-volta e se dirigirem
para onde ele estava.
Em algum lugar acima de sua cabeça, Hermione sussurrou:
- Mobiliarbus!
A árvore de Natal ao lado da mesa se ergueu alguns
centímetros do chão, flutuou de lado e desceu com um baque
suave bem diante da mesa dos garotos, escondendo-os dos
professores. Espiando por entre os ramos mais baixos e densos,
Harry viu quatro conjuntos de pés de cadeira se afastarem da mesa
bem ao lado, depois ouviu os resmungos e suspiros dos
professores e do ministro ao se sentarem.
Em seguida, ele viu mais um par de pés, usando saltos
altos, turquesa, cintilantes, e ouviu uma voz de mulher.
- Uma água de gilly pequena...
- É minha - disse a voz da Profª Minerva.
- A jarra de quentão...
Obrigado - disse Hagrid.
- Soda com xarope de cereja, gelo e guarda-sol...
Hummm! - exclamou o Prof. Flitwick estalando os lábios.
- Para o senhor é o rum de groselha, ministro.
- Obrigado, Rosmerta, querida - disse a voz de Fudge. - É
um prazer revê-la, devo dizer. Não quer nos acompanhar? Venha
se sentar conosco...
- Bem, muito obrigada, ministro.
Harry acompanhou os saltos cintilantes se afastarem e
retornarem. Seu coração batia incomodamente na garganta. Por
que não lhe ocorrera que este era o último fim de semana do
trimestre também para os professores? E quanto tempo eles
172
ficariam sentados ali? Ele precisava de tempo para voltar
discretamente à Dedosdemel, se quisesse estar na escola ainda
aquela noite... A perna de Hermione deu uma tremida nervosa
perto dele.
- Então, o que é que o traz a esse fim de mundo, ministro? -
perguntou a voz de Madame Rosmerta.
Harry viu a parte de baixo do corpo de Fudge se virar na
cadeira, como se verificasse se havia alguém. escutando. Depois
respondeu em voz baixa:
- Quem mais se não Sirius Black? imagino que você deve
ter sabido o que houve em Hogwarts no Dia das Bruxas?
- Para falar a verdade, ouvi um boato - admitiu Madame
Rosmerta.
Você contou ao bar inteiro, Hagrid? - perguntou a Profª
Minerva, exasperada.
- O senhor acha que Black continua por aqui, ministro? -
perguntou Madame Rosmerta,
- Tenho certeza - respondeu Fudge laconicamente.
- O senhor sabe que os dementadores já revistaram o meu
bar duas vezes? - falou Madame Rosmerta, com uma ligeira
irritação na voz. - Espantaram todos os meus fregueses... Isto é
muito ruim para o comércio, ministro.
- Rosmerta, querida, gosto tanto deles quanto você - disse
Fudge, constrangido. - E uma precaução necessária... infelizmente,
mas veja só... acabei de encontrar alguns. Estão furiosos com
Dumbledore porque ele não os deixa entrar nos terrenos da escola.
- É claro que não - disse a Profª Minerva, rispidamente. -
Como é que vamos ensinar com aqueles horrores por todo o lado?
- Apoiado, apoiado! - exclamou o Prof Flitwick com voz
esganiçada, os pés balançando a um palmo do chão.
- Mesmo assim - disse Fudge em tom de dúvida -, eles
estão aqui para proteger vocês todos de coisa muito pior... Nós
todos sabemos o que Black é capaz de fazer...
- Sabem, eu ainda acho difícil acreditar - disse Madame
Rosmerta pensativamente. - De todas as pessoas que passaram
para o lado das trevas, Sirius Black é o último em que eu
pensaria... quero dizer, eu me lembro dele quando era garoto em
Hogwarts. Se alguém tivesse me dito, então, no que ele iria se
173
transformar, eu teria respondido que a pessoa tinha bebido quentão
demais.
- Você não conhece nem metade do que ele fez, Rosmerta -
disse Fudge com impaciência. - A maioria nem sabe o pior.
- Pior? - exclamou Madame Rosmerta, a voz animada de
curiosidade. - O senhor quer dizer pior do que matar todos
aqueles, coitados?
- Isso mesmo.
- Não posso acreditar. Que poderia ser pior?
- Você diz que se lembra dele em Hogwarts, Rosmerta -
murmurou a Profª Minerva. - Você se lembra de quem era o
melhor amigo dele?
- Claro - disse Madame Rosmerta, com uma risadinha. -
Nunca se via um sem o outro, não é mesmo? O número de vezes
que os dois estiveram aqui, aah, me faziam rir o tempo todo. Uma
dupla incrível, Sirius Black e Tiago Potter!
Harry deixou cair a caneca com estrépito. Rony deu-lhe um
pontapé.
- Exatamente - disse a Profª Minerva. - Black e Potter.
Lideres de uma turminha. Os dois muito inteligentes é claro, na
verdade excepcionalmente inteligentes, mas acho que nunca
tivemos uma dupla de criadores de confusões igual...
- Não sei - disse Hagrid, dando uma risadinha. - Fred e
Jorge Weasley seriam páreo duro para os dois.
- Poder-se-ia até pensar que Black e Potter eram irmãos! –
o Prof. Flitwick entrou na conversa. - Inseparáveis!
- Claro que eram - comentou Fudge. - Potter confiava mais
em Black do que em qualquer outro amigo. Nada mudou quando
os dois terminaram a escola. Black foi o padrinho quando Tiago se
casou com Lílian. Depois, eles o escolheram para padrinho de
Harry. O garoto nem tem idéia disso, é claro. Vocês podem.
imaginar como isto o atormentaria.
- Por que Black acabou se aliando a Você-Sabe-Quem?
cochichou Madame Rosmerta.
- Foi muito pior do que isso, minha querida... - Fudge
baixou a voz e continuou numa espécie de sussurro grave. - Muita
gente desconhece que os Potter sabiam que Você-Sabe-Quem
queria pegá-los. Dumbledore, que naturalmente trabalhava sem
174
descanso contra Você-Sabe-Quem, tinha um bom número de
espiões úteis. Um deles avisou-o e ele, na mesma hora, alertou
Tiago e Lilian. Dumbledore aconselhou os dois a se esconderem.
Bem, é claro que não era fácil alguém se esconder de Você-Sabe-
Quem. Dumbledore sugeriu aos dois que teriam maiores chances
de escapar se apelassem para o Feitiço Fidelius.
- Como é que é isso? - perguntou Madame Rosmerta,
ofegando de, interesse. O Prof. Flitwick pigarreou.
- Um feitiço extremamente complexo - explicou com a sua
vozinha fina -, que implica esconder o segredo, por meio da
magia, em uma única pessoa viva. A informação é guardada no
intimo da pessoa escolhida, ou fiel do segredo, e torna-se
impossível encontrá-la, a não ser, é claro, que o fiel do segredo
resolva contar a alguém. Enquanto ele se mantiver calado, Você-
Sabe-Quem poderia revistar o povoado em que Lílian e Tiago
viviam durante anos sem jamais encontrá-los, mesmo que ficasse
com o nariz grudado na janela da sala deles!
- Então Black era o fiel do segredo dos Potter? - sussurrou
Madame Rosmerta.
- Naturalmente - respondeu a Profª Minerva. - Tiago Potter
contou a Dumbledore que Black preferiria morrer a contar onde
eles estavam, que Black estava pensando em se esconder
também... mesmo assim, Dumbledore continuou preocupado. Eu
me lembro que ele próprio se ofereceu para ser o fiel do segredo
dos Potter;
- Ele suspeitava de Black? - exclamou Madame Rosmerta.
- Ele tinha certeza de que alguém íntimo dos Potter tinha
mantido Você-Sabe-Quem informado dos movimentos do casal -
respondeu a Profª Minerva sombriamente. - De fato, ele vinha
suspeitando havia algum tempo de que alguém do nosso lado
virara traidor e estava passando muita informação para Você-
Sabe-Quem.
- Mas Tiago Potter insistiu em usar Black?
- Insistiu - disse Fudge com a voz carregada. - E então,
pouco mais de uma semana depois de terem realizado o Feitiço
Fidelius...
- Black traiu os Potter? - murmurou Madame Rosmerta.
- Traiu. Black estava cansado do papel de agente duplo,
175
estava pronto a declarar abertamente o seu apoio a Você-Sabe-
Quem, e parece que planejou fazer isso assim que os Potter
morressem. Mas, como todos sabem, Você-sabe-quem encontrou
sua perdição no pequeno Harry Potter. Despojado de poderes,
extremamente enfraquecido, ele fugiu. E isto deixou Black numa
posição realmente muito difícil. Seu mestre caíra no exato
momento em que ele, Black, mostrara quem de fato era, um
traidor. Não teve outra escolha senão fugir...
- Vira-casaca imundo e podre! - exclamou Hagrid tão alto
que metade do bar se calou.
-. Psiu! - fez a Profª Minerva.
- Eu o encontrei! - rosnou Hagrid. - Devo ter sido a última
pessoa que viu Black antes de ele matar toda aquela gente! Fui eu
que salvei Harry da casa de Lílian e Tiago depois que o casal
morreu! Tirei o garoto das ruínas, coitadinho, com um grande
corte na testa, e os pais mortos... e Sirius Black aparece, naquela
moto voadora que ele costumava usar. Nunca me ocorreu o que
ele estava fazendo ali. Eu não sabia que ele era o fiel do segredo
de Lilian e Tiago. Pensei que tivesse acabado de saber da notícia
do ataque de Você-Sabe-Quem e vindo ver o que era possível
fazer. Estava tremendo, branco. E vocês sabem o que eu fiz? EU
CONSOLEI O TRAIDOR ASSASSINO! - bradou Hagrid.
- Hagrid, por favor! - pediu a Profª Minerva. - Fale baixo!
- Como é que eu ia saber que ele não estava abalado com a
morte de Lílian e Tiago? Que estava preocupado era com Você-
Sabe-Quem! Então ele disse: "Me dá o Harry, Hagrid. Sou o
padrinho dele, vou cuidar dele..." Ah! Mas eu tinha recebido
ordens de Dumbledore, e disse não, Dumbledore tinha me
mandado levar Harry para a casa dos tios. Black discordou, mas
no fim cedeu. Me disse, então, que eu podia pegar a moto dele
para levar Harry. "Não vou precisar mais dela", falou.
"Eu devia ter percebido, naquela hora, que alguma coisa
não estava cheirando bem. Black adorava a moto. Por que estava
dando ela para mim? Por que não ia precisar mais da moto? A
questão é que a moto era muito fácil de localizar Dumbledore
sabia que ele tinha sido o fiel do segredo dos Potter Black sabia
que ia ter que se mandar àquela noite sabia que era uma questão de
horas até o Ministério sair à procura dele,
176
"Mas e se eu tivesse entregado Harry a Black, hein?Aposto
como ele teria jogado o garoto no mar no meio do caminho, O
filho dos melhores amigos dele! Mas quando um bruxo se alia ao
lado das trevas, não tem mais nada nem ninguém que tenha
importância para ele..,
À história de Hagrid seguiu-se um longo silêncio. Então,
Madame Rosmerta falou com uma certa satisfação.
- Mas ele não conseguiu desaparecer, não foi? O Ministério
da Magia o agarrou no dia seguinte!
- Ah, se ao menos isso fosse verdade - lamentou Fudge
com amargura. - Não fomos nós que o encontramos. Foi o
pequeno Pedro Petrigrew, outro amigo dos Potter. Com certeza,
enlouquecido de pesar e sabendo que Black fora o fiel do segredo
dos Potter, Pedro foi pessoalmente atrás dele.
- Pettigrew... aquele gordinho que sempre andava atrás dos
dois em Hogwarts? - perguntou Madame Rosmerta.
- Ele venerava Black e Potter como se fossem heróis - disse
a Profª Minerva. - Não estava bem à altura deles em termos de
talento. Muitas vezes fui severa demais com ele, Podem imaginar
agora como me... como me arrependo disso... - Sua voz parecia a
de alguém que apanhara de repente um resfriado.
- Vamos, Minerva - consolou-a Fudge, com bondade. -
Pettigrew teve uma morte de herói. Testemunhas oculares,
trouxas, é claro, depois limpamos a memória deles, nos contaram
como Pettigrew encurralou Black. Dizem que ele soluçava: "Lilian
e Tiago, Sirius! Como é que você pôde?" Então fez menção de
apanhar a varinha. Bem, naturalmente, Black foi mais rápido. Fez
Pettigrew em pedacinhos...
A Profª Minerva assoou o nariz e disse com a voz
embargada:
- Menino burro... menino tolo... nunca teve jeito para duelar
deveria ter deixado isso para o ministério...
- E vou dizer uma coisa, se eu tivesse chegado ao Black
antes de Pettigrew, não teria apelado para varinhas, eu teria
despedaçado ele aos bocadinhos - rosnou Hagrid.
- Você não sabe o que está dizendo, Hagrid - disse Fudge
com severidade. - Ninguém, a não ser bruxos de elite do
Esquadrão de Execução das Leis da Magia, teria tido uma chance
177
contra Black depois que ele foi encurralado. Na época, eu era
ministro júnior no Departamento de Catástrofes Mágicas, e fui um
dos primeiros a chegar à cena depois que Black liquidou aquelas
pessoas, nunca vou me esquecer. Ainda sonho com o que vi, às
vezes. Uma cratera no meio da rua, tão funda que rachou a
tubulação de esgoto embaixo. Cadáveres por toda a parte. Trouxas
berrando. E Black parado ali, dando gargalhadas, diante do que
restava de Pettigrew... um monte de vestes ensangüentadas e uns
poucos, uns poucos fragmentos...
A voz de Fudge parou abruptamente. Ouviu-se o barulho
de cinco narizes sendo assoados.
- Bem, aí tem você, Rosmerta - disse Fudge com a voz
carregada. - Black foi levado por vinte policiais do Esquadrão de
Execução'das Leis da Magia e Pettigrew recebeu a Ordem de
Merlin, Primeira Classe, o que acho que foi algum consolo para a
coitada da mãe dele. Black tem estado preso em Azkaban desde
então.
Madame Rosmerta deu um longo suspiro.
- É verdade que ele é doido, ministro?
- Eu gostaria de poder dizer que é - disse Fudge lentamente.
-Acredito que é certo que a derrota do mestre o desequilibrou por
algum tempo. O assassinato de Pettigrew e de todos aqueles
trouxas foi trabalho de um homem desesperado e acuado, cruel...
sem sentido. Mas eu encontrei Black na última inspeção que fiz à
Azkaban. Vocês sabem que a maioria dos prisioneiros lá ficam
sentados no escuro resmungando; não dizem coisa com coisa...
mas fiquei chocado com a aparência normal de Black. Conversou
comigo muito racionalmente. Me deixou nervoso. Deu a
impressão de estar meramente entediado, perguntou se eu já tinha
acabado de ler o meu jornal, com toda a tranqüilidade, disse que
sentia falta das palavras cruzadas. Fiquei realmente espantado de
ver o pouco efeito que os dementadores estavam causando nele, e,
vejam, ele era um dos prisioneiros mais fortemente guardados do
lugar. Dementadores à porta da cela dia e noite.
- Mas para que o senhor acha que ele fugiu? - perguntou
Madame Rosmerta. - Por Deus, ministro, ele não esta tentando se
juntar a Você-Sabe-Quem, está?
- Eu diria que esse é o plano dele, hum, a longo prazo -
178
disse Fudge evasivamente. - Mas temos esperança de pegar Black
bem antes disso. Devo dizer que Você-Sabe-Quem sozinho e sem
amigos é uma coisa... mas se tiver de volta o seu serviçal mais
dedicado, estremeço só em pensar na rapidez com que se
reergueria...
Ouviu-se um leve tilintar de copo em madeira. Alguém
pousara o copo.
- Sabe, Cornélio, se você vai jantar com o diretor, é melhor
voltarmos para o castelo - sugeriu a Profª Minerva.
Um por um, os pares de pés à frente de Harry retomaram o
peso dos seus donos; barras de capas rodopiaram no ar e os saltos
cintilantes de Madame Rosmerta desapareceram atrás do balcão
do bar. A porta do Três Vassouras tornou a se abrir, deixando
entrar mais uma rajada de flocos de neve e os professores
desapareceram.
- Harry?
Os rostos de Rony e Hermione surgiram embaixo da mesa.
Os dois o encararam, sem encontrar palavras para falar.
179
- CAPITULO ONZE -
A Firebolt
Harry não tinha uma idéia muito clara de como conseguira
voltar ao porão da Dedosdemel, atravessar o túnel e sair mais uma
vez no castelo. Só sabia que a viagem de volta parecia não ter
demorado nada, e que ele mal se apercebera do que estava
fazendo, porque sua cabeça continuava a latejar com a conversa
que acabara de ouvir.
Por que ninguém lhe contara? Dumbledore, Hagrid, o Sr.
Weasley, Cornélio Fudge... por que ninguém jamais mencionara o
fato de que seus pais tinham morrido porque o melhor amigo deles
os traíra?
Rony e Hermione observavam Harry, muito nervosos,
durante o jantar, sem sequer se atrever a conversar com ele sobre o
que tinham ouvido, porque Percy estava sentado perto deles.
Quando subiram para a concorrida sala comunal, foi para
descobrir que Fred e Jorge tinham soltado meia dúzia de bombas
de bosta num arroubo de animação de fim de trimestre. Harry, que
não queria que os gêmeos lhe perguntassem se tinha chegado ou
não a Hogsmeade, subiu sorrateira e silenciosamente para o
dormitório vazio e foi direto ao seu armário de cabeceira.
Empurrou os livros para um lado e não demorou nada a encontrar
o que estava procurando - o álbum de fotografias encadernado em
couro que Hagrid lhe dera havia dois anos, repleto de fotos
mágicas de seus pais. O garoto se sentou na cama, fechou o
cortinado e começou a virar as páginas, procurando, até que...
Parou numa foto do dia do casamento dos pais. Lá estava
seu pai acenando para ele, sorridente, os rebeldes cabelos negros
180
que Harry herdara apontando para todas as direções. Lá estava sua
mãe, radiante de felicidade, de braço dado com o seu pai. E lá...
aquele devia ser ele. O padrinho... Harry jamais lhe dera atenção
antes.
Se não tivesse sabido que era a mesma pessoa, jamais teria
pensado que era Black naquela velha foto. Seu rosto não era
encovado e macilento, mas bonito e risonho. Já estaria trabalhando
para Voldemort quando a foto fora tirada? Já estaria planejando as
mortes das duas pessoas ao seu lado? Saberia que ia enfrentar doze
anos em Azkaban, doze anos que o tornariam irreconhecível?
Mas os dementadores não o afetam, pensou Harry;
examinando atentamente aquele rosto bonito e risonho. Ele não
tem que ouvir minha mãe gritando quando eles chegam muito
perto...
Harry fechou com violência o álbum e, abaixando-se,
guardou-o de novo no armário, tirou as vestes e os óculos e foi
dormir, cuidando para que o cortinado o escondesse de todos.
A porta do dormitório se abriu.
- Harry? - chamou a voz de Rony, hesitante.
Mas Harry continuou quieto, fingindo que estava
dormindo. Ouviu o amigo se retirar e virou de barriga para cima,
os olhos muito aberto.
Um ódio que ele jamais conhecera começou a crescer
dentro dele como veneno. Viu Black rindo-se dele no escuro,
como se ninguém tivesse colado a foto do álbum em seus olhos.
Assistiu, como se estivesse vendo um filme, a Sirius Black
explodir Pedro Pettigrew, (que lembrava Neville Longbottom), em
mil pedaços. Ouviu (embora não tivesse a menor idéia do som que
teria a voz de Black, um murmúrio baixo e excitado. "Aconteceu,
meu Senhor.. os Potter me escolheram para fiel do seu segredo..."
E então ouviu outra voz, rindo-se histericamente, a mesma risada
que Harry ouvia mentalmente sempre que os dementadores se
aproximavam...
- Harry, você... você está com uma cara horrível.
O garoto só adormecera quando o dia ia raiando. Ao
acordar, encontrou o dormitório vazio, deserto, se vestiu e desceu
181
para a sala comunal, também vazia exceto pela presença de Rony,
que comia sapos de creme de menta e massageava a barriga, e
Hermione que espalhara os deveres de casa em cima de três
mesas.
- Onde foi todo mundo? - perguntou Harry.
- Embora! Hoje é o primeiro dia das férias, está lembrado?
-respondeu Rony, observando o amigo atentamente. - E quase hora
do almoço; eu ia subir para acordá-lo daqui a pouquinho.
Harry afundou em uma poltrona junto à lareira. A neve
continuava a cair lá fora. Bichento estava esparramado diante da
lareira como um grande tapete amarelo-avermelhado.
- Realmente você não está com uma cara muito boa, sabe -
disse Hermione, examinando ansiosa o rosto do garoto.
- Estou ótimo - retrucou ele.
- Harry, escuta aqui - disse Hermione trocando um olhar
com Rony -, você deve estar realmente perturbado com o que
ouviu ontem. Mas o importante é não fazer nenhuma bobagem.
- Como o quê?
- Como tentar ir atrás de Black - disse Rony depressa.
Harry percebeu que os dois tinham ensaiado aquela
conversa enquanto ele estivera dormindo. Não respondeu nada.
- Você não vai, não é mesmo, Harry? - insistiu Hermione.
- Porque não vale a pena morrer por causa do Black - disse
Rony.
Harry olhou para os amigos. Eles pareciam não ter
entendido o problema.
- Vocês sabem o que eu vejo e ouço cada vez que um
dementador se aproxima de mim? - Rony e Hermione sacudiram a
cabeça, apreensivos. - Ouço minha mãe gritar e suplicar a
Voldemort. E se alguém ouve a mãe gritar daquele jeito, pouco
antes de morrer, não dá para esquecer depressa. E se descobre que
alguém que ela acreditava ser amigo foi o traidor que pôs
Voldemort na pista dela...
- Mas não tem nada que você possa fazer! - disse Hermione
impressionada. - Os dementadores vão capturar Black e ele vai
voltar a Azkaban e... e é muito bem feito para ele!
- Você ouviu o que Fudge disse. Black não é afetado por
Azkaban como as pessoas normais. Não é um castigo para ele
182
como é para os outros.
- Então o que é que você está dizendo? - perguntou Rony
muito tenso. - Você quer... matar Black ou coisa parecida?
- Não seja bobo - disse Hermione, cuja voz transparecia
pânico. - Harry não quer matar ninguém, não é mesmo?
Mais uma vez Harry não respondeu. Ele não sabia o que
queria fazer. Só sabia que a idéia de não fazer nada, enquanto
Black continuava em liberdade, era quase insuportável.
- Malfoy sabe-disse ele de repente. -Vocês lembram do
que ele me disse na aula de Poções? "Se fosse eu, ia atrás dele
sozinho... Ia querer vingança".
- Você vai seguir o conselho de Malfoy em vez do nosso? -
perguntou Rony, enfurecido. - Escuta aqui... você sabe o que a
mãe do Pettigrew recebeu depois que Black acabou com o filho
dela? Papai me contou... a Ordem de Merlin, Primeira Classe, e o
dedo de Pettigrew em uma caixa. Foi o maior pedaço dele que
consegui ram encontrar Black é um louco, Harry, e é perigoso...
- O pai de Malfoy deve ter contado a ele - disse Harry, não
dando atenção a Rony. - Fazia parte do círculo Intimo de
Voldemort...
- Faz favor de dizer Você-Sabe-Quem? - exclamou Rony
com raiva.
- ...então obviamente, os Malfoy sabiam que Black estava
trabalhando para Voldemort...
- ... e Malfoy adoraria ver você desintegrado em um milhão
de pedaços, como Pettigrew! Caia na real, Harry. A esperança de
Malfoy é que você seja morto antes de ele precisar jogar quadribol
contra você.
- Harry, por favor - pediu Hermione, os olhos agora
brilhantes de lágrimas -, por favo,r tenha juízo. Black fez uma
coisa horrível demais, mas não corra risco, é isso que Black quer...
Ah, Harry, você vai fazer o jogo do Black se for atrás dele. Seus
pais não iam querer que você se machucasse, iam? Jamais iam
querer que você saísse procurando o Black!
- Eu nunca vou saber o que eles iam querer, porque, graças
ao Black, nunca conversei com eles - disse Harry com rispidez.
Houve um silêncio em que Bichento se espreguiçou com
desenvoltura, flexionando as garras. O bolso de Rony estremeceu.
183
- Escuta - disse o garoto, obviamente procurando mudar de
assunto -, estamos de férias! Já é quase Natal! Vamos... vamos
descer para ver o Hagrid. Não o visitamos há uma eternidade!
- Não! - disse Hermione depressa. - Harry não pode sair do
castelo, Rony...
- É, vamos - disse Harry se endireitando na poltrona -,
assim posso perguntar a ele por que nunca mencionou o Black
quando me contou a história dos meus pais!
Continuar a discussão sobre Sirius Black não era
obviamente o que Rony tinha em mente.
- Ou poderíamos jogar uma partida de xadrez - disse ele
depressa - ou de bexigas. Percy deixou um jogo...
- Não, vamos visitar Hagrid - disse Harry com firmeza.
Então os três apanharam as capas nos dormitórios e saíram
pelo buraco do retrato (Levantem-se para lutar, seus vira-latas
covardes!), desceram pelo castelo vazio e cruzaram as portas de
carvalho.
Os garotos caminharam sem pressa pelos jardins, deixando
uma vala rasa na neve faiscante e solta, as meias e as bainhas das
capas foram se molhando e congelando. A Floresta Proibida
parecia que fora encantada, cada árvore se cobrira de salpicos
prateados e a cabana de Hagrid lembrava um bolo com glacê.
Rony bateu, mas não teve resposta.
- Será que ele saiu? - perguntou Hermione, que tremia
embaixo da capa.
Rony encostou o ouvido na porta.
- Tem um barulho esquisito - disse. - Escuta só - será o
Canino?
Harry e Hermione encostaram os ouvidos na porta também.
De dentro da cabana vinham uns gemidos baixos e soluçantes.
- Será que não é melhor a gente ir chamar alguém? -
perguntou Rony, nervoso.
- Hagrid! - chamou Harry, dando socos na porta. - Hagrid,
você está aí?
Ouviu-se um som de passos pesados, depois a porta se
abriu com um rangido. Hagrid estava ali parado, com os olhos
vermelhos e inchados, as lágrimas caindo pelo seu colete de couro.
- Vocês souberam? - berrou ele, e se atirou no pescoço de
184
Harry.
Tendo Hagrid no mínimo duas vezes o tamanho de um
homem normal, isso não foi brincadeira. O garoto, quase
desabando sob o peso do gigante, foi salvo por Rony e Hermione,
que seguraram um em cada braço de Hagrid, e o puxaram para
dentro da cabana. O guarda-caça deixou-se conduzir até uma
cadeira e se largou em cima da mesa, soluçando descontrolado, o
rosto brilhante de lágrimas que escorriam por sua barba
embaraçada.
-Hagrid, o que fiz? - perguntou Hermione perplexa.
Harry reparou em uma carta de aparência oficial aberta em
cima da mesa.
- Que é isso, Hagrid?
Os soluços de Hagrid redobraram, mas ele empurrou a
carta para o garoto, que a apanhou e leu em voz alta:
Prezado Sr. Hagrid,
Dando prosseguimento ao nosso inquérito sobre o ataque
do hipogrifo a um aluno seu, aceitamos as ponderações do Prof
Dumbledore de que o senhor não é responsável pelo lamentável
incidente.
- Bem, então está tudo certo, Hagrid! - exclamou Rony,
dando uma palmadinha no ombro do amigo. Mas Hagrid
continuou a soluçar, e fez sinal com uma de suas gigantescas
mãos, convidando Harry a continuar a leitura da carta.
No entanto, devemos registrar a nossa preocupação quanto
ao hipogrifo em pauta. Decidimos acolher a reclamação oficial do
Sr. Lúcio Malfoy e o caso será encaminhado á Comissão para
Eliminação de Criaturas Perigosas. A audiência terá lugar em 20
de abril, e solicitamos que o senhor se apresente com seu
hipogrifo nos escritórios do Comissão, em Londres, nessa dota.
Entrementes, o animal deverá ser mantido preso e isolado.
Atenciosamente...
Seguia-se uma lista com os nomes dos conselheiros da
escola.
185
- Ah! - exclamou Rony. - Mas você disse que o Bicuço não
é um hipogrifo bravo, Hagrid. Aposto como ele vai se safar...
- Você não conhece as gárgulas da Comissão para
Eliminação de Criaturas Perigosas! - respondeu Hagrid com a voz
engasgada, enxugando os olhos na manga. - Eles têm má vontade
com as criaturas interessantes!
Um som repentino vindo de um canto da cabana fez Harry;
Rony e Hermione se virarem depressa. Bicuço, o hipogrifo, estava
deitado a um canto, mastigando alguma coisa que fazia escorrer
sangue por todo o soalho.
- Eu não podia deixar ele amarrado lá fora na neve! -
explicou Hagrid, sufocado. - Sozinho! No Natal.
Harry Rony e Hermione se entreolharam. Nunca tinham
concordado com Hagrid sobre o que o guarda-caça chamava de
"criaturas interessantes" e outras pessoas chamavam de "monstros
aterrorizantes". Por outro lado, não parecia haver nenhuma
maldade específica em Bicuço. De fato, pelos padrões normais de
Hagrid,o bicho era sem dúvida engraçadinho.
Você terá que preparar uma boa defesa, Hagrid - falou
Hermione, sentando-se e pondo a mão no braço maciço do amigo.
- Tenho certeza de que você pode provar que Bicuço é
seguro.
- Não vai fazer nenhuma diferença! - soluçou Hagrid. -
Aqueles demônios da Eliminação, eles são controlados por Lúcio
Malfoy! Têm medo dele! E se eu perder o caso, Bicuço...
Hagrid passou o dedo rapidamente pela garganta, depois
deixou escapar um lamento, e caiu para frente, deitando a cabeça
nos braços.
- E Dumbledore, Hagrid? - perguntou Harry.
- Ele já fez mais do que o suficiente por mim - gemeu
Hagrid.
- Já tem muito com que se ocupar só para segurar os
dementadores fora do castelo e o Sirius Black rondando...
Rony e Hermione olharam depressa para Harry, como se
espetassem que o garoto fosse começar a criticar Hagrid por não
ter contado a verdade sobre Black. Mas Harry não teve coragem
de perguntar nada, não naquele momento em que estava vendo o
amigo tão infeliz e amedrontado.
186
- Escuta aqui, Hagrid - disse Harry -, você não pode
desistir. Hermione tem razão, você só precisa é de uma boa defesa.
Pode nos chamar como testemunhas...
- Tenho certeza de que já li um caso de alguém que
provocou um hipogrifo - disse Hermione, pensativa - e o bicho foi
inocentado. Vou procurar para você, Hagrid, e verificar
exatamente o que aconteceu.
Hagrid chorou ainda mais alto. Harry e Hermione olharam
para Rony, pedindo ajuda.
- Hum.... e se eu fizesse uma xícara de chá para nós? -
ofereceu-se o garoto.
Harry olhou para ele, espantado.
- É o que a minha mãe faz sempre que alguém está
chateado -murmurou Rony, encolhendo os ombros.
Finalmente, depois de muitas reafirmações de ajuda, e uma
caneca de chá fumegante diante dele, Hagrid assoou o nariz com
um lenço do tamanho de uma toalha de mesa e disse:
- Vocês têm razão. Não posso me entregar assim. Tenho
que me controlar...
Canino, o cão de caçar javalis, saiu timidamente debaixo da
mesa e descansou a cabeça no joelho do dono.
- Não tenho andado muito bem ultimamente - disse Hagrid,
acariciando Canino com uma das mãos e enxugando o rosto com a
outra. - Preocupado com o Bicuço e com a turma que não está
gostando das minhas aulas...
- Nós gostamos! - mentiu Hermione na mesma hora.
- É, elas são ótimas! - acrescentou Rony, cruzando os dedos
embaixo da mesa. - E... como é que vão os vermes?
- Mortos - disse Hagrid sombriamente. - Alface demais.
Ah, não! - exclamou Rony, com um trejeito de riso na
boca.
- E esses dementadores fazendo eu me sentir péssimo e
tudo o mais - disse Hagrid com um súbito estremecimento. -
Tenho que passar por eles todas as vezes que quero beber alguma
coisa no Três Vassouras. É como se eu estivesse de volta a
Azkaban...
Ele se calou e tomou um pouco de chá. Harry; Rony e
Hermione o observaram prendendo a respiração. Nunca tinham
187
ouvido Hagrid falar de sua breve estada em Azkaban. Depois de
uma pausa, Hermione perguntou timidamente:
- Lá é muito ruim, Hagrid?
- Vocês não fazem idéia - disse ele com a voz contida. -
Nunca estive em nenhum lugar assim. Pensei que ia endoidar;
Ficava lembrando de coisas horríveis... o dia em que fui expulso
de Hogwarts... o dia em que meu pai morreu... o dia em que tive
de mandar Norberto embora...
Seus olhos se encheram de lágrimas. Norberto era o bebê
dragão que Hagrid ganhara certa vez em um jogo de cartas.
- A pessoa não consegue mais se lembrar de quem é depois
de algum tempo. E começa a achar que não vale a pena viver. Eu
tinha esperança de morrer durante o sono... Quando me soltaram,
foi como se eu estivesse renascendo, tudo voltou como uma
avalanche, foi a melhor sensação do mundo. E vejam bem, os
dementadores não gostaram nada de me deixar sair.
- Mas você era inocente! - exclamou Hermione.
Hagrid riu pelo nariz.
- Você acha que eles se importam com isso? Que nada.
Desde que tenham umas centenas de seres humanos trancafiados
com eles, para poder sugar toda a felicidade deles, não estão nem
aí se alguém é ou não é culpado.
Hagrid ficou calado por um instante, olhando para o chá.
Depois disse em voz baixa:
- Pensei cm deixar Bicuço ir embora... tentar fazê-lo fugir;..
mas como é que a gente explica para um hipogrifo que ele tem que
se esconder? E... e tenho medo de desrespeitar a lei... - Ele ergueu
os olhos para os garotos, as lágrimas outra vez escorrendo pelo
rosto. - Não quero nunca mais na vida voltar para Azkaban.
A ida à cabana de Hagrid, embora não tivesse sido
divertida, em todo o caso, produzira o eleito que Rony e Hermione
esperavam. Ainda que Harry não tivesse de modo algum
esquecido Black, não iria poder ficar pensando o tempo todo em
vingança se quisesse ajudar Hagrid a vencer a causa contra a
Comissão para Eliminação de Criaturas Perigosas. Ele, Rony e
Hermione foram, no dia seguinte, à biblioteca, e voltaram ao vazio
188
salão comunal, carregados de livros que poderiam ajudar a
preparar a defesa para o Bicuço. Os três se sentaram diante do
fogo forte que havia na lareira e folhearam lentamente as páginas
de livros empoeirados sobre casos famosos de feras que saíram
para roubar ou atacar gente, falando-se, ocasionalmente, quando
deparavam com alguma coisa que servisse.
- Aqui tem uma coisa... houve um caso em 1722... mas o
hipogrifo foi condenado, eca, olhem só o que fizeram com ele, que
coisa horrível.
- Esse aqui pode ajudar, olhem... um manticora atacou
alguém ferozmente em 1296, e deixaram o bicho livre... ah... não,
foi só porque todos estavam com medo de se aproximar dele...
Nesse meio tempo, tinham sido armadas no resto do castelo
as magníficas decorações de Natal, apesar de poucos alunos terem
permanecido na escola para apreciá-las. Grossas serpentinas de
folhas e frutos de azevinho foram penduradas pelos corredores,
luzes misteriosas brilhavam dentro de cada armadura, e o Salão
Principal tinha as doze árvores de Natal de sempre, fulgurantes de
estrelas douradas. Um cheiro forte e gostoso de comida invadia os
corredores e, na altura da noite de Natal, estava tão forte que até
Perebas, no bolso de Rony; botou o nariz de fora para cheirar,
esperançoso, o ar.
Na manhã de Natal, Harry foi acordado com Rony atirando
um travesseiro nele.
- Oi! Presentes!
Harry apanhou os óculos e colocou-os no rosto, tentando
enxergar, na penumbra, os pés da cama, onde aparecera um
montinho de pacotes. Rony já estava rasgando o papel que
embrulhava os dele,
Mais um suéter de mamãe... outra vez marromavermelhado...
veja se você também ganhou uma.
Harry ganhara. A Sra. Weasley lhe mandara um suéter
vermelho com. o leão da Grifinória no peito, uma dúzia de tortas
de frutas secas e nozes, um bolo de Natal e uma caixa com
crocantes de nozes. Quando empurrou tudo isso para um lado, ele
viu um. pacote fino e longo por baixo.
- Que é isso? - perguntou Rony, espiando, enquanto
segurava nas mãos um par de meias marrom-avermelhadas que
189
acabara de abrir.
- Não sei...
Harry rasgou o pacote e prendeu a respiração ao ver a
magnífica e reluzente vassoura que rolara sobre sua cama. Rony
largou as meias e pulou da cama dele para olhar mais de perto.
- Eu não acredito - disse com a voz rouca.
Era uma Firebolt, idêntica à vassoura do sonho que Harry
tinha ido ver todas as manhãs no Beco Diagonal. O cabo brilhou
quando ele a ergueu. Sentiu a vassoura vibrar e a soltou; ela ficou
flutuando no ar, sem apoio, na altura exata para ele montá-la.
Os olhos de Harry correram da placa de ouro com o
número do registro para a superfície do cabo, dali para as lascas de
bétula perfeitamente lisas e aerodinâmicas que formavam a cauda.
- Quem lhe mandou essa vassoura? - perguntou Rony em
voz baixa.
- Procure ai o cartão - disse Harry.
Rony rasgou o resto do papel de embrulho da Firebolt.
- Nada! Caramba, quem gastaria tanto dinheiro com você?
- Bem - disse Harry, atordoado -, aposto que não foram os
Dursley.
- Aposto que foi Dumbledore - disse Rony, agora rodeando
a Firebolt, apreciando cada centímetro de sua glória. - Ele lhe
mandou a Capa da Invisibilidade anonimamente...
- Mas era do meu pai - respondeu Harry; - Dumbledore só
estava passando a capa para mim. Ele não gastaria centenas de
galeões comigo. Não pode sair dando coisas assim para alunos...
- Por isso mesmo é que não ia dizer que foi ele! - concluiu
Rony. - Para um debilóide feito o Malfoy não dizer que é
favoritismo. Ei. ....... - Rony deu uma grande gargalhada. - Malfoy!
Espera até ele ver você montado nisso! Vai ficar doente de inveja!
É uma vassoura de padrão internacionaL, ah, isso é!
- Não consigo acreditar - murmurou Harry, alisando a
Firebolt, enquanto Rony afundava na cama dele, rindo de se
acabar só de pensar no Malfoy. - Quem...?
- Eu sei - disse Rony se controlando, - Eu sei quem poderia
ter sido... o Lupin.
- Quê? - disse Harry, agora começando a rir também. -
Lupin? Olha, se ele tivesse tanto ouro assim, poderia comprar
190
umas vestes novas.
- É, mas ele gosta de você. E estava ausente quando a sua
Nimbus se arrebentou, e talvez tenha ouvido falar do acidente e
resolvido visitar o Beco Diagonal e comprar a vassoura para
você...
- Que é que você quer dizer com "estava ausente"? -
perguntou Harry - Ele estava doente quando eu joguei aquela
partida.
- Bem, ele não estava na ala hospitalar - disse Rony. - Eu
estava lá limpando comadres, cumprindo aquela detenção que o
Snape me deu, se lembra?
Harry franziu a testa para Rony.
- Não posso imaginar Lupin comprando um presente
desses.
- Do que é que vocês estão rindo?
Hermione acabara de entrar, vestindo um robe e segurando
Bichento, que estava com a cara de extremo mau humor e um fio
de lantejoulas em volta do pescoço,
- Não entra aqui com ele! - disse Rony, apanhando Perebas
depressa das profundezas de sua cama e guardando-o no bolso do
pijama. Mas Hermione não ouviu. Largou Bichento na cama vazia
de Simas e grudou os olhos, boquiaberta, na Firebolt.
- Ah, Harry. Quem lhe mandou isso?
- Não tenho a menor idéia. Não tinha cartão nem nada.
Para sua surpresa, Hermione não pareceu nem excitada
nem intrigada com a informação. Pelo contrário, ficou
desapontada e mordeu o lábio.
- Que é que você tem? - perguntou Rony.
- Não sei - respondeu Hermione lentamente -, mas é meio
esquisito, não é? Quero dizer, essa é uma vassoura muito boa, não
é?
Rony suspirou, exasperado,
- É a melhor vassoura que existe no mundo, Hermione.
- Então deve ter sido realmente cara...
- Provavelmente custou mais do que todas as vassouras da
Sonserina juntas - disse Rony alegremente.
- Bem... quem iria mandar a Harry uma coisa tão cara e
nem ao menos dizer que mandou? - perguntou Hermione.
191
- Quem quer saber disso? - retrucou Rony, impaciente. -
Escuta aqui, Harry; posso dar uma voltinha? Posso?
- Acho que ninguém devia montar essa vassoura por
enquanto! - disse Hermione com a voz esganiçada.
Harry e Rony encararam a garota.
- Que é que você acha que Harry vai fazer com ela... varrer
o chão?
Mas antes que Hermione pudesse responder, Bichento
saltou da cama de Simas direto para o peito de Rony.
- TIRE-O-DAQUI! - berrou Rony, ao mesmo tempo em
que as garras de Bichento rasgaram seu pijama e Perebas tentou
uma fuga desesperada por cima do seu ombro. Rony agarrou
Perebas pelo rabo e mirou em Bichento um pontapé mal calculado
que acabou acertando o malão aos pés da cama de Harry;
derrubou-o, e fez Rony pular pelo quarto uivando de dor.
O pêlo de Bichento de repente ficou em pé. Um assobio
alto e fino começou a invadir o quarto. O bisbilhoscópio de bolso
saltara de dentro das meias velhas do tio Válter e saíra rodopiando
e cintilando pelo chão.
- Eu tinha me esquecido dele! - exclamou Harry, que se
abaixou e recolheu o bisbilhoscópio. - Nunca uso estas meias se
posso evitar...
O pequeno pião girava e assobiava na palma da mão do
garoto. Bichento sibilava e bufava para ele.
- É melhor você levar esse gato daqui, Hermione - disse
Rony furioso, sentando-se na cama de Harry e massageando o
dedão do pé. - Será que dá para você guardar essa coisa? -
acrescentou ele para Harry quando Hermione ia se retirando do
quarto. Os olhos amarelos de Bichento continuavam fixos nele,
cheios de malícia.
Harry tornou a enfiar o bisbilhoscópio nas meias e atirou-o
de volta ao malão. Tudo que se ouvia agora eram os gemidos de
dor e raiva que Rony abafava. Perebas estava aninhado nas mãos
do dono. Já fazia tempo que Harry o vira fora do bolso do amigo e
teve a desagradável surpresa de observar que Perebas, antigamente
tão gordo, estava agora magérrimo; e também tinha perdido pêlos
em alguns pontos do corpo.
- Ele não está com uma aparência muito boa, não é? –
192
comentou Harry
- É estresse! - respondeu Rony. - Ele até estaria bem se
aquela bola idiota de pêlos o deixasse em paz.
Mas Harry, se lembrando que a mulher na loja de Animais
Mágicos dissera que os ratos só viviam três anos, não pôde deixar
de sentir que, a não ser que Perebas tivesse poderes jamais
revelados, ele estava chegando ao fim da vida. E, apesar das
queixas freqüentes do amigo de que o rato estava chato e inútil, ele
tinha certeza de que Rony ficaria muito infeliz se o bicho
morresse.
O espírito de Natal estava decididamente em baixa no salão
comunal da Grifinória àquela manhã. Hermione prendera Bichento
no dormitório das meninas, mas estava furiosa com Rony por ter
tentado chutá-lo; Rony continuava fumegando de raiva com a
nova tentativa que o gato fizera de comer seu rato. Harry desistiu
de tentar fazer os dois se falarem e se ocupou em examinar a
Firebolt, que trouxera com ele para a sala. Por alguma razão isto
pareceu aborrecer Hermione também; ela não fez comentário
algum, mas não parava de lançar olhares carrancudos à vassoura,
como se esta também tivesse criticado Bichento.
Á hora do almoço eles desceram para o Salão Principal e
descobriram que as mesas das casas tinham sido encostadas nas
paredes outra vez e que uma única mesa fora posta para doze
pessoas no meio do salão. Os professores Dumbledore, Minerva
McGonagall, Snape, Sprout e Flitwick estavam sentados à mesa,
bem como Filch, o zelador, que tirara o avental marrom de uso
diário e estava enfatiotado com uma casaca muito velha de aspecto
mofado. Havia apenas mais três alunos, dois novatos
extremamente nervosos e um garoto mal-humorado da Sonserina.
- Feliz Natal! - desejou Dumbledore quando Harry, Rony e
Hermione se aproximaram da mesa. - Como éramos tão poucos,
me pareceu uma tolice usar as mesas das casas... Sentem-se,
sentem-se!
Harry; Rony e Hermione se sentaram lado a lado na ponta
da mesa.
- Balas de estalo! - disse Dumbledore entusiasmado,
oferecendo a ponta de um tubo prateado a Snape, que o pegou com
relutância e puxou. Com. um estampido, a bala se rompeu e surgiu
193
um grande chapéu tônico de bruxo encimado por um urubu
empalhado.
Harry, lembrando-se do bicho-papão, procurou os olhos de
Rony e os dois sorriram; a boca de Snape se comprimiu e ele
empurrou o chapéu para Dumbledore, que o trocou pelo próprio
chapéu de bruxo na mesma hora.
- Podem avançar! - convidou ele aos presentes, sorrindo
para todos.
Quando Harry estava se servindo de batatas assadas, as
portas do salão se abriram. Era a Profª Sibila Trelawney,
deslizando em direção à mesa como se andasse sobre rodinhas
posto um vestido verde de paetês em homenagem à ocasião, o que
a fazia parecer mais que nunca uma libélula enorme e cintilante.
- Sibila, mas que surpresa agradável! - saudou-a
Dumbledore, levantando-se.
- Estive consultando a minha bola de cristal, diretor - disse
a professora com a voz mais etérea e distante do mundo -, e para
meu espanto, me vi abandonando o meu almoço solitário para vir
me reunir a vocês. Quem sou eu para recusar uma inspiração do
destino? Na mesma hora me apressei a deixar minha torre e peço
que me perdoem o atraso...
- É claro - disse Dumbledore com os olhos cintilantes. -
Deixe-me apanhar uma cadeira para você...
E, dizendo isso, usou a varinha para trazer, pelo ar, uma
cadeira que girou alguns segundos e pousou com um baque entre
os professores Snape e Minerva. A Profª Sibila, porém, não se
sentou; seus enormes olhos começaram a passear pela mesa e ela
subitamente deixou escapar um gritinho.
- Não me atrevo, diretor! Se eu me sentar, seremos treze!
Nada poderia ser mais azarado! Não vamos esquecer que quando
treze comem juntos, o primeiro a se levantar será o primeiro a
morrer!
- Vamos correr o risco, Sibila - disse a Profª Minerva,
impaciente. - Por favor, sente, o peru está esfriando.
Sibila hesitou, depois se acomodou na cadeira vazia, os
olhos fechados e a boca contraída, como se estivesse à espera de
um raio atingir a mesa. Minerva enfiou uma grande colher na
terrina mais próxima
194
- Tripas, Sibila?
A professora fingiu não ouvir. Reabriu os olhos, correu-os
ao redor da mesa, mais uma vez, e perguntou:
- Mas onde está o nosso caro Prof. Lupin?
- Receio que o coitado esteja doente outra vez - disse
Dumbledore, fazendo um gesto para que todos começassem a se
servir. - Pouca sorte que isso fosse: acontecer no dia de Natal,
- Mas com certeza você já sabia; disso, não, Sibila? - disse
a Profª Minerva com as sobrancelhas erguidas.
Sibila lançou a Minerva um olhar gelado.
- Claro que sabia, Minerva - disse com a voz controlada. -
Mas a pessoa não deve fazer alarde de tudo que sabe. Muitas vezes
finjo que não possuo Visão Interior para não deixar os outros
nervosos.
- Isto explica muita coisa - disse a outra com azedume.
A voz da Profª Sibila subitamente se tornou bem menos
etérea.
- Se você quer saber, Minerva, vi que o coitado do Prof.
Lupin não vai estar conosco por muito tempo. E ele próprio parece
saber que seu tempo é curto. Decididamente fugiu quando eu me
ofereci para consultar a bola de cristal para ele...
- Imagine só - comentou Minerva secamente.
- Tenho minhas dúvidas - disse Dumbledore, com a voz
alegre, mas ligeiramente mais alta, o que pôs um ponto final na
conversa das duas - de que o Prof. Lupin corra algum perigo
iminente. Severo, você preparou a poção para ele outra vez?
- Preparei, diretor - respondeu Snape.
- Ótimo. Então logo ele deverá estar de pé... Derek, você já
se serviu dessas salsichas apimentadas? Estão excelentes.
O garoto do primeiro ano ficou vermelhíssimo quando
Dumbledore se dirigiu a ele, e apanhou a travessa de salsichas
com as mãos trêmulas.
A Profª Sibila se comportou quase normalmente até o
finzinho do almoço de Natal, duas horas depois. Empapuçados
com a comida e ainda usando os chapéus da festa, Harry e Rony se
levantaram primeiro da mesa e ela deu um grito agudo.
- Meus queridos! Qual dos dois se levantou da cadeira
primeiro? Qual?
195
- Não sei - Respondeu Rony olhando preocupado para
Harry.
- Duvido que vá fazer muita diferença - disse a prova
Minerva com frieza -, a não ser que o tarado da machadinha esteja
esperando aí fora para matar o primeiro que sair para o saguão.
Até Rony riu. Sibila pareceu muitíssimo ofendida.
Vem com a gente? perguntou Harry a Hermione.
Não - respondeu a garota. - Quero falar uma coisa com a
Profª McGonagall.
- Provavelmente vai tentar ver se pode assistir a mais aulas
-bocejou Rony quando se encaminhavam para o saguão de
entrada, onde não encontraram nenhum louco da machadinha.
Quando chegaram ao buraco do retrato, encontraram Sir
Cadogan desfrutando um almoço de Natal com dois frades, vários
ex-diretores de Hogwarts e seu gordo pônei. O cavaleiro levantou
a viseira e brindou os dois garotos com uma jarra de quentão.
-Feliz...hic... Natal! Senha!
- Cão desprezível - disse Rony.
- E o mesmo para o senhor, meu senhor! - berrou Sir
Cadogan quando o quadro se afastou para admitir os garotos.
Harry foi diretamente ao dormitório, apanhou a Firebolt e o
Estojo para Manutenção de Vassouras que Hermione lhe dera de
presente de aniversário, levou-os para baixo e tentou encontrar o
que fazer com a vassoura; mas não havia lascas levantadas para
aparar e o cabo ainda estava tão reluzente que não tinha sentido
lhe dar polimento. Ele e Rony ficaram ali admirando a vassoura de
todos os ângulos até que o buraco do retrato se abriu e Hermione
entrou, acompanhada da Profª Minerva.
Embora Minerva McGonagall fosse diretora da Grifinória,
Harry só a vira antes na sala comunal uma vez, e para dar um
aviso muito sério. Ele e Rony a olharam, os dois segurando a
Firebolt. Hermione contornou o lugar em que eles estavam, se
sentou, apanhou o livro mais próximo e escondeu o rosto nele.
- Então é isso? - perguntou a professora com o seu olhar
penetrante, aproximando-se da lareira para examinar a Firebolt. -
A Srta. Granger acabou de me informar que alguém lhe mandou
uma vassoura, Potter.
Harry e Rony se viraram para olhar Hermione.
196
Surpreenderam sua testa corando por cima do livro, que ela
segurava de cabeça para baixo.
- Posso? - perguntou McGonagall, mas não esperou
resposta para tirar a vassoura das mãos dos garotos. Examinou-a
atentamente, do cabo às lascas. - Hum. E não havia nenhum
bilhete, nenhum cartão, Potter? Nenhuma mensagem de nenhum
tipo?
Não - disse Harry sem compreender.
- Entendo... Bem, receio que tenha de levar a vassoura,
Potter.
- Q... quê? - exclamou Harry, ficando em pé. - Por quê?
- Teremos que verificar se não está enfeitiçada.
Naturalmente eu não sou especialista nesse assunto, mas imagino
que Madame Hooch e o Prof. Flitwick possam desmontá-la...
- Desmontá-la? - repetiu Rony, como se a professora fosse
maluca.
- Não deve levar mais do que umas semanas. Você a
receberá de volta se tivermos certeza de que está limpa.
- A vassoura não tem nada errado! - exclamou Harry; a voz
ligeiramente trêmula. - Francamente, professora...
- Você não pode saber, Potter - disse a professora com
bondade-, pelo menos até ter voado nela, e receio que isto esteja
fora de questão até nos certificarmos de que ninguém a alterou. Eu
o manterei informado.
A Profª McGonagall deu meia-volta levando a Firebolt, e
atravessou o buraco do retrato, que se fechou em seguida. Harry
ficou observando a professora partir, a latinha de cera de
polimento ainda na mão. Rony, porém, se voltou contra Hermione.
- Para que você foi correndo contar à Profª Minerva?
Hermione largou o livro de lado. Seu rosto continuava
vermelho, mas ela se levantou e enfrentou Rony, desafiando-o.
- Porque achei, e a Profª McGonagall concorda comigo,
que provavelmente a vassoura foi mandada a Harry por Sirius
Black!
197
- CAPÍTULO DOZE -
O Patrono
Harry sabia que Hermione tivera boa intenção, mas isso não o
impedia de estar aborrecido com a amiga. Ele fora dono da melhor
vassoura do mundo por breves horas e agora, por interferência
dela, não sabia se iria rever a vassoura. Harry tinha certeza de que,
no momento, não havia problema algum com a Firebolt, mas em
que estado ela ficaria depois de ser submetida a todo tipo de teste
antifeitiço?
Rony também estava furioso com Hermione. Na sua
opinião, desmontar uma Firebolt nova em folha era nada menos
que um ato criminoso Hermione, que continuava convicta de que
agira visando ao bem do amigo, começou a evitar a sala comunal.
Os dois garotos supunham que ela se refugiara na biblioteca e não
tentaram persuadi-la a voltar. Em tudo por tudo, eles ficaram
felizes quando o restante da escola voltou, pouco depois do Ano-
Novo, e a Torre da Grifinória novamente se encheu de gente e
ruídos.
Olívio procurou Harry na véspera do novo trimestre
começar.
- Teve um bom Natal? - perguntou ele e, em seguida, sem
esperar resposta, se sentou, baixou a voz e disse: - Andei pensando
durante o Natal, Harry. Depois da última partida, entende. Se os
dementadores forem ao próximo... quero dizer... não podemos nos
dar ao luxo de você... bem..
Olívio parou, parecendo constrangido.
- Já estou cuidando disso - falou Harry depressa. - O Prof.
Lupin prometeu que me ensinaria a afastar os dementadores.
198
Devemos começar esta semana. E falou que teria tempo
depois do Natal.
- Ah - respondeu Olívio, o rosto se desanuviando. - Bem,
nesse caso... eu não queria realmente perder você como
apanhador, Harry já encomendou uma vassoura nova.
- Não.
- Quê! E melhor você se mexer, sabe, não vai poder montar
aquela Shooting Star contra o time da Corvinal!
- Ele ganhou uma Firebolt de Natal - disse Rony.
- Uma Firebolt? Não! Sério? Uma Firebolt:.. de verdade?
Está - Não precisa se excitar, Olívio - disse Harry deprimido. -
Não mais comigo. Foi confiscada. - E explicou tudo sobre a
Firebolt e como estava sendo verificada para saber se fora
enfeitiçada.
- Enfeitiçada? Como poderia ter sido enfeitiçada?
- Sirius Black - disse Harry, cansado. - Dizem que ele está
querendo me pegar. Então McGonagall calculou que poderia ter
me mandado a vassoura.
Descartando a informação de que um assassino famoso
estava atrás do seu apanhador, Olívio disse:
- Mas Black não poderia ter comprado uma Firebolt! Ele
está fugindo! O país inteiro está à procura dele! Como é que iria
simplesmente entrar na Artigos de Qualidade para Quadribol e
comprar uma vassoura?
- Eu sei, mas ainda assim McGonagall quer desmontá-la...
Olívio empalideceu.
- Vou falar com ela, Harry - prometeu. - Vou chamá-la à
razão... uma Firebolt... uma autêntica Firebolt, no nosso time...
Ela quer que Grifinória ganhe tanto quanto nós... Vou fazê-la ver o
absurdo. Uma Firebolt:..
As aulas recomeçaram no dia seguinte. A última coisa que
alguém ia querer fazer era passar duas horas lá fora em uma fria
manhã de janeiro, mas Hagrid providenciara uma.fogueira cheia
de salamandras para alegria dos alunos, que passaram uma aula
incomumente boa juntando madeira e folhas secas para manter o
fogo alto enquanto os bichinhos, que adoram chamas, subiam e
199
desciam pelas toras embranquecidas de calor. A primeira aula de
Adivinhação do novo trimestre foi bem menos divertida; a Profª
Sibila estava agora começando a ensinar quiromancia à turma e
não perdeu tempo para informar Harry de que ele possuía a menor
linha da vida que ela já vira.
Mas era à aula de Defesa contra as Artes das Trevas que ele
estava ansioso para chegar; depois da conversa com Olívio, queria
começar as aulas antidementadores o mais cedo possível.
- Ah, é verdade - disse Lupin quando Harry o lembrou da
promessa no final da aula. - Vejamos... que tal às oito horas da
noite na quinta? A sala de aula de História da Magia deve ser
suficientemente grande... Tenho que pensar muito como vamos
fazer isso... Não podemos trazer um dementador real ao castelo
para praticar.
- Ele continua com cara de doente, não acha? - perguntou
Rony quando caminhavam pelo corredor para ir jantar. - Que é
que você acha que ele tem?
Ouviram um alto muxoxo de impaciência atrás deles. Era
Hermione que estivera sentada ao pé de uma armadura,
rearrumando a mochila, tão cheia de livros que não fechava.
- E por que é que você esta fazendo muxoxo para a gente? -
perguntou Rony, irritado.
- Por nada - respondeu Hermione em tom de superioridade,
passando a mochila pelo ombro.
- Nada, não - disse Rony - Eu estava imaginando qual seria
o problema de Lupin, e você...
- Bem, será que não está óbvio? - disse a garota com um
olhar de superioridade de dar nos nervos.
- Se você não quer dizer, não diga - retrucou Rony com
rispidez.
- Ótimo - disse Hermione, arrogante, e foi-se embora.
- Ela não sabe - disse Rony; olhando, rancoroso, para a
garota que se afastava. - Só está tentando fazer a gente voltar a
falar com ela.
Às oito horas da noite de quinta-feira, Harry saiu da
torre da Grifinória para a sala de História da Magia. Quando
200
chegou, a sala estava escura e vazia, mas ele acendeu as luzes
com a varinha e já estava esperando havia uns cinco minutos
quando o Prof. Lupin apareceu, trazendo uma grande caixa,
que depositou encima da escrivaninha do Prof. Binns.
- Que é isso? - perguntou Harry.
- Outro bicho-papão - respondeu Lupin tirando a capa. -
Andei passando um pente fino no castelo desde terça-feira e por
sorte encontrei este aqui escondido no arquivo do Sr. Filch. E o
mais próximo que chegaremos de um dementador de verdade. O
bicho-papão se transformará em um dementador quando o vir,
então poderemos praticar. Posso guardá-lo na minha sala quando
não estiver em uso; tem um armário embaixo da minha
escrivaninha de que ele vai gostar.
- Tudo bem - disse Harry, procurando falar como se não
estivesse nada apreensivo, mas apenas feliz por Lupin ter
encontrado um substituto tão bom para um dementador real.
- Então... - O Prof. Lupin apanhou a varinha e fez sinal para
Harry imitá-lo. - O feitiço que vou tentar lhe ensinar faz parte da
magia muito avançada, Harry, muito acima do Nível Normal de
Bruxaria. É chamado o Feitiço do Patrono.
- O que é que ele faz? - perguntou Harry; nervoso.
- Bem, quando funciona corretamente, ele conjura um
Patrono, que é uma espécie de antidementador, um guardião que
age como um escudo entre você e o dementador.
Harry teve uma súbita visão de si mesmo achado atrás de
um vulto do tamanho de Hagrid segurando um enorme bastão. O
Prof. Lupin continuou:
- O Patrono é um tipo de energia positiva, uma projeção da
própria coisa de que o dementador se alimenta: esperança,
felicidade, desejo de sobrevivência, mas ele não consegue sentir
desesperança, como um ser humano real, por isso o dementador
não pode afetá-lo. Mas preciso preveni-lo, Harry, de que o feitiço
talvez seja demasiado avançado para você. Muitos bruxos
habilitados têm dificuldade de executá-lo.
- Que aspecto tem um Patrono? - perguntou Harry, curioso.
- Cada um é único para o bruxo que o conjura.
- E como se conjura?
- Com uma fórmula mágica, que só fará efeito se você
201
estiver concentrado, com todas as suas forças, em uma única
lembrança muito feliz.
Harry procurou em sua mente uma lembrança feliz. Com
certeza, nada que tivesse lhe acontecido na casa dos Dursley iria
servir. Por fim, decidiu-se pelo momento em que voou numa
vassoura pela primeira vez.
- Certo - disse, procurando lembrar o mais exatamente
possível da maravilhosa sensação de voai:
- A fórmula é a seguinte - Lupin pigarreou para limpar a
garganta. – Expecto patronum!
- Expecto patronum - repetiu Harry em voz baixa -, .expcto
patronum,..
- Está se concentrando com todas as forças em sua
lembrança feliz?
- Ah... estou - respondeu Harry; forçando depressa seu
pensamento a retornar àquele primeiro vôo de vassoura. - Expect o
patronom, não, patronum... desculpe... expect opatronum, expecto
patronum...
Alguma coisa se projetou subitamente da ponta de sua
varinha; parecia um fiapo de gás prateado.
- O senhor viu isso? - perguntou Harry excitado. -
Aconteceu uma coisa!
- Muito bem - aprovou Lupin sorrindo. - Certo, então, está
pronto para experimentar com. um dementador?
- Estou - disse o garoto, segurando sua varinha com firmeza
e indo para o meio da sala de aula deserta. Tentou manter o
pensamento no vôo, mas alguma coisa não parava de interferir.. A
qualquer segundo agora, poderia tornar a ouvir sua mãe... mas ele
não devia pensar nisso ou tornaria a ouvi-la, e ele não queria... ou
será que queria?
Lupin segurou a tampa da caixa e levantou-a.
Um dementador se ergueu lentamente da caixa, o rosto
encapuzado virado para Harry; uma mão luzidia, coberta de cascas
de feridas, segurando a capa. As luzes em volta da sala de aula
piscaram e se apagaram. O dementador saiu da caixa e começou a
se deslocar silenciosamente em direção a Harry, respirando
profundamente, uma respiração vibrante, Uma onda de frio intensa
o engolfou...
202
- Experto patronum! - berrou Harry. - Experto patronum!
Expecto...
Mas a sala e o dementador foram se dissolvendo... Harry se
viu caindo outra vez por um denso nevoeiro branco, e a voz de sua
mãe mais alta que nunca, ecoava em sua cabeça... Harry não!
Harry não! Por favor.. farei qualquer coisa...
Afaste-se. Afaste-se, menina...
- Harry!
Harry de repente recuperou os sentidos. Estava deitado de
costas no chão. As luzes da sala tinham reacendido. Ele não
precisou perguntar o que acontecera.
- Desculpe - murmurou, se sentando e sentindo o suor frio
escorrer por dentro dos óculos.
- Você está bem? - perguntou Lupin.
-Estou... - Harry usou uma carteira para se levantar,
apoiando-se nela.
- Tome aqui - Lupin lhe deu um sapo de chocolate. - Coma
isso antes de tentarmos outra vez. Eu não esperava que você
conseguisse da primeira vez; de fato, ficaria assombrado se tivesse
conseguido.
- Está piorando - murmurou Harry, mordendo a cabeça do
sapo. - Eu a ouvi mais alto dessa vez... e ele... Voldemort...
Lupin parecia mais pálido do que de costume.
- Harry se você não quiser continuar, vou compreender
muito bem...
- Eu quero! - exclamou Harry com vigor, enfiando o resto
do sapo de chocolate na boca. -Tenho que continuar! O que vai
acontecer se os dementadores aparecerem na partida contra
Corvinal? Não posso me dar ao luxo de cair outra vez. Se
perdermos a partida, perderemos a Taça de Quadribol!
- Muito bem, então... - disse Lupin. - Talvez queira
escolher outra lembrança, uma lembrança feliz, quero dizer, para
se concentrar. Essa primeira parece que não foi bastante forte...
Harry fez um esforço mental e concluiu que sua emoção
quando Grifinória ganhara o Campeonato das Casas, no ano
anterior, fora decididamente urna lembrança muito feliz. Segurou
a varinha com força, outra vez, e tomou posição no meio da sala.
- Pronto? - perguntou Lupin segurando a tampa da caixa.
203
- Pronto - disse Harry, tentando por tudo encher a cabeça
de pensamentos felizes sobre a vitória de Grifinória, em lugar dos
pensamentos sombrios sobre o que ia acontecer quando a caixa se
abrisse.
- Já! - disse Lupin destampando a caixa. A sala ficou
gelada e escura mais uma vez. O dementador avançou deslizando,
inspirando com força; a mão podre estendida para Harry...
-Expecto patronum! - berrou Harry. - Expecto patronum!
Expecto pat...
Um nevoeiro branco obscureceu seus sentidos... vultos
grandes e difusos moveram-se à sua volta... então ele ouviu uma
nova voz, uma voz de homem, gritando em pânico...
"Lílian, leve Harry e vá! É ele! Vá! Corra! Eu o atraso..."
Os ruídos de alguém saindo aos tropeços de uma sala...
uma porta se escancarando - uma gargalhada aguda...
- Harry! Harry;..acorde...
Lupin dava tapinhas em seu rosto. Desta vez levou um
minuto até Harry se render por que estava deitado no chão
empoeirado de uma sala de aula.
- Ouvi meu pai - murmurou Harry - É a primeira vez que o
ouço, ele tentou enfrentar Voldemort sozinho, para dar à minha
mãe tempo de fugir.
O garoto de repente percebeu que havia em seu rosto
lágrimas misturadas ao suor. Abaixou a cabeça o mais que pôde e
enxugou as lágrimas nas vestes, fingindo estar amarrando um
sapato, para Lupin não ver.
- Você ouviu Tiago? - disse Lupin numa voz estranha.
- Ouvi... - O rosto seco, Harry ergueu a cabeça. - Por quê...
o senhor conheceu meu pai?
-Eu... para falar a verdade, conheci. Fomos amigos em
Hogwarts. Escute, Harry... talvez devêssemos parar por hoje. Este
feitiço é absurdamente avançado... eu não devia ter sugerido que
você se submetesse a essa...
- Não! - disse Harry. E tornou a se levantar. - Vou tentar
mais uma vez! Não estou pensando em lembranças muito felizes, é
só isso... Espere ai...
O garoto puxou pela memória. Uma lembrança
realmente, mas realmente, feliz... uma que ele pudesse transformar
204
em um Patrono válido e forte...
O momento em que ele descobrira que era bruxo e ia deixar
a casa dos Dursley para freqüentar Hogwarts! Se isso não fosse
uma lembrança feliz, ele não sabia qual seria... Concentrando-se
com todas as forças no que sentira quando compreendeu que ia
deixar a rua dos Alfeneiros, Harry se levantou e ficou de frente
para a caixa mais uma vez.
- Pronto? - perguntou Lupin, que parecia fazer isso
contrariando o seu bom senso. - Concentrou-se com firmeza?
Muito bem... já!
Ele tirou a tampa da caixa pela terceira vez, e o dementador
se levantou; a sala esfriou e escureceu.
- EXPECTO PATRONUM! - berrou Harry. - EXPECTO
PATRONUM! EXPECTO PATRONUM!
A gritaria dentro da cabeça de Harry recomeçara - exceto
que desta vez, parecia vir de um rádio mal sintonizado - fraca e
forte e fraca outra vez... ele continuava a ver o dementador - que
parara -então, um enorme vulto prateado irrompeu da ponta de sua
varinha e ficou pairando entre ele e o dementador, e, embora suas
pernas tivessem perdido as forças, Harry continuava de pé - por
quanto tempo ele não tinha muita certeza...
-Riddikulus!- bradou Lupin saltando à frente.
Ouviu-se um estalo muito alto e o diáfano Patrono
desapareceu juntamente com o dementador; o garoto afundou em
uma cadeira, sentindo a exaustão de quem correra mais de um
quilômetro, e as pernas trêmulas. Pelo canto do olho, viu o Prof.
Lupin enfiar, à força, o bicho-papão na caixa, com a varinha; ele
se transformou mais uma vez em urna bola prateada.
- Excelente! - exclamou Lupin, aproximando-se do garoto.
- Excelente, Harry! Decididamente foi um começo!
- Podemos tentar mais uma vez? Só mais umazinha?
- Agora, não - disse Lupin com firmeza. - Você já fez o
bastante por uma noite. Tome... deu a Harry uma enorme barra do
melhor chocolate da Dedosdemel.
- Coma bastante ou Madame Pomfrey vai querer me matar.
A mesma hora na semana que vem?
- OK - concordou Harry. Ele deu uma dentada no chocolate
enquanto observava Lupin apagar as luzes que tinham reacendido
205
com o desaparecimento do dementador. Acabava de lhe ocorrer
um pensamento.
- Prof. Lupin, se o senhor conheceu meu pai, então deve ter
conhecido Sirius Black, também.
Lupin se virou na mesma hora.
- Que foi que lhe deu essa idéia? - perguntou ele com
rispidez.
-Nada... quero dizer, eu soube que eles também eram
amigos em Hogwarts...
O rosto de Lupin se descontraiu.
- É, eu o conheci - disse brevemente. - Ou pensei que o
conhecia. É melhor você ir andando, Harry, está ficando tarde.
O garoto saiu da sala, andou um pouco pelo corredor,
dobrou um canto, depois se desviou para trás de uma armadura e
se sentou em sua base para terminar o chocolate, desejando que
não tivesse mencionado Black, pois Lupin obviamente não
gostava de tocar nesse assunto. Então os pensamentos de Harry
foram vagando aos poucos para sua mãe e seu pai.
Ele se sentiu esgotado e estranhamente vazio, ainda que
estivesse empanturrado de chocolate. Por mais horrível que fosse
ouvir os últimos momentos de seus pais repassarem. por sua
cabeça, eles tinham sido os únicos em que Harry ouvira as vozes
dos dois desde que era pequeno. Mas ele não seria capaz de
produzir um Patrono adequado se ficasse desejando ouvir os pais
novamente...
- Eles estão mortos - disse a si mesmo com severidade. -
Estão mortos e ficar ouvindo seus ecos não vai trazê-los de volta.
É melhor você se controlar se quiser aquela Taça de Quadribol.
Ele se levantou, atochou o último pedaço de chocolate na
boca e rumou para a Torre da Grifinória.
Corvinal jogou contra Sonserina uma semana depois do
início do semestre. Sonserina ganhou, mas foi uma vitória
apertada. Segundo Olívio, isto era uma boa notícia para
Grifinória, que tiraria o segundo lugar se também batesse
Corvinal. Portanto, o capitão aumentou o número de treinos
para cinco por semana. Isto significou que com as aulas
206
antidementadores de Lupin, que em si eram mais exaustivas
que os treinos de quadribol, só sobrara a Harry uma noite por
semana para fazer todos os deveres de casa. Ainda assim, ele
não estava aparentando tanto desgaste quanto Hermione, cuja
imensa carga de trabalho parecia estar finalmente cansando-a.
Todas as noites, sem falta, Hermione era vista a um canto da
sala comunal várias mesas cheias de livros, tabelas de
Aritmancia, dicionários de runas, diagramas de trouxas
levantando grandes objetos e ainda fichários e mais fichários
de extensas anotações; ela pouco falava com os colegas e
respondia mal quando era interrompida.
- Como é que ela está fazendo isso? - murmurou Rony para
Harry certa noite, quando este se sentara para preparar uma
redação difícil sobre venenos indetectáveis pedida por Snape.
Harry ergueu a cabeça. Mal conseguiu divisar Hermione por trás
da pilha instável de livros.
- Isso o quê?
- Assistindo a todas as aulas! disse Rony - Ouvi Mione
conversando com a Profª Vector, aquela bruxa da Aritmancia, hoje
de manhã. Estavam discutindo a aula de ontem, mas Mione não
podia ter estado lá, porque estava conosco na de Trato das
Criaturas Mágicas! E Ernesto McMillan me disse que ela nunca
faltou a nenhuma aula de Estudos dos Trouxas, mas metade das
aulas são no mesmo horário de Adivinhação, e ela também nunca
faltou a nenhuma lá!
Harry não tinha tempo, naquele momento, para desvendar o
mistério dos horários impossíveis de Hermione; ele realmente
precisava terminar o trabalho para Snape Dois segundos depois, no
entanto, foi novamente interrompido, desta vez por Olívio.
- Más notícias Harry. Acabei de ir falar com a Profª
McGonagall sobre a Firebolt. Ela.., hum... foi um pouco grossa
comigo. Disse-me que as minhas prioridades estavam trocadas.
Parece que entendeu que eu estava mais preocupado em ganhar a
Taça do que com as suas chances de sobrevivência. Só porque eu
disse que não me importava se a vassoura o derrubasse, desde que
você apanhasse o pomo primeiro. - Olívio sacudiu a cabeça,
incrédulo. – Francamente, o jeito como ela gritou comigo... dava
até para pensar que eu tinha dito alguma coisa horrível... Então
207
perguntei quanto tempo mais ela ia ficar com a vassoura... - Olívio
amarrou a cara e imitou a voz severa da professora: "O tempo que
for preciso, Wood"... Acho que está na hora de você encomendar
uma vassoura nova, Harry; Tem um formulário de pedido no final
do Qual Vassoura... você podia comprar uma Nimbus 2001, como
a do Malfoy.
- Não vou comprar nada que Malfoy ache bom - disse
Harry em tom definitivo.
Janeiro transitou para fevereiro imperceptivelmente, sem
alteração no frio extremo que fazia. A partida contra Corvinal
estava cada dia mais próxima, mas Harry ainda não encomendara
a vassoura nova. Ele agora pedia à Profª McGonagall notícias da
Firebolt depois da aula de Transformação. Rony, parava, cheio de
esperança, ao lado dele, Hermione passava depressa com o rosto
virado.
- Não, Potter, ainda não posso devolvê-la - disse a
professora na décima segunda vez que isto aconteceu, antes
mesmo que ele abrisse a boca para perguntai: - Já a verificamos
com relação à maioria dos feitiços comuns, mas o Prof. Flitwick
acredita que a vassoura possa estar carregando um Feitiço de
Velocidade. Eu o informarei quando tivermos terminado a
verificação. Agora, por favor, pare de me pressionar.
Para piorar as coisas, as aulas antidementadores não
estavam correndo tão bem quanto Harry esperara. Em varias
sessões ele fora capaz de produzir um vulto indistinto e prateado,
todas as vezes que o dementador se aproximara dele, mas era um
Patrono demasiado fraco para afugentar o dementador: A única
coisa que fazia era pairar no ar, como uma nuvem
semitransparente, e esgotar a energia de Harry enquanto o garoto
lutava para mantê-lo presente. Harry sentiu raiva de si mesmo, e
culpa pelo desejo secreto de ouvir mais uma vez as vozes dos pais.
- Você está esperando demais de si mesmo - disse o Prof.
Lupin com severidade, na quarta semana de treino. - Para um
bruxo de treze anos, até mesmo um Patrono pouco nítido é um
grande feito. Você não está desmaiando mais, não é?
- Eu pensei que um Patrono... transformasse os
208
dementadores em alguma coisa - disse Harry. desanimado. -
Fizesse-os desaparecer...
- O verdadeiro Patrono de fato faz isso. Mas você já
conseguiu muito em pouquíssimo tempo. Se os dementadores
aparecerem na sua próxima partida de quadribol, você poderá
mantê-los à distância tempo suficiente para voltar ao chão.
- O senhor disse que é mais difícil quando há um monte
deles.
- Tenho total confiança em você - respondeu Lupin
sorrindo.
- Tome... você mereceu uma bebida, uma coisa do Três
Vassouras. Você não deve ter provado antes...
O professor tirou duas garrafinhas da maleta.
- Cerveja amanteigada! - exclamou Harry sem pensar: - Ah,
eu gosto disso!
Lupin ergueu uma sobrancelha.
- Ah... Rony e Hermione trouxeram para mim de
Hogsmeade - mentiu Harry depressa.
- Entendo - disse Lupin, embora continuasse a parecer
ligeiramente desconfiado. - Bem... vamos brindar à vitória de
Grifinória sobre Corvinal! Não que, como professor, eu deva
tomar partido... - acrescentou ele depressa.
Os dois beberam a cerveja amanteigada em silêncio, até
que Harry disse uma coisa que o estava deixando intrigado havia
algum tempo.
- Que é que tem por baixo do capuz do dementador?
O professor baixou a garrafinha pensativo.
-Hummm... bem, as únicas pessoas que realmente sabem
não estão em condições de nos responder. Veja, o dementador tira
o capuz somente para usar sua última arma, a pior.
-Que é qual?
- O beijo do dementador - disse Lupin com um sorriso
enviesado. - É o que dão naqueles que eles querem destruir
completamente. Suponho que devam ter algum tipo de boca sob o
capuz, porque ferram as mandíbulas na boca da vítima.,. e sugam
sua alma.
Harry, sem querer, cuspiu um pouco de cerveja
amanteigada.
209
- Quê... eles matam...?
- Ah, não - disse Lupin, - Fazem muito pior. A pessoa pode
viver sem alma, sabe, desde que o cérebro e o coração continuem
a trabalhar. Mas perde a consciência do eu, a memória... tudo. Não
tem chance alguma de se recuperar. Apenas... existe. Como uma
concha vazia. E a alma fica para sempre... perdida.
Lupin bebeu mais um pouco da cerveja, depois continuou:
- É o destino que espera Sirius Black. Li no Profeta Diário
hoje de manhã. O ministro deu aos dementadores permissão para
fazerem isso se o encontrarem.
Harry ficou confuso por um instante com a idéia de alguém
ter a alma sugada pela boca, Mas depois pensou em Black.
- Ele merece - disse de repente.
- Você acha? - perguntou Lupin sem pensar muito. - Você
acha mesmo que alguém merece isso?
- Acho - disse Harry resistindo. –Por... causa de umas
coisas...
Ele gostaria de ter contado a Lupin a conversa que ouvira
no Três Vassouras a respeito de Black ter traído seus pais, mas isto
teria implicado em revelar que fora a Hogsmeade sem autorização,
e ele sabia que o professor não ia gostar nem um pouco disso,
Então, terminou a cerveja amanteigada, agradeceu a Lupin e
deixou a sala de História da Magia.
Harry gostaria de não ter perguntado o que havia por baixo
do capuz de um dementador, a resposta fora horrível, e ele ficou
tão perdido em considerações sobre o que seria ter a alma sugada
que deu um encontrão na Profª Minerva no meio da escada.
- Preste atenção por onde anda, Potter!
- Desculpe, professora...
- Estive agorinha mesmo procurando você na sala comunal
da Grifinória. Bem, tome aqui, fizemos tudo que pudemos
imaginar e parece que não há nada errado com a vassoura. Você
tem um ótimo amigo em algum lugar, Potter...
O queixo de Harry caiu. A professora estava lhe
devolvendo a Firebolt, cujo aspecto continuava magnífico como
sempre fora.
- Posso ficar com ela? - perguntou Harry com a voz fraca. -
Sério?
210
- Sério - disse a professora sorrindo. - Acho que você vai
precisar pegar o jeito dela antes da partida de sábado, não? E
Potter:.. faça força para ganhar, sim? Ou vamos ficar fora do
campeonato pelo oitavo ano seguido, como o Prof. Snape teve a
bondade de me lembrar ainda ontem à noite...
Sem fala, Harry carregou a Firebolt escada acima para a
Torre da Grifinória. Quando dobrou um canto, viu Rony, que
corria ao seu encontro, rindo de orelha a orelha.
- Ela devolveu? Que maravilha! Escuta, posso dar aquela
voltinha? Amanhã?
- Claro... qualquer coisa... - disse Harry seu coração mais
leve do que estivera naquele último mês. - Quer saber de uma
coisa... devíamos fazer as pazes com a Mione... Ela só estava
querendo ajudar...
- Tudo bem - concordou Rony. - Ela está na sala comunal
agora, estudando, para variar...
Quando entraram no corredor para a Torre da Grifinória,
viram Neville Longbottom insistindo com Sir Cadogan, que
aparentemente se recusava a deixá-lo entrar.
- Eu anotei! - dizia Neville com voz de choro. - Mas devo
ter deixado cair em algum lugar!
- Vou mesmo acreditar! - bradou Sir Cadogan. Depois,
avistando Harry e Rony. - Boa noite, meus valentes soldados!
Venham meter este louco a ferros. Ele está tentando entrar à força
nas câmaras interiores!
- Ah, cala a boca - exclamou Rony quando ele e Harry
emparelharam com Neville.
- Perdi a senha! - contou o garoto, infeliz. - Fiz Sir
Cadogan me dizer quais eram as senhas que ia usar esta semana,
porque ele não pára de mudar e agora não sei o que fiz com elas!
- Odsbôdiquins - disse Harry a Sir Cadogan, que ficou
desapontadíssimo e, com relutância, girou o quadro para a frente
para deixá-los entrar na sala comunal. Houve um súbito murmúrio
de excitação em que todas as cabeças se viraram e, no momento
seguinte, Harry foi cercado pelos colegas que exclamavam,
assombrados com a Firebolt.
- Onde foi que você arranjou essa vassoura, Harry?
- Deixa eu dar uma voltinha?
211
- Você já andou nela, Harry?
- Corvinal não vai ter a menor chance, o pessoal lá usa
Cleansweep Sevens!
- Me deixa só segurar um pouquinho, Harry?
Passados uns dez minutos mais ou menos, durante os quais
a Firebolt passou de mão em mão, e foi admirada de todos os
ângulos, a garotada se dispersou e Harry e Rony puderam ver
Hermione direito, a única pessoa que não tinha corrido ao
encontro dos garotos, curvada sobre seu trabalho, evitando
encontrar o olhar deles. Harry e Rony se aproximaram da mesa e
finalmente Hermione ergueu a cabeça.
- Me devolveram a vassoura - disse Harry, sorrindo para a
amiga é erguendo a Firebolt no ar.
- Esta vendo, Mione? Não havia nada errado com ela -
disse Rony.
- Bem... mas podia ter havido! Quero dizer pelo menos
agora você sabe que ela é segura!
- É, suponho que sim - disse Harry - É melhor eu ir guardala
em cima...
- Eu levo! - disse Rony ansioso. - Tenho que dar o tônico a
Perebas.
Rony apanhou a vassoura e, segurando-a como se fosse de
vidro, levou-a escada acima para o dormitório dos meninos.
- Posso me sentar, então? - perguntou Harry a Hermione.
- Suponho que sim - disse a garota, tirando uma grande
pilha de pergaminhos de uma cadeira.
Harry deu uma olhada na mesa atravancada, no longo
trabalho de Aritmancia em que a tinta ainda estava molhada, no
trabalho ainda mais longo de Estudos dos Trouxas. "Explique por
que os trouxas precisam de eletricidade" e na tradução de runas em
que Hermione trabalhava agora.
- Como é que você está conseguindo dar conta de tudo
isso? -perguntou o garoto.
- Ah, bem... você sabe, trabalhando à beça. - De perto,
Harry viu que ela parecia quase tão cansada quanto Lupin.
- Por que você não tranca algumas matérias? - perguntou o
garoto, observando-a erguer os livros para procurar o dicionário de
runas.
212
- Eu não poderia fazer isso! - respondeu Hermione,
escandalizada.
- Aritmancia parece horrível - comentou Harry, apanhando
uma complicada tabela numérica.
- Ah, não, é maravilhosa! - respondeu Hermione séria. - É a
minha matéria favorita! É...
Mas exatamente o que era maravilhoso na Aritmancia,
Harry jamais chegou a saber: Naquele exato momento, um grito
estrangulado ecoou pela escada do dormitório dos meninos. Todos
na sala se calaram e olharam petrificados para a subida. Então
ouviram os passos apressados de Rony, cada vez mais fortes... e
em seguida ele apareceu, arrastando um lençol.
- OLHA! - berrou ele, se dirigindo à mesa de Hermione,
OLHA! - berrou de novo, sacudindo o lençol na cara da garota.
- Rony, que...?
- PEREBAS! OLHE! PEREBAS!
Hermione procurava afastar o corpo, com uma expressão de
total perplexidade. Harry olhou para o lençol que Rony segurava.
Havia alguma coisa vermelha nele. Alguma coisa que se parecia
horrivelmente com...
- SANGUE! - bradou Rony no silêncio de atordoamento
que invadiu a sala. - ELE DESAPARECEU! E SABE O QUE
TINHA NO CHÃO?
- N... não - respondeu Hermione com a voz trêmula.
Rony atirou uma coisa em cima da tradução de runas de
Hermione. Ela e Harry se curvaram para ver Em cima das
estranhas formas pontiagudas havia vários pêlos de felino,
compridos e amarelo-avermelhados.
213
- CAPITULO TREZE -
Grifinória versus Corvinal
Parecia o fim da amizade entre Rony e Hermione. Estavam tão
zangados um. com o outro que Harry não conseguia ver como
poderiam, um dia, fazer as pazes.
Rony estava enfurecido porque Hermione nunca levara a
sério as tentativas de Bichento para devorar Perebas, não se dera o
trabalho de vigiá-lo de perto e continuava a fingir que o gato era
inocente, sugerindo que Rony procurasse Perebas embaixo das
camas dos garotos. Por sua vez, Hermione insistia ferozmente que
Rony não tinha provas de que Bichento devorara Perebas, que os
pêlos talvez estivessem no dormitório desde o Natal, e que o
garoto alimentara preconceitos contra o gato desde que Bichento
aterrissara na cabeça dele na Animais Mágicos.
Pessoalmente, Harry tinha certeza de que Bichento comera
Perebas, e quando tentou mostrar a Hermione que todas as
evidências apontavam nessa direção, a garota zangara-se com ele
também.
- Tudo bem, fique do lado do Rony, eu sabia que você ia
fazer isso! - disse ela com voz aguda. - Primeiro a Firebolt agora
Perebas, tudo é minha culpa, não é? Então me deixe em paz,
Harry, tenho muito trabalho a fazer.
Rony estava realmente sofrendo muito com a perda do rato.
- Vamos, Rony, você vivia dizendo que Perebas era chato -
disse Fred para consolá-lo. - E seu rato estava doente havia
séculos, estava definhando. Provavelmente foi melhor para ele
morrer depressa, de uma engolida, provavelmente nem sofreu.
- Fred- exclamou Gina, indignada.
214
- Ele só fazia comer e dormir, Rony, você mesmo dizia -
argumentou Jorge.
- Ele mordeu Goyle para nos defender uma vez. - disse
Rony, infeliz. - Lembra, Harry?
- É, é verdade confirmou o amigo.
Foi o ponto alto da vida dele disse Fred, incapaz de manter
a cara séria. - Que a cicatriz no dedo de Goyle seja uma
homenagem eterna à memória de Perebas. Ah sai dessa, Rony, vai
até Hogsmeade e compra um rato novo. Que adianta ficar se
lamentando?
Numa última tentativa de animar Rony, Harry o convenceu
a ir ao último treino do time da Grifinória, antes da partida com
Corvinal, para poder dar uma volta na Firebolt quando
terminassem. Isto pareceu, por um momento, desviar os
pensamentos de Rony em. Perebas ("Grande! Posso tentar fazer
uns gol montado na vassoura?!), e os dois saíram para o campo de
quadribol juntos.
Madame Hooch, que continuava a supervisionar os treinos
da Grifinória para vigiar Harry, ficou tão impressionada com a
Firebolt quanto todo mundo que a vira. A professora pegou a
vassoura antes da decolagem e expôs aos jogadores sua opinião
profissional
- Olhem só o equilíbrio deste modelo! Se a série Nimbus
tem algum defeito, é uma ligeira queda para a cauda, observa-se
que depois de alguns anos isto se transforma num arrasto.
Atualizaram o cabo também, mais fino do que as Cleansweeps,
lembra as antigas Silver Arrows, uma pena que tenham parado de
fabricá-las. Foi nelas que aprendi a voar, e também eram
excelentes vassouras...
E a professora continuou nessa disposição por algum tempo
até que Olívio a interrompeu:
- Hum... Madame Hooch? Será que a senhora podia
devolver a vassoura a Harry? Temos que treinar...
- Ah, certo... tome aqui, Potter - disse ela. - Vou me sentar
ali adiante com Weasley...
Ela e Rony deixaram o campo e foram se sentar na
arquibancada, e o time da Grifinória se agrupou em torno de
Olívio para ouvir as últimas instruções para o jogo do dia seguinte.
215
- Harry; acabei de descobrir quem vai jogar como
apanhador na Corvinal. É a Cho Chang: uma garota do quarto ano
e muito boa... Para ser sincero eu tinha esperanças de que ela não
tivesse voltado à forma, ela teve alguns problemas com
contusões... - Olívio fez cara feia para assinalar seu desagrado pela
plena recuperação de Cho Chang, depois continuou: - Por outro
lado ela monta uma Comer 260, que vai parecer uma piada ao lado
da firebolt. - Olívio lançou um olhar de fervorosa admiração à
vassoura de Harry, depois disse: - Muito bem, pessoal, vamos...
Então, finalmente, Harry montou na Firebolt, e deu impulso
para levantar vôo.
Foi melhor do que ele jamais sonhara. A Firebolt virava ao
menor toque; parecia obedecer a seus pensamentos em vez de suas
mãos; ela atravessou o campo a tal velocidade que o estádio se
transformou em um borrão verde e cinza. Harry mudou de direção
tão instantaneamente que Alicia Spinnet soltou um grito, e no
instante seguinte ele entrou em um mergulho absolutamente
controlado, raspando o gramado com as pontas dos pés antes de
tornar a subir nove, doze, quinze metros no ar.
Harry vou a soltar o pomo! - gritou Olívio.
O garoto virou a vassoura e apostou corrida com um balaço
em direção às balizas; venceu-o com facilidade, viu o pomo
disparar das costas de Olívio e em dez segundos já o tinha seguro
na mão.
O time aplaudiu enlouquecido. Harry tornou a soltar o
pomo, deu-lhe um minuto de dianteira e disparou atrás dele,
desviando-se dos outros jogadores; depois, localizou-o próximo ao
joelho de Katie Bell, fez uma volta em torno da garota e apanhou
o pomo mais uma vez.
Foi o melhor treino que ele já fizera; os jogadores,
inspirados pela presença da Firebolt na equipe, realizavam
movimentos impecáveis, e, no momento em. que voltaram ao
chão, Olívio não teve uma única crítica a fazer, o que, como Jorge
Weasley enfatizou, era a primeiríssima vez que acontecia.
- Não vejo o que é que vai nos deter amanhã! - disse
Olívio. -A não ser que... Harry, você resolveu o seu problema com
o dementador, não resolveu?
- Resolvi - disse Harry pensando no seu débil Patrono e
216
desejando que ele fosse mais forte.
- Os dementadores não vão aparecer outra vez, Olívio.
Dumbledore explodiria - disse Fred, confiante.
- Bem, esperemos que não - disse Olívio. - Em todo o
caso... bom trabalho, pessoal. Vamos voltar para a Torre... dormir
cedo...
- Eu vou ficar mais um pouco; Rony quer dar uma volta na
Firebolt - avisou Harry a Olívio, e, enquanto os outros jogadores
se dirigiam aos vestiários, Harry foi ao encontro de Rony, que
saltou a barreira que separava o campo das arquibancadas com o
mesmo fim. Madame Hooch adormecera onde estava.
- Manda ver - disse Harry, entregando ao amigo a Firebolt.
Rony, uma expressão de êxtase no rosto, montou na
vassoura e disparou pela crescente escuridão, enquanto Harry
andava em volta do campo, observando-o. Já anoitecera quando
Madame Hooch acordou assustada, ralhou com os garotos por não
a terem acordado e insistiu que voltassem ao castelo.
Harry pôs a Firebolt no ombro, e ele e Rony saíram do
estádio sombrio, discutindo o desempenho suavíssimo da
vassoura, sua fenomenal aceleração e suas curvas precisas.
Estavam na metade do trajeto para o castelo quando Harry
olhando para a esquerda, viu uma coisa que fez seu coração dar
uma cambalhota no peito - um par de olhos que luziam na
escuridão.
Harry paralisou, o coração martelando as costelas.
- Que foi? - perguntou Rony.
Harry apontou Rony puxou a varinha e murmurou:
- Lumus!
Um raio de luz se projetou pelo gramado, bateu no pé de
uma árvore e iluminou seus ramos; lá, agachado entre as folhas
que brotavam, estava Bichento.
- Dá o fora daqui! - bradou Rony curvando-se para apanhar
uma pedra caída no chão, mas antes que pudesse fazer mais
alguma coisa, Bichento havia desaparecido com um único
movimento do longo rabo amarelo-avermelhado.
- Está vendo? - exclamou Rony furioso, largando a pedra
no chão. - Ela continua deixando o gato andar por onde quer,
provavelmente comendo uns dois passarinhos como guarnição
217
para acompanhar o Perebas...
Harry não comentou nada. Inspirou profundamente
sentindo o alívio invadi-lo; por um momento tivera certeza de que
aqueles olhos pertenciam ao Sinistro. Os dois garotos retomaram,
mais uma vez, a caminhada para o castelo. Um pouco
envergonhado pelo momento de pânico, Harry não comentou nada
com Rony nem olhou mais para a esquerda nem para a direita até
chegarem,. ao bem iluminado saguão de entrada.
Harry desceu para tomar café na manhã seguinte com os
outros garotos do dormitório, todos os quais pareciam achar que a
Firebolt merecia uma espécie de guarda de honra. Quando Harry
entrou no Salão Principal, as cabeças se voltaram para a vassoura,
e houve muitos comentários excitados. Harry viu, com enorme
satisfação, que todo o time da Sonserina fazia cara de assombro.
- Você viu a cara dele? - perguntou Rony com vontade de
rir, virando-se para olhar Malfoy. - Ele nem consegue acreditar!
Genial!
Olívio, também, usufruía a glória que a Firebolt refletia.
- Ponha ela aqui, Harry - sugeriu o capitão, ajeitando a
vassoura no meio da mesa e girando-a cuidadosamente de modo a
deixar a marca visível. Os alunos das mesas da Corvinal e da
Lufa-Lufa não demoraram a ir olhá-la de perto. Cedrico Diggory
se aproximou para cumprimentar Harry por ter adquirido uma
substituta tão esplêndida para sua Nimbus e a namorada de Percy,
Penelope Clearwater, da Corvinal, chegou a perguntar se podia
segurar a Firebolt.
- Ora, ora, Penelope, nada de sabotagem! - disse Percy
cordialmente, enquanto ela mirava a Firebolt.
- Penelope e eu fizemos uma aposta - contou ele ao time. -
Dez galeões no vencedor da partida!
A garota tornou a pousar a vassoura, agradeceu a Harry e
voltou à sua mesa.
- Harry, não deixe de ganhar - recomendou Percy, num
sussurro urgente. - Eu não tenho dez galeões. Estou indo, Penny! -
E correu para comer uma torrada com a garota.
- Tem certeza que você sabe montar nessa vassoura, Potter?
218
-disse uma voz arrastada e fria.
Draco Malfoy chegara para dar uma espiada, seguido de
perto por Crabbe e Goyle.
- Acho que sim - disse Harry descontraído.
- Tem muitas características especiais, não é? - disse
Malfoy, os olhos brilhando de malícia. - Pena que não venha com
um pára-quedas, para o caso de você chegar muito perto de um
dementador.
Crabbe e Goyle deram risadinhas.
- Pena que você não possa acrescentar braços na sua, Draco
-retrucou Harry; - Assim ela poderia apanhar o pomo para você.
Os jogadores da Grifinória deram grandes gargalhadas. Os
olhos claros de Draco se estreitaram e ele se afastou. Os dois
garotos observaram Draco se reunir aos demais jogadores da
Sonserina, que juntaram as cabeças, sem dúvida para perguntar a
ele se a vassoura de Harry era realmente uma Firebolt.
Ás quinze para as onze, o time da Grifinória saiu em
direção ao vestiário. O tempo não poderia estar mais diferente do
que o do dia da partida com Lufa-Lufa. Fazia um dia claro e frio
com uma levíssima brisa; desta vez não haveria problemas de
visibilidade e Harry, embora nervoso, estava começando a sentir a
excitação que somente uma partida de quadribol era capaz de
produzir. Eles ouviram o resto da escola entrando, mais além, no
estádio. Harry despiu as vestes negras da escola, tirou a varinha do
bolso e enfiou-a na camiseta que ia usar por baixo do uniforme de
quadribol. Só esperava que não fosse preciso usá-la. De repente
lhe ocorreu uma dúvida: se o Prof. Lupin estaria no meio da
multidão, assistindo à partida.
- Vocês sabem o que temos de fazer - disse Olívio quando
o time se preparava para deixar o vestiário. - Se perdermos esta
partida, estaremos fora do campeonato. Vocês só têm que voar
como fizeram no treino de ontem, e vamos nos dar bem!
Os jogadores saíram do vestiário para o campo debaixo de
tumultuosos aplausos. O time da Corvinal, vestido de azul, já
estava parado no meio do campo. A apanhadora, Cho Chang, era a
única menina da equipe. Era mais baixa do que Harry quase uma
cabeça, e, por mais nervoso que estivesse, ele não pôde deixar de
reparar que era uma garota muito bonita. Cho sorriu para ele
219
quando os times ficaram frente a frente, atrás dos capitães, e o
garoto sentiu uma ligeira pulsação na região do baixo ventre que
ele achou que não tinha relação alguma com o seu nervosismo.
- Wood, Davies, apertem-se as mãos - disse Madame
Hooch, eficiente, e Olívio apertou a mão do capitão de Corvinal,
"Montem nas vassouras... quando eu apitar... três, dois, um..,
Harry deu o impulso para subir, e a Firebolt voou mais alto
e mais veloz do que qualquer outra vassoura; ele sobrevoou o
estádio e começou a espiar para todos os lados à procura do pomo,
prestando atenção aos comentários que estavam sendo irradiados
pelo amigo dos gêmeos Weasley, Lino Jordan.
"Foi dado início à partida, e a grande novidade é a Firebolt
que Harry Potter está montando pelo time da Grifinória. Segundo
a Qual vassoura, a Firebolt será a montaria escolhida pelos times
nacionais para o Campeonato Mundial deste ano...,'
-Jordan, você se importa de nos dizer o que está
acontecendo no campo? - interrompeu-o a voz da Profª
McGonagall.
- Certo, professora, eu só estava situando os ouvintes...
"A Firebolt, aliás, tem um freio automático e...
- ... Jordan!
"OK, OK, Grifinória tem a posse da goles, Katie BeIl da
Grifinória está voando em direção à baliza..."
Harry passou veloz por Katie, à procura de um reflexo
dourado, e reparou que Cho Chang o seguia muito de perto. Não
havia dúvida de que a garota era um excelente piloto - não parava
de cortar sua frente, forçando-o a mudar de direção.
- Mostre a ela sua aceleração, Harry! - berrou Fred ao
passar disparado em perseguição de um balaço que seguia na
direção de Alicia.
Harry estugou a Firebolt quando contornaram as balizas de
Corvinal, e Cho ficou para trás. No momento exato em que Katie
conseguia marcar o primeiro gol da partida e o lado do campo da
Grifinória enlouquecia de entusiasmo, Harry viu... o pomo estava
perto do chão, esvoaçando próximo à barreira.
Harry mergulhou; Cho percebeu o seu movimento e
disparou atrás dele. O garoto foi aumentando a velocidade, tomado
de excitação; os mergulhos eram sua especialidade, estava a três
220
metros...
Então um balaço, arremessado por um dos batedores de
Corvinal, saiu a toda, Harry nem viu de onde; ele mudou de rumo,
evitando o petardo por um dedo, e, naqueles segundos cruciais, o
pomo sumiu.
Houve um grande "ooooooh" de desapontamento da torcida
de Grifinória, mas muitos aplausos de Corvinal para o seu batedor
Jorge Weasley deu vazão ao que sentia lançando um segundo
balaço diretamente contra o autor do arremesso, que, por sua vez,
foi forçado a dar uma cambalhota em pleno ar para evitar a
colisão.
"Grifinória lidera por oitenta pontos a zero, e olhe só o
desempenho daquela Firebolt Potter agora está realmente
mostrando o que ela é capaz de fazer, vejam como muda de
direção - a Comet de Chang simplesmente não é páreo para ela, o
balanceamento preciso da Firebolt é visível nesses longos..."
- JORDAN! VOCÊ ESTÁ GANHANDO PARA
ANUNCIAR FIREBOLTS ? VOLTE A IRRADIAR O JOGO!
Corvinal começou a jogar na retranca; já tinha marcado três
gols, o que deixava Grifinória apenas cinqüenta pontos à frente -se
Cho apanhasse o pomo antes dele, Corvinal ganharia a partida.
Harry reduziu a altitude, evitando por um triz um artilheiro
de Corvinal, e esquadrinhou nervosamente o campo - um lampejo
de ouro, um adejar de asinhas - o pomo estava circulando a baliza
de Grifinória.
Harry acelerou, os olhos fixos no pontinho dourado à frente
- mas nesse instante, Cho apareceu de repente, bloqueando sua
visão.
- HARRY ISSO NÃO É HORA PARA
CAVALHEIRISMOS! - berrou Olívio quando o garoto deu uma
guinada para evitar a colisão. - SE FOR PRECISO, DERRUBE-A
DA VASSOURA!
Harry se virou e avistou Cho; a garota estava sorrindo. O
pomo sumira outra vez. Ele apontou a vassoura para o alto e logo
chegou a sessenta metros sobre o campo. Pelo canto do olho, ele
viu Cho seguindo-o... Ela resolvera marcá-lo em vez de procurar o
pomo sozinha. Muito bem, então... se queria segui-lo, teria que
221
arcar com as conseqüências... Harry mergulhou outra vez, e Cho,
pensando que ele avistara o pomo, tentou acompanhá-lo; ele
desfez o mergulho abruptamente; Cho continuou a descida veloz;
ele subiu mais uma vez, como uma bala, e então viu-o, pela
terceira vez - o pomo cintilava muito acima do campo, do lado da
Corvinal. Harry acelerou; a muitos metros abaixo Cho fez o
mesmo. Ele foi reduzindo a distância, se aproximando mais do
pomo a cada segundo... então...
- Oh! - gritou Cho, apontando.
Distraído Harry olhou para baixo.
Três dementadores, três dementadores altos, negros, lá
embaixo, olhavam para ele.
Harry nem parou para pensar. Enfiou a mão pelo decote de
suas vestes, sacou a varinha e berrou: "Expecto patronum!"
Uma coisa branco-prateada, uma coisa enorme, irrompeu
de sua varinha. Ele percebeu que apontara diretamente para os
dementadores, mas não parou para ver o efeito; sua mente
continuava milagrosamente clara, ele olhou para a frente - estava
quase lá. Estendeu a mão que ainda segurava a varinha e
conseguiu fechar os dedos sobre o pequeno pomo que se debatia.
Soou o apito de Madame Hooch. Harry se virou no ar e viu
seis borrões vermelhos voando em sua direção; no momento
seguinte, o time o abraçava com tanta força que ele quase foi
arrancado da vassoura. Ouvia-se lá embaixo os brados da torcida
da Grifinória em meio aos espectadores.
- Aí, garoto! - Olívio não parava de berrar Alicia, Angelina
e Katie, todas, tinham beijado Harry; Fred o abraçara com tanta
força que ele achou que sua cabeça ia saltar do corpo. Em
completa desordem, o time conseguiu voltar ao campo. Harry
desmontou a vassoura, levantou a cabeça e viu um bando de
torcedores da Grifinória saltar para dentro do campo, Rony à
frente. Antes que desse por si, fora engolfado pela turma que
gritava aplaudindo-o.
- Sim! - gritava Rony, puxando com força o braço de Harry
e erguendo-o no ar- Sim! Sim!
- Grande partida, Harry! - disse Percy, feliz. - Dez galeões
para mim! Preciso procurar Penelope, com licença...
- Parabéns, Harry! - bradou Simas Finnigan.
222
- Brilhante! - berrou Hagrid por cima das cabeças dos
alunos da Grifinória que acorriam.
- Foi um Patrono impressionante - disse uma voz no ouvido
de Harry
Harry se virou e viu o Prof. Lupin, que parecia ao mesmo
tempo abalado e satisfeito.
- Os dementadores não me afetaram nada! - exclamou
Harry excitado. - Eu não senti nada!
- Foi porque eles... hum... não eram dementadores -
explicou o professor - Venha ver...
Ele desvencilhou Harry da aglomeração até poderem ver a
lateral do campo.
- Você deu um grande susto no Sr. Malfoy - disse Lupin.
Harry arregalou os olhos. Amontoados no chão estavam
Malfoy, Crabbe, Goyle e Marcos Flint, o capitão do time da
Sonserina, lutando para se despir das vestes negras e longas com
capuzes. Pelo jeito Malfoy estivera em pé nos ombros de Goyle.
Parada ao lado deles, com uma expressão de fúria no rosto, estava
a Prof. Minerva.
- Um truque indigno! - bradava ela. - Uma tentativa baixa e
covarde de sabotar o apanhador de Grifinória! Detenção para
todos e menos cinqüenta pontos para Sonserina! Vou falar com o
Prof. Dumbledore, não se iludam! Ah, aí vem ele agora!
Se alguma coisa podia selar a vitória de Grifinória, era isso.
Rony, que pelejara para chegar até Harry; se dobrava de tanto rir,
ao contemplarem Malfoy tentando sair da veste, a cabeça de Goyle
ainda presa lá dentro.
- Vamos, Harry! - disse Jorge procurando se aproximar. -
Festa! Sala Comunal da Grifinória, agora!
- Certo - respondeu Harry, sentindo-se mais feliz do que se
lembrava de ter se sentido havia muito tempo. Ele e o restante do
time abriram caminho, ainda de vestes vermelhas, para fora do
estádio e de volta ao castelo.
A sensação era de que já tinham ganhado a Taça de
Quadribol; a festa durou o dia inteiro e se prolongou até tarde da
noite. Fred e Jorge Weasley desapareceram algumas horas e
223
voltaram com braçadas de garrafinhas de cerveja amanteigada,
abóbora espumante e vários sacos de doces da Dedosdemel.
- Como foi que você fez isso?! - gritou Angelina Johnson
quando Jorge começou a atirar sapos de menta nos colegas.
- Com uma ajudinha de Aluado, Rabicho, Almofadinhas e
Pontas - murmurou Fred ao ouvido de Harry.
Somente uma pessoa não participava da comemoração.
Hermione, por incrível que pareça, estava sentada a um canto,
tentando ler um enorme livro intitulado "Vida doméstica e hábitos
sociais dos trouxas britânicos". Harry se afastou da mesa em que
Fred e Jorge começavam a fazer malabarismos com as garrafinhas
de cerveja amanteigada e foi até a amiga.
- Você ao menos foi ao jogo? - perguntou ele.
- Claro que fui - respondeu Hermione numa voz estranhamente
aguda, sem levantar a cabeça. - E estou muito contente que
a gente tenha ganhado, e acho que você jogou realmente bem, mas
tenho que ler isso aqui até segunda-feira.
- Vamos, Mione, venha comer alguma coisa - convidou
Harry, enquanto olhava para Rony e se perguntava se ele teria
suficiente bom humor para guardar a machadinha de guerra.
- Não posso, Harry. Ainda tenho quatrocentas e vinte e
duas páginas para ler! - respondeu a garota, agora num tom
ligeiramente histérico. - De qualquer modo... - a garota olhou para
Rony; também -Ele não quer a minha companhia.
Quanto a isso, não havia o que discutir, porque Rony
escolheu aquele momento para dizer em voz alta:
- Se Perebas não tivesse sido devorado, ele poderia ter
comido uma mosca de chocolate. Ele gostava tanto...
Hermione caiu no choro. Antes que Harry pudesse dizer
alguma coisa, ela meteu o enorme livro embaixo do braço e, ainda
soluçando, correu para a escada do dormitório das meninas e
desapareceu de vista.
- Será que você não podia dar a ela um tempo? - perguntou
Harry a Rony em voz baixa.
- Não - respondeu o garoto com firmeza. - Se ela ao menos
mostrasse que lamenta, mas jamais vai admitir que errou, a
Hermione. Continua a agir como se Perebas tivesse tirado férias
ou qualquer coisa do gênero.
224
A festa da Grifinória só terminou quando a Profª Minerva
apareceu vestida com o seu robe de tecido escocês e os cabelos
presos em uma rede, à uma hora da manhã, para insistir que todos
fossem se deitar. Harry e Rony subiram as escadas para o
dormitório, ainda discutindo a partida. Por fim, exausto, Harry se
enfiou na cama, ajeitou o cortinado de sua cama para esconder um
raio de luar, se deitou de costas e sentiu que adormecia quase
instantaneamente...
Teve um sonho muito estranho. Estava andando por uma
floresta, a Firebolt ao ombro, seguindo uma coisa branco-prateada.
Ela avançava entre as árvores e Harry só conseguia avistá-la entre
a folhagem. Ansioso para alcançá-la, estugou o passo, mas ao
fazer isso, a coisa que ele perseguia acelerou também. Harry
começou a correr e, à frente dele, ouviu cascos que ganhavam
velocidade. Agora ele estava correndo desabalado e, à frente,
ouvia a coisa galopar. Então ele fez uma curva para dentro de uma
clareira e...
- AAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRR!
NNN ÃÂÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!
Harry acordou subitamente como se alguém o tivesse
esbofeteado. Desorientado na escuridão total agarrou as cortinas -
ouvia movimentos a sua volta e a voz de Simas Finnigan do outro
lado do quarto:
- Que é que está acontecendo?
Harry achou ter ouvido a porta do dormitório bater.
Finalmente, encontrando a abertura das cortinas, puxou-as para
um lado com violência e, na mesma hora, Dino Thomas acendeu o
abajur.
Rony estava sentado na cama, as cortinas rasgadas dos dois
lados, uma expressão de absoluto terror no rosto.
- Black! Sirius Black! Com uma faca!
- Quê!
- Aqui! Agorinha mesmo! Cortou as cortinas! Me acordou!
- Você tem certeza de que não sonhou, Rony? - perguntou
Dino,
- Olha só as cortinas! Estou dizendo, ele esteve aqui!
Todos os garotos saltaram das camas; Harry alcançou a
porta do dormitório primeiro que os outros e desceu correndo as
225
escadas. Portas se abriram às suas costas e vozes cheias de sono
chamaram.
- Quem gritou?
- Que é que vocês estão fazendo?
A sala comunal estava iluminada com o brilho das chamas
que se extinguiam na lareira, ainda atulhada com os restos da festa
Estava deserta.
- Você tem certeza de que não estava dormindo, Rony?
Estou dizendo que vi Black!
- Que barulheira é essa?
- A Profª McGonagall nos mandou para a cama!
Algumas garotas tinham descido, vestindo os robes e
bocejando. Os garotos também foram reaparecendo.
- Que ótimo, vamos continuar? - perguntou Fred Weasley
animado.
- Todos de volta para cima! - falou Percy que entrou
correndo na sala comunal prendendo o distintivo de monitor-chefe
no pijama enquanto falava.
- Percy... Sirius Black! - disse Rony com a voz fraca. - No
nosso dormitório! Com uma faca! Me acordou!
A sala comunal mergulhou em silêncio.
- Que bobagem! - exclamou Percy parecendo espantado. -
Você comeu demais, Rony... teve um pesadelo...
- Estou lhe dizendo...
- Agora, francamente, já é demais!
A Profª Minerva estava de volta. Ela bateu o retrato ao
entrar na sala comuna! e olhou furiosa para todos.
- Estou encantada que Grifinória tenha ganho a partida,
mas isto está ficando ridículo! Percy, eu esperava mais de você!
- Com certeza eu não autorizei isso, professora! - defendeuse
Percy, se empertigando, indignado. - Estava justamente dizendo
a todos para voltarem para a cama! Meu irmão Rony teve um
pesadelo...
- NÃO FOI UM PESADELO! - berrou Rony. -
PROFESSORA, EU ACORDEI E SIRIUS BLACK ESTAVA
PARADO AO MEU LADO SEGURANDO UMA FACA!
A professora encarou-o.
- Não seja ridículo, Weasley, como seria possível ele passar
226
pelo buraco do retrato?
- Pergunte a ele! - respondeu Rony apontando um dedo
trêmulo para o avesso do retrato de Sir Cadogan. - Pergunte se ele
viu...
Com um olhar penetrante e desconfiado para Rony, a
professora empurrou o retrato e saiu. Todos na sala procuraram
escutar prendendo a respiração.
- Sir Cadogan, o senhor acabou de deixar um homem entrar
na Torre da Grifinória?
- Certamente, minha boa senhora! - exclamou o cavaleiro.
Fez-se um silêncio de espanto, tanto dentro quanto fora da
sala comunal..
- O senhor.. o senhor deixou? Mas... e a senha?
- Ele sabia! - respondeu Sir Cadogan com orgulho. - Tinha
as senhas da semana inteira, minha senhora! Leu-as em um
pedacinho de papel!
A professora tornou a passar pelo buraco do retrato e
encarou os alunos atordoados. Estava branca como giz.
- Quem foi - perguntou ela com a voz trêmula -, quem foi a
criatura abissalmente tola que anotou as senhas desta semana e as
largou por aí?
Fez-se um silêncio absoluto, quebrado por gritinhos quase
inaudíveis de terror Neville Longbottom, tremendo da cabeça às
pontas dos chinelos fofos, ergueu a mão no ar.
227
- CAPITULO CATORZE -
o ressentimento de Snape
Ninguém na Torre da Grifinória dormiu àquela noite.
Todos sabiam que o castelo estava sendo revistado novamente e os
alunos da casa permaneceram acordados na sala comunal,
esperando para saber se Black fora apanhado. A Profª Minerva
voltou ao amanhecer para informar que, mais uma vez, ele
escapara.
Durante todo o dia, onde quer que fossem, os garotos
percebiam sinais de uma segurança mais rigorosa; o Prof. Flitwick
podia ser visto, às portas de entrada do castelo, ensinando-os a
reconhecer uma grande foto de Sirius Black; Filch, de repente,
andava para cima e para baixo nos corredores, pregando tábuas em
tudo, desde minúsculas fendas nas paredes até tocas de
camundongos. Sir Gadogan fora demitido. Repuseram seu retrato
no solitário patamar do sétimo andar e a Mulher Gorda voltou ao
seu lugar. Fora competentemente restaurada, mas continuava
nervosíssima e só concordara em voltar ao trabalho com a
condição de receber mais proteção. Um bando de trasgos
carrancudos tinha sido contratado para guardá-la. Eles percorriam
o corredor em um grupo ameaçador, falando em rosnados e
comparando o tamanho dos seus bastões.
Harry não pôde deixar de reparar que a estátua da bruxa de
um olho só, no terceiro andar, continuava sem guarda nem
bloqueio. Parecia que Fred e Jorge tinham razão em pensar que
eles - e agora Harry Potter, Rony e Hermione - eram os únicos que
conheciam a passagem secreta a que a bruxa dava acesso. - Você
228
acha que devemos contar a alguém? - perguntou Harry a Rony.
- A gente sabe que Black não está entrando pela
Dedosdemel disse Rony descartando a idéia. - Saberíamos se a
loja tivesse sido arrombada.
Harry ficou contente que Rony pensasse como ele. Se a
bruxa de um olho só também fosse fechada com tábuas, ele não
poderia voltar a Hogsmeade.
Rony se transformara numa celebridade instantânea. Pela
primeira vez na vida, as pessoas prestavam mais atenção a ele do
que a Harry e era evidente que ele estava gostando bastante da
experiência. Embora ainda estivesse muito abalado com os
acontecimentos da noite anterior, ficava feliz de contar a quantos
perguntassem o que acontecera, com riqueza de detalhes.
-... Eu estava dormindo e ouvi barulho de pano cortado e
achei que estava sonhando, sabe? Mas aí senti uma correnteza de
ar, acordei e vi que o cortinado de um lado da minha cama tinha
sido arrancado... me virei... e vi Black parado ali... como um
esqueleto, os cabelos imundos.. segurando um facão comprido,
devia ter uns trinta centímetros... e ele olhou para mim e eu olhei
para ele, então eu soltei um berro e ele se mandou.
"Mas por quê? - Rony acrescentou para Harry, quando o
grupo de garotas do segundo ano, que estivera escutando sua
história enregelante, se afastou. - Por que foi que ele correu?
Harry andara se perguntando a mesma coisa. Por que
Black, ao verificar que escolhera a cama errada, não silenciara
Rony e procurara Harry? Ele já provara doze anos antes que não
se importava de matar gente inocente, e desta vez só precisava
enfrentar cinco garotos desarmados, quatro dos quais
adormecidos.
- Ele devia saber que ia ter problemas para sair do castelo
depois que você gritasse e acordasse todo mundo - disse Harry,
pensativo. - Teria que matar a casa toda para passar pelo buraco do
retrato... e teria dado de cara com os professores...
- Neville caiu em total desgraça. A Profª McGonagall
estava tão furiosa com ele que o banira de todas as futuras visitas a
Hogsmeade, lhe dera uma detenção e proibira todos de lhe
informarem a senha para a torre. O coitado era obrigado a esperar
do lado de fora da sala comunal, todas as noites, até alguém deixá229
lo entrar, enquanto os trasgos da segurança caçoavam dele.
Nenhum desses castigos, porém, chegou nem próximo do que sua
avó lhe reservara. Dois dias depois da invasão de Black, ela
mandou a Neville a pior coisa que um aluno de Hogwarts podia
receber na hora do café da manhã - um berrador.
As corujas da escola entraram voando pelo Salão Principal
trazendo o correio, como de costume, e Neville se engasgou
quando a enorme coruja pousou diante dele com um envelope
vermelho preso no bico. Harry e Rony; que estavam sentados em
frente, reconheceram imediatamente que a carta era um berrador -
Rony recebera um da Sra. Weasley no ano anterior.
- Apanha ela logo, Neville - aconselhou Rony.
Neville não precisou que lhe dissessem duas vezes.
Agarrou o envelope e, segurando-o à frente como se fosse uma
bomba, saiu correndo do Salão em meio às explosões de riso da
mesa da Sonserina. Todos ouviram o berrador disparar no saguão
de entrada - a voz da avó de Neville, com o volume normal
magicamente ampliado cem vezes, bradava que ele envergonhara
a família inteira.
Harry estava tão ocupado sentindo pena de Neville que
nem reparou imediatamente que havia uma carta para ele também.
Edwiges atraiu sua atenção beliscando-o com força no pulso.
- Ai! Ah... obrigado, Edwiges.
Harry rasgou o envelope enquanto a coruja se servia dos
flocos de milho de Neville. O bilhete dentro do envelope dizia o
seguinte:
Caros Harry e Rony
Que tal virem tomar chá comigo hoje à tarde por volta das
seis?
Irei buscar vocês no castelo.
ESPEREM POR MIM NO SAGUÃO DE ENTRADA;
VOCÊS NÃO PODEM SAIR SOZINHOS.
Abraços,
Hagrid
- Ele provavelmente quer saber as novidades sobre Black! -
disse Rony.
230
Assim, às seis horas daquela tarde, Harry e Rony saíram da
Torre da Grifinória, passaram pelos trasgos de segurança e
rumaram para o saguão de entrada.
Hagrid já estava à espera.
- Está bem, Hagrid! - exclamou Rony. - Imagino que você
queira saber o que aconteceu no sábado à noite, é isso?
- Já soube de tudo - disse Hagrid, abrindo a porta de
entrada e levando-os para fora.
- Ah - exclamou Rony parecendo ligeiramente
desconcertado.
A primeira coisa que viram ao entrar na cabana de Hagrid foi
Bicuço estirado em cima da colcha de retalhos de Hagrid, as
enormes asas fechadas junto ao corpo, apreciando um pratão de
doninhas mortas. Ao desviar o olhar dessa visão repugnante, Harry
viu um gigantesco traje peludo e uma medonha gravata amarela e
laranja pendurados no alto da porta do armário.
- Para que é isso, Hagrid? - perguntou Harry.
- O caso de Bicuço contra a Comissão para Eliminação de
Criaturas Perigosas. Nesta sexta-feira. Ele e eu vamos a Londres
juntos. Reservei duas camas no Nôitibus...
Harry sentiu uma pontada incômoda de remorso.
Esquecera-se completamente que o julgamento de Bicuço estava
tão próximo e, a julgar pela expressão constrangida no tosto de
Rony ele também. Os dois tinham se esquecido igualmente da
promessa de ajudar Hagrid a preparar a defesa de Bicuço; a
chegada da Firebolt tinha varrido a promessa do pensamento dos
garotos.
Hagrid serviu chá e ofereceu um prato de pãezinhos aos
garotos, que tiveram o bom senso de não aceitar; tinham muita
experiência com a culinária do guarda-caça.
- Tenho uma coisa para conversar com vocês dois - disse
Hagrid sentando-se entre os garotos, com o ar anormalmente sério.
- O quê? - perguntou Harry.
- Mione - respondeu Hagrid.
- Que é que tem a Mione? - perguntou Rony.
- Ela está num estado de cortar o coração, é isso que tem.
Veio me visitar muitas vezes desde o Natal. Se sente solitária.
Primeiro vocês não estavam falando com ela por causa da Firebolt,
231
agora vocês não estão falando por causa do gato... que comeu
Perebas! - interpôs Rony, zangado.
- Porque o gato dela fez o que todos os gatos fazem -
insistiu Hagrid. - Ela já chorou muito, sabem. Está passando por
um mau momento. Abocanhou mais do que pode mastigar, se
querem saber, todo o trabalho que está tentando fazer. E ainda
arranjou tempo para me ajudar no caso do Bicuço, vejam bem...
Encontrou um material realmente bom para mim... acho que ele
terá uma boa chance agora...
- Hagrid, nós devíamos ter ajudado também, desculpe... -
começou Harry, sem jeito.
- Não estou cobrando nada - disse Hagrid, dispensando as
desculpas. - Deus sabe que você teve muito com que se ocupar. Vi
você praticando quadribol todas as horas do dia e da noite, mas
tenho que dizer uma coisa, pensei que vocês davam mais valor à
amiga do que a vassouras e ratos. É só isso..
Harry e Rony trocaram olhares constrangidos.
Bem nervosa ela ficou, quando Black quase esfaqueou
você, Rony. Ela tem o coração no lugar, a Mione, e vocês se
recusando a falar com ela...
- Se ela ao menos se livrasse daquele gato, eu voltaria a
falar com ela! - disse Rony, zangado. - Mas ela continua do lado
do Bichento. E um tarado e ela não quer ouvir nem uma palavra
contra ele!
- Ah, bem, as pessoas podem ser obtusas quando se trata de
bichos de estimação - disse Hagrid sabiamente. Às costas dele,
Bicuço cuspiu uns ossos de doninha em cima do travesseiro.
Os três passaram o resto da visita discutindo a nova chance
de Grifinória concorrer à Taça de Quadribol. Às nove horas,
Hagrid acompanhou-os de volta ao castelo.
Um grande grupo de alunos se achava aglomerado em
torno do quadro de avisos quando eles chegaram à sala comunal.
- Hogsmeade no próximo fim de semana! - disse Rony, se
esticando por cima da cabeça dos colegas para ler o aviso. - Que é
que você acha? - acrescentou em voz baixa quando os dois foram
se sentar.
- Bem, Filch não mexeu na passagem para a Dedosdemel...
-ponderou Harry, ainda mais baixo.
232
- Harry! - disse alguém bem no seu ouvido direito. Harry se
assustou e, ao se virar, viu Hermione, que estava sentada à mesa
logo atrás deles e abrira uma brecha na parede de livros que a
escondia.
"Harry, se você for a Hogsmea outra vez... vou contar à
Profª McGonagall sobre aquele mapa! - ameaçou ela.
- Você está ouvindo alguém falar, Harry? - rosnou Rony,
sem olhar para Hermione.
- Rony, como é que pode deixar ele o acompanhar? Depois
do que o Sirius Black fez a você. Quero dizer, vou contar.
- Então agora você está tentando provocar a expulsão do
Harry! - disse Rony; furioso. - Não acha suficiente o mal que você
já fez este ano?
Hermione abriu a boca para responder, mas com um
assobio suave, Bichento saltou para o seu colo. A garota lançou
um olhar assustado à cara que Rony fazia, recolheu Bichento e
saiu correndo para o dormitório das meninas.
- Então, e aí? - perguntou Rony a Harry como se não
tivesse havido interrupção. - Vamos, da última vez que fomos
você não viu nada. Você ainda nem entrou na Zonko's!
Harry espiou para os lados para verificar se Hermione não
estava por perto ouvindo.
- Tudo bem. Mas desta vez vou levar a minha Capa da
invisibilidade.
Na manhã de sábado, Harry guardou a Capa da
Invisibilidade na mochila, meteu o Mapa do Maroto no bolso e foi
tomar café com todo mundo. À mesa, Hermione não parava de lhe
lançar olhares desconfiados, mas ele evitou encarar a amiga e teve
o cuidado de deixar que ela o visse subindo a escadaria de
mármore no saguão de entrada, quando os outros alunos se
dirigiam às portas de entrada.
- Tchau! - gritou Harry para Rony. - A gente se vê quando
você voltar.
Rony sorriu e piscou um olho.
Harry correu ao terceiro andar, tirando o Mapa do Maroto
do bolso enquanto subia. Agachado atrás da bruxa de um olho só,
233
ele o abriu. Um pontinho vinha se movendo em sua direção. Harry
apertou os olhos para enxergar melhor. A pequena legenda ao lado
informava que era Neville Longbottom.
Harry puxou depressa a varinha, murmurou "Dissendium!"
e enfiou a mochila na estátua, mas antes que pudesse entrar
Neville apareceu no canto do corredor.
- Harry! Eu me esqueci que você também não ia a
Hogsmeade!
- Oi, Neville - disse Harry, afastando-se rapidamente da
estátua e empurrando o mapa para dentro do bolso. - Que é que
você vai fazer?
- Nada - disse Neville encolhendo os ombros - Que tal uma
partida de Snap Explosivo?
-Hum... agora não... eu estava indo à biblioteca fazer aquela
redação sobre os vampiros que Lupin pediu...
- Eu vou com você! - disse Neville, animado. - Eu também
não fiz! ....... espera aí, ah, me esqueci, já terminei ontem à noite!
Que ótimo, então você pode me ajudar! disse Neville, o
rosto redondo demonstrando ansiedade. - Não consigo entender
aquela história do alho, eles têm que comer.
Com uma pequena exclamação, ele se calou, espiando por
cima do ombro de Harry.
Era Snape. Neville deu um passo rápido para trás de Harry.
- E o que é que vocês estão fazendo aqui? - perguntou
Snape, que parou e olhou de um garoto para o outro. - Que lugar
estranho para se encontrarem...
Para imensa inquietação de Harry, os olhos negros de
Snape correram para as portas ao lado de cada um deles e em
seguida para a bruxa de um olho só.
- Nós não... marcamos encontro aqui. Só nos encontramos,
por acaso.
- Verdade? Você tem o hábito de aparecer em lugares
inesperados, Potter, e raramente sem uma boa razão... Sugiro que
os dois voltem à Torre da Grifinória que é o seu lugar.
Harry e Neville sairão sem dizer mais nada. Quando
viraram um canto, Harry olhou para trás. Snape estava passando a
mão na bruxa de um olho só, examinando-a atentamente.
Harry conseguiu se livrar de Neville no retrato da Mulher
234
Gorda, dizendo-lhe a senha, e, depois, fingindo que deixara a
redação na biblioteca, deu meia-volta. Uma vez longe das vistas
dos trasgos de segurança, ele tornou a tirar o mapa do bolso e
segurá-lo bem junto ao nariz.
O corredor do terceiro andar parecia estar deserto. Harry
examinou o mapa cuidadosamente e viu, com uma sensação de
alívio, que o pontinho Severo Snape voltara à sua sala.
Correu, então, até a bruxa de um olho só, abriu a corcunda,
desceu o corpo por ela e se largou para ir ao encontro de sua
mochila no fim do escorrega. Apagou, então, o Mapa do Maroto e
saiu correndo.
Harry, inteiramente escondido sob a Capa da Invisibilidade, saiu à
luz do sol à porta da Dedosdemel e cutucou Rony nas costas.
- Sou eu - murmurou.
- Que foi que o atrasou? - sibilou Rony.
- Snape estava rondando o corredor.
Os garotos saíram andando pela rua principal.
- Onde é que você está? - Rony perguntava toda hora pelo
canto da boca. - Ainda está aí? Que coisa mais estranha...
Eles foram ao correio; Rony fingiu estar verificando o
preço de uma coruja para Gui no Egito para que Harry pudesse dar
uma boa olhada em tudo. As corujas estavam pousadas e piavam
baixinho para ele, no mínimo umas trezentas; desde as cinzentas
de grande porte até as muito pequenas ("Somente para entregas
locais"), que eram tão mínimas que caberiam na palma da mão do
garoto.
Depois, visitaram a Zonko's, que estava tão apinhada de
estudantes que Harry precisou tomar um cuidado enorme para não
pisar em ninguém e, com isso, desencadear o pânico. Havia logros
e brincadeiras para satisfazer até os sonhos mais absurdos de Fred
e Jorge; Harry cochichou ordens para Rony e lhe passou um pouco
de ouro por baixo da capa. Os dois deixaram a Zonko's com as
bolsas de dinheiro bastante mais leve do que quando entraram,
mas os bolsos iam estufados de bombas de bosta, soluços doces,
sabão de ovas de sapo e, para cada um, uma xícara que mordia o
nariz.
235
Fazia um tempo firme, de brisa suave, e nenhum dos
garotos tinha vontade de ficar dentro de casa, por isso eles
passaram direto pelo Três Vassouras e subiu uma ladeira para
visitar a Casa dos Gritos, o lugar mais mal-assombrado da Grã-
Bretanha. Ficava um pouco mais alta do que o resto do povoado, e
mesmo durante o dia provocava certos arrepios, com suas janelas
fechadas com tábuas e um jardim úmido e malcuidado.
- Até os fantasmas de Hogwarts evitam a casa - disse Rony
quando se debruçavam na cerca para apreciá-la. - Perguntei a Nick
Quase sem Cabeça... ele diz que soube que mora ai uma turma da
pesada. Ninguém consegue entrar Fred e Jorge tentaram, é claro,
mas todas as entradas estão tampadas...
Harry, cheio de calor por causa da subida estava pensando
em tirar a capa por uns minutinhos quando ouviu vozes que se
aproximavam. Havia gente subindo em direção à casa pelo outro
lado da elevação; momentos depois, Malfoy apareceu, seguido de
perto por Crabbe e Goyle. Malfoy vinha falando.
-... devo receber uma coruja do meu pai a qualquer hora.
Ele teve que ir à audiência para depor sobre o meu braço... que
ficou inutilizado durante três meses...
Grabbe e Goyle riram.
- Eu bem que gostaria de ouvir aquele paspalhão grisalho
se defender.. "Ele não tem uma natureza má, honestamente"
aquele hipogrifo pode se considerar morto...
Malfoy de repente avistou Rony. Seu rosto pálido se abriu
num sorriso maldoso.
- Que é que você anda fazendo, Weasley?
Malfoy ergueu os olhos para a casa em ruínas, às costas de
Rony.
- Acho que você gostaria de morar aqui, não, Weasley?
Sonhando com um quarto só para você? Ouvi falar que a sua
família toda dorme em um quarto só, é verdade?
Harry segurou as vestes de Rony pelas costas para impedilo
de pular em cima de Malfoy.
- Deixe-o comigo - sibilou ao ouvido de Rony.
A oportunidade era perfeita demais para ser desperdiçada.
Harry caminhou silenciosamente até as costas de Malfoy; Crabbe
e Goyle, se abaixou e apanhou no caminho uma mão bem cheia de
236
lama.
- Estávamos mesmo discutindo sobre seu amigo Hagrid -
disse Malfoy a Rony. - Tentando imaginar o que ele está dizendo à
Comissão para Eliminação de Criaturas Perigosas. Você acha que
ele vai chorar quando cortarem...
PAF.
A cabeça de Malfoy foi empurrada para frente quando a
lama o atingiu; e, de repente, de seus cabelos louro-prateados
começaram a escorrer lama.
-Quem?
Rony teve que se segurar na cerca para não cair de tanto rir
Malfoy, Crabbe e Goyle se viraram. no mesmo lugar, olhando para
todos os lados, agitados, enquanto Malfoy tentava limpar os
cabelos.
- Que foi isso? Quem fez isso?
- É muito mal-assombrado isso aqui, não é não? - falou
Rony, com ar de quem está comentando o tempo.
Crabbe e Goyle ficaram assustados. Seus músculos
avantajados eram inúteis contra fantasmas. Malfoy examinava,
furioso, a paisagem deserta.
Harry se esgueirou pelo caminho até uma poça
particularmente cheia de lama esverdeada e malcheirosa.
PLAF.
Desta vez os atingidos foram Crabbe e Goyle. Goyle deu
pulos frenéticos, tentando tirar a lama dos olhos miúdos e
inexpressivos.
- Veio dali! - disse Malfoy, limpando o rosto e detendo o
olhar em um ponto a uns dois metros à esquerda de Harry;
Crabbe avançou inseguro, os braços compridos estendidos
à frente, como um morto-vivo.
Harry rodeou Crabbe, apanhou um pedaço de pau e
arremessou-o contra as costas dele. E se dobrou com risadas
silenciosas quando o garoto fez uma pirueta no ar, tentando ver
quem o atacara. Como Rony foi a única pessoa que ele viu, foi
para ele que Crabbe avançou, mas Harry esticou a perna. O garoto
tropeçou -e seu enorme pé chato se prendeu na barra da capa de
Harry. Este sentiu um grande puxão e a capa escorregou do seu
rosto.
237
Por uma fração de segundo, Malfoy arregalou os olhos e o
fitou.
- ARRRRR! - berrou ele, apontando para a cabeça de Harry
Então, deu as costas e fugiu a toda, morro abaixo, com Crabbe e
Goyle nos seus calcanhares.
Harry puxou a capa para cima, mas o estrago já estava
feito. Harry! - chamou Rony, avançando aos tropeços até o ponto
em que o amigo desaparecera. - É melhor você correr! Se Malfoy
contar a alguém, é melhor você já ter voltado ao castelo,
depressa...
- Vejo você mais tarde - disse Harry e, sem mais uma
palavra, desceu correndo pelo caminho, em direção a Hogsmeade.
Será que Malfoy acreditaria no que vira? Será que alguém
acreditaria em Malfoy? Ninguém sabia da existência da Capa da
Invisibilidade - ninguém, exceto Dumbledore. O estômago de
Harry deu cambalhotas - o diretor saberia exatamente o que
acontecera, se Malfoy dissesse alguma coisa...
O garoto voltou à Dedosdemel, à escada que levava ao
porão, atravessou a distância que o separava do alçapão e entrou -
então tirou a capa, meteu-a debaixo do braço e correu, desabalado,
pela passagem... Malfoy chegaria primeiro... quanto tempo levaria
para encontrar um professor? Ofegante, uma dor forte do lado,
Harry não diminuiu a velocidade até alcançar o escorrega de
pedra. Teria que deixar a capa ali, seria muito bandeiroso se
Malfoy tivesse avisado um professor. Escondeu-a num canto
escuro e começou a subir, o mais depressa que pôde, suas mãos
suadas escorregando na borda do escorrega. Quando chegou à
corcunda da bruxa, tocou-a com a varinha, meteu a cabeça para
fora e deu um impulso para sair; a corcunda se fechou e na hora
que ele saltou de trás da estátua ouviu passos que se aproximavam
apressados.
Era Snape. Rapidamente o professor alcançou Harry, as
vestes pretas farfalhando, e parou diante dele.
- Então - falou.
O professor tinha uma expressão de triunfo reprimido no
rosto. Harry tentou parecer inocente, embora muito consciente do
seu rosto suado e das mãos enlameadas, que ele escondeu depressa
nos bolsos.
238
- Venha comigo, Potter - disse Snape.
Harry o acompanhou até o andar de baixo, tentando limpar
as mãos no avesso das vestes, sem que Snape notasse. Dali
desceram às masmorras e à sala de Snape.
O garoto só estivera ali antes uma vez e fora também por
um problema muito sério. Desde então Snape adquirira mais umas
coisas horríveis e viscosas conservadas em frascos, todos
arrumados nas prateleiras atrás de sua escrivaninha, refletindo as
chamas da lareira e contribuindo ainda mais para tornar a
atmosfera ameaçado.
- Sente-se - mandou Snape.
Harry se sentou. O professor, no entanto, continuou em pé.
- O Sr. Malfoy acabou de vir me contar uma história
estranha, Potter.
Harry ficou calado.
- Ele me contou que estava na Casa dos Gritos quando
deparou com Weasley, aparentemente sozinho.
Ainda assim, Harry não falou nada,
- O Sr. Malfoy diz que estava parado, falando com
Weasley, quando um pelotaço de lama o atingiu na nuca. Como é
que você acha que isso aconteceu?
Harry tentou parecer levemente surpreso.
- Não sei, professor.
Os olhos de Snape perfuravam os de Harry. Era exatamente
a mesma sensação de tentar dominar um hipogrifo com o olhar. O
garoto fez força para não piscar.
- O Sr. Malfoy então viu uma extraordinária aparição. Você
pode imaginar o que teria sido, Potter?
- Não - respondeu Harry; agora tentando parecer
inocentemente curioso.
- Foi a sua cabeça, Potter flutuando no ar.
Fez-se um longo silêncio.
- Talvez seja bom ele ir procurar Madame Pomfrey -
sugeriu Harry. - Se anda vendo coisas como...
- Que é que a sua cabeça estaria fazendo em Hogsmeade,
Potter? - perguntou Snape suavemente. - A sua cabeça não tem
permissão de ir a Hogsmeade. Nenhuma parte do seu corpo tem
permissão de ir a Hogsmeade.
239
- Eu sei, professor - respondeu Harry, tentando manter o
rosto despojado de culpa ou medo. - Parece que Malfoy está
sofrendo alucina...
- Malfoy não está sofrendo alucinações - rosnou Snape, se
curvando com as mãos apoiadas nos braços da cadeira de Harry;
de modo que os rostos dos dois ficaram afastados apenas trinta
centímetros. - Se a sua cabeça estava em Hogsmeade, então o resto
do seu corpo também estava.
- Estive na Torre da Grifinória. Como o senhor me
mandou...
- Alguém pode confirmar isso?Harry não respondeu. A
boca de Snape se torceu num feio sorriso.
- Então - disse ele se endireitando. - Todo mundo, do
Ministro da Magia para baixo, está tentando manter o famoso
Harry Potter a salvo de Sirius Black. Mas o famoso Harry Potter
faz as suas próprias leis. Que as pessoas comuns se preocupem
com a sua segurança! O famoso Harry Potter vai aonde quer, sem
medir as conseqüências.
Harry ficou calado. Snape estava tentando provocá-lo a
dizer a verdade. Pois ele não ia dizer, Snape não tinha provas -
ainda.
- E extraordinário como você se parece com o seu pai,
Potter. - disse Snape de repente, os olhos brilhando. - Ele também
era muitíssimo arrogante. Um pequeno talento no campo de
quadribol o fazia pensar que estava acima dos demais. Exibia-se
pela escola com seus amigos e admiradores... A semelhança entre
vocês dois é fantástica.
- Meu pai não se exibia - disse Harry, antes que pudesse se
refrear. - E eu também não.
- Seu pai também não ligava para as regras - continuou
Snape, aproveitando a vantagem obtida, seu rosto magro cheio de
malícia.
- Regras foram feitas para meros mortais, não para
vencedores da Taça de Quadribol. Era tão cheio de si...
- CALE A BOCA!
Harry, de repente, se levantou. Uma raiva como ele não
sentia desde a última noite na rua dos Alfeneiros atravessou seu
corpo. Ele não se importou que o rosto de Snape tivesse
240
enrijecido, que os olhos negros lampejassem perigosamente.
- Que foi que você disse a mim, Potter?
- Disse para parar de falar do meu pai! - berrou Harry. -
Conheço a verdade, está bem? Dumbledore me contou! O senhor
nem estaria aqui se não fosse o meu pai!
A pele macilenta de Snape ficou da cor de leite azedo.
- E o diretor lhe contou as circunstâncias em que seu pai sal
vou a minha vida? - sussurrou. - Ou será que considerou os
detalhes demasiado indigestos para os ouvidos delicados do
precioso Potter?
Harry mordeu o lábio. Não sabia o que acontecera e não
queria admiti-lo - mas Snape parecia ter adivinhado a verdade.
- Eu detestaria que você saísse por aí com uma idéia falsa
sobre seu pai, Potter - disse ele, com um sorriso horrível
deformando-lhe o rosto, - Será que você andou imaginando um
glorioso ato de heroísmo? Então me dê licença para corrigi-lo: o
seu santo paizinho e seus amigos me pregaram uma peça muito
divertida que teria provocado a minha morte se o seu pai não
tivesse se acovardado no último instante. Não houve coragem
alguma no que ele fez. Estava salvando a própria pele junto com a
minha. Se a peça tivesse chegado ao fim, ele teria sido expulso de
Hogwarts.
Os dentes irregulares e amarelados de Snape estavam
arreganhados.
- Vire seus bolsos pelo avesso, Potter! - disse ele, de súbito,
e com rispidez.
Harry não se mexeu. Sentia o sangue latejar nos ouvidos.
- Vire seus bolsos pelo avesso ou vamos ver o diretor
agora! Pelo avesso, Potter!
Gelado de medo, Harry tirou do bolso a saca com artigos
da Zonko's e o Mapa do Maroto.
Snape apanhou a saca da Zonko's.
- Foi Rony que me deu - informou Harry, rezando para ter
uma chance de avisar Rony antes que Snape o visse. – Ele...
trouxe para mim de Hogsmeade da última vez...
- Verdade? E você anda carregando isso desde então? Que
comovente... e o que é isto?
Snape apanhara o mapa. Harry tentou com todas as forças
241
manter o rosto impassível,
- Um pedaço de pergaminho - disse, sacudindo os ombros.
Snape revirou-o, mantendo os olhos fixos em Harry.
- Com certeza você não precisa de um pedaço de
pergaminho tão velho? - comentou. - Por que não... jogá-lo fora?
Ele estendeu a mão para a lareira.
- Não! - exclamou Harry depressa.
- Então - disse Snape com as narinas trêmulas. - Será que é
mais um precioso presente do Sr. Weasley? - Ou será que é outra
coisa? Uma carta, talvez, escrita com tinta invisível? Ou instruções
para ir a Hogsmeade sem passar pelos dementadores?
Harry piscou. Os olhos de Snape brilharam.
- Vejamos, vejamos... - murmurou ele, puxando a varinha e
alisando o mapa em cima da escrivaninha. - Revele o seu segredo!
- disse, tocando o pergaminho com a varinha.
Nada aconteceu, Harry fechou as mãos para impedi-las de
tremer.
- Mostre-se! - disse Snape, dando uma batida forte no
mapa. O mapa continuou em branco. Harry inspirou
profundamente para se acalmar.
- Severo Snape, professor desta escola, ordena que você
revele a informação que está ocultando! - disse ele, batendo no
mapa com a varinha.
Como se uma mão invisível estivesse escrevendo,
começaram a surgir palavras na superfície lisa do mapa.
O Sr Alado apresenta seus cumprimentos ao Prof Snape e
pede que ele não meta seu nariz anorrnalmente grande no que não
é de sua conta.
Snape congelou. Harry arregalou os olhos, para a
mensagem, aparvalhado. Mas o mapa não parou aí. Outras frases
apareceram embaixo da primeira.
Sr Pontas concorde, com o Sr Aluado e gostaria de
acrescentar que o Prof Snape é um safado mal acabado.
Teria sido muito engraçado se a situação não fosse tão
grave. E havia mais..
O Sr. Almofadinhas gostaria de deixar registrado o seu
espanto de que um idiota desse calibre tenha chegado a professor.
Harry fechou os olhos horrorizados. Quando os reabriu, o
242
mapa tinha dito a última palavra.
O Sr Rabicho deseja ao Prof. Snape um bom dia e
aconselha a esse seboso que lave os cabelos.
Harry esperou a pancada atingi-lo.
- Então - disse Snape suavemente. -Veremos...
O professor foi até a lareira, agarrou um punhado de pó
brilhante e atirou-o nas chamas.
- Lupin! - gritou Snape para o fogo. - Quero dar uma
palavrinha com você!
Absolutamente perplexo Harry olhou para o fogo. Surgiu
uma sombra enorme que rodopiava muito depressa. Segundos
depois, o Prof. Lupin saia da lareira, sacudindo as cinzas das
roupas enxovalhadas.
- Você me chamou, Severo? - perguntou Lupin
suavemente.
- Claro que chamei - retrucou Snape, o rosto contorcido de
fúria ao voltar para sua escrivaninha. - Acabei de pedir a Potter
para esvaziar os bolsos. Ele trazia isto com ele.
Snape apontou para o pergaminho, em que as palavras dos
Srs. Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas ainda brilhavam.
Uma expressão estranha e reservada apareceu no rosto de Lupin.
-E daí?
Lupin continuou a olhar fixamente para o mapa. Harry teve
a impressão de que ele estava avaliando a situação muito
rapidamente.
- E então? - insistiu Snape. - Este pergaminho obviamente
está repleto de magia negra. Pelo visto isto é a sua especialidade,
Lupin. Onde você acha que Potter arranjou uma coisa dessas?
Lupin ergueu a cabeça e, com um levíssimo relanceio na
direção de Harry, alertou-o para não interrompê-lo.
- Repleto de magia negra? - repetiu ele. - É isso mesmo
que você acha, Severo? A mim parece apenas um mero pedaço de
pergaminho que insulta quem o lê. infantil, mas com certeza nada
perigoso. Imagino que Harry o tenha comprado numa loja de
logros e brincadeiras...
- Verdade? - O queixo de Snape tinha endurecido de raiva.
- Você acha que uma loja de logros e brincadeiras podia ter
vendido a ele uma coisa dessas? Você não acha que é mais
243
provável que ele o tenha obtido diretamente dos fabricantes?
Harry não entendeu o que Snape dizia. E, aparentemente,
Lupin também não.
- Você quer dizer, do Sr. Rabicho ou um dos outros? Harry,
você conhece algum desses homens?
- Não - respondeu Harry depressa.
- Está vendo, Severo? - disse Lupin voltando-se para
Snape. -A mim parece um produto da Zonko's...
Bem na hora, Rony irrompeu pela sala. Estava
completamente sem fôlego e parou diante da escrivaninha de
Snape, a mão apertando o peito, tentando falar.
- Eu... dei... isso... a... Harry - disse sufocado.-Comprei... na
Zonko's... há... séculos.
- Bem! - disse Lupin batendo palmas e olhando à sua volta
animado. - isso parece esclarecer tudo! Severo, vou devolver isto,
posso? - Ele dobrou o mapa e o guardou nas vestes. - Harry e
Rony, venham comigo preciso dar uma palavra sobre a redação
dos vampiros, você nos dá licença, Severo.
Harry não se atreveu a olhar para Snape ao deixarem a sala
do professor. Ele, Rony e Lupin voltaram ao saguão de entrada
antes de se falarem. Então Harry se dirigiu a Lupin.
- Professor, eu...
- Não quero ouvir explicações - disse Lupin aborrecido.
Espiou o saguão vazio e baixou a voz. - Por acaso eu sei que este
mapa foi confiscado pelo Sr. Filch há muitos anos. E, eu sei que é
um mapa - disse ele aos surpresos garotos. - Não quero saber
como você o obteve. Estou abismado, no entanto, que não o tenha
entregado a alguém responsável. Especialmente depois do que
aconteceu na última vez em que um aluno deixou uma informação
sobre o castelo largada por aí. E não posso deixar você ficar com o
mapa, Harry.
O garoto esperara isso e estava demasiado ansioso por
informações para protestar.
- Por que Snape achou que eu tinha obtido o mapa dos
fabricantes?
- Porque... - Lupin hesitou -, porque a intenção desses
fabricantes de mapas era atraí-lo para fora da escola. Teriam
achado isso muitíssimo divertido.
244
- O senhor os conhece? perguntou Harry impressionado.
- Já nos encontramos - disse o professor com rispidez.
Olhava para Harry mais sério do que jamais olhara.
"Não espere que lhe dê cobertura outra vez, Harry. Não
posso fazer você levar Sirius Black a sério. Mas eu teria pensado
que o que você ouve quando os dementadores se aproximam teria
produzido algum efeito em você. Os seus pais deram a vida para
mantê-lo vivo, Harry. E uma retribuição indigente, trocar o
sacrifício deles por uma saca de truques mágicos".
O professor se afastou, deixando Harry se sentindo muito
pior do que em qualquer momento que passara na sala de Snape.
Lentamente, ele e Rony subiram a escadaria de mármore. Quando
Harry passou pela bruxa de um olho só, lembrou-se da Capa da
Invisibilidade - continuava lá embaixo, mas ele não se atreveu a ir
buscá-la. - A culpa é minha - disse Rony sem rodeios. - Eu o
convenci a ir, Lupin tem razão, foi uma estupidez e não devíamos
ter feito isso...
Ele parou de falar; tinham chegado ao corredor onde os
trasgos de segurança estavam patrulhando e Hermione vinha ao
encontro dos dois. Uma olhada no rosto dela convenceu Harry de
que ela ouvira falar do que acontecera. Sentiu um peso no coração
- será que ela contara à Profª McGonagall?
-Veio tripudiar? - perguntou Rony ferozmente quando a
garota parou diante deles. - Ou acabou de nos denunciar?
- Não - respondeu Hermione. Ela segurava uma carta nas
mãos e seus lábios tremiam. - Só achei que vocês deviam saber...
Hagrid perdeu o caso Bicuço vai ser executado.
245
- CAPITULO QUINZE –
Afinal do campeonato de quadribol
- Ele... ele me mandou isto disse Hermione entregando a carta.
Harry apanhou-a. O pergaminho estava úmido, e enormes gotas de
lágrimas tinham borrado tão completamente a tinta em alguns
pontos que era difícil ler a carta.
Cara Mione,
Perdemos. Tive permissão de trazer Bicuço de volta a
Hogwarts. A data da execução vai ser marcada. Bicucinho
gostou de Londres.
Não vou esquecer toda a ajuda que você nos deu.
Hagrid
- Eles não podem fazer isso - disse Harry. - Não podem.
Bicuço não é perigoso.
- O pai de Malfoy deve ter intimidado a Comissão para ela
fazer isso - disse Hermione, enxugando as lágrimas. - Vocês
sabem como ele é. Os outros são um bando de velhos caducos e
bobos e ficaram com medo. Mas vai haver recurso, sempre há. Só
que não consigo ver nenhuma esperança. Nada vai mudar até lá.
- Vai, sim - disse Rony com ferocidade. - Você não vai ter
que fazer o trabalho todo sozinha desta vez, Mione. Eu vou ajudar.
- Ah, Rony!
Hermione atirou os braços ao pescoço de Rony e desabou
completamente. Rony com cara de terror acariciou muito sem jeito
o topo da cabeça da garota. Finalmente, ela se afastou.
- Rony, eu realmente sinto muito, muito mesmo, pelo
Perebas... - soluçou ela.
- Ah.... bem... ele estava velho - disse Rony; parecendo
muitíssimo aliviado por Hermione o ter soltado. - E estava ficando
246
meio inútil. Nunca se sabe, talvez mamãe e papai me comprem
uma coruja agora.
As medidas de segurança impostas aos alunos desde a
segunda invasão de Black impediram que Harry; Rony e
Hermione fossem visitar Hagrid à noite. A única oportunidade
que tinham de falar com ele era durante a aula de Trato das
Criaturas Mágicas.
Ele parecia ter ficado aparvalhado com o veredicto da
Comissão.
- É tudo minha culpa. Me atrapalhei para falar. Eles
estavam sentados lá, vestidos de preto, e eu não parava de deixar
cair as minhas anotações e esquecer as datas que você viu para
mim, Mione. Depois Lúcio Malfoy ficou em pé e falou, e a
Comissão fez exatamente o que ele mandou...
- Ainda tem recurso! - disse Rony ferozmente. - Não
desista ainda, estamos trabalhando nisso!
Os quatro regressavam ao castelo com o restante da classe.
Á frente, viam Malfoy, que caminhava com Grabbe e Goyle e não
parava de olhar para trás, rindo com ar de deboche.
- Não adianta, Rony - disse Hagrid, muito triste, quando
chegavam à entrada do castelo. - Aquela comissão faz o que Lúcio
Malfoy manda. Eu só vou tomar providências para que os últimos
dias do Bicucinho sejam os mais felizes que teve na vida. Devo
isso a ele.
Hagrid deu meia-volta e saiu correndo em direção à sua
cabana, o rosto escondido no lenço.
- Olhem só ele chorando feito um bebezão!
Malfoy, Crabbe e Goyle tinham parado às portas do
castelo, escutando.
- Vocês já viram uma coisa mais patética? - perguntou
Malfoy?
- E dizem que ele é nosso professor!
Harry e Rony se voltaram com violência para Malfoy, mas
Hermione chegou primeiro
Ela deu um tapa na cara de Malfoy com toda a força que
conseguiu reumr. Malfoy cambaleou. Harry, Rony, Crabbe e
Goyle ficaram parados, estupefatos, enquanto Hermione tornava a
levantar a mão.
247
- Não se atreva a chamar Hagrid de patético, seu sujo... seu
perverso...
- Mione! - exclamou Rony com a voz fraca, e tentou
segurar a mão da garota ao vê-la tomar novo impulso.
- Sai, Rony!
Hermione puxou a varinha, Malfoy recuou, Crabbe e Goyle
olharam para ele pedindo instruções, inteiramente abobados.
- Vamos - murmurou Malfoy e, num instante, os três
tinham desaparecido no corredor que levava às masmorras.
- Mione! - tornou a exclamar Rony, parecendo ao mesmo
tempo espantado e impressionado.
- Harry, acho bom você dar uma surra nele na final de
quadribol! - disse a garota com a voz esganiçada. - Acho bom dar,
porque não vou suportar ver Sonserina vencer!
- Está na hora da aula de Feitiços - disse Rony; ainda
olhando para Hermione. - É melhor a gente ir andando.
E os três subiram correndo a escadaria de mármore para
chegar à classe do Prof. Flitwick.
- Vocês estão atrasados, garotos! - disse o professor, em
tom de censura, quando Harry abriu a porta da sala. – Vamos,
depressa, tirem as varinhas, hoje estamos fazendo experiências
com os feitiços para animar, já dividimos os pares.
Harry e Rony correram para as carteiras ao fundo e abriram
as mochilas. Rony olhou para trás.
- Aonde é que foi a Mione?
Harry também a procurou. Hermione não entrara na sala,
no entanto, Harry sabia que a garota estivera bem ao seu lado
quando ele abrira a porta.
- Que coisa esquisita - comentou Harry, encarando Rony. -
Vai ver... vai ver ela foi ao banheiro ou outra coisa qualquer.
Mas a garota não apareceu durante toda a aula.
- Ela bem que precisava de um feitiço para animar também
-comentou Rony quando os alunos saíram para almoçar todos
muito sorridentes, os feitiços para animar tinham deixado em
todos uma sensação de grande contentamento.
Hermione não apareceu no almoço tampouco. Na altura em
que terminar a torta de maçã, os efeitos dos feitiços estavam se
dissipando, e Harry e Rony começaram a se preocupar um pouco.
248
- Você acha que Draco fez alguma coisa a ela? - perguntou
Rony; ansioso, quando seguiam apressados para a Torre da
Grifinória.
Passaram pelos trasgos de segurança, deram a senha à
Mulher Gorda (..Flibbertigibbet..) e treparam pelo buraco do
retrato para chegar à sala comunal.
Hermione estava sentada à mesa profundamente
adormecida, a cabeça pousada sobre um livro aberto de
Aritmancia. Os garotos se sentaram, um de cada lado. Harry
cutucou-a de leve para acordá-la.
Q..... quê? - exclamou Hermione, acordando e olhando
assustada para os lados. - Já está na hora de ir? ~.. qual é a aula
que temos agora?
- Adivinhação, mas só daqui a vinte minutos - respondeu
Harry - Mione por que você não foi à aula de Feitiços?
- Quê? Ah não! - guinchou Hermione. - Me esqueci de ir à
aula de Feitiços!
- Mas como é que você pôde esquecer? - perguntou Harry.
-Você estava conosco até chegarmos à porta da sala de aula!
- Eu não acredito! - lamentou-se Hermione - O Prof.
Flitwick ficou aborrecido? Ah, foi o Malfoy, eu estava pensando
nele e me atrapalhei!
- Sabe de uma coisa, Mione? - disse Rony, olhando para o
livrão de Aritmancia que a garota estivera usando como
travesseiro.
- Acho que você está sofrendo um colapso mental. Está
tentando fazer coisas demais.
- Não estou, não! - retrucou ela, afastando os cabelos dos
olhos e procurando a mochila, com um ar de desamparo. - Foi só
um engano! É melhor eu procurar o Prof Flitwick e pedir
desculpas... vejo vocês na aula de Adivinhação!
Hermione se reuniu aos dois garotos ao pé da escada para a
sala da Profª Sibila, vinte minutos mais tarde, com um ar
extremamente encabulado.
- Não posso acreditar que perdi os feitiços para animar! E
aposto como vão cair nos exames; o Prof. Flitwick insinuou que
poderiam cair!
Juntos, eles subiram a escada para a sala escura e abafada
249
da torre. Brilhando em cada mesinha havia uma bola de cristal
cheia de uma névoa branco-pérola. Harry, Rony e Hermione se
sentaram juntos à mesma mesa bamba.
- Pensei que não íamos começar bolas de cristal antes do
próximo trimestre - resmungou Rony, lançando à sala um olhar
preocupado, à procura da professora, caso ela estivesse
espreitando por ali.
- Não reclame, isso significa que terminamos quiromancia -
murmurou Harry em resposta. - Eu já estava ficando cheio de ver
Trelawney fazer careta de aflição todas as vezes que examinava as
minhas mãos.
- Bom dia para todos! - saudou a voz etérea e familiar, e a
professora saiu das sombras em sua costumeira e dramática
aparição. Parvati e Lilá estremeceram de excitação, os rostos
iluminados pelo brilho leitoso das bolas de cristal.
- Resolvi começar a bola de cristal mais cedo do que tinha
planejado - disse a professora, sentada de costas para a lareira,
olhando para a turma. - As Parcas me informaram que o exame de
vocês em junho tratará do orbe, e estou ansiosa para oferecer-lhes
muita prática.
Hermione deu uma risadinha.
- Bem, francamente... ..as Parcas a informaram..... quem é
que prepara o exame? Ela mesma! Que profecia assombrosa! -
continuou a garota sem se preocupar em manter a voz baixa. Harry
e Rony sufocaram risadinhas.
Era difícil dizer se a professora os ouvira, pois seu rosto
estava oculto pelas sombras. Ela, no entanto, continuou como se
não tivesse ouvido.
- A vidência com a bola de cristal é uma arte
particularmente requintada - disse em tom sonhador. - Por isso não
espero que vocês vejam alguma coisa ao procurarem examinar
pela primeira vez as profundezas infinitas do orbe. Vamos
começar praticando o relaxamento da mente consciente e da visão
exterior - Rony começou a soltar risadinhas irrefreáveis e precisou
meter o punho na boca para abafar o som - para vocês poderem
limpar a visão interior e a supra-consciência. Talvez, se tivermos
sorte, alguns de vocês consigam ver alguma coisa antes do fim da
aula.
250
E então começaram a praticar Harry, pelo menos, sentiu-se
extremamente bobo de mirar a bola de cristal, tentando manter a
mente vazia, enquanto pensamentos do tipo que coisa mais idiota,
não paravam de lhe ocorrer. Rony não ajudava nada com seus
acessos de riso silencioso nem Hermione com seus muxoxos.
- Viram alguma coisa? - perguntou Harry aos dois, depois
de manter os olhos fixos na bola uns quinze minutos.
- Já, tem uma queimadura no tampo dessa mesa - disse
Rony apontando. - Alguém derrubou uma vela. - isto é uma baita
perda de tempo - sibilou Hermione. - Eu podia estar praticando
alguma coisa útil. Podia estar recuperando a matéria de feitiços
para animar...
A Profª Sibila passou farfalhando.
- Alguém gostaria que eu ajudasse a interpretar os portentos
obscuros que aparecem em seu orbe? - murmurou sobrepondo a
voz ao tilintar dos seus badulaques.
- Eu não preciso de ajuda - sussurrou Rony. - É óbvio o que
isto significa. Vai haver um nevoeiro daqueles hoje à noite.
Harry e Hermione explodiram em risadas.
- Ora, francamente! - exclamou a Profª Trelawney quando
todas as cabeças dos alunos se viraram em sua direção.
Parvati e Lilá fizeram caras escandalizadas.
- Vocês estão perturbando as vibrações da vidente!
A professora se aproximou da mesa dos garotos e espiou as
bolas de cristal dos três. Harry sentiu um grande desânimo. Tinha
certeza de que sabia o que viria a seguir.
- Vejo algo aqui! - sussurrou a professora, aproximando o
rosto da bola, de modo que esta se refletiu duas vezes em seus
enormes óculos. - Alguma coisa que se move, mas o que é isso?
Harry estava preparado para apostar tudo que tinha,
inclusive a Firebolt, que, seja o que fosse, não seria uma boa
notícia. E não deu outra...
- Meu querido... - sussurrou a professora, erguendo os
olhos para ele. - Está aqui, mais claro que antes... meu querido,
aproximando-se de você, cada vez mais perto... o Sin..
- Ah, pelo amor de Deus! - exclamou Hermione em voz
alta, -Não é aquele ridículo Sinistro outra ver!
A Profª Sibila ergueu os enormes olhos para a garota,
251
Parvati cochichou alguma coisa com Lilá, e as duas olharam feio
para Hermione também. A professora se ergueu, fitando Hermione
com inconfundível raiva.
- Sinto dizer que do instante em que você entrou nesta sala
minha querida, ficou evidente que não tinha o talento que a nobre
arte da Adivinhação exige. Na verdade, eu não me lembro de
jamais ter encontrado uma aluna cuja mente fosse tão
irreparavelmente terrena.
Seguiu-se um momento de silêncio. Então.. - Ótimo! -
exclamou Hermione, de repente, levantando-se e enfiando o
exemplar de Esclarecendo o futuro na mochila, - Ótimo! - repetiu,
atirando a mochila sobre o ombro e quase derrubando Rony da
cadeira. - Eu desisto! Vou-me embora.
E para assombro da turma, Hermione se dirigiu ao alçapão,
abriu-o com um pontapé e desceu a escada, desaparecendo de
vista.
Levou alguns minutos para todos se aquietarem outra vez.
A professora parecia ter se esquecido completamente do Sinistro.
Deu as costas, bruscamente, à mesa de Harry e Rony, respirando
forte e ajeitando o diáfano xale mais perto do corpo,
- Ooooo! - exclamou Lilá de repente, assustando todo
mundo.
- Oooooo, Profª Sibila, acabei de me lembrar! A senhora
viu a Hermione nos deixando, não foi? Não foi, professora? Na
altura da Páscoa, alguém aqui vai deixar o nosso convívio para
sempre! A senhora disse isso há um tempão, professora!
Sibila, sorriu suavemente,
- É verdade, minha querida, eu sabia que a Srta. Granger
iria nos deixar. Esperemos, no entanto, que tenhamos nos
enganado com os sinais. A visão interior pode ser um fardo,
sabem.
Lilá e Parvati pareceram profundamente interessadas e
trocaram de lugar para que a professora pudesse parar à mesa
delas.
- Um dia Hermione vai capotar, hem? - murmurou Rony
para Harry, fazendo cara de espanto,
-É...
Harry examinou mais uma vez a bola de cristal, mas não
252
viu nada além de uma névoa espiralada. Será que a professora
vira, de fato, o Sinistro novamente? Será que ele, Harry, veria? A
última coisa de que precisava era outro acidente quase fatal, com a
final de quadribol cada dia mais próxima.
As férias da Páscoa não foram exatamente relaxantes. Os
alunos do terceiro ano nunca tinham recebido tantos deveres para
casa. Neville Longbottom parecia às vésperas de um colapso
nervoso, e não era o único.
- Chamam a isso de férias! - bradou Simas Finnigan certa
tarde na sala comunal. - Ainda faltam séculos para os exames, qual
é a deles!
Mas ninguém tinha tanto a fazer quanto Hermione. Mesmo
sem Adivinhação, ela estava estudando mais matérias do que
todos os outros. Em geral era a última a deixar a sala comunal à
noite, a primeira a chegar na biblioteca na manhã seguinte; tinha
olheiras iguais as de Lupin e parecia estar constantemente prestes
a cair no choro.
Rony assumira a responsabilidade pelo recurso de Bicuço.
Quando não estava cuidando dos próprios deveres, estava
examinando volumes grossíssimos com títulos do tipo O manual
da psicologia do hipogrifo e Ave ou vilão? Um estudo sobre a
brutalidade do hipogrifo. Ficou tão absorto que até se esqueceu de
ser antipático com o Bichento.
Entrementes, Harry teve que encaixar os deveres entre os
treinos diários de quadribol, para não falar das intermináveis
discussões de táticas com Olívio. A partida Grifinória-Sonserina
fora marcada para o primeiro sábado depois das férias da Páscoa.
Sonserina liderava o campeonato por exatos duzentos pontos. Isto
significava (conforme Olívio não parava de lembrar ao seu time)
que eles precisavam vencer a partida por um número de pontos
superior a duzentos para ganhar a Taça. Significava, ainda, que a
responsabilidade de vencer cabia em grande parte a Harry; porque
capturar o pomo valia cento e cinqüenta pontos.
- Por isso você deve capturar o pomo somente quando
obtivermos uma vantagem de mais de cinqüenta pontos - dizia
Olívio a Harry constantemente. - Só se tivermos mais de cinqüenta
pontos, Harry senão ganhamos a partida, mas perdemos a taça.
253
Você entendeu bem? Você só pode apanhar o pomo se tivermos...
- JÁ SEI, OLÍVIO! - berrou Harry.
Toda a Grifinória estava obcecada com a próxima partida.
A casa não ganhava a Taça de Quadribol desde que o lendário
Carlinhos Weasley (o segundo irmão mais velho de Rony) jogara
como apanhador. Mas Harry duvidava se alguém no mundo,
mesmo Olívio, queria essa vitória tanto quanto ele. A inimizade
entre Harry e Malfoy atingira o auge. Malfoy ainda sofria com o
incidente da pelota de lama em Hogsmeade e ficara ainda mais
furioso que Harry tivesse conseguido escapar do castigo. Harry;
por sua vez, não se esquecia da tentativa de Malfoy de sabotá-lo
durante o jogo contra Corvinal, mas foi o caso de Bicuço que o
deixou ainda mais decidido a vencer Malfoy diante da escola
inteira.
Nunca, na lembrança de ninguém, uma partida se
aproximara com uma atmosfera tão carregada. Quando as férias
terminaram, a tensão entre os dois times e suas casas estava a
ponto de explodir. Pequenas brigas irrompiam nos corredores, que
culminaram em um incidente perverso, no qual um quartanista da
Grifinória e um sextanista da Sonserina acabaram na ala
hospitalar, com alhos-porós brotando dos ouvidos.
Harry, pessoalmente, estava passando um mau pedaço. Não
podia ir e vir sem que os alunos da Sonserina esticassem as pernas
tentando fazê-lo tropeçar; Crabbe e Goyle não paravam de
aparecer onde quer que ele esteja e se afastar desapontados quando
o via cercado de colegas. Olívio dera instruções para que Harry
estivesse sempre acompanhado em todo lugar, para a
eventualidade de algum aluno da Sonserina querer inutiliza-lo para
o jogo. Toda a Grifinória assumiu o desafio com entusiasmo,
tornando impossível Harry chegar às aulas na hora certa, porque
andava rodeado por uma aglomeração de colegas barulhentos. Mas
o garoto se preocupava mais com a segurança da Firebolt do que
com a própria. Quando não estava voando, ele trancava a vassoura
no malão e muitas vezes dava uma corrida à Torre da Grifinória,
nos intervalos das aulas, para verificar se ela continuava lá.
Todas as atividades normais na sala comunal foram
254
abandonadas na véspera do jogo. Até Hermione pusera os livros
de lado.
- Não consigo estudar, não consigo me concentrar -
comentou ela; nervosa.
Havia uma grande algazarra. Fred e Jorge Weasley
enfrentavam a pressão agindo com mais barulho e exuberância que
nunca. Olívio estava a um canto debruçado sobre a maquete, de
um campo de quadribol, empurrando bonequinhos com a varinha e
resmungando. Angelina, Alicia e Katie riam das piadas de Fred e
Jorge. Harry se sentara com Rony e Hermione afastado do centro
das atividades, procurando não pensar no dia seguinte, porque toda
vez que o fazia, tinha a terrível sensação de que alguma coisa
enorme estava tentando voltar do seu estômago.
- Você vai se sair bem - disse Hermione a ele, embora
parecesse decididamente aterrorizada.
- Você tem uma Firebolt! - animou-o Rony.
- É... - respondeu Harry, o estômago se revirando.
Foi um alívio quando Wood se levantou e gritou:
- Time! Cama!
Harry dormiu mal. Primeiro sonhou que perdera a hora e
que Olívio gritava."Onde é que você se meteu? Tivemos que
chamar Neville para substitui-lo!" Depois sonhou que Malfoy e o
resto do time da Sonserina chegavam para a partida montados em
dragões. Harry voava a uma velocidade vertiginosa, tentando
evitar o jorro de chamas que sala da boca da montaria de Malfoy,
quando percebeu que esquecera sua vassoura. Começou, então, a
cair pelo ar e acordou assustado.
Levou alguns segundos para se lembrar que a partida ainda
não se realizara, que estava seguro em sua cama, e que,
decididamente, o time da Sonserina não teria permissão para jogar
montado em dragões. Sentiu uma sede enorme. O mais
silenciosamente que pôde, levantou-se da cama de colunas e foi se
servir de água de uma jarra de prata sob a janela.
Não havia movimento nem som nos jardins. Nenhum.
sopro de vento perturbava as copas das árvores na Floresta
Proibida; o Salgueiro Lutador estava imóvel e transpirava
255
inocência. Parecia que as condições para a partida seriam
perfeitas.
Harry pousou o copo e já ia voltar para a cama quando
alguma coisa prendeu sua atenção. Havia um animal rondando o
gramado prateado.
Harry correu à sua mesa-de-cabeceira, apanhou os óculos,
colocou-os, e voltou depressa à janela. Não podia ser o Sinistro -
não agora - não na véspera da partida...
Ele tornou a espiar os jardins e, depois de uma busca
ansiosa, localizou-o. O animal ia contornando a orla da floresta
agora... Não era o Sinistro... era um gato... Harry agarrou o peitoril
da janela aliviado ao reconhecer aquele rabo de escovinha. Era só
o Bichento...
Ou seria só o Bichento? Harry apurou a vista,
esborrachando o nariz contra a vidraça. Bichento parecia ter
parado. O menino teve certeza de que estava vendo outra coisa
andando sob a sombra das árvores, também.
E naquele momento, ele apareceu - um cão gigantesco,
peludo e negro, que se movia sorrateiramente pelos gramados.
Bichento caminhava ao seu lado. Harry arregalou os olhos. Que
significaria isso? Se Bichento também via o cão, como é que ele
podia ser um agouro da morte de Harry?
- Rony! - sibilou Harry; - Rony! Acorda!
- Hum?
- Preciso que você me diga se vê uma coisa!
- Tá tudo escuro, Harry - murmurou o amigo com a voz
empastada. - Do que é que você está falando?
- Ali embaixo...
Harry espiou depressa pela janela.
Bichento e o cão haviam desaparecido. Ele subiu, então, no
peitoril para ver lá embaixo, nas sombras do castelo, mas os
bichos não estavam mais lá. Aonde teriam ido?
Um forte ronco lhe informou que Rony tornara a cair no
sono.
Harry e o resto do time da Grifinória entraram no Salão
Principal, no dia seguinte, sob uma tempestade de aplausos. O
256
garoto não pôde deixar de dar um grande sorriso quando viu que
as mesas da Corvinal e Lufa-Lufa os aplaudiam também. A mesa
da Sonserina vaiou alto quando eles passaram. Harry reparou que
Malfoy parecia mais pálido do que de costume.
Olívio passou o café da manhã inteiro insistindo para que o
time comesse, sem, contudo, se servir de nada. Depois apressou-os
a se dirigirem ao campo antes que os outros tivessem terminado,
para terem uma idéia das condições de jogo. Quando saíram do
Salão Principal, receberam novos aplausos.
- Boa sorte, Harry! - gritou Cho. Harry sentiu o rosto corar.
-OK... não tem vento... o sol está meio forte, o que pode
prejudicar a visão, tomem cuidado... o chão está bem firme, bom,
isso vai nos dar um bom impulso inicial...
Olívio andou pelo campo examinando tudo, com o time
atrás. Finalmente, eles viram as portas do castelo se abrirem ao
longe e o restante da escola se espalhar pelos gramados.
- Vestiário - disse Olívio tenso.
Ninguém falou enquanto se despiam e vestiam os
uniformes vermelhos. Harry ficou imaginando se todos estariam se
sentindo como ele: como se tivesse comido alguma coisa que se
mexia demais dentro da barriga. Não parecia ter transcorrido mais
que um segundo quando ele ouviu Olívio dizer:
-OK, pessoal, vamos...
O time entrou em campo sob uma onda gigantesca de
aplausos. Três quartos da torcida usavam rosetas vermelhas,
agitavam bandeiras vermelhas com o leão da Grifinória ou faixas
com palavras de ordem: ..PRA FRENTE GRIFINÓRIA!" e "A
COPAS DOS LEÕES!". Atrás das balizas da Sonserina, porém,
duzentos torcedores se cobriam de verde; a serpente prateada da
casa refulgia em suas bandeiras e o Prof. Snape estava sentado na
primeira fila, vestindo verde como os demais, exibindo um sorriso
muito sinistro.
"E aí vem o time da Grifinória! - bradou Lino Jordan, que,
como sempre, fazia a irradiação. - Potter, Bell, Johnson, Spinnet,
Weasley, Weasley e Wood. Considerado por todos o melhor time
que Hogwarts já viu em muitos anos..."
Os comentários de Lino foram abafados por uma onda de
vaias da torcida da Sonserina.
257
"E aí vem o time da Sonserina, liderado pelo capitão Flint.
Ele fez algumas alterações no esquema tático e parece ter
preferido o peso a qualidade..."
Mais vaias da torcida da Sonserina. Harry, porém, achou
que Lino tinha razão. Malfoy era, sem discussão, o menor jogador
do time; todos os outros eram enormes.
Capitães, apertem-se as mãos! - disse Madame Hooch.
Flint e Wood se aproximaram e se apertaram as mãos com
força; davam a impressão de que estavam querendo quebrar os
dedos um do outro.
Montem nas vassouras! - disse Madame Hooch. - Três. dois
um...
O som do seu apito se perdeu no estrondo das torcidas na
hora em que as catorze vassouras levantaram vôo. Harry sentiu os
cabelos voarem para longe da testa; seu nervosismo o abandonou
na excitação do vôo; olhou para os lados e viu Malfoy na sua
esteira e aumentou a velocidade para ir à procura do pomo.
"E Grifinória com a posse da bota, Alicia Spinnet da
Grifinória com a goles, voando direto para as balizas da Sonserina,
em boa forma, Alicia! Arre, não - a goles foi interceptada por
Warrington, Warrington da Sonserina partindo em velocidade pelo
campo -PAM! - uma boa rebatida de um balaço por Jorge
Weasley, Warrington deixa cair a goles, que é apanhada por
Jobnson, Grifinória com a posse da bola outra vez, ai Angelina -
bom desvio de Montague - se abaixa Angelina, aí vem um
balaço!- ELA MARCA! DEZ A ZERO PARA GRIFINÓRIA!',
Angelina deu um soco no ar ao sobrevoar o extremo do
campo; o mar vermelho nas arquibancadas berrou de felicidade...
Angelina quase foi derrubada da vassoura por Marcos Flint
ao colidir em cheio com ela.
- Desculpe! - disse Flint enquanto os torcedores lá embaixo
vaiavam. - Desculpe eu não vi a jogadora!
Não demorou muito, Fred Weasley atirou o bastão contra a
cabeça de Flint, cujo nariz bateu com força no cabo da vassoura e
começou a sangrar.
- Chega! - gritou Madame Hooch, mergulhando entre os
dois. - Pênalti contra Grifinória pelo ataque gratuito ao artilheiro
do seu adversário! Pênalti contra Sonserina por prejuízo
258
intencional ao artilheiro do seu adversário!
- Ah, nem vem! - berrou Fred, mas Madame Hooch apitou
e Alicia se adiantou para cobrar o pênalti.
"Ai, Alicia! - gritou Lino no silêncio que se abatera sobre
as arquibancadas. - SIM, SENHORES! ELA FUROU O
GOLEIRO! VINTE A ZERO PARA GRIFINÓRIA!,'
Harry' deu uma guinada na Firebolt para ver Flint, ainda
sangrando à beça, voar para cobrar o pênalti contra Sonserina.
Olívio sobrevoava as balizas de Grifinória, os maxilares
contraídos.
"É claro que Wood é um esplêndido goleiro! - comentou
Lino Jordan para os ouvintes enquanto Flint aguardava o apito de
Madame Hooch. Esplêndido! Difícil de vazar - muito difícil
mesmo - SIM SENHORES! EU NÃO ACREDITO! ELE
AGARROU A BOLA!..
Aliviado, Harry se afastou velozmente, espiando para todos
os lados à procura do pomo, mas sem perder nenhuma palavra dos
comentários de Lino. Era fundamental para ele manter Malfoy
afastado do pomo até Grifinória atingir cinqüenta pontos de
vantagem...
"Grifinória com a posse, não, Sonserina com a posse - não!
- Grifinória retoma a posse e é Katie Bell, Katie Bell de Grifinória
com as goles, a jogadora corta o campo - FOI INTENCIONAL!"
Montague, um artilheiro de Sonserina, cortou a frente de
Katie e em vez de agarrar a goles, agarrou a cabeça da jogadora.
Katie deu uma cambalhota no ar, conseguiu continuar montada,
mas deixou cair a goles.
O apito de Madame Hooch soou mais uma vez ao
sobrevoar Montague e começar a gritar com ele. Um minuto
depois, Katie tinha marcado mais um pênalti contra a defesa da
Sonserina.
"TRINTA A ZERO! TOMA, SEU SUJO, SEU
COVARDE..."
- Jordan, se você não consegue irradiar imparcialmente...
- Estou irradiando o que acontece, professora!
Harry sentiu um grande tremor de excitação. Acabara de
ver o pomo - refulgia ao pé de uma das balizas da Grifinória -, mas
ele não devia apanhá-lo por ora e se Malfoy o visse...
259
Fingindo uma expressão de súbita concentração, Harry deu
meia-volta na Firebolt e correu em direção ao campo da Sonserina
- a manobra funcionou. Malfoy saiu a toda velocidade atrás dele,
pensando evidentemente que Harry vira o pomo lá...
CHISPA.
Um dos balaços passou voando pela orelha direita de
Harry, arremessado pelo gigantesco batedor da Sonserina, Derrick.
Então, novamente...
CHISPA.
O segundo balaço roçou pelo cotovelo de Harry. O outro
batedor, Bole, vinha se aproximando.
Harry teve um vislumbre fugaz de Bole e Derrick voando
em sua direção, com os bastões erguidos..
Virou a Firebolt para o alto no último segundo e os dois
batedores colidiram com um baque de provocar náuseas.
"Ha, haaa!", bradou Lino Jordan quando os batedores da
Sonserina se separaram, levando as mãos à cabeça.
"Mau jeito, rapazes! Vão ter que acordas mais cedo para
vencer uma Firebolt! E Grifinória fica com a posse da bola mais
uma vez, quando Johnson toma a goles - Flint emparelhado com
ela - mete o dedo no olho dele, Angelina! - foi só uma brincadeira,
professora, só uma brincadeira - ah não - Flint toma a bola, Flint
voa para as balizas de Grifinória, agora é com você Wood,
agarra...!"
Mas Flint marcou; houve uma erupção de vivas do lado de
Sonserina e Lino xingou tanto que a Profª Minerva McGonagall
tentou arrancar o megafone mágico das mãos dele.
- Desculpe, professora, desculpe! Não vai acontecer de
novo! ..Então, Grifinória está à frente, trinta a dez, e Grifinória
tem a posse...
O jogo estava deteriorando no mais sujo de que Harry já
participara. Enraivecidos porque Grifinória tomara a dianteira
desde o início, os adversários estavam rapidamente recorrendo a
todos os meios para roubar a goles. Bole atingiu Alicia com o
bastão e tentou alegar que pensara que era um balaço. Jorge
Weasley foi à forra dando uma cotovelada na cara de Bole.
Madame Hooch puniu os dois times e Wood fez mais uma defesa
espetacular, elevando o placar para quarenta a dez para Grifinória.
260
O pomo tornara a desaparecer. Malfoy continuou a
acompanhar Harry de perto quando o garoto sobrevoou o campo,
procurando, agora, o pomo - quando Grifinória estiver cinqüenta
pontos à frente...
Katie marcou. Cinqüenta a dez. Fred e Jorge Weasley
mergulharam cercando a garota, os bastões erguidos, caso os
jogadores da Sonserina pensassem em se vingar. Bole e Derrick
aproveitaram a ausência de Fred e Jorge para arremessar os dois
balaços em Wood; eles o atingiram no estômago, um após o outro,
e o goleiro virou de cabeça para baixo no ar, agarrando-se à
vassoura, completamente sem ar.
Madame Hooch ficou fora de si.
- "Não se ataca o goleiro a não ser que a goles esteja na
área do gol"'-gritou ela para Bole e Derrick. - Pênalti a favor da
Grifinória!
E Angelina marcou. Sessenta a dez. Instantes depois Fred
Weasley arremessou um balaço contra Warrington, derrubando a
goles de suas mãos; Alicia apanhou a bola e enterrou-a no gol da
Sonserina - setenta a dez
A torcida da Grifinória lá embaixo estava rouca de tanto
gritar -a casa passara sessenta pontos a frente e se Harry apanhasse
o pomo naquele momento, a taça seria dela O garoto chegava
quase a sentir as centenas de olhos acompanhando-o enquanto
sobrevoava o campo, muito acima das equipes, com Malfoy
correndo atrás dele.
Então Harry o viu. O pomo estava brilhando seis metros
acima dele.
O garoto imprimiu maior velocidade à vassoura; o vento
rugiu em seus ouvidos; ele estendeu a mão, mas, de repente, a
Firebolt começou a desacelerar...
Horrorizado, ele olhou para os lados. Malfoy se atirara para
frente, agarrara a cauda da Firebolt e procurava atrasá-la.
- Seu..
Harry se enfureceu o suficiente para bater em Malfoy, mas
não conseguiu alcançá-lo. Malfoy ofegava com o esforço de
segurar a Firebolt, porém seus olhos brilhavam de malícia.
Conseguira o seu intento - o pomo tornara a desaparecer.
- Pênalti! Pênalti a favor da Grifinória! Nunca vi uma tática
261
igual! - Madame Hooch guinchava, enquanto velozmente se
dirigia até o ponto em que Malfoy deslizava de volta à sua Nimbus
2001.
"SEU SAFADO NOJENTO!", urrava Lino Jordan no
megafone, saltando fora do alcance da Profª McGonagall. "SEU
SAFADO NOJENTO, FILHO..."
A professora nem se deu o trabalho de ralhar com Lino. Na
verdade ela sacudia o dedo na direção de Malfoy, seu chapéu caíra
da cabeça, e ela também berrava furiosamente.
Alicia cobrou o pênalti para Grifinória, mas estava tão
zangada que errou por mais de meio metro. O time da Grifinória
começou a perder a concentração e os jogadores da Sonserina,
encantados com a falta de Malfoy em cima de Harry, se sentiam
estimulados a tentar vôos mais altos.
"Sonserina com a posse, Sonserina corre para o gol...
Montague marca..." gemeu Lino...Setenta a vinte para
Grifinória..."
Harry agora estava marcando Malfoy tão de perto que os
joelhos dos dois se batiam o tempo todo. Harry não ia deixar
Malfoy sequer se aproximar do pomo...
- Sai da frente, Potter! - gritou Malfoy; frustrado, ao tentar
se virar e deparar com Harry no bloqueio.
"..Angelina Johnson pega a goles para Grifinória, aí
Angelina,
VAI, VAI!"
Harry olhou para os lados. Todos os jogadores da
Sonserina, à exceção de Malfoy estavam correndo pelo campo em
direção a Angelina, inclusive o goleiro do time - todos iam
bloqueá-la...
Harry deu meia-volta na Firebolt, curvou-se até deitar o
corpo sobre seu cabo, e impeliu-a para a frente. Como uma bala,
ele se precipitou em alta velocidade contra os jogadores da
Sonserina.
- AAAAARRRRRRRE!
Os jogadores se dispersaram quando viram a Firebolt
vindo; o caminho de Angelina ficou desimpedido.
"ELA MARCOU! ELA MARCOU! Grifinória lidera por
oitenta a vinte!.."
262
Harry, que quase mergulhara de cabeça nas arquibancadas,
parou derrapando no ar, inverteu a direção da vassoura e voltou a
toda para o meio do campo.
E então ele viu uma coisa que fez o seu coração parar
Malfoy estava mergulhando, uma expressão de triunfo no rosto -
lá, a menos de um metro acima do gramado, lá embaixo, havia um
minúsculo reflexo dourado.
Harry apontou a Firebolt para baixo, mas Malfoy estava
quilômetros à sua frente.
- Vai! Vai! Vai! - Harry dizia à vassoura. A distância que o
separava de Malfoy foi diminuindo. Harry deitou-se no cabo da
vassoura quando viu Bole arremessar um balaço contra ele, já
encostara nos calcanhares de Malfoy, emparelhou...
Harry se atirou à frente, tirou as mãos da vassoura. Afastou
o braço de Malfoy do caminho com um empurrão e...
"PEGOU!..
Tirou, então, a vassoura do mergulho, a mão no ar, e o
estádio explodiu. Harry sobrevoou as arquibancadas, um zumbido
estranho nos ouvidos. A bolinha de ouro estava bem segura em
sua mão, batendo inutilmente as asinhas contra seus dedos.
No momento seguinte, Wood veio voando ao seu encontro,
quase cego pelas lágrimas; agarrou Harry pelo pescoço e soluçou
sem se conter no ombro do garoto. Harry sentiu dois grandes
trancos quando Fred e Jorge colidiram com eles; depois as vozes
de Alicia e Katie:
- Ganhamos a Taça! Ganhamos a laça!
Embotados num abraço de muitos braços, o time, da
Grifinória foi descendo, berrando roucamente, de volta ao chão.
Onda sobre onda de torcedores vermelhos saltou as
barreiras do campo. Choveram mãos nas costas dos jogadores.
Harry teve uma impressão confusa de ruído e corpos que o
empurravam. Então ele e o resto do time foram erguidos nos
ombros dos torcedores. Empurrado para a luz, ele viu Hagrid,
emplastrado de rosetas vermelhas...
Você os derrotou, Harry, você os derrotou! Espere até eu
contar a Bicuço!
Lá estava Percy, pulando que nem maluco, toda a
dignidade esquecida. A Profª Minerva soluçava mais até que
263
Wood, enxugando os olhos com uma enorme bandeira da
Grifinória; e lá, lutando para chegar a Harry vinham Rony e
Hermione. Faltaram palavras aos amigos. Simplesmente sorriram
radiantes ao ver Harry ser carregado para a arquibancada onde
Dumbledore aguardava de pé com a enorme Taça de Quadribol.
Se ao menos tivesse havido um dementador por ali...
Quando um Wood, soluçante, passou a Taça a Harry e este a
ergueu no ar, o garoto sentiu que seria capaz de produzir o melhor
Patrono do mundo.
264
- CAPÍTULO DEZESSEIS -
A predição da professora trelawney
A euforia que Harry sentiu por ter finalmente ganhado a
Taça de Quadribol durou pelo menos uma semana. Até o tempo
parecia estar comemorando; à medida que junho se aproximava,
os dias foram desanuviando e se tornando quentes, e só o que as
pessoas tinham vontade de fazer era passear pela propriedade e se
largar no gramado com vários litros de suco de abóbora gelado do
lado, e talvez jogar uma partida descontraída de bexigas ou
apreciar a lula gigantesca nadar, sonhadora, pela superfície do
lago.
Mas isso não era possível. Os exames estavam às portas e
em lugar de se demorarem pelos jardins, os alunos tinham de
permanecer no castelo, e tentar obrigar o cérebro a se concentrar
em meio aos sopros mornos de verão que entravam pelas janelas.
Até mesmo Fred e Jorge Weasley tinham sido vistos estudando;
estavam em vésperas de fazer o exame de N.O.M's. (Níveis
Ordinários em Magia) Percy, por sua vez, estava se preparando
para os exames de N.I.E.M's (Níveis Incrivelmente Exaustivos em
Magia), o diploma mais avançado que Hogwarts oferecia. Como
Percy tinha esperança de ingressar no Ministério da Magia,
precisava de notas muito altas. Por isso, a cada dia ficava mais
nervoso, e passava castigos severos para qualquer aluno que
perturbasse a tranqüilidade da sala comunal à noite. De fato, a
única pessoa que parecia mais ansiosa do que Percy era Hermione.
Harry e Rony tinham desistido de perguntar à amiga como
fazia para freqüentar várias aulas ao mesmo tempo, mas não
conseguiram se conter, quando viram o horário dos exames que a
265
amiga preparara para si. Na primeira coluna lia-se:
Segunda-Feira
9h - Aritmancia
9h – Transformação
Almoço
13h - Feitiços
13h - Runas antigas
- Mione? - perguntou Rony com muita cautela, porque
ultimamente ela era bem capaz de explodir se a interrompiam.-
Hum... você tem certeza de que copiou esses horários direito?
- Quê? - retrucou Hermione com aspereza, apanhando o
horário de exames para conferi-lo - Claro que copiei.
- Será que adianta perguntar como você vai prestar dois
exames na mesma hora? - perguntou Harry.
- Não - respondeu Hermione, impaciente. - Algum de vocês
viu o meu livro Numerologia e Gramática?
- Ah, eu vi, apanhei emprestado para ler na cama antes de
dormir - disse Rony, mas bem baixinho. Hermione começou a
remexer no monte de rolos de pergaminho que tinha sobre a mesa,
à procura do livro. Nesse instante, ouviram um farfalhar à janela e
Edwiges entrou com um bilhete bem seguro no bico.
- É do Hagrid - disse Harry, abrindo o bilhete. - É o recurso
de Bicuço, está marcado para o dia seis.
- É o dia em que terminamos os exames - disse Hermione,
ainda procurando o livro de Aritmancia por toda a parte.
- E eles vêm aqui para o julgamento - disse Harry,
continuando a ler o bilhete. - Alguém do Ministério da Magia e... e
o carrasco.
Hermione ergueu a cabeça, assustada.
- Vão trazer o carrasco para o julgamento do recurso! Mas
assim parece que já decidiram!
- É, parece - disse Harry lentamente.
- Não podem fazer isso! - bradou Rony. - Gastei séculos
lendo para Hagrid o material que havia; não podem simplesmente
desprezar tudo!
Mas Harry teve a terrível sensação de que a Comissão para
266
Eliminação de Criaturas Perigosas já tivera a opinião formada pelo
Sr. Lúcio Malfoy. Draco, que andava visivelmente moderado
desde a vitória da Grifinória na final de quadribol, nos últimos
dias parecia ter recuperado um pouco da sua antiga arrogância.
Pelos comentários desdenhosos que Harry ouvia, Malfoy tinha
certeza de que Bicuço ia ser eliminado e parecia satisfeitíssimo
consigo mesmo por ter provocado tal efeito. Nessas ocasiões,
Harry fazia um esforço enorme para não imitar Hermione e meter
a mão na cara de Malfoy. E o pior de tudo era que os garotos não
tinham tempo nem oportunidade de ir ver Hagrid, porque as novas
e rigorosas medidas de segurança continuavam em vigor, e Harry
não recuperara a Capa da Invisibilidade que deixara na entrada da
bruxa de um olho só.
A semana dos exames começou e um silêncio anormal se
abateu sobre o castelo. Os alunos do terceiro ano saíram do exame
de Transformação na hora do almoço, na segunda-feira, cansados
e pálidos, comparando respostas e lamentando a dificuldade das
tarefas propostas, que excluíra transformar um bule de chá em um
cágado. Hermione irritou os colegas ao comentar que seu cágado
parecia mais uma tartaruga, o que era uma preocupação mínima
diante das preocupações dos demais.
- O meu tinha um bico no lugar do rabo, que pesadelo...
- Era para os cágados soltarem vapor?
- No final, o meu continuava com uma pintura de salgueiro
estampada no casco, vocês acham que vou perder pontos por isso?
Depois de um almoço apressado, os garotos voltaram direto
para cima para fazer o exame de feitiços. Hermione estava certa; o
Prof. Flitwick realmente pediu feitiços para animar. Harry
exagerou um pouco nos dele, por puro nervosismo, e Rony, que
era seu par acabou com acessos de riso histérico e precisou ser
levado para uma sala sossegada, onde ficou uma hora, até ter
condições de fazer o exame. Depois do jantar os alunos voltaram
às salas comunais, não para relaxar, mas para começar a estudar
Trato das Criaturas Mágicas, Poções e Astronomia.
Hagrid aplicou o exame de Trato das Criaturas Mágicas na
manhã seguinte com um ar deveras preocupado; seu coração
267
parecia estar longe dali. Providenciara uma grande barrica com
vermes frescos para a turma e avisou que para passar no exame, os
vermes de cada aluno deveriam continuar vivos ao fim de uma
hora. Uma vez que os vermes se criavam melhor quando deixados
em paz, foi o exame mais fácil que qualquer aluno teve de prestar,
o que também deu a Harry, Hermione e Rony bastante tempo para
conversarem com Hagrid.
- Bicucinho está ficando um pouco deprimido - contou o
amigo, curvando-se sob o pretexto de verificar se o verme de
Harry ainda estava vivo. - Está preso em casa há tempo demais.
Ainda assim... depois de amanhã a gente vai saber se vão julgar a
favor ou contra...
Os três garotos tiveram exame de Poções naquela tarde,
que foi um desastre inominável. Por mais que se esforçasse, Harry
não conseguia engrossar a sua infusão para confundir, e Snape,
observando-o com um ar de satisfação vingativa, lançou em suas
anotações uma coisa que lembrava muito um zero, antes de se
afastar.
Depois do exame de Astronomia a meia-noite, na torre
mais alta do castelo; História da Magia na quarta-feira de manhã,
em que Harry escreveu tudo que Florean Fortescue lhe contara
sobre a caça às bruxas na Idade Média, enquanto desejava ter ali
na sala sufocante um daqueles sundaes de choco-nozes. Na quartafeira
à tarde foi a vez de Herbologia, nas estufas, sob um sol de
cozinhar os miolos; depois voltaram mais uma vez à sala comunal,
com as nucas queimadas, imaginando que no dia seguinte, àquela
hora, os exames finalmente teriam terminado.
O antepenúltimo exame, na quinta-feira pela manhã, foi
Defesa contra as Artes das Trevas. O Prof. Lupin preparara o
exame mais incomum que eles já tinham feito; uma espécie de
corrida de obstáculos ao ar livre, debaixo de sol, em que tinham
que atravessar um lago fundo o suficiente para se remar, onde
havia.um grindylow, em seguida, uma série de crateras cheias de
barretes vermelhos, depois um trecho de pântano, desconsiderando
as informações enganosas dadas por um hinkypunk, e, por fim,
subir em um velho tronco e enfrentar um novo bicho-papão.
Excelente, Harry - murmurou Lupin quando Harry desceu
do tronco, sorrindo. - Nota máxima.
268
Animado com o seu sucesso, Harry ficou por ali para ver os
exames de Rony e Hermione. Rony foi bem até chegar a vez do
hinkypunk, que conseguiu confundi-lo e fazê-lo afundar até a
cintura em um atoleiro. Hermione fez tudo perfeitamente até
chegar ao tronco em que havia o bicho-papão. Depois de passar
um minuto ali, a garota saiu correndo aos berros.
Hermione! - exclamou Lupin, assustado. - Que foi que
aconteceu!
A P.. P.. Profª McGonagall! - ofegou Hermione apontando
para o tronco. - Ela disse que eu levei bomba em tudo!
Demorou um tempinho para Hermione se acalmar. Quando
ela finalmente se recuperou do susto, os três amigos voltaram ao
castelo. Rony ainda sentia uma ligeira vontade de rir do bichopapão
de Hermione, mas a briga foi adiada quando viram o que os
aguardava no alto das escadas.
Cornélio Fudge, um pouco suado sob a capa de risca de giz,
se achava parado ali contemplando os terrenos da escola.
Assustou-se ao ver Harry.
- Olá, Harry! - exclamou. - Acabou de fazer um exame,
suponho? Chegando ao fim?
- Sim, senhor - disse Harry. Hermione e Rony que nunca
haviam falado com o Ministro da Magia, pararam sem jeito um
pouco afastados.
- Belo dia - comentou Fudge, lançando um olhar ao lago. -
Que pena... que pena...
O ministro soltou um profundo suspiro e olhou
para Harry.
- Estou aqui em uma missão desagradável, Harry. A
Comissão para Eliminação de Criaturas Perigosas exigiu uma
testemunha para a execução do hipogrifo louco. Como eu
precisava visitar Hogwarts para verificar o andamento do caso
Black, me pediram para cumprir esta tarefa.
- Isso quer dizer que já houve o julgamento do recurso? -
interrompeu Rony; adiantando-se.
- Não, não, foi marcado para hoje à tarde - respondeu
Fudge, olhando, curioso, para Rony.
- Então, talvez o senhor não precise testemunhar nenhuma
execução! - disse Rony corajosamente. - O hipogrifo talvez se
269
salve!
Antes que Fudge pudesse responder, dois bruxos saíram
pelas portas do castelo às costas do ministro. Um era tão velho que
parecia estar murchando diante dos olhos deles; o outro era alto e
forte, com um bigode negro e fino. Harry concluiu que deviam ser
os representantes da Comissão para Eliminação de Criaturas
Perigosas porque o velho bruxo apertou os olhos na direção da
cabana de Hagrid e disse com voz fraca:
- Ai, ai, estou ficando velho demais para isso... Duas horas,
não é, Fudge?
O homem de bigode mexia em alguma coisa no
cinto; Harry olhou e viu que ele passava um dedo largo pela
lâmina de um machado reluzente. Rony abriu a boca para dizer
alguma coisa, mas Hermione cutucou-o com força nas costelas e
indicou com a cabeça o saguão de entrada.
- Por que é que você não me deixou falar? - perguntou
Rony, aborrecido, quando entraram no saguão para ir almoçar -
Você viu? já prepararam até o machado! Isso não é justiça!
- Rony, o seu pai trabalha para o Ministério, você não pode
sair dizendo essas coisas para o chefe dele! - respondeu Hermione,
mas ela também parecia muito contrariada. - Desde que hoje o
Hagrid mantenha a cabeça no lugar e defenda o caso direito, eles
não terão possibilidade de executar o Bicuço...
Mas Harry sabia que Hermione não acreditava realmente
no que estava dizendo. À volta deles, as pessoas falavam
excitadamente enquanto almoçavam, antegozando o fim dos
exames àquela tarde, mas Harry; Rony e Hermione, absortos em
suas preocupações com Hagrid e Bicuço, não participavam das
conversas.
O último exame de Harry e Rony era Adivinhação; o de
Hermione, Estudos dos Trouxas. Eles subiram a escadaria de
mármore, juntos; Hermione os deixou no primeiro andar e Harry e
Rony prosseguiram até o sétimo, onde muitos colegas já se
encontravam sentados na escada circular que levava à sala da Profª
Trelawney; tentando enfiar na cabeça mais alguma matéria de
última hora.
- Ela vai receber os alunos, um a um - informou Neville
quando os dois foram se sentar perto dele O garoto tinha o seu
270
exemplar de Esclarecendo a futuro aberto no colo nas páginas
dedicadas à bola de cristal. - Algum de vocês já viu alguma coisa
numa bola de cristal? - perguntou ele, infeliz.
- Não - respondeu Rony num tom distraído. Ele consultava
a toda hora o relógio de pulso; Harry sabia que o amigo estava
fazendo a contagem regressiva para o início do julgamento do
recurso de Bicuço.
A fila de pessoas fora da sala foi encurtando aos poucos. Á
medida que cada aluno descia a escada prateada, o resto da classe
sussurrava; "Que foi que ela perguntou? Você se deu bem?".
Mas todos se recusavam a responder
- Ela disse que foi avisada pela bola de cristal que se eu
contar a vocês, vou ter um acidente horrível! - falou Neville,
esganiçado, ao descer a escada em direção a Harry e Rony, que
agora tinham chegado ao patamar.
- Isto é muito conveniente - riu-se Rony. - Sabe, estou
começando a achar que Hermione tinha razão sobre a professora -
comentou ele indicando com o polegar o alçapão no alto -, ela é
uma trapaceira, e das boas.
- É - disse Harry, consultando o próprio relógio. Eram
agora duas horas. - Eu gostaria que ela andasse logo...
Parvati desceu a escada com o rosto radiante de orgulho.
- Ela disse que eu tenho o talento de uma verdadeira
vidente -informou a Harry e Rony. - Vi um monte de coisas...
Bem, boa sorte!
A garota desceu depressa a escada circular ao encontro de
Lilá.
- Ronald Weasley - chamou lá do alto a voz etérea que já
conheciam. Rony fez uma careta para o amigo e subiu a escada de
prata, desaparecendo. Harry agora era o único que faltava ser
examinado. Ele se acomodou no chão, apoiando as costas contra a
parede, e ficou ouvindo uma mosca zumbir na janela ensolarada,
seus pensamentos atravessando a propriedade até Hagrid.
Finalmente, uns vinte minutos depois, os enormes pés de
Rony reapareceram na escada.
- Como foi? - perguntou Harry se pondo de pé.
- Bobagem. Não vi nada, então inventei alguma coisa.
Acho que a professora não se convenceu, embora...
271
- Encontro você na sala comunal - murmurou Harry quando
a voz da professora chamou "Harry Potter!"
Na sala da torre fazia mais calor que nunca; as cortinas
estavam fechadas, a lareira acesa e o costumeiro perfume
adocicado fez Harry tossir, enquanto se desvencilhava das mesas e
cadeiras amontoadas para chegar onde a professora Sibila o
esperava, sentada diante de uma grande bola de cristal.
- Bom dia, meu querido - disse ela brandamente. - Quer ter
a bondade de examinar o orbe... Pode levar o tempo que precisar
depois me diga o que está vendo.
Harry se curvou para a bola de cristal e olhou, olhou o mais
atentamente que pôde, desejando que ela lhe mostrasse algo mais
do que a névoa branca em espiral, mas nada aconteceu.
- Então! - estimulou a professora com delicadeza. - Que é
que você está vendo?
O calor era insuportável e as narinas do garoto ardiam com
a fumaça perfumada que vinha da lareira ao lado dos dois. Ele
pensou no que Rony acabara de lhe dizer e resolveu fingir.
- Hum... uma forma escura... hum...
- Com que se parece? - sussurrou a professora. - Pense
bem...
Harry vasculhou sua mente à procura de uma idéia e
deparou com Bicuço.
- Um hipogrifo - disse com firmeza.
- Realmente! - sussurrou Sibila, tomando notas, com
entusiasmo, no pergaminho sobre seus joelhos. - Menino, talvez
você esteja vendo o desenlace do problema do coitado do Hagrid
com o Ministério da Magia! Olhe com mais atenção... O hipogrifo
parece... ter cabeça?
- Sim, senhora - respondeu Harry com firmeza.
- Você tem certeza? - insistiu a professora. - Você tem
bastante certeza, querido? Você não está vendo o animal se
virando no chão, talvez, e um vulto brandindo um machado contra
ele?
- Não! - disse Harry, começando a se sentir meio enjoado.
- Não tem sangue? Não tem Hagrid chorando?
- Não! - respondeu Harry de novo, querendo mais do que
nunca escapar da sala e do calor - Ele está bem... está voando...
272
A Profª Sibila suspirou.
- Bem, querido, vamos parar por aqui... Um resultado
decepcionante... mas tenho a certeza de que você fez o melhor que
pôde.
Aliviado, Harry se levantou, apanhou a mochila e se virou
para ir embora, mas, então, ouviu uma voz alta e rouca às suas
costas.
"Vai acontecer hoje à noite."
Harry se virou depressa. A professora ficara dura na
cadeira; seus olhos estavam desfocados e sua boca afrouxara.
- D... desculpe! - disse Harry.
Mas Sibila não pareceu ouvi-lo. Seus olhos começaram a
girar. Harry se sentiu invadido pelo pânico. Ela parecia que ia ter
uma espécie de acesso. O garoto hesitou, pensando em correr até a
ala hospitalar - e então a professora tornou a falar, com a mesma
voz rouca, muito diferente da sua voz habitual:
"O Lord das Trevas está sozinho e sem amigos,
abandonado pelas seus seguidores. Seu servo esteve
acorrentado nos últimos doze anos. Hoje à noite, antes da
meia-noite... O servo vai se libertar e se juntar ao seu
mestre. O Lord das Trevas vai ressurgir; com a ajuda do
seu servo, maior e mais terrível que nunca. Hoje à noite...
o servo... vai se juntar.. ao seu mestre... »
A cabeça da professora se pendurou sobre o peito. Ela fez
um ruído gutural. Harry continuou ali, os olhos grudados nela.
Então, de repente, a Profª Sibila aprumou a cabeça.
- Desculpe, querido - disse com voz sonhadora -, o calor do
dia, entende... cochilei por um momento...
Harry continuou parado, os olhos grudados nela.
- Algum problema, meu querido?
- A senhora... a senhora acabou de me dizer que o... Lord
das Trevas vai ressurgir... e que seu servo está indo se juntar a
ele...
A. Profª Sibila pareceu completamente surpresa.
- O Lord das Trevas? Aquele-Que-Não-Deve-Ser-
Nomeado? Meu querido, isso não é coisa com que se brinque...
Ressurgir, realmente...
- Mas a senhora acabou de dizer isso! A senhora disse que
273
o Lord das Trevas...
- Acho que você deve ter cochilado também, querido! -
disse a Profª Sibila. - Eu certamente não me atreveria a predizer
uma coisa tão incrível como essa!
Harry desceu a escada de corda, depois a circular,
pensativo... será que acabara de ouvir a Profª Sibila fazer uma
predição de verdade? Ou será que isto era a idéia da professora de
um fecho impressionante para os exames?
Cinco minutos depois ele estava passando apressado pelos
trasgos de segurança, à entrada da Torre da Grifinória, as palavras
da Profª Trelawney ainda ecoando em sua cabeça, As pessoas
cruzavam por ele, rindo e brincando, a caminho dos jardins e da
liberdade há muito esperada; quando ele alcançou o buraco do
retrato e entrou na sala comunal, o lugar estava quase deserto. A
um canto, ele viu Rony e Hermione, sentados.
-A Profª Sibila - começou Harry ofegante - acabou de me
dizer...
Mas parou abruptamente ao ver os rostos dos amigos.
- Bicuço perdeu - disse Rony com a voz fraca. - Hagrid
acabou de nos mandar isso.
O bilhete de Hagrid, desta vez, estava seco, sem lágrimas
derramadas, contudo sua mão parecia ter tremido tanto ao escrever
que o texto era quase ilegível.
Perdemos o julgamento ao recurso. Vão executar Bicuço
ao pôr-do-sol.
Vocês não podem fazer nada. Não desçam. Não quero que
vocês vejam.
Hagrid
- Temos que ir - disse Harry na mesma hora. - Ele não pode
ficar lá sozinho, esperando o carrasco!
- Mas é ao pôr-do-sol - disse Rony, que estava espiando
pela janela com o olhar meio vidrado. - Nunca nos deixariam...
principalmente a você, Harry...
Harry apoiou a cabeça nas mãos, pensando.
Se ao menos tivéssemos a Capa da Invisibilidade...
- Onde é que ela está? - perguntou Hermione.
274
Harry lhe contou que a deixara na passagem da bruxa de
um olho só se Snape me vir por ali outra vez, vou entrar numa fria
- terminou ele.
- É verdade - concordou Hermione, se levantando. - Se ele
vir você.. Como é mesmo que se abre a corcunda da bruxa?
- A gente dá uma pancada e diz: "Dissendium" - disse
Harry.
- Mas.
Hermione não esperou o resto da frase; atravessou a sala,
empurrou o retrato da Mulher Gorda e desapareceu de vista.
- Ah, não acredito que ela tenha ido buscar! - exclamou
Rony, acompanhando-a com o olhar.
Dito e feito. Hermione voltou quinze minutos depois com a
capa prateada dobrada com cuidado sob suas vestes.
- Mione, não sei o que deu em você ultimamente! -
exclamou Rony, espantado. - Primeiro você mete a mão em Draco
Malfoy depois abandona o curso da Profª Sibila...
A garota fez cara de quem recebera um elogio.
Os três desceram para jantar com todos os alunos, mas não
voltaram à Torre da Grifinória ao terminar Harry levava a capa
escondida na frente das vestes e tinha que manter os braços
cruzados para esconder o volume. Entraram sorrateiramente numa
sala vazia no saguão de entrada e ficaram escutando, até ter
certeza de que o lugar ficara deserto. Ouviram as últimas duas
pessoas atravessarem o saguão correndo e uma porta bater.
Hermione meteu a cabeça fora da porta.
- Tudo bem - sussurrou -, não tem ninguém. vamos vestir a
capa...
Caminhando muito juntos para que ninguém os visse, eles
atravessaram o saguão na ponta dos pés, cobertos pela capa, e
desceram os degraus de pedra que levavam aos jardins. O sol já ia
se pondo atrás da Floresta Proibida, dourando os ramos mais altos
das árvores.
Chegaram à cabana de Hagrid e bateram. O amigo levou
um minuto para atender e, quando o fez, ficou procurando o
visitante por todos os lados, pálido e trêmulo.
275
-Somos nós - sibilou Harry. - Estamos usando a Capa da
Invisibilidade. Deixe a gente entrar para poder tirar a capa.
- Vocês não deviam ter vindo! - sussurrou Hagrid, mas se
afastou para os garotos poderem entrar Depois fechou a porta
depressa e Harry arrancou a capa.
Hagrid não estava chorando, nem se atirou ao pescoço
deles. Parecia um homem que não sabia onde estava nem o que
fazer. Seu desamparo era pior do que as lágrimas.
- Querem um chá? - perguntou aos garotos. Suas mãos
enormes tremiam quando apanhou a chaleira.
- Onde é que está o Bicuço, Hagrid? - perguntou Hermione,
hesitante.
- Eu... eu levei ele para fora - respondeu Hagrid,
derramando leite pela mesa toda ao tentar encher a jarra. - Está
amarrado no canteiro de abóboras. Achei que ele devia ver as
árvores e... e respirar ar fresco... antes...
A mão de Hagrid tremeu com tanta violência que a jarra de
leite escapuliu e se espatifou no chão.
-Eu faço isso, Hagrid - ofereceu-se Hermione depressa,
correndo para limpar a sujeira.
- Tem outra no armário de louças - falou Hagrid, sentandose
e limpando a testa na manga. Harry olhou para Rony; que
retribuiu seu olhar com desanimo.
- Tem alguma coisa que se possa fazer, Hagrid? -
perguntou Harry inflamado, sentando-se ao lado do amigo. -
Dumbledore...
- Ele tentou. Mas não tem poder para revogar uma decisão
da Comissão. Ele disse aos juizes que Bicuço era normal, mas a
Comissão está com medo... Vocês sabem como é o Lúcio
Malfoy... imagino que deve ter ameaçado todos eles... e o
carrasco, Macnair, é um velho conhecido dos Malfoy.. mas vai ser
rápido e limpo... e eu vou estar do lado do Bicuço...
Hagrid engoliu em seco. Seus olhos percorriam a cabana
como se procurassem um fio de esperança ou de consolo.
- Dumbledore vai descer quando... quando estiver na hora.
Me escreveu hoje de manhã Disse que quer ficar.. ficar comigo.
Grande homem, o Dumbledore...
Hermione, que andara vasculhando o guarda-louça de
276
Hagrid à procura de outra leiteira, deixou escapar um pequeno
soluço, rapidamente sufocado. Ela se endireitou com a nova
leiteira nas mãos, lutando para conter as lágrimas.
- Nós vamos ficar com você também, Hagrid - começou
ela, mas o amigo sacudiu a cabeça cabeluda.
- Vocês tem que voltar para o castelo. Já disse que não
quero que assistam. Aliás, vocês nem deviam estar aqui... Se
Fudge e Dumbledore pegarem você fora do castelo sem
permissão, Harry, você vai se meter numa grande confusão.
Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de Hermione,
mas ela as escondeu de Hagrid, ocupando-se em fazer o chá.
Então, quando apanhou a garrafa de leite para encher a leiteira, ela
soltou um grito.
-Rony!... Eu não acredito... é o Perebas!
O queixo de Rony caiu.
- Do que é que você está falando?
Hermione levou a leiteira até a mesa e virou-a de boca para
baixo. Com um guincho frenético, e muita correria para voltar
para dentro da jarra, Perebas, o rato, deslizou para cima da mesa.
- Perebas! - exclamou Rony sem entender - Perebas, que é
que você está fazendo aqui?
Ele agarrou o rato que se debatia e segurou-o próximo à
luz. Perebas estava com uma aparência horrível. Mais magro que
nunca, perdera grandes tufos de pêlos que deixaram pelado seu
corpo, o rato se contorcia nas mãos de Rony como se estivesse
desesperado para se soltar.
- Tudo bem, Perebas! - tranqüilizou-o Rony. - Não tem
gatos! Não tem nada aqui para te machucar!
Hagrid se levantou de repente, os olhos Fixos na janela.
Seu rosto; normalmente corado, estava da cor de pergaminho.
- Aí vem eles...
Harry, Rony e Hermione se viraram depressa. Um grupo de
homens descia os distantes degraus, à entrada do castelo. A frente
vinha Alvo Dumbledore, a barba prateada refulgindo ao sol
poente. Ao seu lado, caminhava, a passo rápido, Cornélio Fudge.
Atrás dos dois vinha o membro da Comissão velho e fraco, e o
carrasco, Macnair.
- Vocês têm que ir embora - disse Hagrid. Cada centímetro
277
do seu corpo tremia. - Eles não podem encontrar vocês aqui... Vão
agora...
Rony enfiou Perebas no bolso, e Hermione apanhou a capa.
- Eu vou abrir a porta dos fundos para vocês - disse Hagrid.
Os garotos o acompanharam até a porta que abria para a
horta. Harry se sentiu estranhamente irreal e mais ainda quando
viu Bicuço a poucos passos de distância, amarrado a uma árvore
atrás do canteiro de abóboras. O hipogrifo parecia saber que
alguma coisa estava acontecendo. Virou a cabeça de um lado para
o outro e pateou o chão nervosamente.
- Tudo bem, Bicucinho - disse Hagrid com brandura. -
Tudo bem... - E se virando para Harry; Rony e Hermione. - Vão.
Andem logo.
Mas os garotos não se mexeram.
- Hagrid, não podemos...
- Vamos contar a eles o que realmente aconteceu...
- Não podem matar Bicuço...
- Vão! - disse Hagrid ferozmente. - Já está bastante ruim
sem vocês se meterem em confusão!
Os garotos não tiveram escolha. Quando Hermione jogou a
capa sobre Harry e Rony, eles ouviram as vozes na entrada da
cabana. Hagrid ficou olhando para o lugar de onde os garotos
tinham acabado de sumir.
- Vão depressa - disse, rouco. - Não fiquem ouvindo...
E Hagrid tornou a entrar na cabana no momento em que
alguém batia à porta.
Lentamente, numa espécie de transe de horror, Harry; Rony
e Hermione contornaram a cabana de Hagrid sem fazer barulho.
Quando chegaram do outro lado, a porta de entrada se
fechou com uma batida seca.
- Por favor, vamos nos apressar - sussurrou Hermione. -
Não posso suportar, não posso suportar...
Os três começaram a subir a encosta gramada em direção
ao castelo. O sol ia se pondo depressa agora; o céu se tornara
cinzento, sem nuvens, e tinto de púrpura, mais para oeste havia
uma claridade vermelho-rubi.
Rony parou muito quieto.
- Ah, por favor, Rony - começou Hermione.
278
- É o Perebas... ele não quer.. parar..
Rony se curvou, tentando segurar Perebas no bolso, mas o
rato estava ficando furioso; guinchava feito louco, virava e se
debatia, tentando ferrar os dentes nas mãos de Rony
- Perebas, sou eu, seu idiota, é Rony.
Os garotos ouviram a porta fechar às suas costas e o som de
vozes masculinas.
- Ah, Rony, por favor, vamos andando, eles vão executar o
Bicuço! - murmurou Hermione.
-OK... Perebas fique quieto...
Eles avançaram; Harry; como Hermione, estava tentando
não escutar o ruído surdo das vozes às costas deles. Rony parou
mais uma vez.
- Não consigo segurar ele... Perebas, cala a boca, todo
mundo vai nos ouvir...
O rato guinchava alucinado, mas não alto o suficiente para
abafar os ruídos que vinham do jardim de Hagrid. Ouviu-se um
rumor indistinto de vozes masculinas, um silêncio e então, sem
aviso, o som inconfundível de um machado cortando o ar e se
abatendo sobre o alvo.
Hermione vacilou.
- Executaram Bicuço! - murmurou ela para Harry - Eu n...
não acredito... eles executaram Bicuço!
279
— CAPITULO DEZESSETE —
Gato, rato e cão
A cabeça de Harry se esvaziou com o choque. Os três
garotos ficaram paralisados de horror sob a Capa da Invisibilidade.
Os últimos raios do sol poente lançavam uma claridade sangrenta
sobre os imensos campos sombrios da escola. Então, atrás deles,
os garotos ouviram um uivo selvagem.
- Hagrid - murmurou Harry. E, sem pensar no que estaVa
fazendo, fez menção de dar meia-volta, mas Rony e Hermione o
seguraram pelos braços.
— Não podemos — disse Rony, que estava branco como
uma folha de papel. — Hagrid vai ficar numa situação muito pior
se souberem que fomos à casa dele...
A respiração de Hermione estava rasa e desigual.
— Como... puderam... fazer... isso? — engasgou-se a
garota. — Como puderam?
— Vamos — disse Rony cujos dentes davam a impressão
de estar batendo.
Os três voltaram ao castelo, andando devagar, para se
manter escondidos sob a capa. A claridade ia desaparecendo
depressa agora. Quando chegaram à área ajardinada, a escuridão
desceu, como por encanto, a toda volta.
-. Perebas fica quieto — sibilou Rony, apertando a mão
contra o peito. O rato se debatia, enlouquecido. Rony parou de
repente, tentando empurrá-lo para o fundo do bolso. — Que é que
há com você, seu rato burro? Fica parado aí... AI! Ele me mordeu!
— Rony, fica quieto! — cochichou Hermione com
urgência. — Fudge vai nos alcançar em um minuto...
— Ele não quer... ficar... parado...
280
Perebas estava visivelmente aterrorizado. Contorcia-se com
todas as suas forças, tentando se desvencilhar da mão de Rony.
— Que é que há com ele?
Mas Harry acabara de ver — esquivando-se em direção ao
grupo, o corpo colado no chão, grandes olhos amarelos que
brilhavam lugubremente no escuro — Bichento. Se podia vê-los
ou se estava seguindo os guinchos de Perebas, Harry não saberia
dizer.
— Bichento! — gemeu Hermione. — Não, vai embora,
Bichento! Vai embora!
Mas o gato se aproximava sempre mais...
— Perebas... NÃO!
Tarde demais — o rato escorregou por entre os dedos
apertados de Rony, bateu no chão e fugiu precipitadamente. De
um salto, Bichento saiu em seu encalço, e antes que Harry ou
Hermione pudessem detê-lo, Rony arrancara a Capa da
Invisibilidade e se arremessava pela escuridão.
— Rony! — gemeu Hermione.
Ela e Harry se entreolharam e correram atrás do amigo; era
impossível correr com desenvoltura com a capa por cima;
arrancaram-na e ela ficou voando para trás como uma bandeira,
quando os dois saíram desabalados atrás de Rony; ouviram os
passos dele à frente e seus gritos para Bichento.
— Fique longe dele... fique longe... Perebas, volta aqui...
Ouviu-se um baque sonoro.
- Te peguei! Dá o fora, seu gato fedorento...
Harry e Hermione quase caíram em cima de Rony pararam
derrapando diante dele. O amigo estava esparramado no chão, mas
Perebas já estava de volta ao bolso; Rony apertava com as duas
mãos um calombo trepidante.
— Rony... vamos... volta para baixo da capa... — ofegou
Hermione. — Dumbledore... o ministro... eles vão voltar para o
castelo já, já...
Mas antes que pudessem se cobrir outra vez, antes que
pudessem sequer recuperar o fôlego, eles ouviram o ruído macio
de patas gigantescas. Algo estava saltando da escuridão em sua
direção — um enorme cão negro de olhos claros.
Harry tentou pegar a varinha, mas tarde demais — o cão
281
investira dando um enorme salto, e suas patas dianteiras atingiram
o garoto no peito; Harry caiu para trás num redemoinho de pêlos;
sentiu o hálito quente do animal, viu seu dente de mais de dois
centímetros...
Mas a força do salto impelira o cão longe demais;
ultrapassara Harry. Aturdido, com a sensação de que suas costelas
tinham quebrado, o garoto tentou se levantar; ouviu o cão rosnar e
derrapar se posicionando para um novo ataque.
Rony estava de pé. Quando o cão saltou contra os dois, ele
empurrou Harry para o lado; e, em vez de Harry, as mandíbulas do
bicho abocanharam o braço estendido de Rony. Harry se atirou
para cima dele, agarrou uma mão cheia de pêlos do cão, mas o
bruto foi arrastando Rony para longe com a facilidade com que
arrastaria uma boneca de trapos...
Então, ele não viu de onde, uma coisa atingiu seu rosto com
tanta força que ele foi novamente derrubado no chão. Harry ouviu
Hermione gritar de dor e cair também. O menino tateou à procura
de sua varinha, piscando para limpar o sangue dos olhos...
— Lumus— sussurrou. A luz produzida pela varinha
mostrou-lhe um grosso tronco de árvore; tinham corrido atrás de
Perebas até a sombra do Salgueiro Lutador, cujos ramos estalavam
como se estivessem sendo açoitados por um forte vento,
avançavam e recuavam para impedir os garotos de se
aproximarem.
E ali, na base do tronco, o cão arrastava Rony para dentro
de um grande buraco entre as raízes — o garoto lutava
furiosamente, mas sua cabeça e seu tronco foram desaparecendo
de vista.
— Rony! — gritou Harry; tentando segui-lo, mas um
pesado galho chicoteou ameaçadoramente o ar e ele foi forçado a
recuar.
Agora estava visível apenas uma das pernas de Rony, que
ele enganchara em torno de uma raiz na tentativa de impedir o cão
de arrastá-lo mais para o fundo da terra — mas um estampido
terrível cortou o ar feito um tiro; a perna de Rony se partiu e um
instante depois, seu pé desaparecera de vista.
— Harry.. temos que procurar ajuda... — gritou Hermione;
também sangrava; o salgueiro a cortara na altura dos ombros.
282
— Não! Aquela coisa é bastante grande para comer Rony;
temos tempo...
— Harry, nunca vamos conseguir entrar sem ajuda... Mais
um galho desceu como um chicote em sua direção, os raminhos
curvados como articulações de dedos.
— Se aquele cão pôde entrar, nós também podemos —
Harry, correndo para um lado e para outro, tentando encontrar
uma brecha entre os galhos que varriam com violência o ar, não
podia se aproximar nem mais um centímetro das raízes da arvore
sem ficar ao alcance dos golpes que ela desferia.
— Ah, socorro, socorro — murmurava freneticamente
Hermione, dançando no mesmo lugar —, por favor...
Bichento disparou adiante dos garotos. Deslizou por entre
os galhos agressores como uma cobra e colocou as patas dianteiras
sobre um nó que havia no tronco,
Abruptamente, como se a árvore tivesse se transformado
em pedra, ela parou de se movimentar. Sequer uma folha virava ou
sacudia,
— Bichento! — sussurrou Hermione insegura. Ela agora
apertava o braço de Harry com tanta força que provocava dor. —
Como é que ele sabia...?
— Ele é amigo daquele cão — respondeu Harry,
sombriamente.
— Já os vi juntos. Vamos... e mantenha a varinha na mão...
Os dois venceram a distância até o tronco em segundos,
mas antes que pudessem alcançar o buraco nas raízes, Bichento
deslizara para dentro com um aceno do seu rabo de escovinha.
Harry entrou em seguida; avançou arrastando-se, a cabeça à frente,
e escorregou por uma descida de terra até o leito de um túnel
muito baixo. Bichento ia mais adiante, os olhos faiscando à luz da
varinha de Harry. Segundos depois, Hermione escorregou para
junto do garoto.
— Onde é que foi o Rony? — sussurrou ela com terror na
voz.
— Por ali — respondeu Harry, caminhando, curvado, atrás
de Bichento.
— Onde é que vai dar esse túnel? — perguntou Hermione,
ofegante.
283
— Eu não sei... Está marcado no Mapa do Maroto, mas
Fred e Jorge disseram que ninguém nunca tinha entrado. Ele
continua para fora do mapa, mas parecia que ia em direção a
Hogsmeade...
Os garotos caminharam o mais rápido que puderam, quase
dobrados em dois; à frente, o rabo de Bichento entrava e saia do
seu campo de visão. E a passagem não tinha fim; dava a impressão
de ser no mínimo tão longa quanto a que levava à Dedosdemel.
Harry só conseguia pensar em Rony e no que aquele canzarrão
podia estar fazendo com o seu amigo... Ele respirava em arquejos
curtos e dolorosos, correndo agachado...
E então o túnel começou a subir; momentos depois se virou
e Bichento tinha desaparecido. Em vez do gato, Harry viu um
espaço mal iluminado por meio de uma pequena abertura.
Ele e Hermione pararam, procurando recuperar o fôlego,
depois avançaram cautelosamente. Os dois ergueram as varinhas
para ver o que havia além.
Era um quarto, muito desarrumado e poeirento. O papel
descascava das paredes; havia manchas por todo o chão; cada
móvel estava quebrado como se alguém o tivesse atacado. As
janelas estavam vedadas com tábuas.
Harry olhou para Hermione, que parecia muito
amedrontada, mas concordou com um aceno de cabeça.
Harry saiu pelo buraco, olhando para todos os lados. O
quarto estava deserto, mas havia uma porta aberta à direita, que
levava a um corredor sombrio. Hermione, de repente, tornou a
agarrar o braço de Harry. Seus olhos arregalados percorreram as
janelas vedadas.
— Harry — cochichou ela —, acho que estamos na Casa
dos gritos.
Harry olhou a toda volta. Seus olhos se detiveram em uma
cadeira de madeira, próxima. Havia grandes pedaços partidos;
uma das pernas fora inteiramente arrancada.
— Fantasmas não fazem isso — comentou ele calmamente.
Naquele momento, os dois ouviram um rangido no alto.
Alguma coisa se mexera no andar de cima. Os dois olharam para o
teto. Hermione apertava o braço de Harry com tanta força que ele
estava perdendo a sensibilidade nos dedos. O garoto ergueu as
284
sobrancelhas para ela; Hermione concordou outra vez e soltou-o.
O mais silenciosamente que puderam, os dois saíram para o
corredor e subiram uma escada desmantelada. Tudo estava coberto
por uma espessa camada de poeira, exceto o chão, onde uma larga
faixa brilhante fora aparentemente limpa por uma coisa arrastada
para o primeiro andar.
Eles chegaram ao patamar escuro.
— Nox— sussurraram ao mesmo tempo, e as luzes nas
pontas de suas varinhas se apagaram. Havia apenas uma porta
aberta. Ao se esgueirarem nessa direção, ouviram um movimento
atrás da porta; um gemido baixo e em seguida um ronronar alto e
grave. Eles trocaram um último olhar e um último aceno de
cabeça.
A varinha empunhada com firmeza à frente, Harry
escancarou a porta com um chute.
Numa imponente cama de colunas, com cortinas
empoeiradas, encontrava-se Bichento, que ronronou alto ao vê-los.
No chão ao lado do gato, agarrando a perna estendida num ângulo
estranho, encontrava-se Rony.
Harry e Hermione correram para o amigo.
— Rony... você está bem?
— Onde está o cão?
— Não é um cão — gemeu Rony. Seus dentes rilhavam de
dor. — Harry é uma armadilha...
- Quê...
— Ele é o cão... ele é um animago...
Rony olhava fixamente por cima do ombro de Harry; Este
se virou depressa. Com um estalo, o homem nas sombras fechou a
porta do quarto.
Uma massa de cabelos imundos e embaraçados caíam até
seus cotovelos. Se seus olhos não estivessem brilhando em órbitas
fundas e escuras, ele poderia ser tomado por um cadáver. A pele
macilenta estava tão esticada sobre os ossos do rosto, que ele
lembrava uma caveira. Os dentes amarelos estavam arreganhados
num sorriso, Era Sirius Black.
— "Expelliarmus"— disse com voz rouca, apontando a
varinha de Rony para os garotos.
As varinhas de Harry e Hermione saíram voando de suas
285
mãos e Black as recolheu. Então se aproximou. Seus olhos
estavam fixos em Harry.
— Achei que você viria ajudar seu amigo. — A voz dava a
impressão de que havia muito tempo ele perdera o hábito de usála.
— Seu pai teria feito o mesmo por mim. Foi muita coragem
não correr à procura de um professor. Fico agradecido... vai tornar
as coisas muito mais fáceis...
A referência sarcástica ao seu pai ecoou nos ouvidos de
Harry como se Black a tivesse gritado. Um ódio escaldante
explodiu em seu peito, não deixando lugar para o medo. Pela
primeira vez na vida ele desejou ter a varinha nas mãos, não para
se defender, mas para atacar... para matar. Sem saber o que estava
fazendo, começou avançar, mas percebeu um movimento
repentino de cada lado do seu corpo e dois pares de mãos o
puxaram e o mantiveram parado.
— Não, Harry! — exclamou Hermione num sussurro
petrificado. Rony, porém, se dirigiu a Black.
— Se você quiser matar Harry, terá que nos matar também!
—disse impetuosamente, embora o esforço de ficar de pé tivesse
acentuado sua palidez e ele oscilasse um pouco ao falar.
Alguma coisa brilhou nos olhos sombrios de Black.
— Deite-se — disse brandamente a Rony. — Você vai
piorar a fratura nessa perna.
— Você me ouviu? — disse Rony com a voz fraca, embora
se apoiasse dolorosamente em Harry para se manter de pé. —
Você vai ter que matar os três!
— Só vai haver uma morte aqui hoje à noite — disse
Black, e seu sorriso se alargou.
— Por quê? — perguntou Harry com veemência, tentando
se desvencilhar de Rony e Hermione. —Você não se importou
com isso da última vez, não foi mesmo? Não se importou de matar
aqueles trouxas todos para atingir Pettigrew... Que foi que houve,
amoleceu em Azkaban?
— Harry! — choramingou Hermione. — Fica quieto!
— ELE MATOU MINHA MÃE E MEU PAI! — bradou
Harry e, com grande esforço, se desvencilhou de Hermione e
Rony que o retinham pelos braços, e avançou...
Harry esquecera a magia — esquecera que era baixo e
286
magricela e tinha treze anos, enquanto Black era um homem alto e
adulto — ele só sabia que queria ferir Black da maneira mais
horrível que pudesse e não se importava se fosse ferido também...
Talvez fosse o choque de ver Harry fazer uma coisa tão
idiota, mas Black não ergueu as varinhas em tempo — uma das
mãos de Harry segurou seu pulso magro, forçando as pontas das
varinhas para baixo; o punho de sua outra mão atingiu o lado da
cabeça de Black e os dois caíram de costas contra a parede...
Hermione gritava; Rony berrava; houve um relâmpago
ofuscante quando as varinhas na mão de Black emitiram um jorro
de fagulhas no ar que, por centímetros, não atingiu o rosto de
Harry o garoto sentiu o braço magro sob seus dedos se torcer
furiosamente, mas continuou a segurá-lo, a outra mão socando
cada parte do corpo de Black que conseguia alcançar.
Mas a mão livre de Black encontrou a garganta de Harry...
— Não — sibilou ele. — Esperei tempo demais...
Seus dedos intensificaram o aperto, Harry ficou sem ar,
seus óculos entortaram no rosto.
Então ele viu o pé de Hermione, vindo não sabia de onde,
erguer-se no ar. Black largou Harry com um gemido de dor; Rony
se atirara sobre a mão com que Black segurava as varinhas e Harry
ouviu uma batida leve...
Ele lutou para se livrar dos corpos embolados e viu sua
varinha rolando pelo chão; atirou-se para ela, mas...
— Arre!
Bichento entrara na briga; o par dianteiro de garras se
enterrou fundo no braço de Harry; o garoto se soltou, mas agora o
gato corria para sua varinha...
— NÃO VAI NÃO! — berrou Harry, e mirou um pontapé
no gato que o fez saltar para o lado, bufando; o garoto agarrou a
varinha, virou-se e...
"Saiam da frente! — gritou para Rony e Hermione.
Não foi preciso falar duas vezes. Hermione, ofegante,a
boca sangrando, atirou-se para o lado, ao mesmo tempo em que
recuperava as varinhas dela e de Rony. O garoto arrastou-se até a
cama de colunas e largou-se sobre ela, arquejante, o rosto pálido
agora se tingindo de verde, as mãos segurando a perna quebrada.
Black estava esparramado junto à parede. Seu peito magro
287
subia e descia rapidamente enquanto observava Harry se
aproximar devagar, a varinha apontada para o seu coração.
— Vai me matar, Harry? — murmurou ele.
O garoto parou bem em cima de Black, a varinha ainda
apontada para o seu coração, encarando-o do alto. Um inchaço
pálido surgia em torno do olho esquerdo do homem e seu nariz
sangrava.
— Você matou meus pais — acusou-o Harry, com a voz
ligeiramente trêmula, mas a mão segurando a varinha com
firmeza.
Black encarou-o com aqueles olhos fundos.
— Não nego que matei — disse muito calmo. — Mas se
você soubesse da história completa...
— A história completa? — repetiu Harry, os ouvidos
latejando furiosamente. — Você vendeu meus pais a Voldemort. Ë
só isso que preciso saber.
— Você tem que me ouvir — disse Black, e havia agora
uma urgência em sua voz. — Você vai se arrepender se não me
ouvir....
Você não compreende...
— Compreendo muito melhor do que você pensa — disse
Harry, e sua voz tremeu mais que nunca. — Você nunca a ouviu,
não é?
Minha mãe... tentando impedir Voldemort de me matar... e
foi você que fez aquilo... você é que fez...
Antes que qualquer dos dois pudesse dizer outra palavra,
uma coisa alaranjada passou correndo por Harry; Bichento saltou
para o peito de Black e se sentou ali, bem em cima do coração. O
homem pestanejou e olhou para o gato.
— Saia daí — murmurou o homem, tentando empurrar
Bichento para longe.
Mas o gato enterrou as garras nas vestes de Black e não se
mexeu. Então virou a cara amassada e feia para Harry e encarou-o
com aqueles grandes olhos amarelos... à sua direita, Hermione
soltou um soluço seco.
Harry encarou Black e Bichento, apertando com mais força
a varinha na mão. E daí se tivesse que matar o gato também? O
bicho estava mancomunado com Black... Se estava disposto a
288
morrer para proteger o homem, não era de sua conta... Se o
homem queria salvá-lo, isso só provava que se importava mais
com Bichento do que com os pais de Harry...
O garoto ergueu a varinha. Agora era o momento de agir.
Agora era o momento de vingar seu pai e sua mãe. Ia matar Black.
Tinha que matar Black. Era a sua chance...
Os segundos se alongaram. E Harry continuou paralisado
ali, com a varinha em posição, Black olhando para ele, com
Bichento sobre o peito. Ouvia-se a penosa respiração de Rony
próximo à cama; Hermione guardava silêncio.
Então ouviu-se um novo ruído...
Passos abafados ecoaram pelo chão — alguém estava
andando no andar de baixo.
— ESTAMOS AQUI EM CIMA! — gritou Hermione de
repente.
- ESTAMOS AQUI EM CIMA.. SIRIUS BLACK...
DEPRESSA!
Black fez um movimento assustado que quase desalojou
Bichento; Harry apertou convulsivamente a varinha — Aja agora!
disse uma voz em sua cabeça —, mas os passos reboavam escada
acima e Harry ainda não agita.
A porta do quarto se escancarou com um jorro de faíscas
vermelhas e Harry se virou na hora em que o Prof. Lupin irrompeu
no quarto, seu rosto exangue, a varinha erguida e pronta. Seus
olhos piscaram ao ver Rony, deitado no chão, Hermione encolhida
perto da porta, Harry parado ali com a varinha apontada para
Black, e o próprio Black, caído e sangrando aos pés do garoto.
— Expelliarmus!— gritou Lupin.
A varinha de Harry voou mais uma vez de sua mão; as duas
que Hermione segurava também. Lupin apanhou-as agilmente e
avançou pelo quarto, olhando para Black, que ainda tinha
Bichento deitado numa atitude de proteção sobre seu peito.
Harry ficou parado ali, sentindo-se subitamente vazio. Não
agira. Faltara-lhe a coragem. Black ia ser entregue aos
dementadores.
Então Lupin perguntou com a voz muito tensa.
— Onde é que ele está, Sirius?
Harry olhou depressa para Lupin. Não entendeu o que o
289
professor queria dizer. De quem estava falando? Virou-se para
olhar Black outra vez.
O rosto do homem estava impassível. Por alguns segundos
Black nem se mexeu. Depois, muito lentamente, ergueu a mão
vazia e apontou para Rony. Aturdido, Harry se virou para Rony,
que por sua vez parecia confuso.
— Mas, então... — murmurou Lupin, encarando Black com
tal intensidade que parecia estar tentando ler sua mente — ... por
que ele não se revelou antes? A não ser que... — os olhos de Lupin
se arregalaram, como se estivesse vendo alguma coisa além de
Black, alguma coisa que mais ninguém podia ver — a não ser que
ele fosse o... a não ser que você tivesse trocado... sem me dizer?
Muito lentamente, com o olhar fundo cravado no rosto de
Lupin, Black confirmou com um aceno de cabeça.
— Professor — interrompeu Harry, em voz alta —, que é
que está acontecendo..,?
Mas nunca chegou a terminar a pergunta, porque o que viu
fez sua voz morrer na garganta. Lupin estava baixando a varinha,
os olhos fixos em Black. O professor foi até Black, apanhou a
varinha dele, levantou-o de modo que Bichento caiu no chão e
abraçou Black como a um irmão.
Harry sentiu como se o fundo do seu estômago tivesse
despencado.
- EU NÃO ACREDITO! - berrou Hermione.
Lupin soltou Black e se virou para a garota. Ela se erguera
do chão e estava apontando para Lupin, de olhos arregalados.
— O senhor... o senhor...
— Hermione...
— ... o senhor e ele!
— Hermione se acalme...
— Eu não contei a ninguém! — esganiçou-se a garota. —
Tenho encoberto o senhor...
— Hermione, me escute, por favor! — gritou Lupin. —
Posso explicar...
Harry sentia o corpo tremer, não com medo, mas com uma
nova onda de fúria.
— Eu confiei no senhor — gritou ele para Lupin, sua voz
se descontrolando —, e o tempo todo o senhor era amigo dele!
290
— Você está enganado — disse Lupin. — Eu não era
amigo de Sirius, mas agora sou... Deixe-me explicar...
— NÃO! — berrou Hermione. — Harry não confie nele,
de tem ajudado Black a entrar no castelo, ele quer ver você morto
também.. ele é um lobisomem!
Houve um silêncio audível. Os olhos de todos agora
estavam postos em Lupin, que parecia extraordinariamente calmo,
embora muito pálido.
— O que disse não está à altura do seu padrão de acertos,
Hermione. Receio que tenha acertado apenas uma afirmação em
três. Eu não tenho ajudado Sirius a entrar no castelo e certamente
não quero ver Harry morto... — Um estranho tremor atravessou
seu rosto. — Mas não vou negar que seja um lobisomem.
Rony fez um corajoso esforço para se levantar outra vez,
mas caiu com um gemido de dor. Lupin adiantou-se para ele,
parecedo preocupado, mas Rony exclamou:
— Fique longe ele mim, lobisomem!
Lupin se imobilizou. Depois, com óbvio esforço, virou-se
para Hermione e perguntou:
— Há quanto tempo você sabe?
— Há séculos — sussurrou Hermione. — Desde a redação
do Prof. Snape...
— Ele ficará encantado — disse Lupin tranqüilo. — Passou
aquela redação na esperança de que alguém percebesse o que
significavam os meus sintomas. Você verificou a tabela lunar e
percebeu que eu sempre ficava doente na lua cheia? Ou você
percebeu que o bicho-papão se transformava em lua quando me
via?
— Os dois — respondeu Hermione em voz baixa. Lupin
forçou uma risada.
— Você é a bruxa de treze anos mais inteligente que já
conheci, Hermione.
— Não sou, não — sussurrou Hermione. — Se eu fosse um
pouco mais inteligente, teria contado a todo mundo quem o senhor
é!
— Mas todos já sabem. Pelo menos os professores sabem.
— Dumbledore contratou o senhor mesmo sabendo que o
senhor é um lobisomem? — exclamou Rony. — Ele é louco?
291
— Alguns professores acharam que sim — respondeu
Lupin. —Ele teve que trabalhar muito para convencer certos
professores de que eu sou digno de confiança...
- E ELE ESTAVA ENGANADO! — berrou Harry. — O
SENHOR ESTEVE AJUDANDO ELE O TEMPO TODO! – O
garoto apontou para Black, que, de repente atravessou o quarto em
direção à cama de colunas e afundou nela, o rosto escondido em
uma das mãos trêmulas. Bichento saltou para junto dele e subiu no
seu colo, ronronando. Rony se afastou devagarinho dos dois,
arrastando a perna.
— Eu não estive ajudando Sirius — respondeu Lupin. —
Se você me der uma chance, eu explico. — Olhe...
O professor separou as varinhas de Harry Rony e Hermione
e devolveu-as aos donos. Harry apanhou a dele, espantado. -
Pronto – disse e Lupin, enfiando a própria varinha no cinto. Vocês
estão armados e nós, não. Agora vão me ouvir?
Harry não sabia o que pensar. Seria um truque?
— Se o senhor não esteve ajudando — disse, lançando um
olhar furioso a Black —, como é que soube que ele estava aqui?
— O mapa. O Mapa do Maroto. Eu estava na minha sala
examinando-o...
— O senhor sabe trabalhar com o mapa? — indagou Harry
desconfiado.
— Claro que sei — disse Lupin fazendo um gesto
impaciente com a mão. — Ajudei a prepará-lo. Eu sou Aluado,
esse era o apelido que meus amigos me davam na escola.
— O senhor preparou...?
— O importante é que eu estava examinando o mapa
atentamente hoje à noite, porque imaginei que você, Rony e
Hermione poderiam tentar sair, escondidos, do castelo para visitar
Hagrid antes da execução do hipogrifo. E estava certo, não é
mesmo?
Lupin começara a andar para cima e para baixo do quarto,
com os olhos fixos nos garotos. Pequenas nuvens de pó se
levantavam aos seus pés.
— Você poderia estar usando a velha capa do seu pai,
Harry...
— Como é que o senhor sabia da capa?
292
— O número de vezes que vi Tiago desaparecer debaixo da
capa... — disse, fazendo outro gesto de impaciência com a mão.
— A questão é que, mesmo quando a pessoa está usando a Capa
da Invisibilidade, ela continua a aparecer no Mapa do Maroto.
Observei vocês atravessarem os jardins e entrar na cabana de
Hagrid. Vinte minutos depois, vocês saíram e voltaram em direção
ao castelo. Mas, então, iam acompanhados por mais alguém.
— Quê? — aclamou Harry. — Não, não íamos!
— Eu não podia acreditar no que estava vendo —
continuou o professor, prosseguindo a caminhada e fingindo não
ter ouvido a interrupção de Harry. — Achei que o mapa não estava
registrando direito. Como é que ele podia estar com vocês?
— Não tinha ninguém com a gente!
— Então vi outro pontinho, andando depressa em sua
direção, rotulado Sirius Black... vi-o colidir com você; observei
quando arrastou dois de vocês para dentro do Salgueiro Lutador...
— Um de nós! — corrigiu-o Rony, zangado. — Não,
Rony. Dois de vocês. Ele parou de andar, os olhos em Rony.
— Você acha que eu poderia dar uma olhada no rato? —
perguntou com a voz equilibrada.
— Quê? — exclamou Rony. — Que é que o Perebas tem a
ver com isso?
— Tudo. Posso vê-lo, por favor?
Rony hesitou, depois enfiou a mão nas vestes. Perebas
apareceu, debatendo-se desesperadamente; o garoto teve que
segurá-lo pelo longo rabo pelado para impedi-lo de fugir. Bichento
ficou em pé na perna de Black e sibilou baixinho.
Lupin se aproximou de Rony. Parecia estar prendendo a
respiração enquanto examinava Perebas atentamente.
— Quê? — repetiu Rony, segurando Perebas mais perto
com um ar apavorado. — Que é que meu rato tem a ver com
qualquer coisa?
— Isto não é um rato — disse Sirius Black, de repente,
com a voz rouca.
— Que é que você está dizendo... é claro que é um rato...
— Não, não é — confirmou Lupin calmamente. — É um
bruxo. — Um animago — disse Black — que atende pelo nome de
Pedro Pettigrew.
293
— CAPÍTULO DEZOITO —
Aluado, Rabicho, Almofadinhas e
Pontas
Levou alguns segundos para os garotos absorverem o
absurdo desta afirmação. Então Rony disse em voz alta o que
Harry estava pensando.
— Vocês dois são malucos.
Ridículo! — exclamou Hermione baixinho.
Pedro Pettigrew está morto! — afirmou Harry. — Ele o
matou há doze anos! O garoto apontou para Black, cujo rosto
tremeu convulsivamente.
Tive intenção — vociferou o acusado, os dentes amarelos à
mostra —, mas o Pedrinho levou a melhor... mas desta vez não!
E Bichento foi atirado ao chão quando Black avançou para
Perebas; Rony berrou de dor ao receber o peso de Black sobre sua
perna quebrada.
Sirius, NÃO! berrou Lupin atirando-se à frente e afastando
Black para longe de Rony. — ESPERE! Você não pode fazer isso
assim... eles precisam entender... temos que explicar...
— Podemos explicar depois! — rosnou Black, tentando
tirar Lupin do caminho. Ainda mantinha uma das mãos no ar, com
a qual tentava alcançar Perebas, que. por sua vez, guinchava feito
um porquinho, arranhando o rosto e o pescoço de Rony, tentando
escapar.
—Eles têm... o... direito... de... saber... de... tudo! ofegou
Lupin, ainda tentando conter Black. — Ele foi bicho de estimação
de Rony! E tem partes dessa história que nem eu compreendo
muito bem! E Harry... você deve a verdade a ele, Sirius!
Black parou de resistir, embora seus olhos fundos
294
continuassem fixos em Perebas, firmemente seguro sob as mãos
mordidas,arranhadas e sangrentas de Rony
— Está bem, então — concordou Black, sem desgrudar os
olhos do rato. — Conte a eles o que quiser. Mas faça isso
depressa, Remo, quero cometer o crime pelo qual fui preso...
— Vocês são pirados, os dois — disse Rony trêmulo,
procurando com os olhos o apoio de Harry e Hermione. — Para
mim chega. Estou fora.
O garoto tentou se levantar com a perna boa, mas
Lupin tornou a erguer a varinha, apontando-a para Perebas.
— Você vai me ouvir até o fim, Rony — disse calmamente.
— Só quero que mantenha Pedro bem seguro enquanto me ouve.
— ELE NÃO Ë PEDRO, ELE É PEREBAS! — berrou
Rony, tentando empurrar o rato para dentro do bolso das vestes,
mas Perebas resistia com todas as forças; Rony oscilou e se
desequilibrou, mas Harry o amparou e empurrou de volta à cama.
Então, sem dar atenção a Black, Harry se dirigiu a Lupin.
— Houve testemunhas que viram Pettigrew morrer —
disse. —Uma rua cheia..,
— Eles não viram o que pensaram que viram! — disse
Black ferozmente, ainda vigiando Perebas se debater nas mãos de
Rony.
— Todos pensaram que Sirius tinha matado Pedro —
confirmou Lupin acenando a cabeça. — Eu mesmo acreditei nisso,
até ver o mapa hoje à noite. Porque o Mapa do Maroto nunca
mente... Pedro está vivo. Na mão de Rony, Harry.
Harry baixou os olhos para Rony, e quando seus olhares se
encontraram, os dois concordaram silenciosamente: Black e Lupin
estavam delirando. A história deles não fazia o menor sentido.
Como Perebas poderia ser Pedro Pettigrew? Azkaban, afinal,
devia ter endoidado Black — mas por que Lupin estava fazendo o
jogo dele?
Então Hermione falou, numa voz trêmula que se pretendia
calma, como se tentasse fazer o professor falar sensatamente.
— Mas Prof. Lupin.. Perebas não pode ser Pettigrew... não
pode ser verdade, o senhor sabe que não pode...
— Por que não pode? — perguntou Lupin calmamente,
como se estivessem na sala de aula e Hermione apenas levantasse
295
um problema relativo a uma experiência com grindylows.
— Porque... porque as pessoas saberiam se Pedro Pettigrew
tivesse sido um animago. Estudamos animagos com a Prof.
McGonagall. E procurei maiores informações quando fiz o meu
dever de casa, o Ministério da Magia controla os bruxos e bruxas
que são capazes de se transformar em animais; há um registro que
mostra em que animal se transformam, o que fazem, quais os seus
sinais de identificação e outros dados... e fui procurar o nome da
Prof. McGonagall no registro e vi que só houve sete animagos
neste século e o nome de Pettigrew não constava da lista...
Harry mal tivera tempo de se admirar intimamente com o
esforço que Hermione investia nos deveres de casa, quando Lupin
começou a rir.
— Certo, outra vez Hermione! — exclamou, — Mas o
Ministério nunca soube que havia três animagos não registrados à
solta em Hogwarts.
— Se você vai contar a história aos garotos, se apresse,
Remo —rosnou Black, que continuava vigiando cada movimento
desesperado de Perebas. — Esperei doze anos, não vou esperar
muito mais.
— Está bem... mas você precisa me ajudar, Sirius — disse
Lupin —, só conheço o inicio...
Lupin parou. Tinham ouvido um rangido alto às costas
dele. A porta do quarto se abriu sozinha. Os cincos olharam. Então
Lupin foi até a porta e espiou para o patamar.
— Não há ninguém aí fora...
— Esse lugar é mal-assombrado! — comentou Rony.
— Não é, não — disse Lupin, ainda observando intrigado a
porta, — A Casa dos Gritos nunca foi mal-assombrada... Os gritos
e uivos que os moradores do povoado costumavam ouvir eram
meus.
Ele afastou os cabelos grisalhos da testa, pensou um
instante, e disse:
— Foi onde tudo começou, com a minha transformação em
lobisomem. Nada poderia ter acontecido se eu não tivesse sido
mordido... e não tivesse sido tão imprudente...
Ele parecia sóbrio e cansado. Rony ia interrompê-lo, mas
Hermione fez "psiu!". Ela observava Lupin com muita atenção.
296
— Eu ainda era garotinho quando levei a mordida. Meus
pais tentaram tudo, mas naquela época não havia cura. A poção
que o Prof. Snape tem preparado para mim é uma descoberta
muito recente. Me deixa seguro, entende. Desde que eu a tome
uma semana antes da lua cheia, posso conservar as faculdades
mentais quando me transformo.,. e posso me enroscar na minha
sala, um lobo inofensivo, à espera da mudança de lua.
"Porém, antes da Poção de Mata-cão ser descoberta, eu me
transformava em um perfeito monstro uma vez por mês. Parecia
impossível que eu pudesse freqüentar Hogwarts. Outros pais não
iriam querer expor os filhos a mim.
"Mas, então, Dumbledore se tornou diretor e ele se
condoeu. Disse que se tomássemos certas precauções, não havia
razão para eu não freqüentar a escola..." — Lupin suspirou e olhou
diretamente para Harry.
"Eu lhe disse, há alguns meses, que o Salgueiro Lutador foi
plantado no ano em que entrei para Hogwarts. A verdade é que ele
foi plantado porque eu entrei para Hogwarts. Esta casa — Lupin
correu os olhos cheios de tristeza pelo quarto — e o túnel que vem
até aqui foram construídos para meu uso. Uma vez por mês eu era
trazido do castelo para cá, para me transformar. A árvore foi
colocada na boca do túnel para impedir que alguém se encontrasse
comigo durante o meu período perigoso.
Harry não conseguia imaginar onde a história iria chegar,
mas, mesmo assim, ouvia arrebatado. O único som, além da voz
de Lupin, eram os guinchos assustados de Perebas.
- As minhas transformações naquele tempo eram... eram
terríveis. É muito doloroso alguém virar lobisomem. Eu era
separado das pessoas para morder à vontade, então eu me
arranhava e me mordia. Os moradores do povoado ouviam o
barulho e os gritos e achavam que estavam ouvindo almas do
outro mundo particularmente violentas. Dumbledore estimulava os
boatos... Ainda hoje, que a casa tem estado silenciosa há anos, os
moradores de Hogsmeade não têm coragem de se aproximar...
"Mas tirando as minhas transformações, eu nunca tinha
sido tão feliz na vida. Pela primeira vez, eu tinha amigos, três
grandes amigos. Sirius Black... Pedro Pettigrew... e, naturalmente,
seu pai, Harry — Tiago Potter.
297
"Agora, meus três amigos não puderam deixar de notar que
eu desaparecia uma vez por mês. Eu inventava todo o tipo de
histórias. Dizia que minha mãe estava doente, que tinha ido em
casa vê-la... Ficava aterrorizado em pensar que eles me
abandonariam se descobrissem o que eu era. Mas é claro que eles,
como você, Hermione, descobriram a verdade...
"E não me abandonaram. Em vez disso, fizeram uma coisa
por mim que não só tornou as minhas transformações suportáveis,
como me proporcionou os melhores momentos da minha vida.
Eles se transformaram em animagos."
— Meu pai também? - perguntou Harry, espantado.
- Certamente. Eles gastaram quase três anos para descobrir
como fazer isso. Seu pai e Sirius eram os alunos mais inteligentes
da escola, o que foi uma sorte, porque se transformar em animago
é uma coisa que pode sair barbaramente errada, é uma das razões
por que o ministério acompanha de perto os que tentam. Pedro
precisou de toda a ajuda que pôde obter de Tiago e Sirius.
Finalmente no nosso quinto ano, eles conseguiram. Podiam se
transformar em um animal diferente quando queriam.
— Mas como foi que isso ajudou o senhor? — perguntou
Hermione, intrigada.
- Eles não podiam me fazer companhia como seres
humanos, então me faziam companhia como animais. Um
lobisomem só apresenta perigo para gente. Eles saiam escondidos
do castelo todos os meses, encobertos pela Capa da Invisibilidade
de Tiago. E se transformavam... Pedro, por ser o menor, podia
passar por baixo dos ramos agressivos do Salgueiro e empurrar o
botão para imobilizá-lo. Os outros dois, então, podiam escorregar
pelo túnel e se reunir a mim. Sob a influência deles, eu me tornei
menos perigoso. Meu corpo ainda era o de um lobo, mas minha
mente se tornava menos lupina quando estávamos juntos.
— Anda logo, Remo - rosnou Black, que continuava a
observar Perebas com uma espécie de voracidade no rosto.
— Estou chegando lá, Sirius, estou chegando lá... bom,
abriram-se possibilidades extremamente excitantes para nós do
momento em que conseguimos nos transformar. Não demorou
muito e começamos a deixar a Casa dos Gritos e perambular pelos
terrenos da escola e pelo povoado à noite. Sirius e Tiago se
298
transformavam em animais tão grandes que conseguiam controlar
o lobisomem. Duvido que qualquer aluno de Hogwarts jamais
tenha descoberto mais a respeito dos terrenos da escola e do
povoado de Hogsmeade do que nós... E foi assim que acabamos
preparando o Mapa do Maroto, e assinando-o com os nossos
apelidos Sirius é Almofadinhas, Pedro é Rabicho, e Tiago era
Pontas.
- Que tipo de animal...? - Harry começou a perguntar e
Hermione o interrompeu.
— Mas a coisa continuava a ser realmente perigosa! Andar
pelo escuro em companhia de um lobisomem! E se o senhor
tivesse fugido deles e mordido alguém?
- É um pensamento que ainda me atormenta — respondeu
Lupin deprimido. — E muitas vezes escapávamos por um triz.
Nós nos ríamos disso depois. Éramos jovens, irresponsáveis,
empolgados com a nossa inteligência.
"Por vezes eu sentia remorsos por trair a confiança de
Dumbledore, é óbvio... ele me aceitara em Hogwarts, coisa que
nenhum outro diretor teria feito, e sequer desconfiava que eu
estivesse desobedecendo às regras que ele estabelecera para a
segurança dos outros e a minha própria. Ele nunca soube que eu
tinha induzido três colegas a se transformarem ilegalmente em
animagos. Mas eu sempre conseguia esquecer meus remorsos
todas as vezes que nos sentávamos para planejar a aventura do
mês seguinte. E não mudei..."
O rosto de Lupin endurecera, e havia desgosto em sua voz.
- Durante todo este ano, lutei comigo mesmo, me
perguntando se devia contar a Dumbledore que Sirius era um
animago. Mas não contei. Por quê? Porque fui covarde demais.
Porque isto teria significado admitir que eu traíra sua confiança
enquanto estivera na escola, admitir que influenciara outros... e a
confiança de Dumbledore significava tudo para mim. Ele me
admitira em Hogwarts quando garoto, e me dera um emprego
quando eu fora desprezado toda a minha vida adulta, incapaz de
encontrar um trabalho remunerado porque sou o que sou. Então
me convenci de que Sirius estava penetrando na escola por meio
das artes das trevas que aprendera com Voldemort, que o fato de
ser um animago não entrava em questão... então, de certa forma,
299
Snape tinha razão quanto à minha pessoa.
— Snape? — exclamou Black com a voz rouca, desviando
os olhos de Perebas pela primeira vez nos últimos minutos para
olhar Lupin. - Que é que Snape tem a ver com isso
— Ele está aqui, Sirius - respondeu Lupin sério. — É
professor em Hogwarts também. - E ergueu os olhos para Harry,
Rony e Hermione. — O Prof. Snape freqüentou a escola conosco.
Ele se opôs fortemente à minha nomeação para o cargo de
professor de Defesa contra as Artes das Trevas. Passou o ano
inteiro dizendo a Dumbledore que eu não sou digno de confiança.
Ele tem suas razões... entendem, o Sirius aqui pregou uma peça
nele que quase o matou, uma peça de que participei... Black emitiu
uma exclamação de desdém. - Foi bem feito para ele — zombou, -
Espionando, tentando descobrir o que andávamos aprontando... na
esperança de que fôssemos expulsos...
— Severo tinha muito interesse em saber aonde eu ia todo
mês - disse Lupin a Harry, Rony e Hermione. — Estávamos no
mesmo ano, entendem, e não... hum... não nos gostávamos muito.
Ele não gostava nada de Tiago. Ciúmes, acho eu, do talento de
Tiago no campo de quadribol... em todo o caso, Snape tinha me
visto atravessar os jardins com Madame Pomfrey certa noite
quando ela me levava em direção ao Salgueiro Lutador para eu me
transformar, Sirius achou que seria... hum... divertido, contar a
Snape que ele só precisava apertar o nó no tronco da árvore com
uma vara longa para conseguir entrar atrás de mim. Bem, é claro,
que Snape foi experimentar, e se tivesse chegado até a casa teria
encontrado um lobisomem adulto — mas seu pai, que soube o que
Sirius tinha feito, foi procurar Snape e puxou-o para fora,
arriscando a própria vida... Snape, porém, me viu, no fim do túnel.
Dumbledore o proibiu de contar a quem quer que fosse, mas desde
então ele ficou sabendo o que eu era...
- Então é por isso que Snape não gosta do senhor — disse
Harry lentamente —, porque achou que o senhor estava
participando da brincadeira?
— Isso mesmo — zombou uma voz fria vinda da parede
atrás de Lupin.
Severo Snape removia a Capa da Invisibilidade e segurava
a varinha apontada diretamente para Lupin.
300
¾ CAPÍTULO DEZENOVE —
O servo de Lord Voldemort
Hermione gritou. Black se levantou de um salto. Harry teve a
sensação de que levara um tremendo choque elétrico.
— Encontrei isso ao pé do Salgueiro Lutador — disse Snape,
atirando a capa para o lado, mas tendo o cuidado de manter a
varinha apontada diretamente para o peito de Lupin.
— Muito útil, Potter, obrigado...
Snape estava ligeiramente sem fôlego, mas o rosto expressava
contido triunfo.
Vocês talvez estejam se perguntando como foi que eu
soube que estavam aqui? — disse com os olhos brilhantes. —
Acabei de passar por sua sala, Lupin. Você esqueceu de tomar sua
poção hoje à noite, então resolvi lhe levar um cálice. E foi uma
sorte... sorte para mim, quero dizer. Encontrei em cima de sua
mesa um certo mapa. Bastou uma olhada para me dizer tudo que
eu precisava saber. Vi você correr por essa passagem e
desaparecer de vista.
— Severo... — começou Lupin, mas Snape atropelou-o.
Eu disse ao diretor várias vezes que você estava ajudando o
seu velho amigo Black a entrar no castelo, Lupin, e aqui tenho a
prova. Nem mesmo eu poderia sonhar que você teria o topete de
usar este lugar antigo como esconderijo...
— Severo, você está cometendo um engano — disse Lupin
com urgência na voz. — Você não sabe de tudo, posso explicar,
Sirius não está aqui para matar Harry...
— Mais dois para Azkaban esta noite — disse Snape, os
olhos agora brilhando de fanatismo. — Vou ficar curioso para
301
saber como é que Dumbledore vai encarar isso... Ele estava
convencido de que você era inofensivo, sabe, Lupin... um
lobisomem manso...
— Seu tolo — disse Lupin com brandura. — Será que um
ressentimento de criança é suficiente para mandar um homem
inocente de volta a Azkaban?
BANGUE! Cordas finas que lembravam cobras jorraram da
ponta da varinha de Snape e se enrolaram em torno da boca de
Lupin, dos seus punhos e tornozelos; ele perdeu o equilíbrio e caiu
no chão, incapaz de se mexer. Com um rugido de cólera, Black
avançou para Snape, mas este apontou a varinha entre os olhos de
Black.
— É só me dar um motivo — sussurrou o professor. É só me
dar rim motivo, e juro que faço.
Black se imobilizou. Teria sido impossível dizer qual dos
dois rostos revelava mais ódio.
Harry continuou ali, paralisado, sem saber o que fazer ou em
quem acreditar. Olhou para Rony e Hermione. Seu amigo parecia
tão confuso quanto ele e ainda tentava segurar um Perebas rebelde.
Hermione, porém, adiantou-se, hesitante, para Snape e disse,
respirando com dificuldade:
— Professor... não faria mal ouvirmos o que eles têm a dizer,
f... faria?
— Senhorita Granger, a senhorita já vai enfrentar uma
suspensão bufou Snape. — A. senhorita, Potter e Weasley estão
fora dos limites da escola em companhia de um criminoso
sentenciado e de um lobisomem. Pelo menos uma vez na sua vida,
cale a boca.
Mas se... se houve um engano...
— FIQUE QUIETA, SUA BURRINHA! — berrou Snape,
parecendo de repente muito perturbado. NÃO FALE DO QUE
NÃO ENTENDE! Saíram algumas fagulhas da ponta de sua
varinha, que continuava apontada para o rosto de Black. Hermione
se calou.
"A vingança é muito doce - sussurrou Snape para Black. —
Como desejei ter o privilégio de apanhá-lo...
— Você é que vai fazer papel de tolo outra vez, Severo —
302
rosnou Black. — Se esse garoto levar o rato dele até o castelo — e
indicou Rony com a cabeça... — Eu vou sem criar caso...
— Até o castelo? — retrucou Snape, com voz insinuante. —
Acho que não precisamos ir tão longe. Basta eu chamar os
dementadores quando sairmos do salgueiro. Eles vão ficar muito
satisfeitos em vê-lo, Black... satisfeitos o suficiente para lhe dar
um beijinho, eu arriscaria a dizer... A pouca cor que havia no rosto
de Black desapareceu.
— Você... você tem que ouvir o que tenho a dizer disse
rouco. — O rato... olhe aquele rato...
Mas havia um brilho alucinado nos olhos de Snape que Harry
nunca vira antes. O professor parecia incapaz de ouvir.
— Vamos, todos. — Snape estalou os dedos e as pontas das
cordas que amarravam Lupin voaram para suas mãos. — Eu puxo
o lobisomem. Talvez os dementadores tenham um beijo para ele
também...
Antes que se desse conta do que estava fazendo, Harry
atravessou o quarto em três passadas e bloqueou a porta.
— Saia da frente, Potter, você já está suficientemente
encrencado — rosnou Snape. — Se eu não estivesse aqui para
salvar sua pele...
— O Prof. Lupin poderia ter me matado cem vezes este ano
— disse Harry. — Estive sozinho com ele montes de vezes,
tomando aulas de defesa contra dementadores. Se ele estava
ajudando Black, por que não me liquidou logo?
— Não me peça para imaginar como funciona a cabeça de
um lobisomem — sibilou Snape. — Saia da frente, Potter.
- O SENHOR É PATÉTICO! - berrou Harry. — Só
PORQUE ELES FIZERAM O SENHOR DE BOBO NA
ESCOLA, O SENHOR NÃO QUER NEM ESCUTAR...
- SILENCIO! NÃO ADMITO QUE FALEM ASSIM
COMIGO! — gritou Snape, parecendo mais louco que nunca. —
Tal pai, tal filho, Potter! Acabei de salvar seu pescoço; você devia
me agradecer de joelhos! Teria sido bem feito se Black o tivesse
matado! Você teria morrido como seu pai, arrogante demais para
acreditar que poderia ter se enganado com um amigo... agora saia
da frente, ou eu vou fazer você sair. SAIA DA FRENTE,
POTTER!
303
Harry se decidiu em uma fração de segundo. Antes que
Snape pudesse sequer dar um passo em sua direção, o garoto
ergueu a varinha.
— Expelliarmus!— berrou, só que sua voz não foi a única a
gritar. Houve uma explosão que fez a porta sacudir nas
dobradiças; Snape foi levantado e atirado contra a parede, depois
escorregou por ela até o chão, um filete de sangue escorrendo por
baixo dos cabelos. Fora nocauteado.
Harry olhou para os lados. Rony e Hermione também tinham
tentado desarmar Snape exatamente no mesmo instante. A varinha
do professor voou no ar descrevendo um arco e caiu em cima da
cama, ao lado de Bichento.
— Você não devia ter feito isso — censurou Black olhando
para Harry. — Devia tê-lo deixado comigo...
Harry evitou o olhar de Black. Não tinha certeza, mesmo
agora, de que agira certo.
— Atacamos um professor... Atacamos um professor... —
choramingou Hermione, olhando assustada para o inconsciente
Snape.
— Ah, vamos nos meter numa confusão tão grande...
Lupin lutava para se livrar das cordas. Black se abaixou
depressa e o desamarrou. O professor se ergueu, esfregando os
braços onde as cordas o tinham machucado.
— Obrigado, Harry — agradeceu.
— Não estou dizendo com isso que já acredito no senhor —
disse o garoto.
— Então está na hora de lhe apresentarmos alguma prova.
Você, garoto... me dê o Pedro, por favor. Agora.
Rony apertou Perebas mais junto ao peito.
— Nem vem — disse o garoto com a voz fraca, — O senhor
está tentando dizer que Black fugiu de Azkaban só para pôr as
mãos em Perebas? Quero dizer... — e olhou para Harry e
Hermione à procura de apoio —, tudo bem, vamos dizer que
Pettigrew pudesse se transformar em rato, há milhões de ratos,
como é que Black vai saber qual é o que está procurando se estava
trancafiado em Azkaban?
— Sabe, Sirius, a pergunta é justa — disse Lupin, virando-se
para Black com a testa ligeiramente franzida. — Como foi que
304
você descobriu onde estava o rato?
Black enfiou uma das mãos, que lembravam garras, dentro
das vestes e tirou um pedaço de papel amassado, que ele alisou e
mostrou aos outros.
Era a foto de Rony com a família, que aparecera no Profeta
Diário no último verão, e ali, no ombro de Rony, estava Perebas.
— Onde foi que você arranjou isso? — perguntou Lupin a
Black, perplexo.
— Fudge — disse Black. — Quando ele foi inspecionar
Azkaban no ano passado, me cedeu o jornal que levava. E lá
estava Pedro, na primeira página... no ombro desse garoto...
reconheci-o na mesma hora... quantas vezes o vi se transformar? E
a legenda dizia que o menino ia voltar para Hogwarts... onde
Harry estava...
— Meu Deus — exclamou Lupin baixinho, olhando de
Perebas para a foto no jornal e de volta ao rato. — A pata
dianteira...
— Que é que tem a pata? — disse Rony em tom de desafio.
— Tem um dedinho faltando — afirmou Black.
— Claro — murmurou Lupin. — Tão simples... tão genial..
ele mesmo o cortou?
— Pouco antes de se transformar — confirmou Black. —
Quando eu o encurralei, ele gritou para a rua inteira que eu havia
traído Lilian e Tiago. Então, antes que eu pudesse lhe lançar um
feitiço, ele explodiu a rua com a varinha escondida às costas,
matou todo mundo em um raio de seis metros, e fugiu para dentro
do bueiro com os outros ratos...
— Você já ouviu falar, não Rony? — perguntou Lupin. — O
maior pedaço do corpo de Pedro que acharam foi o dedo.
— Olha aqui, Perebas com certeza brigou com outro rato ou
coisa parecida! Ele está na minha família há séculos, certo...
— Doze anos, para sermos exatos — disse Lupin. — Você
nunca estranhou que ele tenha vivido tantos anos?
— Nós... nós cuidamos bem dele!
— Mas ele não está com um aspecto muito saudável no
momento, não é? — comentou Lupin. — Imagino que esteja
perdendo peso desde que ouviu falar que Sirius fugiu...
— Ele tem andado apavorado com aquele gato maluco! —
305
justificou Rony, indicando com a cabeça Bichento, que continuava
a ronronar na cama.
Mas isso não era verdade, ocorreu a Harry de repente...
Perebas já estava com cara de doente antes de conhecer Bichento...
desde que Rony voltara do Egito... desde que Black escapara...
— O gato não é maluco — disse Black, rouco. Ele estendeu a
mão ossuda e acariciou a cabeça peluda de Bichento. — É o gato
mais inteligente que já encontrei. Reconheceu na mesma hora o
que Pedro era. E quando me encontrou, percebeu que eu não era
cachorro. Levou um tempinho para confiar em mim. No fim eu
consegui comunicar a ele o que estava procurando e ele tem me
ajudado...
— Como assim? — murmurou Hermione.
— Ele tentou trazer Pedro a mim, mas não pôde... então
roubou para mim as senhas de acesso à Torre da Grifinória... Pelo
que entendi, ele as tirou da mesa-de-cabeceira de um garoto.
O cérebro de Harry parecia estar fraquejando sob o peso de
tudo que ouvia. Era absurdo... contudo...
— Mas Pedro soube o que estava acontecendo e se mandou...
—falou Black. — Este gato... Bichento, foi o nome que lhe deu?...
me disse que Pedro tinha sujado os lençóis de sangue... suponho
que tenha se mordido... Ora, fingir-se de morto já tinha dado certo
uma vez...
Essas palavras sacudiram o torpor mental de Harry.
— E sabe por que é que ele se fingiu de morto? — perguntou
o garoto impetuosamente. — Porque sabia que você ia matar ele
como tinha matado os meus pais!
— Não — disse Lupin. — Harry...
—E agora você veio acabar com ele!
— É verdade, vim — disse Black, lançando um olhar
maligno a Perebas.
— Então eu devia ter deixado Snape levar você! — gritou
Harry
— Harry — disse Lupin depressa —, você não está vendo?
Todo este tempo pensamos que Sirius tinha traído seus pais e que
Pedro o perseguira... mas foi o contrário, você não está vendo?
Pedro traiu sua mãe e seu pai... Sirius perseguiu Pedro...
— NÃO É VERDADE! — berrou Harry. — ELE ERA O
306
FIEL DO SEGREDO DELES! ELE DISSE ISSO ANTES DO
SENHOR APARECER. ELE CONFESSOU QUE MATOU
MEUS PAIS!
O garoto apontava para Black, que sacudia a cabeça
devagarinho; de repente seus olhos fundos ficaram excessivamente
brilhantes.
— Harry... foi o mesmo que ter matado — disse, rouco. —
Convenci Lílian e Tiago a entregarem o segredo a Pedro no último
instante, convenci-os a usar Pedro como fiel do segredo, em vez
de mim... A culpa é minha, eu sei... Na noite em que eles
morreram, eu tinha combinado procurar Pedro para verificar se ele
continuava bem, mas quando cheguei ao esconderijo ele não
estava. Mas não havia sinais de luta. Achei estranho. Fiquei
apavorado. Corri na mesma hora direto para a casa dos seus pais.
E quando vi a casa destruída e os corpos deles... percebi o que
Pedro devia ter feito. O que eu tinha feito.
A voz dele se partiu. Ele virou as costas.
— Basta — disse Lupin, e havia um tom inflexível em sua
voz que Harry nunca ouvira antes. — Tem uma maneira de provar
o que realmente aconteceu. Rony, me dê esse rato.
— Que é que o senhor vai fazer com ele se eu der? —
perguntou Rony, tenso.
— Obrigá-lo a se revelar — disse Lupin. — Se ele for
realmente um rato, não se machucará.
Rony hesitou. Então, finalmente estendeu a mão e entregou
Perebas a Lupin. O rato começou a guinchar sem parar, se
contorcendo, os olhinhos negros saltando das órbitas.
— Está pronto, Sirius? — perguntou Lupin.
Black já apanhara a varinha de Snape na cama. Aproximouse
de Lupin e do rato que se debatia e seus olhos úmidos
pareceram, de repente, arder em seu rosto.
— Juntos? — perguntou em voz baixa.
— Acho melhor — confirmou Lupin, segurando Perebas
apertado em uma das mãos e a varinha na outra. — Quando eu
contar três. Um... dois... TRÊS!
Lampejos branco-azulados irromperam das duas varinhas;
por um instante, Perebas parou no ar, o corpinho cinzento
revirando-se alucinadamente — Rony berrou — o rato caiu e
307
bateu no chão. Seguiu-se novo lampejo ofuscante e então...
Foi como assistir a um filme de uma árvore em crescimento.
Surgiu uma cabeça no chão; brotaram membros; um momento
depois havia um homem onde antes estivera Perebas, apertando e
torcendo as mãos. Bichento bufava e rosnava na cama; os pêlos
das costas eriçados.
Era um homem muito baixo, quase do tamanho de Harry e
Hermione. Seus cabelos finos e descoloridos estavam malcuidados
e o cocuruto da cabeça era careca. Tinha o aspecto flácido de um
homem gorducho que perdera muito peso em pouco tempo. A pele
estava enrugada, quase como a pelagem do Perebas, e havia um ar
ratinheiro em volta do seu nariz fino e dos olhos muito miúdos e
lacrimosos. Ele olhou para os presentes, um a um, respirando raso
e depressa. Harry viu seus olhos correrem para a porta e voltarem.
— Ora, ora, olá, Pedro — saudou-o Lupin educadamente,
como se fosse freqüente ratos virarem velhos colegas de escola à
sua volta.
— Há quanto tempo!
— S... Sirius R... Remo. — Até a voz de Pettigrew lembrava
um guincho. Novamente seus olhos correram para a porta. —
Meus amigos... meus velhos amigos...
A varinha de Black se ergueu, mas Lupin agarrou-o pelo
pulso, lançando-lhe um olhar de censura, depois tornou a se virar
para Pettigrew, com a voz leve e displicente.
— Estávamos tendo uma conversinha, Pedro, sobre os
acontecimentos da noite em que Lílian e Tiago morreram. Você
talvez tenha perdido os detalhes enquanto guinchava na cama...
— Remo — ofegou Pettigrew, e Harry observou que se
formavam gotas de suor em seu rosto lívido —, você não acredita
nele, acredita...? Ele tentou me matar, Remo...
— Foi o que ouvimos dizer — respondeu Lupin, mais
friamente.
— Eu gostaria de esclarecer algumas coisas com você,
Pedro, se você quiser ter...
— Ele veio tentar me matar outra vez! — guinchou Pettigrew
de repente, apontando para Black, e Harry percebeu que o homem
usara o dedo médio, porque lhe faltava o indicador. — Ele matou
Lilian e Tiago e agora vai me matar também... Você tem que me
308
ajudar, Remo...
O rosto de Black parecia mais caveiroso que nunca ao fixar
os olhos fundos em Pettigrew.
— Ninguém vai tentar matá-lo até resolvermos umas coisas
— disse Lupin.
Resolvermos umas coisas? — guinchou Pettigrew, mais uma
vez olhando desesperado para os lados, registrando as janelas
pregadas e, mais uma vez, a única porta. — Eu sabia que ele viria
atrás de mim! Sabia que ele voltaria para me pegar! Estou
esperando isso há doze anos!
—Você sabia que Sirius ia fugir de Azkaban? — perguntou
Lupin, com a testa franzida. — Sabendo que ninguém jamais fez
isso antes?
— Ele tem poderes das trevas com os quais a gente só
consegue sonhar! — gritou Pettigrew com voz aguda. — De que
outro jeito fugiria de lá? Suponho que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-
Nomeado tenha lhe ensinado alguns truques!
Black começou a rir, uma risada horrível, sem alegria, que
encheu o quarto todo.
— Voldemort me ensinou alguns truques?
Pettigrew se encolheu como se Black tivesse brandido um
chicote contra ele.
— Que foi, se apavorou de ouvir o nome do seu velho
mestre?
— perguntou Black. — Não o culpo, Pedro. O pessoal dele
não anda muito satisfeito com você, não é mesmo?
— Não sei o que você quer dizer com isso, Sirius... —
murmurou Pettigrew, respirando mais rapidamente que nunca.
Todo o seu rosto brilhava de suor agora.
— Você não andou se escondendo de mim esses doze anos.
Andou se escondendo dos seguidores de Voldemort. Eu soube de
umas coisas em Azkaban, Pedro... Todos pensam que você está
morto ou já o teriam chamado a prestar contas... Ouvi-os gritar
todo o tipo de coisa durante o sono. Parece que acham que o
traidor os traiu também. Voldemort foi à casa dos Potter confiando
em uma informação sua... e Voldemort perdeu o poder lá. E nem
todos os seguidores dele foram parar em Azkaban, não é mesmo?
Ainda há muitos por aí, esperando a hora, fingindo que
309
reconheceram seus erros... Se chegarem a saber que você continua
vivo, Pedro...
— Não sei... do que está falando... — respondeu Pettigrew,
mais esganiçado que nunca. Ele enxugou o rosto na manga e
ergueu os olhos para Lupin. — Você não acredita nessa... nessa
loucura, Remo...
— Devo admitir, Pedro, que acho difícil compreender por
que um homem inocente iria querer passar doze anos sob a forma
de um rato.
— Inocente, mas apavorado! — guinchou Pettigrew. — Se
os seguidores de Voldemort estivessem atrás de mim, seria porque
mandei um dos seus melhores homens para Azkaban, o espião,
Sirius Black!
O rosto de Black se contorceu.
— Como é que você se atreve? — rosnou ele, parecendo de
repente o cachorro do tamanho de um urso que ele fora há pouco.
— Eu, espião do Voldemort? Quando foi que andei
espreitando gente mais forte e mais poderosa do que eu? Agora
você, Pedro, jamais vou entender por que não reparei desde o
começo que você era o espião; você sempre gostou de amigos
grandalhões que o protegessem não é mesmo? Você costumava
nos acompanhar... a mim e ao Remo... e ao Tiago...
Pettigrew tornou a enxugar o rosto; estava quase ofegando,
sem ar.
— Eu, espião... você deve ter perdido o juízo... nunca... não
sei como pode dizer uma...
— Lílian e Tiago só fizeram de você o fiel do segredo porque
eu sugeri — sibilou Black, tão venenosamente que Pettigrew deu
um passo atrás. — Achei que era o plano perfeito... um blefe...
Voldemort com certeza viria atrás de mim, jamais sonharia que os
dois usariam um sujeito fraco e sem talento como você... Deve ter
sido a hora mais sublime de sua vida infeliz quando você contou a
Voldemort que podia lhe entregar os Potter.
Pettigrew resmungava, perturbado; Harry entreouvia palavras
como "extravagante" e "demência", mas não conseguia deixar de
prestar mais atenção à palidez do rosto de Pettigrew e ao jeito com
que seus olhos continuavam a correr para as janelas e a porta.
— Prof. Lupin — disse Hermione timidamente. — Posso...
310
posso dizer uma coisa?
— Claro, Hermione — disse Lupin cortesmente.
— Bem... Perebas... quero dizer, esse... esse homem... ele
dormiu no quarto de Harry durante três anos. Se está trabalhando
para Você-Sabe-Quem, como é que ele nunca tentou fazer mal a
Harry antes?
— Taí! — exclamou Pettigrew com voz esganiçada,
apontando para Hermione a mão mutilada. — Muito obrigado!
Está vendo, Remo? Nunca toquei em um fio de cabelo de Harry!
Por que iria fazer isso?
— Vou lhe dizer o porque — falou Black. — Porque você
nunca fez nada, nem a ninguém nem para ninguém, sem saber o
que poderia ganhar com isso. Voldemort está foragido há doze
anos, dizem que está semimorto. Você não ia matar bem debaixo
do nariz de Alvo Dumbledore, por causa de um bruxo moribundo
que perdeu todo o poder, ia? Não, você ia querer ter certeza de que
ele era o valentão do colégio antes de voltar para o lado dele, não
ia? Por que outra razão você procurou uma família de bruxos para
o acolher? Para ficar de ouvido atento as novidades, não é mesmo,
Pedro? Caso o seu velho protetor recuperasse a antiga força e
fosse seguro se juntar a ele...
Pettigrew abriu a boca e tornou a fechá-la várias vezes.
Parecia ter perdido a capacidade de falar.
— Hum.. Sr. Black... Sirius? — disse Hermione.
Black se assustou ao ouvir alguém tratá-lo assim, com tanta
polidez, e encarou Hermione como se nunca tivesse visto nada
parecido.
— Se o senhor não se importar que eu pergunte, como...
como foi que o senhor fugiu de Azkaban, se não usou artes das
trevas?
— Muito obrigado — exclamou Pettigrew, acenando
freneticamente com a cabeça na direção da garota. — Exatamente!
Precisamente o que eu...
Mas Lupin o fez calar com um olhar. Black franziu
ligeiramente a testa para Hermione, mas não porque estivesse
aborrecido com ela. Parecia estar considerando a pergunta.
— Não sei como foi que fugi — disse lentamente. — Acho
que a única razão por que nunca perdi o juízo é porque sabia que
era inocente. Isto não era um pensamento feliz, então os
311
dementadores não podiam sugá-lo de mim... mas serviu para me
manter lúcido e consciente de quem eu era... me ajudou a
conservar meus poderes... e quando tudo se tornava... excessivo...
eu conseguia me transformar na cela... virar cachorro. Os
dementadores não conseguem enxergar, sabe... — Ele engoliu em
seco. — Aproximam-se das pessoas se alimentando de suas
emoções... Eles percebiam que os meus sentimentos eram menos...
menos humanos, menos complexos quando eu era cachorro... mas
achavam, é claro, que eu estava ? Perdendo o juízo como todos os
prisioneiros de lá, por isso não se incomodavam. Mas eu fiquei
fraco, muito fraco, e não tinha esperança de afastá-los sem uma
varinha...
"Mas, então, vi Pedro naquela foto... e compreendi que ele
estava em Hogwarts com Harry... perfeitamente colocado para
agir", lhe chegasse a menor notícia de que o partido das trevas
estava reunindo forças novamente...
Pettigrew sacudia a cabeça, murmurando em silêncio, mas
todo o tempo seus olhos se fixavam em Black como se estivesse
hipnotizado.
— ... pronto para atacar no momento em que se certificasse
de que contava com aliados... e para entregar o último Potter. Se
lhes entregasse Harry, quem se atreveria a dizer que traíra Lord
Voldemort? Pedro seria recebido de volta com todas as honras...
"Então, entendem, eu tinha que fazer alguma coisa. Era o
único que sabia que ele continuava vivo...
Harry se lembrou do que o Sr. Weasley contara à mulher:
"Os guardas dizem que ele anda falando durante o sono... sempre
as mesmas palavras... "Ele está em Hogwarts".
— Era como se alguém tivesse acendido uma fogueira na
minha cabeça, e os dementadores não pudessem destruí-la... Não
era um pensamento feliz... era uma obsessão... mas isso me deu
forças, clareou minha mente. Então, uma noite quando abriram a
porta para me trazer comida, eu passei por eles em forma de
cachorro... Para eles é tão mais difícil perceberem emoções
animais que ficaram confusos... eu estava magro, muito magro... o
bastante para passar entre as grades... ainda como cachorro nadei
até a costa... viajei para o norte e entrei escondido nos terrenos de
Hogwarts, como cachorro. Desde então vivi na floresta, exceto nas
horas em que saía para assistir ao quadribol, é claro. Você voa
312
bem como o seu pai, Harry...
Black se virou para o garoto, que não evitou seu olhar.
— Acredite-me — disse, rouco. — Acredite-me, Harry.
Nunca traí Tiago e Lílian. Teria preferido morrer a trai-los.
E, finalmente, Harry acreditou. A garganta apertada demais
para falar, fez um aceno afirmativo com a cabeça.
— Não!
Pettigrew caíra de joelhos como se o aceno de Harry fosse a
sua sentença de morte. Arrastou-se de joelhos, humilhou-se, as
mãos juntas diante do peito como se rezasse.
— Sirius... sou eu... Pedro... seu amigo... você não... Black
deu um chute no ar e Pettigrew se encolheu.
- Já tem sujeira suficiente nas minhas vestes sem você tocar
nelas — exclamou Black.
— Remo! — esganiçou-se Pettigrew, virando-se para Lupin,
implorando com as mãos e os joelhos no chão. — Você não
acredita nisso,.. Sirius não teria lhe contado se eles tivessem
mudado os planos?
— Não, se pensasse que eu era o espião, Pedro. Presumo que
foi por isso que você não me contou, Sirius? — perguntou ele,
pouco interessado, por cima da cabeça de Pettigrew.
— Me perdoe, Remo — disse Black.
— Tudo bem, Almofadinhas, meu velho amigo — respondeu
Lupin, que agora enrolava as mangas das vestes. — E você me
perdoa por acreditar que você fosse o espião?
— Claro. — E a sombra de um sorriso perpassou o rosto
ossudo de Black. Ele, também, começou a enrolar as mangas. —
Vamos matá-lo juntos?
— Acho que sim — concordou Lupin sombriamente.
— Vocês não me matariam.., não vão me matar... —
exclamou Pettigrew. — E correu para Rony.
— Rony... eu não fui um bom amigo... um bom bichinho?
Você não vai deixá-los me matarem, Rony, vai.. você está do meu
lado, não está?
Mas Rony olhava Pettigrew com absoluto nojo.
— Eu deixei você dormir na minha cama — exclamou ele.
— Bom garoto... bom dono... — Pettigrew se arrastou até
Rony — você não vai deixá-los fazerem isso... eu fui o seu rato...
313
fui um bom bicho de estimação...
— Se você foi um rato melhor do que foi um homem, não é
coisa para se gabar, Pedro — disse Black com aspereza. Rony,
empalidecendo ainda mais de dor, puxou a perna quebrada para
longe do alcance de Pettigrew. Ainda de joelhos, este se virou e
cambaleou para frente, agarrando a bainha das vestes de
Hermione.
— Garota meiga... garota inteligente... você... você não vai
deixar que eles... Ajude-me.
Hermione puxou as vestes para longe das mãos de Pettigrew
e recuou contra a parede, horrorizada.
Pettigrew continuou ajoelhado, tremendo
descontroladamente, e foi virando lentamente a cabeça para Harry.
— Harry... Harry... você é igualzinho ao seu pai...
igualzinho...
- COMO É QUE VOCÊ SE ATREVE A FALAR COM
HARRY? — rugiu Black. — COMO TEM CORAGEM DE
OLHAR PARA ELE? COMO TEM CORAGEM DE FALAR DE
TIAGO NA FRENTE DELE?
— Harry — sussurrou Pettigrew arrasando-se em direção ao
garoto, com as mãos estendidas. — Harry Tiago não iria querer
que eles me matassem... Tiago teria compreendido, Harry... Teria
tido piedade...
Black e Lupin avançaram ao mesmo tempo, agarraram
Pettigrew pelos ombros e o atiraram de costas no chão. O homem
ficou ali, contorcendo-se de terror, olhando fixamente para os
dois.
Você vendeu Lílian e Tiago a Voldemort — disse Black, que
também tremia. — Você nega isso?
Pettigrew prorrompeu em lágrimas. A cena era terrível, ele
parecia um bebezão careca, encolhendo-se.
— Sirius, Sirius, o que é que eu podia ter feito? O Lord das
Trevas... você não faz idéia... ele tem armas que você não
imagina... tive medo, Sirius, eu nunca fui corajoso como você,
Remo e Tiago. Eu nunca desejei que isso acontecesse... Aquele-
Que-Não-Deve-Ser-Nomeado me forçou...
— NÃO MINTA! — berrou Black. — VOCÊ ANDOU
PASSANDO INFORMAÇÕES PARA ELE DURANTE UM
ANO ANTES DE LÍLIAN E TIAGO MORREREM! VOCÊ ERA
314
ESPIÃO DELE!
— Ele estava assumindo o poder em toda parte! — exclamou
Pettigrew. — Que é que eu tinha a ganhar recusando o que me
pedia?
— Que é que você tinha a ganhar lutando contra o bruxo
mais maligno que já existiu? — perguntou Black, com uma
terrível expressão de fúria no rosto. — Apenas vidas inocentes,
Pedro!
— Você não entende! — choramingou Pettigrew. — Ele
teria me matado, Sirius!
- ENTÃO VOCÊ DEVIA TER MORRIDO! - rugiu Black. -
MORRER EM VEZ DE TRAIR SEUS AMIGOS, COMO
TERÍAMOS FEITO POR VOCÊ!
Black e Lupin estavam ombro a ombro, as varinhas erguidas.
— Você devia ter percebido — disse Lupin com a voz
controlada —, que se Voldemort não o matasse, nós o mataríamos.
Adeus, Pedro.
Hermione cobriu o rosto com as mãos e se virou para a
parede.
— NÃO! — berrou Harry. E se adiantou, colocando-se entre
Pettigrew e as varinhas. — Vocês não podem matá-lo — disse
afobado. — Não podem.
Black e Lupin fizeram cara de espanto.
— Harry, esse verme é a razão por que você não tem pais —
rosnou Black. — Esse covardão teria olhado você morrer, sem
levantar um dedo. Você ouviu o que ele disse. Dava mais valor à
pele nojenta do que a toda sua família.
— Eu sei — ofegou Harry. — Vamos levar Pedro até o
castelo. Vamos entregar ele aos dementadores. Ele pode ir para
Azkaban... mas não o matem.
— Harry! — exclamou Pettigrew, e atirou os braços em
torno dos joelhos de Harry. — Você... obrigado... é mais do que eu
mereço... obrigado...
— Tire as mãos de cima de mim — vociferou Harry
empurrando as mãos de Pettigrew, enojado. — Não estou fazendo
isso por você. Estou fazendo isso porque acho que meu pai não ia
querer que os melhores amigos dele virassem assassinos... por sua
causa.
Ninguém se mexeu nem fez qualquer ruído exceto Pettigrew,
315
cuja respiração saia em arquejos, e ele levava as mãos ao peito.
Black e Lupin se entreolharam. Então, com um único movimento,
baixaram as varinhas.
— Você é a única pessoa que tem o direito de decidir, Harry
—disse Black. — Mas pense... pense no que ele fez...
— Ele pede ir para Azkaban — repetiu Harry. — Se alguém
merece aquele lugar é ele...
Pettigrew continuava a arquejar às costas do garoto.
— Muito bem — disse Lupin. — Saia da frente, então.
Harry hesitou.
— Vou amarrá-lo — disse Lupin. — Só isso, juro.
Harry saiu do caminho. Cordas finas saíram da varinha de
Lupin, desta vez, e no momento seguinte Pettigrew estava se
revirando no chão, amarrado e amordaçado.
— Mas se você se transformar, Pedro — rosnou Black, a
varinha também apontada para Pettigrew —, nós o mataremos.
Concorda, Harry?
Harry olhou a figura lastimável no chão e concordou com a
cabeça de modo que Pettigrew pudesse vê-lo.
— Certo — disse Lupin, subitamente eficiente. — Rony, não
sei consertar ossos tão bem quanto Madame Pomfrey, por isso
acho melhor só imobilizar sua perna até o entregarmos na ala
hospitalar.
Ele foi até Rony, se abaixou, tocou a perna dele com a
varinha e murmurou:
— Férula!— Ataduras se enrolaram à perna de Rony e a
prenderam firmemente a uma tala. Depois, o professor ajudou o
garoto a se levantar; Rony, desajeitado, apoiou no chão o peso da
perna e não fez careta.
— Está melhor. Obrigado.
— E o Prof Snape? — perguntou Hermione com a voz
fraquinha, contemplando o professor encostado à parede.
— Ele não tem nenhum problema sério — disse Lupin se
curvando para Snape e tomando seu pulso. — Vocês só se
entusiasmaram um pouquinho demais. Continua desacordado.
Hum... talvez seja melhor não o reanimarmos até estar a salvo no
castelo. Podemos levá-lo assim...
Lupin murmurou:
316
— Mobiticorpus!— Como se fios invisíveis tivessem sido
amarrados aos pulsos, pescoço e joelhos de Snape, ele foi posto de
pé, a cabeça pendendo molemente, como a de um títere grotesco.
Ele flutuava a alguns centímetros do chão, os pés frouxos
sacudindo. Lupin apanhou a Capa da Invisibilidade e guardou-a
eM segurança no bolso.
— E dois de nós devemos nos acorrentar a essa coisa —
disse Black, cutucando Pettigrew com o pé. — Só para garantir.
— Eu faço isso — disse Lupin.
— E eu — disse Rony decidido, mancando até o prisioneiro.
Black conjurou pesadas algemas do nada; e logo Pettigrew
estava novamente de pé, o braço esquerdo preso ao direito de
Lupin, o direito preso ao esquerdo de Rony. O garoto estava muito
sério. Parecia ter tomado a verdadeira identidade de Perebas como
uma ofensa pessoal. Bichento saltou com leveza da cama e abriu
caminho para fora do quarto, o rabo de escovinha elegantemente
erguido no ar.
317
— CAPITULO VINTE —
O beijo do dementador
Harry nunca fizera parte de um grupo tão esquisito.
Bichento descia as escadas à frente; Lupin, Pettigrew e Rony
vinham a seguir, parecendo competidores de uma corrida de seis
pernas. Depois vinha o Prof Snape, flutuando feito um fantasma,
os pés batendo em cada degrau que descia, seguro por sua própria
varinha, que Sirius apontava para ele. Harry e Hermione fechavam
o cortejo.
Voltar ao túnel foi difícil. Lupin, Pettigrew e Rony tiveram
que se virar de lado para consegui-lo; Lupin continuava a cobrir
Pettigrew com a varinha. Harry os via avançar lentamente pelo
túnel em fila indiana. Bichento sempre à frente. Harry logo atrás
de Black, que continuava a fazer Snape flutuar à frente com a
cabeça mole batendo sem parar no teto baixo. O menino tinha a
impressão de que Black não estava fazendo nada para evitar as
batidas.
— Você sabe o que isso significa? — perguntou Black
abruptamente a Harry enquanto faziam seu lento progresso pelo
túnel.
Entregar Pettigrew?
— Você fica livre... — respondeu Harry.
É. Mas eu também sou, não sei se alguém lhe disse, eu sou
seu padrinho.
— Eu soube — disse Harry.
— Bem... os seus pais me nomearam seu tutor — disse
Black formalmente, — Se alguma coisa acontecesse a eles...
Harry esperou. Será que Black queria dizer o que ele
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achava que queria?
— Naturalmente, eu vou compreender se você quiser ficar
com seus tios — disse Black. — Mas... bem... pense nisso. Depois
que o meu nome estiver limpo... se você quiser uma... uma casa
diferente...
Uma espécie de explosão ocorreu no fundo do estômago de
Harry.
— Quê, morar com você? — perguntou, batendo a cabeça,
sem querer, numa pedra saliente do teto. — Deixar a casa dos
Dursley?
— Claro, achei que você não ia querer — disse Black
apressadamente. — Eu compreendo, só pensei que...
— Você ficou maluco? — disse Harry, com a voz quase
tão rouca quanto a de Black. — Claro que quero deixar a casa dos
Dursley! Você tem casa? Quando é que eu posso me mudar?
Black virou-se completamente para olhar o garoto; a
cabeça de Snape raspou o teto, mas Black não pareceu se importar.
— Você quer? — perguntou ele. — Sério?
— Sério! — respondeu Harry.
O rosto ossudo de Black se abriu no primeiro sorriso
verdadeiro que Harry já o tinha visto dar. A diferença que fazia era
espantosa, como se uma pessoa dez anos mais nova se projetasse
através da máscara de fome; por um instante ele se tornou
reconhecível como o homem que estava rindo no casamento dos
pais de Harry.
Os dois não se falaram mais até chegar ao fim do túnel.
Bichento saiu correndo à frente; evidentemente apertara o nó do
tronco com a pata, porque Lupin, Pettigrew e Rony subiram
penosamente, mas não houve ruídos de galhos ferozes.
Black fez Snape passar pelo buraco, depois se afastou para
Harry e Hermione passarem. Finalmente todos conseguiram sair.
Os jardins estavam muito escuros agora; as únicas luzes
vinham das janelas distantes do castelo. Sem dizer uma palavra,
eles começaram a andar. Pettigrew continuava a arquejar e,
ocasionalmente, a choramingar. A cabeça de Harry zumbia. Ele ia
deixar os Dursley. ia morar com Sirius Black, o melhor amigo dos
seus pais... Sentia-se atordoado... Que iria acontecer quando
dissesse aos Dursley que ia morar com o preso que tinham visto na
319
televisão!
— Um movimento errado, Pedro — ameaçou Lupin que ia
à frente. Sua varinha continuava apontada de viés para o peito de
Pettigrew.
Em silêncio eles avançaram pelos jardins, as luzes do
castelo crescendo com a aproximação. Snape continuava a flutuar
de maneira fantasmagórica à frente de Black, o queixo batendo no
peito. Então...
Uma nuvem se mexeu. Inesperadamente surgiram sombras
escuras no chão. O grupo foi banhado pelo luar.
Snape se chocou com Lupin, Pettigrew e Rony, que
pararam abruptamente. Black congelou. Ele esticou um braço para
fazer Harry e Hermione pararem.
O garoto viu a silhueta de Lupin. O professor enrijecera.
Então as pernas de Harry começaram a tremer.
— Ah, não! — exclamou Hermione. — Ele não tomou a
poção hoje à noite. Ele está perigoso!
— Corram — sussurrou Black. — Corram. Agora.
Mas Harry não podia correr. Rony estava acorrentado a
Pettigrew e Lupin. Ele deu um salto para frente, mas Black o
abraçou pelo peito e o atirou para trás.
— Deixe-o comigo... CORRA!
Ouviu-se um rosnado medonho. A cabeça de Lupin
começou a se alongar. O seu corpo também. Os ombros se
encurvaram. Pêlos brotavam visivelmente de seu rosto e suas
mãos, que se fechavam transformando-se em patas com garras. Os
pêlos de Bichento ficaram outra vez em pé e ele estava recuando...
Quando o lobisomem se empinou, batendo as longas
mandíbulas, Sirius desapareceu do lado de Harry. Transformarase.
O enorme cão semelhante a um urso saltou para frente. E
quando o lobisomem se livrou da algema que o prendia, o cão
agarrou-o pelo pescoço e puxou-o para trás, afastando-o de Rony e
Pettigrew. Atracaram-se, mandíbula contra mandíbula, as garras se
golpeando...
Harry parou, petrificado com a visão, demasiado absorto
com a batalha para prestar atenção em outra coisa. Foi o grito de
Hermione que o alertou..
Pettigrew tinha mergulhado para apanhar a varinha caída
320
de Lupin. Rony, mal equilibrado na perna enfaixada, caiu. Houve
um estampido, um clarão... e Rony ficou estirado, imóvel, no
chão. Outro estampido... Bichento voou pelo ar e tornou a cair na
terra fofa.
— Expelliarmus — berrou Harry, apontando a própria
varinha para Pettigrew; a varinha de Lupin voou muito alto e
desapareceu de vista. — Fique onde está! — gritou Harry,
correndo em frente.
Tarde demais. Pettigrew se transformara. Harry viu seu
rabo pelado passar pela algema no braço estendido de Rony e o
ouviu correr pelo gramado.
Um uivo e um rosnado prolongado e surdo ecoaram; Harry
se virou e viu o lobisomem fugindo; galopando para a floresta..
— Sirius, ele fugiu, Pettigrew se transformou — berrou
Harry.
Black sangrava; havia cortes profundos em seu focinho e
nas costas, mas ao ouvir as palavras de Harry ele tornou a se
levantar depressa e, num instante, o ruído de suas patas foi
morrendo até cessar ao longe.
Harry e Hermione correram para Rony.
— Que foi que Pettigrew fez com ele? — .sussurrou
Hermione. Os olhos de Rony estavam apenas semicerrados, a boca
frouxa e aberta; sem dúvida, estava vivo, eles o ouviam respirar,
mas não parecia reconhecer os amigos.
— Não sei.
Harry olhou desesperado para os lados. Black e Lupin, os
dois tinham se ido... não havia mais nenhum adulto em sua
companhia exceto Snape, que ainda flutuava, inconsciente, no ar.
— É melhor levarmos os dois para o castelo e contarmos a
alguém — disse Harry, afastando os cabelos dos olhos, tentando
pensar direito. — Vamos...
Mas então, para além do seu campo de visão, eles ouviram
latidos, um ganido; um cachorro em sofrimento...
— Sirius — murmurou Harry, olhando para o escuro.
Ele teve um ,momento de indecisão, mas não havia nada
que pudessem fazer por Rony naquele momento, e pelo que
ouviam, Black estava em apuros...
Harry saiu correndo, Hermione em. seu encalço. Os latidos
321
pareciam vir da área próxima ao lago. Eles saíram desabalados
naquela direção, e Harry, correndo sem parar, sentiu o frio sem
perceber o que devia significar...
Os latidos pararam abruptamente. Quando os garotos
chegaram ao lago viram o porque: Sirius se transformara outra vez
em homem. Estava caído de quatro, com as mãos na cabeça.
—Nãaaao — gemia —, nãão... por favor..
Então Harry os viu. Dementadores, no mínimo uns cem
deles, deslizando em torno do lago num grupo escuro que vinha
em sua direção. O menino se virou, o frio de gelo seu conhecido,
penetrando suas entranhas, a névoa começando a obscurecer sua
visão; eles não estavam somente surgindo da escuridão por todo o
lado; estavam cercando-os...
— Hermione, pense em alguma coisa feliz! — berrou
Harry, erguendo a varinha, piscando furiosamente para tentar
clarear sua visão, sacudindo a cabeça para livrá-la da leve gritaria
que começara dentro dela...
Eu vou morar com o meu padrinho. Vou deixar os Dursley.
Ele se forçou a pensar em Black, e somente em Black, e
começou a cantar:
— Expecto patronum! Expecto patronum!
Black estremeceu, rolou de barriga para cima e ficou
imóvel no chão, pálido como a morte.
Ele vai ficar bem. Eu vou morar com ele.
— Expecto patronum! Hermione, me ajude! Expecto
patronum...
— Expecto... — murmurou Hermione — expecto...
expecto...
Mas ela não conseguia. Os dementadores estavam mais
próximos, agora a menos de três metros deles. Formavam uma
muralha sólida em torno de Harry e Hermione, cada vez mais
próximos...
— EXPECTO PATRONUM! — berrou Harry, tentando
abafar a gritaria em seus ouvidos. — EXPECTO PATRONUM!
Um fiapinho prateado saiu de sua varinha e pairou como
uma névoa diante dele. No mesmo instante, Harry sentiu
Hermione desmaiar ao seu lado, Estava só... completamente só...
— Expecto... expecto patronum...
322
Harry sentiu os joelhos baterem na grama fria. O nevoeiro
nublou seus olhos. Com um enorme esforço, ele lutou para se
lembrar... Sirius era inocente... inocente... Ele vai ficar bem... Eu
vou morar com ele...
— Expecto patronum!— exclamou.
À luz fraca do seu Patrono informe, ele viu um dementador
parar, muito perto dele. Não conseguiu atravessar a nuvem de
névoa prateada que Harry conjurara. A mão morta e viscosa
deslizou para fora da capa. Ela fez um gesto como se quisesse
varrer o Patrono para o lado.
— Não... não... — ofegou Harry — Ele é inocente...
expecto... expecto patronum...
Ele sentia que os dementadores o observavam, ouvia a
respiração deles vibrar como um vento maligno ao seu redor. O
dementador mais próximo parecia estar avaliando-o. Então ergueu
as duas mãos podres... e baixou o capuz para trás. Onde devia
haver olhos, havia apenas uma pele sarnenta e cinza, esticada por
cima das órbitas vazias. Mas havia uma boca... um buraco
escancarado e informe, que sugava o ar com o ruído de uma
matraca que anuncia a morre.
Um terror paralisante invadiu Harry de modo que ele não
conseguia se mexer nem falar, Seu Patrono piscou e desapareceu.
O nevoeiro branco o cegava. Ele tinha que lutar.... expecto
patronum... ele não conseguia ver... ao longe ouvia os gritos já
familiares... expecto patronum... ele tateou pela névoa à procura de
Sirius, e encontrou seu braço... os dementadores não iam levá-lo...
Mas um par de mãos pegajosas e fortes, de repente, se
fechou em torno do pescoço de Harry. Forçavam-no a erguer o
rosto... Ele sentiu seu hálito... Ia se livrar dele primeiro... Harry
sentiu seu hálito podre... Sua mãe gritava em seus ouvidos... Ia ser
a última coisa que ele ouviria...
E então, através do nevoeiro que o afogava, ele achou que
estava vendo uma luz prateada que se tornava cada vez mais
forte... Ele sentiu que estava emborcando na grama...
O rosto no chão, demasiado fraco para se mexer, nauseado
e trêmulo, Harry abriu os olhos. O dementador devia tê-lo soltado.
A luz ofuscante iluminava o gramado a seu redor... Os gritos
tinham cessado, o frio estava diminuindo...
323
Alguma coisa estava obrigando os dementadores a recuar...
Girava em torno dele, de Black e Hermione... Os dementadores
estavam se afastando... O ar reaquecia...
Com cada grama de força que ele conseguiu reunir, Harry
ergueu a cabeça uns poucos centímetros e viu um animal envolto
em luz, distanciando-se a galope através do lago. Os olhos
embaçados de suor, Harry tentou distinguir o que era... Era
fulgurante como um unicórnio. Lutando para se manter
consciente, viu-o diminuir o galope ao chegar à margem oposta do
lago. Por um momento, Harry viu, à sua claridade, alguém que lhe
dava as boas vindas.. erguendo a mão para lhe dar uma
palmadinha... alguém que lhe pareceu estranhamente familiar...
mas não podia ser...
Harry não entendeu. Não conseguiu mais pensar. Sentiu
que suas últimas forças o abandonavam e sua cabeça bateu no
chão quando ele desmaiou.
324
— CAPITULO VINTE E UM —
O segredo de Hermione
— Uma história chocante... chocante... milagre que
ninguém tenha morrido... nunca ouvi nada igual... pelo trovão, foi
uma sorte você estar lá, Snape...
- Muito obrigado, ministro.
Ordem de Merlin, Segunda Classe, eu diria. Primeira
Classe, se eu puder convencê-los.
— Muito obrigado mesmo, ministro.
— Que corte feio você tem aí... obra do Black, suponho?
Na realidade, foram Potter, Weasley e Granger, ministro... -
- Não!
— Black havia enfeitiçado os garotos, vi imediatamente.
Um feitiço Confundus, a julgar pelo comportamento deles.
Pareciam acreditar que havia possibilidade de o homem ser
inocente. Não foram responsáveis por seus atos. Por outro lado, a
interferência deles talvez tivesse permitido a Black fugir... Os
garotos obviamente pensaram que iam capturá-lo sozinho. Já
escaparam com muita estripulia até agora... Receio que isso os
tenha feito se acharem superiores... e, naturalmente, Potter sempre
recebeu uma extraordinária indulgência do diretor...
— Ah, bom, Snape... Harry Potter, sabe... todos somos um
pouco cegos quando se trata dele.
— Contudo... será que é bom para ele receber tanto
tratamento especial? Por mim, procuro tratá-lo como qualquer
outro aluno. E qualquer outro aluno seria suspenso, no mínimo,
por colocar seus amigos em situação tão perigosa. Considere,
ministro: contrariando todas as regras da escola... depois de todas
as precauções que tomamos para sua proteção... fora dos limites da
escola, à noite, em companhia de um lobisomem e de um
325
assassino... e tenho razões para acreditar que ele andou visitando
Hogsmeade ilegalmente, também...
— Bem, bem... veremos, Snape, veremos... O garoto sem
dúvida foi tolo...
Harry estava deitado com os olhos bem fechados. Sentia-se
muito tonto. As palavras que ouvia pareciam viajar muito
lentamente dos ouvidos para o cérebro, por isso estava difícil
compreender. Suas pernas e braços pareciam feitos de chumbo; as
pálpebras demasiado pesadas para abri-las... ele queria ficar
deitado ali, naquela cama confortável, para sempre...
— O que mais me surpreende é o comportamento dos
dementadores... você realmente não tem idéia do que os fez se
retirar, Snape?
— Não, ministro... quando recuperei os sentidos eles
estavam voltando aos seus postos na entrada...
— Extraordinário. E, no entanto, Black, Harry e a garota...
— Todos inconscientes quando cheguei. Amarrei e
amordacei Black, naturalmente, conjurei macas e os trouxe
diretamente para o castelo.
Houve uma pausa. O cérebro de Harry parecia estar
trabalhando um pouco mais rápido e, quando isso aconteceu,
surgiu uma sensação desagradável na boca do seu estômago...
O garoto abriu os olhos.
Tudo estava levemente embaçado. Alguém tirara seus
óculos. Ele estava deitado na escura ala hospitalar. Em um
extremo da enfermaria avistou Madame Pomfrey de costas para
ele, curvada sobre um leito. Harry apertou os olhos. Os cabelos
ruivos de Rony estavam visíveis por baixo do braço de Madame
Pomfrey.
Harry virou a cabeça no travesseiro. Na cama à sua direita
estava Hermione. O luar banhava a cama. Os olhos dela também
estavam abertos. Parecia petrificada e, quando viu que Harry
estava acordado, levou o dedo aos lábios e apontou para a porta da
enfermaria. Estava entreaberta, e entravam por ela as vozes de
Cornélio Fudge e Snape, vindas do corredor.
Madame Pomfrey agora vinha andando com passos
enérgicos pela enfermaria escura até a cama de Harry. O garoto se
virou para olhá-la. A enfermeira trazia a maior barra de chocolate
que ele já vira na vida. Parecia um pedregulho.
— Ah, você acordou! — disse ela com animação. Pousou o
chocolate na mesa-de-cabeceira de Harry e começou a parti-lo em
326
pedaços com um martelinho.
Como está o Rony? — perguntaram Harry e Hermione,
juntos.
— Vai sobreviver — respondeu Madame Pomfrey de cara
feia. —Quanto a vocês dois... vão continuar aqui até eu me
convencer que... Potter o que é que você acha que está fazendo?
O garoto estava se sentando, colocando os óculos e
apanhando a varinha,
— Preciso ver o diretor — disse.
— Potter — disse Madame Pomfrey, acalmando-o —, está
tudo bem. Apanharam Black. Ele está trancado lá em cima. Os
dementadores vão-lhe dar o beijo a qualquer momento...
- O QUE?
Harry saltou da cama; Hermione fizera o mesmo. Mas o
seu grito fora ouvido no corredor lá fora; no segundo seguinte,
Cornélio Fudge e Snape entraram na enfermaria,
— Harry, Harry, que foi que houve? — perguntou Fudge,
parecendo agitado. — Você devia estar na cama, ele já comeu o
chocolate? — perguntou, ansioso, o ministro a Madame Pomfrey.
— Ministro, ouça! — pediu Harry. — Sirius Black é
inocente! Pedro Pettigrew fingiu a própria morte! Nós o vimos
hoje à noite, O senhor não pode deixar os dementadores fazerem
aquilo com Sirius, ele...
Mas Fudge estava sacudindo a cabeça com um sorrizinho
no rosto.
— Harry, Harry você está muito confuso, passou por uma
provação terrível, deite-se, agora, temos tudo sob controle.,,
- O SENHOR NÃO TEM, NÃO! - berrou Harry. - O
SENHOR PEGOU O HOMEM ERRADO!
— Ministro, por favor, ouça — disse Hermione; ela correra
para o lado de Harry e olhava, suplicante, o rosto de Fudge. — Eu
também o vi. Era o rato de Rony, ele é um animago, o Pettigrew,
quero dizer e...
— O senhor está vendo, ministro — disse Snape. —
Confusos, os dois... Black fez um bom serviço...
- NÃO ESTAMOS CONFUSOS! - berrou Harry.
— Ministro! Professor! — disse Madame Pomfrey
aborrecida. —Devo insistir que os senhores saiam. Potter é meu
paciente e não deve ser angustiado!
— Não estou angustiado, estou tentando contar o que
aconteceu! — disse Harry furioso. — Se eles ao menos me
327
escutassem...
Mas Madame Pomfrey, de repente, meteu um pedação de
chocolate na boca de Harry; ele se engasgou, e a enfermeira
aproveitou a oportunidade para forçá-lo a voltar para a cama.
— Agora, por favor, ministro, essas crianças precisam de
cuidados médicos. Por favor, saíam...
A porta tornou a se abrir. Era Dumbledore. Harry engoliu o
bocado de chocolate com grande dificuldade e se levantou outra
vez.
— Prof. Dumbledore, Sirius Black...
— Pelo amor de Deus! — exclamou Madame Pomfrey,
histérica. — isto é ou não é uma ala hospitalar? Diretor, eu devo
insistir...
— Eu peço desculpas, Papoula, mas preciso dar uma
palavra com o Sr. Potter e a Srta. Granger — disse Dumbledore
calmamente. — Acabei de falar com Sirius Black...
— Suponho que ele tenha lhe narrado o mesmo conto de
fadas que implantou na mente de Potter? — bufou Snape. — A
história de um rato e de Pettigrew ter sobrevivido...
— Esta, de fato, é a história de Black — disse Dumbledore,
examinando Snape atentamente através dos seus óculos de meialua.
—E o meu testemunho não vale nada? — rosnou Snape. —
Pedro Pettigrew não estava na Casa dos Gritos, nem vi qualquer
sinal dele nos terrenos da estola. — isto foi porque o senhor foi
nocauteado, professor! — disse Hermione com convicção. — O
senhor não chegou em tempo de ouvir...
— Srta. Granger; CALE A BOCA!
— Ora, Snape — disse Fudge, espantado —, a mocinha
está perturbada, precisamos dar o devido desconto...
— Eu gostaria de falar com Harry e Hermione a sós —
disse Dumbledore bruscamente. — Cornélio, Severo, Papoula —
por favor, nos deixem.
— Diretor! — repetiu Madame Pomfrey com veemência.
— Eles precisam de tratamento, eles precisam de descanso...
— Isto não pode esperar — disse Dumbledore. — Devo
insistir.
Madame Pomfrey mordeu os lábios e saiu em direção à sua
sala, na extremidade da enfermaria, batendo a porta ao passar.
Fudge consultou o grande relógio de ouro que trazia pendurado no
colete.
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— À esta hora os dementadores já devem ter chegado —
disse. —Vou ao encontro deles. Dumbledore, vejo você lá em
cima.
O ministro se dirigiu à porta e a segurou aberta
para Snape passar, mas o professor não se mexeu.
— O senhor certamente não acredita em uma palavra da
história de Black? — sussurrou Snape, os olhos fixos no rosto de
Dumbledore.
— Eu gostaria de falar com Harry e Hermione a sós —
repetiu Dumbledore.
Snape deu um passo em direção ao diretor.
— Sirius Black demonstrou que era capaz de matar com a
idade de dezesseis anos. O senhor se esqueceu disto, diretor? O
senhor se esqueceu que no passado ele tentou me matar?
— Minha memória continua boa como sempre, Severo —
disse Dumbledore, em voz baixa.
Snape girou nos calcanhares e saiu decidido pela porta que
Fudge ainda segurava aberta. A porta se fechou à passagem dos
dois e o diretor se virou para Harry e Hermione. Os dois desataram
a falar ao mesmo tempo.
— Professor, Black está dizendo a verdade, nós vimos
Pettigrew...
—... ele fugiu quando o Prof. Lupin virou lobisomem...
—... ele é um rato... —... a pata dianteira de Pettigrew,
quero dizer, o dedo, ele cortou fora...
—... Pettigrew atacou Rony, não foi Sirius...
Mas Dumbledore ergueu a mão para interromper o dilúvio
de explicações.
— É a vez de vocês ouvirem, e peço que não me
interrompam, porque o tempo é muito curto — disse Dumbledore
em voz baixa.
— Não existe a mínima evidência para sustentar a história
de Black, exceto a palavra de vocês... e a palavra de dois bruxos
de treze anos não irá convencer ninguém. Uma rua cheia de
testemunhas jurou que viu Sirius matar Pettigrew. Eu mesmo
prestei depoimento ao ministério que Sirius era o fiel do segredo
dos Potter.
— O Prof. Lupin pode lhe contar... — falou Harry incapaz
de se refrear.
— O Prof. Lupin no momento está embrenhado na floresta,
incapaz de contar o que quer que seja a alguém. Quando voltar à
329
forma humana, será tarde demais, Sirius estará mais do que morto.
E eu poderia acrescentar que a maioria do nosso povo desconfia
tanto de lobisomens que o apoio dele contará muito pouco... e o
fato de que ele e Sirius são velhos amigos...
— Mas...
— Ouça, Harry. É tarde demais, você entende? Você
precisa admitir que a versão do Prof. Snape sobre os
acontecimentos é muito mais convincente do que a sua.
— Ele odeia Sirius — disse Hermione, desesperada. —
Tudo por causa de uma peça idiota que Sirius pregou nele...
— Sirius não agiu como um homem inocente. O ataque à
Mulher Gorda... a entrada na Torre da Grifinória com uma faca...
sem Pettigrew, vivo ou morto, não temos chance de derrubar a
sentença de Sirius.
— Mas o senhor acredita em nós.
— Acredito — respondeu Dumbledore em voz baixa. —
Mas não tenho o poder de fazer os outros verem a verdade, nem de
passar por cima do Ministro da Magia...
Harry encarou seu rosto sério e sentiu como se o chão
estivesse se abrindo debaixo dos seus pés. Acostumara-se à idéia
de que Dumbledore podia resolver qualquer coisa. Esperara que o
diretor tirasse alguma solução surpreendente do nada. Mas não... a
última esperança dos garotos desaparecera.
— Precisamos — disse Dumbledore lentamente, e seus
claros olhos azuis correram de Harry para Hermione — é de mais
tempo.
— Mas... — começou Hermione. Então seus olhos se
arregalaram. —AH!
— Agora, prestem atenção — continuou o diretor, falando
muito baixo e muito claramente. — Sirius está preso na sala do
Prof. Flitwick no sétimo andar. A décima terceira janela a contar
da direita da Torre Oeste. Se tudo der certo, vocês poderão salvar
mais de uma vida inocente hoje à noite. Mas lembrem-se de uma
coisa, os dois: vocês não podem ser vistos. Srta. Granger, a
senhorita conhece as leis, sabe o que está em jogo... Vocês — não
— podem — ser vistos.
Harry não tinha a menor idéia do que estava acontecendo.
Dumbledore deu as costas aos garotos e virou-se para olhá-los ao
chegar à porta.
— Vou trancá-los. Faltam...— ele consultou o relógio —
cinco minutos para a meia-noite. Srta. Granger, três voltas devem
330
bastar.
Boa sorte.
— Boa sorte? — repetiu Harry quando a porta se fechou
atrás de Dumbledore. — Três voltas? Do que é que ele está
falando? Que é que ele espera que a gente faça?
Mas Hermione estava mexendo no decote das vestes,
puxando de dentro dele uma corrente de ouro muito longa e fina.
— Harry, vem aqui — disse ela com urgência. —
Depressa!
Harry foi até a garota, completamente confuso. Ela estendia
a corrente. E o garoto viu que havia pendurada nela uma
minúscula ampulheta.
— Tome...
Hermione atirara a corrente em torno do pescoço dele
também.
— Pronto? — disse Hermione ofegante.
— Que é que estamos fazendo? — perguntou Harry
completamente perdido.
Hermione girou a ampulheta três vezes.
A enfermaria escura desapareceu. Harry teve a sensação de
que estava voando muito rápido, para trás. Um borrão de cores e
formas passou veloz por ele, seus ouvidos latejaram, ele tentou
gritar, mas não conseguiu ouvir a própria voz...
E então sentiu que havia um chão firme sob seus pés, e
todas as coisas tornaram a.entrar em foco...
Ele se achava parado ao lado de Hermione no saguão
deserto do castelo e um feixe de raios dourados de sol que entrava
pelas portas de carvalho abertas incidia sobre o piso de pedra.
Harry olhou agitado para os lados à procura de Hermione, a
corrente da ampulheta machucando seu pescoço.
— Hermione, que...?
— Aqui! — a garota agarrou o braço de Harry e arrastou-o
pelo saguão até a porta do armário de vassouras; abriu o armário,
empurrou o garoto para o meio dos baldes e esfregões, e fechou a
porta depois de entrar.
— Quê... como... Hermione, que foi que aconteceu?
— Voltamos no tempo — sussurrou ela, tirando a corrente
do pescoço de Harry no escuro. — Três horas...
Harry procurou a própria perna e se deu um beliscão com
muita força. Doeu para valer, o que pelo visto eliminava a
possibilidade de estar tendo um sonho muito esquisito.
331
— Mas...
— Psiu! Ouve! Tem alguém. vindo! Acho... acho que deve
ser a gente!
Hermione tinha o ouvido encostado na porta do armário.
— Passos pelo saguão... é, acho que somos nós indo para a
casa de Hagrid!
— Você está me dizendo — cochichou Harry — que
estamos aqui dentro do armário e estamos lá fora também?
— É — confirmou Hermione, o ouvido ainda colado à
porta. —Tenho certeza de que somos nós. Pelo eco não devem ser
mais de três pessoas... e estamos andando devagar por causa da
Capa da Invisibilidade...
Ela parou de falar, mas continuou a prestar atenção.
— Descemos os degraus da entrada...
Hermione se sentou em um balde virado de boca para
baixo, parecendo aflitíssima, mas Harry queria respostas para
algumas perguntas.
— Onde foi que você arranjou essa coisa feito uma
ampulheta?
— Chama-se vira-tempo — sussurrou Hermione —, ganhei
da Profª McGonagall no primeiro dia depois das férias. Estou
usando desde o início do ano para assistir a todas as minhas aulas.
A professora me fez jurar que não contaria a ninguém. Ela teve
que escrever um monte de cartas ao Ministério da Magia para eu
poder usar isso. Teve que dizer que eu era uma aluna modelo, e
que nunca, nunca mesmo usaria o vira-tempo para nada a não ser
para estudar... Eu o tenho usado para voltar no tempo e poder
reviver as horas e é assim que assisto a mais de uma aula ao
mesmo tempo, entende? Mas...
"Harry eu não estou entendendo o que é que Dumbledore
quer que a gente faça. Por que ele mandou a gente voltar três
horas no tempo? Como é que isso vai ajudar o Sirius? "
Harry encarou de frente o rosto escuro da garota.
— Deve ter alguma coisa que aconteceu por volta de agora
que ele quer que a gente mude — disse Harry lentamente. — Que
foi que aconteceu? Estávamos indo a casa de Hagrid três horas
atrás...
— Agora estamos atrasados três horas e estamos indo à
casa de Hagrid — disse Hermione. — Acabamos de ouvir a gente
sair...
Harry franziu a testa; tinha a sensação de que estava
332
franzindo o cérebro todo para se concentrar.
— Dumbledore acabou de dizer... acabou de dizer que a
gente poderia salvar mais de uma vida inocente... — Então fez-se
a luz no cérebro de Harry. — Hermione, nós vamos salvar Bicuço!
— Mas... como é que isso vai ajudar Sirius?
— Dumbledore disse... acabou de nos dizer onde fica a
janela... a janela da sala de Flitwick! Onde prenderam Sirius!
Temos que voar no Bicuço até a janela e salvar Sirius! Ele pode
fugir no hipogrifo...eles podem fugir juntos!
Pelo que Harry pôde enxergar no rosto de Hermione, ela
estava aterrorizada.
— Se conseguirmos fazer isso sem ninguém nos ver, vai
ser um milagre!
— Bom, vamos ter que tentar, não é? — disse Harry. Ele se
levantou e encostou o ouvido à porta.
— Parece que não tem ninguém ai fora... Vamos, anda...
Harry abriu a porta do armário, O saguão estava deserto. O
mais silenciosa e rapidamente possível eles saíram correndo do
armário e desceram os degraus de pedra. As sombras já estavam se
alongando, os topos das árvores na Floresta Proibida mais uma vez
iam se tingindo de ouro.
— Se alguém estiver olhando pela janela... — falou
Hermione com a voz esganiçada, virando-se para espiar o castelo.
— Vamos correr o mais depressa possível — disse Harry,
decidido. — Direto para a floresta, está bem? Teremos que nos
esconder atrás de uma árvore ou de outra coisa para poder vigiar...
— Está bem, mas vamos dar a volta pelas estufas! —
sugeriu Hermione sem fôlego. — Temos que evitar que nos vejam
da porta de entrada de Hagrid! Já devemos estar quase na casa
dele agora!
Ainda tentando entender o que a amiga queria dizer, Harry
saiu disparado com Hermione logo atrás. Os dois transpuseram as
hortas em direção às estufas, pararam por um instante ocultos por
elas, depois recomeçaram a correr, a toda velocidade, contornando
o Salgueiro Lutador, e, ainda desabalados, em direção à floresta
para se esconderem.
Seguro sob a sombra das árvores, Harry se virou; segundos
depois, Hermione, o alcançou, ofegante.
— Certo — disse ela sem ar. — Precisamos chegar sem ser
vistos à casa de Hagrid. Procura ficar escondido, Harry...
Os dois caminharam em silêncio entre as árvores,
333
acompanhando a orla da floresta. Então, quando avistaram a frente
da cabana, ouviram uma batida na porta. Eles se ocultaram
depressa atrás de um grosso carvalho e espiaram pelos lados.
Hagrid, trêmulo e pálido, aparecera à porta procurando ver quem
batera. E Harry ouviu a própria voz.
— Somos nós. Estamos usando a Capa da Invisibilidade.
Deixe a gente entrar para poder tirar a capa.
— Vocês não deviam ter vindo! — sussurrou Hagrid, mas
se afastou para os garotos poderem entrar.
— Esta foi a coisa mais estranha que já fizemos — disse
Harry com veemência,
— Vamos continuar — cochichou Hermione. —
Precisamos chegar mais perto de Bicuço!
Eles avançaram cautelosamente entre as árvores até verem
o hipogrifo nervoso, amarrado à cerca em volta do canteiro de
abóboras de Hagrid.
— Agora? — sussurrou Harry
— Não! — exclamou Hermione. — Se o roubarmos agora,
o pessoal da Comissão vai pensar que Hagrid soltou o bicho!
Temos que esperar até verem que Bicuço está amarrado do lado de
fora!
— Isso vai nos dar uns sessenta segundos — disse Harry. A
coisa estava começando a parecer impossível.
Naquele instante, os garotos ouviram louça se partindo na
cabana de Hagrid.
— É o Hagrid quebrando a leiteira — cochichou a garota.
— Vou encontrar Perebas agora mesmo...
Não deu outra, alguns minutos depois, eles ouviram
Hermione dar um grito agudo de surpresa.
— Mione — disse Harry de repente —, e se nós... nós
entrarmos lá e agarrarmos Pettigrew...
— Não! — exclamou Hermione num sussurro aterrorizado.
—Você não compreende? Estamos violando uma das leis mais
importantes da magia! Ninguém pode mudar o tempo! Você ouviu
o que Dumbledore falou, se formos vistos...
— Mas só seríamos vistos por nós mesmos e por Hagrid!
— Harry, que é que você faria se visse você mesmo
entrando pela casa de Hagrid? — perguntou Hermione.
— Eu acharia... acharia que tinha ficado maluco —
respondeu Harry — ou acharia que estava usando magia negra...
— Exatamente! Você não entenderia, você poderia até se
334
atacar! Você não entende? A Profª McGonagall me contou as
coisas horríveis que aconteceram quando bruxos mexeram com o
tempo...
Montes deles acabaram matando os seus passados ou
futuros por engano!
— OK.! — concordou Harry. — Foi só uma idéia. Pensei...
Mas Hermione cutucou-o e apontou para o castelo. Harry
espiou pelo lado para ter uma visão mais clara das portas de
entrada. Dumbledore, Fudge, o velhote da Comissão e Macnair, o
carrasco, vinham descendo os degraus.
— Já estamos de saída! — sussurrou Hermione.
E assim foi, momentos depois a porta dos fundos da cabana
se abriu e Harry viu a si mesmo, Rony e Hermione saírem com
Hagrid. Foi, sem dúvida, a sensação mais esquisita de sua vida,
parado ali atrás da árvore, observando a si mesmo no canteiro de
abóboras.
— Tudo bem, Bicucinho, tudo bem... — disse Hagrid ao
bicho. Então se virou para os três garotos. — Vão. Andem logo.
— Hagrid, não podemos...
— Vamos contar a eles o que realmente aconteceu...
— Não podem matar Bicuço...
— Vão! Já está bastante ruim sem vocês se meterem em
confusão!
Harry observou Hermione jogar a Capa da Invisibilidade
sobre ele e Rony no canteiro de abóboras.
— Vão depressa. Não fiquem ouvindo...
Ouviu-se uma batida na porta de entrada da cabana. A
comissão de execução chegara. Hagrid se virou para entrar em
casa, deixando a porta dos fundos entreaberta. Harry observou a
grama se achatar em certos pontos a toda volta da cabana de
Hagrid e ouviu três pares de pés recuarem. Ele, Rony e Hermione
tinham ido embora... mas o Harry e a Hermione escondidos no
meio das árvores escutavam, pela porta dos fundos, o que estava
acontecendo no interior da cabana.
— Onde está o animal? — disse a voz fria de Macnair.
— Lá... lá fora — respondeu Hagrid, rouco.
Harry escondeu a cabeça quando o rosto de Macnair
apareceu à janela da cabana, para espiar Bicuço. Então os garotos
ouviram a voz de Fudge.
— Nós... hum... temos que ler para você a notificação
oficial da execução, Hagrid. Vou ser rápido. Depois, você e
335
Macnair precisam assiná-la. Macnair, você precisa escutar
também, é a praxe...
O rosto do carrasco desapareceu da janela. Era agora ou
nunca.
— Espera aqui — cochichou Harry para Hermione. — Eu
faço. Quando a voz de Fudge recomeçou, Harry saiu correndo do
seu esconderijo atrás da árvore, saltou a cerca para o canteiro de
abóboras e se aproximou de Bicuço.
"Por decisão da Comissão para Eliminação de Criaturas
Perigosas o hipogrifo Bicuço, doravante chamado condenado,
será executado no dia seis de junho ao pôr-do-sol..."
Cuidando para não piscar, Harry encarou os ferozes olhos
cor de laranja de Bicuço mais uma vez e fez uma reverência. O
hipogrifo dobrou os joelhos escamosos e em seguida tornou a se
levantar. Harry começou a desamarrar a corda que prendia o
hipogrifo à cerca.
— ...por decapitação, a ser executada pelo carrasco
nomeado pela Comissão, Walden Macna:r...
— Vamos Bicuço — murmurou Harry —, vamos, nós
vamos te ajudar. Quietinho... quietinho...
— ... conforme testemunham abaixo. Hagrid, você assina
aqui...
Harry jogou todo o seu peso contra a corda, mas Bicuço
cravara as patas dianteiras na terra.
— Bem, vamos acabar com isso — disse a voz aguda do
velhote da Comissão dentro da cabana. — Hagrid, talvez seja
melhor você ficar aqui dentro...
— Não, eu... eu quero ficar com ele... não quero que ele
fique sozinho...
Soaram passos dentro da cabana.
— Bicuço, anda!— sibilou Harry.
Harry puxou com mais força a corda presa ao pescoço dele.
O hipogrifo começou a andar, farfalhando as asas com irritação.
Ele e Harry ainda estavam a três metros da floresta, bem à vista da
porta dos fundos da cabana.
— Um momento, por favor, Macnair — ouviram a voz de
Dumbledore. — Você precisa assinar também. — Os passos
pararam. Harry puxou a corda com força. Bicuço deu um estalo
com o bico e andou um pouco mais rápido.
O rosto pálido de Hermione aparecia pelo lado do tronco da
arvore.
336
— Harry depressa! — murmurou ela.
O garoto ainda ouvia a voz de Dumbledore dentro da
cabana.
Deu outro puxão na corda. Bicuço começou a trotar de má
vontade. Alcançaram as árvores...
— Depressa! Depressa! — gemia Hermione, que saiu de
trás da arvore, agarrou também a corda e acrescentou seu peso
para fazer Bicuço andar mais depressa. Harry espiou por cima do
ombro; agora tinham desaparecido de vista; mas também não
podiam ver a horta de Hagrid.
— Pare! — disse ele a Hermione. — Poderiam nos ouvir...
A porta dos fundos da cabana se abriu com violência. Harry
Hermione e Bicuço ficaram muito quietos; até o hipogrifo parecia
estar prestando atenção.
Silêncio... então...
— Onde está ele? — perguntou a voz fraquinha do velhote
da Comissão. — Onde está o bicho?
— Estava amarrado aqui! — disse o carrasco, furioso. —
Eu o vi! Bem aqui!
— Que extraordinário! — exclamou Alvo Dumbledore.
Havia um tom de riso em sua voz.
— Bicuço! — exclamou Hagrid, rouco.
Ouviu-se o ruído de uma lâmina cortando o ar e a pancada
de um machado. O carrasco, enraivecido, aparentemente brandira
o machado contra a cerca. Então, ouviu-se um berreiro e desta vez
eles distinguiram as palavras de Hagrid entre os soluços.
— Foi-se! Foi-se! Abençoado seja ele, foi embora! Deve
ter se soltado! Bicucinho, que garoto inteligente!
Bicuço começou a puxar a corda com força, tentando voltar
para Hagrid. Harry e Hermione seguraram a corda com firmeza e
enterraram os saltos no chão da floresta para reter o bicho.
— Alguém o desamarrou! — rosnou o carrasco. —
Devíamos revistar a propriedade, a floresta...
— Macnair, se Bicuço foi realmente roubado, você acha
que o ladrão o levou a pé? — perguntou Dumbledore, ainda em
tom divertido. — Procurem nos céus, se quiserem... Hagrid, uma
xícara de chá me cairia bem. Ou um bom cálice de conhaque.
— C... claro professor — disse Hagrid, que parecia fraco
de tanta felicidade. — Entre, entre...
Harry e Hermione apuraram os ouvidos. Ouviram passos, o
carrasco xingando baixinho, o dique da porta e, então, mais uma
337
vez o silêncio.
— E agora? — sussurrou Harry, olhando para os lados.
— Vamos ter que nos esconder aqui — disse Hermione,
que parecia muito abalada. — Precisamos esperar até eles
voltarem para o castelo. Depois esperamos até poder voar com
Bicuço em segurança até a janela de Sirius. Ele não vai demorar lá
mais duas horas... Ah, isso vai ser difícil...
A garota espiou, nervosa, por cima do ombro as
profundezas da floresta. O sol ia se pondo.
— Vamos ter que mudar de lugar — disse Harry se
concentrando. — Temos que poder ver o Salgueiro Lutador ou não
vamos saber o que está acontecendo.
— OK — concordou Hermione, segurando a corda de
Bicuço com mais firmeza. — Mas temos que ficar onde ninguém
possa nos ver, Harry lembre-se...
Os dois saíram pela orla da floresta, a noite escurecendo
tudo à volta, até poderem se esconder atrás de um grupo de
árvores, entre as quais eles podiam avistar o salgueiro.
Olha lá o Rony! — exclamou Harry de repente.
Um vulto escuro ia correndo pelos jardins e seu grito
ecoava pelo ar parado da noite.
— Fique longe dele... fique longe... Perebas, volta aqui..
Então os garotos viram mais dois vultos se materializarem
do nada. Harry observou ele próprio e Hermione correrem atrás de
Rony. Depois viram Rony mergulhar.
— Te peguei! Dá o fora, seu gato fedorento...
— Olha lá o Sirius! — exclamou Harry. A forma enorme
de um cão saltou das raízes do salgueiro. Eles o viram derrubar
Harry, depois agarrar Rony... — Parece ainda pior visto daqui, não
é? —comentou Harry, observando o cão puxar Rony para baixo
das raízes. — Ai... olha, acabei de levar uma baita lambada da
arvore... e você também... que coisa esquisita..
O Salgueiro Lutador rangia e dava golpes com os
ramos mais baixos; os garotos se viam correndo para cá e para lá,
tentando chegar até o tronco. E então a árvore se imobilizou.
— Isso foi o Bichento apertando o nó — disse Hermione.
— E lá vamos nós... — murmurou Harry. — Entramos.
No momento em que eles desapareceram, a árvore
recomeçou a se agitar. Segundos depois, os garotos ouviram
passos muito próximos. Dumbledore, Macnair, Fudge e o velhote
da Comissão estavam regressando ao castelo.
338
— Logo depois de termos descido pela passagem! —
exclamou Hermione. — Se ao menos Dumbledore tivesse ido
conosco...
— Macnair e Fudge teriam ido também — disse Harry
amargurado. — Aposto o que você quiser como Fudge teria
mandado Macnair matar Sirius na hora...
Os garotos observaram os quatro homens subirem os
degraus do castelo e desaparecer de vista. Durante alguns minutos
os jardins ficaram desertos. Então...
— Aí vem Lupin! — disse Harry ao ver outro vulto descer
correndo os degraus de pedra e se dirigir ao salgueiro. Harry olhou
para o céu. As nuvens estavam obscurecendo completamente a
luz.
Os dois acompanharam Lupin apanhar um galho seco do
chão e empurrar com ele o nó do tronco. A árvore parou de lutar, e
o professor, também, desapareceu no buraco entre as raízes.
— Se ao menos ele tivesse apanhado a capa — lamentou
Harry.
— Está caída bem ali...
E, virando-se para Hermione.
— Se eu desse uma corrida agora e apanhasse a capa,
Snape nunca poderia se apoderar dela e...
— Harry, não podemos ser vistos!
— Como é que você agüenta isso? — perguntou ele a
Hermione impetuosamente. — Ficar parada aqui olhando a coisa
acontecer? —Ele hesitou. — Vou apanhar a capa!
— Harry, não!
Hermione agarrou Harry pelas costas das vestes bem na
hora. Naquele instante, ouviu-se uma cantoria. Era Hagrid,
ligeiramente trôpego, a caminho do castelo, cantando a plenos
pulmões. Um garrafão balançava em suas mãos.
— Viu? — sussurrou Hermione. — Viu o que teria
acontecido? Temos que ficar escondidos! Não, Bicuço!
O hipogrifo fazia tentativas frenéticas para chegar até
Hagrid; Harry agarrou a corda também, fazendo força para manter
o animal parado. Os garotos observaram Hagrid caminhar, bêbado,
até o castelo. Bicuço parou de brigar para ir embora. Deixou a
cabeça pender tristemente.
Não havia se passado nem dois minutos e as portas do
castelo tornaram a se escancarar, era Snape que saía decidido, e
rumava para o salgueiro.
339
Os punhos de Harry se fecharam quando eles viram Snape
parar derrapando próximo à árvore, olhando para os lados. Depois,
apanhou a capa e levantou-a.
— Tira suas mãos imundas daí — rosnou Harry para si
mesmo.
— Psiu!
Snape apanhou o galho seco que Lupin usara para
imobilizar a arvore, cutucou o nó e desapareceu de vista ao se
cobrir com a capa.
— Então é isso — disse Hermione baixinho. — Estamos
todos lá embaixo... e agora temos que esperar até voltarmos da
passagem...
A garota pegou a ponta da corda de Bicuço e amarrou-a
bem segura na árvore mais próxima, então, sentou-se no chão
seco, os braços em torno dos joelhos.
— Harry, tem uma coisa que eu não entendo... Por que os
dementadores não pegaram Sirius? Eu me lembro deles chegando,
aí acho que desmaiei... havia tantos...
Harry se sentou também. E explicou o que vira; que na
hora em que o dementador mais próximo chegou a boca junto à de
Harry, uma coisa grande e prateada viera galopando do lago e
forçara os dementadores a se retirarem.
A boca de Hermione estava ligeiramente aberta quando
Harry terminou.
— Mas o que era a coisa?
— Só tem uma coisa que podia ter sido, para fazer os
dementadores irem embora — disse Harry. — Um Patrono de
verdade. Bem poderoso.
— Mas quem o conjurou?
Harry não respondeu nada. Estava relembrando a pessoa
que vira na outra margem do lago. Sabia quem ele pensara que
era... mas como seria possível?
— Você não viu com quem se parecia? — perguntou
Hermione ansiosa. — Foi um dos professores?
— Não — disse Harry. — Não era um professor.
— Mas deve ter sido um bruxo realmente poderoso, para
fazer todos aqueles dementadores irem embora... Se o Patrono era
tão brilhante, a luz não iluminava ele? Você não pôde ver...?
— Claro que vi — disse Harry lentamente. — Mas talvez...
eu tenha imaginado que vi... eu não estava pensando direito...
desmaiei logo em seguida...
340
— Quem foi que você pensou que viu?
— Acho... — Harry engoliu em seco, sabendo como era
estranho o que ia dizer. — Acho que foi o meu pai.
Harry olhou para Hermione e viu que a boca da menina se
abrira de vez. Ela o olhava com uma mistura de susto e piedade.
— Harry seu pai está... bem... morto — disse ela baixinho.
— Eu sei — respondeu Harry depressa.
— Você acha que viu o fantasma dele?
— Não sei... não... parecia sólido...
— Mas então...
— Vai ver eu andei vendo coisas — disse Harry. — Mas...
pelo que pude ver... parecia ele... tenho fotos dele...
Hermione continuava a mirá-lo como se estivesse
preocupada com a sanidade do amigo.
— Sei que parece doideira — falou Harry, sem animação.
E se virou para olhar Bicuço, que enterrava o bico no chão,
aparentemente à procura de vermes. Mas na realidade o garoto não
estava olhando para Bicuço.
Estava pensando no pai e nos três amigos mais antigos do
pai... Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas... Será que os
quatro tinham estado em Hogwarts esta noite? Rabicho
reaparecera quando todos pensavam que estivesse morto... Seria
tão impossível que o mesmo acontecesse com o seu pai? Será que
andara vendo coisas no lago? O vulto estava demasiado longe para
vê-lo com clareza... contudo, Harry tivera uma certeza
momentânea antes de perder a consciência...
A folhagem no alto rumorejava baixinho à brisa. A lua
aparecia e desaparecia por trás das nuvens que deslizavam pelo
céu. Hermione, sentada com o rosto virado para o salgueiro,
aguardava.
Então, finalmente, passada uma hora...
— Aí vêm eles! — sussurrou Hermione.
Ela e Harry se levantaram. Bicuço ergueu a cabeça. Então
os garotos viram Lupin, Rony e Pettigrew saindo desajeitados do
buraco nas raízes. Depois veio Hermione... o inconsciente Snape,
flutuando estranhamente. Em seguida subiram Harry e Black.
Todos saíram caminhando em direção ao castelo.
O coração de Harry começou a bater muito
depressa. Ele olhou para o céu. A qualquer momento agora, aquela
nuvem ia se afastar e mostrar a lua...
— Harry — murmurou Hermione como se soubesse
341
exatamente o que ele estava pensando —, temos que ficar parados.
Não podemos ser vistos. Não tem nada que a gente possa fazer...
— Então vamos deixar Pettigrew escapar outra vez... —
protestou Harry baixinho.
— Como é que você espera encontrar um rato no escuro?
—retrucou Hermione irritada. — Não tem nada que a gente possa
fazer! Voltamos para ajudar Sirius; não é para fazer mais nada!
- Está bem!
A lua deslizou para fora da cobertura de nuvens. Os dois
viram os pequenos vultos que atravessavam os jardins pararem.
Então perceberam um movimento...
— Lá vai Lupin — cochichou Hermione. — Ele está se
transformando...
— Hermione! — disse Harry de repente. — Temos que
mudar de lugar!
— Já disse que não podemos...
— Não podemos interferir! Mas Lupin vai correr para
dentro da floresta, bem por onde estamos!
Hermione prendeu a respiração.
— Depressa! — gemeu ela, correndo para soltar Bicuço. —
Depressa! Aonde é que nós vamos? Onde é que vamos nos
esconder? Os dementadores vão chegar a qualquer momento...
— Vamos voltar para a cabana de Hagrid! — disse Harry.
— Está vazia agora... vamos!
Os garotos correram a toda velocidade, Bicuço atrás deles.
Ouviam o lobisomem uivando em sua cola...
Avistaram a cabana; Harry derrapou diante da porta,
escancarou-a, e Hermione e Bicuço passaram como relâmpagos
por ele; o garoto se atirou para dentro e trancou a porta. Canino, o
cão de caçar javalis, latiu com força.
— Psiu! Canino, somos nós! — disse Hermione, correndo a
coçar atrás das orelhas do cão para sossegá-lo. — Essa foi por
pouco! —disse ela a Harry.
É... espiava pela janela. Era muito mais difícil ver o que
estava acontecendo dali de dentro. Bicuço parecia muito feliz de
se encontrar outra vez na cabana de Hagrid. Deitou-se diante da
lareira, dobrou as asas, satisfeito, e pareceu pronto para tirar um
cochilo.
— Acho melhor sair, sabe — disse Harry lentamente. —
Não consigo ver o que está acontecendo... não vamos saber
quando for a hora...
342
Hermione ergueu a cabeça. Tinha uma expressão
desconfiada.
— Não vou tentar interferir — disse Harry depressa. —
Mas se não virmos o que está acontecendo, como é que vamos
saber quando temos que salvar Sirius?
— Bem... OK, então... Fico esperando aqui com o Bicuço...
mas Harry, tenha cuidado, tem um lobisomem solto lá fora... e os
dementadores...
Harry saiu e contornou a cabana. Ouvia latidos ao longe.
Isto significava que os dementadores estavam fechando o cerco
sobre Sirius... Ele e Hermione iriam correr para Sirius a qualquer
instante...
Harry espiou para as bandas do lago, seu coração
produzindo uma espécie de batuque no seu peito... Quem quer que
tivesse mandado o Patrono iria aparecer a qualquer momento...
Por uma fração de segundo ele parou, indeciso, diante da
porta da cabana. Você não pode ser visto. Mas ele não queria ser
visto. Queria ver... Tinha que saber...
E lá estavam os dementadores. Emergiam da noite, vindos
de todas as direções, deslizando pela orla do lago... Estavam se
distanciando do ponto em que Harry se encontrava, em direção à
margem oposta... Ele não teria que se aproximar deles...
Harry começou a correr. Não tinha outro pensamento na
cabeça senão o pai... Se fosse ele... se fosse realmente ele... Harry
precisava saber, precisava descobrir...
O lago estava cada vez mais próximo, mas não havia sinal
de ninguém. Na margem oposta, Harry vislumbrou minúsculos
pontos prateados — suas próprias tentativas de produzir um
Patrono...
Havia uma moita bem na beirinha da água. Harry se atirou
atrás dela, e espiou desesperado entre as folhas. Na margem
oposta, os reflexos prateados de repente se extinguiram. Uma
mescla de terror e excitação percorreu seu corpo — a qualquer
momento agora...
Vamos! — murmurou, olhando com atenção para os lados.
—Onde é que você está! Papai, anda...
Mas não veio ninguém. Harry ergueu a cabeça para olhar o
círculo de dementadores do outro lado do lago. Um deles estava
despindo o capuz. Estava na hora do salvador aparecer — mas
ninguém ia aparecer para ajudar desta vez...
E então a explicação lhe ocorreu — ele compreendeu. Não
343
vira o pai — vira a si mesmo...
Harry se precipitou para fora da moita e puxou a varinha.
- EXPECTO PATRONUM! - berrou.
E da ponta de sua varinha irrompeu, não uma nuvem
informe, mas um animal prateado, deslumbrante, ofuscante. Ele
apertou os olhos tentando ver o que era. Parecia um cavalo.
Galopava silenciosamente se afastando dele, atravessando a
superfície escura do lago. Ele viu o animal abaixar a cabeça e
investir contra o enxame de dementadores... Agora, a galope, ele
cercava os vultos escuros no chão, e os dementadores recuavam,
se dispersavam, batiam em retirada na noite... Desapareciam.
O Patrono deu meia-volta. Veio em direção a Harry
atravessando a superfície parada das águas. Não era um cavalo.
Não era um unicórnio, tampouco. Era um cervo. Reluzia
intensamente ao luar... estava retornando a ele...
Parou na margem. Seus cascos não deixaram pegadas no
chão macio quando ele encanou Harry com os grandes olhos
prateados. Lentamente, ele curvou a cabeça cheia de galhos. E
Harry percebeu...
— Pontos — sussurrou.
Mas quando os dedos trêmulos de Harry se estenderam
para o bicho, ele desapareceu.
Harry continuou parado ali, a mão estendida. Então com
um grande salto no coração, ele ouviu o ruído de cascos às suas
costas.
— virou-se e viu Hermione correndo para ele, arrastando
Bicuço.
— Que foi que você fez?— perguntou ela com raiva. —
Você disse que ia ficar vigiando!
— Acabei de salvar as nossas vidas... — disse Harry. —
Vem aqui para trás, atrás dessa moita, eu explico.
Hermione ouviu o relato do que acabava de acontecer,
outra vez boquiaberta.
— Alguém viu você?
— Está vendo, você não ouviu nada! Eu me vi e achei que
era o meu pai! Tudo bem!
— Harry, nem posso acreditar... Você conjurou um Patrono
que espantou todos aqueles dementadores! Isto é magia muito
adiantada, mas muito mesmo...
— Eu sabia que podia fazer isso desta vez — disse Harry
—, porque já tinha feito antes... Faz sentido?
344
— Não sei... Harry, olha o Snape!
Juntos eles olharam para a outra margem. Snape recuperara
os sentidos. Estava conjurando macas e erguendo as formas inertes
de Harry, Hermione e Black para cima delas. Uma quarta maca,
sem dúvida carregando Rony, já estava flutuando ao seu lado.
Então, com a varinha segura à frente, ele os transportou para o
castelo.
— Certo, está quase na hora — disse Hermione olhando,
tensa, para o relógio. — Temos uns quarenta e cinco minutos até
Dumbledore fechar a porta da ala hospitalar. Temos que salvar
Sirius e voltar à enfermaria antes que alguém perceba que estamos
ausentes...
Os dois esperaram, observando o reflexo das nuvens que sé
moviam sobre o lago, enquanto a moita ao lado sussurrava à brisa.
Bicuço, entediado, estava novamente bicando a terra à procura de
vermes.
— Você acha que ele já está lá em cima? — perguntou
Harry, consultando o relógio. Em seguida olhou para o castelo e
começou a contar as janelas à direita da Torre Oeste.
— Olha! — sussurrou Hermione. — Quem é aquele?
Alguém está saindo do castelo!
Harry olhou para o escuro. O homem estava correndo pelos
jardins, em direção a uma das entradas. Uma coisa reluzente
faiscava em seu cinto.
— Macnair! — exclamou Harry. — O carrasco! Ele foi
chamar os dementadores! Ë agora, Mione...
Hermione pôs as mãos nas costas de Bicuço e Harry a
ajudou a montar. Então ele apoiou o pé em um dos galhos mais
baixos da moita e montou à frente da garota. Depois puxou a corda
de Bicuço por cima do pescoço e amarrou-a como se fossem
rédeas.
— Pronta? — cochichou para Hermione. — É melhor você
se segurar em mim...
E bateu os calcanhares nos lados de Bicuço.
O bicho saiu voando pela noite. Harry comprimiu os
flancos de Bicuço com os joelhos, sentindo as grandes asas
erguerem-se com força por baixo deles. Hermione segurava Harry
muito apertado, pela cintura; ele a ouvia reclamar baixinho.
— Ah, não... não estou gostando disso... ah, não estou
gostando nem um pouco disso...
Harry estugou Bicuço para fazê-lo avançar. Eles
345
começaram a voar silenciosamente em direção aos andares
superiores do castelo... Harry puxou com força o lado esquerdo da
corda e Bicuço virou para aquele lado. O garoto tentava contar as
janelas que passavam velozes...
— Óôo! — comandou puxando a corda para si com toda a
força que pôde.
O hipogrifo reduziu a velocidade e eles pararam,
salvo se considerarmos o fato de que continuavam a subir e descer
quase um metro de cada vez, quando o bicho batia as asas para se
manter no ar.
— Ele está ali! — disse Harry apontando para Sirius
quando emparelharam com uma janela. O garoto estendeu a mão
e, quando as asas de Bicuço baixaram, conseguiu dar umas
pancadinhas na vidraça.
Black olhou. Harry viu o queixo dele cair de espanto. O
homem saltou da cadeira, correu à janela e tentou abri-la, mas
estava tnancada.
— Se afaste! — pediu Hermione tirando a varinha, ainda
agarrando as vestes de Harry com a mão esquerda.
— Alorromora!
A janela se escancarou.
— Como... como...? — exclamou Black com a voz fraca,
olhando para o hipogrifo.
— Sobe, não temos muito tempo — disse Harry, segurando
Bicuço com firmeza pelos lados do pescoço escorregadio para
mantê-lo parado. — Você tem que sair daqui, os dementadores
estão chegando, Macnain foi buscar eles.
Black colocou as mãos dos lados da janela e ergueu a
cabeça e os ombros para fora. Foi uma sorte estar tão magro. Em
segundos, ele conseguiu passar uma perna por cima do lombo de
Bicuço e montar o bicho atrás de Hermione.
— OK, Bicuço, para cima! — disse Harry sacudindo a
corda. —Para a torre, anda!
O hipogrifo bateu uma vez as asas possantes e eles
recomeçaram a voar para o alto, até o topo da Torre Oeste. Bicuço
pousou com um ruído de cascos nas ameias do castelo e os garotos
escorregaram para o chão.
— Sirius, é melhor você ir depressa — ofegou Harry. —
Eles vão chegar na sala de Flitwick a qualquer momento, e vão
descobrir que você fugiu.
Bicuço pateou o chão, sacudindo a cabeça pontuda.
346
— Que aconteceu com o outro garoto? Rony! — perguntou
Sirius rouco.
— Ele vai ficar bom. Ainda está desacordado, mas
Madame Pomfrey diz que vai dar um jeito nele. Depressa, vai...
Mas Black continuava a olhar para Harry.
— Como é que vou poder lhe agradecer...
— VAI! — gritaram ao mesmo tempo Harry e Hermione.
Black fez Bicuço virar para o céu aberto.
— Nós vamos nos ver outra vez — disse ele. — Você é
bem filho do seu pai, Harry...
E, então, apertou os flancos de Bicuço com os calcanhares.
Harry e Hermione deram um salto para trás quando as enormes
asas se ergueram mais uma vez... O hipogrifo saiu voando pelos
ares... Ele e seu cavaleiro foram ficando cada vez menores
enquanto Harry os observava... Então uma nuvem encobriu a lua...
E eles desapareceram.
347
CAPÍTULO VINTE E DOIS
Novo correio-coruja
Harry!
Hermione estava puxando a manga do garoto, com os olhos
no seu próprio relógio.
— Temos exatamente dez minutos para voltar à ala
hospitalar sem que ninguém nos veja, antes que Dumbledore
tranque a porta...
— OK — disse Harry parando de contemplar o céu —,
vamos... Os dois saíram pela porta às costas deles e desceram uma
escada de pedra circular muito estreita. Quando chegaram
embaixo ouviram vozes. Colaram o corpo contra a parede e
escutaram. Pareciam as vozes de Fudge e Snape. Os dois
caminhavam depressa pelo corredor no qual terminava a escada.
— ... Só espero que Dumbledore não crie dificuldades —
dizia Snape. — O beijo será executado imediatamente?
— Assim que Macnair voltar com os dementadores. Todo
esse caso Black tem sido muitíssimo constrangedor. Nem posso
lhe dizer como estou ansioso para informar ao Profeta Diário que
finalmente o capturamos... Acho provável que queiram entrevistálo,
Snape... e quando Harry tiver voltado ao normal, espero que se
disponha a contar ao Profeta exatamente como foi que você o
salvou...
Harry cerrou os dentes. Viu de relance o sorriso presunçoso
de Snape, quando o professor e Fudge passaram pelo lugar em que
ele e Hermione estavam escondidos. O eco dos passos dos homens
foi se distanciando, Os dois garotos esperaram alguns minutos
para ter certeza de que tinham realmente ido embora, então
348
começaram a correr na direção oposta. Desceram uma escada,
depois outra, correram por um corredor — então ouviram uma
risada escandalosa à frente.
— Pirraça! — murmurou Harry agarrando o pulso de
Hermione. — Aqui!
Eles se precipitaram para dentro de uma sala de aula à
esquerda, na hora H. Ao que parecia, Pirraça vinha saltitando pelo
corredor apregoando bom humor, rindo de se acabar.
— Ah, ele é horrível! — sussurrou Hermione, o ouvido
encostado à porta. — Aposto como está nessa excitação toda
porque os dementadores vão liquidar Sirius... — Ela tornou a
consultar o relógio. — Três minutos, Harry!
Os garotos aguardaram a voz satisfeita de Pirraça sumir ao
longe, então abandonaram a sala e desataram a correr.
— Hermione, que é que vai acontecer, se não conseguirmos
voltar antes de Dumbledore trancar a porta? — ofegou Harry.
— Nem quero pensar! -. gemeu Hermione, verificando
novamente o relógio. — Um minuto!
Os dois tinham chegado ao fim do corredor em que ficava a
entrada para a ala hospitalar.
— OK... Estou ouvindo Dumbledore — disse Hermione
tensa.
— Vamos Harry!
Saíram sorrateiramente pelo corredor. A porta da
enfermaria se abriu. Apareceram as costas de Dumbledore.
Vou trancá-los — os garotos o ouviram dizer. — Faltam
cinco minutos para a meia-noite. Srta. Granger, três voltas devem
bastar. Boa sorte.
Dumbledore recuou para fora da enfermaria, fechou a porta
e puxou a varinha para trancá-la magicamente. Em pânico, Harry e
Hermione correram ao seu encontro. Dumbledore ergueu os olhos
e apareceu um largo sorriso sob seus compridos bigodes
prateados.
— Então? — perguntou ele baixinho.
— Conseguimos! — disse Harry ofegante. .— Sirius já foi,
montado em Bicuço...
Dumbledore sorriu radiante para os garotos.
— Muito bem! Acho que... — Ele escutou atentamente
349
para verificar se havia algum ruído no interior da ala hospitalar. —
É, acho que vocês também já foram entrem, vou trancá-los...
Harry e Hermione entraram na enfermaria. Estava vazia
exceto por Rony, que continuava deitado imóvel na cama ao
fundo. Ao ouvirem o dique da fechadura, Harry e Hermione
voltaram às suas camas, e a garota guardou o vira-tempo, dentro
das vestes. Um instante depois, Madame Pomfrey saiu de sua sala.
— Foi o diretor que eu ouvi saindo? Será que já posso
cuidar dos meus pacientes?
A enfermeira estava muito mal-humorada. Harry e
Hermione acharam melhor aceitar o chocolate que ela trazia sem
resistência. Madame Pomfrey ficou vigiando para ter certeza de
que eles o comessem. Mas Harry mal conseguia engolir Ele e
Hermione estavam esperando, escutavam, os nervos vibrando
desafinados... Então, quando aceitaram o quarto pedaço de
chocolate de Madame Pomfrey, eles ouviram ao longe o ronco de
fúria que ecoava em algum ponto do andar acima...
— Que foi isso? — perguntou Madame Pomfrey assustada.
Agora ouviam vozes raivosas, que iam se avolumando sem
parar. A enfermeira tinha os olhos na porta.
— Francamente, vão acordar todo mundo! Que é que eles
acham que estão fazendo?
Harry tentava ouvir o que as vozes diziam. Elas foram se
aproximando...
— Ele deve ter desaparatado, Severo. Devíamos ter
deixado alguém na sala vigiando. Quando isto vazar...
— ELE NÃO DESAPARATOU! — vociferou Snape,
agora muito próximo. NÃO SE PODE APARATAR NEM
DESAPARATAR DENTRO DESTE CASTELO! ISTO – TEM
DEDO DO POTTER!
— Severo... seja razoável... Harry está trancado...
PAM.
A porta da ala hospitalar se escancarou.
Fudge, Snape e Dumbledore entraram na enfermaria.
Somente o diretor parecia calmo. De fato, parecia que estava se
divertindo. Fudge tinha uma expressão zangada. Mas Snape estava
fora de si.
— DESEMBUCHE, POTTER! — berrou ele. — QUE FOI
350
QUE VOCÊ FEZ?
— Professor Snape! — protestou esganiçada Madame
Pomfrey. —Controle-se!
— Olhe aqui, Snape, seja razoável — ponderou Fudge. —
A porta esteve trancada, acabamos de constatar...
ELES AJUDARAM BLACK A ESCAPAR, EU SEI!
berrou Snape, apontando para Harry e Hermione. Seu rosto estava
contorcido; voava cuspe de sua boca.
— Acalme-se, homem! — ordenou Fudge. — Você está
falando disparates!
- O SENHOR NÃO CONHECE POTTER! berrou Snape
em falsete. FOI ELE, EU SEI QUE FOI ELE QUE FEZ ISSO...
— Chega, Severo — disse Dumbledore em voz baixa. —
Pense no que está dizendo. A porta esteve trancada desde que
deixei a enfermaria dez minutos atrás. Madame Pomfrey, esses
garotos saíram da cama?
— Claro que não! — respondeu Madame Pomfrey com
eficiência. — Eu os teria ouvido!
— Aí está, Severo — disse Dumbledore calmamente. — A
não ser que você esteja sugerindo que Harry e Hermione sejam
capazes de estar em dois lugares ao mesmo tempo, receio que não
haja sentido em continuar a perturbá-los.
Snape ficou parado ali, procurando, olhando de Fudge, que
parecia extremamente chocado com o procedimento do professor,
para Dumbledore cujos olhos cintilavam por trás dos óculos,
Snape deu meia-volta, as vestes rodopiando para trás, e saiu
enfurecido da enfermaria.
—.O homem parece que é bem desequilibrado — disse
Fudge, acompanhando-o com o olhar. — Eu me precaveria se
fosse você, Dumbledore.
— Ah, ele não é desequilibrado — disse Dumbledore em
voz baixa. — Apenas sofreu um grave desapontamento.
— Ele não é o único! — bufou Fudge. — O Profeta Diário
vai ter um grande dia! Tivemos Black encurralado e ele nos escapa
entre os dedos outra vez! Só falta agora a história da fuga do
hipogrifo vazar, para eu virar motivo de pilhérias! Bom... é melhor
eu ir notificar o Ministério...
— E os dementadores? — disse Dumbledore. — Serão
retirados da escola, eu espero.
351
— Ah, claro, eles terão que se retirar — disse Fudge,
passando os dedos, distraidamente, pelos cabelos. — Nunca
sonhei que tentariam executar o beijo em um garoto inocente...
completamente descontrolado... Não, mandarei despachá-los de
volta a Azkaban ainda hoje à noite... Talvez devêssemos estudar a
colocação de dragões à entrada da escola...
— Hagrid iria gostar — disse Dumbledore, sorrindo para
Harry e Hermione. Quando o diretor e Fudge iam saindo do
quarto, Madame Pomfrey correu até a porta e tornou a trancá-la. E
resmungando, aborrecida, voltou à sua salinha.
Ouviu-se um gemido baixo na outra ponta da enfermaria.
Rony acordara. Eles o viram sentar-se, esfregar a cabeça e olhar
para todos os lados.
— Que... que aconteceu? — gemeu ele. — Harry? Por que
estamos aqui? Onde é que foi o Sirius? Onde é que foi o Lupin?
Que está acontecendo?
Harry e Hermione se entreolharam.
— Você explica — pediu Harry, servindo-se de mais um
pedaço de chocolate.
Quando Harry, Rony e Hermione deixaram a ala hospitalar
ao meio-dia do dia seguinte, foi para encontrar um castelo quase
deserto. O calor sufocante e o fim dos exames sinalizavam que
todos estavam aproveitando ao máximo mais uma visita a
Hogsmeade. Nem Rony nem Hermione, porém, tiveram vontade
de ir, assim, os dois e Harry perambularam pelos jardins, ainda
discutindo os acontecimentos extraordinários da noite anterior e se
perguntando onde estariam Sirius e Bicuço naquela hora. Sentados
perto do lago, observando a lula gigante agitar preguiçosamente
seus tentáculos à superfície das águas, Harry perdeu o fio da
conversa contemplando a margem oposta do lago. O cervo
galopara em sua direção ali, ainda na noite anterior...
Uma sombra caiu sobre eles e, ao olharem, depararam com
um Hagrid de olhos muito vermelhos, enxugando o rosto úmido de
suor com um lenço do tamanho de uma toalha de mesa, e sorrindo
para os três.
— Sei que não devia me sentir feliz depois do que
352
aconteceu ontem à noite — disse ele. — Quero dizer, a nova fuga
de Black e tudo o mais, mas sabem de uma coisa?
— O quê? — perguntaram os garotos em coro, fingindo
curiosidade.
— Bicuço! Ele fugiu! Está livre! Passei a noite toda
festejando!
— Que fantástico! — exclamou Hermione lançando a
Rony um olhar de censura porque ele parecia prestes a cair na
risada.
— É... não devo ter amarrado ele direito — concluiu
Hagrid, apreciando os jardins. — Estive preocupado hoje de
manhã, vejam bem... achei que ele podia ter topado com o Prof.
Lupin por aí, mas o professor disse que não comeu nada ontem à
noite...
— Quê? — perguntou Harry depressa.
— Caramba, vocês não souberam? — disse Hagrid, o
sorriso se desfazendo. Em seguida, baixou a voz, ainda que não
houvesse ninguém à vista. — Hum... Snape anunciou para os
alunos da Sonserina hoje de manhã... Achei que, a essa altura,
todo mundo já soubesse... O Prof. Lupin é lobisomem, entendem.
E esteve solto na propriedade ontem à noite. Ele está fazendo as
malas agora, é claro.
— Ele está fazendo as malas? — repetiu Harry alarmado.
— Por quê?
— Vai embora, não é? — disse Hagrid, parecendo surpreso
que Harry tivesse feito uma pergunta daquela. — Pediu demissão
logo de manhã. Diz que não pode arriscar que isto aconteça de
novo.
Harry levantou-se depressa.
— Vou ver o professor — avisou a Rony e Hermione.
— Mas se ele se demitiu...
— ... parece que não há nada que a gente possa fazer...
—Não faz diferença. Continuo querendo ver o professor.
Encontro vocês aqui depois.
A porta da sala de Lupin estava aberta. O professor já
guardara a maior parte dos seus pertences. O tanque vazio do
353
grindylow estava ao lado de sua mala surrada, aberta e quase
cheia. Lupin curvava-se sobre alguma coisa em sua escrivaninha e
ergueu a cabeça quando Harry bateu na porta.
— Vi-o chegando — disse Lupin com um sorriso. E
apontou para o pergaminho que estivera examinando. Era o Mapa
do Maroto.
— Acabei de encontrar Hagrid — disse Harry; — E soube
dele que o senhor pediu demissão. Não é verdade, é?
— Receio que seja. — Lupin começou a abrir as gavetas da
escrivaninha e a esvaziá-las.
— Por quê? — perguntou Harry. — O Ministério da Magia
não está achando que o senhor ajudou Sirius, está?
Lupin foi até a porta e fechou-a.
— Não. O Prof. Dumbledore conseguiu convencer Fudge
que eu estava tentando salvar as vidas de vocês. — Ele suspirou.
— Isso foi a gota d'água para Severo. Acho que a perda da Ordem
de Merlin o deixou muito abalado. Então ele... hum...
acidentalmente deixou escapar hoje, no café da manhã, que eu era
lobisomem.
— O senhor não está indo embora só por causa disso! —
espantou-se Harry.
Lupin sorriu enviesado.
— Amanhã a essa hora, vão começar a chegar as corujas
dos pais... Eles não vão querer um lobisomem ensinando a seus
filhos, Harry. E depois de ontem à noite, eu entendo. Eu poderia
ter mordido um de vocês... Isto não pode voltar a acontecer nunca
mais.
— O senhor é o melhor professor de Defesa contra as Artes
das Trevas que já tivemos! — disse Harry. — Não vá embora!
Lupin sacudiu a cabeça e ficou calado. Continuou a
esvaziar as gavetas. Então, enquanto Harry tentava pensar em um
bom argumento para convencê-lo a ficar, Lupin falou:
— Pelo que o diretor me contou hoje de manhã, vocês
salvaram muitas vidas ontem à noite, Harry. Se eu tenho orgulho
de alguma coisa que fiz este ano, foi o muito que você aprendeu
comigo... me conte sobre o seu Patrono.
— Como é que o senhor soube? — perguntou Harry
espantado.
354
— Que mais poderia ter afugentado os dementadores?
Harry contou a Lupin o que acontecera. Quando terminou,
o professor voltara sorrir.
— É, seu pai se transformava sempre em cervo. Você
acertou... é por isso que o chamávamos de Pontas.
Lupin jogou seus últimos livros em uma caixa, fechou as
gavetas da escrivaninha e virou-se para fitar Harry.
— Tome, trouxe isto da Casa dos Gritos ontem à noite —
disse, devolvendo a Harry a Capa da Invisibilidade. — E... — ele
hesitou e em seguida devolveu o Mapa do Maroto também. —
Não sou mais seu professor, por isso não me sinto culpado por lhe
devolver isso também. Não serve para mim, e me arrisco a dizer
que você, Rony e Hermione vão encontrar utilidade para o mapa.
Harry recebeu o mapa e sorriu.
— O senhor me disse que Aluado, Rabicho, Almofadinhas
e Pontas tinham querido me atrair para fora da escola... o senhor
disse que eles teriam achado graça.
— E teríamos — respondeu Lupin, abaixando-se para
fechar a mala. — Não tenho dúvida em afirmar que Tiago teria
ficado muitíssimo desapontado se o filho dele jamais descobrisse
as passagens secretas para fora do castelo.
Ouviu-se uma batida na porta. Harry guardou
apressadamente o Mapa do Maroto e a Capa da Invisibilidade no
bolso.
Era o Prof. Dumbledore. Ele não pareceu surpreso de
encontrar Harry ali.
— O seu coche já está no portão, Remo — anunciou ele.
— Obrigado, diretor.
Lupin apanhou sua velha mala e o tanque vazio do
grindylow.
— Bom... adeus, Harry — disse sorrindo. — Foi realmente
um prazer ser seu professor. Tenho certeza de que voltaremos a
nos encontrar. Diretor, não precisa me acompanhar até o portão,
posso me arranjar...
Harry teve a impressão de que Lupin queria sair o mais
rápido possível.
— Adeus, então, Remo — disse Dumbledore sério. Lupin
empurrou ligeiramente o tanque do grindylow para poder apertar a
355
mão de Dumbledore. Então, com um último aceno para Harry e
um breve sorriso, Lupin saiu da sala.
Harry se sentou na cadeira desocupada, olhando tristemente
para o chão. Ouviu a porta se fechar e ergueu a cabeça.
Dumbledore continuava na sala.
— Por que tão infeliz, Harry? — perguntou em voz baixa.
— Você deveria estar se sentindo muito orgulhoso depois do que
fez à noite passada.
— Não fez nenhuma diferença — disse Harry com
amargura. —Pettigrew conseguiu fugir.
— Não fez nenhuma diferença? — repetiu Dumbledore
baixinho.
— Fez toda a diferença do mundo, Harry. Você ajudou a
desvendar a verdade. Salvou um homem inocente de um destino
terrível.
Terrível. A palavra despertou uma lembrança na cabeça de
Harry. Maior e mais terrível que nunca... A predição da Prof.
Trelawney!
— Prof. Dumbledore, ontem, quando eu estava fazendo o
exame de Adivinhação, a Profa Trelawney ficou muito... muito
estranha.
— Verdade? — disse o diretor. — Hum... mais estranha do
que de costume, você quer dizer?
— É... a voz dela engrossou e os olhos giraram e ela
falou... que o servo de Voldemort ia se juntar a ele antes da meianoite...
.Disse que o servo ia ajudá-lo a voltar ao poder. — Harry
ergueu os olhos para Dumbledore. — E então ela meio que voltou
ao normal, mas não conseguiu se lembrar de nada que tinha
falado. Era... ela estava fazendo uma predição de verdade?
Dumbledore pareceu levemente impressionado.
— Sabe, Harry, acho que talvez estivesse - disse pensativo.
—Quem teria imaginado? Isso eleva para duas o total de predições
verdadeiras que ela já fez. Eu devia dar à professora um aumento
de salário — Harry olhou, perplexo, para o diretor. Como é que
Dumbledore podia ouvir uma notícia dessas com tanta calma?
— Mas... eu impedi Sirius e o Prof. Lupin de matarem
Pettigrew! Assim vai ser minha culpa se Voldemort voltar!
— Não vai, não — disse Dumbledore em voz baixa. — A
356
sua experiência com o vira-tempo não lhe ensinou nada, Harry?
As conseqüências de nossos atos são sempre tão complexas, tão
diversas, que predizer o futuro é uma tarefa realmente difícil... A
Profª Trelawney, abençoada seja, é a prova viva disso... Você teve
um gesto muito nobre salvando a vida de Pettigrew...
— Mas se ele ajudar Voldemort a voltar ao poder...!
— Pettigrew lhe deve a vida. Você mandou a Voldemort
um emissário que está em dívida com você... Quando um bruxo
salva a vida de outro, forma-se um certo vínculo entre os dois... e
estarei muito enganado se Voldemort aceitar um servo em divida
com Harry Potter.
— Eu não quero ter nenhum vínculo com Pettigrew! —
exclamou Harry. — Ele traiu os meus pais!
— Assim é a magia no que ela tem de mais profundo e
impenetrável, Harry. Mas confie em mim... quem sabe um dia
você se alegrará por ter salvado a vida de Pettigrew.
Harry não conseguiu imaginar quando seria isso.
Dumbledore parecia ter adivinhado o que o garoto estava
pensando.
— Conheci seu pai muito bem, tanto em Hogwarts quanto
depois, Harry — disse o diretor com carinho. — Tiago teria
salvado Pettigrew também, tenho certeza.
Harry olhou para o diretor. Dumbledore não riria — podia
lhe contar...
— Ontem à noite, eu pensei que tinha sido o meu pai que
tinha conjurado o meu Patrono. Quero dizer, pensei que estava
vendo ele quando me vi atravessando o lago...
— Um engano normal — disse Dumbledore gentilmente.
— Imagino que já esteja cansado de ouvir dizer, mas você é
extraordinariamente parecido com Tiago. Exceto nos olhos... você
tem os olhos de sua mãe.
Harry sacudiu a cabeça.
— Foi burrice minha pensar que era ele — murmurou o
garoto.
— Quero dizer, eu sei que ele está morto.
— Você acha que os mortos que amamos realmente nos
deixam? Você acha que não nos lembramos deles ainda mais
claramente em momentos de grandes dificuldades? O seu pai vive
357
em você, Harry e se revela mais claramente quando você precisa
dele. De que outra forma você poderia produzir aquele Patrono?
Pontas reapareceu ontem à noite.
Levou um momento para Harry compreender o que
Dumbledore acabara de dizer.
— Ontem à noite Sirius me contou como eles se tornaram
animagos — disse o diretor sorrindo. — Uma realização
fantástica, e não é menos fantástico que tenham ocultado isso de
mim. Então me lembrei da forma muito incomum que o seu
Patrono assumiu, quando investiu contra o Sr. Malfoy na partida
de quadribol contra Corvinal. Sabe, Harry de certa forma você
realmente viu o seu pai ontem à noite... Você o encontrou dentro
de si mesmo.
E Dumbledore saiu da sala deixando Harry com seus
pensamentos muito confusos.
Ninguém em Hogwarts sabia a verdade do que acontecem
na noite em que Sirius, Bicuço e Pettigrew desapareceram, exceto
Harry, Rony, Hermione e o Prof. Dumbledore. À medida que o
trimestre foi chegando ao fim, Harry ouviu muitas teorias
diferentes sobre o que realmente acontecera, mas nenhuma delas
sequer se aproximava da verdadeira.
Malfoy estava enfurecido com a fuga de Bicuço.
Acreditava que Hagrid encontrara um jeito de contrabandear o
hipogrifo para um lugar seguro, e parecia indignado que ele e o pai
tivessem sido enganados por um guarda-caça. Entrementes, Percy
Weasley tinha muito a dizer sobre a fuga de Sirius.
— Se eu conseguir entrar para o ministério, apresentarei
várias propostas sobre a execução das leis da magia! — disse ele à
única pessoa que queria escutá-lo, sua namoradinha Penelope.
Embora o tempo estivesse perfeito, embora a atmosfera
estivesse tão animada, embora ele soubesse que tinham realizado
quase o impossível ao ajudar Sirius a continuar livre, Harry jamais
chegara tão desanimado a um final de ano letivo.
Com certeza não era o único aluno que lamentava a partida
do Prof. Lupin. A turma inteira de Defesa contra as Artes das
Trevas amargara a demissão do professor.
358
— Quem será que vão nos dar o ano que vem? —
perguntou Simas Finnigan deprimido.
— Quem sabe um vampiro — sugeriu Dino Thomas
esperançoso.
Não era apenas a partida do Prof. Lupin que estava pesando
na cabeça de Harry; Ele não podia deixar de pensar, e muito, na
predição da Prof' Sibila Trelawney. Ficava imaginando onde
estaria Pettigrew. se já teria procurado guarida com Voldemort.
Mas o que mais deprimia o animo de Harry era a perspectiva de
regressar à casa dos Dursley. Durante talvez meia hora, uma
gloriosa meia hora, acreditara que iria passar a morar com Sirius...
o melhor amigo dos seus pais... Seria a segunda melhor coisa do
mundo depois de ter o seu pai de volta. E ainda que não ter
notícias de Sirius Black fosse decididamente uma boa notícia, pois
significava que ele conseguia se esconder com sucesso. Harry não
podia deixar de se entristecer quando pensava no lar que poderia
ter tido e na circunstância de isso ter se tornado impossível.
Os resultados dos exames foram divulgados no último dia
do ano letivo. Harry, Rony e Hermione tinham passado em todas
as matérias. Harry se admirou de ter se dado bem em Poções.
Suspeitava, muito perspicazmente, que Dumbledore talvez tivesse
interferido para impedir Snape de reprová-lo de propósito. O
comportamento de Snape com relação a Harry na última semana
tinha sido alarmante. O garoto não teria achado possível que a
aversão do professor por ele pudesse aumentar, mas sem dúvida
isto acontecera. Um músculo tremia incomodamente no canto da
boca fina de Snape toda vez que ele olhava para Harry, e o bruxo
flexionava os dedos todo o tempo, como se eles comichassem para
apertar o pescoço de Harry.
Percy conseguira excelentes notas nos exames de
N.I.E.M's - (níveis incrivelmente exaustivos em magia); Fred e
Jorge passaram raspando nos exames para obter seus N.O.M's
(níveis ordinários em magia). Entrementes, a casa de Grifinória,
em grande parte graças ao seu espetacular desempenho na
conquista da Taça de quadribol, ganhara o Campeonato das Casas,
pelo terceiro ano consecutivo. Isto significou que a festa de
encerramento do ano letivo se realizou em meio a decorações
vermelhas e douradas, e que, na comemoração geral, a mesa da
359
Grifinória foi a mais barulhenta do Salão. Até Harry enquanto
comia, bebia, conversava e ria com todos, conseguira esquecer a
viagem de regresso à casa dos Dursley no dia seguinte.
Quando o Expresso de Hogwarts deixou a estação na
manhã seguinte, Hermione comunicou a Harry e a Rony uma
noticia surpreendente.
— Fui ver a Profª McGonagall hoje de manhã, pouco antes
do café. Resolvi abandonar Estudos dos Trouxas.
— Mas você passou na prova com trezentos e vinte por
cento! —exclamou Rony.
— Eu sei — suspirou Hermione —, mas não vou poder
viver outro ano igual a este. Aquele vira-tempo estava me levando
à loucura. Eu o devolvi. Sem Estudos dos Trouxas e Adivinhação,
vou poder ter um horário normal outra vez.
—Ainda não consigo acreditar que você não tenha nos
contado. Pensávamos que éramos seus amigos.
— Prometi que não contaria a ninguém — disse Hermione
com severidade.
Ela se virou para olhar para Harry, que observava
Hogwarts desaparecer de vista por trás de um morro. Dois meses
inteiros até poder revê-la...
— Ah, se anima, Harry! — disse Hermione triste.
— Eu estou bem — se apressou o garoto a dizer. — Estou
só pensando nas férias.
— É, eu também tenho pensado nelas — disse Rony. —
Harry você tem que vir ficar conosco. Vou combinar com mamãe
e papai, depois te ligo. Agora já sei usar um telefone...
— Um telefone, Rony — corrigiu-o Hermione. —
Sinceramente, você é quem devia fazer Estudos dos Trouxas no
ano que vem...
Rony fingiu que não tinha ouvido o comentário.
— Vai haver a Copa Mundial de Quadribol agora no verão!
Que é que você acha, Harry? Vem ficar com a gente e aí podemos
assistir aos jogos! Papai geralmente arranja entradas no ministério.
Esta proposta teve o efeito de animar Harry bastante.
— É... aposto que os Dursley iriam gostar que eu fosse...
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principalmente depois do que fiz com a tia Guida...
Sentindo-se bem mais alegre, Harry jogou várias partidas
de Snap Explosivo com Rony e Hermione e, quando a bruxa com
a carrocinha de lanches chegou, ele comprou uma enorme
refeição, mas nada que tivesse chocolate.
Mas a tarde já ia avançada quando aconteceu a coisa que o
deixou realmente feliz...
— Harry — chamou-o Hermione de repente, espiando por
cima do seu ombro. — Que é essa coisa do lado de fora da sua
janela?
Harry se virou para olhar. Havia uma coisa muito pequena
e cinzenta que aparecia e desaparecia de vista do lado de fora da
janela. Ele se levantou para ver melhor e concluiu que era uma
coruja minúscula, carregando uma carta demasiado grande para o
seu tamanho. A coruja era tão pequena, na realidade, que não
parava de dar cambalhotas no ar, impelida para cá e para lá pelo
deslocamento de ar do trem. Harry baixou depressa a janela,
esticou o braço e recolheu-a. Ao tato, ela lembrava um pomo de
ouro muito fofo. O garoto recolheu a coruja cuidadosamente para
dentro. A ave deixou cair a carta no banco e começou a voar pela
cabine dos garotos, aparentemente muito satisfeita consigo mesma
por ter se desincumbido de sua tarefa. Edwiges deu um estalo com
o bico numa espécie de digna censura. Bichento se aprumou no
assento, acompanhando a coruja com os seus enormes olhos
amarelos. Rony, reparando nisso, segurou a coruja para protegê-la
do perigo iminente.
Harry apanhou a carta. Vinha endereçada a ele. O garoto
abriu a carta e gritou:
— É do Sirius!
— Quê? — exclamaram Rony e Hermione excitados. —
Leia em voz alta!
Caro Harry
Espero que esta o encontre antes de você chegar à casa
dos seus tios. Não sei se eles estão acostumados com correioscoruja.
Bicuço e eu estamos escondidos. Não vou lhe dizer onde,
caso esta coruja caía em mãos indesejáveis. Tenho minhas
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dúvidas se ela é confiável, mas foi a melhor que consegui
encontrar e ela me pareceu ansiosa para se encarregar da
entrega.
Acredito que os dementadores ainda estejam me
procurando, mas eles não têm a menor esperança de me encontrar
aqui. Estou planejando deixar os trouxas me verem em breve,
muito longe de Hogwarts, de modo que a segurança sobre o
castelo seja relaxada.
Há uma coisa que não cheguei a lhe dizer durante o nosso
breve encontro. Fui eu que lhe mandei a Firebolt...
— Ah! — exclamou Hermione triunfante. — Estão vendo!
Eu disse a vocês que tinha sido ele!
— Ë, mas ele não tinha enfeitiçado a vassoura, tinha? —
retrucou Rony. —Ai! — A corujinha, agora piando feliz em sua
mão, bicaralhe um dedo, no que parecia ser uma demonstração de
carinho.
Bichento levou a ordem de compra à Agência-Goruja para
mim.
Usei o seu nome, mas mandei sacarem o ouro do meu cofre
em Gringotes. Por favor, considere a vassoura o equivalente a
treze anos de presentes do seu padrinho.
Gostaria também de me desculpar pelo susto que lhe dei
àquela noite, no ano passado, quando você abandonou a casa do
seu tio. Minha esperança era apenas dar uma olhada em você
antes de iniciar viagem para o norte, mas acho que a minha
aparição o assustou.
Estou anexando outro presente para você, e acho que ele
tornará o seu próximo ano em Hogwarts mais prazeroso.
Se algum dia precisar de mim, mande me dizer. Sua coruja
me encontrará.
Escreverei novamente em breve.
Sirius
Harry espiou ansioso dentro do envelope. Havia outro
pedaço de pergaminho. Examinou-o depressa e se sentiu
inesperadamente aquecido e satisfeito como se tivesse bebido uma
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garrafa de cerveja amanteigada quente, de um gole só.
Pela presente, eu, Sirius Black, padrinho de Harry Potter,
dou-lhe permissão para visitar Hogsmeade nos fins de semana.
— Dumbledore vai aceitar esta autorização! — exclamou
Harry alegremente. O garoto tornou a olhar para a carta de Sirius.
— Espera aí, tem um P.S.
Achei que o seu amigo Rony talvez quisesse ficar com a
coruja, pois é minha culpa que ele não tenha mais um rato.
Os olhos de Rony se arregalaram. A corujinha continuava a
piar agitada.
— Ficar com a coruja? — perguntou o garoto hesitante. Ele
mirou a ave um momento; depois, para grande surpresa de Harry e
Hermione, ofereceu-a para Bichento cheirar.
— Qual é a sua avaliação? — perguntou Rony ao gato. —
Isto é decididamente uma coruja?
Bichento ronronou.
— Para mim é o suficiente — disse Rony feliz. — É
minha.
Harry leu e releu a carta de Sirius até a estação de King's
Cross. E continuava a apertá-la na mão quando ele, Rony e
Hermione passaram a barreira da plataforma nove e meia. Harry
localizou o tio Válter imediatamente. Estava parado a uma boa
distância do Sr. e da Sra. Weasley, espiando-os desconfiado, e,
quando a Sra. Weasley abraçou Harry, as piores suspeitas do tio a
respeito do casal pareceram se confirmar.
— Eu ligo para falar da Copa Mundial! — gritou Rony
para Harry quando o amigo acenou um adeus para ele e Hermione,
e saiu empurrando o carrinho com sua mala e a gaiola de Edwiges
em direção ao tio, que o cumprimentou da maneira habitual.
— Que é isso? — rosnou, olhando para o envelope que
Harry ainda segurava na mão. — Se é outro formulário para eu
assinar, pode tirar o cavalinho...
— Não é, não — respondeu Harry alegremente. — Ë uma
carta do meu padrinho.
— Padrinho? — engrolou o tio Válter. — Você não tem
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padrinho!
— Tenho, sim — respondeu Harry animado. — Era o
melhor amigo da minha mãe e do meu pai. E é um assassino
condenado, mas fugiu da prisão dos bruxos e está foragido. Mas
ele gosta de manter contato comigo... saber das minhas notícias...
verificar se estou feliz...
E, abrindo um largo sorriso ao ver a cara de horror do tio
Válter, Harry rumou para a saída da estação, Edwiges chocalhando
a frente, para o que prometia ser um verão muito melhor do que o
anterior.


Fim!

Espero que tenham gostado, vamos agora ao quarto livro, Harry Potter e
o cálice de fogo.

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